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Lei de indução de Faraday
Introdução
A lei de indução de Faraday (1), que é
geralmente enunciada por extenso através da lei
de Lenz, a saber: “a força eletromotriz (𝜀) induzida
por uma variação de fluxo magnético (𝜙𝐵), será
sempre formada em um sentido que se oponha a
essa variação” – ou seja, o campo gerado pela
corrente induzida é oposto à variação do fluxo
magnético que lhe deu origem – descreve um
fenômeno que é absolutamente vital para nós
atualmente.
𝜀 = −
𝑑𝜙𝐵
𝑑𝑡
𝑒𝑞𝑢𝑎çã𝑜 (1) − 𝐿𝑒𝑖 𝑑𝑒 𝐹𝑎𝑟𝑎𝑑𝑎𝑦
Esse fenômeno eletromagnético indutivo é
vital á matriz energética brasileira, uma vez que
esta é composta por cerca de 12% de energia que
provém de usinas hidrelétricas, segundo a
International Energy Agency (IEA), onde a cada
segundo, quantidades massivas de energia elétrica
são produzidas a partir da indução magnética.
Além da produção diária de energia
elétrica, esse princípio é utilizado em carros,
motores e muitas tecnologias atualmente. Assim,
torna-se evidente a necessidade de construir um
conhecimento sólido e concreto acerca desse
assunto. Para isso, utilizaremos equipamentos que
nos permitam obter um campo variável no tempo.
Assim, o equipamento em uso será uma Bobina de
Helmholz, cujo funcionamento, já conhecemos.
Objetivos
Para realização desse experimento,
utilizaremos o espaço e recursos do laboratório de
física experimental da UFMG. O objetivo central
desse experimento é verificar na prática,
fenômenos relacionados a lei de indução de
Faraday. Com diferentes equipamentos, seremos
capazes de realizar uma abordagem qualitativa e
outra quantitativa, acerca das bases teóricas da lei
de Faraday.
A abordagem inicial, qualitativa, será a
demonstração de uma corrente induzida (prevista
pela lei de indução, em circuitos fechados) através
da variação do fluxo magnético. Posteriormente,
com um ferramental matemático elaborado,
mediremos a força eletromotriz induzida (a partir
da lei de Faraday) em uma bobina pequena, a partir
de um campo magnético oscilante no tempo, para
então, a partir de dados coletados empiricamente,
calcular o valor do campo indução magnética no
centro comum da bobina de Helmholtz e da bobina
interna, como ilustrado na figura (1).
Figura (1)
Materiais
01 Microamperímetro com zero central
01 Diodo emissor de luz (LED)
01 Ímã permanente
01 bobina com aproximadamente 1200
espiras
01 Multímetro digital
01 Fonte de corrente alternada
01 Medidor de campo magnético
(sensibilidade de 0,01 𝑚𝑇)
01 Bobina de Helmholtz com
aproximadamente 100 espiras, e 40 𝑐𝑚 de
diâmetro
01 Bobina com, aproximadamente, 15
espiras, e (5,0 ± 0,1)𝑐𝑚 de diâmetro
Suporte para a bobina, e cabos para
conexões elétricas
Métodos
A primeira etapa do experimento é a
análise qualitativa. Utilizando uma bobina (1200
espiras), e um amperímetro de zero central – como
ilustrado na figura 2 – veremos a lei da indução
magnética em prática. Ao aproximarmos ou
afastarmos o ímã permanente do eixo da bobina, o
amperímetro indica passagem de corrente, em
sentidos opostos, para cada movimento.
Figura (2)
Ao mover o ímã ao longo do eixo da
bobina, alteramos o valor do fluxo magnético 𝜙𝐵,
portanto, de acordo com a lei de indução de
Faraday, uma força eletromotriz é produzida,
induzindo uma corrente, esta responsável por
fazer a deflexão do ponteiro do amperímetro (note
aqui a necessidade do amperímetro de zero
central: alterar o sentido do movimento, altera o
sentido da corrente, alterando assim, seu sinal). A
passagem dessa corrente pode, por exemplo, fazer
piscar um led, caso este seja conectado em série
com a bobina (atente-se ao sinal da corrente
induzida, e veja que o diodo é condutor somente
seguindo sua polaridade).
Com esse experimento simples, e algumas
modificações podemos entender melhor o
conceito, como variando a velocidade do
movimento, aumentamos ou diminuímos a
variação do fluxo, implicando assim, em uma maior
força eletromotriz (que implica brilho mais intenso
do led), ou num tempo maior de brilho do led, com
menor intensidade luminosa.
Para a segunda montagem, utilizaremos o
circuito da figura (1). Novamente, utilizaremos a
bobina de Helmholtz, que produz numa bobina
interna, de N espiras e área A, um campo
magnético variável 𝐵(𝑡), e, portanto, um fluxo
variável no tempo 𝜙𝐵(𝑡), dados pelas relação (2) e
(3):
𝐵(𝑡) = 𝐵0 cos 𝜔𝑡 𝑟𝑒𝑙𝑎çã𝑜 (2)
𝜙𝐵(𝑡) = 𝑁𝐵0𝐴 cos 𝜃 cos 𝜔𝑡 𝑟𝑒𝑙𝑎çã𝑜 (3)
Em que 𝜃 é o ângulo entre 𝐵(𝑡) e o vetor
normal ao plano da bobina menor. Como
utilizaremos uma fonte de corrente alternada,
𝜔 = 2𝜋𝑓, onde 𝑓 é a frequência de oscilação da
corrente, estabelecida como 𝑓 = 60 𝐻𝑧.
Assim, por definição, sabemos que o a
força eletromotriz gerada é:
𝜀 =
𝑑
𝑑𝑡
(𝑁𝐵0𝐴 cos 𝜃 cos 𝜔𝑡) = 𝑁𝐵0𝐴𝜔 cos 𝜃 sen 𝜔𝑡 .:
𝜀 = 𝜀0 sen 𝜔𝑡 𝑜𝑛𝑑𝑒 𝜀0 = 𝑁𝐴𝐵0𝜔 cos 𝜃 𝑟𝑒𝑙𝑎çã𝑜 (4)
Montamos a bobina menor e interior sobre
um suporte giratório, de forma que podemos
variar facilmente o 𝜃. Com a montagem e o
arcabouço matemático definido, podemos colher
os dados experimentais da montagem.
Com a bobina de Helmholtz ligada,
medimos diferentes pares (𝜃, 𝜀0) de forma a
montarmos uma tabela. Atente-se de que o valor
medido pelo amperímetro é na verdade o valor
quadrático médio, chamado de tensão eficaz, dado
por 𝜀𝑒𝑓𝑖𝑐𝑎𝑧 =
𝜀0
√2
. Assim, ao coletarmos o valor
indicado pelo amperímetro, já multiplicaremos
pelo fator de correção √2. Obtemos assim, a tabela
(1).
cos 𝜃 𝑇𝑒𝑛𝑠ã𝑜 (𝑒𝑚 𝑉𝑜𝑙𝑡𝑠)
1,0000 0,0397
0,9848 0,0387
0,9396 0,0366
0,8660 0,0333
0,7660 0,0292
0,6427 0,0241
0,5000 0,0186
0,3420 0,0124
0,1736 0,0056
0,0000 0,0008
Tabela (1)
Com esses dados, e conhecendo a fórmula
matemática de como tais grandezas se relacionam
(4), podemos concluir que podemos linearizar 𝜀0
como função de cos 𝜃.
{
𝜀0 = 𝑁𝐴𝐵0𝜔 cos 𝜃
𝑌 = 𝐴𝑥 + 𝐵
𝑟𝑒𝑙𝑎çã𝑜 (5)
Assim, com o auxílio do software gráfico
SciDAVis, poderemos obter um gráfico (figura 3) e
relações entre tais grandezas experimentais.
Figura (3)
Resultados
A partir da semelhança entre as funções
em (5), podemos extrair:
{
𝐴 = 𝑁𝐴(𝑟)𝐵0𝜔
𝐵 ≅ 0
𝑟𝑒𝑙𝑎çã𝑜 (6)
Como já esperávamos, 𝐵 ≅ 0 (pois não
existe termo independente na relação 4). Aqui
diferenciamos A (slope) da área A da espira,
explicitando a área A como uma função do raio da
espira 𝐴(𝑟).
Tendo os valores em mãos, obtidos através
de medições físicas, podemos então encontrar o
valor 𝐵0.
𝐵0 =
0,0394
15 ∗ 𝜋 ∗ (5 × 10−2)2 ∗ 2𝜋 ∗ 60
.:
𝐵0 = 0,89 𝑚𝑇
Para encontrar a respectiva incerteza de
𝐵0, utilizaremos a fórmula da incerteza padrão
combinada, dada por:
𝑢𝑐
2(𝑦) = ∑ (
𝜕𝑓
𝜕𝑥𝑖
)
2
∙ 𝑢2(𝑥𝑖)
𝑛
𝑖=1
𝑟𝑒𝑙𝑎çã𝑜 (7)
Aplicando-se a 𝐵0, temos:
Δ𝐵0
2 = (
1
𝑁𝐴(𝑟)𝜔
)
2
∙ Δ𝐴2 + (−
𝐴
𝑁𝐴(𝑟)2𝜔
)
2
∙ Δ𝐴(𝑟)2
Δ𝐵0 = 0,03 𝑚𝑇
(𝑁𝑜𝑡𝑎: Δ𝐴(𝑟) = 2𝜋𝑟Δ𝑟)
Conclusão
Assim, analisando criticamente nossa
regressão linear a partir dos dados obtidos, é
interessante notar que a incerteza do slope foi
próximo a 2%, ou seja, uma ótima precisão.
Novamente, a incerteza da área correspondeu a
4%, outro valor relativamente pequeno. Como tais
grandezas foram as únicas que contribuíram para o
cálculo de incerteza de 𝐵0, concluímos que:
𝐵0 = (0,89 ± 0,03) 𝑚𝑇
Ou seja, a incerteza de 𝐵0 convergiu para
3,3% do valor, uma boa precisão.
Ao compararmos nosso valor obtido
experimentalmente com o valor obtido através de
um teslâmetro (sensor de campo magnético),
obtemos uma medição de 0,6 𝑚𝑇 . Atente-se
novamente para o funcionamento desses
equipamentos: assim como o voltímetro (ao ser
usado para medir tensãoalternada) só é capaz de
medir a tensão efetiva, o teslâmetro também
somente é sensível ao campo magnético eficaz.
Para encontrarmos o campo magnético 𝐵0,
devemos multiplicar o valor encontrado pelo
sensor por √2. Obtemos assim, de acordo com o
teslâmetro, um campo magnético de magnitude
próxima a 0,85 𝑚𝑇, ou seja, ilustramos mais uma
vez a elevada precisão do experimento.
Atribuímos esse pequeno erro numérico
destoante á elevada precisão das grandezas
envolvidas. No entanto, uma vez que trabalhamos
com escalas pequenas (milivolts e militesla), existe
a possibilidade de que pequenas perdas por
correntes parasitas nos fios e interferência
eletromagnética do ambiente, se tornem
significativas ao cálculo.