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Em “Era dos extremos: o breve século XX”, Eric Hobsbawm, historiador britânico, diz que o monstro da guerra total do século XX não nasceu já com seu maior tamanho. Observa-se uma movimentação de massa como força humana já na Primeira Guerra Mundial. E essa mobilização de massa, durante anos, exigiu uma economia industrializada de alta produtividade e/ou em grande parte nas mãos de setores não combatentes da população. “Também neste caso, as guerras do século XX foram guerras de massa, no sentido de que usaram, e destruíram, quantidades até então inconcebíveis de produtos durante a luta. ” Para Hobsbawm, o período de 31 anos que vai do início da Primeira Guerra (1914) até o fim da Segunda Guerra (1945) define o arranjo das forças no cenário mundial ao longo do século XX. Esses anos são primordiais para consolidação das formações econômicas e sociais e das ideologias de todo o século. Não é possível entender o “Breve Século XX” sem mencionar as duas grandes guerras. E o que confere caráter catastrófico a elas é a questão industrial-tecnológica que possibilitou as guerras em massa. Numa sociedade onde a maior parte do produto social ainda é realizada pela agricultura, a economia não permite mobilização de milhões de homens durante anos; apenas o nível industrial atingido pela Europa, Estados Unidos e Japão permitiu que surgissem ao mesmo tempo alta produtividade do trabalho, exército de reserva de mão de obra e generalização da atividade liberta da sazonalidade natural inerente à atividade agrícola. Ainda assim, essa mobilização impôs tensões à força de trabalho, fortaleceu partidos socialdemocratas e os sindicatos e promoveu a entrada de mulheres no mercado de trabalho permanentemente na segunda guerra. Se de um lado as guerras enfraqueceram nações, por outro foram muito boas para a economia estadunidense sendo provavelmente o efeito econômico mais duradouro dando aos Estados Unidos preponderância global sobre o Breve Século XX. Quanto ao impacto humano, Hobsbawm analisa a “tortura”, a “democratização da guerra ”e a “impessoalidade”. Em suma, “a catástrofe humana desencadeada pela Segunda Guerra Mundial é quase certamente a maior da história humana. O aspecto não menos importante dessa catástrofe é que a humanidade aprendeu a viver num mundo em que a matança, a tortura e o exílio em massa se tornaram experiências do dia a dia que não mais notamos”. A Revolução Russa de 1917, que se faz necessário mencionar, filha da Primeira Guerra, deixou marcas. A crise se instalou nos países que participaram diretamente do conflito e atingiu a parcela populacional mais pobre, que historicamente é quem paga pelas guerras. Um grande contingente de pessoas foi fadado à morte e, além disso, a mobilização da força produtiva é voltada para o conflito quase que em sua totalidade, colocando a população que não está de frente em situação de vulnerabilidade, principalmente por falta de produtos básicos. Como um dos desdobramentos mais importantes da Primeira Guerra, essa revolução traz como consequência o socialismo como contraposição ao capitalismo; a ascensão da ultradireita, nazistas e fascistas; e a supremacia dos Estados Unidos. “Fomos todos marcados por ela, por exemplo na medida em que nos habituamos a pensar na moderna economia industrial em termos de opostos binários, "capitalismo" e "socialismo" como alternativas mutuamente excludentes, uma identificada com economias organizadas com base no modelo da URSS, a outra com todo o restante. ”