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Darwin no Brasil – Encanto com a natureza e
choque com a escravidão
Na passagem pelo Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, Darwin descobre um mundo novo
de sedução e horrores
Em 27 de dezembro de 1831, depois de ser deslocado duas ou três vezes por
ventos contrários, o HMS Beagle, um brigue com 10 canhões sob o comando
do capitão Fitz-Roy deixou a localidade de Davenport, no sudoeste da
Inglaterra, para uma viagem de quatro anos e nove meses ao redor do mundo.
Um personagem, que a história tornaria o passageiro mais importante a bordo
do Beagle, tinha pouco mais de 22 anos e havia sofrido alguns reveses
profissionais antes de se envolver com a história natural. Charles Robert
Darwin (Shrewsbury, 12 de fevereiro de 1809 – Downe, Kent, 19 de abril de
1882) cujo nome seria sinônimo de evolucionismo, ainda era um criacionista
despreocupado quando o Atlântico se abriu à sua frente para a viagem que
reformularia não apenas suas convicções pessoais, mas mudaria
profundamente toda a história da ciência.
Darwin fez uma parada no arquipélago de Cabo Verde, onde registrou
minuciosamente suas observações e se impressionou com o arquipélago de
São Pedro e São Paulo, antes de passar por Fernando de Noronha. Mas foi no
Rio de Janeiro, especialmente por uma incursão de alguns dias pelo interior,
que pôde sentir a diversidade de Natureza que deveria conhecer antes de,
inteiramente conta a vontade, tornar-se um evolucionista.
Em Viagens de um naturalista ao redor do mundo (Voyage of a naturalist round
the world), onde faz um detalhado registro de sua longa exploração, Darwin
dedica menos de dez páginas a Salvador, na Bahia, aonde chegou em 29 de
fevereiro de 1833, para uma estada curta, mas já fascinado pela exuberância
da natureza tropical.
Em 4 de abril o Beagle atracou no Rio de Janeiro e aí começaram as
descobertas que, do ponto de vista natural, seduziram e encantaram o jovem
naturalista, ainda que, do ponto de vista social tenham sido motivo de
frustração, desencanto e, em alguns momentos, de completo horror.,Em seus
registros no Rio, Darwin anota que “poucos dias depois de nossa chegada,
conheci um inglês que se preparava para visitar suas propriedades, situadas a
pouco mais de 100 milhas [160 km] da capital, ao norte de Cabo Frio. Ele teve
a gentileza de me convidar como companhia, o que aceitei com prazer”.
A incursão começou em 8 de abril formada por uma equipe de sete pessoas
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A incursão começou em 8 de abril, formada por uma equipe de sete pessoas.
Darwin conta que em meio a um calor intenso o silêncio da mata é completo,
quebrado apenas pelo vôo preguiçoso de borboletas. A vista e as cores na
passagem de Praia Grande [atual Niterói] absorve toda a atenção de Darwin ao
menos até o meio-dia, quando o grupo pára para almoço em “Ithacaia”, aldeia
cercada por choças ocupadas por negros escravos.
Com a lua cheia, que nasce cedo no céu, o grupo decide prosseguir viagem
para dormir na “Lagoa Maricá” e, no trajeto, passam por regiões escarpadas,
entre elas uma meseta em torno de onde escravos formaram quilombos, a que
Darwin se refere genericamente como refúgio. Aí, reproduz um relato que diz
ter ouvido de alguém. Um grupo de soldados teria sido enviado para recuperar
esses fugitivos e todos se renderam, à exceção de uma mulher, já velha, que
se atira contra as rochas. Então, ele faz uma das observações que revelam sua
profunda repulsão à escravidão que tem diante dos olhos: “Praticado por uma
matrona romana esse ato seria interpretado e difundido como amor à
liberdade, mas da parte de uma pobre negra, se limitaram a dizer que não
passou de um gesto bruto”.,Música da natureza
Nas últimas horas de viagem a cavalo, Darwin relata que “o caminho ficou cada
vez mais difícil, porque atravessa uma terra selvagem e pantanosa”. O grupo
viaja na região hoje conhecida como serra da Tiririca, atravessando a área das
atuais cidades de Maricá, Saquarema, Araruama, São Pedro d’Aldeia, Cabo Frio,
Casimiro de Abreu/Barra de São João, Macaé, Conceição de Macabu, Rio Bonito
e Itaboraí.
Insetos luminosos, provavelmente vaga-lumes, segundo o relato, voam em
torno do grupo de viajantes e o silêncio da noite permite que se ouça o quase
indistinto rugido longínquo do mar.
Antes que o Sol nasça, no dia seguinte, a viagem recomeça, na seqüência de
um pouso no que Darwin classifica de uma “choça miserável”. O calor crescente
do dia que avança é amenizado pela observação de uma diversidade de aves
pescadoras, entre elas as garças- reais, orquídeas e formações vegetais,
compartilhada pelo perfume da floresta. Ao menos até a parada para almoço
numa “venda” de construção franciscana, sem sequer vidro nas janelas, o que
chama a atenção de Darwin. O diálogo inicial com o proprietário é amistoso,
mas à medida que prossegue, Darwin se sente cada vez mais constrangido.
– Poderia nos servir um pescado? – pergunta ele, e a resposta é:
– Oh!, não senhor.
– E sopa?
– Sinto muito senhor.
– E pão?
– Não temos, senhor.
Generalizando para experiências posteriores, Darwin conta que, de modo geral,
podia dar-se por muito satisfeito se, ao final de uma espera de duas horas pelo
menos, fosse possível comer carne de galinha, arroz e farinha. E em alguns
casos era preciso ajudar a matar as galinhas a pedradas, antes da refeição.
Famintos e cansados, quando timidamente queriam saber se as refeições
demorariam, com freqüência ouviam como resposta:
– A comida estará pronta quando estiver.,Em caso de queixa, contra a rispidez
do tratamento, a resposta que se ouvia era que continuassem a viagem.
Darwin registra com pesar que os donos de pousadas “são pouco amáveis,
quase sempre bruscos e suas próprias casas e seus parentes com freqüência
estão descuidados e sujos. As hospedarias não têm facas, garfos ou colheres, o
que o convence de que “seria difícil encontrar na Inglaterra, um abrigo, por
mais pobre que fosse, tão desprovido das coisas elementares”.
Em compensação, na localidade que chama de “Campos Novos” conta que
“fomos tratados magnificamente” com oferta de arroz e aves, biscoitos, vinho e
licores, incluindo café à tarde e pescado no almoço, além de alimentação para
os cavalos por um preço insignificante. Mas aí a surpresa é outra. Quando
deram pela falta de uma bolsa e quiseram saber do proprietário se tinha
alguma notícia dela ouviram como resposta:
– Como querem que eu saiba disso? – emendado com um – por que não
cuidam do que levam? – e uma sugestão: – talvez tenha sido comida pelos
cachorros.
Desconforto com a Escravidão
Próximo ao rio das Contas, Darwin recolhe exemplares de conchas com
moluscos de água doce e de água salgada, ouvindo dos moradoresser
freqüente a invasão de lagoas locais pelas águas do mar. Daí o grupo afasta-se
da costa e novamente mergulha na floresta onde formigueiros cônicos, com
quase quatro metros de altura, sugerem pequenos vulcões e atraem a atenção
de Darwin. Ele se preocupa com os cavalos e se surpreende com as picadas de
morcegos hematófagos, sofridas pelos animais.
Ao final de três dias de viagem o grupo chega à Fazenda Sossego, propriedade
de certo Manuel Figueiredo, parente de um dos viajantes, conforme registra
Darwin. Novamente a rusticidade da construção o deixa desconfortável, mas a
alimentação aí é farta e generosa, incluindo a carne de caça.,“Deixando de lado
a idéia da escravidão”, registra Darwin em seu diário, “tem alguma coisa
deliciosa nesta vida patriarcal, tão absolutamente separada e independente do
resto do mundo”. Ele se diverte com a idéia de um pequeno canhão ser
disparado para anunciar a chegada de visitantes num ambiente tão isolado.
Na fazenda, Darwin se levanta antes de o Sol nascer para explorar o ambiente
sem ser incomodado, e conta que, logo em seguida, chega aos seus ouvidos o
canto dos escravos que iniciam o trabalho. Em locais como a Fazenda Sossego,
anota “os escravos são felizes em comparação a outras propriedades e têm o
sábado e domingo para trabalhar para si próprios, assegurando as
necessidades familiares”.
De Sossego o grupo se dirige a uma propriedade situada junto ao rio Macaé,
limite do cultivo agrícola naquela direção e onde o proprietário desconhece a
área de suas terras. Darwin fica profundamente impressionado com a
fecundidade da região e imagina a quantidade de alimentos que poderá
produzir num futuro distante. A selva o fascina e as nuvens de vapor d’água
que sobem das matas o deixam extasiado, mas daí também irá emergir uma
imagem do terror.
Na fazenda junto ao rio Macaé Darwin relata um desencontro, que não detalha,
e que por pouco não dividiu pelo menos 30 famílias de escravos, levando filhos
e mulheres para venda no mercado carioca, depois de uma convivência de
anos. Diz que interesses estritamente financeiros, e não humanistas, evitaram
essa cruel separação. Ele suspeita que o proprietário da fazenda nem sequer
possa ter se dado conta da brutalidade de seu “ato infame”.
O grupo cruzava um rio, provavelmente, o rio Macaé, conduzido por um negro,
quando outra cena relacionada à escravidão chocou Darwin profundamente. O
negro tinha alguma dificuldade de comunicação, o que fez com que Darwin
tentasse comunicar- se com ele por mímica e outros sinais. Num desses
movimentos, conta ele, suas mãos passaram próximo ao rosto do homem,
levando-o a acreditar que Darwin estava enraivecido por alguma razão e iria
golpeá-lo. O negro abaixou imediatamente as mãos, semicerrou os olhos e
dirigiu-lhe um olhar temeroso. Darwin relata o profundo sentimento de
surpresa, desconforto e vergonha que se apoderara dele e que jamais iria
esquecer.,Sonho Tropical
Darwin e sua equipe permaneceram dois dias na Fazenda Sossego, na viagem
de retorno, quando ele se dedicou à coleta de insetos, observações botânicas e
conversas com o proprietário que esculpia uma canoa num tronco único de 33
metros de comprimento (110 pés).
Em 19 de abril de 1832 o grupo deixa em definitivo a Fazenda Sossego,
retomando o caminho difícil da ida. Nos campos arenosos que percorrem,
Darwin diz que a pisada do cavalo no solo arenoso produz o som de um “débil
grito”. No terceiro dia da viagem a rota é ligeiramente alterada em direção a
uma aldeia (Madre de Deus) onde passa uma das principais estradas do Brasil.
A via, no entanto, está em precárias condições e mal dá passagem a carros de
boi. Outra cena que chama a atenção de Darwin são as inúmeras cruzes à beira
da estrada, que, em vez de marcos de distância, assinalam pontos de mortes
por assassinato. Em 23 de abril ele está de volta ao Rio de Janeiro.
O retorno ao Rio marca uma nova fase de êxtase com a natureza e coleta de
espécimes animais e vegetais. Nesse período Darwin ficará hospedado em uma
casa à beira-mar (cottage) em Botafogo. Sobre essas semanas diz que “é
impossível sonhar com algo mais delicioso que essa estada de algumas
semanas num país tão impressionante”. “Na Inglaterra”, continua Darwin “os
interessados em história natural têm vantagem no sentido de que sempre
descobrem alguma coisa que lhes chama a atenção, mas nesses climas tão
fé t i l t d i d f t i ã d b t
férteis, repletos de seres animados, para fazer uma caracterização, descobertas
novas são feitas a cada instante e são tão numerosas que só se pode avançar
com dificuldade”.
O relato que segue, está inteiramente tomado por observações e descrições
que chegam a detalhes mínimos. O calor incomoda, mas as chuvas que caem
densas e ruidosas compensam todo o desconforto. O convite para uma caçada,
feito por um padre português, também é motivo para observações, descobertas
e extrapolações, como a habilidade de um garoto malvestido em particular,
mas “dos brasileiros de forma geral” no uso da faca, da qual nunca se
separam.,A casa no Rio de Janeiro está localizada na base do Corcovado, de
onde Darwin acompanha a formação de nuvens, especula sobre a natureza
rochosa da formação e relata a chuva densa que desaba numa manhã com
sonoridade que lhe era inteiramente desconhecida. Darwin absorve a natureza
local com paixão incontida retomando, entre outros relatos, observações sobre
insetos luminosos, freqüentes durante a noite.
Também as formigas, mas ainda mais as aranhas, atraem seu interesse e o
levam a explorar tanto regiões mais próximas do Corcovado como a visitar o
Jardim Botânico, formado com a chegada da corte portuguesa, em 1808, em
busca de refúgio contra a invasão da Península Ibérica por tropas napoleônicas.
Em 5 de julho Darwin deixa definitivamente o Rio de Janeiro e o Brasil rumo à
Patagônia e à passagem (atual Passagem de Drake) que o levará às Galápagos
e às observações que o conduzirão ao evolucionismo. Ainda que a um enorme
custo pessoal e ao receio desesperado de, literalmente, implodir os valores de
sua época, como se constata nas cartas angustiadas que trocou com sua prima
e futura esposa, Emma Wedgwood. No final de 2008, o tetraneto de Darwin,
Randal Keynes, conheceu a rota percorrida pelo naturista.,- No início da viagem
de quase cinco anos que fez pelo mundo e o levou às ilhas Galápagos, no
Pacífico, Darwin visitou parte do litoral brasileiro, especialmente o Rio de
Janeiro.
– Encanto com a natureza tropical manifestou-se já em Salvador, na Bahia,
mas aprofundou-se no Rio, onde fez uma visita a fazendas no interior do
estado. Contraponto desconfortável foram observações sobre a escravidão.
– Diversidade e riqueza de observações fazem o relato de Darwin superar as
notas de um naturalista e abordar questões de natureza antropológica e de
cultura geral. 
– Os editores,A origem das espécies. Charles R. Darwin. Ediouro, 2004.
As cartas de Charles Darwin – Uma seleta , 1825-1859. Editadas por
Frederick Burkhardt. Editora Unesp, 1998.
Os herdeiros de Darwin. Marcel Blanc. Editora Página Aberta, 1994.
O Bico do tentilhão – Uma história da evolução no nosso tempo. Editora
Rocco 1995
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Rocco, 1995.
Diversidade da vida. Edward O. Wilson. Companhia das Letras, 1994.

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