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SENAI-RJ • Tratamento de esgotos Tratamento de esgotos Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira Presidente Diretor Geral do Sistema FIRJAN Augusto Cesar Franco de Alencar Diretor Diretor Regional SENAI-RJ Roterdam Pinto Salomão Diretor Diretor Regional SENAI-RJ Andréa Marinho de Souza Franco Diretora SENAI-RJ Rio de Janeiro 2008 Tratamento de esgotos Benito Piropo Da-Rin José Nunes Vieira Neto Miguel Freitas Cunha Reginaldo Ramos Tratamento de Esgoto 2008, 2ª ed. SENAI – Rio de Janeiro Diretoria de Educação FICHA TÉCNICA 1ª edição, 2006 Gerência de Educação Profi ssional Luís Roberto Arruda Superintendência de Recursos Humanos (CEDAE) Dejair Ferreira da Silva Gerência de Produto Bernardo Schlaepfer Coordenação Flávia Pinto de Carvalho Seleção de Conteúdos (CEDAE) Benito Piropo Da Rin José Nunes Vieira Neto Miguel F. Cunha Reginaldo Ramos Analista de Treinamento (CEDAE) Valdeci Francisco Baracho Revisão Pedagógica Alda Lessa Bastos Revisão Gramatical Marcia Cristina Carvalho de Brito Projeto Gráfi co Artae Design & Criação Diagramação Geferson Gomes Coutinho 2ª edição, 2008 Gerência de Educação Profi ssional Regina Helena Malta do Nascimento Gerência Executiva SESI-SENAI Tijuca Bernardo Schlaepfer Coordenação Angela Elisabeth Denecke Vera Regina Costa Abreu Atualização dos Conteúdos (CEDAE) Benito Piropo Da Rin José Nunes Vieira Neto Miguel Freitas Cunha Reginaldo Ramos Coordenação de Recrutamento, Seleção, Valdeci Francisco Baracho Treinamento e Desenvolvimento (CEDAE) Revisão Pedagógica Gloria Micaelo Nina Rosa Aguiar Revisão Gramatical e Editorial Rosy Lamas Colaboração Mary Cristina da Rocha Editoração Daniela de Oliveira Edição revista e atualizada do material didático Técnicas de Tratamento de Esgoto, publicado pelo SENAI-RJ, em parceria com a CEDAE, em 2006. GEP – Gerência de Educação Profi ssional Rua Mariz e Barros, 678 – Tijuca 20270-903 – Rio de Janeiro – RJ Tel.:(21) 2587.1323 Fax:(21 ) 2254.2884 E-mail: GEP@rj.senai.br http://www.rj.senai.br Sumário 1 2 Apresentação .................................................................... 11 Uma palavra inicial ............................................................ 13 CARACTERÍSTICAS DOS ESGOTOS SANITÁRIOS.............. 21 1.1 Características físicas ................................................... 21 1.2 Características químicas ................................................ 25 1.3 Características biológicas .............................................. 30 AUTODEPURAÇÃO DOS CORPOS DE ÁGUA ....................... 37 2.1 Zonas características .................................................... 40 2.2 Autodepuração ............................................................ 42 PROCESSOS DE TRATAMENTO DE ESGOTOS .................... 51 3.1 Tratamento preliminar .................................................. 52 3.2 Tratamento primário ..................................................... 52 3.3 Tratamento secundário ................................................. 53 3.4 Tratamento terciário ..................................................... 53 TRATAMENTO PRELIMINAR E PRIMÁRIO ........................ 57 4.1 Tratamento preliminar .................................................. 57 4.2 Tratamento primário e sistemas conjugados .................... 64 NOÇÕES DE BIOLOGIA SANITÁRIA ................................. 73 5.1 Organismos aeróbios e anaeróbios ................................. 73 5.2 Organismos autotrófi cos e heterotrófi cos ......................... 74 5.3 Organismos de interesse para o tratamento de esgotos ..... 75 5.4 Metabolismo dos seres vivos .......................................... 82 3 4 5 7 8 6 FILTROS BIOLÓGICOS .................................................... 896.1 Composição e funcionamento dos fi ltros biológicos ........... 89 6.2 Reator biológico rotativo de contato ................................ 100 LODOS ATIVADOS ........................................................... 105 7.1 Tanques de aeração ...................................................... 105 7.2 Constituição do lodo ativado .......................................... 106 7.3 Parâmetros de dimensionamento e operação ................... 107 7.4 Controle do processo .................................................... 117 7.5 Dimensionamento do sistema de aeração ........................ 126 7.6 Fornecimento de oxigênio.............................................. 130 LAGOAS DE ESTABILIZAÇÃO ........................................... 149 8.1 Lagoas aeradas ............................................................ 149 8.2 Lagoas anaeróbias ....................................................... 150 8.3 Lagoas aeróbias ........................................................... 151 8.4 Lagoas de maturação ................................................... 152 8.5 Lagoas facultativas ....................................................... 152 8.6 Fatores intervenientes .................................................. 158 8.7 Dimensionamento ........................................................ 162 8.8 Lagoas em série ........................................................... 172 TRATAMENTO DO LODO .................................................. 177 9.1 Produção e tipos de lodo ............................................... 177 9.2 Disposição fi nal dos resíduos ......................................... 178 9.3 Fator econômico na seleção das técnicas ......................... 179 9.4 Técnicas de tratamento de lodo...................................... 181 9.5 Disposição fi nal ............................................................ 195 NOÇÕES DE MANUTENÇÃO E OPERAÇÃO DE EQUIPAMENTOS PARA TRATAMENTO DE ESGOTOS ................................... 205 10.1 Instalações elétricas ................................................... 206 10.2 Equipamentos ............................................................ 208 9 10 CONTROLE DE QUALIDADE E AMOSTRAGENS EM UMA ETE . 219 11.1 Parâmetros analíticos .................................................. 219 11.2 Possíveis pontos de coleta ........................................... 222 11.3 Amostragem: preparativos, material e técnicas gerais de coleta ................................................................. 223 DOENÇAS DE ORIGEM E VEICULAÇÃO HÍDRICA .............. 233 12.1 Doenças causadas por agentes microbianos e parasitários 233 Anexo - siglas utilizadas ..................................................... 247 Referências ....................................................................... 249 11 12 LISTA DE FIGURAS Figura 1.1 Distribuição típica de compostos sólidos .............................23 Figura 2.1 Consumo de OD com o tempo, após o lançamento de esgoto......................................................38 Figura 2.2 Reaeração com o tempo, após o lançamento de esgoto ........39 Figura 2.3 Curva de depleção de oxigênio ..........................................40 Figura 2.4 Zonas do curso de água após lançamento de esgoto ............42 Figura 2.5 Depleção total de oxigênio ...............................................43 Figura 2.6 Modelo simplifi cado do fenômeno de autodepuração ............46 Figura 6.1 Diagrama esquemático do fi ltro biológico............................91 Figura 6.2 Esquemas de recirculação ................................................96 Figura 6.3 Reator biológico rotativo de contato – RBC (acionado a ar) ...101 Figura 7.1 Variação das massas de substrato .....................................117 Figura 8.1Lagoa facultativa.............................................................153 Figura 8. 2 Gráfi co de Marais para projetos de lagoas facultativas ..........170 Figura 11.1 Fase líquida ....................................................................222 Figura 11.2 Tratamento do lodo .........................................................223 Figura 11.3 Garrafas coletoras em profundidade ..................................226 Figura 11.4 Draga de Petersen ...........................................................226 Figura 11.5 Draga de Eckman ...........................................................226 Figura 11.6 Disco Secchi ...................................................................227 LISTA DE TABELAS Tabela 8.1 Taxas de aplicação de carga orgânica ............................. 163 Tabela 9.1 Relação temperatura-tempo de digestão ......................... 184 Tabela 11.1 Preservação de amostras por parâmetro de interesse ....... 228 Tabela 12.1 Microorganismos causadores de doenças ........................ 241 Tabela 12.2 Grupos de doença (AMAE)............................................. 242 SENAI-RJ 11 Apresentação SENAI-RJ 11 Tratamento de esgotos - Apresentação A dinâmica social dos tempos de globalização exige dos profi ssionais atualizações constantes. Até mesmo as áreas tecnológicas de ponta fi cam ultrapassadas em ciclos cada vez mais curtos, o que gera desafi os renovados a cada dia e obriga a educação a encontrar novas e rápidas respostas. Nesse cenário, impõe-se a educação continuada, a qual exige que os profi ssionais busquem atualização constante – e os docentes e participantes dos cursos do Serviço Nacional de Apren- dizagem Industrial – Departamento Regional do Rio de Janeiro, SENAI-RJ, incluem-se nessas novas demandas sociais. É preciso, portanto, promover, tanto para os docentes como para os participantes da edu- cação profi ssional, condições que propiciem o desenvolvimento de novas formas de ensinar e aprender, favorecendo o trabalho de equipe, a pesquisa, a iniciativa e a criatividade, entre outros aspectos, e ampliando suas possibilidades de atuar com autonomia e de forma competente. Como parte desse esforço para atender às necessidades do mercado de trabalho, a Com- panhia Estadual de Águas e Esgotos – CEDAE e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial Departamento Regional do Rio de Janeiro – SENAI-RJ organizaram o curso de Tratamento de Esgotos em conformidade com as exigências legais da política de treinamento das pessoas que atuam nos processos dessa área industrial. Visa-se, assim, oferecer aos profi ssionais a oportu- nidade de desenvolver as competências técnicas fundamentais à execução de suas atividades. Este material didático tem como fi nalidade principal servir como apoio à aprendizagem e o seu conteúdo básico está estruturado em 12 unidades, sendo as nove primeiras responsáveis pelos principais processos de tratamento de esgoto, na sequência em que eles se apresentam na estação de tratamento (ETE) e as três últimas responsáveis por informações complementares sobre manutenção de equipamentos, controle de qualidade do produto e saúde. Ao fi nal encontra-se um quadro com o signifi cado das siglas aqui utilizadas e mais comumente empregadas nesse tipo de operação. A CEDAE e o SENAI-RJ esperam que você, participante, alcance excelente proveito dos con- teúdos aqui apresentados e que, ao utilizar as novas aprendizagens no seu dia-a-dia, o resultado seja uma prática profi ssional mais competente e também consciente da importância do trata- mento adequado de esgotos para a saúde da população e para a preservação do meio ambiente. Compreenda que seu trabalho deve ser realizado sempre com segurança e qualidade. SENAI-RJ 13 Tratamento de esgotos - Uma palavra inicial Uma palavra inicial SENAI-RJ 13 Meio ambiente... Saúde e segurança no trabalho... O que é que nós temos a ver com isso? Sabemos a resposta, mas nunca é demais refl etir sobre esses dois pontos que merecem destaque: a relação entre o processo produtivo e o meio ambiente, além da questão da saúde e da segurança no trabalho. As indústrias e os negócios são a base da economia moderna. Produzem os bens e serviços necessários e dão acesso a emprego e renda, mas, para atender a essas necessidades, precisam usar recursos e matérias-primas. Os impactos no meio ambiente, muito freqüentemente, decorrem do tipo de indústria existente no local, do que ela produz e, principalmente, de como produz. É preciso entender que todas as atividades humanas transformam o ambiente. Estamos sem- pre retirando materiais da natureza, transformando-os e depois jogando o que “sobra” de volta no ambiente natural. Ao retirar do meio ambiente os materiais necessários para produzir bens, altera-se o equilíbrio dos ecossistemas e arrisca-se chegar ao esgotamento de diversos recursos naturais que não são renováveis ou, quando o são, têm sua renovação prejudicada pela velocidade da extração, superior à capacidade da natureza de se recompor. É necessário fazer planos de curto e longo prazo para diminuir os impactos que o processo produtivo causa na natureza. Além disso, as indústrias precisam se preocupar com a recomposição da paisagem e ter em mente a saúde dos seus traba- lhadores e da população que vive ao seu redor. Com o crescimento da industrialização e sua concentração em determinadas áreas, o problema da poluição aumentou. A questão da poluição do ar e da água é bastante complexa, pois as emissões poluentes se espalham de um ponto fi xo para uma grande região, dependendo dos ventos, do curso da água e das demais condições ambientais, tornando difícil localizar, com precisão, a origem do problema. No entanto, é importante repetir que quando as indústrias depositam no solo os resí- duos, quando lançam efl uentes sem tratamento em rios, lagoas e demais corpos hídricos, estão causando danos ao meio ambiente. 14 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Uma palavra inicial 14 SENAI-RJ O uso indiscriminado dos recursos naturais e a contínua acumulação de lixo mostram a falha básica de nosso sistema produtivo: ele opera em linha reta. Extraem-se as matérias-primas por meio de processos de produção desperdiçadores, que produzem subprodutos tóxicos. Fabricam-se produtos de utilidade limitada que, fi nalmente, viram lixo, o qual se acumula nos aterros. Produzir, consumir e descartar bens dessa forma obviamente não é sustentável. Enquanto os resíduos naturais (que não podem, propriamente, ser chamados de “lixo”) são absorvidos e reaproveitados pela natureza, a maioria dos resíduos deixados pelas indústrias não têm aproveitamento para qualquer espécie de organismo vivo e, para alguns, pode até ser fatal. O meio ambiente pode absorver resíduos, redistribuí-los e transformá-los. Mas, da mes- ma forma que a Terra possui uma capacidade limitada de produzir recursos renováveis, sua capacidade de receber resíduo também é restrita e a de receber resíduo tóxico é praticamente inexistente. Ganha força, atualmente, a idéia de que as empresas devem ter procedimentos éticos que considerem a preservação do ambiente como uma parte de sua missão. Isto quer dizer que se devem adotar práticas que incluam tal preocupação, introduzindo processos que reduzam o uso de matérias-primas e energias, diminuam os resíduos e impeçam a poluição. Cada indústria tem suas próprias características. Mas já sabemos que a conservação de recursos é importante. Qualquer indústria deve então ter crescente preocupação com a quali- dade, durabilidade, possibilidade de conserto e vida útil de seus produtos. As empresas precisam não apenas continuar reduzindo a poluição, mas também buscar novas formas de economizarenergia, melhorar os efl uentes, reduzir o lixo e também o uso de matérias- primas. Reciclar e conservar energia são atitudes essenciais no mundo contemporâneo. É difícil ter uma visão única que seja útil a todas as empresas. Cada uma enfrenta desafi os diferentes e pode se benefi ciar de sua própria visão de futuro. Ao olhar para o futuro, podemos decidir quais alternativas são mais desejáveis e trabalhar com elas. No entanto, tanto os indivíduos quanto as instituições só mudarão suas práticas quando acreditarem que seu novo comportamento lhes trará benefícios – sejam eles fi nanceiros, para sua reputação e imagem ou para sua segurança. A mudança de hábitos não é algo que possa ser imposto. Deve ser uma escolha de pesso- as bem-informadas a favor de bens e serviços sustentáveis. A tarefa que se impõe é a de criar condições que melhorem a capacidade das pessoas escolherem, usarem e disporem de bens e serviços de forma sustentável. Além dos impactos causados na natureza, diversos são os malefícios à saúde humana provocados pela poluição do ar, dos rios e mares, assim como são inerentes aos processos produtivos alguns riscos à saúde e à segurança do trabalhador. Atualmente, os acidentes de trabalho constituem uma questão que preocupa os empregadores, empregados e governantes, uma vez que suas conseqüências afetam a todos. SENAI-RJ 15 Tratamento de esgotos - Uma palavra inicial SENAI-RJ 15 De um lado, é necessário que os trabalhadores adotem um comportamento seguro no trabalho, usando os equipamentos de proteção individual e coletiva; de outro, cabe aos em- pregadores prover a empresa com esses equipamentos, orientar quanto ao seu uso, fi scalizar as condições da cadeia produtiva e a adequação dos equipamentos de proteção. A redução do número de acidentes só será possível à medida que cada um – empregado, empregador e governo – assuma, em todas as situações, atitudes preventivas capazes de res- guardar a segurança de todos. Devemos considerar também que cada indústria possui um sistema produtivo próprio e, portanto, é necessário analisá-lo em sua especifi cidade para determinar seu impacto sobre o meio ambiente e a saúde e os riscos que o sistema oferece à segurança dos trabalhadores, propondo alternativas que possam levar à melhoria das condições de vida de todos. Da conscientização, partimos para a ação: cresce cada vez mais o número de países, empre- sas e indivíduos que vêm desenvolvendo ações que contribuem para proteger o meio ambiente e cuidar da nossa saúde. Mas, isso ainda não é sufi ciente... faz-se necessário ampliar tais ações, e a educação é um valioso recurso que pode e deve ser usado para atingir esse objetivo. Assim, iniciamos nosso curso conversando sobre o meio ambiente, a saúde e a segurança no trabalho, lembrando que, no exercício profi ssional diário, o operador deve agir de forma harmoniosa com o ambiente, zelando também pela segurança e saúde de todos no trabalho. Agora tente responder novamente à pergunta que inicia este texto. Meio ambiente, saúde e segurança no trabalho – o que é que eu tenho a ver com isso? Depois é partir para a ação. Cada um de nós é responsável. Vamos fazer a nossa parte? POLÍTICA INSTITUCIONAL DE MEIO AMBIENTE DA NOVA CEDAE I – Dos princípios: 1. Visão sistêmica da questão ambiental que permita o planejamento de ações integradas em conformidade com o conceito de desenvolvimento sustentável. 2. Obediência à legislação ambiental, que deve ser vista como instrumento para que a Nova Cedae atinja os seus objetivos. 3. Planejamento das ações que vise a preservação, conservação e recuperação dos re- cursos hídricos de forma sustentável. 4. Promoção de capacitação, treinamento e participação em ações de educação ambi- ental, no que se refere às atividades da Companhia, que visem ao aperfeiçoamento de processos e incorporação de novas tecnologias na busca da melhoria contínua. 5. Parceria institucional com entidades que desenvolvam atividades diretamente rela- cionadas à conservação e preservação do meio ambiente. 16 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Uma palavra inicial 6. Consolidação e disseminação interna e externamente da cultura, conhecimentos e experiências relacionadas com o meio ambiente na Nova Cedae. 7. Máximo rigor com o veto a produtos e serviços aplicados em obras e atividades que não resguardem a qualidade ambiental. 8. Valorização e fomento à pesquisa, desenvolvimento e consolidação de tecnologia, voltados à conservação do meio ambiente, principalmente dos recursos hídricos. II – Dos objetivos: 1. Estabelecer princípios, critérios, diretrizes e conceitos que orientem a Nova Cedae na condução das atividades e ações que tenham como meta alcançar excelência na prestação de serviços de saneamento ambiental e uma melhor qualidade de vida e bem-estar social para a população da área de atuação desta Companhia. 2. Defi nir responsabilidades, alinhar conceitos e estabelecer posturas para toda a Com- panhia, principalmente para áreas diretamente envolvidas com a questão ambiental e no relacionamento com órgãos e instituições afi ns, mercado e a sociedade em geral. 3. Criar condições para disseminar e consolidar os conceitos e atividades da Companhia relativas ao meio ambiente junto à comunidade interna e externa, visando: a educação sanitária e ambiental; o cumprimento da legislação pertinente; o relacionamento adequado com órgãos e instituições que regulamentam a questão ambiental, principalmente nos assuntos relacionados com os recursos hídricos. III – Das diretrizes estratégicas: 1. Todos os projetos devem contemplar: uso racional e desenvolvimento sustentado dos recursos hídricos; conservação, proteção e recuperação do meio ambiente; viabilidade técnica, econômica, fi nanceira, ambiental e social; atendimento à legislação ambiental; envolvimento sistemático dos órgãos gerenciais regionais da Companhia no tratamen- to e decisões das questões ambientais das suas respectivas bacias hidrográfi cas; e busca da certifi cação das atividades da Companhia pela ISO 14000. SENAI-RJ 17 Tratamento de esgotos - Uma palavra inicial 2. O relacionamento com os órgãos ofi ciais gestores do meio ambiente, entidades da sociedade civil e com o mercado deve ser pautado por: 1. ética; 2. transparência; 3. espírito de cooperação constante e sinergia; e 4. empenho na recuperação, proteção e conservação da quantidade e qualidade dos recur- sos hídricos e racionalização do uso de recursos naturais e combate ao desperdício. 3. A Nova Cedae deve agir: pró-ativamente no sentido de marcar a sua imagem como uma Companhia que se ca- racteriza pela preocupação com o meio ambiente e com o saneamento ambiental; pró-ativamente na formulação e aperfeiçoamento da legislação ambiental. 4. Todas as ações e iniciativas relativas ao meio ambiente devem ser executadas de forma descentralizada pelos órgãos gerenciais: seguindo diretrizes padronizadas, quando fi zerem seus contatos, de assuntos rotinei- ros, diretamente com órgãos externos; em sintonia com a diretoria colegiada, quando fi zerem seus contatos, de assuntos não rotineiros, diretamente com órgãos externos; lembrando que o processo de verifi cação da viabilidade ambiental é parte integrante dos planos diretores e que os projetos devem ser elaborados no âmbito das respec- tivas diretorias, com assessoria da Superintendência de Gestão Ambiental – SGA e da Assessoria Jurídica – AJUR, no que couber; que devem consolidar equipe especializada para coordenar e apoiar ações na elabo- ração dos estudos de viabilidade ambiental; e que terão participação direta nas atividades de licenciamento e de obtenção de outorgaexecutadas pela SGA. IV. Das disposições fi nais: 1. A comissão designada pela O.S. no 8.252, de 14 de abril de 2004, responsável pela elaboração dessa Política, passa a ser denominada Grupo Executivo de Meio Ambi- ente – GEMA. 2. Será da competência do GEMA propor, implementar, acompanhar e avaliar a efi cá- cia do Sistema de Gestão Ambiental, bem como o seu desempenho ambiental, em consonância com a Política Institucional de Meio Ambiente da Nova Cedae e o seu Regimento Interno. (Aprovada na Reunião de Diretoria de 28 de junho de 2004) 1 Nesta unidade... Características dos esgotos sanitários Características físicas Características químicas Características biológicas SENAI-RJ 21 Tratamento de esgotos - Características dos esgotos sanitários 1. Características dos esgotos sanitários Vamos iniciar conhecendo um pouco sobre as características físicas, químicas e biológicas do que denominamos genericamente de esgotos sanitários. Também conhecidos como “águas servidas”, “águas residuárias”, “despejos líquidos”, “esgotos” ou “efl uentes líquidos”, esses efl u- entes são resíduos líquidos resultantes da utilização doméstica ou industrial da água de abas- tecimento. Como carregam substâncias agressivas ao meio ambiente adicionadas durante o próprio processo de utilização da água, devem ser encaminhados a um destino fi nal adequado (eventualmente após tratamento). Por conseguinte, é indispensável conhecer a natureza des- tas substâncias e qual o efeito de seu lançamento no meio ambiente para escolher a forma de descarte que minimize os danos ambientais. Aqui vamos abordar com maior ênfase as características de um determinado tipo de efl uente líquido: os esgotos sanitários de origem domiciliar. Essas características variam de região para região, de acordo com diversos fatores como clima, hábitos da população, dis- ponibilidade de água potável e outros, porém sem se afastarem demasiadamente de certos valores centrais. Tais características decorrem de substâncias ou impurezas adicionadas à água durante a sua utilização e são classifi cadas em físicas, químicas e biológicas, de acordo com o agente introduzido no processo. 1.1 Características físicas As características físicas dos esgotos sanitários de origem domiciliar a serem observadas são: presença de matéria sólida, temperatura, cor e odor. 22 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Características dos esgotos sanitários 1.1.1 Presença de matéria sólida O esgoto consiste basicamente de água. O conteúdo de matéria sólida raramente ultrapassa 0,1 % da massa total do efl uente. Portanto, a água representa 99,9 % deste total. Contudo, a presença de sólidos, mesmo em porcentagem reduzida, assume grande importância sanitária em virtude de seus efeitos nocivos sobre o meio ambiente. Estes sólidos, além de serem adi- cionados durante a utilização da água, podem provir de infi ltrações na rede de esgotos e de substâncias dissolvidas na própria água de abastecimento. Sólidos totais O conteúdo total de sólidos em uma amostra de esgotos, denominado sólidos totais, é defi nido como o resíduo remanescente após evaporação a 105ºC da totalidade da água contida em um volume conhecido da amostra. Geralmente é expresso em mg/L. Os sólidos totais podem ainda ser subdivididos em: sólidos em suspensão ou dissolvidos e sólidos fi xos ou voláteis. Na primeira subdivisão, temos: Sólidos em suspensão (RNF) - são aqueles que fi cam retidos no meio fi ltrante quando se submete um volume conhecido de amostra à fi ltragem. O meio fi ltrante é escolhido de forma que o diâmetro mínimo da partícula retida seja de 0,1µ. O nome “sólidos em suspensão”, tem sido considerado inadequado, considerando-se que a determinação é feita por fi ltração e que partículas sólidas de diâmetro aparente inferior a 0,1µ não fi cam retidas no fi ltro. Modernamente, sugere-se sua substituição pela expressão mais apropriada “Resíduo Não-Filtrável”, ou RNF. Sólidos dissolvidos - são obtidos pela diferença entre os valores das massas de sólidos totais e de sólidos em suspensão ou RNF. Sendo assim, e considerando a forma como foram determinados, os sólidos dissolvidos incluem, além das substâncias presentes em solução verdadeira, uma certa massa de substâncias em suspensão coloidal. Entendemos que a denominação sólidos dissolvidos parece imprópria, sendo mais pertinente a designação sólidos filtráveis. Entretanto, por ser mais usual, vamos adotá-la em nosso estudo. SENAI-RJ 23 Tratamento de esgotos - Características dos esgotos sanitários Na segunda maneira de subdividir os sólidos totais, e que pode ser aplicada tanto aos RNF quanto aos sólidos dissolvidos, temos: Sólidos fi xos (inertes) - são defi nidos como o resíduo remanescente após o total de sólidos da amostra ter permanecido em estufa aquecida à temperatura de 600 ºC por 30 minutos. Sólidos voláteis - já a massa de sólidos voláteis é obtida por diferença entre as massas de sólidos totais e fi xos, posto que sólidos voláteis são aqueles perdidos por volatil- ização durante a determinação da massa de sólidos fi xos. De uma forma geral os sólidos fi xos servem, em primeira aproximação, como indicador da parcela de substâncias minerais contidas na amostra, enquanto os voláteis podem servir, de forma grosseira, como indicação da parcela de matéria orgânica. Observe na Figura 1.1 as concentrações de matéria sólida tipicamente encontradas em uma amostra de esgoto doméstico, assim como as porcentagens em que usualmente se dis- tribuem. Além das análises descritas para medir as concentrações em mg/L de matéria sólida pre- sente no esgoto, usa-se ainda a determinação dos denominados sólidos decantáveis. Medidos em ml/L, eles são defi nidos como o volume ocupado pelos sólidos sedimentados, após decan- tação de 1 hora, em vasilhame padrão denominado Cone Imhoff. Trata-se de análise expedita normalmente realizada pelo próprio operador de uma estação de tratamento de esgotos e também extremamente útil como ferramenta de controle de efi ciência de determinadas uni- dades de tratamento. No entanto, apesar de tradicional, há que se notar que sua denominação é errônea, sendo mais correta a de sólidos sedimentáveis (posto que partículas sólidas não decantam, sedimentam). Figura 1.1 – Distribuição típica de compostos sólidosã í ó 24 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Características dos esgotos sanitários 1.1.2 Temperatura Em geral, a temperatura do esgoto doméstico é ligeiramente mais elevada que a da água de abastecimento, em virtude da adição de água quente aos despejos. No Brasil ela costuma variar de região para região, porém mantendo-se quase sempre na faixa entre 15ºC e 25ºC. A temperatura é uma característica importante porque pode gerar modifi cações na biota do corpo receptor de um despejo que tenha temperatura muito diferente da natural do corpo d’água provocando aumento ou redução da rapidez das reações químicas e do metabolismo bacteriano. Além disso, a variação da temperatura exerce infl uência sobre a solubilidade dos gases, especialmente o oxigênio. Biota: conjunto de seres vivos de um determinado ecossistema. Corpo receptor: qualquer coleção de água superfi cial que recebe o lança- mento de efl uentes líquidos. 1.1.3 Cor A cor do esgoto doméstico serve como indicador de seu estado de septicidade. Em geral, o esgoto novo ou fresco apresenta coloração cinza claro. À proporção que vai envelhecendo, sua coloração se torna castanha ou marrom e a matéria orgânica presente começa a ser atacada pelas bactérias existentes no próprio esgoto, com a concomitante redução do teor de oxigênio dis- solvido. Na medida em queprosseguem as reações de decomposição da matéria orgânica, aumenta o con- sumo do oxigênio dissolvido e sua concentração pode cair a zero. Isto faz com que o esgoto entre no chamado estado séptico, atingindo a coloração negra. A cor dos despejos industriais depende do tipo de indústria, da matéria-prima empregada e do processo industrial. Em geral, cada tipo de despejo apresenta cor peculiar, que pode variar, no mesmo despejo, em de- corrência da natureza da operação industrial executada em uma dada ocasião. Septicidade: q u a l i d a d e ou caráter de séptico; que causa putrefação ou infecção. Variações ines- peradas de cor significam adi- ção de um produto não- habitual e podem impli- car em modifi cações nas demais características dos despejos. SENAI-RJ 25 Tratamento de esgotos - Características dos esgotos sanitários 1.1.4 Odor O odor do esgoto sanitário deve-se aos gases produzidos pela decomposição da matéria orgânica. O esgoto recém-produzido apresenta odor desagradável, porém não tão repulsivo quanto o produzido pelo esgoto séptico quando, após a queda do teor de oxigênio dissolvido a zero, determinados microrganismos passam a decompor a matéria orgânica com elevada produção de gás sulfídrico, que se desprende do líquido, provocando a corrosão dos condutos e um cheiro repugnante. As considerações anteriormente apresentadas em relação à cor dos despejos industriais também se aplicam ao seu odor. 1.2 Características químicas A composição química das diversas substâncias presentes no esgoto doméstico é extrema- mente variável, pois depende de diversos fatores que incluem os hábitos da população. Ultima- mente, com a crescente variedade de novos produtos químicos para uso doméstico disponíveis no mercado, o grau de complexidade da composição química das substâncias presentes nos esgotos tipicamente domésticos tem aumentado signifi cativamente, sendo exemplo notório a presença de detergentes em concentrações cada vez maiores. Quanto aos despejos industriais, sua composição química também depende essencial- mente do tipo de indústria, da matéria-prima utilizada e do processo industrial. É, portanto, bastante variável. Há despejos industriais com características tipicamente inorgânicas (in- dústrias metalúrgica, siderúrgica, e outras) e orgânicas (indústrias de alimentos, frigorífi cos, laticínios, etc.). Existem ainda indústrias que geram efl uentes de ambos os tipos (indústria química, petroquímica, refi narias, etc.). A seguir, vamos abordar apenas os compostos ou categorias de compostos que, em função de suas características, podem exercer alguma infl uência no corpo receptor ou nos processos de tratamento de esgotos. 26 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Características dos esgotos sanitários 1.2.1 Substâncias inorgânicas As substâncias inorgânicas presentes nos esgotos não possuem grande importância sani- tária, exceto se forem tóxicas. A presença de substâncias tóxicas, freqüente nos despejos industriais, é ra- ramente constatada nos esgotos domésticos em concentrações que possam afetar a biota do corpo receptor ou a saúde de pessoas ou animais. Dentre as substâncias inorgânicas usualmente encontradas nos esgotos domésticos são importantes, do ponto de vista da engenharia sanitária, os compostos de nitrogênio, fósforo e enxofre. Compostos de nitrogênio e fósforo A importância desses compostos decorre do fato de serem nutrientes básicos para as algas. Como tal, se forem descarregados em excesso em corpos receptores com certas características, tais como lagos ou estuários de pequena renovação de água, podem contribuir para que haja excessiva proliferação de algas, dando margem ao fenômeno denominado eutrofi zação do corpo líquido. Neste caso pode ser necessária a remoção de tais compostos antes do lançamento do efl uente sanitário ao corpo receptor. Compostos de enxofre Compostos de enxofre são importantes pela facilidade que apresentam de serem reduzi- dos bioquimicamente em condições anaeróbicas a gás sulfídrico por organismos específi cos (sulfobactérias). O gás sulfídrico (H 2 S), além de apresentar mau cheiro característico e ser extremamente tóxico em elevadas concentrações, pode ser oxidado bioquimicamente a ácido sulfúrico (H 2 SO 4 ) e causar sérios problemas de corrosão nas galerias de esgoto. 1.2.2 Matéria orgânica Uma porcentagem elevada dos sólidos contidos nos esgotos domésticos e em certos despejos industriais é formada por matéria orgânica. Estes compostos têm enorme importância sanitária devido à possibilidade de serem estabilizados através da oxidação bioquímica aeróbia (ou seja: serem consumidos como alimento por organismos presentes no corpo receptor que fazem uso de oxigênio SENAI-RJ 27 Tratamento de esgotos - Características dos esgotos sanitários em seu metabolismo). Em função disso o consumo de matéria orgânica pode reduzir a concentração de oxigênio dissolvido dos corpos receptores a níveis impróprios à vida das espécies que necessi- tam de oxigênio livre para subsistir (organismos aeróbios), provocando assim um forte desequilíbrio na distribuição de espécies do ecossistema constituído pelo corpo receptor desses esgotos. Os principais grupos de substâncias orgânicas presentes nos esgotos são: proteínas (40% a 60 %); carboidratos (25% a 50 %); e matérias graxas (10 %). A uréia também é encontrada em proporções razoáveis, porém apenas no esgoto fresco, devido à sua tendência de se decompor rapidamente (e gerar compostos de nitrogênio). Além destas substâncias, existem outras, em menor proporção, que se apresentam sob forma bastante variada, ou seja, desde moléculas muito simples até aquelas de extrema com- plexidade estrutural. Podemos citar, entre elas, algumas de importância sanitária, tais como fenóis, detergentes e alguns pesticidas. Nos últimos anos tem sido constatada, nos esgotos, a presença destas últimas substâncias em concentrações cada vez mais representativas. Avaliação do conteúdo da matéria orgânica Em função da extrema variedade e da alta complexidade molecular das substâncias orgâni- cas presentes nos esgotos, uma análise quantitativa de tais substâncias torna-se praticamente impossível devido à difi culdade de execução e ao seu alto custo. Por essa razão foi desenvolvido um método prático para avaliar, ou quantifi car indireta- mente, o conteúdo orgânico de uma amostra de esgoto. Ao reconhecer que o maior inconveniente causado pela presença de matéria orgânica no esgoto é a sua capacidade de consumir, por oxidação bioquímica, o oxigênio existente no corpo receptor, considera-se que uma avaliação indireta de seu conteúdo possa consistir, justamente, na medida da quantidade de oxigênio necessário para estabilizá-la bioquimicamente. Esse processo oferece dupla vantagem, ou seja: avaliar, apenas, a quantidade de matéria orgânica biodegradável, isto é, aquela que contribui diretamente para o consumo do oxigênio livre no corpo receptor; e medir a quantidade de oxigênio necessária à estabilização da matéria orgânica, isto é, a quantidade do oxigênio do corpo receptor que será consumida. Para compreender como tal medida se torna possível, é preciso entender o processo pelo qual o oxigênio é consumido no corpo receptor. Com esse objetivo, vamos então examinar, ainda que superfi cialmente, o metabolismo dos organismos aeróbios. 28 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Características dos esgotos sanitários Os organismos aeróbios utilizam o oxigênio livre (não-combinado) dos ambientes em que vivem para a manutenção do seu ciclo vital. Todos os animais superiores, além de muitas espé- cies de microrganismos,são seres aeróbios, organismos que se utilizam do oxigênio disponível no ambiente para reagir com a matéria orgânica e fazer dela fonte de energia e matéria prima para gerar material celular. Sua energia vital é obtida, exatamente, pela oxidação bioquímica de parte da matéria orgânica. O processo bioquímico pelo qual ocorre a oxidação é muito complexo e se denomina metabolismo. Embora complexa, a produção de energia vital pelo processo metabólico pode ser com- parada, grosseiramente, com o desempenho de um motor à combustão, no qual são introduzidos oxigênio e combustível (alimento, no caso do metabolismo). Através da combustão (oxidação), a energia é liberada e os produtos decorrentes da queima, ou seja, as substâncias oxidadas, são descarregadas no ambiente. No processo metabólico, a matéria orgânica (alimento) é biodegra- dada (combinada bioquimicamente com o oxigênio livre para produzir a energia necessária à manutenção da vida) sendo eliminada para o ambiente na forma de produtos parcialmente oxidados (excrementos), ainda como matéria orgânica, porém em um estágio de estabilização mais elevado. Os fenômenos descritos ocorrem em qualquer ambiente em que coexistam alimentos, seres aeróbios e oxigênio livre. Por exemplo: se um despejo com alto conteúdo de matéria orgânica biodegradável (alimento) for lançado em um corpo de água com elevado teor natural de oxigênio dissolvido, os organismos aeróbios existentes no corpo líquido e no próprio despejo, encon- trando condições ambientais propícias, vão se multiplicar rapidamente e consumir o oxigênio disponível. Caso as circunstâncias permitam, eles irão exaurir completamente o oxigênio livre do corpo receptor, causando sérios prejuízos ecológicos. Demanda bioquímica de oxigênio (DBO) Um dos métodos desenvolvidos para avaliar o conteúdo orgânico de uma amostra de es- goto, a seguir descrito de forma simplifi cada, é uma análise denominada Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO). Na verdade, a DBO possibilita a transposição para laboratório do próprio fenômeno que se processa na natureza. Vejamos como realizá-la: colher um certo volume de amostra de esgoto e diluí-la em um volume conhecido de água destilada, na qual foi previamente dissolvido oxigênio em uma concentração conhecida; incubar essa amostra por um período fi xo (usualmente cinco dias) e em temperatura constante (20ºC); transcorrido este período, medir a concentração de oxigênio dissolvido e encontrar, por diferença, a quantidade de oxigênio utilizada para estabilizar bioquimicamente a matéria orgânica contida no volume da amostra utilizada; e SENAI-RJ 29 Tratamento de esgotos - Características dos esgotos sanitários com base na quantidade de oxigênio utilizada para estabilizar bioquimicamente a matéria orgânica presente no volume de amostra analisado, calcular proporciona- lmente a quantidade necessária para estabilizar a matéria orgânica contida em um litro de esgoto; assim, a DBO é encontrada em mg/L. Como os esgotos domésticos já contêm elevado número de microrganismos aeróbios, não é necessário semeá-los no frasco a ser incubado. Na análise de despejos industriais, porém, esse procedimento geralmente é imprescin- dível. A DBO obtida conforme acima descrito também é denominada “DBO a cinco dias” ou DBO5. Isso não signifi ca que o consumo de oxigênio deixe de existir depois de cinco dias. Na verdade, o consumo só vai cessar após um período de cerca de 20 dias. Mas, aguardar todo esse tempo para conhecer os resultados de uma análise de laboratório pode ser de pouca valia para executar, por exemplo, o controle da operação de uma estação de tratamento de esgotos. Por isso foi adotado o período de cinco dias como padrão, considerando que, após esse tempo, cerca de 2/3 do consumo total de oxigênio já foi exercido e a maior parte dos compostos orgânicos carbonatados já se encontra estabilizada, restando, apenas, em sua maioria, os compostos nitrogenados. A Demanda Bioquímica de Oxigênio é um parâmetro de importância fun- damental para os diversos processos de tratamento de esgoto. Portanto, é essencial compreender os seus princípios básicos. Demanda química de oxigênio (DQO) Apesar de ser considerado como padrão, o período de cinco dias para obter o resultado de uma análise de DBO pode representar uma espera muito longa ou ser de pouca utilidade quando se pretende avaliar a necessidade de oxigênio para estabilizar a totalidade das substân- cias orgânicas de uma amostra (e não apenas a fração biodegradável). Para enfrentar situações desse tipo foi então desenvolvido outro método de análise denominado Demanda Química de Oxigênio (DQO). Nesta análise utiliza-se um enérgico agente oxidante, normalmente o dicromato de po- tássio ou permanganato de potássio, em meio ácido, para oxidar a totalidade dos compostos orgânicos presentes no esgoto e, assim, calcular a quantidade de oxigênio consumida. Como, 30 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Características dos esgotos sanitários exceto em casos muito especiais, mais compostos são oxidados por via química do que por via bioquímica, os resultados da DQO são, em geral, maiores do que os obtidos da DBO de uma mesma amostra. Para muitos tipos de esgoto é possível correlacionar os resultados da DBO com os da DQO, o que é vantajoso, pois a análise da DQO é executada em três horas enquanto a da DBO necessita de cinco dias de espera. Carbono orgânico total (COT ou TOC) Uma avaliação direta do conteúdo orgânico de uma amostra de despejo pode ainda ser obtida através do parâmetro denominado Carbono Orgânico Total (COT), que mede a concen- tração, em mg/L, do elemento carbono ligado a moléculas orgânicas. A análise é efetuada com o uso de equipamentos especiais que levam à combustão controlada todo o conteúdo de um pequeno volume de amostra e possibilitam medir a massa de gás carbônico assim gerada. Sua utilização é rara para esgotos sanitários, sendo mais comum em despejos industriais. 1.3 Características biológicas Do ponto de vista sanitário, as características biológicas são aquelas relativas aos principais grupos de microrganismos presentes nos esgotos, em especial os patogênicos e aqueles utilizados quer nos processos biológicos de tratamento de esgotos, quer como indicadores de poluição. 1.3.1 Principais grupos de microrganismos presentes no esgoto Veremos dois grupos: os protistas e os vírus. Protistas Os protistas constituem o grupo mais importante de microrganismos usualmente encon- trados nos esgotos domésticos; em seguida estão os vírus. Vejamos a sua importância para a engenharia sanitária. Fazem parte desse grupo as bactérias, as algas e os protozoários. SENAI-RJ 31 Tratamento de esgotos - Características dos esgotos sanitários Bactérias Certamente são as mais importantes, não somente pelo fato de haver entre elas diver- sas espécies patogênicas, transmissoras das chamadas doenças de veiculação hídrica, como também pelo extraordinário papel que desempenham nos processos de tratamento biológico, promovendo a estabilização da matéria orgânica. Entre as bactérias, encontram-se os organismos do grupo coliforme, cuja utilidade será discutida adiante. Algas Existem em pequena quantidade nos esgotos domésticos, mas podem ser encontradas em elevadíssimas concentrações nos efl uentes das chamadas lagoas de estabilização. A presença de algas em grande quantidade em um efl uente lançado a um corpo receptor pode resultar sérios inconvenientes para este corpo receptor seja pelos problemas causados à captação eventual de água para abastecimento, seja pelo fenômeno conhecido como fl oração de algas, comum em corpos de água com elevada concentração de nutrientes(corpos de água eutrofi zados). Protozoários Os protozoários existentes no esgoto e de interesse para a engenharia sanitária incluem amebas, fl agelados e ciliados livres. Esses organismos se alimentam de bactérias e outros parasitas; são considerados essenciais para a manutenção do equilíbrio biológico, em processos de tratamento biológico. Patogenicidade: é a capacidade que um organismo possui de causar doenças em outros organismos. Vírus A importância dos vírus para a engenharia sanitária se deve à patogenicidade de certas espécies. Eles são altamente resistentes ao tratamento biológico e aos processos usuais de desinfecção, podendo subsistir por longo tempo nos esgotos ou nos corpos receptores. As experiências têm mostrado que a sua remoção é extremamente difí- cil; por isso, nos dias atuais, várias pesquisas estão em andamento com a fi nalidade de buscar soluções para o problema. 32 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Características dos esgotos sanitários 1.3.2 Organismos utilizados como indicadores de poluição Conforme mencionado, os esgotos domésticos contêm uma enorme variedade de micror- ganismos, alguns dos quais patogênicos, que precisam ser controlados. Quando certa vazão de esgotos é lançada em um corpo receptor, se o ambiente não for propício à propagação dos organismos patogênicos, sua concentração vai paulatinamente decrescendo seja por diluição, por morte ou decaimento bacteriano. Mas o isolamento e a contagem desses seres exigiriam uma técnica de laboratório demorada, acurada e onerosa. Procurou-se, então, encontrar um grupo de organismos, de fácil determinação e de contagem simples em laboratório, que pudesse ser associado à poluição fecal, para servir como indica- dor desse tipo de degradação. Com esse propósito foi selecionado o grupo dos organismos coliformes. Embora não sendo, em geral, patogênicos, os organismos do grupo coliforme passaram a ser utilizados com indicadores de poluição fecal porque existem em abundância no intestino humano e são excretados com as fezes. Isso signifi ca que uma água com elevada contagem de coliformes pode também conter organismos patogênicos, enquanto uma água isenta de coliformes é considerada segura, do ponto de vista sanitário. A medida da quantidade de organismos do grupo coliforme presentes em uma amostra denomina-se colimetria. A técnica usualmente empregada para sua determinação consiste no chamado teste presuntivo, baseado na capacidade dos coliformes, e apenas deles, de fer- mentar a lactose, com produção de gás, quando incubados no meio de cultura adequado e em temperatura conveniente. A incubação é realizada com diferentes diluições de uma mesma amostra e os resultados são submetidos a uma análise estatística e expressos através da unidade NMPcoli/100ml (Número Mais Provável de organismos do grupo coliforme encontrados em 100ml de amostra). É possível, através de técnica específi ca, determinar em laboratório o NMP de organismos coliformes de origem fecal cultivando-os em um meio não propí- cio ao desenvolvimento de outras espécies. Esta determinação denomina-se colimetria fecal. SENAI-RJ 33 Tratamento de esgotos - Características dos esgotos sanitários O resultado da colimetria não representa a concentração real dos organismos na amostra, mas apenas uma estimativa baseada em análise estatística. Portanto, trata-se apenas de um indicador de poluição. Caso seja desenvolvido um processo para eliminar unicamente coli- formes, o que é possível do ponto de vista técnico, ainda assim a contaminação vai persistir, pois os organismos patogênicos, eventualmente presentes, lá irão permanecer. Na verdade, essa tentativa de eliminar uma ferramenta efi ciente de controle só serviria para “esconder” a contaminação. Nas unidades referentes a tratamento biológico de efl uentes orgânicos vol- taremos ao estudo dos microrganismos com ênfase em seu metabolismo. 2 Nesta unidade... Autodepuração dos corpos de água Zonas características Autodepuração SENAI-RJ 37 Tratamento de esgotos - Autodepuração dos corpos de água 2. Autodepuração dos corpos de água Um corpo de água, em seu estado natural, constitui um ecossistema. Nele coexistem nu- merosos organismos que se relacionam entre si e com o próprio ambiente. Qualquer modifi ca- ção introduzida, seja nas espécies vivas, seja no ambiente, pode trazer conseqüências nefastas que podem incluir a ruptura do equilíbrio ecológico. No ecossistema, alguns seres vivos se alimentam de substâncias existentes no ambiente. Outros se alimentam de organismos vivos, vegetais ou animais. Esta teia complexa de elementos forma a chamada “cadeia alimentar”. Com exceção dos chamados microrganismos anaeróbios, todos os demais que vivem no corpo d’água necessitam de oxigênio livre (dissolvido no meio líquido) para realizar seu metabolismo. O oxigênio existe em abundância na atmosfera e tem a propriedade de ser solúvel em água. O teor máximo (saturação) de oxigênio dissolvido (OD) na água depende de diversos fatores, inclusive a temperatura. Vale destacar que a 25ºC o teor de saturação de OD em água limpa é de 8,26 mg/L. A existência de seres vivos no meio líquido implica o consumo de certa quantidade de OD. Caso não houvesse o contínuo suprimento de oxigênio, a tendência seria baixar o teor de OD até níveis que impossibilitassem a sobrevivência dos organismos. A morte de alguns peixes, por exemplo, pode ocorrer em ambientes com teores de OD iguais ou inferiores a 5mg/L. 38 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Autodepuração dos corpos de água Por outro lado, os cursos de água têm a capacidade de absorver oxigênio da atmosfera (reaeração) para suprir aquele consumido no seu interior. Mas essa capacidade depende de diversos fatores, dentre os quais: a temperatura; o estado de agitação das águas; o efeito dos ventos; a velocidade do curso de água; e o próprio teor de oxigênio dissolvido no líquido (quanto mais baixo o OD, mais rapi- damente se dá a reaeração). Além do oxigênio suprido diretamente pela atmosfera, o corpo líquido recebe oxigênio fornecido pelas plantas aquáticas através do fenômeno denominado fotossíntese a ser abordado adiante. Portanto, em condições naturais, há equilíbrio entre o oxigênio consumido pelos seres vivos e o oxigênio fornecido ao corpo líquido. Equilíbrio este que mantém o teor de OD em um nível estável. Quando certa quantidade de esgoto é lançada em um corpo líquido, há uma tendência de rompimento do equilíbrio devido à avidez do esgoto por oxigênio (DBO). Com o consumo de OD pelo esgoto (a rigor, pelos organismos que se alimentam da matéria orgânica contida neste esgoto, como veremos adiante), o nível de OD no corpo líquido diminui. Caso não houvesse reaeração a tendência seria que este nível baixasse continuamente, no princípio com rapidez, depois de forma mais lenta, até atingir níveis extremamente baixos conforme mostra a Figura 2.1, onde a abscissa (t) representa o tempo decorrido após o lançamento do esgoto e a ordenada (c) a quantidade de oxigênio consumida. O momento do lançamento do esgoto está caracterizado na fi gura como t 0 , assim como a quantidade inicial de oxigênio no corpo líquido, c 0 . A linha pontilhada c s representa a quantidade de oxigênio no ponto de saturação para esse corpo líquido. Figura 2.1 – Consumo de OD com o tempo, após o lançamento de esgoto F C o l SENAI-RJ 39 Tratamento de esgotos - Autodepuração dos corpos de água O curso de água, no entanto, é capaz de recuperar oxigênio em virtude do fenômeno da reaeração (reposição de oxigênio). A capacidade do líquido de receber oxigênioé função, en- tre outros parâmetros, do próprio teor de OD: quanto menor este teor, maior será a diferença entre ele e o teor de saturação e mais rápida será a captura de oxigênio. Como, à medida que o oxigênio é reposto, menor se torna essa diferença, a rapidez com que o oxigênio é capturado diminui quando o teor de OD cresce. Assim, a quantidade de oxigênio recuperada pelo curso de água varia de acordo com a Figura 2.2. Figura 2.2 – Reaeração com o tempo, após o lançamento de esgoto Nessas condições, o teor de OD no curso de água sofre as infl uências opostas das duas ações acima descritas: uma tendência a cair devido ao consumo e uma tendência a recuperar- se devido à reaeração. No início do fenômeno, quando a massa de OD consumido é maior que a de OD recuperado, o teor de OD no corpo líquido irá cair até atingir seu valor mínimo (ponto crítico). Mas, a partir do momento que o consumo de OD tornar-se menor que a massa reposta por reaeração, seu nível no corpo líquido irá subir até, eventualmente, recuperar as condições existentes antes do lançamento. Portanto, o fenômeno se desenrola como a soma das duas curvas vistas ante- riormente. No início, o teor de OD do corpo líquido cai (enquanto o consumo de OD for maior que o OD fornecido pela reaeração), até atingir o ponto crítico, ou seja, quando os dois valores se igualam. A partir deste ponto começa então a subir (quando o OD fornecido já é maior que o consumido), até atingir o valor existente antes do lançamento do esgoto. A variação do teor de OD do corpo líquido é representada esquematicamente na Figura 2.3. Figura 2 2 Reaeração com o tempo após o lançamento de esgoto 40 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Autodepuração dos corpos de água A variação do teor de OD ao longo do curso de água causada pelo consumo de oxigênio devido ao lançamento de esgotos e sua recuperação devida ao fenômeno da reaeração pode exercer grande infl uência sobre as condições ambientais do ecossistema constituído pelo corpo de água. Isto porque há uma correspondência entre os diversos níveis de OD e determinados organismos capazes de se ambientar às condições vigentes. Assim, a situação ou circunstância apresentada pelo curso de água determina a formação de zonas ao longo das quais há predo- minância de determinados organismos. A biota existente antes do lançamento, adaptada a um nível de OD mais elevado, começa a sofrer modifi cações à proporção que o OD vai caindo. E, assim, à jusante do lançamento, podem ser distinguidas as zonas características do estado do curso de água, que correspondem ao nível de OD. Jusante: direção em que vaza a maré, ou para onde corre um curso de água. 2.1 Zonas características Ao longo do curso de água, após o lançamento de uma determinada vazão de esgotos, dependendo da proporção entre esta vazão e a do curso de água, pode-se distinguir a forma- ção das seguintes zonas características: degradação, decomposição ativa, recuperação e água limpa. Elas serão resumidamente descritas a seguir, com ênfase no que toca à sua localização, ao nível de OD e aos seres vivos nelas presentes. Figura 2.3 – Curva de depleção de oxigênioFigura 2 3 Curva de depleção de oxigênio SENAI-RJ 41 Tratamento de esgotos - Autodepuração dos corpos de água Zona de degradação Localiza-se logo após o lançamento. A água apresenta-se turva e escura. Os sólidos sedimentáveis do esgoto tendem a se depositar no fundo, onde entram em decomposição anaeróbica. O OD cai rapidamente e pode-se constatar a presença de gás carbônico e amônia provenientes da decomposição. Os peixes e outras formas de vida mais complexas podem ser extintos ou expulsos. Sub- sistem alguns fungos e grande número de bactérias. Zona de decomposição ativa Localiza-se abaixo da zona de degradação e corresponde aos níveis mais baixos de OD. Caracteriza-se pela decomposição anaeróbica em toda a massa líquida, sendo também ob- servada a formação de bolhas de gás. Porções de lodo podem afl orar à superfície, formando escuma negra. Há desprendimento de mau cheiro. As formas de vida se limitam, em sua maioria, a microrganismos anaeróbicos; os fungos desaparecem. As formas de vida mais complexas são representadas por alguns vermes e larvas de insetos. Na zona de decomposição ativa localiza-se o “ponto crítico”, onde o teor de OD pode chegar a zero em caso de poluição maciça. Zona de recuperação Localiza-se após a zona de decomposição ativa e corresponde a um lento crescimento do nível de OD. Como a maior parte da matéria orgânica já foi parcialmente estabilizada nas zonas de montante, diminui o consumo de OD, cujo nível tende então a subir em virtude da quantidade de oxigênio fornecida pela reaeração ser superior ao consumo. O gás carbônico e a amônia decrescem e nota-se a presença de nitratos e nitritos, prove- Montante: di- reção da nas- cente do curso de água. nientes da mineralização da matéria orgânica. O número de bactérias diminui devido à redução da matéria orgâni- ca que lhes serve de alimento. Reaparecem os fungos e algumas algas. Começam a reaparecer algumas plantas aquáticas e certos peixes mais resistentes. 42 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Autodepuração dos corpos de água Zona de água limpa Devido ao fenômeno da reaeração, o curso de água recupera tanto o seu teor de OD, resta- belecendo o equilíbrio, quanto a aparência de seu estado natural. Os organismos aeróbios inferiores crescem em quantidade, devido à ação fertilizante da poluição (massa de nutrientes lançada no ecossistema) e servem de alimento às formas de vida mais complexas, que reaparecem. O rio retorna, então, às suas características de nor- malidade. A correspondência entre as zonas descritas e a curva de OD do corpo líquido é mostrada na Figura 2.4. Figura 2.4 – Zonas do curso de água após lançamento de esgoto 2.2 Autodepuração Conforme vimos, após receber uma carga de poluição, os cursos de água, embora sofram modifi cações em suas características, tendem a restabelecer por processos naturais as condições existentes antes do lançamento dos esgotos. Este fenômeno é conhecido como autodepuração, isto é, a capacidade do curso de água de receber uma determinada carga poluidora e eliminá- la, gradativamente, mediante ações naturais. É evidente que, caso se pretenda manter o nível mínimo de OD (ponto crítico) acima de um dado valor, existe um certo limite na carga poluidora a ser lançada no corpo receptor. Se as necessidades de oxigênio para estabilizar a matéria orgânica contida no esgoto lançado forem demasiadamente elevadas, todo o OD do corpo receptor poderá ser consumido e, no ponto crítico, ocorrerá ausência total de OD. Dependendo da carga poluidora, esta situação pode se prolongar por um longo trecho do rio, o que é altamente indesejado. A curva de OD do corpo receptor terá, então, o aspecto mostrado na Figura 2.5. Figura 2 4 – Zonas do curso de água após lançamento de esgoto SENAI-RJ 43 Tratamento de esgotos - Autodepuração dos corpos de água vazão do corpo receptor; e taxa de reaeração, que quantifi ca o oxigênio disponível para suprir as necessidades da carga poluidora. Conhecidos esses elementos, pode-se então determinar o teor mínimo de OD no ponto critico. 2.2.1 Modelo de Streeter e Phelps O tratamento matemático do problema, descrito a seguir de forma simplifi cada, é de autoria de Streeter e Phelps. Esses autores consideram que o défi cit D de oxigênio (isto é, a diferença entre o teor de saturação de OD e o teor de OD medido num tempo t após o lançamento do despejo) pode ser expresso como a soma algébrica das duas tendências já mencionadas, ou seja: redução devida ao consumo deO 2 correspondente à DBO exercida pelo despejo (des- oxigenação); e crescimento devido à reposição natural de O 2 (reaeração). O aumento do défi cit causado pela DBO exercida ao longo do tempo é diretamente proporcional a essa mesma DBO, sendo K 1 o coefi ciente de proporcionalidade. Podemos, então, escrever: Onde: dD d = variação (aumento) do défi cit de OD devido à desoxigenação. L = DBO exercida após o tempo t. K 1 = constante de desoxigenação. dt = variação do tempo t. Figura 2.5 – Depleção total de oxigênio Equação 2.1 Fi 2 5 D l ã t t l d i ênio A carga poluidora lançada ao corpo de água irá determinar a necessidade total de oxigênio a ser consumido. Ela depende da vazão de esgoto lançado e da DBO deste esgoto. Já a capacidade de autodepuração vai depender dos seguintes fatores: teor de OD do corpo recep- tor antes do lançamento; dD d = K 1 Ldt 44 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Autodepuração dos corpos de água A identifi cação do número da equação é importante para futuras referências ao longo do texto. Por outro lado, o estudo da transferência de gases nos mostra que a rapidez com que esse fenômeno se processa é proporcional à diferença entre a concentração do gás no líquido e a concentração de saturação deste gás no líquido, ou seja, no nosso caso, a diminuição do dé- fi cit de oxigênio devido à reaeração é diretamente proporcional ao próprio défi cit, o que nos permite escrever: Equação 2.2 Onde: dD r = variação (decréscimo) do défi cit de OD devido à reaeração natural. K 2 = constante de reaeração. D = défi cit de oxigênio. A variação total do défi cit de OD ao longo do tempo será então representada pela soma algébrica dos dois efeitos: Equação 2.3 Equação 2.4 Onde K 1 assume o mesmo valor que na Equação 2.1. Na prática, para usar a (Equação 2.3), a DBO exercida deverá ser expressa em função da DBO de primeiro estágio da mistura despejo/água do corpo receptor (L 0 ), através da conhecida equação da estabilização da DBO: SENAI-RJ 45 Tratamento de esgotos - Autodepuração dos corpos de água Isto feito, pode-se integrar a Equação 2.3, substituindo também o valor de L pelo expresso na Equação 2.4, o que nos leva à expressão do défi cit de OD, aqui identifi cado pela letra D: Onde: D 0 = défi cit inicial de OD, ou seja, défi cit de OD imediatamente à montante do lançamento do despejo. A Equação 2.5 evidencia que o défi cit de OD passa por um ponto notável. Trata-se do défi cit máximo, que corresponde ao teor mínimo de OD encontrado no ponto crítico. O tempo gasto para atingir o ponto crítico, t c , poderá então ser obtido através da determinação da abscissa deste ponto notável, representada por: O valor de t c permitirá calcular o défi cit crítico, D c , ou seja, o défi cit de O 2 encontrado no ponto crítico: A concentração de OD no ponto crítico (C c , a menor concentração a ser encontrada no corpo receptor) poderá então ser expressa por: Onde: C s = concentração de saturação de O 2 no corpo receptor para as condições dadas de tem- peratura e salinidade. Equação 2.5 Equação 2.6 Equação 2.7 Equação 2.8 46 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Autodepuração dos corpos de água A Figura 2.6, a seguir, representa grafi camente as Equações 2.1, 2.2 e 2.5, utilizadas para o estudo simplifi cado do fenômeno de autodepuração dos cursos de água. Este modelo simplifi cado pode ser utilizado como uma primeira aproximação para o modelo matemático do fenômeno de autodepuração. Os possíveis desvios que ele apresenta são devidos ao fato de não serem consideradas: a demanda de OD causada pelo lodo orgânico, possivelmente presente no fundo do curso de água (demanda bentônica); a redução do consumo de OD, devido à possível sedimentação da parcela de matéria orgânica representada por sólidos em suspensão; e a possível introdução de oxigênio produzido por fotossíntese pelos organismos clorofi lados. Demanda bentônica: demanda advinda de animal ou vegetal que vive no fundo dos cursos de água. As duas primeiras ações descritas tendem a se equilibrar, e a terceira é, geralmente, considerada desprezível, o que explica a extensa utilização do modelo apresentado. Figura 2.6 – Modelo simplifi cado do fenômeno de autodepuraçãoFigura 2 6 Modelo simplificado do fenômeno de autodepuração SENAI-RJ 47 Tratamento de esgotos - Autodepuração dos corpos de água 2.2.2 Determinação dos coefi cientes K1 e K2 Os coefi cientes K 1 e K 2 podem ser determinados experimentalmente. O valor de K 1 depende tanto da velocidade das reações bioquímicas (portanto, da temperatura e da possível presença de substâncias tóxicas ou inibidoras) quanto da presença de uma biota adaptada ao substrato orgânico contido no despejo. Caso não se disponha de valores determinados experimentalmente, pode-se adotar para K 1 o valor de 0,17dia-1 em rios que já receberam considerável carga orgânica à montante. Caso contrário, e quando a DBO de primeiro estágio da mistura esgoto-água do corpo receptor for inferior a 12mg/L, sugere-se para K 1 o valor de 0,1dia-1. Esses valores se aplicam para tempera- tura de 20ºC. E a variação de K 1 com a temperatura pode ser expressa por: Onde: (K 1 ) T = valor de K 1 na temperatura T. (K 1 ) 20 = valor de K 1 a 20ºC. O valor de K 2 depende, principalmente, das condições de escoamento do curso de água (velocidade, profundidade, turbulência), que podem facilitar ou difi cultar o fenômeno de reae- ração natural. Alguns autores propõem formulações matemáticas que fornecem o valor de K 2 em função das condições de escoamento. As principais são as propostas por Owens, Edwards e Gebbs, para rios com velocidades entre 0,03 e 1,5m/s e profundidades entre 0,12 e 3,30m (conforme Equação 2.10), e por O’Connor, para rios com velocidades compreendidas entre 0,15 e 0,5m/s e profundidades entre 0,3 e 9m (conforme Equação 2.11). Equação 2.9 Equação 2.10 Equação 2.11 Onde: V = velocidade de escoamento do curso de água, em m/s. H = profundidade, em m. 48 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Autodepuração dos corpos de água As Equações 2.10 e 2.11 fornecem os valores de K 2 para temperatura de 20ºC. Já a correção de temperatura poderá ser feita pela equação a seguir. Equação 2.12 O modelo de Streeter e Phelps é de fácil aplicação e permite não apenas avaliar a extensão do curso de água atingido pelos efeitos do lançamento do despejo como também determinar os teores de OD ao longo do trecho afetado, com aproximação aceitável para a maioria dos casos práticos. Mas deve-se notar que trata-se de um modelo expedito usado apenas para estimativas. Atualmente existem modelos matemáticos sofi sticados, tridimensionais, que, com o uso de computadores, permitem avaliar com grande precisão as condições do corpo receptor após receber uma determinada carga de esgotos. 3 Nesta unidade... Processos de tratamento de esgotos Tratamento preliminar Tratamento primário Tratamento secundário Tratamento terciário SENAI-RJ 51 Tratamento de esgotos - Processos de tratamento de esgotos 3. Processos de tratamento de esgotos Na literatura técnica é usual a subdivisão dos processos de tratamento de esgotos em fases ou estágios, a saber: preliminar; primário; secundário; e terciário. Embora seja amplamente utilizada, deve-se notar que esta classifi cação é inteiramente arbitrária e não se apóia em qualquer critério científi co. Mais racional seria adotar um critério que agrupasseas operações ou processos de tratamento segundo os fundamentos teóricos nos quais se baseia a obtenção de seus parâmetros de dimensionamento e operação, que seria: operações unitárias (aquelas que utilizam apenas mecanismos físicos); processos químicos unitários; e processos biológicos unitários. Entretanto, como a classifi cação usual é de emprego amplo e já estabelecido, será aqui adotada. Nesta unidade veremos um breve resumo de cada um dos quatro tipos de processos, identifi cando as operações que os compõem. Nas unidades seguintes abordaremos em mais detalhes os principais tratamentos de cada grupo. 52 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Processos de tratamento de esgotos 3.1 Tratamento preliminar Etapa inicial do tratamento de esgotos - considera-se parte da fase preliminar as operações destinadas à remoção de: sólidos grosseiros (através de grades, peneiras e desintegradores); e areias (através de caixas de areia e ciclones). 3.2 Tratamento primário O tratamento primário é defi nido como a seqüência de operações destinadas a remover sólidos em suspensão (quando a remoção é feita por diferença de densidade) e a realizar os procedimentos adicionais necessários ao tratamento dos materiais removidos. Portanto, inclui os seguintes processos. Remoção de sólidos em suspensão: - decantação simples; - decantação com adição de coagulantes ou polieletrólitos; - fl otação por ar dissolvido; - sistemas conjugados (tanques Imhoff e fossas sépticas); e - microgradeamento. Tratamento do material removido (lodo) Espessamento: - espessadores por gravidade; - espessadores por fl otação; e - centrifugação. Estabilização: - digestão aeróbia; - digestão anaeróbia; - tratamento químico; - tratamento térmico; e - compostagem. Condicionamento: - condicionamento químico; - elutriação; e - condicionamento térmico. SENAI-RJ 53 Tratamento de esgotos - Processos de tratamento de esgotos Remoção de umidade: - secagem natural; - fi ltração a vácuo; - centrifugação; e - fi ltração à pressão (fi ltros prensa) Incineração: - fornalhas de múltiplos estágios; - leitos fl uidizados. Destino fi nal: - lançamento no oceano; - utilização como adubo; e - disposição no terreno. 3.3 Tratamento secundário Classifi cam-se como tratamento secundário os processos biológicos utilizados para estabilizar bioquimicamente a matéria orgânica contida no esgoto bruto ou no efl uente do tratamento primário, assim como para efetuar a remoção e a disposição fi nal ou reciclagem das substâncias formadas no processo biológico. Inclui as seguintes operações: Filtração biológica. Lagoas de estabilização (aeróbias, facultativas e anaeróbias). Lodos ativados e suas variantes. Tratamento anaeróbio de efl uentes líquidos. 3.4 Tratamento terciário São considerados como parte do tratamento terciário os processos destinados a remover do efl uente do tratamento secundário substâncias em solução, partículas fi namente divididas em suspensão, poluentes ou impurezas específi cas. Inclui as seguintes operações: Desinfecção por cloração ou ozonização. Filtração. Adsorção por carvão ativado. Osmose reversa. Deionização. Remoção de nutrientes. 4 Nesta unidade... Tratamento preliminar e primário Tratamento preliminar Tratamento primário e sistemas conjugados SENAI-RJ 57 Tratamento de esgotos - Tratamento preliminar e primário 4. Tratamento preliminar e primário Por cuidarem essencialmente da remoção de sólidos, faremos nesta unidade uma abor- dagem conjunta dos tratamentos preliminar e primário. 4.1 Tratamento preliminar O tratamento preliminar se destina à remoção de sólidos grosseiros e areias. Recebeu este nome em virtude de pouco ou nada alterar as principais características dos esgotos, prati- camente não afetando a carga poluidora (já que não reduz signifi cativamente seja a DBO, a concentração de sólidos em suspensão ou a colimetria). Quando usado na cabeceira de uma estação de tratamento de esgotos, sua função é pre- parar os esgotos para tratamento nas unidades subseqüentes evitando obstruções causadas pelos sólidos grosseiros em tubulações e dispositivos de tratamento e assoreamentos causados pelas areias em canais e unidades de tratamento. Quando usado imediatamente à montante de um lançamento, visa evitar inconvenientes estéticos devido à presença de materiais sólidos fl utuantes e prevenir o assoreamento do corpo líquido nas imediações do ponto de lançamento em razão da deposição de areias. 4.1.1 Remoção de sólidos grosseiros A remoção de sólidos grosseiros é executada tanto à montante de uma estação de tratamento ou elevatória – a fi m de proteger as bombas, tubulações e demais unidades de tratamento – quanto à montante de um lançamento de esgotos, visando a proteção do corpo receptor apenas do ponto de vista estético. 58 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Tratamento preliminar e primário A operação pode ser realizada através de: Grades: retenção e posterior remoção do material retido entre as barras de uma grade metálica, que deve ser encaminhado ao destino fi nal (geralmente o mesmo do lixo urbano). Crivos: idem, em placas perfuradas. Peneiras ou microgrades: idem, em dispositivos formados por malhas ou peneiras metálicas. Trituradores (ou desintegradores): retenção, moagem e devolução do material ao esgoto. Grades A operação de gradeamento é efetuada obrigando o fl uxo dos esgotos a atravessar uma grade metálica de barras paralelas. O líquido e os sólidos de dimensões inferiores ao espaça- mento entre as barras atravessam o dispositivo enquanto os sólidos de dimensões superiores permanecem retidos na grade. A remoção do material retido pode ser feita manual ou mecanicamente. A remoção manual é feita por meio de um ancinho cujo espaçamento entre dentes é igual ao espaçamento entre as barras da grade. O operador maneja o ancinho de modo a fazê-lo penetrar entre as barras, junto ao fundo do canal da grade, e arrasta o material retido para fora do canal. A limpeza mecânica é realizada através de rastelo (ancinho mecânico) acionado por motor elétrico, comandado por meio de temporizador ou por sensor da diferença de nível entre os trechos de montante e jusante de grade, pois à proporção que o material vai se acumulando junto às barras da grade a perda de carga no canal de grades aumenta fazendo subir o nível de montante. Quando esse desnível atinge um valor predeterminado, o rastelo é acionado. As grades podem ser instaladas verticalmente ou inclinadas em ângulo de 45° a 60º com a horizontal. As grades de limpeza manual devem ser inclinadas para facilitar a remoção do material. O volume do material removido por uma grade é bastante variável, pois depende das características dos esgotos, dos hábitos da população e do espaçamento entre barras. A título de estimativa, pode-se adotar a faixa de 0,1 litros a 0,025 litros de material por metro cúbico de esgoto tratado. SENAI-RJ 59 Tratamento de esgotos - Tratamento preliminar e primário Classifi cação das grades Quanto ao espaçamento entre barras, as grades se classifi cam em: fi nas (menor que 2cm); médias (de 2 a 4cm); e grosseiras (maior que 4cm). Grades grosseiras em geral são usadas à montante de elevatórias ou em locais de onde a remoção do material retido é muito difícil. Essas grades geralmente são seguidas de grades médias ou fi nas situadas em um ponto mais à jusante. Crivos Crivos são placas metálicas perfuradas instaladas transversalmente em um canal por onde fl ui o esgoto. O líquido passa pelosfuros e os sólidos, de dimensões superiores ao tamanho dos orifícios, são retidos na placa e se acumulam em uma caçamba situada em sua parte inferior. A operação de limpeza é realizada da seguinte forma: 1. uma comporta situada no canal deve ser fechada, à montante do crivo; 2. o dispositivo deve ser içado por meio de cabo de aço e manivela; 3. os sólidos da caçamba devem ser removidos manualmente; e 4. o dispositivo deve ser recolocado na posição de operação e abre-se a comporta. Os crivos são pouco usados devido à difi culdade em realizar a operação de limpeza e à elevada perda de carga que provocam. Peneiras As peneiras são telas metálicas interpostas ao fl uxo dos esgotos. Geralmente são utilizadas quando se deseja remover sólidos de pequenas dimensões. Podem ser montadas em discos rotativos, tambores giratórios ou molduras metálicas de acionamento vertical. A remoção do material retido se dá por meio de jato de água, sob pressão, que atravessa o dispositivo em sentido contrário ao fl uxo dos esgotos. O volume do material retido pode ser estimado entre 15 a 25 1itros por habitante, por ano. 60 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Tratamento preliminar e primário Em casos especiais, quando há escassez de área disponível e dependendo do processo de trata- mento subseqüente, pode-se utilizar peneiras de malhas fi nas em substituição aos decantadores primários, o que permite obter efi ciência de remoção de sólidos em suspensão da ordem de 20%. Microgrades A operação de microgradeamento consiste em fazer o fl uxo de esgotos atravessar uma superfície formada por fi os de aço ligeiramente espaçados, de modo a criar uma grade de pequena abertura. O espaçamento entre fi os (ou abertura da micrograde) varia de 0,025mm a 2,5mm. A pequena abertura da grade viabiliza a retenção de sólidos de dimensões extremamente reduzidas, o que permite a utilização do dispositivo para: substituir decantadores primários à montante da unidade de tratamento biológico com grande economia de área, porém com menor efi ciência de remoção de sólidos em suspensão (que raramente ultrapassa os 30%); remover sólidos fl utuantes à montante de lançamento submarino de esgotos; ou remover algas do efl uente de lagoas de estabilização. As microgrades podem ser de dois tipos: tambor rotativo e estáticas. Tambor rotativo A micrograde tipo tambor rotativo consiste em um tambor de eixo horizontal cuja superfície curva é formada pela grade metálica. Sua operação consiste em obrigar o fl uxo de esgotos a atravessar transversalmente o tambor. O líquido pode atravessar inteiramente o tambor, nele penetrando de cima para baixo na região próxima a sua geratriz superior e dele saindo pela parte inferior, ou pode atravessá-lo apenas de dentro para fora, penetrando pela parte central. No primeiro caso o material é retirado da superfície externa do tambor por meio de lâmina fi xa, cuja função é raspar esta superfície à proporção que o tambor executa seu movimento Colmatar: tapar fendas ou brechas, relacionada a entupimento. de rotação. O fato da micrograde ser atravessada pelo esgoto em ambos os sentidos, força o fenômeno conhecido por “autolimpeza”, arrastando para fora as pequenas partículas, eventualmente retidas entre os fi os, evitando que se colmate. No segundo caso, o material retido na região interna do tambor é removido por jato de água que atravessa de fora para dentro a superfície do tambor nas proximidades de sua geratriz superior e encaminha o material a canal suspenso, situado longitudinalmente, em seu interior. SENAI-RJ 61 Tratamento de esgotos - Tratamento preliminar e primário Em alguns países, como o Chile, peneiras ou microgrades têm sido utiliza- das com alguma freqüência para tratamento de esgotos imediatamente à montante de emissários submarinos. Trituradores Trituradores ou desintegradores são unidades que capturam os sólidos grosseiros do esgoto bruto, reduzem seu tamanho por trituração ou corte e, em seguida, devolvem o material ao esgoto. Geralmente utilizam lâminas giratórias que se movimentam entre as fendas horizontais de um tambor vertical atravessado pelo esgoto. Os sólidos retidos nas fendas sofrem redução de tamanho e penetram no tambor com o esgoto. Segundo seus fabricantes, a vantagem deste tipo de dispositivo é eliminar as operações de remoção e destino fi nal do material retido. Entretanto, existem desvantagens que precisam ser também consideradas, tais como: produção de mau cheiro; abrasão pelas areias; colmatação (em virtude da retenção de materiais fi brosos como estopas e tecidos); e sobrecarga dos decantadores e digestores devido ao aumento da afl uência de sólidos a estas unidades. Colmatação: ter- mo muito utiliza- do para o ato de colmatar, embora colmatagem seja o termo encontrado nos dicionários. Estática As microgrades estáticas consistem de telas inclinadas que for- mam uma superfície por onde o esgoto é obrigado a escoar. O líquido atravessa a superfície e é removido pela parte inferior da unidade. Os sólidos retidos vão rolando sobre a superfície inclinada até caírem em um depósito externo. Os fi os metálicos que formam a micrograde têm um perfi l cujo formato impede a acumulação de material entre os espaços visando evitar a colmatação do dispositivo. Periodicamente o operador deve aplicar sobre toda a superfície um jato de água de alta pressão para remover partículas eventual- mente nela retidas. 62 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Tratamento preliminar e primário Como regra geral, recomenda-se a utilização deste tipo de dispositivo apenas em situa- ções onde a remoção do material grosseiro retido nos demais dispositivos seja extremamente inconveniente. 4.1.2 Remoção de areias A remoção de areias é promovida à montante de uma estação elevatória ou de tratamento de esgotos com os seguintes objetivos: proteger da abrasão as bombas e tubulações; evitar o assoreamento de canalizações ou unidades de tratamento; e facilitar o transporte do material removido nos decantadores. Como as areias removidas dos esgotos são constituídas por substâncias minerais não passíveis de decomposição, elas podem ser encaminhadas ao mesmo destino fi nal dos sólidos grosseiros removidos na grade. Os principais tipos de dispositivos utilizados para remoção de areias dos esgotos sanitários são: caixas de areia; e ciclones. Caixas de areia São unidades de tratamento que promovem a separação das areias por diferença de densi- dade (sedimentação) em virtude do fenômeno (operação unitária) denominado sedimentação discreta. Geralmente, as caixas de areia são dimensionadas para reter partículas de diâmetro médio igual ou superior a 0,2mm. A velocidade horizontal do fl uxo em seu interior deve se situar em torno dos 0,30m/s já que, acima de 0,40m/s, poderia haver o arraste de partículas de menor diâmetro e, abaixo de 0,20m/s, poderia ocorrer a sedimentação de partículas de matéria orgânica. As caixas de areia podem ser de fl uxo horizontal ou do tipo vortex. As primeiras consistem em canais ou tanques de pequena profundidade e fundo horizontal, atravessados pelo esgoto, nos quais as partículas de areia são retidas por sedimentação. As do tipo vortex são tanques circulares, em planta e de fundo tronco-cônico, nos quais o esgoto penetra tangencialmente e a separação das areias ocorre pela centrifugação provocada pelo movimento de rotação do líquido no interior da unidade. Neste caso, a remoção de areias se dá pela combinação das ações SENAI-RJ 63 Tratamento de esgotos - Tratamento preliminar e primário de sedimentação e da força centrífuga geradapelo fl uxo helicoidal no interior da unidade. O material retido se deposita no fundo e o líquido é removido pelo centro, junto à superfície da unidade. Caixas de areia com remoção manual devem ser sempre instaladas com, no mínimo, duas unidades em paralelo, pois a operação de limpeza exige a paralisação de uma delas. Por isso deve-se prover um volume adicional no fundo da unidade com profundidade de 0,2m ocupando toda a extensão do canal para acumular a areia até a época de limpeza. O nível de areia deve ser medido periodicamente e, quando a capacidade máxima de acumulação for atingida, a unidade deve ser esgotada e a areia retirada por meio de pás, baldes ou caçambas. As caixas com remoção manual geralmente têm a forma de canais retangulares, com comprimento cerca de 15 vezes maior que a largura. As caixas de areia de fl uxo horizontal e com limpeza mecânica são dotadas de lâminas que promovem a raspagem continuada do fundo da unidade, encaminhando as partículas sedimentadas para poço lateral, do qual são removidas por raspador lateral tipo “vai-vem”, correia transportadora, caçamba ou parafuso sem-fi m. Das caixas tipo vortex o material retido no fundo é, em geral, removido por ejetor pneumático. Ciclones Ciclones são dispositivos de tratamento de formato tronco-cônico que promovem a separação das areias por ação da força centrífuga. O afl uente é admitido tangencialmente e retirado pelo centro da secção de maior área, o que imprime um movimento helicoidal à massa líquida. As partículas de areia são deslocadas para junto da parede e se dirigem, por ação da gravi- dade, para a seção de menor área, de onde são removidas. 64 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Tratamento preliminar e primário 4.2 Tratamento primário e sistemas conjugados O tratamento primário se destina, primordialmente, à remoção de partículas em suspensão por diferença de densidade. Como tais partículas são constituídas predominantemente por matéria orgânica, sua remoção implica reduzir a DBO do esgoto em 30% a 50%. Caso as condições do corpo receptor suportem a carga orgânica remanescente, o efl uente do tratamento primário pode ser lançado diretamente nele. Caso contrário, o tratamento primário é utilizado como condicionamento do efl uente para submetê-lo a tratamento adicio- nal, em geral por processos biológicos tais como a fi ltração biológica e a maioria das variantes dos lodos ativados. Os sólidos removidos pelo tratamento primário constituem o chamado lodo primário que, devido à sua natureza predominantemente orgânica, deve ser submetido a posterior tratamento. Em função de sua importância no funcionamento da ETE, o tratamento do lodo será abordado detalhadamente mais adiante. A seguir, vamos analisar as principais operações destinadas à remoção de sólidos em suspensão, a saber: decantação; fl otação por ar dissolvido; neutralização; equalização; e sistemas conjugados (fossa séptica e os tanque Imhoff). SENAI-RJ 65 Tratamento de esgotos - Tratamento preliminar e primário 4.2.1 Decantação A operação mais amplamente adotada para remoção de sólidos em suspensão é a decanta- ção, seja simples, ou com adição de coagulantes ou polieletrólitos. Ambas se dão em unidades de tratamento denominadas decantadores. A adição de coagulantes ou polieletrólitos aumenta a efi ciência da decantação fazendo com que os fl ocos formados no processo tendam a se aglutinar a partículas de pequenas dimensões e arrastá-las para o fundo. Como tais partículas não são removíveis pela sedimentação simples, este aumento de efi ciência pode ser signifi cativo, eventualmente atingindo (ou chegando próximo a) o patamar dos processos menos efi cientes de tratamento biológico. Atualmente, as exigências cada vez mais rígidas de qualidade de efl uentes de estações de tratamento vêm tornando raro o uso exclusivo do tratamento primário. E, com isto, a coagula- ção química ou adição de polieletrólitos ao esgoto bruto se encontra praticamente em desuso (mas ainda é empregada no chamado tratamento avançado ou terciário no qual se adicionam produtos químicos ao efl uente biológico para remover certos compostos específi cos). A exceção é o denominado TPQA - Tratamento Primário Quimicamente Aprimorado (ou CEPT - Chemi- cally Enhanced Primary Treatment) onde se adicionam sucessivamente, coagulante químico e polieletrólito em pequenas concentrações contando com o sinergismo entre eles, o que aumenta signifi cativamente sua ação de coagulação. Os decantadores utilizados para o tratamento primário são tanques com tempo de de- tenção variando entre 1 e 2 horas (referido à vazão máxima afl uente) nos quais os esgotos fl uem de forma a permitir que as partículas sedimentáveis se depositem no fundo e os sólidos fl utuantes se dirijam à superfície. A remoção do lodo depositado no fundo pode ser feita por: simples pressão hidrostática (decantadores tipo Dortmund); dispositivos mecânicos, que raspam o material depositado no fundo, dirigindo-o para um poço central, do qual é removido por pressão hidrostática; e dispositivos mecânicos de remoção do lodo por sucção ou por sifonagem, geralmente empregados nos decantadores secundários de estações de lodos ativados. O material fl utuante (escuma) é removido por uma lâmina acoplada ao dispositivo de raspagem do fundo que arrasta a escuma acumulada na superfície líquida para a periferia do tanque e a encaminha a um poço lateral, junto à borda do decantador, do qual é removida, por gravidade, e conduzida ao mesmo destino do lodo. 66 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Tratamento preliminar e primário Tipos Os decantadores primários podem ser: não-mecanizados; ou mecanizados. Os decantadores não-mecanizados geralmente são de pequeno porte. Seu fundo, em formato de cone ou pirâmide invertida, tem inclinação de 45º a 60º com a horizontal. Os decantadores mecanizados são, em geral, de grande porte e podem ter fundo plano ou pouco inclinado. Neste caso, a utilização do dispositivo mecânico de remoção do lodo implica economia, tanto em escavação quanto em estrutura. Quanto à forma em planta, os decantadores podem ser: circulares; quadrados; ou retangulares. Os decantadores circulares implicam em menor aproveitamento da área disponível, porém possuem mecanismos de remoção de lodo mais simples e efi cientes que os outros dois tipos. Funcionamento O esgoto é admitido no decantador através de um dispositivo disciplinador de fl uxo que evita o turbilhonamento e facilita a sedimentação. Nos decantadores circulares ou quadrados a admissão é feita em geral pelo centro e a re- tirada do efl uente pela periferia. Nos decantadores retangulares a admissão se dá por um dos lados de menor dimensão e a retirada do efl uente pelo lado oposto. Os dispositivos de entrada podem ser do tipo vertedor com dispositivo disciplinador de fl uxo tipo cortina simples, perfurada ou tubo central. Os de saída são, em geral, vertedores simples, calhas ou vertedores múltiplos. A raspagem do lodo depositado no fundo dos decantadores deve ser feita de modo contín- uo, sem interrupção, para evitar que esse material entre em decomposição anaeróbia dentro da unidade e se dirija para a superfície, arrastado pelas bolhas de gás formadas no processo. O lodo removido do decantador primário apresenta teor de umidade de 95% a 97%, contém grande quantidade de matéria orgânica putrescível, apre- senta aspecto e odor extremamente desagradáveis e deve ser encaminhado imediatamente a tratamento. SENAI-RJ 67 Tratamento de esgotos - Tratamento preliminar e primário 4.2.2 Flotação por ar dissolvido A fl otação é uma operação unitária destinadaa remover sólidos em suspensão e é pouco utilizada no tratamento primário de esgotos sanitários. Ocorre em tanques de fl otação que re- cebem como afl uente esgoto saturado com ar dissolvido em alta pressão. Ao penetrar, através de uma válvula redutora de pressão, no tanque onde reina a pressão atmosférica, o ar passa à condição de supersaturação e se desprende da massa líquida, formando bolhas microscópi- cas que, à medida que se aglutinam, sobem à superfície. Em virtude do fenômeno superfi cial denominado adsorção essas bolhas capturam partículas sólidas de baixa densidade que estão em suspensão e as arrastam para a superfície do tanque, de onde são removidas por dispositivo de raspagem superfi cial. 4.2.3 Neutralização A neutralização é o processo unitário destinado a corrigir o pH dos esgotos, sendo efetuada: em tanques de neutralização para despejos ácidos ou alcalinos, através da adição de uma substância química ácida (em geral, ácido sulfúrico ou clorídrico) ou alcalina (normalmente, cal, soda cáustica, carbonato de cálcio ou amônia); ou através da percolação em leitos de calcário (para despejos ácidos). Como o pH dos esgotos sanitários não costuma exigir correção, a neutralização é uma operação unitária de uso restrito aos despejos industriais. 4.2.4 Equalização A equalização é a operação unitária que visa eliminar as variações de vazão dos esgotos afl uentes. Ocorre nos chamados tanques de equalização. Esses tanques são dimensionados através do hidrograma da vazão afl uente (curva que mostra a variação da vazão ao longo do tempo) e podem ser aerados para evitar a entrada do líquido no estado séptico e a conseqüente produção de mau cheiro. Nas horas em que a vazão afl uente for maior que a vazão média, um determinado volume de esgoto é armazenado nos tanques de equalização, que o libera quando a vazão afl uente cai para valores inferiores à média. O uso de tanques de equalização é extre- mamente raro em es- tações de tratamento de esgotos domésticos, sendo mais comum no tratamento de des- pejos industriais. 68 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Tratamento preliminar e primário 4.2.5 Sistemas conjugados Os sistemas conjugados consistem em unidades de tratamento que recebem esgoto bruto e promovem, em seu interior, não somente a sedimentação das partículas como também a es- tabilização parcial do lodo sedimentado. São instalações simples, em que se procura minimizar a incidência das tarefas de operação e manutenção. Se, por um lado, sua efi ciência é baixa, bastante inferior à dos processos biológicos se- cundários, por outro sua simplicidade de construção implica em custo extremamente baixo, fazendo com que essas instalações sejam consideradas alternativas viáveis para o tratamento de esgotos em regiões não dotadas de rede de esgotos sanitários e, portanto, com vasta aplicação em casos de domicílios isolados ou de pequenos grupos de edifi cações. Fossa séptica É uma unidade de sedimentação e digestão de fl uxo contínuo destinada ao tratamento de esgotos domésticos. Fossas podem receber o efl uente de um ou mais domicílios (fossas individuais e coletivas). A construção e a instalação das fossas sépticas são reguladas por norma específi ca emitida pela ABNT (NBR 7229) Funcionamento A fossa séptica consiste, essencialmente, de um reservatório cilíndrico ou prismático, dotado de: chicanas ou qualquer outro dispositivo tranqüilizador de fl uxo junto à entrada e à saída; e uma abertura na parte superior, normalmente fechada com tampões herméticos, para permitir a inspeção e limpeza. O período de detenção dos esgotos no interior da unidade varia de 12 horas a 24 horas, sendo previsto, ainda, um volume adicional para armazenamento do lodo acumulado entre limpezas sucessivas. Todos os despejos sanitários domiciliares devem ser encaminhados à fossa séptica que não deve, entretanto, receber quaisquer contribuições de águas pluviais, inclusive aquelas provenientes de ralos de áreas internas descobertas. SENAI-RJ 69 Tratamento de esgotos - Tratamento preliminar e primário O efl uente de uma fossa séptica deve se apresentar isento de sólidos sedimentáveis, porém contém uma considerável quantidade de sólidos em suspensão e microrganismos. A redução de DBO obtida em uma fossa é de cerca de 50%. Seu efl uente pode ser encaminhado a sumidouros, valas de infi ltração, galerias de águas pluviais ou lançado diretamente no corpo receptor. Parte dos sólidos em suspensão que penetram na fossa são removidos por sedimenta- ção e se dirigem para o fundo, onde são estabilizados bioquimicamente pelo processo de digestão anaeróbia. Os sólidos fl utuantes se dirigem para a superfície, onde permanecem retidos pelas chicanas colocadas em frente aos orifícios de entrada e saída. E a matéria orgânica remanescente no líquido sofre estabilização anaeróbia parcial, face ao elevado tempo de detenção no interior da unidade. O processo de digestão anaeróbia será examinado posteriormente no tópico referente à estabilização do lodo. Remoção e destino do material Após a estabilização, o material retido permanece no fundo da fossa e tenderia a ocupar todo o volume útil caso não fosse periodicamente removido. A remoção deve ser feita em intervalos de aproximadamente seis meses, sendo que cerca de 10% do material retido no fundo (lodo digerido) deve permanecer no interior da unidade após a limpeza, para servir como semeadura de organismos que irão continuar o processo da digestão anaeróbia do novo material afl uente. Durante a limpeza, ou em qualquer outra ocasião, o lançamento de desinfe- tantes à fossa deve ser evitado, pois essa prática pode prejudicar o processo biológico anaeróbio. Quanto à sua destinação, o lodo removido da fossa pode ser: encaminhado ao leito de secagem de uma estação de tratamento de esgotos que por acaso exista nas proximidades; lançado à rede de esgotos sanitários, em certos poços de visita previamente mar- cados pela autoridade responsável; ou enterrado em valetas (de pelo menos 0,60m de profundidade). 70 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Tratamento preliminar e primário Tipos Os diversos tipos de fossa séptica foram desenvolvidos a partir do modelo básico já descrito, no qual foram introduzidas modifi cações visando melhorar o seu funcionamento. São eles: fossa séptica de câmaras em série, e fossa séptica de câmaras sobrepostas. A fossa de câmaras em série consiste em um tanque longo e estreito no qual foram introduzidos um ou mais septos verticais perfurados de forma transversal ao sentido do fl uxo, visando subdividir o processo em duas ou mais fases. Já a fossa de câmaras sobrepostas é obtida a partir da construção, no interior da unidade, de uma câmara longitudinal ao sentido do fl uxo, dotada de fendas na parte inferior, na qual se processa a sedimentação. Os sólidos sedimentados se dirigem por gravidade, através da fenda, à câmara inferior, onde se processa a digestão. Esta modifi cação foi introduzida com o intuito de evitar a interferência da digestão na sedimentação, não permitindo que, ao se dirigir à superfície, bolhas de gás ou massas de lodo digerido arrastem partículas sedimentáveis que se perderiam pela tubulação efl uente. As fossas devem ser instaladas em locais do ter- reno da edifi cação que facilitem a ligação de seu efl uente à rede de esgotos a ser construída no futuro. Tanques Imhoff Os tanques Imhoff são unidades de tratamento semelhantes às fossas sépticas de câmaras sobrepostas, delas diferindo apenas no que toca à sua maior capacidade e à possibilidade que apresentam de remover o lodo digerido porpressão hidrostática, sem paralisar o funcionamento da unidade. A remoção é feita por meio de tubulação que parte do fundo da unidade. Tanques Imhoff podem receber a contribuição de até 5.000 habitantes e ser utilizados como único dispositivo de tratamento ou como estágio de tratamento primário em uma estação de tratamento biológico. Em geral, o lodo removido dos Tanques de Imhoff é submetido à secagem natural em leitos de secagem. Fossas sépticas devem ser construídas em local de fá- cil acesso para permitir a limpeza e obedecer às seguintes distâncias mínimas: 20m de poço ou manancial; 6m de construções; e 12m do limite de terreno. 5 Nesta unidade... Noções de biologia sanitária Organismos aeróbios e anaeróbios Organismos autotrófi cos e heterotrófi cos Organismos de interesse para o tratamento de esgotos Metabolismo dos seres vivos SENAI-RJ 73 Tratamento de esgotos - Noções de biologia sanitária 5. Noções de biologia sanitária Antes de abordarmos os tratamentos biológicos propriamente ditos, faremos nesta unidade uma apresentação dos termos que embasam esse tipo de tratamento, enfocando os diferentes organismos que consomem a matéria orgânica dos esgotos e alguns processos metabólicos desses organismos. O tratamento biológico consiste na estabilização da matéria orgânica contida nos esgotos através de sua oxidação bioquímica promovida pelo metabolismo de certos microrganismos. O fenômeno é, basicamente, o mesmo que ocorre em condições naturais em corpos líquidos que recebem descargas de esgotos. O objetivo do tratamento é, portanto, propiciar condições para que o fenômeno transcorra de forma mais rápida e controlada no interior das unidades de tratamento. 5.1 Organismos aeróbios e anaeróbios O consumo bioquímico da matéria orgânica é realizado por dois tipos de organismos: aeróbio e anaeróbio. Organismos aeróbios utilizam em seu metabolismo o oxigênio livre encontrado no ambiente. Neste tipo de metabolismo a energia vital é gerada por meio do processo denominado respiração, através do qual um conjunto de complexas reações enzimáticas é empregado para transformar os compostos orgânicos, utilizados como alimento, em glicose, a qual, por sua vez, será oxidada a fi m de gerar energia. A oxidação se processa através de uma série de reações enzimáticas, po- dendo ser representada, de modo simplifi cado, pela reação descrita na Equação 5.1: Equação 5.1 74 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Noções de biologia sanitária Os organismos anaeróbios, por sua vez, dispensam o oxigênio do ambiente, já que são capazes de produzir energia sem o seu uso através de um procedimento denominado fermen- tação. Nesse tipo de metabolismo os produtos fi nais não são estáveis, como no caso anterior. Em conseqüência disso, o rendimento energético é menor, pois os compostos instáveis ainda contêm alguma energia. O procedimento básico da fermentação pode ser expresso, de modo simplifi cado, pela reação química representada na Equação 5.2: O tratamento de esgotos adota os dois procedimentos citados. Os organismos que os promovem são predominantemente bactérias, havendo, entretanto, uma grande variedade de outros organismos também participantes dos processos biológicos de tratamento. 5.2 Organismos autotrófi cos e heterotrófi cos Além dos seres vivos que intervêm no tratamento de esgotos promovendo o consumo bioquímico da matéria orgânica, nos interessa ainda os organismos utilizados como fonte de oxigênio no processo de tratamento denominado lagoa de estabilização. Tais organismos são as algas que, através da fotossíntese, utilizam o gás carbônico e a energia luminosa para sintetizar a matéria orgânica da qual irão se nutrir, liberando para o ambiente o oxigênio produzido. A fotossíntese pode ser representada de forma simplifi cada pela reação representada na Equação 5.3: Equação 5.2 Equação 5.3 SENAI-RJ 75 Tratamento de esgotos - Noções de biologia sanitária As lagoas de estabilização serão discutidas em outro tópico, onde serão abordados a teoria do processo, os fatores intervenientes e seus critérios de dimensionamento. Algas são organismos aquáticos que proliferam em grande quantidade nas chamadas lagoas de estabilização. Enquanto o oxigênio (produzido pela fotossíntese e liberado na massa líquida) é utilizado pelos organismos aeróbios presentes na lagoa para estabilizar a matéria orgânica dos esgotos, a glicose, resultante da reação, é usada para a nutrição das próprias algas. Assim, a matéria orgânica consumida pelas algas é fabricada por elas mesmas. Por serem capazes de sintetizar o próprio alimento a partir de compostos inorgânicos utilizando uma fonte de energia externa, as algas são denominadas organismos autotrófi cos. Além das algas e demais vegetais clorofi lados, existem outros seres autotrófi cos, inclusive algumas bactérias. Os seres incapazes de sintetizar seu próprio alimento só podem se nutrir da matéria orgânica disponível no ambiente em que vivem, notadamente do material celular dos demais seres vivos. Tais seres são denominados heterotrófi cos. 5.3 Organismos de interesse para o tratamento de esgotos Existem diversos grupos de organismos envolvidos nos processos biológicos de trata- mento de esgotos. A seguir, vamos examinar alguns deles, de forma sucinta, abordando suas principais características. Rotíferos Os rotíferos são animais multicelulares, aeróbios e heterotrófi cos. Alimentam-se de partícu- las de matéria orgânica e de bactérias. Sua presença nas unidades de tratamento biológico indica um elevado grau de efi ciência. 76 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Noções de biologia sanitária Crustáceos Os crustáceos são animais multicelulares, aeróbios e heterotrófi cos, providos de uma casca ou envoltório protetor de elevada resistência. São utilizados como alimento pelos peixes, existindo abundantemente em certos corpos d’água naturais. Crustáceos necessitam de oxigênio livre em concentrações mais elevadas que os protistas e, por isso mesmo, não costumam proliferar em estações de tratamento de esgotos, exceto em lagoas de estabilização que operam subcarregadas. Neste caso, certas espécies de microcrustá- ceos, notadamente os do gênero bosmina, experimentam grande fl oração, cobrindo a superfície das lagoas e transmitindo-lhe uma coloração avermelhada. A presença de crustáceos indica um efl uente com baixa concentração de matéria orgânica e elevado teor de OD. Vírus Os vírus são as estruturas biológicas mais simples. São os menores seres capazes de conter as informações necessárias à sua reprodução. Seu tamanho é tão diminuto que apenas podem ser vistos através do auxílio de um microscópio eletrônico. Vírus consistem, essencialmente, de uma molécula de ácido desoxirribonucléico (DNA) ou de ácido ribonucléico (RNA) envolta em uma cápsula protéica. Vírus não se nutrem nem necessitam produzir energia. Sua única função é se reproduzir. São obrigatoriamente parasitas e se reproduzem através da invasão de uma célula, cujos mecanismos de reprodução se utilizam para replicar o material de que são constituídos. Assim, quando penetram em uma célula, os vírus se reproduzem rapidamente, destruindo a célula parasitada, que se rompe e libera um enorme número de novos vírus à procura de novas células para invadir e, assim, continuar o processo de reprodução. Para o tratamento de esgotos, esses organismos são importantes devido a dois aspectos: 1. Grande número de espécies de vírus são patogênicos para o homem e a sua resistência aos processos usuais de desinfecção é extremamente elevada. Além disso, os vírus apre- sentam uma sobrevivência muito mais longa do queas bactérias após o lançamento aos corpos receptores, o que constitui sério problema sanitário. 2. Alguns vírus são parasitas específi cos de determinadas bactérias. Esse tipo é denomi- nado bacteriófago e pode ser utilizado para o controle de certas bactérias patogênicas em estações de tratamento de esgotos. Este assunto encontra-se ainda em fase de pes- quisas. SENAI-RJ 77 Tratamento de esgotos - Noções de biologia sanitária Protistas Conjunto de seres que há alguns anos eram designados coletivamente por micróbios. Seu agrupamento em um novo reino da natureza foi proposto pelo naturalista alemão Ernst Haeckel em 1866. A partir de então se considera que os seres vivos da natureza se agrupam em três reinos: vegetal; animal; e protistas. O reino dos protistas é formado pelos protozoários, fungos, algas e bactérias. A característica comum a todos os protistas e que os distingue dos demais seres vivos é o fato de não apresen- tarem diferenciação de células e tecidos, ou seja, são organismos unicelulares (formados por uma única célula ou por um conjunto de células idênticas). As características dos protistas de maior interesse para o tratamento dos esgotos serão discutidas a seguir. Protozoários Os protozoários são organismos microscópicos, móveis e geralmente unicelulares. Dentre os protistas, são os seres mais desenvolvidos. Embora não dispondo de órgãos ou tecidos, dis- põem de certas estruturas internas que cumprem o papel exercido pelos órgãos nos organismos superiores. Estas estruturas são denominadas organelas. Em sua grande maioria os protozoários são aeróbios, havendo, entretanto, algumas espécies anaeróbias. São de maior porte que as bactérias e freqüentemente se nutrem delas, o que os torna particularmente úteis para a engenharia sanitária por contribuírem para a manutenção do equilíbrio biológico nas unidades de tratamento. Existem alguns protozoários patogênicos, como a endamoeba histolítica (relacionado a distúrbios intestinais) e plasmodium (relacionado à malária). A presença de protozoários nas unidades de tratamento biológico, notadamente de certos ciliados livres, denota bom funcionamento da unidade. Ciliado: também denominado cilióforo, é uma espécime de organismo pro- tista dotado de cílios para a locomoção e auxílio na alimentação. 78 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Noções de biologia sanitária Fungos Os fungos de interesse para a engenharia sanitária são organismos multicelulares (porém formados por agrupamentos de células idênticas) e heterotrófi cos. A grande maioria dos fungos é estritamente aeróbia. Suas necessidades de nitrogênio como nutriente básico são extrema- mente baixas e podem sobreviver em ambientes muito ácidos (resistem a pH de até 2). Essas duas propriedades os tornam muito úteis para o tratamento de certos despejos industriais. Podem se desenvolver em ambientes com baixa umidade, sendo extremamente atuantes na operação denominada compostagem de lodo e resíduos sólidos. Algas São organismos uni ou multicelulares, autotrófi cos e fotossintéticos. Sua importância para a engenharia sanitária deriva de três características: 1. Determinadas espécies de algas segregam compostos que transmitem à água sabor e odor indesejáveis. Além disso, se admitidas em uma estação de tratamento de águas, podem colmatar rapidamente as unidades de fi ltração. 2. Em corpos líquidos ricos em nutrientes, com pouca movimentação e baixa renovação de águas, as algas podem se reproduzir tão intensamente que chegam a cobrir toda a superfície líquida, arruinando o seu valor estético e podendo até mesmo impedir a navegação. 3. As algas, sendo organismos fotossintéticos, são utilizadas nas lagoas de estabilização como fonte de oxigênio. Além da fotossíntese, abordada anteriormente, as algas se valem do processo denomi- nado respiração, através do qual a matéria orgânica, por elas próprias sintetizadas, é oxidada bioquimicamente para a produção da energia vital segundo o ciclo aeróbio. A respiração, ao contrário da fotossíntese, não depende de energia luminosa. Ela é exer- cida continuamente para fornecer energia para as funções vitais dos organismos aeróbios. Por essa razão, corpos líquidos onde as algas contribuem signifi cativamente para a manutenção do OD como certos corpos naturais e particularmente as lagoas de estabilização, apresentam uma variação cíclica do teor de OD ao longo das 24 horas do dia devido à variação do fl uxo de energia luminosa. A concentração de OD aumenta durante período diurno porque nele a produção de oxigênio por fotossíntese é maior que o consumo pela respiração e se reduz no período noturno em virtude de cessar a produção de oxigênio, mas persistir o consumo. Para sintetizar seu material celular, além do carbono (contido no CO 2 ), as algas necessi- tam de outros nutrientes básicos, notadamente nitrogênio e fósforo. A proporção desses três SENAI-RJ 79 Tratamento de esgotos - Noções de biologia sanitária elementos considerada ideal para a reprodução da maioria das algas é de 370 (C): 20 (N): 1 (P). A inexistência de um dos elementos impede a reprodução das algas, enquanto a existência de um deles abaixo da proporção indicada torna-se fator limitante para seu crescimento. Esse fato é importante sob dois aspectos: 1. Em uma lagoa de estabilização a existência de algas é fundamental para o próprio fun- cionamento do processo. Assim sendo, é imprescindível que o esgoto afl uente contenha tais nutrientes básicos. O esgoto doméstico normalmente supre essas necessidades de nutrientes em quantidades adequadas, o que nem sempre ocorre com certos despejos industriais, que além da escassez de nutrientes podem conter substâncias tóxicas para as algas. Por isso as lagoas de estabilização não são particularmente adequadas para o tratamento deste tipo de despejo industrial ou para tratar efl uentes sanitários que os contenham em proporção signifi cativa. 2. O segundo aspecto está relacionado ao controle de proliferação de algas em corpos líqui- dos. Aqui, a situação é exatamente a oposta, ou seja: a intenção é limitar o crescimento das algas através da remoção de um ou mais nutrientes básicos do efl uente lançado ao corpo receptor. Dada a evidente impossibilidade de se remover todos os compostos de carbono do efl uente de uma ETE, o que se procura fazer é remover grande parte do nitrogênio, do fósforo ou de ambos. Em geral, o fósforo é removido por precipitação química, enquanto a remoção do nitrogênio se dá por processos biológicos ou químicos. Bactérias São seres unicelulares que se alimentam de substâncias dissolvidas. Isso não signifi ca que partículas de matéria orgânica em suspensão não possam ser utilizadas por esses organismos. Vejamos o que ocorre com tais partículas: elas são captadas pelas células por adsorção; em seguida são transformadas em substâncias dissolvidas por meio de reações com enzimas extracelulares, segregadas pelas próprias bactérias; e posteriormente são admitidas para o interior da célula através da membrana celular (por osmose). A absorção de compostos solúveis pela célula, assim como a adsorção das partículas, são fenômenos muito rápidos. Mas a solubilização (hidrólise) das partículas adsorvidas é muito mais lenta, fato que assume importância na variante do processo de LA (lodo ativado) denomi- nada bioadsorção ou estabilização por contato, como veremos ao discutir as características das variantes de LA. A forma (aspecto físico) das bactérias varia de acordo com a espécie. Mas embora existam 80 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Noções de biologia sanitária milhares de diferentes espécies bacterianas, suas células se apresentam apenassob três formas básicas: Bactérias esféricas - são denominadas cocos. Medem de 0,5 a 1 mícron de diâmetro e podem se apresentar agrupadas em cadeias (estreptococos) ou em cachos (estafi lococos). Bactérias cilíndricas – denominam-se bacilos. Suas dimensões variam de 0,3 a 1,5 micra de diâmetro e de 1 a 10 micra de comprimento, de acordo com a espécie. Bactérias cilíndricas encurvadas chamam-se vibriões. Bactérias helicoidais - são denominadas espirilos e podem atingir comprimento de até 50 micra. As bactérias consistem de um plasma interior denominado citossoma contido por uma membrana celular que controla a passagem de nutrientes para o interior da célula e de produtos excretados para fora da mesma. No interior da célula encontra-se o material nuclear, que con- trola a organização da atividade celular e contém as informações genéticas do organismo. Algumas espécies são providas de um apêndice, denominado fl agelo, responsável por sua mobilidade. Podem ainda apresentar uma camada de material gelatinoso circun- dando a membrana celular, denominada cápsula. Análises da composição do material celular de diversas espécies bacterianas de- monstraram que 80% desse material se cons- titui de água; os 20% restantes constituem-se, principalmente, de matéria orgânica (90%) e poucos compostos minerais de fósforo, Apêndice – parte saliente do corpo de um animal, usada em diversas funções como lo- comoção e alimentação; fi lamento. Cissiparidade - Forma de reprodução assexuada em que um organismo unicelular (p. ex., uma bactéria) se di- vide em dois organismos unicelulares semelhantes. enxofre, sódio, cálcio, magnésio e ferro. Uma composição média para a fração orgânica seria C 5 H 7 O 2 N. Como todos esses elementos são obtidos do ambiente, a carência de qualquer um deles poderá limitar o crescimento. Em geral, as bactérias se reproduzem assexuadamente por cissiparidade. O volume original da célula se expande. Ao se expandir, é formada uma constrição em sua parte média, gerando dois compartimentos que permanecem unidos por algum tempo. Em seguida, os comparti- mentos se separam para constituir duas novas células. É importante considerar que, do ponto de vista conceitual, crescimento bacte- riano signifi ca aumento do número de organismos e não do seu tamanho. SENAI-RJ 81 Tratamento de esgotos - Noções de biologia sanitária O tempo requerido para que uma nova célula volte a se bipartir denomina-se tempo de geração e varia de 20 minutos até alguns dias em função das condições ambientais, da dispo- nibilidade de nutrientes e de outros fatores. Isso signifi ca que, se nenhum fator limitante do crescimento se manifestar, a população bacteriana tende a dobrar a cada tempo de geração, confi gurando o chamado crescimento geométrico. Na prática, no entanto, o crescimento bacteriano é limitado por diversos fatores. Os mais importantes são: temperatura, pH, tensão de oxigênio e umidade, conforme veremos a seguir. Temperatura Cada espécie se reproduz em uma determinada faixa de temperatura; isso signifi ca que a temperatura pode agir como fator de seleção de espécies. Considerando as faixas propícias à reprodução, as bactérias, em geral, são classifi cadas em: psicrófi las - sobrevivem na faixa de 2°C a 20°C , sendo considerada como faixa ótima a que vai de 12°C a 18°C; mesófi las - sobrevivem na faixa de 20°C a 45°C, sendo considerada como faixa ótima a que vai de 28°C a 38°C; e termófi las - sobrevivem na faixa de 45°C a 75°C , sendo considerada como faixa ótima a que vai de 55°C a 65°C. Além de ter efeito seletivo, a temperatura infl ui fortemente sobre a taxa de crescimento bacteriano; esse efeito é exponencial, duplicando a taxa a cada incremento de 10°C (Lei de Arrhenius). pH A maioria das espécies bacterianas é favorecida por um pH próximo da neutralidade (valor igual a 7), sendo a faixa ótima situada entre 6,5 e 7,5. Fora desta faixa, a taxa de crescimento se reduz drasticamente. A maioria das bactérias tem seu crescimento completamente inibido em meios de pH inferior a 4 ou superior a 9,5. 82 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Noções de biologia sanitária Tensão de oxigênio Segundo a forma pela qual utilizam o oxigênio para suas reações metabólicas, as bactérias podem se classifi car em: essencialmente aeróbias, essencialmente anaeróbias, ou facultativas. As primeiras, apenas sobrevivem na presença de oxigênio livre. As essencialmente anae- róbias apenas sobrevivem na ausência do oxigênio, que é inibidor de seu crescimento. E as facultativas podem se utilizar ou não do oxigênio livre, empregando tanto o metabolismo aeróbio quanto o anaeróbio. No entanto, utilizam, preferivelmente, o oxigênio livre, ou seja, sempre que houver disponibilidade de oxigênio no ambiente, elas se comportam como aeróbias. Umidade A água é essencial para o crescimento bacteriano. As bactérias apenas se reproduzem em meio líquido. A maioria das espécies é insensível à salinidade do meio. 5.4 Metabolismo dos seres vivos Os processos biológicos de tratamento de esgotos se alicerçam na capacidade apresentada por certos organismos de estabilizar bioquimicamente um substrato orgânico. O processo em que um organismo se utiliza de um dado substrato para a produção de energia vital e novo material celular denomina-se metabolismo. A unidade de tratamento onde se promovem tais fenômenos é o reator biológico. O objetivo do tratamento biológico é reduzir a massa de substrato contida no esgoto para impedir que esse substrato venha a ser consumido no corpo receptor, provocando queda do teor de oxigênio dissolvido em suas águas. A redução da massa de substrato é efetuada pelo metabolismo dos organismos presentes através de reações bioquímicas extremamente com- plexas. O substrato orgânico contido nos esgotos domésticos é bastante heterogêneo, constituído por uma enorme diversidade de compostos. A biota existente em um reator biológico também é complexa, sendo formada por uma grande quantidade de organismos de diversas espécies. Nela coexistem bactérias, fungos, algas, protozoários, rotíferos, crustáceos, etc. A distribuição relativa do número e das espécies de organismos oferece um quadro das condições de equilíbrio do sistema e de sua capacidade de reduzir o substrato. Entretanto, no que concerne à remoção de substrato, as bactérias são, de longe, as mais importantes nos processos de tratamento. SENAI-RJ 83 Tratamento de esgotos - Noções de biologia sanitária 5.4.1 Processo metabólico das bactérias aeróbias Algumas unidades de tratamento utilizam organismos anaeróbios. Contudo, a imensa maioria dos reatores biológicos emprega organismos aeróbios, dentre os quais predominam as bactérias; por isso, a nossa discussão vai se centrar no metabolismo aeróbio bacteriano. O processo metabólico das bactérias aeróbias pode ser entendido, de forma simplifi cada, como a soma de três atividades concomitantes: osmose, síntese e respiração endógena, con- forme veremos a seguir. Osmose É um fenômeno de transporte de massa entre soluções de diferentes concentrações sepa- radas por uma membrana com características especiais (membrana semipermeável). O substrato é removido do ambiente para o interior do organismo por osmose, através da membrana celular, dos compostos dissolvidos do meio e também dos compostos previamente adsorvidos e solubilizados pelas enzimas segregadas pelo organismo. O substrato introduzido na célula é utilizado tanto como fonte de energia quanto como matéria-prima para a fabrica- ção (síntese) do material celular dos organismos. O acúmulo do substrato no interior da célula correspondea armazenamento de energia. Síntese Parte do substrato armazenado é utilizada para a formação do material celular, por meio de uma série de reações bioquímicas extremamente complexas. Tais reações utilizam como reagentes determinados compostos presentes no ambiente e, como catalisadores, as enzimas produzidas pelas próprias células. Essas enzimas são essenciais para o metabolismo, sendo específi cas para o substrato, ou seja: a célula deve produzir uma enzima para cada tipo de substrato utilizado. É a ação das enzimas que distingue as reações bioquímicas das simples reações químicas. Reações bioquímicas são sempre catalisadas por enzimas. Por meio das reações de síntese as células conseguem produzir todo o seu material celular a partir de compostos mais simples, presentes no ambiente. Os aminoácidos, por exemplo, são utilizados para produzir proteínas. O processo de síntese de material celular é denominado anabolismo. Respiração endógena Sendo a síntese um processo que produz moléculas mais complexas a partir de moléculas mais simples, evidentemente impõe certo dispêndio de energia. Além da energia consumida nos processos anabólicos, o ser vivo necessita de energia para desempenhar certas funções 84 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Noções de biologia sanitária vitais como mobilidade, transporte de massa no interior da célula, etc. Essa energia é obtida pela oxidação de parte do substrato previamente armazenado. O processo de produção de energia vital denomina-se catabolismo. Assim, o substrato orgânico, introduzido na célula, é parcialmente utilizado para for- mação de novo material celular (anabolismo) e o restante, usado para a produção de energia (catabolismo). Ao processo global de utilização de substrato, constituído por essas duas fases concomitantes, denomina-se metabolismo. Reações de oxidação geralmente liberam energia sob a forma de calor. Entretanto, como as bactérias não são máquinas térmicas, não poderiam utilizar a energia assim liberada. Por isso a energia gerada pelo catabolismo é armazenada sob a forma de compostos de elevado teor energético (trifosfato de adenosina, ou ATP), através de um ciclo altamente complexo de reações enzimáticas coordenadas, nas quais as perdas de energia térmica são minimizadas. O composto diretamente metabolizado para a produção de energia é a glicose (C 6 H 12 O 6 ). Como vimos, sua oxidação aeróbia pode ser representada, de modo simplifi cado, pela reação expressa na Equação 5.1. Na realidade esta reação química é uma representação extremamente simplifi cada de uma cadeia de 21 reações bioquímicas sucessivas, cada uma delas catalisada por uma enzima específi ca, nas quais a glicose é, inicialmente, transformada em ácido pirúvico através do ciclo Emben-Meyeroff Pornas (EMP). A seguir, esse composto é oxidado através do denominado ciclo de Krebs, com a produção de água, gás carbônico e energia. A energia é, então, armazenada sob a forma de ATP e utilizada pelo organismo nas reações de síntese e demais funções vitais. A energia vital é essencial à sobrevivência do organismo, especialmente em condições ambientais adversas. Assim, em certas condições, sobretudo quando há escassez de substrato no ambiente, a célula obtém energia da seguinte forma: inicialmente, pela oxidação de substrato armazenado em seu interior; e a seguir, pela oxidação do próprio material celular; ou seja: a célula se utiliza como subs- trato do próprio material previamente sintetizado por si mesma ou por outras células. Esse processo de utilização do material celular é denominado respiração endógena. Conforme visto anteriormente, 90% do peso seco do material celular se constitui de ma- téria orgânica, o que resultou na adoção dos SSV (sólidos em suspensão voláteis) como repre- sentativos da massa de organismos presentes nos reatores biológicos. Entretanto nem toda a matéria orgânica é biodegradável, ou seja, pode ser utilizada pelos organismos como fonte de energia na respiração endógena. Vejamos por que. Cerca de 20% da fração orgânica do material celular é constituída por sólidos voláteis difi cilmente biodegradáveis formados, em sua maioria, por polissacarídeos complexos oriundos SENAI-RJ 85 Tratamento de esgotos - Noções de biologia sanitária da cápsula bacteriana. Isso signifi ca que 20% dos sólidos voláteis do material celular dos or- ganismos, consumidos por respiração endógena, tendem a permanecer no sistema. Também já foi mencionado que a respiração endógena assume importância em condições de escassez de substrato. Nesta situação há uma tendência para o acúmulo no meio líquido de SSV não-biodegradáveis oriundos da respiração endógena. Esta parcela dos SSV é denominada resíduo endógeno, que se torna maior à medida que diminui a disponibilidade de substrato. Nestes casos a massa dos SSV já não representa a massa de organismos contidos no reator com um grau de aproximação razoável. Esse fenômeno as- sume importância signifi cativa nos processos de tratamento em que o tempo de permanência dos organismos no sistema é elevado, como a variante do processo de LA, denominada aeração prolongada. 6 Nesta unidade... Filtros biológicos Composição e funcionamento dos fi ltros biológicos Reator biológico rotativo de contato SENAI-RJ 89 Tratamento de esgotos - Filtros biológicos 6. Filtros biológicos Os fi ltros biológicos (FB) nasceram no fi nal do século passado como uma tentativa de aplicar aos esgotos as mesmas técnicas de fi ltração em areia utilizadas no tratamento de água. A experiência mostrou que adaptações precisavam ser feitas para o caso do uso desses fi ltros ao esgoto. 6.1 Composição e funcionamento dos fi ltros biológicos No início do seu uso, observou-se que os fi ltros de areia se colmatavam rapidamente ao receber os esgotos, mas ofereciam um efl uente com sensível redução da DBO, embora com razoável presença de sólidos em suspensão. Pesquisando a razão desse fenômeno, constatou- se que em torno dos grãos de areia do fi ltro se formava uma película gelatinosa, constituída de colônias de organismos que utilizavam a matéria orgânica dos esgotos como alimento estabilizando-a parcialmente. Essa experiência foi então aproveitada no tratamento de esgoto, como uso de granulometria do meio aumentada até um ponto em que não mais houvesse a colmatação. Isso foi feito substituindo a areia por cascalho ou pedra britada. O processo inicial era operado em batelada nos dispositivos denominados leitos de contato, constituídos por tanques cheios de pedra britada ou cascalho para os quais se encaminhavam os esgotos até submergir as pedras. O líquido permanecia em contato com as pedras durante certo período após o qual o leito era esvaziado, permanecendo em repouso por mais algum tempo; depois, o ciclo era reiniciado. Os ciclos duravam 12 horas das quais 6 horas eram des- tinadas à permanência do leito em repouso. 90 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Filtros biológicos O processo apresentava grandes limitações, dentre as quais ressaltamos: o fato de ser operado em batelada; o período prolongado de repouso necessário; a pequena carga orgânica suportada; e a tendência de colmatação do meio. Para evitar esses inconvenientes procurou-se operar o processo continuamente aspergindo os esgotos sobre as pedras com o uso de bocais fi xos que irrigavam a área circunjacente e faziam os esgotos percolarem entre as pedras, sem jamais preencher inteiramente os vazios onde circulava o ar atmosférico. Ainda hoje existem alguns poucos fi ltros biológicos utilizando bocais fi xos. Entretanto, a tendência à obstrução dos bocais levou à adoção dos distribuidores rotativos, hoje utilizadosquase que universalmente. Os distribuidores rotativos consistem de uma tubulação horizontal que gira em torno de um eixo vertical situado no centro do fi ltro biológico. O esgoto, introduzido por esse eixo, escoa através dos dois braços perfurados, formados pela tubulação horizontal. As perfurações são dispostas horizontalmente ao longo de cada braço, em lados opostos. Ao escoar por esses orifícios o líquido forma um sistema de forças tipo binário que faz a tubulação horizontal se movimentar, girando em torno do eixo central, em um efeito idêntico ao do molinete hidráulico, desta forma distribuindo homogeneamente o líquido por toda a superfície da unidade. A grande vantagem desse tipo de distribuição é a economia de energia, pois não é necessária nenhuma fonte de energia externa para acionar o mecanismo exceto a própria energia hidráu- lica aplicada ao dispositivo. Na Figura 6.1 pode-se observar que fi ltros biológicos dotados de distribuidores rotativos são constituídos de tanques circulares cujo enchimento consiste de um meio através do qual o líquido percola e na superfície do qual se fi xam as colônias de organismos que efetuarão o tratamento de esgotos. O nome fi ltro biológico é inadequado, pois o fenômeno que nele se desenrola não é uma fi ltração, mas sim uma percolação. No entanto é de uso corrente e será aqui utilizado. SENAI-RJ 91 Tratamento de esgotos - Filtros biológicos 6.1.1 Características do meio percolante O meio percolante pode ser constituído de qualquer material, desde que preencha as seguintes condições: não ser solúvel em água, nem ser atacado quimicamente pelas substâncias presentes nos esgotos; apresentar grande superfície livre por unidade de volume; apresentar um coefi ciente de vazios sufi cientemente grande para permitir que o líquido percole livremente através do meio e o ar atmosférico escoe facilmente pelos vazios; não ser sujeito à obstrução; ter grande durabilidade; e apresentar baixo custo. Geralmente, o meio utilizado é a pedra britada, com diâmetro aparente de 2,5. a 7,5cm, que preenche as condições exigidas e é encontrada na maioria das regiões do país. Porém, em determinadas localidades onde há carência desse material ou em certos casos, quando se deseja diminuir o peso da unidade, outros materiais podem ser utilizados. Figura 6.1- Diagrama esquemático do fi ltro biológico 92 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Filtros biológicos A literatura tem apontado o uso de vários meios percolantes como, por exemplo, lava vul- cânica, carvão mineral, escória de alto forno, etc. Não há praticamente nenhuma restrição em usá-los, exceto as condições já listadas; por isso, materiais pouco convencionais como espigas de milho e cascas de coco têm sido também empregados. No Estado do Rio de Janeiro, Município de Maricá, há uma ETE na qual o meio percolante de pedra britada foi substituído por varas de bambu de- vido à necessidade de reduzir o peso da unidade de tratamento que sofria um processo de recalque do terreno. A ETE funcionou assim por vários anos apresentando excelentes resultados. Ultimamente vem se difundindo a tendência de utilizar meios percolantes de materiais plásticos. Neste caso o enchimento do fi ltro consiste de colméias de plástico de formato ir- regular, cuja forma varia de acordo com o fabricante. Meios plásticos são fáceis de transportar, leves, simples de montar no interior da unidade e altamente efi cientes. Sua principal desvantagem é o custo, bem mais elevado que o dos ma- teriais usuais. 6.1.2 Sistema de drenos O líquido, após atravessar o meio percolante, é removido pelo fundo da unidade através de um sistema de drenos formado por canais cobertos com grelhas ou por telhas drenantes, as- sentadas no fundo da unidade. Os drenos convergem para um canal central que escoa o líquido para fora do fi ltro biológico, cujo fundo é ligeiramente inclinado no sentido do canal central. O sistema de drenos cumpre duas funções importantes: propicia o escoamento do líquido para fora da unidade; e é responsável pela circulação do ar no interior do meio percolante. Para cumprir as suas funções os drenos devem ser dimensionados para atuar como canais, sem jamais permanecer afogados mesmo ao receber a vazão máxima admissível. Devem ainda ser abertos em ambas as extremidades para se comunicar com a atmosfera. O fl uxo de ar através dos drenos e do meio percolante pode ser natural ou forçado. SENAI-RJ 93 Tratamento de esgotos - Filtros biológicos Fluxo natural Filtros biológicos descobertos utilizam a ventilação natural. Neste caso o sentido do fl uxo de ar depende da diferença de temperatura entre o ar externo e o contido nos vazios do meio percolante. Em geral, a ventilação natural é satisfatória desde que sejam atendidas as seguintes condições: os drenos precisam ser dimensionados de forma a escoar no máximo à meia seção; os drenos devem ser abertos na extremidade de montante; e o canal central necessita ser aberto em ambas as extremidades. Fluxo forçado O fl uxo forçado de ar é utilizado em fi ltros cobertos em cuja cúpula são instalados venti- ladores que insufl am o ar para o interior da unidade. Neste caso o fl uxo se dá no sentido do escoamento dos esgotos (de cima para baixo) para evitar que gases formados no processo biológico corroam as partes metálicas do distribuidor rotativo e dos ventiladores mantidos em ambiente fechado. 6.1.3 Controle da mosca de fi ltro Um dos inconvenientes da utilização dos FB é a proliferação da chamada mosca de fi ltro (psychoda alternata), pequeno inseto que se reproduz no interior do meio percolante. Seu raio de ação atinge apenas algumas centenas de metros, mas podem ser levadas mais longe pelo vento. Elas se reproduzem com tamanha rapidez que podem cobrir inteiramente as paredes das edifi cações vizinhas ao fi ltro. Além disso, são extremamente incômodas, penetrando na boca e no nariz das pessoas. Seu ciclo vital varia de 7 a 22 dias. A proliferação desse inseto pode ser controlada por meio do afogamento (inundação controlada) da unidade, que segue os seguintes passos: 1. fechar a comporta do canal de saída do fi ltro, permitindo que ele seja inundado pelo esgoto, de onde o líquido é removido por vertedor superfi cial; 2. remover do fi ltro, por meio de um vertedor junto à superfície, as larvas de moscas que tendem a fl utuar; e 3. restabelecer o funcionamento normal abrindo a comporta. 94 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Filtros biológicos Essa operação deve ser executada em intervalos inferiores ao ciclo vital da psychoda. Em casos extremos de proliferação pode-se apelar para a cloração do afl uente, de forma a pro- duzir um residual de cloro da ordem de 0,5 a 1 mg/L ou então pode-se também fazer uso de inseticidas. A prática da cloração do afl uente deve ser empregada apenas em último caso, pois pode prejudicar os organismos intervenientes no processo de tratamento. Os inseticidas também devem ser usados com cautela, já que acabam sendo lançados ao corpo receptor. 6.1.4 Organismos presentes no FB Em sua grande maioria, os organismos presentes no fi ltro biológico são bactérias da es- pécie zooglea ramigera, o que levou ao uso da denominação genérica zooglea para a camada gelatinosa que recobre os elementos do meio percolante. Além de bactérias (aeróbias, an- aeróbias e facultativas), o conjunto de organismos consiste em fungos, algas (que existem somente junto à superfície, onde há luz) e protozoários. É possível ainda encontrar vermes e larvas de insetos que, juntamente com os protozoários, alimentam-se de bactérias, contribuindo para o equilíbrio biológico do processo. Os principaisagentes da estabilização da matéria orgânica são as bactérias. A zooglea que recobre os elementos do meio percolante apresenta, usualmente, uma espessura de alguns décimos de milímetros. Os organismos que se situam na superfície externa, em contato com o esgoto e o ar atmosférico, são predominantemente aeróbios ou facultativos. O oxigênio do ar pode se difundir pela camada de zooglea. Porém seu consumo é muito rápido e todo o oxigênio disponível pode ser consumido na zona mais externa da camada de zooglea. Por isto, à medida que ela aumenta de espessura, forma-se na zona mais interna, próx- ima ao meio percolante, uma camada de organismos anaeróbios que podem sobreviver porque não necessitam de oxigênio e se alimentam da matéria orgânica dos esgotos que atravessa as camadas externas. Porém, na proporção que aumenta a espessura total da camada, os or- ganismos anaeróbios deixam de receber alimento (que é inteiramente utilizado nas camadas externas). Esta falta de alimento acaba levando-os à morte, o que os faz perder a habilidade de aderir ao meio percolante. Como conseqüência, fragmentos de zooglea se desprendem dos elementos do meio percolante e são arrastados para fora da unidade. A rapidez com que a massa de zooglea é removida depende da massa de substrato disponível (carga orgânica sobre o fi ltro) e da velocidade de percolação do líquido. SENAI-RJ 95 Tratamento de esgotos - Filtros biológicos Esse fenômeno traz duas conseqüências importantes. A primeira é a sua utilização nos fi ltros biológicos de alta capacidade para controle da biomassa, conforme veremos mais adiante. A segunda é a presença, no efl uente do FB, de sólidos em suspensão, constituídos, sobretudo, pelos fragmentos de zooglea desprendidos. Tais sólidos, por se constituírem de matéria orgânica, não devem ser encaminhados ao corpo receptor, o que implica na necessidade de removê-los posteriormente. A remoção desses sólidos é efetuada por simples sedimentação no denominado decan- tador secundário (DS). É importante destacar que, no processo de fi ltração biológica, a única função do DS é remover os sólidos em suspensão do efl uente do FB e encaminhá-los para fora do processo, ao contrário do que ocorre com os lodos ativados em que a biomassa removida pelo fundo do DS deve retornar ao processo. Os FB exigem que os esgotos afl uentes sejam submetidos à pré-decantação a fi m de não somente reduzir a carga orgânica aplicada como também evitar a obstrução do meio percolante. Assim, na maioria dos casos, o material removido do fundo do DS (lodo biológico ou secundário) é bombeado para a entrada do decantador primário (DP), de onde será encaminhado para as unidades de tratamento do lodo. 6.1.5 Classifi cação dos FB De acordo com a carga orgânica e hidráulica, os fi ltros biológicos são classifi cados como de baixa e de alta capacidade, conforme veremos a seguir. FB de baixa capacidade É um dispositivo de tratamento muito simples, resistente a variações de cargas orgânicas e de fácil operação. Sua principal característica é o baixo valor das cargas aplicadas, ou seja: a carga orgânica deve ser inferior a 0,2kg DBO/d.m3 referida ao volume do material percolante; e as cargas hidráulicas devem se situar na faixa de 0,8 a 1,8m3/dia.m2 a referida à superfície do meio percolante. A biomassa aderida ao meio percolante recebe, então, uma massa de substrato relativa- mente pequena e a velocidade de percolação do líquido é baixa, o que permite a biomassa 96 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Filtros biológicos permanecer aderida ao meio por um longo período. A permanência é tão longa que, quando a zooglea se desprende, é constituída predominantemente por material celular resultante da respi- ração endógena, o que concede ao lodo removido no DS um razoável grau de estabilidade. FB de alta capacidade Nos fi ltros biológicos de alta capacidade, aplicam-se cargas hidráulicas muito mais eleva- das (de 8,5 a 28 m3/dia.m2 referida à superfície do meio percolante), obtidas pela recirculação do efl uente tratado. 6.1.6 Esquemas de recirculação A Figura 6.2, a seguir, apresenta um esboço do processo. Observe que a recirculação consiste em retornar para um ponto situado à montante do fi ltro parte da vazão do líquido que já passou pelo próprio fi ltro e por isso mesmo teve a maior fração de sua matéria orgânica estabilizada. Com isto é possível aumentar muito a carga hidráulica aplicada sem que haja um acréscimo proporcional da carga orgânica. Este procedimento per- mite aumentar signifi cativamente a velocidade de percolação do líquido, causando o aumento de sua capacidade de arraste da película de zooglea para fora do meio percolante, forçando a renovação mais rápida da biomassa. Como parte da matéria orgânica contida nos esgotos é incorporada ao material celular dos organismos, uma renovação mais rápida desses organismos implica em maior capacidade de remoção de carga orgânica da unidade de tratamento. Por isto a carga orgânica aplicada a fi ltros de alta capacidade pode se situar na faixa de 0,5 a 1,8kg DBO/dia.m3 de material perco- lante, o que permite sensível redução no volume e na área do meio percolante e a conseqüente redução do porte da unidade. Figura 6.2 – Esquemas de recirculaçãoFigura 6 2 – Esquemas de recirculação SENAI-RJ 97 Tratamento de esgotos - Filtros biológicos Vale ressaltar que a recirculação do efl uente tratado, indispensável nos FB de alta capaci- dade, tem como principal objetivo aumentar a carga hidráulica aplicada sobre o fi ltro sem que haja um acréscimo proporcional da aplicação da carga orgânica para reforçar o efeito de lavagem da biomassa. Além disso, este procedimento traz outros benefícios, tais como: redução da tendência à colmatação; eliminação do desprendimento de maus odores; e diminuição da proliferação de moscas de fi ltro. Há diferenças fundamentais entre a recirculação empregada em FB e em LA, ou seja: enquanto no processo de LA o lodo removido do fundo do DS é recirculado para o reator biológico (TA – tanque de aeração) visando o re- torno dos organismos para esse reator, no processo de FB se recircula o líquido tratado com o intuito de aumentar a vazão que atravessa o reator biológico. Considerando que o interesse principal é simplesmente o aumento da vazão sobre o FB, a recirculação pode ser feita a partir de qualquer ponto de jusante para qualquer ponto à mon- tante do FB, de acordo com certas conveniências do processo. Assim, pode se recircular: parte do efl uente do fi ltro para a entrada do próprio fi ltro; com isso, é possível retornar para o processo alguns organismos ativos removidos do fi ltro; parte do efl uente do DS para a entrada do fi ltro, conseguindo com isso: - amortecer a variação de vazão devido ao volume acumulado nos decantadores; e - remover, do líquido a ser recirculado, os SS (sólidos em suspensão) produzidos no fi ltro e que podem obstruir o meio fi ltrante. parte do efl uente do fi ltro para a entrada do DP; com isso, é possível: - amortecer a variação de vazões e remover os SS produzidos no FB; e - diminuir a produção de escuma no DP, tornando mais fresco o afl uente ao FB. Evidentemente, quando se recircula através de um decantador, a unidade deve ser di- mensionada levando em conta a vazão de recirculação. Essa vazão Qr é, em geral, expressa em função da vazão média afl uente Q, através da denominada relação de recirculação R, onde: Equação 6.1 98 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Filtros biológicos O valor de R depende dos valores das cargas orgânica e hidráulica aplicadas ao fi ltro e da concentração de DBO do esgoto bruto. Ele é estabelecido de maneira a fornecer a combinaçãodesejada de cargas hidráulica e orgânica posto que, ao aumentar R também é aumentada a carga hidráulica praticamente sem aumentar a carga orgânica. Os valores usuais de R variam na faixa de 1 a 4. 6.1.7 Distinções entre FB de baixa e de alta capacidade A opção entre FB de baixa ou de alta capacidade depende das características do processo e de fatores locais. Comparando um ao outro, destacam-se as seguintes distinções: FB de baixa capacidade tem maior profundidade (2 a 6m, contra 0,9 a 2m para FB de alta capacidade); apresenta maior volume (5 a 10 vezes mais que os FB de alta capacidade); propicia elevada incidência de moscas de fi ltro; não exige recirculação e sua operação é simples; e oferece um efl uente nitrifi cado. FB de alta capacidade atinge as mesmas efi ciências com unidades muito mais compactas; apresenta poucos problemas com moscas de fi ltro; exige um gasto de energia da ordem de 2,5HP/1000m3 de esgotos tratados a 15HP/1000m3 de esgotos tratados; apresenta maior complexidade operacional; e somente oferece um efl uente nitrifi cado se operado com baixas aplicações de cargas orgânicas. 6.1.8 Remoção do substrato orgânico Nos FB a remoção do substrato orgânico contido no esgoto obedece à mesma cinética que rege o processo dos LA. No entanto, cabe ressaltar que a avaliação da massa presente SENAI-RJ 99 Tratamento de esgotos - Filtros biológicos de organismos ativos é praticamente impossível, pois ela se encontra aderida a uma grande superfície de meio percolante sem estar distribuída de modo uniforme. Na maioria dos casos o procedimento consiste em considerar que um determinado volume de meio percolante contém a massa de organismos capaz de estabilizar, na unidade de tempo, uma dada massa de substrato afl uente. Em geral, isso é feito através de equações empíricas. Método do NRC O National Research Council dos EUA, examinando o desempenho de 34 FB utilizados em instalações militares americanas, durante 8 meses de operação contínua, sugere a utilização da seguinte relação: Onde: S i = Concentração de DBO no afl uente (mg/L) S = Concentração de DBO no efl uente (mg/L) W = Carga orgânica aplicada (libra/d) V = Volume do meio percolante (acre x pé) F = Fator de recirculação. O fator de recirculação F é defi nido por: Equação 6.2 Equação 6.3 Onde: R = relação de recirculação (adimensional). A fórmula do NRC em unidades métricas assume o aspecto: Equação 6.4 Com S e S i em mg/L, V em m3 e W em kg DBO5/d (F é adimensional). 100 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Filtros biológicos Onde: S = Concentração de DBO no efl uente (mg/L) S i = Concentração de DBO no afl uente (mg/L) R = Relação de recirculação. f = um expoente constituído por:` Método de Eckenfelder Baseado na cinética de remoção de um substrato orgânico por uma cultura mista de or- ganismos, Eckenfelder propõe o uso da seguinte expressão: Equação 6.5 Onde: D = Profundidade do meio percolante Q = Taxa de aplicação hidráulica (Vazão/Área) n = Constante característica do meio percolante K = Constante característica do despejo (taxa de remoção de substrato). 6.2 Reator biológico rotativo de contato Nos últimos anos, vem se disseminando o uso de reatores biológicos rotativos de contato (RBC - rotating biological contactors) cuja constituição é mostrada esquematicamente na Figura 6.3. Equação 6.6 SENAI-RJ 101 Tratamento de esgotos - Filtros biológicos Observe que o RBC é constituído de um conjunto de discos ou de um meio suporte cilín- drico, em geral de material plástico (polietileno de alta densidade), montado em um eixo hori- zontal. O conjunto gira lentamente (cerca de 2rpm) de forma que o meio plástico permaneça semi-imerso no esgoto previamente decantado. O princípio básico de funcionamento é o mesmo que o dos fi ltros biológicos, ou seja, a superfície do meio plástico, sucessivamente mergulhada no esgoto e em contato com o ar, serve como suporte para a biomassa que nela se forma. Os organismos recebem o substrato orgânico do esgoto quando imersos no líquido e o estabilizam quando emersos, utilizando o oxigênio do ar. A passagem pelos esgotos propicia certo efeito de lavagem do meio que causa o desprendimento de partes da película de zooglea, o que obriga a decantação do efl uente para remover esses sólidos. O reator deve ser coberto para evitar a proliferação de algas, a lavagem pelas chuvas, e a exposição direta ao sol. Os RBC podem ser utilizados seja como único reator biológico em uma ETE, seja como suporte auxiliar para a biomassa no interior de tanques de aeração do processo de LA visando aumentar a capacidade de instalação existente. Em geral, os sistemas que utilizam RBC são patenteados pelos fabricantes. Figura 6.3 – Reator biológico rotativo de contato – RBC (acionado a ar) 7 Nesta unidade... Lodos ativados Tanques de aeração Constituição do lodo ativado Parâmetros de dimensionamento e operação Controle do processo Dimensionamento do sistema de aeração SENAI-RJ 105 Tratamento de esgotos - Lodos ativados 7. Lodos ativados A possibilidade de efetuar o tratamento de esgotos através da aeração artifi cial foi cogitada pela primeira vez em 1914, na Inglaterra, por Ardern e Lockett, que realizaram experiências sobre a oxidação de esgotos sem o emprego de fi ltros. A denominação lodos ativados (LA), então dada ao processo, devia-se à hipótese de que o próprio lodo contido no esgoto bruto, quando submetido à aeração, adquiria a propriedade de estabilizar a matéria orgânica afl uente, sendo de alguma forma ativado com a aeração. A partir de 1920, o processo difundiu-se e vem sendo extensamente utilizado até os dias atuais tanto em sua forma original - o chamado lodo ativado convencional - quanto sob a forma de variantes, todas elas baseadas no processo convencional. 7.1 Tanques de aeração O processo dos lodos ativados consiste, essencialmente, em submeter esgotos brutos ou pré-decantados à aeração artifi cial, em unidades de tratamento denominadas tanques de aeração (TA). A aeração artifi cial pode ser promovida tanto pela insufl ação de ar comprimido no interior do TA quanto pela agitação da superfície líquida do TA usando, para isto, pás gi- ratórias de eixo horizontal (rotores tipo gaiola) ou vertical (cones de aeração). A ação desses dispositivos de aeração visa: dissolver, no interior do líquido, o oxigênio do ar atmosférico; manter a massa sob aeração em constante agitação, de forma a homogeneizar seu conteúdo e impedir que partículas em suspensão se depositem no fundo do TA. 106 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados 7.2 Constituição do lodo ativado Os esgotos brutos ou pré-decantados contêm microrganismos em concentrações relativa- mente baixas, além de matéria orgânica abundante. Os microrganismos, ao ingressarem no TA, encontram condições ambientais extremamente propícias ao seu desenvolvimento,ou seja, há alimento em abundância (matéria orgânica) e concentrações adequadas de oxigênio dissolvido (suprido pelos aeradores artifi ciais). Essas duas condições, aliadas à presença de nutrientes básicos normalmente encontrados nos esgotos domésticos e a outros fatores ambientais (como temperatura adequada) permitem que os organismos se reproduzam rapidamente e se agrupem em colônias, que permanecem em suspensão devido à turbulência causada pelos dispositivos de aeração. Tais colônias formam os chamados fl ocos do lodo ativado. Portanto, o lodo ativado é constituído por colônias de organismos em suspensão em um líquido, contendo em solução nutrientes básicos, oxigênio e um substrato (matériaorgânica) que lhes serve de alimento. Os organismos, através de suas funções naturais de nutrição e reprodução, utilizam-se do substrato orgânico como fonte de energia promovendo sua oxidação (estabilização). Com isso, o conteúdo orgânico dos esgotos é drasticamente reduzido no interior do TA. Portanto, o efl uente do TA é formado por grande quantidade de colônias de organismos em suspensão em um líquido com baixa concentração de matéria orgânica. Este líquido não deve ser lançado diretamente ao corpo receptor por duas razões: 1. os organismos existentes no TA, sem encontrar no corpo receptor as mesmas condições de abundância de alimento e oxigênio ali vigentes, não sobreviverão, passando eles mesmos à condição de matéria orgânica (material celular) com efeitos danosos ao corpo receptor; e 2. tais organismos são os próprios agentes biológicos da estabilização da matéria orgânica dos esgotos e, sendo extremamente úteis ao processo, seria indesejável perdê-los com o efl uente. Por isso, torna-se necessário submeter o efl uente do TA à decantação em uma unidade de tratamento denominada decantador secundário (DS). No interior do DS, os fl ocos de lodo ativado (que se mantinham em suspensão no TA, devido à turbulência promovida pelos dispositivos de aeração) são separados por sedimenta- ção, dirigindo-se ao fundo da unidade de onde são removidos e bombeados de volta ao tanque de aeração. O líquido removido junto à superfície do DS (esgoto tratado) pode, na maioria dos casos, ser descarregado sem inconvenientes ao corpo receptor. SENAI-RJ 107 Tratamento de esgotos - Lodos ativados O procedimento descrito constitui a linha-mestra em torno da qual se desenvolveu o pro- cesso convencional dos lodos ativados e suas diversas variantes e pode ser resumido através dos seguintes passos: 1. introduzir em um tanque de aeração o esgoto bruto ou pré-decantado, juntamente com o lodo ativado removido do DS; 2. submeter esta mistura à aeração artifi cial, durante a qual a concentração de matéria orgânica do esgoto bruto é reduzida; e 3. separar, em um DS, o lodo ativado que retorna ao tanque de aeração, descarregando ao corpo receptor o esgoto tratado que foi removido da superfície do DS. 7.3 Parâmetros de dimensionamento e operação Em decorrência da grande difusão do processo a partir de 1914, foram realizadas intensas pesquisas sobre o mecanismo biológico e os fundamentos que constituíram a teoria dos lodos ativados. Com base nos resultados obtidos, o procedimento empírico de dimensionamento baseado no tempo de aeração ou tempo de detenção hidráulico (R), inicialmente utilizado, foi sendo gradualmente abandonado na medida em que se percebeu a importância da carga orgânica do esgoto afl uente como substrato (fonte de energia) para os organismos atuantes no processo. Como a fi nalidade do processo era exatamente a estabilização do substrato, constatou-se a importância de sua concentração no esgoto afl uente. Essa constatação permitiu concluir que esgotos altamente concentrados deveriam per- manecer mais tempo sob aeração, pois, em um mesmo volume, continham maior massa de substrato a ser removida. Assim, esgotos mais concentrados exigiriam uma permanência maior sob aeração e, portanto, um volume maior de TA para a mesma vazão afl uente (Q). O passo seguinte foi a percepção da importância da quantidade de lodo presente no TA, pois, sendo esse lodo o próprio agente biológico do processo, sua massa não poderia deixar de ser considerada. Este critério, com pequenas modifi cações, vem sendo utilizado até os dias de hoje. As modifi cações consistiram, basicamente, em avaliar mais corretamente as massas de substrato e de organismos. Isto decorre do fato da massa de substrato afl uente não espelhar a quantidade de substrato efe- tivamente utilizada pelos organismos. Para expressarmos convenientemente a massa utilizada, deve- mos também levar em conta a massa de substrato efl uente do sistema, e, portanto, não utilizada. 108 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados Onde: dMS/dt = variação (decréscimo) da massa de substrato no sistema no intervalo de tempo dt; Q = vazão afl uente; S i = concentração de substrato no afl uente; e S = concentração de substrato no efl uente. Deve-se notar que dMS/dt, exprimindo a quantidade (massa) de substrato utilizada ao longo do intervalo de tempo dt, representa a quantidade de alimento consumido pelos orga- nismos naquele intervalo. 7.3.2 Considerações sobre os sólidos em suspensão afl uentes O lodo ativado (sólidos em suspensão no tanque de aeração) é constituído não apenas por células de organismos ativos como também por outras substâncias em suspensão. A maior parte das substâncias em suspensão contidas no lodo ativado e não constituídas por organismos ativos (células vivas) é introduzida no sistema juntamente com o esgoto afl uente. Os sólidos em suspensão afl uentes são constituídos por uma fração fi xa e uma fração volátil. A última é, em grande parte, formada por matéria orgânica biodegradável, que é removida do sistema (consumida pelos organismos ativos no TA). Assim, acaba restando apenas uma pequena fração dos SSV afl uentes não-biodegradáveis que, juntamente com a fração fi xa, tende a se acumular no sistema, já que retorna ao TA com o lodo ativado. O valor relativo da fração volátil não-biodegradável dos sólidos em suspensão afl uentes é muito pequeno se comparado com a fração fi xa. Desse modo, pode-se considerar que os sóli- dos em suspensão contidos no lodo ativado e não constituídos por células vivas são formados, principalmente, por sólidos fi xos. 7.3.1 Massa de substrato utilizada A massa de substrato efetivamente utilizada ao longo de certo período (dMS/dt) poderá ser obtida da soma algébrica das massas de substrato afl uente e efl uente nesse mesmo período: Equação 7. 1 SENAI-RJ 109 Tratamento de esgotos - Lodos ativados Onde: MX v = massa de organismos presentes na câmara de aeração, em kg; X v = sólidos em suspensão voláteis, em kg/m3; V = volume do TA, em m3. O critério de dimensionamento consiste, então, em relacionar a massa de substrato uti- lizado em um dado período (alimento) com a massa de sólidos em suspensão voláteis contida no TA (microrganismos), dando origem, assim, ao parâmetro denominado relação alimento/ microrganismos (Relação A/M ou U), defi nido pela Equação 7.3, em kg/kg.d: 7.3.3 Relação alimento/microrganismos Resultados de estudos extensivos sobre os organismos normalmente constituintes do lodo ativado demonstraram que 90% da matéria sólida de seu material celular se apresenta sob a forma volátil. Então, pode-se considerar com uma aproximação razoável, que a concentra- ção de SSV no TA (SSVTA ou X v ) representa a concentração de organismos que participam do processo. A massa de organismos presentes na câmara de aeração poderá então ser avaliada através do produto de sua concentração, medida em termos de sólidos em suspensão voláteis, pelo volume do TA, conforme Equação 7.2: Equação 7. 2 A relação alimento/microrganismos acima defi nida é um parâmetro básico extremamente importante e bastante utilizado para dimensionamento e operação das instalações de lodos ativados. Com efeito, conhecidas a vazão (Q), a concentração de substrato (Si) afl uente, e arbitrada a concentração de substrato efl uente (S) que é desejada para o sistema, pode-se determinar a massa de substrato utilizada por dia (dMS/dt). Esse valor, relacionado ao parâmetro alimento/ microrganismos (U) arbitrado (e expresso em termos de kg de substrato fornecido diariamente Equação 7. 3 110 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados 7.3.4 Dimensionamento doTA O dimensionamento de um tanque de aeração para lodos ativados pelo critério de relação alimento/microrganismos pressupõe que tanto a vazão afl uente (Q) como a concentração de substrato no afl uente (Si) não irão variar consideravelmente ao longo do tempo. Dessa maneira, a operação será controlada mantendo-se no interior do TA a massa necessária de organismos (MX v ) para consumir determinada fração da massa de alimento introduzida em um dado período. Como para cada instalação o volume de TA (V) é fi xo, o controle consistirá em manter a concentração de X v tanto quanto possível próxima do valor do projeto. Assim, considerando constantes Q e S i , a manutenção de X v em torno de um valor constante também manterá constante o valor de U, fi xando, desse modo, o valor de S e atingindo, então, a efi ciên- cia do projeto. A manutenção de X v em torno de um dado valor implica periódico descarte, ou retirada do sistema, de uma determinada massa de SSV. Isso porque os organismos presentes no TA, recebendo constantemente certa massa de substrato (alimento) aportada pelo esgoto afl uente, tenderão a se multiplicar na razão direta da massa de alimento utilizada. Como conseqüência, há uma tendência para o contínuo aumento de X v . A massa de organismos descartada é denomi- nada excesso de lodo. Assim, um sistema em operação contínua tende a aumentar, paulatina e continuamente, sua concentração de SSVTA em virtude da formação de excesso de lodo. 7.3.5 Avaliação do excesso de lodo Como a formação do excesso de lodo é proporcional à massa de alimento utilizada, sistemas que operam em elevadas relações alimento/microrganismos tendem a formar uma massa de excesso de lodo proporcionalmente maior que sistemas que operam em valores mais baixos dessa relação. Isto porque organismos que dispõem de alimento em abundância a cada kg de X v ), fornecerá a massa necessária de sólidos em suspensão voláteis (MXv), expressa em kg: Equação 7. 4 O valor de MX v relacionado à concentração desejada de X v irá fornecer o volume, em m3, necessário para o TA: Equação 7. 5 SENAI-RJ 111 Tratamento de esgotos - Lodos ativados Onde: dMX v = massa de excesso de lodo, em kg, medida em termos de SSV, produzida no inter- valo de tempo dt; dX v = variação (aumento) da concentração de SSV no tanque de aeração, em kg/m3; V = volume do TA, em m3; dt = intervalo de tempo, em dias. Assim, dMX v /dt é a massa de lodo ativado produzida no interior do TA no decurso de um intervalo de tempo dt. Massa esta que deve ser retirada do sistema a cada intervalo dt, caso se pretenda manter X v no valor de projeto. Em outras palavras: se, no decurso de um dia, a concen- tração de SSVTA aumentar de um valor dX v , deve se retirar diariamente do sistema uma certa massa de lodo exatamente igual a esta (a massa produzida nesse dia) visando fazer retornar a concentração X v ao valor inicial. 7.3.6 Remoção da massa de lodo ativado A massa a ser descartada periodicamente, dMX v /dt, poderá ser retirada de qualquer ponto do sistema. Usualmente, a retirada é feita a partir da linha de recalque do lodo que retorna do fundo do DS para o TA a fi m de: aproveitar as mesmas bombas, isto é, a própria bomba da elevatória de retorno de lodo ativado é utilizada para recalcar o excesso de lodo para fora do sistema mediante uma simples manobra de registros; e (elevadas relações U) tendem a transformar mais rapidamente o alimento em material celular, reproduzindo-se mais rapidamente e dando origem à elevada produção de excesso de lodo. Por outro lado, organismos que vivem em ambiente onde o alimento escasseia (baixas relações U), dispondo de menor quantidade de energia (substrato) tendem a utilizá-lo mais lentamente, dando origem à menor formação de excesso de lodo. A produção do excesso de lodo pode ser avaliada pelo acréscimo da concentração de X v em um dado período (dX v /dt), referida ao volume do TA: Equação 7. 6 112 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados clarifi car o afl uente líquido e adensar o lodo ativado a ser retornado ao TA, pois o lodo removido do fundo do DS, adensado no interior do próprio DS, tem uma concentração de sólidos voláteis superior à apresentada no TA. Observe que o DS cumpre, assim, uma dupla função: unidade de clarifi cação do líquido e de adensamento do lodo. O objetivo de retornar o lodo ativado ao TA é trazer de volta ao processo toda a massa de lodo ativado removida pelo fundo do DS. Desse modo, quanto mais a massa do lodo ativado for adensada no próprio DS, menor será a vazão recalcada pela elevatória de retorno de lodo ativado, o que resulta em economia para o sistema. A concentração de SSV no lodo que retornou ao TA será aqui representada por X vu . Logo, quanto maior X vu , menor deverá ser a vazão Qr a ser retornada. Assim, a remoção do excesso do lodo a partir da linha de retorno de lodo (com uma concentração X vu ) implica retirar do sistema um volume menor de excesso de lodo se comparado ao volume necessário no caso da remoção ser feita diretamente do TA (com uma concentração X v ) para descartar a mesma massa dMX v /dt. Essas razões de ordem prática tornaram quase universal a retirada do excesso de lodo através da própria linha de retorno do lodo ativado. Como o objetivo do descarte de excesso de lodo é apenas manter o sistema em equilíbrio através da manutenção de X v próximo ao valor de projeto, igual resultado seria obtido se o excesso de lodo fosse descartado diretamente do TA. Neste caso, bastaria remover diariamente do sistema, um volume do líquido sob aeração que promovesse a retirada da mesma massa de lodo em excesso. 7.3.7 Destino do lodo removido O destino a ser dado ao excesso de lodo removido do sistema vai depender, entre outros fatores, do tipo da instalação, de aspectos econômicos e das características do processo. Assim, o excesso de lodo removido de uma estação de lodos ativados pelo processo convencional, dotada de um decan- tador primário onde o esgoto bruto é submetido à decantação antes de ser introduzido no TA, poderá ser encaminhado ao DP, onde se sedimentará novamente e de onde será removido juntamente com O lodo removido do sistema deve ter sempre um des- tino fi nal adequado mas, o que vai ser feito com ele em nada infl ui no desempenho do sistema de tratamento do efl uente líquido. o chamado lodo primário e submetido ao tratamento adequado, geralmente digestão anaeróbia. O excesso de lodo também pode ser estabilizado, em se- parado, através da digestão aeróbia e, depois, ser encaminha- do ao destino fi nal. Ou ainda, em certas variantes do processo de lodos ativados que operam em faixas de relação alimento/ microrganismos muito baixas (aeração prolongada), o excesso pode ser encaminhado diretamente à secagem natural, posto que já se apresenta razoavelmente estabilizado. SENAI-RJ 113 Tratamento de esgotos - Lodos ativados 7.3.8 Parâmetro idade do lodo A necessidade de retirada periódica do excesso de lodo produzido no TA deu origem a um novo conceito, ou parâmetro de projeto, baseado na relação entre massa do lodo ativado presente no TA e massa de lodo em excesso removida diariamente. Se a cada dia é retirada do sistema uma determinada massa dMX v /dt de lodo em excesso, a relação entre massa total (MX v ) e massa removida diariamente (dMX v ) fornece o tempo médio, em dias, que uma partícula de lodo permanece no sistema. Vejamos o seguinte exemplo: se a cada dia é formada e removida uma massa de excesso de lodo dMX v correspondente a 10% da massa total do lodo MX v , serão removidos, diariamente,10% dos organismos presentes, que deverão ser substituídos por igual porcentagem de novos organismos. Isso signifi ca que existe a probabilidade de todo o conteúdo do TA ser renovado em 10 dias. Portanto, ao longo de um certo tempo pode-se afi rmar que cada organismo per- manece, em média, 10 dias no sistema. Logo, a idade do lodo (θc) é 10 dias. Defi ne se, então, o parâmetro idade do lodo ou tempo médio de residência celular (θc) como a relação entre massa total de lodo presente no TA (MX v ) e a massa de lodo descartada a cada intervalo de tempo dt (geralmente 1 dia): Em um sistema em operação contínua, a idade do lodo pode ser controlada retirando-se do sistema, a cada intervalo fi xo dt (em geral dt = 1 dia), uma determinada massa de sólidos em suspensão voláteis dMX v , de tal forma que a relação entre a massa total contida no TA (MX v ) e a massa dMX v seja igual em valor absoluto a θ c , expressa em unidade dt. Isso porque, fazendo-se: dt = 1, a Equação 7.7 fi ca: Equação 7. 7 Equação 7. 8 114 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados Portanto, para determinar q′, seria necessária a determinação diária de X v e X vu ; ou seja: quando se descarta o lodo a cada dia, a partir da linha de retorno de lodo, é necessário deter- minar, diariamente, em laboratório, as concentrações de SSV tanto no TA quanto na linha de retorno do lodo. Outra hipótese seria promover o descarte do lodo diretamente do tanque de aeração. Nesse caso, a massa de SSV (dMX v ) removida do TA será na concentração X v . O volume v, em m3/d, a ser removido no intervalo dt será então: Se o descarte é feito a partir da linha de retorno de lodo ativado (portanto, com concentra- ção de SSV igual a X vu ), a vazão q′ a ser descartada no intervalo dt corresponderá a um volume v′, em m3, tal que: Equação 7. 9 Logo: Equação 7. 10 E a vazão q′, em m3/d, será: Equação 7. 11 Caso essa vazão q′ seja retirada continuamente do sistema, os intervalos dt e dt′ serão iguais. O caso mais comum é adotar dt = dt′ = 1 dia. Então, a vazão q′, em m3/d, terá um valor numérico de: Equação 7. 12 Equação 7. 13 SENAI-RJ 115 Tratamento de esgotos - Lodos ativados Onde q/V está expresso em d-1. Isso signifi ca que uma determinada idade do lodo θ c será mantida desde que se retire do TA, continuamente, uma vazão q, de modo que a relação entre o volume removido no intervalo dt e o volume do TA seja numericamente igual ao inverso da idade do lodo. Vamos exemplifi car: para manter uma idade do lodo de, por exemplo, 15 dias, basta retirar diariamente um volume v de líquido do TA igual a 1/15 do volume V do TA. Essa técnica introduz uma evidente simplifi cação, pois torna desnecessária a determinação tanto de X v quanto de X vu para se manter uma determinada θ c . 7.3.9 Produção de lodo Conforme mencionado anteriormente, altas relações alimento/microrganismos (U) dão origem, proporcionalmente, a elevadas produções de excesso de lodo, enquanto menores rela- ções alimento/microrganismos também dão origem, proporcionalmente, a baixas produções de excesso de lodo. Uma vez que, para efetuar o controle do sistema, o lodo descartado di- ariamente deve corresponder ao excesso produzido ao longo do dia, pode se concluir que os parâmetros U e θ c se correlacionam na razão inversa, ou seja, elevadas U correspondem a pequenas θ c e vice-versa. Para determinar a exata natureza dessa correlação - de forma que possa ser utilizada na construção de um modelo matemático para o processo de lodos ativados - tomamos como base E a vazão q, em m3/d, para retirar o volume v no intervalo dt′ será: Equação 7. 14 Se a vazão for removida continuamente do TA (caso em que dt = dt′): Equação 7. 15 Dividindo ambos os membros da Equação 7.15 por V, volume do TA: Equação 7. 16 116 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados Onde: dX v /dt está expresso em kg/d; Y e b são constantes. Dividindo os dois lados da equação 7.17 por X v , tem-se: os conhecimentos acerca da natureza dos organismos intervenientes no processo e da rapidez com que se reproduzem, utilizando o substrato orgânico como fonte de energia. Tais informações foram abordadas anteriormente (item 7.3.5) e levaram ao estabelecimento da relação a seguir, que será a base do desenvolvimento da correlação procurada, isto é: Equação 7. 17 Transformando as concentrações em massas, através da multiplicação pelo volume do reator (V), obtemos a Equação 7.19, expressa em d-1, e que pode também ter a forma das Equações 7.20 e 7.21: Equação 7. 18 Substituindo-se na Equação 7.21 os valores fornecidos pelas Equações 7.3 e 7.7: Equação 7. 19 Equação 7. 20 Equação 7. 21 Equação 7. 22 SENAI-RJ 117 Tratamento de esgotos - Lodos ativados A Equação 7.22 exprime, então, a correlação procurada entre θ c e U. Conforme observamos nessa equação, a correlação entre U e θ c não depende de nenhum outro fator, à exceção dos valores de Y e b, ambos constantes, característicos da população bacteriana e do substrato utilizado. Isso signifi ca que, para um dado sistema em operação, a fi xação de qualquer um dos parâmetros (U ou θ c ) implica na automática fi xação de outro. Em outras palavras, podemos afi rmar que: ao se fi xar uma determinada relação U através da manutenção da concentração X v em um valor estabelecido, θ c fi cará automaticamente fi xada em um valor correspondente; ao se fi xar uma determinada θ c , através da remoção diária de uma fração fi xa da massa total de lodo presente no reator, a relação alimento/microrganismos será au- tomaticamente ajustada em um valor correspondente, ou seja, a concentração X v se auto-ajustará. 7.4 Controle do processo A fi nalidade principal do tratamento de esgotos é a redução da concentração de substrato no esgoto efl uente (S). O processo só manterá a sua efi ciência caso o valor de S venha se situar dentro dos limites desejados. Controlar o processo signifi ca, portanto, manter o valor de S nesses limites. 7.4.1 Variação da massa de substrato A concentração S poderá ser obtida a partir de considerações sobre a variação das massas de substrato ou de SSV no processo. Veja a Figura 7.1. Figura 7.1 – Variação das massas de substratoFi 7 1 V i ã d d b t t 118 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados 4. Massa de substrato retirada do sistema no intervalo dt, juntamente com o lodo descar- tado diretamente do reator (em kg/d): A variação ao longo de um intervalo de tempo dt da massa de substrato no sistema (dMS/ dt) decorre de: 1. Massa de substrato que ingressa no sistema, no intervalo dt, trazida pelo esgoto afl uente (em kg/d): Equação 7. 23 2. Variação (decréscimo) da massa do substrato no interior do reator no intervalo dt (em kg/d), devido a utilização de substrato pelos organismos, obtida por meio da variação da concentração de substrato (em kg/m3.d): Equação 7. 24 portanto: Equação 7. 25 3. Massa de substrato retirada do sistema no intervalo dt, juntamente com o esgoto efl u- ente (em kg/d): Equação 7. 26 Equação 7. 27 SENAI-RJ 119 Tratamento de esgotos - Lodos ativados A expressão do lado esquerdo da Equação 7.32, corresponde ao valor de U, conforme foi visto na Equação 7.3, logo (em kg/kg.d): A variação total da massa do substrato no sistema será então (em kg/d): Equação 7. 28 Substituindo na Equação 7.28 os valores fornecidos pelas Equações 7.23, 7.25, 7.26 e 7. 27 (em kg/d): Equação 7. 29 Quando a operação está em regime contínuo, dS/dt = 0, logo, a concentração de substrato pode ser expressa pelas equações a seguir, sendo as duas primeirasem kg/m3.d e a terceira em kg/kg.d : Equação 7. 32 Equação 7. 30 Equação 7. 31 Equação 7. 33 O valor de S pode então ser expresso como (em kg/m3): Equação 7. 34 120 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados 2. Variação (decréscimo) da concentração de SSV no interior do reator, no intervalo dt, devido à destruição de material celular por respiração endógena, (kg/m3.d): A Equação 7.34 exprime o fato de que S depende exclusivamente da relação U e do valor de K, que é uma constante do sistema. Ela demonstra que a manutenção de U em um valor constante fará S se manter constante, ou seja, controla o processo. Esta conclusão foi obtida a partir da observação da variação da massa de substrato no sistema, ao longo do tempo. Em contrapartida, a observação da variação da massa de sólidos em suspensão voláteis no sistema ao longo do tempo (dX v /dt) leva ao seguinte: 1. Variação (aumento) da concentração de SSV no interior do reator no intervalo dt devido à síntese de material celular, medida em kg/m3.d: Equação 7. 35 Para obter o valor em kg/d, multiplicamos ambos os membros da Equação 7.35 pelo vo- lume do reator: Equação 7. 36 Novamente, para obter o valor em kg/d, multiplicamos pelo volume do reator: Equação 7. 37 3. Massa de SSV retirada do sistema (descarte do excesso de lodo), em kg/d: Equação 7. 38 Equação 7. 39 SENAI-RJ 121 Tratamento de esgotos - Lodos ativados Quando o descarte de excesso do lodo é feito diretamente do TA, podemos fazer uso da Equação 7.16, substituindo o valor de q/V. Assim, chegamos às três equações seguintes, com valores expressos em d-1: A variação total da massa de SSV no sistema (em kg/d) pode ser então obtida utilizando-se as Equações 7.36, 7.38 e 7.39: Equação 7. 40 Substituindo agora pelos valores fornecidos pelas Equações 7.36, 7.38 e 7.39: Equação 7. 41 Em regime contÍnuo, dMX v /dt = 0, logo, exprimindo em termos de kg/m3.d: Equação 7. 42 Equação 7. 43 Equação 7. 44 Equação 7. 45 122 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados A Equação 7.46 exprime o fato de que S pode ser expresso somente em função de θ c e dos valores das constantes do sistema b, Y, e K. Ela signifi ca que a manutenção de θ c em um valor constante irá igualmente implicar na manutenção da concentração de substrato efl uente em um valor também constante, ou seja, demonstra que o sistema também pode ser administrado através do controle de θ c . Como os valores de b, Y, K, e θ c não dependem nem de Q nem de S i (ao contrário do que ocorre com o valor de U), o controle do sistema através de θ c pode se demonstrar efetivo mesmo em face de variações de Q e S i . De fato, conforme veremos adiante, o controle de θ c torna o sistema auto-regulável. 7.4.2 Métodos de controle do processo O processo de lodos ativados pode ser controlado de duas maneiras: 1. Fixando-se uma determinada relação U através do controle de X v . Esse modo implica determinar o valor de X v em intervalos fi xos e descartar do sistema uma determinada massa de lodo correspondente ao excesso, de forma a manter essa concentração no valor desejado. Se os valores de Q e S i se mantiverem constantes, sendo também constante a massa de organismos no sistema (X v constante), a produção de excesso de lodo em intervalos iguais será também constante. Essa situação corresponderá a uma idade de lodo igualmente constante e equivalente à relação U que se fi xou. 2. Fixando-se uma certa idade de lodo θ c , através do descarte periódico de um determinado volume do líquido do TA. Conforme examinado anteriormente, a idade do lodo pode ser mantida em um valor constante através da retirada diária de um volume de líquido do TA igual ao inverso do valor da idade do lodo, expressa em dias. Dada a correlação entre U e θ c , a fi xação de θc corresponde à fi xação de uma correspondente relação U; o que parece simples de ser entendido se considerarmos constantes os valores Q e S i . Mas, vamos examinar um pouco mais a matéria com base em algumas suposições: O valor de S pode então ser expresso, em kg/m3, como: Equação 7. 46 SENAI-RJ 123 Tratamento de esgotos - Lodos ativados 1. Vamos considerar um sistema que opera através do controle de θ c , sabendo que é re- movida diariamente do reator a massa de organismos igual a uma fração fi xa da massa total contida no sistema. 2. Vamos supor ainda que, por uma razão qualquer, a massa total de organismos contida no reator seja menor do que aquela correspondente à idade do lodo θ c . Podemos então afi rmar que, havendo relativamente poucos organismos no sistema, cada reator receberá uma quantidade de substrato (Q . S i )proporcionalmente maior se comparada àquela a ser recebida caso o número (ou massa) total de organismos estivesse em seu valor correto. Esse fato implica em: maior disponibilidade de substrato para cada organismo (ou unidade de massa de organismos) presente; maior produção de organismos que a fração retirada diariamente. Com isso, a con- centração de substrato no reator tende a subir, provocando aumento de organismos sintetizados; e elevação da concentração X v , até um ponto em que o lodo descartado seja exatamente igual ao excesso produzido. 3. Concluindo: a partir do aumento da concentração X v , o sistema entra em equilíbrio, pois sendo constantes Q e S i , também será constante a produção do excesso de lodo pela população de organismos presentes. Retirando, então, uma quantidade invariante de lodo do TA, podemos fi xar o valor de X v . Como foram considerados constantes os valores de Q e S i , o que corresponde a um valor constante de S que não varia, teremos fi xada a relação U, exatamente no ponto correspondente à θ c desejada. A técnica de controle do sistema pela fi xação de θ c tem a vantagem de ser auto-regulável. Com efeito, qualquer variação de Q, S i ou de ambos, ao longo do tempo, fará o sistema desequili- brar, aumentando ou diminuindo a produção de lodo em excesso. Entretanto, este desequilíbrio será eliminado pelo próprio sistema através de um mecanismo idêntico ao já exposto, pois o valor de X v irá crescer ou decrescer na exata medida do desajuste introduzido e o equilíbrio, então, será novamente atingido. A opção por um ou outro método de controle deverá ser feita após o estudo comparativo das vantagens e desvantagens de cada um. O controle através da relação U, extremamente difundido, implica na avaliação da massa de substrato utilizada e da massa de organismos presentes. A massa de substrato utilizada dependerá tanto de Q quanto de S i . Esses valores sofrem variações ao longo do tempo, alterando, portanto, o valor da relação U. Normalmente, o que se faz para o estabelecimento da desejada relação U, é considerar que tanto Q quanto S i variam em torno de valores médios. Essa consideração é válida quando a oscilação se dá de forma 124 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados lenta e em períodos relativamente curtos. Quando isso não ocorre, o sistema pode ser levado ao desajuste, com o conseqüente deslocamento do valor de S para fora dos limites admissíveis. A avaliação exata da massa de organismos ativos apresenta difi culdades técnicas incon- tornáveis até os dias de hoje. A assunção usual de associar essa massa à massa de SSV presente no tanque de aeração é apenas parcialmente válida, pois, por um lado, aproxima-se da reali- dade nos valores relativamente altos da relação U (pequenas θ c ) e, por outro, afasta-se dela razoavelmente em sistemas onde o valor de U é baixo (elevadas θ c ). Esta aparente discrepância ocorre porque, naproporção que os SSV permanecem mais tempo retidos no sistema (elevadas θ c ), maior é a tendência de acumular resíduos em suspen- são voláteis não constituídos por organismos ativos. Estes resíduos são trazidos com o esgoto afl uente ou produzidos no interior do reator por efeito da respiração endógena, formando o chamado resíduo endógeno. O resultado dessa tendência de acúmulo de SSV não-biodegradáveis (isto é, não passíveis de utilização pelos organismos ativos) é que, na medida em que a relação U diminui (ou θ c au- menta), o valor medido da massa de SSVTA se afasta cada vez mais do valor que se quer medir, ou seja, da massa de organismos ativos (células vivas) no sistema. O acúmulo de SSV não-biodegradável (resíduo endógeno) no sistema pode ser quantifi cado com base no processo de formação desse resíduo gerado a partir da destruição de material celular. Grande parte do material constituinte da célula dos organismos ativos é composta por matéria orgânica biodegradável, consumida no processo. Entretanto, certa fração f da massa dos organismos é composta de matéria orgânica não-biodegradável que irá formar o resíduo endógeno. Isto signifi ca que a formação do resíduo endógeno é proporcional à massa de organis- mos consumida por respiração endógena, sendo f, o fator de proporcionalidade. Considerando X e a concentração de resíduo endógeno no sistema, em kg/m3.d, temos: Equação 7. 47 Logo, de acordo com a defi nição da taxa específi ca de respiração endógena, como visto na Equação 7.37: Equação 7. 48 SENAI-RJ 125 Tratamento de esgotos - Lodos ativados A Equação 7.48 mostra que quanto mais pronunciadamente se manifestar a respiração endógena (elevadas θ c ), maior será o acúmulo de resíduo endógeno. Por outro lado, o controle por meio da θ c se mostra mais simples. Com efeito, é possível manter a idade do lodo exatamente no valor desejado removendo diariamente do interior do TA uma fração de seu volume numericamente igual ao inverso da idade do lodo expressa em dias. Tudo isto sem depender dos valores de Q, S i e X v . Torna-se evidente a maior exatidão da técnica de controle através da θ c quan- do consideramos a fi nalidade que temos em vista: retirar, periodicamente, do sistema uma determinada fração da massa de organismos ativos, seja qual for a concentração dos organismos e sem se importar com a proporção em que se apresentam em relação à massa total de sólidos em suspensão no TA. É certo ainda que, removendo-se um volume constante diariamente do TA, a fração removida da massa de organismos será sempre a mesma, considerando que o líquido no interior deste TA se distribui de forma homogênea por todo volume do tanque, qual- quer que seja o volume retirado. Portanto, esse tipo de controle se mostra igualmente rigoroso em toda a faixa de variação da idade do lodo. O fato de se retirar, de forma periódica, um certo volume do líquido do TA, independente- mente da concentração de SSVTA, torna-se desnecessário determinar esta concentração para fi ns de controle do processo. No entanto, é preciso monitorar o desempenho do processo. Para isto executam-se análises de laboratório com menor freqüência. Para controlar a operação propriamente dita (ou seja, para manter o valor da concentração S no efl uente em seu valor de projeto), basta medir o volume líquido periodicamente descartado do TA. Todos os demais parâmetros devem ser obtidos apenas com o intuito de acompanhar o processo. Como o controle de θ c pode ser efetuado, exclusivamente, com a remoção periódica de um determinado volume V de líquido do TA, a vazão q desse descarte poderá ser ajustada de acordo com a conveniência da operação. Isto quer dizer que, sendo o volume V removido, digamos, diariamente, não importa se essa remoção é feita continuamente ou apenas durante parte do dia. Cabe ao operador da instalação fazer a opção, de acordo com as suas conveniências. A desvantagem da técnica de controle do processo pela idade do lodo é que ela exige a remoção do lodo descartado diretamente do TA, ou seja, na concentração X v . Como a concentra- ção X v é geralmente baixa, da ordem de 1 a 4g/L, o volume do lodo descartado e encaminhado ao destino fi nal é relativamente alto. O problema poderá ser contornado ao se prover a instalação de um espessador de lodo, ao qual se encaminhará o descarte de lodo. O efl uente líquido dessa unidade poderá ser 126 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados retornado para a entrada da instalação ou ser encaminhado para fora do sistema, juntamente com o efl uente fi nal (já que é constituído de esgoto tratado). O lodo espessado, com uma apre- ciável redução de volume, será então encaminhado ao destino fi nal adequado. O espessador pode ser uma unidade por gravidade ou fl otação. Em qualquer caso, será de pequeno porte se comparado às demais unidades da instalação (em face do pequeno valor de q se comparado a Q). 7.5 Dimensionamento do sistema de aeração Sendo os organismos ativos presentes no lodo ativado a peça fundamental do processo, é indispensável que eles estejam presentes no TA na concentração adequada para receber e estabilizar a matéria orgânica afl uente. Porém, como o processo é contínuo, estes organismos estão constantemente deixando o TA junto com o líquido que se encaminha para o DS. Para o processo funcionar a contento, isto é, com a concentração de SSVTA constante, é preciso que o lodo retorne ao TA com a mesma rapidez com que ele é arrastado para fora do TA pelo afl uente ao DS. Isso signifi ca que todo o lodo sedimentado no DS deve retornar ime- diatamente ao TA. 7.5.1 Retorno do lodo ativado O retorno se processa por meio de bombeamento para o TA do lodo sedimentado no fundo do DS. A vazão bombeada Q r deverá ser capaz de levar de volta ao TA todo o lodo que de lá saiu transportado pela vazão (Q+Q r ), conforme visto na Figura 7.1. Geralmente, a vazão de retorno de lodo, Q r , é expressa em função da vazão Q, afl uente ao sistema, sendo o fator de proporcionalidade r denominado relação de recirculação. Logo, exprimindo em m3/d: Equação 7. 49 SENAI-RJ 127 Tratamento de esgotos - Lodos ativados Levando em conta a Equação 7.49, obtemos o valor de r, adimensional: O valor de r pode ser obtido em função das concentrações de SSV vigentes respectivamente no tanque de aeração (X v ) e no fundo do decantador secundário (X vu ) por meio de um balanço de matéria em torno do TA. Vamos admitir as seguintes condições: 1. Todos os SSV seriam removidos pelo fundo do DS e retornados ao TA na concentração X vu (o que equivale a desprezar a perda de SSV pelo efl uente do sistema). 2. Todos os SSV introduzidos no TA pelo esgoto afl uente seriam biodegradáveis e, por- tanto, consumidos no processo, não interferindo no balanço da matéria. 3. A massa de SSV removida do processo com o excesso de lodo seria exatamente igual à produção de SSV por síntese do material celular no mesmo período. Assim, toda a massa de SSV introduzida no TA seria aquela trazida pela vazão Q r na concentração X vu , e toda a massa de SSV removida do TA seria pela vazão (Q + Q r ) na concentração X v . Desse modo, em regime contínuo, teremos, em kg/d: Equação 7. 50 Equação 7. 51 A Equação 7.51 exprime o fato de que r (e portanto Q r ) depende de X vu . Ela mostra também que o decantador secundário não é apenas uma unidade acessória, destinada meramente a clarifi car o efl uente, mas uma peça extremamente importante do sistema, da qual depende a efi ciência de todo o processo. Isso porque, caso o DS não tenha a capacidade de adensar o lodo até a concentração de SSV conveniente, a vazãode retorno de lodo Q r não bastará para trans- portar o lodo de volta para o TA com a mesma rapidez com que ele o deixa. Em conseqüência, o lodo vai se acumular no DS, até se perder pelo vertedor de saída com o efl uente fi nal, fazendo a massa de lodo contida no sistema cair até valores inferiores ao de projeto, o que pode levar o processo ao colapso (além de, naturalmente, prejudicar a qualidade do efl uente). O valor da concentração de lodo no fundo do DS depende da capacidade dessa unidade para efetuar o adensamento, podendo ser avaliada pela taxa de aplicação de sólidos sobre o DS. Quanto maior a taxa, ou seja, quanto maior o produto X (Q + Q r ), menor será a concentração 128 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados de sólidos X u obtida no fundo do DS. Isso signifi ca que o simples aumento de Q r visando atingir maior rapidez no retorno dos sólidos ao TA não resolve o problema de um sistema que começou a perder sólidos pelo efl uente por incapacidade de adensar o lodo até o valor necessário. Caso se tente a solução apenas pelo aumento de Q r , ocorrerá o aumento da taxa de aplicação de sólidos sobre o DS o que implicará na redução de X u , voltando o sistema a se desequilibrar. A única forma de o sistema operar no ponto satisfatório é dimensioná-lo conveniente- mente. Isto quer dizer que a área A do DS deve ser tal que, recebendo a taxa de aplicação de sólidos correspondente à vazão (Q + Q r ) na concentração X v , forneça um lodo adensado até a concentração X u , de modo que a vazão Q r possa transportar de volta ao TA toda a massa de SS admitida ao DS. Como a concentração X (da qual depende a taxa de aplicação de sólidos sobre o DS) depende do volume V do TA porque o processo é dimensionado para conter uma determinada massa constante MX de SS, as três unidades, isto é, TA, DS e ELA (Elevatória de Lodo Ativado) são peças de um mesmo sistema com elevado grau de interdependência. Esta interdependência deve ser considerada ainda na fase de dimensionamento do pro- cesso. Isto signifi ca que o projeto não deve levar em conta apenas os fenômenos que ocorrem no reator biológico, mas considerar, também, a sedimentação e o adensamento do lodo no DS. Esses fenômenos ocorrem segundo a chamada decantação zonal, cujos métodos de análise disponíveis, de acordo com a Coe & Clevenger e a Yoshioka, baseiam-se na teoria de Kinch e se destinam especifi camente ao dimensionamento de espessadores de lodo. Para o processo dos LA, Da Rin e Nascimento desenvolveram um método de dimensionamento integrado que denominaram “Curvas de Operação”. 7.5.2 Grandezas a serem calculadas O dimensionamento de um sistema de aeração implica, basicamente, na determinação de três grandezas: volume V do tanque de aeração; área A do decantador secundário; e capacidade de recalque da ELA, representada pela vazão de retorno de lodo Q r . A determinação dessas grandezas é feita, sobretudo, com base na vazão Q afl uente ao sistema; na concentração S i do substrato afl uente; na efi ciência desejada de remoção de substrato; e em dados acessórios, como as características de sedimentabilidade do lodo e as constantes do processo. Usualmente, a determinação do volume V do TA é feita através do dimensionamento da massa de lodo ativado que deverá ser contida no TA, necessária à estabilização da carga SENAI-RJ 129 Tratamento de esgotos - Lodos ativados A Equação 7.52 evidencia que o projetista pode variar o valor de V dentro de certa margem sem alterar as características do processo, desde que varie igualmente X pois, como o valor de MX é fi xo, a variação de X implica variação do valor determinado para V. Em outras palavras: fi xados Q e S i , o valor de V será determinado em função de X, ou seja, X representará o volume do TA. A capacidade de recalque instalada na Elevatória de LA será obtida em função da vazão de retorno de lodo Q r estabelecida pelo projeto. O valor de Q r é usualmente expresso em função de Q, através do fator de proporcionalidade r, denominado relação de recirculação, defi nido pela Equação 7.51. Sendo assim, r representará a capacidade de recalque da Elevatória do LA. O valor de r a ser utilizado seria obtido através da Equação 7.51, levando em conta a existência de uma proporção fi xa entre os SS totais e voláteis em cada sistema. Nesse caso, pode-se observar que a constante adimensional r é obtida também por: orgânica afl uente. A massa de lodo ativado poderá ser expressa em função da massa de sólidos em suspensão totais, contida no TA, MX. Assim, os métodos modernos de dimensionamento para o reator biológico do processo de lodos ativados fornecem o valor de MX em função dos dados básicos de projeto e das constantes do processo. O valor de V, em m3, é determinado em função da concentração X escolhida pelo projetista, conforme equação a seguir: Equação 7. 52 Equação 7. 53 Portanto, a capacidade de recalque da Elevatória de LA depende tanto de X quanto de X u . Finalmente, para obter a área A do DS devem ser considerados a clarifi cação do afl uente e o adensamento do lodo. Da Rin e Nascimento desenvolveram um método que permite a abordagem de ambas as funções através de uma única técnica, baseada primordialmente no estudo do adensamento do lodo. Admitindo que o adensamento do lodo constitui função preponderante, o estudo da decantação zonal nos mostra que a área A será obtida em função do parâmetro S tL , ou fl uxo total limitante, com o uso da Equação 7.50, onde a vazão afl uente ao DS será a soma de Q e Q r , ou seja, ((1 + r) . Q). Logo, exprimindo a área em m2: Equação 7. 54 130 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados Então, o estudo da decantação zonal mostra que S tL depende tanto de X quanto de X u , e a Equação 7.53 mostra que r depende igualmente de X e X u . Assim, para uma determinada vazão afl uente Q, a área A dependerá apenas de X e X u . O projetista poderá então, dentro de certa medida, variar a área A e, em conseqüência, o valor esperado para X u . Portanto, um exame sucinto do que foi apresentado evidencia claramente que as grandezas V, A e Q r são interdependentes e que o grau de interdependência é elevadíssimo. O projetista tem uma determinada margem de variação de qualquer um desses valores, sabendo, entretanto, que a variação de um deles implicará variação de pelo menos um dos dois restantes. Esse fato é fundamental para o desempenho do sistema de aeração, e deve ser levado em consideração no seu dimensionamento. 7.6 Fornecimento de oxigênio A matéria orgânica contida no esgoto é estabilizada por oxidação bioquímica através do metabolismo bacteriano. Assim, a presença de OD em níveis adequados no líquido sob aeração é essencial ao desempenho do processo. Embora a maior parte dos organismos intervenientes possa resistir a períodos de anoxia relativamente longos, seus processos metabólicos são mais efi cientes em meios com teores de OD acima de 0,5 mg/L. Anoxia - ausência de oxigênio no ar, no sangue arterial ou nos tecidos. Os tanques de aeração devem, então, ser mantidos com teores de OD na faixa de 0,5mg/L a 1,5mg/L, salvo em processos destinados a promover a nitrifi cação biológica dos efl uentes, onde são desejáveis níveis mais elevados. Como o próprio processo de estabilização implica consumo de oxigênio, para manter o teor de OD em nível constante no TA é necessário introduzi-lo, permanentemente, na massa líquida na mesma taxa em que é consumido no processo. 7.6.1 Necessidades de oxigênio A necessidade de oxigênio para manter o desempenho do processo em um nível adequado é expressa em termos de massa deoxigênio a ser introduzida no reator biológico ao longo do tempo, isto é, MO/dt. A massa deve ser sufi ciente para suprir a demanda oriunda de três diferentes fenômenos, a saber: oxigênio sufi ciente para satisfazer as necessidades de energia dos organismos durante a síntese do material celular; SENAI-RJ 131 Tratamento de esgotos - Lodos ativados oxigênio necessário para oxidar bioquimicamente o material celular consumido por respiração endógena; e oxigênio sufi ciente para satisfazer as necessidades de energia para a nitrifi cação bio- lógica, caso o processo seja dimensionado para tal. Ao discutir a fi siologia bacteriana, mencionamos que os organismos necessitam de ener- gia para manter seus processos vitais. Comentamos ainda que a energia é obtida do próprio substrato, ou seja, uma determinada fração de substrato é diretamente oxidada ou queimada bioquimicamente para a produção de energia, enquanto a parcela restante é incorporada ao material celular. Sendo assim, a massa de oxigênio que satisfaz às necessidades de energia durante a síntese deve ser correspondente à oxidação da fração de substrato não convertida em material celular. Em geral, a avaliação da massa de substrato é feita indiretamente, através do conhecimento da massa de oxigênio necessária para oxidá-lo bioqui- micamente. Mas, do ponto de vista conceitual, é importante frisar que ao se quantifi car o substrato através da massa de DBO ou do carbono orgânico dissolvido (COD), não estamos de fato nos referindo a uma determinada massa de substrato, mas sim à massa de oxigênio proporcional àquela massa de substrato. Em nosso caso a massa de material celular sintetizado é medida em termos de massa de SSVTA. Conhecemos também o fator de conversão entre massa de substrato e massa de material celular, ou seja, o próprio coefi ciente de produção (Y). Entretanto, para exprimir a massa de substrato sin- tetizada nas mesmas unidades utilizadas para quantifi car o substrato, ou seja, o seu equivalente em oxigênio (DBO ou COD), é preciso conhecer o fator de conversão apropriado. O fator de conversão seria a massa de oxigênio necessária para estabilizar bioquimica- mente a massa unitária de material celular. Portanto, ele seria o elo que une uma massa à outra. Como a massa de substrato é indiretamente quantifi cada com base na massa de oxigênio, o fator de conversão seria o ponto de referência comum entre elas, pois permitiria expressá-las em função de seu equivalente de oxigênio. Ao discutir a fi siologia bacteriana, mencionamos também que uma composição teórica para o material celular bacteriano seria C 5 H 7 O 2 N. Sendo assim, as necessidades de oxigênio para oxidar completamente este composto químico poderiam ser avaliadas a partir da seguinte reação: Equação 7. 55 132 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados Onde: dMX a = variação da massa de organismos ativos contida no TA. Como a massa de substrato é expressa em equivalentes de oxigênio, evidentemente o valor numérico será igual ao da massa de oxigênio necessária à sua oxidação. Podemos então representá-la, em kg/d, como: O cálculo estequiométrico aplicado a essa reação mostra que são necessários 1,42kg de oxigênio para oxidar 1kg de material celular. Esse valor teórico foi comprovado em inúmeras aplicações práticas e, ao considerá-lo, podemos afi rmar que, para exprimir a massa de mate- rial celular em termos de seu equivalente em oxigênio, basta multiplicá-la pelo fator 1,42. Ela pode ser representada, em kg/d, como: Equação 7. 56 ou Equação 7. 57 Onde: (dMO/dt) 1 = massa de oxigênio necessária para oxidar bioquimicamente a fração de subs- trato não convertida em material celular, metabolizada durante o intervalo dt. A massa de oxigênio que satisfaz a demanda da respiração endógena será aquela neces- sária para oxidar bioquimicamente a massa de material celular biodegradável, consumida por respiração endógena. Já mencionamos também que nem todo o material contido nas células destruídas por respiração endógena é oxidado bioquimicamente, pois uma determinada fração f de sua massa permanece no processo como resíduo endógeno. Portanto, podemos afi rmar que a fração do material celular destruída por respiração endógena (oxidada bioquimicamente) é expressa por (1- f) e sua massa será, em kg/d: Equação 7. 58 Equação 7. 59 SENAI-RJ 133 Tratamento de esgotos - Lodos ativados Fazendo MX a = MX v (o que é justifi cável por questões de segurança já que MX v é sempre maior que MX a ), temos a seguinte representação, em kg/d: Através da taxa específi ca de respiração endógena b, essa massa referida à massa total de organismos ativos contidos no TA fornece, ainda em kg/d: Equação 7. 60 Essa massa, expressa em equivalentes de oxigênio, será igual à própria necessidade de oxigênio para oxidá-la bioquimicamente. Então: Equação 7. 61 Caso não seja prevista a nitrifi cação biológica, as necessidades de oxigênio para o processo, em kg/d, poderão ser expressas por: Equação 7. 62 Substituindo os valores fornecidos pelas Equações 7.58 e 7.61: Equação 7. 63 Equação 7. 64 Considerando que f é igual a 0,2, e levando-se em conta a Equação 7.1, teremos, em kg/d: Equação 7. 65 134 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados Se admitirmos a necessidade de 4,6kg de oxigênio para promover a nitrifi cação de 1kg de nitrogênio, teremos, em kg/d: Finalmente, se o processo for dimensionado para promover a nitrifi cação biológica devem ainda ser levadas em conta as necessidades de oxigênio para suprir a demanda correspon- dente. A avaliação da massa de oxigênio necessária à nitrifi cação pode ser feita por meio do cálculo estequiométrico aplicado à reação química que representa o fenômeno global de nitrifi cação biológica. Essa reação evidencia a necessidade de 4,6 unidades de massa de oxigênio para nitrifi car uma unidade de massa de nitrogênio amoniacal. Como considera-se que todo o NTK (Nitrogênio Total Kjeldahl) deve ser convertido em nitrogênio amoniacal para posterior nitrifi cação, as necessidades de oxigênio são baseadas na fração da massa de nitrogênio amoniacal convertida em nitratos, ou seja, aquela que foi realmente nitrifi cada. Portanto, considerando-se que a concentração de nitratos no afl uente é em geral desprezível, a massa de oxigênio necessária para satisfazer a demanda proveniente da nitrifi cação é obtida em função da concentração de nitrogênio de nitratos (ou moléculas do elemento N ligadas ao radical NO 3 ) no efl uente, N n . A massa de nitrogênio nitrifi cada ao longo do tempo é expressa, em kg/d, por: Equação 7. 66 7.6.2 Variantes do processo O processo dos lodos ativados sofreu ampla disseminação e tem sido empregado em todo o mundo seguindo diversas variantes. Embora todas adotem os mesmos princípios básicos, há diferenças entre elas no que se refere: ao tipo de fl uxo hidráulico; ao tanque de aeração; à forma pela qual o oxigênio é suprido; aos parâmetros do processo; e ao grau de pré-tratamento dos esgotos afl uentes. Equação 7. 67 SENAI-RJ 135 Tratamento de esgotos - Lodos ativados O fl uxo hidráulico no interior de um TA em operação contínua já foi exa- minado anteriormente. O oxigênio introduzido no TA é, em geral, o disponível no ar (as exceções correm por conta das variantes que se utilizam de oxigênio puro). A introdução se faz por meio de dispositivos denominados aeradores, que devem não somente dissolver o ar atmosférico no interior do tanque como também provocar um grau de turbulência sufi ciente para impedir a sedimen- tação do lodo ativado no interior do TA, mantendo assim umadistribuição de partículas tão homogêneas quanto possível. 7.6.3 Métodos de aeração Existem dois métodos básicos para promover a aeração: introduzir o ar atmosférico na massa líquida através de bocais ou de materiais porosos submersos (ar difuso) ou promover a agitação da superfície líquida (aeração mecânica). Ar difuso O método de aeração por ar difuso utiliza um fl uxo de ar produzido por compressores ou sopradores e transportado por tubulações dotadas de válvulas que permitem variar a massa de ar introduzida. O ar é liberado no interior no tanque através de bocais, orifícios, placas porosas, tecidos, tubos perfurados ou dispositivos especiais patenteados. Recentemente as membranas elásticas perfuradas têm obtido grande aceitação. A escolha do difusor depende das características do processo, da disponibilidade de ma- terial e de custos. Difusores tipo bocais, orifícios ou certos dispositivos especiais fornecem bolhas grosseiras. São menos efi cientes, pois exigem a introdução de maior massa de ar para obter um dado teor de OD. Porém sua manutenção é mais simples porque apresentam menor risco de obstrução. Difusores tipo placas porosas, tecidos e similares fornecem bolhas fi nas. São mais efi cientes se comparados aos citados anteriormente. Porém, exigem maior purifi cação do ar, pois são mais sujeitos à obstrução, seja pelas impurezas porventura contidas no ar, seja pelos sólidos em suspensão no TA em caso de paralisação do fl uxo de ar. 136 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados O dimensionamento de um sistema de difusores consiste na determinação da massa de ar a ser introduzida na unidade de tempo, a partir do conhecimento da massa de oxigênio a ser utilizada no processo. Portanto, é preciso considerar: a porcentagem de oxigênio no ar; a efi ciência dos difusores (de 8% a 20% para bolhas fi nas e de 2% a 5% para bolhas grosseiras); a temperatura do TA; a altitude local; e as características do líquido sob aeração. Os difusores podem se localizar em uma linha longitudinal, próxima ao fundo do TA, ao longo do centro ou de um dos seus lados, sendo a última disposição a mais comum. Podem ser fi xos ou montados em braços articulados visando sua retirada para efetuar a manutenção sem interromper o processo, evitando assim a necessidade de esvaziar o tanque. Aeração mecânica A aeração mecânica é feita por meio de aeradores superfi ciais, que consistem em disposi- tivos giratórios de eixo horizontal ou vertical, dotados de palhetas ou lâminas que entram em contato com a superfície líquida, promovendo grande agitação, lançando gotículas de líquido para a atmosfera, e introduzindo pequenas bolhas de ar na massa líquida. Os dispositivos giratórios de eixo horizontal, tais como rotores tipo gaiola ou similar, são utilizados principalmente nos tanques de aeração tipo valo de oxidação, visto que tendem a produzir fl uxo principalmente no sentido horizontal. Valo de oxidação: Reator biológico aeróbio de formato característico, que pode ser utilizado para qualquer variante do processo de lodos ativados que comporte um reator em mistura completa. Os rotores de eixo horizontal são acionados por motor elétrico acoplado a redutor de velocidade e giram a cerca de 70 a 110rpm. Seu diâmetro varia de 0,7 a 1,20m. Os dispositivos giratórios de eixo vertical são utilizados principalmente em tanques convencionais retangulares. Porém, podem também ser instalados junto à parede central de valos de oxidação de grande profundidade e de valos de oxidação de fl uxo orbital, conhecidos comercialmente como carrossel. SENAI-RJ 137 Tratamento de esgotos - Lodos ativados Os diâmetros desse tipo de dispositivo variam diretamente em função da potência. São acionados por motores elétricos acoplados a redutores de velocidade, nos modelos de baixa rotação (40 a 60rpm), ou diretamente conectados ao rotor, nos modelos de alta rotação (rotor tipo turbinas, 500 a 800rpm). Podem ser montados em estrutura fi xa no interior do tanque ou em apoios fl utuantes. No primeiro caso, a massa de ar introduzida no líquido pode ser controlada variando a imersão das palhetas através da variação do nível do líquido no interior do tanque. No segundo caso, o controle é obtido ligando e desligando certo número de unidades. O dimensionamento consiste na determinação da potência necessária à introdução da massa de oxigênio a ser consumida no processo levando em consideração: a efi ciência do dispositivo de aeração (expressa em kgO 2 /HPxh e fornecida pelo fabri- cante); a temperatura no interior do tanque; a altitude; o teor de OD a ser mantido no TA; e as características do líquido sob aeração. 7.6.4 Principais variantes As principais variantes sob as quais o processo dos LA é utilizado e que serão sumari- amente descritas a seguir são: lodo ativado convencional; aeração proporcional; aeração escalonada; mistura completa; aeração de alta capacidade; bioadsorção ou estabilização por contato; aeração por oxigênio puro; e aeração prolongada. Aeradores de boa qualidade são capazes de fornecer de 1 kgO 2 /HP.h a 1,5 kgO 2 /HP.h em água limpa com tempe- ratura de 20°C e ao nível do mar. 138 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados Lodo ativado convencional Em sua origem, o processo de lodos ativados foi utilizado sob essa forma. Nela, os esgotos, após decantação primária, são lançados na cabeceira de um tanque de aeração longo e estreito (fl uxo de pistão) onde é igualmente lançado o lodo ativado retornado do fundo do DS. Geralmente, o excesso de LA é retirado da própria tubulação de retorno e encaminhado ao decantador primário, onde se sedimenta e é removido do sistema. As características dessa variante são: A variante permite o uso de aeração mecânica ou por ar difuso. O tipo de fl uxo hidráulico no TA não permite a aplicação de cargas muito elevadas ao processo. As relações alimento/microrganismos se situam na faixa de 0,2 a 0,4kgDBO/kgSSVTA.d, o que corresponde a idades de lodo na faixa de 8 a 15 dias. O teor de SSVTA usual se situa na faixa de 1.500 a 2.000mg/L. O tempo de detenção correspondente a esses parâmetros varia de 4 a 8 horas. O processo é geralmente utilizado para tratamento de esgotos domésticos não muito concentrados e oferece efi ciência na faixa de 85% a 95% da remoção de DBO. Aeração proporcional A rigor não se trata de uma variante no sentido estrito do termo, mas de uma pequena modifi cação no processo convencional visando, sobretudo, economizar energia. Isso por que o fl uxo de pistão utilizado no processo convencional faz com que as necessidades de oxigênio se- jam maiores na cabeceira do TA, onde ingressa o esgoto pré-decantado, e decresçam na medida que a DBO é paulatinamente satisfeita ao longo do tanque. Com isto os teores de OD alcançados junto à extremidade de jusante são excessivamente altos, gerando, como conseqüência, algum desperdício de energia, pois o excesso de oxigênio não é utilizado no processo. As características desta variante são: Consiste, exclusivamente, em regular a oferta de oxigênio de acordo com a demanda ao longo do tanque. A regulagem é feita em geral por meio da aeração por ar difuso, seja espaçando mais os difusores na região próxima à saída, seja regulando o fl uxo de ar, diminuindo-o junto à extremidade de jusante do tanque. SENAI-RJ 139 Tratamento de esgotos - Lodos ativados Todas as demais características do processo de aeração proporcional são semelhantes às da variante anterior, isto é, do processo de lodo ativado convencional. Aeração escalonada Nessa variante o intuitoé evitar os inconvenientes do fl uxo de pistão através de uma dis- tribuição do afl uente ao longo de todo o TA. As características desta variante são: Utilização de TA longo e estreito. O lodo ativado de retorno é introduzido na cabeceira do tanque, como na variante anterior. O esgoto afl uente pré-decantado é distribuído ao longo de todo o tanque (ou de parte dele) por meio de um canal lateral ou central, com comportas de ingresso ao tanque igualmente espaçadas. Com isto, a demanda de oxigênio é distribuída ao longo do tanque não havendo, portanto, necessidade de regular a sua oferta. A distribuição da carga orgânica afl uente por um volume maior do tanque torna o processo mais resistente a choques provenientes de variações bruscas da carga orgâ- nica afl uente. Assim, é possível manter uma concentração maior de SSTA, na faixa de 2.000 a 3.500mg/L, fazendo cair o tempo de detenção para a faixa de 3 a 5 horas. A redução no tempo de detenção resulta em economia devido ao menor volume do TA. Esta variante permite tanto o uso de aeração mecânica quanto por ar difuso. A relação U se situa na faixa de 0,2 a 0,4kgDBO/kg MLVSS.d, e a idade do lodo se as- senta na faixa correspondente de 8 a 15 dias. A variante pode ser empregada para tratar esgotos de diversos tipos, oferecendo efi - ciência na faixa de 85% a 90% de remoção de DBO. Mistura completa Nesta variante o intuito é aumentar a efi ciência do processo através do uso do fl uxo em mistura completa, que permite a distribuição uniforme tanto da carga orgânica quanto do fornecimento do oxigênio por todo o tanque. A mistura completa consiste em fazer com que o esgoto pré-decantado e o lodo ativado retornado penetrem no TA por um canal central ou lateral com diversas aberturas. O efl uente é retirado por diversos vertedores, no lado oposto fazendo com que o fl uxo ocorra transversalmente ao tanque. 140 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados As características desta variante são: O conteúdo do TA é mantido tão homogêneo quanto possível por meio de dispositivos de aeração que podem ser mecânicos ou por ar difuso. Com isto, torna-se possível aumentar a carga orgânica do processo, que pode trabalhar com relações U na faixa de 0,2 a 0,6kgDBO/kg SSVTA.d (idades do lodo de 4 a 15 dias). A alta resistência a choques permite aumentar o teor de SSVTA, que varia na faixa de 3.000 a 5.000mg/L. Os tempos de aeração correspondentes se situam na faixa de 2 a 5 horas. O excesso de lodo ativado também pode ser removido a partir da linha de retorno do lodo e encaminhado ao DP, ou então removido diretamente do TA a fi m de permitir o controle do processo pela idade do lodo. Neste caso, o excesso de lodo é geralmente encaminhado a um adensador antes do tratamento do lodo. O processo é extremamente resistente a choques e pode ser aplicado a uma extensa gama de despejos, com efi ciência na faixa de 90% a 95% de remoção de DBO. Porém é propício à manifestação do problema operacional conhecido como intumescimento do lodo ou bulking. Aeração de alta capacidade Conforme visto anteriormente a aeração de um substrato orgânico em meio de alta con- centração de substrato ocorre segundo uma cinética de ordem zero, ou seja, a velocidade de reação é elevada e independe da concentração de substrato no meio. Esse fenômeno pode ser utilizado no tratamento de esgotos, desde que não haja necessidade de um efl uente de alta qualidade (quando uma concentração de substrato relativamente elevada pode ser tolerada no efl uente). Em termos práticos, a utilização dessa propriedade signifi ca aproveitar a grande velocidade inicial de reação (remoção de DBO) em meios de alta concentração de substrato, trabalhando em faixas de relações U extremamente elevadas, da ordem de 1 a 5kgDBO/kg SSVTA.d (idades de lodo de 0,2 a 0,5 dias). As características desta variante são: A produção de excesso de lodo é elevadíssima. As concentrações de SSTA podem ser muito altas, na faixa de 3.500 a 5.000mg/L, le- vando a tempos de detenção extremamente curtos (0,5 a 2 horas). O fl uxo hidráulico é, geralmente, o de mistura completa, utilizando aeradores superfi ciais. O processo apresenta baixa efi ciência, na faixa de 65% a 75% de remoção de DBO. Porém, o uso de tanques de aeração pequenos resulta em apreciável economia, que SENAI-RJ 141 Tratamento de esgotos - Lodos ativados pode ser maximizada por meio da eliminação do DP e da introdução do esgoto bruto diretamente ao TA após tratamento apenas em nível preliminar. O excesso de LA pode ser retirado da linha de retorno de lodo ou diretamente do TA, neste caso devendo ser adensado. Bioadsorção ou estabilização por contato As bactérias constituintes do LA só podem se nutrir diretamente de substrato em solução, que absorvem por osmose. A matéria orgânica em suspensão (partículas não solúveis) não pode ser introduzida diretamente na célula. Para utilizá-las, os organismos inicialmente adsorvem as partículas atraindo-as para junto da membrana celular e posteriormente as hidrolisam (transformam em compostos solúveis) por meio de reações com enzimas extracelulares (exoenzimas), segregadas pelos próprios organismos. Os compostos solúveis resultantes da hidrólise são, então, absorvidos pelas células por osmose. Os processos de absorção dos compostos solúveis e de adsorção das partículas são muito rápidos, enquanto o processo intermediário de hidrólise das partículas é bem mais lento. Esse fenômeno é aproveitado para o tratamento de esgotos na variante dos LA denomi- nada bioadsorção. Os esgotos brutos ou pré-decantados são introduzidos em um tanque de aeração de- nominado “câmara de contato” onde permanecem por um período muito curto (0,5 a 1 hora) no qual se processam os fenômenos de absorção do substrato em solução e de adsorção das partículas de matéria orgânica em suspensão. Da câmara de contato, o líquido sob aeração é encaminhado para um DS, cujo efl uente se dirige para o corpo receptor; enquanto o lodo (que, neste caso, é composto pela biomassa e pelas partículas orgânicas a ela adsorvida), em vez de retornar à câmara de contato, é lançado em um segundo tanque de aeração, denominado câmara de reaeração, onde permanece por um período de 3 a 6 horas. Nesta última câmara os organismos recebem o oxigênio necessário à estabilização da matéria orgânica das partículas adsorvidas, sendo encaminhados posteriormente à câmara de contato, onde recebem nova carga de matéria orgânica. As características desta variante são: O fl uxo hidráulico na câmara de reaeração é geralmente do tipo pistão, podendo ser utilizados aeradores mecânicos ou por ar difuso. As relações U (calculadas em relação à massa total de SSV contida no sistema) se situam na faixa de 0,2 a 0,6kgDBO/kg SSVTA.d (idades do lodo de 4 a 15 dias). 142 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados As concentrações de SSVTA variam, na câmara de contato, nas faixas de 1.000 a 3.000mg/L, e na câmara de reaeração, nas faixas de 4.000 a 10.000mg/L. O volume total do TA resultante (soma dos volumes das câmaras de contato e de reaeração) é comparativamente baixo, pois, mesmo que sejam considerados os tempos de detenção relativamente altos do lodo na câmara de reaeração, há que se levar em conta que a vazão de lodo retornado é de cerca de 25% a 50% da vazão de esgoto afl uente. A economia já se torna evidente com a possibilidade da eliminação do DP (ou utilização de uma unidade menos efi ciente e, portanto, menor), visto que a matéria orgânica em suspensão será adsorvida pelos organismos. A efi ciência do processo é ligeiramente mais baixa que das variantes anteriores,situando-se na faixa de 80% a 90% da remoção de DBO. A variante é extremamente fl exível e ideal para a ampliação da capacidade de insta- lações existentes. Para tanto, basta utilizar o trecho inicial de um TA (por exemplo, da variante aeração escalonada) como câmara de reaeração, encaminhando-se para a cabeceira do TA o lodo retornado, mas não aduzindo o esgoto efl uente, que somente será admitido na parte fi nal do tanque, que funcionará como câmara de contato. O excesso de LA pode ser retirado da linha de retorno de lodo ativado e encaminhado ao DP ou a um trecho estanque do próprio TA, que funcionaria, então, como digestor aeróbio. Assim, é possível obter um aumento razoável da capacidade da variante, com baixo custo de investimento. A variante apresenta, entretanto, algumas desvantagens como sensibilidade a variações de carga orgânica, instabilidade operacional e geração de um lodo com características insatisfatórias de sedimentabilidade. Aeração por oxigênio puro A aeração por oxigênio puro permite aumentar a atividade bacteriana, facultando não somente o aumento de relação U para a faixa de 0,25 a 1,0kgDBO/kg SSVTA.d, como também a manutenção de concentrações de SSTA muito elevadas (4.000 a 6.000mg/L). Com isso, é pos- sível obter uma redução extraordinária de volume do TA, resultando em tempos de detenção da ordem de 1 a 3 horas. As características desta variante são: A produção de excesso de lodo é muito baixa, fazendo com que, mesmo diante de uma faixa elevada de relações U, a idade do lodo se mantenha entre 8 e 20 dias. O fl uxo deve ser tipo mistura completa. SENAI-RJ 143 Tratamento de esgotos - Lodos ativados Os aeradores são, em geral, difusores de oxigênio. Isso porque o fl uxo de oxigênio, por ser muito menor que o equivalente fl uxo de ar, não é sufi ciente para causar o turbi- lhonamento necessário para manter em suspensão o lodo ativado. Por isso, torna-se necessário suplementar a energia de mistura introduzida no tanque, seja pelo uso de agitadores tipo hélice submersa, ou pela utilização de aeradores superfi ciais comuns. A efi ciência dos difusores de oxigênio deve ser extremamente elevada, pois sendo rela- tivamente altos os custos de produção do oxigênio puro introduzido no sistema, não se deve permitir qualquer perda para a atmosfera. Por isto os difusores devem ser altamente efi cientes, gerando bolhas de gás diminutas e promovendo um turbilhonamento intenso, permitindo que todo o oxigênio se dissolva na massa líquida e nela seja inteiramente consumido antes que as bolhas atinjam a superfície. Uma alternativa é usar tanques cobertos, dotados de aeradores superfi ciais. Assim, a fração da massa do oxigênio que eventualmente venha a afl orar à superfície formará uma atmosfera saturada e oxigênio acima do nível d’água. Os aeradores superfi ciais, neste caso, servem tanto para suple- mentar a energia de mistura quanto para introduzir no líquido o oxigênio que escapou da massa líquida. O processo apresenta efi ciência elevada, de 85% a 95% de remoção de DBO, porém seu custo é relativamente alto devido à necessidade de gerar ou estocar oxigênio puro. A aeração por oxigênio puro apresenta elevada resistência a variações de carga orgânica. Em geral é utilizada em locais onde há pequena disponibilidade de área ou facilidade de obtenção de oxigênio puro e a baixo custo, mas, também pode ser usada em outras situações como, por exemplo, aumentar a capacidade de instalação de LA existente, em local onde não há disponibilidade de área para expansão. Outra característica é o fato de ser aplicável ao tratamento de extensa gama de despejos, inclusive de origem industrial. Vale a pena destacar ainda que essa variante é muito fl exível e a sua operação bastante simples. Aeração prolongada Conforme visto anteriormente, organismos presentes em um meio onde a disponibilidade de substrato é baixa tendem a se utilizar de seu próprio material celular para sobreviver. Este fenômeno é conhecido como respiração endógena e pode ser aproveitado para o tratamento de esgotos quando é importante reduzir a produção de excesso de lodo e gerar um lodo ativado no qual a fração de organismos ativos seja relativamente baixa, permitindo, assim, sua disposição fi nal por simples secagem natural por não precisar de estabilização prévia. 144 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados As características desta variante são: Trabalha em uma faixa de relações U extremamente baixas (0,05 a 0,15kgDBO/kg SSVTA.d) visando reduzir a disponibilidade de substrato. Em conseqüência disto as idades do lodo resultantes são elevadas (20 a 30 dias), assim como as concentrações de SSTA (3.000 a 5.000mg/L). O excesso de lodo pode ser removido da linha de retorno ou diretamente do TA, quando, então, deve ser adensado antes do lançamento aos leitos de secagem - LS. Neste caso, o controle da operação pela idade do lodo torna-se extremamente simples. O grande volume do TA em relação à vazão afl uente permite uma diluição tão grande que o fl uxo hidráulico passa a ser de mistura completa, quase que independentemente do formato do TA, oferecendo extrema resistência a choques. Os aeradores podem ser mecânicos ou por ar difuso. Muitas das instalações por ae- ração prolongada utilizam tanques valos de oxidação. As pesquisas de Pasveer, que resultaram no emprego de valos de oxidação, foram orientadas no sentido de reproduzir os fenômenos de autodepuração ocorridos em rios não encachoei- rados, que implicam baixas aplicações de cargas orgânicas. As propriedades construtivas desses valos permitem a sua implantação com custos muito baixos, o que os tornam um reator biológico ideal para processos econômicos de tratamento, especialmente o de aeração prolongada, cuja principal característica é a baixa aplicação de cargas orgânicas. O fato de a maioria dos valos de oxidação existentes no mundo adotarem a variante de aeração prolongada tem gerado grande confusão, fazendo crer que exista um processo de tratamento ou uma variante dos lodos ativados denominada valos de oxidação. Na verdade, é preciso distinguir o reator biológico do processo que o adota. Um valo de oxidação é apenas um reator biológico de formato peculiar que, embora adotado principalmente para a variante dos LA denominada Aeração Prolongada, pode ser adotado para qualquer outra variante. A pequena aplicação de cargas orgânicas à biomassa é a característica principal da aera- ção prolongada. A aplicação sendo baixa, haverá pouca disponibilidade de substrato para a biomassa presente, resultando em uma produção de excesso de lodo muito pequena, posto que a maior parte da massa de substrato convertida em material celular pelos organismos intervenientes é consumida por eles mesmos para produção de energia. O consumo de material celular pelos próprios organismos para satisfazer suas necessi- dades energéticas (respiração endógena) pode ser interpretado como eliminação de uma fração considerável do excesso de lodo por digestão aeróbia no interior do próprio reator biológico. SENAI-RJ 145 Tratamento de esgotos - Lodos ativados Observe que dessa interpretação surgiu o conceito de aeração prolongada, adotado ofi cialmente pelas associações americanas de entidades ligadas à engenharia ambiental ou seja: “uma variante do processo dos lodos ativados que promove a digestão aeróbia dos lodos no interior do tanque de aeração”. O excesso de lodo gerado, além de ser produzido em pequena quantidade, apresenta a característica adicional de não padecer da instabilidade típica dos lodos presentes nas demais variantes do processo dos LA devido à fração elevada de material não-biodegradávelnele con- tida. De fato, a fração ativa biodegradável do lodo presente em um reator biológico de aeração prolongada é, geralmente, inferior a 50%. 0 restante, isto é, a maior parte é constituída por: sólidos em suspensão fi xos trazidos para o interior do reator biológico pelo esgoto afl uente; e resíduos do próprio material celular consumido pela respiração endógena, formados por polissacarídeos complexos de difícil biodegradabilidade. Os sólidos inertes que tendem a se acumular nos reatores biológicos em aeração prolon- gada, devido às elevadas idades do lodo adotadas, concedem ao lodo um grau de estabilidade tão elevado que permite encaminhá-lo à secagem ou destino fi nal sem necessidade de prévia estabilização. Ora, como o excesso de lodo ativado dispensa estabilização, eliminando-se a produção de lodo primário, pode-se, igualmente, eliminar as unidades destinadas à sua estabilização. Isto pode ser conseguido lançando o esgoto afl uente diretamente no tanque de aeração, elimi- nando assim o DP. Por outro lado, neste caso, o tanque de aeração, por receber a carga orgânica adicional cor- respondente aos sólidos orgânicos sedimentáveis, precisa ser convenientemente dimensionado e levar em conta esta carga. Para isto o TA deverá não apenas apresentar maior volume como, sobretudo, dispor de maior capacidade instalada de aeração. O acréscimo dos custos de investimento devido a este aumento é largamente compensado pela eliminação do DP e das unidades de estabilização de lodos. Por outro lado, os custos opera- cionais aumentam signifi cativamente devido ao maior consumo de energia elétrica, principal componente dos custos operacionais de ETEs por lodos ativados. Assim, antes de decidir pela adoção da variante em Aeração Prolongada, deve-se fazer um cuidadoso estudo de viabilidade econômica que leve em conta não apenas os custos de inves- timento como também os custos operacionais ao longo de toda a vida útil da instalação. 146 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lodos ativados Quando se adota a variante por Aeração Prolongada, a instalação de tratamento torna-se extremamente simples, resumindo-se em: unidades de tratamento preliminar; reator biológico; decantador fi nal; elevatória de lodos ativados; e leitos de secagem. Caso sejam adotados valos de oxidação operados intermitentemente como reatores bi- ológicos, o decantador fi nal, a elevatória de lodos e os leitos de secagem podem ser eliminados. Neste caso é comum, nas pequenas instalações, dispensar também as caixas de areia. Assim, toda a ETE estará resumida a uma grade de barras de limpeza manual e um valo de oxidação. A respiração endógena, para exercer infl uência tão marcante a ponto de gerar um excesso de lodo estável, necessita que a disponibilidade de substrato orgânico seja muito pequena, isto é, as relações alimento/microrganismos sejam muito baixas. Essa necessidade vai implicar na presença de uma grande massa de organismos ativos para receber uma determinada massa de substrato. Os organismos ativos, como já vimos, constituem uma fração relativamente pequena dos sólidos em suspensão no reator biológico. Portanto, a massa de sólidos em suspensão, contida nos reatores biológicos em aeração prolongada deve ser extremamente elevada se comparada com outras variantes dos LA, principalmente se levarmos em conta a carga adicional resultante da eliminação do DP. Assim, para conter uma massa tão elevada não é sufi ciente aumentar, apenas, a concentração dos sólidos no reator biológico, mas, também, aumentar o próprio vo- lume do reator. Esse aumento vai resultar em tanques de aeração muito grandes, com tempos de detenção da ordem de 24 horas, o que justifi ca a denominação de aeração prolongada. 8 Nesta unidade... Lagoas de estabilização Lagoas aeradas Lagoas anaeróbias Lagoas aeróbias Lagoas de maturação Lagoas facultativas Fatores intervenientes Dimensionamento Lagoas em série SENAI-RJ 149 Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização 8. Lagoas de estabilização Diversos processos de tratamento de esgotos se encontram agrupados sob o nome genérico de lagoa de estabilização. Mas, na realidade, a única característica que têm em comum é o fato de utilizarem um tanque artifi cialmente construído onde se desenrolam certos fenômenos e cuja fi nalidade é tratar os esgotos a ele encaminhados. Os processos de tratamento que se agrupam sobre o nome genérico de lagoas podem ser bastante diferentes tanto no que toca à sua natureza quanto no que diz respeito a seus objetivos e fenômenos intervenientes e guardam pouco em comum além do nome. Infelizmente não há ainda uma nomenclatura consistente e aceita em todo o mundo para designá-los, o que tem gerado alguma confusão. Nesta unidade vamos adotar as seguintes designações: lagoas aeradas; lagoas anaeróbias; lagoas aeróbias; lagoas de maturação; e lagoas facultativas. 8.1 Lagoas aeradas Lagoas aeradas são unidades de tratamento destinadas a estabilizar a matéria orgânica dos esgotos por oxidação bioquímica onde o oxigênio necessário é inteiramente suprido por aeradores artifi ciais. Podem ser de dois tipos: lagoas aeradas/aeróbias; e lagoas aeradas/facultativas. 150 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização Aeradas/aeróbias Nessas lagoas a “densidade de potência” dos aeradores artifi ciais é sufi ciente para criar um nível de turbulência que impeça qualquer deposição de sólidos no interior da lagoa. Neste caso, o processo se desenrola como uma variante dos lodos ativados na qual não há retorno de lodo. Suas principais características são: a idade do lodo do processo é idêntica ao tempo de detenção hidráulico; o teor de SSV depende do tempo de detenção e da concentração de substrato no esgoto afl uente; os parâmetros e a técnica de dimensionamento são os mesmos utilizados para o processo dos lodos ativados. Aeradas/facultativas Neste tipo de lagoas a potência dos dispositivos de aeração é sufi ciente para suprir todo o oxigênio necessário à estabilização bioquímica da matéria orgânica afl uente, mas não o bastante para manter todos os sólidos em suspensão. Como conseqüência, há alguma de- posição de sólidos nas áreas do fundo do tanque mais afastadas do turbilhonamento provocado pelos aeradores. Este lodo depositado no fundo entra em decomposição anaeróbia. Neste caso, o processo se desenrola como uma variante dos LA, mas a carga adicional gerada pelos produtos da decomposição anaeróbia do lodo do fundo deve ser levada em consideração no dimensionamento. 8.2 Lagoas anaeróbias São tanques que recebem esgoto bruto, destinados ao pré-tratamento de esgotos por estabilização anaeróbia parcial da matéria orgânica afl uente. Todo o conteúdo do tanque se mantém anaeróbio. O processo se desenrola de forma semelhante ao que se passa em grandes fossas sépticas: enquanto a matéria orgânica em suspensão se deposita no fundo da unidade, onde entra em digestão anaeróbia, a matéria orgânica contida no líquido sofre, também, uma parcial estabilização anaeróbia. Suas principais características são: o efl uente de lagoas anaeróbias apresenta uma redução de DBO da ordem de 40% a 60%; SENAI-RJ 151 Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização as profundidades usuais se situam em torno dos 3 a 6m e os tempos de detenção na faixa de 2 a 6 dias; o dimensionamento é feito com base na taxa de aplicação volumétrica de carga orgânica, sendo recomendadas taxas de aplicação da ordem de 0,01 a 0,08 kgDBO/d.m3; a efi ciência da lagoa anaeróbia é maior no verão que no inverno em virtude da maior atividade bacteriana em altastemperaturas; odores desagradáveis podem ser desprendidos de lagoas anaeróbias, especialmente quando submetidas a elevadas taxas de aplicação. Quando a lagoa anaeróbia é utilizada como pré-tratamento à montante de uma lagoa facultativa, odores desagradáveis podem ser evitados mediante a recirculação de parte do efl uente da facultativa para a entrada da anaeróbia. Recomendam-se relações de recirculação na faixa de 0,1 a 0,4. 8.3 Lagoas aeróbias Lagoas aeróbias são tanques para os quais se encaminham os esgotos e onde as algas proliferam intensamente devido às condições ambientais propícias. Por meio da fotossíntese, as algas liberam no líquido o oxigênio necessário tanto à manutenção de condições aeróbias em toda a massa líquida quanto à estabilização bioquímica da matéria orgânica por meio do metabolismo de organismos aeróbios. Como a produção de oxigênio pelas algas depende da luz solar, lagoas estritamente aeróbias não podem ter profundidades elevadas, posto que os raios solares não penetrariam até as camadas inferiores. Para garantir condições aeróbias permanentes, a profundidade não deve exceder 0,45m, o que exige a utilização de grande área. Mas, mesmo mantendo a profundidade dentro dos limites recomendados, é praticamente impossível evitar a deposição de sólidos no fundo da lagoa, onde se formaria então uma camada anaeróbia. Isto faz da lagoa aeróbia um dispositivo ideal, porém impossível de se obter na prática. 152 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização 8.4 Lagoas de maturação São tanques que recebem o efl uente de estações de tratamento convencionais ou de outras lagoas com a fi nalidade de polir este efl uente reduzindo, principalmente, a concentração de sólidos sedimentáveis e de organismos patogênicos. Lagoas de maturação são, portanto, dispositivos de tratamento terciário, e não se desti- nam à estabilização da matéria orgânica, mas sim, a propiciar uma melhoria na qualidade do efl uente de instalações de tratamento secundário. Podem ser usadas para eliminar diversos poluentes e contaminantes. Sua utilização para uso específi co de redução da colimetria será abordado adiante ao discutirmos lagoas em série. 8.5 Lagoas facultativas São dispositivos de tratamento para os quais são encaminhados esgotos brutos ou pré- tratados visando a estabilização bioquímica da matéria orgânica neles contida por meio do metabolismo de organismos aeróbios. Estes organismos se utilizam, para seu metabolismo, do oxigênio produzido pelas algas presentes na lagoa devido à manutenção de condições am- bientais favoráveis. Uma parte da carga orgânica presente no afl uente sob a forma de sólidos sedimentáveis se fi xa no fundo da lagoa e serve de alimento a organismos anaeróbios que ali proliferam. Lagoas facultativas constituem a imensa maioria das lagoas de estabilização existentes no mundo. Por isso, vamos abordá-las de forma mais detalhada. Uma lagoa facultativa se caracteriza pela (e deve seu nome a) existência de: uma camada superior, onde predominam as condições aeróbias; e uma camada junto ao fundo, onde predominam as condições anaeróbias. O oxigênio necessário à manutenção das condições aeróbias na camada superior provém quase exclusivamente das algas ali existentes, sendo pouco signifi cativa a parcela obtida por aeração natural. Algas produzem oxigênio através do fenômeno conhecido por fotossíntese. Para realizar a fotossíntese, além da energia luminosa, as algas se utilizam dos produtos fi nais do metabolismo tanto dos seres aeróbios das camadas superiores quanto dos seres anaeróbios da camada junto ao fundo. Há, portanto, uma constante interação entre os organismos presentes, conforme esquematizado na Figura 8.1. SENAI-RJ 153 Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização Podemos então afi rmar que uma lagoa facultativa se constitui em um ecossistema no qual a manutenção do equilíbrio biológico é fundamental para o funcionamento do processo. O esgoto bruto introduz no ecossistema compostos de carbono inorgânico, nitrogênio, fósforo e demais nutrientes básicos, além de matéria orgânica instável, seja em solução, ou em suspensão. Através da superfície líquida, penetram nitrogênio, gás carbônico e oxigênio do ar atmosférico, vindos do ambiente exterior. No período diurno, há luz solar em abundância, cujos raios luminosos penetram na lagoa e fornecem energia para a fotossíntese. Estas condições ambientais são propícias à proliferação de algas. Ao se utilizarem de compostos de carbono inorgânico e de N e P trazidos pelo afl uente, nitrogênio e gás carbônico difundido pela super- fície e, principalmente, dos produtos do metabolismo dos organismos aeróbios e anaeróbios (CO 2 , compostos de N e P), as algas sintetizam a matéria orgânica que necessitam e liberam oxigênio para o ambiente através da reação básica da fotossíntese: 6CO 2 + 6H 2 0 + 673kcal → C 6 H 12 O 6 + 6O 2 Além disso, as algas liberam para o líquido, substâncias em suspensão sedimentáveis seja sob a forma de produtos de metabolismo, ou sob a forma de material celular morto, que se depositarão no fundo. O oxigênio liberado pelas algas (além da pequena parcela obtida por reaeração natural) é utilizado pelos organismos aeróbios para metabolizar a matéria orgânica em solução ou sus- pensão coloidal e parte dos compostos de N e P trazidos pelo afl uente, além dos compostos orgânicos em solução, oriundos do metabolismo dos organismos anaeróbios do fundo e libera- dos para o meio. Esta utilização se perfaz através da reação básica do metabolismo aeróbio: C 6 H 12 O 6 + 6O 2 → 6CO 2 + 6H 2 O + 673kcal Figura 8.1 – Lagoa facultativaFigura 8 1 Lagoa facultativa 154 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização Grande parte do gás carbônico liberado é utilizada pelas algas; o restante acaba se per- dendo pela superfície ou pelo efl uente. Do metabolismo aeróbio resultam igualmente sólidos sedimentáveis, seja sob a forma de produtos do metabolismo, ou sob a forma de material celular morto, que se depositam no fundo. A liberação do oxigênio para o meio se processa apenas na camada superior onde penetra a luz solar. A penetração da luz nas regiões de maior profundidade é difi cultada pelo aspecto turvo do líquido, causado, principalmente, pela presença das próprias algas. A profundidade até a qual penetra a luz no interior da lagoa pode ser avaliada através da utilização do disco de Secchi. Trata-se de um disco pesado, com 30cm de diâmetro, pintado de branco. Para usá-lo, deve-se: imergir o disco na lagoa; e registrar a profundidade em que o observador já não consegue mais distinguir o disco. Para atingir os olhos do observador a luz refl etida pelo disco de Secchi pre- cisa atravessar duas vezes a camada de água até chegar à profundidade alcançada pelo disco. Considerando esse fato, pode-se então estimar a pro- fundidade máxima de penetração da luz como o dobro da imersão em que o disco permanece visível. A camada de lodo que se forma no fundo da lagoa é rica em matéria orgânica, mas to- talmente carente de oxigênio, que é todo consumido nas camadas superiores. No fundo pre- dominam então as condições anóxicas e o consumo da matéria orgânica se faz por organismos anaeróbios através da reação: C 6 H 12 O 6 → 3CH 4 + 3CO 2 + 35kcal 8.5.1 Fatores limitantes A produção de oxigênio por fotossíntese não depende apenas da energia luminosa, mas de diversos outros fatores, como disponibilidade de nutrientes e temperatura do meio. Em meios onde há fartura de nutrientes, tanto a temperatura quanto a luminosidade do ambiente podem se tornar fatores limitantes. Istoporque a fotossíntese (cuja representação sob SENAI-RJ 155 Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização a forma da reação química vista anteriormente é extraordinariamente simplifi cada) consiste, de fato, no encadeamento altamente complexo de diversas reações, algumas bioquímicas (ca- talisadas por enzimas), outras de natureza fotoquímica (dependentes da energia luminosa). Temperatura Nas reações bioquímicas (enzimáticas) a infl uência da temperatura é decisiva e obedece à Lei de Arrhenius (o que signifi ca que a rapidez da reação varia exponencialmente com a tem- peratura, dobrando a cada dez graus centígrados de aumento da temperatura do ambiente). Já nas reações bioquímicas fotoquímicas a temperatura não exerce infl uência, mas a disponibilidade de luz é fundamental. Por isso, nas camadas superiores mais próximas da superfície, onde há abundância de energia luminosa, a temperatura é o fator limitante, pois a luminosidade se faz presente em tal excesso que apenas de 5% a 7% da energia disponível será utilizada para a fotossíntese. Nesta região, a rapidez da fotossíntese será controlada pela produção de enzimas, variando exponencialmente com a temperatura na faixa compreendida entre 4 e 35°C. Se a temperatura não estiver na faixa compreendida entre 4 e 35°C o metabo- lismo das algas é inibido e a produção de oxigênio decresce rapidamente. Luminosidade À proporção em que se penetra na direção do fundo da lagoa, a disponibilidade de energia luminosa decresce em virtude da absorção da luz pela turbidez das camadas superiores. Chega- se, então, a um ponto em que, para as condições de temperatura vigentes, o fator limitante será a luminosidade. Nessa região, a produção de oxigênio decresce na medida em que a disponibilidade de energia luminosa vai sendo reduzida, até atingir um ponto no qual todo o oxigênio produzido por fotossíntese passa a ser consumido pela própria respiração das algas. Esse ponto é denomi- nado ponto de compensação e se manifesta nas lagoas em uma profundidade conhecida como profundidade de compensação, abaixo da qual não há liberação de oxigênio para o meio. Em lagoas de estabilização fotossintética a profundidade de compensação se situa na faixa de 0,50 a 0,70m e coincide, geralmente, com a metade da profundidade máxima alcançada pela luz. 156 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização Abaixo do ponto de compensação é possível ainda encontrar oxigênio dissolvido que migrou das camadas superiores por difusão (em teores muito baixos) e, principalmente, por mistura pela ação dos ventos. Entretanto, em condições de calmaria, o teor de OD decresce com o aumento da profundidade, chegando a zero no nível correspondente à profundidade de compensação. Abaixo desse ponto predominam as condições de anaerobiose, especialmente na camada do fundo, onde se depositam os sólidos sedimentáveis formando uma camada de lodo constituída principalmente por matéria orgânica biodegradável, seja trazida com o afl uente, ou resultante dos processos metabólicos das algas e dos organismos aeróbios em suspensão. A mistura pela ação dos ventos é extremamente importante para o desempe- nho da lagoa; seus efeitos serão abordados detalhadamente mais adiante. 8.5.2 Atividade anaeróbia junto ao fundo A matéria orgânica é metabolizada pelos organismos anaeróbios que proliferam junto ao fundo obedecendo à reação básica do metabolismo anaeróbio: C 6 H 12 O 6 → 3CH 4 + 3CO 2 + 35kcal O gás metano liberado se perde para a atmosfera. O gás carbônico é, em sua maior parte, utilizado pelas algas para a fotossíntese, juntamente com certos compostos de N e P, igualmente liberados. Além disto, o metabolismo anaeróbio produz sólidos sedimentáveis estabilizados que constituem o húmus do fundo e também libera uma determinada quantidade de compostos orgânicos solúveis, utilizados pelos organismos aeróbios presentes nas camadas superiores. A liberação de compostos orgânicos instáveis provenientes do lençol de lodo adquire particular importância em regiões onde há sensível variação de temperatura entre verão e inverno. Nestas regiões, durante o inverno, a atividade bacteriana no lodo do fundo é inibida pelas baixas temperaturas (lembrar que, de acordo com a Lei de Arrhenius, um decréscimo de dez graus centígrados na temperatura ambiente reduz a atividade bacteriana à metade). Neste período em que praticamente não é metabolizada, a matéria orgânica vai se acumulando no fundo e a espessura do lençol de lodo aumenta progressivamente. SENAI-RJ 157 Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização Com a elevação da temperatura no fi nal do inverno, a atividade bacteriana aumenta e toda a massa de lodo acumulada durante o inverno passa a ser rapidamente estabilizada, com a conseqüente liberação, para o meio, de líquido com razoável quantidade de compostos orgânicos. A carga orgânica liberada a partir do fundo se somará à introduzida com o esgoto afl uente, num fenômeno de realimentação que, em certos casos, pode sobrecarregar o sistema e romper o equilíbrio biológico. Mas, mesmo que esse problema não ocorra, verifi ca-se uma fl utuação sazonal na qualidade do efl uente, que tende a se deteriorar logo após o inverno. Esse fenômeno é denominado spring turnover. A espessura do lençol de lodo no fundo de uma lagoa facultativa costuma variar durante o ano. Assim que a unidade entra em funcionamento ocorre, a cada ano, um pequeno acréscimo da espessura. O equilíbrio somente é atingido quando todo o depósito efetuado durante um ano for consumido nesse mesmo período. A partir daí, a espessura do lençol passa a variar sazonalmente em torno de um valor médio, que não mais se altera. Em climas quentes esse equilíbrio é atingido em cerca de cinco anos, podendo, entretanto, tardar até 20 anos em regiões de climas frios. 8.5.3 O afl uente de uma lagoa facultativa Essa corrente contém: uma pequena quantidade de matéria orgânica em elevado grau de estabilização; compostos minerais e compostos de N e P em solução; certa quantidade de bactérias; e, sobretudo, grande quantidade de algas. A presença das algas representa o mais sério inconveniente para a utilização de lagoas facultativas. Então, quando são lançadas ao corpo receptor, caso não encontrem aí as mesmas condições ambientais favoráveis, não conseguirão sobreviver e se transformarão em material celular morto que passará a exercer demanda de oxigênio. Dependendo das condições ambientais e do funcionamento da lagoa, essa demanda de oxigênio pode ser extremamente elevada. Uma lagoa facultativa deve ser então encarada como um processo de conversão de car- bono, uma vez que uma fração substancial da matéria orgânica presente nos esgotos é indire- 158 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização tamente incorporada ao material celular das algas. O carbono orgânico contido no afl uente, ou grande parte dele, é convertido em carbono constituinte do material celular e lançado ao corpo receptor. King e outros autores, em trabalho intitulado Efeitos do Efl uente de Lagoas em um Curso de Água Receptor, apresentado no 2° Simpósio Internacional sobre Lagoas para Tratamento de Esgotos (Kansas City, 1970), concluem, textualmente: Efl uentes de lagoas contendo algas podem exercer marcante infl uência nas condições ambi- entais do curso de água que os recebe por uma distância desde algumas jardas até muitas milhas à jusante. O comprimento do trecho afetado irá depender, em cada caso, do grau de diluição do efl uente e do turbilhonamento do curso de água. Pequenos córregos, que recebem efl uentes de lagoas, parecem ser pouco mais que uma série linear defi ltros biológicos (corredeiras) e unidades de sedimentação e digestão (trechos calmos). Assim, o curso de água que recebe o efl uente de uma lagoa deve ser considerado como parte integrante do sistema total de tratamento, e a utilização do curso de água deve ser reconhecida e admitida, onde quer que as lagoas sejam usadas. Desse modo, antes da implantação de uma lagoa, é preciso verifi car se o corpo receptor pode arcar com essa carga. 8.6 Fatores intervenientes A implantação de uma lagoa de estabilização exige a avaliação de certos fatores que exer- cem infl uência sobre o desempenho do processo. Em relação à possibilidade de controle pelos responsáveis pela operação tais fatores podem ser: não-controláveis; parcialmente controláveis; ou controláveis. 8.6.1 Fatores não-controláveis Entre os fatores não-controláveis destacam-se as características climáticas da região, conforme veremos a seguir. SENAI-RJ 159 Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização Temperatura A temperatura ambiente é importante porque infl uencia tanto a fotossíntese quanto a rapidez dos processos metabólicos de estabilização bioquímica. Temperaturas muito baixas, inferiores a 10°C, são absolutamente desfavoráveis. Por outro lado, climas excessivamente quentes também podem gerar problemas, pois se a temperatura da lagoa ultrapassar os 35°C grande parte das algas não sobreviverá, o que implica ruptura do equilíbrio biológico do sistema. Neste caso, todo o sistema pode se tornar anaeróbio por carência de oxigênio, acarretando grande desprendimento de odores desagradáveis e completa deterioração da qualidade do efl uente. Uma lagoa na qual o equilíbrio biológico foi rompido pode se tornar ana- eróbia em menos de um dia. A recuperação do equilíbrio pode levar cerca de 15 a 30 dias, durante os quais ela deverá receber, somente, uma pequena fração da vazão afl uente. Insolação A insolação é outro fator infl uente no processo, uma vez que a luz é indispensável para a fotossíntese. No que se refere a este fator, é preciso levar em conta não apenas a intensidade média da iluminação como também a duração do período diurno, posto que as algas liberam oxigênio somente durante o dia. Portanto, é fundamental conhecer: a duração do período diurno, que depende exclusivamente da latitude e da época do ano; e a intensidade média da iluminação, que depende tanto da latitude quanto de fatores outros, como nebulosidade, etc. Existem tabelas que permitem avaliar os valores prováveis da energia solar visível que incide sobre uma superfície horizontal ao nível do mar em função da latitude e da época do ano e com isso, pode-se efetuar a correção da altitude. Já no que concerne à nebulosidade, apenas um estudo dos dados climatológicos locais poderá avaliar sua infl uência, em geral expressa em porcentagem de luminosidade, referindo- se ao período do ano em que ocorrem formações de nuvens sufi cientemente densas durante o dia a ponto de absorver uma fração signifi cativa da energia luminosa incidente. 160 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização Evaporação e precipitação Evaporação e precipitação podem, em casos raros, exercer alguma infl uência. Isto porque, sendo a lagoa um reator biológico no qual o tempo médio de residência celular é igual ao tempo de detenção hidráulico, quaisquer variações signifi cativas no tempo de detenção podem al- terar o comportamento do sistema. É evidente que infl uências signifi cativas ocorrem somente quando a evaporação ou precipitação alcançam valores extremos. No entanto, mesmo sendo pequena a possibilidade de interferência, ao se executar um projeto devem ser feitas as verifi cações da infl uência dos fatores em questão no mês em que a diferença entre altura média de precipitação e de evaporação for máxima. Caso a altura de precipitação média no mês mais desfavorável venha a ser muito maior que a altura de evapora- ção, o tempo de detenção hidráulico poderá sofrer uma redução sensível, acarretando prejuízos óbvios para o desempenho do processo. No caso oposto, em que a altura de evaporação é muito mais elevada que a de precipitação, pode ocorrer um abaixamento do nível da lagoa ou uma elevação da salinidade do líquido até limites que interfi ram no desempenho do processo. Regime de ventos O regime de ventos pode infl uenciar não somente a escolha do local de instalação da lagoa como também a efi ciência de seu funcionamento. Por isso, ao selecionar a área para implan- tação da unidade, devem ser considerados alguns aspetos, tais como: os ventos dominantes devem transportar possíveis odores para longe da área urbana; e os ventos dominantes devem soprar de jusante para montante, na tentativa de evitar a formação de curtos-circuitos. No que concerne ao grau de mistura das águas da lagoa, o regime de ventos também é importantíssimo, particularmente em regiões quentes onde há tendência de estratifi cação térmica das águas. Esta tendência se manifesta através da formação (e permanência por períodos signifi - cativos) de uma camada líquida de temperatura mais elevada junto à superfície, onde a luz solar pode penetrar e, portanto, se dá a produção de oxigênio. Esta camada se situa acima de outra, de águas mais frias, onde a luz não penetra devido à turbidez, e prevalecem as condições anóxicas. Caso não haja alguma mistura das águas da lagoa, não haverá disponibilidade de oxigênio nas camadas inferiores, que permanecerão anaeróbias. Este fenômeno (presença de oxigênio apenas em uma camada relativamente fi na junto à superfície) pode causar uma sobrecarga no sistema e levá-lo ao desequilíbrio. SENAI-RJ 161 Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização Em climas quentes, com predominância de ventos pouco intensos, pode se tornar necessária a instalação de misturadores mecânicos (mixers) na lagoa a fi m de promover a homogeneização do líquido e romper a estratifi cação térmica. 8.6.2 Fatores parcialmente controláveis Dentre os fatores parcialmente controláveis, destacam-se: as características dos esgotos afl uentes – grandes variações de vazão ou carga orgânica afl uente podem causar a ruptura do equilíbrio biológico na região onde o afl uente é lançado à lagoa. Esse desequilíbrio tende a se propagar por toda a massa líquida (este problema pode ser controlado com a adoção de tanques equalizadores); e a presença de nutrientes básicos no esgoto afl uente – ela é fundamental para o desem- penho do processo já que as algas, responsáveis pela produção de oxigênio, exigem a presença de nutrientes no meio líquido, especialmente nitrogênio e fósforo. Por outro lado, substâncias tóxicas devem ser evitadas no afl uente das lagoas, pois as algas são bastante sensíveis à sua presença. Esta sensibilidade acaba tornando o processo pouco indicado para o tratamento de despejos industriais contendo compostos tóxicos e pobres em nutrientes. Da mesma forma, devem ser evitados despejos industriais que contenham substâncias que emprestam cor ao líquido da lagoa, em virtude da difi culdade que causam para a penetração da luz. 8.6.3 Fatores controláveis Finalmente, os fatores controláveis dizem respeito às características construtivas que podem infl uir no desempenho do processo, tais como: formato, posição, propriedades do ter- reno e profundidade. Se a topografi a local permitir, o formato das lagoas facultativas deve ser retangular, com uma relação comprimento:largura da ordem de 2:1 a 3:1. A posição da lagoa deve ser escolhida de tal forma que os ventos dominantes soprem na direção do comprimento, sentido de jusante para montante. A profundidade da lagoa facultativa deve variar na faixa de 1,5 a3,0m. 162 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização Caso o fundo da lagoa seja demasiadamente permeável (terrenos predominantemente areno- sos) deve-se estudar a possibilidade de impermeabilização com uma manta de plástico ou com uma camada de argila compactada de cerca de 10cm. No entanto, se o grau de permeabilidade for moderado e alguma infi ltração for tolerada por um período limitado, pode-se evitar a imper- meabilização posto que o próprio acúmulo de material sedimentado no fundo tenderá a colmatar a superfície, impermeabilizando-a ou reduzindo signifi cativamente o grau da infi ltração. 8.7 Dimensionamento O dimensionamento de lagoas facultativas tem sido feito com base em diversos critérios, empíricos e racionais, que serão examinados a seguir. Antes, convém ressaltar que a obtenção de um modelo matemático que realmente represente o processo é extremamente difícil devido ao elevado número de fatores intervenientes, em sua maioria não-controláveis pelo operador, havendo ainda outros cuja infl uência é difi cilmente quantifi cável. Dessa forma, qualquer que seja o critério empregado, sua aplicação não deve dispensar uma crítica judiciosa baseada, sobretudo, na experiência do projetista. 8.7.1 Taxa de aplicação superfi cial de carga orgânica Esse critério empírico, extremamente difundido, consiste em determinar a área da lagoa por meio do simples quociente entre a carga orgânica diária afl uente e uma taxa de aplicação superfi cial de carga orgânica, arbitrada pelo projetista, levando em conta os diversos fatores de infl uência sobre o processo. A profundidade da lagoa facultativa, escolhida pelo projetista, se situa na faixa usualmente recomendada de 1,5 a 3,0m. Os valores da taxa variam largamente de acordo com as características locais como, por exemplo: nos EUA os valores recomendados situam-se na faixa de 10 a 60kgDBO/ha.d; no Chile, a Dirección de Obras Sanitárias recomenda taxas de aplicação que variam desde 10 a 50kgDBO/ha.d para o extremo sul do pais até 180 a 260kgDBO/ha.d para o extremo norte. SENAI-RJ 163 Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização A publicação Waste Stabilization Ponds, da Organização Mundial da Saúde, recomenda as taxas de aplicação transcritas na tabela a seguir. Tabela 8.1 – Taxas de aplicação de carga orgânica Taxa de aplicação (kgDBO/ha.d) Condições Ambientais <10 Zonas muito frias. Cobertura de gelo sazonal. Águas com temperaturas uniformemente baixas. Nebulosidade variável. 10 a 50 Clima sazonalmente frio, com cobertura de gelo sazonal e verão curto, com temperaturas temperadas. 50 a 150 Clima entre temperado e semi-tropical. Cobertura de gelo ocasional, sem nebulosidade persistente. 150 a 300 Clima tropical, temperatura e insolações uniformes, sem nebulosidade sazonal. O dimensionamento da lagoa através desta técnica está resumido nos passos apresentados a seguir: a) Determinação da área, em m2: Onde: Q = vazão média afl uente (m3/d) S i5 = DBO5 do esgoto afl uente (kg/m3) T = taxa de aplicação superfi cial de carga orgânica (kgDBO5/ha.d) A = área da lagoa (ha) b) Determinação do volume, em m3: Onde: V = volume da lagoa (m3) A = área da lagoa (ha) H = profundidade (m) Equação 8. 1 Equação 8. 2 O critério da taxa de apli- cação super- ficial de carga orgânica é extremamente simples; recomenda-se a sua utilização para pré- dimensionamento e veri- fi cação de projetos. 164 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização Onde: P O2 = produção de oxigênio pelas algas (kgO 2 /m2.d) E = energia solar visível média (langleys/dia; 1lagley = 1cal/m2) F = efi ciência fotossintética (%) O parâmetro F, efi ciência fotossintética, exprime a porcentagem da energia total da luz visível que é utilizada pelas algas e incorporada à biomassa sob a forma de material celular. Geralmente seu valor varia de 0,5% a 6%, em função: da concentração da DBO aplicada; da temperatura da lagoa; e do tempo em que o sol permanece sobre o horizonte. O parâmetro E, energia solar incidente média sobre a superfície da lagoa na forma de luz visível, pode ser determinado, em langley/d, pela expressão: 8.7.2 Critério de Oswald e Gotaas Trata-se de critério inteiramente racional, baseado na produção de oxigênio pelas algas no interior da lagoa. Seus autores efetuaram um balanço energético que levou em conta a utiliza- ção da energia luminosa para sintetizar o material celular das algas e a energia disponível, em cal/g, neste material celular. Através desse balanço determinaram que a produção de oxigênio pelas algas referida à área da lagoa podia ser expressa, em kgO 2 /m2.d, por: Equação 8. 3 Equação 8. 4 Onde: P = fração média do tempo diurno que o sol permanece sobre o horizonte E max = energia solar visível máxima (langley/d) E min = energia solar visível mínima (langley/d) Os valores de Emax, Emin e P variam com a latitude e a época do ano. Existem tabelas que fornecem seus valores mês a mês para diversas latitudes; também é possível obter o valor de F em função de seus fatores intervenientes. SENAI-RJ 165 Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização Onde: S iu = DBO última do afl uente (kg/m3) Igualando o consumo de oxigênio expresso pela Equação 8.5 com a produção expressa pela Equação 8.3 e operando, temos o valor da área, em m2: Equação 8. 5 O critério de dimensionamento baseia-se na igualdade entre produção e consumo de oxigênio, sendo expresso sob a forma de taxa de aplicação superfi cial de carga orgânica T. A carga orgânica a ser considerada é a expressa pela DBO última, posto que os tempos de detenção em lagoas de oxidação geralmente são maiores que cinco dias, o que impede a utilização da DBO5. Portanto, o valor da taxa de aplicação superfi cial de carga orgânica T pode ser obtido, em kg/m3, da Equação 8.5: Nesta equação, homogênea, os valores são expressos nas seguintes unidades: A - m2 Q - m3/d S iu - kg/m3 E - langley/d F - % Esta mesma relação pode ser expressa por: Equação 8. 6 Com os parâmetros expressos nas seguintes unidades: A - ha Q - m3/d S iu - mg/L F - % E - langley/d Equação 8. 7 166 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização O critério de Oswald e Gotaas foi testado em lagoas piloto de laboratório com resultados aceitáveis. Ele se baseia, entretanto, em equações racionais, levando em conta quase exclusivamente a radiação solar que teoricamente incidiria sobre a lagoa e desprezando outras características e peculiaridades do local, cuja infl uência pode alterar sensivelmente o desempenho previsto. 8.7.3 Critério de Herman e Gloyna Trata-se de critério desenvolvido a partir da observação do comportamento de lagoas facultativas de laboratório e de instalações piloto. As pesquisas efetuadas por Herman e Gloyna concluíram que, para oferecer uma redução de DBO entre 85% e 95%, a condição ótima de funcionamento de uma lagoa de estabilização fotossintética que receba um afl uente de esgo- tos domésticos com uma DBO de 200mg/L, seria operar em uma temperatura de 35°C, com sete dias de detenção. A relação sugerida para dimensionamento é, portanto, baseada nessas observações, incluindo os devidos fatores de correção. A relação básica, ou seja, a que exprime a condição ótima, seria, em m3: Onde: V = volume da lagoa (m3) Q = vazão média afl uente (m3/d) t o = tempo de detenção para as condições ótimas (t o =7 dias) Como t o foi determinado para a temperatura de 35°C e DBO afl uente de 200mg/L, a apli- cação com valores diferentes destes deve ser feita por meio de fatoresde correção. A variação do tempo de detenção com a temperatura obedece a Lei de Arrhenius, com um coefi ciente θ =1,085. E a correção relativa à concentração de DBO afl uente se dará na razão direta da relação entre a DBO afl uente ao sistema e a DBO afl uente utilizada nas pesquisas, de 0,2kg/m3 (200mg/L). Equação 8.8 SENAI-RJ 167 Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização Onde: S i = DBO do esgoto afl uente (kg/m3) θ = coefi ciente de correção de temperatura (θ = 1,085) T = temperatura da lagoa (°C) Substituindo o valor de t o = 7 dias e exprimindo a DBO em mg/L, a relação da Equação 8.9 se apresenta na forma sob a qual é mais conhecida: A inclusão dos fatores de correção leva a: Equação 8.9 Utilizando as unidades: V- m3 Q - m3/d S i - mg/L Esta equação é aplicável nas faixas de temperaturas entre 4 e 35°C e profundidades entre 0,9 e 2,4m. Os autores recomendam ainda que se utilize para Si o valor da DBO5 quando se tratar de esgotos pouco concentrados ou previamente decantados e da DBO última para esgotos brutos muito concentrados. O critério de Herman e Gloyna é extensamente utilizado devido, sobretudo, à sua simplicidade, sendo possível a construção de ábacos que tornam o dimensionamento uma tarefa bastante elementar desde que conhecidas a vazão e carga orgânica afl uente, além da temperatura da lagoa. O problema é que esta última temperatura em geral deve ser estimada, posto que não há um modelo matemático capaz de determiná-la com o grau de precisão adequado. Equação 8.10 168 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização 8.7.4 Critério de Marais e Shaw Marais e Shaw consideram que a lagoa fotossintética se comporta aproximadamente como um reator biológico em mistura completa. Partindo desta premissa desenvolveram seu critério aplicando ao reator a cinética de remoção de um substrato orgânico por uma cultura mista, à semelhança do que é feito para a análise do processo dos lodos ativados. A aproximação feita pelos autores implica um evidente desvio em relação às condições reais já que claramente lagoas de estabilização não são reatores em mistura completa. Este desvio, porém, não é tão grande quanto se poderia supor à primeira vista. Com efeito, em condições normais, pelo menos ao longo de cada período de 24 horas o conteúdo da lagoa é completamente misturado. Isto porque a temperatura do líquido das camadas inferiores varia pouco, enquanto a das camadas superiores acompanha a variação da temperatura ambiente. Durante a noite as camadas superfi ciais, ao se resfriarem, tornam-se mais densas que as do fundo e provocam o revolvimento completo do conteúdo da lagoa, por convecção. Se considerarmos que os períodos de detenção usuais para lagoas fotossintéticas se estendem por vários dias, o total revolvimento do conteúdo a cada 24h simula um compor- tamento bastante próximo ao da mistura completa. O modelo cinético adotado por Marais e Shaw para aplicação nas lagoas fotossintéticas é o modelo simplifi cado, que presume uma cinética de primeira ordem na qual, em ambientes onde predomine baixa concentração de substrato, a remoção de substrato pela cultura de mi- crorganismos é diretamente proporcional à concentração de substrato no meio. Esse fenômeno é representado pela relação a seguir, em kg: Onde: dMS/dt = massa de substrato removida no reator durante o intervalo dt (kg) MX a = massa de organismos ativos participantes do processo no reator (kg) S = concentração de substrato orgânico no reator (mg/L) k = constante de proporcionalidade (taxa específi ca de remoção de substrato) Equação 8. 11 SENAI-RJ 169 Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização Onde: Q = vazão média afl uente (m3/d) S i = DBO afl uente (mg/L) S = DBO efl uente (mg/L) Sendo a lagoa considerada por Marais e Shaw um reator em mistura completa, S representa igualmente a DBO no interior da lagoa. A massa de organismos ativos contida no reator pode ser avaliada pelo produto de sua concentração pelo volume do reator, em m3: A medida geralmente usada para o substrato orgânico é a DBO, que representa sua ava- liação indireta através do oxigênio necessário para estabilizá-lo bioquimicamente. O substrato removido ao longo do tempo será então, em m3/d: Equação 8. 12 Onde: V = volume da lagoa (m3) X a = concentração de organismos ativos no líquido da lagoa (kg/m3) A substituição dos valores fornecidos pelas Equações 8.12 e 8.13, na Equação 8.11 leva à seguinte expressão, em kg/d: Equação 8. 13 Equação 8. 14 Nos reatores biológicos de lodos ativados o valor de X a é obtido por aproximação conside- rando que a concentração de organismos ativos é representada pela concentração de sólidos em suspensão voláteis no tanque de aeração (SSVTA). No caso das lagoas, entretanto, o procedi- mento aplicado aos reatores apresentaria desvios tão grandes que invalidariam completamente o critério. Isso porque, nas lagoas, além dos organismos aeróbios participantes do processo de estabilização da matéria orgânica, encontra-se presente uma considerável massa de algas que não mantêm uma proporção constante com a massa de organismos ativos e cuja massa é computada no cálculo dos SSV. 170 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização Onde: K = taxa de remoção de substrato (d-1) O valor de K varia com a temperatura da lagoa sendo, por isso, um parâmetro cujo valor é de difícil previsão. Este fato levou Marais a tentar correlacionar o valor de K com a temperatura atmosférica e não da água. O autor chegou a esta conclusão analisando o resultado de extensas pesquisas realizadas em lagoas situadas no sul da África, que demonstraram que a temperatura da água de uma lagoa em um dado período é função, principalmente, da temperatura máxima do ambiente, neste mesmo período. Essa constatação permitiu construir o gráfi co reproduzido na Figura 8.2. Entretanto, considerando que a lagoa é um reator biológico sem reciclo, a concentração de organismos ativos em seu interior não pode ser alterada pelo operador e ela dependerá apenas das condições do processo. Portanto, não deve apresentar grandes fl utuações. Levando-se em conta mais esta simplifi cação, é válido considerá-la como uma constante do processo. Isto levará à defi nição de uma nova constante (K), em d-1, por meio da relação: Equação 8. 15 Observe, na Figura 8.2, que o valor de K é expresso em função das temperaturas médias e máximas, respectivamente, do mês mais frio e do mês mais quente. Esse procedimento facilita bastante o dimensionamento, posto que tais valores são conhecidos e estão tabulados para a maioria das regiões do globo. Figura 8. 2 – Gráfi co de Marais para projetos de lagoas facultativasá SENAI-RJ 171 Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização Onde: t = tempo de detenção hidráulica (d) Substituindo-se os valores das Equações 8.15 e 8.16 na Equação 8.14 e, depois, operando, temos o valor de substrato em mg/L: Pode-se, então, exprimir o volume do reator biológico, em m3, pela relação: Equação 8. 16 A Equação 8.17 fornece a concentração de DBO em solução no efl uente da lagoa. Ela pode, evidentemente, ser aplicada a um conjunto de lagoas em série, no qual o efl uente de cada unidade será o afl uente da seguinte, conforme veremos mais adiante. Para este caso Marais demonstrou que a máxima efi ciência é atingida quando todas as lagoas da série são de igual volume e, portanto, com o mesmo tempo de detenção. Assim, podemos escrever: Equação 8. 17 Onde: S i = DBO afl uente à primeira lagoa (mg/L) S n = DBO efl uente da última lagoa da série (mg/L) n = número de lagoas em série t= tempo de detenção de cada lagoa da série (d) Marais determinou, igualmente, que a máxima concentração de DBO possível de ser mantida em uma lagoa fotossintética de forma a assegurar as condições aeróbias é função exclusiva da profundidade, e pode ser expressa pela relação: Equação 8. 18 Onde: S max = máxima DBO compatível com condições aeróbias no interior da lagoa, mg/L H = profundidade da lagoa, m. Equação 8. 19 172 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização O dimensionamento de uma única lagoa fotossintética pode ser feito diretamente através da Equação 8.17, ou seja o valor de S i é um dado de projeto, enquanto o valor de K pode ser obtido do gráfi co apresentado na Figura 8.2. O projetista escolhe, então, o valor desejado para a DBO efl uente S e determina o tempo de detenção necessário. Em seguida, é preciso: determinar o volume V por meio da Equação 8.16; arbitrar a profundidade H, que, segundo Marais, deve se situar entre 1,2 e 2,2m; e depois, calcular a área A necessária. Com o valor de H e através da Equação 8.19, o projetista deve verifi car se o valor S escolhido é compatível com as condições aeróbias. O critério de Marais e Shaw tem obtido extensa utilização, apresentando bons resultados e possui ainda a vantagem de fornecer o dimensionamento apenas em função da vazão e carga orgânica afl uentes, da qualidade desejada para o efl uente e das temperaturas máximas ambientes. Como, de uma maneira grosseira, a temperatura ambiente máxima depende da latitude, o critério de certa forma incorpora a infl uência da energia luminosa. Convém ressaltar, ainda, que o menor valor da média das máximas do mês mais frio previsto no gráfi co para a determi- nação de K é de 0°C. Isso porque o método não se aplica a regiões onde, nos meses mais frios, a superfície da lagoa venha a se congelar. 8.8 Lagoas em série É possível demonstrar que um conjunto de lagoas em série é muito mais efi ciente que uma única lagoa de volume equivalente. Por isto, torna-se sempre mais compensador projetar um conjunto de lagoas em série em lugar de uma única. Para realizar esse projeto, emprega-se o seguinte procedimento: 1. Arbitrar uma profundidade H na faixa de 1,2 a 2,2m e calcular S max , usando a Equação 8.19. 2. Considerar S max como a DBO efl uente da primeira lagoa da série. Com isto é possível determinar o tempo de detenção t dessa lagoa que, para as condições de máxima efi ciência, será igual ao das demais lagoas da série. A determinação do tempo de detenção é feita através da Equação 8.17, fazendo S=S max , e adotando o valor de K estabelecido no gráfi co da Figura 8.2. SENAI-RJ 173 Tratamento de esgotos - Lagoas de estabilização Conhecido o valor de t, determina-se o número de lagoas n necessário para atingir o valor desejado da DBO, no efl uente do sistema. O valor de n é obtido por tentativas através da Equação 8.18, na qual S é o valor desejado para a DBO do efl uente fi nal do sistema. Na maioria dos casos o tempo de detenção nas lagoas assim dimensionadas resultará em um valor superior a cinco dias. Isto signifi ca que, caso seja adotado o valor usual da DBO a cinco dias, corre-se o risco de subdimensionar o sistema, visto que o mesmo deverá satisfazer uma demanda superior à estabelecida. O autor do método aconselha, então, adotar a DBO última, S iu , para dimensionamento. É importante lembrar que todos os critérios de dimensionamento apresen- tados consideram como DBO efl uente o valor obtido com o efl uente fi ltrado, não levando em conta, portanto, a presença das algas e de possíveis sólidos suspensos. A utilização desse valor para avaliar a carga sobre o corpo receptor implicará em sérios desvios. 9 Nesta unidade... Tratamento do Lodo Produção e tipos de lodo Disposição fi nal dos resíduos Fator econômico na seleção das técnicas Técnicas de tratamento de lodo Disposição fi nal SENAI-RJ 177 Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo 9. Tratamento do Lodo O tratamento de esgotos é um ramo da tecnologia relativamente novo. Não obstante, os recursos disponíveis apresentam potencial para alcançar qualquer grau de tratamento desejado como, por exemplo, promover o reuso da água em regiões onde há escassez de recursos hídri- cos. Na verdade, o desenvolvimento de técnicas que permitem este reuso tem sido a principal área de pesquisas no campo do tratamento de efl uentes líquidos. Este grau elevado de sofi sticação não é, entretanto, alcançado impunemente: à propor- ção que o efl uente vai se tornando mais puro, mais se acumularão os resíduos originados do tratamento. Esses resíduos, formados principalmente pelos sólidos em suspensão removidos da fase líquida, assumem o nome genérico de lodo. 9.1 Produção e tipos de lodo Os sólidos em suspensão penetram na ETE carreados pelo próprio esgoto bruto, são gera- dos no próprio processo de tratamento ou, ainda, podem ser adicionados ao esgoto durante o tratamento. Os primeiros, isto é – os sólidos em suspensão de origem orgânica que penetram na ETE carreados pelo próprio esgoto bruto – são, em geral, removidos nos decantadores primários ou em fl otadores e irão originar o denominado lodo primário. Já os sólidos em suspensão formados nos processos de tratamento são constituídos por microrganismos que proliferam no interior dos reatores biológicos dos processos de lodo ati- vado (e suas variantes) e de fi ltração biológica. Geralmente são removidos nos decantadores secundários e originam o chamado excesso de lodo ativado (ou simplesmente excesso de lodo) no caso dos lodos ativados, ou lodo secundário no caso dos fi ltros biológicos. Em algumas instalações o excesso de lodo ou o lodo secundário é encaminhado à entrada do decantador primário, onde se sedimenta e de onde é removido juntamente com o lodo 178 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo primário, ou pode ainda ser misturado ao lodo primário removido do DP. A essa mistura se dá o nome de lodo misto. Tanto o lodo primário quanto os lodos secundário, misto e, na maioria dos casos, o excesso de lodo, apresentam uma elevada fração de matéria orgânica putrescível, secam com difi cul- dade, geram mau odor e produzem gases. Geralmente, devem ser submetidos à estabilização antes de serem encaminhados ao destino fi nal, conforme veremos mais adiante. Finalmente, os sólidos adicionados aos esgotos durante o tratamento se apresentam: sob a forma de produtos químicos, que agirão como coagulantes para aumentar a efi ciência da decantação; ou como reagentes, para precipitar os compostas de fósforos, no caso da remoção química de fósforo. A coagulação química é raramente empregada no tratamento de esgotos e origina um lodo muito semelhante ao primário, porém mais abundante. O lodo oriundo da remoção química de fósforo é inerte e sua composição depende do reagente empregado. 9.2 Disposição fi nal dos resíduos Aos resíduos sólidos removidos do processo deve ser dado um destino fi nal adequado, ou seja, que não agrida ao ambiente, não ponha em risco a saúde do homem e dos animais e seja economicamente viável. Existem várias possibilidades para efetuar a disposição desse material, tais como: no mar ou em outros corpos líquidos, por meio de tubulações submersas ou transporte em embarcações; na atmosfera, por incineração, sendo transformado em gases e vapores; e sobre o terreno (é a prática mais comum), através de irrigação superfi cial, espalhamento, aterro sanitário, lançamento em cavas, minas abandonadas ou cavidades naturais do terreno. Pode ser ainda usado como fertilizante ou lançado em lagoas de lodo. Há, noentanto, uma relação entre cada uma das possibilidades citadas e as características apresentadas pelo lodo. Por exemplo: quando se pretende lançar o lodo ao mar por meio de SENAI-RJ 179 Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo tubulação submersa, sua umidade não deve ser removida, mas, caso a intenção seja incinerá- lo, a remoção da umidade é obrigatória. Por conseguinte, a escolha das técnicas de tratamento de lodo depende do tipo de dis- posição fi nal a ser adotado e das características originais do próprio lodo. 9.3 Fator econômico na seleção das técnicas Um critério importante a ser considerado na seleção das técnicas de tratamento de lodo diz respeito ao fator econômico, o que implica analisar todas as variáveis intervenientes. Veja- mos um exemplo: por vezes o destino fi nal escolhido para o material não exige a remoção de umidade, mas, considerando o custo do transporte até o local previsto, podemos concluir que é mais econômico proceder à secagem prévia do lodo para reduzir os custos do transporte, devido à redução do volume a ser transportado. O exemplo citado serve para demonstrar a importância de serem computados cuidadosa- mente todos os custos envolvidos no processo. A seguir, estão relacionados alguns pontos que implicam economia: a incineração do lodo não exige estabilização prévia, mas solicita a remoção de umi- dade; lodos estabilizados secam com mais facilidade, exigindo um menor consumo de aditivos químicos quando submetidos à secagem artifi cial; a estabilização por digestão anaeróbia produz grandes quantidades de metano, gás infl amável que pode ser utilizado como combustível no incinerador. Este fato pode ser vantajoso, mesmo levando-se em conta que lodos estabilizados têm menor poder calorífi co, exigindo assim mais combustível; e as hipóteses seguintes devem ser consideradas: - secagem artifi cial do lodo cru + incineração: computar os custos prováveis dos aditivos químicos utilizados para secar o lodo cru e o consumo previsto de com- bustível levando em conta o poder calorífi co do lodo cru; e - digestão anaeróbia + secagem artifi cial do lodo digerido + incineração (usando o metano como combustível no incinerador): computar os custos (menores) dos aditivos químicos necessários à secagem do lodo digerido e verifi car se a produção esperada de metano na digestão anaeróbia é sufi ciente para suprir a demanda de combustível (maior) para incinerar o lodo digerido. 180 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo Dependendo dos preços dos aditivos químicos e do combustível, a economia introduzida na segunda hipótese pode compensar os gastos adicionais com a implantação e operação do digestor anaeróbio, à primeira vista desnecessário. Este exemplo aleatório serve para esclarecer como os múltiplos fatores intervenientes podem se combinar gerando situações complexas que devem merecer cuidadosa análise. Diante do exposto, podemos concluir que o problema do tratamento de lodos deve ser objeto de uma abordagem racional, baseada nas características do lodo gerado no processo de tratamento e no elenco dos possíveis métodos de destino fi nal. Entre esses dois pólos as técnicas se encadearão em uma seqüência que visa adequar o lodo produzido às condições exigidas pelo método de disposição fi nal, selecionadas da maneira mais econômica possível. Os pontos a serem considerados podem ser resumidos da seguinte forma: o destino fi nal deve ser selecionado em primeiro lugar; em seguida, de acordo com as características do lodo produzido pelo processo de trata- mento, são selecionadas as técnicas de tratamento mais adequadas para conceder ao lodo as características de estabilidade, umidade, etc., exigidas pelo destino fi nal; e deve-se notar que a própria escolha do processo de tratamento do efl uente líquido, responsável pelas características originais do lodo ( quantidade, umidade, grau de es- tabilização, etc.), pode ser condicionado pelo destino fi nal e pelo custo de tratamento do lodo. Em muitos casos, quando o tratamento e a disposição fi nal dos lodos forem particularmente complexos ou onerosos, pode ser vantajoso selecionar um processo para o tratamento do efl uente que forneça lodo em menor quantidade ou mais estável, mesmo implicando gastos adicionais na própria linha de tratamento do efl uente. As técnicas de tratamento disponíveis para adequar o lodo ao destino fi nal selecionado são: estabilização: por digestão anaeróbia, aeróbia, tratamento térmico, tratamento químico e compostagem; condicionamento dos lodos: por espessamento, condicionamento químico, elutriação e condicionamento térmico; e É possível combinar qualquer das técnicas citadas. Mas a combina- ção escolhida deve oferecer como produto fi nal o lodo com as caracte- rísticas desejadas, a menor custo. remoção de umidade: por secagem natural e mecânica (fi ltração a vácuo ou à pressão e centrifugação). SENAI-RJ 181 Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo 9.4 Técnicas de tratamento de lodo Aqui trataremos das principais técnicas relacionadas à estabilização, condicionamento e remoção da umidade. 9.4.1 Estabilização Vimos, anteriormente, que o lodo primário, misto, secundário e, na maioria dos casos, o excesso de lodo, carregam consigo uma quantidade elevada de organismos patogênicos e são formados por uma fração considerável de matéria orgânica putrescível. Se lançados in natura ou cru ao destino fi nal, podem agredir o meio ambiente, produzir maus odores, provocar de- manda excessiva de oxigênio em corpos líquidos ou pôr em risco a saúde das pessoas e dos animais. Todavia, esses inconvenientes podem ser minimizados se o lodo cru for submetido a uma das técnicas de estabilização abaixo descritas. Digestão anaeróbia É um tratamento biológico em que a matéria orgânica é parcialmente estabilizada através do metabolismo de microrganismos anaeróbicos e da produção de gases e outros compostos mais estáveis. Ao produto fi nal da digestão dos lodos denomina-se lodo digerido. A digestão de lodo é, portanto, um processo de decomposição anaeróbia conduzido sob condições controladas com o objetivo de: destruir microrganismos patogênicos; reduzir e estabilizar a matéria orgânica dos lodos frescos; e reduzir o volume de lodos através da liquefação e gaseifi cação de compostos sólidos e retirada do gás e do líquido gerado. O lodo digerido apresenta cor negra, odor semelhante ao de piche ou alcatrão e seca com facilidade. A água intersticial é clara, não apresenta mau cheiro e se separa com facilidade. O teor de umidade é da ordem de 95% a 96% e a DBO é inferior a 100mg/L. A redução de volume durante a digestão é apreciável, já que o lodo digerido tem um volume de 30% a 40% do lodo bruto que o originou. Tipicamente, um lodo bem digerido apresenta 45% de matéria orgânica e 55% de substâncias minerais. A digestão é um processo natural que pode ocorrer sem nenhuma intervenção externa. Os próprios microrganismos presentes no lodo, ao encontrarem condições propícias à vida, proliferam em grande número e promovem as modifi cações bioquímicas na matéria orgânica 182 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo presente. Esse tipo de digestão é denominado digestão técnica e se processa em três estágios: acidifi cação, liquefação e gaseifi cação. Estágio I – Acidifi cação Quando o processo de digestão anaeróbia se inicia, os compostos orgânicos de mais fácil decomposição presentes no lodo cru são os primeiros a serem atacados. São eles: lipídios; protídeos; glicídios; amiláceos; e gorduras. Esses compostos são metabolizados por microrganismos facultativos e transformadosem compostos nitrogenados mais estáveis e ácidos orgânicos. Durante essa fase, há uma grande produção de gás carbônico (CO 2 ) e gás sulfídrico (H 2 S), que se desprendem do meio. Devido a grande produção de ácidos orgânicos, o pH do meio cai e se mantém na zona ácida (5,1 a 6,8), podendo atingir valores da ordem de 4,7. Estágio II - Liquefação ou regressão ácida Neste estágio os ácidos orgânicos e produtos nitrogenados, produzidos anteriormente, são atacados por microrganismos exclusivamente anaeróbios. À proporção que os ácidos orgânicos vão sendo metabolizados e sua concentração decresce, o pH do meio se eleva, chegando a valores próximos de 7. São produzidas grandes quantidades de compostos amoniacais e há grande formação de escuma além de alguma produção de gases, princi- palmente gás carbônico (CO 2 ), hidrogênio (H 2 ) e nitrogênio (N 2 ). Estágio III - Gaseifi cação ou fermentação alcalina É a fase fi nal da digestão. Os compostos mais resistentes (proteínas, aminoácidos, celuloses, e alguns produtos nitrogenados) são atacados pelos organismos anaeróbios presentes em grande quantidade. Há produção de amônia (NH 3 ) e sais de ácidos orgâni- cos. Existe uma grande produção de gases, principalmente metano (CH 4 ), além de alguma quantidade de gás carbônico (CO 2 ) e nitrogênio (N 2 ). Ocorre forte redução da DBO e o pH se eleva para a zona alcalina, mantendo-se entre 6,9 e 7,4. A digestão é um processo lento, com duração de cerca de 60 dias. Sua taxa de reação sofre infl uência dos seguintes fatores: inoculação, pH, temperatura e agitação do meio. SENAI-RJ 183 Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo É uma prática freqüente reduzir o tempo de digestão através da manipulação dos fatores infl uentes com o objetivo de diminuir o tamanho das unidades de tratamento utilizadas para a digestão. Inoculação A digestão anaeróbia depende da quantidade de microrganismos presentes no lodo em digestão. No início do processo esta quantidade é pequena, porém aumenta à proporção que os microrganismos vão se reproduzindo e, no fi nal do processo, tende a decrescer devido à diminuição da quantidade de alimentos (matéria orgânica instável). A adição diária de quantidades adequadas de lodo estabelece o equilíbrio entre o número de or- ganismos e a quantidade de alimentos, acelerando o processo. pH O processo de digestão se desenvolve com maior rapidez em um meio de pH ligeira- mente alcalino (entre 7 e 7,4). Temperatura A temperatura é um fator de infl uência em qualquer processo biológico, em especial nos processos anaeróbios. Mas, a digestão de lodos se dá com maior efi ciência em duas faixas: de 30 a 45ºC - denominada digestão mesófi la; e de 45 a 57ºC - denominada digestão termófi la. Na prática, a temperatura considerada ótima situa-se entre 30 e 35ºC. Em países de clima frio é costume aquecer artifi cialmente os digestores para acelerar o processo e, com isto, reduzir o volume dos digestores. É desejável que o período de digestão seja o mais curto possível para obter unidades de tratamento menores. 184 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo A Tabela 9.1 apresenta a relação entre temperatura e período de digestão. Tabela 9.1 – Relação temperatura-tempo de digestão Temperatura (oC) Tempo de digestão (d) 15 55 20 45 25 35 30 28 35 25 Agitação do meio A agitação do material em digestão acelera o processo porque, além de favorecer o escoamento dos gases produzidos no interior da massa em digestão, homogeneiza o ma- terial diminuindo as variações de pH. A agitação no interior dos digestores pode ser feita através de: agitadores mecânicos (misturadores, ou mixers); recirculação dos lodos por meio de bombas; e recirculação de gases. Durante diversas fases do processo de digestão há formação de gases, com a predominância de metano e gás carbônico. Sua distribuição é a seguinte: metano (CH 4 ) - cerca de 67%; gás carbônico (CO 2 ) - cerca de 30%; nitrogênio (N 2 ); hidrogênio (H 2 ); oxigênio (O 2 ); e outros (menos de 1%). O produto gasoso da digestão é denominado gás de esgoto que é, na verdade, uma mistura de diversos gases. A sua principal característica é possuir poder calorífi co de 5.000 a 6.000cal/ m³, o que faz dele um combustível de grande teor energético. SENAI-RJ 185 Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo Em algumas estações de tratamento de esgotos o gás produzido pela digestão de lodos é canalizado e utilizado no laboratório de controle da ETE, para aquecimento dos digestores ou como combustível, seja para geração de energia elétrica seja para o acionamento direto de alguns equipamentos, especialmente bombas e compressores. Nas ETEs a digestão anaeróbia se processa em unidades de tratamento denominadas digestores primários, e, eventualmente, se processa também nos digestores secundários. Digestores primários São tanques fechados, onde o lodo cru é introduzido. O interior desse tanque deve ser homogeneizado e, dependendo do clima local, aquecido. A homogeneização pode ser feita por: agitação mecânica; recirculação de lodo; e O a q u e c i m e n t o, q u e e m geral utiliza o próprio gás gerado na digestão como combustível, pode ser feito por bombeamento de água quente através de serpentinas instaladas no interior do digestor, ou por aquecimento do próprio lodo em trocadores de calor externos e reintroduzido no digestor. recirculação de gás. Digestores secundários No digestor primário grande parte do material sólido do lodo bruto é convertido em substâncias líquidas que devem ser removidas antes de encaminhá-lo à seca- gem ou ao destino fi nal. Essa separação é feita em tanques abertos, não-homogeneizados, denominados digestores secundários. O líquido removido, denominado sobrenadante, não deve ser descarregado diretamente no corpo receptor, pois iria exercer uma demanda elevadíssima de oxigênio. Em geral ele é encaminhado à entrada da ETE. A despeito de seu nome, a função dos digestores secundários não é promover a digestão, que é realizada inteiramente nos digestores primários, mas manter o lodo digerido em repouso visando promover a separação e remoção do sobrenadante e o adensamento do lodo. Além disto, digestores secundários são usados para armazenar o lodo digerido antes de seu encaminhamento a tratamento posterior ou ao destino fi nal. Digestores não-homogeneizados e não-aquecidos (digestores de baixa capa- cidade) devem reter o lodo por um período de 30 a 60d. Unidades aquecidas e homogeneizadas podem promover a chamada digestão de alta capacidade em um período de 10 a 20d. 186 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo A digestão anaeróbia é, portanto, ideal para estabilizar lodo primário ou lodo misto. É um processo efi ciente, barato e de tecnologia fartamente conhecida em todo o mundo. Tanto o gás como o próprio lodo digerido podem ser aproveitados, o primeiro como combustível e o segundo como fertilizante. Seu único inconveniente é o grande volume exigido pelos digestores. Digestão aeróbia A digestão aeróbia consiste na estabilização da matéria orgânica contida no lodo através do metabolismo de organismos aeróbios. Para tanto, basta fornecer oxigênio ao lodo por um período sufi cientemente longo (cerca de 10d) em um tanque homogeneizado, o digestor aeróbio. Ela se processa da seguinte forma: Inicialmente a matéria orgânica presente no lodo é metabolizada pelos organismos presentes. Parte dela é oxidada para produção de energia (com liberação de CO 2 e água) e parte é incorporada ao material celular dos microrganismosque proliferam rapida- mente devido à abundância de alimento e grande disponibilidade de oxigênio. Em seguida, ao se esgotar o alimento disponível, os organismos passam a metabolizar seu próprio material celular através do fenômeno conhecido por respiração endógena. O resultado é um lodo estável, que seca com facilidade e apresenta volume reduzido. A concentração de patogênicos é extremamente baixa. Esse processo, ao contrário da digestão anaeróbia, consome ponderável quantidade de energia. Entretanto, dispensa a cobertura dos tanques e pode ocorrer em unidades de volume proporcionalmente menor. Embora lodos primários ou mistos possam ser digeridos aerobiamente, este processo é aconselhável especialmente para excesso de lodo. Há instalações de lodos ativados onde o lodo primário é digerido anaerobiamente e o ex- cesso de lodo, aerobiamente. Tratamento térmico O tratamento térmico para a estabilização consiste, fundamentalmente, em “cozinhar” o lodo sob alta pressão (cerca de 20kg/cm²) e elevada temperatura (cerca de 200ºC), por um período de 20 a 30min. Esse procedimento rompe as células dos organismos constituintes do fl oco de excesso de lodo liberando o citossoma, além de reduzir as moléculas orgânicas mais complexas do lodo primário a formas mais estáveis. O lodo resultante é muito estável e seca com facilidade. SENAI-RJ 187 Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo Esse processo apresenta, entretanto, dois inconvenientes graves: o líquido resultante é extremamente agressivo (COD na faixa de 16.000 a 30.000mg/L) e pode constituir enorme sobrecarga para ETE ; e a elevada pressão necessária para “cozinhar” o lodo tem causado acidentes graves, em alguns casos, a morte de operadores. Existem três processos patenteados para tratamento térmico, a saber: Porteus, Zimpro e Ferrer, que diferem entre si apenas em detalhes operacionais e em faixas de pressão adotadas. Mas devido a seus inconvenientes a estabilização térmica é pouco utilizada. Tratamento químico A estabilização química consiste no bloqueio da atividade biológica no lodo através da adição de um composto químico que inibe a ação metabólica dos organismos, impedindo assim o prosseguimento da putrefação da matéria orgânica. A inibição é feita adicionando cal ou cloro. Em ambos os casos a concentração de patogênicos é extremamente reduzida e o lodo pode ser submetido à secagem natural sem inconvenientes. A adição de cloro difi culta a secagem artifi cial, pois interfere nos condicionantes quími- cos, enquanto a de cal facilita esse tipo de secagem. Para atingir o objetivo pretendido, deve-se adicionar cal até obter pH em torno de 12 ou cerca de 2.000mg/L de cloro. Compostagem Consiste em promover a estabilização da matéria orgânica do lodo, seja sozinho, ou mis- turado com o lixo urbano, por meio de um processo de decomposição controlada. Esse processo gera um produto fi nal que é utilizado como fertilizante de boa qualidade. O processo ocorre ao ar livre em montes de lodo constantemente revolvidos ou em reatores biológicos nos quais se fazem a injeção de ar e o controle da temperatura e também a injeção de lodo com cerca de 70% de umidade e de um produto que funcione como fonte de carbono, ou seja, serragem, gravetos ou lixo urbano catado. Nesse caso, o processo só é viável se atender os seguintes requisitos: a usina de compostagem deve estar situada próxima à ETE; e as autoridades responsáveis pelo tratamento de esgotos e lixo devem manter bom relacionamento e interesse pelo fertilizante produzido. 188 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo 9.4.2 Condicionamento Entende-se por condicionamento o pré-tratamento do lodo visando a modifi cação de suas características de forma a facilitar a operação subseqüente na linha de tratamento. Portanto, trata-se de uma preparação para a operação seguinte. A rigor, a própria estabilização seria, segundo esse aspecto, uma operação de condicionamento, posto que facilita a secagem. Não é, entretanto, assim considerada, porque o seu principal objetivo é outro, conforme já visto. Espessamento O espessamento é a operação unitária destinada a aumentar a concentração de sólidos em suspensão no lodo por meio da remoção de parte da água nele contida. Seu objetivo é reduzir o volume do lodo visando facilitar as operações subseqüentes. Geralmente, o espessamento é utilizado antes das operações de digestão ou secagem. Como a secagem, trata-se de uma técnica destinada, primordialmente, a reduzir o volume do lodo através da remoção parcial da umidade. O que distingue o espessamento da secagem é o teor de sólidos do lodo resultante: considera-se que o lodo foi espessado quando, após o processo, ele ainda pode ser bombeado. Portanto, a operação de espessamento gera um lodo com até 10% de sólidos (geralmente com muito menos) já que com menos de 90% de água o bombeamento já se torna bastante difícil. A operação que resulta em lodo com menos de 85% de umidade é denomi- nada secagem conforme veremos mais adiante. Na verdade, o espessamento é extremamente efi ciente no que concerne à redução do volume de lodo. Vejamos, como exemplo, um lodo primário removido do decantador com aproximadamente 97% de umidade, valor muito comum na prática. Suponhamos que, por meio de um espessamento, a umidade foi reduzida destes 97% até 91%. Uma redução, portanto, de apenas 6% de umidade. Não obstante, esta aparentemente pequena redução dos valores porcentuais corresponde a uma signifi cativa redução do volume. Com efeito, no caso usado como exemplo, o lodo espessado apresenta um volume correspon- dente a um terço do valor original. Podemos entender melhor o fato lembrando que: a massa de sólidos permaneceu a mesma; em 100kg de lodo a 97% de umidade há 3kg de sólidos e 97L de água; SENAI-RJ 189 Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo o espessamento corresponde a uma remoção da água e não de sólidos; assim, após o adensamento, teremos ainda os mesmos 3kg de sólidos que, agora, corresponderão a 9% do total (já que a água agora corresponde a 91%); estes 91% corresponderão, nessa nova situação, a 30,3L de água (calcule por meio de uma regra-de-três simples); e portanto, o volume total de lodo adensado será, então, de aproximadamente 33,3L (30,3L de água somados a cerca 3L de sólidos) que corresponde a 1/3 do volume original. O espessamento dos lodos pode ser feito por gravidade, por fl otação ou por centrifugação. Espessamento por gravidade Se processa em unidades de tratamento semelhantes a decantadores primários mecanizados. Na verdade trata-se da mesma operação unitária na qual o objetivo principal é a concentração dos sólidos no fundo em vez da clarifi cação do líquido sobrenadante. O modelo teórico do fenômeno é a chamada sedimentação zonal. A efi ciência do processo depende decisivamente do tipo de lodo. Lodo primário cru ou digerido pode ser espessado por gravidade até cerca de 10% de sólidos (ou 90% de umi- dade), enquanto para o lodo misto não se deve esperar mais que 5% a 8% de sólidos (95% a 92% de umidade). Já o espessamento por gravidade do excesso de lodo ativado difi cilmente pode gerar um lodo com teor de sólidos superior a 4% (ou umidade inferior a 96%). Espessadores por gravidade são muito utilizados para reduzir o volume de lodo primário ou misto antes da digestão anaeróbia, pois propiciam notável diminuição do volume dos digestores primários. O líquido sobrenadante desses espessadores deve ser encaminhado à entrada da ETE. Espessamento por fl otação O espessamento por fl otação é indicado para concentrar partículas em suspensão que sejam mais facilmente levadas a fl utuar do quea se dirigir ao fundo. Por isto é uma operação unitária particularmente indicada para espessar excesso de lodo, que pode ter a umidade reduzida para valores inferiores a 96%. Se considerarmos que o excesso de lodo removido do processo biológico apresenta, em geral, cerca de 99% de umidade, constatamos que a redução pode chegar a um quarto do volume original. 190 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo A fl otação pode ser compreendida como uma sedimentação “de cabeça para baixo”, na qual as partículas são levadas a fl utuar pela ação de bolhas de ar a elas adsorvidas. A técnica mais comumente empregada para a formação dessas bolhas de ar na massa líquida consiste em dissolver o ar à alta pressão (cerca de 3atm) em parte do próprio efl uente do tanque, que é então reciclado e liberado à pressão atmosférica no interior do mesmo. À brusca redução da pressão irá corresponder uma diminuição na solubilidade do ar, que se desprende sob a forma de pequenas bolhas gasosas. Em seu movimento ascendente estas bolhas acabam adsorvendo e arrastando para cima as partículas de sólidos em sus- pensão, promovendo, assim, a concentração destes sólidos junto à superfície líquida, de onde são levados para fora da unidade através de raspadores mecânicos superfi ciais. Essa técnica é denominada fl otação por ar dissolvido, sendo especialmente indicada para o espessamento de lodos de má sedimentabilidade, como os oriundos de certas variantes dos lodos ativados. Espessamento por centrifugação Os lodos podem ainda ser espessados por centrifugação, especialmente quando constituídos por partículas leves que não se compactam com facilidade. Entretanto, se comparada com os demais métodos de espessamento, a centrifugação se mostra pouco atraente devido aos custos do equipamento e os elevados gastos de energia. A centrifugação é mais utilizada para secagem do lodo, como veremos adiante. Condicionamento químico Consiste na adição de compostos químicos visando facilitar a operação de remoção de umidade. É utilizado com maior freqüência à montante das operações de secagem mecânica e espessamento, especialmente quando se usa o espessamento por fl otação a ar dissolvido ou centrifugação. Os compostos químicos utilizados podem ser: coagulantes (em geral os mesmos classicamente adotados como auxiliares na decan- tação: cal, cloreto férrico, sulfato de alumínio, etc.). Atuam sobre as cargas elétricas que circundam as partículas em suspensão, permitindo que a força de atração entre as partículas (atração de Van de Vaals) predomine sobre a força de repulsão (potencial Zeta), aglomerando pequenas partículas em fl ocos maiores; ou polieletrólitos: compostos orgânicos cujas moléculas são extremamente longas e com- plexas. Agem através da neutralização das cargas superfi ciais de minúsculas partículas SENAI-RJ 191 Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo em suspensão, formando elos de união entre partículas que se comportam como núcleos de fl oculação e agregando, em fl ocos, um grande número de pequenas partículas. Os fl ocos formados seja pela coagulação química, ou pela utilização de polieletrólitos, resultam na formação de “tortas” de baixa resistência à fi ltragem durante as operações de secagem artifi cial. Existem técnicas de laboratório destinadas a determinar o tipo e a dosagem ótima de aditivos químicos. Entretanto, com o uso cada vez mais amplo de técnicas de tratamento de lodo que exigem o condicionamento químico e a conseqüente abundância de tipos de aditivo disponíveis, o mais aconselhável é o teste direto em instalações piloto. Elutriação Consiste na lavagem do lodo para remover partículas minúsculas em suspensão, além de reduzir a alcalinidade e remover certos compostos químicos que difi cultam a secagem, impe- dem ou reduzem a ação de coagulantes químicos. Trata-se de uma técnica praticamente em desuso. Quando empregada, é usada após a digestão anaeróbia visando facilitar a secagem artifi cial. De forma semelhante a dos espessadores por gravidade, a elutriação se processa em tanques nos quais são introduzidos lodo e água de lavagem (retirada do corpo receptor ou, normalmente, o próprio efl uente da ETE) em uma proporção de 1:2, para que as partículas possam sedimentar. A elutriação diminui sensivelmente o consumo de condicionantes químicos, mas tende a remover do lodo uma considerável fração dos compostos nitrogenados, diminuindo assim a sua ação fertilizante. O líquido sobrenadante dos tanques de elutriação deve ser encaminhado à entrada da ETE. É justamente esse fato que constitui a principal desvantagem da técnica, pois esse líquido car- rega uma concentração relativamente alta de sólidos fi nos em suspensão e, em conseqüência, pode implicar severa sobrecarga à ETE. Condicionamento térmico Consiste na aplicação da técnica conhecida por pasteurização, para remover organismos patogênicos do lodo cru ou digerido. 192 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo Esta técnica consiste na elevação da temperatura do lodo até cerca de 75ºC, mantendo-a neste patamar por cerca de 1 hora e, em seguida, abaixá-la bruscamente. Desta forma, é pos- sível reduzir a concentração de coliformes para valores inferiores a 10³coli/100ml. A pasteurização é muito efi ciente, embora raramente seja utilizada devido ao custo elevado. O tratamento térmico para estabilização do lodo anteriormente descrito pode ser considerado como condicionamento, posto que facilita a operação de secagem, embora não seja este seu principal objetivo. 9.4.3 Remoção de umidade A remoção de umidade ou secagem tem por fi nalidade reduzir o volume do lodo a fi m de adequá-lo a certos métodos de disposição fi nal, como incineração, aterro sanitário, etc., além de reduzir os custos de transporte. Considera-se “seco” o lodo com cerca de 25% de sólidos (75% de umidade). Nestas condições o lodo pode ser até mesmo pulverizado para espalhamento no terreno. Com teores de umidade próximos a 80% o lodo se comporta como um sólido e apresenta consistência semelhante à da massa plástica para modelar. Secagem natural Entre todos os métodos utilizados, a secagem natural do lodo é o mais antigo e barato. Ele se processa em unidades de tratamento denominadas leitos de secagem, que consistem em tanques rasos de piso drenante nos quais se descarrega o lodo úmido até uma altura de cerca de 30cm. O piso do leito de secagem é, em geral, formado por tijolos maciços com juntas de 2,5cm tomadas com areia, assentados sobre uma camada de pedra britada (cuja granulometria au- menta de cima para baixo) disposta sobre um fundo inclinado impermeável. Parte do líquido intersticial do lodo se dirige para baixo, penetra no piso drenante e é removido do leito de secagem por gravidade, sendo encaminhado à entrada da ETE. Parte da umidade restante se evapora e o lodo pode ser removido do leito com teores de umidade inferiores a 70%. A secagem natural depende das condições climáticas, principalmente dos valores da evaporação e precipitação médias anuais. SENAI-RJ 193 Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo Para as condições médias vigentes no Brasil pode-se avaliar o período de secagem nos leitos em cerca de 20 dias. A secagem natural exige estabilização prévia. Lodos crus não secam com facilidade e tendem a entrar em decomposição nos leitos, gerando problemas sanitários e estéticos muito sérios. Os leitos de secagem exigem o emprego de muita mão-de-obra para remoção do lodo seco, além de ocuparem uma área elevadíssima se comparados às técnicas de secagem mecânica. Entretanto, sempre que possível, devem ser preferidos devido à sua simplicidade operacional eà qualidade do lodo gerado. Não é por acaso que, em todo o mundo, há milhares de instalações de tratamento de pequeno, médio e grande porte utilizando para tratamento do lodo apenas a digestão anaeróbia seguida de secagem natural e utilização do lodo seco como fertilizante. Secagem artifi cial Quando há carência de área para a utilização da secagem natural, custo de mão-de-obra elevado ou condições climáticas inadequadas pode-se adotar a secagem artifi cial, que é feita em fi ltros a vácuo, fi ltros prensa, ou centrífugas. Em todos os casos são utilizadas unidades mecânicas de custo inicial elevado, com ope- ração e manutenção caras e trabalhosas, que exigem sempre o condicionamento do lodo. Em contrapartida, a área ocupada é irrisória se comparada à dos leitos de secagem. Além disso, a secagem artifi cial não depende das condições climáticas, exigem menos mão-de-obra (embora mais especializada) e podem receber lodo cru ou estabilizado, variando-se apenas a dosagem de condicionante químico. Filtros a vácuo Consistem em tambores rotativos perfurados e cobertos por um meio fi ltrante, formado por tecido ou tela metálico, no interior do qual é feito o vácuo parcial. O tambor gira parcialmente imerso em um tanque no qual o lodo é introduzido e adere ao meio fi ltrante em virtude do efeito de sucção provocado pelo vácuo do interior do tambor. Esse mesmo efeito faz com que a água seja sugada para o interior do tambor, deixando o lodo aderido ao meio fi ltrante. Pouco antes de penetrar novamente no tanque de lodo o meio fi ltrante é afastado da face do tambor por meio de dispositivos mecânicos convenientemente posicionados, o 194 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo que faz a torta do lodo perder a aderência, facilitando sua remoção através de raspagem com lâmina metálica. O lodo seco em fi ltros a vácuo pode se apresentar com até 30% de sólidos dependendo dos seguintes fatores: meio fi ltrante; tipo de lodo; e tipo e dosagem do condicionante químico utilizado. A qualidade do fi ltrado (líquido removido do lodo) depende, também, dos fatores acima; ele pode ser tão agressivo que um tratamento separado pode ser necessário. Filtros prensa São unidades mecânicas compostas por placas metálicas justapostas, perfuradas, forra- das por um meio fi ltrante de tecido especial, que deixam espaços vazios entre as placas. As placas são dotadas de molduras metálicas que, quando pressionadas umas contra as outras, vedam completamente o vão deixado entre elas, impedindo a passagem de líquido. O lodo é, então, bombeado à alta pressão (cerca de 250psi) para estes vãos através de orifícios no centro de cada placa. Não podendo se evadir por entre as molduras das placas, o líquido é forçado a atravessar o meio fi ltrante e a escoar por perfurações conveniente- mente dispostas nas próprias placas, fi cando o lodo seco retido entre elas. Após um determinado período, cessa o bombeamento e as placas são afastadas: as tortas de lodo formadas entre as placas caem em uma esteira rolante ou caçamba apropriada, as placas se justapõem novamente e o processo recomeça. Em relação aos fi ltros a vácuo, os fi ltros à pressão apresentam as desvantagens de exigir maior emprego de mão-de-obra e utilizar a operação em batelada. Em contrapartida, para o mesmo tipo de lodo, em geral apresentam um fi l- trado de melhor qualidade e uma torta com maior teor de sólidos, podendo chegar até 40%. SENAI-RJ 195 Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo Centrifugação A secagem de lodos por centrifugação se processa, na maioria dos casos, em centrífu- gas tipo “copo” ligeiramente cônico, de eixo horizontal, que gira em alta velocidade em operação contínua. O lodo úmido é introduzido através do eixo central e é impelido na direção da parede do cilindro por ação da força centrífuga. Os sólidos mais pesados se acumulam junto à parede; o líquido permanece mais afastado da parede e fl ui para a extremidade oposta ao ponto de ingresso do lodo por efeito da ligeira conicidade do “copo”. A remoção do lodo pela outra extremidade é feita por meio de um parafuso sem-fi m que gira com velocidade ligeiramente menor que o “copo” e em seu interior, quase tocando sua parede interna. Este dispositivo empurra o lodo para junto de uma das extremidades do “copo” de onde é expelido pela própria rotação do mesmo. As centrífugas difi cilmente produzem uma torta com umidade inferior a 75%. O líqui- do efl uente pode ser muito agressivo e essa agressividade varia inversamente em relação à umidade da torta, ou seja, quanto menos úmido o lodo produzido, mais agressivo o líquido efl uente. As centrífugas exigem constante manutenção e condicionamento químico do lodo. 9.5 Disposição fi nal A disposição fi nal do lodo deve ser feita de forma a satisfazer os seguintes requisitos: não poluir o ar ou a água; ser economicamente viável; conservar a matéria orgânica para reutilização (reciclagem); e ser uma solução permanente. Nem sempre é possível preencher todos os requisitos citados. A incineração, por exemplo, satisfaz o quarto requisito e pode igualmente satisfazer o primeiro e o segundo, se tomados os cui- dados convenientes, porém não atende o terceiro. O lançamento do lodo em minas abandonadas 196 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo ou o preenchimento de cavidades do terreno pode satisfazer os três primeiros, mas não o úl- timo. Portanto, é preciso escolher uma solução capaz de atender de forma satisfatória o maior número possível de requisitos, lembrando que os dois primeiros são obrigatórios. O tratamento de despejos é uma atividade voltada especifi camente para o controle da poluição; por isso, não é compreensível nem aceitável que ela possa gerar efeitos contrários ao seu próprio objetivo. Assim, qualquer que seja o método empregado para a disposição fi nal dos lodos, devem ser tomadas precauções que impeçam uma agressão ao ambiente ou à saúde do homem e dos animais. Já foi mencionado que a disposição fi nal do lodo pode ser feita na atmosfera, em corpos líquidos e no solo. No primeiro caso é usada a incineração e as precauções devem se voltar principalmente para a emissão de gases e partículas (poluição do ar). Se for em corpos líqui- dos, deve-se evitar prejuízo aos usos benéfi cos da água, impedindo sua poluição. Finalmente, se adotada a disposição fi nal no solo, deve-se prevenir a emissão de gases e maus odores, a poluição das águas superfi ciais e do subsolo, além da contaminação de colheitas e do próprio solo, conforme veremos a seguir. 9.5.1 Disposição fi nal na atmosfera Os sólidos presentes no lodo cru ou digerido são constituídos, principalmente, por matéria orgânica. Quando submetidos à remoção de umidade até um grau sufi ciente, podem ser leva- dos à combustão, gerando uma quantidade extremamente pequena de resíduo inerte. Tanto o lodo digerido quanto o lodo cru podem sustentar o processo sem necessidade da adição de combustíveis, dependendo apenas de seu teor de umidade. Assim, quanto mais efi ciente o processo de remoção de umidade, mais econômica será a incineração. O poder calorífi co do lodo deve ser sufi ciente para fornecer energia necessária à eliminação completa da água remanescente. O poder calorífi co do lodo varia grandemente em função de sua origem, tipo, condiciona- mento e composição, havendo fórmulas empíricas que fornecem seu valor aproximado baseadas seja na composição do lodo, no conteúdo de sólidos voláteis, ou na dosagem de coagulantes utilizados nos processos de condicionamento. Sempre que se pretende incinerar lodo, o seu poder calorífi co deve ser determinado experimentalmente. Emgeral, o poder calorífi co do lodo cru em relação à massa de sólidos secos se situa em torno de 4.500cal/g e do lodo digerido em cerca de 2.500cal/g. SENAI-RJ 197 Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo Normalmente a incineração se processa em fornos de múltiplos estágios ou em fornalhas de leito fl uidizado. Forno de múltiplos estágios O forno de múltiplos estágios consiste em uma estrutura cilíndrica, vertical, composta por vários estágios ou andares. Funciona da seguinte forma: o lodo seco, com teor de umidade inferior a 70%, é introduzido no nível superior e vai sendo empurrado por dispositivos mecânicos para os estágios inferiores; o ar, previamente aquecido, é introduzido junto ao estágio inferior e fl ui de baixo para cima; nos estágios ou “andares” superiores se processam a vaporização da umidade e o esfriamento dos gases; os compostos voláteis do lodo entram em combustão nos estágios intermediários; nos estágios inferiores são processados a queima lenta dos compostos de difícil com- bustão e o arrefecimento da cinzas, que são retiradas por uma abertura inferior; a temperatura no interior da fornalha varia de: - cerca de 55ºC nos estágios superiores; - 900ºC a 1.000ºC nos estágios intermediários; e - cerca de 350ºC nos estágios inferiores. No mercado, existem unidades com capacidades de 5 a 1.200t/d de lodo. A cinza é inteiramente inerte e pode ser usada como agregado leve para concreto ou ser levada ao mesmo destino do lixo urbano. Leito fl uidizado O leito fl uidizado consiste em um recipiente que contém um leito de areia sobre o qual o lodo seco é introduzido. A areia é previamente aquecida até cerca de 800ºC. A combustão do material volátil do lodo e, se necessário, do combustível utilizado, provoca um fl uxo ascendente do ar introduzido na parte inferior do recipiente, além de gases oriundos da combustão, que mantêm o conteúdo homogêneo, sem necessidade de equipamento de mistura. 198 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo Seja qual for o tipo de equipamento utilizado, é necessário que nele seja introduzido um volume de ar sufi ciente para suprir o oxigênio necessário à combustão. Além disso, devem ser in- stalados dispositivos de controle de emissão de partículas para evitar a poluição atmosférica. 9.5.2 Disposição fi nal em corpos líquidos Em geral, o lançamento de lodo em corpos líquidos deve se restringir ao lançamento ao mar de lodo digerido, evitando-se o lançamento nos demais ecossistemas hidráulicos. Mesmo no mar, o lançamento de lodo cru deve ser evitado ou, ao menos, cercado de extremos cuidados e sob permanente monitoramento. O lançamento deve ser feito em locais em que ocorram correntes fortes, capazes de provocar a diluição rápida e a absorção do lodo pelo ambiente aquático. Deve ser evitado o lançamento ao mar fora da plataforma continental por meio de longas linhas de recalque que descarreguem à grande profundidade, pois o equilíbrio ecológico das águas profundas é extremamente frágil. Por conseguinte, o lançamento desse lodo pode ter efeitos desastrosos. O lançamento ao mar pode ser feito por: tubulações submersas – o lodo é bombeado diretamente para a tubulação, após a digestão. A monitoração do processo é feita através de inspeções freqüentes. Já o dimensionamento do sistema deve ser feito de forma semelhante ao do lançamento submarino de esgotos, isto é, devem ser considerados os seguintes fatores: - a diluição inicial; - a dispersão oceânica; - o decaimento bacteriano; e - as características das águas receptoras. barcaças – o lançamento deve ser feito em local previamente demarcado e, como no caso anterior, submetido à inspeções freqüentes visando monitorar o processo. O lodo pode ter sua umidade previamente removida, devendo ser feito um balanço de custos entre o transporte do lodo úmido e os processos de remoção de umidade. Freqüentemente, um simples espessamento por gravidade, às vezes nas próprias lagoas de lodo, é sufi ciente para minimizar os custos. Quando as condições são favoráveis, o lançamento ao mar de lodo digerido é, geralmente, o método mais econômico para disposição fi nal. SENAI-RJ 199 Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo 9.5.3 Disposição fi nal sobre o solo O lançamento do lodo sobre o terreno é o processo mais antigo adotado pelo homem, e também o mais difundido. Talvez seja o mais racional no que se refere à utilização de recursos naturais. Isso porque o lodo pode reciclar para o ambiente a matéria orgânica nele contida. Logo, esse tipo de lançamento pode ser considerado ideal do ponto de vista ecológico. Você sabia que na Inglaterra, em 1865, a primeira Comissão Real Sobre a Dis- posição de Esgotos concluiu que a maneira correta de se dispor dos esgotos das cidades é aplicá-los continuamente ao solo? Quando a disposição do lodo no solo não tem a fi nalidade de aproveitá-lo como fertili- zante, para evitar danos à saúde humana devem ser tomadas algumas precauções ainda que rudimentares posto que são pequenos os riscos de contato com o lodo. Este é o caso do lança- mento em minas abandonadas ou cavidades do terreno e lagoas de lodo, em que se pretende, apenas, dar um destino ao resíduo constituído pelo lodo, ou seja, mantê-lo para sempre em um determinado local conforme veremos mais adiante. Uso do lodo como fertilizante Quando se pretende utilizar o lodo como fertilizante ou recuperador de solos, o risco de contato direto ou indireto com o homem exige que sejam tomadas medidas de proteção mais rigorosas, sobretudo no que concerne à possível presença de organismos patogênicos e metais pesados. Este é o caso do uso agrícola por irrigação superfi cial, subsuperfi cial, espalhamento de lodo seco ou aterro sanitário. A disposição no terreno exige, na quase totalidade dos casos, a prévia estabilização do lodo com a conseqüente redução das bactérias patogênicas. Entretanto, a sobrevivência dos vírus e de ovos de helmintos, assim como das bactérias remanescentes, desaconselha o uso do lodo após simples digestão como fertilizante para verduras a ser ingeridas cruas ou em circunstân- cias que propiciem a contaminação das águas subterrâneas. Nestes casos é preciso adotar um método de tratamento que permita a eliminação de patogênicos, como o tratamento térmico, a pasteurização, ou o tratamento químico com cal, cloro ou compostagem. A remoção da umidade do lodo antes da disposição no solo para uso como fertilizante não é obrigatória e visa, exclusivamente, a redução de volume para diminuir os custos do trans- porte. Portanto, dependendo de estudo econômico, esta remoção pode ser feita das seguintes formas: 200 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo até o nível de um simples espessamento – para o lodo ser transportado por bombea- mento ou caminhões tanques; até a secagem – para o lodo ser transportado por caminhões, carretas, ou correias transportadoras. O lodo estabilizado pode ser aplicado em quase todos os tipos de solo, com signifi cativo aumento da produtividade e praticamente sem efeitos indesejáveis. Sua ação benéfi ca é devida à adição de matéria orgânica. Porém não deve ser considerado como adubo, na acepção do termo, mas, sim, como um condicionador de solos. Em relação ao conteúdo de fósforo, o lodo proveniente do esgoto doméstico é, em geral, excessivamente rico em nitrogênio e muito pobre em potássio. O método adotado para aplicação ao solo depende do teor de umidade do lodo a ser utilizado, isto é: com teores acima de 90% os lodos podem ser espargidos sobre o terreno empregando as mesmas técnicas utilizadas para irrigação, ou bombeados para o subsolo, onde se infi ltram.Podem ainda ser espalhados diretamente sobre o terreno por meio de caminhões-tanques especiais, que também podem ser utilizados para o transporte; e com teores abaixo de 70% os lodos podem ser pulverizados e espalhados sobre o ter- reno. Essa é a técnica mais difundida em todo o mundo e, geralmente, utiliza lodo primário ou lodo misto, estabilizado em digestores anaeróbios e seco em leitos de secagem. Lançamento em cavidades do terreno Geralmente, o lançamento do lodo em cavidades do terreno ou minas abandonadas é feito após estabilização e remoção da umidade e visa exclusivamente dar um destino fi nal ao material. No caso de grandes cavidades artifi ciais abertas para a remoção de areia, saibro, ou que sejam provenientes da exploração de minas (geralmente de carvão) a céu aberto, pode-se considerar o benefício, a longo prazo, da recuperação do terreno, ao menos do ponto de vista estético. Mas esta situação não pode ser considerada solução permanente, pois a atividade deverá ser interrompida tão logo as cavidades venham a se encher. Além disso, não promove a reciclagem da matéria orgânica. SENAI-RJ 201 Tratamento de esgotos - Tratamento do lodo Lagoas de lodo Uma solução que pode vir a ser extraordinariamente econômica é o aproveitamento de cavidades ou minas existentes nas proximidades das estações de tratamento. Se, ao invés do lodo seco, essas cavidades receberem lodo estabilizado com elevado teor de umidade, se constituirão em lagoas de lodo. As lagoas de lodo podem ser limitadas por diques artifi ciais. Para elas, não há limite de área ou de profundidade, pois irão se constituir apenas em depósitos destinados à acumulação temporária ou permanentemente do lodo. No último caso o terreno pode ser considerado per- dido, porque a remoção posterior de todo o lodo de uma lagoa é extremamente cara e difícil. Aterros sanitários A disposição fi nal em aterros sanitários exige que o lodo seja seco, embora não obriga- toriamente estabilizado. Entretanto as difi culdades para secagem do lodo cru fazem com que, na grande maioria dos casos, o lodo lançado em aterros seja estabilizado. Em geral, o aterro é feito com lixo e lodo e a técnica empregada é a mesma utilizada em aterros sanitários com lixo urbano, ou seja, espalha-se uma camada do material e sobre ela uma camada de terra. As camadas sucessivas são compactadas. Decorridos cerca de 20 anos, após terminado o aterro, o terreno pode ser utilizado para a construção. 10 Nesta unidade... Noções de manutenção e operação de equipamentos para tratamento de esgotos Instalações elétricas Equipamentos SENAI-RJ 205 Tratamento de esgotos - Noções de manutenção e operação de equipamentos para tratamento de esgotos 10. Noções de manutenção e operação de equipamentos para tratamento de esgotos Costuma-se defi nir manutenção como um conjunto de ações que permite manter ou restabelecer um bem em condições de funcionamento. Com base nesse conceito, entendemos que a implantação de um serviço de manutenção requer o estabelecimento de uma estrutura organizacional treinada e equipada para minimizar as causas das indisponibilidades no âm- bito do processo produtivo, garantindo o pleno funcionamento de um bem qualquer, durante a vigência de seu tempo de vida útil estimado. Além dessa função, há outra muito importante, que é garantir as condições necessárias para a segurança e o bem-estar dos operadores. Em uma estação de tratamento de esgotos, como em qualquer outro processo de produção industrial, a função manutenção deve ser exercida por uma equipe qualifi cada e destinada especifi camente à realização desse serviço. O operador de uma ETE, por exemplo, tem o dever de auxiliar na conservação dos equipamentos, operando-os de acordo com os procedimentos determinados pelos fabricantes, e também identifi car anormalidades em seu funcionamento, comunicando-as aos responsáveis pelo setor de manutenção. Portanto, para desempenhar essa função, é preciso ter conhecimentos básicos acerca do manuseio correto e do funcionamento dos equipamentos, bem como do sistema de tratamento de esgoto como um todo. Do ponto de vista dos equipamentos, podemos caracterizar resumidamente o funciona- mento de uma estação de tratamento como um conjunto de instalações elétricas, hidráulicas e mecânicas, que proporciona os meios necessários para a operação de tratamento de esgotos. A seguir, vamos apresentar os conceitos básicos que você precisa dominar para com- preender o funcionamento das instalações e dos equipamentos de uma ETE e, assim, poder identifi car possíveis anormalidades operacionais na estação. 206 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Noções de manutenção e operação de equipamentos para tratamento de esgotos 10.1 Instalações elétricas O objetivo das instalações elétricas é fornecer energia necessária ao funcionamento dos equipamentos, à iluminação, e a outros propósitos, em geral, de apoio à ETE. Basicamente, a instalação elétrica se inicia no ponto de alimentação da concessionária. Para pequenas instalações, a tensão de alimentação é de 220V. Já em estações de grande porte, é usual o for- necimento da energia em alta tensão (13.800 a 69.000V). Ao fi nal, a energia é conduzida aos motores elétricos de bombas e de outros equipamentos e, também, aos demais consumidores de uma planta (iluminação, sistemas de proteção contra incêndio, sistemas de comunicação, sistemas de controle e supervisão, dentre outros). 10.1.1 Subestação Uma subestação é composta, basicamente, de: um elemento de medição de energia elétrica; disjuntores e chaves seccionadoras; sistema de proteção (relés); cubículos metálicos para o confi namento das partes energizadas; e transformadores. A norma regulamentadora NR-10 – Segurança em instalações e serviços em eletricidade –, estabelecida em portaria nº 598 de 07/12/2004, dispõe sobre diretrizes básicas para a implementação de medidas de controle e sistema preventivo, destinado a garantir a segurança e a saúde dos trabalhadores que direta ou indiretamente interajam em instalações elétricas. Procure orientações do chefe da manutenção sobre o que pode e o que não pode ser feito pelos operadores em subestações e em áreas de risco elétrico. SENAI-RJ 207 Tratamento de esgotos - Noções de manutenção e operação de equipamentos para tratamento de esgotos Identifi cação de anormalidades Algumas anormalidades podem ser reconhecidas até mesmo por pessoa não-qualifi cada. São elas: incandescência de contatos de chaves ou barramentos - indica mau contato elétrico, podendo resultar em interrupções nos circuitos de força, ou falhas por superaqueci- mento nos demais elementos da subestação; disjuntores - principais responsáveis pelo seccionamento da alimentação de uma subestação, podem apresentar vazamento de óleo isolante e, conseqüentemente, riscos de explosão; transformadores - esse tipo de equipamento também apresenta óleo como meio isolante. O vazamento de óleo é de fácil reconhecimento e extremamente perigoso, podendo provocar explosão do equipamento, quando há falha em seu sistema de proteção; e relés de proteção dos cubículos das subestações - destinam-se ao monitoramento da corrente elétrica e tensão do sistema, comparando os valores medidos com os parâmetros estabelecidos como normais. Quando um parâmetro medido é superior ao valor adotado como normal, caracterizando uma falha do sistema, um sinal é en- viado ao disjuntor para que se proceda a sua abertura, a fi m de evitar danos maiores na instalação elétrica e nos equipamentos. Esse procedimento é realizado através de um sistema de corrente contínua independente, composto por retificador e bateria. A ausência de sinalização nos relés (leds ou medidores apagados) e bateria com nível baixo de solução indicam falhas graves, que devem ser comuni- cadas imediatamente ao setor de manutenção. 10.1.2 Painéis elétricos São dispositivos nos quais pode-se operar os diversos equipamentos do processo de trata- mento, através do acionamento de chaves seletoras, botões de comando e do monitoramento dos parâmetros de controle, apresentados em diversos tipos de medidores, instalados no painel, sendo os principais: voltímetros, amperímetros, medidores de vazão e medidores de nível. 208 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Noções de manutenção e operação de equipamentos para tratamento de esgotos Identifi cação de anormalidades Condições anormais são anunciadas por alarmes visuais ou sonoros, tais como: alarme de sobrecarga - indica solicitações acima do permitido para um determinado equipamento; alarme de temperatura alta - indica falhas elétricas, atritos mecânicos indesejáveis, ou resultado de sobrecargas; alarme de nível alto - indica níveis perigosamente altos (risco de extravasamento) ou baixos (risco de danos em bombas) em poços contendo esgoto ou lodo; alarme de falta de fl uxo - indica risco de danos em bombas, por falha da selagem (água), ou por superaquecimento em bombas (shut off); alarmes indicativos de outros tipos de falha. Após o alarme, segue-se, normalmente, o desligamento automático dos res- pectivos equipamentos, caso nenhuma ação seja executada para sanar a causa do alarme. 10.2 Equipamentos As estações de tratamento empregam diversos equipamentos para o processamento do esgoto bruto, tais como: comportas, grades, motores elétricos, bombas, roscas transportadoras, sopradores, raspadores, centrífugas e instrumentos de controle do processo, entre outros. Adiante comentaremos sobre esses principais equipamentos. Identifi cação de anormalidades As falhas verifi cadas nos equipamentos costumam ser variadas, mas, de uma forma genérica, podemos identifi cá-las como: vibração excessiva; elevação de temperatura; ruídos anormais; corrosão; e sujeira. SENAI-RJ 209 Tratamento de esgotos - Noções de manutenção e operação de equipamentos para tratamento de esgotos As anormalidades citadas decorrem de diversos motivos, porém, em gran- de parte, são oriundas de falhas de lubrifi cação e de desalinhamento dos equipamentos. 10.2.1 Comportas As comportas interrompem ou regulam vazões em canais. Podem ser acionadas manu- almente, através de volante com caixa redutora e eixo sem-fi m, ou de forma automática, pelo emprego de motor elétrico, de acionamento pneumático ou hidráulico. Alguns problemas que podem ser encontrados nesses equipamentos: defeito no indicador de posição; falha de vedação; e defeito em equipamentos auxiliares, tais como: compressores, unidade hidráulica, atuador pneumático ou hidráulico, motores elétricos e vazamentos de ar comprimido ou óleo, nos sistemas de alimentação dos atuadores. 10.2.2 Grades As grades retêm os sólidos grosseiros e devem ser limpas sempre que houver acúmulo excessivo de material. A falha na limpeza resulta na indesejável redução da vazão e na eleva- ção do nível à montante da grade, ocasionando perigosos transbordamentos dos canais onde estão instaladas. A operação de limpeza automática ocorre quando a diferença entre os níveis de montante e jusante da grade atinge um valor pré-especifi cado ou através do emprego de elemento tem- porizador, ou seja: a limpeza da grade (operação do rastelo) ocorre em intervalos de tempo ajustados no painel de comando. Portanto, é obrigação do operador verifi car se o tempo ajustado é compatível com a quantidade de resíduos retidos na grade neste intervalo. Principais problemas encontrados nas grades: falha nos sensores de nível; obstruções na grade (material aderido e não retirado na passagem do rastelo). 210 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Noções de manutenção e operação de equipamentos para tratamento de esgotos 10.2.3 Motores elétricos A maioria dos motores elétricos é empregada no acionamento de bombas. São também encontrados em comportas, grades mecanizadas, roscas transportadoras, compressores, sopradores, raspadores de lodo em decantadores, centrífugas, pontes rolantes e exaustores, dentre outros. Principais problemas encontrados nos motores elétricos: ausência da tampa da caixa de ligação dos cabos elétricos; ausência da ventoinha; danos no acoplamento; desalinhamento; e falhas na lubrifi cação dos mancais. 10.2.4 Bombas As bombas utilizadas nas estações de tratamento são de diversos tipos, podendo ser em- pregadas nos seguintes sistemas: esgoto bruto; lodo; água para selagem, lavagem e outros serviços; polímeros ou outros produtos químicos; e drenagem. Em geral, as bombas utilizadas nas ETEs podem ser classifi cadas de acordo com a seguinte ordem: centrífugas, de cavidade progressiva e de outros tipos. Bombas centrífugas Sua principal característica é possuir um elemento rotatório dotado de pás, denominado rotor, responsável pelo fornecimento da energia cinética ao líquido. Na voluta, a energia cinética é convertida em energia de pressão. Vários são os tipos de bombas centrífugas empregadas em estações de tratamento de esgotos, entretanto, podem ser classifi cadas, segundo a sua disposição, em bombas de eixo vertical ou de eixo horizontal. SENAI-RJ 211 Tratamento de esgotos - Noções de manutenção e operação de equipamentos para tratamento de esgotos É importante frisar para o operador que, nas centrífugas, a partida sempre deve ocorrer com a válvula de bloqueio de recalque totalmente fechada, devendo ser aberta gradualmente, mantendo a corrente do motor abaixo do valor nominal. A partida da bomba com a válvula fechada, com vazão nula (shut off), reduz a carga no eixo durante a partida do motor, e deve ser efetuada, exclusivamente, na válvula de recalque. O fechamento da válvula de sucção na partida poderá ocasionar sérios danos às bombas. Principais problemas encontrados nas bombas centrífugas: vibração excessiva; falhas na lubrifi cação dos mancais; falha na alimentação da água de selagem; e vazamento excessivo de água nas gaxetas. A vedação do eixo entre o interior da bomba e o meio externo ocorre através da caixa de gaxetas, composta por uma caixa cilíndrica que acomoda um determinado número de anéis de gaxeta em volta do eixo. Os anéis são comprimidos para o ajuste desejado, através da sobre- posta, tendo como principal função proteger a bomba contra vazamentos nos pontos onde o eixo passa através da carcaça, ou então impedir a entrada de ar (selagem), caso a pressão de sucção seja negativa. Em virtude do atrito que ocorre entre as gaxetas e o eixo, é necessário o emprego de um sistema de água para lubrifi cação da área de contato, sendo comum a existência de pequenos vazamentos (gotejamento) na caixa de gaxeta. A água oriunda da caixa de gaxeta deve ser con- duzida a um sistema de drenagem adequado. Bombas de cavidade progressiva Este é um outro tipo de bomba largamente utilizada nas estações de tratamento, em siste- mas de lodo. Nela, o eixo horizontal, do tipo parafuso helicoidal, forma espaços com a carcaça cilíndrica e com cavidades onduladas. Esses espaços se deslocam, axialmente, da aspiração para o recalque. Diferentemente das centrífugas, sua partida deverá somente ocorrer com a válvula de bloqueio de recalque aberta, caso contrário, poderá resultar em sobrecarga no motor, com a conseqüente atuação das proteções. Principais problemas encontrados nas bombas de cavidade progressiva: desalinhamentode polias ou ausência de uma ou mais correias em sistemas de transmissão; 212 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Noções de manutenção e operação de equipamentos para tratamento de esgotos obstrução interna, em virtude da existência de lodo endurecido entre o rotor e a car- caça. Nesse caso, é necessário realizar a lavagem interna da bomba para a retomada do funcionamento; e falta de água de selagem. Outros tipos de bomba Em menor número, outros tipos de bomba também são empregados em estações de tratamento, a saber: bombas parafuso; bombas de diafragma; e bombas de pistão. As bombas acima citadas, por serem de uso esporádico em ETE, não serão abordadas em nosso estudo. 10.2.5 Roscas transportadoras São estruturas metálicas, em forma de parafuso ou helicóide, destinadas à transferência de material sólido (cal, lodo seco e areia) ou pastoso (lodo desidratado), ambos difíceis de serem conduzidos por bombas. O operador deve manter-se atento para evitar o acúmulo de material retido nos mancais intermediários. Esse problema ocorre após grande período de inatividade da rosca, resultando no endurecimento do lodo acumulado nos mancais e, por conseguinte, criando resistência para o giro da rosca. 10.2.6 Sopradores Têm a função de suprir o oxigênio necessário à etapa biológica do processo aeróbio de tratamento (tanque de aeração), bem como promover a homogeneização. Possuem, na entrada de ar, dispositivos de fi ltração, visando à retirada de partículas que possam danifi car o equipamento, ou reduzir a efi ciência do processo. SENAI-RJ 213 Tratamento de esgotos - Noções de manutenção e operação de equipamentos para tratamento de esgotos É importante destacar a necessidade de partida com carga reduzida no soprador. Essa condição é obtida quando se utiliza uma válvula de alívio de pressão, instalada na descarga do soprador, que deverá estar aberta quando for dada a partida e estar fechada quando o equipa- mento atingir a velocidade nominal. Outro método empregado é a utilização de válvula de bloqueio fechada na entrada de ar do soprador, que deve ser aberta, gradativamente, após o equipamento alcançar a velocidade nominal. O operador deve, portanto, verifi car se esta válvula encontra-se fechada antes da partida do soprador. Principais problemas encontrados nos sopradores: fi ltros com sujeira; desalinhamento de polias ou ausência de uma ou mais correias em sistemas de trans- missão; falhas de lubrifi cação dos mancais; e vibração excessiva. 10.2.7 Raspadores São equipamentos que auxiliam a retirada de lodo dos decantadores, ou de areia dos desaeradores. Em decantadores circulares, o lodo é raspado para o centro do decantador, de onde é re- tirado através de bombas de lodo, ou pela ação da gravidade. Pode ocorrer também a sucção direta nos braços raspadores. A mesma estrutura metálica também é responsável pela condução do sobrenadante (escuma) para um tubo de coleta (tubo escumador), ou outro dispositivo equivalente. Em decantadores retangulares, uma ponte rolante ou um sistema com engrenagem e correntes se desloca no sentido longitudinal, raspando o lodo para uma das extremidades, e conduzindo a escuma para a extremidade oposta. Nas caixas de areia, o material sedimentado é arrastado para um canal de coleta na peri- feria, onde, através de roscas transportadoras, será retirado para caçambas de resíduos. Normalmente, o maior problema nos raspadores é a possibilidade de existirem obstruções em seu curso, impedindo o seu movimento. 214 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Noções de manutenção e operação de equipamentos para tratamento de esgotos 10.2.8 Centrífugas Esses equipamentos separam os sólidos da água por diferença de força centrífuga, e são empregados na desidratação ou adensamento do lodo. O seu funcionamento está condicionado ao das respectivas bombas de lodo e de polímero; falhas nessas bombas podem impedir o trabalho da centrífuga. O principal problema verifi cado nas centrífugas decorre da negligência na lavagem do seu interior, após o período de funcionamento. O lodo endurecido, depois de longo tempo de inatividade do equipamento, impede o giro do tambor e do raspador interno. 10.2.9 Instrumentação É caracterizada pelo conjunto de elementos sensores e indicadores, necessários no con- trole do processo de tratamento dos esgotos. Alguns transmitem sinais de leitura contínua de determinados parâmetros de processo (sinais analógicos: pressão, nível, corrente, etc.), ou de estados (sinais digitais: equipamento ligado/desligado) para um Centro de Controle e Operação (CCO). No CCO, os sinais de leitura são visualizados na tela de um monitor e podem orientar o controle automático das diversas etapas do processo de tratamento. A seguir, veremos quais são os principais instrumentos. Amperímetros Localizados nos painéis de comando, indicam a corrente elétrica de circuitos de força ou de equipamentos. São úteis no monitoramento de sobrecargas nos diversos equipamentos, através da comparação, pelo operador, dos valores medidos com os valores nominais deter- minados pelos fabricantes. Voltímetros Também estão localizados nos painéis de comando e indicam a tensão de alimentação dos respectivos painéis. O funcionamento anormal de alguns equipamentos pode ser explicado pelo desbalanceamento ou falta de fase, facilmente identifi cado através da leitura de tensão de cada fase no voltímetro. SENAI-RJ 215 Tratamento de esgotos - Noções de manutenção e operação de equipamentos para tratamento de esgotos Manômetros e sensores de pressão Possibilitam a leitura da pressão em diversos sistemas, permitindo ao operador verifi car as pressões máximas e mínimas estipuladas no projeto. Sensores/medidores de nível São utilizados, principalmente: no monitoramento de níveis de poços (elevatória de esgoto bruto, por exemplo); no controle de grades mecanizadas através do nível à montante; e na medição do nível (com conversão do nível em vazão) de calhas Parshall e em di- versos outros sistemas. Os medidores eletrônicos permitem uma leitura local, em display digital, pelo operador. Sensores/medidores de vazão São medidores eletrônicos, utilizados no monitoramento da vazão de diversos sistemas, tais como: recirculação de lodo ativado; lodo digerido; lodo para centrífuga; solução de polímero para centrífuga; água de diluição de polímero; ar para tanque de aeração; e outros. Tubulações e tanques É necessário, também, que o operador esteja atento para os diversos problemas que podem ocorrer nas tubulações. As principais ocorrências são: 216 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Noções de manutenção e operação de equipamentos para tratamento de esgotos vazamentos de esgoto e lodo nas principais tubulações; vazamentos de água nos sistemas de combate a incêndios, de água de selagem e de serviços; vazamentos de ar em sistemas de aeração de tanques, ou de ar comprimido para controle de comportas ou outros dispositivos; vazamentos de óleo de controle de comportas ou de sistemas de lubrifi cação; e defeitos em válvulas, caracterizados pela difi culdade de manobra ou falha de veda- ção. Em tanques, o cuidado mais importante é preservar a integridade dos dispo- sitivos de proteção, do tipo guarda-corpo de escadas e bordas. A ausência ou a má conservação desses dispositivos devem ser apontadas imediatamente pelo operador ao setor de manutenção da ETE. 11 Nesta unidade... Controle de qualidade e amostragens em uma ETE Parâmetros analíticos Possíveis pontos de coleta Amostragem: preparativos, material e técnicas gerais de coletaSENAI-RJ 219 Tratamento de esgotos - Controle de qualidade e amostragens em uma ETE 11. Controle de qualidade e amostragens em uma ETE O objetivo primordial do controle de qualidade é conhecer as características: física, química, bacteriológica e biológica do esgoto que entra e sai em cada etapa do tratamento, até o efl uente fi nal (tratado). Esse conhecimento é necessário para: atender às exigências de controle impostas pela legislação pertinente (NT 202 r.10 e a DZ 215 r.3 – FEEMA, Resoluções CONAMA, etc.), cabendo o seu cumprimento à CEDAE e acatar as restrições estabelecidas nas licenças de operação (LO); verifi car o desempenho de cada etapa do tratamento e do processo em sua totalidade; manter um registro histórico dos dados do sistema sob controle; e avaliar dispositivos de tratamento de esgotos segundo a O.S. 8.147 de 12 de fevereiro de 2004. Portanto, para serem lançados em corpos receptores, os efl uentes tratados nas ETEs devem obedecer aos requisitos mencionados, ou seja, às qualidades: física, química, bacteriológica e biológica. A realização desse tipo de controle é fundamental, especialmente no Estado do Rio de Janeiro, onde as águas superfi ciais são utilizadas para o abastecimento de quase toda a popu- lação e também para outros fi ns importantes, tais como: recreação, pesca, irrigação, etc. 11.1 Parâmetros analíticos Apresentamos a seguir os parâmetros físicos, químicos e biológicos que são mais co- mumente avaliados, sendo que neste último grupo uma classe bem específi ca são os micro- biológicos. 220 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Controle de qualidade e amostragens em uma ETE CH 4 - Metano; Cloretos; CO 2 - Dióxido de carbono ou gás carbônico; coliformes termotolerantes; coliformes totais; DBO; DQO; MBAS - Substâncias ativas ao azul de metileno (detergentes); N-NO 2 - Nitrogênio na forma de nitrito; N-NH 3 - Nitrogênio amoniacal; N-NO 3 - Nitrogênio na forma de nitrato; NTK ou TKN - Nitrogênio Kjeldahl Total; OD - Oxigênio dissolvido; O & G - Óleos e graxas; pH - Potencial de Hidrogênio; P-PO 4 - Fósforo na forma de ortofosfato; P-Total - Fósforo total; RNFF - Resíduos Não-Filtráveis Fixos (sólidos em suspensão fi xos); RNFT - Resíduos Não-Filtráveis Totais (sólidos em suspensão totais); RNFV - Resíduos Não-Filtráveis Voláteis (sólidos em suspensão voláteis); Ssed – Sólidos sedimentáveis; Sulfetos; e Turbidez. As exigências legais, ou por força contratual, determinam os seguintes parâmetros para avaliação, todos em amostras do efl uente fi nal, conforme ponto 6 da Figura 11.1: Em geral, os parâmetros mínimos são: DBO; RNFT e colimetria total. Os mais comuns: DQO; colimetria fecal; pH; N-NO 3 ; P-Total; P-PO 4 ; O&G e cloretos. Os parâmetros possíveis de serem requeridos: RNFF; RNFT; RNFV; NTK; N-NH 3 ; N-NO 2 ; detergentes; cloro residual e turbidez. SENAI-RJ 221 Tratamento de esgotos - Controle de qualidade e amostragens em uma ETE Nos pontos 1 e 6 da Figura 11.1, os parâmetros de verifi cação do desempenho da ETE e caracterização do afl uente são: Os mais comuns: DBO; RNFT; pH e colimetria total. Os eventuais: DQO; colimetria fecal; RNFT; RNFV; NTK; O&G; cloretos e temperatura. Os parâmetros possíveis, dependendo do processo: NH 3 ; N-NO 3 ; N-NO 2 ; P-Total; P-PO 4 e detergentes. Apenas no ponto 1: sulfetos. Apenas no ponto 6: cloro residual; turbidez. O controle de processo feito na caixa de areia (nos pontos 2, 2a e 3 da Figura 11.1) faz uso dos seguintes parâmetros: Pontos 2 e 3: RNFT (amostragem junto ao fundo do canal). Ponto 2a (amostra de areia): % de sólidos voláteis. O controle de processo feito na decantação primária (nos pontos 3 e 4 da Figura 11.1) faz uso dos seguintes parâmetros: Comuns: RNFT e DBO. Eventuais: DQO; pH; NTK e NH 3 . Lodo primário: RNFT e RNFV. O Controle de processo feito no fi ltro biológico (pontos 4, 4a e 5 da Figura 11.1) utiliza os seguintes parâmetros: Comuns: DBO; RNFT e Ph. Eventuais: NH 3 ; N-NO 3 e OD (só no ponto 5). Ponto 4a (eventuais): NH 3 ; N-NO 3 e OD. Lodo biológico: RNFT e RNFV. O controle de processo feito nos lodos ativados (pontos 4, 4b, 4c e 5 da Figura 11.1) utiliza os seguintes parâmetros: Comuns: DBO; RNFT e pH ( pontos 4 e 5). Eventuais: NH 3 ; N-NO 3 ; N-NO 2 e OD (só no ponto 5). Ponto 4b (líquido do TA): OD; RNFT; RNFV; temperatura; Ssed (proveta) e N-NO 3 . 222 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Controle de qualidade e amostragens em uma ETE O controle de processo feito na desinfecção (pontos 5 e 6 da Figura 11.1) utiliza os seguintes parâmetros: Comuns: colimetria total e cloro residual (só no ponto 6). Eventuais: colimetria fecal e streptococos fecais. O controle de processo feito na digestão anaeróbia (ver Figura 11.1) utiliza os seguintes parâmetros: Ponto 4d: CH 4 e CO 2 . Ponto 1d: RNFT; RNFV; pH e alcalinidade. Ponto 2d: RNFT; RNFV; ácidos voláteis e NTK. Ponto 3d: temperatura; ácidos voláteis; pH; alcalinidade e metais. 11.2 Possíveis pontos de coleta Os pontos de controle podem variar conforme o processo de tratamento de esgotos. No nosso caso, vamos considerar o desenho normalmente encontrado nas ETEs da CEDAE, con- forme é mostrado nas Figuras 11.1 e 11.2, a seguir. Figura 11.1 – Fase líquidaFi 11 1 F lí id SENAI-RJ 223 Tratamento de esgotos - Controle de qualidade e amostragens em uma ETE 11.3 Amostragem: preparativos, material e técnicas gerais de coleta Quando não é possível analisar todo o universo estatístico, a amostragem é uma técnica de fundamental importância para qualquer avaliação. Uma amostra implica na escolha ou seleção de parte representativa do universo que se deseja estudar. Não signifi ca, apenas, o ato de se aproximar do decantador e mergulhar um balde para retirar uma porção de substância, em qualquer horário, e levá-la até o laboratório. O processo de amostragem envolve observa- ção e bom senso, por parte de quem planeja e de quem realiza a técnica, de modo a obter uma parcela de fato representativa do fenômeno a ser avaliado. A amostragem envolve a realização de medições de campo e a coleta de material nos pontos mais representativos, utilizando equipamentos adequados e métodos de preservação do que foi colhido, para ser transportado e analisado. 11.3.1 Freqüência de amostragem O estabelecimento dos períodos de freqüência de coleta é de responsabilidade de um profi ssional qualifi cado. Porém, é importante ressaltar que a defi nição desses momentos não é feita de maneira aleatória, ela depende de uma série de informações sobre: a qualidade do corpo receptor; o afl uente para a ETE; e o processo de tratamento utilizado. Figura 11.2 – Tratamento do lodoFi 11 2 T t t d l d 224 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Controle de qualidade e amostragens em uma ETE 11.3.2 Preparativos para amostragem, material e técnicas gerais de coleta A seguir, vamos analisar o processo de amostragem, desde a frascaria utilizada até os cuidados relativos à segurança da coleta. Frascaria Podem ser utilizados frascos de vidro ou plástico, dependendo, principalmente, do tipo de parâmetro de interesse. A seguir, veremos alguns de uso mais freqüente. Cabe ao laboratório ou aos profi ssionais vinculados ao controle de qualidade fornecer as orientações relativas ao tipo de frasco e aos preservativos a serem utilizados, bem como aos cuidados a serem adotadas na coleta. Frasco para coletas bacteriológicas Podem ser de vidro borossilicato ou de polietileno autoclavável,de boca larga, com volume aproximado de 200ml. Após a lavagem e antes da esterilização, é preciso cobrir a tampa e a boca do frasco com papel metálico, para evitar a contaminação das amostras. Frasco para amostragens de gases dissolvidos (OD, CO2) De vidro borossilicato refratário (tipo pyrex), de boca esmerilhada e tampa, com 300ml de volume. Frasco para pesticidas De vidro escuro, com 1000ml de volume, e gargalo isolado com papel de alumínio, antes de ser colocada a tampa plástica. Sacos plásticos No transporte de lodo de esgoto ou sedimento de qualquer natureza são usados sacos com capacidade de 1 a 5kg. Identifi cação Um dos aspectos mais importantes nos programas de amostragem é a correta identifi cação das amostras. Para isso, são utilizadas fi tas adesivas nos frascos de coleta, com as seguintes informações pertinentes à amostragem em águas naturais: SENAI-RJ 225 Tratamento de esgotos - Controle de qualidade e amostragens em uma ETE identifi cação do ponto de coleta; e data e horário em que a coleta foi realizada. Ficha de coleta para amostragens Para complementar as informações já relacionadas, são também usadas fi chas de coleta, que devem ser preenchidas no campo, contendo os seguintes itens: data e horário em que a coleta foi realizada; nome/assinatura do coletor; identifi cação do ponto de coleta; temperatura ambiente; temperatura da amostra; pH; condições climáticas; e observações a respeito da técnica empregada na coleta ou de fatores que a infl uenciaram. Equipamento de coleta Existe uma série de equipamentos usados nas campanhas de amostragem, os quais devem ser preparados e verifi cados com antecedência, a fi m de evitar problemas na hora da coleta. Um desses equipamentos é o balde de 5L, amarrado por uma corda forte, muito utilizado para coletas em superfície. Ao realizar esse procedimento, é preciso ter cuidado com a fragilidade das alças, pois caso arrebentem, o balde vai afundar num decantador, causando problemas em equipamentos subseqüentes. Vejamos alguns tipos usados com freqüência. Coletores Automáticos São equipamentos compostos, em sua maioria, de uma bomba peristáltica controlada por um sistema eletrônico, o qual pode ser programado para realizar a coleta em intervalos e volumes variados. Estes coletores podem ser acoplados a um ou mais recipientes que receberão as alíquotas de amostras. Alguns coletores automáticos contam ainda com refrigeração e podem ser controlados à distância por telemetria. 226 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Controle de qualidade e amostragens em uma ETE Dragas São equipamentos usados para obter amostras dos substratos de diferentes corpos d’água. Existem diversos tipos de amostradores de fundo, cada um específi co para o sedimento a ser coletado, e de acordo com o meio líquido em que vai ser submerso. A draga de Petersen, por exemplo, é muito emprega- da em substratos de areia grossa. Veja a Figura 11.4. Um outro exemplo, é a draga de Eckman, utilizada para estudos quantitativos da fauna limnológica em fundo do tipo lodoso e macio. Veja a Figura 11.5. Garrafas de profundidade São instrumentos usados com a fi nalidade de coletar água em profundidades variáveis. Atualmente, a garrafa de profundidade mais usada é do tipo Van Dorn, devido à sua robustez, com capacidade de 3 litros, que evita qualquer contato da amostra com metal. Existem modelos em PVC transparente, porém o mais comum é do tipo opaco. Veja a Figura 11.3. Figura 11.3 – Garrafas coletoras em profundidade Figura 11.4 – Draga de Petersen Figura 11.5 – Draga de Eckman Fi 11 4 D d P d k SENAI-RJ 227 Tratamento de esgotos - Controle de qualidade e amostragens em uma ETE Limnológica: referente a limnologia: estudo científi co das extensões de água doce (como lagos, pântanos etc. incluindo, por vezes, águas correntes) com respeito a suas condições ou aspectos biológicos, químicos, físicos, meteoro- lógicos, geológicos ou ecológicos. Disco Secchi Tem por fi nalidade medir a transparência da água. Encontra-se disponível sob duas formas: em plástico branco opaco, ou em metal, com a superfície dividida em dois quadrantes, um branco e outro preto. Veja a Figura 11.6. Figura 11.6 – Disco Secchi Técnicas de coleta As coletas podem ser de superfície ou de profundidade; as amostras, simples ou compos- tas, conforme veremos a seguir. Coletas de superfície Essas coletas devem ser feitas a uma profundidade de aproximadamente 20cm, colocando- se o frasco em contato direto com o efl uente, com a boca virada contra a corrente. No caso dos frascos já conterem preservativo, a coleta de superfície deve ser evitada para não contaminar o local e prejudicar outras amostragens. Para contornar o problema, podem ser usadas garrafas de profundidade, por serem leves e de fácil manipulação, porém tomando o cuidado de não deixar o tubo de escoamento da garrafa encostar no frasco de amostra. Coletas de profundidade São feitas com os diversos tipos de garrafas de profundidade descritos anteriormente. Amostras simples Consistem em se retirar, tomar um determinado volume ou porção de amostra do universo a ser avaliado (esgoto, água, lodo de esgoto etc.), com os devidos cuidados, de acordo com o parâmetro a ser analisado. Amostras compostas Resultam da mistura de várias coletas simples, que são retiradas do efl uente, do corpo d’água ou da caçamba de lodo, a intervalos de tempo iguais, durante um determinado período. O volume de cada porção única é variável de acordo com o tempo total em que se queira efetuar a amostra composta, não devendo ser jamais inferior a 120ml. 228 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Controle de qualidade e amostragens em uma ETE 11.3.3 Métodos de preservação e acondicionamento de amostras Devido à difi culdade em se analisar uma amostra logo após a sua coleta, é necessário utilizar técnicas de preservação para mantê-la praticamente inalterada, até o momento do exame em laboratório. Essas técnicas se restringem a: retardar a ação biológica e a hidrólise de compostos químicos complexos; reduzir a volatilidade dos constituintes; e reduzir a adsorção no frasco de coleta. Os métodos de preservação estão geralmente limitados ao controle de pH, à adição de reagentes químicos e à refrigeração. A Tabela 11.1 apresenta informações relevantes acerca da preservação de amostras. Tabela 11.1 – Preservação de amostras por parâmetro de interesse Parâmetro Frasco Vol. Mín. (ml) Prazo de análise Método de preservação Acidez P 200 24 horas refrigeração a 4ºC Alcalinidade V/P 200 24 horas refrigeração a 4ºC Amônia V/P 500 7 dias ácido sulfúrico até pH<2 Arsênio V/P 500 6 meses ácido nítrico até pH=2 Bário V/P 500 6 meses ácido nítrico até pH=2 Berílio P 500 6 meses ácido nítrico até pH=2 Boro V/P 500 6 meses ácido nítrico até pH=2 Cádmio V/P 500 6 meses ácido nítrico até pH=2 Cálcio V/P 500 6 meses ácido nítrico até pH=2 Chumbo V/P 500 6 meses ácido nítrico até pH=2 Cianeto Total V/P 1000 24 horas NaOH até pH>12 Cloreto V/P 200 7 dias não é necessário Cobre V 500 6 meses ácido nítrico até pH=2 Condutividade V/P 500 28 dias refrigeração a 4ºC Cor V/P 500 48 horas refrigeração a 4ºC Cromo Hexavalente V/P 500 24 horas refrigeração a 4ºC DBO V/P 1000 24 horas refrigeração a 4ºC DQO V/P 200 7 dias ácido sulfúrico concentrado até pH=2 Dureza P/V 500 6 meses adicionar ácido nítrico até pH<2 Fluoreto P 500 7 dias refrigeração a 4ºC Fosfato V(a) 200 48 horas refrigeração a 4ºC Continua... SENAI-RJ 229 Tratamento de esgotos - Controle de qualidade e amostragens em uma ETE Fósforo total V 1000 7 dias refrigeraçãoa 4ºC Mercúrio V(a)/P(a) 500 28 dias ácido nítrico concentrado até pH<2, 4ºC Nitrato V/P 200 24 horas refrigeração a 4ºC Nitrito V/P 200 24 horas refrigeração a 4ºC Óleos & Graxas V 1000 7 dias ácido sulfúrico até pH<2 Resíduos V/P 1000 7 dias refrigeração a 4ºC Salinidade V(1) 500 6 meses - ----- Sílica P ---- 28 dias refrigeração a 4ºC Sulfato V/P 300 7 dias refrigeração a 4ºC Sulfeto V 1000 6 meses refrigeração a 4ºC TKN V/P 500 7 dias refrigeração e ácido sulfúrico até pH<2 Turbidez V/P 500 24 horas guardar no escuro sob refrigera- ção a 4ºC Cromo total V 1000 6 meses refrigeração a 4ºC Estanho V/P 500 6 meses ácido nítrico até pH=2 Ferro total V/P 1000 6 meses ácido nítrico até pH=2 Níquel V/P 500 6 meses ácido nítrico até pH=2 Potássio P 500 6 meses ácido nítrico até pH=2 Zinco V/P 500 6 meses ácido nítrico até pH=2 Legenda: V = vidro; V(1) = vidro com cera de vedação; V(a) = rinsado com HNO 3 1:1; P = polietileno; P(a) = rinsado com HNO 3 1:1 Na preservação, o ácido deve ser adicionado imediatamente após a coleta. O controle é feito com o papel de pH. Parâmetro Frasco Vol. Mín. (ml) Prazo de análise Método de preservação Continuação 230 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Controle de qualidade e amostragens em uma ETE 11.3.4 Segurança durante as coletas As principais recomendações relacionadas à segurança são: Ter muito cuidado ao realizar coletas nos tanques de aeração, pois, devido à baixa densidade do líquido misturado com ar, o risco de afogamento é iminente. Ter bastante cuidado com parapeitos na hora de puxar as garrafas de profundidade ou dragas. Em locais de difícil acesso, carregar apenas o material estritamente necessário à coleta, pois há sempre perigo de queda. Trabalhar sempre devidamente uniformizado, usando luvas, botas, capacetes e, em alguns casos, máscara contra gases, de acordo com os fatores de risco presentes na atividade. 12 Nesta unidade... Doenças de origem e veiculação hídrica Doenças causadas por agentes microbianos e parasitários SENAI-RJ 233 Tratamento de esgotos - Doenças de origem e veiculação hídrica 12. Doenças de origem e veiculação hídrica As enfermidades devidas à composição natural da água (excesso de arsênio, fl uoreto, etc.) são chamadas de origem hídrica. As enfermidades causadas por substâncias que não fazem parte dessa composição (contaminação por chumbo, cianeto, etc.) ou por micróbios patogênicos, são chamadas de veiculação hídrica. Estudos científi cos têm demonstrado que essa nocividade está relacionada aos seguintes fatores: qualidade biológica da água – devido à sua capacidade para veicular tanto microrganismos causadores de doenças transmissíveis, quanto algas produtoras de substâncias tóxicas; qualidade química da água - pois pode conter substâncias químicas dissolvidas em concentração tóxicas para o organismo humano; em alguns casos, a carência de certos elementos químicos também afetam a saúde; e quantidade - na prevenção de algumas doenças, esse fator tem tanto ou mais importância que a qualidade; a escassez de água, difi cultando a limpeza corporal e a do ambiente, por exemplo, permite a disseminação de enfermidades associadas à falta de higiene. Nos itens a seguir, vamos analisar a atuação desses fatores em várias doenças provocadas por agentes microbianos, parasitários e químicos. 12.1 Doenças causadas por agentes microbianos e parasitários A água pode veicular doenças infecciosas causadas por agentes microbianos patogênicos que são freqüentemente eliminados pelos excretos (fezes e/ou urina). A sua porta de entrada no organismo humano é, na maioria das vezes, a via oral. 234 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Doenças de origem e veiculação hídrica 12.1.1 Doenças adquiridas por via oral Nesse grupo, incluem-se algumas doenças típicas da veiculação hídrica, já que a ingestão da água pode representar fator importante à sua disseminação. Febre tifóide Doença de distribuição universal, também chamada Febre intestinal ou Tifo abdominal. Trata-se de uma infecção aguda, generalizada, causada pela bactéria salmonela typhi. A fonte de infecção é o homem, doente ou portador de germes, às vezes eliminados pelas fezes. A febre tifóide tem um período de incubação de uma a três semanas. É transmitida por contato direto ou indireto, através da água dos alimentos contaminados e ingeridos crus, e dos insetos (moscas), que podem servir como vetores passivos. Os sintomas mais graves são a febre elevada e contínua, o delírio, a distensão abdominal e a hemorragia intestinal. Em última análise, podemos afi rmar que se trata de uma doença decorrente de saneamento básico defi ciente. A água é um meio desfavorável à sobrevivência da salmonela typhi que, no entanto, pode permanecer viável durante um período de tempo sufi ciente para infectar pessoas (experiência de Houston). A febre tifóide de origem hídrica se manifesta conforme as circunstâncias, seja por casos isolados ou epidemias explosivas. No segundo caso, a gravidade e extensão dependem do grau de contaminação, do volume e das condições do abastecimento de água, do número e da suscetibilidade dos indivíduos expostos ao risco. Essas epidemias são caracterizadas pelo número elevado de pessoas que adoecem num prazo curto. Às vezes, o mapa da área de localização domiciliar dos casos revela, expressivamente, qual o setor do abastecimento que sofreu contaminação. Cuidados com a água No tocante ao controle da febre tifóide e das doenças de veiculação semelhante, as providências referentes à água incluem: proteção dos mananciais, inclusive medidas de controle de poluição da água; SENAI-RJ 235 Tratamento de esgotos - Doenças de origem e veiculação hídrica tratamento adequado da água, como operação continuamente satisfatória; sistema de distribuição de água bem projetado, construído e operado de modo a manter, sempre que possível, a água na rede com pressão sufi ciente, evitando, as- sim, contaminação por pressão negativa de valas de esgotos ou águas subterrâneas, através de falhas na canalização; controle permanente da qualidade físico-química e bacteriológica da água na rede de distribuição ou, preferivelmente, na torneira do consumidor; e solução sanitária para o problema dos esgotos, incluindo os sistemas de coleta, trata- mento e destino fi nal, com a fi nalidade de proteger o abastecimento de água potável. Cólera Infecção intestinal aguda, causada pela bactéria, vibrio cholerae, que é um bacilo levemente encurvado. A fonte de infecção é o homem, doente ou portador, e o período de incubação varia de algumas horas a cinco dias, em média. Os vibriões são eliminados pelas fezes, pelos vômitos dos doentes e, ocasionalmente, pela urina. A sua transmissão ocorre de modo direto ou indireto, através de água e alimentos contaminados. As moscas, formigas e ratos também atuam como vetores passivos. Entre todas as doenças deste grupo, é na cólera que a água representa papel mais importante. O vibrião colérico pode sobreviver na água vários dias ou semanas e, conforme as circunstâncias, até mesmo se multiplicar, sendo responsável por epidemias explosivas de caráter muito grave. Em geral, a moléstia começa com intensa dor nas costas, pernas e braços. Pode também principiar com diarréia e cólicas. Geralmente, há fortes vômitos e desidratação acentuada. Muitas vítimas se restabelecem, mas continuam a expelir os germes nas evacuações. A pessoa recuperada da enfermidade deve, preferencialmente, submeter-se a análise laboratorial como garantia da erradicação da doença. Amebíase Infecção crônica, principalmente no intestinogrosso (cólon), causada pelo protozoário entamoeba histolytica. Muitas pessoas infectadas não apresentam sintomas clínicos, ou o fazem intermitentemente. Em geral, os sintomas se caracterizam por períodos alternados de diarréia e prisão de ventre. A fonte de infecção é o homem, doente crônico ou portador, que elimina o protozoário pelas fezes. O período de incubação é, em média, de três a quatro semanas, mas pode ser também de cinco dias, para infecções mais graves, e até de vários meses, nas subagudas ou crônicas. 236 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Doenças de origem e veiculação hídrica O modo de transmissão pode ser direto ou indireto, através da água ou de alimentos con- taminados, especialmente frutas e verduras cruas, quando irrigados ou refrescados com água poluída por fezes ou cultivados em solos adubados diretamente com dejetos humanos. Moscas e baratas que tiveram contato com excretos de infectados podem contaminar os alimentos. Os sintomas da amebíase vão desde a diarréia com cólicas e aumento dos sons intestinais, até a diarréia mais intensa com perda de sangue nas fezes, febre e emagrecimento. Nesses casos, ocorre invasão da parede do intestino grosso com infl amação mais intensa, o que os médicos chamam de colite. Podem ocorrer ulcerações no revestimento interno do intestino grosso, provocando sangramento. Raramente, a infecção causa perfuração do intestino, mas, quando ocorre, a manifestação é de doença abdominal grave com dor intensa, rigidez e aumento da sensibilidade da parede, além de prostração extrema. A doença pode apresentar-se de forma mais branda, com diarréia intermitente, levando muitos anos até surgir algum comprometi- mento do estado geral. Não muito comumente, o protozoário pode penetrar na circulação e formar abscessos no fígado, que causam dor e febre com calafrios. Os abscessos podem se romper para o interior do abdome ou mesmo do tórax, comprometendo as pleuras ou o pericárdio. As situações de doença extra-intestinal ou invasiva são as que levam a situações mais extremas e evoluem para a morte do indivíduo infectado. Abscesso: acumulação de pus numa cavidade formada acidentalmente nos tecidos orgânicos, ou mesmo em órgão cavitário, em conseqüência de infl amação. Pleura: camada que reveste os pulmões. Pericárdio: camada que reveste o coração. Os cistos de ameba resistem, na água, de uma semana até vários meses, conforme o caso. Águas poluídas com esgoto representam importante papel na veiculação da doença. A co- agulação e a fi ltração rápida convencionais são parcialmente efi cientes na remoção dos cistos de ameba. Os fi ltros de terra diatomácea parecem mais efi cazes que os de areia. O cloro, nas doses usualmente empregadas, não destrói os cistos, sendo necessária a supercloração. Para tratamento de emergência ou individual, recomenda-se a fervura da água ou o uso de iodo, que é um bom cisticida. SENAI-RJ 237 Tratamento de esgotos - Doenças de origem e veiculação hídrica Shigelose ou disenteria bacilar Quando a diarréia é acompanhada da presença de sangue visível nas fezes, dizemos que se trata de disenteria, isto é, uma infecção bacteriana aguda do intestino, causada por bactérias do gênero shigella – SH dysenteriae, SH sonnei, SH fl exneri, SH boydi, etc. Trata-se de doença de distribuição universal, de gravidade variável, sendo uma das princi- pais causas de mortalidade infantil, pois sua maior incidência é dos seis meses aos quatro anos de idade. A fonte de infecção é o homem, doente ou portador e o período de incubação pode ser de um a sete dias. O modo de transmissão pode ser direto ou indireto, através da água ou de alimentos contaminados. As moscas representam papel importante como vetores. Os microrganismos que causam disenteria, tais como, shiguela, salmonela, vibrião da cólera, amebas, podem invadir e lesar (machucar) a parede do intestino e são disseminados pelas mãos, por alimentos e águas contaminados com fezes ou resíduos fecais. A Shigelose é, por excelência, doença decorrente do mau saneamento e da falta de higiene pessoal e doméstica. Para ocorrer contaminação através das mãos, basta existir, apenas, um pequeno número de bactérias, por exemplo, de 10 a 100. Suspeita-se de disenteria através da observação de sangue visível nas fezes e, às vezes, de secreção purulenta (pus) e muco (catarro). Em geral, as pessoas infectadas apresentam febre, cólicas intestinais e diminuição do apetite, o que pode levar rapidamente à perda de peso e até a desnutrição. A disenteria pode se complicar causando, por exemplo, perfuração intestinal e morte. Em geral, as shigelas sucumbem rapidamente na água e as epidemias de origem hídrica não são muito freqüentes. Ocorrem, principalmente, quando há contaminação maciça de pequenos volumes de água em comunidades fechadas, porque, nessas condições, não se dispõe de tempo sufi ciente para desvitalização das shigelas antes da água ser ingerida. Portanto, no caso citado, a quantidade é relativamente mais importante que a sua qualidade. Hepatite infecciosa É uma infecção aguda, com sintomas como febre, mal-estar e comprometimento do fígado. O paciente pode ou não apresentar icterícia. A fonte de infecção é o homem doente, com vírus presente nas fezes e no sangue. O período de incubação é de 10 a 40 dias, em geral 25 dias. 238 SENAI-RJ Tratamento de esgotos - Doenças de origem e veiculação hídrica A transmissão é por contato direto, através de transfusão sanguínea, pelo uso de agulhas e seringas de injeção mal desinfetadas, pela água, leite ou alimentos contaminados. O vírus da hepatite infecciosa é muito resistente. Na água, pode se conservar vivo e virulento por um período de quatro a dez semanas. Suporta bem o calor (permanece ativo mesmo em temperaturas de 50oC durante 30 minutos). Além disso, também não é totalmente removido pela coagulação e fi ltração comumente praticadas. A sua destruição pelo cloro exige, após coagulação e fi ltração, uma dose que permita manter, depois de 30 minutos de contato, um residual de cloro total livre, de pelo menos 1,1 e 0,4mg/L, respectivamente. Para o controle de doenças cujo sintoma principal é a diarréia, exige-se combate ao pauperismo, educação sanitária com ênfase na melhoria dos hábitos higiênicos e alimentares e medidas de saneamento do meio. Essas medidas incluem, principalmente, destino satisfatório para dejetos, controle de moscas, baratas, ratos, e etc., higienização e proteção dos alimentos, suprimentos de água de boa qualidade e em quantidade sufi ciente para permitir a higiene individual e domiciliar. Poliomielite É uma enfermidade aguda, febril, às vezes de caráter epidêmica, que, nos casos graves, produz paralisia muscular, sendo causada pelos vírus da poliomielite. A fonte de infecção é o homem, principalmente crianças. O vírus é eliminado pelas secreções faringianas e fezes, a sua porta de entrada é por via oral, principalmente. O período de incubação vai de 5 a 21 dias, em geral de 7 a 12 dias. A transmissão usual é pelo contato direto e pelas gotículas das descargas buco-faringianas e raramente ocorre por via indireta. Nesse caso, a contaminação se dá através do leite e, pos- sivelmente, da água. O vírus eliminado pelas fezes é encontrado nos esgotos, podendo resistir até quatro me- ses não só na água, mas também nos esgotos. Sua inativação pelo cloro exige pré-cloração sufi ciente para produzir um residual de cloro livre de no mínimo 0,3 a 0,4 mg/L, durante todo o percurso da água na Estação de Tratamento, e um mínimo de 0,2 a 0,3 mg/L de cloro livre no efl uente fi nal. SENAI-RJ 239 Tratamento de esgotos - Doenças de origem e veiculação hídrica