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HIDRÁULICA FLUVIAL Estas Notas de Aulas sobre Hidráulica Fluvial são um extrato dos Capítulos 5 a 9, páginas 345 a 422 do Livro Engenharia Portuária, Segunda Edição (2018), Editora Edgar Blucher, 1504 páginas, de autoria de Paolo Alfredini e Emilia Arasaki. I. TRANSPORTE DE SEDIMENTOS – CURVA-CHAVE I.1 INTRODUÇÃO I.1.1Generalidades As questões de Engenharia visando as hidrovias para a Navegação Interior pressupõem um bom conhecimento sobre a dinâmica dos cursos fluviais, estudo que representa um dos mais difíceis capítulos da Engenharia Hidráulica. O curso d’água, ainda que já bastante estudado, continua representando uma questão de abordagem complexa. O problema torna-se ainda mais difícil quando é necessário corrigir anomalias que surgem como empecilhos para a segurança da navegação, mas que constituem estados naturais do curso d’água. Tendo sido os cursos d’água as primeiras e naturais vias de comunicação entre os homens, muitos estudos foram realizados sobre eles, entretanto as soluções adotadas são muitas vezes de difícil generalização. Enquanto os fenômenos hidráulicos dos escoamentos com fronteiras fixas são susceptíveis de uma representação analítica bem definida, de acordo com as leis da hidrodinâmica, o mesmo não ocorre nos escoamentos com fronteiras móveis, pois nestes casos existe influência recíproca entre o escoamento e sua fronteira. Sendo autores de sua própria geometria, os escoamentos bifásicos (sólido - líquido) com fronteiras móveis constituem um fenômeno que obedece a um mecanismo muito complexo, cuja formulação analítica ainda não é suficientemente abrangente, tendo-se que recorrer em muitos casos a métodos empíricos para o seu estudo. Considerando um escoamento à superfície livre constituído por fronteiras móveis compostas por material incoerente, à medida que o escoamento tiver energia suficiente para iniciar o transporte sólido (condição crítica) o material de fundo começa a se mover e é transportado no sentido do escoamento. O movimento do material corresponde a uma quantidade de material sólido transportado na unidade de tempo - vazão sólida - e será tanto maior quanto maior for a energia do escoamento, que é proporcional à velocidade do escoamento. Para estágios de transporte sólido estabelecido surgem ondulações na superfície do fundo que distribuem-se irregularmente, acarretando alterações da rugosidade e consequentemente na resistência ao escoamento, o que por seu turno vai afetar a vazão líquida. Para valores suficientemente elevados da velocidade de escoamento as partículas mais finas do fundo podem entrar em suspensão no meio do líquido, afetando as pulsações turbulentas do escoamento, o que também influi na vazão líquida. Assim, percebe-se uma intensiva ação recíproca entre as duas fases, sendo esta condicionada basicamente por parâmetros relativos ao escoamento, aos sólidos e ao fluido. HIDRÁULICA FLUVIAL I.1.2 Condicionantes do transporte de sedimentos De um modo geral, o transporte sólido depende de condicionantes hidráulicas (correntes e ondas), hidrometeorológicas, sedimentológicas, geomorfológicas (geologia e topo-batimetria), de recobrimento vegetal das bacias hidrográficas e da influência antrópica. As condicionantes hidráulicas, hidrometeorológicas e a influência antrópica são agentes ativos, enquanto as demais são passivas. Tratam-se de escoamentos essencialmente não permanentes, tridimensionais e de fronteira variável no espaço e no tempo. A ação da água é o agente ativo, além da ação antrópica, que causa, ou afeta diretamente, a erosão. Assim, as águas de chuva podem ter efeitos variados, dependendo de sua intensidade, quantidade, duração e frequência. De fato, uma chuvada pode produzir acentuado efeito erosivo no solo, enquanto se a mesma quantidade precipitada se distribuir num tempo maior ocorrerão menores estragos, pois as gotas terão menor peso e não terão tanto impacto. Além disso, haverá o encharcamento progressivo do solo com infiltração, sem a formação das enxurradas que tendem a lavar o solo. O escoamento das águas pluviais se subdivide na infiltração pelo terreno e no escoamento superficial, e se caracteriza pela sazonalidade hidrológica (grandes vazões sólidas nos períodos de chuvas) e pelo abatimento do pico de vazão de cheia quanto maior for a parcela de água infiltrada. Escoamento da água na superfície do solo. As características sedimentológicas do solo dizem respeito à forma de sua curva granulométrica (estrutura) e dos grãos (textura), sendo os sedimentos mais facilmente erodidos as areia finas de curva granulométrica uniforme (bem selecionadas/mal graduadas) e grãos arredondados, que também facilitam a infiltração; enquanto as argilas resistem por coesão à erosão e impedem a infiltração. As características topobatimétricas de aumento da declividade e do comprimento da rampa produzem aumento da erosão pelo escoamento superficial veloz e pouca infiltração, dependendo da rugosidade da superfície, estando correlacionadas à ação da gravidade no deslocamento de cada partícula em função do seu peso. As características geológicas estão ligadas à consistência dos materiais, do comportamento na infiltração e no escoamento superficial, da espessura e ângulo de mergulho da camada e das fraturas existentes. A cobertura vegetal protege o solo contra a erosão pluvial, aumentando a evapotranspiração e a infiltração e, consequentemente reduzindo o escoamento superficial, além do efeito de interceptação. HIDRÁULICA FLUVIAL Tipo de Cobertura Vegetal Quantidade de Material Removido (kg/ha/ano) Mata Virgem Mata Explorada (Madeira,etc) Pastagem Algodoal Mamona Feijão Mandioca Amendoim Arroz Soja Cana Café Milho Outras Culturas 1~4 220 4000 24.800 41.500 38.100 33.900 26.700 25.100 20.100 12.400 20.000 18.000 15.000 Dados sobre erosão. I.1.3 A erosão por ação hidráulica Nas Figuras estão apresentadas fotografias de efeitos erosivos em solos. Infraestruturas mal concebidas dão origem a ravinas e até voçorocas gigantes. Processo de erosão ativa na atividade da mineração em portos de areia. (Rio Paraíba, SP) HIDRÁULICA FLUVIAL A erosão fluvial consiste no transporte de sedimentos promovido no material do leito pela ação das correntes fluviais, verifica-se que as cabeceiras dos rios são compostas por sedimentos de dimensões maiores, como pedras, seixos e pedregulhos. À medida que são transportados, os materiais mais grosseiros vão sofrendo desgaste e se fracinando em sedimentos de granulometria menor, areia grossa, média e fina, segregando-se paulatinamente rumo ao médio e baixo curso, havendo a geração de sedimento mais fino silto-argiloso, que vem a se depositar nas áreas de menor turbulência como lama. De um modo geral: • Na alta bacia há maior erosão e transporte de sedimentos, com forte degradação dos solos, representando grande fonte de sedimentos. • Na média bacia a erosão diminui pelo decréscimo das declividades e a menor intensidade das chuvadas, correspondendo a área de transferência de sedimentos, com formação de braços e meandros fluviais. • Na parte baixa da bacia a maior parte dos sedimentos erodidos produz agradação, distribuindo-se os depósitos no leito e várzeas. Bacia Hidrográfica e relacionamento com a produção de sedimentos. (a) Alta Bacia do Rio Santo Antônio em Caraguatatuba (SP). (b) Média Bacia do Rio Paraíba do Sul em Pindamonhangaba (SP). (c) Foz do Rio Juqueriquerê entre Caraguatatuba e São Sebastião (SP). A margem côncava dos rios tende a ter erosão de margem, com assoreamentos na margem convexa, que recebe os sedimentos erodidos. Erosão em margem côncava do Rio Ribeira de Iguape entre Sete Barras e Registro (SP). HIDRÁULICA FLUVIAL Assoreamentoao longo do baixo curso do Rio Santo Antônio em Caraguatatuba (SP). I.1.4 A viabilidade de obras de Engenharia Hidráulica e o transporte de sedimentos O transporte de materiais sólidos em escoamentos é importante para o estudo de viabilidade técnica-econômica e ambiental de um grande número de obras de Engenharia Hidráulica, podendo-se citar: • Na Hidráulica Fluvial: obras de melhoria da geometria e cinemática do escoamento, visando a navegação, controle de cheias, defesa das áreas ribeirinhas, estabilidade de obras fluviais, abastecimento de água, conservação do solo e da vegetação da bacia hidrográfica. Trata-se da construção de diques, espigões, revestimentos de canais, cortes de meandros, dragagens e derrocamentos, estudos de canais e confluências. • Nos aproveitamentos hidráulicos: assoreamento de reservatórios e tomadas d'água, ensecadeiras, erosões junto às fundações de pilares de pontes ou a jusante de vertedores de barragens, decantação e difusão de sólidos em tratamentos d'água e efluentes, canais industriais ou de irrigação, abrasão de tubulações, bombas e turbinas, transporte sólido por conduto forçado (lododutos e minerodutos). • Em Hidráulica Marítima: assoreamento de portos e canais navegáveis, defesa dos litorais contra erosões, serviços de dragagem. HIDRÁULICA FLUVIAL Esquema de formação de depósitos de sedimentos nos reservatórios com indicação dos principais problemas decorrentes. Retirada de sedimento do reservatório de Pampulha, Belo Horizonte (MG) . HIDRÁULICA FLUVIAL Remoção do sedimento da boca da tomada d’água – UHE, Mascarenhas/ESCELSA no Rio Doce (ES). A eficiência de numerosas obras hidráulicas tem sido seriamente afetada, com prejuízos que vão até a inutilização total, por não terem sido devidamente considerados os problemas de transporte sólido. 1.2 MODALIDADES DO TRANSPORTE SÓLIDO Costuma-se distinguir três modalidades em que é composto o transporte sólido total: • Arrastamento de fundo: as partículas sólidas deslocam-se junto ao fundo por rolamento ou escorregamento sobre outras partículas, sem perder contato com o fundo. • Suspensão: as partículas sólidas deslocam-se no meio do escoamento sem entrar em contato com o fundo. A velocidade das partículas transportadas por arrastamento é sempre muito menor do que as transportadas em suspensão, aproximando-se esta da velocidade média do escoamento. Além disso, as partículas em suspensão deslocam-se permanentemente e as arrastadas movem-se de forma intermitente, alternando períodos de deslocamento com outros de repouso, em geral sob outras partículas do fundo. A diferença de velocidades das partículas em suspensão e por arrastamento, aliada à circunstância do transporte em suspensão fazer-se em toda a seção do escoamento, enquanto o transporte por arrastamento se processa apenas numa camada relativamente delgada junto ao fundo, faz com que nos cursos d'água naturais a vazão sólida em HIDRÁULICA FLUVIAL suspensão seja, de modo geral, consideravelmente superior à vazão sólida por arrastamento. No alto curso a vazão sólida em suspensão representa de 90 a 95% do transporte sólido total, reduzindo-se para 65 a 90% à medida que a erosão da bacia vai diminuindo por diminuição da declividade do curso d’água. É a turbulência do escoamento que mantém o material em suspensão. As partículas são transportadas de baixo para cima quando o componente vertical da velocidade turbulenta é ascendente e maior do que a velocidade de decantação das partículas; sendo de cima para baixo em caso contrário. Algumas partículas muito finas podem ser transportadas sempre em suspensão,formando as denominadas suspensões coloidais, decantando somente sob a ação de forças físico-químicas que produzem a floculação (coagulação) das partículas, como no caso da ação da água salobra sobre cargas sedimentares fluviais nos estuários, que aumentando de dimensão (formam-se flocos com dimensões muito maiores do que as das partículas que o compõem) decantam formando depósitos característicos. 1.3 EQUILÍBRIO DOS ESCOAMENTOS COM FUNDO MÓVEL Nos cursos d'água as vazões líquidas e sólidas não permanecem constantes, sendo as condições de fronteiras variáveis. Costuma-se denominar de equilíbrio dinâmico ou de regime a situação em que o leito, embora sujeito a variações sazonais, acaba por retornar periodicamente a uma topobatimetria semelhante. Este equilíbrio pode ser rompido por alterações nas condições de alimentação das vazões líquidas e sólidas, por alterações das características do escoamento, ou por mudança na geometria dos canais. Entretanto, a tendência fluvial será sempre de buscar um novo equilíbrio em função das novas condições. A viabilidade das obras hidráulicas está estritamente relacionada com as previsões destas modificações. A modificação do equilíbrio fluvial com a construção de uma barragem é um exemplo bem característico. Devido ao barramento, deposita-se boa parte da carga sedimentar transportada, ocasionando a elevação do leito (assoreamento) a montante. A jusante, a capacidade de transporte fluvial passa a ser maior do que o aporte sedimentar, devido à maior energia cinética do escoamento em relação à situação original sem barramento e à retenção no reservatório, ocasionando uma tendência de aprofundamento do leito (erosão). Ambos os aspectos, se mal avaliados, podem ter graves consequências, reduzindo a vida útil e a eficiência do aproveitamento, ocasionando o solapamento de estruturas a jusante, como pilares de pontes, tomadas d'água e obras de proteção de margem, bem como da própria fundação do barramento. Por outro lado, a influência do barramento na regularização das vazões reduz a capacidade de transporte do rio como um todo, sendo possível que mais a jusante da zona de erosões o rio venha a apresentar deposições. Outro exemplo comum é a modificação do regime fluvial como resultado do reflorestamento ou obras de controle de erosões na bacia hidrográfica contribuinte, o que tem sempre uma influência muito mais considerável na redução da vazão sólida do que na redução da vazão líquida, o que pode produzir erosões ao longo do curso médio e baixo dos rios. Em rios que se subdividem em vários braços, ao ocorrer ruptura do equilíbrio num deles, como o aprofundamento do leito com consequente maior vazão líquida escoada, produzirá consequências nos demais, que no caso seriam a redução das vazões líquidas escoadas com prováveis deposições associadas. HIDRÁULICA FLUVIAL I.4 CURVA-CHAVE SÓLIDA As curvas-chave sólidas ou de sedimentos são influenciadas pela variação sazonal do regime fluvial ao longo do ano (período de cheias e estiagem), bem como por ciclos úmidos ou secos de longo período (plurianuais). Assim, para obterem-se curvas-chave representativas é importante que as medições tenham abrangido toda a variação do nível d’água do período considerado, associados aos respectivos valores de descarga sólida. Curva-chave sedimentar do Rio Manso, em Porto de Cima (MT) Curva-chave sedimentar do Rio Cuiabá, em Cuiabá (MT). HIDRÁULICA FLUVIAL II. GRANULOMETRIA E CONFORMAÇÕES DE FUNDO II.1 GRANULOMETRIA DOS SEDIMENTOS As dimensões dos sedimentos influem tanto na rugosidade superficial de fundo como na mobilidade do mesmo. Podem classificar-se granulometricamente em: • Partículas finas o suficiente para serem mantidas em suspensão pelo movimento browniano. São partículas argilosas, com diâmetro D inferior a 5 μm (ABNT). • Partículas finas o suficiente para serem facilmente transportadas em suspensão pelo escoamento. São siltes (5 μm < D < 50 μm) e areias finas (50 μm < D < 400 μm), segundo a classificação da ABNT. • Partículas mais grosseiras transportadas por arrastamento. Trata-se de areias médias e grossas(0,4 mm < D < 5 mm) ou pedregulhos (D > 5mm), segundo a classificação da ABNT. A presença de mais de 10% em peso de partículas argilosas numa amostra é suficiente para induzir propriedades coesivas ao material. Curva granulométrica de material em suspensão e do leito no Rio São Francisco, em Pirapora (MG). O peso específico dos grãos (s) dos sedimentos varia geralmente pouco, sendo mais comum o valor médio 2,65 gf/cm3 (sílica). II.2 CONFORMAÇÕES DE FUNDO Uma vez iniciado o transporte por arrastamento, com o crescimento progressivo da velocidade do escoamento, o leito móvel passa a apresentar em ordem sequencial as seguintes conformações: leito plano, rugas, e dunas. HIDRÁULICA FLUVIAL Conformações de fundo dos leitos móveis. As rugas são ondulações sensivelmente regulares, com forma aproximadamente sinusoidal, com alturas da ordem dos centímetros e comprimentos de onda da ordem dos decímetros. Deslocam-se para jusante com uma velocidade reduzida comparada com a do escoamento, sendo que suas dimensões são praticamente independentes das do escoamento. As dunas são ondulações muito mais irregulares do que as rugas, que exibem um talude de montante mais suave em relação ao mais íngreme de jusante, com alturas da ordem dos decímetros e comprimentos de onda da ordem de metros a centenas de metros. Deslocam-se para jusante com uma velocidade muito inferior à do escoamento, sendo que suas dimensões são fortemente dependentes das do escoamento. III.CONCENTRAÇÃO EM SUSPENSÃO E TRANSPORTE TOTAL O transporte de sedimentos em suspensão é resultado da turbulência do escoamento, particularmente da componente vertical das flutuações de velocidade. A concentração de sedimentos aumenta com a proximidade do leito. HIDRÁULICA FLUVIAL Distribuições verticais de concentração de sedimentos em suspensão que podem ocorrer numa corrente líquida. Numa dada seção do escoamento, o transporte sólido efetivo é função do balanço entre a capacidade de transporte sólido das correntes e a disponibilidade de sedimentos a serem transportados (aporte sedimentar). A tendência do comportamento natural é a de sempre buscar atingir a condição de equilíbrio dinâmico neste balanço, isto é que a capacidade de transporte iguale o aporte. Quando a primeira é superior ao segundo o equilíbrio dinâmico é atingido por processo erosivo, enquanto na situação oposta o é por processo deposicional. Esquema ilustrativo do transporte sólido efetivo numa dada seção em função da dimensão característica dos sedimentos. A vazão sólida total numa dada seção do escoamento corresponde à soma das vazões correspondentes ao transporte sólido por arrastamento e em suspensão. Estas duas modalidades de transporte foram tratadas separadamente não só porque o mecanismo de transporte é diferenciado mas também porque costuma-se recorrer a aparelhos diferentes HIDRÁULICA FLUVIAL para medir as duas vazões. Na prática, no entanto, não é possível estabelecer uma separação nítida entre as duas modalidades, mesmo porque elas não são completamente independentes. De fato, considerando-se que o material transportado em suspensão provêm do fundo, sua granulometria está representada no material arrastado, o que permite considerar uma continuidade no transporte sólido desde o fundo até a superfície e é possível relacionar o transporte em suspensão com o transporte por arrastamento. Em certos casos o material em suspensão não provêm do fundo mas das vertentes da bacia hidrográfica, e nestas circunstâncias o transporte em suspensão é completamente independente do transporte por arrastamento, tendo-se que considerar variáveis de influência fisiográfica da bacia hidrográfica. As vazões sólidas em suspensão numa dada seção fluvial dependem mais do que se passa a montante, principalmente da alimentação de material sólido fino proveniente da bacia hidrográfica contribuinte do que se passa na vizinhança imediata da própria seção. Com relação à vazão sólida por arrastamento, são as variáveis locais que predominam e que são de mais fácil definição do que as variáveis fisiográficas. As quantidades de sedimentos que os rios transportam para os oceanos correspondem a cifras bastante elevadas. Assim, o rio Amarelo, na China, estima-se que transporte cerca de 2 bilhões de toneladas por ano, o rio Ganges, na Índia, 1,5 bilhão, o rio Amazonas 0,4 bilhão, o rio Mississipi, nos Estados Unidos, 0,3 bilhão, o rio Nilo, no Egito, 0,1 bilhão, estão entre os maiores contribuintes. Estas cargas dependem do regime de chuvas, da natureza do solo e de sua cobertura vegetal. IV. MORFOLOGIA FLUVIAL - PRINCÍPIOS A Morfologia Fluvial é o ramo da Hidráulica Fluvial que estuda a formação, evolução e estabilização dos cursos d’água naturais produzida pelo escoamento líquido, sendo um ramo da Geomorfologia, ramo da Geologia que estuda a evolução da superfície terrestre ao longo das eras geológicas. À medida que avança o desenvolvimento da ocupação das bacias hidrográficas, induzindo crescentes alterações no transporte de sedimentos e, por conseqüência no comportamento dos rios, o conhecimento da Morfologia Fluvial torna-se essencial para as obras de Engenharia Fluvial ligadas à Navegação Interior por sistematizar conceitos fluviais fundamentais. Fundamentalmente a bacia hidrográfica pode ser subdividida morfologicamente em: Alta bacia ou curso superior No trecho inicial ou de cabeceiras o rio tem alta declividade do perfil longitudinal e o escoamento fluvial é de alta velocidade, transportando cargas sedimentares mal selecionadas (bem graduadas, desde argilas a grandes blocos) num leito normalmente acidentado e em aprofundamento. A tendência erosiva conduz à redução das declividades a partir do nível de base a jusante, produzindo leito retilíneo e vale encaixado. Média bacia ou curso médio Neste trecho de média declividade do perfil longitudinal a velocidade é relativamente menor do que no curso superior e o rio tende a um perfil de equilíbrio com moderada HIDRÁULICA FLUVIAL sinuosidade. O rio tende a continuar aprofundando-se no vale, desenvolvendo trabalho de modelação das margens não consolidadas, as quais deslizam pela ação da corrente e desgastam-se pela abrasão com os materiais carreados. Sendo maior a contribuição da bacia hidrográfica, as vazões são maiores e nos lugares aonde o leito se alarga decresce a velocidade das correntes e formam-se bancos ou ilhas, devido à perda de competência na capacidade de transporte das correntes e/ou pela presença de níveis de base. Baixa bacia ou curso inferior Neste trecho de baixa declividade longitudinal o decréscimo de velocidade é acentuado, com leito aluvionar e reduzida ação erosiva, limitada pela proximidade altimétrica do nível de base final. A Morfologia Fluvial conceitua o nível de base final, segundo o qual o nível do mar corresponde àquele rumo ao qual os rios tendem a erodir os seus leitos, planificando-se. Existem, ainda, os níveis de base temporários, como lagos naturais e/ou artificiais (reservatórios de barragens), ou soleiras de material do álveo muito resistente (quedas ou corredeiras), que podem desempenhar por muito tempo a função de níveis de base. O conceito de Morfologia Fluvial que pode ser considerado a síntese fundamental para a Engenharia é o de equilíbrio dinâmico de um rio. Considerando a escala de tempo das obras de Engenharia, que pode variar de algumas décadas, um rio estará em equilíbrio se o balanço de seus processos de erosão e deposição ao longo do período estabelecido não produzir alterações mensuráveis em suas características. Tais rios são, portanto, sistemas em equilíbrio dinâmico, sendo as vazões líquidas e sólidas consideradas variáveis independentes das características do canal,as quais, no equilíbrio, atingem uma condição tal que toda a carga de sedimentos trazida pela rede de afluentes é transportada sem que haja erosão ou deposição no leito. A análise qualitativa das transformações que ocorrem nos perfis longitudinais dos rios para diversos casos de alterações nas condições originais do escoamento é apresentada, exemplificadamente, para situações comuns: • Retificação do rio principal por corte de meandros A retificação produz aumento de declividade do curso d’água, que deverá ser compensado por um maior transporte sólido para jusante e um processo de erosão regressivo (para montante). • A construção de uma barragem A construção de uma barragem produz a retenção dos sedimentos transportados pelo rio no reservatório, para jusante a mesma vazão, mas sem a carga sedimentar retida no reservatório, produzirá erosão do leito até ser atingido um perfil de equilíbrio; para montante, a deposição evolui grandes distâncias para montante. Na planície aluvionar ocorre o aumento do percurso fluvial, que torna-se sinuoso ou emeandrado com vale composto: o leito maior tem maior declividade pela tendência à sedimentação nas grandes enchentes, em que o aporte supera a capacidade de transporte, e o leito médio tem menor declividade (sinuosidade acentuada) pela HIDRÁULICA FLUVIAL tendência à erosão nas estiagens, em que o aporte é menor do que a capacidade de transporte). Segmentos de uma secção transversal. Composição esquemática de leitos de um curso d’água. Assim, leito médio, ou genericamente leito, corresponde à calha recoberta pelas águas quando o rio se escoa à borda plena das margens, correspondendo à vazão morfologicamente dominante (com período de retorno entre um e dois anos normalmente), enquanto o leito menor é a parte inferior do leito médio e corresponde às condições de estiagem. Já o leito maior corresponde ao vale recoberto pelas águas das grandes enchentes, nas águas de transbordamento. A sinuosidade de um rio é uma tendência natural de realização do menor trabalho em curva em terrenos não consolidados e de baixa granulometria (aluvião). O escoamento nas curvas mostra que a profundidade do canal muda sistematicamente ao longo da curva, sendo a seção mais rasa a do ponto de inflexão (onde a curvatura inverte seu sentido) e a mais profunda a do eixo da curva. As formas das seções transversais também mudam: ela é simétrica em relação ao eixo do canal a jusante do ponto de inflexão e mais assimétrica no eixo da curva, aonde as maiores profundidades situam-se próximas à margem côncava. Na seção de inflexão a velocidade da água é a menor do trecho, com uma distribuição assimétrica em que as velocidades maiores estão do lado da margem aonde se encontra a concavidade da curva imediatamente anterior. As velocidades crescem do ponto de inflexão até o eixo da curva seguinte. À meia-distância entre o ponto de inflexão e o eixo da curva a distribuição da velocidade é quase simétrica, havendo reduzida circulação transversal. O máximo da assimetria na distribuição de velocidade ocorre na seção do eixo da curva, com as maiores velocidades situando-se próximas da concavidade da curva, e onde a circulação transversal torna-se mais intensa, a qual combinada com a tendência ao deslocamento de translação do escoamento dá origem a um movimento helicoidal. Como resultado deste movimento helicoidal ocorre o ataque da margem côncava, havendo o mergulho dos filetes líquidos, e o transporte do material erodido para a margem convexa, aonde na HIDRÁULICA FLUVIAL ressurgência dos filetes líquidos é depositado em parte pela menor tensão de arrastamento atuante, formando um banco ou barra. A erosão das margens côncavas e deposição nas margens convexas tende a fazer as curvas acentuadas (meandros) moverem-se lateralmente, atravessando todo o vale. A evolução do processo hidrossedimentológico nas curvas do meandro faz com que as alças fiquem cada vez mais fechadas, até o momento em que duas alças se cortam ficando uma das alças abandonada, aumentando a declividade do leito e, portanto sua capacidade erosiva, remodelando-se todo o sistema a jusante deste ponto em busca de nova situação próxima ao equilíbrio. Escoamento idealizado em um meandro típico. As ilustrações da parte esquerda da figura indicam os vetores velocidade para jusante em cinco secções transversais na curva. A componente lateral da velocidade é indicada pela área triangular hachurada. A ilustração da direita da figura mostra as linhas de corrente na superfície d’água da curva. HIDRÁULICA FLUVIAL Efeitos do escoamento transversal (corrente helicoidal). V. FORMA PLANI-ALTIMÉTRICAS DOS RIOS ALUVIONARES Os estudos realizados no fim do século XIX e início do século XX por Fargue no trecho de planície aluvionar do Rio Garonne (França) permitiram o enunciado de uma série de leis empíricas, que foram verificadas como válidas para curvas regulares e que norteiam a implantação de obras de melhoramento fluviais. Segundo Fargue, um curso d’água é composto somente por curvas, as quais se estendem de um ponto de inflexão (curvatura nula), que divide dois trechos com curvaturas opostas. A cada ponto de inflexão corresponde uma soleira, ponto de mínima profundidade, a cada vértice, ponto de máxima curvatura, corresponde uma fossa (ponto de máxima profundidade relativa). As leis de Fargue são as seguintes: • Lei do talvegue: a linha de máxima profundidade (talvegue) ao longo do curso d’água tende a se aproximar da margem côncava e o material ali escavado se deposita na margem convexa. • Lei do afastamento: as profundidade máximas das fossas na margem côncava e mínimas (soleiras) nas inflexões correspondem aos vértices das curvas e inflexões, respectivamente, deslocados ligeiramente para jusante por efeito de inércia. • Lei da fossa, ou do fundo: a profundidade é tanto maior quanto maior for a curvatura no talvegue (1/R) correspondente (maior efeito erosivo). • Lei do desenvolvimento: as leis têm validade para as curvas de desenvolvimento médio (Raio R) do curso d’água, isto é, nem muito longas, nem muito curtas com relação à largura (B) do canal (3B<R<6B e 5B<L<11B). HIDRÁULICA FLUVIAL • Lei do ângulo, ou da curvatura média: em curvas com igual desenvolvimento de comprimento de talvegue, a profundidade média é maior quanto maior o ângulo externo das tangentes (maior efeito erosivo). • Lei da continuidade: o perfil de fundo é regular quando há variação contínua da curvatura, e, por consequência, toda mudança brusca de curvatura produz redução brusca de profundidade. • Lei da declividade de fundo: a variação da curvatura é proporcional à variação da declividade de fundo. Forma em planta do leito de um curso d’água. Escoamentos da correntes de água num curso fluvial. HIDRÁULICA FLUVIAL Exemplo da evolução planimétrica do Rio Piracuama na Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul no Estado de São Paulo.