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Brasília-DF. Fisiologia aplicada à Nutrição Elaboração Daniele Sá Vido Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APRESENTAÇÃO .................................................................................................................................. 5 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA ..................................................................... 6 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 8 UNIDADE I FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO ........................................................................................... 9 CAPÍTULO 1 ASPECTOS FISIOLÓGICOS FUNDAMENTAIS DO CORPO HUMANO .............................................. 9 CAPÍTULO 2 FISIOLOGIA CARDIOVASCULAR .............................................................................................. 14 CAPÍTULO 3 FISIOLOGIA ENDÓCRINA ....................................................................................................... 25 CAPÍTULO 4 FISIOLOGIA RENAL ................................................................................................................ 32 CAPÍTULO 5 FISIOLOGIA DO APARELHO DIGESTÓRIO ................................................................................ 40 CAPÍTULO 6 NEUROFISIOLOGIA ................................................................................................................ 47 CAPÍTULO 7 TEMPERATURA CORPORAL E SUA REGULAÇÃO ....................................................................... 59 CAPÍTULO 8 APETITE E FOME .................................................................................................................... 68 UNIDADE II TERMOMETABOLOGIA ........................................................................................................................ 75 CAPÍTULO 1 BALANÇO ENERGÉTICO ........................................................................................................ 75 CAPÍTULO 2 DENSIDADE ENERGÉTICA DOS ALIMENTOS ............................................................................. 86 CAPÍTULO 3 GASTO ENERGÉTICO ............................................................................................................. 91 CAPÍTULO 4 FATORES QUE AFETAM O GASTO DE ENERGIA ......................................................................... 95 PARA (NÃO) FINALIZAR ...................................................................................................................... 98 REFERÊNCIAS ................................................................................................................................. 104 5 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 6 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta, para aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Praticando Sugestão de atividades, no decorrer das leituras, com o objetivo didático de fortalecer o processo de aprendizagem do aluno. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. 7 Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Exercício de fixação Atividades que buscam reforçar a assimilação e fixação dos períodos que o autor/ conteudista achar mais relevante em relação a aprendizagem de seu módulo (não há registro de menção). Avaliação Final Questionário com 10 questões objetivas, baseadas nos objetivos do curso, que visam verificar a aprendizagem do curso (há registro de menção). É a única atividade do curso que vale nota, ou seja, é a atividade que o aluno fará para saber se pode ou não receber a certificação. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 8 Introdução A fisiologia tenta explicar os fatores físicos e químicos responsáveis pela origem, pelo desenvolvimento e pela progressão da vida. Cada tipo de vida, desde o mais simples vírus até a maior árvore ou o complexo ser humano, possui características funcionais próprias. Portanto, o vasto campo da fisiologia pode ser dividido cm fisiologia viral, fisiologia bacteriana, fisiologia celular, fisiologia vegetal, fisiologia humana, e em muitas outras áreas. Na fisiologia humana, estamos interessados nas características e nos mecanismos específicos do corpo humano que o tornam um ser vivo. O simples fato de permanecermos vivos está quase além de nosso controle, pois a fome nos faz procurar alimento e o medo, a buscar abrigo. As sensações de frio nos levam a produzir calor e outras forças nos levam a procurar companhia e a reproduzir. Assim, o ser humano é, na verdade, um autômato, e o fato de sermos seres que sentem, que têm sentimentos e conhecimentos permite-nos viver sob condições extremamente variáveis que, de outra forma, impossibilitariam a vida. Objetivos » Compreender a regulação do metabolismo e da funcionalidade celulares. » Analisar os mecanismos de funcionamento dos sistemas orgânicos, tendo uma visão da importância de cada um deles e do funcionamento integrado do organismo. » Analisar as inter-relações das vias metabólicas intracelulares de tecidos e órgãos. 9 UNIDADE I FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO CAPÍTULO 1 Aspectos fisiológicos fundamentais do corpo humano Se você viver 65 anos ou mais consumirá mais de 70 mil refeições e o seu notável corpo terá utilizado 50 toneladas de alimento. Os alimentos que você escolhe temefeitos acumulativos sobre seu corpo. Aos 65 anos de idade, você verá e sentirá esses efeitos. Seu corpo renova suas estruturas continuamente e a cada dia constrói um pouco de músculo, osso, pele e sangue, substituindo tecidos velhos por novos. Acrescente também um pouco de gordura, se você consumir energia alimentar em excesso, ou subtraia um pouco, no caso de consumir menos do que precisa. Desse modo, o alimento que você ingere, hoje, torna-se parte de “você” amanhã. O melhor alimento, então, é o do tipo que dá suporte ao crescimento e à manutenção de músculos fortes, ossos firmes, pele sadia e sangue suficiente para limpar e nutrir todas as partes do seu corpo. Isso significa que você necessita de alimentos que não somente lhe forneçam energia, mas também nutrientes suficientes, ou seja, quantidades suficientes de água, carboidratos, gordura saudável, proteínas, vitaminas e sais minerais. E se os alimentos ingeridos fornecem muito pouco, ou demais, de um ou mais nutrientes todos os dias durante anos, então, quando você estiver velho, pode vir a sofrer seus efeitos, manifestados em uma doença grave. A questão é que uma variedade bem escolhida de alimentos supre a energia e a quantidade necessária de cada nutriente para prevenir a má nutrição. Má nutrição inclui deficiências, desequilíbrios e excessos de nutrientes e qualquer um deles pode cobrar um tributo da saúde ao longo do tempo. Portanto, é necessário compreender a fisiologia humana relacionando os sistemas biológicos com a nutrição. Introdução As células do organismo metazoário associam-se e formam níveis diferentes de organização: tecidos, órgãos e sistemas de órgãos. Um tecido deve ser sempre interpretado como morfo-funcionalmente, 10 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO como o produto da interação entre grupos de células e de substâncias intercelulares que desempenham uma ou mais tarefas específicas. Um órgão é constituído por mais de um tipo de tecido em diferentes proporções e padrões. Um sistema de órgãos envolve mais de um órgão interagindo física, química e funcionalmente para que uma determinada tarefa seja efetuada. Níveis de Organização de um Ser Vivo (Metazoario) Cada célula realiza atividades metabólicas essenciais para a sua própria sobrevivência e, ao mesmo tempo, desempenha a função específica do tecido de cujo órgão faz parte. Todos os organismos vivos, independentemente de ter ou não organização metazoária, compartilham características e propriedades comuns. 1. Manutenção equilibrada do meio interno, operando dentro de condições toleráveis às extremas variações do meio ambiente. 2. Aquisição de nutrientes e outras substâncias do meio ambiente externo, garantindo sua distribuição pelo corpo. 3. Excreção de produtos finais do metabolismo e outras substâncias indesejáveis para o organismo. 4. Proteção contra injúrias. 5. Reprodução. 11 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I A figura mostra os diferentes sistemas de órgãos do corpo humano. Para que o organismo funcione como uma unidade funcionalmente integrada, são necessários mecanismos de monitoramento dos acontecimentos ambientais externos e internos (de órgãos sensoriais), de processamento dos sinais e produção de comandos (do sistema nervoso e endócrino) e, finalmente, de execução coordenada das tarefas de ajustes (de um sistema muscular e glandular). Homeostasia e sistemas de controle Por mais que os seres vivos apresentem uma ampla capacidade de ajuste frente às variações que ocorrem no meio ambiente, todos estão sujeitos aos seus respectivos limites de tolerância. O gráfico mostra que o peixe possui uma ampla zona de tolerância em relação à variação da temperatura ambiental. Denominamos de temperatura crítica inferior (Tci) e superior (Tcs) os respectivos limites em que a taxa de sobrevivência desses animais é de 100%. Quando a temperatura diminui ou aumenta, aquém ou além das temperaturas críticas, a taxa de sobrevivência vai diminuindo até que nenhum animal suporte mais as variações. A zona de resistência corresponde à faixa de variações térmicas em que a sobrevivência dos animais fica comprometida. Cada espécie possui um perfil típico de tolerância e de resistência às variações da temperatura ambiental. Essa ideia pode ser aplicada a outras variáveis de importância biológica como tensão de oxigênio, osmolaridade, pH etc. Os seres vivos sofrem desafios contínuos frente à instabilidade e à imprevisibilidade do meio ambiente externo. O ideal é se manter dentro da zona de tolerância e, se submetido às variações críticas (zona de resistência), esquivar-se dela. Para realizar esses ajustes, os organismos necessitam de mecanismos detectores das variações, mecanismos que proponham soluções corretivas e mecanismos que efetuam esses reajustem. Denominamos homeostase a condição de estabilidade operacional do meio interno, inclui não só o controle de parâmetros térmicos como de vários outros parâmetros biológicos. Nos animais homeotérmicos, a homeostasia tem a ver com a regulação constante da temperatura corporal 12 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO nos limites estreitos, pois não toleram grandes oscilações da temperatura. O fato de os animais ectodérmicos serem termoconformadores (nos limites de tolerância) quer dizer que as condições de homeostase térmica são diferentes. Nos animais homeotérmicos, os sensores térmicos (termorreceptores) monitoram constantemente as variações térmicas do corpo e essa informação é enviada para um termostato situado no sistema nervoso. A temperatura detectada é comparada com o ponto de ajuste e, se for necessário, são executados ajustes nos mecanismos produtores e trocadores de calor, no sentido de restabelecer a condição desejada. Qualquer que seja o mecanismo de ajuste da homeostase corporal são necessários, no mínimo, três componentes essenciais. a. Órgãos sensoriais: altamente sensíveis à detecção de mudanças específicas dos meios interno ou externo. b. Órgãos de processamento e de integração: local de recebimento e processamento da informação; está capacitado para analisá-la e elaborar comandos de ação. c. Órgãos efetuadores: sistemas de órgãos que executam as tarefas necessárias para o restabelecimento do controle. Mecanismos homeostáticos Há dois mecanismos universais utilizados pelos sistemas vivos para se realizar a regulação dos parâmetros biológicos. Controle por retroalimentação negativa (Feedback negativo) Quando uma determinada alteração é detectada pelos receptores sensoriais, esta é comunicada ao integrador, que compara a variação com o ponto de ajuste ideal e elabora comandos apropriados para que os órgãos efetuadores contrabalancem o efeito do estimulo, cancelando-o ou agindo contra ela. Vamos reexaminar a regulação da temperatura corporal. Suponha que você esteja correndo num dia bem quente: a atividade muscular produz muito calor e o meio interno “esquenta”. O aumento da temperatura corporal estimula os receptores térmicos e estes informam ao sistema nervoso central sobre a nova situação térmica do meio interno. Imediatamente, comandos nervosos são enviados aos órgãos efetuadores no sentido de contrabalançar os efeitos do aumento de temperatura: você, então, para, deita-se à sombra, continua a suar profusamente e a ofegar (forma de perder calor por evaporação). Esses e outros mecanismos contra o superaquecimento são desencadeados para refrear as atividades geradoras de calor e estimular as atividades que facilitam a perda de calor para o meio. Veremos, ao longo do curso de Fisiologia, vários exemplos sobre os mecanismos que operam regulando o meio interno por meio da retroalimentação negativa, como forma de restabelecer e manter a homeostasia. 13 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I Controle por retoalimentação positiva (Feedback positivo) Algumas vezes, os sistemas de controle agem exacerbando uma mudança, porém por um determinado limitede tempo. Uma vez iniciadas as atividades de interação sexual, sinais de receptividade sexual estimulam fortemente o parceiro. A reação positiva do parceiro excita a mulher mais ainda e, assim reciprocamente, até que a penetração ocorre e, eventualmente, a fertilização do óvulo. Note que a exacerbação da atividade sexual foi sendo retroalimentada progressivamente, mas até que o orgasmo fosse atingido. O trabalho de parto inicia-se com o bebê exercendo pressão mecânica sobre a parede do útero. A distensão mecânica da parede uterina estimula a secreção da ocitocina, um hormônio hipotalâmico. A função da ocitocina é a de estimular a contração, causando aumento da pressão intrauterina num ciclo vicioso, até que finalmente o bebê é expulso. Principais órgãos efetuadores do corpo Podemos deduzir que os órgãos efetuadores do corpo são aquelas estruturas que executam tarefas determinadas por um certo comando. Podemos reconhecer os seguintes sistemas como executores de tarefas do corpo. 1. Sistema musculoesquelético: efetua os movimentos e as posturas do corpo e relaciona o organismo com o meio externo. 2. Sistema cardiocirculatório: efetua os ajustes do bombeamento sanguíneo, da pressão e do seu fluxo nos tecidos. 3. Sistema digestório: efetua a digestão e a absorção do alimento. 4. Sistema respiratório: efetua a captação de O2 e a eliminação de CO2. 5. Sistema renal: efetua a regulação hidroeletrolítica dos fluidos corporais Esses sistemas de órgãos efetuadores estão sob o controle do Sistema Nervoso e do Sistema Endócrino. Além do sistema nervoso, o sistema endócrino atua regulando a função celular dos mesmos órgãos efetuadores, porém fazendo ajustes que afetam o metabolismo celular. Ambos operam de maneira mais ou menos independente, mas o sistema nervoso controla o sistema endócrino. Enquanto o sistema nervoso exerce a sua influência rápida e localizadamente sobre os órgãos efetuadores por meio de impulsos elétricos, o sistema endócrino age mais lento, difusa e sustentadamente, através de mediadores químicos que chegam até os órgãos efetuadores através da circulação. 14 CAPÍTULO 2 Fisiologia cardiovascular Introdução A função básica do sistema cardiovascular é a de levar material nutritivo e oxigênio às células. O sistema circulatório é um sistema fechado, sem comunicação com o exterior, constituído por tubos, que são chamados vasos, e por uma bomba percussora que tem como função impulsionar um líquido circulante de cor vermelha por toda a rede vascular. O sistema cardiovascular consiste no sangue, no coração e nos vasos sanguíneos. Para que o sangue possa atingir as células corporais e trocar materiais com elas, ele deve ser constantemente propelido ao longo dos vasos sanguíneos. O coração é a bomba que promove a circulação de sangue por cerca de 100 mil quilômetros de vasos sanguíneos. Circulação pulmonar e sistêmica Circulação pulmonar: leva sangue do ventrículo direito do coração para os pulmões e de volta ao átrio esquerdo do coração. Ela transporta o sangue pobre em oxigênio para os pulmões, onde ele libera o dióxido de carbono (CO2) e recebe oxigênio (O2). O sangue oxigenado, então, retorna ao lado esquerdo do coração para ser bombeado para a circulação sistêmica. Circulação sistêmica: é a maior circulação; ela fornece o suprimento sanguíneo para todo o organismo. A circulação sistêmica carrega oxigênio e outros nutrientes vitais para as células e capta dióxido de carbono e outros resíduos das células. Sangue As células de nosso organismo precisam constantemente de nutrientes para manutenção do seu processo vital, os quais são levados até elas pelo sangue. Esses elementos nutritivos são constituídos por proteínas, hidratos de carbono e gordura, desdobrados em suas moléculas elementares (protídeos, lipídeos e glicídios) e, ainda, sais minerais, água e vitaminas. Ao sangue cabe também a função de transportar oxigênio para as células e servir de veículo para que elementos indesejáveis, como o gás carbônico, que deve ser expelido pelos pulmões, e a ureia, que deve ser eliminado pelos rins. O sangue é composto por uma parte líquida, o plasma, constituído de substâncias nutritivas e elementos residuais das reações celulares. O plasma também possui uma parte organizada, os elementos figurados, que são os glóbulos sanguíneos e as plaquetas. 15 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I Os glóbulos dividem-se em vermelhos e brancos. Os glóbulos vermelhos são as hemácias, células sem núcleo contendo hemoglobina, um pigmento vermelho do sangue responsável pelo transporte de oxigênio e de gás carbônico. Os glóbulos brancos são os leucócitos, verdadeiras células nucleadas, incumbidas da defesa do organismo. São eles: neutrófilos, basófilos, eosinófilos, monócitos e linfócitos. O sangue está contido num sistema fechado de canais (vasos sanguíneos), impulsionados pelo coração. Sai do coração pelas artérias que vão se ramificando em arteríolas e terminando em capilares que, por sua vez, se continuam em vênulas e veias, retornando ao coração. Em nível de capilares, o plasma é acompanhado de alguns linfócitos (raramente a hemácia pode extravasar para o espaço intersticial), constituindo a linfa, que, posteriormente, é reabsorvida pelos capilares linfáticos, passando aos vasos linfáticos e, então, às veias, sendo reintegrada à circulação. O coração é o ponto central da circulação. Partindo dele temos dois circuitos fechados distintos. Circulação pulmonar ou direita ou pequena circulação: vai do coração aos pulmões e retorna ao coração. Destina-se à troca de gases (gás carbônico por oxigênio). Circulação sistêmica ou esquerda ou grande circulação: vai do coração para todo o organismo e retorna ao coração. Destina-se à nutrição sistêmica de todas as células. Coração Apesar de toda a sua potência, o coração, em forma de cone, é relativamente pequeno, aproximadamente do tamanho do punho fechado, cerca de 10cm de comprimento, 9cm de largura em sua parte mais ampla e 6cm de espessura. Sua massa é, em média, de 250g, nas mulheres adultas, e 300g, nos homens adultos. O coração fica apoiado sobre o diafragma, perto da linha média da cavidade torácica, no mediastino, a massa de tecido que se estende do esterno à coluna vertebral e entre os revestimentos (pleuras) dos pulmões. Cerca de 2/3 de massa cardíaca ficam à esquerda da linha média do corpo. A posição do coração, no mediastino, é mais facilmente apreciada pelo exame de suas extremidades, suas superfícies e seus limites. A extremidade pontuda do coração é o ápice, dirigida para frente, para baixo e para a esquerda. A porção mais larga do coração, oposta ao ápice, é a base, dirigida para trás, para cima e para a direita. Limites do coração: A superfície anterior fica logo abaixo do esterno e das costelas. A superfície inferior é a parte do coração que, em sua maior parte, repousa sobre o diafragma, correspondendo à região entre o ápice e a borda direita. A borda direita está voltada para o pulmão direito e estende-se da superfície inferior à base; a borda esquerda, também chamada borda pulmonar, fica voltada para o pulmão esquerdo, estendendo-se da base ao ápice. Como limite superior, encontram-se os grandes vasos do coração e, posteriormente, a traqueia, o esôfago e a artéria aorta descendente. 16 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO Camadas da parede cardíaca Pericárdio A membrana que reveste e protege o coração. Ele restringe o coração à sua posição no mediastino, embora permita suficiente liberdade de movimentação para contrações vigorosas e rápidas. O pericárdio consiste em duas partes principais: pericárdio fibroso e pericárdio seroso. O pericárdio fibroso superficial é um tecido conjuntivo irregular, denso, resistente e inelástico. Assemelha-se a um saco, que repousa sobre o diafragma e se prende a ele. O pericárdio seroso, mais profundo, é uma membrana mais fina e mais delicada que forma uma dupla camada, circundandoo coração. A camada parietal, mais externa, do pericárdio seroso está fundida ao pericárdio fibroso. A camada visceral, mais interna, do pericárdio seroso, também chamado epicárdio, adere fortemente à superfície do coração. Epicárdio A camada externa do coração é uma delgada lâmina de tecido seroso. O epicárdio é contínuo, a partir da base do coração, com o revestimento interno do pericárdio, denominado camada visceral do pericárdio seroso. Miocárdio É a camada média e a mais espessa do coração. É composto de músculo estriado cardíaco. É esse tipo de músculo que permite que o coração se contraia e, portanto, impulsione sangue, ou o force para o interior dos vasos sanguíneos. Endocárdio É a camada mais interna do coração. É uma fina camada de tecido composto por epitélio pavimentoso simples sobre uma camada de tecido conjuntivo. A superfície lisa e brilhante permite que o sangue corra facilmente sobre ela. O endocárdio também reveste as valvas e é contínuo com o revestimento dos vasos sanguíneos, que entram e saem do coração. 17 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I Configuração externa O coração apresenta três faces e quatro margens. a. Face anterior (esterno costal): formada principalmente pelo ventrículo direito. b. Face diafragmática (inferior): formada principalmente pelo ventrículo esquerdo e parcialmente pelo ventrículo direito; ela está relacionada principalmente com o tendão central do diafragma. c. Face pulmonar (esquerda): formada principalmente pelo ventrículo esquerdo; ela ocupa a impressão cárdica do pulmão esquerdo. d. Margem direita: formada pelo átrio direito e estendendo-se entre as veias cava superior e inferior. e. Margem inferior: formada principalmente pelo ventrículo direito e, ligeiramente, pelo ventrículo esquerdo. f. Margem esquerda: formada principalmente pelo ventrículo esquerdo e, ligeiramente, pela aurícula esquerda. g. Margem superior: formada pelos átrios e pelas aurículas direitas e esquerdas em uma vista anterior; a parte ascendente da aorta e o tronco pulmonar emergem da margem superior, e a veia cava superior entra no seu lado direito. Posterior à aorta e ao tronco pulmonar e anterior à veia cava superior, a margem superior forma o limite inferior do seio transverso do pericárdio. Externamente os óstios atrioventriculares correspondem ao sulco coronário, ocupado por artérias e veias coronárias. Esse sulco circunda o coração e é interrompido anteriormente pela artéria aorta e pelo tronco pulmonar. O septo interventricular na face anterior corresponde ao sulco interventricular anterior e na face diafragmática ao sulco interventricular posterior. O sulco interventricular termina inferiormente a alguns centímetros do à direita do ápice do coração, em correspondência a incisura do ápice do coração. 18 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO Configuração interna O coração possui quatro câmaras: dois átrios e dois ventrículos. Os átrios (câmaras superiores) recebem sangue; os ventrículos (câmaras inferiores) bombeiam o sangue para fora do coração. Na face anterior de cada átrio, existe uma estrutura enrugada, em forma de saco, chamada aurícula (semelhante à orelha do cão). O átrio direito é separado do esquerdo por uma fina divisória chamada septo interatrial; o ventrículo direito é separado do esquerdo pelo septo interventricular. Ciclo cardíaco Um ciclo cardíaco único inclui todos os eventos associados a um batimento cardíaco. No ciclo cardíaco normal os dois átrios contraem-se, enquanto os dois ventrículos relaxam e vice versa. O termo sístole designa a fase de contração; a fase de relaxamento é designada como diástole. Quando o coração bate, os átrios contraem-se primeiramente (sístole atrial), forçando o sangue para os ventrículos. Uma vez preenchidos, os dois ventrículos contraem-se (sístole ventricular) e forçam o sangue para fora do coração. 19 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I Para que o coração seja eficiente na sua ação de bombeamento, é necessário mais que a contração rítmica de suas fibras musculares. A direção do fluxo sanguíneo deve ser orientada e controlada, o que é obtido por quatro valvas, já citadas: duas localizadas entre o átrio e o ventrículo – atrioventriculares (valva tricúspide e bicúspide); e duas localizadas entre os ventrículos e as grandes artérias que transportam sangue para fora do coração – semilunares (valva pulmonar e aórtica). As valvas e válvulas impedem o refluxo, elas se fecham após a passagem do sangue. » Sístole é a contração do músculo cardíaco, temos a sístole atrial que impulsiona sangue para os ventrículos. Assim as valvas atrioventriculares estão abertas à passagem de sangue e a pulmonar e a aórtica estão fechadas. Na sístole ventricular, as valvas atrioventriculares estão fechadas e as semilunares abertas à passagem de sangue. » Diástole é o relaxamento do músculo cardíaco, é quando os ventrículos se enchem de sangue. Nesse momento as valvas atrioventriculares estão abertas e as semilunares estão fechadas. Podemos dizer, então, que o ciclo cardíaco compreende: sístole atrial, sístole ventricular e diástole ventricular. 20 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO Vascularização A irrigação do coração é assegurada pelas artérias coronárias e pelo seio coronário. As artérias coronárias são duas: uma direita e outra esquerda. Elas têm esse nome porque ambas percorrem o sulco coronário e são as duas originadas da artéria aorta. Essa artéria, logo depois da sua origem, dirige-se para o sulco coronário, percorrendo-o da direita para a esquerda, até se anastomosar com o ramo circunflexo, que é o ramo terminal da artéria coronária esquerda, que faz continuação desta, circundando o sulco coronário. A artéria coronária direita: da origem a duas artérias que vão irrigar a margem direita e a parte posterior do coração, são ela artéria marginal direita e artéria interventricular posterior. A artéria coronária esquerda: de início, passa por um ramo por trás do tronco pulmonar para atingir o sulco coronário, evidenciando-se nas proximidades do ápice da aurícula esquerda. Logo, em seguida, emite um ramo interventricular anterior e um ramo circunflexo que origina a artéria marginal esquerda. O sangue venoso é coletado por diversas veias que desembocam na veia magna do coração, que inicia em nível do ápice do coração, sobe o sulco interventricular anterior e segue o sulco coronário da esquerda para a direita, passando pela face diafragmática, para ir desembocar no átrio direito. A porção terminal desse vaso, representada por seus últimos 3cm forma uma dilatação que recebe o nome de seio coronário. O seio coronário recebe, ainda, a veia média do coração, que percorre de baixo para cima o sulco interventricular posterior, e a veia pequena do coração, que margeia a borda direita do coração. Há, ainda, veias mínimas, muito pequenas, as quais desembocam diretamente nas cavidades cardíacas. Inervação A inervação do músculo cardíaco é formada de duas formas: extrínseca, que provém de nervos situados fora do coração, e intrínseca, que constitui um sistema só encontrado no coração e que se localiza no seu interior. A inervação extrínseca deriva do sistema nervoso autônomo, isto é, simpático e parassimpático. Do simpático, o coração recebe os nervos cardíacos simpáticos, sendo três cervicais e quatro ou cinco torácicos. As fibras parassimpáticas que vão ter ao coração seguem pelo nervo vago (X par craniano), do qual derivam nervos cardíacos parassimpáticos, sendo dois cervicais e um torácico. Fisiologicamente, o simpático acelera e o parassimpático retarda os batimentos cardíacos. A inervação intrínseca, ou sistema de condução do coração, é a razão dos batimentos contínuos do coração. É uma atividade elétrica, intrínseca e rítmica, que se origina em uma rede de fibras 21 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I musculares cardíacas especializadas,chamadas células autorrítmicas (marca-passo cardíaco), por serem autoexcitáveis. A excitação cardíaca começa no nodo sino-atrial (SA), situado na parede atrial direita, inferior à abertura da veia cava superior. Propagando-se ao longo das fibras musculares atriais, o potencial de ação atinge o nodo atrioventricular (AV), situado no septo interatrial, anterior a abertura do seio coronário. Do nodo AV, o potencial de ação chega ao feixe atrioventricular (feixe de His), que é a única conexão elétrica entre os átrios e os ventrículos. Após ser conduzido ao longo do feixe AV, o potencial de ação entra nos ramos direito e esquerdo, que cruzam o septo interventricular, em direção ao ápice cardíaco. Finalmente, as miofibras condutoras (fibras de Purkinge) conduzem rapidamente o potencial de ação, primeiro para o ápice do ventrículo e, após, para o restante do miocárdio ventricular. Vasos sanguíneos Formam uma rede de tubos que transportam sangue do coração em direção aos tecidos do corpo e de volta ao coração. Os vasos sanguíneos podem ser divididos em sistema arterial e sistema venoso. Sistema arterial: constitui um conjunto de vasos que, partindo do coração, vão se ramificando, cada ramo em menor calibre, até atingirem os capilares. Sistema venoso: formam um conjunto de vasos que, partindo dos tecidos, vão se formando em ramos de maior calibre até atingirem o coração. Os vasos sanguíneos que conduzem o sangue para fora do coração são as artérias. Estas se ramificam muito, tornam-se progressivamente menores, e terminam em pequenos vasos determinados arteríolas. A partir desses vasos, o sangue é capaz de realizar suas funções de nutrição e de absorção atravessando uma rede de canais microscópicos, chamados capilares, os quais permitem ao sangue 22 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO trocar substâncias com os tecidos. Dos capilares, o sangue é coletado em vênulas; em seguida, por meio das veias de diâmetro maior, alcança de novo o coração. Essa passagem de sangue através do coração e dos vasos sanguíneos é chamada de circulação sanguínea. Sistema arterial Conjunto de vasos que saem do coração e se ramificam sucessivamente, distribuindo-se para todo o organismo. Do coração saem o tronco pulmonar (relaciona-se com a pequena circulação, ou seja, leva sangue venoso para os pulmões através de sua ramificação – duas artérias pulmonares uma direita e outra esquerda) e a artéria aorta (carrega sangue arterial para todo o organismo através de suas ramificações). Artérias importantes do corpo humano Sistema do tronco pulmonar: o tronco pulmonar sai do coração pelo ventrículo direito e bifurca-se em duas artérias pulmonares – uma direita e outra esquerda. Cada uma delas se ramifica a partir do hilo pulmonar em artérias segmentares pulmonares. Ao entrar nos pulmões, esses ramos se dividem e subdividem até formarem capilares, em torno alvéolos nos pulmões. O gás carbônico passa do sangue para o ar e é exalado. O oxigênio passa do ar, no interior dos pulmões, para o sangue. Esse mecanismo é denominado hematose. Sistema da artéria aorta (sangue oxigenado): é a maior artéria do corpo, com diâmetro de 2 a 3cm. Suas quatro divisões principais são a aorta ascendente, o arco da aorta, a aorta torácica e a aorta abdominal. A aorta é o principal tronco das artérias sistêmicas. A parte da aorta que emerge do ventrículo esquerdo, posterior ao tronco pulmonar, é a aorta ascendente. 23 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I Sistema venoso É constituído por tubos chamados de veias que têm como função conduzir o sangue dos capilares para o coração. As veias, também como as artérias, pertencem à grande e à pequena circulação. O circuito que termina no átrio esquerdo através das quatro veias pulmonares trazendo sangue arterial dos pulmões chama-se pequena circulação ou circulação pulmonar. E o circuito que termina no átrio direito através das veias cavas e do seio coronário retornando com sangue venoso chama-se grande circulação ou circulação sistêmica. Veias importantes do corpo humano » Veias da circulação pulmonar (ou pequena circulação): as veias que conduzem o sangue que retorna dos pulmões para o coração, após sofrer a hematose (oxigenação), recebem o nome de veias pulmonares. São quatro veias pulmonares, duas para cada pulmão, uma direita superior e uma direita inferior, uma esquerda superior e uma esquerda inferior. As quatro veias pulmonares vão desembocar no átrio esquerdo. Essas veias são formadas pelas veias segmentares que recolhem sangue venoso dos segmentos pulmonares. » Veias da circulação sistêmica (ou da grande circulação): duas grandes veias desembocam no átrio direito trazendo sangue venoso para o coração. São elas: veia cava superior e veia cava inferior. Temos, também, o seio coronário, que é um amplo conduto venoso formado pelas veias que estão trazendo sangue venoso que circulou no próprio coração. › Veia cava superior: a veia cava superior tem o comprimento de cerca de 7cm e diâmetro de 2cm e origina-se dos dois troncos braquiocefálicos (ou veia braquiocefálica direita e esquerda). Cada veia braquiocefálica é constituída pela junção da veia subclávia (que recebe sangue do membro superior) com a veia jugular interna (que recebe sangue da cabeça e pescoço). 24 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO › Veia cava inferior: a veia cava inferior é a maior veia do corpo, com diâmetro de cerca de 3cm e é formada pelas duas veias ilíacas comuns, que recolhem sangue da região pélvica e dos membros inferiores. › Seio coronário e veias cardíacas: o seio coronário é a principal veia do coração. Ele recebe quase todo o sangue venoso do miocárdio. Fica situado no sulco coronário, abrindo-se no átrio direito. É um amplo canal venoso para onde drenam as veias. Recebe a veia cardíaca magma (sulco interventricular anterior) em sua extremidade esquerda, a veia cardíaca média (sulco interventricular posterior) e a veia cardíaca parva em sua extremidade direita. Diversas veias cardíacas anteriores drenam diretamente para o átrio direito. 25 CAPÍTULO 3 Fisiologia endócrina Introdução Há, no organismo, algumas glândulas das quais a função é essencial para a vida. São conhecidas pelo nome de glândulas endócrinas ou de secreção interna, porque as substâncias por elas elaboradas passam diretamente para o sangue. Essas glândulas não têm, portanto, um ducto excretor, mas são os próprios vasos sanguíneos que, capilarizando-se nelas, recolhem as secreções. As glândulas de secreção interna ou endócrinas distinguem-se, assim, nitidamente, das glândulas de secreção externa, ditas exócrinas; estas são, na verdade, dotadas de um ducto excretor e compreendem as glândulas do aparelho digestivo, como as glândulas salivares, o pâncreas, as glândulas do estômago e do intestino etc. As glândulas endócrinas secretam substâncias particulares que provocam no organismo funções biológicas de alta importância: os hormônios. As principais glândulas endócrinas do organismo são o pâncreas, a tireoide, as paratireoides, as cápsulas suprarrenais, a hipófise, as gônadas. As atividades das diferentes partes do corpo estão integradas pelo sistema nervoso e os hormônios do sistema endócrino. As glândulas do sistema endócrino secretam hormônios que difundem ou são transportados pela corrente circulatória a outras células do organismo, regulando suas necessidades. As glândulas de secreção interna desempenham papel primordial na manutenção da constância da concentração de glicose, sódio potássio, cálcio, fosfato, água no sangue e líquidos extracelulares. A secreção verifica-se mediante glândulas diferenciadas, as quais podem ser exócrinas (de secreção externa) ou endócrinas (de secreção interna). Chamamos glândulas exócrinas as que são providas de um conduto pelo qual vertem ao exterior o produto de sua atividade secretora, tais como o fígado, as glândulas salivares e as sudoríparas.As glândulas endócrinas são aquelas que carecem de um conduto excretor e, portanto, vertem diretamente no sangue seu conteúdo, como, por exemplo, a tireoide, o timo etc. Existem, além disso, as mistas, que produzem secreções internas e externas, como ocorre com o pâncreas (que produz suco pancreático e insulina) e o fígado. As glândulas endócrinas têm muita importância, pois são capazes de elaborar complexas substâncias com os ingredientes que extraem do sangue e da linfa. Esses compostos, os hormônios, possuem qualidades altamente específicas. Cada glândula endócrina fabrica seu(s) produto(s) ou produtos característico(s) dotado(s) de propriedades físicas, fisiológicas ou farmacológicas especiais. 26 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO Sistema endócrino Hormônio É uma substância secretada por células de uma parte do corpo que passa a outra parte, onde atua pouca concentração, regulando o crescimento ou a atividade das células. No sistema endócrino, distinguimos três partes: célula secretória, mecanismo de transporte e célula branca, cada uma caracterizada por sua maior ou menor especificação. Geralmente cada hormônio é sintetizado por um tipo específico de células. Os hormônios podem ser assim divididos. a. Glandulares: são elaborados pelas glândulas endócrinas e vertidos por estas diretamente ao sangue, que as distribui a todos os órgãos, onde logo exercem suas funções. Subdividem-se em dois grupos, conforme realizam uma ação excitante ou moderadora sobre a função dos órgãos sobre os quais influem. b. Tissulares ou aglandulares: são formados em órgãos distintos e sem correlação nem interdependência entre eles: sua ação é exclusivamente local e a exercem no órgão em que se formam ou nos territórios vizinhos. Sob o aspecto químico, os hormônios podem dividir-se em duas grandes classes. c. Hormônios esteroides: aos quais pertencem as corticossuprarrenais e sexuais. d. Hormônios proteicos: (verdadeiras proteínas) ou aminoácidos (mais ou menos modificados), as quais pertencem os hormônios tireoides, hipofisárias, pancreáticas e paratireoides. As características físico-químicas dos hormônios são: facilidade de solubilidade nos líquidos orgânicos, difusibilidade nos tecidos e resistência ao calor. A modalidade da secreção hormonal por parte das glândulas endócrinas não é, todavia bem conhecida, já que falta saber, com exatidão, se produz de maneira contínua ou é armazenada na glândula e derramada na circulação no momento de sua utilização, ou se produz unicamente quando é necessária, ou se uma pequena parte é posta continuamente em circulação. Glândulas Hipotálamo Localiza-se na base do encéfalo, sob uma região encefálica denominada tálamo. A função endócrina do hipotálamo está a cargo das células neurossecretoras, que são neurônios especializados na produção e na liberação de hormônios. A hipófise é dividida em três partes, denominadas lobos anterior, posterior e intermédio. Esse último pouco desenvolvido no homem. O lobo anterior (maior) é designado adeno-hipófise e o lobo posterior, neuro-hipófise. 27 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I » Hormônios produzidos no lobo anterior da hipófise › Samatotrofina (GH) – Hormônio do crescimento. › Hormônio tireotrófico (TSH) – Estimula a glândula tireoide. › Hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) – Age sobre o córtex das glândulas suprarrenais. › Hormônio folículo-estimulante (FSH) – Age sobre a maturação dos folículos ovarianos e dos espermatozoides. › Hormônio luteinizante (LH) – Estimula as células intersticiais do ovário e do testículo; provoca a ovulação e a formação do corpo amarelo. › Hormônio lactogênico (LTH) ou prolactina – Interfere no desenvolvimento das mamas, na mulher, e na produção de leite. Os hormônios designados pelas siglas FSH e LH podem ser reunidos sob a designação geral de gonadotrofinas. » Hormônios produzidos pelo lobo posterior da hipófise › Oxitocina – age particularmente na musculatura lisa da parede do útero, facilitando, assim, a expulsão do feto e da placenta. › Hormônio antidiurético (ADH) ou vasopressina – constitui-se em um mecanismo importante para a regulação do equilíbrio hídrico do organismo. Tireoide Situada na porção anterior do pescoço, a tireoide consta dos lobos direito, esquerdo e piramidal. Os lobos direito e esquerdo são unidos na linha mediana por uma porção estreitada – o istmo. A tireoide é regulada pelo hormônio tireotrófico (TSH) da adeno-hipófise. Seus hormônios – tiroxina e triiodotironina – requerem iodo para sua elaboração. Paratireoide Constituídas geralmente por quatro massas celulares, as paratireoides medem, em média, cerca de 6mm de altura por 3mm a 4mm de largura e apresentam o aspecto de discos ovais achatados. Localizam-se junto à tireoide. Seu hormônio – o paratormônio – é necessário para o metabolismo do cálcio. Suprarrenal ou adrenal Em cada glândula suprarrenal, há duas partes distintas: o córtex e a medula. Cada parte tem função diferente. 28 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO Os vários hormônios produzidos pelo córtex – as corticosteronas – controlam o metabolismo do sódio e do potássio e o aproveitamento de açúcares, lipídios, sais e águas, entre outras funções. A medula produz adrenalina (epinefrina) e noradrenalina (norepinefrina). Esses hormônios são importantes na ativação dos mecanismos de defesa do organismo diante de condições de emergência, tais como emoções fortes, stress, choque entre outros; preparam o organismo para a fuga ou luta. Pâncreas O pâncreas produz o hormônio insulina, que regula o nível de glicose no sangue. Em certas condições, por exemplo, quando se ingere muito açúcar, o nível de glicose no sangue aumenta muito, então o pâncreas libera insulina no sangue. Esse hormônio aumenta a absorção de glicose nas células. O excesso de glicose é retirado do sangue e o nível desse açúcar volta ao normal. Quando o pâncreas produz uma quantidade insuficiente de insulina, surge uma doença conhecida como “diabetes”. Nesse caso, o excesso de glicose permanece no sangue: é a hiperglicemia, constatada pela presença de glicose na urina. A incapacidade das células em absorver adequadamente a glicose do sangue provoca alguns sintomas, como a sensação de fraqueza muscular e fome. O pâncreas não é somente uma glândula endócrina, pois este órgão constitui uma glândula de secreção externa; produz, na verdade, o suco pancreático, que serve para digerir os alimentos e que é lançado no duodeno por um ducto que percorre o pâncreas em toda a sua extensão. Em um corte do pâncreas, contudo, notam-se “ilhas” de substância formada de células diversas das do resto da glândula: são as ilhotas de Langerhans, que são dotadas, justamente, de uma função endócrina. As ilhotas de Langerhans produzem um hormônio, a insulina, da qual a função é permitir a utilização dos açúcares por parte dos tecidos e, em particular, dos músculos, para cuja atividade o açúcar é fundamental. Quando acontece faltar a insulina, os açúcares não podem ser utilizados pelos músculos e ficam no sangue: é a diabete. Essa moléstia é causada, na verdade, pela hiperglicemia, isto é, pela presença no sangue dos açúcares em proporção superior à normal, um por mil. Aumentando o açúcar no sangue, a certo ponto, o rim não consegue mais reter esse açúcar, que passa, em grande quantidade através dos glomérulos e aparece na urina. Ovários Na puberdade, a adeno-hipófise passa a produzir quantidades crescentes do hormônio folículo- estimulante (FSH). Sob a ação do FSH, os folículos imaturos do ovário continuam seu desenvolvimento, o mesmo acontecendo com os óvulos neles contidos. O folículo em desenvolvimento secreta hormônios denominados estrógenos, responsáveis pelo aparecimento das características sexuais secundárias femininas. Outro hormônio produzido pela adeno-hipófise – hormônio luteinizante (LH) – atua sobre o ovário, determinando o rompimento do folículo maduro, coma expulsão do óvulo (ovulação). O corpo amarelo (corpo lúteo) continua a produzir estrógenos e inicia a produção de outro hormônio – a progesterona – que atuará sobre o útero, preparando-o para receber o embrião, caso tenha ocorrido a fecundação. 29 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I Testículos (células de Leydig) Entre os túbulos seminíferos se encontra um tecido intersticial, constituído principalmente pelas células de Leydig, onde se dá a formação dos hormônios andrógenos (hormônios sexuais masculinos), em especial a testosterona. Os hormônios andrógenos desenvolvem e mantém os caracteres sexuais masculinos. Disfunções do sistema endócrino a. Distúrbios hormonais Se uma glândula endócrina produzir uma quantidade muito grande ou muito pequena de um determinado hormônio, podem ocorrer doenças. Podem ser prescritos remédios para alterar a produção desse hormônio pelo organismo ou uma versão sintética dele. Os sintomas de disfunção hormonal são variados porque o sistema endócrino controla inúmeras funções orgânicas. b. Disfunções da pituitária A falta do hormônio do crescimento impede que a criança cresça normalmente (nanismo); a produção excessiva faz com que cresça demais (gigantismo). Se o tratamento começar logo, a criança alcançará uma altura normal. c. Disfunções da tireoide A produção insuficiente de hormônios pela tireoide causa hipotiroidismo. Os sintomas são apatia, aumento de peso e ressecamento da pele. A maioria das pessoas com excesso de peso não tem problemas de tireoide. d. Sintomas de distúrbio hormonal Os sintomas associados a distúrbios hormonais são variados e refletem as diferentes funções orgânicas controladas pelos hormônios. Caso haja suspeita de alguma disfunção endócrina, um simples teste de sangue pode esclarecer o diagnóstico. Os sintomas mais comuns incluem: fadiga, sede, produção excessiva de urina, desenvolvimento sexual lento ou prematuro, excesso de pelos no corpo, ganho ou perda de peso, mudança na distribuição de gordura no corpo, ansiedade e mudanças na pele. Caso o indivíduo apresente algum destes sintomas, deverá consultar o seu médico. Insulina e glucagon O tecido pancreático é constituído por numerosos ácinos (ácinos pancreáticos), que são responsáveis pela produção das diversas enzimas secretadas através do ducto pancreático no tubo digestório. Tais enzimas constituem um tipo de secreção denominada secreção exócrina. Além dessa função exócrina, o tecido pancreático secreta também hormônios diretamente à corrente sanguínea. A secreção endócrina do pâncreas é feita através de milhares de grupamentos celulares 30 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO denominados Ilhotas de Langerhans, distribuídas por todo o tecido pancreático. Cada Ilhota de Langerhans é constituída por diversos tipos de células. Destacam-se as células alfa, que produzem o hormônio glucagon e as células beta, que produzem a insulina. Ambos os hormônios, insulina e glucagon, são bastante importantes devido aos seus efeitos no metabolismo dos carboidratos, das proteínas e das gorduras. Insulina Produzida pelas células beta das ilhotas de Langerhans, atua no metabolismo dos carboidratos, das proteínas e das gorduras. » Efeitos da insulina no metabolismo dos carboidratos › Aumento no transporte de glicose através da membrana celular › Aumento na disponibilidade de glicose no líquido intracelular › Aumento na utilização de glicose pelas células › Aumento na glicogênese (polimerização de glicose, formando glicogênio), principalmente no fígado e nos músculos › Aumento na transformação de glicose em gordura » Efeitos da insulina no metabolismo das proteínas › Aumento no transporte de aminoácidos através da membrana celular › Maior disponibilidade de aminoácidos no líquido intracelular › Aumento na quantidade de RNA no líquido intracelular › Aumento na atividade dos ribossomos no interior das células › Aumento na síntese proteica › Redução na lise proteica › Aumento no crescimento » Efeitos da insulina no metabolismo das gorduras › Aumento na transformação de glicose em gordura › Redução na mobilização de ácidos graxos dos tecidos adiposos › Redução na utilização de ácidos graxos pelas células glucagon Secretado pelas células alfa das ilhotas de Langerhans, é muito importante principalmente para evitar que ocorra uma hipoglicemia acentuada no organismo de uma pessoa. Quando a concentração 31 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I de glicose no sangue atinge valores baixos, as células alfa das ilhotas de Langerhans liberam uma maior quantidade de glucagon. O glucagon, então, faz com que a glicose sanguínea aumente e retorne aos valores aceitáveis como normal. Os principais mecanismos através dos quais o glucagon faz aumentar a glicemia são estes. a. Aumento na glicogenólise (despolimerização do glicogênio armazenado nos tecidos, liberando glicose para a circulação) b. Aumento na gliconeogênese, por meio da qual elementos que não são carboidratos (proteínas e glicerol) transformam-se em glicose. 32 CAPÍTULO 4 Fisiologia renal Introdução A circulação extracorpórea é um agente capaz de produzir alterações nas funções do sistema renal e no equilíbrio dos líquidos e dos eletrólitos do organismo. Os rins são fundamentais na regulação do meio interno, onde estão imersas as células de todos os órgãos. Os rins desempenham duas funções primordiais no organismo: 1. eliminação de produtos terminais do metabolismo orgânico, como ureia, creatinina e ácido úrico, entre outros; 2. controle da concentração da água e da maioria dos constituintes dos líquidos do organismo, tais como sódio, potássio, cloro, bicarbonato e fosfatos. Os rins exercem suas funções, principalmente, por meio da filtração glomerular, da reabsorção tubular e da secreção tubular de diversas substâncias. O sistema urinário, encarregado da produção, da coleta e da eliminação da urina está localizado no espaço retroperitonial, de cada lado da coluna vertebral dorsolombar. É constituído pelos rins direito e esquerdo, a pelve renal, que recebe os coletores de urina do parênquima renal, os uretéres, a bexiga e a uretra. Os rins são envolvidos por uma cápsula fibrosa que, em nível do hilo renal, se deixa atravessar pela artéria renal, a veia renal e a pelve coletora que continua com o ureter. O parênquima renal apresenta duas regiões bastante distintas: a região periférica, cortical ou córtex renal e a região central, medular ou medula renal. À semelhança do alvéolo pulmonar na fisiologia respiratória, o rim é constituído de unidades funcionais completas, chamadas néfron. O néfron representa a menor unidade do rim; cada néfron é capaz de filtrar e formar a urina independentemente dos demais. A função renal pode, portanto, 33 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I ser compreendida estudando-se a função de um único néfron. Existem aproximadamente 1.200.000 néfrons em cada rim, que funcionam alternadamente, conforme as necessidades do organismo a cada momento. O néfron é constituído basicamente por um glomérulo e um longo túbulo que desemboca nos tubos coletores de urina. O glomérulo é uma rede ou um novelo de capilares recobertos por células epiteliais. Um glomérulo pode ter até 50 capilares. O sangue penetra no glomérulo pela arteríola aferente e sai através da arteríola eferente. A camada cortical do rim, a mais externa, é constituída principalmente por néfrons corticais, que tem os túbulos coletores menores que os néfrons localizados mais próximos da região medular, chamados néfron justamedulares. A camada medular é constituída, principalmente, pelos longos túbulos coletores de urina, que se juntam em túbulos maiores até se constituírem na pelve renal. O glomérulo tem a função de filtrar o sangue enquanto o sistema de túbulos coletores absorve parte do líquido filtrado nos glomérulos. Os túbulos também podem secretar diversas substâncias, conforme as necessidadesdo organismo. Envolvendo cada glomérulo existe uma cápsula, chamada cápsula de Bowman que continua com o túbulo proximal. A pressão do sangue nos glomérulos produz a filtração de líquido para o interior da cápsula de Bowman, de onde escoa para o túbulo proximal. Do túbulo proximal, o líquido penetra na alça de Henle, que tem uma porção com parede muito fina, chamada segmento fino da alça de Henle. Da alça de Henle, o líquido penetra no túbulo distal que se insere num canal coletor, juntamente com os túbulos distais de diversos outros glomérulos. O canal coletor acumula a urina proveniente de vários néfrons e lança-se na pelve renal. O líquido filtrado no glomérulo, chamado filtrado glomerular, é transformado em urina à medida que passa pelos túbulos proximal e distal. As artérias renais são ramos da aorta abdominal. Ao penetrar no hilo do rim, a artéria renal dá origem a diversos ramos, chamados ramos interlobares, que mergulham na profundidade do parênquima renal. Desses ramos interlobares, emergem as artérias arqueadas das quais se originam as arteríolas aferentes. Cada arteríola aferente produz um tufo ou novelo de capilares que constituem o glomérulo; no extremo oposto, os capilares reúnem-se novamente, formando a via de saída do glomérulo, a arteríola eferente. A arteríola eferente ramifica-se em diversos outros capilares, formando a rede capilar peritubular, que se emaranha com os túbulos proximais e distais do sistema coletor. Outros vasos emergem da arteríola eferente e se dirigem às regiões que circundam as alças tubulares, e são conhecidos como vasos retos, que após formarem as alças na medula renal, se lançam nas veias. Função do néfron A função essencial do néfron consiste em depurar o plasma sanguíneo das substâncias que devem ser eliminadas do organismo. 34 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO O néfron filtra uma grande proporção do plasma sanguíneo através da membrana glomerular. Cerca de 1/5 do volume que atravessa o glomérulo é filtrado para a cápsula de Bowman que coleta o filtrado glomerular. Em seguida, à medida que o filtrado glomerular atravessa os túbulos, as substâncias necessárias, como a água e grande parte dos eletrólitos, são reabsorvidas, enquanto as demais substâncias, como ureia, creatinina e outras, não são reabsorvidas. A água e as substâncias reabsorvidas nos túbulos voltam aos capilares peritubulares para a circulação venosa de retorno, sendo lançadas nas veias arqueadas e, finalmente, na veia renal. Uma parte dos produtos eliminados pela urina é constituída de substâncias que são secretadas pelas paredes dos túbulos e lançadas no líquido tubular. A urina formada nos túbulos é constituída por substâncias filtradas do plasma e pequenas quantidades de substâncias secretadas pelas paredes tubulares. O fluxo sanguíneo através dos rins corresponde, em média, à aproximadamente 20% do débito cardíaco, podendo variar, mesmo em condições normais. Em um adulto de 60kg de peso, o débito cardíaco corresponde a 4.800ml/min.; a fração renal do débito cardíaco será de 960ml. O fluxo sanguíneo renal é muito maior que o necessário para o simples suprimento de oxigênio. Cerca de 90% do fluxo sanguíneo renal são distribuídos pela camada cortical, onde abundam os glomérulos e apenas 10% se distribuem pela região medular. Os rins possuem um eficiente mecanismo de autorregulação que permite regular o fluxo de sangue e, através dele, regular a filtração glomerular. Esse mecanismo é capaz de manter um fluxo renal relativamente constante com pressões arteriais que variam entre 80 e 180mmHg. Sob determinadas condições, como, por exemplo, na depleção líquida ou no baixo débito cardíaco, quando o fluxo renal não pode ser mantido, o mecanismo autorregulador preserva a filtração glomerular, produzindo vasoconstrição da arteríola eferente, que mantém o gradiente transglomerular de pressão. A resistência vascular renal ajusta-se automaticamente às variações na pressão de perfusão renal. As arteríolas, aferente e eferente, são influenciadas por muitos dos estímulos nervosos e hormonais vasculares, embora sua resposta dependa das necessidades renais e seja moderada pelos mecanismos autorregulatórios. A membrana glomerular possui três camadas principais: uma camada endotelial, do próprio capilar, uma camada ou membrana basal e uma camada de células epiteliais na face correspondente à cápsula de Bowman. Apesar da presença das três camadas, a permeabilidade da membrana glomerular é cerca de 100 a 1.000 vezes maior do que a permeabilidade do capilar comum. A fração de filtração glomerular é de, aproximadamente, 125ml/minuto. Em 24 horas são filtrados, aproximadamente, 180 litros de líquido por todos os glomérulos (filtrado glomerular), para formar de 1l a 1,5l de urina, o que demonstra a enorme capacidade de reabsorção dos túbulos renais. O líquido reabsorvido nos túbulos passa para os espaços intersticiais renais e daí para os capilares peritubulares. Para atender à essa enorme necessidade de reabsorção, os capilares peritubulares são extremamente porosos. A grande permeabilidade da membrana glomerular é dependente da estrutura daquela membrana e das numerosas fendas e poros existentes, cujo diâmetro permite a livre passagem das pequenas moléculas e impede a filtração das moléculas maiores, como as proteínas. 35 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I O filtrado glomerular possui, aproximadamente, a mesma composição do plasma, exceto em relação às proteínas. Existem, no filtrado glomerular, diminutas quantidades de proteínas, principalmente as de baixo peso molecular, como a albumina. Função renal A experiência tem demonstrado que o comprometimento da função renal pré-operatória aumenta, consideravelmente, as chances de desenvolvimento de insuficiência renal aguda após a circulação extracorpórea. A avaliação da função renal antes da perfusão é fundamental, para a prevenção de injúria renal induzida pela perfusão. Certas cardiopatias cianóticas de longa duração podem ser associadas a graus leves de insuficiência renal, bem como a aterosclerose, o diabetes e a hipertensão arterial. A história clínica e o exame do paciente poderão mostrar a existência de edema, alterações do volume urinário e a presença de infecção urinária. A insuficiência renal aguda é uma alteração grave, com mortalidade e morbidade elevadas, em que ocorre deterioração súbita da função renal, causando profunda desordem no equilíbrio do organismo. Há extrema redução da excreção dos produtos nitrogenados, ureia e creatinina; alterações da regulação do volume e da composição dos líquidos do organismo e alterações da síntese de determinados hormônios essenciais. O marco clínico da síndrome é a acumulação rápida de produtos finais nitrogenados, levando à uremia progressiva e à marcada redução da diurese. Ocasionalmente a insuficiência renal aguda pode se acompanhar de diurese abundante. A urina eliminada, porém, tem densidade baixa porque os túbulos perdem a capacidade de reabsorver água e, em consequência, de concentrar a urina. A avaliação pré-operatória da função renal inclui a determinação dos níveis da ureia e da creatinina no plasma sanguíneo e o exame sumário da urina, para a detecção da presença de elementos anormais. Sistema da Angiotensina Angiotensinogênio Renina Angiotensina I Angiotensina II Aldosterona Retenção de água e sódio Aumento da resistência vascular sistêmica Vasoconstrição 36 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO A ureia plasmática oscila entre 20mg% e 60mg% enquanto a creatinina oscila entre 1mg% e 2 mg% nos adultos. Nas crianças, os valores normais variam com a idade, sendo, em geral, menores. O exame da urina não deve revelar proteinúria ou hematúria. A normalidade dos valores da ureia e da creatinina equivale à presença de função renal adequada. Quando os valores de ureia ou da creatinina estão elevados ou quando há proteinúria ou hematúria no exame da urina,torna-se necessária uma avaliação mais completa da função renal, na tentativa de quantificar o grau de função renal existente. Ação dos diuréticos Os diuréticos são substâncias que aumentam a formação de urina e sua principal aplicação é reduzir a quantidade total de líquidos no organismo. Durante a circulação extracorpórea, alguns diuréticos podem ser utilizados, com esse objetivo. As diversas substâncias com efeitos diuréticos têm mecanismos de ação diferentes. Ao se administrar um diurético, ocorre a eliminação associada de sódio e água. Se o diurético eliminasse apenas a água dos líquidos orgânicos, haveria um aumento da concentração de sódio nos líquidos, que se tornariam hipertônicos e provocariam uma resposta dos receptores osmóticos, seguida de aumento da secreção do hormônio antidiurético. O excesso desse hormônio promoveria a reabsorção de grande quantidade de água nos túbulos, anulando os efeitos do diurético. Quando o sódio é eliminado junto com a água, a concentração iônica dos líquidos mantém-se e não há estimulação antidiurética. Diuréticos osmóticos O manitol é uma substância que, quando injetada na circulação, pode atravessar facilmente os poros da membrana glomerular, sendo inteiramente filtrada pelos glomérulos. Suas moléculas, contudo, não são reabsorvidas nos túbulos renais e a sua presença no líquido dos túbulos gera uma sobrecarga osmótica importante. Essa pressão osmótica elevada no interior dos túbulos impede a reabsorção da água, fazendo com que grandes quantidades de filtrado glomerular atravessem os túbulos e sejam eliminados como urina. Níveis muito elevados de glicose no sangue produzem uma diurese osmótica semelhante à do manitol. Diuréticos de alça São substâncias capazes de reduzir os sistemas transportadores nas células tubulares, diminuindo a reabsorção ativa dos solutos tubulares e, portanto, aumentando a pressão osmótica no interior dos túbulos e propiciando grande aumento da eliminação de urina. Os principais diuréticos desse tipo são a furosemida, a bumetanida e o ácido etacrínico. 37 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I A furosemida bloqueia a reabsorção ativa do íon cloro na porção ascendente da alça de Henle e no segmento restante do túbulo distal. Como os íons cloro não são reabsorvidos, os íons positivos absorvidos em conjunto, principalmente o sódio, também não são absorvidos. O bloqueio da reabsorção de cloro e sódio determina a diurese porque permite que grandes quantidades de solutos sejam levadas até os túbulos distais onde atuam como agentes osmóticos e impedem a reabsorção da água. Além disso, a incapacidade de reabsorver íons cloro e sódio pela alça de Henle para o interstício medular diminui a concentração desses íons no líquido intersticial medular e a capacidade de concentrar urina fica muito reduzida. Esses dois mecanismos tornam a furosemida um diurético muito eficiente. A bumetanida age do mesmo modo que a furosemida. O ácido etacrínico pode ser usado em pacientes que não respondem a furosemida. Entretanto, seu uso prolongado pode produzir distúrbios auditivos. Existem outros diuréticos que atuam por mecanismos diferentes, mas não são aplicados nas situações agudas, como na circulação extracorpórea. Os rins na circulação extracorpórea Diversas alterações funcionais e orgânicas dos rins têm sido detectadas em relação à circulação extracorpórea e podem afetar adversamente a função renal por diversos mecanismos. » Variações do tônus vascular, produzindo vasodilatação e hipotensão sistêmica. » Exacerbação da atividade simpática, com produção e liberação excessiva de catecolaminas na circulação. » Exacerbação da atividade hormonal, com produção e liberação excessiva de vasopressina e outros hormônios. » Traumatismo aos elementos figurados do sangue, com liberação de substâncias vasoconstritoras, como o tromboxano A2 das plaquetas. » Redistribuição irregular do fluxo arterial sistêmico, reduzindo a fração renal do débito. » Redução do fluxo sanguíneo renal. » Alterações do volume e da composição eletrolítica do líquido extracelular. » Aumento da eliminação renal de sódio e potássio. » Hemólise e hemoglobinúria. » Produção de microembolia na circulação renal. A hipotensão é bastante comum no início e após os primeiros momentos da circulação extracorpórea. É causada por uma multiplicidade de fatores que agem em sincronia, como a redução do fluxo de perfusão em relação ao débito cardíaco do paciente, a hemodiluição com redução da viscosidade 38 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO do sangue e diluição das catecolaminas circulantes, e a redução da remoção de bradicinina pelos pulmões, na fase de bypass total. A hipotensão estimula a atividade simpática e aumenta a produção de catecolaminas, renina, angiotensina, aldosterona e hormônio antidiurético. Ocasionalmente, a hipotensão produzida pela circulação extracorpórea requer a administração de drogas adrenérgicas ou vasoconstritoras. Os rins participam dos mecanismos de redistribuição protetora do fluxo sanguíneo, na medida em que sacrificam o seu próprio fluxo sanguíneo com a constrição das arteríolas aferentes, para aumentar o afluxo sanguíneo de outros órgãos, como o cérebro e o miocárdio, durante períodos de hipotensão e hipovolemia. O período inicial de hipotensão da circulação extracorpórea é seguido por um período de elevação progressiva da pressão arterial causado pela resposta regulatória do próprio organismo que, com frequência, resulta em hipertensão. A vasoconstrição produzida pela hipotermia, a elevação da resistência vascular sistêmica e a ausência de pulsatilidade na circulação, são também contributivos na gênese da resposta hipertensiva. Os mecanismos dessa resposta hipertensiva produzem vasoconstrição renal, que reduz o fluxo sanguíneo renal, predispondo os rins à isquemia e à injúria. A redução do fluxo sanguíneo renal reduz a energia disponível para os mecanismos da atividade renal normal, inclusive a autorregulação. Algumas das alterações renais durante a circulação extracorpórea podem ser atribuídas à essa redução do suprimento de energia, particularmente a depressão das funções de reabsorção ativa, da secreção renal e da regulação da concentração e diluição. A autorregulação e o balanço tubular dependem da integridade dos mecanismos de reabsorção de sódio. A eliminação excessiva de sódio (natriurese), que ocorre durante a perfusão, estimula a resposta regulatória do aparelho justa-glomerular, que aumenta a produção de renina, angiotensina e aldosterona, acentuando a vasoconstrição renal. A aldosterona aumenta a eliminação de potássio e reduz a de sódio. Essa diurese eletrolítica pode causar desequilíbrio eletrolítico durante a circulação extracorpórea. A redistribuição do fluxo sanguíneo, durante a circulação extracorpórea, é uma resposta que objetiva a preservação do cérebro e do coração, à custa dos demais leitos vasculares, inclusive o renal. A redistribuição é o resultado do aumento da atividade simpática; os órgãos mais afetados são os que têm preponderância de inervação simpática e muitos receptores simpáticos, como os rins. A hipotermia também contribui para a vasoconstrição renal e a redistribuição do fluxo sanguíneo renal. O fluxo renal reduzido é redistribuído para a periferia da camada cortical. O mecanismo concentrador dos rins (mecanismos de contracorrente), devido à redução de fluxo na camada medular, é deprimido. A proteção da hipotermia é menos eficaz para os rins, em relação aos demais órgãos. A vasoconstrição renal é precoce e ocorre antes que o órgão esteja uniformemente resfriado. Além da vasoconstrição, a hipotermia produz o aumento da viscosidade do sangue, que favorece a aglutinação intravascular que, contudo, pode ser minimizada pelo uso criterioso da hemodiluição. 39 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I A hemodiluição com soluções cristaloides, quando em excesso, predispõe o pacienteà formação de edema, devido à redução da pressão coloido-osmótica do plasma e diminui a reabsorção nos capilares peritubulares, que resulta em uma diurese aquosa e rica em eletrólitos. Além de contribuir na formação de microêmbolos de restos celulares, a hemólise produz vasoconstrição pela liberação de produtos vasoativos do interior das células lesadas. A hemoglobina livre é captada pela haptoglobina do plasma e subsequentemente metabolizada no fígado. Quando são atingidos níveis excessivos de hemoglobina livre, ela é filtrada nos glomérulos e excretada na urina. Por ser uma molécula grande, com peso molecular de 68.000, a hemoglobina é filtrada com dificuldade e pode cristalizar nos túbulos renais, causando obstrução e necrose tubular. Uma prática frequente para prevenir essa ocorrência, consiste em alcalinizar a urina e estimular a diurese. A alcalinização da urina dificulta a cristalização da hemoglobina e obtém-se pela administração de bicarbonato de sódio. A diurese é estimulada pela administração de manitol, que acelera a eliminação da hemoglobina livre. Há numerosas evidências de que os efeitos deletérios da circulação extracorpórea sobre os rins, incluindo a produção de insuficiência renal aguda, estão relacionados à duração da perfusão. Isso torna imperativa a criteriosa monotorização da função renal, principalmente nas perfusões que se prolongam por mais de três a quatro horas. 40 CAPÍTULO 5 Fisiologia do aparelho digestório Introdução Digestão é o conjunto de transformações físico-químicas que os alimentos sofrem para se converterem em compostos menores hidrossolúveis e absorvíveis. A digestão química ocorre devido à ação das enzimas secretadas em várias partes do aparelho digestivo. Essas enzimas promovem a hidrólise enzimática das macromoléculas ingeridas, na presença da água, de forma que estas são transformadas em unidades capazes de serem absorvidas pelas células da mucosa gastrointestinal (nos animais que apresentam tubo digestivo). As enzimas secretadas pelas diversas partes do aparelho digestório, sua localização, os substratos em que atuam e os produtos que formam estão indicados mais adiante. Vale ressaltar que as vitaminas, os sais minerais e a água são absorvidos diretamente (não necessitam de digestão prévia). Tipos de digestão O processo digestivo varia de acordo com o local da ocorrência. Digestão Intracelular: ocorre totalmente dentro das células (protozoários e poríferos) e é realizada pelos lisossomos que são pequenos vacúolos citoplasmáticos que apresentam membrana lipoproteica e, no seu interior, enzimas digestivas responsáveis pela digestão de vários tipos de compostos orgânicos como os listados a seguir. Enzimas composto digerido Desoxirribonuclease (DNA-ase) DNA Ribonuclease (RNA-ase) RNA Catepsina Proteínas Fosfatases Ésteres do ác. fosfórico Colagenase Colágeno Glicosidase Glicogênio Se a membrana do lisossomo for fragmentada, as enzimas são lançadas no citoplasma e a célula morre por “autodigestão”. As partículas que penetram nas células por endocitose originam um vacúolo com alimento (pinossomo ou fagossomo). O lisossomo une-se ao vacúolo originando o vacúolo digestivo. Após a absorção das partes úteis, origina-se o corpo residual que defeca por clasmocitose. Quando o lisossomo digere componentes estruturais da própria célula, forma-se o vacúolo autofágico. As esponjas (poríferos) apresentam coanócitos que são células responsáveis pela digestão intracelular. 41 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I Digestão extracelular Ocorre no interior do tubo digestivo do animal, em invertebrados, protocordados e vertebrados. Em relação à alimentação, pode-se afirmar que o homem apresenta especialmente digestão extracelular, enquanto os lisossomos realizam a digestão de componentes celulares velho, que devem ser renovados (autofagia ou digestão intracelular). Nessa digestão, as enzimas são produzidas pelos ribossomos por comando genético, que catalisam as reações químicas celulares. Geralmente essas enzimas são específicas para cada substrato e apresentam a terminação ASE, como glicídios/ glicosidases, proteínas/proteinases, DNA/DNA-ase, RNA/RNA-ase, lipídeos/lipases. Digestão extracorpórea Esta é uma forma menos comum de digestão, observada em pequeno número de espécies. Na digestão extracorpórea, o organismo lança para fora, no meio externo, as suas enzimas digestivas, que vão fazer a hidrólise das macromoléculas extraorganicamente. Os fungos costumam difundir suas enzimas hidrolisastes sobre os substratos (substâncias orgânicas encontradas na madeira, na terra) em meio aos quais se desenvolvem. Só depois da fragmentação das macromoléculas em moléculas pequenas é feita a absorção dos nutrientes. As aranhas comumente injetam na presa uma quantidade de sucos digestivos juntamente com o veneno. Esses sucos vão proceder na vítima o amolecimento dos tecidos e a decomposição rápida de proteínas, lipídeos e polissacarídeos. Após esse evento, as aranhas promovem a ingestão, sugando a matéria liquefeita do interior do corpo da presa que, por fim, resta seco e oco. A estrela-do-mar ejeta o estômago, englobando o alimento no meio externo. Após o amolecimento das substâncias pela ação do suco gástrico, o estômago é recolhido novamente ao interior do organismo, onde ocorre o resto da digestão (assimilação). Aparelho digestório humano A evolução constante dos seres vivos permitiu, através de transformações sucessivas, que chegássemos à organização anatômico/fisiológica sofisticada dos animais superiores. Se por um lado, vimos a complexidade atingida por órgãos e sistemas do corpo humano, considerado a máquina mais perfeita do mundo, ela necessita de muita energia para que possa estar em perfeito funcionamento. Essa energia é obtida pela nutrição. Assim, a mais perfeita máquina do mundo precisa ser alimentada porque é um ser heterotrófico, isto é, totalmente dependente dos seres autotróficos e também de outros seres heterotróficos. Convêm recordar que somente os seres autotróficos conseguem obter energia a partir de minerais e gases. Portanto os seres mais evoluídos do mundo são totalmente dependentes dos seres mais independentes do mundo, pois esses últimos se nutrem e se desenvolvem por si mesmo, daí serem chamados de autotróficos. Os vegetais, como exemplo maior de seres autotróficos, são capazes de transformar CO2 + H2O + energia luminosa, captada por pigmentos fotossensíveis (clorofila, por ex.), em compostos orgânicos, ou seja, em compostos que servirão para o seu desenvolvimento e que também são essenciais para o desenvolvimento dos seres heterotróficos. 42 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO Está claro, então, que os seres mais evoluídos e mais dependentes do mundo, os heterotróficos, necessitam nutrir-se. A nutrição como um todo inclui o seguinte. » Alimentação » Digestão » Assimilação » Defecação A digestão humana é extracelular, pois ocorre no interior do tubo digestivo. Compreende processos físicos (mecânicos), como a mastigação, a deglutição e os movimentos peristálticos. É também um processo químico, graças à ação das enzimas secretadas por glândulas anexas. O processo digestivo inicia-se na boca pela ação trituradora dos dentes. Os dentes são formados do epitélio e do tecido conjuntivo das gengivas, que se modificam. Os dentes são dispostos em duas curvas, arcadas dentárias, articulados nos ossos maxilares e mandibular. Cada dente é formado por uma porção que se projeta além da gengiva, a coroa, e uma ou mais raízes dentro do alvéolo do osso. O ponto de transição entre coroa e raiz é chamado colo. O dente tem uma cavidade central, a cavidade pulpar, cuja forma lembra o próprio dente. Dentro das raízes essa cavidade é alongada e termina por um orifício denominado forame apical, pelo qual passam vasos e nervos. Em volta das raízes, há uma estrutura fibrosa, o ligamento ou membrana periodontal, que fixa a raiz ao seu alvéolo. Mastigaçãoé a primeira etapa do processo digestivo nos animais que possuem dentes, uma etapa mecânica. O ato de engolir (deglutição), também mecânico, ocorre graças ao músculo revestido de tecido conjuntivo conhecido como língua. A língua tem sua extremidade posterior presa ao osso hioide. Desempenha importante papel na percepção do gosto, pois nela estão localizadas as papilas gustativas, e na fonação. É inervada por dois pares de nervos cranianos: glossofaríngeo e o hipoglosso. Mantém-se constantemente umedecida pela secreção das glândulas salivares. Da língua, o bolo alimentar é deglutido para a faringe que, por meio de movimentos voluntários, levam o bolo alimentar para o esôfago. Do esôfago, por meio de contrações involuntárias, o alimento chega ao estômago. A faringe e a parte anterior do esôfago apresentam músculos estriados (voluntários). A parte posterior do esôfago, o estômago e o intestino possuem musculatura lisa (involuntária). O alimento transita ao longo do tubo digestivo, graças aos movimentos peristálticos. A musculatura lisa do tubo digestivo é inervada pelo sistema nervoso autônomo (simpático e parassimpático). A estimulação do parassimpático aumenta o peristaltismo da musculatura lisa gastrointestinal, enquanto que a estimulação do simpático a modera ou a inibe completamente. Concomitantemente ao “trânsito” do bolo alimentar pelo tubo digestivo, ocorre a digestão química dos alimentos com a subsequente absorção dos componentes digeridos. No final desse processo, os “restos” dos alimentos ingeridos que não foram degradados, que conhecemos como fezes, são armazenadas no ceco, para, posteriormente, serem eliminados pelo ato involuntário da defecação. 43 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I Etapas da digestão química Os processos químicos constituem a transformação das grandes moléculas de proteínas, lipídios, glicídios e ácidos nucleicos em pequenas moléculas que serão absorvidas para corrente sanguínea através da mucosa intestinal. Nesse processo, intervêm as enzimas que são secretadas pelas glândulas anexas ao tubo digestivo. NA BOCA: deve-se à ação de enzimas da saliva que é secretada pelas glândulas salivares parótidas, submaxilares, sublinguais e em outras glândulas salivares menores. A principal enzima da saliva é a amilase salivar (ptialina). Outras enzimas presentes na saliva, como a maltase e catalase, são de menor importância porque são produzidas em quantidades menores. A saliva tem pH entre 6,4 - 7,5, que favorece a ação da amilase salivar. Esta catalisa a hidrólise de polissacarídeos (amido, glicogênio e seus derivados). A digestão do amido (polissacarídeo) pela saliva produz oligossacarídeos e maltose. Quando o alimento é colocado na boca, reflexos nervosos estimulam a secreção da saliva, especialmente se o alimento é saboroso ou apetitoso. Tal controle é realizado pelo sistema nervoso autônomo. O SNP estimula secreção e o SNS inibe a secreção. DIGESTÃO NO ESTÔMAGO: no estômago o alimento sofre a ação do suco gástrico que é secretado pelas glândulas localizadas na parede estomacal. O muco é produzido pelas glândulas pilóricas e cárdicas do estômago e lubrifica o bolo alimentar, além de proteger a parede do estômago contra a ação das enzimas gástricas e do HCl. O HCl apresenta as seguintes funções: facilita a absorção de ferro; proporciona um pH ótimo para a digestão proteica; ativa o pepsinogênio à pepsina; age contra os germes restringindo a fermentação microbiana (ação germicida). As enzimas do suco gástrico são: pepsina, lípase gástrica, amilase gástrica. A pepsina é uma enzima proteolítica (digere proteínas em peptídeos), que atua num meio altamente ácido (pH = 2,0) e acima de pH = 5,0, apresenta pouca atividade proteolítica, tornando-se inativa. A lípase gástrica (tributirase) age sobre a tributirina (um tipo de gordura encontrado no leite e seus derivados), quase não tem atividade lipolítica sobre as gorduras comuns. A amilase gástrica não desempenha papel importante na digestão do amido. A secreção gástrica é regulada por mecanismos nervosos e hormonais. A regulação hormonal é realizada por meio de dois hormônios: gástrica e enterogastrona. A gástrica é produzida pela mucosa da região pilórica do próprio estômago e tem ação estimulante sobre a secreção gástrica. A enterogastrona é produzida no intestino delgado (duodeno) em presença de gordura e inibe a secreção gástrica. DIGESTÃO NO INTESTINO: as enzimas encontradas no intestino delgado decorrem do suco pancreático, secretado por um órgão anexo ao aparelho digestivo, o pâncreas. Suco pancreático: é secretado pelo pâncreas (parte exócrina), seu pH é de 7,8 - 8,2, devido ao alto teor em bicarbonato. As enzimas desse suco são: tripsina, quimotripsina, carboxi e aminopeptidase, amilase pancreática, lípase pancreática, ribonuclease e desoxirribonuclease. Tripsina: é sintetizada nas células pancreáticas na forma do precursor inativo (tripsinogênio). A ativação do tripsinogênio é realizada pela enzima enteroquinase (produzida pelo intestino 44 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO delgado). O tripsinogênio também pode ser ativado pela própria tripsina (autocatálise). Esta enzima atua sobre proteínas inteiras ou parcialmente digeridas, produzindo frações menores (peptídeos). Quimotripsina: é produzida pelo pâncreas na forma de quimotripsinogênio que é ativado pela tripsina, passando, então, a quimotripsina. Essa enzima age sobre proteínas inteiras ou parcialmente digeridas, produzindo frações menores (peptídeos). Carboxi e aminopeptidase: digerem peptídeos a aminoácidos pela região carboxi e aminoterminal, respectivamente. Amilase pancreática: hidrolisa os polissacarídeos a dissacarídeos. Obs.: Alguns polissacarídeos, como a celulose e a quitina, não são hidrolisados pelas amilases humanas. Lipase pancreática: hidrolisa as gorduras neutras, ácidos graxos e glicerol. Nucleases: (ribonuclease e desoxirribonuclease) hidrolisam, respectivamente, o ácido ribonucleico e o desoxirribonucleico a frações menores (nucleotídeos). A secreção pancreática é regulada por mecanismo nervoso e também hormonal. A visão, o cheiro, o paladar e também a chegada do bolo alimentar ao estômago desencadeiam impulsos parassimpáticos através do nervo vago até o pâncreas, determinando uma secreção moderada do suco pancreático. A chegada do alimento ao intestino delgado estimula a mucosa duodenal a produzir os hormônios secretina e pancreosina, que, por sua vez, estimulam o pâncreas a secretar o suco pancreático. A secretina é produzida em resposta à estimulação da acidez do bolo alimentar que chega ao intestino delgado. O suco pancreático, que chega ao duodeno, é altamente rico em bicarbonato, que tem por finalidade neutralizar a acidez do bolo alimentar e, assim, garantir a ação das enzimas pancreáticas que funcionam em pH ligeiramente alcalino e neutro. Outro anexo do aparelho digestivo é a vesícula biliar que armazena um líquido denominado bile. A bile emulsifica as gorduras, é produzida pelo fígado a partir de hemácias velhas e é armazenada na vesícula biliar. Não apresenta enzimas digestivas. Possui sais biliares (glicolato e taurocolato de sódio) que emulsionam as gorduras, facilitando a ação das lípases (aumentam a superfície de ação). Outra função dos sais biliares é solubilizar os produtos finais da digestão lipídica, facilitando, assim, a sua absorção através da mucosa intestinal. A presença de gordura no intestino delgado estimula a mucosa duodenal a produzir o hormônio colecistoquinina, o qual age determinando a contração da parede da vesícula que, então, elimina a bile para o intestino. Em sua maior parte, os sais biliares são reabsorvidos pelo intestino e, a seguir, reutilizados pelo fígado, várias vezes, antes de serem transformados em biliverdina (pigmento que da a cor às fezes) Suco Entérico: é produzido pelo epitélio glandular das criptas de Lieberkuhen, localizadas no intestino delgado. O suco entérico (intestinal)contém muco, cuja função é proteger a parede intestinal contra uma autodigestão, as enzimas: enteroquinase, erepsina e as enzimas produzidas pelo pâncreas: lípase, amilase, maltase, lactase e sucrase. Seu pH está na faixa de 6,5 a 7,5. 45 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I A enteroquinase, além do papel de ativadora do tripsinogênio, digere peptídeos a aminoácidos. Importantes estímulos diretos ou reflexos regulam a secreção do intestino delgado. A distensão do intestino e estímulos táteis ou irritantes resultam em intensa secreção do suco intestinal. A secretina, um dos principais hormônios produzidos pelo intestino delgado, tem ação sobre as células do ducto pancreático e do trato biliar, aumentando a secreção de bicarbonato, o que produz um suco pancreático aquoso alcalino. O quadro 1 resume a localização das enzimas envolvidas no processo digestivo, seus substratos e seus produtos de hidrólise. Quadro 1 – Enzimas Digestivas Localização Local e quais enzimas secretadas Processo Digestivo DIGESTÃO DE CARBOIDRATOS Boca Glândula salivar » amilase salivar polissacarídeos maltose + oligossacarídeos Estômago Continua a ação da amilase salivar até ser inativada pelo pH do estômago (ácido) Intestino delgado Pâncreas » amilase pancreática polissacarídeos + oligossacarídeos Intestino » maltase » sucarase » lactase atuam sobre dissacarídeos, liberando monossacarídeos. Maltose (glicose + glicose) Sacarose (glicose + frutose) Lactose (glicose + galactose) DIGESTÃO DE PROTEÍNAS Estômago Gladulas gástricas » pepsina proteínas polipeptideos Intestino delgado Pâncreas » tripsina » quimotripsina proteínas di e tripeptideos » carboxipeptidases » aminopeptidases AA livres Localização Local e quais enzimas secretadas Processo Digestivo DIGESTÃO DE LIPÍDEOS Intestino delgado Fígado » sais biliares Gotículas de gordura (emulsificação) triacilglicerais Pâncreas » lipases triacilgliceróis ácidos graxos gliceróis 46 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO O quadro 2 resume a ação dos hormônios envolvidos na regulação do processo digestivo. Quadro 2 – Regulação hormonal do processo digestivo Hormônio Local desecreção tecido alvo ação fatores que estimulam a liberação Gastrina Estômago Estômago (glândulas gástricas) Estimulam as glândulas gástricas e a secreção do pepsinogênio e do HCIc Distensão do estômago pelo alimento, pela cafeína e por proteínas parcialmente digeridas. Secretina Duodeno Pâncreas Estimula secreção dos compostos alcalinos do suco pancreático Estimula ácido sobre o duodeno Fígado Aumenta velocidade de secreção da bile Colecistocinina Duodeno Pâncreas Estimula liberação de enzimas digestivas Ácidos graxos e proteínas parcialemnte digeridas no duodeno Vesícula biliar Estimula contração e esvaziamento Peptídeos Inibitórios; Contração gástricas Duodeno Estômago Diminui atividade de contração do estômago Presença de gorduras carboidratos no duodeno Absorção dos alimentos A absorção dos alimentos ocorre principalmente no intestino delgado, que possui microvilosidades, estruturas responsáveis pelo aumento da superfície de absorção. Em nível do jejuno-íleo há uma grande absorção de glicose, aminoácidos etc. O estômago e o intestino grosso também participam da absorção, principalmente de água. Algumas substâncias são absorvidas por pinocitose, porém a maior parte da absorção ocorre por difusão e transporte ativo. Uma população bacteriana está presente no intestino grosso, sendo responsável pela produção de vitaminas: k, B12, tianina, riboflavina e vários gases. 47 CAPÍTULO 6 Neurofisiologia O sistema nervoso é um tecido originário de um folheto embrionário denominado como exoderme, mais precisamente de uma área diferenciada desse folheto embrionário, a placa neural. Inicialmente a placa neural contém cerca de 130 mil células, que vão dar origem a um sistema que é composto por, aproximadamente, 100 bilhões de neurônios no futuro. A placa neural, aproximadamente na 3a semana de gestação, fecha-se, formando um tubo longitudinal (tubo neural) que, na sua região rostral ou anterior, sofre uma dilatação que dará origem a uma parte fundamental do sistema nervoso central, o encéfalo. Nos pontos de encontro ou fechamento das extremidades da placa neural, no recém-formado tubo neural, forma-se a crista neural que dá origem a componentes que a neuro-anatomia nomina como elementos periféricos e componentes celulares gliais. Classificações O sistema nervoso pode ser classificado de várias formas, sendo a classificação mais comum aquela que divide o sistema nervoso em: a) Sistema Nervoso Central (SNC), aquele que está contido no interior do chamado “estojo axial” (canal vertebral e crânio), ou seja, o encéfalo e a medula espinhal; b) Sistema Nervoso Periférico (SNP), aquele que é encontrado fora desse estojo ósseo, que se relaciona com o esqueleto apendicular, sendo os nervos (axônios) e gânglios (formações de corpos neuronais ganglionares dispersas em regiões do corpo ou mesmo dispostas ao longo da coluna vertebral, como os gânglios sensitivos). No entanto, podemos dividir o sistema nervoso funcionalmente em somático ou de vida de relação, que lembra o sistema nervoso que atua em todas as relações percebidas por nossa consciência, e em visceral ou vegetativo, que interage de forma inconsciente no controle e na percepção do meio interno e vísceras. Tanto o somático quanto o vegetativo, possuem componentes aferentes (sensitivos) e eferentes (motores). Sistema nervoso somático Aferentes (neurônios e axônios sensitivos, tato, dor etc.). Eferentes (neurônios e axônios motores, contração muscular esquelética e movimento). Sistema nervoso visceral Aferente (percebe, por exemplo, informações de paredes de vísceras, como dilatações, aumento da pressão ou relaxamentos). Eferente (Sistema Nervoso Autônomo). Simpático (aumenta, por exemplo, os batimentos do coração). 48 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO Parasimpático (diminui, por exemplo, os batimentos do coração). O SNC (sistema nervoso central) recebe, analisa e integra informações. É o local onde ocorre a tomada de decisões e o envio de ordens. O SNP (sistema nervoso periférico) carrega informações dos órgãos sensoriais para o sistema nervoso central e do sistema nervoso central para os órgãos efetores (músculos e glândulas). O SNC divide-se em encéfalo e medula. O encéfalo corresponde ao telencéfalo (hemisférios cerebrais), diencéfalo (tálamo e hipotálamo), cerebelo, e tronco cefálico (que se divide em: bulbo, situado caudalmente; mesencéfalo, situado cranialmente; e ponte, situada entre ambos). Proteção do sistema nervoso central Os órgãos do SNC são protegidos por estruturas esqueléticas (caixa craniana, protegendo o encéfalo; e coluna vertebral, protegendo a medula – também denominada raque) e por membranas denominadas meninges, situadas sob a proteção esquelética: dura-máter (a externa), aracnoide (a do meio) e pia-máter (a interna). Entre as meninges aracnoide e pia-máter, há um espaço preenchido por um líquido denominado líquido cefalorraquidiano ou líquor. O Sistema Nervoso Central (encéfalo e medula espinhal) está contido em um estojo ósseo denominado estojo axial. Esse estojo é constituído pelo crânio, que abriga o encéfalo e a coluna vertebral, formada por vértebras nos segmentos cervical, torácica (ou dorsal) e lombar, que contém em sua luz (no canal vertebral ou forame vertebral) a medula espinhal, que se entende somente até a primeira vértebra lombar. Já na região lombo-sacral, o canal vertebral abriga a cauda equina e o filum terminale. Meninges O Sistema Nervoso Central é protegido por três envoltórios formados por tecido conjuntivo, denominados como meninges, sendo estas, na ordem do interior para o exterior. a. Pia-máter: acolada mais intimamente ao sistema nervoso, é impossível de ser totalmente removida sem remover consigo o próprio tecido nervoso.b. Aracnoide: situada entre a pia e dura-máter, é provida de trabéculas que permite a circulação do líquor. 49 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I O conjunto, pia-máter e aracnoide é denominado leptomeninge. O líquor é produzido nos plexos coroides no interior dos ventrículos encefálicos e é absorvido no nível das granulações aracnoideas, junto ao seio venoso. Protege o sistema nervoso, de acordo com as leis de Pacoal (absorve os impactos) e Arquimedes (empuxo-flutuação). O líquor é renovado três vezes por dia, de 8 em 8 horas. c. Dura-máter: trata-se do envoltório mais externo e mais forte, que em conjunto com a aracnoide é denominada como paquimeninge. Medula vertebral (medula espinhal) A medula em um corte transversal demonstra o esquema conhecido como “H” medular. Etimologicamente, medula significa miolo e indica tudo o que está dentro. A medula espinhal é assim denominada por estar dentro do canal espinhal ou vertebral. A medula é uma massa de tecido nervoso alongada e cilindroide, situada dentro do canal vertebral, sem ocupá-lo completamente, e ligeiramente achatada ântero-posteriormente. Tem calibre não uniforme por possuir duas dilatações, as intumescências cervical e lombar, de onde partem maior número de nervos através dos plexos braquial e lombossacral, para inervar os membros superiores e inferiores, respectivamente. Seu comprimento médio é de 42cm na mulher adulta e de 45cm no homem adulto. Sua massa total corresponde a apenas 2% do Sistema Nervoso Central humano, contudo inerva áreas motoras e sensoriais de todo o corpo, exceto as áreas inervadas pelos nervos cranianos. Na sua extremidade rostral, é contínua com o tronco cerebral (bulbo), aproximadamente em nível do forame magno do osso occipital. Termina em nível do disco intervertebral, entre a primeira e a segunda vértebra lombares. A medula termina afilando-se e forma o cone medular que continua com o filamento terminal-delgado, filamento meníngeo composto da pia-máter e fibras gliais. Algumas estruturas são de extrema importância na fixação da medula, como o ligamento coccígeo que se fixa no cóccix, a própria ligação com o bulbo, os ligamentos denticulados, a emergência dos nervos espinhais e a continuidade da dura-máter com o epineuro que envolve os nervos. A medula espinhal recebe impulsos sensoriais de receptores e envia impulsos motores a efetuadores tanto somáticos quanto viscerais. Ela pode atuar em reflexos dependente ou independentemente do encéfalo. 50 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO Este órgão é a parte mais simples do Sistema Nervoso Central tanto ontogenético (embriológico), quanto filogeneticamente (evolutivamente). Daí o fato de a maioria das conexões encefálicas com o Sistema Nervoso Periférico ocorrer via medula. Tecido nervoso No SNC, existem as chamadas substâncias cinzenta e branca. A substância cinzenta é formada pelos corpos dos neurônios e a branca, por seus prolongamentos. Com exceção do bulbo e da medula, a substância cinzenta ocorre mais externamente e a substância branca, mais internamente. A unidade funcional e estrutural do sistema nervoso é o neurônio ou célula nervosa. São os neurônios que fazem a ligação entre as células receptoras dos diversos órgãos sensoriais e as células efetoras, nomeadamente músculos e glândulas. Os neurônios são células muito especializadas, que apresentam um ou mais prolongamentos, ao longo dos quais se desloca um sinal elétrico. Podem ser classificados, com base no sentido em que conduzem impulsos relativamente ao sistema nervoso central, em: neurônios sensoriais ou aferentes – os que transmitem impulsos do exterior para o sistema nervoso central; neurônios motores ou eferentes – os que transmitem impulsos do sistema nervoso central para o exterior; neurônios de conexão – os que conduzem impulsos entre os outros dois tipos de neurônios. É composto basicamente por dois tipos celulares. » Neurônios: são a unidade fundamental do tecido nervoso, cuja função é receber, processar e enviar informações; estes, após o nascimento, geralmente não se dividem, os que morrem, seja naturalmente ou por efeitos de toxinas ou traumatismos, jamais serão substituídos. » Células gliais (neuroglia): são as células que ocupam os espaços entre os neurônios, com função de sustentação, revestimento, modulação da atividade neuronal e defesa; diferente dos neurônios, essas células mantêm a capacidade de mitose. Os neurônios são compostos basicamente por três estruturas: corpo celular, dendritos e axônio. 51 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I Neurônio A estrutura básica de um neurônio é a seguinte. » Corpo celular ou pericário: contém núcleo e citoplasma, onde estão contidos ribossomos, retículo endoplasmático granular e agranular e aparelho de Golgi. Centro metabólico do neurônio, este tem como função sintetizar todas as proteínas neuronais e realizar a maioria dos processos de degradação e renovação de constituintes celulares. Do corpo celular partem prolongamentos: dendritos (que assim como o pericárdio, recebem estímulos) e axônios. » Dendritos: geralmente curtos, possuem os mesmos constituintes citoplasmáticos do pericárdio. Traduzem os estímulos recebidos em alterações do potencial de repouso da membrana, que envolvem entrada e saída de determinados íons, causando pequenas despolarizações (excitatória) ou hiperpolarizações (inibitória). Os potenciais gerados nos dendritosse propagam em direção ao corpo e, neste, em direção ao cone de implantação do axônio. » Axônio: prolongamento longo e fino, que pode medir de milímetros a mais de um metro, originado do corpo ou de um dendrito principal, a partir de uma região denominada cone de implantação. Possui membrana plasmática (axolema) e citoplasma (axoplasma). O axônio é capaz de gerar alteração de potencial de membrana (despolarização de grande amplitude) denominada potencial de ação ou impulso nervoso, e conduzi-lo até a terminação axônica, local onde ocorre a comunicação com outros axônios ou células efetuadoras. O local onde é gerado o impulso é chamado zona de gatilho. Esta especialização de membrana é devido à presença de canais de sódio e potássio, que ficam fechados no potencial de repouso, mas que se abrem quando despolarizações os atingem. Os neurônios são assim classificados. » Multipolares: possuem vários dendritos e um axônio; conduzem potenciais graduáveis ao pericárdio, e este em direção à zona de gatilho, onde é gerado o potencial de ação. » Bipolares: possuem um dendrito e um axônio. » Pseudounipolares: corpos celulares localizados em gânglios sensitivos, de onde parte apenas um prolongamento que logo se divide em dois ramos: o periférico (que se dirige à periferia, formando terminações nervosas sensitivas) e o central (que se dirige ao sistema nervoso central, estabelecendo contato com outros neurônios). Como os axônios não possuem ribossomos, toda a proteína necessária à manutenção destes deriva do pericárdio (fluxo anterógrado), e para que haja a renovação dos componentes das terminações é necessário um fluxo oposto em direção ao corpo (fluxo retrógrado). Esse fluxo de substâncias e organelas através do axoplasma é denominado fluxo axoplasmático. 52 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO Neurônios como células excitáveis: são células altamente excitáveis que se comunicam entre si ou com células efetuadoras (céls. musculares e secretoras) usando basicamente uma linguagem elétrica, as alterações do potencial de membrana. A membrana celular separa o meio intracelular, onde predominam íons com cargas negativas e certa quantidade do íon potássio (K+), do meio extracelular, onde predominam cargas positivas, Sódio (Na+), Cálcio (Ca+) e certa quantidade do íon Cloro (Cl-). As fibras nervosas têm a propriedade de propagar impulsos muito rapidamente, em todo o seu comprimento, e de transmiti-los à célula que se lhe segue, através de contatos conhecidos por sinapses.As sinapses podem existir entre dois neurônios, entre célula sensorial e neurônio ou entre neurônio e órgão efetor (músculo ou glândula). Quando a célula efetora é um músculo, o local da sinapse é chamado de placa motora. O impulso é captado pelos dendritos, passa ao corpo celular e deste para o axônio, que o envia para a célula seguinte. No estado de repouso, o neurônio encontra-se polarizado, ou seja, o interior está carregado mais negativamente que o exterior. Ao atingir a membrana celular, o estímulo altera a permeabilidade aos íons Na+ e K+ no ponto excitado, permitindo, assim, um influxo (entrada) de íons sódio (Na+) e a saída de íons potássio (K+). Nesse momento ocorre a despolarização, ou seja, diminui a negatividade no interior da célula. A entrada inicial de íons Na+ provoca a abertura de canais para esses íons nos segmentos seguintes, de modo que o processo se repete e o impulso nervoso se transmite através de todo o neurônio. Em alguns casos, a união de neurônios é tão estreita que a onda de despolarização passa diretamente do axônio de um neurônio a um dendrito do neurônio seguinte, o que se denomina sinapse elétrica. Geralmente o que ocorre são as sinapses químicas. Nestas, o sinal elétrico que chega à terminação axônica, provoca a liberação de neurotransmissores, mensageiros químicos presentes no interior de vesículas na terminação axônica. Ao atingir a terminação axônica, o potencial de ação faz com que as vesículas se fusionem com a membrana da terminação, liberando os neurotransmissores que estavam contidos para a fenda sináptica (espaço virtual entre o neurônio e a célula efetora). Ao serem liberados na fenda sinóptica, os neurotransmissores ligam-se a receptores específicos presentes na membrana da célula pós-sináptica (célula efetora). A ligação do neurotransmissor com o seu receptor específico gera uma alteração no potencial de membrana da célula efetora, transmitindo o impulso nervoso e gerando uma resposta (contração muscular, por exemplo). Podemos, então, concluir que a transmissão do impulso implica a transformação de um sinal elétrico em um sinal químico que, posteriormente, é transformado em outro sinal elétrico. Os axônios são cobertos por uma membrana denominada bainha de mielina, que possui a característica de isolante elétrico, impedindo que as cargas elétricas se dispersem. Assim, a condução do impulso nervoso nas fibras mielínicas (com bainha de mielina) e amielínicas (sem bainha de mielina) difere na sua velocidade, sendo maior nas mielínicas. No trajeto do axônio, há regiões chamadas nódulos de Ranvier, em que a bainha de mielina é interrompida, gerando, assim, a 53 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I condução saltatória, nos quais o impulso nervoso é transmitido, aos saltos, de um nódulo de Ranvier ao outro, ao longo da fibra (axônio). Sinapses Através de suas terminações, os neurônios entram em contrato e transmitem impulsos a outros neurônios e às células efetuadoras; esses locais de contato são denominados, respectivamente, sinapses interneuronais e sinapses ou junções neuroefetuadoras. Estas podem ser de dois tipos: elétricas e químicas. » Sinapses elétricas: são exclusivamente interneuronais (entre neurônios) e raras em vertebrados. A comunicação entre dois neurônios se dá por meio de canais iônicos presentes em cada uma das membranas em contato, que permitem a passagem direta de pequenas moléculas do citoplasma de uma das células para o da outra. » Sinapses químicas: estas não são polarizadas, ou seja, a comunicação se faz nos dois sentidos. As sinapses químicas ocorrem na maioria das sinapses interneuronais e em todas as sinapses neuroefetuadoras. Esta comunicação depende da liberação de uma substância química chamada neurotransmissor, que está presente no elemento pré-sináptico armazenado em vesículas sinápticas. » Sinapses químicas interneuronais: geralmente ocorre entre uma terminação axônica e qualquer outra parte de outro neurônio, formando sinapses axodendríticas (entre o axônio de um neurônio com o dendrito de outro), axossomáticas (entre o axônio de um neurônio e o corpo de outro) ou axoaxônicas (entre axônios). Porém, é possível que o elemento pré-sináptico seja um dendrito ou um pericárdio, gerando sinapses dendrodendríticas, somatossomáticas, somatoaxônicas etc. Quando o axônio é o elemento pré-sináptico, os contatos ocorrem através de botões sinápticos, estruturas que ficam na sua extremidade ou através de varicosidades, terminações azoicas onde se acumulam as vesículas sinápticas. Uma sinapse química apresenta sempre um elemento pré-sináptico (que armazena e libera o neurotransmissor, ex. botão sináptico), um elemento pós-sináptico (que contém o receptor para o neurotransmissor) e uma fenda sináptica (que separa as duas membranas). Na célula pré-sináptica, encontramos a membrana pré-sináptica, que possui projeções densas que mantêm, de forma organizada, as vesículas sinápticas (estruturas que contêm em seu interior os neurotransmissores). Na célula pós-sináptica, encontramos a membrana pós-sináptica, que possui os receptores específicos para os neurotransmissores. Sinapses químicas neuroefetuadoras: também chamadas junções neuroefetuadoras, envolvem os axônios dos nervos periféricos e uma célula efetuadora não neuronal. Junção neuroefetuadora somática: se fazem com células musculares estriadas esqueléticas (células pós-sinápticas) onde o elemento pré-sináptico é uma terminação axônica de um neurônio 54 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO motor somático, cujo corpo se localiza na medula espinhal ou no tronco encefálico. São sinapses direcionadas, denominadas placa motora. Junção neuroefetuadora visceral: é o contato de células musculares lisas ou cardíacas ou glandulares com terminações nervosas de neurônios do sistema nervoso autônomo simpático e parassimpático, cujos corpos se encontram em gânglios. Não são direcionadas, ou seja, a transmissão pode ocorrer nas duas direções. Transmissão sináptica: quando um impulso nervoso atinge a membrana pré-sináptica (neurônio) ocorre uma alteração no seu potencial, abrindo os canais de sódio que permitem a sua entrada na célula, aumentando, assim, a quantidade desse íon no seu interior. Esse aumento estimula a liberação do neurotransmissor na fenda sináptica, que atinge os receptores da célula pós-sináptica. Esses receptores podem ser canais iônicos que se abrem quando em contato com o neurotransmissor, permitindo a entrada ou saída de determinados íons. A movimentação de íons, tanto para dentro quanto para fora, causa alterações no potencial de membrana (no caso de entrada de sódio, uma despolarização, e quando há entrada de cloro, uma hiperpolarização). Quando o receptor não é um canal iônico, a sua combinação com o neurotransmissor gera uma nova molécula chamada de segundo mensageiro, que causará modificações na célula pós-sináptica. Após o contato com o receptor, é necessário que o neurotransmissor seja removido da fenda sináptica para que não haja excitação ou inibição por tempo prolongado. Essa remoção pode ser feita por ação enzimática ou por receptação pela membrana pré-sináptica; e uma vez dentro da terminação nervosa, o neurotransmissor pode ser reutilizado ou inativado. Neurotransmissores: a maioria dos neurotransmissores situam-se em três categorias: aminoácidos, aminas e peptídeos. Os neurotransmissores peptídeos constituem-se de grandes moléculas armazenadas e liberadas em grânulos secretores. A síntese dos neurotransmissores peptídicos ocorre no retículo endoplasmático rugoso do soma. Após serem sintetizados, são clivados no complexo de Golgi, transformando-se em neurotransmissores ativos, que são secretados em grânulos secretores e transportados ao terminal axonal (transporte anterógrado), para serem liberados na fenda sináptica. 55 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I Endorfinas e encefálicas: bloqueiam a dor, agindo naturalmenteno corpo como analgésicos. Dopamina: neurotransmissor inibitório derivado da tirosina. Produz sensações de satisfação e prazer. Os neurônios dopaminérgicos podem ser divididos em três subgrupos com diferentes funções. O primeiro grupo regula os movimentos: uma deficiência de dopamina neste sistema provoca a doença de Parkinson, caracterizada por tremuras, inflexibilidade, e outras desordens motoras, e em fases avançadas pode verificar-se demência. Serotonina: neurotransmissor derivado do triptofano regula o humor, o sono, a atividade sexual, o apetite, as funções neuroendócrinas, a temperatura corporal, a sensibilidade à dor, a atividade motora e as funções cognitivas. Atualmente vem sendo intimamente relacionada aos transtornos do humor, ou transtornos afetivos, e a maioria dos medicamentos chamados antidepressivos age produzindo um aumento da disponibilidade dessa substância no espaço entre um neurônio e outro. Tem efeito inibidor da conduta e modulador geral da atividade psíquica. Influi sobre quase todas as funções cerebrais, inibindo-a de forma direta ou estimulando o sistema GABA. GABA (ácido gama-aminobutirico): principal neurotransmissor inibitório do SNC. Ele está presente em quase todas as regiões do cérebro, embora sua concentração varie conforme a região. Está envolvido com os processos de ansiedade. Seu efeito ansiolítico seria fruto de alterações provocadas em diversas estruturas do sistema límbico, inclusive a amígdala e o hipocampo. A inibição da síntese do GABA ou o bloqueio de seus neurotransmissores no SNC resultam em estimulação intensa, manifestada por meio de convulsões generalizadas. Ácido glutâmico ou glutamato: principal neurotransmissor estimulador do SNC. A sua ativação aumenta a sensibilidade aos estímulos dos outros neurotransmissores. Neuroglia (Células Gliais): são as células mais frequentes do tecido nervoso, que se relacionam com os neurônios. No sistema nervoso central, a neuroglia apresenta quatro tipos celulares. » Astrócitos: têm a forma de estrela, com inúmeros prolongamentos. Em grande quantidade, apresentam-se sob duas formas: astrócitos protoplasmáticos, localizados na substância cinzenta; e astrócitos fibrosos, localizados na substância branca. Têm como funções sustentação e isolamento de neurônios, controle dos níveis de potássio extraneuronal e armazenamento de glicogênio no SNC. » Oligodendrócitos: em conjunto com os astrócitos, denominam-se macróglia. São células menores que as primeiras, com poucos prolongamentos. Organizam- se em dois tipos: oligodendrócito satélite (junto ao pericárdio e ao dendritos) e oligodendrócito fascicular (junto às fibras nervosas), sendo os últimos responsáveis pela formação da bainha de mielina em axônios no SNC. » Microgliócitos: células pequenas com poucos prolongamentos, presentes tanto na substância branca quanto na substância cinzenta, com principal função de fagocitose. » Células ependimárias: com disposição epitelial e geralmente ciliadas, revestem as paredes dos ventrículos cerebrais, do aqueduto cerebral e do canal da medula espinhal. Em conjunto com os microgliócitos, formam a micróglia. 56 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO No SNP, a neuroglia compreende dois tipos celulares: as células satélites, que envolvem os pericárdios dos neurônios dos gânglios sensitivos e do sistema nervoso autônomo; e as células de Schwann que circundam os axônios formando a bainha de mielina e o neurilema e que têm importante função na regeneração das fibras nervosas. Fibras nervosas: geralmente são formadas por um neurônio e seus envoltórios. As fibras envolvidas pela bainha de mielina são denominadas fibras mielínicas, sendo denominadas de amielínicas as fibras não envolvidas pela bainha de mielina. No SNC, a região que contém apenas fibras nervosas mielínicas e células da Glia é denominada substância branca. A região onde estão presentes corpos dos neurônios, fibras amielínicas e algumas neuróglias denomina-se substância cinzenta. No SNC, as fibras reunidas formam fascículos e no SNP formam os nervos. No SNP, o axônio, ao longo de seu comprimento, é envolvido por células de Schwann (em axônios motores e na maioria dos sensitivos, formam-se duas bainhas, a de mielina mais interna e o neurilema mais externamente), que se interrompem em intervalos regulares chamados nódulos de Ranvier (onde se encontram os canais de sódio e potássio), sendo os espaços situados entre eles denominados internódulos. Na terminação axônica, a bainha de mielina desaparece, porém permanece o neurilema (no SNC não há formação de neurilema). A bainha de mielina funciona como um isolante e, portanto permite a condução mais rápida do impulso nervoso, que em consequência dos nódulos de Ranvier, é saltatória. O processo de formação da bainha de mielina dá-se em etapas. 1. Em cada célula de Schwann forma-se um sulco que contém o axônio. 2. Fechamento do sulco com a formação de uma dupla membrana denominada mesaxônio. 3. O mesaxônio enrola-se várias vezes em volta do axônio expulsando o citoplasma entre as voltas. Ocorre a oposição das faces citoplasmáticas da membrana, formando a linha densa principal. 4. As faces externas do mesaxônio se encontram e formam a linha densa menor; e o restante da célula de Schwann forma o neurilema. No SNP, há fibras do sistema, nervos autônomos, e algumas sensitivas que são envolvidas pela célula de Schwann sem que haja a formação de mielina. As fibras amielínicas conduzem mais lentamente o impulso nervoso devido à pequena distância entre os canais sensíveis à voltagem. Estrutura do Nervo: um nervo contém feixes de fibras nervosas, (utiliza-se o termo fibra nervosa para designar o axônio ou os dendritos) envolvidas por uma membrana conjuntiva resistente. Cada feixe é, por sua vez, envolvido por uma bainha conjuntivo; entre os feixes existe tecido conjuntivo que encerra vasos sanguíneos. Os nervos apresentam cor branca porque são formados por grande quantidade de fibras mielínicas (a mielina, invólucro principalmente lipídico, apresenta coloração esbranquiçada). O sistema nervoso periférico é constituído, principalmente, pelos nervos, que são representantes dos axônios (fibras motoras) ou dos dendritos (fibras sensitivas). São as fibras nervosas dos nervos que 57 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I fazem a ligação dos diversos tecidos do organismo com o sistema nervoso central. Para a percepção da sensibilidade, na extremidade de cada fibra sensitiva, há um dispositivo captador, denominado receptor, e uma expansão que coloca a fibra em relação com o elemento que reage ao impulso motor; este elemento na grande maioria dos casos é uma fibra muscular, podendo ser também uma célula glandular. A esses elementos dá-se o nome de efetor. Portanto, o sistema nervoso periférico é constituído por fibras que ligam o sistema nervoso central ao receptor, no caso da transmissão de impulsos sensitivos; ou ao elemento efetor, quando o impulso é motor. Os nervos do sistema periférico dividem-se em dois grandes grupos: os nervos espinhais e os cranianos. As fibras que constituem os nervos são em geral mielínicas com neurilema. São três as bainhas conjuntivas que entram na constituição de um nervo: epineuro (envolve todo o nervo e emite septos para seu interior), perineuro (envolve os feixes de fibras nervosas), endoneuro (trama delicada de tecido conjuntivo frouxo que envolve cada fibra nervosa). As bainhas conjuntivas conferem grande resistência aos nervos sendo mais espessas nos nervos superficiais, pois estes são mais expostos aos traumatismos. Durante o seu trajeto, os nervos podem se bifurcar ou se anastomosar. Os nervos espinhais originam-se na medula e os cranianos no encéfalo. Encéfalo O encéfalo corresponde ao telencéfalo (hemisférios cerebrais), diencéfalo (tálamo e hipotálamo), cerebelo e tronco cefálico. O tronco, por sua vez, divide-se em: bulbo, situado caudalmente; mesencéfalo, situado cranialmente; e ponte.O Telencéfalo O encéfalo humano contém cerca de 35 bilhões de neurônios e pesa, aproximadamente, 1,4kg. O telencéfalo, ou cérebro, é dividido em dois hemisférios cerebrais bastante desenvolvidos. Nestes se situam as sedes da memória e dos nervos sensitivos e motores. Entre os hemisférios, estão os ventrículos cerebrais (ventrículos laterais e terceiro ventrículo); contamos ainda com um quarto ventrículo, localizado mais abaixo, ao nível do tronco encefálico. São reservatórios do líquido céfalorraquidiano, (líquor), participando na nutrição, proteção e excreção do sistema nervoso. Em seu desenvolvimento, o córtex ganha diversos sulcos para permitir que o cérebro esteja suficientemente compacto para caber na calota craniana, que não acompanha o seu crescimento. Por isso, no cérebro adulto, apenas 1/3 de sua superfície fica “exposta”, o restante permanece por entre os sulcos. O cérebro é o órgão onde se radicam a sensibilidade consciente, a mobilidade voluntária e a inteligência. Por este motivo é considerado como o centro nervoso mais importante de todo o sistema. Apresenta um profundo sulco que chega até o corpo caloso e divide-o em dois hemisférios simétricos (esquerdo e direito). O córtex cerebral constitui o nível superior na organização hierárquica do sistema nervoso; encontra-se repregada apresentando pregas ou circunvoluções e 58 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO figuras ou canais. O córtex cerebral não é homogêneo, encontrando-se diferenças na espessura total, nas das diferentes capas e na conformação celular fibrilar. O cérebro contém os centros nervosos relacionados com os sentidos, a memória, o pensamento e a inteligência. O cérebro coordena também as ações voluntárias desenvolvidas pelo indivíduo, além de comandar atos inconscientes. Observando uma figura de um cérebro, você vê que ele se divide em duas partes ou hemisférios cerebrais: um direito, outro esquerdo. Repare também nas reentrâncias e saliências que o cérebro apresenta: elas são denominadas circunvoluções cerebrais. » Hipocampo: região do córtex que está dobrada sobre si e possui apenas três camadas celulares; localiza-se medialmente ao ventrículo lateral. » Córtex olfativo: localizado ventral e lateralmente ao hipocampo; apresenta duas ou três camadas celulares. » neocórtex: córtex mais complexo; separa-se do córtex olfativo mediante um sulco chamado fissura rinal; apresenta muitas camadas celulares e várias áreas sensoriais e motoras. As áreas motoras estão intimamente envolvidas com o controle do movimento voluntário. 59 CAPÍTULO 7 Temperatura corporal e sua regulação Introdução O ser humano é um ser homeotérmico, isto é, possui a capacidade de manter a temperatura corporal em certo intervalo pré-determinado, apesar das variações térmicas do meio ambiente (homeostasia térmica). Temperatura de equilíbrio: 37ºC (98.6ºF1) [Limites normais: 36.1º - 37.2ºC (97º - 99ºF)]. A variação térmica circadiana é um fenômeno natural e, geralmente, não ultrapassa os 0.6ºC (1ºF). A temperatura corporal é menor pela manhã, aumenta ao longo do dia e é máxima pelo início da noite. O equilíbrio térmico é conseguido através do balanço entre a perda e a produção ou aquisição de calor. Seguidamente serão abordados os mecanismos físicos e fisiológicos que contribuem para este equilíbrio. Termogênese A termogênese corresponde à energia na forma de calor gerada em nível dos tecidos vivos. A quantidade de calor produzida é diretamente proporcional à taxa de metabolismo corporal (40-60% da energia proveniente da hidrólise do trifosfato de adenosina – ATP perdido sob a forma de calor). A taxa de metabolismo corporal depende dos seguintes fatores. » Taxa de metabolismo basal 2 de todas as células corporais (para cada aumento da temperatura no valor de 1ºF ou 0.6ºC, esta taxa aumenta aproximadamente 10%). » Taxa de metabolismo adicional decorrente da atividade muscular. » Taxa de metabolismo adicional secundário ao efeito da tiroxina (e em menor grau por outras hormonal, como a hormonal de crescimento ou a testosterona) em nível celular. » Taxa de metabolismo adicional causada pelo efeito da epinefrina, norepinefrina e pela estimulação simpática em nível celular. 60 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO » Taxa de metabolismo adicional por um aumento intrínseco da atividade química nas próprias células. A contribuição de cada um desses fatores para a taxa de metabolismo corporal varia ao longo do tempo. Por exemplo, se compararmos uma situação de repouso com uma situação de exercício físico, verificamos que, na primeira situação, a termogénese é decorrente essencialmente do metabolismo basal enquanto que, na segunda, deriva principalmente da atividade muscular. Mecanismos físicos de transferência de calor A energia térmica pode ser absorvida a partir do meio externo ou dissipada para o mesmo (conforme o gradiente térmico). Os principais mecanismos implicados são a radiação, a condução e a convecção. Radiação: corresponde à emissão de calor sob a forma de ondas eletromagnéticas, mais precisamente, ondas infravermelhas (comprimento de onda de 5-20 μm, isto é, 10-30 vezes o comprimentos dos raios luminosos). Este processo físico ocorre a partir de qualquer matéria, desde que a sua temperatura não seja o zero absoluto e o grau de radiação depende da matéria em causa (por exemplo, o ar tem uma capacidade de radiação muito reduzida). Se a temperatura do corpo de um ser humano for superior à temperatura do meio externo, uma maior quantidade de calor irá irradiar a partir do corpo do que irá ser irradiada para o corpo, isto é, ocorre perda de calor por parte do organismo. Condução: é um mecanismo de transferência direta de calor. O calor é a energia cinética do movimento molecular e pode ser transferido de umas moléculas para outras. É neste processo que consiste a condução. Exemplificando, as moléculas da pele estão em constante movimento vibratório e a energia cinética deste movimento pode ser transmitida ao ar, que se for mais frio, aumenta a velocidade das moleculares presentes no ar até que seja atingido um estado de equilíbrio. A pele e os tecidos subcutâneos têm uma função isolante natural, sendo que a camada adiposa conduz o calor com uma velocidade equivalente a 1/3 da dos outros tecidos. Convecção: pelo que foi descrito, percebe-se que a condução é um mecanismo autolimitado (existe apenas até ao momento em que as moléculas possuam uma energia cinética equivalente), contudo se o ar adjacente ao corpo for removido e substituído por um ar “novo”, o equilíbrio jamais será atingido – a transferência de calor pelo meio de correntes de ar é chamada de convecção. Quanto maior a velocidade das correntes de ar (maior renovação do ar adjacente ao corpo), maior a amplitude da transferência de calor. Este processo é semelhante na situação de o organismo estar submergido em água, com a diferença que a água possui uma maior capacidade de absorção e condução para o calor (perda de calor muito mais rápida). Vestuário: minimiza as perdas de calor por condução e convecção ao permitir a criação de uma camada de ar, não renovada, junto à superfície corporal. Contudo, esta capacidade perde-se quando as roupas se tornam molhadas ou úmidas (por exemplo, em roupa suada), devido à elevada condutibilidade da água que aumenta a taxa de transferência de calor através da roupa em 20 vezes ou mais. 61 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I Em situações usuais, os mecanismos físicos atrás citados promovem perda de calor pelo corpo, dado que geralmente a temperatura ambiente é inferior à temperatura corporal. Contudo em situações em que a temperatura ambiente seja superior a 37ºC, por exemplo, numa sauna (temperatura ambiente 70ºC), verifica-se uma inversão desses mecanismos com ganho de calor pelo organismo através dos mesmos processos físicos. Mecanismos fisiológicos de transferência de calor Controle vasomotor Transmissãode calor corporal central para a pele A pele e as extremidades, contrariamente ao que acontece em nível das regiões corporais mais profundas (região corporal central), têm maior variação de amplitude térmica. O tecido celular adiposo tem função isolante natural (baixa condução de calor) e separa a pele (região mais sensível às variações térmicas externas) da região corporal central (temperatura mais estável). O fluxo sanguíneo cutâneo estabelece ligação entre a pele e a região corporal central. A irrigação cutânea é composta por um sistema complexo de ramificações vasculares, do qual fazem parte plexos venosos, arteríolas e anastomoses arteriovenosas (essencialmente presentes em nível de áreas expostas, como os pés, as mãos, o nariz e os pavilhões auriculares). O plexo venoso subcutâneo é abastecido pelas arteríolas e anastomoses arteriovenosas, de forma que o fluxo de sangue subcutâneo irá variar conforme o maior ou menor grau de vasoconstrição dessas últimas. A modulação do tônus arterial depende preponderantemente do sistema nervoso simpático. Dessa forma, o maior ou menor aporte sanguíneo medeia o fluxo de calor interno para a pele, a partir da qual o calor pode ser posteriormente dissipado para o meio ambiente. A condução de calor ao passar de um estado de vasoconstrição total para vasodilatação total aumenta cerca de 8 vezes. Poderá, então, dizer se que a pele funciona como um sistema de radiação de calor controlado. 62 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO Regulação da temperatura corporal Para a manutenção de uma temperatura corporal estável, é essencial a integridade de todos os elementos envolvidos na sua regulação, nomeadamente os sensores térmicos, o centro integrador e de comando e os sistemas eferentes. Sensores térmicos Hipotálamo anterior e área pré-óptica Contêm neurônios sensíveis ao calor e neurônios sensíveis ao frio (estes em maior número). São estimulados por variações da temperatura do sangue que per funde essa área – rede vascular especializada com função de barreira hematoencefálica limitada denominada organum vasculosum laminae terminalis. A estimulação térmica desses neurônios traduz-se por um aumento da frequência dos impulsos emitidos por segundo. Receptores cutâneos térmicos São de dois tipos: sensíveis ao frio (em maior número) ou sensíveis ao calor. A informação transmitida por esses receptores é enriquecida pela informação proveniente de receptores da dor especificamente estimulados por variações extremas da temperatura, o que explica que estas possam ser percebidas como dor. O grau de estimulação (impulsos/segundos) dos distintos receptores térmicos permite ao ser humano uma gradação das sensações térmicas. A rapidez de instalação da temperatura também modula o grau de estimulação, verificando-se que a persistência da exposição a uma determinada temperatura origina progressivamente uma menor estimulação dos receptores térmicos – fenômeno de adaptação. Os receptores térmicos localizam-se imediatamente abaixo da pele e distribuem-se em diferentes percentagens consoante a área corporal (por exemplo, no caso dos receptores do frio – nos lábios 15- 25/cm2, nos dedos 3-5/cm2, no tórax <1/cm2). Os receptores do frio são consistentemente mais numerosos, contudo a relação entre receptores frio/calor pode variar de 3:1 a 10:1. A existência de um maior número de receptores sensíveis ao frio deve-se ao fato de, num meio ambiente neutro, a taxa metabólica do ser humano produzir consistentemente mais calor do que é necessário para manter a temperatura corporal central a 37ºC. A informação dos receptores térmicos progride juntamente com a informação dos receptores dolorosos cutâneos no interior de fibras C não mielinizadas (velocidade de transmissão 0.4 – 2m/s), e de fibras A delta pequenas mielinizadas (velocidade de transmissão 20m/s) até à lamina superficial do corno dorsal da medula espinal. Seguidamente cruzam a linha média, dirigindo-se, então, no sentido ascendente através do tracto espinotalâmico contralateral até à formação reticular pontina e os núcleos posterolateral ou ventrolateral do tálamo. A informação progride posteriormente para o hipotálamo. 63 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I Receptores existentes em órgãos corporais profundos Presentes em nível da medula espinal, vísceras abdominais, dentro e à volta dos grandes vasos situados no tórax e abdômen, apresentando uma sensibilidade mais acentuada para diminuições da temperatura corporal central. Centro integrador Os sinais provenientes de todos os tipos de receptores citados anteriormente são integrados em nível do hipotálamo --> centro integrador. Após a integração das diferentes informações aferentes e comparação das mesmas com o ponto de regulação térmica, são emitidas informações para diversos órgãos ou sistemas eferentes dependendo do tipo de resposta a estimular – promoção do ganho ou da perda de calor. Sistemas eferentes Sistema Nervoso Central Em relação do sistema nervoso central, mais propriamente no córtex cerebral, a percepção de variações da temperatura leva a alterações comportamentais, isto é, respostas voluntárias importantes na prevenção da hipo ou hipertermia. Incluem o deslocamento para áreas mais quentes ou mais frias, remoção ou adição de roupas, diminuição ou aumento da atividade e aumento ou diminuição das áreas de pele exposta. Sistema Nervoso Autônomo É responsável pela regulação de múltiplos mecanismos essenciais para uma regulação eficiente da temperatura. » Tônus vascular (vasoconstrição vs. vasodilatação) – Mecanismo Cutâneo de Radiação. » Sudorese e frequência respiratória: quanto mais elevada, maiores serão as perdas insensíveis através dos pulmões; é um mecanismo de perda de calor pouco ativo no ser humano contrariamente ao que ocorre noutros animais – Mecanismo de Evaporação. » Metabolismo celular: o metabolismo celular pode ser uma forma de termogênese química e consiste na produção de energia sob a forma de calor através da fosforização oxidativa eficiente ou ineficiente (isto é, que não leva a formação de ATP sendo que toda a energia é libertada sob a forma de calor) de nutrientes intracelulares. » Lipólise da gordura castanha (gordura termogénica): a gordura castanha pode ser considerada uma fonte de termogênese química, dada a existência no interior 64 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO deste tipo de adipócitos de mitocôndrias especializadas na oxidação ineficiente (isto é, que não leva a formação de ATP). Nos recém-nascidos, ela existe em quantidade considerável (essencialmente em nível do espaço interescapular); é a fonte principal de calor. Nos adultos, dado existir em escassa quantidade (principalmente à volta dos órgãos internos e da aorta), contribui somente para 10-15% da quantidade de calor produzida. » Piloerecção: é um importante mecanismo de preservação de calor nos animais e consiste na contração do músculo erector do pelo presente nos folículos pilosos. A contração em bloco daqueles leva à ereção conjunta dos pelos, retendo, junto à pele uma camada de ar mais ou menos constante (camada isolante), o que permite uma menor perda de calor para o meio externo – Mecanismo inibidor da condução e convecção. No ser humano, tem como equivalente a chamada “pele de galinha” (arrepio), mas não é um mecanismo eficiente de conservação de calor. Sistema Nervoso Somático Comanda a contração muscular (fonte importante de energia térmica – termogênese muscular). Pode ser estimulado pelo córtex cerebral ou pode ser estimulado involuntariamente pelo hipotálamo. Em relação ao hipotálamo posterior, existe um centro motor primário que modula o grau de inibição da atividade dos neurônios motores anteriores presentes na medula espinhal. A diminuição da inibição dos neurônios anteriores (promovida por diminuição da temperatura corporal central abaixo do valor de regulação) leva numa fase inicial ao aumento do tônus musculare, posteriormente, se mantida, ocorrem contrações repetitivas, isto é, tremores. A contração rápida involuntária da musculatura esquelética pode resultar num aumento de 4 vezes da produção de calor , de 2 vezes do consumo de oxigênio e de 6 vezes da taxa metabólica. Hipófise O hipotálamo tem capacidade de estimular determinadas substâncias que funcionam como hormônios, uma das quais é chamada de hormônio neurosecretora libertadora de tirotrofina. Esta última é libertada para as veias portais hipotalâmicas, sendo transportada até à hipófise onde promove a libertação do hormônio libertadora da tiroxina (TSH). A TSH, por sua vez, ao passar para a corrente sanguínea, leva à libertação de tirotoxina (T4) pela tireoide. A tirotoxina estimula o metabolismo celular, pelo que se percebe que uma diminuição ou aumento da sua produção origina, respectivamente, um aumento ou diminuição da energia térmica produzida. 65 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I Tabela 1 – Respostas hipotalâmicas secundárias a alterações térmicas Vias eferentes Resposta Frio Vias simpáticas periféricas Libertação de hormonas neuroendocrinas Estimulação da medula supra-renal Estimulação do centro motor primário hipotalâmico Catecolaminas circulantes Vasocontrição Aumento da taxa metabólica basal Libertação de catecolaminas Tremores Lipólise da gordura castanha e branca Calor Glândulas sudoriparas Estimulação das vias parassimpáticas e inibição das vias simpáticas periféricas inibição dos centros simpáticos centrais Perda de calor por evaporação Vasodilação Diminuição da taxa de metabolismo basal Limites extremos de temperaturas toleráveis A tolerância ao calor depende em grande parte do grau de umidade do ambiente. Quando o ambiente é completamente seco, o mecanismo de evaporação é eficiente pelo que temperaturas externas de 65,5ºC ou 150ºF podem ser toleradas durante várias horas. Se o ar apresentar uma saturação em H2O de 100%, a temperatura corporal começa a subir quando a temperatura externa é superior 34,4ºC ou 94ºF. Na presença de umidade intermédia, a temperatura corporal central máxima tolerada é de, aproximadamente, 40ºC ou 104ºF, enquanto a temperatura mínima ronda os 35,3ºC ou 95,5ºF. Distúbios da regulação térmica Em uma situação normal, os sensores térmicos detectam variações da temperatura corporal central e cutânea que transmitem ao centro integrador o qual através de múltiplas vias eferentes promove respostas que visam à conservação ou à dissipação de calor. Anomalias da função ou danos estruturais a qualquer um desses níveis podem resultar na perda da capacidade de regulação térmica. Febre Elevação da temperatura corporal como resultado de uma alteração em nível do centro termorregulador localizado no hipotálamo – alteração do ponto de regulação térmica. A elevação do ponto de regulação térmica desencadeia uma série de mecanismos destinados a aumentar a temperatura corporal central (tremores, vasoconstrição, aumento do metabolismo celular etc.) por forma a atingir o novo equilíbrio. As substâncias capazes de induzir febre são denominadas de pirogéneos, podendo ser endógenos ou exógenos. Hipertermia Elevação da temperatura corporal acima do ponto de regulação térmica, mais frequentemente secundária à ineficiência dos mecanismos de dissipação do calor 66 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO ou, menos frequentemente, por produção excessiva de calor com dissipação compensatória insuficiente. Temperaturas superiores a 41ºC induzem desnaturação enzimática, alteração da função mitocondrial, instabilidade nas membranas celulares e alteração das vias metabólicas dependentes de O2, podendo culminar em falência multiorgânica. O distúrbio homeostático induzido por este nível de hipertermia explica as taxas de mobilidade e mortalidade elevadas. Tabela 2 – Etiologia dos síndromes de Hipertermia » Sobrecarga excessiva de calor: elevação da temperatura ambiente, especialmente na presença de uma marcada humidade ambiente ou na presença de um meio fechado que limita as correntes de convecção. » Aumento da taxa metabólica: secundária a doenças (ex.: tireotoxicose, feocromocitoma hipertermia maligna) ou drogas (ex.: terapêutica hormonal exôgena ou anfetaminas) » Ausência ou deficiência de aclimatização. » Lesões do sistema nervoso central (inluindo o hipotálamo) ou periférico que alteram a(s) capacidade(s) de recepção, integração e/ou efectuação do sistema regulador térmico. » Alterações dérmicas que destruam os locais repectores térmicos, impeçam as perdas de calor por condução ou prejudiquem a função das glândulas sudoriparas (ex.: esclerodermia, sequelas de queimadura, ou deficiência congênita de glândulas sudoriparas). » Drogas: fenotiazinas, barbitúricos, depressores miocárdicos, anfetaminas etc. Poiquilotermia Regulação inadequada da temperatura corporal central que se caracteriza por perda da capacidade homeotérmica (isto é, capacidade de manter a temperatura corporal em um certo intervalo predeterminado, apesar das variações térmicas do meio ambiente). As pessoas que padecem desta anomalia não sentem qualquer desconforto com alterações térmicas e desconhecem ter qualquer problema. Dependendo da temperatura ambiente, podem apresentar hipotermia ou hipertermia potencialmente fatais. Pode ser secundária nomeadamente à ação de determinadas drogas (ex., fenotiazinas) ou à lesão do centro integrador hipotalâmico. Hipotermia Diminuição da temperatura corporal para valores inferiores a 35ºC (95ºF); classificada em acidental (primária) ou secundária, consoante a ausência ou a presença de disfunção do centro termorregulador hipotalâmico, respectivamente. Quando a temperatura corporal desce abaixo de 30ºC, a capacidade do hipotálamo para regular a temperatura é perdida; uma diminuição da capacidade de regulação já pode ser notada abaixo dos 35ºC. 67 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I Estado de saúde Alcoolismo Queimaduras graves Insuficiência cardiaca Demência Lesões do SNC Secção transversal da medula espinal Encefalopatia Diabetes ou hipoglicemia Malnutrição Mixedema (hipotiroidismo) Hipopituitarismo Insuficiência suprarrenal Choque Factores relacionados com a pessoa Drogas Roupa inadequada Roupa molhada Extremos de idade (recém-nascido, idoso) Alteração do estado de consciência ou mental Debilidade e exautão Imobilidade Álcool Anestésicos Antitiroideos Camabis Narcóticos Sedativos/hipnóticos Hipoglicemiantes A redução da temperatura corporal desencadeia por intermédio do hipotálamo mecanismos de produção de calor nomeadamente a termogénese muscular e a libertação de catecolaminas (por via do SNA simpático e das glândulas suprarrenais). Numa fase inicial, verifica-se uma resposta mediada por catecolaminas no sentido de contrapor a hipotermia, a qual consiste no aumento da frequência cardíaca, do débito cardíaco e da pressão arterial média. Posteriormente, essa resposta é suplantada pelos efeitos inotrópicos e cronotrópicos negativos da hipotermia, o que culmina na diminuição do débito cardíaco e da perfusão tecidular. A hipotermia provoca abrandamento da atividade enzimática (para cada diminuição de 10ºF ocorre uma redução para metade da taxa de produção de calor), vasoconstrição periférica e ineficiência das vias metabólicas dependentes de oxigênio (redução de 6% no consumo de O2 para cada diminuição de 1ºC). A vasoconstrição marcada pode originar queimaduras pelo frio essencialmente em nível dos pavilhões auriculares, do nariz e das extremidades das mãos e dos pés, o que pode finalizar em gangrena dessas áreas. Inicialmente também pode existir taquipneia, mas, à medida que a hipotermia se torna mais pronunciada, ocorre depressão do centro respiratório com redução da ventilação alveolar e consequentemente da PaO2. A diminuição da perfusão tecidular e do aporte de oxigênio leva ao sofrimento celular e pode progredir para uma falência multiorgânica.Em nível cardíaco, a hipotermia traduz-se no eletrocardiograma por bradicardia sinusal, lentificação da velocidade de condução com bloqueio auriculo-ventricular, prolongamento do intervalo QT, alongamento do complexo QRS e inversão da onda T. Quando a temperatura desce até 32-33ºC, aparece uma onda extra na porção terminal do QRS, que é denominada Onda de Osborne (elevação proeminente do ponto J). 68 CAPÍTULO 8 Apetite e fome Regulação metabólica da ingesta alimentar Alimentos suprem o organismo de energia para manter suas funções vitais; para sobreviverem os seres vivos precisam de combustível energético (obtido pela alimentação) e de oxigênio (obtido pela respiração). Na alimentação, devemos ingerir quantidades razoáveis de carboidratos, gorduras, aminoácidos, vitaminas e outros minerais, principalmente, os carboidratos e as gorduras que servem como fonte energética para o metabolismo do corpo; os carboidratos são usados como fonte energética imediata, enquanto que as gorduras são usadas como fontes de longo prazo, quando as reservas de carboidratos se esgotaram. O nosso ciclo alimentar compreende etapas intercaladas de absorção alimentar (quando o trato gastrintestinal está cheio e ativamente absorvendo nutrientes da alimentação) e de jejum (quando o trato gastrintestinal está vazio e o organismo está usado os nutrientes glicose e ácidos graxos previamente estocados); o que faz com que fiquemos vivos na fase de jejum é a utilização dos estoques de nutrientes previamente armazenados nas refeições anteriores; sem eles seria inviável a manutenção da vida, pois haveria falta de nutrientes no organismo, uma vez que não podemos estar constantemente nos alimentando. A estocagem de nutrientes é possível porque o organismo possui um depósito de alimentos de curto prazo, que armazena carboidratos, e um depósito de logo prazo que armazena gorduras; o depósito de curto prazo localiza-se no fígado e nos músculos, que armazena glicose na forma de um polissacarídeo chamado glicogênio e o de longo prazo compreende o tecido adiposo, que armazena gorduras e ácidos graxos na forma de triglicérides. Durante uma refeição, o corpo está absorvendo grandes quantidades de glicose; na abundância de glicose no sangue, que é sentida por células do pâncreas e do cérebro, as células do fígado e do músculo passam a converter a glicose em glicogênio e o armazena; a conversão de glicose em glicogênio é estimulada pela presença de insulina (liberada em grande quantidade pelo pâncreas durante a refeição). Durante o jejum, a glicose sanguínea cai; a diminuição é sentida por células no pâncreas e no cérebro e o corpo começa a utilizar o glicogênio estocado; isso ocorre porque o pâncreas deixa de liberar insulina e começa a secretar glucagon, um hormônio que converte o glicogênio em várias moléculas de glicose. Glicose Glicogênio Glucagon Insulina 69 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I A glicose armazenada pelo fígado, na forma de glicogênio, é usada principalmente pelo cérebro; o restante do corpo também utiliza glicose; quando os estoques de glicose acabam, o cérebro obtém energia da glicose extraída dos triglicérides (uma mistura de glicerol, um carboidrato solúvel e ácidos graxos) armazenados no tecido adiposo, enquanto o restante do corpo utiliza, como fonte energética, os ácidos graxos obtidos também dos triglicérides; o uso de ácidos graxos só ocorre quando os estoques de glicose acabam; assim, o cérebro precisa de uma fonte permanente de glicose para funcionar, enquanto o resto do corpo pode utilizar tanto a glicose (absorção) quanto os ácidos graxos (jejum). As células de todo o corpo (com exceção do cérebro) precisam de insulina para absorver glicose; isso ocorre porque a glicose não é lipossolúvel e precisa de transportador para passar a membrana celular; o transportador de glicose de células localizadas no restante do corpo precisa de insulina para ser ativado; entretanto, os transportadores de glicose de células cerebrais independem da insulina para absorverem glicose; este fato faz com que a insulina liberada em grande quantidade, durante a refeição, não interfira na absorção de glicose pelo cérebro. Fatores que determinam o início da ingestão Fatores metabólicos e sociais determinam o início da refeição em humanos; o cérebro é capaz de perceber quando os níveis de glicose sanguínea estão acabando e dispara mecanismos comportamentais que produzem a busca de alimentos; no entanto, fatores sociais e ambientais, como a hora de comer, a presença de comida à mesa, o ato de preparar a comida, pessoas à mesa também determinam o início e o término da refeição; um dos fatores mais importantes para se determinar o apetite é a hora de comer, pois nosso organismo está preparado para comer em horários fixos: ao amanhecer, ao meio-dia e à noite. Frequentemente as pessoas comem mais porque estão diante da comida do que propriamente porque estão com fome; este fato por si só demonstra que fatores sociais são muito mais importantes para o 70 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO início da alimentação do que os fatores fisiológicos. Todos sabem que não se deve ir ao supermercado com fome, pois haverá uma maior tendência de se comprar mais coisas do que o necessário. Tendemos a comer mais quando a quantidade de comida à mesa é farta ou quando há mais pessoas sentadas conosco; ao contrário dos fatores fisiológicos, que regulam a exata quantidade de comida necessária para a manutenção das funções vitais, considerando o volume de nutrientes estocado no organismo. Os fatores sociais predispõem o indivíduo a comer mais do que ele precisa. Sinais fisiológicos da fome Em termos fisiológicos, são necessários dois pré-requisitos para que o indivíduo sinta fome: ausência de absorção de gordura pelo fígado (lipoprivação) e diminuição dos níveis de glicose no cérebro (hipoglicemia). Alguns estudos mostram que a presença de apenas um desses fatores de forma moderada não é suficiente para que ocorra fome. Apenas a lipoprivação ou a hipoglicemia severas são capazes de isoladamente produzirem fome (FRIEDMAN; TORDOFF; RAMIREZ, 1986). Isto ocorre porque quando um indivíduo tem uma dieta rica em gorduras e pobre em carboidratos, por exemplo, ele pode usar os estoques de gordura para produzir o carboidrato necessário para o metabolismo e vice-versa. Mas como o cérebro e o fígado sabem quando está faltando nutrientes para o organismo? Sabe-se que o cérebro é capaz de detectar a presença de nutrientes do lado de dentro da barreira hematoencefálica (estrutura que controla a passagem de algumas substâncias do sangue para o tecido nervoso), enquanto que o fígado monitora a presença de nutrientes do lado de fora da barreira hematoencefálico. Somente quando o cérebro detecta os baixos níveis de glicose é que ele irá ativar áreas responsáveis pela fome e o ato de comer; no entanto, a privação de glicose é sentida pelo fígado e isto é capaz de desencadear a fome e a busca de comida; isto ocorre porque os receptores hepáticos também são sensíveis à ausência de glicose. Este fato mostra que existe um meio de o fígado informar ao 71 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I cérebro sobre os níveis de absorção de gordura e de glicose no organismo e por meio de estimulação parassimpática (nervo vago). Sinais fisiológicos da saciedade O término da ingesta alimentar dá-se quando o indivíduo está saciado, ocorre devido aos seguintes fatores: Fatores de curto prazo » Gástricos: estudos mostram que o estômago não está relacionado com a fome, mas a entrada de alimentos no estômago pode sinalizar para o término da refeição. » Intestinais: quando ocorre a entrada de alimento no duodeno, as células do duodeno secretam colicistoquinina (CCK). Esse hormônio aumenta a liberação de bile pela vesícula biliar, aumenta a mobilidade intestinal e diminui a contração gástrica para que os alimentos fiquem por mais tempo no estômago. Como estárelacionada com a presença de alimentos do intestino, a secreção de CCK pode ser um forte indicador de saciedade para o cérebro. » Hepáticos: os fatores gástricos e intestinais são antecipatórios, isto é, atuam antes mesmo de o alimento ser absorvido e levam em consideração apenas a quantidade total de alimentos ingeridos; por outro lado, o fígado é capaz de avaliar a quantidade de nutrientes absorvidos e com isso determinar o término da fome; como vimos, o fígado monitora os níveis de glicose e de gordura e sinaliza para o cérebro quando é hora de comer; da mesma forma, ele pode também sinalizar quando é hora de parar de comer. Fatores de longo prazo Os fatores de longo prazo regulam os mecanismos comportamentais (preferência por determinado alimento, frequência das refeições etc.) ligados à ingestão global de calorias pelo organismo; indivíduos com tendência à obesidade têm menor sensibilidade a este mecanismo de controle. Aparentemente o organismo possui sensibilidade à quantidade de calorias totais ingeridas e essa sensibilidade parece estar relacionada com a quantidade de tecido adiposo no corpo e com a sensibilidade das células adiposas à gordura ingerida. A figura abaixo mostra os resultados de um interessante experimento. Este experimento demonstrou que os ratos tendem a ajustar comportamentalmente a quantidade de alimentos ingeridos com base no peso corporal (quantidade de tecido adiposo). O gráfico mostra os dados de um grupo de animais mantidos sob um regime de alimentação forçada (curva A), alimentação normal (curva B) e de restrição alimentar (curva C). Os respectivos esquemas de alimentação foram adotados a partir do 30º dia (seta 1). Notem que os respectivos esquemas de ingesta forçada e privação alimentar produziram alteração correspondente no peso corporal dos animais (curvas 72 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO A e C). A partir do 50o dia (seta 2), os animais foram colocados num regime de livre acesso à comida (ad libitum). A partir desse momento, os animais que ganharam peso tenderam a comer menos (e consequentemente perderam peso), os animais que perderam peso tenderam a comer mais (ganhando peso) e os animais submetidos a uma dieta normal não apresentaram alteração na frequência alimentar. Os sinais fisiológicos de longo prazo, que controlam o comportamento alimentar (regulando a ingesta calórica de forma o indivíduo mantenha o peso em proporções ideais) são de caráter químico e não elétrico (estimulação vagal), pois a secção da inervação do tecido adiposo para o cérebro não altera a gordura corporal total. Atualmente se sabe que as células do tecido adiposo (as mesmas que armazenam triglicérides) secretam um hormônio chamado leptina; esse hormônio age nos centros nervosos que regulam a fome e induzem a saciedade; assim, quando há um aumento da quantidade de gorduras no organismo (pelo aumento da quantidade de células adiposas), há um aumento da secreção de leptina que diminuirá o limiar de saciedade do indivíduo e ele tenderá a comer menos. Pessoas com tendência à obesidade podem apresentar uma diminuição dos receptores cerebrais para a leptina, causando uma insensibilidade a esse hormônio fazendo com que, mesmo grandes quantidades de leptina sendo liberadas pelas células adiposas, não sejam suficientes para desencadear processos neurais de saciedade e que o indivíduo coma maiores quantidades de alimento em cada refeição. A leptina afeta apenas as quantidades de alimentos por refeição, não interferindo na frequência de refeições diárias; isto sugere que a leptina atue no cérebro sensibilizando os mecanismos de saciedade que são regulados por estimulação mesentérica (os sinais nervosos que chegam do estômago e duodeno). Assim, temos dois fatores hormonais de saciedade: Fator de curto prazo Colicistoquinina (CCK) Fator de longo prazo Leptina 73 FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO │ UNIDADE I Circuitos neurais relacionados com fome e saciedade Área postrema e núcleo do trato solitário: a primeira está localizada numa região em que a barreira hamotencefálica está ausente, colocando-a numa posição privilegiada para regular as quantidades de nutrientes sanguíneos; a segunda recebe aferências da língua e faringe através do nervo glossofaríngeo. Essas áreas se projetam para centros hipotalâmicos reguladores da ingesta alimentar e do metabolismo e recebem projeções do ramo mesentérico do sistema parassimpático. No esquema apresentado, podemos verificar que, quando há baixos níveis de nutrientes sanguíneos, essa diminuição é identificada pela área postrema e núcleo do trato solitário. Estes sinalizam a necessidade de o indivíduo comer por meio da estimulação da área parabraquial e depois do núcleo arqueado; o núcleo arqueado libera neuropeptídeo Y, uma substância que, entre outras funções, ativará o hipotálamo lateral, fazendo-o liberar origina e hormônio concentrador de melanina (HCM), ambos induzirão fome e diminuição do metabolismo. Paralelamente, o núcleo arqueado estimula o núcleo paraventricular do hipotálamo e este atua no sistema autonômico, diminuindo a secreção de insulina pelo pâncreas e diminuindo a taxa de conversão dos ácidos graxos a partir dos triglicérides. A liberação de leptina pelo tecido adiposo é um forte indutor da saciedade de longo prazo; a leptina atua em receptores específicos do núcleo arqueado e núcleo paraventricular. Essa ação tem dois efeitos. » Liberação de CART (Fator de transcrição regulada pela cocaína e anfetamina), um neuromodulador capaz de inibir a liberação de orexina e HCM pelo hipotálamo lateral. O CART está também está relacionado com o efeito anorexígeno dos derivados anfetamínicos, como o femproporex e a amfepramona. » Indiretamente, a ação da leptina sobre o CART também inibe a atuação do núcleo paraventricular nos núcleos autonômicos do tronco; além de atuar indiretamente no 74 UNIDADE I │ FISIOLOGIA GERAL APLICADA À NUTRIÇÃO núcleo paraventricular, a leptina atua diretamente em seus receptores produzindo os mesmos efeitos do CART. › Obesidade: diminuição da sensibilidade à leptina. › Anorexia: aumento da sensibilidade à leptina ou desregulação dos mecanismos encefálicos da fome/saciedade. 75 UNIDADE IITERMOMETABOLOGIA CAPÍTULO 1 Balanço energético Introdução Apesar de termos uma gama de recomendações estabelecidas por diversas organizações de saúde para melhorar a dieta e aumentar a atividade fisica, a prevalência da obesidade aumentou dramaticamente nos EUA, nas duas últimas décadas. O aumento do peso nos EUA gerou uma indústria de perda de peso de bilhões de dólares, com a propaganda de livros sobre dieta, programas de exercício físico e suplementos que oferecem uma solução rápida para aumentar o metabolismo e derreter a gordura. Dada a confusão, falta de informação e busca da “pílula mágica”que caracteriza a indústria de perda de peso nos EUA, é particularmente importante que os profissionais de saúde reavaliem os princípios científicos da regulação do peso corporal. Conceitos básicos em bioenergética Uma breve revisão de princípios bioenergéticos nos fornecerá a base para a compreensão de muitos problemas no controle de perda de peso. Os seres humanos precisam de energia para realizar o trabalho biológico, tais como contração muscular, biossíntese de glicogênio e proteína, transporte de íons e moléculas contra o gradiente de concentração etc. A “moeda” primária de energia necessária para tal trabalho é encontrada nas ligações químicas da molécula de adenosina trifosfato (ATP). Essa energia é liberada pela quebra de ATP em adenosina difosfato (ADP) e fosfato inorgânico (Pi). A maioria do nosso requerimento diário de ATP é atendido pela sintetização de ATP, a partir do ADP, e de Pi na mitocôndria das células, sendo que a energia necessária para este processo é oferecida indiretamente pela oxidação de macronutrientes (carboidratos, gorduras e proteínas). A próxima mostra que, quando uma moléculade glicose sofre a oxidação para se transformar em CO2 e H2O, temos a oferta de energia para a síntese de ATP. A energia liberada pela quebra do ATP é, então, usada para o trabalho biológico. Observe que apenas uma porção da energia liberada a partir da oxidação de glicose é conservada na molécula recém-sintetizada de ATP. Na realidade, 76 UNIDADE II │ TERMOMETABOLOGIA mais que metade da energia presente dentro da molécula de glicose é perdida como calor, um fenômeno descrito pela segunda lei da termodinâmica, que dita que as reações químicas não são necessariamente eficientes. Se a proporção de energia obtida a partir da glicose conservada como ATP diminuísse e a produção de calor aumentasse, o processo seria menos eficiente, do ponto de vista energético, que o normal. Produção biológica de energia. A oxidação completa de uma molécula de glicose resulta na energia necessária para a síntese de ATP, que por sua vez oferece energia para o trabalho celular. Nesse processo, mais energia é perdida como calor do que conservada como moléculas de ATP. Calorimetria A determinação de energia disponível nos alimentos é baseada na sua combustão em um calorímetro de bomba. A energia não é captada como ATP, mas, sim, convertida em calor; daí o uso da kilocaloria (uma unidade de energia calorimétrica) para quantificar a energia disponível nos alimentos. A correção dos dados da bomba calorimétrica para avaliar como o organismo consegue usar cada um dos macronutrientes resulta em valores de energia metabolizáveis iguais a 4kcal/g para carboidratos e proteínas e de 9kcal/g para gorduras. Bebidas alcoólicas (etanol) fornecem 7kcal/g. Equação do balanço energético A primeira lei da termodinâmica declara que a energia não é criada nem destruída, mas, sim, que se transforma de uma forma para outra. Como a energia ingerida e a gasta devem ser contabilizadas, essa lei serve como base para a equação do balanço energético. Colocado de maneira simples, o excesso da ingestão energética comparada ao gasto promoverá o armazenamento da energia corporal; por outro lado, o deficit da ingestão energética comparado ao gasto promoverá a perda dos estoques de energia do organismo. O número de fatores que regulam a ingestão e o gasto de energia em seres humanos é grande e complexo. Com relação à ingestão, o hipotálamo integra os sinais relacionados ao trato gastrintestinal, os sinais com origem no metabolismo de macronutrientes (principalmente no fígado) e os sinais químicos do sistema nervoso central e do periférico que são anabólicos (estímulo da fome, ex., neuropeptídeo Y) ou catabólicos (supressão da fome, ex.: leptina) para determinar os fatores biológicos que estimulam ou não a ingestão de alimentos. Além disso, esses sinais “biológicos”são associados a fatores psicossociais (ex.: cultura), fatores comportamentais (ex.: ingestão de salgadinhos durante os comerciais da televisão) e fatores ambientais (ex.: tamanho das porções, qualidades sensoriais dos alimentos). O comportamento 77 TERMOMETABOLOGIA │ UNIDADE II resultante não é o mero resultado do aumento ou da redução do impulso biológico para comer, mas é derivado da complexa integração de muitos fatores internos e externos. O gasto energético diário total também é determinado por diversos fatores, como mostra a figura a seguir. Os componentes do gasto energético diário total em um indivíduo que pratica exercícios. REE = Resting Energy Expenditure: about 60-75% of daily energy expenditure in sedentary individuals. ET = Exercise Thermogenesis: can be as little as 0kcal/d for a strictly sedentary person. NEAT = Non-Exercise Activity Thermogenesis PAEE = Physical Activity Energy Expenditure: includes both Exercise Thermogenesis and Non-Exercise Activity Termogenesis TEF = Thermic Effect of Food: about 5-10% of daily energy expenditure. Para indivíduos sedentários e moderadamente ativos, o gasto energético de repouso é, sem dúvida, o principal componente. Seu principal determinante é o tamanho corporal, principalmente a massa magra, incluindo os órgãos internos e o músculo esquelético. A contribuição da gordura corporal para o gasto energético de repouso é muito menor, mas aumenta com o aumento da massa de gordura. O efeito termodinâmico dos alimentos representa o aumento no gasto energético relacionado à digestão, absorção e assimilação de macronutrientes (termogênese obrigatória), assim como gasto energético adicional resultante da atividade aumentada do sistema nervoso simpático. O gasto energético da atividade física é responsável pelo restante do gasto calórico diário e inclui tanto a termogênese de exercícios quanto a de atividades não físicas. Entre atividades não físicas, temos a manutenção da postura, as atividades de vida diária e os demais movimentos. A quantidade de energia gasta na atividade física é controlada em grande parte de maneira voluntária e varia consideravelmente entre indivíduos e mesmo para o mesmo indivíduo em dias diferentes. A equação do balanço energético costuma ser usada no aconselhamento para perda de peso para prever a magnitude das perdas de gordura corporal em resposta à redução da ingestão energética e/ ou aumento do gasto energético relacionado à atividade física. Por exemplo, um indivíduo sobrepeso pode ser aconselhado a ter um deficit diário de 500kcal, reduzindo a ingestão de alimentos específicos da dieta. Como 250g de gordura equivalem a aproximadamente 3.500kcal, pode-se prever que uma pessoa teria um deficit semanal de 3.500kcal (500kcal/dia x 7 dias/semana), o que promoveria a perda total de gordura corporal de mais de 25kg por ano. Entretanto, como será discutido, essas previsões são vagas, na melhor das hipóteses, demasiadamente simplistas e cometem um erro ao não considerar o organismo como um sistema dinâmico, capaz de passar por importantes ajustes metabólicos e comportamentais no gasto energético em resposta a mudanças na ingestão energética. 78 UNIDADE II │ TERMOMETABOLOGIA Contradições visíveis às Leis da Termodinâmica Há muitos casos relatados e até mesmo resultados científicos em seres humanos que parecem mostrar o oposto do que costuma ser usado na equação de balanço energético. Em muitos estudos, a perda média de peso em voluntários é marcadamente menor que a prevista baseada na magnitude expressa pelos deficits de energia. Diferentemente da questão de deficit, Bouchard e col. (1990) alimentaram gêmeos idênticos com 1.000kcal acima dos requerimentos iniciais de energia, todos os dias, por 84 dias. A equação de balanço energético diria que ocorreria um ganho de peso de 12kg por todos os indivíduos. Entretanto, a média de ganho de peso foi de apenas 9kg. De maneira interessante, entre os 12 pares de gêmeos, alguns apresentaram um ganho de peso três vezes maior que outros, apesar de ter considerado a mesma oferta de energia para todos. De maneira semelhante, Levine e col. (1999) superalimentaram um grupo de indivíduos com 1.000kcal por dia, por oito semanas, e observou uma diferença de 10 vezes na quantia de gordura ganha pelos voluntários que participaram do estudo. Considerados em conjunto, esses resultados enfatizam a substancial variabilidade interindividual em resposta às mudanças na ingestão energética. Outras evidências que parecem ser contrárias aos princípios de bioenergia incluem dados de recentes estudos clínicos que relatam uma perda de peso duas vezes maior em um período de 6 meses com a dieta pobre em carboidratos, a dieta do dr. Atkins, comparada a uma dieta convencional pobre em gorduras. Esses resultados geraram muitas discussões entre cientistas e profissionais da saúde com relação à bioenergia e à perda de peso (BUCHHOLZ; SCHOELLER, 2004; FINE; FEINMAN, 2004). Com base nessas aparentes contradições aos princípios de bioenergia, devemos descartar a equação de balanço energético? As leis da termodinâmica têm pouca utilidade para a regulação do peso corporal em seres humanos? Possíveis explicaçõespara as aparentes contradições É difícil realizar medições precisas tanto da ingestão quanto do gasto energético e erros consideráveis são comuns. O autorrelato da ingestão dietética, que costuma ser usado por profissionais para estimar a ingestão de energia, é reconhecidamente imprecisa. Em um interessante estudo de caso, Tremblay e col. (1991) descrevem o caso de um homem de 45 anos de idade com 108 quilos, com 26% de gordura corporal, que não conseguia perder peso apesar de relatar uma ingestão calórica de apenas 1.900kcal/ dia, sob condições não controladas (livres). Entretanto, quando testes foram realizados em condições experimentais controladas, o gasto energético de 24 horas do indivíduo era maior que 3.000kcal. Ao receber uma dieta de 1.900kcal no ambiente controlado por 5 dias, ele estava em balanço energético negativo maior que 1.000kcal por dia e a perda de peso foi consequência desse deficit. Isso obviamente aponta as imprecisões no relato feito pelo indivíduo com relação à ingestão calórica. Baseados nesses resultados, foi usado água duplamente marcada para medir o gasto energético total diário em adultos que vivem em condições não controladas e observamos que, normalmente, as pessoas relatam dados que estão abaixo do real (GUESBECK e col., 2001; MELBY e col., 2000). Como o autorrelato sobre gasto energético em atividade física também pode ser inexato, é preciso interpretar essas estimativas de balanço energético com cuidado. 79 TERMOMETABOLOGIA │ UNIDADE II Entretanto, mesmo se medições exatas de ingestão e gasto energético pudessem ser obtidos no início de uma dieta hipocalórica, o cálculo típico usado para prever a mudança de peso é baseada em duas premissas que apresentam falhas: 1) toda a perda de peso será de tecido gorduroso; e 2) mudanças na ingestão energética não têm impacto no gasto energético. As duas premissas são falsas. Primeiro, apesar de a maior parte da perda de peso induzida pela dieta ser consequência de reduções na gordura corporal, existe também a perda de tecido magro. Além disso, a subalimentação também apresenta processos de adaptação que diminuem o gasto energético que ocorrem para “defender” a massa corporal original. Reduções agudas tanto no gasto energético de repouso quanto no efeito termodinâmico dos alimentos irão ocorrer, sendo que a queda no gasto energético de repouso é maior que o que pode ser explicado pela perda de massa corporal (ou seja, há um aumento na eficiência metabólica) e há reduções paralelas nos hormônios termogênicos (i.e., hormônio da tireoide, insulina, leptina). Devido à ingestão energética reduzida via dieta, menos energia será necessária para digerir e assimilar os nutrientes, e o efeito térmico dos alimentos diminui. Por um período mais longo, conforme ocorre a perda de peso, há também um declínio adicional no gasto energético de repouso e da energia necessária para os movimentos em consequência da diminuição da massa corporal. A termogênese de atividades que não seja o exercício também pode sofrer uma redução como resposta à dieta hipocalórica e à diminuição da massa corporal (LEIBEL e col., 1995). As evidências anteriores mostram claramente que é provável que qualquer tentativa de se prever a perda de peso baseada apenas na redução da ingestão calórica apresente erro. Mesmo com a compreensão da dinâmica dos sistemas biológicos, diferenças individuais consideráveis em respostas metabólicas à redução calórica excluem previsões exatas de quanto de massa corporal o indivíduo vai perder a longo prazo. Isso nos remete ao conceito de eficiência metabólica. Mudanças na eficiência metabólica Independentemente da base biológica para diferenças individuais no ganho ou na perda de peso como resposta aos desafios energéticos, as leis da termodinâmica ainda são válidas. Um ponto que costuma ser esquecido ao se explicar alguns desses casos difíceis é a eficiência metabólica, i.e., quanto de peso foi ganho ou perdido de acordo com a energia ingerida. A eficiência do armazenamento de energia em resposta à superalimentação é determinada dividindo-se o excesso de energia armazenado pelo excesso de energia ingerido. Por exemplo, Levine e col. (1999) superalimentaram 24 voluntários por 8 semanas e determinou o destino do excesso de energia. Do total das 1.000kcal em excesso oferecidas diariamente no início, 432kcal foram armazenadas por dia (389kcal/dia como gordura, 43kcal/dia como tecido livre de gordura). A eficiencia metabólica também variou muito, com armazenamento de valores que variaram de números abaixo de 100kcal/dia (baixa eficiência metabólica) até acima de 700 kcal/dia (alta eficiência metabólica). Nesse estudo, a resistência ao ganho de gordura (ou seja, baixa eficiência metabólica) foi consequência, principalmente, do aumento da termogênese de atividades diferentes do exercício físico, com contribuições menores do aumento do gasto energético de repouso e do efeito termodinâmico dos alimentos. Nas condições atuais, marcadas pela abundância de alimentos, estilos de vida sedentários e alto risco para desenvolver a obesidade e seus efeitos prejudiciais deveria ser claro que a baixa eficiência 80 UNIDADE II │ TERMOMETABOLOGIA metabólica (ou seja, a ineficiência) deveria ser vantajosa em termos de limitar o ganho de peso. Em seu estudo com gêmeos, Bouchard e col. (1990) encontraram maior concordância em ganho de peso entre irmãos gêmeos que entre pares de gêmeos, sugerindo que fatores genéticos desempenham um fator importante na determinação da resposta de um individuo a superalimentação. Os fatores biológicos que contribuem para as diferenças na eficiência metabólica são complexas e não são totalmente entendidas. Os fatores incluem diferenças na termogênese de atividades que não sejam os exercícios (como discutido acima), hormônios termogênicos (hormônio T3 da tireoide, insulina, catecolaminas etc.) e várias mudanças no metabolismo energético que aumentam a perda de energia na forma de calor. Observe o quadro a seguir. » Macronutrients › Energy density › Sensory qualities › Effects on saliety » Hunger Signais › Ghrelin › Neuropeptide Y & other neuropeptides › Transient decrease in blood glucose » Satiefy Signais › Cholecystokinib, leptin, insulin › Gastric stretch » Environment › Serving size › Energy density › Sociocultural norms › Socioeconomic Status » ATP consumers › Myosin ATPase › Ca2+ ATPase › Na-K+ -ATPase › Biosynthesis » Adaptive Thermogenesis › Substrate cycles › Ion leaks › Thermogenic hormones (Catecholamines, T3, insulin, leptin) › Metabolic Inefficiency › Every energy transfer reaction produces some heat (2o law) › Inter-individual differences: · Inchreased adaptive thermogenesis (increased energy lost as heat) · Interconversions of macronutrients (Gluconeogenesis, de novo lipogenesis are energetically expensive) · Mechanical (motor) inefficiency Balanço Energético e Termodinâmica Biológica. Apresenta uma visão geral simplificada do balanço energético. A energia disponível para o organismo é denominada energia metabolizável, e reflete a ingestão bruta de energia menos as perdas fecais e urinárias. Tanto a ingestão bruta quanto a ingestão calórica metabólica correspondente sofrem o efeito de uma série de fatores, inclusive ambientais, efeitos específicos dos macronutrientes na saciedade, densidade energética e qualidades hedônicas (sensoriais) dos alimentos. Além disso, os sinais biológicos da fome/saciedade interagem com fatores ambientais e nutriente-específicos que contribuem para a ingestão energética bruta. Uma vez que 81 TERMOMETABOLOGIA │ UNIDADE II a energia metabolizável é disponível no organismo, há muitas reações metabólicas que consomem o ATP. Mais ainda, há diversos processos que contribuem para a termogênese “adaptativa”ou “flexível” (substrato ou ciclos sem propósito, extravazamento de íons etc). É importante observar que o metabolismo humano e a respectiva regulaçãodo balanço energético seguem tanto a primeira quanto a segunda lei da termodinâmica; nenhuma energia metabolizável é “perdida”. Toda energia que não for armazenada nem usada como ATP é responsável pela dissipação de calor. Praticamente, TODAS as reações de transferência de energia que ocorrem no metabolismo humano são “ineficientes” (ou seja, nem toda energia potencial é “captada”como ATP), de acordo com a segunda lei. Diferenças interindividuais na “eficiência” da transferência e armazenamento de energia não representam violações das leis da termodinâmica. Elas correm devido às diferenças na termogênese adaptativa, o custo energético das interconversões metabólicas entre os macronutrientes e outros processos de “desperdício energético”, tais como ineficiências motoras/mecânicas, termogênese de atividades que não sejam a atividade física etc. Um aumento na eficiência metabólica induzida pela restrição calórica servirá para atenuar a perda de peso e também pode contribuir para os platôs de perda de peso e/ou voltar a ganhar peso. Com uma dieta que induz o deficit calórico, a ineficiência metabólica representaria uma vantagem para indivíduos obesos tentando diminuir os estoques de gordura corporal. Uma maior perda de peso vai ocorrer para qualquer nível de restrição energética em um indivíduo que é menos eficiente do ponto de vista metabólico que em indivíduos que apresentam maior eficiência. Inúmeras vezes, sugeriu-se que o desafio energético “típico”para a maior parte da história humana é o deficit energético. Assim, a resposta biológica ao deficit energético é bastante robusta; inclui “retração” rápida do gasto energético de repouso, diminuição no efeito termodinâmico dos alimentos e, se o deficit calórico for acentuado, redução no gasto energético durante a prática de atividade física, inclusive na termogênese de outras atividades que não sejam os exercícios (KEYS e col., 1950). Como o stress energético de alimentos em abundância e com alta densidade energética e o estilo de vida sedentários são fatores relativamente recentes na escala da evolução, o sistema regulatório é menos bem equipado para fazer os ajustes, o que resulta no ganho de peso (ou isso é, no mínimo, mais provável). Viés metabólico que favorece o ganho de peso Dá-se muita atenção à hipótese de que o sistema que regula o balanço energético em seres humanos pode favorecer o ganho de peso. Mais especificamente, o sistema responde de maneira rápida e robusta aos deficits energéticos, mas essa resposta é menor ao excesso de energia (ou seja, é mais lento e menos robusto). Em termos práticos, isso vai promover uma redução modesta e lenta na eficiência metabólica e na supressão do apetite em resposta à superalimentação, mas um aumento bastante rápido e importante na eficiência metabólica e na estimulação do apetite em resposta à uma dieta hipocalórica. Colocando de maneira simples, a fisiologia humana tem a tendência de se proteger mais contra a perda de peso que contra seu ganho indesejado. Em resposta às dietas hipocalóricas, as mudanças nos sinais metabólicos diminuem o gasto energético (ex.: redução em T3, leptina e insulina) e estimula o impulso para comer (ex.: aumento em neuropeptídeo Y e redução da leptina). Essas mudanças metabólicas são, portanto, associadas com voltar a ganhar peso. 82 UNIDADE II │ TERMOMETABOLOGIA Efeitos metabólicos da modificação da ingestão de macronutrientes Mudanças na ingestão de carboidratos e proteínas promovem mudanças rápidas na oxidação de carboidratos e aminoácidos que servem para manter o balanço de carboidratos e proteínas, respectivamente. Entretanto, alterações na ingestão de gorduras resultam em mudanças pequenas, se essas ocorrerem, e imediatas na oxidação das gorduras. Da mesma maneira, a curto prazo há um pequeno esforço regulatório para manter o balanço de gorduras . Assim, mudanças de peso seguidas de desafios ao balanço energético ocorrem principalmente devido às alterações no balanço de gorduras, principais responsáveis pelo desequilíbrio causado na energia total. Como o balanço de carboidratos e proteínas é mantido de maneira mais firme, qualquer excedente de energia proveniente da dieta, depois de alguns poucos dias, devem ser necessariamente acomodados por meio do aumento dos estoques de gordura. Baseados em tais evidências, muitos americanos presumiram, de maneira errônea, que uma dieta rica em carboidratos não promoveria o ganho de peso. Entretanto, se a ingestão energética for maior que o gasto, é possível que uma pessoa se torne obesa, mesmo seguindo uma dieta rica em carboidratos e pobre em gorduras, não porque os carboidratos sejam usados para produzir gordura, mas, sim, porque a gordura dietética é armazenada em vez de ser oxidada, conforme o organismo se ajusta rapidamente para oxidar carboidratos e assim atender suas necessidades de energia. Por exemplo, digamos que um indivíduo de peso normal, que necessite de 2.400kcal para manter o balanço energético consuma uma dieta na qual 50% das calorias sejam provenientes de carboidratos, 35% da gordura e 15% das proteínas. Com a crença de que a gordura é a vilã e que os carboidratos sejam a chave para a saúde, essa pessoa diminui a gordura dietética e aumenta bastante a ingestão de carboidratos, o que irá resultar em um excesso de energia consumida (2.600kcal) comparado ao gasto (2.400kcal). O balanço de gorduras é positivo (a ingestão de gorduras é maior que sua oxidação), mesmo com a ingestão reduzida desses nutrientes (porque a ingestão calórica é maior que o gasto) e o ganho de peso ocorre com o passar do tempo, apesar da ingestão reduzida de gorduras. Esse balanço positivo de gorduras ocorre principalmente porque um excesso de energia na forma de carboidratos suprime a oxidação das gorduras, de maneira que com o balanço energético positivo, muito da gordura dietética é armazenada em vez de ser oxidada. Dietas populares e princípios da bioenergética Refeições ricas em gordura promovem a ingestão elevada de energia porque o teor calórico (pelo menos no estômago) é relativamente “despercebido”. Esse fenômeno é chamado de consumo excessivo passivo. Associado às observações que a gordura dietética é o macronutriente mais fraco entre os três para promover a saciedade, e também o mais fraco para induzir sua própria oxidação, não é de surpreender que as dietas ricas em gordura costumam ser ricas em energia e mais propensas a promover o ganho de peso. Em um primeiro momento, pode parecer difícil conciliar essa evidência com resultados de estudos recentes que mostram que as dietas pobres em carboidratos resultam em perda de peso maior que uma dieta convencional, pobre em gorduras e hipocalórica durante os 6 primeiros meses da dieta. 83 TERMOMETABOLOGIA │ UNIDADE II Entretanto, baseando-se nos princípios bioenergéticos, não deveríamos nos supreender que essa dieta promova a perda de peso, mesmo que a dieta não tenha uma abordagem hipocalórica. Por exemplo, digamos que uma pessoa com sobrepeso e sedentária esteja em balanço energético e de macronutrientes recebendo uma dieta de 2.400kcal, em que 50% das calorias sejam provenientes de carboidratos, 35% das gorduras e 15% das proteínas. Ao iniciar uma dieta pobre em carboidratos, apesar do acesso ilimitado às proteínas e às gorduras, a pessoa perde peso por três motivos. Primeiro, a gordura não é acrescentada a uma quantia constante de carboidratos; pelo contrário, a redução nas calorias provenientes de carboidratos é maior que o aumento em calorias provenientes das gorduras e, dessa maneira, a dieta é agora hipocalórica. Segundo, a redução significativa na ingestão de carboidratos ocorre porque frutas, a maioria das hortaliças, cereais, pães, leguminosas, sobremesas, doces, sucos e bebidas açucaradas são consideradas “fora dos limites”. Assim, a ingestão calórica fica abaixo de 1.600kcal/dia enquanto o gasto energético é mantido elevado. Finalmente, apesar da ingestão elevada de gorduras,o balanço de gordura é negativo (oxidação de gorduras é maior que sua ingestão), devido ao estado hipocalórico. Por que a perda de peso em 6 meses é duas vezes maior com uma dieta pobre em carboidratos que com a dieta convencional? Esta é uma pergunta difícil de ser respondida. Apesar de, no início, haver maior perda de água devido à depleção de glicogênio no grupo que recebe uma dieta pobre em carboidratos, isso não explica toda a perda de peso. Diversas possibilidades devem ser avaliadas, considerando-se os princípios bioenergéticos. Do ponto de vista de ingestão calórica, pode ser que o consumo de energia seja menor com as dietas pobre em carboidratos. Os estudos acima mencionados foram realizados com indivíduos que não se encontravam hospitalizados e não se procura igualar a ingestão energética entre as diferentes dietas. Dessa maneira, a ingestão calórica das dietas pobre em carboidratos podem ter diminuído em função de monotonia da dieta, maior saciedade por causa da ingestão aumentada de proteínas (SCHOELLER; BUCHHOLZ, 2005) e níveis mais altos de cetonas na corrente sanguínea (produtos do catabolismo de gorduras). Se a excreção de cetonas urinárias sob uma dieta pobre em carboidratos pode contribuir para a perda da energia metabolizável, essa perda de energia é considerada insignificante para a maioria dos indivíduos, recebendo uma dieta pobre em carboidratos. Com relação ao fator gasto na equação de balanço energético, é possível que a dieta pobre em carboidratos induza maior ineficiência metabólica. Não há evidências que o gasto energético do exercício ou que a termogênese de atividades diferentes do exercício sejam maiores com uma dieta pobre em carboidratos. O alto teor de proteína de uma dieta pode resultar em um aumento do efeito termodinâmico dos alimentos, mas esse efeito é menor com as gorduras quando se compara os três macronutrientes e um teor elevado de gorduras pode atenuar o efeito de uma dieta rica em proteínas no efeito termodinâmico dos alimentos. Quanto maior a ingestão de proteína dietética, maior pode ser o turnover proteico e de aminoácidos, o que consome muita energia. Além disso, parece que é preciso no mínimo 100g de glicose por dia para o sistema nervoso central, as hemácias e outros tecidos que dependem da glicose. Com a baixíssima disponibilidade de carboidratos ao se iniciar uma dieta (i.e., na fase de indução), a síntese da glicose necessária a partir de aminoácidos e, em menor grau, a partir do glicerol, consome muita energia. Fine and Fineman (2005) sugeriram que seria necessário um aumento da energia 84 UNIDADE II │ TERMOMETABOLOGIA para a síntese da glicose requerida, o que, na verdade, contribuiria para aumentar a ineficiência metabólica. Entretanto, Brehm e col. (2005) relataram que estimativas do gasto energético durante os períodos de descanso e pós-prandial não eram maiores sob uma dieta pobre em carboidratos, comparadas à dieta rica em carboidratos. Isso mostra claramente que mais pesquisas devem ser realizadas para estudar esses aspectos. Em um estudo experimental que avaliou a eficácia de quatro diferentes dietas populares (Atkins, Ornish, Vigilantes do Peso e a dieta 30:40:30), não houve diferenças significativas na perda de peso entre os diferentes grupos após 12 meses (DANSINGER e col., 2005). É importante observar que o melhor fator de previsão de perda de peso não foi o tipo de dieta, mas, sim, a adesão à terapia nutricional, independentemente da dieta usada. Alguns dos livros famosos sobre dietas pobres em carboidratos descrevem esses macronutrientes de maneira negativa porque estimulam a liberação de insulina, o que promove a supressão da quebra e oxidação das gorduras. Entretanto, os carboidratos não podem ser responsáveis por todo o problema porque em um estudo realizado por Dansinger e col., a dieta do Dr. Ornish rica em carboidratos, resultou em perda de peso comparável ou até mesmo maior a longo prazo que as dietas pobres em carboidratos. Mais uma vez, os princípios de bioenergética definem que, mesmo que a dieta tenha alta porcentagem de calorias provenientes dos carboidratos, a oxidação de gorduras será maior que sua ingestão se a dieta oferecer menos calorias que o gasto energético. A busca pela perda de peso é uma causa perdida? Se a fisiologia humana é tendenciosa e favorece o ganho de peso no ambiente atual, se nenhuma dieta para perda de peso usada de maneira isolada se destacou como sendo melhor que as demais, e se a restrição calórica envolve respostas metabólicas e comportamentais que “sabotam” os esforços para manutenção da perda de peso, existe alguma esperança para indivíduos obesos e sobrepeso em seu objetivo de perda permanente de peso? Dados do National Weight Loss Registry (Registro Nacional de Perda de Peso) sugerem que nem tudo está perdido. Há muitas pessoas que tiveram e têm exito em manter a perda de peso de maneira por muitos anos. As características dessas pessoas incluem a restrição dietética, seguimento de uma dieta pobre em gorduras e envolvimento considerável em prática regular de exercícios (WING; HILL, 2001). Há evidências crescentes em estudos experimentais de que o exercício crônico consegue atenuar os aumentos na eficiência metabólica e diminuir o impulso biológico para restabelecer os estoques de gordura corporal no nível da obesidade. Parece que “uma única abordagem serve para todos” não é adequada para os seres humanos com toda sua importante heterogeneidade (CORNIER e col., 2005). Com a realização de mais estudos científicos, o futuro é promissor para prescrições individualizadas quanto à dieta e prática de exercícios, baseadas na constituição genética de cada pessoa. No momento, entretanto, as seguintes sugestões são apresentadas, reconhecendo que não explicam as diferentes respostas encontradas na população. » Concentrar no sucesso a longo prazo, em vez de a curto prazo. A aderência a dietas radicais é baixa, principalmente porque promovem perda rápida de peso com 85 TERMOMETABOLOGIA │ UNIDADE II deficit calórico elevado. Uma abordagem a longo prazo parece ajudar a minizar os aumentos na eficiência metabólica e na percepção da fome, presentes na perda rápida de peso, e que acaba direcionando o indivíduo a voltar a ganhar peso. » Escolher uma dieta saudável para a vida e ajuste à ingestão calórica para atender objetivos realistas de perda de peso. Recomenda-se uma abordagem que envolva o consumo de todos os alimentos, uma variedade de frutas e hortaliças frescas, cereais integrais e alimentos ricos em proteína magra. Há evidências crescentes de que a dieta “do mundo real” que favorece mais as proteínas magras e carboidratos de absorção lenta em vez de alimentos ricos em açúcar e com alto teor de gordura aumentam a saciedade e podem ajudar a atenuar os fatores metabólicos e comportamentais que “sabotam” a perda de peso e promovem sua recuperação. » Aumentar o gasto energético por meio da prática de exercícios regularmente, aumentar as atividades da vida diária e limitar o tempo gasto em atividades sedentárias. A prática regular de atividade física pode ser a melhor ferramenta disponível para compensar os ajustes metabólicos e comportamentais que acompanham a perda de peso. Apesar de parecer que o exercício não protege contra a perda de massa corporal magra na presença de restrição calórica acentuada, ele pode ajudar a preservar essa massa em situações de deficit energético moderado, assim como promover perdas de gordura presente na cavidade abdominal. (A gordura abdominal é considerada um fator significativo de risco à saúde). O exercício parece ser importante para capacitar os indivíduos a regularem a ingestão calórica de maneira a ser mais compatível com o gasto energético. No mundo atual, com restaurantes fast- food e porções grandes, é extremamente difícil, para a pessoa sedentária, limitar a ingestão calórica de maneira suficiente para evitar o balanço energético positivo e acúmulo de gorduracorporal. A prática regular de exercícios é o melhor fator de previsão isolado da manutenção da perda de peso. 86 CAPÍTULO 2 Densidade energética dos alimentos Introdução A densidade energética de um alimento traduz a quantidade de calorias por unidade de volume ou peso do alimento. A partir dos 6 meses, parte das necessidades energéticas das crianças deve ser suprida através dos alimentos complementares. A quantidade de energia que deve ser obtida a partir dos alimentos complementares aumenta com o progredir da idade. A quantidade de energia dos alimentos complementares necessária para suprir as necessidades das crianças varia de acordo com o volume e a densidade energética do leite materno consumido pela criança. Em países em desenvolvimento, o conteúdo energético do leite humano varia de 0,53 a 0,70kcal/g, enquanto que nos países desenvolvidos ele é maior, variando de 0,60 a 0,83kcal/g. As crianças usualmente compensam essa variação da concentração de energia no leite materno variando seu consumo de leite. De qualquer maneira, as crianças de países pobres em geral requerem mais energia proveniente dos alimentos complementares quando comparadas com os seus pares de países industrializados. A Tabela 1 apresenta estimativas de energia necessária provenientes de alimentos complementares para crianças de diversas faixas etárias (até os 2 anos), levando em consideração o local de residência e o volume de leite materno ingerido. Tabela 1 – Energia (kcal) dos alimentos complementares necessária para suprir as necessidades das crianças menores de 2 anos, segundo faixa etária, local de residência e volume de leite materno ingerido Faixa etária (meses) Países industrializados Ingestão de leite materno *1 Países em desenvolvimento Ingestão de leite materno Baixa Média Alta Baixa Média Alta 0-2 3-5 6-8 9-11 12-23 110 188 408 789 1092 0 2 196 455 779 0 0 0 121 423 125 236 465 673 1002 0 76 269 451 746 0 0 73 229 490 * Para as crianças com até 5 meses, as estimativas foram feitas com crianças amamentadas exclusivamente ao peito; para crinaças acima de 6 meses de idade, independe o padrão de amamentação. 1 As categorias Baixa, Média e Alta correspondem à ingestão de energia proveniente do leite materno, sendo baixa (média-2DP), média (média ± 2DP) e alta (média +2DP) Fonte: World Health Oganization A criança possui um mecanismo de autorregulação de ingestão diária de energia. Como consequência, tende a comer quantidades menores de alimentos muito calóricos. Apesar disso, crianças com dietas com alta densidade energética tendem a ter uma ingestão diária de energia maior. 87 TERMOMETABOLOGIA │ UNIDADE II A capacidade gástrica limitada da criança pequena (30-40ml/kg de peso) pode impedi-la de alcançar as suas necessidades energéticas se a dieta for de baixa densidade energética. Por outro lado, se a criança recebe grande quantidade de energia dos alimentos complementares, ela poderá reduzir a ingestão de leite materno, o que não é aconselhável, principalmente nas crianças menores. A quantidade de energia proveniente de gorduras na dieta de crianças menores de 2 anos de idade é discutível. A maioria dos autores recomenda que a energia proveniente de gorduras deva suprir de 30% a 45% da ingestão total de energia de crianças menores de 2 anos. Cabe lembrar que 40% a 55% da energia do leite humano são derivados de gorduras. Como a concentração de gordura no leite materno varia, a porcentagem de energia proveniente das gorduras nos alimentos complementares deve também variar. Assim, a porcentagem de energia proveniente das gorduras nos alimentos complementares deve ser maior nas dietas de filhos de mulheres com baixa concentração de gordura no leite, como ocorre em muitas populações de países em desenvolvimento. Assumindo como 30% a porcentagem desejada de, energia proveniente das gorduras (leite materno mais alimentos complementares), estima-se que os alimentos complementares devam conter de 14 a 21% de energia derivados das gorduras em crianças de 6 a 11 meses e 26% para crianças de 12 a 23 meses quando a concentração de gordura no leite é baixa (2,8g/100g). Para filhos de mulheres com reserva adequada de gordura (concentração média de gordura no leite em torno de 3,8g/100g), a alimentação complementar deve conter de 5 a 9% de energia provenientes de gordura em crianças de 6 a 11 meses e 19% para crianças de 12 a 23 meses. Resumindo, a quantidade de energia que a criança pequena deve receber através dos alimentos complementares depende da idade da mesma, do quanto ela ingere de leite materno e da frequência com que os alimentos complementares são oferecidos. Para uma criança com ingestão média de leite materno, que consome pelo menos 3 refeições diárias com alimentos complementares, a densidade energética recomendada da dieta varia de 0,6kcal/g aos 6-8 meses de idade a 1,0kcal/g aos 12-23 meses. Quando a ingestão de leite materno é menor ou a criança apresenta retardo no crescimento, a densidade energética deve ser maior, variando de 0,8 a 1,2kcal/g. A quantidade necessária de gordura dos alimentos complementares também varia e depende da concentração de gordura do leite materno. No entanto, grupos de expertos em muitos países acreditam que a ingestão de gorduras nos dois primeiros anos de vida não deva ter restrições. Estudo multicêntrico sobre consumo alimentar realizado no Brasil mostrou que, em geral, a dieta das crianças brasileiras menores de 2 anos é adequada com relação à quantidade de calorias. Entretanto, a densidade energética mostrou-se baixa, o que pode estar relacionado não apenas com o tipo de alimento consumido pelas crianças, mas também com a sua consistência. É comum as crianças pequenas serem alimentadas com alimentos de consistência “mole”, diluídos. Densidade proteica Em geral, a quantidade de proteínas das dietas é adequada se houver um adequado conteúdo energético, exceto em populações que consomem predominantemente alimentos pobres em proteínas tais como batata doce e mandioca. 88 UNIDADE II │ TERMOMETABOLOGIA A deficiência isolada de proteínas, ao contrário do que se acreditava, não parece ser um determinante importante dos deficits de estatura de crianças de baixo nível socioeconômico de países em desenvolvimento. A densidade proteica (gramas de proteínas por 100kcal de alimento) recomendada para os alimentos complementares de crianças de 6 a 24 meses é de 0,7g/100kcal. A qualidade e a digestibilidade das proteínas devem ser levadas em consideração ao se avaliar a adequação da alimentação complementar. As proteínas de mais alto valor biológico e de melhor digestibilidade são encontradas no leite humano, seguidas pelas proteínas de origem animal (carne, leite, ovos). Combinações apropriadas de vegetais também podem fornecer proteínas de alta qualidade, como por exemplo na mistura de arroz com feijão. Segundo o Estudo Multicêntrico de Consumo Alimentar, a dieta das crianças brasileiras menores de 2 anos, em geral, contém quantidades de proteínas acima das recomendadas e aumenta com a idade. Conteúdo de ferro Apesar de a quantidade de ferro que a criança recebe através do leite materno ser pequena, ela é suficiente para suprir as necessidades desse micronutriente nos primeiros 6 meses de vida, em crianças nascidas a termo, graças as suas reservas de ferro. A partir dos 6 meses, no entanto, as reservas se esgotam, havendo a necessidade de complementação de ferro através de alimentos complementares ricos nesse micronutriente. As crianças pré-termo e com baixo peso de nascimento nascem com menos reservas de ferro, havendo necessidade de suplementação com ferro antes dos 6 meses. A biodisponibilidade do ferro, ou seja, o quanto de ferro ingerido é absorvido e disponibilizado para o metabolismo, é de fundamental importância. O ferro melhor aproveitado pela espécie humana é o contido no leite materno, com um aproveitamento de até 70% quando a amamentação éexclusiva. O ferro contido nos alimentos de origem animal é melhor absorvido (até 22%) do que o ferro de origem vegetal (1 a 6%). Esse último é melhor absorvido na presença de carnes, peixes, frutose e ácido ascórbico, enquanto é menos absorvido quando ingerido com gema de ovo, leite, chá, mate ou café. Entre os produtos de origem animal, as carnes (principalmente as carnes vermelhas) e alguns órgãos (em especial o fígado) contêm uma maior densidade de ferro e uma melhor biodisponibilidade do que o leite e os seus derivados. A gema de ovo é rica em ferro, mas a sua absorção é pobre. Alguns produtos de origem vegetal contêm quantidades razoáveis de ferro, porém com baixa biodisponibilidade. Entre eles se encontram o feijão, a lentilha, a soja e os vegetais verde- escuros (acelga, couve, brócolis, mostarda, almeirão). Uma dieta com alta biodisponibilidade de ferro (mais de 19% de absorção) em geral é uma dieta diversificada, com quantidades generosas de carne, peixe e aves (mais de 90g) e alimentos ricos em ácido ascórbico (25-75mg). A densidade de ferro (mg/100kcal) recomendada nos alimentos complementares é de 4mg/100kcal para crianças de 6 a 8 meses, de 2,4mg/100kcal dos 9-11 meses e de 0,8mg/100kcal dos 12 aos 24 meses. O Estudo Multicêntrico de Consumo Alimentar mostrou que a média da densidade de ferro da dieta das crianças brasileiras menores de 2 anos está bem 89 TERMOMETABOLOGIA │ UNIDADE II abaixo da recomendada: de 0,49 a 0,69 para crianças de 6 a 12 meses e de 0,53 a 0,69 para crianças no segundo ano de vida. Esses achados são coerentes com as altas taxas de anemia em crianças pequenas no Brasil. Em geral, admite-se que a densidade de ferro nos alimentos complementares em países em desenvolvimento não garante as necessidades de ferro das crianças menores de 2 anos. A quantidade adequada de ferro na alimentação complementar só pode ser atingida com o consumo de alimentos enriquecidos com ferro ou de produtos animais em grandes quantidades. Crianças pequenas, em geral, têm dificuldade em consumir grande quantidade de alimentos ricos em ferro (fígado, carnes, peixes). Portanto, faz-se necessário estratégias para aumentar a ingestão de ferro em crianças de 6 a 24 meses, como enriquecimento de alimentos infantis e suplementação com ferro medicamentoso. O consumo de alimentos ricos em vitamina C (laranja, goiaba, limão, manga, mamão, melão, banana, maracujá, pêssego, tomate, pimentão, folhas verdes, repolho, brócolis, couveflor) nas refeições aumenta a quantidade de ferro absorvido. Lembrar que o cozimento destrói parte da vitamina C. Conteúdo de zinco O papel do zinco na prevenção da morbi-mortalidade por doenças infecciosas foi reconhecido apenas recentemente. Nos países em desenvolvimento, a média da densidade de zinco (mg/100kcal) nos alimentos consumidos por crianças abaixo de 1 ano é menor do que a recomendada (0,8mg/100kcal para crianças de 6 a 8 meses e 0,5 mg/ 100kcal em crianças de 9 a 11 meses). À semelhança do que ocorre com o ferro, as crianças entre 6 e 8 meses teriam dificuldade em suprir as necessidades de zinco através da alimentação complementar Para as crianças acima de 8 meses as necessidades podem ser preenchidas com a ingestão de quantidades relativamente altas de fígado e peixe seco. A densidade do zinco e sua biodisponibilidade é maior nos produtos de origem animal, principalmente as carnes e órgãos (em especial o fígado) e gema de ovo. Produtos vegetais costumam ser pobres em zinco, além de ter uma baixa biodisponibilidade, particularmente cereais e legumes com altas concentrações de fitatos. Ao contrário do que ocorre com o ferro, o ácido ascórbico não aumenta a biodisponibilidade do zinco. Conteúdo de vitamina A Em muitos países em desenvolvimento, as crianças pequenas ingerem quantidades adequadas de vitamina A1. As crianças que recebem leite materno com adequadas concentrações de vitamina A suprem as suas necessidades diárias dessa vitamina com relativa facilidade através de alimentos complementares adequados. No entanto, em áreas endêmicas de deficiência de vitamina A, o alimento complementar se constitui em importante fonte dessa vitamina, já que a concentração de vitamina A no leite materno nessas regiões pode ser baixa. Além disso, a absorção de vitamina A pode ser prejudicada quando a dieta da criança é pobre em gordura, como ocorre com frequência em populações carentes. Provavelmente a absorção de caroteno e retinol, da dieta da criança pequena, pode ser melhorada se o alimento complementar for consumido junto com o leite materno (pouco antes ou depois). 90 UNIDADE II │ TERMOMETABOLOGIA Em áreas endêmicas, onde a concentração de vitamina A no leite materno pode estar diminuída, a criança pequena necessita de um aporte maior dessa vitamina para suprir as suas necessidades. Isso pode ser conseguido através de suplementação da mãe com vitamina A e/ou com ingestão aumentada de alimentos ricos dessa vitamina por parte da criança, tais como fígado, gema de ovo, produtos lácteos, folhas verde-escuras, vegetais e frutas de cor laranja (cenoura, abóbora, pimentão vermelho ou amarelo, manga, maracujá, mamão). Praticamente não existem estudos no Brasil sobre o consumo de vitamina A de crianças abaixo de 2 anos. Sabe-se que, em áreas endêmicas (região Nordeste e algumas comunidades fora dessa região), o consumo deva ser baixo já que a prevalência de deficiência de vitamina A em crianças é alta. O Estudo Multicêntrico de Consumo Alimentar mostrou que, em geral, a média de ingestão de vitamina A foi adequada em crianças menores de 2 anos. No entanto, quando as famílias foram categorizadas segundo a renda, observou-se que a dieta de crianças cujas famílias tinham uma renda mensal igual ou menor que 2 salários-mínimos era deficiente em vitamina A. 91 CAPÍTULO 3 Gasto energético Introdução O Gasto Energético Total (GET), também chamado de Valor Calórico Total (VCT), corresponde às necessidades energéticas diárias de um indivíduo, expresso em kcal (kilocalorias). Ele varia segundo a idade, o peso e a altura, ainda com o nível de atividade física e a presença ou não de alguma doença, e varia também em situações fisiológicas, como na gravidez e na lactação. Gasto energético e obesidade As causas e as consequências da obesidade têm sido extensamente estudadas nos últimos anos, principalmente por sua relação com transtornos psicológicos e comorbidades. É importante destacar que o Brasil, da mesma forma que vários outros países, tem apresentado, nos últimos anos, aumento da prevalência da obesidade e redução no deficit de peso. A obesidade é causada pela combinação entre predisposição genética e estilo de vida. A inatividade física e a alimentação inadequada resultam balanço energético (BE) positivo, o que significa, em última instância, aumento do peso corporal. A complexidade da regulação do peso corporal representa um dos maiores desafios para o entendimento da etiologia, o tratamento e a prevenção da obesidade. Neste contexto, muitos conhecimentos são necessários, desde a compreensão dos métodos apropriados para avaliação do BE nos indivíduos até as técnicas bioquímicas e moleculares que possam esclarecer os mecanismos específicos. Métodos para avaliação do gasto energético Dada a importância de se investigar os aspectos do GE nos estudos sobre a obesidade, os principais métodos e as principais técnicas serão descritos a seguir. Calorimetria direta Essa técnica deriva dos estudos inicias de Lavoisier e Laplace, seguidos por Atwater e Rosa e Atwater e Benedict, que a desenvolveram e a aperfeiçoaram para avaliação do GE em humanos. A calorimetria direta requer uma câmara altamente sofisticada, que permite a medida do calor sensível liberado pelo organismo, além do vapor de água liberado pela respiração e pela pele. Para a avaliação do GED, o avaliado deve permanecer na câmara por período igual ou superior a 24 horas. Calorimetria indireta A calorimetria indireta mensurao GE por meio da análise do oxigênio consumido (VO2), do gás carbônico produzido (VCO2) e, ainda, do quociente respiratório (QR = VO2/VCO2), apontando assim 92 UNIDADE II │ TERMOMETABOLOGIA a quantidade de energia necessária para a realização dos processos metabólicos. É considerada uma técnica de custo razoável, não invasiva e com grande reprodutibilidade. Pode ser desenvolvida de duas formas diferentes: por circuito fechado e por circuito aberto. Na primeira, o indivíduo é conectado a uma máscara por meio da qual ele respira o ar com composição conhecida, vindo de um cilindro, e volta a respirar somente o ar do espirômetro. O consumo de oxigênio pode ser determinado a partir da quantidade removida do sistema. Essa técnica não permite ao avaliado muita mobilidade e, por isso, é utilizada prioritariamente para situações de repouso. Outra possibilidade para essa análise é a utilização da chamada câmara respiratória ou calorímetro de sala. Nela, o indivíduo reside por período de, aproximadamente, 24 horas, similarmente à calorimetria direta, podendo realizar quase todas as suas atividades diárias. É medida a troca gasosa sem a medida da produção de calor. Um exemplo dessa câmara encontra-se na Lausanne University, Suíça. O grande inconveniente dessa alternativa é o alto custo do equipamento. Na calorimetria indireta de circuito aberto, o avaliado respira por uma válvula de duas vias, por uma das quais é inspirado o ar ambiente, e por outra o ar expirado é coletado e analisado. Essa análise pode ser feita em tempo real (instrumentação computadorizada) ou pode ser armazenada para análise posterior (espirometria portátil ou técnica de bolsa). Essa análise é feita em intervalos determinados e depois os valores são extrapolados para as 24 horas do dia, a partir de relações e fórmulas específicas. A determinação do GEB por calorimetria indireta necessita que a medida seja feita durante o período de sono do avaliado. Pela dificuldade de se medir o indivíduo nessa situação, grande parte dos estudos na literatura utilizam a medida do gasto energético de repouso (GER), que é feita geralmente pela manhã com o indivíduo deitado, porém acordado. Ainda, por meio da calorimetria indireta também se pode avaliar a capacidade física dos indivíduos. Os chamados testes ergoespirométricos geralmente são feitos no intuito de se avaliar o consumo máximo de oxigênio (VO2 máximo) e, a partir deste, pode- se predizer o grau de condicionamento físico dos indivíduos e prescrever exercícios físicos. Por sua praticidade, a calorimetria indireta de circuito aberto é o método calorimétrico mais utilizado, tanto em pesquisas quanto na prática clínica. Entretanto, é difícil, a partir dessa análise, determinar o GE de todas as atividades realizadas durante o dia. Uma possibilidade para o detalhamento dessas atividades pode ser a aplicação paralela de questionários que descrevam as atividades diárias. Questionários para a avaliação do gasto diário Para que se possa ter uma dimensão ampla do GE pela atividade física diária, é necessário que se relatem todos os tipos de atividade realizados durante o dia, com o maior grau de detalhamento possível. Embora esse método seja cercado de subjetividade, em grande parte das vezes acaba sendo um método complementar de grande importância. Existem questionários que podem ser definidos como indiretos, nos quais, com base no relato do tempo e do grau de percepção do esforço de categorias de atividade, se considera o nível de atividade do indivíduo. Um exemplo desse tipo de questionário é o IPAQ (International Physical Activity Questionary), desenvolvido nos Estados Unidos e validado para a população brasileira. Outros tipos de questionário, a partir dos relatos detalhados de diários de cada atividade física realizada e da intensidade percebida, também permitem o cálculo da energia gasta diariamente. 93 TERMOMETABOLOGIA │ UNIDADE II Avaliação do GE com base no consumo alimentar Durante muitos anos, a determinação do GE dos indivíduos foi feita com base naquilo que era ingerido pela dieta. Considerava-se que, se o indivíduo estivesse com o peso e a composição corporal adequados, realizando todas as atividades diárias de maneira satisfatória, a medida de sua ingestão habitual forneceria uma noção de seu gasto de energia. Entretanto, a avaliação da ingestão alimentar está sujeita a grande gama de erros, tanto nos relatos quanto nos cálculos do valor energético do alimento. Além disso, a regulação da energia pelo homem não pode ser considerada um processo perfeito, sendo sujeita a grandes flutuações. Equações preditivas do GE Em 1919, Harris e Benedict deduziram os primeiros dados de GEB a partir de equações de regressão obtidas por estudos de calorimetria. A partir da década de 1980, retomaram-se os estudos de GE com indivíduos saudáveis, quando a Organização Mundial da Saúde publicou novas equações para predição do GEB, além de estabelecer múltiplos para predição do GED. As equações de predição são métodos rápidos e fáceis, além de terem baixo custo. Por outro lado, requerem a estimativa do GE das atividades físicas realizadas durante o dia, o que implica a necessidade dos relatos da atividade física diária. Além disso, muitas dessas equações foram elaboradas por um grupo de pessoas com faixa etária estreita e com indivíduos brancos, o que geralmente não representa especificamente todos os segmentos da população. O comitê de especialistas responsáveis pelas atuais Dietary Reference Intakes, procurando aprimorar as predições de GE, tem proposto novos modelos de equações, a partir da metodologia da água duplamente marcada. Sensores de movimento Os sensores de movimento são fundamentados na acelerometria. Consistem de dispositivos que são fixados em partes específicas do corpo, capazes de medir os movimentos em até três eixos corporais: ântero-posterior, lateral e vertical. Este método de determinação possui as vantagens de poder avaliar o indivíduo em sua vida cotidiana, além do baixo custo. Por outro lado, é necessária uma escolha apropriada do local de fixação do dispositivo, pois há o risco de o dispositivo se soltar do corpo. Água duplamente marcada Atualmente, o método considerado como padrão-ouro para determinação do GE é a água duplamente marcada. Esta técnica, inicialmente aplicada somente em pequenos animais, permite medir o GE de indivíduos fora de confinamento, sem necessidade de nenhuma modificação no cotidiano e sem necessidade de fixação de dispositivos ao corpo. O indivíduo ingere uma dose de água marcada com isótopos não radioativos de oxigênio e hidrogênio. Pelo princípio do método, o isótopo de oxigênio é eliminado do corpo incorporado nas moléculas de dióxido de carbono e água. Por sua vez, o isótopo de hidrogênio é eliminado somente como 94 UNIDADE II │ TERMOMETABOLOGIA água. Assim, a diferença na eliminação entre esses dois isótopos ingeridos simultaneamente pode predizer a medida da produção de gás carbônico e, assim, indiretamente, o GE. A água duplamente marcada pode medir o GE total dos indivíduos por períodos entre uma a duas semanas. Este método é capaz de medir o GED, porém não mede o nível de atividade física dos indivíduos. Assim, a aplicação de diários de atividade física complementa e esclarece as informações obtidas, da mesma forma que para a calorimetria indireta. A grande limitação para o método reside em seus custos, tanto relativos ao equipamento necessário (espectrômetro de massa) quanto aos isótopos. Por outro lado, cabe destacar que este método tem fornecido resultados com precisão e objetividade na investigação das questões relativas ao GE e à obesidade. Existem ainda outras técnicas propostas para avaliação do GE em humanos, menos utilizadas. Com os avanços da biologia molecular, tem-se buscado a compreensão não somente do total de energia gasto pelo indivíduo, mas também das origens moleculares desse gasto. Nesse sentido, vale destacar a identificaçãode várias moléculas sintetizadas pelos adipócitos, além de proteínas de membrana na mitocôndria e no núcleo de várias células, que muito têm colaborado com essa compreensão. 95 CAPÍTULO 4 Fatores que afetam o gasto de energia Introdução Vários fatores alteram o gasto energético e contribuem para que este varie amplamente entre os indivíduos. Os mais importantes compreendem a composição corporal, a idade, o sexo, o estado nutricional, a ação de hormônios tireoidianos, a atividade do sistema nervoso simpático e os fatores genéticos. Já está bem demonstrado que a composição corporal exerce um efeito importante sobre o metabolismo energético. Em particular, a massa corporal magra, composta por músculos, vísceras, ossos e água, constitui o compartimento corporal com maior atividade metabólica e, por essa razão, é considerada um importante determinante do gasto energético, explicando 73% do GER e 80% do gasto energético de total. Já a gordura corporal, influencia o gasto energético em menor magnitude que a massa magra. Em relação ao efeito da idade sobre o gasto energético, estima-se que há um declínio na taxa de metabolismo basal de 1% a 2% por década, mesmo com a manutenção do peso corporal. Vários estudos têm atribuído essa redução do gasto energético à diminuição da massa magra relacionada à idade. Porém, um estudo de Hunter et al. demonstrou que o GER de idosos era significantemente menor que o de adultos jovens, mesmo após ajustado para massa magra e para a gordura corporal. Assim, os autores sugeriram que outros fatores, que não somente a redução da massa magra, também devem contribuir para a redução do GER em indivíduos com idade mais avançada. A influência do sexo sobre o GER já está bem estabelecida. Em média, o gasto energético total das mulheres é 16% menor que o dos homens. Essa diferença pode ser atribuída, em parte, aos diferentes níveis de atividade física entre homens e mulheres, mas, principalmente, em razão das variações da quantidade de massa magra. Dionne et al., de fato, não observaram diferença no gasto energético de repouso entre homens e mulheres, após o mesmo ter sido ajustado para a massa magra. A ação dos hormônios tireoidianos também pode afetar o gasto energético. Já foi demonstrado que os hormônios tireoidianos promovem aumento no consumo de oxigênio, no metabolismo e na produção de calor pelo organismo. Recentemente, a descoberta de proteínas desacopladoras com propriedades termogênicas (Uncoupling protein – UCP) sugere que os fatores genéticos podem influenciar o metabolismo energético. As UCPs são um grupo de proteínas mitocondriais que dissipam o gradiente eletroquímico de prótons, utilizado normalmente na síntese de adenosina trifosfato (ATP), para a geração de calor. Acredita-se que esse processo esteja associado com a regulação do gasto de energia. Já tem sido demonstrado, em modelos animais, o papel da Uncoupling protein-1(UCP1) na termogênese no tecido adiposo marrom. Já em humanos, o papel da UCP1 na termogênese parece ter pouca importância, uma vez que a proporção do tecido adiposo marrom é muito pequena. 96 UNIDADE II │ TERMOMETABOLOGIA Outras UCPs, como a Uncoupling protein-2 (UCP2) e a Uncoupling protein-3 (UCP3), foram descobertas em humanos. A UCP2 é expressa em vários tecidos, incluindo o músculo esquelético e os tecidos do sistema imune, enquanto a UCP3 é encontrada, principalmente, no músculo esquelético. A função exata dessas novas UCPs ainda não está bem estabelecida. Postula-se que elas estejam envolvidas na regulação do metabolismo energético em humanos. Ademais, sugere-se que as UCPs têm uma participação no metabolismo de ácidos graxos, na oxidação de outros substratos e na produção de espécies reativas de oxigênio. Alguns estudos demonstram que polimorfismos nos genes das UCPs estão associados com a redução no metabolismo energético e com o desenvolvimento da obesidade. Em pacientes com DRC, um único estudo realizado com pacientes em diálise peritoneal evidenciou uma associação entre um polimorfismo no gene da UCP2 e o aumento da gordura corporal. No entanto, o gasto energético não foi avaliado nesse estudo. Avaliação do gasto energético de repouso Os seguintes métodos encontram-se disponíveis para a avaliação do GER. » Técnica da água duplamente marcada: este método consiste da utilização de água duplamente marcada com 2H e 18O, que deve ser ingerida e sua taxa de desaparecimento do fluido corporal (água) monitorada por, aproximadamente, 7 a 21 dias. A diferença entre a taxa de desaparecimento dos dois isótopos, corrigida pelo pool de água corporal, permite estimar a taxa de produção de dióxido de carbono que, por equações de calorimetria indireta, deriva o gasto energético total do indivíduo. » Equação de Harris e Benedict: a equação de Harris & Benedict, que utiliza as variáveis como sexo, peso, estatura e idade, é a mais utilizada para a estimativa da taxa de metabolismo basal. Porém, apesar da praticidade deste método, os estudos mostram que a equação superestima as medidas em indivíduos obesos. » Calorimetria direta: este método utiliza uma câmara com isolamento térmico para medir diretamente o calor gerado pelo organismo. A calorimetria direta apresenta alta precisão (1% a 2% de erro), porém é pouco utilizada em virtude de seu alto custo operacional. » Calorimetria indireta: a calorimetria indireta constitui um método mais simples e menos custoso, comparado à calorimetria direta. Além disso, devido à confiabilidade de suas medidas, a calorimetria indireta tem sido amplamente utilizada também como referência na avaliação do gasto energético. A determinação do gasto energético pela calorimetria indireta ocorre por meio da medida do consumo de oxigênio (O2) e da produção de dióxido de carbono (CO2). Este método baseia-se no princípio de que a energia química produzida no organismo pode ser estimada se o volume de O2 consumido for conhecido, uma vez que grande parte do metabolismo energético do corpo depende de oxigênio. Como existe uma proporcionalidade entre o consumo de O2 e a produção de ATP (1 grama de O2=3 moles de ATP) e entre 97 TERMOMETABOLOGIA │ UNIDADE II a produção de ATP e a liberação de energia (1 mole de ATP @ 17,9kcal), é possível medir de maneira indireta o gasto de energia a partir da aferição do volume de O2 consumido. Os valores de O2 consumido e CO2 produzidos são incluídos em equações que calculam a taxa de metabolismo. A diferença do valor obtido entre as diversas equações disponíveis é de, aproximadamente, 3%. A equação de Weir é uma das mais utilizadas para estimar a taxa de metabolismo basal. Normalmente, utiliza-se a fórmula abreviada, que desconsidera a contribuição do nitrogênio urinário para a taxa de metabolismo, uma vez que a mesma é muito pequena. › Taxa de metabolismo basal (kcal/min.) =3,9 [VO2 (L/min.)] + 1,1 [VCO2 (L/min.)]. › Gasto energético basal (kcal/24h) =taxa de metabolismo basal x 1440 minutos. › VO2: volume de oxigênio consumido e VCO2 : volume de dióxido de carbono produzido. A troca gasosa medida pelo calorímetro também permite o cálculo do quociente respiratório (volume de CO2 ÷ volume de O2 consumido), o qual possibilita conhecer o substrato ou a mistura de substratos oxidados. 98 PARA (NÃO) FINALIZAR Introdução Em geral, os estudos na nutrição expressam a hegemonia do paradigma biomédico que, por sua vez, se manifesta nas práticas em saúde predominantes. Estas expressam uma visão de mundo, na lógica das ciências naturais, o que limita epistemologicamente o reconhecimento da totalidade da alimentação como um ato cultural e social. Nesse sentido, o caminho restrito adotado pela área acaba por criar- lhe armadilhas teóricas que influenciam a prática profissional. Algumas reflexões de cunho filosófico e antropológico sobre o ato fisiológico e ao mesmo tempo cultural do comer permitiriam aprofundar os estudos no campo da nutrição humana, incorporando, na sua área de abrangência,a compreensão da linguagem e dos significados atribuídos pelos sujeitos sobre suas experiências com a alimentação, uma ação humana que é intrinsecamente marcada pela natureza e pela cultura. Dizendo de outra forma, nada é mais natural que comer e nada é mais cultural que as formas, as preferências e os sentidos da alimentação. Numa visão técnica do tema, o corpo é pensado como um objeto natural e a nutrição como a ciência que trata de definir uma ração medida em quantidades de energia para cada tipo de alimento a ser metabolizado pelo organismo. Assim, a nutrição “naturalista” teria uma dependência das variações genéticas oriundas do crescimento demográfico, da adaptação do ser humano aos alimentos produzidos e à sua disponibilidade. A “hermenêutica” entende-se a corrente filosófica que dá ênfase à compreensão da linguagem em seu contexto no tempo e no espaço, levando-se em conta o papel dos sujeitos nas práticas histórico- sociais. Nessa perspectiva, entende-se que a expressão alimentação e nutrição significa mais que o processo de fisiologia dos alimentos no corpo, sendo, portanto, mais ampla do que o saber técnico de caráter biológico. Esta expressão inclui um campo semântico no qual vários conceitos se entrecruzam como o de “comer”, o de “dieta”, o de “fome” e o de “política de segurança alimentar”, entre outros. «Comida» é o alimento na expressão da cultura; «dieta» quer dizer terapia nutricional, disciplina ou restrição do desejo de comer em consonância com as demandas do contexto social; «fome» é a grande questão social que precisa sempre ser politizada, pois tem a ver com a miséria, a pobreza e as desigualdades sociais. A noção de «campo» aqui utilizada se inspira em Bourdieu e corresponde à produção de um processo social e de conhecimento integrado por saberes, práticas e relações de poder. Nesse sentido, o campo da alimentação e nutrição é necessariamente interdisciplinar, pois inclui não apenas o saber técnico, mas a cultura e todas as relações que permeiam o sentido e as práticas alimentares. 99 PARA NÃO FINALIZAR Breve introdução aos pensamentos que influenciaram os estudos da alimentação e nutrição no Brasil Com o tecnicismo dominante na área da nutrição, observa-se um distanciamento dos temas da alimentação, da história, da cultura e dos costumes de cada época que sempre influenciaram os hábitos e as referências alimentares dos povos no mundo e no Brasil. Ao relembrar a Idade Média, por exemplo, Le Goff ressalta que o comportamento alimentar na Europa refletia a posição do indivíduo na sociedade. Comer em abundância representava status e força. E os corpos musculosos simbolizavam o poder de intimidação dos homens que, dessa forma, assemelhavam-se aos animais ferozes e carnívoros. Logo no início da industrialização, os padrões de alimentação foram modificados para atender a uma nova estética do comer, necessária a assegurar a subsistência dos trabalhadores e cujas limitações de quantidades eram fixadas pela visão disciplinar civilizadora, típica das sociedades ocidentais modernas. Em meados do século XIX, na Europa, os estudos de fisiologia limitavam-se a explicar a nutrição a partir do atendimento das necessidades orgânicas. O controle do prazer de comer era representado por uma dietética discursiva e moralizadora com intercessão religiosa. As ideias que cercavam a necessidade de uma alimentação ideal estavam relacionadas ao tipo de atividade física (trabalho) e ao comportamento social religioso. Nessa racionalidade, a nutrição desenvolve-se na mesma lógica da Medicina, e esta numa história que vem desde o século XVII, segundo Luz. No final do século XIX, explicitamente a nutrição passou a fazer parte do pensamento médico, com o cuidado dietético e a alimentação “ideal” relacionada à prevenção ou ao tratamento de enfermidades crônicas, tais como obesidade, desnutrição, diabetes, hipertensão, hipovitaminoses e outras. O alimento ficou restrito a ser coadjuvante do tratamento médico e as práticas técnico-científicas foram submetidas ao discurso clínico sobre enfermidades, sem levar em conta a experiência do sujeito. A dietética hospitalar – que se desenvolveu com os cuidados das enfermeiras e das religiosas dos hospitais e das Santas Casas de Misericórdia – foi fortemente influenciada pela teoria miasmático-bacteriológica e apoiada por ideias positivistas, a propósito da determinação das doenças por sentidos exteriores. Como exemplo, se poderia engordar com os cheiros. Nesse ambiente de explicações e de usos, a alimentação ficou subordinada às questões biológicas, o que em essência coloca-se num primeiro plano da condição animal do ser humano. Em consequência, as análises sobre os sentidos da alimentação e do comer foram sendo deslocadas para outras disciplinas, como a História e a Antropologia, e para as artes, como a pintura e o cinema. São ainda raros os estudos que se envolveram na compreensão dos significados dos problemas da alimentação, da fome e do cuidado alimentar dos indivíduos. Menendéz entende que o modelo biomédico assinala a evolução da enfermidade e não a história do padecimento. A nutrição reproduz este modelo quando não valoriza as condições sócio-históricas e culturais que envolvem os temas da alimentação, os processos simbólicos e emocionais que medeiam tanto a doença como o tratamento dietético. Do ponto de vista teórico filosófico, a nutrição aderiu ao modo positivista de pensar, de pesquisar e de atuar. O positivismo como método explicativo da realidade trabalha com o controle e a verificação 100 PARA NÃO FINALIZAR de dados que possam ser comprovados e ignora (porque não lhe interessa) vozes e nomes, como muito bem enuncia Habermas: O olhar objetivante e examinador que tudo controla e penetra adquire uma força estruturante; é o olhar do sujeito racional, que perdeu todos os vínculos meramente intuitivos com seu mundo circundante, que demoliu todas as pontes do entendimento intersubjetivo, e para o qual, em seu isolamento monológico, todos os outros sujeitos só podem ser alcançados na qualidade de objetos de uma observação impassível. Conclui-se que há poucas linhas de pesquisas sobre o campo da alimentação e cultura no Brasil. Isto demonstra escassas construções teóricas sobre os vínculos entre alimentação, nutrição e os contextos históricos, culturais e socioeconômicos. Por exemplo, não têm sido priorizados estudos históricos nacionais sobre as condições de saúde e alimentação dos escravos no Brasil Colônia, sobre a influência da religião afro-brasileira na nutrição e as tradições alimentares dos povos indígenas. Aliás, é a Antropologia que tem ensaiado alguns movimentos nesse sentido, sobretudo a partir do final dos anos 1970. Em meio aos antropólogos, destaca-se Lévi-Strauss que, ao estudar a alimentação, observou uma estreita relação entre natureza e cultura, elementos estes mediados pela cozinha. O comestível ou não comestível são interpretações de mitos que envolvem o comer como parte de um sistema de relações sobre os conceitos de “bem” e “mal” na alimentação. Em geral, as pesquisas de antropologia da alimentação no Brasil têm pouco a ver com a nutrição propriamente dita, ainda que sejam relevantes para uma correspondência social e antropológica com o campo teórico e a práxis do nutricionista. A exemplo será, então, conforme Gadamer e Geertz, que a sensibilidade e o esforço intelectual dos sujeitos (nutricionistas) produzirão conteúdos aprofundados como requer a hermenêutica. A pouca referência sobre alimentação e cultura na formação do nutricionista pode lembrar um episódio ocorrido recentemente na cidade do Salvador (BA), quando uma nutricionista retirou o feijão do almoço dos pacientes de um hospital público, numa terça feira, dia de Ogum. Esse ato deixou a comunidade de mais de 1.000 pessoas indignadas pela ausência do “alimento do Orixá Ogum”, santidade de cura e de vigília do corpo no Candomblé, reverenciado neste dia da semana. O resultado dessa açãochama a atenção para a desinformação da nutricionista sobre a herança afro- descendente na dietética baiana. Corpo e alimento estão na ideia religiosa da purificação em várias religiões, com o propósito de prevenir enfermidades e curas. Na idealidade dos sentidos, há símbolos que se referem à qualidade de uma dietética cultural, fora do campo biomédico, que mantém restrições tradicionais como as “quizilas’ – interdições alimentares do Candomblé para prevenir enfermidades do corpo e da mente, a carne de porco pelo judaísmo, entre outros exemplos. Dificuldades para a aproximação entre alimentação e nutrição Pensar o campo da alimentação e nutrição como interdisciplinar é esbarrar num conjunto de obstáculos semelhantes aos descritos por vários autores em outras situações em se que se busca a interrelação entre ciências sociais e biomedicina. Não são obstáculos triviais aqueles que se encontram em tentativas de fazer convergir fragmentos de disciplinas, mudar a mentalidade 101 PARA NÃO FINALIZAR unidirecional de professores, pesquisadores e profissionais e provocar um diálogo entre conceitos que, frequentemente, têm significados diferentes e precisam ser consensualizados, a depender da área em que foram desenvolvidos e da história de sua constituição. Para compreender-se os significados relacionados a enfermidades originárias a excessos ou deficiências de nutrientes, por exemplo, atribuídos pelos sujeitos, é imprescindível se observar a diversidade sociocultural alimentar, a oferta de alimentos, a influência da mídia sobre as dietas e a política de segurança alimentar, além das abordagens técnico-científicas sobre o valor nutricional dos alimentos. No entanto, no meio acadêmico existe uma tensão permanente entre a valorização do saber da área de nutrição e o menosprezo pelas práticas alimentares do povo, quase sempre tidas como pouco racionais ou frutos da ignorância. Tal tensão se mostra pelo receio, em geral, que os estudiosos têm em se aproximarem do senso comum, um receio que faz parte da lógica racionalista em que o campo da alimentação e nutrição tem seus pilares fundados. Por sua vez, dadas as dificuldades da práxis interdisciplinar, sobretudo em comunidades étnicas, seria necessária a realização de mais estudos qualitativos ou antropológicos da alimentação, nutrição e cultura, e se obter um nível mínimo de compreensão sobre o empírico. Para uma abordagem “compreensiva” No início dos anos 2000, cresce o interesse dos nutricionistas pelos conteúdos de antropologia da alimentação, observados em encontros científicos com esses profissionais. Assim, novos currículos passam a incorporar aspectos culturais da alimentação em uma abordagem interdisciplinar com as ciências humanas. Além de ser um fenômeno complexo, é possível que esse interesse se fundamente, teoricamente, no fato de a conduta alimentar ser interpretada como um texto. Ou seja: o acesso aos alimentos, as práticas alimentares, as crenças e os habitus são textualizáveis como inscrições significativas da cultura e podem ser interpretados, pois o indivíduo necessita de símbolos para entender sua realidade social, seu sustento material, sentir-se num mundo comum e reconhecer-se como sujeito na construção de sua própria realidade. Ainda que se preservem características individuais num tempo e num espaço dado, o hábito alimentar terá sempre um sentido. O habitus alimentar corresponde à adoção de um tipo de prática que tem a ver com costumes estabelecidos tradicionalmente e que atravessam gerações, com as possibilidades reais de aquisição dos alimentos e com uma sociabilidade construída tanto no âmbito familiar e comunitário quantos compartilhada e atualizada pelas outras dimensões da vida social. Ao alimentar-se de pratos preparados de forma típica, o indivíduo não só dá conta da própria sobrevivência, mas sente- se seguro em suas tradições e reconhece sua identidade social. Desta forma, o habitus alimentar é um texto sobre a cultura que se inscreve nos signos do cotidiano. Um exemplo dessa especificidade se encontra num estudo realizado num bairro da periferia de Salvador por Freitas sobre crenças a respeito da dieta das crianças. Nessa comunidade, o aleitamento materno por mais de três meses denota uma condição animal. No imaginário dessa população investigada, a ingestão de alimentos crus é responsável por sintomas de mal-estar por não ser considerada própria para o ser humano. Há ainda um silêncio sobre determinado alimento considerado necessário, mas ausente pela falta de condições de comprá-lo. Esse silêncio está ligado à necessidade de comer insatisfeita, pois a palavra é assemelhada à própria materialidade do alimento 102 PARA NÃO FINALIZAR que não se tem. Já a cocção com associação de sal e alho representa a harmonia do alimento com o corpo e o espírito. A partir do exemplo citado, pode-se concluir que o habitus alimentar pode ser compreendido através da linguagem, das atitudes e práticas e se traduz em ritos, valores, mitos, crenças e tabus. Toda cultura tem sua comida, sua cozinha e base (staple foods); tem ritos de encontro para comer em que se dá a sociabilidade; valoriza mais uns produtos alimentares que outros; toda cultura desenvolve crenças a respeito do valor dos alimentos – inclusive a área de nutrição contribui para isso, variando sua própria opinião sobre determinados produtos a partir das novas informações de pesquisas; e toda cultura tem tabus alimentares. Historicamente, no Brasil, a mistura de feijão com arroz constitui o alimento básico, uma combinação reconhecidamente rica em nutrientes e cujo consumo atinge ainda grande parte da população. No entanto, observa-se que nas camadas populares o feijão com arroz, por restrições econômicas e pelas propagandas da indústria alimentícia (que anuncia e vende outros produtos mais baratos), não tem a mesma frequência de consumo que antes. O Estudo Nacional de Despesa Familiar (Endef) e a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) mostraram que entre os 28 anos da realização dessas duas pesquisas observou-se uma expressiva redução de produtos da cesta básica no início dos anos 2000, como: arroz (menos 45,6%), feijão (menos 37,3%) e farinha de mandioca (menos 36,3%). Também mostraram o aumento do consumo de refrigerantes em 492% nesse mesmo período. Apesar dessas cifras, vale citar as mudanças alimentares para os trabalhadores, propiciadas por unidades de alimentação em empresas, ao oferecerem cardápios variados de verduras, legumes e frutas. O habitus alimentar trata de uma necessidade que sempre se renova e aceita novas propostas, mas sempre mantém suas bases histórico-culturais. Os novos gostos e as novas estéticas são criados pelas necessidades de adaptação do corpo ao mundo moderno e são sugeridos pela indústria alimentícia que não cessa de lançar produtos que tentam facilitar a vida doméstica ou substituí-la. Além dos exemplos citados neste texto há, sem dúvida, diferentes receituários regionais de uma dietética cultural que produz explicações sobre o regime de práticas alimentares. Na análise das subjetividades dos objetos do campo da alimentação e nutrição, é importante adotar a perspectiva compreensiva que enfatiza o processo interpretativo das próprias populações humanas em relação à comida. Nesse sentido, a dieta do ponto de vista biomédico é um texto clínico que representa a ordenação de nutrientes, um receituário cerrado que precisa ser completado com os valores culturais do comer. Com a inclusão do conteúdo sociocultural, pode-se compreender o cuidado na nutrição na perspectiva da promoção da saúde, pois o sujeito elege e seleciona o alimento a partir de um conjunto de sensações como o gosto e o prazer e as regras de sociabilidade. Desta forma, pode-se entender a nutrição como um modo pragmático de atenção à sobrevivência, em que o comer aparece como necessidade e desejo, a depender das percepções dos sentidos dados pela sociabilidade de um dado grupo social e em uma perspectivatemporal. Considerações finais Neste texto, não se quis desprezar ou colocar em segundo plano todo o conhecimento técnico- científico que compõe hegemonicamente o repertório da nutrição. Mas buscou-se ressaltar uma 103 PARA NÃO FINALIZAR proposta de proximidade entre teorias e práticas acadêmicas com o mundo concreto e cotidiano das pessoas a quem a nutrição pretende servir, considerando que é preciso ir além do que se fez até o momento. É preciso ter métodos para compreender e interpretar as relações que fazem interagir dieta alimentar e cultura, possibilidades socioeconômicas e dietas socialmente possíveis e ricas, e mudanças que ao mesmo tempo preservem o contexto cultural da comensalidade e acrescentem a ele propostas novas e substanciais. Muitos dos fracassos das práticas agenciadas pela clínica poderiam ser explicados, pelo menos em parte, pela falta do diálogo e de disposição de praticar uma comunicação intersubjetiva. A nutrição normativa é, de fato, uma região fechada aos significados atribuídos pelo sujeito que, independentemente e em sua própria autonomia, quer explicar sua comida e interpretar as relações com a nutrição em seu corpo. Atualmente, existem alguns estudos significativos sobre a cultura alimentar do país, assim como grupos e linhas de pesquisa sobre o assunto. No entanto, a maioria deles acontece fora do campo da nutrição e pertencem ao campo da história e da antropologia. A área de nutrição não os conhece e não se apropria deles. A proposta deste texto é mostrar a possibilidade de aproximar alimentação e nutrição numa abordagem interdisciplinar capaz de não separar o técnico e atualmente consagrado cientificamente do contexto humano, subjetivo, cultural e histórico. Uma abordagem hermenêutica poderia oferecer suporte à produção de um conhecimento mais complexo – não alheio à área e sim incorporado a ela – em que se permitisse ver e criticar assuntos da técnica, dialogar com estes vis-à-vis temas da tradição alimentar das comunidades e da população brasileira. 104 REFERÊNCIAS BERNAL J. La ciencia en la historia. México: Nueva Imagen, 1979. BERNE, R.M.; LEVY, M.N. Fisiologia. 5. ed. São Paulo: Elsevier, 2007 CHAMPE, P.C; HARVEY, R. A. Bioquímica ilustrada. 2 ed. Porto Alegre: ArtMed, 2002 CHEMIN, S. M. S. S.; MURA, J. D .P. Tratado de alimentação, nutrição e dietoterapia. 2. ed. São Paulo: Roca, 2011. COZZOLINO, S. M. F. 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