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MANUAL DE PRIMEIROS SOCORROS PARA CÃES Bárbara Gomiero contato@meucaovelhinho.com.br Copyright © 2016 Meu Cão Velhinho Todos os direitos reservados mailto:contato@meucaovelhinho.com.br Ao meu marido Diego, pelo apoio incondicional e suporte técnico. À minha filha Alana, por me motivar a ser todos os dias uma pessoa melhor. Aos meus cães Paxá e Cookie, e à minha estrelinha Shana, por alimentarem a minha eterna paixão pelos animais. Aos meus pais e irmãos, por todo o seu apoio. “Não importa se os animais são capazes ou não de pensar. O que importa é que são capazes de sofrer. ” (Jeremy Bentham) PREFÁCIO Amar um cão, em toda a sua essência, é uma experiência inigualável. Os cachorros hoje fazem parte das nossas vidas de forma mais intensa do que jamais antes na história da humanidade. "Possuir um cão" já se tornou um conceito ultrapassado. Os cães não são mais "coisas" a serem possuídas. São membros da família, seres vivos titulares de direitos, e que merecem respeito. Não somos mais donos dos nossos cães, mas seus tutores: pessoas incumbidas de ampará- los, protegê-los, e educá-los, já que não somos seus pais biológicos - o que não nos impede de nos considerarmos os seus "pais adotivos". Este novo relacionamento entre humanos e cães gera a necessidade de novos cuidados, tanto por parte dos tutores, quanto dos profissionais que trabalham com eles. Ao receberem um animal para ser cuidado, os profissionais - sejam eles tosadores, banhistas, adestradores, pet sitters, dog wakers, veterinários ou seus assistentes, entre outros - recebem também um voto de confiança. Diante de tamanha responsabilidade, os profissionais da área pet devem ser capazes de prever o imprevisto, trabalhar sob condições adversas, e, acima de tudo, saber agir quando confrontados com situações de emergência. Salvar vidas caninas não é um privilégio apenas dos médicos veterinários, mas o resultado de um trabalho conjunto e coordenado, em que todos fazem a coisa certa, e na hora certa. Este manual de primeiros socorros para cães foi elaborado com o objetivo de preparar profissionais da área pet, tutores e protetores de animais, para que saibam prevenir e lidar com situações de emergência da melhor maneira possível. O seu texto foi adaptado a partir do Curso Completo de Primeiros Socorros Para Cães, oferecido pelo Meu Cão Velhinho® e ministrado pela Dra. Bárbara Nickel de Haro Gomiero, médica veterinária especialista em Clínica Médica de Pequenos Animais. Os primeiros socorros são os primeiros cuidados prestados em uma situação de emergência, e que têm como objetivo a preservação da vida, a prevenção de sequelas, e a minimização do sofrimento do paciente. Apesar de não substituírem o atendimento pelo médico veterinário ou pelo médico, quando prestados adequadamente, os primeiros socorros podem fazer toda a diferença entre a vida e a morte de um animal ou humano. Faça parte do seleto grupo de profissionais, protetores de animais, e tutores dedicados que estão preparados para socorrer os nossos amigos de quatro patas nas mais diversas situações. Sumário CAPÍTULO 1. PREVENÇÃO DE ACIDENTES CAPÍTULO 2. KIT DE PRIMEIROS SOCORROS CAPÍTULO 3. COMO DAR MEDICAMENTOS CAPÍTULO 4. TÉCNICAS DE CONTENÇÃO E SEGURANÇA CAPÍTULO 5. AVALIANDO SINAIS VITAIS E RECONHECENDO EMERGÊNCIAS CAPÍTULO 6. TÉCNICAS DE SALVAMENTO CAPÍTULO 7. DISTÚRBIOS GASTRINTESTINAIS CAPÍTULO 8. OUTROS PROBLEMAS INTERNOS CAPÍTULO 9. FERIMENTOS, HEMORRAGIAS E FRATURAS CAPÍTULO 10. ACIDENTES AUTOMOBILÍSTICOS CAPÍTULO 11. QUEIMADURAS, CHOQUES, INTERMAÇÃO E HIPOTERMIA CAPÍTULO 12. INTOXICAÇÕES, ENVENENAMENTOS E PICADAS DE INSETOS CAPÍTULO 13. EMERGÊNCIAS NEUROLÓGICAS E NA CABEÇA PROCESSO DE CERTIFICAÇÃO EM PRIMEIROS SOCORROS MEU CÃO VELHINHO® APÊNDICES Capítulo 1. Prevenção de Acidentes Quando falamos em Primeiros Socorros, normalmente pensamos em grandes emergências e acidentes graves. Mas, antes de se aprender a agir diante das emergências, precisamos aprender a evitar que elas ocorram. Neste primeiro capítulo, vamos abordar erros comuns cometidos por tutores, e em alguns casos, até mesmo por profissionais que trabalham com animais de companhia, e que podem colocar as vidas dos cães em risco. Passeios e Exercícios Um dos principais equívocos cometidos por tutores é acreditar que cachorros pequenos não precisam sair de casa. Os cachorros são animais nômades, é da natureza deles - independentemente do tamanho - caminhar e se exercitar. Assim como para a gente, os exercícios físicos são fundamentais para uma boa saúde e bem-estar. Psicologicamente falando, o passeio é o ponto alto do dia de todo cachorro. É quando eles podem explorar o mundo fora de casa, sentir cheiros diferentes, e às vezes até interagir com outros cães. Tem um ditado que diz: “um cachorro cansado é um cachorro feliz”. Um cachorro que tiver se exercitado bem, principalmente filhote, não vai ficar destruindo a sua casa, roendo as suas coisas, ou ficar latindo em excesso, porque ele vai estar tranquilo. Além de isso ser bom para você, que não vai precisar repor as coisas que o cachorro destruiu, diminui também a probabilidade de que ele acabe comendo alguma coisa perigosa, que possa fazer mal para ele. Enquanto cães jovens expressam a sua frustração primariamente destruindo objetos, os adultos e idosos podem adotar comportamentos mais autodestrutivos: eles podem passar a se lamber obsessivamente, ou até mesmo a se morder, formando feridas de difícil cicatrização. A princípio, todo cachorro precisa de alguma dose de exercício, mas precisamos ter bom senso para respeitar os limites de cada um. Por exemplo, um cachorro com artrose pode ir passear? Não só pode, como deve. O movimento das articulações estimula a regeneração, e, com isso, ajuda a aliviar a dor e o desconforto que ele sente. Com certeza, um cachorro com artrose vai ganhar muito se for exercitado diariamente. Mas, é claro, este cão não vai conseguir correr. É preciso respeitar o ritmo em que ele consegue caminhar, e o tempo também. Pode ser que o seu cachorro antes fosse um atleta, e até mesmo praticasse agility, mas agora ele está velhinho e não aguenta mais do que uma volta na quadra. Tudo bem. Leve para dar uma volta na quadra, então. E um cachorro com problemas cardíacos? Bem, a não ser que o problema seja muito grave, ou que ele fique muito excitado durante os passeios, ele pode passear, sim. Mas também, com moderação. Tem que ser uma caminhada mais curta, num ritmo mais lento, sem grandes desafios. E, se durante o passeio, você perceber que ele está ficando para trás, que está tendo dificuldade, não force - é melhor voltar para casa e deixar ele descansar. E, em relação aos cachorros ditos “normais”, que, a princípio não têm problemas de saúde, o exercício está liberado? Pois bem, precisamos ter um pouco de cautela aí também. O que vamos falar a seguir é fundamental para os dog walkers, e também para tutores que gostam de sair com os seus cães para correr, andar de bicicleta, e fazer outros tipos de atividade de alta intensidade: Existe um problema chamado “intermação”. Vamos abordar este tema mais profundamente no Capítulo 12, mas, por hora, vamos focar em evitar que ele aconteça. A intermação acontece quando o cachorro fica superaquecido, não consegue perder calor direito, e entra em colapso. Isso é extremamente perigoso! Ela pode acontecer se um cachorro for levado para passear num dia que esteja quente demais, principalmente se o exercício for muito intenso ou muito prolongado. É exatamente isso o que acontece também quando alguém esquece um cachorro ou uma criança dentrode um carro fechado. Então, não se deve deixar um cachorro (ou uma criança) sozinho no carro, nem “só um pouquinho” enquanto se vai ao supermercado, ao médico, ou qualquer outro lugar. Se você for a algum lugar onde cães não possam entrar, é melhor deixar o seu cachorro em casa. Mas, voltando então aos passeios: tome cuidado, sempre, de escolher um horário mais fresco para passear com o seu cachorro - de preferência, de manhã cedo, ou no final da tarde. Pode ser a noite também, mas os cães são animais diurnos, e vão preferir sair durante o dia. Surge, então, a questão: “quer dizer que não posso levar o meu cachorro para passear no intervalo do almoço? ” Se você morar em uma cidade fria, onde as temperaturas raramente sobem demais, pode. Mas se você morar em um local quente e estiver fazendo 32ºC, é melhor não. Principalmente se o seu cachorro tiver focinho curto: os cães braquicefálicos (de focinho curto), como o boxer, o pug, o buldogue, o shi tzu, etc., são especialmente sensíveis à intermação. Aos dog walkers, fica a recomendação: quaisquer clientes que tenham cães braquicefálicos devem ter os seus passeios agendados sempre para os horários mais cedo ou mais tarde do dia, evitando-se os momentos de maior calor. Se estiver muito quente - e, em determinadas épocas, há dias que não refrescam nem durante a noite, então é importante moderar um pouco os exercícios. Mesmo um cachorro saudável e de focinho longo pode entrar em intermação se fizer muito exercício num dia quente. Além da intermação, passeios em dias muito quentes oferecem ainda um outro risco: as queimaduras em coxins (“almofadinhas” das patas). Os cães não usam sapatos (a maioria, pelo menos), e, ainda que os seus coxins tenham a função de proteger as patas, eles podem sim sofrer queimaduras se o asfalto ou a calçada estiver quente demais. Num dia quente, experimente pisar com os pés descalços no asfalto. Se estiver quente demais para você, considere que também está quente demais para o cão. Para prevenir queimaduras em coxins, tal como no caso da intermação, o ideal é evitar passeios nos horários mais quentes do dia. Se isso não for possível, o passeio deverá ser preferencialmente num local onde haja terra ou grama para o cão pisar – e os exercícios, moderados. Sapatos para cães também podem ajudar a proteger as patas em dias assim, embora muitos animais não se adaptem muito bem a eles. Os sapatos para cães são indicados principalmente para proteger as patas quando estão feridas, e também para caminhar sobre a neve. E, por fim, uma providência essencial: ao sair com o seu cachorro num dia quente, ou para um passeio mais prolongado, não esqueça de levar água para ele beber. Atualmente existem garrafinhas com potes embutidos para o cachorro beber água, potes dobráveis, e tem também cachorros que conseguem beber água diretamente de uma garrafa, se você virá-la com cuidado na frente dele. Uma garrafinha com água para os cachorros é um acessório fundamental que dog walker nenhum pode viver sem. Uso de Coleiras e Guias Agora que já falamos sobre a importância de se levar os cachorros para passear, e sobre os cuidados que a gente precisa tomar para que eles não passem mal durante o passeio, vamos para um outro assunto fundamental. Talvez até o mais importante no que se refere à prevenção de acidentes com cães: o uso da coleira e da guia. Existe uma infinidade de modelos de coleiras e de guias. Tem coleiras simples, tem os colares, peitorais, tem cabresto, e diversos outros tipos. As guias podem ser de nylon, de metal, de tecido, e de muitos outros materiais. Como o foco deste livro não é o adestramento em si, não entraremos em detalhes aqui em relação a cada tipo de coleira ou de guia, que é um assunto muito extenso. Mas o que posso dizer é o seguinte: escolha uma coleira ou peitoral para o seu cão que seja confortável e segura. Uma coleira que esteja frouxa, ou certos tipos de peitoral, podem simplesmente escapar do cachorro durante um passeio, o que é muito perigoso. E também tem cachorros que são especialistas em se livrar de coleiras e peitorais, então você pode precisar testar vários modelos com o seu cão até achar um que fique bem preso a ele, sem causar desconforto. Sobre as guias, o importante é que sejam fortes o suficiente para suportar um eventual tranco, ou puxão do cachorro. Então, elas têm que ser proporcionais ao tamanho dele. Algumas guias de nylon são muito fininhas, e servem só para cachorros pequenos, que não têm muita força. Já para um cachorro grande como um Rottweiller ou Dogue Alemão, você vai precisar de uma guia mais grossa, ou uma corrente. Diante disso, muitas pessoas podem pensar: “mas o meu cachorro é suuuuper educado, nem precisa dessas coisas! Anda direitinho ao meu lado! E também, ele é tão pequenininho que fico com dó de colocar.”. E se você me disser isso, só o que eu posso dizer é: pare JÁ com isso. Imediatamente, não faça isso NUNCA MAIS! E você que está lendo, talvez esteja pensando. “Nossa, mas que exagero! Eu vou continuar deixando o meu cachorro sem coleira, nunca aconteceu nada.”. Pois bem. Se não aconteceu nada, é porque não aconteceu nada ATÉ AGORA. Não significa que não vá acontecer. Eu me lembro de um caso de uma cliente cujo Cocker frequentava a minha pet shop em Curitiba semanalmente, para tomar banho. Por morar perto da loja, a tutora costumava levá-lo caminhando, e sempre sem coleira, apesar dos nossos avisos (meus e do meu marido, meu sócio na pet shop). Aquele cachorro era um amor, muito educado! Mas um dia, quando saiu para passear com ele, a tutora parou para conversar com uma amiga na rua e se distraiu. O cachorro também se distraiu, e continuou andando. Até que uma menina viu o bichinho andando sozinho, achou que ele estava perdido, e o levou embora. Não demorou para a tutora aparecer lá na loja desesperada, dizendo que tinha perdido o cachorro. Nós dissemos que iríamos fazer o possível para ajudá- la, e ela foi embora. A sorte foi que isso tudo aconteceu perto da nossa loja, e a menina que levou o cão passou por ali e anotou o nosso número. Então, pouco depois que a tutora dele foi embora, a menina nos ligou dizendo que tinha encontrado um cão exatamente como aquele que procurávamos. O meu marido, então, pegou o carro, foi até a casa da garota para buscá-lo, e devolveu para a tutora. Ela ficou extremamente agradecida! Foi sorte também que a moça que o encontrou se preocupou em devolvê-lo, muitas pessoas teriam simplesmente roubado um cachorro assim. Mas a história não acabou aí. Depois do susto, ela comprou um colar de identificação para ele - o que é ótimo - mas continuou andando com ele sem coleira, porque ele era tão educado. O que aconteceu naquele dia havia sido apenas uma pequena distração, um “ponto fora da curva”. E, quer saber o que aconteceu na continuação? Menos de um mês depois deste episódio, esse mesmo cão morreu atropelado. Ele já tinha 8 anos, e nada tinha acontecido até aquele momento. Mas, depois, aconteceu. Acontece. Quer mais um exemplo de como uma coleira com guia pode salvar o seu cachorro? Esse aconteceu comigo mesmo. Alguns anos atrás, eu tinha uma Poodle, a Shana. Um dia, eu saí para passear com ela, junto com a minha mãe. Ela também era muito educada, mas eu sempre tomei o cuidado de mantê-la usando uma peitoral com guia. Pois bem, naquele dia estávamos caminhando numa rua bem tranquila, quando alguma coisa - até hoje, não sei dizer exatamente o que foi - me fez olhar para trás. Talvez fosse o som da respiração do outro cachorro, talvez fosse um anjinho da guarda, não sei. Mas eu olhei. E lá estava um Pastor Alemão, em posição de ataque, com os olhos fixos na minha cadelinha. Não tive tempopara pensar, foi muito rápido. No momento em que vi aquele cachorro naquela posição, não tive dúvida: puxei a minha cadela pela guia mesmo, para o meu colo. Se eu fosse me abaixar para pegá-la, ainda que ela não fugisse pensando que era brincadeira, não daria tempo. Eu a levantei bem a tempo de evitar o ataque do Pastor Alemão, que veio com tudo. Alguns botes depois, todos direcionados especificamente para a minha cadela, ele finalmente parou. E apareceu o (ir)responsável pelo cão, que o recolheu. Duas lições aí: primeiro, se você tem um cachorro - e, principalmente se ele for grande e agressivo -, cuide para que ele não consiga escapar da sua casa. Era possível ver que a casa onde aquele Pastor Alemão morava até tinha uma área grande ao fundo, separada por um portão que podia ser fechado. Mas ele estava aberto, e o portão da frente da casa era bem baixo - o suficiente para o cachorro pular por cima e sair avançando nos outros. Faltou eles terem cuidado com isso. E a segunda lição é que, se a minha cadela estivesse sem guia, eu não teria conseguido evitar o ataque, e ela com certeza teria morrido ali mesmo. Aquele cachorro estava em modo de caça, ele estava determinado a pegá-la. Dava para ver que o foco dele estava todo nela, provavelmente teria sido mais difícil evitar o ataque se ele tivesse focado em mim ou na minha mãe. Deu para entender porque é tão importante manter o seu cachorro com guia e sob controle? Estou batendo nessa tecla porque este tema é MUITO importante, e porque é um erro muito comum, que a gente vê na rua o tempo todo, mesmo com gente que gosta muito dos seus cães. Aliás, principalmente com gente que gosta muito dos seus cães, a ponto de esquecer que eles são cachorros e que podem agir como tal a qualquer momento. Então, só para fechar este assunto, vou dar um último exemplo bem rápido. Este, na verdade, não é nem uma situação específica, mas várias situações que já aconteceram comigo repetidas vezes, que é: saio para passear com o meu cachorro, que é um Pit Bull, quando, de repente, surge um Pinscher muito valente querendo avançar nele. Estou falando de Pinscher, mas já aconteceu com Poodle, com Schnauzer, com tudo quanto é cachorro pequeno. Geralmente, são os pequenos que andam soltos “porque são tão bonitinhos”. E daí a ferinha vem, avançar num Pit Bull. Resultado? Bom, nesse caso, não acontece nada, porque o Paxá é extremamente paciente, e levanta a cabeça e conta até 10. O máximo que acontece é o tutor dele, que a essa altura já está branco de susto, desmaiar um pouquinho. Mas você não deve contar que todos os cachorros sejam iguais ao Paxá, alguns podem não gostar de levar desaforo para casa. “Aaaaah, mas se o cachorro é agressivo, ele deveria usar focinheira”. Provavelmente, mas vamos combinar que a gente sabe que a maioria não usa. E que é mais fácil evitar uma briga de cães se cada tutor mantiver o seu cachorro sob controle. Além do mais, se defender não é ser agressivo. E os parques de cães? Bem, os parques de cães são legais, mas sim, podem ser perigosos também. Geralmente, tem uma área gramada grande, às vezes tem uma cerca, e o risco de atropelamento, por exemplo, tende a ser baixo. Mas as brigas de cães acontecem, isso é fato. A pet shop que mencionei que eu tinha ficava bem pertinho do Museu Oscar Niemeyer. E quem é de Curitiba, com certeza sabe que logo atrás deste museu fica o Parcão – o parque de cães mais popular da cidade. É lindo de ver, todos aqueles cachorros brincando juntos. Mas não é raro dar briga ali. Alguns cães saem gravemente feridos, e até morrem! O problema é que nem todos os cães são bem socializados o suficiente para frequentarem este tipo de lugar, e acaba faltando um pouco de bom senso dos seus tutores. Se o seu cão tem algum tipo de agressividade, ou se você tem dificuldade para mantê-lo sob controle, não o leve a um lugar desses. Estou dizendo que ninguém nunca deve levar o seu cachorro a um parque de cães? Não. Mas, se for levar, primeiro certifique-se de que o seu cão seja realmente sociável e que você consegue controlá-lo mesmo se ele estiver num nível alto de excitação. Caso contrário, uma opção melhor pode ser uma creche para cães. As creches para cães têm o detalhe de serem pagas, mas são mais seguras também, por dois motivos: Primeiro, porque geralmente se exige que todos os animais sejam vacinados, desverminados e “despulgados”, o que é fundamental para diminuir a chance de propagação de doenças; e, segundo, porque os cães são separados conforme a sua capacidade de socialização, e são supervisionados por profissionais. Alguns lugares separam também por tamanho. Então, pode ser uma forma de você deixar o seu cão brincar com os amiguinhos de forma mais segura. Para finalizar, um último detalhe sobre coleiras e guias: coleira e guia servem para levar o cachorro para PASSEAR. Não serve para prender o cachorro em casa. Se você tem o hábito de deixar o seu cão preso na coleira em casa, construa uma cerca, um muro, ou um canil, mas não o deixe preso na coleira. Ficar preso assim é extremamente estressante para o cão. E, além do estresse imposto ao animal, existe um risco grande de ele se enroscar, e até se enforcar com a coleira! Estes enforcamentos acontecem principalmente quando o cachorro está muito assustado, por exemplo, por causa de fogos de artifício ou de trovões; mas, mesmo sem estes sons, o enforcamento é um risco que está sempre presente. Treinamento Já sabemos então a importância da coleira e da guia. Mas, se o seu cachorro vai andar sempre de coleira, é preciso adestrá-lo? A princípio, um adestramento formal não é obrigatório. Pode ser muito útil, mas, salvo alguns casos que vou mencionar em breve, você não precisa adestrar o seu cachorro se não quiser. Mas precisa, sim, treiná-lo para algumas situações. Como caminhar corretamente com a coleira, por exemplo. Um cachorro que puxa a guia durante o passeio está com problemas de comportamento, e isso pode ter consequências sérias. Além de afetar a sua posição como líder da matilha, aumenta bastante o risco de você eventualmente perder o controle, e o seu cão sofrer um acidente. Como o adestramento não é o foco deste livro, não entrarei em detalhes em relação às técnicas que podem ser usadas para corrigir este problema. Caso esteja passando por isso com o seu cão, você pode comprar livros, ou assistir a vídeos na internet que ensinam meios de fazer este treinamento. Se tiver dificuldade para pôr em prática, pode ser o caso de chamar um adestrador para te ajudar. Principalmente se o seu cachorro for grande, você precisa ter em mente que você não é um trenó: o cachorro precisa andar ao seu lado, e não te puxando. Nunca. Um outro treinamento que eu diria que é essencial, e que, a princípio, você não precisa de adestrador para fazer, é ensinar o seu cão a permitir que você mexa na comida dele, e que ele não pode pegar o que está na sua mão sem permissão. Este treinamento é bem mais fácil de fazer quando o cachorro é filhote, e também é mais seguro para você, especialmente se o seu cachorro for grande. E por que isso é importante? Porque, imaginemos, por exemplo, que alguém jogou um pedaço de carne no seu quintal. Ou em algum lugar por onde você esteja passando com o seu cão. E essa carne está envenenada. Se o seu cachorro for possessivo com comida, você não conseguirá impedir que ele coma o veneno. Isso independe do tamanho do cão, já que todos eles são muito mais rápidos do que nós, humanos. Então, ele precisa entender que, quando você disser para nãopegar a comida, não é para pegar a comida. E, se pegar? Se pegar, ele vai ter que largar sob comando. Em última instância, você deve ser capaz de colocar a mão dentro da boca do seu cão e tirar a comida lá de dentro sem ser mordido. Mas, antes que você faça isso em casa, é preciso deixar bem claro: eu só faço isso com os MEUS cachorros. Não se deve tentar tirar comida da boca de cães desconhecidos, caso se pretenda continuar com todos os dedos nas mãos. Idealmente, os cães devem ser treinados desde filhotes para aceitarem isso. Se o seu cachorro já for adulto, e fica agressivo quando alguém se aproxima da comida dele, você precisa trabalhar nisso. Não é bonitinho, nem para cães pequenos. Isso faz mal para o cachorro, podendo deixa-lo neurótico. A hora da refeição, ao invés de ser relaxante para ele, se torna um momento de estresse e tensão. Se ele for um cachorro grande, existe ainda o risco de que ele coma tudo muito rapidamente e sofra uma torção gástrica (falaremos mais sobre o tema no Capítulo 7). Além disso, ele pode morder alguém, ou ingerir um veneno que você já sabia que era veneno, mas não conseguiu impedi-lo porque ele tentou te morder. Caso esteja passando por este problema com o seu cão, você pode procurar a solução em livros sobre adestramento, ou chamar um adestrador. Por uma questão de segurança, um adestrador ou um especialista em comportamento canino podem ser mais indicados para corrigir o problema em cães adultos. Para filhotes, é bem mais simples. Por fim, existe um tipo de adestramento que pode ser fundamental em algumas situações: é o treinamento anti-envenenamento. E, para esse, você vai definitivamente precisar de um profissional. Não recomendo, em hipótese alguma, que uma pessoa leiga tente fazer isso sozinha. Este tipo de adestramento é muito sério, e deve ser muito bem feito. O que é o treinamento anti-envenenamento? É, obviamente, um treinamento que é feito para evitar que o cachorro seja envenenado. Basicamente, o cão precisa aprender a recusar todo tipo de comida que seja oferecida a ele, que não seja o “alimento certo”, e servido da forma correta. Exatamente qual será o “alimento certo” ou o jeito certo de servir, pode variar de um caso para o outro. O cachorro pode aprender, por exemplo, a só comer a comida que esteja no seu pote. E em nenhum outro lugar. Talvez ele só possa aceitar ração. Existem variações. Mas todo cachorro precisa disso? É claro que não. Você vai precisar treinar o seu cachorro para isso, por exemplo, se você sabe que existe um risco maior de alguém querer envenená-lo. Por exemplo, por causa de brigas entre vizinhos. Cães de guarda também precisam desse tipo de treinamento, para não serem enganados por ladrões. E também, os cachorros de algumas raças. Os Pit Bulls, por exemplo, têm uma fama muito ruim, e acabam sendo vítimas frequentes de envenenamento. No meu consultório, de longe, os Pit Bulls são campeões em envenenamentos. Já mencionei que um dos meus cães, o Paxá, é um Pit Bull. Então, talvez você queira me perguntar: “o Paxá tem treinamento anti-envenenamento? ” Não. Já pensei em fazer, mas não fiz. No caso do Paxá, que não é um cão de guarda, eu tomo o cuidado de não deixá-lo muito visível para as pessoas que passam na rua. Você pode fazer isso se tiver uma área fechada nos fundos da sua casa, ou colocando um muro. Se você conseguir manter o seu Pit Bull longe da vista de quem está andando na rua, com certeza vai conseguir diminuir muito as chances de que ele seja envenenado. Estou falando sobre Pit Bulls porque são a “raça da moda”, mas preste atenção, pois qualquer vira-lata que tenha cabeça grande passa facilmente por Pit Bull para quem não entende de cachorro - então, se o seu cão puder de alguma forma ser confundido com um Pit, é bom tomar cuidado. Outras raças grandes, ou ditas “agressivas” (não que necessariamente sejam, mas leve em conta a visão geral das pessoas), também precisam de um cuidado extra. Seja com o treinamento, seja com um muro que os deixem menos visíveis. Alimentação Independentemente de você fazer ou não o treino anti-envenenamento no seu cachorro, há também alguns cuidados que você deve tomar com a alimentação do seu cão. A primeira, e mais óbvia delas, é dar um alimento de qualidade. E o que é um alimento de qualidade? Pode ser uma boa ração, ou uma dieta caseira feita sob a orientação do seu veterinário. Existem inúmeras marcas de ração, e não é o nosso foco discutir aqui cada uma delas. As rações chamadas “Premium” e “Super Premium” são as melhores – e este tipo de ração você só vai encontrar para vender em pet shops e em boas casas de produtos agropecuários, não tem em supermercados. Elas têm alto nível de proteínas de qualidade, deixam a pelagem mais bonita, as fezes mais firmes e com menos odor, e mantêm o cão com boa saúde de forma geral. Mas, se você não tiver dinheiro para comprar uma ração dessas, pode comprar as de supermercado também - a maioria delas tem uma qualidade razoável. Mas, por favor, não compre “alimento para cães e gatos” vendido a granel, como já encontrei certa vez numa agropecuária. Aliás: não compre ração vendida a granel. Isso é, na melhor das hipóteses, um chamariz de baratas e ratos. Além disso, qualquer vitamina que a ração possa ter, acaba estragando só pelo contato com o ar. E, como se não bastasse, ao entrar em contato com a umidade normal do ambiente, a ração pode fermentar. Seja como for, a ração vendida a granel tem um risco alto de contaminação, e, portanto, de deixar o seu cão doente. O que pode ser considerado aceitável nesse sentido são aqueles estabelecimentos que fracionam a ração - com a devida higiene, é claro - em pacotes menores para serem vendidos. O problema disso é que, se você não conhecer bem a ração que está comprando, pode acabar levando gato por lebre. Mas se for uma loja de confiança, que você saiba que fraciona as rações com todos os cuidados de higiene, pode ser uma forma de comprar ração um pouco mais barata. O ideal é sempre comprar o pacote fechado, mas, como isso pode ficar um pouco caro para algumas pessoas, a ração fracionada é uma alternativa razoável. Mas, mesmo comprando o pacote fechado, existem riscos, que são os mesmos da ração comprada a granel. Como assim? Bom, você vai comprar o pacote fechado, mas eventualmente irá abri-lo para poder alimentar o seu cachorro, certo? Então, você precisa cuidar para que o pacote de ração aberto na sua casa não vire também um chamariz de ratos e baratas. E o primeiro passo para isso é comprar um pacote de tamanho compatível com o do seu cachorro. Sim, o pacote de 15Kg é proporcionalmente mais barato do que o de 1Kg ou o de 3Kg, mas calcule quanto tempo o seu cachorro vai levar para comer aquilo tudo. Comprar um pacote de 15Kg de ração para um Pinscher é pedir para a ração estragar antes de o cachorro conseguir comer tudo. Uma duração boa é de mais ou menos um mês. Um cão de grande porte (em torno de 30 Kg) consome em média 15Kg de ração por mês, se ela for de qualidade. Para a ração não estragar e não ficar exposta à contaminação nesse tempo, você precisa acondicioná-la do jeito certo - ou seja, num recipiente bem fechado e protegido, sem tomar sol ou umidade. A melhor coisa são aquelas caixas do tipo Tupperware, que ficam bem fechadas e protegem bem. Para cães de grande porte, você pode usar caixas organizadoras de 50 litros; para cachorros menores logicamente você pode usar caixas ou potes menores. Ocasionalmente, alguns fabricantes de ração dão essas caixas como brinde - e geralmente elas são muito boas e bonitas. O que você nãopode fazer é deixar a ração no pacote aberto. Nem fechado com grampo de roupa. Usar lata de lixo também não é legal porque não veda bem, e baratas e camundongos conseguem passar pelas frestas. Alguns leitores talvez estejam pensando – “Ok, ratos e baratas são meio nojentos mesmo, mas se isso acontecer, vai ter algum problema para o meu cachorro? “ Vai, sim. Ele pode pegar todo tipo de infecção intestinal, e o pior: leptospirose. Vale lembrar que leptospirose não é doença só de cachorro, passa para a gente também, e pode matar. Tenha em mente que, se tiver rato comendo a ração do seu cachorro, ele também deve estar bebendo a água dele, e fazendo ninho na sua despensa. É risco para a família inteira. Já esclarecemos então que a ração deve ficar guardada dentro de uma caixa bem fechada. Mas, e a ração que for servida para o cachorro? Não atrai ratos também? Se ficar ali disponível o tempo todo, atrai mesmo. E é por isso que você precisa aprender a calcular exatamente quanta ração o seu cachorro come, e definir horários para as refeições dele. Quando digo “calcular a ração”, não estou dizendo que você precisa saber exatamente quantos gramas ele come, mas tenha uma forma de medir - você pode usar um copo de requeijão como parâmetro, por exemplo. Quanto ele come cada vez? Meio copo? Um copo? Dois copos? Coloque sempre aquela quantidade, sempre nos mesmos horários, e, se sobrar ração depois de uns dez minutos, tire o resto e jogue fora. “Como assim, jogar ração assim no lixo? Mesmo se o cachorro não comeu? ” Sim, porque essa ração já ficou exposta à contaminação e está fermentando. Se ele for comer mais tarde, pode ter dor de barriga. E, se o seu cachorro estiver saudável, não se preocupe se ele acabar pulando uma refeição ou outra por conta disso, principalmente se ele não estiver acostumado a ter horários para se alimentar. Ele aprenderá rapidamente a nova rotina, e com certeza na refeição seguinte, ele vai comer. O ideal é que nunca sobre ração no prato. Se você não sabe ainda quanta ração dar, coloque a quantidade que está acostumado a pôr, ou a indicada na embalagem, e fique observando. Se sobrou ração, na próxima refeição, coloque menos. Se ele comeu tudo e continuou cheirando o pote, procurando por mais, coloque um pouco mais. Se ele comeu tudo e saiu tranquilo, então você deve ter acertado a dose. Continue dando essa quantidade. Esse cuidado simples com a ração ajuda a prevenir a obesidade, evita que o cachorro tenha infecções intestinais, mantém os ratos e baratas longe, e ainda regula o trânsito intestinal do seu cão. A dieta caseira também é uma opção muito boa. Mas é fundamental que essa dieta caseira tenha sido prescrita pelo veterinário que atende o seu cão, ou por um nutricionista veterinário. Isso porque dar uma dieta caseira para um cachorro não é sinônimo de dar restos de comida, muito pelo contrário: se você quiser dar comida “de verdade” para o seu cão, terá que cozinhar para ele. As necessidades nutricionais dos cachorros são muito diferentes das nossas, e, por isso, mesmo que a sua família tenha uma alimentação saudável, isso não significa que a comida que vocês comem irá nutrir bem o seu cachorro. Fora isso, alguns cachorros não podem comer determinados alimentos por conta de eventuais doenças que eles possam ter. Nestes casos, a dieta vai ter que ser adaptada. Além do fato que a dieta do seu cachorro deve ser prescrita por um profissional, os cuidados de higiene devem ser os mesmos que você tem com a sua comida, ou seja: use sempre alimentos frescos, limpos, e lave as mãos antes de começar a preparar. Quando o alimento estiver pronto, você deve guardar na geladeira ou no congelador. Uma ideia boa para poupar tempo é preparar uma quantidade grande de alimento e separar a em porções individuais, congelando tudo. Basta então aquecer na hora de servir. Para quem é adepto da Alimentação Natural, que é baseada em alimentos crus, os cuidados com a escolha dos ingredientes e com a higiene devem ser redobrados. Não compre carnes de fontes duvidosas, e que não tenham o selo de inspeção federal, estadual ou municipal. Uma carne sem inspeção tem um alto risco de transmissão de doenças, tanto para você quanto para o seu cachorro - por isso, não compre. E quais são os melhores horários para alimentar o seu cachorro? Os melhores horários serão aqueles que ficarem bons para você, que se encaixem na sua rotina sem que seja necessário ficar adiando ou adiantando com muita frequência. E, pelo menos, duas vezes ao dia. Para filhotes, pelo menos 3 vezes. Alimentar o cão uma vez ao dia dificulta a digestão do cachorro; e, se ele for um cão de “tórax profundo”, como o Fila, o Labrador, e outros cães de grande porte, isso pode custar a vida dele. Quem já assistiu ao filme “Marley & Eu” certamente se recorda do momento em que o Marley morre. Ele morreu por conta de um problema bem comum entre cachorros grandes, que é a torção gástrica. Ao comer muito rapidamente, o cachorro engole também muito ar, o estômago se dilata, e pode girar ao redor de si mesmo. É uma condição extremamente dolorosa, e que leva à morte rapidamente. Alguns casos podem ser resolvidos com cirurgia, como fizeram com o próprio Marley, quando ele teve o problema pela primeira vez. Mas, muitas vezes, o cão pode falecer antes mesmo de chegar ao veterinário. Ou, como aconteceu com o labrador do filme, a torção gástrica pode debilitar tanto o cão que, mesmo que ele chegue vivo ao consultório veterinário, pode não haver mais nada a ser feito. Comer uma vez ao dia não é a única causa possível para o problema, não tenho a informação de que tenha sido este o caso do Marley. Mas o fato é que esta é uma das causas mais comuns. O cão chega ao alimento tão faminto que come rápido demais - e o resultado é devastador. Agora, se você já alimenta o seu cachorro duas ou três vezes ao dia, e ele mesmo assim é muito afoito, existem alguns comedouros especiais, que têm obstáculos ou bolinhas dentro, e que irão obrigá-lo a comer mais devagar. Pode ser bem útil nesses casos. Outra dica é evitar exercitar muito o cachorro uma hora antes ou depois da refeição, para diminuir a chance de torção gástrica. Por fim, um pequeno adendo: algumas doenças podem fazer com que o cão sinta muito mais fome do que o normal. Se você acredita que o seu cachorro é muito “comilão”, e está sempre desesperado para se alimentar, fale sobre isso com o seu veterinário. Alimentos Tóxicos Dando continuidade ao tema da alimentação, a gente sabe que a maioria das pessoas costuma dar ração para os seus cachorros. Mas a maioria das pessoas também gosta de fazer um “agradinho” de vez em quando, dar um petisquinho, certo? Bom, não é proibido dar alguma coisinha ou outra para o cachorro de vez em quando, mas você precisa tomar o cuidado de não dar nada que seja tóxico para ele. Combinado? Para facilitar a sua “triagem” de alimentos e petiscos, preparei a lista a seguir com alguns dos principais alimentos proibidos para cachorros. Esta lista não é exaustiva, existem outros alimentos além destes que também pode fazer mal aos cães. Se estiver na dúvida se pode dar algo para o seu cachorro comer ou não, pergunte ao seu veterinário. • Alho (é seguro em pequenas quantidades) • Balas e chicletes dietéticos que contenham xilitol (adoçante) • Bebidas alcoólicas • Café • Carambola • Caroço de damasco, caqui ou de pêssego • Cebola (risco de anemia hemolítica) • Chá preto • Chocolate (risco de convulsões e arritmias cardíacas) • Folhas de ruibarbo e de tomate • Gorduras das carnes, como sobras de churrasco,por exemplo (risco de pancreatite) • Lúpulo • Macadâmia • Massa crua de pão ou bolo • Ossos de aves cozidos (risco de lesões e hemorragias intestinais) • Sementes de maçã e pêra • Uvas e passas (risco de insuficiência renal aguda) Plantas tóxicas Além de certos alimentos, existem também algumas plantas que podem fazer muito mal ao seu cachorro. A maioria delas são plantas ornamentais. Algumas são tóxicas por inteiro, e outras têm apenas algumas partes que são tóxicas. O copo de leite é um exemplo bem comum de planta ornamental que pode ser tóxica para cães. Veja abaixo a seguir uma lista de plantas tóxicas bem comuns, e verifique se tem alguma delas na sua casa. Se tiver, você pode tomar o cuidado de mantê-la num vaso longe do alcance do seu cão, pode colocar uma cerca ao redor da planta, se for no quintal, ou pode simplesmente retirar a planta. • Arnica (Arnica montana) • Arruda (Ruta graveolens) • Azaléia (Rhododendron simsii) • Babosa (Aloe vera) • Beladona (Atropa belladona) • Buxinho (Buxus sempervires) • Copo de leite (Zantedeschia aethiopica Spreng) • Coroa de Cristo (Euphorbia milii) • Espada de São Jorge (Sansevieria trifasciata) • Espirradeira ou Oleandro (Nerium oleander) • Hera (Hedera macrophylla) • Hibisco (Hibiscus spp.) • Hortênsia (Hydrangea macrophylla) • Ficus (Ficus spp.) • Jasmin manga (Plumeria rubra) • Lírio (Lirium spp.) • Maconha (Cannabis sativa) • Mamona (Ricinus communis) • Narcisos (Narcissus spp.) • Palmeira sagu (Cycas revoluta) • Samambaias (todas as espécies) Objetos Cortantes, Pontiagudos, e Corpo Estranho Linear Mas será que os únicos riscos na nossa casa são as plantas tóxicas e alguns tipos de alimentos? Na verdade, não. Principalmente para os filhotes e aqueles cachorros mais “enérgicos”, é preciso tomar ainda mais cuidado com as coisas que temos. Que coisas? Todas elas. Um cachorro, principalmente filhote, vai colocar virtualmente tudo na boca. A maioria dos adultos - com algumas exceções -, perde essa mania, mas, com filhotes, esse risco é constante. Eles comem tênis, brinquedos, meias, e qualquer outra coisa que esteja ao seu alcance. Isso pode incluir também fios elétricos, agulhas, enfeites, inseticidas, produtos de limpeza, e outras coisas bem perigosas. O cuidado que você precisa tomar é de manter os seus pertences longe do alcance do cão. E dar algo que ele possa mastigar, como brinquedos próprios para cães, e ossos. Exercitar o cão também diminui bastante este comportamento, pois ele fica cansado e não precisa descontar a frustração e energia acumulada nos seus sapatos. Procure esconder os fios elétricos e deixá- los fora do alcance do seu cão, usar calhas, ou qualquer outra forma de impedir o seu acesso. Se isso não for possível em certas partes da casa, então restrinja o acesso do cão a esses lugares pelo menos quando você estiver fora e não puder supervisioná-lo. Para fazer isso, você pode usar portõezinhos de segurança, ou, simplesmente, fechar a porta. É como ter uma criança: se algum lugar da casa oferecer um risco maior, então não podemos deixar que ela vá lá desacompanhada. E, tal como devemos fazer também com crianças, tome cuidado com panelas e objetos quentes na cozinha. Se houver uma panela quente em cima do fogão, certifique-se de que o cabo esteja virado para dentro. Assim, o cão não conseguirá derrubá-la se pular ou tentar alcançar com o focinho. Em relação às lixeiras, fique atento principalmente quando for jogar fora restos de frango. Os cachorros sentem uma atração fatal por frango, é quase irresistível para eles. E, dada a oportunidade, eles irão mexer lá para recuperar essa preciosidade que você descartou. A não ser que já esteja podre, o frango em si até não é um grande problema, mas os ossinhos, sim. Ossos de frango assados ou cozidos são extremamente perigosos! Quando estes ossos se quebram, eles o fazem em forma de bisel - ou seja, de agulha. E, uma vez engolidos, passam literalmente rasgando o intestino do animal. O sinal de que algo deu errado é quando encontramos o cão pálido e debilitado, e uma trilha de sangue pela casa. Hora de correr para o veterinário! O lixo pode conter ainda outras ameaças, tais como alimentos estragados ou contaminados, restos de produtos de limpeza, vestígios de inseticidas, e objetos que podem causar engasgos ou ferimentos. Procure manter a sua lixeira sempre fechada e fora do alcance do seu cão, para que a busca dele por “iguarias” não acabe se transformando em uma tragédia. Mesmo aqueles objetos mais comuns que os cachorros comem quando são filhotes podem também causar grandes estragos. As meias são os principais exemplos disso. Na verdade, meias, tecidos, fios, e outros objetos mais alongados, podem se transformar no chamado “corpo estranho linear”. O corpo estranho linear é alguma coisa - linear, ou alongada, como o nome já diz -, que se aloja no intestino do cachorro, acompanhando parte do seu trajeto. O grande problema é que ele faz então com que o intestino comece a se enrugar, assim como acontece com bolsas que são fechadas com cordões. Além de impedir o trânsito intestinal, dependendo da forma como ele ficou, ele pode impedir inclusive a circulação sanguínea. Isso pode acontecer tanto no meio do trato digestivo, como na hora em que o cão for defecar. Por conta disso, se você perceber que o seu cão está tentando defecar, mas há um pedaço de tecido ou um cordão que está com dificuldade de sair, não puxe. Se puxar, corre o risco de lesar seriamente o intestino dele. No capítulo sobre problemas digestivos, voltaremos a este tópico para que você saiba o que fazer numa situação dessas. Cuidados no Banho e Tosa e Consultório Veterinário Um outro ponto crucial na prevenção de acidentes com cães é na hora do banho. E isso vale especialmente para o banho e tosa! As dicas a seguir são fundamentais para tosadores e banhistas, assim como para aqueles tutores que levam os seus cães a pet shops para tomar banho. Em primeiro lugar, as gaiolas. A maioria das pet shops com banho e tosa usa gaiolas para colocar os cachorros. Tudo bem, nem sempre tem como evitar. Só que é importante que as gaiolas estejam limpas e desinfetadas, tenham tamanhos apropriados para cada tipo de cachorro, e, principalmente, que as grades tenham um espaçamento compatível com o seu tamanho. E que estejam inteiras, para não perfurar ou cortar nenhum bicho. Os cachorros pequenos podem prender, e até quebrar as patas, se o espaço entre as grades for inadequado para eles. E, se o espaçamento for grande demais, podem até escapar! Então, antes de colocar um cachorro, principalmente pequeno, dentro de uma gaiola, verifique se por acaso não tem perigo de ele prender uma patinha ali. Se tiver, forre com jornais, com um cobertor, ou tire a grade e deixe o cachorro diretamente em cima da bandeja, se ela for forte o suficiente para suportar o peso dele. Isso evita estresse para o animal, e uma conversa constrangedora entre o tosador ou o banhista e o tutor, na hora de devolver um cão que foi ferido pela gaiola. Por falar em tamanho de grades, um item que não pode faltar em qualquer pet shop com banho e tosa é um portãozinho de segurança para evitar fugas. Tem cães que pulam da mesa, que fogem da gaiola, que ficam estressados demais em gaiolas, enfim. que atire a primeira pedra o tosador que nunca teve um cachorro circulando na sua área de banho e tosa. Então, um o portãozinho de segurança é um investimento barato, necessário, e que poupa a todos de vários estresses e constrangimentos. Como mencionei, existem cães que sãomuito pequenos mesmo, a ponto de conseguirem escapar de gaiolas. Se for o caso, tenha pelo menos uma gaiola com tela na sua pet shop, para evitar que eles fujam. Para um cãozinho que conseguiu passar pelas grades da gaiola, passar pelo portão de segurança vai ser moleza. Na hora do banho, cuidado com a temperatura. Procure usar uma água morna, que seria agradável para um banho “de humanos”. Não corra o risco de queimar o seu cachorro, ou o do seu cliente, com água muito quente, ou pior: causar uma hipotermia porque a água estava gelada! Além do risco de realmente causar danos à integridade física do cão, se a água estiver muito fria ou muito quente, pode ter certeza de que ele irá passar o banho todo se debatendo. Você pode levar uma mordida, e o cachorro pode ficar com trauma de banho. Principalmente se você perder a paciência com ele. Paciência é um pré-requisito fundamental para quem quer trabalhar com cães. Pessoas que se irritam com facilidade com cães que ficam muito agitados ou que tentam escapar do banho, não deveriam trabalhar com banho e tosa. É como trabalhar com crianças pequenas: elas podem, e ocasionalmente irão, te tirar do sério. E é preciso ter paciência, toda a paciência do mundo. Se uma professora de pré-escola bate em uma criança, logo essa pessoa não deveria estar trabalhando com crianças. Da mesma forma, quem trabalha com cães e decide agredi-los fisicamente para descontar a sua frustração, deve definitivamente repensar a sua profissão. Cães no banho e tosa irão “testar” os seus tosadores e banhistas. Alguns cachorros gostam de banho, mas outros, não. E bater num cão que não gosta de banho não vai fazer com que ele passe a gostar, posso te prometer. Muito pelo contrário: se ele apanhar uma vez, na próxima - se é que ele vai voltar -, ele estará muito mais nervoso, e muito mais propenso a querer lutar, ou até mesmo, morder. À exceção de alguns “profissionais” que batem em cães, a pior coisa que pode acontecer no banho e tosa é a chamada “estufa”. Os tosadores e banhistas certamente já conhecem o termo. Para quem não conhece, vou explicar resumidamente. Como secar os cachorros pode ser algo muito demorado, e a rotina nas pet shops às vezes é bem corrida, alguns tosadores – felizmente, cada vez menos - colocam os cães dentro de um ambiente fechado e sem ventilação, como uma gaiola toda coberta com toalhas. E em seguida, ligam um secador lá dentro, para automatizar o processo de secagem. Geralmente, fazem isso mais com animais de pelo curto, que não precisam ser escovados ou desembolados. Isso é praticamente uma máquina de matar cachorros. Se algum tosador ou banhista já usou a técnica e não matou nenhum ainda, foi por sorte. Mas esta prática precisa ser banida. Já falamos sobre a intermação durante os passeios, ou dentro de carros fechados em dias quentes. Pois esta estufa é uma das melhores formas de se causar intermação num cachorro. Alguns tosadores/banhistas chegam a argumentar que, a cada X minutos, “dão uma olhadinha” para ver se está tudo bem. A verdade é que eles “dão uma olhadinha” para ver se o cachorro está seco. Sem dúvida, o cão estará ofegante, já que fica muito quente dentro da “estufa”. Para que ele entre em intermação, bastam mais alguns minutos. Caso seja preciso perder mais tempo para secar um cachorro ou outro, então perca mais tempo. Certamente os clientes preferem esperar um pouquinho a mais para poderem pegar de volta os seus cachorros vivos. Devo ressaltar que estou falando sobre as estufas improvisadas, que muitos tosadores e banhistas usam. As máquinas de secar cachorro são diferentes, e a maioria delas são seguras. As máquinas de secar usam vento com pressão para secar o animal, e este vento pode ou não ser aquecido. O melhor é que não seja aquecido, principalmente em lugares quentes; mas, se for, é importante ter um termostato. A gaiola deve ficar num lugar ventilado, nunca fechada com toalhas, e o uso deve ser supervisionado o tempo todo. Pode eventualmente ser uma opção para os cachorros que não permitem muita manipulação e para gatos. Por outro lado, se a secadora usar aquecimento, ela deve ser evitada para cães braquicefálicos (de focinho curto) ou aqueles que tenham uma tendência maior à intermação, por conta de doenças. Uma forma segura de secar os cães, mas que é um pouco mais demorada, é a secagem tradicional – com o uso do secador e do assoprador, mantendo o animal em cima da mesa de tosa. Enquanto o assoprador pode ser aproximado da pele sem maiores problemas, o secador deve ser mantido a uma distância segura e movimentado frequentemente, para que o calor não se concentre em uma única área. Para evitar queimaduras, mantenha a sua mão sempre no foco do secador, de modo que possa sentir a temperatura. Se estiver quente demais para a sua mão, afaste o secador e movimente-o para outra parte do corpo. Enquanto o cão é mantido sobre a mesa de tosa para a secagem/ escovação, ele não deve ser deixado sozinho ou sem supervisão em momento algum. Ele pode decidir pular da mesa ou cair dela, se estiver distraído. Ao cair, ele pode fraturar membros e até mesmo sofrer hemorragias internas. A guia da mesa de tosa não deve ser usada como forma de contenção para manter o cão sobre a mesa, mas apenas como auxílio no momento de posicioná-lo para a tosa. Se a guia for usada sem supervisão, uma possível queda fica ainda mais grave, pois há risco de estrangulamento. Use a guia com cautela, e mantenha-se o tempo todo próximo da mesa quando houver um cão sobre ela. Para não precisar se afastar da mesa, use uma mesa auxiliar ao seu lado para deixar todos os instrumentos necessários ao seu alcance. Algumas mesas de tosa já vêm com gaveteiros e/ou bandejas com essa finalidade. A higiene do banho e tosa é mais um quesito importante para manter a segurança e o bem-estar de humanos e cães. Um ambiente com alta concentração de animais e constante circulação é extremamente propício à disseminação de doenças e parasitas, especialmente se não forem tomados os devidos cuidados de limpeza e desinfecção. Todas as gaiolas, banheiras, mesas e superfícies devem ser limpas e desinfetadas após cada uso. As toalhas devem ser lavadas sempre com agentes desinfetantes (como água sanitária), sendo que deve haver no mínimo uma toalha limpa disponível para cada animal (não raro, um cão acaba usando mais de uma toalha). Os instrumentos também devem ser higienizados entre um uso e outro, para que não haja transmissão de parasitas e infecções entre os cães. Por fim, é preciso haver um cuidado especial também ao permitir a entrada de alguns animais em estabelecimentos de banho e tosa. Filhotes não vacinados, a princípio, não devem frequentar estes locais. É uma medida prudente apenas permitir no banho e tosa aqueles filhotes que já tenham tomado todas as vacinas básicas, para que eles não adoeçam. Devido à grande quantidade de cães circulando nestes ambientes, existe uma boa chance de que um filhote possa ser contaminado com alguma doença durante a sua estadia. No outro extremo, cães doentes ou recém-resgatados podem transmitir as suas doenças e parasitas aos demais. Se inevitável for, tanto filhotes não vacinados quanto cães doentes ou recém-resgatados apenas devem ser admitidos em estabelecimentos de banho e tosa se os seus tutores ou protetores puderem aguardar o banho para poderem levá-los para casa assim que ficarem prontos. Todos os equipamentos, instrumentos, e superfícies que entrarem em contato com um animal doente devem ser higienizados e desinfetados imediatamente. Estas são medidas que visam à preservação da saúde de todos os cães que frequentam o local.Vacinação e check-ups regulares Pensando na saúde dos animais, é recomendável que todo cachorro adulto, normal e saudável, seja levado ao consultório veterinário pelo menos uma vez ao ano. Isso considerando que ele não fique doente, é claro. Nessa consulta de rotina, o veterinário vai examinar o cão, pesar, e verificar se ele está realmente saudável. Normalmente, é também nessa consulta anual que são feitas as vacinas. Um cachorro idoso, idealmente, deve fazer um check-up semestral, porque os velhinhos podem ter doenças crônicas que devem ser detectadas bem no princípio para poderem ser tratadas com mais sucesso. As vacinas, no caso dos idosos, normalmente continuam sendo anuais. Poucas vacinas são semestrais. A da leptospirose, por exemplo, é uma delas. Mas você só deve vacinar o seu cão semestralmente contra a leptospirose se houver um alto risco de que ele pegue essa doença, justificando assim a vacinação. Se você morar no 15º andar, provavelmente não será necessário. Alguns leitores podem dizer: “não é necessário, mas é bom, né? ” Bom, há controvérsias. As vacinas são muito importantes, e você sem dúvida deve manter os seus animais vacinados. Mas vacinação em excesso também não é boa. Vacina também tem feito adverso. Inclusive, a vacina da leptospirose é uma das que mais causa reações adversas - e até por isso a vacinação semestral contra a leptospirose só deve ser feita para cães que vivem em áreas de risco. E mesmo a vacinação anual para a maioria das doenças já vem sendo questionada. Hoje em dia muito se fala sobre o fenômeno da supervacinação, que tem sido relacionada a diversos problemas autoimunes, alérgicos, e até mesmo à falência renal. Este assunto é muito extenso para discutirmos em um livro sobre primeiros socorros, cujo foco não é especificamente a vacinação. No meu livro “Meu Cão Velhinho – Um Guia Para Tutores e Amigos”, que deverá ser publicado em breve (verifique se já foi lançado no momento em que você está lendo esse livro), este tema é discutido com um pouco mais de profundidade. Por ser algo tão polêmico, fiz questão de incluir um capítulo inteiro com tudo o que os tutores precisam saber sobre vacinação para tomarem decisões bem informadas, seja na hora de vacinar filhotes, seja na hora de vacinar cães adultos ou idosos. Mas, para mantermos o foco atual, que é aprender a prevenir e também a abordar emergências que possam acontecer com os nossos cães, o que posso dizer por hora, é: vacine. Mas também questione. Sempre pergunte ao seu veterinário porque está dando esta ou aquela vacina, e procure realmente compreender, ao invés de simplesmente dar ao seu cão toda nova vacina que aparecer no mercado. Já existem exames de sangue que podem ser feitos para saber se o cachorro ainda tem imunidade para algumas doenças ou não. Conforme o resultado deste exame - se o seu cão ainda for imune, no caso -, pode ser totalmente plausível adiar uma dose de vacina com muita segurança. Não é uma medida para economizar dinheiro, já que os preços da vacina e do exame de sangue são bem parecidos. É uma medida para evitar a vacinação excessiva. Agora, já que estamos falando sobre vacinar ou não, e sobre a supervacinação, eu preciso fazer um alerta. Já ouvi muitas pessoas dizendo que “a raiva já foi erradicada do Brasil”, mas não foi. E não está nem perto de ser erradicada. A maioria dos casos de raiva é transmitida por morcegos, mas existem casos recentes de cães e gatos com raiva. Não muito tempo atrás, um menino faleceu no Nordeste por causa de raiva transmitida por cachorro. A raiva não tem cura, é uma doença grave e fatal tanto para humanos quanto para os animais, e está disseminada no país inteiro. Não é só em determinadas regiões, ou em áreas rurais, que existem morcegos: eles também estão nas grandes cidades, inclusive do Sul e do Sudeste. O que acontece é que a maioria das pessoas não os vê, mas eles estão lá. É importante saber também que não são só os morcegos hematófagos - aqueles que chupam sangue - que transmitem raiva. Qualquer tipo de morcego pode transmitir. Poucos anos atrás, houve um caso de um gato que morava num apartamento em São Paulo - capital -, e que foi contaminado por um morcego frugívoro (que se alimenta primariamente de frutas)! Se um morcego invade uma casa ou apartamento, tanto cães quanto gatos podem decidir caçá-lo. Ocorre uma briga entre os animais, e o resultado acaba sendo a contaminação de um animal de companhia pelo vírus da raiva. Então, independentemente de você viver na cidade ou no campo, em casa ou em apartamento: mantenha as vacinas antirrábicas do seu cachorro sempre em dia. Para finalizar o capítulo de prevenção de acidentes, não podemos deixar de mencionar a castração. Mas castrar um cachorro pode ajudar a prevenir acidentes e emergências? Sim. A castração dos machos diminui a agressividade ligada ao sexo e a dominância. Isso não quer dizer que um cachorro agressivo vai se tornar dócil só porque foi castrado, mas que ele vai deixar de disputar fêmeas com outros machos, inclusive os humanos. E isso vai diminuir brigas com outros cachorros, dentro ou fora de casa, principalmente nas ocasiões em que houver uma fêmea no cio por perto. Diminui também casos de abandono: Os comportamentos de cães que se agarram às pernas das pessoas fazendo atos libidinosos, ou que pulam no colo das tutoras sem deixar que outros (humanos ou cães) se aproximem dela causam incômodo e irritação em muita gente. Em alguns casos, o suficiente para que a pessoa decida abandonar o seu animal. Na realidade, estes comportamentos são dominantes, e servem para mostrar que quem manda é o cão. Não é que o cachorro que está se agarrando às pernas das pessoas seja tarado: ele é dominante. O que ele precisa, na verdade, é de um líder. Mas a castração ajuda a melhorar, porque diminui a dominância. Com isso, pode ficar um pouco mais fácil de corrigir esses problemas de agressividade ligada ao sexo e de se agarrar às pernas das pessoas. No caso das fêmeas, a castração previne tumores de mama, principalmente quando feita na cadela ainda jovem, e a piometra. Piometra é a infecção do útero, algo extremamente perigoso. A única forma realmente eficaz de se tratar uma piometra é com uma cirurgia de emergência, feita no momento em que for constatada. É uma cirurgia de alto risco e de alto custo, e a cadela pode morrer por causa da infecção ou por complicações tardias da piometra, como a insuficiência renal. Por ser um problema razoavelmente comum, entendo que é melhor castrar uma cadela enquanto ela é jovem e está apta a ser operada com segurança, do que esperar até o momento em que ela esteja completamente debilitada, e com uma infecção grave, para fazer uma cirurgia às pressas. Então, vem a pergunta: “mas não é bom tirar pelo menos uma ninhadinha?” Não. Isso não traz qualquer benefício à cadela. E nem para ninguém. Já existem cães abandonados o suficiente pelo mundo, sem que precisemos gerar ainda mais filhotes. Muita gente quer uma cria do seu cachorro porque gosta muito dele, e tem a impressão de que, desta forma, irá prolongar a sua existência. Como se um cão e o seu filhote fossem o mesmo indivíduo. Mas é preciso entender que o filhote do seu cachorro não vai ser o mesmo cachorro que você já tem; assim como você não é igual ao seu pai, mãe, ou irmãos. Nem mesmo um clone do seu cachorro seria exatamente o seu cachorro, tal como gêmeos idênticos são indivíduos diferentes. Mesmo com genética idêntica, gêmeos idênticos não são pessoas idênticas. Um filhote do seu cachorro será, portanto, um outro cachorro.Sendo assim, para quem quer ampliar a família canina, o melhor a se fazer é adotar. Se você fizer questão de acrescentar à sua família um novo cachorro da mesma raça que já tem em casa, então procure um para adotar, ou compre. Mas, se for comprar, por favor, seja criterioso ao escolher a origem do seu novo cão. Não compre de “cachorreiros”, ou de criações de fundo de quintal. Existem alguns poucos criadores idôneos, e estes criadores se preocupam com o bem- estar dos seus cães, com a alimentação deles, com a seleção genética, e também em oferecer um atendimento veterinário adequado para os seus animais. E isso tudo custa caro. Não necessariamente um filhote caro vem de um bom criador; mas, se for barato demais, desconfie. E, independente do preço, faça questão de ir pessoalmente conhecer o lugar onde os animais ficam, conheça a mãe do filhote que você pretende adquirir, e todos os cachorros do criador, para saber se você está realmente de acordo com a forma como aqueles animais são mantidos. O mundo é cheio de verdadeiras fábricas de filhotes! Se, para você, for muito caro comprar um filhote de um criador idôneo, então não compre. O que não podemos fazer é financiar o crime e toda uma indústria baseada nos maus tratos aos animais – ainda mais sob o pretexto de “amar os cães”, ou amar determinada raça! Uma conclusão importante que precisamos tirar é que é bom olharmos um pouquinho para o resto do mundo. O nosso tema é a prevenção e abordagem de emergências com cães, e é lógico que a maioria das pessoas que está lendo este livro tem os seus próprios animais em mente. Mas também podemos evitar que outros cachorros, além dos nossos, sofram. E não estou mais falando apenas sobre as fábricas de filhotes, estou falando também sobre as “ninhadas caseiras”, por assim dizer. Alguém que decida “tirar uma ninhada” do seu amado cachorro ou cadela, deve se lembrar de que a reprodução de cães envolve custos: desde os exames de acompanhamento da gestação até a alimentação, vacinação, e desverminação de todos os filhotes. Isso pressupondo que a cadela não tenha complicações na gestação ou no parto. E que ela sobreviva. Imagine que, a cada ninhada, serão em torno de 10 filhotes a mais no mundo procurando por um lar. Não é nada fácil doar uma ninhada inteira, mesmo que o seu cachorro seja de raça - porque, na hora em que os filhotes ficam prontos “para entrega”, boa parte das pessoas que disseram que ficariam com um durante a gestação da cadela, acaba mudando de ideia. Isso é fato. Vender é ainda mais desafiador, e pouco lucrativo se você não for um criador profissional. Mas, vamos supor que você consiga doar ou vender todos os 10 filhotes do seu cachorro, que não precisava ter tido cria por qualquer motivo em particular. Enquanto isso, outros 10 cachorros estão na rua, passando frio e fome, e esperando que alguém os adote. Se doar cães lhe parece um desafio interessante, talvez recolher os que estão na rua para doá-los possa ser melhor do que gerá-los. Capítulo 2. Kit de Primeiros Socorros Existem situações em que nem mesmo o melhor médico do mundo vai conseguir salvar uma vida se não tiver certos materiais em mãos. Este não é um livro de cirurgia, mas mesmo pequenos procedimentos podem exigir certos materiais para que consigamos prestar socorro adequadamente. Neste capítulo, você aprenderá a montar o seu próprio kit de primeiros socorros para que esteja realmente preparado para agir em situações de emergência. Alguns itens estão listados como opcionais, porque é possível sobreviver sem eles, mas, se tiver a possibilidade de adquiri-los, vale a pena. Se o problema for o custo do kit, deixe para comprar os itens opcionais em outro momento, aos poucos, conforme o seu orçamento permitir. A maioria dos itens não é cara, e vale o investimento! Nos apêndices deste livro, há um checklist com os itens necessários para a montagem do seu kit. Imprima-o para facilitar a compra dos materiais e a organização da sua caixa. Itens obrigatórios Pasta com documentos/ anotações. Na sua caixa de primeiros socorros, você precisa ter uma pasta com os documentos do seu cachorro (como carteira de vacinação e certificados), e todas as anotações de que você pode precisar numa situação de emergência. Isso vai incluir telefones de contato, doses dos medicamentos que ele toma ou pode precisar tomar, e um guia de primeiros socorros. Mas por que papel, se hoje em dia a gente tem tudo no celular? Porque estamos falando sobre situações de emergências e imprevistos. Pode ser que, no momento da emergência, o seu celular esteja sem bateria, perdido ou quebrado; pode ser que a internet esteja fora do ar, e pode ser inclusive que você nem esteja em casa. Talvez você esteja viajando, e quem vai precisar lidar com a situação seja a sua Pet Sitter, ou outra pessoa que ficou responsável pelo cão, e que não tenha essas informações no celular dela. Então, é bom ter tudo impresso e num local de fácil acesso, junto com as outras coisas do seu cachorro. Nos apêndices deste livro você encontrará folhas de contatos e de informações importantes sobre o cão para que você possa imprimir e colocar no seu kit. Termômetro O termômetro, logicamente, serve para medir a temperatura. Pode ser um termômetro simples mesmo, sem quaisquer sofisticações. Os mais práticos são os digitais, porque são mais fáceis de ler e são mais rápidos também. Mas você pode usar os de vidro se preferir. Você pode inclusive ter os dois tipos, para o caso de acabar a pilha do termômetro digital. Mas a bateria dura bastante, basta que você se lembre de checar de tempos em tempos. Tenha um termômetro só para o(s) cachorro(s), não misture com os seus. Coleira e guia extra Sim, você leu direito! É preciso ter uma coleira e guia a mais. A guia pode arrebentar, a coleira pode estragar, e você pode precisar repor imediatamente. Os Dog Walkers, em especial, devem sempre levar pelo menos um kit de coleira e guia consigo em todos os seus passeios. Uma boa ideia é comprar uma guia unificada, que é coleira e guia ao mesmo tempo. Ela é uma opção prática, barata, e que pode ser ajustada a diferentes tamanhos de cães. Certifique-se de que a sua guia sobressalente seja forte o suficiente para conter o mais forte dos seus cães; ou tenha uma para cada um, se forem de tamanhos muito diferentes. Focinheira A focinheira é um item essencial, mesmo para quem tem apenas cachorros mansos. Isso porque, em momentos de estresse, quando o cão está sentindo dor, ele pode reagir de forma mais agressiva e acabar mordendo. Para fazer curativos e outros pequenos procedimentos, uma das melhores focinheiras é a de plástico. É a que melhor dá segurança para quem estiver trabalhando, porque mantém a boca do cachorro toda protegida. No caso de cães de focinho muito curto, como os Shi-Tzu e Pugs, estas focinheiras não vão funcionar. Para este tipo de cachorro, compre uma focinheira de gato, que na verdade se parece com uma máscara. As focinheiras de gato geralmente são de nylon, e cobrem toda a cara do animal, mas tem um buraco na frente para ele conseguir respirar. Se o seu cachorro usa focinheira para passear, eu recomendo que você tenha uma focinheira para o passeio e outra para esse tipo de procedimento. Num passeio, que é algo que vai demorar mais tempo, e que demanda uma maior capacidade respiratória, a focinheira de plástico pode ser um pouco sufocante. Neste caso, prefira uma focinheira do tipo “gaiola” ou de nylon. A focinheira do tipo gaiola é interessante para passeios, porque não atrapalha em nada a respiração do cachorro; mas você deve prestar atenção ao formato da armação dela e ao ajuste na cabeça do seu cão, que deve ser perfeito para não machucar ou incomodar.Pinça A pinça poderá ser usada para retirar algum espinho, farpa, caco de vidro, ou talvez até mesmo um carrapato do seu cachorro. Existem pinças específicas para a remoção de carrapatos, sobre a qual entraremos em maiores detalhes adiante; mas, se não tiver uma específica, a comum pode quebrar um galho. A ideia é usar a pinça só para a remoção de pequenos objetos: se for algo muito grande, é melhor deixar para o veterinário. Tesoura de ponta romba A tesoura serve para cortar curativos, e eventualmente também para aparar os pelos do cachorro. É importante que seja de ponta romba, como as tesourinhas escolares, para não correr o risco de ferir o cão. Luvas de procedimentos As luvas de procedimentos são aquelas luvas de látex comuns, não estéreis. Elas servem para evitar que as suas mãos contaminem a ferida, ao mesmo tempo em que as protegem do contato com o sangue, urina, e secreções do paciente, prevenindo a transmissão de doenças. Você deve ter pelo menos dois pares de luvas de procedimentos no seu kit, mas, se preferir, é possível comprar caixas com dezenas delas a preços bem razoáveis em lojas de produtos hospitalares. Mas não esqueça: o uso de luvas de látex não dispensa o socorrista de lavar as suas mãos antes e depois do procedimento! Solução salina estéril Solução salina é o soro fisiológico. Ela se mantém estéril até que seja aberta. As suas principais finalidades serão lavar ferimentos e, eventualmente, os olhos também. Água oxigenada A água oxigenada pode ter duas funções - uma é a limpeza de ferimentos; e a outra, sobre a qual falaremos mais detalhadamente em outro momento, é para induzir vômito em casos de envenenamento. A indução do vômito requer critério e técnica adequada: não induza o vômito em cachorro nenhum sem antes ler o capítulo de Intoxicações e Envenenamentos! P.V.P.I. ou Antisséptico Tópico O P.V.P.I. é um antisséptico muito bom e barato para curativos. Pode ser encontrado em qualquer farmácia, e é muito útil para tratar ferimentos em humanos também. Caso prefira, pode usar outro tipo de antisséptico tópico – alguns são mais sofisticados, e vêm até mesmo com anestésicos locais, mas não é preciso comprar um produto muito caro. O PVPI funciona muito bem. Antisséptico ou Álcool em Gel para as Mãos Nada substitui a lavagem das mãos, por isso o ideal é usar o antisséptico em gel ou o álcool em gel, sempre depois de lavar as mãos. Mas supondo que você esteja acampando, ou na rua, e não haja uma torneira por perto, o gel pode ajudar. Lembre-se, é importante higienizar as mãos antes e depois de lidar com ferimentos, mesmo que você use luvas. Seringas Tenha dois tamanhos de seringa no seu kit: duas de 20mL, e duas de 5mL. Conforme o que for fazer, fica mais fácil com a seringa maior ou a menor. As seringas podem ser usadas para lavar as feridas, e também para dar medicamentos diretamente na boca do cão. Sem agulha, é claro. Curativos não aderentes Os curativos não aderentes podem ser encontrados em farmácias ou em lojas de produtos hospitalares. São úteis porque não grudam nas feridas, especialmente nas queimaduras. Tenha pelo menos 3 no seu kit. Rolo de algodão O algodão serve para limpar pequenos ferimentos, e também o termômetro. No caso de fraturas, pode ser usado para imobilizar os membros. Ataduras As ataduras serão usadas para fazer curativos. Na falta de uma focinheira, eventualmente também vocês podem improvisar uma usando ataduras: explicarei a técnica em mais detalhes no capítulo sobre contenção e segurança. Esparadrapo Para segurar os curativos no lugar. Vaselina A vaselina pode ser usada para lubrificar o termômetro. Em alguns casos também, ela pode ser usada para proteger ferimentos. Pó hemostático Encontrado em pet shops, ajuda a parar pequenos sangramentos - por exemplo, se sangrar na hora de cortar as unhas, ou se o cachorro tiver um corte superficial. Não consegue conter hemorragias severas, mas ajuda bastante nos ferimentos menores. Medicamentos de uso contínuo Quais medicamentos especificamente você precisará ter, vai depender de cada caso. Se o seu cachorro não usa nenhum medicamento continuamente, não precisa ter, é claro. Mas, se ele usa, tenha sempre uma reserva ali para pelo menos uma semana. Assim, se algum dia você se esquecer de comprar mais, se não encontrar na farmácia, ou qualquer outro problema, você garante que não irá faltar. Preste atenção ao prazo de validade. Antialérgicos, Analgésicos, e Outros Medicamentos Prescritos Caso o seu veterinário já tenha lhe prescrito alguma medicação que o seu cão possa precisar usar esporadicamente, faça uma pequena reserva deste remédio também. Novamente, fique atento ao prazo de validade. Mel ou Karo ® Este item é específico para cães diabéticos. Se o seu cão não tem diabetes, então não há qualquer necessidade; mas, se ele for diabético, então o mel ou o Karo ® são definitivamente itens obrigatórios no seu kit de primeiros socorros. Uma boa ideia pode ser comprar alguns daqueles sachezinhos de mel, que serão suficientes caso ele sofra uma crise de hipoglicemia. Itens Opcionais Colar elisabetano É o famoso “abajur”. Ele é útil para evitar que o seu cão arranque curativos, coce feridas, e assim atrapalhe a cicatrização. Em algumas situações, o colar elisabetano também funciona como uma ferramenta de contenção que substitui a focinheira. Se o curativo não for na cabeça por exemplo, basta que alguém segure o cão pelo colar, mantendo a sua cabeça no lugar, e assim ninguém será mordido. É claro que, para isso, o colar tem que estar bem preso. O ideal é usar uma coleira para prender o colar no lugar, mas, se não tiver, pode usar um fitilho também. Coloquei este item como opcional porque, tendo uma focinheira, você conseguirá fazer a abordagem inicial com tranquilidade. Depois, para a manutenção do curativo, você terá tempo de ir a uma pet shop e comprar o colar, se precisar. A minha principal recomendação em relação ao colar é: se precisar de um colar elisabetano, compre, não improvise. É barato e vale a pena. Já vi “colares” improvisados com cano de PVC. Isso fica extremamente desconfortável para o cão, e pode causar problemas de pele pelo atrito constante do cano com a pelagem. Lágrima artificial Novamente, temos um item que pode ser substituído em casos de emergência. Claro, se o seu cão tiver olho seco, você deve ter sempre um frasquinho reserva; mas se não for o caso, supondo que você precise lavar os olhos do seu cão porque caiu alguma coisa dentro deles, pode-se usar o soro fisiológico, ou até água. A lágrima artificial é mais indicada, por isso coloquei como opcional, mas não vai fazer mal algum lavar os olhos com soro fisiológico numa situação de emergência. Bandagem adesiva A bandagem adesiva (Vetrap ®) é muito legal porque protege o curativo, ao mesmo tempo em que diminui bastante a chance de o cão conseguir destruí- lo. Ela é elástica, bonita e dá um ótimo acabamento. Mas ela também é um pouco mais cara (em torno de R$9,00 por rolo), então, apesar de ser “bom” ter, não é essencial. Se não tiver, você pode usar esparadrapo mesmo para fixar a atadura. Micropore O micropore é parecido com o esparadrapo, porém mais fino e menos agressivo com a pele, então é mais fácil de tirar sem machucar. Só que ele também gruda menos, então não é possível usá-lo para fixar uma bandagem. O micropore é útil para pequenos curativos, para proteger cortes cirúrgicos, ou até para improvisar um band-aid. Ele também é um pouquinho mais caro do que o esparadrapo, e, como dá para sobreviver sem ele, coloquei também como opcional. Removedor de carrapatos Este é mais um item que você consegue substituir por outros, mascompre um se puder – é útil e barato. É possível tirar um carrapato usando uma pinça comum, mas existe o risco de ficar um pedacinho dele ainda preso ao seu cão. Isso acaba causando reações alérgicas e irritação de pele. O removedor de carrapatos se parece com um garfo de dois dentes, que evita que a “cabecinha” do carrapato continue presa ao cão. Cobertor espacial Não se engane pelo nome sofisticado, o cobertor espacial é até bem barato: você pode comprar um por aproximadamente R$20,00 no Mercado Livre. Este cobertor se parece com uma folha de papel alumínio, e é o mesmo que vemos as pessoas usando na TV, geralmente depois de algum desastre. Ele é interessante porque é muito fino, leve, fácil de carregar, e reflete de volta para o corpo até 80% do calor produzido, o que é uma enorme vantagem se o animal estiver em hipotermia. É claro que, na falta de um cobertor espacial, você pode usar um comum mesmo. Máquina de tosa A máquina de tosa é, com certeza, o item mais caro da nossa lista. Em primeiros socorros, ela servirá apenas para aparar os pelos do cão ao redor de alguma ferida que você precise limpar. E, se não tiver uma máquina de tosa? Então, apare o que der com uma tesoura e deixe que o veterinário termine o serviço. Ainda que o seu veterinário possa usar uma lâmina de barbear para fazer o serviço, evite usá-la você mesmo, para evitar o risco de ferir ainda mais o animal. A aquisição da máquina provavelmente só valerá a pena se você trabalhar com banho e tosa, ou se pretender aprender a tosar o seu próprio cão. Solução de limpeza para as orelhas As otites incomodam bastante, e você vai precisar saber limpar as orelhas do seu cão se isso acontecer. Para isso, você pode usar uma solução de limpeza, como o Epiotic ® (Virbac), o Limpa Orelhas ® (IBASA), ou o Limp & Hidrat ® (Ouro Fino). É claro, se o seu cão tiver otite, você precisará levá-lo ao veterinário de qualquer jeito para saber qual medicamento usar além da solução de limpeza. O interessante de já se ter a solução em casa é que você pode praticar a limpeza no seu cão enquanto ele está bem, e assim, acostumá-lo à manipulação das orelhas. A limpeza também pode ajudar a aliviar o cão enquanto você aguarda a consulta veterinária. Mas, se preferir, pode deixar para comprar apenas quando o veterinário prescrever. Lanterna A lanterna pode ser de qualquer modelo, mesmo que seja bem barata ou pequena. Apesar de não ser fundamental, ela pode ser muito útil. Uma das utilidades óbvias da lanterna é iluminar quando se está no escuro. Se o acidente ocorrer num local pouco iluminado, num acampamento, ou se faltar energia na sua casa bem na hora em que você precisar, então a lanterna virá a calhar. Mas você também pode usá-la para examinar a boca do cão, se ele estiver engasgado com alguma coisa, e os olhos dele também, para saber se tem reflexos pupilares, ou se há alguma coisa aderida a eles. Vale lembrar que grande parte dos celulares atualmente podem executar essa função. Pote com ração e ração pastosa Este cuidado de se ter uma porção de ração reserva é uma recomendação encontrada principalmente em livros americanos, já que por lá alguns desastres naturais são comuns, tais como terremotos e furacões. No Brasil, isto raramente é um problema. É bem comum os norte-americanos terem provisões para este tipo de emergência, já que, quando essas coisas acontecem, as pessoas podem simplesmente não ter a opção de sair para comprar comida por algum tempo. Decidi incluir na lista porque, mesmo que este tipo de situação não seja bem a nossa realidade aqui no Brasil, é sempre interessante se ter uma pequena reserva, para o caso de acabar e você não poder sair para comprar no dia, de ser um feriado, ou de estar em falta no mercado, por exemplo. E, caso você seja um protetor ou protetora de animais, não pode deixar faltar alimentos para os seus cães resgatados. Aplicador de comprimidos O aplicador de comprimidos é legal para quem tem medo de perder os dedinhos dando comprimido para o cão. E, dependendo do cachorro, é bom ser cuidadoso mesmo. No próximo capítulo abordaremos melhor este tema, e explicarei como usar um aplicador para dar comprimidos ao seu cão. Capítulo 3. Como dar Medicamentos Um dos temas que mais gera dúvidas, especialmente entre tutores, protetores de animais e pet sitters, é: como medicar um cachorro? Pois bem, agora você vai aprender diversas técnicas para não deixar o seu bichinho sem tratamento. Medicamentos tópicos Começando pelo mais fácil, vamos aos medicamentos tópicos. Esses, não tem mistério: basicamente, você deve pegar a pomada, o creme, o spray ou outro produto prescrito pelo médico veterinário, e espalhar sobre a lesão. Alguns medicamentos tópicos podem ser mais perigosos, e você pode precisar usar luvas para manipulá-los. Leia com cuidado a embalagem, e, se estiver na dúvida, pergunte ao seu médico veterinário. O cuidado que você precisará tomar com todo e qualquer medicamento tópico é evitar que o cachorro lamba. Então, conforme o caso, faça um curativo ou coloque um colar elisabetano nele até o final do tratamento. Se for apenas uma pequena lesão, você pode até ficar de olho nele por um tempo, até que o medicamento seja absorvido; mas, naqueles casos em que o cachorro fica se mutilando, ou simplesmente não deixa o curativo no lugar, é preciso usar o colar. Medicamentos orais A medicação oral é a mais usada, e também a que costuma dar mais trabalho, principalmente para quem não tem muita prática. E, dependendo do cachorro, mesmo quem tem prática também pode ter dificuldade – por conta disso, é preciso conhecer algumas técnicas. Líquidos Os medicamentos líquidos podem ser administrados de duas formas: ou diretamente na boca, em uma seringa, ou disfarçado com alguma outra coisa. Com a seringa é o jeito mais rápido, mas algumas pessoas podem ter dificuldade. Com o cão sentado, pegue a seringa sem agulha já com a dose total do medicamento, e coloque no fundo da boca dele. Não é preciso abrir a boca, você pode colocar o medicamento dentro da bochecha dele, aproveitando o espaço entre a gengiva e o último dente. Aperte o êmbolo gentilmente. Não pode ser muito rápido para não engasgar o cachorro, mas também não faça muito devagar, para que ele não perca a paciência e vá embora. Depois de medicar o seu cão, recompense sempre: dê um petisco, um brinquedo, ou simplesmente muito carinho, para que ele passe a relacionar o ato de tomar medicamentos com uma coisa positiva. Se você não conseguir fazer isso, você pode precisar esconder o remédio. Nem todos os medicamentos podem ser administrados junto com comida, por isso pergunte ao seu veterinário se a medicação que ele está prescrevendo pode ser dada dessa forma. Se puder misturar, uma boa opção para esconder remédios líquidos é pão. É só pegar uma fatia de pão, espalhar a dose do remédio em cima dela, e dar para o cachorro de pedacinho em pedacinho. Se ele não se deixar enganar, você pode até dar uma caprichada e passar um pouco de patezinho em cima do pão, ele vai adorar. Outra opção é usar um molhinho de carne, ou então um pouquinho de sopa, para misturar. Mas tome o cuidado de colocar uma quantidade bem pequena do molho ou da sopa, para garantir que ele vai tomar tudo. Se você servir uma quantidade muito grande de sopa e o cão acabar não tomando tudo, será impossível saber quanto do medicamento ele efetivamente ingeriu. Se quiser dar mais depois, como recompensa, pode dar; mas primeiro certifique-se de que ele tenha tomado corretamente o seu remédio. Cápsulase comprimidos Tal como acontece com os medicamentos líquidos, as cápsulas e comprimidos podem ser administrados diretamente na boca, ou podem ser disfarçados dentro de algo mais apetitoso. Vejamos a seguir algumas técnicas: Técnica nº1: colocar diretamente na boca. Essa técnica não tem muito segredo, na verdade é mais uma questão de prática. Para cachorros grandes, observe que há um espaço bem grande atrás do último dente. Na realidade, todo cachorro tem esse espaço, mas nos pequenos, logicamente, ele é bem menor e não nos permite “aproveitar”. Dependendo do tamanho da cápsula ou do comprimido, você consegue simplesmente passar o remédio dentro deste espaço, sem precisar nem mesmo abrir a boca do cão. Como já está bem no fundo da garganta, geralmente eles não conseguem cuspir quando colocamos a medicação ali. Feito isso, segure a boca do cão fechada e levemente erguida até ele engolir. Você pode massagear a garganta dele assim também, para estimular o reflexo da deglutição. O seu cão irá lamber os lábios automaticamente assim que tiver engolido. Nos cachorros pequenos, este espaço geralmente é muito pequeno para passar uma cápsula ou um comprimido, então será preciso abrir a boca. Para abrir a boca do cachorro, você pode colocar os seus dedos polegar e indicador um de cada lado da boca do cão, um pouco atrás dos dentes caninos. Pressione as bochechas dele contra os dentes, fazendo com que a boca se abra. Quando a boca estiver aberta, coloque o comprimido bem no fundo, na base da língua. Não jogue, e também evite colocar muito no meio (prefira colocar em um canto) para que ele não se engasgue e nem consiga cuspir. Feito isso, mantenha a boca do cachorro fechada e levemente erguida até ele engolir. Massageie a garganta dele para estimular o reflexo de deglutição, e recompense assim que terminar. Técnica nº 2: Usando o aplicador de comprimidos. Aqui, o aplicador vai ficar no lugar do seu dedo, e pode evitar umas mordidas. Para usar o aplicador de comprimidos, abra a boca do cão conforme a técnica acima. Mas, ao invés de pôr o seu dedo lá dentro para ser mordido, você põe o aplicador e aperta, como se fosse uma seringa. A cápsula ou o comprimido devem ser colocados no canto, na base da língua. Depois, é a mesma coisa: feche a boca e massageie até o cão engolir. Não se esqueça de recompensar. Um truque legal, caso o seu cachorro seja meio McGiver e for especialmente hábil na arte de cuspir comprimidos, é uma técnica muito usada para gatos. Quem já tentou dar comprimido para um gato, conhece o desafio: eles são mestres em cuspir, e, se você não acertar de primeira, eles começam a espumar. E, depois que o gato começou a espumar. você vai ter sérias dificuldades. O que você vai fazer é uma cápsula de manteiga. Pegue o comprimido ou a cápsula, e passe na manteiga, para formar uma capinha em volta dele. Em seguida, embrulhe com papel alumínio e coloque no congelador. Na hora de dar, você desembrulha e usa alguma dessas técnicas que a gente já mencionou. O que vai acontecer é que, com a manteiga, o comprimido vai escorregar lá para dentro e vai ficar muito mais difícil para o cachorro cuspir. Técnica 3: esconder o comprimido ou a cápsula dentro de algum petisco. Pode ser um pedacinho de pão, um presunto enroladinho, queijo, ou qualquer outra coisa de que o cachorro goste e possa comer. Assim como já mencionei em relação aos medicamentos líquidos, é importante antes você perguntar ao seu veterinário se pode misturar a medicação prescrita com comida. Além dos alimentos já citados acima, agora também existe uma coisa chamada “pill pocket”. Aqui no Brasil, é possível encontrar o Pill Pocket da Equilíbrio, chamado “Snack Especial”. Por ser um pouco difícil de achar em pet shops, pode ser preciso compra-lo pela internet. O pill pocket é um petisco que tem um “bolso” para colocar cápsulas e comprimidos. Este bolso é basicamente um buraquinho no meio do petisco, que tem também uma tampa comestível. A ideia é que o cachorro coma tudo sem pensar duas vezes. Mas ele pode comer só a parte gostosa e cuspir o remédio, aí vem a próxima técnica. Técnica 4: “incorporar” o comprimido ao alimento. Novamente, pergunte ao seu veterinário se pode fazer isso, já que a técnica seguir não pode ser feita com alguns medicamentos. E qual é a técnica? Simplesmente, abrir a cápsula, ou amassar o comprimido, até formar um pozinho. E este pozinho, você pode misturar num pedaço de carne, de preferência com um pouquinho de molho, ou em qualquer outra coisa que o cachorro goste de comer (e possa comer, claro). O ideal é que seja alguma coisa mais úmida, como um caldo de carne, um molho ou um patê de cães, para o pozinho realmente se incorporar. Assim como no caso do medicamento líquido, lembre-se que, na hora de dar o remédio, você deve dar apenas uma quantidade bem pequena de carne, molho, ou o que você estiver usando, que é para garantir que o cachorro vai comer tudo. Não prepare um banquete, já que existe o risco de o animal não comer tudo, e você não vai ter como saber quanto do remédio ele efetivamente tomou. Medicamentos Oftálmicos Os colírios normalmente deixam as pessoas inseguras, porque ninguém gosta muito de colocar nada no olho. Bom, se o seu cachorro precisa usar algum colírio, principalmente se for de uso contínuo, o melhor que você tem a fazer é criar uma associação positiva para ele, recompensando sempre ao final do procedimento. Na verdade, eu procuro fazer isso com todo tipo de remédio. Então, quando os meus cachorros sabem que vão tomar algum medicamento, mesmo que eles não queiram, eles se sentam e aguardam pacientemente, porque sabem que serão recompensados depois. Para pingar colírio no olho do seu cão, primeiramente faça com que ele se sente. Para um cachorro grande, recomendo que coloque uma perna de cada lado do cão, segurando-o, para evitar que ele vá para trás. Não se sente sobre o animal: apenas use as suas pernas para mantê-lo posicionado. Se o cachorro for pequeno, passe um braço ao redor dele para mantê-lo posicionado e impedir que vá para trás. Segure o focinho dele para cima com uma mão (se for um cachorro pequeno, use a mesma mão do braço que está ao redor dele, fazendo a contenção). Com a outra mão, segure o frasquinho do colírio com alguns dedos enquanto usa os outros para manter o olho dele aberto. E aí, é só pingar as gotinhas. Você até pode tentar simplesmente pegar o seu cachorro “no susto”, digamos assim, mas isso só vai funcionar uma vez. Da próxima vez, ele vai estar preparado e não vai permitir. Um outro detalhe importante é que muitos cães ficam realmente incomodados com o uso de colírios. Por conta disso, a focinheira pode ser necessária para cães que não aceitem bem este tipo de manipulação. Se necessário, peça ajuda a outra pessoa para manter o cão posicionado enquanto você pinga o colírio, ou vice-versa. Medicamentos Intra-Auriculares Os remédios de colocar na orelha para o tratamento das otites também causam bastante dúvida. Talvez você já tenha visto o seu veterinário usando uma pinça com algodão para limpar a orelha do seu cachorro. Não faça isso em casa! Se for realmente necessário usar a pinça, deixe para o veterinário. A limpeza que faremos na orelha do cão será, literalmente, pingando o remédio dentro da orelhinha dele. Inclusive, hoje em dia boa parte dos produtos para tratamento de otites em cães já vem com bicos flexíveis, próprios para serem inseridos no canal auditivo. A princípio, se o seu cachorro não tiver otite, não há necessidade de limpar as orelhas dele com muita frequência, mas, se desejar, você pode praticarem casa de vez em quando. É mais fácil fazer quando o cachorro está bem do que quando ele está com dor. Inclusive, esse é outro procedimento que você pode precisar da focinheira, já que o cão pode estar com dor e/ou pode não gostar que mexam nas suas orelhas. Mas, antes de explicar como aplicar, existe um detalhe sobre a orelha do cão que você precisa saber. O ouvido do cachorro é diferente do nosso. Enquanto o nosso é praticamente uma linha reta, o dos cachorros forma um “L”. Então, o canal auditivo desce a partir da base da orelha, e depois faz uma curva antes de chegar ao ouvido interno. Por conta disso, na hora de aplicar o medicamento, nós devemos entrar com o biquinho do frasco para baixo. Vejamos então como se faz: A primeira coisa que faremos será limpar a área externa da orelha. Quando um cachorro está com otite, esta região pode ficar bem vermelha, a pele pode parecer mais grossa, e pode haver bastante secreção. Geralmente é uma secreção marrom bem escura, e tem um cheiro forte. Para a área externa, você pode usar um algodão embebido com a solução de limpeza, ou então, pingar a solução de limpeza diretamente sobre a orelha, e usar um pedaço de algodão para espalhar. Observe que as orelhas têm muitas dobrinhas, e geralmente é nessas dobrinhas que a secreção fica acumulada. Para que o tratamento funcione, a orelha precisa ficar bem limpinha. Depois de limpar bem por fora, seque com um algodão limpo para retirar o excesso de produto. A primeira limpeza costuma ser a mais trabalhosa, pois é quando há mais secreção acumulada. Talvez até o seu veterinário já faça essa primeira limpeza para você no consultório mesmo. Mas, se ele não fizer, tenha um pouquinho de paciência e limpe bem todos os cantinhos. Não precisa ficar perfeito de primeira, principalmente porque vai estar dolorido e o cachorro pode reclamar, mas deixe o mais limpo possível. Depois que já estiver bem limpinho por fora, insira a pontinha do tubo no ouvido do cão, em ângulo reto. Em seguida, aperte para sair um pouquinho da solução, e retire. O cachorro provavelmente irá querer balançar a cabeça logo em seguida. De início, segure um pouquinho, para que ele não “expulse” a solução que você acabou de colocar. Feche a orelha com ela mesma, e massageie bem o ouvido por fora. Isso irá fazer com que a solução se espalhe bem lá dentro. Depois, pode soltar e deixar ele se balançar. Às vezes, isso pode fazer um pouco de sujeira, pois pode sair um pouco da secreção ou da solução de limpeza e cair no chão ou nas paredes ao redor. Terminou de limpar? Aí, sim, está na hora de aplicar o remédio. O procedimento é essencialmente o mesmo, mas sem retirar os excessos do lado de fora com algodão, pois a intenção será que o remédio fique lá mesmo. Os medicamentos para otites geralmente são um pouco mais viscosos e gordurosos do que a solução de limpeza. Capítulo 4. Técnicas de Contenção e Segurança Para prestar primeiros socorros com eficácia e segurança, é preciso tomar algumas precauções. Veja a seguir o que fazer caso encontre um cachorro em situação de emergência, mesmo que seja o seu próprio animal. Os Três C’s O primeiro e mais fundamental tema sobre o qual iremos tratar são os “Três C’s” dos Primeiros Socorros. Os três C’s são um roteiro das coisas que você deverá fazer ou observar sempre que encontrar uma pessoa ou animal em situação de emergência. Você deve se lembrar deles necessariamente na sequência em que serão apresentados a seguir. O primeiro C é o cenário. Avaliar o cenário quer dizer que, antes de agir, você deve avaliar tudo o que está acontecendo ao seu redor e ao redor da vítima que pretende ajudar. Isso leva apenas alguns segundos, e te ajuda a tomar uma decisão mais racional. Assim, pode-se evitar, por exemplo, que você próprio se torne mais uma vítima do acidente. Isso significa que, se houver uma rua entre você e o cachorro que deseja ajudar, você irá se lembrar de olhar para os dois lados antes de atravessar, e irá atravessá-la com cuidado. E significa também que, no momento em que você conseguir efetivamente chegar até este cachorro e contê-lo, deverá removê-lo dessa situação de risco, para que ele não seja atropelado novamente, ou até mesmo para que você não seja atropelado junto. Isso é algo que acontece, e já aconteceu muitas vezes. Se estiver havendo um incêndio, você precisa primeiro calcular quais serão as suas rotas de entrada e de saída, e se haverá tempo de entrar e sair sem ficar preso lá dentro junto com o cachorro ou a pessoa que você quer ajudar. Pode ser que a melhor coisa a fazer seja chamar ajuda - que será o nosso próximo passo - ao invés de tentar fazer o resgate você mesmo. E se for um afogamento? Ao ver uma pessoa ou animal se afogando, você sabe que precisa agir imediatamente. Mas, primeiro, pense: você sabe nadar? Tem algum treinamento em resgates na água? Tem algum objeto ou equipamento de segurança que possa ajudar? Um dos grandes problemas dos afogamentos, principalmente quando envolvem humanos, é que o pânico da vítima faz com que ela ativamente afunde a pessoa que está tentando ajudá-la. Com animais, isso é mais difícil de acontecer, porque a anatomia deles não permite o mesmo tipo de luta na água que os humanos conseguem. O fator “pânico” nos animais também é menor, pois eles normalmente sabem nadar, mas se afogam por exaustão física. Abordaremos este tema com maior profundidade no capítulo Técnicas de Salvamento, mas, resumidamente, este é um dos tipos mais difíceis de resgate, pois o socorrista também fica muito vulnerável. e, mais uma vez, pode ser melhor pedir ajuda do que pular direto na água e se afogar junto com a vítima. Não morra tentando. O segundo “C”, como cheguei a mencionar rapidamente, será chamar ajuda. Essa ajuda pode ser a polícia, os bombeiros, ou até mesmo alguém que esteja passando na rua ali na hora. Tudo depende do tipo de ajuda que você vai precisar. Se um cachorro levou um choque por uma linha de alta tensão, a sua primeira atitude deverá ser chamar os bombeiros, ou ligar para a companhia de energia elétrica, para conseguir desligar a energia e retirar o animal daquela situação sem que você mesmo leve um choque também. Se for um incêndio, chame os bombeiros. Se você se deparar com uma rinha em andamento, ou outro tipo de crime, pode ser muito perigoso entrar lá sozinho - as chances são que você irá levar uma surra, ou até um tiro. Então, chame a polícia. Outra situação: aquele vizinho que você viu maltratando o cachorro. filme, para ter provas, e chame a polícia imediatamente. Se você invadir a casa dele, provavelmente quem vai ser tratado como criminoso será você, por invasão de propriedade. Você pode tentar alegar “legítima defesa de outrem”, mas, como estamos falando sobre animais, infelizmente, se o seu argumento será aceito pela polícia ou não, será sempre uma incógnita. Sempre calcule os riscos envolvidos. Em algumas situações, pode ser que não haja qualquer risco específico para você, mas o cachorro que deseja ajudar está muito debilitado. Neste caso, você pode precisar de ajuda para transportá-lo para uma clínica veterinária. Com humanos, é mais fácil: você pode chamar uma ambulância. Mas, para os bichos, geralmente essa não é uma opção. Alguns hospitais veterinários podem oferecer serviço de ambulância; se na sua cidade tiver algum, anote os dados de contato deles no seu celular e naquela folha de contatos do seu kit de primeiros socorros. Assim, você conseguirá localizá-los rapidamente num caso de emergência. Se não houver serviço de ambulância disponível (mesmo prestado por hospitais e clínicas particulares) na sua cidade, talvez você precise chamar alguém que tenha um carro para buscar o cão. esse alguémpode ser o próprio veterinário, um parente, um amigo, um vizinho, enfim - quem você acreditar que pode te ajudar numa situação dessas. E, novamente: tenha os contatos dessa pessoa anotados no seu celular e na folha de contatos do kit de primeiros socorros, para não perder tempo procurando na hora em que precisar. Os serviços de ambulância veterinária pública no Brasil ainda são muito incipientes. Algumas poucas cidades possuem o chamado “SAMUVet”, que atende animais vítimas de atropelamentos e em situação de risco, mas geralmente há restrições ao seu uso. Nas cidades que possuem SAMUVet, ela geralmente não pode ser acionada por qualquer pessoa: é preciso que alguém das forças de segurança pública (a polícia, por exemplo) os chame. Os animais atendidos também costumam ser apenas cães e gatos de rua, e não aqueles que já têm tutores. Informe-se se a sua cidade possui este tipo de serviço, e quais são as restrições ao seu uso. É importante pedir ajuda antes de agir, porque, quanto antes você chamar alguém, antes ela chegará. Além disso, alguns procedimentos de primeiros socorros, como a contenção de hemorragias ou a ressuscitação cardiopulmonar, não podem ser interrompidos. E você estará perdendo tempo precioso se já não houver ajuda a caminho enquanto começa a atender o cão acidentado. É claro, se o problema for algo mais leve, pode ser que você mesmo consiga levar o cachorro até o veterinário, seja de carro, ou até mesmo a pé (se o cão for pequeno). O terceiro e último “C” é cuidar. Como exatamente serão os cuidados, logicamente, vai depender de cada situação. E é sobre isso que se trata o nosso livro. Nas próximas seções e capítulos aprenderemos a abordar um cão em situação de emergência, a avaliar os seus sinais vitais, e a estabilizá-lo, até que se consiga chegar a um veterinário. “Estabilizar” significa fazer o possível para manter aquele animal vivo e com o menor sofrimento possível, enquanto tentamos minimizar as chances de sequelas que ele possa vir a ter em decorrência do acidente. O objetivo dos primeiros socorros não é substituir o atendimento veterinário, mas sim melhorar as chances daquele animalzinho que ficou doente de repente ou que sofreu um acidente. Para que isso seja possível, precisamos aprender a abordar cães em perigo com segurança, conforme descrito a seguir. Abordagem de cães em perigo Quando tomamos a decisão de ajudar um cão que esteja em uma situação de emergência, precisamos ter duas preocupações em mente: a primeira é o cuidado com a nossa própria segurança; e a outra, é não colocar o cão em uma situação ainda mais perigosa. Todo animal, inclusive os humanos, tem um mecanismo de defesa chamado de “reação de luta ou fuga”. Esta reação é completamente instintiva, e tem como objetivo a preservação da vida. Se um animal for submetido a uma situação que possa pôr a sua vida em perigo, ou que faça com que ele acredite estar em perigo, ele reagirá de duas formas possíveis: ou ele vai fugir, ou ele vai lutar. Geralmente, tendo a possibilidade, um cão assustado vai tentar fugir. A não ser que ele esteja se sentindo acuado, caso em que ele irá lutar. É por isso que acuar um cachorro assustado, mesmo que seja para tentar ajudá-lo, pode ser uma estratégia perigosa. Ele não sabe qual é a sua intenção, e está se sentindo em perigo. Se não tiver para onde correr, ele irá atacar. O interessante é que esta reação é totalmente instintiva, e pode acontecer inclusive com o SEU cachorro. Normalmente, o seu cachorro confia em você. Mas se ele sofreu um acidente, ou se estiver muito estressado, ele pode não estar totalmente ciente do que está acontecendo – então, ele pode tentar fugir de você ou mesmo te morder se você decidir acuá-lo. O que fazer então numa hora dessas? Bom, se você pretende pegar um cachorro, partindo do pressuposto que ele esteja acordado e capaz de se movimentar, você não vai querer que ele fuja. Então, não corra atrás dele, e não faça movimentos bruscos. Essas são duas coisas que quase que certamente irão despertar nele a reação de luta ou fuga, e você não quer isso. Aparecer repentinamente e tentar pegar o cão de surpresa também pode acabar resultando numa reação agressiva. Ao invés disso, tente conquistar a confiança do cão se aproximando devagar, e o chamando de forma amigável. Deixe ele saber que você quer se aproximar, e que não pretende machucá-lo. Você precisa avaliar se o cachorro está sendo agressivo, ou se está apenas assustado, tentando evitar o contato. A técnica a seguir se aplica a cães que estejam inseguros, que será a maioria dos casos. Comece caminhando devagar na direção dele, e chamando amigavelmente. Para alguns cães, isso pode ser suficiente. Oferecer um pouco de comida também pode funcionar bem. Se você tiver alguma coisa que possa servir como petisco, tente jogar um pouco perto do cão, para ele poder pegar sem ter que se aproximar de você num primeiro momento. Cuidado na hora de jogar, para não assustar o cão. procure fazer movimentos lentos e sutis, usando mais a mão do que o braço para fazer isso. Se ele se interessar e comer, mostre a ele que tem mais na sua mão, e jogue com cuidado mais um pouquinho, dessa vez fazendo com que ele tenha que se aproximar um pouco mais de você. Vá fazendo isso até ele chegar bem perto. Talvez ele aceite até comer da sua mão. Se chegar nesse ponto, não o agarre imediatamente . Ofereça o dorso da mão para ele cheirar, e, se ele permitir, aos poucos, comece a fazer carinho. Note que a parte da mão que você oferece para o cão cheirar deve ser, necessariamente, o dorso. Para os cães, mostrar a palma da mão pode ser visto como uma atitude agressiva, e eles podem fugir ou até morder. Você precisa estabelecer uma relação de confiança agora, então, vá com calma. Quando ele já estiver um pouco mais tranquilo, tente colocar uma coleira com guia no pescoço dele. Faça isso devagar, com cuidado. Alguns cães podem se assustar quando percebem que foi colocada uma coleira neles, e podem tentar fugir ou se livrar da coleira. Deixe o cão lutar, mas não solte a guia. Também não brigue com ele, não vai ajudar em nada - ao invés disso, tente mostrar que ele pode confiar em você. À medida que ele permitir, você pode oferecer mais um pouco de comida ou carinho. No outro extremo, alguns cachorros ficam bem mais tranquilos quando já estão de coleira. Não há como prever como será a reação de cada um, especialmente quando falamos em cães de rua ou abandonados. Mas o mais importante é que a coleira vai te dar controle sobre o cão, evitando que ele fuja, e também ajudando a manter a boca dele longe de você, caso decida te morder. A chave é conquistar a confiança do cão. Os movimentos devem ser sempre lentos. Mantenha os braços próximos ao seu corpo, e tente conversar com o cão de uma forma que transmita tranquilidade e segurança. Evite deixar transparecer o seu nervosismo (“mamãe tá aquiiiiii”), porque isso só vai deixá-lo ainda mais nervoso. Evite contato visual direto, para que o cão não te veja como uma ameaça. E, por fim, só se aproxime conforme o cachorro for permitindo. Dê alguns passos de cada vez, sempre lentamente, e espere que ele se adapte à sua proximidade. Se ele começar a rosnar para você, espere um pouco até ele se acalmar. Se ele continuar com uma postura agressiva, dê alguns passos para trás para que ele fique mais confortável antes de você voltar a avançar na direção dele. Não estenda a sua mão na direção do cachorro até que você perceba que ele está mais relaxado, ou você pode acabar sendo mordido. Se conseguir uma distância segura que te permita fazer isso, mesmo que o cão esteja agressivo, vocêpode fazer um anel bem largo com uma guia, e tentar passar pelo pescoço dele. Como já mencionei, o cachorro pode reagir mais agressivamente, ou ele pode simplesmente se entregar no momento em que você colocar a coleira nele. Seja como for, não solte. Há ainda uma outra técnica que pode funcionar bem com cachorros que estejam inseguros - por exemplo, um cachorro que esteja perdido, que foi abandonado, ou está desorientado. Quando usei esta técnica pela primeira vez, eu estava junto com uma amiga, e ela disse que ficou impressionada com a reação do cachorro, disse que parecia mágica. Mas, vou tomar emprestadas as palavras do Cesar Millan, o Encantador de Cães, para dizer que tudo se resume à energia. E não é energia mágica, é a sua presença de espírito: é transmitir segurança, e é permitir que um cão se comporte como tal. E usar isso a seu favor. Vou contar o que aconteceu: Na ocasião, a minha filha tinha 3 meses de idade, e eu morava num condomínio em Brasília/DF. Dentro do condomínio, havia uma casa por onde eu sempre passava. Esta casa tinha um muro mais ou menos alto, na altura do meu ombro, e um jardim que ficava na altura do muro. Logo acima do muro havia grades de segurança, e, ao lado, um portão que dava acesso a uma rampa para a entrada dos carros. Bom, nessa casa havia um cachorrinho pequeno, um Poodle, que era tão magrinho que conseguia passar entre as grades que tinham em cima do muro da casa. E, toda vez que eu passava, ele ficava andando em cima do muro, se trançando entre as grades, e latindo para mim. Não eram latidos agressivos, eram latidos de aviso, como quem diz: “fique longe da minha casa! ” Ele era um cachorro inseguro, e se sentia ameaçado por qualquer pessoa que passasse por lá. Mas acontece que, um certo dia, esse cachorro estava para fora de casa. Não sei dizer se ele caiu para fora enquanto passava entre as grades, ou se os donos da casa não viram que ele tinha saído quando abriram o portão. Ele não tinha como voltar para dentro sozinho, porque o muro era muito alto. Naquele dia, eu estava levando a minha filha para passear no carrinho, e estava com uma amiga junto. Quando passamos pela tal casa, lá estava o cachorro, todo assustado querendo entrar de volta, e latindo para nos mandar embora. Mas não era tão corajoso quanto quando ele estava dentro de casa, era visível que ele estava pronto para sair em disparada a qualquer momento. Pode parecer uma situação meio boba, mas não deixa de ser uma situação de emergência. Aquele cachorro precisava ser resgatado, antes que se perdesse de vez ou fosse atropelado. Então, precisamos começar avaliando os 3 C’s que já aprendemos na seção anterior. Cenário: o cachorro estava na frente de casa, que, por sua vez, tinha um portão que dava direto para a rua. Não tinha calçada. Era um condomínio, por isso passavam poucos carros, mas passavam. Era um cachorro que estava muito assustado, e latia para nos avisar que não queria aproximações. Podíamos ver que ele estava fisicamente bem, o que certamente nos deixaria em desvantagem se ele saísse correndo. Além disso, eu tinha comigo um carrinho de bebê, com uma criança dentro. Eu não poderia pôr a minha filha em risco enquanto tentava resgatar o cachorro. Por sorte, tinha uma amiga junto. Chamar ajuda: Eu precisava de ajuda naquela situação - como eu disse, estávamos numa rua sem calçada, e com um bebê no carrinho. A primeira ajuda de que eu precisaria seria alguém para garantir a segurança da minha filha. Por sorte, eu estava com uma amiga na hora. Se estivesse na rua sem uma amiga, eu jamais entregaria a minha filha a uma pessoa desconhecida – e, nesse caso, eu precisaria encontrar alguém disposto a ajudar o cachorro. Pois bem, a minha amiga se prontificou a ficar com a minha filha enquanto eu entrava em ação. Pensei em pedir uma segunda ajuda: os donos da casa poderiam abrir o portão e simplesmente deixar o cachorro entrar. Mas toquei a campainha várias vezes, e ninguém apareceu. Então, chegou a hora de dar o terceiro passo: cuidar. Cuidar: nesse caso, estamos falando sobre um cachorro que estava fisicamente bem, e a ajuda de que ele precisava seria, simplesmente, conseguir voltar para casa. Mas, para isso, eu precisaria pegá-lo, e eu não tinha nada comigo que pudesse ajudar - não tinha comida, não tinha coleiras, não tinha nada. E o cachorro não queria saber de mim. Se ele saísse correndo, poderia ser atropelado; e, se não fosse atropelado, eu dificilmente conseguiria alcançá-lo. O que eu fiz? É aqui que fica interessante, porque, com cães inseguros, você verá que é uma técnica que funciona bem: bem devagar, me aproximei do cãozinho, sem olhar muito para ele. De costas para ele, me abaixei, e fiquei espiando com o canto do olho para ver onde ele estava e como reagia. Os cães são animais curiosos, e, ao ficar nessa posição, eu mostrei a ele que eu não era uma ameaça. Isso lhe deu coragem para tentar me conhecer. Devagar, ele se aproximou e me cheirou, curioso, enquanto eu continuei parada, sem falar, sem me mover, e sem olhar para ele. Ele foi se aproximando, me rodeando. Quando estava bem próximo da minha mão, aí sim eu lentamente ofereci o dorso da mão para ele cheirar. Como já falei antes, é sempre o dorso da mão que devemos oferecer; a palma da mão pode ser vista como uma ameaça, e pode acabar com todo o progresso que você já tinha feito. Ele cheirou, e aí fui fazendo como expliquei no caso anterior, que é quando o cachorro se aproxima porque você chamou, ou porque você está oferecendo comida: fui fazendo carinho na cabecinha, bem devagar, e, quando ele relaxou, peguei-o com cuidado. Ele continuou amigável, sem qualquer sinal de estresse. Coloquei-o de volta em cima do muro da sua casa, e ele passou pela grade todo feliz. Em seguida, retomou a sua pose de “vá embora da minha casa! ” - Só que, agora, muito mais confiante. Por que funcionou? Porque ele era um cachorro inseguro. Se eu começasse a persegui-lo, não conseguiria pegá-lo. Funciona também com os nossos próprios cães, eles ficam bem curiosos quando veem alguém nessa posição. Mas, e numa situação em que o cachorro esteja realmente acuado, e seja difícil fazer com que ele se aproxime voluntariamente? Uma opção é usar um lençol ou cobertor para cobrir o animal. Você deve agir com segurança e rapidez, para conseguir jogar a coberta sobre ele e agarrá-lo rapidamente. Com o cachorro devidamente coberto, ele ficará temporariamente sem reação, e você terá alguns segundos para agir, sendo primordial que você consiga ser mais rápido do que ele. Se for um cachorro pequeno, você pode pegá-lo no colo assim mesmo. Coloque-o junto do seu peito, e descubra cuidadosamente a cabeça dele, mantendo o cobertor entre o seu corpo e ele, para que o cão morda apenas o cobertor, se houver este risco. Se for um cachorro maior, aproveite o seu tempo para passar rapidamente uma coleira pela cabeça dele, ao mesmo tempo em que retira o pano de cima. E o cambão? Para quem não conhece, o cambão é um tipo de coleira unificada, mas que, ao invés de ter uma guia comum, a guia passa dentro de um tubo. O tubo geralmente é de metal, de PVC, ou de algum plástico bem resistente. Ele serve para aqueles casos em que você não consegue se aproximar com segurança do cão, a ponto de conseguir estender o seu braço sobre a cabeça dele para tentar passar a coleira sem correr o risco de ser mordido. O cambão é uma ferramenta que deve reservada para os cães que sejam realmente agressivos. A princípio, para a maioria das pessoas, não há motivos para se ter um desses em casa. O cachorro pode ficar estressado com esse tipo de manejo, e, na medida do possível,devemos trabalhar mais no sentido de conquistar a confiança dele do que pegá-lo literalmente na marra. Há casos e casos, e, infelizmente, às vezes o cambão pode ser necessário mesmo. Assim como a sedação. A sedação é outro recurso extremo que eventualmente pode ser útil no resgate de cães que estejam em situação de risco. É bom evitar de se recorrer a este tipo de técnica, porque, quando chegamos ao ponto de precisar sedar um cão para resgatá-lo, é porque não conhecemos este animal. Nós não sabemos se ele tem algum problema de saúde, e também não temos o seu peso exato para podermos calcular a dose. Outro detalhe importante é que os sedativos são medicamentos controlados, e você não conseguirá comprar um sem prescrição. Normalmente, são usados sedativos orais para esse tipo de resgate. O que se faz é colocar uma isca, como um pedaço de carne, com o medicamento em cima ou misturado. Se você acreditar que vai precisar usar um sedativo para resgatar um cão, então você vai precisar falar com o seu médico veterinário para que ele possa fazer uma prescrição ou te vender uma dose. Ele também te dará as orientações quanto à forma de usar aquele sedativo. Supondo que, por alguma razão, você já tenha um sedativo para cães em casa, ligue para o veterinário mesmo assim, para se certificar de que a dose que você está pretendendo usar é a correta. Na medida do possível, os sedativos devem ser evitados, pois podem ter efeitos adversos, especialmente se administrados nas dosagens erradas e/ou para cães com certos tipos de doenças. Uso da focinheira Finalmente, chegamos ao cão. Ele pode estar acordado, íntegro ou ferido. pode estar de vários jeitos. Mas uma coisa é certa: numa situação de emergência, ele vai estar assustado. Já aprendemos que um cachorro assustado, principalmente acuado, pode reagir agressivamente. E isso inclui o seu cão. Se você já conseguiu chegar até o cachorro e mantê-lo sob controle com uma coleira, é hora de começar a lidar com ele. Mas, mais uma vez, você deve se preocupar com a sua própria segurança. A ferramenta mais importante nesse momento será a focinheira. Por mais manso que um cachorro seja, se ele estiver ferido ou estressado, coloque a focinheira nele antes de começar a cuidar. A exceção à regra será se o cachorro estiver afogado, ou com dificuldade para respirar. nesse caso, ele vai estar mais preocupado em respirar do que em te morder, e a focinheira pode atrapalhar ainda mais a respiração dele. Fora isso, coloque a focinheira e, tenha sempre uma focinheira em casa. Vimos no capítulo sobre o kit de primeiros socorros que existem diferentes modelos de focinheira. Para pequenos procedimentos e curativos, as melhores focinheiras são aquelas de plástico mesmo, que limitam bem a boca do cachorro e impedem a mordida. É diferente da focinheira de passeio, que pode ser de nylon, ou do tipo “gaiola”. Na hora de comprar, observe bem o tamanho do seu cachorro, para se certificar de que a focinheira se encaixa bem no focinho dele, sem apertar, mas também sem deixar muito espaço sobrando. Ela deve ficar justa e confortável. As focinheiras de plástico possuem tiras que são inteiras de velcro, para facilitar o ajuste. Na hora de colocar, sabendo que o cachorro pode reagir de forma agressiva, não ponha a mão na boca dele; ao invés disso, você deve segurar pelas tiras bem abertas, e guiá-las para fazer com que o focinho do cachorro entre na focinheira. Em seguida, ajuste as pontas atrás da cabeça dele, cuidando para não apertar demais, mas também não deixar frouxo, ou o cão conseguirá se livrar dela com muita facilidade. Assim que colocamos uma focinheira em um cão, podemos esperar duas reações possíveis, da mesma forma que com as coleiras: tem cachorro que fica até mais tranquilo, e tem cachorro que fica nervoso e tenta tirá-la com as patas. Se ele tentar tirar com as patas. Segure pelas tiras para que ele não consiga. Pelo menos, ele não consegue te morder. Recomendo sempre aos tutores que não simplesmente tenham uma focinheira em casa, mas que efetivamente a usem ocasionalmente. A intenção é criar uma associação positiva com a focinheira, diminuindo assim a probabilidade de que o cão fique nervoso e tente se livrar dela quando ela for efetivamente necessária. Como assim? Se o seu cão não usa focinheira para passear, então esporadicamente coloque a focinheira nele e deixe por alguns segundos, ou mesmo, minutos. Fique com ele o tempo todo e agrade, faça carinho. Ao tirar, recompense. Ele foi um bom cachorro por aceitar a focinheira! Isso evita que o cão associe a focinheira a experiências exclusivamente negativas. Afinal, quando mesmo usamos as focinheiras? No consultório veterinário, para aplicar vacinas, para fazer curativos, e, de forma geral, para manipular os cães de maneiras que sabemos que podem não ser bem aceitas. Os cães são animais inteligentes o suficiente para fazerem esta correlação. Se todas as experiências de um cachorro com focinheiras forem dolorosas ou estressantes, ele poderá se tornar agressivo simplesmente ao ver uma focinheira, e tornar tudo muito mais difícil e perigoso para todos. Se, por outro lado, ele estiver habituado a usar a focinheira por curtos períodos enquanto recebe carinho e é recompensado depois, ele ficará até feliz de usá-la quando precisar. Mas e se não tiver uma focinheira mesmo, dá para improvisar? Dá. Para improvisar uma focinheira em uma situação de emergência, você pode usar ataduras, meias, e até fitilho. Tome o cuidado de escolher um material bem resistente, principalmente se for um cachorro grande, e também que não seja muito fino – como um fio de nylon, que é resistente mas pode machucar o cachorro. A minha primeira escolha normalmente são ataduras. Pratique em casa com o seu cachorro para aprender e adquirir confiança (e não se esqueça de recompensá-lo pelo bom comportamento!). A primeira coisa que você deve fazer é dar um nó mais ou menos no meio do cordão ou da atadura que estiver usando para improvisar a focinheira. Em seguida, prepare um laço, como se fosse dar mais um nó, mas não feche. Forme um anel bem largo, para que fique mais fácil de pegar o focinho do cachorro, principalmente se ele ficar tentando desviar. Passe o laço ao redor do focinho, posicionando aquele primeiro nó abaixo da mandíbula do cão, e rapidamente puxe as duas pontas para fechar o laço, fechando também a boca do animal. Aperte um pouco para ficar firme, mas sem exagerar para não cortar a circulação dele. Passe então as pontas por baixo do focinho, cruzando-as, e puxe-as para trás das orelhas do cão. Amarre atrás da cabeça, fazendo um laço, que será fácil de soltar e não precisa cortar ou estressar o animal por mais tempo do que o necessário. Transporte de animais feridos Depois de colocar a focinheira no cão, você pode precisar carregá-lo para algum lugar. Essa tarefa de transportar o cachorro pode ser mais ou menos difícil, dependendo do tamanho dele, e também do tipo de ferimento que ele tenha. Supondo que o seu cachorro tenha sofrido uma fratura, por exemplo, o ideal é movimentá-lo o mínimo possível, principalmente se houver suspeita de lesão em coluna. Ainda que o ideal em várias situações seja uma maca, na prática, isso é bem difícil de acontecer. E, mesmo que você possa improvisar uma maca, se o cachorro for grande, pode ser que ela não caiba no carro. Então, você continua tendo um problema para transportá-lo. Para um cachorro pequeno, uma opção que funciona muito bem são caixas de papelão. Erga-o com cuidado, para colocar dentroda caixa, ou improvise uma maca com um pedaço de papelão mesmo. A caixa pode ser interessante mesmo que ele não tenha sofrido nenhuma fratura, pois facilita bastante o transporte, principalmente dentro do carro. Além de evitar que o banco do seu carro de suje com sangue, terra, ou o que mais tiver, a caixa mantém o seu cão seguro enquanto você dirige, principalmente se estiver sozinho. Conforme o tamanho do cachorro e da caixa, você pode colocá-la no chão do carro ou em cima do banco, usando o cinto de segurança para mantê-la no lugar. Se tiver uma caixa de transporte, use, mas dê preferência àqueles modelos que podem ser abertos por cima, para facilitar na hora de tirar o cão. Isso porque a caixa faz com que o cão se sinta seguro, mas ele pode se assustar e morder alguém que tente retirá-lo de lá pela portinha. Para transportar gatos em caixas de papelão, cubra com um lençol ou cobertor especialmente em áreas externas. Se o bichano estiver razoavelmente consciente e a caixa estiver totalmente aberta, você corre o risco de que ele pule para fora da caixa e fuja. Se for comprar uma caixa de transporte para o seu gato, prefira também aqueles modelos que podem ser abertos por cima e desmontados com facilidade em caso de necessidade. Os cães pequenos têm ainda mais uma opção: as cadeirinhas para carro. Elas ficam presas ao banco do carro usando o cinto de segurança, e têm uma guia própria para ser engatada à peitoral do cão durante o transporte. No caso de cachorros grandes, você pode improvisar uma maca com um lençol, para transportá-lo sem movimentar demais. Coloque o lençol atrás do cão, e role-o cuidadosamente para cima dele. Tente centralizar o cão para poder carregar. O ideal é que haja duas pessoas - assim, cada uma carrega um lado. Essa técnica pode ser usada se o cachorro estiver inconsciente, ou então, se ele estiver muito ferido. Se estiver muito alerta ele pode se debater e cair do lençol. Se você estiver sozinho e o cachorro for muito pesado para ser carregado, arraste o lençol cuidadosamente com o cachorro em cima. Neste caso, de preferência use um outro material mais resistente, que não vá rasgar, e que também proteja o cachorro enquanto ele estiver sendo puxado. Puxe apenas em distâncias curtas, como por exemplo, para tirar o cachorro do meio de uma rua, de um incêndio, ou outra situação de alto risco. Se estiver em casa ou em outra situação que possa esperar um pouco para movimentar o animal, tente conseguir ajuda para isso. Tenha a sua lista de contatos bem completa para saber quem pode chamar numa hora dessas, mesmo que seja apenas para ter mais um par de mãos para te ajudar a colocar o cachorro no carro, caso não consiga fazer isso sozinho. Quando for colocar no carro, se o cachorro estiver “solto” ou na maca de lençol improvisada, coloque as costas dele encostando no banco de trás do carro, para diminuir a chance de que ele role para o chão, e dirija com cuidado. Se for um cachorro grande e inconsciente, tente passar um cinto de segurança por cima dele. Isso pode mais ser difícil se ele for menor ou se estiver se mexendo. Se o cão estiver consciente e não tiver ferimentos no peito, você pode colocar uma peitoral nele e prender naquela alça que tem atrás do banco do carro, ou então usar um cinto de segurança próprio para cães. O cão deve ficar preso no carro, assim como nós também devemos usar cinto de segurança. Além de impedir que o cão eventualmente atrapalhe o motorista, o cinto também evita que ele caia, role para baixo, ou até mesmo seja lançado para fora do carro se houver um acidente. E, por fim. para onde levar? Depende da situação. Se for algo muito grave, leve para a clínica veterinária mais próxima e que esteja aberta naquele momento. Alguns médicos veterinários ficam de sobreaviso 24 horas, mas é preciso ligar para eles para avisar que você está indo. Descubra se o seu veterinário, ou se a clínica que tem perto da sua casa, atendem dessa maneira, para que você tome o cuidado de ligar para avisar caso precise de um atendimento fora do horário comercial. Assim, você aumenta a chance de não encontrar tudo fechado, e ter que fazer uma peregrinação de clínica em clínica até encontrar alguma que esteja atendendo - principalmente se for de madrugada ou em um final de semana. Aprenderemos nos próximos capítulos como avaliar a gravidade de uma situação, para que você saiba melhor como agir - por exemplo, que casos precisam de atendimento imediato, e que casos podem esperar algumas horas, ou até mesmo dias, para que você agende um horário com o seu médico veterinário. Capítulo 5. Avaliando Sinais Vitais e Reconhecendo Emergências O que é uma emergência Uma regra bem simples que podemos usar para identificar uma emergência é: “se você acha que pode ser uma emergência, então é uma emergência”. Confie nos seus instintos! Se algo parecer muito errado, é provável que esteja mesmo. De qualquer forma, é melhor pecar pelo excesso do que pela falta de cuidado. Se estiver na dúvida, ligue para a clínica veterinária que você frequenta, ou mesmo para o seu veterinário, se você tiver o telefone dele, e descreva a situação. Eles com certeza saberão dizer se o seu cachorro precisa ser atendido imediatamente, se ele deve aguardar um encaixe naquele mesmo dia, ou se você pode simplesmente marcar uma consulta assim que possível. Para que você tenha um parâmetro, darei a seguir alguns exemplos de cada situação. Primeiro: leve ao veterinário mais próximo imediatamente, se o seu cão ou o cão do seu cliente: · Foi atropelado, mesmo que pareça bem. Como veremos no capítulo sobre atropelamentos, algumas lesões bem graves podem não ser visíveis; · Estava dentro de um carro que bateu, pelos mesmos motivos que o cão atropelado; · Sofreu algum tipo de trauma, como uma queda de uma altura razoável, uma briga de cães, ou apareceu subitamente ferido ou mancando; · Perdeu a consciência, independentemente da causa; · Estiver sangrando incontrolavelmente, mesmo depois que você já aplicou pressão no local ou gelo; · Tiver dificuldade para respirar; · Tiver dificuldade para urinar, com sangue na urina, ou urina com a coloração alterada - por exemplo, urina avermelhada ou cor de Coca-Cola é sinal de urgência. Leve imediatamente; · Tiver diarreia com sangue. Uma diarreia leve pode não ser tão urgente, mas diarreia com sangue pode significar muita coisa, e é importante que o seu cachorro seja atendido o quanto antes possível. · Estiver em choque. Falaremos em breve sobre como reconhecer o choque. Você pode tentar conseguir um encaixe para o mesmo dia, se o seu cão ou o do seu cliente: · Parecer estar desconfortável com alguma coisa, por exemplo, choramingando, se mordendo ou coçando muito, não quiser se alimentar; · Já tiver alguma doença conhecida e em tratamento, e começar a mostrar algum sinal de que a doença está voltando a se manifestar; · Estiver tomando algum medicamento, e começar a se comportar de forma estranha; · Tiver um machucado menor, no qual você conseguiu aplicar os primeiros socorros; · Estiver com problemas nos olhos, como muita secreção, lacrimejamento, coceira, ou dor nos olhos (um cachorro com dor nos olhos ou na boca costuma colocar as patinhas da frente na frente do focinho, e fica esfregando). · Tiver dificuldade para defecar, por exemplo, faz força, mas não sai nada, ou se tiver um pouquinho só de sangue nas fezes dele; · Tiver uma diarreia moderada. Se, mesmo assim, você continuar na dúvida se o que você está vendo é uma emergência ou não, confie nos seus instintos. Mesmo que você já tenha ligado para o veterinário, e queele tenha dito que não é nada preocupante, mas você continuar com uma pulguinha atrás da orelha, leve mesmo assim. Não tenha medo de ficar parecendo chato. Lembre-se: É melhor você passar por “chato” do que esperar um problema pequeno se tornar grande, e isso eventualmente custar a vida ou o bem-estar do seu cão. Qualquer problema que ele possa ter, será mais fácil de resolver se for identificado no início. O ABC da Vida Airway: Vias Aéreas Agora que já sabemos o básico sobre prevenção de acidentes e como reconhecer uma emergência, vamos aprender a avaliar um paciente - no caso, um cachorro - que esteja doente ou que tenha sofrido algum acidente. O nosso primeiro passo será avaliar o “ABC da Vida”, também conhecido como “ABC do Trauma”. ABC é uma sigla para facilitar a nossa memorização de quais serão os primeiros e mais importantes parâmetros que precisaremos avaliar em qualquer situação de emergência - seja para humanos, seja para animais. Esta avaliação deve ser feita sempre muito rapidamente, embora alguns casos sejam mais fáceis de se avaliar do que outros. O ABC deve ser lembrado sempre necessariamente na ordem em que as letras aparecem, para que cada problema possa ser tratado com a prioridade que merece. A sigla é em inglês, então algumas adaptações são necessárias para o português, mas a lógica é a mesma. Então, vamos lá: A letra “A” significa “airway”, ou, em português, vias aéreas. Isso quer dizer que a nossa primeira prioridade será descobrir se tem alguma coisa obstruindo as vias aéreas do animal - o nariz e a boca. Não adianta iniciarmos uma ressuscitação cardiopulmonar em um cão que tenha uma bola entalada na garganta, o ar não vai passar. E o cão não vai se recuperar se não tirarmos aquela bola dali. Para avaliar as vias aéreas, basicamente, precisamos olhar o para o bicho. Um cachorro que esteja engasgado, ou tenha algum objeto preso que esteja atrapalhando a respiração, faz bastante esforço para respirar. E, quando consegue, faz um barulho chiado, fino (“iiiihhh”), porque o ar está passando com dificuldade. Ele pode ficar com a língua azulada - a não ser que seja um Chow Chow ou um Shar Pei (nestas duas raças pode ser um pouco mais difícil mesmo de avaliar esse aspecto, porque a língua deles já é azul em condições normais, mas as outras características de qualquer cachorro com dificuldade respiratória estarão presentes). E, por fim, ele pode perder a consciência - ou seja, desmaiar. Se você observar que o cachorro está consciente, olhando para você, e não faz esforço algum para respirar, não precisa nem se preocupar com isso: ele não tem obstruções, é capaz de respirar, e certamente tem batimentos cardíacos. Mas, se ele estiver inconsciente ou mostrando dificuldade, examine. Por hora, não use a focinheira, para não dificultar ainda mais a respiração do animal. Abra a boca dele, puxe a língua para fora, e olhe no fundo da garganta. Se a língua estiver muito escorregadia, use um pedaço de gaze ou pano limpo para segurar; e, se tiver uma lanterna para conseguir olhar melhor lá dentro, use. Se houver muita secreção, saliva, sangue, ou qualquer tipo de líquido na boca, retire o excesso usando uma gaze ou pano limpo. Pode ser que só isso já seja suficiente para liberar as vias aéreas dele; ou pode ser que, no mínimo, isso te permita examinar melhor a boca e a garganta. Se encontrar algum objeto que você consiga pegar com os dedos ou com uma pinça, pegue. Só tome cuidado para não jogar ainda mais para dentro. Faça o procedimento que descrevi acima se o cachorro permitir. Se ele começar a lutar, pare. Além do risco de você pode levar uma mordida, o cão ficará mais estressado e terá ainda mais dificuldade para respirar. Então, se não conseguir abrir a boca dele para examinar, mas tiver razoável certeza de que ele está engasgado, você pode passar para os próximos passos, que serão a manobra de Heimlich ou a técnica do balanço. Se estas técnicas não funcionarem, ele pode acabar desmaiando – e, aí sim, você conseguirá examinar a boca dele. Mas tentemos evitar que chegue a esse ponto. A manobra de Heimlich é muito usada em humanos, e também pode ser usada em cachorros, com as devidas adaptações. A técnica varia um pouco conforme o tamanho e a posição do cão, mas o objetivo é o mesmo - desengasgar o animal. Então, vem a pergunta: “se eu achar que o meu cachorro está engasgado, posso pular direto para a manobra de Heimlich?” Pode, principalmente se ele estiver acordado. O procedimento de abrir a boca, pôr a mão lá dentro, e limpar, pode ser bem difícil de fazer com um cachorro consciente, e pode gerar um estresse desnecessário. A técnica do balanço, conhecida como “tilting” em inglês, é útil em casos de afogamentos, e também alguns engasgos. Ela usa principalmente a gravidade para ajudar o animal a respirar melhor. Comecemos com a técnica do balanço. Essa técnica pode parecer um pouco “feia”, mas funciona, e pode ser o que você precisa fazer para salvar o seu cãozinho de um afogamento. No curso de Salva-Vidas que fiz nos EUA, aprendi um importante ditado que era usado o tempo todo nas lições de resgate e salvamento: “make it work” – ou, “faça funcionar”, “dê um jeito”. Isso porque, numa situação de emergência, as condições podem não ser ideais, você pode não ter todos os equipamentos de que necessita, e será preciso “dar um jeito” de resolver o problema para que a vítima do acidente não sofra ainda mais, ou pior – venha a falecer. E a técnica do balanço é exatamente isso: ela dá um jeito de tirar a água ou o objeto que esteja bloqueando a respiração de um cão. A técnica do “tilting”, ou do balanço, para cachorros pequenos, é a seguinte: segure o cão pelas coxas, com a barriga virada para você, e balance-o como um pêndulo. Não chacoalhe, apenas balance. e, claro, tome cuidado para não o bater contra a parede ou algum móvel que esteja perto. Essa técnica funciona bem para afogamentos, e pode ser feita com o cachorro acordado ou desmaiado. Os cães médios devem ser segurados também de cabeça para baixo. Mas, neste caso, abrace o animal pelo peito, mantendo-o próximo ao seu corpo, e faça uma compressão rápida e forte. Se não funcionar na primeira tentativa, faça mais uma série de cinco compressões e verifique. Para animais maiores, esta técnica só é possível se o cão ainda estiver consciente, e em condições de se sustentar. Abrace o cão por trás, erguendo as patas traseiras, e balance. A ideia é usar a gravidade para ajudar a expulsar a água ou o que mais estiver bloqueando a respiração do cão. A manobra de Heimlich também tem algumas variações. Para um cachorro grande que esteja em estação (“estação” é a posição normal dos quadrúpedes, com as quatro patas no chão), entrelace os seus dedos das mãos embaixo da barriga dele, onde acaba o abdome e começa o tórax. Então, puxe para cima bem rápido, dando um pequeno tranco. Se não sair de primeira, tente fazer uma série com cinco compressões, e verifique de novo. Esta manobra é só um pouquinho diferente para os cachorros pequenos: ao invés de entrelaçar os dedos em baixo do cão, coloque apenas uma mão fechada em punho sob a barriga, onde acaba o abdome e começa o peito, e a outra, sobre as costas do cão, mantendo as duas alinhadas. Pressione as duas mãos ao mesmo tempo num movimento para frente, expulsando assim o objeto que estiver entalado na garganta do animal. As mãos posicionadas dessa forma exercem menos pressão, para não ferir cães pequenos (e também gatos). Por fim, se o cachorro estiver desacordado ou deitado, posicione-o de lado, com o lado esquerdo dele para cima. Isso porque, se for precisofazer uma massagem cardíaca, é desse lado que funciona melhor. Deixe o lado direito para cima se o cão tiver alguma ferida do lado esquerdo, como uma fratura de costela ou uma perfuração, pois, nessas situações, existe o risco de acabar perfurando o coração ou os pulmões durante a massagem. A Manobra de Heimlich para cães deitados pode ser feita de duas maneiras: 1. Para cães pequenos e gatos, coloque uma mão de cada lado do peito do cão, e pressione rapidamente como faria com um travesseiro, num movimento para a frente. É a mesma coisa que nos casos anteriores: se o objeto não sair na primeira tentativa, faça mais uma série de 5 compressões, e cheque novamente. 2. Para cães de todos os portes, coloque as duas mãos sobre o peito do cão – uma sobre a outra -, e faça uma compressão no tórax, num movimento também para frente. Se necessário, faça uma série de cinco compressões, sempre permitindo que o peito se expanda entre uma compressão e outra. Se a manobra de Heimlich não funcionar, pode ser que: (1) ou o problema do cachorro não era um engasgo, ou (2) o que quer que esteja bloqueando a respiração dele está muito no fundo, muito difícil de sair. Se você estiver tentando a manobra de Heimlich há mais de dois minutos sem sucesso, é hora de levar o cão ao veterinário. Se o animal estiver inconsciente e sem respirar, mesmo que você ainda não tenha conseguido liberar as vias aéreas dele, pode ser melhor passar para o próximo passo, para tentar colocar pelo menos algum ar nos pulmões dele. O que nos leva à letra “B” do ABC da vida. Breathing: Boa Respiração A letra “B” se refere a “breathing”, que, em inglês, significa respiração. Para manter a sigla “ABC”, em português nós falamos em “boa respiração”. Depois de avaliar as vias aéreas do cão, e de tirar qualquer coisa que estivesse obstruindo a respiração, o próximo passo vai ser saber se o cachorro está respirando, e como ele está respirando. Um cachorro pode ter dificuldade para respirar sem estar necessariamente com uma obstrução. Um exemplo clássico disso são os cachorros com edema pulmonar. Geralmente Poodles e outros cães pequenos que têm insuficiência cardíaca, quando entram em edema pulmonar, começam a mostrar uma dificuldade imensa para respirar. Eles não estão engasgados, ainda que possa parecer. Um cachorro que esteja em edema pulmonar pode começar a espumar pela boca e pelo nariz, o que pode até dar a impressão de que ele está se afogando. Mas simplesmente limpar a secreção da boca ou do nariz dele não vai resolver, porque esta água não foi inalada: ela vem dos pulmões. E não vai ter manobra de Heimlich que consiga expulsar a água de um edema pulmonar. Se o edema ainda estiver num estágio mais inicial, pode ser que o cachorro não esteja espumando. Ainda. Mas continua sendo uma grande emergência. Se o seu cachorro tiver insuficiência cardíaca e, subitamente, ele começar a ter dificuldade para respirar, pare o que estiver fazendo e leve-o para o hospital. Na hora. Que outros sinais um cachorro pode nos dar de que está difícil respirar? Ele pode fazer um barulho como um ronco enquanto se esforça para respirar. Ele pode ficar com a língua ou as gengivas azuladas, e também pode adotar uma posição que é chamada de ortopnéica. “Ortopnéica” quer dizer algo que facilite a respiração. A posição ortopnéica é bem característica: o cachorro abre as patas da frente e estica o pescoço, deixando a traqueia numa linha reta. Isso facilita a passagem do ar, que não precisa fazer nenhuma curva para chegar aos pulmões. Em última instância, um animal que não esteja conseguindo respirar vai desmaiar. Mas e se o cachorro já estava desmaiado quando você chegou, como saber se ele está respirando? Normalmente, você deve conseguir ver o peito dele subindo e descendo, assim como observamos com facilidade num cachorro (ou humano) que esteja dormindo. Mas se você não conseguir ver e estiver na dúvida, você pode checar de outras formas. Uma delas é colocar a mão sobre o peito do cachorro para sentir os movimentos da respiração. Outra opção é colocar um dedo na frente das narinas dele, para tentar sentir o ar passar cada vez que ele expirar. Você pode também pegar um fio de cabelo, de preferência longo, e colocar na frente das narinas dele. O cabelo deve balançar cada vez que o cão expirar. O cabelo não precisa ser muito longo; mas cabelos muito curtos podem ser muito firmes para se balançarem, e pode ficar difícil de visualizar. E, por último, mas não menos importante, tem a técnica do espelho. Coloque um espelho na frente do nariz do cachorro, e observe-o embaçar a cada respiração. Você pode usar qualquer espelho que tiver ao seu alcance. Uma observação importante é que esta avaliação deve ser extremamente rápida, pois, se o cão estiver sem respirar, ele não pode esperar. Portanto, use os recursos que estiverem ao seu alcance. Não perca tempo procurando por um espelho ou por um cabelo comprido de outra pessoa, por exemplo. Se você tiver dificuldade para sentir a respiração de um cão, provavelmente é porque ele não está respirando mesmo. E se ele não estiver respirando? Então, podemos começar a respiração “boca-focinho”. A respiração “boca-focinho” só pode ser feita se o cachorro estiver de fato inconsciente e não estiver respirando. Não tente fazer num cachorro que esteja acordado ou respirando, mesmo que ele esteja com dificuldade. Use uma mão para fechar a boca do cão, e, com a outra, sustente o pescoço e a cabeça dele. Em seguida, assopre diretamente sobre o nariz, até que você veja o peito dele começar a levantar. Apesar do nosso instinto normal de querer colocar o máximo de ar possível nos pulmões do cão, seja cuidadoso. Não assopre muito forte, e não infle totalmente os pulmões do animal – veja o peito dele subir um pouco, e, em seguida, libere para que ele possa expirar. Assoprar muito forte pode ser perigoso, e pode até romper os pulmões do cachorro, principalmente se for filhote ou um cão muito pequeno. Por isso, mantenha os seus olhos o tempo todo no peito do animal. Deixou o ar sair? Então, assopre novamente. O ideal é fazer uma repetição a cada 3 a 5 segundos. Na situação que mencionei anteriormente - se o cachorro estava engasgado com algum objeto que você não conseguiu retirar, você pode alternar algumas respirações com a manobra de Heimlich com o cão deitado. Faça 5 compressões, para tentar tirar o objeto, e então, tente novamente pôr um pouco de ar nos pulmões dele. É importante que, enquanto o cão não estiver respirando por conta própria, a respiração artificial não seja interrompida por mais do que 30 segundos de cada vez, para diminuir a chance de que ele sofra sequelas neurológicas. Alterne a respiração artificial com a manobra de Heimlich apenas se o cão tiver um objeto obstruindo a respiração, e tiver batimentos cardíacos; se ele não tiver batimentos cardíacos, a massagem cardíaca deve ser iniciada imediatamente, conforme veremos na próxima seção. Interrompa a respiração artificial assim que o cão voltar a respirar espontaneamente. Enquanto isso não acontecer, continue a respiração artificial – inclusive dentro do carro, a caminho da clínica veterinária. Claro que, para isso, você vai precisar da ajuda de no mínimo mais uma pessoa que possa dirigir o carro para fazer o transporte até lá. Passe para o passo seguinte logo após os primeiros “sopros” da respiração artificial. Circulation: Circulação A letra “C” se refere à circulação do sangue. Depois de já ter checado as vias aéreas do cão, e conferido se ele está respirando (e, se for o caso, já estiverfazendo a respiração artificial), você precisa saber se o coração do cão está batendo. Nessa avaliação inicial, pode ser que você tenha encontrado alguma alteração ou não, e, se encontrou, já deve estar tomando as devidas providências. Seja rápido: se o cachorro estiver olhando para você e abanando o rabo, não precisa nem testar. Você pode até conferir a frequência cardíaca dele depois, como vou ensinar a fazer, mas, neste primeiro momento, a questão é: o coração está batendo? Ou não? Só ficaremos na dúvida se o coração de um cão está batendo ou não se ele estiver inconsciente. Para saber se o coração dele tem batimentos, coloque a sua mão sobre o peito do cachorro, preferencialmente do lado esquerdo, logo atrás do cotovelo, e sinta os batimentos. Se ele estiver com o lado esquerdo do peito ferido, pode ser o lado direito. O mais fácil geralmente é do lado esquerdo, exceto se o cachorro for muito gordinho, ou tiver o tórax muito profundo, caso em que a região do cárdia (no meio do peito) pode ser indicada. Supondo que você já tenha iniciado a respiração artificial, você deve checar os batimentos cardíacos do cão de 3 a 5 vezes por minuto. Por hora, não se preocupe com frequência cardíaca. Se o cachorro não estiver respirando, o importante é, no mínimo, manter o coração dele batendo independente do ritmo. Mas, e se não estiver batendo? Aí é hora de começar a massagem cardíaca. Na massagem cardíaca, você vai fazer com que o coração do cachorro bata, e o sangue dele circule, usando as suas mãos. As suas mãos farão o papel do coração do cachorro. E você sabe com que frequência bate o coração de um cão? De 100 a 150 vezes por minuto! E, em filhotes, pode chegar a 200! Como é a massagem cardíaca então? Regra geral, o cão estará deitado com o lado esquerdo para cima, como já mencionamos. Certifique-se, antes de mais nada, de que o coração dele realmente parou antes de começar a fazer a massagem. A massagem cardíaca deve ser feita com o cão no chão, para que você consiga fazer as compressões com a força necessária e para que não haja risco de derrubar o animal. Posicione-se atrás do cão, com os seus joelhos afastados para maior estabilidade. Os braços devem ser mantidos esticados o tempo todo, de modo que a força aplicada venha do dorso, e não dos braços. Por fim, coloque uma mão sobre a outra, com os dedos trançados, logo atrás e um pouco abaixo do cotovelo do cão. Os dedos entrelaçados são para dar mais firmeza e estabilidade ao movimento. Feito isso, comprima e libere o peito do cachorro num ritmo de 100 a 120 vezes por minuto. Para conseguir o ritmo correto, conte em voz alta: 1-e-2-e-3-e- 4-e-5-e-1..., comprimindo nos números e soltando nos “e’s”. É preciso ser rápido, e é preciso ser forte. Não é carinho, é massagem cardíaca: a cada compressão, você deve afundar o tórax a 1/3 ou ½ da sua profundidade. Para um cachorro grande, isso são aproximadamente 4 a 10cm; para um cachorro pequeno, de 1,5 a 3cm. Libere completamente o tórax entre uma compressão e outra. Não se preocupe com o risco de quebrar costelas. Elas são flexíveis e comportam bem este tipo de compressão, sendo que o risco é maior apenas para animais que tenham problemas ósseos. Mas, mesmo nestes casos, é preciso ter em mente que a massagem cardíaca tem como objetivo salvar a vida do cão – então, é um risco que vale a pena correr. Se for um filhote ou um cachorro muito pequeno, use apenas uma mão, comprimindo como uma sanfona. Por outro lado, se o cachorro for muito obeso ou tiver o tórax muito profundo, como um labrador, um dogue alemão, e outros cachorros grandes, a massagem pode funcionar melhor com o animal de barriga para cima. O ritmo e os movimentos são exatamente os mesmos, só vai mudar um pouco a posição: com o cão de barriga para cima, coloque as suas mãos sobre o peito dele, mais ou menos na metade do esterno. Para ficar de barriga para cima, será necessário colocar algum apoio dos dois lados do cão, como almofadas ou toalhas enroladas. Se não tiver como, faça com o cão de lado mesmo. A massagem cardíaca junto com a respiração artificial é o que chamamos de ressuscitação cardiopulmonar. E como coordenar as duas coisas? Aí, temos duas opções. Se você estiver sozinho, faça duas respirações, seguidas por 15 compressões cardíacas. Vá alternando até que o animal se recupere. Não pare a respiração artificial por mais do que 30 segundos, para diminuir o risco de sequelas. Se você tiver ajuda, fica um pouco mais fácil. Enquanto uma pessoa faz a respiração, a outra faz a massagem cardíaca. Quem estiver fazendo a massagem cardíaca conta em voz alta. A cada 5 compressões, deve ser feita uma respiração. A cada 3 minutos mais ou menos, pare a massagem cardíaca para conferir se o cão voltou a respirar ou se o coração dele voltou a bater. Se tiver voltado, ótimo: pare imediatamente e leve o cão para o hospital. Se voltou só o coração, mas a respiração ainda não, continue só com a respiração artificial. E, se não voltou nada, continue. Se houver três pessoas, uma pode se responsabilizar pela verificação dos sinais vitais. Sempre que houver mais do que uma pessoa disponível, façam um revezamento a cada dois minutos ou quando a pessoa que estiver fazendo as compressões ficar cansada. A massagem cardíaca é realmente exaustiva, e, conforme se fica cansado, é comum que as compressões se tornem mais fracas, e também que a pessoa não libere completamente o tórax ao final de cada compressão. Isso compromete a eficácia do procedimento. É interessante que vocês não percam muito tempo. Se você precisar continuar fazendo a massagem por mais do que 20 minutos, então é pouco provável que esse cachorro se recupere; e, se ele se recuperar, tem uma chance grande de que ele tenha sequelas neurológicas bem graves. Então o ideal é que, antes mesmo de começar, você já providencie o transporte desse animal para o hospital veterinário. Este é um dos motivos pelos quais, lá nos e C’s, a gente viu que deve chamar ajuda antes de começar a cuidar do animal. Porque, se você começar a ressuscitação cardiopulmonar, não vai poder parar até esse coração voltar a bater e o cão voltar a respirar. Chegou ajuda para levar ao veterinário? Coloque o cachorro no carro e continue fazendo a ressuscitação durante o trajeto se precisar. Só pare se ele se recuperar, ou então se você perceber que não há nada mais a ser feito. Quando chegar a pessoa que irá te ajudar a levar o cão para o hospital, caso você já não tenha feito isso, peça para ela ligar para o Hospital Veterinário que vocês pretendem ir e avisar que estão levando com um cão nessas condições. Assim, enquanto vocês se deslocam, eles já preparam a equipe e os equipamentos para receber vocês. Entendido isso? O ABC será a primeira atenção que daremos ao prestar primeiros socorros. Sempre? Sempre! Mesmo quando você achar que não está aplicando isso, você vai aplicar. Vamos imaginar uma situação hipotética, para ficar mais claro: Está tudo bem, e você está andando de carro com o seu cachorro, quando, de repente, ele pula para fora da janela. Você para o carro, analisa os três C’s, e vai lá cuidar dele. Aparentemente, ele está bem, só um pouquinho machucado, mas está consciente. Este vai ser um daqueles casos em que, só de bater o olho nele, em menos de um segundo você vai avaliar o ABC. O cachorro está consciente e respirando normalmente. Ótimo. Já avaliou o ABC, não precisa perder tempo colocando espelhinho na frente do nariz dele. Se ele estiver inconsciente, é outra história - talvez você precise de alguns segundos até concluir se elevai precisar, por exemplo, de uma ressuscitação cardiopulmonar ou não. OK, mas nem todas as emergências são tão drásticas a ponto de a gente precisar fazer uma ressuscitação. Existem muitas nuances no meio do caminho. Vamos aprender então a identificar o que é normal, para podermos saber o que não é normal. Identificando Parâmetros Normais Frequência respiratória (FR) Frequência respiratória é, como o nome já diz, com que frequência uma pessoa ou um animal respira. Um cão normal respira de 10 a 35 vezes por minuto. Se estiver se exercitando, ou estressado, é comum essa frequência ficar um pouco mais alta; mas, quando está em repouso, a tendência é que fique mais baixa. Medir a frequência respiratória é bem fácil, e você pode praticar com o seu cachorro, principalmente quando ele estiver dormindo: basta observar quantos movimentos respiratórios o cão faz em um minuto. Em outras palavras, observe quantas vezes ele levanta o peito para puxar o ar, e relaxa. Se o seu cachorro respirar mais do que 30 vezes por minuto enquanto estiver em repouso, leve ao veterinário. Numa situação de emergência, pode ser que a respiração do cão esteja muito superficial, e fique difícil observar estes movimentos. Se for o caso, coloque o seu dedo a poucos centímetros das narinas do seu cão para sentir o ar saindo dele cada vez que ele expirar. Como já vimos na seção sobre o “B’ do ABC, há ainda outras opções para se checar a respiração de um cão, como usar um fio de cabelo ou um espelho na frente do focinho dele. Uma respiração “normal” é natural, silenciosa, e sem esforço. Alguns cães podem fazer barulho para respirar mesmo quando estão bem, como é o caso dos Buldogues, Pugs, e outras raças de focinho curto. Então, você precisa conhecer o que é normal para o seu cachorro, principalmente se ele for um desses cães que roncam, para conseguir identificar se ele está tendo alguma dificuldade. Se o cão parecer que está precisando se esforçar para respirar, também não é normal. Frequência Cardíaca (FC) Um cão normal tem uma frequência cardíaca de 60 a 140 batimentos por minuto (bpm). Se for um filhote, essa frequência pode chegar a 200 bpm. Os cães menores geralmente têm uma frequência cardíaca mais alta do que os maiores - os coraçõezinhos deles batem mais rápido. A frequência cardíaca aumenta se o cachorro estiver estressado, muito animado, ou se exercitando. Por outro lado, se o cachorro estiver descansando, a frequência fica mais baixa. Mas ela também pode estar mais baixa porque o cachorro tem alguma doença, como o hipotireoidismo. Num caso de emergência, por exemplo, se o cão acabou de sofrer um acidente, a frequência cardíaca dele deve aumentar, tanto pelo estresse quanto para tentar compensar uma eventual hemorragia que ele possa ter. Mas, passado algum tempo, se essa hemorragia for demais para o corpo dele conseguir compensar, a frequência cardíaca cai, e isso quer dizer que o cão está entrando em choque. Falaremos mais detalhadamente sobre o choque na próxima seção, mas, caso você nunca tenha ouvido este termo antes, o choque é uma condição muito séria, que acontece quando o animal já está entrando em colapso. É uma das maiores emergências com as quais podemos nos deparar, tanto na medicina veterinária quanto na medicina de humanos. A frequência cardíaca pode ser um pouco mais difícil de monitorar do que a frequência respiratória, principalmente se o cachorro já estiver com o pulso muito fraco, mas pode ser feito. Pratique com o seu cão, para que, se eventualmente você medir a frequência cardíaca dele, já saiba exatamente como fazer, o que procurar, e o que é normal. Com o cachorro deitado com o lado esquerdo para cima, como sempre, coloque a sua mão sobre o peito dele, mais ou menos na altura do cotovelo dobrado dele. Sinta e conte quantas batidas o coração dele dá. Idealmente, você deve contar por um minuto inteiro. Use um relógio para isso, ou, no mínimo, peça a outra pessoa para contar o tempo, para que você não se perca na contagem. Na prática, se não quiser perder tempo, você pode contar por 30 segundos e multiplicar o resultado por dois. Isso deve dar um resultado bem aproximado. Evite medir a frequência cardíaca por períodos menores do que 30 segundos (15 segundos, por exemplo), pois, a partir daí, os resultados podem se tornar muito imprecisos. Os cães têm a chamada “arritmia fisiológica”, que faz com que os batimentos cardíacos deles sejam levemente irregulares. Essas pequenas alterações de ritmo são normais e sutis, de modo que, mesmo com um estetoscópio, é difícil detectá-las com precisão – mas isso pode dar diferença na contagem de batimentos cardíacos, caso você decida conta-los por muito pouco tempo. Outro jeito de medir a FC do cão é sentindo o pulso dele. Não necessariamente o pulso terá a mesma frequência que o coração, mas, em condições normais, a frequência será igual. Eu digo “não necessariamente” porque algumas alterações cardiocirculatórias podem fazer com que o pulso não coincida com a frequência cardíaca. Mas, na maioria dos casos, será igual. O pulso pode ser sentido na região inguinal do cão (parte de dentro da coxa, onde ela se une ao tronco), usando os dedos médio e indicador. Não use o polegar para medir o pulso, porque esse dedo tem uma pulsação própria que pode te confundir. O procedimento será o mesmo: coloque os dedos, pressione só um pouquinho - sem muita força, para não bloquear a circulação, e conte quantas vezes você sente as pulsações. De preferência, conte por um minuto, mas pode fazer por 30 segundos e multiplicar por 2 se quiser economizar tempo. Tempo de Preenchimento Capilar (TPC) O Tempo de Preenchimento Capilar (TPC) é o tempo que o sangue leva para preencher os vasos sanguíneos num determinado lugar. O melhor lugar de se avaliar o TPC num cão é nas suas gengivas (em humanos também). Pressione um dedo contra a sua gengiva, ou a do seu cachorro, e observe que fica uma marquinha clara no lugar que você pressionou. Essa marca fica ali porque você deixou aquele pedaço da gengiva sem circulação de sangue. Mas ele volta rápido: em 1 ou 2 segundos, a cor deve voltar completamente ao normal. Se demorar mais do que dois segundos, você já tem um problema nas suas mãos. Um TPC alto significa que o animal está desidratado, com pouco sangue, ou com algum outro problema circulatório que requer atenção. Então, este é sempre um parâmetro importante a ser avaliado. O que nos leva a mais um detalhe importante: e a cor das mucosas? Cor das Mucosas As mucosas normais, como as da gengiva e da boca, devem ser rosadas. Em alguns cachorros elas podem ser pigmentadas, por isso gengivas pretas ou com manchas escuras podem ser normais. Observe bem como são as mucosas do seu cachorro em condições normais, para conseguir identificar se elas mudarem de cor. Uma das alterações mais comuns de cor das gengivas é a palidez. Uma mucosa pálida, esbranquiçada, é sinal de anemia. Uma anemia moderada pode até não ser uma emergência, mas uma anemia mais forte, com certeza é. Um cachorro com a doença do carrapato, ou com uma anemia imunomediada, pode entrar num quadro grave de anemia rapidamente, a ponto de precisar de transfusão de sangue! Quanto antes for identificada a anemia e a sua causa, melhor a chance de recuperação do cão, e também menor será a probabilidade de que ele precise de uma medida tão drástica quanto a transfusão de sangue. Mas, e se, ao invés de pálidas, elas estiverem MUITO coradas? Por exemplo, vermelhas, ou cor de tijolo? Também é sinal de alerta. Alguns tipos de intoxicação, como por CO2, fazem com que isso aconteça. Jáum cão com insuficiência respiratória vai ficar com as mucosas, inclusive a língua, azuladas. O nosso parêntese aqui é em relação aos Chow Chows e Shar Peis, que têm as mucosas naturalmente azuladas. Para estes cães, o tom azul é normal, e isso dificulta bastante para conseguirmos diferenciar o “normal” daquelas situações em que o animal está ficando sem oxigênio. Uma solução pode ser examinar as mucosas genitais destes animais, que normalmente são rosadas. E, por fim, as mucosas também podem ficar amareladas. Este “amarelão”, que é chamado de icterícia, pode ser visível também em outras partes do corpo, dependendo do quanto a doença está avançada. Além das gengivas, o “branco dos olhos” pode ficar amarelado, a mucosa peniana ou vaginal, e às vezes até a própria pele do cão também pode “amarelar”. O tom amarelo indica problemas no fígado, ou alguns casos de anemia em que o sangue esteja sendo destruído. Tanto um caso quanto o outro são bem sérios, e o cão deve ser levado ao veterinário o quanto antes. A cor amarela pode ser mais forte ou menos forte, e pode ser visível em diferentes partes do corpo, não necessariamente em todas essas que citei. Ela pode ser perceptível apenas nas gengivas, ou só nos olhos, por exemplo. Quanto mais afetado o animal, mais amarelo ele vai ficar. Elasticidade da Pele Outra informação importante que podemos obter a partir de um exame rápido do cão é saber se ele está bem hidratado. Isso é muito fácil de fazer: levante uma prega de pele dele, e observe se ela volta rápido para o lugar. Não é para beliscar nem doer, só puxar um pouco uma sobrinha de pele. Num cachorro que esteja desidratado, a prega de pele vai demorar um pouco para voltar para o lugar, ou pode até mesmo ficar marcada ali por um tempo. Se isso acontecer, é porque o cachorro está muito desidratado. Tome o cuidado de escolher um local onde haja alguma camadinha de gordura, porque se o cachorro for muito magro, vai ser difícil até puxar a pele sem beliscá-lo. Por outro lado, se ele tiver pelancas ou dobrinhas, como os Shar Peis, escolha um pedaço que seja um pouco mais esticadinho. Geralmente, no tronco é um bom lugar, mesmo para um Shar Pei, se ele for adulto. Temperatura A temperatura normal do cão é um pouco mais alta do que a nossa, até porque normalmente medimos a temperatura deles no reto. Existem outras formas de medir a temperatura do cão? Até existem, mas a mais precisa e mais acessível continua sendo o termômetro no reto do cão. Os termômetros auriculares, por exemplo, muito usado para bebês, tem o problema de não terem o seu uso bem padronizado em relação à forma de medir, e quais seriam as temperaturas consideradas “normais” a partir da sua leitura. Se você tiver um aparelho desses em casa, faça o teste em si mesmo ou no seu cachorro: observe que, conforme o jeito que você posicionar o termômetro, e o local, ele vai mostrar uma leitura diferente. Outra opção mais moderna são os termômetros com infravermelho, que medem a temperatura sem nem precisar encostar no animal. Eles evitam o estresse e são muito bons, mas também são bem mais caros. E, por fim, vamos aos termômetros comuns. Você pode usar um termômetro digital ou de mercúrio. Eu prefiro o digital, porque é mais rápido e não tem o risco de quebrar e espalhar mercúrio no chão da sua casa, mas, se você preferir usar o de vidro, pode usar também. A técnica é a mesma para os termômetros digitais ou de vidro. O primeiro passo é lubrificar o termômetro. Use um lubrificante à base de água (como o KY) ou então a vaselina. Faça uma boa contenção no cão, e, se for o caso, coloque uma focinheira. Alguns cães não se incomodam muito, mas outros podem ficar bem nervosos. Geralmente, é trabalho para duas pessoas: uma segura o cão enquanto a outra mede a temperatura, a não ser que o cachorro seja muito tranquilo. Insira o termômetro no ânus do cão, mas evitando colocá-lo em linha reta, no meio. Deixe-o levemente inclinado para algum dos cantos, para que ele fique em contato direto com a mucosa do reto. Isso é importante porque, se ele tiver um bolo fecal ali, e você inserir o termômetro no meio, acabará medindo a temperatura das fezes dele, e não a temperatura dele. E o resultado será diferente. Enfim, aguarde a leitura. Se for um termômetro digital, ele deve apitar para avisar quando terminou de medir. Se for um termômetro de vidro, isso deve levar 1 a 2 minutos, até que você veja que a coluna já terminou de subir. Remova o termômetro, veja a temperatura, e limpe-o imediatamente com álcool 70º. A temperatura normal para um cão varia entre 37,8ºC a 39,4ºC; E 39,5ºC, já é considerado febre? Sim. E 40ºC? É uma febre muito alta! E 41ºC? O cão já está correndo risco de vida. A margem é bem pequena. Mesmo com uma leitura dentro do limite superior – a partir de 39ºC, por exemplo - é bom você ficar atento. Não é febre, mas é quase. É como uma criança com 37ºC: não chega a ser uma febre. mas, normalmente, algo está errado. Comportamento O último parâmetro que vamos estudar é o comportamento. O que é um comportamento “normal”? A resposta varia de um cachorro para o outro. Você precisa saber reconhecer o que é um comportamento normal para o seu cachorro. Alterações no sono, no apetite, na disposição para brincar, e até no humor, são indicativos de que alguma coisa está errada. Mas você só vai saber se mudou se você souber o que é normal, certo? E ninguém melhor do que você para saber se o seu cachorro está “normal” ou não. Um conceito interessante que aprendi na faculdade foi algo que a minha professora na época chamava de “NESB” - é uma sigla, que quer dizer “Não Está se Sentido Bem”. É aquele cachorro que chega no consultório, e, quando perguntamos o que está havendo, o tutor dá aquela resposta bem ampla: “não sei, doutora, mas eu acho que o Totó não está se sentindo bem. Tem alguma coisa errada”. A pessoa às vezes não sabe nem descrever o que está errado, diferente. E aí? Você conhece o seu cachorro. Você sabe se ele “não está se sentindo bem”, mesmo que você não consiga nem dizer exatamente o que mudou. Então, se você desconfia que algo está errado, provavelmente é porque está mesmo. Leve ao veterinário, sem medo de ser taxado de chato ou neurótico. Se o veterinário examinar, concluir que está tudo bem, e te dispensar, tudo bem; talvez tenha sido algo passageiro, um excesso de zelo mesmo. Já se o veterinário te dispensar sem nem olhar para o cachorro direito, procure outro. Qualquer problema é mais fácil de ser resolvido se for detectado no começo. E esse “NESB” pode ser o início de algo muito maior, então, merece atenção, sim. Choque O choque é um colapso do sistema circulatório. Ele acontece em situações extremas, quando todas as tentativas do corpo de compensar algum problema grave - seja uma hemorragia, uma infecção, um problema cardíaco, entre outros - falharam. O choque circulatório na verdade é um mecanismo de defesa, que tem como objetivo preservar os órgãos mais importantes, como o cérebro. O problema é que o próprio choque muitas vezes é tão destrutivo que o cão pode morrer por causa do choque antes de morrer por causa do problema que o levou a entrar em choque (a infecção ou a hemorragia, por exemplo). Um cão que esteja entrando em choque deve ser levado ao veterinário imediatamente. Cada minuto é precioso. O que você precisa saber sobre o choque é, basicamente, como identificar. Não há muito o que possa ser feito sem ter uma estrutura mínima, como a de um consultório ou clínica veterinária. Em casa, o melhor que se pode fazer é pegar o cão e dirigir-se imediatamente ao consultório, a clínica, ou o hospital veterinário. Não adianta chamar oveterinário para ir até a sua casa, a não ser que ele preste o serviço de transportar o animal para a clínica. Quais são os sinais do choque? Um dos sinais mais característicos é o tempo de preenchimento capilar (TPC) aumentado. Como vimos na seção anterior, o TPC é aquele teste em que colocamos o dedo na gengiva do cão, para ver quanto tempo leva para voltar a cor normal. Se levar mais do que 2 segundos, já temos um sinal de alerta. A cor das gengivas também é um indicativo importante, pois normalmente elas ficam pálidas. Mas no início do choque, a cor pode estar normal, por isso, observe o conjunto todo: se o cachorro estiver letárgico, lento, confuso, ou se chegou a perder a consciência, não perca mais tempo e leve ao veterinário no mesmo momento. O pulso de um cachorro em choque pode ser difícil de achar, porque estará rápido e fraco. A temperatura geralmente fica mais baixa e é importante aquecer o animal, a não ser que ele esteja entrando em choque por causa de uma infecção – caso em que estará com febre -, ou então se ele estiver em intermação. Já mencionamos brevemente a intermação no Capítulo 1, e voltaremos a tocar no tema com maior profundidade no Capítulo 11, mas, essencialmente, ela acontece quando o cão entra em colapso pelo calor. Se ele estiver entrando em choque por conta de uma intermação, você precisará tentar resfria-lo ao invés de aquecer. Logo após o acidente, se o cachorro tiver sido atropelado, por exemplo, ele pode ficar agitado e correr para longe, que é um mecanismo de defesa que ele tem para conseguir se afastar do perigo ainda que esteja ferido. Mas, conforme o choque for progredindo, os sinais começam a ficar mais óbvios. O choque pode ser causado por hemorragias, por pressão muito baixa, ou por infecção. No caso de o seu cão ter uma hemorragia, você pode e deve tentar conter essa hemorragia enquanto providencia o transporte dele para a clínica ou hospital. Capítulo 6. Técnicas de Salvamento Afogamentos O resgate de uma pessoa ou de um animal que esteja se afogando é, sem dúvida, um dos mais perigosos, porque muitas vezes a pessoa que vai fazer o resgate também põe a sua vida em risco. Genericamente falando, eu diria que resgatar um cão é mais fácil do que uma pessoa. Em primeiro lugar, porque os cachorros normalmente já sabem nadar, e, quando se afogam, é por exaustão. Só isso já diminui muito o fator “pânico”, que toma conta de qualquer pessoa que esteja se afogando. É claro que o cachorro vai ficar estressado se perceber que não está conseguindo sair da água, mas dificilmente ele estará em pânico. Isso inclusive melhora as chances de sobrevivência dele. O segundo fator é que pessoas em pânico que estejam se afogando tendem a se agarrar a qualquer coisa que apareça perto delas, e a empurrá-la para baixo, para que elas próprias consigam subir. Em muitos casos, a “coisa” que é empurrada para baixo é justamente aquela pessoa que pretendia salvá-la, o socorrista. E, assim, ambos se afogam. Um cachorro não vai fazer isso, nem que ele queira. Ele não tem condições anatômicas de fazer isso. Então, temos um risco a menos quando resgatamos cães. Um afogamento pode acontecer em qualquer lugar - em uma piscina, num lago, num rio, ou no mar. A piscina geralmente é a situação menos perigosa, pois, na maioria dos casos, dá pé para uma pessoa adulta, e não oferece outros riscos, como, por exemplo, correntezas, ondas, ou animais selvagens. Já em “águas naturais”, o risco é bem maior, principalmente no mar e em rios. Se você sabe que não sabe nadar, não se arrisque a entrar num corpo d’água natural ou numa piscina funda sem no mínimo algum tipo de equipamento de segurança, como um colete salva-vidas. E tenha em mente que, em muitas situações, a questão não é apenas saber nadar. Existe uma coisa chamada correnteza, que pode te puxar para longe da praia ou das margens do rio, e dificultar o seu retorno depois. Se houver outra pessoa mais experiente que possa entrar na água para fazer o resgate, como um bombeiro ou um surfista, é sempre melhor contar com a ajuda dela. Além do colete salva-vidas, uma corda amarrada na cintura pode ser muito útil para facilitar o seu retorno após um resgate na água. Em um rio muito bravo isso é especialmente importante, já que ele pode te arrastar para longe, jogar contra pedras, ou até mesmo fazer com que você caia em uma cachoeira. Outra opção, se houver bastante gente e nenhum equipamento, é uma corrente humana: várias pessoas se dando as mãos formando uma corrente, de modo que uma faça segurança para a outra. A pessoa que tiver mais experiência, souber nadar melhor, ou for mais forte, vai na ponta para fazer o resgate. Essa técnica funciona bem na praia, mas pode ser perigosa em rios bravos, já que, se alguém no meio da corrente soltar a mão acidentalmente, várias pessoas ficarão em perigo. Mas e se você estiver sozinho, não souber nadar, não tiver equipamento, e nem outras pessoas em volta? Então, ligue para os bombeiros, para a polícia, para o seu primo, para quem você achar que consegue chegar lá mais rápido. Procure por pessoas próximas que possam te ajudar. Lembre-se sempre dos 3 C’s: você avaliou o cenário e concluiu que o risco é grande demais? Passe para o próximo passo e chame ajuda. Se você decidir pular para o terceiro C - que é cuidar -, as chances são que você irá se afogar junto com o cachorro ou a pessoa que pretendia ajudar. E ninguém vai ganhar nada com isso. Mas vamos supor que você saiba nadar, tomou os cuidados de segurança (colete salva-vidas, cordas, outras pessoas.), então o que fazer? Bom, mais uma vez vamos usar aquele ditado que aprendi no curso de salva-vidas: “make it work”. Faça funcionar. Dê um jeito. Entre na água, pegue o cachorro, e segure-o como se não houvesse amanhã. Não interessa se pegou de mal jeito, se só conseguiu pegar o rabo ou a orelha dele. Não solte, porque você pode não ter outra chance. Depois, se conseguir, você ajeita ele melhor. Com humanos, é um pouco diferente, você vai ter que “dar um jeito” também, mas existem técnicas para se aproximar de uma pessoa que esteja se afogando para que ela não te afogue também. Já com cachorros, do jeito que você pegar, está no lucro. Ele não vai te puxar para baixo. Finalmente, você tirou o cachorro da água. Ele está consciente? Comece imediatamente a avaliar o ABC. Seja rápido: A - as vias aéreas, como estão? Provavelmente, cheias de água. Use a técnica do balanço, ou, se preferir, a manobra de Heimlich. B - Boa respiração. Ele está respirando? Se sim, ótimo. Não? Inicie a respiração boca-focinho. C - Circulação: o coração está batendo? Continue só com a respiração artificial até que ele volte a respirar espontaneamente. Se não estiver batendo, é hora de fazer a massagem cardíaca. Pare os procedimentos de ressuscitação quando os batimentos cardíacos e a respiração voltarem. O seu resgate foi um sucesso, o cachorro está respirando, e o coração batendo? Ótimo! Mas ele pode estar entrando em hipotermia. enrole-o numa toalha, cobertor, ou o que tiver ao seu alcance para tentar secar e aquecer o cão. Se possível, leve para casa ou a uma pet shop com banho e tosa para secá-lo com secador o quanto antes. Falaremos mais detalhadamente sobre a hipotermia no Capítulo 11, mas esse já é um começo para começar a reverter, ou evitar que ela ocorra. Nem sempre que um animal se afogar, ele entrará em hipotermia. Se estiver calor, se a água não estiver muito fria, talvez ele não chegue a esse ponto. Mas é bom secar mesmo assim, e, em seguida, verificar se os seus parâmetros estão todos normais (frequência cardíaca, respiratória,temperatura, cor das mucosas, tempo de preenchimento capilar, etc.). Uma consequência mais tardia do afogamento pode ser a pneumonia. Por isso, mesmo que o seu resgate tenha sido um sucesso, é recomendável levar ao veterinário para examinar e medicar, se for o caso. Engasgos Os engasgos não são muito diferentes dos afogamentos, no sentido que precisaremos ajudar a desobstruir as vias aéreas do cão e ajudá-lo a voltar a respirar, se for o caso. O detalhe aqui é que é importante sabermos com o que o cão se engasgou, principalmente para os cuidados que virão depois. Por quê? Porque um cão pode se engasgar com uma bolinha, mas ele também pode se engasgar com uma agulha, ou um pedaço de osso de galinha. Percebe a diferença? Enquanto o problema da bolinha vai ser resolvido no momento em que você conseguir retirá-la da garganta do cão, se for um objeto mais pontiagudo ou cortante, podem haver problemas depois. Estes objetos podem sair literalmente rasgando o animal. E o pior: se forem engolidos ao invés de expelidos, podem passar rasgando o esôfago, o estômago, e os intestinos. Objetos que contenham chumbo, sejam eles pontiagudos ou não, também têm um outro fator complicador, que é uma possível intoxicação. Regra geral, então: Se era um objeto não cortante e que você conseguiu retirar, considere o problema resolvido. Se o objeto foi para dentro, independente do que tenha sido, leve ao veterinário. Mas uma bolinha vai sair cortando o cachorro por dentro como uma agulha? Não, mas, assim como ela tinha ficado presa na garganta, ela também pode ficar presa no meio do trato digestivo do seu cão e causar uma obstrução, o que é bem perigoso. Uma meia, um pedaço de tecido ou um cordão, podem causar ainda um outro problema, chamado intussuscepção. A intussuscepção é quando um pedaço do intestino desliza para dentro do outro, o que acaba por bloquear não só o fluxo dos alimentos, mas também o próprio fluxo do sangue para o intestino. Quer dizer então que, sempre que um cachorro comer algo que não deve, temos motivo para pânico? Não, pois muitas coisas conseguem sair do mesmo jeito que entraram. Mas é interessante levar ao veterinário e acompanhar. Dependendo do que foi engolido, pode ser necessário fazer radiografias ou ultrassonografias para acompanhar o progresso do objeto, e, caso ele seja perfuro-cortante, ou cause uma obstrução ou intussuscepção, uma cirurgia pode ser necessária. E para evitar tudo isso? Não deixe ao alcance do seu cão qualquer objeto que ele possa eventualmente engolir, especialmente se você tiver um filhote em casa. Os filhotes roem qualquer coisa - de fios elétricos a sapatos, meias, o que estiver ao alcance da boca. Normalmente, essa mania passa conforme o cão amadurece, e podemos relaxar um pouquinho quando o cão já estiver adulto e bem-educado. Cuidado também com os brinquedos que for comprar, para que eles sejam resistentes o suficiente para não se despedaçarem na hora que o cão for brincar com eles; ou então, que sejam comestíveis. Um exemplo de brinquedo que pode ser bem perigoso são os bichinhos de pelúcia. Se o seu cachorro só brinca com ele sem tentar destruir, tudo bem. Mas alguns cães gostam de rasgar o bichinho e arrancar o seu enchimento. Nesse caso, temos duas possibilidades: (1) o cachorro arranca e cospe o enchimento, o que não é tão problemático, ou (2) ele engole o enchimento ou o próprio tecido do bichinho. Neste último caso, ele corre o risco de sofrer uma obstrução intestinal ou uma intussuscepção. Mas digamos que você tomou cuidado, mas o seu cachorro se engasgou mesmo assim. Ele pode se engasgar com a ração, com comida, e até com água, não apenas com objetos inapropriados. O que fazer? Manobra de Heimlich! Já descrevi esta técnica no Capítulo 5, e sugiro que você revise e pratique a manobra. Inclusive, procure se informar sobre as variações dessa manobra para humanos, adultos e crianças. É algo muito simples e que salva vidas. É realmente desesperador você se deparar com uma pessoa ou um animal tentando respirar sem conseguir, e não saber o que fazer. Principalmente se esse alguém for o seu cachorro ou, pior ainda - o seu filho. A manobra de Heimlich é algo que todas as pessoas deveriam conhecer e saber fazer com perfeição. E se a manobra de Heimlich falhar? E se o cachorro continuar engasgado, ou até mesmo desmaiar? Como já mencionei na seção sobre o ABC, se você tentar aplicar a manobra de Heimlich por mais de dois minutos sem sucesso, leve o cão ao veterinário imediatamente, antes que a situação se agrave ainda mais. Se o cão desmaiar, abra a boca dele e tente remover o objeto, usando os seus dedos ou uma pinça, sempre tomando cuidado para não o empurrar mais para dentro. Você pode tentar a manobra de Heimlich novamente com o cão deitado, e, se necessário for, inicie a respiração artificial e a massagem cardíaca. A maioria dos casos não vai chegar a esse ponto, principalmente se você agir rápido. Parada Cardiorrespiratória A parada cardiorrespiratória pode acontecer por inúmeros motivos, que variam desde problemas de afogamentos e engasgos, que já mencionamos, até uma insuficiência cardíaca, ou por um estágio avançado de choque circulatório. O infarto cardíaco propriamente dito é raro em cães, e, quando acontece, passa facilmente despercebido. A explicação para isso é a abundante circulação colateral presente nos corações dos cães. O quê? Bom, o infarto cardíaco acontece quando um vaso sanguíneo que “alimenta” o coração fica entupido e tem o seu fluxo interrompido. Consequentemente, um pedaço do coração fica sem receber energia e oxigênio, parando de funcionar. Em humanos, isso é devastador, especialmente quando acontece em pessoas jovens. Os infartos em jovens, apesar de serem menos comuns, são na maioria das vezes fulminantes, enquanto não raro, os idosos sobrevivem. O que acontece é que o coração dos cães tem naturalmente muito mais vasos sanguíneos do que os nossos, sendo plenamente capazes de compensar a eventual perda de um ou outro vaso. Então, se um vaso sanguíneo se entupir no coração de um cachorro, na maioria das vezes, não haverá grandes consequências. As pessoas idosas também têm muito mais vasos sanguíneos irrigando os seus corações do que as jovens, explicando assim a sua maior resiliência aos infartos. Mas, independentemente da causa, se o coração de um cão parou de bater, precisamos fazer com que ele volte a funcionar imediatamente se pretendermos dar a este animal alguma chance de sobrevivência. E como fazer isso? Com a ressuscitação cardiopulmonar, conforme já descrito no Capítulo 5. Infelizmente, as estatísticas são pouco favoráveis. Em humanos, os índices de sucesso da ressuscitação cardiopulmonar giram em torno de 20%. Para os cães, apenas 6%. Esta diferença se deve principalmente à falta de padronização e treinamento da maioria das pessoas em relação às técnicas de salvamento. Memorize os passos, aprenda as técnicas, e pratique (num boneco) para aumentar as suas chances de sucesso numa situação real de vida ou morte. A ressuscitação cardiopulmonar não deve ser interrompida até que o cão volte a ter batimentos cardíacos e a respirar espontaneamente, ou até que se chegue ao estabelecimento veterinário. Se for o caso, conforme já enfatizado anteriormente, os procedimentos de ressuscitação devem continuar inclusive durante o transporte, dentro do carro. Ainda que se tenha sucesso na reversão da parada cardiorrespiratória, e da sua causa, este cão deve ser levado ao veterinário imediatamente. Capítulo 7.Distúrbios Gastrintestinais Vômitos e Diarreias Quando vômitos e diarreias são considerados emergências? Nem todo episódio de vômito ou diarreia é uma emergência. Mas você sabe identificar quando isso passa a ser uma emergência? O vômito e a diarreia podem ter uma infinidade de causas, variando desde vermes intestinais a intoxicações e problemas neurológicos. O que causa o vômito e o que causa a diarreia também pode ser diferente, significando que nem todo cão com diarreia, vomita, e nem todo cão que esteja vomitando, tem diarreia. Mas o resultado final é geralmente o mesmo: desidratação. A desidratação é extremamente perigosa e pode matar. Alguns casos de diarreia, em especial, podem fazer com que o cão se desidrate de forma muito rápida, gerando situações de emergência. Um filhote, um cão muito velhinho, ou que tenha problema cardíaco ou renal, sempre deve ser levado ao veterinário se tiver diarreia, pois estes são animais mais frágeis e suscetíveis à desidratação. Uma diarreia muito líquida, em jatos, ou que contenha qualquer quantidade de sangue, também é considerada uma emergência, e você deve levar o cão ao veterinário no mesmo dia. E quanto às fezes pastosas, que não chegam a ser diarreia? Estas situações não são emergências, mas é bom você ficar atento. Se for uma vez só, um dia só, pode ter sido apenas uma leve indisposição intestinal; mas se o problema persistir por dois dias ou mais, ou, se o cão tiver episódios recorrentes de diarreia, leve ao veterinário. Pode ser verminose, infecção intestinal, ou problemas de absorção, por exemplo. O vômito deve ser diferenciado da regurgitação. O vômito vem do estômago. O cão faz força e barulho para vomitar, e o alimento às vezes sai semi-digerido. O vômito pode ser amarelado, esverdeado, pode ter ou não pedaços de comida, e pode ser só uma espuminha branca. Cada tipo de vômito tem um seu significado clínico. Observe as características do vômito do seu cão para relatá-las ao médico veterinário. A regurgitação acontece de forma mais “natural”: ela sai rápido e sem esforço. Geralmente, o alimento não está nem digerido, e o que você encontra é um bolo de ração com as bolinhas inteiras ainda, ou outros alimentos que ele tenha ingerido. Outra diferença importante é que um cachorro pode regurgitar e continuar com o seu comportamento ativo e normal, enquanto o vômito normalmente vem acompanhado por um mal-estar e depressão. O vômito em geral é mais preocupante do que a regurgitação, porque ele desidrata mais rápido, e muitas vezes as suas causas são mais graves. Um cão com insuficiência renal ou hepática que não esteja bem compensada vai começar a vomitar. Então, se o seu cachorro tiver alguma dessas doenças e estiver em tratamento, mas, de repente, começou a vomitar, leve ao veterinário no mesmo dia. Pode ser sinal de que ele esteja descompensando (a doença não está mais “sob controle”)! Cuidado também com cães diabéticos, que podem entrar em hipoglicemia rapidamente. Se o seu cão for diabético e vomitou, ligue já para o veterinário e avise, pois será necessário ajustar a dose da insulina dele até que o problema seja resolvido, como veremos no Capítulo 8. Filhotes vomitando também são sempre preocupantes, principalmente por conta daquelas doenças comuns que os afetam, como parvovirose e a cinomose, que podem matar ou deixar sequelas. Portanto, leve também o filhote ao veterinário com certa urgência se ele começar a vomitar. Se o cão for adulto, saudável, e vomitou apenas uma vez, você pode até esperar e observar um pouquinho. Pode ser também uma leve indisposição. Mas, se ele voltar a vomitar, leve logo ao veterinário. Sangue no vômito nunca é normal, e deve ser visto como uma emergência que requer atenção profissional imediata. E quando não é emergência, não precisa levar? Precisa, mas a intenção desta seção é que você consiga identificar as situações mais graves e que exigem que o cão seja atendido imediatamente ou no mesmo dia. Os casos de emergência não podem esperar até o dia seguinte, ou até o feriado ou o final de semana acabar, porque, até lá, o seu cão já estará muito debilitado. E a regurgitação? Costuma ser menos complicada, e os cães às vezes até induzem a regurgitação ao comerem grama ou mato. Se o cão continua aparentemente bem, e é uma coisa bem esporádica, não é tão preocupante. Mas, se ele regurgita frequentemente, se está ficando debilitado, ou emagrecendo, ele pode ter algum problema, como megaesôfago, por exemplo, e você deve levá-lo ao veterinário. Cuidados com Dieta e Hidratação O que fazer com um cão que esteja com diarreia e/ou vomitando? Além de levar ao veterinário, é claro, para descobrir a causa e tratá-la, tem alguns cuidados que devemos tomar. O nosso principal objetivo deve ser manter este animal nutrido e, acima de tudo, hidratado. O que vou dizer aqui pode até gerar um pouco de controvérsia, porque as orientações dos veterinários variam muito neste sentido. Vou dizer como eu considero a melhor forma, e o porquê, para que você possa compreender. Já vi muitos colegas, e também alguns livros, que recomendam “jejum hídrico e alimentar” para cães que estejam com diarreia ou vômito, por 24 horas. Isso significa deixar o cão sem água ou alimento por um dia inteiro. O principal argumento dessa corrente é que a alimentação ou a água podem fazer com que o cão vomite ainda mais, ou perca ainda mais água nas fezes. Mas e como fica a hidratação de um animal que está continuamente perdendo água, e não está repondo? Se não houver como repor esta água, ao final de um dia, ele precisará tomar soro na veia! É claro, tomar soro na veia (hidratação intravenosa) pode ajudar muito, mas, sendo possível resolver o problema sem isso, é muito melhor. Não precisamos esperar que o cão se desidrate para tomar uma providência. E a alimentação? Bem, o cão que esteja com diarreia ou vomitando está obviamente doente. Independentemente do que causou o problema, ele vai precisar de energia para se recuperar, e não vai fazer isso com luz do sol. Ele precisa de comida, de calorias. Mas então, pode continuar tudo normal? Não exatamente. É verdade, principalmente no caso do vômito, que a água ou o alimento podem fazer com que o cão vomite novamente. Então, o que a gente vai fazer é oferecer, sim, líquidos e alimentos para ele, mas em pequenas porções. Assim, damos a chance de ele absorver aos poucos, sem induzir o vômito. E o que podemos dar numa situação dessas? No caso dos líquidos, é interessante trocar a água do cão por uma solução reidratante. Esta solução pode ser um soro caseiro, água de coco, pode ser um daqueles envolopinhos de pó para hidratação vendidos em pet shops (Eletrolítico Pet®, por exemplo), ou até mesmo o Pedialyte®, que é vendido para uso em crianças nas farmácias humanas (parecido com Gatorade®). Estas soluções favorecem a absorção da água, e têm uma dupla vantagem em relação à água pura: hidratam melhor e têm menor chance de induzir o vômito logo depois de beber. Se o cachorro vomitar mesmo com pequenas quantidades de água ou de uma solução hidratante, ofereça gelo para ele lamber. O gelo ajuda a hidratar, e tem bem menos chance de causar vômito. Mais uma opção muito interessante, principalmente para cães que estão com diarreia, é a chamada “água de arroz”. A água de arroz é inclusive recomendada pela OMS para crianças com cólera e outras diarreias graves, porque ela hidrata e ajuda a firmar as fezes. Para fazer, é bem simples: cozinhe uma xícara de arroz em 4 xícaras de água. Se quiser incrementar,coloque uma cenoura descascada para cozinhar junto também. É só isso. Cozinhe por 20 minutos, espere esfriar, e dê a água para o cachorro beber. Para deixar mais gostoso para ele, você pode misturar ainda uma colherada de papinha de bebê nessa água. Os alimentos oferecidos devem ser bem brandos, como arroz com frango, meio a meio. Você também pode dar uma “encorpada” nessa alimentação com um pouco de abóbora, que tem propriedades bem interessantes: ela é boa tanto para conter a diarreia quanto para soltar o intestino, se o animal estiver constipado. Basicamente ela ajuda a regular o trânsito intestinal. Caso o seu cão tenha algum tipo de restrição alimentar, como, por exemplo, por conta de uma insuficiência renal, consulte o seu veterinário quanto à dieta mais adequada para ele. E quanto pode dar de cada vez? Aí, varia bastante de um caso para outro. É preciso determinar quanto o seu cão consegue comer - se é que ele quer comer -, de cada vez, sem vomitar. Eu me lembro, por exemplo, de uma emblemática fase da minha vida, que foi quando a minha cadelinha Shana teve uma crise de insuficiência renal. Para quem não conhece o meu site (www.meucaovelhinho.com.br), ou conhece, mas não leu este pedaço, Shana foi a minha cadelinha Poodle, que morreu aos 15 anos de idade, em 2011. Na época, eu já era formada em Medicina Veterinária há alguns anos, mas ela foi a grande inspiração para que eu me direcionasse para a geriatria, e eventualmente, criasse o Meu Cão Velhinho. Bom, mas o que aconteceu foi que a Shana estava numa crise gravíssima de insuficiência renal, e não queria comer absolutamente NADA. Ela estava ficando cada dia mais fraca, mais debilitada, e nada a convencia a comer. Então, comecei a fazer alimentação forçada nela, com ração pastosa e com papinha de bebê. Se eu desse uma quantidade razoável, como http://www.meucaovelhinho.com.br seria uma refeição, por exemplo, ela vomitava. Então, eu enchia uma seringa de mais ou menos 10 mL, com aquele alimento bem molinho, que era quase mais água do que sólido, para poder passar pela seringa, e dava na boca dela. Ela odiava. Começou a fugir de mim. Principalmente porque eu estava fazendo isso a cada 30 a 40 minutos durante o dia todo, para tentar fazer com que ela ingerisse uma quantidade razoável de calorias. Quando eu tentava aumentar um pouco a quantidade, ela vomitava. Então, ela precisou ser alimentada em “doses homeopáticas” mesmo. Depende muito de cada cachorro, e do que ele tem. Alguma coisa que ele consiga comer e manter no estômago é melhor do que nada. Toda doença desgasta e requer energia para ser combatida. No caso da minha cachorrinha, para quem ficou curioso, eu fiquei nesse ritmo com ela por aproximadamente 10 dias, e ela estava definhando, mas começou a melhorar após o início da alimentação forçada. A crise dela durou cerca 2 semanas, até que, finalmente, ela conseguiu tirar a patinha da cova e se recuperou. No início, não cheguei a forçar a alimentação, até que ela começou a ficar muito fraca. A alimentação forçada foi fundamental para a recuperação dela, mas não foi a única medida que precisamos tomar para ajudá-la. Ela também precisou ser hidratada e medicada por via intravenosa (“soro na veia”), entre outros cuidados importantes. A alimentação forçada não é algo que devamos fazer simplesmente toda vez que o cão deixa de comer. De início, você vai oferecer pequenas quantidades de algum alimento que seja palatável (gostoso) e leve - geralmente, como já mencionei, arroz com frango é uma ótima pedida. Se ele não quiser comer, deixe, e ofereça novamente mais tarde. Só se ele começar a ficar realmente debilitado é que podemos começar a pensar em fazer alimentação forçada, via sonda, ou até nutrição parenteral (“na veia”) em casos mais extremos. Mas antes disso, com certeza você que é um tutor responsável já terá levado o seu cão ao veterinário, vocês já terão uma ideia do que estão enfrentando, e, se for o caso de fazer alimentação forçada, o seu veterinário irá te orientar neste sentido. Um detalhe digno de atenção em relação à alimentação de cães internados ou que sejam submetidos à alimentação forçada é: nunca dê, nessa fase, o alimento que você pretende manter depois que ele melhorar. Isso porque eles desenvolvem aversão àquele alimento. Mesmo que o cão até gostasse antes, ou que não achasse tão ruim assim quando estava doente, tem uma boa chance de que, depois disso, ele não queira mais nem ouvir falar daquela comida. Procure dar outros alimentos, o veterinário irá te orientar em relação ao que pode ou não dar. Para encerrar o assunto dos vômitos e diarreias: “mas, doutora, não tem um remedinho que a gente possa dar? ” Não. Se for o caso de o cão tomar algum “remedinho”, então a medicação adequada será indicada pelo médico veterinário que atendê-lo, depois de diagnosticar a causa do problema. A diarreia e o vômito são os sinais, de longe, mais comuns na clínica médica de pequenos animais, e podem ter uma infinidade de causas. Se um cão for medicado sem o devido diagnóstico (isso é, sem que se saiba o motivo dos vômitos ou da diarreia), pode até ser que, em algumas situações, o remédio tenha algum efeito. Mas tem também uma boa chance de que, sem querer, importantes sintomas sejam mascarados e a consulta ao veterinário seja atrasada - o que, em última instância, vai fazer com o que o seu cachorro sofra mais e por mais tempo. E, na pior das hipóteses, alguns medicamentos podem até mesmo agravar o problema. Se for o caso de medicar, o veterinário que atender o cão irá prescrever o que precisar. Fora a medicação, o que pode ser feito em casa? Manter o cachorro o mais hidratado e bem nutrido possível. Siga as instruções acima em relação à alimentação e hidratação, e leve-o ao médico veterinário para o devido diagnóstico e acompanhamento. Constipação e Obstruções intestinais A constipação é o exato oposto da diarreia e do vômito: é quando não sai nada. Se o seu cachorro está há mais de dois dias sem defecar, ele está constipado. Enquanto o comportamento dele continuar “normal”, e ele estiver bem-disposto e se alimentando bem, não é uma emergência, e o problema deve se resolver em breve, mas podemos ajudá-lo. Existem vários motivos por que o um cão pode estar constipado, mas uma das mais comuns é o ressecamento, o cachorro pode estar, simplesmente, levemente desidratado. Se o problema for este, basta incentivá-lo a beber água. Mostre o potinho, espalhe potes de água pela casa, se ele tiver dificuldade de locomoção, invente uma brincadeira, dê um cubo de gelo para ele lamber se estiver calor, e por aí vai. Uma colheradinha de azeite de oliva pode ajudar também. Dê uma colher de chá para um cachorro pequeno, ou uma colher de sopa para um cachorro grande. Outra coisa que você pode fazer para ajudar a soltar o intestino do seu cão é adicionar às refeições do seu cão, um pouco de cereal de trigo integral (como o All Bran®) às refeições dele: 1 colher chá para cães pequenos, de sopa para cães médios, ou ¼ de xícara para cães grandes. Como já mencionamos anteriormente, a abóbora é ótima tanto em casos de diarreia quanto de constipação: adicione um pouco de abóbora à alimentação dele para um bom trânsito intestinal. Por fim, caminhar estimula o intestino a funcionar, por isso, leve-o para passear por pelo menos 30-40 minutos. Se, mesmo assim, ele não defecar dentro de 48 horas, leve ao veterinário para examinar. Não dê qualquer laxativo ou enema por conta própria. Na maioria dos casos, a constipação não é uma grande emergência. Mas fique atento se o seu cão tiver alguma doença que predisponha à desidratação,como diabetes ou insuficiência renal crônica, porque, nestes casos, a constipação pode indicar que ele está prestes a “descompensar”. Nestas situações, você deve procurar o seu veterinário o quanto antes, para ver se o problema do seu cão é só intestinal mesmo, ou se ele está entrando em uma crise. Exceto nas situações mencionadas no parágrafo anterior, de cães que sofrem de certas doenças, se o cachorro estiver com o seu comportamento normal e só não estiver defecando, é provável que ele só esteja ressecado mesmo. Por outro lado, se ele ficar caidinho, deprimido, com dor, ou até vomitar, aí é sinal de que pode ser alguma coisa mais séria. Como o quê? Pode ser, por exemplo, uma obstrução. A obstrução pode ser causada por alguma coisa que ele comeu, por um tumor, e até por vermes intestinais. E, se estiver obstruído, não vai ter laxante que resolva! Inclusive, usar laxante numa situação dessas é bem perigoso, porque você sem querer pode fazer com que o intestino do cachorro acabe se rompendo, agravando muito o problema. Em alguns casos de obstrução, você consegue sentir alguma coisa dura ao apalpar a barriguinha do cão. Mas, mesmo que não sinta, se o seu cachorro já está há mais de dois dias sem fazer cocô, e ficou deprimido, parece que está com dor, e não quer mais saber de comer nem brincar, leve ao veterinário. Ele provavelmente vai pedir uma radiografia ou um ultrassom para tentar entender melhor o que está acontecendo. Alguns casos podem precisar até de cirurgia. Um tipo de obstrução que pode acontecer é aquela causada pelo chamado “corpo estranho linear”, que já mencionei no início do livro. Corpo estranho linear é aquele objeto mais alongado, como um cordão, uma meia ou pedaço de tecido, que pode fazer com que o intestino fique enrugado, obstruído, e até mesmo sem circulação sanguínea. Se você sabe que o seu cão engoliu algum objeto destes, o que você tem a fazer é observar e acompanhar para ver se sai. Não dê laxantes em hipótese alguma, porque isso aumenta a chance de ter alguma complicação. Enquanto não sai, fique atento, pois se o seu cão começar a passar mal, sentir dor, ou vomitar, é sinal de que ele precisa de assistência veterinária. Se o objeto sair sem maiores empecilhos, ótimo, é só cuidar para que não aconteça novamente. Se você perceber que o seu cachorro está defecando e ficou com parte deste objeto para fora, mas ele não saiu inteiro, não puxe. O que você vai fazer é CORTAR o fio ou tecido, a aproximadamente 1,5 cm do ânus e deixá-lo como está. Em seguida, use as mesmas recomendações que já vimos para os casos de constipação comum: estimule a ingestão de água, e dê azeite de oliva e/ou cereal para ele comer. Procure exercitar o seu cão, levando-o para caminhar para estimular o trânsito intestinal. A intenção é que ele consiga eliminar naturalmente o objeto. Se ele estiver muito incomodado, se parecer que está se sentindo mal, com dor, ou começar a vomitar, leve ao veterinário. Dilatação e Torção Gástrica ou Vólvulo O nosso último tema relacionado a problemas gastrintestinais é também um dos mais graves: a dilatação e a torção gástrica (vólvulo). Apesar de dilatação e torção serem coisas diferentes, elas normalmente acontecem juntas, e por isso são sempre citadas juntas. Quem assistiu ou leu “Marley e Eu” talvez se recorde do que acontece com o simpático Labrador, já no finalzinho da história. Ele passa mal uma noite, e acaba sendo operado. Passado algum tempo, o Marley teve o mesmo problema, e a veterinária deles acabou recomendando a eutanásia. O que o Marley teve foi exatamente isso: dilatação e torção gástrica. Como nome do problema já diz, a dilatação acontece quando o estômago dilata demais - ele se enche de gás, como se fosse um balão. E o passo seguinte, que nem sempre acontece, mas, se acontecer, é extremamente grave, é quando esse estômago inflado gira em torno de si mesmo. Ele torce. Os principais sinais de dilatação e vólvulo são: · Inchaço (o estômago fica visivelmente aumentado); · Som “oco” ou de tambor ao batucar com os dedos a barriga do cão; · Desconforto abdominal (cão fica inquieto, ansioso, olha para os lados); · Vômito em alguns casos; · Dificuldade para respirar, conforme o estômago incha e comprime o diafragma e grandes vasos; · Língua e gengivas podem ficar pálidas; · Cão entra em colapso/ choque circulatório; · Morte. Todo esse processo pode ocorrer dentro de apenas uma hora, ou algumas poucas horas, nos dando pouco tempo para agir. O prognóstico é sempre mais favorável nos casos em que ocorre apenas a dilatação, sem a torção gástrica. Este problema é mais comum em cachorros grandes, especialmente aqueles chamados de “tórax profundo”, como é o caso do Labrador, do Dobermann, do Dogue Alemão, do Pastor Alemão, etc. Além do tamanho dos animais, a genética também desempenha um papel importante: ao examinarmos o histórico familiar de um cão que sofreu dilatação e torção gástrica, não raro constatamos que os seus pais ou avós também tiveram o mesmo problema. Por conta disso, a reprodução de cães que já tiveram dilatação/torção gástrica, ou cujos ascendentes tiveram o problema, é contraindicada. Um outro fator que se destaca como desencadeante da dilatação gástrica é o fato de o cachorro comer muito rápido. Foi pensando nisso que foram desenvolvidos alguns comedouros especiais, com bolinhas dentro, ou que se parecem com labirintos, para se tentar obrigar os peludos mais “afobados” a comerem mais devagar. Cães que comem só uma vez ao dia são muito mais propensos a isso: o ideal é alimentá-los duas ou três vezes ao dia. Em relação ao tipo de alimento, algumas estatísticas têm apontado que cães que comem ração são também mais propensos do que aqueles comem dietas caseiras ou alimentação natural. Dentre os cães que comem ração, a tendência é maior quando a ração é fornecida úmida (quando os tutores misturam água ou molhos para amaciar a ração), provavelmente porque a presença de líquidos na ração favorece a fermentação. Para prevenir o problema, os cães devem ser alimentados pelo menos duas vezes ao dia, e recomenda-se o uso de artifícios para forçar os mais “afobados” a comerem mais devagar. Estes artifícios podem ser comedouros especiais, ou até mesmo a colocação de grandes pedras (que não possam ser acidentalmente engolidas) dentro do comedouro, para criar obstáculos. Caso se opte pela ração, ela deve ser fornecida apenas em horários predefinidos, e descartada quando não consumida imediatamente, conforme explicado no Capítulo 1. Isso ajuda a diminuir as chances de fermentação da ração, e, consequentemente, a probabilidade de que o cão sofra uma dilatação gástrica. Caso você consiga detectar sinais iniciais de dilatação gástrica - o estômago inchado, mas o cão ainda consegue caminhar, e não está vomitando -, leve-o para fazer uma caminhada moderada, que irá ajudá-lo a expulsar o gás. Para diminuir a produção de gás e para eliminar o que já estiver formado, dê a ele Mylanta ®, na dose de 0,5mL/Kg. Estes procedimentos têm como objetivo reduzir a dilatação gástrica, e evitar que a torção aconteça. Em estágios mais avançados (cão já não consegue se levantar ou entrou em colapso, tem dificuldade para respirar, sinais de choque), se tiver segurança e for demorar um pouco para chegar ao hospital veterinário, você pode tentar aliviar um pouco a pressão do estômago dele. Localize o estômago do cão - o que geralmente é fácil nessas situações, pois ele fica parecendo um balão -, pegue uma agulha de injeção, não muito grossa, e coloque no ponto que estiver mais inchado, como se fosse estourar uma bexiga. Quando você fizer isso, perceberáo ar saindo pela agulha, e isso já deve dar um alívio imediato no cão. Em seguida, leve ao veterinário, pois esta é apenas uma medida paliativa que não irá resolver o problema. Uma cirurgia de emergência pode ser necessária. Capítulo 8. Outros Problemas Internos Diabetes A diabetes mellitus é uma doença que faz com que a regulação da quantidade de açúcar no sangue não funcione direito. Na prática, isso quer dizer que um cão que não seja tratado ficará com níveis de açúcar muito altos no sangue, com diversos impactos negativos à sua saúde. Os sinais mais clássicos da diabete em cães são beber muita água e fazer muito xixi. Ao mesmo tempo, o apetite aumenta, mas ele emagrece. A condição de um cão diabético pode se deteriorar muito rapidamente, e o animal pode até morrer por causa disso. Por isso, se você tiver qualquer desconfiança de que o seu cão possa ter este problema, leve ao veterinário para examinar o quanto antes possível. Com alguns exames, ele poderá confirmar se o seu cão é diabético ou não, ou se ele tem algum outro problema (como a Síndrome de Cushing), e irá iniciar o tratamento. O tratamento da diabete é feito com base em ajustes na dieta do animal em conjunto com a aplicação de insulina, da mesma forma que para humanos. O início do tratamento pode ser um pouco complicado, até que o tutor aprenda a aplicar a insulina, e, principalmente, até o veterinário consiga identificar qual é o melhor tipo de insulina, e qual é a melhor dose para aquele cão. Existem diferentes tipos de insulina, e cada indivíduo pode se adaptar melhor a um determinado tipo. Infelizmente, não há como prever – é preciso testar. Isso tudo são coisas que, se o seu cão for diabético, será orientado e acompanhado pelo seu veterinário. Mas tem um detalhe nessa terapia que você precisa conhecer: a insulina deve ser aplicada sempre logo depois das refeições, que, por sua vez, devem ser feitas sempre no mesmo horário - religiosamente. E o que fazer se o cão não comer? Se ele não comer, então não dê a insulina, e ligue para o seu veterinário para avisar o que aconteceu. Se for o caso de dar uma dose mais baixa, ou mesmo de pular uma dose, ele irá orientá-lo. Mas, e se ele comeu, você aplicou a insulina, e ele vomitou? Bom, você não vai ter como “desaplicar” a insulina, mas é importante ficar de olho nele para procurar por sinais de hipoglicemia. O cão também pode entrar em hipoglicemia se a dose aplicada for muito alta, se a insulina for aplicada mais de uma vez (por exemplo quando tem mais de uma pessoa responsável por ele), ou se ele não comeu muito bem. O primeiro passo é você saber identificar a hipoglicemia. Hipoglicemia é quando a quantidade de açúcar no sangue está muito baixa, e então começa a faltar energia para os órgãos vitais, como o cérebro e o coração. O que você observa é que o cão apresenta: · Depressão; · Fraqueza; · Confusão; · Desmaios; · Convulsões. Num cão que esteja em tratamento para diabetes, normalmente isso vai acontecer aproximadamente 6 horas depois da aplicação da insulina – então, é recomendável ter alguém que possa dar uma olhadinha no cão mais ou menos nesse horário, principalmente no início do tratamento, ou se acontecer alguma das situações que mencionamos anteriormente: se o cachorro vomitou, se não comeu ou comeu pouco, se a dose de insulina foi alta, ou se ela foi aplicada mais do que uma vez. Se você perceber que o seu cão diabético está ficando com sinais de hipoglicemia, ofereça para ele algum alimento. E se ele não quiser comer, perder a consciência, ou entrar em convulsões? Esfregue um pouco mel ou Karo ® nas gengivas dele. Isso deve ser suficiente para tirá-lo da hipoglicemia. Se mesmo assim ele continuar convulsionando ou não acordar, leve-o imediatamente para a clínica veterinária. Se ele recuperar a consciência e voltar ao normal, ofereça um pouco de comida para ele e ligue para o seu veterinário para avisar o que aconteceu, pedindo orientações. Como Evitar a Hipoglicemia em Cães Diabéticos Para evitar a hipoglicemia, é preciso, em primeiro lugar, seguir exatamente as instruções do médico veterinário responsável pelo animal em relação à dose e aos horários da insulina, medindo sempre com muito cuidado cada dose. Se houver mais de um cuidador, recomendo que criem uma tabela ou um quadro, e deixem-no grudado na geladeira, ou na parede do quartinho onde o cachorro dorme. Assim, cada vez que alguém for aplicar a insulina, faz uma marquinha ali para avisar à outra pessoa que já aplicou. Se o cachorro comer menos do que o habitual, diminua um pouco a dose da insulina. O quanto exatamente você poderá diminuir, varia de um caso para outro – então, sugiro que pergunte ao médico veterinário responsável pelo cão, antes que aconteça uma situação como essa, o quanto a dose pode ser reduzida se ele comer pouco. Se o cachorro não comer, pode ser o caso de pular uma dose. E, se ele comer demais, pode aumentar a dose? Não. Jamais, em hipótese alguma, aumente a dose da insulina por conta própria. Se você perceber que o seu cachorro está voltando a ter sinais de diabetes mesmo com o tratamento, então marque uma consulta com o seu veterinário, e deixe que ele decida se é o caso ou não de aumentar a dose, e o quanto ela poderá ser aumentada. Problemas Urinários Insuficiência Renal A insuficiência renal pode ser um problema difícil de lidar, que faz com que muitos tutores se sintam como se estivessem andando sobre uma corda bamba. Em um momento, o cachorro parece bem, e, no outro, ele está em crise. Como saber se um cachorro tem insuficiência renal? A insuficiência renal pode ser de dois tipos: aguda ou crônica. Na insuficiência renal crônica, assim como acontece com a diabete, o cachorro começa a beber muita água e a fazer muito xixi. A principal diferença é que, ao invés de ficar com mais fome, ele começa a ficar com um “apetite caprichoso”. É aquele cachorro que, às vezes come, às vezes não come; e, às vezes até come bem – se ele gostar da comida. Alguns cães passam a aceitar apenas um tipo de alimento, e não querem mais saber de outras coisas. Às vezes o cão vomita, sem motivo aparente. Esse tipo de insuficiência renal vai se desenvolvendo bem devagarinho, até que o cão entra em crise. A crise é uma forma de insuficiência renal aguda, que é o outro tipo de insuficiência renal. A insuficiência renal aguda é bem mais drástica, e aparece de uma hora para a outra. Ela pode acontecer como uma crise da insuficiência renal crônica, ou pode ser uma coisa bem pontual, por exemplo, como um caso de intoxicação, de intermação, ou de anemia hemolítica por conta da doença do carrapato. O cachorro em insuficiência renal aguda não come, vomita, pode ter diarreia ou constipação, e pode haver sangue no vômito dele. Em alguns casos, começam a aparecer feridas na língua e nas gengivas, e o cão fica com um mal hálito bem característico. Comumente - mas não sempre -, o cachorro não faz xixi. A insuficiência renal crônica pode ser tratada em casa, através principalmente de cuidados com a dieta e a hidratação. Eventualmente, pode ser feita a aplicação de soro subcutâneo pelo próprio tutor. Já a insuficiência renal aguda é sempre uma emergência, e o cão deve ser levado ao veterinário o quanto antes possível. Ele precisará ser internado e tomar soro na veia, entre outras providências. Mas, se a única providência possível será levar ao veterinário, então por que decidi incluir este assunto num livro de primeiros socorros? Porque acredito ser fundamental que os tutores, protetores, e profissionais da área pet sejam capazes de reconheceruma crise renal. Com frequência eu recebo perguntas de leitores do meu site (www.meucaovelhinho.com.br), de pessoas que têm cães com insuficiência renal crônica que pararam de se alimentar. E a dúvida geralmente é: “o que posso dar para ele comer?” Pois bem, se o seu cão tem insuficiência renal e parou de comer, independentemente de ele comer ração ou dieta caseira, fique alerta. Não há motivo para pânico se ele pulou apenas uma refeição - como já mencionei, eles ficam com o apetite caprichoso mesmo. Mas se pulou duas, três refeições, ou vomitou, é hora de ir ao veterinário. Já. Este cão pode estar entrando em crise. Obstrução Urinária Um outro problema urinário que os cães podem sofrer é a obstrução urinária. A obstrução geralmente acontece quando os cálculos – as famosas “pedras” que se formam nos rins – acabam descendo para a bexiga e a uretra. Quando uma pedrinha dessas chega à uretra e fica estacionada lá, temos a obstrução urinária, ou seja: acontece um bloqueio no fluxo da urina. O cão continua produzindo urina normalmente, e ele até tenta fazer xixi, mas simplesmente não consegue. Como a uretra dos machos é mais longa do que a das fêmeas, e, ainda por cima faz curvas, a chance de que um macho venha a ter uma obstrução urinária é bem maior do que a das fêmeas. A uretra curta e reta das fêmeas faz com que seja mais fácil simplesmente eliminar as pedrinhas menores junto com o xixi, sem maiores consequências. Por outro lado, esse formato da uretra das fêmeas, e a sua localização próxima ao ânus, fazem com que elas tenham bem mais chance de infecção urinária. Mas voltando à obstrução: ainda que a probabilidade de obstrução seja maior nos machos, as fêmeas também podem ter. Só é mais raro. Podemos desconfiar que um cão está com obstrução urinária quando ele começa a tentar fazer xixi, faz força para urinar, e não sai nada, ou saem apenas algumas gotinhas. Em alguns casos, chegam a pingar gotas de urina, ou até de sangue mesmo, porque a uretra está machucada. O cachorro sente bastante dor, então ele pode ficar bem recolhido, não querer se movimentar muito e nem se alimentar. Ele pode ficar agressivo, ou reagir se você apertar a barriguinha dele. Se essa obstrução continuar por muitas horas, o cachorro pode entrar num quadro parecido com o de insuficiência renal, e começar a vomitar, porque ele começa a se intoxicar com a própria urina que não consegue sair. Existe também http://www.meucaovelhinho.com.br o risco de ruptura de bexiga, se ela ficar muito cheia. Se a bexiga estourar, o cão terá uma peritonite, uma condição ainda mais dolorosa. A dor abdominal faz com que o cão assuma a chamada “posição de prece”, em que ele fica com o bumbum para cima e as patas da frente esticadas no chão. Em casos mais extremos, ele pode entrar em choque por causa da hemorragia e/ou da inflamação causada pela peritonite. Como o problema pode complicar bastante, quanto antes você conseguir identificar e levar ao veterinário, melhor. Existem casos em que as pedrinhas acabam sendo eliminadas sozinhas, junto com o xixi. Mas há casos também em que pode ser preciso passar uma sonda no cão, ou até mesmo operá-lo para retirar as pedrinhas. A única causa possível para obstrução urinária são os cálculos urinários? Não! Se a uretra ficar muito inflamada, o inchaço causado pela inflamação pode obstruir a passagem da urina. Essa inflamação pode ser causada por uma infecção, pelas pedrinhas, ou até mesmo pela própria sondagem. E, quando a mucosa da uretra inflama, ela pode cicatrizar de um jeito que fecha ou diminui a passagem da urina, deixando uma lesão permanente que requer correção cirúrgica. Então, assim como no caso da insuficiência renal, o mais importante em relação à obstrução urinária é você saiba reconhece-la, para poder levar o cão ao veterinário o quanto antes possível. Em casa, o máximo que se pode fazer é dar alguma medicação para ajudar a aliviar a dor, sabendo que isso não vai resolver o problema, apenas dará mais conforto ao cão. Não irei sugerir aqui qualquer medicamento especificamente, porque existem doenças que podem fazer com que um cão não possa tomar determinados remédios. Sendo assim, se você quer saber qual medicamento para dor pode ser dado ao seu cão no caso de alguma emergência - seja por obstrução urinária, ou qualquer outra coisa que possa causar dor -, converse com antecedência com o seu médico veterinário em uma consulta de rotina, ou então ligue para ele, pedindo a sugestão de um medicamento que você possa ter em casa para situações assim. Se ele sugerir algum medicamento, deixe um frasco no seu kit de primeiros socorros, e anote a dose recomendada. Para encerrar o tema, considero importante que o leitor compreenda a diferença entre as diferentes formulações de rações para cães com problemas urinários. Existem as rações terapêuticas do tipo “renal”, e outras que são conhecidas como “urinary”. As rações do tipo “renal” foram desenvolvidas para cães que sofram de insuficiência renal. Já as “urinary” são específicas para problemas de urolitíase, ou seja, de formação de “pedras nos rins”. Existem inclusive algumas variações entre as rações “urinary”, de modo que elas podem ter indicações diferentes para cães com cálculos de estruvita ou de oxalato, por exemplo. Para saber o tipo de cálculo que um cão tem, é preciso fazer exames de urina e/ou dos próprios cálculos que forem encontrados. Problemas uterinos e vaginais Piometra/ Piometra de coto A piometra é a infecção do útero. Este problema é bem comum nas cadelas, e, conforme elas vão ficando mais velhinhas, a chance de acontecer uma piometra aumenta bastante. Por que a piometra acontece? Até hoje não se sabe com total certeza, já que a maioria das piometras ocorrem de forma espontânea e são causadas por bactérias que são naturais do corpo da cadela - ou seja, não há necessariamente uma causa externa. A proximidade com o ânus, no caso de uma diarreia, por exemplo, pode facilitar o problema, mas muitas vezes isso não acontece. Normalmente, a piometra acontece um pouco depois do cio, em torno de um a dois meses depois. Passado o cio, a cadela começa a ficar mais recolhida, não se alimenta, e pode vomitar. Diferentemente das mulheres, as cadelas não vomitam durante a gestação. Portanto, se a sua cadela esteve no cio recentemente e começou a vomitar, mesmo que ela tenha acasalado, desconfie de uma piometra. A cadela se recolhe porque sente muita dor. Por conta disso, ela pode ficar até um pouquinho agressiva, pois não quer que mexam com ela. Algumas pessoas confundem isso com gestação também, achando que ela está preparando o ninho. Na verdade, ela não está preparando o ninho: ela está com dor. Outro sinal característico da piometra é a febre. Se você acreditar que ela possa estar com febre, use o termômetro e meça a temperatura. Focinho seco não é sinal de febre, e focinho gelado também não significa que a temperatura esteja normal. Se estiver na dúvida, meça a temperatura dela. Se estiver acima de 38,5ºC, desconfie. É possível que seja piometra, então, leve logo ao veterinário. Mas se ela está com infecção no útero, não deveria haver secreção vaginal? Não necessariamente. A secreção pode até estar presente, mas talvez você não esteja vendo, porque ela lambe; ou pode ser que não tenha mesmo. Existem dois tipos de piometra: a aberta e a fechada. Quando falamos em piometra “aberta” ou “fechada”, estamos nos referindo ao colo do útero. O colo do útero é a cérvix, aquela “portinha” que fica fechada enquanto há bebezinhos crescendo lá dentro, e que se abre quando eles vãonascer. Comparando com humanos, quando se fala que uma mulher em trabalho de parto tem “X” centímetros de dilatação, essa dilatação é exatamente da cérvix. É ela que controla se alguma coisa pode entrar ou sair do útero. Se a cérvix estiver aberta, dizemos que a cadela tem uma piometra “aberta”. Nesse caso, qualquer secreção que esteja se formando no útero, seja muco, pus, ou até mesmo sangue, sairá pela vagina, e você provavelmente vai ver essa secreção. Ela normalmente é escura e pode ter um cheiro um pouco forte. Quando a cérvix está fechada, nada sai do útero, então, não haverá secreção vaginal. A piometra fechada geralmente é mais complicada do que a aberta justamente por causa disso: o pus que estiver se formando, assim como as bactérias, ficam presos dentro do útero, não têm por onde sair. Por conta disso a infecção piora muito mais rapidamente, e as chances de complicações, como uma infecção generalizada ou insuficiência renal, são bem maiores. Outro risco ainda é a ruptura do útero, causando hemorragia, peritonite, e infecção generalizada. O útero pode se romper tanto na piometra aberta quanto na fechada, apesar de ser mais provável de acontecer na piometra fechada. Ele pode se romper espontaneamente, ou pode se romper durante a cirurgia, que é praticamente a única forma de se tratar uma piometra. Quanto mais você demorar para perceber que a sua cadela está com piometra, maior é a chance de ruptura e de complicações, por isso é tão importante saber identifica-la. O tratamento é a cirurgia de retirada do útero e dos ovários. É uma cirurgia com um risco relativamente alto, justamente porque o útero pode se romper, e também porque a cadela já está debilitada. O melhor a se fazer é prevenir, antes que aconteça. A prevenção é a castração – que, aí sim, é uma cirurgia de baixo risco, pois é feita com a cadela saudável, sem infecção e com bem menos riscos de complicações. Cadela castrada pode ter piometra? É muito raro, mas pode. É a chamada “piometra de coto”. O “coto”, ou “coto uterino”, é a pontinha que ficou do útero depois da cirurgia. Essa pontinha sempre vai ficar, e geralmente não causa problemas. Muitas vezes, a piometra de coto acontece em cadelas em que ficou algum vestígio de ovário depois da cirurgia de castração. Se a cadela foi castrada e ficou qualquer restinho de ovário dentro dela, o que às vezes acontece, o risco de uma piometra, ou até de um tumor de mama, aumentam bastante. Então, tem que operar de novo e corrigir o problema. Gestação e Pseudogestação Antes de começarmos a falar sobre a gestação, eu gostaria de enfatizar novamente aquele assunto que tocamos no início do livro: eu não me oponho à reprodução de cães feita por criadores idôneos, que são aqueles que realmente se preocupam a seleção genética, a saúde e o bem-estar dos animais. Não estou falando de fábricas de filhotes, longe disso. Agora, aquela história de “tirar uma ninhadinha” só porque sim, só porque é bonitinho, para quem acha legal, eu acho bom repensar. Digo isso sem julgamento algum, já que, antes de me tornar médica veterinária, eu também achava isso lindo. Filhotes são fofos, quem não quer tê- los em casa? Eu pessoalmente nunca levei os meus cães para acasalarem, mas possivelmente tenha sido até por falta de oportunidade, já que, na época em que tinha interesse em fazer isso, eu era muito nova, dependia dos meus pais, etc. Mas hoje vejo isso de uma forma completamente diferente, e vou explicar o porquê. Primeiro, porque, para a cadela, não há vantagem alguma em se ter uma cria, ou duas, ou quantas forem. Ter uma ninhada não previne câncer de mama, nem piometra, ou qualquer outra doença. A cadela também não tem um “sonho de ser mãe”, como muitas mulheres têm. O que ela tem é um instinto de reprodução, quando está no cio. Se ela for castrada e não entrar no cio, então não vai nem lembrar que isso existe. Mas, mesmo que ela tivesse um “sonho de ser mãe”, este sonho certamente não seria realizado pelo simples ato de parir, e sim por ficar com os filhotes. Coisa que, em geral, não acontece. Na maioria dos casos, a família da cadela fica com um filhote, quando fica, e o resto acaba sendo doado ou vendido. O que nos leva a um outro problema, que é a destinação destes filhotes. Não é raro uma cadela ter dez filhotes. São dez vidas, e você terá que se responsabilizar por cada uma delas. Se você ama a sua cadela, e não quer que nada de ruim aconteça com ela, é no mínimo razoável você pensar da mesma forma em relação aos filhotes dela. Quem são as pessoas que vão ficar com estes filhotes? Você conhece cada uma delas? É fato que a maioria dos amigos que dizem que vão querer um filhote enquanto a cadela está prenhe, acaba desaparecendo ou inventando desculpas para não ficar com os filhotes depois que eles nascem. E aí, você vai precisar dar um jeito arranjar um lar para cada um deles. Ou pior, vai querer vender os filhotes achando que vai conseguir lucrar. Sinceramente, ganhar dinheiro com a venda de filhotes é algo bem difícil, especialmente para uma pessoa que faça isso como “hobby”. Uma gestação bem acompanhada, alimentação de qualidade, vacinas e vermífugos para a cadela e todos os filhotes, são coisas que custam caro. E isso se considerarmos que ela consiga parir sozinha, sem complicações, e sem precisar de cesariana ou algum atendimento de emergência na hora do parto. Porque, se tiver algum problema, os custos se multiplicam. Além disso tudo, a cadela pode morrer. E, enquanto você gasta o seu dinheiro para pôr a sua cadela em risco e mais um monte de cachorrinhos no mundo, existem milhões de cachorros nas ruas precisando ser adotados. Então, moralmente falando, não tem porque fazer isso. Se você quer mais um cachorro, adote. Se você faz muita questão de ter um cachorro da mesma raça que o seu cão ou cadela, procure um criador idôneo e compre. Mas não reproduza os seus cães em casa, sem ter conhecimentos de seleção genética, e sem saber os riscos e os custos que isso envolve, apenas para pôr mais vários cachorros no mundo. Em relação aos machos, cabe um parêntese também. Já ouvi várias vezes a seguinte pergunta (com o perdão da expressão, mas é exatamente esta a palavra que escuto com frequência): “mas o cachorro macho, não precisa dar pelo menos umazinha?” Não, por favor! O cachorro nem lembra que isso existe se não houver uma cadela no cio por perto. E aqueles cachorros tarados que não podem ver uma perna pela frente? Aquilo não é tara. É um comportamento dominante, ou seja, é o cachorro querendo dizer que quem manda é ele, e não que ele esteja “precisando dar umazinha”. E se ele der, vai continuar agarrando pernas do mesmo jeito. O que este cão precisa é de liderança. Então, vamos ajudar a conscientizar os nossos amigos e familiares em relação aos cuidados e reais necessidades dos nossos cachorros. Mas, retomando o tema desta seção, falemos então sobre os problemas relacionados à gestação. E por que eu vou falar sobre isso se não apoio a reprodução “caseira” de cães? Bom, porque sei que o fato de eu ter essa opinião não vai fazer magicamente com que isso pare de acontecer. Além disso, este livro é dedicado também aos protetores de animais, que muitas vezes resgatam cadelas que já estão prenhes e precisam ser cuidadas. E as cadelas que entram em trabalho de parto têm direito a um atendimento adequado, independentemente de qualquer coisa. A gestação de uma cadela dura, em média, 60 dias, mas pode variar de 58 a 71 dias. Nem sempre que uma cadela acasalar, necessariamente ela entrará em gestação. Por isso, mesmo que a sua cadela tenha acasalado, lembre-sede que é neste período que elas também normalmente desenvolvem piometra. Já falamos sobre a piometra, mas é importante lembrar que você deve ficar atento para esta possibilidade mesmo que você saiba que ela acasalou. A prenhez, ou gestação, da cadela, deve ser confirmada pelo médico veterinário. Isso porque, além da piometra, as cadelas também podem ter um outro probleminha depois do cio, que se chama “pseudociese”, “pseudogestação”, ou “gravidez psicológica”. Quando isso acontece, o corpo da cadela “pensa” que está gestando uma ninhada, quando, na verdade, não está. Elas chegam a preparar o ninho e a produzir leite nesta fase. Algumas cadelas até adotam bichinhos de pelúcia como se fossem os seus filhotes. A gravidez psicológica em si não chega a ser uma emergência, e existem casos que ela se resolve sozinha, sem intervenção. Mas há situações em que pode ser preciso dar um medicamento para “secar” o leite para evitar que ela desenvolva mastite, uma infecção nas mamas. Um dos grandes problemas da pseudogestação é que, uma vez que ela aconteça, há uma alta probabilidade de que o problema se repita em todos os próximos cios. E isso aumenta bastante a chance de tumores de mama, por isso é interessante castrar cadelas que tenham pseudogestação. A confirmação da gestação em cadelas pode ser feita por palpação, por ultrassom, ou por raio-X, dependendo da época em que ela for examinada. Mais ou menos uma semana antes do parto, a cadela começa a preparar o ninho. Ela fica mais agitada, e pode querer cavar buracos no chão ou rasgar objetos para tentar montar a toquinha dela. Este comportamento vai ficando mais intenso até a véspera do parto, quando pode inclusive começar a sair leite pelas mamas. Mais ou menos 12 a 24 horas antes do parto, a temperatura da cadela pode cair em torno de 1ºC. Com isso em mente, recomenda-se que, no período final da gestação, seja adotado o hábito de medir a temperatura da cadela uma vez ao dia, sempre no mesmo horário. Se for detectada uma queda na temperatura, é provável que o trabalho de parto esteja prestes a começar. Este método não é 100% acurado, mas, se você detectar esta queda de temperatura, e o trabalho de parto não se iniciar dentro de até 24 horas, pode ser bom levar ao veterinário para se certificar de que está tudo bem e ela não precisa de ajuda. Melhor pecar por excesso de cautela. Leve também ao veterinário se o trabalho de parto não começar dentro de até 72 dias contados do dia em que o acasalamento aconteceu, ou se, a qualquer momento, a cadela começar a apresentar uma secreção vaginal esverdeada, marrom, preta ou vermelha sem outros sinais de parto. O trabalho de parto das cadelas normalmente dura de 12 a 24 horas, e pode se estender por até 36 horas. Na primeira fase, as contrações ainda não são muito visíveis, mas dá para perceber que a cadela fica muito agitada, geralmente recusa comida, e pode também vomitar, ficar arquejando, ou tremer. O simples fato de ela vomitar uma vez ou outra, ou recusar comida, não significa que haja algo errado. Mas, se ela começar a vomitar muito, ou se parecer que está fraca ou sentindo muita dor, pode ser hora de levar ao veterinário. Como medida de segurança, leve também ao veterinário se este comportamento mais intenso durar mais de 12 horas sem nascer nenhum filhote. Antes de cada filhote nascer, normalmente sai uma secreção vaginal transparente, e, depois que eles nascem, a secreção que sai pode ser esverdeada, preta ou marrom. Se você perceber que a cadela está empurrando, fazendo força, e tendo contrações para expulsar um filhote por mais de 30 minutos, pode ser sinal de problema. O intervalo entre um filhote e outro não deve ultrapassar três horas. Se acontecer alguma destas coisas: a cadela empurrando por muito tempo, ou estiver demorando demais entre um filhote e outro, e você se sentir confortável para fazer isso, coloque um par de luvas de látex com bastante lubrificante, e examine a vulva da cadela, abrindo com cuidado. Se conseguir ver um filhote, você pode tentar ajudar. Para fazer isso, segure o filhote pelo corpinho ou pelas patas - nunca pela cabeça ou pescoço, e, quando a cadela estiver tendo uma contração, puxe devagar, com muito cuidado, para baixo. Não se preocupe se o filhote estiver saindo “de ré” (bumbum ou patinhas de trás aparecendo primeiro). Isso é normal. Se o filhote já estiver com uma parte para fora e estiver difícil segurar porque está escorregadio, você pode usar uma toalha limpa para ajudar a pegar. Quando for ajudar a cadela, lembre-se de puxar o filhote só quando ela estiver contraindo, e faça isso com bastante delicadeza, para não a machucar. Se não tiver nenhum filhote visível quando você examinar, ou se tiver, mas você não conseguir ajudá-la a expulsar dentro de até 10 minutos, leve ao veterinário, junto com os filhotes que já tiverem nascido. Se a cadela parecer que está fraca ou com dor a qualquer momento, também é hora de levar ao veterinário. A cada filhote que nasce, a cadela normalmente lambe as membranas que ficam à sua volta, para limpar e liberar a passagem do ar. Se ela demorar mais do que 3 minutos para fazer isso, é hora de intervir. Coloque o filhote sobre uma toalha e esfregue, para tirar as membranas e estimular a respiração. Use uma toalha limpa para cada filhote. Se houver secreção na boca ou focinho do filhote, use uma seringa para aspirar, ou esfregue um pedaço de pano para limpar. Se, ainda assim, ele não estiver respirando, pegue o filhote com a sua mão, segurando a cabecinha entre as pontas dos dedos, e balance para cima e para baixo, como se estivesse cortando madeira. Mas tome cuidado para que ele não escorregue e caia da sua mão, ou se bata em algum lugar. Faça isso umas 4 ou 5 vezes, para ajudar o fluido a sair e fazer com que ele consiga respirar. Se isso não funcionar, volte a esfregar o filhote com a toalha por um minuto, para estimular a respiração. E, se precisar, comece a respiração boca- focinho. Após iniciar a respiração boca-focinho, verifique se o coração dele está batendo, e, se precisar, comece a massagem cardíaca conforme descrito no Capítulo 5 para cachorros pequenos, lembrando de agir com uma certa delicadeza. Você pode demorar até 2 horas para conseguir reanimar um filhote, então não desista muito rápido, mas lembre-se: a cadela e os outros filhotes também podem precisar da sua atenção. Se for o caso, peça para alguém te ajudar. Outro cuidado que a cadela normalmente tem com os seus filhotes é cortar os cordões umbilicais. Se ela não fizer isso, use um fio fino - um fio dental, por exemplo – para amarrar o cordãozinho a mais ou menos 3cm de distância da barriguinha, e amarre novamente uns 2 cm adiante. Feito isso, corte entre os dois nós, cuidando para não puxar, porque isso pode causar uma hérnia de umbigo. Para finalizar, passe PVPI nas pontinhas dos cordões que ficaram presas aos filhotes. Para cada filhote, deve sair uma placenta, que se parece com uma bolsinha que vem pendurada nele pelo cordão umbilical. Pode acontecer de saírem, por exemplo, dois filhotes antes que a placenta de cada um deles saia. A retenção de placenta é um problema que pode acontecer quando uma ou mais placentas não saem durante o parto. É difícil acompanhar o número exato de placentas que saíram, já que a cadela pode comê-las muito rapidamente, por isso, não se preocupe demais com isso num primeiro momento. Caso ela pareça fraca ou com dor alguns dias após ao parto, leve ao veterinário para verificar. Por fim, para encerrarmos o assunto, não podemos deixar de falar sobre as cesarianas.A cesárea é uma cirurgia, que normalmente é usada quando a fêmea tem alguma dificuldade no parto. A nossa primeira escolha em quase todas as situações é deixar a cadela parir naturalmente, e ir para a cirurgia apenas se houver complicações. Mas algumas raças, como os Buldogues e outros cães braquicefálicos em geral, acabam indo direto para a cesárea na maioria das vezes. Apesar de que existem casos de Buldogues tendo partos naturais, normalmente eles são tão desproporcionais que os filhotes não conseguem passar pelo canal de parto, de modo que quase sempre acaba havendo algum problema na hora de nascer. Então, via de regra, para os Buldogues e algumas outras raças que tenham focinho curto e cabeça grande, pode ser que o veterinário recomende agendar uma cesárea ao final da gestação. Falência Cardíaca Arritmias Agudas/ Cardiopatia do Boxer Não podemos falar em arritmia cardíaca em cães sem falar dos Boxers. Além de serem campeões em mastocitomas, que é um tipo de tumor, os Boxers também têm um tipo de problema cardíaco que é bem típico desta raça. É a miocardiopatia dilatada, também conhecida como miocardiopatia do Boxer. Não entraremos em detalhes em relação à doença em si e o tratamento, porque não é o foco deste livro, mas, caso tenha curiosidade, visite o meu site: http://www.meucaovelhinho.com.br/artigos/saude/cardiologia/cardiomiopatia- dilatada/. Pois bem, o grande problema da miocardiopatia dilatada, que não acontece só com os Boxers, mas principalmente com eles, é que ela pode causar a chamada “morte súbita”. Morte súbita é exatamente o que o nome diz – o cão parece bem em um momento, e pode falecer no segundo seguinte sem um motivo aparente. Isso pode acontecer inclusive com cães que estão em tratamento. Essa morte súbita acontece por conta de uma arritmia muito forte, que pode chegar ao ponto de uma fibrilação. Normalmente, as pessoas não têm desfibrilador em casa, então, se o cachorro simplesmente entrar em colapso “do nada”, cheque rapidamente se o coração dele está batendo. Se não estiver, comece a ressuscitação cardiopulmonar imediatamente, levando ao veterinário assim que ele acordar; ou, se não acordar, continue fazendo a massagem cardíaca no caminho, dentro do carro, enquanto outra pessoa dirige. Por outro lado, se você conseguir sentir um pulso bem rápido, é possível que o seu cachorro esteja com uma arritmia, ou até mesmo em fibrilação. Esta é uma das poucas situações em que o ritmo do pulso pode estar diferente do ritmo do coração. Sem ter um estetoscópio e alguma prática, pode ser difícil você ter certeza, mas procure sentir o pulso e o coração para ver se há batimentos. Este caso é uma possível aplicação do soco precordial, que, como o nome indica, é uma batida forte sobre a área em que está o coração. O soco precordial tem um índice de sucesso relativamente baixo, e, na verdade é um assunto bastante polêmico. Apesar de haver argumentos a favor do soco precordial, tem havido também muitas evidências contra o uso desta técnica, no sentido que, além de não ser tão eficaz, ela pode até mesmo ser danosa em alguns casos. Então, na falta de uma evidência científica mais sólida de que o soco precordial pode trazer algum tipo de benefício para o seu cão, e não irá prejudica-lo, eu optei por http://www.meucaovelhinho.com.br/artigos/saude/cardiologia/cardiomiopatia-dilatada/ deixa-lo de fora do livro. Mas existem outras técnicas que você pode usar se o seu cachorro entrar em colapso por conta de uma arritmia ou fibrilação. A primeira delas é a técnica da Pressão Ocular. Com os olhos do cão fechados, use o polegar e o indicador da mesma mão para afundar levemente os olhos dele nas órbitas. Massageie gentilmente com os dedos ao mesmo tempo em que pressiona. A pressão deve ser suficiente para que os olhos afundem um pouco, mas sem causar dor ou desconforto. Cada cão pode ter uma sensibilidade diferente. Mantenha a pressão até que a frequência cardíaca caia um pouco, ou por, no máximo, 15 segundos. A outra técnica que é a massagem dos seios carotídeos. Para posicionar os dedos corretamente, use o polegar e o indicador, para apalpar o ângulo das mandíbulas, e deslize-os levemente para dentro e para frente. Massageie, fazendo um pouco de pressão em movimentos circulares. A pressão pode ser suficiente para fazer com que o cachorro tussa um pouco, mas não deve causar dor ou desconforto. Continue até que a pressão até que o ritmo cardíaco diminua um pouco, ou por, no máximo, 15 segundos. Estas duas técnicas são chamadas de “manobra vagal”. É uma forma de estimular o nervo vago, que, por sua vez, vai diminuir o ritmo cardíaco. Sendo assim, você não deve usar estas técnicas quando o cão estiver em parada cardíaca, e sim quando ele estiver com taquicardia, taquiarritmia, ou em fibrilação – ou, em termos mais fáceis de entender, se o coração estiver batendo extremamente rápido, e até mesmo sem um ritmo bem definido. Você vai saber se é o caso ou não, principalmente por conta do histórico do seu cachorro - se ele já tem uma miocardiopatia diagnosticada, e/ou se ele é um boxer, e entrou subitamente em colapso. Você vai procurar por batimentos cardíacos, e, se não tiver batimentos, fará a massagem cardíaca (ressuscitação). Se houver batimentos muito rápidos, use estas técnicas. E como saber se está muito rápido? Para saber rapidamente, é preciso ter um pouco de prática. Por isso, recomendo que você pratique sentir o pulso e os batimentos cardíacos do seu cão quando ele estiver bem. Assim, se tiver alguma alteração, você já vai saber identificar e vai saber como agir. Uma outra característica desta cardiopatia é que ela pode deixar o cachorro extremamente magro, inclusive com os ossos aparecendo, mas com uma barriga bem grande. Aquilo não é gordura, é ascite - ou, como é mais conhecida, “barriga d’água”. Esta ascite tende a diminuir com o tratamento, mas em alguns casos o veterinário pode precisar drenar um pouco do líquido. Isso porque pode ter tanto líquido acumulado na barriga do cachorro que ele terá dificuldade para respirar, pois o diafragma dele fica comprimido. Evite deixar que o seu cachorro chegue neste ponto, dando os medicamentos corretamente, e levando ao veterinário se perceber que a barriga está muito grande ou que ele está tendo dificuldade para respirar. Edema Pulmonar Outro problema cardíaco comum é a Insuficiência Cardíaca Congestiva Esquerda (ICC Esquerda), que afeta principalmente os cães pequenos. E, já que falamos dos Boxers, os campeões aqui são os Poodles. Conforme a ICC Esquerda progride, uma das principais consequências é a formação de edema pulmonar. Edema pulmonar é o acúmulo de líquido nos pulmões. Note que, no caso das miocardiopatias, o líquido se acumula mais na barriga do cão, e às vezes também nos membros e outras partes do corpo. Já na ICC Esquerda, o órgão mais afetado é o pulmão, o que afeta diretamente a respiração. Normalmente, quando se chega ao ponto de um edema pulmonar, já foi feito o diagnóstico, porque o cachorro tosse muito. Caso tenha curiosidade em relação à doença, veja o artigo sobre o tema no meu site: http://www.meucaovelhinho.com.br/artigos/saude/cardiologia/se-o-seu-cao-esta- tossindo-preste-atencao-ele-pode-estar-com-insuficiencia-cardiaca/. Se o seu cachorro tem ICC esquerda, e começar a ter qualquer dificuldade para respirar, por mais leve que seja, leve ao veterinário no mesmo dia. Não interessa se é final de semana ou feriado, o seu cão não pode esperar. E se for de madrugada, pode esperar amanhecer? Depende da intensidade dessa dificuldade respiratória. Se ele estiver só tossindo um pouco mais que o normal, até pode. Nesse caso, dêuma dose extra do diurético para o seu cão, e leve para a clínica já pela manhã. Não vou citar especificamente qual o diurético e nem a dose, porque quem vai fazer isso será o médico veterinário responsável pelo cão, quando ele fizer o diagnóstico. Nunca use este tipo de medicamento por conta própria, pois podem haver efeitos adversos realmente perigosos. Agora, se no meio da madrugada, ou em qualquer outro momento, o cachorro começar a ficar com a língua azulada, ou começar a espumar pela boca ou pelo nariz, é hora de correr ao veterinário. Não espere nem um minuto a mais para levar, não interessa o dia ou a hora. Não há muito a ser feito em casa http://www.meucaovelhinho.com.br/artigos/saude/cardiologia/se-o-seu-cao-esta-tossindo-preste-atencao-ele-pode-estar-com-insuficiencia-cardiaca/ quando se chega a esse ponto, porque a medicação será injetável, e pode ser que ele precise de oxigênio. O ideal, como em qualquer caso, é impedir que isso aconteça. Como fazer isso? Dando os medicamentos que o seu veterinário prescreveu, exatamente do jeito que ele prescreveu, e voltando ao consultório pelo menos a cada 6 meses para uma revisão, ou antes, se você notar qualquer alteração no seu cão. Você conhece o seu cão melhor do que ninguém: se achar que algo está errado, mesmo que não saiba explicar muito bem o que é, leve. O quê, por exemplo, pode estar acontecendo com o seu cão que serve como sinal de alerta? · Tosse com frequência; · Fica ofegante o tempo todo, como se tivesse acabado de correr uma maratona; · Dificuldade para dormir; · Muda com frequência de posição, como se estivesse desconfortável; · Cansa muito rápido. Tudo isso pode indicar que um edema pulmonar está “a caminho”, e é bom levar o seu cão ao veterinário para revisar o tratamento. Essa é uma doença progressiva, e por isso ajustes periódicos no tratamento são necessários conforme ela progride. Dá para garantir que, fazendo tudo certinho, o seu cachorro nunca vai ter um edema pulmonar? Infelizmente, não dá. É fundamental que os tutores saibam que os medicamentos usados para o tratamento da insuficiência cardíaca congestiva podem ter efeitos adversos importantes. Por conta disso, a dose utilizada deve sempre ser a mais baixa possível que seja capaz de manter a doença sob controle. A combinação de dois ou mais medicamentos também visa a diminuir os efeitos adversos, ao permitir que a dose de cada um seja mais baixa. Os órgãos que mais sofrem com o tratamento da ICC Esquerda são os rins. A ICC Esquerda, por si só, pode levar a um quadro de insuficiência renal. E os medicamentos usados para tratá-la, também, com algumas exceções. Todo cão em tratamento para insuficiência cardíaca deve ter a sua função renal monitorada, para que eventuais problemas nos rins possam ser contornados o quanto antes possível. Esta informação é especialmente importante em casos de emergência: os medicamentos usados para a reversão do edema pulmonar podem, e irão, afetar os rins. Caso o seu cão tenha insuficiência renal e entre em edema pulmonar, não deixe de mencionar o fato ao profissional que for atendê-lo no serviço de emergência. Ele precisará ser extremamente cauteloso ao medicar o seu cão, e, mesmo assim, não há como garantir que não haverá danos aos rins. Conhecendo estes riscos, se o cachorro do seu vizinho ou amigo tiver um problema cardíaco, e você achar que o seu tem a mesma coisa, não pegue a prescrição dele emprestada. E também não empreste a prescrição do seu cachorro para os outros. Você pode rapidamente matar um cachorro com uma dose errada. É uma economia que, definitivamente, não vale a pena. Leve ao veterinário e faça o acompanhamento, ou sugira ao seu amigo que faça o mesmo. Capítulo 9. Ferimentos, Hemorragias e Fraturas Contendo Hemorragias Hemorragia é a perda de sangue de forma descontrolada. A forma mais perigosa de hemorragia é quando ela é causada por lesões nas artérias. As artérias são os vasos que levam o sangue do coração para o resto do corpo, e, por isso, o sangue sai em jatos, no ritmo do coração. Se a lesão for em veias, ao invés de sair em jatos, o sangue vai empoçando. As hemorragias em geral podem ser de dois tipos: a interna e a externa. A interna é, sem dúvida, a mais complicada, já que ela não é visível por fora, e as pessoas podem demorar para perceber que ela está acontecendo. Hemorragia interna é quando um vaso sanguíneo dentro do corpo é rompido, podendo ser consequência da ruptura de algum órgão, como, por exemplo, o útero, o baço, ou a bexiga. Se o seu cachorro estiver com uma hemorragia interna, não há muito a se fazer em termos de primeiros socorros: é preciso levá-lo ao veterinário imediatamente. Como identificar uma hemorragia interna? Regra geral, as hemorragias internas são resultado de acidentes graves, como atropelamentos ou quedas de alturas razoáveis, e também podem acontecer com animais que tenham brigado com outros ou que tenham sido vítimas de espancamentos. Elas até podem ocorrer sem nenhum traumatismo mais óbvio, mas estas situações são menos comuns - por exemplo, se o animal tiver uma úlcera gástrica muito grave, um tumor que se rompa, uma obstrução urinária, piometra, e algumas outras situações. Mas, na maioria das vezes, você deve cogitar a possibilidade de uma hemorragia interna sempre que o seu animal tiver sofrido um traumatismo maior, mesmo que ele pareça bem em um primeiro momento. Não há um jeito “mágico” de se ter certeza de que um cão está com hemorragia interna sem fazer exames. Dependendo do caso, podem aparecer hematomas, principalmente na região do abdome, mas o principal indicativo serão aqueles sinais de choque que mencionei no Capítulo 5. O cão começa a ficar apático, fraco, e com as gengivas pálidas. Estes sinais podem demorar até 36 horas para aparecerem, mas, como sempre, quanto antes esta hemorragia for identificada e contida, melhores são as chances de sobrevivência do animal. Por isso é recomendável que, se um cachorro sofreu qualquer acidente potencialmente grave - por exemplo, foi atropelado, estava dentro de um carro que bateu, ou caiu de uma altura razoável, ele seja levado ao veterinário o quanto antes possível, esteja ele com sinais de choque ou não. E as hemorragias externas? As hemorragias externas são mais fáceis de identificar. Você vai ver, basicamente, que o cão está sangrando. E a melhor forma que a gente tem de conter um sangramento é aplicando pressão sobre ele. Antes de começar, lave as suas mãos; ou, na falta de uma torneira, procure no mínimo higienizá-las usando o álcool em gel do seu kit de primeiros socorros. Em seguida, coloque luvas de látex. Elas servem tanto para proteger você quanto o cão contra infecções, por isso, não deixe de usar. O Corte de Unhas O primeiro tipo de hemorragia externa que vamos comentar é uma que não chega a pôr a vida do cão em perigo, mas que é bastante comum e causa muitas dúvidas: é aquele sangramento que pode acontecer quando se cortam as unhas do cão. Para quem não sabe, a unha do cão tem uma parte que é bem sensível. Se você cortar neste ponto, vai doer e vai sangrar. E sangra bastante, porque tem muitos vasinhos passando por ali. Então, é claro, o ideal é a gente evitar de cortar neste ponto. A parte da unha que sente dor e que sangra se chama hiponíquio. Ele ocupa a parte mais próxima do dedo, e é facilmente visível em cães de unhas claras. Quando se cortam as unhas do cão, o hiponíquio não deve ser cortado. Quando o cão tem unhas escuras, pode ser mais difícil de saber onde exatamente se pode cortar. Se você não tem prática, corte só apontinha, e “suba” mais um pouco se achou que a unha ainda está muito comprida. A maioria das recomendações para o corte de unhas dos cães indica que ele deve ser feito num ângulo de 45º, embora alguns especialistas recomendem o corte a 90º. Os dois jeitos funcionam. A maior parte dos tosadores e banhistas cortam a 45º mesmo, mais inclinado. Use sempre um cortador de unhas próprio para cães, que pode ser semelhante a um alicate ou do tipo “guilhotina”. Ambos funcionam bem, escolha aquele com o qual se sentir mais confortável - ou leve o cão ao banho e tosa para cortar as unhas. É importante você saber que, conforme as unhas crescem, o hiponíquio cresce junto. Então, se as unhas de um cão estiverem muito longas, você provavelmente não conseguirá cortar tanto quanto deveria. Neste caso, corte apenas o quanto você conseguir sem machucar o cão, e lembre-se de, a cada uma ou duas semanas, aparar cada vez um pouquinho mais. Conforme você for cortando, o hiponíquio tende a se retrair, até que você consiga finalmente deixá- las com o comprimento certo. Diante disso, algumas pessoas talvez estejam se perguntando: mas precisa mesmo cortar unha de cachorro? E a minha resposta é: depende. Depende do estilo de vida do seu cão. Aqueles cachorros que moram em chácaras, que são bem ativos, ou que saem para passear bastante na calçada, muitas vezes não precisam, porque as unhas deles se desgastam sozinhas. Mas quando o cachorro mora em apartamento, ou fica muito dentro de casa, as unhas podem crescer além do que deveriam. Como saber se as unhas estão muito compridas? Basicamente, em condições normais, as pontas das unhas dos cães não devem tocar no chão. Então, se está fazendo “clac-clac-clac” quando o cachorro caminha pela sua casa, está na hora de cortar. E por quê? Porque, a princípio, as unhas dos cães devem tocar o chão apenas em terrenos inclinados, nas subidas, para ajudar a dar mais firmeza na hora de escalar. Isso significa que, se as unhas do cachorro estiverem tocando o chão, o corpo dele inconscientemente vai entender que ele está em modo “subida”. E, em modo “subida”, toda a postura do cachorro muda: a posição das patas, da coluna, o jeito de pisar, tudo! A longo prazo, se o cachorro ficar o tempo todo desse jeito, ele pode acabar sofrendo com problemas articulares e de coluna. Um outro problema um pouco mais visível é que os dedinhos do cachorro começam a se entortar, porque as unhas não permitem mais que ele os posicionem corretamente. Além de causar desconforto, isso também vai trazer problemas de artrose a longo prazo. E uma última consequência de se deixar o cachorro com as unhas longas é que elas podem crescer tanto, que às vezes elas se viram para dentro e chegam a perfurar os coxins, que são as almofadinhas das patas. Este problema é mais comum no 5º dedinho, que é aquele que não encosta no chão. Esta unha não sofre o desgaste natural, por isso, mesmo cachorros que desgastam naturalmente as outras unhas podem precisar apará-la de tempos em tempos. Então você já sabe que precisa cortar a unha do cão, e que é preciso tomar cuidado para que ela não sangre. Mas, e se sangrar? Pode acontecer. Os tosadores e banhistas têm aulas específicas para aprenderem a cortar as unhas dos cães no curso de banho e tosa, e mesmo eles às vezes podem errar. E não é por incompetência, mas sim porque o ponto exato onde se pode cortar em cada cão muda de um indivíduo para o outro, e um erro de cálculo de poucos milímetros pode fazer bastante diferença. Mas este sangramento não mata. Vai sangrar, sangra por bastante tempo, mas para. Só que, além de ser desagradável ficar com a unha sangrando por muito tempo, a ferida aberta abre portas para infecções, então, é melhor conter esta hemorragia o quanto antes. E o melhor jeito de fazer isso é aplicando um pouco do pó hemostático. Não tem uma dose certa, pegue um pouquinho e coloque no ponto que está sangrando. Só tome o cuidado de usar sempre um instrumento limpo - pode ser uma colher, ou uma pinça para pegar o pó. Mas lembre-se: qualquer coisa que já tenha encostado na lesão não deve voltar para o pote. Se for o caso, use um instrumento para pegar o pó, e outro para espalhá-lo sobre a lesão. Na falta de pó hemostático, uma alternativa para conter o sangramento é usar amido de milho - Maizena® -, da mesma forma que o pó hemostático. Dê preferência ao pó hemostático porque ele também é antisséptico, diferente da maizena. Mas, se não tiver, pelo menos ele ajuda a conter o sangramento. Só que, neste caso, depois de uma hora ou duas, é importante limpar com cuidado a pontinha da unha que sangrou, e passar um antisséptico para não infeccionar. Esta é a situação mais simples de todas, e não chega a pôr a vida do seu cão em risco. Mas e se o animal sofrer algum acidente e começar a sangrar muito, o que fazer? Pequenos e Grandes Cortes Quando um cão sofrer um acidente que cause sangramentos, use compressas de gaze, ou um pano limpo, para aplicar pressão sobre o ferimento. Não use algodão, porque ele pode soltar fiapos dentro da ferida. A chave aqui é não ficar mexendo, dando batidinhas, ou tirando para ver como está, porque, cada vez que você levantar a gaze, pode atrapalhar a coagulação do sangue. Se a gaze ficar encharcada, coloque mais gaze, ou mais panos, por cima, até que o sangramento esteja contido. Você pode também colocar uma bolsa de gelo enrolada em uma toalha por cima das gazes, para ajudar a diminuir a hemorragia. Para um corte pequeno, segure por aproximadamente 5 minutos, e verifique. Se, passados 5 minutos, o sangramento continuar quando você soltar, volte a pressionar por mais 5 a 10 minutos. Você pode colocar um pouco de pó hemostático - o mesmo usado para as unhas - ou bicarbonato de sódio em cima da ferida, enquanto aplica a pressão. Se um corte pequeno continuar sangrando por mais de 15 minutos, continue pressionando e leve o cão ao veterinário imediatamente. Se o corte for grande, o procedimento será essencialmente o mesmo, só que a pressão inicial tem que durar pelo menos 10 minutos. Novamente, se você aplicou pressão por 10, 15 minutos, e o sangramento não está dando sinal de que vai parar, continue fazendo pressão e leve ao veterinário imediatamente. Se a ferida for nas patas ou na cauda, e aplicar pressão diretamente não estiver funcionando, se possível, erga a pata ou a cauda acima do nível do coração. Isso ajuda principalmente em cães maiores. Você pode também tentar aplicar a pressão com as suas mãos um pouco antes ou um pouco depois da lesão, para tentar impedir que o sangue chegue nela. Você vai aplicar abaixo da lesão se a hemorragia for causada por veias, ou seja, se o sangue estiver escorrendo, empoçando. E vai aplicar pressão acima da lesão se a hemorragia for causada por artérias, ou seja, se o sangue estiver saindo em jatos. Este é um tipo de garrote usando as mãos, que tem a intenção de diminuir a perda de sangue. Contido o sangramento, limpe a ferida com água morna a fria, misturada com um pouco de sabão neutro, para tirar sujeiras que estejam aderidas. Não esfregue a ferida, dê batidinhas de leve com a gaze, para que não volte a sangrar. Feito isso, faça uma bandagem leve, e leve o seu cão ao veterinário. Em casos de hemorragias muito graves e difíceis de serem contidas, o torniquete passa a ser uma opção. Os torniquetes devem ser evitados sempre que possível, pois podem causar lesões permanentes, inclusive levar à perda do membro ou até da vida do animal, se ficarem por muito tempo. Mas, numa situação de emergência, em que o sangramento está forade controle, pode ser uma opção para se tentar preservar a vida do animal enquanto ele é transportado para o hospital. O torniquete também não é nada confortável, mas, se for para salvar a vida do seu cão, não é o momento para se preocupar com isso. A prioridade é mantê-lo vivo. Para fazer um torniquete, você pode usar ataduras ou tiras de tecido. Se for uma ferida pequena, faça o torniquete diretamente em cima do curativo. Se for uma ferida maior, ou se não foi feito curativo, tente fazer o torniquete mais ou menos 5 cm acima da ferida, em direção ao corpo. Amarre um pedaço de atadura ou outro tecido sobre o local onde pretende fazer o torniquete com um nó. Coloque um lápis, caneta, ou outro objeto semelhante em cima do nó, e dê outro nó por cima dele. Então, gire o lápis, apertando o torniquete até que o sangramento pare. Em seguida, leve o cão imediatamente ao veterinário. Isso não é confortável, e não deve ser mantido por muito tempo. Deve ser visto sempre como o último recurso. Uma observação importante em relação às lesões em patas e na cauda, assim como nas orelhas, é que, ainda que muitas vezes elas sejam bem feias, raramente elas são fatais. Por isso, se o cão tiver alguma lesão em tórax ou abdome, cuide destes outros lugares primeiro, e deixe as patas e a cauda por último. Arranhões e Punções Os arranhões são ferimentos bem superficiais, que podem acontecer durante brigas com outros cães, ou então pelo contato com superfícies abrasivas ou irregulares. Normalmente, os arranhões não requerem grandes cuidados. Se for pequeno, basta limpar com solução fisiológica e aplicar um antisséptico por cima. Se for um arranhão grande, ou um pouco mais profundo, pode ser bom cortar ou raspar os pelos ao redor da ferida, para higienizar melhor. Fique atento a sinais de infecção, como inchaço, dor, vermelhidão, pus, ou até mesmo, febre. Se perceber algum desses sinais, leve ao veterinário, pois o seu cão pode precisar ser tratado com um antibiótico. As punções são ferimentos que são muito mais profundos do que largos. Então, olhando por fora, eles parecem pequenos, enquanto os danos reais estão escondidos abaixo da pele. As punções podem ser circulares - por exemplo, quando um cão leva uma mordida ou um tiro -, ou lineares - se ele levar uma facada. No caso de ferimentos por balas, facas, ou qualquer outro que chegue a atravessar o animal, você vai observar que há uma ferida de entrada e outra de saída. A lesão de entrada é mais regular, conforme o formato do objeto que o perfurou. Já a lesão de saída é muito maior, e irregular. O quanto exatamente uma perfuração vai sangrar, e a gravidade da lesão, vai depender muito do local que foi perfurado, e que tecidos ou órgãos foram atingidos. Um exemplo de perfuração que às vezes não parece grave, mas é, são as mordidas de cachorro. Isso porque o cão, quando ataca uma presa, não apenas morde, mas também chacoalha. E este ato de chacoalhar é o que causa um grande estrago na musculatura e nos vasos sanguíneos, ainda que, por fora, nós apenas consigamos ver um pequeno furinho. Se a perfuração acontecer no peito, é importante ficar bem atento a sinais de dificuldade respiratória, já que um furo na parede torácica pode “despressurizar” o tórax. Para que os pulmões funcionem corretamente, o tórax precisa ter uma pressão negativa em relação à atmosfera. Ou seja, a pressão do ar é menor dentro do tórax do que fora dele. E é isto que permite que os pulmões se inflem com facilidade. Se entrar ar no tórax, a pressão do ar vai ficar igual dentro e fora, fazendo com que os pulmões se fechem, e o animal terá dificuldade para respirar. Para melhor compreender o conceito de “pressão intratorácica negativa”, você pode fazer um experimento simples em casa: pegue uma garrafa de plástico resistente, como a de Gatorade®, e faça um furo nela. Prenda uma bexiga na boca da garrafa, deixando o balão para dentro. Imagine que a garrafa é o tórax (de um animal ou humano), e que o balão representa os pulmões. Primeiro, tente inflar este balão como faria normalmente - coloque a boca no bocal do balão, e assopre dentro dele. Observe que é preciso fazer força para jogar este ar para dentro do balão, e que, no momento em que você parar de assoprar e retirar a sua boca, ele irá imediatamente murchar. Agora, encha este mesmo balão de um jeito diferente: cubra o buraco da garrafa com a sua boca, e sugue o ar. Conforme você retira o ar que está dentro da garrafa, o balão se expande. Cubra rapidamente o buraco com um dedo, e mantenha-o tampado. Observe como, agora, o balão se mantém cheio mesmo com o bocal aberto. Se você soltar o buraco, o balão se esvaziará imediatamente. Assim funciona o nosso sistema respiratório. Os pulmões se mantêm inflados por conta da pressão intratorácica negativa - ou porque a pressão do ar é menor dentro do que fora do tórax. Mas basta um furo para que o ar entre, e a respiração se torne muito difícil. É por isso que, quando acontece uma briga de cães, por exemplo, se algum dos animais tiver levado mordidas no peito, mesmo que as perfurações não pareçam muito grandes, elas podem ser profundas o suficiente para causarem dificuldade respiratória grave. Então, fique atento! O que fazer então, se o seu cachorro sofrer uma perfuração? · Avalie o ABC. Ele está consciente? Está respirando? O coração está batendo? · Procure por sinais de choque, esteja ele consciente ou não. Como estão as gengivas do cão? Estão coradas ou pálidas? Ele parece frio? Como está o TPC? Se houver sinais de choque, mantenha o seu cão devidamente aquecido, e deixe para cuidar de sangramentos depois. · Se estiver sangrando muito, aplique pressão sobre o ferimento, e leve o cão ao veterinário imediatamente. · Se o ferimento foi no peito, verifique se há alguma passagem de ar através dele. Você pode conseguir observar bolhas no sangue que sai da lesão, ou então sentir o ar saindo através dela. Basta colocar um dedo um pouco acima da lesão, para tentar sentir um “ventinho” cada vez que o cão expirar. Se houver passagem de ar, cubra a lesão com um pedaço de filme plástico, e prenda usando esparadrapos em três lados, deixando um livre. Isso irá dificultar a entrada de ar, mas vai permitir que ele saia. Leve ao veterinário imediatamente. · Se o objeto que perfurou o cão ainda estiver preso a ele, não tente tirar! O próprio objeto pode estar contendo uma possível hemorragia, e, ao remover, você pode aumentar a lesão, causar dor, e aumentar o sangramento. Procure manter o cão calmo, e leve ao veterinário imediatamente. Como Fazer Curativos Você pode precisar fazer curativos no seu cão se ele tiver ferimentos leves, assim como pode precisar trocar os curativos que o seu veterinário fizer, depois de cirurgias ou de ferimentos que estejam em tratamento. Eles servem para proteger as feridas, mantendo-as livres de contaminação, e também para evitar que os cães fiquem lambendo ou mexendo nelas, atrapalhando a própria cicatrização. Se você fizer um curativo em um cão, evite manter o mesmo curativo por mais do que 24 horas, a não ser que o seu veterinário oriente de outra maneira. Se o curativo for sobre uma lesão que drena algum tipo de líquido, sangue, ou pus, pode ser necessário trocar até mais do que uma vez ao dia. Quando você for fazer ou trocar um curativo em um cão, o primeiro cuidado deve ser com a sua segurança. Você vai mexer em uma área sensível, então é possível que o cachorro sinta dor e reaja para se defender. Por conta disso, recomendo que seja colocada a focinheira sempre quese for fazer um curativo em um cão, mesmo que ele seja seu, e mesmo que ele seja dócil. Antes de se cobrir qualquer lesão, é importante que ela esteja limpa. Para isso, você pode usar um quadradinho de gaze, ou quantos precisar, embebido em soro fisiológico, e dar batidinhas leves sobre a lesão para remover qualquer sujeira, secreção, ou vestígio de sangue que esteja lá. Feito isso, aplique um antisséptico, que pode ser o P.V.P.I., um spray antisséptico, uma pomada, ou outro produto que o seu veterinário recomendar. Para tratar arranhões e feridas superficiais, você pode usar o PVPI mesmo. Para qualquer outro tipo de lesão mais específica, consulte o seu veterinário antes. As orientações desta seção são específicas para arranhões, cortes e punções. Em relação às queimaduras, falaremos mais especificamente no Capítulo 11. Feita esta limpeza inicial, cubra a ferida com um pedaço de gaze ou curativo não aderente. Se for uma lesão mais “sequinha”, como uma ferida cirúrgica, pode usar gaze. Mas, se a lesão estiver soltando alguma secreção, a gaze normal vai acabar se grudando. Isso vai causar dor na hora de tirar, além de que pode inflamar e atrapalhar o processo de cicatrização. Para estes casos, prefira os curativos não aderentes. Fixe a gaze ou o curativo não aderente usando micropore, que é menos agressivo para a pele, e em seguida enfaixe usando uma atadura. Para curativos em membros, comece a enrolar da pata em direção ao corpo. Cada volta da atadura deve cobrir aproximadamente ⅔ da volta anterior, para que ela fique bem presa. Por fim, fixe a atadura usando um esparadrapo, que deve pegar em torno de 2 cm de pele junto com a própria atadura, para que o curativo não saia do lugar. Se o curativo não abranger nenhuma articulação ou parte do corpo que se movimente (por exemplo, somente no braço, sem chegar ao cotovelo), você pode tentar fixar o curativo com o esparadrapo pegando em menos pele, para diminuir o estresse do animal na hora de removê-lo. Mas, se o cão mexer demais, será preciso grudar o esparadrapo na pele também. Outra forma de se fixar o curativo é usando as bandagens elásticas, como o Vetrap®. A bandagem elástica deve ser usada por cima da atadura, devendo avançar em torno de 3 a 4 cm em relação às outras camadas. Assim como a atadura, cada volta deve cobrir cerca de ⅔ da espessura da volta anterior. As bandagens elásticas, se usadas de forma incorreta, podem ficar muito compressivas, chegando a bloquear o fluxo sanguíneo. Para evitar este problema, desenrole completamente o rolo de bandagem elástica e enrole-o novamente antes de começar a usar. Isso ajuda a diminuir a tensão da bandagem, e o risco de que o curativo fique apertado. Evite também esticar a bandagem enquanto a aplica. Se, por algum motivo, o seu médico veterinário recomendar uma bandagem compressiva, tenha em mente que a compressão não deve ser feita através de tensão na atadura ou na bandagem elástica, mas sim pela espessura do curativo. Para fazer um curativo espesso e compressivo, use algodão em rolo entre a gaze ou o curativo não aderente, e a atadura. Quando fizer uma bandagem compressiva, ou, caso utilize a bandagem elástica tensionada em um membro, verifique a temperatura dos dedos do cão a cada duas horas. Se perceber que os dedos parecem mais frios do que o resto do corpo, afrouxe o curativo para permitir uma boa circulação sanguínea. Uma boa ideia para fazer um curativo rápido nas patas é usando uma meia limpa ao invés da atadura. Basta “calçar” o cão, e fixar a meia com um esparadrapo. Para cães pequenos, é possível improvisar uma roupinha para proteger cortes cirúrgicos (uma castração em fêmeas, por exemplo) ou outros ferimentos em tórax e abdome usando a malha tubular. A malha tubular é vendida em rolos, e pode ser adquirida em lojas de produtos médicos e hospitalares com diversos diâmetros. Corte um pedaço de malha tubular que seja um pouco mais “longo” do que o seu cão, e meça onde ficariam os seus braços e pernas (coloque a malha na frente do cão para medir). Corte pequenos círculos um pouco adiante de onde estão os braços dele, e um pouco atrás de onde estão as pernas, já que a malha irá “encolher” um pouco na hora de vestir. Vista o seu cão com a malha, passando as patas pelos buracos, deixando as aberturas da frente e de trás para a cabeça e a cauda. Desta forma, a malha irá cobrir os curativos do seu cão, impedindo que ele os arranque ou fique mexendo. Se for um macho, pode-se fazer um pique no tecido embaixo, para que ele consiga urinar normalmente. Para retirar a “roupinha” de malha tubular, basta cortá-la. Fraturas As fraturas podem ser expostas ou fechadas. As fraturas expostas são as mais óbvias, elas acontecem quando pontas do osso quebrado chegam a perfurar a pele, e assim se tornam visíveis externamente. As fraturas internas até podem ser perceptíveis externamente, quando um membro fica torto, pendurado, ou em uma posição incomum, mas algumas fraturas são mais discretas e podem ser confirmadas apenas através de radiografias. As fraturas sempre causam bastante dor, e o cão que sofrer qualquer fratura deve ser levado imediatamente ao veterinário, mas, até mesmo para transportar o animal, é preciso tomar alguns cuidados. Em primeiro lugar, é importante saber que as fraturas expostas correm o risco de infeccionar, e infecções em ossos são sempre muito sérias. Use luvas quando for manipular fraturas expostas, para a sua proteção e para a proteção do seu cão. O nosso primeiro cuidado com um animal que tenha sofrido uma fratura exposta será limpar o osso que ficou exposto usando solução salina estéril (use um frasco novo, recém-aberto). Use uma seringa para lavar o ferimento, e assim remover qualquer sujeira que tenha se aderido a ele. Em seguida, coloque uma camada de lubrificante a base de água estéril (como KY) ou vaselina (dê preferência a embalagens novas, recém-abertas). Aplique então uma camada de curativo não aderente sobre a ferida, e faça uma bandagem leve, sem apertar. Não se preocupe em fazer o curativo “com perfeição”: esta bandagem é apenas temporária, e tem como objetivo prevenir a contaminação da ferida. Ela precisará ser desmanchada assim que chegar ao veterinário. Se estiver sangrando, coloque uma bolsa de gelo sobre o curativo. Se estiver sangrando demais, um torniquete pode ser aplicado, com as ressalvas que já vimos na seção sobre hemorragias. A fratura exposta é algo muito delicado de se lidar, e uma imobilização mal feita pode fazer mais mal do que bem. Desta forma, não tente imobilizar fraturas expostas: simplesmente coloque uma toalha enrolada ou uma almofada embaixo da patinha que estiver quebrada para mantê-la mais ou menos estável durante o transporte. Para fraturas fechadas, é preciso que você consiga efetivamente imobilizar tanto a articulação acima quanto a que estiver abaixo da fratura. Se ficar frouxo, vai causar mais danos do que benefícios. Por isso, se estiver muito difícil imobilizar, seja porque você está inseguro, seja porque o cão não permite que você manipule, use a mesma técnica das fraturas expostas: apenas coloque uma toalha enrolada ou uma almofada embaixo da pata que estiver quebrada. A técnica de imobilização a seguir é para ser usada apenas em membros ou na cauda, sendo que você vai precisar imobilizar tanto a articulação que estiver acima quanto a que estiver abaixo da fratura. Imobilizar apenas uma das articulações pode ser danoso. Por ser muito difícil imobilizar com eficácia as articulações do ombro ou do quadril, o nosso foco será em fraturas abaixo do cotovelo ou do joelho.Para as demais, apenas estabilize conforme já explicado para fraturas expostas. Use algodão em rolo para enrolar todo o membro, subindo a partir dos dedos em direção ao corpo. Use bastante algodão, para firmar bem as articulações. A imobilização se dará pela espessura da camada de algodão, e não pela tensão do curativo - por isso, não há necessidade de apertar. Colocado o algodão, enrole a atadura sobre o algodão, conforme detalhado na seção sobre curativos, prendendo bem firme com esparadrapo. Se tiver, pode usar bandagem adesiva por cima. Para finalizar, se tiver algum material que possa servir como tala, você pode improvisar uma também. Coloque, por exemplo, uma revista enrolada ou um rolinho de papel higiênico ou de papel toalha ao redor do membro, e prenda com esparadrapo em diversos pontos. Enfatizo novamente que, se o cachorro estiver muito estressado e não permitir a manipulação, não force. É claro que nenhum cachorro vai gostar que alguém mexa nas suas fraturas, e é importante usar focinheira; mas, se ele começar a ficar muito agitado e se debater enquanto você tenta imobilizar, também corre o risco de acabar danificando mais do que ajudando. Nestes casos em que você não vai poder ou conseguir imobilizar, logicamente, é importante mesmo assim reduzir ao máximo a movimentação. Então, mantenha o seu cachorro o mais calmo possível, de preferência deitado, e apoie o membro fraturado sobre uma toalha enrolada. Você pode usar esta solução no carro, enquanto transporta o cão ao veterinário. Capítulo 10. Acidentes Automobilísticos Este capítulo tem como objetivo a demonstração da aplicação prática de diversas técnicas de primeiros socorros que já foram debatidas ao longo deste livro. Para não ser repetitiva, irei apenas citar quais são as técnicas, ou descrevê- las rapidamente. Sugiro ao leitor que retorne aos capítulos anteriores para revisar as técnicas caso surja alguma dúvida. Quando falamos em acidentes automobilísticos, pensamos em primeiro lugar em atropelamentos, mas na verdade também estamos nos referindo àqueles casos em que o cão estava dentro de um carro que bateu. Os cuidados que precisaremos tomar em cada caso serão, basicamente, os mesmos. A primeira coisa que a gente vai fazer quando encontrar um cão acidentado - independente se ele foi atropelado, ou se ele estava dentro de um carro que bateu -, é avaliar os três C’s. Vamos relembrar rapidamente: 1º C - Cenário: Antes de se aproximar do cão, preste atenção a tudo o que estiver acontecendo à sua volta e à volta do animal acidentado. Se ele foi atropelado ou se estava dentro de um carro, então ele vai estar numa rua, numa estrada, ou bem perto dela. Há carros passando? Tome cuidado ao atravessar a rua, para que você mesmo não seja atropelado. Tem fogo, ou risco de explosão? Prestar socorro sob o risco de explosões ou incêndios é muito perigoso. É claro que, estando em condições, você vai tentar ajudar. Mas o risco é grande, e você precisa prestar muita atenção até mesmo onde pisa, para não se machucar também. É um trabalho para profissionais, e você deve ser capaz de avaliar quando as condições do acidente estão além da sua capacidade de prestar socorro, seja para um ser humano, seja para um animal. Se tornar mais uma vítima do acidente não irá ajudar. Partimos então para o 2º C: Chamar ajuda. Você vai chamar ajuda sempre que a situação for muito arriscada para você se aproximar, e também se perceber que vai precisar de ajuda para transportar ou para cuidar do animal. Lembre-se: se for ajudar uma pessoa, você pode chamar uma ambulância, os bombeiros, ou a polícia. Se for um cão, normalmente será preciso ligar para algum conhecido que possa te ajudar no transporte, ou então para um hospital ou clínica veterinária particular que ofereça o serviço de ambulância. A maioria das cidades brasileiras ainda não dispõe de ambulâncias para cães como serviço público. E, mesmo nas cidades que têm a chamada “SAMUVet”, como Florianópolis/SC, Pouso Alegre/MG, e Salvador/BA, existem várias restrições ao seu uso - por exemplo, às vezes apenas os bombeiros ou a polícia podem acionar a SAMUVet, o serviço pode ser exclusivo para animais de rua, para ONG’s, e outras situações bem específicas. Então, mesmo nas cidades onde já existe a SAMUVet ou outro serviço similar, nem sempre você poderá utilizá-lo. Diante disso, reforço mais uma vez a importância de se ter anotado no celular, e também num papel no seu kit de primeiros socorros, todos os contatos de pessoas ou clínicas veterinárias que você possa eventualmente precisar chamar, com telefone e endereço. Se a sua cidade tiver uma ambulância pública para animais, informe-se com antecedência em relação aos casos em que pode ser acionada, e como fazer para chamá-la se precisar. Chamou ajuda? Aí sim, você vai se aproximar do cão para cuidar, que é o terceiro C - tomando cuidado para que ele não fuja de você, se estiver consciente. No Capítulo 4 já tratamos sobre cuidados de segurança, formas de abordagem de cães em perigo, e métodos de contenção. Revisando rapidamente também estas técnicas, tenha em mente que a chave para o sucesso de uma abordagem a um cão em situação de emergência é se aproximar sempre com muita calma. Chegue devagar, vá conversando com ele, e tentando deixar claro que você está lá para ajudá-lo, e não para machucar mais. Conquiste a sua confiança sempre que possível. O cão estará assustado, e pode estar agressivo, então, mesmo que ele não tenha condições de se locomover para fugir de você, ele pode tentar te morder. Assim que conseguir, coloque uma coleira nele, para prevenir fugas. Se o cão estiver num local perigoso - por exemplo, no meio da rua, na beira de um rio ou de um córrego, ou perto de um incêndio -, então, leve-o para um local mais seguro antes de começar a cuidar dele. Se ele conseguir caminhar, leve pela coleira mesmo. Se ele não conseguir, você pode improvisar uma maca para fazer isso, conforme descrito no Capítulo 4: use um pano, uma lona, ou o que tiver ao seu alcance, e role cuidadosamente o cão para cima deste tecido. Puxe com cuidado, para retirar o animal da área de risco com mínima movimentação e manipulação. Mesmo que você tenha força, evite pegar no colo se o cachorro for médio ou grande, porque a posição que ele vai ficar no seu colo pode não ser a melhor possível, podendo agravar fraturas, lesões de coluna, e outros ferimentos. A movimentação de animais ou humanos recém-acidentados deve ser sempre restrita à estritamente necessária. Assim que você já estiver com o cão em local seguro, aí sim você pode começar os cuidados propriamente ditos. A focinheira, seja ela “de verdade” ou improvisada, você só vai colocar depois que você constatar que o cachorro está respirando. Então, chegamos ao ABC: Vias Aéreas, Boa Respiração, e Circulação. Também já falamos sobre como avaliar estes três parâmetros. Esta avaliação tem que ser rápida, e, na maioria dos casos, você deve conseguir fazer em poucos segundos. O cachorro está consciente? Se sim, então, sem dúvida ele está respirando e o coração dele está batendo. Mas ele pode estar com dificuldade para respirar, por conta de alguma obstrução, ou mesmo por outro motivo. Então, se você perceber que o cachorro está com dificuldade para respirar, avalie primeiro as vias aéreas dele para ver se têm alguma obstrução, e então aplique a técnica do balanço ou a manobra de Heimlich, se for o caso. Se ele estiver inconsciente, avalie rapidamente todo o ABC: procure por obstruções em vias aéreas e libere, se for o caso, e veja se o cachorro está respirando e tembatimentos cardíacos. Conforme necessário, inicie a respiração boca-focinho ou a ressuscitação cardiopulmonar. Só depois que você já se certificou de que o coração está batendo e ele está respirando, é que você vai se preocupar com o resto. O nosso foco é manter o animal vivo. Então, a gente precisa começar procurando por lesões que possam realmente ameaçar a vida dele. “Aaah, mas ele está com uma fratura exposta na pata, é horrível, deve estar doendo, vou começar por ali! ” Não. Uma fratura em pata pode doer, e pode ser feia, mas pode esperar. A gente precisa começar procurando por lesões potencialmente fatais. Tipo o quê? Por exemplo, o cachorro pode estar com muita dificuldade para respirar porque teve uma fratura de costela. A fratura em si não é tanto o problema; o problema é que este cão pode estar com pneumotórax - ou seja, pode ter entrado ar no tórax dele, o que está dificultando a respiração. Então, se você encontrar alguma ferida no peito do cão, e parecer que está saindo ar através dela, lembre- se de que a pressão dentro do tórax tem que ser negativa. Você provavelmente não vai ter em mãos os equipamentos necessários para restaurar a pressão negativa do tórax, mas você pode evitar que o problema piore, usando aquele curativo que mencionei na seção sobre perfurações: use um pedaço de filme plástico para cobrir a lesão, e cole três lados com um esparadrapo, deixando um aberto para o ar sair. Feito isso, procure por hemorragias. Já aprendemos que a hemorragia pode ser interna ou externa. O impacto causado pelo atropelamento, ou pela batida do carro, quando o cão estava dentro dele, pode causar os dois tipos de hemorragia. Enquanto as hemorragias externas são bem visíveis e fáceis de identificar, as internas podem ser um pouco mais complicadas. E até por isso, elas são consideradas mais graves: às vezes, as pessoas demoram demais para percebê- las, e é difícil contê-las. Se o cachorro estiver com sangramentos óbvios, você precisa conter estas hemorragias usando as técnicas descritas no Capítulo 9. Comece dando mais atenção a sangramentos em tórax, abdome e pescoço, que costumam ser mais perigosos, para só depois pensar em patas, cauda, orelhas, e mesmo sangramentos na cabeça. O que pode acontecer de mais grave na cabeça é uma fratura em crânio, e não uma hemorragia. Mas não há muito o que se possa fazer em termos de primeiros socorros para fraturas em crânio, além de se tentar manter o animal vivo e o mais imóvel possível, para tentar evitar que o problema piore enquanto ele é transportado para uma clínica ou um hospital veterinário. Em relação às hemorragias internas, é importante saber que é possível que o cachorro pareça bem depois de ter sido atropelado, ou de ter estado presente num carro que bateu. Talvez ele não tenha nenhum ferimento visível, e continue alerta. Mas, por dentro, pode ser que ele não esteja tão bem assim. Por isso, sempre que você for cuidar de um cachorro, ou mesmo de uma pessoa, que se envolveu em um acidente automobilístico, sem exceção, procure por sinais de choque. Os sinais para humanos e para cães são bem parecidos, e é importante saber reconhecer: veja se as gengivas estão pálidas, se a temperatura parece estar mais baixa, se o TPC (tempo de preenchimento capilar) está acima de 2 segundos, e se o indivíduo está ficando mais letárgico, confuso, ou até mesmo se chega a perder a consciência. Como estes sinais podem demorar algumas horas para aparecerem, a recomendação é que o cão seja levado ao veterinário imediatamente após qualquer acidente automobilístico, mesmo que ele pareça bem num primeiro momento. Agora, pensando num cenário o pior possível: e se os órgãos e as vísceras abdominais do cão tiverem saído do lugar, e ficado expostas? Esta situação é chamada de “evisceração traumática”, e pode ser realmente desesperadora! Se isso acontecer, não tente colocar as vísceras de volta no lugar. Use um filme plástico para cobrir e protegê-las, e evite ficar manipulando a região. Você também pode usar um pano limpo, ou uma atadura umedecida com soro fisiológico para cobrir as vísceras expostas. Procure deixar o cão de barriga para cima, usando almofadas ou panos enrolados dos dois lados dele para dar suporte, e leve imediatamente ao veterinário. Só depois de ter cuidado destas lesões mais graves, ou se elas não existirem, é que você vai se preocupar com fraturas. Se for o caso, imobilize as fraturas para fazer o transporte do cão até o hospital veterinário, ou simplesmente estabilize-as colocando uma toalha enrolada ou uma almofada embaixo da pata que estiver fraturada. Como você pôde perceber, quando começou a ler este capítulo, você já tinha as ferramentas necessárias para lidar com um acidente automobilístico. Cada um dos cuidados que citei aqui já havia sido detalhado em capítulos anteriores. Mesmo assim, considerei importante explanar exatamente como seria uma aplicação mais prática dos primeiros socorros. Esta mesma sequência de cuidados pode ser adaptada às mais diversas situações de emergência, bastando que o socorrista consiga avaliar quais são as lesões mais perigosas e que requerem prioridade em casos de acidentes. Em qualquer tipo de emergência, se houver risco de morte, não atrase a ida ao veterinário para aplicar os primeiros socorros. Quanto antes você conseguir chegar lá, melhor. Então, peça ajuda para transportar o cão, e aplique os primeiros socorros enquanto espera o carro chegar, ou vá fazendo dentro do carro mesmo, se for o caso. Se você estiver de carro quando for socorrer o cachorro, e estiver sozinho, então se preocupe apenas em estabilizar o cão antes de transportar, e deixe feridas menores, e mesmo fraturas, para o veterinário. Estabilizar, como? Você vai tratar apenas aquelas lesões mais sérias, e que talvez possam fazer com que o cão não consiga chegar nem até a clínica veterinária. Por exemplo, uma parada cardiorrespiratória, ou uma hemorragia muito grave. Então, se não tiver como conseguir outra pessoa que possa dirigir o carro, faça estes primeiros cuidados, e vá para o hospital o quanto antes possível. Você deve ter notado que tenho falado muito em carro para levar o cachorro ao hospital. Eu sei que nem todas as pessoas têm carros, mas, na hora de socorrer um cão que esteja gravemente ferido, você vai precisar de um - afinal, já sabemos que os serviços de ambulância veterinária são raros e restritos. Se tiver uma clínica veterinária bem perto, e for um cachorro bem pequeno, você até pode levar no colo. Mas, sendo um cachorro um pouquinho maior, ou se a clínica não estiver tão perto assim, será preciso arranjar um carro. Então, antes que qualquer coisa assim aconteça, já vá pensando, e anote: quem você conhece que tem um carro e poderia te ajudar numa situação como estas? Ou, ainda: existe algum hospital ou clínica veterinária na sua cidade que ofereça o serviço de transporte? Tenha o número deles no seu celular, e também em papel, junto com o seu kit de primeiros socorros. Não espere acontecer uma situação de emergência para pensar nisso, porque, nessas horas, pouca gente consegue pensar com a clareza e a rapidez necessária. Revise as técnicas aqui descritas tantas vezes quanto for necessário, e tente mentalizar - imaginar uma situação em que elas seriam necessárias. O que você faria? Quais são os passos? Onde está o material de que você vai precisar? Dá para improvisar alguma coisa? Os improvisos são sempre parte importante dos primeiros socorros. Se você tem carro, será que vale a pena deixar um kit básico no carro? Internalize bem todas estas informações, para que,se um dia você precisar, já saiba exatamente como agir, sem perder tempo tentando se lembrar de como se faz isto ou aquilo. Capítulo 11. Queimaduras, Choques, Intermação e Hipotermia Queimaduras As queimaduras são causadas pelo contato de superfícies ou substâncias quentes com a pele, por choques elétricos, e também por alguns produtos químicos. Conforme a profundidade da queimadura, ela pode ser classificada em: Primeiro grau: superficial, causa dor, vermelhidão e pode formar bolhas. Os pelos continuam firmes na pele, e a cicatrização é rápida e tranquila. Segundo grau: de profundidade moderada, a queimadura causa dor, vermelhidão, e formação de bolhas. Os pelos podem ou não permanecer firmes na pele, e a cicatrização é gradual. Terceiro grau: todas as camadas da pele são destruídas, deixando uma ferida preta ou branca. Os pelos são destruídos, e pode haver pouca ou nenhuma dor. A cicatrização é demorada, e geralmente deixa cicatrizes a não ser que seja feita uma cirurgia plástica. Toda queimadura deve ser avaliada pelo médico veterinário. Se for pequena, não é preciso sair correndo, mas, se for grande ou profunda, sim. E quais são, então, os primeiros socorros? Para uma queimadura de 1º ou 2º grau que não seja muito grande, despeje água fria corrente sobre a área queimada por pelo menos 20 minutos. Não use gelo, só água mesmo. Feito isso, seque com um pano limpo que não solte fiapos, e cubra com uma bandagem não aderente ou com filme plástico. Não enrole o filme sobre a queimadura, apenas coloque uma ou duas camadas, e fixe com uma bandagem adesiva ou esparadrapo. Coloque um colar elisabetano para que ele não mexa, e leve ao veterinário. E volte ao veterinário se a ferida começar a parecer úmida, coçar muito, ou continuar muito vermelha depois de dois ou três dias. Uma queimadura de 3º grau, ou mesmo queimaduras de 1º e 2º graus que sejam mais extensas, podem levar à morte por choque, desidratação ou infecções. Se o cachorro sofrer uma queimadura muito grande ou profunda, avalie os sinais vitais do cão, e faça uma ressuscitação cardiopulmonar se for o caso, enquanto se encaminha para o hospital veterinário o mais rapidamente possível. Se o cão estiver respirando espontaneamente e com batimentos cardíacos, coloque a área queimada sob uma torneira ou um chuveiro com água à temperatura ambiente, por pelo menos 20 minutos antes de levar ao veterinário. É possível que ele entre em hipotermia durante o processo de resfriamento das queimaduras, por isso, tente mantê-lo aquecido: ligue um aquecedor no ambiente, ou tente aquecer com água morna ou um cobertor as regiões que não estiverem queimadas. Depende do local e tamanho da queimadura. Depois de resfriar a queimadura, cubra com uma bandagem não aderente ou filme plástico, e mantenha o cão aquecido, de preferência com um cobertor espacial ou um lençol. Se for usar um cobertor comum, não se esqueça de cobrir bem todas as áreas queimadas com o filme plástico ou o curativo, para que ele não solte pelos ou fiapos sobre a ferida. Leve ao veterinário imediatamente. Se for o caso de usar algum creme ou pomada, o veterinário irá prescrever, mas não passe nada antes de falar com ele. Os curativos que forem feitos sobre a queimadura devem sempre ser leves e do tipo “não aderente”. Como as queimaduras tendem a drenar bastante líquido, principalmente no início será necessário trocar o curativo pelo menos duas vezes ao dia. Este líquido que é drenado pelas queimaduras pode chegar até mesmo a deixar o cão desidratado, por isso, cuide para que ele tenha livre e fácil acesso a água fresca o tempo todo. Mas, e se a queimadura tiver sido causada por algum produto químico? Neste caso, você vai precisar colocar luvas de látex antes de tocar no cão, para se proteger. Lembre-se de descartá-las assim que terminar de usar, antes de tocar em qualquer outra coisa. Com as luvas nas mãos, retire do cão qualquer coleira, roupinha, bandana ou outro acessório que possa ter entrado em contato com essa substância química, e jogue fora. Finalmente, lave o seu cão com água abundante, usando uma mangueira ou o seu chuveiro, e passe uma camada generosa de sabonete líquido - ou até mesmo detergente de louças. Faça bastante espuma, enxágue e repita. Depois disso, ligue para o seu veterinário para pedir mais orientações. E as queimaduras na boca? A queimadura também pode ser na boca, se o cachorro lamber alguma substância cáustica ou quente, ou se ele tiver levado um choque porque mordeu um fio elétrico. Neste caso, você também terá que lavar a queimadura com água abundante, então, segure uma mangueira na frente do cão para ele beber, mas não force. Você também pode dar um cubo de gelo para ele lamber, ou usar um pote para despejar água na boca dele, se ele estiver consciente. Nunca coloque nada na boca de um animal que esteja inconsciente. Por fim, saiba que, se o seu cachorro tiver lambido ou ingerido algum produto químico, ele pode estar intoxicado e vai precisar de atendimento médico imediatamente. Falaremos mais detalhadamente sobre intoxicações no próximo capítulo. Choques Os choques elétricos podem acontecer se o cão mastigar algum fio elétrico, ou então se ele tocar em um fio que esteja exposto. Os choques causam queimaduras, mas, mais do que isso, eles também podem afetar diretamente o funcionamento do coração. Se você encontrar um cão inconsciente próximo a um fio elétrico, contenha seus impulsos e não toque nele. Antes de mais nada, se estiver em casa, desligue a energia. Se o acidente aconteceu em vias públicas, você vai precisar ligar para os bombeiros ou para a companhia de energia elétrica, para que eles façam o desligamento. Afaste o cão do local usando uma vassoura, um cabo de madeira, ou outro material não condutor, para garantir que você não vai levar um choque também. Finalmente, avalie os seus sinais vitais. Se ele não estiver respirando, inicie a respiração artificial. Se não tiver batimentos cardíacos, faça a ressuscitação cardiopulmonar. Se o cão estiver respirando e com batimentos cardíacos, procure por sinais de choque (circulatório), e leve ao veterinário imediatamente se constatar que o cão está entrando em choque. Se ele não estiver em choque, trate as queimaduras da mesma forma que as queimaduras comuns: lave em água corrente por, pelo menos, 20 minutos, ou dê gelo para o cão lamber se a queimadura tiver sido na boca. Para queimaduras mais extensas, tome o cuidado de manter o animal aquecido ao mesmo tempo em que resfria as queimaduras (ligue um aquecedor no ambiente, cubra com uma toalha ou cobertor as áreas não afetadas), para prevenir a hipotermia. Depois de resfriar as queimaduras e cobri-las com um curativo não aderente ou filme plástico, leve o cão ao veterinário, mantendo-o aquecido se as queimaduras forem grandes. Intermação A intermação acontece quando há um superaquecimento do corpo do cão, com temperaturas iguais ou superiores a 40ºC. Diferente da febre, a intermação não está relacionada a infecções, mas sim a temperaturas ambientais muito elevadas e/ou a exercícios extenuantes. Você não deve tentar baixar a temperatura de um cachorro com febre; ao invés disso, leve-o ao veterinário imediatamente. Os cães são pouco eficientes na perda de calor corporal. Eles perdem calor principalmente através do arquejamento (língua para fora, salivação) e do suor - com um detalhe: eles só têm glândulas sudoríparas nas patas! Em outras palavras, os cães só suam pelas patas, e não pelo resto do corpo, como os humanos. A anatomia peculiar dos cães braquicefálicos (de focinho curto) dificulta ainda mais a perda do calor pelo arquejamento,o que os torna especialmente propensos à intermação. Apesar de ser mais comum em cães braquicefálicos, qualquer cachorro está sujeito à intermação, especialmente os velhinhos e os filhotes. Para que ela não ocorra, é recomendável evitar passeios longos ou exercícios de alta intensidade nas horas mais quentes do dia. É preciso também respeitar o limite individual de cada cão, e interromper o passeio ou fazer um intervalo para que ele descanse e beba água caso se perceba que está ficando cansado demais. Em relação à temperatura ambiental, existem duas situações particularmente perigosas: a primeira é a “estufa” improvisada que é usada para secar os cães em algumas pet shops, conforme já mencionei no Capítulo 1. Esta estufa eleva demais a temperatura em um ambiente pequeno e sem ventilação, podendo levar um cão rapidamente ao colapso. A outra situação de alto risco acontece quando cães (e, às vezes, até crianças) são deixados dentro do carro, enquanto os seus tutores fazem compras, vão ao médico, ou até mesmo trabalham! A temperatura dentro de um carro fechado, mesmo que haja uma fresta na janela para a passagem do ar, fica extremamente elevada, e pode levar um cão à morte em pouco tempo. As duas situações devem ser evitadas a todo custo: as pet shops devem fazer a secagem normal dos cães com o secador, ou então utilizar equipamentos próprios para a secagem de cães (“máquinas de secar cachorro”), que dispõem de controle de temperatura e ventilação adequada. Já os tutores devem se habituar a simplesmente deixarem os seus animais em casa quando forem a locais onde os cães não sejam bem-vindos. Mesmo cães que sofram com ansiedade de separação estarão mais seguros sozinhos em casa do que presos dentro de um carro fechado. Por fim, um cão epiléptico ou que entre em convulsões por qualquer motivo também pode entrar em intermação, caso ele sofra diversos episódios seguidos, ou se as convulsões durarem mais do que cinco minutos (status epileticus, conforme veremos no Capítulo 13). Reconhecer a intermação em seus estágios iniciais é essencial para que ela possa ser revertida a tempo. Os sinais da intermação incluem: · Temperatura corporal acima de 40ºC; · Fadiga; · Desorientação e letargia; · Cão fica muito ofegante; · Gengivas avermelhadas; · Vômitos e diarreia; · Taquicardia (mais do que 120 batimentos cardíacos por minuto) · Tremores musculares; · Choque; · Desmaios e/ou convulsões; A intermação é uma condição perigosa e que pode evoluir rapidamente para a morte. Mesmo cães que sobrevivem num primeiro momento podem ir a óbito algumas horas, ou até mesmo, dias depois, por conta de lesões mais tardias - como insuficiência renal aguda e anemia hemolítica (destruição de células do sangue). Se você identificar sinais de intermação em um cão que esteve em uma situação que poderia propiciá-la (como um passeio longo ou uma corrida em um dia de sol, ou cães que ficaram presos dentro de carros, por exemplo), meça a temperatura dele. Se estiver acima de 40ºC, inicie os procedimentos de resfriamento conforme descrito a seguir. A primeira precaução é não resfriar o cão rápido demais. Isso pode fazer com que o corpo dele interprete a situação como uma hipotermia, e então serão ativados mecanismos para reter ainda mais o calor. Assim, um resfriamento muito rápido pode ter o efeito oposto ao desejado: ao invés de efetivamente baixar a temperatura corporal do cão, ele terá uma queda abrupta de temperatura seguida por uma elevação a níveis ainda maiores do que os iniciais. Por conta disso, não aplique gelo ou água gelada sobre o corpo do cão. Assim que identificar um cão com intermação, retire-o do local onde se encontra e coloque-o em um ambiente com ar condicionado e/ou sombra e ventilação. Se o cão estiver consciente: · Meça a temperatura do cão imediatamente, e a cada 15-20 minutos; · Ofereça água gelada para beber (se não estiver vomitando), ou gelo para lamber (se estiver vomitando); · Dê um banho de água morna (não use água fria ou gelada); · Retire do banho quando a temperatura ficar abaixo de 40ºC; · Use um ventilador com aspersor de água (pode usar um borrifador comum, junto com o ventilador), direcionado para o focinho do cão; · Fora do banho, aplique compressas frias (não geladas) nas patas do cão; · Pare de resfriar o cão assim que a temperatura dele atingir 39ºC; · Se a temperatura voltar ao normal e o cão parecer bem, ligue para o seu médico veterinário e peça orientações. Ele pode precisar ser examinado, já que a intermação pode ter complicações tardias. · Leve ao veterinário imediatamente em um carro com o ar condicionado ligado ou as janelas abertas se: o Após os primeiros 20 minutos, a temperatura não tiver caído nem um pouco; o O cão entrar em colapso e desmaiar; o O cão apresentar tremores ou convulsões; Se o cão estiver inconsciente: · Procure por sinais de respiração e batimentos cardíacos. Inicie a ressuscitação cardiopulmonar se necessário; · Use um ventilador com aspersor de água (pode usar um borrifador comum, junto com o ventilador), direcionado para o focinho do cão; · Aplique compressas frias (não geladas) nas patas do cão; · Leve ao veterinário imediatamente, em um carro com o ar condicionado ligado ou as janelas abertas. Em qualquer hipótese, não use medicamentos (antitérmicos) para tentar diminuir a temperatura do seu cão com intermação ou febre. Caso seja necessário medicar, o seu veterinário se encarregará disso. Devido à possibilidade de complicações tardias, o tratamento após um episódio de intermação pode se estender por vários dias, ou até semanas. Hipotermia Um cão é considerado em hipotermia quando, por qualquer motivo, a sua temperatura corporal fica abaixo de 37ºC, podendo ser fatal se atingir 36ºC. Uma hipotermia de 35ºC ou menos dificilmente será revertida. As principais causas de hipotermia são as baixas temperaturas ambientais, exposição a chuvas e ventos, e banhos de água fria ou gelada, principalmente de imersão. Cães idosos e com certas doenças, como o hipotireoidismo, são especialmente sensíveis à hipotermia. Por fim, se um cão que estava em intermação for resfriado demais, ele também pode entrar em hipotermia. A melhor forma de se evitar a hipotermia é mantendo o cão devidamente aquecido, conforme o tipo de pelagem de cada animal e o clima local. À exceção dos cães de raças nórdicas - como o Akita, o Husky Siberiano e o Samoieda -, temperaturas ambientais abaixo de 10ºC são difíceis de suportar para a maioria dos cães. Cabe observar que até mesmo os cães de raças nórdicas têm o seu limite e também devem ser protegidos do frio, mesmo que, na maior parte do Brasil, as temperaturas raramente cheguem a ficar negativas. É importante que os cães tenham lugares onde possam se abrigar do frio, do vento, e da chuva. Embora este “abrigo” possa ser uma casinha de cachorro, em alguns lugares muito frios, ela pode não oferecer proteção suficiente. Em cidades que tenham invernos muito rigorosos, o ideal é que o cão possa ficar dentro de casa mesmo. Para manter um cão aquecido na sua casinha, forre-a com cobertores e tecidos macios, e, de preferência, cubra-o durante a noite. Se possível, feche a porta da casinha com uma cortina de banheiro, que permitirá a entrada e a saída do cão com facilidade, mas impedirá a passagem de chuva ou de vento gelado para dentro dela. Cuide para que a casinha não tenha buracos, goteiras, ou infiltrações, que podem fazer com que o ar frio e a umidade entrem em contato com o cão. Se ocão dormir dentro de casa, o vento e a chuva deixam de ser um problema. Caso o cão não durma junto com os tutores, escolha um ambiente preferencialmente pequeno, para que seja mais fácil reter o calor, mas que permita que o cão entre e saia com facilidade (deixe a porta entreaberta). Uma despensa, por exemplo, costuma ser uma boa opção. Forre o chão com almofadas e/ou cobertores, e cubra o cão na hora de dormir. Se estiver muito frio e você tiver esta disponibilidade, um aquecedor de ambientes pode ser usado - mas lembre-se de manter o equipamento e os seus fios longe do alcance do cão, para que ele não leve um choque acidentalmente. As roupinhas também ajudam a manter os cães mais quentinhos no inverno, mas é preciso ter alguns cuidados em relação a elas. O primeiro é se o cão tiver pelos longos. Muitos cães de pelos longos se adaptam bem ao frio e não necessitam usar roupinhas; mas, caso o seu cão seja sensível e você opte por vesti-lo, lembre-se de retirar a roupinha para escovar os pelos dele diariamente. Este cuidado serve para evitar que os pelos se embolem, e acabe sendo necessário raspar toda a pelagem do animal ao final do inverno. Independentemente do comprimento do pelo do cão, é recomendável que, sempre que o tempo estiver mais ameno, a roupinha seja removida para que a sua pele possa respirar. Aproveite para examinar a pele dele, já que eventuais lesões de pele que ele possa ter podem ficar escondidas sob as roupas. Ao menos uma vez por semana, lave as roupinhas do cão, para que as próprias roupas não causem infecções de pele. Tome o cuidado de apenas vestir no animal as roupinhas que já estejam bem secas - e certifique-se de que o próprio cão também esteja com a pele bem seca na hora de se vestir, para evitar fungos. Por fim, certos materiais, como a lã, podem causar alergias em alguns cães. Se o seu cão começar a se coçar demais pouco tempo depois de começar a usar roupas, pode ser que ele seja alérgico. Neste caso, procure comprar roupinhas feitas com outros tipos de tecido. Em relação aos banhos, use sempre água morna, semelhante à que se usaria para um humano, e, depois, seque bem os pelos com secador. No inverno, um aquecedor de ambientes pode também ser bastante útil na hora do banho. Mas existem situações que fogem ao nosso controle. Um cão pode fugir, ou cair em um lago ou uma piscina gelada, e, assim, entrar em hipotermia. Os cães de rua raramente têm alguém que lhes forneça abrigo - e, menos ainda, roupinhas -, e estão especialmente sujeitos às variações climáticas. Seja como for, é importante sabermos identificar os sinais da hipotermia para podermos tratá-la o quanto antes possível. O que vamos observar, nos estágios iniciais da hipotermia, é que o cão fica encolhido, apático, e apresenta tremores. Ele pode parecer frio ao toque, e buscará fontes de calor, se houver. Cabe observar que uma das formas que o corpo tem de gerar calor para se reaquecer é tremendo; mas, se um cão estiver em severa hipotermia, ele pode não ter mais energia para isso. Neste caso, é possível que ele já esteja entrando em choque, e então as suas gengivas ficarão pálidas e o cão pode ficar apático, letárgico ou até mesmo inconsciente. Se isto acontecer, ele deve ser levado ao veterinário imediatamente. Se um cão foi exposto a um clima muito frio ou caiu na água fria, e parecer muito cansado ou com frio, meça a temperatura dele. Se estiver molhado, seque- o com um secador de cabelos e prossiga conforme abaixo: Se a temperatura estiver entre 37 - 37,5ºC: Não será necessário um esforço muito ativo para aquecer o cão. Coloque-o em um ambiente aquecido, e deixe no chão uma caminha ou cobertor onde ele possa se deitar. Se ele tiver roupinhas, vista-o. Enfim, cubra com um cobertor. Se a temperatura estiver entre 36,1ºC - 37ºC: Além das medidas anteriores, se tiver, use um cobertor espacial para cobrir o cão. Se possível, aproxime o cão de uma fonte de calor, como uma lareira ou um aquecedor, cuidando para que estas superfícies quentes não toquem na pele dele. Enrole em toalhas garrafas pet ou bolsas térmicas com água quente, e coloque-as em contato com o cão, tomando o cuidado de não deixar a água quente demais: a temperatura deve estar confortável ao toque. Por outro lado, é preciso remover as garrafas ou a bolsa térmica assim que a água esfriar. Caso opte por usar um tapete ou colchonete elétrico, evite queimaduras, mantendo temperatura do aparelho sempre abaixo de 41ºC, e forre-o com uma toalha grossa ou um cobertor para que não entre em contato direto com a pele do cão. Se o cão estiver sobre um tapete ou colchonete elétrico, mude-o de posição a cada 20-30 minutos, para evitar que um lado superaqueça e sofra queimaduras. Se a temperatura estiver 36ºC ou menos: leve imediatamente ao veterinário, e inicie os procedimentos de aquecimento no caminho. Você pode vestir o cão, se tiver uma roupinha, e/ou levá-lo enrolado em um cobertor ou toalha. No carro, ligue o ar quente. Em todos os casos, se o cão estiver consciente, ofereça a ele uma refeição quente, como uma sopa ou um caldo de carne. Isso irá ajudá-lo a se aquecer mais rapidamente, e também fornecerá energia para que o seu corpo continue resistindo ao frio. Se a hipotermia surgiu sem um motivo aparente (por exemplo, se o cão não se molhou, ou não foi exposto ao tempo frio), pode ser que ela tenha sido causada por uma doença. Assim, mesmo que se consiga reverter a hipotermia, o cão deve ser levado ao veterinário para ser examinado. Não hesite também em levar ao veterinário se o cão estiver inconsciente, muito fraco, ou se ele não estiver tremendo mesmo com a temperatura baixa. Capítulo 12. Intoxicações, Envenenamentos e Picadas de Insetos Intoxicações e Envenenamentos Existem centenas de substâncias que podem ser perigosas para os cães. Em alguns casos, basta que a substância entre em contato com a pele para causar danos; em outros, ela precisa ser ingerida. Quando um cão é envenenado ou se intoxica, mesmo que não consigamos ver o momento em que o contato com a toxina ocorreu, podemos observar algumas alterações que nos indicam que algo está errado. Alguns sinais comuns nas intoxicações incluem: · Salivação excessiva; · Vômitos; · Tremores; · Fraqueza; · Desmaios; · Convulsões; · Sangramentos espontâneos (sangramento pelo nariz, boca, e outros orifícios). Ao se detectar estes sinais, é preciso agir rápido, de forma a evitar ou minimizar os efeitos nocivos da substância tóxica. Existem duas estratégias principais para atingirmos este objetivo: a descontaminação e a diluição. Conforme o tipo de intoxicação ou envenenamento, uma ou outra técnica será indicada. Técnicas de Descontaminação A descontaminação é uma forma de tentar se livrar da substância tóxica, e, assim, impedir a sua absorção pelo organismo. Conforme o tipo de produto e o local afetado, a técnica será um pouco diferente. Substâncias Nocivas em Contato com a Pele Os procedimentos de descontaminação para produtos que entraram em contato com a pele será o mesmo que já foi descrito para as queimaduras químicas. Em primeiro lugar, o socorrista deve proteger as suas mãos com luvas descartáveis, de modo a evitar que o acidente se torne ainda maior. Remova todo e qualquer acessório que o cão estiver usando - coleiras, roupinhas, bandanas, etc. -, e descarte qualquer coisa que tenha a possibilidade de ter entrado em contato com a substância tóxica. Feito isso, encaminhe o cão para um banho de água morna. A água quente iráfacilitar a absorção da substância tóxica pela pele, e deve ser evitada; já a água fria irá estressar o cão, e também pode causar uma hipotermia. O banho deve ser feito preferencialmente com água do chuveiro ou chuveirinho - evite banhos de imersão, já que, na banheira, o cão ficará o tempo todo em contato com a água contaminada. Use um shampoo neutro, ou até mesmo detergente de louças, para ajudar a remover o produto da pele do cão. Comumente, os detergentes funcionam melhor nesse sentido, especialmente os mais viscosos. Outros tipos de solvente não devem ser usados, pois podem irritar a pele. Lave bem e enxágue pelo menos duas vezes antes de retirar o animal do banho e avaliar os danos. Se você conseguir ser rápido o suficiente, pode ser capaz de evitar total ou parcialmente os efeitos nocivos do produto. Procure por sinais de queimadura ou irritação na pele, e por sinais de choque ou intoxicação (tremores, vômitos, salivação excessiva, convulsões, etc.), e leve ao veterinário se detectar qualquer alteração. Substâncias Nocivas em Contato com os Olhos Se alguma substância irritante entrar em contato com os olhos do seu cão, lave-os com água morna abundante ou solução salina, por aproximadamente 10 a 20 minutos. Leve o seu cão ao veterinário o mais rapidamente possível para minimizar os danos causados aos olhos e à visão. Carvão Ativado O carvão ativado impede a absorção de diversas toxinas, e, assim, pode ajudar a impedir ou amenizar os efeitos de uma intoxicação ou um envenenamento. O carvão ativado não se confunde com o carvão comum, são coisas diferentes: o carvão ativado pode ser comprado na forma de pó ou tabletes em farmácias humanas ou veterinárias. Se comprar na farmácia humana, dilua conforme as instruções do fabricante, e forneça 1 a 2g de carvão ativado para cada quilo de peso do animal. No caso do Enterex ® (produto veterinário), dilua um envelope em 40mL de água. A dose recomendada pelo fabricante é de um sachê para cada 20Kg de peso (após diluir o produto, você pode calcular uma dose proporcional para cães menores - a metade do volume total para cães de 10Kg, por exemplo). Se você induzir vômito no cão conforme descreveremos a seguir, espere ele parar de vomitar antes de administrar o carvão ativado. Se não induzir, forneça o carvão o quanto antes possível, a não ser que o animal esteja inconsciente ou convulsionando: nestes casos, há risco de ele se afogar com o produto. Apesar de os volumes serem grandes (e a cor preta não tornar a sua aparência muito apetitosa), o carvão ativado deve ser administrado “puro” - ou seja, não misture com alimentos. Se o seu cão toma algum medicamento regularmente, o carvão ativado pode atrapalhar a sua absorção, e é importante comunicar o fato ao seu veterinário. Evite estressar demais o cão: se tiver dificuldade para administrar o carvão ativado, deixe este serviço para o profissional. Indução do Vômito Em alguns casos - mas não todos -, é seguro induzir o vômito. Se o cão vomitar pouco tempo depois de ter ingerido certos venenos, então pelo menos parte da dose não será absorvida pelo seu organismo. Logicamente, isso só funcionará se o veneno ainda estiver no seu estômago - então, temos como parâmetro um tempo máximo de até duas horas para se induzir o vômito (isso pode variar um pouco conforme a substância). Antes, porém, de discutirmos em quais situações a indução do vômito pode ser benéfica, vejamos em que casos você não deve induzir o vômito: · Se o cão já estiver vomitando; · Se o cão estiver inconsciente ou muito fraco; · Se o cão entrar em convulsões; · Se o veneno for muito ácido ou muito cáustico (veja a lista de venenos a seguir); · Se o cão estiver com os batimentos cardíacos muito lentos (menos do que 50 por minuto); · Se o cão tiver problemas cardíacos; · Se o cão for epilético (o vômito pode induzir convulsões em cães epiléticos); · Se a embalagem do produto ingerido assim orientar; · Se o seu veterinário lhe aconselhar a não induzir o vômito; Por outro lado, só induza o vômito: · Se o veneno for conhecido e estiver na lista a seguir; · Depois de ler o rótulo do produto para ter certeza de que ele se encaixa na lista, e que o fabricante não contraindica a indução do vômito; · Dentro do prazo estipulado para cada tipo de veneno. Quanto antes, melhor; · Se o seu médico veterinário autorizar. Para induzir o vômito em um cão com segurança, dê por via oral uma colher de chá (3 mL) de água oxigenada para cada 5 Kg de peso, até a dose máxima de 10 colheres de chá (30 mL). Para facilitar, coloque todo o volume em uma seringa grande sem agulha, e administre como faria com um medicamento. A água oxigenada deve estar na concentração de 3%, que é a encontrada na maioria das formulações comerciais - mesmo assim, verifique se a água oxigenada que você tem é mesmo “3%”, já que algumas podem ser mais concentradas. É esperado que o cão vomite dentro de 10 a 15 minutos. Se isto não acontecer, você pode repetir a dose uma vez. Se o método funcionar, o cão pode vomitar por alguns minutos, mas deve parar espontaneamente logo depois. Se ele continuar vomitando por muito tempo, consulte o seu veterinário. Não use sal ou xarope de ipeca para induzir o vômito no seu cão, porque estes métodos podem não funcionar, e podem até mesmo intoxicá-lo! Veja a seguir em que casos induzir o vômito pode ser benéfico: · Inseticidas e iscas para lesmas: geralmente, organosforados, carbamatos ou metaldeídos, inclusive o “chumbinho”. Induzir vômito dentro de, no máximo, 15 minutos e dar carvão ativado. o Estes mesmos ingredientes ativos podem estar presentes em shampoos, coleiras, sprays, e outros produtos contra pulgas, carrapatos e sarnas; · Raticidas: Induzir vômito em até 8 horas e dar carvão ativado. · Medicamentos: o Paracetamol: induzir vômito em até 2 horas. o Antiinflamatórios não esteroidais (aspirina, ibuprofeno, naproxeno, diclofenaco, etc.): induzir vômito em até 4 horas. · Nicotina: em cigarros, adesivos ou chicletes. Induzir vômito o quanto antes. · Chumbo: em soldas, enfeites, munições, tintas e jornais antigos. Apenas induzir vômito se o objeto engolido não for afiado ou pontiagudo. · Aditivos de carros: radiador vazando, por exemplo. Induzir vômito em até 6 horas. · Bolas de paintball: induzir vômito em até 1 hora. · Fertilizantes: Induzir vômito o quanto antes. · Alho e cebola: Induzir vômito o quanto antes. · Uvas: Induzir vômito o quanto antes. · Adoçante - xilitol: induzir vômito em até 30 minutos. · Chocolate: Induzir vômito o quanto antes. No caso do chocolate, é possível que o cão tenha arritmias por até três dias após a ingestão. Por isso, procure manter o animal o mais calmo possível durante este período, e com livre acesso à água. Em todos os casos, ainda que se consiga agir rapidamente, é possível que parte da substância tóxica seja absorvida pelo organismo, e a intervenção veterinária pode ser necessária. Como uma abordagem rápida é a chave para o sucesso de qualquer tratamento - especialmente no caso envenenamentos -, sempre leve o cão ao veterinário o mais rapidamente possível se constatar que ele ingeriu algum veneno, ou se perceber sinais de intoxicação. Técnicas de Diluição Há situações em que a indução do vômito não é indicada. Certas substâncias irritantes ou corrosivas podem causar ainda mais danos ao animal se ele vomitar, já que podem lesar o esôfago e a boca no seu caminho “de volta”. Cabe notar também que muitas destas substâncias não terão a sua absorção afetadapelo carvão ativado, o que significa que o uso deste produto também não trará benefícios. O que fazer nestes casos? Se um cão tiver ingerido uma substância cáustica ou corrosiva, e as técnicas de descontaminação forem contraindicadas, então devemos usar a estratégia da diluição. E a melhor forma de fazer é isso dando claras de ovo cruas para ele comer. Caso ele não queira, use uma seringa sem agulha para colocar na boca dele - a não ser que ele esteja em colapso, desmaiado ou em convulsões, pois ele pode se afogar com qualquer coisa que seja dada por via oral. Uma alternativa às claras de ovo pode ser o leite de vaca. Tanto o leite de vaca quanto a clara do ovo são ricos em proteínas que ajudam a diluir os produtos tóxicos. Ao mesmo tempo, eles ajudam a proteger as paredes do estômago e do intestino, e assim dificultam a absorção das toxinas, atrasando os seus efeitos nocivos. Isso nos permite ganhar tempo para que o animal seja adequadamente tratado em um estabelecimento veterinário. As doses recomendadas são de aproximadamente duas claras cruas para cada 5Kg de peso do cão, ou então, 60 mL de leite (1/4 de xícara) para cada 5Kg. Caso o cão não tome espontaneamente, coloque em uma seringa sem agulha e forneça como faria com um medicamento. Se o cão aceitar mais, não há contraindicações. Vejamos, então, em que situações você não deve induzir o vômito, e a clara de ovo ou o leite poderão ajudar: · Sabonetes, shampoos e detergentes: se forem ingeridos, dependendo da sua composição, alguns destes produtos podem causar apenas leves sintomas, enquanto outros podem levar o animal à morte. Os mais perigosos são aqueles que contêm princípios ativos antibacterianos, como o sabão de máquina de lavar louças. Os cães podem apresentar diarreia, vômito, dor abdominal, e até mesmo desmaios e convulsões. · Produtos de limpeza: normalmente são mais agressivos do que os sabonetes e detergentes, e podem causar sinais clássicos de intoxicação - salivação excessiva, tremores, vômitos, fraqueza e convulsões. · Corrosivos: contidos em produtos desentupidores, limpadores de vasos sanitários, removedores de ferrugem, limpadores de metais, entre outros. Além dos sinais clássicos de intoxicação, pode haver presença de sangue no vômito e nas fezes. O contato com a pele pode causar queimaduras. · Derivados do petróleo: gasolina, solventes, tintas, thinners, e alguns agentes de limpeza. Estes produtos são tóxicos se ingeridos ou inalados, e podem causar queimaduras em contato com a pele. Mantenha o cão longe do fogo. A vaselina não é tóxica para cães. Mais uma vez, ressaltamos que o leite e a clara do ovo não irão impedir os efeitos tóxicos, mas sim, atrasar a sua absorção pelo organismo. Portanto, mesmo que o animal pareça bem após a aplicação dos primeiros socorros, ele deve ser encaminhado ao médico veterinário sempre que ingerir qualquer substância tóxica ou veneno. Picadas de Insetos Carrapatos Tecnicamente falando, carrapatos não são insetos, e sim, aracnídeos. Eles pertencem, portanto, à mesma classe que as aranhas. Existem diferentes espécies de carrapatos, sendo que a mais comum em cães se chama Rhipicephalus sanguineus (“carrapato vermelho do cão”). Apesar de que a simples presença de um carrapato em um cão não caracteriza uma emergência, devemos estar cientes de que estes parasitas causam muito mais do que um leve desconforto: eles podem transmitir doenças perigosas. E não apenas aos cães. A chamada “doença do carrapato” (babesiose ou erliquiose) também afeta os humanos! A doença do carrapato é causada por um parasita intracelular, que afeta as hemáceas. Em bom português, é um “bichinho” que se abriga nas células vermelhas do sangue, e que leva à sua destruição. À medida em que as células vermelhas são destruídas, o animal pode entrar em anemia severa, a ponto de, em alguns casos, precisar de transfusão sanguínea. Os impactos da doença do carrapato podem ser realmente devastadores, levando um cão rapidamente à insuficiência renal aguda, e até mesmo à morte. Em humanos, os efeitos são os mesmos, sendo que crianças, idosos, e pessoas com baixa imunidade são especialmente sensíveis. A boa notícia é que esta doença é relativamente fácil de se evitar: basta manter o cão livre de carrapatos! Um cão pode pegar carrapatos inclusive na cidade, bastando para isso sair para passear. As formas jovens dos carrapatos, quase invisíveis a olho nu, ficam na grama e no mato, apenas esperando um hospedeiro (cão) passar por ali. Em determinadas regiões e em áreas rurais, principalmente onde há criação de gado, manter um cão livre de carrapatos pode ser um pouco mais difícil, mas não é uma missão impossível. Para que a doença do carrapato seja transmitida, o carrapato deve permanecer preso ao hospedeiro por 2 a 3 dias. Isso significa que, se um cão for “revistado” diariamente em busca de carrapatos, ele dificilmente irá adoecer por causa disso. A remoção dos carrapatos deve ser feita de forma cuidadosa, para que o aparelho bucal dos parasitas não continue preso ao animal, e cause reações alérgicas. Idealmente, use um removedor de carrapatos. Um modelo facilmente encontrado em pet shops e na internet se parece com um gancho com dois dentes. Prenda o carrapato entre os “dentes” do removedor, e gire até que ele saia. Na falta de um removedor, uma pinça comum pode ser utilizada: posicione as pontas da pinça ao redor do carrapato na altura da pele, tomando cuidado para não espremê-lo. Enquanto segura o carrapato com a pinça, balance-a para a frente e para trás, até conseguir retirá-lo. Aplicar álcool sobre o carrapato ou queimá-lo antes de retirar não irá ajudar. Coloque os carrapatos que forem removidos em um frasco com álcool 70º e feche para matá-los. Assim você evita que eles permaneçam no ambiente e voltem a subir em algum animal ou humano. Não esprema, pois normalmente os carrapatos que se prendem aos cães são fêmeas que possuem centenas de ovos dentro delas. Ao espremer, você irá contaminar o ambiente com estes ovos, e assim aumentar as chances de que novos carrapatos surjam para infestar pessoas e animais. O frasco onde você colocou o(s) carrapato(s) deve ser identificado, datado, e guardado por pelo menos um mês. Isso é importante porque a doença do carrapato pode se manifestar dentro de 7 a 21 dias após a infecção. Então, caso o seu cão adoeça nesse período, ou se aparecer algum problema de pele, o carrapato deve ser levado ao veterinário junto com ele, para que seja feita a devida identificação. Além da remoção manual dos carrapatos, existem produtos que podem ser aplicados nos cães para eliminar as infestações por parasitas. Alguns são aplicados por via oral (comprimidos ou tabletes), e outros, por via tópica (“pour on” ou “spot on”). A maioria destes produtos promete proteger os cães por cerca de 30 dias, e a grande vantagem deles é que eles ajudam também a controlar a infestação do ambiente. Isso porque, tal como as pulgas, os carrapatos que vemos nos cães são sempre a menor parte do problema. Para efetivamente eliminar uma infestação por carrapatos, precisamos nos preocupar não apenas com o cão, mas com todo o ambiente onde ele vive. Os produtos do tipo “pour on” (Frontline ®, Advocate ®, Advantage Max 3® , Fipromax ®, etc.) deixam resíduos nos pelos do cão, assim como em eventuais caspas ou descamações de pele que possam cair no chão. Com isso, eles eliminam também as formas jovens dos carrapatos que estejam no ambiente. Apesar de estes produtos serem muito bons,há relatos de resistência a eles em diversas regiões. Assim como acontece com antibióticos, os parasiticidas também podem “selecionar” indivíduos mais resistentes, tornando as infestações cada vez mais difíceis de serem controladas. Para amenizar este problema, recomenda-se que seja feito um rodízio de princípios ativos: a cada aplicação, deve ser usado um produto diferente. Desta forma, ao invés de selecionarmos indivíduos cada vez mais resistentes aos mesmos princípios ativos, nós conseguimos efetivamente combatê-los, pois um carrapato que seja resistente a um medicamento provavelmente será sensível a outro. Em relação aos tratamentos por via oral, uma nova geração de tabletes e comprimidos está chegando. Liderados pelo Nexgard® (Merial) e Bravecto® (MSD), estes novos comprimidos eliminam quase 100% das pulgas e carrapatos que estão sobre o animal dentro de algumas horas, e o mantêm protegido por até 30 dias e 12 semanas, respectivamente. Eles são considerados muito seguros, e não têm a sua eficácia afetada por banhos ou pelo uso de outros medicamentos. Enquanto o Bravecto combate inclusive as formas jovens de pulgas e carrapatos no ambiente, o Nexgard requer um controle integrado dos parasitas no ambiente. É sempre recomendável que todos os cães da casa sejam tratados ao mesmo tempo. Uma alternativa aos produtos “pour on” e aos comprimidos são as coleiras carrapaticidas, como a Preventic® (Virbac) e a Kiltix ® (Bayer), que prometem manter os animais livres de carrapatos por até 4 ou 7 meses, respectivamente. A coleira Seresta® (Bayer) combate pulgas e carrapatos, com proteção de até 8 meses. Devido ao longo tempo de ação destas coleiras, é recomendável anotar em uma agenda e/ou no celular a data em que ela deverá ser trocada, já que é fácil se esquecer há quanto tempo exatamente o cão está usando a mesma coleira. Também é recomendável que, mesmo que o cão esteja usando uma coleira carrapaticida, sejam feitas “inspeções” periódicas na pelagem dele: a resistência aos princípios ativos pode acontecer. Se a infestação de carrapatos se instalar na sua casa, ela pode ser um pouco mais difícil de combater. Mesmo que alguns dos produtos utilizados no cão possam ajudar a controlar a presença de carrapatos no ambiente, a sua eficácia não é de 100%, e é preciso tomar algumas providências. Uma delas é usar um aspirador de pó, especialmente em cantos, sofás e tapetes. Colchões e cobertores do cão devem ser lavados semanalmente, e, se ele dormir em um canil de cimento, higienize o canil com uma vassoura de fogo (lança-chamas). Outra medida que pode ser adotada é o uso de produtos inseticidas/acaricidas, como o K-Othrine®, que são seguros e eficazes. O Butox®, recomendado para uso em grandes animais, pode ser usado no ambiente, na forma de pulverização (não use no seu cão). Talcos acaricidas (Tratto®) podem ser aplicados sobre camas, colchões e sofás. Por fim, a nível de curiosidade, lembro que existe ainda mais um problema que pode acontecer: a paralisia por carrapatos! Este tipo de paralisia acontece quando o cão é picado por uma espécie de carrapato chamada Ixodes holocyclus, presente somente na Austrália. Estes carrapatos não têm um nome popular no Brasil, provavelmente porque não existem aqui. Em inglês, são popularmente conhecidos como “paralysis ticks” (“carrapatos da paralisia”). Regra geral, para que a paralisia aconteça, o carrapato deve ser grande (mais do que 4 mm), ou permanecer preso ao cão por pelo menos 4 dias, embora variações individuais possam fazer com que alguns cães sejam mais ou menos sensíveis ao problema. A paralisia do carrapato afeta todos os músculos, inclusive os do esôfago, fazendo com que o cão regurgite ou tenha dificuldade para se alimentar. Ele pode perder a voz, a habilidade de piscar os olhos, e até mesmo a capacidade de respirar. Se desconfiar que um cão possa ter paralisia por carrapatos, não dê água ou comida, para a evitar que ele se afogue ou aspire a água/o alimento e desenvolva uma pneumonia. Meça a temperatura, e trate a hipotermia (37,5ºC ou menos) se for o caso. Se o cão estiver com dificuldade para respirar, verifique se há acúmulo de secreções na boca, e limpe com uma gaze ou um pano limpo - tomando cuidado para não ser mordido. Em situações mais extremas, o cão pode precisar de respiração boca-focinho ou de ressuscitação cardiopulmonar. Todo cão com paralisia do carrapato deve ser examinado por um médico veterinário o quanto antes possível. Enfatizo, porém, que o Ixodes holocyclus não é encontrado no Brasil, mas sim na Austrália. Aranhas Mais um bichinho da família dos aracnídeos, as aranhas podem picar e causar reações alérgicas na pele, e até mesmo sistêmicas (no corpo todo). Para todas as picadas de aranha, algumas regras precisam ser seguidas: não corte o local, não aperte, não tente chupar o veneno, e não aplique gelo ou um torniquete. O que você deve fazer é: lavar o local da picada, aplicar compressas mornas para aliviar a dor, e se dirigir imediatamente ao hospital veterinário para um tratamento adequado. Caso a picada seja em algum membro, mantenha-o elevado. Por fim, mantenha o cão o mais calmo possível, e evite que ele se exercite, para não espalhar o veneno. Sempre que possível, identifique a aranha ou coloque-a num pote para ser identificada pelo profissional: A correta identificação da aranha que picou o cão ou a pessoa é muito útil para que o profissional que for atender a vítima saiba como proceder. As aranhas que mais causam acidentes no Brasil são a Aranha Marrom (Loxosceles spp.), a Armadeira (Phoneutria spp.) e a Viúva Negra (Latrodectus spp.), sendo que a primeira é a responsável pela maioria deles, segundo informações do Ministério da Saúde. Existem soros e antídotos específicos para tratar as picadas por estas três espécies, embora o soro contra o veneno da Armadeira só seja usado quando há complicações mais graves. Pulgas A presença de pulgas não é necessariamente uma emergência na maioria dos casos, mas certamente merece atenção. As pulgas causam coceira e desconforto, além de transmitirem vermes aos cães, como o Dipylidium caninum. O Dipylidium é um verme chato da família das tênias, que pode causar diarreia e também faz com que o cão sinta coceira na região do ânus - isso explica, inclusive, muitos casos de cães que esfregam o bumbum no chão. Além das verminoses, as pulgas também causam alergias em alguns cães. A Dermatite Alérgica à Picada de Pulga (DAPP) pode fazer com que um cão passe até três semanas se coçando intensamente após uma única picada de pulga. Em casos de infestações mais intensas, o animal pode ficar com crostas na pele e falhas de pelos, geralmente na região do dorso. Tal como os carrapatos, as pulgas podem ser combatidas com o uso de produtos tópicos, do tipo pour on. Existem ainda outras alternativas, desde banhos com shampoos antipulgas até coleiras e comprimidos – os mesmos que já foram citados na seção sobre carrapatos. Os tutores mais pacientes podem inclusive usar um pente fino para removê-las manualmente. Mas há um detalhe que não pode passar despercebido: as pulgas que encontramos em um cão representam apenas 5% das pulgas presentes em um ambiente. Isso quer dizer que, para cada 5 pulgas adultas que você encontrar no seu cão, existem outras 95 (na forma de larvas ou de ovos) espalhadas pela sua casa. As formas jovens das pulgas podem estar na grama, na poeira, nos tapetes, em sofás e em camas. De nada adianta dar um banho com um ótimo shampoo antipulgas, se o ambiente onde o cão vive não for tratado também. Especificamente em relação aos shampoos antipulgas, é preciso saber queeles normalmente não conferem proteção prolongada. Assim, eles podem ser eficazes para a eliminação das pulgas no momento do banho, mas não impedem que novas pulgas subam no animal e iniciem uma nova infestação. E, como 95% das pulgas ficam no ambiente, existe uma alta probabilidade de que isto aconteça. Recomendo o uso dos shampoos antipulgas principalmente para cães recém-resgatados, pois assim se evita que o animal traga pulgas para dentro de casa. Cães que estejam intensamente infestados (mesmo que o ambiente também esteja) também podem se beneficiar de banhos antipulgas, como forma de se propiciar um alívio imediato ao animal. Mas, neste caso, é preciso tratar também o ambiente – e, de preferência, associar algum medicamento de ação mais prolongada, como uma pipeta “pour on”, um comprimido, ou uma coleira. Os mesmos produtos usados para eliminar carrapatos do ambiente também podem ser usados contra as pulgas: o K-Othrine ® e o Butox ® costumam ser boas opções. Se for preciso tratar camas e colchões, alguns tipos de talco (Tratto®) também podem ajudar. Capítulo 13. Emergências Neurológicas e na Cabeça Orelhas Otites Um problema muito comum em cães são as otites - infecções nas orelhas. Estas infecções envolvem a presença de fungos, bactérias, ácaros, ou uma combinação destes. Mas por que eles surgem ali? Um dos motivos possíveis para as otites é a entrada de água nos ouvidos durante o banho. Para evitar que isso aconteça, é preciso tomar bastante cuidado ao banhar os cães, e, sempre que possível, colocar protetores de ouvidos neles. Estes protetores podem ser de silicone (existem alguns modelos moldáveis, usados por nadadores), ou então você pode usar um algodão parafinado (também conhecido como algodão hidrófobo). Não use algodão comum (“algodão hidrófilo) para proteger as orelhas do seu cão no banho, ele pode causar mais danos do que benefícios: enquanto o algodão parafinado repele a água, mantendo-a longe dos canais auditivos dos cães, o algodão comum puxa a água que estiver ao seu redor. Esta água que o algodão puxar irá escorrer para dentro dos ouvidos, e, assim, propiciar infecções. Os protetores de silicone podem ser usados por quem dá banho em casa; já para banhistas e tosadores, estes protetores são inviáveis, já que são mais caros e não devem ser compartilhados entre os animais. O algodão hidrófobo é uma alternativa barata e higiênica, devendo ser descartado após cada uso. Mas não é só a umidade que causa otites. Elas também são muito comuns em cães alérgicos, e naqueles que têm infecções de pele crônicas, principalmente as causadas pelo fungo Malassezia sp, como acontece com frequência com os Cocker Spaniels. Um cão também pode ter a chamada “sarna de ouvido”, causada por um tipo de ácaro, e pode até mesmo ter uma inflamação causada por algum objeto que entrou no canal auditivo (como um chumaço de algodão que alguém colocou na hora do banho, mas esqueceu de tirar). Por fim, algumas otites aparecem ser terem um motivo aparente. Um cão com otite coça as orelhas e chacoalha a cabeça com frequência. As orelhas podem ficar inflamadas, espessas, avermelhadas, e sensíveis ao toque, e, em alguns casos, apresentam uma secreção escura. O odor das orelhas também fica alterado, sendo bem perceptível principalmente nas infecções fúngicas por Malassezia sp. O cão sente dor e desconforto, devendo ser encaminhado ao atendimento médico veterinário o quanto antes possível. Procure agendar uma consulta para as próximas 48 horas. Para aliviar o cão enquanto não chega ao veterinário, limpe as orelhas dele usando uma solução própria para a limpeza de orelhas, como o Epiotic ® (Virbac), o Limpa Orelhas ® (IBASA), Limp & Hidrat ® (Ouro Fino), entre outros disponíveis no mercado. Retire o excesso de secreções da área externa da orelha usando um algodão, e pingue algumas gotas da solução dentro do canal do ouvido, massageando conforme já explicado no Capítulo 3. Use apenas soluções de limpeza, e não medicamentos: para que seja feito um tratamento adequado, o veterinário precisará identificar a causa (fungos, bactérias, sarna, etc.), e o uso indevido de alguma medicação pode interferir nos resultados dos exames. As otites podem se tornar emergências se o animal parecer sentir muita dor, chorar, ou começar a perder o equilíbrio. Isto é sinal de que o seu ouvido interno já está sendo afetado, e o cão precisa de atendimento profissional imediato para tentar se evitar ou minimizar sequelas (inclusive neurológicas). Casos mais extremos de otite chegam a precisar de cirurgia, embora normalmente a infecção demore para chegar a este ponto. Um cão que tenha a sua otite devidamente identificada e tratada rapidamente dificilmente terá que arcar com consequências mais graves à sua saúde e bem-estar. Uma das consequências possíveis de otites não tratadas é o otohematoma, tema da próxima seção. O otohematoma é, basicamente, um hematoma que pode se formar nas orelhas quando o cão chacoalha muito a cabeça, ou coça com frequência. Se não for tratado a tempo, ele pode causar deformações permanentes nas orelhas do cão. Otohematomas O otohematoma é uma condição conhecida em humanos como “orelha estourada” ou “orelhas de lutador”. Ele acontece quando a orelha sofre uma agressão física, de modo que o sangue começa a se acumular em baixo da pele, formando um hematoma. Nos cães, o otohematoma é mais comum quando as orelhas são longas e pendulares (“caídas”), como as dos Basset Hounds, Beagles, e Cocker Spaniels, mas pode acometer qualquer cão. Ele acontece nas seguintes situações: · Brigas entre cães (mordidas nas orelhas); · Otites (balançar muito a cabeça, ou coçar demais); · Batidas em paredes, mesas, etc; · Tumores nas orelhas. As orelhas são muito ricas em vasos sanguíneos. A partir então de uma agressão inicial (uma mordida, batida, etc.), alguns destes vasos podem se romper, formando uma bolsa de sangue (hematoma) na orelha. O cão sente dor, e pode balançar ou coçar muito as orelhas, e acabar agravando ainda mais o problema por causa disso. É possível ver um inchaço no local onde o sangue se acumulou. O otohematoma não impõe risco à vida do cão. Apesar disso, se não for tratado rapidamente, ele leva à deformação das orelhas, podendo precisar de cirurgia reparadora. Conforme a localização e o tamanho da lesão, o canal auditivo pode ficar totalmente bloqueado! É preciso, portanto, prestar atenção a quaisquer lesões ou ferimentos em orelha que um cão possa ter, para conseguirmos evitar ou diminuir a chance de que um hematoma venha a ocorrer. Se um cão sofrer um ferimento em orelha que cause sangramento, aplique pressão manual usando uma gaze, como faria com uma hemorragia, e use também uma bolsa de gelo. Assim que parar de sangrar, aplique um antisséptico tópico ou P.V.P.I., e agende uma consulta com o médico veterinário para o mesmo dia. Os sangramentos de orelhas podem ser difíceis de conter: leve ao veterinário imediatamente se a hemorragia não parar. O médico veterinário precisará ter dois objetivos claros: (1) identificar e tratar a causa do otohematoma, e (2) tratar o próprio otohematoma. Como já mencionamos anteriormente, a causa pode ser uma otite. A otite, por sua vez, pode ser decorrente de uma infecção bacteriana ou fúngica; ou, ainda, pode ser que o animal tenha sarna de ouvido, carrapatos presos às orelhas, ou algum objeto preso dentro do seu canal auditivo e que precise ser retirado. Seja como for, este problema deve ser tratado com prioridade. Conforme o caso, alguns exames podem ser solicitados,e o veterinário poderá prescrever algum medicamento específico para as infecções ou infestações. Já em relação ao otohematoma, o tratamento pode variar, a depender do quão avançado o problema está. Em fases iniciais, pode ser usada medicação tópica, na forma de cremes ou pomadas, para diminuir a dor e a inflamação local. Se o otohematoma já estiver bem estabelecido, as duas principais opções de tratamento são: a drenagem, feita no próprio consultório veterinário com o animal sedado; e a cirurgia. A drenagem não consegue resolver 100% dos casos, mas é uma opção válida caso se pretenda tentar evitar uma cirurgia. Olhos Traumatismos e corpos estranhos Os olhos são órgãos extremamente sensíveis, e mesmo pequenas agressões podem causar muita dor e desconforto. Quando um cão sente dor nos olhos, ele pisca muito, passa as patas pelos olhos e pelo focinho, esfrega a cabeça em paredes e sofás, e também pode ter secreção ocular. No que se refere a emergências com os olhos, um dos problemas mais comuns é o trauma - causado, por exemplo, por corpos estranhos que podem perfurar, arranhar, ou até mesmo romper os olhos e as estruturas ao seu redor (pálpebras, conjuntivas, e o próprio globo ocular). Um corpo estranho pode ser qualquer coisa que entre em contato com os olhos, desde os pelos do próprio cão, até cacos de vidro ou farpas de madeira. Quando um corpo estranho entra em contato com os olhos, a reação é imediata: o animal começa a piscar repetidamente, lacrimejar, e pode ter dificuldade para abrir o olho afetado. É preciso agir rápido para evitar maiores danos à córnea, e à própria visão! Ao se deparar um cão que esteja apresentando os sinais que mencionamos acima, gentilmente separe as suas pálpebras e examine o olho. Pode haver um acúmulo de muco ou secreção ao redor do objeto que estiver no olho. Em seguida, lave o olho do cão usando uma solução salina ou colírio (“lágrima artificial”). Se não tiver colírio ou solução salina, use água potável para encharcar um algodão, e esprema este algodão acima do olho do cão, permitindo que a água escorra. Se, mesmo com a lavagem, o objeto não sair, use um cotonete para tentar delicadamente removê-lo. Você provavelmente precisará usar uma focinheira no cão para este procedimento, mesmo que ele seja dócil, pois ele já está com dor e não vai querer que toquem nos seus olhos. Se, mesmo com a focinheira, o cão se debater demais e não permitir esta manipulação, ou se você tiver dificuldade para retirar o objeto, leve-o imediatamente ao veterinário. Não tente retirar objetos perfuro cortantes, ou que tenham penetrado no olho, pois há risco de causar ainda mais danos. Enfim, se conseguir remover o objeto e o cão estiver aparentemente bem, observe-o por 24-48 horas, para ver se o ele volta a apresentar algum tipo de irritação ou desconforto nos olhos. Se os olhos parecerem irritados (avermelhados, com secreção) ou doloridos (cão pisca repetidamente, passa as patas no focinho, se esfrega em paredes ou sofás), leve ao veterinário o quanto antes possível. Proptose (perda do globo ocular) Quando um cão se envolve em um acidente traumático, como uma batida, um atropelamento, ou se for atacado por outros cães, existe uma chance de que o seu olho saia da órbita, ficando exposto (“proptose”, ou “exoftalmia traumática”). Mais comum em cães de raças braquicefálicas (Pequinês, Shi Tzu, Pug, Buldogue Francês, etc.), a proptose pode ser realmente assustadora. Apesar disso, por estar relacionada a traumas, é importante que o socorrista compreenda que, quando um animal sofre um acidente desta magnitude, o foco deve ser mantido na preservação da vida. É lógico que, na medida do possível, pretendemos manter também a visão do cão e minimizar a chance sequelas. Mas a exoftalmia traumática não é fatal, ao contrário de outros problemas que podem estar se passando com aquele animal que acabou de sofrer um acidente - por isso, comece a avaliar o cão usando o ABC da vida, e em seguida dê atenção a outras lesões potencialmente fatais. Apenas se não houver lesões potencialmente fatais, ou se estas já estiverem devidamente controladas, preocupe-se com ferimentos menos perigosos, como é o caso da proptose. A proptose pode ser parcial ou completa, ou seja, o globo ocular do cão pode sair completa ou parcialmente do lugar. Não tente recolocar o olho na órbita. Ao invés disso, cubra o olho com uma gaze estéril embebida em solução fisiológica, e leve o cão ao veterinário imediatamente, mantendo-o o mais calmo possível. Boca Sangramentos Um sangramento na boca é algo que normalmente chama bastante a atenção, mas que nem sempre é uma emergência. Filhotes que estão perdendo os seus dentes de leite, por exemplo, podem ter pequenos sangramentos quando os dentinhos caem, e não há motivo para preocupações. A boca deles normalmente fica com odor de sangue nesta fase. Em cães adultos, as gengivas podem sangrar por conta de uma gengivite ou de doença periodontal. Estes problemas dentários não são emergências, mas requerem atenção médica. Se você perceber que as gengivas do seu cão estão com pequenos sangramentos, e os dentes dele parecem sujos, amarelados, ou com placas castanhas, e/ou se ele estiver com mau hálito, agende uma consulta com o seu médico veterinário. Mas alguns sangramentos na boca podem sim ser considerados emergências. A boca pode estar sangrando por conta de ferimentos sofridos pelo cão. Se o cão permitir, abra a boca dele e examine, procurando por objetos que possam estar presos, ou por feridas visíveis. Se encontrar algum objeto que possa ser removido com facilidade, retire, e lave a boca do cão com água abundante. Como pode ser um pouco difícil lavar a boca dele, uma alternativa pode ser oferecer água para ele beber (usando uma mangueira, por exemplo) ou cubos de gelo, que ajudarão a conter o sangramento. Pequenos sangramentos podem ser contidos rapidamente e não requerem maiores cuidados. Caso o sangramento persista, se estiver difícil retirar o objeto, ou se o cão não permitir uma manipulação adequada da boca, leve ao veterinário. Se o cão começar a sangrar pela boca repentinamente sem ter sofrido um ferimento, ele pode estar intoxicado ou com problemas de coagulação. Isso será ainda mais evidente se houver sangramento também pelo nariz. Se houver a possibilidade de que ele tenha ingerido veneno para roedores, inicie os procedimentos de descontaminação conforme visto no capítulo 13, e leve ao veterinário imediatamente. Problemas de coagulação também podem ser causados por enfermidades como a leptospirose, doença do carrapato, e doenças autoimunes. Nestes casos, o cão provavelmente estará pálido e fraco, devendo ser encaminhado ao médico veterinário imediatamente. Por fim, uma outra causa possível para sangramentos pela boca é a insuficiência renal. Em estágios avançados de Insuficiência Renal Crônica, ou se o cachorro tiver um episódio de Insuficiência Renal Aguda por conta de uma doença ou intoxicação, podem se formar úlceras na sua boca, que irão sangrar. O animal estará debilitado, sem apetite, e, possivelmente, vomitando. Este cão deve ser levado ao veterinário imediatamente para que seja iniciada a fluidoterapia (“soro na veia”). Problemas Neurológicos Desmaios (Síncope) Um desmaio é a perda temporária da consciência, normalmente causada pela falta de oxigenação no cérebro. Enquanto o desmaio em si não é uma emergência, a causa dele pode ser. Muitos desmaios em cães são causados por insuficiência cardíaca, visto que o coração se torna incapaz de bombear o sangue adequadamente,inclusive para o cérebro. Cães braquicefálicos ou outros que tenham problemas respiratórios, como prolongamento de palato ou colapso de traqueia, podem sofrer uma insuficiência respiratória passageira ao se exercitarem ou se ficarem muito excitados. Esta insuficiência respiratória levará então a uma diminuição na quantidade de oxigênio disponível no cérebro, e a consequente síncope (desmaio). O colapso circulatório (choque) causado por traumas, hemorragias, e outras condições graves, também leva à perda da consciência. Ao se deparar com um cão aparentemente inconsciente, certifique-se de que ele está, de fato, inconsciente - e não apenas dormindo profundamente. Chame o cão, toque nele delicadamente para não assustá-lo, e tente despertá-lo. Se o os olhos estiverem abertos, aproxime os seus dedos dos olhos, e observe se eles piscam. Se o cão estiver simplesmente atordoado porém consciente, mantenha-o calmo e permita que se recupere sozinho. Em seguida, agende uma consulta com o seu médico veterinário. Se o cão não responder aos seus estímulos, esfregue o tórax dele usando as juntas dos seus dedos energicamente para tentar obter uma resposta. Se o cão acordar, mas não conseguir se levantar dentro dos próximos cinco a dez minutos, leve-o ao veterinário imediatamente. Se ele não acordar, verifique os sinais vitais e, se for o caso, inicie a ressuscitação cardiopulmonar imediatamente, e encaminhe-se ao hospital veterinário mais próximo. Todos os casos de desmaios devem ser investigados pelo médico veterinário, ainda que o cão consiga se recuperar rapidamente. É preciso descobrir se este animal tem alguma doença que precise ser tratada a fim de evitar maiores prejuízos à sua saúde, bem como novos episódios de síncope. Finalmente, se o cão se machucar ao cair durante o desmaio, ele deve ser examinado também quanto aos seus ferimentos. Se o acidente tiver ocorrido em uma escadaria, por exemplo, o animal pode sofrer fraturas e até mesmo hemorragias internas durante a queda. Avalie o ABC da Vida, e aplique os primeiros socorros conforme necessário. Convulsões As convulsões são séries de contrações musculares involuntárias, causadas por problemas no cérebro. Elas podem durar de poucos segundos a vários minutos, e podem atingir o corpo todo, ou apenas uma pequena parte dele. As convulsões podem ser: Generalizadas: · Leves - também chamadas “pequeno mal” ou “crises de ausência”. O animal parece estar “em transe”, e pode ser difícil identificar estas crises como convulsões, pois chamam pouco a atenção dos tutores. · Graves - conhecidas como “grande mal”. São os ataques convulsivos típicos, em que o cão cai no chão, inconsciente, e se debate. O animal pode salivar, urinar e defecar. Dura em média um a dois minutos, podendo chegar a 10 minutos. Focais ou Parciais: o cão continua consciente, mas pode sofrer alucinações ou ter movimentações involuntárias em alguma parte do corpo. Ele pode, por exemplo: · “Caçar moscas” imaginárias; · Perseguir a própria cauda; · Se tornar subitamente agressivo, sem motivo aparente; · Se auto-mutilar; · Fazer movimentos de mascar chiclete. Parciais seguidas de generalização: quando, logo após os sinais de convulsão parcial (caçar moscas imaginárias, por exemplo), o animal cai ao chão e começa a se debater, em um episódio de convulsões graves que duram normalmente entre 30 e 90 segundos. As convulsões parciais são sempre adquiridas (o cão não nasce com propensão a elas), sendo secundárias a infecções, traumas, doenças metabólicas ou tumores. A identificação da causa primária é tão ou mais importante do que a localização da lesão neurológica. As convulsões generalizadas podem ter diferentes causas. Tal como no caso das convulsões parciais, doenças metabólicas (diabetes, problemas hepáticos ou renais) e lesões cerebrais (tumores, batidas, infecções) são possibilidades a serem consideradas sempre que um cão sofre uma crise convulsiva. Mas existe também a chamada “Epilepsia Idiopática”, ou “Epilepsia Verdadeira”. Neste caso, todos os exames são normais, e o cão não tem quaisquer alterações que justifiquem as crises convulsivas, mas elas acontecem frequentemente. A epilepsia verdadeira é hereditária (passada dos pais para os filhos), sendo observada principalmente em cães das raças Pastor Alemão, São Bernardo, Poodle, Beagle, Cocker Spaniel, Husky Siberiano, entre outras. Observe que existe uma diferença entre ter “convulsões” e “epilepsia”. Uma convulsão é, na verdade, uma atividade anormal do cérebro, e pode ser um episódio pontual. A epilepsia é quando um animal sofre convulsões frequentemente. Desta forma, um cão pode sofrer convulsões sem ser epilético, se ele sofrer um acidente ou se entrar em hipoglicemia, por exemplo. Quando isto acontece, basta tratar a causa do problema, e o cão não sofrerá novas crises convulsivas. Já um cão que tenha epilepsia, seja ela “verdadeira” ou adquirida por conta de um tumor cerebral, por exemplo, precisará ser medicado no longo prazo especificamente para evitar que novos episódios aconteçam. O correto diagnóstico e a prescrição do tratamento ficarão a cargo do médico veterinário que atender o cão. Em relação aos primeiros socorros, precisamos saber, em primeiro lugar, se o animal é sabidamente epilético ou não. Cães que sejam sabidamente epiléticos e estejam em tratamento podem sofrer episódios isolados de convulsões esporadicamente. Para estes cães, exceto se as convulsões forem muito prolongadas ou repetitivas, normalmente uma crise convulsiva não é tão alarmante. Aplicam-se os primeiros socorros, e, passado o episódio, deve-se ligar para o médico veterinário e informá-lo sobre o ocorrido. Se os episódios se tornarem muito frequentes, pode ser preciso rever as doses e/ou os próprios medicamentos que vêm sendo usados no tratamento. Diferente é o caso de um cão que nunca antes teve convulsões, ou que não seja sabidamente epilético. Isso porque este animal muito possivelmente acabou de sofrer um acidente grave, ou está com alguma doença que precisa ser tratada com urgência (insuficiência renal aguda, insuficiência hepática, intermação, etc.). Desta forma, se um cão que não seja epilético tiver convulsões, ele deve ser encaminhado IMEDIATAMENTE ao médico veterinário assim que forem aplicados os primeiros socorros. Durante as convulsões: · Proteja o cão de possíveis acidentes: caso ele esteja próximo a uma escada, uma piscina, no meio da rua, perto de móveis que possam cair ou objetos que possam feri-lo, leve-o para um lugar seguro ou tire de perto dele qualquer objeto perigoso. Se o local não oferecer riscos, deixe-o onde está; · Ele deve ser preferencialmente colocado sobre uma superfície macia que impeça que ele se machuque enquanto se debate, mas não o cubra: durante as convulsões, o corpo tende a superaquecer e pode entrar em intermação; · Se possível, mantenha o ambiente com pouca luz e poucos sons, reduzindo o estresse e estímulos externos; · Não há risco de o cão engolir a própria língua. Não mexa na boca dele, sob o risco de levar uma mordida desnecessária; · Cronometre os episódios, e anote. O tempo de uma crise convulsiva é uma informação importante para o médico veterinário, e elas sempre parecem ser mais longas do que realmente são. Não estime o tempo: use um relógio; · Para cães sabidamente epiléticos e que estejam em tratamento, por vezes é possível fazer o uso intra-retal da medicação anticonvulsivante. Se o seu cão for epilético, peça orientações ao seu médico veterinário quanto a isso durante as consultas de rotina. Assim, você saberá como agircaso alguma crise aconteça. Assim que as convulsões pararem: · Verifique o ABC, e inicie a respiração artificial ou a ressuscitação cardiopulmonar se necessário; · Se o cão estiver respirando e tiver batimentos cardíacos, meça a temperatura retal. Se estiver elevada (é comum a temperatura atingir 40ºC), coloque compressas de água fria nas patas dele e verifique após 15 - 30 minutos. O objetivo é atingir 39,5ºC. Se a temperatura estiver acima de 40ºC, inicie os procedimentos indicados para intermação, e leve ao veterinário; · Tenha em mente que, logo após o episódio, o cão pode ficar confuso e temporariamente não reconhecer os seus tutores e familiares. Ele pode, portanto, agir de forma assustada ou agressiva. Tome cuidado ao manejá-lo ao mesmo tempo em que procura acalmá-lo e manter a sua calma. Independentemente de o cão ser epilético ou não, considere uma emergência, e prossiga imediatamente para o hospital veterinário se: · O cão entrar em status epileticus (quando as convulsões duram mais do que 5 minutos, ou ocorrem crises seguidas sem um intervalo); · O cão tiver dificuldade para respirar durante ou depois da crise, e/ou ficar com a língua azulada; · O cão não conseguir se levantar, ou continuar letárgico, por mais do que três horas após as convulsões. É normal que ele fique um pouco cansado ou desorientado nos primeiros 20 minutos; · A temperatura retal permanecer acima de 40ºC após uma hora, e o cão ainda estiver letárgico; · O animal sofrer mais do que uma crise convulsiva dentro de 24 horas. Com estes cuidados, você conseguirá ajudar o cão a se recuperar e a receber um tratamento adequado. Processo de Certificação em Primeiros Socorros Meu Cão Velhinho® Agora você já tem as ferramentas de que necessita para socorrer cães em diversas situações de emergência. Mas, se você trabalha com cães, apenas saber não é suficiente: é preciso mostrar. Pensando nisso, desenvolvi, em conjunto com esta obra, um curso em vídeo, 100% online, para ser feito nos dias e horários que melhor lhe servirem. No Curso Completo de Primeiros Socorros Para Cães, faço demonstrações com cães para facilitar o aprendizado, respondo a todas as dúvidas que surgirem, e disponibilizo a opção de o aluno passar por um processo de avaliação e certificação. 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Para ter acesso ao download de todos os apêndices em formato PDF prontos para impressão (sem nenhum custo adicional, obviamente), por favor vá ao seguinte endereço: http://www.meucaovelhinho.com.br/download-anexos-livro-primeiros- socorros/ Kit de Primeiros Socorros - Checklist ITENS OBRIGATÓRIOS - Pasta com documentos/anotações: o Contatos: médico veterinário, clínica 24 horas, contato de emergência o Nomes e doses de medicamentos de uso contínuo o Nomes e doses de medicamentos de emergência (prescritos) o Dados do cão: peso, data de nascimento, parâmetros normais o Carteira de vacinação o Guia rápido de primeiros socorros Termômetro Coleira e guia extra Focinheira Pinça Tesoura de ponta romba 2 pares de luvas de procedimentos Solução salina estéril http://www.meucaovelhinho.com.br/download-anexos-livro-primeiros-socorros/ Água oxigenada Álcool 70% P.V.P.I. ou outro antisséptico tópico Antisséptico em gel para as mãos 2 seringas grandes (20 mL) sem agulha 2 seringas pequenas (5 mL) sem agulha 3 pacotes de gaze 3 Curativos não aderentes 1 rolo de algodão 2 rolos de atadura 1 rolo de esparadrapo Vaselina Pó hemostático Medicamentos de uso contínuo Antialérgicos, analgésicos, e outros medicamentos prescritos para o seu cão pelo médico veterinário para uso emergencial Mel ou Karo ® para cães diabéticos ITENS OPCIONAIS Colar elisabetano Lágrima artificial 1 rolo de bandagem adesiva 1 rolo de micropore Removedor de carrapatos Cobertor espacial Máquina de tosa Solução de limpeza para orelhas Cortador de unhas para cães Lanterna Pote com ração Lata de ração pastosa Aplicador de comprimidos Alimentos Proibidos para Cães Esta lista é meramente exemplificativa, existem outros alimentos que podem fazer mal ao seu cão. Se estiver na dúvida se um alimento é seguro, pergunte ao seu veterinário. · Alho (é seguro em pequenas quantidades) · Balas e chicletes dietéticos que contenham xilitol (adoçante) · Bebidas alcoólicas · Café · Carambola · Caroço de damasco, caqui ou de pêssego · Cebola · Chá preto · Chocolate · Folhas de ruibarbo e de tomate · Gorduras das carnes (sobras de churrasco, por exemplo) · Lúpulo · Macadâmia · Massa crua de pão ou bolo · Ossos de aves cozidos · Sementes de maçã e pêra · Uvas e passas Plantas Tóxicas para Cães Esta lista é meramente exemplificativa, existem outras plantas que podem fazer mal ao seu cão. Se estiver na dúvida se alguma das suas plantas é tóxica, pergunte ao seu veterinário. · Arnica (Arnica montana) · Arruda (Ruta graveolens) · Azaléia (Rhododendron simsii) · Babosa (Aloe vera) · Beladona (Atropa belladona) · Buxinho (Buxus sempervires) · Copo de leite (Zantedeschia aethiopica Spreng) · Coroa de Cristo (Euphorbia milii) · Espada de São Jorge (Sansevieria trifasciata) · Espirradeira ou Oleandro (Nerium oleander) · Hera (Hedera macrophylla) · Hibisco (Hibiscus spp.) · Hortênsia (Hydrangea macrophylla) · Ficus (Ficus spp.) · Jasmin manga (Plumeria rubra) · Lírio (Lirium spp.) · Maconha (Cannabis sativa) · Mamona (Ricinus communis) · Narcisos (Narcissus spp.) · Palmeira sagu (Cycas revoluta) · Samambaias (todas as espécies) Contatos Importantes Médico Veterinário Nome: ___________________________________________________________________ Telefone: ________________________ Celular: ______________________________ e-mail: __________________________________________________________________ Endereço: _______________________________________________________________ Horário de atendimento: _______________________________________________ Hospital ou Clínica 24 horas Nome: ___________________________________________________________________ Telefone 1:_______________________ Telefone 2: ___________________________ e-mail: __________________________________________________________________ Endereço: _______________________________________________________________ Pet Shop/ Banho e tosa Nome: ___________________________________________________________________ Telefone 1:_______________________ Telefone 2: ___________________________ e-mail: __________________________________________________________________ Endereço: _______________________________________________________________ Horário de atendimento: _______________________________________________ Farmácia de Manipulação Veterinária Nome: ___________________________________________________________________ Telefone1:_______________________ Telefone 2: ___________________________ e-mail: __________________________________________________________________ Endereço: ________________________________________________________ Horário de atendimento: _______________________________________________ Pet Sitter ou Hotelzinho Nome: ________________________________________________________ Telefone: ________________________ Celular: ______________________________ e-mail: __________________________________________________________________ Endereço: _______________________________________________________________ Horário de atendimento: _______________________________________________ Dog Walker Nome: ___________________________________________________________________ Telefone: ________________________ Celular: ______________________________ e-mail: __________________________________________________________________ Endereço: 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____________________ Raça: _________________________ Data de Nascimento: _____/______/_____ Peso: __________________________ Data da pesagem: ______/______/______ Alergias: _________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ Alimentação: ___________________________________________________________ Parâmetros Normais Temperatura: _____________ ºC Frequência Cardíaca: ___________ BPM Frequência respiratória: __________________ RPM Medicamentos de uso contínuo Nome Dose/ frequência Data de início Medicamentos de emergência Nome Dose Indicação Controle de vacinas e vermífugos Nome do Cão: __________________________________________________ Vacina/Vermífugo Data da aplicação Reaplicar Capítulo 12 Capítulo 7 problemas digestivos Intoxicações e Envenenamentos contenção e segurança Técnicas de Salvamento kit de primeiros socorros atropelamentos seção sobre o “B’ próxima seção Capítulo 1 Capítulo 11 Capítulo 11 Capítulo 5 seção sobre o ABC Capítulo 5 Capítulo 8 Capítulo 1 intoxicação intermação Capítulo 5 Capítulo 11 seção sobre hemorragias seção sobre curativos Capítulo 4 Capítulo 4 seção sobre perfurações Capítulo 9 próximo capítulo Capítulo 1 Capítulo 13 seção sobre carrapatos Capítulo 3 capítulo 13