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A CLÍNICA PSIQUIÁTRICA DA CRIANÇA: Estudo histórico - Paul Bercherie *Psiquiatra francês, autor dos livros Genèse des concepts freudiens. Paris: Navarin, 1983 e Os fundamentos da clínica. História e estrutura do saber psiquiátrico (1980). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1989. Artigo publicado originalmente em Ornicar? n. 26-27, Paris: Navarin, 1983, p. 100-114. A primeira versão em português apareceu nos Fascículos Fhemig, n.7. Belo Hori-zonte: Fhemig, 1992, p.20-38. Tradução: Oscar Cirino, Revisão ::::: Elisa Alvarenga Creio que não podemos nos desinteressar pela história da psiquiatria e, em particular, pela história da clínica psiquiátrica. A psicanálise pode obter inúmeros ensinamentos desse longo processo, tanto para se situar e conhecer suas raízes quanto pelo valor que para ela pode ter o conhecimento dos fracassos, sucessos, problemas e métodos da clínica. Desde essa perspectiva, o campo particular da clínica da criança é, no mínimo, tão fecundo, para ser examinado, quanto qualquer outro. A história da clínica psiquiátrica da criança coloca um certo número de questões particulares, das quais a mais simples poderia ser expressa da seguinte maneira: por um lado, trata-se de um campo de observação quase tão antigo quanto o da psiquiatria do adulto; por outro, podemos considerar que uma clínica específica da criança, com conceitos próprios, só se estabeleceu realmente a partir da década de 1930. Ora, essa é a época que me parece indicar o rápido declínio, e logo a extinção, da observação clínica na psiquiatria clássica, a do adulto – remeto-os, a esse respeito, à totalidade do meu estudo sobre a história da clínica psiquiátrica (nota 1). A que se pode atribuir, então, esse atraso particular, essa autonomia histórica da clínica infantil? Antes de tentar responder a essa questão e aos problemas que ela recobre, vou propor-lhes uma análise dos trabalhos consagrados, desde o início do século XIX, ao que só se chamará “psiquiatria infantil” a partir do século XX. A análise desses trabalhos permite destacar a existência de três grandes períodos na estruturação dessa clínica da criança. O RETARDAMENTO, ÚNICO TRANSTORNO MENTAL INFANTIL O primeiro período cobre os três primeiros quartos do século XIX. Ele é exclusivamente consagrado à discussão da noção de retardamento mental, tal como constituída por Esquirol já antes de 1820, sob o nome de idiotia. Não se trata, aliás, de uma noção elaborada a partir de uma observação da criança, mas de um conceito que marca um momento capital da formação da psiquiatria do adulto. De fato, Pinel havia descrito, em seu Tratado da Mania, o idiotismo, definindo-o como uma obliteração das faculdades intelectuais e afetivas do conjunto da atividade mental, ficando o sujeito reduzido a uma existência vegetativa, com alguns resquícios de manifestações psicológicas: devaneios, sons semi-articulados, crises de agitação. Este estado podia ser adquirido e, portanto curável, ou congênito e irreversível; Pinel o diferencia da demência, abolição do pensamento no sentido condillaquiano (nota 2) do juízo, com as faculdades mentais só se manifestando na incoerência e na desordem. Ele o diferenciava também do delírio geral maníaco e do delírio parcial melancólico. Esquirol não modifica o espírito dessa nosologia sindrômica, que descreve estados mentais, quadros de apreensão imediata, cujos conceitos constrói em torno do traço mais central, mais evidente, das manifestações patológicas. Contudo, ele separa o idiotismo adquirido, curável, do idiotismo congênito, que, para ele, será a idiotia; o idiotismo adquirido tornar-se-á a forma aguda da demência, antes que Georget lhe conceda autonomia como estupidez. Quanto à idiotia, citemos Esquirol: [Não se trata] de uma doença, [mas] de um estado no qual as faculdades intelectuais nunca se manifestam, ou não puderam desenvolver-se o bastante, para que o idiota pudesse adquirir os conhecimentos relativos à educação que recebem os indivíduos de sua idade, situados nas mesmas condições que ele. A idiotia começa com a vida ou na idade que precede o desenvolvimento integral das faculdades intelectuais e afetivas; os idiotas são o que devem ser durante todo o desenrolar de suas vidas; nesse estudo evidencia uma organização imperfeita ou atrasada no seu desenvolvimento. Não se concebe a possibilidade de modificar esse estado. Nada poderia dar, mesmo que apenas por alguns instantes, mais razão ou mais inteligência aos infelizes idiotas. Veremos como este último ponto será objeto de importantes discussões, mais tarde nesse mesmo século, com os educadores de idiotas como Séguin ou Delasiauve. A opinião pessimista de Esquirol se sustenta em suas concepções patogênicas: “os órgãos, nos diz ele, nunca foram suficientemente adequados, para os que são atingidos pela idiotia pudessem raciocinar corretamente”, e a idiotia teria origem nos vícios de conformação da cabeça ou dos órgãos cerebrais. Mas o que é preciso sobretudo enfatizar é o passo capital que se dá na divisão do que vai, ainda algum tempo, permanecer como um gênero unitário, a Loucura, a alienação mental compreendida como um todo empírico. Como diz Georget, primeiro grande aluno de Esquirol, na sua obra de 1820: “não se deveria fazer da idiotia um tipo de delírio; um defeito original do desenvolvimento não é, propriamente falando, uma doença... Os idiotas devem ser classificados entre os monstros: eles verdadeiramente o são do ponto de vista intelectual”. Assim, uma divisão se introduz entre a loucura propriamente dita, a loucura do adulto que até então apresentava uma aparência normal – adulto no sentido biológico, mas também psicológico – e uma doença congênita ou adquirida precocemente na infância, certamente observada de preferência nos adolescentes e nos adultos, na qual se pode reconhecer o primeiro conceito de uma psiquiatria da criança, o único, em todo caso, que a moderna psiquiatria da criança conserva dessa época. Desde Esquirol, a descrição clínica da idiotia é complexa e diversificada. É ele quem distingue diferentes graus na afecção, entre o idiota propriamente dito, o retardado profundo, reduzido a uma vida vegetativa, e o imbecil, que possui uma vida psíquica grosseira e uma linguagem elementar; ele isola uma primeira variedade clínica, o cretinismo mixodematoso, já descrito por Fodéré em seu tratado de 1791. Por outro lado, é preciso assinalar que podemos reconhecer sem dificuldades, em numerosas descrições dessa época, o que aprendemos a distinguir do retardamento como psicoses infantis. A idiotia de Esquirol é uma descrição objetiva, de estilo behaviorista, e não um conceito etio-patogênico. O idiota é aquele que não pode adquirir os conhecimentos, que normalmente se adquire pela educação; o que o diferencia do demente é que este “é um rico que ficou pobre, (ao passo que) o idiota sempre esteve no infortúnio e na miséria”, evidentemente, do ponto de vista intelectual. Os autores desse período, aliás, não acreditam na existência da loucura propriamente dita na criança. Citam-se alguns casos excepcionais, mas Griesinger resume bem a concepção mais geral, quando afirma, no seu Tratado de 1845: “o eu nesta idade não está ainda formado de maneira estável para apresentar uma perversão durável e radical; assim, as diversas doenças produzem nas crianças verdadeiras interrupções no desenvolvimento, que atingem a inteligência em todas as suas faculdades”. A loucura da criança é pois, essencialmente, nesse primeiro período, a idiotia, com a noção que se agrega a ela dos transtornos epilépticos, já bem estudados desde esse momento. O que vai ser, pelo contrário, objeto de discussões importantes, é o grau de irreversibilidade do retardamento mental. Duas concepções se opõem a esse respeito: primeiramente a oficial, de Pinel e Esquirol, para os quais o déficit é global e definitivo e o prognóstico inteiramente negativo. Em seguida, a dos educadores de idiotas, particularmente Séguin e Delasiauve: o déficit lhes parece, a maior parte do tempo, parcial (falta de atenção, de concentraçãoe, especialmente, de vontade), comprometendo o conjunto do desenvolvimento mental, quando a educação se limita às suas modalidades tradicionais, mas vislumbrando grandes possibilidades, quando se recorre a métodos especiais. O ponto de partida desses métodos são as tentativas de Itard com a criança, que ele chamou de Victor, e que ficou célebre como o Selvagem de Aveyron. Capturada em 1799, a criança selvagem é levada a Paris e submetida à perícia por Pinel, que a considera como uma idiota e a designa como incurável; depois, ela é confiada a Itard, que tenta educá-la, persuadido de que se trata de uma criança normal, embora privada do conjunto dos conhecimentos sociais e, em particular, da linguagem, devido a seu isolamento profundo. A tentativa de Itard vai ser um semi-fracasso; posteriormente se considerará que a criança era efetivamente uma idiota, o que, aliás, parece exato, se leva-se em conta a nomenclatura do século. Para nós, ela apresenta múltiplos traços que a aproximam de uma criança autista, mas até a década de 1930, a noção global de idiotia recobre esse tipo de caso. De qualquer forma, se Victor era realmente um idiota, Itard obteve resultados surpreendentes com seus métodos tomados de empréstimo à educação das crianças surdas-mudas. Séguin, seu aluno, retomará e desenvolverá seus métodos, fundando uma tradição muito fecunda, que dá origem à educação especial, prosseguida na França por Delasiauve, Bourneville e seus alunos. O próprio Séguin funda, nos EUA, todo o sistema de instituições especializadas para crianças anormais, e, através de Maria Montessori, inspirará o que se chama de a nova pedagogia. O problema, colocado pela seleção das crianças retardadas e sua orientação nas classes especiais, conduzirá, por outro lado, Binet e Simon a inventar seu famoso teste, nos primeiros anos do século XX Os conceitos originários de Morel vão, em todo caso, dirigir a atenção para a infância dos alienados e, igualmente, para a existência, na criança, de uma patologia mental. Os primeiros trabalhos foram publicados pouco depois: citemos, em especial, o célebre capítulo do grande Tratado de Maudsley em 1867. No final do século, aparecem os tratados franceses de Moreau de Tours filho (1888) e de Manheimer (1899), o tratado alemão de Emminghaus (1887); o tratado inglês de Ireland (1898) permanece ainda, quase exclusivamente, limitado à idiotia; o autor dedica apenas um capítulo à loucura na criança, que ele considera “sempre acompanhada, ou mascarada, pela idiotia”. Mas o que caracteriza todos esses trabalhos é que eles sempre buscam encontrar na criança, ao lado do retardamento, as síndromes mentais descritas no adulto, que variam, aliás, de acordo com as referências nosológicas dos autores: excitação e mania, depressão e melancolia, obsessões e fobias, alucinações e delírio, loucura moral, isto é, perversão, e também neurose no sentido antigo do termo: histeria, epilepsia, coréia, tiques. No plano patogênico, esses transtornos são compreendidos, seja como manifestações de tipo tóxico-infeccioso, seja como a marca de um desequilíbrio degenerativo, que explica a grande maioria deles e que justifica a eclosão de transtornos mentais importantes por causas morais, isto é, psicológicas, aparentemente de pequeno alcance. Também é a época em que, ao lado dos estados tóxicos, aparece uma rubrica etiológica especial, o esgotamento, ao qual se vinculam a fadiga escolar e o onanismo, temas de inúmeros estudos sobre a patologia mental do adolescente. Mas, de qualquer maneira, em um primeiro tempo, a psiquiatria infantil – deixando de lado o retardamento mental – é antes um objeto de curiosidade e um campo complementar da clínica e da teoria psiquiátricas do adulto, do que um verdadeiro campo autônomo de investigação. É só na virada do novo século, com a importação de conceitos originários da nosologia kraepeliniana, que a pedo-psiquiatria vai poder dispor de noções com um valor heurístico seguro, no plano da investigação clínica. A segunda geração dos tratados de psiquiatria infantil, publicados entre os anos 1910 e 1925, é o resultado disso: citemos em alemão Strohmayer (1910) e Homburger (1926), em italiano Sante de Sanctis (1925); a língua francesa não é, observemos, muito representativa nos trabalhos dessa época, enquanto que no campo do retardamento mental, ao contrário, os trabalhos são numerosos em torno de Bourneville e do teste de Binet e Simon. O que os trabalhos dessa época retomam de Kraepelin, antes de tudo, são as modalidades gerais de sua nosologia: por exemplo, a noção de personalidades psicopáticas, em seu sentido amplo, alemão, que recobre o conjunto dos transtornos constitucionais e reativos (grosso modo, para nós, as neuroses, as psicopatias, no sentido moderno restrito a paranoia); é também a concepção das grandes afecções endógenas: epilepsia, psicose maníaco-depressiva e demência precoce. É, precisamente, esse último conceito que vai exercer uma influência notável sobre a pedo-psiquiatria. De fato, no campo de retardamento, aparece a ideia de distinguir das formas congênitas da concepção clássica, certas formas adquiridas nos primeiros anos, isto é, verdadeiras demências infantis, das quais Esquirol aliás, já suspeitava da existência. Entre essas novas rubricas etiológicas do retardamento, progressivamente vai destacar-se uma entidade particular, que coloca um importante problema conceitual: o que Sante de Sanctis denomina, desde 1906, como “demência precocíssima”, da qual Heller, no mesmo ano, faz uma descrição autônoma. Trata-se do aparecimento, a partir dos 3-4 anos, em crianças que, até então, haviam tido um desenvolvimento normal, de um estado de morosidade e indiferença, com negativismo, oposição, transtornos afetivos (cólera, ansiedade), seguidos de uma desagregação da linguagem e de diversos transtornos motores bastante característicos: agitação, estereotipias, maneirismo, catatonia, impulsões. O parentesco de tal quadro com a hebefreno-catatonia parece evidente e Heller suspeita da existência de episódios alucinatórios e delirantes. A criança cai em seguida, bastante rapidamente, em uma completa “idiotia”, não mais se alimenta de maneira autônoma, torna-se incontinente, perde o uso da linguagem. No entanto, Heller destaca a persistência de uma certa capacidade de atenção e de focalização e, sobretudo, a conservação de uma fisionomia inteligente, que diferencia nitidamente essas crianças dos verdadeiros retardados. O que era ainda apenas um problema etiológico, aliás debatido com insistência, vai tornar-se um problema clinico capital, depois da publicação, em 1911, da obra fundamental de Bleuler sobre a esquizofrenia. Bleuler, com efeito, suspende a hipoteca demencial que pesava sobre a compreensão da síndrome esquizofrênica, ainda que diferenciada das demências orgânicas, desde suas origens kraepelinianas. O primeiro autor que havia falado de esquizofrenia infantil parece ter sido Homburger, em seu tratado de 1926, já citado, e não o americano Potter, habitualmente creditado da paternidade dessa expressão, e que só a empregará oito anos mais tarde. Em todo caso, a ideia da existência de psicoses autísticas e dissociativas na criança – distintas tanto do retardamento mental como das diversas manifestações de tipo caracterial e constitucional – começa a se impor e a chamar a atenção de um número crescente de observadores. É desse período que nos chega a noção moderna de psicose infantil e os problemas a ela relacionados. Notemos, aliás, que a existência de formas mistas, nas quais a esquizofrenia aparece sobre um terreno de oligofrenia, já tinha sido evocada por muitos autores, sob o modelo da hebefrenia “transplantada” do adolescente, descrito por Kraepellin. NASCIMENTO DE UMA CLÍNICA PEDO-PSIQUIÁTRICA O terceiro período começa na década de 1930 e continua desenvolvendo-se atualmente. Ele coloca imediatamente um problema difícil, porque não é evidente que se trate, ainda, de uma clínica psiquiátrica da criança. Não é à toa, aliás, que esse período começa no momento emque desaparece a pesquisa clínica na psiquiatria do adulto e que a investigação psicopatológica é, com certeza, adotada pela psicanálise. De fato, o que caracteriza esse novo período é a influência dominante que as ideias psicanalíticas exercem sobre a clínica infantil, ideias que vão, a partir de então, estruturar em grande parte seu percurso. A descoberta de que toda manifestação psicopatológica é o resultado de um conflito psíquico e que esse conflito, em sua expressão atual no adulto, repete a história infantil do sujeito, adquire no quadro da clínica infantil uma ressonância muito própria, pois é de uma situação conflitiva atual, ou pelo menos recente, que dependem, então, as perturbações psicológicas. Por outro lado, várias manifestações patológicas, até aí dispersas aos quatro cantos na clínica pediátrica, podem, a partir de então, serem pensadas com o modelo da histeria, como formas de conversão ou de expressão substitutiva das dificuldades que a criança encontra na sua vida interior e em suas relações com o meio. O modelo psicossomático floresce de maneira rápida e esclarecedora na psiquiatria infantil, como em nenhuma outra parte. Essa nova etapa caracteriza-se, aliás, pela colaboração com os pediatras, bem ilustrada pelo termo pedo-psiquiatria. Surge, assim, uma clínica nova, muito rica. Ao lado da retomada de certas categorias do período precedente (neuroses e psicoses da criança), e mesmo da reinterpretação da herança da primeira etapa (manifestações caracteriais e psicóticas dos verdadeiros retardados), um imenso campo se destaca: – doenças psicossomáticas propriamente ditas, – transtornos do comportamento e manifestações afetivas patológicas, – perturbação do desenvolvimento das funções elementares: motricidade, sono, funções esfincterianas, fala etc. Muitas dessas aquisições da clínica psiquiátrica da criança recortam noções anteriores menos fecundas, como os chamados transtornos constitucionais da etapa precedente: falar de constituição perversa na criança, a propósito do roubo, não é a mesma coisa que perceber a criança ladra como manifestando um tipo de comportamento que tem um valor expressivo e simbólico particular, ao lado da mentira ou da fuga, mas também da anorexia, da enurese ou da gagueira. É preciso notar, aliás, que, para os transtornos de expressão somática, as novas aquisições se fazem, frequentemente, em favor de um contrassenso histórico que ganha seu valor de interpretação retroativa. A medicina do século XIX descrevia muitas neuroses de órgãos, isto é, perturbações somáticas funcionais de um órgão ou de uma função, sobre a base de uma disfunção do sistema nervoso local: trata-se, aparentemente, de uma concepção puramente somática. Meio século mais tarde, a palavra neurose –tendo conhecido, através da obra freudiana, uma mutação capital – passa a significar: transtorno psicogênico. Tudo o que anteriormente era chamado neurose torna-se, então, suspeito de psicogênica para aqueles que perderam o sentido original do termo. Assim foi para a asma, os tiques etc.; às vezes, o contrassenso torna-se evidente e desorienta a investigação, como no caso da epilepsia. A integração das noções psicanalíticas vai acontecer de duas maneiras: por justaposição, na Europa, onde os grandes tratados dos anos 30 – os de Pichon (1936) e de Robin (1939) na França, o de Tramer na Alemanha – são, a esse respeito, bem característicos. Mas é essencialmente em língua inglesa que uma concepção de conjunto vai se destacar em fazer da clínica psiquiátrica da criança um todo relativamente homogêneo: o tratado de Kanner, cuja primeira edição é de 1935, e que continua sendo a principal obra de referência nesse campo, é o testemunho disso. O que vai permitir tal integração são as concepções psicológicas dominantes nos EUA. Desde o início do século, no conjunto do campo psicológico, incluindo a psicopatologia, foram as concepções funcionalistas que permitiram uma penetração tão fácil e rápida, ou melhor, uma incorporação tão confortável das teses psicanalíticas. O funcionalismo americano é mais um pensamento do que um corpo doutrinário, uma abordagem intimamente inscrita na vida americana, como notaram todos aqueles que fizeram seu estudo histórico; a prova disso é sua facilidade em assimilar todo sistema de ideias de origem diferente, da psicanálise à teoria da Gestalt, passando pelo Pavlovismo; isso também é comprovado por sua força de contágio sobre os imigrantes, mesmo os já formados. Adolf Meyer, cuja formação é a de um psiquiatra suíço, aluno como Bleuler de Forel, funda a escola psiquiátrica americana e lhe insufla o espírito funcionalista, adquirido nos EUA em contato com William James e Dewey. O que caracteriza o funcionalismo, em sua oposição ao eclementíssimo dominante na psicologia européia do século XIX – que permaneceu fundamentalmente associacionista – é a idéia de que o organismo é um todo espírito-corpo, e que esse todo está engajado numa tarefa permanente e vital de adaptação ao meio ambiente. Nesse quadro, o psiquismo é uma função, função útil de mediação entre o meio ambiente e as necessidades do organismo; é preciso então se dedicar não ao estudo de elementos separados do conjunto e que perdem assim seu sentido (representações, afetos, atos voluntários, percepções etc.), mas determinar a função de tal ou qual atividade psicológica. É do funcionalismo que se originou o behaviorismo, que é apenas uma espécie de psicologia aplicada. É com esse mesmo espírito que Meyer engaja-se em uma polêmica com as concepções organicistas de Kraepelin e os diagnósticos destruidores que a elas estavam ligados. Parecia-lhe que a doença mental devia ser compreendida, não como o aspecto mental de uma lesão cerebral, mas como uma conduta que tem uma função e um sentido em relação à história do doente, à sua trajetória passada, à sua situação presente, as suas capacidades psicológicas, estado somático e cerebral incluídos. Aliás, é como pragmático, antes de tudo preocupado com a terapêutica, que ele abordava esses problemas. Entendemos que Meyer esteja entre os ouvintes de Freud, durante suas conferências americanas de 1909, e que seja um dos membros fundadores da Associação Americana de Psicanálise, apesar da ambiguidade de seu suporte crítico. É ele também que permite a Kanner abrir, sob sua égide, o primeiro serviço de psiquiatria infantil e que prefaciará a primeira edição de seu tratado. Compreendemos, agora, de onde vêm os conceitos que estruturam o campo recentemente conquistado da clínica pedo-psiquiátrica: a noção de patologia das grandes funções, com sua expressão nos transtornos do comportamento. Em um plano secundário, os conceitos explicativos representam, por um lado, o papel dos conflitos emocionais no desenvolvimento, por outro, os fatores constitucionais e o impacto dos transtornos da personalidade “que emanam das doenças físicas”, como diz Kanner. O pano de fundo sobre o qual se delineia esta psicopatologia é, aliás, constituído pelos trabalhos de Gesell, de inspiração funcionalista e behaviorista, sobre o desenvolvimento psicológico da criança. A imensa massa de material de observação, que Gesell reúne através de pesquisa sistemática, permite aos clínicos dispor de uma escala comparativa flexível, mas precisa, no exame das crianças. A descrição feita por Kanner, em 1943, da síndrome autística precoce – que, a partir de então, recebe o seu nome – é um exemplo do valor heurístico de tal procedimento: é a partir dos preciosos dados de Gesell que ele pôde sublinhar a notável precocidade da perda relacional neste tipo de casos, diferenciando-os das esquizofrenias infantis mais tardias. Isso explicaria também a ausência de adaptação postural dessas crianças quando são tomadas nos braços, colocadas na cama, enfim, apalpadas pelo adulto. Desde essa época, a progressão da clínica psicopatológica da criança efetuou-se essencialmente através dos estudos dos psicanalistas e podemos dizer que ela é, cada vez menos, separável dos esforços psicoterápicos a ela consagrados. Isso é o que dá conta daestruturação muito particular da clínica pedo-psiquiátrica: enquanto que a clínica psiquiátrica do adulto é originalmente pré-psicanalítica e permanece profundamente marcada pelo espírito médico que a constituiu, a clínica da criança, notemos, só pôde construir-se sobre bases bem diferentes. Somente assim ela pôde integrar os caracteres particulares da patologia que constitui seu campo: sua estreita ligação com o desenvolvimento psicológico da criança, de um lado, sua labilidade, de outro, isto é, a grande mutabilidade que conserva a criança na sua estrutura mental. A segunda característica está ligada à primeira e explica o fracasso dos métodos clássicos na clínica infantil: aí é impossível definir trajetórias típicas, estruturas fixas, cuja evolução estaria já inscrita nos dados de início, com exceção, talvez, para a patologia mais grave, a primeira a ser bem descrita. Esse quadro conceitual clássico, de inspiração médica, não deixa, aliás, de colocar problemas no que diz respeito ao adulto. Isso já foi desenvolvido por mim em outro trabalho (nota 3). QUADRO TEÓRICO E METDOLOGIA CLÍNICAS Se lançamos, agora, um olhar de conjunto sobre esse longo processo histórico e sobre os três períodos bem diferentes que recobre, logo se destaca algo que não está claramente inscrito na idéia de uma clínica: a importância das concepções, das teorias psicológicas (no sentido amplo) nas quais se inscreve a clínica psiquiátrica da criança no decorrer de seu desenvolvimento. O que determina as questões, procedimentos e observações dos clínicos, é o olhar que eles lançam sobre a infância, a concepção que têm de seu desenvolvimento e de seu papel na formação do adulto. Durante os dois primeiros períodos, a criança é essencialmente concebida como um adulto “em potência”, no sentido aristotélico: o adulto não é somente o fim de seu desenvolvimento, mas também seu único conteúdo e seu sentido último. A psicologia da criança só começa realmente a existir como campo autônomo no final do século XIX, com os trabalhos pioneiros de Taine e de Darwin, e depois com as obras de Perez, de Preyer e de Sully. Antes dessa época, é nas doutrinas pedagógicas que é preciso procurar as concepções clássicas sobre a infância. A esse respeito, o final do século XVIII vê retirar-se a hipoteca cristã da natureza tendencialmente má do homem, que seria a verdade da criança antes de qualquer adestramento educativo. Perdendo seu dinamismo, de forma generalizada, essa concepção pedagógica dá lugar às teses originárias do humanismo, marcadas pela crença na natureza fundamentalmente boa e infinitamente aperfeiçoável do homem. No entanto, uma certa tensão reina entre os herdeiros de Rabelais – que reúnem empiristas e teóricos do progresso – e os de Montaigne, onde encontramos os filósofos aprioristas ou partidários do inatismo: – os primeiros confiam sempre no conhecimento, nas “humanidades”, para transmitir à criança a civilização que dela fará um homem, um homem sempre melhor. Assim Comenius fala de “fábricas de humanidade”, a propósito das escolas; – os segundos, dos quais Rousseau é a figura de proa, esperam mais da experiência, com a qual a criança vai se confrontar, o florescimento natural de que é susceptível. O educador dirige habilmente dos bastidores esse encontro com a vida. Mas por trás dessa oposição superficial, as duas teses têm em comum a idéia de que um homem se faz. Como diz Herbart, “o educador é diante da criança o representante do homem que ela será mais tarde”; é ele que deve fazer com que “o homem se torne verdadeiramente homem” (Comenius). Seu otimismo, sua fé na perfectibilidade humana está, de fato, a serviço de seu adultomorfismo, bem perceptível no estilo decididamente cognitivo, que tem a ver com a teoria do desenvolvimento. De fato, o homem está aí já presente desde a infância nas “faculdades mentais” que vão lhe permitir tornar-se o que ele estava destinado a ser. Para isso, ele só necessita de uma certa dose de informação, para falar em uma linguagem moderna, seja essa informação pensada em termos de saber ou em termos de experiência. É esta a idéia que, enfim, autoriza tanto o otimismo de Itard como o pessimismo de Pinel, pois esse último pensa que, justamente, as faculdades mentais foram atingidas em Victor, tornando-se incapazes de utilizar a experiência para fazer da criança selvagem um homem civilizado. Suas concepções são iguais: apenas um problema de diagnóstico os separa, e Pinel, melhor informado, estabelece-o corretamente. Quando Séguin defende a educabilidade dos idiotas, pensa que é menos o intelecto que está afetado neles – isto é a faculdade de perceber e de conceber – do que a vontade, e que, portanto, se o educador pode substituir seu próprio querer (ele mesmo, aliás, não deixa de fazê-lo), obterá grandes progressos do idiota, com a condição de dar-lhe mastigado, de alguma maneira, o trabalho. Na medida em que o século XIX vai chegando ao fim, o desenvolvimento psicológico da criança é concebido de maneira cada vez mais psicofisiológica: é da integridade de seus órgãos cerebrais que depende o surgimento de suas faculdades mentais, sempre pensadas em termos sensório-motores e reflexológicos. Isso é o que vai justificar a primeira clínica psiquiátrica da criança: o cérebro da criança é susceptível de danos homólogos aos do adulto e, portanto, de manifestações “somato-psíquicas” da mesma ordem. Ao contrário, o que vai permitir a formação da clínica pedo-psiquiátrica moderna é a constituição de uma verdadeira psicologia da criança e de seu desenvolvimento. Não somente a infância tem sua ordem própria de existência e de racionalidade, mas é sobretudo ela que esclarece, a partir de então, o devir do adulto. Fundada sobre uma ampla base empírica, mas também sobre uma conceitualização elaborada, oriunda da psicanálise, essa nova orientação psicológica serve de pano de fundo à pesquisa clínica em psiquiatria infantil, há mais de meio século. Evocamos, há pouco, o papel dos trabalhos de Gesell na descoberta de Kanner. Para permanecer nesse campo tão rico das psicoses infantis, a estreita relação da clínica com a psicologia do desenvolvimento, como também coma psicoterapia, é evidente em Margaret Mahler e em Frances Tustin, assim como em Winnicott ou Françoise Dolto. Isso é o que me faz dizer que não se trata mais ai, propriamente falando, de clínica psiquiátrica, isto é, de clínica pura, disciplina inteiramente fundada sobre a observação e a descrição dos estados patológicos, tal como ela pôde funcionar ao longo dos cento e trinta anos da história da psiquiatria clássica, a do adulto. Como dar conta, então, dessa disparidade entre a constituição da clínica psicopatológica do adulto e a da criança? É aqui que o desenvolvimento histórico da clínica infantil vai nos permitir esclarecer uma condição secreta, de algum modo oculta, de toda clínica, porque ela vem nos interrogar, no que diz respeito ao adulto, sobre o pano de fundo psicológico que também poderia guiar o clínico. A resposta é evidente, e ela foi claramente formulada pelo único grande epistemólogo que conheceu a clínica psiquiátrica, Karl Jaspers; é mesmo este problema que o guia ao longo de todo seu grande tratado, monumento da clínica alemã em sua última fase. O que Jaspers enfatiza é que, em psicopatologia, todo o procedimento do clínico é guiado pelo que ele chama de “relações de compreensão”, ou seja, pelo esforço de representar o vivido do doente em seus estados sincrônicos (compreensão estática ou fenomenológica) e em seu desenvolvimento, ou melhor, em seu engendramento diacrônico (compreensão genética). É sobre essa base, partilhada finalmente por todos os autores da época, que Jaspers operará a distinção entre a patologia constitucional compreensível e a patologia não compreensível, que corresponde aos casos de etiologia orgânica e às grandes psicoses ditas “endógenas”. Mas o que sobretudo nos interessa é o que ele assim desvela do procedimento clínico e de suas bases: um fator subjetivo guia, de fato, essa atitude que se pretende objetiva.Esse fator está, aliás, presente na própria delimitação do campo a observar, uma vez que a distinção do normal e do patológico é originária e prévia à investigação clínica. Mas ele, em seguida, continua a estruturar o procedimento de diferenciação o e de classificação: o observador utiliza ai, sem cessar, o que poderíamos chamar esquematicamente sua intuição psicológica, seu conhecimento espontâneo, pessoal, dos fenômenos mentais, e é só isso que lhe permite compreender e classificar o que o doente diz, experimenta e diz experimentar; é só isso que lhe permite também não compreender, para seguir Jaspers, e fazer dessa não-compreensão um índice epistemologicamente pertinente. É a síndrome de influência, o automatismo mental, que serve a Jaspers de modelo do não-compreensível; é, aliás, essa mesma concepção que guia Clérambault, quando ele opõe as psicoses com base no automatismo às psicoses passionais, simples desvios de um processo normal, isto é, banal. Se nos voltamos agora para a criança, tudo se esclarece: o que impedia que a clínica psicopatológica da criança se constituísse – antes que uma psicologia, digamos suficiente, da criança aparecesse – era a ausência de toda compreensão do observador adulto, de toda medida comum entre o adulto e a criança. O que é normal, e o que é patológico? A essa questão fundamental, só podíamos responder em casos extremos. E como recortar e classificar o que é patológico, quando não se tem qualquer idéia do que se recorta e de como tomá-lo? A partir dessa perspectiva, a clínica psiquiátrica da criança se encontra em uma posição vizinha da psiquiatria animal, na medida em que a linguagem, ainda quando presente, é freqüentemente inoperante para transmitir as vivências subjetivas, e que, de qualquer maneira, o observador tem grande dificuldade em se representar, sem uma formação prévia, os estados de consciência da criança; no melhor dos casos, esses últimos permanecem mais como construções do que como apreensões diretas. Além domais, como vimos, a maior parte da clínica psicopatológica da criança se apresenta sob a máscara dos transtornos somáticos ou funcionais. Tudo isso explica o recurso a categorias importadas sem crítica da clínica do adulto. Ao contrário, a clínica moderna da criança, tal como se estruturou há meio século sobre bases autônomas, oferece atualmente à psicopatologia um modelo de abordagem e de conceitualização bem separados dos paradigmas médicos – que continuam marcando a clínica do adulto – e fortemente impregnados dos métodos psicanalíticos. Não há nada surpreendente no fato de que ela desempenhe, desde então, um papel de guia e que exerça uma função de abertura para o conjunto da clínica. NOTAS: 1 Bercherie refere-se ao seu livro Os fundamentos da clínica, publicado originalmente em 1980 (NT) 2 Trata-se das idéias do pensador francês Etienne Condillac (1715-1780), que desenvolveu uma filosofia marcada em grande parte pelo empirismo de Locke, criticando o racionalismo e inatismo da filosofia cartesiana. Sua obra exerceu grande influência no pensamento francês do século XIX, sobretudo no campo da psicologia (NT). 3 Bercherie novamente refere-se ao livro Os fundamentos da clínica (NT) 4 Em francês: commune mesure (NT) Bibliografia AMAR R., Essai sur l´évolution de la nosographie des psychoses infantiles, Tesis deBordeaux. BERCHERIE P., Les fondements de la clinique. 2a ed. Navarin, Paris,1985.____. Genèse des concepts freudiens. Navarin, Paris, 1983. EMMINGHAUS H., Die Psychischen Störunger der Kindersalters, Tubingen,1887. HOMBURGER A , Vorselungen Über Psychopathologie des Kindersalters, Berlin,Sprinder, 1926. IRELAND W., The Mental Affections of Children: Idiocy, Imbecility and Insanity, Lon-dres, 1898. ITARD J.G., Rapports et mémoires sur le Sauvage de l´Aveyron, Paris, 1894. KANNER L., Childhood Psychoses, Washington, Winston, 1973.______. 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