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ANTROPOLOGIA FORENSE – IDENTIDADE E IDENTIFICAÇÃO Antropologia forense é a aplicação prática ao Direito de um conjunto de conhecimentos da Antropologia Geral visando principalmente às questões relativas à identidade médico-legal e à identidade judiciária ou policial. Segundo o França, a identificação judiciaria ou policial independe dos conhecimentos médicos, e sua fundamentação reside, sobretudo, no uso de dados antropométricos e antropológicos para a identidade civil e a caracterização dos criminosos, quer primários, quer reincidentes. Esse processo é efetuado por peritos em identificação. Um dos objetivos desta parte da Medicina Legal é determinar a identificação de pessoa, seja ela viva ou morta. 1. HISTÓRIA Existem varias evidencias que o interesse humano em impressões digitais da pré-história. Há registro de placas de cerâmica antiga retiradas de uma cidade soterrada no Turquestão, com os seguintes dizeres: “Ambas as partes concordam com estes termos que são justos e claros e afixam as impressões dos dedos que são marcas inconfundíveis”. Na China do século VII, nos casos de divórcio, o marido tinha que dar um documento para a divorciada, autenticado com suas impressões digitais. No século IX na índia, os analfabetos tinham seus documentos legalizados com as suas impressões digitais. Em 1.686, Marcello Malphighi, professor de anatomia na Universidade de Bolonha – Itália, com o auxílio de um microscópio (recém inventado), estudou a superfície da pele e notou os cumes elevados na região dos dedos e os descreveu como “da laçada a espirala”, mas não fez nenhum comentário no possível uso das mesmas como ferramenta de identificação. Métodos antigos de identificação biométrica consistiam em infligir cicatrizes, marcas, ou tatuagem nos criminosos. A mutilação era (e em alguns países, ainda é), uma atitude extrema, mas efetivo modo de marcar um ladrão. O primeiro método científico de identificação amplamente aceito foi desenvolvido pelo francês Alphonse Bertillon em 1879. A antropometria, também chamada de Bertillonage em homenagem a seu criador, confiava em uma combinação de medidas físicas coletadas por procedimentos cuidadosamente prescritos. É um sistema complexo e completo de identificação humana, além dos assinalamentos antropométrico, descritivo e dos sinais particulares, apresenta fotografia do identificado de frente e de perfil, reproduzida a um sétimo e as impressões digitais que foram introduzidas por Bertillon em 1894, obedecendo uma classificação original. O sistema antropométrico de Bertillon foi adotado oficialmente pela Polícia de Paris em 1882 e em seguida por toda a França, Europa e o resto do mundo (Brasil em 1894). Método de identificação criminal com base em dimensões e características individuais do identificado, como cor de cabelo e olhos e fotografias (frente e perfil). Essas informações eram registradas em cartões, que eram posteriormente arquivados e possibilitavam consulta posterior. Tem por base a antropometria, complementando-se pelo retrato falado, a fotografia sinalética e as impressões digitais. A antropometria preconiza as medidas dos diâmetros longitudinal e transversal do crânio, o diâmetro bizigomático, o tamanho dos dedos médio e mínimo, o do antebraço e do pé do lado esquerdo do corpo, a altura da orelha direita, a cor da íris esquerda, a estatura, a envergadura e a altura do busto, tudo anotado em milímetros, além do assinalamento descritivo de todos os sinais profissionais e individuais, tatuagens, deformidades, malformações e cicatrizes encontradas. O assinalamento antropométrico de Bertillon refere-se: · À fixação da ossatura a partir dos 20 anos; · À variabilidade extrema dos esqueletos humanos entre si; · À relativa precisão e facilidade de tomada das medidas do esqueleto e de determinadas partes do corpo. Ou seja, baseava-se em três princípios: fixidez do esqueleto humano adulto; variação das dimensões do esqueleto humano entre um individuo e outro; facilidade e precisão na tomada de medidas ósseas. Observa-se assim que a antropometria não se aplica aos menores de 20 anos, por eles ainda têm a ossatura em desenvolvimento, excluindo peremptoriamente as crianças. O sistema (antropométrico) de Bertillon consistia em 3 tipos de isolamento: · Assinalamento descritivo ou retrato falado: referia-se à descrição do identificado considerando as anotações cromáticas (cores), as anotações morfológicas (formas) e os traços complementares (detalhes); · Assinalamento de marcas particulares: anotações de marcas que só aquele indivíduo identificado possuída; · Assinalamento antropométrico: referia-se à tomada de medidas de onze partes do corpo: i. Diâmetro anteroposterior da cabeça; ii. Diâmetro transversal da cabeça; iii. Comprimento da orelha direita iv. Diâmetro bizigomático v. Comprimento do pé esquerdo vi. Comprimento do dedo médio esquerdo vii. Comprimento do dedo mínimo esquerdo viii. Comprimento do antebraço esquerdo (do cotovelo à ponta do dedo médio) ix. Envergadura dos braços x. Estatura xi. Largura do tronco (busto) 1.1. DIFICULDADES DO SISTEMA BERTILLON · Aplicava-se somente aos adultos de 20 a 65 anos; · Dificuldade em aplicar-se o método às mulheres; · As mesmas medidas apresentavam variedade nos resultados, mesmo se extraídas da mesma pessoa por dois peritos diferentes ou duas vezes pelo mesmo perito; · Não havia correspondência direta nos termos para classificação nos vários países (cada país chamava uma característica com um nome diferente) · Dois indivíduos diferentes poderiam apresentar valores antropométricos iguais. 1.2. JUAN VUCETICH KOVACEVICH Juan Vucetich Kovacevich, nascido em 20 de julho de 1858 na cidade de Dalmácia Império “Austro-húngaro” atual Iugoslávia, naturalizou-se argentino, e aos 24 anos de idade ingressou na polícia de La Plata – Buenos Aires. Vucetich foi incumbido de trabalhar no setor de identificação de La Plata, ainda com o sistema de Bertillonage. Após tomar conhecimento dos trabalhos de Galton, inventou seu próprio sistema de arquivamento e identificação através das impressões digitais, dando-lhe o nome de icnofalangometria. Em 1º de setembro de 1891, seu sistema dactiloscópico foi implantado na chefatura da polícia de La Plata, onde foram identificados 23 presos. Este notável processo de identificação foi instituído oficialmente no Brasil em 1903, convertendo-se no método exclusivo e mais eficiente da ciência da identidade, disputando a primazia de excelência com a impressão digital genética do DNA. 1.3. JOSÉ FÉLIX ALVES PACHECO Em 1891 começa em São Paulo, a identificação por meio de fotografia (Decreto 09, de 31 de dezembro), empregado como método exclusivo de identificação no Brasil. A partir de 1901, o Gabinete Antropométrico do Distrito Federal, passou a ser dirigido por José Félix Alves Pacheco, que permaneceu até o ano de 1906. 2. IDENTIFICAÇÃO PAPILOSCÓPICA Este notável processo de identificação foi lançado em 1891 e instituído oficialmente no Brasil em 1903, convertendo no método exclusivo e mais eficiente da ciência da identidade. Juan Vucetich definiu dactiloscopia como “ a ciência que se propõe a identificas as pessoas, fisicamente consideradas, por meio das impressões ou reproduções físicas dos desenhos formados pelas cristas papilares das extremidades digitais” As linhas papilares da face volar (vista palmar) das falanges agrupam-se em três sistemas: basilar, marginal e nuclear ou central, consoante topografia. Essas linhas se dispõem em ângulos obtusos envolvendo o núcleo central da impressão digital formando o delta. A presença ou ausência do delta na impressão digital caracteriza no sistema de Vucetich os quatro tipos fundamentais: arco, presilha interna, presilha externa e verticilo. Assim: · Arco – não tem delta; · Presilha interna – o delta situa-se à direita do observador; · Presilha externa – o delta situa-se à esquerda do observador; · Verticilo – é a figura que tem dois deltas, as linhas papilares descrevendo círculos concêntricos no centro da falange O registro de individual oufórmula dactiloscópica emprega convencionalmente as letras maiúsculas – A, I, E, V – para os polegares e números – 1, 2, 3, 4 – para os demais dedos das mãos. Dessa forma: · Arco – A ou 1; · Presilha interna – I ou 2 · Presilha externa – E ou 3 · Verticilo – V ou 4 Abaixo, um quadro para facilitar o processo de memorização: SISTEMA DATILOSCÓPICO DE VUCETICH Tipo fundamental Polegar Demais dedos Verticilo V 4 Presilha externa E 3 Presilha interna I 2 Arco A 1 Dedos defeituosos X X Amputações 0 0 A individual dactiloscópica compõe-se de duas partes: a série, que se escreve acima do traço de fração, no numerador, dada pela mão direita, e a seção, no denominador, formada pelos desenhos dos dedos da mão esquerda. A série compreende a fundamental, que corresponde ao polegar direito, e a divisão, aos demais dedos da mão direita. A seção subdivide-se em subclassificação, polegar esquerdo e subdivisão¸que corresponde aos demais dedos da mesma mão. Desta forma, a série é constituída por todos os dedos da mão direita, a fundamental correspondendo à letra maiúscula do polegar direito e a divisão aos números dos demais dedos da mesma mão. Todos os dedos da mão esquerda constituem a seção, sendo a subclassificação dada pela notação literal do polegar esquerdo e a subdivisão pelos números correspondentes aos demais dedos da mesma mão. Seguindo, o dactilograma é a impressão de um dedo; impressão registrada dos dez dedos constitui a individual dactiloscópica, classificação que recebe para arquivamento a respectiva fórmula dactiloscópica. Vucetich dividiu os quatro tipos fundamentais em subtipos: Os subtipos de presilhas e verticilos definem-se pelo próprio nome. Os pontos característicos compreendem a ilhota, representada por um ponto ou fragmento de papila; a linha cortada, fragmento de papila maior que o da ilhota; a forquilha, papila que se separa em ângulo agudo, a bifurcação, papila separada por ângulo curvilíneo; e o encerro, das papilas unidas por suas extremidades. Doze a vinte pontos característicos situados homologamente em suas impressões digitais: identificam inapelavelmente o indivíduo, como foi dito. Se necessário, estuda o papiloscopista os poros (sistema poroscópico de Locard), que se apresentam como pequenas áreas contrastantes nas linhas negras das cristas papilares, e o conjunto das linhas brancas dactiloscópicas (albodactilograma), que se contam nos espaços entre elas. As impressões digitais deixadas nos locais de crime podem ser: · Visíveis: são as impressões digitais facilmente percebidas a olho nu. Não precisam, para serem visualizadas, tratamento ou desenvolvimento com reagentes. · Moldadas: quando as impressões são encontradas em materiais que permitem a modelagem em baixo relevo (massa de fixar vidro por exemplo), tendo o perito que fotografá-la aplicando à mesma uma luz oblíqua para produzir sombra nos sulcos do molde, revelando assim o desenho formado pelas cristas papilares e ou poderá moldar tal impressão com material apropriado como silicone ou gesso, por exemplo · Latentes: para serem vistas requerem um trabalho técnico de preparação ou desenvolvimento pelo emprego de reagentes como carbonato de chumbo, grafite, alumínio em pó, pó de bronze, pongekouk-vermeillion japonês, etc. O carbonato de chumbo é utilizado para desenvolver impressões digitais latentes em superfícies de granito, mármore, plásticos de cor escura, vidro, madeira envernizada ou pintada a esmalte. Emprega-se o grafite em pó para evidenciar impressões digitais latentes em superfícies metálicas. O alumínio e o bronze em pó tornam visíveis impressões digitais latentes em superfícies esmaltadas brancas, ferro ágate e louça branca, plásticos e papel couché brancos. Segundo especialistas, o pongekouk-vermeillion japonês serve para arabescos digitais latentes em papel. Pulverizada, cuidadosamente a superfície-suporte dos desenhos digitais, o pó em excesso é removido com um pincel de pelos de marta, de cerdas longas, o que faz parecer, de forma perfeitamente visível, as impressões latentes. A seguir, são fotografados com luz oblíqua, o que constitui uma garantia quase completa de sucesso absoluto, na fase de comparação. Por motivos óbvios, deve o perito autenticar as impressões digitais fotografas. Muitas vezes, as marcas digitais assentam-se em locais que tornam a sua transferência, por meio de fotografia, sumamente difícil devido às dificuldades de ângulo. Nesse caso, elas serão transferidas para uma fita gomada tipo “durex” (conhecida como “tape” a área policial”, aplicada sobre a superfície-suporta, sendo, posteriormente, colada numa cartolina para facilitar o transporte. Os desenhos das cristas papilares e plantares, como todo método de identificação, atendem aos requisitos fundamentais exigidos nos elementos sinaléticos: unicidade, imutabilidade, praticabilidade e classificabilidade. · Unicidade: os elementos sinaléticos, isolados ou em conjunto, devem efetivamente permitir a distinção de um indivíduo dos demais; · Imutabilidade: os elementos sinaléticos não sofrem nenhuma modificação por doenças, idade, fatores mesológicos, etc. · Praticabilidade: os elementos sinaléticos devem ser facilmente obtidos, dispensando mão de obra onerosa e/ou especializada; · Classificabilidade: os elementos sinaléticos devem ser facilmente classificáveis, facilitando o arquivamento e a sua localização quando necessário. 3. OUTROS MÉTODOS DE IDENTIFICAÇÃO · Rugopalatoscopia: baseia-se na diferença individual das cristas sinuosas que todos nós apresentamos na mucosa do palato duro (céu da boca); · Poroscopia: tem por base a posição dos poros onde as glândulas sudoríparas se abrem nas cristas papilares. Aparecem como pontos brancos ao longo das linhas das impressões digitais; · Ragiográfico: radiografia dos ossos do metacarpo e do metatarso. Com superposição das imagens; · Flebografia: fotografia das veias do dorso da mão. Obs.: os seios paranasais e, principalmente, os frontais tem forma e tamanho individuais; · Exame das arcadas dentárias: importante na identificação de carbonizados e achados esqueletos; · Quiroscopia: é o processo de identificação por meio das impressões palmares, isto é, das palmas da mão. É utilizada mais como uma forma de ampliar as possibilidades de identificação criminal. Atualmente, volta-se o interesse em coletar impressões palmares a fim de auxiliar nas investigações policiais, pois é frequente encontrar-se fragmentos de impressões palmares no crime; · Podoscopia: é o processo de identificação por meio das impressões plantares, isto é, plantas dos pés. A aplicação da podoscopia ficou configurada na identificação de recém nascidos, em razão das dificuldades operacionais de identificação datiloscópica dos mesmos. Nos hospitais e maternidades colhem-se as impressões plantares dos bebês com a digital da mãe, com o objetivo de serem utilizadas sempre que houver desaparecimento ou suspeitas de trocas de bebês. A polícia não tem tradição de manter arquivos podoscópicos, porém, eventualmente papiloscopistas realizam identificação de suspeitos que deixaram impressões plantares em locais de crime. 4. RAÇA É muito importante o estudo dos tipos étnicos fundamentais, assim, Ottolenghi classifica esses cinco tipos: · Tipo caucásico: pele branca ou trigueira; cabelos lisos os crespos; louros ou castanhos; íris azuis ou castanhas; contorno crânio facial anterior ovoide ou ovoide-poligonal; perfil facial ortognata e ligeiramente prognata; · Tipo mongólico: pele amarela; cabelos lisos; face achatada de diante para trás; fronte larga e baixa; espaço interorbital largo; maxilares pequenos e mento saliente; · Tipo negroide: pele negra; cabelos crespos, em tufos; crânio pequeno; perfil facial prognata; fronte alta e saliente; íris castanhas; nariz pequeno, largo e achatado; perfil côncova e curto; narinas expressas e afastadas, visíveis de frente e circulares. · Tipo indiano: não se figura como um tipo racial definido. Estatura alta; pele amarelo-trigueira, tendente ao avermelhado;cabelos pretos, lisos, espessos e luzidios; íris castanhas; crânio mesocéfalo; supercílios espessos; orelhas pequenas; nariz saliente, estreito e longo; barba escassa; fronte vertical; zigomas salientes e largos; · Tipo autraloide: estrutura alta; pele trigueira; nariz curto e largo; arcadas zigomáticas largas e volumosas; prognatismo maxilar e alveolar; cinturas escapulares larga e pélvica estreita; dentes fortes; mento; retraído; arcadas superciliares salientes e crânio dolicocéfalo. Os elementos mais comuns observados na caracterização racial são: · Forma do crânio: sua relação é com as figuras geométricas vistas de cima pra baixo, de diante para trás e lateralmente. Quando vistos de cima pra baixo, são classificados em formas longas (dolicocrânios), formas curtas (braquicocrânios) e formas médias (mesocrânios). Quando vistos de diante para trás, em crânios altos e estreitos (esternocrânios), em baixo e largos (tapinocrânios) e nos de forma intermediária (metriocrânios). E, por fim, quando vistos lateralmente, em crânios altos (hipsicrânios), nos baixos (platicrânios) e nos intermediários (mediocrânios). · Índice cefálico: obtém-se pela relação entre a largura e o comprimento do crânio, utilizando-se a fórmula de Retzius: · Largura X 100/comprimento do crânio Daí surgem os seguintes tipos: · Dolicocéfalos: índice igual ou inferior a 75; · Mesaticéfalos: índice de 75 a 80 · Braquicéfalos: índice superior a 80. O ângulo facial serve para determinar o prognatismo, ou seja, a proeminência, especialmente dos maxilares, das raças. Quanto mais agudo for o ângulo facial, tanto mais pronunciado será o prognatismo. Suas medidas se fazem com os goniômetros, como o de Broca, e obedecem a vários critérios. Para Jacquart, o ângulo é dado por uma linha vertical que passa pela fronte e pela espinha nasal anterior – linha facial – e por uma outra que vai da espinha nasal anterior ao meio da linha biauricular – linha aurículo-espinhal. Segundo Cloquet, essas duas linhas se encontram no rebordo alveolar. Curvier preconiza a intersecção dessas duas linhas na margem cortante dos incisivos. Atualmente tem mais valia o método de Rivet para estudar o prognatismo. Consiste esse processo em se traçar um triangulo facial por intermédio das linhas facial e aurículo-espinal como foram descritas no método de Jacquart, e uma outra linha tangente ao mento e aos incisivos mediais inferiores. Conhecidos os comprimentos dos três lados do triangulo obtido, calcula-se facilmente os seus ângulos por meio de tábuas logarítmicas. Daí termos os seguintes tipos: · Ortognatas: mais de 73°; · Mesognatas: de 77,99° a 70° · Prognatas: menos de 70° 5. ESTATURA Quanto à estatura, é a altura total do indivíduo. Varia com a raça, idade, sexo, desenvolvimento do indivíduo, influências hormonais etc. há certa correlação entre a estrutura e a idade. As mulheres, em geral, são de menor estatura que os homens. A estatura é medida no vivo, de pé, pelo antropômetro; no cadáver e nas crianças as medidas são tomadas em decúbito dorsal por dois planos verticais que passam pelo vértice e pela planta dos pés. Detalhe técnico importante: no cadáver deve-se deduzir 16mm da medida total, correspondente ao achatamento natural dos discos intervertebrais sobre as cartilagens intra-articulares, e, no esqueleto em posição normal, deve-se aumentar, nessa medida total, 6 cm correspondentes às partes moles destruídas. É obviamente um cálculo empírico. Para fragmentos ou ossos isolados existem tabelas comparativas da média das medidas em ambos os sexos. O fêmur, que é o osso mais longo e mas volumosos do corpo humano, passa a ser de extrema importância para identificar a altura aproximada. Dessa forma, Lacassagne e Martin afirmem ser possível determinar a altura do indivíduo multiplicando-se o comprimento de um dos ossos longos por índices tabelados. 6. SEXO Determinar o sexo no vivo e no cadáver recente e sem mutilações do aparelho reprodutor e dos caracteres sexuais secundários, habitualmente, não oferece dificuldade. Não é assim, no entanto, no pseudo-hermafroditismo, no vivo ou no cadáver putrefeito ou no carbonizado, ou reduzido a esqueleto. O crânio e o tórax propiciam elementos de presunção. O crânio feminino tem a fonte mais vertical, a articulação frontonasal curva, saliências ósseas e as apófises mastoides e estiloides menos desenvolvidas que o crânio masculino. O tórax na mulher tende à forma ovoide, mais achatado no sentido anteroposteior, e no homem, à forma conoide. Na mulher, a capacidade torácica é menor e as apófises transversas das vértebras dorsais mostram-se mais dirigidas para trás. O útero persiste, algumas vezes, nos grandes incêndios. Reuter afirma ser possível a demonstração histológica no útero carbonizado. Esse órgão pode, também, resistir à putrefação adiantada. É a bacia, contudo, que fornece os caracteres diferenciais mais importantes. Integrante do nobre mister da maternidade, a bacia feminina tem constituição mais frágil que a do homem e os maiores transversais; a grande e a pequena bacia, mais largar, o sacro mais baixo e o côncavo somente na sua metade inferior, o ângulo sacrovertebral mais fechado (107°), o forame obturador maior e triangular e o ângulo subpubiano amplo, com cerca de 110°. A inclinação da sínfise vertical é menor pronunciada na mulher. As dimensões verticais da bacia masculina sobrepujam as correspondentes da bacia feminina. A partir da puberdade, o ângulo formado pela diáfise femoral e o plano dos côndilos é de 80° para o homem e de 76° para a mulher, conforme Sterwart e Washington. 7. IDADE A determinação da idade é imprescindível tanto para o foro civil como para o criminal, quando faltar a certidão de nascimento. Além da ossada humana, quando encontrada, o aspecto exterior possibilita no vivo e no cadáver íntegro uma avaliação aproximada da idade. Com efeito, não é difícil distinguir-se uma criança de um adulto ou de um idoso. É no período de transição das fases etárias da vida humana que surgem as dificuldades, pois a aparência do indivíduo modifica-se paulatinamente com o envolver dos anos. Assim, é que na infância, em geral, o corpo é coberto de tênue penugem; no homem púbere, aparecem os pelos no púbis e nas axilas dos 13 aos 15 anos e no rosto aos 16, abundando na idade adulta, notadamente na linha mediana abdominal e ao redor das aréolas mamárias. Na mulher, os pelos pubianos costumam surgir dos 12 aos 13 anos e os axilares dos 14 aos 15 anos. A calvície e as cãs são de apontamento irregular. As rugas, a flacidez, a secura e a pigmentação da pele e nos olhos, o círculo colesterínico (gerontoxon ou arcus senilis cornear, que são é sempre constante e senil) são sinais de velhice. No caso das malformações, devemos saber que os defeitos congênitos, como o lábio leporino, a sindactilia, a polidactilia, a bradidactilia, o genu varum e o genu valgum, a spina bífida, as malformações genitais, os vícios ósseos são valiosos para a identificação. Já nos sinais profissionais, os estigmas que a constância de um trabalho imprime nos obreiros, como as unhas dos fotógrafos, a calosidade labial dos sopradores de vidro, as resíduos perduráveis corporais, as ulcerações e os vestígios de doenças peculiares às industrias insalubres têm real importância na identificação médico-legal, pois dão indicação segura das profissões exercidas por esses indivíduos. Quanto aos sinais dos indivíduos, todo sinal personalíssimo, como, por exemplo, a forma e a disposição dos olhos, a forma e a implantação das orelhas, os nervos, as discromias e as verrugas, os desgastes, as cáries e as próteses dentárias, a consolidação viciosa das fraturas, as cicatrizes e etc., fornece elementos importantes para a caracterização do indivíduo, ou mesmo para excluí-la. As unhas podem indicar hábitos pessoais; a onicofagia permitiu a Hoffmann identificar uma das vítimas do célebre incêndio do Rig Theatre de Viena. O estudo da língua, em seu aspecto morfológico macroscópico (dimensões, sulcos, V lingual, folículos, freio, aspecto da pregas franjadas)de elementos patológicos (cicatrizes, impressões dentárias) e até, se for o caso, de sua morfologia microscópica, também pode fornecer valioso subsídio para a identificação, posto que “não deve haver, não pode haver duas línguas iguais”, conforme a palavra de Bovero. Medicina Legal; Alexandre Herculano (Coleção Estudo Direcionado)