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Aplicabilidade do Poder Extroverso dos atos de polícia em cenários de crise econômica face ao Princípio da Dignidade Humana Letícia de Freitas Rodrigues – 7º B Dentro da Administração Pública, existem os Poderes Administrativos, que são instrumentos jurídicos através dos quais os sujeitos da administração pública (órgãos públicos, entidades e agentes públicos), exercem a atividade que lhes foi conferida para a gestão de maneira eficiente dos interesses coletivos. São exemplos de poderes administrativos: o poder hierárquico, poder disciplinar, poder regulador/normativo e o poder de polícia, do qual será trabalhado no texto. O Poder de Polícia é responsável por fiscalizar e condicionar os interesses privados em favor da coletividade. De acordo com Justen Filho, o poder de polícia administrativo é a competência para disciplinar o exercício da autonomia privada para a realização de direitos fundamentais e da democracia. É amparado pelo princípio da Supremacia do Interesse Público, uma vez que o direito a liberdade e propriedade deve obedecer ao bem estar social. Ademais, na atividade estatal, apresenta um custo econômico direto ao Estado, a qual a atividade é remunerada através de taxas, conforme disposto do artigo 145 da Constituição Federal. Art. 145. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios poderão instituir os seguintes tributos: II - taxas, em razão do exercício do poder de polícia ou pela utilização, efetiva ou potencial, de serviços públicos específicos e divisíveis, prestados ao contribuinte ou postos a sua disposição; O Poder de Polícia apresenta algumas características com alguns objetivos, sendo eles: limitar bens jurídicos distintos, sendo amparados pela Constituição Federal, como a liberdade e a propriedade; compatibilizar os direitos fundamentais como o bem estar social, também aparado pela Constituição Federal; imperatividade, ou seja, desempenhar atividades de modo a obrigar a todos a observarem seus comandos através do poder decorrente chamado de poder Extroverso. Segundo Renato Alessi, o poder Extroverso permite ao Poder Público, editar provimentos que vão além da esfera jurídica do sujeito emitente, ou seja, que interferem na esfera jurídica de outras pessoas, constituindo-as unilateralmente as obrigações (dever e fazer). Ainda de acordo com o doutrinador, o poder Extroverso, é o poder que o Estado possui de constituir, unilateralmente, obrigações para terceiros, extravasando seus próprios limites, tendo como principal característica a possibilidade de impor atos independentemente da concordância particular, mas visando o todo, ou seja, a coletividade. Podemos destacar como exemplo de atuação através do Poder Extroverso, a cobrança de fiscalização dos impostos, a Polícia, a previdência social básica, a fiscalização do cumprimento de normas sanitárias, o serviço de trânsito, a compra de serviços de saúde pelo Estado, o controle do meio ambiente, os subsídios à educação básica, etc. Através do uso do Poder Extroverso, busca-se alcançar as metas públicas de maneira menos onerosa a coletividade, não violando seus direitos fundamentais enquanto cidadãos e tampouco a dignidade humana. Quando se fala em dignidade humana, deve-se lembrar de que o Estado deve proporcionar a cada cidadão condições essenciais para sua sobrevivência, como educação, saúde, segurança, propriedade e bem estar social. A Administração Pública deve utilizar o poder Extroverso, quando verificada que a atuação espontânea da livre iniciativa for insuficiente para promover a satisfação dos direitos fundamentais da coletividade. Pode-se citar como exemplo, o fornecimento de medicamentos, atividade esta vinculada diretamente à existência digna do ser humano e a saúde. A Administração Pública, atualmente enfrenta um grande desafio: fazer uso de seus poderes de modo a prevenir a coletividade de forma segura, mas também que não prejudique totalmente a economia local. Frente à situação que estamos vivendo no Brasil e no mundo, pode-se destacar a atuação da Administração Pública através do Poder de Polícia, vez que, por motivo de segurança e saúde pública, a coletividade se encontra afastada de suas atividades corriqueiras. O pedido de “fique em casa”, é um modo de assegurar que todos tomem as cautelas necessárias para que o Vírus causador da Covid -19, não se propague e cause transtorno maior. Por essa situação, a Administração Público, por meio de seus poderes, fiscaliza de forma eficaz o meio privado, ou seja, atua na fiscalização sanitária de empresas e comércios, para que, de forma sucinta permaneça com suas portas abertas, (haja vista que muitos empresários e comerciantes utilizam apenas da renda oriunda desse comércio para sobreviver), forneça os serviços e produtos necessários a coletividade, mas que também aja de forma preventiva, evitando aglomerações e exposição da coletividade, infligindo assim direitos fundamentais, que é a segurança e a saúde. O Poder de Polícia utilizado no atual cenário brasileiro, se traduz em proibições e vedações, mas também envolve a prestação de utilidades essenciais á realização das necessidades individuais e coletivas. Vejamos o artigo 78 do Código Tributário Nacional - Lei Nº 5.172/66 Art. 78. Considera-se poder de polícia atividade da administração pública que, limitando ou disciplinando direito, interesse ou liberdade, regula a prática de ato ou abstenção de fato, em razão de interesse público concernente à segurança, à higiene, à ordem, aos costumes, à disciplina da produção e do mercado, ao exercício de atividades econômicas dependentes de concessão ou autorização do Poder Público, à tranquilidade pública ou ao respeito à propriedade e aos direitos individuais ou coletivos. (Redação dada pelo Ato Complementar nº 31, de 1966) Parágrafo único. Considera-se regular o exercício do poder de polícia quando desempenhado pelo órgão competente nos limites da lei aplicável, com observância do processo legal e, tratando-se de atividade que a lei tenha como discricionária, sem abuso ou desvio de poder. Por outro lado, a Administração Pública através de seus serviços públicos e de sua imperatividade, está cada vez mais entranhada em restringir a liberdade da coletividade no tocando a segurança de cada um, de modo que todos cidadãos utilizem de um dos seus direitos fundamentais que é a saúde. Tal restrição à liberdade não se trata de uma extinção do direito, mas tão somente de uma adequação pela Administração Pública em uma medida cautelar, onde um direito é restringido para que outro seja garantido, de modo que evite futuramente uma desordem. Com a restrição à liberdade, é notório o surgimento de situações novas, não previstas na lei. A própria liberdade dos indivíduos de agir, de ir e vir, de negociar, propiciam o aparecimento de novas atividades e consequentemente de novas situações do interesse do poder de polícia em agir. No entanto, tal situação nova, imprevista, não significa que não estarão sob a vigilância da administração, nem significa que fica impossibilitada a aplicação do poder de polícia. Mesmo com esta aparente falta de regulamentação da matéria, o poder de polícia poderá ser aplicado nas novas manifestações de liberdade tendo em vista os princípios jurídicos fundamentais. O reconhecimento de que o poder de polícia se orienta a realizar o princípio da dignidade da pessoa humana, conduz à sua imediata aproximação com o instituto do serviço público, ou seja, suas essências, se relacionam com o mesmo valor, sendo possível aduzir que o poder de polícia, o poder Extroverso e a administração pública através de seus serviços prestados, buscam realizar finalidades qualitativas no que diz respeito a qualidade de vida e aos princípios impostos na Constituição Federal. No Brasil, por exemplo, a ordem pública atual é um valor a serpreservado como meio de promoção dos direitos fundamentais com grande relevância, pois, reflete sobre o próprio conteúdo das providências em que se traduz a competência do Poder de Polícia e do Poder Extroverso, pois a instrumentalização dos serviços públicos é considerada como instrumento de manutenção da ordem pública como a segurança, a tranquilidade e a saúde em decorrência do cenário atual que todo o país vem enfrentando. Sendo assim, pode-se dizer que, o Poder de Polícia exercido pela Administração Pública, consiste em satisfazer as necessidades individuais da coletividade, buscando evitar que a utilização das liberdades e dos direitos privados produza lesões aos direitos fundamentais, interesses e bens alheios, públicos ou privados. Nestes termos, existe em tese a possibilidade de exercício de Poder de Polícia administrativa em decorrência direta dos princípios fundamentais da Constituição Federal, em especial no tocante a dignidade da pessoa humana. Vale ressaltar que tais medidas adotadas pela Administração Pública através do Poder de Polícia no atual cenário resguarda em caráter tutelar a segurança da coletividade na questão de propagação de um vírus, assegurando em suas medidas, a saúde pública e individual de cada cidadão, sendo assim, conclui-se que as ações do poder de polícia visam prevenir o todo para evitar um descontrole sanitário e não obstante, um descontrole econômico. Bibliografia: BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de direito administrativo. 30. ed. São Paulo: Malheiros, 2013. BRASIL. Código Tributário Nacional. 1966. Dispõe sobre o Sistema Tributário Nacional e institui normas gerais de direito tributário aplicáveis à União, Estados e Municípios. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L5172Compilado.htm Constituição da República Federativa do Brasil. 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ConstituicaoCompilado.htm>. Acesso em: 20 jun. 2017b. JUSTEN FILHO, Marçal. Curso de direito administrativo. 4ª. ed. São Paulo: Saraiva, 2009.