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1 O ESPAÇO E O ESTADO LEFEBVRE, Henri. L’état – Vol. IV (p. 259 – 324) O Estado une-se no espaço, no decorrer de sua gênese, por uma relação complexa, alterada e atravessada por pontos críticos. Nascido dentro e com um espaço, talvez o Estado morra com ele. Os momentos desta relação são: a) A produção de um espaço, o território nacional, espaço físico, balizado, modificado, transformado por redes, circuitos e fluxos que se instalam: rotas, canais, estradas de ferro, circuitos comerciais e bancários, auto-estradas e rotas aéreas, etc. É então um espaço material – natural – dentro do qual se inscrevem as ações das gerações, das classes, dos poderes políticos, tanto quanto dos produtores de objetos e realidades duráveis (não somente de coisas, de produtos isolados, de ferramentas e de mercadorias entregues ao consumo). No decorrer deste processo, a cidade e o campo tomam uma nova atribuição no seio do terceiro termo: o Estado que tem a cidade por centro. Eles não se saparam mais; mas não entram por isso dentro de um processo harmonioso de ir adiante. Eles subsistem como lugares designados da divisão do trabalho sobre o território. Morfologicamente, esta atribuição (dentro do Estado moderno) abre-se à mistura informe, ao caos, apesar da ordem administrativa e logística espacial do Estado. b) A produção de um espaço social propriamente dito, edifício (artificial) de instituições hierarquizadas, de leis e convenções sustentadas por “valores”, que veicula a língua nacional. Esta arquitetura social, esta monumentalidade política, é o próprio Estado, pirâmide colocada sobre sua base e trazendo no cume o chefe político: a abstração concreta, plena de símbolos, banco de uma circulação intensa de informações e mensagens, de trocas “espirituais”, de representações, de ideologia, de saber ligado ao poder. “Não existe instituição sem um espaço...” (R. Lourau: L’Analyseur Lip, p. 131). A família, a escola, a empresa, a igreja, etc. possuem cada uma um espaço “apropriado”. Por quê? Por causa do uso específico dentro da divisão do trabalho social e para a 2 dominação política. Dentro do seu espaço, um conjunto de perguntas e respostas “adaptadas”, raramente formuladas como tais porque não oferecendo obstáculo, tomam uma evidência quase natural, em nível do cotidiano e do censo comum. Logo, cada Estado tem seu espaço, que inicialmente levanta da natureza, a qual o Estado se opõe com toda a sua potente estatura, histórica e politicamente. Em seguida cada Estado é um espaço social, figurado pela pirâmide e o círculo dos círculos (Hegel). Dentro deste espaço social, há um mínimo de consenso: do mesmo modo que um cão se chama um cão, assim também cada francês sabe do que fala quando se trata da prefeitura, da agência do correio, da chefatura da polícia, do prefeito, do departamento, do deputado, da mercearia, do ônibus e do trem, das estações e dos bares. c) Num último sentido, compreendendo o consenso social (não imediatamente político) o Estado ocupa um espaço mental, com as representações que cada um se faz: confusas ou claras, vividas ou elaboradas. Este espaço mental não deve se confundir com o espaço físico ou social, mas não pode dele separar-se. Aqui e assim se diferenciam o espaço das representações e a representação do espaço. Produto – criança – de um espaço, o território dito nacional, o Estado volta-se para suas próprias condições históricas e antecedentes, e as transforma. Por sua vez, ele gera atribuições sociais dentro do espaço, ele vai mais longe quando se desdobra: ele produz um suporte, um espaço, o seu, complexo, regulador e ordenador do espaço nacional que tende a explodir, no seio do espaço mundial que tende a se estabelecer. O espaço produzido pelo Estado deve dizer-se político, com características próprias e metas específicas. Ele reorganiza as atribuições (sociais de produção) em função do suporte espacial; ele reencontra e choca o espaço econômico pré-existente: pólos de crescimento espontâneos, cidades históricas, comercialização do espaço fracionado e vendido em lotes, etc. Ele tende a reconduzir não somente as atribuições sociais inerentes à produção industrial, mas as atribuições de dominação inerentes à hierarquia dos grupos e dos lugares. No caos das classes, ele tende a impor uma racionalidade, a sua, que tem o espaço por instrumento privilegiado. O econômico reconsidera-se em termos espaciais: fluxo (energia, matérias primas, mão de obra, produtos terminados, circuitos comerciais, etc.) e estoques (ouro e capital, investimentos, máquinas, técnicas, estabelecimentos fixos de diversos empregos, etc.). O Estado tende a controlar fluxos e 3 estoques, assegurando sua coordenação. No decorrer deste processo de triplo aspecto (crescimento, quer dizer, aumento das forças produtivas, - urbanização, logo formação de unidades gigantes de produção e de consumo, - espacialização) tem lugar um salto qualitativo: a emergência do MPE (modo de produção estatal). A articulação entre MPE e o espaço tem então uma importância fundamental. Ela difere da relação entre os modos de produção anteriores (compreendendo o capitalismo) e as modalidades de ocupação do espaço natural (compreendendo suas modificações pela prática social). Qualquer coisa do novo surgida dentro da sociedade civil e dentro da sociedade política, dentro da produção e dentro das instituições estatais é preciso trazer à linguagem e ao conceito. A racionalização e a socialização da sociedade tomaram esta forma: politização, estatismo. Para expor e provar esta seqüência de teses, as dificuldades não faltam. Em primeiro lugar, os argumentos foram fornecidos por outras obras (1); o autor entretanto não pode simplesmente voltar a esses livros, nem se contentar com alusões; ele deverá então “expor” as teses, resumindo as fórmulas e argumentos e, mais, completando-os; pois há a quase cada dia, o novo que se descobre ou se inventa neste domínio, fronteira entre o político, o social e o econômico. O que concerne ao Estado está longe de ser esgotado nas obras citadas. Não é tudo; há ainda o peso de um passado próximo. A reflexão dita “marxista”, reivindicante de Marx, tem precisamente negligenciado há muito tempo isto que passa hoje ao primeiro plano: a cidade e o urbano, o espaço, o Estado ele mesmo. Daí certas dificuldades suplementares para chegar aos conceitos e dize-los com um vocabulário ainda pobre. Quanto ao conhecimento do espaço (social), ele se constitui em ciência, hoje em estado nascente, que não se anuncia menos complexo que as ciências do espaço abstrato (geométrico, topologia, etc.) e o espaço físico (da física à cosmogonia). Por exemplo, a ciência do espaço compreende uma história do espaço. O simples estudo analítico da monumentalidade e do rapport entre o monumento e o prédio exigiria volumes. Quem diz “monumento”, diz opressão e dominação, portanto poder, mas também esplendor e senso. Ainda uma trilogia sem dúvida inesgotável... rapport: produto, rendimento, renda, proveito, benefício; narração, declaração, relatório, informação; acordo, harmonia; afinidade, analogia; ligação; comércio, relações amorosas. Par rapport à = com relação a. 4 Voltemos a cada um destes pontos. Por que o pensamento dito marxista tem a longo tempo negligenciado as questões relativas ao urbano e ao espaço? Por que a ação e a reflexão marxistas se orientaram desde o começo par a análise crítica da produção no sentido estritamente econômico, de empresa, do trabalho produtivo, assim como pela estratégia de uma tomada eventual do poder estatal e, por conseqüência de uma utilização dos aparelhos do Estado na gestão das forças produtivas. Segue-se que o conjunto dos movimentos e dos partidos reivindicantes do marxismo tomaram consciência apenas recentemente desta problemática:a cidade, o espaço, o Estado. As questões, as mais urgentes, devolvem-no “em conseqüência”, depois da tomada do poder. “Quando nós estivermos no poder...” Em silêncio, passam-se os fatos mais revoltantes: a industrialização maciça, em escala mundial, no decorrer da segunda metade do século XX, com sua conseqüência: a urbanização não menos maciça. Outros fatos irritantes: não só uma proliferação urbana monstruosa, mas o destino durante este período da cidade histórica, preexistente no capitalismo. A cidade histórica (Paris) obedeceu às operações dos promotores, dos bancos, assim como ao controle político que garantiu seus empreendimentos. Ao mesmo tempo, a montanha, o mar, a praia, o solo agrícola e o subsolo mineral integram-se à dominação-exploração pelos centros dominantes. O que diz respeito ao espaço inteiro: os espaços antigos, do bairro e da aldeia ao território nacional tendem a explodir. Estas operações consolidam os centros (capitais e metrópoles) como centros de poder, “elitizando” a população e expulsando para as periferias a produção e os trabalhadores. Na França e em outros lugares, difunde-se, durante este período, uma ideologia no sentido forte do termo (elaborada e difundida como tal) que os “marxistas” não combateram; pode-se assegurar que eles foram favorecidos. Segundo esta ideologia, a produção industrial traz em si o essencial da vida social e política, notadamente uma racionalidade nova. Os efeitos da urbanização não têm senão um caráter secundário; eles não chegam jamais à importância e ao interesse da causa essencial: o econômico, as forças produtivas, a industrialização. Eles não colocam senão problemas administrativos. Se há erros e fraquezas, eles provêm da gestão capitalista da indústria e de uma falta de planificação racional das forças produtivas. Uma organização e uma gestão “operária” da produção por um Estado que controlará até identificar-se com ele, o partido dirigente, resolverá facilmente estes problemas derivados e secundários. 5 Esta ideologia mantém a convicção que os problemas urbanos e espaciais são problemas de países subdesenvolvidos ou resultados da predominância dos “interesses privados” sobre o interesse geral e público, representados mais ou menos bem pelo Estado. A industrialização aparece como um processo necessário e suficiente, trazendo nele mesmo suas leis (econômicas) e suas implicações (reprodução da força do trabalho, etc.). No limite, o que é preciso? O Que basta fazer? Restituir a coerência ao processo de crescimento. Não é surpreendente constatar que a ideologia marxista (o marxismo ideologizado) não se ocupa muito de sua própria coerência? Num mesmo tempo, as mesmas pessoas negam a acumulação e a possibilidade do crescimento dentro dos rapports de produção capitalista – e superestimam o processo do crescimento elevando- o ao nível de uma substância social desenvolvendo-se segundo suas próprias leis. Esta tese, além disso, aproxima-se da simonia (tráfico de coisas santas) mais do que pensamento crítico de Marx. Quando certos ideólogos, invocando o marxismo e mesmo reivindicando seu monopólio, dignamente se debruçam sobre as questões encaradas – o urbano, o espaço, o Estado – eles trazem consigo um marxismo mutilado, reduzido e redutor. Sua atitude cientificista, próxima do positivismo, não difere muito do funcionalismo banal, não sem lhe ajuntar grandes pretensões. Passados no crivo da epistemologia, suas categorias e conceitos pareciam claros. Eles o eram; simplificavam o “real”, quer dizer a realização das formas, processo que lhes escapava em razão de sua aproximação. Como sua reflexão redutora “estruturava” o real, que eles acreditavam descrever, estes ideólogos chegavam a conclusões exatas mas triviais, às quais eles davam pose de grandes verdades científicas, definitivamente e duramente adquiridas. A clareza do resultado fazia muitas vezes esquecer a pobreza e a secura do aparelho conceitual e sobretudo o esvaziamento de todo movimento dialético. Alguns, com um dogmatismo carimbado (pois a revista Espace et Société traz a marca) reduziam a “realidade” urbana e espacial a negócios de rendimentos de solo, de especulação imobiliária, de promotores e de bancos. O que não é falso, mas mesquinho. 6 Pode-se sustentar que a produção tem seus lugares, as empresas, e o consumo, os seus: a cidade. Isto se define claramente quando a reduzimos a uma forma de lugares (os comércios, as habitações, lares) com uma função, a de reproduzir a força de trabalho. O modo de produção, os bens de produção, os lugares de produção; do outro, o consumo e os lugares do consumo, mais ou menos controlados pelas “instâncias” econômicas (o grande capital) e políticas (os aparelhos do estado, compreendendo também os aparelhos ideológicos). Este conjunto ideológico não é falso, substancialmente. Ele vem a ser separando- se toda outra “verdade”, esvaziando-se o resto, totalizando-se. Ele pode se apoiar em um número ilimitado de fatos. O que não dilata em nada seu horizonte e não suprime sua capacidade redutora (2). Antes do capitalismo, a cidade era já um lugar de encontros, de acolhimento, de ajuntamento, dotado a este título, de um caráter sagrado que se exprimia nos lugares religiosos: templos, cume (da montanha) e fonte, catedrais, etc. no momento da formação do capitalismo, que se constitui fora das cidades, as mais antigas, a reunião das unidades de produção ainda artesanais dentro da cidade é análoga a da reunião das ferramentas e máquinas (empregos de tecer, etc.) na oficina e na fábrica. Já a cidade torna-se força produtiva. Ela não fica fora dos bens de produção, não mais que bens de propriedade. O espaço produzido é também produtor; instrumento e não continente (que contém) passivo, inerte, indiferente do conteúdo. Não seria muito insistir sobre a alta complexidade das relações entre “a sociedade”, cidadãos e habitantes, e a cidade, o urbano, o espaço. Para o indivíduo, a cidade que o cerca é a uma vez o lugar do desejo (dos desejos: os que os estimulam, os multiplicam, os intensificam) e o conjunto dos embaraços que pesam sobre os desejos, que inibem o desejo. É dentro do urbano que se instala, se instaura, se institui o cotidiano. Entretanto a cidade suscita o sonho e o imaginário (que exploram o possível e o impossível, os efeitos da riqueza e do poder). As relações consideradas são pois ao mesmo tempo formais e reais, práticas e simbólicas. A cidade e o espaço têm múltiplas funções, mas estas funções não esgotam o real; de sorte que o espaço e a cidade são ao mesmo tempo ser poético e pressão duramente positiva. Os comportamentos descrevem- se, os desejos dizem-se, experimentam-se; a cidade e o urbano suscitam ao mesmo 7 tempo um saber e um lirismo. O urbano, a cidade e seus arredores, o espaço de dentro e de volta (do lado de fora), fazem uma totalidade parcial e aberta, ela mesma nível de totalidades mais vastas (a nação, o território nacional, o Estado). Com que direito mutilar esta totalidade? E por que o marxismo deveria expelir o simbólico, o sonho e o imaginário? Eliminar metodicamente e teoricamente “o ser poético”, a obra? A análise mostra que há nos países, em primeiro lugar, as exigências do capitalismo e do não-capitalismo, dos promotores, dos bancos especializados. Em segundo lugar, o Estado não intervém episódica e pontualmente mas, incessantemente, pelos diversos organismos e instituições consagradas tanto à gestão, quanto à produção do espaço. O Espaço estatal, que devemos analisar de perto, não tem o caráter caótico do espaço produzido pelos interesses “privados”. Ele se quer homogêneo, o mesmo em tudo, segundo uma racionalidade do idêntico e do repetitivo que permite introduzir nos cantos os mais remotos (que deixam de ser “cantos”), a presença estatal, controle e fiscalização. Entre os interesses “privados”e a ação dos poderes “públicos” há logo fraude, logo colisão. O que gera o paradoxo do espaço homogêneo-quebrado; basta abrir os olhos e olhar ao redor de si atentamente para mudar este paradoxo em uma evidência, difícil entretanto de dizer. Em terceiro lugar, os movimentos de usuários (protestos e contestações) tornam- se um fenômeno mundial, não menos que as reivindicações relativas ao trabalho e aos lugares de trabalho, ainda que diferentes. Os movimentos de usuários, na França, não poderiam se comparar aos que acontecem no Japão, na Espanha, na Itália, e claro, nos Estados Unidos. Nestes países, os usuários e mesmo os consumidores parecem mais conscientes de seus interesses e de seus alvos, a saber, a nova aprovação de um espaço cujos produtores consideram pouco o uso (o hábito). Por que esta fraqueza na França? Sem dúvida por causa do Estado ao mesmo tempo opressão e abrigo, pressão e arbítrio (provavelmente). Não só a pressão estatal é na França mais forte do que em outros lugares, mas a esquerda jacobina a acentua em razão de sua opção centralizadora. Ela contribui para enfraquecer estes movimentos que só uma fração “esquerdista” sustenta sem segundas intenções políticas. É com certeza no Japão que estes movimentos atingem a maior foca, com os objetivos mais amplos. Na Espanha atual (início de 1977) mais de quatro mil comitês “vizinhos” 8 desenvolvem uma atividade que põe em questão a organização da sociedade ao mesmo tempo em que aquela das cidades e do espaço. Estes movimentos avivam o conceito do uso sem o reduzir a um simples consumo de espaço; eles acentuam rapports das pessoas (indivíduos, grupos, classes) no espaço com seus níveis: a vizinhança e o imediato, o urbano e as imediações, a região e a nação, o mundial, enfim. Eles experimentam as modalidades de ação nos diversos degraus, sendo a experiência e o saber dos “participantes”. Eles suscitam a hipótese de uma eventual convergência entre as reivindicações concernentes ao trabalho (a empresa) e as que concernem ao espaço inteiro, quer dizer à vida cotidiana. Há momentos privilegiados onde as pessoas (indivíduos, grupos, frações de classes) experimentam verdadeiramente o espaço? Encontram a cidade? Certamente: historicamente, no tempo da renascença italiana. Mais perto de nós, em maio de 1968. Como por milagre, o cotidiano emergirá transformando-se. Vê-se então a ocupação de seu espaço pelos estudantes, de início, pela classe operária em seguida, com uma tentativa de apropriação. No decorrer desta tentativa chegaram em pleno dia ao resultado complexo dos grupos sociais com seu espaço, aquele dos indivíduos com seus corpos, sua palavra, sua voz. A distinção entre valor de troca e valor de uso é essencial na teoria marxista. Marx apresenta, em O Capital, a relação entre estes dois valores como uma oposição lógica, como os dois pólos de uma oposição pertinente. Hoje, no mundo moderno, um conflito agudo e violento desenrola-se no espaço entre estes dois valores; entre o espaço que se torna valor de torça e o espaço que permanece valor de uso. Tais, por exemplo, os espaços históricos, as aldeias e as paisagens pré-capitalistas. O turismo precipita-se sobre eles, submete-os à troca, corrói-os e os destrói. O valor de troca evolui sobre uma abstração cada vez maior e torna-se troca de abstrações. O problema urbano coloca-se, nestas condições, com uma extrema agudeza pois ele age de espaços estreitamente submissos à dominação da troca pela especulação, pelo investimento de capitais, logo que um espaço urbano representa um uso, quer dizer um emprego de tempo. 9 A respeito do dito acima, apressa-se a mudança do rapport “valor de uso - valor de troca” após o momento em que Marx escreveu suas obras (os “Grundisse” e O Capital). A oposição lógica serviu a Marx de ponto de partida na dedução-construção das categorias e no encadeamento dos conceitos que constitui a teoria. Depois então, a oposição lógica entra em um conflito dialético. O conflito entre valor de troca e valor de uso não pode mais passar por mental, mas por social (prático). Do novo sucede neste domínio. Em razão de que? Do capitalismo, certamente (e do socialismo), mas também da habilidade das técnicas sobre a natureza, habilidade que vai até a destruição do natural, ao mesmo tempo mentalmente, socialmente, fisicamente. Vejamos mais profundamente o uso. O uso permite a troca: a coisa que qualquer um usa, vende-se; ela tem valor de troca porque ela tem valor de uso. Todavia, o uso não coincide com o valor de uso. A água, o ar, a luz, não tinham valor de troca, durante milênios e até a modernidade, ainda que todo o mundo fizesse uso. Mais precisamente, o ar, a água, a luz, a terra – os elementos – tomaram valor de uso a partir do momento em que foram produzidos e vendidos, portanto tomaram valor de troca: o ar, com o ar condicionado – a água com o fornecimento por canalização – a luz com a iluminação artificial – a terra enfim. (???) A colocação em plena luz da junção entre o Estado e o espaço exige o fim do não reconhecimento do espacial e o reconhecimento de uma teoria do espaço (social). Dentro desta perspectiva se associam o movimento dos usuários em escala mundial e a ciência do espaço que não pode mais se considerar como exterior è prática. O conhecimento do espaço social apresenta o lado teórico de um processo social cujos movimentos de usuários são o lado prático. São os aspectos indissolúveis de uma mesma realidade e de mesmas potencialidades. O que corresponde dentro de uma certa medida à situação onde Marx se encontrava por rapport no movimento operário e nas reivindicações concernentes ao trabalho (os lugares de trabalho). Nessa época, os economistas que Marx denominava “vulgares” se ocupavam dos produtos, relacionavam e compravam os objetos, apreciando os custos. Eles se ocupavam de coisas. Marx inverte o rumo. No lugar de considerar os produtos, ele considera a produção, quer dizer, o processo produtivo e rapports de produção (assim como o modo de produção). Ele funda assim uma teoria. Da mesma forma, hoje, muita gente descreve os espaços, 10 escreve discursos sobre o espaço. Resta inverter o passo fundando uma teoria, a produção do espaço. Dentro desta produção, o Estado é de mais em mais, sem dúvida, agente da produção, e mesmo mestre de obras. O conhecimento do espaço constitui uma ciência? Sim e não. Sim, pois ele comporta conceitos assim com um encadeamento teórico destes conceitos. Não, neste sentido em que a ciência se colocou geralmente e se situa dentro de uma “objetividade” que faz abstração do “vivido”, quer dizer do corpo e do “sujeito” que o habita, que mora nele. O conhecimento do espaço não pode reduzir o vivido ao concebido, nem o corpo à abstração geométrica ou ótica. Ao contrário: este conhecimento deve partir do vivido e do corpo, logo do espaço ocupado por um ser orgânico, vivente e pensante. Este ser tem (é) seu espaço, circunscrito pelos arredores próximos, ameaçado ou favorecido pelo distante. Ao alcance do corpo, quer dizer das mãos, ele tem o que lhe serve ou o que o machuca; além desta proximidade começa o espaço social que se prolonga sem fronteiras bem definidas dentro do espaço físico e cósmico. Três esferas, três zonas, são separadas: o mental, o social, o cósmico; - o copo vivido, o próximo, o distante. Isto admitido há uma história do espaço. O vivido dá lugar a espaços de representações imaginados a partir do corpo e simbolizados por ele. O concebido, o distante, dá lugar a representações do espaço, estabelecidos a partir de elementos objetivos, práticos e científicos. Que se pense no espaço medieval: de um lado, o espaço de representação mágico-religioso, em baixo o inferno, no alto o céu habitado por Deus; entre os dois, o mundo terrestre. O que não impedia representações do espaço: a construçãodos primeiros mapas, o saber dos navegadores, dos comerciantes, dos piratas; o Mediterrâneo no centro do mundo, etc. A história do espaço mostraria como divergindo ou se reencontrando os espaços de representações e as representações do espaço, a prática modificando “realmente” o espaço-natureza. Para decifrar o espaço, pode-se propor diversas grades e decodificações, e as experimentar sobre o espaço atual. Este espaço caracteriza-se pela coexistência, muitas 11 vezes pouco pacíficas, das obras e produtos de épocas diversas. Diacronias, deslocamentos, distorções entre as ruínas antigas e os produtos da técnica moderna, engendraram tensões que animam o espaço mas que o tornam difícil de decifrar. Pode-se analisar o urbano (a cidade) como sujeito (as consciências, os degraus de consciência, as atividades de grupos); como objeto (situação e o sítio, os fluxos); como obra (monumentos e instituições). Pode-se seguir historicamente a monumentalidade e seu rapport com o prédio (funcional: entrepostos, casas de comércio, etc.) mostrando hoje a eventualidade de um avançar da oposição clássica. Pode-se também comparar o espaço a uma linguagem e estudar suas dimensões: o paradigmático (oposições pertinentes: fora - dentro, alto-baixo, verticalidade- horizontalidade, etc.); - sintagmático (encadeamentos e ligações: ruas, avenidas e bulevares, estradas, etc.); o simbólico (o sentido de monumentos, de lugares privilegiados, etc.). No que concerne ao espaço global, duas séries de proposições teóricas permitem aceder a uma ligação com o Estado. A primeira tem um caráter histórico e genético; ela põe em relação o espaço, aproximativamente, com os modos de produção. A segunda, mais atualizada, melhor definida dentro do sincrônico, refere-se ao conceito de morfologia hierárquica estratificada. Não é certo, longe disso, que estas duas proposições se excluam. A genética (história) do espaço pode e deve se abrir sobre uma espaço-análise, ela mesma levando para uma ritmanálise (ligação do espaço e do tempo com os ciclos e os ritmos, dentro da nação, da sociedade, da consciência que reflete). Este último desdobramento passa ao lado do Estado e vai além. Não é pois aqui seu lugar. O espaço analógico: - A comunidade primitiva foi mais complexa do que Marx a viu, com combinações de formas sociais: padres e bruxos, chefes de guerra, linhagens, consagüinidades e territorialidades confundindo-se. Pode-se, no conjunto, caracterizar a ocupação do espaço – o espaço ocupado por estas sociedades – como espaço analógico. Há exemplos precisos e convincentes de espaços analógicos: as aldeias dogons na África, segundo os trabalhos de M. Griaule e G. Dieterlen (resumidos em D. Forcle: African Worlds, Londres, 1954; e A. Tzonis: Toward a non repressive environment, 12 New York, 1974, cap. II, p. 22 & sp.) representavam o corpo humano. A aldeia e sua organização são tidos para representar ou antes reproduzir um corpo divino, ele mesmo projeção do corpo humano. A cabeça, os membros, os órgãos genitais machos e fêmeas e os pés são representados por agrupamentos de cabanas: cabanas de comandantes, cabanas de reunião de homens e de mulheres, cabanas dentro das quais são colocados os instrumentos de trabalho, e assim por diante. O espaço apropriado por analogia com o corpo é uma projeção deste sobre ou dentro do espaço. O espaço cosmológico: a maneira de produção antiga (cidade, escravos) liga-se a um espaço cosmológico. Os objetos monumentais agrupam-se de modo a propor uma imagem do cosmos. A cidade é uma “imagem do mundo”. Frequentemente, um monumento particular tem a incumbência de representar o espaço o mais característico: assim o Panteon, destinado a acolher todos os deuses – mesmo o deus desconhecido – representava o firmamento, o espaço cósmico. A cidade compreende, dentro da maneira de produção antiga ou asiática, um local marcado por um monumento, obelisco ou pedra, considerado como o umbigo, o “omphalos”, o centro dom mundo ao redor do qual se constrói uma representação do espaço dominado. O espaço simbólico: - A cidade medieval detinha uma outra forma de espaço, o espaço simbólico. O espaço destas cidades, aquele das catedrais, enchem-se de símbolos religiosos. Pode-se assim compreender a passagem do espaço cosmológico ainda das igrejas romana ao espaço simbólico das catedrais góticas.b estas simbolizam a emergência da cidade por cima do chão e o impulso da sociedade inteira para a claridade concebida, neste momento, como aquele do Logos (o princípio da inteligibilidade, a razão), quer dizer do Verbo, quer dizer do Cristo. Dentro do espaço críptico a verdade fica enterrada (ou escondida) dentro dos túmulos. O espaço se transforma durante o período gótico em um espaço de deciframento, uma subida para a luz. É também o momento histórico de uma grande luta de classes: burgueses urbanos contra proprietários de terras feudais. O simbolismo tem dois aspectos: religioso e político. O espaço perspectivo: - Ainda que não entre na classificação das maneiras de produção, o espaço perspectivo merece que nos detenhamos porque ele entrou em nossos hábitos, na nossa linguagem, logo que à aurora dos tempos modernos tem lugar a 13 crise de todas as referências. É um erro pensar ainda em termos de espaço perspectivo visto que desde 1910 a pintura do kandinsky, aquela de Klee e aquela do cubismo analítico, nos preveniram que existe ruptura do espaço perspectivo. A linha do horizonte desaparece nos pintores como o encontro das paralelas no infinito. O espaço perspectivo nasceu com a Renascença, na Toscana, onde as cidades tiveram grande importância: Florença, Sena, Luca e Pisa. Sobre a base do capital comercial (os comerciantes, os fabricantes negociam a lã dos rebanhos) instala-se nas cidades um capital bancário. Os banqueiros de Florença, de Sena ou de Pisa compram dos senhores feudais seus domínios e os transformam. À exploração pelos servos, eles substituem a exploração pelos meeiros que dividem a colheita com os proprietários. A parceira agrícola é então um progresso em relação à servidão: livre, o meeiro divide a sua colheita com o proprietário da terra; ele tem então interesse em produzir o mais possível. Os banqueiros, senhores das cidades toscanas, têm necessidade de colheitas aumentadas para alimentar o mercado das cidades e as próprias cidades. À parte sua posição, eles são ainda mais intensamente beneficiados por este progresso do que os camponeses. Estes banqueiros, dos quais os Médicis, construíram no campo os palácios; e ao redor dos palácios, as propriedades rurais. Os caminhos que vão de uns aos outros são plantados de ciprestes; a paisagem toma assim uma profundidade e uma amplidão que ela não tinha ainda. As linhas para o horizonte são balizadas por estas alamedas de ciprestes, símbolos ao mesmo tempo da propriedade e de perenidade; neste momento, aparece a perspectiva que, dentro de uma certa medida, resulta da influência recíproca das cidades sobre o campo. Todavia, isto não basta; um espaço não se explica somente por condições econômicas e sociais. A elaboração do Alberti permite à perspectiva tomar forma. O espaço fica ainda simbólico do corpo e do universo, tudo estando já medido e visualizado. Esta transferência do espaço para a visualização e o visual é um fenômeno de uma importância capital. Segundo Alberti, o arranjo visual dos elementos do espaço – as linhas e as curvas, a luz e as sombras, os elementos machos e os elementos femininos (quer dizer os ângulos e as formas redondas) – deste arranjo deve resultar a beleza para os olhos, sensação espiritualizada gerando ao mesmo tempo a admiração e o prazer. O espaço tem certas qualidades da natureza, a luminosidade e a claridade; a arte e a invenção procuram outras qualidades, tais como a conveniência, a nobreza e a adaptação às leis dasociedade. 14 Este espaço é aquele da perspectiva que retoma a natureza medindo-a e subornando-a as exigências da sociedade, debaixo da dominação do olho e não do corpo inteiro. Desde o Quatrocentos, encontra-se na pintura o espaço perspectivo fornecendo uma linguagem comum aos habitantes, aos usuários, as autoridades, aos artistas, dos quais os arquitetos. Desde então, a cidade se organiza perspectivamente. Ela fica submissa a uma dominante, a fachada, que determina a perspectiva e a fuga das paralelas, quer dizer, as ruas. A cristalização deste conjunto produz múltiplas conseqüências: as diferenças não aparecem mais que na sucessão de fachadas. As rupturas, as interrupções e sacadas são reduzidas ao mínimo; eles não devem mais quebrar a perspectiva. Pois que a fachada é feita para ver e ser vista, ela é essencial e dominadora. O que não existia antes e sobretudo na antiguidade. Sobre as fachadas, constroem-se balcões, que servem ao mesmo tempo para ver e para ser visto. É pois todo um espaço que se organiza, regendo o conjunto das artes (a pintura, a escultura, a arquitetura e o urbanismo), um espaço comum a todos; os habitantes se situam dentro deste espaço; os arquitetos ou as autoridades políticas sabem ordena-la; tem-se acesso a um código. É provavelmente a única vez na história do espaço em que tenha havido um código único para os diferentes níveis estratificados, quer dizer o nível do compartimento, do imóvel, da sucessão dos imóveis, do quarteirão, da cidade, de sua inserção no espaço circunvizinho. Daí a beleza harmoniosa e estereotipada das cidades que adotaram este modelo. O espaço capitalístico: - Para o espaço perspectivo, o espaço de catástrofe será o espaço capitalístico. Um começa a ruína do outro. O fenômeno é visível desde o cubismo analítico de Picasso ou a pintura de Kandinsky. Esta ruína do espaço perspectivo é caracterizada pelo fato que um monumento, uma arquitetura, um objeto qualquer se situa em um espaço homogêneo e não mais dentro de um espaço qualificado (qualificativo): num espaço visual que permita o olhar e sugere o gesto de rodar em volta. Picasso, Klee e os membros do Bauhaus têm simultaneamente descoberto que se pode representar os monumentos no espaço, de sorte que eles não tem mais a face ou a fachada privilegiada. Eles não as orientam mais para aquele que eles olham ou que os olham. Eles estão dentro de um espaço indiferente e são indiferentes no espaço em via de quantificação complexa. O “immeuble-tour” do qual Mies Van Der Rohs desenhou os protótipos está situado dentro de um espaço de tal sorte que se pode rodar em volta; é um objeto que não tem mais face, fachada. Sem a fachada, a rua desaba. O espaço 15 perspectivo é então substituído por um espaço inteiramente novo. Uma ambigüidade vem disto que os membros do Bauhaus e Le Corbusier acreditavam terminar uma revolução. Foram tomados como bolcheviques desde que introduziram o espaço capitalístico. Sua concepção do espaço difunde-se com o neo-capitalismo e sobretudo com a subida triunfal do Estado. Este espaço capitalístico não é fácil de descrever e de definir. Não basta adiantar que ele é somente quantitativo ou que se tem substituído ao espaço perspectivo, quer dizer a um espaço qualificado, um espaço quantitativo. Este espaço quantitativo é um espaço homogêneo mas quebrado. A arte pictórica a arte escultural produziram verdadeiros modelos deste espaço. A arte colocou em evidência a violência interna na fenda do espaço. Como um espaço pode ser ao mesmo tempo homogêneo e quebrado? Não haveria aqui um absurdo, uma impossibilidade? Não. Este espaço é homogêneo porque tudo é aqui equivalente, permutável, intercabível, porque é um espaço comprado e vendido e que não há troca senão entre equivalências e intercambialidades. Este espaço porque o tratamos por lotes ou parcelas; vendido em lotes ou parcelas, ele é então fragmentado. Erguido do mundo da mercadoria onde tudo é equivalente, e erguido também do estadual onde tudo é controlado, ele é quebrado porque tratado em lotes muitas vezes minúsculos, o limite inferior do lote não sendo senão aquele onde seu uso para a construção é impossível; os lotes são também vendidos mais caros, segundo as leis ou regras da especulação. É um espaço lógico se bem que a lógica do conjunto homogêneo seja desmentida pela fragmentação do detalhe. A classificação proposta dos espaços corresponde aproximadamente à seqüência das maneiras de produção segundo Marx. Esta seqüência não pode passar por aquisição, nem os caracteres de cada maneira de produção, pos estabelecidos. Aqui é preciso mostrar, brevemente, que existe produção de espaço inerente ao modo de produção, esta aqui não se definindo mais somente por alguns rapports de classes (marxismo banalizado) ou pelas ideologias e formas do conhecimento e da cultura (Gramsci) mas também por esta produção específica. 16 Analógica, cosmológica, simbólica e lógica ou logística oferecem uma diacronia (uma sucessão). Cada modo de produção tem seu espaço; mas as características do espaço não reconduzem mais às características gerais do modo de produção; o simbolismo medieval não se define nem pelas rendas pelos camponeses aos proprietários rurais, nem pelos rapports entre as cidades e os campos. A redução da estética, do social e do mental ao econômico foi um erro desastrado que um certo número de “marxistas” perpetuam. O modo de produção atual de caracteriza pelo espaço de trocas. O estado tendo, por seu controle, a acentuar o caráter homogêneo, quebrado pelas trocas. Um tal espaço pode definir-se como ótico e visual. O corpo desapareceu dentro de um espaço equivalente a uma seqüência de imagens. O espaço perspectivo inaugurou esta escotomização do corpo, que o simbolismo preservava, não sem o transpor. Dentro do espaço moderno, o corpo não tem mais presença; ele é somente representado, dentro do meio espacial reduzido aos componentes óticos. Este espaço é também fálico; as sinuosidades com sua arrogância testemunham suficientemente. Fálico, ótico, visual, lógico-logístico, homogêneo e quebrado, global e fragmentado, assim se nomeiam e se concebem os caracteres do espaço do M.P.E. Este espaço foi idealizado pelo Bauhaus e por Le Corbusier, ao mesmo tempo em que eles o realizavam. A idealização é perseguida a partir de seu caráter visual e ótico. Ele mantém sua postura polida e espetacular. A análise das obras de Le Corbusier mostra que ele representou este espaço de maneira a produzir e reproduzir a imagem engrandecida de um homem forte, contemplando na alegria, a luz, a natureza, os espaços verdes e as silhuetas de outros homens derramadas sob a gloriosa claridade do sol. Este espaço implica não somente a vida cotidiana programada e idealizada pelo consumo manipulado mas também a espacialidade hierarquizada entre os espaços nobres e os vulgares, os espaços residenciais e os outros. Ele implica também uma centralidade burocrática, dita “cívica”, ocupada pelos poderes de decisão. É um espaço organizado de tal sorte que os usuários sejam reduzidos à passividade e ao silêncio, exceto se eles se revoltam; sua revolta pode e deve ir da apresentação de contra- projetos, de contra-espaços, de reivindicações algumas vezes violentas a uma revolta máxima que repõe em questão o conjunto do espaço permutável, espetacular, implicando a cotidianidade, a centralidade e a hierarquização espacial. 17 Estas contradições do espaço se reajuntam e se sobrepõem às antigas contradições do modo de produção capitalista. O conhecimento diretamente investido na produção do espaço pode expô-lo sobre grandes entendimentos (a construção de uma auto-estrada) mas este espaço é fragmentado, pulverizado pela propriedade privada. Aqui aparece uma forma moderna de contradição assinalada por Marx entre as forças produtivas e os rapportsde produção e de propriedade. A propriedade provada (o rapport social) interdita ao conhecimento sua intervenção. Ela paralisa as intenções e as invenções dos arquitetos como também dos urbanistas e aniquila suas capacidades críticas e criadoras. A pressão dos rapports de produção e dos rapports sociais (rapports de propriedade) acentua-se. Esta pressão é personalizada pelos promotores. O conceito já colocado antes de morfologia hierárquica estratificada (com sua implicação: o espaço de catástrofe) resulta da busca já mencionada de R. Thom. Ele se generaliza e se estende ao espaço social. A análise dentro da sincronia (o atual) não impede a análise diacrônica (história do espaço). Ao contrário: esta leva àquele. A análise morfológica supõe e genética. Pode-se falar de morfologia estratificada cada vez que formas definidas, comportando unidades simples, envolvem umas nas outras dentro de uma ordem definida. Assim em lingüística: o fonema (som, sílaba sem significação); - a palavra (articulação constituindo uma unidade significante a partir dos fonemas que ela religa); a proposição ou frase; - a seqüência das frases e o encadeamento dos sentidos. Uma morfologia análoga existe dentro do espaço social, da “peça”, ou da barraca, à casa e ao imóvel, do imóvel às casas, à aldeia e ao quarteirão, deste à cidade, à região, à nação, ao Estado. Eis um quadro das morfologias constatadas depois formalizadas de modo a fazer aparecer a implicação hierarquizada dos níveis. A articulação, contrariamente à ideologia tecnocrática que abusa deste termo, não é somente um fato “positivo” e uma solidez. Ela arrasta efeitos negativos: rupturas, catástrofes. 18 Lingüística Física Biologia Espaço (social) Fonemas Sílabas (morfemas) Palavras Proposições Frases Seqüência de frases Partículas Moléculas Corpos Planetas Sistema (solar) Galáxias Moléculas Associação de moléculas Organelas Células Órgãos Indivíduos (espécies) Sistema ecológico Peça (barraca, cabana) Imóvel (casa) Quarteirão Cidade Distrito (país) Nação (estado) Continente/ Planeta É preciso, cada vez que se estuda uma morfologia hierarquizada, determinar seu espaço de catástrofe, quer dizer, as condições de vizinhança das quais o espaço explode. A teoria mostra que geneticamente se produzem ao mesmo tempo as condições de estabilidade e as condições de ruptura. O espaço perspectivo historicamente gerado (não sem condições econômicas, sociais e políticas, mas de maneira irredutível a estas condições) tem seu espaço de catástrofe: o espaço logístico. Este possui os caracteres de um espaço de catástrofe: homogêneo-quebrado e total-fragmentado, resultando da explosão dos espaços anteriores, oposto ao espaço possível (diferencial) e entretanto levando para ele. Estes conceitos permitem circunscrever e definir de fora a junção (a articulação) do espaço e do estado moderno. Esta articulação pode também apanhar o “de dentro”. 19 1) A cooperação estreita do Estado com a indústria automobilística para manusear o espaço preexistente, compreendendo a cidade histórica, é um fenômeno conhecido. Desigual segundo os países, ele é constatado um pouco em todo o lugar: auto-estradas, estacionamentos, mas também fábricas, oficinas, hotéis e motéis, postos de serviços, etc. Nos grandes países modernos, vinte por cento aproximadamente da produção da população ativa dedicam-se ao automóvel e ao seu uso. Tudo se sacrifica a esta forma de desenvolvimento: o passado histórico, o uso, a aprovação, a “cultura”. A cidade histórica reconstruiu-se segundo as exigências do desenvolvimento “animado” pelo automóvel. Os lobies do automóvel, da construção, unem-se à tecnoestrutura estatal. Seus efeitos conjugados chegam a quebrar os gargalos de estrangulamento: circulação, poluição abandono dos transportes coletivos, etc. Todavia, chega-se um pouco em todo lugar ao “ponto crítico” (estado crítico) onde a predominância do auto é duvidosa, onde a questão assim colocada torna-se política. As resistências acentuam-se múltiplas, indo “dos proprietários” despossuídos, desqualificados, aos “usuários” de todas as classes. A partir deste ponto crítico procura-se uma nova concepção do espaço, de novas funções e novas formas irredutíveis à simples circulação. Qualidade do espaço, espaço qualitativo, estes conceitos impõem-se através de um período de utopismo, de sonho, de nostalgias, de tentativas para voltar para trás ou para viver “como se isto não fosse aquilo” (o não- anarquismo elitístico). 2) No momento em que o Estado, em tal ou qual país, tomou nas mãos a produção de energia (eletricidade, petróleo), alguns presumiram que a liberariam a preços baixos às empresas “privadas” e outros que assumiriam os investimentos dos quais o “privado” era incapaz. Pouca gente apercebeu-se que o Estado continuava a instalação de um espaço dominante, prolongando aquele das estradas e canais e estradas de ferro. Isto devia se confirmar e alcançar a evidência pelo que segue: redes de auto-estradas (rodovias) e das vias aéreas, produção da energia nuclear (em todo lugar controlada pelo Estado). De passo em passo o Estado cuja tecnoestrutura domina as questões energéticas, torna-se o mestre, não somente controlando as unidades de produção mas quadriculando o espaço, debaixo de uma dupla vigilância técnica e policial. A produção da energia junta-se estreitamente à produção do espaço político, quer dizer estatal. 20 3) Os técnicos permitem tratar o espaço em grande escala, os documentos de propriedade e as necessidades definidas pela habilitação comportam o tratamento em pequena escala. Ora o Estado pode sozinho tomar a incumbência do tratamento do espaço “em grande” – rodovias, rotas aéreas – porque ele dispões de recursos, de técnicas, da capacidade “conceitual”. A venda e o tratamento do espaço por parcelas, por vezes muito pequenas (apartamentos vendidos em co-propriedade) têm catastroficamente arrastado um caos urbano. O Estado em numerosos países tenta impor uma ordem a este caos por maio de instituições diversas (na França, escritório de estudos, OREAM, etc.). Qual ordem? Aquela do espaço homogêneo, logístico, ótico-geométrico, qualificativo. Fala-se seguidamente, na França e alhures, do fracasso a propósito das iniciativas estatais porque o resultado não tem harmonia. Uma tal apreciação, estética ou ótica, mascara a situação real. As medidas tomadas pelas instituições e administrações especializadas são eficazes; no lugar de resolver as contradições do espaço, a ação estatal se agrava; elas não geram um novo espaço, mas um produto específico da colisão “privado-público”. A capacidade racional e organizadora do Estado exerce-se nisto como fluxos que continuam a passar no lugar de se perder no caos dos espaços liberados aos interesses “privados” e locais; o resultado perceptível resta não menos caótico. Aí onde o Estado aboliu o caos, eregem-se sobre espaços fascinantes pelo vazio social: um grande anel viário por exemplo, ou as pistas de um aeródromo, lugar de passagem e somente de passagem. O absurdo aparente, a saber o duplo caráter deste espaço homogêneo (o mesmo) e quebrado (não pela diferença mas pela ruptura dentro da homogeneidade) esclarece-se assim. Este resultado provém da colisão entre duas práticas e duas concepções do espaço, uma logística (global, racional, homogênea), a outra local (interesses privados, alvos particulares). Nos países ditos capitalistas, a contradição pode acentuar-se entre os alvos particulares dos promotores, especuladores, investidores (agentes da produção deste espaço) e o alvos gerais (estratégicos) do Estado representados pela tecnoestrutura estatal. Neste caso, o estatal a leva. Sem alcançarsempre esta acuidade, o conflito produz seus efeitos um pouco por todos os lugares. De onde o mal-estar, de onde o embaraço diante destes espaços onde se vê o trabalho ao mesmo tempo um pensamento racionalizante e global mas sem interesse para os usuários (para as “corporações vivas” fora das “funções”) e as operações pontuais, portadoras de interesses definidos. 21 1) O espaço racional – científico – produzido e gerado pelo Estado não encontra o espaço mercadoria, marcado e vendido em parcelas. Ele encontra também os pólos de crescimento espontâneo, quase cego, datado geralmente da época anterior (árqueo- capitalismo, paleo-técnico, etc.). Estes pólos de crescimento compreendem também as grandes empresas, nascidas próximas dos recursos naturais em energia (hulha), em matérias primas (minerais), em mão de obra (populações laboriosas já formadas no trabalho por uma tradição artesanal ou camponesa) que nas grandes cidades funcionaram como aceleradores de crescimento. A colisão entre essas modalidade espontâneas de crescimento, anteriores ao fluxo da economia moderna, e o espaço estatal, esta colisão não acontece sem estragos. A racionalidade estatal a leva. Só o Estado domina os fluxos e os acorda com os elementos estáveis da economia (estoques) porque ele os integra no espaço dominante que eles geram. Os investimentos enormes que acompanham a desintegração dos pólos espontâneos e os deslocamentos variados (ferramentas, energia, mão de obra, matérias primas) não podem ir bem a não ser com o acordo e o concurso do poder político. O que ninguém ignora. O que se vê menos bem, muitas vezes, é a consolidação em escala nacional e também em escala supra-nacional, deste novo espaço sobreposto aos espaços anteriores, virando-os de baixo para cima. Que se reflita sobre as transferências da indústria pesada francesa, da Lorena e Dunquerque, à Fes-sur-Mer. Que se sonhe as instalações colossais de Italsidet à Tarente, da construção automobilística em Sagonte, na Espanha, etc. 2) O Estado moderno acha-se diante dos espaços abertos ou melhor explodidos de todos os lados: do apartamento e do imóvel ao território nacional, passando pelas instituições (a escola, o bairro, a cidade, a região). Estes espaços, produtos históricos de épocas anteriores, arrastando em si sobrevivências múltiplas destas épocas (analogias, simbolismos, etc.) são ao mesmo tempo destruídos, explodidos, postos em pedaços e transbordando suas fronteiras. O que faz parte da catástrofe entra no quadro. O apartamento e o imóvel abrem-se sobre os equipamentos, o bairro sobre a cidade e o urbano. A nação mesma não tem mais fronteiras, nem para os capitais e os técnicos, nem para os trabalhadores e a mão de obra, nem para a matéria cinzenta, nem para as mercadorias. Os fluxos atravessam as fronteiras com a impetuosidade dos rios. Se o espaço estatal-político tem como primeira função regularizar os fluxos, coordenar as forças cegas do crescimento, impor sua lei ao caos dos interesses “privados” e “locais”, há uma outra função não menos importante, se bem que oposta: 22 reter em seus marcos os espaços explodidos, segurando suas funções múltiplas. O espaço dominante tem dois aspectos: impor-se àqueles que pulverizaram o meio da vida social – interditar as transgressões que iriam contra a produção de um outro espaço (qualquer que seja). Estas duas funções são corolárias entretanto conflitivas. Como impedir ao mesmo tempo a atomização (pulverização) e a transgressão (ultrapassagem)? O Estado retoma a tendência a constituir as cadeias de equivalência, neste caso de superfícies e volumes permutáveis. Ele empurra esta tendência até a identificação dos espaços dominados dentro da homogeneidade do espaço dominante. Ao mesmo tempo, ele controla alguns efeitos que tenderiam a dissolver o espaço existente e a constituir um espaço novo, diferentemente definido: pelas diferenças entre lugares e atividades ligadas aos lugares. A ação estatal não se limita então a gerir pelas vias institucionais e administrativas a existência social e “privada” de milhões de pessoas, os “cidadãos”, os “sujeitos” políticos. Ela procede por uma via mais indireta mas não menos eficaz servindo-se deste instrumento privilegiado: o espaço. O modo de produção capitalista definiu-se pelos rapports de produção, mas não somente por eles. O conceito de “rapports de produção”, necessário, não basta mais. O MPC (modo de produção capitalista) não é determinado nem por uma interação de “sujeitos” (individuais ou coletivos, abrangendo as classes), nem como um “sistema” dotado de uma coerência interna. Esta última interpretação, que se quer audaciosa, contém implicitamente a apologia do que ela pretende criticar. O MPC define-se inicialmente por um encadeamento de conceitos, de valor de troca à composição orgânica do capital, acentuado sobre a produção da mais-valia e sobre a acumulação do capital com seus problemas teóricos. A análise, não da produção em geral, mas da produção da mais-valia, arrasta aquela de sua realização (circuitos comerciais) e de sua partilha (circuitos bancários). A produção da mais-valia cumpre-se dentro das empresas – os lugares de trabalho; sua realização e sua partilha se fazem dentro das cidades, o que não esgota em nada o conceito do urbano. Não é tudo. O MPC define-se também pela produção de rapports sociais e políticos, dos quais o Estado e o estatal. Ele definiu-se pela produção de um suporte espacial (suporte de rapports de produção e de sua recondução ou reprodução). Este espaço suporte não tem nada de misterioso. Ele é produzido a partir do espaço 23 preexistente: o espaço-nação (geofísica), espaços históricos. E isto por agentes definidos: promotores, banqueiros, urbanistas, arquitetos, proprietários prediais, autoridades políticas (locais e nacionais) e às vezes, os usuários. No decorrer deste vasto processo, alguma coisa nova aparece. O MPC se transforma. A socialização das forças produtivas, da produção, da sociedade, do produto, previsto por Marx, conclui-se. O espaço gerado é “social” neste sentido que ele não é uma coisa entre as coisas, mas o conjunto de ligações, conexões, comunicações, redes e circuitos. Portanto, a “socialização” e a “nacionalização” tomaram a forma – não prevista por Marx – da estatização, do espaço político (ou antes: lógico-político). Insistimos, condensamos e resumimos. – O MPC desenvolvendo-se produz seu espaço, logo produto social. Ele utiliza a partir de um certo nível (de crescimento de forças produtivas) o espaço preexistente, mas não se contenta. De início, ele integra, devastando-os, os espaços antigos (a natureza, o campo, as cidades históricas); ele investe o saber dentro da gestão de cada vez mais impulso do espaço (o solo, o subsolo e seus recursos, o espaço aéreo). Ele produz seu próprio espaço: fazendo isto, ele se transforma e é o evento do MPE (modo de produção estatal). No curso desse processo, o espaço entra ao mesmo tempo: a) nas forças produtivas (por exemplo, dentro do que os economistas chamam: “economia de aglomeração”, de um ponto de vista empírico e descritivo; b) nos rapports de produção e de propriedade (pois que ele é vendido e comprado, - pois que ele compreende o conjunto dos fluxos, circuitos, redes, etc.); c) na ideologia e os instrumentos do poder político (pois ele torna-se o suporte da racionalidade, da tecnoestrutura e do controle estatal); d) na produção da mais valia (investimentos na urbanização, nos espaços aéreos, na indústria turística exploradora das montanhas e do mar, quer dizer, dos lugares desocupados fora da produção industrial, etc.) – na realização da mais valia (organização do consumo urbano e da vida cotidiana, da “sociedade burocrática de consumo dirigido” – na 24 repartição da mais-valia (rendas do solo e do subsolo, bancos especializados no imobiliário, especulação,etc.). O momento onde o espaço torna-se predominante, quer dizer, onde constitui-se um espaço dominantes (político), é também o momento onde a produção pára de garantir espontaneamente e cegamente a reprodução dos rapports sociais. A reprodução no interior da empresa (investimentos e amortizações), e fora (reprodução da força de trabalho dentro e pela família operária), necessárias não bastam mais. Impedir a derrocada do edifício que vai da mão de obra à casta política – manter um conjunto hierarquizado de lugares, de funções e de instituições – tal é a primeira tarefa do Estado moderno. O processo de reprodução não se torna autônomo funcionalmente; ele realiza- se dentro de um espaço, o espaço político, condição da reprodução generalizada; esta comporta: a) a reprodução biológica (demográfica); b) a reprodução da força de trabalho (famílias agrupadas em “cidades operárias” ou em quarteirões (ou bairros) populares, subúrbios, etc.); c) a reprodução dos meios de produção (que a empresa não pode mais assegurar e garantir) e dos rapports de dominação. A partir de certo momento, o capital investido deixa ao Estado assegurar as condições de reprodução dos rapports de dominação. Estrategicamente, o Estado moderno trata o espaço de modo a: a) quebrar as oposições dividindo as pessoas, oponentes convictos, em guetos; b) hierarquizar os lugares sobre o modelo das relações de poder; c) controlar o conjunto. O espaço, assegurando assim a reprodução generalizada, tem as características que nós conhecemos: a) homogêneo: o mesmo em tudo, implicando a permutabilidade dos lugares e mesmo dos instantes (tempo), compondo o conjunto dos lugares do cotidiano (trabalho 25 – vida familiar e privada – lazeres programados). O que exige uma centralização possante, então um rapport: centro-periferia. A permutabilidade e a interpermutabilidade tomam a postura do idêntico e do repetitivo; b) quebrado: o espaço homogêneo, ótico-geométrico, quantificável e quantificado, logo abstrato, não se torna concreto se não se incorporando ao uso prático, dentro da construção que se conclui por e dentro de “lotes”. A contradição aprofunda-se entre a funcionalidade pretensamente assegurada pelo controle estatal e o absurdo dos resultados, um pouco em tudo perceptível, aliás evidente; c) hierarquizado: a troca dos espaço não pode acabar a não ser com as desigualdades pois que o uso não desaparece e reaparece com o emprego do tempo. Os lugares dispõem-se desigualmente por rapport aos centros, eles mesmos desiguais: dos centros comerciais aos centros de decisão. A ação estatal acentua esta disposição; os espaços hierarquizam-se severamente, a partir dos centros de dominação até às periferias desfavorecidas, mas na mesma proporção mais fortemente controladas. De onde o aspecto paradoxal do espaço assim constituído. Não se sabe bem onde encontrar as classes (sociais); entretanto, a segregação continua. As moradias misturam-se e portanto os espaço residenciais da elite, da burguesia, das classes médias, distinguem-se perfeitamente dos lugares reservados (pavilhões, imóveis de rapport, nas cidades estouradas e subúrbios) de arredores brancos e azuis. O espaço social toma então o ar de uma coleção de guetos: os da elite, os da burguesia, dos intelectuais, dos trabalhadores estrangeiros, etc. Estes guetos não se justapõem; eles hierarquizam-se, representando espacialmente a hierarquia econômica e social, os setores predominantes e os setores subordinados. O Estado coordena. Ele impede o espaço capitalista “stricto senso”, quer dizer em migalhas, de quebrar a sociedade; mas ele não pode senão substituir à pulverização, a homogeneidade do idêntico-repetitivo. Ele serve-se da lógica mas não pode impor nem a coerência abstrata nem a coesão espacial aos diversos momentos do processo, da produção e realização da mais-valia. Se bem que ligado dentro e pelo espaço dominante, este processo fica fracionado; o capital comercial, o capital bancário, o capital industrial, o capital predial caem nas mãos de grupos cujos interesses frequentemente divergem e às vezes se afrontam. O Estado impede a especulação de paralisar o 26 funcionamento global da sociedade civil e da economia. Ele organiza, ele planifica diretamente ou indiretamente, podendo mesmo fechar tal espaço ou tratar tal fluxo por computador. Mas o espaço assim produzido, que se quer ao mesmo tempo político e regulador, revela-se burocratizante-burocratizado, quer dizer, tratado pelas repartições. Repetitivo em segundo grau, ele completa o repetitivo em primeiro grau, precedendo da permutabilidade-interpermutabilidade. Enfim e sobretudo, este espaço repressivo do feito sozinho que se hierarquiza impõe a reprodução dos rapports de dominação (o que conclui a reprodução dos rapports de produção). O caráter regular do espaço político (estatal) analisa-se então segundo três aspectos: a ideologia (representação tecnocrática do social); - o prático (instrumental, meio de ação); - o tático-estratégico (aspecto principal: subordinação de recursos de um território a objetivos políticos). A ideologia é a da coerência-coesão, da lógica neutra e tanto mais eficaz, da homogeneidade ótico-geométrica, então quantificante-quantificada. A quem convém juntar a representação de uma transparência: de um espaço onde os elementos da sociedade se revelariam em sua evidência e coexistiriam pacificamente. As evidências não são suspeitas? Enquanto esta proposição não for admitida como uma evidencia (contra evidência) maltratará o espírito cartesiano. No meio de todas as evidências, esta do espaço não é a mais suspeita? A racionalidade deste espaço despedaça-se como uma superfície disfarçada desde que se sabe que em realidade ela “regula” e reconduz rapports de dominação, subordinando a reprodução simples (da força de trabalho), à reprodução mais complexa dos rapports de produção e esta àquela dos rapports de dominação, incorporados dentro do espaço. As modalidades da reprodução incluem-se e implicam-se assim, umas e outras, constituindo a seu turno uma morfologia hierárquica, o que garante sua inteligibilidade mas as ameaça; pois não há de maneira alguma tal morfologia sem ruptura (catástrofe). O rapport “dominante-dominado” assim se explicita. Não é preciso reduzi-lo nem ao empírico nem à representação. Um espaço dominado pode dominar um ao outro. A hierarquia espacial apresenta-se, nós o sabemos, como implicação ou imbricação de espaços dominantes-dominados. Esta relação de inclusão-exclusão tem um caráter lógico (logístico). 27 Pode-se dizer igualmente que se incluem e se implicam morfologicamente: a cotidianidade (tempo programado dentro e pelo espaço), - a espacialidade (rapports centro-periferias), - e repetitivo (o idêntico reproduzindo-se dentro de condições assinadas pela abolição das diferenças e particularidades naturais). A hierarquia social apresenta-se então hoje, mais evidentemente do que jamais, como hierarquia espacial. Chega-se assim a uma concepção desenvolvida do modo de produção. O capitalismo não se define a partir da produção em geral, mas pela produção da mais- valia, pela acumulação do capital (R. Luxemburg), mas também pela reprodução dos rapports sociais específicos. A partir de um certo ponto crítico, este resultado tende a obter-se pelo e dentro do espaço, assim como pela identificação-repetição dos gestos, dos atos, da cotidianidade, do inscrito-prescrito. Os fragmentos de espaços e de atividades sociais coordenam-se, não sem conflitos. Que coisa boa, o espaço: ele vende- se e compra-se. ele alarga o mundo da mercadoria. Ao mesmo tempo ele permite controlar as forças sociais que poderiam opor-se ao poder político estabelecido. Então inaugura-se o MPE. A este processo global opõem-se todas as sortes de obstáculos e de situações conflitantes. É preciso dar a aparência do novo aorepetitivo, e do dinamismo ao idêntico. Daí a inacreditável mistura do néo, do retrô, do árqueo, na vida moderna. Daí a inacreditável mistura do mal, desde que “vivido”, pois ele comporta a abolição do vivido por sua subordinação à lógica e à identidade. Daí o mal-estar, aborrecimento, repulsa: o grande fastio, a partir do momento em que o MPE se instala. A partir deste ponto crítico, a violência faz sua entrada. Daí este estranho (alienante-alienado) clima do mundo moderno: de uma parte racionalidade repetitiva e identificadora, - de outra, violência, seja para afirmar o vivido e o uso, seja para continuá-los. A violência latente de todas as partes neste mundo racional, reduz ao permutável. A paz do espaço “regulador” e a violência confundem-se estranhamente. O espaço social, hoje, não seria a violência encarnada, seja virtual, seja declarada? O que chamam de projeto global, aquele de uma sociedade outra em um outro espaço. Não queimemos as etapas. Em que o espaço atual é um espaço de catástrofe? 28 A força dos argumentos de R. Thom é que mostra como e porque o caráter lógico das implicações morfológicas não levam a estabilidade (tese tecnocrática), mas ao contrário as rupturas. Outra maneira de dizer que a lógica e a violência andam juntas. As pessoas do estado concebem e realizam espaço dominantes, reinando sobre espaços dominados (por exemplo, a partir da aéreo-política, linhas aéreas, aeródromos, balizagem, etc.). Eles submetem o espaço a uma logística e crêem por aí seja separar, seja compreender para combatê-los, os conflitos e contradições. Ora a inerência da logística à violência permite compreender como, ao contrário, eles avivam os conflitos e agravam as contradições. Há hoje mundialização da produção e dos ciclos percorridos pelos produtos. A palavra “internacionalização” não enfraquece o alcance destes fenômenos que seguram o aumento das forças produtivas? Os investimentos e o capital produtivo acumulam-se em escala mundial. As firmas ditas supranacionais refletem este aumento, enquanto que os rapports de produção (e de propriedade) ficam fixos em escala nacional. Há igualmente mundialização dos fluxos de mão de obra, de tecnicidade, de “matéria” cinza. Os países ditos desenvolvidos, os “centros”, compram enormes forças de trabalho (em geral, pouco qualificadas) nas periferias. De mais, os capitais e investimentos vão buscar na praça a força de trabalho que eles põem em movimento. A relação: “capitais- força de trabalho” mudou de escala. O que implica uma mundialização do mercado de capitais (portanto transferências de mais-valia) que não deixa em sua volta os países ditos “socialistas”, lugares de investimentos mas também de acumulação (de meios de produção), mercados para a técnica, reservas enormes de forças de trabalho, etc. Segue-se a mundialização da luta das classes e uma diversificação desta luta, que penetra o espaço físico, social, mental, traçando clivagens novas. Segue-se igualmente a produção de um espaço planetário, nas fronteiras ora visíveis, ora invisíveis, onde os Estados nacionais conservam até à nova ordem suas funções: controle e hierarquização (espaços dominantes-dominados), regulação. Não é até ao espaço da empresa que não possa e não deva, hoje, reconsiderar-se a partir de concepções globais. “A força de entrada do salário, dada ao caráter geral deste, foi bem colocada em evidência mas existem outros fatores que têm um alcance geral e para os quais estaria no tempo de fazer uma análise comparável. O espaço é...” declara um artigo da revista Place, nº 6, 1977. o patronato, continua o autor, não esqueceu o alcance do fator espaço, em redor e 29 dentro da empresa. O que torna visível o organograma, “expressão da distribuição dos postos e cargos dentro de um aparelho espacial”, cumprindo as funções de vigilância, centro do bom funcionamento. Ora, o espaço habitual ou tradicional, inspirado do taylorismo – recinto cercado, dupla perspectiva: estreito para a máquina e o homem, expandido para a vigilância – não é mais suficiente. Ele estoura. Segundo textos oficiais, a relação “homem-máquina” deve ir além, dentro de um conjunto complexo, que toma conta destes três rapports: a) homem-processo produtivo; b) processo-prédio; c) prédio-arredores. (O que aliás deixa de lado os rapports dos trabalhadores entre eles). A descrição da explosão e a imposição eventual de um espaço articulante e hierarquizante, no lugar de os justapor, os locais, é bastante claro. O que deixa entrever um campo novo de reivindicações no interior da empresa, mas já supera a separação: “trabalho-horas de trabalho” (quer dizer vida cotidiana-arredores, logo habitações- equipamentos-paisagens). Um direito novo se esboça: direito sobre o espaço (dentro da empresa e fora da empresa), o direito de controlar o investimento enquanto ele gera e faz funcionar o espaço. (op. cit. P. 27-29). O modo de produção novo (dizemos “socialista”) deve produzir seu espaço, que não mais pode ser o espaço capitalista. Toda transformação do mundo que não mais pode ser o espaço capitalista. Toda transformação do mundo que se deixa encerrar dentro da morfologia preexistente não reproduz senão os rapports de dominação mais ou menos disfarçados. O espaço capitalista está no ponto de estourar; vamos reconstituí-lo em nome do socialismo? É preciso criar um espaço novo a partir das tendências que já aparecem dentro do modo de produção capitalista. Como se apresenta e se formula o espaço destruidor, - o espaço de catástrofe – para o espaço capitalista? É um espaço de diferenças ou espaço diferencial, que aparece como uma tendência combatida e ruinosa. Que um espaço ruinoso novo, nascido a tal ou tal nível da morfologia estratificada, exerce estragos sobre tal ou tal espaço anterior, este acontecimento-evento não mais nos surpreenderia. O espaço perspectivo não tem destruído catastroficamente o espaço simbólico? O espaço logístico não tem destruído o espaço perspectivo? Estes fenômenos lêem-se desde que saibamos decifra-los em nossas cidades (desde que não admitamos como evidências imediatamente inteligíveis e que temos sob os olhos!). 30 A história do espaço poria a ênfase sobre as destruições, seja em escala da arquitetura e da casa (o imóvel), seja em escala do urbano, seja aquela do país, desembaraçando o sentido destas destruições: não a vontade de tal indivíduo pensante, mas a substituição de um espaço em um outro, com destruição do antecedente pelo conseqüente (a catástrofe). Da mesma maneira a história do espaço acentuará os desvios (edifícios cuja finalidade e o sentido modificam-no), estes desvios evitam a destruição do existente. Destruições e desvios acontecem na vizinhança de pontos críticos durante o estado crítico de uma sociedade e do Estado, quando este “estado” dura (transição). Para definir o vínculo entre MPE e o espaço, para demonstrar que o espaço lógico-político é um espaço de catástrofe, é preciso também lembrar que a formação deste espaço acompanha-se de convulsões, de crises, de guerras, que uma análise enganosa atribui a causas somente econômicas e a razões somente políticas, eliminando o espacial. Ora, a transformação do espaço não pode ser concebida como um resultado acidental destas convulsões. Ela não pode mais se representar como uma razão consciente, como uma finalidade deliberada de crises e guerras. As convulsões do mundo moderno têm sido provocadas por mudanças nas ocupações do espaço (colonização) e nos recursos deste espaço (matérias primas, etc.). elas têm tido por resultado depois de cada grande guerra uma redistribuição do espaço, recursos compreendidos, e uma modificação na maneira de ocupação (passagem do colonialismo antigo ao neo-colonialismo atual). Estas alterações anunciavam-se desde o início das crises e dos acontecimentos trágicos, elas não foram entretanto nem esperadas, nemqueridas como tais. As considerações relativas ao espaço como campo de possibilidades (não abstratas) permitem conceber a causalidade do virtual sem cair nem dentro das considerações teleológicas sobre as “causas finais”, nem dentro das visões místico- metafísicas, representando-se uma “causalidade da ausência” (quer dizer do futuro), ou uma “causalidade metonímica” ou “estrutural” (cf. L. Althusser: Lire Le Capital, II, p. 165-167). A concepção política do espaço permite compreender como a história e seus prolongamentos abrem-se sobre o mundial em marcha e se transforma. 31 A esta mesma transformação da historicidade em “outra coisa” – a mundialidade – pode-se atribuir o fato que o estado de guerra e o estado de paz “declaram-se” pouco ou nada claros. A história e a historicidade admitidas supõem uma distinção entre estes dois estados que tendem a identificar-se dentro do Estado moderno. A nova modalidade da ocupação espacial parece hoje levar a suas mais extremas conseqüências estratégicas: ocupação dos mares, ameaças “todos azimutes” cobrindo o conjunto do espaço planetário e mesmo mais além. O espaço da propriedade, estendido da terra no subsolo e ao espaço inteiro, poderia a ele sozinho passar por “espaço de catástrofe”: ele traz o caos, atomiza, pulveriza o espaço preexistente, o põe em migalhas. Mas o espaço da propriedade não pode se impor sem ser corolário: o espaço estatal, que o corrige e o sustenta. O que foi que explodiu? Todo espaço especializado submetido a uma instituição, então fechado, funcionalizado. Os usos não persistem menos: espaços para os esportes, os corpos, as crianças, os transportes, a educação, o sono, etc. O espaço pulverizado tende a reconstituir-se em espaços diferenciados segundo o uso (tempo, emprego do tempo, ciclos do tempo). A pressão estatal munida de seu instrumento – o espaço logístico – insere-se entre o espaço pulverizado e o espaço reconstruído diferentemente. Ela impede ao mesmo tempo a pulverização caótica e o espaço novo, produzido segundo um novo modo de produção. Ela interdita aos espaços explodidos tomarem a forma que conviria a uma razão domada, alargada (dialetizada) pelo rapport do tempo – ciclos e ritmos – com o espaço. A catástrofe consiste nisto que o espaço estatal impede a mutação que traria a produção do espaço diferencial. Ele subordina à sua implacável logística, o caos e a diferença. Ele não destrói o caos, mas a carga. Pelo contrário, ele capta as diferenças “in statu nascendi” e as abole. Ele reina, ordem desértica animada somente por este que ele defende, o caos e o esfacelamento de um lado, o diferencial e o concreto do outro. A lógica deste espaço coincide com sua estratégia, logo com os objetivos e a entrada da força. Esta lógica, nós os sabemos muito bem, não é vazia senão aparentemente: ela serve de pivô e de eixo às forças políticas que visam o equilíbrio entre os níveis da morfologia (o infra e o supra- nacional) e se opõem à ruptura deste equilíbrio. Mas ela é já esta ruptura pois que ela interrompe o movimento. Neste nível, aquele da lógica estatal intervém o risco representado pela trilogia: representação – participação – instituição. Os movimentos reais e concretos, os dos “usuários”, os da reivindicação e da contestação, caem na armadilha que lhe estende o 32 Estado (sobretudo quando este estado dispõe de toda a força da centralização). O estudo dos movimentos urbanos o mostra. À tríade ou trilogia mencionada corresponde a tripla cilada: substituição (da autoridade à ação da base), - transferência (da responsabilidade passando dos ativos aos “dirigentes”), - deslocamento (dos objetivos e entradas, da reivindicação aos alvos fixados pelos “chefes” no seio da ordem estabelecida. O estudo e a apreciação citados acima de Katherine Coit são confirmados pelo livro recente de Michel Ragon: L’Architecte, le prince, la démocratie, cf. p. 133 e seguintes). Sob o controle pela base e a autogestão territorial, exercendo contra o ápice estatal uma pressão e trazendo uma luta real por objetivos reais, podem opor a democracia concretizada à racionalidade administrativa, quer dizer submeter a lógica estatal à uma dialética espacializada (concretizada dentro do espaço sem perder de vista o tempo, ao contrário: integrando o espaço ao tempo e o tempo ao espaço. Se se recupera aqui e dentro deste sentido o esquema da A Crítica do Programa de Gotha e de O Estado e a Revolução, o Estado declinante, sobre a via da despolitização, deveria agora ocupar-se do espaço para reparar os estragos do período atual: as ruínas, o caos, o desperdício, a mancha (que vai até a morte dos mares, o Mediterrâneo, por exemplo, e mesmo do Oceano!). Esta obra não pode se acabar sem conceber uma nova textura do espaço. O Estado declinante se reabsorverá não tanto dentro da “sociedade” abstrata quanto dentro do espaço social reorganizado. O Estado, nesta fase, poderia guardar certas funções, do mesmo modo que a representação. A habilidade dos fluxos, o acordo entre fluxos internos e fluxos externos (no território) exigirá sua orientação contra as firmas mundiais e por conseqüência uma gestão global de tipo estatal pendente um certo período. O que não pode tender para o fim (alvo e termo) senão pela atividade da base: autogestão espacial (territorial), democracia direta e controle democrático, afirmação das diferenças produzidas no curso desta luta e por esta luta. NOTAS (1) Conforme particularmente: La production de l’espace, Editora Anthropos, já citada, mas também : Le Droit à la ville (id.) e o filme que traz este título ; filme que tem já toda uma história. Praticamente interditado na França, ele fez escândalo até o dia em que as “verdades” que ele proclama tornaram-se evidentes e triviais, quer dizer reprises pelos politiqueiros (sem o menor preceito de civilidade, isto é evidente). 33 Conforme também La Revolution Urbaine (Gallimard) onde a palavra “revolução” designa uma transformação global com múltiplos aspectos e não somente uma operação política violenta. (2) Exemplo célebre de verdades triviais escoradas por um número colossal de fatos, de constatações, de estatísticas: um sociólogo estabeleceu outrora com um grande aparelho científico que o número de pessoas que saem do metrô era igual – salvo acidente – aquele das pessoas que entram.