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A relação de casal, frente aos novos padrões sociais 
Roberto Alves Banaco1,2 Yara Claro Nico1 e Roberta Kovac1 
Resumo 
Longe de correr o risco de cair no jargão comum, temos que admitir que as relações 
sociais têm sofrido mudanças profundas e rápidas, sem que haja tempo para que os 
indivíduos consigam se adaptar a elas. Certamente essa adaptação afeta a vida também 
dos casais e de todos os comportamentos que acabam configurando a relação conjugal. 
Embora continuemos a buscar relações estáveis, duradouras e equilibradas, temos hoje 
pouca habilidade para resistirmos a frustrações inerentes a uma relação a dois, somos 
instados a procurar por fortes emoções (e, portanto, o equilíbrio é visto como uma 
situação “morna”, “insossa” e menos importante), bem como somos incentivados a 
termos nossas convicções pessoais acima de qualquer instância, resultando em uma 
inadequação às regras de um convívio a dois. 
O objetivo deste trabalho é analisar como esta condição foi se instaurando, e que 
caminhos a cultura aponta para que possamos enfrentar esta nova realidade social 
quando nos deparamos com problemas de casal e de família. 
 
As transformações sociais 
Existem muitas interpretações a respeito dos porquês as pessoas se juntam duas a duas. 
Algumas explicações são mitológicas (vide a explicação de Platão, 2011, pp 115-121, 
em “O Banquete”, que talvez seja a origem da metáfora de duas metades da laranja que 
se unem”), outras são poéticas (como a encontrada no poema “Eros e Psychê” de 
Fernando Pessoa, em 1934, que sugere que procuramos no “outro” a nós mesmos). Há 
também os estudos históricos, mais sociológicos e antropológicos, que indicam que nos 
juntamos por duas razões especiais: procriação, criação da prole e condições 
econômicas melhores. As relações de casal exigem que dois ajam com propósitos 
únicos e com partilha de condições e divisão de tarefas. Duas pessoas juntas teriam 
maior habilidade para enfrentar os desafios que a vida impõe (já que uma pode 
 
1 Nucleo Paradigma de Análise do Comportamento. 
2 Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 
complementar as inabilidades de outra e vice-versa), melhor visão a respeito dos 
problemas, e portanto, maior força para enfrentar as dificuldades do dia-a-dia. 
Além disso, os estudiosos das relações conjugais apontam vantagens econômicas em os 
indivíduos poderem ter uma vida comum: o casamento, desde cedo na vida da 
humanidade era encarado como uma relação mais econômica que afetiva. 
Com efeito, isto é observado na Itália romana, entre 100 ac e 100 dc, na qual seis 
milhões de homens e mulheres eram livres e cidadãos. Estes podiam casar-se, com o 
propósito de criar efeitos de direitos: “os filhos destas núpcias são legítimos: eles 
tomam o nome de seu pai e continuam a linhagem. Na morte do pai, eles lhe sucedem 
na propriedade do patrimônio...” (Veyne, 1994, p. 140). Tais direitos eram vedados aos 
escravos. 
Na continuidade dessa história econômica, segundo Sot (1994), 
“... no decorrer dos dez primeiros séculos da história do cristianismo, a benção nupcial 
nunca foi considerada uma obrigação para os cristãos. Para todos, o casamento é 
primeiramente um compromisso civil e, como tal, tem origem nas diferentes tradições 
jurídicas que dividem o Ocidente. Para o Direito Romano [...] é o consentimento das 
duas partes que fundamenta o casamento. No direito germânico, distinguiam-se ao 
menos dois tipos de casamento: aquele que temos a tendência de chamar de 
‘verdadeiro casamento’, o esposo recebendo do pai, ou da família, a tutela de sua 
mulher. Neste caso, havia de certo modo ‘compra em casamento’: o marido retribuía a 
transferência da tutela com o pagamento de um dote ao pai ou à família. Mas, 
paralelamente a este verdadeiro casamento, existia um outro tipo de união, também 
reconhecido pelo direito, no qual não havia transferência da tutela: o marido nada 
pagava por esta esposa de segunda categoria. Em virtude disto, ele poderia separar-se 
com facilidade”. (p. 165). 
A afetividade era resultante mais de uma convivência e da criação dos filhos do que de 
um amor romântico prévio, este mais afeito ao que se chamava de “amor-livre.. 
totalmente independente, sem o menor laço conjugal ou maternal, entregue a seus 
caprichos e paixões...” (Bottéro, 1992, pág. 28). Mais do que isso, o historiador 
J.L.Flandrin afirmava que “existiam dois amores bastante distintos, o amor fora do 
casamento, e o amor conjugal, sendo extremamente inconveniente misturar os gêneros”. 
(citado em Ariés, 1992 pág. 105) 
Do ponto de vista da análise do comportamento, analisam-se as relações conjugais a 
partir da concepção do comportamento social. Segundo Skinner (1953), o 
comportamento social é aquele em que duas ou mais pessoas se comportam 
coordenadamente uma em relação à outra ou juntas em relação a algum aspecto em 
comum do ambiente. Um sistema social se mantém enquanto há liberação de 
reforçadores de uma em relação à outra, ou do ambiente comum por estarem juntas. 
Ainda há reforçadores que não seriam obtidos a menos que haja o entrelaçamento dos 
comportamentos dos indivíduos. 
A relação de casal (e a relação que chamaríamos por “amor”) poderia ser definida, 
portanto, como uma relação na qual um indivíduo reforça alguns comportamentos do 
outro e vice-versa (Skinner, 1989), e que juntos, têm seus comportamentos coordenados 
para enfrentarem problemas comuns, com um sucesso que possivelmente não seria 
alcançado por cada indivíduo agindo isoladamente. Por conseguinte pode-se supor a 
dissolução do sistema pela suspensão de reforçadores quando um perde a capacidade de 
reforçar o comportamento do outro ou quando estar juntos faz com que outros 
reforçadores sejam perdidos (Skinner, 1953). 
Devido ao que foi apresentado até aqui, pode-se interpretar que a manutenção de 
qualquer sistema social (inclusive a relação de casal) deve ser explicada a partir do 
comportamento de cada um dos membros do “grupo”. Estes membros respondem 
sabidamente a contingências de três níveis de seleção: os dois primeiros, o filogenético 
e o ontogenético criam pressões e seleções que operam essencialmente sobre o 
comportamento do indivíduo, trazendo as consequências de seus atos apenas para si. A 
seleção cultural (o terceiro nível), opera sobre o comportamento do indivíduo de tal 
modo que seu comportamento opera no ambiente trazendo consequências tanto para si 
quanto para o grupo social. 
Muitas e muitas vezes, no entanto, as contingências em cada um desses níveis entram 
em conflito, ou seja, o mesmo comportamento pode trazer benefícios para o indivíduo 
nos níveis filo e ontogenéticos, mas podem trazer efeitos deletérios para outros 
indivíduos envolvidos em suas relações sociais. Por esta razão, a escolha em manter o 
ganho para o sistema social pode (e em geral o faz) causar prejuízos na obtenção de 
reforçadores individuais. 
A partir desta característica, a relação social é mantida enquanto os membros do sistema 
são mais controlados pelas contingências que operam sobre o grupo, com o propósito de 
mantê-lo coeso e entra em colapso quando um ou cada indivíduo do casal é mais 
controlado por contingências biológicas e pessoais, obtendo ganhos pessoais em função 
da perda do outro. Estas condições podem ser exemplificadas por 
a) “quebra” do contrato das relações de casal (implícito ou explícito), quando um dos 
membros do casal, que deveria partilhar por contrato todos os ganhos financeiros e 
econômicos, desvia dinheiro ou bens para uma economia própria ou de outras pessoas; 
b) riscos afetivos e financeiros (inclusive os de sucessão) observados em evidências de 
infidelidade com frutos (filhos “bastardos”), que dividem a atenção afetiva e dedicação 
do tempo por duas (ou mais) famílias, e dividem, por herança os bens acumulados pelo 
casal até então; 
c) riscos de saúdeprovenientes de sexo fora do casamento; 
d) etc. 
A formação do casal é, portanto, mais do que a junção de duas pessoas que precisam 
satisfazer suas necessidades pessoais. Por exemplo, um casal que se forma porque uma 
mulher se casa por atração sexual pelo homem, que por sua vez se casa com ela por 
motivos econômicos (por exemplo, ascensão na carreira), teria um sério prognóstico de 
ser fadado ao fracasso, já que a atração sexual que ela sente por ele arrefecerá com o 
tempo e devido ao envelhecimento dos dois, e uma vez obtida a vantagem econômica (a 
promoção profissional), a manutenção da relação teria um alto custo afetivo e sexual 
para esse homem. Muitas vezes, mudar temporariamente um comportamento em uma 
situação não é difícil: o mais difícil é mantê-lo nesta ultima forma se as contingências 
não o mantiverem. Por esta razão os ganhos efêmeros para cada membro do casal e que 
tenham fortes concorrentes individuais fora da relação são bastante perniciosos para a 
manutenção de dois indivíduos formando um casal. 
Um bom prognóstico para a constituição de um casal seria uma contingência na qual os 
dois membros beneficiam-se comumente por estarem juntos em vários aspectos: 
necessidades afetivas e físicas satisfeitas mutuamente, obtenção de propriedades mais 
rapidamente e/ou maiores e melhores; “reconhecimento” social, por formarem família, 
garantirem a sucessão de bens e direitos a filhos comuns, etc. Para que isto ocorra, os 
comportamentos de cada um dos indivíduos devem estar entrelaçados aos 
comportamentos do outro de forma a serem dirigidos à obtenção de ganhos para o bem 
comum. 
 
Os problemas decorrentes dos novos padrões sociais 
Elias (1990; 1994) e Tourinho (2009) descrevem como gradativamente as relações 
sociais econômicas foram transformando o conceito de subjetividade e, por conseguinte 
do indivíduo no decorrer da história da Humanidade. Até a Idade Média, as pessoas se 
comportavam socialmente de uma maneira em que o bem comum era o foco principal. 
Havia uma noção de pertencimento a um grupo social no qual os papéis e a importância 
do indivíduo dentro do grupo eram praticamente estáveis durante toda a vida de cada 
um, sendo desnecessárias tanto a competição interna a cada grupo bem como a reflexão 
a respeito dos ganhos individuais. Havia uma concepção ‘coletivizada’ de homem. A 
obtenção de interesses pessoais era punida e o planejamento individual de metas em 
longo prazo, desconhecido. 
No entanto, entre os séculos XI e XIII, a civilização assistiu uma grande mudança nas 
relações humanas, com as funções econômicas e atividades produtivas passando a ser 
monetarizadas. Com o fortalecimento das relações de mercado, a busca de lucros passou 
a crescer, e motivações materialistas tais como avareza, ganância e egoísmo, que até 
então eram criticadas e punidas passam a ser aceitas e até certo ponto incentivadas 
(segundo Elias inclusive por algumas religiões). 
A partir de então passa a haver a possibilidade de mobilidade social, que é considerada 
dependente do “esforço” individual: aquele que se esforça e tem competência, é capaz 
de ascender profissional e economicamente. A atuação profissional, antes pré-
determinada, agora é resultado de uma escolha acertada em um mundo que oferece 
múltiplas possibilidades de escolha; não é considerado um bom comportamento “perder 
tempo” na formação acadêmica e profissional, ficando “atrasado!” aquele que precisa de 
um tempo maior do que a maioria para seus estudos. Aquele que precisa “repetir o ano 
letivo” fica marcado como menos capaz na corrida. Oportunidades também não podem 
ser perdidas na corrida pelo sucesso, pois elas são os degraus da ascensão social. Por 
sua vez, o Estado fornece condições para os indivíduos desvincularem-se de seus grupos 
de origem (Elias, 1994), concorrendo para uma grande impessoalidade nas relações 
sociais. 
Como resultante de toda essa transformação passou a haver a necessidade de 
coordenação, previsibilidade e controle dos comportamentos dos indivíduos visando a 
manutenção da civilidade. A espontaneidade nas relações é agora substituída por 
autocontrole, decorrente de uma cuidadosa auto-observação do próprio corpo, e da 
contenção de emoções, pensamentos e ações motoras não recomendados socialmente. 
Elias (1990) refere-se à criação de uma “parede invisível das emoções” entre os 
indivíduos, para que o controle sobre a sociedade seja melhor. Com isso, desenvolve-se 
gradativamente uma dicotomia entre a vida íntima (o que é sentido, resultado por vezes 
reflexo das contingências vividas) e o que pode e deve ser expresso. A expressão das 
emoções passa agora por um estrito controle operante, nem sempre correspondendo ao 
que passou a se chamar como “Eu interior”. Está em curso a formação de uma 
“personalidade esquizoide” (Perez-Alvarez, 2003). A partir da dicotomia entre a vida 
íntima versus o que pode ser expresso: os indivíduos nas sociedades contemporâneas se 
vêm como autônomos, isolados e diferentes dos demais. 
Paralelamente, as complexas redes de relações indiretas (os indivíduos se relacionam 
com cargos e não mais com pessoas) obscurecem a interdependência existente entre as 
funções exercidas por membros muito distantes de uma sociedade. 
O aumento da população (com a decorrente escassez de empregos) e a competividade 
profissional acirrada (exigente de habilidades cada vez mais especializadas) apresentam 
enquanto efeito social a adolescência como um período dilatado de formação 
profissional para um “preparo esmerado”. 
O jovem adulto permanece cada vez mais tempo na condição de “adolescente”, 
dependendo financeiramente da família, muitas vezes apartado das decisões e 
responsabilidades da vida pública, incapaz de decidir seu destino. As melhores 
condições de vida e sobrevivência são colocadas à sua disposição, muitas vezes sem que 
essa disponibilidade seja contingente a uma habilidade ou a emissão de comportamentos 
apropriados. Os efeitos dessa prática cultural são uma juventude que sofre com tédio, 
ócio, e várias manifestações do espectro da depressão (Skinner, 1987). Segundo Khel 
(2009), devido a essas características sociais, a adolescência passa a ser um período em 
que se observa o início de muitas patologias do comportamento. Resultado disto, os 
indivíduos vivem a plena maturidade sexual, mas são absolutamente incapazes para o 
casamento por não saberem e não poderem constituir uma nova célula econômica. 
Historicamente, os indivíduos que vivem essa longa crise da adolescência foram 
transformados em consumidores em potencial, ao serem beneficiados com toda a 
disponibilidade material para a sua formação em primeiro lugar, e posteriormente para 
sanar possíveis sensações de abandono, inutilidade e tristeza. O mundo capitalista se 
aproveitou rapidamente desta característica, transformando a juventude e a adolescência 
em ideal atual da cultura: todos querem ser jovens, bonitos e felizes a qualquer custo, a 
qualquer preço, a qualquer tempo, com o menor esforço. 
Khel interpreta que 
“Por um lado, a associação entre juventude e consumo favoreceu o florescimento de 
uma cultura adolescente altamente hedonista. O adolescente das últimas décadas do 
século XX deixou de ser a criança grande, desajeitada e inibida, de pele ruim e hábitos 
antissociais, para se transformar no modelo de beleza, liberdade e sensualidade para 
todas as outras faixas etárias. O adolescente pós moderno desfruta de todas as 
liberdades da vida adulta mas é poupado de quase todas as responsabilidades”.(2009) 
Os resultados dessa evolução social (lembre-se, evolução não é necessariamente uma 
melhora, é apenas uma mudança selecionada pelas transformações ambientais), são 
vistos por alguns autores como um crescente processo de individualização (Bauman, 
2000; Pérez-Alvarez, 2003). Observa-se cada vez mais o desprendimento do indivíduo 
das redes de pertencimento social - incluindoa própria família. A “cultura do Eu” 
sobrepõe-se à “cultura do Nós”, com evidentes dificuldades no estabelecimento de 
relações conjugais e afetivas. O culto à liberdade individual (com o decorrente aumento 
do consumo: cada pessoa de uma família com seu carro, seu quarto, sua mobília, sua 
TV, seu computador, etc... o que podia ser coletivo agora é multiplicado para a 
preservação da “liberdade de escolha individual”) apresenta um mundo no qual cada 
indivíduo é “satisfeito” em suas necessidades, mas cada vez mais anedonico. Poucas 
atividades produzem prazer (Perez-Alvarez, 2003; Skinner, 1987). A sensação de 
liberdade é acompanhada por uma satisfação provisória: o desapego das relações sociais 
“traz em seu avesso a evidência do desamparo social em que se encontram os 
indivíduos” (Bauman, 2000). 
Pérez-Alvarez rotula essas manifestações comportamentais como “a personalidade 
esquizoide de nosso tempo”, que é por ele considerada mais um questão de fatores da 
vida contemporânea do que de fatores biológicos. Essa personalidade, segundo o autor, 
não é compreendida em termos de déficits comportamentais, mas sim como um 
repertório adaptativo às contingências sociais atuais. O indivíduo é reservado, solitário, 
indiferente, mas não é tímido, introvertido, ou fóbico social. Frieza, indiferença e 
distância emocional não são meras demonstrações de desinteresse pelo mundo e pelo 
outro: são uma “estratégia interpessoal” para o enfrentamento das contingências sociais 
atuais. Em nosso “mundo de negócios” é considerado forte aquele que se protege face à 
aversividade da vida por meio de uma sociabilidade superficial. 
Os indivíduos apresentam frieza emocional, afetividade distanciada ou embotada, 
demonstradas pela capacidade limitada para expressar sentimentos calorosos, ternos ou 
raiva para com os outros, indiferença aparente tanto a elogios quanto a críticas, a 
preferência quase invariável por atividades solitárias. 
Em casos extremos de isolamento social observam-se a falta de amigos íntimos ou de 
relacionamentos confidentes e mais gravemente a insensibilidade marcante para com 
normas e convenções sociais predominantes, como se observa em casos de transtorno de 
personalidade antissocial. 
O relacionamento com o “outro” ganha “ares mercantis”, prevalecendo de um lado a 
construção da relação por utilidade financeira, e por outro lado de desconfiança da 
ausência de sentimentos. Por essas razões, os relacionamentos afetivos tornam-se 
voláteis e fluidos: não há compromisso com a ideia de permanência e durabilidade. Com 
isso, a criação de uma relação conjugal na qual o indivíduo fique mais sob controle do 
“nós” do que do “eu” é bastante dificultada, se não impossibilitada. As questões 
monetárias se revelam em vários modelos de relações econômicas observadas nos 
“novos” casamentos. Anteriormente o dinheiro que entrava por meio de cada membro 
do casal era somado e partilhado por ambos (com extensões para os filhos, obviamente). 
As decisões sobre os gastos eram tomadas pelo “cabeça” do casal, ou também discutidas 
e compartilhadas entre os dois. 
Atualmente vêm-se vários modelos alternativos: alguns casais vivem como em uma 
república estudantil: cada qual tem suas coisas, suas despesas, seus ganhos, e as 
despesas comuns são divididas meio a meio. Outros casais assumem que (em geral) os 
homens são os responsáveis pelo ganho e manutenção das despesas do casal e as 
mulheres mesmo ganhando com seus trabalhos, não participam da responsabilidade da 
manutenção das condições de vida da família, destinando o seu dinheiro para suas 
“pequenas despesas”. Não é raro também serem encontrados casais nos quais a divisão 
se dá por tipos de contas: por exemplo, o homem troca os carros, abastece-os, paga o 
supermercado, a escola das crianças e a mulher paga a empregada, a despesa da padaria, 
seu cartão de crédito. Ainda há aqueles que levam vidas de solteiros, cada qual em suas 
casas, mas eles continuam afirmando que estão casados. 
 
Transformando em respostas... Comportamentos incentivados pelas práticas 
culturais atuais e outras questões de cunho comportamental... 
Em resumo, as grandes classes de respostas que a sociedade atual incentiva são: 
competir, controlar, procurar ser feliz (a qualquer preço e sempre, e a felicidade consiste 
em ser bonito, amado, saudável, ter a maior quantidade de informação e não sentir 
nenhum sentimento ruim). O “outro”, em geral, é mais visto como uma fonte de prazer 
ou conforto pronto para nos servir, e não como um sujeito, que também tem suas 
vontades e desejos a serem satisfeitos por nós. Quando o outro se torna sujeito, é visto 
como um competidor sempre, mesmo dentro do casamento. Uma certa paranoia de que 
os comportamentos do outro são feitos para atacar o indivíduo acaba sendo criada, e um 
grande solipsismo por fim é instaurado: “As regras não valem para mim e eu posso 
fazer tudo o que for necessário, o outro não pode”. 
 Podemos tomar duas posturas a partir disto. Uma é observarmos o desenvolvimento 
desta cultura, que segue a passos largos para sua desintegração se continuar seguindo 
este caminho, e nosso papel se restringe, enquanto profissionais a meramente explicar o 
que está acontecendo. Mas, se quisermos modificar alguma coisa temos que intervir. 
Talvez seja necessária a recuperação social da “regra de ouro”, por meio da qual se 
aprende que não se deve fazer ao outro aquilo que não se quer que seja feito a si 
próprio. Isso talvez equilibre novamente os benefícios que cada indivíduo possa 
reconhecer em abrir mão dos ganhos para si em função do ganhar por pertencer a um 
“nós”... Pode parecer conservador, mas essa é a base da vida em grupo. E, sabidamente, 
os ganhos por viver em grupo são atávicos, mas ocorrem muito tardiamente na vida dos 
indivíduos atuais. 
Quanto aos casais, por todas essas razões já apresentadas, assistimos a algumas 
dificuldades decorrentes de toda esta transformação cultural. Em primeiro lugar, os 
conflitos nem sempre são abertos, porque cada membro do casal pode “esconder o 
jogo”, de maneira a obter maior controle sobre as decisões e sobre a obtenção de 
reforçadores. Isso faz com que as relações se tornem mais frágeis em longo prazo, e que 
aumente a desconfiança sobre a honestidade e disponibilidade do parceiro. Pelas 
mesmas razões, os conflitos podem estar indetectados por um dos membros do casal 
que passa a sofrer um dos tipos de traição: a afetiva, na qual ele deposita um esforço na 
manutenção do relacionamento que não é equivalente ao esforço do outro. Nesse 
sentido, os interesses e metas dos dois podem ser incompatíveis, ocorrendo inclusive 
interferências sobre as metas e expectativas pessoais de cada um em que ambos perdem. 
Por exemplo, uma mulher que pode receber uma oferta de melhor emprego em outra 
cidade enfrentar uma oposição do companheiro que alega a perda de laços afetivos com 
a família, mas a razão principal é que ele não quer mudar de cidade por ter uma amante. 
Outra dificuldade é ter que reconhecer que as pessoas (repertórios) mudam, assim como 
mudam os valores reforçadores de cada um para o outro. Ocorrem perdas nas 
habilidades, e transformações nas necessidades e nos interesses. Mais do que isso, uma 
das maiores fontes de reforço é a novidade. E esta se perde nos relacionamentos 
duradouros. Se os membros do casal não tiverem como valor principal a continuidade 
da vida comum, o casal será desfeito. Isto se dá por características da própria relação do 
organismo com o ambiente (mesmo o físico). Por exemplo, um estímulo discriminativo 
controla gradativamente menos o comportamento, se sua duração for estendida. Isto 
pode se aplicar a uma relação de longo termo, com o parceiro sinalizando cada vez 
menos o que deve ser feito. Mesmo o estímulo incondicionado perde sua capacidade de 
eliciar as respostas reflexas nas operações em que ele esteja envolvido e que durem 
muitotempo. A outra questão que concorre para isso, é que sem operação motivadora o 
reforçador perde momentaneamente sua função... ou seja, sem privação (e o dia-a-dia 
proporciona uma saciação do parceiro) não há operação motivadora que resista, 
tornando as grandes respostas reflexas experimentadas na paixão se mostrem atenuadas 
em relações duradouras. 
 
 
Por fim, breves reflexões sobre o planejamento de intervenção 
Uma boa avaliação de um atendimento de casal deve ser voltada para determinar a 
possibilidade de retorno ou obtenção dos ganhos de cada um dos indivíduos “enquanto 
casal”, ou seja, deixar gradativamente de ser “eu” e (re)aprender a ser “nós”. 
As questões mais evidentes que devem ser abordadas são: a) Necessidades físicas e 
afetivas serão satisfeitas mutuamente? b) Os objetivos pessoais podem ser congruentes 
com a continuidade da vivência em grupo (casal)? 
Caso a avaliação aponte respostas afirmativas para ambas questões, devemos trabalhar 
para esse fim porque esta condição propiciará menor custo (afetivo e financeiro) pessoal 
e para a comunidade. 
Se forem identificadas impossibilidades (por exemplo, pelas seguintes razões): a) início 
de relacionamento por motivos absolutamente pessoais que não se mantêm; b) 
preponderância do controle do comportamento de um (ou dos dois) pelas contingências 
pessoais sobre o controle social (do casal); c) interferência séria sobre as expectativas 
pessoais “do outro”, que não afetariam os objetivos do casal, então deveríamos trabalhar 
para a separação. 
Esse trabalho poderia ser desenvolvido por meio do fortalecimento de repertórios 
pessoais e sociais de cada um dos membros do casal, inclusive, se for o caso, de busca 
por novos parceiros. Nesta nova situação, ensinar a estabelecer os acordos iniciais, 
agora com os “novos propósitos”. 
Reconhecer os obstáculos impostos pelas novas relações sociais é o nosso primeiro 
passo para o entendimento das relações de casal. Um dos nossos papéis pode ser a 
recuperação de comportamentos que possam evitar os horríveis sentimentos de estar 
sozinho estando junto a alguém... 
 
 
 
 
Referências 
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Edição especial da Revista L´Histoire/Seuil”. Tradução de Ana Maria Capovilla, 
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Edição especial da Revista L´Histoire/Seuil”. Tradução de Ana Maria Capovilla, 
Horácio Goulart e Suely Bastos. Porto Alegre: L&PM. Pp. 163-172. 
Tourinho, E.Z. (2009). Subjetividade e relações comportamentais. São Paulo: 
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Veyne, P. (1992). As núpcias do casal romano. Em “Amor e Sexualidade no Ocidente: 
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