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A relação de casal, frente aos novos padrões sociais Roberto Alves Banaco1,2 Yara Claro Nico1 e Roberta Kovac1 Resumo Longe de correr o risco de cair no jargão comum, temos que admitir que as relações sociais têm sofrido mudanças profundas e rápidas, sem que haja tempo para que os indivíduos consigam se adaptar a elas. Certamente essa adaptação afeta a vida também dos casais e de todos os comportamentos que acabam configurando a relação conjugal. Embora continuemos a buscar relações estáveis, duradouras e equilibradas, temos hoje pouca habilidade para resistirmos a frustrações inerentes a uma relação a dois, somos instados a procurar por fortes emoções (e, portanto, o equilíbrio é visto como uma situação “morna”, “insossa” e menos importante), bem como somos incentivados a termos nossas convicções pessoais acima de qualquer instância, resultando em uma inadequação às regras de um convívio a dois. O objetivo deste trabalho é analisar como esta condição foi se instaurando, e que caminhos a cultura aponta para que possamos enfrentar esta nova realidade social quando nos deparamos com problemas de casal e de família. As transformações sociais Existem muitas interpretações a respeito dos porquês as pessoas se juntam duas a duas. Algumas explicações são mitológicas (vide a explicação de Platão, 2011, pp 115-121, em “O Banquete”, que talvez seja a origem da metáfora de duas metades da laranja que se unem”), outras são poéticas (como a encontrada no poema “Eros e Psychê” de Fernando Pessoa, em 1934, que sugere que procuramos no “outro” a nós mesmos). Há também os estudos históricos, mais sociológicos e antropológicos, que indicam que nos juntamos por duas razões especiais: procriação, criação da prole e condições econômicas melhores. As relações de casal exigem que dois ajam com propósitos únicos e com partilha de condições e divisão de tarefas. Duas pessoas juntas teriam maior habilidade para enfrentar os desafios que a vida impõe (já que uma pode 1 Nucleo Paradigma de Análise do Comportamento. 2 Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. complementar as inabilidades de outra e vice-versa), melhor visão a respeito dos problemas, e portanto, maior força para enfrentar as dificuldades do dia-a-dia. Além disso, os estudiosos das relações conjugais apontam vantagens econômicas em os indivíduos poderem ter uma vida comum: o casamento, desde cedo na vida da humanidade era encarado como uma relação mais econômica que afetiva. Com efeito, isto é observado na Itália romana, entre 100 ac e 100 dc, na qual seis milhões de homens e mulheres eram livres e cidadãos. Estes podiam casar-se, com o propósito de criar efeitos de direitos: “os filhos destas núpcias são legítimos: eles tomam o nome de seu pai e continuam a linhagem. Na morte do pai, eles lhe sucedem na propriedade do patrimônio...” (Veyne, 1994, p. 140). Tais direitos eram vedados aos escravos. Na continuidade dessa história econômica, segundo Sot (1994), “... no decorrer dos dez primeiros séculos da história do cristianismo, a benção nupcial nunca foi considerada uma obrigação para os cristãos. Para todos, o casamento é primeiramente um compromisso civil e, como tal, tem origem nas diferentes tradições jurídicas que dividem o Ocidente. Para o Direito Romano [...] é o consentimento das duas partes que fundamenta o casamento. No direito germânico, distinguiam-se ao menos dois tipos de casamento: aquele que temos a tendência de chamar de ‘verdadeiro casamento’, o esposo recebendo do pai, ou da família, a tutela de sua mulher. Neste caso, havia de certo modo ‘compra em casamento’: o marido retribuía a transferência da tutela com o pagamento de um dote ao pai ou à família. Mas, paralelamente a este verdadeiro casamento, existia um outro tipo de união, também reconhecido pelo direito, no qual não havia transferência da tutela: o marido nada pagava por esta esposa de segunda categoria. Em virtude disto, ele poderia separar-se com facilidade”. (p. 165). A afetividade era resultante mais de uma convivência e da criação dos filhos do que de um amor romântico prévio, este mais afeito ao que se chamava de “amor-livre.. totalmente independente, sem o menor laço conjugal ou maternal, entregue a seus caprichos e paixões...” (Bottéro, 1992, pág. 28). Mais do que isso, o historiador J.L.Flandrin afirmava que “existiam dois amores bastante distintos, o amor fora do casamento, e o amor conjugal, sendo extremamente inconveniente misturar os gêneros”. (citado em Ariés, 1992 pág. 105) Do ponto de vista da análise do comportamento, analisam-se as relações conjugais a partir da concepção do comportamento social. Segundo Skinner (1953), o comportamento social é aquele em que duas ou mais pessoas se comportam coordenadamente uma em relação à outra ou juntas em relação a algum aspecto em comum do ambiente. Um sistema social se mantém enquanto há liberação de reforçadores de uma em relação à outra, ou do ambiente comum por estarem juntas. Ainda há reforçadores que não seriam obtidos a menos que haja o entrelaçamento dos comportamentos dos indivíduos. A relação de casal (e a relação que chamaríamos por “amor”) poderia ser definida, portanto, como uma relação na qual um indivíduo reforça alguns comportamentos do outro e vice-versa (Skinner, 1989), e que juntos, têm seus comportamentos coordenados para enfrentarem problemas comuns, com um sucesso que possivelmente não seria alcançado por cada indivíduo agindo isoladamente. Por conseguinte pode-se supor a dissolução do sistema pela suspensão de reforçadores quando um perde a capacidade de reforçar o comportamento do outro ou quando estar juntos faz com que outros reforçadores sejam perdidos (Skinner, 1953). Devido ao que foi apresentado até aqui, pode-se interpretar que a manutenção de qualquer sistema social (inclusive a relação de casal) deve ser explicada a partir do comportamento de cada um dos membros do “grupo”. Estes membros respondem sabidamente a contingências de três níveis de seleção: os dois primeiros, o filogenético e o ontogenético criam pressões e seleções que operam essencialmente sobre o comportamento do indivíduo, trazendo as consequências de seus atos apenas para si. A seleção cultural (o terceiro nível), opera sobre o comportamento do indivíduo de tal modo que seu comportamento opera no ambiente trazendo consequências tanto para si quanto para o grupo social. Muitas e muitas vezes, no entanto, as contingências em cada um desses níveis entram em conflito, ou seja, o mesmo comportamento pode trazer benefícios para o indivíduo nos níveis filo e ontogenéticos, mas podem trazer efeitos deletérios para outros indivíduos envolvidos em suas relações sociais. Por esta razão, a escolha em manter o ganho para o sistema social pode (e em geral o faz) causar prejuízos na obtenção de reforçadores individuais. A partir desta característica, a relação social é mantida enquanto os membros do sistema são mais controlados pelas contingências que operam sobre o grupo, com o propósito de mantê-lo coeso e entra em colapso quando um ou cada indivíduo do casal é mais controlado por contingências biológicas e pessoais, obtendo ganhos pessoais em função da perda do outro. Estas condições podem ser exemplificadas por a) “quebra” do contrato das relações de casal (implícito ou explícito), quando um dos membros do casal, que deveria partilhar por contrato todos os ganhos financeiros e econômicos, desvia dinheiro ou bens para uma economia própria ou de outras pessoas; b) riscos afetivos e financeiros (inclusive os de sucessão) observados em evidências de infidelidade com frutos (filhos “bastardos”), que dividem a atenção afetiva e dedicação do tempo por duas (ou mais) famílias, e dividem, por herança os bens acumulados pelo casal até então; c) riscos de saúdeprovenientes de sexo fora do casamento; d) etc. A formação do casal é, portanto, mais do que a junção de duas pessoas que precisam satisfazer suas necessidades pessoais. Por exemplo, um casal que se forma porque uma mulher se casa por atração sexual pelo homem, que por sua vez se casa com ela por motivos econômicos (por exemplo, ascensão na carreira), teria um sério prognóstico de ser fadado ao fracasso, já que a atração sexual que ela sente por ele arrefecerá com o tempo e devido ao envelhecimento dos dois, e uma vez obtida a vantagem econômica (a promoção profissional), a manutenção da relação teria um alto custo afetivo e sexual para esse homem. Muitas vezes, mudar temporariamente um comportamento em uma situação não é difícil: o mais difícil é mantê-lo nesta ultima forma se as contingências não o mantiverem. Por esta razão os ganhos efêmeros para cada membro do casal e que tenham fortes concorrentes individuais fora da relação são bastante perniciosos para a manutenção de dois indivíduos formando um casal. Um bom prognóstico para a constituição de um casal seria uma contingência na qual os dois membros beneficiam-se comumente por estarem juntos em vários aspectos: necessidades afetivas e físicas satisfeitas mutuamente, obtenção de propriedades mais rapidamente e/ou maiores e melhores; “reconhecimento” social, por formarem família, garantirem a sucessão de bens e direitos a filhos comuns, etc. Para que isto ocorra, os comportamentos de cada um dos indivíduos devem estar entrelaçados aos comportamentos do outro de forma a serem dirigidos à obtenção de ganhos para o bem comum. Os problemas decorrentes dos novos padrões sociais Elias (1990; 1994) e Tourinho (2009) descrevem como gradativamente as relações sociais econômicas foram transformando o conceito de subjetividade e, por conseguinte do indivíduo no decorrer da história da Humanidade. Até a Idade Média, as pessoas se comportavam socialmente de uma maneira em que o bem comum era o foco principal. Havia uma noção de pertencimento a um grupo social no qual os papéis e a importância do indivíduo dentro do grupo eram praticamente estáveis durante toda a vida de cada um, sendo desnecessárias tanto a competição interna a cada grupo bem como a reflexão a respeito dos ganhos individuais. Havia uma concepção ‘coletivizada’ de homem. A obtenção de interesses pessoais era punida e o planejamento individual de metas em longo prazo, desconhecido. No entanto, entre os séculos XI e XIII, a civilização assistiu uma grande mudança nas relações humanas, com as funções econômicas e atividades produtivas passando a ser monetarizadas. Com o fortalecimento das relações de mercado, a busca de lucros passou a crescer, e motivações materialistas tais como avareza, ganância e egoísmo, que até então eram criticadas e punidas passam a ser aceitas e até certo ponto incentivadas (segundo Elias inclusive por algumas religiões). A partir de então passa a haver a possibilidade de mobilidade social, que é considerada dependente do “esforço” individual: aquele que se esforça e tem competência, é capaz de ascender profissional e economicamente. A atuação profissional, antes pré- determinada, agora é resultado de uma escolha acertada em um mundo que oferece múltiplas possibilidades de escolha; não é considerado um bom comportamento “perder tempo” na formação acadêmica e profissional, ficando “atrasado!” aquele que precisa de um tempo maior do que a maioria para seus estudos. Aquele que precisa “repetir o ano letivo” fica marcado como menos capaz na corrida. Oportunidades também não podem ser perdidas na corrida pelo sucesso, pois elas são os degraus da ascensão social. Por sua vez, o Estado fornece condições para os indivíduos desvincularem-se de seus grupos de origem (Elias, 1994), concorrendo para uma grande impessoalidade nas relações sociais. Como resultante de toda essa transformação passou a haver a necessidade de coordenação, previsibilidade e controle dos comportamentos dos indivíduos visando a manutenção da civilidade. A espontaneidade nas relações é agora substituída por autocontrole, decorrente de uma cuidadosa auto-observação do próprio corpo, e da contenção de emoções, pensamentos e ações motoras não recomendados socialmente. Elias (1990) refere-se à criação de uma “parede invisível das emoções” entre os indivíduos, para que o controle sobre a sociedade seja melhor. Com isso, desenvolve-se gradativamente uma dicotomia entre a vida íntima (o que é sentido, resultado por vezes reflexo das contingências vividas) e o que pode e deve ser expresso. A expressão das emoções passa agora por um estrito controle operante, nem sempre correspondendo ao que passou a se chamar como “Eu interior”. Está em curso a formação de uma “personalidade esquizoide” (Perez-Alvarez, 2003). A partir da dicotomia entre a vida íntima versus o que pode ser expresso: os indivíduos nas sociedades contemporâneas se vêm como autônomos, isolados e diferentes dos demais. Paralelamente, as complexas redes de relações indiretas (os indivíduos se relacionam com cargos e não mais com pessoas) obscurecem a interdependência existente entre as funções exercidas por membros muito distantes de uma sociedade. O aumento da população (com a decorrente escassez de empregos) e a competividade profissional acirrada (exigente de habilidades cada vez mais especializadas) apresentam enquanto efeito social a adolescência como um período dilatado de formação profissional para um “preparo esmerado”. O jovem adulto permanece cada vez mais tempo na condição de “adolescente”, dependendo financeiramente da família, muitas vezes apartado das decisões e responsabilidades da vida pública, incapaz de decidir seu destino. As melhores condições de vida e sobrevivência são colocadas à sua disposição, muitas vezes sem que essa disponibilidade seja contingente a uma habilidade ou a emissão de comportamentos apropriados. Os efeitos dessa prática cultural são uma juventude que sofre com tédio, ócio, e várias manifestações do espectro da depressão (Skinner, 1987). Segundo Khel (2009), devido a essas características sociais, a adolescência passa a ser um período em que se observa o início de muitas patologias do comportamento. Resultado disto, os indivíduos vivem a plena maturidade sexual, mas são absolutamente incapazes para o casamento por não saberem e não poderem constituir uma nova célula econômica. Historicamente, os indivíduos que vivem essa longa crise da adolescência foram transformados em consumidores em potencial, ao serem beneficiados com toda a disponibilidade material para a sua formação em primeiro lugar, e posteriormente para sanar possíveis sensações de abandono, inutilidade e tristeza. O mundo capitalista se aproveitou rapidamente desta característica, transformando a juventude e a adolescência em ideal atual da cultura: todos querem ser jovens, bonitos e felizes a qualquer custo, a qualquer preço, a qualquer tempo, com o menor esforço. Khel interpreta que “Por um lado, a associação entre juventude e consumo favoreceu o florescimento de uma cultura adolescente altamente hedonista. O adolescente das últimas décadas do século XX deixou de ser a criança grande, desajeitada e inibida, de pele ruim e hábitos antissociais, para se transformar no modelo de beleza, liberdade e sensualidade para todas as outras faixas etárias. O adolescente pós moderno desfruta de todas as liberdades da vida adulta mas é poupado de quase todas as responsabilidades”.(2009) Os resultados dessa evolução social (lembre-se, evolução não é necessariamente uma melhora, é apenas uma mudança selecionada pelas transformações ambientais), são vistos por alguns autores como um crescente processo de individualização (Bauman, 2000; Pérez-Alvarez, 2003). Observa-se cada vez mais o desprendimento do indivíduo das redes de pertencimento social - incluindoa própria família. A “cultura do Eu” sobrepõe-se à “cultura do Nós”, com evidentes dificuldades no estabelecimento de relações conjugais e afetivas. O culto à liberdade individual (com o decorrente aumento do consumo: cada pessoa de uma família com seu carro, seu quarto, sua mobília, sua TV, seu computador, etc... o que podia ser coletivo agora é multiplicado para a preservação da “liberdade de escolha individual”) apresenta um mundo no qual cada indivíduo é “satisfeito” em suas necessidades, mas cada vez mais anedonico. Poucas atividades produzem prazer (Perez-Alvarez, 2003; Skinner, 1987). A sensação de liberdade é acompanhada por uma satisfação provisória: o desapego das relações sociais “traz em seu avesso a evidência do desamparo social em que se encontram os indivíduos” (Bauman, 2000). Pérez-Alvarez rotula essas manifestações comportamentais como “a personalidade esquizoide de nosso tempo”, que é por ele considerada mais um questão de fatores da vida contemporânea do que de fatores biológicos. Essa personalidade, segundo o autor, não é compreendida em termos de déficits comportamentais, mas sim como um repertório adaptativo às contingências sociais atuais. O indivíduo é reservado, solitário, indiferente, mas não é tímido, introvertido, ou fóbico social. Frieza, indiferença e distância emocional não são meras demonstrações de desinteresse pelo mundo e pelo outro: são uma “estratégia interpessoal” para o enfrentamento das contingências sociais atuais. Em nosso “mundo de negócios” é considerado forte aquele que se protege face à aversividade da vida por meio de uma sociabilidade superficial. Os indivíduos apresentam frieza emocional, afetividade distanciada ou embotada, demonstradas pela capacidade limitada para expressar sentimentos calorosos, ternos ou raiva para com os outros, indiferença aparente tanto a elogios quanto a críticas, a preferência quase invariável por atividades solitárias. Em casos extremos de isolamento social observam-se a falta de amigos íntimos ou de relacionamentos confidentes e mais gravemente a insensibilidade marcante para com normas e convenções sociais predominantes, como se observa em casos de transtorno de personalidade antissocial. O relacionamento com o “outro” ganha “ares mercantis”, prevalecendo de um lado a construção da relação por utilidade financeira, e por outro lado de desconfiança da ausência de sentimentos. Por essas razões, os relacionamentos afetivos tornam-se voláteis e fluidos: não há compromisso com a ideia de permanência e durabilidade. Com isso, a criação de uma relação conjugal na qual o indivíduo fique mais sob controle do “nós” do que do “eu” é bastante dificultada, se não impossibilitada. As questões monetárias se revelam em vários modelos de relações econômicas observadas nos “novos” casamentos. Anteriormente o dinheiro que entrava por meio de cada membro do casal era somado e partilhado por ambos (com extensões para os filhos, obviamente). As decisões sobre os gastos eram tomadas pelo “cabeça” do casal, ou também discutidas e compartilhadas entre os dois. Atualmente vêm-se vários modelos alternativos: alguns casais vivem como em uma república estudantil: cada qual tem suas coisas, suas despesas, seus ganhos, e as despesas comuns são divididas meio a meio. Outros casais assumem que (em geral) os homens são os responsáveis pelo ganho e manutenção das despesas do casal e as mulheres mesmo ganhando com seus trabalhos, não participam da responsabilidade da manutenção das condições de vida da família, destinando o seu dinheiro para suas “pequenas despesas”. Não é raro também serem encontrados casais nos quais a divisão se dá por tipos de contas: por exemplo, o homem troca os carros, abastece-os, paga o supermercado, a escola das crianças e a mulher paga a empregada, a despesa da padaria, seu cartão de crédito. Ainda há aqueles que levam vidas de solteiros, cada qual em suas casas, mas eles continuam afirmando que estão casados. Transformando em respostas... Comportamentos incentivados pelas práticas culturais atuais e outras questões de cunho comportamental... Em resumo, as grandes classes de respostas que a sociedade atual incentiva são: competir, controlar, procurar ser feliz (a qualquer preço e sempre, e a felicidade consiste em ser bonito, amado, saudável, ter a maior quantidade de informação e não sentir nenhum sentimento ruim). O “outro”, em geral, é mais visto como uma fonte de prazer ou conforto pronto para nos servir, e não como um sujeito, que também tem suas vontades e desejos a serem satisfeitos por nós. Quando o outro se torna sujeito, é visto como um competidor sempre, mesmo dentro do casamento. Uma certa paranoia de que os comportamentos do outro são feitos para atacar o indivíduo acaba sendo criada, e um grande solipsismo por fim é instaurado: “As regras não valem para mim e eu posso fazer tudo o que for necessário, o outro não pode”. Podemos tomar duas posturas a partir disto. Uma é observarmos o desenvolvimento desta cultura, que segue a passos largos para sua desintegração se continuar seguindo este caminho, e nosso papel se restringe, enquanto profissionais a meramente explicar o que está acontecendo. Mas, se quisermos modificar alguma coisa temos que intervir. Talvez seja necessária a recuperação social da “regra de ouro”, por meio da qual se aprende que não se deve fazer ao outro aquilo que não se quer que seja feito a si próprio. Isso talvez equilibre novamente os benefícios que cada indivíduo possa reconhecer em abrir mão dos ganhos para si em função do ganhar por pertencer a um “nós”... Pode parecer conservador, mas essa é a base da vida em grupo. E, sabidamente, os ganhos por viver em grupo são atávicos, mas ocorrem muito tardiamente na vida dos indivíduos atuais. Quanto aos casais, por todas essas razões já apresentadas, assistimos a algumas dificuldades decorrentes de toda esta transformação cultural. Em primeiro lugar, os conflitos nem sempre são abertos, porque cada membro do casal pode “esconder o jogo”, de maneira a obter maior controle sobre as decisões e sobre a obtenção de reforçadores. Isso faz com que as relações se tornem mais frágeis em longo prazo, e que aumente a desconfiança sobre a honestidade e disponibilidade do parceiro. Pelas mesmas razões, os conflitos podem estar indetectados por um dos membros do casal que passa a sofrer um dos tipos de traição: a afetiva, na qual ele deposita um esforço na manutenção do relacionamento que não é equivalente ao esforço do outro. Nesse sentido, os interesses e metas dos dois podem ser incompatíveis, ocorrendo inclusive interferências sobre as metas e expectativas pessoais de cada um em que ambos perdem. Por exemplo, uma mulher que pode receber uma oferta de melhor emprego em outra cidade enfrentar uma oposição do companheiro que alega a perda de laços afetivos com a família, mas a razão principal é que ele não quer mudar de cidade por ter uma amante. Outra dificuldade é ter que reconhecer que as pessoas (repertórios) mudam, assim como mudam os valores reforçadores de cada um para o outro. Ocorrem perdas nas habilidades, e transformações nas necessidades e nos interesses. Mais do que isso, uma das maiores fontes de reforço é a novidade. E esta se perde nos relacionamentos duradouros. Se os membros do casal não tiverem como valor principal a continuidade da vida comum, o casal será desfeito. Isto se dá por características da própria relação do organismo com o ambiente (mesmo o físico). Por exemplo, um estímulo discriminativo controla gradativamente menos o comportamento, se sua duração for estendida. Isto pode se aplicar a uma relação de longo termo, com o parceiro sinalizando cada vez menos o que deve ser feito. Mesmo o estímulo incondicionado perde sua capacidade de eliciar as respostas reflexas nas operações em que ele esteja envolvido e que durem muitotempo. A outra questão que concorre para isso, é que sem operação motivadora o reforçador perde momentaneamente sua função... ou seja, sem privação (e o dia-a-dia proporciona uma saciação do parceiro) não há operação motivadora que resista, tornando as grandes respostas reflexas experimentadas na paixão se mostrem atenuadas em relações duradouras. Por fim, breves reflexões sobre o planejamento de intervenção Uma boa avaliação de um atendimento de casal deve ser voltada para determinar a possibilidade de retorno ou obtenção dos ganhos de cada um dos indivíduos “enquanto casal”, ou seja, deixar gradativamente de ser “eu” e (re)aprender a ser “nós”. As questões mais evidentes que devem ser abordadas são: a) Necessidades físicas e afetivas serão satisfeitas mutuamente? b) Os objetivos pessoais podem ser congruentes com a continuidade da vivência em grupo (casal)? Caso a avaliação aponte respostas afirmativas para ambas questões, devemos trabalhar para esse fim porque esta condição propiciará menor custo (afetivo e financeiro) pessoal e para a comunidade. Se forem identificadas impossibilidades (por exemplo, pelas seguintes razões): a) início de relacionamento por motivos absolutamente pessoais que não se mantêm; b) preponderância do controle do comportamento de um (ou dos dois) pelas contingências pessoais sobre o controle social (do casal); c) interferência séria sobre as expectativas pessoais “do outro”, que não afetariam os objetivos do casal, então deveríamos trabalhar para a separação. Esse trabalho poderia ser desenvolvido por meio do fortalecimento de repertórios pessoais e sociais de cada um dos membros do casal, inclusive, se for o caso, de busca por novos parceiros. Nesta nova situação, ensinar a estabelecer os acordos iniciais, agora com os “novos propósitos”. Reconhecer os obstáculos impostos pelas novas relações sociais é o nosso primeiro passo para o entendimento das relações de casal. Um dos nossos papéis pode ser a recuperação de comportamentos que possam evitar os horríveis sentimentos de estar sozinho estando junto a alguém... Referências Ariés, P. (1992). A contracepção no passado. Em “Amor e Sexualidade no Ocidente: Edição especial da Revista L´Histoire/Seuil”. Tradução de Ana Maria Capovilla, Horácio Goulart e Suely Bastos. Porto Alegre: L&PM. Pp. 97-111. Bauman, Z. (2000). Modernidade líquida. Jorge Zahar. Rio de Janeiro. Bottéro, J. (1992). Tudo começou na Babilônia. Em “Amor e Sexualidade no Ocidente: Edição especial da Revista L´Histoire/Seuil”. Tradução de Ana Maria Capovilla, Horácio Goulart e Suely Bastos. Porto Alegre: L&PM. Pp. 15-32. Elias, N. (1990). O processo civilizador: Uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Publicado originalmente em 1939. Elias, N. (1994). A Sociedade dos Indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.Pessoa, F. (1934). Eros e Psychê. Presença, n°s 41-42, Coimbra, maio de 1934. Fincham, F.D. & Beach, S.R. (1999). 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