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A DOUTRINA DO MILÊNIO Por Mario Biolada Nesse artigo tratamos da doutrina do Milênio. Na Bíblia, essa palavra não aparece. Aparece, antes, a frase “mil anos”, Apocalipse 20:1-7. Esse período, literal ou não, é chamado de Milênio. O autor não tem o objetivo de apresentar uma opinião final acerca do assunto, mas sim apresentar as diferentes doutrinas teológicas que ensinam sobre o Milênio. Assim o leitor ávido de interesse pelo assunto poderá ter nesse artigo um esboço que sirva para um estudo mais aprofundado sobre o Milênio. CONTEXTO HISTÓRICO DAS DOUTRINAS DO MILÊNIO Berkhof (1949, p. 848-853) nos dá uma visão histórica para entendermos as diferentes escolas teológicas sobre o Milênio. Primeiro, apresenta as três principais doutrinas teológicas acerca do milênio: a)pré-milenaristas: que acreditam que o Senhor regressará à terra antes do Milênio; b) pós-milenaristas: que acreditam que o Senhor regressará à terra depois do Milênio; c) Amilenistas: que não creem que a Bíblia forneça esperanças de um milênio na terra. Em seguida ele traz uma visão histórica das duas principais escolas teológicas que dissertam sobre o Milênio: o pré-milenismo e o pós-milenismo. PRÉ-MILENISMO HISTÓRICO: Sobre o pré-milenismo, Berkhof começa dizendo que é uma crença tão antiga quanto a história do Cristianismo. Ele sustenta que os pais da Igreja, (como Irineu) acreditavam que o mundo teria 6 mil anos (que correspondem aos seis dias da criação). Após o advento do AntiCristo e a terrível tribulação, Cristo voltará à terra e reinará por mil anos (que corresponde ao sétimo dia da Criação). Na ordem dos eventos que devem ocorrer até a volta do Senhor Jesus à terra está o advento do AntiCristo e sua obra destrutiva, incluindo seu assentar-se no templo como se fosse o próprio Deus. Após isso Cristo voltará à terra e triunfará sobre seus inimigos. Virá acompanhado pela ressurreição física dos santos e estabelecerá o Reino de Deus sobre a terra por mil anos. Jerusalém será reconstruída, a terra dará seus frutos em rica abundância e a paz e justiça prevalecerão. Ao fim do Milênio ocorrerá o juízo final e em uma nova criação viverão os redimidos. A vinda do Senhor ao mundo será visível, pessoal e gloriosa (de forma alguma invisível). A Igreja enfrentará toda a Grande Tribulação. Israel se arrependerá de seus pecados contra Cristo (o AntiCristo os tentará eliminar por seu ódio contra o povo judeu, porém, eles não representam a Igreja de Cristo pois não creem nEle); O Reino de Deus ocorrerá em um mundo transformado; os gentios se voltam a Deus em grande número; a justiça e paz prevalecerá em todo o mundo por ocasião do reinado do Senhor Jesus. Depois do reino milenar ocorrerá o juízo final (quando o restante dos mortos, os descrentes, se levantam para juízo). Por fim, virá a criação de um novo céu e uma nova terra. Erickson (1997, p.512-513) nos lista algumas características do pensamento Pré-milenista histórico: a) ao contrário do que crê o Pós-Milenismo, esse período na história da terra não se instalará gradualmente mas sim de forma imediata (retorno do Senhor Jesus); b) Haverá paz mundial na terra; c) a harmonia universal não ficará restrita aos seres humanos, mas também aos animais; d)a natureza, que geme e suporta angústias, conforme Romanos 8:19-23, será libertada da maldição da queda; e) As forças destrutivas da natureza serão acalmadas; f) Os santos governarão junto com Cristo nesse milênio. Todas essas coisas acontecerão na terra por ocasião da volta do Senhor Jesus. Wiley (2009, p. 428) nos informa que o retorno pessoal de Jesus Cristo foi bem cedo associado à ideia de um milênio ou de um reinado de Cristo sobre a terra por um período de mil anos. Os que abraçaram esta doutrina foram conhecidos como quiliastas. Desde a morte dos apóstolos até ao tempo de Orígenes, o quiliasmo ou premilenismo foi a fé dominante na Igreja. Ele pondera que a Igreja aguardava um reino universal de justiça sobre a terra. Agostinho, no começo do século V, todavia, trouxe uma nova compreensão à Igreja: ela é o reino de Deus sobre a terra e, portanto, nenhum outro reino deveria ser aguardado. Ele também nos traz um panorama em que a visão dos quiliastas ganhava força à medida em que a Igreja, assolada pelo Império Romano, aguardava a justiça divina por ocasião de um reinado do Senhor na terra. Mais tarde, contudo, ganhando a proteção do Estado, as doutrinas do quiliasmo não receberam mais notoriedade até o tempo da Reforma, quando renasceu o interesse pelo assunto. A imagem abaixo apresenta a linha do tempo na visão do pré-milenismo histórico: PRÉ-MILENISMO ATUAL: Sobre o pré-milenismo atual, também chamado de pré-milenismo dispensacionalista, Berkhof começa dizendo que é um novo movimento iniciado no século XIX. Ele informa que os fundadores dessa doutrina são Kelly, Trotter e seus seguidores na Inglaterra e América. Em outros autores, temos também a informação que John Nelson Darby, pastor que veio a ser expulso da Igreja Presbiteriana, teria, no século XIX, passado a pregar a doutrina do arrebatamento secreto após aceitá-la como uma suposta visão dada pelo Espírito Santo a uma irmã da Igreja. A Bíblia de Scofield e a série "deixados para trás" além de musicas cristãs, popularizaram essa doutrina na América. Trata-se de um pré-milenismo casado com o dispensacionalismo, ou seja, uma vinda oculta do Senhor Jesus que retira da terra sua Igreja antes da Grande Tribulação. Essa nova forma de ver o pré-milenismo ensina três vindas do Senhor (dizem que é duas, mas uma vinda é oculta ao mundo e uma segunda visível a todos). Como o Senhor Jesus já veio uma vez ao mundo, totalizam-se três vindas. Segunda essa doutrina, Israel viveria eternamente na terra (visão de parte dos teólogos que defendem essa linha de teologia) e a Igreja viveria no céu. Com a vinda secreta de Cristo (não visível ao mundo) no início dos sete anos da Grande Tribulação, a Igreja se encontrará no céu com Ele (arrebatamento). Os santos que morreram em Cristo ressuscitarão. Inicia-se no céu as Bodas do Cordeiro. O Espírito Santo se retira da terra pelos sete anos da Grande Tribulação. Na primeira metade desses sete anos, O Evangelho continuará sendo pregado na terra, ao que parece, por meio de crentes que permaneceram dos Judeus ou por cristãos meramente nominais na ocasião do arrebatamento, e em grande escala se produzirão conversões. Na segunda metade desses sete anos, o AntiCristo perseguirá terrivelmente os Judeus. Em todo o mundo aqueles que não sejam Judeus e que não foram arrebatados por não serem cristãos também se converterão (alguns) e de igual forma serão terrivelmente perseguidos pelo AntiCristo. No final da Grande Tribulação Cristo voltará e derrotará o Anti Cristo. Satanás será preso por mil anos. Nesses mil anos ocorrerá o reino Milenar do Senhor Jesus. Os ressuscitados reinarão com Cristo, os Judeus serão os cidadãos naturais desse reino e os gentios adotarão a cidadania desse Reino. Cristo reinará em Jerusalém, no templo que será construído no monte Sião. Nesse tempo o mundo se converterá rapidamente. Ao fim do milênio Satanás (que fora preso no início) será solto e reunirá Gogue e Magogue contra Jerusalém, mas um fogo do céu destruirá os inimigos de Cristo. Após o julgamento do Grande Trono Branco haverá o início de novos ceús e nova terra. Erickson (1997, p.514-515) nos informa que o Pré-Milenismo atual, ou dispensacionalista, se distingue do Pré-Milenismo histórico basicamente em dois pontos: a) a separação que fazem entre Israel e a Igreja, ao ponto de entender que o Milênio será um tempo de tratamento de Deus exclusivamente com os Judeus. Portanto, o Milênio terá um caráter notavelmente Judaico; b) o arrebatamento secreto da Igreja antes da grande tribulação. A imagem abaixo apresenta a moderna linha do tempo na visão do pré- milenismo dispensacionalista: PRÉ-MILENISMO DISPENSACIONALISTA PROGRESSIVO: Existetambém uma variação do Dispensacionalismo conhecida como Dispensacionalismo Progressivo, e ganhou força principalmente nos últimos 20 anos. Essa visão é bem diferente do Dispensacionalismo Clássico e defende a Segunda Vinda de Cristo como sendo pós-tribulacional e o fato de Deus ter apenas um povo, ou seja, rejeita a completa distinção entre Israel e a Igreja feita pelo Dispensacionalismo Clássico. PÓS-MILENISMO: Erickson, (1997, p. 510) nos informa que Ticônio propôs essa teoria no século IV, a qual foi adotada por Agostinho. Ela teria ganho popularidade no fim do século XIX, com o avanço das missões mundiais, bem como dos progressos nas condições sociais. Erickson explica ainda que o Pós-Milenismo possui uma concepção otimista, ou seja, que a pregação do Evangelho será tão bem sucedida que o mundo se converterá e o Senhor voltará apenas ao fim de tal triunfo. Essa seria, em sua visão, a razão do ganho de popularidade dessa visão teológica no século XIX. Berkhof (1949, p. 857-861) nos informa que o pós milenismo diverge no pré-milenismo no que diz respeito à volta ou segunda vinda do Senhor. A vinda do Senhor, nessa visão teológica, seria imediatamente após o Milênio, ocasião em que viria para introduzir a ordem eterna das coisas. A diferença para o pré-milenismo (já que ambas as visões creem em um Milênio literal na terra) é que o Senhor voltará apenas ao fim do Milênio (por isso Pós- Milenismo), e portanto o Milênio na terra será um período ao fim da Grande Tribulação em que a religião será avivada de grande forma, a força de Cristo em Sua Igreja nunca teria sido vista de tal forma na terra e a Igreja triunfaria contra as forças do mal na terra. Após a apostasia e o terrível conflito da Grande Tribulação, o Espírito Santo reinaria com a Igreja de Cristo na terra como nunca ocorrera antes. Após esse Milênio, Cristo voltaria à terra e ocorreria então a ressurreição geral e o juízo final. Berkhof ainda informa que existem formas diferentes de pensamento dentro da visão pós-milenista. A diferença significativa seria a que o Milênio será realizado por meio da influência do Espírito Santo e a outra por meio do processo natural de evolução. O Dr. Leandro Lima (veja no YouTube "Apocalipse 20:1-6 - o Milênio" traz outra explanação acerca desse pensamento teológico e aponta uma teoria para seu declínio no século 21. Ele diz que a visão pós milenista acredita em uma melhora deste mundo como influência da Igreja na terra. Assim o mundo caminharia para um tempo de grande paz e prosperidade mesmo antes da volta do Senhor Jesus. A Igreja transforma a sociedade, nessa visão. A entrada no Milênio seria nesse tempo de grande paz e prosperidade nas nações como fruto da transformação causada pelo Evangelho. No fim do Milênio o Senhor Jesus voltará e estabelecerá o reino eterno, segundo essa doutrina. Essa doutrina, na visão do Dr. Leandro, está relacionada com a crença positivista do século 18 e 19 de uma melhora mundial trazida pelo crescimento da ciência (paz, prosperidade, segurança, etc). Com duas guerras mundiais e a guerra fria no século 20 e o avanço tecnológico que trouxe mais guerras ao invés de paz, o positivismo caiu em descrédito e ao mesmo tempo a doutrina do pós tribulacionismo quase desapareceu. Desde então, ganhou notariedade a visão Amilenista, pois diferencia-se da visão Pós-milenista ao acreditar que o milênio está ocorrendo atualmente no céu e não avançando na terra até que se complete com o reinado terreno do Senhor. A visão Amilenista não contempla um milênio na terra. Em resumo: A crença é em um milênio literal na terra; difere da crença do pre- milenismo no sentido em que o Senhor Jesus não volta antes para inaugurar o milênio; a pregação do Evangelho pela Igreja levará o mundo ao milênio e então o Senhor volta ao fim dele. Os pós milenistas até o século XVIII acreditavam em um milênio literal de mil anos. Os atuais em sua maioria afirmam que ele acontece na terra em todo o período da Igreja. A imagem abaixo é uma representação da teologia Pós-Tribulacionista: PRINCIPAIS TEORIAS SOBRE O MILÊNIO APÓS A REFORMA PROTESTANTE Wiley (2009, p. 428-429), nos apresenta algumas das principais teorias sobre o Milênio. Com o renascimento do interesse pelo assunto durante a Reforma Protestante, surgiram as duas principais teorias que passaram a analisar o assunto: literalistas e espiritualistas. As teorias literalistas abrangem principalmente as teorias premilenistas de todos os tipos. Podem ser agrupadas em dois tipos gerais. Primeiro, há aquelas que consideram a Igreja como completa e, portanto, identificam pelo que se refere ao tempo, a segunda vinda de Cristo com o arrebatamento e a revelação, a primeira ressurreição e a conflagração, situando todos estes eventos antes do milênio. Esta opinião é considerada comumente como a Teoria Adventista. Contudo, como mencionado nesse artigo, os Adventistas não creem em um Milênio com a presença da Igreja na terra. Segundo, há aquelas teorias premilenistas que consideram a Igreja como incompleta quando da segunda vinda do Senhor. Essas teorias separam o arrebatamento e a revelação por um lado, e a conflagração por outro, colocando o milênio entre esses dois pontos. Tem sido frequentemente chamada de "a teoria de Keswick". Segunda essa teoria, haveria uma continuidade de obra de salvação durante o milênio. As teorias espiritualistas do milênio são de dois tipos. Os católicos romanos sustentam uma doutrina que é essencialmente a mantida por Santo Agostinho, isto é, que o reino de Cristo se refere à época da Igreja e a todo o período de tempo entre o primeiro e o segundo advento de Cristo. O milênio identifica-se assim com toda a dispensação do Evangelho. O segundo tipo de teoria espiritualista, conhecido como pós-milenismo, é assim conhecido porque ensina que o segundo advento se segue e não antecede o milênio. Em resumo, aguardam um milênio futuro na terra, em contraposição à teoria católica onde esse milênio já acontece atualmente. GRANDE CRÍTICA À VISÃO DO MILÊNIO LITERAL NA TERRA A grande crítica que tem sido feita à crença de um milênio literal na terra é essa doutrina ser sustentada apenas pela passagem de Apocalipse 20:1-7. A crítica baseada na Hermenêutica é que não se pode construir uma doutrina bíblica com base em apenas um texto difícil da Bíblia sem explicar esse texto com outros textos que falam do mesmo assunto e são mais fáceis de serem compreendidos. Quais passagens os Amilenistas utilizam para mostrar que a visão de um milênio literal na terra contradiz outras passagens bíblicas? Mateus 13:37-43, 47-50; 24:29-31; 25:31-46; João 5:25-29; I Coríntios 15:22-26; Filipenses 3:20-21; I Tessalonicenses 4:15- 16; Apocalipse 20:11-15. O argumento é que essas profecias encerram o tempo da vida na terra com a ocasião da vinda do Senhor. Após a vinda do Senhor se cumpriria 2 Pedro 3:7 e não o início de um reinado do Senhor na terra no Milênio. Alguns escritores defendem que a visão Amilenista teria tido início em Agostinho que, vendo o aparente triunfo da Igreja sob Constantino (ateu convertido ao Cristianismo), defendeu que o diabo já estava amarrado (com seus poderes limitados). Por outro lado, Erickson (1997, p.510) nos informa que Agostinho adotou a visão do Pós Milenismo. Isso torna aceitável a explicação dos Amilenistas que dizem, ao serem taxados de possuírem uma crença relativamente nova, nunca vista na história da Igreja, que até meados do século XVIII eram vistos como Pós Milenistas, derivando dessa doutrina sua crença. AMILENISMO: Os Amilenistas não costumam gostar desse rótulo pois ele implica no fato de que eles não creem no Milênio. Eles afirmam que creem no milênio mas divergem do local onde esse milênio acontece nas demais visões. Se os pré milenistas e pós milenistas afirmam que o milênio ocorre na terra, os Amilenistas afirmam que ele ocorre no céu. Os Amilenistastambém são considerados uma visão muito nova na história da Igreja, não sendo citada pelos assim chamados "pais da Igreja". O que os Amilenistas frequentemente explicam é que até o século XVIII eles frequentemente eram confundidos com os pós milenistas, quando então assumiram uma posição diferente quanto ao local onde o Milênio acontece atualmente. Na visão dos Amilenistas, por acasião da morte e ressurreição do Senhor, Satanás foi preso ou expulso, Apocalipse 20;1-2. Com Satanás preso, Cristo reina por meio da sua Igreja por mil anos (número simbólico, 10 elevado ao cubo, representando um reinado perfeito). Esse reino do Senhor, atual e no céu, estaria representado em Colossenses 1:13-14.Mateus 28:18-20 também, nessa visão, representa esse reinado atual do Senhor. Quando o fim do mundo estiver se aproximando, para cumprir-se 2 Pedro 3:7 (eventos esses registrados no Apocalipse), Satanás vai ser solto da sua prisão e sairá a seduzir as nações, conforme Apocalipse 20:3,7-8. Segundo esse ensino, Mateus 24:4-14 dá exatamente essa cronologia, e o versículo 15 em diante mostra exatamente o princípio do fim (quando Satanás for solto de sua prisão na qual está desde que o Senhor Jesus foi assunto ao céu após a ressurreição). O Senhor Jesus voltará no fim da Grande Tribulação, vencerá a besta, o falso profeta e seus adoradores, Apocalipse 19:11-21, derrotará Satanás, ressuscitará os mortos e julgará todos os povos. Não haverá milênio na terra por ocasião da volta do Senhor Jesus. Os maus (injustos) serão lançados no fogo eterno, mas os justos (justificados pelo Senhor) entrarão na vida eterna, que é o novo céu e a nova terra, pois esta em que vivemos passará, Apocalipse 21:1. Essa tem sido a visão de Milênio difundida pelos Amilenistas. Erickson (1997, p.515-518), nos informa que autores como Agostinho, João Calvino e Benjamim B. Warfield, têm sido mencionados como precursores tanto Pós-Milenistas como Amilenistas. A confusão, ele explica, se dá pelo fato de que as duas concepções têm em comum que os mil anos de Apocalipse 20 devem ser entendida de forma simbólica. Outra razão, ele aponta, é que o milênio em ambas as concepções é a era da Igreja. Onde estaria a diferença? Pós-milenistas, ao contrário de Amilenistas, sustentam que o milênio abrange um reinado terreno de Cristo. A imagem abaixo sugere essa linha do tempo na visão Amilenista: Como poderia o Milênio espiritual do Senhor estar acontecendo agora, na presente era da Igreja, no céu, e ao mesmo tempo estar se cumprindo Apocalipse 20:3? Satanás não está enganando as nações hoje? McDowell, (1976, p. 154) cita a passagem de Mateus 12:26-28 para mostrar que o Senhor é o homem mais forte que o valente, que é Satanás. Ele escreve que o gênero de “amarrar” a Satanás no ministério terreno do Senhor Jesus é o mesmo utilizado para prisão de Satanás anunciado por João no Apocalipse. Ao expelir demônios, o Senhor “amarrava” a Satanás, prefigurando assim a prisão do mesmo que ocorreria quando ele sofresse completa derrota às mãos do Cristo exaltado, na tentativa de destruir o reinado de Deus em Cristo por intermédio da besta da Roma Imperial. O propósito dessa prisão, na opinião do autor, é impedir que Satanás engane as nações até o fim dos mil anos (não literais). Ainda segundo o autor, essa figura faz-nos voltar ao símbolo da sexta taça da ira de Deus em Apocalipse 16:12-16. Quando se derramou a sexta taça, três espíritos imundos procederam da boca do dragão, da besta e do falso profeta. Esses espíritos são, segundo o autor, espíritos de demônios, operadores de sinais, e se dirigem aos reis do mundo inteiro com o fim de ajuntá-los para a peleja do grande dia do Deus todo Poderoso. O autor conclui que no Apocalipse vemos os reis da terra serem incitados a resistir a Deus e a lutar contra Cristo em uma batalha: mas perderam essa batalha. O que seria então, nessa visão, Satanás estar preso? O autor conclui que essa prisão de Satanás é uma limitação de seu poder. Essa visão pode ser uma explicação à passagem de 2 Tessalonicenses 2:7, interpretada pelos pré-tribulacionistas como a saída do Espírito Santo da terra junto com a Igreja no arrebatamento. Se o Milênio já está ocorrendo na era atual da Igreja, e se o Senhor já ressuscitou há quase dois mil anos, como pode estar correto o número de mil anos de Apocalipse 20? BARCLAY (1975, p. 443) nos dá uma teoria explicativa: Em Salmos 50:10 se diz que “Pois meus são todos os animais do bosque, e os gados sobre milhares de outeiros” NVI. Em Jó 9:3: “Ainda que quisesse discutir com ele, não conseguiria argumentar nem uma vez em mil”, NVI. Evidentemente, afirma o autor, mil se usa para chegar a uma quantidade muito alta, mas não literal. Abaixo você encontra uma ilustração acerca dessas diferentes visões do Milênio: pré milenismo histórico, pré milenismo atual, pós milenismo e Amilenismo: O MILÊNIO É UMA DOUTRINA APENAS DO APOCALIPSE? Se assim afirma os Amilenistas, por outro lado, Pré-Milenistas e Pós-Milenistas (que basicamente diferem apenas quanto ao tempo da vinda do Senhor e forma de seu reinado na terra) afirmam que o Velho Testamento tem profecias acerca do reinado literal do Senhor na terra. Abaixo estão algumas profecias do Velho Testamento em que os Milenistas entendem como literais (reinado milenar do Senhor na terra) e às quais os Amilenistas dão significado espiritual (não literal na terra). Referência Visão Milenista Visão Amilenista Zacarias 14 Reinado do Senhor em Jerusalém O Senhor reina por meio de Sua Igreja na terra. Dn.7:18; Ap.5:10 Reinado na terra Reinado no céu Is.32:1; Sl.66:3;81:15 Haverá justiça na terra Resultado da vitória do Senhor na cruz Is.2:4;9:6,7 Haverá paz na terra Haverá paz no céu Is.35:1,2;51:3; Am.9:13 Haverá prosperidade na terra Consolo no céu Isaías 65:17-25 Vida longa na terra no governo milenar; animais mansos; maldição ao pecado apenas aos cem anos (no céu não há pecado). O texto também fala de morte (não pode ser a Nova Jerusalém). Simbologia para a vida no céu, onde um menino morrer aos 100 anos indica uma vida muito longa (eterna). O contexto fala de novos céus e nova terra exatamente como o Apocalipse. Zacarias 8:23 No Milênio pessoas pedirão aos Judeus que os levem ao Rei em Jerusalém. A Igreja Cristã teve início na pregação do Evangelho por Judeus. Como “10” simboliza a perfeição, o Evangelho chegou a todas as nações tendo seu início pregado por Judeus. Zacarias 9:10 Domínio do Senhor na terra, em Jerusalém (reino Milenar na terra) A Palavra de Deus traz a paz, seu domínio não tem fronteiras (mar a mar simboliza isso). Zacarias 14:16-17 Entendem como acontecimento real no reinado Milenar do Senhor com sede em Jerusalém. Esta profecia é cumprida no Novo Testamento quando pessoas entram no Reino de Deus. Nações nos dias de hoje que não adoram a Deus acabam tendo a chuva retida. Isaías 11:1-11 A paz e justiça que ocorrerão no reino Milenar do Senhor com sede em Jerusalém O rei nasce primeiro, v.1, e então reúne um povo para si. A paz e justiça será restaurada na Nova Jerusalém, não na terra. ALGUMA OPINIÃO DIFERENTE ACERCA DO MILÊNIO ALÉM DAS JÁ VISTAS? BULLÓN, (1999, p.158-159) não deixa muito clara sua posição acerca dessas principais escolas de Teologia acerca do Milênio (apenas defende o arrebatamento e a primeira ressurreição por ocasião da vinda do Senhor na p. 157 de seu mencionado livro). Contudo, tem uma posição diferente. Quem seria aqueles que Satanás reúne para a batalha descrita em Apocalipse 20:8-9? Em sua visão, são ímpios ressuscitados (os que morreram sem Cristo) acompanhados de Satanás por ocasião de sua soltura. Segundo Cohen (2005, p. 285) a visão Adventista do Milênio praticamente é isolada das demais compreensões denominacionais. Segundo esse entendimento, Satanás ficará mil anos em um mundovasto pois todos os justos já estarão no céu e todos os maus mortos. QUADRO COMPARATIVO DAS DIFERENÇAS TEOLÓGICAS: Segunda Vinda de Cristo: Amilenismo: A segunda vinda de Cristo é um evento único e visível a todos, ou seja, não existe o conceito de arrebatamento secreto. No Amilenismo a Segunda Vinda de Cristo em glória e o arrebatamento é uma coisa só. Saiba como será o arrebatamento da Igreja. Pré-Milenismo Histórico: A Segunda Vinda de Cristo e o arrebatamento são o mesmo evento, tal como no Amilenismo. Pós-Milenismo: Igual às visões anteriores, Cristo volta de forma visível e em glória em um único evento. Dispensacionalismo Clássico: A segunda vinda de Cristo será dividida em duas fases, sendo a primeira para arrebatar secretamente a igreja, e a segunda de forma visível e em glória após os sete anos de grande tribulação. Ressurreição dos Mortos: Amilenismo: Ressurreição geral de salvos e ímpios na segunda vinda de Cristo. Os salvos para reinarem com Deus e os ímpios para condenação eterna. Pós-Milenismo: Da mesma forma como no Amilenismo, salvos e ímpios ressuscitaram de forma geral na Segunda Vinda de Cristo. Pré-Milenismo Histórico: Apenas os salvos ressuscitarão na segunda vinda de Cristo para reinarem com Ele no Milênio, enquanto os ímpios só ressuscitarão no final do milênio para a condenação eterna. Dispensacionalismo Clássico: O Dispensacionalismo exige três ressurreições: A primeira dos salvos no arrebatamento da igreja; A segunda dos judeus após os sete anos de grande tribulação (alguns também defendem que os salvos do período da grande tribulação também ressuscitarão nesse momento, enquanto outros acreditam que somente após o milênio eles ressuscitarão); A terceira dos ímpios após o milênio. O Anticristo: Amilenismo: Muitos anticristos se levantaram ao longo da história, porém haverá um último indivíduo que será o Anticristo escatológico que surgirá no período de grande tribulação, e regerá um sistema mundial que será contra a Igreja de Cristo. Alguns acreditam apenas em um “sistema anticristo” (governo) e não necessariamente em um indivíduo específico. Pré-Milenismo Histórico: Um indivíduo específico que será o inimigo da Igreja no período de grande tribulação. Pós-Milenismo: O anticristo é qualquer pessoa que persegue e se opõem ao crescimento do domínio da Igreja na terra. Dispensacionalismo Clássico: Um indivíduo que surgirá no período da grande tribulação, que aterrorizará o mundo e perseguirá aos que não negarem o nome de Jesus, porém ele não fará nada contra a Igreja que já foi arrebatada. A Grande Tribulação: Amilenismo: Somente após o período de grande tribulação é que ocorrerá a segunda vinda de Cristo, ou seja, a Igreja passará pela grande tribulação. Pré-Milenismo Histórico: A Igreja passará pela grande tribulação. Pós-Milenismo: A tribulação é experimentada na presente era. Existem Pós- Milenistas que acreditam em um período final de grande apostasia e tribulação antecedendo a volta de Cristo, e existem outros que defendem que quando Cristo voltar o mundo estará em plena paz e prosperidade. Isso acontece devido a visão sobre o milênio que essa corrente escatológica defende. Dispensacionalismo Clássico: A Igreja será arrebatada antes da grande tribulação, ou seja, não passará por ela. O Julgamento: Amilenismo: Julgamento geral (juízo final) de todas as pessoas na segunda vinda de Cristo. Pré-Milenismo Histórico: Julgamento na segunda vinda de Cristo e também após o milênio. Pós-Milenismo: Julgamento geral de todas as pessoas na segunda vinda de Cristo. Dispensacionalismo Clássico: Três julgamentos sendo eles: Julgamento das obras dos salvos no arrebatamento; Julgamento de judeus e de alguns gentios no final da grande tribulação; Julgamento geral dos ímpios após o milênio. Igreja e Israel: Amilenismo: A Igreja é o verdadeiro Israel de Deus, e Deus tem apenas um só povo. Pré-Milenismo Histórico: A Igreja é o Israel Espiritual, ou seja, o novo Israel no Novo Testamento, porém Deus tratará com Israel separadamente concernente algumas promessas no milênio. Pós-Milenismo: A Igreja é o novo Israel. Dispensacionalismo Clássico: Para Deus, Israel e Igreja são povos completamente diferentes. A Igreja é um “parêntese” no plano Deus para Israel que foi suspenso, mas será retomado após o arrebatamento secreto da Igreja. Milênio: Amilenismo: O milênio não é um período literal de mil anos. No Amilenismo o milênio é espiritual onde os salvo reinam com Cristo no céu e sobre a terra, e começou na primeira vinda de Cristo. Pré-Milenismo Histórico: É reconhecido o Reino de Cristo na presente era com a Igreja, porém haverá também um reino milenar e literal no futuro após a segunda vinda de Cristo, com Jesus reinando sobre as nações do mundo (talvez não necessariamente o período seja de mil anos). Pós-Milenismo: Conforme o Evangelho for sendo pregado será iniciado o milênio, onde o mundo inteiro será evangelizado e a maioria das pessoas serão convertidas. A cristianismo será o padrão e não a exceção, ou seja, a plantação será de trigo e não de joio (a referência a Parábola de Jesus é usada para defender esse conceito). Dispensacionalismo Clássico: Milênio futuro e literal após a segunda fase da segunda vinda de Cristo. REFERÊNCIAS: BARCLAY, William. Apocalipsis, Volumen 16.Título do original em inglês: The revelation of John. Argentina: Associación Editorial La Aurora, 1975. BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Traduccion del Pbro. Felipe Delgado Cortés de la cuarta edicion Inglesa revisada y aumentada. Grand Rapids, Michigan, 1949. BÍBLIA DE ESTUDO DA REFORMA, Sociedade Bíblica do Brasil, 2017. ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática. Tradução Lucy Yamakami. São Paulo: Vida Nova, 1997. Leandro Lima, Youtube. Apocalipse 20:1-6 - o Milênio. MCDOWELL, Edward A. A soberania de Deus na História; a mensagem e significado do Apocalipse. 2ª edição. Tradução de Robert G. Bratcher e Werner Kaschel. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações (JUERP), 1976. WILEY, H. Orton; Paul T. Culbertson. Introdução à Teologia Cristã. Tradução; Gary W. Bunch - 2. Ed. 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