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A Hora de Deus (Amedeo Cencini)

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A Hora de Deus 
 
1 
Amedeo Cencini 
 
 
 
 
A HORA DE DEUS 
 
A CRISE 
NA VIDA CRISTÃ 
 
 
Prefácio de 
Dom Gianfranco A. Gardin 
 
 
 
 
 
 
 
 
EDB 
EDIÇÕES DEHONIANO BOLONHA 
A Hora de Deus 
 
2 
A HORA DE DEUS «Crise» é uma palavra que não necessita ser explicada. Se mais é essa 
que explica. Está se tornando uma forma de chave de leitura da atual identidade da vida 
sacerdotal e religiosa. 
A crise é um componente normal da vida humana, acompanha-a como amigo que 
incomoda, rompe certos equilíbrios e as vezes é também devastadora: é um amigo crítico. É 
aquilo que determina a passagem de uma fase a outra da vida. A crise afeta a todos: qualquer 
homem e mulher como os fundadores de comunidades; todos são chamados a ter atenção com a 
experiência de um deserto que inesperadamente invade o próprio ser em diferentes maneiras. 
Não é o clássico acidente de percurso que afeta só a alguns, os mais fracos e pecadores. 
Falaremos referindo-nos a realidade do mundo que crer, e as suas expressões peculiares 
que são: vida sacerdotal e religiosa. Para ajudar a viver a crise, para que se torne ocasião de 
crescimento, a nível humano e como passagem do Eterno na vida do crente: como hora de Deus. 
 
 
AMEDEO CENCINI é sacerdote e religioso canossiano, professor de pastoral vocacional e 
formação ao discernimento na Universidade Salesiana, além de psicologia aplicada ao curso de 
formadores na mesma universidade e na Universidade Gregoriana. Ensina ainda no curso de 
teologia e direito organizado pela Congregação para a vida consagrada. Desde 1995 é consultor da 
Congregação para a vida consagrada e as sociedades de vida apostólica. 
Nas EDB1 dirige, com A. Manenti, a coleção Psicologia e formação. Já publicou: Vocazioni, 
dalla nostalgia alla profezia. L’animazione vocazionale alla prova del rinnovamento, EDB 1992; 
Amarás o Senhor teu Deus. Psicologia do encontro com Deus, EDB 132009; Psicologia e formação. 
Estruturas e dinamismos, em colaboração com A. Manenti, EDB 122003; Viver reconciliados. 
Aspectos psicológicos, EDB 142009; Vita consacrata.Itinerario formativo lungo la via de Emmaus, 
San Paolo 21994; a trilogia Por amor, EDB 42001; Com amor, EDB 22004; No amor, EDB 42006; Os 
sentimentos do Filho. O caminho formativo na vocação presbiteral e consagrada, EDB 52005; 
Fraternidade a caminho. Rumo à alteridade, EDB 22002; Dalla relazione alla condivisione. Verso il 
futuro..., EDB 2002; Virgindade e celibato hoje. Para uma sexualidade pascal, EDB 22006. Todos 
estes volumes foram traduzidos em diversos idiomas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
1 Edições Dehoniano Bolonha 
 
A Hora de Deus 
 
3 
Prefácio 
Para os que tem sobre os ombros algumas décadas de vida religiosa ou presbiteral a 
palavra crise lembra provavelmente alguma coisa obscura, um tipo de vírus danoso que se 
esconde nas dobras do espírito, em suma uma desgraça de esconjurar. Nos ambientes formativos 
de um tempo, um condiscípulo que manifestava indifernça ou desempenho no âmbito, por 
exemplo, da oração, ou do estudo ou da disciplina, levantava a pergunta, sussurrando baixinho: 
“talvez ele está em crises?”. 
De fato, o modelo que se silhueta diante de cada formando ou formanda, como 
referimento luminoso e decisivo (aquele que Cencini chama de o “eu ideal”), havia os traços de 
uma figura de fé sem dúvidas, de vocação sem incertezas, de obediência sem hesitações, de 
pureza sem fragilidade, de oração sem distrações, de disciplina sem infrações. Porém 
sucessivamente se começou a perguntar se, por faltas de privações, não permaneceriam, enfim, 
privados de uma pessoa “normal”, e se o formando perfeito não se reduzia a uma espécie de 
simulacro sem vida, sem história, sem consciência, sem coração: enfim sem humanidade. 
 É verdade, por outro lado, que o pedido, muitas vezes confuso e pressionado, de 
“humanização”, de “ normalidade”, de realismo, que nasceu por causa de reações aos modelos 
incontaminados apenas citados, pode ter dado a impressão de reivindicações decompostas, ou 
concessões ao relaxamento, ao individualismo, ao secularismo, ao modismo e superficialismo; 
como efeito de um desorientamento difundido. O pedido de transfusões abundantes de sangue 
“humano” nas artérias “angélica” do perfeito seminarista ou religioso(a), pode haver levantado 
excessivamente o limite de atenção sobre o que entrava maciçamente no organismo dos 
organismos dos institutos ou das comunidades ou dos singulares indivíduos. Quase dizendo: desde 
que tenha na etiqueta daquilo que se ingere o termo “humano” tudo pode ser introduzido. Por 
esta razão os pedidos não param e nós nos perguntamos: talvez está bom, pelo contrário, é 
melhor, uma fé duvidosa, uma oração um pouco às cegas, meio no escuro, uma obediência que 
coloca qualquer razoável resistência, uma castidade não preservada da fragilidade, etc? 
 O presente volume do padre Amedeo Cencini ajuda a clarear esta situação, que descrevi 
com cores fortes, quase exagerando; uma situação não desprovida de incertezas e de 
interrogativas muitas vezes difíceis: que encontram portanto neste texto respostas de grande 
equilíbrio e de experiente realismo. 
Um tal realismo faz reconhecer que um percurso formativo (bem entendido seja de 
formação inicial ou permanente) absolutamente linear e fluente, que procede olimpicamente 
isento de obstáculos de várias naturezas, não somente é impensável, mas mesmo que houvesse 
um assim, deveríamos considerar suspeito. Até fazer concluir que quem não experimentasse 
nunca uma crise seria como quem leva dentro de si uma doença do qual simplesmente não 
conhece os sintomas , e portanto mais sutis que um mal com manifestações evidentes. Por isso - 
adverte Cencini - se é problemático o fato de que se dê muitas crises, não é menos problemático 
o fato que existiriam muitos presbíteros e consagrados/as que deveriam estar nas crises e não 
estam. 
Ele escreve: 
Tem alguns que dizem que o verdadeiro problema da vida religiosa ou sacerdotal não são 
as situações críticas - objetivamente problemáticas - dos padres, frades e freiras, quanto aquela 
A Hora de Deus 
 
4 
grande quantidade de pessoas “consagradas” que vivem subjetivamente tranquila, impassivas e 
impertubavéis, situações objetivamente críticas, ou gente sem crises quando na verdade deveríam 
estar em crise. 
 E em outro lugar, a propósito deste “exército de padres e consagrados que... não 
estiveram nunca, não estam e nunca estarão em crises, observa provocatoriamente que “seria 
uma bom para eles mesmos e para quem tem a sorte de viver junto deles, que aceitassem estar 
em crise, em uma bela crise, pelo menos uma vez!”. 
 E então, aplausos para crise? Abençoadas crises? A resposta - é aquela usual diante das 
perguntas complexas - depende! Depende? Eis que, Cencini nos explica precisamente o que 
provoca em nós uma crise, se compreende já pelo título do livro: “A hora de Deus”. Ele explica 
através de um percurso amplo e penetrante. Nos oferece uma análise aprofundada e bem 
articulada, minunciosa no precisar e confirmar princípios irrenunciáveis e decisivos, e ao mesmo 
tempo, consciente da variedade e complexidade dos possíveis acontecimentos onde não a crise, 
mas as infinitas e diversas crises que podem tomar forma nas pessoas. 
 Após, necessárias precisões terminológicas, na primeira parte do volume a realidade da 
crise é descrita em seu lado objetivo (aquilo que objetivamente põe o sujeito em dificuldade) e o 
outro lado subjetivo, (aquilo que a pessoa experimenta e o grau de consciência do seu problema). 
Interessante é a descrição de uma ampla tipologia de crises, com seus possíveis efeitos sobre o 
sujeito, e as modalidades com as quais elas precisam ser abordadadas ou o tipo de “luta” que elas 
exigem. 
 Uma segunda parte da obra entra nos conteúdos das crises, tendo em vista grandes áreas 
na qual estas solidamente sãoencontradas: aquela da identidade, aquela da afetividade-
sexualidade, aquela da vocação e de sua fidelidade. Aqui a atenção para com a realidade torna-se 
posteriormente muito próxima, pois mediante a uma série de exemplificações (tirada de sua vasta 
experiência adquirida “neste campo” pelo autor). E assim ao leitor é oferecido uma considerável 
riqueza de ensinamentos para a vida, que são ensinamentos espirituais para a vida quotidiana do 
presbítero ou da pessoa consagrada. 
 Na terceira parte são abordadas algumas maneiras para aproximar-se adequadamente às 
crises e para superá-las: se trata então de reconhecê-las e precavê-las, sem negá-las e sem 
pretender evitá-las e ser capaz de passar por elas com êxito positivo. Aqui as indicações são 
particularmente preciosas. 
 Gostaria de apontar alguns entre os vários motivos para os quais se recomenda a leitura do 
texto e não somente as eventuais “vitímas” ou “beneficiários” (segundo os êxitos) da crise mas 
também as pessoas que tem o dever de formar, guiar ou acompanhar espiritualmente ou que 
oferecem qualquer ajuda àqueles que experimentam a crise. 
Se deve reconhecer – e este é um primeiro prestígio desta obra – que o livro de Cencini 
representa uma ajuda preciosa na prática de uma verdadeira formação permanente. Também 
aqueles que não estão atravessando o traiçoeiro mar das crises pode encontrar aqui ferramentas 
muito utéis para uma leitura interior de si mesmo, para gerenciar uma normalidade que não é – 
A Hora de Deus 
 
5 
para os “normais” – desprovida de incertezas, zonas cinzentas, mesmo as situações apenas 
inquietantes. Qualquer um que lêia estas páginas será difícil não encontrar ali qualquer coisa de 
si, tirando delas luzes para a quotidiana condução de uma existência que seja animada por um 
projeto de vida cristã, sacerdotal, religiosa – definido e exigente. 
Este é um ponto, sobre o qual vale a pena insistir. Todo o texto pressupõe uma concepção 
séria e ampla da formação permanente. Se esta é “ainda entendida” – aponta Cencini – de modo 
redutivo e superficial como se fosse simplesmente alguns cursos de atualização que fazemos 
ocasionalmente, apenas para manter o nível de tensão interna do presbítero ou para que não 
perca o último trem do renovamento teológico, e esteja atualizado, então o discurso sobre crise 
permanece circunscrito em momentos ou circunstâncias particulares, ou em casos difíceis quando 
não patológicos. Porém se nos colocarmos na prospectiva da vida como chamado a ser aquilo que 
um Outro nos revelou, provocando assim uma tensão constante em direção de uma identidade 
nunca completamente bem compreendida e assumida, então afirma Cencini, “a crise é 
componente normal e positivo de um processo de formação permanente”. O qual se compõe de 
“dois elementos estreitamente conexos entre eles. De um lado é a consciência da diferença, 
dentro de si, entre ideal e realidade que durante toda a vida será um constante caminho 
formativo; enquanto, por outro são apenas aqueles que levam a sério tal caminho (formação 
permanente) que poderão perceber as lacunas e fazer as escolhas consequentes para preenchê-
las. 
Calocada nesta visão da formação permanente a crise impele então para aquele “novo” 
(novas verdades, nova escuta do evangelho, assumir novamente a própria vocação, novos desafios 
acolhido pela própria história ou pela comunidade com qual se compartilha o caminho...) que 
coloca em discussão aquilo que era (muito) tranquilo, óbvio repetitivo, indiscutível. A crise torna-
se deste modo o “espinho na carne” de uma fidelidade que a crise mesma a revela como frágil, 
não resistente, ou que é reduzida a pura repetição e que perdeu seu dinamismo; e portanto, ao 
fim, não é mais verdadeira fidelidade uma vez que não se permanece fiel, porém tenta tornar-se 
fiel continuamente e o Deus de ontem – observa Cencini – pode passar ser idolo de hoje. 
 Entendida deste modo, a formação permanente faz com que o futuro seja sempre o fruto 
de um trabalho consumado no presente, que frequentemente adiquire o caráter de “crises”, do 
juízo ou do momento “descriminante”, do cume a ser superado com dificuldade porém que 
conduz a novos panoramas e pois a novos caminhos, talvez ainda íngrimes ou terrenos 
acidentados: porém estes permanceriam desconhecidos e inacessíveis sem o superamento 
daquela passagem decisiva. 
É que todo o discurso de Cencini – e aqui está outro mérito da obra – representa uma 
forte ajuda a superar a concepção da crise como inimiga ameaçadora ou como noite assustadora, 
fazendo perceber que ao contrário é amiga estimulante mas ao mesmo tempo incômoda, possível 
início do nascimento de uma nova luz que vai permitir ver e saborear coisas novas. 
Isto não significa que a crise seja boa em si. A sua positividade é somente possível, não 
automática: não é suficiente que a crise aconteça. A história de tantas pessoas, por fim, dizem que 
A Hora de Deus 
 
6 
as crises os levaram a fazer escolhas erradas, ou mostrando vias de regressões, de involuções e 
não de crescimento. 
 A preocupação do autor que percorre todo o livro é aquela de indicar as condições porque 
a crise torna-se verdadeiro tempo de graça, caminho saudável . A este respeito Cencini insiste em 
um conceito que aprecia muito, já citado em outros livros escritos por ele : aquele conceito de 
docibilitas. Se trata daquela disponibilidade a aprender, a “deixar-se ensinar” por alguém ou por 
alguma coisa, que é atitude fundamental e a “condicio sine qua” não da mesma forma 
permanente. A docibilitas consente a crise de colocarnos em discussão e de transformar-se em 
ocasião para reposicionarmos diante da nossa identidade: o que somos e o que deveríamos ser. 
Graças a docibilitas a crise se torna um campainha do alarme que toca, questões candentes das 
quais é necessário dar respostas que não sejam iludentes; nos abre a frente um dilema no qual se 
deve decidir qual estrada tomar. 
 Podemos aprender com o grande livro da vida e da experiência, mesmo das experiências 
em si negativas. Cencini nos leva a entender que no momento de crise, quando são colocadas 
certas dimensões decisivas da pessoa, a vida em si, se encontra discípulos atentos, “afáveis”, que 
transforma em sabedoria. Acontece então não somente porque a história em geral é mestra da 
vida (historia magistra vitae como no velho ditado), mas que a minha história seja mestra da 
minha vida. 
 Tudo isto tem um preço. De fato, as coisas de valor – como todos sabem – tem 
normalmente um preço elevado. E isto é explícito por Cencini sobretudo no capítulo, muito 
interessante, em que a experiência de crise é descrita como o momento de luta. Se trata, no 
fundo, de uma dimensão importante da vida espiritual cristã, talvez muito esquecida. O antigo 
tema do “combate espiritual”, estimado pela espiritualidade monástica dos primeiros séculos, que 
é recuperada com atenção para compreender juntos os aspectos psicológicos e espirituais, não 
facilmente destinguivél. 
Sem luta se cai na inércia ou no vício insidioso ao mal. Pouco a pouco a maneira de viver, 
perde o poder de quem luta, cai em uma passiva adequação as situações, conduzindo não mais a 
forma a vida segundo aquilo que se pensa, mas a pensar naquilo que se vive. Porém seja a 
assumindo em profundidade as convicções vitais sempre carente de ser reassumidas, seja 
conformando a vida a tais convicções: passam através de tensões nas quais se combatem forças 
hostís, internas e externas; Deus pode assim tornar, para aquele que o procura com ardor, uma 
espécie de misterioso adversário, como aquele que Jacó teve que lutar “até o romper da aurora” 
(Gn 32,25). 
 A crise da qual esta obra trata, põe em causa, falávamos antes: as dimensões decisivas da 
pessoa. Já mencionamos ao fato que Cencini a reconduz aos âmbitos da identidade da afetividade, 
“vocacional”. Os problemas relativos as últimas duas dimensõessão em geral frequentemente 
tratados sobretudo em publicações que abordam temáticas formativas. Cencini abordam-nas com 
amplitude e abundantes constatações, reflexões e indicações. Porém ao meu ver, merece 
particular atenção o primeiro âmbito, menos considerado, que no texto é apresentado com o 
título “Crise em busca da verdade” (capítulo sete). 
A Hora de Deus 
 
7 
Neste tempo relativista, em que a verdade se dissolve em oponiões ou sensações, mesmo 
a pessoa cansagrada pode viver crises de verdade: não somente no que diz respeito as verdades 
em que acredita, mas também em relação àquelas – que são talvez as mesmas vistas por um outro 
ângulo – vividas, praticadas, assumidas, escolhidas. Se pensa depois a insuficiente consciência e 
acolhida da verdade da própria identidade, da própria história, da própria experiência de Deus, da 
maneira de colocar-se de frente ao outro. Na incerteza criada pelo prevalecer do sentir sobre o 
pensar, do instinto sobre discernimento, o autor sublinha o perigo de passar – assim ele escreveu 
em um subtitulo do capítulo sete – “Da confusão ao exílio à desordem”: ou da insuficiente 
percepção daquilo que somos, até mesmo nos encontrarmos exilados, longe da verdade, 
chegando assim a uma situação de subversão dos valores fundamentais. 
 Por isso, aonde oferece indicações inteligentes e concretas para poder “atravessar” 
positivamente a crise, Cencini estimula não somente uma total sinceridade consigo mesmo (e 
obviamente aqueles que pedem ajuda) mas também a passagem da sinceridade à verdade. 
Obviamente se trata aqui da verdade daquilo que somos e fomos, e daquilo que se vive e se 
experimenta; porém esta verdade em si, para ser integral, deverá ser colocada no interior de 
outras verdades, incluindo a Verdade que é “a luz verdadeira que ilumina cada homem” (João 1,9). 
 Mencionei somente alguns temas, quase beliscando aqui e ali no riquíssimo texto de 
Cencini. Muitos outros eu gostaria de sublinhar ao leitor: por exemplo algums problemas tratados 
no capítulo nove, dedicado a “crise de fragilidade vocacional”; tema atual, sobretudo neste tempo 
em que os compromissos definitivos e globais parece ser sempre mais árduo, onde encontramos 
protagonistas cada vez mais medrosos e dotados de baixa resistência. Estou contente ou pelo 
menos busco fazer entender que a leitura desta obra pode beneficiar muitos. 
 Para conculir, parece-me que algumas linhas de Cencini dizem eficazmente na síntese o 
conteúdo deste seu trabalho. Ele escreve: “Não se pode reduzir a crise a um fato somente moral-
comportamental nem somente a uma tentação diabólica ou uma passagem eventual da 
existência, destinada mais cedo ou mais tarde a concluir-se. É ou refere-se ainda um modo de 
entender a vida, a fé e a própria consagração de um modo mais ou menos realista. Vive bem a 
vocação não somente aqueles que aguentam e resistem no texte, mas quem através desta cresce 
na compreensão da própria identidade, que se revela progressivamente no tempo, também 
através das crises, e escolhe ser criativamente fiel. Não é talvez a crise uma chamada, uma 
“segunda chamada”? 
 Talvez bastaria esta idéia – em outras palavras – vamos fazer deste trabalho de Cencini um 
instrumento precioso, esperamos que esteja nas mãos de muitos: a crise pode passar a ser uma 
“segunda chamada” que estimula uma resposta mais consciente, mais verdadeira, mais 
convencida que a primeira. 
 
GIANFRANCO A. GARDIN, ofm conv 
Secretário da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. 
Roma, 13 de Outubro 2009 
 
A Hora de Deus 
 
8 
 
INTRODUÇÃO 
 
Agora é comum. Ao ponto que não se pode nem mesmo falar de vida religiosa ou 
sacerdotal, e nem mesmo de vida de fé ou de realidade cristã em geral, sem se abordar aquela 
palavra tão breve, quanto clara e imediata no seu significado, subitamente entendida por todos: 
crise. 
Esta pequenina palavra não nessescita de ser explicada, pois ela mesma se explica; está de 
fato se tornando uma chave de leitura, que serve para dar uma idéia da atual identidade da vida 
sacerdotal e religiosa, como se fosse impossível comprender adequadamente hoje estas duas 
opções de vida (ou até mesmo a vida cristã em geral) sem perceber a profunda situação de 
dificuldade, de crise, claro, na qual ambas parecem estar. 
Por isso, vou dizer imediatamente, não me lamento, de jeito nenhum, nem me parece ser 
inoportuno. A crise é componente normal da vida humana, a acompanha como amigo fiel, ainda 
que amigo pertubador, rompe certos equilíbrios e as veses é até mesmo devastante, mas é uma 
amiga ... crítica. É isso que determina a passagem de uma fase a outra da vida, antes, nos recorda 
a psicologia evolutiva, se a evolução é um dos parámetros do desenvolvimento humano 
(conjuntamente com a alteridade e temporalidade),2 a crise representa uma “situação de 
desenvolvimento”,3 isto é, aquilo que provoca de fato o ser humano a dar um passo adiante. 
Enquanto há crise há ... vida, ou há desenvolvimento ou pelo menos a sua possibilidade, diríamos. 
Seja sobre o plano psicológico ou espiritual. 
A crise diz respeito a todos: o homen e a mulher, qualquer um que seja, como também os 
eremitas, místicos, homens e mulheres de grande espiritualidade, fundadores de comunidades, 
todos são chamados a passar pela experiência de um deserto que improvisamente invade o 
próprio ser em diversos modos. Não, não é um simples e eventual acidente de percurso, que 
concerne somente alguns, os mais fracos e pecadores. 
Portanto, se as coisas estão como estão, de um lado não podemos deixar de falar, de crise, 
visto que ela invade, quase como um processo de globalização de si mesma; e falaremos 
sobretudo referindo-se a realidade do mundo cristão, e aquelas suas expressões peculiares que 
são a vida religiosa e sacerdotal. Do outro lado o problema é aquele de ver como é acolhida, 
interpretada e vivida esta situação de crise, a nível institucional e a nível pessoal. 
E é isso que se propõe neste estudo. Em particular buscando evidenciar, antes de tudo, o 
significado da crise, em que consiste, ou, quais são as áreas mais sensíveis, ou vulneráveis, para 
entender como ela hoje seja percebida por cada indivíduo que a sofre, e tentar ver enfim, como 
viver e como ajudar viver as crises4 para que se tornem ocasião de crescimento, no plano humano 
e não só no plano humano, bem como passagem do Eterno na vida do fiel, como a HORA DE DEUS. 
Um livro como este, há uma dedicação implícita obrigada, que é mais que uma simples e 
convencional formalidade, porque não pode ser escrito pensando senão, naqueles tantos irmãos e 
irmãs, leigos ou consagrados, que sofreram crises, as vezes compartilhando-as, ou as vezes 
retendo e tentando reter tudo dentro de si, quase com vergonha de abri-se e de fato arriscando 
não ver mais uma saída; àqueles que souberam reconhecer a visita de Deus, àqueles que através 
da crise experimentaram uma grande solidão, mesmo por parte dos homens, como se fossem 
pessoas a ficar distantes; àqueles que viveram a crise como momento de fraqueza, de tal forma a 
não mais conseguir levantar-se, como aqueles que acolheram dentro de si a potência inédita da 
graça... Sobre tudo àqueles que eu pude aproximar no momento da crise, buscando ser uma 
 
2 Cf. F. Imoda, Sviluppo umano. Psicologia e mistero, Casale Monferrato 1993, 77-106. 
3 Imoda, Sviluppo umano, 96-106 
4 Sem entrar nos méritos de um discorso mais propriamente pedagógico ou terapêutco, que pode ser objeto de uma sucessiva reflexão. 
A Hora de Deus 
 
9 
forma de ajuda para eles, e também àqueles que não conseguí ajudá-los. Este livro é como se 
fosse escrito por todas essas pessoas. 
Se eu pudesse, eu queria chegar até eles, para revermos juntos aqueles momentos. Se a 
vida (presente) frequentemente é a melhor explicação da vida (passada), agora poderíamos 
entendermelhor também o sentido das crises passadas, e procurar entender hoje, aquilo que 
naquela época era obscuro e escondido, ou que parecia simplesmente e somente humano, ou que 
parece ser impossível e insuportável. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A Hora de Deus 
 
10 
Primeira Parte 
A Crise: Definições e destinções 
Iniciamos com a explicação dos termos, para não nos encontrarmos falando de alguma 
coisa pensando que todos entendam sobre o assunto, mas que, ao invés podemos definir de vários 
modos, e que o leitor pode então interpretar diferentemente em relação ao significado que dá o 
autor que o escreveu. 
 Veremos então que para definir corretamente o conceito de crise ocorre descompor o 
termo pelo menos em duas partes ou componentes: um objetivo e outro subjetivo. O primeiro a 
acentuar o elemento problemático que determina a dificuldade do sujeito, o segundo para colocar 
em evidência como e quanto o sujeito mesmo seja consciente da própria situação crítica. 
 Mas a distinção não termina aqui; e não se detém aqui simplesmente porque não basta 
tomar consciência da crise, ocorre ver como o sujeito enfrenta a própria situação crítica (se a 
enfrenta), ou seja o confronto e quais os tipos de confrontos. 
 
Capitulo 1 
Problemática objetiva das crises 
 Primeiramente uma crise, de qualquer um tipo, nos leva a um problema, ou uma situação 
em qualquer modo conflitual, presente objetivamente na pessoa desde algum tempo, provocando 
transtornos, incômodo sobre o indivíduo, habitualmente mais consciente do encômodo e não da 
sua raiz. A primeira coisa a fazer, então, é procurar indenticar este problema ou esta situação 
problemática, e possivelmente não só nas suas expressões exteriores, mas também na sua origem 
profunda. 
 O conceito de “problemática”, por sua vez, se encontra longo um continuum que vai de 
um máximo a um mínimo de encômodo interior, de objetiva gravidade, de percepção subjetiva, de 
possibilidades de controle e de gestão... 
 Experimentamos então a esborçar um possível significado desta expressão, observando em 
particular os limites ou as outras zonas conceituais com a qual se confronta, sempre na grande 
área do deságio ou do encômodo do mundo interior intrapsíquico do sacerdote e do 
consagrado(a), porque pelo menos nos sirva como indicação geral para iniciar o discurso. Portanto 
ainda não, neste momento, para confrontar o argumento complexo das causas, das situações 
problemáticas. 
 
1. Nível problemático 
 
 O nível ou o grau de profundidade ao qual se coloca o problema psicológico pode ser 
diferente. Envolvendo assim diferentemente tanto quanto as várias faculdades intrapsíquicas e 
espirituais: mente, sentimentos, vontades, liberdades, responsabilidades, sensos internos e 
externos, consciência de si ... 
 Segundo o nível de profundidade teremos então várias problemáticas psicológicas ou que 
em diferentes modos são vizinhas ao mundo psicológico do indivíduo. Será importante saber 
primeiramente distinguir e identificar a natureza do problema apresentado.5 Que pode ser por 
causa da: 
 
1.1 Problemas de psicopatólogia. 
 
5 Sigo em parte neste parágrafo as classificações e indicações oferecidas pela CEI (Conferência Episcopal Italiana), Linee comuni per la vita de nostri 
seminari (Regras comuns para a vida dos nossos seminarios), Roma 1999, 15. 
A Hora de Deus 
 
11 
 
Pretendemos falar de psicopatologia latente ou manifestada, mais ou menos grave, isto é, 
de problemas derivados de distúrbios ou sintomas psíquicos estruturais e de natureza clínica, de 
origem remota, em relação a área do pensamento (esquizofrenia, paranóia...) ou de afeto 
(depressão, esterias...) ou dos comportamentos (obsessões compulsivas, manias, fobias, 
transgressões encontroláveis...). Nós já dizemos “distúrbios ou sintomas psíquicos estruturais”, 
isto é, presentes em modo estável nas pessoas, continuamente e “de natureza clínica”, ou seja 
não controlável pelo sujeito somente com as suas forças e por sua espontânea iniciativa. 
 Tais problemas podem haver limitações consequentes graves relacionado a liberdade e o 
estado de consciência e responsabilidade do sujeito, como podem ser, por exemplo, casos de 
pedofília e de efebofilia ou de abusos e violências sexuais, ou formas obssesivas de dependência 
afetiva-sexual, o qual é uma expressão de uma carência mais ou menos sistemática de controle do 
instinto, do impulso sexual (no sentido heterosexual e homossexual) àquele agressivo (destrutivo 
e autodestrutivo, das tendências ao suicídio, a formas sérias de anoréxia e bulimia, de mania 
nevrótica do acúmulo, talvez com episódios de cleptomania, a manias de perguições etc...).6 
Esta parece ser uma problemática psiquiátrica. 
A alternativa para o discernimento geral deste primeiro estado está entre a sanidade 
mental e a doença. 
 
1.2 Problemas evolutivos 
 
São manisfestações de fragilidades ligadas a um atraso ou a uma incapacidade de solução 
dos problemas evolutivos, do tipo no primeiro desenvolvimento como é o caso : 
- de uma infância problemática, por causa de uma privação afetiva, com vários traumas e 
carências, ou – o contrário – de uma excessiva gratificação emotiva com consequente 
dependência e exigências7 (e teremos então padres puer aeternus {eterna criança} sempre 
necessitados de proteção e calor), ou por precariedade e pobreza do ambiente familiar de origem, 
ou mais particularmente, por ausência física e psicológica dos pais ou de um dos dois (talvez com a 
falta de identificação com o genitor do mesmo sexo e possível homossexualidade estrutural); 
- ou de uma pré-adoscência nunca resolvida e bloqueada em uma das suas fases: do auto-
erotismo narcisista{é aquele que pratica o culto da sua própria pessoa} (o “Padre narciso”, necessitado 
em estar sempre no centro, ou o “Padre Belo” ou de qualquer modo atraente em busca de 
atenção dos outros, ou a tendência a masturbação), ou do homo-erotismo com possibilidade de 
uma tendência homossexual (Neste caso o nível é não estrutural, na maioria das vezes);8 
- ou de uma adolescência persistente, ao qual o sujeito adulto é ainda sem uma identidade 
positiva e estável, e então a pessoa perenemente tensa entre a busca de um ponto de referimento 
exterior a qual depende e a incapacidade de abandonar-se e confiar no outro, ou seja de 
pertencer (o assim chamado padre “Adultoescente” adulto no registro cívil e adolescente 
segundo a idade psicológica, incapaz, por exemplo, de assumir responsabilidade, inconfiável, 
superficial, inconstante e egocentrico...). 
 Nestas situações é possível a presença de sintomas as vezes semelhantes a aqueles 
psicopatológicos, isolados e com uma menor frequência, ou de atos ligados a um cedimento 
impulsivo que contudo não é obsessivamente presente e com o tempo sempre mais controlável 
 
6 Se recorda a importância de ter uma atenção global da complexidade da situação, nestes casos. Tal atenção é a respeito do mistério do ser 
humano; ainda que se ferido, ou talvez sobretudo quando é ferido, o ser humano é parte de um mistério, ou de uma dimensão misteriosa que não 
pode ser reduzida simplesmente ao seus comportamentos, nem é por estes desmentidos. 
7 Já Freud acreditava que não somente as privações afetivas, mas até mesmo um excesso de gratificações pudesse ser causa de distúrbios na 
personalidade. 
8 Um dos elementos distintivos entre a homossexualidade estrutural e não estrutural, como veremos melhor no capitolo 8, é exatamente a 
diferênça da origem: A primeira nasce na fase infantil, a segunda na fase da pré-adolescente. A respeito da distinção entre a homossexualidade 
estrutural e não estrutural, cfr. A. CENCINI, Quando a carne é fraca. 
A Hora de Deus 
 
12 
(por exemplo; algumas formas de abuso no álcool, de excesso ao se alimentar, ou até mesmo a 
tendência homossexual...).Este poderia ser um problema psicológico mais que essencialmente psiquiátrico, radicada a 
uma certa profundidade e com tendência a permanecer constante, portanto interna ao indivíduo e 
não ligada a circunstâncias exteriores, mais possível de tratamento e reduz em um âmbito 
psicoterapêutico. 
 Aqui a pergunta para o discernimento poderia ser esta alternativa: estilo infantil ou adulto 
de vida? 
 
1.3. Problemas de (in) disponibilidade para a formação permantente 
 Uma terceira categoria problemática é apresentada pela dificuldade do progresso de 
adaptação às diversas idades e situações existênciais, como a diversas provocações e 
oportunidades oferecidas pela vida. São problemas, em outras palavras de formação permanente, 
ou a criação de obstáculos na segunda etapa do desenvolvimento, nos anos suscessivos ao 
primeiro desenvolvimento (ou a formação inícial), aquele que deveria durar toda a vida. 
 Não é de fato, simples e despercebida a passagem de uma fase existencial a outra, por 
exemplo da idade da adolescência à juventude, da juventude a idade adulta, do estado de 
maturidade psicofísica e da produtividade àquela do progressivo retiro, culminante na velhice com 
todos os seus limites, os desáfios, os cansaços e tudo que comporta esta idade... 
 Ou, ainda possamos recolocar nesta categoria aqueles problemas que nascem das 
situações contigentes, mais ou menos provocantes e traumáticas, que normalmente acompanham 
o percurso vital particularmente do padre ou do consagrado: escolhas particulamente 
significativas da vida, desáfios ambientais, mudanças não muito agradáveis de cargo ou funções, 
fracasso apostólico, sentimento de inutilidade pessoal e insignificância da propria mensagem, 
determinadas pressões culturais e sociais, dificuldades nos relacionamentos (rejeição da própria 
pessoa por parte dos outros, maledicências e calúnias...), crises afetivas (sentimento de solidão, 
enamoramento...), dificuldades na obediência, transferimentos inesperados (com a retirada de um 
ambiente familiar e inserção em um ambiente novo), acidentes particulares, enfermidades de uma 
certa seriedade, perda de pessoas queridas... São somente alguns exemplos de dificildades 
determinantes – normalmente – de um evente externo ou por outros sujeitos, mais que poderão 
acordar antigas (ou talvez adormecidas até então), problemas internos na pessoa, mais ou menos 
graves, de imaturidade psicológica ou espiritual. E é esta imaturidade que impedirá de desfrutar 
destas situações como ocasiões de maturação, e também de sentir-se responsável e protagonista 
inteligente da própria formação, que deveria continuar no tempo. 
 É o problema de docibilitas, ou da pessoa docibilis, que «aprendeu a aprender», livre para 
aprender com a vida por toda a vida, por cada circunstância existêncial como por cada pessoa, nas 
situações favoráveis e nos insucessos, até ao último dia da existência; docibilitas que é muito mais 
que docilitas, e que deveria ser o objetivo da primeira formação. Visto que toda a existência da 
pessoa seja uma continua formação.9 
 Seja esta área como também a anterior, podemos fazê-la reentrar na problemática 
psicológica, porém se trataria, em cada caso, de uma problemática sobretudo reagente que 
destaca-se como resposta menos livre e pouco madura a um certo tipo de provocação da 
realidade ou a dificuldades normais da vida humana ou como resposta somente passiva que revela 
a incapacidade de desfrutar criativamente da situação, ou de acolher a potencialidade formativa 
para deixar-se depois educar-se e formar-se. A não docibilitas, como já foi falado implicitamente, é 
esta ausência de entregar-se ou escassa disponibilidade diante das ocasiões de crescimento que a 
vida oferece continuamente. Não é sempre fácil de reconhecer, porque em condições «normais» 
 
9 Sobre este argumento cf. A. CENCINI – Il respiro della vita. La grazia della formazione permanente.C.Balsamo, 2003, 34-41. 
A Hora de Deus 
 
13 
tais indivíduos parecem estar bem, mas na realidade... o eletrocardiograma está quase reto, não 
tem fantasia nem paixão, de tal maneira que não sabem colher nunca em torno de si mesmo os 
desáfios ou os apelos particulares, e assim acabam vivendo como se a formação (permanente) 
fosse algo que compete somente a instituição a oferecer e não fosse ao invés, o primeiro dever e 
responsabilidade do sujeito. 
Para verificar a presença deste tipo de problema, a questão central refere-se sobre a 
disponibilidade formativa da pessoa ou sobre a sua abertura em deixar-se formar pela vida para 
toda a vida, ou seja: somente docilis ou docibilis? ou seja, formação ou frustação permantente? 
 
1.4. Problemas de inconsistência vocacional 
 
 Os problemas de inconsistência e integração vocacional indicam dificuldades muito 
comuns, a maioria das vezes ligadas a presença de necessidades inconscientes, ou daquelas 
exigências impulsivas que resultam prevalecentes e dominantes, e absorvem e desviam as 
energias da pessoa, chegando a condicionar o seu estilo de vida o seu modo de ser, e colocando-o 
em contraste com as mesmas escolhas existências. 
 A inconsistência inconsciente, na área da sua... competência fecha e bloqueia 
normalmente o indivíduo dentro de um horizonte de procura de si mesmo e da própria 
gratificação, ou defesa de si pelas situações que percebe ser ameaçadoras, e estas o impedem de 
se deslocar segundo dinâmicas de auto-doação motivadas pelo amor e por uma prospectiva 
transcendental da vida. Dinâmicas e prospectivas que, no caso do sacerdote e consagrado(a), 
correspondem as suas escolhas explícitas e declaradas da vida (além da natureza intrínseca da 
vocação sacerdotal e religiosa), mas que vem de alguma forma desmentida e contrastada 
interiormente por estímulos exatamente o contrário da escolha feita (normalmente com raizes 
inconscientes). A inconsistência vocacional é exatamente este contraste interno, como uma fenda 
intrapsíquica que coloca o sujeito em contradição consigo mesmo, tornando-o incoerente naquilo 
que realiza, pouco convencido das suas (convicções), menos apaixonado com os seus idéais, e 
portanto não convincente naquilo que fala e instável nas suas operações. As suas energias, de 
fato, não seguem todas, a mesma direção transcendente, mas são desviadas em direção a outros 
objetivos, dobradas sobre o seu próprio “EU” e sobre as suas economias subjetivas (= 
necessidades psicológicas), enfraquecendo inevitávelmente a pessoa, ou impedindo-a de amar 
com todo o seu coração e com toda a sua mente, com todas a suas forças. É o indivíduo que tem 
olhos, mas não «vê», tem ouvidos mas não «escuta»... ou vê e escuta com uma atenção e 
sensibilidade comandadas por forças instintivas que ainda não foram evangelizadas. E que irão 
expor facilmente este indivíduo a crises, exatamente quando tais expectativas não serão 
gratificadas. 
 Um exemplo: um indivíduo com pouca auto-estima, ou que não identificou aquilo que da 
em modo substancioso e estável a certeza da própria positividade, se colocará dentro de uma 
certa necessidade de sinais desta positividade pessoal, mas sem necessariamente estar consciente 
(do tipo se não for ajudado em tal sentido), será portanto levado a fazer certas coisas, ainda que 
boas, ligadas ao seu ministério, sobretudo ou ainda para agradar tais exigências da auto-estima, 
buscando consentimentos, aplausos, confirmações, promoções, visibilidade, títulos de estudo, 
diversos sinais de considerção positiva... e fazendo um drama quando tudo isso não acontece, 
diante então dos fracassos e insucessos (também no plano moral-espiritual), ou vivendo com uma 
contínua competição e vendo os outros como rivais (os juízes), ou desperdiçando energias em 
invejas e ciúmes, terminando talvez por não aceitar-se (tornando nervoso e agressivo) e sentir-se 
insatisfeito (= complexo de inferioridade). 
 Frequentemente tal pessoa poderá ainda ser uma pessoa correta e eficiente em relação ao 
comportamente,mas será interiormente dividida e ineficaz em relação ao testemunho evangélico. 
É claro que se a tendência é incosciente, o indivíduo não fará quase nada para mantê-la sobre 
A Hora de Deus 
 
14 
controle, e esta tender-se-à persistir e ripertir-se, crescerá e tornará sempre mais invasora e 
prepotente. Determinará destorsões perceptivas (em relação ao “EU” e a própria identidade, em 
relação a Deus e a sua imagem, criando finalmente até mesmo problemas na leitura da Palavra, e 
no relacionamento com o outro, da comunidade e do sentido da relação); e criará além disso o 
fenomêno das expectativas irreais (com relação ao futuro, ao trabalho apostólico, até mesmo da 
vida consagrada e sacerdotal). 
 Podem reentrar aqui, ou encontrar aqui uma explicação para muitas das crises religiosas e 
sacerdotais de deferentes fenomenologia com êxito negativo, ou em particular as crises precoces 
de fidelidade dos religiosos, e jovens sacerdotes, frequente a pouquissima distância do gesto de 
doação definitiva de si mesmo, ambas determinadas da constatação (final ou imediata nestes 
últimos casos) que uma certa gratificação é sempre mais improvável ou aparece mesmo 
impassível, enquanto a sua ausência, ao mesmo tempo, é sentida como insurpotável, mas fazemos 
reentrar também neste nível aqueles modos absolutamente inautênticos de ficar na instituição 
fazendo um ninho ao seu interno, ou seja encontrando um modo e um sistema para gratificar-se, 
habitualmente na própria infantilidade e imaturidade, sem cometer grandes transgressões 
(normalmente, ou estando atento para encobertá-las) e preenchendo a vida de 
comprometimentos. 10 
 Esta também é uma problemática psicológica, carecterizada – além da constância do 
problema – do seu enraizar-se no inconsciente, que causa um obstáculo no processo de libertação 
do próprio indivíduo. 
 Aqui a pergunta discriminável seria: tensão egocentrica ou auto-transcendente da vida? E 
depois (ou ainda antes): conheço-me ou não conheço-me nas minhas motivações de fundo? 
 
1.5. Problemas de caráter espiritual 
 
 Este tipo de problema refere-se a área dos valores, a modalidade concreta de vivê-los, e 
antes ainda, a visão clara do caminho vocacional pessoal. Aqui temos um salto de qualidade com 
respeito aos níveis anteriores, não porque não existem mais problemas, mas porque estes são 
diferentes e visto que muda em cada caso, o modo de confrontá-los. 
 Tais dificuldades, de fato, são ligadas a uma normal dificuldade de viver o Evangelho e as 
suas exigências, o relacionamento com Deus e as suas pretensões sobre o coração humano, ou as 
ocupações ligadas a própria escolha vocacional, aos votos, a regra que escolheu como regra de 
vida etc... cansaço normal, e que – se refletirmos bem – deveria crescer na vida de um crente, já 
que deveria ser o caminho normal de uma pessoa que levou a sério o empenho de santidade, e 
que adverte cada vez mais o duc in altum (avançar mar-a-dentro Lc 5.1-11) ligado ao próprio 
chamado. 
 Estes problemas normalmente se colocam a um nível consciente, a pessoa portanto se da 
por conta e é suficientemente livre para decidir resolvê-los, ou seja escolher a via do bem e 
superar a tentação da mediocridade e dos comprometimentos, para escolher ser virtuoso e não 
cair no pecado. A alternativa, portando, aqui é entre a virtude e o pecado, entre a santidade e a 
mediocridade. 
 A este nível, e pelo fato que a pessoa aqui vive na plenitude das suas faculdades, é possível 
provar – sobre o lado negativo – não somente o sentido psicológico da culpa, mas também a 
consciência teológica do pecado, com a dor e o rigor que a implica; a mesma situação de 
dificuldade não é vivida como prova somente psicológica, mas como prova espiritual, como vamos 
dizer melhor mais adiante, ou seja como luta com Deus, e com um Deus que é diferente daquele 
 
10 São os famosos nesters (do inglês nest=ninho) da pesquisa do instituto de psicológia da Gregoriana: Indivíduos inconsistentes que não saem da 
instituição (como os drop-out), mas permanecem graças as suas espertezas “mais ou menos” de adaptar-se e de acomodar-se (da série “se não toda 
a torta, pelo menos uma pequena fatia...”), as vezes também fazendo tortas de pouco bom gosto e contentando com gratificações miseráveis. 
Retorneremos mais a frente sobre isso. 
A Hora de Deus 
 
15 
que o crente trás na sua imaginação, um Deus que é não somente amigo afável, confiável, mas 
“rio traiçoeiro”, um Deus que não está sempre ali para responder com as expectativas do orante, 
para o contentar, porém frequentemente se mostra ausente, e as vezes até mesmo não responde 
ou responde com um silêncio que desconcerta e que é duro aceitar.11 A prova espiritual ou a luta 
com Deus propõe novamente ao homem continuamente a escolha clássica e dramática da vida, 
entre o bem e o mal, luta travada entre a atração do primeiro e obscuridade fascinante do 
segundo, como dois abismos que abrem-se diante ao mistério da sua liberdade. Quem vive neste 
nível e leva a sério a vida espiritual, ou aquela que Rahner chama “a dificuldade de crer”, por isso 
mesmo expermentará a cada dia a dificuldade e a realidade problemática do crescimento na vida 
espiritual, e advertirá muito mais que os outros, então, a mesma realidade da tentação,12 
reconhecendo os truques e as periculosidades. Como nos conta as histórias dos santos.13 
 Alguns entres os santos ou talvez muitos (quem pode quantificar com certeza sobre isso?) 
foram muito além disto que estamos dizendo aqui, e expermetaram no máximo grau aquela 
ausência de Deus que torna cruciante, aquele silêncio que a criatura sente-se angustiada, quase 
até mesmo vendo-se distante, como o pior dos pecadores: é a experiência conhecida como “noite 
escura da alma”, ou “noite do espírito”, ou a “noite da fé”, como João Paulo II chamou a 
experiência de Maria14, experiência não muito comum a todos os crentes, mas a uma categoria 
particular entre eles: os místicos (de S. Bernado a S. Catarina de Sena, de s. João da Cruz a S. 
Teresa de Avila, de S. Teresinha do Menino Jesus15 a beata madre Teresa de Calcuta,16 de Chiara 
Lubich até mesmo João Paolo II, segundo alguns, nos últimos anos de sua vida),17 mas experiência 
sempre condunzida a esta catégoria de problemas, quase no seu extremo. Nesta noite até mesmo 
a fé tornar-se uma angustiante incerteza, e o que antes constituia fonte de alegria para o espírito 
humano torna-se agora escuridão e trevas. É uma das provações entre as mais terríveis, que 
requer da alma um exercício de pura fé, da fé nua, mas que enfim produz nesta uma grande 
purificação, para torná-la ainda mais morada onde Deus pode habitar. Quando e como Ele quiser. 
 Além desta experiência extrema, privilégio e provação para poucos, os problemas ligados a 
vida espiritual são problemas que todos, pelo menos em parte conhecemos e que pelo menos em 
alguns momentos da vida (se espera) nós particurlamente o vivemos, problemas que chamam a 
atenção constante de quem está empenhado em um caminho de crescimento espiritual, como de 
quem acompanha em um caminho de formação. 
 Mas nem sempre existe a capacidade de distinguir este tipo de problemas com aqueles 
precedentes, de natureza mais explicitamente psicológica. Frequentemente o problema espiritual 
 
11 Durante o encontro com os jovens italianos em Loreto no mês de agosto de 2007, Bento XVI, deu uma resposta a uma pergunta de uma jovem 
sobre o mistério de Deus: “Todos nós, ainda que crentes, conhecemos o silêncio de Deus”. Pelo fato que somos crentes... 
12 “Filho se te apresentares para servir o Senhor, prepara-se para a tentação” (Eclo 2,1). 
13 “As grandes aspirações são sempre acompanhada de terríveis tentações” (L. BOFF, Francisco de Assis. Uma alternativa humana e cristã, Asis 1982, 
191; cf. Também A. CENCINI, Vida consagrada. Intinerário formativo durante o caminho de Emaus, Cinisello Balsamo 2002, 29-33).14 João Paulo II, Redemptoris Mater 17c : EV 10/1315. 
15 Este trecho autobiografico de S. Teresinha ajuda a entender o que é a noite do espírito: “ Minha dileta Celina, não sei se estás ainda na mesma 
disposição de espírito do outro dia, mas te citarei assim mesmo uma passagem do Cântico dos Cânticos, que exprime perfeitamente o que é uma 
alma imersa na aridez e que nada a consegue alegrá-la nem consolá-la: “Eu desci ao jardim das nozes, para ver as frutas do vale, para observar se a 
vinha fosse florida e se as romãs ja haviam amadurecido. Não sabia mais estava... A minha alma ficou totalmente agitada por causa dos carros de 
Aminadab” (Ct 6, 10-11). É esta a imagem das nossas almas: nós descemos nos férteis vales ao qual o nosso coração ama ser alimentado, o vasto 
campo das escrituras que muitas vezes se abre diante de nós para doar-se a nós os seus ricos tesouros, este vasto campo parece-nos ser um deserto 
árido e sem água. Não sabemos mais, nem mesmo aonde estamos: em um lugar de paz, de luz, não encontramos somente a tribulação ou, pelo 
menos as trevas. Mas, como a esposa, sabemos a causa das nossas provações. A nossa alma é pertubada por causa dos carros de Aminadab. Não 
estamos ainda na nossa pátria e a provação deve nos purificar como o ouro no cadinho. De vez em quando pensamos que estamos abandonados; Ai 
de mim! Os carros, os barulhos que nos afligem estão fora de nós ou dentro de nós? Não sabemos! Mas Jesus sabe bem” ( de uma carta a irmã 
Celina do 6 de julho 1894). 
16 Foi notável a sensação da publicação das cartas e memórias de irmã Teresa, por parte do Postulador (B. KOLODIEJCHUK, Madre Teresa. Seja a minha 
luz, Milão 2008, 201-202), com a inacreditável revelação da sua noite espiritual ao qual ela viveu por cerca de cinquenta anos! Algumas de suas 
expressões nos ajudam a enteder o sentido que ela mesma deu a este tempo de provação estrema. “Se é agradavel a Vós Senhor, se a minha dor e 
o meu sofrimento, a minha escuridão e separação vos dar ó Senhor uma gota de consolação, meu caro Jesus, faz de mim aquilo que o Senhor quiser 
e por todo o tempo que quiser, sem olhar os meus sentimentos e a minha dor... Eu sou tua. Marque em minha alma e sobre a minha vida os 
sofrimentos do teu coração. Não se importe com os meus sentimentos, não se importe com a minha dor ... Se a minha separação de Vós, leva 
outros a Vós e se nos seus amores eles se aproximarem de Vós e isso vos traz alegria e prazer, então Jesus eu estou disponível, com todo o meu 
coração, a sofrer tudo o que for necessário que eu sofra, não somente agora, mas por toda eternidade, se possível” 
17 Cf. F. CIARDI, “A noite tempo de provação. A experiência dos Santos”, em Nova humanidade 30(2008), 165-187. 
A Hora de Deus 
 
16 
convive com aquele psicológico, tornando um problema espiritual conjuntamente com uma 
inconsistência vocacional. 
 Em síntese: Esta descrição nos colocou diante de um quadro muito vasto dos possíveis 
motivos ou raizes, a nível teórico, das situações de crises, dando nos – em suma – três diferentes 
características desta crise: existe por um extremo a crise determinada por um problema do tipo 
patológico (o ponto 1.1), diante do qual a pessoa parece impotente e que necessita obviamente 
da intervenção de um especialista; existe ainda uma vasta área, que abrange os três pontos 
sucessivos da nossa análise descritiva (1.2, 1.3, 1.4), a qual a crise aparece provocada por um 
problema psicológico de diferente gênero, e que põe em causa em modos e proporções diferentes 
a liberdade e responsabilidade do sujeito, e será uma problemática ou ligada a dificuldades 
evolutivas no passado (1.2), ou a uma menor liberdade interior de deixar-se formar pela vida 
presente (1.3), ou a inconsistência e imaturidade mais ou menos inconsciente (1.4): tal área está 
no limite de um lado com a patologia ou os problemas psiquiátricos, e do outro com problemas de 
natureza espiritual que constitui a terceira característica das crises: as crises “nomais”, sinal de 
uma personalidade substancialmente íntegra, sobre o plano psicológico e espirítual, crises 
determinantes pelas leis de crescimento, seja psicológico ou espiritual (veja mais a frente o 
Quadro 1). 
 Mas a nossa não é uma indagação têcnico-teórica, e sim mira a identificar corretamente o 
problema na medida em que este pode facilitar uma intervenção para ajudar. 
 Ocorre então dar uma passo a mais para delimitar mais precisamente estas áreas e 
comprendê-las de maneira mais profunda, sua especificidade e sua natureza. 
 
2. Dimensão da liberdade 
 
 Nos perguntamos então: qual é o grau de liberdade dos diferentes níveis problemáticos 
que acabamos de ver? A sensação, de fato, é que a cada um deles exista um correspondente nível 
de liberdade da pessoa, com consequente responsabilidade.18 
 
2.1 Terceira dimensão: liberdade ausente 
 
 No nível da patologia não existe liberdade: O psicótico não é livre para compreender e para 
querer, pelo menos na zona interessada a sua patologia, e interpreta a realidade segundo um rito 
ou um rítmo compulsivo que o distância inexoravelmente da realidade e do qual está mais ou 
menos praticamente oprimido. Assim o neurótico obssesivo-compulsivo, que – compreendendo 
que não vale a pena lavar as mãos cem vezes ao dia e mesmo não querendo fazer – é 
interiormente “obrigado” a fazê-lo; ou pior ainda o psicótico paranóico, que vê inimigos por todos 
os lugares se sente atacado por qualquer um, sem alguma possibilidade de convencê-lo do 
contrário. Mesmo também o sacerdote pedófilo poderia ser enquadrado nesta categoria ou 
dimensão (pelo menos em relação a tendência pedófila) e deixando-se ser condicionado por 
alguma coisa que lhe impõe e que ele não pode dominar (obviamente não todos os casos de 
pedofilia se encaixam neste grupo, existe ainda o pedófilo que poderia ter escolhido não ser 
pedófilo).19 
 
18 Tomo como ponto de partida, neste paragrafo, a partir da intituição de Rulla; Cf. RULLA – F. IMODA – J. RIDICK, Antropologia da vocação cristã, 1: 
Bases interdisciplinares,Bologna 1997, 492-493. 
19 Outra distinção possível no campo das desordens psíquicas seria esta: Psicose, como perda do contato com a realidade e refúgio em um mundo 
subjetivo, na qual a psicose se impõe de tal maneira em que o sujeito não poder fazer nada para contestá-la, nem mesmo para reconhecê-la como 
tal. Neurose, que provocaria um distúrbio no contato com a realidade mas sem um dobrar-se absolutamente no subjetivo ou com um dobrar-se 
relativo, por isso o neurótico pode combater até um certo ponto a sua neurose e sendo consciente sofre com ela. Desvio na personalidade, enfim, o 
que estão dizendo um distúrbio relativamente relevante, leve, que não tira nem o contato com a realidade nem a capacidade de controle, porém 
lhe coloca um limite, como veremos melhor mais a diante. Diz algo verdadeiro a piada segundo o qual o neurótico constrói castelos no ar e o 
psicótico vive la dentro, enquanto o psiquiátra ou psicólogo cuida de receber o aluguel sendo mais ou menos ganancioso dependendo do grau de 
distúrbio de personalidade... 
A Hora de Deus 
 
17 
 Evidentemente aqui, se não existe a liberdade, não tem nem menos responsabilidade 
subjetiva, pelo menos imediata e direta, nem bem ou mal do ponto de vista moral da consciência 
subjetiva. Poderá existir um senso de culpa, mas fortemente condicionado (com excesso ou com 
defeito) variadamente contaminado pela síndrome mental ou afetiva do qual o sujeito sofre. 
Enquanto não poderá existir uma consciência de pecado verdadeiramente dita. 
 A este nível, em uma última análise, existe somente um discurso de sanidade ou 
enfermidade psíquico-mental para considerar.20 Porém é sempre importante fazer uma analise, 
indispensável ali onde levantam-se dúvidas legítimas sobre tudo no momento do discernimento 
vocacional inicial e para a admissãoas ordens e aos votos.21 Certo, uma psicose pode manisfestar 
mais tarde, e então seram considerados dentro das possibilidades rigorosas medidas preventivas 
de contenção (por exemplo: não colocar um sacerdote com tendências a pedofilia para visitar e 
receber normalmente sem algum controle as crianças e pre-adoscentes). 
 
2.2 Primeira dimensão: Liberdade Plena 
 
 Se no outro extremo desta descrição colocamos a problemática espiritual, como sugere o 
nostro esquema descritivo, veremos que a situação se inverte completamente: E neste nível existe 
liberdade, a pessoa é capaz de entender o que seria bom fazer e que é capaz de fazê-la. Se não faz 
o bem, mas o mal, o indivíduo nem é consciente; é responsável, portanto, das ações e das 
transgressões. Sente a dor e a sofre. Visto que conhece, pelo menos em teoria, além do estado 
dos comportamentos e dos sentimentos, para reconhecer ainda as motivações que lhe impulsam a 
agir, em outras palavras não se detém na sinceridade subjetiva, mas sabe colher a verdade 
objetiva do seu ser e do seu agir. 
 Aqui existem o bem e o mal, portanto, o virtuoso e o pecador. Isto é, aqui, rigorasamente 
falando, existe vida moral: o ato assume uma verdadeira conotação moral. 
 Tal dimensão provavelmente não representa obviamente a ponto de excluir as outras 
dimensões a permanência habitual do nosso viver e dos nossos atos, mas é apenas uma 
dimensão possível, não somente ideal, para ser procurada constantemente ou pelo menos em 
parte (as vezes mínima) está presente já nos nossos atos. 
 
2.3 Segunda dimensão: Liberdade relativa 
 
 No meio existe a situação ligada ao problema que chamamos psicológico. E é este que mais 
nos interessa, que diz respeito a maioria das nossas ações. Aqui a liberdade não é nem 
completamente ausente, nem completamente presente, mas relativa. É uma situação intermédia, 
determinada como tal pela presença do inconsciente que lhe escurece em parte ou confunde, 
mais ou menos, a percepção do sujeito, impedindo-o de entender lucidamente a motivação real 
que o impulsiona a agir, ou o que na verdade está ao centro do seu coração, dos seus interesses, 
desejos, escolhas..., além das suas afirmações ou das “boas intenções” ao qual ele mesmo acredita 
sinceramente ou da aparência externa daquilo que faz. Um inconsciente, como eu disse, que 
escurece e impede em parte, não o todo; tornando a pessoa menos atenta e menos vigilante para 
entender aquilo que acontece dentro de si, depois de um longo processo que não é irreversível; 
 
20 Não abordamos aqui a complexa questão da possibilidade da santidade nestes casos. Mas podemos dizer somente que, se a santidade consiste 
na liberdade e radicalidade com a qual a criatura acolhe a ação de Deus sobre si, não pode excluir absolutamente que um fiel com problemas 
psicóticos possa usufruir deste grau, seja por um mínimo, de liberdade que lhe sobrou ao máximo das suas possibilidades, e alcança assim um certo 
nível de santidade, aquele a ele acessível. Talvez não será um nível alto objetivamente, mas subjetivamente tal pessoa deu o máximo de si. A 
História nos apresenta neste sentido diversos exemplos. 
21 É bom recordar que não pode receber validamente a ordenação “quem sofre de qualquer forma de loucura ou de outra enfermidade psíquica, 
com a qual, consultados os peritos, é constatado a incapacidade de desenvolver de modo apropriado o ministério” (CDC 1041 § 1). 
A Hora de Deus 
 
18 
diminui a sua liberdade, não a elimina pela raiz; orienta e as vezes deforma uma certa 
sensibilidade, mas não cancela a possibilidade de reacordar-la e reanima-la...22 
 A liberdade do sujeito, nesta segunda dimensão, permite chegar a sinceridade, não a 
verdade. E é liberdade relativa e portanto reduzida, por isto, uma vez que permite reconhecer os 
próprios sentimentos e sensações (talvez para depois negá-los, arriscando de se tornarem 
analfabetos sentimentais, porém ao menos em teoria existe aqui a possibilidade de reconhecer os 
próprios sentimentos), mas não de ir além, de captar e decifrar as motivações profundas, as 
intenções subterrâneas e as atrações do coração (ao menos que não seja ajudado explicitamente 
neste sentido), em suma a verdade. 
 É claro que este límita (não exclui) a liberdade, não a liberdade assim chamada 
indispensável, isto é, a capacidade de agir e escolher em geral, mas somente aquela inicial e mais... 
secreta, assim sendo frequentemente é desconhecida até mesmo pelo sujeito, ou nunca 
considerada seriamente. Podemos dar algum exemplo desta (não) liberdade, ou liberdade 
reduzida, que é frequentemente o modo de ser da nossa liberdade, nunca absoluta e 
frequentemente somente relativa (mesmo se isto nos encomoda não queremos aceitá-lo e temos 
a tendência a ingnorá-lo). De fato frequentemente corremos o risco de não ter: 
- A liberdade de sentir, de perceber toda a realidade, mesmo nos aspectos mais inquietantes e 
provocantes, como os apelos ou os “sinais dos tempos”. Como nos diz o episódio evangélico do 
bom samaritano, quando um sacerdote e um levita “viram” um infeliz mas sem a liberdade de 
sentir-se por ele chamados e provocados a parar, para ajudá-lo. 
- A liberdade para amar aquilo que fazemos e de fazê-lo por amor, um poco como Marta que faz 
um gesto de serviço, mas demostra não amá-lo, de fazer não somente por amor; mas se lamenta, 
e fica nervosa com sua irmã, um pouco também com Jesus que não intervem, e enfim até consigo 
mesma “obrigada” (por causa da falta de liberdade) a fazer os trabalhos mais humildes sem ser 
notada, como não servisse a nada. 
- A libertade de comover-se, diante do belo de sentir-se atraido pela verdade, evidentemente 
porque faltar uma certa sensibilidade quando gostos e interesses da pessoal vão em outras 
direções, que não sejam aquelas da beleza ou da verdade. A comoção (do cum-movere – mover-se 
com) indica o envolvimento total das energias afetivas e intelectuais, mas se tiver dispersão das 
energias para outros objetivos, não poderá ter alguma comoção por aquilo que dizemos de ter 
colocado ao centro da vida. 
- A liberdade de... entender aquilo que se lê, se vê e se sente, ou seja de entendê-lo em 
profundidade, de descobrir o fragmento da verdade que permanece consigo, sentindo a verdade 
não somente em si mesmo, mas também por aquilo que diz a minha vida, e portanto convicente. 
Poderíamos chamá-la a liberdade de deixar-se convencer, onde por muitas vezes o medo de dizer 
a verdade causa obstáculos. 
- A liberdade de amar e de deixar-se amar, que pareceria fácil liberdade, mas que muitas vezes se 
choca com o medo de se envolver no relacionamento, com medo do outro, com medo de seus 
próprios sentimentos e os dos outros, de abandonar-se ao amor, de sentir-se responsável pelo 
amor recebido...; 
- A liberdade de entregar-se totalmente a Deus, mas também aos outros, porque mais uma vez se 
teme o outro, em geral aquele Outro que se entregou totalmete a nós em um ato de amor total. 
Estranho dizer isto, mas as vezes diante ao amor de Deus sentimos uma vertigem, aquela parte 
infantil de cada um de nós que se manifesta e então desejaríamos que Deus nos amasse menos. 
- A liberdade para deixar-se ser lido e transpassado pela Palavra, de deixar a Palavra dizer a 
verdade, aquela Palavra que é a Verdade, que nos sonda como nenhuma outra, e diante da qual 
 
22 Sobre o sentido do inconsciente e sobre o seu possível influxo se expressou assim Wojtyla em uma de suas obras: “... na realidade parece que 
seria impossível entender e explicar o ser humano, o seu dinamismo como também o seu agir consciente e as suas ações, se nós baseássemos as 
nossas considerações somente sobre a consciência. Sobre este ponto, parece que a potencialidade do subconsciente aparece primero; esta é 
primária (antecedente) e mais indispensável da consciência para a interpretação do dinamismo humano, como também para a interpretação do 
agirconsciente” (K. Wojtyla,The acting person, Dordrecht 1979, 93). 
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muitas vezes desencadeia ainda o medo de estar nu, estar transparente, de ser revelado o que 
somos (e que as vezes não sabemos), ou o medo de ter que mudar, e assim nossa leitura é tão 
superficial quanto monótona, leitura que nunca se torna dilectio23 (= amor). 
- A liberdade de pedir o máximo de si ou de se converter, visto que nos iludimos (e a ilusão é já 
redução de liberdade) que a mediocridade seja a preferida ao invés da radicalidade, que a 
sensação de bem-estar pessoal deve ser o critério de cada escolha e de cada avaliação da 
consciência ou não somos ainda livres para acreditar que a maior alegria estar no dom de si e não 
no usar os outros para seus próprios intereses. 
- A liberdade de descobrir o cêntuplo prometido por Jesus e apreciá-lo, primeiro porque a 
dependência de gratificação imediata não abre à esperança (na realidade nós não acreditamos o 
suficiente nesta promessa), segundo, porque os nossos sentidos aprenderam apenas um tipo de 
gratificação, antigo e pagão, e portanto não são ainda capazes de aproveitar o dom que Deus nos 
dá continuamente, mas nem mesmo de perceber esta dádiva. 
 - A liberdade de sentir-se bem-aventurado naquelas situações indicadas por Jesus no discurso da 
montanha, visto que parece-nos impossível encontrar a alegria na humilhação, na maledicência, 
na perseguição..., e porque normalmente colocamos o foco mais sobre os comportamentos 
indicados por Jesus (sermos mansos, pacientes, pacíficos ...) do que sobre a experiência de bem-
aventurança contidas nestas virtudes, porém as vezes escondidas, mas prometidas por Jesus. 
- A liberdade de provar os sentimentos do Filho ou de desejar os desejos de Deus, uma vez que já 
nos parece muito mudar os comportamentos ou nos orgulhamos por fazer tantas coisas para o 
reino de Deus, e enquanto isso deixamos que no nosso coração vivem sentimentos e desejos que 
estão longes daqueles do Filho, sem percebermos o sútil farisaismo implícito nestes sentimentos e 
desta maneiras fosse impossível evangelizar sentimentos e impulsos ... 24 
 
3. No coração do problema 
 
Ficamos muito tempo nestes exemplos, não só porque frequentemente não damos devida 
atenção nem importância a estas liberdades, mas porque isto nos ajuda a compreender a natureza 
destes problemas psicológicos que podem levar-nos a uma situação de crise, ao coração do 
problema, que é sempre e sobre tudo problema de liberdade. 
 
3.1 Falta de liberdade e frustração 
 
Uma crise é normalmente ligada a uma menor liberdade, diretamente ou indiretamente. 
Liberdade entendida como modo para crescer plenamente, pleno porque exprime um 
envolvimento integral do homem, quando age com todo o coração, com toda a alma, com todas 
as forças e com toda a sua sensibilidade. O homem é livre quando e visto que pode fazer apelo a 
todas as suas enengias e recursos; por esta razão podem agir independentemente, sem a 
necessidade de ser forçado. A expressão máxima da liberdade (e do modo de intender a liberdade) 
é fazer as coisas por amor, experimentando o sabor típico de quem tem lentamente aprendido a 
fazer as coisas por amore. Tal típica expressão de liberdade é seguida, declinável em várias formas, 
como demonstramos – negativamente – com as exemplificações precedentes. 
Quando ao contrário não tem este envolvimento total, ali não tem crescimento nem terá 
liberdade, pelo contrário ao invés do gosto livre e libertador para fazer as coisas por amor existirá 
a preocupação contrária, aquela de fazer as coisas para ser amado ou de pensar somente em si 
mesmo, de viver as relacões para curar as próprias feridas, para obter um resto de atenção, para 
 
23Cf. A.Cencini, A vida ao ritimo da Palavra. Como deixar-se formar pela Escritura, Cinisello Balsamo 2008. 
24 Sobre a necessidade de conhecimento de si mesmo e das próprias inconsistências cf. A. Cenceni, A arvore da vida. Para um modelo de formação 
inicial e contínua, CINISELLO Balsamo 2005,251-253. 
 
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axibir-se de frente aos outros e de ser considerados melhores que os outros, por ilusão de 
conquistar felicidade fazendo os próprios interesses... Todas as formas de não liberdade que 
aumentam ainda mais o nível de frustração. E a frustação como sabemos é sempre antecâmara da 
crise, um padre frustrado é sempre um padre em risco. 
Tornando a nossa subivisão, parece que a possibilidade desta frustração seguirá em teoria 
uma evolução exatamente contrária a presença da liberdade: por isso será máxima nos casos de 
psicopatologia, relativamente intensa nos três casos que tínhamos indicado de liberdade relativa e 
mínima ou ausente em quem vive apenas problemas espirituais. Mas, na prática, talvez as coisas 
são um pouco diferentes. Nos casos de psicopatologia o senso de frustração é difícilmente 
identificável, poderá ser intensa no mais auto nível, mas também ausente, sendo ligada ao gênero 
e ao tipo de consciência do sujeito. Enquanto é evidente o sentido de frustração para quem vive 
em uma situação de liberdade reduzida, na medida em que será reduzida a liberdade por causa da 
inconsistência, como vimos nos exemplos relatados. Assim como não podemos excluir a presença 
da frustração para quem vive os problemas normais legados a vida espiritual, por experiência seja 
da própria fraqueza ou seja pelo mistério inacessível do divino. 
Portando é importante para nós chegarmos a esta conclusão: o problema objetivo de tipo 
psiquiátrico ou psicológico ou espiritual que está na origem de uma crise incide regularmente 
sobre a liberdade do sujeito, reduzindo-a, e criando um sentimento de frustração que tira 
vagarosamente o gosto de viver e de viver a própria consagração. E, é já uma crise, ou situação 
que frequentemente conduz à uma crise. Há portanto, no começo uma limitacão objetiva, em que 
o sujeito percebe e sofre as consequências, mas normalmente sem entender a origem. 
 
3.2. Falta de Liberdade e a sensação estranha 
 
Dizíamos também que, pelo que parece, a maioria da nossas ações ou do nosso quotidiano 
não exprime a liberdade plena, mas uma liberdade parcial e relativa, superficial e reduzida. Isto 
significa que normalmente aquilo que fazemos é de natureza composta, implica, isto é, vários 
estímulos motivacionais nem todos com origem consciente. Normalmente, somos levados a 
ignorar as motivações que nos criam mais problemas, que diminuiria a nossa estima, que tem 
raízes profundas no nosso passado, que refere-se a um costume bem enraizado... 25 De fato, não a 
conhecemos e não conhecendo-a, não podemos controlá-la. 
Daí duas consequências: ante de tudo não somos – ainda uma vez – livres para agir como 
quisermos, sofremos pressões internas, mais e antes mesmo daquelas externas; e isso nos faz 
sentir como estranhos a nós mesmos, como se habitássemos em um corpo ou em uma psique que 
não nos pertence de modo que vemos o bem que deveríamos fazer e, em seguida escolhemos o 
mal. Isso aumenta a sensação de frustração. 
Ou, outra conseqüência já em parte mencionada, fazemos as coisas, mas com uma certa 
divisão interna, não com todo o coração, com toda a mente, com todas as forças, e corremos o 
risco de nos tornarmos incoerentes, não porque somos obviamente falsos e contraditórios, mas 
porque uma força ou uma atração ou um medo que nós ignoramos nos impede de envolver todas 
as nossas energias, como dizíamos, de “cum-movere” cada componente psíquico para uma 
direção, como gostaríamos. 
Não é necessariamente maldade, antes é basicamente falta de liberdade, mas que implica 
um menor controle pelo sujeito sobre sua vida, uma sensação de ego-alienante em relação a si 
mesmo, como uma desorientação interior. Que muitas vezes leva à crise. 
 
 
25 É interessante notar que já São Tomas na sua Suma Teológica (I-II), falando dos atos da pessoa humana, teria ditoque “na maioria dos casos” o 
agente pode estar completamente inconsciente do influxo de distorções produzidas por suas lutas “emotivas” sobre suas percepções, sobre suas 
escolhas e ações... que devem não obstante serem consideradas plenamente como “ato humano”(cf.K.Baumann, “The Concept of Human Acts 
Revisted By St.Thmas and the Unconscious in Freedom”, in Gregorienum 80[1999]1, 151 e162) 
A Hora de Deus 
 
21 
Também aqui se trata de uma limitação objetiva, que o indivíduo pode perceber sobretudo 
pelos problemas que lhe cria, mas sem poder intervir sobre a verdedadeira causa. E isto cria 
inevitavilmente tensões que muitas vezes explodem em uma verdadeira crise. 
 
Com uma imagem gráfica, tentamos sintetizar o que foi considerado até aqui. 
 
1 Quadro - Área e limites de problemas psicológicos, 
Problemas Conteúdo Alternativa Natureza Liberdade 
de Psicopatologia transtornos psicótico-
neuróticos 
sanidade ou 
patologia? 
clínico-
psiquiátrica 
Ausente (3° dim.) 
do obstáculos ao 
desenvolvimento 
Interrupção ou regresso 
evolutivo 
estilo infantil ou 
adulto? 
Psicológica Relativa (2°dim.) 
de não formação 
permanente 
indisponibilidade 
formativa 
dicilis o 
docibilis? 
Psicológica Relativa (2°dim.) 
de inconsistências 
vocacionais 
conflito interno 
inconsciente 
egocêntrico ou 
auto-
transcendente? 
psicológica Relativa (2°dim.) 
de qualidade de vida 
espiritual 
incoerência e 
mediocridade 
santo ou 
pecador? 
espiritual Completo 
(1°dim.) 
 
Como podemos ver o aspecto objetivo de uma situação de crise é bem complexo, mas é 
possível também delineá-lo especificando o tipo de problema ao qual a pessoa sofre. É isto que 
tentamos fazer neste capítulo. Deixando a parte alguns aspectos para depois em seguida retornar 
sobre aqueles mais práticos na identificação do problema, aonde surge a tensão, e os sinais que 
esta nos proporciona. 
Por enquanto foi considerado apenas o fundo de um evento crítico, ou como já dissemos, 
o seu coração. E nós o identificamos na falta de liberdade com o sentimento de frustração e de 
estranheza que dela procede. 
Se o homem é feito para ser livre, e trás dentro de si uma necessidade de liberdade que 
não pode ser suprimida, não é difícil compreender que tal falta conduz lentamente à uma crise, 
mas é possível e necessário compreender melhor as etapas posteriores. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A Hora de Deus 
 
22 
 
 
Capitulo 2 
A Crise 
Vimos o lado objetivo do nosso tema, ou pelo menos procuramos entender um pouco a 
coisa em si; gostaríamos agora de ver o problema do ponto de vista do sujeito que vive o 
problema. Uma coisa é o problema em si, considerado por um ponto de vista intrínseco, por seu 
conteúdo e várias características (seriedade, componentes, diagnósticos, prognóstico, terapia...), 
outra coisa é observar o nível de consciência da pessoa, que poderia ser completamente ou 
parcialmente ausente. E dentro deste entendimento, uma coisa é entender a raiz do problema (já 
falei um pouco sobre isso no capítulo precedente), e outra coisa é entender a gravidade da 
situação ou perceber o apelo a uma mudança até o ponto de decidir-se a fazê-la. 
No caso, por exemplo, sobre problemática psiquiátrica, evidentemente o sujeito não tem 
consciência da própria situação clínica; ao contrário, o estado de inconsciência é exatamente o 
elemento substancial do quadro sintomático clínico, é um dos seus sinais mais evidentes e 
decisivos. 
Mas não só isto é típico do nível mais grave da nossa descrição. Também nos outros níveis 
do problema psicológico e espiritual é possível, como vimos no capítulo precedente, uma 
diminuição do grau de consciência, do estado de inconsciência geral (até mesmo este grau é 
possível) a situação de quem não se deu conta da seriedade da sua situação, da gravidade do que 
está vivendo, para si, e talvez também para os outros. Ou não o “sofre” suficientemente nem o 
combate; como também é possível o caso de quem está oprimido e dilacerado, perdeu a 
esperança de sair fora desta realidade que vive. Neste caso, no excesso como no defeito, existem 
problemas no estado de consciência e na formação da consciência. 
Alguns dizem que o verdadeiro problema da vida religiosa ou sacerdotal não seriam as 
situações críticas, objetivamente problemáticas, dos padres, freis e freiras, mas aquela massa de 
gente “consagrados” que vive subjetivamente tranquila, que não é pertubada e nem pertuba 
ninguém. Situação objetivamente crítica, são aquelas pessoas que não estão em crise, porém 
deveriam estar. Ou ainda consagrados e consagradas que si sentem desconcertados, quando 
percebem que algo não vai bem nas suas vidas, mas não tem a capacidade de entender a raiz do 
problema em si, ou intuindo que teriam crises, buscam imediatamente um modo de empurrá-las 
para o exterior, para longe de sua responsabilidade, esperando e iludindo-se de tal modo poder 
eliminar o sentido da necessidade pessoal de passar por uma crise. 
Ou seja, em última análise, é o problema da consciência, não simplesmente no sentido de 
fenômeno cognitivo-psicodiagnóstico ou de informação mais detalhada sobre o próprio nível de 
(im)maturidade, mais como sensibilidade interior, vigilância e atenção, todos componentes da 
consciência e que tem haver com o processo de formação desta mesma consciência. Aspectos, 
enfim, graves e importantes da nossa vida, que não veremos certamente tudo aqui, mais que 
podemos começar a encontrar já nesta primeira tentaviva de análise. 
 
1. Conceito de crise 
 
Talvez existe uma sutileza terminológica que leve em conta a distinção que estamos 
fazendo, e que portanto nos poderá ajudar a entender melhor e a especificar mais precisamente o 
sentido do termo. Ao que parece o termo “problema” ou “problemática” nos envia mais a ideia 
objetiva da questão, enquanto um outro termo muito usado hoje, ou seja “crise”, nos leva a 
pensar mais a percepção subjetiva da crise em si, e consequentimente a sua vivência pessoal. 
A Hora de Deus 
 
23 
 Eis porque neste paragráfo introduzimos o conceito de “crise”, como conceito 
provavelmente mais abrangente que “problema”: ao passo que, quando se diz que alguém “há um 
problema” especificando que um outro “está em crise”. Quero sublinhar que a crise é quase um 
modo de ser, no qual alguém se encontrar completamente envolvido da cabeça aos pés, como se 
estivesse mais ou menos dominado. Enquanto que “problema” poderia permanecer externo a 
consciência do sujeito que parece até mesmo poder dominar melhor. 
Se em seguida voltarmos ao quadro prospectivo número 1, veremos que existe uma 
crescente do ponto de vista da consciência crítica, a partir da situação patológica, quando tal 
consciência é mínima, até mesmo alcançando os problemas de vida espiritual, que são maiores. 
Uma passagem que evidentemente interessa também a área da problemática psicológica, antes 
passa através desta, e logo é importante focalizar não somente o plano do diagnóstico. 
Vamos portanto definir melhor, antes de tudo, o conceito de crise e os seus componentes 
fundamentais, para depois passar no próximo capítulo, para a descrição de alguns modos 
subjetivos de viver a crise em si, ou a consciência do próprio problema. 
 
1.1. Proposta de definição 
 
 A vida, também aquela dos que se consagram ao Senhor ou que se entregam a um grande 
ideal, é feita de crises e situações difíceis. “A fè nasce no coração de uma crise”26 ou – como disse 
Merton – “inesperadamente a vida se move em direção a crise e o mistério”27. Afirmação 
significativa ao estabelecer uma ligação entre crise e mistério, já que nos faz pensar que a crise, 
qualquer crise, seja aberta ao mistério, seja na sua origem ou no seu êxito final, e nós não 
estaremos certos com as nossas distinções e explicações pretender eliminar o componente 
misterioso da crise. 
 Crise, na realidade, de um ponto de vista etimológico28, significa um estado decisivo, 
situação de vida aberta para diversas possibilidades. O termonão tem um significado 
necessariamente negativo (mesmo se na linguagem comum assumiu prevalentemente uma 
carecterística de situação grave e perigosa, de luta e pertubação, de conflito e possível dano, de 
tribulação ou deterioração)29; refere-se a uma possibilidade de crescimento do sujeito, mas 
também o contrário, pode ser graça ou fraqueza. Tudo depende do comportamento interior 
assumido pelo sujeito diante de sua crise. 
 Vamos tentar então de dar uma definição descritiva da crise em si, definição não somente 
descritiva, mas também provisória, já que provavelmente encontraremos outros elementos no 
caminho que nos ajudarão a entender o sentido. 
 Crise em geral significa “conscienza de uma não correspondência entre o eu ideal e o eu 
atual, que pede uma escolha ou uma conversão sobre um ponto bem preciso da personalidade, 
para um novo equilíbrio de relação entre o ideal e conduta de vida, uma nova definição do eu30. 
 
1.2. Componentes específicos 
 
A partir desta definição, pelo menos quatro nos parece os elementos fundamentais da 
ideia de crise: 
- a consciência subjetiva, intendida e francamente sofrida ou dolorosa, 
 
26 A. Torresin, “A fé do padre: um tema esquecido?”, na Revista do clero italiano 1( 2009), 47. 
27 T. Merton, Diario, 16 agosto 1996. 
28 “Crise” deriva do greco Krisis, derivando por sua vez do verbo de ação Krino = eu distingo, ou jugo, ou discrimino, ou separo, ou decido. Segundo 
outra prospectiva a palavra “crise” deriva de um termo médico do século XVI que descreve o ponto no decorrer de uma doença na qual chega a um 
momento decisivo para a recuperação ou para a morte” (D. ORSUTO, entrevista feita no Zenit, 16 de abril de 2008). 
29 Cf. F. Decaminada, “Crise na vocação”, no dicionário de pastoral vocacional, Roma 2002, 346 
30 De um ponto de vista psicológico a crise é definida assim por U. Galimberti: “Momento da vida caracterizado por uma roptura do equilíbrio 
alcançado precedentemente da necessidade de transformar os esquemas habituais de comportamento que se revelam não mais adequado para se 
confrontar com a situação atual” (U. Galimberti, “Crise”, na ID., Dicionário de psicologia, Turin 1992, 246). 
A Hora de Deus 
 
24 
- de um objetivo e exato contraste entre o eu ideal e o eu atual, 
- uma decisão de mudar e converter-se em um aspecto bem determinado do próprio modo de ser 
(e viver), 
- por uma vida mais coerente na fè e na união com Cristo31. 
Vale a pena tomar novamente estes pontos, até mesmo porque a análise do significado do 
conceito nos permite de entrever ou intuir desde já ao menos alguns modos para enfrentar a crise 
em si. 
 
a) Consciência dolorosa 
 
 O estado e o tipo de consciência com a qual o sujeito vive a sua crise, representa o 
elemento específico do conceito de crise. É importante sublinhá-lo. E não como simples 
conhecimento de um ato qualquer, mas como consciência de uma certa intensidade, de um ato 
doloroso realmente sofrido. 
 Tal consciência, não é, porem um fato automático e que passa despercebido, isto é, a crise, 
“qua talis” como tal, não está ligada a gravidade objetiva da situação problemática, nem percebida 
imediatamente como situação “crítica” pelo sujeito, se bem que, é verdade que muitas pessoas – 
como já dissemos – tem grandes problemas mas não sentem-se que estão em crise. Por outro lado 
é indispensável, para viver a dificuldade como crise, ter um conhecimento coerente da crise, por 
parte do sujeito que a sofre. Este deve ser o primeiro ato de acompanhamento em um caminho de 
crise, como veremos mais a frente. Independentemente da natureza da crise, seja ela 
determinada por um problema evolutivo ou por várias inconsistências, seja qualquer coisa que se 
manisfesta (como uma dependência de álcool ou um problema de relacionamento) ou até mesmo 
um problema oculto (como um problema afetivo-sexual ou uma incerteza vocacional). A primeira 
ajuda a ser dada deve ser na área da consciência de si e do próprio problema. Ou na direção da 
verdade sobre si mesmo, que é a primeira caridade que pode e deve ser feita a uma pessoa. De 
outra forma o sujeito ficará girando em torno de si mesmo, perde tempo e a crise piora, 
exatamente porque não foi identificada na sua raiz. 
 Já dissemos consciência “dolorosa”. Dolorosa porque e em que sentido? A resposta nos 
sera dada em seguida. 
 
b) Distância entre o eu atual e o eu ideal 
 
 A consciência é dolorosa antes de tudo porque o indivíduo percebe que há uma 
dissonância (desarmonia) dento de si, um contraste entre aquilo que é e aquilo que queria e 
deveria ser. E é um sofrimento inevitável: o ser humano não pode evitar de sofrer quando os seus 
ideais não são alcançados, poderá tentar negar tal sofrimento, ridicularizar, ate mesmo tentar 
reduzí-los, gloriar-se por não haver senso de culpa, ou de racionalizar-justificar as suas ações, 
porém com o passar do tempo não conseguirá cancelar completamente aquele golpe negativo que 
repetiu várias vezes, e que é natural no ser humano por não conseguir alcançar de uma certa 
forma os seus ideais, quaisquer que sejam. Reação que se manifestará em formas e modos 
estranhos, e que depois são subterfúgios32, por exemplo como nervosismo, estado de agitação, 
impaciência com os outros e irritação, depressão. Podemos afirmar com certeza: durante o tempo 
em que coloca em ato todos aqueles mecanismos de defesa a pessoa não está em crise, faz de 
tudo para evitá-la, as vezes conseguindo até mesmo escondê-la dos outros e a iludir-se, ou seja, 
 
31 Segundo Galimberti são estas as carecterísticas mais importante do estado de Crise : 1) um estado de mássima abertura a mudança, em direção a 
uma solução positiva; 2) um tempo limitado; 3) uma mudança seja a nível afetivo que cognitivo ; 4) Un seu repropor-se se não é resolvido ou se 
encontra uma solução inadequada. (GALIMBERTI, Crisi, 247). 
32 Meio artificioso ou sutil que se emprega para sair de dificuldades. 
A Hora de Deus 
 
25 
literalmente a “levar na brincadeira” (ou a girar em torno de si) ... De fato nunca dar um passo a 
frente na vida. 
 Na realidade, num nível mais profundo, o sofrimento do qual falamos e que é componente 
importante de uma crise, vem do amor, da paixão pelo próprio ideal de vida. Não é fruto de uma 
condenação de si, ou de um sútil auto desprezo do tipo perfeccionista que está fraco e imperfeito. 
Isto é uma obediência mais ou menos cega a uma imposição interna, obediência ao senso do 
dever como imperativo categórico33, porém consequência de uma relação que esta nascendo e 
que vai afirmando sempre mais e mais na vida da pessoa, tanto mais na vida de um crente ou de 
um consagrado que é chamado por amor a responder ao Amor, e ao amor de uma Pessoa 
específica pela qual se sente amado, ainda que isto lhe custa muito e lhe pede renúncia de outros 
afetos. Uma vez que nesta relação e com esta Pessoa, como veremos, o sujeito descobre sempre 
mais ele mesmo e aquilo que é chamado a tornar-se. 
 É importante reconduzir a pessoa a este santo sofrimento, como ponto de partida para 
enfrentar adequadamente a situação crítica em que se encontra. 
 Não pense que o indivíduo deve chegar a “quem sabe” qual transgressão para perceber 
em si mesmo este tipo de sofrimento. Quem tem um ideal na vida e em tal ideal compreende que 
há um chamado, e este, vem do Alto, e de um Outro. A revelação do seu verdadeiro “eu” ou 
daquilo que é chamado a ser, o fará também muito vigilante para entender o que o mantém longe 
do ideal ao qual quer chegar, realizar, será muito sensível as provocações que recebe do externo, 
da história, do ambiente cultural, dos outros... Terá uma baixa percepção, exatamente, para se 
deixar “entrar em crise”, diferentemente do tipo vulgar que está perdendo a paixão pelo seu ideal, 
e que nem mesmo uma tonelada poderá fazê-lo mover-se de sua inércia, apatia e insensibilidade 
que lhe protege de todas as crises.Desta forma a crise é componente normal e positivo de um processo de formação 
permanente (ou ate mesmo da idéia de identidade), como dois elementos intimamente ligados 
entre si. Por um lado é a consciência da diferença dentro de si, entre ideal e realidade que torna a 
vida caminho constante formativo, enquanto, por outro lado, é somente quem leva a sério tal 
caminho, (e a formação permanente) que poderá perceber o momento e fazer escolhas 
consequentes. 
 Outra especificação a respeito da “consciência dolorosa ou sofrida”. Por si só o sofrimento, 
como componente normal de uma crise, pode ser motivado também por fatores externos a 
pessoa (como luto por pessoa querida) ou não, ligado a sua responsabilidade (como um doença) 
ou até mesmo de natureza transcendente (como a ausência de Deus na noite da alma): nestes 
casos não existe transgressão ou fraqueza como origem da eventual crise, mas poderá ser um 
sofrimento salutar que reconduz o sujeito a confrontar com o seu eu ideal, em todo caso ao 
menos a fidelidade a este ideal, a descoberta de um modo novo e inédito, talvez, de realizá-lo 
ainda que em situações obviamente duras como luto ou enfermidade ou sensação de ausência do 
Eterno, e portanto também a um novo conhecimento de Deus e do seu mistério, no qual esta 
escondido também o mistério do próprio eu. 
 
c) Decisão de mudar 
 
 Outro elemento absolutamente qualificativo em uma crise é a decisão de mudar. Que 
segue ou deveria seguir espontaneamente a consciência dolorosa, sofrida do contraste entre o eu 
 
33 Imperativo categórico é um dos principais elementos da filosofia de Immanuel Kant. Sua ética e moral têm como base esse preceito. Para o 
filósofo alemão, imperativo categórico é o dever de toda pessoa de agir conforme os princípios que ELA quer que todos os seres humanos sigam, 
que ELA quer que seja uma lei da natureza humana. O imperativo categórico é enunciado com três diferentes fórmulas, são estas: 1)O próprio 
imperativo categórico, sobre o qual Kant coloca: "Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, por tua vontade, lei universal da natureza". 
2)O imperativo universal: "A máxima do meu agir deve ser por mim entendida como uma lei universal, para que todos a sigam". 3)O imperativo 
prático: "Age de tal modo que possas usar a humanidade, tanto em tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre como um fim ao mesmo 
tempo e nunca apenas como um meio". 
http://pt.wikipedia.org/wiki/Immanuel_Kant
http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89tica
http://pt.wikipedia.org/wiki/Moral
http://pt.wikipedia.org/wiki/Dever
A Hora de Deus 
 
26 
atual e o eu ideal. Por isto é... precioso o sofrimento, porque torna autêntico o impulso para 
mudar e dar uma virada radical na vida, sobretudo quando o sofrimento nasce da paixão ou do 
amor. Então, de fato, o sofrimento é rico de energia, mais forte do que as resistências, que as 
inércias, que os mecanismos de defesa que nos enganam ao invés de nos defender, e consegue 
assim estimular a decisão para uma verdadeira conversão. 
 Porém a crise não é pacífica. Em vários casos a pessoa ver corretamente o seu problema, 
mas não decide-se nunca a percorrer o caminho para chegar a uma mudança! Falta portanto a 
motivação, aquele particular sofrimento que nasce do amor34. Se não existir um tal sofrimento (e 
o amor que o motive) o sujeito simplesmente não ver porque mudar. E será terrivelmente difícil 
provocá-lo do externo, não obstante o psicológico ou quem sabe, quem tente em todos os modos 
encorajar a pessoa. 
De outra parte, tal motivação sofrida não cai do céu, mas é fruto de um caminho específico 
ou de uma disponibilidade progressivamente crescida. No plano espiritual e psicológico. 
 
Motivação espiritual 
 
 Em termos mais técnicos, queremos dizer, a decisão é ligada ao tipo de realização existente 
entre “eu atual” e “eu ideal”, ou a distância existente entre os dois ideais. Que deveria ser uma 
distância ideal, nem muita (exagerada) nem pouca (mínima), mas o necessário para que exista um 
contato real com alguma coisa, ou melhor, com Alguém com a qual nasça uma relação importante 
e significativa, a partir de uma intuição: nesta pessoa está escondido o meu “eu”, está tracejada a 
minha verdade, o meu eu ideal. Tudo parte daqui. Inevitável, então, que lentamente se torne 
também uma relação de amor. Por este Alguém que está no centro da vida, que faz parte da 
própria existência e que pertence ao sujeito, um Tu no qual descobre o seu próprio “eu”, 
impossível não desenvolver uma relação afetiva, no sentido mais verdadeiro do termo, com tal 
realidade. 
Se trata de Alguem não domesticável da própria pessoa, mas também atraente, agradável, 
e também infinitamente exigente; convincente, mas porém projetado e projetante no mistério. 
Existe em suma uma distância que separa inevitavelmente deste ideal, mas uma distância 
específica, que obedece a critérios específicos. É, e deve ser, uma distância que consente ao 
sujeito perceber a verdade ideal, ou pelo menos algum fragmento desta verdade, de sentí-la 
verdadeiramente, e não somente em si mesmo, mas também na própria pessoa. Portanto algo 
belo, fascinante, como escutar repreensões, chamada de atenção, exigências e pretensões sobre o 
modo de agir. Alguma coisa (ou Alguém) que complica a vida, te pede o máximo de você mesmo, 
te faz sentir a dor por eventuais incoerências e mesmo assim a vontade de continuar caminhando, 
alguma coisa (alguém) que não pode mais perde, porque é somente ali que existe a sua identidade 
e verdade. É, no fundo, a experiência de Pedro, quando não entende o raciocínio de Jesus sobre o 
pão da vida, mas intui que somente aquele homem tem as palavras de vida, e que viver sem Ele 
não seria mais vida (cf. Jo 6,68). 
 Então, quando todo o psiquismo (coração-mente-vontade, sentidos externos e internos, 
mãos e pés, sensibilidade e impulsividade ...) está voltado para o objetivo central e em contato 
com este objetivo, cresce também a disponibilidade de recolocar-se em discussão. Ou seja, o 
indivíduo está finalmente motivado a mudar. Por uma motivação que vem do amor, de uma 
relação amorosa com o próprio ideal ou com aquela Pessoa com a qual o consagrado descobre 
sempre mais, não um genérico ideal, igual para todos, mas uma revelação pessoal do mistério do 
seu “eu”, do seu eu ideal. Assim como é inevitável não ter uma relação de amor com esta Pessoa, 
assim também será inevitável não ter consciência da distância que me separa Dela. 
 
34 Se a motivação é o impulso para agir, o modo mais natural e eficaz de ser motivado é aquele impulso que vem do amor. 
A Hora de Deus 
 
27 
 
Motivação Psicológica 
 
 Existe ainda uma outra via para chegar ao mesmo resultado. Este é do tipo mais dedutivo. 
Aquela que deveria conduzir lentamente a pessoa a constatar que está vivendo mal, que não está 
gozando, mesmo se faz tudo para convencer-se do contrário, que aquela gratificação afetiva, ou 
seja como for, impulsiva que lhe concedia não lhe dava verdadeira alegria, e se tem a impressão 
que esta é uma impressão passageira, que dura poco e depois se contradiz, na verdade lhe deixa 
com um gosto doloroso como amargo na boca. Na realidade, este deverá obter aquela gratificação 
que transformará numa dependência, senão uma obsessão. A vida tornar-se uma existência 
escrava ou dominada de uma compulsão impulsiva? 
 No contrário a música muda, por assim dizer, de uma crise de inércia, típica de quem não 
percebe que está acabando o entusiasmo que havia a algum tempo, e que aceita sujeitar-se 
passivamente a própria existência, mesmo se sua vida foi consagrada, esteja atento – a sua única 
“atividade” de ser – para evitar ou anular toda perturbação, confusão e provocação, ou acabará 
por ficar preocupado somente com sua saúde e com seu conforto, não percebendo mais nenhum 
estímolo que provoque o sujeito a sair de si, e sobretudo não tendo umarelação que deveria estar 
ao centro da sua vida revelando-lhe o mistério que ela contém. Até mesmo quem se encontra 
nesta situação podera ter a impressão de estar contente, satisfeito, porém não estará 
verdadeiramente, não poderá estar. Porque não pode existir vida numa existência privada de 
relações e de uma relação que seja central para a sua identidade, seria uma existência ex-cêntrica 
ou auto-cêntrica, onde poderíamos dizer que é a antecâmara do desespero, não pode ser feliz um 
eu que não se reflete em um tu. 
 Em ambos os casos exemplificados o segredo estar em tornar evidente o auto-engano, ou 
seja, descobrir aquele sentimento de frustração que agride ambos os casos. Porém todos os dois 
casos tentam de todos os modos reprimir, afastar de si tais aborrecimentos, contentando-se com 
pequenas compensações, o quanto for necessário para dizer a si mesmo: “Eu sou feliz”. Talvez não 
acontecem, por si só muitas motivações espirituais, bastaria – mesmo se algumas vezes tenha 
aparência de felicidade, mas na verdade não é – levar a pessoa a descobrir e a entender esta 
contradição que está tornando sua vida e sua pessoa profundamente falsa. Ou ainda aquela 
relação central que é a condição de sentido da própria existência, está ausente ou tem pouco 
significado, sem a qual a própria pessoa não corre somente o risco de não ter mais pontos de 
referência ou de permanecer como uma obra incompleta, mas ainda de permanecer sem amor, 
aquele verdadeiro amor, que revela a verdade do eu. Ainda uma vez, a primeira e fundamental 
intervenção é aquela da verdade em se tratando do conhecimento. Enquanto que segundo os 
métodos, a estrada a tomar é aquela da consciência do sujeito a ser promovido, para que seja ele 
mesmo a tomar a decisão. 
 
O ponto fraco 
 
 Um outro assunto importante para trabalharmos é a necessidade de definir o caminho 
formativo, identificando os pontos fracos que tornam o sujeito passivo diante da beleza do ideal as 
vezes não muito atraído por esta beleza ou deixando-se ser seduzido por outras eventualidades. 
 Até o momento em que este ponto fraco não é identificado ou esta inconsistência, ou seja 
a eventual crise é uma situação que bloqueia, sem alguma possibilidade evolutiva positiva, 
semplismente porque o sujeito não sabe por onde começar, percebe o incômodo, mas não 
entende como e o que fazer para sair desta crise. E não somente isso, e ainda a crise piora, já que 
– como bem sabemos – o inconsciente, quando é incomodado, tende a tornar... sempre mais 
inconsciente, complicando assim sempre mais a vida e a relação da pessoa. 
A Hora de Deus 
 
28 
 Não podemos certamente neste tipo de identificação ser genéricos e aproximativos, ao 
contrário, quanto mais preciso formos no entender a área psíquica aonde o indivíduo estar 
“menos livre” por assim dizer, e mais vulnerável, tanto mais será forte a motivação a mudar. 
 Certo, não se pode identificar a descoberta da própria inconscistência com a decisão de 
mudar, então não basta a primeira para que tenhamos a segunda, mas acredito poder dizer que 
quando a pessoa é ajudada e provocada a fazer esta descoberta aumentam significativamente as 
possibilidades de uma decisão correspondente. 
 Normalmente a pessoa que está em crise não faz isto sozinha, antes o estar em crise 
implica um tipo de obscuridade de uma parte de si que a determinou, acontecerá com o tempo ou 
com o caminhar evolutivo normal da vida: “A história da vida – especifica Jaspers – não segue o 
curso uniforme do tempo, mas estrutura o próprio tempo qualitativamente, impulsionando o 
desenvolvimento da esperiência ao extremo tornando inevitável a decisão”35. 
 Então, ocorre idealmente chegar a tornar inevitável a decisão de mudar, ou favorecer uma 
pressão ou um impulso extremo causado pelos eventos (ou por Deus, pelo o crente) na história de 
cada indivíduo que decide-se a mudar. A crise, neste sentido, é esta pressão, providencial 
podemos dizer, como um limite extremo, que deveria proporcionar a pessoa a entender que deve 
absolutamente mudar, a sua decisão é inevitável, não pode deixar de fazer, como dice Jesus: “se 
não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis.” (Lc 13,3). 
 
d) Em direção de uma nova identidade 
 
 Se a crise nasce da percepção de um contraste entre o eu atual e o eu ideal, a solução da 
crise vai na direção de um novo tipo de relação entre as duas estruturas da psique humana. Não 
somente no sentido da eliminação do contraste em si (que pertence ao passado, ao homem 
velho), mas da descoberta daquela novidade de vida que a crise permitiu viver. 
 Retornaremos, para entender melhor o sentido desta novidade de vida, como já dissemos 
antes a respeito da distância que chamei de “distância otimal”. 
 
Distância constante e dinâmica 
 
 Tal distânca entre o eu atual e o eu ideal é uma distância constante, destinada a 
permanecer na vida da pessoa, ou seja “aquilo que somos” (= eu atual) não chegará nunca a 
conquistar tudo “aquilo que nós somos chamados a ser” (= eu ideal), de outra forma, isto não seria 
mais um ideal. E ainda, é uma distância dinâmica, na qual os dois polos (= os dois eu’s) se deslocam 
juntos progressivamente, quando a evolução da maturidade é positiva : quanto mais prossegue o 
eu atual, mais caminhará o eu ideal. Em outras palavras: se o indivíduo se move com todo o seu 
ser, com toda a mente, com todo o coração, com todas as forças em direção do seu ideal, 
inevitavelmente este último si revela de uma forma nova, o faz compreender qualquer aspecto 
inédito do seu mistério, o faz perceber um fragmento novo da sua verdade (=mente), fazendo-o 
perceber uma nova atração ou novos motivos de atração (=coração), mas também pedindo-o algo 
diferente (=vontade), algo a mais e ainda que seja mais exigente em relação a primeira, ou seja, o 
eu ideal aparecerá um tanto novo, como se tivesse dado um passo a frente. Assim o sujeito será 
estimulado a responder sempre com todo o seu ser, dando também um passo a frente. Por sua 
vez, o sujeito se colocará ele mesmo em condição de descobrir uma nova verdade, perceber uma 
nova atração e sentir um novo chamado, como uma chamada permanente e sempre nova, para 
um ideal sempre mais verdadeiro-belo-bom, ou convincente-atraente-exigente... Em fim, “a 
 
35 k. Jaspers, Psicologia geral, Roma 1964, 748 
A Hora de Deus 
 
29 
dialética entre os dois polos do atual e do ideal é inesgotável”, ou seja “o Eu como mistério é 
sempre o mesmo Eu, porém sempre mais explícito e explicado”36. 
 E a vida se torna assim um processo de crescimento contínuo e interminável, ou de 
formação permanente verdadeiro, do coração, da mente e da vontade, por uma mudança e um 
progresso cognitivo e afetivo e operativo, isto é, total. Que não pode que ser “crítico” e, ao 
mesmo tempo, expressão de autêntica fidelidade. 
 
A verdadeira fidelidade 
 
 Neste sentido, a fidelidade é feita para ser constantemente inventada e não conservada: 
não se fica fiel, se torna mediante um contínuo empenho com o qual o “Eu” si aproxima sempre 
mais da própria identidade através não só de inovações lineares e congruentes, mas também 
saltos e crises.37 Se não tiver novidades e nem crises, significa que há enfraquecimento e não há 
coerência do “eu”. 
 Em outras palavras, a autêntica fidelidade é dinâmica e criativa, não aquela que busca 
simplesmente manter as posições de partida, uma vez que “o homem fiel assume as mudanças 
durante as quais ele permanece si mesmo através da mediação destas mudanças. A identidade do 
ser vivente inclui crescimento e mediação. A semente é fiel a si mesma tornando-se uma planta”38, 
ou seja, o sujeito deveria poder dizer: “Mudo ou converto-me para ser fiel, porque me pede 
aquele valor no qual reconheço a minha identidade”. Poderemos até mesmo especificar que 
quanto mais o sentido de identidade é positivo, ou fundado sobre algo que garante uma 
percepção de si substancialmente e permanentemente positiva (como seria, parao crente, a sua 
origem divina e a sua vocação ou, em uma expressão, o seu reconhecer-se em Cristo), quanto mais 
o sujeito é livre para mudar, para ser sempre mais fiel ao projeto do início, e que permance aquilo 
que é (mesmo se sempre mais transparente) e ao mesmo tempo provoca a mudança e dá a força 
de viver a mudança. 
 É interessante ver como a fidelidade seja comprometida na identidade, ao ponto que 
aquilo que dizem sobre a identidade deixa entrever também as características da fidelidade. De 
fato, como no conceito de identidade combinam elementos constitutivos estáticos e dinâmicos, 
ou existe algo que permanece (a fonte da própria identidade e o tipo de relação entre o eu atual e 
o eu ideal) e ainda qualquer coisa que move-se continuamente (o caminho do eu atual e a 
descoberta progressiva do eu ideal), assim é para a idéia de fidelidade, que por natureza implica 
num ponto de referência estável e permanente no tempo, e um movimento de atração em 
direção deste que se abre a descobertas progressivas, e sempre mais envolventes e exigentes39. 
Sobretudo se si reflete, como sublinha Sovernigo, que por rigor dos termos não existe o ser fiel aos 
atos, ou as idéias, ou as virtudes, ou a uma causa, mas somente e sempre a pessoas. A promessa 
define uma responsabilidade que nos é colocada em realação ao outro. O homem si liga em modo 
válido somente a pessoas, a Deus e aos outros. Portanto é colocado mau o problema da fidelidade 
na educação se si faz objeto de um projeto frio e sem rosto. Esta, aliás é um modo de viver a 
relação. A fidelidade, ao contrário é um modo de viver a relação. Ela tem sempre a imagem viva de 
alguém ao qual o olhar e coração convidam a responder.40 
 
Aquele diálogo submerso e discreto 
 
 
36 C.Corbela, Resistir ou ir embora ? Teologia e psicologia diante da fidelidade nas escolhas da vida, Bologna 2009, 84. É muito interessante e 
pertinente as reflexões desta autora. 
37 Cf. I. De Sandre, Scelta a «responsabilidade limitada», na Servitium 40(2006), 33. 
38 G. Sovernigo, “A dificuldade da fidelidade”, em Presbíteros 30 (1996) 7, 496. 
39 “Ter percebido a noção de identidade seja como processo dinâmico que como propridedade estável da personalidade, permite reler também a 
fidelidade não mais como valor estrínseco ao qual se conformar, mas como modalidade necessária para a plena realização do “Eu” implicando a um 
tempo continuidade e criatividade”(Corbella, Resistir ou ir embora?, 87). 
40 Corbella, Resistir ou ir embora ? , 498. 
A Hora de Deus 
 
30 
 Enfim, a crise não poderia nascer no momento da resposta ao convite constante do Eterno, 
ou não poderia ser componente normal ou instrumento indispensável e inevitável deste diálogo 
misterioso e ininterrupto entre o eu atual e o eu ideal? Diálogo submerso e discreto, e mesmo 
assim decisivo e “crítico”, ai se não fosse assim. É óbvio que quando o eu ideal faz as suas 
propostas e se revela em modo novo para a pessoa, tudo isto não é indolor, si é algo novo, 
significa uma nova aventura, uma nova pretensão, algo mais exigente em relação ao hábito de 
vida, aquilo em que todos nós nos adaptamos muito facilmente, e que no final é difícil renunciar, 
mas é o preço do crescimento. 
 E é ainda função da crise: criar uma nova relação entre o eu atual e o eu ideal, 
empurrando-o para frente, e ainda fazer da vida um contínuo dinamismo evolutivo, impedir a 
habitual estagnação que muitas vezes seduzem o consagrado e tornando vazia a vida espiritual do 
crente, descobrir estas sútis idolatrias que nos levam a considerar insuperáveis os equilíbrios já 
alcançados, e a contentarmos com o nível atingido, a repetir as mesmas coisas, e que impediriam 
até mesmo Deus de se revelar na constante e sempre inédita novidade do seu mistério (o Deus de 
ontem não é talvez o ídolo de hoje?). Com uma expressão um pouco forte poderíamos dizer que a 
crise favorece e ativa a sensibilidade interior que salva a pessoa da maldição da adaptação, vírus 
maléfico e mortal que cria por sua vez todos aqueles processos de condicionamento que 
bloqueiam a pessoa, tornando-a medíocre, privando-a de sua beleza e quase matando-a 
interiormente. 
 É este – creio firmemente – o sentido das crises espirituais. Porém na realidade em cada 
tipo de crise existe sempre o incitar a ir sempre para frente. E então, deste ponto de vista 
poderíamos dizer que a ausência da crise é um mal sinal: quereria dizer que a pessoa está 
morendo, de fato, não sente mais algum estímolo, ou se interrompeu aquele decisivo diálogo 
entre o eu atual e o eu ideal. 
 Aquele diálogo submesso e discreto não é algo somente humano e psicológico, neste caso 
é o mediador psicológico da ação de Deus em nós, a sua voz leve e apenas percepitível, como a 
brisa suave do profeta Elias, o sussuro do seu Espírito que paira sobre a criação e faz nova todas as 
coisas e e cada criatura... 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A Hora de Deus 
 
31 
 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO 3 
AS PESSOAS EM CRISE 
 
 Se a crise tem um significado, foi o que tentamos ver no capítulo precedente, existem porém 
diversos modos de viver a crise. Por isso não é suficiente identificar o significado objetivo da 
situação crítica que o homem frequentemente vem a sofrer, mas ocorre procurar ver como as 
crises podem ser interpretadas pelos diversos sujeitos. 
 
1. Tipologia do sujeito “em crise” 
 
 Descrevendo as várias maneiras de experimentar as crises, descrevemos também ou 
sobretudo os sujeitos em crises; poderíamos dizer que a partir da maneira como interpretamos as 
situações críticas se pode perceber o tipo da personalidade daquele que está em crise. 
 Vamos então ver algumas dessas maneiras de viver ou não viver as crises. Com a finalidade 
de entendê-las melhor, indicaremos apenas, em modo ainda muito elementar e genérico, um 
modo possível para intervir ou uma área sobre a qual intervir, quase como um primeiro pronto 
socorro, que repreenderemos mais adiante em modo mais sistemático. 
 
1.1 Nunca em Crise 
 
 Não é por falta de significado que escolhemos partir desta categoria, aqueles que nunca 
estão em crise (sorte deles), porque consideramos que seja a categoria mais numerosa. 
 Quando se fala de crise se pensa imediatamente àqueles que estão em uma situação de 
particular necessidade ou com problemas psiquiátricos, ou porque vivem dúvidas vocacionais e 
para estes será doloroso discernir sobre o futuro, ou têm dificuldades bem visíveis aparentemente 
insuperáveis com sua fidelidade vocacional, ou têm problemas com a comunidade por causa de 
uma natureza difícil e forte, ou criam problemas à instituição e se tornam frequentemente um 
peso para todos, ou são figuras impossíveis que decidem ir embora batendo a porta, irritados com 
o mundo inteiro, as vezes para ir causar problemas em outro lugar... Certo, são os casos mais 
impressionantes e muitas vezes difíceis de enfrentar e ajudar. 
 Mas, a frente desse grupo talvez não tanto consistente assim, existe um outro, este sim 
particularmente numeroso, um exército de padres e consagrados/as que estão 
extraordinariamente tranquilos como mencionamos no início do capítulo precedente, que não 
estão, nunca estiveram e jamais estarão em crise, impertubáveis e sempre satisfeitos de si e do 
que fazem. Pelo contrário seria bom para eles mesmos e para os que tem a sorte de viver próximo 
a eles, se aceitassem passar pela crise, uma boa crise, ao menos uma vez! 
A Hora de Deus 
 
32 
 O impressionante é que estes são tantos e talvez constituem o verdadeiro problema da 
vida sacerdotal e religiosa, antes mesmo da crise vocacional e de tantas outras coisas que hoje é 
motivo de preocupação oficial (por exemplo os padres pedófilos) e que é objeto de atenção e 
intervenções focadas. Um verdadeiro caruncho na Igreja de Deus, como uma célula com tumor 
que – na medida em que não é diagnosticada a tempo – pouco a pouco contamina as outras 
células e determina o mal-estar do organismointeiro, vejam a mediocridade de tantos homens de 
Deus ou mesmo a “imundície” que existe dentro da Igreja, para falar com termos competentes do 
então cardeal Ratzinger, ou a perda de alegria e entusiasmo ou o baixo nível de testemunho da fé 
e da consagração por parte de quem deveria dizer como é belo consagrar-se ao Deus da verdade e 
da beleza! 
O verdadeiro problema é que estas pessoas não cometem grandes transgressões (ou ao 
menos não são tais, aos seus olhos), não tem nenhuma dúvida vocacional, geralmente vivem uma 
certa fidelidade (ao menos “mais ou menos” ou oficialmente), e as vezes são rígidas no agir e 
defensoras da autoridade constituída, não tem motivos externos para sentir-se responsáveis por 
alguma coisa que não vai bem, isso porque conseguiram em suma silenciar as vozes internas que 
lhes poderiam colocar em discussões (como aquela conversa interior entre o “eu atual e o eu 
ideal” que falamos no outro capítulo). Eles encontraram um bom equilíbrio de vida, bom porque 
permite um considerável comprometimento entre as exigências dos valores escolhidos e a 
pretenção das necessidades infanto-juvenil e isso funciona tão bem que este compromisso de 
equilibrista para quem está de fora parece pessoas frequentemente,... equilibradas (não são 
explosivas, nem loucas, não fazem coisas estranhas e podem até mesmo conseguir ter uma boa 
situação social, parabéns!). 
Certo, se alguém olha um pouquinho mais “fundo” a vida destas pessoas, então descobrirá 
alguns segredos escondidos, como aquele (falso) celibatário que vive com tranquilidade uma 
situação pessoal-relacional escabrosa, obviamente mantida bem escondida, quase clandestina; ou 
o consagrado adulto que clicando e navegando aqui e alí, secretamente pretende, concedendo 
gratificações típicas da idade adolescente para saciar uma curiosidade sexual fora do tempo e 
assim corre o risco de se tornar sempre mais ganancioso; ou um frei que se consagrou na pobreza, 
jamais negada formalmente, porém permitindo a si mesmo mil comodidades através de truques e 
artimanhas (todos lícitos, naturalmente), ou que no final da vida “descobre” que foi simplesmente 
financiado pelos parentes (e discretamente) desviando naquela direção as magnânimas ofertas 
recebidas de pessoas generosas, mas também, mais inocuamente, reentra nesta categoria o 
apóstolo que continua intrépido a anunciar o Evangelo com o mesmo estilo de algumas década 
atrás, e não se sente no mínimo interpelado ou desafiado pelas mudanças culturais e sociais 
ocorridas nesse meio-tempo... 
Há uma coisa a dizer destes “tipos singulares”, que geralmente conseguem fazer qualquer 
outro estar em crise; não sei se é uma lei, mas se poderia dizer que para cada pessoa que nunca 
está em crise, há sempre uma outra, geralmente muito próxima desta... forçada a estar em crise 
(estar ao seu lugar) ou que se encontra, pelo menos, a sofrer as consequências de viver junto a 
uma pessoa que nunca erra, que não tem nada para censurar-se, que tem sempre razão, 
explendida na sua mediocridade e irritante na sua ambiguidade. Pois, de fato não é fácil esta 
convivência, dai alguém pode sair com os ossos quebradros, frustado e exausto por uma crise 
determinada simplesmente por estar ao lado de quem não tem a coragem de viver as suas crises. 
Poderíamos considerar esta crise como uma espécie de crise “substituta” ou “vigária”, como 
aquela do bispo um pouco desesperado que não sabe mais o que fazer com alguém desse “tipo”, 
um de seus padres (embora não vivendo juntos) por fim consegue convencê-lo a pedir um 
aconselhamento a nível psicológico e espiritual, o sujeito vem, mas recordo, para dizer que não 
tem nada em particular para dizer, nem mesmo sabe porque o bispo insistiu tanto para fazer este 
aconselhamento, “talvez – conclui, ironico, procurando em mim um improvável aliado – é a sua 
A Hora de Deus 
 
33 
excelência (o bispo) que está em crise”. De fato... E não havia nenhuma maneira de fazê-lo admitir 
sequer um pequeno problema pessoal. 
Na verdade, um aspecto característico típico destas pessoas, é que não percebem nunca, 
algum senso de culpa, a consideram uma coisa superada, para principiantes na vida moral, nem se 
sentem desafiados a mudar nada em sua experiência, porque para eles tudo está sempre muito 
bem, são os outro que pensam mal. 
E ao invés seria mesmo bom fazê-los ter algum sentimento de culpa e a entender, antes, 
que esse é ainda o primeiro passo na evolução positiva da consciência moral. Assim como é útil 
para quem quer conhecer-se e não enganar-se, não jogar fora tudo o que os outros dizem sobre 
nós, existem aspectos da nossa personalidade que os outros vêem e nós não vemos41 somente um 
bobo ou um presunçoso se priva dessa fonte preciosa de informações. 
Se tratará então de despertar uma sensibilidade que está atrofiando, tornando-se fria e 
apática, através de uma atenção não somente dos comportamentos, mas também dos 
sentimentos, dos gostos, dos desejos, das motivações em particular, para passar da sinceridade 
(reconhecer aquilo que se experimenta dentro) à verdade (entender o motivo ou a raíz profunda 
daquele sentimento). Talvez fará alguém sorrir, mas será uma ótima medicina preventiva para não 
cair nessa sindrome do tipo “nunca em crise”, realmente aprender a fazer esta tão séria e 
saudável, ainda simples e acessível, que é o exame de consciência (“a psicanálise do pobre”), 
através do qual se aprende a olhar para dentro com inteligência, passando da atenção ao “o que 
eu fiz” à “como eu o fiz” (com quais atitudes e sentimentos interiores), do como ao porquê, do 
porquê ao por quem o fiz. 
Haveria então uma esperança, para estes tipos, de sair de um exame de consciência com os 
ossos um pouco "amassado” ou de descobrir qualquer contradição ou inconsistência interior. 
Sentindo-se finalmente em crise, para a paz de todos. Deo gratias! 
 
1.2 Sempre em crise 
 
Ao contrário, no outro extremo existe o tipo tanto estranho, mas pelo motivo oposto: são 
aqueles que estão em “crise estável”, os que estão sempre em crise, correndo o risco de tornar 
permanente não a sua formação, mas a sua crise. Isto é, não é nem mesmo crise autêntica, porque 
a crise sublinha Galimberti, do ponto de vista psicológico tem “uma duração limitada”42 ou supõe 
uma decisão, como argumentamos anteriormente. Normalmente, quem está sempre em crise não 
está nunca por uma razão profunda e verdadeira, mas por qualquer outra sensação interior – 
superficial – que o tira da paz. 
Os motivos ou as modalidades podem ser diversos: existe o sujeito que inventa a crise (“se 
coloca” em crise) e de fato de qualquer maneira a sofre (pela vida, pelos outros, pelas 
situações...), ou teremos o personagem que está bem dentro da situação considerada crítica: de 
um lado se sente como uma pessoa séria e consciente, do outro o estar em crise se torna um ábili 
que não o permite poder tomar grandes decisões e mudar. É o caso típico do jovem em 
discernimento vocacional que sente ou disse que “esta em crise de discernimeento” porque lhe 
falta ainda alguns detalhes para esclarecer dentro de si, portanto, não pode escolher. Esta pessoa 
nós a encontramos em todos encontros vocacionais, em toda “jornada de seminário”, falsamente 
pensativo e permanentemente a espera de quem sabe quais informações, quem sabe de onde... A 
realidade é que na verdade não se importam muito com a prospectiva vocacional ou que de fato, 
teme ter que tomar uma decisão e assim fica esperando.... Para pessoas deste tipo alguns 
costumavam dizer: “Tomam nesse meio tempo a decisão em base aos elementos que têem em 
 
41 É a famosa Johari’s windows, que coloca em relação o conhecimento que alguém tem da própria personalidade com o conhecimento que os 
outros tem (cf. Sobre isso A. Cencini – A. Manenti, Psicologia e formação. Estruturas e dinamismos, Bolonha 2001, 42-43). 
42 U. Galimberti, « Crise», in ID., Dizionario di psicologia, Turim 1992, 247. 
A Horade Deus 
 
34 
mãos hoje, e amanhã sem dúvidas terá qualquer detalhe a mais para tomar uma decisão ainda 
melhor43...”. 
Portanto a crise desses sujeitos é tudo junto como uma crise inerte, pacífica, enfim, não 
sofrida, talvez instrumentalizada ao menos algumas vezes. Claro com algumas diferenças. 
No primeiro caso (quando alguém inventa ou sofre a crise) teremos o tipo um pouco 
perfeccionista e um pouco escrupuloso e de modo muito exagerado curvado sobre sí e assim 
meticulosamente, cauteloso, atento às minúcias do seu comportamento para descobrir sempre 
qualquer imperfeição naquilo que faz. É o clássico sujeito “nunca” contente de sí, depressivo e 
geralmente também deprimente. Este necessitará de um cuidado radical que reerga um pouco a 
sua auto-estima, fazendo-o entender o que sustenta e garante definitivamente (o amor de Deus, 
afinal e o ser criatura feita a Sua imagem e semelhança) e ajudá-lo a não confundir a santidade 
com a perfeição, a santidade é a pobreza do homem, cheia do amor de Deus, e a perfeição é a 
pretenção irrealista da criatura de conquistar a virtude com suas próprias forças. Eis então a 
verdadeira crise, aquela saudável e mais profunda, que é proposta a quem está “sempre em crise” 
(falsa crise, na realidade é prejudicial a saúde): lutar contra o próprio egoísmo ou narcisismo 
espiritual, que com o tempo impede o fiel de fazer as experiências mais ricas e típicas do cristão, a 
experiência da graça divina na fraqueza humana, a experiência que fez Paulo, aquele ex-narcisista 
dizer: “Quando sou fraco é então que sou forte”. 
No segundo caso (aquele de quem está na crise por não dever escolher) teremos o 
indivíduo que vê certamente o contraste dentro de sí, porém considera um preço muito alto a 
pagar para sair, ou se considera incapaz de mudar e deixar certos hábitos, e assim de fato não 
toma nunca uma decisão de converter-se ou de escolher uma estrada, a crise se torna crônica, 
como um compromisso que no final é também cômodo e não pertuba tanto a sua paz. 
Personagens assim não devem ser simplesmente consolados, mas provocados – se for o 
caso – a identificar a verdadeira crise, para vivê-la de modo realista e coerente, sem suportá-la 
nem satisfazendo-se ao chorar por causa disso, mas também em modo iluminado e como meio de 
crescimento, começando talvez das pequenas coisas e sem pretender entender tudo 
imediatamente, mas fazendo escolhas progressivas segundo a clareza que este possui no 
momento, como diz o sábio conselho daquele padre do deserto que vimos anteriormente. Se 
alguém pretende ter claro diante de si todos os elementos para fazer uma escolha, não tomará 
nunca nenhuma decisão. Por isso a decisão cristã é diferente daquela somente humana: esta 
última é baseada sobre o cálculo e rejeita tudo que compreende como perigoso, deseja ver claro 
até o fim, para eliminar todas as incertezas e surpresas e ter todas as garantias possíveis, preferir a 
escolha de menor condição e a mais lógica. A escolha cristã ao invés, não exige todas as garantias, 
mas é disposta a correr qualquer risco, não parte do cálculo, nem está centrada em sí e limitada às 
próprias forças, mas se abre à confiança em um Outro, a ponto de tentar o impossível sobre o 
plano humano ou aderir um plano não totalmente lógico.44 A vocação não seria, talvez o 
impossível humano, tornado possível por Deus? 45 
 
1.3 Crise... congelada 
 
 
43 É o sentido da história de uma jovem em busca vocacional, que pedia com insistência na oração ao Senhor para que a revelasse o seu projeto. Se 
dizia aberta e disponível a uma hipótese de consagração, mas permanecia ainda na incerteza. Frequantemente se ajoelhava diante uma imagem 
milagrosa de nossa Senhora com o menino Jesus no colo, fazia isso porque foi aconselhada por algumas freiras (talvez não totalmente 
desinteressadas), repetindo sempre a mesma súplica vocacional, mas “a Virgem da chamada” - era esse o seu nome - silenciava, (apesar das 
insistentes orações das freiras). Até que um belo dia chegou uma resposta, mas não da Virgem. O menino Jesus, talvez entediado de escutar sempre 
o mesmo lamento, decide tomar a iniciativa e a ordena sem meios termos: “... torna-te freira!” E ela responde: Cala-te. As crianças devem silênciar-
se na presença dos adultos. E depois eu pedi foi a sua mãe, você não tem nada a ver com isso ...” E preferiu permanecer na sua ... infinita “crise de 
discernimeto vocacional”... (cf.A. Cencini, Alguém te chama. Carta para quem não sabem que é chamado. Bréscia 1999, 24). 
44 Neste sentido se pode tirar o verdadeiro significado de confiança, do ponto de vista do processo decisivo, como daquele “espaço da decisão que 
foi descoberto do cálculo ou que o cálculo deve necessariamente deixar livre” (A. Cencini, Confio, logo decido. Educar a confiança nas escolhas 
vocacionais, Milão 2009, 91). 
45 Aprofundaremos este aspecto, sempre do ponto de vista da crise, no capitolo 9 §4. 
A Hora de Deus 
 
35 
Existe também o consagrado(a) que não conhece crise nenhuma, simplesmente porque 
ignora e quer ignorar até onde pode, um tipo particular de problemas pessoais que o colocaria em 
dificuldades ou que de qualquer modo não deseja, para poder dizer a sí mesmo que está livre 
disso. 
Um exemplo muito frequente é aquilo que acontece na área afetiva, particularmente no 
período da primeira formação, quando a pessoa, ainda se por causa de um idéia equivocada de 
perfeição assume uma atitude negativa com relação a própria sexualidade, pensa que o voto de 
castidade signifique a ausência de um certo tipo de atração e assim resolve remover tudo que 
pesa em torno da área da afetividade e sexualidade (“as tinha colocado na geladeira”, disse um 
desses uma vez aberto os olhos). Como aquela jovem noviça, em um mosteiro de clausura que 
afirmava vigorosamente e com aparente tranquilidade, de nunca haver tido uma tentação com 
relação a castidade e de preparar-se para fazer os votos sem experimentar nenhuma dificuldade, 
incerteza ou temor dentro de sí. Lembro-me de sua surpresa, um pouco envergonhada de frente 
às questões sobre esta área e, eventualmente, um certo ressentimento mal disfarçado diante do 
interlocutor, como se considerasse ofensivo e sem sentido para uma consagrada o convite para 
refletir sobre este assunto.46 Na realidade quem faz ou pensa assim, teme a afetividade e a 
sexualidade ou não sabe como gerenciá-la nem mesmo suspeita que na sexualidade há “centelha 
pascal”;47 e acaba vivendo na verdade uma vida congelada, isto é, chata, e relações sem algum 
envolvimento interior, tornando-se frio e sem coração com Deus e com os homens. 
É claro que uma crise congelada é somente uma crise tranferida, transposta. Portanto, não 
tem nenhum sentido esse tipo de operação porque espera-se que a vida siga os próprios ritmos e 
antes ou depois, exponha a pessoa à constatação que aquela presunção era pouco inteligente. 
Permanecendo no exemplo do congelamento da energia afetiva-sexual virá o momento, como de 
costume, no qual não terá mais o congelamento e então será doloroso, porque a pessoa se 
encontrará de frente a uma realidade que não tenha aprendido com o tempo a conhecer e 
controlar, por vezes com consequências devastadoras, como se de repente um gigante acordasse 
de uma misteriosa letargia tornando uma armadilha (como medo e resistência, remoções e 
repressões), começando a causar desastres. Certamente, uma vez que a crise congelada não é 
somente transferida, mas quando explodir será muito mais grave e distrutiva. Quantas crises deste 
tipo conhecemos em pessoas não muito jovens, nas quais são improvisadamente descongelada, 
após os rigorosos invernos da remoção, a energia sexual! 
O tempo da formação inicial é por natureza um tempo de crise por sua vez é tempo de 
formação.48 Isso não significa que se deve provocar uma crise a todo custo, talvez artificialmente 
(os clássicos repolhos plantados com as raízes para cima, para colocar em prova a obediênciado 
jovem noviço), mas simplesmente que as dificuldades e os problemas vividos no período 
estratégico da primeira formação devem ser vividos até o fim e reconhecidos por aquilo que eles 
significam e revelam da pessoa, devem ser abordados com coragem e respeitados, sem removê-
los ou cancelá-los, congelá-los ou negá-los, devem ser vividos como pedagogia preciosa, para 
aprender a viver as crises do futuro.. Ai de quem professar os votos ou as ordens sem ter vivido as 
suas crises!49 
Poderia então ser “providencial” também para estes uma “bela crise” em tempo oportuno 
(não muito longe), já que talvez seria até mesmo de se esperar que estas pessoas chegassem ao 
fundo do poço ou que se descobrissem bem mais vulneráveis do que haviam considerado até 
agora, pretendendo expelir qualquer sinal, ou circunstância de imperfeição. Até mesmo uma 
queda (no caso de um congelamento afetivo ou de uma tentativa em tal senso) seria uma bela 
bofetada, obviamente gerenciada com inteligencia por quem guia a pessoa; mas também um 
 
46 Quanto a mim, costumo dizer aos jovens em formação que “quem não tem problemas nesta área é ele um problema...”. 
47 Cf. O Clement, Reflexões sobre o homem, Milão 1973, 101 
48 Falaremos disso, identificando algumas crises “essenciais”, no último capítulo. 
49 … e ai também de quem as promovem, evidentemente ! 
A Hora de Deus 
 
36 
fracasso ressonante em outros campos. Se trataria, isto é, de colocar o sujeito em condição de 
viver estas situações, para ele totalmente inédita e imprevista, não como algo dramático e 
negativo, mas como uma ocasião proprícia para entender o que está acontecendo dentro de si 
mesmo, para compreender a qual ponto pode conduzir a ignorância dos próprios problemas, para 
entender que em cada esforço psicológico ou espiritual encontra-se um pouco da verdade de si 
mesmo, por assim dizer finalmente a verdade, para liberar a energia preciosa que permaneceu 
muito tempo bloqueada e inativa. Sem medo, aquele medo que é filho da ignorância e também 
sempre um pouco pagã, e que não é benéfico para ninguém. 
E talvez este é mais difícil e complicado para os homens (sempre um pouco presunçosos 
com isso, quem sabe por que) do que para as mulheres. 
 
1.4. Crise “final” 
 
Existem também consagrados que têm pouca atenção, como as virgens loucas, que 
percebem e admitem estar em crise somente...no final, quando esta explode descontroladamente 
e elas não têm mais força de gerenciá-la e dominá-la. 
Veremos mais adiante o percurso clássico feito frequentemente pelas crises, com as etapas 
que seguem uma após a outra quase automaticamente, se não tiver algum intervenção 
inteligente de fora para iluminar a consciência. Por isso, dizemos que já agora que para estas 
pessoas se deveria ensinar a previnir as crises ou a reconhecê-las quando estão no estágio inicial, 
com mais sinceridade e clarividência. 
Permanecendo ainda no âmbito da crise afetiva (perdoem-me a insistência sobre o tema 
pois quero dizer que estas são as crises mais frequente ou pelo menos está entre as mais 
frequentes), ocorre em tal campo recuperar um sadio realismo e ensinar a vigiar sobre aquela 
ingenuidade que é ainda mais perigosa que a presunçosa esperteza. Estranho dizer, mas o padre 
hoje sobre este campo as vezes tem uma incrível ingenuidade, mista ou mesmo um incrível 
analfabetismo afetivo-sexual. Como se não soubessem ler os próprios sentimentos e emoções, o 
próprio corpo e suas reações (quantas informações o corpo nos dá?) ou se não soubessem que o 
corpo com as suas expressões “liga” muito mais do que se imagina ou que ignorassem que quando 
se tem uma relação até mesmo a mais espiritual com uma pessoa do outro sexo deve 
necessariamente prever, se é normal, um certo tipo de reações dentro de si, que não serão 
necessariamente perigosa mas necessitam em todo caso de um sadio, isto é, um inteligente auto-
controle. Como se não soubesse mais distinguir uma relação qualquer com tantas pessoas com as 
quais entra em contato no seu ministério pastoral, de uma relação que ao invés tornou-se sempre 
mais significativa e importante para ele, com uma pessoa que está ocupando um pouco 
exageradamente os seus pensamentos e fantasias, enquanto o desejo de vê-la torna-se mais forte 
e frequentemente é um desejo que vem satisfeito. Como é tão difícil de entender que a relação 
gratificada se impõe cada vez mais, seguindo uma matriz bastante lógica e... atestada por vários 
ex-colegas, como a seguinte história: o enamoramento do padre Luovico, nos confirma tudo: ou 
seja, a velha história da relação espiritual com a jovem senhora que tem problemas com o marido 
e procura ajuda, depois vem a simpatia, amiude (frequentação) sempre mais assídua, o descobrir 
na primeira pessoa o mundo da sexualidade, a expressão gestual sempre mais envolvente, a 
paixão, o sentimento de um romance emocionante entre os dois que se entendem, o sonho de 
uma imensa felicidade...e a decisão de jogar tudo para o alto e ir viver com ela... Como pinos em 
uma fileira, caiu o primeiro (a relação envolvente) cai também o último (abandono do sacerdócio e 
a escolha da convivencia)...50 
 
50 A. Cencini, A verdade da vida. Formação contínua da mente fiél, Cinisello Balsamo 2007,25. 
A Hora de Deus 
 
37 
Não que esse seja um percurso obrigatório, mas certamente existe como uma força 
instintiva interna, quase um modo gravitacional que vai nessa direção precisa, e impulsiona a 
pessoa a envolver-se sempre mais em uma história que a um certo ponto não deixará mais 
nenhuma via de saída: é uma lei psiquica. Então será muito difícil ajudar o sujeito profundamente 
apaixonado e que tem a sensação de que nada pode contra aquele sentimento que o envolve por 
inteiro (“...é mais forte do que eu...”), sente insuportável a solidão (“fomos feitos um para o outro, 
não posso viver sem ela”), que talvez espiritualizará tudo (“foi Deus quem nos proporcionou 
encontrar-nos”) ou que procurará mil motivos para continuar uma relação que não esteja em 
contradição com a própria escolha de consagração (“desde que comecei este relacionamento me 
sinto melhor e vivo também melhor o relacionamento com Deus...”). E este é o sinal inquietante: 
quando a mente se adequa e a consciência justifica ou procura ajustar tudo, quer dizer que se tem 
pouco a fazer, a crise chegou a um certo nível de maturação, chegamos ao fruto... Com o 
sentimento de amor, de fato não se brinca, e ninguém pode sentir-se tão seguro de si a ponto de 
permirtir-se tudo sem alguma hesitação. 
Sem dúvidas teria sido mais fácil intervir na fase anterior, sem esperar muito. Mas em cada 
caso quem vive esse tipo de crise seria levado a entender que de qualquer modo, mesmo na crise 
avançada, se tem sempre uma possibilidade de arrepender-se, de recuperar ao menos um pouco 
da liberdade diante da realidade impulsiva, ainda que custará o sangue. Seria muito comodo dizer: 
“Agora não há mais nada que fazer...” não é verdade. 
Retorna porém o comum refrão. É fundamental olhar dentro de sí, monitorar o próprio 
coração, perceber onde está mais vulneável e aos poucos facilmente ceder à gratificação (ainda 
que leve); é fundamental entender que a repetição gera costume e se deixarmos agir livremente, 
por sua vez vai gera vários automatismos que subtraem a liberdade do sujeito e banalizando a 
função da consciência, assim como é necessário entender que a pessoa inteligente e que se 
conhece bem, não permitindo todas as liberdades deste mundo, mas escolhe responsavelmente 
renunciar aquilo que à afasta da verdade de sí. 
 
1.5 Crise fatal 
 
 Também essa é uma crise devido ao analfabetismo ou incapacidade de leitura da crise. É o 
caso de quem não sabe interpretar a crise ou a lê em um único sentido e ainda negativo, como se 
devesse necessáriamente ter um êxito obligatório e alternativo à escolha de vida já feita, como se 
o fato de estar em crisesignificasse ter errado tudo e sentir-se realmente na obligação de mudar 
de caminho. 
De fato muitos se tornam “ex” por essa interpretação equivocada. 
Também aqui vem facilmente a referência à crise afetiva, e talvez com o mesmo exemplo 
anterior, onde o encontro com a mulher torna-se algo de fatal, que faz padre Ludovico pensar que 
estar até aquele momento iludido sobre a sua vocação e portanto de dever exclarecer tudo. 
Porém este é um caso de “desorientamento mental” determinado pela pressão do instinto 
satisfeito. Em outras palavras, é assim prazeroso e inédito a experiência que a pessoa está vivendo 
(“descobri o amor...”, disse aquele jovem e apaixonado padre) que não quer mais saber de votos e 
dos seus, nem tem como fazê-lo raciocinar. Existe como que um silogismo louco no desencadear 
lógico que está à origem desta desorientação: “Estou apaixonado, então não é esse o meu 
caminho, portanto abandonarei tudo e me casarei”. 
Não é preciso ter grande inteligência e perspicácia para entender que o fato de apaixonar-
se não significa necessariamente que o caminho seja o matrimônio, mas simplesmente que você 
é... normal (e não seria pouco, hoje em particular) de um lado, enquanto do outro esta é ou 
poderia ser a consequência inevitável de uma pressão instintiva largamente compensada. 
Até mesmo o fato de ter cometido uma certa transgressão, por mais séria que seja, esta 
não consente tirar alguma conclusão ou consequência automática. 
A Hora de Deus 
 
38 
A transgressão nos diz que alguma coisa não funciona bem naquilo que parecia definido de 
uma vez por todas e coloca a pessoa diante de uma dupla possibilidade: assumir o passado com 
consciência e maturidade ou abandoná-lo dando vida a algo inédito. Nesta ótica antes de concluir 
que para um religioso um atentado à castidade significa que errou na vocação, ocorre refletir e 
verificar mais fundo.51 
Nada porém de fatal. 
O mesmo dinamismo com a mesma lógica absurda ou fatal, pode interessar também 
outros setores da vida do consagrado. 
Uma crise, por exemplo que hoje atinge sempre mais em modo... mortal muitos 
sacerdotes, especialmente jovens é a crise de insignificância. E não é estranho, diante da situação 
que frequentemente se encontra o jovem que acabou de sair da casa de formação: consciente de 
ter algo importante para anunciar, com a determinação a oferecer sua vida por causa deste 
anúncio, com alegria e entusiasmo de quem não conhece obstáculos. Mas depois bem sabemos o 
que ele vai encontrar, não a rejeição, mas pior ainda, a indiferença e as vezes o sarcarmo, e a 
sensação frustante e portanto perigosissima de não ter nada de interessante para dizer, muito 
menos algo que seja considerado interessante para quem deveria escutar. Nada de estranho, 
dizíamos, estes são os tempos nos quais nos foi dado e pedido para vivermos (sem porém 
exagerar nas lamentações, nem generalizar na análise, como se fosse de qualquer maneira assim). 
Estranho, eventualmente, é aquele raciocínio que começar a surgir, filho da sensação de se ter 
tornado improvisamente insignificante, e que infiltrar-se sutilmente na mente e no coração, 
retirando a luz de ambos, como o anoitece na vida dos jovens promissores, propondo-lhe aquele 
louco silogismo: “Aquilo em que acredito não enteressa a ninguém, portanto a minha vida não 
tem sentido, e como não posso viver em uma contínua frustação talvez seja melhor mudar de 
caminho”. É falsa a premissa e é falsa também sobretudo a conclusão. 
Talvez seja a história de muitas crises precoses dos jovens (ex) consagrados (precoce 
também na “solução” da crise). Jovens que demostram uma singular fraqueza psicológica e 
espiritual, quando se depara com as primeiras desilusões no apostolado ou à primeira série de 
provocações sentimentais escolhem se render e optam pela mudança nos planos da vocação 
existencial; jovens que não regem a crise. Não bastará dizer que esta é a geração jovem e que 
estes jovens são semelhantes ao seus contemporâneos que na primeira dificuldade conjugal não 
exitam em separa-se. Poderá ser também na verdade, mas fica o fato de que uma formação que 
não consegue dar uma estrutura capaz, não somente de suportar a crise, sem sofrê-la, aquela 
afetiva ou outra de outro gênero, mas de vivê-la e afrontá-la para crescer, uma formação clara e 
realista que faça entender que crise e dificuldades fazem parte do caminho de um consagrado no 
anúncio do reino especialmente hoje, estas são previstas52; capaz de libertar o coração e a mente 
do jovem de tantas expectativas com relação a sua missão; sobretudo uma formação capaz de 
formar no coração do discípulo a disponibilidade a percorre o mesmo caminho do Mestre. Aquele 
Mestre que formou seus discípulos também durante as crises, que Ele habilmente provocou ou 
explorou. 
 
1.6. Crise inútil 
 
Pertecem sempre ao grupo dos analfabetos quem nunca aprende nada com a crise que 
vive, tornando-a inútil. Pelo contrário, acaba sendo prejudicial, já que parece enraizar na pessoa 
um certo conflito não resolvido e frequentemente nem mesmo conhecido na sua raíz. 
 
51 C. Corbella, Resistir ou desistir? Teologia e psicologia de frente a fidelidade na escolha da vida, Bolonha 2009,70. 
52 Exemplar nesse sentido, a atitude de Paulo que, quando cumprimenta os anciãos da igreja de Efésio, se preparando para partir para Jerusalém, 
declara abertamente esperar por “prisão e julgamneto” como destino normal do verdadeiro anunciador (cf. At 20,22-24; para um comentário a este 
trecho nesta prospectiva cf. A. Cencini, A árvore da vida. Rumo um modelo de formação inicial e permanente, Cinisello Balsamo 2005,304-305). 
A Hora de Deus 
 
39 
É o caso por exemplo, de quem passa de uma dependência afetiva a outra, e em cada 
lugar onde vai... deixa o sinal (ou uma vítima) ou mesmo se apaixona perdidamente por alguém, 
ou vive relações ambíguas, ou parece estar sempre a procura de uma relação privilegiada, que o 
faça sentir menos só, e da qual termina por depender, com toda ansiedade, medo de perder o 
objeto amado, ciúmes, crescente necessidade de intimidade, sofrimento real, (de uma e de outra 
parte), além de querer sempre conversar à sombra do campanário da Igreja (torre com sinos – 
expressão italiana para dizer: interesses locais), e neste caso, onde não tem muita gente, mas 
sempre terá alguém que irá contar a última (“como de costume”) sobre “padres apaixonados”... 
As vezes para interromper o drama e cortar pela raíz, este tipo de sujeito é tranferido na 
esperança que “... longe dos olhos, longe do coração”. Mas então, o que acontece mais uma vez? 
Deixa uma certa relação, somente porque é de fato impossível, porém nasce imediatamente uma 
outra. Ou são pessoas que repetem sempre o mesmo esquema: a mesma esperança, a mesma 
necessidade, as mesmas procuras, a mesma abordagem, os mesmos discursos espirituais (de 
início, as mesmas auto-justificativas... o mesmo sujeito inconsistente que cai como um autômato - 
(pessoa inconsciente e incapaz de ação própria e que se deixa dirigir por outrem) - nas armadilhas 
das suas necessidades infantis, com... heróica constância e beata inconsciência. 
Mas o esquema funciona na sua inútil repetição, mesmo com outros tipos de problemas. É 
o caso do padre Fabiano, que eu conheci nestes ultimos anos: padre diocesano de média idade 
que, privado da mãe desde o início de sua vida (que morreu ao dar a luz) teve uma relação 
exclusivamente e muito conflitual com o pai, uma pessoa autoritária que – mesmo inconsciente – 
não podia “perdoa-lhe” pelo fato de ter causado com o seu nascimento a morte da esposa, e por 
isso Fabiano se sentia oprimido e dominado. Desta relação Fabiano herdou um sentimento de 
inutilidade pessoal, que as vezes conseguia dominar, e as vezes não, enquanto trazia dentro de si 
um sentimento de culpa muito grande com relação ao sexo feminino. 
Nos anos do seminário era um sujeito bem rígido e exteriormente seguro de sí, quetendia 
a impor-se na relação, as vezes criando um certo temor nos outros que, de fato o temiam. 
Confrontado pelos educadores, especialmente em certos momentos em que as coisas pareciam 
muito óbvias, jamais aceitou reconhecer verdadeiramente o problema e afrontá-lo 
construtivamente. Vocacionalmente não conheceu nenhuma incerteza: sempre apareceu 
entusiasmadissimo. Tornou-se padre, mas não mudou de jeito nenhum o seu modo de agir e 
sobretudo de relacionar-se, pelo contrário, o ser sacerdote o consente de exercitar um certo 
domínio sobre os outros de várias maneiras e em diversas circunstâncias. Porém experimenta 
também a rejeição, exatamente por isso, e especialmente quando parece exagerar um pouco. 
Portanto, sofre e entre em crise. Mas então o que fazer? Se refugia no grupinho dos seus fiéis, 
onde pode impor-se a vontade: são poucos, mas são os “seus”, mais homens do que mulheres. A 
um certo ponto porém, também estes começam a fazer algumas observações dizendo (padre o 
senhor está excessivo, demasiado...); padre Fabiano se ofende (“até vocês depois de tudo que fiz 
por vocês...”), porém não muda absolutamente nada. Se aproxima uma pessoa sábia que procura 
fazê-lo ver a incongruência da sua atitude: parece admitir algumas coisas, talvez é um pouco em 
crise, mas no final permanece firme sobre suas posições, não suporta ser criticado. Efetivamente a 
relação se deteriorou e padre Fabiano é transferido para outro lugar. Não como pároco como ele 
queria, mas como coadjutor. Aonde vai é imediatamente bem recebido pela imediata impressão 
que passa de uma pessoa determinada, precisa, com idéias claras, convincentes...; mas pouco a 
pouco retira da bagagem o seu arsenal usual, ou repete textualmente o mesmo estilo com os 
mesmos ingredientes (domínio sobre o outro, relações exclusivas, rigidez com as mulheres), e com 
um acréscimo, uma progressiva dificuldade de se relacionar com o pároco (“é tudo meu padre” 
dizia - não percebia que a sua históra se repetia e assim mostrava que não aprendeu nada com o 
passar do tempo). Até mesmo as reações com as pessoas, depois dos favores iniciais, eram 
essencialmente as mesmas de antes, quando estava na outra paróquia. A um certo ponto da 
história morre improvisadamente o pároco, o bispo com poucos sacerdotes, cada vez mais 
A Hora de Deus 
 
40 
reduzido o número, não encontra outra solução senão, nominá-lo como pároco. Padre Fabiano 
fica muito contente, finalmente poderá dar a paróquia o rosto que ele quer. E no início as coisas 
parecem proceder bem: finalmente um pouco de ordem, diziam o sacristão e o ecônomo. Todavia, 
a um certo ponto, a ordem se torna exageradamente asfixiante; e ressurge o estilo habitual, agora 
mais amplificado devido ao novo papel institucional, que o permite sempre mais de impor-se, 
provocando reações negativas e de abandono por parte de alguns e ele retorna ao grupinho de 
refúgio. Até o momento em que não chega sinais de impaciência. 
O bispo fica sabendo de tudo, o chama e o faz observar como a paróquia foi reduzida a um 
grupinho de fiéis (ou fidelíssimos). Padre Fabiano interpreta muito mal: “o bispo é um pai-patrão”, 
e dirá irritado, mas sempre sem entender que... está falando de si mesmo ainda como criança-
adolescente que está reagindo contra seu pai e, depois tenta imitá-lo. E continua a viver e agir 
como sempre, despertando a um certo ponto, também dessa vez uma certa rejeição até dos seus 
fidelíssimos. Porém a relação desta vez é original e inédita, se relaciona com um somente, um 
rapaz, em uma relação evidentemente muito suspeita (em tempos como estes) que a um certo 
momento lhe causa sérios problemas. Começam, de fato a surgir comentários sempre mais 
insistentes sobre a relação. Ele sente medo entra novamente em crise, parece que vai ser desta 
vez ... de modo algum: “A culpa é dos outros, interpretam sempre da maneira deles, inclusive o 
bispo, mas pensam que desistirei, se enganam, eu irei adiante pela minha estrada, e quem me 
ama (?) me segue. E se ninguem me seguir, pior para eles: não me merecem”. Então, a experiência 
é, "mestre de vida". 
Na realidade, tem ainda alguns ingênuos que sustentam a idéia que a “experiência ensina” 
(?). De modo algum; a experiência ensina somente se a pessoa é livre para deixar-se ser ensinada, 
assim como a vida fala se há um coração que escuta, e sobretudo um irmão maior que se põe ao 
lado para ajudar a entender, a reconhecer o equívoco de fundo e decidir deixar de ser um escravo. 
Para que a vida não torne-se uma sequência de crises inúteis ou de sofrimentos sem sentido. Para 
si e para os outros... 
 
1.7 Crise deslocada 
 
Como acenamos no início, existe também a possibilidade que o indivíduo experimente um 
certo desconforto interior, mas não seja capaz de reconhecer a sua origem, ou não queira ou tema 
fazê-lo. E então prefere “mover/colocar” para o exterior a causa do próprio desconforto (as 
estruturas, as instituições, até mesmo o papa, a lei do celibato, a formação passada, a cultura pos-
moderna, a comunidade, o caráter irritante de um irmão, o mundo malvado, os leigos que não 
colaboram...) ou sobre aspctos pessoais menos relevantes e do ponto de vista da própria 
responsabilidade (sobre o trabalho excessivo e fatigante, sobre o encargo que não é o mais 
agradável para o tipo, sobre... pressão alta o a digestão difícil, sobre o clima que não lhe 
convém...); ou existe a crise deslocada quando se procura a solução nas coisas externas e não na 
mudança do sujeito. 
O objetivo inconsciente desta operação é antes de tudo a negação da dificuldade como 
problema pessoal, se possível ou pelo menos tentar eliminar a própria responsabilidade, com 
aquilo que significa em termos de compromisso e trabalho duro, com a ilusão de poder controlar 
melhor a situação problemática quando ela está do lado de fora, no exterior. 
Na realidade, como vimos na crise congelada (que só é transferida), também a crise 
deslocada é somente mantida por algum tempo fora da consciência, mas não poderá permanecer 
por toda vida, não é possível. E, então, surgirá em formas mais ou menos disfarçadas (também os 
habituais subterfúgios da energia removida), depois cada vez mais claras, e especialmente criando 
sempre mais problemas a quem persiste em não reconhecer a verdade, sem mais defesas ou 
mecanismos projetivos diferentes. 
A Hora de Deus 
 
41 
A crise, porém, vejamos bem, pode ser deslocada do exterior, ou dos superiores ou então 
dos outros, ou de quem em qualquer modo entra em contato com a pessoa em crise, talvez até 
com boa intenção, para ajudá-la. Isso acontece exatamente, quando estes interpretam a própria 
crise com os mesmos mecanismos, ou transfirindo a causa, ou procurando o remédio fora da 
pessoa, na situação existencial, na comunidade, no ambiente, no apostolado, etc. Um exemplo 
clássico neste sentido, é o caso quando o superior transfere a pessoa com dificuldades para uma 
outra comunidade ou paróquia, iludindo-se assim e (o iludindo) de resolver o seu problema. 
Consequência trágica deste equívoco, foi o que aconteceu na Igreja norte-americana alguns anos 
atrás, quando alguns bispos ou superiores acreditaram resolver alguns casos de pedofilia 
simplesmente mudando de ambiente de trabalho ou de comunidade a pessoa envolvida. Com 
resultados fatais, como sabemos... De fato transferindo a pessoa transfere-se também junto o 
problema, (especialmente esse tipo de problema), que o seguirá “fielmente” em todos os lugares. 
Ou então, em outros casos não tão incomuns, aquele em que o formador acredita que a 
experiência apostólica bastará para fazer o jevem entender seus problemas e dar-lhe os 
instrumentos para resolvê-los, ou preenchendo o caminho formativo de experiências, quase 
delegando o papel educacional à experiência (o famoso modelo experiênciais). Como se a 
experiencia, e vimos anteriormente, fosse intrinsecamente terapêutica e taumatúrgica.53 
A oração também pode sutilmente servir-se como tentativa defensiva de busca de solução 
noexterior: é o caso de quem se contenta em pedir a Deus de livrá-lo das próprias fraquezas, sem 
empenhar-se ele mesmo em um caminho ascético com as dificuldades e a paciência que implica. 
Seria um deslocamento “piedoso”. Neste caso o problema não é evidentemente a oração, que é 
no entanto indispensável, mas a atitude da pessoa, que parece quase delegar a Deus aquilo que é 
chamado fazer. Uma autêntica relação com Deus deveria chamar tal pessoa a assumir os seus 
problemas para fazer o que estiver em suas possibilidades. E em seguida confiar ao Pai, na 
aceitação das suas fraquezas e dos seus limites como veremos mais adiante. 
Caso clássico, em fim de crise deslocada é a hipocondria, é o caso de pessoas que inventam 
mal-estar e distúrbios físicos, as vezes tão bem ao ponto de estar realmente mal e lamentar 
sintomas de diversos gêneros. Como o monge de vida contemplativa (e vivendo em clausura) que, 
como me contou o padre abade (ele era médico antes de entrar no mosteiro), queria fazer visitas 
e controles contínuos ao ponto que não havia nenhum orgão ou sistema em si que não fosse 
examinado pelo especialista do turno, sem obviamente encontrar nada de patológico, mas ele 
continuava a (dizer que) estava mal e prentendia sobretudo continuar com este tipo de ...turismo 
medico-hospitaleiro, luxo que tinha os seus custos, entre outros, para as consultas, as viagens, os 
remédios (o seu quarto era uma autêntica farmácia) e por certas afirmações bizarras quis até 
mesmo ter instrumentos de controle de saúde). O padre abade devia impor-se com toda a sua 
autoridade para terminar com a situação, e isso não foi nada fácil ajudar o monge a aceitar a 
verdade. 
 
1.8 Crise não integrada 
 
A crise não é integrada quando é sofrida passivamente e as vezes apressadamente 
“resolvida” pelo sujeito que não procura estudá-la no seu significado profundo para que seja útil 
para a sua maturidade. É o caso daquelas eventuais crises que se impõem com particular força e 
evidência, criando um sentimento de medo e impotência, especialmente quando dependem de 
fatos ou fatores externos a nós ou que não podemos controlar, como uma morte ou um acidente, 
uma doença ou uma fracasso apostólico. Em tais casos é possível uma menor participação do 
sujeito, do ponto de vista da gestão intra-psiquica, uma vez que a coisa não está ligada, pelo 
 
53 Ver a este respeito, o chamado metodo formatico do experiencialismo em A. Cencini, A ÁRVORE DA VIDA, 84-86. 
A Hora de Deus 
 
42 
menos diretamente a uma sua específica responsabilidade. Mas é possível, por si só, e também 
para os outros tipos de crises, passar da clássica crise afetiva à crise moral. Há, de fato, a crise não 
integrada todas as vezes que está presente o risco de não “viver” suficientemente a própria crise, 
de não deixá-la decantar suficiente dentro de sí ou de não estudá-la, de não perceber o sentido 
profundo ou de não dar-lhe sentido, como se a pessoa tivesse medo de dar muito espaço ou de 
permanecer muito tempo sobre o seu controle. 
E então resolve ou pretende resolvê-la imediatamente, termina o quanto antes a polêmica 
ou mais precisamente pretende não experimentar mais nunhum tipo de sofrimento, como se não 
tivesse acontecido nada, e, talvez, ostenta uma certa serenidade, retorna às atividades habituais, 
às vezes com vigor ainda maior. Talvez porque no tempo de formação, alguém o ensinou, neste 
caso, a adotar o estilo de “deixar passar”, de não pensar mais sobre o assunto, de distair-se, talvez 
tirando uma boa férias ou - aparentemente ao contrário - mergulhando de cabeça no trabalho, 
colocando uma pedra sobre, assim “uma vez arrancado o dente, acabou a dor”... Mas, na verdade, 
se olharmos bem, esta serenidade é um pouco artificial, ou o retorno às atividades ordinárias 
parecem esconder um certo desejo de preencher espaços e o tempo da vida fazendo com que não 
tenha tempo para pensar. Pode também acontecer que o sujeito não queira mais ouvir falar do 
acontecido, ou ao contrário que seja sempre alí a falar, todos os sinais que “a coisa” ainda não 
está bem dirigida. Ainda cria problema. 
Como, por outro lado, é perfeitamente compreensível. Na nossa psique e portanto no 
nosso espírito nada se cria ou se destrói repentinamente. E especialmente aquilo que de qualquer 
maneira perturba a nossa consciência, ou representa um peso para o nosso coração, ou frustra 
certas expectativas, ou nos faz recordar nossas fraquezas..., necessita de um tempo muito longo 
para ser devidamente integrado: o luto necessita de lagrimas, a falha moral necessita de um 
tempo congruente de conversão, um afeto que tomou e distraiu o coração não é facilmente 
dominável e pede muita paciência e renúncia a quem deseja retornar ao amor primitivo, uma 
violência sofrida necessita de um espaço natural fisiológico, afim de que a ferida se recupere, um 
incidente contraditório somente com o tempo pode ter sentido, ser explicado, etc. 
Finalmente, a “digestão intra-psíquica”, é como de costume muito lenta, mas exatamente 
por isso é frutuoso o tempo de integração das crises, porque passa através de diversas etapas e 
fases, todas muito importantes para a purificação e crescimento sem saltar nenhuma: do 
reconhecer a ferida produzida pelo evento crítico à consideração atenta das suas consequências, 
do para entender o motivo profundo de uma certa reação pessoal mais ou menos sofrida ou 
ressentida (embora oculta) a tentativa de dar um sentido também àquilo que parece que está 
privo, do cuidado da memória à descoberta progressiva que cada situação crítica tem sempre algo 
a nos dizer e ensinar, especialmente se o sujeito a lê com uma consciência pascal, com a paciência 
e sabedoria de quem vê além das aparências. Neste sentido é importante reconhecer o 
sentimento que gradualmente se sente no seu mundo interior, também aqueles menos nobres 
como: raiva, desespero, desejo de vingança, agressão, rejeição de Deus, sentimento de inutilidade, 
incapacidade de perdão, sutil desejo do mal aos outros, ódio..., uma vez que estes sentimentos 
revelam o nosso mundo interior. 
No entanto o fato de não fazer isso, o expõe em riscos não indiferentes: isto que não está 
integrado na nossa experiência, normalmente desintegrar-se do todo, não é somente uma ocasião 
perdida, mas uma espécie de canhão solto no nosso mundo interior, que poderá explodir de um 
momento à outro. 
Atenção, então a certas “curas espirituais” repentinas e intantâneas apesar de sinceras e 
dedicadas54. Desnecessário será dizer que o Senhor pode nos curar de todas enfermidades e de 
contradições existenciais nos modos e nos tempos que ele predeterminar e desejar; mas 
 
54 Assim como se deve estar atento a quem exibe uma maturidade que na realidade não possui, como o jevem no início do caminho de formação 
que tinha sofrido uma violência sexual na sua infância, desde as primeiras conversas falava com desenvoltura como de uma coisa agora totalmente 
integrada, ao ponte de considerá-la “uma graça recebida de Deus”, sem perceber a improbabilidade da afirmação da sua atitude. 
A Hora de Deus 
 
43 
comumente... respeita as leis da natureza, ou daquela “gramática” interior que ele mesmo, ao que 
parece, colocou no ser profundo de criatura. Basta pensar, mais uma vez, em Paulo com a sua 
nobre pretensão orante e espiritual de ser imediatamente liberto do espinho na carne ou das 
picada de Satanás, e à resposta que obteve, ou a revelação de algo absolutamente impensável, 
che ele não teria nunca tido a coragem de pedir: a graça de Deus se manifesta na fraqueza do 
homem. E fraqueza cheia da graça é também a paciência de conviver com a crise, de pretender 
imediatamente cancelá-la, de deixar-se instruir por ela, de vivê-la como sinal que no fim, Deus não 
me abandona, ou como feliz culpa... 
 
1.9. Crise repentina 
 
Dizemos imediatamente que a expressão é contraditória, já que por sí só acrise é 
repentina, não existe, é somente aparente o seu “ ser repentino”. Mas de fato, do ponto de vista 
fenomenológico, as vezes a crise pode aparecer como um relâmpago no céu sereno ou explosão 
repentina e vir a pertubar uma existência que parecia até aquele momento tranquila, em uma 
pessoa que vivia sem particulares problemas a sua consagração, as vezes talvez com uma certa 
mediocridade, mas outras vezes ao contrário também com um certo rigor e exemplo, pelo menos 
aparentemente. 
É o caso, por exemplo, do tipo normalmente calmo, mas que a um certo ponto se revolta 
contra alguém ou contra a comunidade com uma solene explosão de raiva absolutamente 
surpreendente que deixa todo mundo espantado, com palavras que não pertencem ao seu 
vocabulário habitual, mostrando que havia escondido e esconde dentro de sí fluxo de raiva 
subterrâneo, até então reprimido. Ou o caso do celibatário também ele até aquele momento 
observante no comportamento, e que a um certo ponto se deixa oprimir por uma paixão como um 
tsuname tão devastador querendo virar do avesso a vida e fazê-lo jogar tudo para o alto. Este 
sujeito, vítima, as vezes desaparece sem deixar rastros de sí, nem preocupar-se de obter várias 
dispensas ou de regularizar a situação. 
Mas geralmente a crise, cada crise, tem o seu (mais ou menos) longo tempo de encubação, 
é verdade que um certo gênero de crise pode explodir de uma hora para outra, mas somente 
quando o acontecido externo encontra uma situação interna pessoal já comprometida ou no 
entanto vulnerável e particularmente sensível a um certo tipo de provocação (afetiva, por 
exemplo). Quando, como no segundo caso agora citado, a crise “se resolve” com a saída da 
instituição, e o sujeito vai embora batendo a porta e cortando radicalmente qualquer tipo de 
contato com a vida precedente, comumente quer dizer que chegou a um ponto extremo de não 
suportar a vida sacerdotal ou religiosa, ou as suas obrigações e os seus ritos, ou que não pode 
continuar a reprimir e reprimir-se. Então, a bomba explode (estrondosa) inesperadamente, mas 
antes teve num longo tempo de gestação. Invisível e imperceptível talvez para quem vê de fora, 
mas normalmente não, ou não tanto para a pessoa interessada. 
Não se pode no entanto excluir que o sujeito seja assim “desatento” e distante do seu 
mundo interior ao ponto de não perceber o que está acontecendo dentro de sí, e de perceber a 
sua vunerabilidade somente quando cede diante do evento. 
Por isso reinteramos que a melhor terapia é a vigilança inteligente e preveniente, é o 
assumir com seriedade os próprios sentimentos e estado de ânimo, é o monitorar com cuidado o 
próprio mundo interior para aprender a linguagem e colher o conteúdo. Porque na realidade cada 
crise “se anuncia”, envia sinais prévio. Ou, mais uma vez, a vida fala, especialmente nos momentos 
críticos, se tem um coração que escuta. 
 
1.10. Crise sadia 
 
A Hora de Deus 
 
44 
Enfim, como já acenamos, existe quem – menos mal – tem a coragem de viver a própria 
crise, fazendo dela ainda uma ferramenta para o crescimento no seu caminho de formação 
permanente. Retornaremos mais adiante ao conceito, sobretudo do ponto de vista da modalidade 
pedagógica ou do percurso existencial através do qual isso se torna possível. Agora mostramos 
apenas a atitude interior que nos consente entrar nesta lógica, na cultura da crise como fator 
positivo de maturidade. 
É aquela atitude, em última análise, que capta a ligação entre a sua identidade e idea de 
formação permanente. A identidade é uma realidade dinâmica - já vimos isto - construida ao redor 
de um núcleo sólido e estável. Tem-se um ponto de referênçia central, ligado ao dom da vida, já 
que ninguém a meritou ou a adquiriu. Dom significa que no início da vida ou a raíz da identidade 
tem um ato de amor, algo de positivo que nos torna radicalmente positivos e que determinou a 
nossa existência: se somos amados, então somos amáveis (e é o nosso eu atual); mas nos indica 
também a conclusão desta positividade, como uma ação que só pode se mover na direção do 
amor, porque se somos amados somos também chamados a amar(e seria o eu ideal). 
Portanto, a positividade e estabilidade do sentido do eu está ligada a certeza de ter 
encontrado definitivamente este ponto central: para um critão isso consiste fundamentalmente 
no dado ontológico do seu vir de Deus, porque Ele quis e preferiu em um ato de amor eterno, 
portanto na verdade amados desde sempre e para sempre (pre-diletos); e no ter sido desejado 
por Deus à sua imagem e semelhança, e na sua conseguinte vocação específica a realizar aquela 
imagem, na fidelidade quotidiana. Quem atinge esta certeza de um lado resolve um problema 
estratégico, vive consciente da sua dignidade como algo certo, não sujeito a oscilações 
particulares (ligados a estima dos outros e ao próprio sucesso pessoal) está satisfeito e confiante, 
não tem necessidade de procurar “coisas grandes superior às suas forças”, do outro lado porém se 
sente também provocado a dar o melhor de sí, mesmo para viver fielmente a sua identidade, e se 
a identidade é ligada a um dom, então é um ato de amor recebido, será ainda mais provocado 
interiormente a responder como se responde ao amor, isto é, de maneira radical. 
Quem tem um ponto de referência alto para a própria identidade, não poderá, por 
consequência, não estar em crise, porque encontrará certamente uma lacuna entre o amor 
recebido e o amor que é chamado a dar. Como a formação não pode ser outro que permanente, 
assim é a crise, como recordamos anteriormente. Aqui, neste ponto, vemos um modo diferente, 
ou o modo típico da psicologia, de dizer o conceito espiritual de “conversão”. 
Eis o espaço psicológico entre o qual se esconde a coragem da crise e as condições 
elementares que a rende possível e frutuosa, flexível e amiga, sinal de vitalidade interior e espírito 
de iniciativa: de um lado a certeza da positividade, definitiva e estável, que não poderá ser 
inclinada pela percepção da própria fraqueza; do outro a solicitação que vem de um grande ideal 
para dar o máximo de sí e a vigiar atentamente sobre a própria vida para que seja coerente com o 
dom recebido.55 
Destas duas atitudes deriva a liberdade de correr o risco da crise, vivendo-a em modo 
saudável e produtivo. 
Ao contrário, quem tem uma pobre identidade, doente e não tão positiva assim, não terá a 
liberdade de viver a crise de modo inteligente. Como vimos nas vária tipologias. 
 
2 Atenção: chave inicial 
 
No final desta primeira tentativa de análise descritiva do tema, podemos então indicar os 
dois marcos, em síntese, que vam o mais rapidamente possível definidos com prescisão se se quer 
afrontar corretamente uma situação de crise. São como dois tipos de leituras. 
 
55 Cf. A.Cencini – Manenti, Psicologia e formação, 120 - 121 
A Hora de Deus 
 
45 
 
2.1. Leitura objetiva 
 
Primeira tarefa é observar a natureza da crise em questão, aquilo que a determina ou o 
tipo de problemática a nível psicológico ou psiquiátrico ou espiritual. 
É um primeiro elemento verdadeiro fundamental; e é quanto vimos no primeiro capítulo, 
que evidenciou cinco diferentes níveis da problematica, do psiquiátrico ao espiritual, passando 
através do psicológico. 
 
2.2 Leitura subjetiva 
 
Ocorre em seguida, verificar o tipo e nível da leitura subjetiva, como alguém interpreta a 
crise que está vivendo até que ponto a sente e sofre como algo que objetivamente pertuba a vida 
e não permite uma livre oferta de sí, ou se ao invés é algo que a pessoa não vê ou não quer ver, ou 
diminui ou só percebe superficialmente, ou mesmo a transfere sobre os outros. 
Eis então a tabela que, de algum modo diga a análise a ser feita a este ponto do nosso 
caminho. 
 
Tab 2. Os dois lados a cada crise 
Tipo de dificuldade Ângulo Conteúdos ou tipologia 
Problemática psíquica ou 
psicológica ou espiritual 
lado objetivo Problemas clínicos, ou evolutivos deformação 
permanente ou de inconsistência vocacional 
ou de luta espiritual 
Crise psicológica lado subjetivo Várias tipologias (nunca ou sempre em crise, 
crise congelada, fatal, final, inutíl, não 
integrada, repentina, saudável...) 
 
 
 
 
CAPÍTULO 4 
A luta na crise 
 As crises das quais estamos falando não são crises genéricas, mas situações de dificuldades 
vivida por pessoas que fizeram ou se dispõem a fazer uma escolha específica em suas vidas, em 
vista de valores ideais que de um lado os atraem (ou que escolheram em força de uma atração) e 
do outro são percebidas como sempre mais exigentes e difíceis de viver em plenitude. De frente a 
estes ideais não é assim estranha a situação de crise. 
 Muito menos se si considera que ao mesmo tempo esta pessoa, consagrada a Deus na vida 
sacerdotal ou religiosa, é um ser humano que está vivendo uma fase que – exceção feita para os 
casos patológicos – é normal ou não assim tão estranha, e assim deve ser vista e considerada 
também com os parâmetros do desenvolvimento normal humano, não somente com os 
parâmetros da fé ou da vocação, como estamos procurando fazer. 
 Mas esta atenção ao humano e ao divino, ou ao plano natural e transcendente, nos faz 
intuir que o contraste entre os dois planos pode chegar a ser neto e radical; antes, quanto mais o 
humano se abre ao divino, muito mais aparecerá dentro de si uma resistência. 
 Neste ponto a crise se torna luta. Quase expressão extrema da crise, mas também, ao 
mesmo tempo, parte integrante, a luta exprime esta realidade e autenticidade, senão dureza e 
aspereza, ou manifesta o quanto radical é a pretensão de Deus sobre o coração do homem, e 
A Hora de Deus 
 
46 
quanto este homem leva a sério o projeto divino com toda a sua força explosiva que desestabiliza 
o humano. As vezes tentando se defender, ou de reduzir esta força, de não ser constrangido a 
desmantelar tudo... 
 Enfim, é algo a mais do que a simples “consciência intensa e sofrida” da distância entre o 
“eu atual” e o “eu ideal” do qual já falamos. É um passo ulterior na nossa análise, e também 
importante para entender a natureza da crise. A qual não é tal, poderíamos já antecipar, senão se 
torna antes ou depois luta. 
 Partimos de uma análise psicológica, para ver depois no próximo capítulo o aspecto mais 
espiritual. 
 
1. Crise e parâmetros evolutivos 
 
 Da ciência psicológica sabemos que o desenvolvimento humano acontece a luz de alguns 
parâmetros, ou que pode ser percebido e de alguma maneira examinado a luz dos mesmos 
parâmetros. Cada escola psicológica propõe os seus parâmetros ou sublinha alguns como 
particularmente importantes. Sem a pretensão de fazer a melhor escolha também nós adotamos e 
propomos alguns, já que nos parecem particularmente adequados ao nosso tipo de análise. São 
aqueles propostos da análise ciêntifica de F. Imoda, segundo o qual o desenvolvimento humano 
acontece ao longo destas três vias: a via evolutiva, a via relacional e enfim aquela temporal. 
Destes três parâmetros escolho o primeiro, ao menos como ponto de partida, mas obviamente 
sem esquecer os outros dois, especialmente o segundo, antes procurando englobá-los no primeiro 
parâmetro, singularmente interessante para a nossa reflexão. Parece-me, em outras palavras, que 
a situação de crise possa ser analizada e compreendida no seu sentido mais profundo e na sua 
evolução em modo significativo a luz deste parâmetro do crescimento humano. 
 
2. Evolutivo-dramaticidade 
 
 O ser humano não nasce já realizado, nem a maturidade geral coincide necessariamente 
com a idade adulta, mas cresce progressivamente, ao longo dos percursos em parte marcados 
pelas leis fixas do desenvolvimento (em vários níveis: do biológico ao psicológico), em parte 
ligados a sua própria vontade de crescer e desenvolver-se segundo a sua verdade e utilizando-se 
das ocasiões ofertas pela vida, as vezes semelhantes a provocações que complicão a existência, 
outras vezes verdadeira ajuda e impulsos na direção justa. Depende da pessoa, do síngulo ser 
humano, decidir que uso fazer, porque compete a ele decidir... de crescer e amadurecer, com 
escolhas que só ele pode fazer sobre a própria história.56 
 Por isso tal parâmetro é também conhecido pela dramaticidade, uma vez que têm drama 
enquanto o ser humano se põe diante a sua consciência e decide a vida, tomando uma decisão 
que somente ele pode tomar naquele momento existencial, e que sempre implica, de maneira 
mais ou menos marcada, algo de definitivo ou seja como for, deixa a marca. Com um ato que 
exalta ao máximo a sua liberdade e responsabilidade. 
 E provavelmente por isso não é fácil para o homem escolher, ao ponto que as escolhas 
verdadeiras são poucas, muito poucas; antes, se podesse, não escolheria jamais, ou reenviaria ao 
infinito as decisões a tomar, ou as delegaria a outros, ou se esconderia naquelas do grupo, ou se 
propriamente devesse fazê-la, então sempre deixa uma porta aberta para não tornar irrevogável a 
escolha feita. Parece mesmo que, além das frases prontas, o homem do terceiro milênio tenha 
medo da liberdade que tanto diz querer, porque a liberdade aumenta o leque das escolhas e 
escolher é terrível, sobretudo porque chama em causa a responsabilidade pessoal, tanto que 
temos criado um mundo (e um modo) no qual todas as escolhas são revogáveis: “te engravido, 
 
56 Cf. F. Imoda, Sviluppo umano. Psicologia e mistero, Casale Monferrato 1993, 96-106. Para uma aplicação de tais parâmetros ao desenvolvimento 
da afetividade-sexualidade cf. também A. Cencini, No amor. Liberdade e maturidade afetiva no celibato consagrado, Bolonha 1998, 9-62. 
A Hora de Deus 
 
47 
mas pode abortar”; “nos casamos, mas podemos nos divorciar”; prometo, talvez a Deus, esta 
coisa, mas se me custará muito, mais a frente a descartarei; faço esta escolha vocacional, mas se 
apertar demais ou for muito exigente e não me atrair mais, mudarei. O terror da liberdade-
responsabilidade é tal que, também quando alguém se expõe a uma pequena escolha, deve ter a 
garantia de que a escolha seja revogável. Mas então isto não é uma escolha, e muito menos é 
expressão de liberdade-responsabilidade. É como um fugir da vida para evitar a morte. Cada 
decisão, de fato, implica uma renúncia, e é profecia de morte. A mesma evolução do homem é 
ligada a uma escolha-renúncia que sabe da morte: como dizia Plutarco, de fato, a criança deve 
morrer para que o jovem possa surgir e o jovem deve morrer para que possa nascer o adulto.57 
 Provavelmente é extamente esta a explicação desta estranha alergia a escolher e se 
decidir, que contagia também quem faz uma escolha de especial consagração, ou deveria fazer ou 
ter feito uma tal escolha, confirmando-a nas pequenas e grandes escolhas de cada dia. Como 
crises quotidianas normais. 
Eis porque evolutivo é como dramático. E talvez este aspecto dramático da vida que segue, 
e que a cada momento solícita e recorre a uma liberdade responsável jamais surge assim claro e... 
decisivo como quando nos encontramos diante de situações criticas e problemáticas. Como 
aquelas que já descrevemos. 
 
3. Luta como situação de desenvolvimento 
 
 Se a evolução-dramática representa um parâmetro de desenvolvimento, então o drama 
não é um passeio, nem se reduz a uma pura docilidade interior em relação as leis de 
desenvolvimento que antes ou depois se impõem a pessoa, até atingir o êxito final da maturidade. 
Não, o desenvolvimento continua a ter em si algo de dramático, implica tensão ligada a escolha 
livre e responsável do sujeito, e a luta, então, torna-se o âmbito que o rende possível, ou a 
“situação de desenvolvimento” que permite ao próprio parâmetro de transformar-se em fator de 
evolução.58 Em outras palavras, a luta é o terreno vital natural para o crescimento do indivíduo: 
por um lado indica a seriedade e a coragem com a qual ele enfrenta o drama do seu crescimento, 
por outro oferece a ocasião favorável para que aconteça umreal amadurecimento, passagem de 
uma fase a outra da vida. 
 Porém este conceito merece um melhor esclarecimento e... desvinculado de uma certa 
pré-compreensão. A luta, em geral, é assim definida e descrita por Imoda: 
É a situação da pessoa como mistério que fundamentalmente não se auto-possui 
plenamente, se sente sempre confrontado por um outro, e deve superar o obstáculo desta 
alteridade em si e no outro. O outro pode ser externo, mas pode ser também interno a si. A 
luta varia de acordo com a variação do outro, mas também com o grau de oposição entre 
as partes e com o modo – mais ou menos consciente, mais ou menos ativo, mais ou menos 
livre – com o qual se relaciona59. 
 A luta – assim compreendida – é metáfora da vida e da pessoa humana, não é situação 
excepcional e eventual, mas indica um movimento que deveria ser constante, mais precisamente 
uma situação de tensão no indivíduo com relação à algo ou à alguém que parece opor-se-lhe, 
como uma alteridade com a qual se sente confrontado, interno ou ao externo de si, em um 
contraste não necessariamente vencedor. 
 Mas sobretudo é interessante para nós esta idéia de luta, porque existem elementos em 
comum ou ligados a idéia de crise; pelo contrário, tal definição descritiva nos ajuda a entender 
melhor o sentido da crise, e a acrescentar àquilo que já dissemos sobre a crise alguns elementos 
importantes, sobretudo do ponto de vista da tensão ligada a consciência da própria situação, da 
 
57 Cf. Plutarco, cit. da E. SCHACHTEL, Metamorphosis, New York 1959, 15. 
58 Imoda, Sviluppo umano, 127-131. 
59 Imoda, Sviluppo umano, 401. 
A Hora de Deus 
 
48 
decisão a tomar, da mudança de vida. A luta é prova de que o sujeito quer mudar, demonstra que 
a crise tem um seu significado em vista de um crescimento e de um superamento. Por outro lado 
se a crise é em função do crescimento, quase um seu momento, como já vimos no segundo 
capítulo, então a crise não pode ser outra coisa, senão luta. 
 
3.1. Luta (e crise) como mistério: “o além” na vida humana. 
 
 Um destes elementos “novos” é, por exemplo, a idéia de mistério. Em cada luta há tensão 
contra algo de diferente; por qualquer que seja o motivo que determina a luta, quando um 
homem luta diz que a sua vida tende em direção a algo diferente, algo a mais, algo que não é 
ainda, nem é identificável com aquilo que se vê e se toca; luta quer dizer em todo caso 
insatisfação com aquilo que é e possui, significa que o homem, enquanto tal, não pode ser 
identificado com aquilo que faz ou que se manifesta em sí, nem mesmo com aquilo que ele pensa 
de si e muito menos ainda com aquilo que os outros pensam dele, é algo diferente ou tende à algo 
que está além de tudo isso. Se diz que o homem jamais possui a sí mesmo totalmente, existe 
sempre algo que o transcende, ou que passa despercebido, não o pode controlar, está além, pode 
ser que nem mesmo o possa imaginar, representar..., mas existe, e o atrae, mesmo se de modo 
estranho, “guerriando com ele” ou o complicando a vida, enfim opondo-se a ele para impedí-lo de 
se contentar com algo que se situa a um nível apenas inferior, criando-lhe tensão ou sana 
insatisfação. 
 A luta demonstra dramaticamente o sentido do mistério, ou revela o sentido dramático de 
cada crise e da vida inteira. Pode as vezes não agradar esta metáfora, em um clima cultural de 
busca a todo custo do wellness, do bem-estar a qualquer preço, no qual o “sentir-se bem” se torna 
muitas vezes critério de escolha ou de considerar as situações críticas (como o padre que vimos 
antes, que decide continuar a relação afetiva “porque desde que a conheço me sinto melhor, 
estou mais tranquilo e satisfeito, até mesmo a minha digestão melhorou e adormeço logo a noite, 
e depois estou até rezando melhor...”). Mas o bem-estar interpretado assim não abre ao mistério, 
não tende rumo ao trascendente, tudo é gerado dentro dos pequenos limites da sensação positiva 
ou da experiência agradável ou do gozo imediato, ou dos limities ainda mais reduzidos e 
mesquinhos da simples aceitação daquilo que é menos positivo ou da passivel aceitação diante do 
inevitável, ou de acontentar-se com objetivos medíocres. Assim não vamos tão longe ..., pelo 
contrário, não saimos do lugar; enquanto a luta impulsiona a vida e a imprime num dinamismo 
mais vivaz. 
A luta é o mistério que sacode a existência mesmo do fiel e do consagrado, projetando-a na 
direção do transcendente. Com um dinamismo de sedução, mas que torna inevitável a crise. 
 
3.2. Luta (e crise) como conflito: “o outro” na vida humana 
 
 A luta revela um outro aspecto verdadeiramente central na experiência existencial de cada 
ser humano: a relação. De um lado a luta é um evento tipicamente relacional, porque não se pode 
certamente lutar sozinho, e quem o faz ou tenta fazer – como veremos – entra em um beco sem 
saida, ou começa a rodar em volta de si mesmo, lutando contra si mesmo ou contra um fantasma, 
ou seja em vão. Por outro lado a relação, ou a alteridade, mais precisamente, é outro parâmetro 
evolutivo, linha obrigatória de desenvolvimento, como sabemos. A psicologia repete sempre; ou 
melhor, antes ainda da jovem ciência que interroga o mundo intra-psiquico, é a antropologia em 
geral que nos propõe hoje cada vez mais uma imagem do homem essencialmente aberto ao outro, 
qual ser constitutivamente dialógico, que vem de uma relação e se realiza na relação. Se no 
passado se dizia que o homem era um ser racional, hoje se tende a dizer cada vez mais que o 
homem é sobretudo um ser relacional. Também a antropologia bíblica vai confiante nesta direção, 
A Hora de Deus 
 
49 
quando percebe que a imagem de Deus é não tanto ou não somente o homem das origens, o 
Adão, mas o casal, Adão e Eva. 
 Porém a psicologia acrescenta uma nota importante: não é a relação enquanto tal que faz 
crescer, quanto a relação com o outro, com o diferente de si, porque somente esta é a relação 
autêntica e verdadeira. Se de fato a relação é somente com quem aceita o meu ponto de vista, 
com quem acho simpático e que me faz bem, com quem por sua vez me acolhe satisfazendo-me, 
com quem responda a um meu interesse, com quem aceita de alguma forma ser “homologado” 
=(conformar-se comigo ou com os meus interesses) a mim e aos meus gostos... bem esta não é 
uma relação humana, porque indica um eu que na realidade não sai de si mesmo, mas ao 
contrário absolve o outro, tentando quase de anulá-lo na sua alteridade, ou adequando-o a si, 
alegrando-se o consegue, quase o desejaria eliminar-incorporar na sua unicidade-singularidade-
irrepetível, e não percebe que ele mesmo perde uma grande possibilidade de crescimento. Pode 
ter a impressão, assim vivendo a relação, de simplificar a própria vida relacional, de viver relações 
muito mais simples e fáceis, de controlar ou dominar com facilidade a situação, sonhando ou 
pretendendo viver em comunidades harmoniosas e tranquilas, sem dificuldades de compreensão 
e convivência... Na realidade cancelando o “tu” terá um pobre senso do seu “eu”, e bem miserável 
será também o sentido do “nós” porque o “eu” não pode realizar-se sem encontrar um “tu”, e 
muito menos nascerá uma comunidade. 
 Em seguida, a luta ou a idéia de luta vem corrigir esta infantil ilusão ou adolescente 
presunção de viver relações pacíficas porque homologadas ao próprio eu, ou vem a desmontar a 
presunção pagã de que cada um escolhe os seus amigos, de amar somente aqueles que nos 
amam, uma vez que faz recordar ao ser humano que a relação é por sua natureza conflitual, e é 
conflitual exatamente porque é relação com uma diversidade irreduzível e misteriosa. O outro 
sempre permanecerá destinto de mim, e justamente nesta alteridade consiste a possibilidade de 
um enriquecimento enorme para quem a respeita, respeitando nesta o mistério que o habita. O 
meu inimigo, aquele que se opõe a mim e me pede para verificar as razões da minha identidade 
ou de dar razão de minhas convicções,é o meu melhor professor, nota E. Bianchi.60 
 No entanto, pedirá o preço inevitável, tal enriquecimento, da luta, do momento no qual 
esta alteridade provocará a reação conflitual da parte mais fraca e temerosa do “eu”, e fará surgir 
vulnerabilidade e contradições, ou suscitará temor e contraposição ou parecerá muito distante ou 
até mesmo insuportável, ou pedirá o sacríficio de posições pessoais ou então revelará as suas 
inconsistências... e isto suscitará uma crise. E não será uma eventualidade, nem será 
necessariamente ligada a fraquezas e imaturidades do “eu”, ao contrário, quanto mais a relação 
será intensa e profunda, mais a relação fará surgir a alteridade recíproca, e a luta será ainda uma 
vez inevitável, preço necessário do crescimento. E de um crescimento que sempre acontece à luz 
(não à sombra) do mistério: de um mistério duplo, podemos dizer, “do eu e do tu” ou – ainda mais 
– do eu e do TU... 
 A luta é relação verdadeira e genuína, conflito que provoca o eu a sair realmente de si 
mesmo rumo ao tu (se a relação não é assim difícil) e juntos, paradoxalmente, contra o tu (quando 
ao invés a oposição é cansativa), marcando assim um grande dinamismo. Que torna inevitável a 
crise. Sobretudo quando aquele TU é Deus! 
 
3.3. Luta (e crise) como prova: o «Radicalmente outro» na vida humana 
 
 Se na vida do homem entra Deus, o Radicaliter Aliter, o máximo da alteridade-diversidade, 
então a luta assume um qualidade e um significado particular, se torna uma provação. «Provação» 
é conceito bíblico; faz parte da memória de Israel e, antes ainda ou melhor, do estilo de Deus: 
«Lembrai-vos do que Deus fez à Abraão, de como provou Isaac, do que aconteceu com Jacó...» 
 
60
 E. Bianchi, Da forestiero nella compagnia degli uomini, Casale Monferrato 1995, 15. 
A Hora de Deus 
 
50 
(Jdt 8,26), lembra, de fato, Judite aos chefes do povo que na opressão do inimigo tiveram dúvida 
da ajuda de Deus. A prova não é simplesmente um teste com o qual Deus mede a fidelidade do 
homem (o Eterno não necessita destes meios), pode ser o instrumento através do qual o Pai-Deus 
se manifesta ao homem, e não somente, mas é também a mediação através da qual o Criador faz 
crescer a criatura no seu amor. Neste sentido a prova é o ponto mais alto da crise humana, 
sobretudo se compreendida – para precisar – no sentido bíblico. Ela, de fato, está dizendo 
primeiramente o desejo de Deus de vir ao encontro do homem, a sua iniciativa na relação 
humana, a vontade do Criador de fazer experiência da criatura. Não é o homem, nos recorda Von 
Balthasar, que faz experiência de Deus, é ao contrário, Deus que «experimenta» o homem, o 
procura, o examina o mete em prova... misteriosamente e em modo concretissimo.61 Mas, como 
que para superar uma distância que é infinita, ele o retira dos seus cálculos e dos seus costumes, 
muda os seus sonhos, se revela inesperadamente com propostas e mensagens que desestruturam 
a sua vida.62 E em que modo o faz? Pedindo (e doando) ao homem algo que o homem jamais teria 
coragem de pedir a si mesmo, como nos conta a prova de Abraão, nosso pai de verdade na fé e na 
provação, na prova de quem se deixa pedir até mesmo o filho, a maior expressão de amor 
humano, e depois se vê com um coração apaixonado por Deus! 
 Quando ao invés é o homem que coloca Deus a prova, o «tenta», querendo confirmação 
aos seus projetos ou garantias prévias ou demonstrações de sua presença e fidelidade, então a 
Palavra de Deus assume tons de tempos em tempos violentos e severos: «Não endureçais os 
vossos corações como em Meriba, como no dia de Massa, no deserto, quando vossos pais me 
provocaram e tentaram» (Sl 95, 8-9a); ou então tons cobertos de ironia como no episódio já citado 
da tomada de Jerusalém e dos chefes que ousam impor condições a Deus: «Quem sois vós, que 
hoje tentais a Deus e vos colocais acima dele no meio dos filhos dos homens? Agora colocais à 
prova o Senhor todo poderoso! Jamais compreendereis coisa alguma! [...] Não hipotequeis, pois, 
os desígnios do Senhor nosso Deus. Não se encurrala a Deus como um homem...». Antes, encerra 
esplendidamente Judite, «Apesar de tudo, agradeçamos ao Senhor nosso Deus que nos põe à 
prova como a nossos pais» (Jt 8, 12-13.16.25).63 
 Enfim, ou a liberdade do homem de se deixa provar por Deus, o «Radicalmente Outro», ou 
a tentação humana e diabólica de colocar Deus a prova. 
 
3.4. Luta (e crise) como rendição: o «humano» na vida humana 
 
A idéia de luta normalmente faz lembrar também a idéia de um êxito, positivo ou negativo. 
Mas se si fala de luta no caminho do crescimento se entende implicitamente que aquele que luta 
vença, supere o obstáculo para passar ao nível sucessivo de crescimento, resista ao ataque daquilo 
que ou de quem o contrapõe. Existe uma invencível idéia... vencedora com a qual interpretamos 
também a idéia de maturidade, também de maturidade espiritual. Não existe talvez toda uma 
doutrina ou tradição espiritual que fala em termos de conquista, sucesso, resistência, 
superamento...? Também Paulo pensava naquela época de ter que vencer a qualquer preço contra 
o maligno e os seus ataques; por isso mesmo, visto com um certo incômodo a sua insuficiência, 
decide-se a pedir ajuda ao Senhor onipotente que ele anunciava com todas as suas forças, 
considerando-o também como seu aliado nesta luta. Mas não obteve a resposta que esperava, 
pelo contrário, o Senhor onipotente falou em termos exatamente opostos a quem pensa de ter 
que vencer e esmagar o adversário, falou de potência (divina) que se manifesta na fraqueza 
(humana) ou de onipotente fraqueza (do amor): uma autêntica e misteriosa inversão de 
perspectiva! Que Paulo compreendeu e acolheu imediatamente, ao que parece (cf. 2Cor 12,7-10). 
 
61 Cf. H.U. von Balthasar, «Biblical and Patristic Experience of God», in Theology Digest 25(1977), 206-209. 
62 Também Merton é nesta linha quando diz que «a nossa descoberta de Deus é, em um certo sentido, a descoberta que Deus faz de nós» (T. 
MERTON, Semi di contemplazione, Milano 1955, 20). 
63 Cf. sobre este ponto A. Cencini, La verità della vita. Formazione continua della mente credente, Cinisello Balsamo 2007, 80-83. 
A Hora de Deus 
 
51 
 Nascidos para vencer64, diz o título de um texto de psicologia que fala com extrema clareza 
as idéias do autor a respeito deste tema; livro que teve e tem muitos leitores, também em nossos 
ambientes, porque é emocionante ouvir dizer que somos destinados a vencer, que basta termos 
um pouco mais de confiança nos próprios meios e a vitória é garantida e a maturidade 
conquistada etc.65 Muito bonito e simples para ser verdadeiro e não gerar suspeitas de que se 
tenha esquecido algum componente importante do ser humano! Mas sobretudo muito banal e 
óbvio, sem nenhuma percepção do mistério, e com uma implícita visão do outro em termos 
competitivos, visto que vencer significa chegar primeiro e antes de todos os outros, vencer a 
concorrência, sentir-se o melhor, merecer os elogios. 
 Mas se a luta é aquela metáfora da vida que já falamos, sobretudo se é percepção da sua 
dimensão misteriosa, então pode ser que não é certo que a luta deve sempre terminar com a 
vitória; e se o mistério é o transcendente, aquilo que é importante para o homem que luta é 
compreender que não pode desvendar, pode somente chegar ao limiar do mistério; importante é 
aceitar o «humano» como limite insuperável, ou a rendição. Rendição diante do mistério, antes de 
tudo; como sabia renúncia a pretensão de entender, de compreender tudo, de saber dar passos 
somente quando tudo é claro e esteja sob controle; rendição como confiança e como confiança 
que não faz cálculos; rendição como esperança de que também o incognoscível(=que não pode ser 
conhecido) e o incontrolável podem ser amigos do homem; rendição como gesto extremo da 
inteligência que aceita o mistério, mas também gesto extremo do coraçãoque confia e se 
abandona, como coragem, portanto, sem deixar-se condicionar pelos outros, como liberdade de 
deixar que um outro te cinja e te leve aonde tu não queres, como liberdade de doar a própria 
liberdade; rendição como abandono da pretensão de vencer sempre e a qualquer custo ou como 
descoberta daquela misteriosa força que é presente na fraqueza... 
 Assim como nenhuma destas coisas vem de maneira natural e espontânea ao homem, eis 
porque a prospetiva da entrega o cria problemas. Especialmente quando o entregar-se acontece 
em relação ao Eterno, o « não humano» por excelência, aquele além do qual ninguém pode 
pensar, ninguém pode ir. 
 Se enfim «o transcendente», na luta que realça a dimensão do mistério da vida humana, é 
como realidade que atrae e seduz, e mantém alta a tensão do fiel, o «humano», na luta como 
rendição, imprime um dinamismo diferente: é o dinamismo da espera e da pausa, da luta que se 
torna contemplação, do estar diante ao mistério, em uma síntese alta e passitiva atividade. Diante 
a algo que aparentemente marca o limite insuperável a criatura, enquanto na realidade revela 
neste o sentido verdadeiro da criatura, o seu ponto mais alto de realização, a sua paz. Mas em 
todo caso, paz que passa pela crise. 
 A nossa análise sobre as crises é assim enriquecida. A verdadeira crise implica uma luta, e a 
luta coloca ao centro da atenção as categorias do mistério, além de cada visão redutiva, da relação 
conflitual com o outro, como diversidade irredutível de cada existência, da provação, como 
liberdade de deixar-se procurar e encontrar por Deus, da rendição, como derrota de cada 
narcisismo presunçoso. Imprimindo respectivamente à vida um dinamismo na direção do 
tanscedente, mas sem pretender de ultrapassá-lo, uma vontade de caminhar com o outro, mas 
também contra o outro, para decidir enfim de deixar-se provar do outro por excelência, por Deus, 
e se render a ele e ao seu amor. Tal dinamismo não será invencível nem começará 
automaticamente, mas deverá superar uma forma de dinamismo oposto que lhe estará em 
direção, respectivamente, da visão redutiva (que não vê nenhum «transcedente»), da tentação de 
 
64 M. James – D. Jongeward, Nati per vincere, Cinisello Balsamo 2005. 
65 Assim o enfático prefacio : «Nascidos para vencer ! Já o titulo é uma manifestação. [...] Núcleo portador da hipotese transitorial é, segundo o 
pensamento de seu fundador Eric Berne, que o ser humano, em qualquer idade e condição se encontre, pode redescobrir em si mesmo a raiz do 
seu potencial psiquico completo, como possibilidade de reorganização das próprias expectativas e de ampliamento do seu campo existencial. O 
leitor, com desejada clareza e tom lento, vem solicitado a percorrer o trajeto de um repensar pessoal que vai do sentir e agir segundo um pré-fixado 
“copiador de vida”, ao expansivo conhecimento de uma reconquistada “autonomia”. Porque cada um, se o quizer, pode se tornar aquele “vencedor” 
que a vida o destinou a ser» (M.T. ROMANICI, «Prefazione», em JAMES – JONGEWARD, Nati per vincere, corsivo nostro). 
A Hora de Deus 
 
52 
homologar (que queria zerar a diversidade do outro), do medo (e sucessiva rejeição) de deixar-se 
provar por Deus que faz nascer a presunção de ditar ao Eterno tempos e modos da experiência de 
Deus, e da presunção de ser sempre vencedor nos acontecimentos da vida (contra a idéia de 
qualquer rendição em ralação ao mistério). 
 Será necessário retornar sobre estes conceitos e aplicá-los em modo mais sistemático as 
situações de crises que queremos compreender. 
 Tentaremos aqui resumir em uma síntese com o nosso conhecido esquema gráfico 
sintético. 
 
Esquema 3 – A luta na crise: conteúdo, dinamismo, objetivo e elemento de tensão 
 
Conteúdo 
 
Dinamismo 
 
Objetivo 
 
Elemento de tensão 
 
 
mistério 
 
rumo ao ... 
 
transcendente 
 
Visão redutiva e 
parcial 
 
 
conflito 
 
com e contra... 
 
o outro 
 
Tentação a conformar 
e legitimar ... 
 
 
provação 
 
de... 
 
o radicalmente outro 
 
Medo, rejeição e 
presunção diabólica 
 
 
Rendição 
 
diante de ... 
 
o humano 
 
Presunção vencedora 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO 5 
 
Tipos de luta 
 
A luta, como vimos, é elemento inevitável no processo do desenvolvimento, passagem 
obrigatória, ligado à mesma idéia de etapa ou fase evolutiva, que é muito diferente de um 
processo espontâneo e indolor. Neste sentido, é também parte do conceito e da realidade da 
crise, ou – pelo menos – deveria derivar mais ou menos espontâneamente: uma crise não é tal se 
não implica uma situação de luta. Não se sai da crise se não aprende a lutar. Mas mesmo antes 
disso, e é a coisa mais importante, a vida não é vida sem crises e lutas! 
A luta pode ser de vários tipos. Ou talvez é mais correto dizer que existem vários tipos de... 
lutadores, e não são todos – como veremos – que interpretam a luta na maneira melhor e 
inteligente. A começar daqueles que não tem nenhuma criatividade para lutar. 
A Hora de Deus 
 
53 
 
1. Ausência de qualquer vontade de lutar 
 
O primeiro comportamento é aquele de quem, em uma situação crítica, não faz 
praticamente nada para combater ou aprender a dominar progressivamente aquela fraqueza que 
está à origem do problema que está sofrendo ou que está escondida no problema. 
 
1.1. Inércia e costume 
 
Este sujeito sabe, pode também ter identificado o ponto fraco que o incomoda 
suficientemente; também sofre, mas não se decide em fazer algo para combatê-lo. Ou melhor, 
gostaria de sair, mas não ao ponto de complicar muito a vida, sem fazer guerra com ninguém, 
menos ainda consigo mesmo. E assim evita cuidadosamente qualquer idéia de luta que lhe pareca 
uma coisa excessiva e custosa. Sem se dar conta, neste modo, de padecer lentamente a própria 
situação, ou de deixar-se dominar pela problemática que está vivendo e que o condiciona 
progressivamente. Mas em particular, sem fazer nada que o permita de se afastar sempre mais do 
fator mais determinante da própria crise. 
Chega assim ao ponto de se acostumar com esta situação, de fazer dela quase um “modus 
vivendi”, um comportamento habitual, um estilo existencial, do ponto de vista da relação consigo 
mesmo, com os outros e com Deus. 
É estranho, mas o processo que da inércia leva ao condicionamento, um processo 
inevitável, processo que naturalmente empobrece muito as potencialidades de vida, de mudança 
e de progresso da pessoa; de alguma forma atrofia seu coração, sua mente, sua vontade, sua 
sensibilidade... No início, o sujeito “sente” o seu problema como um problema, não é como 
aqueles que não estão nunca em crise, ele a sente dentro, e percebe aquela fraqueza como 
alguma coisa que vai contra um certo ideal (ou eu ideal) e uma sua prospectiva de vida; mas se de 
fato não faz nada para afastar-la, principalmente quando isto significaria tensão e luta contra si 
mesmo, a um certo ponto se adapta; isto é, sente a crise sempre mais como uma realidade neutra 
ou prazerosa, e não sentirá mais nem menos o contraste interior entre ideal e realidade de vida. 
Isto é tristemente interessante: o não combater uma certa realidade negativa, percebida 
como não estando de acordo com a própria verdade e identidade, levará lentamente a não 
perceber mais aquela realidade como negativa, mas a justificá-la; e a pessoa se sentirá tranquila 
na sua mediocridade, ou às vezes até mesmo na sua transgressão. É o caso do nester-nidificadore, 
já visto substancialmente, ou de quem congela sua crise no tédio chato, até alcançar em certos 
casos à insensibilidade moral e psicológica. 
 
1.2. Dos comportamentos às convicções 
 
 Mas aqui tem algo mais, como um passo complementar que poderíamos formular assim, 
em termos de lei psicológica: se o comportamento não segue as convicções ideais da pessoa, a um 
certo ponto as convicções se conformarão aos comportamentos (desviados) justificando-os e, de 
fato, sofrendo-os, e arriscando fazer desapareceressas mesmas convicções ou substituí-las por 
convicções contrárias. 
Dizendo em termos positivos: se adquire as convicções com a luta, lutando por elas; não se 
acredita naquilo em que não está disposto a lutar, e que nem nunca lutou. As convicções são sim 
um fato mental, mas se tornam paixões (um fato também do coração) somente se passarem pela 
luta (um fato também de vontade e de escolha); serão assim ligadas a verdades teóricas, se 
tornam vivas, assumem carne e sangue, cor e calor só em quem por estas pagou um certo preço; 
são verdades talvez recebidas por outros, porém se tornam convincentes quando alguém pode 
A Hora de Deus 
 
54 
mostrar as cicatrizes por estas deixadas. Por esta mesma razão uma fé não provada não é uma fé 
autêntica. 
 Tal lei – ai de mim – é confirmada pela história de muitas crises de muitos presbíteros, 
consagrados/as, no início atentos e... incomodados, mas depois, pouco a pouco, “adaptados” sem 
nenhum problema aos seus problemas, distraidos e quase satisfeitos porque são convencidos de 
serem “libertos” de certos impedimentos julgados como infantis ou de certos, assim chamados, 
complexos. Ao ponto de não perceberem mais nenhum impulso interno e de não acolher mais 
nenhuma chamada à conversão, ou seja, a insensibilidade interna a um certo ponto se junta à 
indisponibilidade externa, ou a determina. Sabe alguma coisa sobre isso quem trabalha neste 
setor, na relação de ajuda, no aconselhamento psicológico ou na direção espiritual, e se encontra 
de frente à não colaboração ou à recusa de deixar-se ajudar. 
 
1.3. Crise sem luta, vida sem tentações 
 
 Por isso preocupa um pouco aquele certo clima tranquilo e pacífico, às vezes alegre e bobo, 
que parece dominar às vezes nos nossos ambientes, nas nossas casas de formação como nas 
nossas convivências, como se tivessemos esquecido o caráter dramático da vida cristã, ou se como 
não fosse mais verdade que a formação (inicial ou permanente) é toda construida sobre o 
esquema do Tríduo Pascal, que é o máximo da luta... Nada de estranho, neste ponto, que não 
exista nem mesmo entusiasmo e criatividade, o querer o bem e a santidade, a alegria e a 
confiança... e todas estas expressões ou consequências de um estilo de vida íntegra “combatente”, 
ou de quem é acostumado à lutar, dentro e fora de si. Não assustam as crises na Igreja de Deus e 
nos apóstolos do Evangelho, assustam ao invés as crises sem lutas, ou os indivíduos que 
atraversam todo o processo formativo sem nunca precisarem lutar, sem aprender a viver as crises 
com o espírito de luta, a procurar e encontrar na luta o contexto normal do seu crescimento, o seu 
preço e o seu cansaço. Indivíduos bem saudáveis e corados, ou “pueri aeterni” (crianças eternas) 
que serão inevitavelmente preguiçosos e inconclusivos no ministério que lhes forá confiado. 
 Curioso reverso da medalha: será muito difícil que estes sujeitos vivam a tensão das 
tentações como uma prova normal e frequente na vida do fiel, isto é, não poderão sentir como 
“tentação” aquilo que o equilíbrio psico-espiritual deles já se adaptou, aquilo que se tornou 
normal. O costume interior criado pela recusa da luta poderá levar, portanto, a não perceber mais 
o engano do espírito da mentira. Que é o máximo do engano. 
 E se são indivíduos sem tentações, colocarão em risco... a salvação: “Eliminem as tentações 
– diz Santo Antão – e mais ninguém se salvará”. Sem tentações não tem salvação, porque não 
existe escolha, desaparece a liberdade. Antes, é o homem mesmo que acaba. 
 
2. Luta psicologica 
 
 Luta psicológica é um conflito que nasce e se cumpre no eu, onde o mesmo eu é o juiz e o 
julgado, aquele que percebe o contraste interior e também aquele que estabelece como será 
superado, quem ataca e também quem se defende, é aquele, que até mesmo vence e também 
aquele que perde. 
 Parece, e é, uma situação paradossal e contraditória, e até mesmo frequente: muitas lutas 
param aqui. Para intendê-la corretamente vamos tentar esclarecer o termo. 
 Por realidade “psicológica” entendemos aqui uma realidade de forças, energias, 
dinamismos considerados em si mesmos e como que desligados ou desconectados entre eles, 
entre si autônomos e sem um certo unificador e, portanto, se não estão em relação, estão 
potencialmente em tensão entre sí. De fato, a luta psicológica é fundamentalmente intra-psíquica, 
um conflito que acontece dentro da pessoa, entre as diversas partes do eu (por exemplo, entre o 
A Hora de Deus 
 
55 
eu atual e o eu ideal),66 mas que pode ser desencadeado também pela realidade externa (pessoa, 
circunstância, acontecimento, imprevisto...) ou manifestar-se em uma tensão com uma realidade 
externa.67 A peculiaridade deste tipo de tensão é que, também quando é originada fora, ativa no 
sujeito uma conflitualidade interior, entre as estruturas do eu, como um conflito interno, do eu 
contra si mesmo ou de uma parte do eu contra uma outra parte. 
 Geralmente se trata de um conflito inconsciente em quanto tal: é o caso daquelas 
contraposições em relação ao outro que vendo de fora parece de natureza interpessoal, mas que 
na realidade exprime uma raiz de conflito presente no eu e que então é simplesmente projetada 
fora, “transferida” sobre o outro para ser talvez controlada melhor. Quantas vezes, queremos 
dizer, problemas intra-psíquicos estão à origem de problemas de relação, e permanecem sem 
solução até que se procura a solução a nível destes últimos! 
 Eis um exemplo: Pe. Alfredo é um religioso com 10 anos de ordenação. É pároco de uma 
pequena paróquia, onde alguns jovens seminaristas do seu instituto prestam alguns serviços, para 
fazer expêriencia e darem uma mão ao mesmo tempo. Quem sabe quantos párocos invejariam Pe. 
Alfredo por esta ajuda que lhe consente de tampar muitos buracos, seja da atenção aos jovens à 
animação litúrgica, etc. Mas ele tem uma outra inveja, muito menos lógica. Por um destes jovens, 
Paulo, particularmente dotado em muitos pontos de vista, que está trabalhando com muito 
resultado na sua paróquia, e que na realidade o está ajudando muito. Com efeito Paulo é muito 
apreciado pelos companheiros e superiores, os quais proporam a ele de fazer um certo tipo de 
especialização em prospectiva pastoral, coisa que Paulo está fazendo com sucesso, conseguindo 
conciliar o estudo básico da teologia e a especialização. Mas Pe. Alfredo não o pode suportar. E 
ele deixar transparecer isso em todos os modos, também abertamente, tanto que quase todos já 
perceberam, a partir de Paulo mesmo, evidentemente, que em tal modo faz principalmente 
experiência de ... como trabalhar com a perda, quando alguém é excluido e se sente agredido. 
 Como pode acontecer essa inveja? O próprio Pe. Alfredo se pergunta, porque na realidade 
este comportamento o incomoda muito e no fundo ele mesmo entende que vai contra os seus 
interesses. A explicação está na história do pároco invejoso, o qual sempre sofreu, desde os 
tempos do ensino médio, com complexos de inferioridade intelectual em relação à alguns 
companheiros e que, talvez também por superar essa sensação, uma vez ordenado sacerdote 
tinha pedido aos superiores de prosseguir os estudos, pedido que porém não foi aceito, e que ele 
mesmo interpretou como mais uma prova da pouca consideração que gozava do ponto de vista da 
capacidade intelectual. Ficou mal, muito mal. Bem, encontrar-se agora com um jovem em 
formação, nem mesmo padre é, que é considerado capaz até mesmo de fazer duas escolas ao 
mesmo tempo, e que de fato desenvolve esplendidamente o duplo empenho, encontrando 
também tempo de animar, de forma excelentemente o grupo de jovens... e tudo isso na sua 
própria casa, sob seus olhos, ao ponto de enfraquecer, talvez, o seu papel de líder na paróquia... 
isto é demais! E de qualquer forma é o que basta para fazer renascer os fantasmas da sua pouca 
estima de si e brotar em seguida nele uma inveja feroz pelo pobre inocente, inveja que risca até 
mesmo de prejudicar a sua identidade de pastor que deveria querero bem dos outros, 
principalmente quando este bem é também o seu bem, das pessoas a ele confiadas, como no 
caso de Paulo que trabalha para o bom andamento da sua paróquia! E ao invés de querer 
abençoa-lo, às vezes tem um sentimento diferente, como o desejo que Paulo venha a falir, que dê 
errado aquilo que faz, quase a maldição no lugar da benção. 
 Mas é claro que Pe. Alfredo não ataca Paulo ou os superiores que o promovem ou as 
pessoas que o admiram, mas a si mesmo antes de tudo, mesmo se não o sabe. É incomodado, na 
realidade, antes de tudo com a sua pouca capacidade intelectual ou com aquela que ele retém 
como tal; com o seu modo de fazer as coisas porque não é assim brilhante e ativo como Paulo, 
mas é incomodado consigo mesmo a um nível mais profundo e com certeza menos consciente, 
 
66 Cf. F. Imoda, Sviluppo umano. Psicologia e mistero, Casale Monferrato 1993, 369. 
67 Cf. J. De Finance, L’affrontament de l’autre, Rome 1973. 
A Hora de Deus 
 
56 
porque errou ao perceber a raíz da própria positividade, no identificar a fonte e isto a torna mais 
segura e estável. Fazendo assim, ou seja, percebendo só o motivo mais evidente e ignorando o 
outro mais profundo e verdadeiro, continuará a complicar sua vida e destruir a dos outros, 
disperdiçando energia em uma das sensações mais imbecis que um homem possa provar dentro 
de si: a inveja, clássico problema externo com raízes internas. 
 E por um outro lado, não imediatamente evidente, talvez, como o eu possa colocar-se em 
contrasto consigo mesmo, mas de fato isto é aquilo que frequentemente acontece no processo de 
desenvolvimento da pessoa, e como um fato mais ou menos normal sob o plano evolutivo. 
 É normal, por exemplo, que a um certo ponto o eu ideal proponha alguns valores que o eu 
atual sente que são difíceis de realizar ou que são inimigos da própria felicidade (basta pensar a 
certas passagens do Evangelho, por exemplo onde Jesus nos convida a “odiar” a nossa vida, ou a 
levar a sua cruz e seguir a lógica do grão de trigo que cai na terra e morre); não é assim estranho 
que a um certo momento possam ser percebidas exigências contrárias de necessidades diversas e 
entre elas conflituais (a necessidade de dependência afetiva poderá, às vezes, colocar-se em 
conflito com a necessidade de sucesso, etc.); pode acontecer que o eu combata contra um aspecto 
não agradável da personalidade, ou que queira esquecer uma parte da sua história, ou que seja 
desiludido pela própria fraqueza... E ainda, é típico do inconsciente desejar e temer uma mesma 
coisa, ou amar e odiar o idêntico indivíduo, etc. 
 Por um lado o conflito intrapsiquico diz a origem da luta da pessoa, revela sua natureza 
profunda, frequentemente diferente daquilo que aparece ao externo, também aos olhos do 
sujeito mesmo; será então importante para ele descobrir tal natureza e voltar novamente a esta 
origem para enfrentar de modo adeguado o verdadeiro problema e o verdadeiro “inimigo”. Por 
outro lado existe a possibilidade que a luta psicológica... permaneça como tal e não tenha nenhum 
desenvolvimento, correndo e fazendo correr à pessoa determinados riscos. Vejamos alguns. 
 
2.1. Involução narcisista 
 
O primeiro e fundamental risco é exatametente aquele de bloquear o mesmo 
desenvolvimento do indivíduo ou de reduzí-lo a uma conflitualidade interna que é por sua natureza 
sem saída, porque privado de critérios de juízos externos ao eu, um eu que presume ser centro de 
si ou que é privado de centro (que é a mesma coisa), e que mira sobretudo à própria realização. 
Dentro da lógica substancialmente narcisista. 
O resultado poderá ser aquele de uma luta contínua e cansativa, com resultados às vezes 
obsessivo-depressivos que acabam frustrando e destruindo cada desejo de crescimento: o eu, 
além da aparência, é frequentemente o juíz mais severo e inflexivel de si mesmo, ou – ao oposto 
extremo - o mais liberal e “sem sentido” (literalmente, sem algum critério moral); se é ele a julgar 
e estabelecer os critérios de crescimento é de si esperar ou o extremo rigor ou o seu contrário, a 
extrema condescêndencia, dois elementos que não promovem o eu e nem lhe dá uma estima 
autêntica. 
Sinal distintivo da luta psicológica é, de fato, o conjunto da auto-condenação incontestável, 
da não aceitação de si (junto com a intolerância da fraqueza dos outros) e do típico sentido de 
raiva narcisista contro si mesmo de frente à surpresa da própria fraqueza e impotência.68 Por isso, 
muitos jovens, na primeira formação, lutam no vazio e com o disperdício considerável de energia, 
para depois decidir, a um certo ponto, de não lutarem mais (ou porque... eles não conseguem 
mais ou porque acham que não conseguirá concluir); ou seja, a mediocridade é frequentemente o 
epílogo de uma luta errada e no fim frustante, exclusivamente contra si mesmo. 
 
 
68 Sobre as interpretações equívocas da auto-aceitação, normalmente quando se torna até mesmo modelo formativo, cf. A. Cencini, L’albero della 
vita. Verso un modello di formazione iniziale e permanente, Cinisello Balsamo 2005, 58-68. 
A Hora de Deus 
 
57 
2.2. Descuido do outro 
 
 Outro aspecto da involução narcisista (que cultua a própria pessoa) na crise que é só 
psicológica é a exclusão do outro ou o seu descuido. Não que o outro seja ausente na vida e na 
crise que está interessando o sujeito, é presente, às vezes também como presença significativa e 
não indiferente do ponto de vista da crise mesma, mas é como se a sua a presença fosse só 
instrumental, sem valorização intrínseca da sua pessoa, mas como projeção de problemas do 
sujeito em dificuldade. 
 Em uma crise, por exemplo, determinada por um escasso sentido do eu ou por uma 
percepção negativa de si, o indivíduo terá a necessidade de preencher a própria vida com gestos 
importantes aos olhos de outros, com resultados e sucessos, com relações com pessoas 
significativas, que de qualquer forma lhe possam dar aquela sensação positiva de si que não lhe 
vem suficientemente de dentro. Se é um evangelizador, por exemplo, o indivíduo poderá também 
fazer coisas muito valorizadas em si, como pegar para si a causa dos mais pobres e se fazer 
defensor deles combatendo contra o potente, ou exibir ações louváveis neste sentido, que vão do 
lavar os pés aos serviços mais humildes, normalmente sem desprezar a visibilidade dos seus 
gestos, mas ao contrário... E tudo isto sinceramente, se entende. Mas na realidade, o que 
representa o pobre para este? De fato, isto é além das aclamações (mais ou menos gritadas nos 
locais mais estratégicos em função da visibilidade do eu) é sobretudo o instrumento através o qual 
pode esperar inconscientemente de resolver o seu problema ligado à estima de si. Não se pode 
dizer que não é nem um pouco interessado a ele, mas sem dúvida é mais interessado às próprias 
economias intrapsiquicas (mesmo se não o sabe) que não motivado pelo sincero afeto pelo pobre; 
é desagradável dizer, mas mais que serví-los se serve deles, colocando-se portanto em aberta 
(ainda que a ele escondida) contradição com o seu proclamado amor pelos pobres. É provável 
nesses casos que quando ele perceber e avaliar a coisa como não mais “conveniente” (do ponto 
de vista da gratificação da sua necessidade) mudará também de comportamento, chegando até 
mesmo a abandonar aquele que antes servia, e se sentirá frustrado, e portanto em crise. Uma 
crise iniciada já antes, mesmo se não se dava conta, e em cada caso puramente psicológica, toda 
gestida dentro de si, de um eu propenso à afirmação de si (isto é, à fama, à reputação, à carreira 
talvez) e em conflito com uma sensação exatamente contrária de si, portanto negativa, crise em 
função dos seus precários equilíbrios intrapsíquicos ou das suas necessidades em procura de 
gratificação, no qual o outro, aquele outro que é pobre, mesmo presente, era na realidade 
ausente, ou como se fosse só uma “contrafigura”(expressão italiana que significa “coadjuvante”), 
um “pobre” coadjuvante. 
 Outro exemplo significativo é aquele que pode acontecer nas crises afetivo-sexuais, e que 
de fato aconteceu a uma pessoa do calibre de T. Merton quando, como sabemos, se apaixonou 
perdidamente, já monge na plena maturidade humana e espiritual e un escritor realizado, por 
uma jovem mulher. Uma paixão tão forte, descreve, “que eu não sabia como poderia viver sem 
ela”.69 Portanto, “ela” no centro da sua atenção, sentida até mesmo como indispensável para 
continuar a viver. Na realidade, depois de uma longa reflexão jamais feita deste modo, Merton 
chega com grande sinceridade e transparência introspectiva a descobir que isso que procurava 
talvez não era a mulher que dizia amar, provavelmente nem mesmo uma certa gratificação 
impulsiva, mas uma solução ao problema do vazio ao centro do coração. Ela era “a pessoa cujo 
nome tentava usar como alguma coisa mágica para partir a presa da tremenda solidão do meu 
coração”.70 
 É exatamente aquilo que faz a crise psicológica em tantos padres em crise afetiva: colocam 
o eu com as suas necessidades afetivas assim no centro das atenções ignorando os outros ou 
 
69 J.H. Griffin, Thomas Merton: The Hermitage Years, London 1993, 60. Cf. também J. FOREST, Thomas Merton: scrittore e monaco, uomo di pace e di 
dialogo, Roma 1995, 178-186. 
70 Griffin, Thomas Merton, 58. 
A Hora de Deus 
 
58 
usando-os como instrumento ou passagem para a solução dos próprios problemas. Também 
quando a presença da outra é declarada insubstituível e o sujeito diz (a si mesmo e talvez também 
a ela, gratificando-a) de não poder viver sem ela. Nem sempre uma paixão indica um amor 
verdadeiro. 
 
2.3. Exclusão de referimentos superiores ao eu (= transcendentes) 
 
 O terceiro risco consiste exatamente na exclusão, mais ou menos desejada e inconsciente, 
de um critério de referência que seja não só externo à pessoa, mas também superior a esta e 
portanto importante. 
 É a perda, no fundo, do sentido da transcendência, como é ainda típico de um 
comportamento narcisista, transcendência compreendida no seu significado mais vital e de 
promoção do humano. Como sinal do transcendente havia a nuvem ou a coluna de fogo dos 
hebreus no deserto, que o povo de Israel via mais no alto e mais à frente e que por isto mesmo 
podia indicar a eles a estrada a ser percorrida, distraindo-os das suas recorrentes conflitualidades 
internas e provocando-os a caminhar, a ir adiante e unidos em direção ao futuro, a resistir à 
tentação de voltar atrás com os próprios passos, em direção a um passado simplesmente a se 
repetir e sem mais metas para alcançar... 
 Frequentemente a perda da transcendência vem em qualquer modo “compensada” com 
ideais humanos de perfeição, que porém, depois de muito caminhar, se tornam um fardo pesado 
como nunca que de fato acaba por impedir o crescimento da pessoa.71 A ausência do sentido da 
transcendência implica sempre também a diminuição do impulso rumo ao futuro e da coragem de 
enfrentar a novidade e o inédito da existência. 
 Mas o efeito mais relevante e também mais frequente da perda da transcendência é a 
pretensão do eu de julgar a situação, talvez para depois atribuir a Deus o próprio juízo (ou o fazer 
dizer aquilo que o sujeito quer). É o que aconteceu à irmã Magda, uma freira norte-americana 
estudante de Sagrada Escritura que acompanhei há algum tempo em um caminho vocacional. A 
religiosa havia uma relação de grande amizade com um sacerdote, naturalmente também ele 
empenhado nos mesmos estudos da prestigiosa Universidade pontifícia, relação que excedia 
frequentemente e prazerosamente em uma área um pouco além da simples amizade. Eu 
procurava fazê-la entender a seriedade da situação e aconselhava que prestasse atenção no 
verdadeiro motivo que estava atrás deste relacionamento, que estava se tornando sempre mais 
central na sua vida, e que a poderia levar onde naquele momento ela ainda não imaginava, nem 
mesmo, até aquele momento, ela mesma não queria. Ela reagia como que enfurecida a estes 
meus convites. Com o imediatismo e a segurança tipicamente norte-americana me dizia que as 
minhas preocupações eram excessivas e que a coisa não podia não agradar a Deus, porque na 
Escritura Deus promove o amor humano e somos nós, principalmente nós italianos-romanos, que 
somos prevenidos sobre isso, mas Ele, o Senhor do Cântico dos cânticos, não é ciumento dos 
nossos afetos nem hostil ao diálogo dos corpos, etc. A um certo ponto da terapia lhe apliquei um 
teste para ver o decurso do tratamento. Ela deveria terminar algumas frases; uma dessas 
começava assim: “Eu falei...”, e ela acrescentou: “ Eu falei com o meu melhor amigo (with my best 
friend). E ele me disse que está tudo bem”. Perguntei a quem se referia com esta expressão, e ela, 
fingindo espanto pela pergunta: “mas é evidente, me referia a Deus, é ele o meu melhor amigo. Eu 
falei para o senhor da minha amizade com aquele padre sobre o qual o senhor quer me colocar 
em crise, e Deus me disse que ao contrário, não devo me preocupar... e portanto também o 
senhor também não deve preocupar-se”. Claro, não? 
 
71 Também sobre o conceito de perfeição permanecem interpretações equívocas em chave narcisistica que devem serem esclarecidas no caminho 
formativo inicial; cf. Cencini, L’arbero della vita, 19-31. 
A Hora de Deus 
 
59 
 Me permeti só de convidar a conhecedora e exegeta da Palavra a perguntar um pouco a 
Abraão, o primeiro que me veio a mente, se ele escutou na mesma forma, como my best friend, 
aquele Deus que lhe pediu de deixar a sua terra, ou quando lhe pediu para sacrificar o filho... Ou a 
escutar Jeremias, quando se referiu a Deus chamando-o “torrente traiçoeira”... Tive como 
resposta uma pontuda irritação. 
 Sem dúvida, Deus é também amigo, antes, o “melhor amigo” de quem por Ele disse não ao 
amor mesmo desejadíssimo de uma criatura, mas normalmente a amizade com Deus nas 
Escrituras santas aparecem como o ponto final de uma relação não muito breve nem pacífica, mas 
que prevê a luta com Ele e o combate com as suas pretensões terríveis sobre o coração humano. 
 Ao contrário, o Trascendente se torna como o ursinho de pelúcia da criança, uma espécie 
de objeto de transição! 
 
2.4. Empobrecimento do eu 
 
 Enfim, a luta psicológica, quando é só e exclusivamente tal, corre o risco de empobrecer o 
eu e de tornar vulnerável cada ideal. 
 O eu, de fato, precisa de um centro, em torno do qual faz girar a vida e as próprias energias 
e impulsos, um centro vital e significativo, capaz de dar sentido a tudo, a toda a sua história e a 
cada aspecto da sua personalidade, e onde se pode reencontrar a própria identidade. Tal centro 
não pode ser o eu mesmo, porque seria o clássico egocentrismo ou narcisismo que esmaga o eu 
sobre si mesmo fazendo-o implodir, ou o obriga a girar no vazio sempre sobre si mesmo ou a 
contemplar-se em vão à procura de uma inalcansável positividade pessoal. Mas é isso mesmo que 
acontece na luta psicológica, onde o insensato conflito do eu contra si mesmo é paradoxalmente, 
o aspecto da insensata auto-contemplação narcisista, de uma energia destinada ao outro ou à 
realização que não consegue sair dos confins do eu. 
 Todas as consequências causam dano ao eu. Não tendo um centro de atração 
magnetizante dos recursos pessoais, o eu mesmo correrá o risco de perder-dispersar as próprias 
energias, de não as poder juntar em torno de algo que lhes dá sentido e orientação. É no fundo 
um fenômeno da dispersão do eu com disperdício de energias preciosas. Quando o eu luta contra 
si mesmo, de fato, irá ao encontro em todo caso, ou seja, qualquer que seja a parte vencedora, há 
sempre uma perda e uma derrota para pessoa, como é típico de todas as lutas internas. Que 
rende a luta psíquica inútil e insana. 
 Sofrerá, eventualmente, o progeto de vida da pessoa, asua capacidade de retenção ao 
longo das estações da existência, a resistência em situações de dificuldades, a coragem e a 
fidelidade em momentos de crises. A dispersão do eu provocará inevitavelmente em geral uma 
vita também dispersiva e inconsistente, e um testemunho fraco e escassamente incisivo.72 
 
2.5. Caos intra-psíquico 
 
Um exemplo muito evidente daquilo que estamos falando é aquele fornecido pela parábola 
evangélica do pai misericordioso (cf. Lc 15) e em particular pelo comportamento do assim 
chamado irmão maior em relação ao irmão menor e com o pai. Exemplo apropriado se tentamos 
ler estes três personagens não como externos, mas como internos a cada um de nós, como modos 
de ser (e viver a relação) que podem co-existir dentro do nosso mundo interior, a nível mais ou 
menos inconsciente, dividindo-nos interiormente e fazendo tornar problemático o caminho em 
direção à liberdade interior. 
O irmão maior, por exemplo, é aquela parte de nós tão empenhada (ou que se supõe 
assim) no caminho da perfeição (compreendido em um certo modo, heróico-perfeccionalista) que 
 
72 Cf. L. M. Rulla – F. Imoda – J. Ridick, Struttura psicologica e vocazionale. Motivazioni di entrata e di abbandono, Torino 1977, 53ss; também A. 
CENCINI, “Maturità e maturazione nel celibato consacrato”, in Presbyteri 7(1980), 527-541. 
A Hora de Deus 
 
60 
não aceita a outra parte, aquela fraca e pecadora que vive também dentro de cada um de nós, e 
chega a recusá-la quando “volta”, desejaria eliminá-la. Impedindo a festa da aceitação de si. 
Ou isto... o irmão mais velho exprime a parte menos livre da nossa personalidade interior, 
ou aquele certo modo de entender o dever, ainda uma vez, que torna a pessoa fiel e rigorosa na 
observância e, porém, infeliz interiormente, porque não ama aquilo que faz. Faz o bem, mas o faz 
forçado73. Para este irmão mais velho (que vive dentro de nós) a vida bonita é a outra, aquela que 
ele “não pode” permitir-se e que, ao invés, o irmão mais novo teve a cara-de-pau de 
experimentar: dinheiro, festas, mulheres, aventuras, autonomia... 
Pode parecer estranho, mas é possível esta estranha inveja interna, que nos impede de 
“perdoar-nos”, nos torna irritados conosco mesmos e frustrados, e incapazes de gozar, de 
participar à festa da vida, de ser “pais” de nós mesmos, ou de encontrar aquele ponto central que 
nos consente de unir as polaridades aparentemente contrárias dentro de nós. O resultado será 
uma espécie de caos interior. Por uma luta inútil. 
A coisa curiosa é que este estado interno contraditório de intolerância da parte “boa” 
poderá determinar a mesma intolerância a nível relacional, em relação a quem errou e talvez se 
arrepende, e pede de ser readmitido à relação e à fraternidade. Outro caso de aparente conflito 
inter-pessoal, que ao invés denuncia um problema ao interno da pessoa. 
 
3. Luta espiritual 
 
 Se “psicológico” indica a específica realidade intra-psíquica às vezes em conflito com as 
outras, “espiritual” é aquilo que torna possível e efetua a síntese através da relação (como é típico 
do Espírito na economia trinitária). No nosso caso, a relação é impulsionada ao nível máximo, e é 
isto que provoca o efeito de reagrupar o indivíduo e a sua realidade intra-pisíquica. 
 A luta espiritual, portanto, representa... a outra forma de lutar do ser humano, conflito não 
mais trabalhado ao interno do mundo intra-pisíquico subjetivo, mas aberto à realidade espiritual 
da pessoa, em diálogo com o Transcendente. Esta luta, portanto, não é mais expressão de uma 
discórdia interna ao eu, ou gerenciado predominantemente por uma parte do eu contra uma 
outra parte, mas diz respeito à raiz do conflito natural e constitutivo da criatura com o Criador, a 
luta até mesmo espiritual-religiosa, embora seja ainda combatida no terreno humano e no fundo 
contra problemas internos ao sujeito e, portanto, se deve absolutamente levar em consideração 
este humano. 
 “A luta religiosa é caracterizada pelo encontro e pelo confronto entre a pessoa livre e 
Deus”.74 Certamente é um passo seguinte, um salto qualitativo em relação à luta “só” psicológica, 
porque indica que o indivíduo alargou e moveu para frente o objetivo ou o critério do seu 
processo de desenvolvimento: não mais um ideal somente humano, mas até mesmo de Deus, o 
Transcendente. Atribuir tal ponto de riferimento ao próprio existir quer dizer, além de uma 
aparência íntima e portanto enganadora, inevitavelmente luta, e luta fraquentemente dura... e 
“perdida”. Como nos diz a história dos amigos e buscadores de Deus, todos – a um certo ponto – 
desafiados em um luta desigual. 
Também o encontro com Deus, como encontro com o Outro mais radical, que é princípio e 
fim, é marcado pela luta. De Abraão, onde o encontro com Deus o tira da sua terra, a Jacó 
que luta com o anjo, a Jeremias que se encontra seduzido e derrotado por Deus,75 a Jó que 
quer discutir com Deus antes de dar-se por vencido. E enfim, também Jesus, imagem mais 
 
73 Portanto, não é nem mesmo virtuoso, porque “a virtude é algo feito sem que tenha sido mandado, é voluntário: não pode ser virtuoso aquilo que 
é por necessidade ou por violência” (Gregório de Nissa, L’uomo, Roma 2000, 77) 
74 Cf. Imoda, Sviluppo umano, 369. 
75 Cf. Jer 20,7. Secundo Ravasi a “sedução” no qual Jeremias é objeto (e vítima) é compreendida como “um fascínio irracional e irrestível, como se 
envolvesse uma pessoa inexperiente com falsas promessas, porque estupidamente consente às manobras de quem é mais astuto. Não tem, 
portanto, a saudosa evocação de um momento mágico, mas sim um ato de acusação por uma violência sofrida” (G. RAVASI, “Seduzione fatale”, em 
Avvenire, 22 julho 1994, 1, itálico nosso). 
A Hora de Deus 
 
61 
verdadeira do homem, além do fato de que é Deus, antes da paixão luta consigo mesmo e 
com Deus. É Ele mesmo que veio trazer um fogo sobre a terra e uma luta (cf. Lc 12,49-53), 
e trigo e joio, nesta terra, são destinados a co-existir e confrontar-se (cf. Mt 13,36-43).76 
A luta espiritual-religiosa parece, portanto, ter estas características. 
 
3.1. Luta sã 
 
 É conflito com Deus, portanto é luta “sã” em relação ao desenvolvimento do homem, 
porque ninguém pode pedir ao homem aquilo que Deus lhe pede, ou seja, o máximo, para que 
seja plenamente aquilo que é chamado a ser; luta saudável entre as exigências de um Deus que 
antes doa e depois pede (ou seja, dá os recursos para responder os seus pedidos) e o medo do 
homem que tem dificuldade de confiar, ou entre o amor gratuito de Deus e a pretensão ilusória do 
homem de merecer o amor; luta benéfica de quem de qualquer forma confrontado com a 
obstinada benevolência de Deus, com aquele Deus que fere e depois cura, que castiga e chama 
aqueles que ama, que luta toda a noite com Jacó para manifestar-lhe a sua predileção, que recorre 
à sedução – quase um engano – para atrair a si Jeremias, que combate uma vida com um povo de 
cabeça dura como Israel para revelar as suas entranhas de misericórdia... A luta com aquele Deus 
que não quer perder, que quer de todos os modos vencer, pelo mesmo motivo pelo qual é 
ciumento, porque sabe que só com a rendição ao seu amor a criatura será feliz (mas o será 
também ele, cf. Lc 15,7.10). 
 “Perder” esta luta quer dizer aquela rendição inteligente que abre a vida a horizontes 
impensáveis, quer dizer descobrir a própria identidade e as próprias potencialidades nestes 
horizontes, siginifica aprender a desejar os desejos divinos e à maneira de Deus, significa começar 
a saborear a liberdade de abandonar-se, de confiar, de render-se, de pensar o próprio futuro 
sobre a medida do projeto de Deus e não do medo e dos cálculos humanos, quer dizer aceitar 
correr o risco de amar Deus e de amar com o coração de Deus... 
 
3.2. À raiz de cada luta 
 
 Às vezes é difícil distinguir entre luta psicológica e espiritual, porque o encontro-combate 
com Deusé sempre mediado por representações, elementos e fatores humanos. Isto significa que 
a luta com Deus não é sempre... no estado puro, mas frequentemente, é luta e uma série de 
complexas lutas do sujeito com o próprio mundo corpóreo e espiritual. 
Se é verdade que o mistério do homem na sua dimensão antropológica, religiosa e cristã, 
em quanto mistério, funda as suas raízes seja na grandeza do chamado que na 
profundidade do seu ser limitado, nenhuma destas mediações que configuram os vários 
diálogos e as várias lutas é indiferente ao único verdadeiro diálogo que conta, à única e 
verdadeira luta que vale, com o homem-Deus.77 
É uma característica muito importante, esta, da luta espiritual-religiosa: tal luta pode ser 
presente também lá onde não é imediatamente reconhecível como tal, porque frequentemente se 
esconde atrás de conflitos, perguntas, tensões aparentemente só psicológicas. Antes, se poderia 
dizer que perguntas, lutas e ansias deveriam ser sempre compreendidas, pelo menos 
teoricamente ou idealmente, como possível chamada do mistério e da luta espiritual e religiosa e 
a esta subtendida ou conectada. É um aspecto das notáveis consequências sobre o plano 
pedagógico, e voltaremos nele mais tarde. 
 
3.3 O verdadeiro sentido de cada luta 
 
 
76 Cf. Imoda, Sviluppo umano, 128. 
77 Imoda, Sviluppo umano, 75. 
A Hora de Deus 
 
62 
 A luta saudável, portanto, biblicamente saudável, é aquela com Deus. Mesmo se não nos 
vem ao pensamento espontâneamente assim, menos ainda pensar que devemos lutar até mesmo 
“contra” Deus. 
 Como é possível que tal luta seja uma passagem indispensável, sinal inclusive de 
maturidade, a mãe de cada luta? 
 Podemos pensar que devemos lutar contra o mal e as tentações diabólicas, e no máximo 
ver a luta con(tra) Deus como expressão do conflito entre a parte negativa, infantil e impulsiva, e 
as exigências da lei de Deus; ou lutamos com Deus quando lhe perguntamos alguma coisa que está 
no nosso coração e ele parece surdo. Mas não é só isto que queremos dizer, nem é isto ainda o 
sentido verdadeiro de cada luta. Nós lutamos com Deus... positivamente, porque o seu amor por 
nós é excessivo, é exagerado, e isto nos amedronta, nos faz vir tonturas, nos complica muito a 
vida... nós nos contentaríamos com menos amor, bastaria uma dose inferior. Que estranho, com 
toda necessidade de amor que sentimos dentro de nós, e que normalmente é a verdadeira razão, 
pelo menos imediata, das nossas crises ou daquilo pelo qual lutamos! 
 Por que este contraste? 
Não tenho a pretensão de explicar aquilo que no fundo é ainda parte do mistério da vida 
humana, mas creio que o próprio conceito de luta possa ajudar-nos a alcançar pelo menos o limiar 
deste mistério. Na realidade, de fato, o amor divino nos amedronta quando nós intuimos que tal 
amor não é simples benevolência ou carinhosa intimidade, mas é furacão que bagunça a vida e 
não permite mais de viver como antes. Deus quando ama não se contenta simplesmente com um 
impulso natural, mas transforma o coração do amado tornando-o até mesmo semelhante ao seu: 
isto quer dizer amor de Deus, esta mesma transformação é o seu maior sinal: Deus me ama ao 
ponto de tornar-me capaz de amar à sua maneira. Mais do que isso, na realidade, o Eterno não 
poderia me amar! 
 Mas é isso mesmo que nos assusta, no sentido verdadeiro da expressão, nos assusta saber 
que temos um coração que foi feito capaz, por graça, de amar à maneira divina, coração de carne 
que bate com batimentos eternos. Que é uma coisa extraordinária, mas também aterrorizante! 
Dom imenso, mas também responsabilidade infinita. Amor que seduz e comove, mas também 
amor colocado nas nossas mãos para que o doemos aos outros. Certeza de ser muito querido, 
desde sempre e para sempre, mas também liberdade de querer bem, para sempre... Mistério 
grande e tremendum! 
 Perceber isto é sinal de maturidade, humana e cristã, quer dizer entender isto significa 
realmente ser amado por Deus, além daquelas intimidades fáceis que se nutrem de ilusões e 
reduzem o amor divino a uma sensação humana que não incide sobre a realidade humana e ainda 
instável. Mas esta mesma pecepção desencadeia imediatamente, por sua natura, uma espécie de 
conflito com Deus, ou aquela luta que estamos chamando de espiritual ou religiosa. Que 
raramente se torna consciente, mas que é sempre presente em cada crise, escondida, talvez, 
vagamente intuida, mas existe, ou em qualquer caso deve ser conhecida e consciente. 
 Como mudaria o comportamento de tantos consagrados em crise, talvez em crise afetiva 
determinada por uma atração humana que parece afastar dos seus corações o amor de Deus e por 
Deus, como mudaria as suas interpretações das crises se fossem ajudados a compreender que na 
realidade Deus estar como nunca presente naquilo que acontece com eles, antes, estão lutado 
com ele mesmo, com a verdade do seu amor, ou com a certeza, ou medo, de ser amado por ele 
para amar em seguida come ele! 
 É ele que, único, consegue derrubar o muro de separação que divide o coração de cada ser 
humano e é causa última de cada luta. 
 
3.4 Evitar os extremos 
 
A Hora de Deus 
 
63 
 A luta espiritual, ou melhor, a interpretação do desenvolvimento humano como marcado 
unicamente pela luta espiritual, apresenta de qualquer forma um risco, aquele de perder de vista 
o elemento concreto, o ponto fraco a nível psicológico sobre o qual se deve intervenir no processo 
evolutivo. A luta psicológica tem a honra de indicar às vezes a própria raiz ou pelo menos a 
consequência da luta a nível humano, e portanto oferece a grande vantagem de saber onde 
trabalhar, de identificar com precisão a inconsistência que impede o desenvolvimento; no fundo, a 
mesma luta com Deus pode e deve mirar o aspecto mais vulnerável e imaturo da pessoa, e será 
tanto mais eficaz quanto melhor identificado for este aspecto. Se luta com Deus, todavia, sempre 
na própria pele e com meios humanos. 
 Existem, então, dois extremos para evitar: se o psicologismo, na sua presunta 
concretização e fidelidade ao dado, arrisca de permanecer sem um significado que “assegure” ou 
que motive em seguida a decisão de mudar, sem alguma saída nem referimento à realidade última 
ou a Deus, ou o espiritualismo, ao outro extremo, arrisca de permanecer desencarnado e abstrato, 
e de não encontrar a raíz do problema onde se deve de fato intervir. 
 Veremos mais adiante como evitar estas duas concepções opostas. Por enquanto nos basta 
ter visto algumas modalidades fundamentais de reação à situação de crise. 
 
4. Luta psicológico-espiritual 
 
 A dimensão real da luta é aquela de uma pessoa inteira, corpo e espírito, que vive um 
drama com dimensões que refletem a altura e profundidade do mistério humano, o encontro, o 
confronto ou a luta é portanto com um ambiente corpóreo, social e cultural, mas é também luta 
contra si mesmo ou com algumas partes de si, e desenboca, em fim, no encontro com Deus, que é 
o fim, o amigo ou o aliado do homem, mas que antes ou depois na vida se torna também amigo 
difícil, pai exigente, adversário terrivel, rio traiçoeiro... 
 A luta, na existência humana, é uma constante irrinunciável que flui em duplo sentido ao 
longo de um continuum, da luta dos sentidos àquela do espírito, da luta psicológica à luta 
espiritual e em seguida à aquela religiosa, e vice-versa, e que deveria idealmente chegar a 
compreender sempre mais junto estas diversas dimensões, que são dimensões do mistério 
humano. 
 
4.1. Modelo antropológico 
 
 Isto se refere, antes de tudo, a um preciso modo de conceber o ser humano, marcado pela 
dialética ontológica. Segundo tal modelo existe no homem uma atual e constitutiva tensão entre 
polaridades opostas. Existe uma natural dualidade em cada vivente, que é reconhecida sem 
medos e dicotomias e a vários níveis, ou seja, convivem nele o santo e o pecador, o bem e o mal, a 
saúde e a doença, a luz e a escuridão, o instintivo e o racional, osagrado e o profano, a vida e a 
morte, o amor de si e do outro, a solidão e a companhia, o psíquico e o espiritual, o desejo e a 
renúncia... 
 Mas isto é bem conhecido, nada de original. Nasce a crise quando se trata não só de 
reconhecer tudo isto ou de aceitar uma certa ambiguidade como constitutiva (talvez como álibi 
para não lutar), mas de compreender que um componente precisa do outro e que portanto deve 
fazê-los interagir mesmo se através daquela singular interação que é a luta. Em qualquer caso 
seria banal e irrealístico pretender fazer triunfar uma das duas polaridades (aquela positiva e 
luminosa) e apagar a outra (aquela negativa e obscura). Em Jesus mesmo, a crise de solidão vivida 
sobre a cruz recebe o seu sentido pleno (e sofrido) da intimidade vivida desde toda eternidade 
pelo Verbo com o Pai e vice-versa (não se entende uma sem a outra), e assim também o abandono 
final nas mãos do Pai não poderia ser compreendido não só em toda a sua dramaticidade, mas 
sobretudo no seu significado de confiança extrema e amor incondicional, se não a partir da 
A Hora de Deus 
 
64 
experiência trágica da solidão daquele que é suspenso no madeiro. Foi tão profundo o abismo da 
solidão como total foi depois o abandono! 
 Tal modelo antropológico supõe e pede, portanto, um modo adeguado e correspondente 
de ler e interpretar o humano, que de qualquer maneira consinta de manter juntas aquelas 
polaridades, sem eliminar nenhuma, ao contrário, favorecendo o seu encontro. Seria a chave 
interpretativa do mistério, como individualização daquele ponto central que permite exatamente 
aquela síntese inteligente e ativa, sempre inédita e surpreendente, das polaridades que 
constituem o ser humano.78 
 Vejamos em concreto como realizar esta leitura para entender corretamente o sentido da 
luta na crise. 
 
4.2 A Luta de Paulo 
 
 Em termos teóricos, “estas polaridades estão em relação dialética, ou seja, não são 
informações que se anulam mas se qualificam reciprocamente: uma recebe da outra o seu sentido 
pleno e não pode ser serenamente vivida se não engloba em si também a outra. Que gosto tem de 
ser feliz se a felicidade tira a possibilidade de chorar?”.79 Ou, sobre um plano mais espiritual e de 
fé, que credibilidade tem um projeto de perfeição pessoal que ignore a fraqueza do santo 
aspirante e não o deixa purificar e iluminar? A vida dos santos não nos conta talvez que as maiores 
aspirações são regularmente acompanhadas por grandes tensões? E Paulo, também ele, o Paulo 
que tinha repetidamente pedido para ser libertado “do espinho na carne”, não está talvez a dizer-
nos que é possível até mesmo “se vantar” das próprias fraquezas, e que este vanto é o ponto 
máximo de um processo de integração da fraqueza (cf. 2Cor 12,10)? Mas provocou uma crise, e na 
crise uma luta. Uma luta antes psicológica e depois espiritual. Vejamos na ordem. 
 
Crises 
 
 Paulo entra em crise quando se vê fraco diante da sua pessoal prospectiva de perfeição, de 
fato incapaz de perceber profundamente as exigências do rigoroso eu-ideal do Saulo de Tarso 
convertido ao Evangelho de Jesus Cristo. A sua consciência é uma consciência verdadeiramente 
sofrida pela lacuna existente entre conduta e valor final da vida, assím dolorosa para motivar nele 
uma forte decisão de mudança, no sentido do superamento do problema (da eliminação do 
“espinho”) por um novo relacionamento entre eu-atual e eu-ideal e uma nova identidade. Todos 
estes comportamentos são exatamente os componentes do conceito de crise, como os vimos já no 
segundo capítolo. 
 
Luta psicológica 
 
 Tal crise determina uma luta, luta em todas as frentes por parte de um Paulo como nunca 
intencionado a resolver ele mesmo o problema... apagando-o. Portanto, luta administrada no 
interior do eu, antes, do eu (ideal) contra o eu (atual), nos termos compreendidos pelo mesmo 
apóstolo, luta na qual uma certa função, para entender de maneira lúcida e responsável a função 
e o significado da sua pessoa e da sua imagem para tantos fiéis na Igreja primitiva, e com uma 
finalidade decidida ainda pelo mesmo Paulo: a derrota do inimigo. Em tudo isto funciona uma 
lógica precisa, ou seja, a idéia de perfeição sempre do Paulo da época, digamos do Paulo da 
primeira conversão, perfeição como aquisição meritada de determinadas virtudes graças ao 
colocar em atos certos comportamentos correspondentes, como fruto de cansaços e renúncias do 
 
78 Cf. Imoda, Sviluppo umano, 1993. 
79 A. Manenti, Vivere gli ideali. Fra paura e desiderio, Bologna 2001,17. 
A Hora de Deus 
 
65 
sujeito virtuoso. Para obter este objetivo o Paulo que crê, que fez uma experiência pelo menos 
inicial do poder da cruz, pede a intervenção do Senhor, mas sempre – a quanto parece – no 
interno da sua lógica interpretativa, para obter a perfeição como ele a intende. Para Paulo e o seu 
velho modo de ler o próprio mundo interior, tal “humilde” pedido deveria já representar um 
grande passo adiante. 
 
Luta espiritual 
 
 Mas o projeto se evidência diante daquele que parece uma recusa do Senhor de entrar 
dentro desta lógica: o Senhor não o exaure. E aqui, acredito, tem uma passagem decisiva e 
provavelmente mais complexa, verdadeiro salto qualitativo: no momento em que Paulo supõe que 
o seu velho modo de conceber o relacionamento entre fraqueza humana (aspecto psicológico) e 
perfeição cristã (aspecto espiritual) não se sustém mais. O Senhor, não atendendo a sua súplica, 
torna-se vazio também os seus sonhos de santidade ou perfeição e, mais precisamente, a sua 
pretensão de uma perfeição que apaga toda sombra de limite ou o seu sonho de uma positividade 
radical, como se o seu eu fosse definido só por dimensão do bem, da luz, da positividade... 
 Esta é ainda a essência da crise em Paulo, e aqui lentamente ocorre a passagem da luta 
psicológica àquela espiritual. Se Paulo disse ter pedido “por bem três vezes” (ou talvez ainda mais) 
ao Senhor a graça da libertação, é lícito pensar que Paulo mesmo não tenha renunciado 
imediatamente ao seu projeto e ao seu velho modelo, mas tenha insistido com teimosia, 
colocando-se em lutar ainda com todo seu ser contra si mesmo... Mas também iniciando a lutar 
com Deus e contra Deus. 
 A luta muda de lugar, porém vai sempre na direção do lado espiritual, do relacionamento 
com Deus e “contra” a sua estranha lógica, aquela na qual não o liberta da fraqueza humana. 
Parece absurdo a Paulo tudo isso, assím como soam absolutamente inéditas aquelas palavras 
cheias de mistério: “Te basta a minha graça; a força, de fato, se manifesta plenamente na 
fraqueza” (2Cor 12,9)... Paulo certamente não entende tudo imediatamente, mas entende sempre 
mais que a gestão da crise e da luta foge de suas mãos; é Deus que entra progressivamente em 
campo, e é melhor que seja assím, porque em tal modo a pequena lógica do presunçoso aspirante 
à perfeição se alarga sem medidas, entrando na lógica sem limites do Eterno (a lógica da 
impossível possibilitade de Deus), onde aquilo que é contraditório e muito distante (fraqueza 
humana e potência divina) se une em um abraço misterioso e santo. E é o início da rendição em 
Paulo... 
 
Luta psicológica-espiritual 
 
 A luta se torna psicológica-espiritual. Os dois elementos se unem em qualquer modo, 
unindo-se entre eles consentem que duas outras polaridades, sempre na lógica do mistério, se 
cruzem entre elas, fraqueza (humana) e potência (divina), uma iluminando outra, quase 
oferecendo-se os seus espaços, juntas contribuindo a descobrir a verdade, e neste caso uma 
verdade preciosa e revelada, que o homem não teria nunca descobrido com a sua mente. Paulo, 
de fato, não teria nunca pensado de poder pedir ao Senhor de manifestar a potência divina na sua 
própria fraqueza humana! Isto era totalmente fora da sua prospectiva. Por isto foi necessário 
passar através de uma crise sofrida e uma luta estranha, até mesmo contra Deus, para poder no 
fim ceder, perder e render-se. Render-sea Deus e ao seu amor, confiando-se e abandonando-se, e 
abandonando aquela interpretação psicológica da perfeição antes e depois da luta. 
 Paulo “canta” tudo isto com o seu Magnificat: “Me vanterei com prazer nas minhas 
fraquezas [...] quando sou fraco é então que sou forte” (cf. 2Cor 12,10). E é a plena integração da 
prospectiva psicológica com aquela espiritual: de um lado Paulo vê claramente a própria fraqueza, 
A Hora de Deus 
 
66 
não se envergonha dela mais, não a sente mais como marca humilhante, e pode portanto observa-
la lucidamente, nas suas raízes e nas suas consequências, aceitando profundamente de ser fraco e 
sabendo também onde deve trabalhar. Do outro lado o mesmo apóstolo apresenta este vazio a 
Deus, não o esconde como um material imundo, ao contrário vive-o como um espaço não só vazio 
de Deus, mas vazio para Deus, espaço que Deus poderá encher com a sua misericórdia e a sua 
santidade. Porque isto é santidade: a pobreza do homem preenchida da graça divina! Que se 
alcança lutando e perdendo com Deus. 
 Se crise e luta são o momento no qual ocorre uma síntese nova e inédita entre estas 
polaridades, melhores e mais eficazes em relação às precedentes, ofertas ou provocadas pelas 
circunstâncias da vida ou elaborados pelo sujeito, isto será possível na medida em que a pessoa 
encontra um ponto de referimento, um centro em torno do qual se pode construir a síntese. 
 Fundamental, portanto, será encontrar aquele ponto central e “misterioso” que consente a 
troca fecunda na verdade.80 
 
4.3. No coração do mistério: crise... pascoal 
 
 Na vida do fiél, e mais ainda do presbítero ou do/a consagrado/a, este centro existe, é já 
dado e indicado claramente, e é a páscoa de Cristo, a sua cruz e ressurreição, mistério no qual se 
juntam os opostos por excelência: a morte e vida, a impotência do homem e o poder da graça. 
Mas não se pode dar por compreendido um ponto assim importante e decisivo.81 E isto sobretudo 
porque isto significa um modo diferente de viver a fé: Não como simples adesão mais ou menos 
passiva a um conteúdo de se acreditar, mas como dinamismo que ativa continuamente esta 
operação de integração entre os opostos. Operação que deve ser compreendida em duplo sentido 
ou que procede segundo uma dupla direção: de um certo ponto de vista esta operação por sua 
natureza determina uma crise e uma luta, não é operação pacífica e espontânea. De um outro 
anglo é nesta operação que reside e consiste a solução da crise e da luta. É como um duplo 
dinamismo, ainda menos compreendido em quanto tal. Em todo caso só quando se estar na crise 
se pode começar a compreender o que significa “recapitular todas as coisas também as suas crises 
em Cristo”, ou encontrar na sua páscoa de morte e ressurreição o sentido profundo da sua luta e 
um caminho para sair da sua crise. 
 Neste caso falamos de “crise pascoal”, como de um dinamismo que nos reconduz de 
verdade às sorgentes da fé cristã, e em particular da fé na morte e ressurreição do Filho. Não é o 
momento agora de delinear os passos concretos deste dinamismo de fé,82 mas de indicar aquela 
concepção da crise que é ligada intrinsecamente ao modelo pascoal, ou que deriva em todo caso, 
e portanto não é realidade eventual ou necessariamente negativa, mas componente inevitável de 
um projeto de vida que olha à cruz como ponto de chegada do caminho, qual seu ideal, como 
expressão da maior maturidade, aquela de quem dá a vida. Se crise quer dizer procura de uma 
síntese sempre nova entre o eu atual e o eu ideal, é totalmente lógico que quem segue o Cordeiro 
inocente seja constantemente provocado a procurar novas e mais capazes sínteses; não poderia 
ser diversamente, sendo que estas sínteses ocorrem a níveis sempre mais desafiantes e coerentes, 
e portanto também necessariamente conflituais e dolorosos. O conflito é aqui o preço da 
coerência. 
 Não existe possibilidade alguma de formação autêntica sem crises e lutas - podemos e 
devemos afirmar com convicção - ou sem a capacidade e liberdade de viver e sofrer ambos, 
reconhecendo-os até mesmo com gratidão o papel na própria vida, por um lado. Mas sobretudo 
vivendo-as como crises pascoais, de morte e ressurreição pessoal, por outro lado. Eis porque o 
drama é parte de um processo formativo, ou tem um pathos que é seu componente essencial. 
 
80 Cf. A. Cencini, L’arbero della vita, 111-113. 
81 Normalmente se olhamos os modelos de formação, inicial e permanente, atualmente em circulação! 
82 Sobre isso falei difusamente, também em referimento a outros modelos, no já citado L’arbero della vita, terceira parte, 237-340. 
A Hora de Deus 
 
67 
 
4.4. Do “pathos”83 ao “logos” 
 
 Mas a cruz atrai, como disse Jesus (“quando serei elevado da terra, atrairei todos a mim” - 
Jo 12,32), e é ainda um mistério, isto é, que se deixa porém florescer da crise ou que pode ser 
suposto por quem está na luta. A cruz atrai, de fato, porque só ela pode dar sentido à crise e à 
luta. Porque é fato que o verdadeiro significado, “o logos”, da luta que se desenvolve no coração 
do homem, normalmente do presbítero e do/a consagrado/a, nas partilhas quotidianas de cada 
pessoa com os seus iguais como nas escolhas de cada dia, também aquelas menos importantes à 
aparência, nos momentos críticos da vida e do desenvolvimento como nas situações mais 
ordinárias da existência quotidiana, é conferido um sentido pleno só daquele centro vital que é a 
cruz do Filho obediente, do Servo sofrido, do Cordeiro inocente. 
 Porque ele é o Logos, a Palavra do Deus vivo, aquele que é o caminho, a verdade, a vida do 
homem vivo mesmo porque experimentou a angustia e o tormento da morte. É ele o Mediador 
que consegue unir as antinomias84 que constituem o mistério, o homem, em uma síntese que 
mantém a diversidade e torna fecunda a tensão, favorecendo ao mesmo tempo a harmonia entre 
finito e infinito, grandeza e limite, pecato e graça, temporal e eterno, humano e divino.85 Ele, 
sobretudo, foi o primeiro a passar pela estrada do homem, e viveu a luta mais cansativa, com os 
homens e com o Pai-Deus, a luta por excelência, a mãe de toda luta. E não só isso, mas também 
experimentou a impotência, a maior, ao sofrer a condenação da parte dos homens e a solidão na 
relação com o Pai. E, enfim, viveu também a rendição, entregando-se nas mãos dos homens e do 
Pai-Deus, da vida e da morte (“em tuas mãos entrego o meu espírito”, Lc 23,46), revelando que 
toda luta (e crise) encontra aqui a sua raíz e a pergunta fundamental: confio ou não confio em 
Deus? 
 Desde então não existe mais a luta absurda o ou insana, porque cada luta de cada crise 
pode se tornar experiência de crise, de luta, de abandono nas grandes mãos do Pai. Eis porque 
aquele pode ser o ponto de integração ou de atração, como disse o próprio Jesus, de toda crise e 
de toda luta. 
 É ele e só ele que pode mostrar em si mesmo como a luta “perdida” com Deus se torna 
vida plena para o homem, ou seja, a única condição de vida para o homem. 
 
4.5. Relação reciproca 
 
 É no mistério pascal, como vimos, que se unem todas as antinomias e, portanto, onde 
também a luta é juntamente psicológica e espiritual. Vejamos mais nos detalhes como favorecer, 
no plano humano, esta convergência. 
 Por um lado a luta psicológica. Toda luta psicológica, contém já em si um significado 
espiritual-religioso, pelo menos implícito e teórico, enquanto – por outro lado, a luta religiosa tem 
um natural referencial psicológico, mesmo se normalmente não decifrável imediatamente. Existe 
uma situação de desenvolvimento, não só sobre o plano teórico mas também sobre aquele da 
prática efetiva, quando aquele significado religioso implícito na luta psicológica vem explicitado, 
ou seja, lá onde o sujeito é ajudado a tornar-se consciente ao ponto de redefinir a nível religioso a 
luta (com Deus e “contra” Deus), para que não fique só psicológica (contra si mesmo ou um 
pedaço de si), estreita entre confins muito limitados paradeterminar um real crescimento 
humano. Assim também existirá um desenvolvimetno positivo quando a luta psicológica não 
 
83 Pathos é uma palavra grega que significa: paixão, excesso, catástrofe, passagem, passividade, sofrimento e assujeitamento. O conceito filosófico 
foi cunhado por Descartes para designar tudo o que se faz ou acontece de novo é geralmente chamado (pelos filósofos) de pathos. E se o conceito 
está ligado a padecer, pois o que é passivo de um acontecimento, padece deste mesmo. Portanto, não existe pathos senão na mobilidade, na 
imperfeição. 
84 Contradição entre leis (e, por extensão, entre pessoas ou coisas). 
85 A. Cencini, L’arbero della vita, 73. 
http://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia
http://pt.wikipedia.org/wiki/Descartes
A Hora de Deus 
 
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permanecer sobre um plano vagamente espiritual, mas quando consegue identificar com 
suficiente precisão o “lugar” da conversão, as componentes do eu que devem mudar, a parte 
vulnerável que é reforçada, os truques e os mecanismos defensivos até agora esgotados, as 
contradições e os vários comportamentos auto-destrutivos... 
 É o caso então de perguntar-se: “Até a que ponto as tensões, os conflitos, e as mesmas 
divisões do coração conseguem adquirir um significado último, religioso e cristão; ou fica um 
drama psicológico, humano, com horizontes de tipo estoico, limitados a um humanismo privado 
da autêntica auto-transcendência que se abre e tende a Deus?”.86 
 O problema será então sobretudo de natureza pedagógica, ou seja, de ajuda para dar à 
pessoa para que aprenda a fazer esta passagem, a reconhecer, à raiz das próprias conflitualidades, 
a verdadeira e única fonte e razão do viver e do lutar humano: o desejo de Deus de fazer-se 
conhecer, de revelar-se ao coração do homem, superando medos e resistências humanas. 
 É um desafio, o desafio da transformação-transfiguração em luta espiritual com significado 
religioso de uma luta sobre o plano humano e psicológico, mas desafio também de retornar ao 
conflito psicológico, reconhecendo no concreto dos problemas e das ansiedades, da imaturidade e 
dos infatilismos a tal nível, o “lugar” da luta religiosa. Desafio destinado a durar toda a vida e que 
interessa, portanto, à formação inicial e permanente. 
 
4.6. Modelo pedagógico 
 
 Concluiremos, então, indicando em resumo aquilo que poderia ser o percurso pedagógico 
de se fazer, idealmente, em uma crise qualquer para favorecer esta passagem da crise psicológica 
àquela espiritual e em seguida psiquico-espiritual. O indicamos amplamente o sentido teório desta 
evolução, mas se quizermos precisá-lo sobre o plano do percurso pedagógico poderemos no 
momento verificá-lo assim, à luz destas operações, nos reservando de especificá-lo mais adiante 
na parte conclusiva da nossa reflexão. 
 
Escavar a pergunta 
 
 Atrás de toda crise ou situação de dificuldade existe uma espera ou uma questão que ficou 
não só insatisfeitos, mas até mesmo não expressos e inconscientes, pelo menos várias vezes. E ao 
invés seria importante ir além daquilo que aparece e que a pessoa mesma perceba como 
problemático e conflitual, para colher exatamente aquela espera ou questão que está à raíz da 
própria crise. É o método de escavar da pergunta,87 através do qual o indivíduo é ajudado e 
provocado e descobrir as possíbilidades componentes motivacionais de uma inquietude ou de 
uma procura ou de uma espera. Se trata de um movimento em profundidade, uma espécie de 
caminho inverso em direção à origem daquela pergunta, ou de recuperação das próprias raízes 
(uma espécie de “retorno a casa”), sem nunca dar por certo que o objetivo da pergunta se 
identifique com quanto declarado pelo sujeito, nem acontentando-se de regressar à origem 
psicogenética. 
 É significativo que nos Evangelhos Jesus, de frente à invocação de doentes que pedem com 
insistência a cura, frequentemente não age imediatamente com o intervenção pedida, mas coloca 
primeiro aos seus interlocutores uma pergunta (“o que queres que eu te faça?”) que pareceria 
inútil, é tão evidente o objeto de suas súplicas, e que ao invés quer de qualquer forma forçar o 
pedinte a aprofundar e clarear, a si mesmo primeiro que aos outros, qual seja a sua expectativa, 
mais ou menos inconsciente, do que foi determinado na realidade, qual seja o bem que se sente 
 
86 A. Cencini, L’arbero della vita, 369. 
87 Se vê, sobre este argumento, A CENCINI, Vita consacrata. Itinerário formatico lungo la via di Emmaus, Cinisello Balsamo 1994, 223-225: nestas 
páginas se segue em boa parte a análise acuta e insuperada de Godin sobre a oração como lugar de “torsão” dos desejos, ou como momento no 
qual o sujeito descobre a natureza dos seus desejos e é provocado a mudar-los, entrando no mundo dos desejos de Deus (cf. A. GODIN, Psicologia 
delle esperienze religiose. Il desiderio e la realtà, Brescia 1983, 194ss). 
A Hora de Deus 
 
69 
faltar e que deseja desde sempre (para confrontar – talvez – com aquele que deveria desejar 
como o mais importante)...88 
 Tal procura parece mais conectada com a luta psicológica, consente de fato ao sujeito de 
descobrir a verdadeira raíz da sua confusa busca, o ponto de partida dos seus desejos, as suas 
origens... E lhe consentiria então de fazer descobertas muito interessantes ou talvez inquietantes. 
Interessantes, porque tornaria evidente como à origem dos conflitos ou dos tantos conflitos 
psicológicos seja uma exigência de alguma coisa grande, que atraversa os conflitos humanos; 
inquietantes, porque é triste ver como tal tensão potencialmente infinita venha em seguida 
reduzida e mortificada em pretensões infantis – adolecentes. 
Justamente por este motivo isto poderia ser o momento da purificação ou do início da 
purificação do pedido, finalmente livre de tantas incrustrações que podem esconder o sentido 
primordial e mais verdadeiro, misteriosamente velado na necessidade psicológica que está à 
origem do conflito. Poderá ser necessária então uma reformulação, uma mudança, uma 
transformação destas perguntas e das lutas as quais estam ligadas e das inquietudes 
consequentes. Mas é passagem indispensável, sobretudo, que permite ao sujeito de agir 
finalmente sobre a real causa da sua inquietude. 
 
Escalar a pergunta 
 
 É o movimento complementar ao primeiro: se aquele vai em profundidade, nas 
profundidades do próprio mundo interior e do próprio inconsciente, este vai em direção.. as 
alturas. Se é verdade, como sustentamos, que todo conflito e toda pergunta, toda ansia e medo 
contém como em uma semente o interrogativo central da vida humana e podem levar a encontrar 
o Mistério, próprio desta nova idéia e transformada se torna um método pedagógico preciso, 
aquele que conduz o sujeito a escalar a pergunta, ou seja, a retornar de pergunta em pergunta, ou 
de desejo em desejo, em direção a última pergunta (mas talvez também a primeira), em direção 
ao desejo central presente, as vezes “adormentado”, no coração de cada homem, daquele infinito, 
ou do rosto de Deus,89 qual espera capaz de reassumir em si e saciar toda espera humana. É um 
movimento de subida, no qual é normalmente ligada também a descoberta, da parte do indivíduo, 
da própria identidade e verdade, e que de fato estende a sua capacidade perceptiva (exatamente 
como quando se escala uma montanha), bem além o problema que é a causa imediata da tensão 
em questão. De fato, portando, tal operação pedagógica é mais ligada à luta espiritual. 
 
Escavar e escalar a pergunta 
 
 Ponto ideal de chegada deste percurso pedagógico é a capacidade simultânea de operar a 
escavação da pergunta vendo ao mesmo tempo raíz e saída final, o que ela significa, por um lado, 
e aquilo que dará a ela a resposta plena ou o máximo da gratificação, por outro. 
 Antes, digamos que o grande segredo da vida e do caminho formativo (inicial e permanete) 
é exatamente esta capacidade-liberdade de mover-se contemporaneamentenas duas direções. 
Aquela que vai em profundidade a buscar motivações e desejos, e aquela que vai em direção ao 
 
88 Isto é como o histórico do estudante universitário, no seu tempo educado na fé, que voltou na sua cidade para as férias. O rapaz tinha aprendido 
alguma coisa sobre Freud. Encontrou na praça o seu pároco. Depois dos cumprimentos o ex-coroinha, também ex-credente, joga alí a sua grande 
descoberta: “Caro padre, não se iluda, as pessoas que vem na Igreja não vem por fé, mas por sublimação do impulso sexual. O Senhor sabia?”. O 
velho pároco não se desconcerta; Não conhecia muito Freud e também o termo “sublimação” não lhe soava familiar, mas sabia alguma coisa do 
ânimo humano, dos seus desejos e das suas contradições. Com muita calma, então, o rebate: “E sabe o que eu digo a você? Que quando você bate 
na porta do bordéo, você acredita procurar a carne de uma mulher: na verdade você está procurando Deus” (cf. A. CENCINI, Verginità e celibato per il 
regno dei cieli. Per una sessualità pasquale, Bologna 2005, 34. 
89 É o sentido deste fato metropolitano. Sobre os muros de uma cidade italiana aparece um dia este escrito, entre os tantos anônimos, 
normalmente de péssimo gosto, expostas à atenção pública: “Deus é a resposta”. Evidentemente o autor era alguém que crê em Deus, talvez à 
procura de um método novo de evangelização, quase um kerygma mural. Depois de pouco tempo uma outra mão rigorosamente anônima 
acrescenta: “... sim, mas qual era a pergunta?”. 
A Hora de Deus 
 
70 
alto para colher aquela tenção irreprimível do coração humano, e que é presente não só em todo 
desejo humano mas também em todo conflito. 
 No fundo a crise, toda crise, refere-se a esta contraposição. Ou a esta reciproca 
interdependência entre luta psicológica e luta religiosa, ao fluir de uma na outra em um processo 
de síntese e de transformação do lutar humano e das suas dimensões, resgatado da inútil e 
repetitiva conflitualidade e elevado a qualidade de relacionamento com Deus. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A Hora de Deus 
 
71 
CAPÍTULO 06 
SEGUNDA PARTE 
REALIDADE DAS CRISES HOJE 
 
Queremos nesta segunda parte compreender o sentido mais profundo e atual das crises 
sacerdotais e religiosas, ou seja, a sua natureza (essência), antes de tudo, ou as áreas da 
personalidade em que as crises são mais frequentes. Mas queremos também perguntar o por quê 
desta frequência, hoje muito mais frequente que um tempo atrás, pelo menos referindo-se àquilo 
que vemos ou ainda se quisermos assim dizer, um certo êxito negativo. Talvez isso seja o fato novo 
da crise. 
Crises, verdadeiramente, e motivos de crises sempre existiram; aquilo que hoje parece 
relativamente novo é o fato de que certas situações conflituais, talvez nem mesmo assim tão 
dilacerante (pelo menos no início), se tornem tão cedo insuportáveis para o sujeito e conduzem 
com frequência ao abandono da vocação, a um afastamento de caráter psicológico, a uma 
transgressão mais o menos descaradamente, a uma revolta clara diante de uma autoridade (ou a 
indiferênça total a seu respeito), um medo extremo por manter comportamentos graves... Por 
outro lado, já a nível intelectual, a crise é sempre entendida pela maioria como circunstância 
negativa da vida, como algo que está perdendo progressivamente o valor positivo, este momento 
de conversão e crescimento. 
 
CAPITULO 6 
 
Natureza da Crise 
 
No início desta segunda sessão colocamos então nossa reflexão sobre as áreas das crises. 
Tentaremos comprender as problemáticas-crises-lutas que podem acontecer na vida presbiteral e 
religiosa do ponto de vista da sua natureza. Até aquí consideramos o significado teórico destas 
situações críticas, no momento em que o sujeito percebe-a e sofre. Nos resta ver o sentido mais 
objetivo de um lado, e dinâmico do outro; por aquilo que determina e que determinou o 
problema, e como ele levou uma específica configuração no equilíbrio intrapsíquico e espiritual da 
pessoa. 
De uma forma mais simples, queremos interrogar: o que há, com mais frequência, na 
orígem das crises sacerdotais-religiosas?90 Quais são estas áreas e aonde com maior frequência se 
verificam fraquezas e situações contraditórias na vida do fiel? Em quais setores da personalidade 
do padre, do frei e da freira são mais inconsistentes, mais vulneráveis e com menor docibilitas? E 
podemos assim ser ajudados com pesquisas e estatísticas?91 
 
1. Fatores e causas, passado e presente 
 
Antes de mais nada, desembaraçamos o campo de alguns equívocos e assim deixar claro o 
sentido da nossa pesquisa, fazendo um pouco de explicatio terminorum (explicação dos termos). 
 
 
90 De agora em diante falaremos genericamente de crises sacerdotais-religiosas sem especificar ulteriormente, mas sempre comprendendo com 
este termo aquela realidade complexa que vimos nos precedentes capítulos e que é composta por problemáticas e lutas. Portanto crises como 
termo geral e de mais maior compreensão. 
91 O discurso sobre os números (dos quem abandonaram a própria vocação) não nos interessa tanto, por isso não os afrontamos, não somente 
pelas dificuldades de recuperar dados, mas sobretudo porque a ideia de crise sobre o qual questionamos neste texto vai bem além do dilema 
clássico vocacional de permanescer ou deixar, como é expresso pelos números, mas é uma idéia muito âmpla. A nível puramente indicativo no 
entanto, propomos que estes dados relativo aos sacerdotes diocesanos que foram reduzidos a leigos desde 1973 a 2004: em 1973 foram 1.868, em 
1978, 1.253, em 1983 foram 603, em 1988 foram 613, em 1993 foram 679, em 1998 foram 619, em 2000, foram 588, em 2004,chegou a 754 (cf. G. 
Brunetta, “Uma Igreja lutando com os números”, na Vida pastoral 1[2007], 66-74). Outro dado interssante, e frequentemente não levado em 
consideração, é o número daqueles que pedem para serem readmitidos ao serviço presbiteral: a congregação para o clero do vaticano também 
publicou estes dados referentes a tal eventualidade, e em particular para os sacerdotes que retornaram ao exercício entre 1970 a 1995. O número 
varia muito de um ano para o outro. No espaço do tempo levado em consideração, retornaram ao todo 9.551 (cf. Anuário pontifício 1999 e 2006). 
Falaremos sobre isso mais adiante, no capítulo 11§ 2.6. 
A Hora de Deus 
 
72 
CAPÍTULO 06 
1.1 Passado e presente 
 
É evidente a relação entre passado e presente para determinar as dificuldades de uma 
pessoa; é um dado particularmente evidente de uma pesquisa psicológica, cuja as experiências das 
fases primitivas da vida ou da primeira infância, parecem destinadas a deixar uma certa marca na 
personalidade e na sucessiva evolução da pessoa. Não é uma novidade: geralmente alguns 
traumas e feridas dos primeiros anos de vida se tornam parte da chamada “memória afetiva”. O 
problema é esclarecer até que ponto isso pode ser considerado causa, causa inevitável e fatal que 
determina um certo tipo de consequência. 
Neste caso, a psicologia está progressivamente se movendo com uma lógica continuista 
rigorosamente freudiana, em uma lógica principalmente respeitosa da dignidade e do mistério da 
liberdade da vida humana. Segunda a primeira lógica o passado é destinado a repetir a vida 
sucessiva da pessoa, quase como um destino, e é de fato a causa que determina o presente (é o 
assim chamado raciocínio causal); na segunda lógica o passado oferece explicações que 
consentem em comprender o presente (seria o raciocínio plausível), mas absolutamente sem 
tornar o sujeito oprimido e passivo diante dele, ao contrário, solicitando-o a tomar posição diante 
do seu passado, até alcançar a possibilidade de integrá-lo (= raciocínio responsável). 
Gostaríamos de mover-nos nesta linha, que na verdade nos parece ser mais respeitosa do 
mistério da liberdade humana com suas reservase potencialidades, como tantas histórias de 
pessoas com um passado dramático, em seguida recuperado e integrado, nos demonstram.92 
 
1.2 Elementos externos e internos 
 
Assim pois, deve ser evitada, segundo nosso conhecimento, a tendência a atribuir a causa 
das crises à particulares eventos externos à pessoa, do ambiente sócio-cultural e a particulares 
eventos independentes da pessoa em sí: estes podem ser elementos que pioram uma situação já 
precária, como a famosa gota que faz transbordar o vaso; são fatores de crises, porém – ainda 
uma vez mais – não causas de crises. 
Muitas vezes, de fato, é um dado que precisa ser observado, como idênticas situações que 
para uma pessoa são fatores de crises (determinando-a de modo mais ou menos), para outras são 
ao contrário somente etapas, ainda que faticosas, de um caminho de crescimento; o problema, 
portanto, é interno à pessoa que, no primeiro caso, viverà a vida como um processo de frustração 
permanente, no segundo caso, de formação permanente. Porém esta observação nos faz pensar 
na relação que se deve ter entre formação inicial e formação permanente, ou àquele ponto de 
incontro entre as duas, constituido pela docibilitas93, ou melhor, do ter aprendido a aprender com 
vida (de todas as circunstâncias da vida, até mesmo daquelas críticas e problemáticas) por toda a 
vida. 
 
1.3 FORMAÇÃO INICIAL E FORMAÇÃO PERMANENTE 
 
 Na mesma linha que estamos abordando, vem espontaneamente uma outra observação, que é 
como uma complementar hipótese de trabalho. O mesmo tipo de relação que vimos entre 
passado e presente, ou entre fatores internos e externos, no fundo existe também entre formação 
inicial e formação permanente no começo de uma crise. Particularmente, como não é o passado a 
causa do problema presente, nem são os fatores externos a determinar a situação de crise, assim 
 
92 A respeito da integração do passado Cf. A. Cencini, L´albero della vita. Verso un modello di formazione iniziale e permanente, Cinisello Balsamo 
2005, 163-231. 
93
 Docibilitas: Se trata daquela disponibilidade a aprender, a “deixar-se ensinar” por alguém ou por alguma coisa, que é atitude fundamental e a 
“condicio sine qua” não da mesma forma permanente. 
A Hora de Deus 
 
73 
CAPÍTULO 06 
também creio não se poder atribuir à formação inicial, ou menos ainda “só a esta” a causa dos 
problemas que podem explodir em seguida. 
Talvez nesse sentido deve ser superada una certa pré-compreensão, quase um preconceito 
deduzido, segundo o qual uma crise catastrófica está sempre ligada a um defeito de formação 
inicial, de maneira exclusiva ou pelo menos predominante. Isso não cessa de ser verdadeiro hoje, 
como repetimos tantas vezes e continuaremos a repetir, até mesmo porque é muito fácil, quando 
explode uma crise, perceber as raízes ou alguns sinais prescientes naquilo que a pessoa viveu a 
pouco tempo atrás do que tentar entender aquilo que a pessoa viveu durante o período da 
primeira formação. Como não existe para ninguém um passado perfeito ou uma família de origem 
perfeita, assim é possível que em tempos difíceis e incertos como os nossos, o caminho de 
formação inicial fosse menos atento em alguma área, com responsabilidade – que com certeza 
não é reduzida – ou por parte da instituição ou pelo sujeito que não deixou ser conduzido, 
formado suficientemente, ou as duas coisas; isso não é de fato estranho, assim como se deve fazer 
de tudo para melhorar o nível da formação inicial94. Será da mesma forma muito difícil que a 
formação inicial possa prever todas as situações problemáticas futuras na qual o sujeito se 
encontrará, de maneira a blindar-lhe contra estas situações: as tensões e contradições nas quais 
hoje é exposta a vida do anunciador do Evangelho, são tão imprevisíveis e complexas que se torna 
difícel uma cobertura total do indivíduo no que diz respeito à primeira formação. 
Existe portanto uma responsabilidade específica da primeira formação que deve ser sem 
dúvida reconhecida, porém o verdadeiro problema hoje é outro: é aquele da formação 
permanente. Seja porque o passado, como já mencionamos, pode ajudar a comprender o 
presente, mas não pode ser considerado a causa; porque é no presente que o sujeito precisa dar 
uma resposta à situação crítica; e seja, enfim, porque a cada caso a formação inicial é já objeto – 
de um lado – de muita atenção (também crítica), é sem dúvida, bem consciente dos seus 
problemas, já a muito tempo leva adiante um caminho de renovação e é constantemente 
monitorada, enquanto – do outro lado – possui uma estrutura específica, é elaborada segundo 
programas, suficientemente testados, absolve energias notáveis (basta pensar o quanto hoje é 
importante a formação dos formadores). 
Enquanto não se pode dizer – ai de mim – a mesma coisa para a formação permanente. 
Que para alguns é a bela desconhecida, da qual se fala muito, de outro lado, mas muito escassa 
averiguação na prática, que a torna quase inexistente ou inconscistente. Ou então é entendida 
ainda de forma redutiva e superficial, como se consistisse simplesmente em 
alguns cursos para atualizar-se nos campos: (teológico, bíblico, pastoral, espiritual e 
social...) que se fazem de vez em quando, só para haver uma ajuda de nível de tensão interna do 
presbítero ou para não perder o último trem de renovação teológica e esteja ao mesmo passo dos 
tempos atuais. A formação permanente é ainda entendida como alguma coisa extraordinária e 
eventual. 
Estamos ainda muito longe de uma interpretação correta do processo de formação que 
dura por sua natureza, toda a vida, e que se estende por toda a existência porque a formação é 
ação que deve ir em profundidade, e alcançar a profundidade interior do consagrado para 
modelar (plasmar) nele os sentimentos do Filho. Estamos muito longe de receber o verdadeiro 
 
94 Do que aquí se trata, creio que podemos falar hoje de uma certa fragilidade formativa da primeira formação. Cereda a comenta assim (do ponto 
de vista da vida consagrada, mas com observações que me parecem extensíveis também à vida presbiteral): “os caminhos da formação inicial 
destes anos, ricos em conteúdos, ajudam a esboçar a identidade da pessoa consagrada, mas não lhe ajuda a chegar na profundidade e a realizar a 
maturação. Então a identidade é esquecida ou continuamente colocada em discussão ou desencaminhadas por experiências dispersíveis. Os 
caminhos de formação são descontínuos; as vezes são muito longos e pouco incisívos... A fraqueza mais grave está na incapacidade de realizar uma 
formação que ajude o jovem consagrado apropriar-se dos valores do crescimento humano, da fé e do carisma. É preciso reconhecer que com muita 
fraquência, a formação que damos é fraca, não muda, não converte, não chega ao coração. Tantas vezes não há tempo para este trabalho, porque 
se preocupa muito mais com adquirir o conhecimento, dos títulos acadêmicos, da qualificação profissional, do que com a maturação pessoal” ( F. 
Cereda, “La fragilitá vocazionale. Avvio alla riflessione e proposte di intervento”, in Vita consacrata 1[2009], 35). 
A Hora de Deus 
 
74 
CAPÍTULO 06 
sentido (teológico, não só psico-pedagógico) da ação permanente como ação do Pai que forma 
continuamente em nós a imagem do Filho, portanto como processo ordinário que se cumpre a 
cada dia da vida e que supõe em cada um uma disponibilidade atenta e inteligente para deixar-se 
formar em cada momento da vida de cada situação existencial, agradável ou não, e de cada 
mediação humana, mais ou menos imperfeita. É a famosa docibilitas as vezes fomentada neste 
texto, que obviamente constitui um objetivo da primeira formação, mas que deve ser mantida em 
todo caso no prosseguir do caminhar. Através de uma ajuda sistemática e constante que deve 
acompanhar a vida do presbítero, como a do consagrado, não só nos primeiros anos depois da 
profissão perpétuaou ordenação presbiteral; e não esperando somente até que chegue uma 
situação de emergência (quando se há pouco o que fazer), mas buscando o quanto antes possível 
fornecer a todos a sensação de uma presença vigilante, materna-paterna, ou a certeza de um 
acompanhamento fraterno, da parte de uma Igreja que cuida dos seus ministros. Sobretudo, 
obviamente, nos momentos mais difíceis. O suporte, em outras palavras, poderia ou deveria ser 
duplo: de um lado, algo que se trate das condições e tempos normais do ministério, do outro lado 
as situações de emergências, para que nem um irmão em crise deve sentir-se um pestiado, nem 
deve buscar, quem sabe onde, alguém que possa ajudá-lo. Não deveria existir uma sem a outra. 
Mas a impressão é que hoje não esteja caminhando nesta direção, mesmo se aquí e alí os 
sinais advertem em tal sentido, quando nos consente de esperar. 
A nossa hipótese, portanto, é que é ainda muito fraca a proposta de formação 
permanente, e que essa fraqueza constitui um dos motivos maiores da explosão das críses 
sacerdotais-religiosas. 
De tudo o que foi dito até agora, neste capítulo, nos parece um tríplice esclarecimento 
importante. A nossa intenção agora é, o quanto possível, identificar as causas pessoais ou as 
razões profundas da críse, no íntimo do sujeito, mesmo se podem ser incrementadas com 
elementos externos e tenham uma recaida inevitável ao externo. 
 
2. ÁREAS EXTRATÉGICAS DE CRISES 
 
A escolha que estamos fazendo não tem nenhma pretensão de ser nem a única nem a 
melhor. É um modo, simplesmente, de entender a complexidade da crise sacerdotal-religiosa, em 
torno a alguns elementos suficientemente compreensíveis e capazes de indicar na grande maioria 
e especificar a crise em sí, no plano seja psicológico ou espiritual, e havendo em mente a singular 
situação do(a) consagrado(a). Tais elementos são também três áreas da personalidade, três áreas 
estratégicas visto que em em torno destas se possa decidir o caminho na maturidade do indivíduo; 
mais exatamente se trataria da identidade, da afetividade e da vocação. 
Me parece que tais realidades, em particular, indiquem não só onde se concentra (ou 
melhor nascem) uma notável quantidade das crises sacerdotais/religiosas; mas também 
respondem, no plano psicológico, àquelas exigências inatas e universais do ser humano, ligadas a 
complexidade e riquezas do mundo interior do ser humano, que são: a nescessidade 
de sentido (logos), de afetos (eros), de radicalidade mesmo padecida (pathos). 
Quando a gestão destas três exigências são por vários motivos difíceis e problemáticas, ou quando 
de fato estas exigências não são substancialmente satisfeitas, é possível ter uma crise. Com várias 
consequências, como por exemplo os abandonos da vida religiosa. 
 Segundo os dados recolhidos nas respectivas congregações vaticanas e as várias pesquisas 
e buscas, em primeiro lugar nas motivações de abandono estaríam os problemas afetivos, de 
instabilidade emotiva-afetiva e sentimento de solidão, seguidos por insatisfação e cansaço, depois 
por imaturidade e problemas psicológicos, por conflitos com superiores e dificuldades com o 
Magistério, e, só em um percentual mínimo, por crises de fé, por depressões e graves limites de 
A Hora de Deus 
 
75 
CAPÍTULO 06 
caráter.95 Ainda que crises e abandonos não são evidentemente a mesma coisa, é o que vamos 
buscar esclarescer e verificar a presença de relações entre as duas realidades. 
Porém parece-nos em todos os casos encontrar uma certa convergência entre a nossa 
hipótese sobre áreas das crises e o que aparece nestes dados. 
Descreveremos então em resumo estas tres fontes de crises para depois levá-las em 
consideração de forma mais analítica. 
 
2.1. CRISE DE IDENTIDADE (LOGOS) 
 
Antes de tudo o ser humano há uma exigência fundamental da verdade. Que a nível geral 
significa uma necessidade de buscar e dar um sentido verdadeiro à vida e a sí mesmo. A frustração 
maior para o homen, de fato, é aquela de encontrar-se em uma situação absurda, a qual parece 
impossível dar algum significado, ou de correr o risco de reencontrar-se, ele mesmo, em tal 
insignificância. 
A nível mais psicológico tal exigência se torna aquela de dar à própria história um 
significado unitário e coerente, e capaz de conectar entre eles os eventos da vida, passada e 
presente, aquilo que parece haver em sí um significado evidente e positivo, mas também o que 
parece ser sem sentido ou ter um sentido negativo. O homen é livre, de fato, até o ponto de 
retomar nas mãos a sua própria vida para dá-la um sentido mesmo nos seus seguimentos 
insensatos (ou aparentemente); e é esta a dignidade humana. 
Tal operação “significativa” talvez encontre a sua aplicação mais relevante e envolvente, a 
nível psicológico, na considaração que cada um há em sí: o ser humano há exigência de ter uma 
percepção estável e substancialmente positiva da própria identidade, daquilo que é, e daquilo que 
é chamado a ser, mesmo com seus problemas e feridas. E é possível perceber essa positividade 
(ou tal positividade é estável e segura) só quando o sujeito entende a própria verdade no mais 
profundo, ou aquela amabilidade radical que para o fiel é sinal das orígens do homen. 
Definitivamente é a nesecessidade humana fundamental de logos, que diz respeito a 
mente, mas não se reduz a uma operação esclusivamente intelectual. 
Quando tal nescessidade não é gratificada determina, como já foi dito, um sentido de 
frustração geral desorientamento pessoal, e – a nível mais específico – um estado de confusão a 
respeito da identidade, a clássica crise de identidade, como uma sensação de negatividade radical 
ou não integração do eu, com consequente busca mais o menos atormentada da própria 
positividade não aonde ela de fato está ou “se esconde”, mas em âmbitos mais imediatamente (ou 
aparentemente) remunerativos ( ex. sucesso, carreira, apreciação dos outros ...). Como veremos. 
 
2.2. CRISE DE AFETIVIDADE (EROS) 
 
 É talvez a causa mais conhecida e ... a mais falada das crises, aquela relativa à necessidade 
afetiva. Não é uma novidade afirmar que esta área representa ainda hoje o ambiente 
problemático de tantas consideráveis crises. 
Talvez o mais interessante é buscar declinar esta necessidade clássica para não reduzí-la 
simplesmente a uma questão sentimental, e perceber a centralidade e complexidade misteriosa 
do amor na vida humana. 
Quando dizemos: necescidade afetiva, na realidade nos referimos – em âmbito psicológico 
– à exigência natural, para o ser humano, de haver um centro de atração em torno do qual 
recolher e unificar a própria afetividade com todas as suas forças vivas: da capacidade de relação e 
distanciamento da necescidade de amor e de ser amado, da sexualidade a fecundidade humana 
 
95 Cf. L. Oviedo, “Fedeltá e Abbandoni”, in Testimoni 21(2005), 3. Cf. também G. Salvini. Petri che “abbandonano”, in La Civiltá cattolica (2007) 3764, 
150-151. 
A Hora de Deus 
 
76 
CAPÍTULO 06 
(que mesmo em um projeto celibatário de vita requerem ser realizados). A energia em questão é 
aquela do eros, energia preciosa que o coração deve em todos os casos, ou melhor, em qualquer 
estado vocacional, aprender a gestir. 
 Quando tal exigência é satisfeita aquele centro de atração (que no caso do/a consagrado/a 
é Deus e seu amor é manifestado no Filho)96 se coloca verdadeiramente ao centro da vida 
humana, há o primeiro lugar sobre as outras relações e é amado acima de tudo e de todos; a 
pessoa estar “enamorada” e vê a realidade inteira a partir desse amor, como uma chave de leitura 
do real. 
Quando ao contrário, tal exigência não é suficientemente acolhida e gratificada ou este 
centro não é suficientemente amado, ou não é respeitado o bastante a centralidade e prioridade, 
da vida afetiva do padre e consagrado/a se torna inconsistente e incoerente, de um lado fraca e 
pobre de amor, transgressiva ou caótica, isto porque privadade um referimento ou daquele ponto 
de referimento que esta alinhada com a sua identidade vocacional, ou porque há diversos e 
contraditórios pontos de referimento, e dependente (afetivamente) por aquilo que de vez em 
quando parece garantir maior gratificação afetiva. 
 
2.3. CRISE DE VOCACONAL (PATHOS) 
 
Finalmente uma terceira área da crise é conectada com a exigência que aquilo que a 
pessoa experimentou como fonte de verdade para a mente, mas que atrae também o coração, 
seja também centro e dinamismo de tração de todo o aparato intra-psíquico humano, agindo 
particulamente sobre a vontade. Concretamente, que saiba conjuntamente criar unidade e por 
em movimento o organismo psíquico e espiritual, coração-mente-vontade, mas também os 
sensos externos e internos, desejos e projetos... em uma constante tensão de crescimento (que é 
o sentido da formação permanente). Esta capacidade de tração é o que de fato dá ao sujeito força 
e determinação no tomar decisões com liberdade-responsabilidade e ao afrontar com coragem as 
adversidades, com fidelidade e coerência, consciente da unicidade e singularidade como da não 
repetição do único instante, aprendendo da vida e para toda a vida. 
É a dimensão do pathos, daquela capacidade de escolha que torna dramática a vida e, o 
sujeito consciente de sua função decisiva, mas também da força para superar as dificuldades e 
suportar fadiga e sofrimento para adquirir fé nas próprias convicções, e que está em relação 
sobretudo com a vontade e pode chegar até ao martírio.97 
A não gratificação dessa fundamental exigência, ao contrário, cria os 
conhecidos fenômenos da fragilidade vocacional, que vão da mediocridade geral 
como estilo existencial as contradições de uma vida plena de comprometimentos (e comodidades) 
e que não há mais nada a dizer e anunciar, da ineficácia do testemunho ao vazio existencial, da 
crise vocacional ao verdadeiro abandono, da insatisfação perene á inércia preguiçosa de quem 
desfruta da situação. 
E então, a nossa hipótese de início é que quando estas três exigências ficam por algum 
motivo ignoradas, ali vem de fato frustrada uma fundamental esperança de vida e de qualidade de 
vida, e por consequência é ali que nasce também uma situação crítica na área respectivamente da 
identidade ou que faz parte, da afetividade e sexualidade, da escolha e coerência vocacional. 
Esta identificação se torna significativa e importante não só porque nos consente entender 
melhor o lado problemático e de dar uma estrutura interpretativa ao complexo mundo de críses 
sacerdotais-religiosas, como também a percepção da causa permite entender o elemento radical 
da qual todas derivam, o ponto fraco onde intervir, e portanto com maior precisão para a solução 
destas crises. 
 
96 Significativa como nunca, em tal sentido, a expressão já recordada, usada por Jesus que fala da sua paixão e morte de cruz como mistério de 
atração: “quando for elevedo da terra atrairei todos a mim”(Jo 12,32). 
97 Cf. A. Cencini, L´albero della vita,110. 
A Hora de Deus 
 
77 
Acrescentamos também que, para o caráter olístico do eu,98 estas três áreas referem-se 
mutualmente umas as outras, estão entre sí interligadas, portanto é de se esperar que o problema 
que nasceu de uma destas áreas cedo ou tarde, de um modo ou de outro, vai perturbar os outros 
aspectos da personalidade, se não até mesmo vai manifestar-se de maneira particularmente 
evidente em qualquer um destes aspectos.99 
Será importante, então, saber com precisão a raiz do problema, distinguindo 
cuidadosamente raiz de consequências, para intervir corretamente sobretudo sobre a raiz. 
Em todo caso, se é verdade que na mesma pessoa podem estar presente ao mesmo tempo 
problemas nas três áreas, normalmente a causa mais profunda e radical é uma só. 
Sintetizamos o todo com este quadro recaptulativo. 
 
Tabela 4 – Áreas estratégicas de crise na vida sacerdotal e religiosa 
 
 
 
 
CAPITOLO 7 
Crise da busca da verdade 
 Vamos ver a primeira das três áreas estratégicas das crises sacerdotais e religiosas: ocorre 
na área da identidade, que corresponde a uma exigência - que não pode ser suprimida - de 
verdade presente em cada ser humano. Talvez é a necessidade mais radical, que não conhece 
diferenças de cultura e nem mesmo é ligada ao quociente intelectual da pessoa, como poderia 
parecer a primeira vista, já que cada indivíduo, em qualquer lugar da terra e em qualquer idade da 
vida, vive com um pronfundo desejo de verdade. O homem não pode privar-se da relação 
determinante com a verdade. Ele é um peregrino da verdade, mesmo quando eventuais teorias 
queirão fazer crer o contrário ou desencorajar a busca (cf. a teoria do “pensamento fraco” ou o 
 
98 A respeito da propriedade do eu, cf. A.Cencini – A. Manenti, Psicologia e formazione. Strutture e dinamismi, Bologna 2001, 114-115. 
99 Típico, como veremos, é o caso da afetividade-sexualidade que rapidamente se coloca como caixa de resonância dos problemas que nasceram em 
outro lugar. 
Área psiquica elemento constitutivo 
Identidade afetividade vocacional 
Energia radical Logos Eros Pathos 
Necessidade imediata 
De uma fonte de 
verdade 
De um centro de 
atração 
De um dinamismo de tração 
Faculdade psíquica Mente Coração Vontade 
Êxito positivo 
Sentimento positivo 
estável da própria 
identidade 
Unificação e 
realização da 
energia afetiva 
sexual 
Capacidade de escolha 
coerente e docibilitas 
Atração desviante 
Auto-realização 
narcisista 
Gratificação 
impulsiva 
Evitar renúncia e sofrimento 
Êxito negativo 
Confusão e não 
integração do eu 
Inconsistência 
afetiva-sexual 
Fragilidade vocacinal 
A Hora de Deus 
 
78 
CAPÍTULO 07 
relativismo absoluto com... relativa “ditadura do relativismo”). Tais modos de pensar são na 
realidade contra a natureza humana. 
O problema da verdade não é, um problema essencialmente intelectual, mas refere-se e 
envolve toda a pessoa, especialmente quando se trata de perceber a verdade de si, da própria 
identidade, da sua história, não apena como verdade a procurar e a descobrir em qualquer lugar 
(isso seria uma verdade estática ou parada e imóvel) para acreditar somente, mas também para 
interpretar criativamente, para aplicar de forma original a própria vida, para “verificar” em 
qualquer modo. Também na vida e daqueles, como o fiel, aderindo àquele que é definido como “a 
Verdade”, mas deixando ao homem toda a responsabilidade de busca da verdade, com o prazer e 
o fascínio, mas também o cansaço e os riscos que isto comporta, especialmente para quem é 
chamado a anunciá-la às outra pessoas. 
Quando não é satisfeita esta sede de verdade, é inevitável a crise, com consequências que 
podem ser bastante pertubadoras. 
Em seguida vamos ver os setores vitais no qual sacerdotes e consagrado/a são mais 
expostos ao perigo de cair na falsidade, talvez até mesmo sem perceber, prejudicando de certa 
forma a sua serenidade pessoal e a credibilidade do seu anúncio.100 
 
1. Na vida real 
 
Entramos concretamente no nosso tema com estes cinco casos extraídos da vida de cada 
dia, e que escolhemos como formas diversas de viver um pouco as margens da verdade, sem dizer 
jamais uma mentira. 
 
1.1 Verdade e anuncio da verdade 
 
Padre Marco é um bom padre: bom com as pessoas, respeitoso com quem é justo com os 
superiores, é suficientemente contente de ser padre e de ser pároco, é confiante e fiel ao seu 
trabalho pastoral como também a sua vida de piedade. Porém, ele apresenta alguns problemas na 
relação com seus paroquianos ou, mais particularmente, na comunicação. Não que seja tímido ou 
incapaz de expressar bem suas ideias, mas parece sempre pesar a relação com um sabor artificial, 
ou complicar o diálogo de tons excessivamente doutos acabando por criar distâncias, não diz 
coisas falsas, mas simplesmente não consegue transmitir de forma real ao ouvinte.Tanto com 
grupo ou com o indivíduo. Quando prega por exemplo usa uma linguagem abstrata e 
para a maior parte dos fiés é incompreensível, ou se satisfaz em dizer apenas coisas 
triviais, não consegue transmitir a beleza do Evangelho, nem a passar a proximidade da boa notícia 
à vida e aos problemas de todos os dias, a sua verdade existencial. E assim quando ele prega as 
pessoas se cansam e dormem. O mesmo acontece quando faz a catequese para os adolescente e 
jovens, quando administra os sacramentos (especialmente quando confessa) quando dirige 
espiritualmente uma alma, ou quando é pedido para aconselhar alguém, (especialmente quando 
se aproxima de quem esta na dor ou na prova, o qual não sabe recomendar algo mais do que 
aceitar a "fazer a vontade de Deus")... O espetáculo é sempre o mesmo: frieza e abstração, 
nenhum envolvimento pessoal, nem seu, nem por consequência dos fiés; uma pastoral repetitiva 
e desprovida de fantasia, sem alguma pesquisa e quem esta na dúvida e não crer continua sem 
expectativa. 
Ele então percebe, mas ninguém é capaz de entender o quanto ele sofre e deseja 
verdadeiramente sair desta situação. Não se pode dizer que está em crise. 
Assim como não é muito clara a raiz deste desconforto: o problema de relação interpessoal 
ou de convicção pessoal? 
 
100 Para um tratamento mais amplo do problema desse capítulo vos envio ao meu terceiro volume sobre formação permanente, a partir do qual 
chamo aqui algumas idéias e também exemplos : A. Cencini, A verdade da vida, Formação continua da mente cristã, Cinisello Balsamo 2007 
A Hora de Deus 
 
79 
CAPÍTULO 07 
Além disso, não percebe conscientemente o ofício ao qual foi chamado a ser. 
Durante seus estudos foi um estudante diligente, estudou uma ótima teologia e ainda fez 
um curso sobre a “Arte de comunicar”. Ele ficou responsável pela apresentação de uma pesquisa 
sobre “Os mais frequentes defeitos do pregador” (em tudo isto foi muito vivaz e muito 
interessante). 
Parece ser uma contradição incurável na sua vida, da qual podemos fazer uma pergunta, 
ou uma dúvida, fundamental: é “verdade” aquilo que o padre Marco anuncia? Ou quanto è 
verdadeiro o padre Marco naquilo que anuncia? 
 
1.2 Verdade e afetividade 
 
Já faz tres anos que Ludovico foi ordenado padre. Sobre o padre Ludovico já falamos no 
terceiro capítulo (“As pessoas em crises”) quando descrevemos os tipos de crises, como exemplos 
de crises finais e fatais. Muito jovem, portanto, e isso se torna ainda mais evidente pela expressão 
limpa de sua face que se manifesta juntamente com uma ingenuidade e uma vitalidade. Sabe-se 
que é muito querido pelas pessoas, mimado pelas mães e cercado de jovens, rapazes e moças, 
claro, com algumas provocações. Eu o conheci quando ainda era seminarista, posso afirmar que o 
seu caminho vocacional foi linear e sem estremecimento. 
Mas há algum tempo veio dizer-me “uma coisa extraordinaria”: “eu conheci o amor”, como 
ele mesmo disse, mais animado que perplexo. Em suma, a mesma história da relação espiritual 
com a jovem senhora que tem problemas com o seu marido e busca ajuda, uma certa simpatia, 
depois encontros sempre mais frequentes, a descoberta do mundo da sexualidade, expressões 
demostrações gestuais sempre mais envolventes, um namoro, a sensação inédita de um 
entendimento total, e a decisão de deixar tudo e ir viver com ela... Como pinos de boliche em uma 
linha, caiu a primeira (a relação envolvente) caiu também o último (abandono do sacerdócio e 
escolha da convivência), ou como um silogismo rígido em sua seqüência lógica: estou apaixonado, 
então não é este o chamado a seguir, vou me casar. Este argumento se torna (mais ou menos) 
sustentável com uma certa serenidade, ou melhor, com uma certa suficiência para comigo e 
qualquer um que não fez esta experiência, “...não pode, portanto comprender”. 
Ele sim, pois tinha “conhecido o amor”. 
E não houve como fazê-lo raciocinar. Talvez à luz desta interrogativa: Isto que sinto a nível 
impulsivo e afetivo, é verdade? Manifesta a minha verdade? 
Ao contrário, não mostrou alguma hesitação, em relação à lei moral, diante 
do fato que esta mulher já fosse casada, como diante da situação no qual 
encontraria o seu marido; e ainda, mais uma indicação de descuido, negligência do vínculo moral, 
teve a coragem, após a suspenção de acordo com o bispo (e sua decisão de “deixar”), de 
apresentar-se em uma paroquia para celebrar um matrimônio. 
 
1.3 Verdade e historia pessoal 
 
Irmã Maria com meia idade, se diria que não tinha grandes problemas: trabalha em uma 
comunidade de recuperação de viciados, (tóxicos-dependentes) estimada e bem querida 
justamente por sua dedicação aos outros e para com aqueles que mais sofrem. Porém quem a 
conhece à mais tempo e é mais próximo percebe algumas de suas reações, vê nela um 
generalizado e misterioso transtorno. Enfim, irmã Maria fica cordialmente nervosa com o seu 
passado. Se sente traida ou maltratada por causa do seu passado, especialmente por uma pessoa, 
seu tio que abusou dela por muito tempo. Por estes abusos sexuais que sofreu a partir de um 
ambiente cheio de mentiras e de chantagens e hipocrisia, violência sofrida e buscada 
A Hora de Deus 
 
80 
CAPÍTULO 07 
inconscientemente, senso de culpa, de auto-compaixão e vítima...ficou marcada como uma 
cicatriz dolorosa, a masturbação, uma ferida em que parece não querer se libertar, recordando-a 
sempre – como uma obsseção quase quotidiana – uma dignidade ora perdida e irrecuperável, uma 
culpa não perdoada e imperdoável. 
Na verdade, e por isso mesmo, não lhe perdoa, nem o seu tio; ou queria até perdoá-lo, 
mas... não pode, não consegue perdoá-lo. E quando decidiu a perdoá-lo durante um curso de 
exercícios espirituais sobre a misericórdia, naquela noite mesmo, apenas encontrava diante do 
mesmo impulso, pontual, como um cobrador de impostos, para entender o quanto estava 
enraizado em si aquela raiva por aquele patife que tinha distruido sua vida. 
E como se não bastasse, a irmã Maria joga a culpa em Deus, pois Ele poderia ter preservada 
de um acidente como este. E talvez a sua vocação não é autêntica, pois nasceu como tentativa 
desastrada em querer reconquistar aquilo que ninguém poderá lhe dar, nem mesmo o Pai Eterno. 
Assim, tentou lhe dizer o psicólogo que ela procurou algum tempo atrás como um recurso para 
resolver a situação, mas que logo abandonou, assustada com o diagnóstico (e com o prognóstico). 
A vida da Irmã Maria é verdadeiramente uma estrada sem saída? Sem saída com relação ao 
seu passado, presente ou futuro? Antes, é "verdade" esta história, ou, é "verdade" este modo de 
interpretá-la? 
 
1.4 Verdade e ideal vocacional 
 
E se o caso da irmã Maria pode parecer extremo, não é difícil para mim buscar no meu 
arquivo um caso mais “normal”, sempre na área vocacional, como o caso do padre Carlo, 
sacerdote com trinta e cinco anos, chegou a consagração religiosa e ao sacerdote com fama de 
bom seminarista e ótimo estudante, de noviço rigoroso e veemente, clérigo apaixonado e 
exemplar, as vezes até demais. Nunca teve uma crise ou uma redução de tensão, sempre tinha um 
perfeito controle de sí. Os primeiros anos no auge da força ministerial confirmam as promessas e 
esperanças, de repente, a um certo ponto, o sujeito não consegue se manter e explode, não 
porque lhe apareceu uma mulher improvisadamente no horizonte, ou por um 
fracasso apostólico, não, mas porque percebeu-se que à origem da sua vocação tinha... a sua mãe, 
aquela santa mulher que sonhava com um filho padre, e – segunda contatação, que se tornava 
cada vez mais evidente – porque finalmente compreendeu que tinha reprimido todos os seus 
sentimentos e impulsos, ao ponto de cancelá-los e de pretender ignorá-los, em vista de um ideal 
de perfeição que durante um longo período se tornava impossível, como uma miragem e 
oprimindo-o como um tirano. Daqui a crise vocacionale a decisão de deixar tudo e todos, inclusive 
os sonhos maternos. Determinando espanto e incredulidade em quem o conhecia e o apreciava 
além de inéditos sentimentos de culpa e amargura em sua pobre mãe. 
Provavelmente tinha verdade em sua análise, mais a decisão final foi inevitável e 
igualmente verdadeira? 
 
1.5 Verdade e obediência 
 Enfim, um último caso nesta série introdutiva, se encontra em dificuldade, vocacional 
inédita também padre Luigi, um pouco mais jovem que padre Carlo, que talvez não foi nunca 
como padre Carlo, religioso, modelo exemplar mas atraiu igualmente a estima dos outros, 
A Hora de Deus 
 
81 
CAPÍTULO 07 
inclusive dos seus superiores pelas suas inegáveis competências intelectuais e relacionais que 
faziam dele um apóstolo dos jovens, o amigo que todos quereriam ter ao lado, anunciador criativo 
e original da Palavra, animador brilhante e superdotado, organizador instacável de iniciativas 
educacionais... Padre Luigi sabe tudo isso, e naturalmente beneficia-se, inteligente e prudente 
como é, e não pesado a comunidade. 
É um bom sujeito, diríamos. 
Além disso, já faz algum tempo que está fazendo um intinerário como os seus superiores. 
Os quais lhe propuseram de assumir uma certa responsabilidade, em um contexto diferente 
daquele onde trabalhava atualmente e onde poderá exprimir plenamente as suas próprias 
competências. Pelo contrário, como ele mesmo teve a oportunidade de se expressar. “A proposta 
dos superiores me impediria de colocar ao serviço dos outros a melhor parte de mim mesmo”. Ou 
aquela que ele considera ser tal. 
Depois oportuno discernimento conduzido secondo as normas clássicas inacianas (da regra 
de Santo Inácio). Desobedece. Com a convicção que o projeto de Deus sobre a sua vida não possa 
passar através do sacrifício do exercício destas qualidades que Deus mesmo lhe deu. 
É assim mesmo? Ou seja, qual tipo de leitura padre Luigi faz sobre si, sobre as suas 
potencialidades e talentos em relação a sua identidade, da solicitação dos superiores, da vontade 
de Deus? 
Cinco casos diferentes, de pessoas com idades diferentes, com caminhos diversificados, do 
pontos de vista das experiências da vida e do tipo de formação recebida, em contexto existencial 
variado, apanhados pelas dificuldades de diferentes naturezas, ou ainda com um fundo ou uma 
raiz comum. Talvez não todos em verdadeiras crises, e portanto uma evidente problemática 
psicológica em suas vidas que retiram a serenidade e os tornam de algum modo menos real. 
 
2. A verdade como problema 
Essas pessoas tem o mesmo problema: O problema da verdade. Todas estão à procura da 
verdade em suas vidas, em si mesmo e aquilo que é mais importante em suas histórias, a verdade 
da sua vocação e do futuro que pode causar opressão sobre a forma de escolha e prospecitivas 
existenciais, mas também da verdade do passado que parece bloqueado em torno 
de fatos que ninguém pode cancelar... Buscam a verdade pessoal, mas também 
aquela a qual são chamados anunciar aos outros e que não sabem como exprimir como Palavra 
Verdadeira. 
Ao contrário, mais precisamente, de alguma forma eles sabem, e compreenderam aonde 
está a verdade e qual é o significado dos acontecimentos que eles estão experimentando. São 
todos crentes, portando seus problemas não são a nível objetivo ou dos conceitos de fé; eu 
conheço a Verdade, aquele que se definiu como tal (caminho, verdade e vida). Os seus problemas 
são de cunho subjetivo ou contingente, talvez não sabem como reconhecer esta Verdade nas 
circunstâncias de suas vidas pessoais, nos problemas do passado e nas exigências inesperadas do 
presente. Ou, seria como se eles possuissem as grandes (ou a grande) verdade, enquanto deixam 
escapá-las ou não sabem identificar aquelas pequenas, aquelas quotidianas, aparentemente sem 
valor, mas na realidade é a encarnação das grandes verdades (neste sentido integração significa 
encarnação); ou seria como se conhecessem a verdade em geral ou universal, aquelas que servem 
para todos, mas não conseguem aplicá-las ao contexto de sua existência pessoal. 
Podemos até pensar que durante o seu caminho formativo não foi dado tanta atenção a 
este importante aspecto da vida humana e cristã. Não levando em conta que a consciência da 
verdade seja um problema somente objetivo, que se resolve tudo com a cabeça e com o estudo da 
teologia ou com a adesão do fiel de uma vez por todas. E depois viver de pensão. 
Padre Marco, por exemplo não sabe como se colocar a disposição das pessoas a propria 
teologia, não sabe como oferecer com palavras simples e vibrantes a verdade e a beleza da 
A Hora de Deus 
 
82 
CAPÍTULO 07 
Palavra que salva, não sabe dizer palavras verdadeira que deêm verdade a quem as escuta. Ou 
talvez ele mesmo não experimentou ainda o sabor de uma palavra e a beleza de uma fé como 
substância do seu viver, de compartilhar com o outro, especialmente com quem esta em busca ou 
em dificuldades. O seu gnosticismo não é verbal, pois pode ficar ainda mais distante da verdade 
tornando-o estéril. Nos perguntamos quando pensamos na sua formação teológica: o quanto a 
teologia diligentemente estudada tornou-se para ele mediação formativa? Ou era finalizada 
unicamente aos exames, ou a formar uma cultura ? 
Padre Ludovico é um caso muito simples e talvez, clássico de fato : é um padre bonito, de 
fácil relação que imediatamente se deixa levar pelas paixões, se enamora facilmene, e por isso, 
decide mudar de vida, com comportamentos que negam a moral (onde foi parar toda a teologia 
moral estudada no seminario?), e é igualmente surpreendente a ausência de sentimento de culpa 
(não tem consciência de pecado). Aqui o problema, em geral, está em torno à leitura do episódio 
do enamoramento, interpretado como sinal inequívoco de uma não vocação sacerdotal e claro, 
uma evidente vocação matrimonial. Existe na sua mente – como um automatismo – entre o fato 
do enamorar-se e a decisão de deixar tudo: desde que aparece a primeira, segue-se a segunda. 
Quanto mais forte é a primeira, tanto mais persistente sera a segunda. E, apesar de um forte 
idealismo, determinado por ter percebido de tal modo a verdade de sí. Mas o seu problema é 
justamente este, esta verdade está além do sentimento afetivo. 
Irmã Maria, ao contrário, vive um profundo contraste com a sua história passada e a 
fragilidade do presente, com a figura do seu tio e o mal que ele lhe causou, com Deus e com a sua 
vocação. Uma mancha escura contamina desde já a sua imagem e funciona como um elemento de 
desintegração que a impede de organizar com a delicadeza a sua historia, com todos os incidentes 
e limites, em torno da verdade central e unificadora do amor de Deus que é mais forte do que o 
mal e todo mal pode se transfomar em bem. A sua leitura existencial, com toda a compreensão do 
drama da sua infância, é uma leitura parcial, incompleta e superficil, seja de sua vida e dos seus 
incidentes. Não é uma leitura falsa, mas esta, de fato, não lhe abre nenhuma estrada, ela se 
broqueia em si mesma e faz do seu passado como um destino, que risca de afastá-la 
prograssivamente da verdade de sí, impedindo-a de viver a sua atual experiência de impotência 
como o lugar misterioso da manisfestação da potência da graça, isto é, da verdade 
de Deus. 
Padre Carlo comete um erro muito frequente e tanto quanto banal, pretendendo que a sua 
escolha fosse imediatamente, perfeitamente motivada, que o caminho formativo fosse perfeito; 
permanece portanto chocado diante da descoberta que a sua mãe lhe influenciou de um certo 
modo, diante desta constatação, aborreceu-se por ter reprimido por tanto tempo, tanta energia 
interior. Por conseguinte, ele toma tudo isso como prova de que o seu caminho foi errado e 
verdadeiramente decide mudar. Quem sabe em quantos casos, mães piedosas e sinceramente 
crentes desejaram ter um filho padre influenciando-o – com seus desejos mais ou menos 
expressos – sobre a vocação, pelo menos no início, sem porém impedir a liberdadefinal de sua 
escolha. Uma liberdade progressiva, se comprende pela escolha de purificar e tornar sempre mais 
pessoal até o fim da sua vida! E ainda, independentemente de mães devotas e várias influências 
externas, quem sabe em quantos casos, um certo ideal foi assumido no início com ambíguas 
aspirações perfeccionistas com consequênicas exageradamente auto-opressivas, sem por isso 
impedir uma sucessiva evolução libertadora? Quem jamais poderá dizer que a sua motivação 
vocacional foi pura e perfeita desde o começo? 
Mesmo neste caso existe o risco de uma leitura insuficiente e menos verdadeira, que 
evidencia elementos importantes. 
Enfim, padre Luigi estabelece uma equação singular, típica de um certo modelo formativo 
(aquele da auto realização, muito praticado e visível hoje em dia): os meus dotes são o “meu eu”, 
sou portanto, a coisa mais importante que possuo e que Deus me deu. Nenhuma autoridade ou 
pedido de obediência poderá pedir-me que sacrifique os meus talentos. Daqui nasce a 
A Hora de Deus 
 
83 
CAPÍTULO 07 
consequência do seu discernimento que não exprime tanta insubordinação aos legítimos 
superiores, mas um significado atribuido ao próprio caminho de auto realização ou ainda, um 
modo preciso de resolver o problema da própria identidade e posivitividade. Neste caso, é 
legítima a questão: é verdadeira esta leitura da vida e daquilo que é mais importante para definir a 
própria identidade? 
Finalmente, vários exemplos para dizer como frequentemente o discípulo e o mensageiro 
daquele que é o caminho, a verdade e a vida podem fazer uma leitura não tanto verdadeira de sí e 
do seu caminho vocacional, da sua identidade e daquilo que é decisivo para a sua auto realização, 
do seu passado, e dos seus infortúnios, dos delitos cometidos ou sofridos. Coloquemo-nos em 
uma situação paradoxal, que arrisca-se de falsificar a sua pessoa e de enfraquecer a sua Palavra. 
Tentaremos aprofundar e entender melhor. Os problemas enfrentados pelos nossos cinco 
personagens talvez estejam a indicar uma área ou um problema que a formação não coloca 
suficientemente como tema a ser trabalhado: a área e o problema dos sentidos, da descoberta e 
do dom, da exigência psicológica e espiritual de serem verdadeiros, da capaciade de compreender 
o significado autêntico do viver nas suas infinitas facetas. 
 
3. Qual formação para chegar à verdade ? 
 Poderá parecer uma pergunta estranha e singular, como se quizéssemos fazer um verso 
com a clássica pergunta de Pilatos, porém ela é legítima : existe hoje uma formação à verdade? E o 
que significa na verdade tal formação? 
 Em todo caso vale apena fazer estas interrogações, uma vez que a sensação de um vazio à 
este respeito não é completamente distorcido e privado de concreta verificação. Ao contrário, é 
significativo sentirmos a exigência de nos interrogarmos em que consista de fato a formação à 
verdade: se existisse um real caminho educativo neste sentido provavelmente esta pergunta não 
existiria. 
 Ao invés, me parece bastante evidente esta estranha ausência “de um projeto de formação 
à verdade” nos programas formativos, como se a verdade ou o viver na verdade 
não fosse considerado atitude virtuosa que é favorecida com uma ascese, a partir 
de uma atitude penitencial que visa abandonar ações, presunções e estilos de vida contrários, ou 
seja, falsos. 
Há quem contesta que na realidade não há necessidade de programar um caminho neste 
sentido, já que a educação à verdade deveria fluir como consequência natural e inevitável em 
certas premissas e de um estilo educativo em geral, sem a necessidade de uma particular atenção, 
ou de um projeto formativo corrispondente. 
Ou há quem reduz o problema da capacidade de busca e identificação daquele sentido 
intrínseco que cada evento possui em sí, e que cada indivíduo deveria simplismente aprender a 
descobrir e a respeitar, “chamando as coisas com os seus devidos nomes”como de costume. Ou 
então quem, do outro extremo, pensa que cada um seja livre a dar o sentido que crer às situações 
que vive, uma vez que assim vive e exprime o valor fundamental da liberdade de consciência. 
De fato, ainda são muitos os que reduzem tal formação a momentos em que uma pessoa 
deve fazer escolhas particularmente relevantes, às regras do discernimento, como se não devesse 
constantemente viver na verdade ou se existissem momentos nos quais podesse ser menos 
verdadeiros, menos sérios e coerentes consigo mesmo. 
Porém nos nossos ambientes teológicos continua a ser muito forte a impressão que a 
questão da verdade seja reduzida ao seu aspecto objetivo, «teológico», como se a verdade e a 
exigência de sermos verdadeiros fosse só um problema intelectual, que se resolve simplesmente 
com uma boa teologia, sólida e politically (ou theologically) correct, como se bastasse a ortodoxia 
para garantir a ortopraxia, ou o quociente intelectual para assegurar a consistência intrapsiquica e 
espiritual, ou – ao contrário – como se não fosse bem conhecido que o agir frequentemente assim, 
A Hora de Deus 
 
84 
CAPÍTULO 07 
condiciona o pensar, ou a conduta influencia a consciência e o passado influencia o presente. Dito 
com uma pergunta que pode parecer estranha: a sensibilidade, assim frequentemente evocada 
como um alibi, é simplesmente um dado instintivo ou pode ser verdadeira e educada na verdade? 
Ou é ainda este um “falso” problema? Mas então como se explica deste ponto de vista o fato que 
enquanto de um lado fomos todos formados na mesma teologia moral e em seguida existam 
julgamentos sobre os fatos e comportamentos que são muito divergentes (principalmente quando 
estes fatos e comportamentos referem-se conscientemente ou inconscientemente problemas 
pessoais não bem resolvidos)? É somente uma questão de diferentes corretentes teologicas? Ou 
existe por trás uma diferente sensibilidade (psicológica e em seguida moral) que se formou de 
maneira um pouco selvagem e não acompanhada, e que agora se impõe fortemente na 
consciência de cada pessoa? Quantas vezes uma fraqueza ou um desabamento moral da pessoa – 
em um momento de crise – não determina também um correspondente juízo da sua consciência, 
que justifica aquela fraqueza ou um determinado tipo de conduta? E quantas vezes pode 
acontecer o contrário, que o próprio julgamento da consciência influencia a sensibilidade do 
sujeito, e lentamente determina uma situação de crise ou faz com que esta se torne mais forte. 
Em outras palavras, qual formação nos preocupamos a dar à sensibilidade ou a parte 
humana emotiva e instintiva consciente e inconsciente, da verdade? Ou entendemos que tudo 
isso não tenha nada a ver com a formação à verdade? Em resumo são vários os aspectos de uma 
autêntica formação à verdade da vida, e não parece que estejam todos «abrangidos» pelos nossos 
projetos formativos. 
 Por outro lado, se Jesus disse que o Pai busca quem o adore «em espírito e verdade» (Jo 
4, 24) a coisa não deveria ser assim simples e pacífica, visto que a busca pelo Pai desde então 
parece ser ainda em caminho... 
 Procuraremos então a identificar com precisão o problema. 
 
4. Áreas de conflito de sentido 
Talvez é mais simples começar individualizando onde a tensão a cerca da 
verdade se torna visível, ou quais sejam as áreas da personalidade onde torna mais possível a 
distorção do sentido, áreas que de fato podem entrar em colisão com um certo projeto de vida ou 
um determinado sistema de valores no qual o sujeito reconhece sempre a própria verdade, ou 
ponto de colocar em discussão. 
Não é pois assim estranho e infrequente aquilo que estamos indagando, nem 
necessariamente sinal de uma menor fidelidade e coerência de vida. No fundo vem ou deveria vir 
naturalmente ao ser humano perguntar-se continuamente onde está a verdade, a verdade do seu 
viver, próprio porque de verdade não é uma declaração definitiva, uma afirmação conclusiva que 
coloca fim em cada pesquisa e rende tudo imediatamente claro, mais é indicação de um caminho 
que pode realmentelevar a plena realização da própria humanidade, mas que fica ainda em boa 
parte muito a ver e esclarecer. O tipo inteligente e atento (“vigilante”) é aquele que sabe por 
experiência quais são particularmente os setores da existência, onde é mais tentado de parar ou 
desviar, ou onde tem o risco constante de uma certa desordem, de considerar verdadeiro quando 
não é. É importante, portanto buscar esclarecer. 
Tendo como ponto de partida os cinco casos, acredito poder dizer que normalmente o 
conflito do sentido nasce com comportamentos ou estilos existentes relativos as seguintes áreas. 
Citaremos brevemente simplesmente para indicar os pontos de maior problemática. 
 
4.1 Auto-identidade e auto-realização 
A área de auto-identidade é a área daquilo que se percebe importante para si e a própria 
estima, e é decisivo para a própria auto-realização. Ler na verdade a própria pessoa (corpo, 
A Hora de Deus 
 
85 
CAPÍTULO 07 
psíquico e alma), com tudo o que de positivo e menos positivo esta contém, quer dizer respeitar 
um certo “ordo” uma precisa hierarquia de valores e prioridades na identificação daquilo que 
constitui a dignidade e assegurar uma estabilidade positiva, ao mesmo tempo permitindo de 
perceber com realismo a inevitável negatividade, e no discernimento conseguinte. 
O corpo e a vida física, por exemplo, tem um valor importante, mais não podem certificar-
se um sentido de positividade definitiva101; assim os talentos pessoais, enfim a própria exatidão 
moral ou pretensão de pefeição... Um erro ou um equívoco neste nível gera problemas de 
identidade, e sacerdote ou consagrado com problemas de identidade significam pessoas com o 
centroide {=Ponto ou coordenada de uma forma geométrica que estabelece o seu centro 
geométrico} “deslocado”, e portanto desiquilibrado, com uma fundamental desordem interior, na 
busca da própria positividade em lugar errado, pessoa que não sabe mais quem é, nem aquilo que 
quer, e talvez se faz mendicante daquilo que já possui (mais sem saber e portanto também sem 
beneficiar-se), da positividade que lhe pertence para sempre e está enraizada profundamente nele 
(é o caso de padre Luigi)...102 Com notáveis e perigosas consequências: dependência dos próprios 
talentos (que tornan-se fonte mas também limite de identidade), identificação com o papel social, 
extrema necessidade de resultado positivo e de estima dos outros, carreirismo e protagonismo 
ambiguidade e conflito relacional, mania de competição, inveja e ciúmes, mania de 
auto realização, sutil complexo de inferioridade, incapacidade de aceitar a 
decadência gradual do corpo e várias tentativas de escondê-lo, incapacidade radical de perceber a 
verdade do corpo também no limite e na doença ... Todas as atitudes que não devem ser vistas 
como transgreções morais comportamentais, mas como erros da verdade da pessoa, como 
falsidade, como equívocos perigosos..., como elaboração de uma crise destinada seja cedo ou 
tarde a explodir. 
Nos caminhos formativos quase não se afronta de maneira sistemática e explícita o 
problema da identidade a nível psico-pedagogico. Imaginem, pois denunciar a “crise de 
identidade” ou usar tais etiquetas nos encontros formais e informais para dar um nome as crises 
“inexplicáveis” sacerdotais-religiosas. 
 
 4.2 Experiência de Deus e de sua vontade 
O mistério da verdade e da própria verdade se articula em modo particular diante de Deus, 
e portanto diante daquilo que a pessoa crente aprendeu a reconhecer com sinal da sua presença 
ou do seu querer (como no caso, ainda do padre Luigi e do padre Carlo). Quantas vezes a mesma 
experiência de Deus e a leitura da sua palavra podem ser sujeita a distorções perceptivas ou 
ilusões e pretensões muito subjetivas, ou mesmo “a vontade de Deus” vem identificada como tal, 
porém não é tal, ou ainda é lida em modo banal e superficial, mágica e fideistica, ou... é aplicada 
aos próprios valores e interesses (vejam a escolha vocacional do padre Ludovico que desmente 
seguramente a outra). Por isso mesmo o “mestre na fé” é capaz de descobrir os assim conhecidos 
“sinais dos tempos” como expressão de leitura em profundidade no presente dos germes do 
futuro! 
 
101 Interessante este comentário jornalistico das expressões as mais teatrais e equívocas da cultura moderna, que atrai tantos jovens a buscar no 
corpo e na beleza física a fonte da própria positividade e identidade, a eleição, isto é, de miss Italia: “Na exposição das belas jovens todas iguais, 
construídas em perfeita harmonia para satisfazer um público igualmente conformado, tinha no entanto uma sensação de algo mecânico 
angustiante, a percepção de una falsidade de fundo que mal correspondia a aparente festividade. As futuras odaliscas da televisão correspondem 
verdadeiramente ao modelo de menina italiana, aquelas que encontramos pelas estradas ou nos escritórios, nas escolas ou nos trens?(...) 
Alienadas, vestidas todas iguais, com faces, cabelos iguais, as candidatas à miss fizeram no fundo no fundo muita tristeza: criadas - frequentemente 
remendadas e refeitas, apesar da jovem idade – para aparecer e não ser, para um breve tempo, um aparente explendor, para uma fatuidade 
elevada sem objetividade na vida. Isto é verdade?” (M. POGGIALINI, “Se a fatuidade é um modelo de vida”, in Avennire, 16 setembro 2003,30). 
102 Sobre a formação da auto-identidade do presbitéro, e seus riscos de uma identidade errada, cf. A. Cencini, “O padre: identidade pessoal e papel 
pastoral. Abordagem psicológica”, em o padre na Igreja hoje. Bolonha 1992, 1-59; sobre a identidade do consagrado cf. Id., Amarás o Senhor teu 
Deus. Psicologia do encontro com Deus. Bolognha 2001, 13-37. 
A Hora de Deus 
 
86 
CAPÍTULO 07 
Por conseguinte, se é correto, biblicamente falando e como já recordamos,103 a expressão 
“experiência de Deus”(feita pelo homem)? Nas Santas Escrituras adverte o pregador de Deus, o 
teológo Van Balthasar, não encontramos talvez a expressão exatamente contrária: Deus que faz 
experiência de homem? Quais das duas expressões transmite e reflete principalmente a verdade 
do criador e da criatura, e torna mais verdadeira a condição humana e o conhecimento do Eterno? 
E ainda: o que significa uma relação autêntica com Deus, uma oração que verdadeiramente 
atinge o coração divino? Até mesmo a oração pode ser virtual e fingida, mesmo quando há a 
sensação de ter feito uma bela oração; ao contrário alguém pode tambem dizer (ou pedir) tantas 
orações e não rezar nunca... É a mesma leitura da Palavra, sempre mais central na vida do fiel 
hoje, quando e quanto é “verdadeira”? Quando e quanto está o homem a lê-la? Talvez armado 
com os seus instrumentos interpretativos, ou quando e quanto a Palavra estar a ler cada dia a vida 
do homem e este se deixa livremente ler seu interior, ou a se deixar “transpassar” pela Palavra 
(cf.At2,37)? Quantas vezes não é a inconsistência ou a imaturidade a “obscurecer” uma pagina ou 
um versículo, uma palavra da Escritura que lê, ou medita ou anuncia ? Quanta verdade há neste 
anúncio, ora fraco, ora bombástico destes funcionários do divino? 
 
4.3 Natura humana e mondo interior 
A área da própria natureza humana, com as paixões, instintos, impulsos, afetos, 
sensibilidades, medos, nervorsismos, tensões, estados de ânimo (mais ou menos contraditórios) 
não é nada fácil de ler e passa despercebido a todo automatismo interpretativo. Basta pensar na 
complexidade da área afetiva-sexual, que frequentemente funciona – como veremos –como caixa 
de ressonância de problemas nascidos em outros lugares e é portanto 
aquela que mais se deixar levar pelos enganos e equívocos, ainda em prospectiva 
decisivamente vocacional (Vejam o caso do padre Ludovico). 
Ou basta pensar como mostramos mais acima o processo de desenvolvimento da 
sensibilidade, frequentemente ligada a dinamismos inconscientes e que em seguida condiciona de 
modo significativo a consciência e as suas avaliações,os gostos e as atrações “espontâneas” da 
pessoa, éticas e morais, frequentemente acolhidas e assumidas sem qualquer verificação (=exame 
de verdade ou exame de consciência). 
Frequentemente, na história, a relação entre prospetiva religiosa e o mundo da natureza, 
dos instintos e das paixões, foi sempre uma relação conflitual, como entre o bem e o mal, entre 
uma certa idéia de perfeição e tudo o que parece opor-se a ela fatalmente, entre aspirações 
celestiais e tentações bastante terrestres... É o caso, provavelmente, de repensar esta 
esquematização tão rígida. O instinto, o impulso, a paixão não é talvez expressão, mesmo 
causando por vezes desvios e até riscos àquela energia de amor presente em cada homem? E esta 
energia, devidamente purificada e orientada, não pode talvez tornar amor que da calor e cor a 
vida, até mesmo ao sacerdote e o consagrda/o? Como é possivel viver o celibato consagrado sem 
acolher a verdade desta fonte de energia? Não habita talvez misteriosamente o Espírito Santo de 
Deus nesta pronfundidade recôndita do homem? O celibato do consagrado não é certamente a 
negação da sexualidade (e como poderia?) mas sim uma forma diferente de vivê-la, como uma 
sexualidade pascoal. 
É verdade que muitas vezes o padre é de uma ingenuidade desarmante diante desta 
realidade (cf. padre Ludovico), outras vezes distinguir-se por ignorância deste mistério, 
compreendido em modo mesquinho e portanto profundamente falso. O celibato pode ser 
tecnicamente observado, porém ser profundamente pobre da verdade, ou um celibatário 
continente, mas não casto e tanto menos virgem. 
 
 
103 Cf. Capitulo 4 § 3.3 
A Hora de Deus 
 
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CAPÍTULO 07 
4.4. Limite existencial 
A área do inevitável limite existencial pessoal em vários níveis (das infermidades físicas a 
imaturidade psicológicas e morais) ou interpessoal, ligado a presença do outro na minha história 
(por exemplo: os limites psicológicos dos pais e educadores), é uma outra manifestação do 
mistério existencial, com diferentes graduações e tonalidades de liberdade e responsabilidade, 
difíceis de compreender com precisão. Por causa desta dificuldade é ainda possível a distorção do 
sentido, como talvez um erro ou “auto” culpabilização, normalmente com efeitos auto 
destruidores que provocam por exemplo uma não integração da própria história ou daqueles 
segmentos desta culpa onde o limite é mais influente, ou uma não aceitação de sí ou do outro, ou 
um sentimento disturbado da alteridade (vejam as dificuldades de relacionamento do padre 
Marco), ou ainda uma incapacidade de perceber na própria impotência a presença misteriosa da 
graça (é aquilo que ocorre com a irmã Maria), ou o entender que o limite não é necessariamente 
sinal de mesquinhez e culpável inconsistência, mais marca primeiramente o mistério do ser 
humano, ser aberto a algo grande. 
Talvez a verdade profunda do limite humano deve ser procurada nesta direção 
absolutamente misteriosa, ou aparentemente contraditória e sempre inédita: o limite reenvia à 
natureza... limitada da criatura (se é normal não é onipotente) e, por contraste à uma aspiração 
ilimitada, mais esconde ainda, e aqui o mistério explode na sua novidade inefável, a presença 
daquela potência que se manifesta na fraqueza. 
O limite é fronteira ou obstaculo? Provavelmente é todas as duas coisas, 
ou é difícil vivê-lo na sua verdade104. Quantas vezes a crise sacerdotal-religiosa 
exprime esta fadigosa-dificulade ou enfim nasce desta situação. 
 
4.5 O verdadeiro mal 
A área do mal aquele sofrido pela vida (várias desgraças, lutos por entes queridos) ou 
aquele que está ligado a uma específica responsabilidade pessoal (o pecado) ou ainda (violências 
sofridas, calúnias e maldades...), representa um objeto de difícil integração onde frequentemente 
prevalece uma atitude hostil e vingativa nas relações da vida, de quem nos fez mal ou de nos 
mesmos como autores do mal, frequentemente sem alguma possibilidade de redenção ou perdão, 
seguido de sentimento de culpa (em sí falsos, que devem ser distinguidos pela consciência do 
pecado que é verdadeiro) ou frustações gerais( é ainda o caso da irmã Maria). 
Ainda aqui vale o que foi dito com relação ao limite em general e talvez em sentido ainda 
mais radical e misterioso. Também o mal pode tornar um momento de graça, e nesta 
transformação pode reencontrar a sua verdade mais profunda, antes, isto afirma aquele evento 
central e prodigioso da salvação que acontece no hoje de tantos fièis e que corresponde ao 
sacramento da reconciliação: o sacerdote que é mediação oficial, as vezes risca de viver este ofício 
sem perceber o verdadeiro e profundo sentido, exibindo uma mediação somente ritual. E 
demonstrando a pobreza (ou íntima falsidade) da sua experiência pessoal de penitente. É claro 
que não pode ser vedadeiro ministro da penitência quem não foi e não é verdadeiro penitente. 
 
4.6 Relação e alteridade 
A área da ralação e da alteridade, estreitamente conexa com área da identidade, constitui 
muitas vezes um autêntico campo de exercitação (ou de batalha) para o próprio sentido e respeito 
da verdade. Não são infrenquentes relações interpessoais condicionadas por fenômenos de 
distorção perceptiva na qual o outro não é acolhido na verdade do seu ser, mas em função das 
 
104 Cf. o interessante estudo de G. Laitti, “A fe cristã no limite da humanidade: entre piedade e profecia” em Experiência e Teologia 17(2003),73-76. 
A Hora de Deus 
 
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CAPÍTULO 07 
próprias necessidades ou medos ou defesas ou preconceitos, e portanto não é aceito 
incondicionalmente nem estimado na sua amabilidade objetiva além dos seus comportamentos. 
Quantos problemas de relação são determinados por esquemas perceptivos- 
interpretativos fechados e rigidos, e parecem mais erros de percepção do outro e não sua 
negação, mais problemas de verdade e falsidade que falta de caridade! Ou são frutos da pretensão 
de estabelecer uma relação imediata com o outro, sem alguma mediação, fora da lógica do 
mistério e desconsiderando aquilo que a psicologia chama “O princípio do terceiro”. Secondo tal 
princípio toda ligação entre duas pessoas deve ter um terceiro que o garanta, e portanto o 
relativiza105, seja quando o outro é o tu humano e reenvia a Deus, e isto aceitamos tranquilamente 
pelo menos em teoria (em quando fièis), seja quando for o Tu divino que reenvia ao homem, e 
isto, talvez nos cria um pouco mais de problemas, a nós que frequentemente presumimos ou 
preferimos ter um acesso direto e imediato com o Divino. O homem, em outras palavras, deve 
aceitar de não poder ter acesso rapidamente ao mistério do outro, divino ou humano que seja, 
deve renunciar a tentação de Babel e as suas modernas reelaborações, aquela vertical (= viver a 
relação com o tu humano sem nenhuma abertura ao mistério e consequentemente ao 
trancedente)106. Somente assim a relação é verdadeira. 
Outro esquema percepitível sutilmente distorcido é aquele que induz a ver o serviço feito 
ao outro, especialmente quando este está particularmente precisando, como um ato de 
benevolência e caridade (do qual compadecer-se sutilmente dentro de sí ou 
vangloriar-se como coisa nobremente merecida) enquanto é simplesmente um ato de 
verdade em relação a dignidade do outro, ato portanto devido, normal, graças ao qual emerge não 
só a dignidade ou a verdade daquele que é servido, mas também daquele que o serve.107 Tornar-
se muito mais vinculante, pensando bem, um gesto no qual vejo esboçada a minha verdade, e não 
um gesto solicitado simplesmente por qualquer código comportamental, mesmo sendo sagrado. 
 
4.7 Vida passada 
A área do passado, com o bem e o mal que cada um conheceu e recebeu, é também muito 
importante no processo de atribuição de sentido da própria história, uma vez que o passado está 
ainda presente em cada vivente, particularmente naquilo que chamamos de resíduoemotivo 
depositado em cada uma das experiências vividas (como se pode constatar, em prática, em todos 
os exemplos citados). Tal marca afetiva predispõe a pessoa a agir e reagir em modo 
correspondente, mas sem tirar a liberdade (diferentemente daquilo que pensa padre Carlo). 
Torna-se portanto uma evidência fundamental para compreender a própria verdade e 
dispor-se liberalmente em relação ao futuro, conhecer o próprio passado e assumir diante deste 
uma atitude ativa e responsável (como não consegue ainda fazer a irmã Maria, nem mesmo o 
padre Carlo). 
Aqui recorremos a uma faculdade e uma atitude psíquica nem sempre considerada na sua 
validade formativa: a memória e a responsabilidade. “Ricordar” não é fato automático, ligado a 
uma capacidade puramente mental e a fatores independentes do caminho de amadurecimento do 
indivíduo. Ao contrário, recordar é sobretudo “fazer memória” significa integrar o próprio 
passado, não sofrer simplesmente aquilo que aconteceu, mais em qualquer modo retomá-lo em 
mãos para descobrir o sentido objetivo ou dar o sentido subjetivo ao acontecido, a vezes 
 
105 P. Sequeri, “Obediência como entrega a vontade de “O terceiro”, em a obediência torna “virtude”, Fossano 2000, 140 
106 Cf. A. Cencini “Dalla relazione alla condivisione. Verso il futuro… Bologna 2001. 48-56. 
107 Vejam a interessante interpretação do gesto de Jesus ao laver os pés, pelo pintor S.KODER, que representa no quadro um Jesus visto por trás 
totalmente curvado sobre os pés de Pedro, com o rosto invisível, que porém vem refletido na água da bacia onde Pedro imergiu os seus pés e 
exatamente - por um efeito ótico certamente quisto - sobre aqueles pés. O significado é claro: Jesus encontra a sua própria identidade (=o seu 
rosto) no gesto de servir. 
A Hora de Deus 
 
89 
CAPÍTULO 07 
revinvendo-o e reorientando-o, se possível, ou dando significado àquilo que parece absurdo ou 
significado positivo àquilo que parece haver um sentido negativo. 
Não é fácil nem automático viver estas diferentes situações da vida, na heterogeneidade 
das várias situações humanas, percebendo sempre e regularmente o sentido mais verdadeiro de 
cada situação. É um desafio contínuo, e a este desafio estam conexos a qualidade de vida e a 
possibilidade de vivê-la como formação permanente. 
Contudo a condição que o jovem, na formação inicial, foi treinado a verificar-se 
regularmente sobre estas sete áreas que vimos no tempo da primeira formação; tornando 
progressivamente familiar uma certa idéia de verdade a realizar dentro de si, conexa não só com a 
teologia ou com o dogma, mas também com a sua história e com a sua identidade, com a sua 
natureza e sensibilidade, com o próprio passado e o próprio limite, com a presença do outro e do 
Outro... 
Habituar-se ao sentido da verdade, na formação permanente, quer dizer aprender a ler 
quotidianamente todas estas realidades ou áreas vitais a luz daquela verdade que constitui o 
princípio fundamental ou a imagem ideal. Para que sejam verdadeiras e vividas na verdade, e o 
sujeito aprenda a ser ele mesmo verdadeiro, investigador e construtor de sentido. Será portanto 
uma verdade objetiva mas também subjetiva, como um sentido verdadeiro para acolher e 
descobrir como intrínsico à realidade e já presente nesta, mas ainda por dar e atribuir em certo 
modo a mesma realidade, com criatividade e liberdade. 
 
5. Redução ideológica e moralistica 
Talvez este é o verdadeiro problema hoje: não tanto a crise da verdade ou das fontes da 
verdade, não simplesmente a crise de autenticidade e credibilidade das várias agências 
responsáveis pela verdade a qual responder com a afirmação forte de verdade forte, não é a 
verdade objetiva ou enquanto tal que hoje se esquiva voluntariamente ou é fraca, mas é 
sobretudo a idéia de verdade que está sempre se reduzindo e restringindo ao âmbito ideológico, 
como se fosse algo somente intelectual, que refere-se esclusivamente a mente e se resolve com a 
adesão do indivíduo, a um pacote de verdades definidas por outros. Resumindo uma verdade à 
crer e basta e sem particular importância. 
 Ou então, uma outra redução: a verdade hoje risca de ser sempre mais entendida 
sobretudo ou esclusivamente em linha moralistica, como simples critério de referimento e de juizo 
de conduta para avaliar aquilo que é justo ou aquilo que não é, segundo um código 
comportamental na maioria das vezes definido por outros. Também neste caso, ou o que o sujeito 
sente externo a sí, não o entende ou não consegue intendê-lo na verdade intrínseca da realidade, 
como algo que se impõe pela sua verdade-beleza-bondade. Como se o âmbito da verdade e o 
confronto com a mesma, na vida do fiel se restringisse a um confronto mecânico e sem alma, por 
banir o exame de consciência (que hoje infelizmente ninguém mais faz...) por uma verdade 
totalmente impessoal somente para ser executada e com a qual deixar-se conduzir. 
O risco mais imediato de ambos os casos é o perder de vista a prospectiva global e 
existencial da idéia de verdade ou da sua realidade, mas o risco ainda mais grave e radical é de não 
chegar jamais a perceber, com estas interpretações redutivas, o nexo entre verdade e identidade, 
entre verdade e auto estima, entre verdade e a realização do eu, entre verdade e a caminhada de 
fé. Esquecendo em seguida totalmente o precioso ditado biblico sobre isso, segundo o qual a 
verdade é antes de tudo Alguém, é uma pessoa viva, com a qual estabelecer uma relação tanto 
quanto forte, e portanto Alguém e algo que abraça toda a vida, para acolher e amar, para dizer e 
para fazer, para anunciar e tornar conhecido; caminhando com ele, seguindo-o para sermos 
verdadeiros e beneficiarmos da verdade, finalmente livres graças a Ela (cf. Jo 8, 38). Ou 
esquecendo segundo um nível mais psicológico, de dar atenção as áreas de riscos, as áreas 
A Hora de Deus 
 
90 
CAPÍTULO 07 
particulamente estratégicas e fracas, aquelas onde mais facilmente risca-se de perder de vista a 
verdade, e consequentemente viver na confusão. 
 
6. Da confusão ao exílio e à desordem 
 Se em seguida aquele processo redutivo torna também estilo formativo (ou deformativo), 
que permanece no tempo, ligado a uma idéia abstrata de verdade, confusa com aquilo que se 
ensina aos outros e no qual são considerados até mesmo especialistas (« os doutores da lei»), 
então é facil chegar a consequência mais grave: o exílio do indivíduo de sua própria verdade. Risco 
muito mais frequente que aquela (de)formação criou sensibilidade e atenção para com a verdade 
pessoal como processo para construir dia após dia. Risco que correm os personagens dos nossos 
exemplos em diferentes modos e com êxitos vocacionalmente variados e descordantes. 
Com estes fenômenos frequentes hoje na relação com a verdade de si: 
- Congelamento da verdade dentro de um esquema rígido ou redução da verdade a uma ideologia 
que não comunica mais com a realidade e não transmite mais o sentido da própria identidade, 
nem pode puxar o caminho de crescimento ou se tornar uma boa notícia para anunciar aos outros 
(cf. padre Marco); com todas as consequências de crise de contato e comunicação com os outros; 
incapacidade de entender a cultura hodierna e acolher o ponto de vista do outro; crise de 
insignificância do próprio ministério (com consequente desânimo e insatisfação 
profunda) na qual alguns reagem respondendo negativamene, ou a atitude de auto 
suficiência ou superioridade; tendência a fechar-se em um certo fundamentalismo e desesperada 
negação de toda modernidade, ou fulga em um certo espiritualismo singular (feito de visões, 
locuções...); desânimo pastoral, consaço e desmotivação, com busca de segurança e gratificação 
em esperiências de grupos fechados com forte caráter emotivo; 
- Atitude de indiferenca e negação, senão de desprezo, por uma qualquer idéia de norma, de leis 
ou vínculo moral, como se a pessoa não conhecesse outro vínculo verdadeiro ou critériocomportamental, fora da própria interpretação da realidade (cf. sobretudo padre Ludovico) com 
uma relativa perda de sensibilidade moral, até o ponto de não ter mais, as vezes consciência do 
pecado diante a comportamentos transgressivos; como se estivesse desaparecido todo o caminho 
de formação moral feito anteriormente; 
- Percepção do presente bloqueado por fatos e situações do passado, no qual o sujeito ainda não 
está livre e que ainda não integrou-se (cf. irmã Maria e padre Carlo), com consequentes hábitos ou 
estilos de vida, ou tendências ou dependências não conformes a um certo projeto de vida (aqui 
podem entrar novamente certas dependências, de álcool, drogas, etc., ou tendências 
comportamentais desviantes, como atividades auto-eróticas ou estilos de vida egocêntricos e 
manipuladores do outro (a); 
- Descoberta do próprio valor em âmbitos secundários e não centrais (sucessos pessoais, afirmação 
do eu, carreira, sinais de estima alheios...), e percepção da própria pessoa deformada por pressões 
instintivas que impõem-se e determinam correspondentes hábitos, estilos de vida, sensibilidade 
moral, comportamentos, relações e escolhas vocacionais (cf. padre Carlo e padre Ludovico); é o 
caso do padre/consagrado carreirista ou que busca promoção, visibilidade, fama a todo custo ou 
do padre alistado totalmente identificado com funções sociais no qual se sai bem. 
- Leitura banal e superficial da realidade, no qual a verdade é muito rapidamente e 
superficalmente conexa com os fatos sem nenhum aprofundamento criativo e personalista, nem 
percepção de um sentido posterior (cf. padre Ludovico e padre Luigi) è o caso do 
padre/consagrado sem fé, concretamente, como se a sua fé fosse somente um pacote de 
verdades teóricas, porèm astratas, desarticulada da vida e da pessoa ou acreditadas somente com 
o intelecto; 
- Situação final de distração radical de um sujeito atraido por diversas e talvez em opostas 
direções, distrações que leva naturalmente a confusão e a desordem no modo de ser e de agir, de 
A Hora de Deus 
 
91 
propror-se aos outros e enterpretar o ministério, por medo da própria identidade e de tentativas 
desastradas de disfarces, de pensar e de se relacionar com Deus e com os outros... ao ponto de 
tornar criador de desordem, sempre mais em uma situação de exílio e distanciamento da sua 
verdade e da sua vocação. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 8 
Crise de Maturidade Afetiva 
 Este poderia ser um capítulo infinito, talvez o título de um novo livro. Por isso somos 
obrigados a meditar somente sobre alguns elementos mais significativos deste argumento. 
 Seguiremos aqui um esquema diferente daquele usado para apresentar e comprender a 
Crise na busca da verdade: aqui, de fato os exemplos se refleteriam, porém não é necessário 
exemplificarmos como no caso do capítulo precedente. O mais importante para um argumento 
como este é – se for o caso - a capacidade de organizar o material – muito rico – em torno das 
hipóteses de trabalho ou a uma teória que nos ajude a colocar um pouco de ordem neste 
embaraçado episódio da fragilidade afetiva do cansagrado/da consagrada. 
 Procuraremos neste contexto ver o sentido da crise afetiva e afetivo-sexual a partir daquilo 
que é a afetividade-sexualidade, e consequentemente o seu princípio e conteúdo; enfim o seu 
desenvolvimento e o seu dinamismo. 
Obviamente com a consciência que muita coisa ficará fora deste mundo complexo e 
também doloroso, em torno o qual nós jogamos grande parte da nossa credibilidade em frente ao 
mundo. 
 
1. Afetividade-sexualidade 
Iremos antes de tudo propor um quadro teórico essencial sobre a afetividade e a 
sexualidade, e sobre a afetividade-sexualidade o quanto nos serve para delinear as possibilidades 
e as modalidades concretas contrárias a este projeto ideal. 
 
1.1 O amor ao centro da vida 
Creio que não faça problema a ninguém afirmar que o amor está ao centro da vida. Ele está 
em geral ou em teória, porém está sobretudo na vida e nos acontecimentos pessoais do único 
indíviduo, ele está no centro seja a nível humano ou psicológico, talvez esteje ainda mais no 
A Hora de Deus 
 
92 
CAPÍTULO 08 
centro a nível teológico de modo particular na teologia cristã. Finalmente nós cristãos sabemos 
que AMOR é o nome de Deus (cf 1 Jo 4,8), e uma vez que cremos que fomos criados por Ele a sua 
imagem e semelhança, amor é também o nosso nome, ou seja, é aquilo que nós somos e aquilo 
que nós somos chamados a ser, a nossa identidade e a nossa vocação. E se o amor é a alma de 
cada vocação, o é também da vocação religiosa e sacerdotal: é a voz que chama e ao mesmo 
tempo o ideal que nos atira, é a verdadeira motivação e finalidade do chamado sacerdotal e 
religioso, ou o “lugar” no qual se realiza uma tal vocação. 
Então se as coisas são assim, existe uma única infidelidade: aquela do “não amor” ou do 
amor fracassado, ou da resposta que não sabe ou não pode dizer e demonstrar o amor de Deus 
que está chamando (que ama), o torna opaco, sem vida, quase sufocando-o dentro de si, 
anulando-o e abortando-o, mesmo quando a pessoa não é totalmente ciente e responsável. 
Tão quanto possível esta infidelidade ou fraqueza se se considera que a afetividade é por 
natureza contígua a uma outra aréa estratégica do organismo intrapsiquico humano: a 
sexualidade. Desta forma não se trata somente de proximidade, mas de continuidade, afetividade 
e sexualidade estão entres elas inevitavelmente ligadas sem solução de continuidade. É, no fundo, 
a experiência comum, mesmo se uma tal ligação não é sempre explícita, e muitas vezes mesmo 
inconsciente ou discretamente escondida (do próprio sujeito). Se a afetividade 
indica o amor e o ser humano como alguém capaz de amar, a sexualidade é a enérgia 
que exprime o amor e quando distingue a capacidade de amar do homem e da mulher; de um 
lado a sexualidade adquire uma verdadeira qualidade humana somente se orientada, elevada e 
integrada no amor, cresce e se realiza somente na liberdade de acolher o amor e doar-se, por 
outro lado a sexualidade “incarna” o amor e o torna fecundo. Sendo assim podemos falar de 
afetividade-sexualidade. 
E como o amor está no centro da vida (e de cada caminho vocacional), assim assume uma 
posição central e estratégica até mesmo a sexualidade. Aprofundaremos este aspecto uma vez 
que pode iluminar a nossa reflexão. 
 
1.2 Ordo Sexualitatis 
Existe um outro aspecto importante que gostaria de sublinhar neste tempo de “Self 
Service” em todos os campos. A sexualidade tem seu código interno, uma especie de DNA que 
revela sua natureza e suas funções e explica a sua centralidade na vida de todos, sejam 
celibatários ou casados, solitários ou conviventes. Não é a última ilha (dos desesperados) que ficou 
na mão do indivíduo e ao indiscriminado alívio dos seus instintos subjetivos com livre saída sem 
algum controle social ou moral, porém tem sua síntese fundada em última analíse sobre a 
natureza humana, e que é interessante ao homem, a cada homem, conhecê-la e observá-la 
Nós o vemos de dois convergentes pontos de vista: um genericamente psicológico que 
procura ver a sexualidade em relação com o sentido da vida, os seus valores e os conteúdos que 
estruturam-na; o outro ponto de vista rigorosamente mais psicanalítico e que considera a 
sexualidade em relação com as suas necessidades e seguindo uma linha mais funcional-dinamica. 
 
a) Perfil psicológico: a sexualidade como microcosmo dos significados. 
Segundo a análise psicológica, a sexualidade é: 
1) Dinamismo, ou seja, energia, portanto alguma coisa infinitamente preciosa que ativa a 
pessoa e a coloca em relação ou a torna capaz de relacionar com o outro; e ainda, esta energia 
quer dizer que a sexualidade não é somente um dado de fato, biológico ou psicológico, como 
quelquer coisa que se impõe ou impõe necessariamente um certo exercício do instinto genital, 
mas é também e sobretudo um dado a construir, ou seja, uma realidade educacional que interpela 
A Hora deDeus 
 
93 
CAPÍTULO 08 
imediatamente a liberdade e a responsabilidade do homem, ou uma parte que está integrada no 
todo ou ainda colocada ao seu serviço. 
2) Porém esta mesma realidade é composta, fruto de vários componentes ou feita de: 
- Genital: de orgãos predispostos a relação e uma relação fecunda, que dizem já a capacidade 
receptiva e oblativa do ser humano como tal, além daquela unitiva-relacional. 
- Corpóreo: cada corpo é sexuado em cada um dos seus componentes e dotado de uma 
identidade específica de generes (masculino ou feminino); tal atribuição é a base da atração de um 
sexo ao outro, mas é também da capacidade de relação com o outro. 
- Afetividade: a sexualidade, como eu disse, adquire verdadeira qualidade humana somente si 
orientada, elevada e integrada pelo amor; cresce e se realiza somente na liberdade de acolher o 
amor e de doar-se ao outro, senão torna-se algo sub-humano de um lado, e do outro o 
relacionamento sexual aparece simplesmente como um monólogo e não como um diálogo. Por 
sua vez o corpo sexuado manifesta imediatamente, por sua própria natureza, o amor de onde ele 
vem, como um dom que é a raiz do seu ser e ao mesmo tempo o dever que o espera108. 
- Espiritualidade: a sexualidade é também espiritualidade, não é somente 
matéria e impulso, mas realidade que transcende ambos os aspectos e entende o 
sentido profundo. É espiritualidade não no sentido religioso do termo, mas como elemento 
unificador que faz a síntese da dualidade que são típicas da sexualidade, e ainda como exigência e 
capacidade de leitura destes componentes para descobrir neles uma misteriosa verdade, aquela 
verdade da vida humana que se torna particularmente evidente nela mesma e inscrita no corpo. 
Poderíamos dizer que na sexualidade se encontra em um pequeno “in nuce” – “dado”, aquele 
sentido da vida humana que é possível descobrir com uma análise completa da natureza e da 
existência humana. Eis alguns traços existênciais desta verdade: o corpo sexuado. 
- Revela o homem o seu vir de um outro e o seu ir em direção ao outro, o seu núcleo 
radicalmente dialógico. 
- Ajuda a entender o sentido da vida, dom recebido que tem por sua própria natureza uma 
tendência a se tornar um bem doado. 
- “contribui - dentro da prospectiva de um crente, a revelar Deus e o seu amor criador”109 
aquele Deus que amou o homem até fazê-lo capaz de um amor doador de vida, que o torna 
semelhante a Ele. 
3) Parece então evidente que a natureza misteriosa da sexualidade, não somente enquanto 
escapa de qualquer leitura banal e superficial de si mesma, mas ainda no sentido mais profundo 
da idéia de mistério, como centro, ponto de encontro ou lugar de composição e integração das 
polaridades aparentemente contraditórias, seja no interior ou no exterior do indivíduo, como 
microcosmo de significados essenciais da vida humana110. 
4) A sexualidade, de fato, é memória, como eu disse, inscrita no corpo humano, do seu 
proceder “ab alio – do outro” e complexo de energia que abre “ad alium – para o outro”, portanto 
é ao mesmo tempo necessidade (deficit) e potencialidade (recurso), bem recebido e bem doado, 
feminilidade (como capacidade receptiva e de proteção do dom) e masculinidade (como 
capacidade oblativa e promoção do dom), invenção divina e realidade humana, reconhecimento e 
gratidão, centelha pascoal e instinto humano...: a sexualidade consente recompor estas tensões 
sem excluir um dos dois polos; por isso mesma é rica em energia e ao mesmo tempo elemento de 
conexão do homem ao seu centro. Neste sentido, ou seja, sobre o plano puramente psicológico, 
precisa dizer realmente que a situação do consagrado para o reino parece menos favorecida em 
relação àquela do casado: a falta daquele particular tipo de relação com a figura feminina com a 
qual se estabelece uma intimidade conjugal, de fato, parece privar o consagrado de uma certa 
 
108 Cf João Paulo II, Audiência geral, 9 de janeiro de 1980, 4 
109 Sagrada Congregação Para A Educação Católica, Orientações Educativas sobre o Amor Humano, Linhas Gerais para Uma Educação Sexual, Roma 
1983, 23. 
110 Já citado na catequese de João Paulo II de 1980 que insiste fortemente sobre este aspecto. 
A Hora de Deus 
 
94 
CAPÍTULO 08 
possibilidade de interação com o feminino na sua própria personalidade, feminino como liberdade 
de acolhida do dom, como sensibilidade ao dom, como reconhecimento da vida que está aberta a 
gratidão, como memória e proteção do dom. Isto pode levar a um menor desenvolvimento deste 
comportamento feminino com consequências de endurecimento e de fechamento de si mesmo, 
incapacidade de reconhecer o bem recebido com reações frequentemente inesquecíveis (quando 
infantil e adolescente) levando a uma carência de atenção e de afeição da parte dos outros. 
5) A sexualidade é um lugar, em particular de classificação do gênero de atribuição, lugar, ou 
seja, onde a identidade encontra um precioso ponto de referimento (até mesmo biologicamente 
fundado) do qual o outro alcança o seu ponto mais evidente. A diferença dos sexos indica a 
diversidade radical, é o símbulo por excelência das diferenças humanas, é quase uma escola para 
aprender a respeitar e valorizar o “tu”, “cada tu” na sua diferença, unidade e beleza, superando 
cada tentação de homologar o outro ou de estabelecer uma relação somente com o próprio 
semelhante. A identidade sexual é fruto desta complementaridade relacional, é muito mais firme 
e segura quanto mais aberta incondicionalmente para o outro que a si mesma. 
6) Então, quando a identidade se coloca em diálogo com a “alteridade” (o 
diferente) a relação inter-pessoal se torna fecunda, e é uma fecundidade em várias direções. Em 
se tratando do “eu” e do “tu”, do “nós” e do “outro”: antes de tudo, porque se afirma e reforça 
sempre mais o mesmo sentido da própria identidade e a do outro (alteridade), pois cresce em tal 
modo a dimensão relacional do ser humano como elemento essencial do homem, consentindo 
também ao padre celibatário de esperimentar aquela forma particular de intimidade com o outro 
que é a amizade111 e visto que, em fim, a relação vivida deste modo não se fecha sobre dois, mas 
se abre de fato para o bem de uma terceira pessoa, como pode ser os filhos no matrimônio, ou o 
bem dos outros, de muitos outros ou ainda de quem em particular é mais tentado a não sentir-se 
amável e ao contrário é atingido por um amor que o acolhe. Neste sentido a sexualidade atingiu o 
seu objetivo natural e talvez mais qualificada: a fecundidade plena. Bem, a fecundidade é muito 
mais imediata e rapidamente verificável como índice qualificativo junto ao fruto da sexualidade no 
caso da pessoa que é casada (pai ou mãe de filhos gerados em um ato de amor) com relação ao 
celibatário, o qual poderá as vezes se iludir de ser casto (ou melhor: continente) sem ser, na 
realidade, nem pai nem mãe, sem ter “gerado” nada, ou seja, sem ser verdadeiramente celibatário 
para o Reino. 
7) Finalmente, ter então uma sólida identidade sexual para o celibatário como também o 
casado significa respeitar esta ordem sexual (ordo sexualitatis) de forma mais concreta. 
- integrar os quatro componentes e as várias polaridades da sexualidade em torno daquela 
misteriosa verdade (veritas), inscrita na mesma sexualidade: a vida humana é um bem recebido 
que tende por sua própria natureza se tornar um bem doado, 
- para sair de si mesmo e ser capaz de relacionar com o outro, com o diferente como tal, e uma 
relação intensa, de amizade, 
- e de uma relação fecunda em três níveis: do “eu” e do “tu”, do “nós” do outro.112 
 
b) Perfil psicoanalítico: a sexualidade como microssistema da personalidade 
 
Todos sabemos como a psicanálise freudiana descobriu ou redescobriu a importância da 
sexualidade, até chegando a desfazer os excessos desta reavaliação e acusando-se de 
pansexualismo. No entanto, é em cada caso uma conquista importante e irrenunciável aquela de 
Freud sobreo lugar singular que a sexualidade ocupa dentro da personalidade, lugar onde 
podemos de certa maneira identificar assim: 
 
111 “Um marco de garantia de um sadio sacerdote celibatário é a sua capacidade de amizade sincera e íntima com homens e mulheres, com outros 
sacerdotes e com os leigos”(D.Cozzens, Verso un volto nuovo del sacerdozio, Brescia 2002, 41.) 
112 Esta descrição da « ordo sexualitatis » foi tirada A. Cencini, Quando a carne é fraca. O discernimento vocacional diante da imaturidade e 
patologias do desenvolvimento afetivo-sexual – Milão 2004 – 19-22. 
A Hora de Deus 
 
95 
CAPÍTULO 08 
“Se a personalidade é um grande sistema, que organiza todo este conjunto de características 
que pertencem a uma pessoa, a sexualidade não é uma característica, mas nem mesmo um 
simples sub-conjunto de características, mas um verdadeiro microssistema da personalidade. Seria 
como dizer: na sexualidade se encontra “em pequeno” aquilo que “em grande” – isto é: a nível 
complexo – se encontra toda a personalidade.113 
Seria, assim dizendo “o outro lado da medalha” de tudo aquilo que vimos no parágrafo 
anterior: como na sexualidade encontramos “in nuce” “em dado” o sentido e a gramática da vida 
(“microcosmo de significados”), assim reencontramos uma ligação direta com todos as 
necessidades humanas (microssistema da personalidade). 
Concretamente, se em nós existe, como nos recorda a psicanálise, uma série de 
necessidades inatas114, da aceitação social à agressividade, da necessidade de sentido 
à percepção positiva de si, todas estas necessidades embora em modos diferentes, terminam por 
estar presentes no comportamento sexual. De um certo modo “aquilo que chamamos sexualidade 
vem da configuração original que em uma pessoa específica é assumida por aquelas 21 
necessidades fundamentais”115., Por exemplo, é claro que a agressividade encontra no exercício 
do instinto genital uma forma expressiva normal (“fisiológica”, poderíamos chamá-la assim); mas 
também a necessidade da identidade posivitiva busca e encontra no sucesso da relação com o 
outro sexo uma confirmação importante; assim também a necessidade de sucesso, de ser aceito 
pelo outro, de excitação, de não sentir-se inferior ... são ativos e mais ainda quando já se tenha 
envolvido em ato sexual. 
Neste sentido, podemos então dizer agora que a situação do celibatário aparece por sua vez 
diferente daquela do casado olhando por este ponto de vista: o casado dispõe de uma 
possibilidade maior, atravez do exercício do impulso genital, de ativação e de gratificação do 
próprio mundo impulsivo em seu conjunto, em relação ao celibatário, e que tudo isso sem dúvida 
consente – pelo menos em teoria – um bom funcionamento psicofísico (que é uma coisa diferente 
da maturidade, mas sendo sempre um elemento que pode dispor a maturidade). 
O celibatário, dizendo realisticamente, em parte desvaforecido, quase mais pobre, ou melhor, 
encontra-se em uma situação de risco, já que a renúncia ao exercício do instinto genital poderia 
também implicar uma menor possibilidade expressiva de outras necessidades fundamentais, não 
somente aquele genital-sexual. O risco neste caso seria aquele de uma tensão (não gratificação) 
que no início é inconsciente, mas depois poderia como o passar do tempo tornar insuportável ou 
de uma energia reprimida (ou negada na sua necessidade de satisfação)em uma perpétua busca 
de gratificações alternativas e de várias compensações, muitas vezes sem saber ou até mesmo 
fora do controle do sujeito (os famosos subtérfugios de um eu frustado), seja no âmbito da 
afetividade-sexualidade ou das outras necessidades que ficam... à sombra. Veremos melhor este 
aspecto mais a frente. 
 
2. Ambivalência das crises afetivo-sexuais 
 
Uma consequência imediata deste paragráfo que acabamos de concluir é que a crise que 
acontece no campo afetivo-sexual é uma crise que devemos decifrar e não somente lê-la em um 
modo unívoco e superficial, como se fosse somente uma crise sexual (ou a conhecida crise 
afetiva), mesmo quando explode claramente no âmbito sexual. Por isso mesmo, por causa desta 
centralidade e da energia afetiva-sexual na geografia do nosso mundo interior do qual já falamos. 
Na verdade, se a sexualidade ocupa exatamente um lugar central, que a põe em relação 
com todas as outras áreas da nossa personalidade, as vezes a própria sexualidade poderá 
 
113 S. Guarinelli, O celibato dos padres. Porque ainda escolhê-lo ? Milão 2008, 39. 
114 Seriam mais ou menos uns vinte estas necessidades inatas, segundo a classica análise de Murray, substancialmente aceita pela psicólogia 
moderna. Cf . H.A. Murray, Exploration in Personality, New York 1938. 
115Guarinelli, O celibato dos padres. 43. 
A Hora de Deus 
 
96 
CAPÍTULO 08 
constituir um lado extremo e externo de uma crise que nasceu em outro lugar, (por outras 
necessidades), enquanto outras vezes poderá ela mesma ser a verdadeira raiz da crise, mas que 
manifesta-se em uma outra área da personalidade. Em outras palavras, poderá criar estas duas 
singulares situações. 
 
2.1 Conflito sexual com raízes não sexuais 
 
Um problema que nasceu em uma área qualquer, por exemplo naquela das relações 
interpessoais, cedo ou tarde influenciará na sexualidade da pessoa. É aquilo que acontece com um 
indivíduo que se sente – mais ou menos realisticamente – não suficientemente apreciado ou 
mesmo rejeitado pelos outros e que se fecha em si mesmo, até mesmo se deixando levar por 
práticas auto- eróticas. É evidente que neste caso o problema não seria de natureza 
afetivo-sexual, mas tendo como raiz uma natureza relacional, onde a masturbação não 
seria procurada por satisfação erótica, enquanto símbulo de autonomia para dizer a si mesmo: “eu 
não preciso dos outros, posso fazer tudo sozinho, posso mesmo obter a gratificação sexual”. Deste 
modo evitaria de enfrentar o real problema (conflito entre autonomia e dependência), e até 
tornaria insolúvel o problema da masturbação. 
Mas também as dificuldades na vida espiritual como pode ser um declínio na qualidade de 
oração e de relacionamento com Deus, isso inevitávelmente trará reflexos negativos sobre o modo 
de viver a própria sexualidade, menos ainda o consagrado terá força de ânimo para viver o seu 
celibato e enfrentará a inevitável renúncia ligada por exemplo a solidão. 
Um relacionamento quase direto parece existir entre a estima de si e a necessidade 
afetiva-sexual, no sentido que uma pessoa que não tem uma percepção substancialmente e 
estabilmente positiva de si, será também particularmente sensível aos sinais de afeto e de 
consideração sobre si mesmo, exatamente porque tais sinais respondem a uma exigência 
profunda que ela sente dentro de si que ainda não foi satisfeita (se alguém gosta de mim, quer 
dizer que tenho alguns aspectos positivos e apreciáveis). Por isso um padre que não resolveu o 
problema da estima de si, será também particularmente vunerável no plano afetivo e também 
sexual. Eu creio ainda poder dizer com base em experiência direta de acompanhamentos de 
sacerdotes em dificuldades com o próprio celibato, que não é totalmente incomum esta situação 
ou uma crise afetiva-sexual determinada por uma pobre estima de si, sem dúvida esta situação é 
presente na maioria das crises celibatárias. 
É portanto muito importante recordar que o conflito de aparência sexual podera ter raízes 
não sexuais. As vezes a pessoa é consciente deste conflito, mas não consciente das raízes. 
 
2.2 Conflito não sexual com raízes sexuais 
 
Se pode então esperar também o contrário: uma sexualidade perturbada por sua vez 
pertuba o modo de relacionamento do celibatário com os outros e também com Deus, assim 
como outros aspectos da sua vida, da sobriedade no uso das coisas à liberdade do dom de si. 
É o caso, por exemplo, de um problema de identidade ligada a própria tipificação sexual, 
ou de homossexualidade.Tal embaraço ou dificulade ou “incerteza” interior que leva o indivíduo a 
ter atração pelas pessoas do mesmo sexo, pode determinar em si uma consequente intolerância, 
agitação, inquietação diante do outro sexo ou diante da diversidade como tal e ainda uma (mais 
ou menos) forte tendência a priveligiar a relação com o semelhante a si, quase homologando o 
outro a si. Parecerá então um problema puramente relacional, ou mesmo simplesmente 
comportamental e exterior de simpatia ou impatia, enquanto – na realidade - consolida as suas 
raízes na área sexual. 
Outro possível exemplo, não raro nos nossos ambientes é aquele do celibatário consagrado 
que vive um tipo de celibato técnico, ou seja, somente comportamental, uma simples continência, 
A Hora de Deus 
 
97 
CAPÍTULO 08 
mas no fundo do seu coração não é casto, vive de amores ilícitos em sua fantasia, compensando 
assim a renúncia que fez (talvez se auto justificando) e demostrando uma não resolvida 
dependência do impulso sexual que não pode deixar de satisfazer mesmo se somente na 
imaginação. Tal indivíduo pode também permanecer relativamente tranquilo na sua própria 
consciência, porque o problema não aparece exteriormente e o seu bom comportamento (ou a 
aparência) o salva. Tanto mais que, se o seu estilo relacional - como se negasse a si mesmo o 
problema - é o estilo daqueles que parecem ter algo contra o outro sexo, de quem mostra 
superioridade e quase um desprezo pelas mulheres, de quem zomba do sentimento e exclui 
qualquer possibilidade de apaixonar-se. A este parece improvável, em outras palavras, um 
assexuado, que ninguém diria ter problemas na área da sexualidade. E, no máximo, 
ele diria que tem ainda um conflito na área relacional, e que é um pouco frio e 
distante, e às vezes até mesmo arrogante e rude. Enquanto, ao contrário é simplesmente um 
homem que tem medo da propria sexualidade, uma espécie de analfabetismo nos seus 
sentimentos, talvez alguém que não poderia viver o próprio celibato (entendido somente como 
observação exterior) sem aquela compensação da fantasia e que torna falsa a sua opção 
celibatária. 
Em tais casos, portanto, o conflito de aparência não sexual teria raízes sexuais. Sempre sem 
o consentimento profundo do sujeito em questão. 
Por um lado, então, a sexualidade é uma caixa de ressonância para os problemas pessoais 
nascidos em outros lugares, por outro lado se esconde, quase se comuflando, disfarçando e 
escondendo debaixo de falsa pele: esconde e se oculta, é perversa e permeável. Por isso mesmo é 
um elemento muito útil e confiável para monitorar e acompanhar o próprio crescimento: é como 
um termômetro que mede a maturidade pessoal em geral, se for o caso, indica a febre, embora 
nem sempre pode especificar a origem, de fato, às vezes parece enganar-se sobre a sua raiz, mas 
em qualquer caso, que cada um tenha responsabilidade e se esforçe para compreendê-la. 
 
2.3 Interpretação dos conflitos 
Eis porque se deve ser sempre muito cauteloso quando se interpretam as condutas e 
inconveniências sexuais. É importante saber que na maioria das crises afetivo-sexuais de pessoas 
consagradas, na origem não tem uma motivação afetivo-sexual, mas um outro problema qualquer 
não claramente detectado, revelado, e que acabou por camuflar-se, disfarçar-se na área afetiva-
sexual, ficando ali mesmo, tornando progressivamente difícil e as vezes até impossível a vida 
celibatária ou a abservação da castidade. 
É na raiz deste problema que se deve intervir e não somente (e as vezes inutilmente) sobre 
as consequências. Tanto quanto ingênuo e enganoso, anacrônico e não científico, seria nesses 
casos, atribuir a causa de todos os problemas dos padres e dos consagrados ao celibato 
eclesiástico. Seria ignorar as características que acabamos de mencionar sobre a sexualidade e, em 
seguida, indicar tratamentos e remédios errados e improdutivos. 
E é isso que acontece se alguém segue simplesmente os números oficiais divulgados, e a 
partir do qual – com efeito – surge esta impressão de que em grande parte no âmbito sacerdote-
religioso seja uma crise afetivo-sexual116. Os não esquecidos abusos e escândalos sexuais do clero 
norte-americanos (entre outros) têm evidenciado a desconcertante realidade trágica de uma crise 
grave, também em termos numéricos: entre 1950 e 2002117 os 4% dos 109.694 padres dos USA, 
para um total de 4.392 padres (4.3% diocesanos, 2.5% religiosos) foram acusados em forma 
credível de violência sexual contra 10.667 menores (entres os quais 2.000 crianças), sendo que 
 
116 Segundo os dados publicados pelo escritório central de estatística da Igreja, a motivação alegada de 94,44% dos 8.287 presbíteros que 
abandonaram o sacerdócio no período de 1964 a 1969, ou seja no período de máximo “exodo” foi o celibato. A. Cencini - Per amore. Bologna 96, 68. 
117 O surto foi entre os primeiros anos da década de 60 até a metade da da década de 80: o auge foi nos anos 70. Estes dados aqui foram tirados da 
nota sobre a crise na Igreja Católica norte-americana, publicado em 26.02.2004. 
A Hora de Deus 
 
98 
CAPÍTULO 08 
81% eram masculinos e 19% feminino (portanto na sua grande maioria, mais de ¾ destes abusos 
foram de natureza homossexual)118. 
Certamente a causa deve ser procurada, antes de tudo, no âmbito da afetividade-
sexualidade e da falta de formação (ou uma insuficiente formação) da maturidade, na 
incapacidade de descobrir os sinais e alarmes neste sentido (confusão sobre orientamento sexual, 
narcisismo, interesses e comportamentos infantis, falta de relação com os colegas, 
desevenvolvimento sexual anormal, e etc.) incrível imprudência e falta 
de discernimento vocacional em determinadas decisões para recolocar o 
padre com disfunções sexuais no apostolado direto. 
Porém a mesma reportagem destacou uma série de outros casos que tiveram impactos de 
forma diferente sobre esta crise, quase como a raiz de tudo, tornando-se uma crise de dimensão 
muito grande. Por exemplo, o tom de má formação em geral, seja uma formação inicial ou até 
mesmo permanente, como também a perda de certos princípios fundamentais para a formação de 
uma verdadeira personalidade sacerdotal, ainda a influência nos seminários de um clima cultural 
(como modelo antropologico e valores fundamentais) longe do Evangelho, a entrada em particular 
de uma cultura cada vez mais evidente como cultura gay (o relatório fala de uma exaltação do 
comportamento homossexual) aceita passivamente, levando a um certo “descorajamento” aos 
jovens heterosexuais de se tornarem padres119, ou ainda o fato de incumbir e formação afetiva-
sexual, ou a recuperação de presbíteros abalados pela crise à profissionais leigos não exatamente 
em sintonia com uma certa antropologia cristã e etc. 
 
3. Algumas formas de imaturidade afetiva-sexual 
 
Neste sentido já dei algumas exemplificações, veremos agora este fenômeno de uma 
forma mais sistemática. Vou dividir as formas de imaturidade em dois grupos: primeiro, um grupo 
ligado ao desenvolvimento afetivo-sexual da pessoa e um outro relacionado com os conteúdos da 
maturidade afetiva-sexual120. No fundo, no fundo tais distinções retoma significativamente a 
distinção proposta anteriormente quando, dentro do “ordo sexualitatis” nós falamos da 
centralidade do impulso afetivo-sexual na nossa geografia intrapsiquica em duplo sentido: a 
sexualidade come microcosmo de significados e a sexualidade come microssistema da 
personalidade. Por isso poderei repetir alguns pontos. Partiremos dos problemas relacionados ao 
desenvolvimento. 
 
3.1 Segundo o nível evolutivo 
 
Tal nível está totalmente ligado com a interpretação da sexualidade como microssistema 
da personalidade, no qual, logo, podem refletir-se como problemas ralacionado ao 
desenvolvimento nos seus vários aspectos e como uma evolução que abraça toda a vida da pessoa 
e não somente as primeiras fases. Este estado de imaturidade pode ser devido: 
- a umanão correta superação de certas passagens evolutivas na primeira educação, surpresas nos 
primeiros anos da vida, com algumas dificuldades na identidade sexual; 
- a um fenômeno de “não crescimento” da sexualidade nos estados imediatamente sucessivos, 
com conseguente fixação em uma certa fase evolutiva; 
 
118 Para cerca de 78% aproximadamente as vítimas tinha uma idade entre 11 e 17 anos e 16% entre 8 e 10 anos e um pouco menos de 6% tinha 
menos de 8 anos. Portanto não seria justo falar de “padres pedófilos” mas seria “efebofilia”(atração sexual de adultos por adolescentes). 
Infelismente o “Diagnostic and Statistical Manual of the American Psychiatric Association (IV) menciona a pedofilia como desordem psyquica 
específica, mas não efebofilia, enquanto na realidade parece diferente e específico o quadro etiológico e psycogentico. 
119 Relatório sobre a Crise, 242. E aindo o que sustenta COZZENS, em: Em direção a uma nova face do sacerdócio. 
120 Eu aprofundei este aspecto no meu livro “Virgindade e celibato hoje” A. Cencini, Bologna 2005. 63-75 
A Hora de Deus 
 
99 
CAPÍTULO 08 
- a un desenvolvimento não adequado a idade e ao estado existencial, ou a exigências pastorais ou 
a novas situações ambientais, com relativas regressões à um estado precedente do 
desenvolvimento; 
- a uma insuficiente integração entre escolha de vida e renúncia correspondente na esfera sexual, 
com consequentes fenômenos de compensações. 
 Podemos tentar de agora em diante visualizar em um esboço os vários tipos de 
imaturidade sexual ligada ao processo evolutivo. 
 
 
 
Quadro 5 – A imaturidade sexual à nivel evolutivo 
Fases Problemas evolutivos Sintomas / sinais Mecanismos defensivos 
Infância Identidade sexual 
Homossexualidade 
estrutural 
Identificação projetiva-
defensiva 
Pre-adolescência 
adolescência 
Não crescimento da 
genitalidade sexualidade 
Narcisismo auto 
erótico (Ciúmes, 
masturbação, 
curiosidade sexual), 
homossexualismo 
não estrutural, 
sexualidade virtual 
Fixação/obstinação 
Primeiros 
sucessivos 
estágios 
existênciais 
Desenvolvimento afetivo 
sexual inadequado 
Procura de 
intimidade física ou 
episódios de 
encatamentos 
(enamorar) 
Regreção 
Segundos 
sucessivos 
estágios 
existênciais 
Insuficiente interação 
entre escolha e renúncia 
Busca em outras 
áreas a falta da 
gratificação sexual 
Compensação 
 
Veremos uma a uma estas possibilidades: 
a) Identidade e orientação sexual (homossexualidade) 
Expressão típica deste problema evolutivo é a homossexualidade, relacionada – a verdadeira 
homossexualidade – a uma falta de identificação na primeira infância com o genitor do mesmo 
sexo (homossexualidade estrutural) ou com experiências no período da pre-adolescência que 
impediram a passagem da fase homoerótica àquela heteroerótica (que seria homossexualidade 
A Hora de Deus 
 
100 
CAPÍTULO 08 
não estrutural). A primeira é verdadeira homossexualidade, aquela que tende a permanecer como 
tendência na pessoa (que pode aprender a controlá-la) e cuja presença desaconselharia, segundo 
a “Instrução da Congregação para a Educação Católica”, a admissão ao caminho formativo; 
diferentemente da outra situação que pode ser tratada e com bons resultados121. As vezes estas 
formas de homossexualidade podem aparecer idênticas ao externo e não é fácil 
de discernir. 
 A diferênca entre as duas formas de homossexualidade é substancialmente ligada a estes 
tres âmbitos de análise. Vamos apresentar-lhes sinteticamente122. 
 
Tendência homossexual em si. 
A homossexualidade estrutural nasce nos primeiros anos de vida, como acabo de dizer, por 
causa da falta de identificação com o genitor do mesmo sexo por vários motivos; é relacionada 
com um correspondente e explícito desejo de ralacionamento genital-sexual (que torna precária a 
relação e difícil a fidelidade); influi toda a personalidade com notável força de pressão e é 
constantemente presente; pode até condicionar a escolha vocacional (como modo de defender-se 
da mesma ou como sublimação da vocação); cria uma intorelância geral da diversidade, como uma 
rejeição do outro, do diferente de si mesmo. A verdadeira homossexualidade em si não significa 
somente atração por pessoas do mesmo sexo, quando há dificuldade em interagir com o diferente 
de si mesmo, para aceitar o outro incondicionalmente abandonando-se e deixando-se ser formado 
pelo diferente, sem desviar o olhar de si mesmo, sem pretender homologar sutilmente a realidade 
a si123. 
A homossexualidade não estrutural, pelo contrário, normalmente nasce na idade pre-
adolescente (talvez por brincadeira, por curiosidade, por exibicionismo ou por violência sofrida); 
determina uma atração pelo mesmo sexo motivada por tendências não necessariamente genitais-
sexuais, mas por outros problemas não resolvidos (por exemplo: por sensações de inferioridade, 
ou por medo do sexo oposto, por uma necessidade de intimidade, por temor da diversidade ...); 
não invade toda a personalidade nem é sempre presente, e é ralativamente controlável pelo 
sujeito, em particular não cria o problema (anti)relacional. 
 
Relação da pessoa com a propria tendência homossexual 
A homossexualidade estrutural considera normal a própria tendência, justificando-a, não 
sofre com ela, nem a combate, nem ver por que a teria de modificá-la, considera-a como uma 
simples variante, porém, de fato a padece, tende além disso a negar os aspectos conflituais 
relacionados à mesma tendência que vimos no primeiro ponto. A sua atitude, postura é 
egossintônica em relação a sua própria orientação sexual, a sua própria homossexualidade. 
A homossexualidade não estrutual ao contrário reconhece a própria tendência e a vive 
como um corpo estranho a si mesmo (non se identifica com ele), como algo que se sofre e que não 
o quereria sofrer, e vive diante de Deus como uma fraqueza e como aquilo que o mantém 
consciente dos seus limites, algo em que consegue ver os aspectos objetivamente carentes e que 
combate cada dia para aprender sempre a mantê-la sob controle, não somente na vontade e no 
 
121 Cf. Congregação para a Educação Católica, Instruções a cerca dos critérios de discernimento vocacional referente as pessoas com tendencias 
homosexuais em vista da admissão aos seminários e nas ordens sagradas. 4 novembro 2005 
122 Refiro-me para esta distinção àquilo que já disse no livro “Quando a carne é fraca” páginas 50-74 e em “Tendencias homosexuais transitórias: 
como reconhecê-las (e em seguida superá-las) em vista da admissão as ordens sagradas” 
123 C. Zuccaro. “Unidade da pessoa e integração sexual. Possibilidades e limites” em Rassegna di Teologia 36 (1995)6, 713 nota 43. Vimos antes que 
a sexualidade é também “escola da diversidade”, energia que empura para o diferente de si. A partir deste ponto de vista, e a prescindir de 
componentes mais retintamente sexual, a homosexualidade é e comporta uma carência objetiva do punto de vista da relação interpessoal. Se o 
diferente (a alteridade) é parâmetro evolutivo ou a linha por onde passa o desenvolvimento psicológico, afetivo, ralacional, sexual do ser humano, a 
mesma alteridade encontra na sexualidade e na diversidade dos sexos o seu sinal mais expressivo e o símbulo radical, o sinal mais evidente e a sua 
confirmação mais clara, mais ainda uma indicação precisa para seguir ou um objetivo a perseguir constantemente na vida. 
A Hora de Deus 
 
101 
CAPÍTULO 08 
comportamento, mas também no desejo e na atração. Em vista de uma superação dos possíveis 
conflitos do seu comportamento em relação a sua tendência homossexual é ego-alienante. 
 
Qualidade do controle comportamental 
Finalmente, se torna discriminante o comportamento e a sua qualidade. 
A homossexualidade estrutural é assunto de risco nesta matéria: ou porque de fato não 
domina o próprio impulso em se tratando da conduta, ou quandose consegue 
controlá-la, isso custaria o preço de uma tensão muito alta (a famosa tensão de 
frustação), que deixa o sujeito profundamente insatisfeito visto que sente o próprio sacríficio 
como uma renúncia obrigatória (pelo externo ou pela lei) e não motivada (pelo interno, por uma 
convicção pessoal) ou pouco motivada, pois isso implica o dizer “não” a alguma coisa que 
compreende ser muito importante para si e para o seu equilíbrio psicológico, como um sacrifício 
tão caro e doloroso para lhe convencer que ele não pode deixar de fazer. Tal tensão não é salutar 
e em todos os casos, não lhe faz crescer. 
Totalmente diferente é o controle comportamental da homossexualidade não estrutural, o 
qual aprende progressivamente a controlar a própria tendência com uma renúncia feita por amor 
de um valor (= a sua identidade contida na escolha vocacional), valor que o coração começa a 
apreciar e a mente descobre cada vez mais a verdade da própria vida. Tal tensão é sadia e faz 
crescer uma vez que governada por um dinamismo intra-psiquico e ele faz com que a renúncia 
tenha um fim, seja inteligente e libertadora. 
Para um correto discernimento os tres elementos indicados deverá estar juntamente 
presente, isto é, para falar de homossexualidade não estrutural se deverá verificar todos os tres 
âmbitos anteriormente descritos com a presença dos comportamentos que acabamos de indicar. 
 
b) Fixação 
Na pre-adolescência, depois do período de latência124 da energia sexual, há como um 
acordar desta sexualidade que passa atravéz destas fases: autoerotismo, homoerotismo e relação 
heterodireta. Quando alguma coisa acontece (impedindo o desenvolvimento natural) nestas 
etapas é possível o fenômeno da fixação (e nós vimos um exemplo deste tipo na descrição da 
homossexualidade não estrutural que precisamente nasceria nesta fase). A fixação, na realidade é 
um mecanismo defensivo através do qual a pessoa não permite que ela mesma cresça, e no nosso 
caso, na area afetiva-sexual, se bloqueando a um certo estado evolutivo que, no nosso contexto 
poderia ser ou aquela infantil ou aquela pre-adolescência (momento autoerotico ou homoerotico), 
e seria qualificável mais precisamente como uma fixação (ou bloqueio) na fase genital. 
São sinais de fixação algumas reações afetivas narcisistas125 de consagrados adultos, como 
por exemplo: 
- comportamentos as vezes escondidos e as vezes habilmente justificados de ciúmes infantis no 
viver uma amizade ou no dirigir a pastoral (“o meu amigo ... o meu grupo ... o meu ministério...” 
“os meus colaboratores... a minha paróquia”...) é o tradicional padre “puer aeternus126”do qual já 
falamos, que deve colocar-se sempre ao centro de tudo e de cada realização, e este termina por 
vincular-se a poucos ou a pouquíssimos e a ignorar o grupo; 
- praticas autoeroticas que indicam uma fixação a primeira fase do desenvolvimento afetivo-sexual 
da pre-adolescência e que normalmente mostram no adulto um problema de relação, uma 
afirmação típica dos pre-adolescentes que talvez vivem uma sensação de inferioridade com 
relação aos outros, de ser auto-suficientes levando-o a procurar sozinho o prazer sexual. Por isso 
 
124 Psicol. Período de latência: período que vai do declínio da sexualidade infantil (no fim do complexo de Édipo) até ao início da puberdade, e que é 
caracterizado por uma interrupção na evolução sexual. 
125 Que ou aquele que pratica o culto da sua própria pessoa. Si gabar. 
126 Puer aeternus = eterna criança. 
A Hora de Deus 
 
102 
CAPÍTULO 08 
mesmo a masturbação nunca é um fenômeno somente sexual, sobretudo se bastante frequente, 
mas um gesto que mostra uma personalidade que ficou uma boa parte no estado pre-adolescente. 
E seja como for, é também uma violência que si faz a sexualidade, e que ao contrário visaria – por 
sua própria natureza - a uma relação. 
- curiosidade sexual no molde ainda da pre-adolescente ou adolescente no consagrado que rouba 
com olhar furtivo e nunca satisfeito, e sem respeito ao outro/a imagens e 
sensações ilusórias de gratificação. E sendo curiosidade de tipo (pre)adolescente e 
satisfeita como pre-adolescente (isto é, sem alguma relação com o outro, mas unicamente 
olhando o próprio impulso), é evidente que não poderá apagar definitivamente o adulto, porém 
ao contrário o gesto deverá ser continuamente repetido até criar uma dependência. O aspecto 
mais grave é que, assim fazendo, com este tipo de gratificação – se torna habitual e repetido – no 
padre adulto continuam a viver mais ou menos evidentes comportamentos pre-adolescentes que 
não tardam a manifestar-se também em outras áreas da personalidade (sempre por uma posição 
central da sexualidade na nossa geograria intrapsiquica); 
- o contentar-se de viver uma sexualidade virtual, feita substancialmente de relações falsificáveis 
com corpos de papéis (fotos) ou imagens da Web, no completo anonimato e sem se comprometer 
com ninguém, e ainda sem respeito pelo outro e nem mesmo por si, sem alguma responsabilidade 
adulta, nem alguma prospectiva de ralação real, séria e durável no tempo; e sempre numa lógica 
de captura de um desenvolvimento de uma fase adolescente. 
- enfatização da sexualidade, compreensível na adolescência e um pouco menos nos consagrados 
adultos que ainda sonham e idealizam, como um aprendiz que vai à descoberta do sexo, a 
descoberta do fruto proibido. 
Nestes casos a sexualidade ficou infantil ou (pre)adolescente e o indivíduo não cresceu, ou 
pelo menos por alguns aspectos. Com notáveis conseguências sobre o plano das relações e da 
mesma atividade ministerial, ainda se somente raramente a pessoa compreende a correlação. 
Imaturidade, seja como for, não é só um único episódio, do tipo isolado, quando o 
comportamento habitual e privado de consciência crítica (ou de remorso), ainda que se vai 
acrescentado realisticamente que, especialmente se referindo a sexualidade, cada singular 
episódio termina por influenciar no estado de maturidade geral, e jamais inocuo127. 
 
c) Regressão 
A regressão pelo contrário, é uma reação ao tempo presente com comportamentos do 
passado, ou seja, não é um verdadeiro bloqueio insuperável, mas uma especie de reitengração 
reedição dos modos de fazer e se relacionar (ou não relacionar) típicos do próprio passado, e que 
explode como uma reação a determinadas situações percebidas como problemáticas. Por 
exemplo: 
- a busca anciosa de afeto por parte do jovem presbítero, que era um sério noviço ou seminarista, 
muito correto, e que agora encontra-se vivendo uma inédita situação de solidão sem a proteção 
de certas estruturas, que hoje apegar-se a alguém ou procura intimidades as vezes físicas para não 
se sentir sozinho, ou se fecha ainda na masturbação iludindo-se em pensar que não precisa do 
outro. 
- ou o inamorar-se do religioso aos 40 anos (mais ou menos), e além disso, ele enfrenta pela 
primeira vez a sensação da vida que sai de suas mãos, que lhe escapa, ou um certo insucesso, 
fracasso, e percebendo um certo vazio dentro de si e a necessidade de preenchê-lo, o torna 
vunerável e sempre mais dependente diante de quem lhe dar atenção e afeto, como a mãe o deu 
um tempo atrás. 
 
127 Que não é nocivo, que não faz dano; inofensivo. 
A Hora de Deus 
 
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CAPÍTULO 08 
- um terceiro exemplo que podemos encontrar nesta descrição, dado por O. Clément, de uma 
situação de “pseudocastidade” que pode prorrogar por toda a vida: “uma pseudocastidade, em 
que há um certo compromisso por medo do sexo e por medo do outro, isso porque 
a pessoa ficou presa ao amor excessivo provocado durante a infância pela própria 
mãe; esta pessoa trás consigo uma regressão narcisista, uma tensão agressiva, uma sede de 
possuir e de seduzir as almas128”. 
Em todos os tres casos, há como um retorno ao seio materno ou tem uma certa coloração 
já apreciada (eis porque procura preferivelmente uma mulher), ou simplesmenteum fechar-se em 
si, na presunção ilusória de evitar a dureza da situação, porém ariscando-se de se tornar muito 
duro com os outros, agressivo e sedento por poder, como consequência em todo caso de não 
aproveitar as provas da vida para amadurecer na fé e na consagração. 
 Na verdade tudo isso, ou seja, este “retorno” a um estado infantil ou adolescente, cria 
antes de tudo uma contradição com o estado e as exigências da vida adulta, e em seguida um falta 
de equilíbrio na vida individual e social da pessoa, que reage as circunstâncias (críticas) da vida 
adulta com comportamentos impróprios e compromissos prejudiciais. Aqui a imaturidade nasce 
por não ter aprendido a crescer com a vida e se alimenta com a negação de suas provocações, que 
são temidas e ingnoradas. Além do mais é claro que o sujeito mostrará sempre mais os sinais da 
fase ao qual regrediu, também em outros setores comportamentais. 
E a crise, com efeito, não será para estes sujeitos momento providêncial. 
 
d) Compensação 
Enfim, sempre segundo o estado evolutivo, há uma possibilidade da compensação, um 
posterior mecanismo defensivo com o qual a pessoa tenta balancear os componentes negativos 
de uma situação qualquer da vida, como pode ser uma renúncia ligada a uma escolha (de tipo não 
bastante motivada e convicta), buscando em outras situações existênciais a gratificação, as vezes 
de maneira forçada e não controlada. No nosso caso é o perigo que corre principalmente o 
sacerdote celibatário ou o religioso casto quando a sua escolha da castidade perfeita é fraca, débil, 
e precária (segundo as convicções e o vivido), e o expõe portanto a necessidade de compensações, 
exatamente, com as quais quer atenuar o peso da renúncia. 
A compensação poderá ser buscada no mesmo campo da sexualidade, através de 
gratificações parciais (“geralmente aceita a renúncia, porém poderá conceder-lhe algumas 
pequenas gratificações...”), gratificações todavia desviantes com relação a própria identidade, 
como por exemplo cultivar relações afetivas como forma de “pseudo-intimidade” típicas de outros 
estados vocacionais e que de fato distraem o celibatário do seu verdadeiro Ser, ou – pior ainda – é 
uma obscura necessidade de compensação tendo como origem as vezes comportamentos 
desviantes, como práticas pornográficas, ou parafilias129 equívocas que ao final não compensam 
nada e ainda criam abismos de solidão, de despreso pessoal, além de danos as vezes irreparáveis. 
Outras ocasiões a compensação determinará uma procura em outras áreas da 
personalidade, por causa da falta de gratificação na área da sexualidade. Todavia, em tal caso sem 
oferecer uma real gratificação, sem resolver nenhum problema, no máximo a compensação o 
disfarça. É como um prato de frutas artificiais, ou como um falso satisfazer-se, porém pode criar 
gostos, costumes e dependências similares as reais que será difícil de liberar-se delas. 
É um problema que pode se tornar muito sério também para o celibatário consagrado. 
Como vimos, quando falamos da sexualidade como microssistema da personalidade, na verdade, a 
 
128 O. Clément, A Revolta do Espirito, Milão 1980, 254. Assim continua a reflexão do nosso teólogo ortodoxo: “ A verdadeira castidade, ao contrário, 
é uma disponibilidade modesta, uma acolhida desinteressada, uma ternura que não é dengosa, uma presença que desperta e dar paz afim de 
assumir o autro na oração. O “eros” crucificado resuscita na disponibilidade. O outro estar definitivamente além de qualquer possibilidade de 
possessão. 
129 Parafilia = Designação genérica para comportamentos sexuais que se desviam do que é geralmente aceito pelas convenções sociais, podendo 
englobar comportamentos muito diferentes e com diferentes graus de aceitabilidade social. 
A Hora de Deus 
 
104 
CAPÍTULO 08 
renúncia do exercício do impulso genital-sexual coloca o celibatário em uma condição de pobreza, 
privando-o de uma normal válvula de escape (ou desabafo) não só do impulso sexual, mas ainda 
de outras necessidades sejam diretas ou indiretamente relacionadas a ela (desde a agressividade à 
afirmação do “eu”, do domínio à dependência). Isto o celibatário pelo reino dos céus 
deve saber bem e dizer a si mesmo com muito realismo, deve se preparar para esta 
situação de pobreza (e renúncia), antever os efeitos e as implicações potencialmente negativas e 
se dispor tanto quanto possível a previnir-lhe para não cair na emboscada da procura mais ou 
menos inconsciente de compensações. Fundamentalmene como? 
Como se de alguma forma aumenta a dimensão ou o peso da renúncia (ou da necessidade 
ou das necessidades não realizadas), essencial será mais uma vez motivar a própria escolha com 
uma grande atração ou com um grande amor, única e verdadeira força fornecida ao celibatáro 
para “suportar” a menor satisfação dos outros estados da própria vida impulsiva. 
Todavia será possível, em uma ótica de realismo que convém a prospectiva do celibatário, 
fazer alguma coisa diferente para atender as necessidades que são naturais em nós e que seria 
arriscado deixar “suspenso – incerto”: o celibatário pode e deve saber encontrar outras 
alternativas como válvulas de escape aos próprios impulsos, alternativas e saídas que seriam 
conforme aos valores e coerentes com a própria escolha. Dito diferentemente, ele deverá recorrer 
àqueles mecanismos defensivos que são ... bons, de natureza inteligentemente adaptada, ou seja, 
que lhe permitam de estar fortemente e autenticamente motivado130. 
Tais mecanismos são defensivos sobre a verificação da realidade, consentem enfrentar o 
conflito, que são as vezes flexíveis (colocado em ato pela própria necessidade) e circunscrito (ao 
problema em questão), permitem um melhor funcionamento da pessoa humana. Um exemplo 
deste tipo de mecanismo poderia ser o humorismo131, ou seja, a capacidade de não levar a sério 
tudo, nem mesmo os proprios problemas, ter sempre um boa dose de bom censo132; ou a 
capacidade criativa, que permite de compreender de modo correto, talvez também em modo 
original, como exprimir aquelas necessidades que riscam de ficar de fora e criar problema: haverá 
uma modalidade autêntica para o padre exprimir afeto, por exemplo através principalmente da 
amizade com o amigo padre ou com um grupo de amigos padres, com os quais realizar, 
compartilhar fraternalmente os seus pensamentos, aspirações, cansaços, fé, doando-se e 
recebendo através da estima e simpatia sincera, mas também deverá encontrar um modo de viver 
a agressividade como força reagente diante dos obstáculos e outras mesquinhezes, como 
liberdade de indignar-se diante ao mal e de opor-se aos abusos e opressões dos poderosos, deverá 
procurar a via da correta apreciação de si, da verdadeira realização de si, segundo um itinerário 
 
130 Segundo a psicologia os mecanismos defensivos podem ser de várias naturezas: por aqueles que falsificam pesadamente a relação com a 
realidade (os quais as defesas narcisitas, como a negação ou o reiteração social, ou aquelas neuróticas como a idealização primitiva ou o 
pensamento mágico) ou aqueles que ao contrário nos facilita a mesma relação nas circunstâncias um pouco complexa da vida. (A. Cencini) 
131 Assim o define Meredith : « A capacidade de rir das coisas que se amam (incluído naturalmente nós mesmos e as coisas de que se preocupam).” 
132 Um bonito exemplo de humorismo unido ao bom censo pode ser aquele escrito autobiográfico, encontrado entre as anotações de um religioso 
que acabou de morrer (Pe. Filiberto). Este escrito remonta sua idade jovenil onde ele dizia de si mesmo: “E então meu caro velho Berto, está 
apaixonado ... como te conheço, daqui a pouco tentará relacionar com alguém fazendo “discorsos” sobre o amor, sobre a arte sublime do corpo 
humano, sobre a fantasia do criador. Depois ficará inchado, em seguida ficará vermelho como um pimentão assim que Loredana aparecer e quizer

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