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A Hora de Deus
1
Amedeo Cencini
A HORA DE DEUS
A CRISE
NA VIDA CRISTÃ
Prefácio de
Dom Gianfranco A. Gardin
EDB
EDIÇÕES DEHONIANO BOLONHA
A Hora de Deus
2
A HORA DE DEUS «Crise» é uma palavra que não necessita ser explicada. Se mais é essa
que explica. Está se tornando uma forma de chave de leitura da atual identidade da vida
sacerdotal e religiosa.
A crise é um componente normal da vida humana, acompanha-a como amigo que
incomoda, rompe certos equilíbrios e as vezes é também devastadora: é um amigo crítico. É
aquilo que determina a passagem de uma fase a outra da vida. A crise afeta a todos: qualquer
homem e mulher como os fundadores de comunidades; todos são chamados a ter atenção com a
experiência de um deserto que inesperadamente invade o próprio ser em diferentes maneiras.
Não é o clássico acidente de percurso que afeta só a alguns, os mais fracos e pecadores.
Falaremos referindo-nos a realidade do mundo que crer, e as suas expressões peculiares
que são: vida sacerdotal e religiosa. Para ajudar a viver a crise, para que se torne ocasião de
crescimento, a nível humano e como passagem do Eterno na vida do crente: como hora de Deus.
AMEDEO CENCINI é sacerdote e religioso canossiano, professor de pastoral vocacional e
formação ao discernimento na Universidade Salesiana, além de psicologia aplicada ao curso de
formadores na mesma universidade e na Universidade Gregoriana. Ensina ainda no curso de
teologia e direito organizado pela Congregação para a vida consagrada. Desde 1995 é consultor da
Congregação para a vida consagrada e as sociedades de vida apostólica.
Nas EDB1 dirige, com A. Manenti, a coleção Psicologia e formação. Já publicou: Vocazioni,
dalla nostalgia alla profezia. L’animazione vocazionale alla prova del rinnovamento, EDB 1992;
Amarás o Senhor teu Deus. Psicologia do encontro com Deus, EDB 132009; Psicologia e formação.
Estruturas e dinamismos, em colaboração com A. Manenti, EDB 122003; Viver reconciliados.
Aspectos psicológicos, EDB 142009; Vita consacrata.Itinerario formativo lungo la via de Emmaus,
San Paolo 21994; a trilogia Por amor, EDB 42001; Com amor, EDB 22004; No amor, EDB 42006; Os
sentimentos do Filho. O caminho formativo na vocação presbiteral e consagrada, EDB 52005;
Fraternidade a caminho. Rumo à alteridade, EDB 22002; Dalla relazione alla condivisione. Verso il
futuro..., EDB 2002; Virgindade e celibato hoje. Para uma sexualidade pascal, EDB 22006. Todos
estes volumes foram traduzidos em diversos idiomas.
1 Edições Dehoniano Bolonha
A Hora de Deus
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Prefácio
Para os que tem sobre os ombros algumas décadas de vida religiosa ou presbiteral a
palavra crise lembra provavelmente alguma coisa obscura, um tipo de vírus danoso que se
esconde nas dobras do espírito, em suma uma desgraça de esconjurar. Nos ambientes formativos
de um tempo, um condiscípulo que manifestava indifernça ou desempenho no âmbito, por
exemplo, da oração, ou do estudo ou da disciplina, levantava a pergunta, sussurrando baixinho:
“talvez ele está em crises?”.
De fato, o modelo que se silhueta diante de cada formando ou formanda, como
referimento luminoso e decisivo (aquele que Cencini chama de o “eu ideal”), havia os traços de
uma figura de fé sem dúvidas, de vocação sem incertezas, de obediência sem hesitações, de
pureza sem fragilidade, de oração sem distrações, de disciplina sem infrações. Porém
sucessivamente se começou a perguntar se, por faltas de privações, não permaneceriam, enfim,
privados de uma pessoa “normal”, e se o formando perfeito não se reduzia a uma espécie de
simulacro sem vida, sem história, sem consciência, sem coração: enfim sem humanidade.
É verdade, por outro lado, que o pedido, muitas vezes confuso e pressionado, de
“humanização”, de “ normalidade”, de realismo, que nasceu por causa de reações aos modelos
incontaminados apenas citados, pode ter dado a impressão de reivindicações decompostas, ou
concessões ao relaxamento, ao individualismo, ao secularismo, ao modismo e superficialismo;
como efeito de um desorientamento difundido. O pedido de transfusões abundantes de sangue
“humano” nas artérias “angélica” do perfeito seminarista ou religioso(a), pode haver levantado
excessivamente o limite de atenção sobre o que entrava maciçamente no organismo dos
organismos dos institutos ou das comunidades ou dos singulares indivíduos. Quase dizendo: desde
que tenha na etiqueta daquilo que se ingere o termo “humano” tudo pode ser introduzido. Por
esta razão os pedidos não param e nós nos perguntamos: talvez está bom, pelo contrário, é
melhor, uma fé duvidosa, uma oração um pouco às cegas, meio no escuro, uma obediência que
coloca qualquer razoável resistência, uma castidade não preservada da fragilidade, etc?
O presente volume do padre Amedeo Cencini ajuda a clarear esta situação, que descrevi
com cores fortes, quase exagerando; uma situação não desprovida de incertezas e de
interrogativas muitas vezes difíceis: que encontram portanto neste texto respostas de grande
equilíbrio e de experiente realismo.
Um tal realismo faz reconhecer que um percurso formativo (bem entendido seja de
formação inicial ou permanente) absolutamente linear e fluente, que procede olimpicamente
isento de obstáculos de várias naturezas, não somente é impensável, mas mesmo que houvesse
um assim, deveríamos considerar suspeito. Até fazer concluir que quem não experimentasse
nunca uma crise seria como quem leva dentro de si uma doença do qual simplesmente não
conhece os sintomas , e portanto mais sutis que um mal com manifestações evidentes. Por isso -
adverte Cencini - se é problemático o fato de que se dê muitas crises, não é menos problemático
o fato que existiriam muitos presbíteros e consagrados/as que deveriam estar nas crises e não
estam.
Ele escreve:
Tem alguns que dizem que o verdadeiro problema da vida religiosa ou sacerdotal não são
as situações críticas - objetivamente problemáticas - dos padres, frades e freiras, quanto aquela
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grande quantidade de pessoas “consagradas” que vivem subjetivamente tranquila, impassivas e
impertubavéis, situações objetivamente críticas, ou gente sem crises quando na verdade deveríam
estar em crise.
E em outro lugar, a propósito deste “exército de padres e consagrados que... não
estiveram nunca, não estam e nunca estarão em crises, observa provocatoriamente que “seria
uma bom para eles mesmos e para quem tem a sorte de viver junto deles, que aceitassem estar
em crise, em uma bela crise, pelo menos uma vez!”.
E então, aplausos para crise? Abençoadas crises? A resposta - é aquela usual diante das
perguntas complexas - depende! Depende? Eis que, Cencini nos explica precisamente o que
provoca em nós uma crise, se compreende já pelo título do livro: “A hora de Deus”. Ele explica
através de um percurso amplo e penetrante. Nos oferece uma análise aprofundada e bem
articulada, minunciosa no precisar e confirmar princípios irrenunciáveis e decisivos, e ao mesmo
tempo, consciente da variedade e complexidade dos possíveis acontecimentos onde não a crise,
mas as infinitas e diversas crises que podem tomar forma nas pessoas.
Após, necessárias precisões terminológicas, na primeira parte do volume a realidade da
crise é descrita em seu lado objetivo (aquilo que objetivamente põe o sujeito em dificuldade) e o
outro lado subjetivo, (aquilo que a pessoa experimenta e o grau de consciência do seu problema).
Interessante é a descrição de uma ampla tipologia de crises, com seus possíveis efeitos sobre o
sujeito, e as modalidades com as quais elas precisam ser abordadadas ou o tipo de “luta” que elas
exigem.
Uma segunda parte da obra entra nos conteúdos das crises, tendo em vista grandes áreas
na qual estas solidamente sãoencontradas: aquela da identidade, aquela da afetividade-
sexualidade, aquela da vocação e de sua fidelidade. Aqui a atenção para com a realidade torna-se
posteriormente muito próxima, pois mediante a uma série de exemplificações (tirada de sua vasta
experiência adquirida “neste campo” pelo autor). E assim ao leitor é oferecido uma considerável
riqueza de ensinamentos para a vida, que são ensinamentos espirituais para a vida quotidiana do
presbítero ou da pessoa consagrada.
Na terceira parte são abordadas algumas maneiras para aproximar-se adequadamente às
crises e para superá-las: se trata então de reconhecê-las e precavê-las, sem negá-las e sem
pretender evitá-las e ser capaz de passar por elas com êxito positivo. Aqui as indicações são
particularmente preciosas.
Gostaria de apontar alguns entre os vários motivos para os quais se recomenda a leitura do
texto e não somente as eventuais “vitímas” ou “beneficiários” (segundo os êxitos) da crise mas
também as pessoas que tem o dever de formar, guiar ou acompanhar espiritualmente ou que
oferecem qualquer ajuda àqueles que experimentam a crise.
Se deve reconhecer – e este é um primeiro prestígio desta obra – que o livro de Cencini
representa uma ajuda preciosa na prática de uma verdadeira formação permanente. Também
aqueles que não estão atravessando o traiçoeiro mar das crises pode encontrar aqui ferramentas
muito utéis para uma leitura interior de si mesmo, para gerenciar uma normalidade que não é –
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para os “normais” – desprovida de incertezas, zonas cinzentas, mesmo as situações apenas
inquietantes. Qualquer um que lêia estas páginas será difícil não encontrar ali qualquer coisa de
si, tirando delas luzes para a quotidiana condução de uma existência que seja animada por um
projeto de vida cristã, sacerdotal, religiosa – definido e exigente.
Este é um ponto, sobre o qual vale a pena insistir. Todo o texto pressupõe uma concepção
séria e ampla da formação permanente. Se esta é “ainda entendida” – aponta Cencini – de modo
redutivo e superficial como se fosse simplesmente alguns cursos de atualização que fazemos
ocasionalmente, apenas para manter o nível de tensão interna do presbítero ou para que não
perca o último trem do renovamento teológico, e esteja atualizado, então o discurso sobre crise
permanece circunscrito em momentos ou circunstâncias particulares, ou em casos difíceis quando
não patológicos. Porém se nos colocarmos na prospectiva da vida como chamado a ser aquilo que
um Outro nos revelou, provocando assim uma tensão constante em direção de uma identidade
nunca completamente bem compreendida e assumida, então afirma Cencini, “a crise é
componente normal e positivo de um processo de formação permanente”. O qual se compõe de
“dois elementos estreitamente conexos entre eles. De um lado é a consciência da diferença,
dentro de si, entre ideal e realidade que durante toda a vida será um constante caminho
formativo; enquanto, por outro são apenas aqueles que levam a sério tal caminho (formação
permanente) que poderão perceber as lacunas e fazer as escolhas consequentes para preenchê-
las.
Calocada nesta visão da formação permanente a crise impele então para aquele “novo”
(novas verdades, nova escuta do evangelho, assumir novamente a própria vocação, novos desafios
acolhido pela própria história ou pela comunidade com qual se compartilha o caminho...) que
coloca em discussão aquilo que era (muito) tranquilo, óbvio repetitivo, indiscutível. A crise torna-
se deste modo o “espinho na carne” de uma fidelidade que a crise mesma a revela como frágil,
não resistente, ou que é reduzida a pura repetição e que perdeu seu dinamismo; e portanto, ao
fim, não é mais verdadeira fidelidade uma vez que não se permanece fiel, porém tenta tornar-se
fiel continuamente e o Deus de ontem – observa Cencini – pode passar ser idolo de hoje.
Entendida deste modo, a formação permanente faz com que o futuro seja sempre o fruto
de um trabalho consumado no presente, que frequentemente adiquire o caráter de “crises”, do
juízo ou do momento “descriminante”, do cume a ser superado com dificuldade porém que
conduz a novos panoramas e pois a novos caminhos, talvez ainda íngrimes ou terrenos
acidentados: porém estes permanceriam desconhecidos e inacessíveis sem o superamento
daquela passagem decisiva.
É que todo o discurso de Cencini – e aqui está outro mérito da obra – representa uma
forte ajuda a superar a concepção da crise como inimiga ameaçadora ou como noite assustadora,
fazendo perceber que ao contrário é amiga estimulante mas ao mesmo tempo incômoda, possível
início do nascimento de uma nova luz que vai permitir ver e saborear coisas novas.
Isto não significa que a crise seja boa em si. A sua positividade é somente possível, não
automática: não é suficiente que a crise aconteça. A história de tantas pessoas, por fim, dizem que
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as crises os levaram a fazer escolhas erradas, ou mostrando vias de regressões, de involuções e
não de crescimento.
A preocupação do autor que percorre todo o livro é aquela de indicar as condições porque
a crise torna-se verdadeiro tempo de graça, caminho saudável . A este respeito Cencini insiste em
um conceito que aprecia muito, já citado em outros livros escritos por ele : aquele conceito de
docibilitas. Se trata daquela disponibilidade a aprender, a “deixar-se ensinar” por alguém ou por
alguma coisa, que é atitude fundamental e a “condicio sine qua” não da mesma forma
permanente. A docibilitas consente a crise de colocarnos em discussão e de transformar-se em
ocasião para reposicionarmos diante da nossa identidade: o que somos e o que deveríamos ser.
Graças a docibilitas a crise se torna um campainha do alarme que toca, questões candentes das
quais é necessário dar respostas que não sejam iludentes; nos abre a frente um dilema no qual se
deve decidir qual estrada tomar.
Podemos aprender com o grande livro da vida e da experiência, mesmo das experiências
em si negativas. Cencini nos leva a entender que no momento de crise, quando são colocadas
certas dimensões decisivas da pessoa, a vida em si, se encontra discípulos atentos, “afáveis”, que
transforma em sabedoria. Acontece então não somente porque a história em geral é mestra da
vida (historia magistra vitae como no velho ditado), mas que a minha história seja mestra da
minha vida.
Tudo isto tem um preço. De fato, as coisas de valor – como todos sabem – tem
normalmente um preço elevado. E isto é explícito por Cencini sobretudo no capítulo, muito
interessante, em que a experiência de crise é descrita como o momento de luta. Se trata, no
fundo, de uma dimensão importante da vida espiritual cristã, talvez muito esquecida. O antigo
tema do “combate espiritual”, estimado pela espiritualidade monástica dos primeiros séculos, que
é recuperada com atenção para compreender juntos os aspectos psicológicos e espirituais, não
facilmente destinguivél.
Sem luta se cai na inércia ou no vício insidioso ao mal. Pouco a pouco a maneira de viver,
perde o poder de quem luta, cai em uma passiva adequação as situações, conduzindo não mais a
forma a vida segundo aquilo que se pensa, mas a pensar naquilo que se vive. Porém seja a
assumindo em profundidade as convicções vitais sempre carente de ser reassumidas, seja
conformando a vida a tais convicções: passam através de tensões nas quais se combatem forças
hostís, internas e externas; Deus pode assim tornar, para aquele que o procura com ardor, uma
espécie de misterioso adversário, como aquele que Jacó teve que lutar “até o romper da aurora”
(Gn 32,25).
A crise da qual esta obra trata, põe em causa, falávamos antes: as dimensões decisivas da
pessoa. Já mencionamos ao fato que Cencini a reconduz aos âmbitos da identidade da afetividade,
“vocacional”. Os problemas relativos as últimas duas dimensõessão em geral frequentemente
tratados sobretudo em publicações que abordam temáticas formativas. Cencini abordam-nas com
amplitude e abundantes constatações, reflexões e indicações. Porém ao meu ver, merece
particular atenção o primeiro âmbito, menos considerado, que no texto é apresentado com o
título “Crise em busca da verdade” (capítulo sete).
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Neste tempo relativista, em que a verdade se dissolve em oponiões ou sensações, mesmo
a pessoa cansagrada pode viver crises de verdade: não somente no que diz respeito as verdades
em que acredita, mas também em relação àquelas – que são talvez as mesmas vistas por um outro
ângulo – vividas, praticadas, assumidas, escolhidas. Se pensa depois a insuficiente consciência e
acolhida da verdade da própria identidade, da própria história, da própria experiência de Deus, da
maneira de colocar-se de frente ao outro. Na incerteza criada pelo prevalecer do sentir sobre o
pensar, do instinto sobre discernimento, o autor sublinha o perigo de passar – assim ele escreveu
em um subtitulo do capítulo sete – “Da confusão ao exílio à desordem”: ou da insuficiente
percepção daquilo que somos, até mesmo nos encontrarmos exilados, longe da verdade,
chegando assim a uma situação de subversão dos valores fundamentais.
Por isso, aonde oferece indicações inteligentes e concretas para poder “atravessar”
positivamente a crise, Cencini estimula não somente uma total sinceridade consigo mesmo (e
obviamente aqueles que pedem ajuda) mas também a passagem da sinceridade à verdade.
Obviamente se trata aqui da verdade daquilo que somos e fomos, e daquilo que se vive e se
experimenta; porém esta verdade em si, para ser integral, deverá ser colocada no interior de
outras verdades, incluindo a Verdade que é “a luz verdadeira que ilumina cada homem” (João 1,9).
Mencionei somente alguns temas, quase beliscando aqui e ali no riquíssimo texto de
Cencini. Muitos outros eu gostaria de sublinhar ao leitor: por exemplo algums problemas tratados
no capítulo nove, dedicado a “crise de fragilidade vocacional”; tema atual, sobretudo neste tempo
em que os compromissos definitivos e globais parece ser sempre mais árduo, onde encontramos
protagonistas cada vez mais medrosos e dotados de baixa resistência. Estou contente ou pelo
menos busco fazer entender que a leitura desta obra pode beneficiar muitos.
Para conculir, parece-me que algumas linhas de Cencini dizem eficazmente na síntese o
conteúdo deste seu trabalho. Ele escreve: “Não se pode reduzir a crise a um fato somente moral-
comportamental nem somente a uma tentação diabólica ou uma passagem eventual da
existência, destinada mais cedo ou mais tarde a concluir-se. É ou refere-se ainda um modo de
entender a vida, a fé e a própria consagração de um modo mais ou menos realista. Vive bem a
vocação não somente aqueles que aguentam e resistem no texte, mas quem através desta cresce
na compreensão da própria identidade, que se revela progressivamente no tempo, também
através das crises, e escolhe ser criativamente fiel. Não é talvez a crise uma chamada, uma
“segunda chamada”?
Talvez bastaria esta idéia – em outras palavras – vamos fazer deste trabalho de Cencini um
instrumento precioso, esperamos que esteja nas mãos de muitos: a crise pode passar a ser uma
“segunda chamada” que estimula uma resposta mais consciente, mais verdadeira, mais
convencida que a primeira.
GIANFRANCO A. GARDIN, ofm conv
Secretário da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica.
Roma, 13 de Outubro 2009
A Hora de Deus
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INTRODUÇÃO
Agora é comum. Ao ponto que não se pode nem mesmo falar de vida religiosa ou
sacerdotal, e nem mesmo de vida de fé ou de realidade cristã em geral, sem se abordar aquela
palavra tão breve, quanto clara e imediata no seu significado, subitamente entendida por todos:
crise.
Esta pequenina palavra não nessescita de ser explicada, pois ela mesma se explica; está de
fato se tornando uma chave de leitura, que serve para dar uma idéia da atual identidade da vida
sacerdotal e religiosa, como se fosse impossível comprender adequadamente hoje estas duas
opções de vida (ou até mesmo a vida cristã em geral) sem perceber a profunda situação de
dificuldade, de crise, claro, na qual ambas parecem estar.
Por isso, vou dizer imediatamente, não me lamento, de jeito nenhum, nem me parece ser
inoportuno. A crise é componente normal da vida humana, a acompanha como amigo fiel, ainda
que amigo pertubador, rompe certos equilíbrios e as veses é até mesmo devastante, mas é uma
amiga ... crítica. É isso que determina a passagem de uma fase a outra da vida, antes, nos recorda
a psicologia evolutiva, se a evolução é um dos parámetros do desenvolvimento humano
(conjuntamente com a alteridade e temporalidade),2 a crise representa uma “situação de
desenvolvimento”,3 isto é, aquilo que provoca de fato o ser humano a dar um passo adiante.
Enquanto há crise há ... vida, ou há desenvolvimento ou pelo menos a sua possibilidade, diríamos.
Seja sobre o plano psicológico ou espiritual.
A crise diz respeito a todos: o homen e a mulher, qualquer um que seja, como também os
eremitas, místicos, homens e mulheres de grande espiritualidade, fundadores de comunidades,
todos são chamados a passar pela experiência de um deserto que improvisamente invade o
próprio ser em diversos modos. Não, não é um simples e eventual acidente de percurso, que
concerne somente alguns, os mais fracos e pecadores.
Portanto, se as coisas estão como estão, de um lado não podemos deixar de falar, de crise,
visto que ela invade, quase como um processo de globalização de si mesma; e falaremos
sobretudo referindo-se a realidade do mundo cristão, e aquelas suas expressões peculiares que
são a vida religiosa e sacerdotal. Do outro lado o problema é aquele de ver como é acolhida,
interpretada e vivida esta situação de crise, a nível institucional e a nível pessoal.
E é isso que se propõe neste estudo. Em particular buscando evidenciar, antes de tudo, o
significado da crise, em que consiste, ou, quais são as áreas mais sensíveis, ou vulneráveis, para
entender como ela hoje seja percebida por cada indivíduo que a sofre, e tentar ver enfim, como
viver e como ajudar viver as crises4 para que se tornem ocasião de crescimento, no plano humano
e não só no plano humano, bem como passagem do Eterno na vida do fiel, como a HORA DE DEUS.
Um livro como este, há uma dedicação implícita obrigada, que é mais que uma simples e
convencional formalidade, porque não pode ser escrito pensando senão, naqueles tantos irmãos e
irmãs, leigos ou consagrados, que sofreram crises, as vezes compartilhando-as, ou as vezes
retendo e tentando reter tudo dentro de si, quase com vergonha de abri-se e de fato arriscando
não ver mais uma saída; àqueles que souberam reconhecer a visita de Deus, àqueles que através
da crise experimentaram uma grande solidão, mesmo por parte dos homens, como se fossem
pessoas a ficar distantes; àqueles que viveram a crise como momento de fraqueza, de tal forma a
não mais conseguir levantar-se, como aqueles que acolheram dentro de si a potência inédita da
graça... Sobre tudo àqueles que eu pude aproximar no momento da crise, buscando ser uma
2 Cf. F. Imoda, Sviluppo umano. Psicologia e mistero, Casale Monferrato 1993, 77-106.
3 Imoda, Sviluppo umano, 96-106
4 Sem entrar nos méritos de um discorso mais propriamente pedagógico ou terapêutco, que pode ser objeto de uma sucessiva reflexão.
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forma de ajuda para eles, e também àqueles que não conseguí ajudá-los. Este livro é como se
fosse escrito por todas essas pessoas.
Se eu pudesse, eu queria chegar até eles, para revermos juntos aqueles momentos. Se a
vida (presente) frequentemente é a melhor explicação da vida (passada), agora poderíamos
entendermelhor também o sentido das crises passadas, e procurar entender hoje, aquilo que
naquela época era obscuro e escondido, ou que parecia simplesmente e somente humano, ou que
parece ser impossível e insuportável.
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Primeira Parte
A Crise: Definições e destinções
Iniciamos com a explicação dos termos, para não nos encontrarmos falando de alguma
coisa pensando que todos entendam sobre o assunto, mas que, ao invés podemos definir de vários
modos, e que o leitor pode então interpretar diferentemente em relação ao significado que dá o
autor que o escreveu.
Veremos então que para definir corretamente o conceito de crise ocorre descompor o
termo pelo menos em duas partes ou componentes: um objetivo e outro subjetivo. O primeiro a
acentuar o elemento problemático que determina a dificuldade do sujeito, o segundo para colocar
em evidência como e quanto o sujeito mesmo seja consciente da própria situação crítica.
Mas a distinção não termina aqui; e não se detém aqui simplesmente porque não basta
tomar consciência da crise, ocorre ver como o sujeito enfrenta a própria situação crítica (se a
enfrenta), ou seja o confronto e quais os tipos de confrontos.
Capitulo 1
Problemática objetiva das crises
Primeiramente uma crise, de qualquer um tipo, nos leva a um problema, ou uma situação
em qualquer modo conflitual, presente objetivamente na pessoa desde algum tempo, provocando
transtornos, incômodo sobre o indivíduo, habitualmente mais consciente do encômodo e não da
sua raiz. A primeira coisa a fazer, então, é procurar indenticar este problema ou esta situação
problemática, e possivelmente não só nas suas expressões exteriores, mas também na sua origem
profunda.
O conceito de “problemática”, por sua vez, se encontra longo um continuum que vai de
um máximo a um mínimo de encômodo interior, de objetiva gravidade, de percepção subjetiva, de
possibilidades de controle e de gestão...
Experimentamos então a esborçar um possível significado desta expressão, observando em
particular os limites ou as outras zonas conceituais com a qual se confronta, sempre na grande
área do deságio ou do encômodo do mundo interior intrapsíquico do sacerdote e do
consagrado(a), porque pelo menos nos sirva como indicação geral para iniciar o discurso. Portanto
ainda não, neste momento, para confrontar o argumento complexo das causas, das situações
problemáticas.
1. Nível problemático
O nível ou o grau de profundidade ao qual se coloca o problema psicológico pode ser
diferente. Envolvendo assim diferentemente tanto quanto as várias faculdades intrapsíquicas e
espirituais: mente, sentimentos, vontades, liberdades, responsabilidades, sensos internos e
externos, consciência de si ...
Segundo o nível de profundidade teremos então várias problemáticas psicológicas ou que
em diferentes modos são vizinhas ao mundo psicológico do indivíduo. Será importante saber
primeiramente distinguir e identificar a natureza do problema apresentado.5 Que pode ser por
causa da:
1.1 Problemas de psicopatólogia.
5 Sigo em parte neste parágrafo as classificações e indicações oferecidas pela CEI (Conferência Episcopal Italiana), Linee comuni per la vita de nostri
seminari (Regras comuns para a vida dos nossos seminarios), Roma 1999, 15.
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Pretendemos falar de psicopatologia latente ou manifestada, mais ou menos grave, isto é,
de problemas derivados de distúrbios ou sintomas psíquicos estruturais e de natureza clínica, de
origem remota, em relação a área do pensamento (esquizofrenia, paranóia...) ou de afeto
(depressão, esterias...) ou dos comportamentos (obsessões compulsivas, manias, fobias,
transgressões encontroláveis...). Nós já dizemos “distúrbios ou sintomas psíquicos estruturais”,
isto é, presentes em modo estável nas pessoas, continuamente e “de natureza clínica”, ou seja
não controlável pelo sujeito somente com as suas forças e por sua espontânea iniciativa.
Tais problemas podem haver limitações consequentes graves relacionado a liberdade e o
estado de consciência e responsabilidade do sujeito, como podem ser, por exemplo, casos de
pedofília e de efebofilia ou de abusos e violências sexuais, ou formas obssesivas de dependência
afetiva-sexual, o qual é uma expressão de uma carência mais ou menos sistemática de controle do
instinto, do impulso sexual (no sentido heterosexual e homossexual) àquele agressivo (destrutivo
e autodestrutivo, das tendências ao suicídio, a formas sérias de anoréxia e bulimia, de mania
nevrótica do acúmulo, talvez com episódios de cleptomania, a manias de perguições etc...).6
Esta parece ser uma problemática psiquiátrica.
A alternativa para o discernimento geral deste primeiro estado está entre a sanidade
mental e a doença.
1.2 Problemas evolutivos
São manisfestações de fragilidades ligadas a um atraso ou a uma incapacidade de solução
dos problemas evolutivos, do tipo no primeiro desenvolvimento como é o caso :
- de uma infância problemática, por causa de uma privação afetiva, com vários traumas e
carências, ou – o contrário – de uma excessiva gratificação emotiva com consequente
dependência e exigências7 (e teremos então padres puer aeternus {eterna criança} sempre
necessitados de proteção e calor), ou por precariedade e pobreza do ambiente familiar de origem,
ou mais particularmente, por ausência física e psicológica dos pais ou de um dos dois (talvez com a
falta de identificação com o genitor do mesmo sexo e possível homossexualidade estrutural);
- ou de uma pré-adoscência nunca resolvida e bloqueada em uma das suas fases: do auto-
erotismo narcisista{é aquele que pratica o culto da sua própria pessoa} (o “Padre narciso”, necessitado
em estar sempre no centro, ou o “Padre Belo” ou de qualquer modo atraente em busca de
atenção dos outros, ou a tendência a masturbação), ou do homo-erotismo com possibilidade de
uma tendência homossexual (Neste caso o nível é não estrutural, na maioria das vezes);8
- ou de uma adolescência persistente, ao qual o sujeito adulto é ainda sem uma identidade
positiva e estável, e então a pessoa perenemente tensa entre a busca de um ponto de referimento
exterior a qual depende e a incapacidade de abandonar-se e confiar no outro, ou seja de
pertencer (o assim chamado padre “Adultoescente” adulto no registro cívil e adolescente
segundo a idade psicológica, incapaz, por exemplo, de assumir responsabilidade, inconfiável,
superficial, inconstante e egocentrico...).
Nestas situações é possível a presença de sintomas as vezes semelhantes a aqueles
psicopatológicos, isolados e com uma menor frequência, ou de atos ligados a um cedimento
impulsivo que contudo não é obsessivamente presente e com o tempo sempre mais controlável
6 Se recorda a importância de ter uma atenção global da complexidade da situação, nestes casos. Tal atenção é a respeito do mistério do ser
humano; ainda que se ferido, ou talvez sobretudo quando é ferido, o ser humano é parte de um mistério, ou de uma dimensão misteriosa que não
pode ser reduzida simplesmente ao seus comportamentos, nem é por estes desmentidos.
7 Já Freud acreditava que não somente as privações afetivas, mas até mesmo um excesso de gratificações pudesse ser causa de distúrbios na
personalidade.
8 Um dos elementos distintivos entre a homossexualidade estrutural e não estrutural, como veremos melhor no capitolo 8, é exatamente a
diferênça da origem: A primeira nasce na fase infantil, a segunda na fase da pré-adolescente. A respeito da distinção entre a homossexualidade
estrutural e não estrutural, cfr. A. CENCINI, Quando a carne é fraca.
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(por exemplo; algumas formas de abuso no álcool, de excesso ao se alimentar, ou até mesmo a
tendência homossexual...).Este poderia ser um problema psicológico mais que essencialmente psiquiátrico, radicada a
uma certa profundidade e com tendência a permanecer constante, portanto interna ao indivíduo e
não ligada a circunstâncias exteriores, mais possível de tratamento e reduz em um âmbito
psicoterapêutico.
Aqui a pergunta para o discernimento poderia ser esta alternativa: estilo infantil ou adulto
de vida?
1.3. Problemas de (in) disponibilidade para a formação permantente
Uma terceira categoria problemática é apresentada pela dificuldade do progresso de
adaptação às diversas idades e situações existênciais, como a diversas provocações e
oportunidades oferecidas pela vida. São problemas, em outras palavras de formação permanente,
ou a criação de obstáculos na segunda etapa do desenvolvimento, nos anos suscessivos ao
primeiro desenvolvimento (ou a formação inícial), aquele que deveria durar toda a vida.
Não é de fato, simples e despercebida a passagem de uma fase existencial a outra, por
exemplo da idade da adolescência à juventude, da juventude a idade adulta, do estado de
maturidade psicofísica e da produtividade àquela do progressivo retiro, culminante na velhice com
todos os seus limites, os desáfios, os cansaços e tudo que comporta esta idade...
Ou, ainda possamos recolocar nesta categoria aqueles problemas que nascem das
situações contigentes, mais ou menos provocantes e traumáticas, que normalmente acompanham
o percurso vital particularmente do padre ou do consagrado: escolhas particulamente
significativas da vida, desáfios ambientais, mudanças não muito agradáveis de cargo ou funções,
fracasso apostólico, sentimento de inutilidade pessoal e insignificância da propria mensagem,
determinadas pressões culturais e sociais, dificuldades nos relacionamentos (rejeição da própria
pessoa por parte dos outros, maledicências e calúnias...), crises afetivas (sentimento de solidão,
enamoramento...), dificuldades na obediência, transferimentos inesperados (com a retirada de um
ambiente familiar e inserção em um ambiente novo), acidentes particulares, enfermidades de uma
certa seriedade, perda de pessoas queridas... São somente alguns exemplos de dificildades
determinantes – normalmente – de um evente externo ou por outros sujeitos, mais que poderão
acordar antigas (ou talvez adormecidas até então), problemas internos na pessoa, mais ou menos
graves, de imaturidade psicológica ou espiritual. E é esta imaturidade que impedirá de desfrutar
destas situações como ocasiões de maturação, e também de sentir-se responsável e protagonista
inteligente da própria formação, que deveria continuar no tempo.
É o problema de docibilitas, ou da pessoa docibilis, que «aprendeu a aprender», livre para
aprender com a vida por toda a vida, por cada circunstância existêncial como por cada pessoa, nas
situações favoráveis e nos insucessos, até ao último dia da existência; docibilitas que é muito mais
que docilitas, e que deveria ser o objetivo da primeira formação. Visto que toda a existência da
pessoa seja uma continua formação.9
Seja esta área como também a anterior, podemos fazê-la reentrar na problemática
psicológica, porém se trataria, em cada caso, de uma problemática sobretudo reagente que
destaca-se como resposta menos livre e pouco madura a um certo tipo de provocação da
realidade ou a dificuldades normais da vida humana ou como resposta somente passiva que revela
a incapacidade de desfrutar criativamente da situação, ou de acolher a potencialidade formativa
para deixar-se depois educar-se e formar-se. A não docibilitas, como já foi falado implicitamente, é
esta ausência de entregar-se ou escassa disponibilidade diante das ocasiões de crescimento que a
vida oferece continuamente. Não é sempre fácil de reconhecer, porque em condições «normais»
9 Sobre este argumento cf. A. CENCINI – Il respiro della vita. La grazia della formazione permanente.C.Balsamo, 2003, 34-41.
A Hora de Deus
13
tais indivíduos parecem estar bem, mas na realidade... o eletrocardiograma está quase reto, não
tem fantasia nem paixão, de tal maneira que não sabem colher nunca em torno de si mesmo os
desáfios ou os apelos particulares, e assim acabam vivendo como se a formação (permanente)
fosse algo que compete somente a instituição a oferecer e não fosse ao invés, o primeiro dever e
responsabilidade do sujeito.
Para verificar a presença deste tipo de problema, a questão central refere-se sobre a
disponibilidade formativa da pessoa ou sobre a sua abertura em deixar-se formar pela vida para
toda a vida, ou seja: somente docilis ou docibilis? ou seja, formação ou frustação permantente?
1.4. Problemas de inconsistência vocacional
Os problemas de inconsistência e integração vocacional indicam dificuldades muito
comuns, a maioria das vezes ligadas a presença de necessidades inconscientes, ou daquelas
exigências impulsivas que resultam prevalecentes e dominantes, e absorvem e desviam as
energias da pessoa, chegando a condicionar o seu estilo de vida o seu modo de ser, e colocando-o
em contraste com as mesmas escolhas existências.
A inconsistência inconsciente, na área da sua... competência fecha e bloqueia
normalmente o indivíduo dentro de um horizonte de procura de si mesmo e da própria
gratificação, ou defesa de si pelas situações que percebe ser ameaçadoras, e estas o impedem de
se deslocar segundo dinâmicas de auto-doação motivadas pelo amor e por uma prospectiva
transcendental da vida. Dinâmicas e prospectivas que, no caso do sacerdote e consagrado(a),
correspondem as suas escolhas explícitas e declaradas da vida (além da natureza intrínseca da
vocação sacerdotal e religiosa), mas que vem de alguma forma desmentida e contrastada
interiormente por estímulos exatamente o contrário da escolha feita (normalmente com raizes
inconscientes). A inconsistência vocacional é exatamente este contraste interno, como uma fenda
intrapsíquica que coloca o sujeito em contradição consigo mesmo, tornando-o incoerente naquilo
que realiza, pouco convencido das suas (convicções), menos apaixonado com os seus idéais, e
portanto não convincente naquilo que fala e instável nas suas operações. As suas energias, de
fato, não seguem todas, a mesma direção transcendente, mas são desviadas em direção a outros
objetivos, dobradas sobre o seu próprio “EU” e sobre as suas economias subjetivas (=
necessidades psicológicas), enfraquecendo inevitávelmente a pessoa, ou impedindo-a de amar
com todo o seu coração e com toda a sua mente, com todas a suas forças. É o indivíduo que tem
olhos, mas não «vê», tem ouvidos mas não «escuta»... ou vê e escuta com uma atenção e
sensibilidade comandadas por forças instintivas que ainda não foram evangelizadas. E que irão
expor facilmente este indivíduo a crises, exatamente quando tais expectativas não serão
gratificadas.
Um exemplo: um indivíduo com pouca auto-estima, ou que não identificou aquilo que da
em modo substancioso e estável a certeza da própria positividade, se colocará dentro de uma
certa necessidade de sinais desta positividade pessoal, mas sem necessariamente estar consciente
(do tipo se não for ajudado em tal sentido), será portanto levado a fazer certas coisas, ainda que
boas, ligadas ao seu ministério, sobretudo ou ainda para agradar tais exigências da auto-estima,
buscando consentimentos, aplausos, confirmações, promoções, visibilidade, títulos de estudo,
diversos sinais de considerção positiva... e fazendo um drama quando tudo isso não acontece,
diante então dos fracassos e insucessos (também no plano moral-espiritual), ou vivendo com uma
contínua competição e vendo os outros como rivais (os juízes), ou desperdiçando energias em
invejas e ciúmes, terminando talvez por não aceitar-se (tornando nervoso e agressivo) e sentir-se
insatisfeito (= complexo de inferioridade).
Frequentemente tal pessoa poderá ainda ser uma pessoa correta e eficiente em relação ao
comportamente,mas será interiormente dividida e ineficaz em relação ao testemunho evangélico.
É claro que se a tendência é incosciente, o indivíduo não fará quase nada para mantê-la sobre
A Hora de Deus
14
controle, e esta tender-se-à persistir e ripertir-se, crescerá e tornará sempre mais invasora e
prepotente. Determinará destorsões perceptivas (em relação ao “EU” e a própria identidade, em
relação a Deus e a sua imagem, criando finalmente até mesmo problemas na leitura da Palavra, e
no relacionamento com o outro, da comunidade e do sentido da relação); e criará além disso o
fenomêno das expectativas irreais (com relação ao futuro, ao trabalho apostólico, até mesmo da
vida consagrada e sacerdotal).
Podem reentrar aqui, ou encontrar aqui uma explicação para muitas das crises religiosas e
sacerdotais de deferentes fenomenologia com êxito negativo, ou em particular as crises precoces
de fidelidade dos religiosos, e jovens sacerdotes, frequente a pouquissima distância do gesto de
doação definitiva de si mesmo, ambas determinadas da constatação (final ou imediata nestes
últimos casos) que uma certa gratificação é sempre mais improvável ou aparece mesmo
impassível, enquanto a sua ausência, ao mesmo tempo, é sentida como insurpotável, mas fazemos
reentrar também neste nível aqueles modos absolutamente inautênticos de ficar na instituição
fazendo um ninho ao seu interno, ou seja encontrando um modo e um sistema para gratificar-se,
habitualmente na própria infantilidade e imaturidade, sem cometer grandes transgressões
(normalmente, ou estando atento para encobertá-las) e preenchendo a vida de
comprometimentos. 10
Esta também é uma problemática psicológica, carecterizada – além da constância do
problema – do seu enraizar-se no inconsciente, que causa um obstáculo no processo de libertação
do próprio indivíduo.
Aqui a pergunta discriminável seria: tensão egocentrica ou auto-transcendente da vida? E
depois (ou ainda antes): conheço-me ou não conheço-me nas minhas motivações de fundo?
1.5. Problemas de caráter espiritual
Este tipo de problema refere-se a área dos valores, a modalidade concreta de vivê-los, e
antes ainda, a visão clara do caminho vocacional pessoal. Aqui temos um salto de qualidade com
respeito aos níveis anteriores, não porque não existem mais problemas, mas porque estes são
diferentes e visto que muda em cada caso, o modo de confrontá-los.
Tais dificuldades, de fato, são ligadas a uma normal dificuldade de viver o Evangelho e as
suas exigências, o relacionamento com Deus e as suas pretensões sobre o coração humano, ou as
ocupações ligadas a própria escolha vocacional, aos votos, a regra que escolheu como regra de
vida etc... cansaço normal, e que – se refletirmos bem – deveria crescer na vida de um crente, já
que deveria ser o caminho normal de uma pessoa que levou a sério o empenho de santidade, e
que adverte cada vez mais o duc in altum (avançar mar-a-dentro Lc 5.1-11) ligado ao próprio
chamado.
Estes problemas normalmente se colocam a um nível consciente, a pessoa portanto se da
por conta e é suficientemente livre para decidir resolvê-los, ou seja escolher a via do bem e
superar a tentação da mediocridade e dos comprometimentos, para escolher ser virtuoso e não
cair no pecado. A alternativa, portando, aqui é entre a virtude e o pecado, entre a santidade e a
mediocridade.
A este nível, e pelo fato que a pessoa aqui vive na plenitude das suas faculdades, é possível
provar – sobre o lado negativo – não somente o sentido psicológico da culpa, mas também a
consciência teológica do pecado, com a dor e o rigor que a implica; a mesma situação de
dificuldade não é vivida como prova somente psicológica, mas como prova espiritual, como vamos
dizer melhor mais adiante, ou seja como luta com Deus, e com um Deus que é diferente daquele
10 São os famosos nesters (do inglês nest=ninho) da pesquisa do instituto de psicológia da Gregoriana: Indivíduos inconsistentes que não saem da
instituição (como os drop-out), mas permanecem graças as suas espertezas “mais ou menos” de adaptar-se e de acomodar-se (da série “se não toda
a torta, pelo menos uma pequena fatia...”), as vezes também fazendo tortas de pouco bom gosto e contentando com gratificações miseráveis.
Retorneremos mais a frente sobre isso.
A Hora de Deus
15
que o crente trás na sua imaginação, um Deus que é não somente amigo afável, confiável, mas
“rio traiçoeiro”, um Deus que não está sempre ali para responder com as expectativas do orante,
para o contentar, porém frequentemente se mostra ausente, e as vezes até mesmo não responde
ou responde com um silêncio que desconcerta e que é duro aceitar.11 A prova espiritual ou a luta
com Deus propõe novamente ao homem continuamente a escolha clássica e dramática da vida,
entre o bem e o mal, luta travada entre a atração do primeiro e obscuridade fascinante do
segundo, como dois abismos que abrem-se diante ao mistério da sua liberdade. Quem vive neste
nível e leva a sério a vida espiritual, ou aquela que Rahner chama “a dificuldade de crer”, por isso
mesmo expermentará a cada dia a dificuldade e a realidade problemática do crescimento na vida
espiritual, e advertirá muito mais que os outros, então, a mesma realidade da tentação,12
reconhecendo os truques e as periculosidades. Como nos conta as histórias dos santos.13
Alguns entres os santos ou talvez muitos (quem pode quantificar com certeza sobre isso?)
foram muito além disto que estamos dizendo aqui, e expermetaram no máximo grau aquela
ausência de Deus que torna cruciante, aquele silêncio que a criatura sente-se angustiada, quase
até mesmo vendo-se distante, como o pior dos pecadores: é a experiência conhecida como “noite
escura da alma”, ou “noite do espírito”, ou a “noite da fé”, como João Paulo II chamou a
experiência de Maria14, experiência não muito comum a todos os crentes, mas a uma categoria
particular entre eles: os místicos (de S. Bernado a S. Catarina de Sena, de s. João da Cruz a S.
Teresa de Avila, de S. Teresinha do Menino Jesus15 a beata madre Teresa de Calcuta,16 de Chiara
Lubich até mesmo João Paolo II, segundo alguns, nos últimos anos de sua vida),17 mas experiência
sempre condunzida a esta catégoria de problemas, quase no seu extremo. Nesta noite até mesmo
a fé tornar-se uma angustiante incerteza, e o que antes constituia fonte de alegria para o espírito
humano torna-se agora escuridão e trevas. É uma das provações entre as mais terríveis, que
requer da alma um exercício de pura fé, da fé nua, mas que enfim produz nesta uma grande
purificação, para torná-la ainda mais morada onde Deus pode habitar. Quando e como Ele quiser.
Além desta experiência extrema, privilégio e provação para poucos, os problemas ligados a
vida espiritual são problemas que todos, pelo menos em parte conhecemos e que pelo menos em
alguns momentos da vida (se espera) nós particurlamente o vivemos, problemas que chamam a
atenção constante de quem está empenhado em um caminho de crescimento espiritual, como de
quem acompanha em um caminho de formação.
Mas nem sempre existe a capacidade de distinguir este tipo de problemas com aqueles
precedentes, de natureza mais explicitamente psicológica. Frequentemente o problema espiritual
11 Durante o encontro com os jovens italianos em Loreto no mês de agosto de 2007, Bento XVI, deu uma resposta a uma pergunta de uma jovem
sobre o mistério de Deus: “Todos nós, ainda que crentes, conhecemos o silêncio de Deus”. Pelo fato que somos crentes...
12 “Filho se te apresentares para servir o Senhor, prepara-se para a tentação” (Eclo 2,1).
13 “As grandes aspirações são sempre acompanhada de terríveis tentações” (L. BOFF, Francisco de Assis. Uma alternativa humana e cristã, Asis 1982,
191; cf. Também A. CENCINI, Vida consagrada. Intinerário formativo durante o caminho de Emaus, Cinisello Balsamo 2002, 29-33).14 João Paulo II, Redemptoris Mater 17c : EV 10/1315.
15 Este trecho autobiografico de S. Teresinha ajuda a entender o que é a noite do espírito: “ Minha dileta Celina, não sei se estás ainda na mesma
disposição de espírito do outro dia, mas te citarei assim mesmo uma passagem do Cântico dos Cânticos, que exprime perfeitamente o que é uma
alma imersa na aridez e que nada a consegue alegrá-la nem consolá-la: “Eu desci ao jardim das nozes, para ver as frutas do vale, para observar se a
vinha fosse florida e se as romãs ja haviam amadurecido. Não sabia mais estava... A minha alma ficou totalmente agitada por causa dos carros de
Aminadab” (Ct 6, 10-11). É esta a imagem das nossas almas: nós descemos nos férteis vales ao qual o nosso coração ama ser alimentado, o vasto
campo das escrituras que muitas vezes se abre diante de nós para doar-se a nós os seus ricos tesouros, este vasto campo parece-nos ser um deserto
árido e sem água. Não sabemos mais, nem mesmo aonde estamos: em um lugar de paz, de luz, não encontramos somente a tribulação ou, pelo
menos as trevas. Mas, como a esposa, sabemos a causa das nossas provações. A nossa alma é pertubada por causa dos carros de Aminadab. Não
estamos ainda na nossa pátria e a provação deve nos purificar como o ouro no cadinho. De vez em quando pensamos que estamos abandonados; Ai
de mim! Os carros, os barulhos que nos afligem estão fora de nós ou dentro de nós? Não sabemos! Mas Jesus sabe bem” ( de uma carta a irmã
Celina do 6 de julho 1894).
16 Foi notável a sensação da publicação das cartas e memórias de irmã Teresa, por parte do Postulador (B. KOLODIEJCHUK, Madre Teresa. Seja a minha
luz, Milão 2008, 201-202), com a inacreditável revelação da sua noite espiritual ao qual ela viveu por cerca de cinquenta anos! Algumas de suas
expressões nos ajudam a enteder o sentido que ela mesma deu a este tempo de provação estrema. “Se é agradavel a Vós Senhor, se a minha dor e
o meu sofrimento, a minha escuridão e separação vos dar ó Senhor uma gota de consolação, meu caro Jesus, faz de mim aquilo que o Senhor quiser
e por todo o tempo que quiser, sem olhar os meus sentimentos e a minha dor... Eu sou tua. Marque em minha alma e sobre a minha vida os
sofrimentos do teu coração. Não se importe com os meus sentimentos, não se importe com a minha dor ... Se a minha separação de Vós, leva
outros a Vós e se nos seus amores eles se aproximarem de Vós e isso vos traz alegria e prazer, então Jesus eu estou disponível, com todo o meu
coração, a sofrer tudo o que for necessário que eu sofra, não somente agora, mas por toda eternidade, se possível”
17 Cf. F. CIARDI, “A noite tempo de provação. A experiência dos Santos”, em Nova humanidade 30(2008), 165-187.
A Hora de Deus
16
convive com aquele psicológico, tornando um problema espiritual conjuntamente com uma
inconsistência vocacional.
Em síntese: Esta descrição nos colocou diante de um quadro muito vasto dos possíveis
motivos ou raizes, a nível teórico, das situações de crises, dando nos – em suma – três diferentes
características desta crise: existe por um extremo a crise determinada por um problema do tipo
patológico (o ponto 1.1), diante do qual a pessoa parece impotente e que necessita obviamente
da intervenção de um especialista; existe ainda uma vasta área, que abrange os três pontos
sucessivos da nossa análise descritiva (1.2, 1.3, 1.4), a qual a crise aparece provocada por um
problema psicológico de diferente gênero, e que põe em causa em modos e proporções diferentes
a liberdade e responsabilidade do sujeito, e será uma problemática ou ligada a dificuldades
evolutivas no passado (1.2), ou a uma menor liberdade interior de deixar-se formar pela vida
presente (1.3), ou a inconsistência e imaturidade mais ou menos inconsciente (1.4): tal área está
no limite de um lado com a patologia ou os problemas psiquiátricos, e do outro com problemas de
natureza espiritual que constitui a terceira característica das crises: as crises “nomais”, sinal de
uma personalidade substancialmente íntegra, sobre o plano psicológico e espirítual, crises
determinantes pelas leis de crescimento, seja psicológico ou espiritual (veja mais a frente o
Quadro 1).
Mas a nossa não é uma indagação têcnico-teórica, e sim mira a identificar corretamente o
problema na medida em que este pode facilitar uma intervenção para ajudar.
Ocorre então dar uma passo a mais para delimitar mais precisamente estas áreas e
comprendê-las de maneira mais profunda, sua especificidade e sua natureza.
2. Dimensão da liberdade
Nos perguntamos então: qual é o grau de liberdade dos diferentes níveis problemáticos
que acabamos de ver? A sensação, de fato, é que a cada um deles exista um correspondente nível
de liberdade da pessoa, com consequente responsabilidade.18
2.1 Terceira dimensão: liberdade ausente
No nível da patologia não existe liberdade: O psicótico não é livre para compreender e para
querer, pelo menos na zona interessada a sua patologia, e interpreta a realidade segundo um rito
ou um rítmo compulsivo que o distância inexoravelmente da realidade e do qual está mais ou
menos praticamente oprimido. Assim o neurótico obssesivo-compulsivo, que – compreendendo
que não vale a pena lavar as mãos cem vezes ao dia e mesmo não querendo fazer – é
interiormente “obrigado” a fazê-lo; ou pior ainda o psicótico paranóico, que vê inimigos por todos
os lugares se sente atacado por qualquer um, sem alguma possibilidade de convencê-lo do
contrário. Mesmo também o sacerdote pedófilo poderia ser enquadrado nesta categoria ou
dimensão (pelo menos em relação a tendência pedófila) e deixando-se ser condicionado por
alguma coisa que lhe impõe e que ele não pode dominar (obviamente não todos os casos de
pedofilia se encaixam neste grupo, existe ainda o pedófilo que poderia ter escolhido não ser
pedófilo).19
18 Tomo como ponto de partida, neste paragrafo, a partir da intituição de Rulla; Cf. RULLA – F. IMODA – J. RIDICK, Antropologia da vocação cristã, 1:
Bases interdisciplinares,Bologna 1997, 492-493.
19 Outra distinção possível no campo das desordens psíquicas seria esta: Psicose, como perda do contato com a realidade e refúgio em um mundo
subjetivo, na qual a psicose se impõe de tal maneira em que o sujeito não poder fazer nada para contestá-la, nem mesmo para reconhecê-la como
tal. Neurose, que provocaria um distúrbio no contato com a realidade mas sem um dobrar-se absolutamente no subjetivo ou com um dobrar-se
relativo, por isso o neurótico pode combater até um certo ponto a sua neurose e sendo consciente sofre com ela. Desvio na personalidade, enfim, o
que estão dizendo um distúrbio relativamente relevante, leve, que não tira nem o contato com a realidade nem a capacidade de controle, porém
lhe coloca um limite, como veremos melhor mais a diante. Diz algo verdadeiro a piada segundo o qual o neurótico constrói castelos no ar e o
psicótico vive la dentro, enquanto o psiquiátra ou psicólogo cuida de receber o aluguel sendo mais ou menos ganancioso dependendo do grau de
distúrbio de personalidade...
A Hora de Deus
17
Evidentemente aqui, se não existe a liberdade, não tem nem menos responsabilidade
subjetiva, pelo menos imediata e direta, nem bem ou mal do ponto de vista moral da consciência
subjetiva. Poderá existir um senso de culpa, mas fortemente condicionado (com excesso ou com
defeito) variadamente contaminado pela síndrome mental ou afetiva do qual o sujeito sofre.
Enquanto não poderá existir uma consciência de pecado verdadeiramente dita.
A este nível, em uma última análise, existe somente um discurso de sanidade ou
enfermidade psíquico-mental para considerar.20 Porém é sempre importante fazer uma analise,
indispensável ali onde levantam-se dúvidas legítimas sobre tudo no momento do discernimento
vocacional inicial e para a admissãoas ordens e aos votos.21 Certo, uma psicose pode manisfestar
mais tarde, e então seram considerados dentro das possibilidades rigorosas medidas preventivas
de contenção (por exemplo: não colocar um sacerdote com tendências a pedofilia para visitar e
receber normalmente sem algum controle as crianças e pre-adoscentes).
2.2 Primeira dimensão: Liberdade Plena
Se no outro extremo desta descrição colocamos a problemática espiritual, como sugere o
nostro esquema descritivo, veremos que a situação se inverte completamente: E neste nível existe
liberdade, a pessoa é capaz de entender o que seria bom fazer e que é capaz de fazê-la. Se não faz
o bem, mas o mal, o indivíduo nem é consciente; é responsável, portanto, das ações e das
transgressões. Sente a dor e a sofre. Visto que conhece, pelo menos em teoria, além do estado
dos comportamentos e dos sentimentos, para reconhecer ainda as motivações que lhe impulsam a
agir, em outras palavras não se detém na sinceridade subjetiva, mas sabe colher a verdade
objetiva do seu ser e do seu agir.
Aqui existem o bem e o mal, portanto, o virtuoso e o pecador. Isto é, aqui, rigorasamente
falando, existe vida moral: o ato assume uma verdadeira conotação moral.
Tal dimensão provavelmente não representa obviamente a ponto de excluir as outras
dimensões a permanência habitual do nosso viver e dos nossos atos, mas é apenas uma
dimensão possível, não somente ideal, para ser procurada constantemente ou pelo menos em
parte (as vezes mínima) está presente já nos nossos atos.
2.3 Segunda dimensão: Liberdade relativa
No meio existe a situação ligada ao problema que chamamos psicológico. E é este que mais
nos interessa, que diz respeito a maioria das nossas ações. Aqui a liberdade não é nem
completamente ausente, nem completamente presente, mas relativa. É uma situação intermédia,
determinada como tal pela presença do inconsciente que lhe escurece em parte ou confunde,
mais ou menos, a percepção do sujeito, impedindo-o de entender lucidamente a motivação real
que o impulsiona a agir, ou o que na verdade está ao centro do seu coração, dos seus interesses,
desejos, escolhas..., além das suas afirmações ou das “boas intenções” ao qual ele mesmo acredita
sinceramente ou da aparência externa daquilo que faz. Um inconsciente, como eu disse, que
escurece e impede em parte, não o todo; tornando a pessoa menos atenta e menos vigilante para
entender aquilo que acontece dentro de si, depois de um longo processo que não é irreversível;
20 Não abordamos aqui a complexa questão da possibilidade da santidade nestes casos. Mas podemos dizer somente que, se a santidade consiste
na liberdade e radicalidade com a qual a criatura acolhe a ação de Deus sobre si, não pode excluir absolutamente que um fiel com problemas
psicóticos possa usufruir deste grau, seja por um mínimo, de liberdade que lhe sobrou ao máximo das suas possibilidades, e alcança assim um certo
nível de santidade, aquele a ele acessível. Talvez não será um nível alto objetivamente, mas subjetivamente tal pessoa deu o máximo de si. A
História nos apresenta neste sentido diversos exemplos.
21 É bom recordar que não pode receber validamente a ordenação “quem sofre de qualquer forma de loucura ou de outra enfermidade psíquica,
com a qual, consultados os peritos, é constatado a incapacidade de desenvolver de modo apropriado o ministério” (CDC 1041 § 1).
A Hora de Deus
18
diminui a sua liberdade, não a elimina pela raiz; orienta e as vezes deforma uma certa
sensibilidade, mas não cancela a possibilidade de reacordar-la e reanima-la...22
A liberdade do sujeito, nesta segunda dimensão, permite chegar a sinceridade, não a
verdade. E é liberdade relativa e portanto reduzida, por isto, uma vez que permite reconhecer os
próprios sentimentos e sensações (talvez para depois negá-los, arriscando de se tornarem
analfabetos sentimentais, porém ao menos em teoria existe aqui a possibilidade de reconhecer os
próprios sentimentos), mas não de ir além, de captar e decifrar as motivações profundas, as
intenções subterrâneas e as atrações do coração (ao menos que não seja ajudado explicitamente
neste sentido), em suma a verdade.
É claro que este límita (não exclui) a liberdade, não a liberdade assim chamada
indispensável, isto é, a capacidade de agir e escolher em geral, mas somente aquela inicial e mais...
secreta, assim sendo frequentemente é desconhecida até mesmo pelo sujeito, ou nunca
considerada seriamente. Podemos dar algum exemplo desta (não) liberdade, ou liberdade
reduzida, que é frequentemente o modo de ser da nossa liberdade, nunca absoluta e
frequentemente somente relativa (mesmo se isto nos encomoda não queremos aceitá-lo e temos
a tendência a ingnorá-lo). De fato frequentemente corremos o risco de não ter:
- A liberdade de sentir, de perceber toda a realidade, mesmo nos aspectos mais inquietantes e
provocantes, como os apelos ou os “sinais dos tempos”. Como nos diz o episódio evangélico do
bom samaritano, quando um sacerdote e um levita “viram” um infeliz mas sem a liberdade de
sentir-se por ele chamados e provocados a parar, para ajudá-lo.
- A liberdade para amar aquilo que fazemos e de fazê-lo por amor, um poco como Marta que faz
um gesto de serviço, mas demostra não amá-lo, de fazer não somente por amor; mas se lamenta,
e fica nervosa com sua irmã, um pouco também com Jesus que não intervem, e enfim até consigo
mesma “obrigada” (por causa da falta de liberdade) a fazer os trabalhos mais humildes sem ser
notada, como não servisse a nada.
- A libertade de comover-se, diante do belo de sentir-se atraido pela verdade, evidentemente
porque faltar uma certa sensibilidade quando gostos e interesses da pessoal vão em outras
direções, que não sejam aquelas da beleza ou da verdade. A comoção (do cum-movere – mover-se
com) indica o envolvimento total das energias afetivas e intelectuais, mas se tiver dispersão das
energias para outros objetivos, não poderá ter alguma comoção por aquilo que dizemos de ter
colocado ao centro da vida.
- A liberdade de... entender aquilo que se lê, se vê e se sente, ou seja de entendê-lo em
profundidade, de descobrir o fragmento da verdade que permanece consigo, sentindo a verdade
não somente em si mesmo, mas também por aquilo que diz a minha vida, e portanto convicente.
Poderíamos chamá-la a liberdade de deixar-se convencer, onde por muitas vezes o medo de dizer
a verdade causa obstáculos.
- A liberdade de amar e de deixar-se amar, que pareceria fácil liberdade, mas que muitas vezes se
choca com o medo de se envolver no relacionamento, com medo do outro, com medo de seus
próprios sentimentos e os dos outros, de abandonar-se ao amor, de sentir-se responsável pelo
amor recebido...;
- A liberdade de entregar-se totalmente a Deus, mas também aos outros, porque mais uma vez se
teme o outro, em geral aquele Outro que se entregou totalmete a nós em um ato de amor total.
Estranho dizer isto, mas as vezes diante ao amor de Deus sentimos uma vertigem, aquela parte
infantil de cada um de nós que se manifesta e então desejaríamos que Deus nos amasse menos.
- A liberdade para deixar-se ser lido e transpassado pela Palavra, de deixar a Palavra dizer a
verdade, aquela Palavra que é a Verdade, que nos sonda como nenhuma outra, e diante da qual
22 Sobre o sentido do inconsciente e sobre o seu possível influxo se expressou assim Wojtyla em uma de suas obras: “... na realidade parece que
seria impossível entender e explicar o ser humano, o seu dinamismo como também o seu agir consciente e as suas ações, se nós baseássemos as
nossas considerações somente sobre a consciência. Sobre este ponto, parece que a potencialidade do subconsciente aparece primero; esta é
primária (antecedente) e mais indispensável da consciência para a interpretação do dinamismo humano, como também para a interpretação do
agirconsciente” (K. Wojtyla,The acting person, Dordrecht 1979, 93).
A Hora de Deus
19
muitas vezes desencadeia ainda o medo de estar nu, estar transparente, de ser revelado o que
somos (e que as vezes não sabemos), ou o medo de ter que mudar, e assim nossa leitura é tão
superficial quanto monótona, leitura que nunca se torna dilectio23 (= amor).
- A liberdade de pedir o máximo de si ou de se converter, visto que nos iludimos (e a ilusão é já
redução de liberdade) que a mediocridade seja a preferida ao invés da radicalidade, que a
sensação de bem-estar pessoal deve ser o critério de cada escolha e de cada avaliação da
consciência ou não somos ainda livres para acreditar que a maior alegria estar no dom de si e não
no usar os outros para seus próprios intereses.
- A liberdade de descobrir o cêntuplo prometido por Jesus e apreciá-lo, primeiro porque a
dependência de gratificação imediata não abre à esperança (na realidade nós não acreditamos o
suficiente nesta promessa), segundo, porque os nossos sentidos aprenderam apenas um tipo de
gratificação, antigo e pagão, e portanto não são ainda capazes de aproveitar o dom que Deus nos
dá continuamente, mas nem mesmo de perceber esta dádiva.
- A liberdade de sentir-se bem-aventurado naquelas situações indicadas por Jesus no discurso da
montanha, visto que parece-nos impossível encontrar a alegria na humilhação, na maledicência,
na perseguição..., e porque normalmente colocamos o foco mais sobre os comportamentos
indicados por Jesus (sermos mansos, pacientes, pacíficos ...) do que sobre a experiência de bem-
aventurança contidas nestas virtudes, porém as vezes escondidas, mas prometidas por Jesus.
- A liberdade de provar os sentimentos do Filho ou de desejar os desejos de Deus, uma vez que já
nos parece muito mudar os comportamentos ou nos orgulhamos por fazer tantas coisas para o
reino de Deus, e enquanto isso deixamos que no nosso coração vivem sentimentos e desejos que
estão longes daqueles do Filho, sem percebermos o sútil farisaismo implícito nestes sentimentos e
desta maneiras fosse impossível evangelizar sentimentos e impulsos ... 24
3. No coração do problema
Ficamos muito tempo nestes exemplos, não só porque frequentemente não damos devida
atenção nem importância a estas liberdades, mas porque isto nos ajuda a compreender a natureza
destes problemas psicológicos que podem levar-nos a uma situação de crise, ao coração do
problema, que é sempre e sobre tudo problema de liberdade.
3.1 Falta de liberdade e frustração
Uma crise é normalmente ligada a uma menor liberdade, diretamente ou indiretamente.
Liberdade entendida como modo para crescer plenamente, pleno porque exprime um
envolvimento integral do homem, quando age com todo o coração, com toda a alma, com todas
as forças e com toda a sua sensibilidade. O homem é livre quando e visto que pode fazer apelo a
todas as suas enengias e recursos; por esta razão podem agir independentemente, sem a
necessidade de ser forçado. A expressão máxima da liberdade (e do modo de intender a liberdade)
é fazer as coisas por amor, experimentando o sabor típico de quem tem lentamente aprendido a
fazer as coisas por amore. Tal típica expressão de liberdade é seguida, declinável em várias formas,
como demonstramos – negativamente – com as exemplificações precedentes.
Quando ao contrário não tem este envolvimento total, ali não tem crescimento nem terá
liberdade, pelo contrário ao invés do gosto livre e libertador para fazer as coisas por amor existirá
a preocupação contrária, aquela de fazer as coisas para ser amado ou de pensar somente em si
mesmo, de viver as relacões para curar as próprias feridas, para obter um resto de atenção, para
23Cf. A.Cencini, A vida ao ritimo da Palavra. Como deixar-se formar pela Escritura, Cinisello Balsamo 2008.
24 Sobre a necessidade de conhecimento de si mesmo e das próprias inconsistências cf. A. Cenceni, A arvore da vida. Para um modelo de formação
inicial e contínua, CINISELLO Balsamo 2005,251-253.
A Hora de Deus
20
axibir-se de frente aos outros e de ser considerados melhores que os outros, por ilusão de
conquistar felicidade fazendo os próprios interesses... Todas as formas de não liberdade que
aumentam ainda mais o nível de frustração. E a frustação como sabemos é sempre antecâmara da
crise, um padre frustrado é sempre um padre em risco.
Tornando a nossa subivisão, parece que a possibilidade desta frustração seguirá em teoria
uma evolução exatamente contrária a presença da liberdade: por isso será máxima nos casos de
psicopatologia, relativamente intensa nos três casos que tínhamos indicado de liberdade relativa e
mínima ou ausente em quem vive apenas problemas espirituais. Mas, na prática, talvez as coisas
são um pouco diferentes. Nos casos de psicopatologia o senso de frustração é difícilmente
identificável, poderá ser intensa no mais auto nível, mas também ausente, sendo ligada ao gênero
e ao tipo de consciência do sujeito. Enquanto é evidente o sentido de frustração para quem vive
em uma situação de liberdade reduzida, na medida em que será reduzida a liberdade por causa da
inconsistência, como vimos nos exemplos relatados. Assim como não podemos excluir a presença
da frustração para quem vive os problemas normais legados a vida espiritual, por experiência seja
da própria fraqueza ou seja pelo mistério inacessível do divino.
Portando é importante para nós chegarmos a esta conclusão: o problema objetivo de tipo
psiquiátrico ou psicológico ou espiritual que está na origem de uma crise incide regularmente
sobre a liberdade do sujeito, reduzindo-a, e criando um sentimento de frustração que tira
vagarosamente o gosto de viver e de viver a própria consagração. E, é já uma crise, ou situação
que frequentemente conduz à uma crise. Há portanto, no começo uma limitacão objetiva, em que
o sujeito percebe e sofre as consequências, mas normalmente sem entender a origem.
3.2. Falta de Liberdade e a sensação estranha
Dizíamos também que, pelo que parece, a maioria da nossas ações ou do nosso quotidiano
não exprime a liberdade plena, mas uma liberdade parcial e relativa, superficial e reduzida. Isto
significa que normalmente aquilo que fazemos é de natureza composta, implica, isto é, vários
estímulos motivacionais nem todos com origem consciente. Normalmente, somos levados a
ignorar as motivações que nos criam mais problemas, que diminuiria a nossa estima, que tem
raízes profundas no nosso passado, que refere-se a um costume bem enraizado... 25 De fato, não a
conhecemos e não conhecendo-a, não podemos controlá-la.
Daí duas consequências: ante de tudo não somos – ainda uma vez – livres para agir como
quisermos, sofremos pressões internas, mais e antes mesmo daquelas externas; e isso nos faz
sentir como estranhos a nós mesmos, como se habitássemos em um corpo ou em uma psique que
não nos pertence de modo que vemos o bem que deveríamos fazer e, em seguida escolhemos o
mal. Isso aumenta a sensação de frustração.
Ou, outra conseqüência já em parte mencionada, fazemos as coisas, mas com uma certa
divisão interna, não com todo o coração, com toda a mente, com todas as forças, e corremos o
risco de nos tornarmos incoerentes, não porque somos obviamente falsos e contraditórios, mas
porque uma força ou uma atração ou um medo que nós ignoramos nos impede de envolver todas
as nossas energias, como dizíamos, de “cum-movere” cada componente psíquico para uma
direção, como gostaríamos.
Não é necessariamente maldade, antes é basicamente falta de liberdade, mas que implica
um menor controle pelo sujeito sobre sua vida, uma sensação de ego-alienante em relação a si
mesmo, como uma desorientação interior. Que muitas vezes leva à crise.
25 É interessante notar que já São Tomas na sua Suma Teológica (I-II), falando dos atos da pessoa humana, teria ditoque “na maioria dos casos” o
agente pode estar completamente inconsciente do influxo de distorções produzidas por suas lutas “emotivas” sobre suas percepções, sobre suas
escolhas e ações... que devem não obstante serem consideradas plenamente como “ato humano”(cf.K.Baumann, “The Concept of Human Acts
Revisted By St.Thmas and the Unconscious in Freedom”, in Gregorienum 80[1999]1, 151 e162)
A Hora de Deus
21
Também aqui se trata de uma limitação objetiva, que o indivíduo pode perceber sobretudo
pelos problemas que lhe cria, mas sem poder intervir sobre a verdedadeira causa. E isto cria
inevitavilmente tensões que muitas vezes explodem em uma verdadeira crise.
Com uma imagem gráfica, tentamos sintetizar o que foi considerado até aqui.
1 Quadro - Área e limites de problemas psicológicos,
Problemas Conteúdo Alternativa Natureza Liberdade
de Psicopatologia transtornos psicótico-
neuróticos
sanidade ou
patologia?
clínico-
psiquiátrica
Ausente (3° dim.)
do obstáculos ao
desenvolvimento
Interrupção ou regresso
evolutivo
estilo infantil ou
adulto?
Psicológica Relativa (2°dim.)
de não formação
permanente
indisponibilidade
formativa
dicilis o
docibilis?
Psicológica Relativa (2°dim.)
de inconsistências
vocacionais
conflito interno
inconsciente
egocêntrico ou
auto-
transcendente?
psicológica Relativa (2°dim.)
de qualidade de vida
espiritual
incoerência e
mediocridade
santo ou
pecador?
espiritual Completo
(1°dim.)
Como podemos ver o aspecto objetivo de uma situação de crise é bem complexo, mas é
possível também delineá-lo especificando o tipo de problema ao qual a pessoa sofre. É isto que
tentamos fazer neste capítulo. Deixando a parte alguns aspectos para depois em seguida retornar
sobre aqueles mais práticos na identificação do problema, aonde surge a tensão, e os sinais que
esta nos proporciona.
Por enquanto foi considerado apenas o fundo de um evento crítico, ou como já dissemos,
o seu coração. E nós o identificamos na falta de liberdade com o sentimento de frustração e de
estranheza que dela procede.
Se o homem é feito para ser livre, e trás dentro de si uma necessidade de liberdade que
não pode ser suprimida, não é difícil compreender que tal falta conduz lentamente à uma crise,
mas é possível e necessário compreender melhor as etapas posteriores.
A Hora de Deus
22
Capitulo 2
A Crise
Vimos o lado objetivo do nosso tema, ou pelo menos procuramos entender um pouco a
coisa em si; gostaríamos agora de ver o problema do ponto de vista do sujeito que vive o
problema. Uma coisa é o problema em si, considerado por um ponto de vista intrínseco, por seu
conteúdo e várias características (seriedade, componentes, diagnósticos, prognóstico, terapia...),
outra coisa é observar o nível de consciência da pessoa, que poderia ser completamente ou
parcialmente ausente. E dentro deste entendimento, uma coisa é entender a raiz do problema (já
falei um pouco sobre isso no capítulo precedente), e outra coisa é entender a gravidade da
situação ou perceber o apelo a uma mudança até o ponto de decidir-se a fazê-la.
No caso, por exemplo, sobre problemática psiquiátrica, evidentemente o sujeito não tem
consciência da própria situação clínica; ao contrário, o estado de inconsciência é exatamente o
elemento substancial do quadro sintomático clínico, é um dos seus sinais mais evidentes e
decisivos.
Mas não só isto é típico do nível mais grave da nossa descrição. Também nos outros níveis
do problema psicológico e espiritual é possível, como vimos no capítulo precedente, uma
diminuição do grau de consciência, do estado de inconsciência geral (até mesmo este grau é
possível) a situação de quem não se deu conta da seriedade da sua situação, da gravidade do que
está vivendo, para si, e talvez também para os outros. Ou não o “sofre” suficientemente nem o
combate; como também é possível o caso de quem está oprimido e dilacerado, perdeu a
esperança de sair fora desta realidade que vive. Neste caso, no excesso como no defeito, existem
problemas no estado de consciência e na formação da consciência.
Alguns dizem que o verdadeiro problema da vida religiosa ou sacerdotal não seriam as
situações críticas, objetivamente problemáticas, dos padres, freis e freiras, mas aquela massa de
gente “consagrados” que vive subjetivamente tranquila, que não é pertubada e nem pertuba
ninguém. Situação objetivamente crítica, são aquelas pessoas que não estão em crise, porém
deveriam estar. Ou ainda consagrados e consagradas que si sentem desconcertados, quando
percebem que algo não vai bem nas suas vidas, mas não tem a capacidade de entender a raiz do
problema em si, ou intuindo que teriam crises, buscam imediatamente um modo de empurrá-las
para o exterior, para longe de sua responsabilidade, esperando e iludindo-se de tal modo poder
eliminar o sentido da necessidade pessoal de passar por uma crise.
Ou seja, em última análise, é o problema da consciência, não simplesmente no sentido de
fenômeno cognitivo-psicodiagnóstico ou de informação mais detalhada sobre o próprio nível de
(im)maturidade, mais como sensibilidade interior, vigilância e atenção, todos componentes da
consciência e que tem haver com o processo de formação desta mesma consciência. Aspectos,
enfim, graves e importantes da nossa vida, que não veremos certamente tudo aqui, mais que
podemos começar a encontrar já nesta primeira tentaviva de análise.
1. Conceito de crise
Talvez existe uma sutileza terminológica que leve em conta a distinção que estamos
fazendo, e que portanto nos poderá ajudar a entender melhor e a especificar mais precisamente o
sentido do termo. Ao que parece o termo “problema” ou “problemática” nos envia mais a ideia
objetiva da questão, enquanto um outro termo muito usado hoje, ou seja “crise”, nos leva a
pensar mais a percepção subjetiva da crise em si, e consequentimente a sua vivência pessoal.
A Hora de Deus
23
Eis porque neste paragráfo introduzimos o conceito de “crise”, como conceito
provavelmente mais abrangente que “problema”: ao passo que, quando se diz que alguém “há um
problema” especificando que um outro “está em crise”. Quero sublinhar que a crise é quase um
modo de ser, no qual alguém se encontrar completamente envolvido da cabeça aos pés, como se
estivesse mais ou menos dominado. Enquanto que “problema” poderia permanecer externo a
consciência do sujeito que parece até mesmo poder dominar melhor.
Se em seguida voltarmos ao quadro prospectivo número 1, veremos que existe uma
crescente do ponto de vista da consciência crítica, a partir da situação patológica, quando tal
consciência é mínima, até mesmo alcançando os problemas de vida espiritual, que são maiores.
Uma passagem que evidentemente interessa também a área da problemática psicológica, antes
passa através desta, e logo é importante focalizar não somente o plano do diagnóstico.
Vamos portanto definir melhor, antes de tudo, o conceito de crise e os seus componentes
fundamentais, para depois passar no próximo capítulo, para a descrição de alguns modos
subjetivos de viver a crise em si, ou a consciência do próprio problema.
1.1. Proposta de definição
A vida, também aquela dos que se consagram ao Senhor ou que se entregam a um grande
ideal, é feita de crises e situações difíceis. “A fè nasce no coração de uma crise”26 ou – como disse
Merton – “inesperadamente a vida se move em direção a crise e o mistério”27. Afirmação
significativa ao estabelecer uma ligação entre crise e mistério, já que nos faz pensar que a crise,
qualquer crise, seja aberta ao mistério, seja na sua origem ou no seu êxito final, e nós não
estaremos certos com as nossas distinções e explicações pretender eliminar o componente
misterioso da crise.
Crise, na realidade, de um ponto de vista etimológico28, significa um estado decisivo,
situação de vida aberta para diversas possibilidades. O termonão tem um significado
necessariamente negativo (mesmo se na linguagem comum assumiu prevalentemente uma
carecterística de situação grave e perigosa, de luta e pertubação, de conflito e possível dano, de
tribulação ou deterioração)29; refere-se a uma possibilidade de crescimento do sujeito, mas
também o contrário, pode ser graça ou fraqueza. Tudo depende do comportamento interior
assumido pelo sujeito diante de sua crise.
Vamos tentar então de dar uma definição descritiva da crise em si, definição não somente
descritiva, mas também provisória, já que provavelmente encontraremos outros elementos no
caminho que nos ajudarão a entender o sentido.
Crise em geral significa “conscienza de uma não correspondência entre o eu ideal e o eu
atual, que pede uma escolha ou uma conversão sobre um ponto bem preciso da personalidade,
para um novo equilíbrio de relação entre o ideal e conduta de vida, uma nova definição do eu30.
1.2. Componentes específicos
A partir desta definição, pelo menos quatro nos parece os elementos fundamentais da
ideia de crise:
- a consciência subjetiva, intendida e francamente sofrida ou dolorosa,
26 A. Torresin, “A fé do padre: um tema esquecido?”, na Revista do clero italiano 1( 2009), 47.
27 T. Merton, Diario, 16 agosto 1996.
28 “Crise” deriva do greco Krisis, derivando por sua vez do verbo de ação Krino = eu distingo, ou jugo, ou discrimino, ou separo, ou decido. Segundo
outra prospectiva a palavra “crise” deriva de um termo médico do século XVI que descreve o ponto no decorrer de uma doença na qual chega a um
momento decisivo para a recuperação ou para a morte” (D. ORSUTO, entrevista feita no Zenit, 16 de abril de 2008).
29 Cf. F. Decaminada, “Crise na vocação”, no dicionário de pastoral vocacional, Roma 2002, 346
30 De um ponto de vista psicológico a crise é definida assim por U. Galimberti: “Momento da vida caracterizado por uma roptura do equilíbrio
alcançado precedentemente da necessidade de transformar os esquemas habituais de comportamento que se revelam não mais adequado para se
confrontar com a situação atual” (U. Galimberti, “Crise”, na ID., Dicionário de psicologia, Turin 1992, 246).
A Hora de Deus
24
- de um objetivo e exato contraste entre o eu ideal e o eu atual,
- uma decisão de mudar e converter-se em um aspecto bem determinado do próprio modo de ser
(e viver),
- por uma vida mais coerente na fè e na união com Cristo31.
Vale a pena tomar novamente estes pontos, até mesmo porque a análise do significado do
conceito nos permite de entrever ou intuir desde já ao menos alguns modos para enfrentar a crise
em si.
a) Consciência dolorosa
O estado e o tipo de consciência com a qual o sujeito vive a sua crise, representa o
elemento específico do conceito de crise. É importante sublinhá-lo. E não como simples
conhecimento de um ato qualquer, mas como consciência de uma certa intensidade, de um ato
doloroso realmente sofrido.
Tal consciência, não é, porem um fato automático e que passa despercebido, isto é, a crise,
“qua talis” como tal, não está ligada a gravidade objetiva da situação problemática, nem percebida
imediatamente como situação “crítica” pelo sujeito, se bem que, é verdade que muitas pessoas –
como já dissemos – tem grandes problemas mas não sentem-se que estão em crise. Por outro lado
é indispensável, para viver a dificuldade como crise, ter um conhecimento coerente da crise, por
parte do sujeito que a sofre. Este deve ser o primeiro ato de acompanhamento em um caminho de
crise, como veremos mais a frente. Independentemente da natureza da crise, seja ela
determinada por um problema evolutivo ou por várias inconsistências, seja qualquer coisa que se
manisfesta (como uma dependência de álcool ou um problema de relacionamento) ou até mesmo
um problema oculto (como um problema afetivo-sexual ou uma incerteza vocacional). A primeira
ajuda a ser dada deve ser na área da consciência de si e do próprio problema. Ou na direção da
verdade sobre si mesmo, que é a primeira caridade que pode e deve ser feita a uma pessoa. De
outra forma o sujeito ficará girando em torno de si mesmo, perde tempo e a crise piora,
exatamente porque não foi identificada na sua raiz.
Já dissemos consciência “dolorosa”. Dolorosa porque e em que sentido? A resposta nos
sera dada em seguida.
b) Distância entre o eu atual e o eu ideal
A consciência é dolorosa antes de tudo porque o indivíduo percebe que há uma
dissonância (desarmonia) dento de si, um contraste entre aquilo que é e aquilo que queria e
deveria ser. E é um sofrimento inevitável: o ser humano não pode evitar de sofrer quando os seus
ideais não são alcançados, poderá tentar negar tal sofrimento, ridicularizar, ate mesmo tentar
reduzí-los, gloriar-se por não haver senso de culpa, ou de racionalizar-justificar as suas ações,
porém com o passar do tempo não conseguirá cancelar completamente aquele golpe negativo que
repetiu várias vezes, e que é natural no ser humano por não conseguir alcançar de uma certa
forma os seus ideais, quaisquer que sejam. Reação que se manifestará em formas e modos
estranhos, e que depois são subterfúgios32, por exemplo como nervosismo, estado de agitação,
impaciência com os outros e irritação, depressão. Podemos afirmar com certeza: durante o tempo
em que coloca em ato todos aqueles mecanismos de defesa a pessoa não está em crise, faz de
tudo para evitá-la, as vezes conseguindo até mesmo escondê-la dos outros e a iludir-se, ou seja,
31 Segundo Galimberti são estas as carecterísticas mais importante do estado de Crise : 1) um estado de mássima abertura a mudança, em direção a
uma solução positiva; 2) um tempo limitado; 3) uma mudança seja a nível afetivo que cognitivo ; 4) Un seu repropor-se se não é resolvido ou se
encontra uma solução inadequada. (GALIMBERTI, Crisi, 247).
32 Meio artificioso ou sutil que se emprega para sair de dificuldades.
A Hora de Deus
25
literalmente a “levar na brincadeira” (ou a girar em torno de si) ... De fato nunca dar um passo a
frente na vida.
Na realidade, num nível mais profundo, o sofrimento do qual falamos e que é componente
importante de uma crise, vem do amor, da paixão pelo próprio ideal de vida. Não é fruto de uma
condenação de si, ou de um sútil auto desprezo do tipo perfeccionista que está fraco e imperfeito.
Isto é uma obediência mais ou menos cega a uma imposição interna, obediência ao senso do
dever como imperativo categórico33, porém consequência de uma relação que esta nascendo e
que vai afirmando sempre mais e mais na vida da pessoa, tanto mais na vida de um crente ou de
um consagrado que é chamado por amor a responder ao Amor, e ao amor de uma Pessoa
específica pela qual se sente amado, ainda que isto lhe custa muito e lhe pede renúncia de outros
afetos. Uma vez que nesta relação e com esta Pessoa, como veremos, o sujeito descobre sempre
mais ele mesmo e aquilo que é chamado a tornar-se.
É importante reconduzir a pessoa a este santo sofrimento, como ponto de partida para
enfrentar adequadamente a situação crítica em que se encontra.
Não pense que o indivíduo deve chegar a “quem sabe” qual transgressão para perceber
em si mesmo este tipo de sofrimento. Quem tem um ideal na vida e em tal ideal compreende que
há um chamado, e este, vem do Alto, e de um Outro. A revelação do seu verdadeiro “eu” ou
daquilo que é chamado a ser, o fará também muito vigilante para entender o que o mantém longe
do ideal ao qual quer chegar, realizar, será muito sensível as provocações que recebe do externo,
da história, do ambiente cultural, dos outros... Terá uma baixa percepção, exatamente, para se
deixar “entrar em crise”, diferentemente do tipo vulgar que está perdendo a paixão pelo seu ideal,
e que nem mesmo uma tonelada poderá fazê-lo mover-se de sua inércia, apatia e insensibilidade
que lhe protege de todas as crises.Desta forma a crise é componente normal e positivo de um processo de formação
permanente (ou ate mesmo da idéia de identidade), como dois elementos intimamente ligados
entre si. Por um lado é a consciência da diferença dentro de si, entre ideal e realidade que torna a
vida caminho constante formativo, enquanto, por outro lado, é somente quem leva a sério tal
caminho, (e a formação permanente) que poderá perceber o momento e fazer escolhas
consequentes.
Outra especificação a respeito da “consciência dolorosa ou sofrida”. Por si só o sofrimento,
como componente normal de uma crise, pode ser motivado também por fatores externos a
pessoa (como luto por pessoa querida) ou não, ligado a sua responsabilidade (como um doença)
ou até mesmo de natureza transcendente (como a ausência de Deus na noite da alma): nestes
casos não existe transgressão ou fraqueza como origem da eventual crise, mas poderá ser um
sofrimento salutar que reconduz o sujeito a confrontar com o seu eu ideal, em todo caso ao
menos a fidelidade a este ideal, a descoberta de um modo novo e inédito, talvez, de realizá-lo
ainda que em situações obviamente duras como luto ou enfermidade ou sensação de ausência do
Eterno, e portanto também a um novo conhecimento de Deus e do seu mistério, no qual esta
escondido também o mistério do próprio eu.
c) Decisão de mudar
Outro elemento absolutamente qualificativo em uma crise é a decisão de mudar. Que
segue ou deveria seguir espontaneamente a consciência dolorosa, sofrida do contraste entre o eu
33 Imperativo categórico é um dos principais elementos da filosofia de Immanuel Kant. Sua ética e moral têm como base esse preceito. Para o
filósofo alemão, imperativo categórico é o dever de toda pessoa de agir conforme os princípios que ELA quer que todos os seres humanos sigam,
que ELA quer que seja uma lei da natureza humana. O imperativo categórico é enunciado com três diferentes fórmulas, são estas: 1)O próprio
imperativo categórico, sobre o qual Kant coloca: "Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, por tua vontade, lei universal da natureza".
2)O imperativo universal: "A máxima do meu agir deve ser por mim entendida como uma lei universal, para que todos a sigam". 3)O imperativo
prático: "Age de tal modo que possas usar a humanidade, tanto em tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre como um fim ao mesmo
tempo e nunca apenas como um meio".
http://pt.wikipedia.org/wiki/Immanuel_Kant
http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89tica
http://pt.wikipedia.org/wiki/Moral
http://pt.wikipedia.org/wiki/Dever
A Hora de Deus
26
atual e o eu ideal. Por isto é... precioso o sofrimento, porque torna autêntico o impulso para
mudar e dar uma virada radical na vida, sobretudo quando o sofrimento nasce da paixão ou do
amor. Então, de fato, o sofrimento é rico de energia, mais forte do que as resistências, que as
inércias, que os mecanismos de defesa que nos enganam ao invés de nos defender, e consegue
assim estimular a decisão para uma verdadeira conversão.
Porém a crise não é pacífica. Em vários casos a pessoa ver corretamente o seu problema,
mas não decide-se nunca a percorrer o caminho para chegar a uma mudança! Falta portanto a
motivação, aquele particular sofrimento que nasce do amor34. Se não existir um tal sofrimento (e
o amor que o motive) o sujeito simplesmente não ver porque mudar. E será terrivelmente difícil
provocá-lo do externo, não obstante o psicológico ou quem sabe, quem tente em todos os modos
encorajar a pessoa.
De outra parte, tal motivação sofrida não cai do céu, mas é fruto de um caminho específico
ou de uma disponibilidade progressivamente crescida. No plano espiritual e psicológico.
Motivação espiritual
Em termos mais técnicos, queremos dizer, a decisão é ligada ao tipo de realização existente
entre “eu atual” e “eu ideal”, ou a distância existente entre os dois ideais. Que deveria ser uma
distância ideal, nem muita (exagerada) nem pouca (mínima), mas o necessário para que exista um
contato real com alguma coisa, ou melhor, com Alguém com a qual nasça uma relação importante
e significativa, a partir de uma intuição: nesta pessoa está escondido o meu “eu”, está tracejada a
minha verdade, o meu eu ideal. Tudo parte daqui. Inevitável, então, que lentamente se torne
também uma relação de amor. Por este Alguém que está no centro da vida, que faz parte da
própria existência e que pertence ao sujeito, um Tu no qual descobre o seu próprio “eu”,
impossível não desenvolver uma relação afetiva, no sentido mais verdadeiro do termo, com tal
realidade.
Se trata de Alguem não domesticável da própria pessoa, mas também atraente, agradável,
e também infinitamente exigente; convincente, mas porém projetado e projetante no mistério.
Existe em suma uma distância que separa inevitavelmente deste ideal, mas uma distância
específica, que obedece a critérios específicos. É, e deve ser, uma distância que consente ao
sujeito perceber a verdade ideal, ou pelo menos algum fragmento desta verdade, de sentí-la
verdadeiramente, e não somente em si mesmo, mas também na própria pessoa. Portanto algo
belo, fascinante, como escutar repreensões, chamada de atenção, exigências e pretensões sobre o
modo de agir. Alguma coisa (ou Alguém) que complica a vida, te pede o máximo de você mesmo,
te faz sentir a dor por eventuais incoerências e mesmo assim a vontade de continuar caminhando,
alguma coisa (alguém) que não pode mais perde, porque é somente ali que existe a sua identidade
e verdade. É, no fundo, a experiência de Pedro, quando não entende o raciocínio de Jesus sobre o
pão da vida, mas intui que somente aquele homem tem as palavras de vida, e que viver sem Ele
não seria mais vida (cf. Jo 6,68).
Então, quando todo o psiquismo (coração-mente-vontade, sentidos externos e internos,
mãos e pés, sensibilidade e impulsividade ...) está voltado para o objetivo central e em contato
com este objetivo, cresce também a disponibilidade de recolocar-se em discussão. Ou seja, o
indivíduo está finalmente motivado a mudar. Por uma motivação que vem do amor, de uma
relação amorosa com o próprio ideal ou com aquela Pessoa com a qual o consagrado descobre
sempre mais, não um genérico ideal, igual para todos, mas uma revelação pessoal do mistério do
seu “eu”, do seu eu ideal. Assim como é inevitável não ter uma relação de amor com esta Pessoa,
assim também será inevitável não ter consciência da distância que me separa Dela.
34 Se a motivação é o impulso para agir, o modo mais natural e eficaz de ser motivado é aquele impulso que vem do amor.
A Hora de Deus
27
Motivação Psicológica
Existe ainda uma outra via para chegar ao mesmo resultado. Este é do tipo mais dedutivo.
Aquela que deveria conduzir lentamente a pessoa a constatar que está vivendo mal, que não está
gozando, mesmo se faz tudo para convencer-se do contrário, que aquela gratificação afetiva, ou
seja como for, impulsiva que lhe concedia não lhe dava verdadeira alegria, e se tem a impressão
que esta é uma impressão passageira, que dura poco e depois se contradiz, na verdade lhe deixa
com um gosto doloroso como amargo na boca. Na realidade, este deverá obter aquela gratificação
que transformará numa dependência, senão uma obsessão. A vida tornar-se uma existência
escrava ou dominada de uma compulsão impulsiva?
No contrário a música muda, por assim dizer, de uma crise de inércia, típica de quem não
percebe que está acabando o entusiasmo que havia a algum tempo, e que aceita sujeitar-se
passivamente a própria existência, mesmo se sua vida foi consagrada, esteja atento – a sua única
“atividade” de ser – para evitar ou anular toda perturbação, confusão e provocação, ou acabará
por ficar preocupado somente com sua saúde e com seu conforto, não percebendo mais nenhum
estímolo que provoque o sujeito a sair de si, e sobretudo não tendo umarelação que deveria estar
ao centro da sua vida revelando-lhe o mistério que ela contém. Até mesmo quem se encontra
nesta situação podera ter a impressão de estar contente, satisfeito, porém não estará
verdadeiramente, não poderá estar. Porque não pode existir vida numa existência privada de
relações e de uma relação que seja central para a sua identidade, seria uma existência ex-cêntrica
ou auto-cêntrica, onde poderíamos dizer que é a antecâmara do desespero, não pode ser feliz um
eu que não se reflete em um tu.
Em ambos os casos exemplificados o segredo estar em tornar evidente o auto-engano, ou
seja, descobrir aquele sentimento de frustração que agride ambos os casos. Porém todos os dois
casos tentam de todos os modos reprimir, afastar de si tais aborrecimentos, contentando-se com
pequenas compensações, o quanto for necessário para dizer a si mesmo: “Eu sou feliz”. Talvez não
acontecem, por si só muitas motivações espirituais, bastaria – mesmo se algumas vezes tenha
aparência de felicidade, mas na verdade não é – levar a pessoa a descobrir e a entender esta
contradição que está tornando sua vida e sua pessoa profundamente falsa. Ou ainda aquela
relação central que é a condição de sentido da própria existência, está ausente ou tem pouco
significado, sem a qual a própria pessoa não corre somente o risco de não ter mais pontos de
referência ou de permanecer como uma obra incompleta, mas ainda de permanecer sem amor,
aquele verdadeiro amor, que revela a verdade do eu. Ainda uma vez, a primeira e fundamental
intervenção é aquela da verdade em se tratando do conhecimento. Enquanto que segundo os
métodos, a estrada a tomar é aquela da consciência do sujeito a ser promovido, para que seja ele
mesmo a tomar a decisão.
O ponto fraco
Um outro assunto importante para trabalharmos é a necessidade de definir o caminho
formativo, identificando os pontos fracos que tornam o sujeito passivo diante da beleza do ideal as
vezes não muito atraído por esta beleza ou deixando-se ser seduzido por outras eventualidades.
Até o momento em que este ponto fraco não é identificado ou esta inconsistência, ou seja
a eventual crise é uma situação que bloqueia, sem alguma possibilidade evolutiva positiva,
semplismente porque o sujeito não sabe por onde começar, percebe o incômodo, mas não
entende como e o que fazer para sair desta crise. E não somente isso, e ainda a crise piora, já que
– como bem sabemos – o inconsciente, quando é incomodado, tende a tornar... sempre mais
inconsciente, complicando assim sempre mais a vida e a relação da pessoa.
A Hora de Deus
28
Não podemos certamente neste tipo de identificação ser genéricos e aproximativos, ao
contrário, quanto mais preciso formos no entender a área psíquica aonde o indivíduo estar
“menos livre” por assim dizer, e mais vulnerável, tanto mais será forte a motivação a mudar.
Certo, não se pode identificar a descoberta da própria inconscistência com a decisão de
mudar, então não basta a primeira para que tenhamos a segunda, mas acredito poder dizer que
quando a pessoa é ajudada e provocada a fazer esta descoberta aumentam significativamente as
possibilidades de uma decisão correspondente.
Normalmente a pessoa que está em crise não faz isto sozinha, antes o estar em crise
implica um tipo de obscuridade de uma parte de si que a determinou, acontecerá com o tempo ou
com o caminhar evolutivo normal da vida: “A história da vida – especifica Jaspers – não segue o
curso uniforme do tempo, mas estrutura o próprio tempo qualitativamente, impulsionando o
desenvolvimento da esperiência ao extremo tornando inevitável a decisão”35.
Então, ocorre idealmente chegar a tornar inevitável a decisão de mudar, ou favorecer uma
pressão ou um impulso extremo causado pelos eventos (ou por Deus, pelo o crente) na história de
cada indivíduo que decide-se a mudar. A crise, neste sentido, é esta pressão, providencial
podemos dizer, como um limite extremo, que deveria proporcionar a pessoa a entender que deve
absolutamente mudar, a sua decisão é inevitável, não pode deixar de fazer, como dice Jesus: “se
não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis.” (Lc 13,3).
d) Em direção de uma nova identidade
Se a crise nasce da percepção de um contraste entre o eu atual e o eu ideal, a solução da
crise vai na direção de um novo tipo de relação entre as duas estruturas da psique humana. Não
somente no sentido da eliminação do contraste em si (que pertence ao passado, ao homem
velho), mas da descoberta daquela novidade de vida que a crise permitiu viver.
Retornaremos, para entender melhor o sentido desta novidade de vida, como já dissemos
antes a respeito da distância que chamei de “distância otimal”.
Distância constante e dinâmica
Tal distânca entre o eu atual e o eu ideal é uma distância constante, destinada a
permanecer na vida da pessoa, ou seja “aquilo que somos” (= eu atual) não chegará nunca a
conquistar tudo “aquilo que nós somos chamados a ser” (= eu ideal), de outra forma, isto não seria
mais um ideal. E ainda, é uma distância dinâmica, na qual os dois polos (= os dois eu’s) se deslocam
juntos progressivamente, quando a evolução da maturidade é positiva : quanto mais prossegue o
eu atual, mais caminhará o eu ideal. Em outras palavras: se o indivíduo se move com todo o seu
ser, com toda a mente, com todo o coração, com todas as forças em direção do seu ideal,
inevitavelmente este último si revela de uma forma nova, o faz compreender qualquer aspecto
inédito do seu mistério, o faz perceber um fragmento novo da sua verdade (=mente), fazendo-o
perceber uma nova atração ou novos motivos de atração (=coração), mas também pedindo-o algo
diferente (=vontade), algo a mais e ainda que seja mais exigente em relação a primeira, ou seja, o
eu ideal aparecerá um tanto novo, como se tivesse dado um passo a frente. Assim o sujeito será
estimulado a responder sempre com todo o seu ser, dando também um passo a frente. Por sua
vez, o sujeito se colocará ele mesmo em condição de descobrir uma nova verdade, perceber uma
nova atração e sentir um novo chamado, como uma chamada permanente e sempre nova, para
um ideal sempre mais verdadeiro-belo-bom, ou convincente-atraente-exigente... Em fim, “a
35 k. Jaspers, Psicologia geral, Roma 1964, 748
A Hora de Deus
29
dialética entre os dois polos do atual e do ideal é inesgotável”, ou seja “o Eu como mistério é
sempre o mesmo Eu, porém sempre mais explícito e explicado”36.
E a vida se torna assim um processo de crescimento contínuo e interminável, ou de
formação permanente verdadeiro, do coração, da mente e da vontade, por uma mudança e um
progresso cognitivo e afetivo e operativo, isto é, total. Que não pode que ser “crítico” e, ao
mesmo tempo, expressão de autêntica fidelidade.
A verdadeira fidelidade
Neste sentido, a fidelidade é feita para ser constantemente inventada e não conservada:
não se fica fiel, se torna mediante um contínuo empenho com o qual o “Eu” si aproxima sempre
mais da própria identidade através não só de inovações lineares e congruentes, mas também
saltos e crises.37 Se não tiver novidades e nem crises, significa que há enfraquecimento e não há
coerência do “eu”.
Em outras palavras, a autêntica fidelidade é dinâmica e criativa, não aquela que busca
simplesmente manter as posições de partida, uma vez que “o homem fiel assume as mudanças
durante as quais ele permanece si mesmo através da mediação destas mudanças. A identidade do
ser vivente inclui crescimento e mediação. A semente é fiel a si mesma tornando-se uma planta”38,
ou seja, o sujeito deveria poder dizer: “Mudo ou converto-me para ser fiel, porque me pede
aquele valor no qual reconheço a minha identidade”. Poderemos até mesmo especificar que
quanto mais o sentido de identidade é positivo, ou fundado sobre algo que garante uma
percepção de si substancialmente e permanentemente positiva (como seria, parao crente, a sua
origem divina e a sua vocação ou, em uma expressão, o seu reconhecer-se em Cristo), quanto mais
o sujeito é livre para mudar, para ser sempre mais fiel ao projeto do início, e que permance aquilo
que é (mesmo se sempre mais transparente) e ao mesmo tempo provoca a mudança e dá a força
de viver a mudança.
É interessante ver como a fidelidade seja comprometida na identidade, ao ponto que
aquilo que dizem sobre a identidade deixa entrever também as características da fidelidade. De
fato, como no conceito de identidade combinam elementos constitutivos estáticos e dinâmicos,
ou existe algo que permanece (a fonte da própria identidade e o tipo de relação entre o eu atual e
o eu ideal) e ainda qualquer coisa que move-se continuamente (o caminho do eu atual e a
descoberta progressiva do eu ideal), assim é para a idéia de fidelidade, que por natureza implica
num ponto de referência estável e permanente no tempo, e um movimento de atração em
direção deste que se abre a descobertas progressivas, e sempre mais envolventes e exigentes39.
Sobretudo se si reflete, como sublinha Sovernigo, que por rigor dos termos não existe o ser fiel aos
atos, ou as idéias, ou as virtudes, ou a uma causa, mas somente e sempre a pessoas. A promessa
define uma responsabilidade que nos é colocada em realação ao outro. O homem si liga em modo
válido somente a pessoas, a Deus e aos outros. Portanto é colocado mau o problema da fidelidade
na educação se si faz objeto de um projeto frio e sem rosto. Esta, aliás é um modo de viver a
relação. A fidelidade, ao contrário é um modo de viver a relação. Ela tem sempre a imagem viva de
alguém ao qual o olhar e coração convidam a responder.40
Aquele diálogo submerso e discreto
36 C.Corbela, Resistir ou ir embora ? Teologia e psicologia diante da fidelidade nas escolhas da vida, Bologna 2009, 84. É muito interessante e
pertinente as reflexões desta autora.
37 Cf. I. De Sandre, Scelta a «responsabilidade limitada», na Servitium 40(2006), 33.
38 G. Sovernigo, “A dificuldade da fidelidade”, em Presbíteros 30 (1996) 7, 496.
39 “Ter percebido a noção de identidade seja como processo dinâmico que como propridedade estável da personalidade, permite reler também a
fidelidade não mais como valor estrínseco ao qual se conformar, mas como modalidade necessária para a plena realização do “Eu” implicando a um
tempo continuidade e criatividade”(Corbella, Resistir ou ir embora?, 87).
40 Corbella, Resistir ou ir embora ? , 498.
A Hora de Deus
30
Enfim, a crise não poderia nascer no momento da resposta ao convite constante do Eterno,
ou não poderia ser componente normal ou instrumento indispensável e inevitável deste diálogo
misterioso e ininterrupto entre o eu atual e o eu ideal? Diálogo submerso e discreto, e mesmo
assim decisivo e “crítico”, ai se não fosse assim. É óbvio que quando o eu ideal faz as suas
propostas e se revela em modo novo para a pessoa, tudo isto não é indolor, si é algo novo,
significa uma nova aventura, uma nova pretensão, algo mais exigente em relação ao hábito de
vida, aquilo em que todos nós nos adaptamos muito facilmente, e que no final é difícil renunciar,
mas é o preço do crescimento.
E é ainda função da crise: criar uma nova relação entre o eu atual e o eu ideal,
empurrando-o para frente, e ainda fazer da vida um contínuo dinamismo evolutivo, impedir a
habitual estagnação que muitas vezes seduzem o consagrado e tornando vazia a vida espiritual do
crente, descobrir estas sútis idolatrias que nos levam a considerar insuperáveis os equilíbrios já
alcançados, e a contentarmos com o nível atingido, a repetir as mesmas coisas, e que impediriam
até mesmo Deus de se revelar na constante e sempre inédita novidade do seu mistério (o Deus de
ontem não é talvez o ídolo de hoje?). Com uma expressão um pouco forte poderíamos dizer que a
crise favorece e ativa a sensibilidade interior que salva a pessoa da maldição da adaptação, vírus
maléfico e mortal que cria por sua vez todos aqueles processos de condicionamento que
bloqueiam a pessoa, tornando-a medíocre, privando-a de sua beleza e quase matando-a
interiormente.
É este – creio firmemente – o sentido das crises espirituais. Porém na realidade em cada
tipo de crise existe sempre o incitar a ir sempre para frente. E então, deste ponto de vista
poderíamos dizer que a ausência da crise é um mal sinal: quereria dizer que a pessoa está
morendo, de fato, não sente mais algum estímolo, ou se interrompeu aquele decisivo diálogo
entre o eu atual e o eu ideal.
Aquele diálogo submesso e discreto não é algo somente humano e psicológico, neste caso
é o mediador psicológico da ação de Deus em nós, a sua voz leve e apenas percepitível, como a
brisa suave do profeta Elias, o sussuro do seu Espírito que paira sobre a criação e faz nova todas as
coisas e e cada criatura...
A Hora de Deus
31
CAPÍTULO 3
AS PESSOAS EM CRISE
Se a crise tem um significado, foi o que tentamos ver no capítulo precedente, existem porém
diversos modos de viver a crise. Por isso não é suficiente identificar o significado objetivo da
situação crítica que o homem frequentemente vem a sofrer, mas ocorre procurar ver como as
crises podem ser interpretadas pelos diversos sujeitos.
1. Tipologia do sujeito “em crise”
Descrevendo as várias maneiras de experimentar as crises, descrevemos também ou
sobretudo os sujeitos em crises; poderíamos dizer que a partir da maneira como interpretamos as
situações críticas se pode perceber o tipo da personalidade daquele que está em crise.
Vamos então ver algumas dessas maneiras de viver ou não viver as crises. Com a finalidade
de entendê-las melhor, indicaremos apenas, em modo ainda muito elementar e genérico, um
modo possível para intervir ou uma área sobre a qual intervir, quase como um primeiro pronto
socorro, que repreenderemos mais adiante em modo mais sistemático.
1.1 Nunca em Crise
Não é por falta de significado que escolhemos partir desta categoria, aqueles que nunca
estão em crise (sorte deles), porque consideramos que seja a categoria mais numerosa.
Quando se fala de crise se pensa imediatamente àqueles que estão em uma situação de
particular necessidade ou com problemas psiquiátricos, ou porque vivem dúvidas vocacionais e
para estes será doloroso discernir sobre o futuro, ou têm dificuldades bem visíveis aparentemente
insuperáveis com sua fidelidade vocacional, ou têm problemas com a comunidade por causa de
uma natureza difícil e forte, ou criam problemas à instituição e se tornam frequentemente um
peso para todos, ou são figuras impossíveis que decidem ir embora batendo a porta, irritados com
o mundo inteiro, as vezes para ir causar problemas em outro lugar... Certo, são os casos mais
impressionantes e muitas vezes difíceis de enfrentar e ajudar.
Mas, a frente desse grupo talvez não tanto consistente assim, existe um outro, este sim
particularmente numeroso, um exército de padres e consagrados/as que estão
extraordinariamente tranquilos como mencionamos no início do capítulo precedente, que não
estão, nunca estiveram e jamais estarão em crise, impertubáveis e sempre satisfeitos de si e do
que fazem. Pelo contrário seria bom para eles mesmos e para os que tem a sorte de viver próximo
a eles, se aceitassem passar pela crise, uma boa crise, ao menos uma vez!
A Hora de Deus
32
O impressionante é que estes são tantos e talvez constituem o verdadeiro problema da
vida sacerdotal e religiosa, antes mesmo da crise vocacional e de tantas outras coisas que hoje é
motivo de preocupação oficial (por exemplo os padres pedófilos) e que é objeto de atenção e
intervenções focadas. Um verdadeiro caruncho na Igreja de Deus, como uma célula com tumor
que – na medida em que não é diagnosticada a tempo – pouco a pouco contamina as outras
células e determina o mal-estar do organismointeiro, vejam a mediocridade de tantos homens de
Deus ou mesmo a “imundície” que existe dentro da Igreja, para falar com termos competentes do
então cardeal Ratzinger, ou a perda de alegria e entusiasmo ou o baixo nível de testemunho da fé
e da consagração por parte de quem deveria dizer como é belo consagrar-se ao Deus da verdade e
da beleza!
O verdadeiro problema é que estas pessoas não cometem grandes transgressões (ou ao
menos não são tais, aos seus olhos), não tem nenhuma dúvida vocacional, geralmente vivem uma
certa fidelidade (ao menos “mais ou menos” ou oficialmente), e as vezes são rígidas no agir e
defensoras da autoridade constituída, não tem motivos externos para sentir-se responsáveis por
alguma coisa que não vai bem, isso porque conseguiram em suma silenciar as vozes internas que
lhes poderiam colocar em discussões (como aquela conversa interior entre o “eu atual e o eu
ideal” que falamos no outro capítulo). Eles encontraram um bom equilíbrio de vida, bom porque
permite um considerável comprometimento entre as exigências dos valores escolhidos e a
pretenção das necessidades infanto-juvenil e isso funciona tão bem que este compromisso de
equilibrista para quem está de fora parece pessoas frequentemente,... equilibradas (não são
explosivas, nem loucas, não fazem coisas estranhas e podem até mesmo conseguir ter uma boa
situação social, parabéns!).
Certo, se alguém olha um pouquinho mais “fundo” a vida destas pessoas, então descobrirá
alguns segredos escondidos, como aquele (falso) celibatário que vive com tranquilidade uma
situação pessoal-relacional escabrosa, obviamente mantida bem escondida, quase clandestina; ou
o consagrado adulto que clicando e navegando aqui e alí, secretamente pretende, concedendo
gratificações típicas da idade adolescente para saciar uma curiosidade sexual fora do tempo e
assim corre o risco de se tornar sempre mais ganancioso; ou um frei que se consagrou na pobreza,
jamais negada formalmente, porém permitindo a si mesmo mil comodidades através de truques e
artimanhas (todos lícitos, naturalmente), ou que no final da vida “descobre” que foi simplesmente
financiado pelos parentes (e discretamente) desviando naquela direção as magnânimas ofertas
recebidas de pessoas generosas, mas também, mais inocuamente, reentra nesta categoria o
apóstolo que continua intrépido a anunciar o Evangelo com o mesmo estilo de algumas década
atrás, e não se sente no mínimo interpelado ou desafiado pelas mudanças culturais e sociais
ocorridas nesse meio-tempo...
Há uma coisa a dizer destes “tipos singulares”, que geralmente conseguem fazer qualquer
outro estar em crise; não sei se é uma lei, mas se poderia dizer que para cada pessoa que nunca
está em crise, há sempre uma outra, geralmente muito próxima desta... forçada a estar em crise
(estar ao seu lugar) ou que se encontra, pelo menos, a sofrer as consequências de viver junto a
uma pessoa que nunca erra, que não tem nada para censurar-se, que tem sempre razão,
explendida na sua mediocridade e irritante na sua ambiguidade. Pois, de fato não é fácil esta
convivência, dai alguém pode sair com os ossos quebradros, frustado e exausto por uma crise
determinada simplesmente por estar ao lado de quem não tem a coragem de viver as suas crises.
Poderíamos considerar esta crise como uma espécie de crise “substituta” ou “vigária”, como
aquela do bispo um pouco desesperado que não sabe mais o que fazer com alguém desse “tipo”,
um de seus padres (embora não vivendo juntos) por fim consegue convencê-lo a pedir um
aconselhamento a nível psicológico e espiritual, o sujeito vem, mas recordo, para dizer que não
tem nada em particular para dizer, nem mesmo sabe porque o bispo insistiu tanto para fazer este
aconselhamento, “talvez – conclui, ironico, procurando em mim um improvável aliado – é a sua
A Hora de Deus
33
excelência (o bispo) que está em crise”. De fato... E não havia nenhuma maneira de fazê-lo admitir
sequer um pequeno problema pessoal.
Na verdade, um aspecto característico típico destas pessoas, é que não percebem nunca,
algum senso de culpa, a consideram uma coisa superada, para principiantes na vida moral, nem se
sentem desafiados a mudar nada em sua experiência, porque para eles tudo está sempre muito
bem, são os outro que pensam mal.
E ao invés seria mesmo bom fazê-los ter algum sentimento de culpa e a entender, antes,
que esse é ainda o primeiro passo na evolução positiva da consciência moral. Assim como é útil
para quem quer conhecer-se e não enganar-se, não jogar fora tudo o que os outros dizem sobre
nós, existem aspectos da nossa personalidade que os outros vêem e nós não vemos41 somente um
bobo ou um presunçoso se priva dessa fonte preciosa de informações.
Se tratará então de despertar uma sensibilidade que está atrofiando, tornando-se fria e
apática, através de uma atenção não somente dos comportamentos, mas também dos
sentimentos, dos gostos, dos desejos, das motivações em particular, para passar da sinceridade
(reconhecer aquilo que se experimenta dentro) à verdade (entender o motivo ou a raíz profunda
daquele sentimento). Talvez fará alguém sorrir, mas será uma ótima medicina preventiva para não
cair nessa sindrome do tipo “nunca em crise”, realmente aprender a fazer esta tão séria e
saudável, ainda simples e acessível, que é o exame de consciência (“a psicanálise do pobre”),
através do qual se aprende a olhar para dentro com inteligência, passando da atenção ao “o que
eu fiz” à “como eu o fiz” (com quais atitudes e sentimentos interiores), do como ao porquê, do
porquê ao por quem o fiz.
Haveria então uma esperança, para estes tipos, de sair de um exame de consciência com os
ossos um pouco "amassado” ou de descobrir qualquer contradição ou inconsistência interior.
Sentindo-se finalmente em crise, para a paz de todos. Deo gratias!
1.2 Sempre em crise
Ao contrário, no outro extremo existe o tipo tanto estranho, mas pelo motivo oposto: são
aqueles que estão em “crise estável”, os que estão sempre em crise, correndo o risco de tornar
permanente não a sua formação, mas a sua crise. Isto é, não é nem mesmo crise autêntica, porque
a crise sublinha Galimberti, do ponto de vista psicológico tem “uma duração limitada”42 ou supõe
uma decisão, como argumentamos anteriormente. Normalmente, quem está sempre em crise não
está nunca por uma razão profunda e verdadeira, mas por qualquer outra sensação interior –
superficial – que o tira da paz.
Os motivos ou as modalidades podem ser diversos: existe o sujeito que inventa a crise (“se
coloca” em crise) e de fato de qualquer maneira a sofre (pela vida, pelos outros, pelas
situações...), ou teremos o personagem que está bem dentro da situação considerada crítica: de
um lado se sente como uma pessoa séria e consciente, do outro o estar em crise se torna um ábili
que não o permite poder tomar grandes decisões e mudar. É o caso típico do jovem em
discernimento vocacional que sente ou disse que “esta em crise de discernimeento” porque lhe
falta ainda alguns detalhes para esclarecer dentro de si, portanto, não pode escolher. Esta pessoa
nós a encontramos em todos encontros vocacionais, em toda “jornada de seminário”, falsamente
pensativo e permanentemente a espera de quem sabe quais informações, quem sabe de onde... A
realidade é que na verdade não se importam muito com a prospectiva vocacional ou que de fato,
teme ter que tomar uma decisão e assim fica esperando.... Para pessoas deste tipo alguns
costumavam dizer: “Tomam nesse meio tempo a decisão em base aos elementos que têem em
41 É a famosa Johari’s windows, que coloca em relação o conhecimento que alguém tem da própria personalidade com o conhecimento que os
outros tem (cf. Sobre isso A. Cencini – A. Manenti, Psicologia e formação. Estruturas e dinamismos, Bolonha 2001, 42-43).
42 U. Galimberti, « Crise», in ID., Dizionario di psicologia, Turim 1992, 247.
A Horade Deus
34
mãos hoje, e amanhã sem dúvidas terá qualquer detalhe a mais para tomar uma decisão ainda
melhor43...”.
Portanto a crise desses sujeitos é tudo junto como uma crise inerte, pacífica, enfim, não
sofrida, talvez instrumentalizada ao menos algumas vezes. Claro com algumas diferenças.
No primeiro caso (quando alguém inventa ou sofre a crise) teremos o tipo um pouco
perfeccionista e um pouco escrupuloso e de modo muito exagerado curvado sobre sí e assim
meticulosamente, cauteloso, atento às minúcias do seu comportamento para descobrir sempre
qualquer imperfeição naquilo que faz. É o clássico sujeito “nunca” contente de sí, depressivo e
geralmente também deprimente. Este necessitará de um cuidado radical que reerga um pouco a
sua auto-estima, fazendo-o entender o que sustenta e garante definitivamente (o amor de Deus,
afinal e o ser criatura feita a Sua imagem e semelhança) e ajudá-lo a não confundir a santidade
com a perfeição, a santidade é a pobreza do homem, cheia do amor de Deus, e a perfeição é a
pretenção irrealista da criatura de conquistar a virtude com suas próprias forças. Eis então a
verdadeira crise, aquela saudável e mais profunda, que é proposta a quem está “sempre em crise”
(falsa crise, na realidade é prejudicial a saúde): lutar contra o próprio egoísmo ou narcisismo
espiritual, que com o tempo impede o fiel de fazer as experiências mais ricas e típicas do cristão, a
experiência da graça divina na fraqueza humana, a experiência que fez Paulo, aquele ex-narcisista
dizer: “Quando sou fraco é então que sou forte”.
No segundo caso (aquele de quem está na crise por não dever escolher) teremos o
indivíduo que vê certamente o contraste dentro de sí, porém considera um preço muito alto a
pagar para sair, ou se considera incapaz de mudar e deixar certos hábitos, e assim de fato não
toma nunca uma decisão de converter-se ou de escolher uma estrada, a crise se torna crônica,
como um compromisso que no final é também cômodo e não pertuba tanto a sua paz.
Personagens assim não devem ser simplesmente consolados, mas provocados – se for o
caso – a identificar a verdadeira crise, para vivê-la de modo realista e coerente, sem suportá-la
nem satisfazendo-se ao chorar por causa disso, mas também em modo iluminado e como meio de
crescimento, começando talvez das pequenas coisas e sem pretender entender tudo
imediatamente, mas fazendo escolhas progressivas segundo a clareza que este possui no
momento, como diz o sábio conselho daquele padre do deserto que vimos anteriormente. Se
alguém pretende ter claro diante de si todos os elementos para fazer uma escolha, não tomará
nunca nenhuma decisão. Por isso a decisão cristã é diferente daquela somente humana: esta
última é baseada sobre o cálculo e rejeita tudo que compreende como perigoso, deseja ver claro
até o fim, para eliminar todas as incertezas e surpresas e ter todas as garantias possíveis, preferir a
escolha de menor condição e a mais lógica. A escolha cristã ao invés, não exige todas as garantias,
mas é disposta a correr qualquer risco, não parte do cálculo, nem está centrada em sí e limitada às
próprias forças, mas se abre à confiança em um Outro, a ponto de tentar o impossível sobre o
plano humano ou aderir um plano não totalmente lógico.44 A vocação não seria, talvez o
impossível humano, tornado possível por Deus? 45
1.3 Crise... congelada
43 É o sentido da história de uma jovem em busca vocacional, que pedia com insistência na oração ao Senhor para que a revelasse o seu projeto. Se
dizia aberta e disponível a uma hipótese de consagração, mas permanecia ainda na incerteza. Frequantemente se ajoelhava diante uma imagem
milagrosa de nossa Senhora com o menino Jesus no colo, fazia isso porque foi aconselhada por algumas freiras (talvez não totalmente
desinteressadas), repetindo sempre a mesma súplica vocacional, mas “a Virgem da chamada” - era esse o seu nome - silenciava, (apesar das
insistentes orações das freiras). Até que um belo dia chegou uma resposta, mas não da Virgem. O menino Jesus, talvez entediado de escutar sempre
o mesmo lamento, decide tomar a iniciativa e a ordena sem meios termos: “... torna-te freira!” E ela responde: Cala-te. As crianças devem silênciar-
se na presença dos adultos. E depois eu pedi foi a sua mãe, você não tem nada a ver com isso ...” E preferiu permanecer na sua ... infinita “crise de
discernimeto vocacional”... (cf.A. Cencini, Alguém te chama. Carta para quem não sabem que é chamado. Bréscia 1999, 24).
44 Neste sentido se pode tirar o verdadeiro significado de confiança, do ponto de vista do processo decisivo, como daquele “espaço da decisão que
foi descoberto do cálculo ou que o cálculo deve necessariamente deixar livre” (A. Cencini, Confio, logo decido. Educar a confiança nas escolhas
vocacionais, Milão 2009, 91).
45 Aprofundaremos este aspecto, sempre do ponto de vista da crise, no capitolo 9 §4.
A Hora de Deus
35
Existe também o consagrado(a) que não conhece crise nenhuma, simplesmente porque
ignora e quer ignorar até onde pode, um tipo particular de problemas pessoais que o colocaria em
dificuldades ou que de qualquer modo não deseja, para poder dizer a sí mesmo que está livre
disso.
Um exemplo muito frequente é aquilo que acontece na área afetiva, particularmente no
período da primeira formação, quando a pessoa, ainda se por causa de um idéia equivocada de
perfeição assume uma atitude negativa com relação a própria sexualidade, pensa que o voto de
castidade signifique a ausência de um certo tipo de atração e assim resolve remover tudo que
pesa em torno da área da afetividade e sexualidade (“as tinha colocado na geladeira”, disse um
desses uma vez aberto os olhos). Como aquela jovem noviça, em um mosteiro de clausura que
afirmava vigorosamente e com aparente tranquilidade, de nunca haver tido uma tentação com
relação a castidade e de preparar-se para fazer os votos sem experimentar nenhuma dificuldade,
incerteza ou temor dentro de sí. Lembro-me de sua surpresa, um pouco envergonhada de frente
às questões sobre esta área e, eventualmente, um certo ressentimento mal disfarçado diante do
interlocutor, como se considerasse ofensivo e sem sentido para uma consagrada o convite para
refletir sobre este assunto.46 Na realidade quem faz ou pensa assim, teme a afetividade e a
sexualidade ou não sabe como gerenciá-la nem mesmo suspeita que na sexualidade há “centelha
pascal”;47 e acaba vivendo na verdade uma vida congelada, isto é, chata, e relações sem algum
envolvimento interior, tornando-se frio e sem coração com Deus e com os homens.
É claro que uma crise congelada é somente uma crise tranferida, transposta. Portanto, não
tem nenhum sentido esse tipo de operação porque espera-se que a vida siga os próprios ritmos e
antes ou depois, exponha a pessoa à constatação que aquela presunção era pouco inteligente.
Permanecendo no exemplo do congelamento da energia afetiva-sexual virá o momento, como de
costume, no qual não terá mais o congelamento e então será doloroso, porque a pessoa se
encontrará de frente a uma realidade que não tenha aprendido com o tempo a conhecer e
controlar, por vezes com consequências devastadoras, como se de repente um gigante acordasse
de uma misteriosa letargia tornando uma armadilha (como medo e resistência, remoções e
repressões), começando a causar desastres. Certamente, uma vez que a crise congelada não é
somente transferida, mas quando explodir será muito mais grave e distrutiva. Quantas crises deste
tipo conhecemos em pessoas não muito jovens, nas quais são improvisadamente descongelada,
após os rigorosos invernos da remoção, a energia sexual!
O tempo da formação inicial é por natureza um tempo de crise por sua vez é tempo de
formação.48 Isso não significa que se deve provocar uma crise a todo custo, talvez artificialmente
(os clássicos repolhos plantados com as raízes para cima, para colocar em prova a obediênciado
jovem noviço), mas simplesmente que as dificuldades e os problemas vividos no período
estratégico da primeira formação devem ser vividos até o fim e reconhecidos por aquilo que eles
significam e revelam da pessoa, devem ser abordados com coragem e respeitados, sem removê-
los ou cancelá-los, congelá-los ou negá-los, devem ser vividos como pedagogia preciosa, para
aprender a viver as crises do futuro.. Ai de quem professar os votos ou as ordens sem ter vivido as
suas crises!49
Poderia então ser “providencial” também para estes uma “bela crise” em tempo oportuno
(não muito longe), já que talvez seria até mesmo de se esperar que estas pessoas chegassem ao
fundo do poço ou que se descobrissem bem mais vulneráveis do que haviam considerado até
agora, pretendendo expelir qualquer sinal, ou circunstância de imperfeição. Até mesmo uma
queda (no caso de um congelamento afetivo ou de uma tentativa em tal senso) seria uma bela
bofetada, obviamente gerenciada com inteligencia por quem guia a pessoa; mas também um
46 Quanto a mim, costumo dizer aos jovens em formação que “quem não tem problemas nesta área é ele um problema...”.
47 Cf. O Clement, Reflexões sobre o homem, Milão 1973, 101
48 Falaremos disso, identificando algumas crises “essenciais”, no último capítulo.
49 … e ai também de quem as promovem, evidentemente !
A Hora de Deus
36
fracasso ressonante em outros campos. Se trataria, isto é, de colocar o sujeito em condição de
viver estas situações, para ele totalmente inédita e imprevista, não como algo dramático e
negativo, mas como uma ocasião proprícia para entender o que está acontecendo dentro de si
mesmo, para compreender a qual ponto pode conduzir a ignorância dos próprios problemas, para
entender que em cada esforço psicológico ou espiritual encontra-se um pouco da verdade de si
mesmo, por assim dizer finalmente a verdade, para liberar a energia preciosa que permaneceu
muito tempo bloqueada e inativa. Sem medo, aquele medo que é filho da ignorância e também
sempre um pouco pagã, e que não é benéfico para ninguém.
E talvez este é mais difícil e complicado para os homens (sempre um pouco presunçosos
com isso, quem sabe por que) do que para as mulheres.
1.4. Crise “final”
Existem também consagrados que têm pouca atenção, como as virgens loucas, que
percebem e admitem estar em crise somente...no final, quando esta explode descontroladamente
e elas não têm mais força de gerenciá-la e dominá-la.
Veremos mais adiante o percurso clássico feito frequentemente pelas crises, com as etapas
que seguem uma após a outra quase automaticamente, se não tiver algum intervenção
inteligente de fora para iluminar a consciência. Por isso, dizemos que já agora que para estas
pessoas se deveria ensinar a previnir as crises ou a reconhecê-las quando estão no estágio inicial,
com mais sinceridade e clarividência.
Permanecendo ainda no âmbito da crise afetiva (perdoem-me a insistência sobre o tema
pois quero dizer que estas são as crises mais frequente ou pelo menos está entre as mais
frequentes), ocorre em tal campo recuperar um sadio realismo e ensinar a vigiar sobre aquela
ingenuidade que é ainda mais perigosa que a presunçosa esperteza. Estranho dizer, mas o padre
hoje sobre este campo as vezes tem uma incrível ingenuidade, mista ou mesmo um incrível
analfabetismo afetivo-sexual. Como se não soubessem ler os próprios sentimentos e emoções, o
próprio corpo e suas reações (quantas informações o corpo nos dá?) ou se não soubessem que o
corpo com as suas expressões “liga” muito mais do que se imagina ou que ignorassem que quando
se tem uma relação até mesmo a mais espiritual com uma pessoa do outro sexo deve
necessariamente prever, se é normal, um certo tipo de reações dentro de si, que não serão
necessariamente perigosa mas necessitam em todo caso de um sadio, isto é, um inteligente auto-
controle. Como se não soubesse mais distinguir uma relação qualquer com tantas pessoas com as
quais entra em contato no seu ministério pastoral, de uma relação que ao invés tornou-se sempre
mais significativa e importante para ele, com uma pessoa que está ocupando um pouco
exageradamente os seus pensamentos e fantasias, enquanto o desejo de vê-la torna-se mais forte
e frequentemente é um desejo que vem satisfeito. Como é tão difícil de entender que a relação
gratificada se impõe cada vez mais, seguindo uma matriz bastante lógica e... atestada por vários
ex-colegas, como a seguinte história: o enamoramento do padre Luovico, nos confirma tudo: ou
seja, a velha história da relação espiritual com a jovem senhora que tem problemas com o marido
e procura ajuda, depois vem a simpatia, amiude (frequentação) sempre mais assídua, o descobrir
na primeira pessoa o mundo da sexualidade, a expressão gestual sempre mais envolvente, a
paixão, o sentimento de um romance emocionante entre os dois que se entendem, o sonho de
uma imensa felicidade...e a decisão de jogar tudo para o alto e ir viver com ela... Como pinos em
uma fileira, caiu o primeiro (a relação envolvente) cai também o último (abandono do sacerdócio e
a escolha da convivencia)...50
50 A. Cencini, A verdade da vida. Formação contínua da mente fiél, Cinisello Balsamo 2007,25.
A Hora de Deus
37
Não que esse seja um percurso obrigatório, mas certamente existe como uma força
instintiva interna, quase um modo gravitacional que vai nessa direção precisa, e impulsiona a
pessoa a envolver-se sempre mais em uma história que a um certo ponto não deixará mais
nenhuma via de saída: é uma lei psiquica. Então será muito difícil ajudar o sujeito profundamente
apaixonado e que tem a sensação de que nada pode contra aquele sentimento que o envolve por
inteiro (“...é mais forte do que eu...”), sente insuportável a solidão (“fomos feitos um para o outro,
não posso viver sem ela”), que talvez espiritualizará tudo (“foi Deus quem nos proporcionou
encontrar-nos”) ou que procurará mil motivos para continuar uma relação que não esteja em
contradição com a própria escolha de consagração (“desde que comecei este relacionamento me
sinto melhor e vivo também melhor o relacionamento com Deus...”). E este é o sinal inquietante:
quando a mente se adequa e a consciência justifica ou procura ajustar tudo, quer dizer que se tem
pouco a fazer, a crise chegou a um certo nível de maturação, chegamos ao fruto... Com o
sentimento de amor, de fato não se brinca, e ninguém pode sentir-se tão seguro de si a ponto de
permirtir-se tudo sem alguma hesitação.
Sem dúvidas teria sido mais fácil intervir na fase anterior, sem esperar muito. Mas em cada
caso quem vive esse tipo de crise seria levado a entender que de qualquer modo, mesmo na crise
avançada, se tem sempre uma possibilidade de arrepender-se, de recuperar ao menos um pouco
da liberdade diante da realidade impulsiva, ainda que custará o sangue. Seria muito comodo dizer:
“Agora não há mais nada que fazer...” não é verdade.
Retorna porém o comum refrão. É fundamental olhar dentro de sí, monitorar o próprio
coração, perceber onde está mais vulneável e aos poucos facilmente ceder à gratificação (ainda
que leve); é fundamental entender que a repetição gera costume e se deixarmos agir livremente,
por sua vez vai gera vários automatismos que subtraem a liberdade do sujeito e banalizando a
função da consciência, assim como é necessário entender que a pessoa inteligente e que se
conhece bem, não permitindo todas as liberdades deste mundo, mas escolhe responsavelmente
renunciar aquilo que à afasta da verdade de sí.
1.5 Crise fatal
Também essa é uma crise devido ao analfabetismo ou incapacidade de leitura da crise. É o
caso de quem não sabe interpretar a crise ou a lê em um único sentido e ainda negativo, como se
devesse necessáriamente ter um êxito obligatório e alternativo à escolha de vida já feita, como se
o fato de estar em crisesignificasse ter errado tudo e sentir-se realmente na obligação de mudar
de caminho.
De fato muitos se tornam “ex” por essa interpretação equivocada.
Também aqui vem facilmente a referência à crise afetiva, e talvez com o mesmo exemplo
anterior, onde o encontro com a mulher torna-se algo de fatal, que faz padre Ludovico pensar que
estar até aquele momento iludido sobre a sua vocação e portanto de dever exclarecer tudo.
Porém este é um caso de “desorientamento mental” determinado pela pressão do instinto
satisfeito. Em outras palavras, é assim prazeroso e inédito a experiência que a pessoa está vivendo
(“descobri o amor...”, disse aquele jovem e apaixonado padre) que não quer mais saber de votos e
dos seus, nem tem como fazê-lo raciocinar. Existe como que um silogismo louco no desencadear
lógico que está à origem desta desorientação: “Estou apaixonado, então não é esse o meu
caminho, portanto abandonarei tudo e me casarei”.
Não é preciso ter grande inteligência e perspicácia para entender que o fato de apaixonar-
se não significa necessariamente que o caminho seja o matrimônio, mas simplesmente que você
é... normal (e não seria pouco, hoje em particular) de um lado, enquanto do outro esta é ou
poderia ser a consequência inevitável de uma pressão instintiva largamente compensada.
Até mesmo o fato de ter cometido uma certa transgressão, por mais séria que seja, esta
não consente tirar alguma conclusão ou consequência automática.
A Hora de Deus
38
A transgressão nos diz que alguma coisa não funciona bem naquilo que parecia definido de
uma vez por todas e coloca a pessoa diante de uma dupla possibilidade: assumir o passado com
consciência e maturidade ou abandoná-lo dando vida a algo inédito. Nesta ótica antes de concluir
que para um religioso um atentado à castidade significa que errou na vocação, ocorre refletir e
verificar mais fundo.51
Nada porém de fatal.
O mesmo dinamismo com a mesma lógica absurda ou fatal, pode interessar também
outros setores da vida do consagrado.
Uma crise, por exemplo que hoje atinge sempre mais em modo... mortal muitos
sacerdotes, especialmente jovens é a crise de insignificância. E não é estranho, diante da situação
que frequentemente se encontra o jovem que acabou de sair da casa de formação: consciente de
ter algo importante para anunciar, com a determinação a oferecer sua vida por causa deste
anúncio, com alegria e entusiasmo de quem não conhece obstáculos. Mas depois bem sabemos o
que ele vai encontrar, não a rejeição, mas pior ainda, a indiferença e as vezes o sarcarmo, e a
sensação frustante e portanto perigosissima de não ter nada de interessante para dizer, muito
menos algo que seja considerado interessante para quem deveria escutar. Nada de estranho,
dizíamos, estes são os tempos nos quais nos foi dado e pedido para vivermos (sem porém
exagerar nas lamentações, nem generalizar na análise, como se fosse de qualquer maneira assim).
Estranho, eventualmente, é aquele raciocínio que começar a surgir, filho da sensação de se ter
tornado improvisamente insignificante, e que infiltrar-se sutilmente na mente e no coração,
retirando a luz de ambos, como o anoitece na vida dos jovens promissores, propondo-lhe aquele
louco silogismo: “Aquilo em que acredito não enteressa a ninguém, portanto a minha vida não
tem sentido, e como não posso viver em uma contínua frustação talvez seja melhor mudar de
caminho”. É falsa a premissa e é falsa também sobretudo a conclusão.
Talvez seja a história de muitas crises precoses dos jovens (ex) consagrados (precoce
também na “solução” da crise). Jovens que demostram uma singular fraqueza psicológica e
espiritual, quando se depara com as primeiras desilusões no apostolado ou à primeira série de
provocações sentimentais escolhem se render e optam pela mudança nos planos da vocação
existencial; jovens que não regem a crise. Não bastará dizer que esta é a geração jovem e que
estes jovens são semelhantes ao seus contemporâneos que na primeira dificuldade conjugal não
exitam em separa-se. Poderá ser também na verdade, mas fica o fato de que uma formação que
não consegue dar uma estrutura capaz, não somente de suportar a crise, sem sofrê-la, aquela
afetiva ou outra de outro gênero, mas de vivê-la e afrontá-la para crescer, uma formação clara e
realista que faça entender que crise e dificuldades fazem parte do caminho de um consagrado no
anúncio do reino especialmente hoje, estas são previstas52; capaz de libertar o coração e a mente
do jovem de tantas expectativas com relação a sua missão; sobretudo uma formação capaz de
formar no coração do discípulo a disponibilidade a percorre o mesmo caminho do Mestre. Aquele
Mestre que formou seus discípulos também durante as crises, que Ele habilmente provocou ou
explorou.
1.6. Crise inútil
Pertecem sempre ao grupo dos analfabetos quem nunca aprende nada com a crise que
vive, tornando-a inútil. Pelo contrário, acaba sendo prejudicial, já que parece enraizar na pessoa
um certo conflito não resolvido e frequentemente nem mesmo conhecido na sua raíz.
51 C. Corbella, Resistir ou desistir? Teologia e psicologia de frente a fidelidade na escolha da vida, Bolonha 2009,70.
52 Exemplar nesse sentido, a atitude de Paulo que, quando cumprimenta os anciãos da igreja de Efésio, se preparando para partir para Jerusalém,
declara abertamente esperar por “prisão e julgamneto” como destino normal do verdadeiro anunciador (cf. At 20,22-24; para um comentário a este
trecho nesta prospectiva cf. A. Cencini, A árvore da vida. Rumo um modelo de formação inicial e permanente, Cinisello Balsamo 2005,304-305).
A Hora de Deus
39
É o caso por exemplo, de quem passa de uma dependência afetiva a outra, e em cada
lugar onde vai... deixa o sinal (ou uma vítima) ou mesmo se apaixona perdidamente por alguém,
ou vive relações ambíguas, ou parece estar sempre a procura de uma relação privilegiada, que o
faça sentir menos só, e da qual termina por depender, com toda ansiedade, medo de perder o
objeto amado, ciúmes, crescente necessidade de intimidade, sofrimento real, (de uma e de outra
parte), além de querer sempre conversar à sombra do campanário da Igreja (torre com sinos –
expressão italiana para dizer: interesses locais), e neste caso, onde não tem muita gente, mas
sempre terá alguém que irá contar a última (“como de costume”) sobre “padres apaixonados”...
As vezes para interromper o drama e cortar pela raíz, este tipo de sujeito é tranferido na
esperança que “... longe dos olhos, longe do coração”. Mas então, o que acontece mais uma vez?
Deixa uma certa relação, somente porque é de fato impossível, porém nasce imediatamente uma
outra. Ou são pessoas que repetem sempre o mesmo esquema: a mesma esperança, a mesma
necessidade, as mesmas procuras, a mesma abordagem, os mesmos discursos espirituais (de
início, as mesmas auto-justificativas... o mesmo sujeito inconsistente que cai como um autômato -
(pessoa inconsciente e incapaz de ação própria e que se deixa dirigir por outrem) - nas armadilhas
das suas necessidades infantis, com... heróica constância e beata inconsciência.
Mas o esquema funciona na sua inútil repetição, mesmo com outros tipos de problemas. É
o caso do padre Fabiano, que eu conheci nestes ultimos anos: padre diocesano de média idade
que, privado da mãe desde o início de sua vida (que morreu ao dar a luz) teve uma relação
exclusivamente e muito conflitual com o pai, uma pessoa autoritária que – mesmo inconsciente –
não podia “perdoa-lhe” pelo fato de ter causado com o seu nascimento a morte da esposa, e por
isso Fabiano se sentia oprimido e dominado. Desta relação Fabiano herdou um sentimento de
inutilidade pessoal, que as vezes conseguia dominar, e as vezes não, enquanto trazia dentro de si
um sentimento de culpa muito grande com relação ao sexo feminino.
Nos anos do seminário era um sujeito bem rígido e exteriormente seguro de sí, quetendia
a impor-se na relação, as vezes criando um certo temor nos outros que, de fato o temiam.
Confrontado pelos educadores, especialmente em certos momentos em que as coisas pareciam
muito óbvias, jamais aceitou reconhecer verdadeiramente o problema e afrontá-lo
construtivamente. Vocacionalmente não conheceu nenhuma incerteza: sempre apareceu
entusiasmadissimo. Tornou-se padre, mas não mudou de jeito nenhum o seu modo de agir e
sobretudo de relacionar-se, pelo contrário, o ser sacerdote o consente de exercitar um certo
domínio sobre os outros de várias maneiras e em diversas circunstâncias. Porém experimenta
também a rejeição, exatamente por isso, e especialmente quando parece exagerar um pouco.
Portanto, sofre e entre em crise. Mas então o que fazer? Se refugia no grupinho dos seus fiéis,
onde pode impor-se a vontade: são poucos, mas são os “seus”, mais homens do que mulheres. A
um certo ponto porém, também estes começam a fazer algumas observações dizendo (padre o
senhor está excessivo, demasiado...); padre Fabiano se ofende (“até vocês depois de tudo que fiz
por vocês...”), porém não muda absolutamente nada. Se aproxima uma pessoa sábia que procura
fazê-lo ver a incongruência da sua atitude: parece admitir algumas coisas, talvez é um pouco em
crise, mas no final permanece firme sobre suas posições, não suporta ser criticado. Efetivamente a
relação se deteriorou e padre Fabiano é transferido para outro lugar. Não como pároco como ele
queria, mas como coadjutor. Aonde vai é imediatamente bem recebido pela imediata impressão
que passa de uma pessoa determinada, precisa, com idéias claras, convincentes...; mas pouco a
pouco retira da bagagem o seu arsenal usual, ou repete textualmente o mesmo estilo com os
mesmos ingredientes (domínio sobre o outro, relações exclusivas, rigidez com as mulheres), e com
um acréscimo, uma progressiva dificuldade de se relacionar com o pároco (“é tudo meu padre”
dizia - não percebia que a sua históra se repetia e assim mostrava que não aprendeu nada com o
passar do tempo). Até mesmo as reações com as pessoas, depois dos favores iniciais, eram
essencialmente as mesmas de antes, quando estava na outra paróquia. A um certo ponto da
história morre improvisadamente o pároco, o bispo com poucos sacerdotes, cada vez mais
A Hora de Deus
40
reduzido o número, não encontra outra solução senão, nominá-lo como pároco. Padre Fabiano
fica muito contente, finalmente poderá dar a paróquia o rosto que ele quer. E no início as coisas
parecem proceder bem: finalmente um pouco de ordem, diziam o sacristão e o ecônomo. Todavia,
a um certo ponto, a ordem se torna exageradamente asfixiante; e ressurge o estilo habitual, agora
mais amplificado devido ao novo papel institucional, que o permite sempre mais de impor-se,
provocando reações negativas e de abandono por parte de alguns e ele retorna ao grupinho de
refúgio. Até o momento em que não chega sinais de impaciência.
O bispo fica sabendo de tudo, o chama e o faz observar como a paróquia foi reduzida a um
grupinho de fiéis (ou fidelíssimos). Padre Fabiano interpreta muito mal: “o bispo é um pai-patrão”,
e dirá irritado, mas sempre sem entender que... está falando de si mesmo ainda como criança-
adolescente que está reagindo contra seu pai e, depois tenta imitá-lo. E continua a viver e agir
como sempre, despertando a um certo ponto, também dessa vez uma certa rejeição até dos seus
fidelíssimos. Porém a relação desta vez é original e inédita, se relaciona com um somente, um
rapaz, em uma relação evidentemente muito suspeita (em tempos como estes) que a um certo
momento lhe causa sérios problemas. Começam, de fato a surgir comentários sempre mais
insistentes sobre a relação. Ele sente medo entra novamente em crise, parece que vai ser desta
vez ... de modo algum: “A culpa é dos outros, interpretam sempre da maneira deles, inclusive o
bispo, mas pensam que desistirei, se enganam, eu irei adiante pela minha estrada, e quem me
ama (?) me segue. E se ninguem me seguir, pior para eles: não me merecem”. Então, a experiência
é, "mestre de vida".
Na realidade, tem ainda alguns ingênuos que sustentam a idéia que a “experiência ensina”
(?). De modo algum; a experiência ensina somente se a pessoa é livre para deixar-se ser ensinada,
assim como a vida fala se há um coração que escuta, e sobretudo um irmão maior que se põe ao
lado para ajudar a entender, a reconhecer o equívoco de fundo e decidir deixar de ser um escravo.
Para que a vida não torne-se uma sequência de crises inúteis ou de sofrimentos sem sentido. Para
si e para os outros...
1.7 Crise deslocada
Como acenamos no início, existe também a possibilidade que o indivíduo experimente um
certo desconforto interior, mas não seja capaz de reconhecer a sua origem, ou não queira ou tema
fazê-lo. E então prefere “mover/colocar” para o exterior a causa do próprio desconforto (as
estruturas, as instituições, até mesmo o papa, a lei do celibato, a formação passada, a cultura pos-
moderna, a comunidade, o caráter irritante de um irmão, o mundo malvado, os leigos que não
colaboram...) ou sobre aspctos pessoais menos relevantes e do ponto de vista da própria
responsabilidade (sobre o trabalho excessivo e fatigante, sobre o encargo que não é o mais
agradável para o tipo, sobre... pressão alta o a digestão difícil, sobre o clima que não lhe
convém...); ou existe a crise deslocada quando se procura a solução nas coisas externas e não na
mudança do sujeito.
O objetivo inconsciente desta operação é antes de tudo a negação da dificuldade como
problema pessoal, se possível ou pelo menos tentar eliminar a própria responsabilidade, com
aquilo que significa em termos de compromisso e trabalho duro, com a ilusão de poder controlar
melhor a situação problemática quando ela está do lado de fora, no exterior.
Na realidade, como vimos na crise congelada (que só é transferida), também a crise
deslocada é somente mantida por algum tempo fora da consciência, mas não poderá permanecer
por toda vida, não é possível. E, então, surgirá em formas mais ou menos disfarçadas (também os
habituais subterfúgios da energia removida), depois cada vez mais claras, e especialmente criando
sempre mais problemas a quem persiste em não reconhecer a verdade, sem mais defesas ou
mecanismos projetivos diferentes.
A Hora de Deus
41
A crise, porém, vejamos bem, pode ser deslocada do exterior, ou dos superiores ou então
dos outros, ou de quem em qualquer modo entra em contato com a pessoa em crise, talvez até
com boa intenção, para ajudá-la. Isso acontece exatamente, quando estes interpretam a própria
crise com os mesmos mecanismos, ou transfirindo a causa, ou procurando o remédio fora da
pessoa, na situação existencial, na comunidade, no ambiente, no apostolado, etc. Um exemplo
clássico neste sentido, é o caso quando o superior transfere a pessoa com dificuldades para uma
outra comunidade ou paróquia, iludindo-se assim e (o iludindo) de resolver o seu problema.
Consequência trágica deste equívoco, foi o que aconteceu na Igreja norte-americana alguns anos
atrás, quando alguns bispos ou superiores acreditaram resolver alguns casos de pedofilia
simplesmente mudando de ambiente de trabalho ou de comunidade a pessoa envolvida. Com
resultados fatais, como sabemos... De fato transferindo a pessoa transfere-se também junto o
problema, (especialmente esse tipo de problema), que o seguirá “fielmente” em todos os lugares.
Ou então, em outros casos não tão incomuns, aquele em que o formador acredita que a
experiência apostólica bastará para fazer o jevem entender seus problemas e dar-lhe os
instrumentos para resolvê-los, ou preenchendo o caminho formativo de experiências, quase
delegando o papel educacional à experiência (o famoso modelo experiênciais). Como se a
experiencia, e vimos anteriormente, fosse intrinsecamente terapêutica e taumatúrgica.53
A oração também pode sutilmente servir-se como tentativa defensiva de busca de solução
noexterior: é o caso de quem se contenta em pedir a Deus de livrá-lo das próprias fraquezas, sem
empenhar-se ele mesmo em um caminho ascético com as dificuldades e a paciência que implica.
Seria um deslocamento “piedoso”. Neste caso o problema não é evidentemente a oração, que é
no entanto indispensável, mas a atitude da pessoa, que parece quase delegar a Deus aquilo que é
chamado fazer. Uma autêntica relação com Deus deveria chamar tal pessoa a assumir os seus
problemas para fazer o que estiver em suas possibilidades. E em seguida confiar ao Pai, na
aceitação das suas fraquezas e dos seus limites como veremos mais adiante.
Caso clássico, em fim de crise deslocada é a hipocondria, é o caso de pessoas que inventam
mal-estar e distúrbios físicos, as vezes tão bem ao ponto de estar realmente mal e lamentar
sintomas de diversos gêneros. Como o monge de vida contemplativa (e vivendo em clausura) que,
como me contou o padre abade (ele era médico antes de entrar no mosteiro), queria fazer visitas
e controles contínuos ao ponto que não havia nenhum orgão ou sistema em si que não fosse
examinado pelo especialista do turno, sem obviamente encontrar nada de patológico, mas ele
continuava a (dizer que) estava mal e prentendia sobretudo continuar com este tipo de ...turismo
medico-hospitaleiro, luxo que tinha os seus custos, entre outros, para as consultas, as viagens, os
remédios (o seu quarto era uma autêntica farmácia) e por certas afirmações bizarras quis até
mesmo ter instrumentos de controle de saúde). O padre abade devia impor-se com toda a sua
autoridade para terminar com a situação, e isso não foi nada fácil ajudar o monge a aceitar a
verdade.
1.8 Crise não integrada
A crise não é integrada quando é sofrida passivamente e as vezes apressadamente
“resolvida” pelo sujeito que não procura estudá-la no seu significado profundo para que seja útil
para a sua maturidade. É o caso daquelas eventuais crises que se impõem com particular força e
evidência, criando um sentimento de medo e impotência, especialmente quando dependem de
fatos ou fatores externos a nós ou que não podemos controlar, como uma morte ou um acidente,
uma doença ou uma fracasso apostólico. Em tais casos é possível uma menor participação do
sujeito, do ponto de vista da gestão intra-psiquica, uma vez que a coisa não está ligada, pelo
53 Ver a este respeito, o chamado metodo formatico do experiencialismo em A. Cencini, A ÁRVORE DA VIDA, 84-86.
A Hora de Deus
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menos diretamente a uma sua específica responsabilidade. Mas é possível, por si só, e também
para os outros tipos de crises, passar da clássica crise afetiva à crise moral. Há, de fato, a crise não
integrada todas as vezes que está presente o risco de não “viver” suficientemente a própria crise,
de não deixá-la decantar suficiente dentro de sí ou de não estudá-la, de não perceber o sentido
profundo ou de não dar-lhe sentido, como se a pessoa tivesse medo de dar muito espaço ou de
permanecer muito tempo sobre o seu controle.
E então resolve ou pretende resolvê-la imediatamente, termina o quanto antes a polêmica
ou mais precisamente pretende não experimentar mais nunhum tipo de sofrimento, como se não
tivesse acontecido nada, e, talvez, ostenta uma certa serenidade, retorna às atividades habituais,
às vezes com vigor ainda maior. Talvez porque no tempo de formação, alguém o ensinou, neste
caso, a adotar o estilo de “deixar passar”, de não pensar mais sobre o assunto, de distair-se, talvez
tirando uma boa férias ou - aparentemente ao contrário - mergulhando de cabeça no trabalho,
colocando uma pedra sobre, assim “uma vez arrancado o dente, acabou a dor”... Mas, na verdade,
se olharmos bem, esta serenidade é um pouco artificial, ou o retorno às atividades ordinárias
parecem esconder um certo desejo de preencher espaços e o tempo da vida fazendo com que não
tenha tempo para pensar. Pode também acontecer que o sujeito não queira mais ouvir falar do
acontecido, ou ao contrário que seja sempre alí a falar, todos os sinais que “a coisa” ainda não
está bem dirigida. Ainda cria problema.
Como, por outro lado, é perfeitamente compreensível. Na nossa psique e portanto no
nosso espírito nada se cria ou se destrói repentinamente. E especialmente aquilo que de qualquer
maneira perturba a nossa consciência, ou representa um peso para o nosso coração, ou frustra
certas expectativas, ou nos faz recordar nossas fraquezas..., necessita de um tempo muito longo
para ser devidamente integrado: o luto necessita de lagrimas, a falha moral necessita de um
tempo congruente de conversão, um afeto que tomou e distraiu o coração não é facilmente
dominável e pede muita paciência e renúncia a quem deseja retornar ao amor primitivo, uma
violência sofrida necessita de um espaço natural fisiológico, afim de que a ferida se recupere, um
incidente contraditório somente com o tempo pode ter sentido, ser explicado, etc.
Finalmente, a “digestão intra-psíquica”, é como de costume muito lenta, mas exatamente
por isso é frutuoso o tempo de integração das crises, porque passa através de diversas etapas e
fases, todas muito importantes para a purificação e crescimento sem saltar nenhuma: do
reconhecer a ferida produzida pelo evento crítico à consideração atenta das suas consequências,
do para entender o motivo profundo de uma certa reação pessoal mais ou menos sofrida ou
ressentida (embora oculta) a tentativa de dar um sentido também àquilo que parece que está
privo, do cuidado da memória à descoberta progressiva que cada situação crítica tem sempre algo
a nos dizer e ensinar, especialmente se o sujeito a lê com uma consciência pascal, com a paciência
e sabedoria de quem vê além das aparências. Neste sentido é importante reconhecer o
sentimento que gradualmente se sente no seu mundo interior, também aqueles menos nobres
como: raiva, desespero, desejo de vingança, agressão, rejeição de Deus, sentimento de inutilidade,
incapacidade de perdão, sutil desejo do mal aos outros, ódio..., uma vez que estes sentimentos
revelam o nosso mundo interior.
No entanto o fato de não fazer isso, o expõe em riscos não indiferentes: isto que não está
integrado na nossa experiência, normalmente desintegrar-se do todo, não é somente uma ocasião
perdida, mas uma espécie de canhão solto no nosso mundo interior, que poderá explodir de um
momento à outro.
Atenção, então a certas “curas espirituais” repentinas e intantâneas apesar de sinceras e
dedicadas54. Desnecessário será dizer que o Senhor pode nos curar de todas enfermidades e de
contradições existenciais nos modos e nos tempos que ele predeterminar e desejar; mas
54 Assim como se deve estar atento a quem exibe uma maturidade que na realidade não possui, como o jevem no início do caminho de formação
que tinha sofrido uma violência sexual na sua infância, desde as primeiras conversas falava com desenvoltura como de uma coisa agora totalmente
integrada, ao ponte de considerá-la “uma graça recebida de Deus”, sem perceber a improbabilidade da afirmação da sua atitude.
A Hora de Deus
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comumente... respeita as leis da natureza, ou daquela “gramática” interior que ele mesmo, ao que
parece, colocou no ser profundo de criatura. Basta pensar, mais uma vez, em Paulo com a sua
nobre pretensão orante e espiritual de ser imediatamente liberto do espinho na carne ou das
picada de Satanás, e à resposta que obteve, ou a revelação de algo absolutamente impensável,
che ele não teria nunca tido a coragem de pedir: a graça de Deus se manifesta na fraqueza do
homem. E fraqueza cheia da graça é também a paciência de conviver com a crise, de pretender
imediatamente cancelá-la, de deixar-se instruir por ela, de vivê-la como sinal que no fim, Deus não
me abandona, ou como feliz culpa...
1.9. Crise repentina
Dizemos imediatamente que a expressão é contraditória, já que por sí só acrise é
repentina, não existe, é somente aparente o seu “ ser repentino”. Mas de fato, do ponto de vista
fenomenológico, as vezes a crise pode aparecer como um relâmpago no céu sereno ou explosão
repentina e vir a pertubar uma existência que parecia até aquele momento tranquila, em uma
pessoa que vivia sem particulares problemas a sua consagração, as vezes talvez com uma certa
mediocridade, mas outras vezes ao contrário também com um certo rigor e exemplo, pelo menos
aparentemente.
É o caso, por exemplo, do tipo normalmente calmo, mas que a um certo ponto se revolta
contra alguém ou contra a comunidade com uma solene explosão de raiva absolutamente
surpreendente que deixa todo mundo espantado, com palavras que não pertencem ao seu
vocabulário habitual, mostrando que havia escondido e esconde dentro de sí fluxo de raiva
subterrâneo, até então reprimido. Ou o caso do celibatário também ele até aquele momento
observante no comportamento, e que a um certo ponto se deixa oprimir por uma paixão como um
tsuname tão devastador querendo virar do avesso a vida e fazê-lo jogar tudo para o alto. Este
sujeito, vítima, as vezes desaparece sem deixar rastros de sí, nem preocupar-se de obter várias
dispensas ou de regularizar a situação.
Mas geralmente a crise, cada crise, tem o seu (mais ou menos) longo tempo de encubação,
é verdade que um certo gênero de crise pode explodir de uma hora para outra, mas somente
quando o acontecido externo encontra uma situação interna pessoal já comprometida ou no
entanto vulnerável e particularmente sensível a um certo tipo de provocação (afetiva, por
exemplo). Quando, como no segundo caso agora citado, a crise “se resolve” com a saída da
instituição, e o sujeito vai embora batendo a porta e cortando radicalmente qualquer tipo de
contato com a vida precedente, comumente quer dizer que chegou a um ponto extremo de não
suportar a vida sacerdotal ou religiosa, ou as suas obrigações e os seus ritos, ou que não pode
continuar a reprimir e reprimir-se. Então, a bomba explode (estrondosa) inesperadamente, mas
antes teve num longo tempo de gestação. Invisível e imperceptível talvez para quem vê de fora,
mas normalmente não, ou não tanto para a pessoa interessada.
Não se pode no entanto excluir que o sujeito seja assim “desatento” e distante do seu
mundo interior ao ponto de não perceber o que está acontecendo dentro de sí, e de perceber a
sua vunerabilidade somente quando cede diante do evento.
Por isso reinteramos que a melhor terapia é a vigilança inteligente e preveniente, é o
assumir com seriedade os próprios sentimentos e estado de ânimo, é o monitorar com cuidado o
próprio mundo interior para aprender a linguagem e colher o conteúdo. Porque na realidade cada
crise “se anuncia”, envia sinais prévio. Ou, mais uma vez, a vida fala, especialmente nos momentos
críticos, se tem um coração que escuta.
1.10. Crise sadia
A Hora de Deus
44
Enfim, como já acenamos, existe quem – menos mal – tem a coragem de viver a própria
crise, fazendo dela ainda uma ferramenta para o crescimento no seu caminho de formação
permanente. Retornaremos mais adiante ao conceito, sobretudo do ponto de vista da modalidade
pedagógica ou do percurso existencial através do qual isso se torna possível. Agora mostramos
apenas a atitude interior que nos consente entrar nesta lógica, na cultura da crise como fator
positivo de maturidade.
É aquela atitude, em última análise, que capta a ligação entre a sua identidade e idea de
formação permanente. A identidade é uma realidade dinâmica - já vimos isto - construida ao redor
de um núcleo sólido e estável. Tem-se um ponto de referênçia central, ligado ao dom da vida, já
que ninguém a meritou ou a adquiriu. Dom significa que no início da vida ou a raíz da identidade
tem um ato de amor, algo de positivo que nos torna radicalmente positivos e que determinou a
nossa existência: se somos amados, então somos amáveis (e é o nosso eu atual); mas nos indica
também a conclusão desta positividade, como uma ação que só pode se mover na direção do
amor, porque se somos amados somos também chamados a amar(e seria o eu ideal).
Portanto, a positividade e estabilidade do sentido do eu está ligada a certeza de ter
encontrado definitivamente este ponto central: para um critão isso consiste fundamentalmente
no dado ontológico do seu vir de Deus, porque Ele quis e preferiu em um ato de amor eterno,
portanto na verdade amados desde sempre e para sempre (pre-diletos); e no ter sido desejado
por Deus à sua imagem e semelhança, e na sua conseguinte vocação específica a realizar aquela
imagem, na fidelidade quotidiana. Quem atinge esta certeza de um lado resolve um problema
estratégico, vive consciente da sua dignidade como algo certo, não sujeito a oscilações
particulares (ligados a estima dos outros e ao próprio sucesso pessoal) está satisfeito e confiante,
não tem necessidade de procurar “coisas grandes superior às suas forças”, do outro lado porém se
sente também provocado a dar o melhor de sí, mesmo para viver fielmente a sua identidade, e se
a identidade é ligada a um dom, então é um ato de amor recebido, será ainda mais provocado
interiormente a responder como se responde ao amor, isto é, de maneira radical.
Quem tem um ponto de referência alto para a própria identidade, não poderá, por
consequência, não estar em crise, porque encontrará certamente uma lacuna entre o amor
recebido e o amor que é chamado a dar. Como a formação não pode ser outro que permanente,
assim é a crise, como recordamos anteriormente. Aqui, neste ponto, vemos um modo diferente,
ou o modo típico da psicologia, de dizer o conceito espiritual de “conversão”.
Eis o espaço psicológico entre o qual se esconde a coragem da crise e as condições
elementares que a rende possível e frutuosa, flexível e amiga, sinal de vitalidade interior e espírito
de iniciativa: de um lado a certeza da positividade, definitiva e estável, que não poderá ser
inclinada pela percepção da própria fraqueza; do outro a solicitação que vem de um grande ideal
para dar o máximo de sí e a vigiar atentamente sobre a própria vida para que seja coerente com o
dom recebido.55
Destas duas atitudes deriva a liberdade de correr o risco da crise, vivendo-a em modo
saudável e produtivo.
Ao contrário, quem tem uma pobre identidade, doente e não tão positiva assim, não terá a
liberdade de viver a crise de modo inteligente. Como vimos nas vária tipologias.
2 Atenção: chave inicial
No final desta primeira tentativa de análise descritiva do tema, podemos então indicar os
dois marcos, em síntese, que vam o mais rapidamente possível definidos com prescisão se se quer
afrontar corretamente uma situação de crise. São como dois tipos de leituras.
55 Cf. A.Cencini – Manenti, Psicologia e formação, 120 - 121
A Hora de Deus
45
2.1. Leitura objetiva
Primeira tarefa é observar a natureza da crise em questão, aquilo que a determina ou o
tipo de problemática a nível psicológico ou psiquiátrico ou espiritual.
É um primeiro elemento verdadeiro fundamental; e é quanto vimos no primeiro capítulo,
que evidenciou cinco diferentes níveis da problematica, do psiquiátrico ao espiritual, passando
através do psicológico.
2.2 Leitura subjetiva
Ocorre em seguida, verificar o tipo e nível da leitura subjetiva, como alguém interpreta a
crise que está vivendo até que ponto a sente e sofre como algo que objetivamente pertuba a vida
e não permite uma livre oferta de sí, ou se ao invés é algo que a pessoa não vê ou não quer ver, ou
diminui ou só percebe superficialmente, ou mesmo a transfere sobre os outros.
Eis então a tabela que, de algum modo diga a análise a ser feita a este ponto do nosso
caminho.
Tab 2. Os dois lados a cada crise
Tipo de dificuldade Ângulo Conteúdos ou tipologia
Problemática psíquica ou
psicológica ou espiritual
lado objetivo Problemas clínicos, ou evolutivos deformação
permanente ou de inconsistência vocacional
ou de luta espiritual
Crise psicológica lado subjetivo Várias tipologias (nunca ou sempre em crise,
crise congelada, fatal, final, inutíl, não
integrada, repentina, saudável...)
CAPÍTULO 4
A luta na crise
As crises das quais estamos falando não são crises genéricas, mas situações de dificuldades
vivida por pessoas que fizeram ou se dispõem a fazer uma escolha específica em suas vidas, em
vista de valores ideais que de um lado os atraem (ou que escolheram em força de uma atração) e
do outro são percebidas como sempre mais exigentes e difíceis de viver em plenitude. De frente a
estes ideais não é assim estranha a situação de crise.
Muito menos se si considera que ao mesmo tempo esta pessoa, consagrada a Deus na vida
sacerdotal ou religiosa, é um ser humano que está vivendo uma fase que – exceção feita para os
casos patológicos – é normal ou não assim tão estranha, e assim deve ser vista e considerada
também com os parâmetros do desenvolvimento normal humano, não somente com os
parâmetros da fé ou da vocação, como estamos procurando fazer.
Mas esta atenção ao humano e ao divino, ou ao plano natural e transcendente, nos faz
intuir que o contraste entre os dois planos pode chegar a ser neto e radical; antes, quanto mais o
humano se abre ao divino, muito mais aparecerá dentro de si uma resistência.
Neste ponto a crise se torna luta. Quase expressão extrema da crise, mas também, ao
mesmo tempo, parte integrante, a luta exprime esta realidade e autenticidade, senão dureza e
aspereza, ou manifesta o quanto radical é a pretensão de Deus sobre o coração do homem, e
A Hora de Deus
46
quanto este homem leva a sério o projeto divino com toda a sua força explosiva que desestabiliza
o humano. As vezes tentando se defender, ou de reduzir esta força, de não ser constrangido a
desmantelar tudo...
Enfim, é algo a mais do que a simples “consciência intensa e sofrida” da distância entre o
“eu atual” e o “eu ideal” do qual já falamos. É um passo ulterior na nossa análise, e também
importante para entender a natureza da crise. A qual não é tal, poderíamos já antecipar, senão se
torna antes ou depois luta.
Partimos de uma análise psicológica, para ver depois no próximo capítulo o aspecto mais
espiritual.
1. Crise e parâmetros evolutivos
Da ciência psicológica sabemos que o desenvolvimento humano acontece a luz de alguns
parâmetros, ou que pode ser percebido e de alguma maneira examinado a luz dos mesmos
parâmetros. Cada escola psicológica propõe os seus parâmetros ou sublinha alguns como
particularmente importantes. Sem a pretensão de fazer a melhor escolha também nós adotamos e
propomos alguns, já que nos parecem particularmente adequados ao nosso tipo de análise. São
aqueles propostos da análise ciêntifica de F. Imoda, segundo o qual o desenvolvimento humano
acontece ao longo destas três vias: a via evolutiva, a via relacional e enfim aquela temporal.
Destes três parâmetros escolho o primeiro, ao menos como ponto de partida, mas obviamente
sem esquecer os outros dois, especialmente o segundo, antes procurando englobá-los no primeiro
parâmetro, singularmente interessante para a nossa reflexão. Parece-me, em outras palavras, que
a situação de crise possa ser analizada e compreendida no seu sentido mais profundo e na sua
evolução em modo significativo a luz deste parâmetro do crescimento humano.
2. Evolutivo-dramaticidade
O ser humano não nasce já realizado, nem a maturidade geral coincide necessariamente
com a idade adulta, mas cresce progressivamente, ao longo dos percursos em parte marcados
pelas leis fixas do desenvolvimento (em vários níveis: do biológico ao psicológico), em parte
ligados a sua própria vontade de crescer e desenvolver-se segundo a sua verdade e utilizando-se
das ocasiões ofertas pela vida, as vezes semelhantes a provocações que complicão a existência,
outras vezes verdadeira ajuda e impulsos na direção justa. Depende da pessoa, do síngulo ser
humano, decidir que uso fazer, porque compete a ele decidir... de crescer e amadurecer, com
escolhas que só ele pode fazer sobre a própria história.56
Por isso tal parâmetro é também conhecido pela dramaticidade, uma vez que têm drama
enquanto o ser humano se põe diante a sua consciência e decide a vida, tomando uma decisão
que somente ele pode tomar naquele momento existencial, e que sempre implica, de maneira
mais ou menos marcada, algo de definitivo ou seja como for, deixa a marca. Com um ato que
exalta ao máximo a sua liberdade e responsabilidade.
E provavelmente por isso não é fácil para o homem escolher, ao ponto que as escolhas
verdadeiras são poucas, muito poucas; antes, se podesse, não escolheria jamais, ou reenviaria ao
infinito as decisões a tomar, ou as delegaria a outros, ou se esconderia naquelas do grupo, ou se
propriamente devesse fazê-la, então sempre deixa uma porta aberta para não tornar irrevogável a
escolha feita. Parece mesmo que, além das frases prontas, o homem do terceiro milênio tenha
medo da liberdade que tanto diz querer, porque a liberdade aumenta o leque das escolhas e
escolher é terrível, sobretudo porque chama em causa a responsabilidade pessoal, tanto que
temos criado um mundo (e um modo) no qual todas as escolhas são revogáveis: “te engravido,
56 Cf. F. Imoda, Sviluppo umano. Psicologia e mistero, Casale Monferrato 1993, 96-106. Para uma aplicação de tais parâmetros ao desenvolvimento
da afetividade-sexualidade cf. também A. Cencini, No amor. Liberdade e maturidade afetiva no celibato consagrado, Bolonha 1998, 9-62.
A Hora de Deus
47
mas pode abortar”; “nos casamos, mas podemos nos divorciar”; prometo, talvez a Deus, esta
coisa, mas se me custará muito, mais a frente a descartarei; faço esta escolha vocacional, mas se
apertar demais ou for muito exigente e não me atrair mais, mudarei. O terror da liberdade-
responsabilidade é tal que, também quando alguém se expõe a uma pequena escolha, deve ter a
garantia de que a escolha seja revogável. Mas então isto não é uma escolha, e muito menos é
expressão de liberdade-responsabilidade. É como um fugir da vida para evitar a morte. Cada
decisão, de fato, implica uma renúncia, e é profecia de morte. A mesma evolução do homem é
ligada a uma escolha-renúncia que sabe da morte: como dizia Plutarco, de fato, a criança deve
morrer para que o jovem possa surgir e o jovem deve morrer para que possa nascer o adulto.57
Provavelmente é extamente esta a explicação desta estranha alergia a escolher e se
decidir, que contagia também quem faz uma escolha de especial consagração, ou deveria fazer ou
ter feito uma tal escolha, confirmando-a nas pequenas e grandes escolhas de cada dia. Como
crises quotidianas normais.
Eis porque evolutivo é como dramático. E talvez este aspecto dramático da vida que segue,
e que a cada momento solícita e recorre a uma liberdade responsável jamais surge assim claro e...
decisivo como quando nos encontramos diante de situações criticas e problemáticas. Como
aquelas que já descrevemos.
3. Luta como situação de desenvolvimento
Se a evolução-dramática representa um parâmetro de desenvolvimento, então o drama
não é um passeio, nem se reduz a uma pura docilidade interior em relação as leis de
desenvolvimento que antes ou depois se impõem a pessoa, até atingir o êxito final da maturidade.
Não, o desenvolvimento continua a ter em si algo de dramático, implica tensão ligada a escolha
livre e responsável do sujeito, e a luta, então, torna-se o âmbito que o rende possível, ou a
“situação de desenvolvimento” que permite ao próprio parâmetro de transformar-se em fator de
evolução.58 Em outras palavras, a luta é o terreno vital natural para o crescimento do indivíduo:
por um lado indica a seriedade e a coragem com a qual ele enfrenta o drama do seu crescimento,
por outro oferece a ocasião favorável para que aconteça umreal amadurecimento, passagem de
uma fase a outra da vida.
Porém este conceito merece um melhor esclarecimento e... desvinculado de uma certa
pré-compreensão. A luta, em geral, é assim definida e descrita por Imoda:
É a situação da pessoa como mistério que fundamentalmente não se auto-possui
plenamente, se sente sempre confrontado por um outro, e deve superar o obstáculo desta
alteridade em si e no outro. O outro pode ser externo, mas pode ser também interno a si. A
luta varia de acordo com a variação do outro, mas também com o grau de oposição entre
as partes e com o modo – mais ou menos consciente, mais ou menos ativo, mais ou menos
livre – com o qual se relaciona59.
A luta – assim compreendida – é metáfora da vida e da pessoa humana, não é situação
excepcional e eventual, mas indica um movimento que deveria ser constante, mais precisamente
uma situação de tensão no indivíduo com relação à algo ou à alguém que parece opor-se-lhe,
como uma alteridade com a qual se sente confrontado, interno ou ao externo de si, em um
contraste não necessariamente vencedor.
Mas sobretudo é interessante para nós esta idéia de luta, porque existem elementos em
comum ou ligados a idéia de crise; pelo contrário, tal definição descritiva nos ajuda a entender
melhor o sentido da crise, e a acrescentar àquilo que já dissemos sobre a crise alguns elementos
importantes, sobretudo do ponto de vista da tensão ligada a consciência da própria situação, da
57 Cf. Plutarco, cit. da E. SCHACHTEL, Metamorphosis, New York 1959, 15.
58 Imoda, Sviluppo umano, 127-131.
59 Imoda, Sviluppo umano, 401.
A Hora de Deus
48
decisão a tomar, da mudança de vida. A luta é prova de que o sujeito quer mudar, demonstra que
a crise tem um seu significado em vista de um crescimento e de um superamento. Por outro lado
se a crise é em função do crescimento, quase um seu momento, como já vimos no segundo
capítulo, então a crise não pode ser outra coisa, senão luta.
3.1. Luta (e crise) como mistério: “o além” na vida humana.
Um destes elementos “novos” é, por exemplo, a idéia de mistério. Em cada luta há tensão
contra algo de diferente; por qualquer que seja o motivo que determina a luta, quando um
homem luta diz que a sua vida tende em direção a algo diferente, algo a mais, algo que não é
ainda, nem é identificável com aquilo que se vê e se toca; luta quer dizer em todo caso
insatisfação com aquilo que é e possui, significa que o homem, enquanto tal, não pode ser
identificado com aquilo que faz ou que se manifesta em sí, nem mesmo com aquilo que ele pensa
de si e muito menos ainda com aquilo que os outros pensam dele, é algo diferente ou tende à algo
que está além de tudo isso. Se diz que o homem jamais possui a sí mesmo totalmente, existe
sempre algo que o transcende, ou que passa despercebido, não o pode controlar, está além, pode
ser que nem mesmo o possa imaginar, representar..., mas existe, e o atrae, mesmo se de modo
estranho, “guerriando com ele” ou o complicando a vida, enfim opondo-se a ele para impedí-lo de
se contentar com algo que se situa a um nível apenas inferior, criando-lhe tensão ou sana
insatisfação.
A luta demonstra dramaticamente o sentido do mistério, ou revela o sentido dramático de
cada crise e da vida inteira. Pode as vezes não agradar esta metáfora, em um clima cultural de
busca a todo custo do wellness, do bem-estar a qualquer preço, no qual o “sentir-se bem” se torna
muitas vezes critério de escolha ou de considerar as situações críticas (como o padre que vimos
antes, que decide continuar a relação afetiva “porque desde que a conheço me sinto melhor,
estou mais tranquilo e satisfeito, até mesmo a minha digestão melhorou e adormeço logo a noite,
e depois estou até rezando melhor...”). Mas o bem-estar interpretado assim não abre ao mistério,
não tende rumo ao trascendente, tudo é gerado dentro dos pequenos limites da sensação positiva
ou da experiência agradável ou do gozo imediato, ou dos limities ainda mais reduzidos e
mesquinhos da simples aceitação daquilo que é menos positivo ou da passivel aceitação diante do
inevitável, ou de acontentar-se com objetivos medíocres. Assim não vamos tão longe ..., pelo
contrário, não saimos do lugar; enquanto a luta impulsiona a vida e a imprime num dinamismo
mais vivaz.
A luta é o mistério que sacode a existência mesmo do fiel e do consagrado, projetando-a na
direção do transcendente. Com um dinamismo de sedução, mas que torna inevitável a crise.
3.2. Luta (e crise) como conflito: “o outro” na vida humana
A luta revela um outro aspecto verdadeiramente central na experiência existencial de cada
ser humano: a relação. De um lado a luta é um evento tipicamente relacional, porque não se pode
certamente lutar sozinho, e quem o faz ou tenta fazer – como veremos – entra em um beco sem
saida, ou começa a rodar em volta de si mesmo, lutando contra si mesmo ou contra um fantasma,
ou seja em vão. Por outro lado a relação, ou a alteridade, mais precisamente, é outro parâmetro
evolutivo, linha obrigatória de desenvolvimento, como sabemos. A psicologia repete sempre; ou
melhor, antes ainda da jovem ciência que interroga o mundo intra-psiquico, é a antropologia em
geral que nos propõe hoje cada vez mais uma imagem do homem essencialmente aberto ao outro,
qual ser constitutivamente dialógico, que vem de uma relação e se realiza na relação. Se no
passado se dizia que o homem era um ser racional, hoje se tende a dizer cada vez mais que o
homem é sobretudo um ser relacional. Também a antropologia bíblica vai confiante nesta direção,
A Hora de Deus
49
quando percebe que a imagem de Deus é não tanto ou não somente o homem das origens, o
Adão, mas o casal, Adão e Eva.
Porém a psicologia acrescenta uma nota importante: não é a relação enquanto tal que faz
crescer, quanto a relação com o outro, com o diferente de si, porque somente esta é a relação
autêntica e verdadeira. Se de fato a relação é somente com quem aceita o meu ponto de vista,
com quem acho simpático e que me faz bem, com quem por sua vez me acolhe satisfazendo-me,
com quem responda a um meu interesse, com quem aceita de alguma forma ser “homologado”
=(conformar-se comigo ou com os meus interesses) a mim e aos meus gostos... bem esta não é
uma relação humana, porque indica um eu que na realidade não sai de si mesmo, mas ao
contrário absolve o outro, tentando quase de anulá-lo na sua alteridade, ou adequando-o a si,
alegrando-se o consegue, quase o desejaria eliminar-incorporar na sua unicidade-singularidade-
irrepetível, e não percebe que ele mesmo perde uma grande possibilidade de crescimento. Pode
ter a impressão, assim vivendo a relação, de simplificar a própria vida relacional, de viver relações
muito mais simples e fáceis, de controlar ou dominar com facilidade a situação, sonhando ou
pretendendo viver em comunidades harmoniosas e tranquilas, sem dificuldades de compreensão
e convivência... Na realidade cancelando o “tu” terá um pobre senso do seu “eu”, e bem miserável
será também o sentido do “nós” porque o “eu” não pode realizar-se sem encontrar um “tu”, e
muito menos nascerá uma comunidade.
Em seguida, a luta ou a idéia de luta vem corrigir esta infantil ilusão ou adolescente
presunção de viver relações pacíficas porque homologadas ao próprio eu, ou vem a desmontar a
presunção pagã de que cada um escolhe os seus amigos, de amar somente aqueles que nos
amam, uma vez que faz recordar ao ser humano que a relação é por sua natureza conflitual, e é
conflitual exatamente porque é relação com uma diversidade irreduzível e misteriosa. O outro
sempre permanecerá destinto de mim, e justamente nesta alteridade consiste a possibilidade de
um enriquecimento enorme para quem a respeita, respeitando nesta o mistério que o habita. O
meu inimigo, aquele que se opõe a mim e me pede para verificar as razões da minha identidade
ou de dar razão de minhas convicções,é o meu melhor professor, nota E. Bianchi.60
No entanto, pedirá o preço inevitável, tal enriquecimento, da luta, do momento no qual
esta alteridade provocará a reação conflitual da parte mais fraca e temerosa do “eu”, e fará surgir
vulnerabilidade e contradições, ou suscitará temor e contraposição ou parecerá muito distante ou
até mesmo insuportável, ou pedirá o sacríficio de posições pessoais ou então revelará as suas
inconsistências... e isto suscitará uma crise. E não será uma eventualidade, nem será
necessariamente ligada a fraquezas e imaturidades do “eu”, ao contrário, quanto mais a relação
será intensa e profunda, mais a relação fará surgir a alteridade recíproca, e a luta será ainda uma
vez inevitável, preço necessário do crescimento. E de um crescimento que sempre acontece à luz
(não à sombra) do mistério: de um mistério duplo, podemos dizer, “do eu e do tu” ou – ainda mais
– do eu e do TU...
A luta é relação verdadeira e genuína, conflito que provoca o eu a sair realmente de si
mesmo rumo ao tu (se a relação não é assim difícil) e juntos, paradoxalmente, contra o tu (quando
ao invés a oposição é cansativa), marcando assim um grande dinamismo. Que torna inevitável a
crise. Sobretudo quando aquele TU é Deus!
3.3. Luta (e crise) como prova: o «Radicalmente outro» na vida humana
Se na vida do homem entra Deus, o Radicaliter Aliter, o máximo da alteridade-diversidade,
então a luta assume um qualidade e um significado particular, se torna uma provação. «Provação»
é conceito bíblico; faz parte da memória de Israel e, antes ainda ou melhor, do estilo de Deus:
«Lembrai-vos do que Deus fez à Abraão, de como provou Isaac, do que aconteceu com Jacó...»
60
E. Bianchi, Da forestiero nella compagnia degli uomini, Casale Monferrato 1995, 15.
A Hora de Deus
50
(Jdt 8,26), lembra, de fato, Judite aos chefes do povo que na opressão do inimigo tiveram dúvida
da ajuda de Deus. A prova não é simplesmente um teste com o qual Deus mede a fidelidade do
homem (o Eterno não necessita destes meios), pode ser o instrumento através do qual o Pai-Deus
se manifesta ao homem, e não somente, mas é também a mediação através da qual o Criador faz
crescer a criatura no seu amor. Neste sentido a prova é o ponto mais alto da crise humana,
sobretudo se compreendida – para precisar – no sentido bíblico. Ela, de fato, está dizendo
primeiramente o desejo de Deus de vir ao encontro do homem, a sua iniciativa na relação
humana, a vontade do Criador de fazer experiência da criatura. Não é o homem, nos recorda Von
Balthasar, que faz experiência de Deus, é ao contrário, Deus que «experimenta» o homem, o
procura, o examina o mete em prova... misteriosamente e em modo concretissimo.61 Mas, como
que para superar uma distância que é infinita, ele o retira dos seus cálculos e dos seus costumes,
muda os seus sonhos, se revela inesperadamente com propostas e mensagens que desestruturam
a sua vida.62 E em que modo o faz? Pedindo (e doando) ao homem algo que o homem jamais teria
coragem de pedir a si mesmo, como nos conta a prova de Abraão, nosso pai de verdade na fé e na
provação, na prova de quem se deixa pedir até mesmo o filho, a maior expressão de amor
humano, e depois se vê com um coração apaixonado por Deus!
Quando ao invés é o homem que coloca Deus a prova, o «tenta», querendo confirmação
aos seus projetos ou garantias prévias ou demonstrações de sua presença e fidelidade, então a
Palavra de Deus assume tons de tempos em tempos violentos e severos: «Não endureçais os
vossos corações como em Meriba, como no dia de Massa, no deserto, quando vossos pais me
provocaram e tentaram» (Sl 95, 8-9a); ou então tons cobertos de ironia como no episódio já citado
da tomada de Jerusalém e dos chefes que ousam impor condições a Deus: «Quem sois vós, que
hoje tentais a Deus e vos colocais acima dele no meio dos filhos dos homens? Agora colocais à
prova o Senhor todo poderoso! Jamais compreendereis coisa alguma! [...] Não hipotequeis, pois,
os desígnios do Senhor nosso Deus. Não se encurrala a Deus como um homem...». Antes, encerra
esplendidamente Judite, «Apesar de tudo, agradeçamos ao Senhor nosso Deus que nos põe à
prova como a nossos pais» (Jt 8, 12-13.16.25).63
Enfim, ou a liberdade do homem de se deixa provar por Deus, o «Radicalmente Outro», ou
a tentação humana e diabólica de colocar Deus a prova.
3.4. Luta (e crise) como rendição: o «humano» na vida humana
A idéia de luta normalmente faz lembrar também a idéia de um êxito, positivo ou negativo.
Mas se si fala de luta no caminho do crescimento se entende implicitamente que aquele que luta
vença, supere o obstáculo para passar ao nível sucessivo de crescimento, resista ao ataque daquilo
que ou de quem o contrapõe. Existe uma invencível idéia... vencedora com a qual interpretamos
também a idéia de maturidade, também de maturidade espiritual. Não existe talvez toda uma
doutrina ou tradição espiritual que fala em termos de conquista, sucesso, resistência,
superamento...? Também Paulo pensava naquela época de ter que vencer a qualquer preço contra
o maligno e os seus ataques; por isso mesmo, visto com um certo incômodo a sua insuficiência,
decide-se a pedir ajuda ao Senhor onipotente que ele anunciava com todas as suas forças,
considerando-o também como seu aliado nesta luta. Mas não obteve a resposta que esperava,
pelo contrário, o Senhor onipotente falou em termos exatamente opostos a quem pensa de ter
que vencer e esmagar o adversário, falou de potência (divina) que se manifesta na fraqueza
(humana) ou de onipotente fraqueza (do amor): uma autêntica e misteriosa inversão de
perspectiva! Que Paulo compreendeu e acolheu imediatamente, ao que parece (cf. 2Cor 12,7-10).
61 Cf. H.U. von Balthasar, «Biblical and Patristic Experience of God», in Theology Digest 25(1977), 206-209.
62 Também Merton é nesta linha quando diz que «a nossa descoberta de Deus é, em um certo sentido, a descoberta que Deus faz de nós» (T.
MERTON, Semi di contemplazione, Milano 1955, 20).
63 Cf. sobre este ponto A. Cencini, La verità della vita. Formazione continua della mente credente, Cinisello Balsamo 2007, 80-83.
A Hora de Deus
51
Nascidos para vencer64, diz o título de um texto de psicologia que fala com extrema clareza
as idéias do autor a respeito deste tema; livro que teve e tem muitos leitores, também em nossos
ambientes, porque é emocionante ouvir dizer que somos destinados a vencer, que basta termos
um pouco mais de confiança nos próprios meios e a vitória é garantida e a maturidade
conquistada etc.65 Muito bonito e simples para ser verdadeiro e não gerar suspeitas de que se
tenha esquecido algum componente importante do ser humano! Mas sobretudo muito banal e
óbvio, sem nenhuma percepção do mistério, e com uma implícita visão do outro em termos
competitivos, visto que vencer significa chegar primeiro e antes de todos os outros, vencer a
concorrência, sentir-se o melhor, merecer os elogios.
Mas se a luta é aquela metáfora da vida que já falamos, sobretudo se é percepção da sua
dimensão misteriosa, então pode ser que não é certo que a luta deve sempre terminar com a
vitória; e se o mistério é o transcendente, aquilo que é importante para o homem que luta é
compreender que não pode desvendar, pode somente chegar ao limiar do mistério; importante é
aceitar o «humano» como limite insuperável, ou a rendição. Rendição diante do mistério, antes de
tudo; como sabia renúncia a pretensão de entender, de compreender tudo, de saber dar passos
somente quando tudo é claro e esteja sob controle; rendição como confiança e como confiança
que não faz cálculos; rendição como esperança de que também o incognoscível(=que não pode ser
conhecido) e o incontrolável podem ser amigos do homem; rendição como gesto extremo da
inteligência que aceita o mistério, mas também gesto extremo do coraçãoque confia e se
abandona, como coragem, portanto, sem deixar-se condicionar pelos outros, como liberdade de
deixar que um outro te cinja e te leve aonde tu não queres, como liberdade de doar a própria
liberdade; rendição como abandono da pretensão de vencer sempre e a qualquer custo ou como
descoberta daquela misteriosa força que é presente na fraqueza...
Assim como nenhuma destas coisas vem de maneira natural e espontânea ao homem, eis
porque a prospetiva da entrega o cria problemas. Especialmente quando o entregar-se acontece
em relação ao Eterno, o « não humano» por excelência, aquele além do qual ninguém pode
pensar, ninguém pode ir.
Se enfim «o transcendente», na luta que realça a dimensão do mistério da vida humana, é
como realidade que atrae e seduz, e mantém alta a tensão do fiel, o «humano», na luta como
rendição, imprime um dinamismo diferente: é o dinamismo da espera e da pausa, da luta que se
torna contemplação, do estar diante ao mistério, em uma síntese alta e passitiva atividade. Diante
a algo que aparentemente marca o limite insuperável a criatura, enquanto na realidade revela
neste o sentido verdadeiro da criatura, o seu ponto mais alto de realização, a sua paz. Mas em
todo caso, paz que passa pela crise.
A nossa análise sobre as crises é assim enriquecida. A verdadeira crise implica uma luta, e a
luta coloca ao centro da atenção as categorias do mistério, além de cada visão redutiva, da relação
conflitual com o outro, como diversidade irredutível de cada existência, da provação, como
liberdade de deixar-se procurar e encontrar por Deus, da rendição, como derrota de cada
narcisismo presunçoso. Imprimindo respectivamente à vida um dinamismo na direção do
tanscedente, mas sem pretender de ultrapassá-lo, uma vontade de caminhar com o outro, mas
também contra o outro, para decidir enfim de deixar-se provar do outro por excelência, por Deus,
e se render a ele e ao seu amor. Tal dinamismo não será invencível nem começará
automaticamente, mas deverá superar uma forma de dinamismo oposto que lhe estará em
direção, respectivamente, da visão redutiva (que não vê nenhum «transcedente»), da tentação de
64 M. James – D. Jongeward, Nati per vincere, Cinisello Balsamo 2005.
65 Assim o enfático prefacio : «Nascidos para vencer ! Já o titulo é uma manifestação. [...] Núcleo portador da hipotese transitorial é, segundo o
pensamento de seu fundador Eric Berne, que o ser humano, em qualquer idade e condição se encontre, pode redescobrir em si mesmo a raiz do
seu potencial psiquico completo, como possibilidade de reorganização das próprias expectativas e de ampliamento do seu campo existencial. O
leitor, com desejada clareza e tom lento, vem solicitado a percorrer o trajeto de um repensar pessoal que vai do sentir e agir segundo um pré-fixado
“copiador de vida”, ao expansivo conhecimento de uma reconquistada “autonomia”. Porque cada um, se o quizer, pode se tornar aquele “vencedor”
que a vida o destinou a ser» (M.T. ROMANICI, «Prefazione», em JAMES – JONGEWARD, Nati per vincere, corsivo nostro).
A Hora de Deus
52
homologar (que queria zerar a diversidade do outro), do medo (e sucessiva rejeição) de deixar-se
provar por Deus que faz nascer a presunção de ditar ao Eterno tempos e modos da experiência de
Deus, e da presunção de ser sempre vencedor nos acontecimentos da vida (contra a idéia de
qualquer rendição em ralação ao mistério).
Será necessário retornar sobre estes conceitos e aplicá-los em modo mais sistemático as
situações de crises que queremos compreender.
Tentaremos aqui resumir em uma síntese com o nosso conhecido esquema gráfico
sintético.
Esquema 3 – A luta na crise: conteúdo, dinamismo, objetivo e elemento de tensão
Conteúdo
Dinamismo
Objetivo
Elemento de tensão
mistério
rumo ao ...
transcendente
Visão redutiva e
parcial
conflito
com e contra...
o outro
Tentação a conformar
e legitimar ...
provação
de...
o radicalmente outro
Medo, rejeição e
presunção diabólica
Rendição
diante de ...
o humano
Presunção vencedora
CAPÍTULO 5
Tipos de luta
A luta, como vimos, é elemento inevitável no processo do desenvolvimento, passagem
obrigatória, ligado à mesma idéia de etapa ou fase evolutiva, que é muito diferente de um
processo espontâneo e indolor. Neste sentido, é também parte do conceito e da realidade da
crise, ou – pelo menos – deveria derivar mais ou menos espontâneamente: uma crise não é tal se
não implica uma situação de luta. Não se sai da crise se não aprende a lutar. Mas mesmo antes
disso, e é a coisa mais importante, a vida não é vida sem crises e lutas!
A luta pode ser de vários tipos. Ou talvez é mais correto dizer que existem vários tipos de...
lutadores, e não são todos – como veremos – que interpretam a luta na maneira melhor e
inteligente. A começar daqueles que não tem nenhuma criatividade para lutar.
A Hora de Deus
53
1. Ausência de qualquer vontade de lutar
O primeiro comportamento é aquele de quem, em uma situação crítica, não faz
praticamente nada para combater ou aprender a dominar progressivamente aquela fraqueza que
está à origem do problema que está sofrendo ou que está escondida no problema.
1.1. Inércia e costume
Este sujeito sabe, pode também ter identificado o ponto fraco que o incomoda
suficientemente; também sofre, mas não se decide em fazer algo para combatê-lo. Ou melhor,
gostaria de sair, mas não ao ponto de complicar muito a vida, sem fazer guerra com ninguém,
menos ainda consigo mesmo. E assim evita cuidadosamente qualquer idéia de luta que lhe pareca
uma coisa excessiva e custosa. Sem se dar conta, neste modo, de padecer lentamente a própria
situação, ou de deixar-se dominar pela problemática que está vivendo e que o condiciona
progressivamente. Mas em particular, sem fazer nada que o permita de se afastar sempre mais do
fator mais determinante da própria crise.
Chega assim ao ponto de se acostumar com esta situação, de fazer dela quase um “modus
vivendi”, um comportamento habitual, um estilo existencial, do ponto de vista da relação consigo
mesmo, com os outros e com Deus.
É estranho, mas o processo que da inércia leva ao condicionamento, um processo
inevitável, processo que naturalmente empobrece muito as potencialidades de vida, de mudança
e de progresso da pessoa; de alguma forma atrofia seu coração, sua mente, sua vontade, sua
sensibilidade... No início, o sujeito “sente” o seu problema como um problema, não é como
aqueles que não estão nunca em crise, ele a sente dentro, e percebe aquela fraqueza como
alguma coisa que vai contra um certo ideal (ou eu ideal) e uma sua prospectiva de vida; mas se de
fato não faz nada para afastar-la, principalmente quando isto significaria tensão e luta contra si
mesmo, a um certo ponto se adapta; isto é, sente a crise sempre mais como uma realidade neutra
ou prazerosa, e não sentirá mais nem menos o contraste interior entre ideal e realidade de vida.
Isto é tristemente interessante: o não combater uma certa realidade negativa, percebida
como não estando de acordo com a própria verdade e identidade, levará lentamente a não
perceber mais aquela realidade como negativa, mas a justificá-la; e a pessoa se sentirá tranquila
na sua mediocridade, ou às vezes até mesmo na sua transgressão. É o caso do nester-nidificadore,
já visto substancialmente, ou de quem congela sua crise no tédio chato, até alcançar em certos
casos à insensibilidade moral e psicológica.
1.2. Dos comportamentos às convicções
Mas aqui tem algo mais, como um passo complementar que poderíamos formular assim,
em termos de lei psicológica: se o comportamento não segue as convicções ideais da pessoa, a um
certo ponto as convicções se conformarão aos comportamentos (desviados) justificando-os e, de
fato, sofrendo-os, e arriscando fazer desapareceressas mesmas convicções ou substituí-las por
convicções contrárias.
Dizendo em termos positivos: se adquire as convicções com a luta, lutando por elas; não se
acredita naquilo em que não está disposto a lutar, e que nem nunca lutou. As convicções são sim
um fato mental, mas se tornam paixões (um fato também do coração) somente se passarem pela
luta (um fato também de vontade e de escolha); serão assim ligadas a verdades teóricas, se
tornam vivas, assumem carne e sangue, cor e calor só em quem por estas pagou um certo preço;
são verdades talvez recebidas por outros, porém se tornam convincentes quando alguém pode
A Hora de Deus
54
mostrar as cicatrizes por estas deixadas. Por esta mesma razão uma fé não provada não é uma fé
autêntica.
Tal lei – ai de mim – é confirmada pela história de muitas crises de muitos presbíteros,
consagrados/as, no início atentos e... incomodados, mas depois, pouco a pouco, “adaptados” sem
nenhum problema aos seus problemas, distraidos e quase satisfeitos porque são convencidos de
serem “libertos” de certos impedimentos julgados como infantis ou de certos, assim chamados,
complexos. Ao ponto de não perceberem mais nenhum impulso interno e de não acolher mais
nenhuma chamada à conversão, ou seja, a insensibilidade interna a um certo ponto se junta à
indisponibilidade externa, ou a determina. Sabe alguma coisa sobre isso quem trabalha neste
setor, na relação de ajuda, no aconselhamento psicológico ou na direção espiritual, e se encontra
de frente à não colaboração ou à recusa de deixar-se ajudar.
1.3. Crise sem luta, vida sem tentações
Por isso preocupa um pouco aquele certo clima tranquilo e pacífico, às vezes alegre e bobo,
que parece dominar às vezes nos nossos ambientes, nas nossas casas de formação como nas
nossas convivências, como se tivessemos esquecido o caráter dramático da vida cristã, ou se como
não fosse mais verdade que a formação (inicial ou permanente) é toda construida sobre o
esquema do Tríduo Pascal, que é o máximo da luta... Nada de estranho, neste ponto, que não
exista nem mesmo entusiasmo e criatividade, o querer o bem e a santidade, a alegria e a
confiança... e todas estas expressões ou consequências de um estilo de vida íntegra “combatente”,
ou de quem é acostumado à lutar, dentro e fora de si. Não assustam as crises na Igreja de Deus e
nos apóstolos do Evangelho, assustam ao invés as crises sem lutas, ou os indivíduos que
atraversam todo o processo formativo sem nunca precisarem lutar, sem aprender a viver as crises
com o espírito de luta, a procurar e encontrar na luta o contexto normal do seu crescimento, o seu
preço e o seu cansaço. Indivíduos bem saudáveis e corados, ou “pueri aeterni” (crianças eternas)
que serão inevitavelmente preguiçosos e inconclusivos no ministério que lhes forá confiado.
Curioso reverso da medalha: será muito difícil que estes sujeitos vivam a tensão das
tentações como uma prova normal e frequente na vida do fiel, isto é, não poderão sentir como
“tentação” aquilo que o equilíbrio psico-espiritual deles já se adaptou, aquilo que se tornou
normal. O costume interior criado pela recusa da luta poderá levar, portanto, a não perceber mais
o engano do espírito da mentira. Que é o máximo do engano.
E se são indivíduos sem tentações, colocarão em risco... a salvação: “Eliminem as tentações
– diz Santo Antão – e mais ninguém se salvará”. Sem tentações não tem salvação, porque não
existe escolha, desaparece a liberdade. Antes, é o homem mesmo que acaba.
2. Luta psicologica
Luta psicológica é um conflito que nasce e se cumpre no eu, onde o mesmo eu é o juiz e o
julgado, aquele que percebe o contraste interior e também aquele que estabelece como será
superado, quem ataca e também quem se defende, é aquele, que até mesmo vence e também
aquele que perde.
Parece, e é, uma situação paradossal e contraditória, e até mesmo frequente: muitas lutas
param aqui. Para intendê-la corretamente vamos tentar esclarecer o termo.
Por realidade “psicológica” entendemos aqui uma realidade de forças, energias,
dinamismos considerados em si mesmos e como que desligados ou desconectados entre eles,
entre si autônomos e sem um certo unificador e, portanto, se não estão em relação, estão
potencialmente em tensão entre sí. De fato, a luta psicológica é fundamentalmente intra-psíquica,
um conflito que acontece dentro da pessoa, entre as diversas partes do eu (por exemplo, entre o
A Hora de Deus
55
eu atual e o eu ideal),66 mas que pode ser desencadeado também pela realidade externa (pessoa,
circunstância, acontecimento, imprevisto...) ou manifestar-se em uma tensão com uma realidade
externa.67 A peculiaridade deste tipo de tensão é que, também quando é originada fora, ativa no
sujeito uma conflitualidade interior, entre as estruturas do eu, como um conflito interno, do eu
contra si mesmo ou de uma parte do eu contra uma outra parte.
Geralmente se trata de um conflito inconsciente em quanto tal: é o caso daquelas
contraposições em relação ao outro que vendo de fora parece de natureza interpessoal, mas que
na realidade exprime uma raiz de conflito presente no eu e que então é simplesmente projetada
fora, “transferida” sobre o outro para ser talvez controlada melhor. Quantas vezes, queremos
dizer, problemas intra-psíquicos estão à origem de problemas de relação, e permanecem sem
solução até que se procura a solução a nível destes últimos!
Eis um exemplo: Pe. Alfredo é um religioso com 10 anos de ordenação. É pároco de uma
pequena paróquia, onde alguns jovens seminaristas do seu instituto prestam alguns serviços, para
fazer expêriencia e darem uma mão ao mesmo tempo. Quem sabe quantos párocos invejariam Pe.
Alfredo por esta ajuda que lhe consente de tampar muitos buracos, seja da atenção aos jovens à
animação litúrgica, etc. Mas ele tem uma outra inveja, muito menos lógica. Por um destes jovens,
Paulo, particularmente dotado em muitos pontos de vista, que está trabalhando com muito
resultado na sua paróquia, e que na realidade o está ajudando muito. Com efeito Paulo é muito
apreciado pelos companheiros e superiores, os quais proporam a ele de fazer um certo tipo de
especialização em prospectiva pastoral, coisa que Paulo está fazendo com sucesso, conseguindo
conciliar o estudo básico da teologia e a especialização. Mas Pe. Alfredo não o pode suportar. E
ele deixar transparecer isso em todos os modos, também abertamente, tanto que quase todos já
perceberam, a partir de Paulo mesmo, evidentemente, que em tal modo faz principalmente
experiência de ... como trabalhar com a perda, quando alguém é excluido e se sente agredido.
Como pode acontecer essa inveja? O próprio Pe. Alfredo se pergunta, porque na realidade
este comportamento o incomoda muito e no fundo ele mesmo entende que vai contra os seus
interesses. A explicação está na história do pároco invejoso, o qual sempre sofreu, desde os
tempos do ensino médio, com complexos de inferioridade intelectual em relação à alguns
companheiros e que, talvez também por superar essa sensação, uma vez ordenado sacerdote
tinha pedido aos superiores de prosseguir os estudos, pedido que porém não foi aceito, e que ele
mesmo interpretou como mais uma prova da pouca consideração que gozava do ponto de vista da
capacidade intelectual. Ficou mal, muito mal. Bem, encontrar-se agora com um jovem em
formação, nem mesmo padre é, que é considerado capaz até mesmo de fazer duas escolas ao
mesmo tempo, e que de fato desenvolve esplendidamente o duplo empenho, encontrando
também tempo de animar, de forma excelentemente o grupo de jovens... e tudo isso na sua
própria casa, sob seus olhos, ao ponto de enfraquecer, talvez, o seu papel de líder na paróquia...
isto é demais! E de qualquer forma é o que basta para fazer renascer os fantasmas da sua pouca
estima de si e brotar em seguida nele uma inveja feroz pelo pobre inocente, inveja que risca até
mesmo de prejudicar a sua identidade de pastor que deveria querero bem dos outros,
principalmente quando este bem é também o seu bem, das pessoas a ele confiadas, como no
caso de Paulo que trabalha para o bom andamento da sua paróquia! E ao invés de querer
abençoa-lo, às vezes tem um sentimento diferente, como o desejo que Paulo venha a falir, que dê
errado aquilo que faz, quase a maldição no lugar da benção.
Mas é claro que Pe. Alfredo não ataca Paulo ou os superiores que o promovem ou as
pessoas que o admiram, mas a si mesmo antes de tudo, mesmo se não o sabe. É incomodado, na
realidade, antes de tudo com a sua pouca capacidade intelectual ou com aquela que ele retém
como tal; com o seu modo de fazer as coisas porque não é assim brilhante e ativo como Paulo,
mas é incomodado consigo mesmo a um nível mais profundo e com certeza menos consciente,
66 Cf. F. Imoda, Sviluppo umano. Psicologia e mistero, Casale Monferrato 1993, 369.
67 Cf. J. De Finance, L’affrontament de l’autre, Rome 1973.
A Hora de Deus
56
porque errou ao perceber a raíz da própria positividade, no identificar a fonte e isto a torna mais
segura e estável. Fazendo assim, ou seja, percebendo só o motivo mais evidente e ignorando o
outro mais profundo e verdadeiro, continuará a complicar sua vida e destruir a dos outros,
disperdiçando energia em uma das sensações mais imbecis que um homem possa provar dentro
de si: a inveja, clássico problema externo com raízes internas.
E por um outro lado, não imediatamente evidente, talvez, como o eu possa colocar-se em
contrasto consigo mesmo, mas de fato isto é aquilo que frequentemente acontece no processo de
desenvolvimento da pessoa, e como um fato mais ou menos normal sob o plano evolutivo.
É normal, por exemplo, que a um certo ponto o eu ideal proponha alguns valores que o eu
atual sente que são difíceis de realizar ou que são inimigos da própria felicidade (basta pensar a
certas passagens do Evangelho, por exemplo onde Jesus nos convida a “odiar” a nossa vida, ou a
levar a sua cruz e seguir a lógica do grão de trigo que cai na terra e morre); não é assim estranho
que a um certo momento possam ser percebidas exigências contrárias de necessidades diversas e
entre elas conflituais (a necessidade de dependência afetiva poderá, às vezes, colocar-se em
conflito com a necessidade de sucesso, etc.); pode acontecer que o eu combata contra um aspecto
não agradável da personalidade, ou que queira esquecer uma parte da sua história, ou que seja
desiludido pela própria fraqueza... E ainda, é típico do inconsciente desejar e temer uma mesma
coisa, ou amar e odiar o idêntico indivíduo, etc.
Por um lado o conflito intrapsiquico diz a origem da luta da pessoa, revela sua natureza
profunda, frequentemente diferente daquilo que aparece ao externo, também aos olhos do
sujeito mesmo; será então importante para ele descobrir tal natureza e voltar novamente a esta
origem para enfrentar de modo adeguado o verdadeiro problema e o verdadeiro “inimigo”. Por
outro lado existe a possibilidade que a luta psicológica... permaneça como tal e não tenha nenhum
desenvolvimento, correndo e fazendo correr à pessoa determinados riscos. Vejamos alguns.
2.1. Involução narcisista
O primeiro e fundamental risco é exatametente aquele de bloquear o mesmo
desenvolvimento do indivíduo ou de reduzí-lo a uma conflitualidade interna que é por sua natureza
sem saída, porque privado de critérios de juízos externos ao eu, um eu que presume ser centro de
si ou que é privado de centro (que é a mesma coisa), e que mira sobretudo à própria realização.
Dentro da lógica substancialmente narcisista.
O resultado poderá ser aquele de uma luta contínua e cansativa, com resultados às vezes
obsessivo-depressivos que acabam frustrando e destruindo cada desejo de crescimento: o eu,
além da aparência, é frequentemente o juíz mais severo e inflexivel de si mesmo, ou – ao oposto
extremo - o mais liberal e “sem sentido” (literalmente, sem algum critério moral); se é ele a julgar
e estabelecer os critérios de crescimento é de si esperar ou o extremo rigor ou o seu contrário, a
extrema condescêndencia, dois elementos que não promovem o eu e nem lhe dá uma estima
autêntica.
Sinal distintivo da luta psicológica é, de fato, o conjunto da auto-condenação incontestável,
da não aceitação de si (junto com a intolerância da fraqueza dos outros) e do típico sentido de
raiva narcisista contro si mesmo de frente à surpresa da própria fraqueza e impotência.68 Por isso,
muitos jovens, na primeira formação, lutam no vazio e com o disperdício considerável de energia,
para depois decidir, a um certo ponto, de não lutarem mais (ou porque... eles não conseguem
mais ou porque acham que não conseguirá concluir); ou seja, a mediocridade é frequentemente o
epílogo de uma luta errada e no fim frustante, exclusivamente contra si mesmo.
68 Sobre as interpretações equívocas da auto-aceitação, normalmente quando se torna até mesmo modelo formativo, cf. A. Cencini, L’albero della
vita. Verso un modello di formazione iniziale e permanente, Cinisello Balsamo 2005, 58-68.
A Hora de Deus
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2.2. Descuido do outro
Outro aspecto da involução narcisista (que cultua a própria pessoa) na crise que é só
psicológica é a exclusão do outro ou o seu descuido. Não que o outro seja ausente na vida e na
crise que está interessando o sujeito, é presente, às vezes também como presença significativa e
não indiferente do ponto de vista da crise mesma, mas é como se a sua a presença fosse só
instrumental, sem valorização intrínseca da sua pessoa, mas como projeção de problemas do
sujeito em dificuldade.
Em uma crise, por exemplo, determinada por um escasso sentido do eu ou por uma
percepção negativa de si, o indivíduo terá a necessidade de preencher a própria vida com gestos
importantes aos olhos de outros, com resultados e sucessos, com relações com pessoas
significativas, que de qualquer forma lhe possam dar aquela sensação positiva de si que não lhe
vem suficientemente de dentro. Se é um evangelizador, por exemplo, o indivíduo poderá também
fazer coisas muito valorizadas em si, como pegar para si a causa dos mais pobres e se fazer
defensor deles combatendo contra o potente, ou exibir ações louváveis neste sentido, que vão do
lavar os pés aos serviços mais humildes, normalmente sem desprezar a visibilidade dos seus
gestos, mas ao contrário... E tudo isto sinceramente, se entende. Mas na realidade, o que
representa o pobre para este? De fato, isto é além das aclamações (mais ou menos gritadas nos
locais mais estratégicos em função da visibilidade do eu) é sobretudo o instrumento através o qual
pode esperar inconscientemente de resolver o seu problema ligado à estima de si. Não se pode
dizer que não é nem um pouco interessado a ele, mas sem dúvida é mais interessado às próprias
economias intrapsiquicas (mesmo se não o sabe) que não motivado pelo sincero afeto pelo pobre;
é desagradável dizer, mas mais que serví-los se serve deles, colocando-se portanto em aberta
(ainda que a ele escondida) contradição com o seu proclamado amor pelos pobres. É provável
nesses casos que quando ele perceber e avaliar a coisa como não mais “conveniente” (do ponto
de vista da gratificação da sua necessidade) mudará também de comportamento, chegando até
mesmo a abandonar aquele que antes servia, e se sentirá frustrado, e portanto em crise. Uma
crise iniciada já antes, mesmo se não se dava conta, e em cada caso puramente psicológica, toda
gestida dentro de si, de um eu propenso à afirmação de si (isto é, à fama, à reputação, à carreira
talvez) e em conflito com uma sensação exatamente contrária de si, portanto negativa, crise em
função dos seus precários equilíbrios intrapsíquicos ou das suas necessidades em procura de
gratificação, no qual o outro, aquele outro que é pobre, mesmo presente, era na realidade
ausente, ou como se fosse só uma “contrafigura”(expressão italiana que significa “coadjuvante”),
um “pobre” coadjuvante.
Outro exemplo significativo é aquele que pode acontecer nas crises afetivo-sexuais, e que
de fato aconteceu a uma pessoa do calibre de T. Merton quando, como sabemos, se apaixonou
perdidamente, já monge na plena maturidade humana e espiritual e un escritor realizado, por
uma jovem mulher. Uma paixão tão forte, descreve, “que eu não sabia como poderia viver sem
ela”.69 Portanto, “ela” no centro da sua atenção, sentida até mesmo como indispensável para
continuar a viver. Na realidade, depois de uma longa reflexão jamais feita deste modo, Merton
chega com grande sinceridade e transparência introspectiva a descobir que isso que procurava
talvez não era a mulher que dizia amar, provavelmente nem mesmo uma certa gratificação
impulsiva, mas uma solução ao problema do vazio ao centro do coração. Ela era “a pessoa cujo
nome tentava usar como alguma coisa mágica para partir a presa da tremenda solidão do meu
coração”.70
É exatamente aquilo que faz a crise psicológica em tantos padres em crise afetiva: colocam
o eu com as suas necessidades afetivas assim no centro das atenções ignorando os outros ou
69 J.H. Griffin, Thomas Merton: The Hermitage Years, London 1993, 60. Cf. também J. FOREST, Thomas Merton: scrittore e monaco, uomo di pace e di
dialogo, Roma 1995, 178-186.
70 Griffin, Thomas Merton, 58.
A Hora de Deus
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usando-os como instrumento ou passagem para a solução dos próprios problemas. Também
quando a presença da outra é declarada insubstituível e o sujeito diz (a si mesmo e talvez também
a ela, gratificando-a) de não poder viver sem ela. Nem sempre uma paixão indica um amor
verdadeiro.
2.3. Exclusão de referimentos superiores ao eu (= transcendentes)
O terceiro risco consiste exatamente na exclusão, mais ou menos desejada e inconsciente,
de um critério de referência que seja não só externo à pessoa, mas também superior a esta e
portanto importante.
É a perda, no fundo, do sentido da transcendência, como é ainda típico de um
comportamento narcisista, transcendência compreendida no seu significado mais vital e de
promoção do humano. Como sinal do transcendente havia a nuvem ou a coluna de fogo dos
hebreus no deserto, que o povo de Israel via mais no alto e mais à frente e que por isto mesmo
podia indicar a eles a estrada a ser percorrida, distraindo-os das suas recorrentes conflitualidades
internas e provocando-os a caminhar, a ir adiante e unidos em direção ao futuro, a resistir à
tentação de voltar atrás com os próprios passos, em direção a um passado simplesmente a se
repetir e sem mais metas para alcançar...
Frequentemente a perda da transcendência vem em qualquer modo “compensada” com
ideais humanos de perfeição, que porém, depois de muito caminhar, se tornam um fardo pesado
como nunca que de fato acaba por impedir o crescimento da pessoa.71 A ausência do sentido da
transcendência implica sempre também a diminuição do impulso rumo ao futuro e da coragem de
enfrentar a novidade e o inédito da existência.
Mas o efeito mais relevante e também mais frequente da perda da transcendência é a
pretensão do eu de julgar a situação, talvez para depois atribuir a Deus o próprio juízo (ou o fazer
dizer aquilo que o sujeito quer). É o que aconteceu à irmã Magda, uma freira norte-americana
estudante de Sagrada Escritura que acompanhei há algum tempo em um caminho vocacional. A
religiosa havia uma relação de grande amizade com um sacerdote, naturalmente também ele
empenhado nos mesmos estudos da prestigiosa Universidade pontifícia, relação que excedia
frequentemente e prazerosamente em uma área um pouco além da simples amizade. Eu
procurava fazê-la entender a seriedade da situação e aconselhava que prestasse atenção no
verdadeiro motivo que estava atrás deste relacionamento, que estava se tornando sempre mais
central na sua vida, e que a poderia levar onde naquele momento ela ainda não imaginava, nem
mesmo, até aquele momento, ela mesma não queria. Ela reagia como que enfurecida a estes
meus convites. Com o imediatismo e a segurança tipicamente norte-americana me dizia que as
minhas preocupações eram excessivas e que a coisa não podia não agradar a Deus, porque na
Escritura Deus promove o amor humano e somos nós, principalmente nós italianos-romanos, que
somos prevenidos sobre isso, mas Ele, o Senhor do Cântico dos cânticos, não é ciumento dos
nossos afetos nem hostil ao diálogo dos corpos, etc. A um certo ponto da terapia lhe apliquei um
teste para ver o decurso do tratamento. Ela deveria terminar algumas frases; uma dessas
começava assim: “Eu falei...”, e ela acrescentou: “ Eu falei com o meu melhor amigo (with my best
friend). E ele me disse que está tudo bem”. Perguntei a quem se referia com esta expressão, e ela,
fingindo espanto pela pergunta: “mas é evidente, me referia a Deus, é ele o meu melhor amigo. Eu
falei para o senhor da minha amizade com aquele padre sobre o qual o senhor quer me colocar
em crise, e Deus me disse que ao contrário, não devo me preocupar... e portanto também o
senhor também não deve preocupar-se”. Claro, não?
71 Também sobre o conceito de perfeição permanecem interpretações equívocas em chave narcisistica que devem serem esclarecidas no caminho
formativo inicial; cf. Cencini, L’arbero della vita, 19-31.
A Hora de Deus
59
Me permeti só de convidar a conhecedora e exegeta da Palavra a perguntar um pouco a
Abraão, o primeiro que me veio a mente, se ele escutou na mesma forma, como my best friend,
aquele Deus que lhe pediu de deixar a sua terra, ou quando lhe pediu para sacrificar o filho... Ou a
escutar Jeremias, quando se referiu a Deus chamando-o “torrente traiçoeira”... Tive como
resposta uma pontuda irritação.
Sem dúvida, Deus é também amigo, antes, o “melhor amigo” de quem por Ele disse não ao
amor mesmo desejadíssimo de uma criatura, mas normalmente a amizade com Deus nas
Escrituras santas aparecem como o ponto final de uma relação não muito breve nem pacífica, mas
que prevê a luta com Ele e o combate com as suas pretensões terríveis sobre o coração humano.
Ao contrário, o Trascendente se torna como o ursinho de pelúcia da criança, uma espécie
de objeto de transição!
2.4. Empobrecimento do eu
Enfim, a luta psicológica, quando é só e exclusivamente tal, corre o risco de empobrecer o
eu e de tornar vulnerável cada ideal.
O eu, de fato, precisa de um centro, em torno do qual faz girar a vida e as próprias energias
e impulsos, um centro vital e significativo, capaz de dar sentido a tudo, a toda a sua história e a
cada aspecto da sua personalidade, e onde se pode reencontrar a própria identidade. Tal centro
não pode ser o eu mesmo, porque seria o clássico egocentrismo ou narcisismo que esmaga o eu
sobre si mesmo fazendo-o implodir, ou o obriga a girar no vazio sempre sobre si mesmo ou a
contemplar-se em vão à procura de uma inalcansável positividade pessoal. Mas é isso mesmo que
acontece na luta psicológica, onde o insensato conflito do eu contra si mesmo é paradoxalmente,
o aspecto da insensata auto-contemplação narcisista, de uma energia destinada ao outro ou à
realização que não consegue sair dos confins do eu.
Todas as consequências causam dano ao eu. Não tendo um centro de atração
magnetizante dos recursos pessoais, o eu mesmo correrá o risco de perder-dispersar as próprias
energias, de não as poder juntar em torno de algo que lhes dá sentido e orientação. É no fundo
um fenômeno da dispersão do eu com disperdício de energias preciosas. Quando o eu luta contra
si mesmo, de fato, irá ao encontro em todo caso, ou seja, qualquer que seja a parte vencedora, há
sempre uma perda e uma derrota para pessoa, como é típico de todas as lutas internas. Que
rende a luta psíquica inútil e insana.
Sofrerá, eventualmente, o progeto de vida da pessoa, asua capacidade de retenção ao
longo das estações da existência, a resistência em situações de dificuldades, a coragem e a
fidelidade em momentos de crises. A dispersão do eu provocará inevitavelmente em geral uma
vita também dispersiva e inconsistente, e um testemunho fraco e escassamente incisivo.72
2.5. Caos intra-psíquico
Um exemplo muito evidente daquilo que estamos falando é aquele fornecido pela parábola
evangélica do pai misericordioso (cf. Lc 15) e em particular pelo comportamento do assim
chamado irmão maior em relação ao irmão menor e com o pai. Exemplo apropriado se tentamos
ler estes três personagens não como externos, mas como internos a cada um de nós, como modos
de ser (e viver a relação) que podem co-existir dentro do nosso mundo interior, a nível mais ou
menos inconsciente, dividindo-nos interiormente e fazendo tornar problemático o caminho em
direção à liberdade interior.
O irmão maior, por exemplo, é aquela parte de nós tão empenhada (ou que se supõe
assim) no caminho da perfeição (compreendido em um certo modo, heróico-perfeccionalista) que
72 Cf. L. M. Rulla – F. Imoda – J. Ridick, Struttura psicologica e vocazionale. Motivazioni di entrata e di abbandono, Torino 1977, 53ss; também A.
CENCINI, “Maturità e maturazione nel celibato consacrato”, in Presbyteri 7(1980), 527-541.
A Hora de Deus
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não aceita a outra parte, aquela fraca e pecadora que vive também dentro de cada um de nós, e
chega a recusá-la quando “volta”, desejaria eliminá-la. Impedindo a festa da aceitação de si.
Ou isto... o irmão mais velho exprime a parte menos livre da nossa personalidade interior,
ou aquele certo modo de entender o dever, ainda uma vez, que torna a pessoa fiel e rigorosa na
observância e, porém, infeliz interiormente, porque não ama aquilo que faz. Faz o bem, mas o faz
forçado73. Para este irmão mais velho (que vive dentro de nós) a vida bonita é a outra, aquela que
ele “não pode” permitir-se e que, ao invés, o irmão mais novo teve a cara-de-pau de
experimentar: dinheiro, festas, mulheres, aventuras, autonomia...
Pode parecer estranho, mas é possível esta estranha inveja interna, que nos impede de
“perdoar-nos”, nos torna irritados conosco mesmos e frustrados, e incapazes de gozar, de
participar à festa da vida, de ser “pais” de nós mesmos, ou de encontrar aquele ponto central que
nos consente de unir as polaridades aparentemente contrárias dentro de nós. O resultado será
uma espécie de caos interior. Por uma luta inútil.
A coisa curiosa é que este estado interno contraditório de intolerância da parte “boa”
poderá determinar a mesma intolerância a nível relacional, em relação a quem errou e talvez se
arrepende, e pede de ser readmitido à relação e à fraternidade. Outro caso de aparente conflito
inter-pessoal, que ao invés denuncia um problema ao interno da pessoa.
3. Luta espiritual
Se “psicológico” indica a específica realidade intra-psíquica às vezes em conflito com as
outras, “espiritual” é aquilo que torna possível e efetua a síntese através da relação (como é típico
do Espírito na economia trinitária). No nosso caso, a relação é impulsionada ao nível máximo, e é
isto que provoca o efeito de reagrupar o indivíduo e a sua realidade intra-pisíquica.
A luta espiritual, portanto, representa... a outra forma de lutar do ser humano, conflito não
mais trabalhado ao interno do mundo intra-pisíquico subjetivo, mas aberto à realidade espiritual
da pessoa, em diálogo com o Transcendente. Esta luta, portanto, não é mais expressão de uma
discórdia interna ao eu, ou gerenciado predominantemente por uma parte do eu contra uma
outra parte, mas diz respeito à raiz do conflito natural e constitutivo da criatura com o Criador, a
luta até mesmo espiritual-religiosa, embora seja ainda combatida no terreno humano e no fundo
contra problemas internos ao sujeito e, portanto, se deve absolutamente levar em consideração
este humano.
“A luta religiosa é caracterizada pelo encontro e pelo confronto entre a pessoa livre e
Deus”.74 Certamente é um passo seguinte, um salto qualitativo em relação à luta “só” psicológica,
porque indica que o indivíduo alargou e moveu para frente o objetivo ou o critério do seu
processo de desenvolvimento: não mais um ideal somente humano, mas até mesmo de Deus, o
Transcendente. Atribuir tal ponto de riferimento ao próprio existir quer dizer, além de uma
aparência íntima e portanto enganadora, inevitavelmente luta, e luta fraquentemente dura... e
“perdida”. Como nos diz a história dos amigos e buscadores de Deus, todos – a um certo ponto –
desafiados em um luta desigual.
Também o encontro com Deus, como encontro com o Outro mais radical, que é princípio e
fim, é marcado pela luta. De Abraão, onde o encontro com Deus o tira da sua terra, a Jacó
que luta com o anjo, a Jeremias que se encontra seduzido e derrotado por Deus,75 a Jó que
quer discutir com Deus antes de dar-se por vencido. E enfim, também Jesus, imagem mais
73 Portanto, não é nem mesmo virtuoso, porque “a virtude é algo feito sem que tenha sido mandado, é voluntário: não pode ser virtuoso aquilo que
é por necessidade ou por violência” (Gregório de Nissa, L’uomo, Roma 2000, 77)
74 Cf. Imoda, Sviluppo umano, 369.
75 Cf. Jer 20,7. Secundo Ravasi a “sedução” no qual Jeremias é objeto (e vítima) é compreendida como “um fascínio irracional e irrestível, como se
envolvesse uma pessoa inexperiente com falsas promessas, porque estupidamente consente às manobras de quem é mais astuto. Não tem,
portanto, a saudosa evocação de um momento mágico, mas sim um ato de acusação por uma violência sofrida” (G. RAVASI, “Seduzione fatale”, em
Avvenire, 22 julho 1994, 1, itálico nosso).
A Hora de Deus
61
verdadeira do homem, além do fato de que é Deus, antes da paixão luta consigo mesmo e
com Deus. É Ele mesmo que veio trazer um fogo sobre a terra e uma luta (cf. Lc 12,49-53),
e trigo e joio, nesta terra, são destinados a co-existir e confrontar-se (cf. Mt 13,36-43).76
A luta espiritual-religiosa parece, portanto, ter estas características.
3.1. Luta sã
É conflito com Deus, portanto é luta “sã” em relação ao desenvolvimento do homem,
porque ninguém pode pedir ao homem aquilo que Deus lhe pede, ou seja, o máximo, para que
seja plenamente aquilo que é chamado a ser; luta saudável entre as exigências de um Deus que
antes doa e depois pede (ou seja, dá os recursos para responder os seus pedidos) e o medo do
homem que tem dificuldade de confiar, ou entre o amor gratuito de Deus e a pretensão ilusória do
homem de merecer o amor; luta benéfica de quem de qualquer forma confrontado com a
obstinada benevolência de Deus, com aquele Deus que fere e depois cura, que castiga e chama
aqueles que ama, que luta toda a noite com Jacó para manifestar-lhe a sua predileção, que recorre
à sedução – quase um engano – para atrair a si Jeremias, que combate uma vida com um povo de
cabeça dura como Israel para revelar as suas entranhas de misericórdia... A luta com aquele Deus
que não quer perder, que quer de todos os modos vencer, pelo mesmo motivo pelo qual é
ciumento, porque sabe que só com a rendição ao seu amor a criatura será feliz (mas o será
também ele, cf. Lc 15,7.10).
“Perder” esta luta quer dizer aquela rendição inteligente que abre a vida a horizontes
impensáveis, quer dizer descobrir a própria identidade e as próprias potencialidades nestes
horizontes, siginifica aprender a desejar os desejos divinos e à maneira de Deus, significa começar
a saborear a liberdade de abandonar-se, de confiar, de render-se, de pensar o próprio futuro
sobre a medida do projeto de Deus e não do medo e dos cálculos humanos, quer dizer aceitar
correr o risco de amar Deus e de amar com o coração de Deus...
3.2. À raiz de cada luta
Às vezes é difícil distinguir entre luta psicológica e espiritual, porque o encontro-combate
com Deusé sempre mediado por representações, elementos e fatores humanos. Isto significa que
a luta com Deus não é sempre... no estado puro, mas frequentemente, é luta e uma série de
complexas lutas do sujeito com o próprio mundo corpóreo e espiritual.
Se é verdade que o mistério do homem na sua dimensão antropológica, religiosa e cristã,
em quanto mistério, funda as suas raízes seja na grandeza do chamado que na
profundidade do seu ser limitado, nenhuma destas mediações que configuram os vários
diálogos e as várias lutas é indiferente ao único verdadeiro diálogo que conta, à única e
verdadeira luta que vale, com o homem-Deus.77
É uma característica muito importante, esta, da luta espiritual-religiosa: tal luta pode ser
presente também lá onde não é imediatamente reconhecível como tal, porque frequentemente se
esconde atrás de conflitos, perguntas, tensões aparentemente só psicológicas. Antes, se poderia
dizer que perguntas, lutas e ansias deveriam ser sempre compreendidas, pelo menos
teoricamente ou idealmente, como possível chamada do mistério e da luta espiritual e religiosa e
a esta subtendida ou conectada. É um aspecto das notáveis consequências sobre o plano
pedagógico, e voltaremos nele mais tarde.
3.3 O verdadeiro sentido de cada luta
76 Cf. Imoda, Sviluppo umano, 128.
77 Imoda, Sviluppo umano, 75.
A Hora de Deus
62
A luta saudável, portanto, biblicamente saudável, é aquela com Deus. Mesmo se não nos
vem ao pensamento espontâneamente assim, menos ainda pensar que devemos lutar até mesmo
“contra” Deus.
Como é possível que tal luta seja uma passagem indispensável, sinal inclusive de
maturidade, a mãe de cada luta?
Podemos pensar que devemos lutar contra o mal e as tentações diabólicas, e no máximo
ver a luta con(tra) Deus como expressão do conflito entre a parte negativa, infantil e impulsiva, e
as exigências da lei de Deus; ou lutamos com Deus quando lhe perguntamos alguma coisa que está
no nosso coração e ele parece surdo. Mas não é só isto que queremos dizer, nem é isto ainda o
sentido verdadeiro de cada luta. Nós lutamos com Deus... positivamente, porque o seu amor por
nós é excessivo, é exagerado, e isto nos amedronta, nos faz vir tonturas, nos complica muito a
vida... nós nos contentaríamos com menos amor, bastaria uma dose inferior. Que estranho, com
toda necessidade de amor que sentimos dentro de nós, e que normalmente é a verdadeira razão,
pelo menos imediata, das nossas crises ou daquilo pelo qual lutamos!
Por que este contraste?
Não tenho a pretensão de explicar aquilo que no fundo é ainda parte do mistério da vida
humana, mas creio que o próprio conceito de luta possa ajudar-nos a alcançar pelo menos o limiar
deste mistério. Na realidade, de fato, o amor divino nos amedronta quando nós intuimos que tal
amor não é simples benevolência ou carinhosa intimidade, mas é furacão que bagunça a vida e
não permite mais de viver como antes. Deus quando ama não se contenta simplesmente com um
impulso natural, mas transforma o coração do amado tornando-o até mesmo semelhante ao seu:
isto quer dizer amor de Deus, esta mesma transformação é o seu maior sinal: Deus me ama ao
ponto de tornar-me capaz de amar à sua maneira. Mais do que isso, na realidade, o Eterno não
poderia me amar!
Mas é isso mesmo que nos assusta, no sentido verdadeiro da expressão, nos assusta saber
que temos um coração que foi feito capaz, por graça, de amar à maneira divina, coração de carne
que bate com batimentos eternos. Que é uma coisa extraordinária, mas também aterrorizante!
Dom imenso, mas também responsabilidade infinita. Amor que seduz e comove, mas também
amor colocado nas nossas mãos para que o doemos aos outros. Certeza de ser muito querido,
desde sempre e para sempre, mas também liberdade de querer bem, para sempre... Mistério
grande e tremendum!
Perceber isto é sinal de maturidade, humana e cristã, quer dizer entender isto significa
realmente ser amado por Deus, além daquelas intimidades fáceis que se nutrem de ilusões e
reduzem o amor divino a uma sensação humana que não incide sobre a realidade humana e ainda
instável. Mas esta mesma pecepção desencadeia imediatamente, por sua natura, uma espécie de
conflito com Deus, ou aquela luta que estamos chamando de espiritual ou religiosa. Que
raramente se torna consciente, mas que é sempre presente em cada crise, escondida, talvez,
vagamente intuida, mas existe, ou em qualquer caso deve ser conhecida e consciente.
Como mudaria o comportamento de tantos consagrados em crise, talvez em crise afetiva
determinada por uma atração humana que parece afastar dos seus corações o amor de Deus e por
Deus, como mudaria as suas interpretações das crises se fossem ajudados a compreender que na
realidade Deus estar como nunca presente naquilo que acontece com eles, antes, estão lutado
com ele mesmo, com a verdade do seu amor, ou com a certeza, ou medo, de ser amado por ele
para amar em seguida come ele!
É ele que, único, consegue derrubar o muro de separação que divide o coração de cada ser
humano e é causa última de cada luta.
3.4 Evitar os extremos
A Hora de Deus
63
A luta espiritual, ou melhor, a interpretação do desenvolvimento humano como marcado
unicamente pela luta espiritual, apresenta de qualquer forma um risco, aquele de perder de vista
o elemento concreto, o ponto fraco a nível psicológico sobre o qual se deve intervenir no processo
evolutivo. A luta psicológica tem a honra de indicar às vezes a própria raiz ou pelo menos a
consequência da luta a nível humano, e portanto oferece a grande vantagem de saber onde
trabalhar, de identificar com precisão a inconsistência que impede o desenvolvimento; no fundo, a
mesma luta com Deus pode e deve mirar o aspecto mais vulnerável e imaturo da pessoa, e será
tanto mais eficaz quanto melhor identificado for este aspecto. Se luta com Deus, todavia, sempre
na própria pele e com meios humanos.
Existem, então, dois extremos para evitar: se o psicologismo, na sua presunta
concretização e fidelidade ao dado, arrisca de permanecer sem um significado que “assegure” ou
que motive em seguida a decisão de mudar, sem alguma saída nem referimento à realidade última
ou a Deus, ou o espiritualismo, ao outro extremo, arrisca de permanecer desencarnado e abstrato,
e de não encontrar a raíz do problema onde se deve de fato intervir.
Veremos mais adiante como evitar estas duas concepções opostas. Por enquanto nos basta
ter visto algumas modalidades fundamentais de reação à situação de crise.
4. Luta psicológico-espiritual
A dimensão real da luta é aquela de uma pessoa inteira, corpo e espírito, que vive um
drama com dimensões que refletem a altura e profundidade do mistério humano, o encontro, o
confronto ou a luta é portanto com um ambiente corpóreo, social e cultural, mas é também luta
contra si mesmo ou com algumas partes de si, e desenboca, em fim, no encontro com Deus, que é
o fim, o amigo ou o aliado do homem, mas que antes ou depois na vida se torna também amigo
difícil, pai exigente, adversário terrivel, rio traiçoeiro...
A luta, na existência humana, é uma constante irrinunciável que flui em duplo sentido ao
longo de um continuum, da luta dos sentidos àquela do espírito, da luta psicológica à luta
espiritual e em seguida à aquela religiosa, e vice-versa, e que deveria idealmente chegar a
compreender sempre mais junto estas diversas dimensões, que são dimensões do mistério
humano.
4.1. Modelo antropológico
Isto se refere, antes de tudo, a um preciso modo de conceber o ser humano, marcado pela
dialética ontológica. Segundo tal modelo existe no homem uma atual e constitutiva tensão entre
polaridades opostas. Existe uma natural dualidade em cada vivente, que é reconhecida sem
medos e dicotomias e a vários níveis, ou seja, convivem nele o santo e o pecador, o bem e o mal, a
saúde e a doença, a luz e a escuridão, o instintivo e o racional, osagrado e o profano, a vida e a
morte, o amor de si e do outro, a solidão e a companhia, o psíquico e o espiritual, o desejo e a
renúncia...
Mas isto é bem conhecido, nada de original. Nasce a crise quando se trata não só de
reconhecer tudo isto ou de aceitar uma certa ambiguidade como constitutiva (talvez como álibi
para não lutar), mas de compreender que um componente precisa do outro e que portanto deve
fazê-los interagir mesmo se através daquela singular interação que é a luta. Em qualquer caso
seria banal e irrealístico pretender fazer triunfar uma das duas polaridades (aquela positiva e
luminosa) e apagar a outra (aquela negativa e obscura). Em Jesus mesmo, a crise de solidão vivida
sobre a cruz recebe o seu sentido pleno (e sofrido) da intimidade vivida desde toda eternidade
pelo Verbo com o Pai e vice-versa (não se entende uma sem a outra), e assim também o abandono
final nas mãos do Pai não poderia ser compreendido não só em toda a sua dramaticidade, mas
sobretudo no seu significado de confiança extrema e amor incondicional, se não a partir da
A Hora de Deus
64
experiência trágica da solidão daquele que é suspenso no madeiro. Foi tão profundo o abismo da
solidão como total foi depois o abandono!
Tal modelo antropológico supõe e pede, portanto, um modo adeguado e correspondente
de ler e interpretar o humano, que de qualquer maneira consinta de manter juntas aquelas
polaridades, sem eliminar nenhuma, ao contrário, favorecendo o seu encontro. Seria a chave
interpretativa do mistério, como individualização daquele ponto central que permite exatamente
aquela síntese inteligente e ativa, sempre inédita e surpreendente, das polaridades que
constituem o ser humano.78
Vejamos em concreto como realizar esta leitura para entender corretamente o sentido da
luta na crise.
4.2 A Luta de Paulo
Em termos teóricos, “estas polaridades estão em relação dialética, ou seja, não são
informações que se anulam mas se qualificam reciprocamente: uma recebe da outra o seu sentido
pleno e não pode ser serenamente vivida se não engloba em si também a outra. Que gosto tem de
ser feliz se a felicidade tira a possibilidade de chorar?”.79 Ou, sobre um plano mais espiritual e de
fé, que credibilidade tem um projeto de perfeição pessoal que ignore a fraqueza do santo
aspirante e não o deixa purificar e iluminar? A vida dos santos não nos conta talvez que as maiores
aspirações são regularmente acompanhadas por grandes tensões? E Paulo, também ele, o Paulo
que tinha repetidamente pedido para ser libertado “do espinho na carne”, não está talvez a dizer-
nos que é possível até mesmo “se vantar” das próprias fraquezas, e que este vanto é o ponto
máximo de um processo de integração da fraqueza (cf. 2Cor 12,10)? Mas provocou uma crise, e na
crise uma luta. Uma luta antes psicológica e depois espiritual. Vejamos na ordem.
Crises
Paulo entra em crise quando se vê fraco diante da sua pessoal prospectiva de perfeição, de
fato incapaz de perceber profundamente as exigências do rigoroso eu-ideal do Saulo de Tarso
convertido ao Evangelho de Jesus Cristo. A sua consciência é uma consciência verdadeiramente
sofrida pela lacuna existente entre conduta e valor final da vida, assím dolorosa para motivar nele
uma forte decisão de mudança, no sentido do superamento do problema (da eliminação do
“espinho”) por um novo relacionamento entre eu-atual e eu-ideal e uma nova identidade. Todos
estes comportamentos são exatamente os componentes do conceito de crise, como os vimos já no
segundo capítolo.
Luta psicológica
Tal crise determina uma luta, luta em todas as frentes por parte de um Paulo como nunca
intencionado a resolver ele mesmo o problema... apagando-o. Portanto, luta administrada no
interior do eu, antes, do eu (ideal) contra o eu (atual), nos termos compreendidos pelo mesmo
apóstolo, luta na qual uma certa função, para entender de maneira lúcida e responsável a função
e o significado da sua pessoa e da sua imagem para tantos fiéis na Igreja primitiva, e com uma
finalidade decidida ainda pelo mesmo Paulo: a derrota do inimigo. Em tudo isto funciona uma
lógica precisa, ou seja, a idéia de perfeição sempre do Paulo da época, digamos do Paulo da
primeira conversão, perfeição como aquisição meritada de determinadas virtudes graças ao
colocar em atos certos comportamentos correspondentes, como fruto de cansaços e renúncias do
78 Cf. Imoda, Sviluppo umano, 1993.
79 A. Manenti, Vivere gli ideali. Fra paura e desiderio, Bologna 2001,17.
A Hora de Deus
65
sujeito virtuoso. Para obter este objetivo o Paulo que crê, que fez uma experiência pelo menos
inicial do poder da cruz, pede a intervenção do Senhor, mas sempre – a quanto parece – no
interno da sua lógica interpretativa, para obter a perfeição como ele a intende. Para Paulo e o seu
velho modo de ler o próprio mundo interior, tal “humilde” pedido deveria já representar um
grande passo adiante.
Luta espiritual
Mas o projeto se evidência diante daquele que parece uma recusa do Senhor de entrar
dentro desta lógica: o Senhor não o exaure. E aqui, acredito, tem uma passagem decisiva e
provavelmente mais complexa, verdadeiro salto qualitativo: no momento em que Paulo supõe que
o seu velho modo de conceber o relacionamento entre fraqueza humana (aspecto psicológico) e
perfeição cristã (aspecto espiritual) não se sustém mais. O Senhor, não atendendo a sua súplica,
torna-se vazio também os seus sonhos de santidade ou perfeição e, mais precisamente, a sua
pretensão de uma perfeição que apaga toda sombra de limite ou o seu sonho de uma positividade
radical, como se o seu eu fosse definido só por dimensão do bem, da luz, da positividade...
Esta é ainda a essência da crise em Paulo, e aqui lentamente ocorre a passagem da luta
psicológica àquela espiritual. Se Paulo disse ter pedido “por bem três vezes” (ou talvez ainda mais)
ao Senhor a graça da libertação, é lícito pensar que Paulo mesmo não tenha renunciado
imediatamente ao seu projeto e ao seu velho modelo, mas tenha insistido com teimosia,
colocando-se em lutar ainda com todo seu ser contra si mesmo... Mas também iniciando a lutar
com Deus e contra Deus.
A luta muda de lugar, porém vai sempre na direção do lado espiritual, do relacionamento
com Deus e “contra” a sua estranha lógica, aquela na qual não o liberta da fraqueza humana.
Parece absurdo a Paulo tudo isso, assím como soam absolutamente inéditas aquelas palavras
cheias de mistério: “Te basta a minha graça; a força, de fato, se manifesta plenamente na
fraqueza” (2Cor 12,9)... Paulo certamente não entende tudo imediatamente, mas entende sempre
mais que a gestão da crise e da luta foge de suas mãos; é Deus que entra progressivamente em
campo, e é melhor que seja assím, porque em tal modo a pequena lógica do presunçoso aspirante
à perfeição se alarga sem medidas, entrando na lógica sem limites do Eterno (a lógica da
impossível possibilitade de Deus), onde aquilo que é contraditório e muito distante (fraqueza
humana e potência divina) se une em um abraço misterioso e santo. E é o início da rendição em
Paulo...
Luta psicológica-espiritual
A luta se torna psicológica-espiritual. Os dois elementos se unem em qualquer modo,
unindo-se entre eles consentem que duas outras polaridades, sempre na lógica do mistério, se
cruzem entre elas, fraqueza (humana) e potência (divina), uma iluminando outra, quase
oferecendo-se os seus espaços, juntas contribuindo a descobrir a verdade, e neste caso uma
verdade preciosa e revelada, que o homem não teria nunca descobrido com a sua mente. Paulo,
de fato, não teria nunca pensado de poder pedir ao Senhor de manifestar a potência divina na sua
própria fraqueza humana! Isto era totalmente fora da sua prospectiva. Por isto foi necessário
passar através de uma crise sofrida e uma luta estranha, até mesmo contra Deus, para poder no
fim ceder, perder e render-se. Render-sea Deus e ao seu amor, confiando-se e abandonando-se, e
abandonando aquela interpretação psicológica da perfeição antes e depois da luta.
Paulo “canta” tudo isto com o seu Magnificat: “Me vanterei com prazer nas minhas
fraquezas [...] quando sou fraco é então que sou forte” (cf. 2Cor 12,10). E é a plena integração da
prospectiva psicológica com aquela espiritual: de um lado Paulo vê claramente a própria fraqueza,
A Hora de Deus
66
não se envergonha dela mais, não a sente mais como marca humilhante, e pode portanto observa-
la lucidamente, nas suas raízes e nas suas consequências, aceitando profundamente de ser fraco e
sabendo também onde deve trabalhar. Do outro lado o mesmo apóstolo apresenta este vazio a
Deus, não o esconde como um material imundo, ao contrário vive-o como um espaço não só vazio
de Deus, mas vazio para Deus, espaço que Deus poderá encher com a sua misericórdia e a sua
santidade. Porque isto é santidade: a pobreza do homem preenchida da graça divina! Que se
alcança lutando e perdendo com Deus.
Se crise e luta são o momento no qual ocorre uma síntese nova e inédita entre estas
polaridades, melhores e mais eficazes em relação às precedentes, ofertas ou provocadas pelas
circunstâncias da vida ou elaborados pelo sujeito, isto será possível na medida em que a pessoa
encontra um ponto de referimento, um centro em torno do qual se pode construir a síntese.
Fundamental, portanto, será encontrar aquele ponto central e “misterioso” que consente a
troca fecunda na verdade.80
4.3. No coração do mistério: crise... pascoal
Na vida do fiél, e mais ainda do presbítero ou do/a consagrado/a, este centro existe, é já
dado e indicado claramente, e é a páscoa de Cristo, a sua cruz e ressurreição, mistério no qual se
juntam os opostos por excelência: a morte e vida, a impotência do homem e o poder da graça.
Mas não se pode dar por compreendido um ponto assim importante e decisivo.81 E isto sobretudo
porque isto significa um modo diferente de viver a fé: Não como simples adesão mais ou menos
passiva a um conteúdo de se acreditar, mas como dinamismo que ativa continuamente esta
operação de integração entre os opostos. Operação que deve ser compreendida em duplo sentido
ou que procede segundo uma dupla direção: de um certo ponto de vista esta operação por sua
natureza determina uma crise e uma luta, não é operação pacífica e espontânea. De um outro
anglo é nesta operação que reside e consiste a solução da crise e da luta. É como um duplo
dinamismo, ainda menos compreendido em quanto tal. Em todo caso só quando se estar na crise
se pode começar a compreender o que significa “recapitular todas as coisas também as suas crises
em Cristo”, ou encontrar na sua páscoa de morte e ressurreição o sentido profundo da sua luta e
um caminho para sair da sua crise.
Neste caso falamos de “crise pascoal”, como de um dinamismo que nos reconduz de
verdade às sorgentes da fé cristã, e em particular da fé na morte e ressurreição do Filho. Não é o
momento agora de delinear os passos concretos deste dinamismo de fé,82 mas de indicar aquela
concepção da crise que é ligada intrinsecamente ao modelo pascoal, ou que deriva em todo caso,
e portanto não é realidade eventual ou necessariamente negativa, mas componente inevitável de
um projeto de vida que olha à cruz como ponto de chegada do caminho, qual seu ideal, como
expressão da maior maturidade, aquela de quem dá a vida. Se crise quer dizer procura de uma
síntese sempre nova entre o eu atual e o eu ideal, é totalmente lógico que quem segue o Cordeiro
inocente seja constantemente provocado a procurar novas e mais capazes sínteses; não poderia
ser diversamente, sendo que estas sínteses ocorrem a níveis sempre mais desafiantes e coerentes,
e portanto também necessariamente conflituais e dolorosos. O conflito é aqui o preço da
coerência.
Não existe possibilidade alguma de formação autêntica sem crises e lutas - podemos e
devemos afirmar com convicção - ou sem a capacidade e liberdade de viver e sofrer ambos,
reconhecendo-os até mesmo com gratidão o papel na própria vida, por um lado. Mas sobretudo
vivendo-as como crises pascoais, de morte e ressurreição pessoal, por outro lado. Eis porque o
drama é parte de um processo formativo, ou tem um pathos que é seu componente essencial.
80 Cf. A. Cencini, L’arbero della vita, 111-113.
81 Normalmente se olhamos os modelos de formação, inicial e permanente, atualmente em circulação!
82 Sobre isso falei difusamente, também em referimento a outros modelos, no já citado L’arbero della vita, terceira parte, 237-340.
A Hora de Deus
67
4.4. Do “pathos”83 ao “logos”
Mas a cruz atrai, como disse Jesus (“quando serei elevado da terra, atrairei todos a mim” -
Jo 12,32), e é ainda um mistério, isto é, que se deixa porém florescer da crise ou que pode ser
suposto por quem está na luta. A cruz atrai, de fato, porque só ela pode dar sentido à crise e à
luta. Porque é fato que o verdadeiro significado, “o logos”, da luta que se desenvolve no coração
do homem, normalmente do presbítero e do/a consagrado/a, nas partilhas quotidianas de cada
pessoa com os seus iguais como nas escolhas de cada dia, também aquelas menos importantes à
aparência, nos momentos críticos da vida e do desenvolvimento como nas situações mais
ordinárias da existência quotidiana, é conferido um sentido pleno só daquele centro vital que é a
cruz do Filho obediente, do Servo sofrido, do Cordeiro inocente.
Porque ele é o Logos, a Palavra do Deus vivo, aquele que é o caminho, a verdade, a vida do
homem vivo mesmo porque experimentou a angustia e o tormento da morte. É ele o Mediador
que consegue unir as antinomias84 que constituem o mistério, o homem, em uma síntese que
mantém a diversidade e torna fecunda a tensão, favorecendo ao mesmo tempo a harmonia entre
finito e infinito, grandeza e limite, pecato e graça, temporal e eterno, humano e divino.85 Ele,
sobretudo, foi o primeiro a passar pela estrada do homem, e viveu a luta mais cansativa, com os
homens e com o Pai-Deus, a luta por excelência, a mãe de toda luta. E não só isso, mas também
experimentou a impotência, a maior, ao sofrer a condenação da parte dos homens e a solidão na
relação com o Pai. E, enfim, viveu também a rendição, entregando-se nas mãos dos homens e do
Pai-Deus, da vida e da morte (“em tuas mãos entrego o meu espírito”, Lc 23,46), revelando que
toda luta (e crise) encontra aqui a sua raíz e a pergunta fundamental: confio ou não confio em
Deus?
Desde então não existe mais a luta absurda o ou insana, porque cada luta de cada crise
pode se tornar experiência de crise, de luta, de abandono nas grandes mãos do Pai. Eis porque
aquele pode ser o ponto de integração ou de atração, como disse o próprio Jesus, de toda crise e
de toda luta.
É ele e só ele que pode mostrar em si mesmo como a luta “perdida” com Deus se torna
vida plena para o homem, ou seja, a única condição de vida para o homem.
4.5. Relação reciproca
É no mistério pascal, como vimos, que se unem todas as antinomias e, portanto, onde
também a luta é juntamente psicológica e espiritual. Vejamos mais nos detalhes como favorecer,
no plano humano, esta convergência.
Por um lado a luta psicológica. Toda luta psicológica, contém já em si um significado
espiritual-religioso, pelo menos implícito e teórico, enquanto – por outro lado, a luta religiosa tem
um natural referencial psicológico, mesmo se normalmente não decifrável imediatamente. Existe
uma situação de desenvolvimento, não só sobre o plano teórico mas também sobre aquele da
prática efetiva, quando aquele significado religioso implícito na luta psicológica vem explicitado,
ou seja, lá onde o sujeito é ajudado a tornar-se consciente ao ponto de redefinir a nível religioso a
luta (com Deus e “contra” Deus), para que não fique só psicológica (contra si mesmo ou um
pedaço de si), estreita entre confins muito limitados paradeterminar um real crescimento
humano. Assim também existirá um desenvolvimetno positivo quando a luta psicológica não
83 Pathos é uma palavra grega que significa: paixão, excesso, catástrofe, passagem, passividade, sofrimento e assujeitamento. O conceito filosófico
foi cunhado por Descartes para designar tudo o que se faz ou acontece de novo é geralmente chamado (pelos filósofos) de pathos. E se o conceito
está ligado a padecer, pois o que é passivo de um acontecimento, padece deste mesmo. Portanto, não existe pathos senão na mobilidade, na
imperfeição.
84 Contradição entre leis (e, por extensão, entre pessoas ou coisas).
85 A. Cencini, L’arbero della vita, 73.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia
http://pt.wikipedia.org/wiki/Descartes
A Hora de Deus
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permanecer sobre um plano vagamente espiritual, mas quando consegue identificar com
suficiente precisão o “lugar” da conversão, as componentes do eu que devem mudar, a parte
vulnerável que é reforçada, os truques e os mecanismos defensivos até agora esgotados, as
contradições e os vários comportamentos auto-destrutivos...
É o caso então de perguntar-se: “Até a que ponto as tensões, os conflitos, e as mesmas
divisões do coração conseguem adquirir um significado último, religioso e cristão; ou fica um
drama psicológico, humano, com horizontes de tipo estoico, limitados a um humanismo privado
da autêntica auto-transcendência que se abre e tende a Deus?”.86
O problema será então sobretudo de natureza pedagógica, ou seja, de ajuda para dar à
pessoa para que aprenda a fazer esta passagem, a reconhecer, à raiz das próprias conflitualidades,
a verdadeira e única fonte e razão do viver e do lutar humano: o desejo de Deus de fazer-se
conhecer, de revelar-se ao coração do homem, superando medos e resistências humanas.
É um desafio, o desafio da transformação-transfiguração em luta espiritual com significado
religioso de uma luta sobre o plano humano e psicológico, mas desafio também de retornar ao
conflito psicológico, reconhecendo no concreto dos problemas e das ansiedades, da imaturidade e
dos infatilismos a tal nível, o “lugar” da luta religiosa. Desafio destinado a durar toda a vida e que
interessa, portanto, à formação inicial e permanente.
4.6. Modelo pedagógico
Concluiremos, então, indicando em resumo aquilo que poderia ser o percurso pedagógico
de se fazer, idealmente, em uma crise qualquer para favorecer esta passagem da crise psicológica
àquela espiritual e em seguida psiquico-espiritual. O indicamos amplamente o sentido teório desta
evolução, mas se quizermos precisá-lo sobre o plano do percurso pedagógico poderemos no
momento verificá-lo assim, à luz destas operações, nos reservando de especificá-lo mais adiante
na parte conclusiva da nossa reflexão.
Escavar a pergunta
Atrás de toda crise ou situação de dificuldade existe uma espera ou uma questão que ficou
não só insatisfeitos, mas até mesmo não expressos e inconscientes, pelo menos várias vezes. E ao
invés seria importante ir além daquilo que aparece e que a pessoa mesma perceba como
problemático e conflitual, para colher exatamente aquela espera ou questão que está à raíz da
própria crise. É o método de escavar da pergunta,87 através do qual o indivíduo é ajudado e
provocado e descobrir as possíbilidades componentes motivacionais de uma inquietude ou de
uma procura ou de uma espera. Se trata de um movimento em profundidade, uma espécie de
caminho inverso em direção à origem daquela pergunta, ou de recuperação das próprias raízes
(uma espécie de “retorno a casa”), sem nunca dar por certo que o objetivo da pergunta se
identifique com quanto declarado pelo sujeito, nem acontentando-se de regressar à origem
psicogenética.
É significativo que nos Evangelhos Jesus, de frente à invocação de doentes que pedem com
insistência a cura, frequentemente não age imediatamente com o intervenção pedida, mas coloca
primeiro aos seus interlocutores uma pergunta (“o que queres que eu te faça?”) que pareceria
inútil, é tão evidente o objeto de suas súplicas, e que ao invés quer de qualquer forma forçar o
pedinte a aprofundar e clarear, a si mesmo primeiro que aos outros, qual seja a sua expectativa,
mais ou menos inconsciente, do que foi determinado na realidade, qual seja o bem que se sente
86 A. Cencini, L’arbero della vita, 369.
87 Se vê, sobre este argumento, A CENCINI, Vita consacrata. Itinerário formatico lungo la via di Emmaus, Cinisello Balsamo 1994, 223-225: nestas
páginas se segue em boa parte a análise acuta e insuperada de Godin sobre a oração como lugar de “torsão” dos desejos, ou como momento no
qual o sujeito descobre a natureza dos seus desejos e é provocado a mudar-los, entrando no mundo dos desejos de Deus (cf. A. GODIN, Psicologia
delle esperienze religiose. Il desiderio e la realtà, Brescia 1983, 194ss).
A Hora de Deus
69
faltar e que deseja desde sempre (para confrontar – talvez – com aquele que deveria desejar
como o mais importante)...88
Tal procura parece mais conectada com a luta psicológica, consente de fato ao sujeito de
descobrir a verdadeira raíz da sua confusa busca, o ponto de partida dos seus desejos, as suas
origens... E lhe consentiria então de fazer descobertas muito interessantes ou talvez inquietantes.
Interessantes, porque tornaria evidente como à origem dos conflitos ou dos tantos conflitos
psicológicos seja uma exigência de alguma coisa grande, que atraversa os conflitos humanos;
inquietantes, porque é triste ver como tal tensão potencialmente infinita venha em seguida
reduzida e mortificada em pretensões infantis – adolecentes.
Justamente por este motivo isto poderia ser o momento da purificação ou do início da
purificação do pedido, finalmente livre de tantas incrustrações que podem esconder o sentido
primordial e mais verdadeiro, misteriosamente velado na necessidade psicológica que está à
origem do conflito. Poderá ser necessária então uma reformulação, uma mudança, uma
transformação destas perguntas e das lutas as quais estam ligadas e das inquietudes
consequentes. Mas é passagem indispensável, sobretudo, que permite ao sujeito de agir
finalmente sobre a real causa da sua inquietude.
Escalar a pergunta
É o movimento complementar ao primeiro: se aquele vai em profundidade, nas
profundidades do próprio mundo interior e do próprio inconsciente, este vai em direção.. as
alturas. Se é verdade, como sustentamos, que todo conflito e toda pergunta, toda ansia e medo
contém como em uma semente o interrogativo central da vida humana e podem levar a encontrar
o Mistério, próprio desta nova idéia e transformada se torna um método pedagógico preciso,
aquele que conduz o sujeito a escalar a pergunta, ou seja, a retornar de pergunta em pergunta, ou
de desejo em desejo, em direção a última pergunta (mas talvez também a primeira), em direção
ao desejo central presente, as vezes “adormentado”, no coração de cada homem, daquele infinito,
ou do rosto de Deus,89 qual espera capaz de reassumir em si e saciar toda espera humana. É um
movimento de subida, no qual é normalmente ligada também a descoberta, da parte do indivíduo,
da própria identidade e verdade, e que de fato estende a sua capacidade perceptiva (exatamente
como quando se escala uma montanha), bem além o problema que é a causa imediata da tensão
em questão. De fato, portando, tal operação pedagógica é mais ligada à luta espiritual.
Escavar e escalar a pergunta
Ponto ideal de chegada deste percurso pedagógico é a capacidade simultânea de operar a
escavação da pergunta vendo ao mesmo tempo raíz e saída final, o que ela significa, por um lado,
e aquilo que dará a ela a resposta plena ou o máximo da gratificação, por outro.
Antes, digamos que o grande segredo da vida e do caminho formativo (inicial e permanete)
é exatamente esta capacidade-liberdade de mover-se contemporaneamentenas duas direções.
Aquela que vai em profundidade a buscar motivações e desejos, e aquela que vai em direção ao
88 Isto é como o histórico do estudante universitário, no seu tempo educado na fé, que voltou na sua cidade para as férias. O rapaz tinha aprendido
alguma coisa sobre Freud. Encontrou na praça o seu pároco. Depois dos cumprimentos o ex-coroinha, também ex-credente, joga alí a sua grande
descoberta: “Caro padre, não se iluda, as pessoas que vem na Igreja não vem por fé, mas por sublimação do impulso sexual. O Senhor sabia?”. O
velho pároco não se desconcerta; Não conhecia muito Freud e também o termo “sublimação” não lhe soava familiar, mas sabia alguma coisa do
ânimo humano, dos seus desejos e das suas contradições. Com muita calma, então, o rebate: “E sabe o que eu digo a você? Que quando você bate
na porta do bordéo, você acredita procurar a carne de uma mulher: na verdade você está procurando Deus” (cf. A. CENCINI, Verginità e celibato per il
regno dei cieli. Per una sessualità pasquale, Bologna 2005, 34.
89 É o sentido deste fato metropolitano. Sobre os muros de uma cidade italiana aparece um dia este escrito, entre os tantos anônimos,
normalmente de péssimo gosto, expostas à atenção pública: “Deus é a resposta”. Evidentemente o autor era alguém que crê em Deus, talvez à
procura de um método novo de evangelização, quase um kerygma mural. Depois de pouco tempo uma outra mão rigorosamente anônima
acrescenta: “... sim, mas qual era a pergunta?”.
A Hora de Deus
70
alto para colher aquela tenção irreprimível do coração humano, e que é presente não só em todo
desejo humano mas também em todo conflito.
No fundo a crise, toda crise, refere-se a esta contraposição. Ou a esta reciproca
interdependência entre luta psicológica e luta religiosa, ao fluir de uma na outra em um processo
de síntese e de transformação do lutar humano e das suas dimensões, resgatado da inútil e
repetitiva conflitualidade e elevado a qualidade de relacionamento com Deus.
A Hora de Deus
71
CAPÍTULO 06
SEGUNDA PARTE
REALIDADE DAS CRISES HOJE
Queremos nesta segunda parte compreender o sentido mais profundo e atual das crises
sacerdotais e religiosas, ou seja, a sua natureza (essência), antes de tudo, ou as áreas da
personalidade em que as crises são mais frequentes. Mas queremos também perguntar o por quê
desta frequência, hoje muito mais frequente que um tempo atrás, pelo menos referindo-se àquilo
que vemos ou ainda se quisermos assim dizer, um certo êxito negativo. Talvez isso seja o fato novo
da crise.
Crises, verdadeiramente, e motivos de crises sempre existiram; aquilo que hoje parece
relativamente novo é o fato de que certas situações conflituais, talvez nem mesmo assim tão
dilacerante (pelo menos no início), se tornem tão cedo insuportáveis para o sujeito e conduzem
com frequência ao abandono da vocação, a um afastamento de caráter psicológico, a uma
transgressão mais o menos descaradamente, a uma revolta clara diante de uma autoridade (ou a
indiferênça total a seu respeito), um medo extremo por manter comportamentos graves... Por
outro lado, já a nível intelectual, a crise é sempre entendida pela maioria como circunstância
negativa da vida, como algo que está perdendo progressivamente o valor positivo, este momento
de conversão e crescimento.
CAPITULO 6
Natureza da Crise
No início desta segunda sessão colocamos então nossa reflexão sobre as áreas das crises.
Tentaremos comprender as problemáticas-crises-lutas que podem acontecer na vida presbiteral e
religiosa do ponto de vista da sua natureza. Até aquí consideramos o significado teórico destas
situações críticas, no momento em que o sujeito percebe-a e sofre. Nos resta ver o sentido mais
objetivo de um lado, e dinâmico do outro; por aquilo que determina e que determinou o
problema, e como ele levou uma específica configuração no equilíbrio intrapsíquico e espiritual da
pessoa.
De uma forma mais simples, queremos interrogar: o que há, com mais frequência, na
orígem das crises sacerdotais-religiosas?90 Quais são estas áreas e aonde com maior frequência se
verificam fraquezas e situações contraditórias na vida do fiel? Em quais setores da personalidade
do padre, do frei e da freira são mais inconsistentes, mais vulneráveis e com menor docibilitas? E
podemos assim ser ajudados com pesquisas e estatísticas?91
1. Fatores e causas, passado e presente
Antes de mais nada, desembaraçamos o campo de alguns equívocos e assim deixar claro o
sentido da nossa pesquisa, fazendo um pouco de explicatio terminorum (explicação dos termos).
90 De agora em diante falaremos genericamente de crises sacerdotais-religiosas sem especificar ulteriormente, mas sempre comprendendo com
este termo aquela realidade complexa que vimos nos precedentes capítulos e que é composta por problemáticas e lutas. Portanto crises como
termo geral e de mais maior compreensão.
91 O discurso sobre os números (dos quem abandonaram a própria vocação) não nos interessa tanto, por isso não os afrontamos, não somente
pelas dificuldades de recuperar dados, mas sobretudo porque a ideia de crise sobre o qual questionamos neste texto vai bem além do dilema
clássico vocacional de permanescer ou deixar, como é expresso pelos números, mas é uma idéia muito âmpla. A nível puramente indicativo no
entanto, propomos que estes dados relativo aos sacerdotes diocesanos que foram reduzidos a leigos desde 1973 a 2004: em 1973 foram 1.868, em
1978, 1.253, em 1983 foram 603, em 1988 foram 613, em 1993 foram 679, em 1998 foram 619, em 2000, foram 588, em 2004,chegou a 754 (cf. G.
Brunetta, “Uma Igreja lutando com os números”, na Vida pastoral 1[2007], 66-74). Outro dado interssante, e frequentemente não levado em
consideração, é o número daqueles que pedem para serem readmitidos ao serviço presbiteral: a congregação para o clero do vaticano também
publicou estes dados referentes a tal eventualidade, e em particular para os sacerdotes que retornaram ao exercício entre 1970 a 1995. O número
varia muito de um ano para o outro. No espaço do tempo levado em consideração, retornaram ao todo 9.551 (cf. Anuário pontifício 1999 e 2006).
Falaremos sobre isso mais adiante, no capítulo 11§ 2.6.
A Hora de Deus
72
CAPÍTULO 06
1.1 Passado e presente
É evidente a relação entre passado e presente para determinar as dificuldades de uma
pessoa; é um dado particularmente evidente de uma pesquisa psicológica, cuja as experiências das
fases primitivas da vida ou da primeira infância, parecem destinadas a deixar uma certa marca na
personalidade e na sucessiva evolução da pessoa. Não é uma novidade: geralmente alguns
traumas e feridas dos primeiros anos de vida se tornam parte da chamada “memória afetiva”. O
problema é esclarecer até que ponto isso pode ser considerado causa, causa inevitável e fatal que
determina um certo tipo de consequência.
Neste caso, a psicologia está progressivamente se movendo com uma lógica continuista
rigorosamente freudiana, em uma lógica principalmente respeitosa da dignidade e do mistério da
liberdade da vida humana. Segunda a primeira lógica o passado é destinado a repetir a vida
sucessiva da pessoa, quase como um destino, e é de fato a causa que determina o presente (é o
assim chamado raciocínio causal); na segunda lógica o passado oferece explicações que
consentem em comprender o presente (seria o raciocínio plausível), mas absolutamente sem
tornar o sujeito oprimido e passivo diante dele, ao contrário, solicitando-o a tomar posição diante
do seu passado, até alcançar a possibilidade de integrá-lo (= raciocínio responsável).
Gostaríamos de mover-nos nesta linha, que na verdade nos parece ser mais respeitosa do
mistério da liberdade humana com suas reservase potencialidades, como tantas histórias de
pessoas com um passado dramático, em seguida recuperado e integrado, nos demonstram.92
1.2 Elementos externos e internos
Assim pois, deve ser evitada, segundo nosso conhecimento, a tendência a atribuir a causa
das crises à particulares eventos externos à pessoa, do ambiente sócio-cultural e a particulares
eventos independentes da pessoa em sí: estes podem ser elementos que pioram uma situação já
precária, como a famosa gota que faz transbordar o vaso; são fatores de crises, porém – ainda
uma vez mais – não causas de crises.
Muitas vezes, de fato, é um dado que precisa ser observado, como idênticas situações que
para uma pessoa são fatores de crises (determinando-a de modo mais ou menos), para outras são
ao contrário somente etapas, ainda que faticosas, de um caminho de crescimento; o problema,
portanto, é interno à pessoa que, no primeiro caso, viverà a vida como um processo de frustração
permanente, no segundo caso, de formação permanente. Porém esta observação nos faz pensar
na relação que se deve ter entre formação inicial e formação permanente, ou àquele ponto de
incontro entre as duas, constituido pela docibilitas93, ou melhor, do ter aprendido a aprender com
vida (de todas as circunstâncias da vida, até mesmo daquelas críticas e problemáticas) por toda a
vida.
1.3 FORMAÇÃO INICIAL E FORMAÇÃO PERMANENTE
Na mesma linha que estamos abordando, vem espontaneamente uma outra observação, que é
como uma complementar hipótese de trabalho. O mesmo tipo de relação que vimos entre
passado e presente, ou entre fatores internos e externos, no fundo existe também entre formação
inicial e formação permanente no começo de uma crise. Particularmente, como não é o passado a
causa do problema presente, nem são os fatores externos a determinar a situação de crise, assim
92 A respeito da integração do passado Cf. A. Cencini, L´albero della vita. Verso un modello di formazione iniziale e permanente, Cinisello Balsamo
2005, 163-231.
93
Docibilitas: Se trata daquela disponibilidade a aprender, a “deixar-se ensinar” por alguém ou por alguma coisa, que é atitude fundamental e a
“condicio sine qua” não da mesma forma permanente.
A Hora de Deus
73
CAPÍTULO 06
também creio não se poder atribuir à formação inicial, ou menos ainda “só a esta” a causa dos
problemas que podem explodir em seguida.
Talvez nesse sentido deve ser superada una certa pré-compreensão, quase um preconceito
deduzido, segundo o qual uma crise catastrófica está sempre ligada a um defeito de formação
inicial, de maneira exclusiva ou pelo menos predominante. Isso não cessa de ser verdadeiro hoje,
como repetimos tantas vezes e continuaremos a repetir, até mesmo porque é muito fácil, quando
explode uma crise, perceber as raízes ou alguns sinais prescientes naquilo que a pessoa viveu a
pouco tempo atrás do que tentar entender aquilo que a pessoa viveu durante o período da
primeira formação. Como não existe para ninguém um passado perfeito ou uma família de origem
perfeita, assim é possível que em tempos difíceis e incertos como os nossos, o caminho de
formação inicial fosse menos atento em alguma área, com responsabilidade – que com certeza
não é reduzida – ou por parte da instituição ou pelo sujeito que não deixou ser conduzido,
formado suficientemente, ou as duas coisas; isso não é de fato estranho, assim como se deve fazer
de tudo para melhorar o nível da formação inicial94. Será da mesma forma muito difícil que a
formação inicial possa prever todas as situações problemáticas futuras na qual o sujeito se
encontrará, de maneira a blindar-lhe contra estas situações: as tensões e contradições nas quais
hoje é exposta a vida do anunciador do Evangelho, são tão imprevisíveis e complexas que se torna
difícel uma cobertura total do indivíduo no que diz respeito à primeira formação.
Existe portanto uma responsabilidade específica da primeira formação que deve ser sem
dúvida reconhecida, porém o verdadeiro problema hoje é outro: é aquele da formação
permanente. Seja porque o passado, como já mencionamos, pode ajudar a comprender o
presente, mas não pode ser considerado a causa; porque é no presente que o sujeito precisa dar
uma resposta à situação crítica; e seja, enfim, porque a cada caso a formação inicial é já objeto –
de um lado – de muita atenção (também crítica), é sem dúvida, bem consciente dos seus
problemas, já a muito tempo leva adiante um caminho de renovação e é constantemente
monitorada, enquanto – do outro lado – possui uma estrutura específica, é elaborada segundo
programas, suficientemente testados, absolve energias notáveis (basta pensar o quanto hoje é
importante a formação dos formadores).
Enquanto não se pode dizer – ai de mim – a mesma coisa para a formação permanente.
Que para alguns é a bela desconhecida, da qual se fala muito, de outro lado, mas muito escassa
averiguação na prática, que a torna quase inexistente ou inconscistente. Ou então é entendida
ainda de forma redutiva e superficial, como se consistisse simplesmente em
alguns cursos para atualizar-se nos campos: (teológico, bíblico, pastoral, espiritual e
social...) que se fazem de vez em quando, só para haver uma ajuda de nível de tensão interna do
presbítero ou para não perder o último trem de renovação teológica e esteja ao mesmo passo dos
tempos atuais. A formação permanente é ainda entendida como alguma coisa extraordinária e
eventual.
Estamos ainda muito longe de uma interpretação correta do processo de formação que
dura por sua natureza, toda a vida, e que se estende por toda a existência porque a formação é
ação que deve ir em profundidade, e alcançar a profundidade interior do consagrado para
modelar (plasmar) nele os sentimentos do Filho. Estamos muito longe de receber o verdadeiro
94 Do que aquí se trata, creio que podemos falar hoje de uma certa fragilidade formativa da primeira formação. Cereda a comenta assim (do ponto
de vista da vida consagrada, mas com observações que me parecem extensíveis também à vida presbiteral): “os caminhos da formação inicial
destes anos, ricos em conteúdos, ajudam a esboçar a identidade da pessoa consagrada, mas não lhe ajuda a chegar na profundidade e a realizar a
maturação. Então a identidade é esquecida ou continuamente colocada em discussão ou desencaminhadas por experiências dispersíveis. Os
caminhos de formação são descontínuos; as vezes são muito longos e pouco incisívos... A fraqueza mais grave está na incapacidade de realizar uma
formação que ajude o jovem consagrado apropriar-se dos valores do crescimento humano, da fé e do carisma. É preciso reconhecer que com muita
fraquência, a formação que damos é fraca, não muda, não converte, não chega ao coração. Tantas vezes não há tempo para este trabalho, porque
se preocupa muito mais com adquirir o conhecimento, dos títulos acadêmicos, da qualificação profissional, do que com a maturação pessoal” ( F.
Cereda, “La fragilitá vocazionale. Avvio alla riflessione e proposte di intervento”, in Vita consacrata 1[2009], 35).
A Hora de Deus
74
CAPÍTULO 06
sentido (teológico, não só psico-pedagógico) da ação permanente como ação do Pai que forma
continuamente em nós a imagem do Filho, portanto como processo ordinário que se cumpre a
cada dia da vida e que supõe em cada um uma disponibilidade atenta e inteligente para deixar-se
formar em cada momento da vida de cada situação existencial, agradável ou não, e de cada
mediação humana, mais ou menos imperfeita. É a famosa docibilitas as vezes fomentada neste
texto, que obviamente constitui um objetivo da primeira formação, mas que deve ser mantida em
todo caso no prosseguir do caminhar. Através de uma ajuda sistemática e constante que deve
acompanhar a vida do presbítero, como a do consagrado, não só nos primeiros anos depois da
profissão perpétuaou ordenação presbiteral; e não esperando somente até que chegue uma
situação de emergência (quando se há pouco o que fazer), mas buscando o quanto antes possível
fornecer a todos a sensação de uma presença vigilante, materna-paterna, ou a certeza de um
acompanhamento fraterno, da parte de uma Igreja que cuida dos seus ministros. Sobretudo,
obviamente, nos momentos mais difíceis. O suporte, em outras palavras, poderia ou deveria ser
duplo: de um lado, algo que se trate das condições e tempos normais do ministério, do outro lado
as situações de emergências, para que nem um irmão em crise deve sentir-se um pestiado, nem
deve buscar, quem sabe onde, alguém que possa ajudá-lo. Não deveria existir uma sem a outra.
Mas a impressão é que hoje não esteja caminhando nesta direção, mesmo se aquí e alí os
sinais advertem em tal sentido, quando nos consente de esperar.
A nossa hipótese, portanto, é que é ainda muito fraca a proposta de formação
permanente, e que essa fraqueza constitui um dos motivos maiores da explosão das críses
sacerdotais-religiosas.
De tudo o que foi dito até agora, neste capítulo, nos parece um tríplice esclarecimento
importante. A nossa intenção agora é, o quanto possível, identificar as causas pessoais ou as
razões profundas da críse, no íntimo do sujeito, mesmo se podem ser incrementadas com
elementos externos e tenham uma recaida inevitável ao externo.
2. ÁREAS EXTRATÉGICAS DE CRISES
A escolha que estamos fazendo não tem nenhma pretensão de ser nem a única nem a
melhor. É um modo, simplesmente, de entender a complexidade da crise sacerdotal-religiosa, em
torno a alguns elementos suficientemente compreensíveis e capazes de indicar na grande maioria
e especificar a crise em sí, no plano seja psicológico ou espiritual, e havendo em mente a singular
situação do(a) consagrado(a). Tais elementos são também três áreas da personalidade, três áreas
estratégicas visto que em em torno destas se possa decidir o caminho na maturidade do indivíduo;
mais exatamente se trataria da identidade, da afetividade e da vocação.
Me parece que tais realidades, em particular, indiquem não só onde se concentra (ou
melhor nascem) uma notável quantidade das crises sacerdotais/religiosas; mas também
respondem, no plano psicológico, àquelas exigências inatas e universais do ser humano, ligadas a
complexidade e riquezas do mundo interior do ser humano, que são: a nescessidade
de sentido (logos), de afetos (eros), de radicalidade mesmo padecida (pathos).
Quando a gestão destas três exigências são por vários motivos difíceis e problemáticas, ou quando
de fato estas exigências não são substancialmente satisfeitas, é possível ter uma crise. Com várias
consequências, como por exemplo os abandonos da vida religiosa.
Segundo os dados recolhidos nas respectivas congregações vaticanas e as várias pesquisas
e buscas, em primeiro lugar nas motivações de abandono estaríam os problemas afetivos, de
instabilidade emotiva-afetiva e sentimento de solidão, seguidos por insatisfação e cansaço, depois
por imaturidade e problemas psicológicos, por conflitos com superiores e dificuldades com o
Magistério, e, só em um percentual mínimo, por crises de fé, por depressões e graves limites de
A Hora de Deus
75
CAPÍTULO 06
caráter.95 Ainda que crises e abandonos não são evidentemente a mesma coisa, é o que vamos
buscar esclarescer e verificar a presença de relações entre as duas realidades.
Porém parece-nos em todos os casos encontrar uma certa convergência entre a nossa
hipótese sobre áreas das crises e o que aparece nestes dados.
Descreveremos então em resumo estas tres fontes de crises para depois levá-las em
consideração de forma mais analítica.
2.1. CRISE DE IDENTIDADE (LOGOS)
Antes de tudo o ser humano há uma exigência fundamental da verdade. Que a nível geral
significa uma necessidade de buscar e dar um sentido verdadeiro à vida e a sí mesmo. A frustração
maior para o homen, de fato, é aquela de encontrar-se em uma situação absurda, a qual parece
impossível dar algum significado, ou de correr o risco de reencontrar-se, ele mesmo, em tal
insignificância.
A nível mais psicológico tal exigência se torna aquela de dar à própria história um
significado unitário e coerente, e capaz de conectar entre eles os eventos da vida, passada e
presente, aquilo que parece haver em sí um significado evidente e positivo, mas também o que
parece ser sem sentido ou ter um sentido negativo. O homen é livre, de fato, até o ponto de
retomar nas mãos a sua própria vida para dá-la um sentido mesmo nos seus seguimentos
insensatos (ou aparentemente); e é esta a dignidade humana.
Tal operação “significativa” talvez encontre a sua aplicação mais relevante e envolvente, a
nível psicológico, na considaração que cada um há em sí: o ser humano há exigência de ter uma
percepção estável e substancialmente positiva da própria identidade, daquilo que é, e daquilo que
é chamado a ser, mesmo com seus problemas e feridas. E é possível perceber essa positividade
(ou tal positividade é estável e segura) só quando o sujeito entende a própria verdade no mais
profundo, ou aquela amabilidade radical que para o fiel é sinal das orígens do homen.
Definitivamente é a nesecessidade humana fundamental de logos, que diz respeito a
mente, mas não se reduz a uma operação esclusivamente intelectual.
Quando tal nescessidade não é gratificada determina, como já foi dito, um sentido de
frustração geral desorientamento pessoal, e – a nível mais específico – um estado de confusão a
respeito da identidade, a clássica crise de identidade, como uma sensação de negatividade radical
ou não integração do eu, com consequente busca mais o menos atormentada da própria
positividade não aonde ela de fato está ou “se esconde”, mas em âmbitos mais imediatamente (ou
aparentemente) remunerativos ( ex. sucesso, carreira, apreciação dos outros ...). Como veremos.
2.2. CRISE DE AFETIVIDADE (EROS)
É talvez a causa mais conhecida e ... a mais falada das crises, aquela relativa à necessidade
afetiva. Não é uma novidade afirmar que esta área representa ainda hoje o ambiente
problemático de tantas consideráveis crises.
Talvez o mais interessante é buscar declinar esta necessidade clássica para não reduzí-la
simplesmente a uma questão sentimental, e perceber a centralidade e complexidade misteriosa
do amor na vida humana.
Quando dizemos: necescidade afetiva, na realidade nos referimos – em âmbito psicológico
– à exigência natural, para o ser humano, de haver um centro de atração em torno do qual
recolher e unificar a própria afetividade com todas as suas forças vivas: da capacidade de relação e
distanciamento da necescidade de amor e de ser amado, da sexualidade a fecundidade humana
95 Cf. L. Oviedo, “Fedeltá e Abbandoni”, in Testimoni 21(2005), 3. Cf. também G. Salvini. Petri che “abbandonano”, in La Civiltá cattolica (2007) 3764,
150-151.
A Hora de Deus
76
CAPÍTULO 06
(que mesmo em um projeto celibatário de vita requerem ser realizados). A energia em questão é
aquela do eros, energia preciosa que o coração deve em todos os casos, ou melhor, em qualquer
estado vocacional, aprender a gestir.
Quando tal exigência é satisfeita aquele centro de atração (que no caso do/a consagrado/a
é Deus e seu amor é manifestado no Filho)96 se coloca verdadeiramente ao centro da vida
humana, há o primeiro lugar sobre as outras relações e é amado acima de tudo e de todos; a
pessoa estar “enamorada” e vê a realidade inteira a partir desse amor, como uma chave de leitura
do real.
Quando ao contrário, tal exigência não é suficientemente acolhida e gratificada ou este
centro não é suficientemente amado, ou não é respeitado o bastante a centralidade e prioridade,
da vida afetiva do padre e consagrado/a se torna inconsistente e incoerente, de um lado fraca e
pobre de amor, transgressiva ou caótica, isto porque privadade um referimento ou daquele ponto
de referimento que esta alinhada com a sua identidade vocacional, ou porque há diversos e
contraditórios pontos de referimento, e dependente (afetivamente) por aquilo que de vez em
quando parece garantir maior gratificação afetiva.
2.3. CRISE DE VOCACONAL (PATHOS)
Finalmente uma terceira área da crise é conectada com a exigência que aquilo que a
pessoa experimentou como fonte de verdade para a mente, mas que atrae também o coração,
seja também centro e dinamismo de tração de todo o aparato intra-psíquico humano, agindo
particulamente sobre a vontade. Concretamente, que saiba conjuntamente criar unidade e por
em movimento o organismo psíquico e espiritual, coração-mente-vontade, mas também os
sensos externos e internos, desejos e projetos... em uma constante tensão de crescimento (que é
o sentido da formação permanente). Esta capacidade de tração é o que de fato dá ao sujeito força
e determinação no tomar decisões com liberdade-responsabilidade e ao afrontar com coragem as
adversidades, com fidelidade e coerência, consciente da unicidade e singularidade como da não
repetição do único instante, aprendendo da vida e para toda a vida.
É a dimensão do pathos, daquela capacidade de escolha que torna dramática a vida e, o
sujeito consciente de sua função decisiva, mas também da força para superar as dificuldades e
suportar fadiga e sofrimento para adquirir fé nas próprias convicções, e que está em relação
sobretudo com a vontade e pode chegar até ao martírio.97
A não gratificação dessa fundamental exigência, ao contrário, cria os
conhecidos fenômenos da fragilidade vocacional, que vão da mediocridade geral
como estilo existencial as contradições de uma vida plena de comprometimentos (e comodidades)
e que não há mais nada a dizer e anunciar, da ineficácia do testemunho ao vazio existencial, da
crise vocacional ao verdadeiro abandono, da insatisfação perene á inércia preguiçosa de quem
desfruta da situação.
E então, a nossa hipótese de início é que quando estas três exigências ficam por algum
motivo ignoradas, ali vem de fato frustrada uma fundamental esperança de vida e de qualidade de
vida, e por consequência é ali que nasce também uma situação crítica na área respectivamente da
identidade ou que faz parte, da afetividade e sexualidade, da escolha e coerência vocacional.
Esta identificação se torna significativa e importante não só porque nos consente entender
melhor o lado problemático e de dar uma estrutura interpretativa ao complexo mundo de críses
sacerdotais-religiosas, como também a percepção da causa permite entender o elemento radical
da qual todas derivam, o ponto fraco onde intervir, e portanto com maior precisão para a solução
destas crises.
96 Significativa como nunca, em tal sentido, a expressão já recordada, usada por Jesus que fala da sua paixão e morte de cruz como mistério de
atração: “quando for elevedo da terra atrairei todos a mim”(Jo 12,32).
97 Cf. A. Cencini, L´albero della vita,110.
A Hora de Deus
77
Acrescentamos também que, para o caráter olístico do eu,98 estas três áreas referem-se
mutualmente umas as outras, estão entre sí interligadas, portanto é de se esperar que o problema
que nasceu de uma destas áreas cedo ou tarde, de um modo ou de outro, vai perturbar os outros
aspectos da personalidade, se não até mesmo vai manifestar-se de maneira particularmente
evidente em qualquer um destes aspectos.99
Será importante, então, saber com precisão a raiz do problema, distinguindo
cuidadosamente raiz de consequências, para intervir corretamente sobretudo sobre a raiz.
Em todo caso, se é verdade que na mesma pessoa podem estar presente ao mesmo tempo
problemas nas três áreas, normalmente a causa mais profunda e radical é uma só.
Sintetizamos o todo com este quadro recaptulativo.
Tabela 4 – Áreas estratégicas de crise na vida sacerdotal e religiosa
CAPITOLO 7
Crise da busca da verdade
Vamos ver a primeira das três áreas estratégicas das crises sacerdotais e religiosas: ocorre
na área da identidade, que corresponde a uma exigência - que não pode ser suprimida - de
verdade presente em cada ser humano. Talvez é a necessidade mais radical, que não conhece
diferenças de cultura e nem mesmo é ligada ao quociente intelectual da pessoa, como poderia
parecer a primeira vista, já que cada indivíduo, em qualquer lugar da terra e em qualquer idade da
vida, vive com um pronfundo desejo de verdade. O homem não pode privar-se da relação
determinante com a verdade. Ele é um peregrino da verdade, mesmo quando eventuais teorias
queirão fazer crer o contrário ou desencorajar a busca (cf. a teoria do “pensamento fraco” ou o
98 A respeito da propriedade do eu, cf. A.Cencini – A. Manenti, Psicologia e formazione. Strutture e dinamismi, Bologna 2001, 114-115.
99 Típico, como veremos, é o caso da afetividade-sexualidade que rapidamente se coloca como caixa de resonância dos problemas que nasceram em
outro lugar.
Área psiquica elemento constitutivo
Identidade afetividade vocacional
Energia radical Logos Eros Pathos
Necessidade imediata
De uma fonte de
verdade
De um centro de
atração
De um dinamismo de tração
Faculdade psíquica Mente Coração Vontade
Êxito positivo
Sentimento positivo
estável da própria
identidade
Unificação e
realização da
energia afetiva
sexual
Capacidade de escolha
coerente e docibilitas
Atração desviante
Auto-realização
narcisista
Gratificação
impulsiva
Evitar renúncia e sofrimento
Êxito negativo
Confusão e não
integração do eu
Inconsistência
afetiva-sexual
Fragilidade vocacinal
A Hora de Deus
78
CAPÍTULO 07
relativismo absoluto com... relativa “ditadura do relativismo”). Tais modos de pensar são na
realidade contra a natureza humana.
O problema da verdade não é, um problema essencialmente intelectual, mas refere-se e
envolve toda a pessoa, especialmente quando se trata de perceber a verdade de si, da própria
identidade, da sua história, não apena como verdade a procurar e a descobrir em qualquer lugar
(isso seria uma verdade estática ou parada e imóvel) para acreditar somente, mas também para
interpretar criativamente, para aplicar de forma original a própria vida, para “verificar” em
qualquer modo. Também na vida e daqueles, como o fiel, aderindo àquele que é definido como “a
Verdade”, mas deixando ao homem toda a responsabilidade de busca da verdade, com o prazer e
o fascínio, mas também o cansaço e os riscos que isto comporta, especialmente para quem é
chamado a anunciá-la às outra pessoas.
Quando não é satisfeita esta sede de verdade, é inevitável a crise, com consequências que
podem ser bastante pertubadoras.
Em seguida vamos ver os setores vitais no qual sacerdotes e consagrado/a são mais
expostos ao perigo de cair na falsidade, talvez até mesmo sem perceber, prejudicando de certa
forma a sua serenidade pessoal e a credibilidade do seu anúncio.100
1. Na vida real
Entramos concretamente no nosso tema com estes cinco casos extraídos da vida de cada
dia, e que escolhemos como formas diversas de viver um pouco as margens da verdade, sem dizer
jamais uma mentira.
1.1 Verdade e anuncio da verdade
Padre Marco é um bom padre: bom com as pessoas, respeitoso com quem é justo com os
superiores, é suficientemente contente de ser padre e de ser pároco, é confiante e fiel ao seu
trabalho pastoral como também a sua vida de piedade. Porém, ele apresenta alguns problemas na
relação com seus paroquianos ou, mais particularmente, na comunicação. Não que seja tímido ou
incapaz de expressar bem suas ideias, mas parece sempre pesar a relação com um sabor artificial,
ou complicar o diálogo de tons excessivamente doutos acabando por criar distâncias, não diz
coisas falsas, mas simplesmente não consegue transmitir de forma real ao ouvinte.Tanto com
grupo ou com o indivíduo. Quando prega por exemplo usa uma linguagem abstrata e
para a maior parte dos fiés é incompreensível, ou se satisfaz em dizer apenas coisas
triviais, não consegue transmitir a beleza do Evangelho, nem a passar a proximidade da boa notícia
à vida e aos problemas de todos os dias, a sua verdade existencial. E assim quando ele prega as
pessoas se cansam e dormem. O mesmo acontece quando faz a catequese para os adolescente e
jovens, quando administra os sacramentos (especialmente quando confessa) quando dirige
espiritualmente uma alma, ou quando é pedido para aconselhar alguém, (especialmente quando
se aproxima de quem esta na dor ou na prova, o qual não sabe recomendar algo mais do que
aceitar a "fazer a vontade de Deus")... O espetáculo é sempre o mesmo: frieza e abstração,
nenhum envolvimento pessoal, nem seu, nem por consequência dos fiés; uma pastoral repetitiva
e desprovida de fantasia, sem alguma pesquisa e quem esta na dúvida e não crer continua sem
expectativa.
Ele então percebe, mas ninguém é capaz de entender o quanto ele sofre e deseja
verdadeiramente sair desta situação. Não se pode dizer que está em crise.
Assim como não é muito clara a raiz deste desconforto: o problema de relação interpessoal
ou de convicção pessoal?
100 Para um tratamento mais amplo do problema desse capítulo vos envio ao meu terceiro volume sobre formação permanente, a partir do qual
chamo aqui algumas idéias e também exemplos : A. Cencini, A verdade da vida, Formação continua da mente cristã, Cinisello Balsamo 2007
A Hora de Deus
79
CAPÍTULO 07
Além disso, não percebe conscientemente o ofício ao qual foi chamado a ser.
Durante seus estudos foi um estudante diligente, estudou uma ótima teologia e ainda fez
um curso sobre a “Arte de comunicar”. Ele ficou responsável pela apresentação de uma pesquisa
sobre “Os mais frequentes defeitos do pregador” (em tudo isto foi muito vivaz e muito
interessante).
Parece ser uma contradição incurável na sua vida, da qual podemos fazer uma pergunta,
ou uma dúvida, fundamental: é “verdade” aquilo que o padre Marco anuncia? Ou quanto è
verdadeiro o padre Marco naquilo que anuncia?
1.2 Verdade e afetividade
Já faz tres anos que Ludovico foi ordenado padre. Sobre o padre Ludovico já falamos no
terceiro capítulo (“As pessoas em crises”) quando descrevemos os tipos de crises, como exemplos
de crises finais e fatais. Muito jovem, portanto, e isso se torna ainda mais evidente pela expressão
limpa de sua face que se manifesta juntamente com uma ingenuidade e uma vitalidade. Sabe-se
que é muito querido pelas pessoas, mimado pelas mães e cercado de jovens, rapazes e moças,
claro, com algumas provocações. Eu o conheci quando ainda era seminarista, posso afirmar que o
seu caminho vocacional foi linear e sem estremecimento.
Mas há algum tempo veio dizer-me “uma coisa extraordinaria”: “eu conheci o amor”, como
ele mesmo disse, mais animado que perplexo. Em suma, a mesma história da relação espiritual
com a jovem senhora que tem problemas com o seu marido e busca ajuda, uma certa simpatia,
depois encontros sempre mais frequentes, a descoberta do mundo da sexualidade, expressões
demostrações gestuais sempre mais envolventes, um namoro, a sensação inédita de um
entendimento total, e a decisão de deixar tudo e ir viver com ela... Como pinos de boliche em uma
linha, caiu a primeira (a relação envolvente) caiu também o último (abandono do sacerdócio e
escolha da convivência), ou como um silogismo rígido em sua seqüência lógica: estou apaixonado,
então não é este o chamado a seguir, vou me casar. Este argumento se torna (mais ou menos)
sustentável com uma certa serenidade, ou melhor, com uma certa suficiência para comigo e
qualquer um que não fez esta experiência, “...não pode, portanto comprender”.
Ele sim, pois tinha “conhecido o amor”.
E não houve como fazê-lo raciocinar. Talvez à luz desta interrogativa: Isto que sinto a nível
impulsivo e afetivo, é verdade? Manifesta a minha verdade?
Ao contrário, não mostrou alguma hesitação, em relação à lei moral, diante
do fato que esta mulher já fosse casada, como diante da situação no qual
encontraria o seu marido; e ainda, mais uma indicação de descuido, negligência do vínculo moral,
teve a coragem, após a suspenção de acordo com o bispo (e sua decisão de “deixar”), de
apresentar-se em uma paroquia para celebrar um matrimônio.
1.3 Verdade e historia pessoal
Irmã Maria com meia idade, se diria que não tinha grandes problemas: trabalha em uma
comunidade de recuperação de viciados, (tóxicos-dependentes) estimada e bem querida
justamente por sua dedicação aos outros e para com aqueles que mais sofrem. Porém quem a
conhece à mais tempo e é mais próximo percebe algumas de suas reações, vê nela um
generalizado e misterioso transtorno. Enfim, irmã Maria fica cordialmente nervosa com o seu
passado. Se sente traida ou maltratada por causa do seu passado, especialmente por uma pessoa,
seu tio que abusou dela por muito tempo. Por estes abusos sexuais que sofreu a partir de um
ambiente cheio de mentiras e de chantagens e hipocrisia, violência sofrida e buscada
A Hora de Deus
80
CAPÍTULO 07
inconscientemente, senso de culpa, de auto-compaixão e vítima...ficou marcada como uma
cicatriz dolorosa, a masturbação, uma ferida em que parece não querer se libertar, recordando-a
sempre – como uma obsseção quase quotidiana – uma dignidade ora perdida e irrecuperável, uma
culpa não perdoada e imperdoável.
Na verdade, e por isso mesmo, não lhe perdoa, nem o seu tio; ou queria até perdoá-lo,
mas... não pode, não consegue perdoá-lo. E quando decidiu a perdoá-lo durante um curso de
exercícios espirituais sobre a misericórdia, naquela noite mesmo, apenas encontrava diante do
mesmo impulso, pontual, como um cobrador de impostos, para entender o quanto estava
enraizado em si aquela raiva por aquele patife que tinha distruido sua vida.
E como se não bastasse, a irmã Maria joga a culpa em Deus, pois Ele poderia ter preservada
de um acidente como este. E talvez a sua vocação não é autêntica, pois nasceu como tentativa
desastrada em querer reconquistar aquilo que ninguém poderá lhe dar, nem mesmo o Pai Eterno.
Assim, tentou lhe dizer o psicólogo que ela procurou algum tempo atrás como um recurso para
resolver a situação, mas que logo abandonou, assustada com o diagnóstico (e com o prognóstico).
A vida da Irmã Maria é verdadeiramente uma estrada sem saída? Sem saída com relação ao
seu passado, presente ou futuro? Antes, é "verdade" esta história, ou, é "verdade" este modo de
interpretá-la?
1.4 Verdade e ideal vocacional
E se o caso da irmã Maria pode parecer extremo, não é difícil para mim buscar no meu
arquivo um caso mais “normal”, sempre na área vocacional, como o caso do padre Carlo,
sacerdote com trinta e cinco anos, chegou a consagração religiosa e ao sacerdote com fama de
bom seminarista e ótimo estudante, de noviço rigoroso e veemente, clérigo apaixonado e
exemplar, as vezes até demais. Nunca teve uma crise ou uma redução de tensão, sempre tinha um
perfeito controle de sí. Os primeiros anos no auge da força ministerial confirmam as promessas e
esperanças, de repente, a um certo ponto, o sujeito não consegue se manter e explode, não
porque lhe apareceu uma mulher improvisadamente no horizonte, ou por um
fracasso apostólico, não, mas porque percebeu-se que à origem da sua vocação tinha... a sua mãe,
aquela santa mulher que sonhava com um filho padre, e – segunda contatação, que se tornava
cada vez mais evidente – porque finalmente compreendeu que tinha reprimido todos os seus
sentimentos e impulsos, ao ponto de cancelá-los e de pretender ignorá-los, em vista de um ideal
de perfeição que durante um longo período se tornava impossível, como uma miragem e
oprimindo-o como um tirano. Daqui a crise vocacionale a decisão de deixar tudo e todos, inclusive
os sonhos maternos. Determinando espanto e incredulidade em quem o conhecia e o apreciava
além de inéditos sentimentos de culpa e amargura em sua pobre mãe.
Provavelmente tinha verdade em sua análise, mais a decisão final foi inevitável e
igualmente verdadeira?
1.5 Verdade e obediência
Enfim, um último caso nesta série introdutiva, se encontra em dificuldade, vocacional
inédita também padre Luigi, um pouco mais jovem que padre Carlo, que talvez não foi nunca
como padre Carlo, religioso, modelo exemplar mas atraiu igualmente a estima dos outros,
A Hora de Deus
81
CAPÍTULO 07
inclusive dos seus superiores pelas suas inegáveis competências intelectuais e relacionais que
faziam dele um apóstolo dos jovens, o amigo que todos quereriam ter ao lado, anunciador criativo
e original da Palavra, animador brilhante e superdotado, organizador instacável de iniciativas
educacionais... Padre Luigi sabe tudo isso, e naturalmente beneficia-se, inteligente e prudente
como é, e não pesado a comunidade.
É um bom sujeito, diríamos.
Além disso, já faz algum tempo que está fazendo um intinerário como os seus superiores.
Os quais lhe propuseram de assumir uma certa responsabilidade, em um contexto diferente
daquele onde trabalhava atualmente e onde poderá exprimir plenamente as suas próprias
competências. Pelo contrário, como ele mesmo teve a oportunidade de se expressar. “A proposta
dos superiores me impediria de colocar ao serviço dos outros a melhor parte de mim mesmo”. Ou
aquela que ele considera ser tal.
Depois oportuno discernimento conduzido secondo as normas clássicas inacianas (da regra
de Santo Inácio). Desobedece. Com a convicção que o projeto de Deus sobre a sua vida não possa
passar através do sacrifício do exercício destas qualidades que Deus mesmo lhe deu.
É assim mesmo? Ou seja, qual tipo de leitura padre Luigi faz sobre si, sobre as suas
potencialidades e talentos em relação a sua identidade, da solicitação dos superiores, da vontade
de Deus?
Cinco casos diferentes, de pessoas com idades diferentes, com caminhos diversificados, do
pontos de vista das experiências da vida e do tipo de formação recebida, em contexto existencial
variado, apanhados pelas dificuldades de diferentes naturezas, ou ainda com um fundo ou uma
raiz comum. Talvez não todos em verdadeiras crises, e portanto uma evidente problemática
psicológica em suas vidas que retiram a serenidade e os tornam de algum modo menos real.
2. A verdade como problema
Essas pessoas tem o mesmo problema: O problema da verdade. Todas estão à procura da
verdade em suas vidas, em si mesmo e aquilo que é mais importante em suas histórias, a verdade
da sua vocação e do futuro que pode causar opressão sobre a forma de escolha e prospecitivas
existenciais, mas também da verdade do passado que parece bloqueado em torno
de fatos que ninguém pode cancelar... Buscam a verdade pessoal, mas também
aquela a qual são chamados anunciar aos outros e que não sabem como exprimir como Palavra
Verdadeira.
Ao contrário, mais precisamente, de alguma forma eles sabem, e compreenderam aonde
está a verdade e qual é o significado dos acontecimentos que eles estão experimentando. São
todos crentes, portando seus problemas não são a nível objetivo ou dos conceitos de fé; eu
conheço a Verdade, aquele que se definiu como tal (caminho, verdade e vida). Os seus problemas
são de cunho subjetivo ou contingente, talvez não sabem como reconhecer esta Verdade nas
circunstâncias de suas vidas pessoais, nos problemas do passado e nas exigências inesperadas do
presente. Ou, seria como se eles possuissem as grandes (ou a grande) verdade, enquanto deixam
escapá-las ou não sabem identificar aquelas pequenas, aquelas quotidianas, aparentemente sem
valor, mas na realidade é a encarnação das grandes verdades (neste sentido integração significa
encarnação); ou seria como se conhecessem a verdade em geral ou universal, aquelas que servem
para todos, mas não conseguem aplicá-las ao contexto de sua existência pessoal.
Podemos até pensar que durante o seu caminho formativo não foi dado tanta atenção a
este importante aspecto da vida humana e cristã. Não levando em conta que a consciência da
verdade seja um problema somente objetivo, que se resolve tudo com a cabeça e com o estudo da
teologia ou com a adesão do fiel de uma vez por todas. E depois viver de pensão.
Padre Marco, por exemplo não sabe como se colocar a disposição das pessoas a propria
teologia, não sabe como oferecer com palavras simples e vibrantes a verdade e a beleza da
A Hora de Deus
82
CAPÍTULO 07
Palavra que salva, não sabe dizer palavras verdadeira que deêm verdade a quem as escuta. Ou
talvez ele mesmo não experimentou ainda o sabor de uma palavra e a beleza de uma fé como
substância do seu viver, de compartilhar com o outro, especialmente com quem esta em busca ou
em dificuldades. O seu gnosticismo não é verbal, pois pode ficar ainda mais distante da verdade
tornando-o estéril. Nos perguntamos quando pensamos na sua formação teológica: o quanto a
teologia diligentemente estudada tornou-se para ele mediação formativa? Ou era finalizada
unicamente aos exames, ou a formar uma cultura ?
Padre Ludovico é um caso muito simples e talvez, clássico de fato : é um padre bonito, de
fácil relação que imediatamente se deixa levar pelas paixões, se enamora facilmene, e por isso,
decide mudar de vida, com comportamentos que negam a moral (onde foi parar toda a teologia
moral estudada no seminario?), e é igualmente surpreendente a ausência de sentimento de culpa
(não tem consciência de pecado). Aqui o problema, em geral, está em torno à leitura do episódio
do enamoramento, interpretado como sinal inequívoco de uma não vocação sacerdotal e claro,
uma evidente vocação matrimonial. Existe na sua mente – como um automatismo – entre o fato
do enamorar-se e a decisão de deixar tudo: desde que aparece a primeira, segue-se a segunda.
Quanto mais forte é a primeira, tanto mais persistente sera a segunda. E, apesar de um forte
idealismo, determinado por ter percebido de tal modo a verdade de sí. Mas o seu problema é
justamente este, esta verdade está além do sentimento afetivo.
Irmã Maria, ao contrário, vive um profundo contraste com a sua história passada e a
fragilidade do presente, com a figura do seu tio e o mal que ele lhe causou, com Deus e com a sua
vocação. Uma mancha escura contamina desde já a sua imagem e funciona como um elemento de
desintegração que a impede de organizar com a delicadeza a sua historia, com todos os incidentes
e limites, em torno da verdade central e unificadora do amor de Deus que é mais forte do que o
mal e todo mal pode se transfomar em bem. A sua leitura existencial, com toda a compreensão do
drama da sua infância, é uma leitura parcial, incompleta e superficil, seja de sua vida e dos seus
incidentes. Não é uma leitura falsa, mas esta, de fato, não lhe abre nenhuma estrada, ela se
broqueia em si mesma e faz do seu passado como um destino, que risca de afastá-la
prograssivamente da verdade de sí, impedindo-a de viver a sua atual experiência de impotência
como o lugar misterioso da manisfestação da potência da graça, isto é, da verdade
de Deus.
Padre Carlo comete um erro muito frequente e tanto quanto banal, pretendendo que a sua
escolha fosse imediatamente, perfeitamente motivada, que o caminho formativo fosse perfeito;
permanece portanto chocado diante da descoberta que a sua mãe lhe influenciou de um certo
modo, diante desta constatação, aborreceu-se por ter reprimido por tanto tempo, tanta energia
interior. Por conseguinte, ele toma tudo isso como prova de que o seu caminho foi errado e
verdadeiramente decide mudar. Quem sabe em quantos casos, mães piedosas e sinceramente
crentes desejaram ter um filho padre influenciando-o – com seus desejos mais ou menos
expressos – sobre a vocação, pelo menos no início, sem porém impedir a liberdadefinal de sua
escolha. Uma liberdade progressiva, se comprende pela escolha de purificar e tornar sempre mais
pessoal até o fim da sua vida! E ainda, independentemente de mães devotas e várias influências
externas, quem sabe em quantos casos, um certo ideal foi assumido no início com ambíguas
aspirações perfeccionistas com consequênicas exageradamente auto-opressivas, sem por isso
impedir uma sucessiva evolução libertadora? Quem jamais poderá dizer que a sua motivação
vocacional foi pura e perfeita desde o começo?
Mesmo neste caso existe o risco de uma leitura insuficiente e menos verdadeira, que
evidencia elementos importantes.
Enfim, padre Luigi estabelece uma equação singular, típica de um certo modelo formativo
(aquele da auto realização, muito praticado e visível hoje em dia): os meus dotes são o “meu eu”,
sou portanto, a coisa mais importante que possuo e que Deus me deu. Nenhuma autoridade ou
pedido de obediência poderá pedir-me que sacrifique os meus talentos. Daqui nasce a
A Hora de Deus
83
CAPÍTULO 07
consequência do seu discernimento que não exprime tanta insubordinação aos legítimos
superiores, mas um significado atribuido ao próprio caminho de auto realização ou ainda, um
modo preciso de resolver o problema da própria identidade e posivitividade. Neste caso, é
legítima a questão: é verdadeira esta leitura da vida e daquilo que é mais importante para definir a
própria identidade?
Finalmente, vários exemplos para dizer como frequentemente o discípulo e o mensageiro
daquele que é o caminho, a verdade e a vida podem fazer uma leitura não tanto verdadeira de sí e
do seu caminho vocacional, da sua identidade e daquilo que é decisivo para a sua auto realização,
do seu passado, e dos seus infortúnios, dos delitos cometidos ou sofridos. Coloquemo-nos em
uma situação paradoxal, que arrisca-se de falsificar a sua pessoa e de enfraquecer a sua Palavra.
Tentaremos aprofundar e entender melhor. Os problemas enfrentados pelos nossos cinco
personagens talvez estejam a indicar uma área ou um problema que a formação não coloca
suficientemente como tema a ser trabalhado: a área e o problema dos sentidos, da descoberta e
do dom, da exigência psicológica e espiritual de serem verdadeiros, da capaciade de compreender
o significado autêntico do viver nas suas infinitas facetas.
3. Qual formação para chegar à verdade ?
Poderá parecer uma pergunta estranha e singular, como se quizéssemos fazer um verso
com a clássica pergunta de Pilatos, porém ela é legítima : existe hoje uma formação à verdade? E o
que significa na verdade tal formação?
Em todo caso vale apena fazer estas interrogações, uma vez que a sensação de um vazio à
este respeito não é completamente distorcido e privado de concreta verificação. Ao contrário, é
significativo sentirmos a exigência de nos interrogarmos em que consista de fato a formação à
verdade: se existisse um real caminho educativo neste sentido provavelmente esta pergunta não
existiria.
Ao invés, me parece bastante evidente esta estranha ausência “de um projeto de formação
à verdade” nos programas formativos, como se a verdade ou o viver na verdade
não fosse considerado atitude virtuosa que é favorecida com uma ascese, a partir
de uma atitude penitencial que visa abandonar ações, presunções e estilos de vida contrários, ou
seja, falsos.
Há quem contesta que na realidade não há necessidade de programar um caminho neste
sentido, já que a educação à verdade deveria fluir como consequência natural e inevitável em
certas premissas e de um estilo educativo em geral, sem a necessidade de uma particular atenção,
ou de um projeto formativo corrispondente.
Ou há quem reduz o problema da capacidade de busca e identificação daquele sentido
intrínseco que cada evento possui em sí, e que cada indivíduo deveria simplismente aprender a
descobrir e a respeitar, “chamando as coisas com os seus devidos nomes”como de costume. Ou
então quem, do outro extremo, pensa que cada um seja livre a dar o sentido que crer às situações
que vive, uma vez que assim vive e exprime o valor fundamental da liberdade de consciência.
De fato, ainda são muitos os que reduzem tal formação a momentos em que uma pessoa
deve fazer escolhas particularmente relevantes, às regras do discernimento, como se não devesse
constantemente viver na verdade ou se existissem momentos nos quais podesse ser menos
verdadeiros, menos sérios e coerentes consigo mesmo.
Porém nos nossos ambientes teológicos continua a ser muito forte a impressão que a
questão da verdade seja reduzida ao seu aspecto objetivo, «teológico», como se a verdade e a
exigência de sermos verdadeiros fosse só um problema intelectual, que se resolve simplesmente
com uma boa teologia, sólida e politically (ou theologically) correct, como se bastasse a ortodoxia
para garantir a ortopraxia, ou o quociente intelectual para assegurar a consistência intrapsiquica e
espiritual, ou – ao contrário – como se não fosse bem conhecido que o agir frequentemente assim,
A Hora de Deus
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CAPÍTULO 07
condiciona o pensar, ou a conduta influencia a consciência e o passado influencia o presente. Dito
com uma pergunta que pode parecer estranha: a sensibilidade, assim frequentemente evocada
como um alibi, é simplesmente um dado instintivo ou pode ser verdadeira e educada na verdade?
Ou é ainda este um “falso” problema? Mas então como se explica deste ponto de vista o fato que
enquanto de um lado fomos todos formados na mesma teologia moral e em seguida existam
julgamentos sobre os fatos e comportamentos que são muito divergentes (principalmente quando
estes fatos e comportamentos referem-se conscientemente ou inconscientemente problemas
pessoais não bem resolvidos)? É somente uma questão de diferentes corretentes teologicas? Ou
existe por trás uma diferente sensibilidade (psicológica e em seguida moral) que se formou de
maneira um pouco selvagem e não acompanhada, e que agora se impõe fortemente na
consciência de cada pessoa? Quantas vezes uma fraqueza ou um desabamento moral da pessoa –
em um momento de crise – não determina também um correspondente juízo da sua consciência,
que justifica aquela fraqueza ou um determinado tipo de conduta? E quantas vezes pode
acontecer o contrário, que o próprio julgamento da consciência influencia a sensibilidade do
sujeito, e lentamente determina uma situação de crise ou faz com que esta se torne mais forte.
Em outras palavras, qual formação nos preocupamos a dar à sensibilidade ou a parte
humana emotiva e instintiva consciente e inconsciente, da verdade? Ou entendemos que tudo
isso não tenha nada a ver com a formação à verdade? Em resumo são vários os aspectos de uma
autêntica formação à verdade da vida, e não parece que estejam todos «abrangidos» pelos nossos
projetos formativos.
Por outro lado, se Jesus disse que o Pai busca quem o adore «em espírito e verdade» (Jo
4, 24) a coisa não deveria ser assim simples e pacífica, visto que a busca pelo Pai desde então
parece ser ainda em caminho...
Procuraremos então a identificar com precisão o problema.
4. Áreas de conflito de sentido
Talvez é mais simples começar individualizando onde a tensão a cerca da
verdade se torna visível, ou quais sejam as áreas da personalidade onde torna mais possível a
distorção do sentido, áreas que de fato podem entrar em colisão com um certo projeto de vida ou
um determinado sistema de valores no qual o sujeito reconhece sempre a própria verdade, ou
ponto de colocar em discussão.
Não é pois assim estranho e infrequente aquilo que estamos indagando, nem
necessariamente sinal de uma menor fidelidade e coerência de vida. No fundo vem ou deveria vir
naturalmente ao ser humano perguntar-se continuamente onde está a verdade, a verdade do seu
viver, próprio porque de verdade não é uma declaração definitiva, uma afirmação conclusiva que
coloca fim em cada pesquisa e rende tudo imediatamente claro, mais é indicação de um caminho
que pode realmentelevar a plena realização da própria humanidade, mas que fica ainda em boa
parte muito a ver e esclarecer. O tipo inteligente e atento (“vigilante”) é aquele que sabe por
experiência quais são particularmente os setores da existência, onde é mais tentado de parar ou
desviar, ou onde tem o risco constante de uma certa desordem, de considerar verdadeiro quando
não é. É importante, portanto buscar esclarecer.
Tendo como ponto de partida os cinco casos, acredito poder dizer que normalmente o
conflito do sentido nasce com comportamentos ou estilos existentes relativos as seguintes áreas.
Citaremos brevemente simplesmente para indicar os pontos de maior problemática.
4.1 Auto-identidade e auto-realização
A área de auto-identidade é a área daquilo que se percebe importante para si e a própria
estima, e é decisivo para a própria auto-realização. Ler na verdade a própria pessoa (corpo,
A Hora de Deus
85
CAPÍTULO 07
psíquico e alma), com tudo o que de positivo e menos positivo esta contém, quer dizer respeitar
um certo “ordo” uma precisa hierarquia de valores e prioridades na identificação daquilo que
constitui a dignidade e assegurar uma estabilidade positiva, ao mesmo tempo permitindo de
perceber com realismo a inevitável negatividade, e no discernimento conseguinte.
O corpo e a vida física, por exemplo, tem um valor importante, mais não podem certificar-
se um sentido de positividade definitiva101; assim os talentos pessoais, enfim a própria exatidão
moral ou pretensão de pefeição... Um erro ou um equívoco neste nível gera problemas de
identidade, e sacerdote ou consagrado com problemas de identidade significam pessoas com o
centroide {=Ponto ou coordenada de uma forma geométrica que estabelece o seu centro
geométrico} “deslocado”, e portanto desiquilibrado, com uma fundamental desordem interior, na
busca da própria positividade em lugar errado, pessoa que não sabe mais quem é, nem aquilo que
quer, e talvez se faz mendicante daquilo que já possui (mais sem saber e portanto também sem
beneficiar-se), da positividade que lhe pertence para sempre e está enraizada profundamente nele
(é o caso de padre Luigi)...102 Com notáveis e perigosas consequências: dependência dos próprios
talentos (que tornan-se fonte mas também limite de identidade), identificação com o papel social,
extrema necessidade de resultado positivo e de estima dos outros, carreirismo e protagonismo
ambiguidade e conflito relacional, mania de competição, inveja e ciúmes, mania de
auto realização, sutil complexo de inferioridade, incapacidade de aceitar a
decadência gradual do corpo e várias tentativas de escondê-lo, incapacidade radical de perceber a
verdade do corpo também no limite e na doença ... Todas as atitudes que não devem ser vistas
como transgreções morais comportamentais, mas como erros da verdade da pessoa, como
falsidade, como equívocos perigosos..., como elaboração de uma crise destinada seja cedo ou
tarde a explodir.
Nos caminhos formativos quase não se afronta de maneira sistemática e explícita o
problema da identidade a nível psico-pedagogico. Imaginem, pois denunciar a “crise de
identidade” ou usar tais etiquetas nos encontros formais e informais para dar um nome as crises
“inexplicáveis” sacerdotais-religiosas.
4.2 Experiência de Deus e de sua vontade
O mistério da verdade e da própria verdade se articula em modo particular diante de Deus,
e portanto diante daquilo que a pessoa crente aprendeu a reconhecer com sinal da sua presença
ou do seu querer (como no caso, ainda do padre Luigi e do padre Carlo). Quantas vezes a mesma
experiência de Deus e a leitura da sua palavra podem ser sujeita a distorções perceptivas ou
ilusões e pretensões muito subjetivas, ou mesmo “a vontade de Deus” vem identificada como tal,
porém não é tal, ou ainda é lida em modo banal e superficial, mágica e fideistica, ou... é aplicada
aos próprios valores e interesses (vejam a escolha vocacional do padre Ludovico que desmente
seguramente a outra). Por isso mesmo o “mestre na fé” é capaz de descobrir os assim conhecidos
“sinais dos tempos” como expressão de leitura em profundidade no presente dos germes do
futuro!
101 Interessante este comentário jornalistico das expressões as mais teatrais e equívocas da cultura moderna, que atrai tantos jovens a buscar no
corpo e na beleza física a fonte da própria positividade e identidade, a eleição, isto é, de miss Italia: “Na exposição das belas jovens todas iguais,
construídas em perfeita harmonia para satisfazer um público igualmente conformado, tinha no entanto uma sensação de algo mecânico
angustiante, a percepção de una falsidade de fundo que mal correspondia a aparente festividade. As futuras odaliscas da televisão correspondem
verdadeiramente ao modelo de menina italiana, aquelas que encontramos pelas estradas ou nos escritórios, nas escolas ou nos trens?(...)
Alienadas, vestidas todas iguais, com faces, cabelos iguais, as candidatas à miss fizeram no fundo no fundo muita tristeza: criadas - frequentemente
remendadas e refeitas, apesar da jovem idade – para aparecer e não ser, para um breve tempo, um aparente explendor, para uma fatuidade
elevada sem objetividade na vida. Isto é verdade?” (M. POGGIALINI, “Se a fatuidade é um modelo de vida”, in Avennire, 16 setembro 2003,30).
102 Sobre a formação da auto-identidade do presbitéro, e seus riscos de uma identidade errada, cf. A. Cencini, “O padre: identidade pessoal e papel
pastoral. Abordagem psicológica”, em o padre na Igreja hoje. Bolonha 1992, 1-59; sobre a identidade do consagrado cf. Id., Amarás o Senhor teu
Deus. Psicologia do encontro com Deus. Bolognha 2001, 13-37.
A Hora de Deus
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CAPÍTULO 07
Por conseguinte, se é correto, biblicamente falando e como já recordamos,103 a expressão
“experiência de Deus”(feita pelo homem)? Nas Santas Escrituras adverte o pregador de Deus, o
teológo Van Balthasar, não encontramos talvez a expressão exatamente contrária: Deus que faz
experiência de homem? Quais das duas expressões transmite e reflete principalmente a verdade
do criador e da criatura, e torna mais verdadeira a condição humana e o conhecimento do Eterno?
E ainda: o que significa uma relação autêntica com Deus, uma oração que verdadeiramente
atinge o coração divino? Até mesmo a oração pode ser virtual e fingida, mesmo quando há a
sensação de ter feito uma bela oração; ao contrário alguém pode tambem dizer (ou pedir) tantas
orações e não rezar nunca... É a mesma leitura da Palavra, sempre mais central na vida do fiel
hoje, quando e quanto é “verdadeira”? Quando e quanto está o homem a lê-la? Talvez armado
com os seus instrumentos interpretativos, ou quando e quanto a Palavra estar a ler cada dia a vida
do homem e este se deixa livremente ler seu interior, ou a se deixar “transpassar” pela Palavra
(cf.At2,37)? Quantas vezes não é a inconsistência ou a imaturidade a “obscurecer” uma pagina ou
um versículo, uma palavra da Escritura que lê, ou medita ou anuncia ? Quanta verdade há neste
anúncio, ora fraco, ora bombástico destes funcionários do divino?
4.3 Natura humana e mondo interior
A área da própria natureza humana, com as paixões, instintos, impulsos, afetos,
sensibilidades, medos, nervorsismos, tensões, estados de ânimo (mais ou menos contraditórios)
não é nada fácil de ler e passa despercebido a todo automatismo interpretativo. Basta pensar na
complexidade da área afetiva-sexual, que frequentemente funciona – como veremos –como caixa
de ressonância de problemas nascidos em outros lugares e é portanto
aquela que mais se deixar levar pelos enganos e equívocos, ainda em prospectiva
decisivamente vocacional (Vejam o caso do padre Ludovico).
Ou basta pensar como mostramos mais acima o processo de desenvolvimento da
sensibilidade, frequentemente ligada a dinamismos inconscientes e que em seguida condiciona de
modo significativo a consciência e as suas avaliações,os gostos e as atrações “espontâneas” da
pessoa, éticas e morais, frequentemente acolhidas e assumidas sem qualquer verificação (=exame
de verdade ou exame de consciência).
Frequentemente, na história, a relação entre prospetiva religiosa e o mundo da natureza,
dos instintos e das paixões, foi sempre uma relação conflitual, como entre o bem e o mal, entre
uma certa idéia de perfeição e tudo o que parece opor-se a ela fatalmente, entre aspirações
celestiais e tentações bastante terrestres... É o caso, provavelmente, de repensar esta
esquematização tão rígida. O instinto, o impulso, a paixão não é talvez expressão, mesmo
causando por vezes desvios e até riscos àquela energia de amor presente em cada homem? E esta
energia, devidamente purificada e orientada, não pode talvez tornar amor que da calor e cor a
vida, até mesmo ao sacerdote e o consagrda/o? Como é possivel viver o celibato consagrado sem
acolher a verdade desta fonte de energia? Não habita talvez misteriosamente o Espírito Santo de
Deus nesta pronfundidade recôndita do homem? O celibato do consagrado não é certamente a
negação da sexualidade (e como poderia?) mas sim uma forma diferente de vivê-la, como uma
sexualidade pascoal.
É verdade que muitas vezes o padre é de uma ingenuidade desarmante diante desta
realidade (cf. padre Ludovico), outras vezes distinguir-se por ignorância deste mistério,
compreendido em modo mesquinho e portanto profundamente falso. O celibato pode ser
tecnicamente observado, porém ser profundamente pobre da verdade, ou um celibatário
continente, mas não casto e tanto menos virgem.
103 Cf. Capitulo 4 § 3.3
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4.4. Limite existencial
A área do inevitável limite existencial pessoal em vários níveis (das infermidades físicas a
imaturidade psicológicas e morais) ou interpessoal, ligado a presença do outro na minha história
(por exemplo: os limites psicológicos dos pais e educadores), é uma outra manifestação do
mistério existencial, com diferentes graduações e tonalidades de liberdade e responsabilidade,
difíceis de compreender com precisão. Por causa desta dificuldade é ainda possível a distorção do
sentido, como talvez um erro ou “auto” culpabilização, normalmente com efeitos auto
destruidores que provocam por exemplo uma não integração da própria história ou daqueles
segmentos desta culpa onde o limite é mais influente, ou uma não aceitação de sí ou do outro, ou
um sentimento disturbado da alteridade (vejam as dificuldades de relacionamento do padre
Marco), ou ainda uma incapacidade de perceber na própria impotência a presença misteriosa da
graça (é aquilo que ocorre com a irmã Maria), ou o entender que o limite não é necessariamente
sinal de mesquinhez e culpável inconsistência, mais marca primeiramente o mistério do ser
humano, ser aberto a algo grande.
Talvez a verdade profunda do limite humano deve ser procurada nesta direção
absolutamente misteriosa, ou aparentemente contraditória e sempre inédita: o limite reenvia à
natureza... limitada da criatura (se é normal não é onipotente) e, por contraste à uma aspiração
ilimitada, mais esconde ainda, e aqui o mistério explode na sua novidade inefável, a presença
daquela potência que se manifesta na fraqueza.
O limite é fronteira ou obstaculo? Provavelmente é todas as duas coisas,
ou é difícil vivê-lo na sua verdade104. Quantas vezes a crise sacerdotal-religiosa
exprime esta fadigosa-dificulade ou enfim nasce desta situação.
4.5 O verdadeiro mal
A área do mal aquele sofrido pela vida (várias desgraças, lutos por entes queridos) ou
aquele que está ligado a uma específica responsabilidade pessoal (o pecado) ou ainda (violências
sofridas, calúnias e maldades...), representa um objeto de difícil integração onde frequentemente
prevalece uma atitude hostil e vingativa nas relações da vida, de quem nos fez mal ou de nos
mesmos como autores do mal, frequentemente sem alguma possibilidade de redenção ou perdão,
seguido de sentimento de culpa (em sí falsos, que devem ser distinguidos pela consciência do
pecado que é verdadeiro) ou frustações gerais( é ainda o caso da irmã Maria).
Ainda aqui vale o que foi dito com relação ao limite em general e talvez em sentido ainda
mais radical e misterioso. Também o mal pode tornar um momento de graça, e nesta
transformação pode reencontrar a sua verdade mais profunda, antes, isto afirma aquele evento
central e prodigioso da salvação que acontece no hoje de tantos fièis e que corresponde ao
sacramento da reconciliação: o sacerdote que é mediação oficial, as vezes risca de viver este ofício
sem perceber o verdadeiro e profundo sentido, exibindo uma mediação somente ritual. E
demonstrando a pobreza (ou íntima falsidade) da sua experiência pessoal de penitente. É claro
que não pode ser vedadeiro ministro da penitência quem não foi e não é verdadeiro penitente.
4.6 Relação e alteridade
A área da ralação e da alteridade, estreitamente conexa com área da identidade, constitui
muitas vezes um autêntico campo de exercitação (ou de batalha) para o próprio sentido e respeito
da verdade. Não são infrenquentes relações interpessoais condicionadas por fenômenos de
distorção perceptiva na qual o outro não é acolhido na verdade do seu ser, mas em função das
104 Cf. o interessante estudo de G. Laitti, “A fe cristã no limite da humanidade: entre piedade e profecia” em Experiência e Teologia 17(2003),73-76.
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próprias necessidades ou medos ou defesas ou preconceitos, e portanto não é aceito
incondicionalmente nem estimado na sua amabilidade objetiva além dos seus comportamentos.
Quantos problemas de relação são determinados por esquemas perceptivos-
interpretativos fechados e rigidos, e parecem mais erros de percepção do outro e não sua
negação, mais problemas de verdade e falsidade que falta de caridade! Ou são frutos da pretensão
de estabelecer uma relação imediata com o outro, sem alguma mediação, fora da lógica do
mistério e desconsiderando aquilo que a psicologia chama “O princípio do terceiro”. Secondo tal
princípio toda ligação entre duas pessoas deve ter um terceiro que o garanta, e portanto o
relativiza105, seja quando o outro é o tu humano e reenvia a Deus, e isto aceitamos tranquilamente
pelo menos em teoria (em quando fièis), seja quando for o Tu divino que reenvia ao homem, e
isto, talvez nos cria um pouco mais de problemas, a nós que frequentemente presumimos ou
preferimos ter um acesso direto e imediato com o Divino. O homem, em outras palavras, deve
aceitar de não poder ter acesso rapidamente ao mistério do outro, divino ou humano que seja,
deve renunciar a tentação de Babel e as suas modernas reelaborações, aquela vertical (= viver a
relação com o tu humano sem nenhuma abertura ao mistério e consequentemente ao
trancedente)106. Somente assim a relação é verdadeira.
Outro esquema percepitível sutilmente distorcido é aquele que induz a ver o serviço feito
ao outro, especialmente quando este está particularmente precisando, como um ato de
benevolência e caridade (do qual compadecer-se sutilmente dentro de sí ou
vangloriar-se como coisa nobremente merecida) enquanto é simplesmente um ato de
verdade em relação a dignidade do outro, ato portanto devido, normal, graças ao qual emerge não
só a dignidade ou a verdade daquele que é servido, mas também daquele que o serve.107 Tornar-
se muito mais vinculante, pensando bem, um gesto no qual vejo esboçada a minha verdade, e não
um gesto solicitado simplesmente por qualquer código comportamental, mesmo sendo sagrado.
4.7 Vida passada
A área do passado, com o bem e o mal que cada um conheceu e recebeu, é também muito
importante no processo de atribuição de sentido da própria história, uma vez que o passado está
ainda presente em cada vivente, particularmente naquilo que chamamos de resíduoemotivo
depositado em cada uma das experiências vividas (como se pode constatar, em prática, em todos
os exemplos citados). Tal marca afetiva predispõe a pessoa a agir e reagir em modo
correspondente, mas sem tirar a liberdade (diferentemente daquilo que pensa padre Carlo).
Torna-se portanto uma evidência fundamental para compreender a própria verdade e
dispor-se liberalmente em relação ao futuro, conhecer o próprio passado e assumir diante deste
uma atitude ativa e responsável (como não consegue ainda fazer a irmã Maria, nem mesmo o
padre Carlo).
Aqui recorremos a uma faculdade e uma atitude psíquica nem sempre considerada na sua
validade formativa: a memória e a responsabilidade. “Ricordar” não é fato automático, ligado a
uma capacidade puramente mental e a fatores independentes do caminho de amadurecimento do
indivíduo. Ao contrário, recordar é sobretudo “fazer memória” significa integrar o próprio
passado, não sofrer simplesmente aquilo que aconteceu, mais em qualquer modo retomá-lo em
mãos para descobrir o sentido objetivo ou dar o sentido subjetivo ao acontecido, a vezes
105 P. Sequeri, “Obediência como entrega a vontade de “O terceiro”, em a obediência torna “virtude”, Fossano 2000, 140
106 Cf. A. Cencini “Dalla relazione alla condivisione. Verso il futuro… Bologna 2001. 48-56.
107 Vejam a interessante interpretação do gesto de Jesus ao laver os pés, pelo pintor S.KODER, que representa no quadro um Jesus visto por trás
totalmente curvado sobre os pés de Pedro, com o rosto invisível, que porém vem refletido na água da bacia onde Pedro imergiu os seus pés e
exatamente - por um efeito ótico certamente quisto - sobre aqueles pés. O significado é claro: Jesus encontra a sua própria identidade (=o seu
rosto) no gesto de servir.
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revinvendo-o e reorientando-o, se possível, ou dando significado àquilo que parece absurdo ou
significado positivo àquilo que parece haver um sentido negativo.
Não é fácil nem automático viver estas diferentes situações da vida, na heterogeneidade
das várias situações humanas, percebendo sempre e regularmente o sentido mais verdadeiro de
cada situação. É um desafio contínuo, e a este desafio estam conexos a qualidade de vida e a
possibilidade de vivê-la como formação permanente.
Contudo a condição que o jovem, na formação inicial, foi treinado a verificar-se
regularmente sobre estas sete áreas que vimos no tempo da primeira formação; tornando
progressivamente familiar uma certa idéia de verdade a realizar dentro de si, conexa não só com a
teologia ou com o dogma, mas também com a sua história e com a sua identidade, com a sua
natureza e sensibilidade, com o próprio passado e o próprio limite, com a presença do outro e do
Outro...
Habituar-se ao sentido da verdade, na formação permanente, quer dizer aprender a ler
quotidianamente todas estas realidades ou áreas vitais a luz daquela verdade que constitui o
princípio fundamental ou a imagem ideal. Para que sejam verdadeiras e vividas na verdade, e o
sujeito aprenda a ser ele mesmo verdadeiro, investigador e construtor de sentido. Será portanto
uma verdade objetiva mas também subjetiva, como um sentido verdadeiro para acolher e
descobrir como intrínsico à realidade e já presente nesta, mas ainda por dar e atribuir em certo
modo a mesma realidade, com criatividade e liberdade.
5. Redução ideológica e moralistica
Talvez este é o verdadeiro problema hoje: não tanto a crise da verdade ou das fontes da
verdade, não simplesmente a crise de autenticidade e credibilidade das várias agências
responsáveis pela verdade a qual responder com a afirmação forte de verdade forte, não é a
verdade objetiva ou enquanto tal que hoje se esquiva voluntariamente ou é fraca, mas é
sobretudo a idéia de verdade que está sempre se reduzindo e restringindo ao âmbito ideológico,
como se fosse algo somente intelectual, que refere-se esclusivamente a mente e se resolve com a
adesão do indivíduo, a um pacote de verdades definidas por outros. Resumindo uma verdade à
crer e basta e sem particular importância.
Ou então, uma outra redução: a verdade hoje risca de ser sempre mais entendida
sobretudo ou esclusivamente em linha moralistica, como simples critério de referimento e de juizo
de conduta para avaliar aquilo que é justo ou aquilo que não é, segundo um código
comportamental na maioria das vezes definido por outros. Também neste caso, ou o que o sujeito
sente externo a sí, não o entende ou não consegue intendê-lo na verdade intrínseca da realidade,
como algo que se impõe pela sua verdade-beleza-bondade. Como se o âmbito da verdade e o
confronto com a mesma, na vida do fiel se restringisse a um confronto mecânico e sem alma, por
banir o exame de consciência (que hoje infelizmente ninguém mais faz...) por uma verdade
totalmente impessoal somente para ser executada e com a qual deixar-se conduzir.
O risco mais imediato de ambos os casos é o perder de vista a prospectiva global e
existencial da idéia de verdade ou da sua realidade, mas o risco ainda mais grave e radical é de não
chegar jamais a perceber, com estas interpretações redutivas, o nexo entre verdade e identidade,
entre verdade e auto estima, entre verdade e a realização do eu, entre verdade e a caminhada de
fé. Esquecendo em seguida totalmente o precioso ditado biblico sobre isso, segundo o qual a
verdade é antes de tudo Alguém, é uma pessoa viva, com a qual estabelecer uma relação tanto
quanto forte, e portanto Alguém e algo que abraça toda a vida, para acolher e amar, para dizer e
para fazer, para anunciar e tornar conhecido; caminhando com ele, seguindo-o para sermos
verdadeiros e beneficiarmos da verdade, finalmente livres graças a Ela (cf. Jo 8, 38). Ou
esquecendo segundo um nível mais psicológico, de dar atenção as áreas de riscos, as áreas
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CAPÍTULO 07
particulamente estratégicas e fracas, aquelas onde mais facilmente risca-se de perder de vista a
verdade, e consequentemente viver na confusão.
6. Da confusão ao exílio e à desordem
Se em seguida aquele processo redutivo torna também estilo formativo (ou deformativo),
que permanece no tempo, ligado a uma idéia abstrata de verdade, confusa com aquilo que se
ensina aos outros e no qual são considerados até mesmo especialistas (« os doutores da lei»),
então é facil chegar a consequência mais grave: o exílio do indivíduo de sua própria verdade. Risco
muito mais frequente que aquela (de)formação criou sensibilidade e atenção para com a verdade
pessoal como processo para construir dia após dia. Risco que correm os personagens dos nossos
exemplos em diferentes modos e com êxitos vocacionalmente variados e descordantes.
Com estes fenômenos frequentes hoje na relação com a verdade de si:
- Congelamento da verdade dentro de um esquema rígido ou redução da verdade a uma ideologia
que não comunica mais com a realidade e não transmite mais o sentido da própria identidade,
nem pode puxar o caminho de crescimento ou se tornar uma boa notícia para anunciar aos outros
(cf. padre Marco); com todas as consequências de crise de contato e comunicação com os outros;
incapacidade de entender a cultura hodierna e acolher o ponto de vista do outro; crise de
insignificância do próprio ministério (com consequente desânimo e insatisfação
profunda) na qual alguns reagem respondendo negativamene, ou a atitude de auto
suficiência ou superioridade; tendência a fechar-se em um certo fundamentalismo e desesperada
negação de toda modernidade, ou fulga em um certo espiritualismo singular (feito de visões,
locuções...); desânimo pastoral, consaço e desmotivação, com busca de segurança e gratificação
em esperiências de grupos fechados com forte caráter emotivo;
- Atitude de indiferenca e negação, senão de desprezo, por uma qualquer idéia de norma, de leis
ou vínculo moral, como se a pessoa não conhecesse outro vínculo verdadeiro ou critériocomportamental, fora da própria interpretação da realidade (cf. sobretudo padre Ludovico) com
uma relativa perda de sensibilidade moral, até o ponto de não ter mais, as vezes consciência do
pecado diante a comportamentos transgressivos; como se estivesse desaparecido todo o caminho
de formação moral feito anteriormente;
- Percepção do presente bloqueado por fatos e situações do passado, no qual o sujeito ainda não
está livre e que ainda não integrou-se (cf. irmã Maria e padre Carlo), com consequentes hábitos ou
estilos de vida, ou tendências ou dependências não conformes a um certo projeto de vida (aqui
podem entrar novamente certas dependências, de álcool, drogas, etc., ou tendências
comportamentais desviantes, como atividades auto-eróticas ou estilos de vida egocêntricos e
manipuladores do outro (a);
- Descoberta do próprio valor em âmbitos secundários e não centrais (sucessos pessoais, afirmação
do eu, carreira, sinais de estima alheios...), e percepção da própria pessoa deformada por pressões
instintivas que impõem-se e determinam correspondentes hábitos, estilos de vida, sensibilidade
moral, comportamentos, relações e escolhas vocacionais (cf. padre Carlo e padre Ludovico); é o
caso do padre/consagrado carreirista ou que busca promoção, visibilidade, fama a todo custo ou
do padre alistado totalmente identificado com funções sociais no qual se sai bem.
- Leitura banal e superficial da realidade, no qual a verdade é muito rapidamente e
superficalmente conexa com os fatos sem nenhum aprofundamento criativo e personalista, nem
percepção de um sentido posterior (cf. padre Ludovico e padre Luigi) è o caso do
padre/consagrado sem fé, concretamente, como se a sua fé fosse somente um pacote de
verdades teóricas, porèm astratas, desarticulada da vida e da pessoa ou acreditadas somente com
o intelecto;
- Situação final de distração radical de um sujeito atraido por diversas e talvez em opostas
direções, distrações que leva naturalmente a confusão e a desordem no modo de ser e de agir, de
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propror-se aos outros e enterpretar o ministério, por medo da própria identidade e de tentativas
desastradas de disfarces, de pensar e de se relacionar com Deus e com os outros... ao ponto de
tornar criador de desordem, sempre mais em uma situação de exílio e distanciamento da sua
verdade e da sua vocação.
Capítulo 8
Crise de Maturidade Afetiva
Este poderia ser um capítulo infinito, talvez o título de um novo livro. Por isso somos
obrigados a meditar somente sobre alguns elementos mais significativos deste argumento.
Seguiremos aqui um esquema diferente daquele usado para apresentar e comprender a
Crise na busca da verdade: aqui, de fato os exemplos se refleteriam, porém não é necessário
exemplificarmos como no caso do capítulo precedente. O mais importante para um argumento
como este é – se for o caso - a capacidade de organizar o material – muito rico – em torno das
hipóteses de trabalho ou a uma teória que nos ajude a colocar um pouco de ordem neste
embaraçado episódio da fragilidade afetiva do cansagrado/da consagrada.
Procuraremos neste contexto ver o sentido da crise afetiva e afetivo-sexual a partir daquilo
que é a afetividade-sexualidade, e consequentemente o seu princípio e conteúdo; enfim o seu
desenvolvimento e o seu dinamismo.
Obviamente com a consciência que muita coisa ficará fora deste mundo complexo e
também doloroso, em torno o qual nós jogamos grande parte da nossa credibilidade em frente ao
mundo.
1. Afetividade-sexualidade
Iremos antes de tudo propor um quadro teórico essencial sobre a afetividade e a
sexualidade, e sobre a afetividade-sexualidade o quanto nos serve para delinear as possibilidades
e as modalidades concretas contrárias a este projeto ideal.
1.1 O amor ao centro da vida
Creio que não faça problema a ninguém afirmar que o amor está ao centro da vida. Ele está
em geral ou em teória, porém está sobretudo na vida e nos acontecimentos pessoais do único
indíviduo, ele está no centro seja a nível humano ou psicológico, talvez esteje ainda mais no
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CAPÍTULO 08
centro a nível teológico de modo particular na teologia cristã. Finalmente nós cristãos sabemos
que AMOR é o nome de Deus (cf 1 Jo 4,8), e uma vez que cremos que fomos criados por Ele a sua
imagem e semelhança, amor é também o nosso nome, ou seja, é aquilo que nós somos e aquilo
que nós somos chamados a ser, a nossa identidade e a nossa vocação. E se o amor é a alma de
cada vocação, o é também da vocação religiosa e sacerdotal: é a voz que chama e ao mesmo
tempo o ideal que nos atira, é a verdadeira motivação e finalidade do chamado sacerdotal e
religioso, ou o “lugar” no qual se realiza uma tal vocação.
Então se as coisas são assim, existe uma única infidelidade: aquela do “não amor” ou do
amor fracassado, ou da resposta que não sabe ou não pode dizer e demonstrar o amor de Deus
que está chamando (que ama), o torna opaco, sem vida, quase sufocando-o dentro de si,
anulando-o e abortando-o, mesmo quando a pessoa não é totalmente ciente e responsável.
Tão quanto possível esta infidelidade ou fraqueza se se considera que a afetividade é por
natureza contígua a uma outra aréa estratégica do organismo intrapsiquico humano: a
sexualidade. Desta forma não se trata somente de proximidade, mas de continuidade, afetividade
e sexualidade estão entres elas inevitavelmente ligadas sem solução de continuidade. É, no fundo,
a experiência comum, mesmo se uma tal ligação não é sempre explícita, e muitas vezes mesmo
inconsciente ou discretamente escondida (do próprio sujeito). Se a afetividade
indica o amor e o ser humano como alguém capaz de amar, a sexualidade é a enérgia
que exprime o amor e quando distingue a capacidade de amar do homem e da mulher; de um
lado a sexualidade adquire uma verdadeira qualidade humana somente se orientada, elevada e
integrada no amor, cresce e se realiza somente na liberdade de acolher o amor e doar-se, por
outro lado a sexualidade “incarna” o amor e o torna fecundo. Sendo assim podemos falar de
afetividade-sexualidade.
E como o amor está no centro da vida (e de cada caminho vocacional), assim assume uma
posição central e estratégica até mesmo a sexualidade. Aprofundaremos este aspecto uma vez
que pode iluminar a nossa reflexão.
1.2 Ordo Sexualitatis
Existe um outro aspecto importante que gostaria de sublinhar neste tempo de “Self
Service” em todos os campos. A sexualidade tem seu código interno, uma especie de DNA que
revela sua natureza e suas funções e explica a sua centralidade na vida de todos, sejam
celibatários ou casados, solitários ou conviventes. Não é a última ilha (dos desesperados) que ficou
na mão do indivíduo e ao indiscriminado alívio dos seus instintos subjetivos com livre saída sem
algum controle social ou moral, porém tem sua síntese fundada em última analíse sobre a
natureza humana, e que é interessante ao homem, a cada homem, conhecê-la e observá-la
Nós o vemos de dois convergentes pontos de vista: um genericamente psicológico que
procura ver a sexualidade em relação com o sentido da vida, os seus valores e os conteúdos que
estruturam-na; o outro ponto de vista rigorosamente mais psicanalítico e que considera a
sexualidade em relação com as suas necessidades e seguindo uma linha mais funcional-dinamica.
a) Perfil psicológico: a sexualidade como microcosmo dos significados.
Segundo a análise psicológica, a sexualidade é:
1) Dinamismo, ou seja, energia, portanto alguma coisa infinitamente preciosa que ativa a
pessoa e a coloca em relação ou a torna capaz de relacionar com o outro; e ainda, esta energia
quer dizer que a sexualidade não é somente um dado de fato, biológico ou psicológico, como
quelquer coisa que se impõe ou impõe necessariamente um certo exercício do instinto genital,
mas é também e sobretudo um dado a construir, ou seja, uma realidade educacional que interpela
A Hora deDeus
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CAPÍTULO 08
imediatamente a liberdade e a responsabilidade do homem, ou uma parte que está integrada no
todo ou ainda colocada ao seu serviço.
2) Porém esta mesma realidade é composta, fruto de vários componentes ou feita de:
- Genital: de orgãos predispostos a relação e uma relação fecunda, que dizem já a capacidade
receptiva e oblativa do ser humano como tal, além daquela unitiva-relacional.
- Corpóreo: cada corpo é sexuado em cada um dos seus componentes e dotado de uma
identidade específica de generes (masculino ou feminino); tal atribuição é a base da atração de um
sexo ao outro, mas é também da capacidade de relação com o outro.
- Afetividade: a sexualidade, como eu disse, adquire verdadeira qualidade humana somente si
orientada, elevada e integrada pelo amor; cresce e se realiza somente na liberdade de acolher o
amor e de doar-se ao outro, senão torna-se algo sub-humano de um lado, e do outro o
relacionamento sexual aparece simplesmente como um monólogo e não como um diálogo. Por
sua vez o corpo sexuado manifesta imediatamente, por sua própria natureza, o amor de onde ele
vem, como um dom que é a raiz do seu ser e ao mesmo tempo o dever que o espera108.
- Espiritualidade: a sexualidade é também espiritualidade, não é somente
matéria e impulso, mas realidade que transcende ambos os aspectos e entende o
sentido profundo. É espiritualidade não no sentido religioso do termo, mas como elemento
unificador que faz a síntese da dualidade que são típicas da sexualidade, e ainda como exigência e
capacidade de leitura destes componentes para descobrir neles uma misteriosa verdade, aquela
verdade da vida humana que se torna particularmente evidente nela mesma e inscrita no corpo.
Poderíamos dizer que na sexualidade se encontra em um pequeno “in nuce” – “dado”, aquele
sentido da vida humana que é possível descobrir com uma análise completa da natureza e da
existência humana. Eis alguns traços existênciais desta verdade: o corpo sexuado.
- Revela o homem o seu vir de um outro e o seu ir em direção ao outro, o seu núcleo
radicalmente dialógico.
- Ajuda a entender o sentido da vida, dom recebido que tem por sua própria natureza uma
tendência a se tornar um bem doado.
- “contribui - dentro da prospectiva de um crente, a revelar Deus e o seu amor criador”109
aquele Deus que amou o homem até fazê-lo capaz de um amor doador de vida, que o torna
semelhante a Ele.
3) Parece então evidente que a natureza misteriosa da sexualidade, não somente enquanto
escapa de qualquer leitura banal e superficial de si mesma, mas ainda no sentido mais profundo
da idéia de mistério, como centro, ponto de encontro ou lugar de composição e integração das
polaridades aparentemente contraditórias, seja no interior ou no exterior do indivíduo, como
microcosmo de significados essenciais da vida humana110.
4) A sexualidade, de fato, é memória, como eu disse, inscrita no corpo humano, do seu
proceder “ab alio – do outro” e complexo de energia que abre “ad alium – para o outro”, portanto
é ao mesmo tempo necessidade (deficit) e potencialidade (recurso), bem recebido e bem doado,
feminilidade (como capacidade receptiva e de proteção do dom) e masculinidade (como
capacidade oblativa e promoção do dom), invenção divina e realidade humana, reconhecimento e
gratidão, centelha pascoal e instinto humano...: a sexualidade consente recompor estas tensões
sem excluir um dos dois polos; por isso mesma é rica em energia e ao mesmo tempo elemento de
conexão do homem ao seu centro. Neste sentido, ou seja, sobre o plano puramente psicológico,
precisa dizer realmente que a situação do consagrado para o reino parece menos favorecida em
relação àquela do casado: a falta daquele particular tipo de relação com a figura feminina com a
qual se estabelece uma intimidade conjugal, de fato, parece privar o consagrado de uma certa
108 Cf João Paulo II, Audiência geral, 9 de janeiro de 1980, 4
109 Sagrada Congregação Para A Educação Católica, Orientações Educativas sobre o Amor Humano, Linhas Gerais para Uma Educação Sexual, Roma
1983, 23.
110 Já citado na catequese de João Paulo II de 1980 que insiste fortemente sobre este aspecto.
A Hora de Deus
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CAPÍTULO 08
possibilidade de interação com o feminino na sua própria personalidade, feminino como liberdade
de acolhida do dom, como sensibilidade ao dom, como reconhecimento da vida que está aberta a
gratidão, como memória e proteção do dom. Isto pode levar a um menor desenvolvimento deste
comportamento feminino com consequências de endurecimento e de fechamento de si mesmo,
incapacidade de reconhecer o bem recebido com reações frequentemente inesquecíveis (quando
infantil e adolescente) levando a uma carência de atenção e de afeição da parte dos outros.
5) A sexualidade é um lugar, em particular de classificação do gênero de atribuição, lugar, ou
seja, onde a identidade encontra um precioso ponto de referimento (até mesmo biologicamente
fundado) do qual o outro alcança o seu ponto mais evidente. A diferença dos sexos indica a
diversidade radical, é o símbulo por excelência das diferenças humanas, é quase uma escola para
aprender a respeitar e valorizar o “tu”, “cada tu” na sua diferença, unidade e beleza, superando
cada tentação de homologar o outro ou de estabelecer uma relação somente com o próprio
semelhante. A identidade sexual é fruto desta complementaridade relacional, é muito mais firme
e segura quanto mais aberta incondicionalmente para o outro que a si mesma.
6) Então, quando a identidade se coloca em diálogo com a “alteridade” (o
diferente) a relação inter-pessoal se torna fecunda, e é uma fecundidade em várias direções. Em
se tratando do “eu” e do “tu”, do “nós” e do “outro”: antes de tudo, porque se afirma e reforça
sempre mais o mesmo sentido da própria identidade e a do outro (alteridade), pois cresce em tal
modo a dimensão relacional do ser humano como elemento essencial do homem, consentindo
também ao padre celibatário de esperimentar aquela forma particular de intimidade com o outro
que é a amizade111 e visto que, em fim, a relação vivida deste modo não se fecha sobre dois, mas
se abre de fato para o bem de uma terceira pessoa, como pode ser os filhos no matrimônio, ou o
bem dos outros, de muitos outros ou ainda de quem em particular é mais tentado a não sentir-se
amável e ao contrário é atingido por um amor que o acolhe. Neste sentido a sexualidade atingiu o
seu objetivo natural e talvez mais qualificada: a fecundidade plena. Bem, a fecundidade é muito
mais imediata e rapidamente verificável como índice qualificativo junto ao fruto da sexualidade no
caso da pessoa que é casada (pai ou mãe de filhos gerados em um ato de amor) com relação ao
celibatário, o qual poderá as vezes se iludir de ser casto (ou melhor: continente) sem ser, na
realidade, nem pai nem mãe, sem ter “gerado” nada, ou seja, sem ser verdadeiramente celibatário
para o Reino.
7) Finalmente, ter então uma sólida identidade sexual para o celibatário como também o
casado significa respeitar esta ordem sexual (ordo sexualitatis) de forma mais concreta.
- integrar os quatro componentes e as várias polaridades da sexualidade em torno daquela
misteriosa verdade (veritas), inscrita na mesma sexualidade: a vida humana é um bem recebido
que tende por sua própria natureza se tornar um bem doado,
- para sair de si mesmo e ser capaz de relacionar com o outro, com o diferente como tal, e uma
relação intensa, de amizade,
- e de uma relação fecunda em três níveis: do “eu” e do “tu”, do “nós” do outro.112
b) Perfil psicoanalítico: a sexualidade como microssistema da personalidade
Todos sabemos como a psicanálise freudiana descobriu ou redescobriu a importância da
sexualidade, até chegando a desfazer os excessos desta reavaliação e acusando-se de
pansexualismo. No entanto, é em cada caso uma conquista importante e irrenunciável aquela de
Freud sobreo lugar singular que a sexualidade ocupa dentro da personalidade, lugar onde
podemos de certa maneira identificar assim:
111 “Um marco de garantia de um sadio sacerdote celibatário é a sua capacidade de amizade sincera e íntima com homens e mulheres, com outros
sacerdotes e com os leigos”(D.Cozzens, Verso un volto nuovo del sacerdozio, Brescia 2002, 41.)
112 Esta descrição da « ordo sexualitatis » foi tirada A. Cencini, Quando a carne é fraca. O discernimento vocacional diante da imaturidade e
patologias do desenvolvimento afetivo-sexual – Milão 2004 – 19-22.
A Hora de Deus
95
CAPÍTULO 08
“Se a personalidade é um grande sistema, que organiza todo este conjunto de características
que pertencem a uma pessoa, a sexualidade não é uma característica, mas nem mesmo um
simples sub-conjunto de características, mas um verdadeiro microssistema da personalidade. Seria
como dizer: na sexualidade se encontra “em pequeno” aquilo que “em grande” – isto é: a nível
complexo – se encontra toda a personalidade.113
Seria, assim dizendo “o outro lado da medalha” de tudo aquilo que vimos no parágrafo
anterior: como na sexualidade encontramos “in nuce” “em dado” o sentido e a gramática da vida
(“microcosmo de significados”), assim reencontramos uma ligação direta com todos as
necessidades humanas (microssistema da personalidade).
Concretamente, se em nós existe, como nos recorda a psicanálise, uma série de
necessidades inatas114, da aceitação social à agressividade, da necessidade de sentido
à percepção positiva de si, todas estas necessidades embora em modos diferentes, terminam por
estar presentes no comportamento sexual. De um certo modo “aquilo que chamamos sexualidade
vem da configuração original que em uma pessoa específica é assumida por aquelas 21
necessidades fundamentais”115., Por exemplo, é claro que a agressividade encontra no exercício
do instinto genital uma forma expressiva normal (“fisiológica”, poderíamos chamá-la assim); mas
também a necessidade da identidade posivitiva busca e encontra no sucesso da relação com o
outro sexo uma confirmação importante; assim também a necessidade de sucesso, de ser aceito
pelo outro, de excitação, de não sentir-se inferior ... são ativos e mais ainda quando já se tenha
envolvido em ato sexual.
Neste sentido, podemos então dizer agora que a situação do celibatário aparece por sua vez
diferente daquela do casado olhando por este ponto de vista: o casado dispõe de uma
possibilidade maior, atravez do exercício do impulso genital, de ativação e de gratificação do
próprio mundo impulsivo em seu conjunto, em relação ao celibatário, e que tudo isso sem dúvida
consente – pelo menos em teoria – um bom funcionamento psicofísico (que é uma coisa diferente
da maturidade, mas sendo sempre um elemento que pode dispor a maturidade).
O celibatário, dizendo realisticamente, em parte desvaforecido, quase mais pobre, ou melhor,
encontra-se em uma situação de risco, já que a renúncia ao exercício do instinto genital poderia
também implicar uma menor possibilidade expressiva de outras necessidades fundamentais, não
somente aquele genital-sexual. O risco neste caso seria aquele de uma tensão (não gratificação)
que no início é inconsciente, mas depois poderia como o passar do tempo tornar insuportável ou
de uma energia reprimida (ou negada na sua necessidade de satisfação)em uma perpétua busca
de gratificações alternativas e de várias compensações, muitas vezes sem saber ou até mesmo
fora do controle do sujeito (os famosos subtérfugios de um eu frustado), seja no âmbito da
afetividade-sexualidade ou das outras necessidades que ficam... à sombra. Veremos melhor este
aspecto mais a frente.
2. Ambivalência das crises afetivo-sexuais
Uma consequência imediata deste paragráfo que acabamos de concluir é que a crise que
acontece no campo afetivo-sexual é uma crise que devemos decifrar e não somente lê-la em um
modo unívoco e superficial, como se fosse somente uma crise sexual (ou a conhecida crise
afetiva), mesmo quando explode claramente no âmbito sexual. Por isso mesmo, por causa desta
centralidade e da energia afetiva-sexual na geografia do nosso mundo interior do qual já falamos.
Na verdade, se a sexualidade ocupa exatamente um lugar central, que a põe em relação
com todas as outras áreas da nossa personalidade, as vezes a própria sexualidade poderá
113 S. Guarinelli, O celibato dos padres. Porque ainda escolhê-lo ? Milão 2008, 39.
114 Seriam mais ou menos uns vinte estas necessidades inatas, segundo a classica análise de Murray, substancialmente aceita pela psicólogia
moderna. Cf . H.A. Murray, Exploration in Personality, New York 1938.
115Guarinelli, O celibato dos padres. 43.
A Hora de Deus
96
CAPÍTULO 08
constituir um lado extremo e externo de uma crise que nasceu em outro lugar, (por outras
necessidades), enquanto outras vezes poderá ela mesma ser a verdadeira raiz da crise, mas que
manifesta-se em uma outra área da personalidade. Em outras palavras, poderá criar estas duas
singulares situações.
2.1 Conflito sexual com raízes não sexuais
Um problema que nasceu em uma área qualquer, por exemplo naquela das relações
interpessoais, cedo ou tarde influenciará na sexualidade da pessoa. É aquilo que acontece com um
indivíduo que se sente – mais ou menos realisticamente – não suficientemente apreciado ou
mesmo rejeitado pelos outros e que se fecha em si mesmo, até mesmo se deixando levar por
práticas auto- eróticas. É evidente que neste caso o problema não seria de natureza
afetivo-sexual, mas tendo como raiz uma natureza relacional, onde a masturbação não
seria procurada por satisfação erótica, enquanto símbulo de autonomia para dizer a si mesmo: “eu
não preciso dos outros, posso fazer tudo sozinho, posso mesmo obter a gratificação sexual”. Deste
modo evitaria de enfrentar o real problema (conflito entre autonomia e dependência), e até
tornaria insolúvel o problema da masturbação.
Mas também as dificuldades na vida espiritual como pode ser um declínio na qualidade de
oração e de relacionamento com Deus, isso inevitávelmente trará reflexos negativos sobre o modo
de viver a própria sexualidade, menos ainda o consagrado terá força de ânimo para viver o seu
celibato e enfrentará a inevitável renúncia ligada por exemplo a solidão.
Um relacionamento quase direto parece existir entre a estima de si e a necessidade
afetiva-sexual, no sentido que uma pessoa que não tem uma percepção substancialmente e
estabilmente positiva de si, será também particularmente sensível aos sinais de afeto e de
consideração sobre si mesmo, exatamente porque tais sinais respondem a uma exigência
profunda que ela sente dentro de si que ainda não foi satisfeita (se alguém gosta de mim, quer
dizer que tenho alguns aspectos positivos e apreciáveis). Por isso um padre que não resolveu o
problema da estima de si, será também particularmente vunerável no plano afetivo e também
sexual. Eu creio ainda poder dizer com base em experiência direta de acompanhamentos de
sacerdotes em dificuldades com o próprio celibato, que não é totalmente incomum esta situação
ou uma crise afetiva-sexual determinada por uma pobre estima de si, sem dúvida esta situação é
presente na maioria das crises celibatárias.
É portanto muito importante recordar que o conflito de aparência sexual podera ter raízes
não sexuais. As vezes a pessoa é consciente deste conflito, mas não consciente das raízes.
2.2 Conflito não sexual com raízes sexuais
Se pode então esperar também o contrário: uma sexualidade perturbada por sua vez
pertuba o modo de relacionamento do celibatário com os outros e também com Deus, assim
como outros aspectos da sua vida, da sobriedade no uso das coisas à liberdade do dom de si.
É o caso, por exemplo, de um problema de identidade ligada a própria tipificação sexual,
ou de homossexualidade.Tal embaraço ou dificulade ou “incerteza” interior que leva o indivíduo a
ter atração pelas pessoas do mesmo sexo, pode determinar em si uma consequente intolerância,
agitação, inquietação diante do outro sexo ou diante da diversidade como tal e ainda uma (mais
ou menos) forte tendência a priveligiar a relação com o semelhante a si, quase homologando o
outro a si. Parecerá então um problema puramente relacional, ou mesmo simplesmente
comportamental e exterior de simpatia ou impatia, enquanto – na realidade - consolida as suas
raízes na área sexual.
Outro possível exemplo, não raro nos nossos ambientes é aquele do celibatário consagrado
que vive um tipo de celibato técnico, ou seja, somente comportamental, uma simples continência,
A Hora de Deus
97
CAPÍTULO 08
mas no fundo do seu coração não é casto, vive de amores ilícitos em sua fantasia, compensando
assim a renúncia que fez (talvez se auto justificando) e demostrando uma não resolvida
dependência do impulso sexual que não pode deixar de satisfazer mesmo se somente na
imaginação. Tal indivíduo pode também permanecer relativamente tranquilo na sua própria
consciência, porque o problema não aparece exteriormente e o seu bom comportamento (ou a
aparência) o salva. Tanto mais que, se o seu estilo relacional - como se negasse a si mesmo o
problema - é o estilo daqueles que parecem ter algo contra o outro sexo, de quem mostra
superioridade e quase um desprezo pelas mulheres, de quem zomba do sentimento e exclui
qualquer possibilidade de apaixonar-se. A este parece improvável, em outras palavras, um
assexuado, que ninguém diria ter problemas na área da sexualidade. E, no máximo,
ele diria que tem ainda um conflito na área relacional, e que é um pouco frio e
distante, e às vezes até mesmo arrogante e rude. Enquanto, ao contrário é simplesmente um
homem que tem medo da propria sexualidade, uma espécie de analfabetismo nos seus
sentimentos, talvez alguém que não poderia viver o próprio celibato (entendido somente como
observação exterior) sem aquela compensação da fantasia e que torna falsa a sua opção
celibatária.
Em tais casos, portanto, o conflito de aparência não sexual teria raízes sexuais. Sempre sem
o consentimento profundo do sujeito em questão.
Por um lado, então, a sexualidade é uma caixa de ressonância para os problemas pessoais
nascidos em outros lugares, por outro lado se esconde, quase se comuflando, disfarçando e
escondendo debaixo de falsa pele: esconde e se oculta, é perversa e permeável. Por isso mesmo é
um elemento muito útil e confiável para monitorar e acompanhar o próprio crescimento: é como
um termômetro que mede a maturidade pessoal em geral, se for o caso, indica a febre, embora
nem sempre pode especificar a origem, de fato, às vezes parece enganar-se sobre a sua raiz, mas
em qualquer caso, que cada um tenha responsabilidade e se esforçe para compreendê-la.
2.3 Interpretação dos conflitos
Eis porque se deve ser sempre muito cauteloso quando se interpretam as condutas e
inconveniências sexuais. É importante saber que na maioria das crises afetivo-sexuais de pessoas
consagradas, na origem não tem uma motivação afetivo-sexual, mas um outro problema qualquer
não claramente detectado, revelado, e que acabou por camuflar-se, disfarçar-se na área afetiva-
sexual, ficando ali mesmo, tornando progressivamente difícil e as vezes até impossível a vida
celibatária ou a abservação da castidade.
É na raiz deste problema que se deve intervir e não somente (e as vezes inutilmente) sobre
as consequências. Tanto quanto ingênuo e enganoso, anacrônico e não científico, seria nesses
casos, atribuir a causa de todos os problemas dos padres e dos consagrados ao celibato
eclesiástico. Seria ignorar as características que acabamos de mencionar sobre a sexualidade e, em
seguida, indicar tratamentos e remédios errados e improdutivos.
E é isso que acontece se alguém segue simplesmente os números oficiais divulgados, e a
partir do qual – com efeito – surge esta impressão de que em grande parte no âmbito sacerdote-
religioso seja uma crise afetivo-sexual116. Os não esquecidos abusos e escândalos sexuais do clero
norte-americanos (entre outros) têm evidenciado a desconcertante realidade trágica de uma crise
grave, também em termos numéricos: entre 1950 e 2002117 os 4% dos 109.694 padres dos USA,
para um total de 4.392 padres (4.3% diocesanos, 2.5% religiosos) foram acusados em forma
credível de violência sexual contra 10.667 menores (entres os quais 2.000 crianças), sendo que
116 Segundo os dados publicados pelo escritório central de estatística da Igreja, a motivação alegada de 94,44% dos 8.287 presbíteros que
abandonaram o sacerdócio no período de 1964 a 1969, ou seja no período de máximo “exodo” foi o celibato. A. Cencini - Per amore. Bologna 96, 68.
117 O surto foi entre os primeiros anos da década de 60 até a metade da da década de 80: o auge foi nos anos 70. Estes dados aqui foram tirados da
nota sobre a crise na Igreja Católica norte-americana, publicado em 26.02.2004.
A Hora de Deus
98
CAPÍTULO 08
81% eram masculinos e 19% feminino (portanto na sua grande maioria, mais de ¾ destes abusos
foram de natureza homossexual)118.
Certamente a causa deve ser procurada, antes de tudo, no âmbito da afetividade-
sexualidade e da falta de formação (ou uma insuficiente formação) da maturidade, na
incapacidade de descobrir os sinais e alarmes neste sentido (confusão sobre orientamento sexual,
narcisismo, interesses e comportamentos infantis, falta de relação com os colegas,
desevenvolvimento sexual anormal, e etc.) incrível imprudência e falta
de discernimento vocacional em determinadas decisões para recolocar o
padre com disfunções sexuais no apostolado direto.
Porém a mesma reportagem destacou uma série de outros casos que tiveram impactos de
forma diferente sobre esta crise, quase como a raiz de tudo, tornando-se uma crise de dimensão
muito grande. Por exemplo, o tom de má formação em geral, seja uma formação inicial ou até
mesmo permanente, como também a perda de certos princípios fundamentais para a formação de
uma verdadeira personalidade sacerdotal, ainda a influência nos seminários de um clima cultural
(como modelo antropologico e valores fundamentais) longe do Evangelho, a entrada em particular
de uma cultura cada vez mais evidente como cultura gay (o relatório fala de uma exaltação do
comportamento homossexual) aceita passivamente, levando a um certo “descorajamento” aos
jovens heterosexuais de se tornarem padres119, ou ainda o fato de incumbir e formação afetiva-
sexual, ou a recuperação de presbíteros abalados pela crise à profissionais leigos não exatamente
em sintonia com uma certa antropologia cristã e etc.
3. Algumas formas de imaturidade afetiva-sexual
Neste sentido já dei algumas exemplificações, veremos agora este fenômeno de uma
forma mais sistemática. Vou dividir as formas de imaturidade em dois grupos: primeiro, um grupo
ligado ao desenvolvimento afetivo-sexual da pessoa e um outro relacionado com os conteúdos da
maturidade afetiva-sexual120. No fundo, no fundo tais distinções retoma significativamente a
distinção proposta anteriormente quando, dentro do “ordo sexualitatis” nós falamos da
centralidade do impulso afetivo-sexual na nossa geografia intrapsiquica em duplo sentido: a
sexualidade come microcosmo de significados e a sexualidade come microssistema da
personalidade. Por isso poderei repetir alguns pontos. Partiremos dos problemas relacionados ao
desenvolvimento.
3.1 Segundo o nível evolutivo
Tal nível está totalmente ligado com a interpretação da sexualidade como microssistema
da personalidade, no qual, logo, podem refletir-se como problemas ralacionado ao
desenvolvimento nos seus vários aspectos e como uma evolução que abraça toda a vida da pessoa
e não somente as primeiras fases. Este estado de imaturidade pode ser devido:
- a umanão correta superação de certas passagens evolutivas na primeira educação, surpresas nos
primeiros anos da vida, com algumas dificuldades na identidade sexual;
- a um fenômeno de “não crescimento” da sexualidade nos estados imediatamente sucessivos,
com conseguente fixação em uma certa fase evolutiva;
118 Para cerca de 78% aproximadamente as vítimas tinha uma idade entre 11 e 17 anos e 16% entre 8 e 10 anos e um pouco menos de 6% tinha
menos de 8 anos. Portanto não seria justo falar de “padres pedófilos” mas seria “efebofilia”(atração sexual de adultos por adolescentes).
Infelismente o “Diagnostic and Statistical Manual of the American Psychiatric Association (IV) menciona a pedofilia como desordem psyquica
específica, mas não efebofilia, enquanto na realidade parece diferente e específico o quadro etiológico e psycogentico.
119 Relatório sobre a Crise, 242. E aindo o que sustenta COZZENS, em: Em direção a uma nova face do sacerdócio.
120 Eu aprofundei este aspecto no meu livro “Virgindade e celibato hoje” A. Cencini, Bologna 2005. 63-75
A Hora de Deus
99
CAPÍTULO 08
- a un desenvolvimento não adequado a idade e ao estado existencial, ou a exigências pastorais ou
a novas situações ambientais, com relativas regressões à um estado precedente do
desenvolvimento;
- a uma insuficiente integração entre escolha de vida e renúncia correspondente na esfera sexual,
com consequentes fenômenos de compensações.
Podemos tentar de agora em diante visualizar em um esboço os vários tipos de
imaturidade sexual ligada ao processo evolutivo.
Quadro 5 – A imaturidade sexual à nivel evolutivo
Fases Problemas evolutivos Sintomas / sinais Mecanismos defensivos
Infância Identidade sexual
Homossexualidade
estrutural
Identificação projetiva-
defensiva
Pre-adolescência
adolescência
Não crescimento da
genitalidade sexualidade
Narcisismo auto
erótico (Ciúmes,
masturbação,
curiosidade sexual),
homossexualismo
não estrutural,
sexualidade virtual
Fixação/obstinação
Primeiros
sucessivos
estágios
existênciais
Desenvolvimento afetivo
sexual inadequado
Procura de
intimidade física ou
episódios de
encatamentos
(enamorar)
Regreção
Segundos
sucessivos
estágios
existênciais
Insuficiente interação
entre escolha e renúncia
Busca em outras
áreas a falta da
gratificação sexual
Compensação
Veremos uma a uma estas possibilidades:
a) Identidade e orientação sexual (homossexualidade)
Expressão típica deste problema evolutivo é a homossexualidade, relacionada – a verdadeira
homossexualidade – a uma falta de identificação na primeira infância com o genitor do mesmo
sexo (homossexualidade estrutural) ou com experiências no período da pre-adolescência que
impediram a passagem da fase homoerótica àquela heteroerótica (que seria homossexualidade
A Hora de Deus
100
CAPÍTULO 08
não estrutural). A primeira é verdadeira homossexualidade, aquela que tende a permanecer como
tendência na pessoa (que pode aprender a controlá-la) e cuja presença desaconselharia, segundo
a “Instrução da Congregação para a Educação Católica”, a admissão ao caminho formativo;
diferentemente da outra situação que pode ser tratada e com bons resultados121. As vezes estas
formas de homossexualidade podem aparecer idênticas ao externo e não é fácil
de discernir.
A diferênca entre as duas formas de homossexualidade é substancialmente ligada a estes
tres âmbitos de análise. Vamos apresentar-lhes sinteticamente122.
Tendência homossexual em si.
A homossexualidade estrutural nasce nos primeiros anos de vida, como acabo de dizer, por
causa da falta de identificação com o genitor do mesmo sexo por vários motivos; é relacionada
com um correspondente e explícito desejo de ralacionamento genital-sexual (que torna precária a
relação e difícil a fidelidade); influi toda a personalidade com notável força de pressão e é
constantemente presente; pode até condicionar a escolha vocacional (como modo de defender-se
da mesma ou como sublimação da vocação); cria uma intorelância geral da diversidade, como uma
rejeição do outro, do diferente de si mesmo. A verdadeira homossexualidade em si não significa
somente atração por pessoas do mesmo sexo, quando há dificuldade em interagir com o diferente
de si mesmo, para aceitar o outro incondicionalmente abandonando-se e deixando-se ser formado
pelo diferente, sem desviar o olhar de si mesmo, sem pretender homologar sutilmente a realidade
a si123.
A homossexualidade não estrutural, pelo contrário, normalmente nasce na idade pre-
adolescente (talvez por brincadeira, por curiosidade, por exibicionismo ou por violência sofrida);
determina uma atração pelo mesmo sexo motivada por tendências não necessariamente genitais-
sexuais, mas por outros problemas não resolvidos (por exemplo: por sensações de inferioridade,
ou por medo do sexo oposto, por uma necessidade de intimidade, por temor da diversidade ...);
não invade toda a personalidade nem é sempre presente, e é ralativamente controlável pelo
sujeito, em particular não cria o problema (anti)relacional.
Relação da pessoa com a propria tendência homossexual
A homossexualidade estrutural considera normal a própria tendência, justificando-a, não
sofre com ela, nem a combate, nem ver por que a teria de modificá-la, considera-a como uma
simples variante, porém, de fato a padece, tende além disso a negar os aspectos conflituais
relacionados à mesma tendência que vimos no primeiro ponto. A sua atitude, postura é
egossintônica em relação a sua própria orientação sexual, a sua própria homossexualidade.
A homossexualidade não estrutual ao contrário reconhece a própria tendência e a vive
como um corpo estranho a si mesmo (non se identifica com ele), como algo que se sofre e que não
o quereria sofrer, e vive diante de Deus como uma fraqueza e como aquilo que o mantém
consciente dos seus limites, algo em que consegue ver os aspectos objetivamente carentes e que
combate cada dia para aprender sempre a mantê-la sob controle, não somente na vontade e no
121 Cf. Congregação para a Educação Católica, Instruções a cerca dos critérios de discernimento vocacional referente as pessoas com tendencias
homosexuais em vista da admissão aos seminários e nas ordens sagradas. 4 novembro 2005
122 Refiro-me para esta distinção àquilo que já disse no livro “Quando a carne é fraca” páginas 50-74 e em “Tendencias homosexuais transitórias:
como reconhecê-las (e em seguida superá-las) em vista da admissão as ordens sagradas”
123 C. Zuccaro. “Unidade da pessoa e integração sexual. Possibilidades e limites” em Rassegna di Teologia 36 (1995)6, 713 nota 43. Vimos antes que
a sexualidade é também “escola da diversidade”, energia que empura para o diferente de si. A partir deste ponto de vista, e a prescindir de
componentes mais retintamente sexual, a homosexualidade é e comporta uma carência objetiva do punto de vista da relação interpessoal. Se o
diferente (a alteridade) é parâmetro evolutivo ou a linha por onde passa o desenvolvimento psicológico, afetivo, ralacional, sexual do ser humano, a
mesma alteridade encontra na sexualidade e na diversidade dos sexos o seu sinal mais expressivo e o símbulo radical, o sinal mais evidente e a sua
confirmação mais clara, mais ainda uma indicação precisa para seguir ou um objetivo a perseguir constantemente na vida.
A Hora de Deus
101
CAPÍTULO 08
comportamento, mas também no desejo e na atração. Em vista de uma superação dos possíveis
conflitos do seu comportamento em relação a sua tendência homossexual é ego-alienante.
Qualidade do controle comportamental
Finalmente, se torna discriminante o comportamento e a sua qualidade.
A homossexualidade estrutural é assunto de risco nesta matéria: ou porque de fato não
domina o próprio impulso em se tratando da conduta, ou quandose consegue
controlá-la, isso custaria o preço de uma tensão muito alta (a famosa tensão de
frustação), que deixa o sujeito profundamente insatisfeito visto que sente o próprio sacríficio
como uma renúncia obrigatória (pelo externo ou pela lei) e não motivada (pelo interno, por uma
convicção pessoal) ou pouco motivada, pois isso implica o dizer “não” a alguma coisa que
compreende ser muito importante para si e para o seu equilíbrio psicológico, como um sacrifício
tão caro e doloroso para lhe convencer que ele não pode deixar de fazer. Tal tensão não é salutar
e em todos os casos, não lhe faz crescer.
Totalmente diferente é o controle comportamental da homossexualidade não estrutural, o
qual aprende progressivamente a controlar a própria tendência com uma renúncia feita por amor
de um valor (= a sua identidade contida na escolha vocacional), valor que o coração começa a
apreciar e a mente descobre cada vez mais a verdade da própria vida. Tal tensão é sadia e faz
crescer uma vez que governada por um dinamismo intra-psiquico e ele faz com que a renúncia
tenha um fim, seja inteligente e libertadora.
Para um correto discernimento os tres elementos indicados deverá estar juntamente
presente, isto é, para falar de homossexualidade não estrutural se deverá verificar todos os tres
âmbitos anteriormente descritos com a presença dos comportamentos que acabamos de indicar.
b) Fixação
Na pre-adolescência, depois do período de latência124 da energia sexual, há como um
acordar desta sexualidade que passa atravéz destas fases: autoerotismo, homoerotismo e relação
heterodireta. Quando alguma coisa acontece (impedindo o desenvolvimento natural) nestas
etapas é possível o fenômeno da fixação (e nós vimos um exemplo deste tipo na descrição da
homossexualidade não estrutural que precisamente nasceria nesta fase). A fixação, na realidade é
um mecanismo defensivo através do qual a pessoa não permite que ela mesma cresça, e no nosso
caso, na area afetiva-sexual, se bloqueando a um certo estado evolutivo que, no nosso contexto
poderia ser ou aquela infantil ou aquela pre-adolescência (momento autoerotico ou homoerotico),
e seria qualificável mais precisamente como uma fixação (ou bloqueio) na fase genital.
São sinais de fixação algumas reações afetivas narcisistas125 de consagrados adultos, como
por exemplo:
- comportamentos as vezes escondidos e as vezes habilmente justificados de ciúmes infantis no
viver uma amizade ou no dirigir a pastoral (“o meu amigo ... o meu grupo ... o meu ministério...”
“os meus colaboratores... a minha paróquia”...) é o tradicional padre “puer aeternus126”do qual já
falamos, que deve colocar-se sempre ao centro de tudo e de cada realização, e este termina por
vincular-se a poucos ou a pouquíssimos e a ignorar o grupo;
- praticas autoeroticas que indicam uma fixação a primeira fase do desenvolvimento afetivo-sexual
da pre-adolescência e que normalmente mostram no adulto um problema de relação, uma
afirmação típica dos pre-adolescentes que talvez vivem uma sensação de inferioridade com
relação aos outros, de ser auto-suficientes levando-o a procurar sozinho o prazer sexual. Por isso
124 Psicol. Período de latência: período que vai do declínio da sexualidade infantil (no fim do complexo de Édipo) até ao início da puberdade, e que é
caracterizado por uma interrupção na evolução sexual.
125 Que ou aquele que pratica o culto da sua própria pessoa. Si gabar.
126 Puer aeternus = eterna criança.
A Hora de Deus
102
CAPÍTULO 08
mesmo a masturbação nunca é um fenômeno somente sexual, sobretudo se bastante frequente,
mas um gesto que mostra uma personalidade que ficou uma boa parte no estado pre-adolescente.
E seja como for, é também uma violência que si faz a sexualidade, e que ao contrário visaria – por
sua própria natureza - a uma relação.
- curiosidade sexual no molde ainda da pre-adolescente ou adolescente no consagrado que rouba
com olhar furtivo e nunca satisfeito, e sem respeito ao outro/a imagens e
sensações ilusórias de gratificação. E sendo curiosidade de tipo (pre)adolescente e
satisfeita como pre-adolescente (isto é, sem alguma relação com o outro, mas unicamente
olhando o próprio impulso), é evidente que não poderá apagar definitivamente o adulto, porém
ao contrário o gesto deverá ser continuamente repetido até criar uma dependência. O aspecto
mais grave é que, assim fazendo, com este tipo de gratificação – se torna habitual e repetido – no
padre adulto continuam a viver mais ou menos evidentes comportamentos pre-adolescentes que
não tardam a manifestar-se também em outras áreas da personalidade (sempre por uma posição
central da sexualidade na nossa geograria intrapsiquica);
- o contentar-se de viver uma sexualidade virtual, feita substancialmente de relações falsificáveis
com corpos de papéis (fotos) ou imagens da Web, no completo anonimato e sem se comprometer
com ninguém, e ainda sem respeito pelo outro e nem mesmo por si, sem alguma responsabilidade
adulta, nem alguma prospectiva de ralação real, séria e durável no tempo; e sempre numa lógica
de captura de um desenvolvimento de uma fase adolescente.
- enfatização da sexualidade, compreensível na adolescência e um pouco menos nos consagrados
adultos que ainda sonham e idealizam, como um aprendiz que vai à descoberta do sexo, a
descoberta do fruto proibido.
Nestes casos a sexualidade ficou infantil ou (pre)adolescente e o indivíduo não cresceu, ou
pelo menos por alguns aspectos. Com notáveis conseguências sobre o plano das relações e da
mesma atividade ministerial, ainda se somente raramente a pessoa compreende a correlação.
Imaturidade, seja como for, não é só um único episódio, do tipo isolado, quando o
comportamento habitual e privado de consciência crítica (ou de remorso), ainda que se vai
acrescentado realisticamente que, especialmente se referindo a sexualidade, cada singular
episódio termina por influenciar no estado de maturidade geral, e jamais inocuo127.
c) Regressão
A regressão pelo contrário, é uma reação ao tempo presente com comportamentos do
passado, ou seja, não é um verdadeiro bloqueio insuperável, mas uma especie de reitengração
reedição dos modos de fazer e se relacionar (ou não relacionar) típicos do próprio passado, e que
explode como uma reação a determinadas situações percebidas como problemáticas. Por
exemplo:
- a busca anciosa de afeto por parte do jovem presbítero, que era um sério noviço ou seminarista,
muito correto, e que agora encontra-se vivendo uma inédita situação de solidão sem a proteção
de certas estruturas, que hoje apegar-se a alguém ou procura intimidades as vezes físicas para não
se sentir sozinho, ou se fecha ainda na masturbação iludindo-se em pensar que não precisa do
outro.
- ou o inamorar-se do religioso aos 40 anos (mais ou menos), e além disso, ele enfrenta pela
primeira vez a sensação da vida que sai de suas mãos, que lhe escapa, ou um certo insucesso,
fracasso, e percebendo um certo vazio dentro de si e a necessidade de preenchê-lo, o torna
vunerável e sempre mais dependente diante de quem lhe dar atenção e afeto, como a mãe o deu
um tempo atrás.
127 Que não é nocivo, que não faz dano; inofensivo.
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CAPÍTULO 08
- um terceiro exemplo que podemos encontrar nesta descrição, dado por O. Clément, de uma
situação de “pseudocastidade” que pode prorrogar por toda a vida: “uma pseudocastidade, em
que há um certo compromisso por medo do sexo e por medo do outro, isso porque
a pessoa ficou presa ao amor excessivo provocado durante a infância pela própria
mãe; esta pessoa trás consigo uma regressão narcisista, uma tensão agressiva, uma sede de
possuir e de seduzir as almas128”.
Em todos os tres casos, há como um retorno ao seio materno ou tem uma certa coloração
já apreciada (eis porque procura preferivelmente uma mulher), ou simplesmenteum fechar-se em
si, na presunção ilusória de evitar a dureza da situação, porém ariscando-se de se tornar muito
duro com os outros, agressivo e sedento por poder, como consequência em todo caso de não
aproveitar as provas da vida para amadurecer na fé e na consagração.
Na verdade tudo isso, ou seja, este “retorno” a um estado infantil ou adolescente, cria
antes de tudo uma contradição com o estado e as exigências da vida adulta, e em seguida um falta
de equilíbrio na vida individual e social da pessoa, que reage as circunstâncias (críticas) da vida
adulta com comportamentos impróprios e compromissos prejudiciais. Aqui a imaturidade nasce
por não ter aprendido a crescer com a vida e se alimenta com a negação de suas provocações, que
são temidas e ingnoradas. Além do mais é claro que o sujeito mostrará sempre mais os sinais da
fase ao qual regrediu, também em outros setores comportamentais.
E a crise, com efeito, não será para estes sujeitos momento providêncial.
d) Compensação
Enfim, sempre segundo o estado evolutivo, há uma possibilidade da compensação, um
posterior mecanismo defensivo com o qual a pessoa tenta balancear os componentes negativos
de uma situação qualquer da vida, como pode ser uma renúncia ligada a uma escolha (de tipo não
bastante motivada e convicta), buscando em outras situações existênciais a gratificação, as vezes
de maneira forçada e não controlada. No nosso caso é o perigo que corre principalmente o
sacerdote celibatário ou o religioso casto quando a sua escolha da castidade perfeita é fraca, débil,
e precária (segundo as convicções e o vivido), e o expõe portanto a necessidade de compensações,
exatamente, com as quais quer atenuar o peso da renúncia.
A compensação poderá ser buscada no mesmo campo da sexualidade, através de
gratificações parciais (“geralmente aceita a renúncia, porém poderá conceder-lhe algumas
pequenas gratificações...”), gratificações todavia desviantes com relação a própria identidade,
como por exemplo cultivar relações afetivas como forma de “pseudo-intimidade” típicas de outros
estados vocacionais e que de fato distraem o celibatário do seu verdadeiro Ser, ou – pior ainda – é
uma obscura necessidade de compensação tendo como origem as vezes comportamentos
desviantes, como práticas pornográficas, ou parafilias129 equívocas que ao final não compensam
nada e ainda criam abismos de solidão, de despreso pessoal, além de danos as vezes irreparáveis.
Outras ocasiões a compensação determinará uma procura em outras áreas da
personalidade, por causa da falta de gratificação na área da sexualidade. Todavia, em tal caso sem
oferecer uma real gratificação, sem resolver nenhum problema, no máximo a compensação o
disfarça. É como um prato de frutas artificiais, ou como um falso satisfazer-se, porém pode criar
gostos, costumes e dependências similares as reais que será difícil de liberar-se delas.
É um problema que pode se tornar muito sério também para o celibatário consagrado.
Como vimos, quando falamos da sexualidade como microssistema da personalidade, na verdade, a
128 O. Clément, A Revolta do Espirito, Milão 1980, 254. Assim continua a reflexão do nosso teólogo ortodoxo: “ A verdadeira castidade, ao contrário,
é uma disponibilidade modesta, uma acolhida desinteressada, uma ternura que não é dengosa, uma presença que desperta e dar paz afim de
assumir o autro na oração. O “eros” crucificado resuscita na disponibilidade. O outro estar definitivamente além de qualquer possibilidade de
possessão.
129 Parafilia = Designação genérica para comportamentos sexuais que se desviam do que é geralmente aceito pelas convenções sociais, podendo
englobar comportamentos muito diferentes e com diferentes graus de aceitabilidade social.
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CAPÍTULO 08
renúncia do exercício do impulso genital-sexual coloca o celibatário em uma condição de pobreza,
privando-o de uma normal válvula de escape (ou desabafo) não só do impulso sexual, mas ainda
de outras necessidades sejam diretas ou indiretamente relacionadas a ela (desde a agressividade à
afirmação do “eu”, do domínio à dependência). Isto o celibatário pelo reino dos céus
deve saber bem e dizer a si mesmo com muito realismo, deve se preparar para esta
situação de pobreza (e renúncia), antever os efeitos e as implicações potencialmente negativas e
se dispor tanto quanto possível a previnir-lhe para não cair na emboscada da procura mais ou
menos inconsciente de compensações. Fundamentalmene como?
Como se de alguma forma aumenta a dimensão ou o peso da renúncia (ou da necessidade
ou das necessidades não realizadas), essencial será mais uma vez motivar a própria escolha com
uma grande atração ou com um grande amor, única e verdadeira força fornecida ao celibatáro
para “suportar” a menor satisfação dos outros estados da própria vida impulsiva.
Todavia será possível, em uma ótica de realismo que convém a prospectiva do celibatário,
fazer alguma coisa diferente para atender as necessidades que são naturais em nós e que seria
arriscado deixar “suspenso – incerto”: o celibatário pode e deve saber encontrar outras
alternativas como válvulas de escape aos próprios impulsos, alternativas e saídas que seriam
conforme aos valores e coerentes com a própria escolha. Dito diferentemente, ele deverá recorrer
àqueles mecanismos defensivos que são ... bons, de natureza inteligentemente adaptada, ou seja,
que lhe permitam de estar fortemente e autenticamente motivado130.
Tais mecanismos são defensivos sobre a verificação da realidade, consentem enfrentar o
conflito, que são as vezes flexíveis (colocado em ato pela própria necessidade) e circunscrito (ao
problema em questão), permitem um melhor funcionamento da pessoa humana. Um exemplo
deste tipo de mecanismo poderia ser o humorismo131, ou seja, a capacidade de não levar a sério
tudo, nem mesmo os proprios problemas, ter sempre um boa dose de bom censo132; ou a
capacidade criativa, que permite de compreender de modo correto, talvez também em modo
original, como exprimir aquelas necessidades que riscam de ficar de fora e criar problema: haverá
uma modalidade autêntica para o padre exprimir afeto, por exemplo através principalmente da
amizade com o amigo padre ou com um grupo de amigos padres, com os quais realizar,
compartilhar fraternalmente os seus pensamentos, aspirações, cansaços, fé, doando-se e
recebendo através da estima e simpatia sincera, mas também deverá encontrar um modo de viver
a agressividade como força reagente diante dos obstáculos e outras mesquinhezes, como
liberdade de indignar-se diante ao mal e de opor-se aos abusos e opressões dos poderosos, deverá
procurar a via da correta apreciação de si, da verdadeira realização de si, segundo um itinerário
130 Segundo a psicologia os mecanismos defensivos podem ser de várias naturezas: por aqueles que falsificam pesadamente a relação com a
realidade (os quais as defesas narcisitas, como a negação ou o reiteração social, ou aquelas neuróticas como a idealização primitiva ou o
pensamento mágico) ou aqueles que ao contrário nos facilita a mesma relação nas circunstâncias um pouco complexa da vida. (A. Cencini)
131 Assim o define Meredith : « A capacidade de rir das coisas que se amam (incluído naturalmente nós mesmos e as coisas de que se preocupam).”
132 Um bonito exemplo de humorismo unido ao bom censo pode ser aquele escrito autobiográfico, encontrado entre as anotações de um religioso
que acabou de morrer (Pe. Filiberto). Este escrito remonta sua idade jovenil onde ele dizia de si mesmo: “E então meu caro velho Berto, está
apaixonado ... como te conheço, daqui a pouco tentará relacionar com alguém fazendo “discorsos” sobre o amor, sobre a arte sublime do corpo
humano, sobre a fantasia do criador. Depois ficará inchado, em seguida ficará vermelho como um pimentão assim que Loredana aparecer e quizer