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Psicologia do Desenvolvimento.
1. Questões de Estudo da Psicologia do Desenvolvimento
A Psicologia do Desenvolvimento é uma das muitas áreas da ciência psicológica e suas
preocupações abrangem questões do tipo:
• Quais elementos influenciam o desenvolvimento humano?!
• Qual o peso da genética e do ambiente no desenvolvimento humano?!
• Que aspectos do ser humano mudam e quais permanecem os mesmos ao longo da
trajetória da vida?
• Como podemos auxiliar as pessoas a terem uma vida mais plena, realizando seus
potenciais e prevenindo problemas?
• Aspectos físicos, bem como as formas de pensar, agir e sentir variam ao longo do
tempo? E se variam, que aspectos podem conduzir a mudanças?
Falar em Psicologia do Desenvolvimento é, portanto, falarmos da roda da vida, onde ao
mesmo tempo em que novos aspectos surgem, outros se desfazem: as mortes de certos
elementos vão abrindo caminho para que outros surjam.
Olharmos para nosso passado, ou tentar imaginar como estaremos daqui a 20/30 anos é
termos a oportunidade de contemplar a vida e suas transformações, seus diferentes ciclos,
como bem salienta Berger no trecho a seguir:
Definido sucintamente, o estudo científico do desenvolvimento humano é a área de
conhecimento da psicologia que busca compreender como e por que as pessoas se modificam,
e como e por que elas permanecem as mesmas nos vários momentos de sua vida, à medida
que envelhecem. Na perseguição desse objetivo, examinamos todos os tipos de modificações
que encontramos - simples crescimento, transformação radical, melhorias e declínio - e
quaisquer elementos que permaneçam os mesmos, proporcionando continuidade dia após
dia, ano após ano ou geração após geração (BERGER, 2003, 3).
Sendo uma área de estudo interdisciplinar, a Psicologia do Desenvolvimento tenta se valer de
conhecimentos de outros ramos do saber (como a biologia, a medicina, as ciências sócias, a
antropologia, economia, política, geografia, etc.), assim como pretende auxiliar, de diferentes
formas, outras áreas do conhecimento propondo que se pense o ser humano, seu percurso de
vida, suas perdas, conquistas e desafios ao longo do tempo, as influências sofridas a partir de
diferentes elementos, sejam internos ou externos.
Quando falamos sobre desenvolvimento humano também é importante considerarmos que
este possui características importantes, quais sejam:
. É multidirecional, pois nem sempre a modificação. Ganhos e perdas, compensações e
deficiências, crescimento previsível e transformações inesperadas fazem parte da experiência
humana;
. É multicontextual já que cada vida humana deve ser entendida como pertencente a muitos
contextos;
. É multicultural, uma vez que, para conhecer os aspectos universais e específicos do
desenvolvimento humano, muitas configurações culturais - cada qual com um conjunto
distinto de valores, tradições e recursos para a vida - devem ser consideradas;
. É plástico, pois cada indivíduo, e cada característica de cada indivíduo, podem ser alterados
em qualquer ponto da vida. Tal característica revela um aspecto valioso a respeito do
desenvolvimento: “quando se trata de uma vida humana, nada é esculpido em pedra para
sempre. As pessoas estão sempre evoluindo, com taxas, graus, aspectos e rumos específicos
de sua evolução sendo muito mais variáveis do que os cientistas jamais puderam supor”
(Berger, 2003).
1.2. A Construção do Saber em Psicologia do Desenvolvimento:
Para construir seu saber a Psicologia do Desenvolvimento lança mão de diferentes métodos de
pesquisa, tais como:
1) Observação: observa-se o sujeito em seu meio natural, ou em condições controladas,
registrando-se os aspectos que interessam ao investigador.
Em creches, podemos observar o comportamento dos bebês durante a alimentação, como
interagem com outras crianças, como se comportam na ausência da mãe.
Na sala de aula, podemos observar os alunos, seus interesses pelas disciplinas, sua relação com
os colegas e professores, assim como o professor se comporta em sala de aula, como se dirige
aos alunos, que recurso de ensino utiliza, etc.
Em condições naturais, o investigador procura interferir o menos possível nas situações,
evitando, inclusive, revelar sua identidade para que os sujeitos a serem observados não
mudem seus comportamentos em virtude da presença do investigador.
Além da observação naturalista, há a possibilidade de realizarmos observações em condições
controladas.
Numa situação de laboratório, por exemplo, podemos estudar como uma criança se comporta
quando a mãe sai da sala e retorna após alguns minutos; como uma criança age ao brincar
sozinha ou quando está na companhia de outros pares, etc.
2) Entrevistas:
A entrevista é outra técnica muito usada nas pesquisas em psicologia do desenvolvimento.
Dependendo dos objetivos da pesquisa, podem-se entrevistar crianças, adolescentes, adultos
em geral, professores, alunos, profissionais, etc.
No entanto, a entrevista exige alguns cuidados, especialmente os que se referem à
possibilidade do entrevistado mentir, omitir, ou ainda de o entrevistador induzir respostas no
pesquisado.
Num estudo sobre cuidados da população com a saúde, por exemplo, questões do tipo:
“quantas vezes toma banho ao dia?/quantas vezes escova os dentes ao dia?” são altamente
provocadoras de informações falsas, pois se deve levar em conta que para “agradar” o
entrevistador, ou para que ele não tenha má impressão de quem fala, podem-se omitir dados.
Piaget, famoso biólogo que estudou como a construção do conhecimento se dá em diferentes
idades, observava e entrevistava os próprios filhos a respeito de diversos assuntos para
identificar como eles pensavam.
Apesar de permitir a obtenção de ricos dados, especialmente sobre a vida interior dos sujeitos,
a entrevista apresenta algumas desvantagens, como o fato de requerer um longo tempo para
ser realizada com uma quantidade maior de pessoas.
3) Questionários:
Recurso utilizado especialmente quando quero obter a maior quantidade de dados, do maior
número de pessoas possíveis num curto intervalo de tempo.
No mundo atual, com as facilidades da internet, tornou-se, inclusive frequente o número de
pesquisadores que enviam questionários por e-mail.
No entanto, cuidados com o tipo de pergunta formulada e a possibilidade de induzir algum
tipo de resposta no sujeito também devem ser tomados.
Como quase sempre o pesquisador não está presente quando o pesquisado preenche o
questionário, devemos contar com a possibilidade de que este não compreenda a pergunta
formulada, o que reduz a confiabilidade das respostas obtidas.
4) Testes: também podem ser aplicados quando queremos medir algum aspecto do
desenvolvimento dos indivíduos, tal como psicomotricidade, raciocínio, atenção, etc.
A opção pelo teste requer que o pesquisador escolha material adequado para a faixa etária
estudada e o contexto no qual o sujeito vive, já que diferentes aspectos variam de acordo com
a cultura.
Em Psicologia do Desenvolvimento podemos, ainda, realizar diferentes tipos de estudo, tais
como:
5) Experimentação:
Este método é derivado das ciências naturais.
Neste tipo de estudo o pesquisador testa uma hipótese inicial através da manipulação de
certos elementos: observa-se a influência de uma determinada variável, dita independente,
sobre outra, chamada de variável dependente.
Para verificar se os padrões de disciplina familiar implicam em comportamento agressivo por
parte de crianças, um pesquisador poderia planejar um estudo no qual algumas famílias de
crianças agressivas receberiam treinamento em técnicas melhores de disciplina (grupo
experimental), e outras famílias que não receberiam nenhum treinamento (grupo controle).
Ao final de um tempo o pesquisador poderia observar se as crianças cujas famílias haviam
recebido instrução apresentavam menos comportamentosagressivos.
Por envolver estudos com seres humanos, o pesquisador da área de Psicologia do
Desenvolvimento deve observar as normas a respeito de pesquisa, não devendo nunca deixar
de lado os aspectos éticos e as implicações de seus estudos na comunidade e na vida dos
sujeitos estudados.
6) Estudos Transversais:
Para identificar melhor as mudanças e continuidades ao longo do tempo, os pesquisadores
podem realizar estudos transversais.
Neste tipo de estudo grupos de indivíduos de diferentes faixas etárias são estudados,
realizando-se comparações entre eles.
Saber se uma criança e um adolescente pensem, sentem e se comportam da mesma forma
seria um problema a ser respondido por estudos transversais.
Estes estudos costumam ser rápidos, mas em contrapartida podem apresentar aquilo que se
conhece como problema de coorte.
Um coorte designa um grupo de indivíduos nascidos dentro de uma faixa bastante estreita de
anos.
O problema é que coortes sucessivos podem ter experiências de vida bastante diferentes.
Neste caso não saberíamos dizer ao certo se característica de um grupo etário se deveriam a
influência de um contexto histórico, político e econômico ou a reais diferenças etárias.
7) Estudos longitudinais:
São pesquisas realizadas em longo prazo, acompanhando o processo de desenvolvimento de
um grupo de pessoas da mesma faixa etária.
De tempos em tempos os pesquisadores procuram estes sujeitos, os observam, entrevistam,
aplicam testes, tudo tentando identificar como eles mudam e permanecem os mesmos ao
longo do tempo.
Estes estudos são caros, demorados, realizados com amostras pequenas, além de serem e
arriscados, uma vez que os sujeitos amostrados podem falecer mudar-se e recusarem a
continuar participando dos estudos.
Apesar disto, os estudos longitudinais nos permitem verificar a reação humana frente ao
divórcio dos pais, desemprego, ganhos e perdas em geral.
8) Planejamentos Sequenciais:
É um tipo de planejamento que visa contornar uma série de desvantagens dos estudos
transversais e longitudinais.
Nele há uma combinação entre estudos transversais, longitudinais ou ambos, com, por
exemplo:
- Planejamento de intervalo de tempo: formam-se os grupos de idade e de tantos em tantos
anos eles passam por observações em relação aos aspectos estudados, o que diminui os
efeitos de coorte.
- Planejamento sequencial cruzado: alguns grupos transversais são formados e depois
acompanhados longitudinalmente por um número determinado de anos.
Por implicarem em menos gastos e riscos de que os sujeitos deixem de participar do estudo,
têm sido cada vez mais realizados.
2. FATORES DETERMINANTES DO DESENVOLVIMENTO HUMANO
A Psicologia do Desenvolvimento constitui-se num dos diversos campos de
estudo/investigação da Psicologia, estando preocupada com questões bastante complexas,
tais como: qual é a natureza do desenvolvimento humano e como explicar mudanças e
continuidades ao longo deste processo? O desenvolvimento obedece a padrões universais?
Que mudanças/continuidades se devem a aspectos culturais e aos biológicos? As experiências
posteriores ao nascimento influenciam o processo de desenvolvimento humano?
O presente texto busca congregar concepções e propor reflexões a respeito dos fatores
determinantes do desenvolvimento humano.
De acordo com Bock (1999), os fatores determinantes do desenvolvimento humano são:
Hereditariedade;
Crescimento Orgânico;
Maturação;
Meio.
Hereditariedade X Meio:
Os debates a respeito da contribuição dos aspectos genéticos e dos aspectos ambientais ao
desenvolvimento humano não é recente.
Desde a Antiguidade a filosofia tem se debruçado sobre tal questão através das discussões
sobre o nativismo e o empirismo, tendo como representantes maiores deste período histórico
os pensadores Platão e Aristóteles, respectivamente.
Na Idade Moderna, filósofos como Descartes realimentaram os debates sobre o inatismo
enquanto pensadores como Locke continuavam a defender o empirismo, chegando ao ponto
de afirmar que a mente humana seria uma espécie de tábula rasa na qual a experiência
imprimiria sua marca.
No que tange à psicologia do desenvolvimento a concepção inatista redundou na visão
organicista de desenvolvimento que, sem necessariamente negar o papel da experiência,
enfatiza os processos de desenvolvimento que têm caráter universal, e raízes em
características inatas.
Teorias do desenvolvimento humano como as formuladas por Freud e Piaget seguem este
modelo, pois se referem a determinados estágios que são universais e que seguem um
caminho invariável de estágios.
O empirismo, por sua vez, redundou na tradição mecanicista, enfatizando aspectos do mundo
exterior que moldam o comportamento humano, e que influenciaram largamente a psicologia
da aprendizagem.
O reflexo do debate ambiente X natureza pode ser visto no dia-a-dia, para longe do plano
científico, em concepções populares como: “filho de peixe, peixinho é”; “pau que nasce torto,
morre torto”.
Atualmente, visões tão radicais foram banidas da Psicologia do Desenvolvimento, mas a
preocupação em identificar contribuição de cada um destes fatores no processo de
desenvolvimento humano permanece e neste sentido as pesquisas com gêmeos idênticos e
fraternos e com filhos adotivos são recorrentes.
Mais recentemente, as questões sobre o papel da hereditariedade X meio são e enriquecidas
pelo desenvolvimento de novas tecnologias na investigação do código genético. O Projeto
Genoma, oficialmente iniciado nos ano de 1990, com o objetivo de identificar e fazer o
mapeamento dos genes humanos é um exemplo disto.
Para algumas características herdadas o genético é claramente dominante, para outras, são
mera probabilidade.
Parte-se do princípio que a hereditariedade e o meio interagem continuamente e de forma
complexa ao longo do processo de desenvolvimento, mesmo quando nos referimos a aspectos
do desenvolvimento físico.
Paralelo a isto, entende-se hoje que, até mesmo os aspectos herdados podem interferir no
contexto ambiental, como nos mostram estudos como os de Alvarega & Piccinini (2007), sobre
a influência do temperamento infantil nos estilos de cuidado parental.
Da mesma forma, Bee (2003) refere-se ao fato de que a forma como encaramos nossa
experiência pode afetar o processo de desenvolvimento.
As contribuições do psicanalista John Bowlby (2006) a respeito do desenvolvimento de
modelos de apego exemplificam o que afirmamos, da mesma forma que levanta mais
polêmicas: a forma como encaramos o mundo pode ser em parte influenciada por aspectos
genéticos?
Maturação:
A maturação é uma das formas pelas quais a natureza imprime sua marca no processo de
desenvolvimento.
Ao nos referirmos à maturação, estamos falando de uma espécie de programação genética
que garante uma sequência desenvolvimental: engatinhamos, depois andamos, por exemplo.
Mas mesmo quando nos referimos à maturação, cabe-nos frisar que o timing da experiência
pode variar de um indivíduo para outro e que sem a participação de aspectos ambientais a
programação genética pode não se cumprir, ou ser retardada.
O exemplo das meninas-lobo, Amala e Kamala seriam um exemplo do que falamos.
Tendências Atuais:
Nas últimas décadas a ênfase dada aos fatores ambientais ao processo de desenvolvimento
humano tem se ampliado.
O Modelo Ecológico de Desenvolvimento Humano e a Perspectiva Histórico-Cultural são um
exemplo disto.
3. AS TEORIAS DO DESENVOLVIMENTO HUMANO
1. A Psicanálise e o Desenvolvimento Humano
No século XIX, em Viena, cidade da Áustria, Sigmund Freud (1856-1939) revolucionou a
ciência.
Num momento histórico em que o Homem acreditava ser o “senhor do mundo”, o
“senhor de si mesmo”, Freud desenvolve um conjunto de ideias onde nos encontramos sob a
influência de forças que desconhecemos e que não podemos controlar:o inconsciente, uma
região obscura e que funciona de modo ilógico, como vemos nos sonhos.
Além disso, também chocou o mundo ao afirmar que a infância não é uma época de calmaria e
que a sexualidade está presente em nossas vidas desde que nascemos.
Para ele o Ser Humano é também uma criatura que vive em conflito interior constante
e que possui tanto uma força (pulsão) que o mobiliza para o prazer quanto para a
agressividade.
Freud, sendo médico psiquiatra, construiu a teoria psicanalítica a partir da escuta e da
observação de pessoas (especialmente mulheres) em sofrimento.
Ao longo do acompanhamento de seus pacientes, Freud observou que aquilo que nos
machuca, que nos agride, que ofende nossos valores estéticos, religiosos e morais tudo aquilo
que, na verdade, gostaríamos de esquecer, não fica adormecido em nossas mentes, mas
permanece vivo e atuante na dimensão do inconsciente, fazendo força e querendo invadir
nossas mentes
Descrição Geral da Teoria
O modelo construído por Freud para explicar o desenvolvimento humano é chamado
de analítico: sendo médico, este correlacionou a ocorrência de eventos psíquicos a aspectos
do desenvolvimento físico humano, dividindo os estágios de desenvolvimento nas seguintes
fases a serem melhores descritas adiante: fase oral; fase anal; fase fálica; período de latência e
fase genital.
Em cada uma delas a energia do prazer, da vida (libido) encontra-se localizada numa
parte específica de nosso corpo, implicando numa forma de obtenção de prazer e de relação
com o mundo a nossa volta específica.
Entre a fase fálica e a genital ocorre um momento chamado período de latência, no
qual a libido se encontraria “adormecida” e investida em atividades socialmente úteis, no caso,
a entrada da criança no processo de escolarização formal.
Diz-se que a teoria de Freud é “universalizante” na medida em que este acredita que
em todas as épocas, lugares e culturas humanas, todos os Seres Humanos atravessariam as
mesmas fases e vivenciariam os mesmos dramas humanos.
Fase Oral
Segundo a psicanálise, ao nascer o bebê mantém um vínculo simbiótico com a mãe, ou seja, os
dois se encontram envolvidos por um vínculo de proximidade profunda, ao ponto de a mãe
identificar-se com o seu bebê, e este bebê ao ponto de não saber que ele e a mãe são seres
separados.
Apenas com o passar do tempo, a partir de pequenas frustrações impostas pela realidade, é
que o bebê vai desenvolvendo a consciência de se uma pessoa separada da mãe.
Ao sair do ventre materno, a criança teria que aprender a comer, a respirar por conta própria,
lutando agora pela própria sobrevivência,
No primeiro estágio do desenvolvimento humano, que iria do nascimento até mais ou menos
um ano de idade, a boca seria a parte do corpo mais sensível do bebê, sendo assim a criança
começaria a conhecer o mundo a sua volta através da boca.
O bebê degusta os alimentos, morde, lambe, suga tudo que encontra em seu caminho.
Neste momento o bebê vai desenvolvendo uma íntima relação com aqueles que lhe fornecem
alimento, e no momento da alimentação ao mesmo tempo em que o leite ingerido leva para o
corpo substancias necessárias para a sobrevivência do corpo, incorpora na relação com as
pessoas que o alimentam e cuida amor e/ou desamor para seu psiquismo.
Diz-se mesmo, que o primeiro objeto de afeto infantil é o seio, uma vez que ao nascer, como já
observamos, não possui ainda a capacidade de perceber a mãe por inteiro; assim como aos
poucos descobrirá o próprio corpo, descobrirá também o corpo dos que estão a sua volta.
Diz-se que se aqueles que cuidam da criança são pessoas predominantemente boas, o bebê
levará para dentro de si a bondade. Se pelo contrário o que predomina é a raiva, a
insegurança, a contradição é a raiva, a insegurança e a contradição que o bebê irá introjetar.
Para Freud a fase oral pode ser dividida em dois momentos: a etapa oral de sucção é a
primeira delas e durante a mesma o bebê possui uma postura mais passiva diante do mundo,
incorporando mais deste do que agindo sobre ele. Neste momento a fantasia quase sempre é
percebida como sendo a realidade e o mundo é percebido de forma fragmentária e parcial.
O segundo estágio da fase oral é acompanhado pelo surgimento dos primeiros dentinhos da
criança, sendo por isso mesmo chamado de etapa oral sádico-canibal.
Temos agora, neste momento, uma criança muito mais ativa e que demonstra claramente a
própria agressividade, usando os dentes para morder o seio e triturar os primeiros alimentos
sólidos.
Se a mãe compreende a energia agressiva do bebê, e não a pune de forma extrema, a criança
tende a aprender com o perdão e a encarar a própria agressividade de forma mais positiva,
uma vez que continuará precisando dela para lutar pela própria sobrevivência.
Uma vez ultrapassado este estágio, podemos, ainda na fase adulta, observar suas
contribuições na forma de nos relacionarmos nos comportarmos no mundo: é a pessoa que rói
unha quando fica nervosa; que não se cansa de mascar chicletes; é aquele que come para
aliviar preocupações, é aquele que deixa de comer para se punir ou punir as pessoas a sua
volta; é aquele que ganha dinheiro com a fala, seja cantando, dando aula, apresentando
programas de rádio ou TV.
Dizemos que uma pessoa ficou fixada na fase oral de sucção quando é extremamente passiva e
dependente dos outros a sua volta, parecendo ainda ser um bebe de boca aberta diante do
mundo, esperando receber alimento.
A Fase Anal
Para Freud aconteceria durante o segundo ano de vida, quando a criança vai alcançando a
maturação do controle muscular, especialmente da musculatura anal.
Este período seria repleto de fantasias em torno dos primeiros produtos que a criança coloca
no mundo: a urina e as fezes.
Para a teoria psicanalítica a criança sentiria tais produtos como valiosos, em virtude não
apenas de ser produção sua, mas ainda pela importância que o meio social parece lhes
atribuir: a família se preocupa se a criança tem prisão de ventre ou diarreia; as pessoas a sua
volta querem saber quando e onde defecou e urinou, etc.
Tantas preocupações, para uma criança que agora anda, corre, e tem uma maior percepção do
real, logo instauram uma nova modalidade de relação do infante com o mundo a sua volta: a
projeção e o controle.
Desta forma, seus produtos poderão se tornar “armas” projetadas no mundo para agredi-lo ou
“presentes” que ofertará aos que amam e se preocupam com ela.
De igual modo, poderão querer guardar apenas para si aquilo que sentem como valioso,
evitando dividir seus “tesouros” com o mundo, como no caso da prisão de ventre.
É ao longo do período de treino do uso do banheiro que a criança começará a assimilar os
primeiros hábitos de higiene, assim como a desenvolver uma possível repulsa por aquilo que
sai dela, isto especialmente quando aqueles que a educam são rígidos demais e intolerantes
com sua produção, o que mais tarde, na vida escolar, poderá ser observado na dificuldade de
ser criativa ou mesmo resolver as tarefas escolares. Pode ser o caso daquela criança que
insiste em não desenhar ou fazer uma redação por achar que nunca sua obra é bonita e digna
de atenção.
A medida que vai absorvendo as regras sociais que a proíbem de “brincar” com as próprias
fezes, a criança irá substituí-las por outros elementos de textura semelhante ao do xixi e fezes,
passando a interessar-se por eles, a brincar com eles, como é o caso da massinha de modelar,
da terra, da areia, das águas e da tinta guache.
Para a teoria freudiana, ao crescermos iríamos também substituindo as fezes pelo dinheiro,
passando inclusive a lidar com ele, da mesma forma que lidaríamos com nossos produtos
fecais: sendo gastadores compulsivos (diarreia) ou controladores em excesso (prisão de
ventre).
Em diversas profissões poderíamos ver também resquícios da fase anal, como no casodos
pintores e escultores.
Fase Fálica
Este período do desenvolvimento humano ocorreria mais ou menos dos três aos cinco anos de
idade.
Nele, a energia da vida (libido) se concentraria nos genitais, ocasionando um grande interesse
da criança pelo mecanismo da reprodução, pela diferença anatômica entre os sexos e pela
masturbação.
É necessário que se observe que o interesse sexual da criança neste período é diferente do
adulto: seu querer bem se relaciona não à atividade sexual genital, que ainda não vivenciou, e
nem compreende. Seu gostar se relaciona ao estar junto, ao dividir atividades prazerosas que
fazem parte do seu dia, como brincar junto, conversar, abraçar...
A não ser que a criança vivencie situações de abuso sexual, sua postura não será erotizada
como a do adulto.
É importante termos bem clara tal noção, pois para Freud, neste estágio, a criança viveria o
mais forte sentimento de amor de toda a sua vidar: o amor pelo pai do sexo oposto,
sentimento este acompanhado pelo desejo de ver-se livre dos pais de mesmo sexo, de quem
sente raiva e amor ao mesmo tempo.
A tal fenômeno Freud denominou de Complexo de Édipo, inspirado na tragédia Grega do
jovem Édipo que, sem saber, mata Laio, o próprio pai, para casar-se com Jocasta, a mãe que
não conhecia.
São sentimentos misturados e confusos que a criança irá reprimir a medida que for
percebendo que existe uma lei social que a proíbe de “casar” com seu objeto de amor. Além
disso, no caso do menino, este também temeria a possível vingança do pai, maior e mais forte,
vinda na forma da castração.
Freud viria a chocar especialmente o movimento feminista ao afirmar que, no caso da menina,
segundo Nasio (2007), a resolução do Complexo de Édipo seria difícil e demorada, pois, não
tendo falo, não teria porque temer a castração pela mãe.
Ainda, conforme explicita Nasio, a entrada da menina no drama edípico se daria por raiva da
mãe, por esta tê-la gerado sem um pênis. Assim, a menina se voltaria para o pai, que o possui,
passando a amá-lo.
Interessante é observar que tal inveja feminina do falo teria um fundamento sociológico: a
menina não desejaria o falo em si, pois ainda não vive uma sexualidade adulta, mas sim, o
poder e o prestígio do homem na sociedade. Sociedade esta, na época de Freud,
completamente patriarcal, machista.
Ao aceitar a realidade de que não pode ter o pai do sexo oposto, a criança sairia do Complexo
de Édipo e em troca, pelo acatamento da lei. Desenvolveria o Superego, parte de nossa
personalidade que representa a lei, a moral, a religião, o Direito, os bons costumes.
No entanto, na fantasia, posteriormente o ser humano poderia projetar a imagem dos pais
amados/odiados neste antigo triângulo amoroso na figura de uma terceira pessoa,
especialmente se esta ocupa lugar de prestígio, como é o caso dos professores.
Quantas vezes não ouvimos adultos se referirem, por exemplo, que um dia chamaram, por
distração, sem querer, a professora de “mãe”?
Período de Latência
Este momento, que começa por volta dos 6 e vai até o início da adolescência, não é
considerado um estágio de desenvolvimento, já que a energia da vida ficaria paralisada,
adormecida (latente como a Bela Adormecida dos contos infantis), sem se concentrar em
especial em nenhuma parte do corpo da criança.
Por outro lado, tal energia da vida seria investida em atividades socialmente úteis, como o
estudo. A este mecanismo de substituição de interesses sexuais por atividades e temas
considerados nobres pela cultura, Freud chamou de sublimação.
Desta forma, se nenhum grande acidente de percurso aconteceu com a criança até este
momento ela terá a possibilidade de concentrar sua curiosidade e energia na aprendizagem de
brincadeiras e conteúdos escolares.
Fase Genital
O ultimo estágio do desenvolvimento humano seria o genital, dando-se a partir da
adolescência em diante.
A puberdade proporcionaria o redespertar do interesse pela sexualidade, que desta vez
atingiria uma dimensão genital.
Sendo conquistado amadurecimento psicológico o indivíduo seria capaz de amar e trabalhar
no sentido pleno: cuidando do mundo e das próximas gerações, sendo capaz de criar laços e
neles investir; sendo capaz de trocar afeto genuíno com as pessoas.
Contribuições à Educação e Críticas a Respeito da Teoria Freudiana do Desenvolvimento
Humano
Na medida em que a dimensão afetiva do Ser Humano não deve ser desconsiderada quando
falamos de temas como aprendizagem escolar, entender o quanto as emoções podem
contribuir para nosso avanço ou paralisação, torna o estudo da teoria freudiana obrigatório na
área da Educação.
Dramas afetivos poderiam, inclusive, contribuir para que nos fechemos ao saber...
Por outro lado, o fato de não ter aprofundado a respeito do desenvolvimento adulto, bem
como a ênfase em características universais dos estágios de desenvolvimento humano são
motivo de grande crítica às teorias formuladas por Freud.
Seria possível falar, por exemplo, na inveja feminina ao falo em todas as sociedades? Seria
possível falar que todas as crianças do mundo passam exatamente por todos os estágios
descritos em todas as culturas e épocas?
Neste sentido, as críticas à teoria freudiana chamam a atenção para a diversidades cultural
existente em todo o mundo.
2. Teoria do Desenvolvimento Psicossocial de Eric Erikson
Erik Erikson, discípulo de Freud, nasceu na Suécia em 1902 e faleceu em 1994 aos 92 anos nos
Estados Unidos. No início de sua carreira dedicou-se a pintura de retratos, atividade que lhe
garantia algum ganho e flexibilidade para viajar. Nesta área teve uma carreira promissora e
destacou-se por seu talento artístico. O início do contato com Freud surgiu de um convite para
fazer o retrato de uma criança que, coincidentemente, era a filha de Freud. A partir deste
contato, Erikson começou a relacionar-se com a família Freud, muito especialmente com Anna
Freud, com quem iniciou psicanálise e com quem ganhou o gosto do estudo da infância.
Descrição Geral da Teoria
Em meados do século XX, Erikson começa a construir sua teoria psicossocial do
desenvolvimento humano, repensando vários conceitos de Freud, sempre considerando o ser
humano como um ser social, antes de tudo, um ser que vive em grupo e sofre a pressão e a
influência deste. A partir desta consideração, Erikson formula sua teoria de forma a deixar
duas importantes contribuições à Psicanálise, segundo Hall e colaboradores (2000): deixa uma
teoria na qual o ego tem uma concepção ampliada e realiza estudos psicohistóricos,
exemplificando sua teoria psicossocial no curso de vida de algumas figuras famosas. Essa
metodologia é totalmente nova para a Psicanálise da época e na própria psicologia, pois
estudos longitudinais eram muito raros e complexos de serem realizados (ainda o são hoje),
embora se mostrem como um excelente método de validar teorias como a de Erikson, que
trabalham o clico vital como um contínuo onde cada fase influencia a seguinte. Assim como
Freud, Piaget, Sullivan, entre ouras figuras da época, Erikson optou por distribuir o
desenvolvimento humano em fases. Porém, seu modelo detém algumas características
peculiares (Rabello, 2001) desviou-se o foco fundamental da sexualidade para as relações
sociais.
A proposta os estágios psicossociais envolvem outras artes do ciclo vital além da infância,
ampliando a proposta de Freud. Não existe uma negação da importância dos estágios infantil
(afinal, neles se dá todo um desenvolvimento psicológico e motor), mas Erikson observa que o
que construímos na infância em termos de personalidade não é totalmente fixo e pode ser
parcialmente modificado por experiências posteriores; A cada etapa, o indivíduo cresce a
partir das exigências internas de seu ego, mas também das exigências do meio em que vive,
sendo, portanto essencial a análise da culturae da sociedade em que vive o sujeito em
questão; Em cada estágio o ego passa por uma crise (que dá nome ao estágio). Esta crise
pode ter um desfecho positivo (ritualização) ou negativo (ritualismo); da solução positiva, da
crise, surge um ego mais rico e forte; da solução negativa temos um ego mais fragilizado; a
cada crise, a personalidade vai se reestruturando e se reformulando de acordo com as
experiências vividas, enquanto o ego vai se adaptando a seus sucessos e fracasso.
Erikson apresenta uma concepção de desenvolvimento em oito estágios psicossociais, que
desencadeiam em oito idades que vão do nascimento à morte. Cada estágio é atravessado por
uma crise psicossocial entre uma vertente positiva e uma negativa.
Estágios de Desenvolvimento
Primeira Idade: Confiança x Desconfiança (0 a 1 ano)
Neste período a criança é totalmente dependente das pessoas que cuidam dela, requerendo
cuidado quanto à alimentação, higiene, locomoção, aprendizado de palavras e seus
significados, bem como estimulação para perceber que existe um mundo em movimento ao
seu redor. O amadurecimento ocorrerá de forma equilibrada se a criança sentir que tem
segurança e afeto, adquirindo confiança nas pessoas e no mundo. Porém, Célia Barros afirma
que: “[...] se o bebê não for pronta e eficientemente atendido em suas necessidades, se for
negligenciado por sua mãe, desenvolverá um sentimento de desconfiança para com ela e, por
generalização para com outras pessoas” (2008, p. 90) .
Nesta fase também o bebê tem a ideia de sua mãe como um ser supremo, luminoso,
iluminado. Nesta mesma época, começam as identificações com a mãe, que é por enquanto, a
única referência social que a criança tem. Se esta identificação for positiva, se a mãe
corresponder, ele vai criar o seu primeiro e bom conceito de si e do mundo (representado pela
mãe). Se a identificação for negativa, temos o idolismo, ou seja, o culto a um herói, onde o
bebê acha que nunca vai chegar ao nível de sua mãe, que ela é demasiadamente capaz e boa,
e que ele não se identifica assim. Inicialmente, a criança vai se tornar agressiva e desconfiada;
mais tarde, elas vão se tornar menos competentes, menos entusiasmadas, menos
persistentes.
A importância da confiança básica é devida, segundo Erikson, ao fato de implicar a ideia de que
a criança “não só aprendeu a confiar na uniformidade e na continuidade dos provedores
externos, mas também em si próprio e na capacidade dos próprios órgãos para fazer frente
aos seus impulsos e anseios” (1987, p.102).
Segunda Idade: Autonomia x Vergonha e dúvida (1 a 3 anos)
Neste período, ocorre o desmame e a criança torna-se gradativamente mais independente da
mãe, passa a ter controle de suas necessidades fisiológicas e a responder por sua higiene
pessoal, o que dá a ela grande autonomia, confiança e liberdade para tentar novas coisas sem
medo de errar. Ainda sobre a questão, Célia Barros diz:
Neste estágio, nota-se que, conforme a atuação dos adultos, a criança pode ser levada ao
sentimento de autonomia ou ao de vergonha. Isso deve ser observado não só no lar, com
relação aos pais; também os professores da escola maternal e do jardim de infância podem
afetar o sentimento de autonomia de seus alunos (2008, p. 92).
Dessa forma, se a criança for incentivada pela mãe ou adulto a explorar o ambiente
livremente, dando-lhe oportunidade de agir sozinha, ela desenvolverá o sentimento
independência e autonomia, no entanto, se for criticada ou ridicularizada desenvolverá
vergonha e dúvida quanto a sua capacidade de ser autônoma, provocando uma volta ao
estágio anterior, ou seja, a dependência.
Na aprendizagem do controle, seja do autocontrole o do controle social, temos o nascimento
da força básica da vontade, que, manifestada na livre escolha, é o precedente essencial para o
crescimento sadio da autonomia. Essa vontade se manifesta em várias situações práticas,
como a manipulação de objetos, a verbalização eu se inicia, a locomoção que avança em suas
capacidades, tudo o que possibilite uma atividade exploratória mais autônoma e
independente.
Se ao invés da vontade o controle toma a forma de uma regra a ser cumprida a qualquer
preço, algo mau e perseguidor, a criança começa a se tornar legalista, ou seja, ela começa a
achar que a punição tem que ser aplicada incondicionalmente quando uma regra não for
respeitada. É quando a punição vence a compaixão; se a criança se mobiliza com a punição do
colega que perdeu o controle de uma regra, ou então se sente aliviado quando é punido por
algo. Neste estágio, o principal cuidado que os pais tem que tomar é dar o grau certo de
autonomia à criança. Se for exigida demais, ela verá que não consegue dar conta e sua
autoestima vai baixar. Se ela é pouco exigida, ela tem a sensação de abandono e de dúvida de
suas capacidades. Se a criança é amparada ou protegida demais, ela vai se tornar frágil,
insegura e envergonhada. Se ela for pouco amparada, ela se sentirá exigida além de suas
capacidades.
Vemos, portanto que os pais têm que dar à criança a sensação de autonomia e, ao mesmo
tempo, estar sempre por perto, prontos a auxilia-la nos momentos em que a tarefa estiver
além de suas capacidades.
Se a criança se sentir envergonhada demais por não conseguir dar conta de determinada coisa
ou se os pais reprimem demais sua autonomia, ela vai entender que todo o problema dela,
toda a dúvida e a vergonha vieram de seus pais, adultos, objetos externos. Com isso, começará
a ficar tensa na presença deles e de outros adultos, e poderá achar que somente pode se
expressar longe deles.
Terceira Idade: Iniciativa x Culpa (3 a 5 anos)
Neste estágio, que corresponde à fase fálica freudiana, a criança já conseguiu a confiança, com
o contato inicial com a mãe, e a autonomia, com a expansão motora e o controle. Agora, cabe
associar á autonomia e à confiança, a iniciativa, pela expansão intelectual.
A combinação confiança-autonomia dá à criança um sentimento de determinação, alavanca
para a iniciativa. Com a alfabetização e a ampliação de seu círculo de contatos, a criança
adquire o crescimento intelectual necessário para apurar sua capacidade de planejamento e
realização (Erikson, 1987, p.116). Quando ela já se sente capaz de planejar e realizar, ou seja,
ela tem um propósito, ela tende a duas atitudes: numa delas, a criança pode ficar fixada pela
busca de determinadas metas. Freud descreveu uma destas fixações a qual chamou de
Complexo de Édipo, onde a criança nutre expectativas genitais com o pai do sexo oposto.
Geralmente, as metas que se estabelecem – como no modelo freudiano – são impossíveis.
Quando a criança se empolga na busca de objetivos além de suas possibilidades, ela se sente
culpada, pois não consegue realizar o que desejou ou sabe que o que desejou não é aceitável
socialmente, e precisa de alguma forma conter e reinvestir a carga de energia que mobilizou.
Então, ela fantasia (muitas vezes magicamente) para fugir da tensão. Geralmente tais objetivos
se dão no plano sexual e na vida adulta o não resolvimento da falta de iniciativa pode causar
patologias sexuais (repressão, impotência) ou pode ser ainda expressos pela somatização do
conflito (doenças psicossomáticas). O despertar de um sentimento de culpa, na mente da
criança, poderá ficar atrelado à sensação de fracasso, o que gera uma ansiedade em torno de
atitudes futuras (Erikson, 1987, p. 119).
A criança começa a perceber seus órgãos genitais e percebe as diferenças sexuais entre
meninos e meninas. A criança passa a compreender de forma diferente o mundo que a cerca.
Afirma Célia Barros:
É a época em que irá identificar-se com o progenitor de seu próprio sexo e copiar aspectos do
comportamento adulto. O menino demonstrará sua crescente masculinidade procurando a
atenção e a afeição da mãe numa quase rivalidade com o pai. O mesmo acontece coma
menina: a descobrir sua feminilidade, torna-se muito devotada ao pai (2008, p. 92).
No entanto, se a sua curiosidade “sexual” e intelectual, natural, for censurada e reprimida
poderá desenvolver sentimento de culpa e diminuir sua iniciativa de explorar novas situações
ou de buscar novos conhecimentos.
Quando a criança se dá conta de que realmente existem coisas que estão fora de suas
capacidades (ainda), ela se contenta, não em fantasiar, mas sim em realizar uma espécie de
“treino”, o que, na verdade, se constitui num teste de personalidade que a criança aplica em
si. Para isso, ela utiliza jogos, testando sua capacidade mental, dramatizações, testando várias
personalidades nela mesmas, e brinquedos, que proporcionam uma realidade intermediária.
Tudo isso é o que faz a conexão sadia do mundo interno e externo da criança nesta fase.
Erikson alerta ainda para o perigo da personificação. Quando a criança, tentando escapar da
frustração de ser incapaz para algumas coisas, exagera na fantasia de ter outras
personalidades, de ser totalmente diferente do que são várias vezes, ela pode se tornar
compulsiva por esconder seu verdadeiro “eu”; nesse caso, pode passar a sua vida
desempenhando “papéis”, afastar-se cada vez mais do contato consigo mesmo.
Quarta Idade: Construtividade x Inferioridade (5 a 11 anos)
Erikson deu um destaque a esta fase que, contraditoriamente, foi a menos explorada por
Freud (no esquema freudiano, corresponde à fase de Latência, por julgá-la um período de
adormecimento sexual). Podemos dizer que este período é marcado, peara Erikson, pelo
controle, mas um controle diferente do que já discutimos. Aqui, trata-se do controle da
atividade, tanto física como intelectual, no sentido de equilibrá-la às regras do método de
aprendizado formal, já que o principal contato social se dá na escola ou em outro meio de
convívio mais amplo do que o familiar.
Com a educação formal, além do desempenho das funções intelectuais, a criança aprende o
que é valorizado no mundo adulto, e tenta se adaptar a ele. Da ideia de propósito, ela passa à
ideia de perseverança, ou seja, a criança aprende a valorizar e, até mesmo, reconhece que
podem existir recompensas em longo prazo de suas atitudes atuais, fazendo surgir, portanto,
um interesse pelo futuro.
Nesta fase, começam os interesses por instrumentos de trabalho, pois trabalho remete à
questão da competência. A criança nesta idade sente que adquiriu competência ao dedicar-se
e concluir uma tarefa, e sente que adquiriu habilidade se tal tarefa foi realizada
satisfatoriamente. Este prazer de realização é o que dá forças para o ego não regredir nem se
sentir inferior. Se falhas seguidas ocorrerem, seja por falta de ajuda ou por excesso de
exigência, o ego pode se sentir levemente inferior e regredir, retornando às fantasias da fase
anterior ou simplesmente entrando em inércia.
Além disso, a criança agora precisa de uma forma ideal, ou seja, regulada e metódica, para
canalizar sua energia psíquica. Ela encontra esta forma no trabalho/estudo, que lhe dá a
sensação de conquista e de ordem, preparando-o para o futuro, que, aos poucos, passa a ser
uma das preocupações da criança. É nesta fase que ela começa a dizer, com segurança
aparente, o que “quer ser quando crescer”, como uma iniciação no campo das
responsabilidades e dos planejamentos.
A ordem e as formas técnicas passam a ser importantes para as crianças desta fase. Mas
Erikson alerta para o formalismo, ou seja, a repetição obsessiva de formalidades sem sentido
algum para determinadas ocasiões, o que empobrece a personalidade e prejudica as relações
sociais da criança.
Neste período a criança começa a frequentar a escola. Nela, aprende habilidades, a ler e
escrever e outros. Começa o convívio com outros grupos de pessoas que não são seus
familiares, o que exigirá maior sociabilização, trabalho em conjunto, cooperatividade, e outras
habilidades necessárias. Ao agir no mundo que a cerca, a criança desenvolve um sentimento
de domínio. Entretanto, “se não for encorajada a participar das atividades de seu grupo social,
se não for bem sucedida em suas tentativas de participação, esse sentimento de domínio, de
saber fazer as coisas será substituído por um sentimento de inferioridade”. (BARROS, 2008, p.
94)
Quinta Idade: Identidade x Confusão de Identidade (Adolescência)
Esse período vai dos treze aos dezoito anos de idade.
De acordo com a teoria de Erikson, a adolescência é o ponto crucial do desenvolvimento da
personalidade humana. A principal crise psicossocial deste momento é denominada identidade
versus difusão da identidade.
“Quem sou eu?” é a grande pergunta que o adolescente tenta responder e ao longo deste
processo, tenta alinhar comportamento, pensamento, emoções em todo mais coerente, o que
nem sempre é fácil.
Na busca da identidade, o adolescente tenta identificar o que gosta, as coisas nas quais
acredita e o que quer fazer, quase sempre se posicionando de forma enfática contra aquilo
que não quer para si: é como se ele precisasse negar de forma marcante o que não é, para
descobrir o que é.
Alguns adolescentes, defendendo-se frente ao doloroso processo de crescer adotam o que
Erikson denominou de resolução precipitada: apegam-se com rigidez a uma imagem, a um (a)
namorado (a), a um estilo, a uma religião, dando aparente ideia de estabilidade e de conclusão
de processo de busca por si mesmo, o que só adia o conflito e pode comprometer seu bem-
estar no futuro, podendo contribuir também para se tornarem pessoas mais preconceituosas.
Existem ainda, casos em que o adolescente, ao acreditar que o que se espera dele é
inalcançável ou desinteressante, adota uma identidade negativa, ou seja, aposta à esperada
pela família.
Outros adolescentes passam pela difusão de identidade, apresentando pouco compromisso
com objetivos e valores.
Erikson nos fala, ainda, que muitos adolescentes declaram uma moratória de identidade, um
tipo de suspensão breve durante a qual experimentam identidades alternativas sem tentar
firmar nenhuma delas.
Pode ser que um adolescente passe por diversos destes estágios, antes de definir uma
identidade mais amadurecida.
Sexta Idade: O Jovem Adulto e o Conflito Básico Intimidade Versus Isolamento (Fim da
Adolescência até Início da Meia Idade):
Neste estágio o jovem adulto buscaria aprofundar suas relações afetivas consigo mesmo e com
os outros, cultivando amigos e, às vezes, encontrando um parceiro amoroso para compartilhar
a vida, podendo de este encontro ter ou não filhos.
No entanto, é sempre bom perguntar se todos os adultos jovens permitem que a intimidade
aconteça, pois ao contrário do que possa parecer estar com o outro e consigo nem sempre é
fácil.
O isolamento também seria motivado pela supervalorização dos bens materiais, pela política
do “tudo vale a pena para chegar ao sucesso almejado”, bem como pela propagação da
violência.
Após a composição deste novo cenário, caso o jovem adulto consiga abrir-se emocionalmente
para contatos afetivos maduros, o papel reservado aos pais do jovem adulto modifica-se:
espera-se que depois de anos de cuidados o jovem consiga separar-se dos pais, no sentido de
não mais girar em torno deles, consolidando a separação iniciada na adolescência.
O Adulto Maduro e a Crise Generatividade Versus Estagnação (Meia Idade até o Início da
Velhice
Ao adentrar o ciclo de vida madura o adulto enfrenta a crise da generatividade versus
estagnação.
A generatividade é acompanhada pelo desempenho da capacidade de cuidar das próximas
gerações através de diferentes aspectos, como filhos, natureza, desempenho profissional.
Uma pessoa que desenvolveu o sentimento de generatividade se sente interligada ao
universo, sentindo-se responsável por ele. Não guarda para si sua sabedoria, mas a
compartilha para que outros possam continuarseu trabalho depois que a aposentadoria ou a
morte lhe alcançar. Em suma, assumiria a possibilidade de ser um bom modelo para as novas
gerações.
A virtude do cuidado se desenvolve durante esse estágio. Pode aparecer uma dedicação à
sociedade à sua volta e realização de valiosas contribuições.
Quando a generatividade é fraca ou não recebe expressão, a personalidade regride e sente-se
empobrecida e estagnada Neste caso, acaba-se vivendo uma vida sem cor, sem sabor,
improdutiva. Entre estes, encontramos aqueles que vivem a desfilar suas lamentações,
gastando energia no processo de fazer o outro sentir pena dele, sempre tão incompreendido e
infeliz.
A Velhice e o Conflito Integridade Versus Desesperança (Terceira Idade)
O Ser Humano, neste estágio da vida, passa pela crise integridade versus desesperança, onde
se faz necessária não apenas a aceitação da realidade da morte, mas estar-se consciente dos
passos dados em sua jornada, estando em paz com ela.
Se o envelhecimento ocorre com sentimento de produtividade e valorização do que foi vivido,
sem arrependimentos e lamentações sobre oportunidades perdidas ou erros cometidos
haverá integridade e ganhos, do contrário, um sentimento de tempo perdido e a
impossibilidade de começar de novo trará tristeza e desesperança.
Rabello (2007) confirma que:
Agora é tempo do ser humano refletir, rever sua vida, o que fez, o que deixou de fazer. Pensa
principalmente em termos de ordem e significado de suas realizações. Essa retrospectiva pode
ser vivenciada de diferentes formas. A pessoa pode simplesmente entrar em desespero ao ver
a morte se aproximando. Surge um sentimento de que o tempo acabou, que agora resta o fim
de tudo, que nada mais pode fazer pela sociedade, pela família, por nada. São aquelas pessoas
que vivem em eterna nostalgia e tristeza por sua velhice. A vivência também pode ser positiva.
A pessoa sente a sensação de dever cumprido, experimenta o sentimento de dignidade e
integridade, e divide sua experiência e sabedoria. Existe ainda o perigo do indivíduo se julgar o
mais sábio, e impor suas opiniões em nome de sua idade e experiência. (RABELLO, 2007, p.
11).
3. A Dimensão Cognitiva do Desenvolvimento
Quando falamos da dimensão cognitiva do desenvolvimento nos estamos referindo
principalmente ao desenvolvimento intelectual do ser humano, desde o começo mesmo da
vida até a idade adulta. Isto é, o interesse principal desta área é explicar como as pessoas
constroem o conhecimento e como é o conteúdo desse conhecimento ou pensamento. Os
vários processos psicológicos ou cognitivos geralmente associados com o desenvolvimento
intelectual incluem a percepção, atenção, memória, linguagem, representação, formação de
conceitos, resolução de problemas, e tomada de decisões e raciocínio, dentre outros ainda
mais específicos. Vários autores têm se dedicado ao estudo do desenvolvimento cognitivo com
importantes implicações no campo da educação, mesmo quando em alguns dos casos, não era
o interesse do autor. Dois dos autores, cujas teorias são fundamentais na área do
desenvolvimento cognitivo são Piaget e Vygotsky. Nas seguintes páginas vamos tratar da teoria
do desenvolvimento segundo Piaget, os conceitos chaves da teoria, bem como as
contribuições no campo da educação. A teoria de Vygotsky será apresentada em um outro
momento nesta apostila, mas faremos referência a alguns pontos de controvérsia entre as
teorias destes importantes autores.
Teoria do desenvolvimento intelectual de Jean Piaget
Jean Piaget (1896-1980) nasceu na região de Neuchâtel, na Suiça. Ele foi uma criança que
gostava de olhar moluscos e pardais duma maneira muito sistemática. Esse tipo de atividade
consumia a vida do precoce Piaget e, à idade de 11 anos, publicou seu primeiro artigo
científico sobre esses tópicos. Piaget era formado em biologia, mas durante a sua vida se
desenvolveu academicamente em varias áreas, como a filosofia e a psicologia. Piaget formulou
uma grande teoria sobre o desenvolvimento intelectual que mudou a maneira de olharmos e
entendermos as crianças. Depois dela não podemos olhar as crianças como adultos
incompletos. Piaget nos ensinou que o pensamento das crianças em diferentes estágios reflete
uma maneira única de interpretar o mundo.
Descrição Geral da Teoria
Piaget procurava entender o desenvolvimento intelectual através do que ele chamou de
epistemologia genética, o estudo experimental do desenvolvimento do conhecimento. Piaget
pensava que a cognição se desenvolvia em etapas que refletem habilidades qualitativamente
diferentes. Em outras palavras, determinado conhecimento duma criança em uma etapa é
qualitativamente diferente daquele que segue e daquele que precede tal etapa. Segundo
Piaget, o desenvolvimento cognitivo é uma série de transformações onde o pensamento da
criança passa por mudanças abruptas durante relativamente breves períodos de tempo.
Porém, as habilidades cognitivas subjacentes são continuas. Isto é, uma habilidade não apenas
aparece, mas emerge de habilidades anteriores. Considerando esta continuidade, Piaget
acreditava que havia uma transição, uma fase preparatória entre as etapas.
Uma outra característica desta teoria é que os mecanismos do desenvolvimento cognitivo são
de domínio geral. As crianças nascem não como tabulas rasa, mas com um sistema nervoso
típico da espécie, sem estar preparadas para adquirir um conhecimento mais do que outro.
Portanto, os ganhos intelectuais na infância estão governados por uma função geral do
desenvolvimento. Por exemplo, a perícia do infante na linguagem, conhecimento do objeto,
imitação, resolução de problemas, estão todas interelacionadas e são o produto de mudanças
em um único sistema cognitivo. Para compreender melhor a teoria de Piaget é importante
conhecermos alguns dos conceitos chaves. A seguir apresentemos uma descrição básica
desses conceitos que irão nos permitir entender melhor a teoria de Piaget.
Conceitos Chave
Estruturas são sistemas mentais não observáveis, sendo a base do conhecimento através das
quais as crianças interpretam o seu mundo. De fato, são representações da realidade pelas
quais a experiência é interpretada e organizada.
Atividade Intrínseca é outro conceito fundamental dentro da teoria de Piaget, e se refere à
ideia de que as crianças são naturalmente ativas. Podemos entender a atividade intrínseca
como curiosidade. Então a motivação para o desenvolvimento está dentro da criança. Isto não
quer dizer que uma criança não pode ser motivada por reforçadores externos para aprender
novas informações ou adquirir novo conhecimento, mas na perspectiva de Piaget estes não
são necessários para promover o aprendizado ou o desenvolvimento. Neste sentido, mesmo
que Piaget acreditasse que o desenvolvimento é o resultado da interação entre uma criança
biologicamente pronta e o seu meio ambiente, dava maior ênfase na atividade intrínseca da
criança.
Natureza construtiva do conhecimento refere-se ao processo de interpretação de nova
informação baseado no conhecimento que já possuímos. Isto é, o que nós já sabemos guia o
nosso processamento da informação influindo substancialmente sobre o que e o como
adquirimos essa nova informação. Esta postura construtivista não é única de Piaget, porém
dentro da sua teoria adquire um sentido distintivo. Se a realidade é uma construção, então as
crianças em diferentes níveis de desenvolvimento com certeza devem construir diferentes
realidades.
Epigenesis refere-se à ideia que o desenvolvimento é gradual com mudanças de conduta e
cognição acontecendo ao longo do tempo. Portanto, uma nova habilidade cognitiva não
aparece completamente formada, mas surge das transformações das estruturas. Isto é, uma
estrutura que desenvolve uma nova habilidade é a transformação de uma estrutura anterior.
Funções Invariantes são processosque caracterizam todos os sistemas biológicos, incluída a
inteligência, e operam durante a vida toda. Piaget propôs duas funções invariantes:
organização e adaptação.
Organização é a tendência de integrar estruturas dentro de sistemas ou estruturas mais
complexas.
Adaptação é a tendência do organismo a ajustar as suas estruturas às demandas do meio
ambiente. Há dois aspectos complementares da adaptação: assimilação e acomodação.
Assimilação é a incorporação de nova informação dentro de estruturas que já existem. Não é
um ato passivo, mas depende da atividade intrínseca da criança, a qual ajuda a ativar as
estruturas que a criança já possui para integrar nova informação.
Acomodação é um ato complementar à assimilação e se refere à modificação de um esquema
já existente para poder incorporar nova informação.
Equilíbrio se refere à tendência do organismo a manter um estado de balanço de suas
estruturas. Este conceito é fundamental para explicar o porquê do desenvolvimento e o
porquê da mudança das estruturas cognitivas. Quando uma criança enfrenta informação que
não se explica com as suas estruturas cognitivas atuais, então há um desequilíbrio. Este
estado de desequilíbrio (incongruência cognitiva) é intrínsecamente insatisfatório e há uma
tendência a reestabelecer o equilíbrio, o que é alcançado ao modificar as estruturas cognitivas.
As etapas do desenvolvimento intelectual se referem à progressão do desenvolvimento
cognitivo. Segundo Piaget a ordem pela qual as crianças avançam através das etapas é
invariante e culturalmente universal, mesmo quando a idade na qual são demonstradas possa
variar. Assim, uma criança de 8 anos de idade pode realizar atividades como um adolescente,
mas a sua progressão através das etapas do desenvolvimento foi mais rápida. Piaget dividiu o
desenvolvimento intelectual em quatro etapas: sensório-motora, pré-operacional, operações
concretas, e operações formais.
Etapa sensório-motora (idade aproximada do nascimento até os 2 anos). Nesta etapa a
inteligência está limitada às ações próprias do infante no meio ambiente. Ele adquire o
conhecimento por meio de suas próprias ações que são controladas por informações
sensoriais imediatas. A cognição progride dos reflexos (por exemplo, sugar, orientação visual)
até o inicio do funcionamento simbólico. Há formação de hábitos, coordenação entre visão e
apreensão, e causalidade primitiva. Esta etapa está dividida em 6 sub etapas. Duas das
caraterísticas desta etapa que foram amplamente estudadas por Piaget são o desenvolvimento
da permanência do objeto e a imitação. A permanência do objeto se refere ao conhecimento
de que os objetos existem no tempo e espaço independentemente da percepção imediata.
Para um infante que ainda não desenvolveu permanência de objeto “fora da vista” quer dizer
“fora da mente.” Imitação se refere a igualar nossa conduta com aquela de um modelo. Nesta
etapa o modelo ainda tem que estar presente. A imitação diferida começa a aparecer, mas
ocorre somente com representação mental, capacidade que surge e se fortalece durante a
seguinte etapa.
Etapa pré-operacional (idade aproximada dos 2 até 6-7 anos). Etapa de transição entre as
etapas sensório-motora e das operações concretas. Aparição e fortalecimento da função
simbólica expressada através da linguagem e imaginação, dentre outras, permitindo à criança
representar e comparar mentalmente objetos que estejam fora da percepção imediata. Há
imitação diferida e o jogo pode ser de repetição, simbólico, de regras, ou conceitual. No
desenho pode ser observado o realismo fortuito, frustrado, conceitual, e visual. O pensamento
é egocêntrico, intuitivo, e mágico mais do que lógico, observando-se que as crianças têm
dificuldade em se colocar no lugar do outro. Há centralização (apenas um aspecto de
determinada situação é considerado). Existe confusão entre aparência e realidade. Há ausência
da noção de reversibilidade. O raciocínio é transdutivo (aplicação de uma mesma explicação a
situações parecidas). Existe o animismo (dar vida a seres inanimados).
Etapa das operações concretas (idade aproximada dos 7 até 11 anos). Nesta etapa a
inteligência é simbólica e lógica. Por exemplo, se A é maior que B, e B é maior que C, logo A é
maior que C. O pensamento é menos egocêntrico, mas ainda está limitado aos fenômenos
concretos e à experiência passada; isto é, o pensamento ainda não é abstrato. Está
caracterizado pela conservação e reversibilidade. A criança começa a perceber a conservação
do volume, da massa, e do comprimento.
Etapa das operações formais (idade aproximada dos 11 até os 16 anos). Nesta etapa o
adolescente começa a raciocinar lógica e sistematicamente. Esta etapa é definida pela
habilidade de engajar-se no raciocínio proposicional. As deduções lógicas podem ser feitas sem
o apoio de objetos concretos. O pensamento hipotético-dedutivo é o mais importante aspecto
apresentado nesta fase de desenvolvimento, pois o adolescente passa a criar hipóteses para
tentar explicar e sanar problemas. A possibilidade domina a realidade; isto é, o foco desvia-se
do "é" para o "poderia ser". As crianças nesta etapa podem ser introspectivas do seu próprio
processo de pensamento e, em geral, podem pensar de maneira abstrata. As bases do
pensamento científico aparecem nesta etapa do desenvolvimento.
Contribuições para a Educação
A teoria de Piaget é uma teoria sobre o desenvolvimento cognitivo e não uma teoria prática
para a educação. Porém, não é difícil perceber o potencial que a teoria tem no campo da
educação. Como foi explicada, esta teoria mudou a maneira de como olhamos às crianças. A
teoria nos faz compreender que a criança tem uma maneira única de entender o mundo e de
construir o seu conhecimento. Quando compreendemos que a criança pode construir o seu
conhecimento estamos na posição de providenciar ambientes na sala de aula que facilitem
essa construção.
Um olhar crítico sobre a Teoria
Não há dúvida que a teoria de Piaget continua influenciando os teóricos atuais do
desenvolvimento cognitivo; porém, a teoria também tem gerado criticas importantes. Uma
dessas críticas é que a teoria subestima as habilidades das crianças. Pesquisas apontam que
este é o caso em habilidades sobre a perspectiva do outro, a aquisição da conservação, e o
pensamento com operações formais, as quais podem ser ensinadas às crianças em diferentes
etapas do desenvolvimento. Uma outra crítica tem a ver com a sobre estimação da inteligência
dos adultos. Pesquisas também têm mostrado que nem sempre o pensamento dos adultos
reflete o pensamento das operações formais. Além do mais, outros processos cognitivos
parecem explicar as “falhas” das crianças mais novas (por exemplo, a memoria ou a atenção) e
não somente o fato de se encontrarem em uma etapa do desenvolvimento inicial. Alguns
teóricos têm questionado a ideia mesma do desenvolvimento cognitivo em etapas. Outras
teorias sobre o desenvolvimento cognitivo poderiam explicar as “deficiências” na teoria de
Piaget. Por exemplo, a teoria do processamento da informação, e mais recentemente as
teorias derivadas das neurociências.
4. Piaget e Vygotsky: Encontros ou desencontros
As confrontações teóricas entre Piaget e Vygotsky geralmente estão centradas no “fato”
aparente de que Piaget ignorou os aspectos sociais e culturais na sua teoria, em quanto
Vygotsky somente se focou nestes aspectos. Na realidade esta percepção parece estar
baseada, maiormente numa preferencia pessoal de quem escreve ou interpreta as duas
posições do que as teorias mesmas postulam. Certamente, Piaget enfatizou aspectos muito
individuais na construção de conhecimento ao ponto de ignorar fatores socioculturais. Porém,
há alguns exemplos na teoria piagetiana onde o fator social é ressaltado, como é o caso da
explanação da origem da lógica (“é uma coordenação tanto individualcomo interindividual”)
ou do estudo da linguagem egocêntrica (“práticas interindividuais na construção do
conhecimento”). Com tudo, não há dúvida da ênfase que Piaget colocou na construção
individual do conhecimento. Por sua vez, Vygotsky deu maior atenção à dimensão
sociocultural, mas ressaltou aspectos relativos à construção de conhecimento como é
evidenciado em seus estudos sobre a formação de conceitos.
Assim, ambos atribuem grande importância ao organismo ativo, mas Vygotsky destaca o papel
do contexto histórico e cultural nos processos de desenvolvimento e aprendizagem,
enfatizando, ainda, uma psicologia para a transformação social, engajada politicamente. Piaget
coloca ênfase nos aspectos estruturais e nas leis de caráter universal (de origem biológica) do
desenvolvimento, enquanto Vygotsky destaca as contribuições da cultura, da interação social,
e da dimensão histórica do desenvolvimento mental.
Ambos são construtivistas em suas concepções do desenvolvimento intelectual, por
sustentarem que a inteligência é construída a partir das relações recíprocas do homem com o
meio.
Vygotsky e o Desenvolvimento numa Perspectiva Histórico-Cultural
Lev Vygotsky foi formado em direito, medicina, história e literatura, professor de psicologia e
pesquisador contemporâneo de Piaget, tendo nascido nasceu em Orsha, pequena cidade da
Bielorrusia, em 17 de novembro de 1896.
Vivia na Rússia, quando morreu, de tuberculose, aos 37 anos, deixando uma extensa obra. No
entanto, apenas após sua morte, na década de 60, tal obra foi descoberta pelos acadêmicos
ocidentais, tendo contribuído para este atraso, a proibição da edição de seus livros e artigos na
União Soviética entre 1932 e 1956.
O governo russo acreditava que Vygotsky era um idealista, pois apesar de concordar com a
ideia da plasticidade do homem face a cultura, argumentava com as autoridades do marxismo
sobre a capacidade humana de criar seu ambiente dando origem a novas formas de
consciência e/ou organização.
O fato de ter acompanhado o grande experimento social que foi a revolução russa e de
conhecer a sua fundamentação teórica (materialismo histórico) produzidas por Karl Marx e
Friedrich Engels levou-o a propor um psicologia pautada nestas mesmas bases, denominando-
a de psicologia cultural-histórica.
Sua experiência na formação de professores o levou ao estudo dos distúrbios de aprendizagem
e linguagem, tendo sido convidado a trabalhar no Instituto de Psicologia de Moscou, onde
realizou inúmeras pesquisas a respeito destes temas.
Bases Teóricas de sua Obra:
Vygotsky construiu sua teoria tendo por base o desenvolvimento do indivíduo como resultado
de um processo sócio histórico, enfatizando o papel da linguagem e da aprendizagem nesse
desenvolvimento.
Para ele, seria impossível separar os indivíduos da situação cultural em que se desenvolvem, o
que o permitiu romper, transformar e ultrapassar o estado de conhecimento e reflexão sobre
o desenvolvimento humano em sua época.
Deteve-se no estudo dos mecanismos psicológicos mais sofisticados (funções psicológicas
superiores, como a linguagem e a memória).
Partindo das premissas do método dialético, procurou identificar mudanças qualitativas do
comportamento que ocorrem ao longo do desenvolvimento humano e sua relação com o
contexto social.
Papel da Educação no Desenvolvimento Humano:
Seu interesse principal não era elaborar uma teoria do desenvolvimento infantil: ele recorreu à
infância para explicar o comportamento humano no geral, valendo-se dos saberes sobre a
infância, porque a criança está no ponto da pré-história do desenvolvimento cultural em
virtude do surgimento da fala e uso de instrumentos.
Estudando, pois, o desenvolvimento infantil, poderíamos acompanhar nele a evolução de toda
a espécie humano em contato com a cultura, cultura esta que se torna parte do psiquismo de
cada pessoa.
Percebemos, assim, que como Piaget, seus trabalhos pertencem ao campo da psicologia
genética.
As Funções Psicológicas Superiores:
O cérebro é o órgão principal da atividade mental, sendo seu funcionamento produto de uma
longa evolução. O cérebro é, ainda, um sistema aberto de grande plasticidade.
Partindo da perspectiva sociocultural, Vygotsky salienta que a estrutura cerebral e seus modos
de funcionamento são moldados ao longo da história da espécie e do desenvolvimento
individual. As funções psicológicas superiores seriam, para ele, de origem sociocultural, e não
inatas, e emergindo de processos psicológicos elementares (de origem biológica), assim como
o comportamento humano seria um fenômeno histórico e socialmente determinado.
Neste sentido, características tipicamente humanas não estariam presentes desde o
nascimento, resultando da relação dialética do homem com seu meio sociocultural: ao mesmo
tempo em que o ser humano transforma o seu meio para atender suas necessidades básicas,
transforma a si mesmo.
As funções psicológicas especificamente humanas se originam nas relações do indivíduo e seu
contexto cultural e social: o desenvolvimento mental humano não é dado a priori, não é
imutável, nem universal, não é passivo, nem independente do desenvolvimento histórico e das
formas sociais da vida humana.
A consciência é produto histórico social, sendo importante considerar as mudanças que
ocorrem no desenvolvimento mental a partir do contexto social.
Pensamento e Linguagem:
Os instrumentos técnicos e os sistemas de signos, construídos historicamente, fazem a
mediação dos seres humanos entre si e deles com o mundo, ou seja, a relação do ser humano
com o mundo não é direta: é mediada por ferramentas auxiliares.
A linguagem é por excelência signo mediador, carregando em si os conceitos generalizados e
elaborados pela cultura humana. A atividade animal é marcada pela satisfação das
necessidades biológicas, permanecendo sempre dentro dos limites de suas relações instintivas
com a natureza.
Por outro lado, a maior parte dos atos humanos não se baseiam em inclinações biológicas e
através de seu controle intencional o ser humano é capaz de não se sujeitar a elas, reprimi-las
e até contrariá-las.
A maturação biológica é um fator secundário no desenvolvimento das formas complexas do
comportamento humano, pois estas dependem da interação da criança e sua cultura.
A estrutura fisiológica humana, aquilo que é inato, não é suficiente para produzir o indivíduo
humano, na ausência do ambiente social: quando isolado de outros seres o homem é fraco e
insuficiente.
É impossível considerar o desenvolvimento do sujeito como um processo previsível, universal,
linear ou gradual, estando intimamente relacionado ao contexto sociocultural.
O desenvolvimento se processa de forma dinâmica e dialética através de rupturas e
desequilíbrios provocadores de continuas reorganizações.
Inicialmente, a atividade psicológica do bebê é bastante elementar e determinada por sua
herança biológica. Apenas neste momento, eles teriam preponderância sobre os sociais.
Aos poucos a interação da criança com seu meio social e com os objetos de sua cultura passam
a governar o comportamento e o desenvolvimento de seu pensamento.
Desde o nascimento o bebê está em contato com os adultos, que asseguram sua sobrevivência
e fazem a mediação de sua relação com o mundo, incorporando a criança à sua cultura,
atribuindo significado às condutas e aos objetos culturais que se formaram ao longo da
história.
Quando internalizados, estes processos (desenvolvimento do psiquismo humano) começam a
ocorrer também sem a intermediação de outras pessoas.
A linguagem tem papel fundamental como organizadora da atividade prática e das funções
psicológicas humanas.
A forma puramente humana de inteligência se forma quando a fala e a atividade prática
convergem, assim, a conquista da linguagem é um marco no processo de desenvolvimento
humano:pela linguagem a criança se torna capaz de planejar suas ações, controlar seu próprio
comportamento, providenciar instrumentos para a solução de problemas, superar a ação
impulsiva. É um meio de contato com as outras pessoas; expressa seu pensamento ao mesmo
tempo em que organiza tal pensamento.
A fala mais primitiva da criança já é social: no início, desorganizada, difusa apresenta-se num
estagio pré-intelectual do desenvolvimento da fala.
Há um estagio pré-linguístico do desenvolvimento do pensamento, quando antes de aprender
a falar a criança demonstra ter uma inteligência prática, com a qual age no ambiente e resolve
problemas práticos, inclusive com o auxilio de instrumentos intermediários.
Quando pensamento e linguagem se associam o pensamento se torna verbal e a fala racional.
A fala egocêntrica é anterior a este estágio e se dirige ao próprio sujeito: acompanhando a
ação, fala alto para si mesmo também para planejar e solucionar problemas.
A fala egocêntrica da criança é entendida como um estágio de transição entre a fala exterior e
a fala interior: na fala interior ela torna-se capaz de anteceder a ação, planejando-a e
diferenciando-se dos animais, tendo visão de futuro.
O domínio da linguagem escrita promove níveis diferentes de pensar, relacionar-se com as
pessoas e saberes e ainda mais abstratos.
Zona de Desenvolvimento Real e Proximal
A zona de desenvolvimento real se refere ao conhecimento já adquirido, que para ser
demonstrado não precisa do auxilio do outro.
A zona de desenvolvimento proximal, por sua vez, se refere às capacidades em vias de serem
construídas, designando o que podemos fazer com auxilio dos outros: dialogando,
colaborando, imitando, recebendo pistas.
Zona de desenvolvimento potencial representa a distancia entre o que o ser humano faz de
forma autônoma e aquilo que realiza com a colaboração do outro.
5. Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano
Este texto propõe-se a dialogar sobre os aspectos centrais da Teoria do Desenvolvimento
Humano desenvolvida por Urie Bronfrenbrenner. Inicialmente, apresentamos os aspectos
gerais, os constructos, os conceitos essenciais da teoria e sua relação com educação.
Descrição Geral da Teoria:
A Teoria Bioecológica do Desenvolvimento surge na década de 70, a partir dos estudos e
pesquisas de seu principal expoente, Urie Bronfrenbrenner.
A base teórica desse modelo é o processo investigativo do desenvolvimento humano tendo
como base de análise o estudo do comportamento humano a partir da pessoa em
desenvolvimento e do(s) ambiente(s) em que essa está inserida. Segundo Bronfenbrenner
(1996, p.6), “o que importa para a compreensão do comportamento é o ambiente como ele é
percebido”, assim como, “as características da pessoa em dado momento de sua vida são uma
função conjunta das características individuais e do ambiente ao longo do curso de sua vida
naquele dado momento” (BRONFRENBRENNER apud KOLLER, 2004, p. 53).
Sua teoria surge como resultado de uma pesquisa longitudinal, desenvolvida por observação
sistemática do comportamento das crianças na interação com adultos em ambientes naturais,
tendo concluído que o desenvolvimento humano é uma relação em que existe reciprocidade
entre o indivíduo e o meio. Essa reciprocidade é dinâmica e nela a criança é um sujeito ativo.
De acordo com Bronfrenbrenner (apud KOLLER, 2004), o desenvolvimento precisa ser
compreendido por um processo sistemático e recíproco, progressivamente mais complexo, de
interação da pessoa e de seu contexto ecológico através do tempo.
Bronfrenbrenner define ambiente ecológico como sendo uma série de estruturas concêntricas,
isto é, ambientes que tem o mesmo centro, homocêntricos, tendo presente em seu interior o
indivíduo em desenvolvimento. Vale ressaltar que essas estruturas não podem ser analisadas
isoladamente, o essencial para que se possa compreender o desenvolvimento humano são os
processos. Enfim, a função do processo é definida em termos da relação entre o ambiente e as
características da pessoa em desenvolvimento.
O modelo Ecológico possibilita a compreensão do desenvolvimento humano a partir do estudo
da interação sinérgica de quatro núcleos inter-relacionados: o Processo, a Pessoa, o Contexto e
o Tempo.
Considerando ser a base científica dessa teoria defendida pela acomodação progressiva,
sistemática e mútua do ser humano em desenvolvimento e atuante nos ambientes em que
este se articula, envolvendo também os contextos mais amplos em que esses indivíduos estão
inseridos, é possível compreendemos o desenvolvimento humano como um conjunto de
sistemas aninhados em que a pessoa em desenvolvimento é, ao mesmo tempo, influenciada
por esses sistemas, como também determina as mudanças que neles ocorrem.
Dessa forma, a teoria propõe uma análise do comportamento em desenvolvimento
congregado nos múltiplos, mas interinfluenciados, ambientes ecológicos, só há validade de
análise comportamental, segundo a Teoria Ecológica do Desenvolvimento, se esses forem
analisados a médio e longo prazo, considerando as influências dos diferentes núcleos sociais
em que a pessoa em desenvolvimento está inserida.
Contribuições para Educação.
Considerando que o Modelo Bioecológico do Desenvolvimento focaliza-se principalmente
estudos sobre as complexas interações das pessoas em desenvolvimento e as influências dos
ambientes ecológicos em que o desenvolvimento acontece e esse é contínuo e processual, isto
é, acontece por todo tempo de sua existência. (BRONFENBRENNER, 2002), pode-se afirmar
que esta teoria destaca-se por sua singularidade.
Esse Modelo Ambiental para o Desenvolvimento do Ser Humano considera inúmeras
dimensões na análise do comportamento, como as dimensões ambientais, econômicas,
políticas, social e humana. Vale ressaltar que no contexto educacional um dos aspectos mais
importantes para a análise do desenvolvimento dos estudantes é a observação e esta
abordagem ecológica enfatiza exatamente a observação naturalística como método de
abordagem.
Koller (2004) destaca que na proposta bioecológica de investigação por meio da observação
naturalística, os pesquisadores realizar a inserção ecológica no ambiente a ser estudado,
rompendo assim, com a clássica separação entre sujeito e objeto de investigação. Nesse
sentido, podemos afirmar que o professor encontra-se em posição privilegiada para a análise e
o acompanhamento sistemático das evoluções dos sujeitos aprendentes em relação aos
contextos que está inserido.
O que se quer afirmar é que no processo educacional esse modelo oferece ao educador
pesquisador um olhar holístico do sujeito aprendente. O alcance ou não alcance da
aprendizagem não deve ser analisado de forma reducionista e sim em consonância com as
inúmeras inter-relações em que o sujeito aprendente está exposto nos diferentes espaços-
tempos de sua vida. Bronfenbrenner “propõe que o desenvolvimento humano seja estudado
através da interação sinergética de quatro núcleos inter-relacionados: o Processo, a Pessoa, o
Contexto e o Tempo” (apud KOLLER, 2004, p. 53-54).
A importância dessa teoria na educação tem sido validada pelos teóricos que estudam o
desenvolvimento humano por sua proposta ser usada para distinguir os processos evolutivos e
os inúmeros e múltiplos fatores que influenciam o desenvolvimento humano. A investigação
ecológica do desenvolvimento de crianças e adolescentes deve considerar os contextos
definidos de cada um, enfatizando sempre essa experiência individual e não fazer comparação
com outras crianças ou adolescentes que vivenciam contextos culturais diferentes.
Essa teoria é conceituada por Koller (2004) e Narvaz (2004) de interacionista e contextualizada,
por considerar os processos decorrentes dos contextos ecológicos resultantes das múltiplas
interações em diversos níveis de diferentes sistemas. Assim, “o serhumano é visto como um
ser ativo, capaz de modificar-se e modificar o ambiente” (KOLLER, 2004, p.62).
Segundo Koller (2004, p.53-54), “ao propor o estudo do desenvolvimento humano através da
interação sinergética de quatro núcleos inter-relacionados: o Processo, a Pessoa, o Contexto e
o Tempo”, é imperativo também considerar os fatores determinantes para o desenvolvimento
humano ser qualificado de saudável, as circunstâncias sociais e as possibilidades de escolhas
que as famílias desses indivíduos tenham acesso.
No estudo dos avanços e retrocessos educacionais a partir do Modelo Bioecológico é
necessário investigar o microssistema, o mesossistema e o exossistema, relacionando-os na
compreensão da influencia desses diferentes contextos em que a criança está envolvida, assim
como, o macrossistema, o qual envolve a legislação que regulamenta todo sistema educacional
e as respectivas políticas públicas.
Para compreender como o potencial educacional do microssistema se relaciona com as
diretrizes educacionais estabelecidas pela legislação competente é necessário compreender o
que disse (BRONFENBRENNER, 1996): “a criança em desenvolvimento, em que o crescimento
está sempre em constante progresso, reestruturando seu meio, em que ocorre uma interação
entre a criança e o meio ambiente que exerce influência em seu desenvolvimento infantil”. Ter
um olhar atento a esse entorno que cerca todo desenvolvimento da criança é importante para
intervir em uma dada realidade educacional de um determinado educando.
Um olhar crítico sobre a teoria:
Bronfenbrenner (2002) contesta a ideia de que a pessoa é uma tábula rasa sobre a qual os
inúmeros ambientes provocam impactos em seu desenvolvimento. Concebe o ser humano
como ativo, em crescimento, dinâmico, que interage no meio em que o cerca e o reestrutura.
Quando em sua teoria considera os elementos: processo, pessoa, contexto e tempo, exara que
esses articulados são produtores e geram resultados no desenvolvimento humano, por eles
constituírem a força, o conteúdo e a direção dos processos proximais.
Essa teoria encontra-se categorizada como dialética, por conseguir em sua premissa explicar a
mudança de conduta do desenvolvimento humano através da influência do meio, sendo esse
meio considerado a experiência individual de cada indivíduo em desenvolvimento, portanto,
considera o multicontexto e o multicultural de cada.
Concordamos com Koller (2004) ao destacar como pontos fortes da teoria: a) atenção ao
contexto sociocultural; b) a sensibilidade à diversidade e à pluralidade do desenvolvimento em
diferentes culturas e determinados períodos históricos; c) a articulação entre os níveis de
análise que englobam tanto a pesquisa como teoria; d) a integração entre ciência teórica e
empiricamente fundada; e) a proposta da observação naturalística, com a operacionalização
do importante conceito da validade ecológica; f) a valorização da aprendizagem cotidiana por
meio das interações faca-a-face, característica dos processos proximais como importantes ao
desenvolvimento; e, g) a integração dos aspectos políticos ao processo de pesquisa.
Ressaltamos que esta teoria ainda apresenta lacunas em relação a sua divulgação no Brasil,
principalmente considerando o número insuficiente de publicação de domínio público em
língua portuguesa, dificultando o acesso aos diversos saberes relacionados à teoria.
Salientamos ainda, o que afirma Koller (2004) em relação a teoria bioecológica do
desenvolvimento humano, considerando que por ela ser uma proposta teórico-metodológica
nova, complexa e em constante evolução, apresenta dificuldades, principalmente no que se
refere a operacionalização na prática. Acredita-se que para a superação das limitações
presentes, fazem-se necessários novos estudos e de políticas de incremento à pesquisa que
possam auxiliar na implementação de projetos abrangentes como requerem os estudos do
desenvolvimento-no-contexto.
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Psicologia da Aprendizagem
O QUE SABEMOS SOBRE APRENDIZAGEM?
1. A aprendizagem é ativa
A aprendizagem é um processo ativo resultante de processos internos ou de atividade mental
construtiva do sujeito. Outra pessoa pode nos ensinar, mas ninguém pode aprender por nós. A
aprendizagem de novos conteúdos implica uma série de processos, tais como selecionar
informação, estabelecer relações, deduzir, induzir etc. Aprender desde este ponto de vista
significa que se produz uma mudança não apenas no que diz respeito às informações ou aos
conhecimentos que se têm sobre um aspecto da realidade, mas também nas possibilidades de
continuar aprendendo.
2. A aprendizagem é um processo individual
Aprender não é copiar a realidade ou a informação externa sem alterá-la, mas desenvolver
uma representação pessoal e única de tal realidade. Esta representação não ocorre no vazio,
mas tem como base os conhecimentos anteriores, experiências e motivações de cada pessoa,
o que faz com que, em cada caso, o processo de aprendizagem seja único, sem condições de
repetir-se. Aprender implica, portanto, atribuir sentido e construir significados em relação ao
novo conteúdo objeto de aprendizagem, estabelecendo vínculos entre tal conteúdo e o que já
sabemos. Mesmo que um grupo de crianças ou de adultos fosse submetido a uma mesma
experiência, a aprendizagem seria diferente para cada indivíduo. Isto porque cada pessoa,
criança ou adulto, incorpora a cada situação uma combinação singular deexperiências
anteriores.
3. A aprendizagem é um processo social
Apesar de a aprendizagem ser um processo interno e individual, isto acontece a partir dos
processos de interação social com outras pessoas, sejam adultos ou crianças. Segundo
Vygotsky, todas as funções psicológicas superiores aparecem, primeiro, no plano da interação
social ou inter-psicológica, estabelecida entre a criança e os diferentes agentes educativos,
para depois passar ao plano individual ou intra-psicológico. Quer dizer, o que a criança pode
fazer, em um primeiro momento, com a ajuda de outros, por meio da interação social, depois
é capaz de fazer por si só. A chamada “zona de desenvolvimento proximal” localiza-se entre o
que o aluno (a) é capaz de fazer com a ajuda de outros e o que pode fazer por si mesmo. A
educação deve intervir na zona de desenvolvimento proximal, no que se refere às atividades
que o aprendiz ainda não é capaz de realizar por si só, mas que poderá chegar a realizar se
receber a ajuda necessária. A natureza social da aprendizagem reflete-se no fato de que
muitas aprendizagens ocorrem em grupos. Compartilhar a aprendizagem com outros pode
tornar-se algo estimulante e enriquecedor.
4. Aprendizagem significa mudança
Aprender de forma significativa implica modificar os esquemas anteriores em função de uma
nova ideia, fato ou informação, para chegar a uma nova conceituação, mais ampla e rica em
matizes. Para que isto aconteça, é preciso que a nova informação ou experiência provoque um
conflito ou desequilíbrio nos conhecimentos e estruturas que já possuímos, de tal forma que
nos obrigue a revisá-los e modificá-los, descartando dados, combinando informações,
ampliando compreensões. Se os novos conteúdos mostram-se excessivamente distanciados
dos conhecimentos anteriores, ou já são conhecidos, os conhecimentos prévios não serão
alterados. A mudança de esquemas prévios implica, consequentemente, um processo de
equilíbrio inicial – desequilíbrio – reequilíbrio posterior. Na língua chinesa, o sinal escrito para
expressar mudança é uma combinação de dois outros que significam dor e oportunidade. Na
condição de adultos, cabe-nos a responsabilidade de tornar exequível para cada criança, o
equilíbrio entre ambos os aspectos. Para nós, a aprendizagem também pode significar
mudanças dolorosas. Por vezes, temos que abandonar convicções profundamente arraigadas.
O desafio da mudança mediante a aprendizagem pode ser experimentado como algo
estimulante ou intimidante. Frequentemente, acontecem ambos.
5. A aprendizagem nunca é completa
A aprendizagem significativa é, por definição, uma aprendizagem compreensiva e inter-
relacionada, sendo que, diferentemente da aprendizagem do tipo mecânico e repetitivo,
jamais termina porque é suscetível a distintos níveis de aprofundamento. Os adultos
continuam desenvolvendo a compreensão à medida que se confrontam novas ideias com
conhecimentos prévios. As ideias antigas podem ser modificadas à luz de novas experiências,
daí a sensação de que quanto mais sabemos sobre um assunto, mais conscientes estamos
quanto ao que nos resta a aprender.
6. A aprendizagem poder ser agradável
Trata-se de algo de que muitos adultos duvidam seriamente, ao recordarem seus anos
escolares. A aprendizagem pode ser difícil, mas, ao mesmo tempo, agradável. Até mesmo
cometer erros pode ser estimulante. Quantas vezes uma pessoa cai ao aprender a andar de
bicicleta? É preciso levar em conta que com os erros também se aprende. Os aspectos afetivos
e emocionais têm grande influência na aprendizagem. A predisposição favorável para aprender
e a autoestima são condições essenciais para construir aprendizagens significativas. Se os
aluno (a)s se sentirem queridos e valorizados e se as situações de ensino forem prazerosas,
mais facilmente estarão predispostos a aprender.
TEORIAS DA APRENDIZAGEM
Ninguém é uma ilha completa em si mesma; todo homem é um fragmento do continente, uma
parte do todo; se o mar arrebata um penhasco, é a Espanha quem sofre a perda. O mesmo se
se tratar de um promontório, de uma fazenda de seus amigos ou da sua própria, a morte de
um homem me diminui porque estou inserido na humanidade, e por isso nunca pergunte por
quem os sinos dobram: dobram por você.
John Donne
Na citação de Donne, fica evidente a interdependência dos seres vivos entre si. O mesmo
acontece nas diferentes teorias. Não é possível considerarmos uma em detrimento de outras,
visto que o próprio pensamento humano é decorrente de uma construção na qual cada tijolo,
cada experiência, cada referência tem o seu lugar. No estudo da aprendizagem, procuraremos
fazer o exercício de uma espiral, pequena em sua base, mas, pelo constante movimento,
permite àquele que aprende descobrir um novo significado a cada nova experiência.
No processo de aprendizagem, encontramos diferentes concepções e teorias que evidenciam
os valores e as crenças que norteiam a nossa maneira de ser, pensar, sentir, agir e interagir,
muitas vezes, de forma desordenada e confusa.
Faz muitos anos que observo na literatura e na postura de muitos especialistas da Educação e
de áreas afins a coexistência de concepções de aprendizagem em um mesmo espaço social,
cultural, familiar ou educativo, que tende a valorizar o aluno, a chamada visão apriorística, ou
o professor, a chamada visão empirista, ou ainda a visão que propõe a interação entre aluno e
professor, a chamada visão interacionista. Tais concepções fazem avançar, retardar ou até
impedir que a aprendizagem se produza, quando os implicados no processo educativo se
inclinam mais a uma perspectiva em detrimento de outra, ou quando realizam uma leitura
simplista do significado destas visões, porque é "moda" ou são "obrigados" a assumi-las em
defesa de seu trabalho.
Por essa razão, optei por iniciar este estudo, destacando alguns teóricos e seus conceitos de
aprendizagem, representantes de duas teorias de aprendizagem presentes em nossas práticas
educativas, sociais e familiares: a comportamental e a cognitivista.
A aprendizagem para os adeptos da visão comportamental, também conhecida por
behaviorista ou condutista (expressão cunhada do espanhol), é considerada em função dos
estímulos do meio ambiente, que, por sua vez, modelam e controlam as ações das pessoas tal
como é apresentado nas concepções empiristas do conhecimento. Para os pesquisadores
desta corrente, o mais importante é o estudo daquilo que se pode constatar empiricamente,
isto é, a consistência da pesquisa está na conduta observável e nas suas consequências. Ainda
que as teorias que pertencem a este grupo incluam muitos autores, destacarei apenas os mais
representativos e conhecidos no campo da aprendizagem acadêmica: Ivan Pavlov (1849 -
1936), John B. Watson (1878 - 1958), Edward Lee Thorndike (1874 - 1949), Burrhus F. Skinner
(1904 - 1990).
Por outro lado, o paradigma cognitivista marca sua trajetória por meio de publicações e
diversas conferências internacionais organizadas por relevantes cientistas dos anos 70, como é
o caso de Gagné, que, em 1967, realiza uma conferência sobre a aprendizagem e as diferenças
individuais, reformando os esquemas existentes relativos aos processos que intervêm entre
estímulos e respostas.
A concepção cognitivista atribui a conduta, não mais a sucessos externos, mas a certas
estruturas mentais complexas e a determinados mecanismos de caráter interno. Considera
que as pessoas realizam processos de elaboração, e estas elaborações e interpretações são tão
importantes que o comportamento das pessoas se ajusta, sobretudo, a estas representações
internas (FERRERAS, 1998). A partir desta perspectiva nasce a preocupação pelo estudo do
sistema cognitivo humano, mais especificamente o processamento da informação, e sobre
como cada pessoa interpreta e compreende sua experiência pessoal, o que se constituirá em
uma questão crucialneste âmbito de investigação. As pesquisas cognitivistas mostram que,
ainda que os sujeitos tenham capacidades ou inteligências para aprender, é necessário que o
ambiente brinde oportunidades ao desenvolvimento de tais capacidades e inteligências,
chamando da atenção principalmente a relação pedagógica entre aluno e professor.
Dentro desta perspectiva, podemos encontrar vários autores que abordam aspectos diferentes
e complementares, o que mostra que a pesquisa sobre aprendizagem é um movimento em
constante construção. Igual aos teóricos do comportamento, os autores que apresentam uma
visão cognitivista da aprendizagem são vários, mas destacarei alguns dos mais citados na área
da Psicologia da Educação e nas pesquisas que se referem ao tema em estudo.
Como representantes da concepção cognitivista de aprendizagem, destaco Albert Bandura,
Robert Gagné, Jean Piaget (1896 - 1980), Jerome S. Bruner, David Ausubel, Lev Vygotsky (1896
- 1934), Jorge Visca (1935 - 2000), Juan Ignacio Pozo.
1.1 Do Paradigma Comportamental...
Os adeptos deste enfoque de aprendizagem, analítico em sua essência, nas palavras de Pearce
e Bouton, "... decompõe qualquer ambiente em um conjunto de elementos associados entre si
com distinta probabilidade, de modo que aprender é detectar, com a maior precisão possível,
as relações de contingências entre esses elementos ou fatos, de forma que os processos de
aprendizagem consistem essencialmente em mecanismos de cômputo dessas contingências"
(apuei POZO, 2004, p. 20). Em outras palavras, a marca deste paradigma está no valor do
ambiente estimulador e nos resultados provenientes destas condições (quantidade de
associações realizadas entre estímulos e respostas), ignorando, portanto, os processos
intermediários entre eles.
Convido o leitor, na visita a cada um dos autores, a conhecer, embora brevemente, a
concepção de aprendizagem adotada por eles, nunca esquecendo a influência cultural de suas
posições e pesquisas e do quão foram necessárias para a compreensão atual da mente
humana em toda a sua complexidade.
Ivan Pavlov
Um pesquisador que merece destaque neste enfoque é Pavlov e sua Teoria do Reflexo
Condicionado. Este autor pressupõe que as atividades do organismo determinam e
condicionam a natureza do sistema nervoso, denominando-o de "sistema
neurocomportamental". O associacionismo de Pavlov (1973) se fundamenta em seu conceito
de reflexo condicionado que hoje conhecemos como Condicionamento Clássico.
Pavlov, como alguns psicólogos associacionistas, explica a aprendizagem em função da
associação dos estímulos ou dos estímulos e das respostas, por meio do Condicionamento
Clássico. Pavlov salienta muito mais a força do meio ambiente quando exemplifica os
estímulos e as respostas subsequentes, valorizando somente as que se originam fora do
sujeito. Aprender para este enfoque significa que aquele que aprende está condicionado ao
meio, e isto significa, por exemplo, quando uma pessoa realiza uma avaliação escolar, ela
expõe exatamente aquilo que lhe foi ensinado, incluindo vírgulas e pontos, porque assim e só
assim é o "certo".
Não obstante, voltando-nos à relação pedagógica, notamos que a visão comportamental da
aprendizagem defende a ideia de que o professor deve fixar o saber do indivíduo,
predeterminando os conhecimentos suscetíveis de ser transmitida, sua maneira de transmiti-
los e, consequentemente, a avaliação desses conhecimentos. Para exemplificar e favorecer a
compreensão, eu lembraria que, desta forma, todos os alunos terão acesso aos mesmos
saberes, da mesma maneira. Diante de uma pergunta, somente uma resposta é esperada. Esta
proposição de teoria da aprendizagem aplicada ao ensino limita o aluno na hora de poder
buscar novas alternativas de aprendizagem diante de situações desconhecidas e diferentes.
John Watson
Entre os estudiosos da concepção comportamental da aprendizagem, aparecem Watson e seu
grupo de trabalho, que foram influenciados pelas propostas do fisiólogo russo Pavlov e
orientadas até uma concepção de aprendizagem considerada como processo de construção de
reflexos condicionados que se realiza por meio da substituição de um estímulo por outro.
(BIGUE, 1977, p. 58)
Watson concebe o conceito de conduta como uma ação observável produzida pelo organismo
no ambiente em que vive. A conduta não será, consequentemente, relativa ao inatismo ou ao
temperamento. Watson não somente vai deixar de lado as questões relativas ao instinto, mas
também desconsidera as predisposições genéticas do ser humano. O importante para esta
forma de conceber o comportamento é o resultado, aquilo que a pessoa mostra ou demonstra
que aprendeu.
Este autor inclui na compreensão do que sejam conduta todos os fenômenos visíveis,
objetivamente comprováveis ou factíveis, que puderem ser submetidos ao registro e à
verificação; fenômenos que sejam respostas ou reações aos estímulos agentes. Por meio de
uma sólida base experimental, Watson tentou situar a Psicologia sobre o modelo das ciências
naturais e, desta forma, pode apresentar suas divergências diante dos postulados
fundamentais da Psicologia clássica: a introspecção como método científico e a consciência
como objeto da Psicologia.
Para John B. Watson (1919), a aprendizagem é considerada como o estabelecimento de
associações simples (respostas condicionadas), com base no sistema nervoso, isto é, toda
conduta representa a aprendizagem de respostas a estímulos particulares. Segundo seu
estudo, os atos humanos mais complexos são concebidos como cadeias de respostas
condicionadas.
Para Watson, aprendizagem é aquilo que se pode ver e constatar, isto é, a conduta adquirida e
observável.
"A Psicologia como vê um condutivista é um ramo puramente objetivo e experimental da
ciência natural. Sua meta teórica é a predição e o controle da conduta" (apud FERRERAS, 1998,
p. 38). Esta maneira de conceber o sujeito que aprende vê excluída a possibilidade referente às
diferenças inatas, ao temperamento ou à própria mente. Para os condutivistas, a maioria das
emoções é reflexo condicionado, com exceção de algumas, como o medo, a ira e o amor. Os
estudos da consciência os argumentam, não é objeto de investigação próprio de uma ciência,
pela grande dificuldade de medi-la objetivamente.
Os behavioristas, como são chamados seus seguidores, salientam que a essência da máquina
humana é o sistema de receptores (órgãos dos sentidos), condutores (neuronas), órgãos de
comando (cérebro e coluna vertebral) e agentes (músculos) conectados aos ossos, além dos
órgãos de alimentação e controle como são o estômago e as glândulas. E, assim, acreditaram
que, uma vez controlados os estímulos do meio em que o sujeito está inserido, se pode moldar
o seu caráter na direção que se quer.
A teoria proposta por Watson reduz o processo de aprendizagem às determinações da
instituição, dos especialistas, dos conteúdos específicos a uma determinada tarefa ou, em
outras palavras, daqueles que manipulam ou detêm o poder da decisão, controlando assim as
ações das pessoas. Para exemplificar, poderíamos pensar naquelas situações nas quais fomos
levados a dar as respostas esperadas pelos outros e não as que gostaríamos de dar.
Sem dúvida, é importante considerar os estímulos, as necessidades do contexto em que o
sujeito vive. Porém, nasce em mim a seguinte questão, que divido com o leitor: Condicionar a
ação significa ao mesmo tempo estimular o pensamento e/ou a aprendizagem?
Edward Lee Thorndike
Nos estudos de Thorndike, podemos observar a ampliação dos trabalhos de Pavlov, pois
realizou seus experimentos em situações de laboratório não tão rigorosamente controladas,
mas introduziu situações um pouco mais naturais, nas quais intervinha na aprendizagem
mediante o ensaio e o erro. Isto se refere à crença deste autor nas situações de repetição, isto
é, para que uma determinada situação seja resolvida,devemos repetir a mesma ação, até que
casualmente a solução seja encontrada.
As investigações de Thorndike (1913) sugerem a possibilidade da existência de vínculos
específicos entre as "impressões sensoriais" e os "impulsos para a ação" e, por isto, seus
estudos se encontram na denominada Teoria do Conexionismo ou Condicionamento
Instrumental. Esta teoria pressupõe que, por causa do condicionamento, respostas específicas
podem unir-se a estímulos específicos. Estas uniões ou conexões são o produto de uma
mudança biológica no sistema nervoso. Thorndike pensava que o principal caminho por meio
do que se formavam as conexões do tipo S-R (estímulo - resposta) era de ensaio e erro,
porque, à medida que os ensaios se repetem, cada vez mais demora menos tempo em
encontrar a solução, eliminando as condutas inadequadas.
Sobre a base de seus experimentos, Thorndike formulou certas leis da aprendizagem e as
classificou como primárias e secundárias. As primárias denominou de disposição, de exercício
e de efeito. As leis secundárias ou subordinadas foram identificadas pelas expressões de
múltipla resposta, "sei\ predomínio de elementos, resposta por analogia e mudança
associativa.
Entre as leis formuladas por Thorndike, ocupa um lugar relevante a conhecida como "lei do
efeito", que ressalta.
Que qualquer ato que produza um efeito satisfatório em uma determinada situação tende a
ser repetido nessa situação. A lei do efeito se converteu em guia do ensino, premiando as
ações corretas e debilitando as incorretas, também chamado por ele de princípio do prazer e
da dor. Infelizmente, até hoje, encontramos atitudes pedagógicas nas diferentes disciplinas,
que enfatizam este tipo de crença. Como exemplo, podemos citar o caso de escolas que
destacam os alunos que conseguiram os primeiros lugares no vestibular ou excluem do seu
quadro discente os alunos considerados "problemas", indisciplinados, com dificuldades de
aprendizagem.
Podemos observar que as leis da aprendizagem de Thorndike estão intimamente relacionadas
e podem operar juntas. Por exemplo, se uma pessoa estiver preparada para responder a uma
questão, então a resposta dará satisfação, e este fato em si tenderá a fixar a resposta. Em uma
situação concreta de sala de aula, podemos perceber este exemplo quando um aluno, ao
explicar o exercício no quadro de giz, é elogiado pelo professor diante da turma. E o tipo de
situação que favorece a fixação do conteúdo.
Da mesma maneira, as leis parecem ser extremamente mecânicas, não dando lugar a nenhum
tipo de pensamento, compreensão ou intencionalidade por parte da pessoa, uma vez que a
ênfase está na docência e não na aprendizagem.
Watson, apesar de descartar algumas ideias de Thorndike, valorou positivamente a lei
secundária que este desenvolveu: mudança associativa. O princípio enunciado por esta lei foi o
ponto de partida do movimento behaviorista de 1920. Esta lei nos mostra que um aluno pode
desenvolver diferentes respostas diante de um estímulo em função de seu grau de
sensibilidade e de capacidade de associação entre a situação de estimulação e das possíveis
respostas.
A proposta de Thorndike relativa à aprendizagem acadêmica parece um tanto restrita quando
enfatiza a noção de aprendizagem por ensaio e erro, utilizando a repetição e a prática como
metodologia pedagógica. Este autor faz referência ao mental como algo sentido e percebido,
isto é, valoriza os sentidos em detrimento do pensamento.
Compartilho com o leitor minhas inquietações: Até que ponto desconsiderar os erros e as
alternativas mentais que fazem parte da aprendizagem pode servir de fundamento no trabalho
do professor?
Burrhus Skinner
Outro pesquisador que compactua com as ideias do paradigma comportamental da
aprendizagem é Skinner, criador da Teoria do Condicionamento Operante, que agrega um
aspecto a mais em suas pesquisas: a reflexão sobre a condição do organismo e de suas
consequências, por isto operante, no momento em que tem lugar o processo de
aprendizagem.
Skinner não estava de acordo com os teóricos da linha S-R, discordando em dois aspectos
fundamentais. O primeiro está relacionado com os tipos de aprendizagem que, segundo
Skinner, são dois: o comportamento reflexo e o comportamento operante. O segundo aspecto
que difere dos demais condutistas é o relativo ao índice quantitativo utilizado nos estudos
sobre aprendizagem, posto que o tempo de reação pode ser modificado por certos fatores
externos ao processo, o que supõe que o tempo de reação não seja a melhor medida para
estudar a aprendizagem. Estes fatores externos, entre os quais estaria a posição do organismo
no momento em que o estímulo é apresentado e os dispositivos experimentais empregados,
poderiam aumentar o tempo de reação.
Skinner define aprendizagem como uma mudança na probabilidade da resposta. Na grande
maioria dos casos, esta mudança é causada por condicionamentos operantes. (BIGGE, 1977, p.
123)
Este autor afirma que todo o comportamento humano é produto do reforço operante.
Consequentemente, sendo operavelmente reforçadas, as pessoas aprendem a manter seu
equilíbrio, a andar, a falar, a escrever, a jogar e a utilizar instrumentos manuais; realizam uma
série de movimentos e, mediante o reforço, aumenta-se a possibilidade de repeti-los. Assim, o
reforço operante melhora a eficiência do comportamento.
No Condicionamento Operante, um organismo deve, em primeiro lugar, dar uma resposta
desejada e somente depois obterá a recompensa e, assim, a recompensa reforça a resposta. A
essência da aprendizagem não é a substituição do estímulo, mas a modificação da resposta.
O condicionamento operante considera que a conduta está sujeita à regulação dos fatores
ambientais. Denominam-se reforços aos fatores que servem para aumentar a probabilidade ou
a frequência de ocorrência de um determinado modo de conduta. Se o reforço desencadear
uma conduta desejada, receberá o nome de reforço positivo. No entanto, se o estímulo for
negativo, de tal modo que o reforço tenha lugar a uma parada do estímulo, dar-se-á o que
Skinner chama de reforço negativo, ou seja, o reforço se tornará um castigo.
O ensino é concebido como uma combinação de reforços contingentes que facilitam a
aprendizagem, com ou sem o professor. A proposta da "instrução programada", uma aplicação
da teoria do Condicionamento Operante, baseia-se no fato de que o máximo de esforço vem
do controle que alguém exerce sobre o meio. "Um programa é um conjunto de contingências
que modelam topograficamente a resposta e originam uma conduta sobre o controle de
estímulos de maneira eficiente" (SKIN- NER, 1969). Tal metodologia, ao referir-se à figura do
professor, parece dizer que poderia ser substituída por um bom e eficaz material ou por um
material que traz em si o próprio reforço.
A teoria comportamental da aprendizagem, além de desconsiderar as informações que o
sujeito já possui, descarta as características pessoais, as crenças, os desejos, as ideias e os
pensamentos, reduzindo a aprendizagem ou a própria natureza humana a estímulos, respostas
e reforços. E é forte, muito forte, a presença desta concepção na educação e na vida de hoje e,
como salienta Pinker (2004), "a doutrina da tábula rasa arraigou-se na vida intelectual sob uma
forma que foi chamada de Modelo Padrão da Ciência Social ou Construcionismo Social1. Hoje
esse modelo está tão incorporado à vida das pessoas que poucas têm noção da história que
ele encerra", (p. 37)
Para facilitar a compreensão do que aqui foi afirmado, podemos observar algumas práticas
pedagógicas que continuam insistindo na quantidade do conteúdo a ser trabalhado, em
detrimento da seleção qualitativa do que é significativo para um determinado grupo de alunos.
Portanto, as pessoas que concordam com o paradigma comportamental da aprendizagem
creem que, para o sujeito aprender, é necessária uma escolacom muita disciplina, burocracia
e autoritarismo. O controle da situação de aprendizagem parte de fora para dentro, impedindo
o sujeito aprendente de tomar consciência de sua ação. E o caso de uma criança da primeira
série que, ao lhe perguntar o que faz quando escreve errado, responde: "A professora fala que
está errado, eu vou lá e arrumo".
Como esta concepção de aprendizagem não explica o que acontece com o sujeito na hora de
aprender e também não considera a ação deste sujeito como uma resposta ativa, acreditamos
que se faz necessário continuar visitando outros autores, outras ideias, novas possibilidades.
Paradigma Cognitivista
Em virtude do grande interesse na área da Psicologia pelas questões cognitivas e o uso das
tecnologias cognitivas da informação em uma multiplicidade de situações e áreas, não temos
uma linha única na teoria cognitivista, que explique o funcionamento da mente. O que
percebemos nas diferentes propostas que compõem este paradigma da aprendizagem é que
concebem a conduta e o conhecimento humano a partir das representações provenientes da
mente humana e estudam os processos que transformam ou manipulam estas representações.
Em outras palavras, esta concepção de aprendizagem discute a diferença entre a aquisição da
informação e do conhecimento, considerando "os protagonistas do processo de aprender e
ensinar como sujeitos inteiros, mas compostos pelas dimensões do pensamento, do
sentimento, da ação e da interação". (PORTILHO e BARBOSA, 2007)
Continuando com a proposta deste capítulo, apresentamos alguns teóricos cognitivistas e suas
concepções de aprendizagem, procurando mostrar ao leitor que a complexidade da mente
humana faz com que necessitemos articular e integrar as diferentes formas de pensar dos
diversos autores.
Robert Gagné
No estudo da aprendizagem cognitiva, as ideias de Gagné e seu "Modelo de Processamento de
Informação" aparecem quando afirma que o processo de aprendizagem é uma modificação
que pode ser provocada e que não pode ser simplesmente atribuída ao processo de
crescimento, como estabeleciam as concepções apriorísticas da aprendizagem, ou seja,
aquelas que acreditam que a aprendizagem independe da experiência. Gagné leva em conta,
por um lado, o caráter biologicamente determinado da aprendizagem; e, por outro lado,
enfatiza a importância desempenhada pelo meio externo para a aquisição do conhecimento.
O ponto de vista de Gagné (1974) sobre o tipo de modificação chamada aprendizagem se
manifesta como uma alteração no comportamento, indicando que a aprendizagem ocorreu,
comparando o comportamento do indivíduo antes e depois de haver sido exposto a uma
situação de aprendizagem. Nesta definição, encontramos a influência comportamental no
pensamento deste autor, o que reforça a ideia de que, em nome de algo novo, não devemos
desconsiderar o antigo e vice-versa.
O avanço na sua proposta está no fato de que para que ocorra a aprendizagem, o sujeito deve
experimentar uma transformação (aprendizagem ativa), desde a aprendizagem de signos e
sinais até a aprendizagem de resolução de problemas, como será exposto a seguir.
Em primeiro lugar, Gagné (1974) menciona a aprendizagem de signos e sinais. O signo é
qualquer símbolo que substitui ou indica outra coisa a partir de algum tipo de associação. Para
que este tipo de aprendizagem aconteça, devem ser apresentadas duas formas de estímulos
de maneira simultânea: o estímulo que produz a resposta geral e o estímulo que se transforma
em sinal. Este tipo de aprendizagem é comum na vida cotidiana. Para exemplificar, é o caso da
criança que aprende que um grito de seus pais pode ser um sinal de dor, ou de medo. Este
sinal pode originar-se em sujeitos que, quando crianças, tiveram-no acompanhado de
estimulações doloridas ou assustadoras. Do mesmo modo, podemos imaginar que muitas
emoções têm sua origem na aprendizagem de sinais. O fato de observar a casa onde passamos
a infância, depois de muitos anos de ausência, pode provocar sentimentos agradáveis de
nostalgia, independentemente de fatos específicos. O mesmo ocorre quando abrimos um livro
antigo ou, ao olharmos suas páginas, lembramo-nos de um determinado professor.
Gagné também apresenta a aprendizagem estímulo-reação, que compreende a execução de
movimentos musculares precisos e a resposta a estímulos ou combinações de estímulos muito
específicos. Este tipo de aprendizagem permite que o sujeito realize uma ação quando quiser.
Podemos imaginar, por exemplo, uma pessoa quando aprende uma língua estrangeira: quando
o sinal é solicitado, no caso uma classe de espanhol - "Diga perro", é provável que o sujeito
diga alguma coisa mais ou menos parecida. Todo aprendente deve receber reforços para
responder a um pequeno número de estímulos externos corretos, que se encontram no som
da palavra "perro", assim como para responder a um número de estímulos internos
provenientes de seus músculos ao pronunciar esta palavra. O próprio aprendente também
complementará o reforço, comparando sua pronúncia da palavra "perro" ("cachorro" em
português) com a do professor de espanhol. Se realmente o desejo é de que este ato seja
eficiente, há de se adquirir, com antecedência, um critério conveniente e preciso de
comparação. Esta é uma aprendizagem que exige o que chamamos hoje de estilo analítico por
parte do sujeito que aprende.
Outro tipo proposto por Gagné é a chamada aprendizagem por cadeia, que consiste na
aprendizagem de uma determinada sequência ou ordem de ações. Imaginemos a seguinte
situação: ensinar uma criança a amarrar os sapatos. Este autor assinala algumas condições
necessárias para a realização desta aprendizagem: a) os elos da cadeia devem ser
estabelecidos com antecedência para que sejam eficazes. Por exemplo, a criança deve saber
pronunciar a palavra sapato e deverá buscá-lo no momento em que sua mãe peça; b) as
respostas relativas ao fato de amarrar os sapatos devem ser caracterizadas por uma sequência
(continuidade dos elos), transcorrendo um breve espaço de tempo entre o estímulo que
conduz a pronúncia da palavra e as respostas; c) uma vez atendidas as duas condições,
podemos observar que a aquisição de uma cadeia não se baseia em um processo gradual, mas
acontece de uma só vez. Esta é uma aprendizagem que exige o que denominamos atualmente
de um estilo dotado de organização e percepção da totalidade da ação.
A aprendizagem denominada por Gagné de associações verbais está relacionada à
aprendizagem em cadeia que implica operações de processos simbólicos bastante complexos.
A aprendizagem pode acontecer na tradução de uma palavra da língua portuguesa para a
língua francesa, por meio da aquisição de uma cadeia. Se pronunciarmos as palavras "fósforo",
em português, e "alumette", em francês, seguidamente uma da outra, de forma repetida e um
número de vezes suficiente, a criança encontrará, incidentalmente, um código que lhe ajudará
a aprender a cadeia. No entanto, se quisermos que a aprendizagem se desenvolva de forma
rápida, o melhor caminho seria acrescentar a imagem referente à palavra.
A aprendizagem chamada discriminações múltiplas é uma aprendizagem que Gagné afirma ser
possível, mediante as associações entre vários elementos, implicando a ação de separar e
discriminar. Este tipo de aprendizagem é aquela que o professor utiliza para chamar os alunos
por seus respectivos nomes. E também o tipo de aprendizagem posta em prática pelo
estudante quando aprende a distinguir as diferentes plantas, os números ou os símbolos
matemáticos. O aspecto importante na discriminação múltipla é a interferência, que deve ser
vencida, para que se possa assegurar a fixação do aprendido. As novas cadeias interferem na
conservação de outras já aprendidas e vice-versa. Esta aprendizagem, dizemos atualmente,
demanda um estilo analítico, observador e reflexivo do indivíduo que aprende.
A aprendizagem deconceitos, segundo Gagné, significa aprender a responder a estímulos em
termos de propriedades abstratas, tais como: forma, cor, número ou posição. Como
exemplifica Gagné (1974, p. 41), uma criança pode aprender a dar o nome a um cubo de um
jogo de construção e utilizar o mesmo nome para fazer referência a outros objetos que se
diferenciam do primeiro em pequenas características, como a forma e o tamanho. Depois,
aprenderá o conceito de cubo, e esta forma passará a identificar distintos objetos que diferem
entre si (desde um ponto de vista físico). Qualquer que seja o processo, um conceito - como o
de cubo - poderá ser aprendido. Esta aquisição fará com que o indivíduo seja capaz de
identificar objetos de aparência física muito diferente, sempre que comportem as
características essenciais da definição do conceito. Seu comportamento passará a ser
controlado, não só por estímulos físicos específicos, mas também por propriedades abstratas
de tais estímulos. Já no caso de uma pessoa adulta, a aprendizagem de novos conceitos pode
acontecer por um caminho mais curto porque dispõe de maior riqueza de linguagem. Neste
tipo de aprendizagem, é comum ser utilizado um estilo de aprender por analogias, ou seja,
aquela aprendizagem que nos permite relacionar ou encontrar semelhanças nos fatos e nas
situações estudadas.
Outro tipo é a aprendizagem de princípios, que subtende que um princípio é uma relação
entre dois ou mais conceitos. As condições para que este tipo de aprendizagem aconteça são:
a) quando um princípio está sendo aprendido, o sujeito já deve dominar os conceitos que
estão sendo utilizados;
b) geralmente, o princípio é enunciado de forma verbal, como, por exemplo: "O pronome
eu leva o verbo para o singular";
c) a aprendizagem de um princípio se realiza em uma só ocasião. O importante para que
se saiba se alguém tem uma boa condição para a aprendizagem é observar se a pessoa que
aprende sabe realmente utilizar o princípio.
Por fim, a aprendizagem de resolução de problemas significa que, uma vez adquiridos alguns
princípios, a pessoa pode utilizá-los com finalidades diversas, atuando no meio e procurando
controlá-los. Pode também fazer algo muito mais importante - pensar. Isto significa que o ser
humano está dotado de uma qualidade que o leva a combinar os princípios já aprendidos com
novos princípios mais elevados. Isto pode acontecer quando a pessoa estimula a si mesma e,
também, reage às diferentes estimulações provenientes de seu ambiente. Graças aos
processos de combinação de princípios antigos e novos, a pessoa será capaz de resolver
problemas novos, adquirindo uma reserva de habilidades. E o caso, por exemplo, do estudante
ao fazer um resumo, uma dissertação ou quando reúne argumentos para apresentar um ponto
de vista. A resolução de problemas resulta da aquisição de novas ideias que multiplicam a
aplicabilidade dos princípios previamente aprendidos e estimulam novas habilidades que, por
sua vez, incitam a um pensamento mais elaborado.
Gagné passa a considerar o sujeito que aprende como um ser constituído por uma
funcionalidade cognitiva, ou seja, aquele que pensa diante da informação, baseando-se no
aspecto sensorial da cognição e destacando a importância das interações deste sujeito com o
estímulo que o leva a produzir uma resposta, que resulta na aprendizagem.
Mas, será que toda resposta que o sujeito obtém de sua interação com o meio onde vive pode
ser considerada aprendizagem?
Albert Bandura
O psicólogo Bandura nos ajuda a perceber a importância das interações sociais na aquisição da
aprendizagem quando propõe a sua "Teoria Social Cognitiva".
Em seus primeiros estudos (1963), este autor enfatiza os fatores sociais e o papel da
observação na aquisição e na manutenção das condutas, não fazendo referência ao aspecto
cognitivo do comportamento. Em 1999, suas publicações já ressaltam o caráter cognitivo da
conduta, ampliando suas ideias e, assim, fazendo com que diversos autores o reconheçam
como psicólogo cognitivista.
Segundo Bandura, a conduta está regulada, além dos fatores biológicos, por três sistemas
diferentes: 1) um controle que vem dos estímulos antecedentes sejam eles incondicionais,
condicionais ou discriminativos; 2) outro controle proveniente das consequências do
ambiente; 3) um terceiro controle constituído pelos processos cognitivos mediadores.
A regulação cognitiva determina que os sujeitos, diante de eventos externos, observem,
atendam, percebam, avaliem, armazenem e simbolizem as lembranças da memória. Todos
estes aspectos cognitivos intervêm nas imitações que os humanos realizam das condutas
observadas nos outros. (PUENTE FERRERAS, 1998, p. 87)
Um aspecto mais primitivo da proposta deste autor está no fato de afirmar que a
aprendizagem está baseada na observação, assim como destaca a influência da "modelagem"
na conduta humana. Bandura dará por certo que, em todas as culturas, as crianças adquirem e
modificam padrões complexos de comportamento, conhecimentos e atitudes, observando os
adultos. Afirmará que "afortunadamente a maior parte da conduta humana é aprendida pela
observação, mediante modelagem". (BANDURA 1988, p. 68)
O conceito de modelagem para este autor é mais amplo que o conceito tradicional de
imitação, porque não somente inclui a observação e a cópia da conduta dos outros, mas
também compreende o que denomina de "modelagem verbal", que adquire um papel decisivo
à medida que se desenvolvem as competências linguísticas.
Este tipo de aprendizagem pode desencadear alguns efeitos, tais como:
a) efeito instrutor - permite a aquisição de respostas e habilidades cognitivas novas por
parte daquele que observa, ajudando-o a ampliar seu repertório de aprendizagens;
b) efeito de inibição ou desinibição de condutas previamente aprendidas;
c) efeito de facilitação - refere-se à resposta que o sujeito é capaz de dar e que não
estava previamente inibida, como quando, ao olharmos o céu, imitando o que o outro faz;
d) efeito de incremento do estímulo ambiental - em um experimento realizado por
Bandura em 1962, as crianças que observavam como se batia em uma boneca com um bastão
imitaram a resposta agressiva e fizeram o mesmo em outra situação;
e) efeito de ativação das emoções - as pessoas se emocionam ao observar as emoções
dos outros.
Em seus últimos estudos, Bandura insiste nos processos subjacentes à aprendizagem
observacional, como, por exemplo, o da atenção do observador até as atividades ou as
demonstrações do modelo, os fatores da memória, os processos de caráter executivo e os
processos de motivação.
Acreditamos que, dentro desta perspectiva teórica, o papel do professor é muito importante,
não tanto pela apresentação constante de modelos de conduta, verbais ou simbólicos, como
pela eficácia da consistência dos modelos, da adequação destes às competências dos alunos,
da interação afetiva entre os alunos e o próprio professor, assim como pela efetividade dos
procedimentos que o professor coloca em jogo na apresentação dos modelos. Os
companheiros da sala também podem ser um recurso importante.
Um aspecto interessante e oportuno destacado por Bandura em suas pesquisas é a alusão
feita à eficácia pessoal (1999), isto é, à auto eficácia, relativa às crenças do sujeito sobre suas
próprias capacidades para organizar e executar ações necessárias em situações futuras. As
crenças de eficácia estão relacionadas com o modo de pensar, de sentir, de motivar-se e de
atuar das pessoas. Portanto, quando falamos de metacognição (capítulo 3), compreendemos
melhor a relação existente entre a linha de pensamento de Bandura e a proposta da tomada
de consciência de nosso próprio conhecimento como uma das possibilidades para que o
indivíduo aprenda com mais eficácia.
Em sua análise das crenças das pessoas sobre sua eficácia, Bandura destaca quatro formas
fundamentais de influência:
•experiências de domínio - é a maneira mais efetiva para criar uma eficácia sólida, uma
vez que estão relacionadas às condições que o sujeito deve ou não reunir para obter êxito, e
estes, diferentes dos sucessos, ratificam a eficácia pessoal; experiências vicárias - estão
relacionadas ao êxito obtido pela pessoa por meio da observação; êxito que supõe o aumento
das crenças do observador de que possui as capacidades necessárias para dominar atividades
comparáveis. Se as pessoas consideram os modelos muito diferentes de si mesmas, suas
crenças de eficácia pessoal não serão muito influenciadas pela conduta do modelo nem pelos
resultados que esta produz; (BANDURA, 1999, p. 22)
• persuasão social - ocorre quando as pessoas se mobilizam totalmente para alcançar o
êxito, porque são estimuladas pela auto eficácia persuasiva. Desta forma, suas crenças de auto
eficácia estimulam o desenvolvimento de destrezas e a sensação de eficácia pessoal;
• favorecer o estado físico, reduzir o estresse e as tendências emocionais negativas e
corrigir as falsas interpretações dos estados orgânicos - os indicadores psicológicos de eficácia
são agentes influentes no funcionamento da saúde e nas atividades que requerem esforço
físico e persistência, assim como, em geral, os estados afetivos têm efeito sobre as crenças
relativas à eficácia pessoal em diferentes esferas de funcionamento. Em outras palavras, a
pessoa, para aprender a ser consciente de seus conhecimentos e controlá-los, precisa acreditar
em si mesma antes de tudo.
Outro ponto importante da proposta de Bandura reside nos quatro processos fundamentais
para que as crenças de eficácia regulem o funcionamento humano: os processos cognitivos,
motivacionais, afetivos e seletivos. Tais processos operam juntos na regulação contínua do
funcionamento humano.
Os processos cognitivos da conduta humana, que têm um objetivo claro a seguir, são
regulados mediante o pensamento antecipador que inclui os fins desejados. Quanto mais forte
é a eficácia percebida, mais desafiadoras são as finalidades que as pessoas se propõem e mais
firme é o compromisso para alcançá-las. O pensamento tem uma função importante: a de
capacitar as pessoas para predizer sucessos e desenvolver os métodos para controlar os
sucessos que influem sobre suas vidas. No momento em que a pessoa aprende as regras de
predição e regulação, deve recorrer a seu conhecimento para construir opções, para equilibrar
e integrar os fatores preditivos, para provar e revisar seus juízos à mercê dos resultados
imediatos e distantes de suas ações e para recordar os fatores provados e como funcionaram.
(BANDURA, 1999, p. 24)
Para que o sujeito se sinta eficaz em suas atividades, é importante, como diz Bandura, os
processos motivacionais, já que grande parte da motivação do ser humano tem origem no
sistema cognitivo. As pessoas se motivam a si mesmas e dirigem suas ações antecipadamente
mediante o exercício do pensamento antecipador, assim como mobilizam, à vontade, os
recursos e o nível de esforço necessário para alcançar o êxito. Existem diferentes tipos
motivadores cognitivos, e as crenças de eficácia operam em cada um deles. Estamos falando
das atribuições causais, das expectativas de resultados e das metas cognitivas.
Bandura exemplifica as atribuições causais, quando diz que as pessoas que se consideram
muito eficazes atribuem seus fracassos ao esforço insuficiente ou às condições situacionais
adversas, enquanto as pessoas que se consideram ineficazes atribuem seus fracassos à sua
pouca habilidade. Com relação as expectativas de resultados, Bandura salienta que a
motivação está em consonância com os resultados que uma ação pode produzir e com o valor
conferido a estes resultados, como seria o caso das opções muito atrativas que as pessoas não
executam porque se consideram incapazes para realizá-las.
O terceiro tipo de motivação cognitiva, as metas cognitivas, refere-se às metas explícitas e
desafiadoras que fomentam e sustentam a motivação. A motivação, baseada no
funcionamento de metas, implica um processo de comparação cognitiva entre a execução
percebida e o modelo pessoal adotado.
Os processos afetivos fazem referência ao como as pessoas trabalham em situações difíceis ou
ameaçadoras, o que indica as crenças ou a confiança que têm em sua capacidade de manejar a
quantidade de estresse e depressão. Ainda que os sujeitos sejam submetidos às mesmas
situações estressantes produzidas pelo ambiente, os que creem que podem manejá-las
permanecerão impertubáveis, enquanto aqueles que dizem não poder manejar pessoalmente
estas situações vão concebê-las de forma frágil.
Estes aspectos afetivos nos levam a relacionar a resistência que muitas pessoas exercem
diante do fato de conhecer suas possibilidades e limitações, que é precisamente a proposta da
metacognição. Sendo assim, destacamos a importância do professor, uma vez que cabe a ele
sensibilizar seus alunos para que os mesmos manejem, a partir do autoconhecimento, as
dificuldades que aparecem na hora de estudar.
Bandura destaca a importância da educação para uma vida produtiva, assim como a
necessidade do desenvolvimento de competências cognitivas e autoreguladoras para que
possamos desempenhar os diferentes papéis que ocupamos e manejar as demandas da vida
contemporânea. Também salienta que o rápido ritmo empregado pelas mudanças
tecnológicas e o acelerado crescimento do conhecimento exigem a capacidade para a
aprendizagem autodirigida. Acrescenta que um dos principais fins da educação formal deveria
ser o de equipar os estudantes com instrumentos intelectuais, crenças de eficácia e interesse
intrínseco para educar a si mesmo durante toda sua vida. (BANDURA, 1999, p. 34)
As dimensões cognitiva, afetiva e social que aparecem na teoria de Bandura são muito
importantes, já que reforçam a evidência de que o processo de aprendizagem não pode
continuar, sendo visto como algo meramente inato ou proveniente do ambiente no qual o
sujeito está inserido, como defendem os condutistas.
Acredito que a grande contribuição deste autor tenha sido nos alertar sobre a importância da
dimensão social da aprendizagem, destacando elementos, como a observação, a memória, a
motivação, a afetividade na prática pedagógica. E quando se refere à auto eficácia como a
necessidade de acreditarmos em nossas possibilidades, permite-nos afirmar o quanto é
necessário na hora de aprender que as dificuldades, os erros, os tropeços sejam revertidos em
momentos significativos de construção de conhecimento e a relevância do papel do professor
neste processo.
Jean Piaget
Piaget, autor da teoria denominada "Epistemologia Genética", realizou seus estudos com o
objetivo de conhecer a evolução do conhecimento na espécie humana. Os resultados das
pesquisas que desenvolveu junto com seus colaboradores e, posteriormente, as de seus
sucessores ajudam a compreensão do desenvolvimento humano e da aprendizagem, relativa à
lógica matemática e suas relações com a linguagem e a construção da moral (PIAGET, 1994).
Piaget mostra que a interação do homem com o mundo possibilita a construção de estruturas
cognitivas cada vez mais complexas, que permitem a esses homens terem sensações, realizar
movimentos, perceber, simbolizar, abstrair e raciocinar logicamente.
Segundo Piaget, o conhecimento se constrói, o que significa que a inteligência se constrói em
um processo de interação ativa do sujeito com o mundo externo. A priori, é a partir dos
reflexos inatos, baseados na ação do sujeito sobre o meio social e físico, quando inicia a
construção das estruturas de pensamento. Nesta etapa, dentro da trajetória que transcorre
sua teoria, Piaget concebe o sujeito que aprende como um ser ativo que se situa e se posiciona
diante de um determinado contexto.
Para este autor, "a vida é, em essência, autoregulação", quer dizer, a vida mental faz parte
integrantedo desenvolvimento da inteligência, pois esta se desenvolve para manter um
equilíbrio dinâmico com o meio. Quando o equilíbrio se rompe, o indivíduo atuará sobre o que
produziu o desequilíbrio (seja uma imagem, um som com uma informação), para estabelecer a
situação de equilíbrio inicial. Estes fatos acontecem graças ao que Piaget denomina de
adaptação e organização.
Como vimos anteriormente, a concepção de aprendizagem associacionista se apoia no
êxito das aprendizagens anteriores, incrementando sua probabilidade de ocorrer. Já a visão
construtivista da aprendizagem tem sua origem na tomada de consciência dos fracassos ou
dos desequilíbrios (PIAGET, 1974, 1978) entre as representações e a realidade. Este ponto da
teoria piagetiana vem contrapor a crença de que não se podiam cometer erros para aprender.
Em entrevista com Bringuier (1993), Piaget, ao explicar a capacidade de adaptação dos
organismos vivos ao meio ambiente, infere que a inteligência humana é sempre uma
construção endógena (fatores internos), de dados exógenos (fatores externos) provenientes
da experiência. Por isso, em seus estudos, considera e contempla as variações não hereditárias
que, durante a história, foram substituídas pelas hereditárias. A inteligência é,
consequentemente, uma adaptação ao meio exterior, como toda adaptação biológica. Vale
dizer que, diante desse conceito, percebemos claramente a visão interacionista proposta por
Piaget, por considerar tanto os aspectos inatos como os ambientais importantes na hora da
aprendizagem.
Esta adaptação, no entanto, é fruto da adaptação do indivíduo com seu ambiente, onde os
fatores fisiológicos da maturação, as experiências com os objetos do mundo físico e com o
meio social, coordenadas por um mecanismo autorregulador (equilibração), são elementos
absolutamente necessários para o desenvolvimento. Quando se refere ao aspecto
autorregulador, parece que Piaget aponta para a valorização do sujeito na utilização das
variáveis metacognitivas, a regulação e o controle (temas a serem tratados na parte três) para
qualquer atividade ou tarefa a ser desenvolvida.
A adaptação apresenta duas invariantes funcionais básicas: a assimilação e a acomodação.
Piaget (1976) explica a assimilação como a incorporação de novos elementos a estruturas já
existentes e a acomodação como sendo toda a modificação dos esquemas de assimilação por
influência de situações exteriores. Este jogo entre assimilação e acomodação permite que os
organismos mantenham um equilíbrio dinâmico.
Estes dois movimentos básicos da aprendizagem podem ser didaticamente explicados
separadamente, no entanto, não podemos estabelecer um corte entre eles na ação
adaptativa. Não é possível observar um comportamento e dizer: "Ah! Agora ele está
assimilando e agora está acomodando". Ambos os processos estão indissoluvelmente unidos.
A assimilação funciona para preservar as estruturas; a acomodação funciona no sentido de
variabilidade, de desenvolvimento e de mudança.
Já a organização articula estes processos com as estruturas existentes e organiza todo o
conjunto de ações. Assim, o indivíduo constrói e reconstrói continuamente as estruturas que o
fazem cada vez mais apto à equilibração. Estas construções se desenvolvem na mesma ordem
em todas as culturas, mas a idade em que aparecem é diferente. Como Piaget estudou as
crianças genebrinas, a divisão por idade, apresentada por ele, pode ser entendida para este
grupo ou para crianças de culturas semelhantes. Existem culturas nas quais o período pré-
operatório, por exemplo, dura mais tempo em que outras. São estes períodos chamados de
estádios do desenvolvimento que, por sua vez, descrevem a evolução do raciocínio.
O primeiro estádio proposto por Piaget é o chamado sensório-motor, no qual, a partir dos
reflexos neurológicos básicos, o bebê começa a construir esquemas de ação para assimilar
mentalmente seu ambiente. A inteligência é prática. As noções de espaço e de tempo, por
exemplo, constroem-se mediante a ação. O contato com o meio é direto e imediato, sem que
a representação e a ação de pensar apareçam neste início ou nos primeiros momentos deste
período. Piaget afirma que, nesta fase, se desencadeia uma importante transformação não
observável de modo direto.
Em segundo lugar, Piaget descreve o estágio operatório-concreto, que se divide em dois
subperíodos. No primeiro, chamado de período pré-operatório, no qual se preparam as
"operações concretas", a criança será capaz de representar mentalmente pessoas e situações,
como também atuar por simulação, "como se fosse". O segundo subperíodo, operatório-
concreto, em que as operações concretas já estão estabelecidas e consolidadas, a criança já é
capaz de relacionar diferentes aspectos e abstrair dados da realidade.
Por último, Piaget apresenta o estádio "operatório- formal", no qual a representação permite a
abstração total, não limitando o jovem a uma representação imediata nem às relações
previamente existentes, mas impulsionando-o a pensar em todas as relações possíveis
logicamente. Neste período, o pensamento, uma vez que já está consolidado, corresponde ao
de um adulto. Sua característica mais forte é a capacidade de raciocinar de um modo lógico,
partindo de premissas e deduzindo as conclusões pertinentes.
Por outro lado, o que é universal e predeterminado na história biológica do ser humano
enquanto espécie é a ordem de complexidade em que tal construção acontece, podendo o
indivíduo chegar ou não a um desenvolvimento cognitivo mais complexo. Isto vai depender de
quatro fatores de aprendizagem (maturação, experiência, transmissão social e equilibração) e
da forma de utilização destes fatores no processo de interação com o meio.
O primeiro fator geral do desenvolvimento mental recebe o nome de maturação nervosa.
Dolle (1987, p. 69) afirma que a maturação torna possível a constituição das estruturas
operatórias, mas nada se sabe sobre as condições em que isto acontece.
O segundo fator de aprendizagem é o exercício e a experiência adquirida na ação efetuada
sobre os objetos. Este fator é essencial e necessário, mas é também complexo e não explica
tudo. A experiência física e a experiência lógico-matemática são diferentes. A primeira consiste
em operar sobre os objetos para abstrair suas propriedades, e a segunda consiste igualmente
em operar sobre os objetos para conhecer o resultado das coordenações das ações.
O terceiro fator é o das interações e das transmissões sociais. A linguagem é, sem dúvida, um
fator do desenvolvimento, porém não é fonte deste desenvolvimento. Para poder assimilar a
linguagem, é necessário um instrumento de assimilação anterior. Geralmente, o
desenvolvimento operatório precede a expressão verbal. A linguagem parece estar dominada
pelo sujeito somente quando as estruturas necessárias de uma lógica verbal tenham sido
adquiridas, isto é, por volta dos doze anos. O meio social pode enriquecer a verbalização, mas
isto não permite que determinemos o nível de estruturação lógica desenvolvido. A
participação da linguagem na estruturação lógica precisa, para este autor, de estudos e
experiências que demonstrem sua influência neste desenvolvimento.
O quarto fator de aprendizagem apresentado por Piaget é a equilibração. Este aspecto do
desenvolvimento mental é necessário para explicar cada um dos fatores citados acima, mas
também comporta sua própria especificidade. As operações não estão pré-formadas, mas se
constroem de maneira continua pela abstração refletidora que, como se sabe, reflete em um
plano superior à estrutura elementar inicial, reconstruindo-a e ampliando- a. Desta maneira, as
abstrações refletidoras transformam os objetos ou as situações somente quando aparecem
situações de problema, de conflito e de desequilíbrios. A reconstrução operada consiste em
restabelecer o equilíbrio anterior, ampliando o campo de equilíbriomediante uma modificação
das estruturas. No domínio intelectual, a noção de equilíbrio caracteriza-se pela compensação.
Isto não significa que o equilíbrio esteja em estado de repouso, mas é um procedimento
decorrente de uma adaptação, principalmente porque o equilíbrio é móvel, de maneira que,
na presença de perturbações exteriores, o sujeito procurará reduzi-las por compensações de
sentido inverso. E assim que Piaget justifica, uma vez que a equilibração conduz a
reversibilidade, propriedade das estruturas operatórias.
Todos os fatores do desenvolvimento destacados por Piaget influem sobre a estruturação do
sujeito, mas o fator mais importante é o da equilibração. Este fator interno do
desenvolvimento é uma dinâmica ou processo que leva ao fator determinante mediante a
reflexão e a reconstrução de estados de estruturações superiores.
Como podemos observar, segundo a teoria piagetiana, desde que o indivíduo nasce leva
consigo uma história biológica que o permite construir, por meio de interações com seu
ambiente, estruturas cognitiva cada vez mais complexa que lhe permitem levar adiante
processos de aprendizagem cada vez mais complexos. O objetivo fundamental da indagação
piagetiana é estudar a construção do conhecimento por meio da ação do sujeito. Por isto, sua
proposta é essencialmente epistemológica, buscando analisar os mecanismos e os processos
mediante os quais se produz o conhecimento.
Jerome Bruner
Psicólogo americano, Bruner contribuiu de forma significativa no campo educativo com sua
"Teoria da Instrução", onde afirma que, no ensino, existem muitos aspectos que podem ser
mais bem explicados. Em seu livro O Processo de Educação (1960), aparece uma frase muito
conhecida: "Qualquer assunto pode ser ensinado eficazmente, de alguma forma
intelectualmente honesta, a qualquer criança em qualquer estádio do desenvolvimento", ou
seja, ele acredita que o desafio da educação não está em conhecer o período do
desenvolvimento no qual se encontra a criança e sim que, para aprender, é importante
considerar a maneira como as informações são trabalhadas pelo professor.
Um dos pontos-chave da teoria cognitiva de Bruner é sua concepção sobre a aprendizagem.
Este autor assinala que a aprendizagem não é algo que ocorre ao indivíduo, mas ele a provoca,
manejando e utilizando a informação, de forma que a conduta do sujeito não é algo
proveniente de um estímulo ou reforçado por ele, mas uma atividade complexa que envolve,
fundamentalmente, três processos: a aquisição da informação, a transformação da informação
e a avaliação da informação. (BELTRÁN, 1987, p. 78)
A teoria de Bruner enfatiza o papel de quem aprende, declarando que este constrói sua
aprendizagem por meio do manejo e da utilização da informação.
Isto indica que a informação não somente procede do exterior mas também exige todo um
esforço interno por parte da pessoa. Este esforço solicita do indivíduo que aprende a
transformar o que conhecia anteriormente, codificando e categorizando a informação,
ajustando-a aos esquemas existentes, constituindo-se como mediador interno entre o
estímulo e a transformação da resposta que chega do meio, fazendo com que a informação
inicial transcenda para convertê-la em algo diferente. A partir disto, o indivíduo terá de realizar
uma avaliação para saber em que medida a informação é apropriada para a tarefa em questão.
Bruner estima que muitas das questões relacionadas com a aprendizagem e a estimulação da
mente dependem da cultura. Para que a aprendizagem se desenvolva com sucesso, é
conveniente que o meio se apresente como um desafio diante do aprendiz, provocando-o,
para que este faça frente aos problemas e resolva-os, fazendo transferência de uma situação a
outra. Portanto, as pessoas que possuem habilidades apropriadas podem utilizar os sistemas
de amplificação, tais como: os amplificadores da ação, que são objetos que nos permitem fazer
algo, como, por exemplo, as agulhas, as frigideiras, as colheres etc.; os amplificadores dos
sentidos, relativos às maneiras de observar ou detectar as estimulações do ambiente; e os
amplificadores dos processos mentais, que são as formas de pensamento que o indivíduo
utiliza para aprender. (PALACIOS, 1988)
Estes sistemas de amplificação podem e devem ser estimulados pelo professor ao transmitir os
novos conhecimentos aos seus alunos, favorecendo a utilização de objetos do conhecimento,
o desenvolvimento de novas habilidades, assim como estimular o autoconhecimento por parte
daquele que aprende. Para exemplificar, pensemos no professor do Ensino Fundamental ao
trabalhar com um tema específico. E interessante que ele incentive os alunos a buscarem em
seu dia-a-dia elementos, objetos, situações correspondentes ao assunto, provocando os
mesmos a inventar e responder às perguntas, desenhar o que imaginam, escrever o que
sabem sobre o tema e trocar ideias com os colegas, realizar pesquisa, como também instiga-
los a refletir e avaliar sobre as estratégias de aprendizagem que escolheram.
Quando Bruner se refere à utilização de situações problemáticas para estimular a
aprendizagem, sugere que os conteúdos de ensino devem ser enfocados pelo professor como
um conjunto de problemas, relações e situações a resolver. Portanto, o ensino deve considerar
que a resolução de problemas é algo natural da vida real e, desta forma, a informação deverá
ter um caráter útil e aplicável a outras situações. Também é importante ter presente o objetivo
do processo de ensino e aprendizagem: o descobrimento.
Este teórico cognitivista afirma que a aprendizagem mais significativa se desenvolve por meio
de descobrimentos que transcorrem durante a exploração motivada pela curiosidade. Fala de
uma curiosidade que estimula o despertar de hipóteses e de perguntas. A sala de aula passiva,
monótona e sem a participação dos estudantes deve ser renovada ou substituída por métodos
de ensino que favoreçam a aprendizagem por meio do descobrimento guiado. Estes métodos
proporcionam aos estudantes oportunidade de manipular objetos e transformá-los por meio
da ação direta e relativa à realidade, provocando atividades de busca, exploração, análise,
processamento e avaliação. (GOOD y BROPHY, 1996)
Bruner critica os modelos condutivistas de aprendizagem quando salienta a importância de o
aluno desenvolver a capacidade de reflexão consciente, de raciocínio orientado à redefinição e
de remodelação e reorganização dos problemas, em lugar de limitar a aprendizagem somente
na memorização. Isto não significa que não devemos fazer uso dela, pelo contrário, devemos
ampliar suas possibilidades, tratando-a como uma atividade intelectual fundamental para a
comunicação e a lembrança de fatos significativos.
Outro aspecto da teoria de Bruner (1969) a ser destacado é com relação à aprendizagem
baseada em uma teoria prescritiva. Esta aprendizagem consiste no estabelecimento de regras
enfocadas em um melhor procedimento para adquirir conhecimentos ou técnicas de
conhecimento. Estas regras ou padrões servirão ao aluno para criticar ou avaliar qualquer
forma particular de ensinar ou aprender. Bruner dirá que a aprendizagem é uma teoria
normativa, pelo fato de estabelecer critérios e condições.
Em resumo, uma teoria de aprendizagem deve basear sua preocupação no "como" ensinar, no
ensinar melhor, para que o aprendido alcance os níveis de qualidade mais elevados possíveis.
A predisposição para aprender é outro dos temas abordados por este autor. Ao discutir as
predisposições, é comum localizar os fatores culturais, motivacionais e pessoais que influem
no desejo de aprender e de tentar solucionar problemas, como é o caso da relação entre
professor e aluno. A maneira como é estabelecida esta relação repercute na natureza da
aprendizagem, no grau em que o estudante desenvolve uma habilidade independente. As
relações entre aquele que ensina e aquele que aprenderefletem sempre na qualidade da
aprendizagem.
Bruner destaca a questão da estrutura e da forma do conhecimento e salienta que as ideias, os
problemas e os conjuntos de conhecimentos podem ser suficientemente simplificados para
que qualquer estudante possa entendê-los, isto é, devem ser expostos de forma clara. A partir
de tal afirmação, podemos pensar que a estrutura de qualquer domínio do conhecimento tem
relação com a habilidade do aluno em aprender o assunto a ser estudado, variando em função
da idade, das estratégias e dos estilos de aprendizagem de cada estudante e em função dos
diferentes conteúdos.
O ensino, por meio dos professores, deveria preocupar-se com os distintos aspectos que fazem
parte do processo de aprendizagem, incluindo desde a seleção do conteúdo a ser ministrado
até os recursos utilizados na hora de ensinar, como exemplifica Bruner a seguir.
Segundo o autor, o aluno apresenta três níveis de representação cognitiva do mundo, isto é, o
estudante transforma a informação de acordo com três métodos ou sistemas de
representação: o inativo, o icônico e o simbólico.
A representação inativa do indivíduo se refere à representação do mundo por meio da ação.
Por exemplo, se perguntamos a uma criança onde fica a padaria, provavelmente ela será capaz
de levar-nos até o lugar, mas dificilmente poderá representar o caminho em um mapa ou dar-
nos indicações orais. As imagens, as palavras e os símbolos não estão implicados em nenhum
grau significativo.
Na representação icônica, o sujeito já tem a imagem ou representação mental dos objetos,
sem necessidade de manipulá-los diretamente. Esta imagem existe independentemente da
ação. Por outro lado, também faz uso da imaginação sem utilizar, ainda, a linguagem. O
indivíduo já pode refletir sobre as propriedades dos objetos além do uso que possa dar a elas.
Como exemplo destas representações, temos os sinais de trânsito figurativos (um garfo e uma
faca indicando restaurante), a indicação de lugares masculinos e femininos (desenho de um
homem e de uma mulher).
A representação simbólica vai mais além da ação e da imaginação. O sujeito pode representar
o mundo mediante símbolos, uma vez que é dotado de uma atitude para traduzir a experiência
em linguagem e para receber as mensagens verbais dos adultos. O estudante é capaz de
compreender e manipular conceitos puramente abstratos. Esta capacidade de compreensão e
manipulação dos referidos conceitos é necessária para que ele possa beneficiar-se da instrução
verbal compreendida nos aspectos mais formais do conhecimento das diferentes matérias. As
bandeiras, a cruz para o Cristianismo, os sinais de trânsito não figurativos, as letras são
exemplos de símbolos que fazem parte do nosso dia-a-dia.
A pessoa madura pode utilizar adequadamente os três sistemas, uma vez que estes sistemas
são adquiridos cedo, em uma idade que vem determinada pelas oportunidades do meio e pela
maturação. No entanto, segundo os estudos realizados por Portilho (1995), os professores não
favorecem um ambiente em que se possa desenvolver o conhecimento que engloba os três
níveis de representação cognitiva. Isto ocorre por desconhecimento ou por acomodação do
professor. Em uma entrevista realizada com alunos, foi perguntado se tanto os professores
como eles eram conscientes das dificuldades que apresentavam na hora de estudar. Apenas
1% dos professores percebia as dificuldades nos seus alunos.
Saliento que Bruner é um autor importante no estudo do processo de aprendizagem porque
chama a nossa atenção para o papel significativo do professor, como aquele que deve não
apenas apresentar a informação ao aluno mas também desafiá-lo a transformar os conteúdos
em conhecimento.
David Ausubel
Ausubel desenvolve uma teoria cognitiva, denominada "Teoria da Aprendizagem Significativa",
centrada no ensino na sala de aula, partindo da crítica a aplicação mecânica dos resultados
obtidos nas tarefas não significativas e em laboratório.
É necessário e oportuno destacar dois aspectos desta teoria: o primeiro se refere à integração
dos novos conteúdos aos problemas expostos, e o segundo aspecto a considerar é sobre os
tipos de aprendizagem propostos na situação socialmente determinada, como é o espaço da
sala de aula, onde a linguagem é o sistema básico da comunicação e da transmissão dos
conteúdos - "aprendizagem verbal significativa". (AUSUBEL, NOVAKyHANESIAN, 1978).
Ausubel considera que a aprendizagem se integra aos esquemas de conhecimento
preexistentes no indivíduo de tal maneira que quanto maior for o grau de organização, clareza
e estabilidade do novo conhecimento, mais dificilmente se poderão acomodar e impedir os
pontos de referência, podendo transferir para situações novas de aprendizagem (FERNÁNDEZ
MARTÍN, 1998). Comparada à memorização mecânica, a aprendizagem significativa será retida
por mais tempo, será mais bem integrada a outro conhecimento e estará disponível com mais
facilidade para sua aplicação.
Pelo fato de considerar a estrutura cognitiva como única a cada pessoa, todos os significados
novos que se adquirem são também únicos em si mesmos (AUSUBEL, NOVAK e HANESIAN,
1978). Por isso, a necessidade de os estudantes conhecerem como aprendem, o que utilizam
ou podem utilizar na hora de aprender, conhecendo, enfim, seu próprio conhecimento.
Ausubel propõe duas diferentes dimensões da aprendizagem, que, por sua vez, dão lugar a
quatro classes fundamentais de aprendizagem. A primeira dimensão é a que diferencia a
aprendizagem por recepção da aprendizagem por descoberta, e a segunda é a que distingue a
aprendizagem mecânica da aprendizagem significativa.
a) aprendizagem receptiva - é a mais frequente no ensino, onde o aluno recebe o
conteúdo que deve aprender em sua forma final e acabada, não necessita realizar nenhum
esforço para descobrir, devendo somente compreender e assimilar os conceitos para poder
reproduzi-los quando for solicitado;
b) aprendizagem por descoberta - o aluno deve descobrir e reorganizar o material
apresentado por si mesmo, antes de incorporá-lo à sua estrutura cognitiva prévia, até
descobrir as relações, as leis ou os conceitos que posteriormente poderá assimilar;
c) aprendizagem mecânica - é produzida quando a atividade de aprendizagem consta de
associações puramente arbitrárias ou quando o sujeito age sem fundamentação lógica, regra
ou norma;
d) aprendizagem significativa - distingue-se das demais em duas características
fundamentais: a primeira quando propõe que o conteúdo pode ser relacionado não
arbitrariamente, isto é, quando a pessoa apresenta disposição para aprender
significativamente e o material a aprender é potencialmente significativo, relacionado com a
sua estrutura de conhecimento; e a segunda característica sugere que a aprendizagem
significativa pode ser representacional - o aluno pode aprender significados de símbolos ou de
palavras, conceituai - o aluno pode aprender conceitos e proposições - que é a aprendizagem
de ideias.
A diferença entre as duas dimensões reside em duas noções: a de fazer por fazer, relativa à
primeira dimensão - aprendizagem por recepção -, e a que tem como base a reflexão diante da
informação, que está ligada à segunda dimensão - aprendizagem por descoberta.
Em consequência, para que a aprendizagem significativa aconteça, são necessárias três
condições: uma referente aos novos conhecimentos que o sujeito adquire, e as outras duas
são relativas ao próprio sujeito (COLL, PALACIOS E MARCHESI, 1996, vol. 2, p. 71):
a) o material a ser aprendido deve ser potencialmente significativo para poder ser
relacionado com as ideias relevantes que o sujeito possui;
b) a estrutura cognitiva prévia do sujeito deve ter as ideias relevantes necessárias para
colocá-las em relação aos novos conhecimentos, isto é, o estudante deve dispor dos requisitos
necessários (capacidades e habilidades paraaprender a aprender) e dos conhecimentos
prévios para estabelecer conexões cognitivas entre um material e outro;
c) o sujeito deve manifestar uma disposição significativa para a aprendizagem, uma
atitude ativa marcada pelos fatores de atenção e motivação.
Este ponto da teoria de Ausubel reforça a importância do papel do professor, quando sugere
que ele pratique um ensino mais significativo. Isto sugere a reconstrução da concepção de
aprendizagem, uma concepção de professor entendida como agente facilitador ou mediador e
o papel do aluno como agente ativo do processo de aprendizagem e ensino.
Ausubel enfatizou que a aprendizagem deve estar disponível para a transferência em novos
contextos. Além dos estudantes recordarem e aplicarem a informação no contexto em que foi
aprendida devem ser capazes de generalizar a aprendizagem em contextos de aplicação
relevantes e ir mais além do aprendido. (GOOD e BRO- PHY, 1996)
Este autor considera que toda situação de aprendizagem ou de transferência de aprendizagem
se realiza mediante duas situações, a vertical e a horizontal, que se encontram em um
contínuo. A transferência vertical fala do tipo de aprendizagem em que o aluno aplica o
conhecimento adquirido de habilidades de nível inferior para facilitar a aprendizagem de
habilidades de nível superior.
Ausubel sugere que o professor siga uma organização sequencial e se assegure de que os
estudantes tenham os conhecimentos necessários a cada passo, com o fim de consolidar a
aprendizagem e garantir o domínio antes de continuar com passos superiores. A transferência
horizontal é a aplicação do conhecimento adquirido ao aprender o material de um domínio,
para facilitar a aprendizagem de outro domínio. Ausubel recomenda que o professor promova
a transferência horizontal, concentrando-se nos princípios e nas generalizações subjacentes,
dando oportunidades aos estudantes para aplicar o material em situações da realidade.
E comum na escola, independentemente do nível - educação infantil, ensino fundamental,
médio ou universitário -, os professores de uma série, ano, curso ou matéria responsabilizarem
os professores anteriores pela ausência de informações que trazem seus alunos. Da mesma
maneira, não se preocupam, em muitas ocasiões, em saber se houve ou não transferência de
aprendizagem de um nível a outro. É justamente isto que Ausubel pretende evitar com sua
proposta de trabalhar significativamente, partindo da informação preexistente no sujeito para
ampliá-la e transformá-la, criando, assim, um novo conhecimento. Mais do que uma mudança
de ideias, trata-se de uma mudança de atitude que exige que os participantes do processo
educativo partilhem e relacionem suas experiências pessoais.
Segundo este autor, o processo de vinculação da nova informação com os conhecimentos
preexistentes na estrutura cognoscitiva recebe o nome de inclusão. Como esta estrutura tende
a estar organizada hierarquicamente com respeito ao nível de abstração, generalidade e
inclusão das ideias, o surgimento de novos significados proposicionais reflete mais comumente
uma relação subordinada do novo material com a estrutura cognoscitiva. Isto implica a
inclusão de proposições potencialmente significativas em ideias mais amplas e gerais da
estrutura cognoscitiva existente, e isto, por sua vez, produz a organização hierárquica da
estrutura cognoscitiva.
Quando Ausubel assinala que a nova informação recebida pelo aluno está vinculada aos
aspectos relevantes e preexistentes na sua estrutura cognitiva e que o processo de
aprendizagem significativa modifica a informação recentemente adquirida e a estrutura
preexistente, está se referindo a que todas as formas anteriores de aprendizagem são
exemplos de assimilação. Portanto, a maior parte da aprendizagem significativa consiste na
assimilação da nova informação.
Assim, a Teoria da Assimilação de Ausubel está centrada na interação entre os novos conceitos
e os já existentes e no fato de que o produto final supõe uma modificação, tanto das novas
ideias aprendidas como dos conhecimentos existentes. Esta ideia nos remete aos dois
processos de aprendizagem citados por Piaget: a assimilação e a acomodação.
Ao professor, cabe um dos papéis mais importantes no processo de aprendizagem concebido a
partir do enfoque cognitivo. Cabe a ele levar em conta seu grau de preparação e rendimento
na matéria, sua força lógica e a coerência do conhecimento acadêmico, sua capacidade de
apresentar, explicar e organizar a matéria de maneira lúcida, assim como de manipular com
eficácia as variáveis que afetam a aprendizagem e de comunicar seu conhecimento aos alunos
de forma que resulte apropriado para seu nível de disposição até o conteúdo. (FERNANDEZ
MARTÍN, 1998)
Também a personalidade do professor entra em jogo e pode afetar os resultados da
aprendizagem. Um professor que tem prazer no que faz tende a favorecer um clima de
aprendizagem nas suas aulas. Seu grau de compromisso com o desenvolvimento intelectual
dos alunos e seu entusiasmo para com a matéria a ser trabalhada podem fazer melhorar, de
maneira notável, os resultados da aprendizagem acadêmica.
Portanto, tentando resumir as ideias de Ausubel, destaco que sua teoria é, para a educação e
em especial para o estudo da aprendizagem, um marco importante, uma vez que nos alerta
para o fato de antes de pensarmos e trabalharmos com novos conteúdos, devemos estar
atentos aos conhecimentos que os alunos já apresentam. E a partir deles que o ensino deveria
iniciar e se organizar, significando os conteúdos para cada realidade, visando, antes de tudo, à
aprendizagem.
Lev Vygotsky
Vygotsky (1988) desenvolve a Teoria Histórico Cultural, na qual afirma que a mudança pessoal
passa pela interação social. Ele critica as teorias que privilegiam o desenvolvimento individual
como elemento prioritário na interação do indivíduo com o meio, porque a origem do
mecanismo de mudança individual reside na sociedade e na cultura.
A criança, um ser biológico ao nascer, mantém constantes interações com os adultos que
tentam situá-la ou incluí-la na cultura que se vai construindo durante a história. Inicialmente,
as respostas infantis são resultados dos processos naturais herdados biologicamente e,
posteriormente, passam a ser resultados da mediação, isto é, de um processo interpsíquico,
construído no contexto social.
Vygotsky (1999) assinala que o pensamento (cognição) e a linguagem (fala) das crianças
começam sendo funções separadas que se conectam intimamente durante os anos pré-
escolares, desde o momento em que aprendem a usar a linguagem como forma de pensar e o
pensamento como algo a ser falado, expresso pela linguagem. As crianças adquirem no início
grande parte do seu conhecimento cultural mediante as conversações com os demais, em
especial com os pais e os professores. Posteriormente, este conhecimento vai se
transformando em algo que é próprio do sujeito, ele se apropria do conhecimento, e este
passa a fazer parte dele.
Segundo Vygotsky, a aprendizagem se realiza na interiorização dos meios historicamente
determinados e culturalmente organizados. Neste sentido, a natureza social se converte em
natureza psicológica. Portanto, em sua proposta, apresentam-se dois mecanismos: um que se
dá na relação com o mundo externo e outro que se dá internamente.
A natureza se transforma a partir da interiorização de sistemas de signos produzidos
culturalmente, possibilitando a aparição de funções psicológicas superiores. "Todas as funções
psíquicas superiores são processos mediados, e os signos constituem o meio básico para
dominá-las e dirigi-las. O signo mediador é incorporado à sua estrutura como uma parte
indispensável, na verdade a parte central do processo como um todo." (VYGOTSKY, 1999, p.
70)
Segundo Vygotsky, não é o nível de desenvolvimento do indivíduo que determina o que ele vai
aprender, mas oensino e a aprendizagem é que possibilitam o desenvolvimento, incluindo o
desenvolvimento potencial, ou seja, onde ele pode chegar.
Na sua proposta, encontramos dois níveis de desenvolvimento que devem ser considerados ao
estudar a aprendizagem e que, sem dúvida, é um marco na sua teoria. O primeiro deles é o
real, no qual as funções mentais estão estabelecidas como resultado de certos ciclos de
desenvolvimento já realizados. As funções psicológicas que formam parte do nível de
desenvolvimento real do sujeito em determinado momento da sua vida são aquelas que já
estão bem estabelecidas no momento atual. Elas são o resultado dos processos de
desenvolvimento já completados, já consolidados. Normalmente, podemos identificar este
nível por meio da aplicação de testes de desempenho do indivíduo, que mostram o caminho
que ele percorreu e o que ele pode realizar com autonomia.
O outro nível de desenvolvimento, o potencial, revoluciona a visão até aqui estabelecida pela
Psicologia. Vygotsky chama a atenção ao fato de que, para compreender adequadamente o
desenvolvimento, devemos considerar não somente o nível real mas também o nível de
desenvolvimento potencial, ou seja, a capacidade do sujeito para desempenhar tarefas com a
ajuda dos adultos ou de companheiros mais habilitados (o mediador). Existem atividades em
que uma criança não é capaz de realizar sozinha. Com a presença de outra pessoa, fazendo
uma demonstração, dando pistas ou oferecendo assistência durante o processo, isto poderá
ocorrer. Este nível fala do possível, mesmo que este não seja hoje conhecido.
Essa possibilidade de alteração no desempenho de uma pessoa pela interferência de outra é
fundamental para a compreensão do papel da aprendizagem nos dias de hoje. Em primeiro
lugar, esclarece que o sujeito, mesmo estando em um determinado momento do
desenvolvimento e na presença de outra pessoa, se não estiver preparado para tal, não
conseguirá realizar a tarefa proposta, principalmente porque o desenvolvimento não acontece
por antecipação. A ideia do nível de desenvolvimento potencial indica que um momento do
desenvolvimento não se caracteriza por etapas posteriores, nas quais a interferência de outra
pessoa afeta significativamente o resultado da ação individual.
Em segundo lugar, essa ideia é fundamental na teoria de Vygotsky porque atribui uma grande
importância à interação social no processo de construção das funções psicológicas humanas. O
desenvolvimento individual acontece em um ambiente social determinado, e a relação com o
outro nas diversas esferas e níveis da atividade humana é essencial para o processo de
construção do ser psicológico individual. Nesta proposta, a tomada de consciência de como
aprende somente é possível quando o aluno está em interação com o meio em que vive.
A distância entre os níveis de desenvolvimento real e potencial foi denominada por Vygotsky
(1988) como Zpna do desenvolvimento proximal. Este nível se refere ao caminho que a pessoa
terá de percorrer para desenvolver funções que se encontram em processo de maturação, de
maneira que cheguem a consolidar-se e a estabelecer-se em um nível de desenvolvimento
real. A zona de desenvolvimento proximal é um domínio psicológico em constante
transformação: o que um sujeito está habilitado para fazer hoje com a ajuda de alguém,
amanhã poderá realizá-lo de forma independente. É como se o processo de desenvolvimento
fosse se constituindo a partir das experiências de aprendizagem.
Desta maneira, pode-se conhecer a dinâmica do desenvolvimento e organizar uma intervenção
no processo de aprendizagem, começando pela zona que indica o próximo desenvolvimento, e
não por aquilo que o sujeito já desenvolveu. Este dado sugere que os professores observem e
conheçam estas diferenças em seus alunos, o que, sem dúvida, evitaria uma série de
problemas de aprendizagem apresentados hoje em nossas escolas. E importante destacar que
é impossível ao professor conhecer todas as zonas de desenvolvimento proximal de todos os
alunos, em todas as aprendizagens. Mas a possibilidade pode acontecer quando professor e
alunos encontram-se diante de algum impasse para que a aprendizagem ocorra.
Desta forma, a questão do desenvolvimento para Vygotsky só é possível pela importância dos
processos de aprendizagem. Desde que uma criança nasce, a aprendizagem está relacionada
com o desenvolvimento e é "um aspecto necessário e universal do processo de
desenvolvimento das funções psicológicas culturalmente organizadas e especificamente
humanas" (VYGOTSKY, 1984, p. 101). Existe um caminho de desenvolvimento definido, em
parte, pelo processo de maturação do organismo individual, pertencente à espécie humana,
mas é a aprendizagem o que possibilita o despertar dos processos internos de
desenvolvimento que, sem um contato do indivíduo com o meio cultural, não aconteceria.
A aprendizagem não é desenvolvimento, mas resulta nele. Para Vygotsky, é o desenvolvimento
que resulta da aprendizagem e não vice-versa. Ambos integram uma unidade dialética na
medida em que um se transforma no outro.
E neste sentido que o autor faz referência a uma aprendizagem inter-relacionada com o
desenvolvimento, como determinante dele. O termo que Vygotsky utiliza em russo
(obuchenie) significa "processo ensino-aprendizagem", pode-se inferir que, neste conceito,
incluem sempre aquele que aprende, o que ensina e a relação entre ambos.
Finalizo destacando a grande contribuição de Vygotsky para o estudo da aprendizagem. A sua
visão social deste processo nos possibilita ampliar o olhar e, ao mesmo tempo, focar para as
inúmeras possibilidades da pessoa na hora de aprender. Quando nos explica o processo de
aprendizagem a partir do desenvolvimento real, potencial e proximal, deixa clara a ideia de
pessoa humana como um ser de necessidades e possibilidades.
Jorge Visca
Visca, natural da Argentina, foi professor formado em Ciências da Educação e Psicologia Social
(pela Escola Privada de Psicologia Social de Enrique Pichon-Rivière), o que muito influenciou na
sua prática e na elaboração da corrente de pensamento denominada por ele de
"Epistemologia Convergente".
Seus estudos levaram-no à prática psicopedagógica, na qual tal formação na Argentina
acontece na graduação, diferentemente da realidade brasileira atual, que, com o apoio da
Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), defende a formação do psicopedagogo na
pós-graduação, como especialista que tem como objeto de estudo o processo de
aprendizagem.
Para Visca, a origem da Psicopedagogia deve-se à necessidade de atendimento às pessoas que
apresentam dificuldades de aprendizagem, e cujas causas eram de domínio exclusivo da
Medicina e da Psicologia. Com o tempo, outros profissionais começam a mostrar interesse
pelo tema, o que possibilitou o nascimento de uma área específica do estudo da
aprendizagem, a Psicopedagogia, com características independentes, complementares e
interdisciplinares, e por que não dizer uma ciência, uma vez que apresenta recursos
diagnósticos, corretores e preventivos próprios. (VISCA, 1994)
O professor Jorge Visca foi um dos precursores dos cursos de formação em Psicopedagogia no
Brasil, nas últimas duas décadas de século XX, contribuindo com um novo olhar para aquele
que aprende. Como ele mesmo salienta (1991), "... conhecer verdadeiramente como o sujeito
aprende é um conceito revolucionário, no sentido de aceitar o sujeito como ele é, fazer com
que este sujeito aprenda de verdade, não fazendo de conta. Isso significaria uma modificação
no sistema e na educação muito grande", (p. 14)
Neste sentido, a formação em Psicopedagogia necessita ser responsável, competente e ética,
estimular o futuro profissional a tomar consciência, ter controle sobre os seus processos
cognitivos e, consequentemente, mudar o que for necessário no seu próprio processo de
aprendizagem. Esta formação é aque possibilitará uma ação profissional mais integradora e
transformadora na hora de avaliar e intervir no processo de aprender do outro.
A proposta da Epistemologia Convergente, no estudo do processo de aprendizagem humana,
destaca as seguintes características, como ressalta Visca (1997, p. 88):
a) a Epistemologia Convergente é o esquema conceitual elaborado na confluência
recíproca das escolas psicanalítica, de Genebra e da Psicologia Social;
b) a pessoa (personalidade), aquela que aprende, é constituída pela interação da
organização biológica com o meio no qual está inserida;
c) esta configuração, na sua gênese, constitui uma totalidade indiscriminada, a qual, em
virtude de evolução, se diferencia em sistemas;
d) a personalidade possui unidade funcional, porém não estrutural.
Portanto, a partir destas características, fica clara a concepção de aprendizagem para este
autor, quando afirma que ela "... é o resultado de uma construção (princípio construtivista)
dada em virtude de uma interação (princípio interacionista) que coloca em jogo a pessoa total
(princípio estruturalista) com homogeneidade funcional e heterogeneidade estrutural (p. 56)".
E continua explicando sua posição ao afirmar que, além do aspecto cognitivo e afetivo, a
cultura exerce um papel fundamental na singularidade do processo de aprendizagem humana
quando este ...... transcende a estruturação cognitiva porque requer a efetivação (grifo do
autor) do objeto e transcende, também, a afetividade visto que implica na utilização de
operações cognitivas; sem esquecer o que se pode denominar de tematização, ou conteúdo
adquirido mediante os recursos cognitivo-afetivos postos em jogo. E comum observar como
sujeitos que têm alcançado um mesmo nível intelectual e fazem uso semelhante de sua
afetividade, por pertencerem a diferentes culturas, meios sociais ou grupos familiares,
apresentam tematizações significativamente distintas. Isto deriva simplesmente do fato de
que cada contexto oferece diferentes crenças, conhecimentos, atitudes e habilidades. (1991,
p. 49)
A partir dos três referenciais teóricos que sustentam a Epistemologia Convergente (a
Epistemologia Genética, a Psicanálise e a Psicologia Social), Jorge Visca propõe um esquema
evolutivo da aprendizagem que atinge diferentes níveis de evolução. Para explicá-lo,
primeiramente faz uma diferenciação entre conduta e aprendizagem, uma vez que acredita
que, para aprender, um dos requisitos necessários é a estabilização da conduta, e esta, por sua
vez, é entendida como qualquer resposta dada pelo sujeito diante de um estímulo, mesmo que
este não se repita. "A aprendizagem é uma conduta especial, é uma conduta construída".
(1997, p. 46)
A aprendizagem é um processo que se inicia no nascimento, e assim sendo, é a partir deste
momento que o estabelecimento e a estabilização de condutas aparecem em quatro níveis de
organização consecutivos, em movimento dialético, como demonstra a figura 1.
FIGURA 1 - Esquema Evolutivo da Aprendizagem - Visca (1987 e 1997)
O primeiro nível de aprendizagem é chamado de protoaprendizagem, justamente porque
significa as primeiras relações vinculares estabelecidas pelo sujeito com a mãe ou a pessoa que
exerça este papel, que, a partir de sua maneira de lidar com a criança, passa sua história de
vida e as influências do meio em que vive, em um interjogo cognitivo-afetivo.
A deuteroaprendizagem é assim denominada porque é a segunda síntese construída pelo
sujeito em decorrência dos intercâmbios estabelecidos no primeiro nível de aprendizagem e o
ambiente familiar em que vive (pai, mãe, irmãos, outras pessoas que moram na casa, objetos,
animais etc.). Os valores são reconhecidos ou não pela criança, dependendo de como eles
circulam neste meio.
O terceiro nível de aprendizagem, a aprendizagem assistemática, é construído a partir da
interação da deutero¬aprendizagem com a comunidade restrita, isto é, as pessoas ou os
objetos que estão perto da criança, não necessariamente na casa (vizinhos, pessoas que
chegam a casa, televisão etc.). Desta relação, surgem muitas aprendizagens, mas tampouco se
referem àquelas organizadas pelas instituições educativas.
E como último nível, Visca traz a aprendizagem sistemática, porque decorre da aprendizagem
assistemática em interação com o ambiente escolar, instituição especializada em prover o
sujeito de aprendizagens instrumentais ou acadêmicas (leitura, escrita, cálculo); de
conhecimentos, atitudes, habilidades e estratégicas básicas e fundamentais para o acesso
contínuo a níveis e sínteses mais elaboradas.
"Eu acho que aprendizagem, para uma pessoa, abre o caminho da vida, do mundo, das
possibilidades até de ser feliz..." (VISCA, 1991, p. 16)
Embora Visca seja menos conhecido no panorama do estudo da aprendizagem, trago sua
colaboração neste trabalho porque foi com ele, com sua postura operativa e sua coerência de
vida, que descobri o meu processo de aprendizagem, minhas possibilidades e dificuldades. Foi
com Jorge Visca que aprendi a identificar a convergência das teorias, a flexibilizar o
pensamento e a sentir as experiências. Foi com ele que aprendi a aprender.
O QUE SABEMOS SOBRE APRENDIZAGEM?
1. A aprendizagem é ativa
A aprendizagem é um processo ativo resultante de processos internos ou de atividade mental
construtiva do sujeito. Outra pessoa pode nos ensinar, mas ninguém pode aprender por nós. A
aprendizagem de novos conteúdos implica uma série de processos, tais como selecionar
informação, estabelecer relações, deduzir, induzir etc. Aprender desde este ponto de vista
significa que se produz uma mudança não apenas no que diz respeito às informações ou aos
conhecimentos que se têm sobre um aspecto da realidade, mas também nas possibilidades de
continuar aprendendo.
2. A aprendizagem é um processo individual
Aprender não é copiar a realidade ou a informação externa sem alterá-la, mas desenvolver
uma representação pessoal e única de tal realidade. Esta representação não ocorre no vazio,
mas tem como base os conhecimentos anteriores, experiências e motivações de cada pessoa,
o que faz com que, em cada caso, o processo de aprendizagem seja único, sem condições de
repetir-se. Aprender implica, portanto, atribuir sentido e construir significados em relação ao
novo conteúdo objeto de aprendizagem, estabelecendo vínculos entre tal conteúdo e o que já
sabemos. Mesmo que um grupo de crianças ou de adultos fosse submetido a uma mesma
experiência, a aprendizagem seria diferente para cada indivíduo. Isto porque cada pessoa,
criança ou adulto, incorpora a cada situação uma combinação singular de experiências
anteriores.
3. A aprendizagem é um processo social
Apesar da aprendizagem ser um processo interno e individual, isto acontece a partir dos
processos de interação social com outras pessoas, sejam adultos ou crianças. Segundo
Vygostky, todas as funções psicológicas superiores aparecem, primeiro, no plano da interação
social ou inter-psicológica, estabelecida entre a criança e os diferentes agentes educativos,
para depois passar ao plano individual ou intra-psicológico. Quer dizer, o que a criança pode
fazer, em um primeiro momento, com a ajuda de outros, por meio da interação social, depois
é capaz de fazer por si só. A chamada “zona de desenvolvimento proximal” localiza-se entre o
que o aluno(a) é capaz de fazer com a ajuda de outros e o que pode fazer por si mesmo. A
educação deve intervir na zona de desenvolvimento proximal, no que se refere às atividades
que o aprendiz ainda não é capaz de realizar por si só, mas que poderá chegar a realizar se
receber a ajuda necessária. A natureza social da aprendizagem reflete-se no fato de que
muitas aprendizagens ocorrem em grupos. Compartilhar a aprendizagem com outros pode
tornar-se algo estimulante e enriquecedor.
4. Aprendizagem significa mudança
Aprender de formasignificativa implica modificar os esquemas anteriores em função de uma
nova idéia, fato ou informação, para chegar a uma nova conceituação, mais ampla e rica em
matizes. Para que isto aconteça, é preciso que a nova informação ou experiência provoque um
conflito ou desequilíbrio nos conhecimentos e estruturas que já possuímos, de tal forma que
nos obrigue a revisá-los e modificá-los, descartando dados, combinando informações,
ampliando compreensões. Se os novos conteúdos mostram-se excessivamente distanciados
dos conhecimentos anteriores, ou já são conhecidos, os conhecimentos prévios não serão
alterados. A mudança de esquemas prévios implica, conseqüentemente, um processo de
equilíbrio inicial – desequilíbrio – reequilíbrio posterior. Na língua chinesa, o sinal escrito para
expressar mudança é uma combinação de dois outros que significam dor e oportunidade. Na
condição de adultos, cabe-nos a responsabilidade de tornar exequível para cada criança, o
equilíbrio entre ambos os aspectos. Para nós, a aprendizagem também pode significar
mudanças dolorosas. Por vezes, temos que abandonar convicções profundamente arraigadas.
O desafio da mudança mediante a aprendizagem pode ser experimentado como algo
estimulante ou intimidante. Freqüentemente, acontece ambos.
5. A aprendizagem nunca é completa
A aprendizagem significativa é, por definição, uma aprendizagem compreensiva e inter-
relacionada, sendo que, diferentemente da aprendizagem do tipo mecânico e repetitivo,
jamais termina porque é suscetível a distintos níveis de aprofundamento. Os adultos
continuam desenvolvendo a compreensão à medida que se confrontam novas idéias com
conhecimentos prévios. As idéias antigas podem ser modificadas à luz de novas experiências,
daí a sensação de que quanto mais sabemos sobre um assunto, mais conscientes estamos
quanto ao que nos resta a aprender.
6. A aprendizagem poder ser agradável
Trata-se de algo de que muitos adultos duvidam seriamente, ao recordarem seus anos
escolares. A aprendizagem pode ser difícil, mas, ao mesmo tempo, agradável. Até mesmo
cometer erros pode ser estimulante. Quantas vezes uma pessoa cai ao aprender a andar de
bicicleta? É preciso levar em conta que com os erros também se aprende. Os aspectos afetivos
e emocionais têm grande influência na aprendizagem. A predisposição favorável para aprender
e a auto-estima são condições essenciais para construir aprendizagens significativas. Se os
aluno(a)s se sentirem queridos e valorizados e se as situações de ensino forem prazerosas,
mais facilmente estarão predispostos a aprender.
TEXTO 02
IMPORTÂNCIA DA APRENDIZAGEM E NOTÍCIA HISTÓRICA DA EVOLUÇÃO DAPSICOLOGIA DA
APRENDIZAGEM
1. Importância da Aprendizagem na Vida Humana
A importância da aprendizagem na vida do indivíduo varia, enormemente, de uma espécie
para outra. Entre os animais inferiores, as atividades aprendidas constituem, apenas, uma
proporção relativamente pequena das reações totais do organismo. A aprendizagem é lenta,
de pequena extensão e sem grande importância na vida animal. Os protozoários, por exemplo,
já nascem como organismos praticamente amadurecidos. Não possuem infância,
propriamente, têm escassa capacidade para aprender, seu período de retenção é curto e os
efeitos da aprendizagem quase não exercem influência em suas vidas. Seu equipamento de
respostas inatas é suficiente para satisfazer suas necessidades.
À medida em que se ascende na escala animal, o período da infância, a capacidade para
aprender e a importância da aprendizagem na vida do organismo aumentam, regularmente,
com um correspondente decréscimo dos comportamentos inatos, denominados instintivos. De
todos os animais, o homem possui o menor número de reações inatas, fixas e invariáveis. Sua
infância é mais longa e possui maior capacidade para tirar proveito da experiência. Seu
repertório de rações é quase todo constituído de respostas adquiridas, isto é, aprendidas.
Na vida humana a aprendizagem se inicia com o, ou até antes, do nascimento e se prolonga
até a morte. Experiências várias têm demonstrado que é possível obter reações condicionada
sem fetos.
Logo que a criança nasce, começa aprender e continua a fazê-lo durante toda a vida. Com
poucos dias, aprende chamar sua mãe com seu choro. No fim do primeiro ano, familiarizou-se
com muitos dos objetos que formam seu novo mundo, adquiriu certo controle sobre suas
mãos e pés e,ainda, tornou-se perfeitamente iniciada no processo de aquisição da linguagem
falada. Aos cinco ouseis anos, vai para a escola, onde, por meio de aprendizagem dirigida,
adquire os hábitos, as habilidades, as informações, os conhecimentos e as atitudes que a
sociedade considera essenciais ao bom cidadão.
Quando se consideram todas as habilidades, os interesses, as atitudes, os conhecimentos e as
informações adquiridas, dentro e fora da escola, e suas relações com a conduta, a
personalidade e a maneira de viver, pode-se concluir que a aprendizagem acompanha toda a
vida de cada um. Através dela, o homem melhora suas realizações nas tarefas manuais, tira
partido de seus erros, aprende a conhecer a natureza e a compreender seus companheiros. Ela
capacita-o a ajustar-se adequadamente a seu ambiente físico e social. Enfim, a aprendizagem
leva o indivíduo a viver melhor ou pior, mas,indubitavelmente, a viver de acordo com o que
aprende.
Portanto, quando o equipamento de respostas inatas não é satisfatório, o homem só consegue
o ajustamento adequado através da aprendizagem. Supondo-se que um adulto não mais
dispusesse dos resultados da aprendizagem, ter-se-á que imaginá-lo reduzido ao nível de uma
criança,na primeira infância. Assim, por exemplo, teria fome e sede, mas não saberia o que
comer e beber e nem saberia encontrar os meios para satisfazer estas necessidades; não
poderia usar a palavra; não saberia o nome das coisas e das pessoas; perderia o próprio nome;
e nem mesmo coordenaria as idéias,como habitualmente faz, porque não saberia expressar os
conceitos através de palavras e perderia as noções de tempo e espaço. Cada indivíduo é o que
é, em grande extensão, pelo que aprendeu e ainda pelos modos segundo os quais, em novas
emergências de ajustamento, poderá aprender, integrando seu comportamento e experiência
em novos padrões.
A aprendizagem é, afinal, um processo fundamental da vida. Todo indivíduo aprende e,através
da aprendizagem, desenvolve os comportamentos que o possibilitam viver. Todas as atividade
se realizações humanas exibem os resultados da aprendizagem. Quando se considera a vida
em termos do povo, da comunidade ou do indivíduo, por todos os lados são encontrados os
efeitos da aprendizagem.
Através dos séculos, por meio da aprendizagem, cada geração foi capaz de aproveitar-sedas
experiências e descobertas das gerações anteriores, como também, por sua vez, ofereceu sua
contribuição para o crescente patrimônio do conhecimento e das técnicas humanas. Os
costumes, as leis, a religião, a linguagem e as instituições sociais têm-se desenvolvido e
perpetrado, como um resultado da capacidade do homem para aprender.
Podem-se observar os produtos da aprendizagem nas hábeis realizações dos engenheiros,dos
cirurgiões, dos artistas etc. São evidenciados nas espetaculares descobertas e invenções da
ciência moderna, no pensamento do filósofo e nas decisões dos estadistas. O comportamento
rotineiro do homem do povo, suas crenças, seus receios e sua submissão às tradicionais são,
grande mente determinadas pelas tendências e predisposições adquiridas através da
aprendizagem.
A aprendizagem é um processo tão importante para o sucesso da sobrevivência do homem,
que foram organizados meios educacionais e escolas para tornarem a aprendizagem mais
eficiente. As tarefas a serem aprendidas são tão complexas e importantes, que não podem ser
deixadas para obra do acaso. As tarefas que os seres humanossão solicitados a aprender,
como por exemplo, somar, multiplicar, ler, usar uma escova de dente, datilografar, demonstrar
atitudes sociais, etc., não podem ser aprendidas naturalmente.
Se se pretende entender o comportamento e as atividades, os interesses e atitudes, os ideais e
crenças, as habilidades e conhecimentos que caracterizam qualquer ser humano, é essencial
compreender o processo de aprendizagem, porque ele e a maturação constituem as duas
maiores influências que afetam o comportamento humano.
O estudo e a aprendizagem, sua natureza, suas características e fatores que nela influenciam
constitui, portanto, um dos problemas mais importantes para a psicologia e para o educador,
seja ele pai, professor, orientador ou administrador de instituições educativas. Explicar o
mecanismo da aprendizagem é esclarecer a maneira pela qual o ser humano se desenvolve,
toma conhecimento do mundo em que vive, organiza a sua conduta e se ajusta ao meio físico
e social. É, pois, pela aprendizagem que o homem se afirma como ser racional, forma a sua
personalidade e se prepara para o papel que lhe cabe no seio da sociedade.
Especialmente no setor da teoria e da prática educativa, não pode ser dispensada a
contribuição da psicologia da aprendizagem. Da solução dos problemas desta, vai depender,
não só a escolha do método didático, como também a organização dos programas e currículos
e até a formulação dos objetivos da educação.
1.2 Notícia Histórica da Psicologia da Aprendizagem
Desde a antigüidade, filósofos e pensadores preocuparam-se com os fatos da
aprendizagem do tipo “verbal” ou “ideativo”.
Daí a razão porque as primeiras teorias se confundiram com as explicações dos processos
lógicos e com as teorias do conhecimento.
A noção de aprender se confundia com a ação de captar idéias, fixar seus nomes, retê-lo se
evocá-los. Isto seria, a um tempo, conhecer e aprender.
A. Concepções sobre a aprendizagem, na antigüidade:
1.2.1 Sócrates
O conhecimento preexiste no espírito do homem e a aprendizagem consiste no despertar
esses conhecimentos inatos e adormecidos. Para ele, o método da “maiêutica” ou
partejamento das idéias é que disciplinaria o espírito e revelaria as verdades universais.
1.2.2 Platão
Formulou uma teoria dualista que separava o corpo (ou coisas) da alma (ou idéias). Expôs as
idéias de seu mestre Sócrates, elaborando-as com a formulação de sua doutrina das
“reminiscências”. A alma está sujeita à metempsicose e guarda a lembrança das idéias
contempladas na encarnação anterior que, pela percepção, voltam à consciência. Assim, a
aprendizagem nada mais é do que uma reminiscência.
1.2.3 Aristóteles
Apresenta um ponto de vista, definidamente científico, ensina que todo conhecimento começa
pelos sentidos, rejeitando a preexistência das idéias em nosso espírito. Lançou, portanto, o
fundamento para o ensino intuitivo. Utilizou o método dedutivo, característico de seu sistema
lógico, e, o método indutivo, aplicando-o em suas observações, experiências e hipóteses.
Infelizmente, por séculos, suas conclusões foram aceitas como irrefutáveis, mas foi esquecido
o fato de que ARISTÓTELES acreditou e utilizou os procedimentos científicos da observação
e experimentação.
Organizou a teoria da associação com os princípios de semelhança, de contraste e de
contigüidade.Combatendo a preexistência das idéias, formulou a célebre afirmação de que
“nada está na inteligência que não tenha primeiro estado nos sentidos”.
1.2.4 Santo Agostinho
Poucos tentaram reviver o método indutivo, como Santo Agostinho, que adotou aintrospeção,
para registrar suas próprias experiências mentais e esposou a teoria das faculdades mentais.
1.2.5 Santo Tomás de Aquino
Distinguiu as verdades científicas, baseadas na pesquisa e experimentação, e as verdades
religiosas, baseadas na autoridade divina. Para ele, o principal agente da aprendizagem é a
atividade de quem aprende. Considerava a aprendizagem como um processo inteligente,
dinâmico e auto-ativo.
1.2.6 Juan Luis Vives
Insistiu nos métodos indutivos em psicologia e filosofia.Contudo, através de toda a Idade
Média e no começo dos tempos modernos, homens com idéias, como as de Santo Tomas de
Aquino e Juan Luis Vives, eram exceções, porque a ênfase na educação permaneceu teológica
e teórica. Havia, apenas, a explicação do pensamento, das idéias e da memória verbal ou
dialética, elaborada segundo a filosofia das concepções antigas.
B.Contribuições Modernas para a Conceituação da Aprendizagem
Alguns pioneiros que lançaram os fundamentos da ciência moderna como COPÉRNICO,BACON,
GALILEU, DESCARTES, LOCKE, etc., voltaram a usar método indutivo de ARISTÓTELES,
exigindo as provas experimentais e a evidência empírica, para justificar as generalidades
sobre o homem e a natureza.
BACON, DESCARTES E LOCKE, propagaram uma nova fé no conhecimento, baseado no senso-
percepção e no raciocínio lógico.
Assim, o método científico de análise e de predição de eventos, estabeleceu-se,requerendo
a observação e a experimentação, como também a medida e a classificação da experiência.
Afinal, neste clima de progresso científico, vão surgindo as modernas concepções de
aprendizagem.
• Locke - No século XVII, retorna o princípio aristotélico: “Nada está na inteligência que
não tenha estado primeiro nos sentidos”.Combate a concepção das idéias inatas de Platão e
insiste em que o espírito seria uma “tábula rosa”. Combate também a idéia da “disciplina
formal” ou a crença de que o espírito, se pudesse formar por um simples exercício de suas
“faculdades”. Admitiu já a transferência e a generalização dos conhecimentos.
Suas idéias tiveram enorme influência direta e indireta sobre a compreensão psicológica da
educação na Inglaterra, na Alemanha e nos Estados Unidos da América do Norte. Em certo
sentido, Locke fez trabalho precursor para Comenius, Fröbel e Pestalozzi. A sistematização de
muitas de suas idéias veio a ser feita por Herbart.
• Herbart (1776-1841) - Estabeleceu a doutrina da “a percepção” e os “Passos Formais”
do ensino (preparação,apresentação, associação, sistematização e aplicação).
Embora combatesse a doutrina das “faculdades” e desenvolvesse a idéia da educação como
fundamental na formação humana, ainda o fazia tocado pela influência das idéias intelectuais
da tradição grega e medieval – “a educação pela instrução”.
A influência de Herbart foi muito grande e ainda é patente nos trabalhos relativamente
recentes de MAC MURRAY, MORRISON (autor do Plano de Unidades Didáticas) e DECROLY.
Em toda a segunda metade do século passado, a pedagogia aceitava com entusiasmo o
chamado “método intuitivo” de ensino com coisas ou das “lições de coisas”. Este movimento
provinha de PESTALOZZI, mas foi fortalecido por HERBART.
• Lloyd Morgan - No fim do século, formulava sua teoria de “ensino-e-erro”, aceita logo
por SPENCER que introduziu o darwinismo na psicologia, acontecimento de grande
importância nas teorias modernas de aprendizagem.
Assim, ao invés do exercício intelectual, ou das idéias colhidas pela impressão das
coisas(sensações, imagens, generalizações, idéias, juízo, raciocínio), começava-se a admitir a
ação, os comportamentos como base da aprendizagem.
C. No Brasil: Rui Barbosa - O movimento do “método intuitivo” refletiu-se com a tradução do
livro de CALKINS, “Lições de Coisas”, feita por Rui Barbosa e com as idéias de seus “Pareceres”
sobre o ensino, apresentados à Câmara dos Deputados, em 1882.
D. Outras Contribuições Atuais
Foi, sobretudo, a contribuição dos criadores da psicologia pedagógica moderna, como
HERBART, BINET (um dos pioneiros da medida em psicologia), DEWEY,
THORNDIKE,CLAPARÈDE e PIAGET, bem como a dos reflexologistas como PAVLOV e
BECHTEREV, a dos behavioristas, como WATSON e LASHLEY, a dos gestaltistas, como
KOFFKA, KÖHLEReWERTHEIMER, que mais influiu sobre a formulação das novas teorias da
aprendizagem.
Sem pretender organizar uma teoria da aprendizagem, também o psicólogo de campo
K.LEWIN ofereceu apreciáveis contribuições para o estudo dos fatos da aprendizagem.
É interessante assinalar também a influência que já começaram a exercer, sobre as teorias
contemporâneas da aprendizagem as teses psicanálise de FREUD, ADLER, JUNG, FROMM; da
fenomenologia de HUSSERL, SCHELER e MERLEAU PONTY; e do existencialismo de
HEIDEGGER, JASPERS e SARTRE.
Outra realização a repercutir na aprendizagem, que se pode mencionar, a instrução
programada, baseada na situação do condicionamento operante, proposta por B. F. SKINNER,
psicólogo norte-americano, neobehaviorista e autor de uma das teorias modernas da
aprendizagem.
Ainda as novas perspectivas dos estudos sobre a Psicolinguística e a Teoria da Informação, têm
oferecido substancial contribuição à psicologia da aprendizagem, como é o caso de J.S.
BRUNER, que não está relacionado de modo algum com o movimento da Teoria da
Informação.
TEXTO 3
NEUROCIÊNCIAS DO APRENDIZADO
O que nos torna humanos, como é possível nascermos bebês indefesos e incapazes, e um dia
nos transformarmos em adultos, engenheiros, médicos ou professores? Como o cérebro
aprende? Por que preferimos chá ou café, chocolate ou morango, cães ou gatos? Hoje já é
possível entender, por que preferimos algumas coisas a outras, o que é a motivação, como ela
contribui para o aprendizado.
Não é preciso ser neurocientista ou entender em detalhes como o cérebro funciona para
apreciar a vida ou ter uma vida satisfatória, muito menos para achá-la interessante. Mas hoje a
neurociência mostra tantas novas informações sobre como o cérebro funciona, o que esse
funcionamento faz de nós, o que somos, pensamos, sentimos ou lembramos que é muito
interessante aprender o que a neurociência tem a nos ensinar e usar esses conhecimentos em
nossas vidas de várias maneiras diferentes.
A neurociência hoje tem muito o que ensinar sobre o aprendizado, a começar com o que é o
aprendizado, o que é, para o cérebro, aprender, que fatores influenciam o aprendizado e o que
pode facilitar o aprendizado. O que é, então, aprender para a neurociência? Nós podemos
definir o aprendizado como a modificação do cérebro com a experiência, ou seja, o cérebro
que faz alguma coisa se modifica de uma maneira tal que, da próxima vez, ele age de uma
maneira diferente de acordo com a experiência anterior que ele teve.
Aprender é mudar o cérebro conforme a experiência
Usar o cérebro muda o cérebro. As conexões entre neurônios se modificam, algumas ficam
mais fortes, outras mais fracas, dependendo do uso. E essa mudança, com a experiência que é
justamente a base do aprendizado, faz com que o cérebro responda de uma maneira diferente
da próxima vez. A consequência do aprendizado é que o cérebro, ao mudar, ele faz diferente.
No início, um excesso de sinapses
No nosso cérebro existem cerca de 86 bilhões de neurônios, que são as estruturas
básicas do seu funcionamento.
A atividade cerebral consiste na troca de sinais entre eles, mas os neurônios não se tocam
diretamente, a comunicação se dá através das sinapses: o local onde dois neurônios trocam
entre si substâncias químicas capazes de transmitir sinais de um para o outro.
Essas conexões entre neurônios são as sinapses, são os pontos em que dois neurônios trocam
informações, eles passam informação de um para o outro. Essas são as unidades de
processamento de informação do sistema nervoso. À primeira vista, nós poderíamos esperar
que essas sinapses aumentassem em número ao longo da vida, ou seja, o bebê nasceria com
um número pequeno de sinapses e iria ganhando cada vez mais sinapses, cada vez mais
conexões ao longo da vida, conforme as experiências que ele vai adquirindo, que ele vai
vivendo. Mas não é assim. Ao contrário, o cérebro nasce com determinado número de
sinapses e esse número dobra nos primeiros anos de vida, o que gera um excesso de conexões,
um excesso de sinapses entre neurônios.
O desenvolvimento normal envolve uma primeira etapa de
exuberância sináptica, ou seja, um excesso de sinapses atingido no ser humano durante os
primeiros anos de vida. Aos 12 meses, o bebê tem o dobro de sinapses que o cérebro adulto.
Cada grama do cérebro infantil consome até o dobro de energia que o cérebro adulto.
Esse excesso de sinapses é considerado matéria-prima para o aprendizado, porque o
aprendizado consiste não simplesmente no acréscimo de conexões novas e sim em um
processo de eliminação direcionada dessas sinapses. O excesso de sinapses no começo da vida,
do desenvolvimento, é apenas uma matéria-prima, digamos, assim como um bloco de
mármore não é uma escultura ainda. Para que um bloco de mármore se transforme em uma
escultura — com significado, coerente e bonita — é preciso que toda a matéria em excesso
seja removida.
No cérebro, o que faz a remoção, a eliminação dessas sinapses em excesso, das conexões
excessivas entre neurônios, é justamente o uso. E conforme o cérebro vai sendo usado — e
algumas conexões são, de fato, eficazes, dão certo, servem a um objetivo e outras não servem
- que essas vão sendo eliminadas. As outras vão sendo fortalecidas e, assim, o cérebro ao
longo do desenvolvimento vai sendo esculpido. O excesso de conexões no início do
desenvolvimento serve, portanto, como matéria-prima que permite que aquele cérebro se
transforme em essencialmente qualquer coisa de acordo com as suas experiências.
Remodelando os circuitos
Nós podemos pensar nesse excesso, nessas exuberâncias de conexões entre os neurônios no
começo do desenvolvimento, como um mato cheio de possibilidades, mas que tem apenas um
caminho entre onde você está e onde é a saída. Você pode percorrer vários caminhos
diferentes, cada um desses caminhos é uma dessas possibilidades devido a exuberância de
conexões. Mas é com a experiência que você consegue, por tentativas, reencontrar aquele
caminho que, de fato, dá o resultado que você precisa, um resultado que dá sentido para o seu
cérebro. E com a experiência então, conforme você vai repetindo, conforme você descobre
pela primeira vez esse caminho sináptico, que funciona, e você começa então a repetir, a
trilhar cada vez mais esse caminho, que ele vai se reforçando, até que ele se torne a via mais
rápida e mais direta entre dois pontos.
É como trilhar um caminho pela primeira vez em um mato fechado. Quanto mais vezes você
anda por aquele mesmo caminho, mais marcado ele fica no meio da floresta e você consegue,
então, encontrar aquele caminho com mais facilidade da próxima vez. Ele fica tão limpo, tão
claro, que você consegue encontrar aquele caminho, seguir aquele caminho das próximas
vezes com facilidade e rapidez.
O caminho certo depende de aprendizado
Esse acesso de sinapses permite ao cérebro então uma riqueza de conexões, uma riqueza de
possibilidades. Agora, o que será de fato o cérebro adulto depende dos caminhos percorridos.
Depende, portanto, do que você faz, do que você aprende e da remodelagem que acontece no
seu cérebro em função desse aprendizado, em função das suas experiências de vida.
Sinapses corretas
Essa é a diferença então entre ter muitas sinapses e ter as sinapses corretas. Muitas vezes me
perguntam: "Como eu faço para ter mais sinapses no meu cérebro? Eu queria ter mais
conexões no meu cérebro". Eu respondo: "Você não quer ter mais conexões, você quer ter as
conexões certas, aquelas que de fato fazem sentido".
No desenvolvimento, o que nós observamos no cérebro é justamente esse processo de
enfraquecimento daquelas sinapses que não são usadas, ou seja, as conexões que não servem
para nada, ou que não dão resultados interessantes para o cérebro. Enquanto aquelas que, de
fato,funcionam, aquelas que permitem ao cérebro fazer um movimento certo, processar a
informação de uma maneira significativa, essas sim vão sendo fortalecidas. O resultado então
é que esse emaranhado de conexões vai sendo esculpido e chega a um ponto em que ele de
fato faz sentido, em que ele deixa de ser apenas possibilidades e passa a ser um conjunto de
caminhos de fato eficazes, que funcionam, como uma escultura que aparece de dentro de um
bloco de mármore, que é todo possibilidades, que contém, dentro dele, todas as esculturas
possíveis, mas que ainda não é nenhuma delas.
Para você ter uma ideia de como esse processo de enfraquecimento e de eliminação de
sinapses é importante na formação do cérebro e no aprendizado, uma das formas de retardo
mental mais comuns que é a síndrome do X frágil, está associada a uma deficiência molecular
que impede esse mecanismo na célula que enfraquece e remove as sinapses inúteis ou
inadequadas. O resultado é que o cérebro dessas pessoas se mantém congelado no estado
infantil, com uma exuberância sináptica, com uma riqueza de conexões, mas que não fazem
nenhum sentido, ou seja, há muito ruído, há muitas possibilidades, mas nenhuma, de fato, se
concretiza através desse processo de remodelagem do cérebro pelo aprendizado. Então, assim
como é importante fortalecer aquelas conexões que servem, de fato, é igualmente importante
que aquelas outras conexões que não servem para nada, pelo contrário, só atrapalham, só
produzem ruído no cérebro, sejam também eliminadas. Aprender é modificar o cérebro,
então, dessas duas maneiras, simultaneamente, manter e fortalecer aquilo que funciona e é
usado e enfraquecer e até remover aquelas conexões que não são usadas que, pelo contrário,
só atrapalham o processamento.
Criação e remoção das sinapses: um processo contínuo
Se o aprendizado é um processo de lapidação do cérebro, nós poderíamos imaginar, então,
que esse bloco de possibilidades que é o cérebro ficaria cada vez menor conforme nós vamos
aprendendo, conforme o tempo vai passando. Mas isso também não é bem assim, porque
novas sinapses, novas conexões entre neurônios continuam brotando o tempo todo ao longo
de toda a vida. O cérebro adulto também ganha novas sinapses o tempo todo. Então, esse
processo de aprendizagem, através da remoção de algumas sinapses e do fortalecimento de
outras, é contínuo, ele acontece o tempo todo, ele se renova o tempo todo. Então, nós
mantemos, ao longo de toda a vida, a capacidade de aprender coisas novas. A diferença, é
claro, é que esse bloco de possibilidades é muito maior no começo da vida quando ele ainda
não passou por nenhum tipo de remoção. Mas nós hoje já sabemos que até a adolescência,
por exemplo, quando se imaginava anteriormente que o cérebro já estaria pronto, ao final da
infância, nós hoje sabemos que, até a adolescência é um novo período de geração de
exuberância, de exuberância sináptica. Na adolescência, muito provavelmente, o cérebro gera
um grande número de novas conexões que permitem então um acréscimo de possibilidades
ao cérebro do adolescente.
Todo neurônio possui um prolongamento longo, o axônio, que atua como condutor dos
impulsos nervosos. Enquanto algumas sinapses são removidas e outras fortalecidas, os axônios
vão sendo envolvidos por uma camada de gordura: a mielina. E isso aumenta a fidelidade e a
velocidade dos impulsos elétricos. Com a mielina, a velocidade de um impulso chega a 360
km/h, o que garante que um sinal atravesse o cérebro em 2 milésimos de segundo.
Janelas de oportunidade
Além da exuberância sináptica, que é muito maior no começo da vida, existem também
períodos críticos, ou seja, janelas de oportunidades. São aqueles períodos da vida em que o
cérebro é especialmente capaz de se modificar de acordo com o uso, de acordo com a
experiência. Por exemplo, o cérebro precisa aprender a enxergar, o córtex visual precisa
aprender a processar a informação que chega dos olhos de uma maneira que seja coerente
com os outros sentidos. Isso acontece com muita facilidade no começo da vida. Nós sabemos,
inclusive, que é preciso que o córtex visual aprenda, por exemplo, a juntar a imagem dos dois
olhos, a processar a imagem que chega de cada um dos olhos de maneira coerente até os 4, 5
anos de idade, mais ou menos. E por isso que cirurgias de correções do estrabismo devem ser
realizadas na criança ainda pequena, antes de ela chegar aos 4 anos de idade, justamente para
não perder essa janela de oportunidades na qual o córtex visual tem mais facilidade de sofrer
essas modificações de acordo com a experiência sensorial, de acordo com a experiência visual
e aprender, então, a juntar a informação dos dois olhos.
Assim como existe uma janela de oportunidade para a visão existe outra para linguagem, por
exemplo. É especialmente fácil, para o cérebro, aprender as regras da gramática até os 10 anos
de idade. Por isso, adultos que mudam de países e precisam aprender uma nova gramática
depois da adolescência têm muito mais dificuldade do que crianças que aprendem uma
segunda língua ainda antes dos 10 anos de idade. Por isso, também, é tão importante ensinar
uma segunda língua na escola antes dessa idade.
A mudança no currículo escolar para que uma segunda língua seja ensinada desde a educação
infantil e não somente a partir do segundo ciclo do ensino fundamental é muito positiva, é
muito boa. Porque esperar até os 11 anos de idade para só então começar a ensinar uma
segunda língua é justamente perder essa janela de oportunidade, quando o cérebro tem a
maior oportunidade de lidar com a segunda língua, inclusive aprender a sua gramática.
Agora, de novo, a existência de uma janela de oportunidade na qual o aprendizado de algo
como linguagem é especialmente fácil, não significa que, ao passar dessa janela de
oportunidade o cérebro não consiga aprender. Nós sabemos, inclusive por experiência própria,
que é sim possível aprender uma terceira, uma quarta língua, e mesmo a segunda língua na
idade adulta, sem ter tido nenhum tipo de instrução na infância com o aprendizado de outras
línguas. Talvez seja um pouco mais difícil, talvez algumas pessoas tenham dificuldades
específicas, mas ainda assim o aprendizado é possível, o aprendizado é sempre possível.
Modificar o nosso cérebro conforme o uso é sempre possível.
Genética: Ponto de partida
É claro que a genética pode influenciar pontos específicos do aprendizado como, por exemplo,
em cada pessoa a estrutura ou o funcionamento de moléculas que participam do aprendizado,
que participam de todas essas mudanças na estabilidade, na força das sinapses. Mas de
maneira geral, na grande maioria dos casos, essas variações genéticas são apenas isso:
variações.
A influência da genética se dá:
• na transmissão sináptica;
• nas substâncias que estabilizam sinapses;
• nos fatores de transcrição.
Em geral, as variações genéticas não impossibilitam o aprendizado, elas talvez facilitem um ou
outro aspecto do aprendizado, mas elas não tornam o aprendizado impossível a não ser em
casos extremos, por exemplo, as modificações associadas ao retardo mental.
Cerca de 10 anos atrás, um pesquisador criou artificialmente em um laboratório um
camundongo com uma modificação genética que facilita o fortalecimento das sinapses. Esse
camundongo de fato tem uma facilidade maior do que os seus irmãos para aprender, ele
precisa de menos repetições para aprender uma coisa nova e ele aprende aquilo mais
rapidamente. Isso demonstra que variações genéticas podem sim facilitar o aprendizado, mas
isso não é razão para desejar, por exemplo, se submeter a terapias genéticas, ou a seleção
genética, para determinados traços ou características. Por exemplo, a mesma modificação
genética que torna esse camundongo especialmente rápido no aprendizado também o torna
especialmente sensível à dor. Então, a facilidade para o aprendizado tem um custoque é uma
sensibilidade maior à dor. Não é algo que eu escolheria voluntariamente, conscientemente,
por exemplo, sobretudo quando nós sabemos que tem vários fatores que contribuem para o
aprendizado, a genética é apenas um deles, apenas um ponto de partida.
Dislexia
Claro que existem condições genéticas, como por exemplo, a dislexia, que modifica a maneira
como o cérebro processa informações. E no caso da alfabetização, geram dificuldades
específicas. A criança disléxica tem dificuldade, por exemplo, de associar sons a letras
específicas, a grafemas específicos. Outras, ao contrário, têm dificuldade de diferenciar sons
muito específicos, sons muito rápidos. Agora, ainda assim, essas dificuldades da dislexia, que
são hereditárias, as crianças nascem com essas dificuldades, não é culpa dos pais, não é culpa
da escola, não é culpa da família, não é culpa da criança, sobretudo, essas dificuldades da
dislexia são apenas isso: dificuldades. Elas não são incapacidades, de modo algum. O que é
preciso é reconhecer essas incapacidades específicas quando elas existem, para então
encontrar uma maneira de contorná-las e continuar o aprendizado da mesma forma.
Oportunidade, prática e motivação
É claro que nós devemos reconhecer que diferenças inatas, biológicas, genéticas, têm sim a
sua contribuição na capacidade de cada um. Mas mais importante, ainda, é reconhecer que
oportunidade, prática, motivação, são muito mais importantes, são muito mais determinantes
no aprendizado de nossas capacidades desenvolvidas do que esse ponto de partida biológico,
genético ou não. Por exemplo, no caso das habilidades entre homens e mulheres. A mídia
popular adora dizer que homens são assim, as mulheres são assado. As mulheres têm
melhores capacidades de comunicação oral, verbal, por exemplo, e que os homens seriam
melhores em raciocínio abstrato, em raciocínio matemático ou espacial.
Dependendo de como você fizer o estudo, de como você fizer essa comparação, você, de fato,
pode encontrar diferenças. Mas, primeiro, essas diferenças tendem a ser mínimas e, segundo,
o papel da expectativa é enorme. Por exemplo, você pode pegar o mesmo teste e aplicar a um
mesmo grupo de pessoas de duas maneiras diferentes e encontrar resultados radicalmente
diferentes. Se você aplicar para um grupo de moças, um teste de matemática, dizendo antes
para elas: "Olha, isso aqui é apenas um teste, uma formalidade para nós comprovarmos que,
de fato, vocês têm menos habilidades matemáticas do que o grupo de homens da outra sala".
O que você encontra é que, de fato, o resultado vai ser pior para essas moças do que para os
rapazes que fizerem a mesma prova. Mas se você pegar a mesma prova e aplicar, da mesma
maneira, só que antes você anunciar para as moças: "Esta prova que vocês vão fazer é para
demonstrar que essa história de que as mulheres têm menos habilidades matemáticas é
besteira, nós vamos comprovar com essa prova que vocês têm, de fato, muito mais
habilidades matemáticas do que os rapazes que estão em outra sala.". O que você encontra?
Em média, uma nota melhor das mulheres, de fato, em relação à nota dos homens. Então, a
expectativa, a motivação tem um papel enorme na formação das nossas habilidades, no
desenvolvimento das nossas capacidades de fato. Nós hoje reconhecemos que a cultura é um
dos grandes direcionadores dessas habilidades e, sobretudo, da motivação.
A lição que nós podemos tirar disso tudo é que a pior coisa que se pode dizer para uma criança
para quem você deseja ensinar alguma coisa é que ela não vai aprender aquilo, que ela não
pode aprender aquilo, que ela é incapaz, incompetente, ou pior ainda, burra demais, não tem
como aprender. Ao contrário, a melhor coisa que você tem a dizer para uma criança para
quem você quer ensinar uma coisa é que ela é sim perfeitamente capaz de aprender aquilo e é
só uma questão de tempo, ou de método, ou de insistência, ela conseguir, de fato, aprender o
que ela quer.
Quanto à diferença, então, entre meninos e meninas, o que uns podem aprender, outros
podem aprender, a melhor abordagem que a neurociência pode sugerir hoje é que eles sejam
tratados igualmente, como crianças igualmente capazes de aprender qualquer coisa. O que
uns ou outras vão aprender, de fato, deve ser definido pelas suas preferências, pelos seus
gostos mesmo, pelas suas motivações e não por expectativas prévias de outras pessoas,
expectativas culturais que ditam que meninas devem ser assim, meninos devem ser assado.
Até onde nós sabemos, o cérebro dos meninos e das meninas é igualmente capaz de aprender
qualquer coisa.
Fatores que influenciam a aprendizagem
Que fatores, então, influenciam o aprendizado? Olhando o desempenho dos adultos, então,
nós descobrimos algumas tendências que tendem a ser verdade para todo mundo. Nós vemos
que adultos costumam ter o desempenho abaixo do que poderiam ter. Por quê? Nas palavras
então de um psicólogo americano, Edward Thorndike, "é que temos tantas outras a melhorar,
ou não sabemos como fazer para melhorar, ou não fazemos muita questão de melhorar, ou
uma mistura dessas três coisas."
Aqui nós reconhecemos os três grandes fatores que contribuem para o aprendizado, o
primeiro é a atenção e prática, é o ter tantas outras coisas a melhorar, ou seja, o número de
horas no dia é limitado, então nós não podemos nos dedicar igualmente a tudo. E preciso
limitar o nosso tempo de prática a algumas poucas coisas. E nós acabamos, então, nos
tornando especialistas naquelas poucas coisas.
Método
O segundo fator que influencia o aprendizado é o método, é o que o Edward Thorndike se
refere como não saber como fazer. Aprender um método novo, descobrir métodos de
aprendizado, muitas vezes é o que faltava para fazer a diferença entre o aprender e não
aprender.
O terceiro fator é a motivação, é o fazer questão de melhorar, é o querer aprender, querer
melhorar.
A neurociência hoje ensina as bases cerebrais dessas três coisas — a prática, a atenção e a
motivação — e como elas contribuem, de fato, para o aprendizado.
Motivação
A motivação é fundamental por uma série de razões. Através de um encorajamento do retorno
positivo que sinaliza para a criança ou para o adulto em aprendizado, quando ele fez certo e
deve continuar fazendo daquela maneira, então. A motivação também depende de uma
dificuldade adequada, fácil demais é ruim, difícil demais também é ruim. Além dos efeitos
diretos no aprendizado, a motivação é fundamental por outra razão: é ela que permite que nós
nos empenhemos na prática. É a motivação que faz com que nós nos dediquemos, de fato, a
aprender algo. E é através dessa relação entre a motivação e a prática que tem início um
círculo virtuoso muito favorável ao aprendizado que é quanto mais prática você tem, mais
você melhora e, portanto, mais motivação encontra para continuar aprendendo. E quanto
mais motivação você tem, mais você consegue se dedicar, mais vontade você tem de continuar
se dedicando ao aprendizado e, portanto, mais horas de prática você adquire e acumula.
Então, mais prática leva a mais motivação, que leva a mais prática, que leva a mais motivação
e, assim, o cérebro tem o que ele precisa para aprender, de fato, para passar por todas aquelas
modificações que permitem o aprendizado.
Oportunidades
Agora, nada disso acontece se não houver oportunidade. Ninguém se torna pianista sem nunca
ter colocado o dedo no piano uma vez na vida. Não havendo oportunidade de experimentar a
primeira vez, com a leitura, com o futebol, com o piano, ou outro instrumento musical, ou com
a dança, não há como um cérebro descobrir que ele gosta daquilo, que ele tem motivação e
interesse para se dedicar àquela atividade, àquele aprendizado. Então, abrir um leque de
oportunidades para crianças e adultos é um dos maiores incentivos ao aprendizado que nós
podemos dar para essas pessoas.
O método
E aqui vem o papeldo método. Não tem porque o mesmo método se aplicar igualmente bem a
todas as pessoas. Por exemplo, existem vários métodos de fazer conta de cabeça, existem
vários métodos de fazer multiplicação por 10. Cada pessoa pode encontrar o seu método, que
funcione melhor para ela, um método no qual ela tenha mais facilidade, por exemplo, um
método de multiplicação que funciona perfeitamente bem no papel não é adequado para
fazer conta de cabeça. A maneira convencional que nós temos de fazer a multiplicação no
papel, colocando um número embaixo do outro, fazendo as multiplicações parciais e depois
somando esses números, tem um número de etapas grande demais para a capacidade da
nossa memória de trabalho, que consegue guardar e trabalhar com cerca de seis a oito
informações a cada instante.
Então, quando você tenta usar este método para fazer uma conta de cabeça, em geral, você se
perde no meio. Talvez nós consigamos fazer isso com facilidade para multiplicações de dois
algarismos, mas em uma multiplicação de três algarismos já são etapas parciais demais, nós
não conseguimos resolver a conta de cabeça usando esse método. Existem outros métodos
então que podem ser usados, que são mais adequados para fazer essa conta de cabeça. Agora,
nem isso garante que o mesmo método será adequado, será igualmente bom para todas as
pessoas. Então, aqui tem outro papel do professor também, ter um leque de métodos,
digamos, de possibilidades diferentes para oferecer aos seus alunos e, sobretudo, reconhecer
que quando um método específico não funciona para um aluno, isso não é o fim do mundo.
Não quer dizer que aquele aluno jamais será capaz de aprender a resolver aquele problema.
Talvez isso signifique apenas que aquele método não é adequado para aquele aluno. Mas se
você encontrar outro método, se você puder oferecer outro método para aquele aluno talvez
ele consiga, justamente, resolver, sim, o problema.
E, por exemplo, o que se encontra na dislexia. Um método de alfabetização que funciona
muito bem para algumas crianças não funciona para crianças disléxicas e vice-versa. Os
métodos que funcionam para as crianças disléxicas talvez não sejam ideais para outras
crianças. Então, é fundamental reconhecer a importância do método e lembrar sempre que é
possível que quando um método não funciona, talvez outro funcione, sim, para aquela pessoa.
Atenção: a grande porta do aprendizado
A grande porta de entrada do aprendizado é a atenção. Nós precisamos considerar que o
tempo todo tem muito mais coisas acontecendo do que o cérebro consegue dar conta. Isso
não é porque hoje nós vivemos em um mundo moderno, porque existe internet, nada disso.
Isso é o resultado de uma limitação natural do cérebro, nós só conseguimos prestar atenção
em uma coisa de cada vez. Mesmo quando nós achamos que estamos prestando atenção em
duas ou três coisas, ao mesmo tempo, na verdade, o que nós fazemos é alternar, rapidamente
entre uma e outra e voltar. Você pode experimentar, por exemplo, ouvir música e ler um livro
ao mesmo tempo. Ou bem você entende o que você lê no livro ou bem você entende o que a
pessoa está cantando na música. As duas coisas ao mesmo tempo é impossível.
Então, aí nós temos uma amostra de como a atenção é importante. A atenção é esse filtro que
o cérebro usa para decidir qual informação será processada de maneira especial, de maneira
dedicada a cada instante. Isso quer dizer que, de todas as informações disponíveis a cada
instante, apenas uma sobrevive a esse filtro e todas as outras são eliminadas. Essas que são
eliminadas não ganham acesso ao que nós chamamos de memória de trabalho, que é a
memória de curta duração que o cérebro tem que permite que nós trabalhemos com várias
informações ao mesmo tempo.
A. base da memória de trabalho são os neurônios do córtex pré-frontal. Estes neurônios tanto
mantêm vivas representações mentais de coisas que já sumiram de vista, como um número de
telefone ou uma fórmula matemática, quanto tornam possível a evocação de eventos que
ficaram registrados na memória.
Por exemplo, para fazer uma conta de cabeça: 5 + 7 + 8. Você precisa processar as várias
etapas da conta e ir mantendo ativos esses resultados parciais: 5 + 7= 12 + 8 = 20. Pronto, você
chega ao resultado, mas você só consegue fazer isso porque o seu cérebro consegue guardar
os resultados parciais e lembrar que, quando ele chega e quando ele soma o 5 + 7 = 12, ele
ainda precisa somar com mais um número e, aliás, esse novo número a ser somado é 8, e aí
você chega ao resultado 20. Lembrando o que você estava fazendo, que você começou a
resolver era o problema 5 + 7 + 8. Então, isso é memória de trabalho. Por sua vez, a memória
de trabalho só existe para aquilo que está no foco da sua atenção. Se você começa a resolver
um problema e passa um carro fazendo um barulho na sua rua e ele rouba a sua atenção, ou
um barulho na televisão chama a sua atenção, ou alguém fala com você e chama a sua
atenção, a informação não consegue ser processada com essa dedicação, com essa
exclusividade pelo cérebro.
Então, a atenção é o grande filtro, é a porta de entrada que permite que a informação com
que você está lidando no momento seja transferida para a memória de trabalho, seja
processada na sua memória de trabalho, quer dizer, seja associada a outras informações, seja
relacionada a outras coisas que você está aprendendo. Dali, então, ganha acesso a outros
sistemas de memórias mais duradouros. Se você não presta atenção no que você está fazendo,
essa informação não terá acesso à sua memória de trabalho e, portanto, também, não terá
acesso a outros sistemas mais duradouros de memória. Resultado, ou você presta atenção no
que você está fazendo, ou o seu cérebro não guarda nenhum registro daquilo e, portanto, não
aprende aquela informação nova.
Nós podemos ilustrar rapidamente essa necessidade do filtro da atenção olhando para
imagens complexas nas quais você procura uma figura em particular. Nós não conseguimos
processar aquela imagem como um todo, por outra razão que é uma limitação da visão.
Embora nós achemos que a visão é um sentido maravilhoso, que nós vemos e enxergamos
tudo, em perfeitos detalhes, a visão só funciona realmente bem como nós achamos que ela
funciona, em uma região muito pequena do campo visual que corresponde a isso aqui mais ou
menos, ou seja, aquela área para a qual você olha diretamente, que cai no centro da sua
retina. Só essa parte do campo visual é que tem realmente o processamento detalhado.
Quando você quer encontrar uma figura em particular dentro de uma cena complexa, como
acontece o tempo todo na vida cotidiana, digamos que você esteja procurando as suas chaves
de casa. Você precisa fazer uma varredura de toda a cena, movendo os seus olhos e dedicando
a sua atenção a cada uma dessas regiões, em particular, para dar oportunidade ao seu cérebro
de encontrar de fato aquela figura que você está procurando. Então, a atenção traz essa
possibilidade também de você processar com os detalhes necessários a informação que você
quer registrar, que você quer aprender.
TEORIAS DA APRENDIZAGEM
Ninguém é uma ilha completa em si mesma; todo homem é um fragmento do continente, uma
parte do todo; se o mar arrebata um penhasco, é a Espanha quem sofre a perda. O mesmo se
se tratar de um promontório, de uma fazenda de seus amigos ou da sua própria, a morte de
um homem me diminui porque estou inserido na humanidade, e por isso nun¬ca pergunte por
quem os sinos dobram: dobram por você.
John Donne
Na citação de Donne, fica evidente a interdepen¬dência dos seres vivos entre si. O mesmo
acontece nas diferentes teorias. Não é possível considerarmos uma em detrimento de outras,
visto que o próprio pensamento hu¬mano é decorrente de uma construção na qual cada tijolo,
cada experiência, cada referência tem o seu lugar. No es¬tudo da aprendizagem,
procuraremos fazero exercício de uma espiral, pequena em sua base, mas, pelo constante
movimento, permite àquele que aprende descobrir um novo significado a cada nova
experiência.
No processo de aprendizagem, encontramos dife¬rentes concepções e teorias que evidenciam
os valores e as crenças que norteiam a nossa maneira de ser, pensar, sentir, agir e interagir,
muitas vezes, de forma desorde¬nada e confusa.
Faz muitos anos que observo na literatura e na pos¬tura de muitos especialistas da Educação e
de áreas afins a coexistência de concepções de aprendizagem em um mesmo espaço social,
cultural, familiar ou educativo, que tende a valorizar o aluno, a chamada visão apriorística, ou
o professor, a chamada visão empirista, ou ainda a visão que propõe a interação entre aluno e
professor, a chamada visão interacionista. Tais concepções fazem avançar, retardar ou até
impedir que a aprendizagem se produza, quando os implicados no processo educativo se
inclinam mais a uma perspectiva em detrimento de ou¬tra, ou quando realizam uma leitura
simplista do significado destas visões, porque é "moda" ou são "obri¬gados" a assumi-las em
defesa de seu trabalho.
Por essa razão, optei por iniciar este estudo, desta¬cando alguns teóricos e seus conceitos de
aprendizagem, representantes de duas teorias de aprendizagem presentes em nossas práticas
educativas, sociais e familiares: a com¬portamental e a cognitivista.
A aprendizagem para os adeptos da visão comporta¬mental, também conhecida por
behaviorista ou condutista (expressão cunhada do espanhol), é considerada em função dos
estímulos do meio ambiente, que, por sua vez, mode¬lam e controlam as ações das pessoas tal
como é apresentado nas concepções empiristas do conhecimento. Para os pes¬quisadores
desta corrente, o mais importante é o estudo daquilo que se pode constatar empiricamente,
isto é, a con¬sistência da pesquisa está na conduta observável e nas suas consequências. Ainda
que as teorias que pertencem a este grupo incluam muitos autores, destacarei apenas os mais
representativos e conhecidos no campo da aprendizagem acadêmica: Ivan Pavlov (1849 -
1936), John B. Watson (1878 - 1958), Edward Lee Thorndike (1874 - 1949), Burrhus F. Skinner
(1904 - 1990).
Por outro lado, o paradigma cognitivista marca sua trajetória por meio de publicações e
diversas conferências internacionais organizadas por relevantes cientistas dos anos 70, como é
o caso de Gagné, que, em 1967, realiza uma conferência sobre a aprendizagem e as diferenças
in-dividuais, reformando os esquemas existentes relativos aos processos que intervêm entre
estímulos e respostas.
A concepção cognitivista atribui a conduta, não mais a sucessos externos, mas a certas
estruturas mentais com¬plexas e a determinados mecanismos de caráter interno. Considera
que as pessoas realizam processos de elabora¬ção, e estas elaborações e interpretações são
tão importantes que o comportamento das pessoas se ajusta, sobretudo, a estas
representações internas (FERRERAS, 1998). A partir desta perspectiva nasce a preocupação
pelo estudo do sistema cognitivo humano, mais especificamen¬te o processamento da
informação, e sobre como cada pessoa interpreta e compreende sua experiência pessoal, o
que se constituirá em uma questão crucial neste âmbito de investigação. As pesquisas
cognitivistas mostram que, ainda que os sujeitos tenham capacidades ou inteligências para
aprender, é necessário que o ambiente brinde oportu¬nidades ao desenvolvimento de tais
capacidades e inteligências, chamando da atenção principalmente a rela¬ção pedagógica entre
aluno e professor.
Dentro desta perspectiva, podemos encontrar vári¬os autores que abordam aspectos
diferentes e complementares, o que mostra que a pesquisa sobre aprendizagem é um
movimento em constante constru¬ção. Igual aos teóricos do comportamento, os autores que
apresentam uma visão cognitivista da aprendizagem são vários, mas destacarei alguns dos
mais citados na área da Psicologia da Educação e nas pesquisas que se referem ao tema em
estudo.
Como representantes da concepção cognitivista de aprendizagem, destaco Albert Bandura,
Robert Gagné, Jean Piaget (1896 - 1980), Jerome S. Bruner, David Ausubel, Lev Vygotsky (1896
- 1934), Jorge Visca (1935 - 2000), Juan Ignacio Pozo.
1.1 Do Paradigma Comportamental...
Os adeptos deste enfoque de aprendizagem, analítico em sua essência, nas palavras de Pearce
e Bouton, "... de¬compõe qualquer ambiente em um conjunto de elementos associados entre
si com distinta probabilidade, de modo que aprender é detectar, com a maior precisão
possível, as rela¬ções de contingências entre esses elementos ou fatos, de forma que os
processos de aprendizagem consistem essencialmente em mecanismos de cômputo dessas
contingências" (apuei POZO, 2004, p. 20). Em outras palavras, a marca deste pa¬radigma está
no valor do ambiente estimulador e nos resultados provenientes destas condições (quantidade
de as¬sociações realizadas entre estímulos e respostas), ignorando, portanto, os processos
intermediários entre eles.
Convido o leitor, na visita a cada um dos autores, a conhecer, embora brevemente, a
concepção de aprendiza¬gem adotada por eles, nunca esquecendo a influência cultural de
suas posições e pesquisas e do quão foram ne¬cessárias para a compreensão atual da mente
humana em toda a sua complexidade.
Ivan Pavlov
Um pesquisador que merece destaque neste enfo¬que é Pavlov e sua Teoria do Reflexo
Condicionado. Este autor pressupõe que as atividades do organismo determinam e
condicionam a natureza do sistema nervoso, deno- minando-o de "sistema
neurocomportamental". O associacionismo de Pavlov (1973) se fundamenta em seu conceito
de reflexo condicionado que hoje conhecemos como Condicionamento Clássico.
Pavlov, como alguns psicólogos associacionistas, ex¬plica a aprendizagem em função da
associação dos estímulos ou dos estímulos e das respostas, por meio do Condiciona¬mento
Clássico. Pavlov salienta muito mais a força do meio ambiente quando exemplifica os
estímulos e as respostas subsequentes, valorizando somente as que se originam fora do
sujeito. Aprender para este enfoque significa que aquele que aprende está condicionado ao
meio, e isto significa, por exemplo, quando uma pessoa realiza uma avaliação escolar, ela
expõe exatamente aquilo que lhe foi ensinado, incluindo vírgulas e pontos, porque assim e só
assim é o "certo".
Não obstante, voltando-nos à relação pedagógica, notamos que a visão comportamental da
aprendizagem defende a ideia de que o professor deve fixar o saber do indivíduo,
predeterminando os conhecimentos suscetíveis de serem transmitidos, sua maneira de
transmiti-los e, con¬sequentemente, a avaliação desses conhecimentos. Para exemplificar e
favorecer a compreensão, eu lembraria que, desta forma, todos os alunos terão acesso aos
mesmos sa¬beres, da mesma maneira. Diante de uma pergunta, somente uma resposta é
esperada. Esta proposição de teoria da aprendizagem aplicada ao ensino limita o aluno na hora
de poder buscar novas alternativas de aprendizagem diante de situações desconhecidas e
diferentes.
John Watson
Entre os estudiosos da concepção comportamental da aprendizagem, aparecem Watson e seu
grupo de traba¬lho, que foram influenciados pelas propostas do fisiólogo russo Pavlov e
orientadas até uma concepção de aprendi¬zagem considerada como processo de construção
de reflexos condicionados que se realiza por meio da substi¬tuição de um estímulo por outro.
(BIGUE, 1977, p. 58)
Watson concebe o conceito de conduta como uma ação observável produzida pelo organismo
no ambiente em que vive. A conduta não será, consequentemente, re¬lativa ao inatismo ou ao
temperamento. Watson não somente vai deixar de lado as questões relativas ao instin¬to mas
também desconsidera as predisposições genéticas do ser humano. O importante para esta
forma de conceber o comportamento éo resultado, aquilo que a pessoa mos¬tra ou
demonstra que aprendeu.
Este autor inclui na compreensão do que seja con¬duta todos os fenômenos visíveis,
objetivamente comprováveis ou factíveis, que puderem ser submeti¬dos ao registro e à
verificação; fenômenos que sejam respostas ou reações aos estímulos agentes. Por meio de
uma sólida base experimental, Watson tentou situar a Psicologia sobre o modelo das ciências
naturais e, desta forma, pode apresentar suas divergências diante dos postulados
fundamentais da Psicologia clássica: a introspecção como método científico e a consciência
como objeto da Psicologia.
Para John B. Watson (1919), a aprendizagem é con¬siderada como o estabelecimento de
associações simples (respostas condicionadas), com base no sistema nervoso, isto é, toda
conduta representa a aprendizagem de respos¬tas a estímulos particulares. Segundo seu
estudo, os atos humanos mais complexos são concebidos como cadeias de respostas
condicionadas.
Para Watson, aprendizagem é aquilo que se pode ver e constatar, isto é, a conduta adquirida e
observável.
"A Psicologia como vê um condutivista é um ramo pura¬mente objetivo e experimental da
ciência natural. Sua meta teórica é a predição e o controle da conduta" (apud FER¬RERAS,
1998, p. 38). Esta maneira de conceber o sujeito que aprende vê excluída a possibilidade
referente às dife¬renças inatas, ao temperamento ou à própria mente. Para os condutivistas, a
maioria das emoções é reflexo condici¬onado, com exceção de algumas, como o medo, a ira e
o amor. O estudo da consciência, argumentam eles, não é objeto de investigação próprio de
uma ciência, pela gran¬de dificuldade de medi-la objetivamente.
Os behavioristas, como são chamados seus segui¬dores, salientam que a essência da máquina
humana é o sistema de receptores (órgãos dos sentidos), condutores (neuronas), órgãos de
comando (cérebro e coluna verte¬bral) e agentes (músculos) conectados aos ossos, além dos
órgãos de alimentação e controle como são o estômago e as glândulas. E, assim, acreditaram
que, uma vez contro¬lados os estímulos do meio em que o sujeito está inserido, se pode
moldar o seu caráter na direção que se quer.
A teoria proposta por Watson reduz o processo de aprendizagem às determinações da
instituição, dos espe¬cialistas, dos conteúdos específicos a uma determinada tarefa ou, em
outras palavras, daqueles que manipulam ou detêm o poder da decisão, controlando assim as
ações das pessoas. Para exemplificar, poderíamos pensar naquelas situações nas quais fomos
levados a dar as respostas espe¬radas pelos outros e não as que gostaríamos de dar.
Sem dúvida, é importante considerar os estímulos, as necessidades do contexto em que o
sujeito vive. Porém, nasce em mim a seguinte questão, que divido com o leitor: Condicionar a
ação significa ao mesmo tempo estimular o pensamento e/ou a aprendizagem?
Edward Lee Thorndike
Nos estudos de Thorndike, podemos observar a am¬pliação dos trabalhos de Pavlov, pois
realizou seus experimentos em situações de laboratório não tão rigoro¬samente controladas,
mas introduziu situações um pouco mais naturais, nas quais intervinha na aprendizagem
me¬diante o ensaio e o erro. Isto se refere à crença deste autor nas situações de repetição,
isto é, para que uma determi¬nada situação seja resolvida, devemos repetir a mesma ação, até
que casualmente a solução seja encontrada.
As investigações de Thorndike (1913) sugerem a possibilidade da existência de vínculos
específicos entre as "impressões sensoriais" e os "impulsos para a ação" e, por isto, seus
estudos se encontram na denominada Teoria do Conexionismo ou Condicionamento
Instrumental. Esta teoria pressupõe que, por causa do condicionamento, res¬postas
específicas podem unir-se a estímulos específicos. Estas uniões ou conexões são o produto de
uma mudança biológica no sistema nervoso. Thorndike pensava que o principal caminho por
meio do que se formavam as cone¬xões do tipo S-R (estímulo - resposta) era de ensaio e erro,
porque, à medida que os ensaios se repetem, cada vez mais demora menos tempo em
encontrar a solução, eliminando as condutas inadequadas.
Sobre a base de seus experimentos, Thorndike for¬mulou certas leis da aprendizagem e as
classificou como primárias e secundárias. As primárias, denominou de dis¬posição, de
exercício e de efeito. As leis secundárias ou subordinadas foram identificadas pelas expressões
de múl-tipla resposta, "sei\ predomínio de elementos, resposta por analogia e mudança
associativa.
Entre as leis formuladas por Thorndike, ocupa um lu¬gar relevante a conhecida como "lei do
efeito", que ressalta
que qualquer ato que produza um efeito satisfatório em uma determinada situação tende a
ser repetido nessa situação. A lei do efeito se converteu em guia do ensino, premiando as
ações corretas e debilitando as incorretas, também chamado por ele de princípio do prazer e
da dor. Infelizmente, até hoje, encontramos atitudes pedagógicas nas diferentes disciplinas,
que enfatizam este tipo de crença. Como exemplo, podemos citar o caso de escolas que
destacam os alunos que consegui¬ram os primeiros lugares no vestibular ou excluem do seu
quadro discente os alunos considerados "problemas", indis¬ciplinados, com dificuldades de
aprendizagem.
Podemos observar que as leis da aprendizagem de Thorndike estão intimamente relacionadas
e podem ope¬rar juntas. Por exemplo, se uma pessoa estiver preparada para responder a uma
questão, então a resposta dará satis¬fação, e este fato em si tenderá a fixar a resposta. Em
uma situação concreta de sala de aula, podemos perceber este exemplo quando um aluno, ao
explicar o exercício no qua¬dro de giz, é elogiado pelo professor diante da turma. E o tipo de
situação que favorece a fixação do conteúdo.
Da mesma maneira, as leis parecem ser extremamen¬te mecânicas, não dando lugar a
nenhum tipo de pensamento, compreensão ou intencionalidade por parte da pessoa, uma vez
que a ênfase está na docência e não na aprendizagem.
Watson, apesar de descartar algumas ideias de Thorndike, valorou positivamente a lei
secundária que este desenvolveu: mudança associativa. O princípio enuncia¬do por esta lei foi
o ponto de partida do movimento behaviorista de 1920. Esta lei nos mostra que um aluno
pode desenvolver diferentes respostas diante de um estí¬mulo em função de seu grau de
sensibilidade e de capacidade de associação entre a situação de estimulação e das possíveis
respostas.
A proposta de Thorndike relativa à aprendizagem acadêmica parece um tanto restrita quando
enfatiza a no¬ção de aprendizagem por ensaio e erro, utilizando a repetição e a prática como
metodologia pedagógica. Este autor faz referência ao mental como algo sentido e. percebido,
isto é, valoriza os sentidos em detrimento do pensamento.
Compartilho com o leitor minhas inquietações: Até que ponto desconsiderar os erros e as
alternativas mentais que fazem parte da aprendizagem pode servir de funda¬mento no
trabalho do professor?
Burrhus Skinner
Um outro pesquisador que compactua com as ideias do paradigma comportamental da
aprendizagem é Skin¬ner, criador da Teoria do Condicionamento Operante, que agrega um
aspecto a mais em suas pesquisas: a reflexão sobre a condição do organismo e de suas
consequências, por isto operante, no momento em que tem lugar o pro¬cesso de
aprendizagem.
Skinner não estava de acordo com os teóricos da linha S-R, discordando em dois aspectos
fundamentais. O primeiro está relacionado com os tipos de aprendizagem que, segundo
Skinner, são dois: o comportamento reflexo e o comportamento operante. O segundo aspecto
que di¬fere dos demais condutistas é o relativo ao índice quantitativo utilizado nos estudos
sobre aprendizagem, posto que o tempo de reação pode ser modificado por cer¬tos fatores
externos ao processo, o que supõe que o tempo de reação não seja a melhor medida para
estudara apren-dizagem. Estes fatores externos, entre os quais estaria a posição do organismo
no momento em que o estímulo é apresentado e os dispositivos experimentais empregados,
poderiam aumentar o tempo de reação.
Skinner define aprendizagem como uma mudança na probabilidade da resposta. Na grande
maioria dos ca¬sos, esta mudança é causada por condicionamentos operantes. (BIGGE, 1977,
p. 123)
Este autor afirma que todo o comportamento hu¬mano é produto do reforço operante.
Consequentemente, sendo operavelmente reforçadas, as pessoas aprendem a manter seu
equilíbrio, a andar, a falar, a escrever, a jogar e a utilizar instrumentos manuais; realizam uma
série de movimentos e, mediante o reforço, aumenta-se a possibi¬lidade de repeti-los. Assim,
o reforço operante melhora a eficiência do comportamento.
No Condicionamento Operante, um organismo deve, em primeiro lugar, dar uma resposta
desejada e somente depois obterá a recompensa e, assim, a recompensa refor¬ça a resposta.
A essência da aprendizagem não é a substituição do estímulo, mas a modificação da resposta.
O condicionamento operante considera que a conduta está sujeita à regulação dos fatores
ambientais. Denominam-se reforços aos fatores que servem para aumentar a probabilidade ou
a frequência de ocorrência de um determinado modo de conduta. Se o reforço desencadear
uma conduta desejada, re¬ceberá o nome de reforço positivo. No entanto, se o estímulo for
negativo, de tal modo que o reforço tenha lugar a uma para¬da do estímulo, dar-se-á o que
Skinner chama de reforço negativo, ou seja, o reforço se tornará um castigo.
O ensino é concebido como uma combinação de reforços contingentes que facilitam a
aprendizagem, com ou sem o professor. A proposta da "instrução programa¬da", uma
aplicação da teoria do Condicionamento Operante, baseia-se no fato de que o máximo de
esforço vem do controle que alguém exerce sobre o meio. "Um programa é um conjunto de
contingências que modelam topograficamente a resposta e originam uma conduta sobre o
controle de estímulos de maneira eficiente" (SKIN- NER, 1969). Tal metodologia, ao referir-se à
figura do professor, parece dizer que poderia ser substituída por um bom e eficaz material ou
por um material que traz em si o próprio reforço.
A teoria comportamental da aprendizagem, além de desconsiderar as informações que o
sujeito já possui, des¬carta as características pessoais, as crenças, os desejos, as ideias e os
pensamentos, reduzindo a aprendizagem ou a própria natureza humana a estímulos, respostas
e refor¬ços. E é forte, muito forte, a presença desta concepção na educação e na vida de hoje
e, como salienta Pinker (2004), "a doutrina da tábula rasa arraigou-se na vida intelectual sob
uma forma que foi chamada de Modelo Padrão da Ci¬ência Social ou Construcionismo Social1.
Hoje esse modelo está tão incorporado à vida das pessoas que poucas têm noção da história
que ele encerra", (p. 37)
Para facilitar a compreensão do que aqui foi afirma¬do, podemos observar algumas práticas
pedagógicas que continuam insistindo na quantidade do conteúdo a ser tra¬balhado, em
detrimento da seleção qualitativa do que é significativo para um determinado grupo de alunos.
Portanto, as pessoas que concordam com o paradig¬ma comportamental da aprendizagem
creem que, para o sujeito aprender, é necessária uma escola com muita disci¬plina, burocracia
e autoritarismo. O controle da situação de aprendizagem parte de fora para dentro, impedindo
o sujeito aprendente de tomar consciência de sua ação. E o caso de uma criança da primeira
série que, ao lhe pergun¬tar o que faz quando escreve errado, responde: "A professora fala
que está errado, eu vou lá e arrumo".
Como esta concepção de aprendizagem não explica o que acontece com o sujeito na hora de
aprender e tam¬bém não considera a ação deste sujeito como uma resposta ativa,
acreditamos que se faz necessário continuar visitan¬do outros autores, outras idéias, novas
possibilidades.
1.2 ... ao Paradigma Cognitivista
Em virtude do grande interesse na área da Psicolo¬gia pelas questões cognitivas e o uso das
tecnologias cognitivas da informação em uma multiplicidade de situa¬ções e áreas, não temos
uma linha única na teoria cognitivista, que explique o funcionamento da mente. O que
percebemos nas diferentes propostas que compõem este paradigma da aprendizagem é que
concebem a con¬duta e o conhecimento humano a partir das representações provenientes da
mente humana e estudam os processos que transformam ou manipulam estas representações.
Em outras palavras, esta concepção de aprendizagem discute a diferença entre a aquisição da
informação e do conheci¬mento, considerando "os protagonistas do processo de aprender e
ensinar como sujeitos inteiros, mas compostos pelas dimensões do pensamento, do
sentimento, da ação e da interação". (PORTILHO e BARBOSA, 2007)
Continuando com a proposta deste capítulo, apre¬sentamos alguns teóricos cognitivistas e
suas concepções de aprendizagem, procurando mostrar ao leitor que a com¬plexidade da
mente humana faz com que necessitemos articular e integrar as diferentes formas de pensar
dos diversos autores.
Robert Gagné
No estudo da aprendizagem cognitiva, as ideias de Gagné e seu "Modelo de Processamento de
Informação" aparecem quando afirma que o processo de aprendizagem é uma modificação
que pode ser provocada e que não pode ser simplesmente atribuída ao processo de
crescimento, como estabeleciam as concepções apriorísticas da aprendizagem, ou seja,
aquelas que acreditam que a aprendizagem inde¬pende da experiência. Gagné leva em conta,
por um lado, o caráter biologicamente determinado da aprendizagem; e, por outro lado,
enfatiza a importância desempenhada pelo meio externo para a aquisição do conhecimento.
O ponto de vista de Gagné (1974) sobre o tipo de modificação chamada aprendizagem se
manifesta como uma alteração no comportamento, indicando que a apren¬dizagem ocorreu,
comparando o comportamento do indivíduo antes e depois de haver sido exposto a uma situ-
ação de aprendizagem. Nesta definição, encontramos a influência comportamental no
pensamento deste autor, o que reforça a ideia de que, em nome de algo novo, não devemos
desconsiderar o antigo e vice-versa.
O avanço na sua proposta está no fato de que para que ocorra a aprendizagem, o sujeito deve
experimentar uma transformação (aprendizagem ativa), desde a apren¬dizagem de signos e
sinais até a aprendizagem de resolução de problemas, como será exposto a seguir.
Em primeiro lugar, Gagné (1974) menciona a apren¬dizagem de signos e sinais. O signo é
qualquer símbolo que substitui ou indica outra coisa a partir de algum tipo de associação. Para
que este tipo de aprendizagem aconteça, devem ser apresentadas duas formas de estímulos
de ma¬neira simultânea: o estímulo que produz a resposta geral e o estímulo que se
transforma em sinal. Este tipo de aprendizagem é comum na vida cotidiana. Para exemplificar,
é o caso da criança que aprende que um grito de seus pais pode ser um sinal de dor, ou de
medo. Este sinal pode originar-se em sujeitos que, quando crianças, tiveram-no acompanhado
de estimulações doloridas ou assustadoras. Do mesmo modo, podemos imaginar que muitas
emoções têm sua origem na aprendizagem de sinais. O fato de obser¬var a casa onde
passamos a infância, depois de muitos anos de ausência, pode provocar sentimentos
agradáveis de nos¬talgia, independentemente de fatos específicos. O mesmo ocorre quando
abrimos um livro antigo ou, ao olharmos suas páginas, lembramos de um determinado
professor.
Gagné também apresenta a aprendizagem estímulo-rea- ção, que compreende a execução de
movimentos musculares precisos e a resposta a estímulos ou combi¬nações de estímulos
muito específicos. Este tipo de aprendizagem permite que o sujeito realize uma ação quan¬do
quiser. Podemos imaginar, por exemplo, uma pessoa quando aprendeuma língua estrangeira:
quando o sinal é solicitado, no caso uma classe de espanhol - "Diga perro", é provável que o
sujeito diga alguma coisa mais ou menos parecida. Todo aprendente deve receber reforços
para res¬ponder a um pequeno número de estímulos externos corretos, que se encontram no
som da palavra "perro", assim como para responder a um número de estímulos in¬ternos
provenientes de seus músculos ao pronunciar esta palavra. O próprio aprendente também
complementará o reforço, comparando sua pronúncia da palavra "perro" ("ca¬chorro" em
português) com a do professor de espanhol. Se realmente o desejo é de que este ato seja
eficiente, há de se adquirir, com antecedência, um critério conveniente e preciso de
comparação. Esta é uma aprendizagem que exi¬ge o que chamamos hoje de estilo analítico
por parte do sujeito que aprende.
Outro tipo proposto por Gagné é a chamada apren¬dizagem por cadeia, que consiste na
aprendizagem de uma determinada sequência ou ordem de ações. Imaginemos a seguinte
situação: ensinar uma criança a amarrar os sapa¬tos. Este autor assinala algumas condições
necessárias para a realização desta aprendizagem: a) os elos da cadeia de¬vem ser
estabelecidos com antecedência para que sejam eficazes. Por exemplo, a criança deve saber
pronunciar a palavra sapato e deverá buscá-lo no momento em que sua mãe peça; b) as
respostas relativas ao fato de amarrar os sapatos devem ser caracterizadas por uma sequência
(con¬tinuidade dos elos), transcorrendo um breve espaço de tempo entre o estímulo que
conduz a pronúncia da pala¬vra e as respostas; c) uma vez atendidas as duas condições,
podemos observar que a aquisição de uma cadeia não se baseia em um processo gradual, mas
acontece de uma só vez. Esta é uma aprendizagem que exige o que denomina¬mos
atualmente de um estilo dotado de organização e percepção da totalidade da ação.
A aprendizagem denominada por Gagné de associa¬ções verbais está relacionada à
aprendizagem em cadeia que implica operações de processos simbólicos bastante com¬plexos.
A aprendizagem pode acontecer na tradução de uma palavra da língua portuguesa para a
língua francesa, por meio da aquisição de uma cadeia. Se pronunciarmos as palavras "fósforo",
em português, e "alumette", em fran¬cês, seguidamente uma da outra, de forma repetida e
um número de vezes suficiente, a criança encontrará, inciden¬talmente, um código que lhe
ajudará a aprender a cadeia. No entanto, se quisermos que a aprendizagem se desen¬volva de
forma rápida, o melhor caminho seria acrescentar a imagem referente à palavra.
A aprendizagem chamada discriminações múltiplas é uma aprendizagem que Gagné afirma ser
possível, mediante as associações entre vários elementos, implicando a ação de separar e
discriminar. Este tipo de aprendizagem é aquela que o professor utiliza para chamar os alunos
por seus respectivos nomes. E também o tipo de aprendiza¬gem posto em prática pelo
estudante quando aprende a distinguir as diferentes plantas, os números ou os símbo¬los
matemáticos. O aspecto importante na discriminação múltipla é a interferência, que deve ser
vencida, para que se possa assegurar a fixação do aprendido. As novas cadei¬as interferem na
conservação de outras já aprendidas e vice-versa. Esta aprendizagem, dizemos atualmente, de-
manda um estilo analítico, observador e reflexivo do indivíduo que aprende.
A aprendizagem de conceitos, segundo Gagné, significa aprender a responder a estímulos em
termos de proprieda¬des abstratas, tais como: forma, cor, número ou posição. Como
exemplifica Gagné (1974, p. 41), uma criança pode aprender a dar o nome a um cubo de um
jogo de constru¬ção e utilizar o mesmo nome para fazer referência a outros objetos que se
diferenciam do primeiro em pequenas ca¬racterísticas, como a forma e o tamanho. Depois,
aprenderá o conceito de cubo, e esta forma passará a identificar dis¬tintos objetos que
diferem entre si (desde um ponto de vista físico). Qualquer que seja o processo, um conceito -
como o de cubo - poderá ser aprendido. Esta aquisição fará com que o indivíduo seja capaz de
identificar objetos de aparência física muito diferente, sempre que compor¬tem as
características essenciais da definição do conceito. Seu comportamento passará a ser
controlado, não só por estímulos físicos específicos mas também por proprieda¬des abstratas
de tais estímulos. Já no caso de uma pessoa adulta, a aprendizagem de novos conceitos pode
aconte¬cer por um caminho mais curto porque dispõe de maior riqueza de linguagem. Neste
tipo de aprendizagem, é comum ser utilizado um estilo de aprender por analogias, ou seja,
aquela aprendizagem que nos permite relacionar ou en¬contrar semelhanças nos fatos e nas
situações estudadas.
Outro tipo é a aprendizagem de princípios, que subten¬de que um princípio é uma relação
entre dois ou mais conceitos. As condições para que este tipo de aprendiza¬gem aconteça são:
a) quando um princípio está sendo aprendido, o su¬jeito já deve dominar os conceitos
que estão sendo utilizados;
b) geralmente, o princípio é enunciado de forma verbal, como, por exemplo: "O pronome
eu leva o verbo para o singular";
c) a aprendizagem de um princípio se realiza em uma só ocasião. O importante para que
se saiba se al¬guém tem uma boa condição para a aprendizagem é observar se a pessoa que
aprende sabe realmente utilizar o princípio.
Por fim, a aprendizagem de resolução de problemas signi¬fica que, uma vez adquiridos alguns
princípios, a pessoa pode utilizá-los com finalidades diversas, atuando no meio e procurando
controlá-los. Pode também fazer algo muito mais importante - pensar. Isto significa que o ser
humano está dotado de uma qualidade que o leva a combinar os princípios já aprendidos com
novos princípios mais eleva¬dos. Isto pode acontecer quando a pessoa estimula a si mesma e,
também, reage às diferentes estimulações prove¬nientes de seu ambiente. Graças aos
processos de combinação de princípios antigos e novos, a pessoa será capaz de resolver
problemas novos, adquirindo uma reser¬va de habilidades. E o caso, por exemplo, do
estudante ao fazer um resumo, uma dissertação ou quando reúne argu¬mentos para
apresentar um ponto de vista. A resolução de problemas resulta da aquisição de novas ideias
que multiplicam a aplicabilidade dos princípios previamente apren¬didos e estimulam novas
habilidades que, por sua vez, incitam a um pensamento mais elaborado.
Gagné passa a considerar o sujeito que aprende como um ser constituído por uma
funcionalidade cognitiva, ou seja, aquele que pensa diante da informação, baseando-se no
aspecto sensorial da cognição e destacando a importân¬cia das interações deste sujeito com o
estímulo que o leva a produzir uma resposta, que resulta na aprendizagem.
Mas, será que toda resposta que o sujeito obtém de sua interação com o meio onde vive pode
ser considerada aprendizagem?
Albert Bandura
O psicólogo Bandura nos ajuda a perceber a impor¬tância das interações sociais na aquisição
da aprendizagem quando propõe a sua "Teoria Social Cognitiva".
Em seus primeiros estudos (1963), este autor enfa¬tiza os fatores sociais e o papel da
observação na aquisição e na manutenção das condutas, não fazendo referência ao aspecto
cognitivo do comportamento. Em 1999, suas pu¬blicações já ressaltam o caráter cognitivo da
conduta, ampliando suas ideias e, assim, fazendo com que diversos autores o reconheçam
como psicólogo cognitivista.
Segundo Bandura, a conduta está regulada, além dos fatores biológicos, por três sistemas
diferentes: 1) um con¬trole que vem dos estímulos antecedentes, sejam eles incondicionais,
condicionais ou discriminativos; 2) outro controle proveniente das consequências do
ambiente; 3) um terceiro controle constituído pelos processos cogniti¬vos mediadores.
A regulação cognitiva determina que os sujeitos, diante de eventos externos, observem,
atendam, percebam,avaliem, armazenem e simbolizem as lembranças da me¬mória. Todos
estes aspectos cognitivos intervêm nas imitações que os humanos realizam das condutas
obser¬vadas nos outros. (PUENTE FERRERAS, 1998, p. 87)
Um aspecto mais primitivo da proposta deste autor está no fato de afirmar que a
aprendizagem está baseada na observação, assim como destaca a influência da "modela¬gem"
na conduta humana. Bandura dará por certo que, em todas as culturas, as crianças adquirem e
modificam padrões complexos de comportamento, conhecimentos e atitudes, observando os
adultos. Afirmará que "afortunadamente a maior parte da conduta humana é aprendida pela
observa¬ção, mediante modelagem". (BANDURA 1988, p. 68)
O conceito de modelagem para este autor é mais amplo que o conceito tradicional de
imitação, porque não somente inclui a observação e a cópia da conduta dos ou¬tros mas
também compreende, o que denomina de "modelagem verbal", que adquire um papel
decisivo à medida que se desenvolvem as competências linguísticas.
Este tipo de aprendizagem pode desencadear alguns efeitos, tais como:
a) efeito instrutor - permite a aquisição de respostas e habilidades cognitivas novas por
parte daquele que observa, ajudando-o a ampliar seu repertório de aprendizagens;
b) efeito de inibição ou desinibição de condutas previa¬mente aprendidas;
c) efeito de facilitação - refere-se à resposta que o sujei¬to é capaz de dar e que não
estava previamente inibida, como quando, ao olharmos o céu, imitan¬do o que o outro faz;
d) efeito de incremento do estímulo ambiental - em um ex¬perimento realizado por
Bandura em 1962, as crianças que observavam como se batia em uma boneca com um bastão
imitaram a resposta agres¬siva e fizeram o mesmo em outra situação;
e) efeito de ativação das emoções - as pessoas se emocio¬nam ao observar as emoções
dos outros.
Em seus últimos estudos, Bandura insiste nos proces¬sos subjacentes à aprendizagem
observacional, como, por exemplo, o da atenção do observador até as atividades ou as
demonstrações do modelo, os fatores da memória, os proces¬sos de caráter executivo e os
processos de motivação.
Acreditamos que, dentro desta perspectiva teórica, o papel do professor é muito importante,
não tanto pela apresentação constante de modelos de conduta, verbais ou simbólicos, como
pela eficácia da consistência dos modelos, da adequação destes às competências dos alu¬nos,
da interação afetiva entre os alunos e o próprio professor, assim como pela efetividade dos
procedimen¬tos que o professor coloca em jogo na apresentação dos modelos. Os
companheiros da sala também podem ser um recurso importante.
Um aspecto interessante e oportuno destacado por Bandura em suas pesquisas é a alusão
feita à eficácia pesso¬al (1999), isto é, à autoeficácia, relativa às crenças do sujeito sobre suas
próprias capacidades para organizar e executar ações necessárias em situações futuras. As
crenças de eficá¬cia estão relacionadas com o modo de pensar, de sentir, de motivar-se e de
atuar das pessoas. Portanto, quando fala¬mos de metacognição (capítulo 3), compreendemos
melhor a relação existente entre a linha de pensamento de Bandura e a proposta da tomada
de consciência de nosso próprio conhecimento como uma das possibilidades para que o
in¬divíduo aprenda com mais eficácia.
Em sua análise das crenças das pessoas sobre sua eficácia, Bandura destaca quatro formas
fundamentais de influência:
• experiências de domínio - é a maneira mais efetiva para criar uma eficácia sólida, uma
vez que estão relacionadas às condições que o sujeito deve ou não reunir para obter êxito, e
estes, diferentes dos sucessos, ratificam a eficácia pessoal; experiências vicárias - estão
relacionadas ao êxito obtido pela pessoa por meio da observação; êxito que supõe o aumento
das crenças do observador de que possui as capacidades necessárias para do¬minar atividades
comparáveis. Se as pessoas consideram os modelos muito diferentes de si mesmas, suas
crenças de eficácia pessoal não se¬rão muito influenciadas pela conduta do modelo nem pelos
resultados que esta produz; (BANDURA, 1999, p. 22)
• persuasão social - ocorre quando as pessoas se mo¬bilizam totalmente para alcançar o
êxito, porque são estimuladas pela auto-ericácea persuasiva. Desta forma, suas crenças de
auto-ericácea estimulam o desenvolvimento de destrezas e a sensação de efi¬cácia pessoal;
• favorecer o estado físico, reduzir o estresse e as tendências emocionais negativas e
corrigir as falsas interpretações dos estados orgânicos - os indicadores psicológicos de eficácia
são agentes influentes no funcionamento da saúde e nas atividades que requerem esforço
físico e persistência, assim como, em geral, os es¬tados afetivos têm efeito sobre as crenças
relativas à eficácia pessoal em diferentes esferas de funcio¬namento. Em outras palavras, a
pessoa, para aprender a ser consciente de seus conhecimentos e controlá-los, precisa acreditar
em si mesma an¬tes de tudo.
Outro ponto importante da proposta de Bandura reside nos quatro processos fundamentais
para que as cren¬ças de eficácia regulem o funcionamento humano: os processos cognitivos,
motivacionais, afetivos e seletivos. Tais processos operam juntos na regulação contínua do
funcionamento humano.
Os processos cognitivos da conduta humana, que têm um objetivo claro a seguir, são
regulados mediante o pen¬samento antecipador que inclui os fins desejados. Quanto mais
forte é a eficácia percebida, mais desafiadoras são as finalidades que as pessoas se propõem e
mais firme é o compromisso para alcançá-las. O pensamento tem uma fun¬ção importante: a
de capacitar as pessoas para predizer sucessos e desenvolver os métodos para controlar os
su¬cessos que influem sobre suas vidas. No momento em que a pessoa aprende as regras de
predição e regulação, deve recorrer a seu conhecimento para construir opções, para equilibrar
e integrar os fatores preditivos, para provar e revisar seus juízos à mercê dos resultados
imediatos e dis¬tantes de suas ações e para recordar os fatores provados e como funcionaram.
(BANDURA, 1999, p. 24)
Para que o sujeito se sinta eficaz em suas ativida¬des, é importante, como diz Bandura, os
processos motivacionais, já que grande parte da motivação do ser humano tem ori¬gem no
sistema cognitivo. As pessoas se motivam a si mesmas e dirigem suas ações antecipadamente
mediante o exercício do pensamento antecipador, assim como mo¬bilizam, à vontade, os
recursos e o nível de esforço necessário para alcançar o êxito. Existem diferentes tipos
motivadores cognitivos, e as crenças de eficácia operam em cada um deles. Estamos falando
das atribuições cau¬sais, das expectativas de resultados e das metas cognitivas.
Bandura exemplifica as atribuições causais, quando diz que as pessoas que se consideram
muito eficazes atribuem seus fracassos ao esforço insuficiente ou às condi¬ções situacionais
adversas, enquanto as pessoas que se consideram ineficazes atribuem seus fracassos à sua
pou-ca habilidade. Com relação as expectativas de resultados, Bandura salienta que a
motivação está em consonância com os resultados que uma ação pode produzir e com o valor
conferido a estes resultados, como seria o caso das opções muito atrativas que as pessoas não
executam por¬que se consideram incapazes para realizá-las.
O terceiro tipo de motivação cognitiva, as metas cognitivas, refere-se às metas explícitas e
desafiadoras que fomentam e sustentam a motivação. A motivação, basea¬da no
funcionamento de metas, implica um processo de comparação cognitiva entre a execução
percebida e o mo¬delo pessoal adotado.
Os processos afetivos fazem referência ao como as pessoas trabalham em situações difíceis ou
ameaçadoras, o que indica as crenças ou a confiança que têm em sua capacidade de manejar a
quantidade de estresse e depres¬são. Ainda que os sujeitos sejam submetidos às mesmas
situações estressantesproduzidas pelo ambiente, os que creem que podem manejá-las
permanecerão impertubáveis, enquanto aqueles que dizem não poder manejar
pessoal¬mente estas situações vão concebê-las de forma frágil.
Estes aspectos afetivos nos levam a relacionar a re¬sistência que muitas pessoas exercem
diante do fato de conhecer suas possibilidades e limitações, que é precisa¬mente a proposta
da metacognição. Sendo assim, destacamos a importância do professor, uma vez que cabe a
ele sensibilizar seus alunos para que os mesmos mane¬jem, a partir do autoconhecimento, as
dificuldades que aparecem na hora de estudar.
Bandura destaca a importância da educação para uma vida produtiva, assim como a
necessidade do desenvolvimento de competências cognitivas e autoreguladoras para que
possamos desempenhar os diferentes papéis que ocupamos e manejar as demandas da vida
contemporâ¬nea. Também salienta que o rápido ritmo empregado pelas mudanças
tecnológicas e o acelerado crescimento do co¬nhecimento exigem a capacidade para a
aprendizagem autodirigida. Acrescenta que um dos principais fins da educação formal deveria
ser o de equipar os estudantes com instrumentos intelectuais, crenças de eficácia e inte¬resse
intrínseco para educar a si mesmo durante toda sua vida. (BANDURA, 1999, p. 34)
As dimensões cognitiva, afetiva e social que apare¬cem na teoria de Bandura são muito
importantes, já que reforçam a evidência de que o processo de aprendizagem não pode
continuar, sendo visto como algo meramente ina¬to ou proveniente do ambiente no qual o
sujeito está inserido, como defendem os condutistas.
Acredito que a grande contribuição deste autor tenha sido nos alertar sobre a importância da
dimensão social da aprendizagem, destacando elementos, como a observação, a memória, a
motivação, a afetividade na prática pedagógi¬ca. E quando se refere à autoeficácia como a
necessidade de acreditarmos em nossas possibilidades, permite-nos afir¬mar o quanto é
necessário na hora de aprender que as dificuldades, os erros, os tropeços sejam revertidos em
mo¬mentos significativos de construção de conhecimento e a relevância do papel do professor
neste processo.
Jean Piaget
Piaget, autor da teoria denominada "Epistemologia Genética", realizou seus estudos com o
objetivo de co¬nhecer a evolução do conhecimento na espécie humana. Os resultados das
pesquisas que desenvolveu junto com seus colaboradores e, posteriormente, as de seus
sucessores ajudam a compreensão do desenvolvimento hunano e da aprendizagem, relativa à
lógica matemática e is suas relações com a linguagem e a construção da moral (PIA¬GET,
1994). Piaget mostra que a interação do homem com o mundo possibilita a construção de
estruturas cogiitivas cada vez mais complexas, que permitem a esses homens terem
sensações, realizar movimentos, perceber, simbolizar, abs¬trair e raciocinar logicamente.
Segundo Piaget, o conhecimento se constrói, o que significa que a inteligência se constrói em
um processo de interação ativa do sujeito com o mundo externo. A priori, é a partir dos
reflexos inatos, baseados na ação do sujeito sobre o meio social e físico, quando inicia a
construção das estruturas de pensamento. Nesta etapa, dentro da tra¬jetória que transcorre
sua teoria, Piaget concebe o sujeito que aprende como um ser ativo que se situa e se posiciona
diante de um determinado contexto.
Para este autor, "a vida é, em essência, autoregula- ção", quer dizer, a vida mental faz parte
integrante do desenvolvimento da inteligência, pois esta se desenvolve para manter um
equilíbrio dinâmico com o meio. Quando o equilíbrio se rompe, o indivíduo atuará sobre o que
pro¬duziu o desequilíbrio (seja uma imagem, um som cu uma informação), para estabelecer a
situação de equilíbrio ini¬cial. Estes fatos acontecem graças ao que Piaget denomina de
adaptação e organização.
Como vimos anteriormente, a concepção deapren- dizagem associacionista se apóia no
êxito das aprendizagens anteriores, incrementando sua probabilidade de ocorrer. Já a visão
construtivista da aprendizagem tem sua origem na tomada de consciência dos fracassos ou
dos desequilíbrios (PIAGET, 1974, 1978) entre as re¬presentações e a realidade. Este ponto da
teoria piagetiana vem contrapor a crença de que não se podiam cometer erros para aprender.
Em entrevista com Bringuier (1993), Piaget, ao ex¬plicar a capacidade de adaptação dos
organismos vivos ao meio ambiente, infere que a inteligência humana é sempre uma
construção endógena (fatores internos), de dados exó¬genos (fatores externos) provenientes
da experiência. Por isso, em seus estudos, considera e contempla as variações não hereditárias
que, durante a história, foram substituí¬das pelas hereditárias. A inteligência é,
consequentemente, uma adaptação ao meio exterior, como toda adaptação biológica. Vale
dizer que, diante desse conceito, percebe¬mos claramente a visão interacionista proposta por
Piaget, por considerar tanto os aspectos inatos como os ambien¬tais importantes na hora da
aprendizagem.
Esta adaptação, no entanto, é fruto da adaptação do indivíduo com seu ambiente, onde os
fatores fisiológicos da maturação, as experiências com os objetos do mundo físico e com o
meio social, coordenadas por um mecanis¬mo autorregulador (equilibração), são elementos
absolutamente necessários para o desenvolvimento. Quan¬do se refere ao aspecto
autorregulador, parece que Piaget aponta para a valorização do sujeito na utilização das va-
riáveis metacognitivas, a regulação e o controle (temas a serem tratados na parte três) para
qualquer atividade ou tarefa a ser desenvolvida.
A adaptação apresenta duas invariantes funcionais básicas: a assimilação e a acomodação.
Piaget (1976) ex¬plica a assimilação como a incorporação de novos elementos a estruturas já
existentes e a acomodação como sendo toda a modificação dos esquemas de assimilação por
influência de situações exteriores. Este jogo entre as¬similação e acomodação permite que os
organismos mantenham um equilíbrio dinâmico.
Estes dois movimentos básicos da aprendizagem podem ser didaticamente explicados
separadamente, no entanto, não podemos estabelecer um corte entre eles na ação
adaptativa. Não é possível observar um comporta¬mento e dizer: "Ah! Agora ele está
assimilando e agora está acomodando". Ambos os processos estão indissolu¬velmente unidos.
A assimilação funciona para preservar as estruturas; a acomodação funciona no sentido de
varia¬bilidade, de desenvolvimento e de mudança.
Já a organização articula estes processos com as es¬truturas existentes e organiza todo o
conjunto de ações. Assim, o indivíduo constrói e reconstrói continuamente as estruturas que o
fazem cada vez mais apto à equilibração. Estas construções se desenvolvem na mesma ordem
em todas as culturas, mas a idade em que aparecem é dife¬rente. Como Piaget estudou as
crianças genebrinas, a divisão por idade, apresentada por ele, pode ser entendida para este
grupo ou para crianças de culturas semelhantes. Existem culturas nas quais o período pré-
operatório, por exemplo, dura mais tempo em que outras. São estes perío¬dos chamados de
estádios do desenvolvimento que, por sua vez, descrevem a evolução do raciocínio.
O primeiro estádio proposto por Piaget é o chama¬do sensório-motor, no qual, a partir dos
reflexos neurológicos básicos, o bebê começa a construir esquemas de ação para assimilar
mentalmente seu ambiente. A inteligência é prá¬tica. As noções de espaço e de tempo, por
exemplo, constroem-se mediante a ação. O contato com o meio é direto e imediato, sem que
a representação e a ação de pen¬sar apareçam neste início ou nos primeiros momentos deste
período. Piaget afirma que, nesta fase, se desencadeia uma importante transformação não
observável de modo direto.
Em segundo lugar, Piaget descreve o estágio operatório-concreto, que se divide em dois
subperíodos. No primeiro, chamado deperíodo pré-operatório, no qual se preparam as
"operações concretas", a criança será capaz de represen¬tar mentalmente pessoas e
situações, como também atuar por simulação, "como se fosse". O segundo subperíodo, ope-
ratório-concreto, em que as operações concretas já estão estabelecidas e consolidadas, a
criança já é capaz de relaci¬onar diferentes aspectos e abstrair dados da realidade.
Por último, Piaget apresenta o estádio "operatório- formal", no qual a representação permite a
abstração total, não limitando o jovem a uma representação imediata nem às relações
previamente existentes, mas impulsionando-o a pensar em todas as relações possíveis
logicamente. Nes¬te período, o pensamento, uma vez que já está consolidado, corresponde ao
de um adulto. Sua característica mais forte é a capacidade de raciocinar de um modo lógico,
partindo de premissas e deduzindo as conclusões pertinentes.
Por outro lado, o que é universal e predeterminado na história biológica do ser humano
enquanto espécie é a ordem de complexidade em que tal construção acontece, podendo o
indivíduo chegar ou não a um desenvolvimen¬to cognitivo mais complexo. Isto vai depender
de quatro fatores de aprendizagem (maturação, experiência, trans¬missão social e
equilibração) e da forma de utilização destes fatores no processo de interação com o meio.
O primeiro fator geral do desenvolvimento mental recebe o nome de maturação nervosa.
Dolle (1987, p. 69) afirma que a maturação torna possível a constituição das estruturas
operatórias, mas nada se sabe sobre as condi¬ções em que isto acontece.
O segundo fator de aprendizagem é o exercício e a experiência adquirida na ação efetuada
sobre os objetos. Este fator é essencial e necessário, mas é também comple¬xo e não explica
tudo. A experiência física e a experiência lógico-matemática são diferentes. A primeira consiste
em operar sobre os objetos para abstrair suas propriedades, e a segunda consiste igualmente
em operar sobre os objetos para conhecer o resultado das coordenações das ações.
O terceiro fator é o das interações e das transmis¬sões sociais. A linguagem é, sem dúvida, um
fator do desenvolvimento, porém não é fonte deste desenvolvimen¬to. Para poder assimilar a
linguagem, é necessário um instrumento de assimilação anterior. Geralmente, o desen-
volvimento operatório precede a expressão verbal. A linguagem parece estar dominada pelo
sujeito somente quando as estruturas necessárias de uma lógica verbal te¬nham sido
adquiridas, isto é, por volta dos doze anos. O meio social pode enriquecer a verbalização, mas
isto não permite que determinemos o nível de estruturação lógica desenvolvido. A
participação da linguagem na estrutura¬ção lógica precisa, para este autor, de estudos e
experiências que demonstrem sua influência neste desenvolvimento.
O quarto fator de aprendizagem apresentado por Piaget é a equilibração. Este aspecto do
desenvolvimento mental é necessário para explicar cada um dos fatores ci¬tados acima, mas
também comporta sua própria especificidade. As operações não estão pré-formadas, mas se
constroem de maneira continua pela abstração refleti- dora que, como se sabe, reflete em um
plano superior à estrutura elementar inicial, reconstruindo-a e ampliando- a. Desta maneira, as
abstrações refletidoras transformam os objetos ou as situações somente quando aparecem
situ-ações de problema, de conflito e de desequilíbrios. A reconstrução operada consiste em
restabelecer o equilí¬brio anterior, ampliando o campo de equilíbrio mediante uma
modificação das estruturas. No domínio intelectual, a noção de equilíbrio caracteriza-se pela
compensação. Isto não significa que o equilíbrio esteja em estado de re¬pouso, mas é um
procedimento decorrente de uma adaptação, principalmente porque o equilíbrio é móvel, de
maneira que, na presença de perturbações exteriores, o sujeito procurará reduzi-las por
compensações de sen¬tido inverso. E assim que Piaget justifica, uma vez que a equilibração
conduz a reversibilidade, propriedade das estruturas operatórias.
Todos os fatores do desenvolvimento destacados por Piaget influem sobre a estruturação do
sujeito, mas o fator mais importante é o da equilibração. Este fator interno do
desenvolvimento é uma dinâmica ou processo que leva ao fator determinante mediante a
reflexão e a reconstrução de estados de estruturações superiores.
Como podemos observar, segundo a teoria piagetia- na, desde que o indivíduo nasce leva
consigo uma história biológica que o permite construir, por meio de interações com seu
ambiente, estruturas cognitivas cada vez mais complexas que lhe permitem levar adiante
processos de aprendizagem cada vez mais complexos. O objetivo fun¬damental da indagação
piagetiana é estudar a construção do conhecimento por meio da ação do sujeito. Por isto, sua
proposta é essencialmente epistemológica, buscando analisar os mecanismos e os processos
mediante os quais se produz o conhecimento.
Jerome Bruner
Psicólogo americano, Bruner contribuiu de forma significativa no campo educativo com sua
"Teoria da Ins¬trução", onde afirma que, no ensino, existem muitos aspectos que podem ser
mais bem explicados. Em seu li¬vro O Processo de Educação (1960), aparece uma frase muito
conhecida: "Qualquer assunto pode ser ensinado eficazmente, de alguma forma
intelectualmente honesta, a qualquer criança em qualquer estádio do desenvolvimento", ou
seja, ele acredita que o desafio da educação não está em conhecer o período do
desenvolvimento no qual se encontra a criança e sim que, para aprender, é impor¬tante
considerar a maneira como as informações são trabalhadas pelo professor.
Um dos pontos-chave da teoria cognitiva de Bruner é sua concepção sobre a aprendizagem.
Este autor assinala que a aprendizagem não é algo que ocorre ao indivíduo, mas ele a provoca,
manejando e utilizando a informação, de forma que a conduta do sujeito não é algo
proveniente de um estímulo ou reforçado por ele, mas uma atividade complexa que envolve,
fundamentalmen¬te, três processos: a aquisição da informação, a transformação da
informação e a avaliação da informa¬ção. (BELTRÁN, 1987, p. 78)
A teoria de Bruner enfatiza o papel de quem apren¬de, declarando que este constrói sua
aprendizagem por meio do manejo e da utilização da informação.
Isto indica que a informação não somente proce¬de do exterior mas também exige todo um
esforço interno por parte da pessoa. Este esforço solicita do indivíduo que aprende a
transformar o que conhecia an¬teriormente, codificando e categorizando a informação,
ajustando-a aos esquemas existentes, constituindo-se como mediador interno entre o
estímulo e a transfor¬mação da resposta que chega do meio, fazendo com que a informação
inicial transcenda para convertê-la em algo diferente. A partir disto, o indivíduo terá de realizar
uma avaliação para saber em que medida a informação é apropriada para a tarefa em questão.
Bruner estima que muitas das questões relaciona¬das com a aprendizagem e a estimulação da
mente dependem da cultura. Para que a aprendizagem se desen¬volva com sucesso, é
conveniente que o meio se apresente como um desafio diante do aprendiz, provocando-o,
para que este faça frente aos problemas e resolva-os, fazendo transferência de uma situação a
outra. Portanto, as pesso¬as que possuem habilidades apropriadas podem utilizar os sistemas
de amplificação, tais como: os amplificadores da ação, que são objetos que nos permitem fazer
algo, como, por exemplo, as agulhas, as frigideiras, as colheres etc.; os amplificadores dos
sentidos, relativos às maneiras de observar ou detectar as estimulações do ambiente; e os
amplificado¬res dos processos mentais, que são as formas de pensamento que o indivíduo
utiliza para aprender. (PALACIOS, 1988)
Estes sistemas de amplificação podem e devem ser estimulados pelo professor ao transmitir os
novos conhe¬cimentos aos seus alunos,favorecendo a utilização de objetos do conhecimento,
o desenvolvimento de novas habilidades, assim como estimular o autoconhecimento por parte
daquele que aprende. Para exemplificar, pensemos no professor do Ensino Fundamental ao
trabalhar com um tema específico. E interessante que ele incentive os alu¬nos a buscarem em
seu dia-a-dia elementos, objetos, situações correspondentes ao assunto, provocando os
mes¬mos a inventar e responder às perguntas, desenhar o que imaginam, escrever o que
sabem sobre o tema e trocar ideias com os colegas, realizar pesquisa, como também instigá-
los a refletir e avaliar sobre as estratégias de aprendizagem que escolheram.
Quando Bruner se refere à utilização de situações problemáticas para estimular a
aprendizagem, sugere que os conteúdos de ensino devem ser enfocados pelo pro¬fessor como
um conjunto de problemas, relações e situações a resolver. Portanto, o ensino deve considerar
que a resolução de problemas é algo natural da vida real e, desta forma, a informação deverá
ter um caráter útil e aplicável a outras situações. Também é importante ter presente o objetivo
do processo de ensino e aprendiza¬gem: o descobrimento.
Este teórico cognitivista afirma que a aprendizagem mais significativa se desenvolve por meio
de descobrimen¬tos que transcorrem durante a exploração motivada pela curiosidade. Fala de
uma curiosidade que estimula o des¬pertar de hipóteses e de perguntas. A sala de aula
passiva, monótona e sem a participação dos estudantes deve ser renovada ou substituída por
métodos de ensino que favo¬reçam a aprendizagem por meio do descobrimento guiado. Estes
métodos proporcionam aos estudantes oportunida¬de de manipular objetos e transformá-los
por meio da ação direta e relativa à realidade, provocando atividades de bus¬ca, exploração,
análise, processamento e avaliação. (GOOD y BROPHY, 1996)
Bruner critica os modelos condutivistas de aprendiza¬gem quando salienta a importância de o
aluno desenvolver a capacidade de reflexão consciente, de raciocínio orien¬tado à redefinição
e de remodelação e reorganização dos problemas, em lugar de limitar a aprendizagem
somente na memorização. Isto não significa que não devemos fazer uso dela, pelo contrário,
devemos ampliar suas possibili¬dades, tratando-a como uma atividade intelectual
fundamental para a comunicação e a lembrança de fatos significativos.
Outro aspecto da teoria de Bruner (1969) a ser des¬tacado é com relação à aprendizagem
baseada em uma teoria prescritiva. Esta aprendizagem consiste no estabe¬lecimento de regras
enfocadas em um melhor procedimento para adquirir conhecimentos ou técnicas de
conhecimen¬to. Estas regras ou padrões servirão ao aluno para criticar ou avaliar qualquer
forma particular de ensinar ou apren¬der. Bruner dirá que a aprendizagem é uma teoria
normativa, pelo fato de estabelecer critérios e condições.
Em resumo, uma teoria de aprendizagem deve basear sua preocupação no "como" ensinar, no
ensinar melhor, para que o aprendido alcance os níveis de qualidade mais ele¬vados possíveis.
A predisposição para aprender é outro dos temas abordados por este autor. Ao discutir as
predisposições, é comum localizar os fatores culturais, motivacionais e pes¬soais que influem
no desejo de aprender e de tentar solucionar problemas, como é o caso da relação entre
pro¬fessor e aluno. A maneira como é estabelecida esta relação repercute na natureza da
aprendizagem, no grau em que o estudante desenvolve uma habilidade independente. As
relações entre aquele que ensina e aquele que aprende re¬fletem sempre na qualidade da
aprendizagem.
Bruner destaca a questão da estrutura e da forma do conhecimento e salienta que as ideias, os
problemas e os conjuntos de conhecimentos podem ser suficientemen¬te simplificados para
que qualquer estudante possa entendê-los, isto é, devem ser expostos de forma clara. A partir
de tal afirmação, podemos pensar que a estrutura de qualquer domínio do conhecimento tem
relação com a ha¬bilidade do aluno em aprender o assunto a ser estudado, variando em
função da idade, das estratégias e dos estilos de aprendizagem de cada estudante e em função
dos dife¬rentes conteúdos.
O ensino, por meio dos professores, deveria preocu¬par-se com os distintos aspectos que
fazem parte do processo de aprendizagem, incluindo desde a seleção do conteúdo a ser
ministrado até os recursos utilizados na hora de ensinar, como exemplifica Bruner a seguir.
Segundo o autor, o aluno apresenta três níveis de re¬presentação cognitiva do mundo, isto é,
o estudante transforma a informação de acordo com três métodos ou sis¬temas de
representação: o inativo, o icônico e o simbólico.
A representação inativa do indivíduo se refere à representação do mundo por meio da ação.
Por exem¬plo, se perguntamos a uma criança onde fica a padaria, provavelmente ela será
capaz de levar-nos até o lugar, mas dificilmente poderá representar o caminho em um mapa
ou dar-nos indicações orais. As imagens, as pala¬vras e os símbolos não estão implicados em
nenhum grau significativo.
Na representação icônica, o sujeito já tem a imagem ou representação mental dos objetos,
sem necessidade de manipulá-los diretamente. Esta imagem existe independen¬temente da
ação. Por outro lado, também faz uso da imaginação sem utilizar, ainda, a linguagem. O
indivíduo já pode refletir sobre as propriedades dos objetos além do uso que possa dar a elas.
Como exemplo destas repre¬sentações, temos os sinais de trânsito figurativos (um garfo e
uma faca indicando restaurante), a indicação de luga¬res masculinos e femininos (desenho de
um homem e de uma mulher).
A representação simbólica vai mais além da ação e da imaginação. O sujeito pode representar
o mundo medi¬ante símbolos, uma vez que é dotado de uma atitude para traduzir a
experiência em linguagem e para receber as men¬sagens verbais dos adultos. O estudante é
capaz de compreender e manipular conceitos puramente abstratos. Esta capacidade de
compreensão e manipulação dos refe¬ridos conceitos é necessária para que ele possa
beneficiar-se da instrução verbal compreendida nos aspectos mais for¬mais do conhecimento
das diferentes matérias. As bandeiras, a cruz para o Cristianismo, os sinais de trânsito não
figurativos, as letras são exemplos de símbolos que fazem parte do nosso dia-a-dia.
A pessoa madura pode utilizar adequadamente os três sistemas, uma vez que estes sistemas
são adquiridos cedo, em uma idade que vem determinada pelas oportunidades do meio e pela
maturação. No entanto, segundo os estudos realizados por Portilho (1995), os professores não
favorecem um ambiente em que se pos¬sa desenvolver o conhecimento que engloba os três
níveis de representação cognitiva. Isto ocorre por des¬conhecimento ou por acomodação do
professor. Em uma entrevista realizada com alunos, foi perguntado se tanto os professores
como eles eram conscientes das dificuldades que apresentavam na hora de estu¬dar. Apenas
1% dos professores percebia as dificuldades nos seus alunos.
Saliento que Bruner é um autor importante no es¬tudo do processo de aprendizagem porque
chama a nossa atenção para o papel significativo do professor, como aquele que deve não
apenas apresentar a informação ao aluno mas também desafiá-lo a transformar os conteú-dos
em conhecimento.
David Ausubel
Ausubel desenvolve uma teoria cognitiva, denomi¬nada "Teoria da Aprendizagem
Significativa", centrada no ensino na sala de aula, partindo da crítica a aplicação me¬cânica dos
resultados obtidos nas tarefas não significativas e em laboratório.
É necessário e oportuno destacar dois aspectos des¬ta teoria: o primeiro se refere à integração
dos novos conteúdos aos problemas expostos, e o segundo aspecto a considerar é sobre os
tipos de aprendizagem propostos na situação socialmente determinada, como é o espaço da
sala de aula, onde a linguagem é o sistema básico da comunica¬çãoe da transmissão dos
conteúdos - "aprendizagem verbal significativa". (AUSUBEL, NOVAKyHANESIAN, 1978).
Ausubel considera que a aprendizagem se integra aos esquemas de conhecimento
preexistentes no indivíduo de tal maneira que quanto maior for o grau de organização, clareza
e estabilidade do novo conhecimento, mais dificil¬mente se poderão acomodar e impedir os
pontos de referência, podendo transferir para situações novas de aprendizagem (FERNÁNDEZ
MARTÍN, 1998). Compa¬rada à memorização mecânica, a aprendizagem significativa será
retida por mais tempo, será mais bem integrada a ou¬tro conhecimento e estará disponível
com mais facilidade para sua aplicação.
Pelo fato de considerar a estrutura cognitiva como única a cada pessoa, todos os significados
novos que se adquirem são também únicos em si mesmos (AUSUBEL, NOVAK e HANESIAN,
1978). Por isso, a necessidade de os estudantes conhecerem como aprendem, o que utili¬zam
ou podem utilizar na hora de aprender, conhecendo, enfim, seu próprio conhecimento.
Ausubel propõe duas diferentes dimensões da apren¬dizagem, que, por sua vez, dão lugar a
quatro classes fundamentais de aprendizagem. A primeira dimensão é a que diferencia a
aprendizagem por recepção da aprendiza¬gem por descoberta, e a segunda é a que distingue
a aprendizagem mecânica da aprendizagem significativa.
a) aprendizagem receptiva - é a mais frequente no ensi¬no, onde o aluno recebe o
conteúdo que deve aprender em sua forma final e acabada, não ne¬cessita realizar nenhum
esforço para descobrir, devendo somente compreender e assimilar os con¬ceitos para poder
reproduzi-los quando for solicitado;
b) aprendizagem por descoberta - o aluno deve descobrir e reorganizar o material
apresentado por si mesmo, antes de incorporá-lo à sua estrutura cogniti¬va prévia, até
descobrir as relações, as leis ou os conceitos que posteriormente poderá assimilar;
c) aprendizagem mecânica - é produzida quando a ativi¬dade de aprendizagem consta de
associações puramente arbitrárias ou quando o sujeito age sem fundamentação lógica, regra
ou norma;
d) aprendizagem significativa - distingue-se das demais em duas características
fundamentais: a primeira quando propõe que o conteúdo pode ser relacio¬nado não
arbitrariamente, isto é, quando a pessoa apresenta disposição para aprender significativa-
mente e o material a aprender é potencialmente significativo, relacionado com a sua estrutura
de conhecimento; e a segunda característica sugere que a aprendizagem significativa pode ser
repre- sentacional - o aluno pode aprender significados de símbolos ou de palavras, conceituai
- o aluno pode aprender conceitos e proposições - que é a aprendizagem de ideias.
A diferença entre as duas dimensões reside em duas noções: a de fazer por fazer, relativa à
primeira dimensão - aprendizagem por recepção -, e a que tem como base a reflexão diante da
informação, que está ligada à segunda dimensão - aprendizagem por descoberta.
Em consequência, para que a aprendizagem signifi¬cativa aconteça, são necessárias três
condições: uma referente aos novos conhecimentos que o sujeito adquire, e as outras duas
são relativas ao próprio sujeito (COLL, PALACIOS E MARCHESI, 1996, vol. 2, p. 71):
a) o material a ser aprendido deve ser potencialmente significativo para poder ser
relacionado com as ideias relevantes que o sujeito possui;
b) a estrutura cognitiva prévia do sujeito deve ter as ideias relevantes necessárias para
colocá-las em re¬lação aos novos conhecimentos, isto é, o estudante deve dispor dos
requisitos necessários (capacida¬des e habilidades para aprender a aprender) e dos
conhecimentos prévios para estabelecer conexões cognitivas entre um material e outro;
c) o sujeito deve manifestar uma disposição signifi¬cativa para a aprendizagem, uma
atitude ativa marcada pelos fatores de atenção e motivação.
Este ponto da teoria de Ausubel reforça a importân¬cia do papel do professor, quando sugere
que ele pratique um ensino mais significativo. Isto sugere a reconstrução da concepção de
aprendizagem, uma concepção de pro¬fessor entendida como agente facilitador ou mediador
e o papel do aluno como agente ativo do processo de aprendi¬zagem e ensino.
Ausubel enfatizou que a aprendizagem deve estar disponível para a transferência em novos
contextos. Além dos estudantes recordarem e aplicarem a informação no contexto em que foi
aprendida, devem ser capazes de ge¬neralizar a aprendizagem em contextos de aplicação
relevantes e ir mais além do aprendido. (GOOD e BRO- PHY, 1996)
Este autor considera que toda situação de aprendi¬zagem ou de transferência de
aprendizagem se realiza mediante duas situações, a vertical e a horizontal, que se encontram
em um contínuo. A transferência vertical fala do tipo de aprendizagem em que o aluno aplica o
conheci¬mento adquirido de habilidades de nível inferior para facilitar a aprendizagem de
habilidades de nível superior.
Ausubel sugere que o professor siga uma organização se¬quencial e se assegure de que os
estudantes tenham os conhecimentos necessários a cada passo, com o fim de con¬solidar a
aprendizagem e garantir o domínio antes de continuar com passos superiores. A transferência
horizon¬tal é a aplicação do conhecimento adquirido ao aprender o material de um domínio,
para facilitar a aprendizagem de outro domínio. Ausubel recomenda que o professor
pro¬mova a transferência horizontal, concentrando-se nos princípios e nas generalizações
subjacentes, dando opor¬tunidades aos estudantes para aplicar o material em situações da
realidade.
E comum na escola, independentemente do nível - educação infantil, ensino fundamental,
médio ou univer¬sitário -, os professores de uma série, ano, curso ou matéria
responsabilizarem os professores anteriores pela ausência de informações que trazem seus
alunos. Da mesma ma¬neira, não se preocupam, em muitas ocasiões, em saber se houve ou
não transferência de aprendizagem de um nível a outro. É justamente isto que Ausubel
pretende evitar com sua proposta de trabalhar significativamente, partin¬do da informação
preexistente no sujeito para ampliá-la e transformá-la, criando, assim, um novo conhecimento.
Mais do que uma mudança de ideias, trata-se de uma mudança de atitude que exige que os
participantes do processo edu¬cativo partilhem e relacionem suas experiências pessoais.
Segundo este autor, o processo de vinculação da nova informação com os conhecimentos
preexistentes na estrutura cognoscitiva recebe o nome de inclusão. Como esta estrutura tende
a estar organizada hierarquicamente com respeito ao nível de abstração, generalidade e
inclu¬são das ideias, o surgimento de novos significados proposicionais reflete mais
comumente uma relação subordinada do novo material com a estrutura cognoscitiva. Isto
implica a inclusão de proposições potencialmente sig¬nificativas em ideias mais amplas e
gerais da estrutura cognoscitiva existente, e isto, por sua vez, produz a orga¬nização
hierárquica da estrutura cognoscitiva.
Quando Ausubel assinala que a nova informação recebida pelo aluno está vinculada aos
aspectos relevan¬tes e preexistentes na sua estrutura cognitiva e que o processo de
aprendizagem significativa modifica a infor¬mação recentemente adquirida e a estrutura
preexistente, está se referindo a que todas as formas anteriores de apren¬dizagem são
exemplos de assimilação. Portanto, a maior parte da aprendizagem significativa consiste na
assimila¬ção da nova informação.
Assim, a Teoria da Assimilação de Ausubel está centrada na interação entre os novos conceitos
e os já existentes e no fato de que o produto final supõe uma modificação, tanto das novas
ideias aprendidas como dos conhecimentos existentes. Esta ideia nos remete aos dois
processos de aprendizagem citados por Piaget: a assimi¬lação e a acomodação.
Ao professor, cabe um dos papéis mais importantes no processo de aprendizagem concebidoa
partir do enfoque cog¬nitivo. Cabe a ele levar em conta seu grau de preparação e rendimento
na matéria, sua força lógica e a coerência do co¬nhecimento acadêmico, sua capacidade de
apresentar, explicar e organizar a matéria de maneira lúcida, assim como de mani¬pular com
eficácia as variáveis que afetam a aprendizagem e de comunicar seu conhecimento aos alunos
de forma que resulte apropriado para seu nível de disposição até o conteú¬do. (FERNANDEZ
MARTÍN, 1998)
Também a personalidade do professor entra em jogo e pode afetar os resultados da
aprendizagem. Um profes¬sor que tem prazer no que faz tende a favorecer um clima de
aprendizagem nas suas aulas. Seu grau de compromisso com o desenvolvimento intelectual
dos alunos e seu entu¬siasmo para com a matéria a ser trabalhada podem fazer melhorar, de
maneira notável, os resultados da aprendiza¬gem acadêmica.
Portanto, tentando resumir as ideias de Ausubel, des¬taco que sua teoria é, para a educação e
em especial para o estudo da aprendizagem, um marco importante, uma vez que nos alerta
para o fato de antes de pensarmos e traba¬lharmos com novos conteúdos, devemos estar
atentos aos conhecimentos que os alunos já apresentam. E a partir deles que o ensino deveria
iniciar e se organizar, signifi¬cando os conteúdos para cada realidade, visando, antes de tudo,
à aprendizagem.
Lev Vygotsky
Vygotsky (1988) desenvolve a Teoria Histórico Cul¬tural, na qual afirma que a mudança
pessoal passa pela interação social. Ele critica as teorias que privilegiam o desenvolvimento
individual como elemento prioritário na interação do indivíduo com o meio, porque a origem
do mecanismo de mudança individual reside na sociedade e na cultura.
A criança, um ser biológico ao nascer, mantém cons¬tantes interações com os adultos que
tentam situá-la ou incluí-la na cultura que se vai construindo durante a histó¬ria. Inicialmente,
as respostas infantis são resultados dos processos naturais herdados biologicamente e,
posterior-mente, passam a ser resultados da mediação, isto é, de um processo interpsíquico,
construído no contexto social.
Vygotsky (1999) assinala que o pensamento (cogni¬ção) e a linguagem (fala) das crianças
começam sendo funções separadas que se conectam intimamente durante os anos pré-
escolares, desde o momento em que apren¬dem a usar a linguagem como forma de pensar e o
pensamento como algo a ser falado, expresso pela lingua¬gem. As crianças adquirem no início
grande parte do seu conhecimento cultural mediante as conversações com os demais, em
especial com os pais e os professores. Posteri¬ormente, este conhecimento vai se
transformando em algo que é próprio do sujeito, ele se apropria do conhecimento, e este
passa a fazer parte dele.
Segundo Vygotsky, a aprendizagem se realiza na interiorização dos meios historicamente
determinados e culturalmente organizados. Neste sentido, a natureza social se converte em
natureza psicológica. Portanto, em sua proposta, apresentam-se dois mecanismos: um que se
dá na relação com o mundo externo e outro que se dá internamente.
A natureza se transforma a partir da interiorização de sistemas de signos produzidos
culturalmente, possibili¬tando a aparição de funções psicológicas superiores. "Todas as
funções psíquicas superiores são processos me¬diados, e os signos constituem o meio básico
para dominá-las e dirigi-las. O signo mediador é incorporado à sua estrutura como uma parte
indispensável, na verdade a parte central do processo como um todo." (VYGOTSKY, 1999, p.
70)
Segundo Vygotsky, não é o nível de desenvolvimen¬to do indivíduo que determina o que ele
vai aprender, mas o ensino e a aprendizagem é que possibilitam o desenvol¬vimento,
incluindo o desenvolvimento potencial, ou seja, onde ele pode chegar.
Na sua proposta, encontramos dois níveis de desen¬volvimento que devem ser considerados
ao estudar a aprendizagem e que, sem dúvida, são um marco na sua teoria. O primeiro deles é
o real, no qual as funções mentais estão estabelecidas como resultado de certos ciclos de
desenvolvimento já realizados. As funções psicológicas que formam parte do nível de
desenvolvimento real do sujeito em determinado momento da sua vida são aquelas que já
estão bem estabelecidas no momento atual. Elas são o re¬sultado dos processos de
desenvolvimento já completados, já consolidados. Normalmente, podemos identificar este
nível por meio da aplicação de testes de desempenho do indivíduo, que mostram o caminho
que ele percorreu e o que ele pode realizar com autonomia.
O outro nível de desenvolvimento, o potencial, revo¬luciona a visão até aqui estabelecida pela
Psicologia. Vygotsky chama a atenção ao fato de que, para compreen¬der adequadamente o
desenvolvimento, devemos considerar não somente o nível real mas também o nível de
desenvolvimento potencial, ou seja, a capacidade do sujeito para desempenhar tarefas com a
ajuda dos adultos ou de companheiros mais habilitados (o mediador). Exis¬tem atividades em
que uma criança não é capaz de realizar sozinha. Com a presença de outra pessoa, fazendo
uma demonstração, dando pistas ou oferecendo assistência du¬rante o processo, isto poderá
ocorrer. Este nível fala do possível, mesmo que este não seja hoje conhecido.
Essa possibilidade de alteração no desempenho de uma pessoa pela interferência de outra é
fundamental para a compreensão do papel da aprendizagem nos dias de hoje. Em primeiro
lugar, esclarece que o sujeito, mesmo estan¬do em um determinado momento do
desenvolvimento e na presença de outra pessoa, se não estiver preparado para tal, não
conseguirá realizar a tarefa proposta, principal¬mente porque o desenvolvimento não
acontece por antecipação. A ideia do nível de desenvolvimento poten¬cial indica que um
momento do desenvolvimento não se caracteriza por etapas posteriores, nas quais a
interferência de outra pessoa afeta significativamente o resultado da ação individual.
Em segundo lugar, essa ideia é fundamental na teo¬ria de Vygotsky porque atribui uma grande
importância à interação social no processo de construção das funções psicológicas humanas. O
desenvolvimento individual acon¬tece em um ambiente social determinado, e a relação com o
outro nas diversas esferas e níveis da atividade humana é essencial para o processo de
construção do ser psicoló¬gico individual. Nesta proposta, a tomada de consciência de como
aprende somente é possível quando o aluno está em interação com o meio em que vive.
A distância entre os níveis de desenvolvimento real e potencial foi denominada por Vygotsky
(1988) como Zpna do desenvolvimento proximal. Este nível se refere ao caminho que a pessoa
terá de percorrer para desenvolver funções que se encontram em processo de maturação, de
maneira que cheguem a consolidar-se e a estabelecer-se em um nível de desenvolvimento
real. A zona de desen¬volvimento proximal é um domínio psicológico em constante
transformação: o que um sujeito está habilita¬do para fazer hoje com a ajuda de alguém,
amanhã poderá realizá-lo de forma independente. É como se o processo de desenvolvimento
fosse se constituindo a partir das ex¬periências de aprendizagem.
Desta maneira, pode-se conhecer a dinâmica do de¬senvolvimento e organizar uma
intervenção no processo de aprendizagem, começando pela zona que indica o pró¬ximo
desenvolvimento, e não por aquilo que o sujeito já desenvolveu. Este dado sugere que os
professores obser¬vem e conheçam estas diferenças em seus alunos, o que, sem dúvida,
evitaria uma série de problemas de aprendi¬zagem apresentados hoje em nossas escolas. E
importante destacar que é impossível ao professor conhecer todas as zonas de
desenvolvimento proximal de todos os alunos, em todas as aprendizagens. Mas a possibilidade
pode acon¬tecer quando professor e alunos encontram-se diante de algum impasse para que
a aprendizagem ocorra.
Desta forma, a questão do desenvolvimento para Vygotskysó é possível pela importância dos
processos de aprendizagem. Desde que uma criança nasce, a aprendiza¬gem está relacionada
com o desenvolvimento e é "um aspecto necessário e universal do processo de
desenvolvi¬mento das funções psicológicas culturalmente organizadas e especificamente
humanas" (VYGOTSKY, 1984, p. 101). Existe um caminho de desenvolvimento definido, em
par¬te, pelo processo de maturação do organismo individual, pertencente à espécie humana,
mas é a aprendizagem o que possibilita o despertar dos processos internos de
de¬senvolvimento que, sem um contato do indivíduo com o meio cultural, não aconteceria.
A aprendizagem não é desenvolvimento, mas re¬sulta nele. Para Vygotsky, é o
desenvolvimento que resulta da aprendizagem e não vice-versa. Ambos inte¬gram uma
unidade dialética na medida em que um se transforma no outro.
E neste sentido que o autor faz referência a uma aprendizagem inter-relacionada com o
desenvolvimento, como determinante dele. O termo que Vygotsky utiliza em russo
(obuchenie) significa "processo ensino-aprendiza- gem", pode-se inferir que, neste conceito,
incluem sempre aquele que aprende, o que ensina e a relação entre ambos.
Finalizo destacando a grande contribuição de Vygotsky para o estudo da aprendizagem. A sua
visão so¬cial deste processo nos possibilita ampliar o olhar e, ao mesmo tempo, focar para as
inúmeras possibilidades da pessoa na hora de aprender. Quando nos explica o proces¬so de
aprendizagem a partir do desenvolvimento real, potencial e proximal, deixa clara a ideia de
pessoa humana como um ser de necessidades e possibilidades.
AFETIVIDADE E APRENDIZAGEM EM: CONTRIBUIÇÕES DE HENRI WALLON
Abigail Alvarenga Mahoney; Laurinda Ramalho de Almeida
INTRODUÇÃO
O objetivo primeiro deste texto é expor conceitos fundamentais da teoria walloniana para a
compreensão da dimensão afetiva e de sua relevância no desenvolvimento do processo
ensino-aprendizagem. Outro objetivo é suscitar reflexões sobre a prática daqueles que forem
afetados pelo texto.
Os conceitos priorizados, decorrentes da teoria de desenvolvimento de Henri Wallon, serão:
• processo de integração em dois sentidos:
— integração organismo-meio
— integração dos conjuntos funcionais
• concepção de afetividade:
— emoções
— sentimentos
— paixão
• evolução da afetividade:
— o papel da afetividade nos diferentes estágios
Por que a seleção dessas questões?
• porque podem indicar possíveis direções, que consideramos essenciais para levar em conta
quando se pretende um ensino-aprendizagem mais produtivo e mais satisfatório, tanto para o
professor como para o aluno.
O processo ensino-aprendizagem só pode ser analisado como uma unidade, pois
ensino e aprendizagem são faces de uma mesma moeda; nessa unidade, a relação interpessoal
professor-aluno é um fator determinante. Esses atores são concretos, históricos, trazendo a
bagagem que o meio lhes ofereceu até então; estão em desenvolvimento, processo que é
aberto e permanente.
O processo ensino-aprendizagem é o recurso fundamental do professor: sua compreensão, e o
papel da afetividade nesse processo, é um elemento importante para aumentar a sua eficácia,
bem como para a elaboração de programas de formação de professores.
No pólo ensino temos um professor que, para atingir seus objetivos, deve ter clareza de alguns
pontos:
• que confiar na capacidade do aluno é fundamental para que o mesmo aprenda;
• que, ao ensinar, está promovendo o desenvolvimento do aluno e o seu próprio;
• que, ao desempenhar todas as suas tarefas no cotidiano escolar, revela diferentes saberes
(conhecimento específico de sua área e de como comunicá-la aos alunos, habilidades de
relacionamento interpessoal, conteúdos da cultura) que são, no dizer de Tardif (2000, 2002),
temporais, plurais e heterogêneos; esses saberes são construídos no tempo, na socialização
familiar, escolar, profissional, numa integração cognitiva-afetiva (conhecimentos, concepções,
crenças, valores);
• que as emoções e os sentimentos podem variar de intensidade, em função dos contextos,
mas estão presentes em todos os momentos da vida, interferindo de alguma maneira em
nossas atividades.
No pólo aprendizagem temos um aluno que:
• busca a escola com motivações diferentes;
• tem características próprias, conforme o seu momento de desenvolvimento;
• tem saberes elaborados nas suas condições de existência;
• funciona de forma integrada: dimensões afetiva-cognitiva-motora imbricadas.
O grande desafio do professor, que teve uma formação na qual sua integração não foi levada
em conta, é enxergar seu aluno em sua totalidade e concretude.
Ambos, professor e aluno, participam de vários meios, entre eles a escola:
• a escola é um meio fundamental para o desenvolvimento do professor e do aluno, ao dar
oportunidades de participação em diferentes grupos;
• nesse meio, professor e aluno são afetados um pelo outro, e, ambos, pelo contexto onde
estão inseridos;
• a não satisfação das necessidades afetivas, cognitivas e motoras prejudica a ambos, e isso
afeta diretamente o processo ensino-aprendizagem:
— no aluno, pode gerar dificuldades de aprendizagem;
— no professor, gera insatisfação, descompromisso, apatia, podendo chegar ao burnout,
prejudicando sua atividade. Codo (2000, p. 241) apresenta o burnout — estresse laboral —
como mal que afeta, com maior freqüência, profissionais da área da educação e da saúde:
podemos resumir a situação da seguinte maneira: o trabalhador se envolve afetivamente com
seus clientes, desgasta-se, não agüenta mais, entra em burnout (...). O que as pesquisas têm
demonstrado é que o burnout ocorre em trabalhadores altamente motivados.
A escolha de Henri Wallon para iluminar a questão da afetividade no processo ensino-
aprendizagem decorre de várias razões.
Sua teoria psicogenética dá uma importante contribuição para a compreensão do processo de
desenvolvimento e também contribuições para o processo ensino-aprendizagem. Dá subsídios
para compreender o aluno e o professor, e a interação entre eles.
Ao focalizar o meio como um dos conceitos fundamentais da teoria, coloca a questão do
desenvolvimento no contexto no qual está inserido, e a escola como um dos meios
fundamentais para o desenvolvimento do aluno e do professor.
Estabelece uma relação fecunda entre Psicologia e Educação. Na aula inaugural no Collège de
France, na cadeira Psicologia e Educação da Criança, criada por Pièron em 1937, afirma
Wallon: "Entre a Psicologia e a Educação as relações não são de uma ciência normativa e de
uma ciência ou arte aplicada". Ou seja, Psicologia e Pedagogia constituem momentos
complementares de uma mesma atitude experimental.
Embora não sendo um pedagogo, toda sua obra está impregnada de elementos que permitem
elaborar uma proposta de educação, o que levou Snyders a afirmar, ao homenageá-lo por
ocasião do centenário de seu nascimento, no 2º Congresso Internacional de Psicologia da
Criança, realizado em Paris, em 1979:
Se chamamos pedagogia o que encontramos em Comenius, em Rousseau ou em Makarenko,
isto é, uma teoria geral unida aos meios precisos e minuciosos para praticá-la, segundo as
circunstâncias, as idades e as diferentes disciplinas, não estou seguro de que o que
encontramos em Wallon seja pedagogia. (...) o que aprecio nele é o que gostaria de evocar
hoje: Wallon me parece o homem que mostra que uma pedagogia progressista pode existir,
que nos garante sua existência e que nos explica em que circunstâncias e a que preço.
(Snyders, 1979, pp. 99-100)
Colocou suas idéias de psicólogo e de educador a serviço da reformulação do ensino francês,
colaborando no Projeto Langevin-Wallon: o Projeto foi o resultado do trabalho, por três anos
(1945 a 1947), de uma Comissão de vinte membros, nomeados pelo Ministério da Educação
Nacional, com a incumbência de reformaro sistema de ensino francês após a Segunda Guerra
(durante a qual Wallon trabalhara na Resistência Francesa). Inicialmente, o físico Paul Langevin
foi designado presidente da Comissão, e, após sua morte, a presidência ficou a cargo de
Wallon. A diretriz norteadora do Projeto foi construir uma educação mais justa para uma
sociedade mais justa. As ações propostas repousam sobre quatro princípios:
— Justiça — Qualquer criança, qualquer jovem, independentemente de
suas origens familiares, sociais, étnicas, tem igual direito ao desenvolvimento completo: a
única limitação que pode ter é a de suas próprias aptidões.
— Dignidade igual de todas as ocupações — Todas as ocupações, todas as profissões se
revestem de igual dignidade, ou seja, o trabalho manual e a inteligência prática não podem ser
subestimados. A educação não deverá fomentar o predomínio da atividade manual ou
intelectual em função de razões de origem de classes ou étnicas.
— Orientação — O desenvolvimento das aptidões individuais exige primeiro orientação
escolar, depois orientação profissional.
— Cultura geral — Não pode haver especialização profissional sem cultura geral. Em um
estado democrático, no qual todo trabalhador deve ser um cidadão, é indispensável que a
especialização não seja um obstáculo para a compreensão dos problemas mais amplos; só uma
sólida cultura geral libera o homem dos estreitos limites da técnica; a cultura geral aproxima os
homens, enquanto a cultura específica os afasta.
A TEORIA DE DESENVOLVIMENTO DE HENRI WALLON
Algumas considerações iniciais:
• É difícil abranger, com uma só teoria, toda a complexidade dos fenômenos estudados; se,
por um lado, ela ilumina alguns aspectos desses fenômenos, outros ficam obscurecidos.
• Os conceitos, princípios e direções expressos na teoria de desenvolvimento de Henri Wallon
são instrumentos que nos auxiliam na compreensão do processo de constituição da pessoa, no
movimento que vai do bebê ao adulto de sua espécie, conforme os modelos que a cultura do
seu tempo disponibiliza.
• A teoria de desenvolvimento de Henri Wallon é um instrumento que pode ampliar a
compreensão do professor sobre as possibilidades do aluno no processo ensino-aprendizagem
e fornecer elementos para uma reflexão de como o ensino pode criar intencionalmente
condições para favorecer esse processo, proporcionando a aprendizagem de novos
comportamentos, novas idéias, novos valores. Na medida em que a teoria de desenvolvimento
descreve características de cada estágio, está também oferecendo elementos para uma
reflexão para tornar o processo ensino-aprendizagem mais produtivo, propiciando ao
professor pontos de referência para orientar e testar atividades adequadas aos alunos
concretos que tem em sua sala de aula. A identificação das características de cada estágio pelo
professor permitirá planejar atividades que promovam um entrosamento mais produtivo entre
essas características, conforme se apresentem em seus alunos concretos, e as atividades de
ensino.
• Daí a importância de o professor encarar a teoria como um conjunto sistematizado de
proposições hipotéticas a serem constantemente testadas, verificadas no confronto com os
resultados do processo ensino-aprendizagem do aluno, na situação concreta de sala de aula.
Assim, ao lado dos conhecimentos teóricos, assumem relevância a sensibilidade, a curiosidade,
a atenção, o questionamento e a habilidade de observação do professor sobre o que se passa
no processo ensino-aprendizagem.
• Nesse sentido, uma teoria de desenvolvimento assume três funções paralelas e
complementares: dá previsibilidade à rotina, oferece subsídios para o questionamento e o
enriquecimento da prática e da própria teoria, possibilita alternativas de ação com maior
autonomia e segurança.
Na teoria psicogenética de Wallon, o eixo principal no processo de desenvolvimento é a
integração, em dois sentidos:
• Integração organismo-meio
• Integração cognitiva-afetiva-motora
Integração organismo-meio
Partindo de uma perspectiva psicogenética, a teoria de desenvolvimento de Wallon assume
que o desenvolvimento da pessoa se faz a partir da interação do potencial genético, típico da
espécie, e uma grande variedade de fatores ambientais. O foco da teoria é essa interação da
criança com o meio, uma relação complementar entre os fatores orgânicos e socioculturais.
Afirma Wallon:
Estas revoluções de idade para idade não são improvisadas por cada indivíduo. São a própria
razão da infância, que tende para a edificação do adulto como exemplar da espécie. Estão
inscritas, no momento oportuno, no desenvolvimento que conduz a esse objetivo. As
incitações do meio são sem dúvida indispensáveis para que elas se manifestem e quanto mais
se eleva o nível da função, mais ela sofre as determinações dele: quantas e quantas atividades
técnicas ou intelectuais são à imagem da linguagem, que para cada um é a do meio!... (Wallon,
1995, p. 210)
Nessa citação, Wallon coloca a questão do desenvolvimento no contexto no qual o indivíduo
está inserido — a realização do potencial herdado geneticamente por um indivíduo vai
depender das condições do meio, que podem modificar as manifestações das determinações
genotípicas; o que é melhor explicitado na citação que se segue:
Deste modo, na criança, opõem-se e implicam-se mutuamente fatores de origem biológica e
social (...). O objetivo assim perseguido não é mais do que a realização daquilo que o genótipo,
ou gérmen do indivíduo, tinha em potência. O plano segundo o qual cada ser se desenvolve
depende, portanto, de disposições que ele tem desde o momento de sua primeira formação. A
realização desse plano é necessariamente sucessiva, mas pode não ser total e, enfim, as
circunstâncias modificam-na mais ou menos. Assim, distinguiu-se do genótipo, o fenótipo, que
consiste nos aspectos em que o indivíduo se manifestou ao longo da vida. A história de um ser
é dominada pelo seu genótipo e constituída pelo seu fenótipo. (Wallon, 1995, pp. 49-50)
No conjunto da obra de Wallon, segundo Nadel-Brulfert (1986), aparecem três grandes
categorias de distinções entre tipos de meios:
• a 1ª distinção refere-se ao tipo de intercâmbio entre os meios físico-químico, biológico e
social;
• a 2ª distinção, específica da espécie humana, e complementar à primeira, indica a
superposição do meio social ao meio físico;
• a 3ª distinção, também específica da espécie humana, refere-se a dois tipos de meios: meio
físico, espacial e temporalmente determinado, que é o das reações sensório-motoras, dos
objetivo atuais, da inteligência das situações e meio fundado sobre a representação, no qual as
situações são simbólicas e implicam a utilização de conceitos.
Wallon afirma que o estudo da criança exige o estudo do meio ou dos meios em que ela se
desenvolve. Sobre o meio, conjunto mais ou menos duradouro das circunstâncias nas quais se
desenvolvem as pessoas, esclarece ele:
O meio é um complemento indispensável ao ser vivo. Ele deverá corresponder a suas
necessidades e as suas aptidões sensório-motoras e, depois, psicomotoras... Não é menos
verdadeiro que a sociedade coloca o homem em presença de novos meios, novas necessidades
e novos recursos que aumentam possibilidades de evolução e diferenciação individual. A
constituição biológica da criança, ao nascer, não será a única lei de seu destino posterior. Seus
efeitos podem ser amplamente transformados pelas circunstâncias de sua existência, da qual
não se exclui sua possibilidade de escolha pessoal... Os meios em que vive a criança e aqueles
com que ela sonha constituem a "forma" que amolda sua pessoa. Não se trata de uma marca
aceita passivamente. (Wallon, 1975, pp. 164, 165, 167)
Integração afetiva-cognitiva-motora
Duas afirmações de Wallon são esclarecedoras da discussão que vamos fazer sobre
afetividade, de per si:
As necessidades de descriçãoobrigam a tratar separadamente alguns grandes conjuntos
funcionais, o que não deixa de ser um artifício... Os domínios funcionais entre os quais se
dividirão o estudo das etapas que a criança percorre serão, portanto, os da afetividade, do ato
motor, do conhecimento e da pessoa. (Wallon, 1995, pp. 131 e 135)
Os conjuntos ou domínios funcionais são, portanto, constructos de que a teoria se vale para
explicar o psiquismo, para explicar didaticamente o que é inseparável: a pessoa.
O conjunto afetivo oferece as funções responsáveis pelas emoções, pelos sentimentos e pela
paixão — e será detalhado oportunamente.
O conjunto ato motor oferece a possibilidade de deslocamento do corpo no tempo e no
espaço, as reações posturais que garantem o equilíbrio corporal, bem como o apoio tônico
para as emoções e sentimentos se expressarem.
O conjunto cognitivo oferece um conjunto de funções que permite a aquisição e a manutenção
do conhecimento por meio de imagens, noções, idéias e representações. É ele que permite
ainda registrar e rever o passado, fixar e analisar o presente e projetar futuros possíveis e
imaginários.
A pessoa — o quarto conjunto funcional — expressa a integração em todas as suas inúmeras
possibilidades.
Outras características do processo de desenvolvimento como um todo que vão se expressar no
desenvolvimento do conjunto afetivo:
• do sincretismo para a diferenciação
Todos os conjuntos funcionais revelam-se inicialmente de forma sincrética, isto é, apresentam
uma forma nebulosa, global, difusa, sem distinção das relações que as unem.
No caso específico do conjunto afetividade, ele tem sua origem nas sensibilidades internas de
interocepção (ligadas às vísceras) e de propriocepção (ligadas aos músculos), que são
responsáveis pela atividade generalizada do organismo. Essas sensibilidades, junto com as
respostas dos outros do seu entorno — sensibilidade de exterocepção (ligada ao exterior) —,
vão provocando sentimentos e emoções cada vez mais específicos: medo, alegria, raiva,
posteriormente ciúmes, tristeza, etc.
• da alternância na predominância dos conjuntos
Em cada estágio de desenvolvimento (Wallon propõe os seguintes estágios: impulsivo-
emocional — 0 a 1 ano; sensório-motor e projetivo — 1 a 3 anos; personalismo — 3 a 6 anos;
categorial — 6 a 11 anos; puberdade e adolescência — 11 anos em diante), um dos conjuntos
predomina; isto é, fica mais em evidência, embora os outros também estejam presentes numa
relação recíproca e complementar. Assim é que o conjunto afetivo está mais evidenciado nos
estágios do personalismo, e da puberdade e adolescência.
• da alternância de direções
Em cada estágio de desenvolvimento há uma alternância de movimentos ou direções. No
impulsivo-emocional, personalismo, puberdade e adolescência o movimento é para dentro,
para o conhecimento de si. Já no sensório-motor e projetivo e categorial o movimento é para
fora, para o conhecimento do mundo exterior.
Aproximando esses dois princípios: alternância funcional e predominância funcional podemos
afirmar que, quando a direção é para si mesmo (centrípeta), o predomínio é do afetivo. E
quando a direção é para o mundo exterior (centrífuga), o predomínio é do cognitivo.
Na discussão sobre afetividade, cabe uma observação de Kirouac (1994), ao analisar a
problemática da área da psicologia da emoção. O estudo da emoção, considerado marginal,
supérfluo, não científico durante muito tempo, sofre uma mudança de interesse a partir da
década de 70, quando surgem estudos empíricos e teóricos aceitando os estados internos
como variáveis explicativas do comportamento. Tais estudos vão tratar de dimensões críticas
da emoção: emoção como experiência subjetiva e como comportamento expressivo; os
mecanismos fisiológicos e as situações indutoras das emoções. As dificuldades maiores
enfrentadas pelos estudiosos dessa área referem-se à falta de consenso nas definições, à falta
de precisão e clareza na linguagem, e ao fato de diferentes enunciados abordarem apenas um
aspecto limitado da emoção. Apesar de todas as dificuldades enumeradas, há um certo acordo
para discriminar emoções de outros processos afetivos:
• processos afetivos são todos os estados que fazem apelo a sensações de prazer/desprazer ou
ligados a tonalidades agradáveis/desagradáveis;
• emoção é um estado afetivo, comportando sensações de bem-estar ou mal-estar que têm
um começo preciso, é ligado a um objeto específico e de duração relativamente breve e inclui
ativação orgânica.
A discussão trazida por Kirouac (ibid.) reforça a necessidade do refinamento de conceitos e
proposições. Considerando que um dos papéis da teoria é tornar as definições cada vez mais
claras, vamos nos centrar na teoria de desenvolvimento de Henri Wallon para uma elucidação
mais precisa.
Afetividade
— Refere-se à capacidade, à disposição do ser humano de ser afetado pelo mundo
externo/interno por sensações ligadas a tonalidades agradáveis ou desagradáveis;
— Ser afetado é reagir com atividades internas/externas que a situação desperta;
— A teoria aponta três momentos marcantes, sucessivos na evolução da afetividade: emoção,
sentimento e paixão;
— Os três resultam de fatores orgânicos e sociais, e correspondem a configurações diferentes;
— Na emoção, há o predomínio da ativação fisiológica, no sentimento, da ativação
representacional, na paixão, da ativação do autocontrole.
Emoção
— É a exteriorização da afetividade, ou seja, é a sua expressão corporal, motora. Tem um
poder plástico, expressivo e contagioso; é o primeiro recurso de ligação entre o orgânico e o
social: estabelece os primeiros laços com o mundo humano e através dele com o mundo físico;
— Emoções são sistemas de atitudes, reveladas pelo tônus. Atitude é a expressão da
combinação entre tônus (nível de tensão muscular) e intenção; cada atitude é associada a uma
ou mais situações;
— A emoção aparece desde o início da vida, com os espasmos do recém-nascido. Estes não são
apenas um ato muscular, de contração dos aparelhos musculares e viscerais: existe bem-estar
ou mal-estar tanto no espasmo como na sua dissolução. Tensão é provocada pela energia
retida e acumulada: riso, choro, soluço aliviam a tensão dos músculos;
— Das oscilações viscerais e musculares vão se diferenciando as emoções: medo, alegria, raiva,
ciúme, tristeza. A cada uma, passa a corresponder um padrão postural, que libera ou
concentra energia com maior ou menor intensidade, e depende de automatismos específicos
que emergem pela maturação funcional: reação à queda, à falta de apoio, à estimulação
labiríntica, etc.
— A emoção dá rapidez às respostas, de fugir ou atacar, em que não há tempo para deliberar.
É apta para suscitar reflexos condicionados;
— A emoção é uma forma concreta de participação mútua, é uma forma primitiva de
comunhão, que se apresenta nos ritos coletivos, que funde as relações interindividuais, que
funde os indivíduos e as circunstâncias exteriores;
— É também um instrumento de sociabilidade que une os indivíduos entre si;
— A emoção é determinante na evolução mental: a criança responde a estímulos musculares
(sensibilidade proprioceptiva), viscerais (sensibilidade interoceptiva) e externos (sensibilidade
exteroceptiva). Esse movimento mostra como a sensibilidade da criança se estende ao
ambiente. Passa a reproduzir os traços dos estímulos do ambiente, e o contato com o mundo
tende a afinar, tornar mais precisas, mais adequadas essas reproduções;
— A tendência do sincretismo para a diferenciação está presente na emoção:
• sincretismo subjetivo quando não sabe como se distinguir das outras pessoas;
• sincretismo objetivo quando não sabe como se distinguir das coisas do ambiente;
— A emoção estimula mudanças que tendem a diminuí-la, ao propiciar o desenvolvimento
cognitivo;
— Há um antagonismo entre emoção e atividadeintelectual (antagonismo de bloqueio):
• o aparecimento de uma imagem que resulte da comparação ou de uma previsão só poderá
nascer reduzindo gradualmente as reações posturais, isto é, as emoções;
• sempre que voltarem a dominar as atitudes afetivas a imagem se confundirá;
• portanto, predomínio cognitivo: imagens mais claras; predomínio afetivo: imagens menos
claras.
Sentimento
— Corresponde à expressão representacional da afetividade. Não implica reações instantâneas
e diretas como na emoção;
— Opõe-se ao arrebatamento, que é uma emoção autêntica: tende a reprimi-la, impor
controles e obstáculos que quebrem sua potência. Os sentimentos podem ser expressos pela
mímica e pela linguagem, que multiplicam as tonalidades, as cumplicidades tácitas ou
subentendidas;
— O adulto tem maiores recursos de expressão representacional: observa, reflete antes de
agir; sabe onde, como e quando se expressar; traduz intelectualmente seus motivos ou
circunstâncias.
Paixão
— Revela o aparecimento do autocontrole para dominar uma situação: tenta para isso
silenciar a emoção;
— Não aparece antes do estágio do personalismo;
— Caracteriza-se por ciúmes, exigências, exclusividade.
O papel da afetividade nos diferentes estágios
A dimensão temporal do desenvolvimento que vai do nascimento até a morte está distribuída
em estágios que expressam características da espécie e cujo conteúdo será determinado
histórica e culturalmente.
Cada estágio, na teoria de Wallon, é considerado como um sistema completo em si, isto é, a
sua configuração e o seu funcionamento revelam a presença de todos os componentes que
constituem a pessoa.
Como a criança chega ao adulto, do ponto de vista afetivo?
• No 1º estágio — impulsivo-emocional (0 a 1 ano) — a criança expressa sua afetividade
através de movimentos descoordenados, respondendo a sensibilidades corporais:
proprioceptiva (sensibilidade dos músculos) e interoceptivas (sensibilidade das vísceras).
O recurso de aprendizagem nesse momento é a fusão com outros. O processo ensino-
aprendizagem exige respostas corporais, contactos epidérmicos, daí a importância de se ligar
ao seu cuidador, que segure, carregue, que embale. Através dessa fusão, a criança participa
intensamente do ambiente e, apesar de percepções, sensações nebulosas, pouco claras, vai se
familiarizando e apreendendo esse mundo, portanto, iniciando um processo de diferenciação.
• No 2º estágio — sensório-motor e projetivo (1 a 3 anos) —, quando já dispõe da fala e
da marcha, a criança se volta para o mundo externo (sensibilidade exteroceptiva) para um
intenso contacto com os objetos e a indagação insistente do que são, como se chamam, como
funcionam.
O processo ensino-aprendizagem no lado afetivo se revela pela disposição do professor de
oferecer diversidade de situações, espaço, para que todos os alunos possam participar
igualmente e pela sua disposição de responder às constantes e insistentes indagações na busca
de conhecer o mundo exterior, e assim facilitar para o aluno a sua diferenciação em relação
aos objetos.
• No 3º estágio — personalismo (3 a 6 anos) — existe outro tipo de diferenciação —
entre a criança e o outro. É a fase de se descobrir diferente das outras crianças e do adulto.
O processo ensino-aprendizagem precisa oferecer atividades diferentes e a possibilidade de
escolha pela criança das atividades que mais a atraiam. O adulto será o recipiente de muitas
respostas: não; não quero; não gosto; não vou; é meu. O importante do ponto de vista afetivo
é reconhecer e respeitar as diferenças que despontam. Chamar pelo nome, mostrar que a
criança está sendo vista, que ela tem visibilidade no grupo pelas suas diferenças, propor
atividades que mostrem essas diferenças, dar oportunidades para que a criança as expresse.
Como, neste estágio — personalismo —, a direção é para si mesma, a criança aprende
principalmente pela oposição ao outro, pela descoberta do que a distingue de outras pessoas.
Como agora está se descobrindo como diferente dos outros, está rompendo com o sincretismo
entre ela e os outros. O tipo de afetividade que facilita essas aprendizagens comporta
oportunidades variadas de convivência com outras crianças de idades diferentes e aceitação
dos comportamentos de negação, lembrando que são recursos de desenvolvimento.
• No 4º estágio — o categorial (6 a 11 anos) — a diferenciação mais nítida entre o eu e o
outro dá condições mais estáveis para a exploração mental do mundo externo, físico,
mediante atividades cognitivas de agrupamento, classificação, categorização em vários níveis
de abstração até chegar ao pensamento categorial. A organização do mundo em categorias
bem definidas possibilita também uma compreensão mais nítida de si mesma.
Nesse estágio, que coincide com o início do período escolar, a aprendizagem se faz
predominantemente pela descoberta de diferenças e semelhanças entre objetos, imagens,
idéias. O predomínio é da razão. Esse predomínio vai se expressar em representações claras,
precisas, que se transformarão, com o tempo — é um processo longo —, em conceitos e
princípios. Levar ou não em consideração o que o aluno já sabe, o que precisa saber para
dominar certas idéias, os exercícios necessários, formas de avaliação, revelam sentimentos e
valores e favorecem ou não essa descoberta do mundo.
Outro ponto importante é saber e aceitar que todo conhecimento novo, não familiar, implica,
na sua aprendizagem, um período de imperícia, resultante do sincretismo inicial. Esse
sincretismo inicial vai se desmanchando com as atividades propostas, mas é importante
considerá-lo como parte integrante do processo ensino-aprendizagem. À medida que ele
evolui, a imperícia é substituída pela competência.
• No 5º estágio — puberdade e adolescência (11 anos em diante) — vai aparecer a
exploração de si mesmo, na busca de uma identidade autônoma, mediante atividades de
confronto, auto-afirmação, questionamentos, e para isso se submete e se apóia nos pares,
contrapondo-se aos valores tal qual interpretados pelos adultos com quem convive. O domínio
de categorias cognitivas de maior nível de abstração, nas quais a dimensão temporal toma
relevo, possibilita a discriminação mais clara dos limites de sua autonomia e de sua
dependência.
Na puberdade e adolescência, o recurso principal de aprendizagem do ponto de vista afetivo
volta a ser a oposição, que vai aprofundando e possibilitando a identificação das diferenças
entre idéias, sentimentos, valores próprios e do outro, adulto, na busca para responder: quem
sou eu? Quais são meus valores? Quem serei no futuro?, que é permeada por muitas
ambigüidades.
O processo ensino-aprendizagem facilitador do ponto de vista afetivo é aquele que permite a
expressão e discussão dessas diferenças e que elas sejam levadas em consideração, desde que
respeitados os limites que garantam relações solidárias.
Não esquecer que em todos os estágios a forma de a afetividade facilitadora se expressar no
processo ensino-aprendizagem exige a existência, a colocação de limites. Limites que facilitam
o processo ensino-aprendizagem, garantindo o bem-estar de todos os envolvidos, são também
uma expressão de afetividade.
Mas, e o adulto, que representa o pólo ensino no processo ensino-aprendizagem?
Nessa fase, apesar de todas as transformações ocorridas nas anteriores, ele se reconhece
como o mesmo e único ser. É capaz de afirmar com certa segurança: Eu sei quem eu sou. Ou
seja, conhece melhor suas possibilidades, suas limitações, seus pontos fortes, suas motivações,
seus valores e sentimentos, o que cria a possibilidade de escolhas mais adequadas nas
diferentes situações de vida. Ser adulto significa ter desenvolvido uma consciência moral:
reconhecer e assumir com clareza seus valores e dirigir suas decisões e escolhas de acordo
com eles. É essa definiçãode valores e compromissos com eles que marca o fim da
adolescência, cuja característica primordial foi a luta por essa definição. Com maior clareza de
seus valores, o adulto estará mais livre e com mais energias para voltar-se para o outro, para
fora de si, em condições de acolher o outro solidariamente e a continuar a se desenvolver com
ele. Esse é um indicador de amadurecimento: conseguir um equilíbrio entre "estar centrado
em si" e "estar centrado no outro", um equilíbrio nas direções para dentro — conhecimento
de si — e para fora — conhecimento do mundo. Daí a importância do professor adulto: tem
melhores condições para o acolhimento do outro, de seus alunos e de seus pares.
REFLEXÕES COMPARTILHADAS SOBRE AFETIVIDADE E PROCESSO ENSINO-APRENDIZAGEM À
LUZ DA TEORIA DE WALLON
No processo de desenvolvimento (em aberto, contínuo), os princípios que regulam os recursos
de aprendizagem são os mesmos, na criança e no adulto, porém com tempos e aberturas
diferentes:
• Do sincretismo para a diferenciação
— O início de qualquer aprendizagem nova caracteriza-se pelo sincretismo, passando
gradativamente para a diferenciação;
— O período do sincretismo caracteriza-se pela imperícia, que será substituída gradativamente
pela competência ao acompanhar o processo de diferenciação.
• Imitação
Instrumento poderoso de aprendizagem para a criança (adultos, colegas, amigos, professores
são modelos) e para o adulto, em situações novas (professores antigos, colegas são modelos).
O processo de imitação mantém uma relação dialética com o processo de oposição, iniciando-
se com os jogos de alternância, avançando na fase do personalismo e continuando pela vida
inteira.
• Acolhimento
Importante em qualquer idade: acolhimento da criança e do jovem pelo grupo familiar, grupo
de amigos, grupo de colegas, professores; acolhimento do professor pela direção, pelos seus
pares, pelo seu entorno, pelos seus alunos. A sala de aula — uma oficina de relações — é/não
é um espaço de acolhimento.
• Desenvolvimento dos conjuntos funcionais
O desenvolvimento afetivo — cognitivo — motor tem ritmos diferentes conforme a relação
orgânico-social se expressa em cada indivíduo, e as atividades precisam corresponder a esses
ritmos. O ritmo deve ser respeitado e não avaliado. Em cada estágio temos uma pessoa
completa, com possibilidades e limitações próprias.
• Situações conflitivas
Como a emoção é contagiosa, o comportamento do aluno interfere na dinâmica da classe e no
professor. O professor, como adulto mais experiente, centrado em si e no outro, de forma
equilibrada, com maiores recursos para controle das emoções e sentimentos, pode colaborar
para a resolução dos conflitos, não esquecendo que o conflito faz parte do processo ensino-
aprendizagem, pois é constitutivo das relações. A qualidade da relação é revelada pela forma
como os conflitos são resolvidos.
• Ensino-aprendizagem, faces de uma mesma moeda
Uma dificuldade de aprendizagem é, igualmente, um problema de ensino, e sua análise deve
focalizar a relação ensino-aprendizagem como uma unidade, sem culpabilização de um ou de
outro.
Quando não são satisfeitas as necessidades afetivas, estas resultam em barreiras para o
processo ensino-aprendizagem e, portanto, para o desenvolvimento, tanto do aluno como do
professor.
• Processo ensino-aprendizagem
— Comporta fluxos e refluxos, certezas e dúvidas; tal como o desenvolvimento, é um processo
em aberto, portanto sujeito a reformulações constantes.
— Na relação professor-aluno, o papel do professor é de mediador do conhecimento. A forma
como o professor se relaciona com o aluno reflete nas relações do aluno com o conhecimento
e nas relações aluno-aluno.
— Queira ou não, o professor é um modelo, na sua forma de relacionar-se, de expressar seus
valores, na forma de resolver os conflitos, na forma de falar e ouvir.
• Uma teoria é um recurso para o professor
— Uma teoria auxilia no planejamento do ensino levando em conta as características
individuais (referentes ao aluno e ao professor), o contexto e as atividades propostas.
— Além da teoria, o planejamento deve incluir os dados da experiência que o professor traz,
decorrente de uma observação sensível no seu contato com o aluno.
— A teoria de desenvolvimento de Henri Wallon propõe estágios, com as características
registradas no quadro que se segue. Cabe observar que:
• a idade não é o indicador principal do estágio;
• cada estágio é um sistema completo em si;
• as características propostas para cada estágio se expressam através de conteúdos
determinados culturalmente;
• o desenvolvimento pressupõe um processo constante de transformações, durante toda a
vida.
TEXTO 07
A Criança, a Família e a Aprendizagem Escolar
A receita para uma boa escola pública é simples e dá resultados.
Seus principais ingredientes são a participação dos pais, o interesse da família pela vida escolar
do aluno, o estímulo à leitura e o hábito de fazer e corrigir o dever de casa. Junta-se a isso a
vontade do diretor em colocar em prática essas lições e, como resultado, há uma melhoria no
desempenho (Folha de São Paulo, 01/08/2004, Cl)
O texto acima é a introdução de uma reportagem sobre recente pesquisa brasileira, que
investigou a influência do ambiente familiar no desempenho escolar de estudantes de 4a e 8a
séries em escolas públicas. Obviamente, falar em receita quando se trata de questão assim
complexa é força de expressão. Os resultados da pesquisa foram mais discretos do que sugere
a chamada jornalística, mas eles reiteram uma observação antiga: a de que os pais e a família
têm um papel importante na aprendizagem escolar das crianças.
Uma concepção sobre influências no aprendizado escolar
O estudo das condições que contribuem para o aprendizado escolar se ajusta bem ao modelo
bioecológico do desenvolvimento proposto por Bronfenbrenner (1996). A ecologia do
desenvolvimento humano é definida como o estudo científico da acomodação progressiva,
mútua, entre um ser humano ativo, em desenvolvimento, e as propriedades mutantes dos
ambientes imediatos em que a pessoa em desenvolvimento vive, conforme esse processo é
afetado pelas relações entre esses ambientes, e pelos contextos mais amplos em que os
ambientes estão inseridos (Bronfenbrenner, 1996, p. 18).
Bronfenbrenner dá grande importância aos ambientes imediatos onde a pessoa em
desenvolvimento tem experiências diretas. Ele os chama de microssistemas. Na vida de uma
criança, a família, a creche, a escola e o grupo de companheiros são exemplos de
microssistemas. Aquilo que acontece em um microssistema pode afetar as experiências da
criança em outro. E a criança se desenvolve interagindo, de forma cada vez mais complexa,
com as pessoas, objetos e símbolos presentes nesses microssistemas. Para serem efetivas, as
interações devem ocorrer com regularidade, ao longo de períodos extensos de tempo. Essas
fonnas duradouras de interação são identificadas como processos proximais.
Os processos proximais são considerados os mecanismos primários do desenvolvimento
humano. Exemplos de processos proximais são encontrados em atividades conjuntas mãe-
criança, pai-criança ou criança-criança, na brincadeira solitária ou em grupo, na aprendizagem
de novas habilidades e em atividades esportivas. O poder de tais processos para influenciar o
desenvolvimento depende de características da Pessoa em desenvolvimento, dos Contextos
ambientais mais ou menos remotos e das dimensões de Tempo em que os processos
proximais ocorrem.
De acordo com esse modelo, pode-se dizer que o aprendizado escolar se processa através das
interações entre o aprendiz e "as pessoas, objetos e símbolos" presentes no microssistema
escola e também em outros, como a família e o grupo de companheiros. O modelo prevê ainda
um papel importante para as característicasdo aprendiz, bem como para a regularidade dos
processos proximais ao longo do tempo.
As pesquisas confirmam essa visão teórica. Em uma análise extensa da literatura, Wang,
Haertel e Walberg (1990) verificaram que a aprendizagem escolar é influenciada não só por
disposições e recursos da criança e processos da sala de aula, mas também por processos que
ocorrem nos microssistemas da família e do grupo de companheiros. As influências da família
são focalizadas neste capítulo.
Ambiente familiar e aprendizado escolar: o que mostram as pesquisas
A partir dos anos 50 do século passado, observou-se um aumento de interesse dos
pesquisadores em investigar influências da família no aprendizado escolar, com um pico de
publicações sobre o assunto nos anos 90. Segundo uma revisão feita por Kellaghan, Sloane,
Alvarez e Bloom (1993), a pesquisa nesse campo começou focalizando variáveis distais, como o
nível socioeconómico. Porém foi a partir da década de 1960 que os estudos ganharam um
grande impulso, quando se passou a focalizar, no microssistema da família, a influência de
processos proximais sobre o desempenho das crianças na escola.
Os resultados dessas pesquisas sugerem que os pais e a família podem direcionar
positivamente o aprendizado escolar, a motivação da criança para os estudos e o
desenvolvimento de competências interpessoais que garantem um bom relacionamento com
professores e colegas. Diversos aspectos da vida familiar são importantes, incluindo desde a
atmosfera e organização do lar até o envolvimento direto dos pais com a vida escolar da
criança (Bradley, Caldwell & Rock, 1988; Stevenson & Baker, 1987).
A configuração de recursos que são relevantes para o desempenho muda à medida que a
criança se desenvolve, mas os efeitos do ambiente familiar têm sido identificados nos
diferentes níveis de ensino: na escola de educação infantil, no ensino fundamental e médio e
até mesmo na universidade (Kellaghan, 1977; Reynolds, 1989; Nelson, 1984; Wood, Chapin &
Hannah, 1985; King, 1998). Da mesma fornia, o envolvimento direto dos pais com a vida
escolar dos filhos parece ser um preditor significativo de progresso acadêmico, desde a
meninice até o final da adolescência (Stevenson & Baker, 1987; Connors & Epstein, 1995).
O foco deste capítulo é o período do ensino fundamental. Nessa fase, práticas parentais
podem influenciar o desempenho em leitura e matemática, bem como o ajustamento em sala
de aula e a motivação para a escola (Bradley, Caldwell, & Rock, 1988; Grolnick & Slowiaczek,
1994). Essas práticas refletem a participação ativa dos pais no processo de desenvolvimento
dos filhos.
O interesse ativo dos pais pelo desenvolvimento da criança se concretiza no investimento de
tempo e de recursos na sua criação e educação. Interações são direcionadas e arranjos são
feitos em casa, visando promover seu desenvolvimento. A exposição da criança a essas
interações e arranjos, ao longo do tempo, caracteriza processos proximais de
desenvolvimento, no sentido que lhes dá Bronfenbrenner (1996).
Através de seu envolvimento, os pais fornecem os recursos emocionais essenciais ao
desenvolvimento de um senso de competência, tanto quanto recursos mais concretos, como,
por exemplo, um local apropriado para fazer a lição de casa. Exemplos simples da vida
quotidiana ilustram o envolvimento dos pais: ler para a criança e ouvir sua leitura quando ela
solicita; promover e compartilhar atividades no final de semana; assistir à TV junto com a
criança e estimular a conversação sobre o que é visto; dar supervisão e sugestões relativas ao
trabalho escolar; perguntar sobre a escola; monitorar suas saídas e suas companhias.
É evidente que para sustentar um elenco de atividades e arranjos dessa natureza duas
condições prévias são importantes: que os pais disponham de algum tempo para os filhos e
que sintam prazer em dedicar esse tempo a atividades conjuntas com as crianças.
Nos próximos parágrafos, alguns processos relacionados ao envolvimento parental são
comentados em relação ao seu impacto sobre o desempenho escolar.
Clima emocional
Uma atmosfera emocional positiva na família se caracteriza por processos interpessoais com
elevada coesão, ausência de hostilidade e uma relação afetiva apoiadora com a criança. Essas
características favorecem o desenvolvimento, pela criança, de um senso de permanência e
estabilidade de sua base afetiva, tendo efeito protetor diante da adversidade (Boyce, 1985).
Seu oposto tem sido associado a transtornos emocionais e de comportamento na infância
(Fieser, Wilder & Bickham, 2000).
Segundo Ramey e Macphee (1986), o clima familiar é uma importante condição associada ao
desenvolvimento cognitivo. E importante a coesão familiar, traduzida em disposição para
ajuda e apoio recíproco entre seus membros. Bradley (1988a) encontraram relação direta
entre um clima emocional positivo em casa e o desempenho em matemática, em alunos da 4a
série. As crianças obtêm melhor desempenho escolar quando os adultos em casa são mais
unidos, cooperativos e cordiais (Martini, 1995).
Oportunidades de interação com os pais
O clima emocional em família pode influenciar a disposição dos adultos para interagir com as
crianças, e a interação com adultos é um importante fator de desenvolvimento. Atividades
como contar histórias e casos para a criança, fazer comentários sobre o mundo que a cerca, ter
disposição para responder e formular perguntas, utilizar palavras que a criança conhece ou
está prestes a conhecer proporcionam, todas elas, experiências relevantes para o aprendizado
escolar (Moreno & Cubero, 1995).
Com efeitos cumulativos desde os anos pré-escolares, alguns componentes das interações
parecem ser cruciais para os bons resultados:
a) A reciprocidade, ou seja, a disposição do adulto para res¬ponder às iniciativas de
contato da criança e não apenas conversar quando ele próprio, o adulto, decide fazê-lo;
b) A variedade e o significado do conteúdo desses diálogos;
c) O papel ativo desempenhado pela criança. Entretanto, isso não significa de modo
algum que os pais devam assu¬mir um estilo passivo, esperando que as crianças descu¬bram
tudo por si mesmas; o papel do adulto será sempre o do mediador, que estrutura e direciona
as atividades para provocar experiências enriquecedoras (Rutter, 1985).
Há estudos indicando que as interações entre pais e filhos promovem o desempenho escolar
em parte por facilitarem o desenvolvimento lingüístico e cognitivo (Snow, Barnes, Chandler,
Goodman & Hemphill, 1990; Sigel, Stinson & Flaugher, 1991; Kellaghan, Sloane, Alvarez &
Bloom, 1993).
Sigel, Stinson e Flaugher (1991) investigaram os processos que levam a um melhor
desenvolvimento cognitivo das crianças, a partir da comunicação que elas estabelecem com os
pais quotidianamente. Os autores observaram que alguns pais usam estratégias de
distanciamento na conversação, ou seja, eles colocam uma exigência cognitiva para a criança,
para que ela mentalmente se afaste do que está acontecendo no presente. Por exemplo, ao
folhear um livro ilustrado, em vez de perguntar, diante da figura de um peixe: "De que cor é o
peixinho?", pode-se provocar um distanciamento cognitivo, perguntando: "Onde foi mesmo
que você viu um peixe parecido com esse?".
Quando usadas por pais ou outros membros da família, estratégias de distanciamento criam
um ambiente cognitivo em que a criança é estimulada a reconstruir acontecimentos passados,
antecipar o futuro ou assumir várias perspectivas em relação ao presente. A criança é levada a
empregar a imaginação quando age sobre os objetos, pessoas ou eventos, a efetuar
inferências e buscar alternativas na solução de problemas. Os autores verificaram que o grau
em que os pais empregam estratégias de distanciamento se relaciona com o desenvolvimento
cognitivo das crianças e o funcionamento escolar subseqüente.
Práticas educativas
Três conceitosinter-relacionados têm sido usados para caracterizar práticas educativas
associadas ao progresso escolar: encorajamento da maturidade, suporte à autonomia e
estabelecimento de regras e rotinas.
O encorajamento à maturidade é o conceito mais amplo e de certa forma inclui os outros dois.
Foi usado por Caldwell e Bradley (1984) na construção de uma das escalas do Inventário HOME
para escolares. Inclui a atribuição de responsabilidade à criança pelo autocuidado e o cuidado
com seus pertences, a cooperação regular em pequenas tarefas e o estabelecimento de regras
que são consistentemente aplicadas. Bradley, Caldwell, Rock, Hamrick e Pandia (1988)
obtiveram uma correlação positiva entre o encorajamento à maturidade em casa e um
comportamento mais competente na escola, em crianças de 6 a 10 anos.
O conceito de suporte à autonomia se superpõe em parte ao de encorajamento à maturidade.
Três componentes principais podem ser identificados nessa prática: primeiro, exigir que a
criança assuma pequenas responsabilidades e tente resolver por si mesma os problemas do
seu dia-a-dia; segundo, cuidar para que o nível de exigência seja compatível com sua
capacidade e desenvolvimento; terceiro, prestar o apoio e a assistência de que ela necessita
em suas tentativas de enfrentamento, segundo padrões razoáveis de segurança e clareza de
objetivos. Examinando alunos de 3a a 6a série, Grolnick e Ryan (1989) verificaram que o
suporte à autonomia estava fortemente associado à auto-regulação, à aprendizagem e ao
ajustamento escolar, principalmente quando exercido tanto pelo pai como pela mãe.
O estabelecimento de regras e rotinas está incluído no conceito de encorajamento à
maturidade, mas tem sido destacado como um recurso importante por si mesmo. A
previsibilidade de uma rotina básica para a vida diária tem sido associada com escores em
leitura e escrita nos anos iniciais do ensino fundamental (Kellaghan, 1977; Snow, Barnes,
Chandler, Goodman & Hemphill, 1990). Siegel (1990) verificou que as regras que os alunos
tinham que seguir em casa durante os anos do ensino fundamental, tais como ter horários
regulares para refeições e para a lição de casa, estavam associadas ao desempenho acadêmico
na adolescência, durante o ensino médio.
No estudo de Grolnick e Ryan (1989), o estabelecimento de regras teve correlação positiva
com a compreensão, por parte da criança, do controle existente no domínio acadêmico.
Parece que ambientes familiares onde há expectativas e regras aplicadas consistentemente e
com clareza facilitam a discriminação, por parte da criança, dos processos de controle vigentes
dentro da escola. A estruturação no lar protege contra o desamparo aprendido, em que o
caminho para obter resultados parece obscuro ou é experienciado como estando fora do
controle do indivíduo. É benéfico um grau moderado de estrutura nos arranjos domésticos e
no manejo do lar: os pais fornecem orientações, expectativas e regras de comportamento
claras e exigem seu cumprimento. Em decorrência, a criança aprende que há relações
previsíveis entre suas ações e as conseqüências delas, e tem mais facilidade para compreender
os processos através dos quais os resultados na escola podem ser colocados sob seu próprio
controle.
Tendo em mente que o clima emocional no lar é o pano de fundo dos demais processos, pode-
se dizer que, quanto às práticas educativas, os pais que são afetuosos e controladores, sem
serem restritivos demais; que costumam utilizar explicações para justificar as regras que
governam a vida quotidiana da família; e que animam a criança a ser independente e
responsável, contribuem para maior auto-regulação na escola, melhor desempenho escolar e
melhor ajustamento em sala de aula.
Compartilhamento de atividades de lazer e recreação
Há uma impressionante convergência entre os estudos que investigaram a associação entre
desempenho escolar da criança e sua participação em atividades de lazer diversificadas,
compartilhadas com os pais ou outros adultos significativos.
Usando o Inventário HOME, Bradley, Caldwell e Rock (1988) verificaram que quando os pais
proporcionavam aos seus filhos de 10 anos um elenco de experiências sociais e culturais
enriquecedoras, as crianças eram avaliadas pelos professores como mais centradas na tarefa e
mais bem ajustadas.
Quatro investigações com as Escalas do Ambiente Familiar de Moos (FES) apontaram na
mesma direção. Nesses estudos, observou-se que altos escores na subescala Recreação
estavam associados a um melhor desempenho e ajustamento escolar de adolescentes,
durante os anos do ensino médio (Nelson, 1984; Felner, Aber, Primavera & Cauce, 1985; Wood
et al., 1985; King, 1998).
No Brasil, uma pesquisa recente com o Inventário de Recursos do Ambiente Familiar (RAF)
obteve resultados semelhantes com crianças que estavam ingressando no ensino
fundamental. A variedade de atividades de lazer da família, medida pelo RAF no início da
primeira série, mostrou correlação positiva com indicadores de desempenho e competência
social avaliados no final do ano (Ferreira, 2003).
Como os resultados são correlacionais, não se pode afirmar categoricamente uma relação
causal entre as atividades de lazer compartilhadas com a família e os bons resultados
escolares. Por outro lado, são resultados bastante consistentes, que nos levam a pensar em
um possível papel mediador do adulto, favorecendo experiências enriquecedoras.
Alguns elementos comuns a essas atividades de lazer poderiam contribuir para a associação
positiva e persistente entre a recreação em família e o aprendizado escolar. Primeiro, o clima
emocional: famílias que se reúnem para recreação são provavelmente aquelas cujos membros
sentem prazer em estarem juntos. Segundo, a oportunidade de interação com os pais: em
momentos de lazer os pais costumam estar mais disponíveis para interação. Finalmente, há
um ingrediente específico, associado a atividades como viagens, visitas a museus, idas ao circo
e mesmo experiências mais triviais como um percurso a pé pela cidade; esse ingrediente é
oportunidade que a criança tem de ampliar seu conhecimento do mundo. Sabe-se que o
conhecimento do mundo é fundamental para o desenvolvimento da leitura com compreensão,
e esta habilidade, por sua vez, é um importante instrumento de sucesso na escola (Milosky,
1990).
Acesso a brinquedos e materiais de aprendizagem
Este tópico se refere à diversidade de brinquedos e jogos disponíveis para a criança no
ambiente do lar, bem como a suas características estimuladoras de pensamento e raciocínio.
Entre os recursos cujo efeito é positivo, pode-se citar a disponibilidade de jogos e materiais
educacionais variados e adequados ao nível de desenvolvimento da criança; a diversidade e
adequação de elementos provocadores de pensamento nos brinquedos; a presença de jogos
que potencializem as habilidades cognitivas e a aprendizagem de conteúdos relevantes para a
escola; espaços próprios, onde a criança possa realizar estas atividades, bem como estudar,
fazer lição de casa etc. (Kellaghan, 1977; Bradley, 1994; Cubero & Moreno, 1995).
Letramento no ambiente familiar
Esta condição é um predito específico para o aprendizado da leitura. Os hábitos de leitura dos
pais, a presença de jornais e revistas, o acesso a livros e outros portadores de texto têm sido
consistentemente associados ao desempenho em leitura durante os anos do ensino
fundamental e médio (Siegel, 1990; Snow, Barnes, Chandler, Goodman & Hemphill, 1990;
Wang, Haertel & Walberg, 1990).
Um aspecto particularmente efetivo do letramento na família é a prática de ler livros de
estórias para a criança que ainda não sabe ler. Trata-se de um uso que combina vários
componentes favoráveis, como o clima emocional positivo, a interação com um dos pais, a
oportunidade de praticar o distanciamento na linguagem e a exposição a portadores de texto e
atos de leitura.Diversos programas de apoio a pais de pré-escolares têm sido aplicados com
sucesso, em famílias de baixa renda, no sentido de estimular e otimizar essa prática, com
resultados bastante positivos (Primavera, 2000).
Ler em voz alta para a criança durante os anos que antecedem a instrução formal tem sido
considerado como o melhor predito de sucesso na aprendizagem da leitura, inclusive
favorecendo uma aquisição precoce desta habilidade. Durante o período pré-escolar, também
parecem ser facilitadoras do desenvolvimento posterior da leitura as brincadeiras com lápis e
papel (por exemplo, a escrita do nome) e os jogos que envolvem rima e aliteração (por
exemplo, aprender canções com letra rimada ou falar na "língua do p"), sempre em interação
com usuários do sistema de escrita (Rego, 1987).
Uso do tempo livre durante a semana
Crianças estão aprendendo o tempo todo. Quando estão fora da escola, aquilo que elas
aprendem vai depender, obviamente, da natureza das atividades em que se envolvem. Alguns
estudos indicam, por exemplo, que assistir à TV por muitas horas na semana está associado
com desempenho pobre na escola (Uguroglu & Walberg, 1986; Bee, 2003). Por outro lado,
estudantes que se envolvem em uma diversidade maior de brincadeiras, participam de
atividades extracurriculares, praticam um esporte regularmente ou freqüentam algum curso
(de música, por exemplo) têm maiores chances de se sair bem nos estudos (Snow, Barnes,
Chandler, Goodman & HemphilL, 1990; Siegel, 1990; Wang, Haertel & Walberg, 1990).
Crenças e expectativas dos pais
O estudo do impacto das crenças dos pais sobre suas práticas educativas e conseqüentemente
sobre o desenvolvimento dos filhos recebeu grande impulso na década de 1980.
Especificamente quanto ao desempenho e ao ajustamento escolar, sabe-se que as
expectativas e atribuições dos pais a respeito do sucesso da criança na escola podem afetar o
rendimento de modo indireto, através de sua influência sobre o autoconceito.
Cubero e Moreno (1995) comentam que o autoconceito acadêmico dos meninos e meninas
está mais relacionado com percepções e expectativas de seus pais em relação a eles do que
com seu próprio rendimento acadêmico. Por exemplo, o sucesso dos meninos em matemática
é atribuído à inteligência e o sucesso das meninas em matemática é atribuído ao esforço. As
crenças e expectativas dos pais sobre as capacidades da criança podem, quando desfavoráveis,
diminuir a motivação para aprender, o que terá um efeito negativo sobre o desempenho
escolar.
Envolvimento dos pais na vida escolar dos filhos
Nos anos recentes, o envolvimento dos pais com a vida acadêmica dos filhos tem sido o foco
preferido nas pesquisas sobre influências da família no aprendizado escolar. Têm sido usados
como indicadores do envolvimento parental o intercâmbio regular com o professor, a
participação em reuniões e eventos promovidos pela escola, o monitoramento da vida escolar
e a assistência na lição de casa. Com exceção deste último indicador, as diferentes formas de
envolvimento parental têm sido associadas a um melhor desempenho escolar durante a
meninice, podendo contribuir para atenuar os efeitos da desvantagem econômica sobre o
desempenho (Stevenson & Baker, 1987; Izzo, Weissberg, Kasprow & Fendrick, 1999; Jimerson,
Egeland, & Tco, 1999; Fan & Chen, 2001; Garcia Bacete & Rosei Ramirez, 2001; Marjoribanks,
2001).
Entre os diversos mecanismos pelos quais o envolvimento dos pais com a escola favorece o
desempenho, destaca-se um de grande importância: é que, através do seu envolvimento, os
pais comunicam à criança o quanto se importam com ela e o quanto valorizam seu
aprendizado escolar.
A assistência na lição de casa deve ser tratada como um tópico à parte do envolvimento dos
pais com a escola. Estudos que focalizam a assistência na lição de casa têm apresentado
resultados controvertidos, sugerindo que os efeitos podem ser benéficos, inócuos ou mesmo
prejudiciais, dependendo de inúmeros fatores que determinam a qualidade da assistência
proporcionada à criança (Cooper, Lindsay & Nye, 2000).
A criança com queixa escolar e sua família
No contexto brasileiro, problemas de aprendizagem constituem o principal motivo de busca de
atendimento psicológico para crianças de 6 a 12 anos (Silvares, 1993). Como se caracteriza o
ambiente familiar dessas crianças? A informação disponível se refere a uma população
específica, a clientela do Ambulatório de Psicologia Infantil do Hospital das Clínicas de Ribeirão
Preto. Revendo pesquisas ali conduzidas, Marturano e Ferreira (2004) encontraram tendências
semelhantes àquelas relatadas na literatura, porém com certa especificidade, importante para
o atendimento clínico à criança com queixa escolar.
Quando foram investigadas as associações entre condições ambientais e o desempenho da
criança com queixa escolar, verificou-se que o nível de elaboração de um texto produzido pela
criança estava associado a uma diversidade de recursos no ambiente familiar. As crianças com
produção de melhor qualidade têm, mais que as outras, recursos como rotinas regulares (por
ex, hora certa para almoçar) e regras definidas (fazer lição antes de brincar); elas
compartilham atividades com os pais e dispõem de livros infantis, obras de referência e
brinquedos estimuladores do desenvolvimento em casa.
Nessa população clínica, o atraso escolar está negativamente associado à presença de recursos
e mostra associação positiva com circunstâncias adversas no contexto familiar. A diversidade
de atividades quotidianas compartilhadas com os pais tem relação inversa com atraso, ou seja,
quanto mais atividades compartilhadas, menor o atraso. Conversar com os pais sobre a escola,
poder recorrer à mãe quando precisa de ajuda e ter horário certo para fazer lição são outras
condições associadas inversamente ao atraso.
As crianças mais atrasadas na escola são as que recebem menos supervisão dos pais (na lição
de casa, no estudo para as provas e no acompanhamento das notas e freqüência); suas
famílias têm menos rotinas com horário definido e menos oportunidades de se reunirem,
quando comparadas às famílias de crianças com pouco ou nenhum atraso escolar.
No contexto da literatura revista no capítulo, esses resultados parecem bastante coerentes
com aqueles derivados de investigações conduzidas em outros países, focalizando crianças
sem dificuldades escolares. Os recursos que contribuem para um melhor desempenho são
semelhantes nos dois conjuntos de estudos. Entretanto, na amostra clínica brasileira, os
recursos do ambiente familiar estão centrados no suporte para a aprendizagem acadêmica,
havendo certa escassez de recursos nas demais áreas relevantes para o progresso escolar
(Marturano & Ferreira, 2004). Seria essa escassez uma característica das famílias de crianças
com queixa escolar ou estaria refletindo uma condição social mais ampla?
Tentando responder a essa questão, D'Avila-Bacaiji (2004) comparou famílias de crianças com
e sem a queixa escolar, pertencentes ao mesmo estrato socioeconómico. Verificou que as
famílias não diferiam quanto ao envolvimento dos pais na vida escolar das crianças.
Entretanto, o ambiente familiar das crianças com bom rendimento era mais favorável, com
mais recursos no uso do tempo livre, passeios, oportunidades de interação com os pais,
brinquedos e livros. Desse modo, a escassez de recursos facilitadores do aprendizado escolar
nas famílias de crianças com problemas de aprendizagem não pôde ser atribuída somente à
condição socioeconómica.
Uma outra peculiaridade da amostra clínica é a alta porcentagem de crianças com problemas
emocionais e de comportamento, associados à dificuldade escolar. Estudos de seguimento
revelaram que este é um subgrupo vulnerável, com desenvolvimento prejudicado na
adolescência. Tipicamente, as crianças vulneráveis manifestam auto-regulação pobre e
dificuldades nasrelações interpessoais; seu ambiente familiar oferece menos recursos de
suporte ao desenvolvimento; e o clima emocional no lar é marcado por conflitos (Marturano,
Elias & Campos, 2004).
Influências da família no desempenho escolar - implicações para a prática psicopedagógica
Uma vez caracterizado o ambiente familiar de crianças com dificuldades escolares em nosso
meio, pode-se perguntar: Em que medida os resultados de pesquisas sobre a influência do
ambiente familiar no aprendizado escolar podem contribuir para o atendimento
psicopedagógico a crianças que apresentam problema nesse aspecto do seu funcionamento?
Os estudos revistos neste texto sugerem que o impacto positivo do ambiente familiar sobre o
desempenho escolar requer uma combinação de dois ingredientes:
a) Experiências ativas de aprendizagem que promovem competência cognitiva;
b) Um contexto social que promove autoconfiança e interesse ativo em aprender,
independentemente da instrução formal.
Portanto, são condições ambientais com probabilidade de facilitar tanto o desenvolvimento
social como o cognitivo.
Parece também que há períodos sensíveis, em que determinadas influências têm maior
impacto. A esse respeito, Rutter (1985) coloca que uma fase sensível à influência ambiental no
desenvolvimento cognitivo estaria situada no período pré-escolar. Os ingredientes mais
importantes para os efeitos positivos parecem ser:
a) Uma participação ativa da criança;
b) Oferta de experiências variadas, interessantes e significativas;
c) Reciprocidade na interação, sensibilidade e disponibili¬dade dos adultos em resposta
às aproximações da criança;
d) Práticas educativas combinando afeto positivo e controle.
Segundo esse autor, os processos envolvidos na ação dos fatores ambientais incluem efeitos
cognitivos diretos e efeitos não cognitivos que influenciam o funcionamento cognitivo
posterior. Entre os efeitos cognitivos diretos pode-se citar o "aprender como aprender":
recursos de atenção, perseverança, estratégias de realização de tarefas e organização do
trabalho. No domínio dos efeitos não cognitivos podem ser lembradas características como
aspirações de aprendizagem, motivação, auto-estima e estilos de interação.
Retomando a pergunta formulada no início da seção, uma primeira implicação para o
atendimento à criança com queixa escolar é a importância de avaliar cuidadosamente os
recursos do ambiente familiar, com vistas no planejamento da ajuda psicopedagógica. O
procedimento de entrevista semi-estruturada favorece um rastreamento abrangente, ao
mesmo tempo que permite a investigação de particularidades, quando isso seja de interesse.
Um inventário específico para rastreamento de recursos do ambiente familiar foi desenvolvido
por Marturano (1999) e pode ser encontrado na íntegra em D'Avila-Bacarji (2004).
Uma segunda implicação é a necessidade de envolvimento dos pais no processo de ajuda.
Além de medidas no sentido de identificar, ativar e potencializar recursos do ambiente
familiar, que facilitem a aprendizagem escolar e o desenvolvimento global da criança, pode-se
estimular a família a buscar os recursos presentes na comunidade, visando proporcionar à
criança experiências favorecedoras do desenvolvimento e da socialização.
É importante que essas experiências sejam compartilhadas com os pais. Por exemplo, visitas a
museus, zoológicos, sítios históricos e outros lugares de interesse podem ser incentivadas, com
sugestões para o máximo aproveitamento de cada oportunidade. Se, por limitação financeira,
as famílias não podem visitar lugares com ingresso pago, elas podem selecionar e discutir
programas de televisão que atendem ao mesmo objetivo. Um simples percurso de ônibus ou a
pé pode ser aproveitado para desenvolvimento da linguagem e ativação da curiosidade e de
processos cognitivos como observação, comparação, formulação de hipóteses.
Admitida a necessidade de envolvimento dos pais, e independentemente de ser ou não
necessário o acompanhamento clínico, uma terceira implicação diz respeito ao direito que os
pais têm de acesso à informação sobre o que eles podem fazer para facilitar o aprendizado
escolar de seus filhos. Alguns princípios básicos podem nortear um trabalho sistemático de
informação aos pais, como, por exemplo: trabalhar com atividades concretas e estruturadas
em vez de tentar apenas ensinar princípios gerais; manter contato e interação ao longo de
vários meses (seis meses é um período indicado), o que ajuda a consolidar e reforçar os
conceitos e princípios.
Parece haver vantagens em oferecer oportunidades para sessões individuais, em associação
com grupos de pais coordenados por um facilitador, pois alguns pais necessitam desse contato
individual antes de se aventurarem nos encontros de grupos. Os grupos, por outro lado,
oferecem a oportunidade de compartilhar idéias e desenvolver redes de suporte com outros
pais; isto pode ser um fator crítico para encorajar os pais a tentarem novas estratégias com
seus filhos em casa. Além disso, a camaradagem e o apoio mútuo dos grupos de encontro
também são provavelmente mais prazerosos e significativos para os pais que uma abordagem
do tipo aula expositiva (Keilaghan, Sloane, Alvarez & Bloom, 1993).
Assim, programas informativos em forma de encontros, cursos e vivências podem ser
disponibilizados para os pais, desde que atendam a alguns requisitos como a participação
ativa, com oportunidade de eles compartilharem experiências com outras famílias, e o respeito
aos seus valores e crenças (Ferreira, Parreira & Marturano, 2003).
Quando a criança apresenta problemas de ajustamento associados à queixa escolar, o
atendimento clínico é indicado. Junto à criança, são recomendáveis estratégias que permitam
o reconhecimento e o manejo das emoções e sentimentos, a melhora na auto-regulação da
atenção e do comportamento, o desenvolvimento de habilidades interpessoais. Ao membro da
família que se dispõe a acompanhar a criança, em geral, a mãe, pode-se oferecer apoio no
sentido de controle do estresse associado às funções parentais e a outros domínios da vida
familiar, bem como desenvolvimento de habilidades sociais educativas, com ênfase em
estratégias de resolução de problemas. Adicionalmente, pode-se oferecer informação quanto
ao suporte acadêmico e desenvolvimental à criança, através do rearranjo e da otimização de
recursos já presentes no ambiente familiar.
ALTERAÇÕES MAIS COMUNS NO COMPORTAMENTO DO APRENDIZ
Leila Sara José Chamat
1 Hiperatividade
Causas
As causas da hiperatividade geralmente se encontram em partos complicados, traumatismos,
convulsões, em que o cérebro deixa de receber a oxigenação adequada, etc. Esse problema
gera agitação e extrema falta de atenção e concentração (SKRZYPCZAK, 1996).
Intervenção
Neste caso, ambos os profissionais devem trabalhar juntos (VIGOTSKY; LURIA; LEONIE 1991).
Esses autores apontam que a tarefa primordial do psicopedagogo é a de afastar o sintoma e
inserir a aprendizagem de forma lúdica. Não pode esquecer que todos os objetos presentes
chamam a atenção do sujeito. Por esse motivo, a sala deve estar vazia e o material em uma
bolsa segundo Seber (op. cit.).
Por outro lado, sabe-se que se deve atuar no sintoma. Exemplo: O não saber formar frases.
Deve-se detectar o que sabe e o que deve ser inserido para assimilação. A forma lúdica do
“conhecimento” formal deve ser inserida na primeira parte da sessão, e outros elementos
lúdicos corno jogos, na segunda (veja Anexo 4). Esses últimos podem ser utilizados como
estímulos reforçadores da primeira parte. Se o sujeito se negar a brincar com letras ou revelar
fraca pulsâo nesse brinquedo, perderá parte do outro que, além de desenvolver, gratifica
muito (GOINO, op.cit).
Isso deve ser apontado no primeiro sinal de má vontade em se envolver, pois para isso é
necessário se conhecer. Como todo trabalho, deve-se iniciarpela relação vincular,
paralelamente à comunicação, com desenhos e/ou pinturas, que desenvolve a auto-estima e
as relações vinculares, iniciando assim a aprendizagem. Jogos, como Trilha, Dama, Memória,
Formar Pares, Pautos, Achar o Erro em duas figuras semelhantes, etc., permitem essa
interpretação (MACEDO, 1994). Na opinião do autor o sujeito deve estar atento aojogo. Se
assim não for, o psicopedagogo deve chamar sua atenção, obrigando-o a prestar atenção e
mostrar-lhe o que estava fazendo de errado na situação e que tem sempre esse mesmo
comportamento sem perceber.
Sempre que for conversar com o sujeito, obrigá-lo a olhar para o interlocutor.
Deve manter contato constante com o psicólogo que trata o aspecto emocional dos sintomas.
2 Dislexia
Trata-se de uma desordem do aprendizado que afeta a leitura, a ortografia e a linguagem
escrita. Essas dificuldades podem ser acompanhadas de problemas com os números, uma
memória de curto prazo pobre e falta de aptidão.
Embora, a dislexia afete principalmente o domínio dos simbolos gráficos, como letras,
números e notas musicais, ela pode trazer, também dificuldades para a linguagem falada, E
uma patologia de cunho neurológico (TOMASO; THOMAS; STANLEY, 2007), não resultando de
audição ou visão pobres ou de baixa inteligência.
Segundo os autores, uma em cada 20 crianças é disléxica (três vezes mais meninos que
meninas) e, se um dos pais for disléxico, a criança terá dezessete vezes mais probabilidade de
sofrer da doença.
Enfim, as causas aparentes são os déficits de discriminação visual, coordenação visomotora,
noção têmporo-espacial. As causas subjacentes revelam-se com interferência no
desenvolvimento percepto-motor.
Detecção
Pode ser detectada por um ou mais aspectos relacionados a seguir na opinião de Tomaso et ai.
(op. cit.).
• pequena capacidade de soletrar;
• coordenação pobre;
• dificuldade de lembrar listas de palavras, números ou letras, como o alfabeto e as tabuadas;
• dificuldade de lembrar a ordem das coisas do dia-a-dia, como os dias da semana;
• problemas em identificar esquerdo e direito;
• frases embaralhadas
• dificuldade em aprender rimas infantis;
Características que prevalecem na opinião dos autores que foram citados prevalecem as
características:
• dificuldade de discriminação visual e confusão das letras ou palavras que parecem
semelhantes;
• a velocidade na percepção baixa;
• tendência à reversão de d porb.;
• tendência na inversão u e n;
• não retenção de seqüências visuais: nada- nda;
• desenhos tendem a ser inferiores, carentes de detalhes;
• problemas de análise e síntese (dificuldade com o alfabeto, quebra-cabeça e outros
similares);
• testes de prontidão (HILDRETH; GRIEFI, 1966) revelam resultados rebaixados sem habilidades
auditivas, memória visual.
• preferência por atividades auditivas;
• quadro severo;
• dificuldades em esportes.
Comentários sobre o diagnóstico
Muitas crianças inteligentes são disléxicas, e a patologia não é freqüentemente diagnosticada.
A criança troca a lateralidade e pais e professores afirmam que se deve a não- aprendizagem.
Na escolinha, o problema é detectado, mas desde que seus pais se tornem conscientes das
diferenças entre a inteligência óbvia do filho e o nível de aquisição de “conhecimento” em
áreas específicas.
Os principais sintomas de dislexia são as dificuldades de ler e escrever. A criança pode ter uns
problemas na percepçáo de letras na ordem correta ou confunde letras de formato similar,
como b com d e p com q.
A criança consegue ver, mas não consegue discriminar, diferenciar, interpretar ou recordar
palavras devido à disfunção do SNC (sistema nervoso central).
Interfere:
• na leitura;
• na formação de símbolos;
• função semiótica;
• aritmética.
Sumário da origem:
Orgânicos ou emocionais traumatismos cognitivos e problemas que acentuam o emocional.
Tipos:
• Leve - pouca confusão na identificação de simbolos.
• Moderada - dificuldade com a silabação.
• Severa - gera incapacidade para ler.
Tratamento :
Trabalho voltado para a área biopsicosocial de forma integrada.
* Bio:
• exercícios de estimulação da discriminação visomotora, coordenação visomotora e
espaço/temporal.
• exercícios específicos e jogos para trabalhar os emergentes e os déficits psicopedagógicos;
• trabalho com as dificuldades específicas de forma lúdica.
* Psico:
• trabalhar fracasso, auto-estima, perseveração, frustração do não-aprende o vínculo com o
‘conhecimento” na relação vincular e uso da inter-relação ejogos (trabalho do psicólogo).
* Social:
• trabalhar a família; orientar e eliminar os 3 Ds: depósito, depositante e depositário (VISCA,
1987);
• trabalhar a forma integrada, assim como a vincular e o cognitivo; além disso, pesquisar suas
relações sociais,
principalmente as pertinentes ao aspecto de cooperação e sociabilidade;
• trabalhar o fracasso familiar ;Além desses aspectos centrais, devem-se trabalhar os aspectos:
Vincular:
• trabalhar o fracasso por meio de reforços, auto-estima, perseveração, frustração do não-
aprender e o vínculo com o “conhecimento” (PICHON-RIVIÊRE, 1980). Para esse trabalho usar a
inter-relação e jogos; Geralmente, os disléxicos possuem uma auto-estima muito baixa. Assim,
todo o trabalho deve ser operacionalizado. Area orgânica (SKRZYPCZL, op.cit.): trabalho
acompanhado pelo especialista;
* Cognitivo:
• ampliação do nível de operatoriedade por meio de jogos;
• aquisição e ampliação da função semiótica, segundo Seber (op. cit.);
• iniciar com o vocabulário próximo ao da criança, relacionando-o aos símbolos;
• sempre inserir a associação de estímulos que, além de ampliar as estruturas de pensamento,
atuam nas estruturas simbólicas e mentais;
• enfocar e estimular a percepção e discriminação de símbolos, área vincular, função semiótica
e aquisição de símbolos e signos.
Se necessário, encaminhar ao fonoaudiólogo.
Adicional:
Pesquisa recente, na opinião de Tomaso e outros (op. cit.), sugere que, ao mesmo tempo em
que têm problemas com a leitura e a escrita, as crianças disléxicas também têm dificuldades
para distinguir diferentes sons. Mostram os autores que, além disso, apresentam problemas
de memória e equilíbrio, que devem merecer atenção especial.
Dão o exemplo, discorrendo que as crianças com dislexia acharão muito mais difícil se
equilibrar em uma única perna do que as crianças não disléxicas. Enfatizam que a força da
criança disléxica está em ser sensitiva, intuitiva e impulsiva.
Da mesma forma, as habilidades associadas ao lado esquerdo do cérebro, como lidar com
simbolos escritos, seguindo instruções preestabelecidas são extremamente frágeis na criança
disléxica.
Essas dificuldades podem ser trabalhadas com jogos escolhidos especialmente. Como as fibras
nervosas cerebrais são cruzadas, o lado direito é responsável pelo hemisfério esquerdo, este
deve ser muito estimulado. Se a criança for sinistra (canhota), estimulam-se ambos os lados:
direito e esquerdo e, conseqüentemente, amplia-se o potencial de inteligência (TOMASO et al.,
op. cit.).
Algumas delas, entretanto, podem ser muito criativas e ter aptidão para atividades artísticas,
sobretudo desenho ou pintura. Essas aptidões devem ser muito exploradas e valorizadas,
contribuindo para a auto-estima que repercutirá, positivamente, nas áreas cerebrais.
Essa problemática, com o passar do tempo, acaba tornando-se orgânica pelo mau
funcionamento das células nervosas, sinapses, alteração na substância mielínica e ou disfunção
hormonal, na óptica de Tomaso et al. (op. cit.).
No Tratamento de estimulação neurológica, apontam que as áreas vizinhas tomarão a função
da área em déficit. Rotular uma criança de disléxica quando ela não o é, mostra-se tão
prejudicial quanto falhar em reconhecer uma que realmente é. O diagnósticocorreto somente
pode ser feito por um especialista.
Como os pais podem ajudar?
Você pode fazer três coisas que pode ajudar seu filho em casa. Primeiro é enfrentar o fato de
que ele atualmente tem um problema. Se lhe for dito que seu filho alcançará ou aprenderá a
ler apenas eventualmente, não dê ouvidos. Dislexia é uma desordem de aprendizagem
específica que responderá somente a um tratamento terapêutico apropriado. Segundo, seja
colaborador e positivo, especialmente se seu filho tem problema na escola. Terceiro, faça
muitas brincadeiras de aprendizagem com ele, ajudando-o a superar suas dificuldades.
Apoio pedagógico
Se seu filho está ficando para trás com relação ás outras crianças na escola, sua autoconfiança
pode estar baixa e é muito importante que você o faça se sentir vitorioso em casa. Não mostre
qualquer impaciência. Encoraje-o nas atividades que ele domina bem e ajude-o a fazer as
coisas por conta própria.
Dê a ele qualquer auxílio, como uma etiqueta adesiva de esquerda e direita para o triciclo dele.
Se ele achar uma tarefa particularmente difícil, fale para fazê-la lentamente.
Existem, no Brasil, entidades que reúnem pais de crianças disléxicas, assim como médicos e
terapeutas especializados no assunto, capazes de ajudar, caso ele apresente sintomas de
dislexia.
Necessidades especiais
Um dos principais problemas que as crianças disléxicas enfrentam, na opinião de Skrzypczl
(op.cit.) é o diagnóstico incorreto. E comum para as crianças que tentam aprender a ler e a
escrever falharem em fazê-lo e, por isso, serem taxadas de “lentas” ou até mesmo de
incapazes. Isso é desmoralizante para a criança e pode afetar seu desempenho total na escola.
Pais e professores freqüentemente confundem dislexia com QI baixo, mas a maioria das
crianças disléxicas tem QI médio ou acima da média.
Profissionais da área fornecem a seguinte explicação:
• Quando a dislexia é reconhecida precocemente, a educação terapêutica mostra-se muito
efetiva.
• Se uma criança é diagnosticada como disléxica entre 4 ou 5 anos, quando for a escola
provavelmente necessitará somente de cerca de meia hora de instrução extra por dia, num
período de seis meses, para trazê-la aos padrões normais de leitura e escrita.
• Se a dislexia não for diagnosticada até que complete 7 ou 8 anos de idade, ela terá que fazer
muitas coisas para superar seus problemas.
3 Distúrbios de escrita
Os distúrbios de escrita raramente aparecem isolados. No entanto, alguns déficits de escrita,
são erroneamente denominados como distúrbios de escrita. Por esse motivo, cada distúrbio
será descrito separadamente.
4 Disortografia
Caracteriza-se pelos sintomas: trocas, inversões, omissões. É diferente de erros na escrita que
correspondem ou náo ao som da palavra.
Causas:
No distúrbio de leitura e escrita, geralmente, não se faz uma classificação. Pode ser de
natureza:
• endógena;
• exógena;
• ou as duas ocasionadas por alteração emocional, afetiva e cognitiva.
A causa encontra-se no processo de decodificação; pode estar ocorrendo uma alteração visual
ou auditiva, no processo de recepção e emissão de estímulos, segundo Tomaso et ai. (op. cit.).
Essa alteração na decodificação, tanto na entrada como na saída, é causa de fundo emocional.
Quando envolver erros fonéticos, encaminhar para o fonoaudiólogo. Se envolver a escrita é da
atuação do psicopedagogo, principalmente, no treino motor e na reconstrução das estruturas
cognitivistas. Por exemplo: a criança pode falar certo e escrever errado.
A atuação psicológica já se inicia no diagnóstico. Deve-se levantar o significado dessa alteração
na família — toda doença tem uma função.
• Levantar o significado (do sintoma) e dessa alteração na família e para a criança. E necessário
pesquisar os dois lados.
• Verificar os três Ds. fundamentalmente porque a criança aceitou esse depósito.
• Pelo exposto, a avaliação e intervenção psicológicas tornam-se imprescindíveis.
Interdisciplinar: deve partir de um Diagnóstico Psicológico, coerente, utilizando-se de:
• provas específicas;
• análise do conteúdo emocional e afetivo no que concerne ao “não-aprender”.
Após um diagnóstico bem elaborado, inicia-se a intervenção ou o tratamento.
Todo o trabalho será centrado no vínculo para chegar à auto-estima. O trabalho centrado na
relação vincular, fazendo a ligação das estruturas afetivo-cognitivas é dificil para o profissional
não especializado em cognição.
Encaminhado ao psicopedagogo, para um trabalho centrado na relação vincular e pedagógico.
Este deve representar para a criança o “conhecimento”, o novo e o desconhecido.
Trabalhar também o “medo de não ser capaz”, ressaltando as partes positivas, mas,
fundamentalmente, os aspectos ligados à percepção, levando à síntese cognitiva. Deve-se
sempre falar com a criança com muito respeito, sem uma relação de poder, não pode haver
jogo de poderes.
O psicopedagogo, não pode dar ênfase aos aspectos negativos, deve reforçar os positivos,
salientando a auto-estima. Deve-se construir a relação continente—contido (VISCA, 1987).
Aponta este autor que há casos em que somente trabalhando o vínculo com o agente corretor
e com o “conhecimento” a criança melhora. Ressalta que, além do vínculo, deve se levar a
criança a se compromissar com as suas dificuldades e incentivá-la a superá-las investindo na
sua auto-estima. Na psicopedagogia o trabalho é centrado na dificuldade escolar.
Sugestões:
• Redação - análise do conteúdo manifesto (pedagógico) e cognitivo.
• Diferencial de letras, localizando as trocas.
Autocorreção
Conduzir gradativamente a esse processo.
Planejamento do tratamento
• Trabalho focal;
• Dividir a sessão: Para tal, deve-se afastar o sintoma e oferecer atividades específicas de
discriminação visual.
Sugestão:
• Jogos como figuras (mico), desenhos incompletos para serem completados, jogo com
bonecas para discernir diferenças e semelhanças; Dedoche, Memória, Dominó Letras, Dominó
Figuras; encaixe de diferentes formas e outros.
• Na primeira parte da sessão: oferecer atividades mais criativas, mais livres, porém dirigidas
(quatro jogos aproximadamente);
• trabalhar pré-requisitos, parte cognitiva ação e reação (causa e efeito), auto-estima,
identidade do aluno com valia;
• apontar, operacionalmente, que suas ações de sucesso na escola ou na situação de
aprendizagem podem ser aplicadas em conversas, em afazeres domésticos e em outras
tarefas;
• interpretação operacional, com base no bom senso. Na interpretação deve-se sempre
mostrar a ação e a conseqüência, apontar para o déficit. Na dificuldade explicar o porquê da
ação.
• processar a autocorreção.
Observação: A Disortografia é diferente de déficit de leitura-escrita contido na aprendizagem
(alfabetização), embora alguns tratem os déficits, como disortografia. O que mais aparece em
clínica em criança com déficit de atenção está ligado a um estado confusional repercutindo na
assimilação.
4 Déficit de alfabetização
Origem:
• inadequação metodológica;
• doenças — faltas;
• déficits na percepção;
• déficits vinculares com o “ser que ensina e o que aprende” e, conseqüentemente com o
“conhecimento”.
• imaturidade afetivo-cognitiva e emocional da área psicológica;
• problemas emocionais.
A distinção entre ambos, deve estar clara.
A disortografia difere de déficits na alfabetização:
Exemplo de déficits na alfabetização: cadeirra, dise, coza, coreto.
Exemplo de disortografia: dota (toda), baço (braço), voldar (voltar) com constância..
Atenção:
Quando os erros cometidos pela criança, não são perseverantes, significa a falta de
envolvimento como objeto de aprendizagem ou uma problemática na atenção e concentração.
A diferenciação entre déficit de alfabetização e disortografia é que vai determinar o tipo de
tratamento. Se for um déficit de alfabetização,