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TÍTULOS DE CRÉDITO Bibliografia Recomendada e Utilizada para a elaboração das aulas: TOMAZETTE, Marlon. Curso de direito empresarial : Títulos de crédito, v. 2 – 8. ed. rev. e atual. – São Paulo: Atlas, 2017. COELHO, Fábio Ulhoa. Manual de Direito Comercial – Direito de Empresa. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2016. NEGRÃO, Ricardo. Curso de direito comercial e de empresa, v. 2 - títulos de crédito e contratos empresariais. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. Prova Parcial = Valor 0,0 à 9,0 - Trabalho (opcional): 1,0 ponto. Exame Final = Valor 0,0 à 9,0 – Trabalho (opcional): 1,0 ponto. unaerp #direito2019# www.direitodainformatica.com.br/unaerp unaerp #direito2019# Blog CÓPIA DAS AULAS TÍTULOS DE CRÉDITO A atividade empresarial e, consequentemente, o próprio direito empresarial exigem três pilares fundamentais: 1. Rapidez 2. Segurança 3. Crédito Obviamente a atividade empresarial exige um reforço ao crédito, uma disciplina mais célere dos negócios, a tutela da boa-fé e a simplificação da movimentação de valores, tendo em vista a realização de negócios em massa. Os títulos de crédito são instrumentos extremamente eficazes para circulação de riquezas. Para poder estudar esses títulos, é fundamental analisar o crédito, um dos pilares da própria atividade empresarial. TÍTULOS DE CRÉDITO O crédito representa, em uma ideia geral, a confiança no cumprimento das obrigações, o que facilita extremamente as transações comerciais, que nem sempre representam trocas imediatas de valores. Sem o crédito, a atividade empresarial não teria chegado ao nível atual de desenvolvimento. Foi ele que permitiu a expansão e o desenvolvimento das principais atividades econômicas existentes no mundo moderno. Sem o crédito, o número de mercadorias produzidas seria bem menor e a produção ocorreria de modo mais lento, na medida em que o produtor só teria acesso às matérias primas se já possuísse, em mãos, o dinheiro necessário para sua aquisição. Do mesmo modo, os consumidores não conseguiriam adquirir tantos bens sem que houvesse a concessão de certo crédito por parte dos vendedores. A mesma ideia se aplica na prestação de serviços e nas demais atividades econômicas. TÍTULOS DE CRÉDITO A palavra crédito deriva do latim creditum, que por sua vez advém de credere, que significa confiar, ter fé, crer, confiar, emprestar. O crédito representa a confiança que alguém faz nascer em outrem. Daí, dizer-se que determinada pessoa tem crédito, no sentido de que esta pessoa desperta a confiança. Crédito em sentido moral: é um ato de fé e de confiança do credor. Crédito em sentido econômico: Troca de valores no tempo. Troca de um bem atual por um bem futuro. A entrega de coisa sua para que, no futuro, receba coisa equivalente. É a permissão de usar capital alheio (Stuart Mill). Crédito confere poder de compra a quem não dispõe de recursos para realizá-lo (Werner Sombart). Crédito é a troca de uma prestação atual por prestação futura. TÍTULOS DE CRÉDITO Não podemos negar também a ideia jurídica do crédito, na qual ele representa o direito a uma prestação do devedor. Nas relações obrigacionais em geral, pelo menos um dos envolvidos tem direito a uma prestação e esse seu direito é entendido como um direito de crédito. Assim, no contrato de compra e venda, o vendedor que entregou a mercadoria tem um crédito, consistente no direito de receber o preço estipulado. Portanto, juridicamente, quando se fala do crédito, se fala de um direito do credor de uma relação obrigacional. TÍTULOS DE CRÉDITO O crédito, portanto, é a transação entre duas partes, na qual uma delas (o credor) entrega a outra (o devedor) determinada quantidade de dinheiro, bens ou serviços, em troca de uma promessa de pagamento. OPERAÇÃO CREDITÓRIA: Troca de um valor presente por um valor futuro. (Confiança + Tempo). O tempo é o prazo, intervalo, período entre a prestação presente e atual e a prestação futura. Assim, por exemplo, nas chamadas vendas a prazo há uma relação de crédito, uma operação creditória, quando uma pessoa entrega uma mercadoria a outra (prestação atual) e espera receber o valor de tal mercadoria em um tempo determinado (prestação futura). TÍTULOS DE CRÉDITO A partir do que já estudamos, então encontramos dois elementos primordiais no crédito: a confiança e o tempo. Na relação jurídica de crédito, haverá sempre uma troca no tempo, isto é, uma pessoa entrega um bem atual em troca de um bem futuro (uma prestação futura). Essa troca no tempo só se realizará se houver uma relação de confiança. Quanto maior o volume de crédito, maior o crescimento da economia. Esse indicador é fundamental para demonstrar o desenvolvimento da economia de um país. TÍTULOS DE CRÉDITO Certeza, segurança e facilidade Sem esses atributos, o crédito não seria capaz de provocar as transformações que gerou na economia. Se não fosse certo, não haveria a concessão de tanto crédito. Do mesmo modo, se não houvesse segurança para o recebimento, também não haveria tantas operações de crédito. Por fim, a facilidade de circulação se impõe para agilizar as negociações e permitir a fruição mais pronta e célere dos recursos. TÍTULOS DE CRÉDITO CLASSIFICAÇÃO DO CRÉDITO Para fins didáticos, podemos reunir o crédito em grupos, classificando-o de acordo com vários critérios. Tendo em vista a necessidade de segurança no exercício dos direitos de crédito, é comum que se reforce o crédito com alguma garantia, isto é, há um reforço que facilita o recebimento do crédito, tornando-o menos arriscado. A garantia é apenas um reforço, não substituindo a obrigação original que, normalmente, continua a existir. TÍTULOS DE CRÉDITO Classificação em função da garantia assegurada ao credor, temos: Crédito real: a garantia assenta em determinado bem móvel (ex. penhor) ou imóvel (ex. hipoteca) do devedor ou de terceiro, que fica vinculado ao cumprimento da obrigação. Não havendo o cumprimento da obrigação, o credor poderá receber o produto da venda do bem dado em garantia. Crédito pessoal: a garantia estabelece-se em todo o patrimônio da pessoa e não em um bem determinado; é a chamada garantia fidejussória (ex. aval e fiança). Nesses casos, além do devedor original, soma-se um garantidor, que amplia as chances de recebimento do crédito. TÍTULOS DE CRÉDITO Classificação em função da utilização do crédito, temos: Créditos de consumo: os valores recebidos são aplicados na satisfação das necessidades pessoais do beneficiário do crédito, como, por exemplo, para aquisição de bens de consumo (carros, eletrodomésticos, etc.) Crédito de produção: os valores recebidos são utilizados na produção de certos bens ou no desenvolvimento de certa atividade econômica, isto é, são utilizados na geração de novas riquezas, como, por exemplo, o crédito rural ou o crédito industrial. TÍTULOS DE CRÉDITO O crédito envolve necessariamente um prazo entre as prestações. Em razão disso, é possível classificar o crédito quanto ao prazo, para o cumprimento das obrigações, em crédito de curto prazo (inferior a um ano), de médio prazo (entre um e três anos) e de longo prazo (acima de três anos). Esses transcursos de tempo não são claramente definidos; parte-se de uma noção prática mais geral para essa definição. TÍTULOS DE CRÉDITO Além da variabilidade do prazo, também se mostra como critério de classificação o sujeito que recebe o crédito, isto é, o devedor. Assim, fala-se em crédito público quando o Poder Público é o beneficiário do crédito e se torna devedor. Este crédito tem um tipo de risco próprio, por vezes chamado de risco governo. De outro lado, temos os créditos privados, quando particulares assumem a condição de devedores, nas mais variadas situações. Os últimos podem se subdividir em créditos individuais, comerciais, industriais, agrícolas ou marítimos, de acordo com a sua destinação. TÍTULOS DE CRÉDITO Qualquer que seja o devedor, ele pode obter o crédito dentro do territórionacional ou fora do território nacional, podendo-se falar em crédito interno para o primeiro e crédito externo para o segundo. Tal distinção pode ser importante para a definição de regras e condições de obtenção do crédito. TÍTULOS DE CRÉDITO Por fim, podemos classificar o crédito quanto ao seu instrumento, isto é, quanto à sua forma de representação. Em geral, o crédito é representado juridicamente por um instrumento que pode ser um contrato e/ou um título de crédito, sendo que este último é mais utilizado nas operações em que se pretende fazer o crédito circular. Numa compra e venda a prazo, o crédito do vendedor normalmente é representado em um contrato escrito, nada impedindo que seja inclusive um contrato verbal. Esse contrato é que instrumentaliza o crédito. Todavia, na mesma situação, além do contrato, pode-se representar o crédito em um título de crédito, como uma nota promissória ou um cheque. Neste caso, o título de crédito também instrumentaliza o crédito. TÍTULOS DE CRÉDITO Modernamente, o direito empresarial encontra sua justificação não na tutela do comerciante, mas na tutela do crédito e da circulação de bens ou serviços, vale dizer, o fim último do direito empresarial é permitir o bom desenvolvimento das relações de crédito e das atividades econômicas. Dentro dessa concepção, a disciplina dos títulos de crédito ganha importância, na medida em que eles são os principais instrumentos de circulação de riquezas no mundo moderno. Assim, os títulos de crédito talvez representem a principal contribuição do direito comercial para a economia moderna. TÍTULOS DE CRÉDITO CONCEITO DE TÍTULO DE CRÉDITO O conceito mais clássico é o de Cesare Vivante, pelo qual o “título de crédito é o documento necessário para o exercício do direito, literal e autônomo, nele mencionado”. Tal conceito é praticamente reproduzido pelo artigo 887 do Código Civil, nos seguintes termos: Art. 887. O título de crédito, documento necessário ao exercício do direito literal e autônomo nele contido, somente produz efeito quando preencha os requisitos da lei. TÍTULOS DE CRÉDITO CONCEITO DE TÍTULO DE CRÉDITO Neste conceito de Cesare Vivante, pelo qual o “título de crédito é o documento necessário para o exercício do direito, literal e autônomo, nele mencionado” - estão presentes os três elementos essenciais de um título de crédito (a autonomia das obrigações, a literalidade e a cartularidade ou incorporação), que devem ser preenchidos para que um documento seja considerado um título de crédito. Vamos estudar adiante cada um desses elementos: 1. Literalidade 2. Cartularidade (documento) 3. Autonomia TÍTULOS DE CRÉDITO CARTULARIDADE: No conceito de Vivante, diz-se que “título de crédito é o documento necessário para o exercício do direito, literal e autônomo, nele mencionado”. Diz-se que o documento é necessário, porque enquanto existe o documento, o credor deve exibi-lo para exercitar todo direito, seja principal, seja acessório, que o título porta consigo e não se pode fazer qualquer mudança na posse do título, sem anotá-la (mudança) nele. Assim sendo, fica claro que o documento é imprescindível para o exercício do direito, o que traduz a ideia essencial do princípio da cartularidade ou incorporação. TÍTULOS DE CRÉDITO A expressão cartularidade advém do latim chartula (papel pequeno, pedaço de papel, escrito de pouca extensão), que remonta à ideia de papel, no sentido de que a apresentação do documento seria essencial para o exercício do direito. Assim, a cartularidade significa que o título é o sinal imprescindível do direito, isto é, a posse do título é a condição mínima para o exercício do direito nele mencionado, só quem possui o documento pode exigir o cumprimento do direito documentado. O documento é, pois, fundamental (necessário) para o exercício dos direitos nele mencionados. TÍTULOS DE CRÉDITO A necessidade do documento deve entender-se no sentido de que uma vez unido o direito ao título, não é possível exercer o direito sem estar de posse do título. O credor do direito precisa provar que está na posse legítima do título para exercer o direito, com base no próprio documento. Sem o documento, o titular não pode exigir o direito constante do mesmo. Do mesmo modo, para se ter a prova do pagamento do título, é necessária a entrega do próprio título, afastando a regra do artigo 309 do Código Civil, que admite a validade do pagamento feito ao credor putativo (suposto, ilegítimo, que acreditava ser o credor). Art. 309. O pagamento feito de boa-fé ao credor putativo é válido, ainda provado depois que não era credor. TÍTULOS DE CRÉDITO A ligação entre título e documento é extremamente forte, de modo que quem é proprietário ou possuidor legítimo do título do documento também é titular do direito cartular nele incorporado. Tal princípio encontra inúmeras aplicações, dentre elas, a exigência de apresentação do original para instruir ação executiva. A apresentação de cópia autenticada não garante que o apresentante seja o efetivo possuidor do título, ou seja, não garante que o mesmo tenha o direito de exigir o crédito consubstanciado no mesmo. A juntada do original do documento representativo de crédito líquido, certo e exigível, consubstanciado em título de crédito com força executiva, é a regra, sendo requisito indispensável não só para a execução propriamente dita, mas também para todas as demandas nas quais a pretensão esteja amparada na referida cártula. TÍTULOS DE CRÉDITO Atenção: Todavia, tal aplicação da cartularidade vem sendo mitigada, admitindo-se, em determinadas hipóteses, a não apresentação do título original. Por questões de segurança (valor elevado ou risco de perda), ou mesmo por questões de impossibilidade fática de juntada do original (quando este está em outro processo), se admite a apresentação apenas de cópia autenticada do título, com a assunção da obrigação de apresentar o original quando for pedido, ou com a certidão de que o original está em outro processo. Também vem se admitindo o prosseguimento do processo se o original se perdeu no curso do processo e não houve impugnação sobre a legitimidade do documento. TÍTULOS DE CRÉDITO A DESMATERIALIZAÇÃO DOS TÍTULOS DE CRÉDITO Quando se fala na cartularidade ou incorporação, normalmente se ilustra com a ideia da necessidade da apresentação do papel (da cártula) para o exercício do direito. Assim, deve-se apresentar a folha de cheque para que o banco o pague, ou deve-se apresentar a nota promissória ao cartório para realizar o protesto. Todavia, modernamente já não se usa mais tanto o papel. A evolução tecnológica vem aos poucos diminuindo o uso do papel. Essa evolução também chega aos títulos de crédito, sendo extremamente comum falar em títulos de crédito eletrônicos, isto é, títulos não materializados no papel. TÍTULOS DE CRÉDITO O próprio Código Civil (art. 889, § 3º) admite a criação do chamado título eletrônico criado a partir de caracteres gerados em computador, desde que contenha a data da emissão, a indicação precisa dos direitos que confere e a assinatura do emitente. Art. 889. Deve o título de crédito conter a data da emissão, a indicação precisa dos direitos que confere, e a assinatura do emitente. § 1o É à vista o título de crédito que não contenha indicação de vencimento. § 2o Considera-se lugar de emissão e de pagamento, quando não indicado no título, o domicílio do emitente. § 3o O título poderá ser emitido a partir dos caracteres criados em computador ou meio técnico equivalente e que constem da escrituração do emitente, observados os requisitos mínimos previstos neste artigo. TÍTULOS DE CRÉDITO Negar a existência dos títulos eletrônicos é negar a própria evolução do Direito. Em nosso direito já temos títulos eletrônicos, como por exemplo os títulos do agronegócio disciplinados pela Lei nº 11.076/2004. Diante dessa realidade, restam duas opções: ou o princípio da cartularidade nãomais se aplica aos títulos de crédito, ou continua valendo, adequando-se à realidade econômica moderna. Para a melhor doutrina, como Marlon Tomazete (livro adotado nesta disciplina) o princípio continua valendo também para os títulos eletrônicos. TÍTULOS DE CRÉDITO Os títulos eletrônicos podem ser entendidos como “toda e qualquer manifestação de vontade, traduzida por um determinado programa de computador, representativo de um fato, necessário para o exercício do direito literal e autônomo nele mencionado”. Diante desse conceito, ainda se vê “algo” necessário para o exercício do direito. Contudo, esse “algo” não é mais um papel, mas uma manifestação de vontade traduzida por um programa de computador. A nosso ver, esta manifestação ainda é um documento e ainda será um título de crédito obediente ao princípio da cartularidade ou incorporação. TÍTULOS DE CRÉDITO O documento é meio real de representação de um fato ou toda representação material destinada a reproduzir determinada manifestação do pensamento, ou ainda a coisa representativa de um fato e destinada a fixá-lo de modo permanente e idôneo. Em suma, o documento é uma coisa que representa um fato. Diante dessas noções, fica claro que não existem maiores diferenças entre os documentos tradicionais e os documentos eletrônicos. Além disso, a MP 2.200-2/2001 (24/08/2001), que continua válida em virtude da EMC 32, de 11/09/2001 (Art. 2º: As medidas provisórias editadas em data anterior à da publicação desta emenda continuam em vigor até que medida provisória ulterior as revogue explicitamente ou até deliberação definitiva do Congresso Nacional) – eliminou as dúvidas sobre a validade de documentos eletrônicos. TÍTULOS DE CRÉDITO MP 2.200-2/2001 Art. 10. Consideram-se documentos públicos ou particulares, para todos os fins legais, os documentos eletrônicos de que trata esta Medida Provisória. § 1º As declarações constantes dos documentos em forma eletrônica produzidos com a utilização de processo de certificação disponibilizado pela ICP-Brasil presumem-se verdadeiros em relação aos signatários, na forma do art. 131 da Lei no 3.071, de 1o de janeiro de 1916 - Código Civil. § 2º O disposto nesta Medida Provisória não obsta a utilização de outro meio de comprovação da autoria e integridade de documentos em forma eletrônica, inclusive os que utilizem certificados não emitidos pela ICP- Brasil, desde que admitido pelas partes como válido ou aceito pela pessoa a quem for oposto o documento. TÍTULOS DE CRÉDITO Logo, também não há maiores diferenças entre os títulos de crédito cartulares e os títulos de crédito eletrônicos, devendo ser mantido o princípio da cartularidade, cuja aplicação mudará apenas na matéria representativa do direito, que poderá ser o papel ou o meio eletrônico. Em função de tal mudança na matéria, também mudará a forma da assinatura que passará a ser eletrônica, por meio dos sistemas de criptografia. Como descrito na MP 2.200-2/2001, amplamente utilizado no processo judicial eletrônico, etc. Logo, títulos de crédito eletrônicos, são válidos, desde que obedeçam as regras de segurança e validade dos documentos eletrônicos descritos pela legislação de regência, conforme mencionado. TÍTULOS DE CRÉDITO LITERALIDADE: O conceito de Vivante diz que o direito mencionado no título de crédito é literal, no sentido de que ele tem seu conteúdo e seus limites determinados nos precisos termos do título, vale dizer, “ele existe segundo o teor do documento.” O teor literal do título é relevante para definir a existência, o conteúdo e a modalidade do direito. Na face do papel estão inscritos, nos limites disciplinados pela lei, todos os elementos indispensáveis à compreensão jurídica do problema. Em síntese, a literalidade dá a certeza quanto à natureza, ao conteúdo e a modalidade da prestação prometida ou ordenada. O que não se encontra expressamente consignado no teor do título de crédito não produz efeitos nas relações jurídico-cambiais. Cambial: Câmbio, troca, qualquer título de crédito que representa uma promessa ou ordem de pagamento em dinheiro, como letra de câmbio, cheque, duplicata, nota promissória, etc. TÍTULOS DE CRÉDITO Ex: Um aval (assinatura lançada em título de crédito, pela qual o assinante se compromete a garantir as obrigações de outra pessoa que figure no documento) concedido em instrumento apartado da nota promissória, por exemplo, não produzirá os efeitos de aval, podendo, no máximo, gerar efeitos na órbita do direito civil, como fiança. A quitação pelo pagamento de obrigação representada por título de crédito deve constar do próprio título, sob pena de não liberar o devedor da obrigação. Assim, pela literalidade, o título de crédito obedece rigorosamente o que nele está escrito. TÍTULOS DE CRÉDITO Dada a ampla possibilidade de circulação, meros ajustes verbais não podem influir no exercício do direito ali mencionado, pois quem recebe o título deve saber pelo teor do próprio que direito está recebendo. É o teor literal do documento que irá definir os limites para o exercício dos direitos nele mencionados. Em termos mais simples, vale o que está escrito no título. O terceiro tem que “depositar confiança naquilo que o título diz”. TÍTULOS DE CRÉDITO Não se pode exigir mais do que está escrito no título. Se o título prevê expressamente um valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais), mas foi combinado verbalmente um valor de R$ 15.000,00 (quinze mil reais), só poderá ser exigido o valor literal. Do mesmo modo, se o título tem um vencimento certo, mas foi combinado verbalmente que ele só seria cobrado após o término de determinado serviço, tal ajuste verbal não impede a exigência do título a partir do vencimento. Em qualquer caso, contudo, poderá ser exigida a correção monetária a partir do vencimento, uma vez que ela representa apenas a recomposição do valor da moeda corroída pela inflação. Ela não representa um valor novo, mas apenas um ajuste no valor que já é devido. Inadmitir a correção seria permitir o enriquecimento sem causa do devedor. Juros? São devidos por lei. TÍTULOS DE CRÉDITO Também não se pode exigir de alguém o cumprimento de uma obrigação que não tenha sido assumida no próprio título. O avalista em documento apartado, como vimos há pouco, não é devedor do título. Do mesmo modo, o devedor que verbalmente assumiu a obrigação, mas não a firmou no título, não poderá ser demandado. De outro lado, não se pode imputar ao credor as consequências de um ato que não esteja escrito no próprio título. Assim, atos documentados em instrumentos apartados, ainda que válidos, não podem ser opostos ao portador de boa-fé do título. Exemplificativamente, a quitação dada em documento apartado não pode ser oposta ao possuidor de boa-fé que tenha adquirido o título por meio de circulação. A prova testemunhal não é apta a afastar a exigência de que a quitação conste do próprio título. TÍTULOS DE CRÉDITO Vê-se, portanto, que a literalidade opera tanto contra como a favor do subscritor, na medida em que esse não pode opor exceções constantes de documentos extracartulares, a não ser que o portador tenha sido parte na relação. E, de outro lado, o portador não pode exigir mais do que consta literalmente do título. Atenção: A literalidade não se aplica integralmente à duplicata. Vamos estudar em aulas futuras. Na duplicata, são admitidas a quitação em separado (Lei nº 5.474/68 – art. 9º), a compensação de valores não previstos no título (Lei nº 5.474/68 – art. 10) e a assunção de obrigação fora do título, como o chamado aceite presumido. TÍTULOS DE CRÉDITO Literalidade indireta A interpretação extremada do princípio da literalidade geraria algumas iniquidades, como, por exemplo, o não pagamento de juros de mora, em caso de atraso. Todavia, obviamente isso não ocorre. Os juros de mora são exigíveis mesmo que não previstos no título, uma vez que decorrem da lei. Além disso, outros encargos não expressamente previstosno título também são exigíveis, se o devedor tinha como conhecê-los, dada a boa-fé que deve reger essas relações. Assim, é possível falar-se também no que convencionou-se chamar-se de “literalidade indireta”, sem perder a segurança, podendo tal literalidade decorrer de uma remissão do título ou do próprio regime jurídico a que ele se sujeita. TÍTULOS DE CRÉDITO Literalidade indireta Quando determinados valores decorrem da lei (juros de mora), poderão ser exigidos, mesmo que não expressamente previstos no título. Da mesma forma, encargos decorrentes de uma remissão que o título faz a outro documento também poderão ser exigidos. Em ambos os casos, o devedor tem como conhecer os exatos limites do que pode ser exigido, seja em razão da lei, seja em razão da referência a outro documento. Quando previstos na lei, tendo em vista que a ninguém é dado alegar o desconhecimento da lei, o devedor não pode se escusar de cumprir a obrigação legal. Assim, os juros de mora podem ser exigidos, uma vez que a legislação de regência expressamente garante o direito à cobrança desses juros. TÍTULOS DE CRÉDITO Do mesmo modo, quando o título fizer menção a outro documento, como um contrato, por exemplo. Nessa situação, o devedor tem ciência de que aquela obrigação também tem seus limites definidos em outro documento, não podendo invocar o desconhecimento desse outro documento. Conforme diz Ascarelli, “as cláusulas destinadas a regular o direito vêm também sempre mencionadas no título, seja também através de uma referência”. A jurisprudência do STJ inicialmente não admitia a cobrança de encargos não expressamente previstos no título, ainda que decorrentes do contrato subjacente. Todavia, tal orientação foi superada, uma vez que não haveria sentido em não impor ao devedor uma obrigação que ele conhece e já assumiu nos termos do contrato. TÍTULOS DE CRÉDITO Por isso, o STJ já decidiu que: Estando a “nota promissória vinculada a contrato de empréstimo pessoal e fazendo-se acompanhar deste último, a taxa de juros é aquela estabelecida na avença”. TÍTULOS DE CRÉDITO AUTONOMIA: Do título de crédito podem decorrer vários direitos, podem surgir várias relações jurídicas, vale dizer, podemos ter vários devedores e também vários credores sucessivos. Cada um desses credores ou devedores do título possui uma obrigação autônoma, no sentido de que seu crédito ou seu débito não é afetado por questões que digam respeito a outras pessoas. Cada obrigação resultante do título é autônoma em relação as demais. Qualquer pessoa de boa-fé, que adquira a condição de credora do título de crédito, adquire um direito novo como se fosse um credor originário, não ocupando a posição do antigo credor. Tal princípio é uma garantia de negociabilidade do título, na medida em que a pessoa que o adquire não precisa saber se o credor anterior teria ou não direito de receber o valor do título. TÍTULOS DE CRÉDITO O possuidor de boa-fé exercita um direito próprio que não pode ser restringido ou destruído pelas relações ocorridas entre os possuidores precedentes e o devedor. Cód. Civil - Art. 915. O devedor, além das exceções fundadas nas relações pessoais que tiver com o portador, só poderá opor a este as exceções relativas à forma do título e ao seu conteúdo literal, à falsidade da própria assinatura, a defeito de capacidade ou de representação no momento da subscrição, e à falta de requisito necessário ao exercício da ação. Art. 916. As exceções, fundadas em relação do devedor com os portadores precedentes, somente poderão ser por ele opostas ao portador, se este, ao adquirir o título, tiver agido de má-fé. TÍTULOS DE CRÉDITO Ex: Assim, em uma nota promissória, seu credor não poderia receber o crédito, por questões pessoais (compensação com o devedor, transação, etc.). Todavia, este mesmo credor transferiu seu crédito a terceiro, o qual, por sua vez, recebe um direito autônomo, ou seja, não influenciado por questões que digam respeito ao credor anterior. Assim sendo, a compensação com o credor originário ou mesmo a transação firmada não têm o condão de diminuir ou afastar o direito do novo credor. TÍTULOS DE CRÉDITO Além disso, se determinada pessoa adquiriu a posse de título de maneira ilegítima, por exemplo, furtando o documento, ela não poderia receber o valor do título. Todavia, se ela transfere o título a um terceiro de boa-fé, este terceiro terá direito de receber o valor, uma vez que recebe um direito autônomo, como se credor originário fosse. Trata-se da inoponibilidade (não oposição) das exceções pessoais aos terceiros de boa-fé. TÍTULOS DE CRÉDITO Exemplo: “Casa Grande” assina um título comprometendo-se a pagar a “Galvão Bueno” determinada quantia em uma data marcada. “Casa Grande” é o devedor e “Galvão Bueno” o credor. “Galvão Bueno” efetua uma compra a prazo e dá à “Arnaldo César Coelho” o título como pagamento. Por sua vez, “Arnaldo César Coelho” faz o mesmo, isto é, repassa o título a outra pessoa. A situação fica assim configurada: “Casa Grande” - passa a ser o devedor principal, “Galvão Bueno” e “Arnaldo César Coelho” – coobrigados. COOBRIGADOS: Cada qual é responsável pela obrigação que assumiu. Pelo princípio da solidariedade, qualquer coobrigado pode ser solicitado a saldar a dívida. TÍTULOS DE CRÉDITO Vejam como a AUTONOMIA é importante. Imagine agora a seguinte situação: GALVÃO BUENO emitiu uma nota promissória (que recebeu o aval de ARNALDO CÉSAR COELHO) para CASA GRANDE que a endossou para RONALDO. Considerando que houve três assinaturas (emissão, endosso e aval), sem qualquer menção em contrário, temos três devedores solidários desse título. Aval: assinatura lançada em título de crédito, pela qual o assinante se compromete a garantir as obrigações de outra pessoa que figure no documento. Endosso: declaração, em regra escrita no dorso de um título de crédito ou papel comercial, que transmite a outrem a sua propriedade. TÍTULOS DE CRÉDITO Se GALVÃO BUENO for absolutamente incapaz e não for representado, sua obrigação é nula (CC – art. 166, I). Embora seja sua assinatura que crie o título, isto não invalida o título em si, nem invalida as demais obrigações. ARNALDO e CASA GRANDE continuarão sendo devedores do título de crédito. Do mesmo modo, se a assinatura de GALVÃO for falsa, todas as outras obrigações se mantêm, dado o princípio da autonomia das obrigações. GALVÃO BUENO (emite NP) CASA GRANDE (credor) RONALDO (Credor, que recebeu a NP por endosso de CASA GRANDE) ARNALDO CÉSAR COELHO (aval) TÍTULOS DE CRÉDITO Naquele exemplo, aplicamos a LUG (Lei Uniforme de Genebra) – art. 7º - O Brasil é signatário desta convenção internacional para letras de câmbio e notas promissórias (Decreto nº 57.663/1966) Art. 7º - Se a letra contém assinaturas de pessoas incapazes de se obrigarem por letras, assinaturas falsas, assinaturas de pessoas fictícias, ou assinaturas que por qualquer outra razão não poderiam obrigar as pessoas que assinaram a letra, ou em nome das quais ela foi assinada, as obrigações dos outros signatários nem por isso deixam de ser válidas. TÍTULOS DE CRÉDITO No estudo dos princípios fundamentais dos Títulos de Crédito, com base no conceito de Cesare Vivante, portanto, estudamos até aqui: 1. Cartularidade 2. Literalidade 3. Autonomia Mas há também mais 2 princípios importantes que precisamos estudar, são eles: 4. Abstração 5. Independência TÍTULOS DE CRÉDITO ABSTRAÇÃO: Pelo princípio da abstração, o título de crédito se desvincula do negócio jurídico que lhe deu origem, isto é, questões relativas a esse negócio jurídico subjacente não têm o condão de afetar o cumprimento da obrigação do título de crédito. Não importa a origem do título, ele existe abstratamente, completamente desvinculado da relação inicial. Não se leva em conta a não ser o título, sendo irrelevante o que impôs sua emissão. A abstração ocorre quando o título de crédito circula (é transmitidode uma pessoa à outra), pois nesse caso ele se desvincula do negócio jurídico que lhe deu origem (dito negócio subjacente). Por isso, como regra, deverá ser pago mesmo que haja problemas entre as partes originárias do negócio. TÍTULOS DE CRÉDITO Em última análise, trata-se de uma garantia da circulação do título, na medida em que o adquirente do título não precisa conferir o que ocorreu nesse negócio jurídico. Quem recebe o título de crédito, recebe um direito abstrato, isto é, um direito não dependente do negócio que deu origem ao título. Tomando aquele nosso exemplo para explicar: GALVÃO BUENO possui uma dívida de jogo com CASA GRANDE, a qual foi representada em uma nota promissória. CASA GRANDE endossou esta nota promissória para RONALDO. Este recebeu um direito abstrato, no sentido de que a inexigibilidade do negócio jurídico subjacente (implícito) não atinge a nota promissória. RONALDO terá direito de receber o valor do título, independentemente do negócio que lhe deu origem. TÍTULOS DE CRÉDITO Do Jogo e da Aposta Art. 814. As dívidas de jogo ou de aposta não obrigam a pagamento; mas não se pode recobrar a quantia, que voluntariamente se pagou, salvo se foi ganha por dolo, ou se o perdente é menor ou interdito. § 1o Estende-se esta disposição a qualquer contrato que encubra ou envolva reconhecimento, novação ou fiança de dívida de jogo; mas a nulidade resultante não pode ser oposta ao terceiro de boa-fé. § 2o O preceito contido neste artigo tem aplicação, ainda que se trate de jogo não proibido, só se excetuando os jogos e apostas legalmente permitidos. § 3o Excetuam-se, igualmente, os prêmios oferecidos ou prometidos para o vencedor em competição de natureza esportiva, intelectual ou artística, desde que os interessados se submetam às prescrições legais e regulamentares. Art. 815. Não se pode exigir reembolso do que se emprestou para jogo ou aposta, no ato de apostar ou jogar. TÍTULOS DE CRÉDITO A dívida de jogo contraída em casa de bingo é inexigível, ainda que seu funcionamento tenha sido autorizado pelo Poder Judiciário. De acordo com o art. 814, §2º, do CC, não basta que o jogo seja lícito (não proibido), para que as obrigações dele decorrentes venham a ser exigíveis, é necessário, também, que seja legalmente permitido. Nesse contexto, é importante enfatizar que existe posicionamento doutrinário, no sentido de que os jogos classificam-se em autorizados, proibidos ou tolerados. Os primeiros, como as loterias (Decreto-Lei 204/1967) ou o turfe (Lei 7.294/1984), são lícitos e geram efeitos jurídicos normais, erigindo-se em obrigações perfeitas (art. 814, § 2º, do CC). Os jogos ou apostas proibidos são, por exemplo, as loterias não autorizadas, como o jogo do bicho, ou os jogos de azar referidos pelo art. 50 da Lei das Contravenções Penais. Os jogos tolerados, por sua vez, são aqueles de menor reprovabilidade, em que o evento não depende exclusivamente do azar, mas igualmente da habilidade do participante, como alguns jogos de cartas. Inclusive, como uma diversão sem maior proveito, a legislação não os proíbe, mas também não lhes empresta a natureza de obrigação perfeita. No caso, por causa da existência de liminares concedidas pelo Poder Judiciário, sustenta-se a licitude de jogo praticado em caso de bingo. Porém, mais do que uma aparência de licitude, o legislador exige autorização legal para que a dívida de jogo obrigue o pagamento, até porque, como se sabe, decisões liminares têm caráter precário. Assim, não se tratando de jogo expressamente autorizado por lei, as obrigações dele decorrentes carecem de exigibilidade, sendo meras obrigações naturais. REsp 1.406.487-SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 4/8/2015, DJe 13/8/2015. TÍTULOS DE CRÉDITO Contudo, deve haver uma compatibilização entre o princípio da abstração e o princípio da boa-fé. O princípio da abstração não pode permitir iniquidades, protegendo credores de má-fé. Se o credor está de boa-fé, ele não deve realmente ser afetado por defesas causais, isto é, por defesas ligadas ao negócio jurídico. De outro lado, se o credor está de má-fé, não há motivo para protegê-lo e, por isso, ele poderá ser afetado pelo negócio jurídico que deu origem ao título. TÍTULOS DE CRÉDITO Assim sendo, a abstração não poderá ser invocada pelo credor sempre, isto é, o credor ainda ficará sujeito às exceções causais, baseadas no negócio subjacente, quando ele não estiver de boa-fé. Essa ausência de boa-fé se apresenta em três situações: a) quando o credor participou do negócio; b) quando o credor tem conhecimento dos vícios do negócio; c) quando o credor deveria ter conhecimento dos vícios do negócio. TÍTULOS DE CRÉDITO Concluímos, portanto, que o portador do título não pode ser atingido por defesas relativas a negócio do qual ele não participou. O título chega a ele completamente livre dos vícios que eventualmente adquiriu em relações pretéritas. A inoponibilidade das exceções pessoais ao terceiro de boa-fé está assegurada pelo art. 17 da LUG (Lei Uniforme de Genebra/Decreto nº 57.663/1966). No mesmo sentido, dispõe o art. 916 do Código Civil: Art. 916. As exceções, fundadas em relação do devedor com os portadores precedentes, somente poderão ser por ele opostas ao portador, se este, ao adquirir o título, tiver agido de má-fé. TÍTULOS DE CRÉDITO Então, muito cuidado, pois, se GALVÃO comprou cadeiras de ARNALDO e as pagou com cheques. E o ARNALDO não entregou as cadeiras, mas endossou os cheques para CASA GRANDE. Este, CASA GRANDE, estando de boa-fé, por sua vez, terá direito de exigir de GALVÃO o pagamento do cheque. A eventual alegação de que o contrato não foi cumprido não é motivo para impedir o credor de receber esse valor, uma vez que o título circulou e se desvinculou da sua causa. Por isso, GALVÃO deveria fazer constar nos títulos, por exemplo, no caso do cheque, no verso, a vinculação a um contrato de compra das cadeiras para que não seja aplicado o princípio da abstração contra ele, em virtude do surgimento posterior de credor de boa-fé, de posse do título que circulou. Ou então, menção expressa no contrato e NF dos números de cheques emitidos para o pagamento das cadeiras. TÍTULOS DE CRÉDITO Nesse sentido: O cheque é título literal e abstrato. Exceções pessoais, ligadas ao negócio subjacente, somente podem ser opostas a quem tenha participado do negócio. Endossado o cheque a terceiro de boa-fé, questões ligadas à causa debendi originária não podem ser manifestadas contra o terceiro legítimo portador do título. Lei 7357/85 (Lei do Cheque), artigos 13 e 25. Recurso especial conhecido e provido para o restabelecimento da sentença de improcedência dos embargos.” (STJ, Resp 2814-MT, JBCC 182/80; RSTJ 13/379 e RT 661/188). v. TJSP Apelação nº 1004177-24.2017.8.26.0477 TÍTULOS DE CRÉDITO Na verdade, ao emitir cheque para fazer pagamento, é cediço e de prática rotineira que o emitente submete-se, por força de lei, ao regime cambial, pelo qual manifesta a vontade de se obrigar por título, cuja circulação e cobrança obedecem a regras próprias do direito cambiário. TÍTULOS DE CRÉDITO Além das hipóteses estudadas de inaplicabilidade do princípio da abstração, é oportuno ressaltar que ele não é um princípio essencial, isto é, ele não se aplica a todos os títulos de crédito. A princípio, a abstração não se aplica aos chamados títulos causais, nos quais há referência na declaração cartular à relação fundamental, que pode ser oposta inclusive a terceiros que não são partes da relação fundamental, em razão da possibilidade de ciência dos vícios atinentes ao negócio. * Vamos ver exemplos logo adiante, como as cédulas de crédito rural. TÍTULOS DE CRÉDITO INDEPENDÊNCIA: Por fim, tem-se como princípio dos títulos de crédito a independência, que significa que o título vale por si só, não precisando ser completado por outros documentos. O título de crédito basta a si mesmo. Há uma ligação direta deste princípio com a literalidade,uma vez que o conteúdo do direito é definido pelo título, este deve bastar a si mesmo. Assim, num eventual processo de execução de um cheque, o título é suficiente, não precisando, em regra, ser acompanhado de outros documentos, como contratos, notas fiscais etc. TÍTULOS DE CRÉDITO Mais uma vez, tal princípio (INDEPENDÊNCIA) serve para facilitar e simplificar a circulação do título de crédito. Ao transferir um crédito, não é necessária a transferência de qualquer outro documento, uma vez que o título basta por si só. Assim, simplifica-se e agiliza-se a circulação dos títulos de crédito. TÍTULOS DE CRÉDITO Não se trata de princípio admitido por toda a doutrina, por estar ausente de uma série de títulos. Alguns títulos fazem referência a contratos ou a outros documentos. De outro lado, a própria lei afasta a independência de alguns títulos, como nas cédulas de crédito rural que devem ser acompanhadas do orçamento (Decreto-lei nº 167/67 – art. 3º), ou nas cédulas de crédito bancário que devem ser acompanhadas pelos extratos bancários (Lei nº 10.931/04 – art. 28, § 2º, II). Portanto, a independência pode deixar de ser aplicada pela vontade das partes (remissão a contrato) ou pela lei (vinculação legal a algum documento). TÍTULOS DE CRÉDITO Muita atenção: Por fim, vale a pena ressaltar que este princípio não é o mesmo princípio da autonomia. Conforme já ressaltado, a independência diz respeito à ideia de completude do título, vale dizer, do título valer por si só. Já a autonomia é a não influência de uma obrigação sobre as outras obrigações do título, sendo, portanto, distintos os princípios. Para o princípio da autonomia, cada obrigação resultante do título é autônoma em relação as demais. TÍTULOS DE CRÉDITO Seguimos agora, com: - Funções do Título de Crédito - Títulos de crédito típicos e atípicos - Característica dos Títulos de Crédito - Formação do Crédito Cambiário - Exigibilidade do Crédito Cambiário TÍTULOS DE CRÉDITO Com vimos, há uma necessária ligação entre o título e o direito que ele representa. Além disso, são assegurados certos atributos ao direito ali representado que dão o caráter peculiar aos títulos de crédito e os tornam a grande contribuição do direito comercial para a economia moderna. TÍTULOS DE CRÉDITO Representando o próprio direito, os títulos de crédito permitem que a simples transferência do documento transfira o direito ali representado, assegurando à circulação dos direitos de crédito o máximo de simplicidade e segurança. Mesmo que não venham a circular, é certo que é constante em todos os títulos de crédito a vontade de criar um título circulatório. Assim, a função primordial dos títulos de crédito é a de facilitar e agilizar a circulação de riquezas, permitindo o melhor desempenho das atividades econômicas. Os títulos de crédito se destinam “a tornar mais simples, rápida e segura a movimentação de bens e direitos”. TÍTULOS DE CRÉDITO Há três exigências para essa circulação de riquezas na economia moderna: 1. A simplificação das formalidades 2. A certeza do direito que se adquire 3. A segurança na circulação Sem isso, a circulação dificilmente ocorreria, ou não ocorreria de forma tão eficaz. Pode-se transmitir os títulos de crédito a diversos adquirentes sucessivos com o mínimo de insegurança para cada adquirente. TÍTULOS DE CRÉDITO Os títulos de crédito possuem duas funções fundamentais, a saber: 1. Constituir um meio técnico para o exercício de direitos de crédito 2. Facilitar e agilizar a circulação de riquezas. Quem tem um título de crédito pode rapidamente transformá-lo em dinheiro. Igualmente, o credor que possui esse documento pode ter o reforço de uma garantia pessoal de forma bem simples e segura (o aval). TÍTULOS DE CRÉDITO Tais funções tornam os títulos de crédito fundamentais na vida moderna, nas mais diversas relações jurídicas (contratos de compra e venda entre empresários, prestação de serviços a consumidores, financiamentos bancários etc.). Em razão dessa diversidade de uso, não era suficiente um único tipo de documento e, por isso, desenvolveram-se vários tipos de títulos de crédito, como: a letra de câmbio, a nota promissória, o cheque, a duplicata, as cédulas de crédito, os conhecimentos de depósito, os warrants e outros. Portanto, pelas próprias necessidades jurídicas, há um grande número de títulos de crédito, criados e disciplinados por leis especiais. TÍTULOS DE CRÉDITO Apesar do grande número de títulos de crédito já existentes, é certo que o número de relações jurídicas que necessitam de títulos de crédito é crescente. Pode ser que nenhum dos títulos de crédito, conhecidos e regidos por lei específica, seja adequado a um determinado negócio jurídico. Diante dessas situações, surgiu a seguinte questão: os particulares podem criar novos tipos de títulos de crédito não previstos em lei? TÍTULOS DE CRÉDITO Títulos de crédito típicos e atípicos Waldirio Bulgarelli reconhece, como um dos atributos dos títulos de crédito, a chamada legalidade ou tipicidade, a qual consistiria “na impossibilidade estabelecida pela Lei, de se emitirem títulos de crédito que não estejam previamente definidos e disciplinados por lei (numerus clausus)”. Dentro dessa ideia, não seria dada aos particulares a criação de títulos de crédito, uma vez que haveria a necessidade de lei específica sobre cada título de crédito. TÍTULOS DE CRÉDITO Similar é a opinião de Fernando Netto Boiteux, que afirma que a literalidade só pode decorrer da lei e, por isso, não seria possível criar um título de crédito sem previsão legal específica. Assim, os particulares poderiam criar documentos de crédito, mas não títulos de crédito; logo, tais documentos não seriam passíveis dos institutos típicos dos títulos de crédito, como o endosso e o aval. No mesmo sentido, Gladston Mamede sustenta que a tipicidade dos títulos de crédito ainda existe, tendo em vista a necessidade de segurança de todos os envolvidos. Para ele, a emissão de um documento não previsto em lei, como título de crédito, deverá ser submetida ao regime geral dos contratos. TÍTULOS DE CRÉDITO Esse é o entendimento doutrinário tradicional. Ou seja, vigora o princípio da tipicidade, segundo o qual somente lei específica reveste-se de aptidão para criar e permitir a emissão de um título de crédito. Ao conceituar título de crédito, o art. 887, do Código Civil, assim o fez: Art. 887. O título de crédito, documento necessário ao exercício do direito literal e autônomo nele contido, somente produz efeito quando preencha os requisitos da lei. Ao determinar que o título de crédito "somente produz efeito quando preencha os requisitos da lei", o legislador impôs um duplo requisito para a eficácia do referido documento: TÍTULOS DE CRÉDITO Reserva legal Já que o título de crédito deve conter os requisitos formais que a lei lhe impõe, é conclusão lógica a necessidade de que ele tenha sido criado por lei. Assim, podemos afirmar que não há título de crédito sem lei anterior que o defina, de modo que não é possível atribuir a um documento qualquer, mesmo que utilize todos os requisitos básicos dos cambiários, a categorização de título de crédito. Os títulos de crédito são, então, aqueles que forem assim considerados por lei. TÍTULOS DE CRÉDITO Documento formal O título de crédito deve conter requisitos formais mínimos, aqueles exigidos por lei. Todo título de crédito, ao ser criado por lei, deverá estabelecer suas características. Aquelas que forem indispensáveis serão tidas como requisitos essenciais. As dispensáveis ou supríveis serão consideradas requisitos não essenciais. A lei que criar o título de crédito deverá, então, estabelecer quais são suas características básicas (requisitos), definindo as essenciais e as não essenciais. A lei não poderá criar título de crédito sem forma ou de forma livre. TÍTULOS DE CRÉDITO Assim, um documento só configura título de crédito se obedeceraos requisitos legais previstos. Apesar disso, dispõe o art. 888, do Código Civil: Art. 888. A omissão de qualquer requisito legal, que tire ao escrito a sua validade como título de crédito, não implica a invalidade do negócio jurídico que lhe deu origem. Desse modo, a ausência dos requisitos legais apenas subtrai do documento sua característica de título de crédito, sem prejuízo ao negócio jurídico que lhe deu origem. TÍTULOS DE CRÉDITO Há uma corrente doutrinária que admite títulos de crédito atípicos. Vamos estudá-la por importância acadêmica, mas a regra geral da doutrina tradicional e que você deve obrigatoriamente sempre lembrar é a da tipicidade, da reserva legal. Aquela regra prevista no Art. 887: O título de crédito, documento necessário ao exercício do direito literal e autônomo nele contido, somente produz efeito quando preencha os requisitos da lei. Ou seja: Não há título de crédito sem lei anterior que o defina, de modo que não é possível atribuir a um documento qualquer, mesmo que utilize todos os requisitos básicos dos cambiários, a categorização de título de crédito. Os títulos de crédito são, então, aqueles que forem assim considerados por lei. TÍTULOS DE CRÉDITO Portanto, opinião diversa e moderna (atual) é defendida por outros autores, entre eles, Marlon Tomazette, para quem a criação dos títulos atípicos é perfeitamente válida, admitindo-se assim que os particulares criem documentos passíveis de endosso ou aval e, consequentemente, capazes de cumprir as principais funções dos títulos de crédito. A mesma opinião é praticamente pacífica no direito italiano. Para Tomazette, os títulos atípicos são perfeitamente admissíveis atualmente. Tais documentos surgem para atender à criatividade do meio empresarial, não se destinando a negócios em massa, mas a negócios peculiares, nos quais os títulos típicos não sejam capazes de atender às necessidades privadas. Portanto, da autonomia privada, defende o autor, podem surgir novos títulos de crédito. TÍTULOS DE CRÉDITO Tal possibilidade de criação de títulos atípicos é fruto da existência de uma disciplina geral sobre os títulos de crédito no Código Civil italiano ou do Código Civil brasileiro de 2002. Tomazette, ressalta, no entanto, que apenas a lei pode garantir a aplicação da cartularidade ou incorporação, da literalidade, da autonomia e da abstração, mas não precisa ser uma lei específica, pode ser uma lei geral, como o Código Civil. Assim, apesar da opinião contrária de Fábio Ulhoa Coelho, para essa corrente doutrinária, os títulos de crédito atípicos são regidos pelo Código Civil de 2002. TÍTULOS DE CRÉDITO Tal interpretação se sustenta no disposto no artigo 903 do Código, que determina sua aplicação apenas na ausência de regra especial. Assim, o Código Civil se aplicaria nas lacunas dos títulos típicos e integralmente aos títulos atípicos. Do mesmo modo, o artigo 907 diz que é nulo o título ao portador emitido sem autorização de lei especial, logo, os títulos nominativos ou à ordem poderiam ser emitidos independentemente dessa autorização legal específica, para essa corrente doutrinária. TÍTULOS DE CRÉDITO Art. 903. Salvo disposição diversa em lei especial, regem-se os títulos de crédito pelo disposto neste Código. Art. 907. É nulo o título ao portador emitido sem autorização de lei especial. TÍTULOS DE CRÉDITO Diante disso, embora baseados na autonomia privada, é certo que os títulos atípicos possuem certos limites impostos pelo Código Civil. Desse modo, um documento criado pelos particulares só valerá como título de crédito se contiver a data da emissão, a indicação precisa dos direitos que confere e a assinatura do emitente (CC – art. 889). De outro lado, como já dito, nenhum título atípico poderá ser ao portador. Art. 889. Deve o título de crédito conter a data da emissão, a indicação precisa dos direitos que confere, e a assinatura do emitente. § 1o É à vista o título de crédito que não contenha indicação de vencimento. § 2o Considera-se lugar de emissão e de pagamento, quando não indicado no título, o domicílio do emitente. § 3o O título poderá ser emitido a partir dos caracteres criados em computador ou meio técnico equivalente e que constem da escrituração do emitente, observados os requisitos mínimos previstos neste artigo. TÍTULOS DE CRÉDITO Além disso, há uma série de regras no Código Civil que se distanciam das regras constantes das leis especiais sobre os títulos de crédito típicos. Apenas a título exemplificativo, o aval parcial é vedado no Código Civil (art. 897, parágrafo único), mas é permitido na letra de câmbio e na nota promissória (LUG – art. 30). Desse modo, o Código Civil instaurou uma disciplina dúplice no nosso direito, havendo regras comuns aos títulos típicos e atípicos e outras regras peculiares aos títulos atípicos. TÍTULOS DE CRÉDITO É certo que os títulos atípicos, embora sejam títulos de crédito, não são títulos executivos, na medida em que a executividade pressupõe um reconhecimento legal específico. Para a corrente doutrinária moderna, a tipicidade não atinge mais os títulos de crédito, mas atinge ainda os títulos executivos. TÍTULOS DE CRÉDITO CARACTERÍSTICA DOS TÍTULOS DE CRÉDITO Como vimos, os títulos de crédito nasceram de necessidades dos comerciantes para o exercício de sua atividade. Em razão disso, eles foram moldados para satisfazer essas necessidades, isto é, as regras que permeiam a disciplina dos títulos de crédito foram criadas para melhor atender aos direitos e interesses dos comerciantes. Historicamente, a matriz dos títulos de crédito sempre adveio do direito comercial e, por isso, até hoje eles são disciplinados por esse ramo do direito, não importando a qualidade da pessoa que emita o título. TÍTULOS DE CRÉDITO Tal característica tem uma importância fundamental, na medida em que os princípios que regem o direito comercial são diferentes dos princípios do direito civil, devendo-se recorrer àqueles (princípios de direito comercial/empresarial) para a interpretação das regras sobre os títulos de crédito. Registre-se que, na órbita do direito comercial, a tutela do crédito é um dos princípios fundamentais. Em função disso, é certo que nos títulos de crédito haverá essencialmente, mas não exclusivamente, uma proteção ao credor. Em regra, quando houver um conflito entre o interesse de um credor de boa-fé e um devedor de boa-fé, a solução será dada a favor do credor. TÍTULOS DE CRÉDITO Bem móvel O título de crédito é um bem móvel e como tal está sujeito aos princípios gerais que regem os bens móveis. Assim é que a posse de boa-fé dos títulos de crédito equivale à propriedade (LUG – art. 16, II; Lei nº 7.357/85 – art. 24). Essa natureza móvel simplifica a circulação dos títulos de crédito, agilizando a transmissão das riquezas, o que é essencial para os títulos de crédito. TÍTULOS DE CRÉDITO Natureza “pro solvendo” Em regra, o título de crédito tem origem em determinado negócio jurídico, por exemplo, um contrato de compra e venda. De tal contrato decorrem obrigações para as partes, no exemplo citado, a obrigação de entregar a coisa e de pagar o preço. Para representar a obrigação de pagar o preço, o comprador pode emitir um título de crédito (um cheque ou uma nota promissória, por exemplo). Neste caso, surge a questão sobre os efeitos da emissão do título de crédito sobre a obrigação anterior, contratualmente assumida. TÍTULOS DE CRÉDITO A simples emissão do título de crédito é capaz de extinguir a obrigação do comprador, ou apenas o pagamento do título irá extinguir essa obrigação? Em outros termos, o título de crédito é emitido pro soluto, isto é, extinguindo a obrigação que lhe deu origem ou pro solvendo, ou seja, a obrigação que lhe deu origem só será extinta com o efetivo pagamento do título? TÍTULOS DE CRÉDITO Salvo intenção diversa das partes, a emissão do título de crédito é pro solvendo, isto é, a simples entrega dotítulo ao credor não significa a efetivação do pagamento. Em outras palavras, a emissão do título não extingue a obrigação que lhe deu origem, de modo que as duas, a obrigação cambial e a originária, coexistem. Nesse sentido, o STJ já afirmou que: “O cheque, ordem de pagamento à vista, tem por função extinguir a obrigação causal que ensejou sua emissão; sendo, em regra, pro solvendo, de modo que, salvo pactuação em contrário, só extingue a dívida, isto é, a obrigação que a cártula visa satisfazer consubstanciada em pagamento de importância em dinheiro, com o efetivo pagamento.” TÍTULOS DE CRÉDITO Com a emissão do título, estamos diante da mesma obrigação, dotada de outra roupagem, a cambial; prova disso é que a perda ou destruição do título não impede que o credor ajuíze uma ação baseada no contrato. Assim, se o cheque emitido pelo comprador, no contrato de compra e venda, for destruído, resta ao vendedor exigir o pagamento do preço com base no contrato. TÍTULOS DE CRÉDITO Circulação A principal função dos títulos de crédito é permitir a circulação mais ágil das riquezas, antecipando o acesso a recursos que só seriam recebidos no futuro. A circulação dos títulos de crédito é simplificada e protegida pelo nosso ordenamento jurídico. Não se quer dizer, contudo, que os títulos de crédito sempre irão circular. O que se quer deixar registrado é que os títulos nascem para circular, e essa é uma possibilidade que, em regra, se põe à disposição do credor. Outros documentos também podem circular, mas nos títulos essa característica é mais importante. TÍTULOS DE CRÉDITO Títulos de Apresentação Os títulos de crédito são títulos de apresentação, desse modo, sem a posse do título não é possível exercer-se o direito cambiário. Para o exercício do direito representado no título, seu titular deve demonstrar esta condição, apresentando o título ao devedor. A necessidade de apresentação do título decorre, dentre outros motivos, da possibilidade de circulação simplificada do título. Ora, como o título de crédito pode circular, o devedor só saberá quem é o atual credor com a apresentação do próprio documento. O devedor deve ter a cautela de só efetuar o pagamento a quem seja o portador legítimo do título, evitando o mau pagamento, que geraria o dever de pagar de novo a mesma obrigação (quem paga mal paga duas vezes). TÍTULOS DE CRÉDITO Obrigação quesível Como o devedor não tem certeza de quem é o atual credor do título, nada mais lógico do que exigir que o credor o apresente, para poder exigir o seu pagamento. Daí a palavra “quesível” (reclamar, exigir, algo requerível, reclamável, que se pode reclamar). Diante da necessidade de apresentação do documento ao devedor, é óbvio que o título de crédito contém uma obrigação quesível, no sentido também de que cabe ao credor dirigir-se ao devedor para exigir o cumprimento da obrigação. No caso dos títulos de crédito, essa iniciativa compete ao credor, logo, é ele que deve se dirigir ao devedor para exigir o pagamento e não o contrário. TÍTULOS DE CRÉDITO Título de Resgate Uma vez apresentado o título ao devedor, deve haver, a princípio, o pagamento. Ao realizar esse pagamento, o devedor deve ter o cuidado de exigir a entrega do título (LUG – art. 39; CC – art. 901, parágrafo único), para evitar que o título volte a circular e, chegando às mãos de um terceiro de boa-fé, a obrigação lhe seja novamente exigida. Em razão disso, diz-se que o título de crédito é um título de resgate. TÍTULOS DE CRÉDITO Executividade Não havendo o pagamento voluntário de uma determinada obrigação, compete ao credor recorrer ao Poder Judiciário para buscar o pagamento desse crédito. Em determinadas situações, o credor terá que obter primeiramente o reconhecimento judicial desse crédito com a consequente condenação do devedor ao pagamento, para só então lançar mão das medidas satisfativas do seu crédito. Todavia, em outras situações, as obrigações são representadas em certos documentos aos quais a lei atribui tamanho grau de certeza que permite ao credor, desde logo, pleitear medidas satisfativas. TÍTULOS DE CRÉDITO Executividade Há uma opção do legislador para uma solução mais pronta e rápida de certos direitos. Essa é a hipótese dos títulos de crédito, daí falar-se em eficácia processual abstrata dos títulos, na medida em que eles permitem a realização da execução, sem a necessidade de qualquer nova demonstração da existência do crédito. Os títulos de crédito são títulos executivos extrajudiciais (Exemplo: CPC – art. 784) e, por isso, eles não precisam de confirmação judicial. Quem tem um título de crédito pode requerer de imediato a adoção das medidas satisfativas do seu crédito, isto é, pode ajuizar diretamente um processo de execução. *Tal característica não se aplica aos chamados títulos atípicos. TÍTULOS DE CRÉDITO Presunção de liquidez e certeza O artigo 783 do CPC exige que a execução seja fundada em título líquido, certo e exigível. Assim, qualquer título só poderá ser executado se atender a esses três pressupostos. A exigibilidade irá decorrer do vencimento da obrigação, não representando exatamente um elemento intrínseco do título de executivo. Uma nota promissória ainda não vencida não é exigível, mas não deixa de ser um título executivo. A exigibilidade irá representar, em última análise, a adequação ao procedimento da execução, a necessidade dessa atuação jurisdicional. TÍTULOS DE CRÉDITO A certeza diz respeito à existência da obrigação, que não deve ser entendida como uma certeza absoluta, o que não significa que o direito necessariamente exista (afinal, pode haver o reconhecimento posterior de que o direito não existe, por meio de embargos à execução, por exemplo). O que se exige na certeza é o alto grau de probabilidade da existência do crédito. Por fim, a liquidez diz respeito à determinação do objeto da obrigação, isto é, o montante da obrigação já está definido, ainda que mediante simples cálculos aritméticos. É líquida a dívida quando a importância se acha determinada em todos os seus elementos de quantidade (dinheiro) e qualidade (coisas diversas do dinheiro), natureza e espécie (prestação de fato). TÍTULOS DE CRÉDITO Os títulos de crédito possuem, a princípio, liquidez e certeza, uma vez que o documento é suficiente para atestar a existência do crédito e, em regra, seu valor ou os critérios para se chegar a seu valor estão definidos no título. Isso não impede, todavia, provas em sentido contrário que podem afastar a liquidez ou a certeza do título de crédito. TÍTULOS DE CRÉDITO Formalismo Um documento só vale como título de crédito se obedecer aos requisitos legais previstos para tanto. A não observância dos requisitos não gera a nulidade do documento, mas apenas não se reconhece ao documento os efeitos de um título de crédito (art. 888, CC). Assim, se uma nota promissória não contiver o nome do seu beneficiário, por exemplo, ela não pode ser tratada como uma nota promissória. Em razão disso, tal documento não pode gozar do tratamento peculiar dado aos títulos de crédito, não sendo, por exemplo, passível de execução. TÍTULOS DE CRÉDITO A irregularidade da forma afeta os efeitos do documento como título de crédito. Eventual correção desses vícios de nada adianta, pois uma vez promovidas as medidas para o exercício do direito de crédito com um título incompleto, fica afastada a condição de título de crédito que não poderá ser adquirida posteriormente. Nesse sentido, o STJ já afirmou que: “A execução anteriormente proposta com base em promissória contendo omissões nos campos relativos à data da emissão, nome da emitente e do beneficiário, além da cidade onde foi sacada, foi extinta por desistência. Descabe agora ao credor, após o preenchimento dos claros, ajuizar novo processo executório, remanescendo-lhe apenas a via ordinária.” TÍTULOS DE CRÉDITO Solidariedade Cambiária Havendo vários obrigados e obedecidos todos os requisitosexigidos, o credor poderá exigir de um, de alguns ou de todos os obrigados o pagamento integral do título. Há nos títulos de crédito uma solidariedade entre os vários obrigados (LUG – art. 47), de modo que o credor pode exigir de um, alguns ou de todos eles a obrigação constante do documento. Atenção: Na solidariedade civil, qualquer codevedor que paga a dívida terá direito de regresso contra os outros codevedores. Na solidariedade cambiária, nem todos os devedores terão direito de regresso, vale dizer, alguns devedores, ao pagarem o título, nada podem exigir dos outros coobrigados. TÍTULOS DE CRÉDITO Essa é a situação, por exemplo, do aceitante na letra de câmbio e na duplicata; do emitente do cheque e da nota promissória. Portanto, nos títulos de crédito nem sempre nasce o direito de regresso em razão do pagamento da obrigação por um dos codevedores solidários. Além disso, na solidariedade civil o direito de regresso poderá ser exercido contra todos os codevedores. Já na solidariedade cambial, quando nascer o direito de regresso, ele só poderá ser exercido em face dos devedores anteriores, isto é, o pagamento feito por determinado devedor extingue a obrigação de todos os devedores posteriores a ele, não havendo mais como se cogitar de cobrança desses codevedores posteriores. Veja exemplo, a seguir... TÍTULOS DE CRÉDITO É aquele nosso exemplo já explicado. GALVÃO emitiu uma nota promissória (que recebeu o aval de ARNALDO) para CASA GRANDE, que a endossou para RONALDO. Considerando que houve três assinaturas (emissão, endosso e aval), sem qualquer menção em contrário, temos três devedores solidários desse título. GALVÃO BUENO (emite NP) CASA GRANDE (credor) RONALDO (Credor, que recebeu a NP por endosso de CASA GRANDE) ARNALDO CÉSAR COELHO (aval) TÍTULOS DE CRÉDITO Caso o ARNALDO CÉSAR COELHO pague esse título, ele não poderá exercer o direito de regresso contra CASA GRANDE, porquanto o direito de regresso só pode ser exercido contra os devedores anteriores. Ao pagar o título, ARNALDO só poderá exercer o direito de regresso contra GALVÃO, uma vez que CASA GRANDE é um devedor posterior a ele. Assim sendo, o pagamento feito por ARNALDO já extinguiu a obrigação de CASA GRANDE, nada mais podendo ser exigido dele, nem em ação de regresso. GALVÃO BUENO (emite NP) CASA GRANDE (credor) RONALDO (Credor, que recebeu a NP por endosso de CASA GRANDE) ARNALDO CÉSAR COELHO (aval) TÍTULOS DE CRÉDITO Além desses limites subjetivos, para o exercício do direito de regresso, há outra diferença entre o regime civil e o regime cambiário, que diz respeito ao montante que pode ser exigido. Na solidariedade civil, aquele que paga pode exigir a quota-parte dos demais (CC – art. 283). Já nos títulos de crédito (solidariedade cambiária), todos são obrigados pela dívida inteira, mas, caso um deles pague, o direito de regresso é exercido por todo o valor do título e não pela quota-parte de cada um (LUG – art. 49). TÍTULOS DE CRÉDITO Seguimos agora com: - Formação do Crédito Cambiário - Exigibilidade do Crédito Cambiário (será estudado em detalhes com a Letra de Câmbio) TÍTULOS DE CRÉDITO Os títulos de crédito contêm obrigações, as quais, são objeto de uma disciplina própria que em muito difere da disciplina geral das obrigações, sobretudo em razão dos princípios dos títulos de crédito. Apesar dessas diferenças, é certo que estamos diante de uma obrigação de determinado subscritor do título de cumprir uma prestação a favor de outro sujeito. A dúvida que surge é: qual a natureza jurídica da fonte dessa obrigação? Várias teorias foram formuladas a respeito do assunto, tentando enquadrar o título de crédito nas categorias jurídicas conhecidas. Dentre as várias teorias desenvolvidas, o trabalho solicitado aos alunos deve analisar apenas as principais. Vejam, a seguir: TÍTULOS DE CRÉDITO - Teorias Contratualistas - Teoria da Aparência - Teoria do Duplo Sentido da Vontade - Teoria da Declaração Unilateral de Vontade Momento do surgimento da obrigação cambiária: - Teoria da Criação - Teoria da Emissão - Teoria dos Três Momentos TÍTULOS DE CRÉDITO De todas as teorias, uma conclusão a que se pode chegar é a de que a fonte da obrigação cambiária é uma declaração unilateral de vontade. Apesar dessa conclusão, discute-se ainda o momento específico do surgimento dessa obrigação, especialmente na divergência entre as teorias da criação e da emissão. A disputa entre as teorias da criação e da emissão é, na verdade, uma disputa entre privilegiar o interesse da circulação do título ou a liberdade individual do emitente do título. Nesses casos, acreditamos que a circulação deve ser realmente privilegiada, de modo que consideramos a melhor teoria a: teoria da criação. Apesar disso, não é essa a análise que deve ser feita. O que se deve discutir é qual foi a teoria adotada pelo ordenamento jurídico? TÍTULOS DE CRÉDITO No Brasil, devemos fazer uma separação da legislação cambiária. Em primeiro lugar, temos a Lei Uniforme de Genebra (LUG), aplicável diretamente às letras de câmbio e notas promissórias, cujas regras acabam sendo um padrão para os títulos típicos. Já em relação aos títulos atípicos, devemos analisar as regras do Código Civil de 2002 que são diferentes das regras dos títulos típicos. No âmbito da LUG, adota-se a teoria da criação. A teoria da criação conclui que a obrigação cambiária se aperfeiçoa com a criação do título, isto é, com a simples assinatura do devedor. A obrigação já existe com a simples assinatura. A LUG protege o credor que recebe de boa-fé o título de crédito, ou seja, ainda que haja um vício na emissão (na saída do título das mãos do devedor), o credor estará protegido. TÍTULOS DE CRÉDITO Entretanto, não há que se esquecer que essa proteção beneficia apenas o credor de boa-fé, porquanto o credor que não age desse modo não é digno de proteção pelo Direito. No Código Civil de 2002, a situação já é um pouco diferente, uma vez que temos regras que visam à proteção do credor de boa-fé, mas também temos regras que visam a proteger quem é injustamente desapossado do título de crédito, num evidente conflito. Vemos no Código Civil a infrutífera tentativa de junção das teorias da criação (arts. 896, 901, 905 § único) e da emissão (art. 909, CC). Lembramos que na teoria da emissão, a obrigação cambiária só se concretiza no momento da emissão, entendida como a entrega voluntária do título. A simples assinatura do título não representaria a vontade de se obrigar. Só a vontade concreta de entregar o título é que aperfeiçoa a obrigação. TÍTULOS DE CRÉDITO O conflito é claro. Não se pode pretender uma junção das teorias formando uma nova teoria. Como já disse, não há como conciliar a proteção do portador de boa-fé com a proteção de quem foi injustamente desapossado do título. Tal conflito, segundo Marlon Tomazete, existe especialmente em relação aos títulos ao portador, cuja criação depende de lei específica, uma vez que os artigos 905 e 909 se referem a esses títulos. Já em relação aos demais títulos, prevalece a teoria da criação, tendo em vista o disposto nos artigos 896 e 901 do Código Civil, bem como a legislação especial sobre o assunto. TÍTULOS DE CRÉDITO Todas as teorias anteriormente expostas destinavam-se a explicar o lado passivo dos títulos de crédito, isto é, a assunção de obrigações pelos diversos devedores dos títulos. Contudo, além dos devedores, obviamente existem credores no título de crédito. Esse lado ativo da obrigação cambiária pode ser preenchido por uma série de titulares sucessivos, sendo que cada qual possui um direito autônomo, isto é, um direito não influenciado por questões que digam respeito aos antigos portadores do título. A explicação dos direitos autônomos desses vários credores também é objeto de estudo de algumas teorias. TÍTULOS DE CRÉDITO - Teoria dos créditos sucessivos - Teoria da delegação - Teoria da cessãode crédito - Teoria da personificação do título - Teoria do crédito alternativo - Teoria da emissão abstrata - Teoria da pendência - Teoria da promessa à generalidade - Teoria da propriedade TÍTULOS DE CRÉDITO Dessas teorias, conclui-se que a melhor é aquela que reconhece que a titularidade do direito de crédito decorre da propriedade do título. Os sucessivos titulares do crédito são os sucessivos proprietários do título. A titularidade do direito depende, pois, de uma relação de natureza real e não de natureza pessoal, não guardando vínculo com o direito dos credores anteriores. É da propriedade do título que decorre o direito de crédito. Ressalte-se que essa propriedade do título pode ter origem em uma posse de boa-fé. Nas coisas móveis em geral, a posse do título gera uma presunção relativa da propriedade do documento. Já nos títulos de crédito, a posse de boa-fé é causa de aquisição da propriedade do título (LUG – art. 16). TÍTULOS DE CRÉDITO Desse modo, a aquisição do direito cartular não é excluída pela aquisição a non domino, ou seja, o credor de boa-fé que recebe o título de quem não seja o proprietário não pode ser afetado por esse fato. Nessa situação, o direito do titular pode existir mesmo que não exista o direito de quem lhe transferiu o título, porquanto o direito não decorre do titular anterior, mas da relação de propriedade com o título. A aquisição do direito se dá a título originário e não a título derivado. TÍTULOS DE CRÉDITO A titularidade não decorre da transferência do documento, mas sim da propriedade do título. O direito surge autônoma e originariamente nos sucessivos proprietários do título, sem qualquer vinculação ao titular anterior. Em razão dessa fonte do direito é que existe a autonomia das obrigações cambiárias para o credor.