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02/03/2020 Introdução aos Estudos Históricos
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INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS
HISTÓRICOS
CAPITULO 1 - ENTRE MITO, MEMÓRIA E
CIÊNCIA: ONDE PODEMOS SITUAR A
HISTÓRIA?
Emilly Joyce Oliveira Lopes Silva
INICIAR
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Introdução
Você consegue, a partir dos conhecimentos que já possui, pensar algumas
diferenciações entre mito, memória, ciência e História? Quais seriam as especificidades
da História? De um modo geral, podermos dizer que o conhecimento histórico não
coincide com nenhuma dessas ideias, mas se relaciona o tempo todo com elas. Será
que mito e memória são sempre histórias falsas? Durante muito tempo a História foi
bastante ligada à ideia de verdade, portanto, uma necessidade de se escrever o passado
com base em fatos comprovados. No entanto, com o passar do tempo, esse modo de
entender a História foi dando lugar a novas formas de interpretação. Assim, o
imaginário, a memória, as fábulas, os mitos e as religiões, dentre outros, se tornaram
tão importantes para o pensamento histórico quanto os fatos verificados em fontes.
Então a História deixa de ser ciência? Não necessariamente. Ainda que esse seja um
ponto em discussão, uma vez que, alguns teóricos afirmem que a História é Arte ou uma
narrativa literária, os historiadores, de modo geral, produzem conhecimentos pautados
em metodologias rigorosas, pesquisas aprofundadas, levantamento de diversas fontes
e leitura teórica crítica. Em resumo, tanto o mito, quanto a memória e a ciência são
referências para a produção do conhecimento histórico. A partir de agora, poderemos
nos aprofundar um pouco mais nessas relações. Acompanhe com atenção e bons
estudos!
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1.1 Mito e História: aproximações e
afastamentos
Vimos na Introdução que a História não equivale ao mito, mas tem traços de
aproximação e distanciamento com o mesmo. Por isso, a partir de agora, avançaremos
um pouco mais na diferenciação entre essas formas de se contar uma história.
1.1.1 O que é mito?
Podemos dizer que o mito tem múltiplos sentidos, dependendo da abordagem, da
época, da sociedade que o produz, dentre outros fatores. Por isso, a compreensão do
conceito requer aprofundamento em algumas questões. O que é um mito? Ele é uma
invenção? Como ele se relaciona com a História? Tentaremos, no decorrer desses
tópicos, responder essas perguntas. 
Durante muito tempo, pensou-se que a filosofia teria substituído o mito como forma de
explicação do mundo. A chamada passagem do mytho (mito) ao lógos (razão) revela
como nosso modo de conhecer e explicar a realidade abandonou as narrativas
mitológicas para se ancorar em explicações empíricas e/ou racionais. Essa visão vem
sendo bastante questionada por vários autores. Por um lado, é difícil dizer que o
pensamento filosófico tenha realmente se separado do mito. Por outro, a própria ideia
de mito como algo falso em contraposição à razão verdadeira foi colocada em xeque
(SOUZA; ROCHA, 2009).
O livro Deuses Americanos, escrito pelo inglês Neil Gaiman (2016), traz uma discussão interessante sobre
mitos. O que acontece com os deuses antigos quando seus adoradores vão viver na América? Essa é a pergunta
central para a narrativa. No livro, o ex-presidiário Shadow se vê obrigado a aceitar um emprego, no mínimo,
estranho. No decorrer da história, ele percebe-se imerso em uma batalha entre deuses antigos e novos, o que
nos possibilita refletir sobre a construção constante de mitos em nossa sociedade. Vale a pena conferir!
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Uma conceituação de mito bastante utilizada é a do romeno Mircea Eliade, que se
deteve nos estudos do sagrado e mitologia durante quase toda a sua vida. De acordo
com Eliade, no livro Mito e Realidade (1972, p. 9):
O mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento no tempo
primordial, o tempo fabuloso do “princípio”. Em outros termos, o mito narra
como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a
existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha,
uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre,
portanto, a narrativa de uma "criação": ele relata de que modo algo foi produzido
e começou a ser. O mito fala apenas do que realmente ocorreu, do que se
manifestou plenamente. 
Um ponto importante dessa definição é a ideia do mito como uma explicação para as
origens de um fenômeno ou de uma “realidade”, conforme Eliade (1972). Além disso, ao
ler essa citação, você deve ter se questionado sobre a afirmação “o mito fala apenas do
que realmente ocorreu”. Para entendê-la, é necessário fazer um esforço de alteridade e
se colocar no lugar de alguém que vive a cultura que deu origem à determinado mito.
Um exemplo são os mitos cristãos, como a criação do mundo em sete dias ou a morte
de Cristo para salvar a humanidade. Eles podem ser questionados por alguém que não
segue o cristianismo, mas o cristão vive essa narrativa como algo que realmente
ocorreu. Por isso, segundo José Benedito de Almeida Júnior (2014): “Para a sociedade
na qual o mito é presente, ele narra o que realmente aconteceu. A questão é que essa
realidade transcende o plano histórico ou material, mas nem por isso deixa de ser
realidade” (ELIADE, 1972, p. 19).
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Com essa perspectiva, que se coloca no lugar de quem produz o mito, podemos
enfatizar sua importância para as sociedades, para a cultura e, por conseguinte, para o
pensamento histórico. Se quisermos compreender um determinado grupo de pessoas
em um período histórico específico, é muito provável que o conhecimento dos seus
mitos nos ajude nessa tarefa.
1.1.2 A estrutura do mito e sua relação com a realidade
Será que todas as sociedades possuem mitos e mitologias? Vários estudiosos do tema
mostram que sim. Não é apenas no Ocidente que os mitos são parte importante da
cultura, como vemos, por exemplo, com toda a Mitologia Grega. As sociedades orientais
também lidam com narrativas mitológicas muito diversas. O que se observa, porém, é
 Figura 1 - De acordo com a
tradição cristã, Jesus foi morto em sacrifício para salvar a humanidade. Fonte: Renata Sedmakova,
Shutterstock, 2018.
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que muitas dessas narrativas possuem alguns traços em comum. É claro que os mitos
são diferentes e acompanham as especificidades de cada sociedade, porém é possível
notar que existem permanências. 
Em outra obra, Mircea Eliade (1992) aprofunda a questão, indicando cinco
características gerais dos mitos, de acordo com o modo como eles eram vividos pelas
sociedades arcaicas:
a) o mito constitui a História dos atos dos Entes Sobrenaturais; 
b) a narrativa do mito é considerada como absolutamente verdadeira e sagrada;
c) a terceira característica diz respeito à ideia de criação, ou seja, como o mito sempre
narra como alguma coisa veio à existência; 
d) ao conhecer o mito, ritualmente, é possível conhecer a origem das coisas e, assim
dominá-las; 
e) o mito é vivido, “no sentido de que se é impregnado pelo poder sagrado e exaltante
dos eventos rememorados ou reatualizados” (ELIADE, 1992, p. 19). 
Assim, um mito pode ser vivido por um grupo e possuir pontos em comum entre povos
que jamais se conheceram. Esses elementos semelhantes são chamados pelos
especialistas de arquétipos, como é o caso das cosmogonias, que explicam o surgimentodo mundo, ou das antropogonias, que abordam o surgimento dos seres humanos
(ALMEIDA JÚNIOR, 2014). Dessa maneira, cada povo terá uma narrativa própria que
conta sobre a existência do universo, embora possa haver certas noções que podem ser
bastante parecidas em mitos completamente diferentes. 
Algo importante de destacar, no estudo dos mitos, é a relação direta com os rituais
religiosos. Outros tipos de narrativas, como as lendas e os contos de fadas, também
podem explicar as origens de algo importante para uma sociedade, porém, eles não
servem de base para os ritos (ALMEIDA JÚNIOR, 2014). É possível observar, portanto, a
estreita proximidade com a ideia de sagrado, como havíamos visto na definição de
Mircea Eliade. 
Agora que conhecemos um pouco mais sobre as definições e as características dos
mitos, podemos pensar sobre a importância dessas narrativas. De início, pode parecer
que os mitos são muito antigos e não fazem mais parte da nossa realidade, porém é
importante perceber que a contemporaneidade também lida constantemente com
concepções mitológicas da existência, ainda que revistas pela ideia de modernidade. 
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Para compreendermos melhor a ideia do mito na realidade atual, podemos pensar na
principal explicação para o surgimento do mundo com o qual lidamos. O big bang
explica a origem do universo por meio de uma grande explosão. Em certa medida,
podemos pensar que essa explicação não é mitológica, mas sim científica. Todavia, é
necessário romper com esse pensamento dicotômico. O big bang é paradigmático em
nossa sociedade e dita o modo como nos relacionamos com certos aspectos
“incompreensíveis da nossa existência”. Ele também constitui uma explicação
cosmogônica acerca da origem do mundo, do mesmo modo como acontece em
diversos mitos arcaicos. Isso não significa, porém, que o big bang seja falso, pois,
conforme o que já foi estudado até aqui, o mito é sempre verdadeiro na medida em que
trata da realidade. Assim, ele seria um bom modelo para pensarmos o lugar que os
mitos ainda ocupam em nossas vidas.
Essa análise mostra como o mito é relevante para qualquer estudo que tenha como foco
as relações humanas, a cultura e, claro, a História. Porém, para a nossa disciplina de
Introdução aos Estudos Históricos, existe outra característica do mito que é essencial: o
tempo.
1.1.3 O tempo do mito 
 Figura 2 - A
Teoria do Big Bang é apenas uma das explicações para o surgimento do universo. Fonte: Shutterstock, 2018.
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Do mesmo modo como a História, os mitos são bastante ligados à ideia de tempo.
Porém, o tempo do mito é um tanto quanto diferente do tempo da História. Nas
narrativas mitológicas, o que se vê é uma noção sagrada de tempo. Nesta perspectiva,
duas concepções de tempo são fundamentais: o tempo cíclico e o tempo escatológico
ou linear (ELIADE, 1992). É importante salientar que nenhum deles corresponde ao
tempo histórico, embora haja aproximações com ambos. 
O conceito de tempo cíclico entende que “o passar do tempo é a recriação do ato
original; por isso, os rituais devem reproduzir a própria criação, seja do mundo, do
homem ou de alguma instituição social” (ALMEIDA JÚNIOR, 2014, p. 118). Assim, essa
concepção de tempo é inspirada por movimentos da lua, do sol, das plantas e dos
animais, conforme a observação da natureza. Diversas culturas se orientam pelo tempo
cíclico, até mesmo nos dias de hoje. Para elas, a ideia de progresso ou de linearidade
temporal não faz muito sentido. Para o budismo, por exemplo, o tempo se repete em
ciclos frequentes, sendo possível romper com essa circularidade apenas ao abandonar
a condição humana e alcançar o chamado nirvana (ELIADE, 1992). 
O tempo escatológico, por sua vez, se liga a uma ideia de fim. Esse tempo é linear e está
direcionado para um término, como é o caso do apocalipse bíblico. Várias religiões e
mitos têm o tempo escatológico como base. De acordo com Le Goff (1990), o tempo
escatológico é uma das temporalidades utilizadas pelo cristianismo, por exemplo.
Segundo o autor, a religião cristã combina três modalidades de tempo: “o tempo
circular da liturgia, ligado às estações e recuperando o calendário pagão; o tempo
cronológico linear, homogêneo e neutro, medido pelo relógio, e o tempo linear
teleológico, o tempo escatológico” (LE GOFF, 1990, p. 57).
VOCÊ SABIA?
A expressão “escatologia” tem origem no termo grego éskhatos, que significa algo como
“extremo ou último” (ALMEIDA JÚNIOR, 2014). Segundo o Dicionário Priberam da Língua
Portuguesa, escatologia significa “Teoria acerca das coisas que hão de suceder depois do
fim do mundo; teoria sobre o fim do mundo e da humanidade”. Por isso, as religiões e
outras doutrinas que tratam do fim dos tempos são chamadas de escatológicas. 
Como o cristianismo é um dos pilares da cultura ocidental, a ideia de tempo linear é
muito mais presente em nossa sociedade, mas o tempo cíclico também aparece em
vários aspectos. Por isso, a História trabalha com ambas as noções de tempo, mas não
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pode se fixar em apenas uma delas. 
O próximo passo de nossa trajetória é estudar a relação entre memória e História.
Depois voltaremos a discutir o mito, com intuito de pensá-lo como uma ferramenta para
a produção do conhecimento histórico.
1.2 As fronteiras entre a História e a
Memória
Agora é hora de refletirmos sobre a memória. Quais são as suas principais
características? Por que ela é tão importante? As memórias são enganadoras? Podemos
usá-las para a escrita da História? Como você pode notar, as questões acerca da
memória são parecidas com as que usamos para pensar o mito. Aliás, as aproximações
entre eles não ficarão restritas aos questionamentos. 
Logo de início, é possível afirmar que todos nós temos memórias: lembranças mais
recentes, como o que fizemos na manhã de ontem, e outras antigas, como o cheiro do
quarto da bisavó na nossa infância. Existem ainda aquelas memórias que não são
apenas individuais: que brasileiro não se lembra, por exemplo, da derrota do Brasil para
a Alemanha na copa de 2014? Em termos bem gerais, a discussão sobre memória tem a
ver com todas essas formas de lembrar; ela inclui cheiros, sensações, cores, gostos,
lembranças coletivas e individuais. 
O passado é um tempo que foi e não é mais. Sua existência é garantida apenas pelo que
lembramos ou registramos. Por isso, a memória é tão importante para o conhecimento
histórico. Ao mesmo tempo, não podemos reduzir a história a meras memórias do
passado. Fazer essa distinção é um objetivo importante do estudo que faremos a partir
de agora.
1.2.1 O que é memória?
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Como ponto de partida para a conceituação de memória, podemos recorrer a primeira
definição dada por Jacques Le Goff (1990), em seu importante livro História e Memória.
Segundo o historiador: “A memória, como propriedade de conservar certas
informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças
às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele
representa como passadas” (LE GOFF, 1990, p. 423). 
Todos nós sabemos o que é memória por experiência, não é mesmo? Estamos
constantemente nos lembrando e também nos esquecendo de situações que já
aconteceram. A definição de Le Goff parte, justamente, do modo como vivenciamos a
memória, reforçando que se trata de uma função psíquica humana orientada para a
conservação de certas informações passadas.
A casa de pequenos cubinhos (no original, Tsumiki no ie) é um curta-metragem de animaçãodirigido por Kunio
Kato (2008). Um objeto de apego pode ser a fonte para o retorno de uma memória? E, principalmente, o que
nós somos além das histórias que temos para lembrar? Partindo dessas questões e usando uma linguagem
poética e simples, o filme aborda, de uma maneira delicada, a memória como algo constituinte de nosso ser.
Por isso, é um ótimo ponto de partida para a discussão sobre a importância da memória.
Quando falamos em memória, geralmente fazemos uma associação com pensamentos
sujeitos a falhas ou distorções, pois, por motivos diversos, a lembrança de algo pode ser
alterada. Você já deve ter notado por exemplo, que duas pessoas podem se lembrar de
um mesmo evento de formas bem diferentes. De acordo com José D’Assunção Barros
(2009), uma noção mais vulgar do que é memória, trataria da mesma como “estática e
imprecisa, parcial e distorcida, passiva e não-criadora” (BARROS, 2009, p. 39). Essa
visão, no entendimento do autor, precisa ser problematizada, pois foi um dos motivos
para que a memória coletiva tenha sido ignorada, durante muito tempo, como algo
válido para o conhecimento histórico.
Chegando a esse ponto, faz-se necessário distinguir a memória individual da coletiva,
destacando que a segunda é a mais relevante para a História. Como o próprio nome
indica, a memória individual estaria relacionada com as vivências de cada pessoa, de
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um ponto de vista mais biológico ou psíquico. Já a memória coletiva englobaria as
questões socioculturais ligada ao ato de lembrar. É importante ressaltar, contudo, que
essas duas formas de compreender a memória vêm sendo problematizadas em diversas
áreas da produção do conhecimento. Assim, nas últimas décadas, a Biologia, a
Psicologia, a Antropologia, a Sociologia e a História, dentre outras, passaram a entender
a memória como “processo ativo, dinâmico, complexo, interativo” (BARROS, 2009, p.
41).
Essas mudanças na compreensão do que é memória romperam, então, com a rígida
separação entre memória individual e coletiva. O que se percebe, nos estudos atuais, é
que a memória individual também é coletiva, pois sua constituição se dá na relação
com outros indivíduos, sendo mediada pela linguagem (BARROS, 2009). Nesse sentido,
a História irá se relacionar com a noção de memória de uma forma bem diferente,
entendendo que ela:
(...) se refere não apenas a esse processo de registro de acontecimentos pela
experiência humana, como também à construção de referenciais sobre o passado
e sobre o presente de diferentes grupos sociais e sob a perspectiva de diferentes
grupos sociais, ancorados nas tradições e intimamente associados a mudanças
culturais (BARROS, 2009, p. 41).
Portanto, a corrente mais aceita atualmente entende que a memória é fundamental
para a escrita da História, posto que a relação com o passado é intermediada pela
memória.
1.2.2 Componentes da memória
Maurice Halbwachs (1990) é um dos principais defensores da ideia de memória coletiva.
Para ele, é a partir das relações, e não necessariamente centrado na individualidade que
a memória do indivíduo se constitui. Ela é formada a partir de pontos de referências,
estímulos, necessidades e, também, pela vivência em grupos. Assim, para manter-se ou
constituir-se, é preciso que a memória esteja vinculada, em alguma medida, com a
esfera comum, ou seja, à possibilidade de ser partilhada e de ter alguma significância
para o presente daquele grupo. 
Um bom exemplo para entender essa noção coletiva são as memórias de infância.
Talvez você não se lembre do seu aniversário de dois anos, mas os relatos de família, as
fotos e outras informações sobre a comemoração fazem com que suas memórias sejam,
na verdade, baseadas nas narrativas de outras pessoas. Ainda assim, isso não impede
que você realmente se ligue emocionalmente com essas memórias, nem que elas não
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tenham grande peso em suas experiências de vida. Nessa perspectiva, a memória não é
nem meramente individual, nem estacionária. Ela pode ser construída e reconstruída no
decorrer da vida.
Do ponto de vista histórico, é importante ter em mente que as sociedades também
estão em constante transformação. Isso abre espaço para considerar a memória
também, não como um princípio de conservação estático do passado, mas um
mecanismo que está sempre em reformulação dentro das demandas do presente. Em
outras palavras, do mesmo modo como nenhum povo ou sociedade é estático, seus
modos de construírem e lidarem com o passado também não o são. 
 Figura 3 - Muitas das coisas que você se
lembra sobre a sua infância devem ter sido contadas pelos seus familiares. Fonte: SergiyN, Shutterstock,
2018.
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Seguindo por este caminho, Michael Pollak (1992), situa a memória numa relação do
individual com o coletivo. O autor elenca os principais elementos constitutivos da
memória, que podem ser resumidos da seguinte forma:
1) acontecimentos: vividos pessoalmente ou “vividos por tabela”, no caso de eventos
dos quais a pessoa não participou, mas que são muito importantes para suas
experiências;
2) pessoas e personagens: também podem ser aquelas que você encontrou no
decorrer da vida ou personagens frequentados “por tabela” (por intermédio do grupo);
3) lugares: espaços relacionados a memória, que podem ter ligação com lembranças
pessoais (casa de praia das férias na infância) ou com aspectos da vida pública (lugares
de comemoração ou monumentos). 
Pollack destaca ainda a relação da memória com o tempo. Uma lembrança pode ou não
ser datada, de acordo com o tipo de experiência vivida. Para quem lembra, o momento
exato em que aquele lugar foi visitado ou quando um acontecimento se deu pode não
ter relevância. Ao mesmo tempo, existem aquelas memórias que são datadas com
exatidão, como aniversários, casamentos e nascimento de filhos. 
Outro ponto muito importante sobre a memória é sua seletividade. Tanto nas
experiências individuais quanto nas coletivas, nem tudo fica guardado ou registrado. De
fato, a memória é constituída pelo que se lembra e pelo que se esquece.  Por último, e
talvez o mais importante, a memória é uma construção. Ela se constitui, no indivíduo,
tanto numa esfera consciente quanto inconsciente. Dessa forma, a memória realiza um
verdadeiro trabalho de organização; ela corta, recorta e secciona a narrativa de sua
existência de acordo com as preocupações sociais e políticas do momento. Por tudo
isso, Pollack (1992) entende que a memória tem papel crucial na construção das
identidades. 
Toda essa discussão foi crucial para que a História mudasse seu modo de tratar a
memória. Na Antiguidade, o historiador era entendido como um guardião da memória e
ambos eram vistos como objetivos. Com o passar do tempo, a memória perdeu seu
status de verdade, passando a ser vista como errônea por um História cada vez mais
objetiva e científica. Hoje, com todo o processo de crítica da produção histórica, as
questões subjetivas ganharam importância. Assim, a memória pode recuperar seu lugar
de relevo na escrita da História, servindo não apenas de fonte, mas também de
referência metodológica. 
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A partir de agora, tentaremos traçar algumas distinções entre História e memória,
ressaltando que elas se complementam e não se opõem.
1.2.3 Relações entre memória e História
A questão do tempo é um dos aspectos que distingue História e memória. Enquanto
uma memória pode ou não ser datada, como vimos com Pollack, a História tem uma
ligação forte com a datação e a ordenaçãodo tempo. Isso não significa que a data exata
de um evento seja importante, mas o seu contexto, sua relação com o entorno, sim. A
memória, por sua vez, fica restrita a um lugar no passado, não sendo necessário saber
quando ela aconteceu ou qual foi o seu contexto. Aliás, o descolamento do tempo é
uma das características da memória, que quase sempre aparece fragmentada (SILVA;
SILVA, 2010). 
Outro ponto de distanciamento é o aspecto individual da memória. Por mais que ela
seja coletivamente constituída, sua força reside no modo como cada pessoa se
relaciona com ela. A História, em contrapartida, tem sempre uma perspectiva social dos
eventos. Assim, segundo o verbete “Memória” do Dicionário de Conceitos Históricos: “A
memória recupera o que está submerso, seja do indivíduo, seja do grupo, e a História
trabalha com o que a sociedade trouxe a público” (SILVA; SILVA, 2010, p. 276). Aqui,
podemos notar a complementaridade entre elas, muito mais que uma simples
distinção. É possível dizer, assim, que a História organiza as memórias com base em
uma visão mais ampla da realidade. 
Pensando um pouco mais sobre essa relação entre História e memória, vale a pena
discutir a afirmação de Peter Burke (2000) acerca dos dois pontos de vista necessários
ao historiador. De acordo com o autor, é preciso, em primeiro lugar, analisar a memória
enquanto fonte histórica, ou seja, “elaborar uma crítica da confiabilidade da
reminiscência no teor da crítica tradicional de documentos históricos” (BURKE, 2000, p.
72). Na prática, isso passou a acontecer na História a partir da década de 1960, com o
surgimento da História Oral, que permitiu a flexibilização das fontes viáveis para
produção histórica. 
O segundo ponto de vista, na perspectiva de Peter Burke (2000), diz respeito ao estudo
da memória como um fenômeno histórico, entendida por ele como uma “história social
do lembrar”. Retomando o argumento da seletividade da memória, Burke ressalta que o
historiador precisa identificar quais foram os princípios utilizados para as seleções,
observando como elas variam no tempo, no espaço e conforme o grupo. Para Burke: “As
memórias são maleáveis, e é necessário compreender como são concretizadas, e por
quem, assim como os limites dessa maleabilidade (BURKE, 2000, p. 73).
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Com base nesses aspectos, podemos observar o lugar de relevo que a memória ocupa
na produção do conhecimento histórico. Por isso, no próximo tópico, desenvolveremos
melhor os diferentes modos como historiadores recorrem à memória e ao mito em seus
trabalhos.
1.3 Memória e Mito como ferramentas da
História
A História passou por profunda transformações na segunda metade do século XX. Várias
perguntas foram feitas com o objetivo de repensar o modo como o conhecimento
histórico vinha sendo produzido: a quem a História serve? Quem são os personagens
históricos que têm suas histórias contadas? Quais são as fontes legítimas para a
investigação?
Partindo desses questionamentos, novas fontes foram adotadas, bem como outras
perspectivas de pesquisa. Um dos motivadores para essa mudança foi o surgimento do
gravador à fita, em 1948. Com essa novidade, surgiu o Columbia University Research
Office, um programa da Universidade de Columbia que buscava gravar entrevistas feitas
com personalidades da história americana. A partir da década de 1960, o método de
coleta de relatos orais rompe com uma noção de história das elites, tornando-se uma
espécie de contra história, voltada para o combate de uma visão positivista do fazer-
histórico. Com os relatos orais, os pesquisadores passam a defender a escrita de uma
história “dos vencidos”, ou seja, daquelas pessoas que nunca tiveram voz em uma
perspectiva que sempre priorizou a história dos heróis, dos grandes homens.
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Outro debate importante diz respeito à relação entre História e ficção. Segundo Paul
Veyne, a História guarda paralelos com a escrita do romance, ainda que haja
especificidades na escrita da narrativa histórica (VEYNE, 1983; BENTIVOGLIO; LOPES,
2013). Ao mesmo tempo, talvez as narrativas ficcionais também tenham a possibilidade
de tratar de temas relacionados à história. Um livro de ficção pode dizer bastante sobre
o tempo em que foi escrito. Além disso, os recursos utilizados na literatura, mesmo que
sem o compromisso com a fidelidade histórica, podem nos ajudar a entender melhor as
mudanças, a passagem do tempo e até mesmo a noção de verdade.
O homem do castelo alto, escrito por Philip K. Dick (2009), é ótimo para pensar a relação entre História e ficção.
A narrativa, ambientada na década de 1960 tem como ponto central um evento histórico: a Segunda Guerra
Mundial. O autor recorre à estratégia de imaginar o que poderia ter acontecido se a história fosse diferente. No
caso, Alemanha e Japão foram os países vencedores do conflito. Assim, o livro nos ajuda a pensar como a
história é construída.
 Figura 4 - O
surgimento do gravador, em 1948, possibilitou que gravações de áudio fossem usadas como fonte histórica.
Fonte: MIGUEL GARCIA SAAVEDRA, Shutterstock, 2018.
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Essas novas reflexões tiveram, como dissemos antes, um impacto direto na importância
do mito e da memória na escrita da História. Ambos passaram a ser usados como fonte,
permitindo que novos assuntos pudessem ser trabalhados pelos historiadores. Nesta
parte do capítulo, falaremos um pouco mais sobre as pesquisas históricas envolvendo
memória e mito. Dessa forma, você conseguirá poderá entender, na prática, a discussão
teórica que fizemos até aqui.
1.3.1 Os mitos modernos
Muitas vezes associamos os mitos à antiguidade, nos esquecendo que toda sociedade
compõe suas próprias mitologias. O mito do herói, por exemplo, é visto em diferentes
povos. Joseph Campbell (1992), em sua clássica obra O herói de mil faces, publicada pela
primeira vez em 1949, observou que o mito do herói possui algumas características
recorrentes. Em sua análise, ele define 17 etapas desse mito, que são subdividas em três
fases: a partida, que inclui a chamada para uma aventura; a iniciação, com provas e
testes que precisam ser vencidos; e o retorno, que possibilita a vivência de novas
experiências. Você deve ter reconhecido diferentes histórias que seguem esse modelo
descrito por Campbell: desde o Ulisses, da Odisseia, até Luke Skywalker, protagonista da
série Star Wars. Esses heróis servem de referência para as sociedades que vivem seus
mitos, pois suas aventuras ajudam na realização de desafios do cotidiano.
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Na perspectiva de Mircea Eliade (1972), a modernidade perdeu, com sua obsessão pela
racionalidade, as referências do sagrado. Por isso, o autor afirma que os mitos
modernos buscam “tapar esse buraco” existencial com narrativas que ofereçam algum
tipo de inserção na realidade mítica. No passado, um homem que precisava se
aventurar pelos mares para desbravar terras desconhecidas teria a certeza de seu
sucesso, pois os ancestrais míticos também teriam realizado tal façanha. E nós, em
quem podemos nos amparar? Os super-heróis das histórias em quadrinhos configuram
um ótimo exemplo. Eles são versões modernas dos antigos heróis mitológicos. Em sua
análise do Superman, Eliade afirma que o personagem se tornou popular devido à sua
dupla personalidade: ora um jornalista tímido, ora um herói de poderes ilimitados. Para
o autor: “o mito do Superman satisfaz as nostalgias secretas do homem moderno que,
sabendo-se decaído e limitado, sonha revelar-se um dia um ‘personagemexcepcional’,
um "herói" (ELIADE, 1972, p. 130-131). Dessa forma, os homens e mulheres na
 Figura 5 - O mito do herói é bastante presente
em nossa sociedade ainda hoje. Fonte: Blend Images, Shutterstock, 2018.
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modernidade, na ausência dos ritos e símbolos que antes possibilitavam a inserção em
uma história maior, buscam sentido em outras formas de culto e outros modelos de
heróis, mas não deixam de se ligar aos mitos.
O exemplo prático do herói nos ajuda a compreender o lugar que os mitos ocupam em
nossa sociedade. Diante dessa constatação, fica mais fácil pensar o modo como a
mitologia deve ser abordada no trabalho do historiador. Não devemos entender o mito
como algo separado da realidade social, mas sim como integrante da mesma. Além
disso, a mitologia não é “coisa do passado”, como podemos imaginar inicialmente, pois
segue presente nas sociedades ocidentais e orientais.
1.3.2 O lugar da memória
Para refletirmos sobre a relação entre História e Memória, vale a pena ler sobre um caso
inspirado em algo que aconteceu de verdade.
CASO
A bacia e a História
Um grupo de pesquisa estava desenvolvendo um trabalho voltado para a história
local de uma comunidade periférica em uma capital do Brasil. Depois de muito
debate com os moradores daquela localidade, chegou-se a decisão de construir
um Centro de Memória. Os moradores foram convidados a levar objetos que
tivessem relação com a história da comunidade. Depois de alguns dias,
envergonhada, uma mulher trazia consigo uma bacia, que sua mãe tinha usado
para levar água do “asfalto” para o “morro”, ainda na época da construção da
“favela”. Ela então perguntou se a bacia poderia ser considerada como um objeto
de memória, pois sua mãe nunca havia sido uma personagem importante. Os
pesquisadores então explicaram sobre a importância daquela bacia para toda a
História do local. Afinal, sem a água carregada no recipiente, talvez não houvesse
nem casas, ruas ou sequer pessoas vivendo ali. Assim, a bacia ganhou um lugar
de destaque no Centro de Memória daquela comunidade.
Esse caso prático nos ajuda a refletir sobre a questão da memória e sua relação com a
História. Talvez você nunca tenha visto uma bacia em um museu importante, mas é
difícil negar que, no contexto da comunidade acima, esse objeto tinha grande
relevância. 
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Muitas vezes as pessoas comuns não se sentem parte da História. No entanto, todos nós
contribuímos diariamente para que a realidade mude. Pequenas histórias, decisões
simples e mudanças cotidianas podem impactar fortemente um bairro, uma cidade ou
um país. Por isso, é sempre válido ressaltar que homens e mulheres, independente da
origem, da renda, da raça, da religião ou outras características, todos são agentes da
História. 
A memória tem um papel importante nesta perspectiva. Todos os seres humanos têm
memórias e incorporá-las ao conhecimento histórico é uma forma de romper com a
chamada “História dos Grandes Homens”. Aquela mulher, que carregava uma bacia na
cabeça morro acima teve uma função tão importante para o lugar onde mora que um
presidente ou um general. Aliás, não podemos deixar de pontuar que ao contar apenas
a história dos grandes homens, a historiografia esqueceu, durante vários séculos, de se
perguntar sobre o lugar ocupado pelas mulheres nessas narrativas. 
Como foi discutido no tópico anterior, a memória nunca é apenas individual; ela se
amarra às lembranças de outras pessoas, constituindo sempre uma memória coletiva.
Na prática, o historiador precisa observar com atenção a constituição dessas memórias,
como elas informam sobre o passado e quais são as possibilidades de análise
disponíveis. Em sala de aula, também é fundamental debater o papel da memória,
enfatizando a história local e a agência, isto é, a atuação dos alunos na construção da
História. 
Todo o debate acerca do mito e da memória não se opõem à ideia de ciência. Veremos,
adiante, os diversos posicionamentos da produção histórica acerca do conhecimento
científico.
1.4 História é uma ciência? Significados
do termo história e seus campos de
reflexão
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A História enquanto campo de conhecimento é bastante questionada. Por tratar de
eventos passados e irrecuperáveis, sua produção é tida como pouco objetiva, passível
de erros, ficcional e, portanto, nada científica. Essas acusações não são novas e já foram
fortemente debatidas no âmbito da Teoria da História. A partir do século XIX, o
conhecimento histórico passou por mudanças significativas, consolidando-se como
uma área do saber relevante. Partindo dessas constatações, nossa missão, neste tópico,
é compreender as relações entre História e Ciência, bem como definir alguns
significados para o termo História. 
1.4.1 A História pode ser objetiva?
É importante ressaltar que a busca pela verdade do/no passado é uma constante. Por
isso, José d’Assunção Barros (2013) trata da noção de “história mínima”, enfatizando
aqueles aspectos que aparecem nas investigações históricas desde a antiguidade. São
eles:
1) intenção de verdade; 
2) investigação; 
3) estudo sobre a realidade humana; 
4) exposição em forma de relato; 
5) discurso encaminhado pela figura subjetiva, autônoma e idônea do historiador.
 Quadro 1 - Os principais
elementos da identidade mínima da História, desde a antiguidade. Fonte: BARROS, 2013, p. 36.
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Alguns desses aspectos vão ter mais destaque em momentos específicos. A busca pela
verdade, por exemplo, ganhou maior importância dentro de perspectiva moderna de
História, sobretudo com o avanço do paradigma positivista.
VOCÊ SABIA?
O paradigma positivista definiu, e ainda define, o modo como buscamos conhecer a
realidade. Quando falamos em paradigma estamos nos referindo a um conjunto de ideias
que serve como modelo ou exemplo geral. No caso do paradigma positivista, essas ideias
giravam em torno de princípios como: a possibilidade de um conhecimento totalmente
objetivo; a busca pela verdade, o rompimento com o mito, a construção de leis gerais, o
rigor metodológico e a imparcialidade do sujeito que produz o conhecimento (BARROS,
2013).
No século XIX, com a consolidação do positivismo, a História foi transformada em
conhecimento científico. Nesse momento, tanto a visão de História quanto a de Ciência
eram muito diferentes do modo como conhecemos hoje. Para ser considerado
científico, o conhecimento histórico precisava ser objetivo. Por isso, os defensores da
corrente positivista insistiam que os fatos falavam por si só, ou seja, que não havia nada
de interpretativo no trabalho do historiador. 
Para os historiadores positivistas, como Buckle, Renan, Taine e Fustel de Coulanges, a
questão da objetividade e da verdade seriam imprescindíveis para que a História
pudesse produzir um conhecimento realmente científico. Por isso, a história positivista
se voltou para as fontes oficiais, principalmente os documentos escritos, muitas vezes
relegando ao esquecimento as histórias mais cotidianas, bem como as memórias e os
mitos. 
De acordo com José Carlos Reis (2011), os positivistas acreditavam que “se adotassem
uma atitude de distanciamento de seu objeto, sem manter relações de
interdependência, obteriam um conhecimento histórico objetivo, um reflexo fiel dos
fatos do passado, puro de toda distorção subjetiva” (p. 24). Nesse sentido, o historiador
seria aquele que narra os fatos que realmente aconteceram, exatamente do modo como
eles se passaram. Somente alguns eventoseram consideramos como narráveis, tais
como os políticos, religiosos, diplomáticos e administrativos. Assim, “propunham uma
história do passado pelo passado, dos eventos políticos passados, pela curiosidade de
saber exata e detalhadamente como se passaram" (REIS, 2011, p. 24).
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O grande problema dessa concepção de História é bem simples: o passado é inatingível,
jamais poderemos viver novamente algo que já aconteceu. Qualquer pessoa já
vivenciou esta impossibilidade. Depois de uma excelente viagem de férias, por exemplo,
você pode ver as fotos, anotar as lembranças e até mesmo voltar ao mesmo lugar, mas
aquela experiência não poderá ser vivida novamente. Em certa medida, é isso o que
acontece com o historiador: temos as fotos, as narrativas de memória e outras pistas de
algo que aconteceu, mas não a experiência – e mesmo que tivéssemos vivido aquele
momento, recuperá-lo seria impossível. Por isso, a os principais preceitos positivistas
dificilmente podem ser aplicados à escrita da História.
Com isso, podemos responder à pergunta do título de uma forma não muito direta: a
História não é objetiva porque seu objeto de estudo é algo que já não existe mais.
Porém, o rigor metodológico, o uso cuidadoso das fontes e a frequente contextualização
 Figura 6 - A ampulheta nos ajuda a perceber a
passagem do tempo e a inacessibilidade do passado. Fonte: koosen, Shutterstock, 2018.
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das informações fazem dela um conhecimento importante. Estamos aqui fazendo uma
defesa da História, mas outro historiador, um medievalista, realizou esta defesa bem
antes. No próximo tópico, veremos um pouco mais da apologia do conhecimento
histórico feita por Marc Bloch.
1.4.2 Uma apologia da História
A crítica ao positivismo não significa, necessariamente, a ruptura com a possibilidade
de um conhecimento histórico válido. Mesmo que a História não seja objetiva, isenta de
juízos de valor e totalmente racional, ainda assim ela poderá servir aos nossos anseios
de conhecer mais sobre a humanidade e também sobre nós mesmos. 
No século passado, um historiador resolveu responder a uma pergunta ao mesmo
tempo simples e complexa: para que serve a história? Seu nome era Marc Bloch e ele
contribuiu sobremaneira para toda a discussão em torno do pensamento histórico, de
sua época até os dias de hoje.
Marc Bloch viveu entre 1886 e 1944 e foi um importante historiador francês do século XX. Ele é um dos
responsáveis pela criação da Escola de Annales, que realizou inovações de grande relevância para toda a
produção do conhecimento histórico. Sua definição de História como ciência dos homens no tempo é
utilizada até hoje como referência. Por integrar a resistência francesa, durante a Segunda Guerra Mundial,
Bloch foi torturado e morto pela Gestapo em 1944.
O questionamento sobre a serventia da história havia sido feito pelo filho de Marc
Bloch. Partindo dela, ele se arriscou a discutir pontos importantes acerca da produção
do conhecimento histórico e sobre a própria constituição da cultura ocidental a partir
da História. José Carlos Reis (2011) resume bem os quatro principais argumentos de
Bloch:
1) a História é a marca principal da civilização ocidental, desde a antiguidade, sendo
quase inseparável dos nossos modos de ser, agir e pensar;
VOCÊ O CONHECE?
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2) ainda que não servisse para nada, a História ainda serviria para o prazer, para a
curiosidade e para o entretenimento; 
3) do ponto de vista intelectual, o conhecimento histórico serve para que nós, seres
humanos, possamos nos conhecer e conhecer aquilo que nos rodeia; 
4) por fim, essa forma de conhecimento é útil na medida em que permite o contato
entre os humanos do presente com os do passado.
Como você pode notar, essa defesa não está embasada na cientificidade do
conhecimento histórico, ou seja, a História não precisa ser objetiva e resgatar o passado
tal como ele foi para que ela seja importante para homens e mulheres na
contemporaneidade. Todavia, esse entendimento um pouco mais amplo que é a
História não quer dizer que ela não seja uma ciência. 
No decorrer do século XX, muito se discutiu sobre a quem serve a História, quais são as
suas fontes e se sua produção pode ser enquadrada como científica. Não existe, porém,
um consenso com relação a esses problemas. Sendo verdadeira ou não, científica ou
não, objetiva ou não, a História se mantém como tema de interesse para a nossa
sociedade.
Síntese
Finalizamos, retomando o que aprendemos até aqui. Entendemos os conceitos de mito,
memória, ciência e História, quais suas diferenças e proximidades. E compreendemos o
que os estudos históricos podem nos apresentar, por meio de seus principais
elementos.
Neste capítulo, você teve a oportunidade de:
discutir as relações entre História, mito, memória e ciência;
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possibilitar o reconhecimento do conceito de mito e suas principais
características;
abordar as aproximações e distanciamentos entre História e memória;
tratar das práticas relacionadas aos conceitos e teorias aprendidos
anteriormente;
mostrar um pouco do debate sobre objetividade, verdade e ciência no
conhecimento histórico.
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