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Educação a Distância GRUPO Caderno de Estudos PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL Prof. Fabrício André Tavares UNIASSELVI 2011 NEAD CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, nº 1.040, Bairro Benedito 89130-000 - INDAIAL/SC www.uniasselvi.com.br Copyright UNIASSELVI 2011 Elaboração: Prof. Fabrício André Tavares Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo Da Vinci - UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. 363 T231p Tavares, Fabrício André Pesquisa em serviço social / Fabrício André Tavares Indaial : Grupo UNIASSELVI, 2011. 256 p. il. Inclui bibliografia. ISBN 978-85-7830-367-9 1. Serviço Social 2. Pesquisa I. Centro Universitário Leonardo da Vinci II. Núcleo de Ensino a Distância III. Título APRESENTAÇÃO Prezado(a) Acadêmico(a)! Apresentamos a você a disciplina de Pesquisa em Serviço Social. Você, a partir de agora, estará em contato com todos os elementos que envolvem a questão da pesquisa. Iniciaremos discutindo os principais fundamentos desta, ampliando os conhecimentos em relação à pesquisa no âmbito social. Daremos toda a atenção à relação da pesquisa com o Serviço Social, assim como da sua importância para a legitimação da profissão no mundo acadêmico. Trataremos também da pesquisa como instrumento fundamental da prática profissional do Assistente Social, assim como os resultados que têm sido obtidos dela na contemporaneidade. Por fim, possibilitaremos que você possa experienciar a elaboração de um projeto de pesquisa, o primeiro de muitos, que certamente farão parte de sua trajetória profissional. Certamente, os conteúdos aqui apreendidos servirão de exímio significado para sua trajetória acadêmica, e posteriormente, profissional. Bons estudos! Prof. Fabrício André Tavares PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL iii PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL iv UNI Oi!! Eu sou o UNI, você já me conhece das outras disciplinas. Estarei com você ao longo deste caderno. Acompanharei os seus estudos e, sempre que precisar, farei algumas observações. Desejo a você excelentes estudos! UNI PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL v SUMÁRIO UNIDADE 1: A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES ........................................... 1 TÓPICO 1: CIÊNCIA E A DESCOBERTA DA REALIDADE ............................................ 3 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................... 3 2 O QUE É CIÊNCIA? ....................................................................................................... 3 3 A IMPORTÂNCIA DA CIÊNCIA E DO SABER .............................................................. 5 4 A CLASSIFICAÇÃO DAS CIÊNCIAS ............................................................................ 7 5 A CIÊNCIA COMO BASE PARA A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO ................ 8 LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................... 15 RESUMO DO TÓPICO 1 ................................................................................................. 17 AUTOATIVIDADE ........................................................................................................... 18 TÓPICO 2: CONCEITO E FINALIDADES DA PESQUISA ............................................ 19 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................. 19 2 CONCEITOS DE PESQUISA ....................................................................................... 19 3 FINALIDADES DA PESQUISA .................................................................................... 22 4 CLASSIFICAÇÃO DA PESQUISA .............................................................................. 23 LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................... 29 RESUMO DO TÓPICO 2 ................................................................................................. 33 AUTOATIVIDADE ........................................................................................................... 34 TÓPICO 3: MÉTODOS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS ......................................................... 35 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................. 35 2 COMPREENDENDO AS CIÊNCIAS SOCIAIS ............................................................ 35 3 O MÉTODO CIENTÍFICO NAS CIÊNCIAS SOCIAIS .................................................. 36 4 MÉTODO DIALÉTICO HISTÓRICO PARA MARX ...................................................... 39 LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................... 42 RESUMO DO TÓPICO 3 ................................................................................................. 45 AUTOATIVIDADE ........................................................................................................... 46 TÓPICO 4: A PESQUISA SOCIAL ................................................................................. 47 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................. 47 2 DEFINIÇÃO E FINALIDADE DA PESQUISA SOCIAL ............................................... 47 3 NÍVEIS DE PESQUISA SOCIAL .................................................................................. 49 4 O PAPEL DO PESQUISADOR NA PESQUISA SOCIAL ............................................ 53 5 ETAPAS METODOLÓGICAS DA PESQUISA SOCIAL .............................................. 55 LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................... 58 RESUMO DO TÓPICO 4 ................................................................................................. 61 AUTOATIVIDADE ........................................................................................................... 62 AVALIAÇÃO .................................................................................................................... 63 UNIDADE 2: ELEMENTOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL ............................. 65 TÓPICO 1: PESQUISA E PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO NO SERVIÇO SOCIAL 67 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................. 67 2 RESGATE HISTÓRICO DO SERVIÇO SOCIAL E A RELAÇÃO COM A PESQUISA 67 2.1 DÉCADA DE 1980 ..................................................................................................... 69 2.2 DÉCADA DE 1990 ..................................................................................................... 70 3 IMPORTÂNCIA DA PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL ............................................. 73 4 PARTICULARIDADE DA PESQUISA PARA O SERVIÇO SOCIAL ........................... 75 5 RETORNO E ALCANCE SOCIAL DAS PESQUISAS NO SERVIÇO SOCIAL ........... 76 LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................... 79 RESUMO DO TÓPICO 1 ................................................................................................. 83 AUTOATIVIDADE ........................................................................................................... 85 TÓPICO 2: ÉTICA E PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL .............................................. 87 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................. 87 2 CONCEITUANDO A ÉTICA .........................................................................................87 3 A ÉTICA E O SABER – ELEMENTOS DA BIOÉTICA ................................................ 88 4 SERVIÇO SOCIAL E A ÉTICA NA PESQUISA ........................................................... 90 5 CENTRALIDADE DOS SUJEITOS NAS PESQUISAS DO SERVIÇO SOCIAL ......... 92 LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................... 96 RESUMO DO TÓPICO 2 ............................................................................................... 102 AUTOATIVIDADE ......................................................................................................... 104 TÓPICO 3: ÁREAS DE ABRANGÊNCIA DA PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL ...... 105 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 105 2 A ABEPSS .................................................................................................................. 105 3 A PESQUISA QUALIFICANDO A PRÁTICA PROFISSIONAL ................................. 107 4 A PESQUISA EM CURSOS DE GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL .................. 109 5 A PESQUISA NA PÓS-GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL ................................. 115 LEITURA COMPLEMENTAR ......................................................................................... 117 RESUMO DO TÓPICO 3 ............................................................................................... 123 AUTOATIVIDADE ......................................................................................................... 125 TÓPICO 4: ATRIBUIÇÕES E COMPETÊNCIAS DO ASSISTENTE SOCIAL PESQUISADOR ......................................................................................... 127 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 127 2 CONSIDERAÇÕES INTRODUTÓRIAS SOBRE O ATO DE PESQUISAR ............... 127 3 TORNANDO-SE UM PESQUISADOR ....................................................................... 128 4 COMPETÊNCIAS ESSENCIAIS NO ATO DE PESQUISAR ..................................... 129 5 PARTICIPAÇÃO EM NÚCLEOS DE ESTUDO E GRUPOS DE PESQUISA ............ 132 LEITURA COMPLEMENTAR ........................................................................................ 135 RESUMO DO TÓPICO 4 ............................................................................................... 140 AUTOATIVIDADE ......................................................................................................... 141 PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL vi PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL vii TÓPICO 5: ELEMENTOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 143 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 143 2 O PROJETO DE PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL ............................................... 143 3 ELEMENTOS DO PROJETO DE PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL ..................... 146 4 A COLETA DE DADOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL .............................. 149 5 MENSURANDO OS RESULTADOS DA PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL .......... 154 5.1 ANALISANDO OS DADOS ...................................................................................... 154 5.2 ELABORANDO O RELATÓRIO DA PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL ................ 155 LEITURA COMPLEMENTAR ........................................................................................ 157 RESUMO DO TÓPICO 5 ............................................................................................... 162 AUTOATIVIDADE ......................................................................................................... 163 AVALIAÇÃO .................................................................................................................. 164 UNIDADE 3: PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL: PLANEJAMENTO, EXECUÇÃO E RESULTADOS ........................................................................................ 165 TÓPICO 1: RETOMANDO OS ELEMENTOS DO PROJETO DE PESQUISA ............ 167 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 167 2 PASSOS PARA A ELABORAÇÃO DE UM PROJETO ............................................. 167 3 O QUE É O PROBLEMA DE PESQUISA? ............................................................... 170 4 JUSTIFICATIVA DA PESQUISA ................................................................................ 173 5 O QUE SE PRETENDE DESENVOLVER? OS OBJETIVOS .................................... 177 6 O QUE JÁ SEI SOBRE O TEMA? REVISÃO DE LITERATURA .............................. 180 7 COMO SE FARÁ O TRABALHO? METODOLOGIA ................................................. 186 8 QUANDO SERÁ DESENVOLVIDA CADA ETAPA DA PESQUISA? O CRONOGRAMA ........................................................................................................ 189 9 QUANTO E COM O QUE SE IRÁ GASTAR? O ORÇAMENTO E OS RECURSOS 190 10 ONDE FOI PESQUISADO? AS REFERÊNCIAS .................................................... 192 LEITURA COMPLEMENTAR ........................................................................................ 195 RESUMO DO TÓPICO 1 ............................................................................................... 198 AUTOATIVIDADE ......................................................................................................... 199 TÓPICO 2: CONSTRUINDO AS HIPÓTESES E DEFININDO O DELINEAMENTO DA PESQUISA ........................................................................................... 201 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 201 2 O QUE SÃO HIPÓTESES DE PESQUISA? .............................................................. 201 3 TIPOS DE HIPÓTESES ............................................................................................. 202 4 FORMULAÇÃO E CARACTERÍSTICAS DAS HIPÓTESES DE PESQUISA ........... 204 LEITURA COMPLEMENTAR ........................................................................................ 208 RESUMO DO TÓPICO 2 ............................................................................................... 210 AUTOATIVIDADE .......................................................................................................... 211 TÓPICO 3: VARIÁVEIS E AMOSTRAGEM NA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL .. 213 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 213 2 MENSURAÇÃO E ELABORAÇÃO DAS VARIÁVEIS NA PESQUISA SOCIAL ...... 213 3 PRINCÍPIOS E FUNDAMENTOS DA AMOSTRAGEM ............................................. 214 3.1 AMOSTRA ............................................................................................................... 215 4 TIPOS DE AMOSTRAGEM E TAMANHO DA AMOSTRA ........................................ 215 4.1 AMOSTRA PROBABILÍSTICA ................................................................................. 216 4.2 AMOSTRAS NÃO PROBABILÍSTICAS ................................................................... 217 LEITURA COMPLEMENTAR ........................................................................................ 221 RESUMO DO TÓPICO 3 ............................................................................................... 224 AUTOATIVIDADE ......................................................................................................... 225 TÓPICO 4: INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS E O TRABALHO DE CAMPO ................................................................................................................... 227 1 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................227 2 DEFININDO OS INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS .................................. 227 3 QUESTIONÁRIO, ENTREVISTA E OBSERVAÇÃO COMO INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS ........................................................................................... 228 4 A COLETA DE DADOS .............................................................................................. 230 LEITURA COMPLEMENTAR ........................................................................................ 232 RESUMO DO TÓPICO 4 ............................................................................................... 234 AUTOATIVIDADE ......................................................................................................... 235 TÓPICO 5: ANÁLISE DOS DADOS E A ELABORAÇÃO DO RELATÓRIO DA PESQUISA .............................................................................................................. 237 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 237 2 DEFININDO A ANÁLISE DE DADOS ........................................................................ 237 3 INTERPRETAÇÃO DOS DADOS COLETADOS ....................................................... 238 4 ANÁLISE ESTATÍSTICA DE DADOS ........................................................................ 238 5 ANÁLISE QUALITATIVA ............................................................................................ 240 6 REDIGINDO O RELATÓRIO DE PESQUISA ............................................................ 242 LEITURA COMPLEMENTAR ........................................................................................ 243 RESUMO DO TÓPICO 5 ............................................................................................... 249 AUTOATIVIDADE ......................................................................................................... 250 AVALIAÇÃO .................................................................................................................. 251 REFERÊNCIAS ............................................................................................................. 253 PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL viii P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L UNIDADE 1 A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM A partir desta unidade você será capaz de: compreender o conceito de ciência; estabelecer uma relação entre ciência, conhecimento e saber; compreender o que é uma pesquisa e qual sua finalidade no meio acadêmico; analisar os diferentes métodos utilizados nas ciências sociais; conhecer os elementos que fazem parte de uma pesquisa na área social. TÓPICO 1 – CIÊNCIA E A DESCOBERTA DA REALIDADE TÓPICO 2 – CONCEITO E FINALIDADES DA PESQUISA TÓPICO 3 – MÉTODOS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS TÓPICO 4 – A PESQUISA SOCIAL PLANO DE ESTUDOS A Unidade 1 está dividida em quatro tópicos e, ao final de cada um deles, você terá a oportunidade de fixar seus conhecimentos realizando as atividades propostas. P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L CIÊNCIA E A DESCOBERTA DA REALIDADE 1 INTRODUÇÃO 2 O QUE É CIÊNCIA? TÓPICO 1 UNIDADE 1 Neste tópico estudaremos a Ciência, assim como a contribuição desta para a descoberta da realidade. Iniciaremos conceituando ciência, relacionando-a com o saber e a aquisição do conhecimento. A busca pela compreensão do que é Ciência se dá por diversos autores, o que desencadeou o surgimento de ideias muito diversificadas para a mesma. Isso quer dizer que não é o aspecto definitivo que caracteriza a definição de Ciência e, sim, o fato de ser algo que se encontra em contínuo aprimoramento. Conforme o Dicionário Aurélio (2010, p. 41), é possível descrever quatro maneiras distintas à Ciência, sendo elas: 1. Como representação do conhecimento, advinda do termo latino “scientia”. 2. Enquanto um conjunto organizado de conhecimentos referentes a um ob- jeto específico, mais precisamente quando obtidos através de observação, experiência dos fatos e um método próprio. 3. Como a soma de conhecimentos práticos, destinados a um fim determinado, ou o somatório dos conhecimentos humanos, sendo considerados enquanto conjunto. 4. Enquanto o saber adquirido por meio de leitura e meditação, erudição, instrução e sabedoria. Com base nestas considerações, tem-se que a ciência inicia pela tentativa mais UNIDADE 1TÓPICO 14 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L elementar do dia a dia de experienciar, dominar e entender a natureza física e humana. FONTE: Disponível em: <http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http:// www.baupirata.com/arquivos/omapa/ciencia. jpg&imgrefurl=http://www.baupirata.com/2009/08/17>. Acesso em: 8 out. 2010. Quando se questiona sobre o surgimento da Ciência, considera-se que esta se deu no final do século XIX, desenvolvendo-se intensamente a partir do século XX. Tal desenvolvimento foi baseado no modelo das ciências naturais e do espírito do positivismo, que imperavam na referida época histórica. No transcorrer deste caderno aprofundaremos os conhecimentos referentes às ciências naturais e ao espírito positivista. Pode-se compreender, também, que a ciência consiste numa tomada de consciência de um mundo vivido pelo homem e que demanda uma ação crítico-prática, envolvendo o mundo sensível, perceptível e intelectivo do ser pensante. É a partir desta compreensão que emergem os conhecimentos que irão direcionar a busca de novos saberes. Segundo Gil (1999), a concepção de Ciência se dá como sendo um conjunto de teorias, leis, descrições, padrões e interpretações, que buscam alcançar o conhecimento de uma parcela específica da realidade. Dessa forma, a ciência está em constante renovação, no sentido de dar respostas a inúmeros questionamentos que vão emergindo no cotidiano. Ela emerge através de um conjunto de constante ampliação e renovação, culminando no surgimento e aplicação de uma metodologia especializada, reconhecida como a Metodologia Científica. FIGURA 1 – CIÊNCIA UNIDADE 1 TÓPICO 1 5 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L AUT OAT IVID ADE � Defina, com suas palavras, o que é Ciência. 3 A IMPORTÂNCIA DA CIÊNCIA E DO SABER São vários os motivos que justificam a importância da ciência e do saber. Ambas as dimensões teriam uma ligação muito próxima com a produção de conhecimentos. Define-se que, enquanto práxis, o conhecimento constitui-se como sendo uma atividade “teórico-prática” e/ou “prático-teórica”, pois a teoria orienta a ação e a prática estrutura e/ou realimenta a teoria. Dessa forma, [...] o conhecimento não consiste, somente, numa mera expressão de imagens cognitivas, mas é, antes, uma coexistência do sujeito com o objeto numa reali- dade determinada; é o sujeito cognoscente envolvido com o mundo cognoscível (BARROS; LEHFELD, 2003, p. 24). Seguindo a lógica dos autores citados, pode-se observar que desde o nascimento, o homem, em contato com a natureza e os objetos ao seu redor, aprende, através dos princípios de inclusão e exclusão, a distingui-los. E mais, o sujeito interpreta o seu universo através da tradição social e cultural que faz parte de seu contexto. Dessa forma, sabe, por exemplo, o que é casa, e qual a utilidade de uma porta, o que é uma mesa, dentre outros. O sujeito vivencia, então, suas crenças e experiências. É na medida em que a insegurança de suas experiências sugere erros e conflitos, que passam a surgir as dúvidas. Como resultado, tem-se a reflexão, como forma de respostas a problematizações feitas e que exigem decisões. Assim o homem necessita, então, pensar e meditar; necessita, efetivamente, saber a que se ater, e, dessa forma, o conhecimento passa a ser trajetória para a consequência do ato de conhecer, no qual se busca o saber teórico e prático de situações objetivas e subjetivas. Assim sendo, de acordo comBarros e Lehfeld (2003), o valor do conhecimento reside nos seguintes fatores: ● Busca e aquisição de informações para solução de problemas experienciais e vivenciais. ● Aplicação dos conhecimentos obtidos para promover o progresso material e espiritual do homem e da sociedade. ● Fonte de invenções e criações técnico-científicas, capazes de beneficiar a vida humana. UNIDADE 1TÓPICO 16 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Observa-se então que o conhecimento tem significativa importância na solução de problemas, na busca de conhecimentos que promovam o progresso da ciência, da mesma forma que o desenvolvimento constante do ser humano. Na contemporaneidade, destaca-se o fato de que não existe qualquer limitação ou controle para o ser humano conhecer algo. Pelo contrário, o que se apresenta é a imensa liberdade e o direito de obter o conhecimento. Conforme Demo (2000), há duas faces apresentadas pelo conhecimento, que são ambíguas. São elas: ● Com o conhecimento o ser humano está, cada vez mais, à mercê de sua própria história, porém, ● O conhecimento traz consigo a possibilidade de acabar com a história, enfatizando o fato de que ele tem servido persistentemente aos poderosos. Assim, o conhecimento tem a possibilidade de envolver tanto elementos de emancipação do ser humano, como de destruição. Tudo depende do direcionamento ético e filosófico direcionado ao conhecer e, ao mesmo tempo, ao que é conhecido. FONTE: Disponível em: <http://www.visionvox.com.br/biblioteca/p/projeto-de-pesquisa.txt>. Acesso em: 8 fev. 2011. FONTE: Disponível em: <http://www.folhademinasgerais.com/wp-content/ uploads/2010/10/ciencia.jpg>. Acesso em: 8 out. 2010. FIGURA 2 – CIÊNCIA E SABER UNIDADE 1 TÓPICO 1 7 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L 4 A CLASSIFICAÇÃO DAS CIÊNCIAS Em nível metodológico, as ciências podem ser classificadas de diferentes formas. Salienta-se que não existiria um consenso nesta classificação. O que é ciência para alguns autores ainda permanece como ramo de estudo para outros, e vice-versa. Nesta disciplina se estará adotando a classificação apresentada por Marconi & Lakatos (2000), que definem a ciência como sendo Formal ou Factual. As mesmas podem ser assim descritas: a) AS CIÊNCIAS FORMAIS Encarregam-se do estudo das ideias, dividindo-se em lógica e matemática. Ressalta- se que por não terem relação com algo encontrado na realidade, não podem valer-se dos contatos com essa realidade para validar suas fórmulas, utilizando a lógica para demonstrar rigorosamente seus teoremas. Os resultados obtidos pelas ciências formais demonstram ou provam hipóteses. b) AS CIÊNCIAS FACTUAIS Encarregam-se do estudo dos fatos, dividindo-se em naturais e sociais. Referem-se a fatos que supostamente ocorrem no mundo e, em consequência, recorrem às observações e às experimentações para comprovar ou refutar suas hipóteses. Os resultados alcançados pelas ciências factuais verificam, comprovam ou refutam hipóteses que, em sua maioria, são provisórias. FONTE: Disponível em: <http://jararaca.ufsm.br/websites/deaer/download/SUBPASTA01/Froehlich/ Cienconheccient.pdf>. Acesso em: 8 fev. 2011. No Serviço Social observa-se uma relação próxima com as ciências sociais. A obtenção de novos saberes se dá, então, através da aproximação com diferentes fenômenos sociais, os quais podem ser comprovados, refutados e, comumente, superados com a realização de novas pesquisas. No transcorrer deste caderno se estará aprofundando os conhecimentos referentes ao Serviço Social e à construção de novos saberes. UNIDADE 1TÓPICO 18 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L 5 A CIÊNCIA COMO BASE PARA A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO O homem, por sua capacidade de ação e reflexão, relaciona-se com o mundo e com as pessoas em um contexto social e histórico determinado. Na medida em que essas relações vão se estabelecendo, o sujeito passa a construir um sistema de representações que lhe possibilita viver e compreender a sua própria existência. Ressalta-se que, dependendo da maneira como o homem irá estabelecer suas relações com a realidade, ele poderá apreendê-la de formas diferenciadas, construindo diversos sistemas de representação. Por isso, é possível se reconhecer diversas formas do ser humano representar e explicar o seu mundo, como, por exemplo, a científica e a do senso comum. Esses diferentes saberes são modos específicos de conhecer, expressar e intervir na própria realidade. Dessa forma, o sujeito, inserido em seu contexto social, interpreta a si e ao mundo criando significações várias e, conforme o modo como estas são criadas, ele criará um tipo determinado de conhecimento. Como já estudado até aqui, percebe-se que várias são as teorias, os pensadores e as definições acerca da ciência. Como forma de se aprofundar os elementos que emergem na produção do conhecimento, pode-se definir dois tipos distintos de teorias existentes que buscam explicar o conhecimento. São elas: ● Conhecimento Ordinário ou Vulgar (Senso Comum). ● Conhecimento Científico. Cada um deles será explicado a seguir. a) Senso Comum O Senso Comum é também denominado “Empírico” e refere-se ao saber adquirido no decorrer da vida cotidiana, abrangente a toda população. Ocorre ao acaso, tendo por base a experiência vivida ou repassada entre gerações, como maneira de transmitir as tradições. Geralmente o conhecimento empírico é resultado de vivências de erro e acerto, sem comprometer uma metodologia de observação ou verificações permanentes. E, exatamente em função dessas condições, não apresenta caráter científico. A forma ordinária de o homem criar suas representações é através do senso comum, que surge da necessidade de resolver problemas imediatos da vida cotidiana. É, portanto, uma forma espontânea e assistemática de representar a realidade, sem aprofundar os fundamentos da mesma através de um método adequado. As motivações dessa forma de conhecer têm como fundamento o interesse prático e as vivências e crenças pessoais. UNIDADE 1 TÓPICO 1 9 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L FONTE: Disponível em: <http://www6.ufrgs.br/laviecs/edu02022/portifolios_educacionais/t_20061_m/ Fernando_Martins/FERNANDO_MARTINS/planejamento_geral.html>. Acesso em: 8 fev. 2011. O senso comum se situa num âmbito cognitivo muito próximo dos elementos concretos da realidade, o que certamente implica determinado grau de abstração. Contudo, ele permanece ainda muito preso às representações sensíveis, não conseguindo ultrapassá-las, a fim de atingir um nível maior de elaboração com a criação ou a assimilação de conceitos cujos significados aprofundem a compreensão da realidade. Esta é a dificuldade cognitiva dos indivíduos que se mantêm ligados à apreensão sensível dos fenômenos, pois isso faz com que conheçam apenas os fatos a partir de sua aparência. Desse modo, conforme Schaefer e Jantsch (2005, p.16), tendo como base qualquer esfera da realidade, o senso comum se movimenta como “um círculo fechado, pela impossibilidade de transpor a simples concretude do mundo sensível”. Dentre outras, destacamos as seguintes características dessa forma de conhecimento: Heterogeneidade; Ausência de crítica; Imediatismo; Dogmatismo. Cada uma destas características será destacada a seguir. Heterogeneidade O senso comum é um conhecimento formado mediante um aglomerado indiscriminado de elementos de naturezas diversas, que são acoplados e justapostos, formando um conjunto sem unidade e coerência internas. O grau de organização ou reelaboração desses elementos não possibilita chegar a uma síntese com uma compreensão mais aprofundada. Essa forma de conhecer reorganiza os elementos, compondo algo diverso do originalmente oferecido, mas continua circunscrita à realidade imediata. Assim, o senso comum procede de uma simples junção de ideias, noções ou conceitos, sem uma compreensão mais aprofundada da realidade. Por exemplo, ele consegue percebera falta de moradia e de alimentos, o desemprego, as doenças, os baixos salários. Contudo, não percebe a lógica de produção e inter-relação entre esses elementos. FONTE: Disponível em: <http://www6.ufrgs.br/laviecs/edu02022/portifolios_educacionais/t_20061_m/ Fernando_Martins/FERNANDO_MARTINS/planejamento_geral.html>. Acesso em: 8 fev. 2011. Ausência de crítica O senso comum é constituído por uma multiplicidade de noções provenientes da vida cotidiana. O mundo vivido, como o trabalho, o emprego e o desemprego, o consumo, as relações sociais, as práticas religiosas, os programas de televisão, é assimilado de forma fragmentada. UNIDADE 1TÓPICO 110 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Desse modo, não atinge um nível de crítica necessário para compreender a realidade além do imediatamente vivido. A consciência do homem que se movimenta no âmbito do senso comum é uma consciência dual e contraditória. Tendo em vista seu comportamento, sua visão de mundo e sua ética, pode-se dizer que são seres fatalistas face à situação concreta onde vivem. Na maioria das vezes, o fatalismo se refere ao destino ou a uma concepção de Deus, que se constituem nas entidades responsáveis pelos acontecimentos da vida. FONTE: Disponível em: <http://www6.ufrgs.br/laviecs/edu02022/portifolios_educacionais/t_20061_m/ Fernando_Martins/FERNANDO_MARTINS/planejamento_geral.html>. Acesso em: 8 fev. 2011. Imediatismo A realidade é apreendida tal como aparece num primeiro momento, sem maiores preocupações de ultrapassar as aparências. Nessa forma de conhecer há forte tendência de o indivíduo ficar preso à realidade, sem tomar distância dela, e superar sua opacidade mediante um conhecimento mais elaborado. O senso comum não permite que o sujeito se distancie dos fatos e que os veja sob ângulos diferentes daqueles fornecidos pela própria vivência. Essa tomada dos fatos, no seu imediatismo, leva os indivíduos a fazerem da realidade vivida um mundo fragmentado, constituído de elementos dissociados entre si. E, na medida em que ele fica adstrito ao mundo vivido, percebendo-o de forma fragmentada, não alcança uma compreensão mais aprofundada do real e, menos ainda, o consequente alargamento das possibilidades de sua ação. Dogmatismo O dogmatismo se apresenta como uma espécie de “porto seguro”, no qual o sujeito se ancora e permanece com medo de se aventurar. No “porto seguro”, o indivíduo se abriga em suas próprias ideias, noções e valores. Sua concepção de mundo resiste a modificações. Em lugar de possibilitar uma crítica e um alcance de níveis mais aprofundados de compreensão da realidade, o dogmatismo cristaliza tanto o entendimento como a prática dos indivíduos. Isso não significa, porém, que o senso comum seja imutável, uma vez que é social e histórico e, portanto, um conhecimento sujeito a transformações, embora insuficientes para superar as primeiras impressões da realidade. Apesar dessas características que, de certo modo, definem o senso comum a partir de seus limites internos, faz-se relevante considerar a outra face dessa forma de conhecer, que aponta para suas possibilidades. O senso comum é uma forma de conhecer que faz parte do universo mental e da prática cotidiana da maioria das pessoas. Para Gramsci (2006), existe uma dimensão crítica presente UNIDADE 1 TÓPICO 1 11 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L no senso comum, denominada de bom senso, sendo o conjunto de elementos de negatividade e criticidade que mostra a possibilidade de sua superação. Assim, o bom senso encontra-se no mínimo de reflexão presente nas práticas cotidianas, fazendo com que o indivíduo possa sobreviver em um meio social que o coloca em posição de subalterno. Além disso, é preciso assinalar a criação de uma cultura ou um saber popular forjado pelas próprias camadas populares, capaz de explicitar parcialmente suas condições de existência. Embora não seja um saber que se estruture e se expresse com categorias do universo acadêmico, é um conhecimento que possibilita a esses grupos compreender muitos aspectos da realidade e orientar suas práticas cotidianas. b) Conhecimento Científico O Conhecimento Científico é uma conquista intencional, sistemática e consciente. Nesse aspecto, ressalta-se que a grande contribuição para o conhecimento científico foi a descoberta do método científico. E, segundo Demo (2000), o conhecimento científico é consequência de uma investigação metódica e sistemática de algum fenômeno. Isso quer dizer que ela perpassa o fenômeno em si, vai além dos fatos, analisando e buscando encontrar suas causas para descobrir as normas que os guiam. A partir dessa compreensão é possível alegar que o conhecimento deve se configurar como: ● Objetivo: sendo independente, ou seja, descreve a realidade sem influências do pesquisador. ● Racional: a razão deve ser sua guia, enquanto a emoção ou as impressões não são consideradas para se formular o resultado. ● Sistemático: o foco é o desenvolvimento de ideias organizadas de maneira racional, ao mesmo tempo em que se busca inserir conhecimentos parciais em uma totalidade cada vez mais abrangente. ● Geral: o seu comprometimento é com a elaboração de normas e leis gerais, que sejam relacionadas a um determinado fenômeno específico. ● Verificável: torna possível a verificação da veracidade das informações. ● Falível: tem consciência de sua capacidade de errar. Conhecimento Científico, então, é um processo desencadeado progressivamente, em função do devir a ser, e que emerge da coexistência ou da relação entre teoria e prática; sendo que a prática é o fundamento da teoria. A partir desta relação, tem-se o processo e a maturação UNIDADE 1TÓPICO 112 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L do conhecimento (BARROS & LEHFELD, 2003). AUT OAT IVID ADE � Na sua opinião, qual a diferença entre senso comum e o conhecimento científico? O conhecimento científico consiste no aperfeiçoamento do conhecimento comum e ordinário, sendo obtido através de um procedimento metódico, o qual mobiliza explicações rigorosas e/ou plausíveis sobre o que se afirma a respeito de um objeto ou realidade. Para o conhecimento científico, a realidade a ser conhecida é apresentada como um objeto à mostra, claro e transparente. Há uma distinção entre as coisas tal como aparecem num primeiro momento à nossa percepção e como são na realidade, isto é, entre a forma de manifestação das coisas e sua real constituição. Esse pressuposto, segundo o qual não há coincidência entre aparência e essência, coloca uma exigência ao conhecimento humano: conhecer os fenômenos na sua dinâmica interna, desvelando os elementos específicos que o constituem. E conhecer os fenômenos na sua essência, naquilo que apresentam de mais original e particular, é tarefa do conhecimento científico. FONTE: Disponível em: <http://www6.ufrgs.br/laviecs/edu02022/portifolios_educacionais/t_20061_m/ Fernando_Martins/FERNANDO_MARTINS/planejamento_geral.html>. Acesso em: 8 fev. 2011. Assim: o conhecimento não se produz a partir de um simples reflexo do fenômeno, tal como este aparece para o homem; o conhecimento tem que desvendar no fenômeno aquilo que lhe é constitutivo e que é, em princípio, obscuro; o método para a produção desse conhecimento assume, assim, um caráter fundamental: deve permitir tal desvendamento, deve permitir que se descubra, por trás da aparência, o fenômeno tal como é realmente, o que determina, inclusive, que ele apareça da forma como o faz. (ANDRY, 1998, p. 29) O desvelamento dos fenômenos, contudo, não ocorre de maneira espontânea na vida das pessoas. Antes, é tarefa que implica um longo trabalho de investigação que consiga analisar os elementos particulares, estabelecendo relações entre os mesmos e, a partir daí, recompor o fenômeno, formando uma nova totalidade. Assim, o conhecimento científico não é um simples reflexo ou uma representação do fenômeno, mas um produto do esforço intelectualdo indivíduo. Na construção do conhecimento, o sujeito age prática e intelectualmente sobre seu UNIDADE 1 TÓPICO 1 13 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L objeto de investigação e o reconstrói no seu pensamento através das três etapas, sendo elas: a percepção da realidade; da percepção da realidade ao pensamento abstrato; do pensamento abstrato à prática. Cada uma delas será descrita a seguir. A percepção da realidade A realidade é percebida através de nossos sentidos. Essa aproximação com o real é a fase inicial do processo de produção do conhecimento científico, que nos permite apreender a aparência, a exterioridade dos fenômenos sociais, culturais, econômicos, psíquicos etc. Esta primeira percepção, contudo, não é um ato através do qual a realidade imprime suas marcas na mente do sujeito. Ao contrário, trata-se de um ato ativo do sujeito, no qual intervêm elementos já presentes no seu pensamento, na sua memória, no seu modo de agir. A percepção da realidade se dá, portanto, como produto das relações que o indivíduo estabelece através de sua prática social no contexto onde vive. Da percepção da realidade ao pensamento abstrato Após esse primeiro nível de percepção dos fatos, há que se fazer o esforço necessário para romper a aparência dos fenômenos, descobrir seus elementos internos, bem como as conexões entre eles e com a realidade global onde estão inseridos. Tais conexões são invisíveis à percepção dos sentidos. Para passar da aparência à essência dos fenômenos, é preciso seguir um processo de abstração do pensamento que consiste na análise das percepções obtidas e na síntese de seus elementos constitutivos, mediante conceitos que reconstituem aquele mesmo fato com nova configuração. O processo de abstração pode ir se aprofundando, ao ponto de formular leis e teorias da natureza e da sociedade com validade universal. FONTE: Disponível em: <http://www6.ufrgs.br/laviecs/edu02022/portifolios_educacionais/t_20061_m/ Fernando_Martins/FERNANDO_MARTINS/planejamento_geral.html>. Acesso em: 8 fev. 2011. Entretanto, a abstração exige do sujeito o exercício e a aplicação de determinadas habilidades intelectuais: a) Associação: relacionar o fenômeno em estudo com outros, buscando semelhanças e diferenças, implicações mútuas e contradições. b) Análise: desmembrar o objeto em estudo para que cada elemento particular que o compõe ganhe maior visibilidade. c) Estabelecer relações: relacionar os elementos internos do fenômeno buscando nexos e oposições, contradições, complementaridade, superações, bem como relacioná-los com os elementos da realidade global. d) Síntese: elaboração de conclusões que recriem, em nível conceitual, o fenômeno estudado. UNIDADE 1TÓPICO 114 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Portanto, o conhecimento científico se caracteriza pelo trabalho do pensamento que, explicando os nexos entre seus elementos constituintes, permite a construção de novos conceitos e teorias que alargam nossa compreensão do real. Do pensamento abstrato à prática O conhecimento obtido mediante a passagem da percepção da realidade à abstração retorna a essa mesma realidade. Porém, não na sua antiga forma, como percepção sensível, mas agora enriquecido com maior capacidade explicativa, possibilitando uma compreensão mais abrangente e aprofundada. Desse modo, é possível agir de modo a transformar a realidade a partir de uma nova teoria que forneça maior suporte à ação humana. Nesse ato surgirão situações que exigirão novas teorizações, de modo que cada uma dessas práticas desencadeará outro processo de conhecimento sobre elementos ainda inexplorados. Nesse sentido, a teoria é sempre uma compreensão da realidade e uma fundamentação da ação, e não um conjunto de especulações vazias. Com base nestas considerações, tem-se que o conhecimento científico é explicativo, constrói e aplica teorias e depende de investigações metódicas. É através dele que o ser humano compreende a realidade social que o cerca. Este surge não apenas da necessidade de encontrar soluções para os problemas do cotidiano, mas do seu desejo de resposta às dúvidas e questionamentos que emergem dos seres humanos. Destaca-se que o conhecimento científico pode ser gerado através de investigações realizadas com base em um procedimento sistemático, que busca informações acerca de objetos e/ou fenômenos já pesquisados e demonstrados e/ou comunicados. Trata-se, portanto, de uma postura bastante metódica, reflexiva e, acima de tudo, crítica sobre as descobertas já realizadas. Entende-se que, qualquer resposta fornecida em razão de um determinado questionamento tem probabilidade de gerar outras dúvidas, que tendem a se tornar novas proposições para a pesquisa científica. Desse modo, o avanço da ciência está vinculado a renovações, ampliações de teorias, bem como à prática e à crítica insistente do pesquisador. Assim sendo, na medida em que a pesquisa científica caminha, de fases de domínio e de procura, do mais simples para o mais complexo, pode-se chegar, com criatividade, à descoberta e obtenção de resultados significativos. FONTE: Adaptado de: <http://www.visionvox.com.br/biblioteca/p/projeto-de-pesquisa.txt>. Acesso em: 8 fev. 2011. Tal compreensão se aplica ao Serviço Social. A busca incessante por compreender novas situações sociais, ampliar o conhecimento sobre diferentes expressões da questão UNIDADE 1 TÓPICO 1 15 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L social, assim como avaliar programas e projetos sociais, consistem em elementos primordiais no uso da pesquisa na prática profissional. NO TA! � O senso comum não se caracteriza pela investigação, pelo questionamento, ao contrário da ciência. Fica no imediato das coisas, caracteriza-se pela subjetividade. É ditado pelas circunstâncias. É subjetivo, isto é, permeado pelas opiniões, emoções e valores de quem o produz. FONTE: Disponível em: <http://www.cefetsp.br/edu/eso/ filosofia/sensociencia1.html>. Acesso em: 20 out. 2010. FONTE: Disponível em: <http://www.penielro.com.br/rjp/wp-content/ uploads/2010/09/ciencia.jpg>. Acesso em: 20 out. 2010. LEITURA COMPLEMENTAR O SENSO COMUM: CONHECIMENTO DA REALIDADE Hilton Japiassu Durante nossa vida cotidiana vamos adquirindo várias aprendizagens, pela via do hábito e da tradição, que passam de geração para geração. Assim, aprendemos com nossos pais a FIGURA 3 – CIÊNCIA E CONHECIMENTO UNIDADE 1TÓPICO 116 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L atravessar a rua, a fazer a televisão funcionar, a plantar alimentos na época e de maneira correta. Com nossos amigos e colegas aprendemos a paquerar, a ”ficar” ou a pedir para namorar a pessoa que desejamos, a nos comportarmos em sala de aula, no trabalho, e assim por diante. Na vida cotidiana, as teorias científicas são simplificadas, quer seja para viabilizar seu uso no dia a dia, quer seja pela interpretação sempre singular dos fatos vividos, que muitas vezes parecem contradizer as considerações feitas pela ciência. É justamente o conhecimento que vamos acumulando no nosso dia a dia que é chamado de senso comum. O senso comum mistura e recicla saberes muito mais especializados e os reduz a um tipo de teoria simplificada, produzindo uma determinada “visão de mundo”. O senso comum vai integrando, ainda que de um modo precário, todo o conhecimento humano, produzindo para cada pessoa, ou grupo social, um modo particular de interpretar os fatos e o mundo que o cerca. Sem esse conhecimento intuitivo, espontâneo, construído muitas vezes de tentativas e erros, a nossa vida no dia a dia seria muito complicada. E é na tentativa de facilitar o dia a dia que o senso comum produz suas próprias “teorias” médicas, físicas, psicológicas etc. O que é ciência? A ciência é uma atividade reflexiva, que procura compreender, elucidar e alterar o cotidiano a partir de um estudo sistemático e não simplesmente da adaptação à realidade. Quando fazemos ciência,afastamo-nos da realidade para compreendê-la melhor, transformando-a em objeto de investigação - o que permite a construção do conhecimento científico sobre o real. A ciência é composta de um conjunto de conhecimentos sobre fatos ou aspectos da realidade (objeto de estudo), expresso por meio de uma linguagem precisa e rigorosa. Esses conhecimentos devem ser obtidos de maneira programada, sistemática e controlada, para que se permita a verificação de sua validade. A ciência tem ainda uma característica fundamental: ela aspira à objetividade. Suas conclusões devem ser passíveis de verificação e isentas de emoção (isto é, busca-se atingir a neutralidade), para, assim, tornarem-se válidas para todos, ou seja, poderem ser generalizadas em todas as situações. Objeto específico, linguagem rigorosa, métodos e técnicas específicos, processo cumulativo do conhecimento e objetividade fazem da ciência uma forma de conhecimento que supera em muito o conhecimento espontâneo do senso comum. Esse conjunto de características é o que permite denominarmos um conjunto de conhecimentos de científico. FONTE: Disponível em: <http://www.melory.com.br/filemanager/upload/1._CIENCIA_E_SENSO_ COMUM_Ana_Bock.pdf>. Acesso em: 20 out. 2010. UNIDADE 1 TÓPICO 1 17 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico pôde-se observar uma discussão acerca dos conceitos de ciência, sua classificação, assim como a importância do conhecimento. Pode-se então destacar os principais itens, que seriam: ● O conceito de ciência encontra-se em permanente ampliação, como algo que se mantém em contínuo aprimoramento. ● O que é ciência para alguns autores ainda permanece como ramo de estudo para outros e vice-versa. ● As ciências podem apresentar a seguinte classificação: Ciências Formais e Ciências Factuais. ● Salientam-se dois tipos distintos de teorias existentes que buscam explicar o conhecimento: Conhecimento Ordinário ou Vulgar (Senso Comum) e Conhecimento Científico. ● O Senso Comum pode ser caracterizado como: superficial, sensitivo, subjetivo, assistemático, acrítico. ● O conhecimento científico, além de se ater aos fatos, consiste em: ser analítico, comunicável, verificável, organizado e sistemático. ● A grande contribuição para o conhecimento científico foi a descoberta do método científico. ● Todo conhecimento ou toda postura científica só acontece mediante o processo de investigação. UNIDADE 1TÓPICO 118 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L AUT OAT IVID ADE � 1 Conceitue Ciência. 2 Qual a relação existente entre ciência e conhecimento? 3 Descreva as principais características do Senso Comum e da Ciência. P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L CONCEITO E FINALIDADES DA PESQUISA 1 INTRODUÇÃO 2 CONCEITOS DE PESQUISA TÓPICO 2 UNIDADE 1 Neste tópico apresentaremos o conceito e as finalidades da pesquisa. Explora-se sua importância no contexto acadêmico, da mesma forma que a sua contribuição para a descoberta de novos conhecimentos. Compreende-se que o conhecimento e a busca por novos saberes não se realizam no vazio intelectual, teórico ou prático. A busca pelo novo saber existe para sanar qualquer curiosidade ou problema cotidiano que o ser humano, tendo como base o bom senso, busque solucionar. Essa procura de respostas caracteriza-se por envolver um processo investigatório, ainda que ele seja imediato, assistemático e definido por aspectos puramente relacionados ao senso comum. Considera-se que a investigação, sendo aqui compreendida enquanto procura de novos conhecimentos, não só é própria da natureza humana, como também é a única forma capaz de viabilizar que o homem componha seu entorno, entenda seu contexto, mesmo que seja com base na reflexão. Dessa forma, o ato de pesquisar representa um esforço voltado para a aquisição de um determinado conhecimento, que proporciona a solução de problemas teóricos, práticos e/ou operativos; ainda que estejam situados no cotidiano vivenciado pelo homem. Vale ressaltar, de acordo com Demo (2000), que o guia normal do homem, para sanar suas dificuldades, é compreendido como sendo o “Bom Senso” (DEMO, 2000, p. 15). São as informações geradas por este que serão a base sobre a qual a análise realizar-se-á. As informações são reconhecidas enquanto dados pré-analíticos, em sentido duplo, já que ao mesmo tempo encontram-se antes da análise e para a mesma. UNIDADE 1TÓPICO 220 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Na passagem desse tipo de investigação para a pesquisa científica torna-se necessário que, além de especificar os dados do fenômeno capazes de serem analisados, o objeto da pesquisa se transforme em uma versão direcionada pela própria base teórico-conceitual, escolhida pelo pesquisador. Dessa forma, o fenômeno, assim transformado, é submetido a considerações quanto à viabilidade metodológica e à disponibilidade ou desenvolvimento de técnicas adequadas ao seu estudo. Desse modo a pesquisa científica é compreendida enquanto exploração, inquisição e procedimento sistemático e intensivo, almejando descobrir, explicar e compreender os fenômenos presentes em um determinado contexto. Segundo Barros & Lehfeld (2003, p. 46), é possível definir a pesquisa também enquanto “uma maneira de se estudar um determinado objeto, sendo ela sistemática e realizada visando a incorporação dos resultados alcançados aos níveis de conhecimento obtidos. Considera-se que nada se faz sem o auxílio da pesquisa.” Segundo esta compreensão, a pesquisa é responsável pela racionalização dos esforços e dedicação na produção de bens, na implantação e implementação de serviços, assim como na descoberta de elementos que possam contribuir de forma significativa na melhoria das condições de vida da população. Para Gil (2000, p. 41), pesquisa consiste num procedimento racional e sistemático que visa “encontrar respostas aos problemas que são propostos”. Percebe-se, na compreensão deste autor, que a pesquisa é requerida a partir do momento em que não se dispõe de informações suficientes para que se solucione o problema, ou quando a informação disponível se apresenta em tal estado de desordem que não seja possível relacioná-la ao problema. Portanto, considera-se a pesquisa científica enquanto produto de uma investigação que visa solucionar problemas e esclarecer dúvidas, tendo por base a utilização de procedimentos científicos. A investigação é a composição do ato de delimitar, observar e experimentar os fenômenos, colocando como secundária a sua compreensão a partir de dimensões superficiais, subjetivas e imediatas. NO TA! � A ciência nos revela que o homem pode entender e usar racionalmente (isto é, sem destruir) a natureza que o rodeia com o objetivo de maior liberdade humana e maior justiça social. A ciência revela o homem como criador. FONTE: Disponível em: <http://www.cefetsp.br/edu/eso/ filosofia/sensociencia1.html>. Acesso em: 20 out. 2010. UNIDADE 1 TÓPICO 2 21 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L A pesquisa pode também ser entendida enquanto uma atividade cotidiana, compreendendo-a como uma atitude, um questionamento sistemático, crítico e criativo. A partir dessa perspectiva, a pesquisa torna-se uma maneira permanentemente aprimorada de se conhecer o progresso técnico-científico e o desenvolvimento social dos países. FONTE: Disponível em: <http://www.clickpb.com.br/artigos/arquivos/ pesquisa22.jpg>. Acesso em: 8 out. 2010. Vale ressaltar também que a pesquisa não se limita exclusivamente a um instrumento único dos meios acadêmicos. Ao contrário, ela se amplia, contemporaneamente, abrangendo áreas diferenciadas, contribuindo assim para elevar o nível de significância do estudo dos métodos e técnicas de pesquisa científica. Na sociedade, o homem moderno, com o uso de sua inteligência, é levado a desenvolver uma vida de qualidade, que seja agradável, satisfatória ou útil do ponto de vista individual e social.Sendo consequência de barreiras exteriores ou interiores, a experiência sugere que, para a maior parte dos seres humanos, essas expectativas de acerto não são concretizadas com frequência, acarretando erros e enganos. Esses resultados tendem a ser apresentados como questionamentos ou problemas que, quando sanados, ocasionam o surgimento de um novo conhecimento, que será incorporado pelo sujeito, pela comunidade e pela sociedade em geral. (BARROS; LEHFELD, 2003). Portanto, qualquer solicitação de explicação, em nível de pesquisa científica, pressupõe a existência e exigência de uma resposta, que será compreendida enquanto possível solução do questionamento levantado. A pesquisa também possui inúmeras finalidades, as quais passarão a ser destacadas no próximo item. FIGURA 4 – PESQUISA UNIDADE 1TÓPICO 222 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L AUT OAT IVID ADE � 1. Para você, o que é pesquisa? 2. Como a pesquisa se apresenta no seu dia a dia? 3 FINALIDADES DA PESQUISA As razões pela qual se pesquisa são as mais variadas, existindo uma infinidade de justificativas. Na concepção de Gil (2000, p. 45), duas seriam as grandes dimensões que contextualizam o porquê se pesquisa: ● “O desejo de conhecer pela própria satisfação de conhecer”. ● “O desejo de conhecer com vistas a fazer algo de maneira mais eficiente e eficaz”. Conforme se observa, segundo o autor destacado, a busca por soluções de problemas, assim como a aquisição de novos saberes, são as principais finalidades para a pesquisa. Salienta-se também que as áreas que adotam a pesquisa são reconhecidamente muito diversificadas. Em relação às ciências naturais, o pesquisador busca a cientificidade por meio do desenvolvimento de formulações que apresentem uma margem de fidedignidade e objetividade significativamente elevada, visando sua aproximação com as verdades científicas. Já as ciências sociais não podem aderir ao mesmo modelo de investigação, já que o seu objeto de estudo configura-se como sendo histórico, possuindo uma consciência histórico-social. Isto significa que o pesquisador, juntamente com os sujeitos que fazem parte dos grupos sociais e da sociedade, definirão os significados e intencionalidade às ações e às suas construções, ou seja, aquele que pesquisa e aquele que é pesquisado apresentam a mesma natureza, estabelecendo uma forte vinculação social entre si. FONTE: Adaptado de: <http://www.visionvox.com.br/biblioteca/p/projeto-de-pesquisa.txt>. Acesso em: 8 fev. 2011. UNIDADE 1 TÓPICO 2 23 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L AUT OAT IVID ADE � Na sua opinião, qual a principal finalidade da pesquisa? 4 CLASSIFICAÇÃO DA PESQUISA Há diferentes formas de classificação de pesquisas. Autores diversos as classificam de inúmeras maneiras. Nesta unidade apresentaremos as classificações definidas por Barros & Lehfeld (2003) e Gil (2000). Barros & Lehfeld (2003) procuram classificar a pesquisa tendo como base a finalidade para a qual ela se destina, ao mesmo tempo em que se passam a seguir os procedimentos utilizados para o estudo. NO TA! � Projeto, do latim pro-jicere: literalmente, é colocar adiante. A elaboração de qualquer projeto depende de dois fatores fundamentais: - A capacidade de construir uma imagem mental de uma situação futura; - A capacidade de conceber um plano de ação a ser executado em um tempo determinado que vai permitir sua realização. FONTE: Disponível em: <http://www.professormanueljunior. com/geral/arquivos/MANUAL%20DE%20METODOLOGIA.pdf>. Acesso em: 20 out. 2010. FONTE: Disponível em: <http://www.fac.unb.br/site/images/stories/Noticias/Pesquisa_ cientifica.jpg>. Acesso em: 8 out. 2010. FIGURA 5 – PESQUISA UNIDADE 1TÓPICO 224 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Em relação à finalidade, tem-se: ● Pesquisa teórica: quando o objetivo é desvendar conceitos, discussões polêmicas e teóricas. ● Pesquisa metodológica: aquela voltada ao estudo de métodos ou de ques- tões metodológicas. ● Pesquisa empírica: relacionada a levantamento de dados empíricos para comprovação ou não de uma hipótese. (BARROS; LEHFELD, 2003, p. 51-53) Nesta classificação observam-se três formas importantes de se buscar o novo saber. Enquanto que a primeira se limita à análise teórica, a segunda se aprofunda nos métodos, e a terceira dá atenção especial aos fenômenos empíricos da realidade social. Outra distinção apresentada por Barros & Lehfeld (2003), também referenciada na finalidade da pesquisa, se dá através da pesquisa básica e da pesquisa prática. Ambas são assim definidas: ● Pesquisa pura ou pesquisa básica: sua finalidade é o conhecimento. Não há a preocupação imediata quanto a seus resultados. Seria a pesquisa denominada como teórica acima. Para Gil (1999), a pesquisa básica tem por objetivo o desenvolvimento de novos conhecimentos, que sejam úteis para o avanço da ciência, ainda que não se tenha uma aplicação prática prevista. Abrange verdades e interesses considerados universais. ● Pesquisa aplicada ou pesquisa prática: refere-se ao estudo no qual o pesquisador é movido pela necessidade de conhecer, visando a aplicação imediata de seus resultados. Ressalta- se, então, que a pesquisa aplicada contribui diretamente para a aplicação prática dos dados obtidos. Segundo Gil (1999), ela almeja aprimorar a práxis, voltando os resultados para a solução de problemas específicos. Abrange, assim, verdades e interesses locais. Conforme se observa, segundo esta distinção, enquanto que na primeira se busca o conhecimento, novo saber, tão somente, na segunda a atenção está centrada nos resultados obtidos com esta busca. Outra maneira de se denominar as pesquisas, segundo Barros & Lehfeld (2003), está relacionada aos procedimentos adotados para o estudo do objeto. Estes são definidos enquanto Pesquisa Descritiva, Pesquisa de Campo, Pesquisa Experimental e Pesquisa-Ação. Cada uma delas será descrita a seguir: a) Pesquisa descritiva Esta consiste na descrição do fenômeno analisado através da observação e do levantamento de dados, ou pela pesquisa bibliográfica e documental. Por meio das pesquisas descritivas é viabilizada a construção de perfis, cenários, UNIDADE 1 TÓPICO 2 25 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L dentre outros. É possível que a ênfase metodológica seja mais quantitativa do que qualitativa. Ela almeja encontrar percentuais, médias, indicadores, curvas de normalidade, dentre outros. Tratando-se das pesquisas bibliográficas e documentais, busca-se a aquisição de conhecimento acerca de um fenômeno, a partir da busca de informações contidas em materiais gráficos, sonoros e/ou informatizados. Considera-se que a pesquisa bibliográfica é de grande relevância e eficácia ao pesquisador, porque ela permite o acesso aos conhecimentos já catalogados em bibliotecas, editoras, internet, dentre outros. Este tipo de pesquisa é realizado, frequentemente, em três fases distintas, sendo elas: identificação, localização e reunião sistemática dos materiais ou fatos. b) Pesquisa de campo Esta forma de pesquisa caracteriza-se pelo fato do investigador assumir o papel de observador e explorador, coletando diretamente os dados no local (campo) em que os fenômenos estão ou foram mencionados. Destaca-se que esta forma é muito utilizada no Serviço Social, no sentido de se aproximar da população usuária, assim como, das diferentes expressões da questão social que esta vivencia em seu cotidiano. c) Pesquisa experimental Considera-se que esse tipo de estudo indica a existência de manipulação de uma ou mais variáveis independentes (causas) sob controle, tendo por intuito a observação e a viabilidade de interpretação das reações e mudanças que irão ocorrer com o objeto pesquisado (compreendido como variável dependente). Pressupõe-se a necessidade de haver a definição do plano experimental, isto é, estabelecimento dos rumos para a realização do experimento. d) Pesquisa-Ação Este estudo retrata umadas formas de pesquisa social, com base empírica, que é compreendida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os integrantes das situações, ou do problema, estão vinculados de maneira participativa e cooperativa. Com base nesta classificação, percebe-se que a pesquisa assume diferentes formas, e a utilização destas se dará de acordo com a finalidade que se tem com o estudo. AUT OAT IVID ADE � Como as pesquisas são classificadas em relação aos seus fins? UNIDADE 1TÓPICO 226 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Outro autor, que apresenta uma classificação em relação à pesquisa, é Gil (2000). Para este autor, a pesquisa pode ser classificada quanto à abordagem do problema, apresentando- se como pesquisa quantitativa e pesquisa qualitativa. A seguir explica-se cada uma delas. a) Pesquisa quantitativa Esta forma de pesquisa compreende que tudo pode ser quantificável, o que significa buscar a classificação e análise por meio da tradução das opiniões ou informações em números. Esse exercício exige a utilização de técnicas e recursos estatísticos, tais como: média, mediana, desvio padrão, percentagem, análise de regressão, dentre outros. No Serviço Social, a quantificação, classificação e aplicação de recursos estatísticos surgem como alternativas complementares a uma compreensão que transcende a análise numérica, e muito podem ser úteis na busca por novos saberes. b) Pesquisa qualitativa Esta forma de pesquisa considera a existência de uma vinculação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, isto é, uma relação indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do indivíduo que não pode ser traduzida em números. A interpretação dos fenômenos e a atribuição de significados são base do processo de pesquisa qualitativa. Não exige a utilização de recursos estatísticos e a fonte principal da coleta de dados é o ambiente natural. Consiste na fonte direta para a coleta de dados e o pesquisador é o instrumento-chave. Esta forma de pesquisa é descritiva. Os pesquisadores tendem a analisar seus dados indutivamente. O processo e seu significado são os focos principais de abordagem. Em contraposição aos estudos quantitativos, que embasam suas ações seguindo um planejamento estrategicamente organizado previamente e com foco em hipóteses, variáveis e outros detalhes específicos, a pesquisa qualitativa não apresenta como meta principal a medição dos fenômenos. Sendo assim, não aplica os recursos estatísticos para compreender os dados obtidos. A pesquisa qualitativa apresenta foco abrangente e se desenvolve a partir de perspectivas diferenciadas da pesquisa quantitativa. Como exemplo, relata-se o fato da constante busca apresentada pela pesquisa qualitativa pela compreensão dos fenômenos com base na concepção dos sujeitos que participam da ação estudada, interpretando os referidos fenômenos (GIL, 2000). Vale ressaltar que a pesquisa qualitativa representa uma gama de técnicas interpretativas diversificadas que visam a descrição e decodificação de elementos de um sistema que abrange uma variedade de significados complexos. A verdadeira razão da pesquisa social qualitativa é a redução da distância entre pesquisador e entrevistado, entre teoria e informações coletadas, no intuito de expressar o significado dos fenômenos analisados. UNIDADE 1 TÓPICO 2 27 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Complementando a compreensão sobre a pesquisa qualitativa, Godoy (1995) apresenta três possibilidades metodológicas muito utilizadas neste tipo de estudo, que seriam: a pesquisa documental, o estudo de caso e a etnografia. Cada uma delas será explicada a seguir. ● A Pesquisa Documental: Esta se configura na análise de materiais almejando uma interpretação nova ou complementar. Frequentemente se apresenta enquanto base para outros tipos de estudos, tanto qualitativos como quantitativos, ampliando as oportunidades de estudo do investigador. ● O Estudo de Caso: Este representa uma análise complexa e aprofundada de uma unidade de estudo. Busca o desenvolvimento de um exame minucioso de um ambiente, um sujeito ou um determinado evento particular. ● A Etnografia: Esta forma de estudo é reconhecida pelo fato de exigir um período extenso de estudos por parte do pesquisador, que passa a residir em uma comunidade, dirigindo a esta técnicas de observação, de contato direto e/ou de participação nas rotinas e tarefas da mesma. Ressalta-se que o mais relevante não é a maneira como os fatos ocorrem e, sim, o sentido que os mesmos possuem. Constata-se então que a pesquisa qualitativa apresenta diferentes modelos metodológicos a serem seguidos. Adotar um ou outro dependerá, novamente, da finalidade que se tem com a pesquisa. No Serviço Social, a pesquisa documental e o Estudo de caso têm sido metodologias muito utilizadas em pesquisas contemporâneas. Demo (2000) explica que as Ciências Sociais, entre as quais se insere o Serviço Social, enquanto ciência social aplicada, apresentam como especificidade o fato de seu objeto de estudo ser essencialmente qualitativo, ainda que não negue a relevância das análises estatísticas ou quantitativas realizadas com determinados fenômenos. Porém, enfatiza o entendimento da realidade social dinâmica, repleta de significados, sentimentos, valores, crenças e práticas sociais, impossíveis de serem expressos unicamente através de números. Entende-se que a pesquisa qualitativa torna-se valiosa para identificar conceitos e variáveis relevantes de situações que podem ser analisadas quantitativamente. Nos dizeres de Minayo (1993, p. 63): [...] é inegável a riqueza que se pode explorar diante de situações conside- radas desviantes da “média” que se encontram escondidas nos relatórios estatísticos. Também é evidente o valor da pesquisa qualitativa para estudar questões difíceis de quantificar, como sentimentos, motivações, crenças e atitudes individuais. Assim sendo, a análise qualitativa, e aqui destacando a sua importância ao Serviço UNIDADE 1TÓPICO 228 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Social, é fundamental e constitui-se, enquanto princípio, necessária para que se obtenham os resultados que se almejam com os diferentes estudos. Por meio da abordagem qualitativa é possível efetivar uma aproximação com a complexidade da vida humana. Para isso, são abordados “o conjunto de expressões humanas constantes nas estruturas, nos processos, nos sujeitos, nos significados e nas representações” (MINAYO, 1993, p. 15). Dessa forma, a abordagem qualitativa visa “incorporar a questão do significado e da intencionalidade como inerentes aos atos, às relações e às estruturas sociais, sendo estas últimas tomadas tanto no seu advento quanto na sua transformação, como construções humanas significativas” (MINAYO, 1993, p. 10). Partindo-se dessa concepção, entende-se o ser humano enquanto ator privilegiado no processo de construção da realidade social e, portanto, os fenômenos integrantes desta realidade apenas podem ser compreendidos a partir do significado atribuído pelo sujeito que a vivencia. A pesquisa qualitativa tem como um de seus pressupostos o reconhecimento da singularidade de cada indivíduo, pois “a significação de um conteúdo reside largamente na especificidade que escapa amiúde ao domínio do mensurável” (LAVILLE; DIONNE, 1999, p. 27). Desse modo, o contato direto entre pesquisador e integrantes do estudo torna-se aspecto fundamental, visto que é através deste contato que se torna possível o aprofundamento de reflexões e questionamentos dos eventos, priorizando os acontecimentos que repercutem de forma específica na vida dos sujeitos. Além disso, preservando as informações colhidas de maneira literal, a abordagem qualitativa viabiliza a análise profunda do conteúdo das falas, das inter-relações presentes, dos elos estabelecidos e das interpretações realizadas pelos sujeitos sobre a situaçãovivenciada. Minayo (1993) considera que os métodos qualitativos e quantitativos não são excludentes entre si. Pelo contrário, segundo a autora, é possível dizer que os métodos qualitativos contribuem significativamente, enquanto aprimoramento do trabalho de pesquisa, viabilizando diferentes e mais aprimoradas compreensões do fenômeno estudado. Os dois métodos se complementam e podem contribuir profundamente em um mesmo estudo. Considera-se, portanto que os tipos de pesquisa aqui apresentados, nas diversas classificações, não são estanques. Uma mesma pesquisa, principalmente no Serviço Social, pode configurar-se, ao mesmo tempo, em várias classificações, desde que obedeça aos requisitos inerentes a cada tipo. UNIDADE 1 TÓPICO 2 29 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L FONTE: Disponível em: <http://www.avantis.edu.br/img/imagem-alunos-manual- academico.jpg>. Acesso em: 8 out. 2010. LEITURA COMPLEMENTAR ABORDAGEM QUANTITATIVA, QUALITATIVA E A UTILIZAÇÃO DA PESQUISA-AÇÃO NOS ESTUDOS ORGANIZACIONAIS Ana Cláudia Fernandes Terence Edmundo Escrivão Fil Abordagem quantitativa versus qualitativa As pesquisas, conforme as abordagens metodológicas que englobam, são classificadas em dois grupos distintos – o quantitativo e o qualitativo. O primeiro obedece ao paradigma clássico (positivismo), enquanto o outro segue o paradigma chamado alternativo. Nas ciências sociais, os estudos orientados pela doutrina positivista são influenciados inicialmente pela abordagem das ciências naturais, que postulam a existência de uma realidade externa que pode ser examinada com objetividade, pelo estabelecimento de relações causa- efeito, a partir da aplicação de métodos quantitativos de investigação, que permitem chegar a verdades universais. Sob esta ótica os resultados da pesquisa são reprodutíveis e generalizáveis (HAYATI; KARAMI; SLEE, 2006). Compreende-se o positivismo como uma combinação das ideias empiristas com a lógica moderna (que alia trabalhos de matemática e lógica), influenciado pelas descobertas da física, em especial pelas teorias da relatividade e quântica (ALVES-MAZZOTTI; GEWANDSZNAJDER, 2004; COBRA, 1999). Segundo o positivismo, a lógica e a matemática seriam válidas por estabelecerem as regras da linguagem, constituindo-se um conhecimento a priori, independente da experiência. Em contraste, o conhecimento empírico deve ser obtido a partir da observação e por meio do raciocínio indutivo. Os positivistas entendem que cada conceito de uma teoria deve ter como referência algo observável e defendem a verificabilidade dos enunciados científicos FIGURA 6 – CLASSIFICAÇÃO DA PESQUISA UNIDADE 1TÓPICO 230 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L e o estabelecimento de relações lógicas entre os mesmos, impondo um critério “ideal” de agir e pensar (caráter normativo). As críticas da Escola de Frankfurt (grupo de intelectuais de inspiração marxista) à visão da “ciência tradicional” e o debate iniciado pelo filósofo Thomas Kuhn (1922-1996), ao publicar a “Estrutura das revoluções científicas”, no início da década de 60, afetam a maneira de ver a ciência e seu método, contribuindo para o esgotamento do “paradigma positivista”. Esta nova visão da ciência possibilita o surgimento de abordagens de pesquisa diferentes da positivista. Define-se o paradigma alternativo pela constatação de que as abordagens unicamente quantitativas não são satisfatórias. Desta forma, abre-se espaço para o uso de técnicas qualitativas na geração de conhecimento. No entanto, convém ressaltar que a pesquisa qualitativa não se restringe à adoção de uma teoria, de um paradigma ou método, mas permite, ao contrário, adotar uma multiplicidade de procedimentos, técnicas e pressupostos. Convencionou-se chamar as investigações que recaem sobre a compreensão das intenções e do significado dos atos humanos de pesquisa qualitativa (ALVES-MAZZOTTI; GEWANDSZNAJDER, 2004; DENZIN; LINCOLN, 2005; PATTON, 2002). A pesquisa qualitativa, inicialmente usada em Antropologia e Sociologia, a partir dos anos 60 incorpora-se a outras áreas. Nos últimos 30 anos vem ganhando espaço no âmbito da Psicologia, da Educação e da Administração (NEVES, 1996). Nos estudos organizacionais, a abordagem qualitativa começa a delinear-se a partir dos anos 70. Ressalta-se que, desde então, o debate entre defensores das abordagens quantitativa ou qualitativa começa a diminuir, registrando-se uma valorização da pesquisa em ciências sociais (GODOY, 1995). Os pesquisadores que adotam a abordagem qualitativa se opõem ao pressuposto que defende um modelo único de pesquisa para todas as ciências, já que as ciências sociais têm sua especificidade. Mormente no campo dos estudos organizacionais, esta diferenciação deve- se à natureza do fenômeno estudado – as organizações - compostas por pessoas que agem de acordo com seus valores, sentimentos e experiências, que estabelecem relações internas próprias, estão inseridas em um ambiente mutável, onde os aspectos culturais, econômicos, sociais e históricos não são passíveis de controle e sim de difícil interpretação, generalização e reprodução (CHIZZOTTI, 1995; GAY; DIEHL, 1992; GOLDENBERG, 1999; GUTIERREZ, 1986). Portanto, nos estudos organizacionais, o pesquisador e seu objeto de estudo interagem e esta interação é considerada um elemento do processo de formulação teórica. Na abordagem qualitativa, o pesquisador procura aprofundar-se na compreensão dos fenômenos que estuda – ações dos indivíduos, grupos ou organizações em seu ambiente e contexto social –, interpretando-os segundo a perspectiva dos participantes da situação enfocada, sem se preocupar com representatividade numérica, generalizações estatísticas e relações lineares de causa e efeito. Assim sendo, a interpretação, a consideração do pesquisador UNIDADE 1 TÓPICO 2 31 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L como principal instrumento de investigação e a necessidade do pesquisador de estar em contato direto e prolongado com o campo, para captar os significados dos comportamentos observados, revelam-se como características da pesquisa qualitativa (ALVES, 1991; GOLDENBERG, 1999; NEVES, 1996; PATTON, 2002). As divergências entre as abordagens qualitativa e quantitativa refletem diferentes epistemologias, estilos de pesquisa e formas de construção teórica. Convém reiterar, no entanto, que os métodos quantitativos e qualitativos, apesar de suas especificidades, não se excluem. Para melhor compreendê-los, apresentam-se, a seguir, as suas principais características. Nos estudos organizacionais, a pesquisa quantitativa permite a mensuração de opiniões, reações, hábitos e atitudes em um universo, por meio de uma amostra que o represente estatisticamente. Suas características principais são (DENZIN; LINCOLN, 2005; NEVES, 1996; HAYATI; KARAMI; SLEE, 2006): - obedece a um plano preestabelecido, com o intuito de enumerar ou medir eventos; - utiliza a teoria para desenvolver as hipóteses e as variáveis da pesquisa; - examina as relações entre as variáveis por métodos experimentais ou semiexperimentais, controlados com rigor; - emprega, geralmente, para a análise dos dados, instrumental estatístico; - confirma as hipóteses da pesquisa ou descobertas por dedução, ou seja, realiza predições específicas de princípios, observações ou experiências; - utiliza dados que representam uma população específica (amostra), a partir da qual os resultados são generalizados, e usa, como instrumento para coleta de dados, questionários estruturados, elaborados com questões fechadas, testes e checklists, aplicados a partir de entrevistas individuais, apoiadas por um questionário convencional (impresso) ou eletrônico. A pesquisa qualitativa, utilizada para interpretar fenômenos, ocorre por meio da interação constante entre a observação e a formulação conceitual, entre a pesquisa empírica e o desenvolvimento teórico, entre a percepção e a explicação (BULMER, 1977) se apresenta comouma dentre as diversas possibilidades de investigação. Constitui uma alternativa apropriada nos estágios iniciais da investigação, quando se busca explorar o objeto de estudo e delimitar as fronteiras do trabalho, quando existe especial interesse na interpretação do respondente em relação aos seus comportamentos, motivos e emoções, quando o tema da pesquisa envolve tópicos abstratos, sensíveis ou situações de forte impacto emocional para o respondente e/ou quando o universo da pesquisa é pequeno e a quantificação não faz sentido (HEYINK; TYMSTRA, 1993). São características da pesquisa qualitativa (ALVESMAZZOTTI; GEWANDSZNAJDER, 2004; BODGAN; BIKLEN, 1982; DENZIN; LINCOLN, 2005; GODOY, UNIDADE 1TÓPICO 232 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L 1995; HAYATI; KARAMI; SLEE, 2006): - investigação cujo design (concepção, planejamento e estratégia) evolui durante o seu desenvolvimento, uma vez que as estratégias que utiliza permitem descobrir relações entre fenômenos, indutivamente, fazendo emergir novos pressupostos; - apresentação da descrição e análise dos dados em uma síntese narrativa; - busca de significados em contextos social e culturalmente específicos, porém com a possibilidade de generalização teórica; - ambiente natural como fonte de coleta de dados e pesquisador como instrumento principal desta atividade; - tendência a ser descritiva; - maior interesse pelo processo do que pelos resultados ou produtos; - coleta de dados por meio de entrevista, observação, investigação participativa, entre outros; - busca da compreensão dos fenômenos, pelo investigador, a partir da perspectiva dos participantes; e, finalmente, - utilização do enfoque indutivo na análise dos dados, ou seja, realização de generalizações de observações limitadas e específicas pelo pesquisador. O método qualitativo é útil e necessário para identificar e explorar os significados dos fenômenos estudados e as interações que estabelecem, assim possibilitando estimular o desenvolvimento de novas compreensões sobre a variedade e a profundidade dos fenômenos sociais (BARTUNEK; SEO, 2002). FONTE: Disponível em: <http://www.abepro.org.br/biblioteca/ENEGEP2006_TR540368_8017.pdf>. Acesso em: 20 out. 2010. UNIDADE 1 TÓPICO 2 33 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico apresentou-se o conceito de pesquisa, assim como sua finalidade e classificação. Dentre os principais conteúdos aqui trabalhados, destacam-se os seguintes: ● A pesquisa consiste num esforço dirigido para a aquisição de um determinado conhecimento. ● A pesquisa científica consiste na exploração, na inquisição e no procedimento sistemático e intensivo, que visa descobrir, explicar e compreender os fatos de uma determinada realidade. ● A pesquisa é atividade básica das ciências na sua indagação e descoberta da realidade. ● A pesquisa não se limita somente a um instrumento exclusivo dos meios acadêmicos. ● Nas ciências sociais o objeto é histórico e possui uma consciência histórico-social. ● Ao se pensar em cientificidade, deve-se concebê-la como ideia reguladora de todo processo metodológico estabelecido na investigação. ● A vigilância epistemológica deve ser buscada através do controle dos procedimentos metodológicos e instrumentais técnicos utilizados no estudo. ● A classificação da pesquisa se dá conforme os fins a que se destina e seguindo os procedimentos utilizados para o estudo. ● A pesquisa pode ser classificada quanto à abordagem do problema, podendo ser pesquisa quantitativa e pesquisa qualitativa. ● As Ciências Sociais apresentam como especificidade o fato de seu objeto de estudo ser essencialmente qualitativo. ● A pesquisa qualitativa tem como um de seus pressupostos o reconhecimento da singularidade de cada indivíduo. UNIDADE 1TÓPICO 234 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L AUT OAT IVID ADE � 1 O que é pesquisa e qual a importância dela na contemporaneidade? 2 Quais as principais características da pesquisa quantitativa? 3 Quais as principais características da pesquisa qualitativa? P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L MÉTODOS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS 1 INTRODUÇÃO 2 COMPREENDENDO AS CIÊNCIAS SOCIAIS TÓPICO 3 UNIDADE 1 Compreende-se que a investigação científica depende de um conjunto de procedimentos intelectuais e técnicos para que seus objetivos sejam atingidos. Estes procedimentos são conhecidos como sendo os métodos científicos. Neste tópico exploraremos os diferentes métodos nas Ciências Sociais. A ciência, historicamente, desenvolveu-se, em parte, pela necessidade de um método de conhecimento e compreensão mais seguro e digno de confiança, do mundo que rodeia o ser humano. Dessa maneira, tornou-se necessário elaborar uma abordagem de conhecimento, apta para permitir uma informação válida e fidedigna sobre fenômenos completos, incluindo o complexo fenômeno do próprio homem e seus comportamentos (SILVA; MENEZES, 2001). É nesta perspectiva que surgem as ciências sociais. As ciências sociais só podem ser compreendidas numa concepção fragmentária, englobando um conjunto de ciências díspares e desconexas. Algumas destas ciências seriam a Sociologia, a Economia, a Psicologia Social, a Antropologia. Também seria adequado adicionar a estas o conhecimento produzido pelo Serviço Social. UNIDADE 1TÓPICO 336 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L FONTE: Disponível em: <http://imgs.obviousmag.org/archives/ uploads/2007/070714_blog.uncovering.org_pesquisa.jpg>. Acesso em: 29 nov. 2010. Para lidar com a complexidade que envolve as relações humanas, considera-se que o cientista social deve ter uma postura profissional que abarque horizontes amplos e conhecimentos que lhe permitam analisar um mesmo problema sob vários aspectos. Outro elemento importante a ser destacado na pesquisa em ciências sociais se refere à questão de que os fatos dificilmente podem ser considerados como coisas, dado que os objetivos de estudo pensam, agem e reagem, que são atores podendo orientar a situação de diferentes maneiras. Da mesma forma, o pesquisador é ator agindo e exercendo sua influência. Essa percepção se apresenta, também, no Assistente Social pesquisador. Cotidianamente, estará em contato com os usuários, assim como as diferentes expressões da questão social, a qual fundamenta sua prática profissional. Estará em contato com os inúmeros fenômenos sociais, assim como diferentes políticas elaboradas para sanar tais questões. Dessa forma, apresenta-se enquanto pesquisador fundamental para a construção dos conhecimentos nas ciências sociais. 3 O MÉTODO CIENTÍFICO NAS CIÊNCIAS SOCIAIS Método científico consiste num conjunto de processos ou operações mentais que se deve empregar na investigação. Segundo Silva e Menezes (2001, p. 25), faz referência à “linha de raciocínio adotada no processo de pesquisa”. Assim sendo, os métodos fornecem as bases lógicas à investigação. Pode-se classificá- los de diferentes formas. Neste Caderno de Estudos contextualizaremos os seguintes: dedutivo, indutivo, hipotético-dedutivo, dialético e fenomenológico. FIGURA 7 – PESQUISA SOCIAL UNIDADE 1 TÓPICO 3 37 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Cada um deles será explicado a seguir. NO TA! � O método científico é um conjunto de regras básicas para desenvolver uma experiência a fim de produzir novo conhecimento, bem como corrigir e integrar conhecimentos preexistentes. Na maioria das disciplinas científicas, consiste em juntar evidências observáveis, empíricas (ou seja, baseadas apenas na experiência) e mensuráveis e as analisar com o uso da lógica. Para muitos autores, o método científico nada mais é do que a lógica aplicada à ciência. FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/ M%C3%A9todo_cient%C3%ADfico>. Acesso em: 20 out. 2010. a) Método Dedutivo Este método foi proposto por racionalistas como Descartes, Spinoza e Leibniz. Pressupõe que só a razãoé capaz de levar ao conhecimento verdadeiro. O raciocínio dedutivo tem o objetivo de explicar o conteúdo das premissas. Por intermédio de uma cadeia de raciocínio em ordem descendente, de análise do geral para o particular, se chega a uma conclusão (SILVA & MENEZES, 2001). Tal método faz uso do silogismo, construção lógica, para, a partir de duas premissas, retirar uma terceira logicamente decorrente das duas primeiras, denominada então de conclusão. Um exemplo clássico de raciocínio dedutivo é o seguinte: Todo homem é mortal (premissa maior) Pedro é homem (premissa menor) Logo, Pedro é mortal (conclusão) b) Método Indutivo Método proposto pelos empiristas Bacon, Hobbes, Locke e Hume. Tal método considera que o conhecimento é fundamentado na experiência, não levando em conta princípios preestabelecidos. (SILVA; MENEZES, 2001). No raciocínio indutivo a generalização deriva de observações de casos da realidade concreta. As constatações particulares levam à elaboração de generalizações. Tem-se como exemplo clássico de raciocínio indutivo: UNIDADE 1TÓPICO 338 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Luiz é mortal. José é Mortal Mario é Mortal. ... Lucas é mortal. Ora, Luiz, José, Mario... e Lucas são homens. Logo, (todos) os homens são mortais. c) Método Hipotético-Dedutivo Este método foi proposto por Popper e consiste na adoção da seguinte linha de raciocínio: quando os conhecimentos disponíveis sobre determinado assunto são insuficientes para a explicação de um fenômeno, surge o problema. Para tentar explicar as dificuldades expressas no problema, são formuladas conjecturas ou hipóteses. Das hipóteses formuladas, deduzem-se consequências que deverão ser testadas ou falseadas. Falsear significa tornar falsas as consequências deduzidas das hipóteses. Enquanto no método dedutivo se procura a todo custo confirmar a hipótese, no método hipotético-dedutivo, ao contrário, procuram-se evidências empíricas para derrubá-la. (SILVA; MENEZES, 2001) c) Método Dialético Este método fundamenta-se na dialética proposta por Hegel, na qual as contradições se transcendem, dando origem a novas contradições que passam a requerer solução. (SILVA & MENEZES, 2001) Na concepção de Silva & Menezes (2001, p. 8), este consiste num “método de interpretação dinâmica e totalizante da realidade. Considera que os fatos não podem ser considerados fora de um contexto social, político, econômico, dentre outros”. É um método muito aplicado em pesquisa qualitativa e, frequentemente, utilizado no Serviço Social, conforme se discutirá nas unidades seguintes. d) Método Fenomenológico Este método foi preconizado por Husserl, não sendo dedutivo nem indutivo. Preocupa- se, sim, com a descrição direta da experiência tal como ela é. A realidade é então construída socialmente e entendida como o compreendido, o interpretado, o comunicado. Dessa forma, a realidade não é única: existem tantas quantas UNIDADE 1 TÓPICO 3 39 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L forem as suas interpretações e comunicações. O sujeito/ator, então, “é reconhecidamente importante no processo de construção do conhecimento. É outro método comumente aplicado nas pesquisas qualitativas”. (SILVA; MENEZES, 2001, p. 27, grifos nossos) Entende-se, portanto, que existem no interior das Ciências Sociais inúmeras correntes de pensamento que levam a múltiplas possibilidades de abordagem metodológica, com seus variados pressupostos. Nas pesquisas realizadas na área do Serviço Social observa-se um direcionamento, por parte dos pesquisadores, ao método dialético, o qual será discutido a seguir. FONTE: Disponível em:<http://www.insoonia.com/wp-content/ uploads/2009/08/ciencia.jpg>. Acesso em: 29 set. 2010. AUT OAT IVID ADE � 1 Na sua opinião, qual a diferença entre os Métodos Indutivo e Dedutivo? 2 Destaque as principais características do Método Dialético. 4 MÉTODO DIALÉTICO HISTÓRICO PARA MARX Retomando historicamente, tem-se que foi Hegel quem sintetizou o que de melhor o racionalismo ocidental conseguiu produzir. Seu pensamento foi erguido em bases de uma frutífera interlocução com a melhor tradição racionalista do seu tempo, dentre eles: Kant, Fichte, Shelling. E foi neste diálogo com a tradição, aprendendo com ela e dela nascendo, que este pensador foi diferenciando seu pensamento e construindo, dentro do idealismo alemão, as FIGURA 8 – PESQUISA SOCIAL UNIDADE 1TÓPICO 340 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L bases de uma nova razão dialética. E esta constituiu-se na base a partir da qual Marx operou sua crítica, aproveitando-lhe o núcleo racional. Este último, seguramente, constituiu-se na principal base filosófica do pensamento crítico dialético que foi a grande marca filosófico-política do século XX. (PONTES, 1995). NO TA! � Karl Marx foi um pensador e revolucionário alemão considerado um dos iniciantes da Sociologia no mundo. Ele tinha ideias radicais, como juntar a classe trabalhadora para derrubar os capitalistas. FONTE: Disponível em: <http://www.acessonews.com/ blog/3321/quem-foi-karl-marx/>. Acesso em: 20 out. 2010. Num processo de continuidade e descontinuidade, Marx ultrapassou, então, os elementos, denominados por ele como sendo “mistificadores-logicistas”, apropriando-se do núcleo racional. O caminho metodológico passa a ser decorrência necessária da natureza da sociedade capitalista. (PONTES, 1995). FONTE: Disponível em: <http://laryff.com.br/wp-content/uploads/2008/11/ karl_marx.jpg>. Acesso em: 29 set. 2010. Uma primeira aproximação do Serviço Social com o referido método ocorreu quando a profissão rompeu com uma identidade atribuída e buscou construir uma nova, não mais endógena, forjada por elites ou grupos detentores de poder hegemônico, mas conformada pelo contexto histórico e social no qual se insere e pelos compromissos ético-políticos que lhe são exigidos pela sociedade. A nova identidade construída reconhece sua própria historicidade e a historicidade de sujeitos, grupos, instituições, como unidades dialéticas em permanente processo de autoconstrução. FIGURA 9 – KARL MARX UNIDADE 1 TÓPICO 3 41 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L A dialética, no entender aqui descrito, é o pensamento crítico que se propõe a superar, o que já dizia Pontes (1995), a pseudoconcreticidade para se atingir a concreticidade. Trata- se de um processo no curso do qual, sob o mundo da aparência se desvenda o mundo real; por trás da aparência externa, a lei do fenômeno; por trás do movimento visível, o movimento real, interno; por trás do fenômeno, a essência. Lefebvre (1983, p. 22) complementa dizendo que “só existe a dialética se existir movimento; e que só há movimento se existir processo histórico: história”. Entende-se a dialética como sendo um pensamento criativo, que visa compreender a dinâmica do real enquanto processo histórico em constante transformação. Considera ainda que o fenômeno, ou processo social, tem que ser entendido nas suas determinações e transformações dadas pelos sujeitos. Assim sendo, considera todas as coisas em movimento e relacionadas umas com as outras, apresentando como questão fundamental a explicação do movimento e da transformação das coisas. (PONTES, 2005). Kosik (1976 p. 25) explica que a dialética trata da “coisa em si”, mas que não é manifesta imediatamente ao homem, ou seja, os fenômenos, diferentemente de sua essência, se manifestam imediatamente, primeiro e com maior frequência. Todas as coisas com as quais os sujeitos interagem, emergem de um determinado todo que o circunda, todo este não perceptível a uma primeira vista, percebido apenas como um pano de fundo indeterminado. Desta forma, a dialética visa atingir a essência dos fenômenos atrás do questionamento de como “a coisa em si” se manifesta, buscando incessantemente a relação essência/aparência. Para a dialética, o ser humano é um ser histórico, estando em um panorama social onde os sujeitos interagem entre si.Várias influências compõem este panorama, como o contexto político, cultural, social, econômico, os afetos na vida relacional e outras vinculações vivenciadas no cotidiano da vida, colocando este homem como criador e transformador da sua realidade social. A dialética é, portanto, um processo complexo que pressupõe movimento de “reflexão- análise-ação” sobre os fenômenos do real, tendo por finalidade a transformação. Pontes (1995) considera o método dialético como sendo superior às outras formas metodológicas de conhecimento do ser social na sua complexidade intrínseca, não por um princípio escatológico de fé, mas “[...] em primeiro lugar, devido à consideração concreta daquilo que está vivo na obra marxiana, ou seja, na captação correta das tendências históricas principais da sociedade burguesa”. (PONTES, 1995, p. 36). Pontes (1995) destaca ainda, como sendo uma das características principais deste método, sua apreensão histórica sistemática, na qual o método necessariamente dirige-se à gênese de qualquer fenômeno em estudo, buscando desvendar de forma empírica do fenômeno a raiz histórica de sua constituição, os processos que o constituíram e este enquanto partícipe dos processos. Segundo o autor, a concepção dialética determina a intenção e a ação de compreender as condições que engendraram “os processos históricos e os sujeitos destes UNIDADE 1TÓPICO 342 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L processos nas suas particularidades e potencialidades”. (PONTES, 1995, p. 66) O método dialético exprime o caminho metodológico através de aproximações sucessivas, representando uma sempre tendencial busca da totalidade, sem, todavia, alcançá- la, como no saber absoluto hegeliano. No Serviço Social é possível perceber inúmeras pesquisas contemporâneas que abordam tal método. Faz-se uso das suas principais categorias, no sentido de desvelar o cotidiano e compreender as relações que se estabelecem dentre os sujeitos sociais. DIC AS! Para ampliar seus conhecimentos referentes aos métodos nas ciências sociais, indicamos que se assista ao seguinte filme: O Óleo de Lorenzo (Lorenzo’s Oil). Direção: George Miller. EUA, 1992. AUT OAT IVID ADE � Na sua opinião, qual a contribuição de Marx para a pesquisa nas ciências humanas e sociais? LEITURA COMPLEMENTAR O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO E A EDUCAÇÃO Marília Freitas Campos Pires Karl Marx, alemão, filósofo, economista, jornalista e militante político, viveu em vários países da Europa no século XIX de 1818 a 1883. Na busca de um caminho epistemológico, ou de um caminho que fundamentasse o conhecimento para a interpretação da realidade histórica e social que o desafiava, superou (no sentido de incorporar e ir além) as posições de Hegel no que dizia respeito à dialética e conferiu-lhe um caráter materialista e histórico. UNIDADE 1 TÓPICO 3 43 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Para o pensamento marxista, importa descobrir as leis dos fenômenos de cuja investigação se ocupa; o que importa é captar, detalhadamente, as articulações dos problemas em estudo, analisar as evoluções, rastrear as conexões sobre os fenômenos que os envolvem. Isto, para este pensador, só foi possível a partir da reinterpretação do pensamento dialético de Hegel. A separação sujeito-objeto, promovida pela lógica formal, não satisfazia a estes pensadores que, na busca da superação desta separação, partiram de observações acerca do movimento e da contraditoriedade do mundo, dos homens e de suas relações. A lógica formal não consegue explicar as contradições e amarra o pensamento, impedindo-lhe o movimento necessário para a compreensão das coisas. Se o mundo é dialético (se movimenta e é contraditório) é preciso um método, uma teoria de interpretação, que consiga servir de instrumento para a sua compreensão, e este instrumento lógico pode ser o método dialético tal qual pensou Marx. O método dialético que desenvolveu Marx, o método materialista histórico dialético, é método de interpretação da realidade, visão de mundo e práxis.1 A reinterpretação da dialética de Hegel (colocada por Marx de cabeça para baixo), diz respeito, principalmente, à materialidade e à concreticidade. Para Marx, Hegel trata a dialética idealmente, no plano do espírito, das ideias, enquanto o mundo dos homens exige sua materialização. É com esta preocupação que Marx deu o caráter material (os homens se organizam na sociedade para a produção e a reprodução da vida) e o caráter histórico (como eles vêm se organizando através de sua história). A partir destas preocupações, Marx desenvolve o método que, no entanto, não foi sistematicamente organizado para publicação. Podemos encontrar elementos para a compreensão do método nos primeiros escritos de Marx, como na Ideologia Alemã e nos Manuscritos Econômicos Filosóficos, por exemplo, mas é em O Capital, sua mais importante obra, que encontraremos, não uma exposição do método, mas sua aplicação nas análises econômicas ali empreendidas. A Contribuição à Crítica da Economia Política, texto introdutório de O Capital, talvez seja o texto de Marx que mais se aproxima de uma sistematização do método. Além disso, muitos estudos têm sido empreendidos neste século para a identificação e análise da metodologia do pensamento marxista, como Gramsci (1991); Kosik (1976); Kopnin (1978); Ianni (1985); Konder (1981, 1991); Frigotto (1989); Limoeiro (1991), entre outros. O método materialista histórico-dialético caracteriza-se pelo movimento do pensamento através da materialidade histórica da vida dos homens em sociedade, isto é, trata-se de descobrir (pelo movimento do pensamento) as leis fundamentais que definem a forma organizativa dos homens durante a história da humanidade. O princípio da contradição, presente nesta lógica, indica que para pensar a realidade é possível aceitar a contradição, caminhar por ela e apreender o que dela é essencial. Neste caminho lógico, movimentar o pensamento significa refletir sobre a realidade partindo do UNIDADE 1TÓPICO 344 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L empírico (a realidade dada, o real aparente, o objeto assim como ele se apresenta à primeira vista) e, por meio de abstrações (elaborações do pensamento, reflexões, teoria), chegar ao concreto: compreensão mais elaborada do que há de essencial no objeto, objeto síntese de múltiplas determinações, concreto pensado. Assim, a diferença entre o empírico (real aparente) e o concreto (real pensado) são as abstrações (reflexões) do pensamento que tornam mais completa a realidade observada. Aqui, percebe-se que a lógica dialética do método não descarta a lógica formal, mas lança mão dela como instrumento de construção e reflexão para a elaboração do pensamento pleno, concreto. Desta forma, a lógica formal é um momento da lógica dialética; o importante é usá-la sem esgotar nela e por ela a interpretação da realidade. FONTE: Disponível em: <http://www.formacao.org.br/docs/artigo_materialismo.pdf>. Acesso em: 20 out. 2010. UNIDADE 1 TÓPICO 3 45 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Neste tópico vimos que: ● O conjunto de procedimentos intelectuais e técnicos usados pela investigação científica para atingir seus objetivos denomina-se: Método Científico. ● O método científico é uma abordagem de conhecimento apta para permitir uma informação válida e fidedigna sobre fenômenos completos. ● Os métodos que fornecem as bases lógicas à investigação são: dedutivo, indutivo, hipotético- dedutivo, dialético e fenomenológico. ● O Método Dedutivo pressupõe que só a razão é capaz de levar ao conhecimento verdadeiro. ● O Método Indutivo considera que o conhecimento é fundamentado na experiência, não levando em conta princípios preestabelecidos. ● No Método Hipotético-Dedutivo procuram-se evidências empíricas para derrubar as hipóteses formuladas. ● O Método Dialético defende que as contradições se transcendem, dando origem a novas contradições que passama requerer solução. ● O Método Fenomenológico preocupa-se com a descrição direta da experiência, tal como ela é. ● O caminho metodológico, para Marx, passa a ser decorrência necessária da natureza da sociedade capitalista. ● Só existe a dialética se existir movimento; e só há movimento se existir processo histórico: história. ● A dialética é, portanto, um processo complexo que pressupõe movimento de “reflexão- análise-ação” sobre os fenômenos do real, tendo por finalidade a transformação. ● A concepção dialética determina a intenção e a ação de compreender as condições que engendraram os processos históricos e os sujeitos destes processos nas suas particularidades e potencialidades. RESUMO DO TÓPICO 3 UNIDADE 1TÓPICO 346 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L AUT OAT IVID ADE � 1 Defina o que são Ciências Sociais. 2 Destaque as principais características do método fenomenológico. P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L A PESQUISA SOCIAL 1 INTRODUÇÃO 2 DEFINIÇÃO E FINALIDADE DA PESQUISA SOCIAL TÓPICO 4 UNIDADE 1 Com o intuito de ampliar a compreensão referente à pesquisa social, este tópico apresentará a definição, assim como a finalidade desta, no atual contexto societário. São também abordados os níveis de pesquisa social, o papel do pesquisador e, por fim, os aspectos metodológicos que envolvem a pesquisa neste âmbito. Dentre as diferentes formas de pesquisa social, a partir de agora daremos atenção especial à pesquisa social. Destacaremos, neste item, a definição e a finalidade da pesquisa social. Conforme já dito, a pesquisa tem importância fundamental no campo das ciências sociais, principalmente na obtenção de soluções para problemas coletivos. Silva & Menezes (2001, p. 6) definem que a pesquisa social configura-se enquanto “o tipo de pesquisa que busca respostas de fenômenos que são apresentados por grupos sociais”. No Serviço Social ela contribui para a aproximação junto às diferentes expressões da questão social, as quais fundamentam a prática profissional. Considera-se então que a pesquisa social está totalmente voltada para o ser humano, tendo este como principal objeto de investigação, independentemente do objetivo almejado. Em função dessa característica, Silva & Menezes (2001, p. 6) destacam que a pesquisa social encontra-se “permeada de subjetividades que são geradas pelo contexto, isso quer dizer que ela focaliza os fenômenos emergentes das relações sociais e suas principais representações”. Tais elementos são evidentes na pesquisa realizada no Serviço Social. O pesquisador se UNIDADE 1TÓPICO 448 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L aproxima tanto dos fenômenos como das relações sociais que emergem no cotidiano da prática. NO TA! � Pesquisa social é toda pesquisa que busca respostas de um grupo social. FONTE: Disponível em: <http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/ met04.htm>. Acesso em: 20 out. 2010. Torna-se importante salientar que a definição de um conceito para a pesquisa social deve estar historicamente embasada, tendo total compreensão de todas as contradições e conflitos que possam estar presentes nessa trajetória Dessa forma, torna-se impossível determinar um significado conceitual estático, imutável ou determinado. Silva & Menezes (2001, p. 6) relevam o caráter extremamente complexo da pesquisa, que se compromete em investigar “os fenômenos sociais próprios de uma determinada realidade, em um contexto, abrangendo questões históricas, políticas e culturais”. Na pesquisa realizada no Serviço Social, categorias como a historicidade, a qual aborda o resgate histórico permeado pelas culturas de diferentes sociedades, são fundamentais para a compreensão da realidade aparente. Daí a importância da imersão junto deste contexto social que se apresenta, o qual a pesquisa social prioriza. FONTE: Disponível em: <http://www.diaadia.pr.gov.br/multimeios/arquivos/ Image/multimeios_na_escola/pesquisa/dica_pesquisa_a.jpg>. Acesso em: 29 set. 2010. FIGURA 10 – O PESQUISADOR UNIDADE 1 TÓPICO 4 49 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Segundo Goldemberg (1999, p. 44), torna-se necessário que a pesquisa social preencha os seguintes requisitos: “existência de uma pergunta que se deseja responder; a elaboração de um conjunto de passos que permitam chegar à resposta; a indicação do grau de confiabilidade na resposta obtida.” Tais princípios são também elementos fundamentais nas pesquisas realizadas no Serviço Social. Tudo se inicia por um problema, uma questão a ser resolvida. A busca pelas respostas se dará através de um caminho metodológico, para então se chegar à possibilidade de respostas confiáveis. AUT OAT IVID ADE � 1 Na sua opinião, o que é pesquisa social? 2 Qual o objeto de investigação da pesquisa social? 3 NÍVEIS DE PESQUISA SOCIAL A pesquisa social apresenta diferentes níveis, os quais variam conforme a finalidade proposta pelo estudo. Eles podem ser classificados da seguinte forma: ● Pesquisa Exploratória. ● Pesquisa Descritiva. ● Pesquisa Explicativa. Cada uma delas será descrita a seguir, com base em Silva & Menezes (2001). FONTE: Disponível em: <http://4.bp.blogspot.com/_5w7Fz_h2xQg/ TQsfxTzdZnI/AAAAAAAAHeU/dd5Y_-9tTIE/s1600/CN Pq+Programa+Pesquisador+na+Empresa+%2528Rh ae%2529+2010.jpeg>. Acesso em: 29 set. 2010. FIGURA 11 – O PESQUISADOR UNIDADE 1TÓPICO 450 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L a) Pesquisa Exploratória A pesquisa exploratória consiste no desenvolvimento de estudos que dão uma visão global do fato ou fenômeno estudado. Pode também ser definida como o “primeiro passo” de todo o trabalho científico. Este tipo de pesquisa tem por finalidade, especialmente quando se trata de pesquisa bibliográfica: ● Proporcionar maiores informações sobre determinado assunto. ● Facilitar a delimitação de uma temática de estudo. ● Definir os objetivos ou formular as hipóteses de uma pesquisa. ● Descobrir um novo enfoque para o estudo que se pretende realizar. Silva & Menezes (2001, p. 7) dizem que, na maioria dos casos, a pesquisa exploratória envolve: “levantamento bibliográfico; entrevistas com pessoas que tiveram experiências práticas com o problema pesquisado; análise de exemplos que estimulem a compreensão do fato estudado.” É através da pesquisa exploratória que se avalia a possibilidade de se desenvolver um estudo inédito e interessante sobre uma determinada temática. Dessa forma, este tipo de pesquisa tem como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito. Gil (1999) complementa dizendo que a pesquisa exploratória constitui um estudo preliminar ou preparatório para um outro tipo de pesquisa. Para o autor, embora o planejamento da pesquisa exploratória seja bastante flexível, quase sempre ela assume a forma “de pesquisa bibliográfica ou estudo de caso” (GIL, 1999, p. 54). Cada uma delas se explica a seguir: ● Pesquisa bibliográfica: procura explicar um problema a partir de referências teóricas, publicadas em documentos. Abrange sempre toda a bibliografia já tornada pública em relação ao tema de estudo, desde publicações avulsas, boletins, jornais, revistas, livros, pesquisas, monografias, teses, material cartográfico, como também, meios de comunicação. (GIL, 1999) ● Estudo de Caso: é caracterizado pelo estudo profundo e exaustivo de um, ou de poucos objetos, de maneira que permita a investigação de seu amplo e detalhado conhecimento. Embora este tipo de estudo se processe de forma relativamente simples, pode exigir do pesquisador um nível de capacitação mais elevado que o requerido para outros tipos de delineamento, devido à dificuldade de generalização dos resultados obtidos, quando UNIDADE 1 TÓPICO 4 51 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L a unidade escolhida para a investigação for bastante anormal em relação às muitas de sua espécie. Gil (1999) destaca, também, que este estudo se caracteriza por grande flexibilidade,sendo impossível estabelecer um roteiro rígido que determine com precisão como deverá ser desenvolvida a pesquisa. Porém, na maioria dos estudos de caso, é possível distinguir as seguintes fases: delimitação da unidade-caso; coleta de dados; análise e interpretação dos dados; e redação do relatório. FONTE: Disponível em: <http://www.unilestemg.br/fapemig/formularios_fapemig/demaisformularios/ formestruturaprojetopesqu.doc>. Acesso em: 20 out. 2010. Com base nestas considerações, tem-se que a pesquisa exploratória emerge como um ponto inicial de todas as pesquisas realizadas no Serviço Social. Quando o pesquisador se propõe a delimitar seu estudo em algum fenômeno social (a violência, por exemplo), esta carece de todo um estudo inicial, com base em materiais bibliográficos ou estudos de caso sobre a temática, para uma maior aproximação com o mesmo. b) Pesquisa Descritiva Segundo Amaral (2008), a pesquisa descritiva é abrangente, permitindo uma análise aprofundada do problema de pesquisa em relação aos aspectos sociais, econômicos, políticos, percepções de diferentes grupos, comunidades, entre outros aspectos. Tem por objetivo “observar, registrar, analisar, classificar e interpretar os fatos, ou fenômenos (variáveis), sem que o pesquisador interfira neles, ou os manipule” (AMARAL, 2008, s/p). No Serviço Social, a pesquisa descritiva apresenta-se como estratégia fundamental para desvelar as particularidades sobre determinado fenômeno. É através da pesquisa descritiva que se pode perceber as particularidades sobre o cotidiano social que se apresenta. Amaral (2008) explica que a pesquisa descritiva procura, fundamentalmente, a descrição das características de determinada população ou fenômeno. E, ainda, “o estabelecimento de relações entre variáveis, isto é, aquelas que visam estudar as características de um grupo: sua distribuição por idade, sexo, procedência, nível de escolaridade, estado de saúde física e mental, e outros” (AMARAL, 2008, s/p). No Serviço Social, compreender a realidade vivenciada por uma determinada população usuária, assim como as particularidades deste fenômeno, torna-se princípio fundamental, que dará embasamento para a continuidade do estudo em questão. É através da pesquisa descritiva que se pode descobrir, com a precisão possível, a frequência com que um fenômeno ocorre, sua relação e conexão com os outros, sua natureza e características. Conforme destaca Gil (1999), são inúmeros os estudos que podem ser classificados como pesquisa descritiva, e uma de suas características mais significativas é a “utilização de UNIDADE 1TÓPICO 452 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L técnicas padronizadas de coletas de dados, tais como o questionário e a observação sistemática, e instrumentos como a observação e o formulário” (GIL, 1999, p. 56). No Serviço Social tais técnicas são corriqueiramente utilizadas, as quais facilitam a aquisição de informações sobre a população usuária ou o fenômeno em estudo. No cotidiano prático, a pesquisa descritiva pode assumir diversas formas e, de um modo geral, assume a forma de um levantamento, sendo mais realizada por pesquisadores das áreas de ciências humanas e sociais, preocupados com a atuação prática. É também utilizada por instituições educacionais, partidos políticos, empresas e outras organizações. (AMARAL, 2008) Por fim, destaca-se que algumas pesquisas descritivas vão além da simples identificação da existência de relações entre variáveis, objetivando determinar a natureza dessa relação, aproximando-se, assim, da pesquisa explicativa. Esta será explicada a seguir. c) Pesquisa Explicativa Compreende-se que a pesquisa explicativa é ainda mais aprofundada, tendo como principal objetivo a identificação dos fenômenos, buscando explicações para os fatores que contribuem para a ocorrência desses fenômenos (AMARAL, 2008). Segundo Amaral (2008, s/p), tem por objetivo principal, além de registrar, analisar e interpretar os fenômenos estudados, “identificar os fatores que determinam, ou que contribuem, para a ocorrência dos fenômenos, isto é, suas causas”. Na concepção do autor, este é o tipo de pesquisa que mais aprofunda o conhecimento da realidade, porque explica a razão e o porquê das coisas. Esta pesquisa é muito utilizada no Serviço Social, a partir do momento que se tem por princípio aprofundar o porquê, assim como a relação de determinados fenômenos que se apresentam no cotidiano social. AUT OAT IVID ADE � 1 O que são níveis de pesquisa? 2 Na sua opinião, qual o nível de pesquisa mais apropriado para a pesquisa social? Por quê? UNIDADE 1 TÓPICO 4 53 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L 4 O PAPEL DO PESQUISADOR NA PESQUISA SOCIAL Quando se trata do papel do pesquisador nas pesquisas sociais, inicialmente contextualizam-se alguns atributos pessoais, considerados essenciais para a prática deste junto do campo investigativo. Para Gil (1999), um bom pesquisador necessita, além do conhecimento do assunto, ter curiosidade, criatividade, integridade intelectual e sensibilidade social. Tais atributos apresentam-se como essenciais para o Assistente Social pesquisador. Dentre os apresentados, a aproximação com a temática seria um princípio inicial e principal para contribuir na constante busca de respostas para o problema identificado. Para Amaral (2008, p. 4), são igualmente importantes “a humildade, para ter atitude autocorretiva, a imaginação disciplinada, a perseverança, a paciência e a confiança na experiência”. Destes, destaca-se a perseverança como princípio fundamental para o Assistente Social pesquisador. Inúmeros são os “obstáculos epistemológicos” que emergem no cotidiano da pesquisa, e busca incessante pelo novo saber apresenta-se como requisito primordial para o pesquisador. Silva & Menezes (2001) advertem que, atualmente, o sucesso como pesquisador está vinculado, cada vez mais, à sua capacidade de captar recursos, enredar pessoas para trabalhar em sua equipe e fazer alianças que proporcionem a tecnologia e equipamentos necessários para o desenvolvimento da pesquisa. “Quanto maior for o prestígio e reconhecimento obtidos pelas publicações, maior será o poder de persuasão e sedução no processo de fazer aliados” (SILVA; MENEZES, 2001, p. 16). Tais questões também emergem na prática da pesquisa no Serviço Social. A capacidade do profissional em interagir com diferentes áreas de estudo, assim como desenvolver o constante saber, através da socialização de suas descobertas, contribuem para a posição de destaque do profissional no âmbito da prática na pesquisa. Ressalta-se, em relação ao pesquisador, a profunda necessidade de estar avaliando os efeitos e as consequências de sua pesquisa sobre os envolvidos, independente de qual seja a especificidade de seu estudo. O trabalho deve sempre estar voltado para a preservação da dignidade do sujeito ou dos grupos sociais. UNIDADE 1TÓPICO 454 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L FONTE: Disponível em: <http://ead.mackenzie.br/mackenzievirtual/file.php/1/ imagens/research.jpg>. Acesso em: 20 out. 2010. É imprescindível que o pesquisador social consiga ter uma aproximação direta com os aspectos que representam a ampla rede de atitudes investigativas. Uma das principais aproximações necessárias é com o universo teórico que embasa a compreensão do fenômeno estudado, visando contemplar espaços que exigem novos olhares para que seu significado seja conhecido, já que se configuram enquanto fenômenos pouco estudados. É possível destacar como fundamental no pesquisador a habilidade de se vincular e interagir com a população e o contexto estudado, o que representa maturidade nas relações, manutenção do foco de ação e prevenção de qualquer risco voltado para a segurança do sujeito. Para Bunge (1976, p. 9), torna-se fundamental que o pesquisador “elabore um código de ética próprio, capaz de conscientizá-lo a respeito de seu compromisso com os participantes e demaisenvolvidos no processo investigatório”. Nesse sentido, ele teria maior preparo para o desenvolvimento de manejo adequado diante de situações inesperadas, gerando equilíbrio, através de maior reconhecimento das necessidades que serão apresentadas, evitando assim o comprometimento do resultado da sua pesquisa. No Serviço Social a ética na pesquisa é primordial, já que o profissional estará interagindo com usuários, situações complexas da realidade cotidiana. Na Unidade 2 deste Caderno aprofundaremos o estudo referente à ética e à pesquisa no Serviço Social. FIGURA 12 – O PESQUISADOR UNIDADE 1 TÓPICO 4 55 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L 5 ETAPAS METODOLÓGICAS DA PESQUISA SOCIAL A pesquisa social apresenta, assim como outras áreas, etapas metodológicas que otimizam a realização do estudo e aquisição de respostas ao problema identificado. Realizar uma pesquisa com rigor científico pressupõe que o pesquisador escolha um tema e defina um problema para ser investigado, que se elabore um plano de trabalho e, após a execução operacional desse plano, escreva um relatório final e este seja apresentado de forma planejada, ordenada, lógica e conclusiva. Silva & Menezes (2001, p. 22) dizem que o planejamento de uma pesquisa dependerá basicamente de três fases, que seriam: a) Fase decisória: referente à escolha do tema, à definição e à delimitação do problema de pesquisa. b) Fase construtiva: referente à construção de um plano de pesquisa e à exe- cução da pesquisa propriamente dita. c) Fase racional: referente à análise dos dados e informações obtidas na fase construtiva. Consiste na organização das ideias, de forma sistematizada, visando à elaboração do relatório final. Tais fases apresentam-se como primordiais para a condução de um estudo, inclusive no Serviço Social. Desde a escolha do tema até a elaboração de um relatório final, o pesquisador vivencia etapas metodológicas que direcionarão o estudo e contribuirão para a aquisição de novos saberes. FONTE: Disponível em: <http://unisinos.br/blog/cidadania/files/2009/08/ Pesquisa-Ilustracao.jpg>. Acesso em: 20 out. 2010. Seguindo a mesma linha, Marconi & Lakatos (2000) definem que a pesquisa ocorre através de quatro etapas: Preparação da Pesquisa; Fases da Pesquisa; Execução da Pesquisa, e, por fim, o Relatório da Pesquisa. FIGURA 13 – O PESQUISADOR UNIDADE 1TÓPICO 456 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Tais etapas, seguidas pelas subetapas, são descritas no quadro a seguir: Etapas da Pesquisa Subfases Descrição 1. Preparação da Pesquisa 1.1 Decisão Momento de tomar a decisão de realizar a pesquisa. 1.2 Especificação dos objetivos Define o que se vai procurar e o que se pretende alcançar. 1.3 Elaboração de um esquema Auxilia o pesquisador a conseguir uma abordagem mais objetiva, imprimindo uma ordem lógica ao trabalho. 1.4 Constituição da equipe de trabalho Recrutamento e treinamento de pessoas que serão necessárias para a pesquisa. 1.5 Levantamento de recursos e cronograma Previsão de gastos a serem feitos durante a sua ocorrência. 2. Fases da Pesquisa 2.1 Escolha do tema É o assunto que deseja se estudar e pesquisar. 2.2 Levantamento de dados Fase da obtenção dos dados. 2.3 Formulação do problema Especificar um problema em dados previstos e exatos. 2.4 Definição dos termos Tornar os termos claros, compreensivos, objetivos e adequados. 2.5 Construção de hipóteses Função de propor explicações para certos fatos. Orienta a busca de outras informações. 2.6 Indicação de variáveis Definem-se as variáveis que irão conduzir a análise da pesquisa. 2.7 Delimitação da pesquisa Estabelecem-se limites para a investigação. 2.8 Amostragem Cons i s t e em e lenca r uma pa rce la convenientemente selecionada do universo. 2.9 Seleção de métodos e técnicas Devem ser selecionados desde a proposição do problema. 2.10 Organização do instrumental de observação Elaboração fundamental para a etapa de coleta de dados. 2.11 Teste dos instrumentos/ procedimentos Serve para averiguar a val idade dos instrumentos. 3. Execução da Pesquisa 3.1 Coleta de dados Etapa na qual inicia a apl icação dos instrumentos elaborados e das técnicas selecionadas. 3.2 Elaboração dos dados Elaboram-se e classificam-se os dados coletados. 3.3 Análise e interpretação dos dados Núcleo central da pesquisa. 3.4 Representação dos dados Método estatístico sistemático de apresentar os dados em colunas verticais ou fileiras horizontais. 3.5 Conclusões Explicita os resultados finais considerados relevantes. 4. Relatório da Pesquisa Relatório da Pesquisa Exposição geral da pesquisa. FONTE: Adaptado de: Marconi; Lakatos (2000) QUADRO 1 – ETAPAS DA PESQUISA UNIDADE 1 TÓPICO 4 57 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Considera-se o seguinte quadro como sendo um modelo a ser seguido, e compreendido metodologicamente na elaboração de pesquisa na área social. Destaca-se que as etapas não são separadas ou distintas. Foram aqui apresentadas neste formato com o intuito de clarear metodologicamente cada uma das fases e subfases da realização de uma pesquisa. Cada uma delas pode se interpor, já que se considera que o processo da pesquisa é dinâmico e, principalmente, capaz de sofrer constantes alterações, já que o objeto de estudo se fundamenta no contexto social. Destaca-se, sim, que o processo é contínuo. A partir da realização da finalização de um estudo, este pode servir para a elaboração de novas pesquisas, já que a ciência e o conhecimento estão em constante reformulação, e assim se consolida, também, no Serviço Social. Na próxima unidade aprofundaremos a relação da pesquisa e o Serviço Social. Bons estudos e até lá. EST UDO S F UTU RO S! � Caro(a) Acadêmico(a), as etapas envolvidas no planejamento de uma pesquisa, enfocando o Serviço Social, estarão detalhadas na Unidade 3 deste Caderno de Estudos. DIC AS! Como forma de ampliar os conhecimentos referentes à questão da pesquisa, sugere- se o seguinte filme: Blade Runner, o caçador de androides. EUA, 1982. AUT OAT IVID ADE � Na sua opinião, qual a etapa metodológica mais importante para a pesquisa social? UNIDADE 1TÓPICO 458 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L LEITURA COMPLEMENTAR A FORMAÇÃO DO ALUNO PESQUISADOR Eliana Ulhôa Mayra Miranda Araújo Vanessa Nagem Araújo Dácio Guimarães Moura Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais - CEFET-MG [...] A educação contemporânea não deve se limitar a formar alunos para dominar determinados conteúdos, mas sim que saibam pensar, refletir, propor soluções sobre problemas e questões atuais, trabalhar e cooperar uns com os outros. A escola deve favorecer a formação de seres críticos e participativos, conscientes de seu papel nas mudanças sociais. O mundo atual, com tantas mudanças e novas demandas, exige, dos indivíduos, habilidades e atitudes diferentes das observadas em épocas anteriores. Uma experiência que visa cumprir com esse objetivo da formação do pesquisador são as feiras de ciências. Bochinski (1996) relata as experiências vividas com feiras de ciências, nas quais se procura aplicar o método científico. Os alunos são estimulados a realizar projetos científicos e a expor os mesmos nas feiras. Segundo a autora, as feiras permitem que o aluno tenha uma experiência concreta, hands-on, e conhecimento em um campo, independente de estudo. Além disso, o aluno faz uso de suas próprias ideias ou de um tópico preparado pelo instrutor para investigar problemas científicos que lhe interessem. Moura (1995) relata que o CEFET–MG vem, também, desenvolvendo, desde 1977, a Mostra Específica de Trabalhos e Aplicações (META), com apresentação de projetos e trabalhos práticos desenvolvidos por alunos de seus cursos técnicos de 2º grau e cursos de Engenharia. Segundo o autor, os trabalhos a serem apresentados podem ser classificados nas seguintes categorias: trabalhos explicativos (oudidáticos), voltados para o objetivo de ilustrar, aplicar, mostrar os princípios científicos de funcionamento de certos objetos, máquinas, mecanismos e sistemas; trabalhos construtivos, que estão relacionados à construção de algo com o objetivo de introduzir uma inovação e, por último, os trabalhos investigativos, que se referem à pesquisa em torno de problemas e situações do mundo, buscando soluções para os mesmos. Porém, segundo relato do mesmo autor, os projetos mais procurados pelos alunos do LACTEA têm sido os dois primeiros tipos. O trabalho investigativo, que é, justamente, o que UNIDADE 1 TÓPICO 4 59 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L estimula a pesquisa científica, tem sido muito pouco realizado pelos alunos. A que se deve tal fato? O que tem impedido os alunos do Ensino Médio a procurarem a pesquisa? Seria o fato de que não têm sido estimulados a fazê-la? Ou por não saberem realizá-la? As feiras de ciências, na atualidade, têm cumprido com esse papel, de estimular o aluno a ser um pesquisador? Ao se retomar o histórico das feiras de ciências, é possível observar uma distorção nos objetivos das mesmas, descrita por alguns autores. Moura (1995) destaca que, nos anos 60, início das feiras de ciências no Brasil, no CECIMIG prevalecia a concepção de um ensino de ciências com ênfase no processo de investigação científica: “...possibilitar ao aluno a vivência do processo de investigação científica e a compreensão da sua importância ... buscando-se contribuir para a formação do espírito científico do aluno”. Acabou-se, dessa forma, estereotipando os chamados “passos” ou “etapas” do propalado “método científico”, como: a observação do fenômeno, a formulação e o teste de hipóteses, a coleta, classificação e análise de dados e a conclusão da experiência. Porém, não se observava, por parte dos alunos, uma postura real de pesquisadores. Nas feiras, os alunos pareciam, muitas vezes, treinados em “recitar” esses “passos” durante a exposição de seus trabalhos. Após esse período, as feiras perderam o ímpeto e muitas foram desativadas. Isso ocorreu decorrente de dúvidas sobre o ensino da Ciência com ênfase no processo e, também, reflexões sobre o “método científico” e o próprio saber científico. Hoje, as feiras de ciências voltaram com novos apelos e novas demandas e pode-se identificar uma relação direta entre essa retomada com um movimento, de âmbito internacional, de incentivo a exposições, mostras, feiras e museus interativos de Ciência e Tecnologia. O mundo atual, caracterizado pelas mudanças e conquistas científicas e tecnológicas em um ritmo vertiginoso, não pode atribuir unicamente à escola a função de informar e educar o cidadão, pois essa apresenta uma habitual inércia e características específicas em seu ritmo educacional. As feiras de ciências apresentam-se como uma forma de contribuir para a formação desse cidadão. Além disso, as feiras de ciências permitem, como prática pedagógica, a integração de dois ou mais componentes curriculares na construção do conhecimento. Como devem ser, nos dias de hoje, as feiras de ciências? Wanderley (1999), em sua dissertação de mestrado, procurou mostrar os problemas decorrentes da tradicional ênfase na “formação do pequeno cientista” e discutiu sobre as origens e limitações dessa proposta. Procurou em seu trabalho estabelecer novas diretrizes pedagógicas e metodológicas que pudessem sustentar a realização de feira de ciências no UNIDADE 1TÓPICO 460 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L contexto dos dias atuais, mais adequados às demandas educacionais de uma sociedade em permanente transformação. Buscou fundamentar as bases para uma nova proposta de realização de feiras de ciências enquanto espaço pedagógico favorável a aprendizagens múltiplas, tanto de seus participantes quanto de seus visitantes. Hoje, já não se observa esse enfoque exagerado na formação do cientista mirim. Porém, observa-se, também, uma crescente diminuição do interesse na formação do pesquisador, do cientista. Essa formação, como enfatizam diversos autores, é muito importante para o indivíduo do novo milênio. Ao mesmo tempo, surge a reflexão proposta por Weber (1963) quando fala sobre a vocação que o indivíduo tem ou não para a Ciência. Essa vocação deve ser respeitada ao se objetivar formar verdadeiros pesquisadores. Daí a relevância que adquire o tema da formação do aluno pesquisador, buscando- se compreender os motivos que têm levado os alunos a optarem por outros caminhos que não o da pesquisa, verificando em que medida torna-se possível a realização de um projeto interdisciplinar para a formação do aluno pesquisador desde o Ensino Médio, favorecendo a formação do futuro cientista, do futuro pesquisador. FONTE: Disponível em: <http://www.senept.cefetmg.br/galerias/Arquivos_senept/anais/terca_tema1/ TerxaTema1Artigo12.pdf>. Acesso em: 20 out. 2010. UNIDADE 1 TÓPICO 4 61 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Neste tópico estudamos que: ● A pesquisa social está totalmente voltada para o ser humano, tendo este como principal objeto de investigação, independentemente do objetivo almejado. ● Pesquisa social é toda pesquisa que busca respostas de um grupo social. ● Com o intuito de que seu estudo seja considerado científico, deve-se obedecer aos critérios de coerência, consistência, originalidade e objetivação. ● Os níveis de pesquisa variam conforme a finalidade proposta pelo estudo e são classificados como: Pesquisa Exploratória, Pesquisa Descritiva, Pesquisa Explicativa. ● A pesquisa exploratória consiste em desenvolver estudos que dão uma visão global do fato ou fenômeno estudado. ● A pesquisa bibliográfica procura explicar um problema a partir de referências teóricas, publicadas em documentos. ● O estudo de caso é caracterizado pelo estudo profundo e exaustivo de um ou de poucos objetos, de maneira que permita a investigação de seu amplo e detalhado conhecimento. ● A pesquisa descritiva tem por objetivo observar, registrar, analisar, classificar e interpretar os fatos ou fenômenos (variáveis), sem que o pesquisador interfira neles ou os manipule. ● A pesquisa explicativa é ainda mais aprofundada, busca explicações para os fatores que contribuem para a ocorrência dos fenômenos. ● Um bom pesquisador necessita, além do conhecimento do assunto, ter curiosidade, criatividade, integridade intelectual e sensibilidade social. ● Quanto maior for o prestígio e o reconhecimento obtidos pelas publicações, maior será o poder de persuasão e sedução no processo de fazer aliados. ● O planejamento de uma pesquisa dependerá basicamente de três fases, que seriam: Decisória, Construtiva e Racional. ● Pesquisa ocorre através de quatro etapas: Preparação da Pesquisa; Fases da Pesquisa; Execução da Pesquisa e Relatório da Pesquisa. RESUMO DO TÓPICO 4 UNIDADE 1TÓPICO 462 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L AUT OAT IVID ADE � 1 Qual a finalidade da pesquisa social? 2 Quais as principais características da pesquisa exploratória? 3 Descreva quais são as etapas da pesquisa e aponte os procedimentos de cada uma delas. UNIDADE 1 TÓPICO 4 63 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L AVAL IAÇÃ O Prezado(a) acadêmico(a), agora que chegamos ao final da Unidade 1, você deverá fazer a Avaliação referente a esta unidade. UNIDADE 1TÓPICO 464 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L UNIDADE 2 ELEMENTOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Nessa unidade vamos: conhecer a importância da pesquisa e da produção do conhecimento para a área do Serviço Social; identificar a importância da ética para a pesquisa no Serviço Social; clarificar sobre as atribuições e competências do Assistente Social pesquisador; conhecer os elementos que fazem parte de um projeto de pesquisa no Serviço Social. TÓPICO 1 – PESQUISA E PRODUÇÃODO CONHECIMENTO NO SERVIÇO SOCIAL TÓPICO 2 – ÉTICA E PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL TÓPICO 3 – ÁREAS DE ABRANGÊNCIA DA PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL TÓPICO 4 – ATRIBUIÇÕES E COMPETÊNCIAS DO ASSISTENTE SOCIAL PESQUISADOR TÓPICO 5 – ELEMENTOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL PLANO DE ESTUDOS A Unidade 2 está dividida em cinco tópicos e, ao final de cada um deles, você terá a oportunidade de fixar seus conhecimentos realizando as atividades propostas. O conteúdo está assim dividido: P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L PESQUISA E PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO NO SERVIÇO SOCIAL 1 INTRODUÇÃO 2 RESGATE HISTÓRICO DO SERVIÇO SOCIAL E A RELAÇÃO COM A PESQUISA TÓPICO 1 UNIDADE 2 Iniciaremos este tópico resgatando a história do Serviço Social e sua relação com a pesquisa. Após, fundamentaremos a importância da pesquisa para o Serviço Social. Discutiremos também as particularidades da pesquisa nesta área. E, por fim, destacaremos o retorno e o alcance social das pesquisas no Serviço Social. Observa-se que a pesquisa, em diferentes instâncias, tem se apresentado como instrumento fundamental para o Serviço Social. A pesquisa, segundo Silva (2008, [s./p.]), tem contribuído, então, para: ● avanços significativos em diferentes âmbitos da ação profissional, ● na compreensão das políticas públicas, ● na evolução da questão social em diferentes períodos históricos, ● na construção da proposta curricular e definição dos seus fundamentos teóricos e metodológicos, ● na consolidação do projeto ético-político profissional, dentre outros aspectos. A realização desta prática se dá respaldada no projeto ético e político profissional, o UNIDADE 2TÓPICO 168 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L qual é comprometido com os interesses coletivos dos cidadãos e com a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. (BOURGUIGNON, 2008) FONTE: Disponível em: <http://www.feevale.br/files/imagens/jpg/15283. jpg>. Acesso em: 8 out. 2010. NO TA! � A pesquisa pode ser considerada um procedimento formal com método de pensamento reflexivo que requer um tratamento científico e se constitui no caminho para se conhecer a realidade ou para se descobrir verdades parciais. Significa muito mais do que apenas procurar a verdade: é encontrar respostas para as questões propostas, utilizando métodos científicos. (LAKATOS). FONTE: Disponível em: <http://falsidade.blogspot.com/2006/03/ conceito-de-pesquisa.html>. Acesso em: 9 fev. 2011. Resgatar a pesquisa no âmbito da profissão carece que se delimitem dois períodos históricos de suma importância para o Serviço Social, que seriam as décadas de 1980 e de 1990. Na década de 1980 observa-se um período de amadurecimento da produção teórica profissional, no qual a Universidade passa a ser a principal protagonista deste processo. Já a década de 1990 representa avanços quanto à consolidação do projeto ético- político da categoria, o que resultou nas proposições destinadas à formação profissional e no direcionamento social da mesma. Aspectos estes que viriam a se consolidar para o desenvolvimento crítico e a definição da identidade profissional. Compreende-se que é justamente nas décadas de 1980 e 1990 que se tem, para o Serviço Social, os maiores avanços e conquistas nos seus diferentes campos de ação. É neste período histórico, também, que a profissão se consolida como um espaço primordial de produção de conhecimento, em seu próprio âmbito e frente às demais áreas de conhecimento. FIGURA 14 – PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL UNIDADE 2 TÓPICO 1 69 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L (BOURGUIGNON, 2007) AUT OAT IVID ADE � Na sua opinião, qual a importância da pesquisa para o Serviço Social? A seguir, destacam-se os principais eventos que propiciaram o avanço da pesquisa no Serviço Social nestes períodos históricos. 2.1 DÉCADA DE 1980 Bourguignon (2007, p. 8) destaca a década de 1980 como sendo aquela na qual se pode observar, de maneira mais sistemática, o debate acadêmico do Serviço Social, marcando um “processo de ruptura com o conservadorismo presente na constituição da profissão”. Para a autora, é durante esta década que se passa a reconhecer, no interior da profissão, uma pluralidade teórico metodológica, embora se tenha uma orientação marxista como direcionamento hegemônico para o projeto ético-político profissional. Esta orientação coloca como valor central os princípios de democracia, liberdade, justiça social e dignidade humana, os quais são definidos e explicitados do Código de Ética de 1993, constituindo-se num marco significativo para a profissão na década de 90. (BOURGUIGNON, 2007) Os avanços obtidos na década de 1980 refletem o reencontro do Serviço Social consigo mesmo, no que se refere à busca de estabelecimento de novas bases para a compreensão do seu passado histórico, das particularidades de sua prática na sociedade mar- cada por relações de classe, da sua relação com o Estado e com as forças da sociedade civil e de sua posição quanto às demandas sociais, cada vez mais complexas, situando-se no âmbito da divisão sociotécnica do trabalho. (BOURGUIGNON, 2007, p. 8) Constata-se ainda que é neste período que o Serviço Social passa a enfrentar questões sobre as políticas sociais, em especial quanto à consolidação de políticas públicas nas áreas da seguridade social e do trabalho. Estas passam a ser pauta do debate da profissão, gerando produções acadêmicas que passam a dar visibilidade às temáticas, bem como à ação profissional desencadeada nestas áreas. UNIDADE 2TÓPICO 170 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Iamamoto (2005) concorda que a pesquisa no Serviço Social teve um longo impulso nos anos 1980. São diferentes os registros sobre encontros nacionais de pesquisa e/ou pesquisadores em Serviço Social, realizados no período de 1983 a 1990. Dentre os principais temas abordados destacam-se: ● Formação profissional. ● Movimentos sociais urbanos. ● Políticas sociais do Estado (principalmente a saúde e a assistência). ● História, teoria e metodologia do Serviço Social. A partir destes avanços o Serviço Social passa a enfrentar, junto da sociedade civil organizada, os impasses, desafios e dilemas que a democracia, a cidadania e os direitos sociais colocam para a prática profissional, e, neste âmbito, em especial para a prática do Serviço Social. Percebe-se que a maior parte dos temas de pesquisa dos anos 80, e que prosseguem abordadas nos anos 90, referem-se às políticas públicas e sua interface com o Estado. Tais avanços vão prosseguir na década seguinte, a qual será destacada a seguir. FONTE: Disponível em: <http://1.bp.blogspot.com/_aHSn0InYAdo/ S0Jl0tQKfHI/AAAAAAAABIU/V9LacoQF7ZA/s400/mestrado. jpg>. Acesso em: 8 out. 2010. 2.2 DÉCADA DE 1990 A partir da década de 1990 é possível observar que o campo de estudo avançou sobre a sociedade civil, os processos de gestão e controle das políticas públicas e o papel dos Conselhos de Direitos. É possível constatar, também, que ganhou ênfase o campo de FIGURA 15 – PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL UNIDADE 2 TÓPICO 1 71 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L preocupação relativo aos usuários do Serviço Social e sua relação com as políticas públicas (BOURGUIGNON, 2007). Compreende-se que um marco significativo na trajetória recente do Serviço Social consiste na regulamentação da LOAS, em 1993, a qual garante maioridade jurídica à assistência social, trazendo-a para o campo do Direito com responsabilização do Estado, e expressa a recusa da tradição clientelista, assistencialista e tutelar presente, ainda, em suas ações. É a partir deste marco que a assistência social passa a adquirir estatuto de política pública e a enfrentar diferentes desafios, os quais Bourguignon (2007, p. 66) assim destaca: ● Superar a cultura marcada pelo assistencialismo. ● Avançar em relação ao processo de avaliação dagestão da política em suas diferentes instâncias. ● Consolidar um processo de controle social, com efetiva participação da sociedade civil. ● Assegurar o financiamento adequado à complexidade das ações de enfren- tamento à pobreza, da garantia dos mínimos sociais, do desenvolvimento de ações de prevenção, de proteção e inclusão social. ● Repensar as ações destinadas às famílias de baixa renda, as quais preco- nizam o caráter intersetorial e o rompimento com a segmentação da família em suas unidades. Conforme se observa, são inúmeros os desafios aos quais se apresentam para o Serviço Social no âmbito da pesquisa. Embora estes tenham emergido na década de 90, seguem contemporaneamente a se consolidar enquanto obstáculos a serem superados. Também é no período de 1990 que se consolida o esforço na construção do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), viabilizado pela Secretaria Nacional de Assistência Social e pelo Conselho Nacional de Assistência Social, em 2004. Tal implementação passa então a exigir um constante processo de acompanhamento e investigação por parte dos núcleos de estudos, dos profissionais e dos pesquisadores da área, relevando ainda mais a importância da pesquisa no Serviço Social. Bourguignon (2007) destaca ainda que é na década de 1990 que passam a ter maior visibilidade as diversas formas de expressão da questão social, havendo um grande esforço teórico-crítico no sentido de apreendê-las no movimento contraditório da sociedade, possibilitando, dessa forma, uma maior consistência à prática profissional no enfrentamento destas expressões. E é em meio a este movimento das transformações societárias, assim como na forma inerente no movimento de repensar a profissão, que ocorre um processo de construção e afirmação de um projeto ético-político do Serviço Social comprometido com a cidadania e renovador na formação profissional. UNIDADE 2TÓPICO 172 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L A partir deste momento, a formação profissional passa a se direcionar para: [...] o desenvolvimento de uma competência teórico-metodológica de natu- reza pluralista, orientada pela tradição marxista. Nesta ênfase, a formação profissional funda-se então na interlocução com o conjunto de conhecimento científico acumulado pelas diversas áreas das ciências humanas e sociais, fazendo uso, em diferentes momentos, do diálogo com as vertentes clássicas. (BOURGUIGNON, 2007, p. 22) São estes os avanços que irão contribuir para uma maior relevância da pesquisa no Serviço Social. Está sempre embasada em princípios éticos que procuram desvelar o contexto social que se apresenta enquanto contraditório e carente de respostas condizentes às mazelas que se apresentam no cotidiano. Observa-se que em sua constituição histórica, o Serviço Social estabelece um diálogo crítico com outras áreas do conhecimento, sendo importante interlocutora no campo das reflexões sobre a questão social e enfrentamento através das políticas públicas (BOURGUIGNON, 2007). E em meio a esta trajetória de avanços e conquistas, a pesquisa tem sido privilegiada, estimulando a atitude investigativa na postura e no exercício profissional. Mais recentemente, destacam-se então as ações, os eventos acadêmicos, as discussões e produções dos profissionais em diferentes campos da atuação profissional, o que tem consolidado a prática do Assistente Social. Iamamoto (2005) ressalta que é na década de 1990 que se assiste a uma diversificação temática no campo da pesquisa em Serviço Social, o qual pode ser refletido pelas comunicações apresentadas em diferentes congressos que envolviam a categoria profissional, tendo como principais temas: ● A seguridade social pública e privada. ● Assistência social. ● Saúde nas relações de trabalho. ● Formação profissional do assistente social. ● Serviço Social ante as relações de gênero e etnia. ● Dimensão ética da prática do assistente social. ● Serviço Social ante a política de habitação e saneamento. ● Movimentos sociais rurais e urbanos na atualidade. UNIDADE 2 TÓPICO 1 73 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L ● Prática do Serviço Social junto à população idosa. ● Desafios teórico-políticos do Serviço Social ante o neoliberalismo. Tais temáticas também podem ser refletidas nas teses de doutorado, dissertações de mestrado e outras produções no Serviço Social. Muito se tem avançado, e a pesquisa constitui-se o principal fundamento para a consolidação da prática profissional fundamentada em elementos que procuram contribuir com o amadurecimento da profissão. No próximo item daremos o devido destaque para a importância da pesquisa no Serviço Social. FONTE: Disponível em: <http://4.bp.blogspot.com/_k0IVHs07nGc/ ScFCRlL27hI/AAAAAAAAAiE/Jxf3ejxDGyc/s320/Como+es crever+uma+reda%C3%A7%C3%A3o.jpg>. Acesso em: 8 out. 2010. AUT OAT IVID ADE � Em sua opinião, qual a importância da pesquisa para a prática do Assistente Social? 3 IMPORTÂNCIA DA PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL Bourguignon (2007, p. 14) define que o ato de pesquisar consiste num “exercício sistemático de indagação da realidade observada, onde se busca conhecimento que FIGURA 16 – PESQUISA E SS UNIDADE 2TÓPICO 174 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L supere o entendimento imediato”. A pesquisa passa a ter um fim determinado e fundamenta e instrumentaliza o profissional a desenvolver práticas comprometidas com mudanças significativas, no contexto em que se insere e em relação à qualidade de vida dos sujeitos (BOURGUIGNON, 2007). Percebe-se que o Serviço Social como profissão sócio-histórica tem em sua natureza a pesquisa como meio de construção de um conhecimento comprometido com as demandas específicas da profissão e com as possibilidades de seu enfrentamento. É possível perceber ainda que, ao mesmo tempo em que se apresenta como uma possibilidade de objetivação da prática profissional, a pesquisa representa um desafio permanente para os profissionais que pretendem ser críticos e prepositivos no cenário contemporâneo em relação ao processo de formação profissional (BOURGUIGNON, 2007). FONTE: Disponível em: <http://1.bp.blogspot.com/_quoG3o3JFHw/ TFAoRV7hHBI/AAAAAAAAA3A/a6vAjmmvJ4E/s1600/1reuniao.jpg>. Acesso em: 8 out. 2010. Dessa forma, tomando como base a prática profissional do Assistente Social, torna-se necessário compreender o processo de produção de conhecimento como um elemento de transformação da realidade social pela mediação do trabalho, reconhecendo o conhecimento como uma das expressões da práxis, como uma das objetivações possíveis do trabalho humano frente aos desafios colocados pela relação entre o homem, a natureza e a sociedade (BOURGUIGNON, 2007, p. 9). E é exatamente nesta interação complexa que a pesquisa passa a ter um significado ontológico, ou seja, existencial elaborativo, pois faz parte da natureza humana perguntar pelo desconhecido para, através das possibilidades de respostas, atender às necessidades do homem em suas dimensões individual e coletiva, produzindo e reproduzindo sua própria existência, não de forma automática, mas de maneira complexa, processual, contraditória e histórica. FIGURA 17 – PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL UNIDADE 2 TÓPICO 1 75 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Para Bourguignon (2007), a pesquisa é: constitutiva e constituinte da prática profissional do Serviço Social, sendo de- terminada pela sua natureza interventiva e pela inserção histórica na divisão sociotécnica do trabalho. Torna-se constitutiva e constituinte porque faz parte da natureza da profissão e aparece e se desenvolve socialmente, ao desven- dar a complexidade do real e nele buscar as possibilidades de intervenção (BOURGUIGNON, 2007, p. 11). Conforme destacado, a pesquisa passa a ser elemento constituinte essencial da prática profissional do Assistente Social. Ela fundamenta o seu agir, dá respostas às inquietações existentes e possibilita a busca de respostas ao complexosistema social que apresenta na contemporaneidade. NO TA! � A pesquisa envolve a interrogação direta das pessoas cujo comportamento se deseja conhecer. FONTE: Disponível em: <http://www.webartigos.com/ articles/10409/1/Conceitos-Em-Pesquisa-Cientifica/pagina1. html>. Acesso em: 8 fev. 2011. 4 PARTICULARIDADE DA PESQUISA PARA O SERVIÇO SOCIAL Percebe-se que a prática da pesquisa no Serviço Social se apresenta enquanto construção histórica, a qual se processa na medida em que a profissão enfrenta as demandas sociais decorrentes do agravamento da questão social, em suas múltiplas manifestações, tendo como referência a perspectiva teórico-metodológica crítica que sustenta a produção do conhecimento e a intervenção na profissão (DUARTE, 2008). A pesquisa, então, consolida-se como um processo constante de construção e afirmação do projeto ético-político profissional, comprometido com a democracia e justiça social, materializado no Código de Ética de 1993. Está presente também no processo de Revisão Curricular, o qual fundamenta a formação profissional. A pesquisa também se constitui na medida em que o Serviço Social alcança a maturidade intelectual, evidenciada pela sua produção teórica e capacidade de diálogo crítico com diferentes áreas de conhecimento das ciências sociais e humanas. Para Bourguignon (2007), contemporaneamente é possível observar o protagonismo dos assistentes sociais no âmbito da pesquisa, onde, através de suas organizações representativas - Conselho Federal de Serviço Social (CEFESS), Conselho Regional de Serviço Social (CRESS) UNIDADE 2TÓPICO 176 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L e Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS) – e dos espaços de socialização de conhecimentos (congressos, conferências, encontros, seminários, cursos, publicações, dentre outros), tem-se mobilizado e se feito presente como sujeito político diante das questões que afetam o exercício profissional e a garantia dos direitos sociais no campo das políticas públicas, bem como tem mantido importante interlocução com os movimentos sociais da sociedade civil, ampliando seu potencial de enfrentamento das crises e transformações do mundo contemporâneo (BOURGUIGNON, 2007). Assim sendo, são inúmeros os espaços que servem de consolidação do conhecimento produzido pelo Serviço Social. Este se materializa na constante busca pela solução das inquietações que se apresentam no cotidiano da prática profissional. AUT OAT IVID ADE � Como se percebe o protagonismo do Assistente Social na prática da pesquisa? FONTE: Disponível em: <http://www.google.com.br/images?hl=pt-br&sou rce=imghp&biw=1020&bih=510&q=pesquisa+e+servi%C3%A7o+ social&btnG=Pesquisar+imagens&gbv=2&aq=f&aqi=&aql=&oq=& gs_rfai>. Acesso em: 8 out. 2010. 5 RETORNO E ALCANCE SOCIAL DAS PESQUISAS NO SERVIÇO SOCIAL Um pressuposto fundamental na pesquisa em Serviço Social consiste na preocupação com o sujeito. É possível perceber que a preocupação com o reconhecimento do sujeito cidadão está presente no projeto ético-político do Serviço Social e carece destacar maior relevância, FIGURA 18 – PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL UNIDADE 2 TÓPICO 1 77 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L tanto no âmbito da prática profissional em organizações sociais, como no desenvolvimento de pesquisas científicas. Torna-se fundamental que a pesquisa não só compreenda as questões estruturais, como, também, a perspectiva da totalidade do processo de reprodução material e espiritual da existência do ser social. Por esta razão, as diferentes formas de como o sujeito se relaciona com a realidade social não podem passar despercebidas nas pesquisas realizadas nesta área (BOURGUIGNON, 2007). Bourguignon (2007, p. 19) destaca de forma significativa: O grande desafio para o pesquisador assistente social, que se preocupa com a centralidade do sujeito, é possibilitar, através da pesquisa, uma maior visi- bilidade ao sujeito, à sua experiência e ao seu conhecimento, cuja natureza, se desvendada, poderá vir a permitir desenvolver práticas cada vez mais comprometidas ética e politicamente com a realidade, buscando no coletivo e na troca de saberes alternativas de superação das condições de privação e exclusão social. Com base nestes dizeres, percebe-se que, ao se aproximar das diferentes expressões da questão social vivenciada pelos sujeitos, o assistente social passa a ter contato com a experiência e o conhecimento destes, os quais necessitam ser compartilhados, compreendidos e traduzidos à luz de um diálogo crítico com o corpo de conhecimentos já acumulados no Serviço Social. Daí emerge o novo conhecimento da profissão, assim como possíveis estratégias de intervenção profissional. Na compreensão de Bourguignon (2007, p. 19), a preocupação com a centralidade que o sujeito ocupa nas pesquisas do Serviço Social não é ocasional. Revela, sim, que a profissão tem: suas ações e preocupações pautadas nas demandas dos usuários, que se expressam através das histórias de vida que trazem às organizações sociais, nas relações que movimentam no seio da família, do trabalho e da sociedade, nas raízes e expressões culturais que demonstram, nas carências socioeco- nômicas e políticas que exigem posicionamento do assistente social. Com isso, tem-se que o exercício da pesquisa no Serviço Social se materializa junto de diferentes espaços, onde estão inseridos os usuários, assim como naqueles onde se estabelecem as relações entre os mesmos. Torna-se necessário, então, que a pesquisa para o Serviço Social gere um conhecimento que reconheça os usuários dos serviços públicos como sujeitos políticos que são capazes também de conhecer e intervir em sua própria realidade com autonomia, desvencilhando-se das estratégias de assistencialismo, clientelismo e subalternidade, tão presentes nas ações governamentais e políticas públicas (BOURGUIGNON, 2007). UNIDADE 2TÓPICO 178 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Dessa forma, no Serviço Social as pesquisas têm como possibilidade relevante: ● O reconhecimento da valorização do povo. ● O reconhecimento da riqueza de suas histórias. ● O reconhecimento das suas experiências coletivas, mobilizadoras de novas formas de sociabilidade. Reconhecer e apreender estes elementos contribui para o desenvolvimento de uma prática profissional capaz de possibilitar aos usuários e destinatários das políticas públicas e dos serviços sociais a experiência de: assumir-se como “ser social e histórico”, ou seja, “como ser pensante, comuni- cante, transformador, criador, realizador de sonhos, capaz de ter raiva porque é capaz de amar. Assumir-se como sujeito porque é capaz de reconhecer-se como objeto. (FREIRE, 1981, p. 41) Compreender este sujeito, assim como sua realidade histórica, reconhecendo-se como elemento primordial para a consolidação dos fenômenos sociais, também se consolida como princípio fundamental que o pesquisador atribui em seus estudos. O processo histórico, assim como contraditório que se apresenta nas trajetórias dos usuários, consolida-se enquanto elementos fundamentais a serem considerados no âmbito da pesquisa social. São diferentes as formas em que se dá a aproximação do pesquisador junto do sujeito que participa das pesquisas. Destaca-se que esta se faz através da busca da compreensão da sua experiência, do conhecimento gerado a partir desta experiência e da sua vivência cotidiana que, tomados em relação ao objeto de estudo, compõem um dos elementos a serem apreendidos na sua relação com as múltiplas determinações de natureza econômica, social, política e cultural (BOURGUIGNON, 2007). Ressalta-se ainda que a relação com o sujeito escolhido para participar das pesquisas no Serviço Social não é ocasional, ingênua, mas sim, definida pelo que se pretende elaborar cientificamente. Vai de encontro ao propósito que se tem com a pesquisa, assim como o fenômeno definido para estudo. NO TA! � De acordocom a Resolução no 196/96, sujeito de pesquisa é o participante pesquisado, individual ou coletivamente, de caráter voluntário, vedada qualquer forma de remuneração. FONTE: Disponível em: <http://www.hcnet.usp.br/adm/dc/ napesq/tcle.php>. Acesso em: 9 fev. 2011. UNIDADE 2 TÓPICO 1 79 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L FONTE: Disponível em: <http://lapublicidade.com/wp-content/ uploads/2010/04/redes-sociais2.jpg>. Acesso em: 8 out. 2010. AUT OAT IVID ADE � Na sua opinião, qual a importância da pesquisa para os sujeitos que dela fazem parte? Através da pesquisa evidencia-se que a experiência e o conhecimento, elementos presentes na constituição do Serviço Social enquanto profissão, estão embasados em dinâmicas concretas da realidade, as quais necessitam ser transformadas através de ações políticas – “ações que sejam, também, capazes de resgatar a condição de sujeito de direitos e capazes de romper com as tramas que determinam a condição de subalternidade”. (BOURGUIGNON, 2007, p. 12) A pesquisa apresenta-se como estratégia primordial na prática profissional, no intuito de contribuir para o aprimoramento das políticas públicas e demais elementos que têm como propósito principal a erradicação das mazelas produzidas pelo sistema capitalista contemporâneo. LEITURA COMPLEMENTAR PESQUISA E PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO NO CAMPO DO SERVIÇO SOCIAL Aldaíza Sposati Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP) [...] Serviço Social e pesquisa A pesquisa torna-se disciplina obrigatória na formação profissional dos assistentes FIGURA 19 – PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL UNIDADE 2TÓPICO 180 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L sociais somente em 1982. Embora este fato, algumas escolas, departamentos ou faculdades já inseriam em seus currículos a metodologia da pesquisa. Pelo menos esta foi minha experiência ainda na Escola de Serviço Social da PUC-SP na década de 60 do século 20. É após o processo de reconceituação e, com ele, da construção da identidade social latino-americana do Serviço Social que, ao questionar sua ‘base científica’ europeia-americana, a preocupação com o conhecimento no e para o Serviço Social se fortalece. Esse processo tem na implantação de cursos de pós-graduação na década de 1970 uma força ímpar. Primeiro é preciso lembrar que implantar pós-graduação em Serviço Social significou, por si só, a convalidação nos órgãos oficiais do campo do Serviço Social como área de estudo e pesquisa. Aliás, valeria a pena o exame desses documentos inaugurais a fim de resgatar o enunciado desse reconhecimento. É no âmbito de um curso privado de Serviço Social, na PUC-SP, que tem início a pós- graduação em Serviço Social que vai titular como mestres e doutores um número considerável de docentes das universidades públicas brasileiras no campo do Serviço Social. A produção de teses e dissertações exigia o componente da pesquisa inovadora e, por consequência, exigia dos pós-graduados o aprofundamento teórico na metodologia científica, na estatística, que passaram a ser disciplinas dos primeiros cursos de mestrado, ainda na década de 70, já que o nível de doutorado só é alcançado na metade da seguinte década. O reconhecimento institucional pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) da área do Serviço Social como campo específico de pesquisa é, certamente, conquista que abriu possibilidade de financiamento da pesquisa em Serviço Social e inclusão de pesquisadores do Serviço Social no quadro geral de pesquisadores do CNPq. Sem dúvida, esta jovem experiência de três décadas apenas sofre, como as demais áreas das humanidades, certa arrogância das ciências puras face às ciências aplicadas, mas coloca, ao mesmo tempo, questões para os próprios pesquisadores do Serviço Social: teria o Serviço Social efetiva base científica para a produção de conhecimentos com estatuto reconhecido pela academia? Por certo, ocorreu grande esforço nas décadas de 80 e 90 em fortalecer a base científico- profissional difundida, principalmente, através do processo de desconstrução e reconstrução crítica da profissão e de seu exercício, fundando-se no aporte sócio-histórico da análise do real, que foi disseminado pelo então ‘novo’ currículo de formação da década de 80. Esse processo permeou a categoria pela academia, centros de formação, coletivos profissionais, encontros, debates, publicações, congressos. Foi efetivamente a construção da nova cultura crítica no âmbito da profissão e da formação profissional que tem o mérito desse UNIDADE 2 TÓPICO 1 81 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L fortalecimento da pesquisa para os assistentes sociais. O vínculo entre a produção de conhecimento em Serviço Social e o processo sócio- histórico gerou, por sua vez, a capacidade de interlocução entre pesquisadores provindos do Serviço Social com aqueles ligados a outros saberes. Ampliou-se a inserção e a interlocução interdisciplinar e, com elas, a construção do reconhecimento científico dessa ‘nova’ perspectiva de análise do real. Um outro tom de qualidade na produção do conhecimento em Serviço Social procedeu da direção social da prática profissional orientada por um projeto ético-coletivo. Falo da relação de compromisso entre a prática profissional e os interesses das classes populares, subalternas, exploradas. Nessa perspectiva, Carmelita Yazbek (2004) soma com as teses de Boaventura de Sousa Santos (2003) ao afirmar a relação entre conhecimento e hegemonia e situar o campo da produção do conhecimento em Serviço Social sob a orientação de conhecimento contra- hegemônico, porque voltado para as classes subalternas. No caso, ele não se guia pelas normalidades ou homogeneidades, e sim pelas heterogeneidades, discrepâncias, desigualdades. Adquire o caráter de conhecimento- movimento, já que não é um conhecimento conforme, e sim dirigido a um novo lugar/formato de relações e poderes. Nesse sentido é um conhecimento ao mesmo tempo movimento – utopia. Dedica-se a desvendar os invisíveis, os sem-voz, sem-teto, sem-cidadania. Constitui-se, por tudo isso, em um conhecimento contra-hegemônico. O enraizamento científico da produção do conhecimento em Serviço Social, orientado pela direção social contra-hegemônica, confere um locus de legitimidade à pesquisa em Serviço Social, embora o processo de legitimidade-legitimação seja contínuo em suas relações externas, interdisciplinares e institucionais. O reconhecimento da pesquisa no Serviço Social na institucionalidade científica no CNPq como área de conhecimento e na CAPES como área de produção de conhecimentos foi e ainda, de certa forma, o é (quanto ao estatuto e a recursos para pesquisa), resultante de inúmeras lutas. Agências de fomento como a paulista Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), a internacional Fundação Ford, entre outras, já incorporam o financiamento de pesquisa no campo do Serviço Social. Dispõe-se de um coletivo de pesquisa em Serviço Social dentro da ABEPSS (Associação Brasileira de Pesquisa e Ensino em Serviço Social) – cuja sigla ABESS (Associação Brasileira de Escolas de Serviço Social) foi alterada para incluir nesse coletivo a pesquisa, pois antes a ABESS o abrigava sob a nominação de Centro de Documentação e Pesquisa em Políticas Sociais e Serviço Social (CEDEPSS) – com reconhecimento pleno, tendo já em seu currículo a realização de 12 Encontros Anuais de Pesquisa e Pesquisadores em Serviço Social, ocorrendo o último em dezembro de 2006, em Recife. UNIDADE 2TÓPICO 182 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L A pós-graduação já conta com duas dezenas de cursos instalados em universidades públicas, filantrópicas e privadas. Esses cursos possuem ativos núcleos de pesquisa com relações internacionais, interdisciplinares, mas que ainda têm frágil inter-relação nacional, na medida em que a comunidadecientífica do Serviço Social não está constituída em rede, o que seria desejável. Vejo aqui um bom novo desafio para a pesquisa no Serviço Social. É de se relembrar as experiências de intercâmbio internacional que geram pesquisas e estudos comparados entre o Brasil e outras realidades, ressalta-se o exemplo da PUC-SP com programas de mestrado e doutorado em Portugal (KARSCH, 2005). Não se trabalha em rede entre os núcleos de pesquisa das diversas universidades constituindo comunidades de interesse, intercâmbio, acumulação de conhecimentos no âmbito da pesquisa em Serviço Social. Sofremos ainda do isolamento das investigações, quer pela predominância de sua produção vinculada às monografias, dissertações e teses – enquanto trabalhos de caráter individual –, quer pela ausência de partilha de objeto e objetivos entre grupos de pesquisadores. É urgente uma política de pesquisa em Serviço Social aprovada em coletivos que provoque o elo aglutinador dessa comunidade científica. É de se assinalar a importância de produções interinstitucionais, como algumas iniciativas em desenvolvimento através do Programa de Integração Acadêmica da CAPES (PROCAD), com exemplo inaugural da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), PUCSP e Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Outra frente é o processo de iniciação científica com alunos da graduação em programas institucionais, como o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) do CNPq, que fortalecem o preparo para a pesquisa no processo de formação do profissional. Pesquisadores em Serviço Social são líderes de grupos de pesquisa com certificação institucional junto ao CNPq. A área do Serviço Social apresenta em seu conjunto na CAPES 55 linhas de pesquisa ativas, numa relação média aproximada de 10 projetos em andamento para cada uma delas. (RELATÓRIO CAPES, 2004) FONTE: Disponível em: <http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/katalysis/article/view/1025/3909>. Acesso em: 9 fev. 2011. UNIDADE 2 TÓPICO 1 83 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Neste tópico você estudou que: ● Ao resgatar a trajetória do Serviço Social como profissão, é possível identificar avanços e conquistas, no sentido de consolidação de uma produção de conhecimento que lhe garanta sustentação teórica. ● A pesquisa tem se apresentado como instrumento fundamental para o Serviço Social. ● A década de 1980 é caracterizada como uma etapa de amadurecimento da produção teórica profissional, sendo a Universidade a grande protagonista deste processo. ● A década de 1990 representa avanços quanto à consolidação do projeto ético-político da categoria, o que resultou nas proposições destinadas à formação profissional e no seu direcionamento social. ● Em sua constituição histórica, o Serviço Social estabelece um diálogo crítico com outras áreas do conhecimento, sendo importante interlocutora no campo das reflexões sobre a questão social e seu enfrentamento através das políticas públicas. ● Pesquisar consiste em um exercício sistemático de indagação da realidade observada, em que se busca conhecimento que supere o entendimento imediato. ● Torna-se necessário compreender o processo de produção de conhecimento como um elemento de transformação da realidade social pela mediação do trabalho. ● A prática da pesquisa no Serviço Social se põe como construção histórica que se processa na medida em que a profissão enfrenta as demandas sociais decorrentes do agravamento da questão social. ● Contemporaneamente, é possível observar o protagonismo dos assistentes sociais no âmbito da pesquisa, através de suas organizações representativas - Conselho Federal de Serviço Social (CEFESS), Conselho Regional de Serviço Social (CRESS) e Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS). ● Um pressuposto fundamental na pesquisa em Serviço Social consiste na preocupação com o sujeito. A preocupação com o reconhecimento do sujeito cidadão está presente no projeto RESUMO DO TÓPICO 1 UNIDADE 2TÓPICO 184 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L ético-político do Serviço Social. ● O grande desafio para o pesquisador assistente social, que se preocupa com a centralidade do sujeito, é possibilitar, através da pesquisa, uma maior visibilidade ao sujeito. ● A preocupação com a centralidade que o sujeito ocupa nas pesquisas do Serviço Social não é ocasional, revela que a profissão tem suas ações e preocupações pautadas nas demandas dos usuários. UNIDADE 2 TÓPICO 1 85 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L 1 Elenque quais os principais acontecimentos que deram destaque à prática da pesquisa, no Serviço Social, entre as décadas de 1980 e 1990. 2 Comente a afirmação: “pesquisa é constitutiva e constituinte da prática profissional do Serviço Social”. 3 Qual o grande desafio para o pesquisador assistente social que se preocupa com a centralidade do sujeito em seus estudos? AUT OAT IVID ADE � UNIDADE 2TÓPICO 186 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L ÉTICA E PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL 1 INTRODUÇÃO 2 CONCEITUANDO A ÉTICA TÓPICO 2 UNIDADE 2 Neste tópico resgataremos elementos referentes à ética e sua importância para a pesquisa no Serviço Social. Iniciaremos retomando o seu conceito, relacionando-o com questões voltadas à pesquisa junto do ser humano, mais especificamente à Bioética. Após, relacioná-la-emos com o Serviço Social e a sua importância na condução dos estudos. Por fim, ressaltaremos o significado e a importância da centralidade dos sujeitos nas pesquisas realizadas no Serviço Social. Barroco (2005) destaca que a gênese da ação ética é dada pela liberdade, compreendida ontologicamente como uma capacidade humana inerente ao trabalho, tomado como práxis. A liberdade é, então, ao mesmo tempo, “capacidade de escolha consciente dirigida a uma finalidade, e capacidade prática de criar condições para a realização objetiva das escolhas, para que novas escolhas sejam criadas” (BARROCO, 2005, p. 26). FONTE: Disponível em: <http://williamdaniel.com.br/wp-content/ uploads/2010/12/%C3%A9tica.jpg>. Acesso em: 8 out. 2010. FIGURA 20 – ÉTICA E MORAL UNIDADE 2TÓPICO 288 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Diniz (2002) conceitua a ética como sendo a ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. Já Bonetti (1996) complementa afirmando que a ética é o conjunto de normas de comportamento e formas de vida através do qual o homem tende a realizar o valor do bem. Tais conceitos são fundamentais na condução da pesquisa no Serviço Social. Preconiza- se que todo o processo de pesquisa desenvolvido no Serviço Social deva ser embasado nestes conceitos, os quais direcionarão a busca pelo novo saber. Para se ampliar a compreensão sobre a ética, e posteriormente se estabelecer uma relação com a pesquisa no Serviço Social, considera-se importante destacar a Bioética, o que será feito no item a seguir. AUT OAT IVID ADE � Defina, com suas palavras, o que é ética. 3 A ÉTICA E O SABER – ELEMENTOS DA BIOÉTICA Para Barroco (2006), a conquista da ética na pesquisa pode ser descrita por inúmeras situações de desrespeito e violação dos direitos dos sujeitos envolvidos na pesquisa. Para a autora, seu debate emerge historicamente no âmbito da Bioética, inicialmente no campo da saúde, como resposta ao uso da ciência em experimentos com seres humanos. Compreende-se que o desenvolvimento da ética na pesquisa evidenciou que os dilemas ético-morais presentes nas diferentes práticas profissionais e científicas extrapolam as áreas médicas, exigindo a presença das demais áreas do conhecimento e a definição de critérios e princípios éticos normatizadores da pesquisa, em geral. Para Barroco (2006, p. 6): É no contexto das declarações e tratados internacionais de direitos humanos, acordados no pós-guerra, e tendo em vista as denúncias sobre os experimentos dos campos deconcentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, que são criadas as bases históricas que legitimam a necessidade de criação de parâmetros éticos universais relativos ao uso da pesquisa e das experiências científicas. Dentre os tratados destacados pela autora, enfatiza-se o Código de Nüremberg, como documento que introduz importantes recomendações éticas para a pesquisa com seres UNIDADE 2 TÓPICO 2 89 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L humanos, dentre elas a importância de se garantir o consentimento voluntário do sujeito da pesquisa e seu esclarecimento sobre o processo a que será submetido. No âmbito da discussão da ética na pesquisa, Barroco (2006, p. 10) salienta que foi a década de 1960, mundialmente conhecida por impulsionar a crítica social e política, a responsável pelo “desenvolvimento tecnológico e pelas mudanças socioculturais que atingiram a família, os valores e os costumes tradicionais, em geral, desencadeadores de lutas por direitos civis e políticos dos sujeitos.” É neste período que emergem questionamentos quanto às implicações das pesquisas clínicas terapêuticas e não terapêuticas para os sujeitos que dela eram participantes. Em 1964, a Declaração de Helsinque, produzida pela Associação Médica Mundial, busca enfrentar tais dilemas, passando por diversas revisões desde a sua criação (BARROCO, 2006). Data de 1962, em Seatle, o primeiro Comitê de Bioética, ao mesmo tempo em que ocorre um conjunto de denúncias sobre experimentos médicos antiéticos (BARROCO, 2006). Este Comitê foi instituído a partir de um avanço tecnológico da medicina – a criação da hemodiálise – e do conflito ético gerado a partir da existência de uma demanda maior do que a capacidade de atendimento, o que poderia resultar na morte dos usuários. Tal iniciativa, conforme Barroco (2006), é considerada pioneira, pois ampliou o poder decisório para um Comitê composto por pessoas em sua maioria leigas em medicina. É também na década de 1960 que surgem diferentes denúncias envolvendo práticas antiéticas em pesquisas científicas com seres humanos. Barroco (2006) destaca o artigo publicado por Henry Beecher, em 1966, intitulado “Ética e investigação clínica”, o qual demonstrou que “a cada cem trabalhos publicados, 12 apresentavam maus tratos ou violações éticas, evidenciando a discriminação e o desrespeito ao ser humano, clarificando a relação das práticas com pacientes em condições sociais subalternas” (BARROCO, 2006, p. 23). Embasado em todas estas situações, tem-se o desenvolvimento da Bioética, como resposta a demandas históricas resultantes de situações de discriminação e de desrespeito aos direitos humanos. É ela que conduz e dita os elementos primordiais a serem seguidos na pesquisa realizada junto de seres humanos. FONTE: Disponível em: <http://1.bp.blogspot.com/__1La6Ma_hp8/ TK9RLuXWAcI/AAAAAAAAAKI/cPlLp5Bvv2o/s1600/etica.jpg>. Acesso em: 8 out. 2010. FIGURA 21 – ÉTICA UNIDADE 2TÓPICO 290 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L NO TA! � Termo de Consentimento Livre e Esclarecido: O consentimento voluntário do ser humano passou a ser obrigatório em 1947, com o surgimento do Código de Nüremberg. Mais tarde, no Brasil, surge a Resolução no 196/96, que, baseada no Código de Nüremberg, na Declaração dos Direitos do Homem, na Declaração de Helsinque, entre outros, destaca no Artigo IV o Consentimento Livre e Esclarecido, estabelecendo que toda pesquisa se processe somente após consentimento livre e esclarecido dos sujeitos que, por si ou por seus representantes legais, manifestem a sua anuência em participar de uma pesquisa. FONTE: Disponível em: <http://www.hcnet.usp.br/adm/dc/ napesq/tcle.php>. Acesso em: 9 fev. 2011. 4 SERVIÇO SOCIAL E A ÉTICA NA PESQUISA Explica Barroco (2006, p. 4) que, em sua dimensão teórica, a ética se distingue “do saber científico pela sua natureza filosófica, que lhe fornece um caráter crítico, dotado de juízos de valor”. A reflexão ética convida então todos a se indagarem sobre o que é bom, justo, legítimo em relação às ações humanas. Percebe-se também que, no campo da pesquisa, a ética afirma a necessidade de explicitação dos valores e princípios que orientam as normas e deliberações sobre a pesquisa nos diferentes campos da ciência. Observa-se que numa perspectiva de análise histórica, os valores e princípios adquirem significados diferentes, que variam de acordo com a direção social, ética e política objetivada através da ação prática dos homens, em cada contexto histórico. Barroco (2006) explica que um mesmo valor pode ter diferentes significados e direções políticas, dependendo da forma como é apreendido teoricamente e de acordo com sua função na vida social. Ao mesmo tempo em que pode objetivar uma conquista humana, pode também ser a sua própria negação. Para Barroco (2006), a ética se objetiva, então, como reflexão teórica e ação prática. E assim explica estas dimensões: ● Reflexão teórica: convoca os sujeitos a indagar filosoficamente sobre o valor das ações; reflete criticamente sobre o significado histórico do agir humano e sobre os fundamentos objetivos dos valores e princípios que orientam a prática social dos homens. Constitui-se enquanto um saber interessado e, portanto, de um conhecimento que nega a neutralidade UNIDADE 2 TÓPICO 2 91 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L da ciência, exigindo, constantemente, um posicionamento ético do pesquisador, por se conhecer objetivando um produto que seja valoroso para determinado projeto que se deseja que realize com a ação aplicada sobre ele. ● Ação prática: a ética consiste na objetivação concreta dos valores, princípios, escolhas, deliberações e posicionamentos produzidos pela ação consciente dos homens diante de situações de afirmação/negação da vida, dos direitos e valores. Conforme preconiza Barroco (2002), refletir eticamente sobre a ética na pesquisa em Serviço Social supõe indagar se ela pode ser considerada uma ação capaz de estabelecer mediações práticas para a objetivação de escolher valores éticos, lembrando que as opções são relativas a condições históricas determinadas socialmente, que os parâmetros éticos são dados, especialmente, pelo que preconiza o Código de Ética do Assistente Social. Barroco (2006) também esclarece que, no Brasil, data da década de 90 a instituição das diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos, conhecida então como a Resolução no 196/1996. Também nesta década: ● é criada a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP); ● amplia-se o âmbito das áreas de conhecimento envolvidas na ética em pesquisa, surgindo uma nova demanda para os centros de pesquisa do país, incluindo hospitais universitários, universidades, centros de pesquisa, ONGs, no sentido de instituírem Comitês de Ética em Pesquisa (CEPs) para acompanhar todas as pesquisas que envolvessem seres humanos. (BARROCO, 2006) Compreende-se que a experiência investigativa ou a vivência em Comitês de Ética apresentam-se como espaços em que a ética se objetiva através de mediações que exigem então “posicionamentos e respostas profissionais, podendo se constituir em espaços de afirmação ou negação da ética e dos direitos humanos.” (BARROCO, 2006, p. 25). No Serviço Social, os Comitês de Ética apresentam-se enquanto Instituições essenciais para a viabilidade de propostas de pesquisas, e contribuem para que a busca de novos conhecimentos, de fato, venha a garantir o respeito junto de usuários e da população envolvida com diferentes pesquisas na área. UNIDADE 2TÓPICO 292 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L FONTE: Disponível em: <http://unipar.edu.br/home/arquivos/img/ n2612_20090210092351.jpg>. Acesso em: 8 out. 2010. AUT OAT IVID ADE � Na sua opinião, a ética é necessária na pesquisa social? Por quê? 5 CENTRALIDADE DOS SUJEITOS NAS PESQUISAS DO SERVIÇO SOCIAL Tratar da centralidade dos sujeitos na pesquisa envolve resgatar resoluçõesque garantam o respeito e a centralidade destes em diferentes estudos realizados. Diniz & Guillem (2005) destacam que, a partir da Resolução no 196/96, tem-se aspectos significativos quanto à defesa dos direitos humanos dos sujeitos envolvidos na pesquisa. Dentre estas conquistas podemos destacar: ● A elaboração do termo de consentimento livre e esclarecido. ● No caso de crianças e adolescentes, opta-se pelo termo de assentimento. ● O cuidado em relação aos riscos da pesquisa. ● As formas de recrutamento dos sujeitos. ● O ressarcimento dos gastos pessoais e indenização de danos decorrentes de participação dos sujeitos. ● O estabelecimento de critérios éticos para a quebra de sigilo. ● A avaliação da relevância social da pesquisa e da confiabilidade sobre a origem das informações. (DINIZ; GUILLEM, 2005, s/p) Constata-se que os parâmetros éticos orientadores das decisões do Serviço Social em relação à pesquisa são sinalizados no Código de Ética Profissional (1993), os quais indicam como valores e princípios fundamentais: FIGURA 22 – ÉTICA NA PESQUISA UNIDADE 2 TÓPICO 2 93 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L a liberdade, valor ético central, as demandas políticas a ela inerentes – autono- mia, emancipação e plena expansão dos indivíduos sociais; a defesa intransi- gente dos direitos humanos e a recusa do arbítrio e do autoritarismo; a defesa e aprofundamento da democracia; o posicionamento em favor da equidade e da justiça social (CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL; 1993, p. 14). Com base nestas considerações, destaca-se a importância de partir da identificação dos sujeitos das pesquisas realizadas no Serviço Social, o que, segundo Barroco (2006, p. 38), “já remete à sua consideração como sujeitos pertencentes a um universo de vulnerabilidade e/ou exclusão social”. Na sua grande maioria, são sujeitos “oriundos de uma condição social determinada por sua inserção econômica, política e cultural, o que os torna vulneráveis a determinados riscos que devem ser levados em conta em qualquer pesquisa” (BARROCO, 2006, p. 41). Comumente, o Assistente Social estará em contato, em seus estudos, com populações excluídas de um contexto de direitos e garantias sociais. Cabe a ele clarificar estes quanto à importância da pesquisa, assim como, do retorno destas para a população usuária. Em relação à aproximação com os sujeitos da pesquisa, Netto (1996, p. 81) destaca ser fundamental: consolidar uma relação de respeito efetivo pelas pessoas e pelas manifesta- ções no interior da comunidade pesquisada, isto é, o sujeito da pesquisa deve ser considerado protagonista da sua própria história e não apenas o dado ou a fonte da informação. Com base nestas considerações, e fazendo uso do Código de Ética Profissional, na prática da pesquisa o Assistente Social deve se empenhar na “eliminação de todas as formas de preconceito, incentivando o respeito à diversidade, à participação de grupos socialmente discriminados e à discussão das diferenças” (CFESS, 1993, p. 2). É então vedado ao Assistente Social: “exercer sua autoridade de modo a limitar ou a cercear o direito do usuário de participar e decidir livremente sobre os seus interesses” (CFESS, 1993, p. 3). Constata-se que um comportamento concreto de respeito consiste na apresentação da proposta de estudos aos grupos envolvidos. Para Barroco (2006, p. 35, grifos nossos), trata-se, portanto, de uma relação de troca, ou seja, os grupos devem ser esclarecidos sobre “aquilo que se pretende investigar e as possíveis repercussões favoráveis advindas do processo investigativo”. No âmbito da pesquisa, segundo Barroco (2006), deve-se: ● privilegiar a garantia do acesso do sujeito às informações necessárias, à sua participação na pesquisa, especialmente quanto ao uso de seus resultados, ao sigilo profissional relativo às várias etapas da pesquisa; UNIDADE 2TÓPICO 294 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L ● posicionamento e respeito aos seus valores, hábitos e costumes; ● estabelecimento de relações democráticas, não discriminatórias, não autoritárias, dentre outros. Tais elementos apresentados pela autora constituem-se primordiais para o devido reconhecimento da centralidade dos sujeitos na pesquisa realizada no Serviço Social. Seguindo esta, o Código de Ética do Serviço Social (CFESS, 1993, p. 11) ainda garante: ● A plena informação e discussão sobre as possibilidades e consequências das situações apresentadas, respeitando democraticamente as decisões dos usuários, mesmo que sejam contrárias aos valores e às crenças individuais dos profissionais. ● Devolver as informações colhidas nos estudos e pesquisas aos usuários, no sentido de que estes possam usá-los para o fortalecimento de seus interesses. ● Informar a população usuária sobre a utilização de materiais de registro audiovisual e pesquisas a elas referentes e a forma de sistematização dos dados obtidos. Dessa forma, ressalta-se que a alteridade ou o respeito ao outro exige uma atenção especial aos resultados da pesquisa. FONTE: Disponível em: <http://www.cpqrr.fiocruz.br/files/irr/images/corpo_texto. jpg>. Acesso em: 8 out. 2010. Outra questão fundamental a ser discutida, na percepção de Barroco (2006), é em relação às interpretações feitas com os dados das entrevistas, muitas vezes “sem a preocupação com FIGURA 23 – ÉTICA NA PESQUISA UNIDADE 2 TÓPICO 2 95 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L a necessidade do informante, com imposições que podem estar violando valores e costumes, com distorções na interpretação dos dados, ou sem assegurar a proteção da população no sentido do seu anonimato.” (BARROCO, 2006, p. 13). A postura profissional de respeito ao outro, fazendo uso de técnicas e habilidades, como a escuta sensível e a empatia, são essenciais para que se construa um canal comunicativo de acordo com os interesses do estudo. Segundo Barroco (2006, p. 41), torna-se possível identificar, muitas vezes, uma postura incorreta, do ponto de vista ético, “de alunos ou mesmo de profissionais quando se dirigem aos sujeitos da pesquisa sem o devido respeito à sua privacidade, à sua disponibilidade e às suas necessidades”. Desde a graduação, a ética na pesquisa demanda cuidados em todo o processo de formação profissional. Desde a participação em trabalhos de iniciação científica, assim como no Tra- balho de Conclusão de Curso, perpassando por Dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado, a ética tem de ser respeitada. Muitas vezes encontram-se problemas de plágio, de utilização não responsável de citações, de citações de modo tendencioso, retirando-as de um contexto e colocando-as em outro, dando um resultado que adultera as citações originais, dentre outras (BAR- ROCO, 2006, p. 54). A atenção de respeito e centralidade dos sujeitos da pesquisa deverá ser sempre um requisito a ser seguido no desenvolvimento de pesquisas na caminhada profissional do Assistente Social. Na relação do pesquisador com os sujeitos da pesquisa, nas questões postas pela própria pesquisa, vão se desvelando dilemas, cujo enfrentamento leva a novas relações materiais ou ideais. A realização da pesquisa pode ter como resultado a objetivação de um valor, de uma prática, de um direito, enfim, de algo valoroso do ponto de vista ético e político; da mesma forma que também pode produzir uma resposta que oculte as contradições reveladas e não objetive valores éticos considerados positivos, constituindo-se em uma prática viabilizadora de um desvalor ou da negação de um valor ou de um direito (BARROCO, 2006). São estas as respostas que contribuirão para a eficácia da prática profissional. São elas que contribuirão para que se desvele o cotidiano que se apresenta no existir de cada sujeito. A postura ética, então, conduz essa busca de respostas profissionais. Por fim, esclarece Barroco (2006), a ética na pesquisa, envolvendo relações humanas valorizadas de reciprocidade, do respeito, da autonomia e do acesso à informação,por parte dos seus sujeitos, expressa “uma ética que se opõe à mercantilização das relações humanas. Pertence então a uma concepção de mundo que tem como suporte um projeto societário emancipador.” (BARROCO, 2006, p. 61). UNIDADE 2TÓPICO 296 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L A ética na pesquisa apresenta-se como elemento primordial para o alcance dos objetivos que o pesquisador se propõe. Constrói, neste processo, uma aproximação ainda mais significativa com a população usuária, fundamentando sua prática profissional. AUT OAT IVID ADE � Dentre os princípios do Código de Ética do Assistente Social, destaque um deles que faz referência à importância da centralidade dos sujeitos nas pesquisas de que fazem parte. NO TA! � Participar de um estudo não significa que a pessoa seja obrigada a participar até seu término. O sujeito de pesquisa pode e tem o direito de se retirar de um estudo no momento em que ele quiser, sem nenhum constrangimento, ou pagamento de qualquer taxa. FONTE:Disponível em: <http://www.isaia.com.br/secs/ sp.htm>. Acesso em: 9 fev. 2011. LEITURA COMPLEMENTAR PESQUISA E SERVIÇO SOCIAL: DA CONCEPÇÃO BURGUESA DE CIÊNCIAS SOCIAIS À PERSPECTIVA ONTOLÓGICA Ricardo Lara Curso de Serviço Social da Universidade de Uberaba (UNIUBE) Centro Universitário da Fundação Educacional Guaxupé (UNIFEG) [...] Prolegômenos à crítica da concepção burguesa de ciências sociais A pesquisa científica e suas ‘metodologias’ estão submetidas à concepção burguesa de ciência, a qual potencializa o desenvolvimento do conhecimento segundo a ótica do capital. O conhecimento, ou melhor, a sistematização da realidade social, está voltada para interesses ‘produtivos’, o que torna limitada a relação do saber com o ‘mundo dos homens’. Em favor desta concepção adota-se, frequentemente, o argumento de que a extensão da ciência moderna é sinônimo de especializações em todas as áreas do saber. O conhecimento está fragmentado e é acentuado pela falta de diálogo entre as áreas, UNIDADE 2 TÓPICO 2 97 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L o que, consequentemente, colabora para a compreensão do homem e da sociedade como partes isoladas da dinâmica social e da tecedura histórica. Nosso intuito, neste momento, é abrir o debate sobre a fragmentação a que as ciências sociais foram submetidas, diante da concepção burguesa de ciência. Segundo Lukács (1981, p. 122), o fato de que as ciências sociais burguesas não consigam superar uma mesquinha especialização é uma verdade, mas as razões não são as apontadas. Não residem na vastidão da amplitude do saber humano, mas no modo e na direção de desenvolvimentos das ciências sociais modernas. A decadência da ideologia burguesa operou nelas uma intensa modificação, que não podem mais relacionar-se entre si, e o estudo de uma não serve mais para promover a compreensão de outra. A especialização mesquinha tornou-se o método das ciências sociais. As ciências sociais têm dificuldades de se afirmarem diante da ciência moderna, pela sua ineficiência em apresentar respostas práticas. O seu modo específico de produzir conhecimento é questionado pelo pragmatismo dos filisteus capitalistas, os quais só objetivam as ciências que buscam os resultados para o avanço das forças produtivas. Tal questão justifica o ceticismo da ciência burguesa em relação às ciências sociais, pois a ciência positivista se contentou, em sua maioria, em conhecer o universo singular de um determinado fenômeno empírico, sem preocupações de questionar as contradições históricas que o engendram. Quando Lukács afirma que “a especialização mesquinha tornou-se o método das ciências sociais”, na verdade ele está preocupado com os caminhos das ciências sociais, mais especificamente com a influência do pensamento conservador que pretende separar e criar inúmeras áreas do saber, tais como: a sociologia, a economia, a história. Essas áreas correm o risco de não conseguirem comunicar-se, tornando-se estranhas entre si, apesar de terem o mesmo ponto de partida nas suas construções teóricas, ou seja, a produção e a reprodução da vida social. A fragmentação foi criada e permaneceu no círculo acadêmico ao longo do século 20, contribuindo para o desenvolvimento da universidade enquanto instituição que tem como um de seus principais objetivos formar especialistas. Mészáros (2004, p. 291) destaca três aspectos relevantes sobre a constituição das ciências burguesas e a produção do conhecimento “no âmbito da organização e da divisão capitalista de trabalho”: – a parcialidade e a fragmentação da produção intelectual; UNIDADE 2TÓPICO 298 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L – as diferenças de talento e motivação, assim como uma tendência à competição a elas associadas; – um antagonismo social historicamente específico, articulado em uma rede de complexos sociais hierárquicos que integram, em seu quadro, as tendências – em si e por si ainda indefinidas dos dois primeiros, dando-lhes um sentido de acordo com suas determinações e imperativos estruturais. O conhecimento está fragmentado pelas condições de existência das instituições de pesquisa, com destaque à universidade, que é responsável, dentro da divisão social do trabalho, pela sistematização do saber. O conhecimento moderno, fragmentado, resume- se numa dimensão de amparo às justificativas ideológicas conservadoras. Isso é explicado pelo crescimento das ciências naturais, que, necessariamente, são voltadas para interesses práticos, ou seja, suas pesquisas potencializam o desenvolvimento industrial, tecnológico e as ramificações do desenvolvimento do capital e, por conseguinte, negam radicalmente a condição do trabalho em favor da lógica do capital. Nesse processo, as ciências sociais têm dificuldades de objetivar pragmaticamente os seus estudos e são deixadas em segundo plano no âmbito científico. Todavia, a principal questão em jogo é a seguinte: em ciências sociais, ao se realizar pesquisas e produzir conhecimentos, não se deve deixar fora da pauta as bases objetivas da sociedade, que, infelizmente, tem propósitos voltados somente para a produção e reprodução da riqueza. Isto tem a ver com o “sistema de o capital ser orgânico”, dotado de lógica própria e de um conjunto objetivo de imperativos, que subordina a si – para o melhor e para o pior, conforme as alterações das circunstâncias históricas – todas as áreas da atividade humana, desde os processos econômicos mais básicos até os domínios intelectuais e culturais mais mediados e sofisticados (MÉSZÁROS, 2004). No entanto, uma das características das ciências sociais é edificar uma proposta que tem suas premissas no pensamento crítico, o qual põe em cheque o ‘metabolismo social’. Dessa forma, o modo de sistematizar a realidade social tem que passar, necessariamente, pelo crivo da crítica, tendo por base um diagnóstico da sociedade burguesa, a qual, felizmente, não se sustenta, principalmente pelas suas ‘bases objetivas de produção e distribuição da riqueza’. Pesquisa e Serviço Social – é necessário um posicionamento? Encontramos na universidade um avolumado de pesquisas, que em sua maioria são exigências para a obtenção da titulação de um determinado estágio da formação profissional, mas, em alguns casos, deixam a desejar com suas construções teóricas. A pesquisa, para muitos ‘acadêmicos’, é o caminho mais viável para conseguirem os títulos de mestres, doutores etc. Ao negarmos a pesquisa que visa somente os títulos, perguntamos: qual é o ‘verdadeiro sentido’ da pesquisa na ‘universidade moderna’? Cremos que, em princípio, ela deveria advir UNIDADE 2 TÓPICO 2 99 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L da ‘realidade social’ com a qual os pesquisadores se deparam no cotidiano e, num momento de indagação, começam a observá-la como movimento cognoscível. A observação sobre a realidade social não é simplesmente um incômodo subjetivo, que apenas satisfaz a curiosidade dopesquisador; ao contrário, o ser que indaga procura inquirir sobre ‘algo’ que advém da objetividade social, a qual carece do conhecimento para ser desvendada. Nas pesquisas, devemos saber fazer a pergunta, pois são as respostas que se transformam em artigos, dissertações, teses ou livros; e, se a pergunta’ for mal formulada, o trabalho de pesquisa perderá, consequentemente, resplandecência. A ‘humanidade social’ carece de respostas ao conjunto dos ‘problemas econômicos, políticos, sociais e culturais’ que a assolam, pois são inúmeros, alguns de séculos, como a pobreza, e outros contemporâneos, como a sexualidade, a ética e tantas outras expressões da ‘questão social’, que o Serviço Social, auxiliado pelas ciências sociais, objetiva investigar. Na investigação, os pesquisadores estudam as questões por eles enfocadas e, a partir dos ‘recortes de estudo’, criam as teorias para explicar determinadas realidades sociais. Na maioria dos casos há um demasiado ‘devaneio’ nas teorias, nas leis, nos modelos, que se descolam do objetivo inicial da investigação e fazem da pesquisa uma abstração sem retorno ao real e, consequentemente, desembocam num ‘estranhamento’ ou misticismo do real por parte do pesquisador. Nesse momento de total ‘estranhamento’ entre pesquisador e objeto de estudo é que encontramos a falta de rigor na pesquisa, pois muitos que se propõem a investigar talvez não estejam preparados o suficiente, ou não consigam visualizar a necessidade objetiva cobrada da pesquisa, que no seu caminho mais seguro objetiva desnudar o cotidiano contrastante das relações sociais da sociedade burguesa, bem como seu modo de produção e reprodução social, desencadeador das mais diversas expressões da ‘questão social’, que a cada nova manifestação ‘dilacera’ milhares de vidas. Sugerimos, no entanto, aos assistentes sociais que, ao indagarem sobre o real, indaguem com o objetivo de tratar ‘a questão social’ – entendida como ‘deformidades’ desenvolvidas no interior das relações sociais, as quais são protoformadas pela sociabilidade capitalista – na sua integridade, ou seja, estudem as expressões da ‘questão social’ e, posteriormente, façam o esforço de retornar o conhecimento produzido aos sujeitos envolvidos. Acreditamos, pois, que a função da ciência é desvendar o ‘não aparente’, ou melhor, nas palavras de Marx: “Toda ciência seria supérflua se a essência das coisas e sua forma fenomênica coincidissem diretamente” (MARX apud LUKÁCS, 1979, p. 26). O assistente social pesquisador, que objetiva o rigor teórico exigido pela ciência autêntica, deve perquirir ‘as intrincadas conexões do real’. Investigar e, em consequência, tornar cientificamente aceito o trabalho, no âmbito acadêmico, é o princípio fundamental no caminho da probidade teórica do pesquisador. Ele deve levar consigo, no percurso da pesquisa, as UNIDADE 2TÓPICO 2100 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L seguintes características: honestidade, paciência, criatividade, criticidade, audácia, humildade, diligência e, principalmente, a ética na pesquisa, para tornar-se um sujeito que indaga sobre o real, tendo por finalidade contribuir à ‘humanidade social’ com suas inquietações e construções teóricas, e não apenas saciar a fome voraz de títulos exigidos pela ‘Universidade Moderna’. Outro fator importante para a pesquisa diz respeito aos ‘milhões de teorias’ existentes sobre um determinado assunto. Quando isso acontece, surge a necessidade do confronto de idéias, que, no caso, torna-se inadiável, pois pensamentos que analisam uma mesma questão com conclusões totalmente diferentes devem ser submetidos ao diálogo para percorrerem a verdadeira explicação do assunto investigado. Não estamos aqui defendendo o pensamento único, que tanto emburrece, mas cobrando o debate que enriquece o conhecimento científico. O confronto de diferentes concepções enriquece a ciência e o que é plausível, faz cair por terra explicações equivocadas da realidade social, ou seja, falsas interpretações do ‘mundo dos homens’. A crítica, portanto, surge como uma arma certeira para desmascarar o cientificismo vulgar que paira atualmente sobre a ‘Universidade Moderna’. O conhecimento crítico é a única arma que os estudiosos possuem para exigir o rigor teórico e, assim, negar definitivamente a ‘pseudociência’. No entanto, é nesse contexto de produção de conhecimentos na ‘Universidade Moderna’ que o Serviço Social se insere com seus programas de pós-graduação, seus núcleos de pesquisa e, por conseguinte, começa a responder por uma determinada produção científica nas mais diversas áreas do conhecimento. De acordo com Iamamoto e Carvalho (1998, p. 88), “o Serviço Social, em sua trajetória, não adquire o status de ciência, o que não exclui a possibilidade de o profissional produzir conhecimentos científicos, contribuindo para o acervo das ciências humanas e sociais, numa linha de articulação dinâmica entre teoria e prática”. A produção de conhecimentos na área do Serviço Social acelerou a partir de 1970, momento em que iniciaram os primeiros cursos de pós-graduação na área de ciências sociais e, especificamente, em Serviço Social. Desde então, a produção bibliográfica teve um aumento considerável, sendo alimentada pelas dissertações de mestrado e teses de doutorado. Mas foi somente a partir de 1986 que o Serviço Social obteve reconhecimento pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) como uma área específica de pesquisa, sendo-lhe atribuídas as seguintes linhas de investigação: Fundamentos do Serviço Social, Serviço Social Aplicado, Serviço Social do Trabalho, Serviço Social da Educação, Serviço Social do Menor, Serviço Social da Saúde, Serviço Social da Habitação. Atualmente, o Serviço Social integra, juntamente com as áreas de Direito, Comunicação, Economia, Administração, Arquitetura, Demografia e Economia Doméstica, a grande área de Ciências Sociais Aplicadas (KAMEYAMA, 1998). UNIDADE 2 TÓPICO 2 101 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Segundo Ammann (1984, p. 147), “a incorporação da pesquisa na prática profissional da área é um fenômeno relativamente recente, posto que houve esforços orientados para consolidar uma política geral de capacitação e investigação, no campo do Serviço Social, por parte dos organismos profissionais”. Entretanto, a partir dos anos de 1980, a categoria profissional começou a contribuir e a responder pela produção de conhecimentos que dão sustentação segura à prática profissional. Hoje, podemos afirmar que contribuímos com significativos trabalhos de pesquisa nas mais diversas subáreas das ciências sociais. Isso se deu, principalmente, após a “renovação do Serviço Social”, ou seja, ao “movimento de reconceituação”, que constituiu “[...] segmentos de vanguarda, sobretudo, mas não exclusivamente inseridos na vida acadêmica, voltados para a investigação e a pesquisa” (PAULO NETTO, 2001b, p. 136). Contudo, tanto na intervenção quanto na formação profissional, a pesquisa é um elemento fundamental para o Serviço Social, e cabe lembrar que, para realizá-la, há exigência do aprofundamento teórico-metodológico como recurso para a investigação da vida social. A busca por referências teóricas apresenta o grande paradigma para os graduandos, mestrandos e doutorandos em Serviço Social, preocupados com as suas monografias, dissertações e teses. [...] FONTE: Disponível em: <http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/katalysis/article/view/1142/3915>. Acesso em: 9 fev. 2011. UNIDADE 2TÓPICO 2102 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Neste tópico você pôde acompanhar que: ● A ética pode ser compreendida como sendo a ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. ● A conquista da ética na pesquisa pode ser descrita por inúmeras situações de desrespeito e violação dos direitos dos sujeitos envolvidos na pesquisa. ● Os principais debates referentes à questão ética na pesquisa emergiram da Bioética.● Foi no contexto das declarações e tratados internacionais de direitos humanos, acordados no pós-guerra, e tendo em vista as denúncias sobre os experimentos dos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, que foram criadas as bases históricas que legitimam a necessidade de criação de parâmetros éticos universais relativos ao uso da pesquisa. ● O Código de Nüremberg foi o documento que introduziu importantes recomendações éticas para a pesquisa com seres humanos, dentre elas a importância de se garantir o consentimento voluntário do sujeito da pesquisa e seu esclarecimento sobre o processo a que será submetido. ● A ética se distingue do saber científico pela sua natureza filosófica, que lhe fornece um caráter crítico, dotado de juízos de valor. ● A ética se objetiva como reflexão teórica e ação prática. ● Refletir eticamente sobre a ética na pesquisa em Serviço Social supõe indagar se ela pode ser considerada uma ação capaz de estabelecer mediações práticas para a objetivação de escolhas e valores éticos, lembrando que as opções são relativas a condições históricas determinadas socialmente, que os parâmetros éticos são dados, especialmente, pelo que preconiza o Código de Ética do Assistente Social. ● Os parâmetros éticos orientadores das decisões do Serviço Social em relação à pesquisa são sinalizados no Código de Ética Profissional (1993). ● Na prática da pesquisa, o Assistente Social deve se empenhar na “eliminação de todas RESUMO DO TÓPICO 2 UNIDADE 2 TÓPICO 2 103 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L as formas de preconceito, incentivando o respeito à diversidade, à participação de grupos socialmente discriminados e à discussão das diferenças”. ● A realização da pesquisa pode ter como resultado a objetivação de um valor, de uma prática, de um direito, enfim, de algo valoroso do ponto de vista ético e político; da mesma forma que também pode produzir uma resposta que oculte as contradições reveladas e não objetive valores éticos considerados positivos, constituindo-se em uma prática viabilizadora de um desvalor ou da negação de um valor ou de um direito. UNIDADE 2TÓPICO 2104 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L 1 O que é Bioética? Qual a sua contribuição para a pesquisa na área social? 2 Destaque as principais contribuições para a ética na pesquisa no Serviço Social. 3 Qual a importância da ética na formação do aluno pesquisador? AUT OAT IVID ADE � P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L ÁREAS DE ABRANGÊNCIA DA PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL 1 INTRODUÇÃO 2 A ABEPSS TÓPICO 3 UNIDADE 2 Neste tópico apresentaremos elementos fundamentais na compreensão da abrangência da pesquisa no Serviço Social. Iniciaremos apresentando a ABEPSS, significativa instituição, em nível nacional, que congrega o acompanhamento junto do ensino e da pesquisa no Serviço Social. Após, destacaremos de que forma a pesquisa tem qualificado e contribuído para a prática do Assistente Social. Seguiremos apresentando o significado da pesquisa, tanto em nível de graduação como de pós-graduação no Serviço Social. A ABEPSS consiste na Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social. FONTE: Disponível em: <http://ufpbcass.blogspot.com>. Acesso em: 8 out. 2010. FIGURA 24 – ABEPSS UNIDADE 2TÓPICO 3106 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Segundo informações coletadas no próprio site da Instituição (<http://www.abepss.org. br/>.), esta foi criada em 1946, uma década após a constituição do primeiro curso de Serviço Social no Brasil. Inicialmente, possuía a sigla de “ABESS”, então denominada de Associação Brasileira de Escolas de Serviço Social (ABEPSS, 2010). A partir de 1979, com a Convenção realizada, a instituição passa a assumir a tarefa de coordenar e articular o projeto de formação profissional, transformando-se então em Associação Brasileira de Ensino de Serviço Social (ABEPSS, 2010). A criação do Centro de Documentação e Pesquisa em Políticas Sociais e Serviço Social (CEDEPSS), na década de 1980, veio atender às novas demandas potencializadas com o surgimento dos programas de pós-graduação, a partir de 1972 (ABEPSS, 2010). Outro momento significativo da entidade acadêmico-científica ocorreu na segunda metade da década de 1990, com a mudança do seu nome para Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS), a qual se justifica em função da defesa dos princípios da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão e da articulação entre graduação e pós- graduação, aliada à necessidade de explicitação da natureza científica da entidade, bem como à urgência da organização da pesquisa no seu interior, atualmente, por meio dos Grupos Temáticos de Pesquisa e da Revista Temporalis (ABEPSS, 2010). Conforme o site institucional (<http://www.abepss.org.br/>.), uma marca na trajetória da ABESS/ABEPSS tem sido o processo democrático, que é expresso na participação intensa dos sujeitos que constroem a formação profissional, através dos debates instituídos nas unidades de formação acadêmica, nas regionais e no nível nacional. Foi através do currículo mínimo de 1982 que se teve a afirmação de uma nova direção social hegemônica no âmbito acadêmico profissional, o que consolidou com a elaboração das diretrizes curriculares para o curso de Serviço Social, aprovadas pela categoria em 1996 e aprimoradas pela Comissão de Especialistas em documento de 1999 (ABEPSS, 2010). Compreende-se que um dos desafios permanentes da ABEPSS consiste em acompanhar a implantação das diretrizes curriculares, o que envolve “pensar num processo de formação continuada que venha a atingir os docentes de todas as universidades e/ou faculdades que tenham em seu quadro o curso de graduação em Serviço Social” (ABEPSS, 2010, p. 1). Esse acompanhamento, segundo informações da instituição, vem ocorrendo sistematicamente pelas várias diretorias da ABEPSS, por meio da realização de oficinas, de visitas às unidades de formação acadêmica, que vêm sendo realizadas desde a aprovação das diretrizes, as quais subsidiam a elaboração e implantação dos projetos pedagógicos das diversas unidades de formação acadêmica filiadas (ABEPSS, 2010). Destaca-se que, em relação aos eventos promovidos pela ABEPSS, a partir da década UNIDADE 2 TÓPICO 3 107 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L de 1990 tem-se a consolidação dos Encontros Nacionais de Pesquisadores de Serviço Social - ENPESS e as Convenções Nacionais, hoje Assembleias Gerais da ABEPSS, que são realizadas de dois em dois anos. Tornaram-se fundamentais espaços de articulação também as Oficinas Regionais e Nacional de Graduação e Seminários de Pós-Graduação, como espaços intermediários de capacitação e realização do debate político-acadêmico (ABEPSS, 2010). E mais, segundo o site institucional, a articulação acadêmico-política internacional, especialmente com a América Latina, é também um grande desafio para a ABEPSS, sendo esta pré-filiada à recém-criada ALAEITS. A entidade brasileira tem procurado contribuir nesse processo na perspectiva de defender os princípios do projeto fundador da ALAETS/CELATS, calcado nos ideários do Movimento de Reconceituação, na perspectiva de avançar no reconhecimento da situação da formação profissional na região, traçando parâmetros comuns num futuro próximo (ABEPSS, 2010). 3 A PESQUISA QUALIFICANDO A PRÁTICA PROFISSIONAL Considera-se que a pesquisa ocupa um papel primordial no processo de formação profissional do assistente social, cuja atividade é privilegiada para a consolidação dos laços entre o ensino universitário e a realidade social. É através da pesquisa, no Serviço Social, que se visa romper com as concepções tecnicista e politicista da ação profissional. Concepções estas que, segundo Iamamoto (2005, p. 251), diluem a “particularidade social do trabalho profissional, seja numa rede de regras sobre seus procedimentos operativos, seja na militânciapolítica”. Sugere-se que a formação profissional seja embasada por um repleto arsenal de informações históricas sobre a sociedade brasileira, em suas faces rural e urbana, tendo como foco a produção e reprodução da questão social em suas expressões nacionais, regionais e municipais, construindo-se uma indissolúvel aliança entre a teoria e a realidade, necessariamente alimentada pela pesquisa. A pesquisa, então, tanto no âmbito docente como discente, na graduação e na pós- graduação, apresenta-se como recurso indispensável para a compreensão das inúmeras formas de desigualdades sociais e dos processos de exclusão delas decorrentes, sejam eles econômicos, políticos e culturais, assim como sua vivência e enfrentamento pelos sujeitos sociais na diversidade de sua condição de classe, gênero, raça e etnia (IAMAMOTO, 2005). UNIDADE 2TÓPICO 3108 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L FONTE: Disponível em: <http://3.bp.blogspot.com/_WmIyaZPESuQ/ SZ66RGtm_iI/AAAAAAAAESE/rgXg2LBvZkc/s400/foto+6.bmp>. Acesso em: 8 out. 2010. Na classificação dos órgãos de fomento, o Serviço Social está como uma área das Ciências Sociais Aplicadas, junto com Direito, Administração, Economia, Arquitetura e Urbanismo, Planejamento Urbano e Regional, Demografia, Ciência da Informação, Museologia, Comunicação, Economia Doméstica, Desenho Industrial e Turismo. Classificadas como Ciências Humanas estão: Filosofia, Sociologia, Antropologia, Arqueologia, História, Geografia, Psicologia, Educação, Ciência Política, Teologia. Pode-se observar que tanto as Ciências Sociais Aplicadas como as Ciências Humanas estão sub-representadas no parque da pesquisa nacional. Observa-se também que as Aplicadas se encontram em desvantagem. Dominam o ranking as Ciências Exatas e da Terra, as Ciências Biológicas, Engenharias e Ciências da Saúde. Estatisticamente, as Ciências Sociais Aplicadas pesquisam menos. Hierárquica e historicamente, o investimento dos recursos nas humanidades é menor do que nas tecnológicas. Cabe ao Serviço Social seguir legitimando seus estudos e consolidando-se enquanto área de estudo que muito tem contribuído para os novos saberes, os quais são de extrema importância para a consolidação da profissão no campo acadêmico e social. NO TA! � Ao cursar as disciplinas relacionadas à pesquisa em Serviço Social é preciso que o graduando perceba seu crescimento intelectual, o refinamento da redação, a compreensão das expressões da questão social, bem como a identificação e a reflexão sobre o objeto da atuação profissional. FIGURA 25 – PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL UNIDADE 2 TÓPICO 3 109 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L 4 A PESQUISA EM CURSOS DE GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL Bourguignon (2007, p. 7 ressalta que a relação do Serviço Social com a pesquisa surge em função de um “processo histórico de amadurecimento intelectual e de ampliação das demandas sociais”. Este vai então desvelando uma profissão capaz de gestar conhecimentos que lhe acrescentam subsídios teórico-metodológicos coerentes com sua natureza e exigências societárias. Porém, segundo a autora, é no contexto acadêmico que a pesquisa se revela como “potencialidade para o Serviço Social, e é neste contexto que se enfrenta o desafio de construir articulações orgânicas entre a produção do conhecimento e a prática profissional” (BOURGUIGNON, 2006, p. 14). Na concepção de Bourguignon (2007, p. 16): embasado pelo compromisso ético-político, o conhecimento construído pelos profissionais necessita ganhar força social e romper com o âmbito acadêmico e do próprio serviço social, para ser capaz de, através de uma prática crítica e propositiva, interferir nas condições de vida do cidadão. A preocupação se dá então no sentido de proporcionar um “caminho de volta”, isto é, retornar à realidade que sustentou a produção de conhecimento e mobilizar ações que transformem esta realidade, seus sujeitos e profissão, ampliando seus horizontes e potencializando seus objetivos, suas competências e habilidades profissionais. Através do conhecimento produzido, é necessário refletir sobre os impactos gerados na realidade social, em que o Serviço Social intervém. E o impacto, no contexto da pesquisa, refere-se às dimensões das transformações e mudanças operadas na profissão, nas condições materiais de existência dos sujeitos/usuários, nas ações dos profissionais de Serviço Social, nas organizações em que o profissional atua, tendo como mediação o acúmulo de conhecimentos produzidos pela profissão (BOURGUIGNON, 2007). O conhecimento produzido, então, deve ter uma direção estratégica para uma intervenção profissional, comprometida com processos concretos que garantam materialidade ao seu projeto ético-político. Observa-se que o Serviço Social, em sua trajetória histórica, tem avançado quanto ao acúmulo de conhecimentos sobre o seu objeto de intervenção e sobre a natureza da própria profissão. Para Bourguignon (2007, p. 16), deixou de ser consumidor do saber produzido por outras áreas de conhecimento das ciências sociais e humanas e passou a ser “protagonista de um processo que exige o acompanhamento sistemático e crítico das transformações societárias, que concretamente rebatem no exercício profissional cotidiano”. UNIDADE 2TÓPICO 3110 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L A disciplina de Pesquisa em Serviço Social, na graduação, é fundamental à qualificação da atuação profissional quando considerada a realidade dos estudantes de graduação no Serviço Social, a maioria deles trabalhadores, sem tempo para se dedicar exclusivamente aos programas de iniciação científica (BOURGUIGNON, 2007). FONTE: Disponível em: <http://i.s8.com.br/images/books/cover/ img2/79462.jpg>. Acesso em: 9 fev. 2011. Segundo Iamamoto (2005), a pesquisa ocupa um papel fundamental no processo de formação profissional do Assistente Social, atividade privilegiada para a solidificação dos laços entre ensino universitário e a realidade social e para a vinculação das dimensões teórico- metodológicas e práticas operativas do Serviço Social, indissociáveis de seus componentes ético-políticos. Desta forma, destaca a autora: Sendo o Serviço Social uma profissão - e, como tal, dotado de uma dimensão prático-interventiva -, supõe uma bagagem teórico-metodológica como recurso para a explicação da vida social, que permita vislumbrar possibilidades de interferência nos processos sociais. Para isso a apropriação do acervo teórico- -metodológico legado pelas ciências sociais e humanas e pelas teorias sociais críticas, como pressuposto para iluminar a leitura da realidade, afigura-se como requisito indispensável, mas suficiente. A dinamicidade dos processos históricos requer a permanente pesquisa de suas expressões concretas, informando a elaboração de propostas de trabalho que sejam factíveis, isto é, capazes de im- pulsionar a realização das mudanças pretendidas. (IAMAMOTO, 2005, p. 273) Para a autora, a pesquisa docente e discente, na graduação e pós-graduação, constitui- se como recurso indispensável à compreensão das múltiplas formas de desigualdades sociais e dos processos de exclusão decorrentes – econômicos, políticos e culturais –, sua vivência e enfrentamento pelos sujeitos sociais na diversidade de sua condição de classe, gênero, raça e etnia. Conforme já destacado anteriormente, a curiosidade apresenta-se como um elemento fundamental no mundo da pesquisa, seja em sala de aula, seja nos grupos de estudo. Porém, conforme destaca Bourguignon (2007), para o desenvolvimento da curiosidade através do FIGURA 26 – PESQUISA SOCIAL UNIDADE 2 TÓPICO 3 111 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L processo de pesquisa torna-se fundamental o tempo a ela dedicado. A partir desta constatação, percebe-se um “breve desânimo em sala de aula, frente à dificuldade do aluno graduando em conciliar as atividades acadêmicas com as diferentes responsabilidades no contexto atual, tais como trabalho,casa, família, dentre outras” (BOURGUIGNON, 2007, p. 17). Dessa forma, torna-se então fundamental despertar nos graduandos a certeza de que um dos elementos para garantir a ação profissional consiste na utilização da pesquisa, isto é, “um processo investigativo na atividade de trabalho” (BOURGUIGNON, 2007, p. 17). Num mundo caracterizado pela informatização, pela alta tecnologia, assim como pela valorização da velocidade, torna-se um desafio justificar ao graduando que pesquisar consiste num necessário tempo para a leitura, para a observação, para a escrita, para o diálogo, para o erro, o acerto, descobrindo-se que o ciclo da produção do conhecimento está sempre se renovando. Ciclo este que Minayo (2008, p. 26) define como sendo “um processo de trabalho em espiral que começa com um problema ou uma pergunta e termina com um produto provisório capaz de dar origem às novas interrogações”. Para Silva (2008), a vivência de uma disciplina voltada para a pesquisa, na graduação, tem por objetivo principal o crescimento intelectual do graduando, o exercício da reflexão sobre a vida prática, incentivando os estudos de temas que atravessam o cotidiano profissional, ou seja, a investigação feita com o objetivo expresso de obter conhecimento específico e estruturado sobre um assunto preciso, delimitado. Logo da escolha do tema numa pesquisa, Silva (2008, p. 16) sugere uma autorreflexão sobre “a implicação do pesquisador com o objeto de investigação”. Algumas questões devem ser tomadas em conta, tais como: ● Qual a justificativa profissional para a escolha do tema? ● Qual a importância social para a realização de um estudo sobre o tema proposto? (SILVA, 2008) Tais questionamentos contribuem para minimizar implicações pessoais que possam influenciar no resultado da pesquisa. Silva (2008) ressalta que o exercício junto da graduação sobre a reflexão destes elementos é primordial na formação profissional. Conforme destaca a autora, o objeto das Ciências Sociais é essencialmente qualitativo. Escuta atenta, olhos atentos, leitura permanente, delimitação do tema, desenvolvimento da produção textual, e metodologias apropriadas ao tema proposto constituem-se em aspectos necessários ao desenvolvimento de uma pesquisa. Dessa forma, a fase exploratória da pesquisa é de fundamental importância na construção do projeto de investigação. UNIDADE 2TÓPICO 3112 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L NO TA! � É preciso despertar nos graduandos a certeza de que um dos elementos para garantir a ação profissional qualitativa é a utilização da pesquisa, isto é, o processo investigativo na atividade de trabalho. Outro ponto fundamental a ser vivenciado pelo aluno graduando, segundo Silva (2008), consiste na aproximação com as diferentes abordagens teórico-metodológicas. Tendo esse discernimento referente às diferenças e similaridades entre as diferentes correntes de pensamento, conhecendo referências bibliográficas fundamentais, “o aluno amplia seus conhecimentos no fazer da pesquisa” (SILVA, 2008, p. 17). Cabe, então, à universidade apresentar aos graduandos o caminho para abordar a realidade, sem, no entanto, “tornar o discente um aprisionado de alguns pensadores em detrimento a outros, não oportunizando ao graduando a escolha da abordagem teórica através da reflexão crítica, resultado inevitável no exercício da pesquisa” (SILVA, 2008, p. 18). Além da disciplina de Pesquisa em Serviço Social, outro espaço de exercício da pesquisa no período da graduação consiste na experiência vivenciada pelo aluno em Estágio Curricular. Para Buriolla (2006), a matéria-prima da supervisão de estágio em Serviço Social consiste no exercício profissional. É neste momento que o graduando: faz uso e percebe o conhecimento sobre pesquisa trabalhado nas disciplinas anteriores, ao iniciar um processo de observação e investigação sobre a atuação profissional. É através de registros como Relatórios de Atividades de Estágio, assim como os Diários de Campo, que se inicia o processo de refle- xão da prática de estágio, onde se exercita a pesquisa. Ocorre o exercício da escrita, do registro da reflexão, do diálogo com os autores da área de atuação e com as disciplinas cursadas durante o processo de ensino-aprendizagem no decorrer do curso. (BURIOLLA, 2006, p. 10) Retoma-se então que a pesquisa consiste em elemento fundamental na qualificação do profissional e na formação de profissionais propositivos, desde o período de estágio curricular. Para Silva (2008), torna-se fundamental conhecer o objeto de intervenção e, para tanto, deve- se incentivar o acadêmico para: ● a leitura da realidade institucional; ● o conhecimento da estrutura organizacional; ● o conhecimento das diretrizes políticas; UNIDADE 2 TÓPICO 3 113 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L ● o conhecimento dos objetivos; ● o conhecimento dos programas e dos recursos; ● o conhecimento das normas institucionais; ● o estudo sobre a correlação de forças, o poder institucional; ● o conhecimento e a caracterização da população usuária. (SILVA, 2008) Do ponto de vista acadêmico, torna-se fundamental incentivar o comportamento investigativo do aluno. Deve-se aprender a valorizar a pesquisa na atuação profissional. Dessa forma, todos os documentos de registro, no período de estágio curricular, possuem esse caráter investigativo. Silva (2008) orienta que durante o estágio curricular é possível ainda incentivar a utilização de instrumentos de coleta de dados para análise da atuação profissional. Esta preocupação, segundo a autora, se estende “à prática da entrevista, do estudo de caso, dentre outros, onde os alunos necessitam de um investimento para planejar, executar, registrar e avaliar” (SILVA, 2008, p. 19). FONTE: Disponível em: <http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://1. bp.blogspot.com/_4DQB1Is9pDY/SpJ0V0YRl0I/AAAAAAAACD8/ UfJCh7WirEk/s200/Estagio.JPG&imgrefurl=http://canalpsirevista. blogspot.com/2009_08_01_archive.html&usg=__m2nmf_x_KT5viyD eS6sDwHE6dpM=&h=76&w=200&sz=5&hl=pt-br&start=239&zoom =0&tbnid=xdQ2g1DY5-FFbM:&tbnh=40&tbnw=104&prev=/images% 3Fq%3Dpesquisa%2Be%2Bservi%25C3%25A7o%2Bsocial%26hl% 3Dpt-br%26sa%3DG%26biw%3D1020%26bih%3D510%26gbv%3 D2%26tbs%3Disch:1&itbs=1&iact=rc&dur=265&ei=RhHlTLKXKoK8 lQebnoScDA&oei=cg7lTKfBDMX6lwfohe21Cw&esq=14&page=14& ndsp=18&ved=1t:429,r:10,s:239&tx=36&ty=17>. Acesso em: 8 out. 2010. Ao final do período de estágio curricular, torna-se fundamental incentivar o graduando a um momento de autoavaliação, para que possa perceber que o tempo dedicado a diversas leituras, a atenção dedicada às documentações, o cuidado para assegurar o registro dos dados FIGURA 27 – PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL UNIDADE 2TÓPICO 3114 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L e informações, bem como o registro das observações no diário de campo, foram fundamentais para dar base ao relatório final das atividades realizadas. Segundo Silva (2008), todo o estudo da atuação profissional deve, então, ser orientado e planejado, como qualquer pesquisa. Para a autora, são várias as experiências de estágio na qual o graduando desenvolve: uma rica vivência acerca das possibilidades de inserção e atuação profissional, culminando com a elaboração de um projeto de intervenção, futuro da realiza- ção de uma análise da prática de estágio, considerando as orientações para desenvolvimento de uma pesquisa científica. (SILVA, 2008, p. 19) Dessa forma, o período condizente ao estágio curricular propicia ao acadêmico que esteja em contato com as diferentes expressões da questão social, assim como o espaço institucional no qual está inserido. Pesquisar é conhecer. É reconhecer-se enquanto sujeito inserido neste contexto em constante mudança e interação. Iamamoto (2005) sugere que o graduando em Serviço Social desenvolva um trabalho de conclusão de curso sobre o tema relacionado ao campo de estágio que traz em seu bojo o incentivo ao estudo da atuação profissional.É nesta etapa que é preciso resgatar com o graduando o conteúdo apreendido nas disciplinas de pesquisa em Serviço Social e a de Estágio Curricular Obrigatório. Inicia-se então a elaboração de um projeto de pesquisa em suas diversas etapas, conforme destaca Silva (2008): ● Delimitação e reflexão sobre o objeto de estudo proposto. ● Levantamento bibliográfico. ● Leituras preliminares. ● Elaboração do resumo e resenhas críticas para o desenvolvimento da redação. ● Seleção do material bibliográfico, a fim de garantir a qualidade. ● Leitura da bibliografia selecionada. ● Elaboração da estrutura do trabalho (sumário). ● Definição do objetivo da pesquisa. ● Desenvolvimento da metodologia (linha de pensamento e técnicas). ● Cronograma. UNIDADE 2 TÓPICO 3 115 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Após, dá-se o trabalho de campo, isto é, a possibilidade de se conseguir a aproximação não só com aquilo que se deseja conhecer e estudar, mas também de criar conhecimentos, partindo da realidade presente no campo. É na graduação que se trabalha a formação de profissionais dotados de competência crítica e compromisso público com os impasses do desenvolvimento da sociedade nacional e suas implicações para a maioria dos trabalhadores brasileiros. AUT OAT IVID ADE � Na sua opinião, qual a importância da pesquisa no período da graduação em Serviço Social? 5 A PESQUISA NA PÓS-GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL Toda a pesquisa evidencia como pressuposto principal a investigação, tendo como principal elemento uma pergunta que corresponda a um problema que interessa ser “desvendado, descoberto, discutido para algum fim específico, implicando então numa ação imediata sobre a realidade ou não” (SILVA, 2008, p. 21). A pesquisa exige que o pesquisador se dedique sobre um ponto que seja relevante e invista esforços para uma explicação de diferentes fenômenos. Este processo o leva ao amadurecimento intelectual e à maior capacidade de “interpretação do problema que supere o senso comum, implicando, então, uma reflexão que o motive a buscar algo novo” (SILVA, 2008, [s./p.]). Todo o pesquisador procura por uma resposta sua, autêntica, ao mesmo tempo que consistente, para o tema que se propôs a estudar. E é nesse sentido que o pesquisador é mais convocado, exigido. Dele é exigido que elabore uma hipótese e que busque respostas inéditas. Sabe-se que este processo não é fácil. Existe uma exigência maior na configuração científica desta reflexão. Ela deve ser fundamentada e para isso necessita fazer uso de instrumentos que garantam, com um certo rigor ou sistematicidade, a sustentação das argumentações. Para isso, de acordo com Silva (2008), torna-se fundamental: UNIDADE 2TÓPICO 3116 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L ● um tempo de estudo; ● leitura correspondente ao objeto escolhido para a investigação; ● idas e vindas ao campo; ● pré-testes; ● questionários; ● uma postura permanentemente autocrítica quanto às hipóteses iniciais; ● alteração de hipóteses, ou mudanças de rumo na pesquisa que implicam a incorporação de procedimentos não previstos. A pesquisa na pós-graduação consiste em fator fundamental no processo do conhecimento que instrumentaliza a intervenção. Ao se colocar o imperativo de uma contribuição inovadora, a partir da interpretação de um problema, buscando uma explicação para o fenômeno, o sujeito que busca conhecê-lo tende a avançar na direção de um aprofundamento do conhecimento sobre seus diferentes matizes. Poderá colaborar de forma mais qualificada, caso seja demandada uma aplicabilidade desse conhecimento. Dessa forma, o incentivo à pesquisa no âmbito universitário é fundamental. Torna-se um espaço por excelência para sua execução. O mundo acadêmico tem o papel de formar profissionais pesquisadores, assegurando uma formação que viabilize a capacidade autônoma de reflexão sobre os problemas que serão alvo da intervenção desses profissionais. O pesquisador tem o papel de retornar com o material coletado e, num momento individual, analisar os dados, orientado por uma hipótese que tem que estar fundamentada numa gama de material bibliográfico consistente, e compartilha suas deduções com a equipe, com interlocutores associados ao campo temático. Através deste processo a reflexão avança, viabiliza o amadurecimento de uma discussão e formas de interpretação do problema sobre o qual serão pensadas linhas de ação, em diferentes instituições. Conforme destaca Borges (2010), faz-se necessário um momento de distanciamento da intervenção para se refletir sobre ela. Dessa forma, o afastamento da prática imediata é imprescindível em alguns momentos, para interagir com mais profundidade num momento posterior, continuando este processo num movimento espiral. No âmbito acadêmico existem duas possibilidades do profissional que está no campo UNIDADE 2 TÓPICO 3 117 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L da prática ter acesso à capacitação continuada: ● Através de cursos stricto sensu e lato sensu; ● Através de cursos de extensão de curta duração. No âmbito universitário, ambas devem ter como parâmetro, para serem oferecidas, as experiências de pesquisa. O oferecimento de cursos é uma garantia da intermediação necessária entre a formação e o mercado de trabalho. FONTE: Disponível em: <http://www.algartecnologiaemnoticia.com.br/ adminem/media/noticias/f41b90fb3a9dbbcdd1bd40d88051551b. jpg>. Acesso em: 9 fev. 2011. LEITURA COMPLEMENTAR DESAFIOS À PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL: DA FORMAÇÃO ACADÊMICA À PRÁTICA PROFISSIONAL Aglair Alencar Setubal Curso de Serviço Social do Instituto Camillo Filho (ICF-Piauí) Para se penetrar no mundo das coisas, para se entender, analisar e interpretar a realidade na sua riqueza complexa e na sua totalidade concreta, tem que se desenvolver um esforço intelectivo capaz de apreender a essência delas na sua mediaticidade. Diferente do fenômeno que se pode observar na imediaticidade, a essência de uma realidade só se revela após o ato investigativo que procura, no mesmo processo, identificar a estrutura da realidade concreta, não na sua manifestação fenomênica, mas pela identificação das múltiplas determinações que lhe são peculiares e que lhe dão sentido e força para existir em determinado tempo e sociedade. Todavia, apesar de se reconhecer essa conduta como imprescindível por parte do sujeito cognoscente, considera-se redutora da realidade a atitude investigativa que, como FIGURA 28 – PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL UNIDADE 2TÓPICO 3118 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L diz Kosik (1976, p. 57) no trecho utilizado como epígrafe deste trabalho, deixa “[...] para trás tudo aquilo que é inessencial, como lastro supérfluo [...]”. Explica-se, numa ordem inversa a esse pensamento, mas sem uma configuração linear – como a realidade não apresenta a sua concreticidade de forma direta, ou seja, não se revela tal como ela é –, o homem no seu estado natural só é capaz de se aproximar da realidade superficialmente; apenas a percebe naquilo que ela manifesta e que é possível captar pelos sentidos. Essa captação, por sua vez, é resultante das forças circundantes da sua existência, e não revela, como se pode imaginar a priori, uma conduta passiva desse sujeito, mas sim a concepção que esse homem historicamente construiu sobre a realidade. Para que o homem ultrapasse o estágio do sensível e caminhe em direção à ‘coisa em si’, a essência da realidade, ele tem que sair da conduta contemplativa/reflexiva para se pôr em ação pela práxis transformadora. Transformadora por não considerar o fenômeno como algo independente e absoluto, já que esse se transforma em relação com a essência e só é compreendido quando se atinge a estrutura da ‘coisa em si’. Apesar de o Serviço Social, a partir, principalmente, das duas últimas décadas do século 20, ter se aproximado da vertente marxista e, em decorrência dessa ‘filiação’, empreendido esforços no sentido de desenvolverpesquisas utilizando o método dialético-histórico, percebe-se certa dificuldade por parte de alguns profissionais de vivenciarem a práxis como resultante da atividade do homem no seu fazer-se histórico. Em decorrência disso, existem no Serviço Social estudos que, aparentemente orientados pela vertente teórica marxista, tangenciam a prática profissional de alguns assistentes sociais que, na contramão da história, insistem em desenvolver atos desarticulados e justapostos, em espaços institucionais alheios até mesmo às orientações do positivismo. A coexistência de correntes teóricas de interesses e métodos tão diferentes tem dificultado o rompimento com a conduta norteada pela pseudoconcreticidade e o desvencilhamento da compreensão que se tem da práxis como sinônimo de trabalho. Aparentemente, as dificuldades são de fácil solução, mesmo se reconhecendo a força de fatores externos que mumificam conceitos, impedem que o assistente social – esteja ele no desempenho da prática acadêmica, investigativa ou de intervenção direta na realidade – desvende, por intermédio da análise dos conceitos, os significados e significâncias neles presentes, a riqueza e complexidade da coisa por ele representada; penetre enquanto agente social e profissional no pensamento do homem em ação/atividade e não no ato. Acredita-se ser essa uma das condições indispensáveis ao Serviço Social, o qual se propõe crítico e não permite a sacralização da ‘prática profissional’, que intervém de forma imediatista dando respostas aos problemas de identificação apenas sensível. São problemas que, muitas vezes, justificam a criação de políticas sociais reafirmadoras das facetas pelas quais a questão social se explicita, em determinado contexto e tempo, funcionando como elementos basilares do discurso instituído. Discurso propagado como verdade absoluta por alguns assistentes sociais, que são impedidos por motivos adversos à sua vontade de transformar a prática profissional em práxis social, o que, segundo Vázquez (1968, p. 200), UNIDADE 2 TÓPICO 3 119 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L constitui uma atividade política. Como a práxis social é uma atividade política que, conforme o mesmo autor, pode mudar as relações econômicas, sociais e políticas, ela exige o desenvolvimento de ações integradas dos diferentes setores da sociedade e não ações pontuais, já que a solução dos problemas sociais não se constitui responsabilidade de uma área de saber, de determinada categoria profissional. Percebe-se que esta postura tem dificultado a prática da pesquisa, principalmente dentro da dimensão da dialética histórica, pelo Serviço Social. Entretanto, apesar das dificuldades apresentadas contribuírem para um pensar-agir dicotômico, acredita-se que a produção do conhecimento pela via da pesquisa é o caminho que possibilita o rompimento do Serviço Social com a pseudoconcreticidade, por provocar no profissional o desejo de se movimentar – enquanto pesquisador e/ou profissional responsável por ações institucionais que, aparentemente, não têm responsabilidade direta de produzir conhecimento – no sentido de fazer com que o pensar e o agir possam interagir dialeticamente. Com esse processo espera-se provocar a eliminação da concepção fetichizada que se satisfaz com a aparência da coisa, desenvolvendo uma práxis utilitária, manipuladora, construída na dimensão da “consciência comum”, “consciência ingênua” ou “falsa consciência”, como diz Kosik. Além disso, é fundamental considerar a práxis como esfera do ser humano que evidencia a criação, a existência e a experiência como humano-sociais. A criação, nesse contexto, é uma realidade ontológica decorrente do processo ‘ontocriativo’ unificador das compreensões de mundo e da realidade humana sem primado entre essas concepções. Consequentemente, não atribui importância maior à teoria ou à prática, ao visível (fenômeno) e à essência, evitando-se com isso a construção de percepções unilateralizantes, ou duais, que preconizam o poder do saber desconsiderando o verdadeiro significado da teoria. Teoria que só atinge a sua significância quando expressa a realidade humano-social, o momento existencial dos autores e atores, razão do seu existir. Quando as reflexões são transportadas para o interior do Serviço Social, não se deve apenas explicitar dificuldade em assimilar e colocar em prática as exigências da dialética histórica, em vivenciar, como um todo, no seu cotidiano profissional, a concretização da práxis social, mas iniciar a reflexão pela dimensão política presente no contexto das relações sociais e pela forma de inserção dessa profissão no mercado de trabalho. Por isso, a influência da forma de inserção pela via da divisão social do trabalho não pode ser ignorada quando se estuda e se analisa a construção das peculiaridades que levaram o Serviço Social, ao longo dos tempos, a trabalhar com uma identidade atribuída, em que o saber está a serviço do capitalismo. Para as pessoas mais apressadas na leitura da ‘realidade’, essas reflexões nada têm a ver com a temática deste trabalho, não passando de mera elucubração teórica. Respeita-se a leitura, embora se discorde do entendimento, uma vez que só pela identificação, compreensão e pelo conhecimento das condições históricas do UNIDADE 2TÓPICO 3120 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Serviço Social pode-se identificar os desafios em relação à pesquisa e à consolidação da área como produtora e disseminadora de conhecimento, apesar de ser detentora de profissionais capacitados para a prática investigativa. O número crescente de publicações é revelador da preocupação, do interesse e/ ou da necessidade do Serviço Social em desenvolver pesquisa, daí ser possível, hoje, no Brasil, encontrar vasta produção de conhecimentos na área. Entretanto, quando se procura identificar os autores, logo se percebe que o esforço investigativo resulta, na sua grande maioria, de elaborações de assistentes sociais ligados à docência stricto sensu (mestrado e principalmente doutorado), ou de professores que procuram, por exigência das Instituições de Ensino Superior (IES), a titulação de mestres e doutores em Serviço Social, Ciências Sociais, Educação, Ciências Políticas, entre outros programas de pós-graduação. Com raras exceções se identificam trabalhos não vinculados ao mundo acadêmico ou, por exigência desse universo em seus diferentes níveis, para obtenção de títulos. Essa constatação conduz a algumas indagações, que envolvem não apenas os profissionais que realizam atividades desvinculadas do ensino, mas também os assistentes sociais responsáveis pela formação acadêmica dos que procuram o Serviço Social como profissão. Daí se perguntar: como se explica a produção do conhecimento, embora tendo como objeto de pesquisa aspectos das expressões das questões sociais que justificam a existência do Serviço Social, não ser constante no fazer-se histórico da profissão? O que justifica a prática profissional descomprometida com o conhecimento da essência dos problemas sociais, da estrutura da questão social? Quais são as forças presentes no Serviço Social para que a sazonalidade da pesquisa detectada por Setubal (1995) ainda seja tão presente no Serviço Social, apesar da crescente produção científica hoje existente e da identificação por esta autora dos “elementos influenciadores e limites que se colocam na prática da pesquisa”? São muitas as questões possíveis de serem levantadas pelas mentes inquietas existentes no Serviço Social. Por isso é que se vê como necessário o desenvolvimento da prática investigativa, não apenas para cumprir exigências institucionais de ordem acadêmica, mas também para cumprir exigências do Serviço Social como profissão historicamente situada. A pesquisa no Serviço Social deve ir além das necessidades citadas neste trabalho, pois se defende a compreensão que, conscientemente, atribui importância e que, consequentemente, gera necessidades fomentadaspelo compromisso político-profissional do assistente social de realizar essa atividade; das necessidades sentidas pelos autores e atores profissionais envolvidos de vivenciarem a práxis social em Detrimento da práxis repetitiva, em que os gestos e os atos são efetivados em círculos determinados, e da “práxis mimétrica” que, de acordo com Lefebvre (1979, p. 39), está em um nível que apenas segue modelos que, sem saber o porquê e o para quê da ação, não atingem a criação. Somente a práxis transformadora viabiliza a criação que “[...] compreende a decisão UNIDADE 2 TÓPICO 3 121 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L teórica como a decisão de ação. Supõe tática e estratégia. Não existe atividade sem projeto; ato sem programa, práxis política sem exploração do possível e do futuro” (LEFEBVRE, 1979, p. 41). Apesar dos avanços do Serviço Social, principalmente iniciados com o movimento de reconceituação, que acicataram os assistentes sociais a buscar novas alternativas de prática, dessa feita articulada com as práticas concretas das classes sociais, constata-se ainda, na primeira década do século 21, vivências profissionais anacrônicas, que nada lembram as conquistas históricas da profissão, sobretudo no plano teórico-metodológico. São atos que jamais serão atividades. A submersão em condutas letárgicas impede de desvelar a riqueza complexa da realidade concreta, por isso são prejudiciais ao movimento de transformação. Diante desse quadro contraditório vivenciado pelo Serviço Social, recorremos a Martinelli (1990, p. 17), quando diz: “Pensar o Serviço Social: eis a tarefa”. Tarefa que parece inviável sem a adoção da consciência crítica pautada na história e estruturada em consonância com a situação do homem, no processo de construção da sua vida e da vida dos outros homens e até da natureza. “Pensar o Serviço Social [...]”, do ponto de vista da pesquisa requer que exista na profissão a clareza da amplitude do projeto ético-político construído, desde a legalização da profissão no Brasil, e reconstruído a partir das bases apontadas. O conhecimento constituído possibilitará criar e/ou descobrir as conexões necessárias entre esse projeto e o mercado de trabalho. Entrar no campo desse conhecimento requer que as IES, por intermédio dos cursos de Serviço Social, tenham claramente definidos os seus projetos pedagógicos, tomando por base suas diretrizes curriculares. Conteúdos que viabilizem não só a inserção dos egressos do curso ao mercado de trabalho, mas também uma fundamentação teórico-metodológica que assegure um agir-refletir crítico e uma intervenção que possa contribuir para a transformação social, cuja responsabilidade é de toda a sociedade e não somente do Serviço Social. Consideram-se incontestes as necessidades do Serviço Social (na busca de aproximação do seu objeto histórico) de procurar entender, explicar, conhecer e apreender a realidade naquilo que lhe é essencial, com o apoio de procedimentos metodológicos cuidadosamente planejados e de uma sólida fundamentação teórica; realizar análise de situações concretas iniciando com a pesquisa da prática profissional na sua contextualidade e temporalidade histórica, ou seja, apreender a prática profissional no interior das múltiplas determinações do capitalismo contemporâneo. Ao se atribuir importância à ação investigativa, longe de se negar a importância da dimensão interventiva, pretende-se mostrar a íntima relação existente entre teoria e prática e a condição de centralidade que esses processos devem ocupar na formação e na vida profissional. Devido a essa relação, o Serviço Social inscreveu a pesquisa como matéria já no primeiro currículo mínimo determinado pela Lei no 1.889, de 13 de junho de 1953, que “dispõe UNIDADE 2TÓPICO 3122 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L sobre os objetivos do ensino do Serviço Social, sua estruturação e ainda as prerrogativas dos portadores de diplomas de Assistentes Sociais e Agentes Sociais” (BRASIL, 1996). E reafirmou a sua importância no segundo currículo mínimo por intermédio do Parecer n. 286, que foi aprovado em 19 de outubro de 1962 (BRASIL, 1962). Apenas no terceiro currículo recomendado no Parecer no 242, aprovado em 13 de março de 1970 (BRASIL, 1970), a pesquisa não consta no elenco das matérias obrigatórias, por estar implícita no espírito integrador ensino-pesquisa da Reforma Universitária. Com início em 1977, as unidades de ensino e a maestria da Associação Brasileira de Ensino de Serviço Social (ABESS, hoje ABEPSS) iniciam discussões sobre a reformulação do terceiro currículo mínimo, voltando a identificar a pesquisa como instrumento fundamental para uma sólida formação científica dos docentes e dos assistentes sociais na sua prática profissional. Dessas reflexões sobre a formação profissional resultou o quarto currículo, que foi aprovado por meio do Parecer no 412/82, do Conselho Federal de Educação (BRASIL, 1982). Já em 1996, as Diretrizes Curriculares, que viriam a ser estabelecidas pela Resolução no 15, de março de 2002 (BRASIL, 2002), reiteravam a matéria pesquisa como parte dos princípios básicos da formação profissional. Ao trazer para o centro a preocupação com a pesquisa, o Serviço Social reconhece a sua complexidade como profissão histórica, inserida e construída no movimento real da formação social capitalista. Procura não se contentar com a aparência da coisa, descobre caminhos que conduzem à apreensão da essência da realidade e, com isso, justifica a razão do existir da teoria e da ciência. Como diz Marx (1980, p. 939), “[...] toda ciência seria supérflua se houvesse coincidência imediata entre a aparência e a essência das coisas”. Essência que só pode ser conhecida dentro da movimentação histórica. A importância da história, no contexto desta reflexão, longe de ser uma preocupação somente com o passado do objeto de intervenção e do próprio Serviço Social, tem no seu cerne as questões unificadoras do ser e do vir a ser do Serviço Social, apreensão possível, apenas, dentro da dimensão da práxis transformadora, resultante das objetivações humanas, explicitadas paulatinamente ao longo da história. Segundo Markus (1974), as objetivações são compreendidas tanto pelas forças produtivas materiais presentes na sociedade, quanto pela arte e pela filosofia. Aparentemente, esses três aspectos são insuficientes para dar conta da complexidade presente no cotidiano do indivíduo, enquanto ser particular. Contudo, constituem o tripé que sustenta as condições da vida humana; dão o design das experiências vivenciadas pelo homem, ser vivente e constituinte da sociedade, onde as leis do capital regem, de acordo com a sua lógica interna, o destino dos seus membros. [...] FONTE: Disponível em: <http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/katalysis/article/view/1140/3914>. Acesso em: 9 fev. 2011. UNIDADE 2 TÓPICO 3 123 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Neste tópico você estudou que: ● A ABEPSS consiste na Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social. ● A pesquisa ocupa um papel primordial no processo de formação profissional do assistente social. ● Sugere-se que a formação profissional seja embasada por um repleto arsenal de informações históricas sobre a sociedade brasileira. ● A pesquisa, então, tanto no âmbito docente como discente, na graduação e na pós-graduação, apresenta-se como recurso indispensável para a compreensão das inúmeras formas de desigualdades sociais e dos processos de exclusão delas decorrentes. ● A relação do Serviço Social com a pesquisa surge em função de um processo histórico de amadurecimento intelectual e de ampliação das demandas sociais. ● O Serviço Social, em sua trajetória histórica, tem avançado quanto ao acúmulo de conhecimentos sobre o seu objeto de intervenção e sobre a natureza da própria profissão. ● A disciplina de Pesquisa em Serviço Social, na graduação, é fundamental à qualificação da atuação profissionalquando considerada a realidade dos estudantes de graduação no Serviço Social, a maioria deles trabalhadores, sem tempo para se dedicar exclusivamente aos programas de iniciação científica. ● O Serviço Social não deve direcionar o seu olhar apenas para a prática interventiva, mas sim buscar no desenvolvimento dos procedimentos da pesquisa o apoio para uma ação profissional mais dinâmica, questionadora e que trilhe com os diferentes movimentos emergentes da sociedade contemporânea, apontando o valor da ação investigativa para o procedimento técnico mais qualificado. ● A vivência de uma disciplina voltada para a pesquisa, na graduação, tem por objetivo principal o crescimento intelectual do graduando, o exercício da reflexão sobre a vida prática, incentivando os estudos de temas que atravessam o cotidiano profissional. ● Além da disciplina de Pesquisa em Serviço Social, outro espaço de exercício da pesquisa no RESUMO DO TÓPICO 3 UNIDADE 2TÓPICO 3124 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L período da graduação consiste na experiência vivenciada pelo aluno em Estágio Curricular, através dos registros elaborados neste período. ● Torna-se fundamental conhecer o objeto de intervenção e, para tanto, incentivar a leitura da realidade institucional. ● É na graduação que se trabalha a formação de profissionais dotados de competência crítica e compromisso público com os impasses do desenvolvimento da sociedade nacional e suas implicações para a maioria dos trabalhadores brasileiros. ● O mundo acadêmico tem o papel de formar profissionais pesquisadores, assegurando uma formação que viabilize a capacidade autônoma de reflexão sobre os problemas que serão alvo da intervenção desses profissionais. UNIDADE 2 TÓPICO 3 125 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L 1 Qual a importância da ABEPSS para a pesquisa no Serviço Social? 2 Em que medida a pesquisa pode qualificar a prática do Assistente Social? 3 No período da graduação, quais as áreas do curso de Serviço Social que estariam diretamente relacionadas à pesquisa? AUT OAT IVID ADE � UNIDADE 2TÓPICO 3126 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L ATRIBUIÇÕES E COMPETÊNCIAS DO ASSISTENTE SOCIAL PESQUISADOR 1 INTRODUÇÃO 2 CONSIDERAÇÕES INTRODUTÓRIAS SOBRE O ATO DE PESQUISAR TÓPICO 4 UNIDADE 2 Iniciaremos este tópico fazendo referência às considerações introdutórias do ato de pesquisar. Após, destacaremos os movimentos iniciais daquele que visa se tornar um pesquisador. Destacaremos também as competências essenciais no ato de pesquisar e, por fim, a importância da participação do pesquisador em Núcleos de Estudo e Grupos de Pesquisa. São diferentes as atribuições que envolvem o ato de pesquisar. No Serviço Social estas emergem como significativas, para que o processo se desenvolva da forma devida. Tem-se que a educação contemporânea não deve se limitar a formar alunos para dominar determinados conteúdos, mas sim que saibam “pensar, refletir, propor soluções sobre problemas e questões atuais, trabalhar e cooperar em conjunto na formulação de novos conhecimentos”. (THOMAZ, 2008, [s./p.]). O mundo acadêmico deve, sim, favorecer a formação de seres críticos e participativos, conscientes de seu papel nas mudanças sociais. Thomaz (2008, s/p) destaca que o mundo atual, permeado de mudanças e novas demandas, exige dos indivíduos “habilidades e atitudes diferenciadas das observadas em épocas anteriores”. Dessa forma, a facilidade e a rapidez com que hoje é possível ter acesso à informação exigem “a necessidade de se trabalhar na formação de um sujeito crítico e consciente de seu papel na sociedade em constante transformação” (THOMAZ, 2008, [s./p.]). UNIDADE 2TÓPICO 4128 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L O profissional do século XXI, então, não pode ter o mesmo perfil de habilidades do século anterior. Não pode mais ignorar o que se passa no mundo. Necessita se inserir de maneira adequada no meio social e desenvolver competências de leitura de realidade condizentes. Este profissional necessita, antes de tudo, ser crítico, ativo, com a capacidade de pensar e agir. Necessita saber pensar sobre tudo o que chega até ele através das novas tecnologias que se apresentam. Atualmente, tornou-se uma necessidade importante, no atual cenário, saber pesquisar e selecionar as informações para, a partir delas e da experiência, construir o conhecimento. Principalmente no Serviço Social, o ato da pesquisa é que virá contribuir para a eficácia da prática profissional. AUT OAT IVID ADE � Na sua opinião, qual a importância da pesquisa na contemporaneidade? 3 TORNANDO-SE UM PESQUISADOR São diferentes as experiências que visam implementar o espírito científico nos sujeitos, desde a formação em etapas iniciais na educação. Ulhôa et al. (2008) destacam as feiras de ciência como uma destas experiências, com o intuito de formar pesquisadores. Este seria o primeiro contato do indivíduo com o mundo da pesquisa e da busca pela descoberta da realidade que se apresenta. Na compreensão de Ulhôa et al. (2008), é nestes espaços que os alunos fazem uso de suas próprias ideias ou de um tópico preparado pelo instrutor para investigar problemas científicos que lhes interessem. Ainda na compreensão dos autores: Atualmente, estas feiras de ciências têm tido novos apelos e novas demandas e pode-se identificar uma relação direta entre esta retomada com um movimento de âmbito internacional, de incentivo a exposições, mostras, feiras e museus interativos de ciência e tecnologia (ULHÔA et al. 2008, p. 1). O mundo atual, caracterizado pelas mudanças e conquistas científicas e tecnológicas em um ritmo acelerado, não pode atribuir unicamente à escola a função de informar e educar o cidadão. Essa postura apresenta uma habitual inércia e características específicas em seu UNIDADE 2 TÓPICO 4 129 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L 4 COMPETÊNCIAS ESSENCIAIS NO ATO DE PESQUISAR Assim como em outras áreas, no Serviço Social existem competências essenciais para o pesquisador, no exercício da prática cotidiana. Conforme define Demo (2000), a pesquisa corresponde a um estudo cuidadoso, sistemático e paciente, em um determinado campo do conhecimento, visando à formulação ou estabelecimento de fatos ou princípios a respeito do problema ou assunto em questão. Dessa forma, não se deve confundir a pesquisa com a simples coleta de dados ou enquete de opiniões. Na concepção de Ludke e André (1986, p. 21), o ato de pesquisar subentende “promover ritmo educacional. As feiras de ciências, então, apresentam-se como uma forma de contribuir para a formação desse cidadão. Além disso, as feiras permitem, como prática pedagógica, a integração de dois ou mais componentes curriculares na construção do conhecimento. (ULHÔA et al. 2008) Ulhôa et al (2008) também destacam que, logo na formação básica do estudante, os projetos de pesquisa propiciam o desenvolvimento de habilidades para a resolução de problemas, articulando conhecimentos adquiridos, instigando o desenvolvimento da criatividade, da autonomia e da colaboração. FONTE: Disponível em: <http://www.abril.com.br/imagem/adolescentes-escola- mesa.jpg>. Acesso em: 8 out. 2010. FIGURA 29 – TORNANDO-SE UM PESQUISADOR UNIDADE 2TÓPICO 4130 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L o confronto entre os dados, as evidências, as informações coletadas sobre determinado assunto e o conhecimento teórico acumulado a respeito dele”. Neto (2001) ressalta que toda pesquisa deva circunscrever um problema central e a ele dar tratamento ao longo do trabalho. A necessidade de realização da pesquisa, segundo o autor, deve então nascer da “insatisfação do pesquisador frente a um determinado problema, que o questiona, instiga e desafia. Na tentativa, então, de solucioná-lo, ou então dar-lhe um tratamento merecido, o pesquisador passa a daratenção por completo na investigação” (NETO, 2001, p. 6). Dessa forma, na descrição do problema envolvido pela pesquisa, espera-se encontrar, de forma explícita, a questão fundamental da investigação. E também, a apresentação e discussão dos polos de contradição de onde emerge a problemática de estudo. Neto (2001) explica que antes de se partir para a pesquisa propriamente dita, torna- se fundamental ter-se uma ideia bem clara do problema a se resolver. Trata-se de: “definir claramente os vários aspectos da dificuldade, de mostrar o seu caráter de aparente contradição, esclarecendo devidamente os limites dentro dos quais se desenvolverão a pesquisa e o raciocínio demonstrativo”. (NETO, 2001, [s./p.]). Tais elementos destacados pelo autor constituem-se enquanto princípios fundamentais, os quais, esclarecidos, tendem a favorecer os processos seguintes da pesquisa, na busca pela resolução do problema de pesquisa identificado. Neto (2001, p. 6) ressalta também que “solucionar” ou “resolver” um problema por intermédio de uma pesquisa científica talvez consista em muita pretensão, ou mesmo “impossível, quando se trata de um problema no campo social”. Isso se deve ao fato de que: Primeiramente, somente a prática educacional pode fornecer indicadores de que determinado problema está ou não sofrendo processo de solução. Em segundo, porque as raízes e as causas desses problemas podem ser tão di- versas e múltiplas que sua solução por vezes não se encontra ao alcance de apenas um trabalho acadêmico, exigindo quase sempre transformações do próprio sistema social ou sistema sociopolítico econômico (NETO, 2001, [s./p.]). Principalmente no Serviço Social, as respostas são meros resultados obtidos em determinada realidade. Estes estarão em constante mudança, carecendo do contínuo processo de acompanhamento destes fenômenos, assim como processos sociais que se apresentam na realidade. Em suma, para Neto (2001), a pesquisa científica, no Serviço Social, deve: a) Produzir conhecimentos sobre determinados assuntos na área. b) Solucionar problemas reais (imediatos ou não) concebidos por um indivíduo ou grupo. UNIDADE 2 TÓPICO 4 131 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L c) Compreender o funcionamento da natureza/sociedade do contexto social. d) Intervir nos processos sociais, visando à melhoria dos mesmos. FONTE: Disponível em: <http://www.jornallivre.com.br/images_ enviadas/a-profissao-servico-social-pre.jpg>. Acesso em: 8 out. 2010. Historicamente, explica Neto (2001, p. 7), a pesquisa era vista tão somente numa perspectiva empírico-indutiva, em que o papel do sujeito (pesquisador) era de “mero observador `neutro´ da realidade, sendo impregnado exclusivamente pelas emanações do objeto em estudo”. A atividade do pesquisador resumia-se, então, a “extrair, de maneira sensorial e indutiva, o conhecimento que era posto no objeto (não sujeito)” (NETO, 2001, p. 8). Contrapondo-se a essa prevalência do objeto, Neto (2001) compreende que, contemporaneamente, o conhecimento é elaborado pela mente humana a partir de uma relação dialética entre sujeito e objeto. E mais: “O conhecimento resultante da atividade científica não está previamente situado no objeto, nem tampouco é formulado pelo sujeito a partir de reflexão exclusivamente teórica (racionalismo)” (NETO, 2001, [s./p.]). Com base nesta compreensão, o pesquisador, então, ao se debruçar sobre determinada porção da realidade para estudo e investigação (objeto), já observa essa realidade de maneira não neutra, “em face de toda sua experiência de vida antecedente e a todo o cabedal de conhecimento que acumula.” (NETO, 2001, [s./p.]). Da mesma forma, segundo Neto (2001), a realidade observada interfere nessa percepção, modificando o sujeito incessantemente. Nesta relação articulada e concomitante FIGURA 30 – COMPETÊNCIAS NO ATO DE PESQUISAR UNIDADE 2TÓPICO 4132 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L sujeito-objeto, o conhecimento se assenta no entrelaçamento interativo e constitutivo de ambos, sem haver concentração ou privilégio de um ou outro. (NETO, 2001) Assim sendo, o Assistente Social deve ser capaz de realizar uma leitura da realidade, compreendendo os processos contraditórios que se apresentam, tendo a capacidade de construir estratégias que venham a contribuir para a solução das problemáticas que se apresentam no cotidiano. AUT OAT IVID ADE � Por que “solucionar” ou “resolver” um problema por intermédio de uma pesquisa científica talvez consista em muita pretensão? 5 PARTICIPAÇÃO EM NÚCLEOS DE ESTUDO E GRUPOS DE PESQUISA Os Núcleos Temáticos constituem-se instâncias pedagógicas que integram ensino, pesquisa e extensão. São estes os responsáveis academicamente pela organização e efetivação de pesquisas sobre situações concretas no âmbito da questão social – objeto de trabalho do assistente social: sistematização e produção de conhecimentos teórico-metodológicos e instrumentais no âmbito de suas respectivas áreas temáticas, que vêm a impulsionar a formulação de respostas profissionais criativas e condizentes com os objetivos profissionais. Compreende-se que a formação teórico-metodológica e operativa garantida nos Núcleos está voltada para o atendimento das demandas postas no mercado de trabalho e à identificação de novas necessidades sociais, que possibilitem a ampliação e diversificação do espaço ocupacional do Serviço Social. Constituem-se, enquanto objetivo dos Núcleos Temáticos de Pesquisa e Prática, a apreensão e antecipação da compreensão de demandas no campo do conhecimento, assim como da ação profissional. Além de constatarem e compreenderem esta realidade, é necessária a exigência de competência profissional teórico-operativa para articular respostas, adiantando- se às demandas sociais. Exercem também importância como impulsionadores da renovação de conteúdos programáticos das disciplinas do curso, sugerindo alterações em função das descobertas efetuadas a partir do acompanhamento da dinâmica da realidade na área temática que lhe é concernente. UNIDADE 2 TÓPICO 4 133 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Existem alguns critérios de prioridades para os núcleos de pesquisa e prática, os quais dão norte para as políticas de pesquisa, de estágio, assim como de extensão. Diferentes universidades têm feito uso destes critérios, e aqui citamos, sumariamente, alguns deles, com base na experiência da UFRJ, descritos por Iamamoto (2005): ● Estreitamento de laços da universidade com a sociedade política e a sociedade civil, respondendo à demanda de órgãos públicos, entidades e associações representativas da sociedade civil e, concomitantemente, ampliando canais de participação da sociedade na universidade. ● Possibilidade de integração de estágio, projetos de pesquisa e de extensão. ● Possibilidade de um trabalho interdisciplinar no interior da comunidade universitária e fora dela. ● Potencial para o desenvolvimento de pesquisas sobre os processos sociais constitutivos na sociedade brasileira atual, em suas determinações gerais e em suas expressões particulares e singulares. ● Realização de pesquisas que versem sobre situações concretas que são objeto de trabalho do assistente social, visando explicá-las e, a partir delas, formular propostas de trabalho profissional conciliadas com a realidade, que permitam acionar tendências de mundos nela presentes. ● Possibilidade de obtenção de bolsas de pesquisa, extensão e treinamento profissional e/ ou outras fontes de apoio financeiro aos estagiários e pesquisadores, para dar suporte, em nível de recursos humanos, materiais e financeiros, às atividades de pesquisa e/ou extensão, viabilizando a dedicação dos acadêmicos e docentes às mesmas. Iamamoto (2005) apresenta a possível composição sugerida a estes núcleos, que seriam: ● Professores da faculdade reunidos em função de suas pesquisas, especialização teórica, atividades de extensão ou experiência profissional. ● Alunosdo curso de Serviço Social, em função de sua inserção nos estágios, projetos de pesquisa e extensão e dos temas de TCC. ● Supervisores de campo. ● Supervisores acadêmicos. ● Professores pesquisadores de outras unidades de ensino ou de fora da universidade. UNIDADE 2TÓPICO 4134 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L ● Representantes de organizações e movimentos sociais, quando for o caso. Iamamoto (2005) também destaca que novos núcleos poderão ser criados, assim como podem ser dissolvidos os já existentes, de acordo com as necessidades conjunturais, acompanhando a dinamicidade do projeto acadêmico da Faculdade de Serviço Social e o movimento da realidade conjuntural, evitando-se a cristalização burocrático-administrativa dos núcleos. Em relação à pesquisa, os núcleos congregam as seguintes atividades: ● Projetos de pesquisa curriculares, realizados sob a orientação da disciplina de Pesquisa em Serviço Social. ● Projetos de pesquisas docentes. ● Iniciação científica. Torna-se possível, também, a articulação do conteúdo da disciplina de pesquisa com as demandas e a produção acadêmica dos núcleos temáticos, de modo que os projetos de investigação a serem elaborados e executados pelos alunos permitam fomentar os programas de trabalho dos núcleos. FONTE: Disponível em: <http://www.fan.com.br/portal/wp-content/uploads/ assistente_social_gg.jpg>. Acesso em: 20 out. 2010. FIGURA 31 – GRUPOS DE PESQUISA UNIDADE 2 TÓPICO 4 135 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Em relação à produção do conhecimento na área do Serviço Social, tem-se a emergência e a consolidação de um amplo leque de temas oriundo das pesquisas realizadas na área, sinalizando num significativo avanço da produção do conhecimento, tanto em termos de rigor teórico, histórico e metodológico da realidade social, como da ampliação de conhecimento sobre os processos sociais contemporâneos, os quais implicam na constituição e no desenvolvimento do capitalismo, do Estado, da sociedade civil, do trabalho, da pobreza, da exclusão, da democracia, da cidadania, das políticas sociais e do Serviço Social. Torna-se necessário que o pesquisador apresente uma postura investigativa à luz dos procedimentos da pesquisa acadêmica. Todas as disciplinas devem solicitar exercícios que desenvolvam o interesse pela leitura, o incentivo ao levantamento bibliográfico através de visitas a bibliotecas, a busca de material na internet; o ensaio para o desenvolvimento de entrevistas e questionários, a elaboração de resenhas e resumos para refinar a redação, visitas a instituições para apurar a sensibilidade quanto à observação e a escuta, oficinas de filmes e documentários. No campo da produção do conhecimento, o Serviço Social como profissão apresenta uma história de avanços e conquistas na busca de sua consolidação, oferecendo sustentação teórica e metodológica à atuação profissional. Neste sentido, a prática problematizada materializa-se em fonte de reflexão e construção de conhecimentos sobre seu objeto de intervenção. A postura investigativa, desenvolvendo uma pesquisa sistemática e crítica da realidade social, propicia, então, a elaboração de um projeto de intervenção embasado nas reais demandas do público atendido pelo Serviço Social, respaldado em um projeto ético-político. FONTE: Adaptado de: <http://www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/13785/13785.PDFXXvmi=Z2tsZ- V9S0gffU0tH096xXGgicJL9D8dCbH5aDf3EwjTrko9kxfSvWaP9TBjxKwaWeg7Svbw3vrvQ QFcoU5VSgL2anlI9TT69bd2IpzMV1iNSZ0iU6eNm1Pxpchz7bFgnTj7jSTgUd4Oc477alUxn- L6OXnn5A4mZXG6iA1zveEkqJrxTOtsdfz2eXqkxuHwtnEMZFmuT2PlLhUG7o9kEImTGNefi- VNNkrAk7XP10GnLZis6HCqmlOg3CujVr7JNzk>. Acesso em: 9 fev. 2011. LEITURA COMPLEMENTAR TESSITURA INVESTIGATIVA: A PESQUISA CIENTÍFICA NO CAMPO HUMANO-SOCIAL Latif Antonia Cassab Curso de Serviço Social, Faculdade Estadual de Ciências Econômicas de Apucarana (FECEA-Paraná) 1. A pesquisa científica Pesquisar é desenvolver uma atividade – como um processo, onde a preocupação UNIDADE 2TÓPICO 4136 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L maior é com o produto – que recebe a marca dos condicionantes sociais vigentes, com fins propostos e objetivos a alcançar. Caracteriza-se por um estudo de questões ou focos de interesses muito amplos; manifesto em procedimentos, interações cotidianas, que no decorrer do processo, à medida que o estudo se desenvolve, torna-se mais direto e específico. Ou seja, trata-se de um estudo determinado por um problema. Várias são as razões para determinar uma pesquisa, podendo dividi-las em dois grandes grupos: os de razões intelectuais e os de razões práticas. A pesquisa é um inquérito ou exame cuidadoso para descobrir novas informações ou relações, possibilitando ampliar e verificar o conhecimento existente. É requerida quando não se dispõe de informação suficiente para responder ao problema ou quando a informação disponível está em estado de desordem, que não pode ser adequadamente relacionada ao problema. A pesquisa é importante pelo fato de proporcionar respostas significativas à solução dos problemas de ordem prática que são propostos. É usual falar em pesquisa mencionando-a como simples coleta de dados. No entanto, a pesquisa científica pode ser entendida como forma de observar, verificar e explanar fatos para os quais o homem necessita ampliar a compreensão que já possui a respeito dos mesmos. A pesquisa supõe curiosidade, criatividade, interrogação, superação da aparência, opção teórica, entre outras coisas. A ação de se propor um projeto de conhecimento e empreender as atividades que conduzam a esse conhecimento é que recebe, comumente, o nome de pesquisa, termo que é empregado para designar, também, o resultado final do processo, isto é, a investigação pronta e verbalmente comunicada. Fazer pesquisa é, portanto, fazer ciência, ou, em outras palavras, dispor-se a conhecer cientificamente, com investigações mais profundas, alguma coisa e efetivar tal intenção. Possui dois princípios gerais, válidos na investigação científica, que podem ser assim sintetizados: a relação entre subjetividade e objetividade e sistematização de informações fragmentadas. Indica, ainda, princípios particulares, aqueles que são válidos para a pesquisa, em determinado campo do conhecimento, e os que dependem da natureza especial do objeto da ciência em pauta. Assim, a pesquisa é um procedimento formal, com método de pensamento reflexivo, que requer um tratamento científico, e se constitui no caminho para se conhecer a realidade ou para se descobrir verdades. Para Gatti (1998), o grande objetivo da pesquisa tem sido responder aos problemas emergentes ao conhecimento humano, compreendendo-os e situando-os e, preferencialmente, UNIDADE 2 TÓPICO 4 137 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L identificando e formulando possíveis soluções aos problemas que ainda estão por vir, antecipando desta forma respostas para solucioná-los ou minimizá-los. O que pressupõe política de fomento dos órgãos que estimulam e apoiam pesquisas, constância e continuidade no trabalho, e pesquisadores dedicados a temas preferenciais por períodos longos, caracterizando uma certa especificidade em sua contribuição ao conhecimento científico. O problema abordado pela pesquisa qualitativa apresenta-se como um obstáculo, percebido parcialmente e de forma fragmentada pelos sujeitos envolvidos – pesquisador e pesquisado, através de uma análise assistemática. A partir de uma imersão do pesquisador na vida e no contexto e circunstância em que o problema surge e se desdobra, este vai se definindo e sendo delimitado, o que requer, do pesquisador “[...] contatos duradouros com os informantes que conhecem esse objeto e emitem juízos sobre ele” (CHIZZOTTI, 1991, p. 81). Enunciar problemas requer experiência e maturação perante uma temática. O problema se configura como uma questão que não tem uma resposta plausível imediata ou evidente, assim sendo, necessita-sede esforços es- pecíficos, metódicos, na obtenção de respostas. Desta forma, o início de um procedimento investigativo parte de um problema adequadamente formulado, cientificamente exequível, pela via dos procedimentos eleitos, coerente com a natureza da abordagem pretendida e disposto em uma perspectiva de análise (GATTI, 2002, p. 57). Os dados coletados, obtidos nessas pesquisas, são colhidos em situações onde os sujeitos da pesquisa transitam e constroem sua vida – onde os modos de vida, as culturas, as experiências eclodem. Neste processo, os registros dos dados são analisados, geralmente, por um processo indutivo (raciocínio em que de fatos particulares se tira uma conclusão genérica), rico em descrições de pessoas, situações, acontecimentos, incluindo transcrições de entrevistas e de depoimentos, fotografias, desenhos e extratos de vários tipos de documentos. Os dados qualitativos expressam descrições minuciosas de situações, acontecimentos, sujeitos, experiências, atitudes, crenças e pensamentos; e podem contar com fragmentos ou passagens completas de documentos, correspondência, registros. O pesquisador mantém um contato estreito e direto com a situação onde os fenômenos ocorrem. Ao considerar os diferentes pontos de vista dos indivíduos, os estudos qualitativos possibilitam iluminar o dinamismo interno das situações, geralmente inacessível ao observador externo. Os significados impressos pelas pessoas às coisas e à sua vida devem ser focos de atenção do pesquisador, o qual precisa de acuidade com suas percepções, ao revelar os pontos de vista dos indivíduos, suas experiências e cultura, compreendendo-os não apenas no campo do pensamento, mas enquanto um sentimento materializado no âmbito prático do cotidiano. Deve, por isso, encontrar meios de checá-los, discutindo-os abertamente com os partícipes do processo de pesquisa ou confrontando-os com outros pesquisadores para que possam ser ou não confirmados. UNIDADE 2TÓPICO 4138 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Assim, busca-se romper com padrões predeterminados de pesquisa e propõe-se a investigação da condição de vida dos indivíduos, os desafios que lhes são impostos cotidianamente, considerando os aspectos políticos que perpassam por esta construção humana e social – incluindo não apenas as relações econômicas de seus sujeitos, mas as experiências, hábitos, tradições, maneira de viver ou resistir às transformações em suas lutas diárias, permitindo que se avalie a maneira como essas experiências são elaboradas em termos culturais. Assim, [...] a história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de ‘agoras’” (BENJAMIN, 1994, p. 229). Neste fazer, privilegia-se a concepção de que os homens fazem sua própria história – e, consequentemente, a sabem contar muito bem! – enfatizando a transmissão pela oralidade, seja através das canções, cantos populares, poesias, como também pinturas, fotografias, festas e outros acontecimentos comemorativos, denotando, nos meandros das escolhas e significados, o caráter político da vida (FENELON, 1995). Como toda ação humana, o fazer pesquisa qualitativa não exclui dos sujeitos da pesquisa – pesquisador e pesquisado – o caráter político de suas atividades, pois não existe neutralidade política. Ao contrário, o fazer pesquisa qualitativa é um exercício político, encharcado de intencionalidades. Segundo Martinelli (1994), ao produzirmos o desenho da pesquisa e ao elegermos os prováveis sujeitos que dela participarão, temos como referência um projeto político singular, que se conecta a projetos mais amplos, e que pode estar referido ao projeto de sociedade que defendemos. Neste sentido, o contato direto com o sujeito da pesquisa é condição sine qua non para captar a percepção que ele detém sobre sua vida e os aspectos sociais que a engendram; bem como para não desconectá-lo de sua estrutura, “[...] buscando entender os fatos, a partir da interpretação que faz dos mesmos em sua vivência cotidiana” (MARTINELLI, 1994, p. 14). O resultado das ‘falas’ e observações feitas pelo pesquisador não pode ser produto de um sujeito postado fora das significações que os indivíduos atribuem aos seus atos; mas deve expressar o desvelamento do sentido social que os indivíduos constroem em suas interações cotidianas (CHIZZOTTI, 1991). O exercício de pesquisa pela via qualitativa, para Martinelli (1994), subentende alguns pressupostos. Primeiramente, o reconhecimento da singularidade do sujeito que se expressa e, como consequência, o segundo pressuposto trata da importância em conhecer a experiência social do sujeito e não apenas a sua circunstância de vida – a qual se expressa, por exemplo, pelas condições materiais, diferentemente do que é dado pelo modo de vida, que expressa a forma como é ela engendrada a partir, principalmente, da inserção em uma dimensão cultural. O que conduz ao terceiro pressuposto: o conhecimento da experiência social do sujeito, a qual deve ser apreendida pelo pesquisador, valendo-se das metodologias compreensivas, para conhecer os significados atribuídos pelo sujeito à sua trajetória de vida. UNIDADE 2 TÓPICO 4 139 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L A pesquisa qualitativa surge contrapondo-se à forma positivista de conhecer e produzir conhecimentos – reconhecidos como objetivos e científicos e que buscam, nos fenômenos em estudo, as leis de causa e efeito ou relações funcionais deterministas – para o âmbito das ciências humano-sociais. Advoga a pesquisa compreensiva, que o cenário humano-social é constituído pela complexidade, por contradições existentes nos fenômenos e permeado pela imprevisibilidade e originalidade das relações interpessoais e sociais, necessitando de uma especificidade epistemológica e, consequentemente, metodológica ao fazer ciência. No entanto, ao contrapor- se ao modelo de estudos pautado pelas ciências físicas e naturais, apropriado pelo campo das ciências humano-sociais, é necessário conhecer, minimamente, sua origem e desdobramentos. Para rematar, recorre-se às palavras de Gatti (2002, p. 47): “Tudo isso corresponde a uma construção histórica, que se mostrou possível e talvez até necessária em certo contexto da civilização ocidental”. [...] FONTE: Disponível em: <http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/katalysis/article/view/1133/3913>. Acesso em: 9 fev. 2011. UNIDADE 2TÓPICO 4140 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Neste tópico você pôde observar que: ● O mundo acadêmico deve, sim, favorecer a formação de seres críticos e participativos, conscientes de seu papel nas mudanças sociais. ● Saber pesquisar e selecionar as informações para, a partir delas e da experiência, construir o conhecimento, tornou-se uma real necessidade da atual sociedade. ● São diferentes as experiências que visam implementar o espírito científico com os sujeitos, desde a formação em etapas iniciais na educação. Uma destas experiências, com o intuito de formar pesquisadores, têm sido as feiras de ciências. ● Os projetos de pesquisa visam diretamente o planejamento, desenvolvimento, avaliação e divulgação de pesquisas de natureza científica no âmbito acadêmico. ● Não se deve confundir a pesquisa com a simples coleta de dados ou enquete de opiniões. ● Toda pesquisa deve circunscrever um problema central e a ele dar tratamento ao longo do trabalho. ● Os Núcleos Temáticos constituem-se instâncias pedagógicas que integram ensino, pesquisa e extensão. ● Constituem-se objetivo dos Núcleos Temáticos de Pesquisa e Prática a apreensão e antecipação da compreensão de demandas no campo do conhecimento, assim como da ação profissional. ● A pesquisa curricular discente deve neles se integrar como subprojetos de pesquisas em andamento e/ou responder a demandas do trabalho profissional nele circunscrito. RESUMO DO TÓPICO 4 UNIDADE 2 TÓPICO 4 141 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L 1Destaque as principais experiências que têm contribuído para a formação do pesquisador no mundo acadêmico. 2 Demo (2000) afirma que não se deve confundir a pesquisa com a simples coleta de dados ou enquete de opiniões. Explique esta afirmação. 3 Qual a importância dos Núcleos de Pesquisa e Extensão para a pesquisa no Serviço Social? AUT OAT IVID ADE � UNIDADE 2TÓPICO 4142 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L ELEMENTOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 1 INTRODUÇÃO 2 O PROJETO DE PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL TÓPICO 5 UNIDADE 2 Neste tópico apresentaremos, inicialmente, a importância e o significado do projeto de pesquisa no Serviço Social. Destacaremos, sumariamente, os elementos que fazem parte do projeto de pesquisa. Apresentaremos também como se dá a coleta de dados, destacando alguns dos principais instrumentos para esta prática. Por fim, teceremos sumárias considerações sobre as formas de se mensurar e apresentar os resultados da pesquisa advinda da prática realizada. São diferentes as áreas do conhecimento que fazem uso da pesquisa. Para a sistematização do estudo, propõe-se a elaboração de um Projeto de Pesquisa. Compreende-se que o projeto de pesquisa é o meio básico para a elaboração teórica, metodológica, instrumental e da proposição de agentes humanos para o desenvolvimento e avaliação da pesquisa. Constitui-se ainda na forma fundamental para explicitar os materiais e os métodos a serem empregados durante o processo de investigação e os resultados a serem alcançados ao final de um período de trabalho. FONTE: Adaptado de: <http://www.unemat.br/prppg/docs/Roteiro_pp.pdf>. Acesso em: 9 fev. 2011. Segundo Neto (2001), a elaboração do projeto de pesquisa consiste num passo importante na vida do pesquisador, pois “este se esforça para elencar um problema da realidade a ser estudado. Este momento é desafiante, já que a produção acadêmica é algo que exige tempo, curiosidade epistemológica, organização pessoal e método” (NETO, 2001, [s./p.]). UNIDADE 2TÓPICO 5144 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L O trabalho científico exige tanto uma concepção de mundo e de ciência como um recorte da realidade concreta e particular. Dessa forma, é necessário ter uma previsão de como será realizada a pesquisa, indicando “o que pesquisar, a sua relevância, as formas de execução e os custos materiais, financeiros e as exigências temporais” (NETO, 2001, p. 8). No Serviço Social, o Projeto de Pesquisa consiste num caminho que vai orientar o pesquisador ou grupos de pesquisa durante a investigação. Consiste no “planejamento de uma pesquisa, ou seja, é ele que vai esclarecer os rumos da pesquisa, evitando assim muitos imprevistos que poderiam até mesmo impedir a sua realização.” (NETO, 2001, p. 9). Com base nestas considerações, tem-se que um Projeto de Pesquisa sempre deve esclarecer sobre os elementos que irão compor a investigação; precisa ser bem planejado, para que possa orientar sobre os caminhos a percorrer. FONTE: Disponível em: <http://www.iapar.br/arquivos/Image/ciencia_e_ tecnlogia.jpg>. Acesso em: 9 fev. 2011. AUT OAT IVID ADE � O que é um projeto de pesquisa? São vários os motivos que levam à elaboração de um projeto de pesquisa, os quais incidem em importância significativa para o Serviço Social. Dentre eles, reporta-se a Neto (2001), para sumários esclarecimentos: ● O projeto organiza as ideias e formas de estruturação do trabalho segundo as percepções, interesses, anseios e competências dos membros envolvidos. ● Ele constitui um dos elementos de ligação interna do grupo e de relaciona- FIGURA 32 – PROJETO DE PESQUISA UNIDADE 2 TÓPICO 5 145 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L mento do grupo com a comunidade (divulgação). ● Ele fornece elementos para nortear a execução e avaliação do trabalho dentro de critérios estabelecidos pelo grupo, autonomamente ou não. ● É, sobretudo, um guia de todo o trabalho, embora não necessariamente as etapas previstas tenham de ser cumpridas de modo rígido, linear e sequen- cialmente; ou seja, é um guia de trabalho individual ou coletivo e não somente um indicativo para o grupo (NETO, 2001, [s./p.]). No Serviço Social, assim como em outras áreas do conhecimento, pode-se definir o projeto de pesquisa como respeitando elementos que fazem referência a: ● Ter ou conceber um problema. ● Refletir sobre ele. ● Formular possíveis soluções. ● Estabelecer as mais plausíveis. ● Delinear um projeto e implementá-lo. ● Avaliar seus resultados e ● Divulgar os novos conhecimentos alcançados. Ressalta-se que antes de se iniciar a elaboração de um Projeto de Pesquisa, no Serviço Social, deve-se ter claro o tema ou o assunto de estudo, assim como a problemática geradora da necessidade de se realizar o trabalho. Deve-se ter ciência também, segundo Neto (2001), sobre o estágio atual dos estudos referentes a ele. Assim sendo, no Projeto de Pesquisa devem aparecer três polos relacionados ao processo de construção do conhecimento: o epistemológico, o teórico e o metodológico. Com base em Neto (2001), explica-se cada um deles, a seguir: ● Epistemológico: se caracteriza pela atitude problematizadora, ou seja, realiza a crítica e discute o caminho percorrido pela ciência no que tange àquilo que o pesquisador deseja aprofundar em termos de conhecimentos e que fundamenta a pesquisa para que possa avançar na explicitação do objeto de estudo e da relação deste com os sujeitos que estão envolvidos na investigação. ● Teórico: referente aos estudos já desenvolvidos por diferentes autores sobre o tema, bem como o estágio atual das pesquisas. ● Metodológico: se refere aos caminhos e às técnicas que o pesquisador deve percorrer para realizar a pesquisa. UNIDADE 2TÓPICO 5146 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Ressalta-se que estes polos estão imbricados, ou seja, não se pode separá-los. Ao contrário, no projeto de pesquisa e nos resultados alcançados, estes polos se aproximam, o que faz com que o conhecimento seja produzido e avance cada vez mais. O Projeto de Pesquisa, no Serviço Social, deve oferecer respostas do tipo: ● O que pesquisar? (Definição do problema) ● Por que pesquisar? (Justificativa) ● Para que pesquisar? (Objetivos) ● Como pesquisar? (Metodologia) ● Quando pesquisar? (Cronograma) ● Com que recursos? (Orçamento) ● Pesquisado por quem? (Pesquisadores) Seguindo estes princípios básicos se terá base para o início da elaboração do projeto de pesquisa, o qual servirá de base de estudos para a busca de soluções das diferentes problemáticas identificadas. NO TA! � Vale relembrar que um projeto de pesquisa não necessita ter um grande volume de páginas. A concisão na apresentação das ideias já é uma boa evidência de um planejamento adequado. O projeto não precisa ter uma capa ou folha de rosto, pode ser escrito como um texto único e sequencial, obviamente destacando os títulos e subtítulos dos diferentes itens apresentados. O importante é que seja uma proposta clara e coerente. FONTE: Disponível em: <http://www.ufrgs.br/bioetica/projeto. htm>. Acesso em: 9 fev. 2011. 3 ELEMENTOS DO PROJETO DE PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL Um projeto de pesquisa, no Serviço Social, deve apresentar características fundamentais. Algumas delas são citadas por Neto (2001), e seriam: ● apresentar um tema bem delimitado e claramente definido, articulando a UNIDADE 2 TÓPICO 5 147 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L fundamentação teórica com a pesquisa empírica; ● oferecer argumentos sólidos, livres de vieses; neste sentido, sugere-se que se eliminem todas as explicações ou afirmações que não sejam consequências de uma argumentação objetiva e clara; ● ter coerência lógica interna; ● apresentar um referencial teórico adequado e atualizado, com base em revisão bibliográfica, considerando o estado de arte em que se encontram as pesquisas e as críticase avaliações existentes sobre o tema proposto; ● apresentar elementos para justificar a relevância científica, social, episte- mológica e tecnológica do projeto e a necessidade de apoio solicitado (se for o caso) (NETO, 2001, [s./p.]). Para atender a estas características elencadas, ao se definir um projeto de pesquisa torna-se fundamental: ● determinar com precisão o que será estudado, ou seja, delimitar e configurar o problema de estudo; ● demonstrar com clareza os objetivos a serem alcançados, isto é, onde o projeto pretende chegar; ● delimitar o campo de observação, contextualizando o problema a ser investigado; ● eliminar critérios arbitrários ou viesados, apresentando os argumentos com grande lucidez; ● converter os problemas em operações práticas, para possibilitar uma análise consistente, bem como, facilitar a verificação das hipóteses e/ou da problemática investigada; ● realizar uma profunda revisão bibliográfica e selecionar o material que se utilizará como referência; ● explicitar as atividades a serem desenvolvidas pelos/as pesquisadores/as, associando-as a um cronograma de execução. FONTE: Disponível em: <http://www.unemat.br/prppg/docs/Roteiro_pp.pdf >. Acesso em: 9 fev. 2011. UNIDADE 2TÓPICO 5148 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L FONTE: Disponível em: <http://api.ning.com/files/BJz7BvuQ5yt- TUkOkY1TvMWCM1DTbRBBB2Poz5CC8AG0_/li8vro2. jpg>. Acesso em: 9 fev. 2011. Quanto ao roteiro de um projeto de pesquisa, compreende-se que as etapas ou a estrutura do texto do projeto podem ser variadas. Estes variam conforme: ● a área de pesquisa; ● com os autores no campo da metodologia científica; ● com as agências ou instituições acadêmicas; ● com as convicções e características peculiares de pesquisadores ou grupos de pesquisa. (NETO, 2001, p. 10). Na Unidade 3 deste Caderno de Estudos apresentaremos o roteiro de Projeto de Pesquisa, com base em diferentes modelos socializados por autores no Serviço Social. NO TA! � A adequada citação do material bibliográfico utilizado é um dos pressupostos éticos da produção científica. As Referências permitem ao leitor do projeto verificar as fontes de informações usadas na elaboração do projeto, permitindo recuperar e confrontar dados. Independentemente do padrão de referência utilizado, o importante é que elas sejam apresentadas de forma completa e uniforme. O padrão Vancouver é o mais utilizado atualmente. As Referências devem ser lidas criticamente, devem ter confiabilidade e devem ser adequadamente documentadas. Um cuidado especial deve ser tomado com relação a fontes eletrônicas, especialmente as provenientes da Internet. Todas elas devem ser referidas com a data da consulta e impressas para documentação, pois são feitas muitas modificações neste tipo de meio. FONTE: Disponível em: <http://www.ufrgs.br/bioetica/projeto. htm>. Acesso em: 9 fev. 2011. FIGURA 33 – PROJETO DE PESQUISA UNIDADE 2 TÓPICO 5 149 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L 4 A COLETA DE DADOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL A coleta de dados das pesquisas, no Serviço Social, consiste na necessidade de selecionar os instrumentos adequados a serem utilizados para tal. Deve-se definir uma série de normas sobre os instrumentais a serem utilizados no registro de mensuração de dados, para que estes tenham validez e confiabilidade. Uma pergunta pertinente na coleta de dados seria: Quais seriam os meios mais eficazes para registrar e mensurar os fenômenos? Considera-se que um meio é eficaz quando tenha um alto grau de confiabilidade e assegura que os dados sejam os mais próximos da realidade estudada. A confiabilidade é uma condição necessária, porém, não suficiente. Os resultados só serão possíveis se os instrumentos de coleta de dados forem confiáveis. Para melhor operacionalizar a pesquisa no Serviço Social, o acadêmico deve ter a clareza de que: a) Deve ter a clareza sobre os objetivos e propósitos da pesquisa. b) Deve trabalhar as hipóteses relacionando as variáveis e categorias de análise a serem estudadas. c) Com base nas variáveis, deve-se definir o que se pretende mensurar, através de seus componentes (BARROS; LEHFELD, 2003). Por fim, para selecionar um instrumento de medição, deve-se relacionar o instrumental técnico que o pesquisador conheça, e sabe operacionalizar, com o que se pretende medir. Ressalta-se que no caso da pesquisa de abordagem metodológica qualitativa, cotidianamente utilizada no Serviço Social, existe um processo contínuo de construção dos instrumentais para a realização da coleta de dados. Passa-se a destacar alguns deles, que consistem em importantes elementos para as técnicas de coleta de dados. a) Questionário e formulário O questionário e o formulário são instrumentos muito utilizados para o levantamento de informações. Diferenciam-se apenas no que se refere à forma de aplicação. O questionário é preenchido pelo próprio entrevistado, e o formulário é preenchido indiretamente, isto é, pelo UNIDADE 2TÓPICO 5150 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L entrevistador. Ao se elaborar o questionário se deve ter a preocupação de determinar o tamanho, o conteúdo, a organização e a clareza da apresentação das questões, a fim de estimular o informante a responder. Barros & Lehfeld (2003, p. 55) ressaltam também que o pesquisador deve ter uma preocupação constante quanto à maneira pela qual as questões do questionário serão redigidas. “Da redação e da formatação das perguntas, segundo os autores, depende em grande parte o sucesso da pesquisa”. O questionário apresenta, como todo instrumento de pesquisa, suas vantagens e limitações. Estas seriam: ● Vantagem: a vantagem maior diz respeito à possibilidade de se abranger um grande número de pessoas. É um instrumento muito útil para certas pesquisas em que se procuram informações sobre pessoas que estão geograficamente dispersas. Outro fator que pode colaborar para a escolha pela aplicação de questionários diz respeito ao custo. O questionário custa menos para o pesquisador do que as entrevistas. ● Limitações: destaca-se que nem todos os grupos respondem bem aos questionários. Também não pode ser aplicado indiscriminadamente a muitas pessoas de classes sociais e categorias diferenciadas, porque não conseguirá, provavelmente, abranger questões que sejam bem compreendidas por todos. FONTE: Barros; Lehfeld (2003, p. 19) A apresentação do questionário deve ser a melhor possível. Deve-se preocupar com o tipo de letra, disposição das questões e o papel. Ressalta-se que o questionário se apresenta sozinho, não exigindo a habilidade presente dos entrevistadores. FONTE: Disponível em: <http://cgoncalves.com/wp-content/ uploads/2010/10/questionario.jpg>. Acesso em: 9 fev. 2011. FIGURA 34 – QUESTIONÁRIO OU FORMULÁRIO UNIDADE 2 TÓPICO 5 151 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L b) Observação A observação consiste numa das técnicas de coleta de dados imprescindível em toda a pesquisa científica. Observar significa aplicar atentamente os sentidos a um objeto para dele adquirir um conhecimento claro e preciso (BARROS; LEHFELD, 2003). É da observação do cotidiano que se formulam os problemas que merecem estudo. A observação, então, constitui-se na base das investigações científicas. Na medida em que a observação sofre uma sistematização, planejamento e for submetida a controles de objetividade, ela pode ser considerada uma técnica científica. Considera-se que a observação é uma técnica que sempre auxilia o pesquisador em suas pesquisas. O pesquisador iniciante pode ir aos poucos observando e registrando os fenômenos que aparecem na realidade. Posteriormente, recomenda-se que o observador se prepare adequadamente, com cuidados especiais para cada estudo realizado. A maior vantagem do uso da observação em pesquisa, segundo Barros E Lehfeld, (2003, p. 41), está relacionada “à possibilidade de se obter a informação na ocorrência espontânea do fato”.Para alguns pesquisadores, com destaque nas pesquisas desenvolvidas no Serviço Social, a observação é considerada como um recurso fundamental para a realização das suas pesquisas. c) Entrevista A entrevista consiste em uma técnica que permite o relacionamento entre entrevistado e entrevistador. Elas podem ser classificadas em estruturadas e não estruturadas. ● Entrevistas Estruturadas: são aquelas que trazem as questões previamente formuladas. Nesta, o entrevistador estabelece um roteiro prévio de perguntas; não há liberdade de alteração dos tópicos e nem se faz a inclusão de questões frente às situações. ● Entrevistas não estruturadas: o pesquisador, através do estabelecimento de uma conversa amigável com o entrevistado, busca levantar dados que possam ser utilizados em análise quantitativa e qualitativa, selecionando-se os aspectos mais relevantes de um problema de pesquisa. FONTE: Disponível em: <http://www.eadcon.com.br/Eadcon/download/Apostilas2010_01/FL.PEDA_ Pesq_Prat_Pedag_II.pdf>. Acesso em: 9 fev. 2011. UNIDADE 2TÓPICO 5152 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Observa-se que ambas as entrevistas são muito utilizadas nas pesquisas no Serviço Social. A escolha se dará de acordo com a finalidade que se tem com a pesquisa. FONTE: Disponível em: <http://4.bp.blogspot.com/_ApSS4_1adcQ/S_ VSiPLEiAI/AAAAAAAAAM0/Nx7H3ah7Gtc/s1600/entrevista_ de_trabajo1.jpg>. Acesso em: 9 fev. 2011. d) História de vida No Serviço Social, quando se tem a preocupação de obter dados relativos à linha histórica de vida de pessoas envolvidas em situações e fenômenos pesquisados, faz-se uso, na maioria das vezes, da técnica de história de vida. Segundo Barros e Lehfeld (2003, p. 64), por meio desta técnica, acadêmicos do Serviço Social “procuram levantar as opiniões e reações dos entrevistados acerca da história das suas vidas”. Nas entrevistas, o pesquisador procura deixar que o pesquisado, livremente, reconstrua a sua vida até os dias atuais. Neste relato, busca ressaltar os atos e/ou aspectos que mais interessam para a pesquisa. A técnica da história de vida tem se mostrado de suma importância para a pesquisa no Serviço Social. e) Estudo de caso No Serviço Social, o estudo de caso caracteriza-se como uma metodologia de estudo que se volta à coleta de informações sobre um ou vários casos particularizados. É também considerada como uma metodologia qualitativa de estudo, pois não está direcionada a se obter generalizações de estudo e nem há preocupação fundamental com o tratamento estatístico e de quantificações dos dados em termos de representação e/ou de índices. FONTE: Adaptado de: <www.valentim.pro.br/Slides/Metodologia/Estudo_de_Caso.ppt >. Acesso em: 9 fev. 2011. FIGURA 35 – ENTREVISTA UNIDADE 2 TÓPICO 5 153 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L E mais... segundo Barros e Lehfeld (2003, p. 54), pode-se realizar um estudo de caso tipificando “um indivíduo, uma comunidade, uma organização, uma empresa, um bairro comercial, uma cultura, dentre outros”. f) Grupo Focal O Grupo Focal, ou também chamado grupo de foco, é considerado um instrumento muito útil para a obtenção de opinião e atitudes a respeito de políticas, serviços, instituições, produtos, dentre outros. São, basicamente, grupos de natureza qualitativa e intencionalmente formados. A montagem dos grupos focais exige um processo de planejamento que levante as principais características dos participantes com potencial, o número apropriado dos grupos e de elementos para compô-lo. Deve-se também escolher o melhor local, horários e dias para a realização das sessões. A decisão do pesquisador quanto ao número de grupos focais a serem realizados dependerá da natureza da pesquisa. Existe uma noção aceita de que são necessários pelo menos dois grupos para que o pesquisador possa comparar as observações feitas e os dados obtidos. FONTE: Adaptado de: <http://www.visionvox.com.br/biblioteca/p/projeto-de-pesquisa.txt>. Acesso em: 9 fev. 2011. Por fim, é papel do pesquisador agir como moderador do grupo, conduzindo as reuniões, não deixando que o grupo perca o foco de análise e de discussões. Introduz a temática para a discussão e vai estimulando a reflexão e explanação. Ao final, a pesquisa resume as opiniões expressas e busca o consenso sobre a síntese apresentada (BARROS; LEHFELD, 2003). FIGURA 36 – GRUPO FOCAL FONTE: Disponível em: <http://www.stickel.com.br/atc/uploads/focal.jpg>. Acesso em: 9 fev. 2011. UNIDADE 2TÓPICO 5154 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Um elemento importante a se considerar, segundo Barros e Lehfeld (2003, p. 65), é que, “muitas vezes, as ações não transcorrem como se planeja”. Conforme for implementado o projeto, há necessidade frequente de avaliações e replanejamento. É preciso constantemente refletir sobre cada passo dado, sobre cada resultado obtido. Refletir sobre a prática, replanejar, retomar o trabalho e assim sucessivamente. AUT OAT IVID ADE � Destaque um dos instrumentos de coleta de dados e elenque suas principais características. 5 MENSURANDO OS RESULTADOS DA PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL 5.1 ANALISANDO OS DADOS Tendo em mãos os dados coletados, o pesquisador sabe que deverá colocar toda a sua atenção para a organização, leitura e análise dos dados. Analisar significa buscar sentido mais explicativo dos resultados da pesquisa. Significa ler através dos índices, dos percentuais, da falas dos pesquisados, a leitura e decomposição de depoimentos obtidos em pesquisas, com ênfase nas pesquisas. FONTE: Adaptado de: <comp.unicruz.edu.br/~mcadori/Metodologia%20Cientifica/.../Aula%2014.doc>. Acesso em: 9 fev. 2011. A interpretação está ligada à análise. Esta pode ser qualitativa, quantitativa e quanti- qualitativa. A interpretação seria a capacidade de se voltar à síntese sobre os dados, entendendo- os em relação a um todo maior, e em relação a outros estudos já realizados na mesma área. São processos que se complementam e acontecem como síntese, numa totalidade (BARROS; LEHFELD, 2003). O objetivo desta fase consiste em sumariar, classificar e codificar as observações feitas e os dados obtidos. O pesquisador deve, em seu planejamento, explicar as principais operações a serem desenvolvidas para confrontar seus dados com os objetivos e questões propostas para o estudo. UNIDADE 2 TÓPICO 5 155 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L 5.2 ELABORANDO O RELATÓRIO DA PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL Ao iniciar a redação do relatório de um projeto de pesquisa, o pesquisador social deve sentir-se gratificado por ter conseguido chegar ao término de um processo que na maioria das vezes foi trabalhoso, permeado por dificuldades. Significa o ápice de um trabalho científico realizado, como pode também representar o surgimento de novos projetos de pesquisa, a partir de questionamentos não concluídos ou da descoberta de aspectos relevantes no estudo da problemática. A preocupação desta fase será a de poder deixar registrado todo o caminho percorrido durante a pesquisa, especificando os elementos que possam ser importantes para a análise posterior do estudo realizado. Tal preocupação deve estar presente, quer se trate de relatório científico original; um trabalho-síntese sobre determinado assunto; uma dissertação ou tese de pós-graduação. Cada um destes itens se explica a seguir, com base em Barros e Lehfeld, (2003): a) Relatório científico original: consiste de pesquisas, experiências de demonstrações realizadas pela primeira vez. Trata-se de trabalhos inéditos e que contribuem para o progresso do conhecimento científico. b) Síntese e resumo de assunto: este tipo de pesquisa é efetuado em grande escala em nível acadêmico, onde o estudante não tem o objetivo ou as condições técnicas e intelectuais Por sua vez, para poder chegar à analise é necessário que os dados passem por um processo de organização baseado numa leitura prévia. A fase da análise dos dados consiste num momento muitoimportante de todas as pesquisas, pois é nela que se buscarão as respostas pretendidas, através da utilização de raciocínios indutivos, dedutivos, comparativos, dentre outros. Esse processo de interpretação dos dados subentende ainda a construção anterior das categorias analíticas dos estudos e o desenho do quadro referencial. Em muitas pesquisas no Serviço Social, a forma da condução na análise dos dados é delineada antes da fase da coleta de dados, orientando a sua execução. O êxito da análise de dados dependerá, indiscutivelmente, do próprio pesquisador, do nível de seu conhecimento, da sua imaginação, de seu bom-senso e de sua bagagem teórico- prática, capacidade de argumentação e de elaboração propriamente ditas. UNIDADE 2TÓPICO 5156 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L adequadamente prontas para a realização de um empreendimento original. c) Dissertação ou tese de pós-graduação: ela é elaborada com base numa pesquisa bibliográfica e/ou campo destinado a promover a aquisição de novos conhecimentos. Toda dissertação e tese são ainda consideradas como atividades de elaboração acadêmico científica necessárias à obtenção de título de mestrado e doutorado em programas de pós-graduação. Ressalta-se que alguns aspectos devem ser observados na elaboração de um relatório, tais como: - uso adequado da linguagem e da gramática; - assimilação e uso correto de vocabulário técnico-científico e estilo. Por fim, os relatórios de pesquisa devem demonstrar o desempenho do pesquisador durante o processo investigatório, seus avanços e recuos. Não devem ser confundidos com o memorial, que são relatórios ou documentos que apresentam análise e reflexões do pesquisador sobre a sua própria trajetória pessoal e de formação acadêmico-científica. Os relatórios técnicos de pesquisa, sejam eles parciais ou finais, não necessitam ser defendidos, mas sim socializados, no sentido de tornar públicos os resultados alcançados com o estudo. FONTE: Adaptado de: <http://www.visionvox.com.br/biblioteca/p/projeto-de-pesquisa.txt>. Acesso em: 9 fev. 2011. Encerra-se este tópico com considerações pertinentes citadas por Lorenzato & Fiorentini (1999), as quais fazem referência à prática da pesquisa no Serviço Social, que seriam: ● o conhecimento está sempre comprometido com sua realidade histórica; ● a pesquisa traz consigo, inevitavelmente, uma carga de valores; ● é impossível separar-se o sujeito da pesquisa, o pesquisador e o objeto de estudo; ● todo ato de pesquisa é um ato político; ● fatos e dados não se revelam gratuita e diretamente aos olhos do pesquisador; ● todo pesquisador possui seus princípios e pressuposições que o colocam longe da neutralidade científica. UNIDADE 2 TÓPICO 5 157 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Tais princípios direcionam e contribuem para que os resultados dos estudos, conforme planejados, sejam, então, devidamente alcançados. Na próxima Unidade chegou o momento de você, acadêmico(a), exercitar a elaboração de um projeto de pesquisa. Todo o conteúdo trabalhado até aqui será fundamental. Dessa forma, retome-o atentamente. Bons estudos e até lá. FONTE: Disponível em: <http://2.bp.blogspot.com/_s2g6SrLlfMM/ SXJq16pScPI/AAAAAAAAAIA/vsegH-hvdwg/s400/relatorio. jpg>. Acesso em: 9 fev. 2011. LEITURA COMPLEMENTAR SOBRE O MÉTODO DA HISTÓRIA ORAL EM SUA MODALIDADE TRAJETÓRIAS DE VIDA Rita de Cássia Gonçalves Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Teresa Kleba Lisboa Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) [...] Acerca dos pressupostos da pesquisa qualitativa A pesquisa qualitativa tem sido resgatada nas ciências sociais por se considerar que ela abarca uma relação inseparável entre o pensamento e a base material, entre a ação de homens e mulheres enquanto sujeitos históricos e as determinações que os condicionam, entre o mundo objetivo e a subjetividade dos sujeitos pesquisados. Esta forma de abordagem tem FIGURA 37 – RELATÓRIO FINAL UNIDADE 2TÓPICO 5158 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L sido valorizada, uma vez que trabalha com o universo de significados, representações, crenças, valores, atitudes, aprofundando um lado não perceptível das relações sociais e permitindo a compreensão da realidade humana vivida socialmente. A tradição de pesquisa na sociologia a partir do Iluminismo foi fortemente centrada na neutralidade e objetividade científica, no distanciamento do pesquisador e numa relação impessoal. A partir da filosofia kantiana, a relação entre sujeito e objeto começa a ser enfatizada nas ciências sociais, e a pesquisa em si, apesar de ter como fim básico a produção de conhecimento, passa a ser enfocada, acima de tudo, como uma relação entre sujeitos. Por isso, as metodologias qualitativas trazem uma contribuição significativa tanto para o Serviço Social como para as ciências sociais, pois se revelam particularmente eficazes em áreas exploratórias, especialmente em campos temáticos, onde inexistem fontes de informações acessíveis e organizadas. Também são indispensáveis para compreender fenômenos que se manifestam em longos intervalos de tempo – como o caso de trajetórias de mobilidade social ou mudanças geracionais – ou ainda manifestações sociais que, por sua abrangência, exigem a coleta exaustiva de dados padronizados. Além disso, desempenham importante papel na elaboração de hipóteses e construção de novas teorias (CAMARGO, 1987). Contudo, não pretendemos nos contrapor à pesquisa quantitativa, uma vez que sempre existirão abordagens em que a apreensão do objeto na sua totalidade levará o pesquisador a assumir a sobreposição dos dois enfoques, como bem ressaltado por Minayo (1996, p. 22): “o conjunto de dados quantitativos e qualitativos não se opõem. Ao contrário, se complementam, pois a realidade abrangida por eles interage dinamicamente, excluindo qualquer dicotomia”. A contribuição da pesquisa qualitativa, que é o enfoque deste artigo, estende-se desde as fronteiras da antropologia e da etnografia, passando pela etnometodologia, a hermenêutica e diversas modalidades de estruturalismo, até as análises históricas comparadas, relatos orais, método biográfico e outras técnicas da história oral. As metodologias qualitativas vêm abrindo novas perspectivas para se pensar novas abordagens teórico-metodológicas que contemplem as duas figuras da modernidade: razão e sujeito (TOURAINE, 1994), bem como para estabelecer uma relação entre os dois pilares da sociedade: ação e estrutura (GIDDENS, 1989). Martinelli (1999) ressalta três pontos que conferem importância à pesquisa qualitativa: o seu caráter inovador, como pesquisa que se insere na busca de significados atribuídos pelos sujeitos às suas experiências sociais; a sua dimensão política que, como construção coletiva, parte da realidade dos sujeitos e a eles retorna de forma crítica e criativa; e, por ser um exercício político, uma construção coletiva, a sua realização pela via da complementaridade, não da exclusão. Além disso, ao contemplar a abordagem qualitativa para o objeto de investigação social, o pesquisador deve considerar que as pessoas envolvidas no processo de pesquisa são “[...] sujeitos de estudo, pessoas em determinadas condições sociais, pertencentes a UNIDADE 2 TÓPICO 5 159 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L determinado grupo social ou classe, com suas crenças, valores e significados” (MINAYO, 1993, p. 22), e que esse objeto apresenta-se em permanente estado de transformação. 2 A história oral como uma proposta de produção de conhecimento em Serviço Social A fonte oral se constitui como base primária para a obtenção de toda a forma de conhecimento, seja ele científico ou não. Para Queiroz (1987), o relato oral tem sido, através dos séculos, a maior fonte humana de conservação e difusão do saber, ou seja, a maior fonte de dados para a ciência em geral; a palavra antecedeu o desenho e a escrita. Esta, quando inventada, não foi mais doque uma cristalização do relato oral. Thompson (1992) também afirma que a história oral é tão antiga quanto a própria História, pois ela foi a primeira espécie de história. Os relatos orais passam a ser valorizados pouco a pouco pelas ciências sociais, na medida em que se percebe que comportamentos, valores, emoções permanecem escondidos nos dados estatísticos. Com o tempo e com o avanço de outras disciplinas, como a linguística, a semiótica e a antropologia, foi reconhecido que o discurso do ator social tem uma lógica própria e estrutura-se como ‘linguagem’, podendo permitir a compreensão de fenômenos sociais que escapam à observação fria e distante do pesquisador (CAMARGO, 1987). Desta forma, optamos em trazer para estudo investigativo o método da história oral, que se apresenta como uma valiosa contribuição para as ciências sociais e para o Serviço Social, fundamentalmente porque as pesquisas com os usuários ou sujeitos que recorrem às instituições sociais têm exigido esse ‘novo olhar’. Em pesquisas desenvolvidas com mulheres trabalhadoras (LISBOA, 2004), com aposentados e aposentadas (GONÇALVES, 2006), com mulheres em situação de violência (LISBOA; PINHEIRO, 2005), moradoras de comunidades de periferia que migraram de áreas rurais para as grandes cidades (LISBOA, 2003), a história oral tem desvendado questões outrora obscuras a partir da investigação da realidade desses sujeitos, das suas ações e relações que se ocultam nas estruturas sociais. Nas áreas urbanas, por exemplo, as trajetórias das famílias de migrantes podem ser tomadas como trilhas de vida no tempo e no espaço, começando com rotinas cotidianas estendendo-se a movimentos migratórios. Da mesma forma, as trajetórias sócio-ocupacionais irão mostrar as rupturas e descontinuidades na carreira profissional de homens e mulheres decorrentes da perda do emprego, de contraírem doenças e das dificuldades de ascensão na escala da mobilidade social; ao mesmo tempo, apontam a multiplicidade de funções assumidas por esses sujeitos múltiplos, que exercem sucessivamente diferentes tipos de ocupações no espaço social. A história oral, enquanto método investigativo, também tem sido utilizada para ressaltar a crescente participação de mulheres na economia informal, valorizando as experiências de UNIDADE 2TÓPICO 5160 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L socioeconomia solidária, os processos de criação de cooperativas e associações – uma área ainda pouco conhecida e um tema pouco pesquisado. Alberti (1990, apud SILVA, 1998, p.118) define história oral como [...] um método de pesquisa (histórica, antropológica, sociológica etc.) que privilegia a realização de entrevistas com pessoas que participam de, ou testemunharam acontecimentos, conjunturas, visões de mundo como forma de se aproximar do objeto de estudo [...] Trata-se de estudar acontecimentos históricos, instituições, grupos sociais, categorias profissionais, movimentos etc., à luz de depoimentos de pessoas que deles participaram ou os testemunharam. Em sua perspectiva, Aspásia Camargo (1994) afirma que a história oral é um instrumento pós-moderno para se entender a realidade contemporânea. Pós-moderno por sua elasticidade, imprevisibilidade e flexibilidade. Para a autora, a história oral é, ao mesmo tempo, uma fonte e uma técnica, mas a grande preocupação é convertê-la em metodologia, aqui entendida como um conjunto de procedimentos articulados entre si, cuja finalidade é obter resultados confiáveis que nos permitam produzir conhecimento. Por outro lado, o método da história oral é claramente multidisciplinar, uma vez que tem permitido a inter-relação entre as disciplinas de Serviço Social, História, Sociologia, Antropologia, Psicologia, Ciências Políticas, Educação, e outras. Esse caráter multidisciplinar tem contribuído para a análise da complexidade socioeconômica e cultural com a qual o trabalhador social se defronta na atualidade. [...] 4 Trajetórias de vida como construtos histórico-sociais O método da história oral utiliza diferentes técnicas de entrevista para dar voz a sujeitos invisíveis e, por meio da singularidade de seus depoimentos, constrói e preserva a memória coletiva. Pesquisadores que trabalham com história oral (Life-Course- Forschung) na Europa, e mais especificamente na Alemanha, utilizam as terminologias “biografia” e “trajetória de vida” como procedimentos metodológicos dessa abordagem. Born, Krüger e Lorenz-Meyer (1996) afirmam que a pesquisa relacionada com trajetórias de vida é uma área relativamente nova na sociologia, tendo como ponto de partida a mobilidade social, bem como a trajetória das mulheres que iniciam uma carreira profissional e a mudança de status e de rotina que isso acarreta em suas vidas: interrompem sua carreira profissional porque decidem ter um filho, constituir família, ou optam em sair do emprego. Para as pesquisadoras alemãs, trajetórias de vida (Lebenslauf) é considerado um “construto científico”, definido em primeira mão pela perspectiva metodológica adotada, podendo utilizar dados quantitativamente analisáveis que possuam relação direta com a sequência cronológica da vida dos indivíduos (DAUSIEN, 1996). No entender dessa autora, a trajetória de UNIDADE 2 TÓPICO 5 161 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L vida é denominada cientificamente de “transcurso”, pois analisa mudanças sociais, passagens de status, de situação econômica, de atividades profissionais, utiliza datas significativas, períodos, números, enfim, aspectos quantitativos e qualitativos relacionados na mesma abordagem. Nesta perspectiva, a trajetória de vida é considerada uma instituição social, um sistema de regras que rege/conduz as relações do indivíduo na modernidade. Luz Arango (1998), pesquisadora colombiana, também utiliza o termo “trajetória”, mas com ênfase na trajetória social como um ciclo da vida, como uma etapa da vida. Para a autora, “trajetória social” é o encadeamento temporal das posições que os indivíduos ocupam sucessivamente nos diferentes campos do espaço social. Em cada momento de sua existência, os indivíduos ocupam simultaneamente várias posições, que resultam obviamente do entrelaçamento entre os campos profissionais e familiares. A noção de trajetória, para Bourdieu (1989), é uma série de posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente – ou mesmo grupo – em um espaço, ele próprio em devir e submetido a transformações incessantes. [...] FONTE: Disponível em: <http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/katalysis/article/view/1145/5743>. Acesso em: 9 fev. 2011. UNIDADE 2TÓPICO 5162 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Neste tópico você estudou que: ● O projeto de pesquisa é o meio básico para a elaboração teórica, metodológica, instrumental e da proposição de agentes humanos para o desenvolvimento e a avaliação da pesquisa. ● No Serviço Social, o Projeto de Pesquisa consiste em um caminho que vai orientar o pesquisador ou grupos de pesquisa durante a investigação. ● O Projeto de Pesquisa consiste no planejamento de uma pesquisa, ou seja, é ele que vai esclarecer os rumos da pesquisa, evitando assim muitos imprevistos que poderiam até mesmo impedir a sua realização. ● Um Projeto de Pesquisa sempre deve esclarecer sobre os elementos que irão compor a investigação. ● Antes de se iniciar a elaboração de um Projeto de Pesquisa, no Serviço Social, deve-se ter claro o tema ou o assunto de estudo, assim como a problemática geradora da necessidade de se realizar o trabalho. ● Quanto ao roteiro de um projeto de pesquisa, compreende-se que as etapas ou a estrutura do texto do projeto podem ser variadas. Variam conforme: a área de pesquisa; com os autores no campo da metodologia científica; com as agências ou instituições acadêmicas; com as convicções e características peculiares de pesquisadores ou grupos de pesquisa. ● Todo projeto de pesquisa apresenta três partes principais, que seriam: parte inicial (tema,justificativa, revisão bibliográfica); parte intermediária (problema, objetivos e processos metodológicos) e parte final (resultados e as contribuições esperadas; cronograma e bibliografia). ● A coleta de dados das pesquisas, no Serviço Social, consiste na necessidade de selecionar os instrumentos adequados a serem utilizados para tal. ● Tendo em mãos os dados coletados, o pesquisador sabe que deverá colocar toda a sua atenção para a organização, leitura e análise dos dados. RESUMO DO TÓPICO 5 UNIDADE 2 TÓPICO 5 163 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L 1 Quais as respostas que um Projeto de Pesquisa, no Serviço Social, deve oferecer? 2 Quais as principais características que são exigidas na elaboração de um Projeto de Pesquisa? 3 Dentre os diferentes instrumentos de coleta de dados apresentados neste tópico, destaque um que julgue o mais apropriado para a pesquisa em Serviço Social. Justifique o porquê. 4 Quais as principais características exigidas em um Relatório de Pesquisa? AUT OAT IVID ADE � UNIDADE 2TÓPICO 5164 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L AVAL IAÇÃ O Prezado(a) acadêmico(a), agora que chegamos ao final da Unidade 2, você deverá fazer a Avaliação referente a esta unidade. P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L UNIDADE 3 PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL: PLANEJAMENTO, EXECUÇÃO E RESULTADOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM A partir desta unidade você será capaz de: • exercitar os elementos do projeto de pesquisa; • elaborar hipóteses e definir o delineamento de um projeto de pesquisa; • compreender as variáveis e a amostragem na pesquisa em Serviço Social; • elaborar os instrumentos de coleta de dados na pesquisa em Serviço Social; • definir a análise dos dados e compreender os elementos que envolvem um relatório de pesquisa em Serviço Social. PLANO DE ESTUDOS A Unidade 3 está dividida em cinco tópicos e, ao final de cada um deles, você terá a oportunidade de fixar seus conhecimentos realizando as atividades propostas. O conteúdo está assim dividido: TÓPICO 1 – RETOMANDO OS ELEMENTOS DO PROJETO DE PESQUISA TÓPICO 2 – CONSTRUINDO AS HIPÓTESES E DEFININDO O DELINEAMENTO DA PESQUISA TÓPICO 3 – VARIÁVEIS E AMOSTRAGEM NA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL TÓPICO 4 – INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS E O TRABALHO DE CAMPO TÓPICO 5 – ANÁLISE DOS DADOS E A ELABORAÇÃO DO RELATÓRIO DA PESQUISA P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Neste tópico retomaremos os elementos de um projeto de pesquisa, exemplificando com um projeto de pesquisa na área do Serviço Social. O(a) acadêmico(a) também será instigado a elaborar o seu projeto de pesquisa, como forma de aprendizagem e exercício acadêmico. O contexto acadêmico apresenta um caminho já consagrado para a elaboração de um projeto de pesquisa. Este abrange não somente a mobilização de uma ideia, como também a sua apresentação final. É preciso destacar alguns aspectos que são relevantes para o desenvolvimento de um bom projeto de pesquisa. Inicialmente deve-se escolher o tema. Para tanto, o pesquisador deverá observar: 1 Afetividade em relação ao tema. 2 Tempo disponível para a realização do trabalho de pesquisa e entrega do relatório. 3 Disponibilidade de orientador para acompanhar o projeto. 4 Limite das capacidades do pesquisador em relação ao tema. 5 A importância do tema escolhido. 6 Material de consulta e dados necessários ao pesquisador. É através da definição do assunto que o pesquisador começa a encaminhar a sua proposta de pesquisa. O assunto deve ser escolhido de acordo com o interesse do acadêmico e suas inclinações, pois a pesquisa depende da motivação e do interesse do acadêmico para ter êxito. De acordo com Eco (2003), a escolha do assunto exige que o tema responda aos RETOMANDO OS ELEMENTOS DO PROJETO DE PESQUISA 1 INTRODUÇÃO 2 PASSOS PARA A ELABORAÇÃO DE UM PROJETO TÓPICO 1 UNIDADE 3 UNIDADE 3TÓPICO 1168 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L interesses do pesquisador, que as fontes de consulta sejam acessíveis e manejáveis e que o quadro metodológico da pesquisa esteja ao alcance da expectativa do pesquisador. Isso quer dizer que se o pesquisador optar por um assunto de interesse de terceiros, certamente não terá a motivação suficiente para concluí-la. O pesquisador não pode, ou não deveria, realizar uma pesquisa onde suas condições não lhe ofereçam a possibilidade de realizá-la com eficiência. É fundamental que o pesquisador tenha noção sobre o que pode e o que deseja pesquisar. Outro aspecto de suma importância são as fontes de pesquisa. Não se faz uma pesquisa sem uma boa fundamentação técnica e bibliográfica. Por isso, é importante a diversificação de obras e textos que possam oferecer elementos diversos na confecção do relatório de pesquisa. A delimitação do assunto sempre representa um momento complexo, pois o pesquisador terá que, dentro da imensidão do tema, definir um aspecto para desenvolver a sua pesquisa. Se o assunto for de grande alcance, isso significa que a compreensão será pequena, porque quanto maior for o domínio e a especificação do assunto, melhor será a delimitação e o alcance da pesquisa. A delimitação requer um conhecimento prévio. Isso implica dizer que o pesquisador já realizou alguma leitura exploratória, apresentando um bom conhecimento sobre o tema proposto. A delimitação deve ser feita com a noção do que se quer buscar. Além disso, dentro da pesquisa, auxilia no seu aprofundamento e na sua objetividade Ressalta-se que o planejamento, o detalhamento e a análise de todas as possibilidades, dos prós e contras são prerrequisitos essenciais para o desenvolvimento de uma pesquisa. Isso porque existe grande perigo da pesquisa ser iniciada e o pesquisador perder o rumo da mesma, acarretando a descaracterização de seu estudo. Almejando evitar esse risco, é preciso que o pesquisador tenha definido com extrema clareza a sua área de maior afinidade e preferência. Torna-se importante que o pesquisador avalie com pessoas especialistas no assunto, por meio de discussões de qual seria a delimitação do seu problema e quais os objetivos que sua pesquisa deseja alcançar. UNIDADE 3 TÓPICO 1 169 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L AUT OAT IVID ADE � Caro(a) acadêmico(a), chegou a hora de você iniciar a elaboração do seu projeto de pesquisa. Para esta elaboração, sugere-se que você elenque três temas que mais lhe chamam a atenção em relação às questões sociais apresentadas na contemporaneidade. Para isso, preencha o quadro a seguir. Tema 1 Tema 2 Tema 3 Definidos os três temas de maior interesse, chegou a hora de você optar por aquele no qual tem mais implicação, que emerge como o mais relevante para você. Escolha-o e com base neste, elabore o seu trabalho. Tema Escolhido FONTE: Disponível em: <http://3.bp.blogspot.com/_gZuciGPHBvQ/ S-64K_on9YI/AAAAAAAAAR8/Kx0UYO2Ugro/s1600/ conhecimento.jpg>. Acesso em: 10 fev. 2011. FIGURA 38 – CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO UNIDADE 3TÓPICO 1170 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L O problema sempre deve ser objeto de grande importância. É em função do problema que se faz a investigação, pois no transcorrer do estudo o pesquisador precisa apresentar uma resposta. Não é possível a realização de uma pesquisa acadêmica sem a presença de um problema. A pesquisa visa, exatamente, resolver esta dúvida, e é o problema que motiva as diversas hipóteses. No final do processo de busca, o pesquisador deverá apresentar uma resposta de maneira clara e precisa. Importa ressaltar que o problema de pesquisa deverá ser formulado como uma pergunta delimitada a uma dimensão variável. O pesquisador terá que desenvolver uma pergunta que possa merecer admiração e exija esforço para ser resolvida. Quanto mais claro e preciso for o problema, mais rica também será a pesquisa. Sabe-se que a pesquisa, no Serviço Social, determina umgrupo de atitudes que são propostas visando resolver uma determinada questão social. Essas atitudes são baseadas em procedimentos sistemáticos e racionais. Dessa forma, frequentemente a pesquisa irá ser desenvolvida a partir de um problema para o qual não se tem uma solução, ou mesmo, informações para resolvê-lo. No Serviço Social, as etapas de um projeto de pesquisa podem ser: ● Elaboração do projeto de pesquisa (escolha do tema; revisão de literatura; justificativa; formulação do problema; determinação dos objetivos; metodologia; organização de um cronograma; definição de recursos). ● Execução (coleta de dados, organização dos dados, análise e discussão dos resultados; conclusão). ● Apresentação dos resultados (artigo, monografia, tese, trabalho escolar etc.). O projeto de pesquisa consiste na planificação da pesquisa, sendo representado por uma bússola, que aponta o norte do pesquisador. Não há pesquisa sem planejamento e organização, por isso o projeto de pesquisa torna-se indispensável. O projeto de pesquisa, depois de aprovado, viabiliza o desenvolvimento da pesquisa propriamente dita. Ou seja, a criação de um projeto de pesquisa significa uma profunda preparação para executar ações que almejam buscar respostas a um questionamento inicial. Assim, entende-se que o documento chamado projeto consiste no resultado obtido 3 O QUE É O PROBLEMA DE PESQUISA? UNIDADE 3 TÓPICO 1 171 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L ao se projetar no papel tudo o que é necessário para o desenvolvimento de um conjunto de ações a serem executadas. Deve-se lembrar: A pesquisa parte do tema geral para o problema específico e, quanto maior a especificidade, melhores as condições de trabalho a serem desenvolvidas. Após a elaboração do projeto e aprovação dos orientadores, os pesquisadores ou a equipe de pesquisa irão executá-lo, ou seja, efetivar todas as pesquisas previstas e organizar um novo documento contendo os resultados alcançados. Este relato final poderá ser apresentado em formato de resumo, artigo ou trabalho científico. A capacidade de ler a realidade do cotidiano e fazer questionamentos a ela é fundamental para o sucesso de um projeto. Os melhores projetos surgem quando o pesquisador é capaz de visualizar um problema no cotidiano e buscar uma solução ou uma resposta. Esse questionamento criado pelo pesquisador irá definir o que a pesquisa se propõe a responder, esclarecer. Pode ser expresso em forma de pergunta. FONTE: Adaptado de: <http://www.biblioteca.ifc-camboriu.edu.br/criacitec/tiki-index. php?page=Projetos+de+pesquisa>. Acesso em: 10 fev. 2011. A origem de toda a pesquisa se dá focada em uma dificuldade, que pode ser tanto teórica como prática, numa expectativa que não foi realizada ou, mesmo, em um problema que fora sentido. Dessa forma, ressalta-se que o surgimento dos problemas sempre está direcionado para as pessoas que demonstram capacidade de apresentar liberdade, estando totalmente afastadas de qualquer tipo de preconceito e, acima de tudo, caracterizam-se pela abertura e receptividade voltadas para a compreensão da realidade, que se dá por meio da análise de seus fenômenos. A apresentação dos problemas de pesquisa é influenciada diretamente pelos fatores internos, que dizem respeito ao pesquisador, e pelos fatores externos, que correspondem às pressões sofridas em decorrência da realidade do contexto vivenciado. O foco principal desse tópico, na estrutura do projeto de pesquisa, é apresentar claramente o que o pesquisador deseja saber e o que se propõe a estudar. Na intenção de produzir conhecimento, é possível que o pesquisador formule seus problemas de pesquisa tendo como base suas experiências cognitivas, em investigações de caráter exploratório ou em função das consecutivas aproximações com a realidade. Outra fonte dos problemas pode ser descrita como sendo a ampla necessidade de se incrementar o conhecimento sobre um fenômeno específico. A formulação do problema pode, também, estar relacionada com técnicas de observação UNIDADE 3TÓPICO 1172 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L participante ou com pesquisa-participante. Nesses dois casos, o problema surge com a conexão do pesquisador, com o ambiente e com a população-alvo. Alguns aspectos podem ser relevantes para a formulação dos problemas de pesquisa, dentre eles destacam-se: ● Criatividade. ● Uso de técnicas de levantamento bibliográfico: banco de dados. ● Formulação de questionamentos diante do contexto social atual. ● Análise e fragmentação da realidade. ● Interpretação e síntese do fenômeno pesquisado. Nesta disciplina, exemplificaremos os elementos constituintes do projeto de pesquisa tomando como base o projeto intitulado: ”O SERVIÇO SOCIAL E A IMPLEMENTAÇÃO DAS POLÍTICAS DE ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL” (TAVARES, 2009). O mesmo foi elaborado pelo Professor Fabrício Tavares, como elemento para a seleção no Programa de Pós-Graduação do curso de Doutorado em Serviço Social, na PUC/RS. Através deste é possível identificar os elementos que se fazem necessários num projeto de pesquisa, relacionando-os com a área do Serviço Social. Durante toda esta Unidade, retomaremos os elementos deste. A seguir, exemplifica-se a formulação do problema de pesquisa: Problema de Pesquisa Quais as atribuições do Assistente Social na implementação das políticas de enfrentamento à violência doméstica contra a mulher no Estado do Rio Grande do Sul, no período entre 2009 e 2011? FONTE: Tavares (2009) QUADRO 2 – PROBLEMA DE PESQUISA UNIDADE 3 TÓPICO 1 173 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L AUT OAT IVID ADE � Caro(a) acadêmico(a), chegou a hora de você elaborar o seu problema de pesquisa. Agora que você já tem o tema definido e sabe da importância deste item, elabore a questão que irá conduzir toda a sua pesquisa. Lembre-se de retomar os principais elementos do problema de pesquisa, permitindo que ele seja claro e lhe direcione na condução de seu trabalho. FONTE: Disponível em: <http://1.bp.blogspot.com/_kZNXH284lxA/ TMISmVtrErI/AAAAAAAAAE0/ySfDMM_gLsQ/s1600/ conhecimento3+(1).jpg>. Acesso em: 10 fev. 2011. Na justificativa é preciso que seja apresentado o motivo que levou o pesquisador a escolher determinado aspecto dentro do trabalho acadêmico. Além disso, há a necessidade de demonstrar a atualidade e a importância do assunto para a vida acadêmica e social em geral. O pesquisador deve oferecer as razões pelas quais o assunto é atual e colocar os elementos desta realidade. Justificar a pesquisa é dar razões da importância da mesma. Assim, o pesquisador estará argumentando porque seu estudo tem relevância, visando convencer acerca da importância e do valor do trabalho que será realizado. Ressalta-se que, na busca por incentivos financeiros para a realização de pesquisas, tais como bolsas de estudo ou financiamentos, esse tópico representa um dos aspectos principais. Desse modo, a justificativa deverá contemplar alguns tópicos essenciais, tais como: 4 JUSTIFICATIVA DA PESQUISA FIGURA 39 – CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO UNIDADE 3TÓPICO 1174 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L ● A sua relevância (social e acadêmica). ● Apontar com objetividade qual o problema que o projeto visa solucionar. ● Apresentar a relação do seu projeto com outros já realizados sobre a mesma temática. ● Descrever os possíveis benefícios que poderão ser conquistados com a realização da pesquisa. Exemplifica-se uma justificativa com base no projeto de pesquisa, anteriormente apresentado, intitulado: “O SERVIÇO SOCIAL E A IMPLEMENTAÇÃO DAS POLÍTICAS DE ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL.” Torna-se fundamental analisar o texto e verificar os itens ali distintos, os quais esclarecem a relevância deste item num projeto de pesquisa. Justificativa Compreende-se que a violência doméstica contra a mulher1 é fruto de uma construçãosocial que demarca espaços de poder, privilegiando os homens e oprimindo as mulheres. Constitui-se, conforme Saffioti (1997, p.08), “numa violação aos direitos humanos e um obstáculo para a cidadania de milhares de mulheres”. A violência marca profundamente o corpo e os espaços psíquicos da mulher, tendo graves consequências para a saúde física (lesões corporais leves e graves, transtornos gastrointestinais); psicológica (depressão, ansiedade, tentativa de suicídio), sociais (isolamento, fragilização das redes de pertencimento) e sexuais (doenças sexualmente transmissíveis, medo) (SAFIOTTI, 1997). Contemporaneamente, entende-se que enfrentar a violência contra as mulheres requer não só uma percepção multidimensional do fenômeno, como também a convicção de que para superá-la é preciso investir no desenvolvimento de políticas que acelerem a redução das desigualdades entre homens e mulheres. Em nível mundial são inegáveis os avanços que asseguram cada vez mais direitos às mulheres, através de uma perspectiva de transversalidade de gênero2. Observa-se que, no Brasil, o processo de incorporação da questão de gênero nas políticas públicas é relativamente recente e está relacionado às demandas apresentadas pelos movimentos organizados de mulheres e pelos organismos internacionais. A partir da implantação de Delegacias para as Mulheres, das primeiras Coordenadorias (anos 80), da criação da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (2003), a erradicação da violência tem ganhado destaque através de diferentes instrumentos em nível nacional, estadual e municipal. Dentre estes, destacam-se o I e II Plano de Políticas para as Mulheres, a Lei UNIDADE 3 TÓPICO 1 175 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Maria da Penha e, mais recentemente, o Pacto de Enfrentamento à violência contra a mulher. No Rio Grande do Sul, os crimes com maior registro são: lesão corporal; ameaça; crimes contra a honra (injúria, calúnia e difamação); abandono material; assédio sexual; estupro e atentado violento ao pudor. Os municípios com maior quantidade de ocorrências são: Porto Alegre, Caxias do Sul, Santa Maria e Pelotas3. Destaca-se no Estado, o Plano Estadual de Políticas para as Mulheres (RS Mulher), tendo como um dos eixos centrais, o enfrentamento à violência doméstica contra a mulher. O principal objetivo deste é elevar o Estado do Rio Grande do Sul ao padrão internacional estabelecido pela Organização das Nações Unidas, qual seja, o de promover, até o ano de 2015, a igualdade dos sexos e a autonomia das mulheres, proporcionando oportunidades iguais para homens e mulheres. Em pré-contatos realizados com os municípios do Estado do Rio Grande do Sul que estão em processo de implementação de diferentes ações voltadas para questões de gênero, foi possível observar a presença constante de Assistentes Sociais na operacionalização das políticas voltadas para as mulheres. Durante a realização do estudo de Mestrado do pesquisador4, também foi possível constatar a presença deste profissional, intervindo e propondo ações que objetivam a erradicação da violência contra a mulher. Essa presença também se evidencia em conferências municipais, estaduais e nacionais, em que Assistentes Sociais têm assumido diferentes responsabilidades no sentido de gestão, organização e sistematização de propostas de intervenção. Com base nestas observações iniciais, apresenta-se este projeto de pesquisa, que tem como problema central: “Quais as atribuições do Assistente Social na implementação das políticas de enfrentamento à violência doméstica contra a mulher no Estado do Rio Grande do Sul, no período entre 2009 e 2011?” Para a efetivação deste estudo pretende-se, num primeiro momento, diagnosticar, assim como avaliar, como vem se operacionalizando a implementação das ações de enfrentamento à violência contra a mulher, e posteriormente, relacionar com a atuação do Assistente Social neste contexto. Pretende-se apresentar os principais avanços apresentados pelos municípios no enfrentamento desta demanda, contribuindo também com o aprimoramento destas ações, subsidiando propostas ainda mais efetivas para a implementação destas políticas. Busca-se também instrumentalizar os profissionais envolvidos na utilização de novos instrumentos/ estratégias no enfrentamento a estas demandas, conseguindo o seu objetivo com maior efetividade. Através do conhecimento referente às atribuições do Assistente Social neste cenário, se estará também contribuindo para que se tenha uma compreensão mais aprofundada do exercício do profissional junto desta demanda, assim como da operacionalização destes diferentes planos de enfrentamento à violência doméstica contra a mulher. UNIDADE 3TÓPICO 1176 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L NOTAS: 1 Em razão da variedade de nomeações relacionadas à violência contra a mulher, neste estudo será adotada a expressão “violência doméstica contra a mulher”, tomando como elementos que a caracterizem as dimensões: física, psicológica e sexual, perpetradas pelo parceiro íntimo, na forma de cônjuge e ex-cônjuge, independente se ocorreu no espaço público ou ambiente doméstico. Heise (1995) considera que os resultados de estimativas de violência são, muitas vezes, de difícil comparação, em função, principalmente, da variedade de nomeações atribuídas à violência contra a mulher. 2 A noção de transversalidade de gênero ou “gender mainstreaming” surgiu dos movimentos feministas internacionais, os quais constataram que as mudanças em relação à situação das mulheres no mundo têm sido pouco expressivas. Esta proposta prevê políticas transversais a todas as áreas e níveis de governo, atuando como estímulo para reformar e modernizar o aparelho estatal, além de incorporar aportes da sociedade civil na definição, execução e avaliação das ações com as mulheres. Segundo Gonzáles, não há possibilidades de ruptura da visão tradicional com políticas apenas focadas na mulher. A transversalidade de gênero é um dos elementos-chave para a efetivação da igualdade de gênero (Fonte: Plano RS Mulher). 3 Segundo Plano Estadual de Políticas para as Mulheres (Mulher RS). 4 Pesquisa realizada no curso de Mestrado em Serviço Social (2005 e 2006) nos Municípios de São Leopoldo e Novo Hamburgo/RS, intitulada: “Das lágrimas à Esperança: o processo de fortalecimento da mulher em situação de violência doméstica”, que tinha por objetivo analisar o processo de trabalho do Assistente Social com as mulheres em situação de violência doméstica. FONTE: Tavares (2009) Vale destacar que o pesquisador, ao desenvolver a justificativa para seu projeto, deverá atentar para: a) No cenário social atual, apresentar os aspectos que explicam a razão pela qual o estudo será realizado. Novamente o foco é a descrição da importância da pesquisa, não somente para a vida acadêmica, mas para a sociedade como um todo. Assim, a justificativa representa o momento em que o pesquisador estará defendendo a realização de sua pesquisa. b) Apontar com clareza a viabilidade de realização de sua pesquisa, detalhando em diversas áreas, tais como: técnica, temporal, financeira e, até mesmo, política. c) Apresentar garantias de que seu trabalho é exclusivo e tem originalidade, através do destaque UNIDADE 3 TÓPICO 1 177 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L para o caráter inovador da pesquisa, vinculado com o apontamento do referencial teórico que serviu de base para o estudo. AUT OAT IVID ADE � Caro(a) acadêmico(a), chegou a hora de você elaborar a justificativa do seu projeto. Lembre-se de que o texto deve responder o porquê da sua inquietação. Faça uso de dados, números, elementos que justifiquem a importância da sua pesquisa. FONTE: Disponível em: <http://3.bp.blogspot.com/_HYxZgbEcUos/ Ss96svj_WVI/AAAAAAAAAUA/aHca6I8qS_c/s320/ conhecimento.jpg>. Acesso em: 10 fev. 2011. Os objetivos representam a meta que o pesquisador deseja alcançar com a pesquisa. Salienta-seque a função do objetivo é enquadrar as propostas e os propósitos do pesquisador dentro do respectivo assunto. Num projeto de pesquisa, elaborado no Serviço Social, os objetivos devem esclarecer o que se pretende atingir com a realização da pesquisa, com a implementação do projeto. Conforme já dito, podem ser apresentados em objetivos gerais e objetivos específicos. ● Objetivo geral: corresponde à finalidade maior que a pesquisa quer atingir. Deve expressar o que se quer alcançar ao final do projeto. ● Objetivos específicos: corresponde às ações que se propõe a executar dentro de 5 O QUE SE PRETENDE DESENVOLVER? OS OBJETIVOS FIGURA 40 – JUSTIFICATIVA UNIDADE 3TÓPICO 1178 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L um determinado período de tempo. Apresentam caráter mais concreto. Têm função intermediária e instrumental, indicando o caminho para se atingir o objetivo geral. Os objetivos iniciam-se com o verbo no infinitivo. FONTE: Adaptado de: <http://www.biblioteca.ifc-camboriu.edu.br/criacitec/tiki-index. php?page=Projetos+de+pesquisa>. Acesso em: 10 fev. 2011. A seguir, exemplificam-se os objetivos elaborados para o projeto de pesquisa, em estudo: Objetivo geral: - Verificar quais as atribuições do Assistente Social na implementação das políticas de enfrentamento à violência doméstica contra a mulher no Estado do Rio Grande do Sul. Objetivos específicos: - Verificar as ações adotadas pelos municípios na implementação da política de enfrentamento à violência doméstica contra as mulheres. - Analisar os resultados das ações implementadas pelos municípios do Rio Grande do Sul no enfrentamento à violência contra a mulher. - Verificar como vem ocorrendo a participação do Assistente Social na implementação da política de enfrentamento à mulher em situação de violência doméstica no Estado do Rio Grande do Sul. FONTE: Tavares (2009) QUADRO 3 – OBJETIVOS UNIDADE 3 TÓPICO 1 179 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L AUT OAT IVID ADE � Caro(a) acadêmico(a)! Chegou o momento de você elaborar os objetivos da sua pesquisa. Lembre-se de que eles são essenciais para a definição do seu estudo. São eles que dirão o que realmente quer alcançar ao final do seu estudo. Faça uso do espaço a seguir para esta elaboração. Objetivo Geral ● _________________________________________________ ___________________________________________________ ___________________________________________________ ___________________________________________________ Objetivos Específicos ● _________________________________________________ ___________________________________________________ ___________________________________________________ ___________________________________________________ ● _________________________________________________ ___________________________________________________ ___________________________________________________ ___________________________________________________ ● _________________________________________________ ___________________________________________________ ___________________________________________________ ___________________________________________________ FONTE: Disponível em: <http://autoconhecimento.blog.com/ files/2010/06/14661_000tpxtp.jpg>. Acesso em: 10 fev. 2011. FIGURA 41 – OBJETIVOS UNIDADE 3TÓPICO 1180 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Parte-se do pressuposto de que para se definir um tema e um problema o pesquisador deverá ter realizado uma ampla investigação bibliográfica sobre o assunto. Entende-se que o levantamento teórico servirá como recurso para o aprimoramento e a solução do problema. Desse modo, os dados bibliográficos passam a ser a ferramenta básica, adquirindo grande relevância no estudo. Compreende-se que toda a pesquisa parte de alguns referenciais já conhecidos pela comunidade científica. É na revisão de literatura que se definem os conceitos utilizados e se esclarece quais os autores que fundamentam o trabalho. FONTE: Adaptado de: <http://www.biblioteca.ifc-camboriu.edu.br/criacitec/tiki-index. php?page=Projetos+de+pesquisa>. Acesso em: 10 fev. 2011. Mesmo numa pesquisa de caráter exploratório, torna-se fundamental que se busque em fontes documentais ou bibliográficas (impressas ou digitais) outras pesquisas semelhantes ou complementares já desenvolvidas. Ressalta-se também que qualquer fonte consultada deve ser anotada detalhadamente, para compor as referências ao final do projeto. A seguir, exemplifica-se a Revisão de Literatura do projeto elencado: 1. Políticas de Enfrentamento à Violência contra a mulher Considera-se a violência como sendo um termo polissêmico e tem sido exaustivamente repetido pela mídia e trabalhado por inúmeros pensadores de áreas diversas. De origem latina, a palavra violência deriva de violentus, cujo significado, conforme Moreira (2002), corresponde ao “caráter violento ou bravio, força, com ímpeto, furioso” (p. 38). Assim, a noção de violência surge, segundo o referido autor, como “a ideia de uma força, de uma potência natural, cujo exercício contra alguma coisa ou contra alguém torna o caráter violento” (p. 38). Dentre os diferentes tipos de violência cometidos cotidianamente, tem-se a violência doméstica contra a mulher. A Declaração da Eliminação da Violência contra a Mulher, aprovada pela Conferência de Viena em 1993, definiu-a como “qualquer ato de violência baseado no gênero que resulte ou possa resultar em dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico da mulher”. Constata-se que as expressões de violência mais graves cometidas contra as mulheres 6 O QUE JÁ SEI SOBRE O TEMA? REVISÃO DE LITERATURA UNIDADE 3 TÓPICO 1 181 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L estão situadas no âmbito das relações interpessoais, da intimidade afetiva. Conforme destaca Strey (2004), pode-se afirmar que essa forma de violência se constitui um verdadeiro “foco de resistência às transformações sociais de gênero e um grave entrave ao desenvolvimento pessoal das mulheres” (p. 44). Tratando das políticas públicas de atendimento à mulher em situação de violência doméstica, se constata que, historicamente, sempre houve um retrocesso, um descaso quanto a estas situações. Desde os anos 80, observa-se no Brasil que a ação do Estado restringiu-se basicamente “à proteção policial e ao encaminhamento jurídico dos casos, visando à punição do agressor e reparação à vítima” (CAMARGO; AQUINO, 2003, p. 12). Um primeiro avanço que pode se verificar neste período foi a implantação das Delegacias de Atendimento à Mulher. A primeira foi criada em São Paulo, em agosto de 1985, sob pressão do movimento de mulheres e do Conselho Estadual da Condição Feminina (SAFFIOTI, 1997). Após, outras 152 foram instaladas, sendo que mais da metade delas no Estado de São Paulo e as demais principalmente nas capitais. Brandão (2004) destaca que este avanço possibilitou uma maior visibilidade da violência contra a mulher, no aumento das denúncias, assim como seus limites. Outro avanço significativo, a partir dos anos 80, se deu com a criação das Coordenadorias da Mulher em diversos governos municipais e estaduais; campanhas publicitárias nacionais discutindo a violência contra a mulher e a iniciativa de se propor a criação da Secretaria Especial de Políticas Públicas para a Mulher. (CAMARGO; AQUINO, 2003). A partir dos anos 90, tanto a área da saúde como a da assistência passaram a realizar novas ações e abordagens para o problema da violência doméstica contra a mulher. Foi somente a partir deste momento que os serviços de saúde passaram a adotar políticas visando diagnosticar o problema e oferecendo atenção à saúde nos casos de violência sexual, violência contra as crianças e outros agravos. Também surgiram, na década destacada, as primeiras casas-abrigo reivindicadas pelo movimento de mulheres e apoiadas pelas próprias delegacias, uma vez que as providências policiais e jurídicas eram burladas pelos agressores e, muitas vezes,as denunciantes sofriam violência maior como castigo por sua iniciativa. (CAMARGO e AQUINO, 2003) Dentre os diferentes eventos realizados nos anos 90 destacam-se a IV Conferência Mundial Sobre a Mulher (1995) e a Convenção de Belém do Pará – Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher (1994), que trataram diretamente do tema da violência sexual, da violência de gênero e de todas as formas de discriminação contra a mulher, inclusive quanto à sua autonomia e direitos. (MOREIRA, 2002) Em janeiro de 2003 foi constituída a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres UNIDADE 3TÓPICO 1182 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L (SPM), da Presidência da República. Explicam Camargo e Aquino (2003) que a mesma teve status de Ministério, como referência governamental de elaboração e execução de políticas e articulações da igualdade de gênero no governo federal, destacando o compromisso com o Programa de Prevenção, Assistência e Combate à Violência contra a Mulher. Em 2004, a partir das diretrizes definidas na I Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres (CNPM), foi elaborado o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (PNPM), que propunha a promoção da igualdade de gênero, tendo como destaque a questão do enfrentamento à violência doméstica contra a mulher. Outro avanço que se observa foi no campo legislativo, com a Lei no 11.340, de 07 de agosto de 2006, intitulada como a Lei Maria da Penha1, em vigor desde o dia 22 de setembro de 2006. Dias (2006) destaca que os avanços são muitos e significativos. Dentre eles, destaca a devolução à autoridade policial a prerrogativa investigatória, podendo ouvir a vítima e o agressor e instalar inquérito policial. A vítima estará sempre assistida por defensor e será ouvida sem a presença do agressor. Também será comunicada pessoalmente quando for ele preso ou liberado da prisão. Além disso, a lei proíbe induzir o acordo bem como aplicar como pena multa pecuniária ou a entrega de cesta básica. Serão criados Juizados Especiais contra a Violência Doméstica e Familiar, com competência cível e criminal. Assim, a queixa desencadeará tanto ação cível como penal, devendo o juiz adotar de ofício medidas que façam cessar a violência: o afastamento do agressor do lar; impedi-lo que se aproxime da casa; vedar que se comunique com a família, ou encaminhar a mulher e os filhos a abrigos seguros. Como resultado da 2ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres (CNPM), realizada em agosto de 2007, teve-se o II Plano de Políticas para as Mulheres, onde foram incluídos seis novos eixos estratégicos de intervenção2, com o intuito de beneficiar toda a sociedade brasileira e reverter o padrão de desigualdade entre homens e mulheres no país. Prevê ainda o fortalecimento da parceria entre União, governos estaduais e governos municipais. Em relação ao enfrentamento à violência, destaca-se o lançamento, no mesmo período, do Pacto Nacional pelo Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, o qual destina recursos para o investimento em ações de enfrentamento à violência a serem executadas por diversos ministérios e secretarias especiais, sob a coordenação da Secretaria de Políticas para as Mulheres, até 2011. No Estado do Rio Grande do Sul, ressalta-se também o Plano Estadual de Políticas Públicas para as Mulheres, denominado “RS Mulher”, lançado em outubro de 2008, como resultado da III Conferência Estadual de Políticas Públicas para as Mulheres. Dentre os eixos temáticos, que seguem o Plano Nacional, o Enfrentamento à Violência contra a Mulher ganha o devido destaque. 2. O Serviço Social no enfrentamento da violência doméstica contra a mulher UNIDADE 3 TÓPICO 1 183 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Compreende-se que a experiência profissional do Assistente Social caracteriza-se pela sua competência técnica na construção e efetivação das políticas públicas preconizadas. Para que possa se legitimar enquanto profissão na sociedade, o Serviço Social vale-se de uma série de elementos que constituem o seu Projeto Ético-Político, que vão desde a criação e materialização de leis específicas da profissão, que lhe garantem atribuições e competências próprias, até as diversas formas de organização da categoria, seja através dos órgãos de orientação e fiscalização do exercício da profissão, como CFESS/CRESS, ABEPSS, ou sindicatos, associações, entre outros. No que se refere às leis, destaca-se a Lei de Regulamentação da Profissão, que dispõe de uma maneira geral sobre o exercício profissional, como as atribuições do Assistente Social e a função do CFESS e dos CRESS e o Código de Ética Profissional dos Assistentes Sociais, que pressupõe normatizações, tendo como princípios fundamentais o reconhecimento da liberdade das pessoas, a defesa dos direitos humanos, a ampliação e consolidação da cidadania, a defesa da democracia, a defesa da equidade e justiça social, a universalidade, a articulação com movimentos de outras categorias profissionais, o compromisso com a qualidade dos serviços prestados, o pluralismo, a eliminação de todas as formas de preconceito e o exercício do Serviço Social, sem ser discriminado e nem discriminar. O Serviço Social, atualmente, é identificado e compreendido enquanto “um tipo de trabalho na sociedade”, configurando-se como uma “especialização do trabalho, uma profissão particular inscrita na divisão social e técnica do trabalho” (IAMAMOTO, 2005, p. 22), em que o Assistente Social, juntamente com outros trabalhadores, participa de diferentes processos de trabalho. Apreender o Serviço Social como trabalho supõe apreender a prática profissional condicionada pelas relações entre Estado e a Sociedade Civil, ou seja, pelas relações entre as classes na sociedade. Entende-se, portanto, que o Serviço Social se caracteriza, de fato, como processos de trabalho, na medida em que supõe, conforme a perspectiva marxiana, os elementos que o compõem, quais sejam: a atividade adequada a um fim, isto é, o próprio trabalho; a matéria a que se aplica o trabalho, o objeto de trabalho; os meios de trabalho, o instrumental de trabalho”. (MARX, 1989) A Lei n° 8662/93 de regulamentação da profissão, as diretrizes curriculares de 1996, assim como o Código de Ética de 1993 apontam a questão social em suas manifestações como a matéria sobre a qual incide a ação profissional. É ela, em suas múltiplas expressões, que provoca a necessidade da ação profissional, delimitando aqui o agir profissional com as mulheres em situação de violência doméstica. Tal expressão da questão social é matéria- prima, ou o objeto do trabalho profissional. Sugere Iamamoto (2005, p. 52) que o profissional deva pesquisar e conhecer a UNIDADE 3TÓPICO 1184 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L realidade em que intervém. Torna-se imprescindível, segundo a autora, decifrar as múltiplas expressões da questão social, sua gênese e suas novas características que assumem na contemporaneidade, atribuindo transparência a iniciativas voltadas à sua reversão e/ou enfrentamento imediato. Torna-se importante destacar os meios utilizados para o profissional realizar a sua prática, que dizem respeito aos instrumentos do Serviço Social necessários para a realização de seu processo de trabalho. Iamamoto (2005) adverte que os instrumentos de trabalho devem ir muito mais além do que um mero arsenal de técnicas, mas que abranjam o conhecimento como meio de trabalho. Compreende-se que o Serviço Social interfere na reprodução da força de trabalho por meio dos serviços sociais previstos em programas a partir dos quais se trabalha nas áreas de saúde, educação, situações habitacionais, dentre outras. Dessa forma, o Serviço Social é socialmente necessário, porque ele atua sobre questões que dizem respeito à sobrevivência social e material dos setores majoritários da população trabalhadora. Viabiliza o acesso não só a recursos materiais, mas asações implementadas incidem sobre as condições de sobrevivência social dessa população. (IAMAMOTO, 2007) Compreende-se que é no momento em que os sujeitos se fragilizam, perdem poder e patrimônio que buscam o Serviço Social. Segundo Faleiros, “tem-se aí justamente a especificidade da profissão, nessa relação de descapitalização e de fragilização/ fortalecimento”. (FALEIROS, 2001, p. 90). Relacionando com a questão da violência doméstica contra a mulher, os processos de trabalho do Assistente Social se darão na construção de estratégias nestas relações de poder, visando o fortalecimento, resistência à fragilização destas usuárias, buscando o resgate da cidadania, da autonomia, da autoestima, da participação destas na sociedade. O Assistente Social trabalhará na busca da implementação das diferentes políticas existentes, que têm como enfoque o fortalecimento destas mulheres, possibilitando que se desvinculem da situação de violência que vivenciam cotidianamente. Sendo o Assistente Social um profissional que tem uma formação ampla, capacitada para observar e analisar as relações sociais, econômicas e políticas; apto para compreender a estrutura e a conjuntura social; possuidor de conhecimentos para planejar, organizar, implantar e gerenciar serviços, programas e projetos sociais de prevenção da vulnerabilidade e exclusão social, compreende-se que este influenciará no desenvolvimento do processo de gestão destas políticas. Ressalta-se que o Assistente Social conta com o Código de Ética (1993), que passa a ser uma das referências dos encaminhamentos práticos e do posicionamento político dos UNIDADE 3 TÓPICO 1 185 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Assistentes Sociais em face da política neoliberal e de seus desdobramentos para o conjunto dos trabalhadores. (BARROCO, 2003) NOTAS 1 A denominação da lei surge em homenagem a Maria da Penha Maia Fernandes, mulher cearense que foi agredida pelo marido durante seis anos. Em 1983, seu marido tentou assassiná-la e das agressões resultaram lesões à sua saúde que a tornaram paraplégica. (FONSECA, 2006) 2 O II Plano de Políticas para as Mulheres ficou estruturado nos seguintes eixos: autonomia econômica e igualdade no mundo do trabalho, com inclusão social; educação inclusiva, não sexista, não racista, não homofóbica e não lesbofóbica; saúde das mulheres, direitos sexuais e direitos reprodutivos; enfrentamento de todas as formas de violência contra as mulheres; participação das mulheres nos espaços de poder e decisão; desenvolvimento sustentável no meio rural, na cidade e na floresta, com garantia de justiça ambiental, soberania e segurança alimentar; direito à terra, moradia digna e infraestrutura social nos meios rural e urbano, considerando as comunidades tradicionais; cultura, comunicação e mídia igualitárias, democráticas e não discriminatórias; enfrentamento do racismo, sexismo e lesbofobia; e enfrentamento das desigualdades geracionais que atingem as mulheres, com especial atenção às jovens e idosas. (II Plano de Políticas Públicas para as Mulheres). FONTE: Tavares (2009) AUT OAT IVID ADE � Caro(a) acadêmico(a), chegou o momento de você elaborar a Revisão de Literatura do seu Projeto de Pesquisa. Contextualize o seu tema e traga os principais aportes teóricos desenvolvidos sobre ele na contemporaneidade. Procure também contextualizar as descobertas existentes no seu campo de estudo. UNIDADE 3TÓPICO 1186 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L FONTE: Disponível em: <http://blogs.universia.com.br/ andresantana/files/2009/04/knowledge.jpeg>. Acesso em: 10 fev. 2011. O pesquisador deverá mostrar as formas da pesquisa, as modalidades de atividades que serão utilizadas para a sua concretização, os diversos momentos que serão percorridos para realizá-la, o tipo de pesquisa que será desenvolvido e os documentos com seus respectivos usos. Ou seja, é na metodologia que se deve explicar detalhadamente como o trabalho será desenvolvido, etapa por etapa, e quem participará da pesquisa (definição do público-alvo). Explica-se também o tipo de pesquisa, os procedimentos técnicos, as técnicas que serão utilizadas e como os dados serão tabulados e analisados. Deve-se informar também sobre possíveis materiais que serão utilizados pela equipe envolvida. A seguir, descrevem-se os elementos da metodologia, do projeto que se tem por base: 1. Natureza da Pesquisa Pretende-se desenvolver uma pesquisa de caráter descritivo, de natureza quantitativa e qualitativa. Enquanto que a pesquisa quantitativa atua em níveis de realidade e tem como objetivo trazer à luz dados, indicadores e tendências observáveis, a investigação qualitativa, ao contrário, trabalha com valores, crenças, representações, hábitos, atitudes e opiniões. Minayo & Sanches (1993) sugerem que da combinação das duas abordagens (cada uma 7 COMO SE FARÁ O TRABALHO? METODOLOGIA FIGURA 42 – REVISÃO DA LITERATURA UNIDADE 3 TÓPICO 1 187 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L no seu uso apropriado) é possível obter ótimos resultados. 2. Método Explica Gadotti (1983) que no interior das Ciências Sociais existem inúmeras correntes de pensamento que levam às múltiplas possibilidades de abordagem metodológica, com seus variados pressupostos. Será utilizado nesta pesquisa o método dialético-crítico, que se refere essencialmente a uma maneira de refletir sobre o homem e a sociedade, através de uma metodologia de investigação científica e de explicação do social. Para se compreender os fenômenos a partir de seus condicionantes políticos, econômicos e, mais amplamente, culturais, o referencial dialético-crítico faz uso de categorias teóricas que objetivam orientar a análise que se realizará. Explica Gadotti (1983) que estas categorias têm a função de interpretar a realidade social visando a sua compreensão e, portanto, correspondem a condições concretas de cada tempo e lugar, configurando-se através das relações essenciais, de caráter objetivo, cuja compreensão possibilitará o desvendamento do fenômeno na sua própria realidade. Nesta pesquisa se adotarão as seguintes categorias: cotidiano, historicidade, totalidade, contradição, mediação e trabalho. FONTE: Tavares (2009) UNIDADE 3TÓPICO 1188 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L AUT OAT IVID ADE � Caro(a) acadêmico(a), chegou o momento de definir os principais elementos da metodologia da sua pesquisa. Destaque a natureza e o método de que fará uso no seu estudo. Para isso, faça uso do espaço a seguir. METODOLOGIA Natureza da Pesquisa ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ Método de Pesquisa ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ FONTE: Disponível em: <http://www.alvoconhecimento.com.br/wp- content/uploads/2009/01/colaboracao_alvo_conhecimento. jpg>. Acesso em: 10 fev. 2011. FIGURA 43 – METODOLOGIA UNIDADE 3 TÓPICO 1 189 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L O projetodeverá apresentar a data-limite para os diversos momentos da pesquisa. Destaca-se que o cronograma serve como referência para os interessados se orientarem em relação ao término da pesquisa. No cronograma serão descritos detalhadamente os passos da pesquisa e o tempo que será destinado para a realização de cada um deles. Assim, será apresentada a data de início e de término de cada passo, assim como o momento em que o trabalho como um todo será finalizado, apresentando-se a conclusão e resultados do mesmo. A seguir exemplifica-se o Cronograma, com base no projeto que se tem exemplificado nesta disciplina. 8 QUANDO SERÁ DESENVOLVIDA CADA ETAPA DA PESQUISA? O CRONOGRAMA CRONOGRAMA 2009 2010 2011 2012 Atividade Mar- Jul Ago- Dez Jan- Mar Abr - Mai Jun- Ago Set - Dez Jan- Mar Abr - Mai Jun- Ago Set - Dez Jan- Mar Abr - Mai Jun- Ago Set - Dez 1. Aprimoramento do projeto de pesquisa X X 2. Pré-contato com as Coordenadorias d o s M u n i c í p i o s participantes do estudo X X 3. Encaminhamento ao Comitê Científico X 4. Encaminhamento ao Comitê de Ética X 5. Visita aos municípios participantes do estudo: Contato com os sujeitos da Pesquisa X X X 6. Aplicação do Pré- Teste (Formulários e Questionários) X 7. Coleta dos dados X X X X X 8. Análise dos Dados X X X 9. Elaboração do Relatório de Pesquisa X X 10. Elaboração da Tese de Doutorado X X X 11. Banca de Qualificação X 12. Banca Final de Defesa de Tese X X FONTE: Tavares (2009) QUADRO 4 – CRONOGRAMA UNIDADE 3TÓPICO 1190 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L AUT OAT IVID ADE � Prezado(a) acadêmico(a), chegou o momento de você definir o Cronograma de seu projeto de pesquisa. Destaque as principais ações pensadas para ele e descreva-o no período de tempo necessário para sua realização. Pode fazer uso do quadro a seguir para esta elaboração. CRONOGRAMA Atividade 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. Os recursos constituem-se enquanto elemento essencial quando o projeto for apresentado para uma instituição financiadora de projetos de pesquisa ou se for necessário à aquisição de algum material ou equipamento, pelo pesquisador. O quadro a seguir exemplifica este item: 9 QUANTO E COM O QUE SE IRÁ GASTAR? O ORÇAMENTO E OS RECURSOS UNIDADE 3 TÓPICO 1 191 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L ORÇAMENTO 1. MATERIAIS DIDÁTICOS Descrição Quantidade Valor Uni. Valor Total 1.1 Caderno 2 R$ 15,00 R$ 30,00 1.2 Caneta 3 R$ 3,00 R$ 9,00 1.3 Lapiseira 2 R$ 3,00 R$ 6,00 1.4 Folha A4 500 R$ 12,00 R$ 12,00 1.5 Disquete 10 R$ 1,50 R$ 15,00 1.6 CD 10 R$ 2,00 R$ 20,00 1.7 Cartucho para Impressora 2 R$ 25,00 R$ 50,00 1.8 Pilhas Máquina/Gravador 4 R$ 10,00 R$ 40,00 t1 (Custos Material Didático Total) R$ 182,00 2. INFORMÁTICA/ELETRÔNICOS Descrição Quantidade Valor Uni. Valor Total 2.1 Computador 1 R$ 1.200,00 R$ 1.200,00 2.2 Impressora Canon 1 R$ 600,00 R$ 600,00 2.3 Modem 1 R$ 150,00 R$ 150,00 2.4 Gravador Digital 1 R$ 150,00 R$ 150,00 2.5 Máquina Fotográfica Digital 1 R$ 250,00 R$ 250,00 t2 (Custos Informática Total) R$ 2.350,00 3. CUSTOS FIXOS Descrição Quant/mês Valor/mês Valor Total (12 meses) 3.1 Livros/revistas/periódicos 5 R$ 150,00 R$ 1.500,00 3.2 Passagens/ Deslocamentos 20 R$ 200,00 R$ 200,00 3.3 Alimentação 20 R$ 200,00 R$ 200,00 3.4 Telefone 60 R$ 100,00 R$ 600,00 3.4 Internet Banda Larga 60 dias R$ 22,00 R$ 264,00 t3 (Custos FixosTotal) R$ 2.764,00 VALOR TOTAL R$ 5.296,00 FONTE: Dados fictícios AUT OAT IVID ADE � Prezado(a) acadêmico(a), chegou o momento de você definir o Orçamento do seu Projeto de Pesquisa. Elenque todos os gastos que serão necessários para a realização do seu estudo. Para isso, pode fazer uso do quadro a seguir. QUADRO 5 – ORÇAMENTO UNIDADE 3TÓPICO 1192 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L ORÇAMENTO 1. MATERIAIS DIDÁTICOS Descrição Quantidade Valor Uni. Valor Total 2. INFORMÁTICA/ELETRÔNICOS Descrição Quantidade Valor Uni. Valor Total 3. CUSTOS FIXOS Descrição Quant/mês Valor/mês Valor Total (12 meses) VALOR TOTAL As referências bibliográficas consistem num item obrigatório e é o que dará validade aos conceitos e teorias apresentados. Representa o momento no qual o pesquisador irá listar as obras que serão utilizadas no decorrer da pesquisa. Isso significa que as obras que não constarem no projeto não possam constar na pesquisa. Sempre que aparecerem elementos e 10 ONDE FOI PESQUISADO? AS REFERÊNCIAS UNIDADE 3 TÓPICO 1 193 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L dados novos, estes não só podem como devem estar presentes na pesquisa. Deve-se citar qualquer fonte utilizada no desenvolvimento do trabalho, tais como: livros, internet, CDs, filmes, apostilas, arquivos digitais, artigos de jornais ou revistas, entrevistas, dentre outros. E ainda, as Referências Bibliográficas devem ser elaboradas de acordo com as normas da ABNT. Apresenta-se, a seguir, o exemplo da elaboração das referências bibliográficas: REFERÊNCIAS BARBOSA, E. F. A Técnica de Grupos Focais para Obtenção de Dados Qualitativos. Instituto de Pesquisa e Inovações Educacionais - Educativa. 1999. Disponível em: <http:// www.educativa.org.br>. Acesso em: 30 ago. 2008. BARDIN, L. Análise de Conteúdo. Edições Lisboa, 1977. BARROCO, Maria Lúcia Silva. Ética e Serviço Social: fundamentos ontológicos. São Paulo: Cortez, 2003. BARROS, Aidil de Jesus Paes; LEHFELD, Neide Aparecida de Souza. Projeto de Pesquisa: propostas metodológicas. Petrópolis: Vozes, 2003. BRANDÃO, Elaine R. Nos corredores de uma Delegacia da Mulher: um estudo etnográfico sobre as mulheres e a violência conjugal. 1997. 202p. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva). Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004. CAMARGO, M.; AQUINO, S. de. Redes de cidadania e parcerias – enfrentando a rota crítica. Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. Programa de prevenção, assistência e combate à violência contra a mulher – plano nacional. Brasília, 2003. CASTEL, Robert. Desigualdade e questão social. São Paulo: Educ, 1997. CÓDIGO de Ética do Assistente Social. 1993. Disponível em: <http://www.cfess.org.br/pdf/ legislacao_etica_cfess.pdf.> Acesso em: 20 jan. 2007. CONFERÊNCIA de Viena em 1993. Disponível em: <http://www.dhnet.org.br/direitos/ anthist/viena/index.html>. Acesso em: 30 out. 2008. DECLARAÇÃO sobre a eliminação da Violência contra a Mulher (1993). Disponível em: <http://www.protectionline.org/A-Declaracao-sobre-a-eliminacao-da.html>. Acesso em: 20 mar. 2009. DIAS, Maria Berenice. Bem-vinda, Maria da Penha!. 2006. Disponível em: <http://jus2.uol. com.br/Doutrina/texto.asp?id=8806>. Acesso em: 18 jul. 2007. FALEIROS, Vicente de Paula. Estratégias em Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2001. FONSECA, Iglesias Fernanda de Azevedo. A Lei Maria da Penha e o reconhecimento QUADRO 6 – REFERÊNCIAS UNIDADE 3TÓPICO 1194 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L legal da evolução do conceito de família. 2006. Disponível em: <http://jus2.uol.com.br/ doutrina/texto.asp?id=8911>. Acesso em: 18 jul. 2007. FUNDAÇÃO de Economia e Estatística. (FEE). Disponível em: <www.fee.tche.br>. Acesso em: 10 nov. 2008. IAMAMOTO, Marilda Vilela. O serviço social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. 9. ed. São Paulo: Cortez, 2005. ______. Serviço Social em tempo de capital fetiche: capital financeiro, trabalho e questão social. São Paulo: Cortez, 2007. LAVILLE, Christian; DIONNE, Jean. A construção do saber: manual de metodologia da pesquisa em ciências humanas. Porto Alegre: Editora Artes Médicas Sul Ltda; Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999. MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Técnicas de Pesquisa: planejamento e execução de pesquisas, amostragens e técnicas de pesquisas, elaboração, análise e interpretação dos dados. 4. ed. São Paulo: Atlas, 1999. MARX, Karl. O capital: crítica de economia política.São Paulo: Nova Cultural, 1989. MINAYO, M.C.; SANCHES, O. Quantitativo-qualitativo: oposição ou complementaridade? Caderno de Saúde Pública, São Paulo, set. 1993. MINAYO, Maria Cecília de Souza. O Desafio do Conhecimento: Pesquisa qualitativa em saúde. 5. ed. São Paulo, Rio de Janeiro: Hucitec-Abrasco, 1998. MOREIRA, V. A. Experiência Vivida do Estigma: Um Estudo sobre Gênero no Nordeste do Brasil. Projeto de Pesquisa. Mestrado em Psicologia. Universidade de Fortaleza, Fortaleza, 2002. PACTO de Enfrentamento à Violência contra a Mulher. Disponível em: <200.130.7.5/spmu/ docs/pacto_violencia.pdf>. Acesso em: 20 out. 2008. PESQUISA Perseu Abramo. Disponível em: <http://www.patriciagalvao.org.br>. Acesso em: 20 out. 2008. PLANO Estadual de Políticas para as Mulheres (RS Mulher). Disponível em: <www.estado. rs.gov.br/rsmulher/anexos/PLANO_RS_MULHER1.pdf>. Acesso em: 20 out. 2008. PLANO Nacional de Políticas para as Mulheres. Disponível em: <www.presidencia.gov.br/ estrutura_presidencia/sepm>. Acesso em: 20 out. 2008. PRATES, Jane Cruz. Disciplina: Teoria do Serviço Social II. A Produção do conhecimento em Marx. Textos Marxianos e de marxistas contemporâneos. 2003. SECRETARIA Especial de Políticas para as Mulheres. Disponível em: <www.presidencia. gov.br/estrutura_presidencia/sepm>. Acesso em: 20 out. 2008. SAFFIOTI, H. I. B. Violência de gênero – lugar da práxis na construção da subjetividade. Lutas Sociais. São Paulo: PUC, 1997. STREY, Marlene N. ; AZAMBUJA, Mariana P. Ruwer; JAEGER, Fernanda Pires (Org.) Violência, Gênero e Políticas Sociais. Porto Alegre, EDUPUCRS, 2004. FONTE: Tavares (2009) UNIDADE 3 TÓPICO 1 195 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L AUT OAT IVID ADE � Prezado(a) acadêmico(a), chegou o momento de você elaborar as Referências Bibliográficas de seu trabalho. Elenque todos os autores que foram necessários para que seu estudo se desenvolvesse. LEITURA COMPLEMENTAR O PROCESSO DE PESQUISA CIENTÍFICA Mauro Maia Laruccia Este texto pretende auxiliar os estudantes na reflexão sobre os passos a serem percorridos no processo da pesquisa científica, valorizando alguns procedimentos que, ainda que anteriores à pesquisa, são fundamentais para o seu início, além do encaminhamento da pesquisa científica em seus diferentes momentos. Na discussão do processo de pesquisa, o primeiro ponto a ser levantado refere-se à coleta de dados. Isto porque, ao contrário do que orientam alguns professores, a pesquisa científica não deve começar pela coleta de informações. Não basta definir um assunto e empreender uma busca de informações sobre ele. É necessário, antes de tudo, ter muito bem definido o objeto de estudo. Este objeto, ao mesmo tempo em que deve ser particularizado, deve revestir-se de universalidade. Com estas características, os resultados da pesquisa poderão ser avaliados pela comunidade científica, e também poderão ser generalizados através de analogias. Assim, a pesquisa não estará limitada a um estudo de caso e seus resultados serão aproveitados por outras pesquisas que contemplem temas correlacionados. Ter um objeto de estudo bem definido ainda não é suficiente para se iniciar a coleta de dados por uma observação sistemática. É necessário que o pesquisador tenha delimitado claramente uma problemática acerca do objeto escolhido; uma questão motriz que lhe permitirá formular hipóteses, caso contrário, ele estará correndo o risco de observar o que não é necessário para a pesquisa, ou deixar de observar fatos relevantes a ela. Surge então um primeiro impasse: como identificar uma problemática em um objeto de pesquisa sem que se observe, uma vez que foi posto que a observação seria um passo posterior? De fato, não há como identificar uma problemática sem observar; mas esta é uma observação aleatória, isto é, não sistemática, intuitiva apenas. Veremos adiante que a observação sistemática é orientada por um método científico. A simples observação inicial de nosso objeto de estudo, a qual chamamos de aleatória, já nos permite levantar questões ou identificar uma problemática a seu respeito. UNIDADE 3TÓPICO 1196 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L A partir de então, já possuímos elementos suficientes para que, diante de uma situação- problema, formulem-se hipóteses, que podem ser chamadas também de conjecturas ou suposições. As hipóteses são generalizações empíricas baseadas em evidências obtidas por meio da observação aleatória. Elas direcionam a pesquisa para os fatos relevantes acerca da questão central, da problemática levantada. Sem hipóteses podem ser feitos estudos aprofundados, mas não pesquisa científica. As hipóteses antecipam um conhecimento que deverá ser comprovado ou não ao longo do processo de pesquisa. O valor científico de uma pesquisa não reside na comprovação das hipóteses, uma vez que não há obrigatoriedade de confirmação, mas o percurso que foi adotado para chegar a suas verificações. Tudo o que foi mostrado até agora não faz parte ainda do que podemos chamar de pesquisa científica, apesar de constituir-se pré-requisito da mesma. Isto porque nenhum método científico foi utilizado até agora; não existe método científico que nos conduza à identificação de uma problemática, nem mesmo à formulação de hipóteses. Os processos que nos conduziram até aqui, desde a escolha da área ou objeto de estudo, à identificação de uma problemática e à formulação das hipóteses são empíricos, intuitivos e não sistemáticos. A próxima providência seria uma revisão bibliográfica sobre o objeto de estudo, tendo sempre em mente a problemática e as hipóteses, o que fará com que a escolha dos títulos a serem lidos seja mais precisa. É somente a partir deste momento que podemos considerar que a pesquisa passa a assumir o caráter científico. Nesta etapa, a observação passa a ser sistemática e orientada por um método científico. Em outras palavras, através de um conjunto de procedimentos preestabelecidos, parte-se em busca de informações, dos fatos, das evidências que conduzam a uma explicação, ou a uma compreensão satisfatória daquilo que se propôs explicar. O método científico é universal entre as ciências da natureza de forte caráter empírico. Dentro deste domínio, a análise, a síntese, as analogias, a dedução e a indução são processos contidos no método científico utilizado em qualquer pesquisa. Cada área do conhecimento, no entanto, particulariza o método científico atribuindo-lhe uma “roupagem” mais adequada a seu universo temático. Um elemento da pesquisa que terá sempre um grau de variabilidade maior do que o método são as técnicas. Elas variam tanto quanto possa variar o objeto de estudo. Questionários, medições, correlações, modelos etc. serão utilizados de acordo com a necessidade imposta pelo objeto de estudo e pela problemática levantada. A natureza de cada objeto de estudo pode, assim, requerer técnicas diferenciadas. Outro fator que pode diferenciar as técnicas adotadas nas pesquisas é o avanço tecnológico. Isto não quer dizer que as melhores técnicas sejam as mais modernas, o que pode até ocorrer, mas, sem dúvida, as melhores são aquelas que melhor se adaptam ao objeto de estudo e as que se mostram mais eficientes na obtenção dos resultados esperados. De qualquer forma, o avanço tecnológico e o contexto econômico no qual a pesquisa está sendo empreendida podem disponibilizar um maior número de técnicas. UNIDADE 3 TÓPICO 1 197 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Encontramo-nos agora na etapa da observação sistemática. Isto não quer dizer que o pesquisador só agora comece a observar. Ele não deve desprezar em momento algum as informações que possam vir a ser importantes, mesmo que ainda não tenha certeza disso, apenas porque ainda não chegou na fase de observação. É preciso ressaltar que estas etapas não são de forma alguma estanques e servem apenas para nos orientar no decorrer do processo de pesquisa. Ao contrário do que por muito tempose considerou, a observação não é anterior à interpretação. Ambas fazem parte do mesmo processo, uma vez que não há observador ideal. A escolha do que será observado primeiro, o relato da observação, a ordenação dos fatos, tudo isto já está impregnado no observador. A própria linguagem usada pelo observador é impregnada e reveladora de seus valores próprios. Neste sentido, a linguagem científica deve ser a mais clara possível, abrindo mão de adjetivações que poderão ocorrer apenas nas considerações finais, quando o trabalho já estiver concluído. A adjetivação resulta de uma avaliação subjetiva do pesquisador e deve ser evitada, embora cada observador tenha uma carga teórica, um aprendizado e experiências diferentes, portanto, diferentes percepções ao observar. A objetividade de uma pesquisa científica reside então na forma como foi conduzida e na possibilidade que ela oferece de ter seus resultados testados pela comunidade científica que estaria representando o sujeito. Em outras palavras, a objetividade de um trabalho científico está na intersubjetividade. Não é o sujeito, o autor da pesquisa, que deverá ser posto à prova, mas a pesquisa em si, e isto só poderá ser feito pela comunidade científica, intersubjetivamente. Para tanto, é necessário que o cientista organize as informações e utilize técnicas que diminuam a fluidez das informações obtidas e das conclusões. Há uma grande diferença em dizer, por exemplo, que “há mais automóveis circulando nas ruas pela manhã e pela tarde”, do que dizer que em determinados bairros da cidade, entre 07:00h e 10:00h e 17:00h e 20:00h de segunda-feira, a circulação de automóveis aumenta em X%. A diferença está no fato de que, no primeiro caso, é apenas uma constatação à qual não se pode contestar. Já no segundo caso, as informações estão menos fluidas e podem ser contestadas. Assim, as conclusões também poderão ser mais precisas. Se a pesquisa científica é bem conduzida, as conclusões aparecem como consequência da argumentação e não precisam ser criadas; constituem a comprovação ou não das hipóteses levantadas. A conclusão de um trabalho não deve constituir-se de um resumo do que foi feito. Contudo, podem ser acrescentados nas conclusões os problemas enfrentados em qualquer momento do processo de pesquisa; nesse momento também é possível e aconselhável que se projetem caminhos vislumbrando a continuidade da pesquisa concluída. FONTE: Disponível em: <http://www.maurolaruccia.adm.br/materiais/cadernomtp.pdf>. Acesso em: 10 fev. 2011. UNIDADE 3TÓPICO 1198 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Neste tópico você estudou que: ● Toda pesquisa segue um caminho metodológico. ● É comum os acadêmicos pesquisadores iniciantes se empolgarem com algum assunto geral, querendo trabalhá-lo como um todo. ● Qualquer pesquisa, antes de ser desenvolvida, para seu sucesso e conclusão significativa, deverá primeiro ser planejada, detalhada, analisando-se todas as possibilidades, os prós e os contras. ● A pesquisa consiste em um conjunto de ações propostas para encontrar a solução de um problema que tem por base procedimentos racionais e sistemáticos. ● No Serviço Social, as etapas de um projeto de pesquisa podem ser: elaboração do projeto de pesquisa (escolha do tema; revisão de literatura; justificativa; formulação do problema; determinação dos objetivos; metodologia; organização de um cronograma; definição de recursos); execução (coleta de dados, organização dos dados, análise e discussão dos resultados; conclusão); apresentação dos resultados. ● Justificativa significa argumentar, esclarecer, fundamentar porque o trabalho é importante, tanto para a comunidade acadêmica quanto para a sociedade. ● Os objetivos devem esclarecer o que se pretende atingir com a realização da pesquisa, com a implementação do projeto. ● Toda a pesquisa parte de alguns referenciais já conhecidos pela comunidade científica. ● É na metodologia que se deve explicar detalhadamente como o trabalho será desenvolvido, etapa por etapa, e quem participará da pesquisa (definição do público-alvo). ● O cronograma consiste no detalhamento do tempo a ser destinado a cada etapa da pesquisa. ● Os recursos constituem-se enquanto elemento essencial quando o projeto for apresentado para uma instituição financiadora de projetos de pesquisa ou se for necessário à aquisição de algum material ou equipamento pelo pesquisador. ● As referências bibliográficas consistem em um item obrigatório e é o que dará validade aos conceitos e teorias utilizados. RESUMO DO TÓPICO 1 UNIDADE 3 TÓPICO 1 199 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Caro(a) acadêmico(a), apresentaremos a seguir o roteiro para o projeto de pesquisa. Você terá a maioria dos itens já elaborados, com base nas autoatividades anteriores. Solicitamos que você complete os que estão em negrito e os organize. Nos próximos tópicos trabalharemos os itens restantes do projeto de pesquisa. AUT OAT IVID ADE � ROTEIRO DE PROJETO DE PESQUISA Título do Projeto de Pesquisa 1. Delimitação do Tema 2. Justificativa 3. Problema de Pesquisa 4. Hipóteses 5. Objetivos 6. Revisão de Literatura 7. Metodologia 7.1 Natureza da Pesquisa 7.2 Campo e Sujeitos da Pesquisa 7.2.1 Definição do Campo de Pesquisa 7.2.2 Definição do Universo e Amostra de Pesquisa 7.3 Método 7.4 Instrumentos e Técnicas de coleta de dados 7.5 Análise dos Dados 8. Cronograma Referências UNIDADE 3TÓPICO 1200 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L CONSTRUINDO AS HIPÓTESES E DEFININDO O DELINEAMENTO DA PESQUISA 1 INTRODUÇÃO 2 O QUE SÃO HIPÓTESES DE PESQUISA? TÓPICO 2 UNIDADE 3 Neste tópico apresentaremos as particularidades das hipóteses de pesquisa. Capacitaremos o(a) acadêmico(a) a elaborá-las, dando continuidade ao seu Projeto de Pesquisa. Também discutiremos o delineamento da pesquisa, como forma de instrumentalizar o(a) acadêmico(a) sobre as principais correntes teóricas filosóficas existentes. No projeto é preciso apresentar algumas hipóteses ou possibilidades para resolver o problema central de sua pesquisa, mostrando o conhecimento já adquirido e a possibilidade de resolvê-lo. A argumentação das hipóteses ou tese sempre está ligada à resposta que o pesquisador procura dar ao problema, ou seja, é a partir do problema que se elaboram algumas possibilidades que visam solucioná-lo. Desse modo, as hipóteses são as explicações preconcebidas, para o fenômeno, que serão testadas por meio da verificação da evidência dos dados empíricos. Por isso, entende-se que a relação entre definir um problema e nomear as hipóteses é um processo de retroalimentação. A partir do momento em que se considera a existência de um problema, inicia-se a elaboração de possíveis causas para o mesmo, configurando-se nas hipóteses que irão nortear toda a pesquisa. Por consequência, é primordial que o pesquisador tenha uma significativa aproximação com a realidade, com o fenômeno estudado e com as teorias que o embasam. UNIDADE 3TÓPICO 2202 P E S Q U I S A E M S E R V I Ç O S O C I A L Alguns fatores são reconhecidos por desencadearem maior dificuldade para a elaboração das hipóteses de pesquisa, exigindo que essa construção seja permeada de grande criatividade. Dentre alguns fatores, destacam-se: a) Inexistência de um consistente referencial teórico que embase a temática e o tema em questão, ou seja, escassez de leituras sobre estudos anteriores direcionados ao mesmo assunto. b) Incapacidade técnica (e científica) para fazer uso, de maneira construtiva, do referencial teórico escolhido. c) Falta de conhecimento a respeito da metodologia e técnicas de pesquisas já realizadas. A sustentação teórica e prática da pesquisa viabiliza a definição das hipóteses. Conforme o grau de sustentação haverá maior, ou menor, viabilidade para a definição das hipóteses. 3 TIPOS DE HIPÓTESES As hipóteses almejam apresentar a relação existente