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A HIBRIDAÇÃO DO SISTEMA JURÍDICO BRASILEIRO COM O 
CRESCENTE FORTALECIMENTO DOS PRECEDENTES JUDICIAIS 
The hybridization of the brazilian legal system with the growing strengthening of 
judicial precedents 
 
Bernardo Fernandes Santos NARDO
1
 
Caíque Tomaz Leite da SILVA
2
 
 
RESUMO: O presente trabalho tem como objetivo traçar uma visão geral do sistema 
judiciário adotado pelo ordenamento pátrio, à vista do constante fortalecimento dos 
precedentes judiciais, marcado principalmente pelo advento do novo Código de 
Processo Civil, que inovou no âmbito dos precedentes obrigatórios e atribuiu grande 
importância à segurança jurídica ao determinar a constante necessidade de 
uniformização da jurisprudência, sendo mantida estável, íntegra e coerente pelos 
tribunais. Observa-se que o ordenamento pátrio conta atualmente com um sistema 
híbrido em fase de transição, misturando aspectos do civil law com common law, 
contudo ainda colidindo com uma dificuldade prática na adaptação pelos magistrados ao 
novo sistema, que ainda se prendem à noção de soberania no julgamento. 
 
Palavras-chave: Common law. Civil law. Segurança jurídica. Precedentes obrigatórios. 
Ratio decidendi. 
 
 
1
 Discente do curso de Direito do Centro Universitário Antônio Eufrásio de Toledo. E-mail: 
bernardo.nardo@hotmail.com 
2
 Doutorando em Direito Público (fase de dissertação) e Pós-Graduado em Direitos Humanos pela 
Universidade de Coimbra (POR). Especialista em Direito Civil e Processual Civil (summa cun laude). 
Banca Examinadora da American University (USA). Bolsista do Curso de Direito Internacional 
Humanitário (Ius Gentiun Coninbrigae, Instituto de Direitos Humanos da Universidade de Coimbra). 
Professor Convidado do IGC-Universidade de Coimbra. Membro do grupo de trabalho encarregado da 
versão luso-brasileira da obra “Understanding Human Rights”, da Universidade de Coimbra. Professor do 
Centro Universitário Antônio Eufrásio de Toledo (BRA). Professor da Escola Superior da Advocacia 
(ESA). Coordenador das Jornadas Luso-Brasileiras de Direitos Humanos e Direito Internacional Público 
(Universidade de Coimbra). Coordenador das Jornadas Luso-Brasileiras sobre Garantismo 
Constitucional-Penal (Instituto Superior Bissaya Barreto). Professor do curso de Pós-Graduação em 
Direito Civil e Processual Civil da Unitoledo (Araçatuba-SP). E-mail: caique.thomaz@hotmail.com 
ABSTRACT: The present work aims to outline an overview of the judicial system 
adopted by the country's legal system, in view of the previous strengthening of judicial 
precedents, and should be done whenever the new Code of Civil Procedure, with regard 
to mandatory precedents and attributed to the great importance in accordance with the 
law of uniformity of the jurisprudence, being maintained stable, integral and coherent 
by the courts. It can be observed that the country system currently has a hybrid system 
in the transition phase, with aspects of common civil law aberration, still continues to be 
applied to the notion of sovereignty without judgment. 
 
Key-Words: Common law. Civil law. Juridic security. Obligatory precedentes. Ratio 
decidendi. 
 
1. INTRODUÇÃO 
 
Sabe-se que o Brasil oficialmente adota o civil law como sistema 
jurídico, contando com normas positivadas de forma hierárquica para regulamentação 
dos diversos direitos e deveres existentes, sendo indispensáveis na verificação de sua 
legitimidade e validade. Classicamente, o princípio da legalidade vigorou de forma 
soberana, aplicando-se antes de tudo a letra da lei para resolução das lides. 
Com a evolução do constitucionalismo, o judiciário passou a exercer um 
papel mais ativo na interpretação dessas leis, para que sua aplicação prática melhor se 
amoldasse aos princípios da norma maior. 
A partir desse momento, naturalmente começaram a surgir entendimentos 
divergentes em julgamentos de casos análogos, sendo inerente aos juízes a diversidade 
de interpretações de uma mesma norma, cediço que a visão da realidade muda em 
relação ao indivíduo que a observa, com base em sua formação e diversos outros 
aspectos ligados à evolução de sua psiquê. 
Posto isso, tornou-se necessária a busca por meios de assegurar a 
segurança jurídica em meio a tantos entendimentos e julgados divergentes, encontrando-
se a solução fora do sistema jurídico adotado pelo país, mais especificamente no sistema 
do common law, sendo trazido ao âmbito nacional o conceito de “precedentes 
obrigatórios” por meio da eficácia vinculante conferida a alguns pronunciamentos do 
Poder Judiciário. 
Desde então, a aplicação de princípios do common law vem sendo cada 
vez mais fortalecida no sistema brasileiro, sendo notável a atribuição de grande 
importância aos precedentes judiciais no momento de um pronunciamento, não se 
mostrando mais correta a afirmação de que o Brasil é um pais adepto do sistema civil 
law, porquanto notável a influência do sistema de origem britânica no âmbito nacional. 
Um símbolo dessa constante evolução em direção ao common law é o 
advento do novo Código de Processo Civil, que em seus artigos 926 e 927 fez questão 
de destacar a importância dos precedentes em um julgamento, inclusive criando um 
novo precedente com força vinculante, o Incidente de Resolução de Demandas 
Repetitivas (IRDR). 
Contudo, conforme será observado, embora o Brasil possua um sistema 
híbrido com constante robustecimento de seu aspecto jurisprudencial, ainda há muita 
relutância dos magistrados em ceder suas convicções pessoais em prol da aplicação de 
entendimentos uniformizados, o que dificulta a evolução do sistema nacional a um 
cenário de maior segurança jurídica e uniformidade no âmbito judiciário. 
 
2. NOÇÕES BÁSICAS DOS PRINCIPAIS SISTEMAS JURÍDICOS 
INFLUENTES NO BRASIL 
 
Para que se possa traçar uma visão geral do sistema judiciário adotado 
pelo Brasil, necessário se faz o esclarecimento de aspectos essenciais dos dois principais 
sistemas jurídicos, o civil law e o common law, porquanto inegável a presença de 
aspectos de ambos no ordenamento pátrio. 
 
2.1 COMMON LAW 
 
O sistema jurídico anglo-saxão, adotado por países como os Estados 
Unidos e a Inglaterra, é caracterizado por basear-se mais na jurisprudência do que no 
texto da lei, sendo o direito desenvolvido pela atuação do Poder Judiciário, que se 
norteia pelos costumes e tradições da sociedade. Há uma inexistência ou escassez de 
normas codificadas, sendo a jurisprudência fonte primária de direito, utilizando-se os 
tribunais de pronunciamentos do próprio Poder Judiciário para decidir as lides. 
Conforme definiu Sesma, “por common law, pode entender-se o 
elemento casuístico do Direito anglo-americano (case law) constituído pelos 
precedentes judiciais, ou seja, a jurisprudência dos tribunais anglo-americanos”.
3
 
Nesse sistema o Direito é essencialmente jurisprudencial, sendo as regras 
emanadas por meio dos precedentes judiciais. Os tribunais julgam casos, gerando 
precedentes que vinculam julgamentos futuros à ratio decidendi (razão de decidir) dos 
julgados anteriores, sendo o direito efetivamente criado pelo judiciário. 
Malgrado seja a teoria dos precedentes derivada do common law, não se 
pode explicar esse último somente com base naquela, posto que sua existência supera 
em muitos anos o advento dos precedentes. Cediço que o direito baseado em costumes 
gerais existiu por vários séculos sem a teoria dos precedentes. 
Conforme preconiza Simpson, “qualquer identificação entre o sistema 
do common law e a doutrina dos precedentes, qualquer tentativa de explicar a natureza 
do common law em termos de stare decisis, certamente será insatisfatória, uma vez que 
a elaboração de regras e princípios regulando o uso dos precedentes e a determinação 
e aceitação da sua autoridade são relativamente recentes, para não se falar da noção 
de precedentes vinculantes (binding precedents),que é mais recente ainda. Além de o 
common law ter nascido séculos antes de alguém se preocupar com tais questões, ela 
funcionou muito bem como sistema de direito sem os fundamentos e conceitos próprios 
da teoria dos precedentes, como, por exemplo, o conceito de ratio decidendi”.
4
 
Contudo, conforme leciona Marinoni, “Não há como negar a 
importância que o stare decisis teve para o desenvolvimento do common law, nem como 
 
3
 “por common law, puede entenderse el elemento casuístico del Derecho anglo-americano (case law) 
constituido por los precedentes judiciales, o sea, la jurisprudencia de los tribunales anglo-americanos” 
(SESMA, Victoria Iturralde. El precedente em el common law. Madrid: Civitas, 1995, p. 15) 
4
 “To a historian at least any identification between the common law system and the doctrine of 
precedent, any attempt to explain the nature of the common law in terms of stare decisis, is bound to seem 
unsatisfactory, for the elaboration of rules and principles governing the use of precedents and their status 
as authorities is relatively modern, and the idea that there could be binding precedents more recent still. 
The common law had been in existence for centuries before anybody was very excited about these 
matters, and yet it functioned as a system of law without such props as the concept of the ratio decidendi, 
and functioned well enough” (SIMPSON, A. W. B. The common law and legal theory, in Oxford Essays 
in Jurisprudence. Oxford: Clarendon Press, 1973, p. 77). 
esquecer que os precedentes – ao lado da lei e dos costumes – constituem fonte de 
direito neste sistema”.
5
 
Como o representativo do sistema common law no Brasil são os 
precedentes vinculantes, e como o objetivo do presente trabalho é a análise do sistema 
misto adotado em solo brasileiro e não a análise histórica do sistema em voga, a 
exposição de sua ideologia se dará baseada em precedentes, conforme é mais 
caracterizado atualmente, porquanto a análise histórica e aprofundada seria mais 
exaustiva e fugiria de nosso campo de exposição. 
Nos países em que esse sistema é adotado, o Poder Judiciário é o maior 
responsável pela criação e aplicação do direito. Os juízes inclusive não estão vinculados 
aos princípios da lei. Isso não significa dizer que a lei não pode servir de base para 
decisões, contudo pode ser desprezada se o juiz optar pela aplicação de outra fonte no 
julgamento. 
O juiz está vinculado tão somente a outras decisões, porquanto essas 
possuem força obrigatória. Além disso, nem sempre há a criação de direito pelo 
judiciário, conforme afirma Marinoni: “quando um precedente interpreta a lei ou a 
Constituição, como acontece especialmente nos Estados Unidos, há, evidentemente, 
direito preexistente com força normativa, de modo que seria absurdo pensar que o juiz, 
neste caso, cria um direito novo. Na verdade, também no caso em que havia apenas 
costume, existia direito preexistente, o direito costumeiro”.
6
 
Destarte, embora o juiz possa se basear em direito pré-existente, cediço 
que também o cria nos países em que vigora o common law. Para enfatizar o principal 
aspecto do sistema, preconiza o juiz Wendell Holmes: “a constituição dos Estados 
Unidos é o que a Suprema Corte diz que é”.
7
 
Observa-se que nesse sistema o papel ativo do judiciário na criação do 
direito é típico e legítimo, sendo os julgamentos proferidos com base em precedentes 
 
5
 MARINONI, Luiz Guilherme. Aproximação crítica entra as jurisdições de Civil Law e de Common Law 
e a necessidade de respeito aos precedentes no Brasil. Revista da Faculdade de Direito da UFPR, Curitiba, 
n. 49, p. 11-58, 2009, p. 18. 
6
 MARINONI, Luiz Guilherme. Aproximação crítica entra as jurisdições de Civil Law e de Common Law 
e a necessidade de respeito aos precedentes no Brasil. Revista da Faculdade de Direito da UFPR, Curitiba, 
n. 49, p. 11-58, 2009, p. 19. 
7
 Apud. FERREIRA FILHO. Manoel Gonçalves. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 35ª 
ed., 2009, p. 383. 
anteriormente gerados, os quais criaram uma norma de caráter geral, extraída da ratio 
decidendi. 
Em contrapartida a esse sistema, está o civil law, cuja ênfase é a 
codificação de todos os preceitos legais, além da vinculação absoluta à letra da lei, 
conforme será analisado na próxima seção. 
 
2.2 CIVIL LAW 
 
Sistema oficialmente adotado no Brasil, marcado pela codificação do 
direito. Aqui, a lei é a fonte primária do direito, sendo as demais secundárias, somente 
utilizadas para realizar a integração da norma, suprindo lacunas diante da ausência de 
legislação para regulamentar um caso específico. 
Preconiza Marinoni acerca da codificação: “Para a revolução francesa, 
a lei seria indispensável para a realização da liberdade e da igualdade. Por este 
motivo, entendeu-se que a certeza jurídica seria indispensável diante das decisões 
judiciais, uma vez que, caso os juízes pudessem produzir decisões destoantes da lei, os 
propósitos revolucionários estariam perdidos ou seriam inalcançáveis”.
8
 A certeza do 
direito estaria na impossibilidade de o juiz interpretar a lei, ou, melhor dizendo, na 
própria Lei. 
Vigora como fundamental o princípio da legalidade, legitimando toda 
ação criada em conformidade com a legislação, e desprezando aquelas que surgem de 
outras fontes, não embasadas por texto legal e contrárias à intenção do legislador. 
O principal protagonista na criação do direito passa a ser o legislador, e 
não mais o juiz, uma vez que é ele quem detém o poder de positivar as normas, 
utilizando-se o judiciário dessas leis para decidir as lides apresentadas. 
A função do juiz é a de interpretar e aplicar a lei aos casos concretos, 
atentando-se a todos os mecanismos existentes para tanto, e não mais a função de criar o 
direito. O Civil Law surgiu com o intuito de criar um sistema legislativo perfeito, onde a 
legislação seria exauriente a ponto do juiz somente aplica-la ao caso, não necessitando 
estender ou limitar sua interpretação. Contudo, tal ideia é utópica, e na realidade as leis 
 
8
 MARINONI, Luiz Guilherme. Aproximação crítica entra as jurisdições de Civil Law e de Common Law 
e a necessidade de respeito aos precedentes no Brasil. Revista da Faculdade de Direito da UFPR, Curitiba, 
n. 49, p. 11-58, 2009, p. 34. 
nunca serão autossuficientes a ponto de preverem todas as situações possíveis, ou 
perfeitas a ponto de nunca surgir um conflito entre elas ou uma lacuna. 
À vista disso, a legislação brasileira, mais especificamente o artigo 4º da 
Lei de Introdução ao Código Civil (Decreto-lei nº 4.657/42), determina que o juiz 
deverá se utilizar da analogia, dos costumes, e dos princípios gerais do direito como 
fontes secundárias para suprir eventuais omissões legislativas. 
Com efeito, nesse sistema a jurisprudência muitas vezes não é sequer 
vista como fonte secundária de direito, sendo os fundamentos de outros julgados uma 
mera fonte de consulta para os órgãos judicantes. 
O direito positivado, característico do sistema em estudo, trazia consigo a 
ideia de maior segurança jurídica diante da estabilidade e previsibilidade na aplicação 
das leis. Todavia, por conta da impossibilidade de perfeição das normas e da abertura da 
possibilidade de interpretação pelo juiz, a segurança jurídica tão buscada tornou-se 
distante, havendo certa imprevisibilidade na interpretação adotada pelo juiz ao buscar-se 
o judiciário. 
Diante dessa situação, tornou-se necessário buscar uma forma de 
reafirmar a segurança jurídica do sistema, o que no Brasil foi feito por meio da adoção 
dos precedentes vinculantes, surgindo o sistema hibrido que conhecemos hoje e que será 
analisado pelo presente trabalho. 
 
3. O PRECEDENTE JUDICIAL NOS SISTEMAS JURÍDICOS 
 
Antes de iniciara análise do sistema jurídico brasileiro com ênfase na 
teoria dos precedentes, necessário esclarecer que tanto no sistema common law quanto 
no civil law existem precedentes. A partir do momento em que o juiz profere uma 
decisão, cria-se um precedente, sendo tal fenômeno inevitável em qualquer sistema 
dependente do Poder Judiciário para aplicar o direito aos casos concretos. 
Contudo, embora presente em ambos os sistemas, a força atribuída aos 
precedentes não é a mesma. Conforme preconiza Marcelo Alves Dias de Souza: “Em 
qualquer país, independentemente de sua filiação a esta ou àquela família jurídica, a 
decisão de um caso tomada anteriormente pelo judiciário constitui, para os casos a ele 
semelhantes, um precedente judicial. Apenas seus atributos, tais como seu poder 
criativo ou meramente declarativo, seu caráter persuasivo ou obrigatório, é que vão 
depender dos contornos atribuídos a ele pelo sistema jurídico estabelecido”.
9
 
Explica Sampaio: “Toda sentença cria, por sua vez, um precedente. A 
própria lei do mínimo esforço leva o juiz, ou o aparelho judiciário como um todo, a 
julgar do mesmo modo uma lide que tenha características iguais de outra causa já 
julgada. Um primeiro julgado assemelha-se à trilha aberta em selva inexplorada. É a 
única clareira que convida à passagem. Se os que por ela seguirem chegarem à meta 
procurada, o caminho se tornará frequentado e se converterá, com o tempo, em segura 
estrada real. Sob o ponto de vista ético, o próprio ideal de „justiça igual para todos‟ 
inclinaria o julgador a seguir o precedente. Assim sendo, é puramente platônica a 
conhecida proibição do Código de Justiniano, de que não se julgue conforme os 
precedentes – non exemplis, sed ligibus indicandum est – até porque o julgador pode 
basear-se em decisão anterior sem menciona-la”.
10
 
Posto isso, tem-se que a ideia de um sistema livre da influência dos 
precedentes é, na prática, inexistente. Todavia não se pode afirmar que os precedentes 
possuem o mesmo impacto em cada sistema, diferindo-se principalmente em sua 
aplicabilidade. 
Nos sistemas típicos do common law, o precedente tem força vinculante, 
é em regra de seguimento obrigatório, tornando-se um importante elemento de análise 
nos julgados, senão o mais importante. 
Decisões inteiras podem ser baseadas somente na vinculação gerada por 
um julgado anterior em caso análogo. O grande ponto desse sistema é a vinculação 
gerada pelos precedentes e a importância da jurisprudência na análise dos casos feita 
pelo julgador. 
Essa obrigatoriedade dos precedentes decorre da adoção da doutrina do 
stare decisis pelo sistema common law, que determina a aplicação dos precedentes 
judiciais, inclusive de forma vinculativa. 
 
9
 SOUZA, Marcelo Alves Dias de. Do precedente judicial à súmula vinculante. Curitiba: Juruá, 1 ed., 
2008, p. 15. 
10
 SAMPAIO, Nelson de Sousa. O Supremo Tribunal Federal e a nova fisionomia do judiciário. Revista 
do Direito Público, n.75, p.09, jul./set. 1985b. 
Nos tribunais norte-americanos, onde notoriamente emprega-se o sistema 
common law, a doutrina do stare decisis é dividida em dois componentes: o binding 
authority e o persuasive precedent. 
O primeiro princípio prega que os tribunais inferiores são vinculados a 
precedentes de tribunais superiores. Um juiz que se encontra abaixo da cadeia 
hierárquica nunca poderá adotar entendimento divergente daquele aplicado por juiz 
superior em um julgado pretérito de caso análogo. É a patente força vinculante de um 
precedente. 
Pelo segundo vetor, juízes de mesma hierarquia geram apenas 
precedentes persuasivos, ou seja, não estão vinculados às decisões proferidas 
anteriormente pelos seus pares. Em regra, os juízes seguirão o precedente persuasivo, 
contudo, se acobertado por fortes fundamentos, um juiz pode desviar-se do 
entendimento até então aplicado pelos demais da mesma escala hierárquica, deixando de 
aplica-lo. 
Contudo, independentemente de o precedente ser de força persuasiva ou 
vinculante, seu seguimento nesse sistema é sempre, em regra, obrigatório, 
desvencilhando-se dessa característica excepcionalmente mediante fortes fundamentos. 
Já no civil law, embora os precedentes existam, conforme exposto 
anteriormente, eles carecem de força obrigatória, porquanto a ênfase do sistema é a 
legislação, que conta com maior força vinculativa. 
O precedente não deixa de ser modelo para decisões futuras, um guia em 
um caminho pouco explorado, contudo não torna o caminho obrigatório, facultando-se 
aos magistrados criar novas estradas por meio de diferentes interpretações conferidas à 
lei. 
Aduz Ascensão acerca dos precedentes na tradição do civil law: “Os 
tribunais superiores não têm que de julgar como fizeram juízes inferiores, o que é 
facilmente compreensível. Os juízes não têm de julgar como fizeram já juízes do mesmo 
nível hierárquico. Assim, se o juiz de direito chamado a decidir um caso verifica que 
outro juiz decidiu já o caso semelhante de certa maneira, nem por isso está vinculado a 
manter a orientação seguida. Os juízes não têm de julgar consoante eles próprios já 
fizeram. O fato de o Supremo Tribunal ter decidido sempre em certo sentido uma 
categoria de casos, não o inibe de um dado momento adotar outra orientação que lhe 
pareça mais fundada. Os órgãos judiciais inferiores não têm de julgar conforme o 
fizeram já tribunais superiores. Esta é a chave do sistema”.
11
 
Destarte, o sistema caracteriza-se pela inexistência de precedentes 
vinculantes, pela atribuição de um caráter menos decisivo aos precedentes e pela 
soberania da lei em detrimento de outras fontes de direito. 
 
4. O SISTEMA JUDICIAL BRASILEIRO E O FENÔMENO DA 
HIBRIDAÇÃO 
 
Feitas tais considerações acerca dos principais sistemas jurídicos, 
passamos à análise do empregado pelo ordenamento brasileiro. Desde os primórdios, o 
Brasil adota oficialmente o civil law como sistema, notavelmente dando mais valor à 
letra da lei do que consagrando a jurisprudência como maior fonte jurídica. 
Contudo, com o decorrer dos anos, em busca de maior estabilidade e 
segurança jurídica nas decisões judiciais, alguns princípios do common law passaram a 
ser adotados. 
A primeira mudança significativa no sistema brasileiro se deu com o 
surgimento do Controle Concentrado de Constitucionalidade, por meio da Emenda 
Constitucional nº 3, instituindo no ordenamento pátrio o efeito vinculante. 
Por meio da ação declaratória de constitucionalidade ou da ação direta de 
inconstitucionalidade, a decisão do Supremo Tribunal Federal cria um precedente que 
vincula todo o Poder Judiciário e inclusive órgãos do Poder Executivo, conforme 
preconiza o artigo 102, §2º, da Constituição Federal. Registre-se que, de início, apenas a 
ação declaratória de constitucionalidade contava com o efeito vinculante, contudo o 
efeito foi estendido à segunda por meio da lei 9.868/99. 
Anote-se que esse efeito vinculante passou a ser garantido por meio da 
possibilidade de manifestação de reclamação diretamente ao Supremo Tribunal Federal, 
diante de qualquer decisão judicial ou administrativa contrária ao precedente criado 
pelas referidas ações. 
Tal efeito inovou no sistema pátrio, que até então era vinculado somente 
por textos de lei. Embora a jurisprudência já tivesse um papel persuasivo, não havia 
 
11
 ASCENSÃO, José de Oliveira. O direito: introdução e teoria geral: uma perspectiva luso-brasileira. Rio 
de Janeiro: Renovar, 1994, p. 247 
nenhum instituto que trouxesse o princípio do binding authority, típico da doutrina do 
stare decisis, ao âmbito jurídico brasileiro, que a partir de então deixou de contar com 
um sistema civil law puro. 
A fortificação dos princípios do common law em território nacional 
ganhou mais relevância com a edição da Emenda Constitucional nº 45/2004,que tratou 
da reforma do judiciário, criando a Súmula Vinculante, atribuindo ao Supremo Tribunal 
Federal o poder de submeter todo o Poder Judiciário ao seu entendimento por meio da 
edição da referida súmula. 
Assim iniciou-se a força obrigatória dos precedentes, estranha a um 
sistema civil law e típica do common law, marcando a hibridação do sistema judiciário 
brasileiro. O fortalecimento do common law desde então só vem aumentando, cada vez 
mais surgindo novas formas de precedentes obrigatórios. 
O novo Código de Processo Civil, que ganhou vigência em 2016, 
portanto recente, continuou inovando na matéria com o advento do Incidente de 
Resolução de Demandas Repetitivas (IRDR). 
Destarte, denota-se que o sistema jurídico brasileiro está longe de ser um 
sistema civil law puro, entretanto também não adota a teoria dos precedentes de forma 
absoluta como é feito nos países adeptos do common law, o que nos leva a concluir pela 
existência de um sistema híbrido no cenário nacional. 
Todavia, a hibridação do sistema judicial não é um fenômeno exclusivo 
do Brasil, conforme aduz Antônio César Bochenek: “A hibridação dos sistemas 
judiciários não é uma exclusividade do sistema brasileiro ou norte-americano, mas 
uma tendência verificada em todos os países do mundo. Também não é uma 
exclusividade dos sistemas judiciais. A hibridação decorre das recentes e constantes 
transformações que a sociedade atual atravessa, por meio das quais os conceitos, os 
fundamentos, os valores e as tradições são modificados para se adequarem às novas 
realidades, principalmente alterados devido aos processos de globalização. 
Independentemente da posição sociológica (modernidade reflexiva em Ulrich Beck e 
Anthony Giddens; modernidade líquida em Zygmunt Bauman; modernidade de 
oposição em Boaventura de Sousa Santos, entre outras), econômica (por exemplo, a 
economic analysis of law com origem em Chicago) ou mesmo ideológica que se adote, é 
certo afirmar que o mundo (leia-se as sociedades) mudou e pauta-se de um modo 
diferente do passado. Os sistemas judiciários, ainda que em menor grau e velocidade, 
também aportaram mudanças significativas que influenciaram e continuam 
influenciando decisivamente sua forma de atuação, principalmente marcadas pelas 
transformações operadas pela emergência e pela afirmação do constitucionalismo”.
12
 
A mistura entre ideologias de ambos os sistemas também decorre da 
tentativa de resgatar pontos positivos de ambos, conciliando a positivação das normas 
com a força dos precedentes em busca do aumento da segurança jurídica nas decisões 
judiciais, fortalecendo aspectos como a uniformidade, estabilidade e previsibilidade dos 
pronunciamentos. 
No Brasil é inegável que a adoção de princípios do common law se deu 
principalmente por conta da sobrecarga de processos nas instâncias jurisdicionais. O 
grande número de demandas repetitivas juntamente com a ampla variedade de decisões 
demonstrou um sistema puramente civil law como sendo ineficaz. 
O abarrotamento do Poder Judiciário, diga-se de passagem, ainda 
existente na atualidade apesar de que em grau menor, urgia pela adoção de mecanismos 
aptos a conferir maior celeridade na prestação jurisdicional, além de meios de assegurar 
maior segurança jurídica. 
O sistema encontrava-se em uma situação crítica antes de sua hibridação, 
porquanto cada juiz poderia decidir de forma diferente sobre a mesma matéria, não 
devendo qualquer obediência a julgados anteriores, algo que cumulado com a frequente 
interposição de recursos em busca do entendimento desejado acarretava na prolongação 
demasiada no tempo para conseguir-se um pronunciamento definitivo. 
Posto isso, a adoção da doutrina do stare decisis mostrou-se como o 
melhor meio para estabilizar a jurisprudência dos tribunais, trazendo maior segurança 
àqueles que buscam a efetivação de seus direitos, o que não havia antes dos precedentes 
obrigatórios, ante a jurisprudência incerta. 
Não se pode aceitar que a jurisdição aquiesça com diversos significados 
de um mesmo direito, caso contrário os defeitos previamente apresentados se 
perpetuariam e o judiciário brasileiro iria à ruína. A solução para esse problema foi a 
implementação de aspectos do common law, posto que um sistema civil law homogêneo 
não conta com os mecanismos necessários para a solução dos vícios criados por sua 
própria imperfeição, consistente na possibilidade de diversas interpretações acerca de 
uma mesma lei, o que gera a diversidade de decisões dissonantes. 
 
12
 BOCHENEK, Antônio César. Os precedentes e o processo civil no Brasil e nos EUA. Revista de 
Doutrina da 4ª Região, Porto Alegre, n. 39, dez. 2010. Disponível em: 
<http://bdjur.stj.jus.br/dspace/handle/2011/35858>. Acesso em: 11 fev. 2011, p. 02. 
Assim, irrefutável a hibridação do sistema nacional, o que não pode ser 
visto como algo ruim, uma vez que ocorre principalmente para efetivar o direito 
fundamental à igualdade, posto que os princípios do common law evitam que o direito 
seja diferente para cada um que busca a prestação jurisdicional. 
 
5. CONCLUSÃO 
 
Com efeito, consoante o demonstrado, o Brasil não possui um sistema 
civil law puro conforme oficialmente adota, contando com diversos elementos que 
demonstram grande influência do common law. Observa-se, na verdade, que a jurisdição 
encontra-se atualmente em um período de transição. 
O novo Código de Processo Civil contribuiu muito, no âmbito 
legislativo, para o aumento da força dos precedentes, dando grande importância à 
segurança jurídica e à uniformidade da jurisprudência ao trazer os artigos 926 e 927, 
impondo o dever dos tribunais em uniformizar sua jurisprudência e arrolando os 
precedentes obrigatórios que devem nortear os julgados. 
Contudo, na prática ainda não há grande aceitação no emprego do novo 
sistema, principalmente por parte dos juízes que se agarram à noção de soberania no 
julgamento. 
Observa-se uma dificuldade na magistratura em restringir sua 
independência nos julgados, recusando-se a aplicar o entendimento de tribunais 
superiores quando em dissonância com sua convicção pessoal, por exemplo, mesmo 
sabendo que isso somente contribui para prejudicar a celeridade processual, visto que a 
decisão será alterada nos graus recursais. 
Os juízes entendem que a aplicação irrestrita de precedentes implica em 
redução de sua jurisdição, embora a importância da soberania no julgamento seja muito 
menor do que a importância da segurança jurídica e da celeridade processual, trazidas 
pela aplicação de precedentes. 
Até mesmo o legislador demonstrou certo receio em impor um sistema 
mais voltado à força dos precedentes ao editar os referidos dispositivos, principalmente 
no artigo 927 ao positivar “os juízes e os tribunais observarão”. 
Ao utilizar o termo “observarão”, foi conferida certa interpretação dúbia 
ao dispositivo legal, uma vez que embora trate dos precedentes obrigatórios, cuja 
aplicação deve ser feita pelos tribunais vinculados, parece tratar tais precedentes 
somente com caráter persuasivo, não afetando a soberania do juiz ao proferir a decisão. 
Isso tudo nos leva a concluir que o Brasil ainda se encontra em um 
período de transição, onde a jurisdição ainda se adapta ao sistema híbrido que toma 
conta do cenário nacional. Por conta das tradições enraizadas no civil law, essa transição 
será um processo vagaroso, mas cujo progresso já pode ser observado, levando-nos a 
crer em um futuro onde será mais comum o juiz abdicar sua soberania e convicções 
pessoais em prol da uniformidade e celeridade. 
 
 
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