Prévia do material em texto
A HIBRIDAÇÃO DO SISTEMA JURÍDICO BRASILEIRO COM O CRESCENTE FORTALECIMENTO DOS PRECEDENTES JUDICIAIS The hybridization of the brazilian legal system with the growing strengthening of judicial precedents Bernardo Fernandes Santos NARDO 1 Caíque Tomaz Leite da SILVA 2 RESUMO: O presente trabalho tem como objetivo traçar uma visão geral do sistema judiciário adotado pelo ordenamento pátrio, à vista do constante fortalecimento dos precedentes judiciais, marcado principalmente pelo advento do novo Código de Processo Civil, que inovou no âmbito dos precedentes obrigatórios e atribuiu grande importância à segurança jurídica ao determinar a constante necessidade de uniformização da jurisprudência, sendo mantida estável, íntegra e coerente pelos tribunais. Observa-se que o ordenamento pátrio conta atualmente com um sistema híbrido em fase de transição, misturando aspectos do civil law com common law, contudo ainda colidindo com uma dificuldade prática na adaptação pelos magistrados ao novo sistema, que ainda se prendem à noção de soberania no julgamento. Palavras-chave: Common law. Civil law. Segurança jurídica. Precedentes obrigatórios. Ratio decidendi. 1 Discente do curso de Direito do Centro Universitário Antônio Eufrásio de Toledo. E-mail: bernardo.nardo@hotmail.com 2 Doutorando em Direito Público (fase de dissertação) e Pós-Graduado em Direitos Humanos pela Universidade de Coimbra (POR). Especialista em Direito Civil e Processual Civil (summa cun laude). Banca Examinadora da American University (USA). Bolsista do Curso de Direito Internacional Humanitário (Ius Gentiun Coninbrigae, Instituto de Direitos Humanos da Universidade de Coimbra). Professor Convidado do IGC-Universidade de Coimbra. Membro do grupo de trabalho encarregado da versão luso-brasileira da obra “Understanding Human Rights”, da Universidade de Coimbra. Professor do Centro Universitário Antônio Eufrásio de Toledo (BRA). Professor da Escola Superior da Advocacia (ESA). Coordenador das Jornadas Luso-Brasileiras de Direitos Humanos e Direito Internacional Público (Universidade de Coimbra). Coordenador das Jornadas Luso-Brasileiras sobre Garantismo Constitucional-Penal (Instituto Superior Bissaya Barreto). Professor do curso de Pós-Graduação em Direito Civil e Processual Civil da Unitoledo (Araçatuba-SP). E-mail: caique.thomaz@hotmail.com ABSTRACT: The present work aims to outline an overview of the judicial system adopted by the country's legal system, in view of the previous strengthening of judicial precedents, and should be done whenever the new Code of Civil Procedure, with regard to mandatory precedents and attributed to the great importance in accordance with the law of uniformity of the jurisprudence, being maintained stable, integral and coherent by the courts. It can be observed that the country system currently has a hybrid system in the transition phase, with aspects of common civil law aberration, still continues to be applied to the notion of sovereignty without judgment. Key-Words: Common law. Civil law. Juridic security. Obligatory precedentes. Ratio decidendi. 1. INTRODUÇÃO Sabe-se que o Brasil oficialmente adota o civil law como sistema jurídico, contando com normas positivadas de forma hierárquica para regulamentação dos diversos direitos e deveres existentes, sendo indispensáveis na verificação de sua legitimidade e validade. Classicamente, o princípio da legalidade vigorou de forma soberana, aplicando-se antes de tudo a letra da lei para resolução das lides. Com a evolução do constitucionalismo, o judiciário passou a exercer um papel mais ativo na interpretação dessas leis, para que sua aplicação prática melhor se amoldasse aos princípios da norma maior. A partir desse momento, naturalmente começaram a surgir entendimentos divergentes em julgamentos de casos análogos, sendo inerente aos juízes a diversidade de interpretações de uma mesma norma, cediço que a visão da realidade muda em relação ao indivíduo que a observa, com base em sua formação e diversos outros aspectos ligados à evolução de sua psiquê. Posto isso, tornou-se necessária a busca por meios de assegurar a segurança jurídica em meio a tantos entendimentos e julgados divergentes, encontrando- se a solução fora do sistema jurídico adotado pelo país, mais especificamente no sistema do common law, sendo trazido ao âmbito nacional o conceito de “precedentes obrigatórios” por meio da eficácia vinculante conferida a alguns pronunciamentos do Poder Judiciário. Desde então, a aplicação de princípios do common law vem sendo cada vez mais fortalecida no sistema brasileiro, sendo notável a atribuição de grande importância aos precedentes judiciais no momento de um pronunciamento, não se mostrando mais correta a afirmação de que o Brasil é um pais adepto do sistema civil law, porquanto notável a influência do sistema de origem britânica no âmbito nacional. Um símbolo dessa constante evolução em direção ao common law é o advento do novo Código de Processo Civil, que em seus artigos 926 e 927 fez questão de destacar a importância dos precedentes em um julgamento, inclusive criando um novo precedente com força vinculante, o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas (IRDR). Contudo, conforme será observado, embora o Brasil possua um sistema híbrido com constante robustecimento de seu aspecto jurisprudencial, ainda há muita relutância dos magistrados em ceder suas convicções pessoais em prol da aplicação de entendimentos uniformizados, o que dificulta a evolução do sistema nacional a um cenário de maior segurança jurídica e uniformidade no âmbito judiciário. 2. NOÇÕES BÁSICAS DOS PRINCIPAIS SISTEMAS JURÍDICOS INFLUENTES NO BRASIL Para que se possa traçar uma visão geral do sistema judiciário adotado pelo Brasil, necessário se faz o esclarecimento de aspectos essenciais dos dois principais sistemas jurídicos, o civil law e o common law, porquanto inegável a presença de aspectos de ambos no ordenamento pátrio. 2.1 COMMON LAW O sistema jurídico anglo-saxão, adotado por países como os Estados Unidos e a Inglaterra, é caracterizado por basear-se mais na jurisprudência do que no texto da lei, sendo o direito desenvolvido pela atuação do Poder Judiciário, que se norteia pelos costumes e tradições da sociedade. Há uma inexistência ou escassez de normas codificadas, sendo a jurisprudência fonte primária de direito, utilizando-se os tribunais de pronunciamentos do próprio Poder Judiciário para decidir as lides. Conforme definiu Sesma, “por common law, pode entender-se o elemento casuístico do Direito anglo-americano (case law) constituído pelos precedentes judiciais, ou seja, a jurisprudência dos tribunais anglo-americanos”. 3 Nesse sistema o Direito é essencialmente jurisprudencial, sendo as regras emanadas por meio dos precedentes judiciais. Os tribunais julgam casos, gerando precedentes que vinculam julgamentos futuros à ratio decidendi (razão de decidir) dos julgados anteriores, sendo o direito efetivamente criado pelo judiciário. Malgrado seja a teoria dos precedentes derivada do common law, não se pode explicar esse último somente com base naquela, posto que sua existência supera em muitos anos o advento dos precedentes. Cediço que o direito baseado em costumes gerais existiu por vários séculos sem a teoria dos precedentes. Conforme preconiza Simpson, “qualquer identificação entre o sistema do common law e a doutrina dos precedentes, qualquer tentativa de explicar a natureza do common law em termos de stare decisis, certamente será insatisfatória, uma vez que a elaboração de regras e princípios regulando o uso dos precedentes e a determinação e aceitação da sua autoridade são relativamente recentes, para não se falar da noção de precedentes vinculantes (binding precedents),que é mais recente ainda. Além de o common law ter nascido séculos antes de alguém se preocupar com tais questões, ela funcionou muito bem como sistema de direito sem os fundamentos e conceitos próprios da teoria dos precedentes, como, por exemplo, o conceito de ratio decidendi”. 4 Contudo, conforme leciona Marinoni, “Não há como negar a importância que o stare decisis teve para o desenvolvimento do common law, nem como 3 “por common law, puede entenderse el elemento casuístico del Derecho anglo-americano (case law) constituido por los precedentes judiciales, o sea, la jurisprudencia de los tribunales anglo-americanos” (SESMA, Victoria Iturralde. El precedente em el common law. Madrid: Civitas, 1995, p. 15) 4 “To a historian at least any identification between the common law system and the doctrine of precedent, any attempt to explain the nature of the common law in terms of stare decisis, is bound to seem unsatisfactory, for the elaboration of rules and principles governing the use of precedents and their status as authorities is relatively modern, and the idea that there could be binding precedents more recent still. The common law had been in existence for centuries before anybody was very excited about these matters, and yet it functioned as a system of law without such props as the concept of the ratio decidendi, and functioned well enough” (SIMPSON, A. W. B. The common law and legal theory, in Oxford Essays in Jurisprudence. Oxford: Clarendon Press, 1973, p. 77). esquecer que os precedentes – ao lado da lei e dos costumes – constituem fonte de direito neste sistema”. 5 Como o representativo do sistema common law no Brasil são os precedentes vinculantes, e como o objetivo do presente trabalho é a análise do sistema misto adotado em solo brasileiro e não a análise histórica do sistema em voga, a exposição de sua ideologia se dará baseada em precedentes, conforme é mais caracterizado atualmente, porquanto a análise histórica e aprofundada seria mais exaustiva e fugiria de nosso campo de exposição. Nos países em que esse sistema é adotado, o Poder Judiciário é o maior responsável pela criação e aplicação do direito. Os juízes inclusive não estão vinculados aos princípios da lei. Isso não significa dizer que a lei não pode servir de base para decisões, contudo pode ser desprezada se o juiz optar pela aplicação de outra fonte no julgamento. O juiz está vinculado tão somente a outras decisões, porquanto essas possuem força obrigatória. Além disso, nem sempre há a criação de direito pelo judiciário, conforme afirma Marinoni: “quando um precedente interpreta a lei ou a Constituição, como acontece especialmente nos Estados Unidos, há, evidentemente, direito preexistente com força normativa, de modo que seria absurdo pensar que o juiz, neste caso, cria um direito novo. Na verdade, também no caso em que havia apenas costume, existia direito preexistente, o direito costumeiro”. 6 Destarte, embora o juiz possa se basear em direito pré-existente, cediço que também o cria nos países em que vigora o common law. Para enfatizar o principal aspecto do sistema, preconiza o juiz Wendell Holmes: “a constituição dos Estados Unidos é o que a Suprema Corte diz que é”. 7 Observa-se que nesse sistema o papel ativo do judiciário na criação do direito é típico e legítimo, sendo os julgamentos proferidos com base em precedentes 5 MARINONI, Luiz Guilherme. Aproximação crítica entra as jurisdições de Civil Law e de Common Law e a necessidade de respeito aos precedentes no Brasil. Revista da Faculdade de Direito da UFPR, Curitiba, n. 49, p. 11-58, 2009, p. 18. 6 MARINONI, Luiz Guilherme. Aproximação crítica entra as jurisdições de Civil Law e de Common Law e a necessidade de respeito aos precedentes no Brasil. Revista da Faculdade de Direito da UFPR, Curitiba, n. 49, p. 11-58, 2009, p. 19. 7 Apud. FERREIRA FILHO. Manoel Gonçalves. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 35ª ed., 2009, p. 383. anteriormente gerados, os quais criaram uma norma de caráter geral, extraída da ratio decidendi. Em contrapartida a esse sistema, está o civil law, cuja ênfase é a codificação de todos os preceitos legais, além da vinculação absoluta à letra da lei, conforme será analisado na próxima seção. 2.2 CIVIL LAW Sistema oficialmente adotado no Brasil, marcado pela codificação do direito. Aqui, a lei é a fonte primária do direito, sendo as demais secundárias, somente utilizadas para realizar a integração da norma, suprindo lacunas diante da ausência de legislação para regulamentar um caso específico. Preconiza Marinoni acerca da codificação: “Para a revolução francesa, a lei seria indispensável para a realização da liberdade e da igualdade. Por este motivo, entendeu-se que a certeza jurídica seria indispensável diante das decisões judiciais, uma vez que, caso os juízes pudessem produzir decisões destoantes da lei, os propósitos revolucionários estariam perdidos ou seriam inalcançáveis”. 8 A certeza do direito estaria na impossibilidade de o juiz interpretar a lei, ou, melhor dizendo, na própria Lei. Vigora como fundamental o princípio da legalidade, legitimando toda ação criada em conformidade com a legislação, e desprezando aquelas que surgem de outras fontes, não embasadas por texto legal e contrárias à intenção do legislador. O principal protagonista na criação do direito passa a ser o legislador, e não mais o juiz, uma vez que é ele quem detém o poder de positivar as normas, utilizando-se o judiciário dessas leis para decidir as lides apresentadas. A função do juiz é a de interpretar e aplicar a lei aos casos concretos, atentando-se a todos os mecanismos existentes para tanto, e não mais a função de criar o direito. O Civil Law surgiu com o intuito de criar um sistema legislativo perfeito, onde a legislação seria exauriente a ponto do juiz somente aplica-la ao caso, não necessitando estender ou limitar sua interpretação. Contudo, tal ideia é utópica, e na realidade as leis 8 MARINONI, Luiz Guilherme. Aproximação crítica entra as jurisdições de Civil Law e de Common Law e a necessidade de respeito aos precedentes no Brasil. Revista da Faculdade de Direito da UFPR, Curitiba, n. 49, p. 11-58, 2009, p. 34. nunca serão autossuficientes a ponto de preverem todas as situações possíveis, ou perfeitas a ponto de nunca surgir um conflito entre elas ou uma lacuna. À vista disso, a legislação brasileira, mais especificamente o artigo 4º da Lei de Introdução ao Código Civil (Decreto-lei nº 4.657/42), determina que o juiz deverá se utilizar da analogia, dos costumes, e dos princípios gerais do direito como fontes secundárias para suprir eventuais omissões legislativas. Com efeito, nesse sistema a jurisprudência muitas vezes não é sequer vista como fonte secundária de direito, sendo os fundamentos de outros julgados uma mera fonte de consulta para os órgãos judicantes. O direito positivado, característico do sistema em estudo, trazia consigo a ideia de maior segurança jurídica diante da estabilidade e previsibilidade na aplicação das leis. Todavia, por conta da impossibilidade de perfeição das normas e da abertura da possibilidade de interpretação pelo juiz, a segurança jurídica tão buscada tornou-se distante, havendo certa imprevisibilidade na interpretação adotada pelo juiz ao buscar-se o judiciário. Diante dessa situação, tornou-se necessário buscar uma forma de reafirmar a segurança jurídica do sistema, o que no Brasil foi feito por meio da adoção dos precedentes vinculantes, surgindo o sistema hibrido que conhecemos hoje e que será analisado pelo presente trabalho. 3. O PRECEDENTE JUDICIAL NOS SISTEMAS JURÍDICOS Antes de iniciara análise do sistema jurídico brasileiro com ênfase na teoria dos precedentes, necessário esclarecer que tanto no sistema common law quanto no civil law existem precedentes. A partir do momento em que o juiz profere uma decisão, cria-se um precedente, sendo tal fenômeno inevitável em qualquer sistema dependente do Poder Judiciário para aplicar o direito aos casos concretos. Contudo, embora presente em ambos os sistemas, a força atribuída aos precedentes não é a mesma. Conforme preconiza Marcelo Alves Dias de Souza: “Em qualquer país, independentemente de sua filiação a esta ou àquela família jurídica, a decisão de um caso tomada anteriormente pelo judiciário constitui, para os casos a ele semelhantes, um precedente judicial. Apenas seus atributos, tais como seu poder criativo ou meramente declarativo, seu caráter persuasivo ou obrigatório, é que vão depender dos contornos atribuídos a ele pelo sistema jurídico estabelecido”. 9 Explica Sampaio: “Toda sentença cria, por sua vez, um precedente. A própria lei do mínimo esforço leva o juiz, ou o aparelho judiciário como um todo, a julgar do mesmo modo uma lide que tenha características iguais de outra causa já julgada. Um primeiro julgado assemelha-se à trilha aberta em selva inexplorada. É a única clareira que convida à passagem. Se os que por ela seguirem chegarem à meta procurada, o caminho se tornará frequentado e se converterá, com o tempo, em segura estrada real. Sob o ponto de vista ético, o próprio ideal de „justiça igual para todos‟ inclinaria o julgador a seguir o precedente. Assim sendo, é puramente platônica a conhecida proibição do Código de Justiniano, de que não se julgue conforme os precedentes – non exemplis, sed ligibus indicandum est – até porque o julgador pode basear-se em decisão anterior sem menciona-la”. 10 Posto isso, tem-se que a ideia de um sistema livre da influência dos precedentes é, na prática, inexistente. Todavia não se pode afirmar que os precedentes possuem o mesmo impacto em cada sistema, diferindo-se principalmente em sua aplicabilidade. Nos sistemas típicos do common law, o precedente tem força vinculante, é em regra de seguimento obrigatório, tornando-se um importante elemento de análise nos julgados, senão o mais importante. Decisões inteiras podem ser baseadas somente na vinculação gerada por um julgado anterior em caso análogo. O grande ponto desse sistema é a vinculação gerada pelos precedentes e a importância da jurisprudência na análise dos casos feita pelo julgador. Essa obrigatoriedade dos precedentes decorre da adoção da doutrina do stare decisis pelo sistema common law, que determina a aplicação dos precedentes judiciais, inclusive de forma vinculativa. 9 SOUZA, Marcelo Alves Dias de. Do precedente judicial à súmula vinculante. Curitiba: Juruá, 1 ed., 2008, p. 15. 10 SAMPAIO, Nelson de Sousa. O Supremo Tribunal Federal e a nova fisionomia do judiciário. Revista do Direito Público, n.75, p.09, jul./set. 1985b. Nos tribunais norte-americanos, onde notoriamente emprega-se o sistema common law, a doutrina do stare decisis é dividida em dois componentes: o binding authority e o persuasive precedent. O primeiro princípio prega que os tribunais inferiores são vinculados a precedentes de tribunais superiores. Um juiz que se encontra abaixo da cadeia hierárquica nunca poderá adotar entendimento divergente daquele aplicado por juiz superior em um julgado pretérito de caso análogo. É a patente força vinculante de um precedente. Pelo segundo vetor, juízes de mesma hierarquia geram apenas precedentes persuasivos, ou seja, não estão vinculados às decisões proferidas anteriormente pelos seus pares. Em regra, os juízes seguirão o precedente persuasivo, contudo, se acobertado por fortes fundamentos, um juiz pode desviar-se do entendimento até então aplicado pelos demais da mesma escala hierárquica, deixando de aplica-lo. Contudo, independentemente de o precedente ser de força persuasiva ou vinculante, seu seguimento nesse sistema é sempre, em regra, obrigatório, desvencilhando-se dessa característica excepcionalmente mediante fortes fundamentos. Já no civil law, embora os precedentes existam, conforme exposto anteriormente, eles carecem de força obrigatória, porquanto a ênfase do sistema é a legislação, que conta com maior força vinculativa. O precedente não deixa de ser modelo para decisões futuras, um guia em um caminho pouco explorado, contudo não torna o caminho obrigatório, facultando-se aos magistrados criar novas estradas por meio de diferentes interpretações conferidas à lei. Aduz Ascensão acerca dos precedentes na tradição do civil law: “Os tribunais superiores não têm que de julgar como fizeram juízes inferiores, o que é facilmente compreensível. Os juízes não têm de julgar como fizeram já juízes do mesmo nível hierárquico. Assim, se o juiz de direito chamado a decidir um caso verifica que outro juiz decidiu já o caso semelhante de certa maneira, nem por isso está vinculado a manter a orientação seguida. Os juízes não têm de julgar consoante eles próprios já fizeram. O fato de o Supremo Tribunal ter decidido sempre em certo sentido uma categoria de casos, não o inibe de um dado momento adotar outra orientação que lhe pareça mais fundada. Os órgãos judiciais inferiores não têm de julgar conforme o fizeram já tribunais superiores. Esta é a chave do sistema”. 11 Destarte, o sistema caracteriza-se pela inexistência de precedentes vinculantes, pela atribuição de um caráter menos decisivo aos precedentes e pela soberania da lei em detrimento de outras fontes de direito. 4. O SISTEMA JUDICIAL BRASILEIRO E O FENÔMENO DA HIBRIDAÇÃO Feitas tais considerações acerca dos principais sistemas jurídicos, passamos à análise do empregado pelo ordenamento brasileiro. Desde os primórdios, o Brasil adota oficialmente o civil law como sistema, notavelmente dando mais valor à letra da lei do que consagrando a jurisprudência como maior fonte jurídica. Contudo, com o decorrer dos anos, em busca de maior estabilidade e segurança jurídica nas decisões judiciais, alguns princípios do common law passaram a ser adotados. A primeira mudança significativa no sistema brasileiro se deu com o surgimento do Controle Concentrado de Constitucionalidade, por meio da Emenda Constitucional nº 3, instituindo no ordenamento pátrio o efeito vinculante. Por meio da ação declaratória de constitucionalidade ou da ação direta de inconstitucionalidade, a decisão do Supremo Tribunal Federal cria um precedente que vincula todo o Poder Judiciário e inclusive órgãos do Poder Executivo, conforme preconiza o artigo 102, §2º, da Constituição Federal. Registre-se que, de início, apenas a ação declaratória de constitucionalidade contava com o efeito vinculante, contudo o efeito foi estendido à segunda por meio da lei 9.868/99. Anote-se que esse efeito vinculante passou a ser garantido por meio da possibilidade de manifestação de reclamação diretamente ao Supremo Tribunal Federal, diante de qualquer decisão judicial ou administrativa contrária ao precedente criado pelas referidas ações. Tal efeito inovou no sistema pátrio, que até então era vinculado somente por textos de lei. Embora a jurisprudência já tivesse um papel persuasivo, não havia 11 ASCENSÃO, José de Oliveira. O direito: introdução e teoria geral: uma perspectiva luso-brasileira. Rio de Janeiro: Renovar, 1994, p. 247 nenhum instituto que trouxesse o princípio do binding authority, típico da doutrina do stare decisis, ao âmbito jurídico brasileiro, que a partir de então deixou de contar com um sistema civil law puro. A fortificação dos princípios do common law em território nacional ganhou mais relevância com a edição da Emenda Constitucional nº 45/2004,que tratou da reforma do judiciário, criando a Súmula Vinculante, atribuindo ao Supremo Tribunal Federal o poder de submeter todo o Poder Judiciário ao seu entendimento por meio da edição da referida súmula. Assim iniciou-se a força obrigatória dos precedentes, estranha a um sistema civil law e típica do common law, marcando a hibridação do sistema judiciário brasileiro. O fortalecimento do common law desde então só vem aumentando, cada vez mais surgindo novas formas de precedentes obrigatórios. O novo Código de Processo Civil, que ganhou vigência em 2016, portanto recente, continuou inovando na matéria com o advento do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas (IRDR). Destarte, denota-se que o sistema jurídico brasileiro está longe de ser um sistema civil law puro, entretanto também não adota a teoria dos precedentes de forma absoluta como é feito nos países adeptos do common law, o que nos leva a concluir pela existência de um sistema híbrido no cenário nacional. Todavia, a hibridação do sistema judicial não é um fenômeno exclusivo do Brasil, conforme aduz Antônio César Bochenek: “A hibridação dos sistemas judiciários não é uma exclusividade do sistema brasileiro ou norte-americano, mas uma tendência verificada em todos os países do mundo. Também não é uma exclusividade dos sistemas judiciais. A hibridação decorre das recentes e constantes transformações que a sociedade atual atravessa, por meio das quais os conceitos, os fundamentos, os valores e as tradições são modificados para se adequarem às novas realidades, principalmente alterados devido aos processos de globalização. Independentemente da posição sociológica (modernidade reflexiva em Ulrich Beck e Anthony Giddens; modernidade líquida em Zygmunt Bauman; modernidade de oposição em Boaventura de Sousa Santos, entre outras), econômica (por exemplo, a economic analysis of law com origem em Chicago) ou mesmo ideológica que se adote, é certo afirmar que o mundo (leia-se as sociedades) mudou e pauta-se de um modo diferente do passado. Os sistemas judiciários, ainda que em menor grau e velocidade, também aportaram mudanças significativas que influenciaram e continuam influenciando decisivamente sua forma de atuação, principalmente marcadas pelas transformações operadas pela emergência e pela afirmação do constitucionalismo”. 12 A mistura entre ideologias de ambos os sistemas também decorre da tentativa de resgatar pontos positivos de ambos, conciliando a positivação das normas com a força dos precedentes em busca do aumento da segurança jurídica nas decisões judiciais, fortalecendo aspectos como a uniformidade, estabilidade e previsibilidade dos pronunciamentos. No Brasil é inegável que a adoção de princípios do common law se deu principalmente por conta da sobrecarga de processos nas instâncias jurisdicionais. O grande número de demandas repetitivas juntamente com a ampla variedade de decisões demonstrou um sistema puramente civil law como sendo ineficaz. O abarrotamento do Poder Judiciário, diga-se de passagem, ainda existente na atualidade apesar de que em grau menor, urgia pela adoção de mecanismos aptos a conferir maior celeridade na prestação jurisdicional, além de meios de assegurar maior segurança jurídica. O sistema encontrava-se em uma situação crítica antes de sua hibridação, porquanto cada juiz poderia decidir de forma diferente sobre a mesma matéria, não devendo qualquer obediência a julgados anteriores, algo que cumulado com a frequente interposição de recursos em busca do entendimento desejado acarretava na prolongação demasiada no tempo para conseguir-se um pronunciamento definitivo. Posto isso, a adoção da doutrina do stare decisis mostrou-se como o melhor meio para estabilizar a jurisprudência dos tribunais, trazendo maior segurança àqueles que buscam a efetivação de seus direitos, o que não havia antes dos precedentes obrigatórios, ante a jurisprudência incerta. Não se pode aceitar que a jurisdição aquiesça com diversos significados de um mesmo direito, caso contrário os defeitos previamente apresentados se perpetuariam e o judiciário brasileiro iria à ruína. A solução para esse problema foi a implementação de aspectos do common law, posto que um sistema civil law homogêneo não conta com os mecanismos necessários para a solução dos vícios criados por sua própria imperfeição, consistente na possibilidade de diversas interpretações acerca de uma mesma lei, o que gera a diversidade de decisões dissonantes. 12 BOCHENEK, Antônio César. Os precedentes e o processo civil no Brasil e nos EUA. Revista de Doutrina da 4ª Região, Porto Alegre, n. 39, dez. 2010. Disponível em: <http://bdjur.stj.jus.br/dspace/handle/2011/35858>. Acesso em: 11 fev. 2011, p. 02. Assim, irrefutável a hibridação do sistema nacional, o que não pode ser visto como algo ruim, uma vez que ocorre principalmente para efetivar o direito fundamental à igualdade, posto que os princípios do common law evitam que o direito seja diferente para cada um que busca a prestação jurisdicional. 5. CONCLUSÃO Com efeito, consoante o demonstrado, o Brasil não possui um sistema civil law puro conforme oficialmente adota, contando com diversos elementos que demonstram grande influência do common law. Observa-se, na verdade, que a jurisdição encontra-se atualmente em um período de transição. O novo Código de Processo Civil contribuiu muito, no âmbito legislativo, para o aumento da força dos precedentes, dando grande importância à segurança jurídica e à uniformidade da jurisprudência ao trazer os artigos 926 e 927, impondo o dever dos tribunais em uniformizar sua jurisprudência e arrolando os precedentes obrigatórios que devem nortear os julgados. Contudo, na prática ainda não há grande aceitação no emprego do novo sistema, principalmente por parte dos juízes que se agarram à noção de soberania no julgamento. Observa-se uma dificuldade na magistratura em restringir sua independência nos julgados, recusando-se a aplicar o entendimento de tribunais superiores quando em dissonância com sua convicção pessoal, por exemplo, mesmo sabendo que isso somente contribui para prejudicar a celeridade processual, visto que a decisão será alterada nos graus recursais. Os juízes entendem que a aplicação irrestrita de precedentes implica em redução de sua jurisdição, embora a importância da soberania no julgamento seja muito menor do que a importância da segurança jurídica e da celeridade processual, trazidas pela aplicação de precedentes. Até mesmo o legislador demonstrou certo receio em impor um sistema mais voltado à força dos precedentes ao editar os referidos dispositivos, principalmente no artigo 927 ao positivar “os juízes e os tribunais observarão”. Ao utilizar o termo “observarão”, foi conferida certa interpretação dúbia ao dispositivo legal, uma vez que embora trate dos precedentes obrigatórios, cuja aplicação deve ser feita pelos tribunais vinculados, parece tratar tais precedentes somente com caráter persuasivo, não afetando a soberania do juiz ao proferir a decisão. Isso tudo nos leva a concluir que o Brasil ainda se encontra em um período de transição, onde a jurisdição ainda se adapta ao sistema híbrido que toma conta do cenário nacional. Por conta das tradições enraizadas no civil law, essa transição será um processo vagaroso, mas cujo progresso já pode ser observado, levando-nos a crer em um futuro onde será mais comum o juiz abdicar sua soberania e convicções pessoais em prol da uniformidade e celeridade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS SESMA, Victoria Iturralde. El precedente em el common law. Madrid: Civitas, 1995. SIMPSON, A. W. B. The common law and legal theory, in Oxford Essays in Jurisprudence. Oxford: Clarendon Press, 1973. MARINONI, Luiz Guilherme. Aproximação crítica entra asjurisdições de Civil Law e de Common Law e a necessidade de respeito aos precedentes no Brasil. Revista da Faculdade de Direito da UFPR, Curitiba, n. 49, p. 11-58, 2009. FERREIRA FILHO. Manoel Gonçalves. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 35ª ed., 2009. SOUZA, Marcelo Alves Dias de. Do precedente judicial à súmula vinculante. Curitiba: Juruá, 1 ed., 2008. SAMPAIO, Nelson de Sousa. O Supremo Tribunal Federal e a nova fisionomia do judiciário. Revista do Direito Público, n.75, jul./set. 1985b. ASCENSÃO, José de Oliveira. O direito: introdução e teoria geral: uma perspectiva luso-brasileira. Rio de Janeiro: Renovar, 1994. BOCHENEK, Antônio César. Os precedentes e o processo civil no Brasil e nos EUA. Revista de Doutrina da 4ª Região, Porto Alegre, n. 39, dez. 2010. Disponível em: <http://bdjur.stj.jus.br/dspace/handle/2011/35858>. TEDESCO, Aline Lazzaron. Súmula vinculante: controle de constitucionalidade, aproximação entre civil law e common law e surgimento de nova fonte imediata do Direito. Revista de Doutrina da 4ª Região, Porto Alegre, n. 38, out. 2010. Disponível em: <http://bdjur.stj.jus.br/dspace/handle/2011/34783>. REVERBEL, Carlos Eduardo Dieder. Ativismo judicial e Estado de direito. Revista Eletrônica do Curso de Direito da UFSM, Santa Maria, v. 4, n. 1, mar. 2009. Disponível em: <http://bdjur.stj.jus.br/dspace/handle/2011/40977>. WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. Súmula vinculante: figura do common law? Revista de Doutrina da 4ª Região, Porto Alegre, n. 44, out. 2011. Disponível em: <http://bdjur.stj.jus.br/dspace/handle/2011/42526>. MORAES, Vânila Cardoso André. As demandas repetitivas e os grandes litigantes: possíveis caminhos para a efetividade do sistema de justiça brasileiro. Brasília: Enfam, 2016. TEMER, Sofia. Incidente de resolução de demandas repetitivas. Salvador: Ed. JusPodivm, 2ª ed., 2017. SOUZA, Marcelo Alves Dias de. Do precedente judicial à súmula vinculante. Curitiba: Juruá, 1ª ed., 2008. SOARES, Guido Fernando Silva. Common law: introdução ao direito dos EUA. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1ª ed., 1999. HUTZLER, Fernanda Souza. O ativismo judicial e seus reflexos na seguridade social. Brasília: Conselho da Justiça Federal, 2018. DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil: teoria da prova, direito probatório, decisão, precedente, coisa julgada e tutela provisória. Salvador: Ed. Jus Podivm, 13ª ed., 2018.