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aventura da escrita

Material sobre a história da escrita e sua função comunicativa; traz exemplos concretos (a lancheira da Daniela, sinais de trânsito, códigos visuais), descreve origem da escrita a partir de desenhos e marcas e introduz a escrita alfabética, letras, sons e regras de leitura.

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História do desenho que virou letra.
Adaptação do livro de Lia Zatz
Vivemos em mundo rodeado de coisas escritas. Basta sair nas ruas e olhar: banca de jornal, placas
de trânsito, lojas,cartazes e propagandas, embalagens de produtos.
E a gente consegue ler e entender tudo. Não é maravilhosos?
Eu não consigo me lembrar do tempo em que não sabia ler e escrever. Mas posso imaginar, e acho
que as coisas escritas deviam paracer mais ou menos com isto:
Você tem a mesma impressão?
E neste mundo cheio de escrita, como o nosso, você 
consegue imaginar um tempo completamente diferente? Um tempo 
em que a escrita não existia? 
Veremos agora essa história que só poderá ser contada 
aqui, porque ela existe. 
Façamos de conta que a escrita não existe. Imagine um 
mundo sem ela.
O que fazemos quando queremos mostrar a uma pessoa 
o que estamos pensando ou sentindo? 
Falamos. Usamos a fala para nos comunicar. Todos os 
povos do Globo fazem uso da linguagem para se expressar.
Blá-blá
Mas será que é somente por meio da fala que podemos mostrar nossos sentimentos e
pensamentos?
O que faz um bebê que não sabe falar, mas quer mostrar que está com fome ou alegre? Um
mudo para “conversar” com outro, como faz? E você, no fim de um show ou de uma peça de teatro que
lhe agradou, como se comporta?
E duas pessoas que se gostam muito e se encontram inesperadamente?
Além da fala, muitas outras atitudes, como o choro, o riso, o gesto ou a mímica, o aplauso, o
abraço, servem para mostrar o que sentimos e pensamos.
Mas, muitas vezes, queremos que uma idéia ou sentimento que temos dure mais do
que o tempo de um abraço, de um gesto ou de uma fala. Ou ainda que essa idéia ou sentimento
possam ser conhecidos não só pelos que estão próximos, mas também pelos que estão longe de
nós. Para isso, foi necessário encontrar outras formas para mostrar o que estamos pensando ou
sentindo.
Muitos povos, por exemplo, utilizaram e ainda utilizam objetos para se comunicar.
“Uma menina chamada Daniela entrou em sua sala de aula e foi logo pendurando sua
lancheira num preguinho. Mas não em qualquer um. Ela andou até o fim da fileira e usou um dos
últimos pregos. Acima de cada prego, havia uma figura colada. Sobre o prego de Daniela um laço
de fita. Cada criança entrava e ia direto colocar a lancheira no seu preguinho.”
Como as crianças da classe de Daniela não sabiam ler e escrever, elas escolheram
figuras para marcar seus pregos. Assim, cada um sabia qual era o seu prego e também o de cada
um dos colegas.
Outro exemplo é o de como alguns índios, quando viajam, indicam para outros que
passam pelo seu caminho qual direção seguiram, marcando em gravetos.
Os escoteiros às vezes também usam esse recurso inventado pelos índios.
Mas, em vez de usar objetos, podemos também 
fazer marcas e desenhos, certo?
E foi exatamente usando marcas, desenhos e sinais
que o homem começou a construir a
ESCRITA.
As figuras na sala de Daniela tinham a função de apontar às crianças qual o prego no qual ela 
deveria pendurar sua lancheira. Sendo assim, a figura tinha a função de comunicar, assim como nossa 
escrita.
Como um motorista sabe se uma rua dá ou não mão para ele, se pode ou não estacionar num 
determinado local, se deve ou não diminuir a velocidade? Ele é orientado por sinais de trânsito, escritos 
de tal forma que possam ser vistos e compreendidos rapidamente e a distância.
Você já imaginou como seria fazer contas por escrito, sem os números e os sinais?
Desenhos nas portas dos banheiros, sinais
de trânsito e números são feitos e escritos do mesmo
jeito em muitos países do mundo. Assim, se você
estiver num desses países, entenderá o que esses
sinais querem dizer, mesmo que não conheça a sua
língua.
E se inventássemos um código secreto
para nos comunicar? Vamos aos sinais:
= A = M = L
Vamos combiná-los:
Quem não conhece nosso código vai pensar que são simples 
desenhos. Poderá até dizer que está vendo um círculo, dois 
triângulos e um quadrado. Mas, para nós esses desenhos, nessa 
ordem, querem dizer a palavra MALA
O exemplo que vimos é uma forma de escrever. Mas, para quê escrevemos?
Escrevemos para para mostrar o que pensamos, sentimos, desejamos, para dar avisos, fazer
contas; de tal forma que nossos pensamentos, sentimentos e dados possam durar.
Mas para que alguém entenda nossos escritos, é preciso que saiba ler. E para ler, é preciso
compreender o que os sinais representam e as regras para combiná-los. Num jogo, se não conhecemos as
regras, não conseguimos entrar na brincadeira. Com a escrita acontece a mesma coisa.
Na escrita alfabética, o que queremos representar, de certo modo, é a fala. Para isso, usamos as
letras. Para saber ler e escrever, precisamos então aprender quais e como são as letras, que som elas tem e
como combiná-las. E todos temos de aprender a mesma escrita, pois, se eu inventar uma escrita só para mim
e você inventar outra só para você, como vamos nos entender?
Aprender a ler e escrever é como aprender um jogo: é preciso compreender as combinações, as
regras, ter vontade de treinar bastante.
Aprendendo o jogo da escrita, é possível conhecer e escrever histórias, poesias, cartas, bilhetes,
reportagens, pesquisas, tomar o ônibus certo, chegar à rua que estamos procurando, saber para que serve
um remédio e como devemos tomá-lo, e um mundo de outras coisas mais.
Não podemos fazer tudo isso usando apenas sinais como os de trânsito ou os números. Mas
podemos fazê-lo usando palavras. E você já pensou que para escrevê-las usamos apenas 26 símbolos – as
letras do alfabeto?
Cidades, prédio, aviões, foguetes, televisores, computadores, ônibus, carros, motos, bicicletas, 
lojas, mercados, ruas, escolas, a escrita, tudo, tudo o que nos rodei e que achamos coisas normais, não 
existiam há 10 mil anos. 
Homens, mulheres e crianças viviam em cavernas, comiam animais que conseguiam caçar e os 
frutos e raízes que encontravam. Vestiam-se com peles dos animais mortos e, lógico, não assistiam a 
novelas, nem andavam de bicicleta.
Mas tinham a mesma necessidade que nós de mostrar o que estavam pensando e sentindo. 
Devem ter feito isso de várias formas. Uma delas foi pintando. Hoje é conhecida a existência, em muitos 
lugares do mundo, inclusive no Brasil, de cavernas e rochas com pinturas daquela época. O que não se sabe, 
com certeza, é o que aqueles homens estavam querendo mostrar. 
É possível que o homem que fez esse desenho quisesse dizer: 
CAÇAMOS ALCES.
Mas poderia ser também:
HOJE VAMOS CAÇAR ALCES.
Ou ainda:
MEU IRMÃO E MEU PAI FORAM CAÇAR ALCES.
E muitas outras coisas.
Pode ser também que ele não estivesse querendo dizer nada disso e
fez o desenho apenas para enfeitar sua caverna. Mas também pode
ser que seu desenho tivesse alguma coisa de mágico: como se,
desenhando homens caçando animais, garantisse seu sucesso na caça.
O homem logo aprendeu a usar a pintura para contar fatos e
acontecimentos. E essa forma de representação ainda é usada nos dias
atuais.
Crianças utilizam seus desenhos para se expressar. Daniela fez um desenho para 
demonstrar a atividade que mais gostava de realizar na escola.
Daniela desenhou uma quadra de esportes para mostrar que
o que ela mais gostava era de Educação física. Muitas vezes,
o desenho, em vez de querer mostrar um acontecimento, um
fato ou desejo, quer nos fazer lembrar de alguma coisa.
Se você já viu filmes de caubói, sabe que os índios
americanos têm nomes do tipo Cabeça-de-águia, Raposa-
que-ri e outros do mesmo gênero. São nomes fáceis de
escrever por meio de desenhos. É o que eles fazem para
marcar seus objetos ou assinar documentos.
Maria, José, Joana... São nomes que precisam de outro tipo
de forma de representação. A não ser que a gente se chame
ou
ou
Na classe de Daniela, as crianças fizeram desenhos, não para seus nomes, mas para lembrar osdias da semana e as atividades de cada dia.
Primeiro escolheram um sinal para cada dia: Depois, um sinal para cada atividade:
O homem da antigidade também usava desenhos e foi por meio deles que chegou
mais perto da escrita.
Pois, se um desenho é feito para nos fazer lembrar de uma pessoa, de um dia, de uma
atividade ou de um objeto, por que não pode ser feito para nos lembrar das coisas que falamos?
Pode e foi o que o homem descobriu, passando a usar desenhos para representar as
palavras que falamos.
Dessa forma, começava a história da escrita.
Quando o homem começou a plantar, criar animais, fiar, contruir cidades, a escrita passou
a ser um instrumento necessário e importante. Era preciso, por exemplo, controlar os rebanhos e, mais
tarde, os produtos que iam do campo para a cidade e da cidade para o campo..
Veja esta forma de escrever: 
Pessoas que estudam as escritas antigas descobriram que: 
E que, portanto, aquela escrita queria dizer: 54 BOIS E
VACAS.
Esse é um exemplo da escrita dos sumérios, um povo que
viveu há cerca de 5 mil anos na antiga região da Mesopotâmia. Onde
hoje é o deserto do Iraque.
Sumérios, egípicios, chineses e outros povos, que
começam a sentir necessidade de registrar informações e contar fatos,
no começo inventaram sinais para poucas palavras. No geral, eram
desenhos representando seres e objtetos do mundo em torno deles.
Como esses, existiam muitos outros sinais. Mas, aos
poucos, foi-se tornando necessário escrever mais palavras e era
impossível inventar e decorar sinais para todas elas.
Descobriu-se, então, que o mesmo sinal podia ser usado
para palavras que tinham significados parecidos. Assim, por exemplo,
o sinal para sol, quer em sumério, egípcio ou chinês, tanto poderia
expressar a palavra SOL como a palavra DIA.
Outra forma de escrever mais palavras com os sinais já
conhecidos era juntar dois ou mais sinais.
Assim, por exemplo:
Veja só que engraçadinhos os chineses: 
Com essas novas possibilidades, ficou mais fácil
escrever. Mas, mesmo assim, ainda não se
conseguia escrever todas as palavras que
existem numa língua. Algumas eram
especialmente difíceis, como nomes de pessoas,
nomes de lugares, palavras como vida, morte,
alegria, tristeza.
Então, há mais ou menos 4 mil anos, o homem realizou a descoberta mais importante
para a história da escrita: os sinais podiam representar também o som da fala.
Para os sumérios, tanto a palavra FLECHA como a palavra VIDA tinham o mesmo som:
TI. Para a palavra flecha, usavam o sinal:
Eles passaram então, a usar o mesmo sinal também para a palavra vida. 
Para os egípicios, tanto a palavra PATO como a palavra FILHO tinham o mesmo som: 
AS. Para a palvra Pato, usavam o sinal: 
Desse modo passaram a usar esse mesmo sinal também para a palavra filho.
Você percebeu o que aconteceu? O mesmo sinal podia ser usado para representar
palavras de som igual, mas que queriam dizer coisas completamente diferentes.
Essa descoberta, de usar os mesmo sinal para palavras que tinham o mesmo som, mas
queriam dizer coisas diferentes, levou a um outro avanço: os sinais não precisavam mais ser
usados para palavras inteiras, mas podiam também ser usados para pedaços de palavras.
Os povos foram, aos poucos, abandonando os sinais para representar os sons 
das sílabas. E das sílabas para as letras. 
Os gregos, há cerca de 2.500 anos começaram a usar sempre a indicação do som da 
vogal. O alfabeto que utilizamos hoje para escrever e representar nossa língua nasceu do 
alfabeto grego. Eles ainda hoje são muito parecidos: 
Todos os páíses de língua portuguesa, espanhola, italiana, inglesa, francesa,
alemã e outras usam o mesmo alfabeto que nós. Mas existem ainda muitos outros tipos
de escrita:
Alfabeto Russo: Escrita chinesa: Escrita árabe:
A gente poderia se perguntar sobre quem foi que resolveu que o sinal para o som A
seria desenhado desse modo, e não de outro.
Na verdade, não houve uma pessoa que, um belo dia, decidiu inventar o desenho 
das letras no nosso alfabeto.
Os desenhos foram sendo simplificados ao longo da história, permitindo escrever
cada vez mais fácil e rapidamente. O mesmo aconteceu com os materiais ou objetos em que
eram feitos os desenhos.
Numa época em que o papel não existia, os sumérios escreviam em pranchas de argila 
úmida. É difícil desenhar na argila, por isso, aos poucos, os sinais da escrita suméria foram tomando 
uma forma menos arredondada, mais reta. 
Os egípcios também seguiram passos semelhantes. Sua escrita foi evoluindo para um etilo
mais simples e diferente do feito inicialmente na pedra.
A escrita feita na pedra continuou sendo usada, por exemplo, para inscrições em templos e
em túmulos. Já a escrita mais rápida, era feita em papiro e empregada no dia-a-dia.
Essas escritas já não se usam mais, mas foram elas que influenciaram o surgimento de
outras escritas, que com o passar do tempo, levaram ao nosso alfabeto. Nele, cada letra possui sua
história.
Em algumas línguas faladas por povos de antigamente (hebreus, assírios,
aramaicos, fenícios e árabes), a palavra ALEF significava BOI e se escrevia, no começo assim:
Aos poucos, esse 
desenho foi mudando: 
Os gregos passaram a usá-lo não para a palavra ALEF com significado de BOI, mas para o 
som A. E o sinal para essa som sofreu com o tempo, novas transformações; 
O mesmo aconteceu com o N. A palavra NUM queria dizer SERPENTE e se
escrevia assim:
Aos poucos o desenho foi 
mudando:
Para os gregos, o símbolo do NUM deixou de representar a palavra SERPENTE e
passou a significar apenas o som N. E o sinal foi mudando:
Os egípcios descobriram o papiro que é uma planta, cuja haste era cortada em tiras finais
e estendidas sobre uma pedra plana e batidas com uma espécie de martelo até que formassem uma
única folha. A descoberta do papiro, no qual era possível escrever muito mais rapidamente do que
na pedra, levou os egípciosa também simplificar os sinais de sua escrita.
Assim como nunca existiu uma pessoa que, de repente, tivesse invetado o alfabeto,
também jamais alguém afirmou que temos que escrever da esquerda para a direita ou da
direita para a esquerda, em linhas horizontais ou linhas verticais. Essas regras foram sendo
construídas aos poucos e de formas diferentes para as diversas línguas. O objetivo de
estabelecer regras foi sempre o de facilitar a tarefa de escrever e ler.
Em nossa língua as convenções da escrita estabelecem o uso do alfabeto, com a
escrita na horizontal, da esquerda para a direita e com segmentação entre as palavras.
As invenções tecnológicas também tiveram sua importância na construção da
história de escrita. A imprensa de Gutenberg formata a escrita e fez com que os símbolos se
mativessem como estão. Hoje, os símbolos da escrita, as letras já não sofrem mutações com o
tempo. Nos dias atuais convivemos com a escrita digital, a leitura rápida, os hipertextos...
Mais do que nunca, ler e escrever passou a ser uma necessidade no nosso dia-a-dia.
Existem leis que fazem os ensino ser obrigatório, mas será que todas as crianças que frequentam
as escolas sabem ler e escrever?
A escrita pode abrir portas e transformar mundos, mas para que isso ocorra ela
precisa conhecer todas as regras da escrita. É preciso fazer com que o mundo da escrita seja
interessante para a criança.
é preciso viajar e brincar pelo mundo das letras e palavras, que é o que os artistas
fazem. Veja essa escrita de Millôr Fernandes:
Ou este poema do poeta crítico Augusto de Campos ou de Cecília Meireles:
Esse trabalho foi uma adaptação do livro
Aventura da Escrita de Lia Zatz.
LIA ZATZ é Licenciada em filosofia pela
Universidade de Paris X – Nanterre, França.
ZATZ, Lia. Aventura da escrita: história do
desenho que virou letra. São Paulo:Moderna,
1991 – Coleção Vira mundo.

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