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CAP. 8 - Tecnologia, trabalho e descartabilidade humana reconhecer sua existência, fluidez e dinamismo da tecnologia. O propósito imediato e distintivo do capital é o lucro, que se traduz socialmente na acumulação perpétua do capital e na reprodução do poder da classe capitalista. Esse é o objetivo do consumo do capital e para alcançá-lo é necessário investir em tecnologia. O propósito imediato do capital é aumentar a produtividade, a eficiência e as taxas de lucro, bem como criar novas linhas de produtos, se possível ainda mais lucrativas. As empresas capitalistas procuravam aumentar sua eficácia individual e produtividade para obter lucros maiores em relação às concorrentes.. Mas vantagens competitivas (lucros maiores) de formas organizacionais melhores (como máquinas ou controles mais rígidos de estoque) não duravam. O resultado foram inovações progressivas nas tecnologias de diferentes setores. a história do capital tem uma queda não pela concorrência,mas pelo monopólio, e isso não é muito favorável à inovação. Harvey diz que entre os capitalista há sempre a gana pela produtividade e eficiência nos empreendimentos com ou sem concorrência. Para melhorar a produtividade em geral é necessário que a inovação seja aplicada em toda cadeia produtiva e isso demanda tempo. Ainda, os capitalistas individuais e as grandes empresas acabaram reconhecendo a importância da inovação dos produtos como uma forma de ganhar lucros de monopólio, ainda que por um tempo determinado, e uma renda monopólica, quando protegidos por uma lei de patentes. O ESTADO: O Estado também busca vantagens tecnológicas (armas, relacionadas à arrecadação e ao pagamento de impostos, à definição de direitos sobre bens imóveis e formas legais de contrato, além do desenvolvimento de tecnologias de governança, gestão financeira, mapeamento, vigilância, policiamento e outros procedimentos de controle da população).Também há a colaboração em pesquisa e desenvolvimento entre Estado e setores privados, no que diz respeito a tecnologias militares, médicas, sanitárias e energéticas. E são inúmeros os benefícios das inovações da esfera pública para as práticas do capital, e vice-versa. Portanto, as mudanças tecnológicas do capitalismo derivam da atividade de vários agentes e instituições. História: A tecnologia se tornou um campo especial de negócios a partir do século XIX, com o advento da indústria de máquinas-ferramentas. Também passou a existir um vasto campo empresarial de invenção e inovação que atendia a todos, fornecendo novas tecnologias de consumo, produção, circulação, governança, poder militar, vigilância e administração. A cultura capitalista passou a ter um fetiche pela inovação. Isso promoveu a fusão entre ciência e tecnologia - Se, por um lado, o desenvolvimento científico sempre dependeu de novas tecnologias, como o telescópio e o microscópio, por outro, a incorporação do conhecimento científico a novas tecnologias tornou-se o cerne da atividade empresarial da inovação tecnológica. A difusão de novas tecnologias ocorre por uma combinação de consentimento e coerção, com frequente participação do Estado regulatório. Teoria de Brian Arthur(economista): A “evolução combinatória” de Brian Arthur, sobre a evolução tecnológica para a construção de novas tecnologias (inovação pela inovação - Harvey): “Desse modo, com o lento passar do tempo, muitas tecnologias se formaram a partir de umas poucas tecnologias e assumiram formas mais complexas, empregando como componentes tecnologias mais simples. A coleção geral de tecnologias supera a si mesma partindo do pouco para o muito e do simples para o complexo. Podemos dizer que a tecnologia se cria a partir de si mesma.” Harvey faz uma crítica à teoria de Brian Arthur, pois não tem uma discussão crítica a respeito do conjunto de propósitos humanos aos quais as tecnologias supostamente devem servir nem questiona sobre esforço intencional do capital para maximizar os lucros, facilitar a acumulação infindável de capital e reproduzir o poder da classe capitalista. Mas sua teoria é capaz de trazer a compreensão do funcionamento do motor econômico do capital e das contradições geradas pelas mudanças tecnológicas para a perpetuação e a reprodução do capital. Ele também fala da relação entre tecnologia e natureza na “nova economia”, que consiste em uma busca perpétua pela novidade (compara a tecnologia um organismo vivo). Esses novos princípios que devem entrar na economia são formas orgânicas e processuais de pensar e teorizar. O desenvolvimento espontâneo de centros de inovação: Mais recentemente a organização deliberada de universidades, institutos, grupos de discussão e unidades militares de pesquisa e desenvolvimento em determinada área se tornou um modelo básico de negócio pelo qual o Estado capitalista e as empresas capitalistas fomentam a inovação em busca de vantagens competitivas. Joseph Schumpeter chamou de “vendavais de destruição criativa”, nos quais os modos de viver, ser e pensar são modificados para abarcar o novo em detrimento do velho. Harvey pergunta: Quem ganha com a criação e quem arca com o impacto da destruição? A partir disso, Harvey propõe cinco imperativos tecnológicos dominantes das necessidades e exigências do capital nesse processo de mudança: 1. Organização da cooperação e das divisões de trabalho a fim de maximizar a eficácia, a lucratividade e a acumulação. - Por meio de técnicas de gestão corporativa otimizadora. 2. Necessidade de facilitar a aceleração da circulação do capital em todas as suas fases e, concomitantemente, necessidade de “destruição do espaço pelo tempo” - O capital cria literalmente seu espaço e seu tempo, além de sua natureza distinta - revoluções tecnológicas, transporte, meios de comunicação. 3. Tecnologias de produção e disseminação do conhecimento, para armazenamento e recuperação de dados e informação, são fundamentais para a sobrevivência e perpetuação do capital - orientam decisões de investimento e atividades de mercado, compreender as tendências e estimular a criação de novas tecnologias. 4. As finanças e o dinheiro são um domínio crucial para o funcionamento do capital. as inovações no sistema financeiro e bancário mostraram uma tendência de crescimento exponencial depois do advento da informatização, do dinheiro eletrônico e das transações eletrônicas, além da proliferação de toda uma nova gama de veículos de investimento. 5. Controle do trabalho e da mão de obra como campo crucial para o capital. Contradição MUTÁVEL: pois não é estável nem permanente e está sempre mudando de lugar, sendo crucial avaliar onde os processos de mudança tecnológica estão e para onde podem se deslocar no futuro. Dá exemplo de restrições impostas à tecnologia, por razões éticas e morais, como a engenharia genética e de alimentos geneticamente modificados. Futuras perspectivas do capital: A dinâmica descentralizada da evolução tecnológica é forte demais, e o campo de possíveis descobertas da novidade incessante na natureza é amplo demais para que a evoluçãotecnológica e econômica seja interrompida no futuro imediato. duas contradições: 1ª) diz respeito à relação dinâmica da tecnologia com a natureza; 2ª) diz respeito à relação entre a mudança tecnológica, o futuro do trabalho e o papel da mão de obra para o capital. Passa a examinar essa contradição: O fetiche do capital era a constante inovação tecnológica voltada para o disciplinamento e desempoderamento do trabalhador para o controle do trabalho- - o desemprego tecnologicamente induzido na regulação dos salários, busca por produtos cada vez mais baratos para sustentar a mão de obra ( fenômeno Walmart), salários mais baixos, crítica a qualquer proposta de salário social constituem um domínio de luta de classes em que as mediações tecnológicas são cruciais. Contradição central: Se o trabalho social é a grande fonte de valor e lucro, substituí-lo por máquinas não faz sentido, nem política nem economicamente. Martin Ford: a medida que o dinamismo tecnológico para de sistemas mecânicos e biológicos para uma inteligência artificial, há um enorme impacto na emprego e consequentemente a demanda agregada por bens e serviços entra em colapso. Isso terá efeitos catastróficos na economia, a menos que o Estado intervenha com estímulos redistributivos à população que se tornou descartável. Imagina um sistema tributário estatal para recuperar ganhos de produtividade criados pelas novas tecnologias, no qual os fundos obtidos seriam redistribuídos como poder de compra para a população despossuída. Marx: o antídoto proposto por Marx para a queda da taxa de lucro resultante das inovações era a abertura de linhas de produto absolutamente novas, que exigissem mão de obra intensiva; um padrão de inovação dedicado tanto à economia de capital quanto à economia de trabalho; uma taxa de exploração crescente da mão de obra ainda empregada; a existência prévia ou a formação de uma classe de consumidores que não produzem nada; uma taxa de crescimento fenomenal da mão de obra total, o que aumentaria a massa de capital produzido, mesmo que a taxa de retorno individual caísse. O que não está claro é se Marx acreditava que essas forças de compensação seriam suficientes para protelar indefinidamente a queda do valor de produção e dos lucros. Essas medidas têm evitado a queda de lucros: incorporação dos camponeses da China, da India e sudeste da Ásia à força de trabalho mundial desde a década de 80; integração do que foi o bloco soviético significou o aumento da força de trabalho assalariada mundial; aumento das taxas de exploração de trabalho na China, Bangladesh, Vietnã; enquanto os problemas da demanda são enfrentados com a expansão do crédito. Seja do ponto de vista de realização ou produção, há uma ameaça não só da crescente população descartável, mas também da reprodução do próprio capital. O dinheiro não terá mais valor para representar, pois ele é a representação do valor social do trabalho social baseado no valor de troca. Além disso, a forma-dinheiro está evoluindo por meio da tecnologia monetária com o advento das moedas virtuais, usadas muitas vezes para lavar dinheiro, o que pode ocasionar o caos do sistema monetário. CONCLUSÃO: O pacote atual de tecnologias, impregnadas da mentalidade e da prática da busca do capital pela dominação de classes, contém potencialidades emancipatórias que, de certo modo, têm de ser mobilizadas na luta anticapitalista. Na conjuntura atual, qualquer movimento anticapitalista deve reorganizar seu pensamento sobre a ideia de que o trabalho social está se tornando cada vez mais insignificante para o modo como funciona o motor econômico do capitalismo. É preciso planejar ações defensivas contra as tecnologias empregadas nas práticas predatórias de acumulação por espoliação, as ondas de desqualificação, o desemprego permanente, a crescente desigualdade social e a degradação acelerada do meio ambiente. A contradição que enfrenta o capital se metamorfoseia numa contradição que necessariamente se interioriza na política anticapitalista.