Prévia do material em texto
1 GESTÃO DE PESSOAL I GESTÃO DE PESSOAL I 2 GESTÃO DE PESSOAL I GESTÃO DE PESSOAL I 3 GESTÃO DE PESSOAL I Instituição Credenciada pelo MEC – Portaria 4.385/05 Unis - MG Centro Universitário do Sul de Minas Mantida pela Fundação de Ensino e Pesquisa do Sul de Minas – FEPESMIG Varginha/MG Todos os direitos desta edição reservados ao Unis-MG. É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, ou parte do mesmo, sob qualquer meio, sem autorização expressa do Unis-MG. 4 GESTÃO DE PESSOAL I SILVA, Guaracy. Guia de estudo – Gestão de Pessoas na Administração Pública – Guaracy Silva. Varginha, 2015. Revisão: 2017. 79p. 5 GESTÃO DE PESSOAL I Reitor Prof. Me. Stefano Barra Gazzola Diagramação Profa. Ma. Letícia Veiga Vasques Autor Guaracy Silva É Doutor em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP, tendo realizado estágio sanduíche na Universidade de Lisboa. Possui graduação em Administração de Empresas pela Sociedade Riopretense de Ensino e Educação (1996) e mestrado em Administração pelo Centro Universitário de Franca - UNIFACEF (2005). Atualmente é Superintendente Corporativo do Grupo Educacional UNIS e professor dos programas de graduação e pósgraduação da mesma instituição. Atuou em empresas como Ullian Esquadrias Metálicas e MGM Produtos Siderúrgicos, sendo responsável pelo RH. Pesquisa temas relacionados a gestão de instituições de ensino superior, tendências na oferta do ensino superior, políticas públicas para o ensino superior em especial o PNE. 6 GESTÃO DE PESSOAL I ÍCONES REALIZE. Determina a existência de atividade a ser realizada. Este ícone indica que há um exercício, uma tarefa ou uma prática para ser realizada. Fique atento a ele. PESQUISE. Indica a exigência de pesquisa a ser realizada na busca por mais informação. PENSE. Indica que você deve refletir sobre o assunto abordado para responder a um questionamento. CONCLUSÃO. Todas as conclusões, sejam de ideias, partes ou unidades do curso virão precedidas desse ícone. IMPORTANTE. Aponta uma observação significativa. Pode ser encarado como um sinal de alerta que o orienta para prestar atenção à informação indicada. HIPERLINK. Indica um link (ligação), seja ele para outra página do módulo impresso ou endereço de Internet. EXEMPLO. Esse ícone será usado sempre que houver necessidade de exemplificar um caso, uma situação ou conceito que está sendo descrito ou estudado. SUGESTÃO DE LEITURA. Indica textos de referência utilizados no curso e também faz sugestões para leitura complementar. APLICAÇÃO PROFISSIONAL. Indica uma aplicação prática de uso profissional ligada ao que está sendo estudado. 7 GESTÃO DE PESSOAL I CHECKLIST ou PROCEDIMENTO. Indica um conjunto de ações para fins de verificação de uma rotina ou um procedimento (passo a passo) para a realização de uma tarefa. SAIBA MAIS. Apresenta informações adicionais sobre o tema abordado de forma a possibilitar a obtenção de novas informações ao que já foi referenciado. REVENDO. Indica a necessidade de rever conceitos estudados anteriormente. 8 GESTÃO DE PESSOAL I Sumário Objetivos Específicos da Disciplina ............................................................................ 10 Introdução ..................................................................................................................... 11 1 Administração de Recursos Humanos em um contexto de mudanças ................. 13 1.1. Gestão de Pessoas e suas características fundamentais – os novos papéis da Gestão de Pessoas ....................................................................................................... 14 1.2. Processo Histórico de Evolução da Gestão de Pessoas – a ARH como responsabilidade de linha e função de staff................................................................. 16 1.3. Influência da Escola das Relações Humanas no processo de Gestão de Pessoas – a Escola das Relações Humanas e os fundamentos do comportamento individual .... 20 1.4. Objetivos e perspectivas da moderna Gestão de Pessoas – objetivos, desenvolvimento de equipes e tendências da Gestão de Pessoas ............................... 23 2 O papel estratégico de Recursos Humanos na Sociedade do Conhecimento ....... 26 2.1. Missão, Visão, Objetivos e Estratégia Organizacional ........................................ 27 2.2 Características organizacionais adequadas aos diferentes ambientes de negócio – cuidados para aliviar o peso das mudanças nos ambientes de negócio ...................... 30 2.3. Planejamento Estratégico de Recursos Humanos ................................................ 32 2.3.1 Planejamento estratégico de Recursos Humanos ........................................... 32 2.3.2 O Balanced Scorecard .................................................................................... 34 2.4. Abordagens básicas do planejamento estratégico de Recursos Humanos ........... 40 3 Auditoria de Recursos Humanos e Tendências da Gestão de Pessoas ................. 44 3.1. Auditoria da função de Gestão de Pessoas .......................................................... 45 3.2. Métodos e critérios de avaliação de Gestão de Pessoas ....................................... 46 3.3. Avaliação de pessoas – Pesquisa Interna versus Pesquisa Externa ..................... 50 3.4. Benefícios da avaliação global da área de Gestão Estratégica de Pessoas .......... 52 3.5. Tendências da Gestão de Pessoas – envolvimento, engajamento e participação: desafios ....................................................................................................................... 54 4 Efetividade em Recursos Humanos ......................................................................... 57 4.1. Treinamento e Desenvolvimento de Pessoas ....................................................... 57 5.1. Agregar valor ao negócio é manter o foco na direção desejada .......................... 61 5 Gerenciamento de Recursos Humanos com foco em Resultados .......................... 61 5.2. Tendências e cenários na área de Recursos Humanos – novas tecnologias e modelos de gestão ....................................................................................................... 63 5.3. Clima de motivação e engajamento com a empresa – envolvimento e participação .................................................................................................................................... 64 9 GESTÃO DE PESSOAL I 6 Tecnologia da Informação e a Gestão de Recursos Humanos ............................... 66 6.1. Era da Informação – Conceitos e Características ................................................ 66 6.2. Tecnologia da Informação – evolução tecnológica e organizacional; a TI na Gestão de Pessoas .......................................................................................................68 6.3. Internet e Portais de Conhecimento Corporativos ............................................... 70 7 Legislação dos Servidores Civis................................................................................ 73 7.1. Lei 8.112, de 11 de dezembro de 1990 - “Regime Jurídico Único” e demais legislações complementares ........................................................................................ 73 Considerações Finais .................................................................................................... 77 Referências Bibliográficas ........................................................................................... 78 10 GESTÃO DE PESSOAL I Objetivos Específicos da Disciplina a) Explicar o novo perfil da Gestão de Pessoas, como área de excelência em organizações bem sucedidas. b) Identificar a importância do aporte de capital intelectual na era da informação. 11 GESTÃO DE PESSOAL I Introdução A ementa da disciplina Gestão de Pessoal I foi desenvolvida de forma ampla. Ao longo da disciplina vamos tratar de questões que vão desde a evolução histórica da Administração de Recursos Humanos, passando pelo modelo de Recursos Humanos Estratégicos, até pontos de aplicação prática como as tendências em treinamento e desenvolvimento e a recente utilização de ferramentas de informática pela área de Recursos Humanos. Na Unidade Didática 1 vamos compreender as transformações externas que “forçaram” o repensar da área de Recursos Humanos e, consequentemente, as transformações internas; para tanto discutiremos a dualidade da atuação de RH ora como “linha” ora como “staff”; veremos ainda as influências da escola teórica das Relações Humanas que ainda exerce forte impacto nas políticas e ações das áreas de RH; discutiremos ainda os modelos “modernos” utilizados para a Gestão de Pessoas. Na Unidade Didática 2 relacionaremos o caráter estratégico da área de Recursos Humanos e os desafios impostos à área em função do advento da sociedade do conhecimento. Para tanto, vamos discorrer sobre os fundamentos do planejamento estratégico e o impacto dos mesmos para o planejamento das ações estratégicas da área de RH. Na Unidade Didática 3 discutiremos a adoção de medidas para a auditoria da área de Recursos Humanos, considerando que a mesma assumiu responsabilidades estratégicas e como decorrência deverá assegurar a consecução de seus objetivos; abordaremos ainda a questão dos processos de avaliação de desempenho. Por fim, trataremos das formas de envolvimento dos funcionários para a efetiva contribuição dos mesmos. Na Unidade Didática 4 o tema tratado será a efetividade da área de Recursos Humanos, tendo como perspectiva as ações propostas para o desenvolvimento dos funcionários e demais stakeholders. Na Unidade Didática 5 trataremos da atuação da área de Recursos Humanos como geradora de resultados. Resultados estes gerados de forma direta ou indireta. Para 12 GESTÃO DE PESSOAL I isso, vamos discutir o papel das novas tecnologias e a importância do clima organizacional para a motivação dos funcionários. Na Unidade 6 abordaremos a contribuição da Tecnologia da Informação para a efetiva contribuição da área de Recursos Humanos, em especial no que se relaciona com a disponibilização de programas de educação corporativa. Como veremos, a internet representou um grande avanço para tais ações, marcadamente na redução de custos. Na Unidade 7 trataremos dos principais aspectos previstos na Lei Nº 8.112/1990, responsável pelo “Regime Jurídico Único” que regula a atuação dos servidores civis. Embora com o desafio de trabalhar diferentes temas da área de RH, tenho certeza de que teremos uma disciplina rica e reflexiva. Conto com a efetiva participação de todos para que possamos “extrair” o máximo de aproveitamento desse nosso breve contato. Abraços, Prof. Guaracy Silva 13 GESTÃO DE PESSOAL I 1 Objetivos específicos Identificar a mudança organizacional como um processo necessário para o desenvolvimento das pessoas e da organização; Identificar as etapas históricas do processo de Gestão de Pessoas; Distinguir a influência da Escola de Relações Humanas na administração de pessoas; Relacionar as perspectivas da Administração de Recursos Humanos com as da Gestão de Pessoas. O desafio da competitividade é o mesmo: gerentes, funcionários e organizações precisam aprender a mudar mais depressa e mais tranquilamente. Os profissionais de RH precisam ajudar na mudança de suas organizações, definir um modelo organizacional e patrocinar sua constante aplicação. Quando os tempos do ciclo se encurtarem e o ritmo da mudança aumentar, os profissionais de RH terão de lidar com muitas questões associadas, entre as quais: Como desaprender o que aprendemos? Devemos honrar o passado e prepararmo-nos para o futuro? Como incentivar a aceitação de riscos necessária à mudança sem colocar a empresa em risco? (ULRICH, 2002, p. 27). Nessa primeira unidade didática, vamos abordar os impactos das constantes mudanças no ambiente corporativo, quase sempre provocadas pela intensificação da competitividade. Para tanto, vamos conhecer um pouco mais dos considerados “novos papéis da Gestão de Pessoas” - há consenso sobre esta transformação (ou seria evolução?) na importância da área para o sucesso empresarial e das demais organizações. Para tal, faremos um breve retrospecto da história da área de Gestão de Pessoas. Ainda nesta unidade trataremos da influência da escola de Relações Humanas 1. Administração de Recursos Humanos em um contexto de mudanças 14 GESTÃO DE PESSOAL I para a “humanização” dos processos e organizações e, por fim, discutiremos quais são os novos objetivos e as tendências da área de Gestão de Pessoas. 1.1. Gestão de Pessoas e suas características fundamentais – os novos papéis da Gestão de Pessoas Esgotou-se o tempo em que se pensava que a gestão de RH, necessária nas estruturas organizacionais, era simplesmente um órgão em linha, que ocupava um sem-número de efetivos nos mais de vinte subsistemas que prestavam serviço à empresa e empregados. As organizações que ainda planejam e pensam RH – ou a Gestão de Pessoas, como alguns preferem chamar essa área – como uma área tático-operacional, não estão, certamente, na primeira década do século XIX, entre aquelas que brilham nos holofotes ou nas listas de “maiores e melhores” (MARRAS, 2013, p. 244). É consenso entre os principais teóricos que estudam o tema Recursos Humanos que o acirramento da competitividade entre as empresas e demais organizações é uma das variáveis mais impactantes para a transformação da área. Conforme um dos pioneiros nesse debate, o pesquisador americano Dave Ulrich, tal fato encontra respaldo no necessário desenvolvimento de novas capacidades organizacionais: O acelerado ritmo de transformação exigido pela tecnologia, globalização, crescimento lucrativo e demandas do consumidor coloca em pauta a competência da força de trabalho e as capacidades organizacionais (ULRICH, 2002, p. 9). O mesmo autor relacionou ainda tal transformação com o advento das novas tecnologias e com a busca pela escala global, ainda que considerando aspectos locais, o que sem dúvidarepresentou significativo desafio às áreas de RH: A competição global eficaz demanda uma rede complexa de centros globais de excelência que se valem de tecnologias criadas em nível local e partilhadas mundialmente; o rápido movimento de produtos, pessoas, informações e ideias em nível mundial para atender a necessidades locais; a administração do paradoxo de economias de escala globais e receptividade local, e demanda uma mentalidade global e um envolvimento local (ULRICH, 2002, p. 17). Ainda sobre as transformações na área de RH, outro autor, desta vez brasileiro e profundo conhecedor do tema, considerou: 15 GESTÃO DE PESSOAL I Não se trata de uma metamorfose, e sim de um renascimento. Há que se pensar numa visão renovada sobre a maneira de administrar os trabalhadores, não mais entendendo a área de RH somente como uma prestadora de serviços (e portanto geradoras de despesas) mas, pelo contrário, pertencente a um centro de inteligência criador de um novo sistema de valores, tanto para atender à empresa quanto aos empregados e que responda às necessidades contemporâneas através da adoção de uma nova “filosofia” (MARRAS, 2013, p. 245). Marras, ao abordar os novos papéis da área de RH, sinalizou para o necessário abandono de práticas (e relações) que há muito tempo deixaram de ser efetivas: A primeira grande mudança a ser implementada ao se desejar pensar na implantação de uma nova lógica baseada numa inteligência estratégica de Recursos Humanos, para as organizações, é sem dúvida a forma de se ver, pensar e avaliar o ser humano. É preciso abandonar de vez a visão míope, estreita e totalmente anacrônica que herdamos dos nossos antepassados empresários, empreendedores, managers industriais e organizacionais, e desligar o bloqueio atávico de se pensar no vínculo empregatício como um processo implicante num sentimento de posse ou de superioridade de quem oferece (MARRAS, 2013, p. 245). Para Ulrich, o necessário aumento da lucratividade das empresas, em um ambiente cada vez mais desafiador, provoca uma série de perguntas (ou imposições) à área de Recursos Humanos, tais como: Como os executivos podem gerar dedicação para com o crescimento rápido e criar a cultura para sua sustentação e simultaneamente controlar custos? Como os executivos podem ter certeza de que contratam pessoal com capacidade para fazer a empresa crescer e, ao mesmo tempo, reduzir custos globais de mão-de-obra? Como os executivos podem criar uma estrutura organizacional que forneça tanto a autonomia necessária ao crescimento quanto a disciplina necessária ao controle de custos? (ULRICH, 2002, p. 24). Especificamente sobre o cenário brasileiro, Marras salientou o novo papel dos responsáveis pela área de Recursos Humanos, relacionando-o com o desafio de desenho de uma nova cultura organizacional: O horizonte organizacional vislumbra, para as organizações brasileiras, o perfil de um profissional estratégico de RH com a missão precípua de planejar e desenhar uma cultura organizacional direcionadora de comportamentos, efetiva e positivamente contributivos para os resultados da organização (MARRAS, 2013, p. 249). Nos próximos itens dessa unidade didática e nas próximas unidades discutiremos ainda mais sobre a transformação da área de Recursos Humanos. 16 GESTÃO DE PESSOAL I 1.2. Processo Histórico de Evolução da Gestão de Pessoas – a ARH como responsabilidade de linha e função de staff Uma pesquisa recente sobre capacidades organizacionais mostra que as organizações estão operando em quatro sentidos: construir confiabilidade, na qual tanto os indivíduos de dentro quanto os de fora da organização acreditam que os gerentes farão o que dizem e manterão sua reputação; abolir suas fronteiras hierárquicas, horizontais e externas; adquirir capacidade de mudança, a flexibilidade e a agilidade que permitem a constante inovação; e aprender, alcançando a mudança que se vale de si mesma e mantém a si mesma. Gerentes gerais de empresas têm obrigação de identificar e promover essas e outras capacidades para aumentar a competitividade (ULRICH, 2002, p. 9). Para um breve retrospecto histórico da área de Recursos Humanos, faz-se necessária a retomada de conceitos da administração científica ou escola clássica da Administração, cujos maiores teóricos foram Taylor e Fayol. Sobre este momento da história da Administração e, consequentemente do surgimento da preocupação com os funcionários, Marras observou: Nesse período e sob tal influência, nasceu a função de chefe de pessoal propriamente dita. Para o empresário, o trabalhador era tão somente um instrumento a mais na busca dos resultados da empresa. O que importava era que o trabalhador tivesse uma boa saúde física e a maior dedicação possível ao trabalho em jornadas que podiam estender-se a até 18 horas diárias (MARRAS, 2013, p. 7). Nesse período ficou evidente o olhar mecanicista para os funcionários; para os teóricos da época e gestores empresariais, os funcionários deviam ser considerados como mais um dos recursos disponíveis para a produção e oferta de bens e serviços. Já em 1920 foram percebidas as primeiras transformações na forma de pensar, como bem observou Marras: O movimento de relações humanas, na década de 1920, trouxe um desafio extremo à função de chefe de pessoal. Como se sabe, esse novo modelo de administração teve como base de mudança a relação entre empregados e empregadores. Enquanto a escola clássica operava à base da força e do autocratismo, o novo modelo propunha aumentar a produtividade pela eliminação dos conflitos e seus respectivos custos. (...) A ordem agora é preocupar-se com o indivíduo, com suas necessidades e outras variáveis com as quais até esse momento ninguém estava absolutamente preparado: nem o empresário, nem o trabalhador e muito menos o chefe de pessoal (MARRAS, 2013, p. 7- 8). 17 GESTÃO DE PESSOAL I Mas as transformações mais significativas surgiram a partir da década de 40, com forte influência dos teóricos comportamentais, ou behavioristas: “Surgem, em 1945, à luz do Behaviorismo, os primeiros estudos sobre liderança, autocratismo, democracia no trabalho e motivação humana (MARRAS, 2013, p. 8)”. Marras observou que a partir deste momento duas importantes tendências da área de Recursos Humanos passam a se impor: a) o advento do responsável pela área para posições de gerência e b) a preocupação legítima com a valorização dos funcionários: É nesse cenário que começa a ser valorizada a função de “cuidar de pessoal”. A função até então de terceiro escalão de chefe de pessoal ganha o status de gerência. Trata-se de um marco interessante, pois na hierarquia natural das organizações essa função sobe um degrau muito importante (...), deixando de ser uma função puramente operacional para tornar-se de origem tática (MARRAS, 2013, p. 8). No entanto, o autor brasileiro destacou que o ganho de importância dos responsáveis pela área de RH foi relativamente precoce e se limitou à “promoção de cargo”, uma vez que o “modus operandi” ainda era arcaico: Visto de outro ângulo – a bem da verdade – o gerente de pessoal nada fez, pessoalmente, para mudar o seu perfil. Continuou sendo um chefe de pessoal, com uma roupagem diferente. Sua visão ainda era muito tecnicista, mecanicista, e ligada às questões de registros burocráticos, fiscalização de aspectos legais e cumprimento de regras e normas (MARRAS, 2013, p. 9). Para Marras, as transformações mais consistentes foram registradas somente a partir da década de 1950: Foi somentena década de 1950 que apareceu a denominação que ligava essa área à de ciências humanas. Exatamente na mesma época em que a escola de relações humanas estava no auge, resolveu-se que seria muito apropriado denominar essa função de “gerente de relações humanas” (MARRAS, 2013, p. 10). O quadro 1, baseado nas contribuições de Tose, sintetiza as diferentes fases da evolução da área de Recursos Humanos ao longo do tempo: 18 GESTÃO DE PESSOAL I Quadro 1 – Fases evolutivas da gestão de pessoal Contábil Antes de 1930 Pioneira da “gestão de pessoas”, caracterizava-se pela preocupação existente com os custos da organização. Os trabalhadores eram vistos exclusivamente sob o enfoque contábil. Legal 1930 a 1950 Registrou o aparecimento da função de chefe de pessoal, profissional cuja preocupação estava centrada no acompanhamento e na manutenção das recém-criadas leis trabalhistas da era getulista. Tecnicista 1950 a 1965 Foi a fase que implantou no Brasil o modelo americano de gestão de pessoal e alavancou a função de RH ao status orgânico de gerência. Foi nessa fase que a área de RH passou a operacionalizar serviços como os de treinamento, recrutamento e seleção, cargos e salários, higiene e segurança do trabalho, benefícios e outros. Administrativa 1965 a 1985 A fase administrativa foi a origem de uma revolução que, movida pelas bases trabalhadoras, implementou o movimento sindical denominado “novo sindicalismo”. Nessa fase, registrou-se nova mudança – significativa – na denominação e na responsabilidade do até então gerente de relações industriais: o cargo passou a se chamar gerente de recursos humanos. Pretendia-se transferir a ênfase em procedimentos burocráticos e puramente operacionais para as responsabilidades de ordem mais humanística, voltadas para os indivíduos e suas relações (com os sindicatos, a sociedade etc.). Estratégica 1985 a atual A fase foi marcada pela introdução dos primeiros programas de planejamento estratégico de RH atrelados ao planejamento estratégico central das organizações. Foi nessa fase que se registraram as primeiras preocupações de longo prazo, por parte do board das empresas, com os seus trabalhadores. Iniciou-se nova alavancagem organizacional do cargo de GRH, que de posição gerencial, de terceiro escalão, em nível ainda tático, passou a ser reconhecido como diretoria, em nível estratégico nas organizações. Fonte: Adaptado pelo autor de Tose (1997). Conforme já sabemos, tais modelos de evolução da área de Recursos Humanos contribuem, sobremaneira, mas não são suficientes para a explicação da evolução da área, uma vez que ainda encontramos muitas empresas e organizações que adotam práticas da fase considerada por Tose como contábil. Não podemos desconsiderar ainda, que infelizmente, em pleno século XXI ainda são registrados casos de trabalhos escravos ou análogos à escravidão por todo o Brasil. Após o breve retrospecto histórico da área de Recursos Humanos, em especial no Brasil, vamos discutir um tema que ainda é controverso: Qual é (ou deve ser) o papel de Recursos Humanos? Devemos considerá-lo como uma posição de linha (gerente com atuação finalística) ou como uma posição de staff (marcada pela atuação no formato de assessoria)? 19 GESTÃO DE PESSOAL I Segundo Marras (2013, p. 41), as diferenças principais estão na “execução ou não” das responsabilidades sobre as atividades fins das empresas e organizações: Órgãos de linha são aqueles que exercem atividades de “execução” e “comando” e possuem responsabilidades sobre atividades fins do negócio. Os postos ou órgãos de assessoria, distintamente, caracterizam-se por não executar e não comandar na pirâmide organizacional. Sua ação está limitada a influenciar e aconselhar as unidades de linha. Sua responsabilidade, portanto, abrange a atividade meio da empresa. Tal discussão ganhou relevo quando do advento do modelo de Recursos Humanos Estratégico, uma vez que a área passou a ser questionada pela atuação mais estratégica e paradoxalmente consubstanciada no modelo de assessoria. Ou seja, para muitos a área ganhou importância estratégica, mas não se comprometia efetivamente com os resultados, uma vez que “apenas” assessorava as gerências de linha. Marras sintetizou as principais diferenças entre a atuação no formato de “linha” e “assessoria” no quadro 2, a seguir: Quadro 2 – Possíveis conflitos entre linha e assessoria Linha (Argumentos contra assessoria) Assessoria (Argumentos contra o pessoal da linha) Ameaça da autoridade Ressente-se por não ser o órgão fim Longe da realidade (prática) Não tem autoridade Não assume a responsabilidade pela operação Seu trabalho não é utilizado como deveria ser Consultar o assessor leva tempo Pessoal de linha está envolvido com a rotina e não tem tempo para pensar, criticar e melhorar o trabalho elaborado pela assessoria Linha não tem visão de conjunto Linha não quer mudar Fonte: Adaptado pelo autor de Marras (2013, p. 41). 20 GESTÃO DE PESSOAL I Ainda que considerando a pertinência da discussão teórica, na prática, em especial nas empresas com a área de RH mais consolidada, os executivos combinam a atuação de forma a contemplar aspectos relevantes tanto de “linha” como de “assessoria”, preservando, como é de se esperar, os diferentes espaços ocupacionais, ou seja, não invadindo as áreas de ação dos executivos alocados nas mais diversas áreas organizacionais. 1.3. Influência da Escola das Relações Humanas no processo de Gestão de Pessoas – a Escola das Relações Humanas e os fundamentos do comportamento individual A teoria da expectativa sustenta que um funcionário vai despender um alto nível de esforço se perceber que existe uma forte relação entre esforço e desempenho, desempenho e recompensa e recompensa e satisfação de metas pessoais. Cada uma dessas relações, por sua vez, é influenciada por certos fatores. Para que o esforço resulte em bom desempenho, o indivíduo precisa ter a capacidade necessária e perceber o sistema de avaliação de desempenho como justo e objetivo (ROOBBINS, 2010, p. 150). Conforme já observado nos itens anteriores, há um processo de evolução da área de Recursos Humanos. Para muitos teóricos, a escola das Relações Humanas foi um importante marco em tal processo, em função disso, analisaremos um pouco mais esta importante contribuição neste item 1.3. Há consenso entre os pesquisadores de que o marco inicial da teoria das Relações Humanas foi o experimento de Hawthorne: A experiência da fábrica de Hawthorne, da General Eletric Company, de Chicago, Estados Unidos, no final dos anos 1920 e começo dos 1930, é tida como o primeiro dos experimentos e intervenção maior dos cientistas do comportamento. O chamado Estudo Hawthorne foi planejado com o intuito de estabelecer a existência de alguma relação entre as condições de trabalho e a incidência de fadiga ou monotonia entre os empregados (MARRAS, 2013, p. 25). Com os estudos de Hawthorne (final da década de 20, início da de 30), que serviram de base para a “Teoria das Relações Humanas”, dentro de uma Abordagem Humanística da Administração, Elton Mayo concluiu, depois de anos de pesquisa, que o grupo social, dentro da organização informal, afeta profundamente as atitudes dos funcionários. A partir de então, começaram a estudar os fatores que influiriam no processo de motivação dos empregados. Foi percebido que, isoladamente, o salário não é fator motivação (PONTES, 2010, p. 27). 21 GESTÃO DE PESSOAL I Conforme vimos,o estudo permitiu a constatação da importância dos grupos sociais para os trabalhadores e que fatores considerados como de importância, tais como os salários e as condições do ambiente de trabalho, quando isolados, perdiam significado para os trabalhadores. Para Mayo era a capacidade social dos trabalhadores que estabelecia o seu nível de competência e eficiência, não sua capacidade de executar corretamente os movimentos dentro de um tempo pré-determinado. Ou seja, o comportamento do indivíduo se apoiava no comportamento do grupo, os grupos estabeleciam métodos para a valorização e o respeito pelas atitudes dos funcionários. Quem produzisse em ritmo acelerado, poderia ser tratado com sarcasmo. Em síntese, para os teóricos das Relações Humanas: I- O trabalho é uma atividade tipicamente grupal; o operário reage como membro de um grupo e não como um indivíduo isolado; II- A organização eficiente é incapaz de elevar a produtividade se as necessidades psicológicas não forem descobertas, localizadas e satisfeitas; III- As Relações Humanas e a cooperação constituem a chave para evitar o conflito social; IV- O comportamento dos trabalhadores está condicionado às normas e padrões sociais (os trabalhadores agem de modo a obter recompensas sociais ou a não obter sanções sociais); V- A empresa passou a ser vista como um conjunto de grupos sociais informais, cuja estrutura nem sempre coincide com a organização formal; VI- A existência de grupos sociais que se mantém em constante interação social dentro da empresa; VII- Os elementos emocionais e mesmo irracionais passam a merecer uma maior atenção. Outro consenso entre os autores que estudaram a teoria das Relações Humanas são os seus preceitos: A necessidade de humanizar e democratizar a administração, fortemente marcada pelos conceitos rígidos da teoria Clássica; 22 GESTÃO DE PESSOAL I O desenvolvimento das chamadas Ciências Humanas, em especial a Psicologia e a Sociologia. É justamente neste contexto histórico que surge a psicologia do trabalho e os estudos que relacionaram pela primeira vez a personalidade e o trabalho: Quando falamos sobre personalidade, não estamos dizendo que uma pessoa tem charme, uma atitude positiva diante da vida, um rosto sorridente, ou que seja finalista na categoria “Miss Simpatia” em um concurso qualquer. Quando um psicólogo fala sobre personalidade, refere-se a um conceito dinâmico que descreve o crescimento e o desenvolvimento de todo o sistema psicológico de um indivíduo. Mais do que analisar aspectos de uma pessoa, a personalidade se refere a um total agregado que é maior do que a soma das partes (ROOBBINS, 2010, p. 78). Dentre as teorias motivacionais que se seguiram, dentro da “Teoria Behaviorista”, que podemos considerar um aperfeiçoamento da “Teoria das Relações Humanas”, encontramos duas outras que são extremamente importantes para compreendermos o mecanismo de motivação do ser humano. São elas a “Hierarquia das Necessidades”1, de Abraham Maslow, e os “Fatores Motivacionais e Higiênicos”2, de Frederick Herzberg. No próximo item discutiremos um pouco sobre os objetivos e tendências da Gestão de Pessoas na atualidade. 1 Para Maslow, as necessidades humanas podem ser divididas em cinco, dentro de uma escala na qual, a partir do momento em que temos uma necessidade satisfeita, a necessidade seguinte passa a ser o fator motivador de nossas atitudes, até atingir a satisfação de todas elas - necessidades fisiológicas, de segurança, necessidades sociais, de autoestima, de autorrealização (PONTES, 2014, p. 27-28). 2 Pela teoria de Herzberg, podemos compreender melhor o papel do salário, que está tão intimamente ligado à satisfação das necessidades humanas. Herzberg divide os fatores em higiênicos e motivadores, sendo que os higiênicos abrangem todos os benefícios oferecidos pela empresa, tais como: ambiente de trabalho, relacionamento com os superiores, benefícios sociais e salário, que são vistos como fatores que podem gerar insatisfação e, quando de acordo com as aspirações dos funcionários, atingir um estado máximo de não satisfação. Já os fatores motivadores que estão relacionados com o cargo ocupado pelo empregado e abrangem o trabalho adequadamente realizado, responsabilidade exigida, reconhecimento e progresso profissional, levam os funcionários de estados de não-satisfação ao de satisfação (PONTES, 2014, 29). 23 GESTÃO DE PESSOAL I 1.4. Objetivos e perspectivas da moderna Gestão de Pessoas: objetivos, desenvolvimento de equipes e tendências da Gestão de Pessoas Como defensores da competitividade, os profissionais de RH precisam se concentrar mais nos resultados de seu trabalho do que em executar melhor seu trabalho. Devem articular seu papel em termos de valor criado; utilizar mecanismos para facilitar os resultados empresariais do departamento de RH. Precisam aprender a medir resultados mais em termos de competitividade empresarial do que em bem-estar dos funcionários, e a produzir transformação cultural em lugar de promover fusão, reengenharia ou redução do quadro de pessoal, quando a empresa necessita de uma reversão (ULRICH, 2002, p. 34). Conforme vimos, a evolução da área de RH foi constante e consistente. De um simples departamento inserido no contexto das equipes operacionais (departamento pessoal) para a sua evolução em nível tático (gerência de RH). Atualmente, nas organizações de ponta, a área se localiza em nível estratégico, ocupando uma função de staff no board dessas empresas. Para Marras: Esgotou-se o tempo em que se pensava que a gestão de RH, necessária nas estruturas organizacionais, era simplesmente um órgão em linha, que ocupava um sem-número de efetivos nos mais de vinte subsistemas que prestavam serviço à empresa e aos empregados (MARRAS, 2013, p. 245). Ulrich, admitindo os desafios que devem ser superados para que a transformação do RH de fato ocorra, observou: Embora muitas pessoas e organizações admitam a necessidade de mudança, poucas são capazes de sustentar esforços bem-sucedidos para esse fim. Muitas desejam mudar, mas poucas são capazes de realmente realizá-la. Os profissionais de RH como agentes de mudança devem converter o desejo em competência mediante a identificação e superação dos desafios responsáveis pelo sucesso da mudança (ULRICH, 2002, p. 197). Ainda tangenciando a discussão anterior, relacionada à atuação em “linha” ou “staff”, e sobre a importância das equipes ou grupos de trabalho, Ulrich sinalizou: 24 GESTÃO DE PESSOAL I Os profissionais de RH como agentes de mudança não conduzem a mudança, mas devem ser capazes de fazer com que ela se realize. Ao identificar e definir fatores-chave para a mudança, os profissionais de RH podem liderar as equipes através das etapas de aumento da capacidade para mudança (ULRICH, 2002, p. 201). Com relação à atuação do RH frente aos grupos de trabalhos ou equipes, Robbins discorreu: Como explicar a atual popularidade das equipes? As evidências sugerem que elas são capazes de melhorar o desempenho dos indivíduos quando a tarefa requer múltiplas habilidades, julgamentos e experiências. Quando as organizações se reestruturam para competir de modo mais eficaz e eficiente, escolheram as equipes como forma de utilizar melhor os talentos de seus funcionários. As empresas descobriram que as equipes são mais flexíveis e reagem melhor às mudanças do que os departamentos tradicionais ou outras formas de agrupamentos permanentes. As equipestêm capacidade para se estruturar, iniciar seu trabalho, redefinir seu foco e se dissolver rapidamente (ROBBINS, 2010, p. 212). Uma equipe de trabalho gera uma sinergia positiva por meio do esforço coordenado. Os esforços individuais resultam em um nível de desempenho maior do que a soma daquelas contribuições individuais (ROBBINS, 2010, p. 213). Diferenciando grupos de trabalho de equipes, o autor Robbins esclareceu: Os grupos de trabalho não têm necessidade nem oportunidade de se engajar em um trabalho coletivo que requeira esforço conjunto. Assim, seu desempenho é apenas a somatória das contribuições individuais de seus membros. Não existe uma sinergia positiva que possa criar um nível geral de desempenho maior do que a soma das contribuições individuais (ROBBINS, 2010, p. 213). O quadro abaixo, construído por Robbins, identifica as principais diferenças entre grupos de trabalho e equipes de trabalho a partir de temas como objetivo, sinergia, responsabilidade e habilidades: Quadro 3 – Comparação entre Grupos de Trabalho e Equipes de Trabalho Grupos de trabalho Equipes de trabalho Compartilhar informações Objetivo Desempenho coletivo Neutra (às vezes negativa) Sinergia Positiva Individual Responsabilidade Individual e mútua Aleatórias e variadas Habilidades Complementares Fonte: Adaptado pelo autor de Robbins (2010, p. 213). 25 GESTÃO DE PESSOAL I As tendências na área de Recursos Humanos se relacionarão com os resultados superiores, que não raramente serão obtidos a partir de equipes de trabalho cada vez mais consolidadas e diversificadas em sua constituição, conforme veremos nas próximas unidades. 26 GESTÃO DE PESSOAL I 1 Objetivos específicos Conceituar missão, visão, objetivos e estratégia organizacional; Identificar características organizacionais adequadas aos diferentes ambientes de negócio; Identificar a importância da integração do planejamento estratégico de Recursos Humanos ao planejamento estratégico da organização; Distinguir modelos de planejamento estratégico de RH; Identificar atores que interferem no planejamento estratégico de RH; Identificar abordagens básicas do planejamento estratégico de Recursos Humanos. A Gestão do Conhecimento deve se apoiar, idealmente, em sistemas inteligentes que serão acionados conforme as necessidades das pessoas que também terão a capacidade de registrar e relacionar os aprendizados individuais à medida que estes ocorrem e são aplicados na prática, favorecendo verdadeiro aprendizado coletivo e o desenvolvimento de organizações estruturadas a partir dos pressupostos e requisitos da Era do Conhecimento (TERRA, 2003, p. XX). Nesta unidade, discutiremos a relação saudável entre o planejamento estratégico empresarial e os planos de Recursos Humanos. Para tanto, utilizaremos autores especialistas na discussão e abordaremos as mudanças no ambiente organizacional, que dificultam ainda mais os processos de planejamento. Abordaremos ainda a ferramenta Balanced Scorecard – BSC. 2. O papel estratégico de Recursos Humanos na Sociedade do Conhecimento 27 GESTÃO DE PESSOAL I 2.1. Missão, Visão, Objetivos e Estratégia Organizacional Tornar-se parceiro estratégico significa transformar declarações estratégicas em um conjunto de ações organizacionais. Superar o desafio de aplicar planos estratégicos exige que os profissionais de RH imponham à discussão estratégica questões organizacionais antes da decisão sobre as estratégias (ULRICH, 2002, p. 80). As missões organizacionais e o estabelecimento da visão de negócio das companhias e ou organizações são pontos centrais no processo de planejamento empresarial e devem inspirar o desenvolvimento de planos para a área de Recursos Humanos. Para Jones e Kahaner, autores de um respeitado estudo sobre visões de companhias e organizações: Missões corporativas – chamadas, às vezes, de declaração de valores, credos ou princípios – são os faróis que orientam as operações, a ética e as finanças de uma companhia. Não são simplesmente lemas ou slogans; elas articulam objetivos, sonhos, conduta, cultura e estratégias de empresas, mais do que qualquer outro documento (JONES; KAHANER, 1996, p. 7). Diferenciando as missões compartilhadas e vivenciadas dos meros slogans que ainda são a tônica de muitas organizações, os autores observaram: Deparamo-nos com companhias poderosas, vibrantes e de sucesso que tinham valores de verdade. Suas declarações de missão não eram simplesmente conceitos e filosofias remendadas, mas ideias bem elaboradas que lhes ajudaram a alcançar e superar sonhos financeiros, tratar bem seus funcionários, superar crises e demarcar a coisa certa a fazer. Essas missões são o caminho das pedras (JONES; KAHANER, 1996, p. 7). Na mesma linha, com um tom mais irônico, Ulrich também observa a definição de missões organizacionais que muito pouco contribuirão para a consecução de seus objetivos: Com muita frequência, o enredo do planejamento estratégico se desenrola da seguinte forma: a cúpula do gerenciamento vai a um “local estratégico” e passa uma semana desenvolvendo uma estratégia. Os membros da equipe analisam expectativas do consumidor, tendências dos negócios, inovações tecnológicas e competências essenciais. Debatem investimentos alternativos de recursos; esboçam declarações sobre aspirações, visões e missões. Durante essa semana e as seguintes, os executivos trabalham durante horas a fio e participam de debates intensos e reflexivos sobre como enfrentar o futuro. Ao final desses conclaves são elaboradas declarações provocativas e 28 GESTÃO DE PESSOAL I muitas vezes profundas a respeito do futuro. Infelizmente, essas declarações – diversamente chamadas de missões, visões, aspirações, metas ou objetivos – não conseguem levar em conta e, consequentemente, abranger todos os processos organizacionais necessários à sua realização (ULRICH, 2002, p. 79-80). Já a administração estratégica é toda a mobilização (esforço) que a organização empreende para atingir os objetivos estabelecidos. Para tanto, as organizações formulam, simulam, implementam, mensuram ou monitoram e corrigem suas intenções estratégicas. A estratégia é derivada de análises de fatores e ambientes internos e externos, oportunidades e ameaças, de maneira que tais informações possam ser empregadas, relacionadas e analisadas a fim de assegurar premissas para que as organizações mantenham-se perenes e eficazes. Segundo o Professor Falconi (2009) existe um processo de planejamento e ele é único, independentemente do tamanho e do tipo de problema. Existem alguns princípios que devem reger o processo de planejamento: a) O planejamento deve ser sempre feito dos fins para os meios (de jusante a montante), por meio da análise e da síntese, até que se apresente uma solução satisfatória. b) No caminho de jusante a montante deve ser utilizada para a priorização (o critério de priorização deve ser estabelecido para cada caso, mas sempre obedecendo à prioridade maior). c) Pode ser que haja muitos fatores atuando sobre determinado resultado, mas 20% destes modificarão em 80% o resultado e poderão ser o suficiente para resolver o problema (princípio de Pareto). d) O planejamento é interativo (interação entre o analista e as pessoas que detém o conhecimento técnico) e consiste essencialmente na busca do conhecimento necessário à solução de determinado problema. e) Esta interação entre os analistas e outras partesrelacionadas depende do processo de comunicação de tal forma que o conhecimento, ao se tornar visível, propicie a participação de todos (FALCONI, 2009, p. 54-55). Ulrich, enaltecendo a percepção de muitos de que algumas empresas apenas definem estratégias sem o verdadeiro compromisso de implementação, observou: 29 GESTÃO DE PESSOAL I As estratégias são mais teóricas que aplicadas. As visões são mais criadas que realizadas. As missões são mais expostas que executadas. As metas são mais declaradas que cumpridas. Sem a criação de um mecanismo disciplinado, rigoroso e meticuloso para traduzir as aspirações em ações, as estratégias ficam arquivadas (ULRICH, 2002, p. 79). Robbins apontou a importância do equilíbrio entre estratégia e estrutura, este último um item quase sempre negligenciado nos processos de definição estratégica: A estrutura de uma organização é um meio para ajudar a administração a conquistar seus objetivos. Como os objetivos derivam da estratégia geral da organização, é absolutamente lógico que a estratégia e a estrutura devem estar intimamente relacionadas. Mais especificamente, a estrutura deve seguir a estratégia. Se a administração fizer uma mudança significativa na estratégia da empresa, sua estrutura precisará ser modificada para acomodar e apoiar a mudança (ROBBINS, 2010, p. 362). Por fim, e mais uma vez em forma de um alerta, Lucena discorreu sobre as ações do planejamento estratégico a partir do conceito de execução. A autora destaca a importância dos planos se converterem em ações: Um dos problemas críticos do planejamento estratégico é a transição da decisão para a execução, da expectativa para a experimentação, do objetivo para o resultado, enfim do plano para a ação. Os planos estabelecem formas de ação, sempre partindo de uma visão macro. Mas a dinâmica do ambiente externo e da vida empresarial é contínua. Muitas vezes, mudanças significativas acontecer no decorrer de sua execução que impactam nos planos estabelecidos, exigindo reformulações, adaptações e novos enfoques na análise das decisões. Para se evitar a inviabilidade dos projetos e manter a credibilidade e funcionalidade do planejamento estratégico, será necessário estar atento aos fatores e variáveis que poderão comprometer o atingimento dos objetivos definidos. Daí, o planejamento não pode ser algo estático e intocável, mas tão dinâmico quanto a própria natureza das organizações (LUCENA, 2009, p. 174). Além de atentarem para temas como a necessária estrutura e implementação/execução, as mudanças nos ambientes de negócios também desafiam os planejamentos estratégicos, como veremos em detalhes no próximo item. 30 GESTÃO DE PESSOAL I 2.2 Características organizacionais adequadas aos diferentes ambientes de negócio: cuidados para aliviar o peso das mudanças nos ambientes de negócio Uma das descobertas mais bem documentadas nas pesquisas sobre comportamento organizacional e de pessoas é que as organizações e seus membros resistem à mudança. Em certo sentido, isso é positivo: oferece um grau de estabilidade e previsibilidade ao comportamento. Se não houvesse alguma resistência, o comportamento organizacional teria uma aleatoriedade caótica (ROBBINS, 2010, p. 425). Conforme já abordado neste Guia de Estudos, há uma profusão de transformações acometendo o ambiente de negócios das organizações. No entanto, o processo de mudança é desafiador, às vezes traumático, porém necessário. Conforme bem observou Ulrich, os próprios executivos que deveriam ser os primeiros a aceitarem as mudanças, não só apresentam resistência como, muitas vezes sequer são exemplos para suas equipes: Frequentemente, os próprios executivos não mudam. Não mostram entusiasmo. Uma vez que os funcionários ouvem mais o que seus superiores fazem do que aquilo que dizem, muitos esforços de mudança acabam fracassando, tanto em nível pessoal quanto em nível organizacional. Os profissionais de RH possuem a singular obrigação de desafiar executivos influentes e bem-sucedidos a agir de acordo com suas palavras. Aprender como insistir sem ser insolente, exigir sem ser descortês e persistir sem ser arrogante (ULRICH, 2002, p. 28). Robbins, na mesma linha, reforça as ameaças que a não observação das mudanças pode representar para os executivos: Os agentes internos de mudança geralmente são indivíduos dos altos escalões da empresa e têm muito a perder. Na verdade, eles chegaram aonde estão por meio do desenvolvimento de habilidades e padrões de comportamento que são favorecidos pela organização. A mudança representa uma ameaça a essas habilidades e padrões. E se eles deixarem de ser o tipo valorizado pela empresa? Isso aumenta a chance de outras pessoas ganharem poder à custa deles (ROBBINS, 2010, p. 425). Marras também se associou aos outros dois autores, evidenciando o desconforto para com as mudanças e a necessária definição das prioridades, ainda que em um cenário incerto e marcado pelas transformações: As organizações estão vivenciando uma experiência inédita, graças aos acontecimentos históricos da era pós-moderna: as mudanças drásticas nas áreas econômica, tecnológica e de mercado – 31 GESTÃO DE PESSOAL I principalmente na última – têm exigido dos executivos verdadeiros exercícios de criatividade e coragem para enfrentar mudanças de uma magnitude e a uma velocidade jamais imaginadas. Nunca foi tão questionada a problemática decisória entre estrutura e estratégica no tocante à prioridade (MARRAS, 2013, p. 17). Especificamente sobre o cenário brasileiro, Marras também apontou desafios para o campo do trabalho: Ultrapassados os velhos paradigmas do nacionalismo e os estreitos limites de abrangência das preocupações empresariais, a globalização trouxe no seu bojo alterações no campo do trabalho extremamente graves como consequência do diferencial competitivo apresentado pelas linhas de produção dos países de Primeiro Mundo (tecnologia, maquinário, especialização etc.) quando comparado ao padrão existente no Brasil pré-globalizado (MARRAS, 2013, p. 17). Com base nos cenários apontados por Ulrich, Robbins e Marras, se estabelece uma preocupação adicional para as áreas de Recursos Humanos: o impacto das transformações na realidade dos trabalhadores, quase sempre resultando em momentos de estresse. Para Marras tal fenômeno deve ser gerenciado e monitorado, considerado a qualidade de vida dos envolvidos: Enquanto as organizações preocupam-se em ser mais competitivas, produzindo mais e melhor a custos menores, os empregados buscam no interior das empresas onde trabalham a compensação do estresse causado pela busca frenética de resultados. A conscientização do desejo de “viver qualitativamente melhor” é algo patente e palpável para a grande massa dos trabalhadores (MARRAS, 2013, p. 18). Na mesma linha, Robbins também chama a atenção para a questão, no entanto minimiza um pouco o temor sobre o estresse, que segundo o autor pode representar uma oportunidade com potencial de ganho: O estresse não é necessariamente ruim. Embora normalmente seja discutido dentro de um contexto negativo, também tem o seu lado positivo. Ele deve ser visto como uma oportunidade quando oferece um potencial de ganho. (...) Mais tipicamente, o estresse aparece associado aos limites e às demandas. Os limites impedem que você faça o que deseja. As demandas se referem à perda de alguma coisa desejada. (...) Um bom desempenho pode levar a uma promoção, a maiores responsabilidades e a um salário mais alto. Ummau desempenho pode impedi-lo de conseguir a promoção. Se a avaliação for muito ruim, pode até significar a sua demissão (ROBBINS, 2010, p. 439). Um bom planejamento estratégico de RH, conforme veremos no próximo item, pode minimizar os impactos das mudanças e, consequentemente do fenômeno estresse. 32 GESTÃO DE PESSOAL I 2.3. Planejamento Estratégico de Recursos Humanos Os objetivos empresariais podem ser formulados de muitas maneiras – como alvos financeiros, placares equilibrados, visões, intenções, missões, aspirações ou metas. Independentemente da forma ou conteúdo do objetivo, deve-se criar uma organização para que isso aconteça. Quando os profissionais de RH atuam como parceiros estratégicos, trabalham com os gerentes de linha para instituir e gerir um processo que crie uma organização que atenda às exigências de seu negócio (ULRICH, 2002, p. 78). Neste item discutiremos dois aspectos fundamentais: a) a teoria do planejamento estratégico em Recursos Humanos, a partir das contribuições de Lucena e Falconi e; b) o Balanced Scorecard – BSC como um importante instrumento de planejamento estratégico para a área de RH, a partir, principalmente, da perspectiva das pessoas (aprendizado e crescimento). 2.3.1 Planejamento estratégico de Recursos Humanos Segundo Lucena (2009, p. 178) as áreas de recursos humanos devem, a partir do planejamento estratégico da empresa, identificar: a) a previsão de necessidades de Recursos Humanos requeridas pelo negócio; b) analisar a capacidade instalada frente às metas estratégicas do negócio; c) analisar o ambiente e o mercado de trabalho. Tudo isso para que possam integrar o planejamento de Recursos Humanos ao planejamento estratégico da organização, a fim de que os objetivos abaixo relacionados sejam plenamente atingidos: Identificar os impactos das decisões estratégicas empresariais nos Recursos Humanos; Localizar, nos vários segmentos da organização, suas necessidades específicas; Subsidiar o planejamento das ações estratégicas a serem implementadas. A autora adverte também sobre o papel da área de Recursos Humanos quando da formulação das decisões estratégicas: Por ocasião da formulação das Decisões Estratégicas a nível do negócio, o staff de Planejamento de Recursos Humanos deverá acompanhar o trabalho, para identificar seus impactos nos Recursos 33 GESTÃO DE PESSOAL I Humanos. Por exemplo, se for tomada uma Decisão Estratégica voltada para diversificação do negócio, ou expansão da empresa (abertura de novas filiais), como dimensionar as consequentes necessidades de Recursos Humanos? O staff de planejamento de Recursos Humanos poderá fazer um trabalho informal, conversando com as pessoas responsáveis pelo planejamento do negócio para obter as informações de que precisa e, então, definir o seu planejamento, ou poderá estruturar esse trabalho de levantamento de necessidades de Recursos Humanos de forma mais participativa, envolvendo todos os administradores e gerentes (LUCENA, 2009, p. 180). Para Lucena (2009, p. 186), a análise do ambiente e do mercado de trabalho tem os seguintes objetivos: Identificar aspectos da conjuntura econômico-político-social e de relações trabalhistas que possam afetar as ações estratégicas de Recursos Humanos; Levantar alternativas para gerenciar situações delicadas ou sensíveis a variáveis conjunturais; Identificar necessidades de desenvolvimento de programas ou atividades voltadas para atender às carências apresentadas pelo mercado de trabalho. O professor Falconi, abordando a necessária participação das pessoas da organização no processo de planejamento e monitoramento, destacou quais são as maiores dificuldades. Dificuldades estas que podem comprometer o papel de RH quando das discussões do planejamento estratégico: A prática de solução de problemas não é simples quando abordada sob o ponto de vista da organização das pessoas que devem participar. Assim como o processo de análise, que é a alma do método, requer a absorção de novos conhecimentos, a participação de pessoas é fundamental. No entanto, quando se fala em participação, sempre vem a pergunta: “Como participar?” Uma das maiores dificuldades na análise é conseguir a contribuição das pessoas. Isto acontece por várias razões, cito algumas: I- O analista não tem autoridade para convocar as pessoas. II- As pessoas não têm interesse próprio naquele problema em questão (não é meta delas!). III- Quando concordam em participar é uma dificuldade juntá-las todas numa só data, hora e num só local (algumas faltam ou mandam “representantes”). IV- Quando todos estão juntos, é uma dificuldade entenderem o estágio em que está a análise (o analista não consegue comunicar!) (FALCONI, 2009, p. 83). O alinhamento do planejamento estratégico de RH ao planejamento estratégico da organização é de fato um grande desafio, a questão da participação dos profissionais 34 GESTÃO DE PESSOAL I de RH no debate pode ser uma variável desafiadora. No entanto, a adoção de instrumentos como o BSC poderão facilitar o processo, conforme veremos no próximo item. 2.3.2 O Balanced Scorecard O Balanced Scorecard, desenvolvido por Kaplan e Norton em 1992, é resultado da intenção de pesquisadores e gestores em captar toda a complexidade da performance na organização e tem sido amplamente utilizado nas empresas e organizações. Entre suas contribuições estão a composição e a visualização de medidas de performance que reflitam a estratégia de negócios da empresa. O BSC conduz à criação de uma rede de indicadores de desempenho que deve atingir todos os níveis organizacionais, tornando-se, assim, uma ferramenta para comunicar e promover o comprometimento geral com a estratégia da corporação. Durante muito tempo, as variáveis contábil-financeiras foram os principais meios utilizados pelas empresas e organizações para a obtenção de informações sobre desempenho. Nos últimos anos, porém, há um relativo consenso de que as mesmas não são mais suficientes para tal finalidade. O BSC é uma metodologia voltada à gestão estratégica, que visa ao gerenciamento – de forma sistematizada – da estratégia organizacional, garantindo sua efetividade, através da melhoria dos processos, da tradução da missão em objetivos estratégicos e, dos objetivos estratégicos em um conjunto integrado de indicadores de desempenho (KAPLAN; NORTON, 1992). O BSC foi “balanceado” em quatro perspectivas: Financeira; Do cliente; Dos processos internos; Do aprendizado e crescimento. Tais perspectivas constituem-se em uma representação equilibrada das medidas financeiras e operacionais e cobrem o curto e o longo prazo. Os indicadores de curto prazo são chamados de lagging e são caracterizados como indicadores de ocorrência, indicadores financeiros. Os indicadores de longo prazo são denominados de leading e são voltados para o futuro (KAPLAN; NORTON, 1992). 35 GESTÃO DE PESSOAL I Quadro 4 – Indicadores Lagging e Indicadores Leading Indicadores Lagging Indicadores Leading Objetivos de curto prazo Objetivos de longo prazo Presente Futuro Indicadores financeiros Indicadores não-financeiros Enfoque operacional Enfoque estratégico Fonte: Adaptado pelo autor de Kaplan; Norton (1992, p. 31). Portanto, O BSC não é um conjunto de objetivos isolados, desconexos ou conflitantes. Há uma cadeia de relações de causa e efeito, decorrente do mapeamento de atividades da empresa, que deve ser claro e detalhado, possibilitando uma visão organizacional atual e futura, e definindo,de forma objetiva, os passos que serão dados. Na verdade, o BSC evoluiu de um conjunto de indicadores para um sistema de gestão (KAPLAN; NORTON, 1992). Na literatura especializada, os requisitos do BSC são: a) Educação e comunicação da estratégia Uma das razões de implementação do BSC é a otimização da educação baseada nas estratégias empresariais. b) Execução da estratégia de negócios A implementação do BSC deve demonstrar o relacionamento entre iniciativas exigidas para a organização ter êxito na realização de sua estratégia e de seus objetivos estratégicos. 36 GESTÃO DE PESSOAL I c) Aprendizado e feedback estratégicos A implementação do BSC deve assegurar a otimização do sistema de feedback da informação sobre o gerenciamento da organização. A lacuna entre os resultados alcançados e os resultados planejados deve constituir-se em indicativos de vulnerabilidades organizacionais. Conforme anteriormente apresentado, o BSC possui quatro diferentes perspectivas que buscam traduzir tanto indicadores já atingidos quanto insumos que estão relacionados com a concretização ou não dos indicadores futuros (características que diferenciam o BSC de outras formas de gestão de desempenho). A seguir são exploradas tais perspectivas. Perspectiva Financeira Os indicadores de desempenho financeiro nos informam se a estratégia da empresa – assim como a implementação – estão contribuindo para a consecução dos resultados financeiros. Os objetivos financeiros podem diferir, consideravelmente, em cada fase do ciclo de vida da organização: crescimento, sustentação e colheita. É a perspectiva financeira que deve indicar se a implementação e a execução da estratégia estão contribuindo para a melhoria dos resultados financeiros. Deve representar metas finais para os objetivos de outras perspectivas do BSC. Para o pesquisador Falconi (2009), é também a perspectiva financeira que aponta a consecução ou não dos demais objetivos estratégicos. No quadro a seguir, seguem alguns exemplos de definição de objetivos estratégicos e seus respectivos indicadores (optamos por não trabalhar com os índices) a título de ilustração da composição da perspectiva financeira. 37 GESTÃO DE PESSOAL I Quadro 5 – Perspectiva Financeira Objetivos Estratégicos Indicadores Aumentar as Receitas em 12% ao ano Receitas em R$ Aumentar a Rentabilidade em 10% Rentabilidade em R$ Fonte: Adaptado pelo autor de Kaplan; Norton (1992, p. 31). Perspectiva dos Clientes O BSC pressupõe que aquilo que genericamente refere-se ao atendimento ao cliente seja traduzido em medidas específicas que apontem os fatores determinantes para os clientes. Será esta perspectiva que assegurará a receita dos objetivos financeiros da organização. Tal perspectiva possibilita a clara identificação e avaliação das propostas de valor dirigidas aos clientes. São exemplos de indicadores: participação de mercado, retenção de clientes, captação de clientes, satisfação de clientes, lucratividade de clientes. O que a organização deve oferecer a seus clientes para alcançar altos níveis de satisfação, retenção, lucratividade? A resposta está relacionada com a tão “propalada” geração de valor, que nada mais é do que o composto que une os atributos do produto ou serviço, a imagem percebida pelos clientes e a forma com que a empresa/organização se relaciona com seus clientes. No quadro a seguir, são apresentados alguns exemplos de definição de objetivos estratégicos e seus respectivos indicadores para a perspectiva dos clientes. 38 GESTÃO DE PESSOAL I Quadro 6 – Perspectiva do Cliente Objetivos Estratégicos Indicadores Aumentar a satisfação dos consumidores Índice de satisfação a partir da pesquisa anual Número de reclamações recebidas Número de devoluções recebidas Presença Global % da Receitas gerado em outros países Fonte: Adaptado pelo autor de Kaplan; Norton (1992, p. 32). Perspectiva dos Processos Internos Na perspectiva dos processos internos, as organizações identificam os processos mais críticos para a realização dos objetivos de seus clientes e acionistas. Em geral, a análise desta perspectiva costuma proporcionar também a necessidade de reengenharia de processos pré-existentes ou a criação de processos inteiramente novos. Os indicadores financeiros, a longo prazo, podem exigir que uma organização crie produtos e serviços inteiramente novos, com margens crescentes e mercados ávidos por consumi-los, o que reforça a importância estratégica desta perspectiva. O quadro a seguir contém alguns exemplos da definição de objetivos estratégicos e seus respectivos indicadores para a perspectiva dos processos internos. Quadro 7 - Perspectiva dos Processos Internos Objetivos Estratégicos Indicadores Garantir que o Ciclo Operacional seja concluído dentro do planejado % de processos em desacordo com o Ciclo Operacional estabelecido Garantir os suprimentos necessários para o adequado andamento do Ciclo Operacional % de suprimentos e fornecedores com atrasos registrados no período Fonte: Adaptado pelo autor de Kaplan; Norton (1992, p. 33). 39 GESTÃO DE PESSOAL I Perspectiva do Aprendizado e do Crescimento A competição entre empresas e organizações na atualidade impõe a necessária melhoria contínua nos processos atuais, o desafiador desenvolvimento de novos produtos ou serviços e o consequente desenvolvimento de capacidades adicionais. Tal perspectiva sinaliza para o desenvolvimento de objetivos e medidas que orientem o aprendizado e o crescimento da organização, através do monitoramento, ajuste e implementação da estratégia, bem como, da implantação de mudanças organizacionais. As informações geradas pelos sistemas de informação apoiam a organização em um contínuo e necessário processo de mudança, do qual as pessoas (em especial os funcionários são parte fundamental). Os funcionários precisam não só estar motivados, como precisam ser valorizados e reconhecidos a fim de que utilizem de fato seus conhecimentos para o bom andamento dos aspectos relacionados nas três perspectivas já apresentadas. Mais uma vez, um quadro síntese evidencia os objetivos estratégicos e seus respectivos indicadores desta vez relacionados com a perspectiva de aprendizado e crescimento. Quadro 8 - Perspectiva de Aprendizado e Crescimento Objetivos Estratégicos Indicadores Treinamento Comportamental para funcionários do nível tático 12 horas por ano Treinamento Comportamental para funcionários do nível operacional 8 horas por ano Treinamento Técnico (Método) para funcionários do nível tático 32 horas por ano Treinamento Técnico (Método) para funcionários do nível operacional 20 horas por ano Fonte: Adaptado pelo autor de Kaplan; Norton (1992, p. 34). Na próxima unidade discutiremos um pouco mais sobre o planejamento de Recursos Humanos. 40 GESTÃO DE PESSOAL I 2.4. Abordagens básicas do planejamento estratégico de Recursos Humanos Como parceiros estratégicos, os profissionais de RH nem sempre concordam ou seguem as decisões da equipe executiva, mas devem forçar uma discussão séria sobre como devem ser criadas organizações para aplicar a estratégia (ULRICH, 2002, p. 107). Como decorrência do processo de planejamento estratégico organizacional e do processo de planejamento estratégico de Recursos Humanos, deve-se considerar a cultura organizacional. De todas as áreas organizacionais é a de RH que melhor contribui, desde que preparada, para a transformaçãoda cultura organizacional. A questão do engajamento dos funcionários também não pode ser esquecida, Marras abordou o tema de forma definitiva: Não gerir serviços, mas gerir pessoas e de forma a contribuir diretamente, pelas suas ações, nos resultados organizacionais, o que significa centralizar o foco de suas preocupações no diagnóstico das macronecessidades do trabalhador, atende-las e obter das pessoas, em contrapartida, o máximo de desempenho, comprometimento, produtividade e qualidade, missão nuclear do gestor estratégico de pessoas (MARRAS, 2013, p. 249). Lucena apontou de forma sintética, no quadro a seguir, quais são as necessidades demandadas pela empresa da área de RH quando do planejamento estratégico e de sua execução. A autora apontou ainda como RH deve fazer a análise entre a capacidade instalada em termos de pessoas e a necessária para a consecução das metas estratégicas e, por fim, lembrou da necessária análise do mercado a fim de se conhecer qual a realidade ambiental e suas restrições: 41 GESTÃO DE PESSOAL I Quadro 9 – Recursos Humanos – estudos para o planejamento estratégico Necessidades de RH requeridas pelo negócio Análise da capacidade instalada vs. metas estratégicas Análise do mercado de trabalho Aumento ou redução de headcount; Mudanças organizacionais; novos perfis de cargos; novas funções; Necessidade de novo tipo de mão-de-obra especializada; Necessidades de novos perfis gerenciais; Necessidades de mão-de-obra em novas localidades; (expansão do negócio); Maior capacitação dos R.H. face a novo enfoque mercadológico; Necessidade de novos talentos e de potencial; Necessidade de qualificação de mão-de-obra para novas aplicações tecnológicas. Análise quantitativa atual; Perfil de turnover; qualificação, concentração; dispersão; projeção de tendências; Perfil profissional atual vs. o requerido; Identificação de talento e potencial e possibilidades de retenção e desenvolvimento (gerencial e técnico); Possibilidades de suprimento interno para: novas funções; mudanças tecnológicas; novos perfis de cargos; remanejamento; transferências; promoções de carreira; Análise do plano de carreira e inventário de sucessão; Níveis de satisfação e motivação; Análise das políticas, normas e procedimentos de R.H. vs. a competição; Análise de qualificação e produtividade; Custos de pessoal; Custos de pessoal vs. custo total da empresa. Impactos da conjuntura econômico/político/social – tendências futuras; Legislação trabalhista; Análise e tendências da política sindical, movimentos das classes trabalhadoras e seu impacto nas relações trabalhistas; Análise e tendências do mercado de trabalho (demanda e oferta de mão-de- obra); Disponibilidade, ou não, no mercado da mão-de-obra necessária à empresa; Mercado de trabalho em novas localidades; Análise e tendências do quadro educacional e seus impactos na empresa. Fonte: Lucena (2009, p. 171). Tratando das formas de linguagem frequentemente utilizadas para evidenciar a transição do RH operacional para o RH estratégico, Ulrich comentou: Recentemente, o tipo de transição “do...para...” foi considerada simplista, pois os papéis assumidos pelos profissionais de RH, na realidade, são múltiplos, e não singulares. Eles devem desempenhar papéis operacionais e ao mesmo tempo estratégicos. Precisam ser ao mesmo tempo polícia e parceiros. Assumir a responsabilidade tanto por metas qualitativas quanto quantitativas no curto e no longo prazo. Para os profissionais de RH adicionarem valor a empresas cada vez mais complexas, precisam desempenhar papéis cada vez mais complexos e, às vezes, até mesmo paradoxais (ULRICH, 2002, p. 40). O mesmo autor explicitou o conceito de “papéis cada vez mais complexos”: 42 GESTÃO DE PESSOAL I Para criar valor e obter resultados, os profissionais de RH precisam começar não pelo foco nas atividades ou no trabalho, mas pela definição das metas, as quais garantem os resultados de seu trabalho. Com as metas definidas, podem-se estipular os papéis e atividades de parceiros empresariais (ULRICH, 2002, p. 40). Para Ulrich existem diferenças claras entre os conceitos de RH Estratégico, Estratégia de RH e Organização de RH, para evidenciá-las o autor norte-americano elaborou o quadro a seguir, a partir de seis dimensões (propósito, autoridade, medidas, público e papéis): Quadro 10 – Diferenças entre RH estratégico, estratégia de RH e organização de RH Dimensões RH Estratégico Estratégia de RH Organização de RH Propósito Traduzir estratégias empresariais, primeiro, em capacidades organizacionais e, depois, em práticas de RH Elaborar uma estratégia, uma organização e um plano de ação voltado a tornar mais efetiva a função ou departamento de RH Moldar, projetar e melhorar uma função de RH para liberar serviços de RH Autoridade Gerentes de linha Executivos de RH Executivos de RH Medidas Resultados empresariais mediante o uso de práticas de RH Eficácia e eficiência das práticas de RH Eficácia e eficiência da função de RH Público Gerentes que utilizam práticas de RH para resultados empresariais Funcionários que são afetados pelas práticas de RH Clientes que recebem os benefícios das organizações eficazes Investidores que colhem as recompensas das capacidades organizacionais Profissionais de RH que concebem e aplicam práticas de RH Gerentes de linha que utilizam práticas de RH Profissionais de RH que trabalham na função de RH Papéis Gerente de linha como autoridade Profissional de RH como facilitador da mudança Gerente de linha como investidor Profissional de RH como criador Gerente de linha como investidor Executivo de RH como líder Fonte: Ulrich (2002, p. 235). 43 GESTÃO DE PESSOAL I Na próxima unidade trataremos da importância dos processos de auditoria da área de RH e das diferentes formas de avaliação de desempenho. 44 GESTÃO DE PESSOAL I 1 Objetivos específicos Identificar como a área de Administração de Recursos Humanos pode ser abordada e melhorada rumo a excelência; Identificar métodos e critérios de avaliação da função de RH; Identificar a necessidade de realizar avaliação de pessoas; Distinguir pesquisa interna de pesquisa externa; Identificar benefícios da avaliação global da área de gestão estratégica de pessoas; Apontar desafios e tendências na Gestão de Pessoas. O sistema de comando diz respeito à estrutura organizacional para liberação de RH e à infraestrutura necessária para alcançar resultados. Um processo infraestrutural importante e muitas vezes subutilizado é a comunicação. Em muitas funções de RH, as pessoas realizam um trabalho valioso que jamais é reconhecido porque ninguém na empresa tem conhecimento dele (ULRICH, 2002, p. 264). Nesta unidade abordaremos brevemente os conceitos de auditoria na função de Recursos Humanos e analisaremos os cuidados necessários para tanto. Outro tema desta unidade, que é cada vez mais impactante para as organizações, é a avaliação das pessoas. Discutiremos as formasde avaliação e os aspectos importantes do processo para a avaliação. 3. Auditoria de Recursos Humanos e Tendências da Gestão de Pessoas 45 GESTÃO DE PESSOAL I 3.1. Auditoria da função de Gestão de Pessoas Os profissionais de RH desempenham o papel de parceiros estratégicos quando são capazes de traduzir a estratégia empresarial em ação. Esse processo começa pela aceitação dos desafios de se tornar parceiro estratégico e, em seguida, construir as estruturas organizacionais necessárias para superar tais desafios. Para assim fazer, é necessário que os profissionais de RH aprendam a realizar auditorias organizacionais disciplinadas (ULRICH, 2002, p. 107). Ao mesmo tempo em que a área de RH ganhou importância estratégica, seus processos passaram a ser melhor observados, em alguns casos questionados e, como consequência, foi iniciado um processo de discussão sobre a importância da auditoria na função de Gestão de Pessoas. Para Ulrich, o processo de auditoria de RH é fundamental, bem como é fundamental identificar as questões de RH constantes ou que podem implicar no planejamento estratégico das organizações: O diagnóstico organizacional pode ser realizado em qualquer nível. No nível global de uma empresa, os profissionais de RH podem orientar um comitê executivo por meio de uma avaliação organizacional baseada em questões estruturadas no sentido de determinar se e como a organização pode realizar seus objetivos empresariais (ULRICH, 2002, p. 107). Marras também apontou a importância dos processos de avaliação de RH, utilizando para tanto a figura de uma organização doente: Uma organização “doente” tende a deteriorar-se ao longo do tempo se ações preventivas e corretivas não forem aplicadas correta e adequadamente. Tal função deve ser atribuída como de responsabilidade da administração estratégica de recursos humanos. Assim, pode ser entendido que uma organização, tal qual um ser vivo (e a empresa é um ser vivo), quando não adequada e periodicamente mantida, no seu quadro geral de “saúde”, deteriora-se sistematicamente com o passar do tempo até o ponto de sua morte (fechamento, falência etc.), passando por um processo de entropia organizacional (MARRAS, 2013, p. 305). Faz todo o sentido que a estrutura ou área que avaliará a contribuição dos funcionários seja também avaliada de forma concreta e periódica. No entanto, dos resultados de tal avaliação, devem ser elaborados planos de ação, como bem compreendeu Ulrich: “O aprimoramento da organização de RH requer a modificação de práticas gerenciais que a auditoria organizacional tiver identificado como deficientes” (ULRICH, 2002, p. 260). Veremos mais sobre a avaliação dos funcionários no próximo item deste guia. 46 GESTÃO DE PESSOAL I 3.2. Métodos e critérios de avaliação de Gestão de Pessoas Na prática, é preciso destacar e reconhecer que esse instrumento carrega no seu processo uma dose forte de subjetividade, que o reveste de uma ambiguidade realmente discutível. Essa ambiguidade, contudo, deve ser reconhecida apenas em certos tipos de metodologia utilizados na aplicação do instrumento. Entenda-se a palavra metodologia no seu sentido mais amplo, isto é, levando em conta todos os aspectos que envolvem a prática e a administração do programa de avaliação do desempenho humano (MARRAS, 2013, p. 165). Segundo Marras (2013, p. 165): Avaliação de desempenho (AD) é um instrumento gerencial que permite ao administrador mensurar os resultados obtidos por um empregado ou por um grupo, em período e área específicos (conhecimento, metas, habilidades etc.). Reconhecendo a importância de formas de avaliação impessoais e objetivas, Martins considerou: A avaliação deve, portanto, valer-se de indicadores objetivos que possam gerar medidas de comparação entre os diversos desempenhos. Além disto ela deve ter explicitados os parâmetros a serem analisados para a avaliação, de forma que se possa traçar um paralelo entre o que deve ser observado e a maneira de observar (MARTINS, 1999, p. 10). Marras fez interessante análise sobre a avaliação de desempenho, tendo como finalidade a verificação dos investimentos realizados: Trata-se de um instrumento extremamente valioso e importante na administração de RH, na medida em que reporta o resultado de um investimento realizado numa trajetória profissional através do retorno recebido pela organização (MARRAS, 2013, p. 166). Robbins destacou os pontos positivos dos processos de avaliação de desempenho: A avaliação de desempenho serve a diversos propósitos dentro das organizações. Os executivos utilizam as avaliações para diversas decisões de recursos humanos. As avaliações oferecem informações para decisões importantes, como promoções, transferências e demissões. As avaliações identificam necessidades de treinamento e desenvolvimento: identificam as habilidades e competências dos funcionários que se encontram inadequadas e para as quais podem ser desenvolvidos programas de melhoria. As avaliações de desempenho podem ser usadas como critérios de validação de programas de seleção e desenvolvimento (ROBBINS, 2010, p. 404). 47 GESTÃO DE PESSOAL I No entanto, o mesmo autor apontou possibilidades de impacto negativo nos processos de avaliação, em especial quando não seguidos critérios objetivos: No mundo real das organizações, uma das explicações para a falta de motivação dos funcionários é que a avaliação de desempenho costuma ser mais política do que objetiva. Muitos executivos colocam a objetividade depois de seus interesses pessoais – manipulando deliberadamente as avaliações para obter os resultados que desejam (ROBBINS, 2010, p. 404-405). Marras também observou as utilidades encontradas nos processos de avaliação: Entre as diversas utilidades encontradas na utilização do instrumento de avaliação de desempenho estão as seguintes, entre as mais utilizadas, dependendo da perspectiva que se assume: identificar aqueles empregados que necessitam de aperfeiçoamento; definir o grau de contribuição (individual ou grupal) nos resultados da empresa; descobrir o surgimento de novos talentos na organização; facilitar o autodesenvolvimento dos empregados; fornecer feedback aos empregados; subsidiar programas de mérito, promoções e transferências (MARRAS, 2013, p. 166). Como se sabe, existem diferentes formas de se realizar a avaliação de desempenho, a mais tradicional e utilizada é a realizada pelo superior imediato, no entanto, os processos de avaliação de desempenho podem contar com a participação de colegas, subordinados ou todos os envolvidos, conforme síntese realizada por Robbins e reproduzida no quadro a seguir: Quadro 11 – Tipos de Avaliação de Desempenho Quem deve fazer a avaliação? Superior Imediato O chefe imediato do funcionário costumava ser a fonte mais comum de avaliação de desempenho, mas isso não acontece mais, principalmente por causa das sérias limitações deste método. Muitos chefes não se sentem qualificados para avaliar as contribuições específicas de cada um de seus funcionários. Outros não querem a sensação de responsabilidade sobre a carreira dos subordinados. Colegas As avaliações feitas pelos colegas constituem uma das fontes mais confiáveis de julgamento. Por quê? Primeiro porque os colegas estão perto da ação. As interações diárias oferecem uma visão abrangente do desempenho de um funcionário. Segundo, utilizar os colegas com juízes resulta em diversos julgamentos independentes. E a média entreas diversas avaliações geralmente é mais confiável do que apenas um julgamento individual. Por outro lado, os aspectos negativos disso podem ser a indisposição para julgar o trabalho de um colega e os vieses resultantes das relações de amizade ou de animosidade. 48 GESTÃO DE PESSOAL I Autoavaliação Fazer com que os funcionários avaliem o próprio desempenho é consistente com valores como o autogerenciamento e a autonomia deles. A autoavaliação é bem recebida pelos funcionários. Este processo costuma atenuar a postura defensiva deles em relação à avaliação e é um veículo excelente para estimular as discussões sobre desempenho no trabalho entre funcionários e seus superiores. Contudo, como se pode imaginar, esse processo sofre com o risco de vieses autocondescendentes e superestimados. Além disso, a autoavaliação raramente concorda com a avaliação dos superiores. Subordinados imediatos Seus defensores argumentam que levar em conta essas opiniões é consistente com as recentes tendências de valorização da honestidade, da transparência e da autonomia dos funcionários. As avaliações feitas pelos subordinados imediatos podem oferecer informações precisas e detalhadas sobre o comportamento do administrador. O problema óbvio desse sistema é o medo de represálias em virtude de avaliação negativa dada ao chefe. Por esse motivo, a garantia do anonimato é crucial para que esse tipo de avaliação seja preciso. Avaliações de 360 graus Ela fornece um feedback acerca do desempenho dado por todos aqueles que formam o círculo de contatos diários do funcionário, desde o pessoal da correspondência até os chefes e colegas. As avalições de 360 graus se inserem bem nas organizações que adotam equipes de trabalho, envolvimento dos funcionários e programas de qualidade total. O uso de diversas fontes, portanto, traz uma possibilidade maior de conseguir capturar todos os aspectos do comportamento. Fonte: Adaptado pelo autor de Robbins (2010, p. 406-407). Para Marras, todo sistema de avaliação humana apresenta “vícios de julgamento” que dão origem às críticas que o tornam um sistema vulnerável pela subjetividade. Trata-se, em geral, muito mais de questões ligadas diretamente àquele que avalia do que ao instrumento propriamente dito (MARRAS, 2013, p. 171). O autor apresentou a necessidade, para se evitar as vulnerabilidades do sistema, que o processo seja transformado em um ritual entre avaliador e avaliado: Uma forma de conseguir esse objetivo é transformar o ritual de avaliação numa ação conjunta entre avaliador e avaliado, com transparência, objetividade e argumentos sólidos, em que o processo vise fundamentalmente analisar resultados obtidos no período passado, com o intuito de repensar novos objetivos para um período futuro, de forma a beneficiar o avaliado e a empresa (MARRAS, 2013, p. 171). A avaliação de desempenho é um mecanismo que busca conhecer e medir o desempenho dos indivíduos por meio da comparação entre o esperado e o realizado. Martins (1999) apresentou as principais características de um modelo de avaliação de desempenho: 49 GESTÃO DE PESSOAL I Ser congruente com a estratégia competitiva; Ter medidas financeiras e não financeiras; Direcionar e suportar a melhoria contínua; Identificar tendências e progressos; Facilitar o entendimento das relações de causa e efeito; Ser facilmente inteligível para os funcionários; Abranger todo o processo, desde o fornecedor até o cliente; Disponibilizar informações em tempo real para toda a organização; Ser dinâmico; Influenciar a atitude dos funcionários. De acordo com Martins (1999, p. 10): A avaliação deve, portanto, valer-se de indicadores objetivos que possam gerar medidas de comparação entre os diversos desempenhos. Além disto ela deve ter explicitados os parâmetros a serem analisados para a avaliação, de forma que se possa traçar um paralelo entre o que deve ser observado e a maneira de observar. Uma das questões mais difíceis na Gestão de Pessoas é definir o que é desempenho e como avaliá-lo. Para Dutra (2011) desempenho é o conjunto de entregas e resultados de determinada pessoa para a empresa ou negócio. A observação atenta para o desempenho de uma pessoa deve possuir três dimensões que interagem entre si e que devem ser consideradas de forma diferente. A primeira dimensão é o desenvolvimento, a segunda é o esforço e a terceira é o comportamento. Para o mesmo autor, as proposições de avaliação de desempenho são equivocadas, uma vez que misturam em uma mesma ferramenta ou processo essas três dimensões. Abaixo segue uma síntese das três dimensões de Dutra (2011, p. 162-163): 1. A melhor forma de medir o desenvolvimento é pela escala de complexidade. Em nossa experiência, a avaliação do desenvolvimento deve ser efetuada pela própria pessoa e por sua chefia imediata com acompanhamento da chefia mediata (dois níveis acima do avaliado). O desenvolvimento da pessoa, ou sua capacidade de lidar com situações cada vez mais complexas, é um patrimônio da própria pessoa, e ela irá leva-lo para onde for. As pessoas, ao atingirem a capacidade de atuar em determinado nível de complexidade, não retrocedem. 50 GESTÃO DE PESSOAL I 2. O esforço de uma pessoa difere de seu desenvolvimento em função de qualidade de sua agregação para a empresa. É óbvio que interessa à empresa estimular mais o desenvolvimento do que o esforço, embora o desenvolvimento raramente seja estimulado pelos sistemas tradicionais de gestão de pessoas. O esforço é uma contingência; ninguém pode garantir que uma pessoa esforçada hoje continuará esforçada amanhã. O esforço está vinculado à motivação da pessoa e a condições favoráveis oferecidas pela empresa ou mercado. 3. O comportamento pode afetar o desenvolvimento e o esforço da pessoa ou não. Com certeza, afetará o ambiente organizacional e o desenvolvimento e o esforço de outras pessoas. O comportamento deve ser trabalhado de forma separada em relação às duas outras dimensões. Desse modo, fica mais fácil sua avaliação e o encaminhamento de ações que visam auxiliar as pessoas a reverem seu comportamento. A avaliação do comportamento é extremamente subjetiva e toma como referência um padrão de conduta definido pela empresa ou por um conjunto de pessoas. Conforme já tratamos, o feedback é de fundamental importância para o processo de avaliação de desempenho, tanto para os avaliados, como para os avaliadores, no entanto, conforme bem observou Marras, o avaliador deve sempre realizar avaliações bem fundamentadas: Se por um lado, o avaliado deve receber o feedback do seu avaliador – relatando o que considerou pontos fortes e pontos fracos – e pode discutir e argumentar abertamente os pontos de discordância, oferecendo o contraponto necessário para equilibrar o ato avaliativo, por outro, o avaliador deve fundamentar seus posicionamentos em fatos claros e argumentos concretos, comprovando, sempre que possível, seus pontos de vista (MARRAS, 2013, p. 174). Há empresas e organizações que contratam profissionais externos para a realização das avaliações de desempenho, trataremos sobre esse tema no próximo item. 3.3. Avaliação de pessoas – Pesquisa Interna versus Pesquisa Externa Frequentemente, os profissionais de RH concebem sistemas, dão aconselhamentos e ajudam os outros, mas não conseguem aplicar os princípios de RH a si mesmos (ULRICH, 2002, p. 233). Os processos de avaliação de desempenho nas organizações podem ser executados pela equipe de profissionais da área deRecursos Humanos, no entanto algumas organizações optam pela contratação de equipes externas que podem conduzir o processo de forma menos emotiva e parcial. 51 GESTÃO DE PESSOAL I No entanto, se os funcionários e a empresa forem maduros há ganhos em especial na transparência e na construção da confiança se o processo for conduzido por equipes da própria empresa ou organização. Além da atuação de profissionais internos ou externos, outra preocupação pode recair sobre a formalização dos processos de avaliação, para Ulrich, a escolha deve ser das empresas: Um diagnóstico organizacional transforma uma arquitetura de RH em uma ferramenta de avaliação. (...) Tal como nas avaliações da capacidade organizacional, o processo de avaliação pode ser empreendido de uma maneira informal ou formal (ULRICH, 2002, p. 260). Independentemente das opções de avaliações sendo realizadas por equipes internas ou externas, o quadro abaixo, adaptado de Robbins, apresenta algumas melhorias para os processos de avaliação de desempenho. Quadro 12 – Possibilidades de melhoria nas Avaliações de Desempenho Enfatizar mais os comportamentos do que os traços Muitos dos traços frequentemente considerados relevantes para o desempenho podem não ter qualquer relação com a prática do trabalho. Por exemplo, traços como lealdade, iniciativa, coragem, confiabilidade e autoexpressão são intuitivamente vistos como características desejáveis nos funcionários, mas a questão relevante é a seguinte: os indivíduos que possuem tais traços apresentam realmente um desempenho melhor? Outro ponto fraco da avaliação de traços é o julgamento em si. O que é “lealdade”? Quando um funcionário pode ser considerado “confiável”? Documentar os comportamentos de desempenho O registro dos comportamentos ajuda os avaliadores a organizar melhor as informações. As evidências indicam que, com a manutenção de um registro dos incidentes críticos de cada funcionário, as avaliações tendem a ser mais precisas e menos propensas a erros. Utilizar múltiplos avaliadores À medida que cresce o número de avaliadores, aumenta a probabilidade de se obter informações mais precisas. Se os erros de avaliação tendem a seguir uma curva normal, um aumento do número de avaliadores vai provocar uma concentração da maioria no meio. Se um funcionário que tem dez supervisores é considerado excelente por nova deles e fraco pelo restante, essa última avaliação pode ser descartada. Avaliar seletivamente Os avaliadores só devem fazer julgamentos nas áreas em que tenham bom conhecimento. Quando isso acontece, a concordância dos julgamentos aumenta e o processo da avaliação se torna mais válido. Recomenda-se que os avaliadores estejam o mais próximo possível do avaliado, em termos de nível organizacional. Quanto maior essa distância, menores as oportunidades de o avaliador observar o comportamento do avaliado e, portanto, maior a probabilidade de que erros sejam cometidos. 52 GESTÃO DE PESSOAL I Treinar os avaliadores Há evidências substanciais de que os avaliadores treinados se tornam juízes mais eficazes. Erros comuns foram minimizados ou eliminados em treinamentos nos quais os executivos praticaram a observação e o julgamento de comportamentos. Mas os efeitos do treinamento parecem diminuir com o passar do tempo. Isso sugere a necessidade de atualizações regulares. Oferecer aos funcionários um processo legal O conceito de processo legal pode ser aplicado na avaliação para aumentar a percepção de que os funcionários estão sendo tratados com justiça. Três aspectos caracterizam os sistemas de processos legais: 1) as pessoas são informadas adequadamente sobre o que se espera delas; 2) qualquer evidência de violação é divulgada de maneira justa, para que todos os indivíduos possam se manifestar; 3) a decisão final é baseada nas evidências e livre de tendências. Oferecer feedback de desempenho Para muitos executivos, poucas atividades são tão desagradáveis quanto proporcionar feedback de desempenho aos funcionários. Na realidade, a menos que sejam pressionados pela política e por controles organizacionais, a maioria prefere ignorar essa responsabilidade. A solução para esse problema não é ignorar o feedback, mas treinar os executivos para que saibam conduzir sessões construtivas de avaliação. Fonte: Adaptado pelo autor de Robbins (2010, p. 409-410). Uma forte e recente tendência tem sido a participação de empresas e organizações nas conhecidas “listas das melhores empresas para se trabalhar”, uma vez que tais processos são em geral gratuitos, asseguram uma forma de avaliação externa e, conforme a colocação da empresa, podem representar ganhos adicionais de imagem. No próximo item discutiremos mais um pouco sobre a avaliação global da área de RH. 3.4. Benefícios da avaliação global da área de Gestão Estratégica de Pessoas Quando os profissionais de RH ajudam os funcionários a perceber que um projeto ou exercício particularmente exigente resultará em retorno econômico para ele, a tendência é que trabalhe intensamente. Com uma clara linha de mira entre o trabalho e a recompensa, os funcionários podem lidar melhor com o aumento das demandas (ULRICH, 2002, p. 176). Para discutirmos as diferentes formas de avaliação global da área de Gestão de Pessoas, os conceitos discutidos na Unidade Didática 2, em que foi abordado o tema Planejamento Estratégico e execução, devem ser resgatados. Um bom exemplo é a reflexão de Ulrich a seguir: 53 GESTÃO DE PESSOAL I Superar o enigma da “formulação sem implementação” torna-se um objetivo básico do trabalho de RH estratégico, tentando garantir que todas as estratégias sejam acompanhadas por planos e ações claros para realizá-las (ULRICH, 2002, p. 237). O autor norte-americano enfatizou ainda que a área de RH deve se preocupar com a sua contribuição para a empresa como um todo, sem, no entanto, descuidar de seu propósito que é a geração de valor: “Enquanto o RH estratégico garante a uma empresa os recursos necessários a atingir suas metas empresariais, a estratégia de RH define o valor criado pela função de RH (ULRICH, 2002, p. 240)”. Em posição contrária aos modismos recorrentes nas empresas e organizações, Ulrich reforça que os processos de avaliação são únicos para cada organização: Embora seja tentador propor um gabarito ao qual seria necessário acrescentar umas poucas dimensões, tal abordagem não produzirá as estratégias de RH mais vantajosas. Os melhores resultados surgem da identificação dos elementos potenciais de uma estratégia de RH e, em seguida, de sua avaliação por um executivo de RH que leve em consideração aquilo que melhor se adapte ao ambiente único dos negócios da empresa (ULRICH, 2002, p. 243). O quadro a seguir, sugere algumas capacidades de RH que deveriam compor bons sistemas de avaliação da área: Quadro 13 – Novas capacidades de RH Velocidade Com que rapidez o trabalho de RH pode ser realizado sem sacrifício da qualidade? Implementação Até que ponto as novas ideias podem ser convertidas em ações com resultados palpáveis em termos de comportamento dos funcionários ou de benefícios para a empresa? Inovação Qual a capacidade da comunidade de RH de pensar criativamente sobre a solução de velhos problemas e sobre a descoberta de soluções para problemas que ela não havia considerado anteriormente? Integração Até que ponto o trabalho de RH se integra aos planos estratégicos, metas do cliente, necessidades dos funcionários e outros planos da função de apoio?Fonte: Adaptado pelo autor de Ulrich (2002, p. 297). Conforme já observado anteriormente, a geração de valor da área de RH será medida pela relação entre as três diferentes fontes de valor, tal como preconizado por Ulrich: 54 GESTÃO DE PESSOAL I O investimento de RH no futuro deve se concentrar na criação de valor e no desenvolvimento de uma equação de valor para serviços e produtos de RH. A proposição de valor de RH levanta três questões que visam explicitar as relações entre as práticas de RH e as três fontes de valor: Funcionários: Moral, dedicação, competência e retenção. Clientes: Retenção, satisfação e envolvimento. Investidores: Lucratividade, custo, crescimento, fluxo de caixa e retorno mínimo (ULRICH, 2002, p. 298). No próximo item discutiremos formas de envolvimento e engajamento dos funcionários. 3.5. Tendências da Gestão de Pessoas: envolvimento, engajamento e participação: desafios Geralmente as equipes conseguem transformar modestos esforços individuais em sucessos extraordinários. Pesquisas sobre equipes de alto desempenho demonstram claramente que as equipes muitas vezes podem levar talentos individuais medianos a realizações coletivas superiores. Quando diante de demandas elevadas, as equipes muitas vezes descobrem melhores maneiras para atender as demandas do que indivíduos que trabalham isoladamente (ULRICH, 2002, p. 172). Como já é do conhecimento de todos são inúmeros os desafios interpostos à área de RH nas organizações, Robbins abordou alguns: Quase todas organizações hoje têm de se ajustar a um ambiente multicultural. As políticas e práticas de recursos humanos tiveram de mudar para conseguir atrair e reter essa força de trabalho mais diversa. Várias empresas hoje estão precisando investir muito em treinamento para melhorar leitura, cálculo, computação e outras habilidades de seus funcionários (ROBBINS, 2010, p. 422). Marras também apontou alguns desafios. O autor se utilizou da evolução histórica da área para ressaltar as incertezas do momento atual: A tecnologia está mudando o trabalho e as organizações. (...) Vivemos em uma “era de descontinuidade”. Nas décadas de 1950 e 1960, o passado representava um prólogo aceitável para o futuro. O amanhã era essencialmente a extensão das tendências do ontem. Isso não é mais verdade. Desde o início dos anos 70, quando o preço do petróleo nos mercados internacionais quadruplicou da noite para o dia, choques econômicos vêm impondo contínuas mudanças às organizações. Ultrapassados os velhos paradigmas do nacionalismo e os estreitos limites de abrangência das preocupações empresariais, a globalização trouxe no seu bojo alterações no campo do trabalho extremamente graves como consequência do diferencial competitivo apresentado 55 GESTÃO DE PESSOAL I pelas linhas de produção dos países de Primeiro Mundo (tecnologia, maquinário, especialização etc.) quando comparado ao padrão existente no Brasil pré-globalizado. O alto índice de desemprego é uma dessas preocupações que assolam a sociedade e fazem parte do conjunto de prioridades do gestor de RH (MARRAS, 2013, p. 17). No quadro a seguir estão as reflexões de Robbins sobre as forças para a mudança (ou desafios) da área de RH: Quadro 14 – Forças para a mudança Natureza da força de trabalho Maior diversidade cultural Envelhecimento da população Muitos recém-contratados com habilidades inadequadas Tecnologia Computadores e demais eletrônicos mais rápidos, mais baratos e portáteis Advento do Big Data3 Pesquisas na área da genética humana Choques econômicos Ascensão, queda e restabelecimento das empresas “ponto-com” Crises no mercado de ações Recessão econômica pós 2008, com lenta recuperação Competição Concorrência globalizada Fusões e consolidações Crescimento do comércio eletrônico Tendências sociais Crescimento das redes sociais Expansão das grandes redes varejistas Política internacional Conflitos armados Radicalismo motivado por falsa interpretação religiosa Fortalecimento de grupos extremistas Fonte: Adaptado pelo autor de Robbins (2010, p. 423). Mais uma vez, partindo da realidade de nosso país, Marras apontou desafios que teoricamente seriam externos às empresas, mas que acabam por atingi-las e comprometer seus planos, tais como a educação: A nova situação obrigou as organizações a rever os seus conceitos e paradigmas em todos os ângulos possíveis. No que diz respeito a RH, como veremos mais adiante, algumas dessas características se cruzaram numa linha de dependência com políticas mais abrangentes de caráter governamental, como é a questão da educação e do ensino técnico e seus respectivos investimentos públicos e privados (MARRAS, 2013, p. 17). 3 Já há algum tempo o fenômeno BIG DATA vem sendo discutido e estudado nas universidades e nos grandes conglomerados empresariais de TI. Mais recentemente o conceito e toda a sua potencialidade tem sido aplicado de forma mais usual, mesmo em organizações menores. Andrew McAfee e Erik Brynjolfsson publicaram o artigo “Big Data: the management revolution” na edição de Outubro de 2012 da Harvard Business Review. No artigo, os autores exploram o crescimento exponencial no fluxo de informações e apontam os impactos para a tomada de decisão por parte dos executivos. 56 GESTÃO DE PESSOAL I Já para Ulrich, será a tecnologia que afetará o ambiente e as relações de trabalho: A tecnologia afetará radicalmente o modo e o lugar onde o trabalho é realizado, mediante teleconferência, telecomunicação e fontes de dados compartilhados. A proximidade era crucial quando as fronteiras de uma empresa eram geográficas. Com a nova tecnologia, os funcionários podem trabalhar em casa, em locais distantes, ou dispersos em escritórios de clientes e ainda permanecerem conectados à empresa (ULRICH, 2002, p. 29). O mesmo autor propõe aspectos que devem ser considerados quando da formatação de uma arquitetura organizacional a partir ou com a participação da área de RH: Quadro 15 – Definição de uma arquitetura organizacional Mentalidade comum A medida na qual a função de RH possui uma mentalidade ou identidade comum Competência A forma na qual a função de RH é ocupada por indivíduos dotados de conhecimento, qualificações e habilidades para desempenhar seu trabalho atual e futuro Consequência Como o sistema de gestão do desempenho por profissionais de RH está voltado para os comportamentos e resultados corretos Sistema de comando A medida na qual a função de RH possui eficácia em relações de reportação, comunicações, tomada de decisões e políticas Processos de trabalho/capacidade para mudança Como a função de RH aprende e se adapta e, portanto, compreende e melhora os processos Liderança A medida na qual existe realmente liderança permeando a função de RH Fonte: Adaptado pelo autor de Ulrich (2002, p. 258). De fato, os seis itens que devem ser considerados para o desenho da arquitetura organizacional clarificam e instrumentalizam possíveis ações de RH. O desenvolvimento da mentalidade comum e das competências serão melhor trabalhados na próxima unidade didática. 57 GESTÃO DE PESSOAL I 1 Objetivo específico Apontar a importância do treinamento e desenvolvimento de pessoas. Quando aumentam as demandas dos funcionários, devem-se encontrar habilidades para lidar com as mesmas, e muitas empresas investempesado para ajudá-los mediante atividades de desenvolvimento e aprendizado (ULRICH, 2002, p. 180). Nessa unidade, vamos abordar a questão do treinamento e desenvolvimento, que são tão necessárias para as empresas tal como restou demonstrado no último item da unidade didática anterior. Diferentemente do que ocorreu nas unidades anteriores, nos apoiaremos em um número maior de autores, cada um com reflexões oportunas sobre os diferentes aspectos do aprendizado organizacional. 4.1. Treinamento e Desenvolvimento de Pessoas Funcionários competentes não permanecem competentes para sempre. As habilidades se deterioram e podem se tornar obsoletas. É por isso que as organizações gastam bilhões de dólares todo ano em treinamento formal (ROBBINS, 2010, p. 400). 4. Efetividade em Recursos Humanos 58 GESTÃO DE PESSOAL I Para Robbins, os treinamentos promovidos pelas empresas e organizações devem ofertar um robusto portfólio de programas. O autor fez questão de apontar os desafios adicionais dos países em desenvolvimento: O treinamento pode incluir tudo, desde o ensino básico de leitura até cursos avançados de liderança empresarial. (...) Em muitos países do Terceiro Mundo, poucos trabalhadores são alfabetizados ou concluíram o primeiro grau, situação que diminui muito as chances dessas nações na competição em uma economia globalizada (ROBBINS, 2010, p. 401). Na mesma linha, Marras considerou o treinamento com amplo portfólio, perpassando os conhecimentos, as habilidades e as atitudes dos funcionários: Treinamento é um processo de assimilação cultural a curto prazo que objetiva repassar ou reciclar conhecimentos, habilidades ou atitudes relacionados diretamente à execução de tarefas ou à sua otimização no trabalho. O treinamento produz um estado de mudança no conjunto de Conhecimentos, Habilidades e Atitudes (CHA) de cada trabalhador, uma vez que implementa ou modifica a bagagem particular de cada um. Todos nós somos possuidores de uma bagagem de conhecimentos, habilidades e atitudes referentes à trajetória particular de cada um. Essa “bagagem” constitui o “CHA individual” que deve estar em uníssono com a posição ocupada em uma estrutura organizacional e com as responsabilidades devidas. Eventuais diferenças ou carências de CHA em relação às exigências do cargo ocupado podem ser corrigidas por meio de treinamento (MARRAS, 2013, p. 133). Gomes, além de comungar das visões anteriores ressaltou a importância do tema inovação para os programas de treinamento e desenvolvimento: As empresas, obrigadas a lidar cada vez mais com panoramas inovadores, a modernizar continuamente as práticas gerenciais adotadas e identificar novos perfis de habilidades e competências para atender a novas demandas, sentiram-se estimuladas a oferecer alternativas de capacitação, por meio de modelos que permitam familiarizar seus quadros com as inovações tecnológicas e de gestão, e, ainda, que possibilitem o estreito contato com as fronteiras do conhecimento (GOMES, 2005.p. 19). Figueiredo acrescentou outros aspectos que têm demandado atenção por parte dos desenvolvedores dos programas de treinamento: O que de fato torna urgente a gestão do conhecimento em nossos dias todos nós sabemos um pouco. O aumento da competitividade, os efeitos da globalização, o aumento das exigências dos clientes e mercados, as dificuldades de sobrevivência no mundo dos negócios, a diminuição das margens de lucro, a diminuição dos recursos financeiros disponíveis, a evasão do conhecimento, a disputa acirrada 59 GESTÃO DE PESSOAL I pelos talentos, o aumento nas demandas do conhecimento etc. (FIGUEIREDO, 2005, p. 5). Marras (2013, p. 135) apresentou a composição ideal, em termos de estrutura da área de treinamento e desenvolvimento – T&D: Levantamento de necessidades; Planejamento; Programação de módulos; Treinamento (operacional e administrativo); Avaliação de desempenho; Desenvolvimento (executivos e talentos); Biblioteca; Banco de dados. Diversos autores passaram a considerar a questão do treinamento e desenvolvimento de forma tão estratégica, tais como Senge, Davenport, Nonaka e Takeuchi, entre outros, que passaram a admitir o conhecimento organizacional como passível de desenvolvimento, e, o mais importante, como gerenciável... Daí o emprego do termo ‘Gestão do Conhecimento”. A seguir conheceremos as contribuições de alguns autores sobre o tema: O conhecimento já é gerido em muitas empresas de certo modo. Em função da importância dele, muitos gerentes, por iniciativa própria, já implantam suas iniciativas de gestão do conhecimento. (...) Enquanto projetar e implantar iniciativas que resultam em gestão do conhecimento para alguns gerentes acontece de maneira instintiva, no entanto, só as adotarão como prática e modelo de gestão e só conhecerão seus benefícios quando procedimentos efetivos de gestão do conhecimento forem ensinados e disseminados como padrão de atuação admirado pela empresa, razão pela qual defendo a adoção de um programa de gestão do conhecimento, que antes de qualquer coisa, ensine e prepare pessoas proativas para a gestão do conhecimento (FIGUEIREDO, 2005, p. 2). O mesmo autor abordou a gestão do conhecimento como responsável pelo uso efetivo do conhecimento e “atalho” para a obtenção de resultados: Um programa de gestão do conhecimento consiste na adoção generalizada (dentro do escopo de abrangência) de um conjunto de medidas, posturas, condutas, processos, ferramentas e procedimentos, com objetivo da introdução, mobilização e institucionalização de práticas e iniciativas de gestão do conhecimento, que, geridas adequadamente em uma organização, devem criar, multiplicar e otimizar o uso efetivo do conhecimento útil para obtenção de resultados-alvos. Um programa de gestão do conhecimento é um empreendimento organizado e pode resultar na criação de uma 60 GESTÃO DE PESSOAL I empresa nova, fundamentalmente baseada no conhecimento e na experiência (FIGUEIREDO, 2005, p. 5). Lopes fez uma intrigante comparação entre as fórmulas adotadas pelos programas de treinamento tradicionais e as novas ações presentes nos programas de gestão do conhecimento. O treinamento é uma solução do modelo tradicional de organização, no qual a aprendizagem se caracteriza pela forma presencial, impessoal e descontínua. Na era da empresa do conhecimento a educação é permanente, personalizada e just-in-time, isto é, o conhecimento está disponível no momento em que necessitamos dele. Atualmente se fala, também em suportes eletrônicos para a realização do trabalho. O trabalhador do conhecimento não precisa aprender tudo, porque amanhã poderá ter que de reaprender os conceitos que ficaram obsoletos, portanto há uma grande preocupação em disponibilizar as informações on-line (LOPES, 2005, p. 140). Na próxima unidade didática discutiremos sobre os modelos de RH que têm como foco a geração de resultados. 61 GESTÃO DE PESSOAL I 1 Objetivos específicos Relacionar o gerenciamento de RH com foco em resultados à necessidade de perceber a organização de forma estratégica; Identificar as ações de RH dentro de diferentes cenários; Apontar tecnologias e modelos da área de RH; Citar as habilidades que permitam interagir com pessoas de forma grupal. As demandas podem ser transformadas em recursos mediante a participação dos funcionáriosnas decisões que os afetam. Envolvê-los em uma decisão geralmente significa dividir com eles o contexto e a justificativa para a decisão. Aqueles que participam plenamente nesse processo – preparando a decisão, coletando informações, gerando alternativas, fazendo recomendações e implementando e agindo de acordo com a decisão – tornam-se mais envolvidos e comprometidos com o resultado (ULRICH, 2002, p. 184). Nessa unidade didática evidenciaremos o compromisso das áreas de RH para a geração de resultados, quando as mesmas possuem caráter estratégico. Para tanto as áreas de RH deverão estar preparadas para atuarem em diferentes cenários e facilitarem os trabalhos em equipe. 5.1. Agregar valor ao negócio é manter o foco na direção desejada Os departamentos de RH não se destinam a fornecer terapia empresarial ou a ser retiros sociais ou de saúde e felicidade. Os profissionais de RH devem criar as práticas que tornem os funcionários mais competitivos, e não mais satisfeitos (ULRICH, 2002, p. 35). 5. Gerenciamento de Recursos Humanos com foco em Resultados 62 GESTÃO DE PESSOAL I Um dos papéis mais importantes para o fortalecimento da atuação da área de RH é o desenvolvimento das lideranças empresariais. Para o eminente professor Falconi, além da liderança, os profissionais de RH precisam se voltar também para o desenvolvimento de métodos de trabalho (melhores práticas) e para a expansão do conhecimento técnico: Só três coisas são essenciais ao sucesso corporativo (...) Método, conhecimento técnico e liderança (...) O primeiro elemento é a liderança. Geralmente, as pessoas têm uma ideia errada do que seja isso, achando que é algo que depende de uma pessoa. O que a empresa precisa fazer é criar condições de liderança: ao recrutar e selecionar a equipe de modo a ter os melhores profissionais do momento, ao educar e treinar à exaustão, ao criar um bom clima na empresa, ao valorizar muito o lado humano (...). O segundo grande fator de sucesso é o conhecimento técnico do negócio, às vezes deixado em segundo plano na mídia especializada em administração, mas extremamente relevante (...). Administração por objetivos, reengenharia e até estratégia; todos esses nomes são no fundo uma coisa só: método. (...) As decisões tomadas com método baseiam-se em verdades mostradas na análise dos dados e fatos. (...) Nos dias de hoje, quando praticamente todas as empresas de certo porte têm sistema do tipo ERP (que estoca todas as informações necessárias), as análises do método se tornaram muito acessíveis. Não há mais a desculpa do custo ou tempo proibitivo (HSM MANAGEMENT, 2013, s/p). Para o autor, dos três fatores é o desenvolvimento da liderança que é o mais desafiador e importante. Segundo Falconi, a liderança deve entregar os resultados pactuados no processo de planejamento estratégico, ou seja, deve bater metas de forma consistente e da melhor forma possível: A liderança é o que há de mais importante numa organização. Sem ela nada acontece. De nada adianta método ou conhecimento técnico se não existe liderança para fazer acontecer. (...) A única definição de liderança que interessa às organizações é: Liderar é bater metas consistentemente, com o time fazendo certo. Quem não bate metas não é líder. Se ser um bom líder é conseguir resultados por meio das pessoas, então a pessoa do líder deve investir uma parte substancial de seu tempo no desenvolvimento de sua equipe. Portanto, o tema de Recursos Humanos é central no desenvolvimento do “Conteúdo da Liderança” (FALCONI, 2009, p. 13-14, grifo nosso). Falconi destacou ainda a importância do líder atuar como um arquiteto do desempenho de seus liderados e não como um super-herói que assume para si os desafios. A visão de Falconi é baseada no desenvolvimento sustentável da liderança. 63 GESTÃO DE PESSOAL I O líder alcança resultados por meio de pessoas e não executando por elas. Em muitas empresas, o líder é valorizado pelo número de problemas que “resolve” no dia a dia e não pela capacitação de sua equipe para que os problemas não ocorram. Estes líderes têm dificuldades para perceber que o grande volume de problemas do dia a dia ocorre, na verdade, porque não são tratados adequadamente dentro do Gerenciamento da Rotina e se repetem (FALCONI, 2009, p. 105). Uma liderança desenvolvida de forma consistente, a aplicação de métodos, a preocupação com o conhecimento técnico – enfim as três grandes preocupações da área de RH estratégico terão seus resultados aprimorados se utilizarem as novas tecnologias e diferentes modelos de gestão, como veremos no próximo item. 5.2. Tendências e cenários na área de Recursos Humanos: novas tecnologias e modelos de gestão É hora de falar menos e fazer mais. Adicionar valor, não de redigir declarações de valor. Construir organizações competitivas, e não confortáveis. De ser preventivo e não reativo. É hora de desempenho, e não de pregação (ULRICH, 2002, p. 34). Para Marras (2013) a administração estratégica de Recursos Humanos, além de ter ligação estreita com o planejamento estratégico organizacional, introduz em suas políticas, mudanças de paradigmas que modificam substancialmente: O rumo dos resultados organizacionais, otimizando-os por meio de maiores índices de qualidade e produtividade no trabalho, alavancados pelo desempenho humano; O perfil cultural da organização, redesenhando-o em concordância com um conjunto de valores e crenças compartilhados entre empregados e empresa para permitir ambientes participativos e comprometidos com objetivos comuns (MARRAS, 2013, p. 295). O mesmo autor constatou o movimento dinâmico fruto das constantes mudanças e concluiu: A empresa encontra-se constantemente como alvo desse movimento dinâmico representado pelo movimento de forças provocado pelas mudanças. Vê-se atingida, por exemplo, por vetores internos que lhe modificam valores, comportamentos, processos e resultados à medida que alberga novos empregados e novas máquinas; do seu exterior recebe inputs que a obrigam a compartilhar transformações de mercado, de preços, de qualidade, de produtos etc. (MARRAS, 2013, p. 313). 64 GESTÃO DE PESSOAL I Como já vimos e voltaremos a ver em detalhes na Unidade Didática 6, o advento das novas tecnologias possibilitou às áreas de RH um “arsenal” de ferramentas para a otimização de seus processos, que contribuem de sobremaneira para a consecução dos resultados empresariais. No próximo item trataremos ainda da motivação dos funcionários. 5.3. Clima de motivação e engajamento com a empresa – envolvimento e participação Não cabe à função de RH obediência, e sim aos gerentes. As práticas de RH não existem para fazer os funcionários felizes, mas para ajuda- los a se envolverem. Os profissionais de RH devem ajudar os gerentes a envolver os funcionários e a administrar políticas (ULRICH, 2002, p. 35). Despertar o engajamento dos funcionários é desafiador embora os resultados de tal ação sejam de suma importância para os processos organizacionais. Como Ulrich bem apresentou, o grau de exigência nos ambientes de trabalho é cada vez maior. A busca pela competitividade atinge as relações e os antigos “pactos com os trabalhadores”: Atualmente o trabalho é mais exigente do que nunca. Os funcionários estão sendo constantemente chamados a fazer mais, geralmente com menos recursos. Quando as empresas deixam de oferecer carreira ou mesmo segurança no emprego, os funcionários passam a repensar sua contribuição e dedicaçãoà empresa. Se as empresas eliminam o antigo contrato de trabalho, que se baseava na estabilidade e na possibilidade de ascensão, e o substituem por frágeis perspectivas de confiança, os funcionários retribuirão em espécie. Seu relacionamento com a empresa torna-se transacional: concedem seu tempo, mas não contribuem com os seus esforços mais plenos (ULRICH, 2002, p. 157). Em função de tal ambiente, as empresas devem se esforçar para motivar seus funcionários para que de fato contribuam com os seus processos, para tanto os mesmos devem ser valorizados: A contribuição do funcionário se torna uma questão empresarial crítica porque, ao tentar produzir mais com menos funcionários, as empresas não têm outra escolha senão tentar envolver não só o corpo, mas a mente e a alma de cada um deles. Essa contribuição é elevada 65 GESTÃO DE PESSOAL I quando estes se sentem livres para apresentar ideias, quando sentem que pessoas-chave na empresa levam seus interesses em conta e quando sentem que mantêm com a empresa uma relação de emprego válida e organizada (ULRICH, 2002, p. 158). Segundo Ulrich, as empresas devem buscar formas tangíveis e verdadeiras de aproximação com os seus funcionários, a fim de que os laços de comprometimento e participação sejam solidificados: Se ninguém escuta e representa o interesse dos funcionários, muitos dos que dispõem de alternativas fora da empresa se deixarão levar por elas. Caso ninguém se importe com suas necessidades cotidianas, eles deixam de contribuir. Se ninguém os ouve, eles silenciam em detrimento da empresa (ULRICH, 2002, p. 158). Conforme vimos no item 5.1 de nada adiantarão o conhecimento técnico, o método e todo o esforço da liderança, se não existir uma relação de confiança e cumplicidade entre as empresas e seus funcionários. Na próxima unidade didática trataremos da relação entre a Tecnologia da Informação e a área de RH. 66 GESTÃO DE PESSOAL I 1 Objetivos específicos Explicar a Era da Informação; Apontar a influência da TI na gestão de RH; Identificar o papel da internet e dos portais de conhecimento corporativos na moderna gestão de RH. O termo tecnologia refere-se aos meios pelos quais uma empresa transforma insumos em resultados (ROBBINS, 2010, p. 364). Nesta unidade didática trataremos do advento da “Era da Informação” e seus contributos para os processos de RH, em especial dos ganhos advindos com a possibilidade de criação de portais de conhecimento. 6.1. Era da Informação – Conceitos e Características A estratégia empresarial deve ser emanada da alta administração da organização, contemplando a empresa em sua totalidade. Independentemente da existência dos Sistemas de Informação, as informações empresariais são tratadas de acordo com a cultura, filosofia e políticas da empresa em questão. Essas três questões estão presentes formal ou informalmente em todas as empresas (REZENDE e ABREU, 2013, p. 133). 6. Tecnologia da Informação e a Gestão de Recursos Humanos 67 GESTÃO DE PESSOAL I A Era da Informação ou Sociedade da Informação representa uma das mais drásticas rupturas nos processos de gerenciamento moderno. As novas tecnologias têm contribuído sobremaneira para os processos empresariais, conforme Gomes. É graças ao advento da sociedade da informação que é gerado, armazenado e disseminado um volume cada vez maior e mais relevante de informações: Se durante boa parte dos séculos XIX e XX, a sociedade procurava alcançar seus objetivos e resultados mediante a utilização de matérias- primas, de pessoal, da terra e do trabalho, foi possível constatar uma visível mudança a partir da consideração da informação e do conhecimento como parâmetros determinantes do êxito no progresso industrial, na melhoria da qualidade de vida, no desenvolvimento econômico e ainda nas relações políticas entre as nações. As novas organizações criadas na sociedade da informação passaram a ser caracterizadas fundamentalmente pelas missões de gerar novos conhecimentos, armazená-los e torná-los disponíveis para serem transferidos aos quadros das próprias organizações ou a outros interessados (GOMES, 2005, p. 18). Uma das principais contribuições do advento das novas tecnologias foi a criação, por parte das empresas, de suas próprias universidades. As denominadas universidades corporativas ganharam importância e alcance a partir dos ganhos proporcionados pela tecnologia. Embora de fato tenham se multiplicado e melhorado os resultados, o fenômeno das universidades corporativas não é necessariamente novo. Formiga cita a provável primeira universidade corporativa: No início da segunda metade do século XX – nos anos 50, a GE, a partir de seu departamento de recursos humanos e, Crottonville, organiza aquilo que seria a primeira universidade corporativa mundial, e esse fenômeno americano, foi se espalhando com o uso da internet, que ganhou uma força enorme (...) Não se deve esquecer que tanto a educação a distância quanto as universidades corporativas são metáforas. A universidade corporativa vai buscar o que há de melhor na universidade acadêmica: sapiência, conhecimento, seriedade, pesquisa. Mas rejeita o timing acadêmico, pois não consegue conviver com o tempo da universidade tradicional, que não dá respostas às suas perguntas e aos seus problemas, e a empresa vive nesse afã de dar resultados, e busca cada vez mais habilidades, competências, quer resultados cada vez mais rápidos (FORMIGA, 2005, p. 60-61). Gomes também comentou sobre o surgimento das universidades corporativas e o diferencial das mesmas na formação de quadros, uma vez que a principal fonte de informações é a própria realidade das organizações, tal feito possibilitado pelos recentes avanços da tecnologia: 68 GESTÃO DE PESSOAL I Pode-se então considerar que a universidade corporativa é uma consequência da consolidação da sociedade da informação, com a missão de oferecer mecanismos de aprendizagem vistos até pouco tempo atrás como não convencionais, em modalidades que consideram as peculiaridades da empresa ou a atualidade das informações necessárias ao desenvolvimento de um produto inovador, conferindo- lhes uma missão bastante diversa daquela das universidades tradicionais, sempre voltadas para uma formação capaz de assegurar a formação básica necessária ao enfrentamento aos novos desafios (GOMES, 2005, p. 19). No entanto seria um reducionismo limitar os muitos avanços proporcionados pela tecnologia apenas ao surgimento das universidades corporativas e/ou processos de educação corporativa. Trataremos um pouco mais sobre esta questão no próximo item. 6.2. Tecnologia da Informação – evolução tecnológica e organizacional; a TI na Gestão de Pessoas A educação contemporânea se defronta com fortes desafios. Um deles é o aumento populacional. Outro, o volume cada vez maior de informações necessárias à sobrevivência social. Para responder satisfatoriamente a esses desafios, não há uma proporcionalidade de meios que mantenha, por si só, o equilíbrio do sistema social. (...) A produtividade em ensino/educação não poderá ser atingida por uma simples multiplicação de meios, mas por outros recursos que a torne mais eficaz. Para tal, a revolução tecnológica oferece novos meios sob dois aspectos principais: os meios materiais (hardware) e as técnicas (software). A tecnologia material nos possibilita, entre outras coisas, o acesso àinformação quase em tempo real, o que torna obsoletos os processos tradicionais. Garante ainda, o alcance populacional, atingindo áreas e pessoas consideradas, até então, inatingíveis para o ensino em sua forma tradicional (MAIA, 2005, p. 99). Alcance tem sido a tônica dos processos de educação, em especial dos processos de educação apoiados ou mediados pela tecnologia. De fato, o volume de informações disponíveis também requer contribuições de ferramentas que sejam capazes de organizá-lo, armazená-lo adequadamente e disseminá-lo. Discutimos nas unidades anteriores o quão dinâmico tem sido o ambiente de negócios, ou seja, mais do que nunca estamos tratando de informações altamente perecíveis, que precisam constantemente de atualização. Lopes trata desta questão: 69 GESTÃO DE PESSOAL I Os ativos que caracterizavam as organizações no século passado eram, predominantemente, físicos, nos quais o capital, os equipamentos e as instalações representavam o seu diferencial competitivo. (...) Hoje, essa realidade mudou. No discurso das empresas deste século, fala-se em talentos humanos, inovação e criatividade e são justamente esses ativos intangíveis que fazem toda a diferença na competitividade e lucratividade da empresa no século XXI (LOPES, 2005, p. 140). Com o advento da tecnologia de fato ocorreu uma transformação no processo de treinamento. O conceito atual é mais amplo, tratamos de fato de um processo educacional, com a utilização de plataformas on-line, o que assegura o fluxo de geração – classificação – disseminação das informações, conforme observado por Lopes: A mudança de enfoque do treinamento para a educação corporativa provocou um grande impacto na forma como a carreira do empregado é atualmente gerenciada. No modelo tradicional, a carreira era controlada pela empresa e as expectativas do empregado estavam alinhadas com as tendências paternalistas, que sempre caracterizaram as relações de trabalho nessa área. (...) Hoje, na empresa do século XXI, quem controla a carreira é o próprio empregado. (...) Cumpre à empresa permitir o acesso de seus empregados ao conhecimento. E o ensino passou de predominantemente presencial para virtual. (...) O que faz de fato a diferença é a capacidade de inovar, é aquele que cria e lança primeiro um produto no mercado, é a empresa mais rápida, é a que gera o conhecimento e o coloca no seu crescimento e desenvolvimento (LOPES, 2005, p. 141). Pavani apresenta outra variável que deve ser considerada na análise da educação corporativa, a adoção de redes com capacidade e velocidade nunca antes disponíveis: Formas de acesso à informação também estão sendo altamente impactadas pelas tecnologias de ligação em rede. Quem usa o Google sabe: digita-se o que se quer buscar e o Google acha. O problema é que acha demais, e, como pensam os que conhecem tratamento de informação, a informação está tratada de menos (PAVANI, 2005, p. 189). A combinação dos fatores aqui estudados foram o principal indutor do processo de adoção de portais do conhecimento por parte das empresas, como veremos a seguir. 70 GESTÃO DE PESSOAL I 6.3. Internet e Portais de Conhecimento Corporativos A Gestão do Conhecimento deve se apoiar, idealmente, em sistemas inteligentes que serão acionados conforme as necessidades das pessoas e que também terão a capacidade de registrar e relacionar os aprendizados individuais à medida que estes ocorrem e são aplicados na prática, favorecendo verdadeiro aprendizado coletivo e o desenvolvimento de organizações estruturadas a partir dos pressupostos e requisitos da Era do Conhecimento (TERRA, 2003, p. XX). Especificamente sobre os portais para a educação corporativa, Terra observou aspectos como as possibilidades de colaboração intra e entre organizações: É difícil imaginar uma organização de um certo porte que não esteja usando ou que não venha a utilizar portais como ferramenta crítica par seus processos de suporte à Gestão do Conhecimento com foco interno e externo. As evoluções tecnológicas e as aplicações têm sido muito grandes nesta área. Creio que apesar do enorme foco no boom da internet e dos negócios de e-commerce, a verdadeira revolução têm ocorrido na aplicação das tecnologias de internet para o processamento e disponibilização de informações e suporte a novos níveis e formas de colaboração intra e entre organizações (TERRA, 2003. p. XXVI). E é justamente do conceito de colaboração que surge outro tema que possui potencial de transformação da realidade empresarial: as comunidades de práticas, já muito utilizadas por empresas multinacionais que estabelecem tais formas de cooperação nos diferentes países em que atuam. Terra e Litto abordaram a questão: Comunidades de Prática são conhecidas e estudadas há muito tempo em um contexto mais histórico, econômico-social e antropológico. Comunidades Virtuais e Comunidades de Prática no contexto da gestão são coisas bem mais recentes e a combinação destas, as Comunidades de Prática Virtuais, o são ainda mais. Embora um dos conceitos e práticas mais emergentes no contexto da Gestão do Conhecimento, é também um dos mais promissores, pois se refere à institucionalização e apoio de algo que já ocorre nas organizações. Pessoas com interesses comuns de aprendizado sempre encontram meios, para de alguma forma se encontrarem e trocar experiências. As Comunidades de Prática Virtuais ampliam, facilitam, estimulam e tornam tais trocas mais visíveis. Algumas organizações aprenderam seu valor para os objetivos da organização e já têm processos bem sistematizados de ligá-las ao seu plano estratégico (TERRA, 2003. p. XXIX). Quando especialistas se agrupam para a constante troca de informações e experiências profissionais, estão formando o que hoje chamamos de “comunidades de prática”: médicos especializados em um tipo de urologia, advogados especializados em um tipo de jurisprudência (...) Nas comunidades de prática e nas comunidades virtuais de aprendizagem, não há troca de dinheiro, mas, sim, 71 GESTÃO DE PESSOAL I compartilhamento de conhecimento especializado; isso representa uma tendência significativa no cenário de educação corporativa hoje, facilitado muito pelo uso da internet (LITTO, 2005, p. 53). Pavani reconheceu que as ferramentas podem contribuir muito para o processo de educação corporativa, mas destacou sua preocupação com os conteúdos dos programas: Examinamos como as tecnologias podem ser usadas para a educação e/ou treinamento corporativo, assistidos por tecnologia da informação. Um dos pontos a observar é o aumento considerável das possibilidades de acesso à informação, e não se faz educação sem informação. É óbvio que ter informação é condição necessária, mas não é suficiente. O conteúdo é um dos pés desse tripé, sendo os outros dois a infraestrutura de tecnologia e a tutoria (acompanhamento). Todos são importantes, e a falta de qualquer um prejudica o processo (PAVANI, 2005, p. 190). Litto foi na mesma direção, ao comparar os avanços ocorridos com as tecnologias e, ao mesmo tempo, a posição mais conservadora da pedagogia: O surgimento de novas tecnologias de comunicação deu um novo ímpeto à educação a distância, permitindo-nos ousar como nunca fizemos antes. Infelizmente, as universidades tradicionais não estão percebendo esse avanço. Há conteúdos novos, por exemplo, no curso de ciências e tecnologias, mas a pedagogia continua a mesma, sem que percebam quanto essas tecnologias permitem a individualização da aprendizagem. É possível conceberuma formação individualizada, feita sob medida para cada aluno, inclusive a forma de avaliação (LITTO, 2005, p. 47). Outros autores, como Portella e Wolynec também fizeram os seus alertas, o primeiro para a adoção de sistemas de avaliação dos programas ofertados, o segundo para a utilização de ferramentas indisponíveis nos modelos tradicionais de ensino: A internet abre, sem dúvida, um espaço promissor no campo da educação a distância. Porém, é preciso que ela se faça acompanhar do saber próximo, e em vez de se transformar em uma distribuição indiscriminada de computadores, e leve junto, indissociável, programas criteriosos de pilotagem acompanhamento e avaliação (PORTELLA, 2005, p. 5). A tecnologia está aí, bastante desenvolvida. Precisamos repensar a pedagogia. Temos de encontrar novas formas de proporcionar experiências ricas de aprendizagem aos alunos. Precisamos nos perguntar o que é possível fazer com esse novo ambiente de aprendizagem que não se pode fazer no ambiente tradicional (WOLYNEC, 2005, p. 201). 72 GESTÃO DE PESSOAL I A educação corporativa ainda está nos passos iniciais de desenvolvimento, mas pelas pesquisas desenvolvidas na área há inúmeras possibilidades de aprimoramento para o futuro. 73 GESTÃO DE PESSOAL I 1 Objetivo específico Conhecer a Lei 8.112 e demais legislações complementares. A Lei Nº 8.112/1990 nasceu para integrar os preceitos contidos no Art. 37 da CF; A Emenda Constitucional Nº 19/1998 extinguiu o Regime Jurídico Único para os servidores públicos civis da União, Estados, DF e municípios. Cada uma das esferas de governo pode adotar qualquer dos regimes jurídicos existentes: estatutário ou celetista. Pode, ainda, haver adoção concomitante de regimes distintos. Nesta Unidade Didática abordaremos os principais aspectos contidos na Lei Nº 8.112 e as alterações na legislação que forem pertinentes. 7.1. Lei 8.112, de 11 de dezembro de 1990 - “Regime Jurídico Único” e demais legislações complementares Nos artigos iniciais da referida lei estão contidas a abrangência e os conceitos que versam sobre o cargo público: Art. 1o Esta Lei institui o Regime Jurídico dos Servidores Públicos Civis da União, das autarquias, inclusive as em regime especial, e das fundações públicas federais. Art. 2o Para os efeitos desta Lei, servidor é a pessoa legalmente investida em cargo público. 7. Legislação dos Servidores Civis 74 GESTÃO DE PESSOAL I Art. 3o Cargo público é o conjunto de atribuições e responsabilidades previstas na estrutura organizacional que devem ser cometidas a um servidor. Parágrafo único. Os cargos públicos, acessíveis a todos os brasileiros, são criados por lei, com denominação própria e vencimento pago pelos cofres públicos, para provimento em caráter efetivo ou em comissão. Art. 4o É proibida a prestação de serviços gratuitos, salvo os casos previstos em lei. Outro tema de interesse contido na lei são as formas de provimento de cargo público presentes no art. 8º: Art. 8o São formas de provimento de cargo público: I - nomeação; II - promoção; V - readaptação; VI - reversão; VII - aproveitamento; VIII - reintegração; IX - recondução. O art. 20 aborda o estágio probatório que se presta para a avaliação do servidor a partir de fatores como assiduidade, disciplina etc.: Art. 20. Ao entrar em exercício, o servidor nomeado para cargo de provimento efetivo ficará sujeito a estágio probatório por período de 24 (vinte e quatro) meses, durante o qual a sua aptidão e capacidade serão objeto de avaliação para o desempenho do cargo, observados os seguinte fatores: I - assiduidade; II - disciplina; III - capacidade de iniciativa; IV - produtividade; V- responsabilidade. Nos art. 21 e 22 é tratada a questão da estabilidade do servidor público: Art. 21. O servidor habilitado em concurso público e empossado em cargo de provimento efetivo adquirirá estabilidade no serviço público ao completar 2 (dois) anos de efetivo exercício. (Prazo alterado para 3 anos conforme EMC nº 19). Art. 22. O servidor estável só perderá o cargo em virtude de sentença judicial transitada em julgado ou de processo administrativo disciplinar no qual lhe seja assegurada ampla defesa. 75 GESTÃO DE PESSOAL I O art. 100 prevê que para efeito de contagem de tempo de serviço para fins de aposentadoria, o tempo prestado às Forças Armadas será também considerado: Art. 100. É contado para todos os efeitos o tempo de serviço público federal, inclusive o prestado às Forças Armadas. No art. 116 são apresentados os deveres dos servidores públicos: Art. 116. São deveres do servidor: I - exercer com zelo e dedicação as atribuições do cargo; II - ser leal às instituições a que servir; III - observar as normas legais e regulamentares; IV - cumprir as ordens superiores, exceto quando manifestamente ilegais; V - atender com presteza: VI - levar as irregularidades de que tiver ciência em razão do cargo ao conhecimento da autoridade superior ou, quando houver suspeita de envolvimento desta, ao conhecimento de outra autoridade competente para apuração; VII - zelar pela economia do material e a conservação do patrimônio público; VIII - guardar sigilo sobre assunto da repartição; IX - manter conduta compatível com a moralidade administrativa; X - ser assíduo e pontual ao serviço; XI - tratar com urbanidade as pessoas; XII - representar contra ilegalidade, omissão ou abuso de poder. No art. 117 estão previstas as proibições aos servidores públicos: Art. 117. Ao servidor é proibido: I - ausentar-se do serviço durante o expediente, sem prévia autorização do chefe imediato; II - retirar, sem prévia anuência da autoridade competente, qualquer documento ou objeto da repartição; III - recusar fé a documentos públicos; IV - opor resistência injustificada ao andamento de documento e processo ou execução de serviço; V - promover manifestação de apreço ou desapreço no recinto da repartição; VI - cometer a pessoa estranha à repartição, fora dos casos previstos em lei, o desempenho de atribuição que seja de sua responsabilidade ou de seu subordinado; VII - coagir ou aliciar subordinados no sentido de filiarem-se a associação profissional ou sindical, ou a partido político; VIII - manter sob sua chefia imediata, em cargo ou função de confiança, cônjuge, companheiro ou parente até o segundo grau civil; IX - valer-se do cargo para lograr proveito pessoal ou de outrem, em detrimento da dignidade da função pública; X - participar de gerência ou administração de sociedade privada, personificada ou não personificada, exercer o comércio, exceto na qualidade de acionista, cotista ou comanditário; XI - atuar, como procurador ou intermediário, junto a repartições públicas, salvo quando se tratar de benefícios previdenciários ou assistenciais de parentes até o segundo grau, e de cônjuge ou companheiro; 76 GESTÃO DE PESSOAL I XII - receber propina, comissão, presente ou vantagem de qualquer espécie, em razão de suas atribuições; XIII - aceitar comissão, emprego ou pensão de estado estrangeiro; XIV - praticar usura sob qualquer de suas formas; XV - proceder de forma desidiosa; XVI - utilizar pessoal ou recursosmateriais da repartição em serviços ou atividades particulares; XVII - cometer a outro servidor atribuições estranhas ao cargo que ocupa, exceto em situações de emergência e transitórias; XVIII - exercer quaisquer atividades que sejam incompatíveis com o exercício do cargo ou função e com o horário de trabalho; XIX - recusar-se a atualizar seus dados cadastrais quando solicitado. Entre os art. 121 e 126 são caracterizadas as responsabilidades dos servidores públicos: Art. 121. O servidor responde civil, penal e administrativamente pelo exercício irregular de suas atribuições. Art. 122. A responsabilidade civil decorre de ato omissivo ou comissivo, doloso ou culposo, que resulte em prejuízo ao erário ou a terceiros. § 1o A indenização de prejuízo dolosamente causado ao erário somente será liquidada na forma prevista no art. 46, na falta de outros bens que assegurem a execução do débito pela via judicial. § 2o Tratando-se de dano causado a terceiros, responderá o servidor perante a Fazenda Pública, em ação regressiva. § 3o A obrigação de reparar o dano estende-se aos sucessores e contra eles será executada, até o limite do valor da herança recebida. Art. 123. A responsabilidade penal abrange os crimes e contravenções imputadas ao servidor, nessa qualidade. Art. 124. A responsabilidade civil-administrativa resulta de ato omissivo ou comissivo praticado no desempenho do cargo ou função. Art. 125. As sanções civis, penais e administrativas poderão cumular- se, sendo independentes entre si. Art. 126. A responsabilidade administrativa do servidor será afastada no caso de absolvição criminal que negue a existência do fato ou sua autoria. Art. 126-A. Nenhum servidor poderá ser responsabilizado civil, penal ou administrativamente por dar ciência à autoridade superior ou, quando houver suspeita de envolvimento desta, a outra autoridade competente para apuração de informação concernente à prática de crimes ou improbidade de que tenha conhecimento, ainda que em decorrência do exercício de cargo, emprego ou função pública. Os artigos acima foram selecionados para a nossa discussão uma vez que preveem aspectos importantes da carreira do servidor público. 77 GESTÃO DE PESSOAL I Considerações Finais Ao final de nossa imersão pelos principais aspectos da área de Recursos Humanos faço votos de que você tenha tido oportunidades de aprendizado e reflexão. Tratamos, ao longo da disciplina, da evolução (e transformação) histórica de uma das áreas mais importantes em qualquer empresa ou organização. Vimos que independentemente da atuação como “linha” ou “staff” a área de Recursos Humanos tem muito com o que contribuir para o sucesso das empresas, principalmente se suas ações forem decorrentes e amparadas pelo planejamento estratégico da empresa ou organização. Juntos compreendemos a contribuição da escola da Teoria das Relações Humanas para a “humanização” dos processos e práticas de RH. Humanização esta cada vez mais presente nas organizações. Conhecemos a importância do estabelecimento de ferramentas e técnicas de gestão, tal como o Balanced Scorecard, cuja uma das quatro perspectivas diz respeito aos conceitos aqui trabalhados. Passamos pelo conceito e aplicações da auditoria da área de Recursos Humanos e compreendemos a contribuição que processos bem desenhados de avaliação de desempenho podem representar para o RH e organizações, principalmente em termos de envolvimento, engajamento e participação. Vimos as transformações nos processos (e resultados) do antigo conjunto de treinamento e desenvolvimento, hoje considerado por muitos como “Gestão do Conhecimento”. Discutimos as tendências da área de Gestão de Pessoas ou RH e o impacto das novas tecnologias para a área - impactos estes benéficos em termos de alcance e custos. Passamos ainda pela Lei Nº 8.112/1990, que instituiu o Regime Jurídico Único, que foi alterado em alguns pontos pela Emenda Constitucional Nº 19/1998. Espero, sinceramente, que nosso convívio nesta disciplina tenha sido prazeroso e interessante para você! Abraços, Prof. Guaracy Silva 78 GESTÃO DE PESSOAL I Referências Bibliográficas BRASIL. Lei Nº 8.112. Brasília: 1990. DUTRA, Joel de Souza. Gestão de Pessoas. São Paulo: Atlas, 2011. FALCONI, Vicente. O verdadeiro poder. Nova Lima: INDG, 2009. FIGUEIREDO, Saulo Porfírio. Gestão do conhecimento. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2005. FORMIGA, Manuel Marcos Maciel. Evolução dos 100 anos da educação a distância no Brasil. In: BAYMA, Fátima (org.). Educação Corporativa. São Paulo: Pearson, 2005. GOMES, Paulo Alcântara. Uma visão estratégica de educação corporativa. In: BAYMA, Fátima (org.). Educação Corporativa. São Paulo: Pearson, 2005. HSM MANAGEMENT. Dossiê The 3G way. São Paulo: HSM Nº 98, mai.-jun. 2013. JONES, Patricia; KAHANER, Larry. As missões de 50 empresas que atingiram o alvo. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996. KAPLAN, Robert; NORTON, David. The balanced scorecard: measures that drive performance. Harvard Business Review, v. 70, n. 1, p. 71-79, jan.-feb. 1992. LITTO, Frederic Michael. Tendências internacionais em educação a distância. In: BAYMA, Fátima (org.). Educação Corporativa. São Paulo: Pearson, 2005. LOPES, Neyde Vernieri. Treinamento e educação corporativa. In: BAYMA, Fátima (org.). Educação Corporativa. São Paulo: Pearson, 2005. LUCENA, Maria Diva da Salete. Planejamento de Recursos Humanos. São Paulo: Atlas, 2009. MAIA, Nelly Aleotti. Educação a distância: metodologias de desenvolvimento de programas de EAD. In: BAYMA, Fátima (org.). Educação Corporativa. São Paulo: Pearson, 2005. MARRAS, Jean Pierre. Administração de recursos humanos. 14 Ed. São Paulo: Saraiva, 2013. MARTINS, Roberto Antonio. Sistemas de medição de desempenho: um modelo para estruturação de uso. Tese (Doutorado em Engenharia de Produção) – Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo. 1999. PAVANI, Ana. Potencial das tecnologias. In: BAYMA, Fátima (org.). Educação Corporativa. São Paulo: Pearson, 2005. 79 GESTÃO DE PESSOAL I PONTES, Benedito Rodrigues. Administração de Cargos e Salários. 14 Ed. São Paulo: LTr, 2010. PORTELLA, Eduardo. Educação, comunicação, saber. In: BAYMA, Fátima (org.). Educação Corporativa. São Paulo: Pearson, 2005. REZENDE, Denis Alcides; ABREU, Aline França. Tecnologia da informação. 9 Ed. São Paulo: Atlas, 2013. ROBBINS, Stephen P. Comportamento Organizacional. 11 Ed. São Paulo: Pearson, 2010. TERRA, José Cláudio Cyrineu. Introdução. In: TERRA, José Cláudio Cyrineu. Gestão do Conhecimento e E-learning na prática. São Paulo: Elsevier, 2003. TOSE, Marília de Gonzaga Lima e Silva. A evolução da gestão de recursos humanos no Brasil. Dissertação (Mestrado em Administração) – Faculdade de Economia, Administração, Contábeis e Atuariais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 1997. ULRICH, Dave. Os campeões de recursos humanos. São Paulo: Futura, 2002. VASCONCELOS, Eduardo. Estrutura das organizações. São Paulo: Pioneira, 1986. WOLYNEC, Elisa. O potencial das tecnologias de e-learning e as perspectivas de curto e médio prazos. In: BAYMA, Fátima (org.). Educação Corporativa. São Paulo: Pearson, 2005.