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MÓDULO 8 Psicanálise e sociedade: a psicologia das massas, a identificação, o ideal do ego. A compreensão da vida em grupo a partir do referencial psicanalítico. Bibliografia: FREUD, S. A Psicologia das Massas e a Análise do Ego, cap. IV a VIII e XII (1921). IN FREUD, S., Obras Completas de S. Freud, Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda; 1969. ______. Mal estar na civilização, cap I (1930[1929]). IN FREUD, S., Obras Completas de S. Freud, Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda; 1969. Psicanálise e Sociedade Depois de Mais-além do princípio de prazer (1920), o texto que trata das relações entre psicanálise e sociedade - Psicologia das massas e Análise do ego (1921) - é um outro marco importante na reformulação teórica freudiana, conhecida como a segunda tópica. Trata-se de um texto que explora os caminhos que vão da compreensão do indivíduo para a da sociedade. Freud refutou em seu texto uma oposição categórica entre uma psicologia do indivíduo e uma psicologia social e, seu ponto de partida para isto, é o fato inegável de que todo indivíduo está sempre referido a um outro na constituição mesma de seu psiquismo, o que leva à conclusão que toda psicologia individual é, desde sempre, social, por causa deste laço inerente à própria constituição do humano, ainda que uma não se confunda com a outra, na medida em que os efeitos de um narcisismo sempre presente, em que não há lugar para a diferença ou para a alteridade, não deixam de existir enquanto possibilidades individuais que se diferenciam de atos sociais. Quais são e como se definem as relações dos indivíduos com a massa, foram as questões que nortearam as investigações freudianas neste texto, pensando nas mudanças evidenciadas nos indivíduos quando estão sós e quando estão fazendo parte de uma organização que os transcende. Freud associa os movimentos de massa a partir do que definiu em sua teorização sobre o psiquismo individual como a fonte energética das pulsões - a libido - e que é o que move as relações amorosas e que será concebido também como o que estará operando nos movimentos de massa, inclusive quanto à relação da massa com um líder. Neste aspecto, Freud irá diferenciar os agrupamentos sem e com líder, sendo estes últimos representados em seu texto pela igreja e pelo exército, instituições nas quais é possível identificar tanto as relações da massa com o líder, quanto as relações dos membros entre si, evidenciando estes laços como de natureza amorosa. No entanto será a relação - ou o investimento libidinal - com o líder uma espécie de protótipo das relações dos membros entre si e disto resulta um aspecto fundamental deste momento no pensamento freudiano, a saber, o desenvolvimento da teoria da identificação. De um lado tem-se a teorização de como a relação entre os membros se dá justamente pela identificação com o líder e, por outro lado, surge a distinção entre o ego e o ideal do ego (predecessor do superego). Os indivíduos têm no líder um objeto externo que ocupa o lugar de ideal do ego, assim como, identificam-se entre si por causa desta identificação ao líder, na qual a dimensão sexual seria sublimada. Como este texto trata das relações entre o indivíduo e as organizações, não escapou à análise de muitos comentadores, as implicações do que Freud expõe com a própria institucionalização da psicanálise, dado que os psicanalistas não estão a salvo das mesmas vicissitudes pelas quais os indivíduos passam em seus embates mais ou menos conflituosos com as instituições. EXERCÍCIO A presença inequívoca do outro na constituição do psiquismo leva Freud à suas investigações sobre as relações entre psicologia individual e social, sobre este aspecto podemos afirmar que para Freud: A. A psicologia de grupo é uma categoria distinta da psicologia individual, não podem ser equiparadas. B. A psicologia individual refere-se somente aos indivíduos, enquanto que a psicologia social não considera os indivíduos, mas apenas os aspectos dinâmicos das interações sociais. C. A psicologia social é individual na medida em que os grupos são basicamente constituídos de indivíduos. D. Não há oposição entre a psicologia individual e a psicologia social, pois a constituição do sujeito psíquico advém da trama que é tecida a partir do outro. E. A tarefa dos pais é a de cuidar de seus filhos, o abandono destes cuidados iniciais gera um narcisismo pessoal e futuramente coletivo. Resposta D. Ego ideal e ideal do ego As instâncias ego ideal e ideal do ego, tais como são conhecidas hoje em psicanálise, não se encontram de forma alguma claras e evidentes na obra de Freud. Remontam desde 1895 e desembocam na constituição do superego, porém a distinção clara entre estes dois conceitos só será proposta por sucedâneos do pensamento freudiano. Apesar da não diferenciação no texto sobre o narcisismo (1914) entre as duas instâncias ideais - ego ideal e ideal do ego - é possível lá entrever a ideia de substituição do narcisismo como modo de ligação com os objetos pelo surgimento do ego ideal, que seria aquela imagem idealizada de si mesmo que se mantém inconscientemente no psiquismo. Através das trocas com o mundo, particularmente da relação da criança com a mãe e desta com outros, a criança percebe que a mãe deseja algo fora dela. Isto leva a uma experiência em que a criança é atingida e ferida em seu narcisismo primário, sentindo uma importante frustração no que diz respeito à sua necessidade de ser amada pelo outro de forma absoluta: para voltar a ter o amor total do outro é preciso corresponder àquilo que o preencheria de tal forma que não precisaria amar outros. O ego bastaria e isto seria chegar à perfeição narcísica, esta corresponderia ao ego ideal. Porém o desenvolvimento do ego só se dará a partir de um distanciamento do narcisismo primário e do estabelecimento de relações objetais; para se chegar a este seu objetivo é preciso que aquele desejo totalizante de ser amado leve em conta, por sua vez, as representações e os imperativos culturais, sociais e éticos que são transmitidos pelas figuras parentais e que funcionam como mediadores, representantes externos, constituídos pelo discurso dos pais. Ao assumir de uma certa forma como seus os valores e ideais que fariam parte de uma suposta demanda do outro e do desejo de satisfazê-la, inaugura o surgimento de uma outra instância ideal, o ideal do ego, que comporta uma imagem do objeto e uma imagem do eu, mantendo sua relação com a libido. Na constituição do ego há, portanto, elementos tanto do ego ideal quanto do ideal do ego, devido a um deslocamento da libido em relação ao narcisismo primário, a partir do momento em que algo é imposto de fora - este ‘fora’ aqui se refere a fora do imaginário, refere-se à passagem da imagem para a ideia, mediada pela linguagem. EXERCÍCIO Freud no texto Psicologia de Grupo e Análise de Ego parte do fato fundamental de que o indivíduo num grupo está sujeito, através da influência deste, ao que com frequência constitui profunda alteração em sua atividade mental. Sua submissão à emoção torna-se extraordinariamente intensificada, enquanto que sua capacidade intelectual é acentuadamente reduzida, com ambos os processos evidentemente dirigindo-se para uma aproximação com os outros indivíduos do grupo. Este fato só pode ser alcançado devido: A. A coerção apresentada pelo grupo; e a falta de convicção das crenças de inclinações pessoais. B. A resignação das expressões de inclinações pessoais; e a remoção das inibições aos instintos que são peculiares a cada indivíduo. C. A valorização dos valores sociais em detrimento dos valores peculiares de cada indivíduo. D. A dificuldade de desenvolvimento psíquico; e à necessidade de apoiar-se em um grupo para a manutenção de sua existência. E. A personalidade impulsiva; e um déficit intelectual que não permite o controle dos impulsos. Resposta B. Sobre a identificação Uma teoria da identificação, tal como a encontramos em Freud, é um esforço conceitual para se compreender as formações inconscientesconstitutivas da vida do sujeito, os conflitos que podem advir desta sua condição e em que situações estas identificações podem desempenhar um papel patológico. No início de ‘A Identificação’ já encontramos uma referência a esta operação como um mecanismo que marca os primeiros passos da vida afetiva de um sujeito, ela é um modo de pensamento constituinte da vida psíquica e há uma importância particular no fato de estar relacionada ao complexo de Édipo. A ênfase das investigações deve recair mais sobre os modos como ela se processa nas diferentes formações psíquicas, sem se prender na busca de suas causas. A identificação da qual se trata em psicanálise refere-se à situação em que o sujeito confunde-se com outra pessoa, mas esta confusão não é percebida conscientemente pelo sujeito, na medida em que não tem o mesmo caráter de uma imitação ou de um disfarce. Nestes casos - da imitação ou do disfarce - sabe-se que se parece com um outro, mas isto não se confunde com o que se é. No caso da identificação propriamente dita - inconsciente - há um completo desconhecimento por parte do sujeito de que se atribuiu características de outro(s). Estamos falando sobre as identificações de modo bastante generalizado, no entanto, existem algumas nuances que lhe são próprias, como por exemplo, se estão referidas a identificações com objetos ou com traços destes e que dizem respeito a modos diferenciados de se estabelecer laços afetivos ao longo do desenvolvimento da vida psíquica. No desenvolvimento do conceito de identificação dentro da teoria psicanalítica, desde Freud até seus sucessores, distinguem-se principalmente três tipos de identificação, a histérica, a primária e a secundária. A identificação histérica, a primeira a ser delineada, é aquela que se encontra mais visível no sintoma, isto porque através das manifestações histéricas exprime-se o elemento inconsciente a partir do qual ocorreu a identificação e o sintoma funciona como uma defesa contra os impulsos e fantasias sexuais que lhes são correlatos. A identificação primária é aquela que antecede, em termos de estruturação do psiquismo, o estabelecimento de relações de objeto, e está relacionada aos primeiros investimentos no objeto, do qual o sujeito se torna dependente. Ela está estreitamente ligada à fase oral de incorporação, realçando aí a não diferenciação entre sujeito e objeto. Assim como no narcisismo primário, também cabe aqui ressaltar que é difícil conceber tal modo de ligação como totalmente indiferenciado ou anobjetal, mesmo sendo um momento em que não é possível para o sujeito conceber que o objeto exista independentemente dele. Todas as outras identificações que se sobrepõem a esta identificação primária e têm sua ocorrência posterior ao estabelecimento de uma relação objetal, são chamadas identificações secundárias. O que as diferencia radicalmente é o fato de que na identificação primária ocorre uma modalidade de ligação com o objeto que supõe uma total alienação do sujeito neste, de tal forma que a imagem de um deveria ilusoriamente corresponder à imagem do outro. Na identificação secundária este tipo de ligação é abandonado a partir das trocas com o meio, nas quais o sujeito substitui a identificação e o desejo de posse do objeto pela identificação com alguns traços do objeto, que vão formando sua personalidade. Um dos aspectos mais importantes das identificações, que se manifesta essencialmente pelo desejo de ser como o objeto, é a ambivalência. Há tanto intensos sentimentos de amor e admiração pelo objeto, que convergem para um ou outro traço deste, quanto há desde o princípio uma boa dose de agressividade, na medida em que, em certo sentido, identificar-se com alguém ou com algo significa querer incorporar em si mesmo este alguém ou algo, portanto destruí-lo ou despojá-lo de seu lugar. Nos primórdios do desenvolvimento psíquico, naquilo que é denominado sua fase oral, as identificações são precedidas por este desejo de incorporação, que é reconhecido como o protótipo primitivo das identificações. O palco onde estas representações mostram-se evidentes é o das relações interpessoais, em que o sujeito ao identificar-se com um objeto desaparece sob a ‘sombra’ deste, mas sem que possa, conscientemente, aperceber-se disto. A fase ou momento das primeiras identificações marca o início de um processo que transcorrerá ao longo de toda a vida, e que também estará ligado à formação dos sintomas, através das sucessivas identificações que vão sendo substituídas ao longo do tempo com maior ou menor êxito; como situação exemplar teríamos a própria formação e resolução do complexo de Édipo. Neste processo, as identificações vão se sucedendo, elas mesmas não se mantêm, mas algum traço é mantido e quase poderíamos dizer que se trata de um jogo, onde se alternam momentos em que ocorrem as identificações e momentos em que algumas se desfazem e, ao se desfazerem, vão dando origem à própria constituição do ego. EXERCÍCIO Os povos primitivos acreditavam que ao devorar um animal (ou um outro homem, no caso dos canibais) incorporavam as características deste animal, características essas almejadas por eles (força, bravura, inteligência). Freud trará este exemplo para falar sobre relações objetais e sobre um conceito fundamental da psicanálise, a identificação. Sobre este tema, está correto o que se afirma em: I. A identificação com o mesmo sexo ou com o sexo oposto é um elemento do complexo de Édipo. Ao eleger um dos genitores como investimento objetal, a criança, concomitantemente, identifica-se com o outro. II. A identificação é um processo de escolha de objeto, que se realiza de modo consciente na vida infantil do sujeito. III. Poderíamos dizer que o processo de construção do ego tem na identificação um dos seus pilares. IV. Em casos normais o menino sempre se identificará com o pai e a menina com a mãe. Em casos de homossexualidade, vemos a identificação ocorrer de modo invertido. Identifique as alternativas e verifique a correta: A. É correto o que se afirma em I, II e III. B. É correto o que se afirma em III e IV. C. É correto o que se afirma em II e III. D. É correto o que se afirma em II, III e IV. E. É correto o que se afirma em I e III. Resposta E.