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Gestão de serviços AleksAndrA sliwowskA BArtsch 1ª edição Brasília/dF - 2018 Autores Aleksandra sliwowska Bartsch Produção equipe técnica de Avaliação, revisão linguística e editoração Sumário Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa ..................................................................................................... 4 Introdução ............................................................................................................................................................................. 6 Aula 1 Desafios da sociedade e da empresa contemporânea .................................................................................... 7 Aula 2 A importância dos serviços e questões decorrentes de suas características ........................................23 Aula 3 Refletindo sobre a experiência de consumo do cliente ..............................................................................43 Aula 4 Desenvolvimento de serviços ...............................................................................................................................59 Aula 5 Modelo integrado de lacunas da qualidade de serviços .............................................................................70 Aula 6 Gestão de conflitos ....................................................................................................................................................84 Referências ..........................................................................................................................................................................98 4 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos cadernos de estudos e Pesquisa. Atenção chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. Cuidado importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado. Importante indicado para ressaltar trechos importantes do texto. Observe a Lei conjunto de normas que dispõem sobre determinada matéria, ou seja, ela é origem, a fonte primária sobre um determinado assunto. 5 OrGAnIzAçãO DO CADErnO DE EStuDOS E PESquISA Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Provocação textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Saiba mais informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Sugestão de estudo complementar sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Posicionamento do autor importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado. 6 Introdução A gestão dos serviços ganha destaque, cada vez mais, na medida em que o segmento serviços tem se revelado importante economicamente. diferentemente dos produtos, os serviços possuem características que conferem complexidade à sua gestão. neste caderno, você encontrará informações relacionadas às características dos serviços e suas implicações. também serão tratados os aspectos relevantes no desenvolvimento de novos serviços. Finalmente, um modelo de administração de lacunas de serviço é apresentado e discutido, de modo a despertar-lhe para os pontos críticos que podem afetar a experiência do cliente e impactar sua avaliação sobre o serviço. Algumas sugestões de pesquisa de informações diversas são sugeridas, de modo que você possa ampliar seus conhecimentos. seja bem-vindo e boa aula. Objetivos este caderno de estudos tem como objetivos: » Apresentar as características da sociedade e das empresas em transição. » destacar a importância dos serviços. » Apresentar suas particularidades, derivadas de suas características. » Propor uma reflexão sobre a experiência de consumo do cliente. » tratar de questões relativas ao desenvolvimento de serviços. » Apresentar modelo integrado de lacunas da qualidade de serviços. » Apresentar diferentes estratégias para a gestão de conflitos. 7 Apresentação nesta nossa primeira aula, falaremos sobre as tendências mundiais e brasileiras que vêm influenciando os mercados. Pensar em produtos e serviços para segmentos tão diferentes não é tarefa fácil. demanda um constante monitoramento do ambiente externo, das mudanças da sociedade e capacidade de avaliação e reavaliação constantes. Além disso, para aumentar a tensão, no universo do Marketing não existem as chamadas receitas de bolo ou fórmulas corretas e milagrosas. Uma estratégia que pode ser correta em um momento, pode se revelar num grande fracasso em outras circunstâncias. Por isso, o gestor precisa sempre estar atualizado, estabelecendo um sistema eficiente de informações e desenvolver uma especial habilidade que é saber lidar com a incerteza, com a mudança que é permanente. estamos prontos? Você está pronto? certamente que não. Mas se sentirá mais seguro se souber analisar a sociedade e as tendências que passam por gerações, por idosos, solteiros, lGBt, tudo junto e misturado, formando um imenso caldeirão de diversidade e de possibilidades. Objetivos esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de: » conhecer a importância de monitorar a sociedade e suas transformações. » identificar possibilidades mercadológicas a partir de segmentos como idosos, solteiros, baixa renda, lGBt. » identificar características das diferentes gerações, tanto para a atuação comercial quanto gerencial. 1 AulA DESAfIOS DA SOCIEDADE E DA EmPrESA COntEmPOrânEA 8 AulA 1 • DESAfIOS DA SOCIEDADE E DA EmPrESA COntEmPOrânEA Desafios do marketing na atualidade Você já deve ter se perguntado por que determinadas estratégias dão certo num local, numa empresa e depois são um grande fracasso em outras circunstâncias ou instituições. Um exemplo disso são as sandálias Havaianas. Você talvez nem se lembre, mas esse símbolo de modernidade, ícone fashion, já foi classificado como atestado de pobreza na década de 1990. Mas, o que realmente mudou de lá para cá no produto Havaianas? Pois é, isso é marketing em sua essência! Ainda não se convenceu? Pois então refresque a sua memória e lembre que não faz muito tempo, iogurte era sinônimo apenas de café da manhã. hoje em dia, com o aparecimento das “iogurterias”, virou sinônimo de lanche. nunca buscamos tanto a igualdade. curtimos, compartilhamos, adicionamos. Mas, será que é a igualdade a fonte do sucesso de uma instituição, cidade ou país ou a aposta deve ser na desigualdade? estamos preparados para lidar com diferenças? enquanto postamos e atualizamos nossosperfis, mais da metade da população brasileira não possui acesso à internet em seus domicílios. Ao mesmo tempo em que o consumismo tem levado ao aumento do endividamento, não prestamos atenção que o jovem da classe c movimenta bilhões de reais por ano com o próprio salário e, além disso, o mesmo jovem que vai ao baile funk e se diverte, é aquele que também toma as decisões, faz as compras no supermercado e cursa uma universidade. essas e muitas outras questões tornam esse momento único na trajetória do universo da gestão e demandam quebra de pré-conceitos. demandam um olhar para o novo. casamento civil entre pessoas do mesmo sexo; pessoas acima de 60 anos, que um dia criaram a adolescência e estão criando agora a “envelhescência”; classes c e d como alvo da busca por novos mercados; pessoas que consideram muito melhor ter um bom plano de previdência, prevendo uma boa aposentadoria, do que planejando seus casamentos. resultado: nunca fomos tão desiguais, nunca precisamos considerar tanto os diferentes. É nesse espírito que o marketing, para ser eficiente, precisa de uma série de norteadores. elementos que permitirão aos profissionais lidar com o contraditório e, principalmente, com a incerteza. As organizações do século XXi serão muito mais voltadas para o coletivismo e comunicação com diferentes agentes dentro de um segmento, do que para o individualismo e isolamento vigente até o início desse período de transformações. o que se apresenta para os próximos anos se caracteriza por um espaço cada vez mais ocupado pela inovação tecnológica, pela sustentabilidade, pela comodidade e pela integração. A empresa contemporânea, criada e recriada de acordo com a ótica tradicional da revolução industrial, ao mesmo tempo em que é responsável por fomentar a diversidade de estilos de vida, crenças e atitudes, terá de se reinventar. A busca pela inovação permanente se dará em meio a 9 DESAfIOS DA SOCIEDADE E DA EmPrESA COntEmPOrânEA • AulA 1 conflitos de gerações em função de pelo menos quatro grupos com idades diferentes trabalhando lado a lado na mesma empresa. outro ponto que demandará uma mudança de trajetória será o setor de qualidade de vida, dimensão cujas fronteiras se ampliam a cada dia, englobando a diversão, que passa a ser considerada um negócio. setores como turismo, cultura, turismo de negócios e entretenimento cada vez mais são vistos como oportunidades de mercado. tudo permeado por uma gestão ambiental, sustentabilidade e responsabilidade social das empresas que englobarão não apenas questões de meio ambiente, mas uma postura realmente de atuação ambientalmente sustentável e condução de negócios adequados à diversidade sociocultural de um ambiente globalizado. Assim sendo, a gestão no sentido de “estratetizar” deve, sim, ser o foco de qualquer empresa. o problema fundamental das empresas atualmente é o fato de não distinguirem entre planejar e “estratetizar”. Planejar tem a ver com programar, não com descobrir. Planejar é para tecnocratas, não para sonhadores. dar aos planejadores a responsabilidade de criar a estratégia é como pedir a um pedreiro que crie a Pietà de Michelangelo. não se trata de diminuir o trabalho do planejamento, mas de adotar posturas mais sonhadoras quanto ao futuro, sob pena de ficar preso a paradigmas decadentes. ter visão estratégica significa conhecer tanto o negócio restrito quanto amplo da organização, seu posicionamento, sua diferenciação, o ambiente no qual a empresa se encontra inserida a fim de que oportunidades possam ser aproveitadas e ameaças contornadas e/ou minimizadas. esse conhecimento precisa ser construído nos profissionais que se encontram empregados e naqueles que desejam empreender. Sociedade em transição na trajetória da humanidade, nenhuma outra sociedade viveu sob a égide da mudança permanente como a sociedade contemporânea. em nenhum outro momento os indivíduos tiveram plena consciência de estarem presenciando uma revolução cujas consequências estão alterando as concepções de mundo, de espaço e de tempo que impõem uma dinâmica diferenciada para responder às demandas da humanidade. cabe ressaltar que essa realidade vem em consequência da revolução da base técnico-econômica que traz consigo profundas modificações sobre a estrutura produtiva mundial e que possui grandes alicerces, a saber: » Abandono do modelo de industrialização “fordista” utilizado pelas nações que procuravam inserir-se no cenário competitivo mundial. » rápida obsolescência dos produtos em circulação atualmente. 10 AulA 1 • DESAfIOS DA SOCIEDADE E DA EmPrESA COntEmPOrânEA » crescente valorização do conhecimento, considerado ativo intangível e que resulta em patentes e licenciamentos. » economia ou sociedade informacional. » era, economia ou sociedade do conhecimento ou do aprendizado. » capacidade de acompanhamento do progresso técnico-científico em evolução no mundo e escolha da estratégia de preparação para o futuro. » capacidade de responder rapidamente às transformações do mercado e às demandas da sociedade. » estratégias de benchmarking no sentido de buscar as melhores práticas, adaptá-las à realidade da empresa e implementá-las. » Aquisição de bens de capital que viabiliza o processo de aprendizagem tecnológica. » internalização de valores de responsabilidade social, justiça e ética profissional. tudo isso dentro de uma formação humanística e visão global que habilite o gestor a compreender o meio social, político, econômico e cultural em que está inserido e a tomar decisões em um mundo diversificado e interdependente, desenvolvendo formação técnica e científica para atuar na administração das organizações, além de desenvolver atividades específicas da prática profissional em consonância com as demandas mundiais, nacionais, regionais e locais. Ganham centralidade valores como ética, busca de uma imagem autêntica e compatível com o marketing institucional, compromisso de seus colaboradores com aprendizagem e renovação, capacidade de aprendizagem organizacional que privilegie o relacionamento com os clientes e fomente a lealdade para com as instituições. o conhecimento com base disciplinar registrado internacionalmente levou 1.750 anos para duplicar pela primeira vez, contando a partir do princípio da era cristã; depois disso, duplicou a cada 150 anos e, por fim, a cada 50 anos. Atualmente, ele é multiplicado por dois a cada cinco anos, e projeta-se que, em 2020, duplicará a cada 73 dias. estima-se que a cada quatro anos duplica a quantidade de informação disponível e como os analistas observam, somos capazes de dar atenção apenas a cerca de 5% a 10% dessa informação. As tendências contemporâneas irão demandar uma nova formação profissional, bem como um novo olhar empresarial, capaz de compreender as necessidades e, mais que isso, os desejos mais intrínsecos desse novo perfil de consumidores. A partir dos primeiros anos do novo século XX, a economia e o mercado foram afetados pela crise e instabilidade. A expansão experimentada anteriormente com foco na competição local e numa empresa que ditava as regras no mercado, vem perdendo cada vez mais força graças a uma competição de natureza mundial, em que o cliente ganha centralidade. em função de avanços tecnológicos que levam à ascensão das mídias sociais, entra-se na era da 11 DESAfIOS DA SOCIEDADE E DA EmPrESA COntEmPOrânEA • AulA 1 participação, com pessoas criando, consumindo notícias, ideias, entretenimento e influenciando suas redes de contatos com uma intensidade cada vez maior. os produtos que antes eram padronizados, com longos ciclos de vida e cuja inovação se dava por etapas, tornam-se obsoletos cada vez mais rapidamente, com ciclos cada vez mais curtos e com inovação contínua. Além disso, não basta mais apenas vender os produtos. É necessário compreender as reais necessidadesdos clientes, entender o que este ou aquele bem significa em suas mentes e em seus corações. compreender isso significa dar um importante passo na direção da construção de uma identidade da marca, que deve contemplar um posicionamento singular no mercado e também ser relevante para as necessidades e os desejos racionais dos consumidores, sem deixar de considerar os valores mais profundos deste ou daquele grupo. (kotler, 2010) o que se apresenta para os próximos anos caracteriza-se por um espaço cada vez mais ocupado pela inovação tecnológica, pela sustentabilidade, pela comodidade e pela integração, a saber: » “Tapete vermelho”: os consumidores chineses serão o grande alvo das empresas, as quais procurarão realizar ações no sentido de valorizá-los e atender a suas necessidades. » “Saúde: faça você mesmo”: as inovações tecnológicas darão mais autonomia aos cidadãos e permitirão com que cada um seja capaz de cuidar de sua saúde. novos aplicativos e aparelhos vão permitir aos consumidores monitorar sua saúde. esses aplicativos são voltados para as pessoas que buscam prevenção, exames, monitoramento e cuidado. » “Comprador-chique”: cada vez mais pessoas têm buscado preços melhores, ofertas e descontos. Além da própria economia, o que está em jogo são outros sentimentos como a emoção, a caça, o controle e a sensação de esperteza, fazendo com que se transforme em fonte de status também. » “Ecocycology”: as marcas adotarão ações no sentido de reciclá-los da melhor maneira possível. isso porque os consumidores estão cada vez mais conscientes das implicações de suas compras, tanto pelo valor financeiro ou material quanto ecológico. » “Sem dinheiro vivo”: engloba práticas que, em pouco tempo, deixarão de lado as notas e moedas. os pagamentos móveis criarão um ecossistema totalmente novo, movido a dados, com recompensas, histórico de compras, ofertas, e assim por diante, embora seus precursores ainda apresentem a conveniência como principal atributo. » “Base da pirâmide urbana”: emergência de uma imensa gama de consumidores oriundos das classes mais baixas e que com a melhora em sua renda passam a ter acesso ao consumo, passando a demandar produtos de consumo, voltados para a saúde e durabilidade, mas sem que se esqueça da falta crônica de espaço. 12 AulA 1 • DESAfIOS DA SOCIEDADE E DA EmPrESA COntEmPOrânEA » “Contribuição sem esforço”: os consumidores, em sua grande maioria, apesar de desejar contribuir, acham que é muito difícil e trabalhoso. É por isso que cada vez mais serão criados produtos e serviços que fazem com que seja absolutamente simples contribuir com qualquer coisa, desde informar sobre ruas que precisam de conserto até os locais onde estão e o que estão fazendo. » “Marcas humanas”: marcas que apresentam algumas falhas e que são humanas. Marcas que são honestas a respeito de suas falhas, que demonstram humildade, flexibilidade e maturidade. » “Cultura da tela”: a “vida” vai acontecer por meio de telas cada vez mais difundidas, pessoais, envolventes e interativas. será o meio pelo qual muitas tendências vão se manifestar. haverá a convergência de grandes correntes tecnológicas: as telas serão (ainda mais) onipresentes/móveis/baratas/sempre ligadas; interativas e intuitivas (por meio de telas sensíveis ao toque, tablets, e assim por diante). » “Recomércio”: significa “trocar por descontos”, aproveitando o valor de compras antigas. As pressões financeiras e/ou éticas serão cada vez mais aliviadas com a ajuda de novos programas de recompra de produtos e plataformas on-line que possibilitem soluções inteligentes para os consumidores que querem maximizar sua satisfação e utilidade. » “Maturidade emergente”: os consumidores estão cada vez mais maduros e não aceitam ser mal tratados. estão muito mais abertos às inovações mais ousadas e já não se chocam com tanta facilidade, estando mais dispostos a viverem experiências mais arriscadas. » “Aponte & saiba”: cada vez mais se buscará recompensas instantâneas de informação visual. cada vez mais a realidade aumentada fará parte do chamado mundo real com uma interação maior a cada dia. Acessar informações sobre produtos, comprar só com o reconhecimento da imagem, será a tônica nesta questão. (trend wAtchinG, 2012) Além disso, é necessário que tanto a sociedade quanto a empresa contemporânea estejam preparadas para lidarem com diferentes expectativas e posturas por parte dos indivíduos que as integram e também que consomem produtos e serviços, trazendo consigo inúmeras possibilidades para os empreendedores. Atuar de maneira competitiva nesse mercado de tantos desejos, formar profissionais e empreendedores capazes de perceber a essência dessa natureza humana que, ao mesmo tempo em que se apresenta imutável em seus valores mais profundos, se transforma numa velocidade sem precedentes em atitudes múltiplas, constitui-se num dos grandes desafios das instituições atualmente. 13 DESAfIOS DA SOCIEDADE E DA EmPrESA COntEmPOrânEA • AulA 1 Tendências no Brasil Classe C no ano de 2003 a Nielsen divulgou uma pesquisa intitulada O Discreto Charme da Baixa Renda. Foi uma pesquisa pioneira, talvez a primeira vez em que começou a se falar em baixa renda. Algo bastante estranho até então, porque se olharmos para o final dos anos 1980 e início dos 1990, cerca de 75% das vendas de bens de consumo eram feitas para consumidores integrantes da classe média dos países desenvolvidos. Uma das questões que levou a essa mudança de visão é que já naquela época a capacidade de compra dos pobres brasileiros chegava a 372,5 bilhões de reais, o equivalente a 42% do consumo nacional. Já em 2014, uma pesquisa intitulada Faces da Classe Média, da serasa Experian/Data Popular apontou para uma classe c formada por pessoas que ganham de r$ 320 a r$ 1.120, conforme o quadro a seguir: quadro 1. Classe Nomenclatura Renda per capita E Extremamente pobre Até r$89,00 D2 Pobre, mas não extremamente pobre. r$89,01 até r$178,00 D1 Vulnerável r$178,01 até r$320,00 C3 Baixa classe média r$320,01 até r$485,00 C2 Média classe média r$485,01 até r$705,00 B Alta classe média r$705,01 até r$1120,00 A Alta classe alta Acima de R$2.728,00 A pesquisa apontou para algumas tendências importantes: » se a classe média brasileira formasse um país, seria o 12º do mundo em população e a 18ª nação em consumo, podendo pertencer ao G20. » A classe c, como também é conhecida, gastou mais de r$ 1,17 trilhão em 2013 e movimentou 58% do crédito no Brasil. » segmento composto por 108 milhões de pessoas (54% da população), com previsão de chegar a 125 milhões em 2023. o que representaria 58% da população. » no período de 2014-2015, a classe média consumiu 8,5 milhões de viagens nacionais, 6,7 milhões de aparelhos de tV, 4,8 milhões de geladeiras, 4,5 milhões de tablets, 3,9 milhões de smartphones, 3,2 milhões de viagens internacionais, 3 milhões de carros e 2,5 milhões de casas ou apartamentos. 14 AulA 1 • DESAfIOS DA SOCIEDADE E DA EmPrESA COntEmPOrânEA » os gastos com alimentação lideram o consumo da classe c (r$ 223,3 bilhões em 2013). em seguida, vêm os gastos com saúde (r$ 71,8 bilhões) e vestuário (r$ 61,6 bilhões). Idosos num ranking divulgado pelo Global Age Watch 2014 sobre a qualidade de vida dos idosos, o Brasil foi classificado na 58ª posição de um total de 96 países. Foram considerados como fatores a expectativa de vida, o bem-estar psicológico, além de renda, transporte e segurança. hoje, o número de brasileiros idosos corresponde a 17% do total da população do Brasil – são quase 24 milhões de pessoas com mais de 61 anos. segundo o iBGe, até 2055, o número de pessoas com mais de 60 anos superará o de brasileiros com até 29 anos. os motivos para esse resultado é o aumento da expectativa de vida em função de avanços namedicina, aumento de renda, escolaridade e proporção de domicílios com saneamento adequado. segundo o Data Popular, o rendimento dos idosos no Brasil em 2013 atingiu 446 bilhões de reais em um ano, o que corresponde a 21% da massa de rendimento total do País. os idosos têm buscado mais autonomia, assistência especializada e são mais exigentes, e no Brasil, o envelhecimento é também uma questão de gênero. em consequência da mortalidade masculina, as mulheres predominam entre os idosos. Vale lembrar que novas funcionalidades precisam ser pensadas e desenvolvidas. isso engloba desde instalações adaptadas até produtos com design mais funcional, voltado para certas limitações naturais do avançar da idade. Solteiros outro grupo importante é composto por brasileiros que moram sozinhos, os solteiros. intensos, inconstantes, impulsivos e entusiastas. seu mercado tem uma denominação específica conhecida como single. sofisticado e exigente, esse público adora comodidade e qualidade, mesmo que tenha que pagar mais por isso. Prezam pela praticidade e não têm tempo a perder e constituem um mercado que cresce 6% ao ano, segundo o iBGe. o grande problema é que, mesmo com essas iniciativas, os solteiros ainda pagam alto por essa comodidade. ser solteiro acaba pesando mais no bolso do consumidor. Alguns produtos voltados para solteiros custam, proporcionalmente, até 20% mais que os da versão “tamanho família”. o novo foco dos supermercados são os solteiros e aumentam a cada dia as opções de produtos em porções pequenas e até individuais. Para atender esse público, as grandes redes também apostam em vender comidas prontas para o consumo, como saladas de frutas e mix de legumes. Para não restringir a dieta a comidas industrializadas e congeladas, a sugestão é que os solteiros 15 DESAfIOS DA SOCIEDADE E DA EmPrESA COntEmPOrânEA • AulA 1 preparem molhos caseiros em substituição aos que já vêm prontos junto com os macarrões instantâneos, por exemplo, e deixar carnes separadas no congelador. LGBT Um dos segmentos mais promissores é o lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (lGBt) figura 1. Fonte: LGBT Capital / *por ano. conforme o quadro movimentam Us$ 3 trilhões/ano no mundo e internacionalmente, o termo gay vem sido explicado como good as you (tão bom quanto você). segundo o iBGe, 30% é o que gastam a mais em bens de consumo, 43% a mais com lazer e 64% a mais com cosméticos dos que os heterossexuais. 78% dos gays têm cartão de crédito. 40% estão em são Paulo; 14% no rio de Janeiro; 8% em Minas Gerais e 8% no rio Grande do sul. 36% pertencem à classe A; 47% à classe B, e 16% à classe c. Além disso, 57% têm nível superior, 40% médio e 3% ensino fundamental. estão entre os consumidores mais leais e entusiasmados e priorizam as empresas que focam a diversidade. Algumas empresas têm estratégias bem definidas para esse segmento: IBM Possui quatro gerências de vendas exclusivas para lidar com consumidores gays. comitês de lésbicas, Gays, Bissexuais e transgêneros (GlBt) da iBM. o comitê é formado por funcionários e sua função é promover a diversidade dentro da empresa. considerada uma das empresas mais Gay Friendly do mundo. 16 AulA 1 • DESAfIOS DA SOCIEDADE E DA EmPrESA COntEmPOrânEA American life resolveu apostar no chamado pink money (dinheiro cor-de-rosa) e lançou o Vida Freedon, o primeiro seguro de vida para casais gays do País, com o slogan: “quem ama cuida. Quem cuida faz Vida Freedom”. A aceitação do seguro foi tão boa que acabou chamando a atenção da Tecnisa Construtora, que se propôs a dar um ano de seguro para cada casal gay que comprar um de seus apartamentos. American Airlines em 2006, a American Airlines lançou o site Rainbow, com conteúdo e promoções específicas para o público lGBt. Foi a primeira empresa a garantir que os casais homossexuais que fossem agendar uma viagem de lua de mel, pudessem se registrar como casais do mesmo sexo ao fazer uma reserva. Tecnisa em 2003, começou a publicar anúncios em sites da comunidade gay e obteve excelente retorno, o que incentivou a companhia a aumentar o investimento nesse público. Além de oferecer treinamento específico sobre o assunto para os funcionários, a empresa começou a prestar atenção nas preferências desse público na hora de comprar um apartamento. A empresa percebeu que uma das tendências mais adotadas pelo público gay era a customização dos apartamentos. Para o acabamento, o casal homossexual gasta 25% do valor do apartamento, enquanto os heterossexuais não aplicam mais de 12%. eles também gostam de cozinha americana, banheira de hidromassagem, ducha higiênica, closet, salas espaçosas, espaço gourmet, academia e piscina com raia. A partir dessa percepção, a empresa pode planejar melhor novos lançamento e direcionar melhor as vendas para esses clientes. os gays, segundo a Tecnisa, gostam de banheiras com hidromassagem e mármore carrara italiano. hoje, 12% das vendas da Tecnisa (que não divulga faturamento) vêm do público lGBt. o ponto alto foi uma campanha de divulgação de um empreendimento focada nesse público em 2009. A propaganda mostrava duas cuecas penduradas em um varal com a frase “Mais cedo ou mais tarde, vocês vão morar juntos”. A repercussão positiva fez com que a empresa fosse reconhecida como gay friendly e se tornasse referência entre o público lGBt. “não construímos prédios cor-de-rosa. Apenas divulgamos que somos uma empresa que aceita a diversidade.” 17 DESAfIOS DA SOCIEDADE E DA EmPrESA COntEmPOrânEA • AulA 1 Itaú A instituição vem dialogando nas redes sociais de forma natural com os gays. no dia dos namorados deste ano, um desenho no Facebook composto por um casal heterossexual teve agregado um casal de gays e um de lésbicas com a frase “Feliz dia dos namorados do seu Jeito”. Para a Parada Gay de são Paulo, uma das maiores do mundo com mais de três milhões de participantes, o Itaú também parabenizou a diversidade por meio da bandeira do movimento lGBt e da frase “A gente é laranja, mas é feito para todas as cores”. Gerações o século XX trouxe mais 30 anos de expectativa de vida. em 2050, 22% dos habitantes deste planeta terão mais de 60 anos. serão mais pessoas com 60 anos do que crianças com idade inferior a cinco anos. Para se ter uma ideia do que isso representa, basta pensar que, se no início da geração dos Baby Boomers (1945-1960), a expectativa de vida era de 43 anos, em 2015, quando se chega aos 50 anos, se está começando a segunda metade da vida. o desafio é se preparar para viver essa segunda fase. o sentido de autodesenvolvimento na contemporaneidade passa pela capacidade de reinventar o curso de vida e desenvolver novas competências. implica romper com a natureza do aprendizado adquirido no primeiro terço da vida, da experiência conquistada no longo espaço de tempo voltada para o trabalho produtivo para depois entrar na aposentadoria, mas em breve buscar novas atividades, novas redes de contatos, que levem a novos códigos, que conduzam à flexibilidade, sob pena de, ao se chegar aos 85 anos, ser o único sobrevivente de um círculo de relacionamentos. (kAlAche, 2008; codrinGton, 2010) As transformações pelas quais a sociedade contemporânea tem passado não se processaram de maneira automática. Foram iniciadas com a geração que emergiu logo após a Primeira Grande Guerra, conhecida como Tradicionais, nascidos entre 1925 e 1945. É uma geração que surgiu em meio a antagonismos. sofreram as consequências da Grande depressão de 1929, bem como amadureceram com os ideais do modernismo, revendo conceitos e formas de atuação. Precisaram reconstruir o mundo, realizar sacrifícios, sobreviver. Para tal, desenvolveram características como a praticidade, a rigidez, o respeito às hierarquias e às empresas onde trabalham, valorizando como nenhuma outra geração o emprego e a obediência,sendo leais ao extremo com suas organizações. (hoBsBAwM, 1994) A característica da rigidez teve como resultado a emergência de uma geração que, de certa maneira, procurou romper com esse padrão de comportamento, mostrando-se mais libertária e otimista, resgatando uma realidade predominante nos anos 1920, conhecidos como Anos Loucos. os Baby Boomers, definição genérica para crianças nascidas durante uma explosão populacional do período imediatamente após a segunda Guerra Mundial, compreendido entre 1946-1960, 18 AulA 1 • DESAfIOS DA SOCIEDADE E DA EmPrESA COntEmPOrânEA pôs em prática padrões que começaram a emergir com a modernidade tecnológica da década de 1920, quando foi abolido o espartilho e adotada a saia curta, e os cabelos, cortados à moda chanel, emolduravam novos ritmos como jazz, tango e samba, numa época em que o direito ao voto foi também estendido às mulheres. Foi esse sentimento de descontinuidade, associado à modernidade que, terminado o segundo grande conflito, foi resgatado pela geração que emergiu e trabalhou pela reconstrução do mundo. (hoBsBAwM, 1994; Veloso, 2008) figura 2. http://simplesmenteelegante.com/wp-content/uploads/2010/04/elvis.jpg. os Baby Boomers nasceram em uma época de reconstrução, de otimismo, e acreditavam em sua capacidade de mudar, de melhorar o mundo. eles reinventaram tudo. criaram a adolescência. Ao viverem em paz, tiveram tempo de inventar essa construção que é a adolescência. Fizeram a revolução sexual, os Beatles, e vão criar a “envelhescência” – grande revolução dos próximos anos, quando o ato de envelhecer será autônomo e com maiores possibilidades. “Aquele aforismo, que diz que o único empecilho para que você atinja todos os seus objetivos é você mesmo, vale para essa geração. eles, no entanto, sabem que não mudaram o mundo. Por isso, ainda estão no mercado” (BereZin, 2011, p. 1). essa visão idealista, ativa, pode ser descrita por um Boomer do pós-guerra por meio da comoção causada pelos assassinatos de John kennedy e Martin luther king, além dos protestos pelos direitos civis e as conquistas que levaram à liberdade sexual. (hoBsBAwM, 1994). os Boomers estão decididos a compartilhar suas experiências e pretendem se manter ativos, sem prazo de validade, no melhor estilo de “aposentados ficavam seus avós”... (hoBsBAwM, 1994; Veloso, 2008) com uma forte característica de pregar a liberdade e a paz, aos Baby Boomers seguiu-se a Geração X. essa geração emergiu junto com a revolução sexual e o movimento hippie. tem sua data de nascimento, localizada, aproximadamente, entre os anos 1961 e 1980. em função da grande incerteza que permeava a sociedade em seus primeiros anos, a Geração X decidiu romper com as gerações anteriores. As desilusões com os ideais de seus antecessores os tornou céticos politicamente. Buscaram a individualidade sem a perda da convivência em grupo, dando muito valor à liberdade. A ruptura com a geração de seus pais se reflete também na questão do emprego. Muitos dos integrantes da Geração X, aos 35 anos já estão em um trabalho sem 19 DESAfIOS DA SOCIEDADE E DA EmPrESA COntEmPOrânEA • AulA 1 nenhuma relação com a área na qual se formaram. o trabalho por sinal não está no topo de suas prioridades. os integrantes dessa geração querem flexibilidade, viagens, diversão, liberdade. É possível que a profissão só apareça em quinto lugar. não veem com satisfação décadas de trabalho numa mesma empresa. o que realmente importa para essa geração é a oportunidade de desenvolvimento, de empregabilidade, com um trabalho mais independente, flexível e criativo. Prezam uma informalidade maior e um equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Foi uma geração que assistiu ao aumento substancial da participação feminina no mercado de trabalho e, portanto, passaram a dar mais valor ao sexo oposto. embora não integrem o verdadeiro nativo digital, sentem-se à vontade com a tecnologia, integrando os migrantes digitais como nenhum outro grupo. (BereZin, 2011; kUntZ, 2009) A Geração X lida muito bem com a mudança. tem preferência pelo caos e quando não estão no turbilhão das transformações, encontram formas de colocar tudo à sua volta em movimento, de mudar a sua realidade. temem perder espaço para a geração Y e são apegados a títulos, cargos, gostam de deixar claro a posição em que estão, porque é mérito de muito esforço. Gostam de agir de maneira isolada no trabalho, mas são flexíveis e apreciam a lealdade. Foram treinados, talhados a trabalhar e esperar um momento em que receberiam o reconhecimento e subiriam um degrau na hierarquia da empresa. Assim como seus antecessores, são muito comprometidos com os valores da empresa. Pagaram com cruzeiro, cruzado e cruzado novo. conheceram a Aids, pintaram a cara e derrubaram o presidente da república no Brasil. (Veloso, 2008; sAntos; Ariente; diniZ, 2011) composta por filhos da Geração X, que assistiram à revolução tecnológica, e netos dos Baby Boomers, a geração seguinte é classificada como Geração Y. Apesar de não haver um consenso, a maioria da literatura se refere a esse grupo como pessoas nascidas entre os anos 1981 e 1995. diferentemente da Geração X, que cresceu em meio a incertezas, os integrantes da geração Y foram impactados por fatores como os protestos na Praça da Paz celestial na china. Assistiram à derrubada do Muro de Berlim e unificação da Alemanha. Junto com esse acontecimento, viram ruir o comunismo no leste europeu. Acontecimentos como esses ajudaram a moldar a natureza desses adolescentes conferindo-lhes maior segurança na escolha dos caminhos a serem percorridos. esses adolescentes da metade dos anos 1990 eram consumistas não de roupas, e, sim, de eletrônicos. hoje, enquanto conversam, respondem a mensagens instantâneas, falam ao celular, monitoram seus contatos nas redes sociais, assistem à televisão, e ainda arrumam tempo para a vida offline. Buscam como nenhuma outra geração, empreender, criar e inovar, ao mesmo tempo em que visam ao equilíbrio entre a vida pessoal e profissional muito mais profundamente que a Geração X. (AVediAni, 2011) Para que uma empresa atraia profissionais da Geração Y é fundamental que haja uma liderança com estilo mais participativo e que o reconhecimento e a possibilidade de promoção em espaços de tempo reduzidos seja uma realidade. (ViAnA, 2008) As empresas observam que os jovens dessa geração, ao mesmo tempo em que carecem de maturidade e vivência para lidar com 20 AulA 1 • DESAfIOS DA SOCIEDADE E DA EmPrESA COntEmPOrânEA situações adversas, possuem uma imensa predisposição para lidar com as mudanças, rejeitando veementemente a rotina, tendo uma grande capacidade de aprendizado muito mais rápida e ágil que seus antecessores. (AdediAni, 2012) têm habilidade de sobra para executar tarefas simultâneas e velozes, mas carecem de foco e aprofundamento. cresceram jogando videogame, ouvindo música e acessando a internet, portanto, tecnologia faz parte da vida desses jovens. são os donos da maioria dos blogs e também povoam a maioria das comunidades e redes sociais. estão sempre conectados. Procuram informação fácil e imediata. Preferem computadores a livros. Preferem e-mails a cartas. digitam ao invés de escrever. Vivem em redes de relacionamento, nas quais compartilham tudo o que é seu: dados, fotos, hábitos. outras características marcam também essa geração. Valorizam muito as empresas socialmente responsáveis, são consumidores leais, buscam autenticidade em conteúdos e não são tão facilmente influenciáveis pelas propagandas como seus antecessores. (ViAnA, 2008) constantemente conectados a dispositivos portáteis, sentindo-se à vontade quando ligam ao mesmo tempo televisão, rádio, telefone, música e internet, os integrantes da Geração Z, nascidos entre 1996 e 2009, têm como um dos maiores desafios entender quais informações realmente serão relevantespara os diferentes processos decisórios. trazem traços de comportamento das gerações anteriores, aliados a uma forte responsabilidade social, além da preocupação com a sustentabilidade local e do planeta. Uma das visões mais importantes é que enquanto a geração Y ainda assistiu a um mundo analógico, a geração Z é totalmente digital. Além disso, possuem baixo nível de concentração, senso de urgência nas respostas da mesma forma quando pesquisam em sites de busca. Permanecem o tempo todo conectados, com receio de que alguma informação considerada importante seja deixada para trás. Valorizam muito a comunicação e o chamado presentismo é a tônica das relações caracterizadas pelas vivências muito mais temporárias, permeadas por uma agressividade muito maior. Buscam também o prazer imediato. “construir o futuro” não seria uma frase típica e, sim, “quero, posso, desgosto, quero outro”. outra característica é a busca pela autenticidade. não desejam mudar suas características e esperam que não sejam solicitados para isso. Para tal, esperam ter o direito de escolher modelos, cores, estampas, sabores. suas comunicações são muito mais por imagens e não têm medo do erro, em que a exemplo dos videogames, tentativa e erro fazem parte da passagem de uma fase para outra. Para essa geração a globalização é uma realidade, pois foram acostumados desde o berço a um mundo sem fronteiras. defendem também o direito de discordar e esperam que as empresas sejam autênticas e com ações voltadas para a diversidade. A Geração Z já não é a última. A novíssima Geração Alfa, com nascidos a partir de 2010, será caracterizada pela instrução e educação. nenhuma outra terá tanto acesso ao conhecimento humano como esta que agora começa a se formar. Além disso, o excesso de informação, mudanças sociais aceleradas e uma conectividade e mobilidade globais trazem como desafios imediatos 21 DESAfIOS DA SOCIEDADE E DA EmPrESA COntEmPOrânEA • AulA 1 para adultos (pais e professores) o desenvolvimento da capacidade de orientá-los no sentido tanto pessoal e emocional quanto tecnológico, este último pautado pelos princípios da cidadania digital. E os gestores, para onde devem caminhar? É possível observar que se as gerações que viveram o século XX tiveram como desafio, adaptar-se ao mundo novo, racional-técnico-científico, que resultou dos ideais iluministas e da revolução Francesa, mas, principalmente, do mundo do trabalho que ganhou centralidade em função da revolução industrial e sua busca por eficiência; as gerações Y, Z e Alfa têm pela frente o desafio de alinhar progresso a desenvolvimento humano, algo que não foi conquistado por seus antecessores que se concentraram muito mais no que podia ser feito do que no como deveria ser produzido e se deveria ser criado. A conta não é pequena, mas as novas gerações parecem vir com um dispositivo diferente: dinâmicos, inquietos, familiarizados com o mundo digital e as quinquilharias tecnológicas, sabem usar a tecnologia, mas têm consciência de que precisam encontrar uma dimensão sustentável para a ideia de progresso no século XXi. Vão viver mais, precisam de um mundo melhor, que os abrigue nessa faixa etária que antes era colocada à parte da vida produtiva. Parece que o mundo se encontra numa encruzilhada entre os desafios, a comunicação entre tantas gerações que convivem diariamente e enxergam a mesma realidade com valores e pontos de vista distintos. todos estão com a razão sobre algo, mas nenhum é o dono da verdade. A efetividade de suas percepções depende em grande parte do diálogo e da troca de experiências com pessoas de outras gerações. o mundo do trabalho, desde o século XX, assim como as empresas são ocupam uma parcela significativa demais de tempo e espaço da existência humana, para subestimar seu impacto. As organizações devem ser responsabilizadas pelos rumos do desenvolvimento, pelos produtos e serviços que põem no mercado, assim como pelo ritmo e natureza de atividade que impõem aos seus colaboradores. essa permanente construção e desconstrução, passado e presente forjando o futuro, têm permitido que seis grupos geracionais continuem convivendo, o que seria impensável até algumas poucas décadas atrás. o que se apresenta para os próximos anos é moderno, dinâmico, virtual, mas será sempre com boas doses de pessoalidade embasadas por resgates de alicerces que foram importantes para esta ou aquela geração e que contribuirão para a diversidade do específico ou darão especificidade às diferenças que cada nova geração busca imprimir ao mundo no qual se desenvolve. 22 AulA 1 • DESAfIOS DA SOCIEDADE E DA EmPrESA COntEmPOrânEA A palavra de ordem é aprender com os diferentes para criar uma lógica plural de existência, que contemple a tradição, a experiência, mas esteja aberta para a mudança, as inovações, sem perder de vista a sustentabilidade, afinal há um compromisso ético que independe de que geração se faz parte: o de garantir que o planeta tenha condições de acolher e cuidar daqueles que nesse mundo vivem e, principalmente, esteja em condições de receber as próximas gerações de nossa espécie. resumo Vimos até agora: » o marketing é algo multi: multicultural, multigeracional, multigênero. isso faz derivar uma lógica que não se pauta na previsibilidade. os gestores precisam mapear o ambiente, mas, também, ter a consciência de que a qualquer momento este pode mudar e as decisões precisam ser rápidas para que as empresas consigam manter a lucratividade. » o segmento de baixa renda, especialmente composto por integrantes da classe c consumiu elevados valores no ano de 2014 e passou a ser reconhecido como importante a partir de 2003. » os idosos compõem uma parcela cada vez mais expressiva do mercado consumidor. com uma população envelhecendo cada vez mais, as empresas brasileiras precisarão desenvolver estratégias específicas para esses consumidores. » outro segmento que vem crescendo a passos largos é o de solteiros. cada vez um número maior de pessoas tem preferido morar sozinho e o chamado mercado single tem se expandido fortemente. » Um segmento que também tem demonstrado ótimos resultados é o lGBt. empresas como iBM, tecnisa, itaú, entre outras têm apostado na diversidade e conquistado a lealdade dessa fatia expressiva da população. » hoje em dia, gestores precisam estar preparados para, pelo menos cinco grupos geracionais convivendo numa mesma empresa e comprando o mercado consumidor. com a expectativa de vida aumentando, tradicionais, Baby Boomers, X, Y e Z participam das mesmas decisões, mas querem individualidade. e a geração Z já não é a última, a esta se segue a geração Alfa, composta pelos nascidos a partir de 2010 e que serão os grupos com maior nível de educação e possuidores de habilidades múltiplas. 23 Apresentação nas últimas décadas, os serviços ganharam destaque na experiência de consumo dos clientes. diferentemente dos bens físicos, os serviços possuem características próprias que, bem gerenciadas, podem levar à promoção de experiências de consumo diferenciadas para os clientes. nesta aula, você conhecerá as características dos serviços e algumas de suas implicações também estão na pauta. espera-se estimular sua reflexão quanto às ações necessárias para promover uma experiência de serviço diferenciada para os clientes. Boa leitura! Objetivos esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de: » Analisar as empresas com base nas tendências da sociedade contemporânea. » reconhecer que não existem práticas de mercado vitoriosas. » reconhecer a importância dos serviços. » reconhecer as características dos serviços e algumas de suas implicações. » Fazer uso do conteúdo apresentado para desenvolver meios para promover uma experiência de consumo diferenciada em serviço. 2 AulA A ImPOrtânCIADOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS 24 AulA 2 • A ImPOrtânCIA DOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS A importância do serviço certo numa sociedade em transformação na economia global, as fontes de aumento de produtividade estão cada vez mais dependentes da informação e do conhecimento. A produção nas sociedades capitalistas avançadas mudou de bens materiais para atividades de processamento de informações. Mudou da produção em massa para uma produção flexível, personalizada. o atual paradigma pautado nas tecnologias da informação vem em consequência da revolução da base técnico-econômica que traz consigo profundas modificações sobre a estrutura produtiva mundial. A essas características somam-se a crescente valorização do conhecimento, considerado ativo intangível e que resulta em patentes e licenciamentos que ocorrem em uma economia ou sociedade da informação que tem seu ponto de partida na sociedade do conhecimento ou do aprendizado. em paralelo, para proteger esse conhecimento, as economias de ponta adotam medidas protecionistas, formação de grupos de pesquisa, barreiras técnicas e toda uma gama de pressões por parte da indústria e sindicatos. Além disso, a última década do século XX e os primeiros anos do presente século trouxeram consigo um ambiente de mudança cuja abrangência pode ser comparada apenas às mudanças que ocorreram com o advento da revolução industrial. Produção, matérias-primas, mão de obra e capital adquiriram dimensões planetárias trazendo a grande máquina humana para o centro dos processos no qual se encontram informação e conhecimento, bem como a existência ou não da capacidade em decodificar e selecionar os novos insumos de acordo com as necessidades em uma empresa na qual se dá o processo inovador. o entendimento do comportamento do consumidor é um dos pontos fundamentais para o sucesso das estratégias de marketing. É uma das tarefas mais difíceis em virtude das inúmeras variáveis que cercam os clientes. traduzido por volta de 1954 por mercadologia, o marketing, que em inglês significa muito mais, “ação no mercado”, foi definido como: Marketing é a área do conhecimento que engloba todas as atividades concernentes às relações de troca, orientadas para a satisfação dos desejos e necessidades dos consumidores, visando alcançar determinados objetivos de empresas ou indivíduos e considerando sempre o meio ambiente de atuação e o impacto que essas relações causam no bem-estar da sociedade. (lAs cAsAs, 1997, p. 8) É esta definição o ponto de partida para compreender o conceito tanto de produtos quanto de serviços, no sentido de que cada grupo de clientes tem uma demanda, uma percepção, em função de sua base sociocultural. nos anos 1990, o cliente passou a ter sua importância reconhecida. É importante salientar que as empresas devem ser capazes de identificar seu perfil, não esquecendo que novos clientes 25 A ImPOrtânCIA DOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS • AulA 2 são uma minoria. com isso, a definição de Marketing passa a ser: ciência e arte de conquistar e manter clientes e desenvolver relacionamentos lucrativos com eles, onde o cliente passa a ser entendido como parceiro. Alguns pontos derivam destas considerações » Globalização: as empresas, hoje, não devem apenas pensar em mercados nacionais, mas, também, em mercados internacionais. As empresas necessitam seguir essas tendências, preparando-se para atuar em diferentes mercados com diferentes exigências. Portanto, hoje não basta conhecer apenas um mercado, é necessário conhecer vários, para garantir e alcançar objetivos de uma organização, principalmente quanto a recurso de vendas. » Valorização do consumidor: apesar de ser citada como a origem do marketing na década de 1950, a valorização do consumidor passou a ser enfatizada muito na década de 1990. Além da pressão da concorrência, isso também aconteceu pelo fato de outras áreas de Administração reconhecerem que o poder está mesmo no cliente. » Valorização dos funcionários: também se constatou que, na década de 1990, uma empresa sem marketing interno não permite a motivação dos funcionários para se levar adiante qualquer plano. As empresas devem preocupar-se não apenas em conquistar os clientes externos, mas, também, os internos, os funcionários da empresa. com base nessas questões, o quadro a seguir traz a comparação entre a empresa de antes e a de agora. É importante destacar que, embora as tendências sejam reais e nunca a sociedade tenha passado por tantas mudanças como a partir do ano 2000, não existem fórmulas prontas dentro do universo do marketing, ou seja, nem todo bom produto tem sucesso e nem um mau produto caminhará sempre para o fracasso. quadro 2. ANTES DEPOIS Faz tudo na própria empresa Terceiriza Melhora por sim mesma Faz benchmarking Vai adiante sozinha Colabora em rede Foco Doméstico Foco global Voltada para o produto Voltada para o mercado e o cliente Produtos padronizados Produtos personalizados Foco no produto Foco na cadeia de valor Prática Marketing de massa Prática marketing direcionado Encontra uma vantagem competitiva sustentável Continua inventando vantagens Desenvolve produtos novos lentamente Acelera o ciclo de desenvolvimento de produtos Opera np mercado físico Opera também bo mercado virtual fonte: Kotler, 1999. 26 AulA 2 • A ImPOrtânCIA DOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS A partir dessa comparação, pode ser levantada a seguinte questão: existem práticas de mercado vitoriosas? A seguir, são enumeradas nove práticas consideradas vitoriosas, juntamente com suas limitações. o importante é conhecer a fundo quem são os clientes (kotler, 1999): » Vencer pela qualidade superior se uma empresa automobilística proclama boa qualidade, o que isso significa? seus carros têm maior confiabilidade no arranque? eles aceleram mais rapidamente? clientes dão importância a coisas diferentes e, portanto, uma garantia de qualidade sem definições adicionais não significa muito. » Vencer pelo melhor atendimento dizer que se oferece o melhor atendimento não é o bastante. como exemplo pode-se analisar um restaurante. Alguns clientes preferem que o garçom venha rápido, anote o pedido corretamente e traga logo a comida. outros sentem que isso é querer se livrar rápido deles. » Vencer devido aos preços mais baixos A estratégia de baixo preço funcionou para muitas empresas, contudo, as líderes em preço baixo têm que tomar cuidado. Um concorrente pode, de repente, entrar no mercado com um preço mais baixo, o que, por si só, não basta. Uma medida de qualidade e atendimento também deve se fazer presente para que os clientes sintam que estão comprando com base no valor, e não apenas no preço. » Vencer devido a uma alta participação no mercado em termos gerais, as empresas líderes em participação no mercado ganham mais dinheiro do que suas concorrentes mais fracas. elas desfrutam de economias de escala e maior reconhecimento de marca. há um efeito carro-chefe e os clientes que estão comprando pela primeira vez o tipo de produto que oferecem sentem-se mais confiantes comprando delas. » Vencer devido à adaptação e à customização Muitos compradores desejam que os fornecedores modifiquem seus produtos ou serviços para incorporar aspectos especiais de que necessitam. Uma empresa pode desejar que a Federal Express faça o recolhimento de sua correspondência diariamente às 19 horas e não às 17. essas necessidades podem representar uma oportunidade para o vendedor. entretanto, para muitos fornecedores, o custo de adaptar sua oferta a cada cliente pode ser muito alto. A customização em massa tem funcionado para algumas empresas, porém outras podem considerá-la uma estratégia não lucrativa.» Vencer mediante melhorias contínuas nos produtos Melhorias contínuas nos produtos é uma estratégia sólida, especialmente se a empresa puder ser a líder nesse item. Mas nem todas as melhorias são valorizadas. Quanto mais 27 A ImPOrtânCIA DOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS • AulA 2 os clientes estariam dispostos a pagar se soubessem de um sabão em pó melhor, de uma lâmina de barbear mais afiada ou de um automóvel mais veloz? Alguns produtos atingem seu limite de melhoria possível e o aperfeiçoamento seguinte acaba não fazendo muita diferença. » Vencer devido à inovação no produto É verdade que algumas empresas altamente inovadoras, como a Sony, conseguiram lucros substanciais com o lançamento de novidades fantásticas, mas a empresa média não mostrou grandes resultados com o lançamento de novos produtos. o índice de fracasso de novos produtos de consumo direto de uma marca reconhecida ainda gira em torno de 80%; na área de produtos industriais, esse índice fica em torno de 30%. o dilema de uma empresa é que, se ela não lançar novos produtos, provavelmente “evaporará”; se os lançar, poderá perder muito dinheiro. » Vencer por entrar em mercados de alto crescimento Mercados com altas taxas de crescimento, como os de aplicações de semicondutores, biotecnologia, robótica e telecomunicações, são atraentes. Algumas empresas líderes de mercado fizeram fortuna nesses setores. Mas a empresa média que entra em um mercado de alto crescimento fracassa. Quando o mercado aceita a marca de certa empresa como padrão, ela começa a desfrutar crescentes volumes de vendas e retorno. o pacote Office da Microsoft tornou-se um padrão, e outras boas alternativas foram colocadas de lado. Um problema adicional é que os produtos se tornam obsoletos com demasiada rapidez nesses setores de alto crescimento, e as empresas têm que investir constantemente para manter-se atualizadas. elas mal começam a ter lucro com o último produto e já está na hora de investir no desenvolvimento de seu substituto. » Vencer superando as expectativas do cliente Um dos clichês mais populares em marketing, hoje, é dizer que uma empresa vitoriosa é aquela que está sempre superando a expectativa dos clientes. Atender às expectativas do cliente irá apenas satisfazer os clientes; excedê-las irá encantá-los. clientes maravilhados com um fornecedor têm muito mais probabilidade de continuar clientes. o problema é que quando as expectativas de um cliente são superadas, ele as eleva da próxima vez. A tarefa de superar as mais altas expectativas torna-se mais difícil e onerosa. no final, a empresa acaba tendo que se conformar em simplesmente atender às expectativas mais recentes. A importância dos serviços não é mais novidade que as empresas devam trabalhar para oferecer a seus clientes, produtos e serviços que atendam a suas necessidades. “Foco no cliente” ou, para alguns, “foco no foco do 28 AulA 2 • A ImPOrtânCIA DOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS cliente”, tem sido a orientação vigente para organizações que desejam manter um relacionamento de longo prazo com esses clientes. os serviços têm um papel importante nesse contexto. o conserto do carro, a ida ao dentista ou uma consulta médica, em que se recebe um serviço “puro”, não estão ligados a um bem tangível. Mas, ainda que algumas empresas ofereçam ao mercado bens tangíveis, dificilmente esses estarão desassociados de algum tipo de serviço. Pense em uma padaria, por exemplo. o pão que você consome lhe é entregue por um colaborador da casa, da mesma forma que, ao pagá-lo, outro colaborador interage diretamente com você: o caixa. Parte do serviço da padaria, nesse caso, tem a ver com seu relacionamento com os colaboradores do estabelecimento. Características dos serviços Primeiramente, vejamos como a American Marketing Association (AMA) e autores relevantes em Marketing, como kotler e keller (2006), definem os serviços: Atividades, benefícios ou satisfações que são colocados à venda ou proporcionados em conexão com a venda de bens (AMericAn MArketinG AssociAtion, 1981). Qualquer atividade ou benefício que uma parte possa oferecer a outra, que seja essencialmente intangível e que não resulte propriedade de alguma coisa. sua produção pode ou não estar ligada a um produto físico. (kotler e keller, 2006, p. 397). observe que as definições apresentadas destacam a diferença dos serviços em relação aos bens físicos, decorrente de suas características: intangibilidade, inseparabilidade, heterogeneidade e perecibilidade. Vejamos o que dizem hoffman et. al. (2009, p. 32-34) sobre estas características: figura 3. Intangibilidade Inseparabilidade Heterogeneidade Perecibilidade Fonte: Elaborada pelo autor 29 A ImPOrtânCIA DOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS • AulA 2 Intangibilidade figura 4. Intangibilidade Impossibilidade de armazenagem e perecibilidade Falta de proteção por meio de patente Dificuldade para mostrar ou comunicar serviços Dificuldade para determinar preços de serviços Fonte: Elaborada pelo autor diferentemente dos bens físicos, que podemos pegar, sentir, ver etc., os serviços não podem ser “vistos, sentidos, degustados ou tocados”. Quando você compra um carro, por exemplo, tem na sua frente um objeto de desejo tangível, cujo estilo é possível ver. outros aspectos, como o desenho e a cor, deverão contribuir à sua avaliação do produto. se pensarmos nos bancos do carro, você pode tocá-los, experimentá-los e avaliar a qualidade do material utilizado na sua fabricação. É claro que outras informações devem se somar àquilo que você vê quando decide pela compra de um carro. Mas o fato é que, diferentemente de um serviço “puro”, sua avaliação é objetiva. A intangibilidade do serviço o sujeita a avaliações subjetivas, decorrentes da experiência que se vive. Um exemplo clássico é a ida ao cinema em que, para se viver a experiência do serviço, paga-se para se obter “um direito” (o bilhete da sessão representa esse direito). Ao contrário do exemplo do carro, no cinema sua avaliação será afetada por aquilo que outras pessoas lhe contaram sobre o filme, o que leu sobre ele e sua própria experiência. dessa forma, ao final da sessão de cinema, você “volta para casa com uma lembrança da experiência e o único elemento físico é um mero canhoto do bilhete de ingresso”. Impossibilidade de armazenagem e perecibilidade Alguns bens físicos podem ser estocados, de modo a atender os clientes em momentos de maior demanda. Agora, pense nos serviços de um laboratório: é possível estocar os exames e utilizá-los em datas posteriores? não. naturalmente, exames são solicitados em decorrência de uma necessidade real. da mesma forma, os estacionamentos não podem jogar para outro dia o preenchimento de vagas que não foram usadas no dia de ontem, por exemplo. 30 AulA 2 • A ImPOrtânCIA DOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS o primeiro exemplo ilustra a impossibilidade de se armazenar serviços e o segundo, o quão perecíveis são os serviços. hoffman et. al. ressaltam que tais características têm como consequência o fato de que “os clientes são obrigados a esperar pelos serviços desejados” (procurar pela disponibilidade de agendamento de exames, por exemplo) e “os provedores de serviços estão limitados na quantidade que podem vender pela quantidade que podem produzir” (é o caso da limitação de espaço físico, oferecido por um estacionamento). Falta de proteção por meio de patente os autores chamam a atenção para o fato de que os serviços não podem ser patenteados. “não há o que patentear já que se trata de trabalho humano e esforço, que não são protegidos”, dizem. lembram, ainda, que os processos patenteados pelas empresas, na verdade, têm por trás umamaquinaria tangível que, essa, sim, é patenteada. A principal implicação, nesse caso, é o fato de que serviços, uma vez que não sejam patenteados, são mais fáceis de serem copiados por outras empresas. ou seja, não é simples manter um serviço como diferencial competitivo de mercado. Dificuldade para mostrar ou comunicar serviços como já mencionado anteriormente, não é possível ver ou experimentar um serviço antecipadamente, a exemplo do que se faz quando se trata de um bem físico. esse é o ponto que hoffman et. al. destacam: o desafio de comunicar um serviço se não é possível vê-lo. nesse caso, a comunicação é mais abrangente que a simples divulgação do produto. Algumas empresas têm se esforçado para, por meio de uma comunicação eficiente, transparecer qualidade ou vantagem para o cliente, estimulando-o a fazer uso dos serviços que oferecem. As apólices de seguro são um exemplo desafiador. Por que pagar por um seguro contra incêndio que, eventualmente, o cliente nem venha a usar? Mais do que isso, o que diferencia a compra desse seguro da empresa A, se comparado à oferta da empresa B? Dificuldade para determinar preços de serviços os bens físicos têm atrelados a si um custo de produção sobre o qual se aplica um percentual ou valor predeterminado, chegando-se ao valor final. na prestação de serviço, seja o profissional um dentista ou um professor particular, ambos terão certa dificuldade em estabelecer um preço a cobrar por seu trabalho. Você pode até alegar que o trabalho do dentista deve ser associado aos custos que tem em seu consultório, mesmo assim, sua habilidade, que deve diferenciá-lo de outros profissionais, não equivale a um percentual de mark-up, por exemplo. no caso do professor, os investimentos (financeiros ou não) efetuados ao longo de sua vida, como formação acadêmica, compra de livros, participação em seminários e congressos, somados à sua habilidade e experiência, são “custos” que não podem ser cobrados diretamente dos clientes. Aí reside a dificuldade, ainda que alguns profissionais se utilizem de um valor médio de mercado para cobrar pelos serviços prestados. 31 A ImPOrtânCIA DOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS • AulA 2 Inseparabilidade figura 5. Inseparabilidade Presença física do provedor de serviços Envolvimento do cliente no processo de produção Envolvimento de outros clientes no processo de produção Desafios especiais da produção de serviços em massa Fonte: Elaborada pelo autor Pense na experiência em um salão de beleza. diferentemente da produção de bens físicos em que, muitas das vezes, o cliente não está presente, no salão os clientes participam do serviço antes, durante e depois que ele acontece. no caso do serviço da manicure, por exemplo, a marcação da hora (feita presencialmente ou não) é parte do serviço, bem como o cumprimento do horário marcado. o processo de espera, caso aconteça, também. não à toa alguns recursos são utilizados para manter o cliente “ocupado” nesse momento: revistas, televisão, cafezinho, água etc. A interação do cliente com os profissionais do salão (recepção, manicure, caixa e outros), da mesma forma, fazem parte desse tipo de serviço. daí a condição de inseparabilidade conferida ao serviço. A inseparabilidade reflete as interconexões entre o provedor de serviços, o cliente que recebe o serviço e os outros clientes que compartilham a mesma experiência [...]. refere-se à (1) conexão física do provedor de serviços com o serviço prestado; (2) envolvimento do cliente no processo de produção do serviço; (3) envolvimento de outros clientes no processo de prestação de serviço. (hoFFMAn et. al., 2009, p. 36). Presença física do provedor de serviços Assim como no exemplo do salão de beleza, muitos serviços têm clara a presença física do prestador de serviço (médicos, dentistas, empregadas domésticas, entre outros). Apesar da intangibilidade do serviço, a inseparabilidade traz consigo aspectos tangíveis nessa relação, que são avaliados pelos clientes: a roupa do prestador de serviço, a linguagem utilizada por ele, 32 AulA 2 • A ImPOrtânCIA DOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS cuidados com a higiene etc. são detalhes que afetarão a experiência do cliente e sua avaliação quanto à qualidade do serviço oferecido. hoffman et al. (2009, p. 38) lembram que a relação da empresa com seus colaboradores tem impacto no serviço oferecido. Pode-se esperar que empresas que primem por colaboradores bem treinados, ambiente adequado à prestação de serviço, relações profissionais de respeito e valorização, por exemplo, tenham influência positiva na relação do colaborador com o cliente. o contrário, da mesma forma, pode impactar negativamente na avaliação do cliente sobre a experiência de serviço vivida. Envolvimento do cliente no processo de produção Outro tópico não menos importante quando o tema é a inseparabilidade do serviço diz respeito à presença do cliente no “processo de produção do serviço.” (hoFFMAn et al., 2009, p. 38-39). três aspectos destacam-se neste contexto: » o ambiente é mais um fator de avaliação do serviço na perspectiva do cliente, ou seja, as condições apresentadas (espaço físico, limpeza, layout etc.) contribuem para o resultado da avaliação; » o ambiente deve ser dimensionado de modo a acomodar adequadamente o cliente na “fábrica de serviço” (a recepção e sala de atendimento médico, por exemplo); » Alguns serviços são altamente dependentes da participação do cliente para que o resultado seja satisfatório (a descrição dos sintomas ao médico, por exemplo). Você conhece a Maternidade Perinatal? trata-se de uma instituição de destaque no rio de Janeiro que aplica em sua gestão conceitos da hotelaria hospitalar. leia o texto de apresentação da instituição, retirado de seu site (www.perinatal.com.br): A Perinatal nasceu em 1985 no rio de Janeiro como resultado do trabalho de um grupo pioneiro que há décadas investe na busca por excelência no cuidado médico, tendo como foco único o atendimento pleno a gestante e ao recém-nascido. A Perinatal é aprovada por mães e recomendada por médicos, e vem consolidando através dos anos a posição de referência nacional no tratamento de gestações e recém-nascidos de alto risco.[...] o GrUPo PerinAtAl iniciou com a PerinAtAl lArAnJeirAs oferecendo um atendimento diferenciado e recursos tecnológicos de ponta, associados a um ambiente acolhedor como de uma “casa de Parto”. A PerinAtAl lArAnJeirAs rapidamente consolidou-se como referência para quem procura assistência de qualidade. [...] a Perinatal é mais do que uma maternidade de qualidade reconhecida por obstetras, pediatras e pais. É um centro de referência no atendimento de mães, fetos e recém-nascidos, antes, durante e depois do parto, inclusive em casos de risco ou emergências. [...] em 2009 o GrUPo PerinAtAl dá mais um passo para se consolidar definitivamente como a primeira escolha quando o assunto é cuidado a gestantes e recém-nascidos: a inauguração da PerinAtAl BArrA. em um espaço 33 A ImPOrtânCIA DOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS • AulA 2 totalmente novo, projetado desde o início incorporando os mais modernos conceitos na assistência médica a fetos, gestantes e recém-nascidos a PerinAtAl BArrA já nasceu campeã. seu projeto recebeu o GrAnde PrÊMio de ArQUitetUrA corPorAtiVA - sessÃo hosPitAlAr de 2007. hoffman et al. (2009, p. 41) afirma que “à medida que o contato com o cliente aumenta, a eficiência da operação diminui”. os autores exemplificam a afirmação com serviços em que o volume de clientes aumenta em determinado momento (hora do almoço em restaurantes, concentração de carros para lavar próximo ao fim de semana, reparos em roupas próximo a datas festivas etc.). os prestadores de serviço são desafiados a equilibrara qualidade do serviço oferecido, com o volume de clientes e suas demandas específicas. Afinal, é mais fácil administrar demandas especiais em restaurantes, fora do “horário de pico”, não é mesmo? há, ainda, outros serviços em que demandas diferentes podem concentrar-se independentemente do período específico. na emergência dos hospitais, por exemplo. sem motivo específico, uma emergência pode estar cheia de doentes, cada um trazendo para o hospital uma demanda específica. em serviço, a participação do cliente pode ter papel fundamental na qualidade da resposta do prestador de serviço. Por exemplo, nos restaurantes do tipo self-service, servir-se é parte significativa da participação do cliente; nos consultórios médicos, a qualidade da consulta depende da capacidade do cliente em descrever seus sintomas; lojas que vendem produtos que podem ser montados em casa, dependem da habilidade do cliente em fazê-lo, entre outros. Envolvimento de outros clientes no processo de produção como já citado, muitos clientes podem utilizar-se dos serviços simultaneamente. Uma das implicações gerenciais diz respeito ao ambiente em que se passa a prestação do serviço. o ambiente deve ser dimensionado de modo a acomodar o cliente na sua relação com o prestador de serviço e outros clientes com quem venha a interagir (como no caso do salão de beleza). outro aspecto importante diz respeito à experiência vivida pelos clientes. como no exemplo do parque de diversões, o volume de pessoas pode impactar a avaliação da experiência positiva ou negativamente. espera-se que muitos clientes frequentem parques de diversão, conferindo dinâmica especial à experiência, pela diversão, alegria, agitação, entre outros aspectos, envolvidos no serviço. no entanto, o gerenciamento do uso dos brinquedos, especialmente a fila que se forma, pode trazer à tona incidentes críticos que podem comprometer a percepção do cliente sobre o serviço. importa primar pelo gerenciamento adequado do serviço oferecido (incluindo o ambiente e as relações que se dão nesse contexto). hoffman et al. (2009) lembram que “os seres humanos, criaturas sociais, tendem a frequentar lugares e a se sentirem confortáveis onde há outras pessoas”. o que justifica, em muitos casos, a escolha do bar mais cheio, do show em que os ingressos se 34 AulA 2 • A ImPOrtânCIA DOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS esgotam mais rapidamente, do cinema em que o filme está fazendo sucesso, entre outras situações em que muitos clientes se juntam na busca pelo mesmo serviço. Desafios especiais da produção de serviços em massa hoffman et al. (2009:45) ressaltam alguns desafios ligados à produção de serviço em massa e, em seguida, sugere meios para sobrepô-los ou, ao menos, minimizar seus efeitos. Como lidar com a limitação profissional no atendimento de um número máximo de clientes, uma vez que o profissional está diretamente ligado ao serviço que fornece? Aspectos relativos à seleção e treinamento são colocados em resposta a esta pergunta. Quanto mais adequados ao serviço forem os colaboradores (e isso inclui não só a formação do profissional, mas, também, características de comportamento) maiores chances de que contribua para garantir percepção positiva do cliente diante do serviço recebido. As atividades ligadas a treinamento e desenvolvimento somam-se a isso. Programa de ambientação, capacitação básica, capacitação específica etc., são importantes para promover certa consistência ao serviço prestado, independentemente do profissional disponível para atender o cliente. Veja o que diz a filosofia de atendimento do instituto de depilação Pello Menos (www.pellomenos. com.br): Atendimento sem hora marcada e sem escolha da profissional o Pello Menos tem como filosofia de atendimento colocar à disposição de suas clientes, profissionais para atenderem sem hora marcada, para que você não perca tempo com esperas e desculpas por eventuais atrasos. nossas profissionais são submetidas a um rígido treinamento técnico e passam por constantes avaliações para que possam manter um excelente padrão de atendimento. Como fornecer serviço suficiente para satisfazer a demanda do mercado de massa? Para serviços presenciais, ênfase para a multilocalização de estabelecimentos para o fornecimento do serviço, de modo a facilitar o deslocamento do cliente. As lojas podem ser próprias (pertencentes ao mesmo dono) ou franquias. tomando o exemplo do instituto de depilação Pello Menos, há, ainda, um esforço no sentido de prover os clientes da mesma qualidade de serviço, qualquer que seja a loja da cadeia em que sejam atendidos. A ideia é que não importa em que loja da Pello Menos você vá, o serviço refletirá sua filosofia de atendimento. outra forma de garantir a entrega de serviço para o mercado de massa é fazê-lo virtualmente. Já experimentou consultar sites de astrologia on-line? o Astral On Line (www. astral-online.com) é um exemplo de acesso ao serviço, sem precisar se deslocar até o fornecedor. 35 A ImPOrtânCIA DOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS • AulA 2 Que meios podem ajudar os profissionais na prestação de serviço? hoffman et al. (2009, p. 46) sugerem algumas práticas que podem melhorar a entrega do serviço e evitar problemas decorrentes da inseparabilidade: separar fumantes de não-fumantes (como em bares e restaurantes), enviar antecipadamente para o cliente quaisquer formulários, cujo preenchimento possa ser adiantado à prestação de serviço (seguro, assistência médica etc.); e implantar sistema de reserva ou lugares marcados (por exemplo, em eventos). Você nota que as práticas sugeridas não são exatamente uma novidade, já que deve ter experimentado ao menos uma das modalidades relacionadas. no entanto, dois pontos merecem destaque: 1. com que qualidade tais práticas têm sido aplicadas? Veja o que declara um consumidor no site Reclame Aqui (www.reclameaqui.com.br): “comprei um cupom para jantar no restaurante X e fiz a reserva no site Y para o dia 17/6/12 às 20h. Porém, ontem (dia da reserva) tive a desagradável surpresa de chegar e encontrar o estabelecimento fechado. isso é um desrespeito! exijo o reembolso do valor pago!” (o nome do restaurante e do site foram suprimidos desta declaração). 2. Que outras melhorias podem surgir, inspiradas naquilo que já existe? não raro, nos fins de semana, formam-se filas nas portas dos restaurantes pela espera de lugares vagos. em alguns estabelecimentos, a venda de chopp na fila já se tornou comum. A Pizzaria Braz, do rio de Janeiro (www.brazpizzaria.com.br), melhorou a ideia e, mais do que servir chopp e petiscos para os clientes em espera, colocou mesas e cadeiras na parte externa do restaurante, criando mais um ambiente para os clientes. Assim, esperar por alguém se tornou uma experiência mais agradável e confortável para quem tem que, em média, esperar por 40 minutos para conseguir uma mesa vaga na pizzaria. Heterogeneidade figura 6. Heterogeneidade Customização Padronização Fonte: Elaborada pelo autor 36 AulA 2 • A ImPOrtânCIA DOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS É relativamente fácil identificar heterogeneidade na oferta de serviço, uma vez que é praticamente impossível reproduzir uma experiência integralmente. As pessoas envolvidas no serviço podem mudar de um evento para o outro; as condições ambientais, da mesma forma; também os consumidores mudam em seu comportamento, entre outros fatores que podem afetar a experiência no serviço. o esforço do prestador de serviço, no entanto, deve ser, no mínimo, de evitar que muitos erros aconteçam de uma só vez. Um consumidor que vai até uma lavanderia buscar uma camisa, é mal atendido na recepção, espera muito tempo até que se localize o produto e, ainda na mesma experiência, não recebe o produtoconforme contratado, não deve atribuir qualidade à experiência vivida. outra medida que exigirá esforço do prestador de serviço será manter certa consistência na qualidade de sua oferta, de modo que o consumidor saiba, ao menos, o que pode esperar de determinado serviço. se toda vez que você vai ao restaurante de sua preferência é recebido com um sorriso, chamado por seu nome (supondo que você seja conhecido no estabelecimento) e perceba o esforço do prestador de serviço em tornar sua experiência especial, mesmo que alguma condição seja alterada, atribuirá consistência à qualidade do serviço oferecido. se você parar para pensar, esse é um dos motivos que o estimula a voltar ao mesmo restaurante repetidas vezes. nesse exemplo, não se despreza a importância na consistência da oferta do produto (a comida), mas enfatiza-se a percepção positiva do cliente, diante de um serviço consistente. Customização hoffman et al. (2009) abordam o tema customização do serviço indicando a prática como uma vantagem, uma vez que é quase impossível reproduzir exatamente uma experiência de serviço. os autores lembram que a customização busca atender os clientes em suas necessidades especiais. Assim, se o prestador de serviço é capaz de entregar um serviço customizado para seu cliente, pode deter vantagem competitiva em relação aos concorrentes. Você conhece a “limo Princess”, um serviço de limousine oferecido no rio de Janeiro? segundo informa em seu site, trata-se da “pioneira em serviços de limousine na cidade” que, além da diferenciação do produto (uma limousine cor-de-rosa, com acessórios que remetem ao requinte), pretendem se destacar pela oferta de um serviço customizado, de acordo com o que desejar o consumidor. 37 A ImPOrtânCIA DOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS • AulA 2 diz no site (www.limoprincess.com.br): A limo star rio surpreende mais uma vez, trazendo para o Brasil a primeira limousine rosa. [...] A liMo Princess é uma limousine diferente e encanta a todos pela sua beleza e requinte de detalhes, sua pintura especial e delicada com gliter, banco em couro, luzes, 03 tvs de led, som de boite, raio laser, neon, estrela panorâmica e teto solar, adereços para fotos divertida, decoração encantadora, além de um serviço personalizado, liMo Princess faz questão de se importar com detalhes e de proporcionar momentos inesquecíveis independente de idade e comemoração. Você pode fazer dos seus momentos alegres, inesquecíveis! liMo Princess uma limousine especial. [...] A liMo PriMcess faz de seu evento um momento único. de acordo o perfil da sua festa a liMo Princess faz questão de atendê-lo com excelência oferecendo serviço especializado, parceiros consolidados, como também profissionais capacitados. Busca fazer itinerário de acordo seu desejo com paradas em pontos turísticos; são conrado, Mirante do leblon, leme, copacabana Palace, ou outros para fotografar e filmar. seja aniversario, formatura, casamento, transfer, night, buscar na maternidade, passeios, promoção de marcas e outros, com certeza, seu evento será marcante. hoffman et al. chamam a atenção, no entanto, para o fato de que, em alguns casos, a customização pode levar à cobrança de valor superior ao cliente, em função dos custos envolvidos na operação. Algumas implicações podem ocorrer, nesse caso; o cliente pode não querer pagar pelo serviço, uma vez que o valor cobrado seja superior ao valor esperado; as instruções específicas do cliente para a customização podem tornar a execução do serviço mais demorada que o normal; e serviços customizados podem trazer consigo algum grau de incerteza, já que não seguem um padrão de oferta pré-estabelecido. Veja um exemplo simples: fazer a unha em um salão de beleza. normalmente, paga-se mais por unhas decoradas (unhas desenhadas ou com algum efeito específico) ou por unhas postiças. É um trabalho que exige, no mínimo, habilidade diferenciada do prestador de serviço. Alguns clientes estão dispostos a pagar a mais por ele, outros não; certamente, o serviço demorará mais tempo em sua execução do que fazer a unha sem utilizar tantos recursos; e, se o cliente não está acostumado, pode ficar feliz com o resultado ou ser surpreendido negativamente com o serviço prestado. Padronização Padronização do serviço não é algo fácil de atingir, embora algumas modalidades de serviço já se utilizem dessa prática para melhorar a consistência do serviço oferecido. 38 AulA 2 • A ImPOrtânCIA DOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS Você usa caixa eletrônico? Acha fácil? o serviço do caixa eletrônico é um exemplo de padronização de serviço em que, para satisfazer suas necessidades, o cliente deve ser capaz de digitar o serviço desejado e responder a uma série de perguntas pré-determinadas que o levem ao que deseja. no entanto, você já parou para pensar que é um tipo de serviço que exige certa familiaridade com tecnologia, por exemplo? Assim, cada vez que um banco impõe nova regra para o saque de dinheiro (nova sequência de senhas, por exemplo), pode estar dificultando o processo para clientes pouco afeitos ao uso de máquinas em transações bancárias ou dificuldades para clientes pouco familiarizados com a operação (pessoas de idade avançada, pessoas de baixa escolaridade etc.). outros serviços podem ter, na prática de treinamento e desenvolvimento, um meio de garantir certa consistência ao serviço prestado. os encontros de treinamento são momentos propícios para dividir com os prestadores de serviço o que é esperado deles, quando representam a empresa diante dos clientes. nesse caso, programas de ambientação, convenção de vendas, café da manhã com o presidente, entre outros, também podem ser considerados encontros de treinamento. embora isso não seja garantia de que a empresa alcançará padronização do serviço (lembre-se da heterogeneidade), confere aos colaboradores autonomia para agir e solucionar problemas que, sem treinamento, não seriam capazes de resolver. A rede de hotéis Diamond Resorts International é apresentada em seu site (www.diamondresorts. com) como: marca de hospitalidade global comprometida em prover seus sócios, membros e convidados com simplicidade, escolha e conforto que merecem [...] estamos comprometidos a entregar consistentemente serviços de excelência e os mais altos padrões de satisfação dos clientes através de nossa reconhecida experiência em hospitalidade. Para isso, o presidente da empresa, stephen cloobeck, instituiu a filosofia do “siM” na empresa, para que os colaboradores se sintam também comprometidos em seus esforços de prestadores de serviço, evitando responder “nÃo” às solicitações dos clientes. essa foi a maneira que a empresa encontrou de diminuir a heterogeneidade na prestação de serviço, nos resorts espalhados pelo mundo. Perecibilidade como vocês já sabem, não se pode estocar serviços, transferir capacidade de serviço não utilizada para outro momento, nem inventariar os serviços. Assim, a maior implicação dos efeitos da perecibilidade do serviço diz respeito à capacidade do prestador de serviço em prever a demanda por sua oferta. 39 A ImPOrtânCIA DOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS • AulA 2 se você pensar em um restaurante, pode até imaginar que a demanda aumente nos horários de pico. Já em um hospital, prever a demanda de pessoas por serviço de emergência é bem mais difícil. em decorrência da perecibilidade, alguns problemas podem surgir (hoFFMAn et al., 2009, p. 52-53): » Demanda maior que a oferta máxima disponível, que pode resultar em longos períodos de espera pelo cliente e, em alguns casos, insatisfação (por exemplo, longas filas nos bancos). » Demanda maior que o nível ótimo de oferta, que pode afetar a avaliação do cliente em relação ao serviço oferecido. Vocêcertamente percebe a diferença entre andar no transporte público em horários de menor e maior fluxo de pessoas. A experiência em um ônibus lotado gera, no mínimo, desconforto aos passageiros. » Demanda menor do que o nível ótimo de oferta, que pode afetar a avaliação do serviço, mas, também, a longevidade do negócio. Pense nos caixas de um supermercado. o cenário ideal para o cliente é aquele em que ele tem sempre um profissional disponível para atendê-lo. no entanto, é comum que, em momentos de menor movimento, o estabelecimento opte por diminuir o número de profissionais no caixa, evitando custos desnecessários. A contrapartida é que, em momentos de maior demanda, filas de clientes podem se formar e o tempo de espera para o atendimento se tornar um incômodo para o cliente. A sugestão de hoffman et al. (2009) para administrar as implicações no serviço, geradas pela perecibilidade, aponta em duas direções: no gerenciamento da demanda e da oferta. no primeiro caso, gerenciamento da demanda, os autores sugerem algumas opções: figura 7. Oferta de preços especiais em horários de menor demanda Sistema de reservas Perecibilidade Criação de demanda fora do horário de pico Fonte: Elaborada pelo autor 40 AulA 2 • A ImPOrtânCIA DOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS Oferta de preços especiais em horários de menor demanda, como fazem os cinemas em dias como segunda-feira; restaurantes por quilo, que diminuem o valor cobrado depois de determinado horário ou empresas que oferecem preços diferenciados nas compras feitas pela internet. Assim, parte da demanda é estimulada a deslocar-se para horários de pouco movimento ou, nas compras pela internet, diminui o fluxo de pessoas nas lojas físicas. Sistema de reservas é uma prática conhecida de muitas pessoas, seja por que agendou uma consulta médica, um horário com um massagista ou reservou mesa em restaurante. Por um lado, a reserva controla a demanda, reduz o risco de o cliente não receber o serviço e ajuda a empresa a preparar-se antecipadamente para a prestação de serviço. Por outro, implica o controle da reserva (em alguns casos pode significar aumento de custo), não garante que o cliente comparecerá para receber o serviço e, no caso de atrasos, pode comprometer a agenda do prestador de serviço. Criação de demanda fora do horário de pico é algo que deve ser pensado permanentemente, já que os serviços não comprados pelos clientes não se acumulam para uso em outro momento, certo? então, qualquer ação que estimule os clientes a consumir os serviços fora do horário de pico diminui a chance de que horários fiquem vagos na agenda do prestador de serviço. Uma prática que tem ajudado a preencher agendas de estabelecimentos de serviço é a participação em sites de compras coletivas. dependendo do tipo de serviço oferecido, o agendamento pode ser condicionado a horários especiais, evitando-se que horários produtivos sejam subutilizados. em relação ao gerenciamento da oferta, os autores sugerem algumas opções: figura 8. Contratação de pessoal extra Compartilhamento de capacidade Utilização de terceiros Preparação antecipada para expansão Aumento da participação do cliente no serviço Fonte: Elaborada pelo autor Contratação de pessoal extra para trabalhar em momentos de pico é uma opção que ajuda a gerenciar a oferta, diminuindo os impactos que o excesso de demanda pode gerar. os restaurantes têm como prática a contratação de garçons extras, para trabalharem especificamente nos fins de semana. As lojas de shopping costumam contratar vendedores extras para o período de natal. 41 A ImPOrtânCIA DOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS • AulA 2 Atenção: se, por um lado, o aumento do número de colaboradores pode contribuir para a melhoria do gerenciamento da oferta, por outro pode comprometê-la, caso os colaboradores extras não sejam treinados ou orientados para a adequada prestação de serviço. Fique atento: colaboradores esporádicos tendem a não se sentirem comprometidos com o estabelecimento. cabe aos gestores criarem meios para aproximá-los dos objetivos da empresa. Compartilhamento de capacidade com outros prestadores é outra forma de aproveitamento dos recursos disponíveis. em alguns casos, a prática deve permitir aos cooperantes a expansão de seus negócios. imagine que você tenha um albergue em uma cidade como o rio de Janeiro, em que o turismo está intimamente ligado à frequência na praia. Permitir a divulgação permanente de parceiros como restaurantes, excursões, visitas guiadas etc. pode contribuir para a melhor entrega do produto do albergue, especialmente em dias de chuva. Além de complementar o serviço do estabelecimento, aumenta a renda dos parceiros envolvidos (do albergue, inclusive, que recebe um percentual pela venda do serviço do parceiro). Preparação antecipada para expansão é uma modalidade de gerenciamento da oferta que, em longo prazo, pode ampliar a oferta em si e melhorar o conforto dos clientes. Veja o caso do Shopping nova América, que está em fase de expansão, devendo se tornar o maior multiuso integrado do rio de Janeiro. o espaço em que se iniciaram as operações do shopping center, em breve será complementado por uma série de outras edificações como as áreas Office, Corporate, além da expansão do próprio shopping, ampliando a oferta de serviços e a comodidade do cliente. Para ver como vai ficar, vá até o Youtube e busque “Tour Virtual: Expansão do Nova América”. Utilização de terceiros pode ajudar no gerenciamento da oferta à medida que amplia as possibilidades de o cliente ser atendido em suas necessidades. Por exemplo, para a compra de passagem aérea, os clientes podem utilizar-se das lojas de cada companhia aérea, nos balcões de atendimento no aeroporto, nos sites da companhia, em agências de viagens virtuais (Decolar. com, por exemplo) e físicas. naturalmente, parte desse gerenciamento consiste não só em administrar a oferta, mas, também, eventuais conflitos de interesse, uma vez que a companhia aérea tem tanto interesse em vender suas passagens quanto qualquer um dos terceiros. ofertas competitivas oferecidas por uma agência de viagem, por exemplo, pode afetar a escolha do cliente entre empresas aéreas distintas, estimular a troca do destino de viagem e, até mesmo, dependendo da experiência que tiver com um terceiro, desistir da compra. 42 AulA 2 • A ImPOrtânCIA DOS SErVIçOS E quEStõES DECOrrEntES DE SuAS CArACtEríStICAS Aumento da participação do cliente no serviço deve contornar questões relacionadas não só ao volume de clientes, quanto aos custos envolvidos na operação. Pense na sua participação no serviço oferecido por um restaurante do tipo self-service. Você mesmo se serve e pesa a comida, pelo menos. em um restaurante comum, esse trabalho é feito por um colaborador. ou seja, além de envolver o cliente no serviço, o prestador de serviço elimina a contratação de um novo colaborador. o mesmo pensamento vale para a implantação de caixas eletrônicos nos bancos, compras pela internet, entre outros. A atenção do prestador de serviço deve voltar, no entanto, para as condições em que os clientes participam do serviço. no caso do restaurante, atenção ao ambiente físico com espaço suficiente para a movimentação do volume das pessoas ou às questões relativas à higiene no manuseio da comida, por exemplo; nos bancos, oferta de serviços de fácil entendimento para o consumidor, de modo a que suas necessidades sejam atendidas no menor espaço de tempo; na internet, assim como no caso do banco, caminhos “autoexplicativos” que facilitem a operação para o cliente. resumo nesta aula, vimos que: » os serviços têm características cujas implicações não devem ser desprezadas pelos gestores. » É possível promover uma experiência de consumo diferenciadaem serviço e algumas práticas de mercado podem ser inspiradoras aos gestores neste segmento. 43 Apresentação esta aula destina-se a estimular o aluno a pensar sobre a importância de promover uma experiência de consumo positiva para o cliente. estimula-se que, nesta reflexão, o aluno parta de suas próprias experiências, identificando o que foi bom e o que poderia ter sido feito pelo prestador de serviço para que a experiência tivesse sido memorável. Para tanto, dois outros tópicos são tratados: o composto de marketing expandido para serviços e o modelo de lacunas da qualidade do serviço. o primeiro amplia a perspectiva do gestor do serviço, uma vez que considera, além dos 4Ps originais, o impacto das pessoas, processo e evidências físicas no serviço. os últimos despertam o aluno para a existência de lacunas na oferta de qualidade em serviço (promovidas pelos clientes e pela empresa) que devem ser diminuídas ou eliminadas. Boa leitura! Objetivos esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de: » reconhecer a importância de promover experiências de consumo positivas para os clientes. » Propor ações de marketing baseadas nos itens que compõem o composto de marketing expandido para serviços. » identificar as lacunas na oferta de qualidade em serviço. 3 AulA REFLETInDO SOBRE A ExPERIênCIA DE COnSumO DO ClIEntE 44 AulA 3 • REFLETInDO SOBRE A ExPERIênCIA DE COnSUMO DO CLIEnTE certamente, há lugares que você gosta mais de frequentar do que outros, não é mesmo? Uma padaria, uma livraria, um posto de gasolina, sei lá. Você deve ter bons motivos para voltar aos lugares de que gosta. Você já parou para pensar sobre o porquê de voltar a esses lugares? os motivos podem ser os mais variados: a qualidade do produto, o ambiente convidativo e acolhedor, o atendimento diferenciado etc. de modo geral, tendemos a voltar a consumir nos lugares que nos proporcionam as melhores experiências de consumo. nesse contexto, os serviços têm contribuído para tornar memoráveis tais experiências. Ampliou-se o composto de marketing, originalmente formado pelos 4Ps (produto, praça, promoção e preço), para que outros Ps pudessem ser incluídos: pessoas, processos e evidências físicas (em inglês, physical evidence). o composto de marketing expandido para serviços amplia a perspectiva da empresa em relação aos aspectos da venda que, combinados, devem aproximá- la da excelência na oferta de serviços. o processo não é simples, mas o modelo de lacunas de qualidade dos serviços, nos ajuda a visualizar onde estão as lacunas que desafiam a empresa. Mais do que isso, não só ressalta que há uma lacuna entre as expectativas e percepções do cliente quando consome produtos e serviços, como também nos lembra de que há outras, não menos importantes, que têm a ver com a maneira como a empresa opera. os próximos tópicos tratam, portanto, de três tópicos complementares: a experiência de consumo dos clientes, o composto de marketing expandido para serviços e o modelo das lacunas de serviço. essa aula é um passo importante para sua reflexão sobre para o que é preciso atentar quando sua empresa oferece serviços aos clientes. A experiência de consumo dos clientes As empresas devem priorizar, em seu planejamento de marketing, o desenvolvimento de produtos e serviços que, combinados ou não, “proporcionem valor aos clientes”, como meio para construir relacionamentos de longo prazo com seus clientes. (kotler e ArMstronG, 2007, p. 200). kotler e Armstrong (2007, p. 200) salientam que, já que cada vez mais os produtos e serviços “se comportam com commodities”, só a oferta de produtos e serviços por si só já não basta como meio de garantir diferenciação, frente à concorrência. Por isso, algumas empresas têm se empenhado em promover experiências de consumo diferenciadas para esses clientes. Atenção: é preciso gerenciar essas experiências, sob pena de, ao contrário do que deseja a organização, comprometer a qualidade do “encontro em serviço”. 45 REFLETInDO SOBRE A ExPERIênCIA DE COnSUMO DO CLIEnTE • AulA 3 o “encontro em serviço” corresponde aos momentos de interação do cliente com a empresa, que venham a impactar sua percepção sobre o serviço por ela oferecido. tais “encontros” podem afetar a qualidade do serviço em decorrência das experiências que promovem ao cliente. trazem consigo, portanto, uma dimensão interativa em que a presença de outras pessoas é um elemento essencial em sua experiência, no ambiente de serviço. isso inclui o pessoal de serviço, os processos de interação entre a organização do serviço e o cliente, além da forma de interação entre os consumidores. em uma perspectiva ampliada também outras pessoas (por exemplo, outros clientes) podem afetar as experiências de serviço (GroVe e Fisk, 1997). sabe aquela loja em que você entrou e ninguém o recebeu com um “bom-dia”, ao menos? e a tV por assinatura, que até é boa, mas que, quando cai o sinal de transmissão, o pessoal do telemarketing não o atende com presteza e rapidez? esses são exemplos típicos de encontros de serviço que comprometem negativamente a percepção que o cliente tem da empresa. Por outro lado, o agente de seguros que liga para você quando está próximo do vencimento de sua apólice, para que seu carro não fique descoberto do serviço e também o garçom do restaurante que lhe recebe com um sorriso e busca uma mesa que lhe atenda em suas necessidades, tende a conferir ao serviço prestado “um brilho especial”, não é mesmo? também o espaço físico pode contribuir para encontros de serviço positivos, cabendo às empresas gerenciar os ambientes compartilhados pelos clientes. Grove e Fisk (1997) investigaram o impacto dos clientes na experiência de serviço em um parque de diversões, ressaltando questões relativas ao processo de socialização naquele ambiente e destacando as implicações na experiência dos clientes. Momentos na fila de um parque, por exemplo, podem diminuir ou intensificar encontros de serviços positivos e negativos. Você consegue facilmente perceber a diferença entre estar em uma fila organizada e que “anda rápido” do contrário disso, não é mesmo? também consegue entender o quanto essa experiência afetará sua percepção sobre a ida a um parque de diversões. É possível observar esforços nessa direção, no sentido de proporcionar uma experiência diferenciada aos clientes e, consequentemente, afetar positivamente a sua resposta ao serviço. As ações de marketing devem ser planejadas com o intuito de envolver o cliente em experiências memoráveis que podem, ou não, estar relacionadas diretamente ao produto ou serviço. são campanhas, lançamentos, festas, oferecimento de um serviço experimental ou um até um ambiente favorável a trocas e boas interações entre os clientes (BrAkUs, schMitt & ZArAntonello, 2009). o hotel Faena, em Buenos Aires, pretende criar uma atmosfera de experiência diferenciada desde o que expõe em seu site. no Faena experience (http://www.faenaexperience.com/) é possível encontrar informações sobre o grupo Faena, o hotel (chamado Faena + Universe) e um centro de arte (Faena Art center) que completa a experiência de sofisticação oferecida. A loja da nike, da 46 AulA 3 • REFLETInDO SOBRE A ExPERIênCIA DE COnSUMO DO CLIEnTE mesma forma, cuida para que as fotos, já no site, reflitam a ideia de qualidade e alta performance propostas pela marca. se a orientação em marketing é de que as organizações trabalhem para construir relações de longo prazo com seus clientes, o resultado desse relacionamento será perceptível na medida em que os clientes voltem a consumir os bens e serviços oferecidos pela empresa, que recomendem o consumo a outros, que deixem transparecer sua percepção positiva a respeito das experiências que lhes foram proporcionadas etc. CEM 2.0: Gerenciamento de experiência do clientede alta performance Genérico, manual e reativo não são mais uma opção. Para oferecer uma experiência ao cliente que conquiste novos assinantes e os mantenha satisfeitos, é necessário um círculo virtuoso de insight e capacidades para promover processos de negócios personalizados, holísticos, automatizados e proativos, em tempo real. no mundo de hoje, a experiência do cliente importa mais do que nunca. Gerenciar a experiência do cliente é um caminho claro do operator para a diferenciação e liderança de mercado. de acordo com uma análise da Nokia Siemens Networks de um operator do reino Unido, elevar a satisfação do cliente até o nível médio europeu reduziria as taxas de perda de clientes em 7%. e isso se traduziria em um aumento cumulativo do lucro bruto de mais de 200 milhões de libras esterlinas ao longo de quatro anos. o estudo de Aquisição e retenção da Nokia Siemens Networks apoia essa análise. os últimos resultados mostram que a qualidade da rede e do serviço têm a maior influência sobre a retenção do cliente em mercados maduros. desde 2009, dobrou o número de pessoas que citam a qualidade como a razão para permanecerem com seu operator. A ascensão do smartphone teve clara influência nas expectativas das pessoas por mais qualidade. de fato, os usuários de smartphones são 2,5 vezes mais propensos, do que os usuários de outros dispositivos, a apontar a qualidade dos serviços de mensagem e internet como a razão para permanecerem com seu provedor. não surpreende, portanto, que 39% dos usuários de smartphones afirmem hoje que provavelmente mudarão de operator. tudo isso transforma a questão de como oferecer uma experiência superior ao cliente num objetivo prioritário para muitos operators. Para ajudá-los a atingir esse objetivo, a Nokia Siemens Networks desempenha há tempos um papel pioneiro no desenvolvimento de soluções para Customer Experience Management (ceM), assegurando o primeiro lugar em Subscriber Data Management (sdM), com mais de 1,8 bilhão de assinantes e mais de 100 clientes, assim como 120 projetos de insight de clientes. 47 REFLETInDO SOBRE A ExPERIênCIA DE COnSUMO DO CLIEnTE • AulA 3 Agora, estamos levando o ceM ao próximo nível de desempenho, unindo capacidades de telecom- ti-web em um ceM 2.0 turbinado. Adicionando insight onde importa diferentemente de muitas outras abordagens, o ceM 2.0 colhe dados de insight de clientes de fontes múltiplas, incluindo o desempenho da rede, do serviço e do dispositivo, a experiência em tempo real do assinante e o uso do serviço. essa mina de ouro de informações é crítica para que se identifique onde, quando e como concentrar melhorias em redes e processos de negócios que renderão o retorno mais alto em cada estágio do ciclo de vida do cliente. A realização dessas melhorias requer os melhores processos de negócios do mercado em todas as funções do operator, da garantia à cobrança, do cumprimento ao gerenciamento de campanhas e ao atendimento ao cliente, e mais. com o verdadeiro insight guiando esses processos de negócios, os operators podem promover mudanças fundamentais em suas operações. À medida que os processos se tornam automatizados, holísticos e personalizados, os operators podem agir, em vez de reagir, com base em dados imediatos, em tempo real, de toda a sua organização. Vejamos com mais detalhes como isso funciona na prática. Proativo e em tempo real e não reativo e atrasado Ao monitorar o desempenho da rede e dos serviços em tempo real, os operators ganham um insight valioso para uma resposta proativa. Monitorando como os serviços estão sendo utilizados nesse exato momento, e acompanhando os alarmes da rede e o desempenho da rede em tempo real, eles podem tratar imediatamente de qualquer problema de qualidade de serviço que aparecer. suponhamos que haja um problema na configuração do dispositivo do usuário final. talvez ele não possa fazer roaming ou acessar seu conteúdo. A rede reconhece de forma automática a inconsistência e dispara um alarme. isso, então, aciona o sistema de gerenciamento de dispositivos para que ele acesse os dados de configuração a fim de identificar o ajuste incorreto e, então, enviar os dados corretos ao dispositivo em tempo real. o problema é corrigido proativamente, às vezes antes mesmo de o cliente perceber que há um problema e ligar para o suporte do operator. ou, se o problema não puder ser corrigido, ele é levado para o sistema de registro de problemas, que automaticamente envia uma explicação simplificada para a equipe de atendimento ao cliente, que pode lidar com a questão explicando ao cliente que já está resolvendo o problema. 48 AulA 3 • REFLETInDO SOBRE A ExPERIênCIA DE COnSUMO DO CLIEnTE Experiência do cliente automatizada também é importante sublinhar que toda a ação adotada para identificar e resolver o problema ou para levá-lo ao suporte técnico acontece automaticamente, garantindo alta eficiência e alta velocidade. os processos são gerenciados e implementados em todos os domínios e sistemas, a fim de criar respostas mais poderosas e mais eficientes, efetivamente transformando silos em um processo de negócios holístico. do ponto de vista da experiência do cliente, quaisquer problemas que surgem são resolvidos rápida e efetivamente com o mínimo de ruído, construindo uma excelente impressão com um serviço personalizado superior. o operator atinge esse alto nível de serviço utilizando um profundo insight do cliente para transformar processos genéricos em atenção específica ao assinante. o impacto de uma experiência do cliente tão aperfeiçoada é quase imediato no balanço, traduzindo-se em taxas mais baixas de abandono e em ArPU mais alto, assim como custos operacionais mais baixos em termos de oPeX reduzido e tempo mais rápido para o mercado. Graças ao modelo flexível de entrega da Nokia Siemens Networks, o ceM 2.0 pode ser adaptado para qualquer negócio do operator. A implementação pode ser um projeto pronto para uso cobrindo o projeto e a entrega de processos de negócios, assim como os produtos da Nokia Siemens Networks. ela também pode incluir um projeto de integração de sistemas envolvendo produtos selecionados de terceiros, e o ceM 2.0 está disponível até mesmo na forma de um serviço. em resumo, o ceM 2.0 é a mais completa oferta da indústria para redes e ti e para o ciclo de vida do cliente end-to-end. Para os operators, é a chave para promover fidelidade, eficiência e fluxos de receita. Para os assinantes, é a chave para uma experiência do cliente muito mais imediata, relevante e personalizada. Fonte: Nokia Siemens Network. 2012. www.nokiasiemensnetworks.com.br. Composto de Marketing de Serviços Você deve conhecer o composto de marketing tradicional, não é mesmo? Preço, praça, produto e promoção são os quatro elementos que, de forma combinada, devem refletir a estratégia da empresa em seu esforço de atrair e reter seus clientes. A noção de um composto sugere que todas as variáveis são inter-relacionadas e que dependem umas das outras em alguma medida. Além disso, a filosofia do composto de marketing pressupõe que haja um composto da combinação dos quatro fatores para um dado segmento em um determinado momento. (ZeithAMl e Bitner, 2006, p. 40). 49 REFLETInDO SOBRE A ExPERIênCIA DE COnSUMO DO CLIEnTE • AulA 3 empresas de serviços, diferentemente daquelas que produzem bens físicos, também fazem uso do composto de marketing, embora com algumas adaptações. Por exemplo, se na venda de um sapato as ações tradicionais de promoção servem à divulgação do produto e à comunicação com o cliente, em um hotel, além disso, a atuação dos colaboradores reforça especialmente a promoção do serviço oferecido. o esforço dos colaboradores em reproduzir a estratégia da empresa em ações junto ao cliente tem peso maior quando se trata de um serviço “puro”, como no caso dahotelaria. As diferenças entre a gestão de um bem físico e de um serviço, você já conhece. nesse tópico, o intuito é reconhecer tais diferenças em um composto de marketing que reflita tais diferenças na gestão de serviços. Assim, na gestão de serviço, consideram-se não só os 4Ps tradicionais, mas somam-se a eles três outros aspectos: pessoas, evidência física (o P, neste caso, é de physical evidence) e processo. Zeithaml e Bitner (2003) definem cada um desses aspectos: Pessoas todos os agentes humanos que desempenham um papel no processo de execução de um serviço e, nesse sentido, influenciam as percepções do comprador; nominalmente, os funcionários da empresa, o cliente e outros clientes no ambiente de serviço. Evidência física o ambiente no qual o serviço é executado e onde a empresa interage com o cliente, assim como qualquer componente tangível que facilite o desempenho ou a comunicação do serviço. Processo os procedimentos, mecanismos e o roteiro efetivo de atividades por meio dos quais o serviço é executado – os sistemas de execução e de operação dos serviços. Já se deu conta de como esses aspectos são importantes para os serviços? Veja a representação do composto de marketing que, incluídos os itens pessoas, evidência física e processo, expande- se para os serviços. A figura mostra o composto de marketing também conhecido como “4 Ps”, e relaciona tópicos referentes a cada um dos Ps. 50 AulA 3 • REFLETInDO SOBRE A ExPERIênCIA DE COnSUMO DO CLIEnTE Composto de marketing expandido para serviços figura 9. Produto Características físicas nível de qualidade Acessórios Embalagens Garantias Linhas de produto Marca Praça Tipo de canal Exposição Intermediários Espaços em pontos Transporte Estocagem Administração de canais Preço Flexibilidade Faixa de preço Diferenciação Descontos margens Vendas Pessoas Funcionários Recrutamento treinamento motivação Recompensas Trabalho em equipe Clientes Educação treinamento Evidência Física Projeto das instalações Equipamento Sinalização Roupas dos funcionários Outros tangíveis Relatórios Cartões de visita Declarações Garantias Processo roteiro de Atividades Padronização Customização número de passos Simples Complexo Envolvimento de clientes Promoção Composto de comunicação Pessoal de vendas quantidade Seleção treinamento Incentivos Propaganda Público-alvo Mídia Conteúdo veiculado Imagens Promoção de vendas Assessoria de imprensa/ Relações públicas COMPOSTO DE MARKETING EXPANDIDO PARA SERVIÇOS Fonte: Adaptado de Zeithmal e Bitner (2003). Quando as empresas tratam dos produtos (ou das linhas de produtos), devem atentar para suas características específicas, questões relativas à sua qualidade, garantias para o cliente, acessórios e embalagem que complementem ou ampliem sua capacidade de atendê-los em suas necessidades, além de esforços para desenvolver e manter a marca competitiva. A praça reflete a capacidade da empresa em entregar o produto ao consumidor pelos canais de distribuição adequados; os intermediários envolvidos na operação e a administração dos canais de distribuição; questões relativas a transporte e estocagem dos produtos; e, naturalmente, os pontos em que se pode encontrar o produto que a empresa vende. 51 REFLETInDO SOBRE A ExPERIênCIA DE COnSUMO DO CLIEnTE • AulA 3 A promoção no composto de marketing é o item que remete à comunicação do produto, ao pessoal de venda (dimensionamento, recrutamento, seleção e treinamento das equipes de vendas, além dos incentivos que estimulem sua motivação), propaganda (definição do público- alvo, da imagem da empresa, da mídia adequada para se comunicar com ele e do conteúdo da propaganda), ações de promoção de vendas e de divulgação, por intermédio da assessoria de imprensa e de relações públicas. Quando a empresa define o preço de seus produtos, também define outros parâmetros, que devem contribuir para o resultado positivo de vendas (margens de lucro, descontos e a flexibilidade na negociação). A faixa de preço que pretende praticar deve refletir a diferenciação do produto no mercado. como a venda dos produtos dificilmente estará dissociada dos serviços, as pessoas, a evidência física e os processos complementam o composto. As pessoas, no caso, ou são os funcionários da empresa ou são seus clientes. As etapas de recrutamento, seleção e treinamento devem condizer com os produtos a serem vendidos, com a imagem da empresa no mercado etc. outras questões também devem ser consideradas: recompensas (remuneração e benefícios), motivação (campanhas motivacionais, premiações, entre outras) e o incentivo ao trabalho em equipe (reuniões, encontros de vendas etc.). os clientes também podem ser afetados, pois, dependendo do serviço oferecido, precisarão ser educados a utilizá-los (processo de aprendizagem) ou treinados para fazê-lo. Por exemplo, no rio de Janeiro, houve um tempo em que se entrava nos ônibus pela porta de trás e saía pela porta da frente. hoje, o processo é exatamente o contrário, logo, o cliente precisou “reaprender” a como usar o serviço. treinamento? As evidências físicas são quaisquer aspectos visíveis na oferta dos serviços. As instalações, os equipamentos disponíveis para os clientes, a sinalização que orienta o cliente em relação ao serviço, questões relativas à aparência dos funcionários (roupas, uniformes, maquiagem, cabelo etc.) e outros tangíveis (relatórios, cartões de visita, declarações, entre outros). Finalmente, os processos complementam o composto. Procedimentos que garantam padronização ou customização dos serviços; número de passos envolvidos nesses procedimentos (que os torna simples ou complexos) e o quanto tais processos demandam o envolvimento dos clientes. O modelo de lacunas da qualidade do serviço Zeithaml e Bitner (2003, p. 48) apresentam um modelo conceitual de lacunas da qualidade de serviços, que sugere tratar do assunto em duas perspectivas: a lacuna do cliente e as lacunas da empresa. 52 AulA 3 • REFLETInDO SOBRE A ExPERIênCIA DE COnSUMO DO CLIEnTE A lacuna do cliente corresponde à diferença entre suas expectativas (somatório de referências que tragam consigo para a experiência de serviço) e a percepção que tiveram sobre o serviço executado. se você já foi a algum parque de diversões, deve levar consigo essa referência quando viajar para a disney. Por outro lado, mesmo que nunca tenha ido a um parque de diversões, os filmes que têm a disney como cenário, as imagens encontradas na internet, a opinião de quem já esteve lá, entre outras, também servem como referência. As lacunas da empresa decorrem do fato de a empresa ignorar a lacuna do cliente. como relacionam os autores, são elas: Lacuna 1: não conhecer as expectativas dos clientes. Lacuna 2: não selecionar a proposta e os padrões de serviço corretos. Lacuna 3: não executar o serviço dentro dos padrões estabelecidos. Lacuna 4: não cumprir o que foi prometido. Muitas vezes a empresa não entrega um serviço de qualidade por desconhecer as expectativas de seus clientes. Mesmo que conheça tais expectativas, é necessário que a empresa desenvolva uma proposta de serviço que se reflita nos padrões por ela adotados. A execução de tais padrões depende da adequação dos sistemas e processos e do preparo das pessoas envolvidos na entrega do serviço. Finalmente, assumindo que existe um compromisso da empresa com seus clientes de entregar um serviço de qualidade, aquilo que a empresa “promete” entregar deve ser cumprido. Veja, a seguir, a representação gráfica do modelo. Figura 10. Modelo de lacunas da qualidade de serviços Serviço esperado Lacuna 3 Lacuna 4 Lacuna do cliente Lacuna 1 EmPrESAClIEntE Lacuna 2 Serviço percebido Execução do serviço Formatos e padrões de serviços voltados para os clientes Percepções da empresa acerca das expectativas dos consumidores Comunicação externa com os clientes Fonte: Zeithmal e Bitner (2003, p. 48). 53 REFLETInDO SOBRE A ExPERIênCIA DE COnSUMO DO CLIEnTE • AulA 3 nas palavras de Zeithmal e Bitner (2003, p. 49): o modelo de lacunas está dizendo que um profissional de marketing de serviços deve, antes de mais nada, eliminar a lacuna do cliente que está entre suas percepções e suas expectativas, conforme ilustrado na figura abaixo. Para isso, o profissional deve eliminar as quatro lacunas da empresa, ou seja, as discrepâncias dentro da própria empresa que inibem a execução de serviços de qualidade. [...] As percepções dos clientes são afirmações subjetivas sobre as experiências efetivas. As expectativas dos clientes são os padrões ou os pontos de referência de desempenho com os quais as experiências de serviços são comparadas e formuladas, na maioria das vezes, em termos daquilo que o cliente acredita que deveria, ou irá de fato, ocorrer. o texto a seguir, “imagem ruim dos serviços de ônibus afasta usuários”, serve como exemplo das consequências que uma empresa pode sofrer, em função de deixar lacunas no serviço sem o preenchimento adequado. leia o texto e, em seguida, responda o exercício. Imagem ruim dos serviços de ônibus afasta usuários A imagem ruim afasta usuários e sobrecarrega as cidades devido à opção pelo transporte individual. Parte dos problemas de trânsito pelos quais passa o Brasil se deve à falta de preocupação das empresas de ônibus em cuidar da qualidade do serviço prestado. A imagem ruim afasta usuários e sobrecarrega as cidades devido à opção pelo transporte individual, segundo avaliou o presidente da embarq Brasil, luís Antônio lindau, durante o seminário A Nova Mobilidade Urbana, promovido pela Associação nacional das empresas de transportes Urbanos (ntU). de origem norte-americana, a embarq é uma entidade que auxilia governos e empresas a desenvolverem e implantarem soluções sustentáveis para problemas de transporte e mobilidade. ela é parte do instituto de recursos Mundiais (wri, do inglês world resources institute), com sede em washington, estados Unidos. Para lindau, as empresas têm, de fato, responsabilidade por acabar desestimulando as pessoas a usarem transporte público, ao deixar de trabalhar uma boa imagem de seus serviços – o que inclui, além de melhor qualidade dos veículos, boas condições de trafegabilidade e pontualidade. “Ônibus preso no trânsito também traz má imagem ao usuário. [Para incentivarmos o uso de transportes públicos] precisamos em primeiro lugar dar velocidade aos veículos. Depois, para haver confiabilidade, são necessários, ainda, melhores espaços e equipamentos”, disse. ele defende a adoção de estratégias para fazer com que as pessoas troquem o carro pelo ônibus. “Para favorecer essa migração de veículos particulares para o transporte público é fundamental a 54 AulA 3 • REFLETInDO SOBRE A ExPERIênCIA DE COnSUMO DO CLIEnTE implantação de tarifas de estacionamentos e taxação de ganho de tempo”, complementou. segundo o especialista, no entanto, essa cobrança só pode ser aplicada após os cidadãos identificarem que, de fato, já há melhorias no sistema. “É necessário antes mostrar algo positivo para, depois, cobrar a taxa”, justificou. durante o painel, o especialista apresentou diversas experiências positivas de uso do bus rapid transit (Brt), um sistema de corredor exclusivo para ônibus criado em curitiba que se espalhou por diversas cidades do mundo. “Antes de tudo, BRT não é ônibus. É sistema de transporte”, disse. “Mas, apesar das vantagens desse sistema, há grandes desafios aos quais o Brasil precisa se preparar para que consiga implantá-lo de forma positiva nas cidades”, acrescentou. entre os desafios, lindau destacou o enfrentamento de lobbies pelo uso dos automóveis; a questão da segurança, em especial para a travessia das faixas exclusivas de pedestres; controle operacional, para evitar engarrafamento nas faixas destinadas aos ônibus; pavimentação adequada; construção de garagens próximas aos terminais; comunicação entre executores de obras e operadores e criação de manuais de procedimentos. “Há que se ter cuidado também com a politização do BRT, de forma a evitar críticas durante as eleições e a rejeição [a esse tipo de transporte]”, acrescentou. “Além disso, vale lembrar o significado da letra R, da sigla BRT. Ela significa rápido. Portanto, se não tiver rapidez não será BRT”, completou. Fonte: Peduzzi, P. Revista Exame. 2012. segundo o sebrae: Aprenda a estruturar os serviços oferecidos pela sua empresa em oito partes, com base na satisfação do cliente, e garanta diferencial para seu negócio. Desafios do setor É consenso afirmar que os serviços diferem dos bens (ou produtos). São quatro os atributos que representam os desafios para esse setor. Saber avaliar esses pontos possibilita entender de forma mais ampla a indústria dos serviços. A intangibilidade os serviços não podem ser vistos, sentidos nem experimentados da mesma maneira que um bem tangível. Quem move um processo legal não poderá saber o resultado antes do julgamento, por exemplo. A heterogeneidade os serviços são ações executadas, na maioria das vezes, por seres humanos. Assim, não podemos garantir que dois serviços sejam exatamente idênticos. o melhor advogado pode cometer um engano, o melhor engenheiro pode esquecer um detalhe essencial e o melhor médico pode estar enfrentando um dia ruim. 55 REFLETInDO SOBRE A ExPERIênCIA DE COnSUMO DO CLIEnTE • AulA 3 A geração e o consumo simultâneos os serviços normalmente são vendidos antes de serem gerados e consumidos. Muitas vezes o cliente testemunha ou mesmo participa ativamente do serviço. Um bom exemplo são os cursos de graduação, em que alunos e professores desenvolvem as aulas de forma conjunta e colaborativa. A perecibilidade os serviços não podem ser armazenados ou mesmo devolvidos. Alguns médicos cobram consultas de que pacientes se ausentam, pois o valor do serviço existia apenas naquele momento e desapareceu quando o paciente não compareceu no horário marcado. Avaliando cada atributo é possível entender, de forma mais ampla, a indústria de serviços. estamos na “era da informação” ou na “era do conhecimento”? o que muito se percebe é que estamos em um momento ímpar em que a internet invade nosso cotidiano e muda nossas vidas. Um mundo em que informação e conhecimento transformados em inteligência geram diferenciação competitiva por meio de serviços. Serviço e tecnologia Mas, afinal, o que são serviços? são ações e resultados produzidos por uma entidade ou pessoa para outra entidade ou pessoa, na intenção da gerar valor para quem o recebe, evidenciando sua condição de ser produzido e consumido concomitantemente, tornando o prestador de serviço e o consumidor coprodutores dos resultados obtidos, sejam bons ou ruins. Ótimos exemplos são serviços de manicure, cursos, investimentos financeiros, transportes, turismo ou mesmo assistência médica. nesses casos, se o cliente não for participativo, dando informações importantes, tirando dúvidas e executando as recomendações sugeridas, o serviço não terá certamente os resultados desejados. Mas os serviços não se limitam às empresas de serviços. eles podem ser o grande diferencial de qualquer segmento da economia. e é a partir desse quadro que a tecnologia da informação abraça completamente os serviços, sendo sua grande incentivadora. A tecnologia da informação molda o setor de serviços e exerce influência nunca antes observada no mundo dos negócios. ela cria oportunidades para novos produtos, tornando viáveis, além de acessíveis, rápidas e lucrativas,formas distintas para a oferta de serviços existentes. A tecnologia da informação transforma ações básicas, como pagamentos, solicitações, agendamentos, vendas e comunicação, mudando completamente 56 AulA 3 • REFLETInDO SOBRE A ExPERIênCIA DE COnSUMO DO CLIEnTE a experiência do cliente. A compra de uma geladeira pode ser realizada dentro de casa com apenas dois cliques, por exemplo. O marketing em oito partes o desafio para o setor de serviços é ainda maior quando é preciso determinar as estratégias para alcançar vantagens competitivas sobre os concorrentes. A forma ideal é elaborar uma composição de “mix de marketing para serviços”. o mix de serviços é composto por recursos, instrumentos e técnicas controláveis que podem ser utilizados para estabelecer estratégias. no marketing de serviços, o mix se compõe de oito Ps. Produto: está relacionado à identificação e à elaboração das características dos serviços com ênfase nos benefícios e nas vantagens relevantes ao atendimento das necessidades do mercado, agregando valor aos clientes. Ao serviço-base deve associar-se o maior número de serviços suplementares, para transformá-lo em um produto alargado. esses serviços devem ser desenhados de acordo com as necessidades dos consumidores. Preço: engloba a mensuração dos esforços da equipe, assim como o tempo necessário para a execução dos serviços, a complexidade de cada projeto e o perfil de cada cliente. também é importante avaliar todos os custos e despesas gerados na prestação do serviço. Praça (momento e lugar): são os processos de distribuição (canais). no entanto, para o segmento de serviços, este tópico se traduz como momento e lugar. envolve a forma de entrega dos serviços, desde prazos até meios de execução. Promoção (comunicação integrada): está relacionada às estratégias de comunicação e divulgação dos serviços, como forma de mostrar ao público-alvo os diferenciais e benefícios dos serviços. Mostrar a credibilidade da empresa e a competência técnica é uma das melhores maneiras de promover um serviço, obtendo vantagem competitiva. Processo: representa todos os fluxos, procedimentos e metodologias de trabalho utilizados na prestação de um serviço. É um meio importante de assegurar a precisão e a assertividade do resultado final. “Palpabilidade” ou evidência física: é a percepção do ambiente em que o serviço é prestado. relaciona-se a diversos fatores, que vão desde a apresentação pessoal dos funcionários e cartões de visita até a organização das instalações e equipamentos. É a forma como a empresa interage com o cliente e o ambiente em que isso ocorre. Pessoas: são todos os envolvidos direta ou indiretamente na prestação do serviço. A força de trabalho é a matéria-prima. Portanto, a preocupação com as pessoas é 57 REFLETInDO SOBRE A ExPERIênCIA DE COnSUMO DO CLIEnTE • AulA 3 fundamental. o treinamento, a capacitação, a motivação e a orientação ao cliente devem ser constantes, pois geram impacto direto na qualidade do serviço prestado. Produtividade e qualidade: são premissas básicas para organizações de quaisquer ramos de atividade. entretanto, para o segmento de serviços, são fatores primordiais para o sucesso ou fracasso de uma empresa. A produtividade se refere ao alcance das melhores práticas na execução dos serviços para maximizar recursos, reduzir despesas e otimizar o tempo das equipes. A qualidade é a garantia de entrega nas condições acordadas e, de preferência, excedendo às expectativas, para alcançar a satisfação dos clientes. Mix simplificado A missão de misturar e balancear os oito Ps não é fácil, mas é possível começar por um mix mais reduzido, que privilegie o relacionamento com o cliente. o objetivo principal passa a ser fortalecer as relações com o público, criando elos mais perenes para fidelizar o cliente à marca. em empresas de serviços, isso é a alma do negócio. Usar a tecnologia correta para gerenciar as informações é um dos ingredientes essenciais para o marketing de relacionamento. Um bom começo é a utilização do Customer Relationship Management (crM) – Gerenciamento do relacionamento com o cliente , em português), ferramenta que automatiza as funções de contato com o cliente e armazena, de forma inteligente, informações sobre atividades e interações dele com a empresa. É possível, com um só clique, entender o histórico de compras do cliente e conseguir propor algo antes que ele demande ou procure o concorrente. tendo evidenciada a relação com o cliente por meio do crM, fica mais fácil conhecer suas preferências e oferecer benefícios que façam diferença. A partir dessas informações, o ideal é estruturar cada “P” separadamente, compondo um pacote para que o cliente faça uma experimentação inesquecível. se, por exemplo, em um restaurante os clientes buscam um lugar mais confortável para o almoço durante o período do trabalho, é possível criar um pacote com os benefícios a seguir e conquistá-lo de uma vez por todas: Produto: ambiente com ar-condicionado. Preço: pagamento pode ser feito com cartão de crédito. Praça: horário expandido (das 11h às 15h). 58 AulA 3 • REFLETInDO SOBRE A ExPERIênCIA DE COnSUMO DO CLIEnTE Promoção: e-mail personalizado avisando que o prato predileto do cliente estará no restaurante todas as quintas-feiras. Processo: algumas mesas que podem ser reservadas pelo site. “Palpabilidade” ou evidência física: site atualizado e com informações do cardápio de cada dia. Pessoas: atendimento com mais cortesia. Produtividade e qualidade: selo de qualidade da Anvisa. Fonte: http://www.sebrae.com.br/sites/Portalsebrae/artigos/Marketing-de-servi%c3%A7os:- uma-vis%c3%A3o-baseada-nos-8-Ps resumo nesta aula, vimos que: » As experiências positivas de consumo contribuem para manter relações de longo prazo com os clientes. » três novos itens complementam o composto de marketing expandido para serviços, ampliando o olhar do gestor face aos desafios em serviço que terá de enfrentar. » o esforço do gestor de serviços consiste em identificar ações que diminuam ou eliminem as lacunas na oferta de qualidade em serviço. 59 Apresentação os serviços podem ser oferecidos em diversos níveis (serviço “puro”, associado a um produto, incrementos etc.). nesta aula, trataremos do desenvolvimento de serviços. iniciaremos falando dos desafios impostos ao gestor na formatação dos serviços. em seguida, serão apresentadas diferenças nos serviços, dependendo do nível de cada um. A aula se encerra com o processo de desenvolvimento de novos serviços, proposto por Zeithmaml e Bitner (2003). Boa leitura! Objetivos esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de: » identificar e atentar para aspectos que desafiam o gestor na formatação dos serviços. » identificar as diferenças nos níveis de serviço e suas implicações. » desenvolver novos serviços, baseados no processo proposto. 4AulADESEnVOlVImEntO DE SErVIçOS 60 AulA 4 • DESEnVOlVImEntO DE SErVIçOS Introdução Você já sabe que as características de um serviço impõem ao gestor desafios bem diferentes daqueles enfrentados por quem lida somente com produtos. Uma das implicações, nesse contexto, diz respeito à formatação dos serviços. Mais uma vez, em comparação à manufatura de um bem físico, a formatação dos serviços carrega consigo certa complexidade. Vale lembrar que novos serviços podem corresponder a níveis de complexidade, também distintos. complicou? não se preocupe. nesta aula serão apresentados a você: os desafios na formatação dos serviços, o desenvolvimento de novos serviços e os estágios pelos quais ele passa. esses tópicos serão apresentados com base no trabalho de Zethaml e Bitner (2003). Figura 11. Desafios na formatação dos serviços Simplificação omissão de detalhes subjetividadeviés na interpretação Fonte: Elaborada pelo autor. Um dos desafios para o gestor consiste em formatar os serviços que oferece. em função das características dos serviços (não se pode tocá-lo, examiná-lo ou prová-lo, dentre outros aspectos) não é fácil descrevê-lo, de modo que isso se reflete no desenvolvimento do próprio serviço. Zeithaml e Bitner (2003) descrevem quatro riscos que corre o gestor na formatação dos serviços. Pensemos juntos: como você descreveria o serviço de seguro de automóveis? localizei na internet a seguinte definição: “todo contrato pelo qual uma das partes, segurador, se obriga a indenizar a outra, segurado, em caso da ocorrência de determinados sinistros, em troca do recebimento de um prêmio de seguro”. Mesmo que essa definição lhe pareça clara (afinal, trata-se de um serviço com o qual muitos de nós estamos familiarizados), não detalha questões importantes como, por exemplo, a extensão de sua cobertura. ou seja, o primeiro risco na formatação dos serviços tem a ver com a simplificação excessiva que conferimos à sua descrição. 61 DESEnVOlVImEntO DE SErVIçOS • AulA 4 outro risco diz respeito à omissão de detalhes importantes para que o serviço possa ser bem executado e entregue ao cliente. imagine que você quer montar seu próprio negócio de depilação. se for a um estabelecimento especializado e conversar com uma profissional e com a gerente pode até estar diante das pessoas corretas. Mesmo assim, suas descrições dos serviços poderão estar limitadas ao que acontece no salão. Questões relativas a custos, compras e marketing, por exemplo, podem ser omitidas por desconhecimento. A descrição de um serviço carrega consigo certa subjetividade, pois cada um que descrevê-lo tem uma experiência pessoal e profissional diferente, diante do mesmo serviço. A subjetividade é, portanto, o terceiro risco. Pergunte a quem trabalhou nas lojas do Mcdonalds em períodos diferentes. depois, faça a mesma pergunta a quem trabalhava no escritório e na loja. As diferenças de cada período (tecnológicas, estratégicas, ambientais etc.) e as visões de quem trabalha na retaguarda (no caso, no escritório) e na “ponta” do negócio (a loja), devem influenciar seus relatos, reforçando o carater da subjetividade. o quarto risco na formatação de um serviço tem a ver com o viés na interpretação de cada um de como o serviço deve ser executado. Já pensou sobre isso? então, como exemplo, peça a duas pessoas para definirem “qualidade”, “flexibilidade” ou “rapidez” no serviço. As definições não serão exetamente as mesmas, como afirmam Zeithaml e Bitner (2003, p. 186). figura 12. Desenvolvimento de novos serviços Extensões de linhas de serviços Empreendimentos derivados melhorias nos serviços mudanças de estilo Desenvolvimento de novos serviços Grandes inovações novos serviços para um mercado que já está sendo atendido em tempos em que inovação é a palavra de ordem, o desenvolvimento de novos serviços é uma prática sobre a qual o gestor deve pensar permanentemente, tanto como diferencial competitivo em relação à concorrência, quanto como uma melhoria de um serviço existente. Zeithmaml e Bitner (2003, p. 186-188) reafirmam tal fato e lembram que nem todos os serviços são exatamente uma novidade. do simples incremento à grande inovação, os novos serviços podem oscilar por níveis distintos. Vejamos as definições dos autores para cada um destes níveis: » Grandes inovações: “constituem-se de novos serviços para mercados ainda sem definição”. Pense: o que devia ter significado para as pessoas quando a transmissão de tV era a grande novidade? Mais recentemente, a tecnologia trouxe uma série de inovações, às 62 AulA 4 • DESEnVOlVImEntO DE SErVIçOS quais muitos de nós já podemos ter acesso, por exemplo, os serviços fornecidos via computador portátil (laptop, netbook, tablet) e por aparelhos celulares de última geração, entre outros. » Empreendimentos derivados: “constituem-se de novos serviços para um mercado que já está sendo servido pelos produtos atuais, os quais atendem às mesmas necessidades genéricas”. são exemplos de empreendimentos derivados as vans que levam grupos ao teatro, substituindo o serviço de transporte público ou táxi. » Novos serviços para um mercado que já está sendo atendido: “são tentativas de colocar em oferta a clientes ativos de uma empresa um serviço que não tivesse sido oferecido previamente (muito embora ele pudesse estar disponível em outras empresas)”; por exemplo, cafeterias e restaurantes dentro de livrarias, lojas de conveniência em postos de gasolina, entre outros. » Extensões de linhas de serviços: “constituem ampliações da linha de serviços atual”. são exemplos os restaurantes, quando adicionam novos itens em seu cardápio ou as companhias aéreas ao ampliarem suas rotas. » Melhorias nos serviços: “representam, talvez, o tipo mais comum de inovação de serviços. Mudanças nas características de serviços que já tenham sido prestados podem implicar uma execução mais rápida de um processo de serviço atual, mais horas de uso do serviço para o cliente ou ampliações”. A evolução nos tratamentos estéticos, cada vez mais adequados à necessidade dos clientes (peeling de cristal, peeling de hortelã, peeling de diamante etc.) é exemplo de melhoria em serviço. » Mudanças de estilo: “representam as mudanças mais modestas nos serviços, apesar de serem frequentemente de alta visibilidade e poderem ter efeitos significativos sobre as percepções, emoções e atitudes dos clientes [...] Não alteram fundamentalmente o serviço, apenas sua aparência”. Alteração de logomarca, reformas ou mudança de layout do estabelecimento, exemplificam mudanças de estilo. o texto a seguir apresenta o histórico e as conquistas de uma empresa de serviço que investe em desenvolvimento de novos serviços. MetLife se destaca no setor de previdência privada do anuário Valor 1000 A Metlife figura entre as dez maiores fornecedoras de previdência privada na 12ª edição do anuário Valor 1000, publicação do jornal Valor Econômico que lista as mil maiores empresas do Brasil. 63 DESEnVOlVImEntO DE SErVIçOS • AulA 4 o veículo utiliza a receita líquida e destaca as maiores empresas em 25 setores da economia nacional. A Metlife ocupa a 10ª posição no ranking geral das 50 maiores de previdência e vida com mais de r$ 2,3 bilhões. A companhia ainda ficou posicionada em 7º lugar no ranking dentro do setor de maiores prêmios ganhos e em 9º em maiores em patrimônio líquido. “É muito gratificante ter um retorno tão positivo do nosso trabalho. A premiação é um reconhecimento ao compromisso da companhia com todos os nossos clientes. investimos continuamente no desenvolvimento de novos serviços para termos sempre um melhor desempenho”, relata Mario traverso, presidente da Metlife no Brasil. Sobre a MetLife A Metropolitan life seguros e Previdência Privada s.A. é afiliada da Metlife inc. A Metlife oferece planos odontológicos, seguro de vida individual e em grupo e planos de aposentadoria, como fundos multipatrocinados e entidades abertas (PGBl e VGBl), por meio de corretores, bancos e outros canais. A empresa está presente em 24 localidades e possui 15.000 corretores registrados e 6.000 ativos; 15.500 clientes corporativos, cerca de 5 milhões de clientes e r$ 115 bilhões de capital segurado. Metlife inc. é uma provedora líder global de seguros, capitalização e programas de benefícios dos empregados, servindo 90 milhões de clientes em mais de 50 países. Por meio de suas subsidiárias e afiliadas, a Metlife mantém posições de liderança de mercado nos estados Unidos, Japão, América latina, Ásia-Pacífico, europa e oriente Médio. Para mais informações, visite: www.metlife.com. Fonte: www.segs.com.br, 2012. Estágios no desenvolvimento de novos serviços Zeithaml e Bitner (2003) propõemque se pense no desenvolvimento de novos serviços considerando-se dois estágios: o planejamento da linha de frente e a implementação. o estágio de planejamento de linha de frente consiste no desenvolvimento ou revisão da estratégia do negócio, desenvolvimento da estratégia de novos serviços, geração de ideias, avaliação e desenvolvimento de conceito e análise de negócio. na implementação, as etapas são desenvolvimento e teste do serviço, teste de mercado, comercialização e avaliação pós-introdução. Veja a representação gráfica dos estágios do desenvolvimento de novos serviços. em seguida, trataremos de cada estágio e suas fases específicas. 64 AulA 4 • DESEnVOlVImEntO DE SErVIçOS Estágio no desenvolvimento de novos serviços Figura 13. Processo de desenvolvimento de novos serviços » Desenvolvimento ou revisão da estratégia do negócio » Desenvolvimento da estratégia de novos serviços » Geração de ideia Fazer a triagem de ideias levando em conta a estratégia de novos negócios » Avaliação e desenvolvimento de conceito Testar conceitos junto a clientes e funcionários. » Análise do negócio Testar com respeito à rentabilidade e à exequibilidade » Desenvolvimento e teste do serviço Fazer teste de protótipo de serviço » Teste de mercado Testar componentes do serviço e das demais dimensões do composto de marketing » Comercialização » Avaliação pós-introdução Planejamento da linha de frente Implementação (ZEITHMAML e BITnER, 2003, p. 189). Planejamento da linha de frente A fase de desenvolvimento da estratégia de negócio consiste em estabelecer a missão e a visão da empresa, que servirão de guia para a gestão dos serviços. lembrando: missão da organização É o texto que traduz o objetivo da empresa, seu propósito principal, o porquê de sua existência. serve de direção para os envolvidos com a empresa, direta ou indiretamente, na determinação do que é preciso ser feito para mantê-la “viva”. É comum que a cúpula estratégica da organização (representantes da direção geral) escrevam o texto que define a missão. no entanto, Vilas Boas e Andrade (2009, p. 7), sugerem que não só representantes da cúpula estratégica estejam envolvidos nessa tarefa, mas, também, gerências, chefias intermediárias e colaboradores da base da empresa, com o intuito de promover o comprometimento de todos os níveis hierárquicos da organização. 65 DESEnVOlVImEntO DE SErVIçOS • AulA 4 esteja atento: o texto da missão não deve servir à vaidade de quem a escreveu, mas à divulgação e compreensão do conteúdo pelos colaboradores internos, parceiros externos e, por que não, clientes da organização, propiciando e estimulando o comprometimento de todos rumo ao objetivo comum. Visão da organização o texto da visão da organização mostra o que a organização pretende ser no futuro. se a missão declara o objetivo central da organização, a visão dá direção aos colaboradores de onde se pretende chegar. Para a definição da visão é preciso ter clareza sobre o que a organização é hoje, para construir uma imagem consistente do que se deseja em tempo futuro. Vilas Boas e Andrade (2009) afirmam que, a visão reflete uma postura inovadora devido às constantes mudanças no cenário mundial”. os autores também chamam a atenção para as perspectivas de curto, médio e longo prazo para o alcance da visão e, assim, sugerem a elaboração de um “sequenciamento lógico de atividades e tarefas que permitam atingir o ponto desejado. em seguida, a empresa deve estabelecer uma estratégia de novos serviços. A estrutura organizacional deve ser preparada para a entrega de um novo portfólio de serviços (ou produtos e serviços, se for o caso). Assim, como lembram Zethaml e Bitner (2003, p. 189), “os processos de comunicação, o compartilhamento de responsabilidades entre departamentos e as decisões na linha de frente, serão efetivas”. A geração de ideias, fase seguinte, deve ser estimulada, sendo condição que as ideias estejam em consonância com a estratégia de novos serviços da empresa (que deriva das estratégias do negócio, lembra?). As ideias podem ser fruto de pesquisa de mercado, pergunta a funcionários, brainstorm, entre outros. de qualquer forma, Zethaml e Bitner (2003) recomendam que a empresa se utilize de um mecanismo formal para o registro das ideias (atas, relatórios etc.) para que não se percam informações importantes e para que o processo seja contínuo. lembre-se: nem toda ideia é boa ou adequada a determinado momento da empresa. daí a necessidade de se fazer uma triagem das ideias, como sugerem os autores. hora de avaliar e desenvolver o conceito dos serviços. essa é uma fase importante, pois seu objetivo principal é estabelecer o conceito dos serviços oferecidos. essa prática deve facilitar o entendimento de todos os envolvidos na oferta e diminuir problemas de interpretação e percepção individuais, que possam comprometer a qualidade do serviço. Para isso, a participação de quem vai executar o serviço é importante para o desenvolvimento do conceito e, se possível, considerar a opinião de clientes potenciais (suas expectativas com relação ao serviço). 66 AulA 4 • DESEnVOlVImEntO DE SErVIçOS Análise do negócio é a fase em que a empresa analisa aspectos como projeção de demanda, projeção de receita, custos envolvidos (inclusive de treinamento), alterações necessárias na estrutura operacional etc. Implementação A primeira etapa da implementação diz respeito ao desenvolvimento e teste do serviço. nesse momento cabe envolver todos que tenham alguma participação no serviço. recomenda-se a utilização de algum recurso visual, por exemplo, um diagrama de serviço. lembre-se: por tratar-se da implementação de um serviço, o diagrama não deve ser um recurso “engessado”, ao contrário, ele pode ser alterado. imagine que você abre um novo restaurante. Mesmo que já tenha experiência no ramo, há questões particulares de determinado grupo de clientes, espaço físico, experiência profissional de cada colaborador etc. que podem afetar o serviço, demandando que alterações no diagrama de serviço. o teste de mercado de um serviço não é tão simples. diferentemente de um produto, cujo teste de mercado deve levar mais facilmente ao ajuste dos componentes do composto de marketing (produto, preço, praça e promoção), as características dos serviços dificultam ajustes nesse sentido. e aí? o que fazer? Alguns empreendimentos testam o serviço com os próprios colaboradores, antes de ofertá-lo ao mercado. Ainda assim, dependendo do público-alvo da empresa, a avaliação dos colaboradores pode não responder ao que se precisa saber em sua totalidade. Por exemplo, em serviços ligados ao mercado de luxo com os quais os colaboradores não estejam familiarizados. outra opção é assumir a etapa inicial de oferta do serviço como um treinamento. Alguns restaurantes adotam essa prática no início de suas operações. Assim, por uma ou duas semanas, o restaurante oferece seus produtos com desconto, deixando claro para os clientes que se trata de um período destinado a ajustes no serviço para melhor atendê-los. em serviço, a “qualidade é uma corrida sem linha de chegada”. As fases de comercialização e de avaliação pós-introdução servem, além da relação comercial de venda do serviço, para monitorar permanentemente a sua qualidade. A comercialização do produto permite que cada detalhe do serviço seja monitorado: relacionamento com o cliente, tempo de entrega do serviço, problemas (ou a ausência deles), ambiente adequado etc. As observações colhidas durante a comercialização do serviço deverão ser avaliadas, levando à manutenção ou à alteração de aspectos relacionados ao serviço. 67 DESEnVOlVImEntO DE SErVIçOS • AulA 4 Com conceito boutique, novo Crystal surpreende e proporciona experiências exclusivas para o públicoUm ambiente elegante, charmoso e estiloso. Um lugar onde o especial é também o essencial. Assim é o Shopping Crystal, o shopping Boutique de curitiba. localizado no ponto central do bairro Batel, o local oferece produtos, serviços e experiências selecionados para quem valoriza a exclusividade. em 2011, quando comemorou seus 15 anos, o crystal iniciou um processo de modernização que reforçou ainda mais sua personalidade marcante. Fachada, valet e praça de alimentação ganharam novos contornos, valorizando a bela arquitetura do empreendimento, que privilegia a iluminação natural e os traços distintos e atemporais de sua estrutura. o objetivo foi destacar os atributos reconhecidos pelos clientes como pontos fortes do shopping: um espaço compacto, tranquilo, charmoso, que seleciona, destila e proporciona experiências de moda, cultura e gastronomia misturando novas referências com o que há de melhor em curitiba. Um novo crystal, ainda mais moderno, bonito e repleto de novidades surgiu. e após essas grandes mudanças, o shopping continua a surpreender o seu público. Até o final de 2012, o processo de revitalização será concluído. os lounges, a varanda da praça de alimentação, as escadas rolantes, a sinalização, enfim, toda a parte interna do Shopping está passando por um processo de repaginação. Mas a essência do crystal permanece a mesma. Pelos corredores do shopping, inaugurado em novembro de 1996, continuam a passar estilo, autenticidade e sofisticação. Grifes de destaque, como Animale, Bergerson, calvin klein Jeans, cori, Forum tufi duek, Gant, h. stern, lacoste, l’occitane, Max Mara, Mixed, havanna, Montblanc e saad, fazem parte do seleto mix de lojas do empreendimento. os cuidados com o conjunto de marcas e a ambientação do shopping visam oferecer uma experiência diferenciada para o cliente do crystal. Mais de 20 novas marcas – como Bo.Bô, Brooksfield, Francesca romana, Granado, lafort, le lis Blanc e sunglass hut – vieram para o crystal desde setembro de 2010. e esse número não para de crescer, já que o Shopping atrai diversas grifes para o seu mix de lojas. Uma marca que chega causando forte impacto é a studio w, do badalado hair stylist wanderley nunes. o novo salão de beleza irá ocupar uma grande área no Piso l4 e traz conceitos inovadores. A joalheria Jack Vartanian, queridinha de diversas atrizes internacionais, abre sua primeira loja no sul do Brasil em conjunto com o studio w. outra loja que acaba de chegar ao sul do País, e se instalar no crystal, é a trousseau. sinônimo de luxo em moda para a casa, conforto e lifestyle, a grife que já possui mais de 20 anos no mercado, se diferencia pela exclusividade de seus produtos e pela qualidade de tecidos e acabamentos em suas coleções de cama, mesa, banho, homewear e presentes. são várias as grifes de sucesso no mercado da moda nacional e internacional que podem ser encontradas no crystal. A marca de calçados da designer carioca constança Basto é uma delas. 68 AulA 4 • DESEnVOlVImEntO DE SErVIçOS o Shopping também detém a primeira loja no sul do País da grife, repleta de modelos de muito bom gosto, qualidade, beleza e conforto aliados às últimas tendências da moda. A shoulder, referência em feminilidade e versatilidade, assim como a Brooksfield donna, cuja loja é a primeira da marca no estado do Paraná, também estão no crystal. As curitibanas apaixonadas pela Fillity não precisam mais sair da cidade para adquirir suas peças. A pedido delas, a marca escolheu o crystal para abrigar sua primeira loja na capital paranaense. com 24 anos de sucesso, dez lojas em são Paulo, duas em Brasília e uma em campinas, a grife possui um conceito maduro e distinto de moda feminina, que proporciona segurança, estilo e sensualidade para as mulheres. outro destaque é a dudalina double. As camisas mais elegantes, bonitas e desejadas do País agora também podem ser encontradas no Shopping, que possui a primeira loja da marca em curitiba voltada tanto para o público feminino quanto para o masculino. Após passar por uma reforma completa, o espaço itaú de cinema, o primeiro cinema Premium de curitiba, reinaugurou com novidades. Já consagrado por sua programação diferenciada, que mescla filmes culturais e blockbusters, o local agora possui as únicas salas ViP da cidade, com poltronas amplas, reclináveis e serviço completo de bombonière, além de sistemas de som e projeção 100% digitais. são cinco salas no total, uma reservada para projeções em 3d, duas convencionais e duas ViPs. o empório santa Genoveva é outro destaque. o primeiro restaurante aberto em mall de shopping em curitiba reúne um charmoso restaurante, adega, empório com itens importados, queijos, utensílios gourmet e presentes. o local, que oferece diversas opções saborosas para o almoço e jantar, além de um cardápio trivial e fora de hora, funciona diariamente até a meia-noite. os famosos e saborosos sanduíches gourmet do Madero também poderão ser degustados no Shopping. o restaurante do crystal, comandado pelo chef e restauranteur Junior durski, é o primeiro a funcionar no sistema de praça de alimentação. inovar é a essência do novo crystal. Até mesmo os pequenos detalhes são pensados para agradar em cheio quem frequenta o crystal. Para aqueles que não abrem mão da companhia de seus pets nem mesmo na hora de fazer compras, o Shopping liberou a entrada de animais de estimação em suas dependências. As vitrines dos estabelecimentos que aprovam a permanência de cães estão sinalizadas com um adesivo. Para ficar mais próximo do seu público e com ele interagir, o crystal também inovou e lançou um site institucional totalmente hospedado no Facebook. A página está disponível para qualquer usuário, mesmo para aqueles que não têm conta na rede social. Além do contato das lojas e informações de lazer, o cliente tem acesso a um conteúdo muito mais amplo. são dicas de moda, chegada de novas coleções, depoimentos de clientes sobre o shopping, sugestões de compras e promoções especiais. Fonte: Paran@shop. 2012. 69 DESEnVOlVImEntO DE SErVIçOS • AulA 4 resumo nesta aula, vimos que: » Aspectos importantes desafiam o gestor na formatação dos serviços. » novos serviços possuem diferenças que derivam do nível que se encontram. » Autores propuseram um processo de desenvolvimento de novos produtos que contribui para o trabalho do gestor, na implementação de novos serviços. 70 Apresentação Zeithaml e Bitner (2003) apresentam um modelo integrado de lacunas da qualidade de serviço. É ele que você vai conhecer nesta aula. o modelo mostra a lacuna do cliente e as lacunas da empresa. o intuito é que você comece a apurar o olhar crítico em relação aos serviços que recebe, como se estivesse treinando para tornar-se um gestor de serviços eficaz. espera-se que, munido deste conhecimento, seja capaz de aplicar na vida prática o que propõem os autores. Boa leitura e bons estudos! Objetivos esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de: » identificar as lacunas existentes na entrega de serviços de qualidade. » colocar em prática questões levantadas no modelo apresentado nesta aula. 5 AulA mODElO IntEGrADO DE lACunAS DA quAlIDADE DE SErVIçOS 71 mODElO IntEGrADO DE lACunAS DA quAlIDADE DE SErVIçOS • AulA 5 Introdução dizem que “a qualidade é uma corrida sem linha de chegada”. há, inclusive, um vídeo que trata deste assunto. Você conhece? tente o Youtube. os serviços são a prova de que “a qualidade é uma corrida sem linha de chegada”. Por quê? Porque o maior desafio do gestor de serviços não é gerir o serviço em si, mas as lacunas existentes em cada uma de suas etapas. Você conhecerá, nesta aula, um modelo que trata dessas lacunas: o modelo integrado de lacunas da qualidade de serviços. Verá que gerir serviço não é tarefa simples, até porque há lacunas quesão geradas pela empresa, mas há, também, a lacuna do cliente. de qualquer forma, não precisa se desesperar. Gerir serviço implica treinamento, digo, seu próprio treinamento como gestor. Por ora, sugiro que leia atentamente a apostila e se familiarize com o modelo, de modo que, sendo você o gestor, crie meios para diminuir as lacunas existentes na entrega de serviços de qualidade. Voltando ao modelo integrado de lacunas da qualidade de serviços Você já sabe que os números têm mostrado a importância econômica dos serviços, nos últimos anos. também já sabe que as características impõem que se pense no desenvolvimento de serviços de forma diferente da criação de produtos. o modelo integrado de lacunas da qualidade de serviços estimula que as empresas estejam atentas não só à lacuna dos clientes como, também, às lacunas da empresa. espera-se que ações de preenchimento dessas lacunas levem a experiências positivas de consumo e, consequentemente, à formação de relacionamento de longo prazo entre a empresa e seus clientes. o modelo de lacunas distribui os conceitos centrais, as estratégias e as decisões concernentes ao marketing de serviços, começando com o cliente e construindo as tarefas da organização ao longo do que é considerado necessário para a eliminação da lacuna entre a expectativa do cliente e sua percepção. (ZeithAMl e Bitner, 2003, p. 419). 72 AulA 5 • mODElO IntEGrADO DE lACunAS DA quAlIDADE DE SErVIçOS Vejamos cada uma das lacunas: Figura 14. Lacuna do cliente Serviço esperado Lacuna do cliente Serviço percebidoServiço esperado Lacuna 3 Lacuna 4 Lacuna do cliente Lacuna 1 EmPrESA ClIEntE Lacuna 2 Serviço percebido Execução do serviço Formatos e padrões de serviços voltados para os clientes Percepções da empresa acerca das expectativas dos consumidores Comunicação externa com os clientes Adaptado de Zeithmal e Bitner (2003, p. 48). Você já comprou uma passagem aérea e precisou cancelar o bilhete, implicando reembolso por parte da companhia aérea ou operadora de viagem? Insatisfação Total com a XPTO [o nome da empresa fui substituído no texto] – Reembolso de Passagem Aérea. E-mail 1 no dia 13/1/2011 efetuei a compra de duas passagens aéreas tAM com cartão de crédito, na agência XPto, [...] como o meu irmão (segundo passageiro) sofreu um acidente e fraturou o pé, ficou impossibilitado de viajar. solicitei, então, o cancelamento das passagens aéreas no dia 3/2/2011. Fui informado pela empresa que o prazo máximo para reembolso das passagens era de 90 dias [...], porém, no site da Anac está definido o prazo máximo de 30 (trinta) dias. e não 90 dias, como a XPto me informou. [...] Portanto, o reembolso já deveria ter sido efetuado. 73 mODElO IntEGrADO DE lACunAS DA quAlIDADE DE SErVIçOS • AulA 5 sinto-me [editado pelo Reclame Aqui] tendo que gastar uma fortuna pagando todas as parcelas do cartão de crédito, sem saber quando serei reembolsado, uma vez que o prazo informado pela empresa não é o prazo instituído pela AnAc. E-mail 2 Até o momento não recebi nenhum contato da XPto. Preciso muito do dinheiro e não posso ficar pagando as parcelas sem saber quando serei reembolsado. Fico indignado com a forma como a XPto atende seus clientes. dessa forma, jamais voltarei a fazer negócios com a XPto. E-mail 3 consideração final do consumidor recebi a devolução pelo cartão de crédito, porém isso só aconteceu depois de muitas ligações e reclamações, gerando muitos desgastes desnecessários. na loja me informavam uma coisa e por telefone, na central de Atendimento, me informavam outra. Acredito que um cliente antigo como eu deveria ter sido tratado com muito mais atenção e respeito. Uma empresa como a XPto deveria ter uma equipe muito bem treinada e sistemas rápidos e eficientes. resultado: fiz viagens recentes para estados Unidos, América latina e europa e, em nenhuma delas, contratei a XPto. Fonte: reclame aqui (www.reclameaqui.com.br). 2011. A lacuna do cliente é a diferença entre o serviço percebido e o serviço esperado. A percepção dos clientes “são afirmações subjetivas acerca das experiências realizadas pelos clientes, as expectativas dos clientes são os padrões, ou os pontos de referência, com os quais as experiências dos serviços são confrontadas” (ZeithAMl e Bitner, 2003, p. 419). o esforço da empresa deve ser no sentido de preencher a lacuna entre as expectativas e percepções dos clientes, o que não é fácil. Ferramentas de marketing (por exemplo, marketing de relacionamento) devem ser aplicadas para diminuir esta distância, mesmo que, na prática, sempre exista esta lacuna. Zeithaml e Bitner (2003) consideram que as lacunas da empresa são os fatores que provocam a lacuna do cliente. o que nos leva a pensar que parte do problema pode ter solução se a empresa estiver atenta a diminuir suas próprias lacunas. 74 AulA 5 • mODElO IntEGrADO DE lACunAS DA quAlIDADE DE SErVIçOS Lacunas da empresa Lacuna 1: não conhecer as expectativas dos clientes figura 15. Serviço esperado Lacuna 3 Lacuna 4 Lacuna do cliente Lacuna 1 EmPrESA ClIEntE Lacuna 2 Serviço percebido Execução do serviço Formatos e padrões de serviços voltados para os clientes Percepções da empresa acerca das expectativas dos consumidores Serviço esperado Percepções da empresa acerca das expectativas dos consumidores Comunicação externa com os clientes todos nós temos alguma ideia da diferença entre se hospedar em um hotel cinco estrelas e um albergue, não é mesmo? e essas hospedagens, será que sabem o que seus clientes desejam quando são escolhidas por eles? leia as avaliações transcritas a seguir, ambas de hospedagens localizadas no rio de Janeiro. Avaliação 1 hospedagem: hotel copacabana Palace “Um verdadeiro Hotel 5 estrelas!” estive hospedado no copacabana Palace com a minha Família, sete pessoas. Ficamos em um apartamento e duas suítes do quinto andar (eu na suíte 505 que possuía uma varanda enorme de frente para a praia de copacabana). 75 mODElO IntEGrADO DE lACunAS DA quAlIDADE DE SErVIçOS • AulA 5 tudo é bonito. da entrada, passando pelos elevadores e cada hall dos andares. o hall do quinto andar é de uma sofisticação impar: tapetes, paredes, lustres e sofás de primeira linha e clássicos. os apartamentos e suítes são muito bem decorados com armários enormes e camas para lá de macias. os banheiros todos em mármore com toiletries da casa Granado. toalhas macias e com belos monogramas “cP”. À tarde, a camareira faz a sua cama e coloca um piso de algodão branco na beira da cama, água mineral da marca do hotel e um chocolate em cada cama. o atendimento por parte dos funcionários, você só vê mesmo quando já está hospedado. Muito cortês, desde as camareiras, garçons do serviço de quarto ao guarda vidas na piscina. Aliás, a piscina é um capítulo. Você fica sentado e te oferecem toalhas geladas e sorvetes grátis. Fomos apenas ao restaurante Bife de ouro, onde servem o café da manhã e demais refeições. impecável. Pedi um prato que não estava mais no cardápio e o maitre mandou fazer. Perfeito. o que não é bom: o preço da diária. também não se pode esperar perfeição em hotelaria com preço baixo. Fonte: triPAdVisor (www.tripadvisor.com.br). 2012. Avaliação 2 hospedagem: safari hostel Albergue fantástico! A única desvantagem é que é muito longe do centro, mas o transporte público é fácil, confiável e seguro de usar. Além disso, nos hospedamos durante o carnaval para ficar fora do centro, o que significou conseguir um sono decente! Paolo e sua equipe são brilhantes. Já nos hospedamos em muitos albergues e este foi o melhor. eles fazem o que podem por você e realmente te tratam como uma pessoa da família. tanto é assim que, quando eu estava doente, eles foram à farmáciapara mim. eu não pude me deliciar com este lugar o suficiente! christina, da inglaterra em 23 de fevereiro de 2012. Uma casa ótima, localizada em um lugar histórico no rio de Janeiro. Perto do Parque nacional, para aquelas pessoas que gostam de esportes, como surfe e caminhadas na floresta é perfeito. lauren, do canadá, em 9 de março de 2011. lugar muito agradável, com uma equipe muito simpática. ele está localizado na porta do Parque nacional da tijuca. É remoto sim, mas, para mim, a calma e sensação de segurança era um oásis no rio ruidoso e confuso. Marcus, da suécia, em 8 de março de 2011. Fonte: hostels.coM (www.hostels.com). 2012. 76 AulA 5 • mODElO IntEGrADO DE lACunAS DA quAlIDADE DE SErVIçOS A lacuna 1 é a diferença entre o que a empresa entende que sejam as expectativas do cliente e o que ele, de fato, espera. o preenchimento dessa lacuna demanda que a empresa estabeleça uma orientação estratégica voltada a conhecer o que o cliente deseja. empresas cujos colaboradores não desenvolvem meios para interagir com os clientes ou cuja estrutura não esteja preparada para lidar com as expectativas desses clientes, têm menos chances de diminuir a lacuna em questão. As consequências podem ser desde a má alocação de recursos no empreendimento até a perda significativa de clientes, em função da baixa qualidade do serviço, comprometendo o desempenho da empresa. conheça os fatores que Zeithaml e Bitner (2003) apontam como os responsáveis pela lacuna 1 da empresa: Quadro 3. Fatores-chave para a lacuna 1 da empresa. Orientação inadequada da pesquisa de marketing Pesquisa de marketing insuficiente A empresa não consegue obter informação qualificada sobre as expectativas dos clientes, comprometendo a tomada de decisão. Tipos de pesquisa de marketing: questionários, grupos de foco, sistemas de reclamação, “cliente secreto”, entre outros.Pesquisa sem foco na qualidade do serviço Uso inadequado da pesquisa de marketing Falta de comunicação ascendente Comunicação insuficiente entre colaboradores de contato e administradores Os colaboradores que estão mais próximos dos clientes têm muito a dizer sobre sua percepção do serviço. não escutá-los diminui as chances de a empresa se aproximar de seus clientes. Muitos níveis hierárquicos dificultam que tais informações cheguem rapidamente à cúpula estratégica da empresa. Demasiados níveis hierárquicos entre pessoal de contato e a alta administração Foco insuficiente no relacionamento Concentração em transações de curto prazo mais que em relacionamentos Marketing de relacionamento foca em meios para estabelecer relacionamento de longo prazo com os clientes. As ferramentas de marketing de relacionamento ajudam a conhecer melhor o cliente e suas necessidades. Concentração em novos clientes mais que em clientes de relacionamento Serviços de recuperação ineficientes Outra orientação importante para a empresa diz respeito à recuperação de clientes. Orienta-se que, diante de uma falha, que o problema seja analisado, direcionado adequadamente e, se necessário, que processos sejam revistos e comunicados aos colaboradores. Adaptado de Zeithaml e Bitner (2003, p. 421). 77 mODElO IntEGrADO DE lACunAS DA quAlIDADE DE SErVIçOS • AulA 5 Lacuna 2. não selecionar a proposta e os padrões de serviço corretos figura 16. Serviço esperado Lacuna 3 Lacuna 4 Lacuna do cliente Lacuna 1 EmPrESA ClIEntE Lacuna 2 Serviço percebido Execução do serviço Formatos e padrões de serviços voltados para os clientes Percepções da empresa acerca das expectativas dos consumidores Comunicação externa com os clientes Lacuna 2 Formatos e padrões de serviços voltados para os clientes Percepções da empresa acerca das expectativas dos consumidores Fonte: Adaptado de Zeithaml e Bitner (2003, p.: 421). Você já teve a experiência de trocar um produto em uma loja, não teve? Que tal o serviço? A experiência se pareceu, em termos de atendimento, com o dia em que você comprou a mercadoria? Proponho que você leia o texto a seguir e reflita sobre como se forma a lacuna 2 do serviço. Empresa XPTO [o nome da empresa foi substituído] responde à queixa de recusa de troca de mercadorias com defeito. nesta segunda-feira, a rede de supermercados XPto divulgou uma nota em resposta à queixa feita por clientes da unidade da Avenida domingos Ferreira, em Boa Viagem, zona sul do recife. de acordo com os consumidores, as mercadorias – um televisor, uma máquina de cortar cabelo e um telefone sem fio – compradas na sexta e no sábado passados estavam com defeito e a loja teria se recusado a efetuar a troca ontem. Confira a resposta na íntegra: o XPto esclarece que sua política de troca segue rigorosamente o artigo 18 do código de defesa do consumidor. Ao ser constatado vício no produto adquirido, o cliente deve encaminhá-lo à 78 AulA 5 • mODElO IntEGrADO DE lACunAS DA quAlIDADE DE SErVIçOS assistência técnica autorizada, que deve promover o reparo em, no máximo, 30 dias. caso esse prazo não seja atendido, o consumidor pode solicitar a troca por produto similar ou devolução do valor pago. A empresa orienta aos consumidores que façam contato com seu serviço de atendimento, no tel. 0800-XXXXXXX, para que recebam as orientações necessárias para a solução do caso. Fonte: Diário de Pernambuco. traduzir o que a empresa sabe sobre as expectativas dos clientes em formatos e padrões de qualidade em serviço, não é tarefa simples. Basta pensar que alguns padrões adotados pela empresa são solicitações dos clientes e não necessariamente padrões de desempenho convencionalmente estabelecidos por tais empresas. Por exemplo, a troca de mercadorias. Um padrão precisa ser estabelecido para atender à solicitação do cliente sem, no entanto, comprometer o desempenho da empresa. Algumas vezes (como em algumas trocas e devoluções de mercadorias) os gestores tomam a solicitação do cliente como pouco importante, inviáveis ou, até mesmo, absurda. Quadro 4.– Fatores-chave para a lacuna 2 da empresa. Fraco planejamento dos serviços Processo não sistemático de desenvolvimento de novos serviços Como já citado, as características dos serviços dificultam sua definição. Daí a importância de envolver colaboradores- chave da empresa para definir os serviços e identificar suas implicações potencias (entre soluções e problemas). A quem se destina o produto? Em que nível somos capazes de atender a necessidade do cliente? – são exemplos de perguntas que a empresa deve se fazer. Planejamento de serviço vago e indefinido Falha na conexão entre o formato do serviço e seu posicionamento Ausência de padrões definidos na perspectiva dos clientes Falta de padrões de serviços definidos por clientes Embora alguns padrões de serviço sejam determinados pela empresa, outros devem ser criados baseados na perspectiva dos clientes (por exemplo, o restaurante vende meia porção?). Metas de qualidade de serviços podem ser estabelecidas e devem mediadas. Veja o caso dos albergues: as avaliações dos clientes nos sites de compra em que estão cadastrados fornecem informação relevante sobre a qualidade do serviço oferecido. Falta de processo formal de determinação das metas de qualidade de serviços Evidências e instalações físicas inadequadas para o serviço Qualquer evidência física, como vimos, pode afetar a percepção do cliente sobre o serviço (por exemplo, dependendo do serviço, um simples cartão de visitas com erros graves ou estética questionável). O mesmo vale para as instalações físicas. Esperam-se condições mínimas de higiene em um consultório dentário. Adaptado de Zeithaml e Bitner (2003, p. 423). 79 mODElO IntEGrADO DE lACunAS DA quAlIDADE DE SErVIçOS • AulA 5 Lacuna 3. não executar o serviço dentro dospadrões estabelecidos figura 17. Serviço esperado Lacuna 3 Lacuna 3 Lacuna 4 Lacuna do cliente Lacuna 1 EmPrESA ClIEntE Lacuna 2 Serviço percebido Execução do serviço Execução do serviço Formatos e padrões de serviços voltados para os clientes Formatos e padrões de serviços voltados para os clientes Percepções da empresa acerca das expectativas dos consumidores Comunicação externa com os clientes Fonte: Adaptado de Zeithaml e Bitner (2003, p.: 421). A lacuna 3 lembra o gestor de serviços que não basta ter formatos e padrões em consonância com o que querem os clientes, se a execução compromete esse padrão. Foi-se o tempo, por exemplo, em que falar de futebol brasileiro traduzia um padrão de qualidade acima da média, não é mesmo? leia a notícia em destaque e torça (junto comigo, é claro) para a realidade do futebol, um dos serviços mais importantes do país, voltar aos bons tempos. Adeus, Mano? seleção tem atuação “patética” contra África. A magra vitória, por 1 a 0, não serviu para “maquiar” os sérios problemas da seleção. A torcida brasileira já pode começar a se preocupar com o desempenho na copa do Mundo de 2014. enquanto o presidente José Maria Marin “dorme” na cBF, o diretor de seleções Andrés sanchez “engana” e o técnico Mano Menezes “brinca” de comandar a maior seleção de futebol do mundo. 80 AulA 5 • mODElO IntEGrADO DE lACunAS DA quAlIDADE DE SErVIçOS A magra vitória sobre a limitada África do sul, por 1 a 0, não serviu para “maquiar” os sérios problemas da seleção. dois anos se passaram e Mano não deu uma cara ao Brasil. Pior para jogadores de qualidade, como neymar, lucas e oscar, que estão sendo queimados pela falta de padrão do time. Fonte: Futebol interior. www.futebolinterior.com.br. As políticas de recursos humanos adotadas pela empresa são um dos fatores que contribuem para a diminuição da lacuna 3. recrutamento, seleção e treinamento adequados formam equipes que entendem seus papéis, responsabilidades e nível de contribuição para a qualidade dos serviços. Paralelamente, ferramentas como a avaliação de desempenho e práticas motivacionais, como treinamento, premiações e participação nos lucros, devem ser consideradas, com o intuito de manter a equipe motivada e comprometida com o objetivo da empresa. outro ponto que merece atenção do gestor de serviços diz respeito ao uso de intermediários na entrega de serviços. há pontos de conflito previstos neste caso: os interesses de ambos os parceiros (empresa e intermediário), a dificuldade da empresa em controlar a entrega adequada do serviço e a transferência de poder para o intermediário, já que é ele que entrega o serviço. Pense em uma consultoria de treinamento. É comum, nesse mercado, que a consultoria contrate instrutores de treinamento por projeto. ou seja, esses instrutores serão intermediários da consultoria na entrega do serviço ao cliente final. o desafio da consultoria é criar meios (seleção adequada, remuneração, condições especiais de contratação, entre outros) de garantir que o instrutor escolhido seja o mais adequado para representar a consultoria junto ao cliente final. A participação dos clientes no serviço é mais um dos fatores que influenciam a lacuna 3. há serviços em que a participação do cliente é crucial para garantir qualidade à oferta. Alguns casos são mais dependentes dos clientes, das informações que fornecem (serviços médicos); outros dependem mais da aprendizagem a que são submetidos (uso de caixa eletrônico) e há, também, casos em que a presença de mais de um cliente pode afetar a percepção de ambos sobre o serviço (fila de espera para atendimento em geral). cabe à empresa pensar em meios para antecipar perguntas (roteiro), treinar o cliente no uso do serviço (informativos, mecanismos autoexplicativos etc.) ou criar mecanismos que promovam harmonia na coexistência dos clientes (serviços alternativos). o último fator relacionado à lacuna 3 é a capacidade da empresa em compatibilizar oferta e demanda. Você já sabe que as características dos serviços não facilitam essa tarefa, por exemplo, 81 mODElO IntEGrADO DE lACunAS DA quAlIDADE DE SErVIçOS • AulA 5 porque não se pode estocar serviços. Mesmo os padrões definidos e os profissionais envolvidos adequadamente preparados, ações para o controle da demanda são necessários. Já pensou em uma empresa que oferece serviços de mecânica, vazia? e cheia demais? empresas têm adotado técnicas como treinamento interdepartamental (para o remanejamento de colaboradores), variação do quadro de funcionários (de acordo com a demanda) e estratégias de marketing (alterações de preço, propaganda, promoção e ofertas de serviços alternativos), para administrar questões desta natureza. Quadro 5. Fatores-chave para a lacuna 3 da empresa. Deficiências nas políticas de recursos humanos Recrutamento ineficaz Como em todo processo de seleção, espera-se que a empresa esteja atenta à contratação de profissionais adequados à prestação de serviço. Programas de integração, treinamentos, além de campanhas motivacionais, devem fazer parte das práticas de Recursos Humanos. O intuito é valorizar e premiar aqueles que garantem formatos e padrões em conformidade com o que demandam o serviço e os clientes. Ambiguidade e conflito de papéis Fraca compatibilidade entre colaboradores e tecnologia no trabalho Sistemas de avaliação e compensação impróprios Falta de transferência de poder, falta de percepção de controle e de trabalho em equipe Problemas com os intermediários do serviço Conflito de canal acerca de objetivos e de desempenho O desafio do gestor é desenvolver práticas que aproximem os intermediários da empresa, de modo que parte do seu interesse consista em representar a empresa da melhor forma possível.Conflito de canal acerca de custos e recompensas Dificuldade para controlar qualidade e consistência Tensão entre transferência de poder e controle Clientes não desempenham seus papéis Clientes falham no conhecimento de seus papéis e responsabilidades Quanto melhor um paciente descrever os sintomas de sua doença ao médico, mais chances terá de receber o tratamento correto e eficaz. Quanto à forma como clientes se afetam, basta imaginar uma fila na Disney em que pessoas de países diferentes e culturas diferentes têm de interagir. Certamente, as diferenças culturais irão influenciar a avaliação do serviço por cada um. Clientes afetam-se uns aos outros Falta em compatibilizar oferta e demanda Recomenda-se que a empresa se utilize de técnicas de marketing como alterações de preço, propaganda, promoção e ofertas de serviços alternativos, como meio para administrar a demanda. Adaptado de Zeithaml e Bitner (2003, p.424). 82 AulA 5 • mODElO IntEGrADO DE lACunAS DA quAlIDADE DE SErVIçOS Lacuna 4: não cumprir o que foi prometido figura 18. Serviço esperado Lacuna 3 Lacuna 4 Lacuna do cliente Lacuna 1 EmPrESA ClIEntE Lacuna 2 Serviço percebido Execução do serviço Formatos e padrões de serviços voltados para os clientes Percepções da empresa acerca das expectativas dos consumidores Comunicação externa com os clientes Lacuna 4 Execução do serviço Comunicação externa com os clientes Fonte: Adaptado de Zeithaml e Bitner (2003, p.: 421). A lacuna 4 lembra ao gestor de serviços que ele deve atentar para a comunicação adequada com os clientes do serviço que oferece. Vale lembrar que tal comunicação traz consigo um desafio: cumprir o que prometeu. Até os reis e rainhas passam por isso. Já pensou? leia o pequeno texto a seguirt e veja o vídeo que mostra a matéria completa. o vídeo é curto, mas dá indícios de como a rainha, prestadora de serviços da inglaterra, vem sendo percebida pelo povo, ao longo do seu reinado.Rainha Elizabeth renova promessa de serviço aos britânicos A rainha elizabeth ii, de 85 anos, renovou nesta segunda-feira (6) a promessa de serviço aos britânicos no dia do 60º aniversário de sua ascensão ao trono, que marca com discrição o início de cinco meses de celebrações pelo Jubileu de diamante. o vídeo que mostra a matéria completa está disponível em: http://tvuol.uol.com.br/assistir.htm?video=rainha-elizabeth-renova-promessa-de-servico-aos- britanicos-04024e9c336ce4A12326. Fonte: tV Uol (www.tvuol.com.br). 2012. 83 mODElO IntEGrADO DE lACunAS DA quAlIDADE DE SErVIçOS • AulA 5 comecemos pela comunicação com o cliente. A comunicação de serviço difere da comunicação de um produto pelo fato de, no caso do serviço, o objeto da comunicação ser algo que uma pessoa faz. ou seja, o sucesso da comunicação depende muito de como o profissional executa o serviço. de que adianta uma propaganda maravilhosa de telefonia celular, se os profissionais envolvidos no serviço não o entregam com qualidade? isso contribui para explicar o alto índice de reclamação desse tipo de serviço, por parte dos usuários. Quadro 6. Fatores-chave para a lacuna 4 da empresa. Falta de comunicação de marketing de serviços integrada Tendência a tratar cada comunicação externa como independente A comunicação externa deve estar em consonância como a capacidade da empresa em entregar o serviço prometido. Zeithaml e Bitner (2003, p. 425) enfatizam a necessidade de incluir o marketing interativo, “aquele entre o pessoal de contato e os clientes”, no plano de comunicação. Também as ações de marketing interno, que estimulam o envolvimento dos colaboradores com a prestação de serviço de qualidade, devem ser contempladas. não incluir o marketing interativo no plano de comunicação Ausência de um forte programa de marketing interno Administração ineficaz das expectativas dos clientes não administrar as expectativas de clientes em todas as formas de comunicação Até em função das diversidades entre os clientes, não é simples administrar a expectativa de cada um deles. Orienta-se o uso diversificado de ferramentas de comunicação de um serviço. Sempre que possível, privilegiar a aprendizagem do cliente em relação à forma adequada de fazer uso do serviço. não educar clientes de forma adequada Promessas excessivas Promessas excessivas na propaganda Embora um dos objetivos da comunicação (interna ou externa) seja chamar a atenção do consumidor para a oferta da empresa, promessas excessivas aumentam a expectativa dos envolvidos, podendo comprometer a avaliação final do serviço. Promessas excessivas na venda pessoal Comunicações horizontais inadequadas Comunicação inadequada entre vendas e operações Este tópico chama a atenção para o quão importante é a comunicação interna para a entrega adequada dos serviços. Cada um dos pontos relacionados deve ser evitado sob pena de comprometer a entrega dos serviços e a avaliação dos clientes. Comunicações inadequadas entre propaganda e operações Diferenças nas políticas e procedimentos entre filiais e unidades Adaptado de Zeithaml e Bitner (2003, p. 425). resumo nesta aula, vimos que: » existem lacunas (do cliente e da empresa) na entrega de serviços que podem afetar sua qualidade. » É possível colocar em prática questões levantadas no modelo apresentado nesta aula. 84 Apresentação A Associação Americana de Gerenciamento realizou um estudo em que verificou que os gerentes passam cerca de 20% de seu tempo enfrentando conflitos; eles afirmam que nos últimos 10 anos é cada vez mais necessária a habilidade de negociar e eles percebem ainda que o gerenciamento de conflitos é tão importante quanto o planejamento, a comunicação, a motivação e a tomada de decisão. os gestores precisam saber administrar conflitos, os quais acontecem em função de uma série de fatores e podem comprometer todo o processo produtivo. Mas, os conflitos também podem ser positivos, tirar equipes da zona de conforto e redefinir estratégias. o importante é procurar resolver os conflitos. diferentes técnicas podem ser usadas para transformar divergências em produtividade. Boa leitura e bons estudos! Objetivos esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de: » identificar causas dos conflitos. » Mapear vantagens e desvantagens dos conflitos. » Aplicar diferentes técnicas para a solução de conflitos. » compreender a importância de uma ouvidoria, conhecida como os olhos e os ouvidos das instituições. 6AulAGEStãO DE COnflItOS 85 GEStãO DE COnflItOS • AulA 6 Conflitos, uma realidade Você já parou para pensar que os conflitos são acontecimentos naturais da humanidade? Basta alguém frustrar nossas intenções, basta algo não acontecer conforme o esperado, alguém agir diferentemente do que consideramos normal, que o conflito acontece. Pense também em um lindo bebezinho, você pode observar que desde os primeiros dias, o bebê tenta impor sua vontade, tenta dirigir pai e mãe. Por que isso acontece? Porque nossa natureza quer sempre ser mais forte que o outro. Aí quando não conseguimos, continuamos tentando, mesmo que isso desagrade o outro e pronto, está instalado o conflito. lembra-se do nosso bebezinho? Pois bem, no caso dele, qualquer frustração gera lágrimas em vários decibéis. desde que caim matou Abel, desde que cristo não agradou a todos, desde sempre os conflitos estão presentes. duvida? então, lembre-se quando você presenciou alguém próximo perguntar: “o que você acha se eu fizer isso ou aquilo”. o que a pessoa espera é que você concorde, ela quer cumplicidade e não a verdade. Mas... e se você disser para ela não fazer aquilo que perguntou, aí o tempo muda, o sol desaparece e tempestades se formam rapidamente. como gestor estratégico, você precisa estar preparado para resolver conflitos que naturalmente aparecerão ao longo de toda a sua trajetória. As causas são variadas como veremos a seguir, mas a solução passa por estudo da situação, conhecimento do ser humano e, principalmente, pela capacidade de criar expectativas. Veja, se você prometer o céu para seu cliente e ele encontrar um pequeno morro, ficará frustrado e o conflito estará instalado. da mesma forma, se você quiser implantar uma estratégia divergente daquilo que seus funcionários acreditam, tenha a certeza de que isso trará mais problemas do que soluções e gerará uma grande insatisfação. claro que isso não é justificativa para não implementar mudanças necessárias, mas tudo depende da forma e de como todo o processo será conduzido, com base na transparência e na busca pela aceitação de todos. conflitos costumam ocorrer quando duas pessoas defendem pontos de vistas opostos e não abrem mão daquilo que creem estar certo. A questão é que quando se ouve cada parte separadamente, cada uma tem a sua razão. Uma vez que os conflitos são inerentes à condição humana, sendo decorrentes das relações entre pessoas e grupos, e que as organizações são compostas e estruturadas por pessoas, o lugar onde frequentemente os conflitos estarão presentes são as empresas ou instituições, que se constituem em verdadeiras arenas para o surgimento de conflitos. Causas dos conflitos » Diferenças de personalidade: por exemplo, quando pessoas com um perfil conservador são alocadas em equipes mais descoladas, os atritos são quase inevitáveis. 86 AulA 6 • GEStãO DE COnflItOS » Existência de atividades interdependentes no trabalho: quando uma área precisa de outra para continuar uma atividade, qualquer atraso pode ser tenso. » Metas diferentes: a empresa inteira precisa perseguir metas iguais. Quando cada equipe tem objetivos diferentes, não há sinergia. » Recursos compartilhados: um dos maiores problemas, principalmente em épocas de crise, quando o cobertor fica bem maiscurto. Mas lembre-se de que recursos não se resumem a dinheiro. Pode ser que você precise da ajuda de um colega para um projeto, mas se ele não for liberado pela chefia, o problema pode começar. » Falta de endomarketing: valorizar o cliente interno, esta é a definição de endomarketing, e esta valorização não passa apenas pelo salário. equipes pouco valorizadas produzem menos e têm uma menor propensão a solucionar problemas de maneira satisfatória. » Falta de percepção dos valores que permeiam a sociedade e o público-alvo envolvido: conforme vimos na Aula 1, a sociedade atual é complexa, com muitos grupos convivendo, consumindo e produzindo simultaneamente. deixar de compreendê-los, seus desejos e necessidades, suas escolhas, é um grande passo para os conflitos. » Etnocentrismo: muitas pessoas acreditam que só sua cultura, só sua visão é a correta e não aceitam que possam existir múltiplas visões e diferentes formas de viver. » Comunicação fraca ou errônea: comunicação errada cria expectativas equivocadas. » Estresse, cansaço físico e emocional: que provoca distorções na percepção de situações e gera cobranças indevidas; » Desrespeito a pessoa, limite e ou invasão de espaço: projetos têm responsáveis, empresas contam com hierarquia, não respeitar isso é contribuir para desgaste e gerar insatisfação; » Alta rotatividade: empresas precisam de equipes em que inclusive as pessoas possam errar e aprender com os erros. elevados níveis de rotatividade diminuem a criatividade e a capacidade inovadora. Vantagens do conflito Um conflito saudavelmente expresso clareia o ar, alivia a tensão e nos ajuda a sair em busca de novos recursos e a construir com mais solidez relacionamentos. Por serem em geral desconfortáveis, os conflitos nos obrigam a aprender e crescer. Muitas descobertas súbitas e avanços científicos importantes resultaram de conflitos internacionais. 87 GEStãO DE COnflItOS • AulA 6 no plano pessoal, os conflitos nos impelem a procurar dentro de nós recursos extras e novos estímulos e aptidões. outras vantagens dos conflitos são: » revelam os problemas existentes. » induzem ao movimento, à ação, gerando ideias novas. » testam a balança de poder e contribuem para a sua redistribuição. » Fortalecem sentimentos de identidade e união. » Facilitam o desenvolvimento interno, bem como as reflexões e análises sobre determinado tema. Desvantagens dos conflitos os conflitos podem facilmente se tornar destrutivos e desagradáveis se não forem tratados com cuidado, respeito e delicadeza. A maioria das pessoas é muito sensível e se magoa com facilidade. os conflitos consomem energias preciosas e causam, muitas vezes, o afastamento das pessoas. eles podem também ser cruéis e nocivos, gerar desconfiança e ódio e causar danos irreparáveis. outras desvantagens dos conflitos são: » desviam a atenção dos objetivos. » Geram ressentimentos entre os envolvidos. » contribuem para a insatisfação. » Fazem com que o trabalho perca o seu impulso. » criam situações que resultam em desperdício de esforços. » causam tensão. » distorcem o comportamento das pessoas. » Geram mudanças. Você precisa ter em mente que existem várias formas de ver um conflito. Por exemplo, na visão tradicional, todo conflito é ruim, considerado contraproducente, é sinônimo de violência, destruição e irracionalidade, sendo prejudicial para a organização e deve ser evitado. Mas, há, também, a visão de que o conflito é ocorrência natural nos grupos e organizações e, uma vez inevitável, devemos aceitá-lo. o conflito não pode ser eliminado e há ocasiões em que pode até ser benéfico para o grupo. isso porque um grupo demasiadamente harmonioso, 88 AulA 6 • GEStãO DE COnflItOS pacífico, cooperativo, está na iminência de tornar-se apático e sem condições de responder às necessidades de mudança e inovação. Fases do conflito os conflitos podem ser divididos em três fases: inicial, decisiva e manutenção. na fase inicial deve-se ter em mente que antes de tratar um conflito é necessário saber se as pessoas envolvidas estão conscientes do problema e dispostas a empreender os esforços necessários para buscarem a solução. Procure, então, levantar os indícios, dados e fatos pertinentes, e discuta com as pessoas envolvidas, mostrando a estas os benefícios potenciais do tratamento do problema. ouça atentamente, encoraje-as, desfaça as defesas e as resistências. A fase seguinte é a decisiva. tendo conseguido a adesão significativa, o conflito está maduro e pronto para ser tratado. Fique atento aos seguintes itens: » Provoque a explicitação dos termos do conflito, faça aparecerem queixas. » Peça dados e fatos. » evidencie as posições diante do problema, quais as prioridades, pretensões, divergências e temores. » Faça um diagnóstico do problema, estabelecendo as causas, fontes, implicações e alternativas de ação. Aqui geralmente surgem: informações divergentes, linguagens, enfoques e percepções diferentes do problema. Além disso, nesse momento afloram valores e interesses conflitantes, estados emocionais alterados e jogos de poder. também podem ser mencionadas questões irrelevantes que pouco ou nada contribuem ou têm a ver com o problema. Uma vez solucionado o conflito, entra-se na fase de manutenção. Faça o controle das medidas acertadas. Verifique os resultados alcançados e divulgue os sucessos. Verifique os desvios e promova a redefinição e as correções de rumo. Faça com que os envolvidos realimentem o processo e identifiquem novas oportunidades para administração de conflitos. Estimulando o conflito Algumas posturas podem estimular o conflito. são elas: » Comunicação: utilização de mensagens ambíguas ou ameaçadoras para aumentar os níveis de conflitos. 89 GEStãO DE COnflItOS • AulA 6 » Inclusão de estranhos: inclusão nos grupos de trabalho de funcionários que tenham históricos, valores, atitudes ou estilos gerenciais diferentes daqueles dos seus membros. » Nomear um “advogado do diabo”: designar um crítico que discuta, propositalmente, as posições defendidas pela maioria do grupo. » Reestruturação da organização: realinhamento dos grupos de trabalho; alteração de regras e regulamentos; aumento da interdependência; e outras mudanças estruturais similares que rompam o status quo. Técnicas para a solução de conflitos como gestor estratégico, você já sentiu que não existem receitas de sucesso e, sim, caminhos a serem percorridos para lidar com o ser humano e todas as suas nuances e visões diferenciadas. Muitas vezes, várias técnicas precisam ser aplicadas simultaneamente para se chegar a um acordo que permita às organizações avançarem em meio a divergências naturais em qualquer grupo. » Confronto › confronta o problema de cara. › exige pesquisa adicional para encontrar a melhor solução para o problema. › deve ser usada se houver tempo para trabalhar e resolver a questão. › também serve para criar relacionamentos e confiança. » Compromisso › exige que ambas as partes renunciem a algo. › A decisão tomada é uma mistura dos dois lados do argumento. › Pode ser usado para evitar uma briga. › Grupos homogêneos, com maior afinidade de pontos de vista, valores, métodos. › reforça um clima de segurança, condizente com os objetivos e a cultura organizacional. tudo é feito para não haver tensões consideradas prejudiciais ao trabalho, à produtividade e ao relacionamento pessoal harmonioso. » Suavização › “Alivia” o conflito, reduzindo o tamanho percebido do problema; › solução temporária, mas pode acalmar as relações da equipe e discussões tumultuadas. 90 AulA 6 • GEStãO DE COnflItOS › Pode ser aceitável quando o tempo é essencial ou quando qualquer uma das soluções propostas não resolver o problema atualmente.› Usada para manter relacionamentos e quando o problema não é crítico. » Retirada › Pior técnica de resolução de conflito. › Um lado do argumento se retira do problema, normalmente a contragosto. › Pode ser usada como um período para esfriar os ânimos, ou quando o problema não é crítico. › repressão de conflito › A pessoa com o poder toma a decisão. › A decisão tomada pode não ser a melhor para o projeto, mas é rápida. › Ajuda muito pouco no desenvolvimento da equipe. › Usada quando as apostas são altas e o tempo é essencial. › Mantém as diferenças sob controle, encobertas pela ênfase à lealdade, cooperação, trabalho em equipe. › conduz a um clima contrário à expressão de discordâncias. › os conflitos latentes, resultantes de repressão, não estão resolvidos, ficam apenas afastados sob pressão. eles continuam presentes, com teor energético acumulado. » Estímulo às divergências › o líder reconhece e aceita as divergências e procura criar uma situação para a pressão aberta do conflito. › Permite esclarecimento e aprendizagem. em geral, as pessoas não param para examinar suas premissas e posições, nem as dos outros. se isso é alcançado, ocorre aprendizagem sobre a natureza do conflito, as possibilidades de sua resolução e também sobre os custos, pessoais e grupais. › Uma vez esclarecido e resolvido o conflito, pode-se refletir sobre seus custos financeiros, desperdício de energia e tempo. Além dos custos psicológicos de tensões, insatisfações, hostilidades, constrangimentos e ansiedade. › Quando o líder opta por essa abordagem, precisa ter em mente as vantagens que espera alcançar. As possíveis consequências e que medidas tomar para manter o conflito dentro de certas proporções ou limites. 91 GEStãO DE COnflItOS • AulA 6 » Transformação das diferenças em resolução de problemas › se as divergências forem percebidas como enriquecedoras ao invés de competição por certo/errado, as situações conflitivas passarão a ser problemas que poderão ser resolvidos cooperativa e criativamente. › o velho ditado de que duas cabeças pensam melhor que uma passa a ser verdadeiro porque, frequentemente, duas pessoas representam um conflito mais rico de experiências e trazem maior variedade de elementos e ângulos para o problema. › Ajuda a lidar com sentimentos que acompanham discordâncias: frustração, ressentimento, hostilidade. Pela aceitação e colocação aberta de sentimentos. › Ajuda a evitar a repressão de sentimentos que explodiriam em ocasiões inoportunas. › Auxilia a canalizar energia gerada por sentimentos, para atividades construtivas ao invés de destrutivas. › não é simples nem fácil a sua utilização. demanda mais tempo e habilidade especial do líder e dos membros do grupo. habilidade que precisa ser desenvolvida sistematicamente. › A situação de argumentação e exploração de todos os pontos de vista precisa ser muito bem planejada e conduzida, sob pena de degenerar em conflito maior e não controlável, o que passa a ser ainda mais frustrante a todos os envolvidos. negociação com exceção da retirada, que conforme foi dito, é a pior das opções, todas as outras técnicas de solução de conflitos envolvem negociação. negociar é confrontar ideias para evitar que as próprias pessoas se confrontem, aceitar que os adversários, à medida que se encontram para tentar um acordo, são potenciais parceiros. implica esforço das partes para chegar a um acordo e buscar regulação das divergências, sendo um jogo estratégico entre o conflito e a cooperação. Algumas habilidades são necessárias para o processo de negociação: » separar as pessoas do problema. » Focar o interesse. » Apresentar várias possibilidades antes de tomar a decisão. » Buscar os resultados em padrões objetivos. » ser proativo e acreditar que é possível aprender a negociar. 92 AulA 6 • GEStãO DE COnflItOS existem sentimentos e atitudes que podem prejudicar a negociação: » Raiva: pode levar a agressões. » Tristeza: bloqueia a participação e argumentação. » Medo e angústia: bloqueiam a criatividade e a participação. » Euforia: conduz ao otimismo impensado. » Defesa: limita a interação. » Ataque: dificulta negociações futuras. » Impaciência: impede a disponibilização de tempo necessário para êxito. » Inflexibilidade: impede de enxergar a inviabilidade da sua própria proposta. » Racionalismo: impede o reconhecimento do papel das emoções no que tange às pessoas. » Sentimentalismo: dificulta a tomada de decisões racionais. » Autoritarismo: pode provocar ruptura ou conflitos maiores. » Verborragia: pode tornar o negociador mais vulnerável, ou provocar distanciamento. A negociação conta com elementos básicos: » Comunicação: saber fazer-se entender e saber ouvir. » Relacionamento: ter humildade, flexibilidade, ter bons princípios de relações humanas. » Interesses da outra parte: levar em consideração ambos os interesses. » Opções: apresentar opções para a concretização de um acordo. » Alternativas: equilibrar e saber qual o melhor desfecho, às vezes o melhor é postergar a decisão. » Legitimidade: tratar o interesse das partes com justiça. etapas da negociação para a solução de conflitos » Preparação para a negociação › estabelecer expectativas positivas. › Buscar um enfoque de solução de problemas. › Presumir a necessidade. › Fixar objetivos mínimos e máximos. › Planejar concessões. 93 GEStãO DE COnflItOS • AulA 6 » Abertura › criar um clima favorável entre os negociadores. › colocar as pessoas prontas para ouvir. › descontrair o ambiente, quebrar o gelo. › definir o propósito. » Exploração › descobrir fatores motivacionais e necessidades do outro. › descobrir o problema do outro. › estabelecer pontos comuns, evitando ênfase nas diferenças. › Procurar a identificação do terreno e dos interesses comuns. trabalhar a partir das ideias dos outros e reconhecer o seu valor. › Focar nos temas, evitando os ataques pessoais. › Procurar entender o ponto de vista da outra parte; tentar sentir como seria estar do outro lado. » Clarificação › saber ouvir. › Formular questões que possibilitam conhecer mais as propostas e pontos de vista dos outros lados envolvidos. › Manter a mente sempre aberta, buscando novas opções. › Buscar se despir dos pré-conceitos, isolando o problema das pessoas envolvidas. › identificar dúvidas reais e superação de resistências. › descobrir dúvidas potenciais. › lembrar que objeções representam interesse. › Preparar-se para responder a objeções com dados e informações, não com opiniões. » Ação final › Buscar um acordo ou decisão. › salientar a reversibilidade do processo (se for possível). › identificar sinais de aceitação. › solicitar a decisão. 94 AulA 6 • GEStãO DE COnflItOS » Controle e Avaliação › controlar o que foi acertado. › implantar o combinado. › comparar o previsto x realizado. Táticas de negociação negociar nem sempre é tarefa fácil, sem problemas ou situações embaraçosas. A seguir, são enumeradas algumas táticas para a quais devemos estar atentos para conduzir o processo da melhor maneira possível. » não deixar clara a decisão final Um negociador enfraquece-se quando fornece indícios acerca de sua decisão final » estender o tempo É uma tentativa de vencer pelo cansaço. » Adiar a decisão Forma de ganhar tempo para obter mais informações e redefinir estratégias. » Apelar para o limite da autoridade Utilizada quando a outra parte exige uma solução e você não poderá ultrapassar sua autoridade. » Apoiar-se na argumentação de outrem o negociador aproveita a colocação de outra pessoa para enfraquecer o argumento adversário. » regatearPropor progressivamente mudanças na posição inicial até o limite da ruptura – “pechincha”. » desafiar o adversário Quando o negociador desafia as partes, a resolução do conflito pode virar “questão de honra” para os demais. » incomodar fisicamente Utilizar-se de recursos físicos que desequilibram o adversário (ex.: sentar-se muito próximo). 95 GEStãO DE COnflItOS • AulA 6 » Propor o desarmamento objetiva diminuir as tensões, porém deve ser aplicada com cautela para não passar imagem de ironia. » Manter-se em silêncio o silêncio pode ser utilizado de forma a fazer com que as pessoas recuem. » Persistir Faz com que a outra parte fique sobrecarregada, favorecendo a negociação. » levar os outros a participarem de sua ideia Pela clareza no processo de comunicação, mostra suas ideias a fim de convencer os demais. » Procurar informações corretas em dados falsos Apoia-se no elemento surpresa com a citação de uma informação ou ação incorreta. » levar os oponentes a sentir culpa consiste em utilizar-se de apelo emotivo na negociação. » insinuar consequências Argumentar de forma a mostrar possíveis consequências inerentes à manutenção da sua posição. Muitas dessas táticas não são bem-vindas. Procure não usá-las. o melhor é sempre apoiar-se na técnica, no que de fato é permitido em sua empresa ou instituição. Assim, você não precisa de artifícios e não gera questionamentos desnecessários. Finalizando, seguem algumas sugestões para uma boa administração de conflitos: » Procure soluções, não culpados. » Analise a situação (Qual? Quem? o que? desde Quando? onde? Por quê?). » Mantenha um clima de respeito. » Aperfeiçoe a habilidade de ouvir e falar. » seja construtivo ao fazer uma crítica. » evite preconceitos e estereótipos. » Afirme seu ponto de vista o mais claramente possível, mas deixe as emoções de fora. 96 AulA 6 • GEStãO DE COnflItOS » esteja atento para o forte apego que você tem à necessidade de ter razão. » evite arrastar o passado atrás de si. se você se ativer aos problemas do presente, os dois lados conseguirão passar adiante. » Procure sempre um caminho à frente em vez de ficar andando em círculos. » Pratique a atitude de colocar-se na pele do outro. » experimente dizer «Bem, talvez você esteja com a razão». esse é um passo bastante corajoso! Veja o que acontece. » dê ao seu oponente, se possível, tempo para se acalmar em sua companhia. » não há nenhuma honra em «lutar até a morte» com alguém, sem necessidade, em torno de uma questão. honrado é achar uma solução. » Quando estiver errado, reconheça o erro. » lembre-se que administrar conflitos significa também administrar a si mesmo. Qualquer instituição deve ter a consciência de que é um todo, consequência de dedicação e comprometimento de seus integrantes e que sempre se pode fazer a diferença, seja junto aos seus membros, seja junto à sociedade na qual ela se encontra inserida. A felicidade não é a ausência de conflito e sim a habilidade de lidar com ele. Uma pessoa feliz não tem o melhor de tudo, mas ela torna tudo melhor. Autor desconhecido resumo Vimos até agora: » conflitos são inerentes ao ser humano. costumam ocorrer quando duas pessoas defendem pontos de vistas opostos e não abrem mão daquilo que creem estar certo. A questão é que quando se ouve cada parte separadamente, cada um tem a sua razão. » os conflitos possuem diferentes causas como diferenças de personalidade, existência de atividades interdependentes no trabalho, metas diferentes, recursos compartilhados, falta de percepção dos valores que permeiam a sociedade e o público-alvo envolvido, entre outros. » As vantagens do conflito permitem revelar os problemas existentes, induzir ao movimento, à ação, gerando ideias novas, fortalecendo sentimentos de identidade e união e facilitando o desenvolvimento interno, bem como as reflexões e análises sobre determinado tema. 97 GEStãO DE COnflItOS • AulA 6 » os conflitos são desvantajosos quando desviam a atenção dos objetivos, geram ressentimentos entre os envolvidos, contribuem para a insatisfação, fazem com que o trabalho perca o seu impulso, criam situações que resultam em desperdício de esforços, causam tensão, distorcem o comportamento das pessoas e geram mudanças. » As técnicas para a solução de conflitos são variadas e dependem de cada situação, mas em praticamente todas é necessário negociar e possuir habilidades que permitam conduzir os oponentes a resultados satisfatórios tanto do ponto de vista individual quanto coletivo. 98 Referências ABreU, Marcelo de Paiva (org.). 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