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editorial
É possível ser feliz
no trabalho também
Gláucia Viola, editora
“A felicidade é a realização de um desejo pré-
histórico da infância. É por isso que a riqueza
contribui em tão pequena medida para ela. O
dinheiro não é objeto de um desejo infantil.”
Sigmund Freud
A
s novas gerações sempre trazem comportamentos, atitudes e ideias que ques-
tionam os modelos passados. O conceito de muitas coisas mudou ao longo das
décadas. Com a felicidade não podia ser diferente. Ela é objetivo e objeto de
desejo há milênios, mas o próprio estado de felicidade alcançou outro status.
Atualmente não basta ESTAR feliz, é preciso SER feliz. Essa é a busca!
%�ISSO�SE�REmETE�EM�VÉRIAS�ÉREAS�DA�VIDA��COM�INmUÐNCIA�ATÏ�MESMO�NAS�ESCOLHAS�PROlS-
sionais, por exemplo. Há alguns anos, o trabalho era visto apenas como um “ganha-pão”,
como um recurso de sustento para as aspirações. Hoje, porém, se
transformou um meio para obter sucesso e autorrealização.
Muitos estudos lançam mão da compreensão deste fenômeno,
fazendo com que a ciência ajude a trilhar esse caminho. Um extenso
corpo de cientistas indica que quando o indivíduo utiliza suas forças,
ele experimenta níveis mais altos de felicidade e níveis reduzidos
de depressão e estresse, além de maior propensão a atingir metas e
CRESCER�COM�OS�DESAlOS��)SSO�GERA�PRODUTIVIDADE��BEM
ESTAR��AUMEN-
to na expectativa de vida, entre outras circunstâncias que envolvem
a felicidade em sua plenitude.
Diante desse cenário, a Psique Ciência&Vida preparou um dossiê
que debate o resultado de diversos estudos sobre o tema. Apesar
das investigações comprovarem a tendência que prioriza as boas relações no ambiente cor-
porativo, uma pesquisa realizada pela #HARTERED�)NSTITUTE�OF�0ERSONNEL�AND�$EVELOPMENT
mostra que apenas metade das empresas está preocupada com o bem-estar de seus funcio-
nários, e dentre elas em torno de 30% incluem o estresse como maior causa de afastamen-
tos no trabalho.
É possível notar como os valores mudam a passos largos e a felicidade no ambiente
corporativo não é mais vista como algo intangível, e sim uma possibilidade cheia de benefí-
cios que vão desde colaboradores mais engajados e agradecidos, aumento na qualidade de
TRABALHO�E�MELHORIAS�SIGNIlCATIVAS�NO�RECRUTAMENTO�E�RETEN¥ÎO�DE�PROlSSIONAIS��.O�lM�DAS�
contas, a felicidade é uma escolha em que todos ganham.
Boa leitura!
Gláucia Viola
www.facebook.com/PortalEspacodoSaber
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CAPA
sumário
26/03/2019 14:21
ENTREVISTA
O psiquiatra norte-americano
Jeffrey M. Schwartz acredita que
existe uma predisposição hereditária
para o desenvolvimento do TOC
SEÇÕES
05 NA REDE
06 RELAÇÕES EM PAUTA
15 PSICOLOGIA JURÍDICA
16 IN FOCO
18 UTILIDADE PÚBLICA
20 PSICOPEDAGOGIA
32 COACHING
34 LIVROS
50 PSICOLOGIA SOCIAL
52 NEUROCIÊNCIA
54 RECURSOS HUMANOS
64 DIVÃ LITERÁRIO
66 CINEMA
70 PERFIL
80 EM CONTATO
82 PSIQUIATRIA FORENSE
08
SH
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RS
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DOSSIÊ: Somos felizes?
A Psicologia aprimora estudos
na busca por respostas sobre
o que é felicidade, o que fazer
para ser feliz e como esse
ESTADO�INmUENCIA�O�TRABALHO�
MATÉRIAS
35
Ameaça silenciosa
/�GRANDE�DESAlO�DE�
controlar a ansiedade
e o estresse durante provas
em geral, fatores que
colaboram para o mau
desempenho nos resultados
22
Crianças no divã
Apesar de ser fundamental
em determinados casos,
a clínica psicanalítica infantil
ainda sofre com a resistência
de pais e responsáveis
74
Modelo da fala
e da escuta
A melhor maneira
de compreender os sofrimentos,
traumas e dores é criar uma nova
consciência em relação a eles,
por intermédio da cura pela fala
56
psique ciência&vida 5www.portalespacodosaber.com.br
na rede por Nicolau José Maluf Jr.
Nicolau José Maluf Jr. é
psicólogo, analista reichiano,
doutor em História das Ciências,
Técnicas e Epistemologia
(HCTE/UFRJ). Contato:
nicolaumalufjr@gmail.com
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AL
O JOGO PARADOXAL DA INTERNET, QUE COLABORA
PARA O ISOLAMENTO, MAS TAMBÉM CRIA UMA
COMUNICAÇÃO RICA EM AFETIVIDADE ENTRE
DESCONHECIDOS QUE SE APOIAM COMO BONS AMIGOS
O espaço-tempo VIRTUAL
S
e de dois irmãos gêmeos um
fosse levado a viajar pelo
espaço numa velocidade
próxima à da luz, quando re-
tornasse à Terra, depois de passados
���ANOS�PARA�O�QUE�l�COU�EM�NOSSO�
planeta, apenas alguns minutos te-
riam se passado para o que foi. O
tempo, segundo a teoria de Einstein,
deixa de ser absoluto e concomitante
para os dois irmãos, a passagem iria
depender da velocidade de desloca-
mento de cada um. Ou seja, a repre-
sentação do “tempo” seria diferente-
mente radicada para cada um.
Gosto de ler comentários nos
blogs e outras publicações na inter-
net. Podem expressar sadismo, me-
diocridade, o que há de mais abjeto
na espécie humana, mas também
sinceridade. E, surpresa! Calor hu-
mano, solidão, tristeza. Desejo de
proximidade. São reações contra o isola-
mento e o anonimato que a modernidade
e o gigantismo populacional ensejam.
O virtual não para de surpreender
e também permite psicologicamente a
superação do tempo clássico, como na
teoria einsteiniana. Principalmente para
quem é jovem, tomado pela inquietu-
DE�E�UM�APAIXONAMENTO��m�OR�DA�PELE��
Anoto, num site dedicado a músicas, os
seguintes relatos:
– Eu queria morrer mas não sou
suicida – escreve um. – Alguém aí está
ouvindo essa música agora? – pergunta
outro. – Eu – responde ela. Três anos
depois! Outro: – Não sei como vim
parar aqui, mas amo todos vocês. E a
“conversa” continua sem se preocupar
com o espaço-tempo, com outro que
CHEGA�POR�AGORA��n�-ARIA�AMOU�SEU�l�
lho, porque minha mãe não me ama?1 –,
numa brincadeira amargurada, parafra-
seando uma letra de um musical antigo.
“Amo todos vocês” é a expressão
mais constante. Mesmo com intervalos
1 My hair like Jesus wore it Hallelujah, I adore
it Hallelujah, Mary loved her son why don’t my
mother love me. Da música Hair, musical do
mesmo nome.
de anos. Mas quem se importa? To-
dos dão-se virtualmente as mãos.
Pobres garotos e garotas. Pobres
todos nós. O sentimento de solidão
e a consciência da morte parecem
ser atributos especiais (não neces-
SARIAMENTE� ESPECÓl�COS � DA� ESPÏCIE�
humana. Auto-consciência. Num
jogo paradoxal, a internet colabo-
ra para o isolamento e ao mesmo
tempo cria esses espaços virtuais
�ESPA¥O
TEMPO� VIRTUAL � RICOS� EM�
comunicação e afetividade, mesmo
estes sendo exceção, e não a regra.
“O diabo mora nos detalhes”,
diz o adágio. “Deus está nos de-
TALHESv� Ï� Al�RMA¥ÎO� EQUIVOCADA
mente atribuída a Einstein, mas
é engano que elucida a verdade
contida no adágio: a ambivalência,
a dialógica de um instrumento (a
INTERNET �QUE��D�A�MESMA�FORMA�QUE�
serve como canal para o que há de mais
doentio, dá ensejo a uma inusitada co-
municação amorosa.
– Quero conhecer os pensamentos
de Deus, o resto é detalhe – disse na ver-
dade Einstein. Estará a internet prestes
a adquirir um dos atributos de Deus, a
onipresença?
6 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
relações em pauta por Elaine Cristina Siervo
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QUANDO UM
VÍNCULO COMEÇA
A SE ESTABELECER,
É DIFÍCIL O
CASAL IR PARA A
CAMA “SOZINHO”.
AS FIGURAS
INTROJETADAS
DA MÃE E DO PAI
ESTÃO PRESENTES
NESSA RELAÇÃO
COMO MODELO
A SER REPRODUZIDO
OU EVITADO
RETRATOS de um casamento
SOMOS FRUTOS DE TODAS AS EXPERIÊNCIAS QUE VIVEMOS
DESDE O NASCIMENTO. A POSIÇÃO QUE OCUPAMOS
DENTRO DA FAMÍLIA VAI INFLUENCIAR A FORMA COMONOS RELACIONAMOS COM NOSSOS PARES NO FUTURO
C
OMO� ESCREVEU� O� l�LØSOFO�
Zigmunt Bauman (2004), vi-
vemos em uma sociedade lí-
quida, na qual as coisas, em
sua maioria, são “impermanentes”. Es-
tamos em tempos de amores líquidos,
em que nas últimas décadas criaram-se
novos termos e designações para os ti-
POS�DE�RELACIONAMENTO��hl�CARv��hRELACIO
namento aberto”, “poliamor”, “crush”,
“pegação”, entre outras nomenclatu-
ras. Deseja-se o amor, mas busca-se o
prazer imediato. As pessoas procuram
avidamente um relacionamento, mas
quando surge um pequeno problema,
geralmente, não encontram condições
INTERNAS� PARA� RESOLVÐ
LO�� 0OR� FALTA� DE�
condições ou por escolha, as relações
são descartadas, reiniciando-se a busca
por outro parceiro.
Os dados do Instituto Brasileiro
DE�'EOGRAFIA� E�%STATÓSTICA� �)"'% �DE
monstram que, nos dois últimos anos,
2017 e 2018, o número de casamentos
DIMINUIU� ENQUANTO� O� DE� DIVØRCIOS� AU
mentou. A média da duração dos casa-
mentos caiu de 17 para 15 anos. A par-
tir dessas estatísticas, percebemos que
ESTÉ�CADA�DIA�MAIS�DIFÓCIL�ESTABELECER�E�
manter relações duradouras. No século
passado, os casamentos eram para toda
uma vida. Comemoravam-se bodas de
prata nos 25 anos de casados e bodas
de ouro aos 50. Nas últimas décadas,
apesar da expectativa de vida ter au-
mentado consideravelmente, é muito
MAIS� DIFÓCIL� PENSARMOS� NESSE� TIPO� DE�
comemoração, devido à pouca duração
da maioria dos casamentos.
Sabemos, por outro lado, que hoje
em dia os casamentos que não são
bons não se mantêm. Muitos autores
escreveram sobre o casamento e o rela-
cionamento. Existem dezenas de livros
sobre o amor e a paixão. Mas não exis-
TE�UMA�FØRMULA�QUE�POSSA�SER�APLICADA�
quando se trata de relações humanas.
O assunto é muito importante, pois
a relação é um grande caminho para
revelar nossos aspectos sombrios. Se
aproveitarmos a oportunidade de au-
toconhecimento que emerge, seremos
sem dúvida seres humanos mais intei-
ROS�E�FELIZES�
No “caldeirão” chamado relaciona-
mento cabem muitos ingredientes: a
ATRA¥ÎO� FÓSICA�� A� ADMIRA¥ÎO�� A� IDENTIFI
cação, a projeção, as semelhanças, as
DIFEREN¥AS�� AS� PREFERÐNCIAS�� OS� hobbies,
O� ESTILO� DE� VIDA�� OS� TALENTOS�� OS� DEFEI
tos, a convivência com as respectivas
FAMÓLIAS�DE�ORIGEM��AS�EXPECTATIVAS�EM�
RELA¥ÎO� A� FILHOS� E� COMO� CADA� UM� LIDA�
com dinheiro e carreira, entre outros
importantes aspectos. Quanto de cada
um desses ingredientes deve constar
NA�LISTA�DE�UM�CASAMENTO�FELIZ�E�DURA
douro? Essa receita tão subjetiva nunca
será equacionada, mas, apesar disso,
DEVEMOS�PENSAR�E�REFLETIR��/�CASAMEN
TO�ANTIGAMENTE�TINHA�OUTROS�PROPØSITOS�
EM�SUA�CONFIGURA¥ÎO��%RA�VOLTADO�A�DAR�
estabilidade aos parceiros e constituir
FAMÓLIA�� (OJE�� DIFERENTEMENTE� DE� ANTI
gamente, podemos pensar no aplaca-
mento da solidão e da insegurança em
que vivemos em todos os sentidos: cul-
tural, social e político.
Quando um vínculo começa a se
ESTABELECER�� Ï� DIFÓCIL� O� CASAL� IR� PARA� A�
CAMA�hSOZINHOv��!S�FIGURAS�INTROJETADAS�
da mãe e do pai estão presentes nessa
relação como modelo a ser reprodu-
ZIDO� OU� EVITADO�� )NFELIZMENTE�� POUCAS�
pessoas podem dizer que gostariam de
ter um casamento como o de seus pais.
O modelo da relação dos pais vivido
psique ciência&vida 7www.portalespacodosaber.com.br
Elaine Cristina Siervo é psicóloga. Pós-graduada na área Sistêmica – Psicoterapia
de Família e Casal pela PUC-SP. Participa do Núcleo de Psicodinâmica e Estudos
Transdisciplinares da SBPA (Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica). Atuou na
área de dependência de álcool e drogas com indivíduos, grupos e famílias.
NA�SUA�FAMÓLIA�DE�ORIGEM�DEIXA�MARCAS��
Muitos dos casais que procuram psico-
terapia apresentam incompatibilidade
SOBRE�VÉRIOS�FATORES�QUE�ACREDITAM�SER�
certos e bons para a relação. As pesso-
AS�HERDAM� SEUS�MODELOS� E� SE� FIXAM�A�
eles, às vezes inconscientemente e sem
REFLEXÎO��
!S� PESSOAS� TÐM� PERCEP¥ÜES� DIFE-
rentes do mesmo ambiente. Irmãos
que viveram décadas na mesma casa
possuem visões diversas sobre o casa-
mento de seus pais e cada um pode ser
AFETADO�DE�VÉRIAS�FORMAS�PELOS�CONmITOS�
FAMILIARES�� /S� MEMBROS� DESSE� NÞCLEO��
PRINCIPALMENTE�OS�lLHOS��PODEM�TER�TA-
REFAS� RELATIVAS� A� MANTER� A� HOMEOSTASE�
DA�FAMÓLIA��!CABAM�POR�OPTAR�POR�ESSES�
PAPÏIS�PARA�SUAS�FUTURAS�RELA¥ÜES�
Vanda Lucio Di Yorio Benedito,
terapeuta de casais, em seu livro Te-
rapia de Casal e de Família na Clínica
Junguiana, escreve: “A escolha do par-
ceiro, geralmente, envolve um comple-
xo arsenal de motivações. Ligadas a
vivências emocionais muito íntimas e
PROFUNDAS�� ;���=�DE�DIFÓCIL� REPRESENTA¥ÎO�
no nível da consciência. Misturam-se
desejos de várias ordens, e quanto mais
inconsciente o indivíduo estiver desses
desejos, maior a possibilidade de tais
CONTEÞDOS�SEREM��@lSGADOS��NUMA�RELA-
¥ÎO��;���=�/�INDIVÓDUO�QUE�NÎO�CONSEGUE�
tomar para si aquilo que constitui parte
DE� SEU�MUNDO� INTERNO� lCA� PERDIDO�DE�
si mesmo, buscando achar-se no outro”.
A psicoterapia de casais tem a gran-
DE�TAREFA�DE�ELUCIDAR�OS�INÞMEROS�FATO-
RES�QUE�INTERFEREM�NA�RELA¥ÎO�CONmITIVA��
A conscientização dos aspectos gera-
DOS�PELA�FAMÓLIA�DE�ORIGEM�DE�AMBOS�Ï�
um bom começo para o tratamento de
CASAIS��.A�MAIORIA�DOS�CASOS��O�CONmITO�
possibilita o conhecimento e a clari-
lCA¥ÎO� DAS� lXA¥ÜES� DOS� PARCEIROS� EM�
aspectos não integrados de sua perso-
NALIDADE�� !� TAREFA� � CRIAR� UM� TERCEIRO�
modelo, uma união que possa contem-
plar as expectativas trazidas pelos par-
ceiros para essa relação.
8 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
O psiquiatra
norte-americano Jeffrey
M. Schwartz revela
que ainda não existe o
conhecimento concreto
do porquê de uma pessoa
desenvolver o TOC
JEFFREY M. SCHWARTZ
psique ciência&vida 9www.portalespacodosaber.com.br
O
transtorno obsessivo-compulsivo
(TOC) atinge milhões de pessoas
no mundo todo. Frequentemente
confundido com simples manias
e hábitos corriqueiros, muitas das pessoas que
sofrem com ele acreditam que não existe um
tratamento que possa libertá-las desse mal.
No entanto, para o psiquiatra norte-america-
no Jeffrey M. Schwartz, uma das formas é re-
direcionar a atenção e mudar para outro com-
portamento. “Se a obsessão for lavar as mãos
incessantemente, por exemplo, ao invés de agir
por impulso e correr para a pia, é necessário mu-
dar o foco de atenção: afastar-se da pia sem lavar
as mãos e tentar realizar outra tarefa distante
daquele lugar”, diz.
Ao agir dessa maneira, segundo Schwartz, os
impulsos começam a diminuir, ao mesmo tempo
em que a química do cérebro mudará. “Não se
deve querer livrar-se desse sentimento de ime-
diato, já é notável que não teremos sucesso, e
sim tentar driblá-lo. Não é um exercício que terá
efeito instantâneo, mas, com persistência, os im-
pulsos diminuem com o tempo”, acrescenta.
Schwartz é pesquisador no campo da neuro-
plasticidade e sua aplicação ao transtorno ob-
sessivo-compulsivo (TOC). Atualmente é pro-
fessor adjunto de Psiquiatria da UCLA School
of Medicine, nos Estados Unidos, e integrante
da Sociedade Internacional para Complexidade,
Informação e Design.
O psiquiatra é autor, entre outros, do livro TOC
– Livre-se do Transtorno Obsessivo-compulsivo, publi-
cado pela Cienbook, do Grupo Editorial Edipro.
Ele preparou essas respostas à Psique juntamente
com Josie Thomson, um dos coautores da nova
obra The Wise Advocate – The Inner Voice of Strate-
gic Leadership, que ainda não saiu no Brasil.E N T R E V I S T A
Lucas Vasques Peña é jornalista e colabora nesta publicação.
TRANSTORNO OBSESSIVO-
-COMPULSIVO DE FAMÍLIA
Por Lucas Vasques Peña
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O psiquiatra norte-americano
Jeffrey M. Schwartz, especialista
em neuroplasticidade, diz que há
uma predisposição hereditária para
o desenvolvimento do TOC e,
embora sem cura, os sintomas podem
melhorar com tratamento adequado
10 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
associados a impulsos como checar,
limpar, arrumar ou outros meios de
tornar algo “ainda mais perfeito”. É
importante salientar que os sintomas
do TOC sejam reconhecidos pela
pessoa e que esta saiba que eles não
fazem muito sentido, de acordo, pelo
menos, com as manifestações mais
clássicas dessa doença.
COMO DIFERENCIAR UMA SIMPLES MA-
NIA DE UM PROBLEMA MAIS SÉRIO QUE
SE CARACTERIZA COMO TOC?
SCHWARTZ: O que diferencia um
simples hábito/mania do TOC é a
compreensão de que o pensamento
e o impulso de fazer algo compulsi-
vamente não fazem muito sentido e
são severamente repetidos, mediante
a angústia crônica de não realizá-los.
HÁ PESSOAS MAIS PREDISPOSTAS AO
TOC OU TODOS ESTAMOS SUJEITOS A
APRESENTAR O TRANSTORNO?
SCHWARTZ: Def initivamente, há
uma predisposição hereditária para
o desenvolvimento do TOC, que
pode ser vista através da árvore
genealógica. Qualquer pessoa pode
ter sintomas de TOC quando estiver
sob estresse. A diferença aparece
quando há uma doença real e os
sintomas do TOC não se dissipam
quando o período de estresse acaba.
O TOC PODE SER ENCARADO COMO
UMA ESPÉCIE DE MECANISMO DE AUTO-
DEFESA, AUTOPROTEÇÃO?
SCHWARTZ: No sentido que os sinto-
mas são relacionados com comporta-
mentos como checar coisas e limpar,
então sim. O problema do TOC é que
a compulsão de limpar e checar não
é resolvida de uma maneira normal
e continua a incomodar o indivíduo
mesmo depois de tudo ter sido checa-
do e limpo. Isso se deve ao fato de o
cérebro possuir mecanismos relacio-
nados a esses comportamentos que
não são desligados corretamente. É
daí que vem o termo “cérebro travado”.
JÁ SE SABE POR QUE A PESSOA DESEN-
VOLVE O TRANSTORNO OBSESSIVO-
-COMPULSIVO?
SCHWARTZ: Sabemos que há a predis-
posição genética para o desenvolvi-
mento do transtorno obsessivo-com-
pulsivo (TOC) no indivíduo. Porém,
ainda não temos conhecimento con-
creto do porquê de uma pessoa de-
senvolver o TOC.
EXISTE ALGUMA CAUSA DETERMINA-
DA QUE FUNCIONE COMO UM GATILHO
PARA QUE A PESSOA COMECE A SOFRER
DE TOC?
SCHWARTZ: Eventos estressantes da
vida com certeza inf luenciam para o
começo dos sintomas do TOC. Além
disso, para as pessoas que já possuem
uma predisposição genética, esses
sintomas podem ser de longa dura-
ção e não desaparecer depois que o
estresse se dissipar. Não há cura para
o transtorno, mas os sintomas me-
lhoram com tratamento adequado.
Qualquer pessoa
pode ter sintomas de
TOC quando estiver
sob estresse. A diferença
aparece quando há
uma doença real e os
sintomas do transtorno
não se dissipam
quando o período
de estresse acaba
QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS CARACTERÍS-
TICAS DO TOC?
SCHWARTZ: As principais caracterís-
ticas do TOC incluem: pensamentos
intrusivos e indesejados que são in-
cômodos. A estes damos o nome de
obsessões. Eles são frequentemente
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psique ciência&vida 11www.portalespacodosaber.com.br
sões são os incômodos pensamentos
que sempre voltam à mente. Já as
compulsões são os comportamentos
e impulsos para certos momentos.
Dessa forma, os pensamentos e com-
portamentos estão relacionados entre
si, mas obsessões e compulsões não
são a mesma coisa.
HÁ ALGUM TIPO DE TOC ESPECÍFICO
QUE TEM MAIOR INCIDÊNCIA, COMO LA-
VAR AS MÃOS VÁRIAS VEZES SEGUIDAS,
OU ISSO É ALEATÓRIO?
SCHWARTZ: Os sintomas mais comuns
do TOC são a limpeza, a checagem
e o perfeccionismo exagerado, a todo
momento. E isso def initivamente não
é aleatório.
O TOC APARECE COM MAIS FREQUÊN-
CIA EM ALGUMA FAIXA ETÁRIA ESPECÍ-
FICA OU INDEPENDE DE IDADE?
SCHWARTZ: O TOC, comumente,
ocorre na adolescência e no começo
da idade adulta, mas pode, certamen-
te, ocorrer durante a infância, e al-
gumas vezes quando já mais velho. É
raro, entretanto, adultos com mais de
35 anos começarem a desenvolver a
doença, a não ser que ele tenha algu-
ma condição médica que cause lesão
cerebral ou dano ao órgão.
É MAIS COMUM EM MENINOS OU ME-
NINAS?
SCHWARTZ: É praticamente igual, sem
distinção de gênero.
É CORRETO AFIRMAR QUE O TOC NÃO
TEM CURA E O TRATAMENTO É FEITO
À BASE DE MEDICAMENTOS E TERAPIA?
SCHWARTZ: O TOC não tem uma
cura. Então, o tratamento é baseado
no uso de medicações e vários tipos
de terapias cognitiva e comporta-
mental. Com a terapia, é possível
melhorar, mas não consideramos um
tratamento para o TOC um sucesso
quando os sintomas desaparecem,
pois frequentemente eles não somem IMA
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O problema
do transtorno
obsessivo-compulsivo
é que a compulsão de
limpar e checar
não é resolvida de
uma maneira normal e
continua a incomodar
o indivíduo mesmo
depois de tudo ter
sido checado e limpo
LIVRO SERVE COMO GUIA PARA DERROTAR O TOC
PARA SABER MAIS
O livro TOC – Livre-se do Transtorno Obsessivo-compulsivo é um guia para combater a doença e derrotá-la. Com um método de quatro pas-
sos, segundo Schwartz, a pessoa terá condições de reprogramar seu cére-
bro e livrar-se das falsas mensagens causadas pelo transtorno, que travam
a mente e afetam a vida. Esse método de tratamento do TOC se baseia na
identificação de obsessões, no reconhecimento da doença, no redirecio-
namento da atenção e, finalmente, na capacidade de ignorar os impulsos.
Esses passos combinam a terapia cognitiva e o mindfulness (atenção plena)
e constituem hoje um tratamento-padrão para pacientes com TOC.
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por completo. Porém, com certeza
se torna melhor no aspecto de ge-
renciamento. As melhoras são de
tal modo que a vida desse indivíduo
pode, genuinamente, não ser prejudi-
cada pelo TOC, devido à capacidade
que as pessoas têm de controlar os
seus sintomas e o cérebro, de mudar,
tornando os sintomas mais leves e
gerenciáveis.
EXISTE DIFERENÇA ENTRE COMPULSÃO
E OBSESSÃO? QUAIS SERIAM E QUAL DOS
PROBLEMAS ESTÁ DIRETAMENTE RELA-
CIONADO AO TOC?
SCHWARTZ: Tanto as compulsões
quanto as obsessões são diretamente
relacionadas com o TOC. As obses-
12 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
O TOC não possui
uma cura. Então
o tratamento é baseado
no uso de medicações
e vários tipos de
terapia cognitiva e
comportamental.
As melhoras são
de tal modo que a
vida desse indivíduo
pode, genuinamente,
não ser prejudicada
pelo TOC
EXISTEM RELATOS DE CRIANÇAS DE 3
ANOS COM SINAIS DE OBSESSÕES OU COM-
PULSÕES GRAVES. NESSES CASOS É POS-
SÍVEL DETECTAR A ORIGEM DO PROBLE-
MA? E COMO ELABORAR O TRATAMENTO
PARA UMA CRIANÇA TÃO PEQUENA?
SCHWARTZ: Certamente não é raro
para crianças na idade dos 3 aos 10
anos desenvolverem TOC. O tra-
tamento deve ser feito em conjun-
to entre as áreas da Psicologia e da
medicina clínica com experiência em
crianças e adolescentes.
QUAIS AS DIFERENÇAS ENTRE O TRANS-
TORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO PRO-
PRIAMENTE DITO E O TRANSTORNO
OBSESSIVO-COMPULSIVO SUBCLÍNICO?
SCHWARTZ: A diferençaestá na gravida-
de do quanto o TOC vai comprometer
a vida do indivíduo. O TOC subclínico
é muito menos intrusivo e compromete
menos as funções da pessoa.
VOCÊ É ESPECIALISTA EM NEUROPLAS-
TICIDADE E AFIRMA QUE A MENTE PODE
CONTROLAR A QUÍMICA CEREBRAL.
COMO CHEGOU A ESSA CONCLUSÃO E
POR QUÊ?
SCHWARTZ: Nós, certamente, acredita-
mos que a mente possa inf luenciar na
alquimia do cérebro, mas, também, é
claro que com uma condição tão grave
quanto o TOC a mente não consegue
controlar por completo a alquimia do
cérebro. Chegamos a essa conclusão
depois de estudar as mudanças de
imagem no cérebro de pacientes que
tiveram tratamento com a terapia cog-
nitiva e comportamental.
EM 1997, VOCÊ CRIOU O TERMO BRAIN
LOCK (“CÉREBRO TRAVADO”) PARA DES-
CREVER O COMPORTAMENTO OBSES-
SIVO-COMPULSIVO E SEU MÉTODO DE
TRATAMENTO. O QUE SERIA ESSA TRAVA
E COMO FUNCIONA NA MENTE HUMANA?
SCHWARTZ: O termo “cérebro tra-
vado” é uma referência ao fato de o
centro de hábitos do cérebro f icar
preso em uma engrenagem, que é
uma outra forma de pensar no termo
“cérebro travado”. Do mesmo jeito
que um carro, às vezes, trava na en-
grenagem, o cérebro f ica preso em
comportamentos e é muito dif ícil de
mudar. Ou, então, o mesmo pensa-
mento continua se intrometendo na
mente do indivíduo repetidamente.
Essas dif iculdades, em muitos casos
de TOC, são causadas pelos proble-
mas geneticamente herdados pelo
centro de hábitos. Na mente huma-
na, esses pensamentos e impulsos são
muito intrusivos e dif íceis de divergir
a atenção. Desse jeito, pode-se dizer
que se inf iltrar na linha de pensamen-
to do cérebro é um problema.
EM SEU LIVRO TOC – LIVRE-SE DO
TR ANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO,
VOCÊ APRESENTA QUATRO PASSOS QUE
Os sintomas mais comuns do TOC são a limpeza, a checagem e o perfeccionismo exagerado, a todo
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psique ciência&vida 13www.portalespacodosaber.com.br
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Tanto as compulsões quanto as
obsessões são diretamente relacionadas
com o TOC. As obsessões são os incômodos
pensamentos que sempre voltam à mente.
Já as compulsões são os comportamentos
e impulsos para certos momentos
VÃO MUDAR A QUÍMICA DO CÉREBRO E
LIVRAR AS PESSOAS DA DOENÇA. PODE
EXPLICAR QUAIS SÃO ESSES PASSOS?
SCHWARTZ: Os quatro passos são: 1)
renomear; 2) reatribuir; 3) redirecio-
nar a atenção; 4) reavaliar. Esses pas-
sos são usados para ajudar as pessoas
a perceber que os pensamentos e im-
pulsos são falsas mensagens vindas
do cérebro. Com esse conhecimento,
as pessoas podem aprender a redi-
recionar a atenção delas e ter outros
comportamentos, apesar de que isso
depende de um grande esforço para se
fazer. Se feito regularmente, vai modi-
f icar a química subjacente do cérebro
e os sintomas tendem a f icar menos
severos e a, genuinamente, melhorar.
Então, a chave para se aprender a re-
direcionar a atenção a um novo com-
portamento é benéf ica a todos. Nesse
sentido, o “cérebro travado” pode f icar
muito menos problemático e preso.
ESSES QUATRO PASSOS COMBINAM A
TERAPIA COGNITIVA E O MINDFULNESS
(ATENÇÃO PLENA) E CONSTITUEM HOJE
UM TRATAMENTO PADRÃO PARA PA-
CIENTES COM TOC. EM QUE MOMEN-
TO ESSAS DUAS TÉCNICAS SE UNEM PARA
COMBATER O TOC?
SCHWARTZ: A terapia cognitiva é par-
te dos quatro passos para que o lei-
tor perceba que as mensagens vindas
do cérebro são falsas e que elas não
exatamente fazem sentido. A parte
mindfulness é resumida com o ditado:
“Não sou eu, é meu cérebro”. Signif i-
ca que a pessoa começou a perceber
que o TOC não é uma parte da iden-
tidade dela – é apenas um sintoma
de uma condição médica. Essas duas
técnicas trabalham juntas para aju-
dar as pessoas a redirecionarem suas
atenções para longe dos sintomas do
TOC e adquirirem comportamentos
construtivos. É através desse redire-
cionamento e adoção de outros com-
portamentos que se muda o cérebro.
SEGUNDO A ORGANIZAÇÃO MUNDIAL
DA SAÚDE (OMS), ATÉ 2020 O TOC
ENTRARÁ ENTRE OS DEZ MOTIVOS MAIS
IMPORTANTES DE COMPROMETIMENTO
POR DOENÇA. EM SUA OPINIÃO, POR
QUE RAZÃO ESSE TRANSTORNO AVANÇA
TANTO? O FATO TEM RELAÇÃO COM O
RITMO DE VIDA MODERNO?
SCHWARTZ: O estresse da vida moder-
na pode, certamente, piorar o TOC,
mas não é exatamente a causa para
o aumento do transtorno por si só. É
mais provável que estejamos apenas
reconhecendo o transtorno porque
o estamos compreendendo melhor
e mais pessoas estão sendo correta-
mente diagnosticadas, isso se compa-
rarmos com antigamente.
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a redirecionar a atenção para
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preso nas repetições ou
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O TOC, comumente, ocorre na adolescência e no começo da idade adulta, mas pode, certamente,
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14 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
psicologia jurídica por Renata Bento
A PRÁTICA DE ASSÉDIO
MORAL PATROCINADO
PELA OPRESSÃO IMPÕE
AO SUJEITO UMA SÉRIE
DE PERIGOS, UMA VEZ
QUE PODEM CAUSAR
OU POTENCIALIZAR
VÁRIOS DISTÚRBIOS
EMOCIONAIS
A PRÁTICA DA VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA NO AMBIENTE
LABORAL SUJEITA A PESSOA A MUITAS SITUAÇÕES QUE PODEM
CAUSAR OU POTENCIALIZAR VÁRIOS DISTÚRBIOS EMOCIONAIS
Quando o assédio é MORAL
O
trabalho, do ponto de vista
emocional, é um ato orga-
nizador, tanto que a falta de
vontade de trabalhar pode
ser entendida como ausência de vivaci-
dade, ou seja, aponta para algo que não
vai bem no campo emocional do sujei-
to. O ato de trabalhar expõe o indivíduo
a certas tarefas que o mantêm em uma
atividade de rotina e em contato com os
demais. Ao mesmo tempo que se esta-
belece mais ou menos relação social, de-
pendendo do tipo de trabalho que exer-
ce, também coloca a pessoa em trabalho
contínuo consigo próprio, por meio da
intimidade com seus potenciais, e põe
a mente em funcionamento, saindo da
inércia; e isso é muito positivo.
A capacidade de trabalhar é vista
como algo que retira o sujeito do prin-
cípio de prazer e o expõe ao princípio
de realidade. O próprio trabalho é a re-
alidade, que o vincula à necessidade de
manutenção e provimento da própria
EXISTÐNCIA�� TANTO� NA� ESFERA� l�NANCEIRA�
quanto no contexto social. Há uma ne-
cessidade de adequar as pulsões sexuais
e agressivas que precisam conviver
com as regras e normas estabelecidas
no ambiente laboral. E justamente por
esse contexto, a capacidade de trabalho
pode ser considerada como um aspecto
importante para a manutenção do equi-
líbrio da economia psíquica.
-AS�COMO�l�CA�PARA�UMA�PESSOA�QUE�
precisa se confrontar diariamente com
um ambiente hostil no qual sua capaci-
dade é fortemente atacada?
Desde que surgiram as primeiras re-
lações de trabalho já podia ser observa-
do o assédio. Mas foi devido às amplas
mudanças no ambiente organizacional,
com o avanço tecnológico no mundo, e à
possibilidade de se poder falar a respeito
é que esse assunto passou a ser ampla-
mente discutido. As pessoas ganharam
voz e com isso também a coragem para
falar sobre o tema.
Embora as relações perversas sempre
tenham existido, tanto no ambiente de
trabalho quanto no ambiente familiar,
atualmente tem havido espaço para se
discutir sobre o sofrimento ao qual uma
pessoa pode ser submetida, ferindo sua
autoestima e sua capacidade de se rela-
cionar consigo própria e com os outros.
O rendimento tende a baixar e o sujeito
PODE�AT�MESMO�l�CAR�DEBILITADO��FAZENDO�
com que a situação ataque friamente sua
saúde mental.Quando uma pessoa ultrapassa a
barreira da dignidade do outro diante
de sua existência sendo insistente e in-
conveniente, estamos falando de assédio.
Observa-se que atitudes como essa em
que se expõe o outro a situações cons-
trangedoras durante o exercício de seu
trabalho, frequentemente, ocorrem em
relações em que há subordinação hie-
rárquica. Isto é, quando pessoas que
exercem funções de liderança abusam
da autoridade interferindo psicologica-
mente de forma negativa nos liderados,
uma maneira clara de terror psicológico
e violência psíquica.
A prática de assédio moral patro-
cinado pela opressão impõe ao sujeito
uma série de perigos, uma vez que pode
causar ou potencializar vários distúrbios
emocionais e até mesmo psiquiátricos,
entre eles a depressão e/ou o transtorno
de ansiedade, porque destrói a capacida-
de de trabalho e a resistência psicológica
das vítimas.
Pode parecer simples, mas não é à toa
que se observa que pessoas envolvidas
em tramas emocionais em seus trabalhos
acrescidas da pressão constante por me-
tas e, adicionado a isso, o assédio, podem
ser submetidas a um grau de sofrimen-
to elevado que pode levar ao suicídio. É
bem verdade que a forma como cada um
consegue lidar, suportar e conviver com
situações emocionais intensas é muito
particular, avaliando a relação com os
próprios mecanismos de defesa.
O que se observa é que os assediados
são pessoas que estão mais disponíveis
às mudanças, mais abertas às críticas
e particularmente mais democráticas.
psique ciência&vida 15www.portalespacodosaber.com.br
rísticas positivas do sujeito e aniquilá-lo
emocionalmente.
Embora o assunto seja antigo, ainda
EXISTE�ESCASSA�BIBLIOGRAlA�A�ESSE� RESPEI-
to. O papel do psicólogo sempre será o
de combater qualquer ato de violência
psicológica; e uma empresa bem estrutu-
rada poderá se utilizar de um psicólogo
organizacional que tenha sido treinado
para que situações como essas sejam
detectadas e banidas, com o intuito de
preservar o bem-estar dos funcionários e
a saúde organizacional. Entretanto, uma
vez que uma denúncia sai da esfera orga-
nizacional e passa para a esfera jurídica,
o psicólogo jurídico ou forense, por ser
Renata Bento é psicóloga e psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de
Psicanálise do Rio de Janeiro. Perita em Vara de Família e assistente técnica em
processos judiciais. Filiada à IPA – International Psychoanalytical Association, à
Fepal – Federación Psicoanalítica de América Latina e à Febrapsi – Federação
Brasileira de Psicanálise. Contato: renatabento.psi@gmail.com
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Curiosamente são mais empáticas, éticas
e com capacidade de liderança informal.
Pode parecer estranho, mas os agresso-
RES�lCAM� INTIMIDADOS� COM�ESSE� TIPO�DE�
personalidade porque em seu caráter são
desprovidos de características empáticas
e, justamente, se sentem ameaçados por
essas características, já que não as têm
e querem destruí-las, retirando assim de
seu radar a ameaça que isso lhes causa.
Quanto mais o ambiente de trabalho
for desorganizado e mal estruturado,
mais propenso à atuação de um líder
perverso, basta encontrar uma brecha e
ele ampliará sua necessidade de realiza-
ção pelo desejo de poder. As técnicas são
sempre as mesmas, perceber quais são
os medos e aproveitar as fraquezas do
outro. O assediado pode chegar ao pon-
to de se sentir tão confuso que poderá
ainda dar razão ao agressor, isso é muito
comum. Seu papel é minar as caracte-
atuante no campo do Direito, terá maio-
res condições de atuar como assistente
técnico da parte em casos em que se ob-
serva maior necessidade de entendimen-
to sobre a dinâmica da personalidade
humana; em casos em que se observa a
necessidade de perícia psicológica ou do
CONHECIMENTO�TÏCNICO�DO�PROlSSIONAL�DA�
Psicologia para assessoria.
O assédio moral costuma ser sutil, e
esses pontos mais obscuros o psicólogo,
através dos estudos e de sua experiên-
cia, possui maior habilidade para detec-
tar, elaborar quesitos e avaliar delinean-
do no processo jurídico aspectos antes
não observados.
16 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
in foco por Michele Müller
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egundo o economista Paulo
Saf fo, citado pela revista
americana Forbes como um
dos analistas de tendências
mais respeitados da atualidade, a
economia se divide em ciclos que
remodelam drasticamente nosso
comportamento e a forma como a
sociedade de organiza. Com nossa
fantástica capacidade de adaptação,
aderimos às mudanças, reorganiza-
mos nossas expectativas e, sem nos
darmos conta, colaboramos para
a construção de uma nova fase da
nossa história , batizada pelo econo-
mista como “era do criador”.
Para esclarecer como chegamos
aqui e o que isso signif ica, ele faz
uma breve revisão de momentos de-
terminantes da economia a partir
do início do século XX, quando as
cidades começaram a crescer rapi-
damente com a industrialização, o
A QUALIDADE CRIATIVA SE TORNA
UMA ESPÉCIE DE ATALHO PARA
O FUTURO, POIS ESTAMOS NOS
DISTANCIANDO DO REPETITIVO E DO
PREVISÍVEL E VOLTANDO O INTERESSE
AO QUE ESCAPA DO SENSO COMUM
Entramos
na era
do criador
psique ciência&vida 17www.portalespacodosaber.com.br
ramento, possibilita que a criativi-
dade corra solta e se destaque como
a marca do nosso tempo. Assim,
a era do consumidor criador pas-
sa a ser também a da criatividade.
Quanto mais informações estão
acessíveis, mais são geradas possi-
bilidades de combinações diferentes
de todo esse conhecimento. Nesse
novo ciclo econômico, a criativida-
de é quase um pré-requisito para o
sucesso nas interações sociais e pro-
f issionais.
Tanto é que essa habi l idade nun-
ca foi tão va lor izada pelo merca-
do. O Fórum Econômico Mundia l
(O Futuro do Trabalho) apontou a
cr iat iv idade como terceira habi l i-
dade mais necessár ia pela força de
trabalho nos próximos anos, atrás
da capacidade de resolução de pro-
blemas complexos e do pensamento
cr ít ico. De acordo com o documen-
to, essa necessidade surge como
consequência da abundância de no-
vos produtos, tecnolog ias e formas
de trabalhar.
O f ísico teórico e futurista Michio
Kaku prevê que essa qualidade é uma
espécie de atalho para o futuro, pois
estamos nos distanciando do repeti-
tivo e do previsível e voltando o inte-
resse ao que escapa do senso comum.
Os serviços mais valorizados são os
que nos diferenciam com relação às
máquinas – aqueles que dependem
de pensamentos e atitudes f lexíveis
e de ações originais.
Ironicamente, a era de maior de-
senvolvimento tecnológico da his-
tória revisita a criatividade como a
maior habilidade para lidar com o fu-
turo próximo e próspero para quem
estiver na contramão dos conceitos
engessados de uma máquina.
Michele Müller é jornalista, pesquisadora, especialista em Neurociências,
Neuropsicologia Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica
estratégias para o desenvolvimento da linguagem. Seus projetos e textos
estão reunidos no site www.michelemuller.com.br
O FÓRUM
ECONÔMICO
MUNDIAL APONTOU
A CRIATIVIDADE
COMO TERCEIRA
HABILIDADE MAIS
NECESSÁRIA
PELA FORÇA DE
TRABALHO, ATRÁS
DA CAPACIDADE
DE RESOLUÇÃO
DE PROBLEMAS
COMPLEXOS E
DO PENSAMENTO
CRÍTICO
que gerou uma demanda crescente
por novos produtos. Para atender a
essa classe emergente, a indústria
voltou seus esforços para a ef iciên-
cia produtiva, ou seja , para a neces-
sidade de produzir mais em menos
tempo e com custo menor.
O processo de fabricação preci-
sava ser otimizado ao máximo eos
trabalhadores tinham funções res-
tritas, repetitivas e automáticas para
não perderem tempo. Trabalhavam
contra o relógio, em sistemas rig i-
damente organizados. Os primeiros
automóveis, por exemplo, eram to-
dos pretos. Não porque estava na
moda ou porque outras opções eram
inviáveis, mas pelo fato de a tinta
preta secar mais rapidamente, o que
garantia maior produtividade.
Superada a escassez de produ-
tos, o mercado tratou de aumentar
nas pessoas o desejo pelo consumo.
Foi então que, na década de 1950, a
publicidade ganhou força, com es-
tratégias criativas que convenciam
as pessoas de que elas precisavam de
mais e mais produtos. A criatividade
passou a ser uma peça importante
para o aumento de consumo, mas sua
demanda era restrita a alguns seg-
mentos, como comunicação e artes.
E o apelo criativo – juntamente
com incentivos econômicos – funcio-
nou tão bem que o consumo exces-
sivo logo revelou seu lado negativo,
com o uso irresponsável do crédito e
o surgimento de problemas éticos e
ambientais. Na sequência, o mercado
se deparou com novos desaf ios: ago-
ra precisava se adaptar a um consu-
midor já mais consciente e comedi-
do, em um mundo onde a informação
passou a ser excessiva e, por conta
desse exagero, a atenção tornou-se
escassa. A solução foi transformar o
consumo em experiências.
Como a criatividade e o enga-
jamento são antídotos para a de-
satenção, para atrair uma geração
mergulhada em distrações passou
a ser necessário engajar as pessoas,
envolvê-las em uma rede de criação
e de ideias que conecta tudo e to-
dos. Mais que alvo f inal de produ-
tos e ideias que são impostos pelo
mercado, os consumidores passaram
a participar diretamente da cons-
trução das novidades. E assim sur-
giram cases de sucesso como Uber,
Wikipedia, AirBnB e projetos cultu-
rais e científ icos viabilizados por cro-
wdfunding, f inanciados pelo público
– e não mais por entidades distantes
que decidem o que iremos consumir.
O status, segundo Saf fo, deixou
de ser representado pelo preço ou
pela quantidade de coisas que pos-
suímos e passou a ser representado
pelo novo – o novo construído em
conjunto, como experiência social e
cultural.
Essa rede de conexões e ideias,
em constante movimento e aprimo-
18 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
utilidade pública por Cláudia Maria França Pádua
Um silêncio que MATA
TODO ATO QUE RESULTA EM AGRESSÃO FÍSICA,
SEXUAL OU PSICOLÓGICA É CONSIDERADO VIOLÊNCIA
CONTRA A MULHER. ESSA AGRESSIVIDADE LATENTE É
UMA TRISTE REALIDADE, COMPROVADA PELAS PESQUISAS
aferiu que 2% dos homens admitem es-
pontaneamente ter cometido violência
sexual contra uma mulher, mas diante
de uma lista de situações 18% reconhe-
cem terem sido violentos. Quase um
quinto dos 100 milhões de homens
brasileiros. E, curiosamente, um estudo
recente revelou que 90% concordam
que quem presencia ou fica sabendo
de um estupro e fica calado também
Inúmeras pesquisas mostram, há
anos, a vergonhosa prevalência da vio-
lência contra as mulheres. Em 2013,
13 mulheres morreram todos os dias
vítimas de feminicídio, isto é, assassi-
nato em função de seu gênero. Cerca
de 30% foram mortas pelo parceiro ou
ex-companheiro (fonte: Mapa da Vio-
lência 2015). Outra pesquisa do Insti-
tuto Locomotiva, dessa vez de 2016,
A
agressividade é a arma que
o indivíduo utiliza para ma-
nifestar seu ódio. Existem
vários tipos de violência e
os estudos desse tipo de comporta-
mento são constantes com o intuito
de descobrir as causas que levam o ser
humano a cometer tal infração e que
causam indignação aos olhos atentos
da sociedade.
psique ciência&vida 19www.portalespacodosaber.com.br
É necessário que as autoridades
realizem emergencialmente políticas
que inviabilizem esse avanço, para que
esse crime não faça parte das princi-
pais estatísticas, em que 22 milhões
das brasileiras com 16 anos ou mais,
relatam ter sofrido algum tipo de as-
sédio em 2018. Vítimas com ensino
médio e superior relatam, em seus de-
poimentos, terem sofrido algum tipo
de assédio em maior número, do que
aquelas com ensino fundamental. O
caso mais comum citado pela maio-
ria das mulheres entrevistadas é sobre
comentários desrespeitosos na rua.
Sabemos que desde a Idade Média
a violência psicológica e moral con-
tra as mulheres era muito comum e
a violência física se valia até mesmo
dos mais diferentes instrumentos de
tortura utilizados com as mulheres
de forma cruel e sem condenação aos
torturadores.
O “estripador de seios”, por exem-
plo, costumava ser utilizado para
punir mulheres acusadas de realizar
bruxaria, aborto ou adultério. As gar-
ras aquecidas por brasas eram usadas
para arrancar-lhes os seios. E existi-
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INFELIZMENTE,
NOSSO PAÍS AINDA
CAMINHA A
PASSOS LENTOS NA
RECRUDESCÊNCIA
DE LEIS MAIS
EFETIVAS, EM QUE
O RESPEITO DEVERIA
PERMANECER COMO
PALAVRA-CHAVE
Cláudia Maria França Pádua é psicóloga, criminóloga, analista de inteligência
criminal. Especialista em Criminologia pela PUC e Acadepol/MG.
Autora do livro O Criminoso e seu Juízo... Existe Prazer em Matar? Presidente
do Núcleo de Estudos Ponto Criminal, palestrante, escritora e comentarista
criminal na área de Criminologia, Fisiognomonia e Inteligência Criminal. Contato:
Email: pontocriminal@gmail.com
é culpado. Um percentual relevante,
mas porque ainda há tanto silêncio?
Cinco tipos de violência enqua-
dram todos esses estudos: 1- violência
psicológica: causa danos à autoestima
da vítima. Podendo ocorrer em casa,
na escola, no trabalho, proporcionan-
do humilhação, desvalorização, ofensa,
chantagem, manipulação, constrangi-
mento e outros; 2- violência física: causa
danos ao corpo da vítima, como socos,
pontapés, chutes, amarrações e mordi-
das, impossibilitando defesa; 3- violên-
cia moral: qualquer conduta que pro-
porcione calúnia, difamação ou injúria;
4- violência sexual: esta não se limita
somente ao estupro propriamente dito,
mas a atos de violência proibitivos,
como por exemplo não uso de contra-
ceptivos, obrigação de práticas sexuais,
“encoxada” nos transportes públicos,
exploração do corpo de adolescentes e
PEDOlLIA�� �
violência simbólica: utiliza-
ção feminina como “objetos de desejo”
(propagandas, outdoors etc.), traçando
uma imagem negativa da mulher.
O alerta que ecoa é que a violência
é silenciosa. Ela ocorre nas residên-
cias, nos espaços públicos e em qual-
quer lugar onde a mulher é assediada.
O assédio é um comportamento cri-
minoso e deve ser severamente tratado
como tal. Seu desenvolvimento relacio-
na-se com a carência emocional ou com
a separação na infância com o elo ma-
terno. A partir deste momento, criam-se
no indivíduo condutas antissociais, um
desajuste afetivo, podendo levá-lo ao co-
metimento de crimes, para sentir prazer
no sofrimento dos outros, gerando uma
excitação cortical, causando-lhe grande
satisfação da libido e de seu ego malfor-
mado por uma personalidade psicopá-
tica e doentia, na qual os impulsos do
mal ganham lugar e ímpeto para come-
ter tais absurdos. Nesse exato momento
se instaura o grau de periculosidade do
agressor. Portanto, muitas vezes, senão
na maioria delas, o agressor sabe que
está cometendo um delito e sente, inclu-
sive, prazer nesse comportamento.
ram tantos outros instrumentos cruéis
que marcaram a história mundial e re-
gistraram como a mulher foi e ainda
é tratada.
No Brasil, a tortura se divideem
duas fases: a primeira, que se estende
do Brasil-Império até a nossa Consti-
tuição Federal de 1988. A produção
de prova se fazia, até aquela época,
de forma brutal, e a escravatura, lega-
lizada, tornava o ambiente adequado
à violação da dignidade humana. O
Código Criminal de 1830 previu como
agravante o aumento da dor física e o
termo “tortura”, que aparece na Lei
Penal Brasileira em 1940, quando é ar-
rolada entre os meios cruéis que agra-
vam o delito.
A segunda fase se inicia com a Cons-
tituição, sob o desrespeito sistemático
às liberdades fundamentais do homem,
ocorrido nas décadas anteriores.
Tipificada finalmente a tortura
como crime em nossa legislação, es-
pera-se que as formas mais silenciosas
como as violências psicológica, moral
e simbólica tenham um olhar atento
para sua erradicação. Infelizmente,
nosso país ainda caminha a passos
lentos na recrudescência de leis mais
efetivas, em que o respeito deveria
permanecer como palavra-chave.
As mulheres têm sim exercido sua
voz, mas mergulham por vezes em
um conformismo de cultura social
que não deverá mais ser aceito e
precisa urgentemente ser resolvido
com políticas públicas adequadas e
com a conscientização. afinal, não se
pode ficar imune diante da violência
que assola o País e gera incredulidade
mediante tais fatos.
Sabemos que as palavras têm a força
da razão, enquanto a crueldade emana
do poder do ódio e da anomia...
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TARDE. A
ANSIEDADE
PODE LEVAR
JUSTAMENTE
AO FRACASSO
ESCOLAR E À
DESMOTIVAÇÃO
PARA ESPORTES,
ARTES E OUTRAS
ATIVIDADES
Pouca IDADE
para muita
PRESSÃO
V
ítimas do desconhecimento e
vaidade dos pais, do excesso
de zelo ou negligência dos
adultos no lar e na escola,
de uma agenda excessivamente cheia
de afazeres e planejamento absoluto
de seus deveres e até dos momentos de
diversão, das exigências em ser sempre
bem-sucedido, popular, líder de grupo
E� OUTROS� TANTOS� DESAl�OS� EXTENUANTES��
vemos hoje um número excessivo de
crianças e adolescentes ansiosos e que
chegam a um nível de estresse muito
impróprio para a pouca idade.
Além dos danos ligados ao emocio-
nal e ao social, existe um prejuízo pesso-
al que compromete o desenvolvimento e
o aprendizado escolar. Exigir das crian-
ças disciplina e dedicação às tarefas que
são de sua responsabilidade, em casa e
NA�ESCOLA��INCUTINDO�UM�DESAl�O�GRADATI
vamente alcançável, é sem dúvida dese-
jável, pois proporciona motivação para o
psique ciência&vida 21www.portalespacodosaber.com.br
e físico, do qual não se consegue iden-
TIlCAR�A�CAUSA��1UANDO� INQUERIDA�NUMA�
prova, a criança chega a parecer que não
SABE�NADA��1UANDO�ESTÉ�EM�SITUA¥ÎO�DE�
ser centro das atenções, perde a fala,
comporta-se de modo estranho. Não su-
porta pressão, não sabe lidar com situ-
ações novas, o que na escola representa
um problema de difícil manejo.
Junta-se ao quadro o comportamento
gregário, ou seja, vive no grupo, se di-
LUINDO�NELE��1UER� SER�EXATAMENTE�COMO�
os amigos, não deseja se destacar deles,
SEGUE�SUAS�NORMAS�E�SE�TORNA�SUPERlCIAL�
na aprendizagem escolar. O que muitos
pais chamam de pré-adolescência preco-
ce pode ser perfeitamente um sinal bas-
tante sério de estresse infantil. Conhecer
E�CONVIVER�COM�OS�AMIGOS�DOS�lLHOS�PO-
dem ser úteis para saber se o grupo tem
ou não uma forma similar de agir que os
pais privilegiam, seja em termos de com-
portamento social como também de in-
teresse pelos estudos, esportes, artes etc.
É sempre aconselhável que as crianças
tenham mais de dois grupos de amigos,
para aprenderem a lidar com as diferen-
ças e se sentirem mais seguras, menos
ansiosas e mais preparadas para tomar
as próprias iniciativas.
Ajudar as crianças a terem metas de
acordo com suas aptidões é importan-
te, até para elas aprenderem a identi-
lCAR� A� lNALIDADE� DE� SEUS� ESFOR¥OS� EM�
uma atividade.
Incentivar a terem suas próprias me-
tas, planos, responsabilidades, estarem
motivadas na tarefa escolhida, senti-
rem-se apoiadas pelos pais e terem tem-
po para ser crianças é uma complexa
situação que no dia a dia corresponde a
DAR�EDUCA¥ÎO��CRIANDO�lLHOS�SEM�ESTRES-
se e com ansiedade controlada a níveis
favoráveis para seu perfeito desenvolvi-
mento e aprendizado.
tipo de risco, por menor que seja. É o
chamado comportamento de luta, que pode
advir inclusive das próprias ansiedades
dos pais, do desencorajamento para a
criança crescer fazendo gradualmente
suas opções e arcando com os resultados
de suas ações. Ensinar limites e respon-
sabilidades cria pessoas fortes e indepen-
dentes, desde que tenham oportunidade
de vivenciar na prática essas situações
em que os prós, os contras e as conse-
quências sejam claros. Sem pressão, mas
com estímulo e o aprendizado de novas
estratégias, a criança vai vencer essa re-
lutância em se arriscar e desenvolver a
resiliência para a frustração.
Também é comum nas crianças es-
tressadas um comportamento de fuga, que
se caracteriza por evitar determinadas
circunstâncias, usando desculpas como
DOEN¥AS��CANSA¥O��lCANDO�Ì�MARGEM�DOS�
amigos, dos grupos, fazendo até coisas
de que não gosta para fugir de situações
que acha que não consegue enfrentar.
O comportamento de bloqueio lembra
uma espécie de engessamento mental
Maria Irene Maluf é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e
Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de
Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É autora de artigos em
publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de
especialização em Neuroaprendizagem. irenemaluf@uol.com.br
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amadurecimento, mas é preciso atenção
e cuidado com as cobranças.
Nos primeiros seis anos de vida, as
crianças precisam de brincadeiras livres,
mas também de brincadeiras estrutu-
radas, nas quais os adultos agem como
“modelos”, mas sem excesso de forma-
lidade. É preciso agir com cautela, de
acordo com o desenvolvimento e a idade
da criança, privilegiando oportunidades
em que as aptidões sociais possam ser
treinadas com a supervisão dos pais.
As crianças são seres em desenvol-
vimento, não estão emocional ou bio-
logicamente preparadas para enfrentar
uma maratona que vai muitas vezes das
7h da manhã às 10h da noite, sem des-
canso. Precisam de pausas para assimi-
lar o aprendizado, necessitam de tempo
de brincadeira com os seus pares, de ar
livre, exercícios físicos e um pouco da-
quilo que muitos pais chamam de tem-
po perdido, mas que na verdade é o me-
lhor do dia: a hora em que podem curtir
seus brinquedos, usar seu ipad, fazer o
esporte favorito, assistir um programa
divertido, ler, conviver com os irmãos
e amiguinhos. Depois podem voltar aos
afazeres escolares, às aulas de música,
de esportes, de idiomas etc.
É compreensível que os pais, traba-
lhando fora o dia todo, queiram ver os
lLHOS� OCUPADOS� COM� ATIVIDADES� DIRIGI-
das e bem supervisionadas e desejem
enxergar o progresso da criança na
forma de um boletim brilhante ou um
campeonato bem-sucedido.
Porém nosso cérebro tem uma for-
ma praticamente idêntica de reagir
àquilo que interpreta como uma amea-
ça ao seu equilíbrio, seja verdadeira ou
imaginária. Via de regra, o ser humano
LIDA�COM�AS�DIlCULDADES�DE�QUATRO�MA-
neiras, que são reveladoras de estresse e
apontam para a necessidade de ajuda e
compreensão dos adultos.
A primeira que se instala é uma súbi-
ta resistência infantil a mudanças, a ten-
tativa constante de permanecer em meio
a situaçõesfamiliares que lhe parecem
seguras e a relutância em enfrentar todo
AJUDAR AS CRIANÇAS
A TEREM METAS
DE ACORDO COM
SUAS APTIDÕES
É IMPORTANTE,
ATÉ PARA ELAS
APRENDEREM A
IDENTIFICAR A
FINALIDADE DE SEUS
ESFORÇOS EM UMA
ATIVIDADE
COMPORTAMENTO
22 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
COMPORTAMENTO
psique ciência&vida 23www.portalespacodosaber.com.br
Fernando Elias José é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica
(PUCRS), especialista em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental
(WP Centro de Psicoterapia Cognitivo-Comportamental), professor
da especialização em TCC da Facefi, terapeuta certificado pela
Federação Brasileira de Terapias Cognitivas e presidente de ATC/
RS 2019-2022. É autor dos livros Planner do Estudante: Agenda
Cognitivo-Comportamental para Sucesso em Provas e Concursos:
Faça sem Medo – Guia Cognitivo-Comportamental para Aprovação
em Concursos (Sinopsys Editora).
A preparação para as provas
gera ansiedade e quanto
maior a tensão, pior será o
desempenho em uma avaliação
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Por Fernando Elias José
EVENTO
ESTRESSOR
COMPORTAMENTO
24 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
O estresse é
entendido como
uma ruptura da
homeostase que
não ocorre apenas
frente a estímulos
aversivos, mas
também como
uma reação intensa
do organismo
diante de um
evento que altere
a vida, seja ele
negativo ou não
Desde o nascimento, o ser humano já está exposto a diferen-tes situações que se apresentam como
desafios que geram crescimento e
desenvolvimento positivo frente à
vida. Em vários momentos, ele tam-
bém se depara com eventos que ex-
cederão a sua capacidade percebida
para lidar com isso, podendo gerar
esgotamento e ansiedade. Embora
também tenha sido vivenciado por
nossos antepassados, o estresse tem
afetado grande parte da população
atual, estando fortemente presente
na vida moderna.
Ele é entendido como uma rup-
tura da homeostase que não ocorre
apenas frente a estímulos aversi-
vos, mas também como uma reação
CARACTERÍSTICAS DE AUTOEFICÁCIA
PARA MELHOR DESEMPENHO
PARA SABER MAIS
U
m estudo realizado na Holanda avaliou grupos de oficiais militares durante
a finalização de suas atividades, sendo expostos a um evento estressor
agudo. Os pesquisadores constataram que os militares tiveram melhor desem-
penho quando concentraram sua atenção na fonte de estresse ou no trabalho
a ser desenvolvido do que em suas emoções. A pesquisa indicou que, em-
bora as pessoas apresentem características individuais quanto a seus modos
de enfrentamento, a situação específica pode ser dinâmica e variável. Nes-
se sentido, indivíduos
com fortes caracterís-
ticas de autoeficácia,
que confiam em seus
modos habituais de
enfrentamento, apre-
sentaram melhor ca-
pacidade de lidar com
a pressão. As crenças
de autoeficácia ba-
seiam-se na avaliação
ou percepção pessoal
quanto à própria inteli-
gência, às habilidades,
aos conhecimentos etc.
Desde o nascimento, o ser humano está exposto a diferentes situações que se apresentam como de-
safios que geram desenvolvimento positivo frente à vida
intensa do organismo frente a um
evento que altere a vida, seja ele
negativo ou não. Assim, o estresse
desenvolve-se à medida que as exi-
gências se tornam superiores à capa-
cidade das pessoas de manejá-las ou
superá-las, impossibilitando-as de
psique ciência&vida 25www.portalespacodosaber.com.br
O esgotamento
desenvolve-se
à medida que
as exigências se
tornam superiores
à capacidade
das pessoas
de manejá-las
ou superá-las,
impossibilitando-as
de criar estratégias
para enfrentá-las
adequadamente
criar estratégias para enfrentá-las
adequadamente.
Há dois tipos de estresse: o
negativo, que é repetitivo, prolon-
gado, paralisa, transtorna e exau-
re, e o positivo, que impulsiona e
dá forças. Respostas positivas aos
estímulos estressantes são consi-
deradas como crescimento e de-
senvolvimento intelectual e emo-
cional, chamado de eustresse . O
esforço de adaptação gera sensação
de realização pessoal, bem-estar e
satisfação, mesmo que decorrente
de esforços inesperados, sendo de-
sencadeado por situações tensas,
mas sadias. Já a resposta negativa,
chamada de distresse, é causada por
situações danosas, podendo ser
passageira ou prolongada.
Um evento
pode ser en-
tendido como
i r r e l e v a n t e ,
benigno ou es-
tressante. São
consideradas fon-
tes estressoras aquelas que
têm o efeito de interferir na
dinâmica da v ida do
organismo, o qual
tenta adaptar-se
ao evento es-
tressor e, nesse
processo, uti l iza
grande quantidade
de energia. Quando
a resposta é de in-
tensidade e tempo
l imitados, o organis-
mo consegue adaptar-se a ela;
porém, quando a intensidade ou
a duração de tempo ultrapassam a
capacidade das pessoas, o estres-
se pode gerar como consequência
distúrbios psiquiátricos e/ou ou-
tras doenças. A lguns estímulos
terão a resposta de estresse v incu-
lada à capacidade f ísica e ao esta-
do geral de saúde do organismo,
como, por exemplo, temperatu-IMAG
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ras extremas, privações diversas
(al imento, água, sono etc.) e trau-
mas f ísicos, sendo que, dentro de
uma estreita faixa de variabil ida-
de, provocam respostas de estresse
em praticamente todo o organismo
a ele exposto.
O evento estressor, por si só,
não tem a capacidade de determi-
nar o nível de estresse, uma vez
que cada pessoa irá enfrentá-lo de
maneira diferente. O nível de es-
tresse dependerá da avaliação e da
interpretação subjetivas que cada
um faz, estando as respostas com-
portamentais e cognitivas nele
envolv idas. Durante o processo
de avaliação, há uma tendência de
interpretar as situações como mais
Embora tenha sido
vivenciado por
gerações anteriores,
o estresse tem
afetado grande
parte da população
atual, estando muito
presente na vida
moderna
COMPORTAMENTO
26 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
Um evento pode ser irrelevante
ou benigno. São consideradas fontes
estressoras aquelas que têm o efeito
de interferir na dinâmica da vida,
fazendo inclusive que o organismo
se modifique fisiologicamente
perigosas do que realmente são.
Nesse caso, o estressor é o próprio
pensamento que, em função de
crenças e regras aprendidas atra-
vés das experiências de v ida, pode
relacioná-las a um novo evento e
interpretá-lo como ameaçador ou
não. Portanto, ao depender de uma
relação entre ex igência e meios in-
ternos ou externos disponíveis, as
reações ao estresse são determina-
das pela capacidade do organismo
em atendê-las.
O organismo sempre tenta
adaptar-se ao evento estressor e,
nesse processo, utiliza grandes
quantidades de energia adaptativa.
A reação ao estressor faz com que
o organismo se modifique f isiologi-
estilo de vida, experiências prévias,
atitudes, valores, doenças e predis-
posição genética também são im-
portantes no desenvolvimento des-
se processo. O estresse prolongado
provoca cansaço e tensão em níveis
f ísico e mental, aumentando o risco
de se contraírem problemas de saú-
de. Entre as respostas f isiológicas
ao estresse, observa-se a ativação
do sistema nervoso autônomo e do
eixo hipotálamo-hipófise-adrenal
(HPA), embora outras áreas alta-
mente complexas do cérebro tam-
bém sejam recrutadas, como aque-
las que regulam os processos de
memória, o aprendizado e a tomada
de decisão.
Epidemia
Segundo dados da Organização
Mundial da Saúde (OMS), 90% da
população mundial e 70% dos bra-
sileiros são afetados pelo estresse.
Pesquisas mostramque os motivos
são variados. Podemos considerar
uma epidemia mundial, visto que
ele é responsável por várias outras
patologias. As respostas podem ser
fisiológicas e/ou psicológicas. Não
apenas a pressão por desempenho
promove o estresse, mas também
o estado de tensão gerado no or-
ganismo compromete o próprio de-
sempenho das pessoas.
camente para lidar com um ataque,
alterando temporariamente a for-
ma somática para uma ação de “ luta
ou fuga” que permite ao organismo
dirigir toda a sua energia ao manejo
da ameaça. Quando cessa a ameaça,
o organismo volta ao seu estado de
atividade normal; porém a capaci-
dade de uma pessoa para suportar
o estresse tem um limite. A respos-
ta aos eventos estressores depende
das forças de resistência, da neces-
sidade de desafios, das exigências
externas, dos traços de personali-
dade, das percepções de apoio so-
cial e do estado de saúde (equilí-
brio orgânico e mental) em que se
encontra o indivíduo. Fatores como
Pessoas que estão passando por um processo estressante, apresentam uma tendência de interpretar as
situações como mais perigosas do que realmente são
psique ciência&vida 27www.portalespacodosaber.com.br
Quando a resposta é de intensidade e tempo
limitados, o organismo se adapta a ela; porém,
quando a intensidade ou a duração de tempo
ultrapassam a capacidade das pessoas, o
estresse pode gerar distúrbios psiquiátricos
Resistência e exaustão
A síndrome de adaptação geral (SAG) é um padrão consisten-
te de respostas ao estresse, que foi
dividido em três estágios: alerta,
resistência e exaustão. O primei-
ro estágio, o de alerta ou alarme,
é uma reação inicial diante de um
estímulo estressor, considerando a
fase positiva da resposta, visto que
prepara a pessoa para enfrentar a
situação e, em seguida, retomar o
equilíbrio. As respostas f isiológi-
cas negativas, nessa fase, incluem
aumento da pressão arterial e da
frequência cardíaca, tensão mus-
cular, insônia, entre outras. As res-
postas f isiológicas positivas com-
preendem o aumento da atenção e
velocidade de pensamento, além do
aumento súbito da motivação.
Caso o estressor não seja el i-
minado, o organismo passa para a
segunda fase, a de resistência, em
que a pessoa tenta adaptar-se gas-
tando muita energia para l idar com
o fator estressante. Nessa fase, as
defesas do organismo são prepa-
radas para um ataque mais longo,
predominando a reação passiva na
busca pela adaptação. Os sintomas
observados nesse período incluem
hipertensão arterial, isolamento
social, queda de produtiv idade e
criativ idade, cansaço, diminuição
da l ibido, dif iculdade de atenção e
problemas com a memória. Quan-
to maior o tempo gasto na busca
da homeostase interna, maior será
o desgaste; persistindo a situação
estressante, a capacidade do orga-
nismo pode exceder e levar ao ter-
ceiro estágio, isto é, o da exaustão.
Patologias orgânicas
Nessa fase, devido ao forte desgaste do organismo, po-
dem surgir patologias orgânicas
e psíquicas, e ocorrer sintomas
semelhantes aos do primeiro es-
tágio, embora com magnitude
maior e irreversível. A lém disso,
se o estressor permanecer atuan-
do, as reservas de energia do cor-
po serão reduzidas, ocasionando
um fracasso adaptativo que pode,
eventualmente, levar à morte. As
patologias apresentadas nesse es-
tágio incluem doenças cardíacas e
autoimunes, síndrome de Burnout,
depressão, entre outras.
Estudos identif icaram uma
quarta fase, chamada de quase
exaustão, que se situa entre as fa-
ses de resistência e exaustão. Ela
provoca uma forte sensação de
esgotamento no indiv íduo, au-
mentando a chance de descontrole
emocional e enfraquecimento do
organismo, gerando vulnerabil ida-
de ou adoecimento inicial não tão
grave. É importante ressaltar que
a pessoa nem sempre passa pelas
quatro fases e/ou apresenta todos
os efeitos, mesmo em casos extre-
mos. O indiv íduo só atingirá a fase
de exaustão quando o estressor for
muito grave e frequente, impedin-
do-o de desenvolver habil idades
para se adaptar à situação.
O estresse, em níveis apropria-
dos, aumenta a ef iciência e o de-
sempenho. Presente no cotidiano,
trata-se de um mecanismo normal,
necessário e benéf ico, que propor-
ciona maior atenção e sensibil ida-
de frente a situações de perigo ou
dif iculdade, fazendo com que ele se
esforce para vencer tais obstáculos.
Embora o estresse seja ef icaz até
certo l imite, a sobreposição dessas
respostas nos níveis f ísico, cogni-
tivo e comportamental, quando
ultrapassada, pode gerar um efeito
desorganizador. Especif icamente,
Uma situação vivenciada de forma prolongada provoca cansaço e tensão em níveis físico e mental, au-
mentando o risco de se contraírem problemas de saúde
COMPORTAMENTO
28 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
Alguns estímulos
terão a resposta de
estresse vinculada
à capacidade
física e ao estado
geral de saúde do
organismo, como,
por exemplo,
temperaturas
extremas,
privações diversas
(alimento, água,
sono etc.) e
traumas físicos
isso abrange o grau em que as
pessoas experimentarão o estres-
se diante da perspectiva de uma
situação de desempenho, da ava-
l iação cognitiva e das ex igências
da situação, somadas à crença de
dispor ou não dos recursos neces-
sários para l idar com tudo isso.
Quando o indiv íduo interpreta
o evento como ameaça, prejuízo
ou desaf io, está fazendo um julga-
mento sobre o que a situação ex i-
ge dele, tentando conhecer o que
há de prejudicial ou benéf ico, re-
levante ou irrelevante para si, fa-
sestruturação ante o perigo, com
sensação de estar desprotegido. É
um medo sem objetivo, uma situa-
ção ou uma imagem mental, o indi-
v íduo que a experimenta sabe que
não se trata de uma ameaça obje-
LEI DE YERKES E DODSON
PARA SABER MAIS
Em 1908, Yerkes e Dodson foram os primeiros cientistas a medir a rela-ção entre estresse e desempenho com a chamada Lei de Yerkes-Do-
dson. Segundo os pesquisadores, a relação positiva entre eficiência e de-
sempenho não se prolonga indefinidamente. Na medida em que as situações
exigem ajustamentos constantes, o estresse pode ultrapassar um limite
de tolerância, o que contribui para reduzir o desempenho, a eficiência e
até mesmo a saúde. Assim, os efeitos percebidos psicologicamente como
necessários e benéficos podem ser positivos ao desempenho; todavia,
quando ultrapassados, esgota-se a energia psicológica, extrapolando a ca-
pacidade de adaptação do sujeito e prejudicando o seu desempenho. Isso
faz com que, muitas vezes, o indivíduo sinta-se inútil e desvalorizado, com
finalidade reduzida e objetivos inatingíveis.
RELAÇÃO ENTRE ESTRESSE E PERFORMANCE
ESTRESSE
PE
RF
O
RM
A
NC
E
zendo uma avaliação primária dos
fatos. Por outro lado, quando tenta
administrar o evento analisando
os próprios recursos, o seu envol-
v imento emocional e os resultados
esperados nesse processo para evi-
tar consequências prejudiciais e/
ou antecipar os aspectos benéf i-
cos, ele está realizando uma ava-
l iação secundária.
Já a ansiedade, trata-se de um
estado emocional desconfortável
caracterizado por pressentimen-
to de perigo iminente, atitude de
espera em relação ao perigo, de-
Entre as respostas fisiológicas ao
estresse, é possível observar a ativação
do sistema nervoso autônomo e do eixo
hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA)
psique ciência&vida 29www.portalespacodosaber.com.br
O evento estressor não tem capacidade
de determinar o nível de estresse,
uma vez que cada pessoa irá enfrentá-lo
de maneira diferente. Isso também
tem relação com as crenças aprendidas
através das experiências de vida
uma história que a cada momento
poderá ser modif icadacom novos
fatos e relatos.
Boa memória
A memória bem treinada é uma ferramenta básica para se ob-
ter um bom rendimento, assim
como em toda e qualquer área in-
telectual. O indiv íduo precisa de-
senvolver a capacidade de testar
conhecimentos memorizados e ha-
bil idades aprendidas, o que pode
ser alcançado com a ajuda de ins-
trumentos adequados, tais como
provas ou testes bem elaborados e
abrangentes. Uma memória clara,
precisa e rápida será fundamental
para se trabalhar com tranquil ida-
de e ef iciência.
Sabe-se, contudo, que não basta
ter uma inteligência genial ou uma
espetacular capacidade de improvi-
sar se não estiverem bem gravadas e
prontamente acessíveis na memória
as informações pertinentes e ne-
cessárias para se resolver os proble-
mas nos momentos certos. Se não
As respostas fisiológicas negativas no estágio de alerta incluem aumento de pressão arterial e frequência
cardíaca, tensão muscular, insônia, entre outras, o que aumenta também a pressão psicológica
tiva. A ansiedade é uma resposta
de adaptação do organismo que é
propulsora do desempenho e pos-
sui componentes psicológicos e
f isiológicos. Trata-se de um esta-
do emocional transitório ou uma
condição do organismo humano,
caracterizado por sentimentos de-
sagradáveis de tensão e apreensão,
conscientemente percebidos. As
respostas orgânicas à ansiedade
leve determinam o aprendiza-
do. Entretanto, a concentração, o
aprendizado e a percepção aumen-
tam ou são distorcidos quando
ocorre um aumento na intensidade
da ansiedade.
Em função disso, ocorrerão
prejuízos que podem ser cognitivos
(como pensamento e conhecimen-
to), emocionais (como sentimen-
tos, emoções e personalidade) ou
comportamentais (relacionados
igualmente aos fatores cognitivos e
afetivos). Os efeitos cognitivos do
excesso de estresse envolvendo de-
sempenho estão ligados ao decrés-
cimo da concentração e da aten-
ção. O aumento da desatenção e a
deterioração da memória de curto
e longo prazo diminuem não ape-
nas a sua amplitude, mas também
a lembrança, o reconhecimento e
as capacidades de organização e
planejamento. A velocidade real de
resposta reduz-se, aumentando o
índice de erros, i lusões e distúrbios
de pensamento que prejudicam a
objetividade e o poder de crítica,
tornando confusos e irracionais os
padrões de pensamento.
Entretanto, as lembranças de
uma pessoa podem ser incom-
pletas, distorcidas ou até mesmo
apresentar uma tendência especí-
f ica, não sendo incomum obser-
var a mesma lembrança ocorrer
de modo diferente entre pessoas
diversas. Por essa razão, é muito
importante observar a memória
indiv idual, v isto que uma mesma
história tem várias facetas, sendo
que cada pessoa guarda e recupe-
ra determinado fato de forma não
igual. Com isso, demonstra-se que
a memória não funciona como uma
f i lmadora por meio da qual sem-
pre se obtêm os dados objetivos
f ielmente aos fatos. A memória é
COMPORTAMENTO
30 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
As lembranças de uma pessoa podem
ser incompletas, distorcidas ou até
mesmo apresentar uma tendência
específica, não sendo incomum observar
a mesma lembrança ocorrer de modo
diferente entre pessoas diversas
estiverem gravados na memória os
resultados que se deseja obter e os
processos necessários para realizar
os objetivos, será impossível fa-
zer uma escolha racional, segura e
bem-sucedida. Para muitas pessoas,
pode ser habitual estudar por obri-
gação, e não por prazer; apesar dis-
so, uma boa memória não dispensa
a capacidade de análise crítica dos
fatos. De modo simples, pode-se
dizer que aprender é memorizar,
sejam dados ou procedimentos, de
sorte que essas informações sejam
facilmente lembradas quando se
precisar delas. Se as pessoas tenta-
rem memorizar agrupando infor-
mações desordenadamente, terão
dif iculdades para lembrar.
A autoeficácia
A autoef icácia é considerada um dos mecanismos psicoló-
gicos que compõem a motivação,
mas não basta que as capacidades
Esforço ou tensão
O termo estresse foi inicialmen-
te utilizado na Física para traduzir
o grau de deformidade sofrido por
um material quando submetido a es-
forço ou tensão. Posteriormente, foi
então transposto para a Medicina e
a Biologia, significando o esforço de
adaptação do organismo para en-
frentar situações ameaçadoras à vida
e ao equilíbrio interno.
A ansiedade é um
estado emocional
desconfortável
caracterizado por
pressentimento de
perigo iminente,
desestruturação
ante o perigo
estejam presentes; a pessoa preci-
sa acreditar que possui tais capa-
cidades e, com isso, organizar e
executar l inhas de ação, com a ex-
pectativa de poder alcançar deter-
minado objetivo. As pessoas que
têm crenças funcionais em sua ef i-
cácia pessoal acreditam dispor das
competências necessárias ou ser
capazes de assumi-las para alcan-
çar seus objetivos e melhorar seu
desempenho. As diferentes respos-
tas poderão ser geradas frente ao
mesmo estímulo e que ex igências
internas e externas contribuirão
nesse processo.
A ansiedade, o estresse e o
desempenho estão intimamente
l igados, pois quanto maior a an-
siedade e o estresse pior será o
desempenho. Quando falamos em
desempenho estamos nos referin-
do à preparação para provas em
geral, incluindo vestibular, Enem,
prova da OAB, residência médi-
ca, concursos, entre outras, bem
como a uma entrevista de emprego
a qual o candidato, muitas vezes,
está sem trabalho há um tempo,
com seu estresse elevado, poden-
do fazer uma entrevista não sa-
tisfatória para conseguir a vaga
pretendida. O crescente aumento
de estímulos, da competitiv idade
e das ex igências com as quais se
confronta esse modo de v ida acar-
reta um acúmulo de obrigações
que ex ige grande f lex ibi l idade e
psique ciência&vida 31www.portalespacodosaber.com.br
É muito importante observar a memória
individual, visto que uma mesma história tem
várias facetas, sendo que cada pessoa guarda e
recupera determinado fato de forma não igual
REFERÊNCIAS
capacidade de adaptação. Diante
das inúmeras situações de apren-
dizagem e desempenho, nas quais
o estresse é necessário em níveis
aceitáveis, observa-se que está
cada vez mais elevado e dif iculta
o rendimento esperado por cada
pessoa em sua trajetória de ensino
e trabalho.
O autoconhecimento é o maior
recurso para aprender a lidar com a
ansiedade e com o estresse, no in-
tuito de “tirar” o melhor deles na
busca de um desempenho satisfa-
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em: <http://psychclassics.yorku.ca/Yerkes/
Law/>. Acesso em: 4 mar. 2019.
tório. O apoio externo pode fazer
a diferença nessa caminhada, pois
sabe-se que pessoas com redes ade-
quadas de apoio social relatam me-
nos estresse e melhores condições
de saúde mental em comparação
àquelas sem adequado suporte so-
cial. A lém de auxiliar nas situações
de estresse, como resolver conf litos
e tomar decisões, a função social
propõe modos de conduta adequa-
da. Diminuindo o estresse e a an-
siedade, automaticamente resultará
em excelentes resultados.
32 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
coaching por Júlio Furtado
Essa tal FELICIDADE
O
coaching de vida ou life coa-
ching tem como principal
objetivo ajudar a pessoa a
sentir-se mais feliz e reali-
zada por meio da expansão de suas po-
tencialidades e do equilíbrio entre suas
demandas. Para tomarmos consciência
de qual é nosso nível de realização em
cada uma das quatro grandes áreas de
realização, em geral usamos a roda da
vida, que é um exercício em que a pes-
soa preenche um círculo, dando notas
de 1 a 10 para seu nível de realização
em cada um dos 12 quesitos que com-
põem a roda. O objetivo do exercício
é fazer com que a pessoa se conscien-
tize sobre a área em que ela mais pre-
cisa investir para melhorar seu nível
de realização inf luenciando as outras
áreas. Ou seja, essa técnica permite
identif icar qual área de sua vida ala-
vancaria várias outras áreas.
A roda da vida pode nos ajudar a
entender por onde começar uma mu-
dança para melhor. Enquanto eu a
descrevo, sugiro a você, leitor, que vá
avaliando o quanto se sente realiza-
do em cada um dos 12 quesitos que
compõem as quatro áreas. Para isso,
atribua-se nota de 1 a 10 em cada um
deles. A primeira área de realização
em nossa vida é a área pessoal, que
é composta por três perguntas: (1) o
quanto você está satisfeito com seu es-
tado geral de saúde e com sua dispo-
sição para a vida? (2) qual o seu nível
de satisfação com seu desenvolvimen-
to intelectual? e (3) como você avalia
seu equilíbrio emocional no momento
atual? A área prof issional compõe-se
das seguintes questões: (1) o quanto
você se sente realizado através do seu
trabalho? (2) como você avalia os re-
cursos f inanceiros obtidos através do
seu trabalho? e (3) o quanto você se
sente contribuindo socialmente por
meio de sua atuação prof issional? A
terceira área é composta pelos nos-
sos relacionamentos e é representada
pelas três perguntas que se seguem:
(1) o quanto você está satisfeito com
a convivência em família? (2) qual seu
nível de satisfação na área do relacio-
namento amoroso? e (3) como você
avalia seus relacionamentos e sua
vida social? A quarta área da roda é
a qualidade de vida, que completa os
12 quesitos com as seguintes ques-
tões: (1) o quanto você se considera
satisfeito com seu nível de diversão e
lazer? (2) qual seu nível de satisfação
com sua dedicação ao campo espiri-
tual? e (3) como você avalia seu nível
de felicidade geral na vida?
Essa última pergunta é uma sín-
tese de todas as outras, o que nos
permite af irmar que a felicidade é
algo que envolve saúde, equilíbrio
emocional, trabalho, relaciona-
mentos e espiritualidade. Sigmund
Freud af irma que o homem anseia
pela felicidade e que esta resulta da
satisfação de prazeres. O que nos dá
prazeres mais intensos é a satisfação
de nossas necessidades mais inten-
sas. Ganhar muito dinheiro terá di-
ferentes pesos para um endividado
ou para um milionário. Quando es-
tamos doentes sobre uma cama, de-
sejamos coisas nas quais nem pensa-
mos quando estamos saudáveis.
Ter os pés no chão com relação
à nossa felicidade envolve ponderar
sobre o quanto de satisfação real po-
demos esperar do mundo exterior,
sobre o quanto estamos dispostos a
modif icar o mundo que nos cerca a
f im de adaptá-lo aos nossos desejos
ou adequar nossos desejos a ele. No
processo de conquista da felicidade,
a nossa constituição psíquica é mais
relevante que as circunstâncias ex-
ternas, pois buscaremos no mundo
elementos que satisfaçam as deman-
das de nossa psiquê. A pessoa predo-
minantemente erótica, por exemplo,
terá como prioridade de sua felicidade
ter um relacionamento que a satisfa-
ça. Os narcisistas são, em geral, mais
DEVEMOS TER MUITO CUIDADO COM A IDEALIZAÇÃO
QUE FAZEMOS DA FELICIDADE, POIS NEM SEMPRE
NOSSA BUSCA ESTÁ CONECTADA AOS NOSSOS
VALORES E REAIS NECESSIDADES
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Júlio Furtado é professor, palestrante e coach. É graduado em
Psicopedagogia, especialista em Gestalt-terapia e dinâmica de grupo.
É mestre e doutor em Educação. É facilitador de grupos de desenvolvimento
humano e autor de diversos livros. www.juliofurtado.com.br
FREUD DIZ QUE TODOS ANSEIAM
PELA FELICIDADE E QUE ELA RESULTA
DA SATISFAÇÃO DE PRAZERES. PARA ESSA
CONQUISTA, NOSSA CONSTITUIÇÃO
PSÍQUICA É MAIS RELEVANTE QUE
AS CIRCUNSTÂNCIAS EXTERNAS
solitários e autossuf icientes, por isso
encontram mais satisfação em seus
processos mentais internos, o que fa-
cilita muito a realização prof issional.
Por f im, as pessoas de ação precisam
de um intenso relacionamento com o
mundoe com as pessoas, e esse é o
palco principal de sua felicidade.
Outra questão ligada à tal felici-
dade é o quanto nós a idealizamos.
Em geral essa idealização nasce dos
modelos que nos são oferecidos pela
mídia, o que nos faz estabelecer cri-
térios nem sempre conectados com
nossos valores e reais necessidades.
Equivale dizer que precisamos desco-
brir quais são os elementos da “nos-
sa” felicidade, para não adotarmos
os modelos que nos são impostos. A
felicidade pode ser atingida, mas não
buscada objetivamente. Nossa bus-
ca desenfreada pela felicidade nos
afasta do real caminho em que ela se
encontra, que é viver intensamente
o momento presente nos seus míni-
mos e simples detalhes. Na medida
em que conseguimos vivenciar mais
plenamente o momento presente,
descobrimos o quão surpreendente
e prazeroso é contemplar o que está
ao nosso redor, incluindo as emoções
que nos visitam a cada instante. Vi-
ver o presente nos leva a mudanças
em vários aspectos de nossa vida. O
principal deles é aprendermos a ser
felizes no agora e aproveitarmos ao
máximo cada momento. Isso exige
uma reconf iguração da ideia de que
a felicidade é algo que está por vir.
Ela não é f im, é meio.
34 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
Da Redação
Círculo vicioso (ciclos de
manutenção dos transtornos)
Redução de atividades, viés negativo,
ruminação de problemas. Eles são alguns
dos principais ciclos de manutenção dos
transtornos, que são considerados de-
turpações decorrentes de crenças e/
ou regras adquiridas ao longo da vida.
O livro Ciclos de Manutenção em Terapia
Cognitivo-comportamental: Formulação de
Caso, Plano de Tratamento e Intervenções
%SPECÓl�CAS traz a análise dessas distor-
ções que colaboram com a manutenção
do problema em um círculo vicioso para
os pacientes.
A obra foca nos ciclos de manuten-
ção dos principais transtornos mentais
ou psiquiátricos. Ela aborda desde como
pode ser realizada uma avaliação inicial
de um caso clínico no enfoque cognitivo-
-comportamental até as principais inter-
VEN¥ÜES� EM� CASOS� DE� FOBIAS� ESPECÓl�CAS��
Com uma linguagem acessível, dialoga
tanto com estudantes de Psicologia quan-
TO�COM�OS�PROl�SSIONAIS�J�GRADUADOS��
Ciclos de Manutenção em Terapia Cognitivo-
comportamental: Formulação de Caso, Plano de
Tratamento e Intervenções Específicas
Organizadoras: Êdela Aparecida Nicoletti e
Mariana Fortunata Donadon
Editora: Sinopsys
Páginas: 208
Inteligência emocional
(ferramenta para a educação)
A sociedade moderna traz muitas
DÞVIDAS� SOBRE� A� CRIA¥ÎO� DOS� l�LHOS�� EM�
meio a tanta tecnologia, pressão pro-
l�SSIONAL�� ESTRESSE�� MEDOS� ETC�� 3ER� QUE�
o modelo que aprendemos com nossos
PAIS�AINDA��El�CAZ�NOS�DIAS�ATUAIS��/�QUE�
DEVEMOS� FAZER� PARA� PREPARAR� OS� l�LHOS�
para que eles cresçam conscientes e para
ALCAN¥AREM�SUAS�REALIZA¥ÜES��%SSES�E�OU
tros questionamentos são respondidos
no livro Inteligência Emocional para Pais,
que apresenta soluções simples e efetivas
que podem ser aplicadas por quaisquer
pessoas que carregam o maior poder que
existe: o amor incondicional.
A obra é dividida em duas partes,
sendo elas o lado A: relacionado ao
período gestacional e a sua importância
no desenvolvimento emocional do ser
HUMANO�E�O�LADO�"��RELACIONADO�ÌS�QUES
tões práticas do dia a dia da educação
EMOCIONAL�DOS�l�LHOS�E�COMO�ENCONTRA
mos o equilíbrio entre o limite e o amor.
Inteligência Emocional para Pais
Autor: Rodrigo Fonseca
Editora: Sbie
Páginas: 252
Para novos profissionais
(auxílio na literatura especializada)
O livro Psiquiatria Infantil – Guia
Prático preocupa-se com o aluno ou o
JOVEM� PROl�SSIONAL� QUE� NO� ATENDIMENTO�
diário – em particular de crianças e ado-
LESCENTES�n�TEM�DIl�CULDADES�DECORRENTES�
de sua pouca experiência e busca auxílio
na literatura especializada para adquirir
mais segurança no tratamento de seus
pacientes. Para tanto, aborda os princi-
pais temas da área, como medicamen-
tos, álcool e outras drogas, transtornos
ANSIOSOS��DE�CONDUTA��DO�DÏl�CIT�DE�ATEN
¥ÎO� �4$!( �� DO� HUMOR�� DOS� HÉBITOS��
somatoformes, retardo mental, síndrome
de Rett, estresse pós-traumático, psico-
fármacos, TOC, manias, esquizofrenia e
síndromes orgânicas. É um guia de con-
SULTAS� DESTINADO� AO� COTIDIANO� E� ÌQUELES�
QUE� TRABALHAM� COM� PACIENTES� E� AINDA�
acreditam que o atendimento ao doente
que sofre é um atributo básico da Me-
dicina e não apenas uma exigência no
CAMINHO�DE�OUTRAS�ATIVIDADES��
Psiquiatria Infantil – Guia Prático
Autor: Francisco B. Assumpção Jr.
Editora: Manole
Páginas: 190
livros
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Por Flora Victoria
d o s s
i ê
Flora Victoria é fundadora e presidente
da Sociedade Brasileira de Coaching e
master coach com mestrado em Psicologia
Positiva aplicada pela Universidade da
Pensilvânia (EUA).
A Psicologia Positiva
propõe uma abordagem
científica que pretende
compreender algumas
questões pertinentes à
busca da tão almejada
felicidade. Será que
sabemos ser felizes?
A CIÊNCIA pode
ajudar você a
ser mais FELIZ
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36 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
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d o s s i ê
realizado pelo professor de Psicologia
e Ciência Cognitiva Richard Boyatzis,
da Universidade Case Western Reser-
ve. Ao estudar o processo de mudan-
ça comportamental que ele chama de
“mudança intencional”, Boyatzis con-
cluiu que tendemos a nos mover em
direção a dois “atratores”, o atrator
emocional negativo (Negative Emo-
tional Att ractor – NEA) e o atrator
emocional positivo (Positive Emotio-
nal Att ractor – PEA). A estimulação
do PEA aciona o sistema nervoso pa-
rassimpático. Essa ativação permite
ao organismo entrar em um estado de
calma por meio da desaceleração dos
batimentos cardíacos e da diminui-
ção da pressão arterial, entre outros
fatores. Estudos nas áreas de neuro-
ciência, endocrinologia e Psicologia
indicam que emoções positivas aju-
dam a estimular o sistema nervoso
o que funciona e o que não funciona;
2- Tornando conhecimentos e recur-
sos mais acessíveis; 3- Expandindo o
entendimento do que é saúde mental;
4- Colocando mais foco no bem-estar
comunitário; 5- Mostrando que a feli-
cidade não é tudo. Essas cinco catego-
rias serão explicadas a seguir.
Método científico
Comprovando o que funcio-na e o que não funciona – Em
termos populares, conceitos como
a felicidade por vezes concentram-
-se no terreno da autoajuda, pautada,
principalmente, pela crença individu-
al. O advento da Psicologia Positiva,
porém, estimulou uma abordagem
para esses temas, cujo crivo são os es-
tudos, experimentos e pesquisas que
seguem o método científi co.
Exemplo de um desses estudos foi
Sob uma ótica mais pragmática, caberia a
pergunta: de que modo os milhares de estudos
e pesquisas, teorias e conceitos sobre felicidade
e temas correlatos surgidos nos últimos 20 anos
podem ajudar o indivíduo a ser mais feliz?
S abemos muito sobre estres-se, depressão, ansiedade e demais distúrbios que afl i-gem o ser humano, mas será
que sabemos o que nos faz felizes?
São bem conhecidos os efeitos que
as emoções negativas exercem sobre
o nosso bem-estar e até sua função
sob o ponto de vista evolutivo. Mas
e quanto às emoções positivas? Para
que servem? Também sabemos o que
nos deixa vulneráveis e expostos, mas
o que dizer de nossas forças? Será que
as conhecemos?
As respostas a essas perguntas
são o foco da Psicologia Positiva,
uma área de estudo da Psicologiaque propõe uma abordagem científi -
ca para questões que acompanham o
ser humano há milênios. Basicamen-
te, essas questões giram em torno do
seguinte eixo: o que é felicidade e o
que fazer para ser feliz.
Ao ser eleito presidente da Ameri-
can Psychological Association (APA)
em 1998, Martin Seligman concla-
mou pesquisadores a se debruçarem
sobre o assunto. O apelo acabou por
aglutinar uma série de iniciativas que
já haviam começado a se delinear,
além de estimular outros acadêmi-
cos a voltarem seus olhares para toda
uma miríade de temas relacionados
aos meios e processos que envolvem a
felicidade e o bem-estar. Ultrapassan-
do os limites da Psicologia, o apelo
acabou por chegar também a neuro-
cientistas, pedagogos, economistas,
médicos e pesquisadores de áreas di-
versas, contribuindo para a formação
de todo um corpo de conhecimento
de caráter multidisciplinar.
Sob uma ótica mais pragmática,
caberia a pergunta: de que modo os
milhares de estudos e pesquisas, teo-
rias e conceitos sobre felicidade e te-
mas correlatos surgidos nos últimos
20 anos podem ajudar o indivíduo a
ser mais feliz?
É possível organizar as respostas
em cinco categorias: 1- Comprovando
Estudos comprovam que alguns fatores contribuem para um nível maior de felicidade, como a
gratidão e a manutenção de atividades que promovem um engajamento positivo
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parassimpático, que, por sua vez, fa-
cilita um estado de funcionamento
cognitivo e emocional otimizado.
Além disso, a estimulação do
PEA contribui para que nos engaje-
mos em mudanças desejáveis e sus-
tentáveis. Por meio de experimentos
nos quais os participantes foram
submetidos à ressonância magnéti-
ca, Boyatzis verifi cou que a evoca-
ção de emoções positivas associadas
a um futuro desejado e a profundas
aspirações relacionadas à identida-
de – o “eu ideal” – produzia
uma intensa estimulação
do córtex visual. Essa área
do cérebro está associada
ao processamento visual e à
imaginação. Ou seja, as ima-
gens da ressonância magné-
tica mostraram as assinatu-
ras neurais da visualização,
um processo crucial para
motivar o aprendizado e a
mudança comportamental.
O segundo “atrator”
identifi cado por Boytzis é o
que ele chama de NEA, ou
atrator emocional negativo.
O NEA aciona o sistema
nervoso simpático, o que es-
timula ações que permitem
ao organismo responder a
situações de perigo e de es-
tresse. Algumas reações fi siológicas
que ocorrem nesse processo são, por
exemplo, a aceleração dos batimen-
tos cardíacos, o aumento da pressão
arterial e a produção mais intensa
de adrenalina – a chamada respos-
ta fi ght or fl ight, que prepara nosso
corpo para, diante de uma situação
de perigo, enfrentar ou escapar. A
prolongação desse estado resulta na
redução das funções cognitivas, no
enfraquecimento do sistema imuno-
lógico e no aumento da suscetibili-
dade a doenças.
Esse, entre outros estudos, for-
nece ampla fundamentação para os
postulados da Psicologia Positiva
que associam o foco nas forças e no
“eu ideal” ao êxito no processo de
mudança comportamental susten-
tável. Aumentar a positividade e as
possibilidades de ações efi cazes per-
mite que o indivíduo se recupere de
pensamentos, sentimentos e experi-
ências estressantes, além de
sustentar o aprendizado e o
desenvolvimento. Por outro
lado, ao ancorar a mudança
em exigências situacionais,
na identifi cação de ameaças e
na minimização das perdas,
o indivíduo organiza respos-
tas para enfatizar problemas,
ações defensivas, vigilância,
autoproteção e reações psi-
cológicas que podem levar
à elevação do estresse e ao
esgotamento.
Aumento
do bem-estar
Tornando conhecimen-tos e recursos mais
acessíveis – Esse talvez
seja um dos aspectos mais
O advento da
Psicologia Positiva
estimulou uma
abordagem para
temas como
felicidade cujo crivo
são os estudos,
experimentos e
pesquisas que seguem
rigorosamente o
método científico
FELICIDADE ESTÁ NOS REGISTROS
DOCUMENTAIS DOS DIREITOS DAS NAÇÕES
PARA SABER MAIS
Abusca pela felicidade, postulada dessa forma, pode até parecer pouco ou irrelevante. Mas será que é? Desde 1776, a Declaração de Indepen-
dência dos Estados Unidos estipula que a “busca pela felicidade” é um direito
inalienável. Pouco depois, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cida-
dão, redigida pelos revolucionários franceses em 1789, evoca a “conservação
da felicidade geral”. Em dois momentos cruciais da História, que se mantêm
como referenciais simbólicos, a felicidade, ou o direito de persegui-la, entrou
para o registro documental dos direitos e liberdades que as nações deveriam
proporcionar a seus cidadãos. Mais de dois séculos se passariam até que a
felicidade se tornasse um campo de investigação científica.
Martin Seligman comandou iniciativas em relação a estudos de
inúmeros temas relacionados aos meios e processos que envolvem a
felicidade e o bem-estar
d o s s i ê
38 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
Ao ancorar a mudança em exigências
situacionais, na identificação de ameaças e na
minimização das perdas, o indivíduo organiza
respostas para enfatizar problemas, ações
defensivas, vigilância e autoproteção
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surpreendentes da Psicologia Positi-
va. Constantemente, seus pesquisa-
dores têm demonstrado a efi cácia de
procedimentos simples e ao alcance
de todos no que diz respeito ao au-
mento da felicidade e do bem-estar.
São recursos testados em uma série
de estudos e divulgados para um pú-
blico cada vez mais amplo.
Alguns desses estudos foram
relatados por Martin Seligman. Em
um artigo de 2005 publicado na re-
vista American Psychology, Seligman
descreve um estudo no qual foram
testadas seis intervenções da Psico-
logia Positiva desenhadas para pro-
mover melhorias na qualidade de
vida a curto prazo. Das seis, a que
causou maior impacto positivo foi a
“visita de gratidão”. A proposta da
intervenção previa que cada partici-
pante escrevesse uma carta expres-
sando por que era grato a uma deter-
minada pessoa de sua vida. Depois,
eles deveriam entregar a carta pes-
soalmente. Só isso. O resultado, que
se manteve por até um mês após a
intervenção, foi um signifi cativo au-
mento no nível de felicidade e uma
redução dos níveis de depressão.
Outra atividade relacionada à
gratidão que também foi testada é
conhecida como “as três bênçãos”
ou “diário da gratidão”. Dessa vez, os
participantes do estudo tinham de
escrever, diariamente, três coisas que
haviam ocorrido durante o dia e pelas
quais eles se sentiam gratos. Essa ati-
vidade também exerceu um impacto
positivo na felicidade dos participan-
tes – sendo que os resultados mais
signifi cativos foram observados seis
meses depois do início do diário.
A intervenção chamada “atos de
bondade” – possivelmente uma das
mais conhecidas da Psicologia Positi-
va – é outra que apresenta um histó-
rico de estudos que visam investigar
sua efi cácia. Em um deles, foi pedido
a um grupo de estudantes que reali-
zasse cinco atos de bondade por dia.
Depois, eles deveriam registrar o
que aconteceu, qual foi a reação das
outras pessoas e como eles se senti-
ram. Os atos de bondade consistiam
basicamente em gestos de gentile-
za, como ceder o assento no ônibus,
abrir a porta para alguém passar, aju-
dar um colega nos estudos, entre ou-
tros exemplos. Em comparação com
o grupo de controle, os participantes
que realizaram os atos de bondade
registraram um aumento tanto nasemoções positivas quanto no engaja-
mento acadêmico.
As forças de caráter constituem
mais um – entre inúmeros outros –
exemplo de conhecimento e recursos
que se tornaram acessíveis por meio da
Psicologia Positiva. Pesquisadas por
Martin Seligman e Chris Peterson,
as forças foram defi nidas pela dupla
de pesquisadores como mecanismos,
ou rotas, por meio das quais as vir-
tudes são expressas. São, também,
Avanço
Em 1999, Philip J. Stone deu um
curso em Harvard sobre Psico-
logia Positiva. O público? Cerca
de 20 alunos. Em 2006, Tal Ben
Shahar (foto) deu outro curso so-
bre a mesma disciplina. Dessa vez,
o público superou a casa dos 800
alunos, tornando as aulas de Ben
Shahar as mais populares da histó-
ria de Harvard. Atualmente há, ape-
nas nos Estados Unidos, mais de
200 programas de Psicologia Po-
sitiva oferecidos por universidades.
A ativação do atrator
emocional positivo permite
ao organismo entrar em
um estado de calma por
meio da desaceleração dos
batimentos cardíacos
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Constantemente,
pesquisadores
têm demonstrado
a eficácia que
procedimentos
simples e ao alcance
de todos possuem
no que diz respeito
ao aumento da
felicidade e do
bem-estar
características que manifestam o que
temos de melhor. Um extenso corpo
de pesquisas indica que, quando o
indivíduo utiliza suas forças, ele expe-
rimenta níveis mais altos de felicidade
e níveis reduzidos de depressão, além
de maior propensão a atingir objeti-
vos e crescer com os desafi os.
Um teste on-line simplifi cado
para a identifi cação das forças que já
foi realizado por mais de quatro mi-
lhões de pessoas em todo o mundo
é oferecido gratuitamente pelo VIA
Institute on Character. E uma das
intervenções mais efi cazes e popu-
lares referentes a esse tema consiste
em, diariamente, buscar meios dife-
rentes de utilizar suas forças de as-
sinatura – isto é, o conjunto de suas
cinco forças principais.
Essa é uma pequena amostra de
como a Psicologia Positiva tem dis-
seminado conhecimentos e recursos,
tornando-os mais acessíveis a todos
os que buscam acrescentar mais feli-
cidade e bem-estar em suas vidas.
Potencial próprio
Expandindo o entendimento do que é saúde mental – A saúde
mental não é a mera ausência de dis-
túrbios e patologias. A Organização
Mundial da Saúde (OMS) a defi ne
como um estado de bem-estar no
qual cada indivíduo concretiza seu
próprio potencial, é capaz de lidar
com o estresse inerente ao cotidia-
no, de trabalhar produtivamente e de
contribuir com sua comunidade.
A popularização dessa visão
deve-se, em grande parte, à Psicolo-
gia Positiva e a pesquisadores como
Corey Keyes, da Universidade Emory
Keyes, que desenvolveu o conceito
de fl orescimento humano, vê a saú-
de mental como um contínuo que
abrange não apenas o binômio saúde-
-doença, mas, também, uma descri-
ção mais ampla do que signifi ca gozar
de boa saúde mental, o que inclui o
fl orescimento e o defi nhamento.
restrito somente à presença ou à au-
sência de sintomas não estimula o
desenvolvimento de estados emocio-
nais e psicológicos positivos, mais en-
riquecedores e satisfatórios. Isso seria
especialmente verdadeiro para aque-
les que não apresentam distúrbios,
mas que estão, segundo a terminolo-
gia de Keyes, defi nhando.
E os que defi nham são a maioria.
Analisando dados epidemiológicos,
Keyes constatou que apenas 20% da
população dos Estados Unidos estão
fl orescendo. Na Europa, o país que
apresenta o índice de fl orescimento
mais elevado é a Dinamarca, com cer-
ca de 33%.
Esse conceito expandido de saú-
de mental – que inclui o fl orescimen-
to – já está sendo chamado de saúde
mental positiva. Sua importância
é atestada por especialistas como
Margaret Barry, professora de Saúde
Pública da Universidade Nacional da
Irlanda e coordenadora de iniciativas
internacionais para implementação
de intervenções e políticas visando a
promoção da saúde mental. Segundo
Barry, a saúde mental positiva é fun-
damental não só para o bem-estar da
Para Keyes, fl orescer é desfrutar
de emoções positivas e funcionar bem,
tanto do ponto de vista psicológico
quanto do social. Por outro lado, quem
não está fl orescendo está defi nhando.
Defi nhar é experimentar regularmen-
te a sensação de vazio e de estagnação,
o chamado “desespero silencioso”.
Esse estado não chega a constituir um
distúrbio, mas também não é fl oresci-
mento – logo, não gera felicidade.
O trabalho de Keyes sugere que
um entendimento de saúde mental
A evocação de emoções positivas associadas a profundas aspirações relacionadas à identidade
produz intensa estimulação do córtex visual
d o s s i ê
40 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
Uma conceitualização
diferente, porém
complementar,
do bem-estar
comunitário vem
dos pesquisadores
do Gallup Rath e
Harter, que o definem
como o senso de
engajamento que o
indivíduo possui com
a área onde vive
população como também para a pros-
peridade econômica e social.
Vida em conjunto
Colocando mais foco no bem-es-tar comunitário – Já dizia a can-
ção, “é impossível ser feliz sozinho”.
Engana-se quem pensa que, por focar
na felicidade, a Psicologia Positiva es-
timula um estilo de vida individualis-
ta e hedonista. Uma análise dos três
elementos apresentados como pilares
dessa área do conhecimento lança
luz sobre a questão. Os pilares são as
emoções positivas, as características
positivas (ou forças de caráter) e as
instituições positivas – que englobam
desde empresas, organizações, escolas
e entidades em geral até comunidades
e a própria sociedade.
Para Isaac e Ora Prilleltensky, o
bem-estar comunitário são “os am-
bientes físico, econômico, geográfi co,
cultural, político e psicossocial nos
quais os membros de uma comunidade
realizam suas necessidades”. Na con-
cepção dos autores, quando a comu-
nidade é saudável, essas necessidades
são satisfeitas de modo congruente
com valores como saúde, liberdade,
cuidado e compaixão, respeito à di-
versidade e justiça social, entre outros.
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Prilleltensky e Prilleltensky afi rmam
que o bem-estar da comunidade à qual
pertencemos infl ui em nosso desenvol-
vimento quando criança, nas oportu-
nidades que teremos na vida, em nosso
estilo de vida e até mesmo em nossa
longevidade. Daí o motivo pelo qual a
promoção do bem-estar comunitário
tem sido alvo de uma série de inicia-
tivas governamentais mundo afora,
como a felicidade interna bruta do Rei-
no do Butão, os índices de bem-estar
ofi ciais do Canadá e do Reino Unido,
o Fórum Internacional do Bem-Estar
na Alemanha, o projeto de bem-estar
equitativo e sustentável da Itália, as po-
líticas coreanas voltadas para a felicida-
de do cidadão e várias outras.
Uma conceitualização diferente,
porém complementar, do bem-estar
comunitário vem dos pesquisadores
do Gallup Rath e Harter, que o defi -
nem como o senso de engajamento
que o indivíduo possui com a área
onde vive – o que requer a participa-
ção ativa em algum tipo de grupo ou
organização comunitária. Para eles, a
forma mais elevada de bem-estar co-
munitário é a contribuição que cada
um dá à sua comunidade, o que, em
sua concepção, diferencia uma boa
vida de uma vida excepcional. Rath e
Harter contam que, quando pergun-
taram às pessoas com alto nível de
bem-estar a respeito das contribuições
mais importantes que elas haviam ofe-
recido, a maioria referiu-se ao impacto
positivo exercido sobre a vida de ou-
tras pessoas, grupos ou comunidades.
Esses e outros trabalhos ressal-
tam um tipo de felicidade que, ao que
tudo indica, desponta comomais im-
pactante e duradouro, e que resulta
do ato de doar e de contribuir.
Paradoxo da felicidade
Mostrando que a felicidade não é tudo – Eis aqui um parado-
xo. Ao mostrar que a felicidade não é
tudo, a Psicologia Positiva nos impele
a sermos mais felizes. Ocorre que a
busca incessante pela felicidade acaba
por esbarrar na adaptação hedônica,
fenômeno que alude à tendência de
regressar rapidamente a um nível es-
tável de felicidade depois de termos
passado por situações que contribuí-
ram para aumentá-la. O conceito foi
desenvolvido com base em estudos
que mostraram que, após experimen-
tarem um “pico” de felicidade de cur-
ta duração, ganhadores de loteria ge-
ralmente acabavam retornando a seus
níveis de felicidade anteriores.
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pensamentos, sentimentos e experiências estressantes
psique ciência&vida 41www.portalespacodosaber.com.br
Psico
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As forças de caráter
constituem mais
um – entre inúmeros
outros – exemplo
de conhecimento
e recursos que se
tornaram acessíveis
por meio da Psicologia
Positiva, pesquisados
por Martin Seligman
e Chris Peterson
O ponto, aqui, não é renunciar
ao desejo de ser feliz, mas não trans-
formá-lo em obsessão nem persegui-
-lo somente por meio da gratifi cação
imediata. Martin Seligman expôs
essa questão ao ampliar seu concei-
to de felicidade autêntica para a te-
oria do bem-estar. A teoria propõe
cinco elementos fundamentais ao
fl orescimento humano, contidos no
acrônimo PERMA. São eles: Positive
emotions (emoções positivas), Enga-
gement (engajamento); Relationships
(relacionamentos); Meaning (signifi -
cado); Achievement (realização).
De acordo com essa concepção,
aumentar o bem-estar envolve expe-
rimentar com frequência emoções
positivas – entre as quais a felicida-
de – e engajar-se naquilo que você
faz. Envolve também nutrir relacio-
namentos positivos, enxergar signifi -
cado em sua vida (o que está relacio-
nado a ter um propósito) e buscar a
realização.
Todos os elementos do PER-
MA infl uenciam o fl orescimento.
No entanto, cada indivíduo tende
a enfatizar cada um desses elemen-
tos em proporção variável. Vejamos,
por exemplo, a letra M do PERMA,
de crescimento contínuo que liga o
presente ao futuro e supre com mo-
tivação aqueles que se conectam a
questões existenciais, tais como a ne-
cessidade de enxergar sentido em sua
vida e em suas ações.
Nas palavras de Seligman, encon-
tramos signifi cado quando usamos
nossas forças e talentos mais elevados
para pertencer e para servir a algo que
acreditamos ser maior do que nós. É
por isso que, segundo pesquisas, pes-
soas que conseguem encontrar signi-
fi cado em sua existência sob a forma
de um propósito claramente defi nido
relatam um nível de satisfação com a
vida mais elevado do que aquelas que
não possuem um propósito defi nido.
Isso pode ocorrer mesmo quando elas
estão passando por difi culdades. Afi -
nal, a satisfação com a vida resulta da
avaliação que fazemos de nossa vida
como um todo – e não apenas de nos-
so nível de felicidade.
que corresponde a Meaning, ou sig-
nifi cado. De acordo com estudo de
Baumeister, Vohs, Aaker e Garbinsky,
enquanto a felicidade pode ser vista
como uma experiência mais elemen-
tar, ancorada na tendência de buscar
satisfação e conforto no momento
presente, uma vida com signifi cado
é algo mais complexo. Ancorada em
valores e propósitos, a vida com signi-
fi cado inclui desafi os que trazem des-
conforto e atividades que não trazem
prazer. Mas é, também, um caminho
Estudo corporativo
Pesquisa demonstra que indivíduos
que não apresentam distúrbios men-
tais nos últimos 12 meses e que
estão florescendo faltam menos ao
trabalho e usam serviços de saúde
com menos frequência. Eles tam-
bém apresentam um risco menor de
adquirir doenças cardiovasculares e
enfermidades crônicas à medida em
que envelhecem. E, é claro, relatam
níveis de bem-estar mais elevados.
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terá na vida e até mesmo na longevidade
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www.portalespacodosaber.com.br
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O ciberespaço pode ser
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de comunicação que surge
da intercomunicação mundial
dos computadoresComo a FELICIDADE
influencia no ambiente
de TRABALHO
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A velocidade
e evolução do
mundo moderno
refletem-se no
comportamento
das empresas e,
por consequência,
apontam novas
tendências nas
relações de trabalho,
que precisam
se adaptar
O mundo está em cons-tante evolução, as-sim como as empre-sas. Mas então por
qual motivo, nos últimos anos,
essas mudanças afetam de ma-
neira mais intensa as pessoas e
suas organizações do que anti-
gamente? Simples, as mudanças
atualmente estão cada vez mais
velozes e acabam atropelando a
maioria das empresas, e, por con-
sequência, seus colaboradores,
que têm seu gerenciamento ba-
seado em modelos arcaicos e, por
vezes, obsoletos.
O advento da tecnologia nos
trouxe uma enormidade de dife-
rentes possibilidades de trabalho.
Tanto que o home of fice v irou uma
maneira corriqueira em muitas
Renata Arrepia é master coach formada
pela Sociedade Brasileira de Coaching e
psicóloga formada pela Universidade de
Guarulhos.
Por Renata Arrepia
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44 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
empresas, principalmente nas de-
nominadas startups, termo em in-
glês que surgiu nos EUA no f inal
dos anos 90 e que foi massif icado
no Brasil após a difusão da inter-
net. Esse modelo de negócio é
formado por um grupo de pessoas
com ideias inovadoras, escaláveis
e com custos iniciais baixos.
Em uma pesquisa realizada
pelo Chartered Institute of Per-
sonnel and Development (CIPD),
apenas metade das empresas está
preocupada com o bem-estar de
seus funcionários, e dentre elas
em torno de 30% incluem o es-
tresse como maior causa de afas-
tamentos no trabalho. Na con-
tramão desses dados, as startups
nascidas no Vale do Silício, EUA,
e que se tornaram grandes em-
presas como Google e LinkedIn,
trouxeram um novo olhar sobre o
trabalho que prioriza a qualidade
de vida de seus colaboradores.
Para a nova geração, os mil-
lennials, que está adentrando no
mercado de trabalho, o mais im-
portante em uma empresa é que
o fit cultural esteja de acordo com
suas aspirações, ou seja, que as ca-
racterísticas daquela organização
como missão, visão e valores se-
jam coerentes com o propósito de
vida deles.
Atualmente, em sites como
99jobs é possível saber se a em-
presa se adequa às suas expec-
tat ivas. Durante o cadastro, o
candidato responde a lgumas
perguntas de um quest ioná-
r io que traz um resumo de seus
pr incipais va lores no trabalho.
Assim, ele conseguirá saber em
quais empresas a compatibi l ida-
de é mais próx ima a seu perf i l . E ,
por consequência, encontrar um
trabalho que o faça fel iz .
Qual o motivo dessa busca
pela felicidade no trabalho? Em
2016, o Gallup divulgou uma pes-
quisa que nos mostra que, nos
EUA, apenas um terço dos tra-
balhadores está engajado em seu
emprego. Há uma distância entre
o que eles querem fazer e o que
realmente desempenham em sua
função. Ademais, 91% afirmaram
que deixaram a empresa anterior
para buscar o que realmente lhes
traga felicidade.
Para a nova geração,
os millennials, que
está adentrando
no mercado de
trabalho, o mais
importante numa
empresa é que as
características da
organização, como
visão e valores,sejam
coerentes com seu
propósito de vida
Os três Es
Conforme pesquisa da Willis Towes
Watson, existem três Es (em inglês)
que podem fazer a diferença nos
ambientes de trabalho e que ele-
vam a performance e os resultados:
engaged (engajado): afinidade com
a empresa e vontade de dar o seu
melhor; enabled (capacitado): am-
biente de trabalho que proporciona
produtividade e alta performance;
energized (energizado): bem-estar
individual, físico, interpessoal e
emocional no trabalho.
O ��������I� virou uma maneira corriqueira em empresas, proporcionado pelas novas possibilidades
de trabalho, oferecidas pela tecnologia
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Podemos entender
que funcionário
infeliz custa muito
à empresa, não só
pelo baixo rendimento,
mas também
devido ao fato da
alta rotatividade,
gerando custos
tanto das rescisões
quanto dos
processos seletivos
constantes
ENGAJAMENTO CORPORATIVO
PARA SABER MAIS
O
Gallup nos revela que o engajamento ao longo dos anos se manteve pra-
ticamente estável. Constatando que as empresas ainda não se movimen-
taram ou fizeram mudanças ínfimas nos ambientes organizacional e cultural.
Fonte: Gallup. 2017. State of the American Workplace.
Com isso, podemos entender
que funcionário infeliz custa muito
à empresa, não só pelo baixo rendi-
mento, mas também devido ao fato
da alta rotatividade, gerando cus-
tos tanto das rescisões quanto dos
processos seletivos constantes.
Adiante, seguirão a lgumas
melhores prát icas que podem
ajudar l íderes a melhorar a cul-
tura empresar ia l, aumentando o
Mudança de visão
Utilize o engajamento como força motriz aproveitando
a geração Y. Os millenials, jovens
que hoje têm entre 23 e 38 anos,
mudaram totalmente a forma de
enxergar o trabalho dentro das
organizações. Para essa geração, o
que realmente importa é quão re-
levante e gratif icante será sua ocu-
pação. Muitos migram para novos
desafios assim que percebem que
estão desengajados.
Para que um colaborador vista
a camisa da empresa há algumas
necessidades que precisam ser su-
pridas: equilíbrio entre a vida pes-
soal e profissional, f lexibilização
de horários etc.
Comece fazendo um levan-
tamento dos motivos pelos quais
seus colaboradores se ausentam
do trabalho. Entender as possíveis
causas de estresse e absenteísmo
engajamento dos funcionários,
diminuindo o turnover e disse-
minando a fel icidade no ambien-
te de trabalho.
Pesquisa do Chartered Institute of Personnel and Development indica que só metade das empresas
está preocupada com o bem-estar de seus funcionários
% Engajados % Não engajados % Ativamente desengajados
d o s s
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46 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
pode ajudar o líder a tomar atitu-
des que estimulem o bem-estar e
aumento de engajamento.
Em seu livro Florescimento na
Prática: Semeando Experiências
Positivas, Flora Victoria, presiden-
te da SBCoaching, nos diz que o
engajamento e a utilização das
forças e virtudes de um indivíduo
permitem que ele atue com suas
melhores características, sendo
elas: 1- Conheça o perfil de seu
colaborador; sites como o Via
Institute on Character, possuem
uma pesquisa gratuita que o aju-
dará a entender as características
de cada indivíduo; 2- Busque os
pontos fortes de cada colaborador
e concentre-se neles; 3- Mostre a
eles que seu trabalho é importante
e que seus valores integram o todo
e fazem a diferença na equipe.
Um estudo feito em 2006 pela
Universidade de Drexel nos diz
que o engajamento nas empresas
pode beneficiar outras áreas da
vida do indivíduo sem causar es-
tresse, desde que o ambiente seja
favorável e que relacionamentos
positivos sejam mantidos.
Quando temos pares em quem
nos espelhamos automaticamen-
te há um aumento de motivação
e empatia mútua, favorecendo a
criatividade, a gratidão e até um
aumento na expectativa de vida.
Aumento de performance
Manter um bom ambiente de trabalho é importante. Para
a Psicologia Positiva, f lorescer é
um conceito de felicidade e bem-
-estar mais amplo. Ele é alcança-
do no momento em que estamos
repletos de emoções positivas e
mantendo o bem-estar psicológi-
co e social.
Consequentemente, quando
atingimos esse estágio temos um
visível aumento de performance.
Substitua comportamentos e há-
bitos ruins que geram desconforto
entre a equipe por ações que pro-
movam o bem-estar e desenvol-
vam a resiliência.
Segundo Vadim Rotenberg,
psicofisiologista israelense, pesso-
as que são mais otimistas possuem
uma memória melhor e se portam
melhor frente a novos desafios.
Esses dados foram baseados em
estudos de neuroimagens ao longo
das últimas décadas.
E como manter as pessoas feli-
zes em seu ambiente de trabalho?
1- Transparência é fundamen-
tal. Empresas que divulgam sua
cultura e participam de sites como
Love Mondays e 99jobs têm mais IMAG
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Geração do milênio
Millennials, também conhecidos
como geração do milênio, gera-
ção da internet ou geração Y, é um
conceito da Sociologia que se re-
fere às pessoas nascidas depois de
2000. Outra linha de pensamento
data do início da década de 1980
ou começo da década de 1990.
O grupo se desenvolveu em uma
época de grandes avanços tecno-
lógicos, facilidade material e em
um ambiente urbanizado. Surgiu
após a instauração do domínio da
virtualidade como sistema de inte-
ração social e midiática.
O Gallup revela
que o engajamento
ao longo dos anos
se manteve
praticamente estável,
constatando que as
empresas não
se movimentaram
ou fizeram mudanças
ínfimas nos ambientes
organizacionais
e cultura Em 2016, o Gallup divulgou um levantamento que aponta que, nos EUA, apenas um terço dos trabalhadores está engajado em seu emprego
psique ciência&vida 47www.portalespacodosaber.com.br
Psico
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e
Um estudo de
2006 pela
Universidade
de Drexel diz que
o engajamento nas
empresas pode
beneficiar outras
áreas da vida sem
causar estresse,
desde que
o ambiente seja
favorável e que
relacionamentos
positivos sejam
mantidos
chance de encontrar colaborado-
res que vão ao encontro de sua
missão, visão e valores.
Quanto mais próximo o fun-
cionário está culturalmente da
empresa, menor a possibilidade de
turnover. Com a retenção de talen-
tos, a empresa economiza em gas-
tos com processos seletivos, trei-
namentos e demissões.
Da mesma maneira, a sinergia
será muito maior, desencadeando
a alta performance da equipe, com
obtenção de melhores resultados
que impactarão diretamente nos
lucros da instituição.
2- Flex ibi l idade é a pa lavra-
-chave. Atualmente as pessoas
dão mais va lor às empresas que
permitem um horár io de traba-
lho f lex ível, o velho “horár io
comercia l ” está com seus dias
contados. Poder comparecer em
um compromisso part icular im-
portante sem comprometer o ho-
rár io de trabalho est imula e mo-
t iva os colaboradores.
Em 2016, 43% dos funcioná-
r ios trabalharam longe de sua
equipe pelos menos uma vez por
semana. Houve um aumento de
quatro pontos percentuais se
comparado a 2012. Curiosamen-
te, as empresas t idas como mais
tradicionais, como bancos e f in-
techs , foram as maiores responsá-
veis por esse aumento, seguidas
por transportes e construção.
3- É fundamental ter bons l í-
deres na equipe. Em alguns casos,
a alta rotativ idade pode ser um
problema de gestão. Se analisar-
mos as últimas pesquisas acerca
do mercado de trabalho vamos
constatar que muitas pessoas dei-
xam seusuperior e não necessa-
riamente sua organização.
Perceba sua equipe, entenda
suas particularidades promoven-
do feedbacks constantes de acordo
com o perf i l de cada um. A lguns
gostam de ouvir seu l íder todos
os dias, porém outros acham esse
tipo de ação invasiva. Entenden-
do quais as necessidades indiv i-
duais haverá uma f luidez na co-
municação entre as partes. Maus
l íderes são a causa de 32% dos ab-
senteísmos nas empresas.
4 - Promova a colaboração. A
colaboração movimenta, gera so-
l idar iedade e possibi l ita a união
entre os pares. Há um aumento
na simpli f icação dos processos e
maior suscet ibi l idade para o sur-
g imento de novas ideias. A lém
de um forta lecimento nos rela-
cionamentos.
Ações desse tipo têm sido in-
vestigadas na Psicologia Positiva
por diversos pesquisadores, como
Shelly Gable, da Universidade
de Santa Bárbara, na Califórnia.
Eles af irmam que os relaciona-
mentos impactam diretamente na
saúde f ísica e emocional e, conse-
quentemente, em todos os âmbi-
tos do bem-estar.
O preço da infelicidade
Quarenta e quatro por cento das empresas que possuem
uma cultura saudável, onde o
funcionário se sente fel iz, têm
por características o bem-estar e
maior engajamento e produtiv i-
dade. Não há dúvida de que tra-
balhadores engajados são mais
motivados e otimistas, a lém de
cultivar e semear os valores da
A geração de millenials, jovens que hoje têm entre 23 e 38 anos, mudou totalmente a forma de
enxergar o trabalho dentro das organizações
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48 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
organização. O vínculo com a
marca se torna mais forte e, por
conseguinte, o colaborador se
tornará um embaixador da em-
presa, aumentando o v ínculo com
os cl ientes e gerando upsells .
Em contrapartida, aqueles que
estão desmotivados causam um
prejuízo que chega em torno de
600 bilhões de dólares por ano em
perda de produtividade. Oitenta
e seis por cento dos funcionários
que relataram trabalhar com al-
gum tipo de indisposição obser-
vam o presenteísmo.
Curiosamente, a porcenta-
gem de organizações que tomam
consciência sobre o presenteísmo
e tentam desencorajá-lo caiu de
48% para 25% em dois anos. O
alto volume de trabalho é dispara-
do uma das três principais causas
de ausência e está diretamente re-
lacionado ao estresse.
Ainda em relação ao estudo,
algumas fontes podem afetar di-
retamente no engajamento dentro
das empresas, como tendências
econômicas, mudanças de mer-
cado, reestruturação de pessoal,
falta de capacitação, falta de reco-
nhecimento etc. Mesmo que estes
estivessem engajados em algum
momento iremos notar uma mu-
dança signif icativa na produtivi-
dade quando afetados.
Um dado interessante é que
em empresas que possuem um alto
nível de capacitação e engajamen-
to, o lucro líquido tende a ser bem
maior, ou seja, a capacitação acaba
sendo um fator crucial no sucesso
dos negócios e no bem-estar do
colaborador.
Quando se tem um ambien-
te onde todos são submetidos à
pressão constante, com brigas
entre os pares, a lta rotativ idade,
entre outros, o bem-estar e a saú-
de emocional dos funcionários
são afetados diretamente. Por
isso, um ambiente saudável, po-
sitivo e energizado é importante.
Por ano, há uma variação de 10
pontos percentuais no ebtida en-
tre organizações com baixo e alto
engajamento.
O pilar da tecnologia
A tecnologia vem afetando to-dos os âmbitos de maneira
exponencial. Seja na vida profis-
sional ou pessoal, devemos levar
em consideração seus prós e con-
tras. Em 2018, o IPC aponta que
1,4 bilhão de dispositivos móveis
foram vendidos no mundo inteiro.
Há sempre alguém conecta-
do em alguma parte do mundo,
a qualquer hora do dia. Muitas
instituições têm turnos noturnos
também ou até funcionamento
ininterrupto, como é o caso dos
hospitais e canais de televisão.
Porém, nem tudo são f lores.
O bem-estar e a felicidade podem
ser diretamente afetados quando
O DOMÍNIO DA TECNOLOGIA DE PONTA
PARA SABER MAIS
OSilicon Valley, traduzido como Vale do Silício, é uma região locali-zada na Califórnia, Estados Unidos, que aglutina inúmeras empresas
ligadas à tecnologia da informação, computação, entre outras. Começou
a se desenvolver em 1950, com o intuito de gerar e fomentar inova-
ções no campo científico e tecnológico. Grande parte das empresas da
região é dos setores de eletrônica e informática. O nome Silício é uma
homenagem ao elemento químico (Si), matéria básica na produção de
circuitos e chips eletrônicos. Trata-se de uma das maiores aglomerações
de empresas com domínio de tecnologia de ponta do mundo. Conhecida
por desenvolver modelos acessíveis de financiamento para projetos de
tecnologia, as chamadas Startups Companies. Com o aumento de de-
senvolvimento da região, o cenário atual do Vale do Silício é semelhante
ao das grandes metrópoles: trânsito intenso, imóveis supervalorizados e
alta competitividade.
Quando temos pares em quem nos
espelhamos, automaticamente há um
aumento de motivação e empatia mútua,
favorecendo a criatividade, gratidão e
até um aumento na expectativa de vida
psique ciência&vida 49www.portalespacodosaber.com.br
Psico
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e
falamos de tecnologia no âmbito
profissional. Com a alta demanda
pelo horário de trabalho ampliado
e cobrança por alta performance,
a maioria dos executivos sofre im-
pacto direto em seu bem-estar.
Setenta e quatro por cento
creem que a f lexibilização de ho-
rário é um fator positivo, porém
87% afirmam que a facilidade nas
comunicações pela internet, prin-
cipalmente durante o home of fice,
acaba gerando uma impossibili-
dade de “desligar-se” da empre-
sa, mesmo nos f inais de semana.
Esse tipo de impacto, ao longo dos
anos, pode gerar estresse, doenças
mentais, transtornos etc.
Precisamos levar em consi-
deração os prós e contras, sendo:
prós: trabalho remoto; comunica-
ção mais ef icaz; redução no tempo
de deslocamentos; maior controle
sobre as atividades; participação
mais ativa dos funcionários. E os
contras: incapacidade de desligar-
-se; estresse nas intermitências da
tecnologia; menos interação hu-
mana; má postura; menor quali-
dade no sono.
Na Índia, pesquisadores estão
utilizando a inteligência artificial
(IA) para aumentar a felicidade
A porcentagem de organizações que tomam
consciência sobre o presenteísmo e tentam
desencorajá-lo caiu de 48% para 25% em dois
anos. O alto volume de trabalho é, disparado,
uma das três principais causas de ausência e
está diretamente relacionado ao estresse
dentro das empresas, por meio da
análise de dados dos colaborado-
res. O diretor executivo da Coca-
-cola, Indrajeet Sengupta, afirma
que a IA pode nos ajudar a aumen-
tar o desempenho humano por
meio da análise de dados. Assim,
podemos levar em consideração as
diferentes gerações e suas peculia-
ridades, adaptando os métodos de
trabalho para cada uma delas.
Para isso, as empresas preci-
sam desenhar seus valores base-
ados nas características de cada
geração, atrelando-as às suas ne-
cessidades e às dos indivíduos.
Pesquisas de clima e capacitação
adaptativa são exemplos de como
podemos nos favorecer com a IA.
Utilizar da análise preditiva,
por meio da análise do compor-
tamento, também pode ajudar a
balizar quais características são
mais benéficas e importantes para
a empresa e, a partir daí, desenvol-
ver um plano para retenção de ta-
lentos ou, até mesmo, estratégias
para recompensar as pessoas de
acordo com seus esforços.
Apenas 20% das pessoas estão
felizes em sua carreira. Segundo
Tom Rath e Jim Hater, autores do
livro Wellbeing: the Five Essential
Elements, há uma subestimação de
o quanto o bem-estar na carreira
podeafetar sua vida. Se estamos
bem no trabalho, por consequência
melhoramos o nosso bem-estar nos
demais âmbitos: financeiro, social,
físico e comunitário.
Portanto, ter objetivos profis-
sionais bem definidos nos deixa
mais motivados e torna nosso tra-
balho significativo. Contribuindo
para o bem comum e gerando maior
produtividade e felicidade.
Quando há um
ambiente onde todos
são submetidos a
pressão constante,
com brigas, a saúde
emocional dos
funcionários é afetada
diretamente
50 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
psicologia social por Luiza Elena L. Ribeiro do Valle
Ele e ela –
completude ou confronto?
HOMENS E MULHERES DIFEREM NO COMPORTAMENTO
PORQUE UMA PARTE IMPORTANTE TEM SUAS RAÍZES NA
CULTURA, NA EDUCAÇÃO, NA VIDA SOCIAL, E TUDO O QUE
FAZEMOS ACONTECE A PARTIR DE DETERMINAÇÃO CEREBRAL
E
studos neuropsicológicos cons-
tatam que as diferenças exis-
tem entre homens e mulheres
e não são exclusivamente cul-
turais. Os pesquisadores de Harvard
descobriram que determinadas partes
do córtex frontal, envolvido em funções
cognitivas importantes, são proporcio-
nalmente mais volumosas em mulheres
do que em homens, assim como partes
do córtex límbico, envolvido nas rea-
ções emocionais. Outra região do cére-
bro que difere anatomicamente entre os
sexos em sua resposta ao estresse é o
hipocampo, estrutura essencial para o
armazenamento de lembranças e para
o mapeamento espacial do ambiente.
Essas divergências anatômicas podem
estar ligadas à diferença no modo como
homens e mulheres se comportam: os
homens tendem a se orientar estiman-
do a distância e sua posição no espaço,
enquanto as mulheres se orientam ob-
servando pontos de referência.
Seguindo nas comparações entre es-
truturas cerebrais, o aumento na densi-
dade do córtex auditivo feminino pode
estar relacionado ao melhor desempe-
NHO�EM�TESTES�DE�m�UÐNCIA�VERBAL��%SSAS�
características não representam mais
psique ciência&vida 51www.portalespacodosaber.com.br
Luiza Elena L. Ribeiro do Valle é psicóloga, doutora em Ciência no
Departamento de Psicologia Social (USP/SP). Mestre em Psicologia Escolar e
Educacional (PUC-Campinas), MBA Executivo em Psicologia Organizacional
(AVM-Brasília), extensão em Gestão de Pessoas (FGV). Formação em Coaching
(Lambent), especialização em Psicologia Clínica (CFP) na linha
Cognitivo-Comportamental, consultora em Psicopedagogia, autora de livros.
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capacidades, mas a maneira como a es-
trutura do nosso cérebro se desenvolve.
Existe a capacidade de reagir de manei-
ra diferente à violência, o que não quer
dizer, obviamente, que as mulheres não
possam ser agressivas.
Em relação à inteligência emocio-
nal, a situação não é diferente. A inte-
ligência emocional pode ser entendida
como a capacidade de se conhecer para
lidar bem consigo mesmo e, da mes-
ma forma, conhecer e lidar bem com o
outro, nos relacionamentos sociais, fa-
MILIARES�OU�PROlSSIONAIS��$ESSA� FORMA��
trata-se da capacidade de conciliar as
emoções e a razão, de modo a facilitar
esse equilíbrio fundamental na habili-
dade de trabalho em grupo ou para ou-
vir nossos próprios sentimentos.
As mulheres apresentam melhor
desempenho em relações humanas e
tendem a se sobressair em empatia e
proteção. Por outro lado, os homens têm
mais facilidades na independência e nas
habilidades matemático-espaciais. A
região parietal inferior do córtex no he-
misfério esquerdo é maior nos homens,
privilegiando as habilidades mentais de
raciocínio matemático, conforme foi ve-
RIlCADO�NO�CÏREBRO�DE�!LBERT�%INSTEIN�E�
de outros físicos e matemáticos.
Foi descoberto, no entanto, que o
cérebro das mulheres processa a lin-
guagem verbal nos dois hemisférios si-
multaneamente, enquanto os homens
só processam a linguagem verbal no
hemisfério esquerdo. Como consequên-
cia dessa descoberta, na Universidade
de Yale percebeu-se que os homens e
as mulheres usam estratégias diferentes
para desempenhar as funções cogniti-
vas. Se de um lado eles têm força corpo-
ral para competir, elas conseguem van-
tagens sociais através da argumentação
e da persuasão.
É interessante, ainda, que existe um
FEIXE�DE�lBRAS�NERVOSAS� LIGANDO�OS�DOIS�
hemisférios cerebrais, sendo esse o pon-
to essencial do desenvolvimento intelec-
tual. Esse feixe é maior nas mulheres,
que acessam várias partes do cérebro
para resolver determinado problema,
enquanto os homens pensam com re-
GIÜES� MAIS� ESPECÓlCAS� DO� CÏREBRO�� PO-
dendo ter respostas mais sintetizadas e
objetivas, menos analíticas.
Atualmente, em virtude do acentu-
ado desenvolvimento tecnológico, as
relações sociais transformam-se em sua
essência, provocando um descompas-
so na construção identitária do sujeito
pós-moderno, que aumenta velozmente
a sua interação com a máquina enquan-
to, inversamente, diminui seu contato
COM�O� GÐNERO� HUMANO�� DIlCULTANDO� O�
exercício da chamada inteligência emo-
cional porque se dedica mais ao com-
putador que ao conhecimento de si,
enquanto pessoa.
Segundo Foucault (1926-1984), o es-
tudo da sexualidade deve centrar-se nos
discursos do desejo, explorando as pala-
vras, a linguagem e os símbolos.
Desse modo, a sociedade se constrói
nas relações afetivas, familiares, educa-
CIONAIS� E� PROlSSIONAIS�� 3EM� DÞVIDA�� Ï�
na família que a identidade da mulher e
do homem recebe as primeiras progra-
mações culturais. A divisão dos papéis
ENTRE�O�CASAL�PARA�A�EDUCA¥ÎO�DOS�lLHOS�
REmETE�OS�VALORES�E�AS�CREN¥AS�DA�INSTITUI-
ção familiar. Cada família tem regras e
valores próprios. É comum no Ocidente
que as meninas, ainda no berçário, ga-
NHEM�BRINCOS�E�RECEBAM�UM�LA¥O�DE�lTA�
na cabeça logo após nascer. Os meninos
são comemorados sem esses detalhes.
Assim, daquele momento em diante,
instala-se um aprendizado que deverá
fazer parte da identidade feminina ou
masculina, num contexto social. A iden-
TIDADE��PRODUTO�SOCIAL�E�REmEXO�DO�OLHAR�
do outro, ou seja, de como o outro nos
percebe, porque o autoconceito se forma
a partir das informações que se recebe.
Para Foucault (1926-1984), que en-
fatiza o papel do poder na evolução do
discurso em sociedade, as contradições
podem ser vistas como um princípio
organizador. O conjunto de traços con-
traditórios fundamenta os discursos
que na atualidade se desdobram em di-
versos temas sobre os sexos, no qual a
mulher é associada ao dilema entre car-
REIRA� E�MATERNIDADE�� Ì� CULPA�� Ì� ANGÞS-
tia, à incompletude, convergindo para
uma identidade em crise, enquanto o
homem segue competindo pelo poder e
domínio, porém liberado para se emo-
cionar, fazer tarefas caseiras e demons-
trar afetividade.
%NlM��O�CRESCIMENTO�DO�NÞMERO�DE�
mulheres em lugares anteriormente ocu-
pados apenas por homens deverá contri-
buir para o aumento considerável de va-
lores como compreensão, solidariedade
e aceitação de diferenças, contribuindo
para um mundo mais justo e inclusivo,
que abrace a diversidade de gênero.
HOMENS E MULHERES USAM ESTRATÉGIAS
DIFERENTES PARA DESEMPENHAR FUNÇÕES
COGNITIVAS. SE DE UM LADO ELES TÊM
FORÇA CORPORAL PARA COMPETIR,
ELAS CONSEGUEM VANTAGENS SOCIAIS
ATRAVÉS DA ARGUMENTAÇÃO E PERSUASÃO
52 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
neurociência por Marco Callegaro
Aprendendo durante o SONO
NOVA INVESTIGAÇÃO APONTA QUE É POSSÍVEL APRENDER
DURANTE O SONO, CONTRARIANDO A CRENÇA BEM
ESTABELECIDA DE QUE ISSO SERIA ALGO IMPOSSÍVEL
um grupo de sujeitos falantes de ale-
mão, os pesquisadores expuseram os
participantes durante a noite ao vo-
cabulário de uma língua inventada e
posteriormente conseguiram associar
essas palavras a signif icados em lín-
gua alemã.Embora essa proeza esteja ain-
da distante de aprender uma nova
A
ideia de que precisamos
de nossa consciência para
aprender é uma crença que
parece racional e bem fun-
damentada em termos de conheci-
mento sobre neurociências. De fato,
de forma geral, novas memórias são
formadas durante as horas de vigília,
quando nossas mentes conscientes es-
tão no controle. No entanto, essa cren-
ça foi recentemente desaf iada em um
novo estudo, que sugere a possibilida-
de de aprender material novo de forma
inconsciente todas as noites.
Uma investigação realizada na
Universidade de Berna e publicada na
revista Current Biology indica que essa
ideia pode não ser tão improvável. Em
psique ciência&vida 53www.portalespacodosaber.com.br
cada uma ligada a um certo signif i-
cado. Essas palavras f ictícias foram
apresentadas aos sujeitos nos chama-
dos “estados ascendentes” ou “picos”
durante o sono profundo, um estágio
geralmente não associado aos sonhos.
Durante o sono profundo, a cada
meio segundo os neurônios alternam
um período no qual sua atividade é
coordenada com outro estado inati-
vo. A hipótese dos pesquisadores é
de que os picos de ondas lentas são
propícios à codif icação do sono por-
que demarcam períodos de excitabi-
lidade neural.
Durante o sono dos sujeitos, foi
usado um EEG para monitorar suas
ondas cerebrais, enquanto os pesqui-
sadores disparavam associações de
palavras através de fones de ouvido.
Pares de palavras, uma f ictícia e outra
com um signif icado, foram associados
durante quatro repetições cada par.
Quando os sujeitos acordaram,
os investigadores mostraram aos su-
jeitos as pseudo-palavras, enquanto
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ESTUDO APONTA
QUE O CÉREBRO
ADORMECIDO PODE
CODIFICAR NOVAS
INFORMAÇÕES E
ARMAZENÁ-LAS
POR LONGO PRAZO,
ALÉM DE FAZER
NOVAS ASSOCIAÇÕES
Marco Callegaro é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento,
diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto
Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo
Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o
Modelo do Processamento Mental (Artmed, 2011).
Referência:
Marc Alain Züst, Simon Ruch, Roland Wiest & Katharina Henke. Implicit vocabulary learning during
sleep is bound to slow-wave peaks. Current Biology, v. 29, issue 4, p. 541-553. E7, February 18,
2019. Open access published: January 31, 2019. DOI: https://doi.org/10.1016/j.cub.2018.12.038
linguagem durante o sono, é um avan-
ço importante na compreensão do me-
canismo de aprendizagem noturna. Os
sujeitos quando acordavam eram ques-
TIONADOS�SOBRE�AS�PALAVRAS�lCTÓCIAS��DE�
forma indireta, e de fato responderam
SIGNIlCATIVAMENTE� ACIMA� DO� ACASO��
Isso ocorreu sem que os participantes
soubessem que haviam sido expostos
às palavras anteriormente.
Esse resultado indica que o cére-
bro adormecido pode realmente codi-
f icar novas informações e armazená-
-las por longo prazo, além de fazer
novas associações.
Uma das importantes funções do
sono é o processo de reorganizar as
memórias. Durante certos estágios do
sono, como no período de sonho, o
cérebro repete as memórias em modo
rápido. Os circuitos neurais que têm
a função de armazenar memórias
reativam-se novamente como uma
rede, ensinando o cérebro a lembrar.
Essa repetição parece nos ajudar a in-
troduzir importantes aprendizados e
experiências de vida em um armazena-
mento mais permanente em nossos cé-
rebros. Enquanto isso, memórias menos
importantes são apagadas para abrir
mais espaço para armazenamento.
Através da medição direta da ati-
vidade neural noturna em cérebros de
camundongos, verif ica-se que as re-
des neurais ativadas na codif icação da
memória durante o dia f icarão ativas
à noite. A partir desses estudos com
roedores, os cientistas descobriram
que o hipocampo, uma região em for-
ma de cavalo-marinho no interior do
cérebro, se comunica com a camada
externa do cérebro, o córtex, durante
o sono, através de ondas de atividade
que podem ser medidas usando um
dispositivo de EEG.
Nesse estudo, participaram sujei-
tos de língua alemã de ambos os se-
xos. Para garantir que nenhum dos
participantes tivesse contato anterior
com a linguagem utilizada, os pes-
quisadores criaram palavras f ictícias,
pediam que imaginassem se o objeto
referido pela palavra com signif icado
era menor ou maior que uma caixa
de sapatos, que foi uma maneira de
explorar as memórias inconscientes
ou implícitas.
Quando a segunda palavra no par
de palavras coincidia com o estado
superior em sono profundo, os parti-
cipantes puderam caracterizar corre-
tamente a palavra inventada em 10%
a mais do que o acaso. Isso revela que
os traços de memória implícitas for-
mados durante o sono persistem du-
rante a vigília e inf luenciam a forma
como reagimos aos estímulos apre-
sentados, como uma intuição ou pres-
sentimento.
Quando o cérebro dos participan-
tes era examinado através de técni-
cas de neuroimagem, os pesquisado-
res descobriram que o hipocampo e
as regiões do cérebro normalmente
associadas à aprendizagem de lín-
guas durante a vigília também esta-
vam ativos durante a aprendizagem
do sono. Essa descoberta contradiz o
que sabemos sobre o funcionamento
do hipocampo no aprendizado, que
estaria ativo somente nas fases da
consciência.
Apesar de promissores, esses re-
sultados ainda não apontam para uma
consistente capacidade de aprender
línguas durante o sono, pois esse
aprendizado se baseia em conheci-
mento explícito e não em sensações
implícitas. Mais estudos são necessá-
rios para investigar essa nova forma
de aprendizado, que parece interes-
sante e promissora.
54 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
recursos humanos por João Oliveira
P
essoas simplesmente param de
buscar crescimento porque,
por comparação, se encontram
em melhor posição que seus
pares. O olhar, no entorno, vicia como
uma armadilha invisível, criando uma
ilusão de faixa de chegada: “Cheguei
ao máximo de minha carreira!”. Essa
FRASE�lNALISTA�PODE�ESTAGNAR�UMA�VIDA�
que poderia contribuir mais com a em-
presa, família, sociedade e (obviamen-
te) consigo mesmo.
Sabemos, pela programação neu-
rolinguística e os informes dos neuro-
cientistas, que o cérebro adora novida-
des mas detesta mudanças. Vivemos
buscando padrões para explicar tudo o
que nossos sentidos podem captar. Por
isso é difícil dormir com uma torneira
pingando: não há padrão perfeito en-
tre uma gota e outra, o que gera um
ruído sem cadência rítmica. O cérebro
não gosta muito de coisas sem um pa-
drão previsível.
Assim, sempre que for possível de-
tectar uma relação confortável entre
PRODU¥ÎO� E� RENDIMENTO� �RETORNO� lNAN-
ceiro), com certa estabilidade previsível,
é possível ocorrer uma paralisação pela
BUSCA�DE�CRESCIMENTO�PROlSSIONAL��%SSE�
PERlL� � MUITO� COMUM� EM� SERVIDORES�
públicos de uma forma geral, mas tam-
bém existe em bom tamanho em todos
OS�PERlS�DE�ATUA¥ÎO�DOS�SERES�HUMANOS��
desde os pequenos comerciantes aos re-
NOMADOS�PROlSSIONAIS�LIBERAIS��
!� JUSTIlCATIVA� MAIS� ENCONTRADA��
quando se questiona o indivíduo sobre
sua escolha em deter o próprio desen-
VOLVIMENTO�PROlSSIONAL���QUE�ELE�n�RES-
PONDE
SE�PRONTAMENTE�n�NÎO�Ï�GANAN-
cioso, ou que não vive apenas em busca
DE� RETORNO� lNANCEIRO��!� FRASE� CAMPE�
��h0RElRO�QUALIDADE�DE�VIDA�A�UMA�VIDA�
só de trabalho!”.
Não há nada de errado nisso e são
boas falas, na verdade, o problema é que
podem não corresponder à plena verdade
dos resultados que poderiam ser alcança-
dos caso existisse a motivação certa.O COMPORTAMENTO PERIGOSO
DA ACOMODAÇÃO, PELA SENSAÇÃO
DE CONFORTO E ESTABILIDADE,
PODE LIMITAR EM MUITO A REAL
PRODUÇÃO QUE UM PROFISSIONAL
PODERIA TER EM SUA CARREIRA
A armadilha do
BOM QUEIJO
psique ciência&vida 55www.portalespacodosaber.com.br
O prof. dr. João Oliveira é doutor em Saúde Pública, psicólogo e diretor de Cursos
do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.isec.psc.br). Entre seus livros estão:
Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam. Tenha as Soluções!;
Jogos para Gestão de Pessoas: Maratona para o Desenvolvimento Organizacional; Mente
Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida; e Saiba Quem Está à sua Frente – Análise
Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora).
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UT
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Durante o lançamento de uma cam-
panha para a aquisição de casa própria
no Estado do Rio de Janeiro pelo va-
lor de R$ 1,00 (isso mesmo: um único
e mísero real por uma casa popular),
um grupo de amigos psicólogos traba-
lhava na captação de possíveis futuros
MORADORES�� /� PERlL� PROCURADO� ERAM�
moradores de rua, pessoas que viviam
em condições sub-humanas e morado-
res de comunidades carentes. Um dia
encontraram uma família que residia
sob uma ponte em um valão fora do
perímetro urbano, e não havia argu-
MENTA¥ÎO�SUlCIENTE�QUE�CONVENCESSE�A�
família a deixar a arriscada condição
de vida. Em dado momento, o chefe da
família argumentou que isso iria gerar
despesas que eles não tinham até o
momento, como: IPTU, conta de água,
de luz e até mesmo gás. O psicólogo,
então, como última forma de conven-
cimento, disse: “Mas aqui, de vez em
quando, ocorrem cheias, e a água che-
ga a cobrir até mesmo a pista sobre a
ponte”. O senhor fechou o semblante,
abaixou a cabeça e terminou a conver-
sa com o seguinte argumento: “É só
uma vez por ano!”.
Nós, seres humanos, estamos muito
bem preparados para defender as cren-
ças que temos como verdade pessoal.
Por isso temos guerras. Como, então,
uma empresa deve agir em seu corpo la-
BORAL�A�lM�DE�ESTAR�SEMPRE�MOTIVANDO�O�
crescimento de seus colaboradores?
Os treinamentos são bem-vindos
sempre. No entanto, quando o foco é
provocar a busca pelo crescimento, de-
ve-se ter o cuidado de saber direcionar
o resultado para a própria instituição,
quando for o caso de uma empresa, ou
para o amplo mercado quando o foco
FOREM�OS�PROlSSIONAIS�LIBERAIS�
Pode ser que sua empresa não lhe
ofereça essa oportunidade, e a única
FORMA�DE�ESTAR�NELA��lCANDO�JUSTAMEN-
te no seu lugar, mantendo essa conhe-
cida segurança. Caso surjam o descon-
forto e a necessidade de escalar novos
degraus, o jeito é deixar de fazer parte
Outro exemplo de como isso pode
ser danoso: quando uma grande empresa
pública foi privatizada no Rio de Janeiro,
na década de 1980, um grupo de recru-
tadores visitou todas as unidades pelo
interior do estado fazendo a seguinte
pergunta aos antigos funcionários: “Há
quanto tempo o senhor está nessa fun-
ção?”. A linha de corte foi os que estavam
estacionados há mais de dez anos. Não
interessava à nova administração pes-
soas sem ambição. Para ela, isso era um
forte indicativo de falta de proatividade.
Uma avaliação pessoal deve ter uma
agenda recorrente. Em nossa cultura é
NORMAL�ESSA�CHECAGEM�OCORRER�NO�lNAL�
ou começo de um novo ano ou nos ani-
versários natalícios. Muitos planos, vá-
rias metas e uma curta memória para
mudança. Basta lembrar dessa frase que
elaborei em um de nossos livros: “A úni-
ca constante na vida é a mudança cons-
tante na vida”. Se prepare para crescer
mais um pouco ainda hoje!
SABE-SE, PELA
PROGRAMAÇÃO
NEUROLINGUÍSTICA
E OS INFORMES DOS
NEUROCIENTISTAS,
QUE O CÉREBRO
ADORA NOVIDADES
MAS DETESTA
MUDANÇAS. ELE
NÃO GOSTA MUITO
DE COISAS SEM UM
PADRÃO PREVISÍVEL
da instituição. Por isso, eventos moti-
vacionais dentro das instituições de-
vem ofertar quais possibilidades estão
disponíveis em seu próprio ambiente.
Caso contrário, o risco de perder ele-
mentos será inevitável.
CONCEITO
56 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
O processo de análise consegue quebrar
paradigmas, pois ao falar das próprias
feridas, do vazio e da dor, a pessoa
consegue sair de um estado de morte
para um estado de vida
Por Salézio Plácido Pereira e Edson Sallin
CONCEITO
A RESSIGNIFICAÇÃO
psique ciência&vida 57www.portalespacodosaber.com.br
Salézio Plácido Pereira é graduado em Pedagogia, Filosofia e Teologia,
psicanalista, doutor em Psicologia Social pela Universidade John F. Kennedy
da Argentina, diretor do Instituto de Psicanálise Humanista (www.itphrs.org),
presidente da Academia Mundial das Ciências Humanas (www.waohs.org) e
diretor da University Humanistic of Americas (www.humanisticuniversity.org).
Edson Sallin é graduado em Filosofia e Teologia pela Fapas, Santa Maria
(RS), especialista em Bioética pelo Centro Universitário São Camilo (SP),
com especialização em Psicanálise Humanista pelo Instituto de Psicanálise
Humanista, Santa Maria (RS), e psicanalista (idsallined@yahoo.com.br).IMA
GE
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DOS TRAUMAS
CONCEITO
58 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
Depressão,
estresse, fobias
são verdades
atuais, que não
temos como
negar ou esconder.
No entanto,
frente a tudo
isso, se percebe
o crescimento
assustador de
tantas doenças.
Qual a causa de
tudo isso?
APsicanálise surgiu para possibilitar ao paciente uma nova consciência, detém entender e com-preender o sofrimento,
os traumas e as dores. A caminhada
iniciada por Sigmund Freud, com
o tratamento da histeria, vem hoje
mostrar a necessidade e a importân-
cia da escuta analítica como proces-
so para a cura. Em um tempo em que
tudo é rápido, no qual a vida parece
não ter mais sentido e significado, o
próprio ato de falar desses problemas
leva a pessoa a ressignificar, isto é, a
olhar para a própria realidade e, des-
sa forma, sair da patologia.
Vivemos numa era em que, apesar
de todas as mudanças, tanto na área das
ciências da tecnologia, da web, do estar
conectado, o ser humano parece sentir-
-se cada vez mais vazio de si e da pró-
pria realidade. Depressão, estresse, fo-
bias são verdades atuais, que não temos
como negar ou esconder. No entanto,
frente a tudo isso, se percebe o cresci-
mento assustador de tantas doenças.
As perguntas que não se calam: qual
a causa de tudo isso? Será o estilo de
vida, as escolhas que realizamos, talvez
o modo como nos alimentamos?
O objetivo deste artigo é apre-
sentar e mostrar sobre a importân-
cia da análise, isto é, a cura pela fala.
Ao longo dos anos, essa ciência tem
realmente contribuído de modo
satisfatório para que pudesse le-
var saúde ao paciente. Ao falar das
próprias feridas, do vazio e da dor,
a pessoa consegue sair de um esta-
do de morte para um estado de vida.
Quando somos inf luenciados pelas
crenças, acredita-se nelas como as
únicas verdades. Dessa forma, com
o processo da análise se consegue a
quebra desses paradigmas.
Ao mergulhar na subjetivi-
dade da própria existência, o ser
humano se percebe como um ser
para a saúde e não para a doença.
Pois toda forma de patologia leva
ao processo de autodestruição de
tudo aquilo que alimenta a existên-
cia. Na tomada de cons-
ciência cria todas as
condições para
se superar na
existência com
criatividade, saú-
de e superação.
Feridas psíquicas
O tratamento analítico é um ca-minho que leva o paciente na
tomada de consciência e ressigni-
ficação das próprias feridas. Dessa
maneira, através da fala se consegue
escutar a própria dor. Com o desen-
volvimentodas ciências, o grande
avanço da Medicina, Freud abriu as
portas para uma nova maneira de
entender e compreender o sofrimen-
to psíquico, para, com isso, levar ao
estudo da mente inconsciente, que-
brando certas crenças colocadas
como verdades únicas.
A Psicanálise é uma ciência que
serve de auxílio para compreender a
mente inconsciente na prática clíni-
ca. Com o seu advento, se começou a
buscar outra compreensão dos sinto-
mas, assim como das doenças. O que
antes era visto como algo místico,
agora é entendido e compreendido
como patologia. Dessa forma se en-
tendeu que muitos dos sintomas não
poderiam ser analisados sob o para-
digma da Medicina, mas, sim, entrar
no mundo das emoções, traumas,
compulsões e psicoses.
A cura pela fala é, na verdade,
um grande avanço que modificou
muitas crenças. Hoje se percebe a
necessidade do tratamento analíti-
co, diante de uma sociedade que pa-
rece priorizar o sofrimento e a dor.
Ao criarmos camadas sobre a nos-
sa realidade, iremos viver a essên-
cia germinativa dessas patologias,
que pouco a pouco vão nos sufocar.
Quando falamos, o corpo começa a
sarar. Os silêncios são armadilhas,
pois viram toxinas emocionais. Com
o tempo tornam-se dores físicas ou
psíquicas, dessa maneira afetando
todo o organismo.
Guardar traumas, perdas e ódio
é uma realidade que se torna uma
“bomba” capaz de alterar algum
órgão do corpo. Nesse sentido, ao
falar, ao escutar-se, o paciente em
seu processo psicanalítico começa a
A caminhada
iniciada por Freud,
com o tratamento
da histeria, vem
hoje mostrar a
necessidade da
escuta analítica
como processo
para a cura
psique ciência&vida 59www.portalespacodosaber.com.br
Ao longo dos
anos, a cura pela
fala tem realmente
contribuído de
modo satisfatório
para que pudesse
levar saúde ao
paciente. Quando
somos influenciados
pelas crenças,
acredita-se nelas
como as únicas
verdades
recuperar o sentido da vida, a tomar
consciência do seu estado doentio.
O mundo agitado em que se vive,
no qual o estresse parece ser a causa
de tantas patologias, o fato de olhar
para si, de criar as condições para sair
do estado de morte para o estado de
vida, acontece mediante a busca do
tratamento analítico. Ao ressignifi-
car as dores e os traumas, a pessoa
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A META É PROMOVER A TRANSFORMAÇÃO
PARA SABER MAIS
A
análise tem como meta levar o paciente a se transformar, isto é, a sair
de uma condição de patologia para uma realidade de saúde, vida e supe-
ração. O tratamento analítico é o encontro com a própria sombra, a capaci-
dade de enfrentar, com consciência e criatividade, as dores e os traumas da
existência. O ponto de partida deste artigo foi, então, delinear um caminho
para a compreensão e o entendimento do conhecimento
analítico como um processo de cura das feridas
psíquicas. Sendo a Psicanálise uma
ciência, exige um método prático,
eficaz e verdadeiro, no qual tem
como objetivo promover a saúde
e não a doença. Quando a pessoa
está com o potencial adormecido,
são criadas todas as condições para
permanecer na doença e nas falências.
Acredita nessas crenças como verda-
des únicas, isto é, que a vida gira em
torno da dor, sofrimento, falências e das
doenças. Ao escutar a própria dor, ao mergulhar
no sofrimento, a pessoa entende que não precisa
permanecer nessa condição de somatizações. O método
psicanalítico oferece uma metodologia capaz de esclarecer e compreender
as dores psíquicas, sendo capaz de penetrar nas profundezas do inconscien-
te para, dessa maneira, levar o paciente a descobrir o seu potencial de vida,
criatividade e potencialidade.
vai tomando consciência de que não
necessita dessas patologias.
Por mais difícil que tenha sido a
infância, não temos como modificá-
-la, ou mesmo apagar da memória.
No entanto, o caminho mais cura-
tivo e consciente é escutar a própria
dor, entender que não se precisa viver
sofrendo por fatos do passado. Sem
dúvida, quando se vivem as catástro-
fes da existência, é preciso um tempo
para elaborar todas essas realidades,
pois “a catástrofe natural, como me-
táfora do trauma psíquico, nos ajuda
a entender que o trauma real que der-
ruba e mata não é pensável. A única
coisa que se faz é tentar permanecer
de pé, evitar os escombros e respirar”
(Cyrulnik, 2009, p. 26).
No mundo moderno, apesar das mudanças da tecnologia, da web, do estar conectado, o ser humano se
sente cada vez mais vazio de si e da realidade
CONCEITO
60 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
Ao mergulhar na
subjetividade da
própria existência,
o ser humano se
percebe como um
ser para a saúde e
não para a doença.
Pois toda forma
de patologia leva
ao processo de
autodestruição
de tudo aquilo
que alimenta a
existência
Quando conseguimos falar de
nossos problemas, dilemas e frus-
trações, a ferida torna-se menos do-
lorida. Os sintomas, em grande par-
te, são emoções que não chegaram
à consciência, da mesma forma que
muitos traumas que não foram ela-
borados tornam-se feridas psíquicas.
Ao escutar a minha dor, ela torna-se
consciente, deixa de comandar a mi-
nha existência.
A análise leva o paciente a sair da
patologia para começar a olhar a vida
com outros olhos. Permite voltar a
amar, a vibrar com a existência, a viver
com alegria e sentido. Aos poucos, se
percebe como uma pessoa feliz, com
saúde e desejos, tem todas as condi-
ções para se superar com criatividade,
sem necessitar permanecer na doen-
ça. A análise é o caminho terapêutico
que possibilita a busca da cura. No
entanto, é necessário estar disposto a
desapegar-se da dor e do sofrimento.
Reelaboração das crenças
A ciência psicanalítica trata da questão dos sintomas, dos trau-
mas, neuroses e psicoses. No momen-
to em que o paciente conseguir olhar
para a sua realidade, na decisão cons-
ciente de sair do estado doentio, real-
mente se superará na existência com
de para a vida. Se crescermos acre-
ditando que viver é padecer e sofrer,
realmente, são essas verdades que
vão direcionar-nos, independente-
mente de como conduzimos nossas
escolhas. Afinal, o que são as cren-
ças? Elas se estruturam em toda pro-
gramação mental, adquiridas duran-
te toda a vida, como aprendizado, nas
quais determinam comportamentos,
atitudes, tomadas de decisões, con-
quistas e qualidade de vida. Elas de-
cidem como enxergamos o mundo,
a vida e a realidade que nos cerca.
Em si, comandam a nossa existência,
muitas vezes fazendo com que tome-
mos decisões erradas.
Mudamos sempre nossas percep-
ções, escolhas, conseguimos ressig-
nificar uma perda recente, uma dor
do ano passado. No entanto, o difícil
é mudar as crenças inconscientes,
herdadas desde a nossa infância. Esse
sistema me impulsiona em repetir
a mesma coisa, viver acreditando
numa inverdade imposta. Ora, se
acredito nessa realidade, a vida não
vai para a frente, não consigo evoluir,
crescer, tanto no aspecto relacional
quanto no financeiro e amoroso.
Aprendi que a vida é sofrer e padecer,
que as conquistas são para os outros
e nunca para mim.
Como podemos reelaborar uma
crença? Quando mudamos as crenças,
não só conseguimos mudar os com-
portamentos, mas também os nossos
resultados, nossas atitudes frente às
realidades que nos cercam. O papel
das crenças é levar a pessoa a um pro-
cesso de fracasso, em viver na falta de
amor, de dinheiro, afeto e carinho.
A crença de identidade é que vai
determinar quem eu sou. Como me
percebo na existência e como os ou-
tros me percebem. Se acredito que
sou um fracasso, um coitado, um
ser sem amor, que não merece afeto
e carinho; na verdade, são essas re-alidades que vão ser introjetadas na
minha vida. No momento em que
saúde e criatividade. Todos nós temos
nossas crenças, muitas vezes são elas
que determinam a nossa existência. É
comum o paciente vir para a análise
com suas crenças defi nidas, acredi-
tando nelas como verdades únicas.
Toda crença tem um método,
uma verdade e energia. Não falamos
em crenças religiosas, mas, sim, na-
quelas que desde a nossa infância
aprendemos como sendo uma verda-
Ao falar, ao se escutar, o paciente, em seu processo psicanalítico, começa a recuperar o sentido da
vida, a tomar consciência do seu estado doentio
psique ciência&vida 61www.portalespacodosaber.com.br
O tratamento analítico é um caminho
que leva o paciente na tomada de
consciência e ressignificação das próprias
feridas. Dessa maneira, através da fala,
se consegue escutar a própria dor
consigo olhar para a minha vida dife-
rente, que, sim, sou merecedor de ter
amor e sucesso, dessa maneira estou
reelaborando as minhas crenças.
Na verdade, é um processo de to-
mada de consciência, de ser merece-
dor, que eu posso e consigo. Mesmo
que existam várias estruturas neu-
rais, crenças limitantes, aos poucos
estas não vão mais comandar a to-
mada de decisão da vida. Reelaborar,
mudar de atitude, de conceito, do
modo como entende a existência são
passos na mudança de vida, para com
isso se transformar.
Se as crenças não me fazem feliz,
vão causar graves prejuízos na minha
vida. Elas realmente são completa-
mente determinantes. Se tenho cren-
ças limitantes sobre os aspectos con-
jugais, ou mesmo financeiros, vou
ter muitos problemas diante desses
aspectos. O grande objetivo da vida é
viver feliz, com saúde e determinado
na existência. Nenhum ser humano
nasceu para sofrer, padecer ou mes-
mo viver no fracasso. Por isso, quan-
do consigo mudar as crenças, mudo
de dentro para fora. Quando mudo a
identidade que tenho sobre mim, al-
tero a maneira e o modo de como me
percebo na existência.
Podemos apresentar três tipos de
crenças: a) identidade - de como me
percebe na vida, b) capacidade - se
realmente acredito nas minhas capa-
cidades, se realmente consigo me ver
como uma pessoa inteligente; c) me-
recimento - é tudo aquilo que mereço
na vida; quando tenho um complexo
de inferioridade não me sinto mere-
cedor de nada na vida. Tudo é para os
outros, menos para mim. Por isso que
ao mudar de pensamento, na tomada
de atitude, num processo de análise,
realmente se consegue reelaborar to-
das essas crenças.
Podemos afirmar que o objetivo
delas é fazer com que a pessoa viva na
contradição. Não mereço, não posso,
não tenho capacidades, ninguém me
ama ou não sou merecedor do amor.
Na tomada de consciência, no pro-
cesso analítico, realmente o paciente
vai percebendo que essas crenças não
condizem com a sua existência.
A essência de ser
Na busca de um sentido na vida, o ser humano descobriu novos
caminhos que o levam a sua interiori-
dade. Na essência de ser e existir, este
realmente necessita ouvir-se para,
dessa maneira, compreender-se. Des-
se modo é que conseguimos reconhe-
cer que as feridas e os sofrimentos
Escuta do vazio
A análise possibilita a aproximação
da escuta do vazio, do se conhecer
e se superar na existência com amor,
saúde e sem doenças. Para Salézio
Plácido Pereira, “a análise humanista
procura relacionar essas forças do
potencial da biofilia e procura nesta
‘potência’ o desejo de viver e amar.
Nunca se deve reduzir a complexi-
dade do fenômeno doentio a uma
interpretação racional desprovida da
análise do seu processo de autodes-
truição” (Pereira, 2015, p. 55).
Sintomas são emoções que não chegaram à consciência, da mesma forma que os traumas que não foram
elaborados se tornam feridas psíquicas
CONCEITO
62 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
Com o
desenvolvimento
das ciências, o
grande avanço da
Medicina, Freud
abriu as portas para
uma nova maneira
de entender e
compreender
o sofrimento
psíquico, para,
com isso, levar ao
estudo da mente
inconsciente
não tratados podem destruir e ani-
quilar a existência. Na falta de algo
na vida, busca-se constantemente
fixar-se no vazio. Nesse sentido, o
nosso existir carrega um sentimento,
o de restaurar e transformar nossa
unidade primeira.
O que torna o ser humano doen-
te? Muitas vezes podemos nos per-
guntar a respeito disso. Da mesma
maneira podem-se levantar muitas
hipóteses e questionamentos. Vi-
vemos numa sociedade que parece
estar cada vez mais doente. O cres-
cimento dos produtos fármacos não
tem resolvido a grande demanda que
se apresenta. O que fazer? Quais se-
riam os recursos necessários para
viver com saúde e sem doenças? A
grande causa dessas realidades, na
atualidade, é o vazio da existência,
ou melhor, a patologia do vazio.
No momento em que se perde o
sentido de existir, a alegria de amar
e ser amado, o ser humano cai no va-
zio, onde depressão e sofrimento o
movem. Sente-se inquieto, perdido,
sem um objetivo, como afirma Erich
Fromm: “Contudo, o homem moder-
no sente-se inquieto e cada vez mais
perplexo. Ele labuta e lida, mas tem
uma vaga consciência da futilidade
de seus esforços. Enquanto cresce
seu poder sobre a matéria, sente-se
impotente em sua vida individual e
em sociedade” (Fromm, 1981, p. 14).
Existem várias explicações diante
da criação de uma doença. Verdade,
não tem como realizar um diagnóstico
preciso, com base sobre um conceito
de uma patologia psíquica. No entanto,
cabe ressaltar algumas hipóteses para,
dessa maneira, chegar a um possível
diagnóstico. Muitas dessas doenças
são resultado de alterações emocionais
e psíquicas, visto que “a lesão, a depres-
são, o pânico são fruto das relações in-
conscientes e emocionais que o sujeito
projeta na realidade social e cultural e
no processo de formação de sua identi-
dade” (Pereira, 2009, p. 14).
Essa patologia do vazio tem como
objetivo levar a pessoa a um total
fracasso, tanto relacional como fi-
nanceiro. Nesse meio, se perde por
completo o sentido de viver, do lu-
tar pelos sonhos, tudo gira em torno
dessa realidade. É interessante que o
gasto de energia é tanto que a pessoa
parece estar sempre desmotivada,
cansada, sem vitalidade.
Muitos procuram esconder ou
mascarar essa realidade, com me-
dicamentos, com drogas ilícitas ou
compulsão em compras. É tão real e
forte o vazio que necessita-se a colo-
car algo no lugar, sublimar uma reali-
dade por outra. A dor é tão forte que
não se consegue pensar, viver e in-
vestir, a não ser nessa realidade. Suga
todas as energias, forças e sonhos
para abastecer a própria patologia.
Para Pereira, “a patologia está sempre
pronta para assumir o seu posto na
existência, esta desagregação precisa
da estigmatização, do pessimismo,
da vitimização, para canalizar todo
seu pensamento e energia na elabo-
ração de uma doença” (2009, p. 92).
Desse ponto de partida, a pessoa
tem todo o seu potencial preso na rede
patológica, que insiste em permanecer
e se apegar cada vez mais. As vitórias
e as conquistas necessitam de uma
tomada de atitude consciente e cria-
tiva diante da própria realidade. No
momento em que começa a se escu-
tar, a refl etir sobre a sua condição, vai
perceber que não necessita dessa pa-
tologia para ser feliz, ter afeto, amor e
atenção dos outros. Por isso, não exis-
te doença onde permanecem o amor,
a alegria, a criatividade e a superação.
A análise leva o paciente a sair da patologia para começar a olhar a vida com outros olhos e permite voltar
a amar, a vibrar, a viver com alegria
psique ciência&vida 63www.portalespacodosaber.com.br
REFERÊNCIAS
CYRULNIK, Boris. Autobiografia de um
Espantalho.Histórias de Resiliência: o Retorno
à Vida. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
FROMM, Erich. Análise do Homem. Rio de
Janeiro: Zahar, 1981.
PEREIRA, Salézio. Psicanálise: Ciência e
Criatividade. Santa Maria: ITPOH, 2015.
. Psicopatologia Humanista e
Existencial. Santa Maria: ITPOH, 2009.
A Psicanálise é uma ciência que serve de auxílio
para compreender a mente inconsciente
na prática clínica. Com o seu advento,
começou-se a buscar outra compreensão
dos sintomas, assim como das doenças
Toda doença necessita de um
método para se manifestar. Ne-
nhuma patologia se cria do nada,
ela necessita de um acontecimento,
traumático, uma situação de mui-
to sofrimento ou perda. Por isso,
“esse processo de aniquilação pes-
soal obedece aos desejos do Phatos.
Essa doença consome e enfraquece
o psiquismo, sua energia desaparece
como se fosse um vapor, sem vida,
sem vontade, aguarda a chegada da
morte” (Pereira, 2009, p. 95).
Qual seria o melhor caminho
para sair desse vazio? Quando se
consegue falar da dor, do trauma e
da perda, estes deixam de ser pesos
na vida para se tornarem um suporte
para se superar com saúde e criativi-
dade. A terapia analítica se torna o
lugar da “acolhida”, isto é, onde o pa-
ciente consegue escutar a si mesmo, a
sua dor, seu desespero e dessa manei-
ra colocar significado e sentido em
todas essas realidades. Entende que
não precisa viver assim, infeliz, sem
amor, depressivo, mas, sim, possui
todas as condições para se superar
com criatividade, saúde e vitalidade.
Quando a pessoa está presa na
sua patologia, esta retalha toda a sua
liberdade de ser e existir. Na verdade,
ao viver na patologia do vazio, cria to-
das as possibilidades para mergulhar
na doença e nas falências. O papel
fundamental desta é gerar dor e so-
frimento. Ao buscar compreender os
motivos inconscientes dessas dores
começa um caminho de superação,
para sair de um estado de morte para
o estado de vida.
O ser humano necessita conhecer
a si mesmo para compreender o senti-
do de sua existência. O se conhecer
passa pela escuta analítica, o olhar
para a própria realidade com cons-
ciência e superação. Quando este se
descobre para a biofilia, compreende
o seu potencial para a vida e não para
a morte. “O dever de estar vivo é o
Biofilia
O termo biofilia vem do grego bios,
que quer dizer vida, e philia, que
significa amor, afeição ou necessi-
dade de satisfação. Ou seja, biofi-
lia, literalmente, representa o amor
pela vida. A expressão foi populari-
zada pelo ecólogo norte-americano
Edward O. Wilson, em seu livro que
leva o mesmo nome, publicado em
1984. No entanto, o primeiro a utilizá-
-la foi o psicanalista alemão Erich
Fromm (imagem), para descrever a
orientação psicológica de atração
por tudo que é vivo e vital.
mesmo que o dever de transformar-
-se em si próprio, isto é, de trans-
formar-se no indivíduo que ele é em
potencial” (Fromm, 1981, p. 27). Ao
descobrir esse potencial, entende
que a existência não é permanecer
na patologia, mas, sim, na saúde, no
amor, no afeto e na criatividade.
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A sociedade parece
estar cada vez mais
doente e o crescimento
dos produtos fármacos
não tem resolvido a
grande demanda que se
apresenta. O que fazer?
64 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
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DO
A
UT
OR
divã literário por Carlos São Paulo
A
leitura é uma aventura que
ativa a imaginação. Essa é
a razão que nos causa estra-
nheza quando assistimos à
adaptação da obra Dois Irmãos para a
televisão e comparamos com as nos-
sas imagens pessoais. Esse é um livro
que nos leva a compreender como um
amor patológico da mãe pode despre-
PARAR�UM�l�LHO�PARA�A�VIDA�ADULTA�E�TER
minar em tragédia.
O autor do romance Dois Irmãos, Milton
Hatoum, nasceu em Manaus e ganhou
com esse livro o prêmio Jabuti de 2001. A
obra foi adaptada para teatro, graphic novel
e TV. Ela conta a história de uma família
de ascendência libanesa que viveu em Ma-
naus. Com início na década de 1920, passa
pela Segunda Guerra e envolve o período
após o golpe militar no Brasil.
(ALIM�CONQUISTA�:ANA��A�l�LHA�DE�UM�
comerciante viúvo, e casa-se com ela.
%LE� DESEJA� l�CAR� SEMPRE� A� SØS� COM� SUA�
ESPOSA��SEM�A�INTROMISSÎO�DE�l�LHOS��MAS�
Zana manifesta o desejo de ser mãe e é
atendida. Na primeira gravidez, nascem
os gêmeos Yaqub e Omar, irmãos com a
mesma genética, e, numa segunda gesta-
¥ÎO��NASCE�A�l�LHA�2ÊNIA��/MAR��O�SEGUNDO�
a nascer, tem problemas respiratórios e
ameaça não sobreviver, situação que leva
A�MÎE�A�DEDICAR
SE�MAIS�A�ESSE�l�LHO�DO�QUE�
ao outro. Ela chama-o de “meu caçula”.
15!.$/�$%3,):!-/3�35!6%-%.4%�0/2�5-!�
"/!�/"2!�#/-/�DOIS IRMÃOS��/3�02/",%-!3�
(5-!./3�!02%3%.4!$/3�&)#!-�-!)3�#,!2/3�
!/�!4)6!2�!�./33!�)-!').!§/�$%�,%)4/2
Universo particular
psique ciência&vida 65www.portalespacodosaber.com.br
Zana ultrapassa a justa medida em
sua dedicação amorosa a Omar, e a con-
sequência é levar os gêmeos a seguirem
o caminho regido pelo arquétipo de Abel
e Caim, ou seja, a desenvolverem perso-
NALIDADES� CONmITANTES� DESDE� PEQUENOS��
Os arquétipos são compreendidos, na
Psicologia de C. G. Jung, como tramas
contidas na psique humana que levam
os indivíduos, de forma inconscien-
te, a seguir scripts já conhecidos pelas
diversas narrativas feitas pelo homem.
A literatura arcaica é utilizada pelos
analistas junguianos para conseguirem
entender as estradas por onde peregrina
a humanidade e, assim, poder mostrar
ao seu paciente onde ele vai chegar caso
não mude o rumo.
A leitura do romance de Hatoum
nos alerta para o perigo de uma mãe,
em sua inconsciência, aproximar-se de-
mais de um dos gêmeos em detrimento
do outro. Esse comportamento materno
levará os irmãos a não conseguirem se
diferenciar entre si e a enxergarem no
outro a própria sombra. Sombra é outro
conceito junguiano que considera uma
parte da própria personalidade total que
lhe é inconsciente, por isso esta é pro-
jetada no outro como um gêmeo vilão.
Zana venera o pai e, quando este
MORRE��SEU�MARIDO��A�lGURA�MASCULINA�
que preenche esse espaço afetivo. No en-
tanto, ao cuidar do caçula, essa energia
DISPONÓVEL� PARA� OUTRA� lGURA� MASCULINA�
lLIAL�FAZ�DELE�O�AMANTE�INCESTUOSO��$ESSA�
forma Omar aprende a desprezar tudo
que não lhe dá prazer intenso, tornan-
do-se um inútil mergulhado no mundo
DA�INFÊNCIA��SEM�CAPACIDADE�PARA�A�VIDA�
adulta cheia de responsabilidades.
Dois Irmãos
Autor: Milton Hatoum
Editora: Cia. das Letras
Número de páginas:
272
Carlos São Paulo é médico e psicoterapeuta junguiano.
É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia.
carlos@ijba.com.br / www.ijba.com.br
de ela representar os dois em um só,
o Omar.
2ÊNIA�� COM� SEUS� DESEJOS� INCESTUO-
sos pelos irmãos, embora fosse bela e
inteligente, nunca casou e viveu de for-
ma inconsciente o seu amor proibido.
Yaqub tornou-se um engenheiro bem-
-sucedido, enquanto Omar se perdeu
na vida e foi perseguido pelo irmão de
forma implacável.
A empregada Domingas, uma ín-
dia, tomou conta de Yaqub como uma
mãe, enquanto Zana se entregava total-
MENTE� AO� lLHO� /MAR�� !� NARRATIVA� NOS�
surpreende quando descobrimos no cur-
so da leitura que quem nos conta a histó-
RIA��.AEL��O�lLHO�DE�$OMINGAS�COM�UM�
dos gêmeos. Domingas amava Yaqub e
.AEL�PODERIA�SER�lLHO�DESSE�VÓNCULO�IN-
cestuoso, mas Omar a estuprou e tam-
bém teria a possibilidade de ser o pai. O
leitor é envolvido na trama e acompanha
com o sabor da curiosidade o desejo do
NARRADOR�DE�SER�lLHO�DE�9AQUB��
A família de Zanaenvolveu seus
membros na temática do “incesto” e a
trama amorosa foi toda a energia que
desuniu para sempre os irmãos. Estamos
EM�UMA�SOCIEDADE�EM�QUE�AS�DISTÊNCIAS�
AFETIVAS�� POR� SEUS� CÙNJUGES� OU� lGURAS�
parentais, levam mãe ou pai, de forma
inconsciente, a amar excessivamente
O� lLHO� hESCOLHIDOv�� TORNANDO
O� INÞTIL�
como indivíduo. Há que se distinguir
ENTRE�AMAR�OS�lLHOS�DE� FORMA� REGRESSI-
va ou, em sua outra maneira, deixá-los
serem capazes de estruturar sua identi-
dade como indivíduo.
Tememos seguir essas trilhas erradas
dos caminhos que percorremos durante
a vida. No entanto, a literatura a serviço
da saúde mental nos leva a conhecer es-
sas trajetórias e a perceber qual delas es-
tamos percorrendo em dado momento,
para que, com ajuda e esforço, possamos
enxergar nosso caminho de casa.
ESTAMOS EM UMA
SOCIEDADE EM
QUE AS DISTÂNCIAS
!&%4)6!3�,%6!-�
-§%�/5�0!)��
$%�&/2-!�
INCONSCIENTE,
!�!-!2�
EXCESSIVAMENTE
/�&),(/�
“ESCOLHIDO”,
4/2.!.$/
/�).·4),�
COMO INDIVÍDUO
Quando os gêmeos tinham 13 anos,
Omar vê o irmão beijando a namorada
da mesma idade e, em um ímpeto de
ciúme, agride Yaqub, marcando para
sempre o seu rosto. Com esse aconteci-
mento, Halim tem a ideia de separar os
lLHOS�DESSA�MÎE�COM�A� SÉBIA� INTEN¥ÎO�
de restaurar a fraternidade entre eles.
No entanto, a força dos afetos da mãe
foi maior. Dominada por suas sensa-
ções e sentimentos, junto com toda a
irracionalidade, agarra-se a Omar e não
o deixa partir.
A atitude do pai estava correta,
os gêmeos precisavam ser capazes de
obter prazer um com o outro, preen-
cher ansiedades e desejos resultantes
da proximidade da mãe. Esta, por sua
vez, precisava conhecer a particulari-
dade de cada um, para notar, além das
suas semelhanças, as diferenças e pos-
sibilitar a construção da identidade.
A psique é individual e a mãe, em sua
inconsciência, fez com que nem Yaqub
nem Omar aprendessem a lidar com a
ausência um do outro devido ao fato
www.portalespacodosaber.com.br
P
recisamos falar sobre dependência química, de uma maneira
séria e urgente. Em tempos de máscara de Fábio Assunção no
Carnaval e marchinhas pejorativas sobre o assunto, mostrar
que isso se trata de uma doença é fundamental.
Querido Menino��UM�l�LME�DIRIGIDO�PELO�MESMO�REALIZADOR�DO�CUL
tuadíssimo Alabama Monroe (2012), com roteiro baseado nos livros
ESCRITOS� PELOS� PERSONAGENS� PRINCIPAIS�� O� PAI� $AVID� 3HEFF�� INTERPRETA
DO�POR�3TEVE�#ARELL�� E�O�l�LHO�.ICHOLAS�3HEFF� �.IC �� INTERPRETADO�POR�
4IMOTHÏE�#HALAMET��4RAZ�UM�TEMA�JÉ�BASTANTE�ABORDADO�POR�INÞMERAS�
PRODU¥ÜES�E�FAZ�EM�ALGUM�MOMENTO�LEMBRAR�O�Diário de um Adolescente
(The Basketball Diaries����� ��TALVEZ�PORQUE�A�ATUA¥ÎO�CONVINCENTE�DE�
Chalamet remeta à lembrança do início de carreira do hoje respeitado
,EONARDO�$I#APRIO��/�DIFERENCIAL� QUE� ESSE� l�LME� TRAZ� � POR� SE� CON
centrar menos na questão da dependência química, embora seja bem
ABORDADA� E�MOTE� DA� HISTØRIA�� E� LEVAR� A�MONTANHA
RUSSA� DE� EMO¥ÜES�
para o enorme sofrimento com que o entorno afetivo se vê às voltas,
principalmente do pai, David, que, separado da mãe (Amy Ryan) de
.IC��POSSUI�UMA�NOVA�FAMÓLIA�NA�QUAL�.IC�ESTÉ�INSERIDO��O�LUGAR�ONDE�
mora, idílico e cheio de alegria, com dois irmãos bem mais novos e sua
afetuosa madrasta Karen (Maura Tierney). Esse cenário, bem diferente
DA�REALIDADE�BRASILEIRA�E�BEM�DISTANTE�DO�IMAGINÉRIO�BRASILEIRO��DESCONS
trói a relação de uso abusivo de droga com violência ou lares “doentes”.
!�PASSAGEM�DO�l�LME�COM�A�QUAL�ESCOLHEMOS�ABRIR�O� TEXTO�PAS
SA�QUASE�DESPERCEBIDA� E� TALVEZ�� EM�VERDADE�� SEJA�O�PONTO�PRINCIPAL�
da argumentação. Muitos estudos foram e estão sendo feitos sobre
OS� VARIADOS� FATORES� QUE� INCIDEM�EM�QUADROS� DE� DEPENDÐNCIA��MUI
tos chegam a crer que todo sujeito traria em sua vida algum grau
de dependência variada, não necessariamente de uma droga química.
Há dependências em relação a comportamentos, afetos, alimentação,
SEXO��PRAZERES�VARIADOS��/�QUE�MARCA�A�SEMELHAN¥A�Ï�O�FATO�DE�QUE��
em todos os quadros, o sujeito procura alcançar alguma espécie de
-%3-/�3%-�3%�#/.#%.42!2�.!�
$%0%.$º.#)!�15°-)#!��QUERIDO
MENINO�4%-�5-�2/4%)2/�
)-0!#4!.4%��02).#)0!,-%.4%�
0/215%�&/#!�./�%342!'/�15%�%,!�
#!53!�%-�4/$/�/�%.4/2./�!&%4)6/
cinema Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
Visão dura
e realista
psique ciência&vida 67www.portalespacodosaber.com.br
“alívio” que sentiu outrora e não mais
CONSEGUE�ALCAN¥AR�� TENDO�EM�CONTRAPAR
tida dor e culpa que reativam o ciclo em
BUSCA�DA�DIMINUI¥ÎO�DA�ANGÞSTIA�ABISMAL��
EM�UM�MENOR�GRAU�OS�SUJEITOS�CONSIDERA
DOS�SAUDÉVEIS�TAMBÏM�APRESENTARIAM�VA
riações de dependência e uso de variados
starts�DE�PRAZER�E�ENLEVA¥ÎO��
0!$2§/�$%�2%0%4)§/
6EREMOS� .IC� APRESENTAR� ESSE� PADRÎO�
de repetição em uma luta incessante que
CORRESPONDE�Ì�PRØPRIA�DÞVIDA�QUE�CARRE
ga sobre seus processos de escolha ou de
adição (como se referem Eduardo Kalina
e Santiago Kovadloff na obra Drogadicção,
Indivíduo, Família e Sociedade). Adicto é
UM�TERMO�QUE�VIRIA�DO�SER�ESCRAVO�OU�DE
PENDENTE�� REMETENDO�ASSIM�A�UMA�QUES
tão mais comportamental do que cerebral,
HÉ�TODA�UMA�DISCUSSÎO�EM�TORNO�DA�DIFE
REN¥A�NESSAS�ABORDAGENS�E��CONSEQUENTE
mente, sobre os fatores desencadeantes. O
l�LME��DE�CERTA�MANEIRA��TRAZ�ESSA�DISCUSSÎO�
EM�FALAS�DE�.IC��QUE�PENSA�EM�SI�COMO�
ALGUÏM�QUE�FEZ�UMA�ESCOLHA�E�NÎO�COMO�
uma vítima de uma questão que incide
sobre sua vontade. Ponto nevrálgico do
TEMA��QUE�O� LONGA�ESCOLHE�NÎO�APROFUN
DAR��DEIXANDO�APENAS�UM�INDICADOR�PARA�
A�COMPLEXA�DISCUSSÎO��4ALVEZ�NESSA�E�EM�
OUTRAS�ESCOLHAS�QUE�O�ROTEIRO�FAZ�EM�RELA
ção a aspectos polêmicos do tema resida
seu ponto confuso e negativo, como se
passasse com muita pressa por paisagens
QUE� MERECERIAM� UM� OLHAR� MAIS� DEMO
rado, uma parada mais cuidadosa para
VISUALIZAR�� MESMO� QUE� TIVESSE� QUE� ABRIR�
mão de tocar em tantos outros assuntos
que acabaram passando de igual maneira.
6!:)/�.!�!,-!�
5M� ROTEIRO� IMPACTANTE�� PRINCIPAL
mente porque seu foco não se concentra
propriamente na dependência química e
SIM�MAIS�NO�ESTRAGO�QUE�ELA�FAZ�EM�TODO�
o entorno afetivo. É bem doloroso de
ACOMPANHAR�� E� NESSE� ASPECTO� 'ROENIN
gen assina novamente uma produção
muito longe do puro entretenimento, cai
novamente em sua visão mais realista e
Prof. dr. Eduardo J. S. Honorato é psicólogo e psicanalista, doutor
em Saúde da Criança e da Mulher. Denise Deschamps é psicóloga e
psicanalista. Autores do livro Cinematerapia: Entendendo Conflitos.
Participam de palestras, cursos e workshops em empresas e
universidades. Coordenam o site www.cinematerapia.psc.br
dura, mas com um traço de uma leitura,
ainda assim, carinhosa.
“Agora eu sei que preciso achar um
jeito de preencher este grande buraco
NEGRO� EM� MIMv� �.IC� FALA� NA� REUNIÎO��
QUANDO�CONSEGUE�l�CAR�hLIMPOv�POR�VÉRIOS�
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MESES �� .ESTE� DEPOIMENTO�� .IC� MOSTRA�
SEU�GRANDE�BURACO�VAZIO�INTERIOR��QUE�ELE�
procura preencher com drogas, enquanto
outros preenchem com relacionamentos,
com comida, com trabalho. Cada um
COM�UMA�DEPENDÐNCIA�DIFERENTE��!�ETER
NA� FALTA� E� ANGÞSTIA� QUE� ESSE� hBURACO� NA�
ALMAv�TRAZ�EM�SEU�BOJO��.IC��DESDE�MUITO�
novo foi criado principalmente por seu
pai e inserido em sua nova família, não
l�CA�MUITO�CLARO�NO�ROTEIRO�O�PORQU�DIS
so, embora em algum momento ele diga
COM� RAIVA� PARA� O� PAI� QUE� TALVEZ� TIVESSE�
sido melhor para ele se a mãe tivesse
l�CADO�COM�SUA�GUARDA��$AVID��UM�PAI�
EXTREMAMENTE� AMOROSO� E� PRESENTE� EM�
RELA¥ÎO�A�.IC� �E� AOS� SEUS�OUTROS�l�LHOS ��
COMPANHEIRO�E�PRØXIMO��$IZ�SEMPRE�AO�
l�LHO�� AO� SE� SEPARAR� DELE� QUANDO� PARTE�
para as temporadas na casa da mãe, que
o ama. Mas, de certaforma, se lançarmos
UM�OLHAR�UM�TANTO�ANALÓTICO��TALVEZ�VEJA
MOS�NESSE�PAI�EXTREMAMENTE�AMOROSO�E�
DEVOTADO�UM�CERTO�ESPELHAMENTO�E�CON
TROLE� EXCESSIVO�� DOS� QUAIS�� EM�UM� SURTO�
-5)4/3�%345$/3�
3§/�&%)4/3�3/"2%�/3�
6!2)!$/3�&!4/2%3�
$!�$%0%.$º.#)!��
!,'5.3�#(%'!-�
!�#2%2�15%�4/$/�
35*%)4/�42!2)!�
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68 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
DE� RAIVA�POR� ABSTINÐNCIA��.IC�O� ACUSARÉ��
Tomaremos a essa altura um trecho de
uma obra de Claude Olievenstein, O
Não Dito das Emoções�� CONCEITUADO� PES
quisador da questão, que se refere mais
Ì� RELA¥ÎO� COM�O� PROl�SSIONAL� QUE� CUIDA��
MAS�AQUI�PENSANDO�EM�.IC�E�$AVID��DIZ�
ELE��h!�RELA¥ÎO�QUE�O�TOXICÙMANO�VAI�ELA
borar com seu objeto remete os sujeitos
que supostamente deveriam saber a uma
FALTA�� � FALTA�DELESv��1UER�DIZER� COM� ISSO�
que o sujeito dependente assim teria um
conhecer que acusa a falta disso no outro
QUE� SE� OUTORGA� O� PODER� DE� AJUDÉ
LO�� 3E�
PENSARMOS�NA�QUEIXA�SOBRE�O�CONTROLE�DE�
$AVID� SOBRE�.IC�� TALVEZ� ISSO� FA¥A� ALGUM�
SENTIDO��DE�ALGO�QUE�PERTENCERIA� TÎO� SO
MENTE� A� .IC�� SEM� O� COMPARTILHAMENTO�
COM�O�PAI��QUE�ANGUSTIA�E�AO�MESMO�TEM
po é construtor de uma individualidade.
“Eu não podia aceitar a vida como era.
Eu nunca poderia engolir todos os seus
venenos. Mas havia partes, partes tênues
e mágicas, abertas para perguntas. Eu
REFORMULEIv��DIZ�UM�TRECHO�DA�POESIA�DE�
#HARLES�"UKOWSKI�QUE�.IC�3HEFF�CITA�AO�
l�NAL�DOS�CRÏDITOS��l�QUE�ATENTO�ATÏ�O�l�NAL ��
4ALVEZ�NA�POESIA� SE�ENCONTRE�A� RESPOSTA�
QUE� O� l�LME� NÎO� DELINEIA�� NÎO� SOMENTE�
o longa, mas também quem se debruça
sobre a questão da dependência química.
%NQUANTO� O� SUJEITO� BUSCA� DESESPERADA
mente aquela sensação de euforia ímpar,
PERDE� OS� PEQUENOS� PRAZERES� FUNDAMEN
tais do ato de viver, mesmo que este seja
assim tão complicado, como falamos um
POUCO�NA�COLUNA�ANTERIOR�SOBRE�O�l�LME�A
Vida em Si (Life Itself/2018), ainda assim
sempre vale a pena. É pouco afeito ao
DESEJO� HUMANO� PENSAR� BEM
ESTAR� COMO�
estabilidade em um vibrar mais sereno,
a troca da intensidade e quantidade por
calma plenitude não é uma tarefa que se
BUSQUE�AMIÞDE��AQUELE�ALGO�QUE�PRESERVA�
o corpo e as emoções dos solavancos que
NOSSO�SENTIDO�DE�PRAZER�ORIENTA�A�BUSCA�
CONSTANTE��ACÞMULO�E�DESCARGA��3E�FOCAR
MOS�NESTE�ASPECTO��VEREMOS�QUE�A�QUES
tão que atravessa o sujeito dependente
EM�NADA�DIFERE� DA� ANGÞSTIA� DE� TODO� SER�
HUMANO�� O� ISOLAMENTO� TEMIDO�� A� ARIDEZ�
da solidão é ao mesmo tempo um receio,
AO�MESMO� TEMPO�UM�DESEJO�DE�ESGOTA
MENTO��.IC�EVIDENCIA�ESSE�CONm�ITO�DESDE�
muito antes do uso das drogas.
.%'!§/�3/#)!,�
/� ROTEIRO�PASSA� POR� QUESTÜES� FUNDA
mentais, como nas cenas em que vemos
COM� EXATIDÎO� QUE� OS� IRMÎOS� PEQUENOS�
DE�.IC�NÎO�DESCONHECEM�SUA�LUTA�CONTRA�
AS� DROGAS�� O� PEQUENO� *ASPER� �#HRISTIAN�
#ONVERY � CHEGA� A� PERGUNTAR� DIRETAMEN
TE�PARA�OS�PAIS��h.IC�EST�USANDO�DROGAS�
NOVAMENTE�v�� )MPORTANTE� ESSE� PONTO�
COMO�PREVEN¥ÎO��.ÎO�DEVE�HAVER�FRENTE�
AOS�FAMILIARES�UMA�OCULTA¥ÎO�DA�REALIDA
DE�� O� FATO� DE�.IC� SER� DEPENDENTE� E� UM�
SER�ERRANTE� FRENTE�Ì� FAMÓLIA�NÎO� FAZ�COM�
QUE� DEIXE� DE� SER� UMA� ESPÏCIE� DE� QUERI
DO�ÓDOLO�IRMÎO�MAIS�VELHO�PARA�*ASPER�E�
$AISY��/AKLEY�"ULL ��¡�ATO�DE�PREVEN¥ÎO�
até manter uma conversa franca e direta,
OBVIAMENTE� QUE� RESPEITANDO� AS� LIMITA
¥ÜES�DA� FAIXA�ETÉRIA��1UANDO�SE�OPERA�O�
que costuma ser nomeado de “carrossel
da negação”, quase sempre em conjunto
com o dependente, seu entorno acaba
POR� ALIMENTAR� SUA� NÎO� CONSCIENTIZA¥ÎO�
sobre seu processo de adoecimento e há
demora maior em buscar ajuda. David
custará a entender isso, Karen o alertará,
DANDO�UM�BASTA�EM�SUA�SÓNDROME�DE�SAL
vador desesperado. Eles então passarão
a buscar orientação nos grupos de ajuda
MÞTUA�� ENTENDENDO� ASSIM� SEU� PRØPRIO�
ADOECER��¡�FUNDAMENTAL�QUE�OS�QUE�CON
vivem com o dependente construam até
antes dele a consciência de que há um
adoecimento acontecendo. Manobras
QUE� SE� COSTUMAM� FAZER� PARA� OCULTAR� DO�
!$)#4/�6%-�$/�
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<?�G���:�"È�����¢���G�G:�+G^����¢� /��
restante do social o comportamento do
drogadicto só colaboram para que ele
continue no padrão de negação.
(OJE�� DE� UMA� MANEIRA� GERAL� SE� EN
tende a tendência à dependência dentro
de três fatores: alterações genéticas, fator
HEREDITÉRIO�E�ALGUMAS�DINÊMICAS�PRESEN
TES� NAS� RELA¥ÜES� INICIAIS� DO� SUJEITO�� EM
bora cada corrente defenda com ênfase
sua leitura, não há ainda compreensão
DEl�NITIVA� SOBRE� O� PORQU� ALGUNS� SUJEI
tos seriam mais suscetíveis que outros a
desenvolver a dependência química, ou
SEJA��PERDER� TOTALMENTE�O� LIMIAR�DO�PRA
ZER�MOMENTÊNEO��TRANSFORMANDO�A�DROGA�
no centro de sua economia psíquica. A
função de jogar na vivência mágica que
a droga contém é para muitos estudiosos
uma necessidade humana e saudável no
SEU�SENTIDO�DE�UNIÎO�COLETIVA��-UITOS�PO
VOS�TÐM�EM�SEUS�RITUAIS�O�USO�DE�ALUCINØ
GENOS� E�OU� EUFORIZANTES�� ATÏ� AÓ�MATÏRIA�
COMPREENSIVA� PARA� UMA� CIVILIZA¥ÎO� QUE�
TEM� NO� CONSUMO� DO� ÉLCOOL� UM� IMPOR
tante marcador social, muitos consomem
com frequência bebida alcoólica, mas
APENAS�UM�PERCENTUAL�DESSES�SUJEITOS�DE
senvolvem a dependência ao álcool (há
defesa que no caso da Cannabis sativa,
conhecida como maconha, isso também
TRARIA�UM�PERCENTUAL�AT�MENOR ��*�COM�
outras drogas conhecidas como “mais
pesadas”, o uso de muitas delas trará
inevitavelmente a dependência, variando
APENAS�EM�PEQUENO�INTERVALO�QUE�DEPEN
de do organismo de cada pessoa. David,
EM� UM� DETERMINADO� MOMENTO�� EXPE
rimentará a metanfetamina para tentar
ENTENDER�O�QUE�SEU�l�LHO�SENTE�COM�SEU�
USO��O�ÞNICO�CONTATO�COM�A�DROGA�NÎO�O�
LEVOU�A�BUSCÉ
LA�MAIS�VEZES��EMBORA�TE
NHA�SENTIDO�A�INTENSIDADE�QUE�.IC�HAVIA�
descrito, um risco que remete ao fator
adoecimento de todos em que tocamos
anteriormente. Há neste ponto um lado
mais emocionante, do tipo de sacrifício
QUE�UM�PAI�PODE� FAZER�PARA�AJUDAR�O�l�
LHO��MAS� ANALITICAMENTE� TAMBÏM� PODE
ríamos pensar em sua disputa narcisista
COM� O� l�LHO��MAIS� UMA� VEZ� SENDO�MAIS�
FORTE�QUE�ELE�AO�NÎO�SE�TORNAR�DEPENDEN
TE��%M�TERMOS�DE�RELA¥ÜES�AS�COISAS�NUN
ca são assim tão conscientes ou bonitas.
/� l�LME� ENCERRA� FORNECENDO� DADOS�
sobre o alarmante índice de morte por
overdose, a maior causa de morte de
AMERICANOS� COM�MENOS�DE����ANOS�� RE
assegura do quanto há ainda grupos que
trabalham seriamente no combate do
QUE�CHAMA�DE�hEPIDEMIAv��O�QUE�NOS�FAZ�
PENSAR�EM�UMA�SOCIEDADE�CADA�VEZ�MAIS�
individualista, solitária e em busca de um
PRAZER� RÉPIDO�E�CONSTANTE��!S�DROGAS� LI
cítas e ilícitas não estariam sendo um
GRITO�DE�QUE�ALGO�IGUAL�AO�VAZIO�QUE�.IC�
descreve está sendo permanentemente
construído. A dependência química é
REALMENTE�UM�m�AGELO�HUMANO��MAS�NÎO�
¡�&5.$!-%.4!,�15%�/3�15%�#/.6)6%-�#/-�
/�$%0%.$%.4%�#/.3425!-�!�#/.3#)º.#)!�
$%�15%�(£�5-�!$/%#)-%.4/�!#/.4%#%.$/��
-!./"2!3�15%�3%�#/345-!-�&!:%2�0!2!�/#5,4!2�!�3)45!§/�3�#/,!"/2!-�0!2!�
15%�3%�#/.4).5%�./�0!$2§/�$%�.%'!§/
será ela a ponta de um enorme iceberg
que perigosamente escolhemos não ver e
QUE�ENCARÉ
LO�TALVEZ�NOS�LEVE�A�UMA�PRE
venção ao abuso do uso das drogas mais
VERDADEIRAMENTE�El�CIENTE��
)NFELIZMENTE� TALVEZ� ESSA� SEJA� UMA�
REm�EXÎO� SEM� MUITOS� RESULTADOS� PARA� OS�
PRØXIMOS�ANOS��0OIS�AINDA�ESTAMOS�MUI
to distantes de entender a dependência
QUÓMICA�COMO�UM�QUADRO�DE�SAÞDE�COM
PLEXO��4ALVEZ� POR� ISSO� AS� PESSOAS� CONTI
nuem achando engraçado usar máscara
DE�&ÉBIO�!SSUN¥ÎO�NO�#ARNAVAL�OU�FAZER�
PIADAS�SOBRE�O�COLUNISTA�,ÏO�$IAS��QUAN
do ambos assumiram sua dependência
publicamente, justamente com o objetivo
de mudar essa mentalidade.
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PERlL Por Anderson Zenidarci
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ENE� %LIZA� 4IERNEY� NASCEU� EM�
������ EM� .OVA� 9ORK�� lLHA�
DO� GRANDE� MAGNATA� (OWARD�
3HERWOOD� 4IERNEY�� $ESDE�
CEDO�� DEMONSTROU� INTERESSE� PELA� CARREIRA�
DE�ATRIZ��3EMPRE�QUE�PODIA�� REPRESENTAVA�
PARA� SUA� FAMÓLIA� E� AMIGOS� NO� CLUBE�� NA�
ESCOLA� OU� EM� EVENTOS� BENElCENTES�� $E�
FAMÓLIA�QUE�SE�ESMERAVA�NA�EDUCA¥ÎO�DOS�
lLHOS��PASSOU�DOIS� ANOS�NA�3UӥA�� APREN-
DENDO�FRANCÐS�E�ETIQUETA��%M�UMA�DE�SUAS�
VIAGENS��VISITOU�O�ESTÞDIO�DA�7ARNER�"ROS���
E�A�DIRETORA�DE�ELENCO��QUANDO�A�VIU��lCOU�
IMPRESSIONADA�COM�SUA�BELEZA��SUGERINDO�
QUE� ELA� SE� TORNASSE� UMA� ATRIZ�� )NCLUSIVE�
PROPÙS� QUE� ASSINASSE� UM� CONTRATO�� MAS�
SEUS�PAIS�RECUSARAM��NÎO�QUERENDO�QUE�A�
lLHA�SEGUISSE�ESSA�CARREIRA��
%LA�ERA�RElNADA��ELEGANTE��FALAVA�mUEN-
TEMENTE� QUATRO� IDIOMAS� E� ENTENDIA� DE�
ARTES�PLÉSTICAS��HISTØRIA�DA�ARTE� E� LITERATU-
RA��%RA� UMA�PESSOA� DIFERENCIADA� POR� SUA�
CULTURA� E�MODOS�lNOS�� 3ENDO�MILIONÉRIA��
TINHA�TUDO�QUE�O�DINHEIRO�PODIA�COMPRAR��
MAS�NÎO�ESTAVA�FELIZ�
%NTUSIASMADA�COM�A�POSSIBILIDADE�DE�
REALIZAR� SEU� SONHO� DE� ATUAR� E� ENTEDIADA�
COM�A�ALTA�SOCIEDADE�FÞTIL�A�QUE�PERTENCIA��
COMUNICA� AOS� PAIS� QUE� DECIDIRA� ESTUDAR�
ARTES� CÐNICAS� E� COME¥AR�UMA�CARREIRA�DE�
ATRIZ��4IERNEY�ESTREOU�NO�CINEMA�EM�������
ESTRELANDO� O� lLME� O Retorno de Frank
Jones, CAUSANDO�SENSA¥ÎO�COM�SUA�BELEZA�
E� ALGUMAS� CRÓTICAS� EM� RELA¥ÎO� Ì� ATUA¥ÎO.
#ONSCIENTE� DE� SUAS� LIMITA¥ÜES�� RECONHE-
CEU�AS�FALHAS��ESTUDOU�MAIS�E�APRENDEU�A�
ATUAR�RAPIDAMENTE��¡�VISÓVEL�SUA�EVOLU¥ÎO�
DO�PRIMEIRO�lLME�AOS�REALIZADOS�POSTERIOR-
MENTE��MESES�DEPOIS��
%M������CASOU
SE�COM�O�ESTILISTA�/LEG�
#ASSINI�� 3EUS� PAIS� CONSERVADORES� SE� OPU-
SERAM�AO�CASAMENTO��POIS�ELE�ERA�DE�UMA�
FAMÓLIA�RUSSO
ITALIANA�E�NASCIDO�NA�&RAN¥A��
3UA� VIDA� ATÏ� ENTÎO� INVEJADA� PASSOU� A� TER�
SURPRESAS�NADA�AGRADÉVEIS�E�ASPECTOS�DE�UM�
lLME�DE�DRAMA�
'ENE�� GRÉVIDA�� RECEBEU� O� ABRA¥O� DE�
UMA� F� QUE�� SEM� QUE� ELA� SOUBESSE�� TINHA�
RUBÏOLA�� %LA� FOI� CONTAMINADA� E� A� DOEN¥A�
Sem EMOÇÃO
!�!42):�'%.%�%,):!�4)%2.%9��
#/.(%#)$!�#/-/�!�-5,(%2�-!)3�
"/.)4!�$!�()342)!�$/�#).%-!��
-/342/5�!/�-5.$/�#/-/�"%,%:!��
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CAUSOU�DANOS�CONGÐNITOS�EM�SUA�PRIMEIRA�
lLHA��!NTOINETTE��QUE�NASCEU�SURDA��PARCIAL-
MENTE�CEGA�E�SEVERAMENTE�DElCIENTE�MEN-
TAL��%RA�TÎO�GRAVE�O�COMPROMETIMENTO�DA�
lLHA�QUE�ELA�TEVE�DE�lCAR�NUMA�INSTITUI¥ÎO�
POR�GRANDE�PARTE�DE�SUA�VIDA��%SSE�FATO�GE-
ROU�A�PRIMEIRA�CRISE�DE�DEPRESSÎO�PROFUNDA�
EM�'ENE�E�DESENCADEOU�UM�ABALO�SIGNIl-
CATIVO�NO� SEU�CASAMENTO��!� IMPRENSA� FEZ�
SENSACIONALISMO� DESSES� FATOS�� NÎO� RESPEI-
TANDO�A�PRIVACIDADE�NEM�A�DOR�DA�ESTRELA��
%M� ����� FOI� INDICADA� AO� /SCAR� DE�
MELHOR� ATRIZ� PELO� lLME�Amar Foi minha
Ruína n� IRONICAMENTE� ESSE� TÓTULO� PARECE�
TER�SIDO�UMA�VERDADE�EM�SUA�VIDA. /�CA-
SAL�SE�EMPENHA�EM�UMA�CONCILIA¥ÎO�E�TEM�
OUTRA� lLHA�� DESSA� VEZ� SAUDÉVEL�� PORÏM�O�
CASAMENTO�NÎO�DURARIA�MUITO�MAIS�TEMPO��
SEPARAM
SE�EM������
%SSES�ACONTECIMENTOS�NÎO� FORAM�BEM�
ELABORADOS�POR�'ENE��QUE�TINHA�UMA�VIDA�
SEM�GRANDES�PROBLEMAS�ATÏ�ENTÎO�E�DE�RE-
PENTE�V�TUDO�RUIR��
#OME¥A� A� TOMAR� DOSES� EXCESSIVAS� DE�
COMPRIMIDOS�PARA�DORMIR��PARA�ACORDAR�E�
A�BEBER��HÉBITO�QUE�NUNCA�TIVERA��&OI�UMA�
FASE� MARCADA� POR� INÞMEROS� AMANTES�� DE�
ATORES�A�HOMENS�INmUENTES�E�PODEROSOS�DA�
ÏPOCA�� ENTRE� ELES� O� FUTURO� PRESIDENTE� DOS�
%5!�� NA� ÏPOCA� O� SEDUTOR� SENADOR� *OHN�
&��+ENNEDY��QUE�DEPOIS�DE�QUASE�UM�ANO�
JUNTOS� COMUNICOU�� FRIAMENTE�� QUE� NÎO� SE�
CASARIA�COM�ELA�POR�CAUSA�DE�SUAS�AMBI¥ÜES�
POLÓTICAS��0OIS��SENDO�ELA�DIVORCIADA�E�COM�
lLHOS��E�UMA�DELAS�DOENTE ��NÎO�SERIA�A�PES-
SOA�CERTA�PARA�ESTAR�AO�SEU�LADO��
/UTRA�CRISE�DEPRESSIVA�SEVERA��SEGUIDA�
DE� UMA� FASE� HIPOMANÓACA�� CONlGURANDO�
UM�TRANSTORNO�BIPOLAR��QUE�NÎO�FOI�DIAG-
NOSTICADO�NA�ÏPOCA ��.ESSA�OCASIÎO��lCOU�
INTERNADA� POR� LONGO�PERÓODO� EM� CLÓNICAS�
PSIQUIÉTRICAS��2ECUPERADA��VOLTOU�A�ATUAR��
E�DURANTE�AS�lLMAGENS�DE�Personal Affair
COME¥OU� UM� ROMANCE� COM� O� PRÓNCIPE�
!LY�+HAN��&ICARAM�NOIVOS� EM������� EN-
QUANTO� +HAN� ESTAVA� SE� DIVORCIANDO� DE�
2ITA�(AYWORTH��
3EUS�PLANOS�DE�CASAMENTO��NO�ENTANTO��
ENCONTRARAM�UMA�FEROZ�OPOSI¥ÎO�DO�PAI�DE�
!LY��O�SULTÎO�!GA�+HAN�)))��QUE�NÎO�ACEITOU�
MAIS� UM� CASAMENTO� DO� lLHO� COM� hOUTRA�
$%3$%�#%$/�
$%-/.342/5�
).4%2%33%�0%,!�
#!22%)2!�$%�!42):��
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!,4!�3/#)%$!$%�&·4),��
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DESQUALIlCADA�DE�(OLLYWOODv��!MEA¥ADO�
DE�SER�DESERDADO��!LY�A�ABANDONA�SEM�AO�
MENOS� UMA� SATISFA¥ÎO�� SIMPLESMENTE� VAI�
EMBORA�DO�PAÓS�E�ELA�lCA�SABENDO�DISSO�PE-
LOS�JORNAIS��!O�MESMO�TEMPO��O�EX
MARIDO�
SOLICITA�A�GUARDA�DA�SEGUNDA�lLHA��ALEGAN-
DO�QUE�'ENE�NÎO�TEM�CONDI¥ÜES�PSÓQUICAS�
DE�CUIDAR�DA�MENINA��/�CASO�CHEGOU�AOS�
TRIBUNAIS�E�� APØS�MUITA�EXPOSI¥ÎO�DE� SEUS�
PROBLEMAS�PESSOAIS�NA�MÓDIA��ELA�CONSEGUE�
lCAR�COM�A�GUARDA��QUEM�ACABOU�CUIDAN-
DO�E�EDUCANDO�A�MENINA�FOI�SUA�MÎE��POIS�
ELA�PASSOU��APØS�GANHAR�A�CAUSA��POR�VÉRIAS�
INTERNA¥ÜES�POR�PERÓODOS�LONGOS ��
-AS� DURANTE� AS� AUDIÐNCIAS�� POR� MEIO�
DE�MANCHETES� SENSACIONALISTAS�� A� IMPREN-
SA�TENTOU�DIFAMAR�SUA�IMAGEM�DE�TODAS�AS�
FORMAS�� $ESESPERADA�� SOBE� NO� TERRA¥O� DE�
UM�PRÏDIO�� AMEA¥ANDO�SE� JOGAR��PORÏM�Ï�
RESGATADA�A�TEMPO�DA�TENTATIVA�DE�SUICÓDIO��
!� ESSE� PERÓODO� SEGUIU
SE� OUTRA� FASE�
DE�DEPRESSÎO��TENDO�SIDO�INTERNADA�MAIS�
UMA�VEZ��
/S� TRATAMENTOS� DE� 4IERNEY� SE� ARRAS-
TARIAM� POR� ANOS�� COMPREENDENDO� DÞZIAS�
DE� SESSÜES� DE� TERAPIA� DE� ELETROCHOQUE� E�
INlNDÉVEIS�DIAS�CONTIDA��hEMBRULHADAv�EM�
LEN¥ØIS�MOLHADOS��PARA�hCONTROLAR�SUAS�MU-
Em 1945 foi indicada ao Oscar de melhor atriz
���������Amar Foi minha Ruína, ironicamente
no mesmo período em que passa por uma forte
crise no casamento com o estilista Oleg Cassini
DAN¥AS�DE�HUMORv��NA�REALIDADE��ESSE�hMÏ-
TODOv�DESUMANO�S�IMOBILIZAVA�A�PACIENTE��
INIBINDO� QUALQUER� MOVIMENTO� CORPORAL��
SEM�NENHUM�EFEITO�TERAPÐUTICO �
%M� CONSEQUÐNCIA� DO� TRATAMENTO� DE�
ELETROCHOQUE�� PERDE� A� MEMØRIA� �A� RECU-
PEROU�MUITO�LENTAMENTE ��O�QUE�A�FOR¥OU�A�
lCAR�AFASTADA�DAS�PRODU¥ÜES�CINEMATOGRÉl-
CAS�NO�PERÓODO�DE������A�������
!NOS�MAIS� TARDE�� SE� TORNOU� UMA� ATI-
VISTA�E�PORTA
VOZ�CONTRA�ESSE� TRATAMENTO��
ESCLARECENDO�COM�SUA�SOFRIDA�VIVÐNCIA�OS�
MALEFÓCIOS� QUE� GERARAM� EM� SUA� RECUPE-
RA¥ÎO� E� MESMO� QUESTIONANDO� VEEMEN-TEMENTE� SUA�ElCÉCIA��$IZIA� hERA�COMO�SE�
EM� VEZ� DE�ME� AJUDAREM�� ESTIVESSEM�ME�
PUNINDO�POR�ESTAR�DEPRESSIVA��E�ME�GERAVA�
MAIS�DEPRESSÎO�AINDAv�
.A�TENTATIVA�DE�VOLTAR�A�ATUAR��INICIA�AS�
lLMAGENS�DE�Holiday for Lovers��MAS�NÎO�
AGUENTA�A�PRESSÎO�E�SOFRE�UM�COLAPSO�NER-
VOSO��SENDO�FOR¥ADA�A�ABANDONAR�O�lLME�E�
SER�INTERNADA�
%M� ����� CASOU
SE� COM�7�� (OWARD�
,EE��UM�MILIONÉRIO�TEXANO��EX
MARIDO�DE�
OUTRA�ESTRELA��(EDY�,AMMAR��(OWARD�FOI�
ACOLHEDOR��SABIA�DE�SEU�HISTØRICO�DEPRES-
SIVO�E�DE�INTERNA¥ÜES�E�NÎO�SE� IMPORTOU��
'ENE� LOGO� ENGRAVIDOU� E� PARECIA� QUE� l-
NALMENTE� TUDO� ESTAVA� CAMINHANDO� PARA�
UM�EQUILÓBRIO��ESTAVA�AFASTADA�DO�CINEMA�
QUE� A� ESTRESSAVA�� LONGE�DA� IMPRENSA� QUE�
A�PERSEGUIA��MORANDO� TRANQUILAMENTE�NO�
72 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
OS MÚLTIPLOS SINTOMAS DA DEPRESSÃO
Depressão é um estado de rebaixamento energético em todos os aspectos da vida de quem a vive. O sentimento é de que tudo parece fútil, ou sem real
importância. E a sensação de que se perdeu, de forma irreversível, a capacidade de
sentir alegria ou prazer na vida está muito presente. Tudo parece vazio e sem gra-
ça, o mundo é visto “sem cores”. Os sintomas depressivos são muitos e variados e
podem ser divididos entre: cognitivos, fisiológicos e comportamentais.
Nos cognitivos destacam-se: humor deprimido: desânimo persistente, tristeza,
baixa autoestima, sentimentos de inutilidade, vazio, culpa e/ou irritabilidade; re-
dução da capacidade de experimentar prazer na maior parte das atividades antes
consideradas agradáveis; diminuição da capacidade de pensar, de se concentrar,
memorizar ou de tomar decisões; ideação suicida.
Nos fisiológicos podemos citar: fadiga ou sensação de perda de energia; altera-
ções do sono (mais frequentemente insônia, podendo ocorrer também sonolência
excessiva ou sono interrompido); alterações do apetite (mais comumente perda
do apetite); redução do interesse e prazer sexual; agitação motora, inquietude;
alterações dos ritmos circadianos (dormir fora de hora).
Nos comportamentais evidenciamos: retraimento social (isolamento social);
chorar mais e com mais frequência; comportamentos suicidas; retardo psicomotor
e lentificação generalizada ou agitação psicomotora; tentativa de suicídio; com-
portamento autodestrutivo (automutilação); falta de cuidados pessoais e desleixo.
Observação: Algumas pessoas com o transtorno depressivo mostram-se mais
“apáticas” do que tristes, referindo-se muitas vezes ao “sentimento da falta de sen-
timentos”. Era exatamente assim que Gene Tierney descrevia o seu aspecto afe-
tivo, como “um enorme vazio sem emoção, sobrevivendo a um dia de cada vez”.
Anderson Zenidarci é mestre em Psicologia pela PUC-SP, supervisor e
palestrante. Coordenador e professor do curso de especialização em
Transtornos e Patologias Psíquicas pela Facis, professor de pós-graduação no
curso de Psicologia de Saúde Hospitalar na PUC-SP. Atua há mais de 30 anos
em atendimento clínico em diversos segmentos da Psicologia, com especial
dedicação à psicossomática, transtornos e patologias psíquicas.
PERlL
.AS� MEMØRIAS� ESCRITAS� EM� ������
4IERNEY� REVELA� E� DESCREVE� A� DEVASTA¥ÎO�
PROVOCADA� POR� SEUS� hDEMÙNIOS� INTERNOSv��
3EGUNDO� A� PRØPRIA� ATRIZ�� ELA� ESTEVE� VÉRIAS�
VEZES�hÌS�PORTAS�DA� LOUCURAv�E�hVIVIA�UMA�
DOR�IMENSA�E�CONTÓNUA�DENTRO�DE�SUA�ALMAv�
%MBORA�A�VIDA�AO�LADO�DO�MARIDO�TE-
NHA�SIDO�TRANQUILA��ELA�NUNCA�SE�RECUPEROU�
TOTALMENTE�DA�DEPRESSÎO��&ICOU�CASADA�ATÏ�
A�MORTE�DELE��EM�������6IVEU�POR�MAIS�DEZ�
ANOS�� PORÏM� RECLUSA� E� DEPRIMIDA� NO� SEU�
RANCHO��
-ORREU�EM�������AOS����ANOS��DE�EN-
lSEMA�PULMONAR�EM�CONSEQUÐNCIA�DO�USO�
EXCESSIVO� DE� CIGARROS�� hMÏTODOv� QUE� UTI-
LIZOU�PARA�ENGROSSAR�A�VOZ�QUE�DETESTAVA�
NOS�lLMES�
/� CONSAGRADO� CINEASTA� -ARTIN�
3CORSESE�� DECLARADO� F� DA� ESTRELA�� COMEN-
TA��h(OLLYWOOD�NÎO�REVERENCIA�SEU�TALENTO�
COMO�DEVERIA��POR�NÎO�ACEITAR�QUE�UMA�ES-
TRELA�TÎO�LINDA�FOSSE�TÎO�DOENTEv��%�COMPLE-
TA��h3UA�HISTØRIA�DARIA�UM�ØTIMO�ARGUMENTO�
PARA�UM�lLME�DRAMÉTICO�E�DE�SUCESSOv�
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4EXAS� COM� UM� MARIDO� ATENCIOSO�� -AS��
COM���MESES�DE�GRAVIDEZ��SOFRE�UM�ABORTO�
ESPONTÊNEO�E�PERDE�O�lLHO�
%LA�� QUE� RECEBEU� O� CODINOME� DE� hA�
MULHER�MAIS� BONITA� DA� HISTØRIA� DO� CINE-
MAv�� PARECE� QUE� NÎO� CONSEGUIA� SER� FELIZ��
4IERNEY��QUE�ERA�CONHECIDA�NO�MEIO�ARTÓS-
TICO�POR�SER�UMA�PESSOA�GENTIL�E�ELEGANTE��
MESMO� COM� SEUS� PROBLEMAS� PSÓQUICOS��
ERA�FREQUENTEMENTE�CONVIDADA�PARA�ATUAR�
�PARTICIPOU�DE����lLMES ��2ETORNOU�AO�CI-
NEMA�NOVAMENTE�EM�������FEZ�DOIS�lLMES��
RECEBENDO�BOAS�CRÓTICAS��MAS�TRÐS�ANOS�DE-
POIS�SE�APOSENTOU�n�NÎO�QUERIA�MAIS�ATUAR��
Tierney estreou no cinema em 1940, estrelando
������O Retorno de Frank Jones, causando
sensação com sua beleza e algumas críticas em
relação à atuação
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MOMENTO DO LIVRO
Nas livrarias e na loja Escala www.escala.com.br
Assassinato, traição, vingança,
romance e mistério compõem o
pano de fundo para Um Estudo
em Vermelho, que marca a estreia
da parceria entre o detetive mais
famoso do mundo, Sherlock Holmes,
e o médico John Watson. A partir
desse encontro, estará selado um
SDFWR�HQWUH�DPERV�b۔1D�PHDGD�
LQFRORU�GD�YLGD��FRUUH�R�ਭ�R�YHUPHOKR�
do crime, e o nosso dever consiste
em desenredá-lo, isolá-lo e expô-lo
em toda a sua extensão”.
Livro: Sherlock Holmes Um Estudo em Vermelho
Número de páginas: 176
Editora: Lafonte
ATENDIMENTO CLÍNICO
74 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
Eduardo Lucas Andrade é psicanalista, membro Ebep: Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos,
escritor, membro da Academia Bom-despachense de Letras. Autor de vários livros, dentre
eles: Livrai-me de Todo Normal, Amém!, Psicanálise e Educação: Contribuições da Psicanálise à
Pedagogia, As Lágrimas do Crocodilo Jão, Estrela: a Bezerra que Virou Saudades! e Risco de Vida:
da Doença Crônica à Crônica da Doença. Palestrante em temáticas da saúde mental, educação e
literatura. www.eduardolucasandrade.com.br Instagram: @eduatopsi
A clínica psicanalítica com foco no
tratamento infantil é alvo, frequentemente,
de resistências dos pais e/ou responsáveis,
um comportamento caracterizado
pela transferência de desejos
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Por Eduardo Lucas Andrade
QUANDO
A CRIANÇA
QUASE
INEXISTE
Aclínica psicanalítica com crianças, com seu infan-til e infância, encontra resistências que peram-bulam os desejos trans-
versais, anônimos e não anônimos, dos
pais e/ou responsáveis. Françoise Dol-
to, pelo tato e elasticidade da técnica,
estando atenta ao que ocorre na trans-
ferência com a criança e com os pais,
isto é, estando atenta a esses transver-
sais pulsionais, propõe que em vários
casos se recebam os pais junto com a
criança e que ali eles digam o motivo
de levá-la ao atendimento. Enquanto os
pais, entendidos como função, aqueles
que acolhem o “desamparo psíquico”
(Ceccarelli, 2009), falam do motivo de
levar a criança ali, a criança fi ca mane-
jando massinhas, lápis e/ou folhas.
A criança deve saber o que faz na
clínica e nenhum pacto deve ser feito
psique ciência&vida 75
ATENDIMENTO CLÍNICO
www.portalespacodosaber.com.br
Mesmo aceitando
o atendimento dos
filhos, alguns pais
buscam sabotar o
tratamento,
mas não retirem a
criança da clínica.
Os profissionais
devem ser
capazes de
manejar o
tratamento sem
essa ajudaà obscura com os pais, uma vez que
o tratamento é baseado no já postu-
lado por Freud “amor pela verdade”
(Freud, 1937). Ferenczi reforça di-
zendo que o psicanalista deve se afas-
tar da hipocrisia profissional e não
ficar fazendo semblantes que sirvam
ao poder. Nesse caso, trata-se de não
servir ao abuso perverso dos adultos
ao desejo das crianças. Por perverso
entenda aquele que força o outro ao
lugar de objeto de seu gozo.
Certa vez, em meu consultório,
uma tia trouxe a criança. A criança até
então não sabia o que fazia ali. Meio
sem jeito, a tia disse o motivo de levar a
criança enquanto ao seu lado a criança
fazia desenhos livres. Em determina-
dos dizeres da tia, a criança parava de
desenhar, olhava para a tia e retomava
agressivamente a folha. Após solicita-
ção minha para que a tia esperasse lá
fora e, perguntada se tinha entendido,
a criança me disse: “Entendi, aqui é
para cuidar de mim! Estão preocupa-
dos com meus choros e a culpa das
brigas deles não é minha”. Referindo-
-se às brigas dos pais com a irmã mais
velha. A criança com sintoma chegou
ali e sabemos que fazer falar o sintoma
é o que Lacan chama de ser causa de
desejo. Aqui algo já se inclinava para
a descoberta da demanda da criança e
posteriormente de seu desejo.
Atentos ao horizonte de nossa
época devemos saber, justamente
pelo suposto saber que nos é inves-
tido, que a criança pode ir à clínica
com pais, tios, avós, vizinhos, aque-
les que a acolheram. Por sermos, “por
definição, insocorríveis” (Ceccarelli,
2009), palavra elegida por Cecca-
relli, buscamos laços e nos embara-
çamos nas demandas dos outros.
Em análise, a via é outro na qual
não existe modelo na vida real.
A análise aproxima-se do esclare-
Narcisismo
Ferenczi diz da criança mal acolhida e
seus efeitos na pulsão de morte, ponto
que Joyce McDougall também aborda.
A configuração de acolhida nos inte-
ressa para que se faça transferência.
“A criança concretizará os sonhos
dourados que os pais jamais realiza-
ram. [...] O amor dos pais, tão comove-
dor e no fundo tão infantil, nada mais é
senão o narcisismo dos pais renascido,
o qual, transformado em amor objetal,
inequivocamente, revela sua natureza
anterior” (Freud, 1914).
cimento sexual da criança, conforme
aponta Klein em 1932. Por entrar no
esclarecimento sexual toca-se nas
dificuldades às quais os pais tanto
tentam fugir. Como diz Freud, não
se foge de si mesmo, pois a “fuga é o
instrumento mais eficaz para se cair
prisioneiro daquilo que se deseja evi-
tar” (Freud, 1907).
Ainda que os pais busquem sabo-
tar, mas não retirem a criança da clínica,
nós “devemos necessariamente ser ca-
pazes de manejar o tratamento sem esta
ajuda” (Klein, 1927). Com Ferenczi
temos que enquanto o paciente apare-
ce o fi o de esperança não se rompeu.
Acolher os que levam as crianças algu-
mas vezes faz-se necessário. O caso do
pequeno Hans só foi possível devido
ao envolvimento do pai. Freud desde
cedo já sabia que a família participava
da transferência e do tratamento.
Nos Três Ensaios Sobre a Teoria
Sexual, Freud aponta as vagabunda-
gens pulsionais em jogo no aparelho
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A análise aproxima-se do esclarecimento sexual da criança e por entrar nesse tema toca-se, em
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psique ciência&vida 77www.portalespacodosaber.com.br
Atentos ao
horizonte de nossa
época devemos
saber, justamente
pelo suposto
saber que nos é
investido, que a
criança pode ir à
clínica com pais,
tios, avós, vizinhos,
aqueles que a
acolheram
que, em suas instâncias, observam o
filho sempre como a criança que não
cresce. A pulsão de saber é tida por
Freud como de olhar e de controle.
O sufixo “inho, meus meninos” se-
gue na ponta da língua da mãe e por
aí vai. É comum quando uma mãe diz
na clínica “meu menino” este ter 37,
40 anos. O inconsciente é mesmo de
outra ordem temporal.
Quanto a essa dificuldade de
deixar que a filha cresça, chegou em
minha clínica uma adolescente com
sua mãe. A mãe falava pela criança
enquanto a criança prestava atenção
em tudo do consultório. A mãe per-
gunta: “Você pode atender minha fi-
lha surda e muda?” Eu disse: “Posso
atender sua filha”. Ela, sem entender,
repetiu a pergunta: “Você pode aten-
der minha filha surda e muda?”. Mais
uma vez eu disse: “Posso atender sua
filha”. Essa forma de apresentá-la
já me chamou atenção. A criança
chega no outro dia, entra no con-
sultório, esbarra e retira o aparelho
de surdez, ainda pelo embaraço retira
os óculos. Ali, naquele ato falho,
ela se desprendia da deficiên-
cia já nomeada pela mãe. Com
autonomia, colocou ambos os
aparelhos ao seu lado e foi em
RECALQUES, TABUS E PRECONCEITOS DOS PAIS
PARA SABER MAIS
Omundo literário foi um meio que descobri de transcrever o universo infan-til na clínica. Escrevo livros infantis que nascem a partir da escuta com as
crianças e neles abordo temas que aos adultos são caros, devido aos seus re-
calques transbordantes em tabus e preconceitos. Escrevi As Lágrimas do Cro-
codilo Jão abordando o respeito à diversidade, controle de impulsos e poder da
palavra. Lá na história o psicanalista é o elefante Dante de orelhas gigantes que
trabalha acolhendo e escutando. Caio é um passari-
nho de saia que com seu estilo é forte e merece
ser respeitado. O Jão tem lágrimas mágicas,
pois expressar trata emoções e ele pode
sim chorar. No final a criança completa
a história, é dela o final. O livro carrega
consigo um término e um interminável,
com folhas indicando e dando espaço
à interatividade da criança com desenhos,
rabiscos e/ou escrita. O desamparo com a
criança e a desacolhida começam quan-
do não a escutamos enquanto sujeito.
Professores chegaram, inúmeras vezes,
a me indagar sobre como abordar que
passarinho usava saia. A resposta dada
era que depois que elas ensinassem que
crocodilo conversava estaria tudo mais
fácil, pois assim começava a história. A
dificuldade não era das crianças e sim do
adulto. A criança que é acolhida, que tem
lugar de voz, que brinca tem bases de afeto
e âncoras simbólicas para construir sonhos
e futuro que as guia como desejo de busca.
psíquico e já no primeiro ensaio
Freud deixa claro que é de desvio que
se constituem as sexualidades. Nesses
desvios a criança suga dos pais leites
do sintoma. Nos dizeres de Ferenczi,
identifica-se com os agressores. Em
Lacan temos que “o sintoma da crian-
ça acha-se em condição de responder
ao que existe de sintomático na estru-
tura familiar” (Lacan, 1969).
Inocência
Na conferência sobre a vida se-xual dos seres humanos Freud
resgata que “a infância era encarada
como ‘inocente’ e isenta dos intensos
desejos” (Freud, 1915). Ser inocen-
te, muitas das vezes, é não assumir
o desejo. “Ele é inocente”, quando
dizem isso, logo em seguida já vem
alguém desejar por ele e gozar dessa
posição. Porém, sabemos que nem
o adulto nem a criança são inocen-
tes, são sexualmente desejosos. No
campo da pulsão de morte temos a
questão do suicídio, em que adultos
acreditam que a criança seja inocen-
te a ponto de não se matar.
Saber que a criança deseja e que
irá crescer fere o narcisismo dos pais
ATENDIMENTO CLÍNICO
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Ser inocente é
não assumir o
desejo. “Ele é
inocente”, quando
dizem isso, logo
em seguida já vem
alguém desejar por
ele e gozar dessa
posição. Porém,
nem o adulto
nem a criança
são inocentes,
são sexualmente
desejosos
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direção aos brinquedos. Tratamento
vai e tratamento vem e a criançaco-
meça a construir demandas típicas de
adolescentes e o tratamento volta-se à
questão dos amores.
A mãe dessa adolescente, cerca de
um mês depois, diz no consultório:
“Sabe, ela depende de mim para tudo.
Nas festas eu tenho que ir em todas as
crianças e dizer a uma por uma que ela
é defi ciente, diferente e que não pode
se enturmar facilmente. É dolorido,
pois ela acaba fi cando o tempo todo
perto de mim”. Eita, gozo! Ali a mãe
mostrou o que atualizava ao insistir co-
migo na indagação de se eu atendia a fi -
lha muda e surda. Na verdade, era ela, a
mãe, que dependia da fi lha estar junti-
nha dela e não crescer. Se ela não podia
brincar, imagine namorar! A mãe tinha
o controle da criança, que pulsiona-
mente vazava invenções. Sabemos que
o controle é não todo perante a pulsão.
Mais importante do que querer
saber estruturas é, na clínica, estar-se
atento às transversalidades da dinâ-
mica pulsional e transferencial. É im-
portante estarmos atentos, enquanto
clínicos, ao que ocorre “na” e “sob” a
transferência.
“Na” é o que ocorre na relação
direta ali dentro do consultório
e/ou quando o analista vai em dire-
ção da sala de espera. Pulsão, tensão,
brigas e atualizações inconscientes
quando estes estão a caminho do
consultório e quando sentados na
sala de espera também ditam impul-
sos dessas relações.
“Sob” são os pergaminhos do
inconsciente que por ser atemporal
direcionam coisas à análise e dela
Ato de brincar
O brincar “é o meio de expressão mais
importante da criança. Ao utilizar essa
técnica lúdica, logo se descobre que
a criança faz tantas associações aos
elementos isolados de seu brinquedo
quanto o adulto” (Klein, 1932). O brin-
car é uma linguagem para além das
palavras e por esse motivo foi melhor
do que saber libras. O inconsciente
não é mudo e tampouco surdo.
faz seus usos. Tanto os pais quan-
to as crianças. “Vou contar pro seu
analista”. “Seu analista não vai gos-
tar”. “Se você não fizer o dever não
irá pra análise” etc. O analista co-
locado fantasmagoricamente como
um grande outro castrador na ser-
ventia de quem paga. E “sob” pode
também advir nas crianças, “lembrei
de você”, “fiz para você” etc. O pa-
gamento, ato fálico por excelência,
inclusive, é sexual, é pulsional e é
transferencial. O pagamento não
deve ditar na escuta do analista
quem controla a clínica. No caso
das crianças o pagamento encontra-
-se nas mãos muitas vezes dos pais.
Para que a clínica com crianças não
seja bancada pelos pais e para que
as crianças assumam sua parte na-
quilo que é queixado, Françoise
Dolto convoca os analistas ao tra-
balho de arranjar um pagamento no
qual a criança se comprometa, seja
por meio de figurinhas, desenhos,
poemas, pedras, o que for. E esse
pagamento não deve ser analisado,
interpretado em sua essência e sim
em seu modo de entrega.
Durante as brincadeiras, as crianças fazem tantas associações aos elementos isolados de seu
brinquedo quanto o adulto
psique ciência&vida 79www.portalespacodosaber.com.br
Saber que a criança deseja e que irá crescer
fere o narcisismo dos pais que, em suas
instâncias, observam o filho sempre como a
criança que não cresce. A pulsão de saber é
tida por Freud como de olhar e de controle
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:���������
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(trad. A. Cabral, trabalho original escrito em 1933, p. 97-108). São Paulo: Martins Fontes, 1992c.
:� �G���I�
G
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G��\I��IG:�$�d�!����I��9�-:9�Psicanálise IV (trad. A. Cabral, trabalho
original escrito em 1928, p. 15-24). São Paulo: Martins Fontes, 1992e.
FREUD, Anna. O Tratamento Psicanalítico de Crianças (trad. M. A. Moura Matos, trabalho
original escrito em 1926). Rio de Janeiro: Imago, 1971.
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(1901-1905). In: Freud, S. Edição standard brasileira das Obras Psicológicas Completas, Vol. VII.
Rio de Janeiro: Imago Editora, 2006.
. Moral Sexual “Civilizada” e Doença Nervosa Moderna. In: Freud, S. Edição standard
brasileira das Obras Psicológicas Completas, Vol. 9, p. 187-212 (trad. J. Salomão, trabalho
original publicado em 1908). Rio de Janeiro: Imago, 1980b.
. Recordar, Repetir e Elaborar (Novas Recomendações sobre a Técnica da
Psicanálise II). In: Freud, S. Edição standard brasileira das Obras Psicológicas Completas, Vol.
12, p. 193-207 (trad. J. Salomão, trabalho original publicado em 1914). Rio de Janeiro: Imago,
1980i.
. Sobre o Narcisismo: uma Introdução. In: Freud, S. Edição standard brasileira das
Obras Psicológicas Completas, Vol. 14, p. 85-119 (originalmente publicado em 1914). Rio de
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. O Esclarecimento Sexual das Crianças. In: Freud, S. Edição standard brasileira das
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LACAN, J. Outros Escritos���G
:�0��G� �H����9����������G��
���������G�#G�G�����(G�I�����
�\�
Vieira, 2003). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1969.
Pagamento
No caso de pacientes crianças, os pais me pagam e as crian-
ças também. É preciso raspar a de-
manda para encontrar o desejo! As
crianças me pagam com desenhos,
textos, parte da mesada, pedrinhas,
figurinhas etc.
Teve criança que me pagava com
figurinhas de chicletes que chupava
toda semana. Para elaborar um luto
da mãe, foi comunicada em sua últi-
ma sessão que teríamos apenas mais
um encontro. Me pagou no último
com o cartão da missa de sétimo
dia da mãe, o único que ainda tinha.
Pagou e disse: “Aí está! Ficará aqui.
Agora tenho que seguir a vida, mes-
mo que com saudades”.
Teve ainda criança que, quando
foi acordado que me pagaria com
pequenos textos, disse: “Vou trazer!
Posso trabalhar a noite toda, mas aju-
darei minha mãe a pagar minha aná-
lise!”. Outra me pagou com desenhos
de notas de dinheiro.
Teve crianças pagando com arte.
Esta havia feito transferência pela
pulsão de morte e não pagava até
que a transferência se formalizasse
na relação dela com a clínica e não
com a mãe a obrigando. Esta havia
perdido o pai. Disse: “Pagarei com
arte, assim quando eu sentir vontade
de destruir eu vou construir. Tenho
para pagar a capacidade que todo ar-
tista precisa. Uma vida amargurada;
perdi o pai e minha mãe retirou meu
celular esta semana”.
Na clínica e na vida as crianças são
sujeitos de seus desejos! A elasticidade é
técnica. A proposta ética segue naquelas
belas palavras citadas por Freud: “Aqui-
lo que herdaste de teu pai, conquista-o
para fazê-lo teu” (Freud, 1938).
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observarmos que
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menino”, mas, na
verdade, ele é
um homem
de 37 ou
40 anos
80 psique ciência&vida
em contato
ANTIGOS E NOVOS PECADOS
Muito interessante a abordagem sobre os sete pecados capitais de um artigo publicado na edição
157. É fato que, quando criança, ouviaem tom ameaçador que, de todos os “pecados” que o ser hu-
mano pode cometer, havia sete que davam uma espécie de passagem direta para o “inferno”. Eram
justamente os chamados sete pecados capitais, que assombram a consciência há muito tempo. O
diferencial da abordagem foi mostrar que hoje eles não são tão mortais assim. O texto diz que o que
determina os efeitos deles são a intensidade e a frequência desses sentimentos no cotidiano. Portanto,
OS�PECADOS�CAPITAIS�INSTITUÓDOS�NA�ERA�MEDIEVAL�GANHAM�NOVOS�SIGNIl�CADOS��VALORES�E�GRAVIDADES�AO�
longo dos séculos. Dessa forma, no mundo contemporâneo, as bases morais antigas perdem sua va-
lidade e surgem novos pecados. Os antigos passam a ser vistos como virtudes.
Mariana Bicalho, por e-mail
CAPA157_aprovada.indd 1
TRAUMAS E AUTOSSABOTAGEM
�)DENTIl�QUEI
ME�MUITO�COM�O�FATOR�DA�AUTOSSABOTAGEM�NA�ENTREVISTA�PUBLICADA�NA�EDI
ção 140 da Psique. Gostaria de saber se o psicólogo Julio Peres atende em consultório
ou se poderia indicar um colega para que pudesse aprofundar essa questão. Gostei
principalmente da parte da entrevista em que o dr. Julio aborda o tema em eventos
traumáticos, que atingem grande parte da população. O surpreendente é que alguns
estudos epidemiológicos revelam que a maioria das pessoas já passou ou passará por
episódios potencialmente traumáticos.
Margarida Cristina del Gáudio Albergaria, por e-mail
CRISES E O BOM HUMOR
Muito se fala sobre a necessidade de levar a vida com bom humor e de forma mais
LEVE��-AS��NOS�DIAS�ATUAIS��Ï�MUITO�DIFÓCIL��0OIS�BEM��HÉ�A�CRISE�MUNDIAL��REm�ETIDA�NA�
CRISE� l�NANCEIRA�� NA� PROl�SSIONAL�� PESSOAL� CONSTATADA� PELA� CRISE� DE� VALORES� E� SOCIAL�
diante da degradação das relações familiares e interpessoais. Então, em minha visão,
O�GRANDE�DESAl�O�Ï�SUPERAR�O�ABATIMENTO�DIANTE�DESSE�CENÉRIO�E�NÎO�SE�DEIXAR�CON
taminar pela negatividade. O texto que saiu no número 157 auxilia a entender esse
processo. O mau humor só serve para tornar mais difícil a caminhada e não ajuda
a resolver os problemas. O texto alerta que todos temos de enfrentar muitas situa-
¥ÜES�SOFRIDAS�E�DESAGRADÉVEIS�NA�VIDA��AS�QUAIS�NÎO�TEMOS�COMO�MODIl�CAR�OU�EVITAR��
Nesses casos, o que fará a grande diferença no percurso desse caminho será a forma
como escolheremos ultrapassá-lo.
Thais Albuquerque, por e-mail
OMS INCLUI TRANSTORNO
POR VIDEOGAME NO ROL
DAS DOENÇAS MENTAIS
A inocente brincadeira dos jo-
gos digitais pode se transfor-
mar em um problema sério.
Pelo menos na avaliação da
Organização Mundial da Saúde
(OMS). Desde 2018, a OMS in-
clui o transtorno por videoga-
me no rol das doenças mentais.
A entidade considera que os
videogames causam transtor-
nos patológicos e até viciam. O
problema se caracteriza por um
padrão de comportamento de
jogo “contínuo ou recorrente”. A
OMS vincula o transtorno a três
condições negativas provocadas
pelo mau uso dos jogos digitais.
Primeiramente, por não contro-
lar a conduta de jogo quanto ao
início, frequência, intensidade,
duração, f inalização e contex-
to em que se joga. Em segundo
lugar, o aumento da prioridade
que se concede aos jogos em re-
lação a outros interesses vitais e
atividades diárias do cotidiano.
E, em terceiro, ao se manter a
conduta ou acontecer uma es-
calada “apesar da ocorrência de
consequências negativas”, se-
gundo a OMS. O transtorno se
refere à utilização de jogos di-
gitais ou videogames, que pode
ocorrer mediante conexão com
internet ou sem ela.
N
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CONSELHO EDITORIAL
AICIL FRANCO é psicóloga, mestre e doutora em Psicologia
Clínica pela USP. Professora no IJBA e na Escola Bahiana de
Medicina e Saúde Pública, Salvador, BA.
ANA MARIA FEIJOO é doutora em Psicologia pela Universidade
&EDERAL�DO�2IO�DE�*ANEIRO��AUTORA�DE�LIVROS�E�ARTIGOS�CIENTÓl�COS��
parecerista de diversas revistas e responsável técnica do
Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do RJ.
ANA MARIA SERRA é PhD em Psicologia e terapeuta cognitiva
pelo Institute of Psychiatry, Universidade de Londres. Diretora
do Instituto de Terapia Cognitiva (ITC), atua em clínica, faz
treinamento, consultoria e pesquisa. Presidente honorária, ex-
presidente e fundadora da ABPC.
ANDRÉ FRAZÃO HELENE é biólogo, mestre e doutor em
#IÐNCIAS�NA�ÉREA�DE�.EUROl�SIOLOGIA�DA�-EMØRIA�E�!TEN¥ÎO�
pela Universidade de São Paulo, onde também é professor no
curso de Biociência e coordena o Laboratório de Ciências da
Cognição no Instituto de Biociências.
CLÁUDIO VITAL DE LIMA FERREIRA é psicólogo,
doutor em Saúde Mental pela Unicamp, pós-doutorado em
Saúde Mental pela Universidade de Barcelona-Espanha,
professor associado de Psicologia da Universidade Federal de
Uberlândia. Autor de Aids e Exclusão Social.
DENISE TARDELI, graduação em Psicologia e Pedagogia.
Mestrado em Educação e doutorado em Psicologia Escolar e
do Desenvolvimento Humano, ambos pela USP. Pesquisadora
na área da Psicologia Moral e Evolutiva. Professora
universitária.
DENISE GIMENEZ RAMOS é coordenadora do Programa de
Estudos Pós-Graduados da PUC-SP e membro da Sociedade
Brasileira de Psicologia Analítica.
KARIN DE PAULA, psicanalista, doutora pela PUC-SP, professora
e supervisora clínica universitária e do CEP, autora do livro
$em? Sobre a Inclusão e o Manejo do Dinheiro numa Psicanálise, e
de vários outros artigos publicados.
LILIAN GRAZIANO é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP,
com pós-graduação em Psicoterapia Cognitiva Construtivista.
É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia
Positiva e Comportamento. Atua em clínica e consultoria.
LILIANA LIVIANO WAHBA, psicóloga, PhD, professora da PUC-
SP. Presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica.
Coeditora da Revista Junguiana. Diretora de Psicologia da Ser
em Cena - Teatro para Afásicos.
MARISTELA VENDRAMEL FERREIRA é doutora em Audiologia
pela University of Southampton – Inglaterra, mestre em
Distúrbios da Comunicação pela PUC-SP, especialista em
Psicoterapia Psicanalítica pelo Instituto de Psicologia da USP.
MÔNICA GIACOMINI, presidente da Sociedade Brasileira de
Psicologia Hospitalar – biênio 2007/09. Especialista em
Psicologia Hospitalar, psicóloga clínica junguiana, psicóloga
do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HCFMUSP e
supervisora titular do Aprimoramento em Psicologia Hospitalar
em Ortopedia.
PAULA MANTOVANI é graduada em Psicologia pela Universidade
Paulista, psicanalista, consultora editorial do programa de
entrevistas da FNAC e membro correspondente do Espaço
Moebius de Psicanálise de Salvador (BA).
PEDRO F. BENDASSOLLI é editor da GV Executivo, psicólogo
graduado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e
doutor em Psicologia Social pela USP. É também professor da
Fundação Getulio Vargas e da ESPM.
LINHA DIRETA
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CANAL FACEBOOK: A revista Psique traz muitas informações interessantes
também nas redes sociais. Acesse a fanpage: www.facebook.com/PortalEspacodoSaber
4EMAS�COMO�DESAl�OS�DA�ATUALIDADE�QUE�
os líderes enfrentam, desenvolvimento
da capacidade de liderança, plano de ne-
GØCIOS��MARKETING�El�CIENTE��MELHORES�ES
tratégias empresariais, alto desempenho
e como encantar clientes fazem parte do
dia a dia do canadense Brian Tracy, con-
siderado um dos principais especialistas
em business coaching do mundo. Tracy
estudou e se especializou nas áreas de
.EGØCIOS��%CONOMIA��(ISTØRIA��&ILOSOl�A�
e Psicologia, procurando aprimorar suas
habilidades. Para ele, uma das principais
DIl�CULDADES� ENCONTRADAS� � CRIAR� MECA
nismos para mudar de hábitos e, em con-
sequência, evoluir. Entrevista completa,
publicada na edição135, pode ser con-
ferida no site www.psiquecienciaevida.
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Empresa Brasil de Revistas Ltda. ISSN 1809-0796. A publicação
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EDITORA: Gláucia Viola
EDIÇÃO DE ARTE E DIAGRAMAÇÃO: Monique Bruno Elias
COLABORARAM NESTA EDIÇÃO: Eduardo Lucas Andrade; Edson
Sallin; Fernando Elias José; Flora Victoria; Lucas Vasques Peña;
Renata Arrepia; Salézio Plácido Pereira. REVISÃO – Jussara Lopes.
COLUNISTAS: Anderson Zenidarci; Carlos São Paulo; Denise
Deschamps; Eduardo J. S. Honorato; Elaine Cristina Siervo; Guido
Arturo Palomba; João Oliveira; Júlio Furtado; Luiza Elena L. Ribeiro
do Valle; Marco Callegaro; Maria Irene Maluf; Michele Muller; Mônica
Portella; Nicolau José Maluf Jr.; Renata Bento. O Conselho Editorial e
a Redação não se responsabilizam pelos artigos e colunas assinados
por especialistas e suas opiniões neles expressas.
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E UFSCAR PROMOVE CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM SAÚDE MENTAL
A UFSCar vai promover a segunda edição do
curso de especialização em Saúde Mental e
Cognição. A iniciativa é voltada a enfermeiros,
psicólogos, terapeutas ocupacionais, médicos,
ASSISTENTES�SOCIAIS��GERONTØLOGOS�E�PROl�SSIONAIS�
COM� FORMA¥ÎO� SUPERIOR� EM� ÉREAS� Al�NS�� QUE�
pretendem atuar ou estejam trabalhando com
saúde mental e cognição. O curso debate con-
ceitos teóricos, valorizando a análise crítico-
REm�EXIVA�EM�TRÐS�EIXOS�PRINCIPAIS��TRANSTORNOS�
mentais e impacto social; conceitos, políticas
públicas e humanização em saúde mental; e
cognição e neurociência. As aulas terão a du-
ração de 22 meses, com carga horária de 368
horas e periodicidade mensal. O curso tem iní-
cio no mês de março e acontecerá na última
semana de cada mês, aos sábados e domingos,
no Campus São Carlos da UFSCar. Informa-
ções no site https://saudemental2019.faiufscar.
com ou e-mail saudemental.ufscar@gmail.com
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Ano 12 - Edição 158
Abril/2019
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82 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
psiquiatria forense por Guido Arturo Palomba
Guido Arturo Palomba
é psiquiatra forense e
membro emérito da
Academia de Medicina
de São Paulo.
os quais estão mancomunados com a si-
tuação política, os que dão choques etc.
Resultado: a ECT foi demonizada.
Por que faz bem? Porque dá um “rei-
nício” no cérebro, nos neurônios, nos
axônios que estão carregados de eletrici-
dade (aliás, mensurável pelo eletroence-
falograma), sem efeitos colaterais.
Ademais, o paciente nem sabe que a
tomou, dado o alto grau de gravidade clí-
nica, que o impossibilita de ter qualquer
tipo de entendimento lógico sobre os fa-
tos que ocorrem ao seu redor.
As indicações, repetindo, dizem res-
peito a pacientes que apresentam qua-
dro endógeno de depressão orgânica,
com alto risco de suicídio, situação esta
EM�QUE�NENHUM�REMÏDIO�SE�MOSTRA�El-
caz, e esquizofrenia catatônica. Quem
já viu catatonia com rigidez cérica (o
indivíduo parece um boneco de cera),
refratária a tudo, sabe que a ECT pode
ser um santo remédio.
AR
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O
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L/
SH
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TE
RS
TO
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Por exemplo, pegar o doente e ameaçar
jogá-lo em um viveiro de cobras, para
que tivesse um grande susto, ou fazer
estrondos pelas costas, ou como fez um
alienista ao criar o gyrator, engenhoca
que consistia em amarrar o paciente em
uma cadeira giratória e girá-lo até que
tivesse convulsão. Pensamento correto,
similar a quando o computador ou celu-
lar travam ou apresentam alguma falha e
damos um “reinício” para ver se endirei-
ta. O que é certo é que muitas vezes esse
procedimento funciona. Ou não?
Assim, após quase uma centúria, Ugo
Cerletti e Lucio Bini criaram o eletro-
choque, ou eletroconvulsoterapia (ECT).
Não vem ao caso dizer que é corrente de
baixa amperagem, dura segundos etc.,
pois refoge ao tema. O importante é que
apresenta resultados efetivos.
Porém, com a vinda da antipsiquia-
tria, a ECT virou sinônimo de tortura,
isso porque, à época, os presos políticos
relataram que levavam choques elétricos
da polícia.
Ou seja: eletroconvulsoterapia virou
agressão ao doente mental, e, se levarmos
em conta o que pensa a antipsiquiatria,
talvez nem seja de fato alienado, pois, se-
gundo essa perspectiva, tal rótulo foi cria-
do pelos que querem internar o paciente,
S
e eu adoecesse de depressão
endógena ou de esquizofrenia
catatônica, gostaria de ser tra-
tado por eletrochoque, pois é o
tipo de tratamento que todos os gran-
des terapeutas da Psiquiatria pensaram,
mesmo na época em que não existia cor-
rente elétrica.
Recordemos que as primeiras for-
mas de choque começaram logo depois
de Pinel cortar as correntes dos loucos
que estavam internados no hospício de
Bicêtre. Com essa atitude extraordinária
determinou, de uma vez por todas, que
doentes mentais não são possuídos pelo
demônio nem vagabundos que não se
prestam ao trabalho e falam coisas inin-
teligíveis, escutam vozes que lhes dão or-
dens ou pensam ser napoleões, ideias que
faziam parte do conceito sobre os aliena-
dos mentais. Com Pinel, a loucura passou
a ser considerada doença mental.
Assim, é preciso tratar. No entan-
to, à época, não havia nada mais do
que sanguessugas, purgantes e banhos
frios/quentes.
Os terapeutas então pensaram cor-
retamente: é preciso dar um choque no
cérebro,embora, como dito, ainda não
existisse eletricidade. E assim inventaram
várias técnicas para atingir esse objetivo.
CONTRARIANDO A ANTIPSIQUIATRIA,
QUE RECRIMINA O
ELETROCHOQUE, EM CASOS
MAIS GRAVES ESSE TIPO DE
RECURSO PODE TRAZER
REAÇÕES CEREBRAIS
EFICAZES QUE NENHUMA
MEDICAÇÃO É CAPAZ DE FAZER
Um santo remédio
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