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editorial
É possível ser feliz 
no trabalho também
Gláucia Viola, editora
“A felicidade é a realização de um desejo pré-
histórico da infância. É por isso que a riqueza 
contribui em tão pequena medida para ela. O 
dinheiro não é objeto de um desejo infantil.”
Sigmund Freud 
A
s novas gerações sempre trazem comportamentos, atitudes e ideias que ques-
tionam os modelos passados. O conceito de muitas coisas mudou ao longo das 
décadas. Com a felicidade não podia ser diferente. Ela é objetivo e objeto de 
desejo há milênios, mas o próprio estado de felicidade alcançou outro status. 
Atualmente não basta ESTAR feliz, é preciso SER feliz. Essa é a busca! 
%�ISSO�SE�REmETE�EM�VÉRIAS�ÉREAS�DA�VIDA��COM�INmUÐNCIA�ATÏ�MESMO�NAS�ESCOLHAS�PROlS-
sionais, por exemplo. Há alguns anos, o trabalho era visto apenas como um “ganha-pão”, 
como um recurso de sustento para as aspirações. Hoje, porém, se 
transformou um meio para obter sucesso e autorrealização. 
Muitos estudos lançam mão da compreensão deste fenômeno, 
fazendo com que a ciência ajude a trilhar esse caminho. Um extenso 
corpo de cientistas indica que quando o indivíduo utiliza suas forças, 
ele experimenta níveis mais altos de felicidade e níveis reduzidos 
de depressão e estresse, além de maior propensão a atingir metas e 
CRESCER�COM�OS�DESAlOS��)SSO�GERA�PRODUTIVIDADE��BEM
ESTAR��AUMEN-
to na expectativa de vida, entre outras circunstâncias que envolvem 
a felicidade em sua plenitude. 
Diante desse cenário, a Psique Ciência&Vida preparou um dossiê 
que debate o resultado de diversos estudos sobre o tema. Apesar 
das investigações comprovarem a tendência que prioriza as boas relações no ambiente cor-
porativo, uma pesquisa realizada pela #HARTERED�)NSTITUTE�OF�0ERSONNEL�AND�$EVELOPMENT 
mostra que apenas metade das empresas está preocupada com o bem-estar de seus funcio-
nários, e dentre elas em torno de 30% incluem o estresse como maior causa de afastamen-
tos no trabalho.
É possível notar como os valores mudam a passos largos e a felicidade no ambiente 
corporativo não é mais vista como algo intangível, e sim uma possibilidade cheia de benefí-
cios que vão desde colaboradores mais engajados e agradecidos, aumento na qualidade de 
TRABALHO�E�MELHORIAS�SIGNIlCATIVAS�NO�RECRUTAMENTO�E�RETEN¥ÎO�DE�PROlSSIONAIS��.O�lM�DAS�
contas, a felicidade é uma escolha em que todos ganham. 
Boa leitura!
Gláucia Viola
www.facebook.com/PortalEspacodoSaber
SH
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VO
 P
ES
SO
AL
CAPA
sumário
26/03/2019 14:21
ENTREVISTA
O psiquiatra norte-americano 
Jeffrey M. Schwartz acredita que 
existe uma predisposição hereditária 
para o desenvolvimento do TOC 
SEÇÕES
05 NA REDE 
06 RELAÇÕES EM PAUTA 
15 PSICOLOGIA JURÍDICA 
16 IN FOCO 
18 UTILIDADE PÚBLICA
20 PSICOPEDAGOGIA
32 COACHING 
34 LIVROS
50 PSICOLOGIA SOCIAL
52 NEUROCIÊNCIA
54 RECURSOS HUMANOS
64 DIVÃ LITERÁRIO
66 CINEMA
70 PERFIL 
80 EM CONTATO
82 PSIQUIATRIA FORENSE
08
SH
UT
TE
RS
TO
CK
DOSSIÊ: Somos felizes? 
A Psicologia aprimora estudos 
na busca por respostas sobre 
o que é felicidade, o que fazer 
para ser feliz e como esse 
ESTADO�INmUENCIA�O�TRABALHO�
MATÉRIAS
35
Ameaça silenciosa
/�GRANDE�DESAlO�DE� 
controlar a ansiedade 
e o estresse durante provas 
em geral, fatores que 
colaboram para o mau 
desempenho nos resultados 
22 
Crianças no divã
Apesar de ser fundamental 
em determinados casos, 
a clínica psicanalítica infantil 
ainda sofre com a resistência 
de pais e responsáveis 
74
Modelo da fala 
e da escuta 
A melhor maneira 
de compreender os sofrimentos, 
traumas e dores é criar uma nova 
consciência em relação a eles, 
por intermédio da cura pela fala
56
psique ciência&vida 5www.portalespacodosaber.com.br
na rede por Nicolau José Maluf Jr.
Nicolau José Maluf Jr. é 
psicólogo, analista reichiano, 
doutor em História das Ciências, 
Técnicas e Epistemologia 
(HCTE/UFRJ). Contato: 
nicolaumalufjr@gmail.com
IM
AG
EN
S:
 S
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K/
 A
RQ
UI
VO
 P
ES
SO
AL
O JOGO PARADOXAL DA INTERNET, QUE COLABORA
PARA O ISOLAMENTO, MAS TAMBÉM CRIA UMA 
COMUNICAÇÃO RICA EM AFETIVIDADE ENTRE 
DESCONHECIDOS QUE SE APOIAM COMO BONS AMIGOS
O espaço-tempo VIRTUAL
S
e de dois irmãos gêmeos um 
fosse levado a viajar pelo 
espaço numa velocidade 
próxima à da luz, quando re-
tornasse à Terra, depois de passados 
���ANOS�PARA�O�QUE�l�COU�EM�NOSSO�
planeta, apenas alguns minutos te-
riam se passado para o que foi. O 
tempo, segundo a teoria de Einstein, 
deixa de ser absoluto e concomitante 
para os dois irmãos, a passagem iria 
depender da velocidade de desloca-
mento de cada um. Ou seja, a repre-
sentação do “tempo” seria diferente-
mente radicada para cada um.
Gosto de ler comentários nos 
blogs e outras publicações na inter-
net. Podem expressar sadismo, me-
diocridade, o que há de mais abjeto 
na espécie humana, mas também 
sinceridade. E, surpresa! Calor hu-
mano, solidão, tristeza. Desejo de 
proximidade. São reações contra o isola-
mento e o anonimato que a modernidade 
e o gigantismo populacional ensejam.
O virtual não para de surpreender 
e também permite psicologicamente a 
superação do tempo clássico, como na 
teoria einsteiniana. Principalmente para 
quem é jovem, tomado pela inquietu-
DE�E�UM�APAIXONAMENTO��m�OR�DA�PELE��
Anoto, num site dedicado a músicas, os 
seguintes relatos:
– Eu queria morrer mas não sou 
suicida – escreve um. – Alguém aí está 
ouvindo essa música agora? – pergunta 
outro. – Eu – responde ela. Três anos 
depois! Outro: – Não sei como vim 
parar aqui, mas amo todos vocês. E a 
“conversa” continua sem se preocupar 
com o espaço-tempo, com outro que 
CHEGA�POR�AGORA��n�-ARIA�AMOU�SEU�l�
lho, porque minha mãe não me ama?1 –, 
numa brincadeira amargurada, parafra-
seando uma letra de um musical antigo.
 “Amo todos vocês” é a expressão 
mais constante. Mesmo com intervalos 
1 My hair like Jesus wore it Hallelujah, I adore 
it Hallelujah, Mary loved her son why don’t my 
mother love me. Da música Hair, musical do 
mesmo nome.
de anos. Mas quem se importa? To-
dos dão-se virtualmente as mãos. 
Pobres garotos e garotas. Pobres 
todos nós. O sentimento de solidão 
e a consciência da morte parecem 
ser atributos especiais (não neces-
SARIAMENTE� ESPECÓl�COS	� DA� ESPÏCIE�
humana. Auto-consciência. Num 
jogo paradoxal, a internet colabo-
ra para o isolamento e ao mesmo 
tempo cria esses espaços virtuais 
�ESPA¥O
TEMPO� VIRTUAL	� RICOS� EM�
comunicação e afetividade, mesmo 
estes sendo exceção, e não a regra. 
“O diabo mora nos detalhes”, 
diz o adágio. “Deus está nos de-
TALHESv� Ï� Al�RMA¥ÎO� EQUIVOCADA
mente atribuída a Einstein, mas 
é engano que elucida a verdade 
contida no adágio: a ambivalência, 
a dialógica de um instrumento (a 
INTERNET	�QUE��D�A�MESMA�FORMA�QUE�
serve como canal para o que há de mais 
doentio, dá ensejo a uma inusitada co-
municação amorosa. 
– Quero conhecer os pensamentos 
de Deus, o resto é detalhe – disse na ver-
dade Einstein. Estará a internet prestes 
a adquirir um dos atributos de Deus, a 
onipresença?
6 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
relações em pauta por Elaine Cristina Siervo
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QUANDO UM 
VÍNCULO COMEÇA 
A SE ESTABELECER, 
É DIFÍCIL O 
CASAL IR PARA A 
CAMA “SOZINHO”. 
AS FIGURAS 
INTROJETADAS 
DA MÃE E DO PAI 
ESTÃO PRESENTES 
NESSA RELAÇÃO 
COMO MODELO 
A SER REPRODUZIDO 
OU EVITADO
RETRATOS de um casamento
SOMOS FRUTOS DE TODAS AS EXPERIÊNCIAS QUE VIVEMOS 
DESDE O NASCIMENTO. A POSIÇÃO QUE OCUPAMOS 
DENTRO DA FAMÍLIA VAI INFLUENCIAR A FORMA COMONOS RELACIONAMOS COM NOSSOS PARES NO FUTURO
C
OMO� ESCREVEU� O� l�LØSOFO�
Zigmunt Bauman (2004), vi-
vemos em uma sociedade lí-
quida, na qual as coisas, em 
sua maioria, são “impermanentes”. Es-
tamos em tempos de amores líquidos, 
em que nas últimas décadas criaram-se 
novos termos e designações para os ti-
POS�DE�RELACIONAMENTO��hl�CARv��hRELACIO
namento aberto”, “poliamor”, “crush”, 
“pegação”, entre outras nomenclatu-
ras. Deseja-se o amor, mas busca-se o 
prazer imediato. As pessoas procuram 
avidamente um relacionamento, mas 
quando surge um pequeno problema, 
geralmente, não encontram condições 
INTERNAS� PARA� RESOLVÐ
LO�� 0OR� FALTA� DE�
condições ou por escolha, as relações 
são descartadas, reiniciando-se a busca 
por outro parceiro.
 Os dados do Instituto Brasileiro 
DE�'EOGRAFIA� E�%STATÓSTICA� �)"'%	�DE
monstram que, nos dois últimos anos, 
2017 e 2018, o número de casamentos 
DIMINUIU� ENQUANTO� O� DE� DIVØRCIOS� AU
mentou. A média da duração dos casa-
mentos caiu de 17 para 15 anos. A par-
tir dessas estatísticas, percebemos que 
ESTÉ�CADA�DIA�MAIS�DIFÓCIL�ESTABELECER�E�
manter relações duradouras. No século 
passado, os casamentos eram para toda 
uma vida. Comemoravam-se bodas de 
prata nos 25 anos de casados e bodas 
de ouro aos 50. Nas últimas décadas, 
apesar da expectativa de vida ter au-
mentado consideravelmente, é muito 
MAIS� DIFÓCIL� PENSARMOS� NESSE� TIPO� DE�
comemoração, devido à pouca duração 
da maioria dos casamentos.
Sabemos, por outro lado, que hoje 
em dia os casamentos que não são 
bons não se mantêm. Muitos autores 
escreveram sobre o casamento e o rela-
cionamento. Existem dezenas de livros 
sobre o amor e a paixão. Mas não exis-
TE�UMA�FØRMULA�QUE�POSSA�SER�APLICADA�
quando se trata de relações humanas. 
O assunto é muito importante, pois 
a relação é um grande caminho para 
revelar nossos aspectos sombrios. Se 
aproveitarmos a oportunidade de au-
toconhecimento que emerge, seremos 
sem dúvida seres humanos mais intei-
ROS�E�FELIZES�
No “caldeirão” chamado relaciona-
mento cabem muitos ingredientes: a 
ATRA¥ÎO� FÓSICA�� A� ADMIRA¥ÎO�� A� IDENTIFI
cação, a projeção, as semelhanças, as 
DIFEREN¥AS�� AS� PREFERÐNCIAS�� OS� hobbies, 
O� ESTILO� DE� VIDA�� OS� TALENTOS�� OS� DEFEI
tos, a convivência com as respectivas 
FAMÓLIAS�DE�ORIGEM��AS�EXPECTATIVAS�EM�
RELA¥ÎO� A� FILHOS� E� COMO� CADA� UM� LIDA�
com dinheiro e carreira, entre outros 
importantes aspectos. Quanto de cada 
um desses ingredientes deve constar 
NA�LISTA�DE�UM�CASAMENTO�FELIZ�E�DURA
douro? Essa receita tão subjetiva nunca 
será equacionada, mas, apesar disso, 
DEVEMOS�PENSAR�E�REFLETIR��/�CASAMEN
TO�ANTIGAMENTE�TINHA�OUTROS�PROPØSITOS�
EM�SUA�CONFIGURA¥ÎO��%RA�VOLTADO�A�DAR�
estabilidade aos parceiros e constituir 
FAMÓLIA�� (OJE�� DIFERENTEMENTE� DE� ANTI
gamente, podemos pensar no aplaca-
mento da solidão e da insegurança em 
que vivemos em todos os sentidos: cul-
tural, social e político. 
Quando um vínculo começa a se 
ESTABELECER�� Ï� DIFÓCIL� O� CASAL� IR� PARA� A�
CAMA�hSOZINHOv��!S�FIGURAS�INTROJETADAS�
da mãe e do pai estão presentes nessa 
relação como modelo a ser reprodu-
ZIDO� OU� EVITADO�� )NFELIZMENTE�� POUCAS�
pessoas podem dizer que gostariam de 
ter um casamento como o de seus pais. 
O modelo da relação dos pais vivido 
psique ciência&vida 7www.portalespacodosaber.com.br
Elaine Cristina Siervo é psicóloga. Pós-graduada na área Sistêmica – Psicoterapia 
de Família e Casal pela PUC-SP. Participa do Núcleo de Psicodinâmica e Estudos 
Transdisciplinares da SBPA (Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica). Atuou na 
área de dependência de álcool e drogas com indivíduos, grupos e famílias. 
NA�SUA�FAMÓLIA�DE�ORIGEM�DEIXA�MARCAS��
Muitos dos casais que procuram psico-
terapia apresentam incompatibilidade 
SOBRE�VÉRIOS�FATORES�QUE�ACREDITAM�SER�
certos e bons para a relação. As pesso-
AS�HERDAM� SEUS�MODELOS� E� SE� FIXAM�A�
eles, às vezes inconscientemente e sem 
REFLEXÎO��
!S� PESSOAS� TÐM� PERCEP¥ÜES� DIFE-
rentes do mesmo ambiente. Irmãos 
que viveram décadas na mesma casa 
possuem visões diversas sobre o casa-
mento de seus pais e cada um pode ser 
AFETADO�DE�VÉRIAS�FORMAS�PELOS�CONmITOS�
FAMILIARES�� /S� MEMBROS� DESSE� NÞCLEO��
PRINCIPALMENTE�OS�lLHOS��PODEM�TER�TA-
REFAS� RELATIVAS� A� MANTER� A� HOMEOSTASE�
DA�FAMÓLIA��!CABAM�POR�OPTAR�POR�ESSES�
PAPÏIS�PARA�SUAS�FUTURAS�RELA¥ÜES�
Vanda Lucio Di Yorio Benedito, 
terapeuta de casais, em seu livro Te-
rapia de Casal e de Família na Clínica 
Junguiana, escreve: “A escolha do par-
ceiro, geralmente, envolve um comple-
xo arsenal de motivações. Ligadas a 
vivências emocionais muito íntimas e 
PROFUNDAS�� ;���=�DE�DIFÓCIL� REPRESENTA¥ÎO�
no nível da consciência. Misturam-se 
desejos de várias ordens, e quanto mais 
inconsciente o indivíduo estiver desses 
desejos, maior a possibilidade de tais 
CONTEÞDOS�SEREM��@lSGADOS��NUMA�RELA-
¥ÎO��;���=�/�INDIVÓDUO�QUE�NÎO�CONSEGUE�
tomar para si aquilo que constitui parte 
DE� SEU�MUNDO� INTERNO� lCA� PERDIDO�DE�
si mesmo, buscando achar-se no outro”.
A psicoterapia de casais tem a gran-
DE�TAREFA�DE�ELUCIDAR�OS�INÞMEROS�FATO-
RES�QUE�INTERFEREM�NA�RELA¥ÎO�CONmITIVA��
A conscientização dos aspectos gera-
DOS�PELA�FAMÓLIA�DE�ORIGEM�DE�AMBOS�Ï�
um bom começo para o tratamento de 
CASAIS��.A�MAIORIA�DOS�CASOS��O�CONmITO�
possibilita o conhecimento e a clari-
lCA¥ÎO� DAS� lXA¥ÜES� DOS� PARCEIROS� EM�
aspectos não integrados de sua perso-
NALIDADE�� !� TAREFA� � CRIAR� UM� TERCEIRO�
modelo, uma união que possa contem-
plar as expectativas trazidas pelos par-
ceiros para essa relação.
8 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
O psiquiatra 
norte-americano Jeffrey 
M. Schwartz revela 
que ainda não existe o 
conhecimento concreto 
do porquê de uma pessoa 
desenvolver o TOC
JEFFREY M. SCHWARTZ
psique ciência&vida 9www.portalespacodosaber.com.br
O 
transtorno obsessivo-compulsivo 
(TOC) atinge milhões de pessoas 
no mundo todo. Frequentemente 
confundido com simples manias 
e hábitos corriqueiros, muitas das pessoas que 
sofrem com ele acreditam que não existe um 
tratamento que possa libertá-las desse mal. 
No entanto, para o psiquiatra norte-america-
no Jeffrey M. Schwartz, uma das formas é re-
direcionar a atenção e mudar para outro com-
portamento. “Se a obsessão for lavar as mãos 
incessantemente, por exemplo, ao invés de agir 
por impulso e correr para a pia, é necessário mu-
dar o foco de atenção: afastar-se da pia sem lavar 
as mãos e tentar realizar outra tarefa distante 
daquele lugar”, diz.
Ao agir dessa maneira, segundo Schwartz, os 
impulsos começam a diminuir, ao mesmo tempo 
em que a química do cérebro mudará. “Não se 
deve querer livrar-se desse sentimento de ime-
diato, já é notável que não teremos sucesso, e 
sim tentar driblá-lo. Não é um exercício que terá 
efeito instantâneo, mas, com persistência, os im-
pulsos diminuem com o tempo”, acrescenta.
Schwartz é pesquisador no campo da neuro-
plasticidade e sua aplicação ao transtorno ob-
sessivo-compulsivo (TOC). Atualmente é pro-
fessor adjunto de Psiquiatria da UCLA School 
of Medicine, nos Estados Unidos, e integrante 
da Sociedade Internacional para Complexidade, 
Informação e Design. 
O psiquiatra é autor, entre outros, do livro TOC 
– Livre-se do Transtorno Obsessivo-compulsivo, publi-
cado pela Cienbook, do Grupo Editorial Edipro. 
Ele preparou essas respostas à Psique juntamente 
com Josie Thomson, um dos coautores da nova 
obra The Wise Advocate – The Inner Voice of Strate-
gic Leadership, que ainda não saiu no Brasil.E N T R E V I S T A
Lucas Vasques Peña é jornalista e colabora nesta publicação. 
TRANSTORNO OBSESSIVO- 
-COMPULSIVO DE FAMÍLIA
Por Lucas Vasques Peña
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O psiquiatra norte-americano 
Jeffrey M. Schwartz, especialista 
em neuroplasticidade, diz que há 
uma predisposição hereditária para 
o desenvolvimento do TOC e, 
embora sem cura, os sintomas podem 
melhorar com tratamento adequado
10 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
associados a impulsos como checar, 
limpar, arrumar ou outros meios de 
tornar algo “ainda mais perfeito”. É 
importante salientar que os sintomas 
do TOC sejam reconhecidos pela 
pessoa e que esta saiba que eles não 
fazem muito sentido, de acordo, pelo 
menos, com as manifestações mais 
clássicas dessa doença.
COMO DIFERENCIAR UMA SIMPLES MA-
NIA DE UM PROBLEMA MAIS SÉRIO QUE 
SE CARACTERIZA COMO TOC?
SCHWARTZ: O que diferencia um 
simples hábito/mania do TOC é a 
compreensão de que o pensamento 
e o impulso de fazer algo compulsi-
vamente não fazem muito sentido e 
são severamente repetidos, mediante 
a angústia crônica de não realizá-los. 
HÁ PESSOAS MAIS PREDISPOSTAS AO 
TOC OU TODOS ESTAMOS SUJEITOS A 
APRESENTAR O TRANSTORNO?
SCHWARTZ: Def initivamente, há 
uma predisposição hereditária para 
o desenvolvimento do TOC, que 
pode ser vista através da árvore 
genealógica. Qualquer pessoa pode 
ter sintomas de TOC quando estiver 
sob estresse. A diferença aparece 
quando há uma doença real e os 
sintomas do TOC não se dissipam 
quando o período de estresse acaba.
O TOC PODE SER ENCARADO COMO 
UMA ESPÉCIE DE MECANISMO DE AUTO-
DEFESA, AUTOPROTEÇÃO?
SCHWARTZ: No sentido que os sinto-
mas são relacionados com comporta-
mentos como checar coisas e limpar, 
então sim. O problema do TOC é que 
a compulsão de limpar e checar não 
é resolvida de uma maneira normal 
e continua a incomodar o indivíduo 
mesmo depois de tudo ter sido checa-
do e limpo. Isso se deve ao fato de o 
cérebro possuir mecanismos relacio-
nados a esses comportamentos que 
não são desligados corretamente. É 
daí que vem o termo “cérebro travado”.
JÁ SE SABE POR QUE A PESSOA DESEN-
VOLVE O TRANSTORNO OBSESSIVO-
-COMPULSIVO?
SCHWARTZ: Sabemos que há a predis-
posição genética para o desenvolvi-
mento do transtorno obsessivo-com-
pulsivo (TOC) no indivíduo. Porém, 
ainda não temos conhecimento con-
creto do porquê de uma pessoa de-
senvolver o TOC.
EXISTE ALGUMA CAUSA DETERMINA-
DA QUE FUNCIONE COMO UM GATILHO 
PARA QUE A PESSOA COMECE A SOFRER 
DE TOC?
SCHWARTZ: Eventos estressantes da 
vida com certeza inf luenciam para o 
começo dos sintomas do TOC. Além 
disso, para as pessoas que já possuem 
uma predisposição genética, esses 
sintomas podem ser de longa dura-
ção e não desaparecer depois que o 
estresse se dissipar. Não há cura para 
o transtorno, mas os sintomas me-
lhoram com tratamento adequado.
Qualquer pessoa 
pode ter sintomas de 
TOC quando estiver 
sob estresse. A diferença 
aparece quando há 
uma doença real e os 
sintomas do transtorno 
não se dissipam 
quando o período 
de estresse acaba
QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS CARACTERÍS-
TICAS DO TOC?
SCHWARTZ: As principais caracterís-
ticas do TOC incluem: pensamentos 
intrusivos e indesejados que são in-
cômodos. A estes damos o nome de 
obsessões. Eles são frequentemente 
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psique ciência&vida 11www.portalespacodosaber.com.br
sões são os incômodos pensamentos 
que sempre voltam à mente. Já as 
compulsões são os comportamentos 
e impulsos para certos momentos. 
Dessa forma, os pensamentos e com-
portamentos estão relacionados entre 
si, mas obsessões e compulsões não 
são a mesma coisa.
HÁ ALGUM TIPO DE TOC ESPECÍFICO 
QUE TEM MAIOR INCIDÊNCIA, COMO LA-
VAR AS MÃOS VÁRIAS VEZES SEGUIDAS, 
OU ISSO É ALEATÓRIO?
SCHWARTZ: Os sintomas mais comuns 
do TOC são a limpeza, a checagem 
e o perfeccionismo exagerado, a todo 
momento. E isso def initivamente não 
é aleatório.
O TOC APARECE COM MAIS FREQUÊN-
CIA EM ALGUMA FAIXA ETÁRIA ESPECÍ-
FICA OU INDEPENDE DE IDADE?
SCHWARTZ: O TOC, comumente, 
ocorre na adolescência e no começo 
da idade adulta, mas pode, certamen-
te, ocorrer durante a infância, e al-
gumas vezes quando já mais velho. É 
raro, entretanto, adultos com mais de 
35 anos começarem a desenvolver a 
doença, a não ser que ele tenha algu-
ma condição médica que cause lesão 
cerebral ou dano ao órgão.
É MAIS COMUM EM MENINOS OU ME-
NINAS?
SCHWARTZ: É praticamente igual, sem 
distinção de gênero.
É CORRETO AFIRMAR QUE O TOC NÃO 
TEM CURA E O TRATAMENTO É FEITO 
À BASE DE MEDICAMENTOS E TERAPIA?
SCHWARTZ: O TOC não tem uma 
cura. Então, o tratamento é baseado 
no uso de medicações e vários tipos 
de terapias cognitiva e comporta-
mental. Com a terapia, é possível 
melhorar, mas não consideramos um 
tratamento para o TOC um sucesso 
quando os sintomas desaparecem, 
pois frequentemente eles não somem IMA
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O problema 
do transtorno 
obsessivo-compulsivo 
é que a compulsão de 
limpar e checar 
não é resolvida de 
uma maneira normal e 
continua a incomodar 
o indivíduo mesmo 
depois de tudo ter 
sido checado e limpo
LIVRO SERVE COMO GUIA PARA DERROTAR O TOC
 PARA SABER MAIS 
O livro TOC – Livre-se do Transtorno Obsessivo-compulsivo é um guia para combater a doença e derrotá-la. Com um método de quatro pas-
sos, segundo Schwartz, a pessoa terá condições de reprogramar seu cére-
bro e livrar-se das falsas mensagens causadas pelo transtorno, que travam 
a mente e afetam a vida. Esse método de tratamento do TOC se baseia na 
identificação de obsessões, no reconhecimento da doença, no redirecio-
namento da atenção e, finalmente, na capacidade de ignorar os impulsos. 
Esses passos combinam a terapia cognitiva e o mindfulness (atenção plena) 
e constituem hoje um tratamento-padrão para pacientes com TOC.
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por completo. Porém, com certeza 
se torna melhor no aspecto de ge-
renciamento. As melhoras são de 
tal modo que a vida desse indivíduo 
pode, genuinamente, não ser prejudi-
cada pelo TOC, devido à capacidade 
que as pessoas têm de controlar os 
seus sintomas e o cérebro, de mudar, 
tornando os sintomas mais leves e 
gerenciáveis.
EXISTE DIFERENÇA ENTRE COMPULSÃO 
E OBSESSÃO? QUAIS SERIAM E QUAL DOS 
PROBLEMAS ESTÁ DIRETAMENTE RELA-
CIONADO AO TOC?
SCHWARTZ: Tanto as compulsões 
quanto as obsessões são diretamente 
relacionadas com o TOC. As obses-
12 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
O TOC não possui 
uma cura. Então 
o tratamento é baseado 
no uso de medicações 
e vários tipos de 
terapia cognitiva e 
comportamental. 
As melhoras são 
de tal modo que a 
vida desse indivíduo 
pode, genuinamente, 
não ser prejudicada 
pelo TOC
EXISTEM RELATOS DE CRIANÇAS DE 3 
ANOS COM SINAIS DE OBSESSÕES OU COM-
PULSÕES GRAVES. NESSES CASOS É POS-
SÍVEL DETECTAR A ORIGEM DO PROBLE-
MA? E COMO ELABORAR O TRATAMENTO 
PARA UMA CRIANÇA TÃO PEQUENA?
SCHWARTZ: Certamente não é raro 
para crianças na idade dos 3 aos 10 
anos desenvolverem TOC. O tra-
tamento deve ser feito em conjun-
to entre as áreas da Psicologia e da 
medicina clínica com experiência em 
crianças e adolescentes. 
QUAIS AS DIFERENÇAS ENTRE O TRANS-
TORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO PRO-
PRIAMENTE DITO E O TRANSTORNO 
OBSESSIVO-COMPULSIVO SUBCLÍNICO?
SCHWARTZ: A diferençaestá na gravida-
de do quanto o TOC vai comprometer 
a vida do indivíduo. O TOC subclínico 
é muito menos intrusivo e compromete 
menos as funções da pessoa.
VOCÊ É ESPECIALISTA EM NEUROPLAS-
TICIDADE E AFIRMA QUE A MENTE PODE 
CONTROLAR A QUÍMICA CEREBRAL. 
COMO CHEGOU A ESSA CONCLUSÃO E 
POR QUÊ?
SCHWARTZ: Nós, certamente, acredita-
mos que a mente possa inf luenciar na 
alquimia do cérebro, mas, também, é 
claro que com uma condição tão grave 
quanto o TOC a mente não consegue 
controlar por completo a alquimia do 
cérebro. Chegamos a essa conclusão 
depois de estudar as mudanças de 
imagem no cérebro de pacientes que 
tiveram tratamento com a terapia cog-
nitiva e comportamental.
EM 1997, VOCÊ CRIOU O TERMO BRAIN 
LOCK (“CÉREBRO TRAVADO”) PARA DES-
CREVER O COMPORTAMENTO OBSES-
SIVO-COMPULSIVO E SEU MÉTODO DE 
TRATAMENTO. O QUE SERIA ESSA TRAVA 
E COMO FUNCIONA NA MENTE HUMANA?
SCHWARTZ: O termo “cérebro tra-
vado” é uma referência ao fato de o 
centro de hábitos do cérebro f icar 
preso em uma engrenagem, que é 
uma outra forma de pensar no termo 
“cérebro travado”. Do mesmo jeito 
que um carro, às vezes, trava na en-
grenagem, o cérebro f ica preso em 
comportamentos e é muito dif ícil de 
mudar. Ou, então, o mesmo pensa-
mento continua se intrometendo na 
mente do indivíduo repetidamente. 
Essas dif iculdades, em muitos casos 
de TOC, são causadas pelos proble-
mas geneticamente herdados pelo 
centro de hábitos. Na mente huma-
na, esses pensamentos e impulsos são 
muito intrusivos e dif íceis de divergir 
a atenção. Desse jeito, pode-se dizer 
que se inf iltrar na linha de pensamen-
to do cérebro é um problema.
EM SEU LIVRO TOC – LIVRE-SE DO 
TR ANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO, 
VOCÊ APRESENTA QUATRO PASSOS QUE 
Os sintomas mais comuns do TOC são a limpeza, a checagem e o perfeccionismo exagerado, a todo 
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psique ciência&vida 13www.portalespacodosaber.com.br
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Tanto as compulsões quanto as 
obsessões são diretamente relacionadas 
com o TOC. As obsessões são os incômodos 
pensamentos que sempre voltam à mente. 
Já as compulsões são os comportamentos 
e impulsos para certos momentos
VÃO MUDAR A QUÍMICA DO CÉREBRO E 
LIVRAR AS PESSOAS DA DOENÇA. PODE 
EXPLICAR QUAIS SÃO ESSES PASSOS?
SCHWARTZ: Os quatro passos são: 1) 
renomear; 2) reatribuir; 3) redirecio-
nar a atenção; 4) reavaliar. Esses pas-
sos são usados para ajudar as pessoas 
a perceber que os pensamentos e im-
pulsos são falsas mensagens vindas 
do cérebro. Com esse conhecimento, 
as pessoas podem aprender a redi-
recionar a atenção delas e ter outros 
comportamentos, apesar de que isso 
depende de um grande esforço para se 
fazer. Se feito regularmente, vai modi-
f icar a química subjacente do cérebro 
e os sintomas tendem a f icar menos 
severos e a, genuinamente, melhorar. 
Então, a chave para se aprender a re-
direcionar a atenção a um novo com-
portamento é benéf ica a todos. Nesse 
sentido, o “cérebro travado” pode f icar 
muito menos problemático e preso.
ESSES QUATRO PASSOS COMBINAM A 
TERAPIA COGNITIVA E O MINDFULNESS 
(ATENÇÃO PLENA) E CONSTITUEM HOJE 
UM TRATAMENTO PADRÃO PARA PA-
CIENTES COM TOC. EM QUE MOMEN-
TO ESSAS DUAS TÉCNICAS SE UNEM PARA 
COMBATER O TOC?
SCHWARTZ: A terapia cognitiva é par-
te dos quatro passos para que o lei-
tor perceba que as mensagens vindas 
do cérebro são falsas e que elas não 
exatamente fazem sentido. A parte 
mindfulness é resumida com o ditado: 
“Não sou eu, é meu cérebro”. Signif i-
ca que a pessoa começou a perceber 
que o TOC não é uma parte da iden-
tidade dela – é apenas um sintoma 
de uma condição médica. Essas duas 
técnicas trabalham juntas para aju-
dar as pessoas a redirecionarem suas 
atenções para longe dos sintomas do 
TOC e adquirirem comportamentos 
construtivos. É através desse redire-
cionamento e adoção de outros com-
portamentos que se muda o cérebro.
SEGUNDO A ORGANIZAÇÃO MUNDIAL 
DA SAÚDE (OMS), ATÉ 2020 O TOC 
ENTRARÁ ENTRE OS DEZ MOTIVOS MAIS 
IMPORTANTES DE COMPROMETIMENTO 
POR DOENÇA. EM SUA OPINIÃO, POR 
QUE RAZÃO ESSE TRANSTORNO AVANÇA 
TANTO? O FATO TEM RELAÇÃO COM O 
RITMO DE VIDA MODERNO?
SCHWARTZ: O estresse da vida moder-
na pode, certamente, piorar o TOC, 
mas não é exatamente a causa para 
o aumento do transtorno por si só. É 
mais provável que estejamos apenas 
reconhecendo o transtorno porque 
o estamos compreendendo melhor 
e mais pessoas estão sendo correta-
mente diagnosticadas, isso se compa-
rarmos com antigamente.
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a redirecionar a atenção para 
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preso nas repetições ou 
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O TOC, comumente, ocorre na adolescência e no começo da idade adulta, mas pode, certamente, 
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14 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
psicologia jurídica por Renata Bento
A PRÁTICA DE ASSÉDIO 
MORAL PATROCINADO 
PELA OPRESSÃO IMPÕE 
AO SUJEITO UMA SÉRIE 
DE PERIGOS, UMA VEZ 
QUE PODEM CAUSAR 
OU POTENCIALIZAR 
VÁRIOS DISTÚRBIOS 
EMOCIONAIS
A PRÁTICA DA VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA NO AMBIENTE 
LABORAL SUJEITA A PESSOA A MUITAS SITUAÇÕES QUE PODEM 
CAUSAR OU POTENCIALIZAR VÁRIOS DISTÚRBIOS EMOCIONAIS
Quando o assédio é MORAL
O
trabalho, do ponto de vista 
emocional, é um ato orga-
nizador, tanto que a falta de 
vontade de trabalhar pode 
ser entendida como ausência de vivaci-
dade, ou seja, aponta para algo que não 
vai bem no campo emocional do sujei-
to. O ato de trabalhar expõe o indivíduo 
a certas tarefas que o mantêm em uma 
atividade de rotina e em contato com os 
demais. Ao mesmo tempo que se esta-
belece mais ou menos relação social, de-
pendendo do tipo de trabalho que exer-
ce, também coloca a pessoa em trabalho 
contínuo consigo próprio, por meio da 
intimidade com seus potenciais, e põe 
a mente em funcionamento, saindo da 
inércia; e isso é muito positivo. 
A capacidade de trabalhar é vista 
como algo que retira o sujeito do prin-
cípio de prazer e o expõe ao princípio 
de realidade. O próprio trabalho é a re-
alidade, que o vincula à necessidade de 
manutenção e provimento da própria 
EXISTÐNCIA�� TANTO� NA� ESFERA� l�NANCEIRA�
quanto no contexto social. Há uma ne-
cessidade de adequar as pulsões sexuais 
e agressivas que precisam conviver 
com as regras e normas estabelecidas 
no ambiente laboral. E justamente por 
esse contexto, a capacidade de trabalho 
pode ser considerada como um aspecto 
importante para a manutenção do equi-
líbrio da economia psíquica. 
-AS�COMO�l�CA�PARA�UMA�PESSOA�QUE�
precisa se confrontar diariamente com 
um ambiente hostil no qual sua capaci-
dade é fortemente atacada? 
Desde que surgiram as primeiras re-
lações de trabalho já podia ser observa-
do o assédio. Mas foi devido às amplas 
mudanças no ambiente organizacional, 
com o avanço tecnológico no mundo, e à 
possibilidade de se poder falar a respeito 
é que esse assunto passou a ser ampla-
mente discutido. As pessoas ganharam 
voz e com isso também a coragem para 
falar sobre o tema. 
Embora as relações perversas sempre 
tenham existido, tanto no ambiente de 
trabalho quanto no ambiente familiar, 
atualmente tem havido espaço para se 
discutir sobre o sofrimento ao qual uma 
pessoa pode ser submetida, ferindo sua 
autoestima e sua capacidade de se rela-
cionar consigo própria e com os outros. 
O rendimento tende a baixar e o sujeito 
PODE�AT�MESMO�l�CAR�DEBILITADO��FAZENDO�
com que a situação ataque friamente sua 
saúde mental.Quando uma pessoa ultrapassa a 
barreira da dignidade do outro diante 
de sua existência sendo insistente e in-
conveniente, estamos falando de assédio. 
Observa-se que atitudes como essa em 
que se expõe o outro a situações cons-
trangedoras durante o exercício de seu 
trabalho, frequentemente, ocorrem em 
relações em que há subordinação hie-
rárquica. Isto é, quando pessoas que 
exercem funções de liderança abusam 
da autoridade interferindo psicologica-
mente de forma negativa nos liderados, 
uma maneira clara de terror psicológico 
e violência psíquica. 
A prática de assédio moral patro-
cinado pela opressão impõe ao sujeito 
uma série de perigos, uma vez que pode 
causar ou potencializar vários distúrbios 
emocionais e até mesmo psiquiátricos, 
entre eles a depressão e/ou o transtorno 
de ansiedade, porque destrói a capacida-
de de trabalho e a resistência psicológica 
das vítimas. 
Pode parecer simples, mas não é à toa 
que se observa que pessoas envolvidas 
em tramas emocionais em seus trabalhos 
acrescidas da pressão constante por me-
tas e, adicionado a isso, o assédio, podem 
ser submetidas a um grau de sofrimen-
to elevado que pode levar ao suicídio. É 
bem verdade que a forma como cada um 
consegue lidar, suportar e conviver com 
situações emocionais intensas é muito 
particular, avaliando a relação com os 
próprios mecanismos de defesa.
O que se observa é que os assediados 
são pessoas que estão mais disponíveis 
às mudanças, mais abertas às críticas 
e particularmente mais democráticas. 
psique ciência&vida 15www.portalespacodosaber.com.br
rísticas positivas do sujeito e aniquilá-lo 
emocionalmente. 
Embora o assunto seja antigo, ainda 
EXISTE�ESCASSA�BIBLIOGRAlA�A�ESSE� RESPEI-
to. O papel do psicólogo sempre será o 
de combater qualquer ato de violência 
psicológica; e uma empresa bem estrutu-
rada poderá se utilizar de um psicólogo 
organizacional que tenha sido treinado 
para que situações como essas sejam 
detectadas e banidas, com o intuito de 
preservar o bem-estar dos funcionários e 
a saúde organizacional. Entretanto, uma 
vez que uma denúncia sai da esfera orga-
nizacional e passa para a esfera jurídica, 
o psicólogo jurídico ou forense, por ser 
Renata Bento é psicóloga e psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de 
Psicanálise do Rio de Janeiro. Perita em Vara de Família e assistente técnica em 
processos judiciais. Filiada à IPA – International Psychoanalytical Association, à 
Fepal – Federación Psicoanalítica de América Latina e à Febrapsi – Federação 
Brasileira de Psicanálise. Contato: renatabento.psi@gmail.com
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Curiosamente são mais empáticas, éticas 
e com capacidade de liderança informal. 
Pode parecer estranho, mas os agresso-
RES�lCAM� INTIMIDADOS� COM�ESSE� TIPO�DE�
personalidade porque em seu caráter são 
desprovidos de características empáticas 
e, justamente, se sentem ameaçados por 
essas características, já que não as têm 
e querem destruí-las, retirando assim de 
seu radar a ameaça que isso lhes causa. 
Quanto mais o ambiente de trabalho 
for desorganizado e mal estruturado, 
mais propenso à atuação de um líder 
perverso, basta encontrar uma brecha e 
ele ampliará sua necessidade de realiza-
ção pelo desejo de poder. As técnicas são 
sempre as mesmas, perceber quais são 
os medos e aproveitar as fraquezas do 
outro. O assediado pode chegar ao pon-
to de se sentir tão confuso que poderá 
ainda dar razão ao agressor, isso é muito 
comum. Seu papel é minar as caracte-
atuante no campo do Direito, terá maio-
res condições de atuar como assistente 
técnico da parte em casos em que se ob-
serva maior necessidade de entendimen-
to sobre a dinâmica da personalidade 
humana; em casos em que se observa a 
necessidade de perícia psicológica ou do 
CONHECIMENTO�TÏCNICO�DO�PROlSSIONAL�DA�
Psicologia para assessoria.
 O assédio moral costuma ser sutil, e 
esses pontos mais obscuros o psicólogo, 
através dos estudos e de sua experiên-
cia, possui maior habilidade para detec-
tar, elaborar quesitos e avaliar delinean-
do no processo jurídico aspectos antes 
não observados.
16 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
in foco por Michele Müller
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PE
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S
egundo o economista Paulo 
Saf fo, citado pela revista 
americana Forbes como um 
dos analistas de tendências 
mais respeitados da atualidade, a 
economia se divide em ciclos que 
remodelam drasticamente nosso 
comportamento e a forma como a 
sociedade de organiza. Com nossa 
fantástica capacidade de adaptação, 
aderimos às mudanças, reorganiza-
mos nossas expectativas e, sem nos 
darmos conta, colaboramos para 
a construção de uma nova fase da 
nossa história , batizada pelo econo-
mista como “era do criador”.
Para esclarecer como chegamos 
aqui e o que isso signif ica, ele faz 
uma breve revisão de momentos de-
terminantes da economia a partir 
do início do século XX, quando as 
cidades começaram a crescer rapi-
damente com a industrialização, o 
A QUALIDADE CRIATIVA SE TORNA 
UMA ESPÉCIE DE ATALHO PARA 
O FUTURO, POIS ESTAMOS NOS 
DISTANCIANDO DO REPETITIVO E DO 
PREVISÍVEL E VOLTANDO O INTERESSE 
AO QUE ESCAPA DO SENSO COMUM
Entramos 
na era 
do criador
psique ciência&vida 17www.portalespacodosaber.com.br
ramento, possibilita que a criativi-
dade corra solta e se destaque como 
a marca do nosso tempo. Assim, 
a era do consumidor criador pas-
sa a ser também a da criatividade. 
Quanto mais informações estão 
acessíveis, mais são geradas possi-
bilidades de combinações diferentes 
de todo esse conhecimento. Nesse 
novo ciclo econômico, a criativida-
de é quase um pré-requisito para o 
sucesso nas interações sociais e pro-
f issionais.
Tanto é que essa habi l idade nun-
ca foi tão va lor izada pelo merca-
do. O Fórum Econômico Mundia l 
(O Futuro do Trabalho) apontou a 
cr iat iv idade como terceira habi l i-
dade mais necessár ia pela força de 
trabalho nos próximos anos, atrás 
da capacidade de resolução de pro-
blemas complexos e do pensamento 
cr ít ico. De acordo com o documen-
to, essa necessidade surge como 
consequência da abundância de no-
vos produtos, tecnolog ias e formas 
de trabalhar.
O f ísico teórico e futurista Michio 
Kaku prevê que essa qualidade é uma 
espécie de atalho para o futuro, pois 
estamos nos distanciando do repeti-
tivo e do previsível e voltando o inte-
resse ao que escapa do senso comum. 
Os serviços mais valorizados são os 
que nos diferenciam com relação às 
máquinas – aqueles que dependem 
de pensamentos e atitudes f lexíveis 
e de ações originais. 
Ironicamente, a era de maior de-
senvolvimento tecnológico da his-
tória revisita a criatividade como a 
maior habilidade para lidar com o fu-
turo próximo e próspero para quem 
estiver na contramão dos conceitos 
engessados de uma máquina. 
Michele Müller é jornalista, pesquisadora, especialista em Neurociências, 
Neuropsicologia Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica 
estratégias para o desenvolvimento da linguagem. Seus projetos e textos 
estão reunidos no site www.michelemuller.com.br
O FÓRUM 
ECONÔMICO 
MUNDIAL APONTOU 
A CRIATIVIDADE 
COMO TERCEIRA 
HABILIDADE MAIS 
NECESSÁRIA 
PELA FORÇA DE 
TRABALHO, ATRÁS 
DA CAPACIDADE 
DE RESOLUÇÃO 
DE PROBLEMAS 
COMPLEXOS E 
DO PENSAMENTO 
CRÍTICO
que gerou uma demanda crescente 
por novos produtos. Para atender a 
essa classe emergente, a indústria 
voltou seus esforços para a ef iciên-
cia produtiva, ou seja , para a neces-
sidade de produzir mais em menos 
tempo e com custo menor.
O processo de fabricação preci-
sava ser otimizado ao máximo eos 
trabalhadores tinham funções res-
tritas, repetitivas e automáticas para 
não perderem tempo. Trabalhavam 
contra o relógio, em sistemas rig i-
damente organizados. Os primeiros 
automóveis, por exemplo, eram to-
dos pretos. Não porque estava na 
moda ou porque outras opções eram 
inviáveis, mas pelo fato de a tinta 
preta secar mais rapidamente, o que 
garantia maior produtividade.
Superada a escassez de produ-
tos, o mercado tratou de aumentar 
nas pessoas o desejo pelo consumo. 
Foi então que, na década de 1950, a 
publicidade ganhou força, com es-
tratégias criativas que convenciam 
as pessoas de que elas precisavam de 
mais e mais produtos. A criatividade 
passou a ser uma peça importante 
para o aumento de consumo, mas sua 
demanda era restrita a alguns seg-
mentos, como comunicação e artes.
E o apelo criativo – juntamente 
com incentivos econômicos – funcio-
nou tão bem que o consumo exces-
sivo logo revelou seu lado negativo, 
com o uso irresponsável do crédito e 
o surgimento de problemas éticos e 
ambientais. Na sequência, o mercado 
se deparou com novos desaf ios: ago-
ra precisava se adaptar a um consu-
midor já mais consciente e comedi-
do, em um mundo onde a informação 
passou a ser excessiva e, por conta 
desse exagero, a atenção tornou-se 
escassa. A solução foi transformar o 
consumo em experiências.
Como a criatividade e o enga-
jamento são antídotos para a de-
satenção, para atrair uma geração 
mergulhada em distrações passou 
a ser necessário engajar as pessoas, 
envolvê-las em uma rede de criação 
e de ideias que conecta tudo e to-
dos. Mais que alvo f inal de produ-
tos e ideias que são impostos pelo 
mercado, os consumidores passaram 
a participar diretamente da cons-
trução das novidades. E assim sur-
giram cases de sucesso como Uber, 
Wikipedia, AirBnB e projetos cultu-
rais e científ icos viabilizados por cro-
wdfunding, f inanciados pelo público 
– e não mais por entidades distantes 
que decidem o que iremos consumir.
O status, segundo Saf fo, deixou 
de ser representado pelo preço ou 
pela quantidade de coisas que pos-
suímos e passou a ser representado 
pelo novo – o novo construído em 
conjunto, como experiência social e 
cultural.
Essa rede de conexões e ideias, 
em constante movimento e aprimo-
18 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
utilidade pública por Cláudia Maria França Pádua
Um silêncio que MATA
TODO ATO QUE RESULTA EM AGRESSÃO FÍSICA, 
SEXUAL OU PSICOLÓGICA É CONSIDERADO VIOLÊNCIA 
CONTRA A MULHER. ESSA AGRESSIVIDADE LATENTE É 
UMA TRISTE REALIDADE, COMPROVADA PELAS PESQUISAS 
aferiu que 2% dos homens admitem es-
pontaneamente ter cometido violência 
sexual contra uma mulher, mas diante 
de uma lista de situações 18% reconhe-
cem terem sido violentos. Quase um 
quinto dos 100 milhões de homens 
brasileiros. E, curiosamente, um estudo 
recente revelou que 90% concordam 
que quem presencia ou fica sabendo 
de um estupro e fica calado também 
Inúmeras pesquisas mostram, há 
anos, a vergonhosa prevalência da vio-
lência contra as mulheres. Em 2013, 
13 mulheres morreram todos os dias 
vítimas de feminicídio, isto é, assassi-
nato em função de seu gênero. Cerca 
de 30% foram mortas pelo parceiro ou 
ex-companheiro (fonte: Mapa da Vio-
lência 2015). Outra pesquisa do Insti-
tuto Locomotiva, dessa vez de 2016, 
A 
agressividade é a arma que 
o indivíduo utiliza para ma-
nifestar seu ódio. Existem 
vários tipos de violência e 
os estudos desse tipo de comporta-
mento são constantes com o intuito 
de descobrir as causas que levam o ser 
humano a cometer tal infração e que 
causam indignação aos olhos atentos 
da sociedade.
psique ciência&vida 19www.portalespacodosaber.com.br
É necessário que as autoridades 
realizem emergencialmente políticas 
que inviabilizem esse avanço, para que 
esse crime não faça parte das princi-
pais estatísticas, em que 22 milhões 
das brasileiras com 16 anos ou mais, 
relatam ter sofrido algum tipo de as-
sédio em 2018. Vítimas com ensino 
médio e superior relatam, em seus de-
poimentos, terem sofrido algum tipo 
de assédio em maior número, do que 
aquelas com ensino fundamental. O 
caso mais comum citado pela maio-
ria das mulheres entrevistadas é sobre 
comentários desrespeitosos na rua. 
Sabemos que desde a Idade Média 
a violência psicológica e moral con-
tra as mulheres era muito comum e 
a violência física se valia até mesmo 
dos mais diferentes instrumentos de 
tortura utilizados com as mulheres 
de forma cruel e sem condenação aos 
torturadores. 
O “estripador de seios”, por exem-
plo, costumava ser utilizado para 
punir mulheres acusadas de realizar 
bruxaria, aborto ou adultério. As gar-
ras aquecidas por brasas eram usadas 
para arrancar-lhes os seios. E existi-
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INFELIZMENTE, 
NOSSO PAÍS AINDA 
CAMINHA A 
PASSOS LENTOS NA 
RECRUDESCÊNCIA 
DE LEIS MAIS 
EFETIVAS, EM QUE 
O RESPEITO DEVERIA 
PERMANECER COMO 
PALAVRA-CHAVE
Cláudia Maria França Pádua é psicóloga, criminóloga, analista de inteligência 
criminal. Especialista em Criminologia pela PUC e Acadepol/MG. 
Autora do livro O Criminoso e seu Juízo... Existe Prazer em Matar? Presidente 
do Núcleo de Estudos Ponto Criminal, palestrante, escritora e comentarista 
criminal na área de Criminologia, Fisiognomonia e Inteligência Criminal. Contato: 
Email: pontocriminal@gmail.com
é culpado. Um percentual relevante, 
mas porque ainda há tanto silêncio? 
Cinco tipos de violência enqua-
dram todos esses estudos: 1- violência 
psicológica: causa danos à autoestima 
da vítima. Podendo ocorrer em casa, 
na escola, no trabalho, proporcionan-
do humilhação, desvalorização, ofensa, 
chantagem, manipulação, constrangi-
mento e outros; 2- violência física: causa 
danos ao corpo da vítima, como socos, 
pontapés, chutes, amarrações e mordi-
das, impossibilitando defesa; 3- violên-
cia moral: qualquer conduta que pro-
porcione calúnia, difamação ou injúria; 
4- violência sexual: esta não se limita 
somente ao estupro propriamente dito, 
mas a atos de violência proibitivos, 
como por exemplo não uso de contra-
ceptivos, obrigação de práticas sexuais, 
“encoxada” nos transportes públicos, 
exploração do corpo de adolescentes e 
PEDOlLIA�� �
 violência simbólica: utiliza-
ção feminina como “objetos de desejo” 
(propagandas, outdoors etc.), traçando 
uma imagem negativa da mulher.
O alerta que ecoa é que a violência 
é silenciosa. Ela ocorre nas residên-
cias, nos espaços públicos e em qual-
quer lugar onde a mulher é assediada. 
O assédio é um comportamento cri-
minoso e deve ser severamente tratado 
como tal. Seu desenvolvimento relacio-
na-se com a carência emocional ou com 
a separação na infância com o elo ma-
terno. A partir deste momento, criam-se 
no indivíduo condutas antissociais, um 
desajuste afetivo, podendo levá-lo ao co-
metimento de crimes, para sentir prazer 
no sofrimento dos outros, gerando uma 
excitação cortical, causando-lhe grande 
satisfação da libido e de seu ego malfor-
mado por uma personalidade psicopá-
tica e doentia, na qual os impulsos do 
mal ganham lugar e ímpeto para come-
ter tais absurdos. Nesse exato momento 
se instaura o grau de periculosidade do 
agressor. Portanto, muitas vezes, senão 
na maioria delas, o agressor sabe que 
está cometendo um delito e sente, inclu-
sive, prazer nesse comportamento. 
ram tantos outros instrumentos cruéis 
que marcaram a história mundial e re-
gistraram como a mulher foi e ainda 
é tratada. 
No Brasil, a tortura se divideem 
duas fases: a primeira, que se estende 
do Brasil-Império até a nossa Consti-
tuição Federal de 1988. A produção 
de prova se fazia, até aquela época, 
de forma brutal, e a escravatura, lega-
lizada, tornava o ambiente adequado 
à violação da dignidade humana. O 
Código Criminal de 1830 previu como 
agravante o aumento da dor física e o 
termo “tortura”, que aparece na Lei 
Penal Brasileira em 1940, quando é ar-
rolada entre os meios cruéis que agra-
vam o delito.
A segunda fase se inicia com a Cons-
tituição, sob o desrespeito sistemático 
às liberdades fundamentais do homem, 
ocorrido nas décadas anteriores.
Tipificada finalmente a tortura 
como crime em nossa legislação, es-
pera-se que as formas mais silenciosas 
como as violências psicológica, moral 
e simbólica tenham um olhar atento 
para sua erradicação. Infelizmente, 
nosso país ainda caminha a passos 
lentos na recrudescência de leis mais 
efetivas, em que o respeito deveria 
permanecer como palavra-chave.
As mulheres têm sim exercido sua 
voz, mas mergulham por vezes em 
um conformismo de cultura social 
que não deverá mais ser aceito e 
precisa urgentemente ser resolvido 
com políticas públicas adequadas e 
com a conscientização. afinal, não se 
pode ficar imune diante da violência 
que assola o País e gera incredulidade 
mediante tais fatos.
Sabemos que as palavras têm a força 
da razão, enquanto a crueldade emana 
do poder do ódio e da anomia... 
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psicopedagogia por Maria Irene Maluf
TODO EXCESSO 
EM EDUCAÇÃO 
TEM UM PREÇO 
DIFÍCIL A SE 
PAGAR MAIS 
TARDE. A 
ANSIEDADE 
PODE LEVAR 
JUSTAMENTE 
AO FRACASSO 
ESCOLAR E À 
DESMOTIVAÇÃO 
PARA ESPORTES, 
ARTES E OUTRAS 
ATIVIDADES
Pouca IDADE
para muita 
PRESSÃO
V
ítimas do desconhecimento e 
vaidade dos pais, do excesso 
de zelo ou negligência dos 
adultos no lar e na escola, 
de uma agenda excessivamente cheia 
de afazeres e planejamento absoluto 
de seus deveres e até dos momentos de 
diversão, das exigências em ser sempre 
bem-sucedido, popular, líder de grupo 
E� OUTROS� TANTOS� DESAl�OS� EXTENUANTES��
vemos hoje um número excessivo de 
crianças e adolescentes ansiosos e que 
chegam a um nível de estresse muito 
impróprio para a pouca idade. 
Além dos danos ligados ao emocio-
nal e ao social, existe um prejuízo pesso-
al que compromete o desenvolvimento e 
o aprendizado escolar. Exigir das crian-
ças disciplina e dedicação às tarefas que 
são de sua responsabilidade, em casa e 
NA�ESCOLA��INCUTINDO�UM�DESAl�O�GRADATI
vamente alcançável, é sem dúvida dese-
jável, pois proporciona motivação para o 
psique ciência&vida 21www.portalespacodosaber.com.br
e físico, do qual não se consegue iden-
TIlCAR�A�CAUSA��1UANDO� INQUERIDA�NUMA�
prova, a criança chega a parecer que não 
SABE�NADA��1UANDO�ESTÉ�EM�SITUA¥ÎO�DE�
ser centro das atenções, perde a fala, 
comporta-se de modo estranho. Não su-
porta pressão, não sabe lidar com situ-
ações novas, o que na escola representa 
um problema de difícil manejo. 
Junta-se ao quadro o comportamento 
gregário, ou seja, vive no grupo, se di-
LUINDO�NELE��1UER� SER�EXATAMENTE�COMO�
os amigos, não deseja se destacar deles, 
SEGUE�SUAS�NORMAS�E�SE�TORNA�SUPERlCIAL�
na aprendizagem escolar. O que muitos 
pais chamam de pré-adolescência preco-
ce pode ser perfeitamente um sinal bas-
tante sério de estresse infantil. Conhecer 
E�CONVIVER�COM�OS�AMIGOS�DOS�lLHOS�PO-
dem ser úteis para saber se o grupo tem 
ou não uma forma similar de agir que os 
pais privilegiam, seja em termos de com-
portamento social como também de in-
teresse pelos estudos, esportes, artes etc. 
É sempre aconselhável que as crianças 
tenham mais de dois grupos de amigos, 
para aprenderem a lidar com as diferen-
ças e se sentirem mais seguras, menos 
ansiosas e mais preparadas para tomar 
as próprias iniciativas.
Ajudar as crianças a terem metas de 
acordo com suas aptidões é importan-
te, até para elas aprenderem a identi-
lCAR� A� lNALIDADE� DE� SEUS� ESFOR¥OS� EM�
uma atividade. 
Incentivar a terem suas próprias me-
tas, planos, responsabilidades, estarem 
motivadas na tarefa escolhida, senti-
rem-se apoiadas pelos pais e terem tem-
po para ser crianças é uma complexa 
situação que no dia a dia corresponde a 
DAR�EDUCA¥ÎO��CRIANDO�lLHOS�SEM�ESTRES-
se e com ansiedade controlada a níveis 
favoráveis para seu perfeito desenvolvi-
mento e aprendizado. 
tipo de risco, por menor que seja. É o 
chamado comportamento de luta, que pode 
advir inclusive das próprias ansiedades 
dos pais, do desencorajamento para a 
criança crescer fazendo gradualmente 
suas opções e arcando com os resultados 
de suas ações. Ensinar limites e respon-
sabilidades cria pessoas fortes e indepen-
dentes, desde que tenham oportunidade 
de vivenciar na prática essas situações 
em que os prós, os contras e as conse-
quências sejam claros. Sem pressão, mas 
com estímulo e o aprendizado de novas 
estratégias, a criança vai vencer essa re-
lutância em se arriscar e desenvolver a 
resiliência para a frustração.
Também é comum nas crianças es-
tressadas um comportamento de fuga, que 
se caracteriza por evitar determinadas 
circunstâncias, usando desculpas como 
DOEN¥AS��CANSA¥O��lCANDO�Ì�MARGEM�DOS�
amigos, dos grupos, fazendo até coisas 
de que não gosta para fugir de situações 
que acha que não consegue enfrentar.
O comportamento de bloqueio lembra 
uma espécie de engessamento mental 
Maria Irene Maluf é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e 
Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de 
Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É autora de artigos em 
publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de 
especialização em Neuroaprendizagem. irenemaluf@uol.com.br
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amadurecimento, mas é preciso atenção 
e cuidado com as cobranças. 
Nos primeiros seis anos de vida, as 
crianças precisam de brincadeiras livres, 
mas também de brincadeiras estrutu-
radas, nas quais os adultos agem como 
“modelos”, mas sem excesso de forma-
lidade. É preciso agir com cautela, de 
acordo com o desenvolvimento e a idade 
da criança, privilegiando oportunidades 
em que as aptidões sociais possam ser 
treinadas com a supervisão dos pais.
As crianças são seres em desenvol-
vimento, não estão emocional ou bio-
logicamente preparadas para enfrentar 
uma maratona que vai muitas vezes das 
7h da manhã às 10h da noite, sem des-
canso. Precisam de pausas para assimi-
lar o aprendizado, necessitam de tempo 
de brincadeira com os seus pares, de ar 
livre, exercícios físicos e um pouco da-
quilo que muitos pais chamam de tem-
po perdido, mas que na verdade é o me-
lhor do dia: a hora em que podem curtir 
seus brinquedos, usar seu ipad, fazer o 
esporte favorito, assistir um programa 
divertido, ler, conviver com os irmãos 
e amiguinhos. Depois podem voltar aos 
afazeres escolares, às aulas de música, 
de esportes, de idiomas etc. 
É compreensível que os pais, traba-
lhando fora o dia todo, queiram ver os 
lLHOS� OCUPADOS� COM� ATIVIDADES� DIRIGI-
das e bem supervisionadas e desejem 
enxergar o progresso da criança na 
forma de um boletim brilhante ou um 
campeonato bem-sucedido. 
Porém nosso cérebro tem uma for-
ma praticamente idêntica de reagir 
àquilo que interpreta como uma amea-
ça ao seu equilíbrio, seja verdadeira ou 
imaginária. Via de regra, o ser humano 
LIDA�COM�AS�DIlCULDADES�DE�QUATRO�MA-
neiras, que são reveladoras de estresse e 
apontam para a necessidade de ajuda e 
compreensão dos adultos. 
A primeira que se instala é uma súbi-
ta resistência infantil a mudanças, a ten-
tativa constante de permanecer em meio 
a situaçõesfamiliares que lhe parecem 
seguras e a relutância em enfrentar todo 
AJUDAR AS CRIANÇAS 
A TEREM METAS 
DE ACORDO COM 
SUAS APTIDÕES 
É IMPORTANTE, 
ATÉ PARA ELAS 
APRENDEREM A 
IDENTIFICAR A 
FINALIDADE DE SEUS 
ESFORÇOS EM UMA 
ATIVIDADE
COMPORTAMENTO
22 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
COMPORTAMENTO
psique ciência&vida 23www.portalespacodosaber.com.br
Fernando Elias José é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica 
(PUCRS), especialista em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental 
(WP Centro de Psicoterapia Cognitivo-Comportamental), professor 
da especialização em TCC da Facefi, terapeuta certificado pela 
Federação Brasileira de Terapias Cognitivas e presidente de ATC/
RS 2019-2022. É autor dos livros Planner do Estudante: Agenda 
Cognitivo-Comportamental para Sucesso em Provas e Concursos: 
Faça sem Medo – Guia Cognitivo-Comportamental para Aprovação 
em Concursos (Sinopsys Editora).
A preparação para as provas 
gera ansiedade e quanto 
maior a tensão, pior será o 
desempenho em uma avaliação
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Por Fernando Elias José
EVENTO 
ESTRESSOR 
COMPORTAMENTO
24 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
O estresse é 
entendido como 
uma ruptura da 
homeostase que 
não ocorre apenas 
frente a estímulos 
aversivos, mas 
também como 
uma reação intensa 
do organismo 
diante de um 
evento que altere 
a vida, seja ele 
negativo ou não
Desde o nascimento, o ser humano já está exposto a diferen-tes situações que se apresentam como 
desafios que geram crescimento e 
desenvolvimento positivo frente à 
vida. Em vários momentos, ele tam-
bém se depara com eventos que ex-
cederão a sua capacidade percebida 
para lidar com isso, podendo gerar 
esgotamento e ansiedade. Embora 
também tenha sido vivenciado por 
nossos antepassados, o estresse tem 
afetado grande parte da população 
atual, estando fortemente presente 
na vida moderna. 
Ele é entendido como uma rup-
tura da homeostase que não ocorre 
apenas frente a estímulos aversi-
vos, mas também como uma reação 
CARACTERÍSTICAS DE AUTOEFICÁCIA 
PARA MELHOR DESEMPENHO 
 PARA SABER MAIS 
U
m estudo realizado na Holanda avaliou grupos de oficiais militares durante 
a finalização de suas atividades, sendo expostos a um evento estressor 
agudo. Os pesquisadores constataram que os militares tiveram melhor desem-
penho quando concentraram sua atenção na fonte de estresse ou no trabalho 
a ser desenvolvido do que em suas emoções. A pesquisa indicou que, em-
bora as pessoas apresentem características individuais quanto a seus modos 
de enfrentamento, a situação específica pode ser dinâmica e variável. Nes-
se sentido, indivíduos 
com fortes caracterís-
ticas de autoeficácia, 
que confiam em seus 
modos habituais de 
enfrentamento, apre-
sentaram melhor ca-
pacidade de lidar com 
a pressão. As crenças 
de autoeficácia ba-
seiam-se na avaliação 
ou percepção pessoal 
quanto à própria inteli-
gência, às habilidades, 
aos conhecimentos etc. 
Desde o nascimento, o ser humano está exposto a diferentes situações que se apresentam como de-
safios que geram desenvolvimento positivo frente à vida
intensa do organismo frente a um 
evento que altere a vida, seja ele 
negativo ou não. Assim, o estresse 
desenvolve-se à medida que as exi-
gências se tornam superiores à capa-
cidade das pessoas de manejá-las ou 
superá-las, impossibilitando-as de 
psique ciência&vida 25www.portalespacodosaber.com.br
O esgotamento 
desenvolve-se 
à medida que 
as exigências se 
tornam superiores 
à capacidade 
das pessoas 
de manejá-las 
ou superá-las, 
impossibilitando-as 
de criar estratégias 
para enfrentá-las 
adequadamente
criar estratégias para enfrentá-las 
adequadamente. 
Há dois tipos de estresse: o 
negativo, que é repetitivo, prolon-
gado, paralisa, transtorna e exau-
re, e o positivo, que impulsiona e 
dá forças. Respostas positivas aos 
estímulos estressantes são consi-
deradas como crescimento e de-
senvolvimento intelectual e emo-
cional, chamado de eustresse . O 
esforço de adaptação gera sensação 
de realização pessoal, bem-estar e 
satisfação, mesmo que decorrente 
de esforços inesperados, sendo de-
sencadeado por situações tensas, 
mas sadias. Já a resposta negativa, 
chamada de distresse, é causada por 
situações danosas, podendo ser 
passageira ou prolongada.
Um evento 
pode ser en-
tendido como 
i r r e l e v a n t e , 
benigno ou es-
tressante. São 
consideradas fon-
tes estressoras aquelas que 
têm o efeito de interferir na 
dinâmica da v ida do 
organismo, o qual 
tenta adaptar-se 
ao evento es-
tressor e, nesse 
processo, uti l iza 
grande quantidade 
de energia. Quando 
a resposta é de in-
tensidade e tempo 
l imitados, o organis-
mo consegue adaptar-se a ela; 
porém, quando a intensidade ou 
a duração de tempo ultrapassam a 
capacidade das pessoas, o estres-
se pode gerar como consequência 
distúrbios psiquiátricos e/ou ou-
tras doenças. A lguns estímulos 
terão a resposta de estresse v incu-
lada à capacidade f ísica e ao esta-
do geral de saúde do organismo, 
como, por exemplo, temperatu-IMAG
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ras extremas, privações diversas 
(al imento, água, sono etc.) e trau-
mas f ísicos, sendo que, dentro de 
uma estreita faixa de variabil ida-
de, provocam respostas de estresse 
em praticamente todo o organismo 
a ele exposto. 
O evento estressor, por si só, 
não tem a capacidade de determi-
nar o nível de estresse, uma vez 
que cada pessoa irá enfrentá-lo de 
maneira diferente. O nível de es-
tresse dependerá da avaliação e da 
interpretação subjetivas que cada 
um faz, estando as respostas com-
portamentais e cognitivas nele 
envolv idas. Durante o processo 
de avaliação, há uma tendência de 
interpretar as situações como mais 
Embora tenha sido 
vivenciado por 
gerações anteriores, 
o estresse tem 
afetado grande 
parte da população 
atual, estando muito 
presente na vida 
moderna
COMPORTAMENTO
26 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
Um evento pode ser irrelevante 
ou benigno. São consideradas fontes 
estressoras aquelas que têm o efeito 
de interferir na dinâmica da vida, 
fazendo inclusive que o organismo 
se modifique fisiologicamente
perigosas do que realmente são. 
Nesse caso, o estressor é o próprio 
pensamento que, em função de 
crenças e regras aprendidas atra-
vés das experiências de v ida, pode 
relacioná-las a um novo evento e 
interpretá-lo como ameaçador ou 
não. Portanto, ao depender de uma 
relação entre ex igência e meios in-
ternos ou externos disponíveis, as 
reações ao estresse são determina-
das pela capacidade do organismo 
em atendê-las. 
O organismo sempre tenta 
adaptar-se ao evento estressor e, 
nesse processo, utiliza grandes 
quantidades de energia adaptativa. 
A reação ao estressor faz com que 
o organismo se modifique f isiologi-
estilo de vida, experiências prévias, 
atitudes, valores, doenças e predis-
posição genética também são im-
portantes no desenvolvimento des-
se processo. O estresse prolongado 
provoca cansaço e tensão em níveis 
f ísico e mental, aumentando o risco 
de se contraírem problemas de saú-
de. Entre as respostas f isiológicas 
ao estresse, observa-se a ativação 
do sistema nervoso autônomo e do 
eixo hipotálamo-hipófise-adrenal 
(HPA), embora outras áreas alta-
mente complexas do cérebro tam-
bém sejam recrutadas, como aque-
las que regulam os processos de 
memória, o aprendizado e a tomada 
de decisão. 
Epidemia
Segundo dados da Organização 
Mundial da Saúde (OMS), 90% da 
população mundial e 70% dos bra-
sileiros são afetados pelo estresse. 
Pesquisas mostramque os motivos 
são variados. Podemos considerar 
uma epidemia mundial, visto que 
ele é responsável por várias outras 
patologias. As respostas podem ser 
fisiológicas e/ou psicológicas. Não 
apenas a pressão por desempenho 
promove o estresse, mas também 
o estado de tensão gerado no or-
ganismo compromete o próprio de-
sempenho das pessoas. 
camente para lidar com um ataque, 
alterando temporariamente a for-
ma somática para uma ação de “ luta 
ou fuga” que permite ao organismo 
dirigir toda a sua energia ao manejo 
da ameaça. Quando cessa a ameaça, 
o organismo volta ao seu estado de 
atividade normal; porém a capaci-
dade de uma pessoa para suportar 
o estresse tem um limite. A respos-
ta aos eventos estressores depende 
das forças de resistência, da neces-
sidade de desafios, das exigências 
externas, dos traços de personali-
dade, das percepções de apoio so-
cial e do estado de saúde (equilí-
brio orgânico e mental) em que se 
encontra o indivíduo. Fatores como 
Pessoas que estão passando por um processo estressante, apresentam uma tendência de interpretar as 
situações como mais perigosas do que realmente são
psique ciência&vida 27www.portalespacodosaber.com.br
Quando a resposta é de intensidade e tempo 
limitados, o organismo se adapta a ela; porém, 
quando a intensidade ou a duração de tempo 
ultrapassam a capacidade das pessoas, o 
estresse pode gerar distúrbios psiquiátricos
Resistência e exaustão 
A síndrome de adaptação geral (SAG) é um padrão consisten-
te de respostas ao estresse, que foi 
dividido em três estágios: alerta, 
resistência e exaustão. O primei-
ro estágio, o de alerta ou alarme, 
é uma reação inicial diante de um 
estímulo estressor, considerando a 
fase positiva da resposta, visto que 
prepara a pessoa para enfrentar a 
situação e, em seguida, retomar o 
equilíbrio. As respostas f isiológi-
cas negativas, nessa fase, incluem 
aumento da pressão arterial e da 
frequência cardíaca, tensão mus-
cular, insônia, entre outras. As res-
postas f isiológicas positivas com-
preendem o aumento da atenção e 
velocidade de pensamento, além do 
aumento súbito da motivação. 
Caso o estressor não seja el i-
minado, o organismo passa para a 
segunda fase, a de resistência, em 
que a pessoa tenta adaptar-se gas-
tando muita energia para l idar com 
o fator estressante. Nessa fase, as 
defesas do organismo são prepa-
radas para um ataque mais longo, 
predominando a reação passiva na 
busca pela adaptação. Os sintomas 
observados nesse período incluem 
hipertensão arterial, isolamento 
social, queda de produtiv idade e 
criativ idade, cansaço, diminuição 
da l ibido, dif iculdade de atenção e 
problemas com a memória. Quan-
to maior o tempo gasto na busca 
da homeostase interna, maior será 
o desgaste; persistindo a situação 
estressante, a capacidade do orga-
nismo pode exceder e levar ao ter-
ceiro estágio, isto é, o da exaustão. 
Patologias orgânicas 
Nessa fase, devido ao forte desgaste do organismo, po-
dem surgir patologias orgânicas 
e psíquicas, e ocorrer sintomas 
semelhantes aos do primeiro es-
tágio, embora com magnitude 
maior e irreversível. A lém disso, 
se o estressor permanecer atuan-
do, as reservas de energia do cor-
po serão reduzidas, ocasionando 
um fracasso adaptativo que pode, 
eventualmente, levar à morte. As 
patologias apresentadas nesse es-
tágio incluem doenças cardíacas e 
autoimunes, síndrome de Burnout, 
depressão, entre outras.
Estudos identif icaram uma 
quarta fase, chamada de quase 
exaustão, que se situa entre as fa-
ses de resistência e exaustão. Ela 
provoca uma forte sensação de 
esgotamento no indiv íduo, au-
mentando a chance de descontrole 
emocional e enfraquecimento do 
organismo, gerando vulnerabil ida-
de ou adoecimento inicial não tão 
grave. É importante ressaltar que 
a pessoa nem sempre passa pelas 
quatro fases e/ou apresenta todos 
os efeitos, mesmo em casos extre-
mos. O indiv íduo só atingirá a fase 
de exaustão quando o estressor for 
muito grave e frequente, impedin-
do-o de desenvolver habil idades 
para se adaptar à situação. 
O estresse, em níveis apropria-
dos, aumenta a ef iciência e o de-
sempenho. Presente no cotidiano, 
trata-se de um mecanismo normal, 
necessário e benéf ico, que propor-
ciona maior atenção e sensibil ida-
de frente a situações de perigo ou 
dif iculdade, fazendo com que ele se 
esforce para vencer tais obstáculos. 
Embora o estresse seja ef icaz até 
certo l imite, a sobreposição dessas 
respostas nos níveis f ísico, cogni-
tivo e comportamental, quando 
ultrapassada, pode gerar um efeito 
desorganizador. Especif icamente, 
Uma situação vivenciada de forma prolongada provoca cansaço e tensão em níveis físico e mental, au-
mentando o risco de se contraírem problemas de saúde
COMPORTAMENTO
28 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
Alguns estímulos 
terão a resposta de 
estresse vinculada 
à capacidade 
física e ao estado 
geral de saúde do 
organismo, como, 
por exemplo, 
temperaturas 
extremas, 
privações diversas 
(alimento, água, 
sono etc.) e 
traumas físicos
isso abrange o grau em que as 
pessoas experimentarão o estres-
se diante da perspectiva de uma 
situação de desempenho, da ava-
l iação cognitiva e das ex igências 
da situação, somadas à crença de 
dispor ou não dos recursos neces-
sários para l idar com tudo isso. 
Quando o indiv íduo interpreta 
o evento como ameaça, prejuízo 
ou desaf io, está fazendo um julga-
mento sobre o que a situação ex i-
ge dele, tentando conhecer o que 
há de prejudicial ou benéf ico, re-
levante ou irrelevante para si, fa-
sestruturação ante o perigo, com 
sensação de estar desprotegido. É 
um medo sem objetivo, uma situa-
ção ou uma imagem mental, o indi-
v íduo que a experimenta sabe que 
não se trata de uma ameaça obje-
LEI DE YERKES E DODSON
 PARA SABER MAIS 
Em 1908, Yerkes e Dodson foram os primeiros cientistas a medir a rela-ção entre estresse e desempenho com a chamada Lei de Yerkes-Do-
dson. Segundo os pesquisadores, a relação positiva entre eficiência e de-
sempenho não se prolonga indefinidamente. Na medida em que as situações 
exigem ajustamentos constantes, o estresse pode ultrapassar um limite 
de tolerância, o que contribui para reduzir o desempenho, a eficiência e 
até mesmo a saúde. Assim, os efeitos percebidos psicologicamente como 
necessários e benéficos podem ser positivos ao desempenho; todavia, 
quando ultrapassados, esgota-se a energia psicológica, extrapolando a ca-
pacidade de adaptação do sujeito e prejudicando o seu desempenho. Isso 
faz com que, muitas vezes, o indivíduo sinta-se inútil e desvalorizado, com 
finalidade reduzida e objetivos inatingíveis. 
RELAÇÃO ENTRE ESTRESSE E PERFORMANCE
ESTRESSE
PE
RF
O
RM
A
NC
E
zendo uma avaliação primária dos 
fatos. Por outro lado, quando tenta 
administrar o evento analisando 
os próprios recursos, o seu envol-
v imento emocional e os resultados 
esperados nesse processo para evi-
tar consequências prejudiciais e/
ou antecipar os aspectos benéf i-
cos, ele está realizando uma ava-
l iação secundária. 
Já a ansiedade, trata-se de um 
estado emocional desconfortável 
caracterizado por pressentimen-
to de perigo iminente, atitude de 
espera em relação ao perigo, de-
Entre as respostas fisiológicas ao 
estresse, é possível observar a ativação 
do sistema nervoso autônomo e do eixo 
hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA)
psique ciência&vida 29www.portalespacodosaber.com.br
O evento estressor não tem capacidade 
de determinar o nível de estresse,
uma vez que cada pessoa irá enfrentá-lo 
de maneira diferente. Isso também 
tem relação com as crenças aprendidas 
através das experiências de vida
uma história que a cada momento 
poderá ser modif icadacom novos 
fatos e relatos.
Boa memória 
A memória bem treinada é uma ferramenta básica para se ob-
ter um bom rendimento, assim 
como em toda e qualquer área in-
telectual. O indiv íduo precisa de-
senvolver a capacidade de testar 
conhecimentos memorizados e ha-
bil idades aprendidas, o que pode 
ser alcançado com a ajuda de ins-
trumentos adequados, tais como 
provas ou testes bem elaborados e 
abrangentes. Uma memória clara, 
precisa e rápida será fundamental 
para se trabalhar com tranquil ida-
de e ef iciência. 
Sabe-se, contudo, que não basta 
ter uma inteligência genial ou uma 
espetacular capacidade de improvi-
sar se não estiverem bem gravadas e 
prontamente acessíveis na memória 
as informações pertinentes e ne-
cessárias para se resolver os proble-
mas nos momentos certos. Se não 
As respostas fisiológicas negativas no estágio de alerta incluem aumento de pressão arterial e frequência 
cardíaca, tensão muscular, insônia, entre outras, o que aumenta também a pressão psicológica
tiva. A ansiedade é uma resposta 
de adaptação do organismo que é 
propulsora do desempenho e pos-
sui componentes psicológicos e 
f isiológicos. Trata-se de um esta-
do emocional transitório ou uma 
condição do organismo humano, 
caracterizado por sentimentos de-
sagradáveis de tensão e apreensão, 
conscientemente percebidos. As 
respostas orgânicas à ansiedade 
leve determinam o aprendiza-
do. Entretanto, a concentração, o 
aprendizado e a percepção aumen-
tam ou são distorcidos quando 
ocorre um aumento na intensidade 
da ansiedade.
Em função disso, ocorrerão 
prejuízos que podem ser cognitivos 
(como pensamento e conhecimen-
to), emocionais (como sentimen-
tos, emoções e personalidade) ou 
comportamentais (relacionados 
igualmente aos fatores cognitivos e 
afetivos). Os efeitos cognitivos do 
excesso de estresse envolvendo de-
sempenho estão ligados ao decrés-
cimo da concentração e da aten-
ção. O aumento da desatenção e a 
deterioração da memória de curto 
e longo prazo diminuem não ape-
nas a sua amplitude, mas também 
a lembrança, o reconhecimento e 
as capacidades de organização e 
planejamento. A velocidade real de 
resposta reduz-se, aumentando o 
índice de erros, i lusões e distúrbios 
de pensamento que prejudicam a 
objetividade e o poder de crítica, 
tornando confusos e irracionais os 
padrões de pensamento.
Entretanto, as lembranças de 
uma pessoa podem ser incom-
pletas, distorcidas ou até mesmo 
apresentar uma tendência especí-
f ica, não sendo incomum obser-
var a mesma lembrança ocorrer 
de modo diferente entre pessoas 
diversas. Por essa razão, é muito 
importante observar a memória 
indiv idual, v isto que uma mesma 
história tem várias facetas, sendo 
que cada pessoa guarda e recupe-
ra determinado fato de forma não 
igual. Com isso, demonstra-se que 
a memória não funciona como uma 
f i lmadora por meio da qual sem-
pre se obtêm os dados objetivos 
f ielmente aos fatos. A memória é 
COMPORTAMENTO
30 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
As lembranças de uma pessoa podem 
ser incompletas, distorcidas ou até 
mesmo apresentar uma tendência 
específica, não sendo incomum observar 
a mesma lembrança ocorrer de modo 
diferente entre pessoas diversas
estiverem gravados na memória os 
resultados que se deseja obter e os 
processos necessários para realizar 
os objetivos, será impossível fa-
zer uma escolha racional, segura e 
bem-sucedida. Para muitas pessoas, 
pode ser habitual estudar por obri-
gação, e não por prazer; apesar dis-
so, uma boa memória não dispensa 
a capacidade de análise crítica dos 
fatos. De modo simples, pode-se 
dizer que aprender é memorizar, 
sejam dados ou procedimentos, de 
sorte que essas informações sejam 
facilmente lembradas quando se 
precisar delas. Se as pessoas tenta-
rem memorizar agrupando infor-
mações desordenadamente, terão 
dif iculdades para lembrar.
A autoeficácia
A autoef icácia é considerada um dos mecanismos psicoló-
gicos que compõem a motivação, 
mas não basta que as capacidades 
Esforço ou tensão 
O termo estresse foi inicialmen-
te utilizado na Física para traduzir 
o grau de deformidade sofrido por 
um material quando submetido a es-
forço ou tensão. Posteriormente, foi 
então transposto para a Medicina e 
a Biologia, significando o esforço de 
adaptação do organismo para en-
frentar situações ameaçadoras à vida 
e ao equilíbrio interno.
A ansiedade é um 
estado emocional 
desconfortável 
caracterizado por 
pressentimento de 
perigo iminente, 
desestruturação 
ante o perigo
estejam presentes; a pessoa preci-
sa acreditar que possui tais capa-
cidades e, com isso, organizar e 
executar l inhas de ação, com a ex-
pectativa de poder alcançar deter-
minado objetivo. As pessoas que 
têm crenças funcionais em sua ef i-
cácia pessoal acreditam dispor das 
competências necessárias ou ser 
capazes de assumi-las para alcan-
çar seus objetivos e melhorar seu 
desempenho. As diferentes respos-
tas poderão ser geradas frente ao 
mesmo estímulo e que ex igências 
internas e externas contribuirão 
nesse processo. 
A ansiedade, o estresse e o 
desempenho estão intimamente 
l igados, pois quanto maior a an-
siedade e o estresse pior será o 
desempenho. Quando falamos em 
desempenho estamos nos referin-
do à preparação para provas em 
geral, incluindo vestibular, Enem, 
prova da OAB, residência médi-
ca, concursos, entre outras, bem 
como a uma entrevista de emprego 
a qual o candidato, muitas vezes, 
está sem trabalho há um tempo, 
com seu estresse elevado, poden-
do fazer uma entrevista não sa-
tisfatória para conseguir a vaga 
pretendida. O crescente aumento 
de estímulos, da competitiv idade 
e das ex igências com as quais se 
confronta esse modo de v ida acar-
reta um acúmulo de obrigações 
que ex ige grande f lex ibi l idade e 
psique ciência&vida 31www.portalespacodosaber.com.br
É muito importante observar a memória 
individual, visto que uma mesma história tem 
várias facetas, sendo que cada pessoa guarda e 
recupera determinado fato de forma não igual
REFERÊNCIAS
capacidade de adaptação. Diante 
das inúmeras situações de apren-
dizagem e desempenho, nas quais 
o estresse é necessário em níveis 
aceitáveis, observa-se que está 
cada vez mais elevado e dif iculta 
o rendimento esperado por cada 
pessoa em sua trajetória de ensino 
e trabalho.
O autoconhecimento é o maior 
recurso para aprender a lidar com a 
ansiedade e com o estresse, no in-
tuito de “tirar” o melhor deles na 
busca de um desempenho satisfa-
ARALDI-FAVASSA, C. T.; Armiliato, N.; Kalinin, 
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Law/>. Acesso em: 4 mar. 2019.
tório. O apoio externo pode fazer 
a diferença nessa caminhada, pois 
sabe-se que pessoas com redes ade-
quadas de apoio social relatam me-
nos estresse e melhores condições 
de saúde mental em comparação 
àquelas sem adequado suporte so-
cial. A lém de auxiliar nas situações 
de estresse, como resolver conf litos 
e tomar decisões, a função social 
propõe modos de conduta adequa-
da. Diminuindo o estresse e a an-
siedade, automaticamente resultará 
em excelentes resultados.
32 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
coaching por Júlio Furtado
Essa tal FELICIDADE
O
coaching de vida ou life coa-
ching tem como principal 
objetivo ajudar a pessoa a 
sentir-se mais feliz e reali-
zada por meio da expansão de suas po-
tencialidades e do equilíbrio entre suas 
demandas. Para tomarmos consciência 
de qual é nosso nível de realização em 
cada uma das quatro grandes áreas de 
realização, em geral usamos a roda da 
vida, que é um exercício em que a pes-
soa preenche um círculo, dando notas 
de 1 a 10 para seu nível de realização 
em cada um dos 12 quesitos que com-
põem a roda. O objetivo do exercício 
é fazer com que a pessoa se conscien-
tize sobre a área em que ela mais pre-
cisa investir para melhorar seu nível 
de realização inf luenciando as outras 
áreas. Ou seja, essa técnica permite 
identif icar qual área de sua vida ala-
vancaria várias outras áreas.
A roda da vida pode nos ajudar a 
entender por onde começar uma mu-
dança para melhor. Enquanto eu a 
descrevo, sugiro a você, leitor, que vá 
avaliando o quanto se sente realiza-
do em cada um dos 12 quesitos que 
compõem as quatro áreas. Para isso, 
atribua-se nota de 1 a 10 em cada um 
deles. A primeira área de realização 
em nossa vida é a área pessoal, que 
é composta por três perguntas: (1) o 
quanto você está satisfeito com seu es-
tado geral de saúde e com sua dispo-
sição para a vida? (2) qual o seu nível 
de satisfação com seu desenvolvimen-
to intelectual? e (3) como você avalia 
seu equilíbrio emocional no momento 
atual? A área prof issional compõe-se 
das seguintes questões: (1) o quanto 
você se sente realizado através do seu 
trabalho? (2) como você avalia os re-
cursos f inanceiros obtidos através do 
seu trabalho? e (3) o quanto você se 
sente contribuindo socialmente por 
meio de sua atuação prof issional? A 
terceira área é composta pelos nos-
sos relacionamentos e é representada 
pelas três perguntas que se seguem: 
(1) o quanto você está satisfeito com 
a convivência em família? (2) qual seu 
nível de satisfação na área do relacio-
namento amoroso? e (3) como você 
avalia seus relacionamentos e sua 
vida social? A quarta área da roda é 
a qualidade de vida, que completa os 
12 quesitos com as seguintes ques-
tões: (1) o quanto você se considera 
satisfeito com seu nível de diversão e 
lazer? (2) qual seu nível de satisfação 
com sua dedicação ao campo espiri-
tual? e (3) como você avalia seu nível 
de felicidade geral na vida?
Essa última pergunta é uma sín-
tese de todas as outras, o que nos 
permite af irmar que a felicidade é 
algo que envolve saúde, equilíbrio 
emocional, trabalho, relaciona-
mentos e espiritualidade. Sigmund 
Freud af irma que o homem anseia 
pela felicidade e que esta resulta da 
satisfação de prazeres. O que nos dá 
prazeres mais intensos é a satisfação 
de nossas necessidades mais inten-
sas. Ganhar muito dinheiro terá di-
ferentes pesos para um endividado 
ou para um milionário. Quando es-
tamos doentes sobre uma cama, de-
sejamos coisas nas quais nem pensa-
mos quando estamos saudáveis.
Ter os pés no chão com relação 
à nossa felicidade envolve ponderar 
sobre o quanto de satisfação real po-
demos esperar do mundo exterior, 
sobre o quanto estamos dispostos a 
modif icar o mundo que nos cerca a 
f im de adaptá-lo aos nossos desejos 
ou adequar nossos desejos a ele. No 
processo de conquista da felicidade, 
a nossa constituição psíquica é mais 
relevante que as circunstâncias ex-
ternas, pois buscaremos no mundo 
elementos que satisfaçam as deman-
das de nossa psiquê. A pessoa predo-
minantemente erótica, por exemplo, 
terá como prioridade de sua felicidade 
ter um relacionamento que a satisfa-
ça. Os narcisistas são, em geral, mais 
DEVEMOS TER MUITO CUIDADO COM A IDEALIZAÇÃO 
QUE FAZEMOS DA FELICIDADE, POIS NEM SEMPRE 
NOSSA BUSCA ESTÁ CONECTADA AOS NOSSOS 
VALORES E REAIS NECESSIDADES
psique ciência&vida 33www.portalespacodosaber.com.br
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Júlio Furtado é professor, palestrante e coach. É graduado em 
Psicopedagogia, especialista em Gestalt-terapia e dinâmica de grupo. 
É mestre e doutor em Educação. É facilitador de grupos de desenvolvimento 
humano e autor de diversos livros. www.juliofurtado.com.br
FREUD DIZ QUE TODOS ANSEIAM 
PELA FELICIDADE E QUE ELA RESULTA 
DA SATISFAÇÃO DE PRAZERES. PARA ESSA 
CONQUISTA, NOSSA CONSTITUIÇÃO 
PSÍQUICA É MAIS RELEVANTE QUE 
AS CIRCUNSTÂNCIAS EXTERNAS
solitários e autossuf icientes, por isso 
encontram mais satisfação em seus 
processos mentais internos, o que fa-
cilita muito a realização prof issional. 
Por f im, as pessoas de ação precisam 
de um intenso relacionamento com o 
mundoe com as pessoas, e esse é o 
palco principal de sua felicidade.
Outra questão ligada à tal felici-
dade é o quanto nós a idealizamos. 
Em geral essa idealização nasce dos 
modelos que nos são oferecidos pela 
mídia, o que nos faz estabelecer cri-
térios nem sempre conectados com 
nossos valores e reais necessidades. 
Equivale dizer que precisamos desco-
brir quais são os elementos da “nos-
sa” felicidade, para não adotarmos 
os modelos que nos são impostos. A 
felicidade pode ser atingida, mas não 
buscada objetivamente. Nossa bus-
ca desenfreada pela felicidade nos 
afasta do real caminho em que ela se 
encontra, que é viver intensamente 
o momento presente nos seus míni-
mos e simples detalhes. Na medida 
em que conseguimos vivenciar mais 
plenamente o momento presente, 
descobrimos o quão surpreendente 
e prazeroso é contemplar o que está 
ao nosso redor, incluindo as emoções 
que nos visitam a cada instante. Vi-
ver o presente nos leva a mudanças 
em vários aspectos de nossa vida. O 
principal deles é aprendermos a ser 
felizes no agora e aproveitarmos ao 
máximo cada momento. Isso exige 
uma reconf iguração da ideia de que 
a felicidade é algo que está por vir. 
Ela não é f im, é meio.
 
34 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
Da Redação
Círculo vicioso (ciclos de 
manutenção dos transtornos) 
Redução de atividades, viés negativo, 
ruminação de problemas. Eles são alguns 
dos principais ciclos de manutenção dos 
transtornos, que são considerados de-
turpações decorrentes de crenças e/
ou regras adquiridas ao longo da vida. 
O livro Ciclos de Manutenção em Terapia 
Cognitivo-comportamental: Formulação de 
Caso, Plano de Tratamento e Intervenções 
%SPECÓl�CAS traz a análise dessas distor-
ções que colaboram com a manutenção 
do problema em um círculo vicioso para 
os pacientes. 
A obra foca nos ciclos de manuten-
ção dos principais transtornos mentais 
ou psiquiátricos. Ela aborda desde como 
pode ser realizada uma avaliação inicial 
de um caso clínico no enfoque cognitivo-
-comportamental até as principais inter-
VEN¥ÜES� EM� CASOS� DE� FOBIAS� ESPECÓl�CAS��
Com uma linguagem acessível, dialoga 
tanto com estudantes de Psicologia quan-
TO�COM�OS�PROl�SSIONAIS�J�GRADUADOS��
Ciclos de Manutenção em Terapia Cognitivo-
comportamental: Formulação de Caso, Plano de 
Tratamento e Intervenções Específicas
Organizadoras: Êdela Aparecida Nicoletti e 
Mariana Fortunata Donadon 
Editora: Sinopsys 
Páginas: 208
Inteligência emocional 
(ferramenta para a educação)
A sociedade moderna traz muitas 
DÞVIDAS� SOBRE� A� CRIA¥ÎO� DOS� l�LHOS�� EM�
meio a tanta tecnologia, pressão pro-
l�SSIONAL�� ESTRESSE�� MEDOS� ETC�� 3ER� QUE�
o modelo que aprendemos com nossos 
PAIS�AINDA��El�CAZ�NOS�DIAS�ATUAIS��/�QUE�
DEVEMOS� FAZER� PARA� PREPARAR� OS� l�LHOS�
para que eles cresçam conscientes e para 
ALCAN¥AREM�SUAS�REALIZA¥ÜES��%SSES�E�OU
tros questionamentos são respondidos 
no livro Inteligência Emocional para Pais, 
que apresenta soluções simples e efetivas 
que podem ser aplicadas por quaisquer 
pessoas que carregam o maior poder que 
existe: o amor incondicional. 
A obra é dividida em duas partes, 
sendo elas o lado A: relacionado ao 
período gestacional e a sua importância 
no desenvolvimento emocional do ser 
HUMANO�E�O�LADO�"��RELACIONADO�ÌS�QUES
tões práticas do dia a dia da educação 
EMOCIONAL�DOS�l�LHOS�E�COMO�ENCONTRA
mos o equilíbrio entre o limite e o amor.
Inteligência Emocional para Pais
Autor: Rodrigo Fonseca 
Editora: Sbie
Páginas: 252
 Para novos profissionais 
(auxílio na literatura especializada) 
O livro Psiquiatria Infantil – Guia 
Prático preocupa-se com o aluno ou o 
JOVEM� PROl�SSIONAL� QUE� NO� ATENDIMENTO�
diário – em particular de crianças e ado-
LESCENTES�n�TEM�DIl�CULDADES�DECORRENTES�
de sua pouca experiência e busca auxílio 
na literatura especializada para adquirir 
mais segurança no tratamento de seus 
pacientes. Para tanto, aborda os princi-
pais temas da área, como medicamen-
tos, álcool e outras drogas, transtornos 
ANSIOSOS��DE�CONDUTA��DO�DÏl�CIT�DE�ATEN
¥ÎO� �4$!(	�� DO� HUMOR�� DOS� HÉBITOS��
somatoformes, retardo mental, síndrome 
de Rett, estresse pós-traumático, psico-
fármacos, TOC, manias, esquizofrenia e 
síndromes orgânicas. É um guia de con-
SULTAS� DESTINADO� AO� COTIDIANO� E� ÌQUELES�
QUE� TRABALHAM� COM� PACIENTES� E� AINDA�
acreditam que o atendimento ao doente 
que sofre é um atributo básico da Me-
dicina e não apenas uma exigência no 
CAMINHO�DE�OUTRAS�ATIVIDADES��
Psiquiatria Infantil – Guia Prático 
Autor: Francisco B. Assumpção Jr. 
Editora: Manole 
Páginas: 190
livros
psique ciência&vida 35www.portalespacodosaber.com.br
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Por Flora Victoria
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Flora Victoria é fundadora e presidente 
da Sociedade Brasileira de Coaching e 
master coach com mestrado em Psicologia 
Positiva aplicada pela Universidade da 
Pensilvânia (EUA).
A Psicologia Positiva 
propõe uma abordagem 
científica que pretende 
compreender algumas 
questões pertinentes à 
busca da tão almejada 
felicidade. Será que 
sabemos ser felizes? 
A CIÊNCIA pode 
ajudar você a 
ser mais FELIZ
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36 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
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realizado pelo professor de Psicologia 
e Ciência Cognitiva Richard Boyatzis, 
da Universidade Case Western Reser-
ve. Ao estudar o processo de mudan-
ça comportamental que ele chama de 
“mudança intencional”, Boyatzis con-
cluiu que tendemos a nos mover em 
direção a dois “atratores”, o atrator 
emocional negativo (Negative Emo-
tional Att ractor – NEA) e o atrator 
emocional positivo (Positive Emotio-
nal Att ractor – PEA). A estimulação 
do PEA aciona o sistema nervoso pa-
rassimpático. Essa ativação permite 
ao organismo entrar em um estado de 
calma por meio da desaceleração dos 
batimentos cardíacos e da diminui-
ção da pressão arterial, entre outros 
fatores. Estudos nas áreas de neuro-
ciência, endocrinologia e Psicologia 
indicam que emoções positivas aju-
dam a estimular o sistema nervoso 
o que funciona e o que não funciona; 
2- Tornando conhecimentos e recur-
sos mais acessíveis; 3- Expandindo o 
entendimento do que é saúde mental; 
4- Colocando mais foco no bem-estar 
comunitário; 5- Mostrando que a feli-
cidade não é tudo. Essas cinco catego-
rias serão explicadas a seguir.
Método científico
Comprovando o que funcio-na e o que não funciona – Em 
termos populares, conceitos como 
a felicidade por vezes concentram-
-se no terreno da autoajuda, pautada, 
principalmente, pela crença individu-
al. O advento da Psicologia Positiva, 
porém, estimulou uma abordagem 
para esses temas, cujo crivo são os es-
tudos, experimentos e pesquisas que 
seguem o método científi co. 
Exemplo de um desses estudos foi 
Sob uma ótica mais pragmática, caberia a 
pergunta: de que modo os milhares de estudos 
e pesquisas, teorias e conceitos sobre felicidade 
e temas correlatos surgidos nos últimos 20 anos 
podem ajudar o indivíduo a ser mais feliz?
S abemos muito sobre estres-se, depressão, ansiedade e demais distúrbios que afl i-gem o ser humano, mas será 
que sabemos o que nos faz felizes? 
São bem conhecidos os efeitos que 
as emoções negativas exercem sobre 
o nosso bem-estar e até sua função 
sob o ponto de vista evolutivo. Mas 
e quanto às emoções positivas? Para 
que servem? Também sabemos o que 
nos deixa vulneráveis e expostos, mas 
o que dizer de nossas forças? Será que 
as conhecemos? 
As respostas a essas perguntas 
são o foco da Psicologia Positiva, 
uma área de estudo da Psicologiaque propõe uma abordagem científi -
ca para questões que acompanham o 
ser humano há milênios. Basicamen-
te, essas questões giram em torno do 
seguinte eixo: o que é felicidade e o 
que fazer para ser feliz. 
Ao ser eleito presidente da Ameri-
can Psychological Association (APA) 
em 1998, Martin Seligman concla-
mou pesquisadores a se debruçarem 
sobre o assunto. O apelo acabou por 
aglutinar uma série de iniciativas que 
já haviam começado a se delinear, 
além de estimular outros acadêmi-
cos a voltarem seus olhares para toda 
uma miríade de temas relacionados 
aos meios e processos que envolvem a 
felicidade e o bem-estar. Ultrapassan-
do os limites da Psicologia, o apelo 
acabou por chegar também a neuro-
cientistas, pedagogos, economistas, 
médicos e pesquisadores de áreas di-
versas, contribuindo para a formação 
de todo um corpo de conhecimento 
de caráter multidisciplinar. 
Sob uma ótica mais pragmática, 
caberia a pergunta: de que modo os 
milhares de estudos e pesquisas, teo-
rias e conceitos sobre felicidade e te-
mas correlatos surgidos nos últimos 
20 anos podem ajudar o indivíduo a 
ser mais feliz? 
É possível organizar as respostas 
em cinco categorias: 1- Comprovando 
Estudos comprovam que alguns fatores contribuem para um nível maior de felicidade, como a 
gratidão e a manutenção de atividades que promovem um engajamento positivo 
psique ciência&vida 37www.portalespacodosaber.com.br
Psico
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parassimpático, que, por sua vez, fa-
cilita um estado de funcionamento 
cognitivo e emocional otimizado. 
Além disso, a estimulação do 
PEA contribui para que nos engaje-
mos em mudanças desejáveis e sus-
tentáveis. Por meio de experimentos 
nos quais os participantes foram 
submetidos à ressonância magnéti-
ca, Boyatzis verifi cou que a evoca-
ção de emoções positivas associadas 
a um futuro desejado e a profundas 
aspirações relacionadas à identida-
de – o “eu ideal” – produzia 
uma intensa estimulação 
do córtex visual. Essa área 
do cérebro está associada 
ao processamento visual e à 
imaginação. Ou seja, as ima-
gens da ressonância magné-
tica mostraram as assinatu-
ras neurais da visualização, 
um processo crucial para 
motivar o aprendizado e a 
mudança comportamental. 
O segundo “atrator” 
identifi cado por Boytzis é o 
que ele chama de NEA, ou 
atrator emocional negativo. 
O NEA aciona o sistema 
nervoso simpático, o que es-
timula ações que permitem 
ao organismo responder a 
situações de perigo e de es-
tresse. Algumas reações fi siológicas 
que ocorrem nesse processo são, por 
exemplo, a aceleração dos batimen-
tos cardíacos, o aumento da pressão 
arterial e a produção mais intensa 
de adrenalina – a chamada respos-
ta fi ght or fl ight, que prepara nosso 
corpo para, diante de uma situação 
de perigo, enfrentar ou escapar. A 
prolongação desse estado resulta na 
redução das funções cognitivas, no 
enfraquecimento do sistema imuno-
lógico e no aumento da suscetibili-
dade a doenças.
Esse, entre outros estudos, for-
nece ampla fundamentação para os 
postulados da Psicologia Positiva 
que associam o foco nas forças e no 
“eu ideal” ao êxito no processo de 
mudança comportamental susten-
tável. Aumentar a positividade e as 
possibilidades de ações efi cazes per-
mite que o indivíduo se recupere de 
pensamentos, sentimentos e experi-
ências estressantes, além de 
sustentar o aprendizado e o 
desenvolvimento. Por outro 
lado, ao ancorar a mudança 
em exigências situacionais, 
na identifi cação de ameaças e 
na minimização das perdas, 
o indivíduo organiza respos-
tas para enfatizar problemas, 
ações defensivas, vigilância, 
autoproteção e reações psi-
cológicas que podem levar 
à elevação do estresse e ao 
esgotamento.
Aumento 
do bem-estar 
Tornando conhecimen-tos e recursos mais 
acessíveis – Esse talvez 
seja um dos aspectos mais 
O advento da 
Psicologia Positiva 
estimulou uma 
abordagem para 
temas como 
felicidade cujo crivo 
são os estudos, 
experimentos e 
pesquisas que seguem 
rigorosamente o 
método científico
FELICIDADE ESTÁ NOS REGISTROS 
DOCUMENTAIS DOS DIREITOS DAS NAÇÕES
 PARA SABER MAIS 
Abusca pela felicidade, postulada dessa forma, pode até parecer pouco ou irrelevante. Mas será que é? Desde 1776, a Declaração de Indepen-
dência dos Estados Unidos estipula que a “busca pela felicidade” é um direito 
inalienável. Pouco depois, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cida-
dão, redigida pelos revolucionários franceses em 1789, evoca a “conservação 
da felicidade geral”. Em dois momentos cruciais da História, que se mantêm 
como referenciais simbólicos, a felicidade, ou o direito de persegui-la, entrou 
para o registro documental dos direitos e liberdades que as nações deveriam 
proporcionar a seus cidadãos. Mais de dois séculos se passariam até que a 
felicidade se tornasse um campo de investigação científica.
Martin Seligman comandou iniciativas em relação a estudos de 
inúmeros temas relacionados aos meios e processos que envolvem a 
felicidade e o bem-estar
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38 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
Ao ancorar a mudança em exigências 
situacionais, na identificação de ameaças e na 
minimização das perdas, o indivíduo organiza 
respostas para enfatizar problemas, ações 
defensivas, vigilância e autoproteção
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surpreendentes da Psicologia Positi-
va. Constantemente, seus pesquisa-
dores têm demonstrado a efi cácia de 
procedimentos simples e ao alcance 
de todos no que diz respeito ao au-
mento da felicidade e do bem-estar. 
São recursos testados em uma série 
de estudos e divulgados para um pú-
blico cada vez mais amplo. 
Alguns desses estudos foram 
relatados por Martin Seligman. Em 
um artigo de 2005 publicado na re-
vista American Psychology, Seligman 
descreve um estudo no qual foram 
testadas seis intervenções da Psico-
logia Positiva desenhadas para pro-
mover melhorias na qualidade de 
vida a curto prazo. Das seis, a que 
causou maior impacto positivo foi a 
“visita de gratidão”. A proposta da 
intervenção previa que cada partici-
pante escrevesse uma carta expres-
sando por que era grato a uma deter-
minada pessoa de sua vida. Depois, 
eles deveriam entregar a carta pes-
soalmente. Só isso. O resultado, que 
se manteve por até um mês após a 
intervenção, foi um signifi cativo au-
mento no nível de felicidade e uma 
redução dos níveis de depressão.
Outra atividade relacionada à 
gratidão que também foi testada é 
conhecida como “as três bênçãos” 
ou “diário da gratidão”. Dessa vez, os 
participantes do estudo tinham de 
escrever, diariamente, três coisas que 
haviam ocorrido durante o dia e pelas 
quais eles se sentiam gratos. Essa ati-
vidade também exerceu um impacto 
positivo na felicidade dos participan-
tes – sendo que os resultados mais 
signifi cativos foram observados seis 
meses depois do início do diário. 
A intervenção chamada “atos de 
bondade” – possivelmente uma das 
mais conhecidas da Psicologia Positi-
va – é outra que apresenta um histó-
rico de estudos que visam investigar 
sua efi cácia. Em um deles, foi pedido 
a um grupo de estudantes que reali-
zasse cinco atos de bondade por dia. 
Depois, eles deveriam registrar o 
que aconteceu, qual foi a reação das 
outras pessoas e como eles se senti-
ram. Os atos de bondade consistiam 
basicamente em gestos de gentile-
za, como ceder o assento no ônibus, 
abrir a porta para alguém passar, aju-
dar um colega nos estudos, entre ou-
tros exemplos. Em comparação com 
o grupo de controle, os participantes 
que realizaram os atos de bondade 
registraram um aumento tanto nasemoções positivas quanto no engaja-
mento acadêmico. 
As forças de caráter constituem 
mais um – entre inúmeros outros – 
exemplo de conhecimento e recursos 
que se tornaram acessíveis por meio da 
Psicologia Positiva. Pesquisadas por 
Martin Seligman e Chris Peterson, 
as forças foram defi nidas pela dupla 
de pesquisadores como mecanismos, 
ou rotas, por meio das quais as vir-
tudes são expressas. São, também, 
Avanço
Em 1999, Philip J. Stone deu um 
curso em Harvard sobre Psico-
logia Positiva. O público? Cerca 
de 20 alunos. Em 2006, Tal Ben 
Shahar (foto) deu outro curso so-
bre a mesma disciplina. Dessa vez, 
o público superou a casa dos 800 
alunos, tornando as aulas de Ben 
Shahar as mais populares da histó-
ria de Harvard. Atualmente há, ape-
nas nos Estados Unidos, mais de 
200 programas de Psicologia Po-
sitiva oferecidos por universidades. 
A ativação do atrator 
emocional positivo permite 
ao organismo entrar em 
um estado de calma por 
meio da desaceleração dos 
batimentos cardíacos
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Psico
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e 
Constantemente, 
pesquisadores 
têm demonstrado 
a eficácia que 
procedimentos 
simples e ao alcance 
de todos possuem 
no que diz respeito 
ao aumento da 
felicidade e do 
bem-estar
características que manifestam o que 
temos de melhor. Um extenso corpo 
de pesquisas indica que, quando o 
indivíduo utiliza suas forças, ele expe-
rimenta níveis mais altos de felicidade 
e níveis reduzidos de depressão, além 
de maior propensão a atingir objeti-
vos e crescer com os desafi os. 
Um teste on-line simplifi cado 
para a identifi cação das forças que já 
foi realizado por mais de quatro mi-
lhões de pessoas em todo o mundo 
é oferecido gratuitamente pelo VIA 
Institute on Character. E uma das 
intervenções mais efi cazes e popu-
lares referentes a esse tema consiste 
em, diariamente, buscar meios dife-
rentes de utilizar suas forças de as-
sinatura – isto é, o conjunto de suas 
cinco forças principais. 
Essa é uma pequena amostra de 
como a Psicologia Positiva tem dis-
seminado conhecimentos e recursos, 
tornando-os mais acessíveis a todos 
os que buscam acrescentar mais feli-
cidade e bem-estar em suas vidas. 
Potencial próprio 
Expandindo o entendimento do que é saúde mental – A saúde 
mental não é a mera ausência de dis-
túrbios e patologias. A Organização 
Mundial da Saúde (OMS) a defi ne 
como um estado de bem-estar no 
qual cada indivíduo concretiza seu 
próprio potencial, é capaz de lidar 
com o estresse inerente ao cotidia-
no, de trabalhar produtivamente e de 
contribuir com sua comunidade. 
A popularização dessa visão 
deve-se, em grande parte, à Psicolo-
gia Positiva e a pesquisadores como 
Corey Keyes, da Universidade Emory 
Keyes, que desenvolveu o conceito 
de fl orescimento humano, vê a saú-
de mental como um contínuo que 
abrange não apenas o binômio saúde-
-doença, mas, também, uma descri-
ção mais ampla do que signifi ca gozar 
de boa saúde mental, o que inclui o 
fl orescimento e o defi nhamento. 
restrito somente à presença ou à au-
sência de sintomas não estimula o 
desenvolvimento de estados emocio-
nais e psicológicos positivos, mais en-
riquecedores e satisfatórios. Isso seria 
especialmente verdadeiro para aque-
les que não apresentam distúrbios, 
mas que estão, segundo a terminolo-
gia de Keyes, defi nhando. 
E os que defi nham são a maioria. 
Analisando dados epidemiológicos, 
Keyes constatou que apenas 20% da 
população dos Estados Unidos estão 
fl orescendo. Na Europa, o país que 
apresenta o índice de fl orescimento 
mais elevado é a Dinamarca, com cer-
ca de 33%. 
Esse conceito expandido de saú-
de mental – que inclui o fl orescimen-
to – já está sendo chamado de saúde 
mental positiva. Sua importância 
é atestada por especialistas como 
Margaret Barry, professora de Saúde 
Pública da Universidade Nacional da 
Irlanda e coordenadora de iniciativas 
internacionais para implementação 
de intervenções e políticas visando a 
promoção da saúde mental. Segundo 
Barry, a saúde mental positiva é fun-
damental não só para o bem-estar da 
Para Keyes, fl orescer é desfrutar 
de emoções positivas e funcionar bem, 
tanto do ponto de vista psicológico 
quanto do social. Por outro lado, quem 
não está fl orescendo está defi nhando. 
Defi nhar é experimentar regularmen-
te a sensação de vazio e de estagnação, 
o chamado “desespero silencioso”. 
Esse estado não chega a constituir um 
distúrbio, mas também não é fl oresci-
mento – logo, não gera felicidade. 
O trabalho de Keyes sugere que 
um entendimento de saúde mental 
A evocação de emoções positivas associadas a profundas aspirações relacionadas à identidade 
produz intensa estimulação do córtex visual
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40 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
Uma conceitualização 
diferente, porém 
complementar, 
do bem-estar 
comunitário vem 
dos pesquisadores 
do Gallup Rath e 
Harter, que o definem 
como o senso de 
engajamento que o 
indivíduo possui com 
a área onde vive
população como também para a pros-
peridade econômica e social. 
Vida em conjunto 
Colocando mais foco no bem-es-tar comunitário – Já dizia a can-
ção, “é impossível ser feliz sozinho”. 
Engana-se quem pensa que, por focar 
na felicidade, a Psicologia Positiva es-
timula um estilo de vida individualis-
ta e hedonista. Uma análise dos três 
elementos apresentados como pilares 
dessa área do conhecimento lança 
luz sobre a questão. Os pilares são as 
emoções positivas, as características 
positivas (ou forças de caráter) e as 
instituições positivas – que englobam 
desde empresas, organizações, escolas 
e entidades em geral até comunidades 
e a própria sociedade. 
Para Isaac e Ora Prilleltensky, o 
bem-estar comunitário são “os am-
bientes físico, econômico, geográfi co, 
cultural, político e psicossocial nos 
quais os membros de uma comunidade 
realizam suas necessidades”. Na con-
cepção dos autores, quando a comu-
nidade é saudável, essas necessidades 
são satisfeitas de modo congruente 
com valores como saúde, liberdade, 
cuidado e compaixão, respeito à di-
versidade e justiça social, entre outros. 
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Prilleltensky e Prilleltensky afi rmam 
que o bem-estar da comunidade à qual 
pertencemos infl ui em nosso desenvol-
vimento quando criança, nas oportu-
nidades que teremos na vida, em nosso 
estilo de vida e até mesmo em nossa 
longevidade. Daí o motivo pelo qual a 
promoção do bem-estar comunitário 
tem sido alvo de uma série de inicia-
tivas governamentais mundo afora, 
como a felicidade interna bruta do Rei-
no do Butão, os índices de bem-estar 
ofi ciais do Canadá e do Reino Unido, 
o Fórum Internacional do Bem-Estar 
na Alemanha, o projeto de bem-estar 
equitativo e sustentável da Itália, as po-
líticas coreanas voltadas para a felicida-
de do cidadão e várias outras. 
Uma conceitualização diferente, 
porém complementar, do bem-estar 
comunitário vem dos pesquisadores 
do Gallup Rath e Harter, que o defi -
nem como o senso de engajamento 
que o indivíduo possui com a área 
onde vive – o que requer a participa-
ção ativa em algum tipo de grupo ou 
organização comunitária. Para eles, a 
forma mais elevada de bem-estar co-
munitário é a contribuição que cada 
um dá à sua comunidade, o que, em 
sua concepção, diferencia uma boa 
vida de uma vida excepcional. Rath e 
Harter contam que, quando pergun-
taram às pessoas com alto nível de 
bem-estar a respeito das contribuições 
mais importantes que elas haviam ofe-
recido, a maioria referiu-se ao impacto 
positivo exercido sobre a vida de ou-
tras pessoas, grupos ou comunidades.
Esses e outros trabalhos ressal-
tam um tipo de felicidade que, ao que 
tudo indica, desponta comomais im-
pactante e duradouro, e que resulta 
do ato de doar e de contribuir. 
Paradoxo da felicidade 
Mostrando que a felicidade não é tudo – Eis aqui um parado-
xo. Ao mostrar que a felicidade não é 
tudo, a Psicologia Positiva nos impele 
a sermos mais felizes. Ocorre que a 
busca incessante pela felicidade acaba 
por esbarrar na adaptação hedônica, 
fenômeno que alude à tendência de 
regressar rapidamente a um nível es-
tável de felicidade depois de termos 
passado por situações que contribuí-
ram para aumentá-la. O conceito foi 
desenvolvido com base em estudos 
que mostraram que, após experimen-
tarem um “pico” de felicidade de cur-
ta duração, ganhadores de loteria ge-
ralmente acabavam retornando a seus 
níveis de felicidade anteriores. 
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pensamentos, sentimentos e experiências estressantes 
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As forças de caráter 
constituem mais 
um – entre inúmeros 
outros – exemplo 
de conhecimento 
e recursos que se 
tornaram acessíveis 
por meio da Psicologia 
Positiva, pesquisados 
por Martin Seligman 
e Chris Peterson
O ponto, aqui, não é renunciar 
ao desejo de ser feliz, mas não trans-
formá-lo em obsessão nem persegui-
-lo somente por meio da gratifi cação 
imediata. Martin Seligman expôs 
essa questão ao ampliar seu concei-
to de felicidade autêntica para a te-
oria do bem-estar. A teoria propõe 
cinco elementos fundamentais ao 
fl orescimento humano, contidos no 
acrônimo PERMA. São eles: Positive 
emotions (emoções positivas), Enga-
gement (engajamento); Relationships
(relacionamentos); Meaning (signifi -
cado); Achievement (realização).
De acordo com essa concepção, 
aumentar o bem-estar envolve expe-
rimentar com frequência emoções 
positivas – entre as quais a felicida-
de – e engajar-se naquilo que você 
faz. Envolve também nutrir relacio-
namentos positivos, enxergar signifi -
cado em sua vida (o que está relacio-
nado a ter um propósito) e buscar a 
realização. 
Todos os elementos do PER-
MA infl uenciam o fl orescimento. 
No entanto, cada indivíduo tende 
a enfatizar cada um desses elemen-
tos em proporção variável. Vejamos, 
por exemplo, a letra M do PERMA, 
de crescimento contínuo que liga o 
presente ao futuro e supre com mo-
tivação aqueles que se conectam a 
questões existenciais, tais como a ne-
cessidade de enxergar sentido em sua 
vida e em suas ações. 
Nas palavras de Seligman, encon-
tramos signifi cado quando usamos 
nossas forças e talentos mais elevados 
para pertencer e para servir a algo que 
acreditamos ser maior do que nós. É 
por isso que, segundo pesquisas, pes-
soas que conseguem encontrar signi-
fi cado em sua existência sob a forma 
de um propósito claramente defi nido 
relatam um nível de satisfação com a 
vida mais elevado do que aquelas que 
não possuem um propósito defi nido. 
Isso pode ocorrer mesmo quando elas 
estão passando por difi culdades. Afi -
nal, a satisfação com a vida resulta da 
avaliação que fazemos de nossa vida 
como um todo – e não apenas de nos-
so nível de felicidade.
que corresponde a Meaning, ou sig-
nifi cado. De acordo com estudo de 
Baumeister, Vohs, Aaker e Garbinsky, 
enquanto a felicidade pode ser vista 
como uma experiência mais elemen-
tar, ancorada na tendência de buscar 
satisfação e conforto no momento 
presente, uma vida com signifi cado 
é algo mais complexo. Ancorada em 
valores e propósitos, a vida com signi-
fi cado inclui desafi os que trazem des-
conforto e atividades que não trazem 
prazer. Mas é, também, um caminho 
Estudo corporativo 
Pesquisa demonstra que indivíduos
que não apresentam distúrbios men-
tais nos últimos 12 meses e que 
estão florescendo faltam menos ao 
trabalho e usam serviços de saúde 
com menos frequência. Eles tam-
bém apresentam um risco menor de 
adquirir doenças cardiovasculares e 
enfermidades crônicas à medida em 
que envelhecem. E, é claro, relatam 
níveis de bem-estar mais elevados. 
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terá na vida e até mesmo na longevidade
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O ciberespaço pode ser 
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de comunicação que surge 
da intercomunicação mundial 
dos computadoresComo a FELICIDADE
influencia no ambiente 
de TRABALHO
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A velocidade 
e evolução do 
mundo moderno 
refletem-se no 
comportamento 
das empresas e, 
por consequência, 
apontam novas 
tendências nas 
relações de trabalho, 
que precisam 
se adaptar
O mundo está em cons-tante evolução, as-sim como as empre-sas. Mas então por 
qual motivo, nos últimos anos, 
essas mudanças afetam de ma-
neira mais intensa as pessoas e 
suas organizações do que anti-
gamente? Simples, as mudanças 
atualmente estão cada vez mais 
velozes e acabam atropelando a 
maioria das empresas, e, por con-
sequência, seus colaboradores, 
que têm seu gerenciamento ba-
seado em modelos arcaicos e, por 
vezes, obsoletos.
O advento da tecnologia nos 
trouxe uma enormidade de dife-
rentes possibilidades de trabalho. 
Tanto que o home of fice v irou uma 
maneira corriqueira em muitas 
Renata Arrepia é master coach formada 
pela Sociedade Brasileira de Coaching e 
psicóloga formada pela Universidade de 
Guarulhos.
Por Renata Arrepia
d o s
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44 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
empresas, principalmente nas de-
nominadas startups, termo em in-
glês que surgiu nos EUA no f inal 
dos anos 90 e que foi massif icado 
no Brasil após a difusão da inter-
net. Esse modelo de negócio é 
formado por um grupo de pessoas 
com ideias inovadoras, escaláveis 
e com custos iniciais baixos.
Em uma pesquisa realizada 
pelo Chartered Institute of Per-
sonnel and Development (CIPD), 
apenas metade das empresas está 
preocupada com o bem-estar de 
seus funcionários, e dentre elas 
em torno de 30% incluem o es-
tresse como maior causa de afas-
tamentos no trabalho. Na con-
tramão desses dados, as startups
nascidas no Vale do Silício, EUA, 
e que se tornaram grandes em-
presas como Google e LinkedIn, 
trouxeram um novo olhar sobre o 
trabalho que prioriza a qualidade 
de vida de seus colaboradores. 
Para a nova geração, os mil-
lennials, que está adentrando no 
mercado de trabalho, o mais im-
portante em uma empresa é que 
o fit cultural esteja de acordo com 
suas aspirações, ou seja, que as ca-
racterísticas daquela organização 
como missão, visão e valores se-
jam coerentes com o propósito de 
vida deles.
Atualmente, em sites como 
99jobs é possível saber se a em-
presa se adequa às suas expec-
tat ivas. Durante o cadastro, o 
candidato responde a lgumas 
perguntas de um quest ioná-
r io que traz um resumo de seus 
pr incipais va lores no trabalho. 
Assim, ele conseguirá saber em 
quais empresas a compatibi l ida-
de é mais próx ima a seu perf i l . E , 
por consequência, encontrar um 
trabalho que o faça fel iz .
Qual o motivo dessa busca 
pela felicidade no trabalho? Em 
2016, o Gallup divulgou uma pes-
quisa que nos mostra que, nos 
EUA, apenas um terço dos tra-
balhadores está engajado em seu 
emprego. Há uma distância entre 
o que eles querem fazer e o que 
realmente desempenham em sua 
função. Ademais, 91% afirmaram 
que deixaram a empresa anterior 
para buscar o que realmente lhes 
traga felicidade.
Para a nova geração, 
os millennials, que 
está adentrando 
no mercado de 
trabalho, o mais 
importante numa 
empresa é que as 
características da 
organização, como 
visão e valores,sejam 
coerentes com seu 
propósito de vida
Os três Es 
Conforme pesquisa da Willis Towes 
Watson, existem três Es (em inglês) 
que podem fazer a diferença nos 
ambientes de trabalho e que ele-
vam a performance e os resultados: 
engaged (engajado): afinidade com 
a empresa e vontade de dar o seu 
melhor; enabled (capacitado): am-
biente de trabalho que proporciona 
produtividade e alta performance; 
energized (energizado): bem-estar 
individual, físico, interpessoal e 
emocional no trabalho.
O �������‚�I� virou uma maneira corriqueira em empresas, proporcionado pelas novas possibilidades 
de trabalho, oferecidas pela tecnologia
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Podemos entender 
que funcionário 
infeliz custa muito 
à empresa, não só 
pelo baixo rendimento, 
mas também 
devido ao fato da 
alta rotatividade, 
gerando custos 
tanto das rescisões 
quanto dos 
processos seletivos 
constantes
  
ENGAJAMENTO CORPORATIVO
 PARA SABER MAIS 
O
Gallup nos revela que o engajamento ao longo dos anos se manteve pra-
ticamente estável. Constatando que as empresas ainda não se movimen-
taram ou fizeram mudanças ínfimas nos ambientes organizacional e cultural. 
Fonte: Gallup. 2017. State of the American Workplace.
Com isso, podemos entender 
que funcionário infeliz custa muito 
à empresa, não só pelo baixo rendi-
mento, mas também devido ao fato 
da alta rotatividade, gerando cus-
tos tanto das rescisões quanto dos 
processos seletivos constantes.
Adiante, seguirão a lgumas 
melhores prát icas que podem 
ajudar l íderes a melhorar a cul-
tura empresar ia l, aumentando o 
Mudança de visão 
Utilize o engajamento como força motriz aproveitando 
a geração Y. Os millenials, jovens 
que hoje têm entre 23 e 38 anos, 
mudaram totalmente a forma de 
enxergar o trabalho dentro das 
organizações. Para essa geração, o 
que realmente importa é quão re-
levante e gratif icante será sua ocu-
pação. Muitos migram para novos 
desafios assim que percebem que 
estão desengajados.
Para que um colaborador vista 
a camisa da empresa há algumas 
necessidades que precisam ser su-
pridas: equilíbrio entre a vida pes-
soal e profissional, f lexibilização 
de horários etc.
Comece fazendo um levan-
tamento dos motivos pelos quais 
seus colaboradores se ausentam 
do trabalho. Entender as possíveis 
causas de estresse e absenteísmo 
engajamento dos funcionários, 
diminuindo o turnover e disse-
minando a fel icidade no ambien-
te de trabalho.
Pesquisa do Chartered Institute of Personnel and Development indica que só metade das empresas 
está preocupada com o bem-estar de seus funcionários
% Engajados % Não engajados % Ativamente desengajados
d o s s
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pode ajudar o líder a tomar atitu-
des que estimulem o bem-estar e 
aumento de engajamento.
Em seu livro Florescimento na 
Prática: Semeando Experiências 
Positivas, Flora Victoria, presiden-
te da SBCoaching, nos diz que o 
engajamento e a utilização das 
forças e virtudes de um indivíduo 
permitem que ele atue com suas 
melhores características, sendo 
elas: 1- Conheça o perfil de seu 
colaborador; sites como o Via 
Institute on Character, possuem 
uma pesquisa gratuita que o aju-
dará a entender as características 
de cada indivíduo; 2- Busque os 
pontos fortes de cada colaborador 
e concentre-se neles; 3- Mostre a 
eles que seu trabalho é importante 
e que seus valores integram o todo 
e fazem a diferença na equipe.
Um estudo feito em 2006 pela 
Universidade de Drexel nos diz 
que o engajamento nas empresas 
pode beneficiar outras áreas da 
vida do indivíduo sem causar es-
tresse, desde que o ambiente seja 
favorável e que relacionamentos 
positivos sejam mantidos.
Quando temos pares em quem 
nos espelhamos automaticamen-
te há um aumento de motivação 
e empatia mútua, favorecendo a 
criatividade, a gratidão e até um 
aumento na expectativa de vida. 
Aumento de performance 
Manter um bom ambiente de trabalho é importante. Para 
a Psicologia Positiva, f lorescer é 
um conceito de felicidade e bem-
-estar mais amplo. Ele é alcança-
do no momento em que estamos 
repletos de emoções positivas e 
mantendo o bem-estar psicológi-
co e social.
Consequentemente, quando 
atingimos esse estágio temos um 
visível aumento de performance. 
Substitua comportamentos e há-
bitos ruins que geram desconforto 
entre a equipe por ações que pro-
movam o bem-estar e desenvol-
vam a resiliência.
Segundo Vadim Rotenberg, 
psicofisiologista israelense, pesso-
as que são mais otimistas possuem 
uma memória melhor e se portam 
melhor frente a novos desafios. 
Esses dados foram baseados em 
estudos de neuroimagens ao longo 
das últimas décadas.
E como manter as pessoas feli-
zes em seu ambiente de trabalho? 
1- Transparência é fundamen-
tal. Empresas que divulgam sua 
cultura e participam de sites como 
Love Mondays e 99jobs têm mais IMAG
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Geração do milênio
Millennials, também conhecidos 
como geração do milênio, gera-
ção da internet ou geração Y, é um 
conceito da Sociologia que se re-
fere às pessoas nascidas depois de 
2000. Outra linha de pensamento 
data do início da década de 1980 
ou começo da década de 1990. 
O grupo se desenvolveu em uma 
época de grandes avanços tecno-
lógicos, facilidade material e em 
um ambiente urbanizado. Surgiu 
após a instauração do domínio da 
virtualidade como sistema de inte-
ração social e midiática.
O Gallup revela 
que o engajamento 
ao longo dos anos 
se manteve 
praticamente estável, 
constatando que as 
empresas não 
se movimentaram 
ou fizeram mudanças 
ínfimas nos ambientes 
organizacionais 
e cultura Em 2016, o Gallup divulgou um levantamento que aponta que, nos EUA, apenas um terço dos trabalhadores está engajado em seu emprego
psique ciência&vida 47www.portalespacodosaber.com.br
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Um estudo de 
2006 pela 
Universidade 
de Drexel diz que 
o engajamento nas 
empresas pode 
beneficiar outras 
áreas da vida sem 
causar estresse, 
desde que 
o ambiente seja 
favorável e que 
relacionamentos 
positivos sejam 
mantidos
chance de encontrar colaborado-
res que vão ao encontro de sua 
missão, visão e valores.
Quanto mais próximo o fun-
cionário está culturalmente da 
empresa, menor a possibilidade de 
turnover. Com a retenção de talen-
tos, a empresa economiza em gas-
tos com processos seletivos, trei-
namentos e demissões.
Da mesma maneira, a sinergia 
será muito maior, desencadeando 
a alta performance da equipe, com 
obtenção de melhores resultados 
que impactarão diretamente nos 
lucros da instituição. 
2- Flex ibi l idade é a pa lavra-
-chave. Atualmente as pessoas 
dão mais va lor às empresas que 
permitem um horár io de traba-
lho f lex ível, o velho “horár io 
comercia l ” está com seus dias 
contados. Poder comparecer em 
um compromisso part icular im-
portante sem comprometer o ho-
rár io de trabalho est imula e mo-
t iva os colaboradores.
Em 2016, 43% dos funcioná-
r ios trabalharam longe de sua 
equipe pelos menos uma vez por 
semana. Houve um aumento de 
quatro pontos percentuais se 
comparado a 2012. Curiosamen-
te, as empresas t idas como mais 
tradicionais, como bancos e f in-
techs , foram as maiores responsá-
veis por esse aumento, seguidas 
por transportes e construção.
3- É fundamental ter bons l í-
deres na equipe. Em alguns casos, 
a alta rotativ idade pode ser um 
problema de gestão. Se analisar-
mos as últimas pesquisas acerca 
do mercado de trabalho vamos 
constatar que muitas pessoas dei-
xam seusuperior e não necessa-
riamente sua organização. 
Perceba sua equipe, entenda 
suas particularidades promoven-
do feedbacks constantes de acordo 
com o perf i l de cada um. A lguns 
gostam de ouvir seu l íder todos 
os dias, porém outros acham esse 
tipo de ação invasiva. Entenden-
do quais as necessidades indiv i-
duais haverá uma f luidez na co-
municação entre as partes. Maus 
l íderes são a causa de 32% dos ab-
senteísmos nas empresas.
4 - Promova a colaboração. A 
colaboração movimenta, gera so-
l idar iedade e possibi l ita a união 
entre os pares. Há um aumento 
na simpli f icação dos processos e 
maior suscet ibi l idade para o sur-
g imento de novas ideias. A lém 
de um forta lecimento nos rela-
cionamentos.
Ações desse tipo têm sido in-
vestigadas na Psicologia Positiva 
por diversos pesquisadores, como 
Shelly Gable, da Universidade 
de Santa Bárbara, na Califórnia. 
Eles af irmam que os relaciona-
mentos impactam diretamente na 
saúde f ísica e emocional e, conse-
quentemente, em todos os âmbi-
tos do bem-estar. 
O preço da infelicidade 
Quarenta e quatro por cento das empresas que possuem 
uma cultura saudável, onde o 
funcionário se sente fel iz, têm 
por características o bem-estar e 
maior engajamento e produtiv i-
dade. Não há dúvida de que tra-
balhadores engajados são mais 
motivados e otimistas, a lém de 
cultivar e semear os valores da 
A geração de millenials, jovens que hoje têm entre 23 e 38 anos, mudou totalmente a forma de 
enxergar o trabalho dentro das organizações
d o s s i ê
48 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
organização. O vínculo com a 
marca se torna mais forte e, por 
conseguinte, o colaborador se 
tornará um embaixador da em-
presa, aumentando o v ínculo com 
os cl ientes e gerando upsells .
Em contrapartida, aqueles que 
estão desmotivados causam um 
prejuízo que chega em torno de 
600 bilhões de dólares por ano em 
perda de produtividade. Oitenta 
e seis por cento dos funcionários 
que relataram trabalhar com al-
gum tipo de indisposição obser-
vam o presenteísmo.
Curiosamente, a porcenta-
gem de organizações que tomam 
consciência sobre o presenteísmo 
e tentam desencorajá-lo caiu de 
48% para 25% em dois anos. O 
alto volume de trabalho é dispara-
do uma das três principais causas 
de ausência e está diretamente re-
lacionado ao estresse.
Ainda em relação ao estudo, 
algumas fontes podem afetar di-
retamente no engajamento dentro 
das empresas, como tendências 
econômicas, mudanças de mer-
cado, reestruturação de pessoal, 
falta de capacitação, falta de reco-
nhecimento etc. Mesmo que estes 
estivessem engajados em algum 
momento iremos notar uma mu-
dança signif icativa na produtivi-
dade quando afetados.
Um dado interessante é que 
em empresas que possuem um alto 
nível de capacitação e engajamen-
to, o lucro líquido tende a ser bem 
maior, ou seja, a capacitação acaba 
sendo um fator crucial no sucesso 
dos negócios e no bem-estar do 
colaborador.
Quando se tem um ambien-
te onde todos são submetidos à 
pressão constante, com brigas 
entre os pares, a lta rotativ idade, 
entre outros, o bem-estar e a saú-
de emocional dos funcionários 
são afetados diretamente. Por 
isso, um ambiente saudável, po-
sitivo e energizado é importante. 
Por ano, há uma variação de 10 
pontos percentuais no ebtida en-
tre organizações com baixo e alto 
engajamento. 
O pilar da tecnologia
A tecnologia vem afetando to-dos os âmbitos de maneira 
exponencial. Seja na vida profis-
sional ou pessoal, devemos levar 
em consideração seus prós e con-
tras. Em 2018, o IPC aponta que 
1,4 bilhão de dispositivos móveis 
foram vendidos no mundo inteiro.
Há sempre alguém conecta-
do em alguma parte do mundo, 
a qualquer hora do dia. Muitas 
instituições têm turnos noturnos 
também ou até funcionamento 
ininterrupto, como é o caso dos 
hospitais e canais de televisão. 
Porém, nem tudo são f lores. 
O bem-estar e a felicidade podem 
ser diretamente afetados quando 
O DOMÍNIO DA TECNOLOGIA DE PONTA
 PARA SABER MAIS 
OSilicon Valley, traduzido como Vale do Silício, é uma região locali-zada na Califórnia, Estados Unidos, que aglutina inúmeras empresas 
ligadas à tecnologia da informação, computação, entre outras. Começou 
a se desenvolver em 1950, com o intuito de gerar e fomentar inova-
ções no campo científico e tecnológico. Grande parte das empresas da 
região é dos setores de eletrônica e informática. O nome Silício é uma 
homenagem ao elemento químico (Si), matéria básica na produção de 
circuitos e chips eletrônicos. Trata-se de uma das maiores aglomerações 
de empresas com domínio de tecnologia de ponta do mundo. Conhecida 
por desenvolver modelos acessíveis de financiamento para projetos de 
tecnologia, as chamadas Startups Companies. Com o aumento de de-
senvolvimento da região, o cenário atual do Vale do Silício é semelhante 
ao das grandes metrópoles: trânsito intenso, imóveis supervalorizados e 
alta competitividade.
Quando temos pares em quem nos 
espelhamos, automaticamente há um 
aumento de motivação e empatia mútua, 
favorecendo a criatividade, gratidão e 
até um aumento na expectativa de vida
psique ciência&vida 49www.portalespacodosaber.com.br
Psico
lo
g
ia d
a felicid
ad
e 
falamos de tecnologia no âmbito 
profissional. Com a alta demanda 
pelo horário de trabalho ampliado 
e cobrança por alta performance, 
a maioria dos executivos sofre im-
pacto direto em seu bem-estar.
Setenta e quatro por cento 
creem que a f lexibilização de ho-
rário é um fator positivo, porém 
87% afirmam que a facilidade nas 
comunicações pela internet, prin-
cipalmente durante o home of fice, 
acaba gerando uma impossibili-
dade de “desligar-se” da empre-
sa, mesmo nos f inais de semana. 
Esse tipo de impacto, ao longo dos 
anos, pode gerar estresse, doenças 
mentais, transtornos etc. 
Precisamos levar em consi-
deração os prós e contras, sendo: 
prós: trabalho remoto; comunica-
ção mais ef icaz; redução no tempo 
de deslocamentos; maior controle 
sobre as atividades; participação 
mais ativa dos funcionários. E os 
contras: incapacidade de desligar-
-se; estresse nas intermitências da 
tecnologia; menos interação hu-
mana; má postura; menor quali-
dade no sono. 
Na Índia, pesquisadores estão 
utilizando a inteligência artificial 
(IA) para aumentar a felicidade 
A porcentagem de organizações que tomam 
consciência sobre o presenteísmo e tentam 
desencorajá-lo caiu de 48% para 25% em dois 
anos. O alto volume de trabalho é, disparado, 
uma das três principais causas de ausência e 
está diretamente relacionado ao estresse
dentro das empresas, por meio da 
análise de dados dos colaborado-
res. O diretor executivo da Coca-
-cola, Indrajeet Sengupta, afirma 
que a IA pode nos ajudar a aumen-
tar o desempenho humano por 
meio da análise de dados. Assim, 
podemos levar em consideração as 
diferentes gerações e suas peculia-
ridades, adaptando os métodos de 
trabalho para cada uma delas. 
Para isso, as empresas preci-
sam desenhar seus valores base-
ados nas características de cada 
geração, atrelando-as às suas ne-
cessidades e às dos indivíduos. 
Pesquisas de clima e capacitação 
adaptativa são exemplos de como 
podemos nos favorecer com a IA. 
Utilizar da análise preditiva, 
por meio da análise do compor-
tamento, também pode ajudar a 
balizar quais características são 
mais benéficas e importantes para 
a empresa e, a partir daí, desenvol-
ver um plano para retenção de ta-
lentos ou, até mesmo, estratégias 
para recompensar as pessoas de 
acordo com seus esforços.
Apenas 20% das pessoas estão 
felizes em sua carreira. Segundo 
Tom Rath e Jim Hater, autores do 
livro Wellbeing: the Five Essential 
Elements, há uma subestimação de 
o quanto o bem-estar na carreira 
podeafetar sua vida. Se estamos 
bem no trabalho, por consequência 
melhoramos o nosso bem-estar nos 
demais âmbitos: financeiro, social, 
físico e comunitário.
Portanto, ter objetivos profis-
sionais bem definidos nos deixa 
mais motivados e torna nosso tra-
balho significativo. Contribuindo 
para o bem comum e gerando maior 
produtividade e felicidade. 
Quando há um 
ambiente onde todos 
são submetidos a 
pressão constante, 
com brigas, a saúde 
emocional dos 
funcionários é afetada 
diretamente
50 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
psicologia social por Luiza Elena L. Ribeiro do Valle
Ele e ela – 
completude ou confronto?
HOMENS E MULHERES DIFEREM NO COMPORTAMENTO 
PORQUE UMA PARTE IMPORTANTE TEM SUAS RAÍZES NA 
CULTURA, NA EDUCAÇÃO, NA VIDA SOCIAL, E TUDO O QUE 
FAZEMOS ACONTECE A PARTIR DE DETERMINAÇÃO CEREBRAL
E
studos neuropsicológicos cons-
tatam que as diferenças exis-
tem entre homens e mulheres 
e não são exclusivamente cul-
turais. Os pesquisadores de Harvard 
descobriram que determinadas partes 
do córtex frontal, envolvido em funções 
cognitivas importantes, são proporcio-
nalmente mais volumosas em mulheres 
do que em homens, assim como partes 
do córtex límbico, envolvido nas rea-
ções emocionais. Outra região do cére-
bro que difere anatomicamente entre os 
sexos em sua resposta ao estresse é o 
hipocampo, estrutura essencial para o 
armazenamento de lembranças e para 
o mapeamento espacial do ambiente. 
Essas divergências anatômicas podem 
estar ligadas à diferença no modo como 
homens e mulheres se comportam: os 
homens tendem a se orientar estiman-
do a distância e sua posição no espaço, 
enquanto as mulheres se orientam ob-
servando pontos de referência. 
Seguindo nas comparações entre es-
truturas cerebrais, o aumento na densi-
dade do córtex auditivo feminino pode 
estar relacionado ao melhor desempe-
NHO�EM�TESTES�DE�m�UÐNCIA�VERBAL��%SSAS�
características não representam mais 
psique ciência&vida 51www.portalespacodosaber.com.br
Luiza Elena L. Ribeiro do Valle é psicóloga, doutora em Ciência no 
Departamento de Psicologia Social (USP/SP). Mestre em Psicologia Escolar e 
Educacional (PUC-Campinas), MBA Executivo em Psicologia Organizacional 
(AVM-Brasília), extensão em Gestão de Pessoas (FGV). Formação em Coaching 
(Lambent), especialização em Psicologia Clínica (CFP) na linha 
Cognitivo-Comportamental, consultora em Psicopedagogia, autora de livros.
IM
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 A
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O 
PE
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L
capacidades, mas a maneira como a es-
trutura do nosso cérebro se desenvolve. 
Existe a capacidade de reagir de manei-
ra diferente à violência, o que não quer 
dizer, obviamente, que as mulheres não 
possam ser agressivas.
Em relação à inteligência emocio-
nal, a situação não é diferente. A inte-
ligência emocional pode ser entendida 
como a capacidade de se conhecer para 
lidar bem consigo mesmo e, da mes-
ma forma, conhecer e lidar bem com o 
outro, nos relacionamentos sociais, fa-
MILIARES�OU�PROlSSIONAIS��$ESSA� FORMA��
trata-se da capacidade de conciliar as 
emoções e a razão, de modo a facilitar 
esse equilíbrio fundamental na habili-
dade de trabalho em grupo ou para ou-
vir nossos próprios sentimentos.
As mulheres apresentam melhor 
desempenho em relações humanas e 
tendem a se sobressair em empatia e 
proteção. Por outro lado, os homens têm 
mais facilidades na independência e nas 
habilidades matemático-espaciais. A 
região parietal inferior do córtex no he-
misfério esquerdo é maior nos homens, 
privilegiando as habilidades mentais de 
raciocínio matemático, conforme foi ve-
RIlCADO�NO�CÏREBRO�DE�!LBERT�%INSTEIN�E�
de outros físicos e matemáticos.
Foi descoberto, no entanto, que o 
cérebro das mulheres processa a lin-
guagem verbal nos dois hemisférios si-
multaneamente, enquanto os homens 
só processam a linguagem verbal no 
hemisfério esquerdo. Como consequên-
cia dessa descoberta, na Universidade 
de Yale percebeu-se que os homens e 
as mulheres usam estratégias diferentes 
para desempenhar as funções cogniti-
vas. Se de um lado eles têm força corpo-
ral para competir, elas conseguem van-
tagens sociais através da argumentação 
e da persuasão. 
É interessante, ainda, que existe um 
FEIXE�DE�lBRAS�NERVOSAS� LIGANDO�OS�DOIS�
hemisférios cerebrais, sendo esse o pon-
to essencial do desenvolvimento intelec-
tual. Esse feixe é maior nas mulheres, 
que acessam várias partes do cérebro 
para resolver determinado problema, 
enquanto os homens pensam com re-
GIÜES� MAIS� ESPECÓlCAS� DO� CÏREBRO�� PO-
dendo ter respostas mais sintetizadas e 
objetivas, menos analíticas. 
Atualmente, em virtude do acentu-
ado desenvolvimento tecnológico, as 
relações sociais transformam-se em sua 
essência, provocando um descompas-
so na construção identitária do sujeito 
pós-moderno, que aumenta velozmente 
a sua interação com a máquina enquan-
to, inversamente, diminui seu contato 
COM�O� GÐNERO� HUMANO�� DIlCULTANDO� O�
exercício da chamada inteligência emo-
cional porque se dedica mais ao com-
putador que ao conhecimento de si, 
enquanto pessoa.
Segundo Foucault (1926-1984), o es-
tudo da sexualidade deve centrar-se nos 
discursos do desejo, explorando as pala-
vras, a linguagem e os símbolos.
Desse modo, a sociedade se constrói 
nas relações afetivas, familiares, educa-
CIONAIS� E� PROlSSIONAIS�� 3EM� DÞVIDA�� Ï�
na família que a identidade da mulher e 
do homem recebe as primeiras progra-
mações culturais. A divisão dos papéis 
ENTRE�O�CASAL�PARA�A�EDUCA¥ÎO�DOS�lLHOS�
REmETE�OS�VALORES�E�AS�CREN¥AS�DA�INSTITUI-
ção familiar. Cada família tem regras e 
valores próprios. É comum no Ocidente 
que as meninas, ainda no berçário, ga-
NHEM�BRINCOS�E�RECEBAM�UM�LA¥O�DE�lTA�
na cabeça logo após nascer. Os meninos 
são comemorados sem esses detalhes. 
Assim, daquele momento em diante, 
instala-se um aprendizado que deverá 
fazer parte da identidade feminina ou 
masculina, num contexto social. A iden-
TIDADE��PRODUTO�SOCIAL�E�REmEXO�DO�OLHAR�
do outro, ou seja, de como o outro nos 
percebe, porque o autoconceito se forma 
a partir das informações que se recebe. 
Para Foucault (1926-1984), que en-
fatiza o papel do poder na evolução do 
discurso em sociedade, as contradições 
podem ser vistas como um princípio 
organizador. O conjunto de traços con-
traditórios fundamenta os discursos 
que na atualidade se desdobram em di-
versos temas sobre os sexos, no qual a 
mulher é associada ao dilema entre car-
REIRA� E�MATERNIDADE�� Ì� CULPA�� Ì� ANGÞS-
tia, à incompletude, convergindo para 
uma identidade em crise, enquanto o 
homem segue competindo pelo poder e 
domínio, porém liberado para se emo-
cionar, fazer tarefas caseiras e demons-
trar afetividade.
%NlM��O�CRESCIMENTO�DO�NÞMERO�DE�
mulheres em lugares anteriormente ocu-
pados apenas por homens deverá contri-
buir para o aumento considerável de va-
lores como compreensão, solidariedade 
e aceitação de diferenças, contribuindo 
para um mundo mais justo e inclusivo, 
que abrace a diversidade de gênero.
HOMENS E MULHERES USAM ESTRATÉGIAS 
DIFERENTES PARA DESEMPENHAR FUNÇÕES 
COGNITIVAS. SE DE UM LADO ELES TÊM 
FORÇA CORPORAL PARA COMPETIR, 
ELAS CONSEGUEM VANTAGENS SOCIAIS 
ATRAVÉS DA ARGUMENTAÇÃO E PERSUASÃO
52 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
neurociência por Marco Callegaro
Aprendendo durante o SONO
NOVA INVESTIGAÇÃO APONTA QUE É POSSÍVEL APRENDER 
DURANTE O SONO, CONTRARIANDO A CRENÇA BEM 
ESTABELECIDA DE QUE ISSO SERIA ALGO IMPOSSÍVEL
um grupo de sujeitos falantes de ale-
mão, os pesquisadores expuseram os 
participantes durante a noite ao vo-
cabulário de uma língua inventada e 
posteriormente conseguiram associar 
essas palavras a signif icados em lín-
gua alemã.Embora essa proeza esteja ain-
da distante de aprender uma nova 
A
ideia de que precisamos 
de nossa consciência para 
aprender é uma crença que 
parece racional e bem fun-
damentada em termos de conheci-
mento sobre neurociências. De fato, 
de forma geral, novas memórias são 
formadas durante as horas de vigília, 
quando nossas mentes conscientes es-
tão no controle. No entanto, essa cren-
ça foi recentemente desaf iada em um 
novo estudo, que sugere a possibilida-
de de aprender material novo de forma 
inconsciente todas as noites. 
Uma investigação realizada na 
Universidade de Berna e publicada na 
revista Current Biology indica que essa 
ideia pode não ser tão improvável. Em 
psique ciência&vida 53www.portalespacodosaber.com.br
cada uma ligada a um certo signif i-
cado. Essas palavras f ictícias foram 
apresentadas aos sujeitos nos chama-
dos “estados ascendentes” ou “picos” 
durante o sono profundo, um estágio 
geralmente não associado aos sonhos.
Durante o sono profundo, a cada 
meio segundo os neurônios alternam 
um período no qual sua atividade é 
coordenada com outro estado inati-
vo. A hipótese dos pesquisadores é 
de que os picos de ondas lentas são 
propícios à codif icação do sono por-
que demarcam períodos de excitabi-
lidade neural.
Durante o sono dos sujeitos, foi 
usado um EEG para monitorar suas 
ondas cerebrais, enquanto os pesqui-
sadores disparavam associações de 
palavras através de fones de ouvido. 
Pares de palavras, uma f ictícia e outra 
com um signif icado, foram associados 
durante quatro repetições cada par.
Quando os sujeitos acordaram, 
os investigadores mostraram aos su-
jeitos as pseudo-palavras, enquanto 
IM
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S:
 S
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IV
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PE
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ESTUDO APONTA 
QUE O CÉREBRO 
ADORMECIDO PODE 
CODIFICAR NOVAS 
INFORMAÇÕES E 
ARMAZENÁ-LAS 
POR LONGO PRAZO, 
ALÉM DE FAZER 
NOVAS ASSOCIAÇÕES
Marco Callegaro é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, 
diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto 
Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo 
Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o 
Modelo do Processamento Mental (Artmed, 2011).
Referência: 
Marc Alain Züst, Simon Ruch, Roland Wiest & Katharina Henke. Implicit vocabulary learning during 
sleep is bound to slow-wave peaks. Current Biology, v. 29, issue 4, p. 541-553. E7, February 18, 
2019. Open access published: January 31, 2019. DOI: https://doi.org/10.1016/j.cub.2018.12.038
linguagem durante o sono, é um avan-
ço importante na compreensão do me-
canismo de aprendizagem noturna. Os 
sujeitos quando acordavam eram ques-
TIONADOS�SOBRE�AS�PALAVRAS�lCTÓCIAS��DE�
forma indireta, e de fato responderam 
SIGNIlCATIVAMENTE� ACIMA� DO� ACASO��
Isso ocorreu sem que os participantes 
soubessem que haviam sido expostos 
às palavras anteriormente.
Esse resultado indica que o cére-
bro adormecido pode realmente codi-
f icar novas informações e armazená-
-las por longo prazo, além de fazer 
novas associações. 
Uma das importantes funções do 
sono é o processo de reorganizar as 
memórias. Durante certos estágios do 
sono, como no período de sonho, o 
cérebro repete as memórias em modo 
rápido. Os circuitos neurais que têm 
a função de armazenar memórias 
reativam-se novamente como uma 
rede, ensinando o cérebro a lembrar. 
Essa repetição parece nos ajudar a in-
troduzir importantes aprendizados e 
experiências de vida em um armazena-
mento mais permanente em nossos cé-
rebros. Enquanto isso, memórias menos 
importantes são apagadas para abrir 
mais espaço para armazenamento.
Através da medição direta da ati-
vidade neural noturna em cérebros de 
camundongos, verif ica-se que as re-
des neurais ativadas na codif icação da 
memória durante o dia f icarão ativas 
à noite. A partir desses estudos com 
roedores, os cientistas descobriram 
que o hipocampo, uma região em for-
ma de cavalo-marinho no interior do 
cérebro, se comunica com a camada 
externa do cérebro, o córtex, durante 
o sono, através de ondas de atividade 
que podem ser medidas usando um 
dispositivo de EEG. 
Nesse estudo, participaram sujei-
tos de língua alemã de ambos os se-
xos. Para garantir que nenhum dos 
participantes tivesse contato anterior 
com a linguagem utilizada, os pes-
quisadores criaram palavras f ictícias, 
pediam que imaginassem se o objeto 
referido pela palavra com signif icado 
era menor ou maior que uma caixa 
de sapatos, que foi uma maneira de 
explorar as memórias inconscientes 
ou implícitas.
Quando a segunda palavra no par 
de palavras coincidia com o estado 
superior em sono profundo, os parti-
cipantes puderam caracterizar corre-
tamente a palavra inventada em 10% 
a mais do que o acaso. Isso revela que 
os traços de memória implícitas for-
mados durante o sono persistem du-
rante a vigília e inf luenciam a forma 
como reagimos aos estímulos apre-
sentados, como uma intuição ou pres-
sentimento.
Quando o cérebro dos participan-
tes era examinado através de técni-
cas de neuroimagem, os pesquisado-
res descobriram que o hipocampo e 
as regiões do cérebro normalmente 
associadas à aprendizagem de lín-
guas durante a vigília também esta-
vam ativos durante a aprendizagem 
do sono. Essa descoberta contradiz o 
que sabemos sobre o funcionamento 
do hipocampo no aprendizado, que 
estaria ativo somente nas fases da 
consciência.
Apesar de promissores, esses re-
sultados ainda não apontam para uma 
consistente capacidade de aprender 
línguas durante o sono, pois esse 
aprendizado se baseia em conheci-
mento explícito e não em sensações 
implícitas. Mais estudos são necessá-
rios para investigar essa nova forma 
de aprendizado, que parece interes-
sante e promissora.
54 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
recursos humanos por João Oliveira
P
essoas simplesmente param de 
buscar crescimento porque, 
por comparação, se encontram 
em melhor posição que seus 
pares. O olhar, no entorno, vicia como 
uma armadilha invisível, criando uma 
ilusão de faixa de chegada: “Cheguei 
ao máximo de minha carreira!”. Essa 
FRASE�lNALISTA�PODE�ESTAGNAR�UMA�VIDA�
que poderia contribuir mais com a em-
presa, família, sociedade e (obviamen-
te) consigo mesmo.
Sabemos, pela programação neu-
rolinguística e os informes dos neuro-
cientistas, que o cérebro adora novida-
des mas detesta mudanças. Vivemos 
buscando padrões para explicar tudo o 
que nossos sentidos podem captar. Por 
isso é difícil dormir com uma torneira 
pingando: não há padrão perfeito en-
tre uma gota e outra, o que gera um 
ruído sem cadência rítmica. O cérebro 
não gosta muito de coisas sem um pa-
drão previsível. 
Assim, sempre que for possível de-
tectar uma relação confortável entre 
PRODU¥ÎO� E� RENDIMENTO� �RETORNO� lNAN-
ceiro), com certa estabilidade previsível, 
é possível ocorrer uma paralisação pela 
BUSCA�DE�CRESCIMENTO�PROlSSIONAL��%SSE�
PERlL� � MUITO� COMUM� EM� SERVIDORES�
públicos de uma forma geral, mas tam-
bém existe em bom tamanho em todos 
OS�PERlS�DE�ATUA¥ÎO�DOS�SERES�HUMANOS��
desde os pequenos comerciantes aos re-
NOMADOS�PROlSSIONAIS�LIBERAIS��
!� JUSTIlCATIVA� MAIS� ENCONTRADA��
quando se questiona o indivíduo sobre 
sua escolha em deter o próprio desen-
VOLVIMENTO�PROlSSIONAL���QUE�ELE�n�RES-
PONDE
SE�PRONTAMENTE�n�NÎO�Ï�GANAN-
cioso, ou que não vive apenas em busca 
DE� RETORNO� lNANCEIRO��!� FRASE� CAMPE�
��h0RElRO�QUALIDADE�DE�VIDA�A�UMA�VIDA�
só de trabalho!”.
Não há nada de errado nisso e são 
boas falas, na verdade, o problema é que 
podem não corresponder à plena verdade 
dos resultados que poderiam ser alcança-
dos caso existisse a motivação certa.O COMPORTAMENTO PERIGOSO 
DA ACOMODAÇÃO, PELA SENSAÇÃO 
DE CONFORTO E ESTABILIDADE, 
PODE LIMITAR EM MUITO A REAL 
PRODUÇÃO QUE UM PROFISSIONAL 
PODERIA TER EM SUA CARREIRA 
A armadilha do 
BOM QUEIJO
psique ciência&vida 55www.portalespacodosaber.com.br
O prof. dr. João Oliveira é doutor em Saúde Pública, psicólogo e diretor de Cursos 
do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.isec.psc.br). Entre seus livros estão: 
Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam. Tenha as Soluções!; 
Jogos para Gestão de Pessoas: Maratona para o Desenvolvimento Organizacional; Mente 
Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida; e Saiba Quem Está à sua Frente – Análise 
Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora).
IM
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ST
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QU
IV
O 
PE
SS
OA
L 
DO
 A
UT
OR
Durante o lançamento de uma cam-
panha para a aquisição de casa própria 
no Estado do Rio de Janeiro pelo va-
lor de R$ 1,00 (isso mesmo: um único 
e mísero real por uma casa popular), 
um grupo de amigos psicólogos traba-
lhava na captação de possíveis futuros 
MORADORES�� /� PERlL� PROCURADO� ERAM�
moradores de rua, pessoas que viviam 
em condições sub-humanas e morado-
res de comunidades carentes. Um dia 
encontraram uma família que residia 
sob uma ponte em um valão fora do 
perímetro urbano, e não havia argu-
MENTA¥ÎO�SUlCIENTE�QUE�CONVENCESSE�A�
família a deixar a arriscada condição 
de vida. Em dado momento, o chefe da 
família argumentou que isso iria gerar 
despesas que eles não tinham até o 
momento, como: IPTU, conta de água, 
de luz e até mesmo gás. O psicólogo, 
então, como última forma de conven-
cimento, disse: “Mas aqui, de vez em 
quando, ocorrem cheias, e a água che-
ga a cobrir até mesmo a pista sobre a 
ponte”. O senhor fechou o semblante, 
abaixou a cabeça e terminou a conver-
sa com o seguinte argumento: “É só 
uma vez por ano!”.
Nós, seres humanos, estamos muito 
bem preparados para defender as cren-
ças que temos como verdade pessoal. 
Por isso temos guerras. Como, então, 
uma empresa deve agir em seu corpo la-
BORAL�A�lM�DE�ESTAR�SEMPRE�MOTIVANDO�O�
crescimento de seus colaboradores? 
Os treinamentos são bem-vindos 
sempre. No entanto, quando o foco é 
provocar a busca pelo crescimento, de-
ve-se ter o cuidado de saber direcionar 
o resultado para a própria instituição, 
quando for o caso de uma empresa, ou 
para o amplo mercado quando o foco 
FOREM�OS�PROlSSIONAIS�LIBERAIS�
Pode ser que sua empresa não lhe 
ofereça essa oportunidade, e a única 
FORMA�DE�ESTAR�NELA��lCANDO�JUSTAMEN-
te no seu lugar, mantendo essa conhe-
cida segurança. Caso surjam o descon-
forto e a necessidade de escalar novos 
degraus, o jeito é deixar de fazer parte 
Outro exemplo de como isso pode 
ser danoso: quando uma grande empresa 
pública foi privatizada no Rio de Janeiro, 
na década de 1980, um grupo de recru-
tadores visitou todas as unidades pelo 
interior do estado fazendo a seguinte 
pergunta aos antigos funcionários: “Há 
quanto tempo o senhor está nessa fun-
ção?”. A linha de corte foi os que estavam 
estacionados há mais de dez anos. Não 
interessava à nova administração pes-
soas sem ambição. Para ela, isso era um 
forte indicativo de falta de proatividade.
Uma avaliação pessoal deve ter uma 
agenda recorrente. Em nossa cultura é 
NORMAL�ESSA�CHECAGEM�OCORRER�NO�lNAL�
ou começo de um novo ano ou nos ani-
versários natalícios. Muitos planos, vá-
rias metas e uma curta memória para 
mudança. Basta lembrar dessa frase que 
elaborei em um de nossos livros: “A úni-
ca constante na vida é a mudança cons-
tante na vida”. Se prepare para crescer 
mais um pouco ainda hoje!
SABE-SE, PELA 
PROGRAMAÇÃO 
NEUROLINGUÍSTICA 
E OS INFORMES DOS 
NEUROCIENTISTAS, 
QUE O CÉREBRO 
ADORA NOVIDADES 
MAS DETESTA 
MUDANÇAS. ELE 
NÃO GOSTA MUITO 
DE COISAS SEM UM 
PADRÃO PREVISÍVEL
da instituição. Por isso, eventos moti-
vacionais dentro das instituições de-
vem ofertar quais possibilidades estão 
disponíveis em seu próprio ambiente. 
Caso contrário, o risco de perder ele-
mentos será inevitável.
CONCEITO
56 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
O processo de análise consegue quebrar 
paradigmas, pois ao falar das próprias 
feridas, do vazio e da dor, a pessoa 
consegue sair de um estado de morte 
para um estado de vida
Por Salézio Plácido Pereira e Edson Sallin
CONCEITO
A RESSIGNIFICAÇÃO 
psique ciência&vida 57www.portalespacodosaber.com.br
Salézio Plácido Pereira é graduado em Pedagogia, Filosofia e Teologia, 
psicanalista, doutor em Psicologia Social pela Universidade John F. Kennedy 
da Argentina, diretor do Instituto de Psicanálise Humanista (www.itphrs.org), 
presidente da Academia Mundial das Ciências Humanas (www.waohs.org) e 
diretor da University Humanistic of Americas (www.humanisticuniversity.org).
Edson Sallin é graduado em Filosofia e Teologia pela Fapas, Santa Maria 
(RS), especialista em Bioética pelo Centro Universitário São Camilo (SP), 
com especialização em Psicanálise Humanista pelo Instituto de Psicanálise 
Humanista, Santa Maria (RS), e psicanalista (idsallined@yahoo.com.br).IMA
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 DOS TRAUMAS
CONCEITO
58 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
Depressão, 
estresse, fobias 
são verdades 
atuais, que não 
temos como 
negar ou esconder. 
No entanto, 
frente a tudo 
isso, se percebe 
o crescimento 
assustador de 
tantas doenças. 
Qual a causa de 
tudo isso?
APsicanálise surgiu para possibilitar ao paciente uma nova consciência, detém entender e com-preender o sofrimento, 
os traumas e as dores. A caminhada 
iniciada por Sigmund Freud, com 
o tratamento da histeria, vem hoje 
mostrar a necessidade e a importân-
cia da escuta analítica como proces-
so para a cura. Em um tempo em que 
tudo é rápido, no qual a vida parece 
não ter mais sentido e significado, o 
próprio ato de falar desses problemas 
leva a pessoa a ressignificar, isto é, a 
olhar para a própria realidade e, des-
sa forma, sair da patologia. 
Vivemos numa era em que, apesar 
de todas as mudanças, tanto na área das 
ciências da tecnologia, da web, do estar 
conectado, o ser humano parece sentir-
-se cada vez mais vazio de si e da pró-
pria realidade. Depressão, estresse, fo-
bias são verdades atuais, que não temos 
como negar ou esconder. No entanto, 
frente a tudo isso, se percebe o cresci-
mento assustador de tantas doenças. 
As perguntas que não se calam: qual 
a causa de tudo isso? Será o estilo de 
vida, as escolhas que realizamos, talvez 
o modo como nos alimentamos?
O objetivo deste artigo é apre-
sentar e mostrar sobre a importân-
cia da análise, isto é, a cura pela fala. 
Ao longo dos anos, essa ciência tem 
realmente contribuído de modo 
satisfatório para que pudesse le-
var saúde ao paciente. Ao falar das 
próprias feridas, do vazio e da dor, 
a pessoa consegue sair de um esta-
do de morte para um estado de vida. 
Quando somos inf luenciados pelas 
crenças, acredita-se nelas como as 
únicas verdades. Dessa forma, com 
o processo da análise se consegue a 
quebra desses paradigmas. 
Ao mergulhar na subjetivi-
dade da própria existência, o ser 
humano se percebe como um ser 
para a saúde e não para a doença. 
Pois toda forma de patologia leva 
ao processo de autodestruição de 
tudo aquilo que alimenta a existên-
cia. Na tomada de cons-
ciência cria todas as 
condições para 
se superar na 
existência com 
criatividade, saú-
de e superação. 
Feridas psíquicas
O tratamento analítico é um ca-minho que leva o paciente na 
tomada de consciência e ressigni-
ficação das próprias feridas. Dessa 
maneira, através da fala se consegue 
escutar a própria dor. Com o desen-
volvimentodas ciências, o grande 
avanço da Medicina, Freud abriu as 
portas para uma nova maneira de 
entender e compreender o sofrimen-
to psíquico, para, com isso, levar ao 
estudo da mente inconsciente, que-
brando certas crenças colocadas 
como verdades únicas.
A Psicanálise é uma ciência que 
serve de auxílio para compreender a 
mente inconsciente na prática clíni-
ca. Com o seu advento, se começou a 
buscar outra compreensão dos sinto-
mas, assim como das doenças. O que 
antes era visto como algo místico, 
agora é entendido e compreendido 
como patologia. Dessa forma se en-
tendeu que muitos dos sintomas não 
poderiam ser analisados sob o para-
digma da Medicina, mas, sim, entrar 
no mundo das emoções, traumas, 
compulsões e psicoses.
A cura pela fala é, na verdade, 
um grande avanço que modificou 
muitas crenças. Hoje se percebe a 
necessidade do tratamento analíti-
co, diante de uma sociedade que pa-
rece priorizar o sofrimento e a dor. 
Ao criarmos camadas sobre a nos-
sa realidade, iremos viver a essên-
cia germinativa dessas patologias, 
que pouco a pouco vão nos sufocar. 
Quando falamos, o corpo começa a 
sarar. Os silêncios são armadilhas, 
pois viram toxinas emocionais. Com 
o tempo tornam-se dores físicas ou 
psíquicas, dessa maneira afetando 
todo o organismo. 
Guardar traumas, perdas e ódio 
é uma realidade que se torna uma 
“bomba” capaz de alterar algum 
órgão do corpo. Nesse sentido, ao 
falar, ao escutar-se, o paciente em 
seu processo psicanalítico começa a 
A caminhada 
iniciada por Freud, 
com o tratamento 
da histeria, vem 
hoje mostrar a 
necessidade da 
escuta analítica 
como processo 
para a cura
psique ciência&vida 59www.portalespacodosaber.com.br
Ao longo dos 
anos, a cura pela 
fala tem realmente 
contribuído de 
modo satisfatório 
para que pudesse 
levar saúde ao 
paciente. Quando 
somos influenciados 
pelas crenças, 
acredita-se nelas 
como as únicas 
verdades
recuperar o sentido da vida, a tomar 
consciência do seu estado doentio.
O mundo agitado em que se vive, 
no qual o estresse parece ser a causa 
de tantas patologias, o fato de olhar 
para si, de criar as condições para sair 
do estado de morte para o estado de 
vida, acontece mediante a busca do 
tratamento analítico. Ao ressignifi-
car as dores e os traumas, a pessoa 
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A META É PROMOVER A TRANSFORMAÇÃO
 PARA SABER MAIS 
A
análise tem como meta levar o paciente a se transformar, isto é, a sair 
de uma condição de patologia para uma realidade de saúde, vida e supe-
ração. O tratamento analítico é o encontro com a própria sombra, a capaci-
dade de enfrentar, com consciência e criatividade, as dores e os traumas da 
existência. O ponto de partida deste artigo foi, então, delinear um caminho 
para a compreensão e o entendimento do conhecimento 
analítico como um processo de cura das feridas 
psíquicas. Sendo a Psicanálise uma 
ciência, exige um método prático, 
eficaz e verdadeiro, no qual tem 
como objetivo promover a saúde 
e não a doença. Quando a pessoa 
está com o potencial adormecido, 
são criadas todas as condições para 
permanecer na doença e nas falências. 
Acredita nessas crenças como verda-
des únicas, isto é, que a vida gira em 
torno da dor, sofrimento, falências e das 
doenças. Ao escutar a própria dor, ao mergulhar 
no sofrimento, a pessoa entende que não precisa 
permanecer nessa condição de somatizações. O método 
psicanalítico oferece uma metodologia capaz de esclarecer e compreender 
as dores psíquicas, sendo capaz de penetrar nas profundezas do inconscien-
te para, dessa maneira, levar o paciente a descobrir o seu potencial de vida, 
criatividade e potencialidade.
vai tomando consciência de que não 
necessita dessas patologias.
Por mais difícil que tenha sido a 
infância, não temos como modificá-
-la, ou mesmo apagar da memória. 
No entanto, o caminho mais cura-
tivo e consciente é escutar a própria 
dor, entender que não se precisa viver 
sofrendo por fatos do passado. Sem 
dúvida, quando se vivem as catástro-
fes da existência, é preciso um tempo 
para elaborar todas essas realidades, 
pois “a catástrofe natural, como me-
táfora do trauma psíquico, nos ajuda 
a entender que o trauma real que der-
ruba e mata não é pensável. A única 
coisa que se faz é tentar permanecer 
de pé, evitar os escombros e respirar” 
(Cyrulnik, 2009, p. 26). 
No mundo moderno, apesar das mudanças da tecnologia, da web, do estar conectado, o ser humano se 
sente cada vez mais vazio de si e da realidade
CONCEITO
60 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
Ao mergulhar na 
subjetividade da 
própria existência, 
o ser humano se 
percebe como um 
ser para a saúde e 
não para a doença. 
Pois toda forma 
de patologia leva 
ao processo de 
autodestruição 
de tudo aquilo 
que alimenta a 
existência
Quando conseguimos falar de 
nossos problemas, dilemas e frus-
trações, a ferida torna-se menos do-
lorida. Os sintomas, em grande par-
te, são emoções que não chegaram 
à consciência, da mesma forma que 
muitos traumas que não foram ela-
borados tornam-se feridas psíquicas. 
Ao escutar a minha dor, ela torna-se 
consciente, deixa de comandar a mi-
nha existência. 
A análise leva o paciente a sair da 
patologia para começar a olhar a vida 
com outros olhos. Permite voltar a 
amar, a vibrar com a existência, a viver 
com alegria e sentido. Aos poucos, se 
percebe como uma pessoa feliz, com 
saúde e desejos, tem todas as condi-
ções para se superar com criatividade, 
sem necessitar permanecer na doen-
ça. A análise é o caminho terapêutico 
que possibilita a busca da cura. No 
entanto, é necessário estar disposto a 
desapegar-se da dor e do sofrimento. 
Reelaboração das crenças
A ciência psicanalítica trata da questão dos sintomas, dos trau-
mas, neuroses e psicoses. No momen-
to em que o paciente conseguir olhar 
para a sua realidade, na decisão cons-
ciente de sair do estado doentio, real-
mente se superará na existência com 
de para a vida. Se crescermos acre-
ditando que viver é padecer e sofrer, 
realmente, são essas verdades que 
vão direcionar-nos, independente-
mente de como conduzimos nossas 
escolhas. Afinal, o que são as cren-
ças? Elas se estruturam em toda pro-
gramação mental, adquiridas duran-
te toda a vida, como aprendizado, nas 
quais determinam comportamentos, 
atitudes, tomadas de decisões, con-
quistas e qualidade de vida. Elas de-
cidem como enxergamos o mundo, 
a vida e a realidade que nos cerca. 
Em si, comandam a nossa existência, 
muitas vezes fazendo com que tome-
mos decisões erradas. 
Mudamos sempre nossas percep-
ções, escolhas, conseguimos ressig-
nificar uma perda recente, uma dor 
do ano passado. No entanto, o difícil 
é mudar as crenças inconscientes, 
herdadas desde a nossa infância. Esse 
sistema me impulsiona em repetir 
a mesma coisa, viver acreditando 
numa inverdade imposta. Ora, se 
acredito nessa realidade, a vida não 
vai para a frente, não consigo evoluir, 
crescer, tanto no aspecto relacional 
quanto no financeiro e amoroso. 
Aprendi que a vida é sofrer e padecer, 
que as conquistas são para os outros 
e nunca para mim. 
Como podemos reelaborar uma 
crença? Quando mudamos as crenças, 
não só conseguimos mudar os com-
portamentos, mas também os nossos 
resultados, nossas atitudes frente às 
realidades que nos cercam. O papel 
das crenças é levar a pessoa a um pro-
cesso de fracasso, em viver na falta de 
amor, de dinheiro, afeto e carinho. 
A crença de identidade é que vai 
determinar quem eu sou. Como me 
percebo na existência e como os ou-
tros me percebem. Se acredito que 
sou um fracasso, um coitado, um 
ser sem amor, que não merece afeto 
e carinho; na verdade, são essas re-alidades que vão ser introjetadas na 
minha vida. No momento em que 
saúde e criatividade. Todos nós temos 
nossas crenças, muitas vezes são elas 
que determinam a nossa existência. É 
comum o paciente vir para a análise 
com suas crenças defi nidas, acredi-
tando nelas como verdades únicas. 
Toda crença tem um método, 
uma verdade e energia. Não falamos 
em crenças religiosas, mas, sim, na-
quelas que desde a nossa infância 
aprendemos como sendo uma verda-
Ao falar, ao se escutar, o paciente, em seu processo psicanalítico, começa a recuperar o sentido da 
vida, a tomar consciência do seu estado doentio
psique ciência&vida 61www.portalespacodosaber.com.br
O tratamento analítico é um caminho 
que leva o paciente na tomada de 
consciência e ressignificação das próprias 
feridas. Dessa maneira, através da fala, 
se consegue escutar a própria dor
consigo olhar para a minha vida dife-
rente, que, sim, sou merecedor de ter 
amor e sucesso, dessa maneira estou 
reelaborando as minhas crenças. 
Na verdade, é um processo de to-
mada de consciência, de ser merece-
dor, que eu posso e consigo. Mesmo 
que existam várias estruturas neu-
rais, crenças limitantes, aos poucos 
estas não vão mais comandar a to-
mada de decisão da vida. Reelaborar, 
mudar de atitude, de conceito, do 
modo como entende a existência são 
passos na mudança de vida, para com 
isso se transformar. 
Se as crenças não me fazem feliz, 
vão causar graves prejuízos na minha 
vida. Elas realmente são completa-
mente determinantes. Se tenho cren-
ças limitantes sobre os aspectos con-
jugais, ou mesmo financeiros, vou 
ter muitos problemas diante desses 
aspectos. O grande objetivo da vida é 
viver feliz, com saúde e determinado 
na existência. Nenhum ser humano 
nasceu para sofrer, padecer ou mes-
mo viver no fracasso. Por isso, quan-
do consigo mudar as crenças, mudo 
de dentro para fora. Quando mudo a 
identidade que tenho sobre mim, al-
tero a maneira e o modo de como me 
percebo na existência. 
Podemos apresentar três tipos de 
crenças: a) identidade - de como me 
percebe na vida, b) capacidade - se 
realmente acredito nas minhas capa-
cidades, se realmente consigo me ver 
como uma pessoa inteligente; c) me-
recimento - é tudo aquilo que mereço 
na vida; quando tenho um complexo 
de inferioridade não me sinto mere-
cedor de nada na vida. Tudo é para os 
outros, menos para mim. Por isso que 
ao mudar de pensamento, na tomada 
de atitude, num processo de análise, 
realmente se consegue reelaborar to-
das essas crenças. 
Podemos afirmar que o objetivo 
delas é fazer com que a pessoa viva na 
contradição. Não mereço, não posso, 
não tenho capacidades, ninguém me 
ama ou não sou merecedor do amor. 
Na tomada de consciência, no pro-
cesso analítico, realmente o paciente 
vai percebendo que essas crenças não 
condizem com a sua existência. 
A essência de ser 
Na busca de um sentido na vida, o ser humano descobriu novos 
caminhos que o levam a sua interiori-
dade. Na essência de ser e existir, este 
realmente necessita ouvir-se para, 
dessa maneira, compreender-se. Des-
se modo é que conseguimos reconhe-
cer que as feridas e os sofrimentos 
Escuta do vazio 
A análise possibilita a aproximação 
da escuta do vazio, do se conhecer 
e se superar na existência com amor, 
saúde e sem doenças. Para Salézio 
Plácido Pereira, “a análise humanista 
procura relacionar essas forças do 
potencial da biofilia e procura nesta 
‘potência’ o desejo de viver e amar. 
Nunca se deve reduzir a complexi-
dade do fenômeno doentio a uma 
interpretação racional desprovida da 
análise do seu processo de autodes-
truição” (Pereira, 2015, p. 55). 
Sintomas são emoções que não chegaram à consciência, da mesma forma que os traumas que não foram 
elaborados se tornam feridas psíquicas
CONCEITO
62 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
Com o 
desenvolvimento 
das ciências, o 
grande avanço da 
Medicina, Freud 
abriu as portas para 
uma nova maneira 
de entender e 
compreender 
o sofrimento 
psíquico, para, 
com isso, levar ao 
estudo da mente 
inconsciente
não tratados podem destruir e ani-
quilar a existência. Na falta de algo 
na vida, busca-se constantemente 
fixar-se no vazio. Nesse sentido, o 
nosso existir carrega um sentimento, 
o de restaurar e transformar nossa 
unidade primeira. 
O que torna o ser humano doen-
te? Muitas vezes podemos nos per-
guntar a respeito disso. Da mesma 
maneira podem-se levantar muitas 
hipóteses e questionamentos. Vi-
vemos numa sociedade que parece 
estar cada vez mais doente. O cres-
cimento dos produtos fármacos não 
tem resolvido a grande demanda que 
se apresenta. O que fazer? Quais se-
riam os recursos necessários para 
viver com saúde e sem doenças? A 
grande causa dessas realidades, na 
atualidade, é o vazio da existência, 
ou melhor, a patologia do vazio. 
No momento em que se perde o 
sentido de existir, a alegria de amar 
e ser amado, o ser humano cai no va-
zio, onde depressão e sofrimento o 
movem. Sente-se inquieto, perdido, 
sem um objetivo, como afirma Erich 
Fromm: “Contudo, o homem moder-
no sente-se inquieto e cada vez mais 
perplexo. Ele labuta e lida, mas tem 
uma vaga consciência da futilidade 
de seus esforços. Enquanto cresce 
seu poder sobre a matéria, sente-se 
impotente em sua vida individual e 
em sociedade” (Fromm, 1981, p. 14). 
Existem várias explicações diante 
da criação de uma doença. Verdade, 
não tem como realizar um diagnóstico 
preciso, com base sobre um conceito 
de uma patologia psíquica. No entanto, 
cabe ressaltar algumas hipóteses para, 
dessa maneira, chegar a um possível 
diagnóstico. Muitas dessas doenças 
são resultado de alterações emocionais 
e psíquicas, visto que “a lesão, a depres-
são, o pânico são fruto das relações in-
conscientes e emocionais que o sujeito 
projeta na realidade social e cultural e 
no processo de formação de sua identi-
dade” (Pereira, 2009, p. 14). 
Essa patologia do vazio tem como 
objetivo levar a pessoa a um total 
fracasso, tanto relacional como fi-
nanceiro. Nesse meio, se perde por 
completo o sentido de viver, do lu-
tar pelos sonhos, tudo gira em torno 
dessa realidade. É interessante que o 
gasto de energia é tanto que a pessoa 
parece estar sempre desmotivada, 
cansada, sem vitalidade. 
Muitos procuram esconder ou 
mascarar essa realidade, com me-
dicamentos, com drogas ilícitas ou 
compulsão em compras. É tão real e 
forte o vazio que necessita-se a colo-
car algo no lugar, sublimar uma reali-
dade por outra. A dor é tão forte que 
não se consegue pensar, viver e in-
vestir, a não ser nessa realidade. Suga 
todas as energias, forças e sonhos 
para abastecer a própria patologia. 
Para Pereira, “a patologia está sempre 
pronta para assumir o seu posto na 
existência, esta desagregação precisa 
da estigmatização, do pessimismo, 
da vitimização, para canalizar todo 
seu pensamento e energia na elabo-
ração de uma doença” (2009, p. 92). 
Desse ponto de partida, a pessoa 
tem todo o seu potencial preso na rede 
patológica, que insiste em permanecer 
e se apegar cada vez mais. As vitórias 
e as conquistas necessitam de uma 
tomada de atitude consciente e cria-
tiva diante da própria realidade. No 
momento em que começa a se escu-
tar, a refl etir sobre a sua condição, vai 
perceber que não necessita dessa pa-
tologia para ser feliz, ter afeto, amor e 
atenção dos outros. Por isso, não exis-
te doença onde permanecem o amor, 
a alegria, a criatividade e a superação. 
A análise leva o paciente a sair da patologia para começar a olhar a vida com outros olhos e permite voltar 
a amar, a vibrar, a viver com alegria
psique ciência&vida 63www.portalespacodosaber.com.br
REFERÊNCIAS
CYRULNIK, Boris. Autobiografia de um 
Espantalho.Histórias de Resiliência: o Retorno 
à Vida. São Paulo: Martins Fontes, 2009. 
FROMM, Erich. Análise do Homem. Rio de 
Janeiro: Zahar, 1981. 
PEREIRA, Salézio. Psicanálise: Ciência e 
Criatividade. Santa Maria: ITPOH, 2015.
. Psicopatologia Humanista e 
Existencial. Santa Maria: ITPOH, 2009. 
A Psicanálise é uma ciência que serve de auxílio 
para compreender a mente inconsciente 
na prática clínica. Com o seu advento, 
começou-se a buscar outra compreensão 
dos sintomas, assim como das doenças
Toda doença necessita de um 
método para se manifestar. Ne-
nhuma patologia se cria do nada, 
ela necessita de um acontecimento, 
traumático, uma situação de mui-
to sofrimento ou perda. Por isso, 
“esse processo de aniquilação pes-
soal obedece aos desejos do Phatos. 
Essa doença consome e enfraquece 
o psiquismo, sua energia desaparece 
como se fosse um vapor, sem vida, 
sem vontade, aguarda a chegada da 
morte” (Pereira, 2009, p. 95). 
Qual seria o melhor caminho 
para sair desse vazio? Quando se 
consegue falar da dor, do trauma e 
da perda, estes deixam de ser pesos
na vida para se tornarem um suporte 
para se superar com saúde e criativi-
dade. A terapia analítica se torna o 
lugar da “acolhida”, isto é, onde o pa-
ciente consegue escutar a si mesmo, a 
sua dor, seu desespero e dessa manei-
ra colocar significado e sentido em 
todas essas realidades. Entende que 
não precisa viver assim, infeliz, sem 
amor, depressivo, mas, sim, possui 
todas as condições para se superar 
com criatividade, saúde e vitalidade. 
Quando a pessoa está presa na 
sua patologia, esta retalha toda a sua 
liberdade de ser e existir. Na verdade, 
ao viver na patologia do vazio, cria to-
das as possibilidades para mergulhar 
na doença e nas falências. O papel 
fundamental desta é gerar dor e so-
frimento. Ao buscar compreender os 
motivos inconscientes dessas dores 
começa um caminho de superação, 
para sair de um estado de morte para 
o estado de vida. 
O ser humano necessita conhecer 
a si mesmo para compreender o senti-
do de sua existência. O se conhecer 
passa pela escuta analítica, o olhar 
para a própria realidade com cons-
ciência e superação. Quando este se 
descobre para a biofilia, compreende 
o seu potencial para a vida e não para 
a morte. “O dever de estar vivo é o 
Biofilia
O termo biofilia vem do grego bios, 
que quer dizer vida, e philia, que 
significa amor, afeição ou necessi-
dade de satisfação. Ou seja, biofi-
lia, literalmente, representa o amor 
pela vida. A expressão foi populari-
zada pelo ecólogo norte-americano 
Edward O. Wilson, em seu livro que 
leva o mesmo nome, publicado em 
1984. No entanto, o primeiro a utilizá-
-la foi o psicanalista alemão Erich 
Fromm (imagem), para descrever a 
orientação psicológica de atração 
por tudo que é vivo e vital.
mesmo que o dever de transformar-
-se em si próprio, isto é, de trans-
formar-se no indivíduo que ele é em 
potencial” (Fromm, 1981, p. 27). Ao 
descobrir esse potencial, entende 
que a existência não é permanecer 
na patologia, mas, sim, na saúde, no 
amor, no afeto e na criatividade. 
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M
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A sociedade parece 
estar cada vez mais 
doente e o crescimento 
dos produtos fármacos 
não tem resolvido a 
grande demanda que se 
apresenta. O que fazer?
64 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
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AR
QU
IV
O 
PE
SS
OA
L 
DO
 A
UT
OR
divã literário por Carlos São Paulo
A
leitura é uma aventura que 
ativa a imaginação. Essa é 
a razão que nos causa estra-
nheza quando assistimos à 
adaptação da obra Dois Irmãos para a 
televisão e comparamos com as nos-
sas imagens pessoais. Esse é um livro 
que nos leva a compreender como um 
amor patológico da mãe pode despre-
PARAR�UM�l�LHO�PARA�A�VIDA�ADULTA�E�TER
minar em tragédia. 
O autor do romance Dois Irmãos, Milton 
Hatoum, nasceu em Manaus e ganhou 
com esse livro o prêmio Jabuti de 2001. A 
obra foi adaptada para teatro, graphic novel 
e TV. Ela conta a história de uma família 
de ascendência libanesa que viveu em Ma-
naus. Com início na década de 1920, passa 
pela Segunda Guerra e envolve o período 
após o golpe militar no Brasil. 
(ALIM�CONQUISTA�:ANA��A�l�LHA�DE�UM�
comerciante viúvo, e casa-se com ela. 
%LE� DESEJA� l�CAR� SEMPRE� A� SØS� COM� SUA�
ESPOSA��SEM�A�INTROMISSÎO�DE�l�LHOS��MAS�
Zana manifesta o desejo de ser mãe e é 
atendida. Na primeira gravidez, nascem 
os gêmeos Yaqub e Omar, irmãos com a 
mesma genética, e, numa segunda gesta-
¥ÎO��NASCE�A�l�LHA�2ÊNIA��/MAR��O�SEGUNDO�
a nascer, tem problemas respiratórios e 
ameaça não sobreviver, situação que leva 
A�MÎE�A�DEDICAR
SE�MAIS�A�ESSE�l�LHO�DO�QUE�
ao outro. Ela chama-o de “meu caçula”. 
15!.$/�$%3,):!-/3�35!6%-%.4%�0/2�5-!�
"/!�/"2!�#/-/�DOIS IRMÃOS��/3�02/",%-!3�
(5-!./3�!02%3%.4!$/3�&)#!-�-!)3�#,!2/3�
!/�!4)6!2�!�./33!�)-!').!—§/�$%�,%)4/2
Universo particular
psique ciência&vida 65www.portalespacodosaber.com.br
Zana ultrapassa a justa medida em 
sua dedicação amorosa a Omar, e a con-
sequência é levar os gêmeos a seguirem 
o caminho regido pelo arquétipo de Abel 
e Caim, ou seja, a desenvolverem perso-
NALIDADES� CONmITANTES� DESDE� PEQUENOS��
Os arquétipos são compreendidos, na 
Psicologia de C. G. Jung, como tramas 
contidas na psique humana que levam 
os indivíduos, de forma inconscien-
te, a seguir scripts já conhecidos pelas 
diversas narrativas feitas pelo homem. 
A literatura arcaica é utilizada pelos 
analistas junguianos para conseguirem 
entender as estradas por onde peregrina 
a humanidade e, assim, poder mostrar 
ao seu paciente onde ele vai chegar caso 
não mude o rumo. 
A leitura do romance de Hatoum 
nos alerta para o perigo de uma mãe, 
em sua inconsciência, aproximar-se de-
mais de um dos gêmeos em detrimento 
do outro. Esse comportamento materno 
levará os irmãos a não conseguirem se 
diferenciar entre si e a enxergarem no 
outro a própria sombra. Sombra é outro 
conceito junguiano que considera uma 
parte da própria personalidade total que 
lhe é inconsciente, por isso esta é pro-
jetada no outro como um gêmeo vilão. 
Zana venera o pai e, quando este 
MORRE��SEU�MARIDO��A�lGURA�MASCULINA�
que preenche esse espaço afetivo. No en-
tanto, ao cuidar do caçula, essa energia 
DISPONÓVEL� PARA� OUTRA� lGURA� MASCULINA�
lLIAL�FAZ�DELE�O�AMANTE�INCESTUOSO��$ESSA�
forma Omar aprende a desprezar tudo 
que não lhe dá prazer intenso, tornan-
do-se um inútil mergulhado no mundo 
DA�INFÊNCIA��SEM�CAPACIDADE�PARA�A�VIDA�
adulta cheia de responsabilidades. 
Dois Irmãos 
Autor: Milton Hatoum
Editora: Cia. das Letras 
Número de páginas: 
272
Carlos São Paulo é médico e psicoterapeuta junguiano. 
É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia.
carlos@ijba.com.br / www.ijba.com.br
de ela representar os dois em um só, 
o Omar. 
2ÊNIA�� COM� SEUS� DESEJOS� INCESTUO-
sos pelos irmãos, embora fosse bela e 
inteligente, nunca casou e viveu de for-
ma inconsciente o seu amor proibido. 
Yaqub tornou-se um engenheiro bem-
-sucedido, enquanto Omar se perdeu 
na vida e foi perseguido pelo irmão de 
forma implacável. 
A empregada Domingas, uma ín-
dia, tomou conta de Yaqub como uma 
mãe, enquanto Zana se entregava total-
MENTE� AO� lLHO� /MAR�� !� NARRATIVA� NOS�
surpreende quando descobrimos no cur-
so da leitura que quem nos conta a histó-
RIA��.AEL��O�lLHO�DE�$OMINGAS�COM�UM�
dos gêmeos. Domingas amava Yaqub e 
.AEL�PODERIA�SER�lLHO�DESSE�VÓNCULO�IN-
cestuoso, mas Omar a estuprou e tam-
bém teria a possibilidade de ser o pai. O 
leitor é envolvido na trama e acompanha 
com o sabor da curiosidade o desejo do 
NARRADOR�DE�SER�lLHO�DE�9AQUB��
A família de Zanaenvolveu seus 
membros na temática do “incesto” e a 
trama amorosa foi toda a energia que 
desuniu para sempre os irmãos. Estamos 
EM�UMA�SOCIEDADE�EM�QUE�AS�DISTÊNCIAS�
AFETIVAS�� POR� SEUS� CÙNJUGES� OU� lGURAS�
parentais, levam mãe ou pai, de forma 
inconsciente, a amar excessivamente 
O� lLHO� hESCOLHIDOv�� TORNANDO
O� INÞTIL�
como indivíduo. Há que se distinguir 
ENTRE�AMAR�OS�lLHOS�DE� FORMA� REGRESSI-
va ou, em sua outra maneira, deixá-los 
serem capazes de estruturar sua identi-
dade como indivíduo. 
Tememos seguir essas trilhas erradas 
dos caminhos que percorremos durante 
a vida. No entanto, a literatura a serviço 
da saúde mental nos leva a conhecer es-
sas trajetórias e a perceber qual delas es-
tamos percorrendo em dado momento, 
para que, com ajuda e esforço, possamos 
enxergar nosso caminho de casa. 
ESTAMOS EM UMA 
SOCIEDADE EM 
QUE AS DISTÂNCIAS 
!&%4)6!3�,%6!-� 
-§%�/5�0!)��
$%�&/2-!�
INCONSCIENTE, 
!�!-!2�
EXCESSIVAMENTE 
/�&),(/�
“ESCOLHIDO”, 
4/2.!.$/
/�).·4),�
COMO INDIVÍDUO
Quando os gêmeos tinham 13 anos, 
Omar vê o irmão beijando a namorada 
da mesma idade e, em um ímpeto de 
ciúme, agride Yaqub, marcando para 
sempre o seu rosto. Com esse aconteci-
mento, Halim tem a ideia de separar os 
lLHOS�DESSA�MÎE�COM�A� SÉBIA� INTEN¥ÎO�
de restaurar a fraternidade entre eles. 
No entanto, a força dos afetos da mãe 
foi maior. Dominada por suas sensa-
ções e sentimentos, junto com toda a 
irracionalidade, agarra-se a Omar e não 
o deixa partir. 
A atitude do pai estava correta, 
os gêmeos precisavam ser capazes de 
obter prazer um com o outro, preen-
cher ansiedades e desejos resultantes 
da proximidade da mãe. Esta, por sua 
vez, precisava conhecer a particulari-
dade de cada um, para notar, além das 
suas semelhanças, as diferenças e pos-
sibilitar a construção da identidade. 
A psique é individual e a mãe, em sua 
inconsciência, fez com que nem Yaqub 
nem Omar aprendessem a lidar com a 
ausência um do outro devido ao fato 
www.portalespacodosaber.com.br
P
recisamos falar sobre dependência química, de uma maneira 
séria e urgente. Em tempos de máscara de Fábio Assunção no 
Carnaval e marchinhas pejorativas sobre o assunto, mostrar 
que isso se trata de uma doença é fundamental. 
Querido Menino��UM�l�LME�DIRIGIDO�PELO�MESMO�REALIZADOR�DO�CUL
tuadíssimo Alabama Monroe (2012), com roteiro baseado nos livros 
ESCRITOS� PELOS� PERSONAGENS� PRINCIPAIS�� O� PAI� $AVID� 3HEFF�� INTERPRETA
DO�POR�3TEVE�#ARELL�� E�O�l�LHO�.ICHOLAS�3HEFF� �.IC	�� INTERPRETADO�POR�
4IMOTHÏE�#HALAMET��4RAZ�UM�TEMA�JÉ�BASTANTE�ABORDADO�POR�INÞMERAS�
PRODU¥ÜES�E�FAZ�EM�ALGUM�MOMENTO�LEMBRAR�O�Diário de um Adolescente 
(The Basketball Diaries�����	��TALVEZ�PORQUE�A�ATUA¥ÎO�CONVINCENTE�DE�
Chalamet remeta à lembrança do início de carreira do hoje respeitado 
,EONARDO�$I#APRIO��/�DIFERENCIAL� QUE� ESSE� l�LME� TRAZ� � POR� SE� CON
centrar menos na questão da dependência química, embora seja bem 
ABORDADA� E�MOTE� DA� HISTØRIA�� E� LEVAR� A�MONTANHA
RUSSA� DE� EMO¥ÜES�
para o enorme sofrimento com que o entorno afetivo se vê às voltas, 
principalmente do pai, David, que, separado da mãe (Amy Ryan) de 
.IC��POSSUI�UMA�NOVA�FAMÓLIA�NA�QUAL�.IC�ESTÉ�INSERIDO��O�LUGAR�ONDE�
mora, idílico e cheio de alegria, com dois irmãos bem mais novos e sua 
afetuosa madrasta Karen (Maura Tierney). Esse cenário, bem diferente 
DA�REALIDADE�BRASILEIRA�E�BEM�DISTANTE�DO�IMAGINÉRIO�BRASILEIRO��DESCONS
trói a relação de uso abusivo de droga com violência ou lares “doentes”. 
!�PASSAGEM�DO�l�LME�COM�A�QUAL�ESCOLHEMOS�ABRIR�O� TEXTO�PAS
SA�QUASE�DESPERCEBIDA� E� TALVEZ�� EM�VERDADE�� SEJA�O�PONTO�PRINCIPAL�
da argumentação. Muitos estudos foram e estão sendo feitos sobre 
OS� VARIADOS� FATORES� QUE� INCIDEM�EM�QUADROS� DE� DEPENDÐNCIA��MUI
tos chegam a crer que todo sujeito traria em sua vida algum grau 
de dependência variada, não necessariamente de uma droga química. 
Há dependências em relação a comportamentos, afetos, alimentação, 
SEXO��PRAZERES�VARIADOS��/�QUE�MARCA�A�SEMELHAN¥A�Ï�O�FATO�DE�QUE��
em todos os quadros, o sujeito procura alcançar alguma espécie de 
-%3-/�3%-�3%�#/.#%.42!2�.!�
$%0%.$º.#)!�15°-)#!��QUERIDO 
MENINO�4%-�5-�2/4%)2/�
)-0!#4!.4%��02).#)0!,-%.4%�
0/215%�&/#!�./�%342!'/�15%�%,!�
#!53!�%-�4/$/�/�%.4/2./�!&%4)6/
cinema Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
Visão dura 
e realista
psique ciência&vida 67www.portalespacodosaber.com.br
“alívio” que sentiu outrora e não mais 
CONSEGUE�ALCAN¥AR�� TENDO�EM�CONTRAPAR
tida dor e culpa que reativam o ciclo em 
BUSCA�DA�DIMINUI¥ÎO�DA�ANGÞSTIA�ABISMAL��
EM�UM�MENOR�GRAU�OS�SUJEITOS�CONSIDERA
DOS�SAUDÉVEIS�TAMBÏM�APRESENTARIAM�VA
riações de dependência e uso de variados 
starts�DE�PRAZER�E�ENLEVA¥ÎO��
0!$2§/�$%�2%0%4)—§/
6EREMOS� .IC� APRESENTAR� ESSE� PADRÎO�
de repetição em uma luta incessante que 
CORRESPONDE�Ì�PRØPRIA�DÞVIDA�QUE�CARRE
ga sobre seus processos de escolha ou de 
adição (como se referem Eduardo Kalina 
e Santiago Kovadloff na obra Drogadicção, 
Indivíduo, Família e Sociedade). Adicto é 
UM�TERMO�QUE�VIRIA�DO�SER�ESCRAVO�OU�DE
PENDENTE�� REMETENDO�ASSIM�A�UMA�QUES
tão mais comportamental do que cerebral, 
HÉ�TODA�UMA�DISCUSSÎO�EM�TORNO�DA�DIFE
REN¥A�NESSAS�ABORDAGENS�E��CONSEQUENTE
mente, sobre os fatores desencadeantes. O 
l�LME��DE�CERTA�MANEIRA��TRAZ�ESSA�DISCUSSÎO�
EM�FALAS�DE�.IC��QUE�PENSA�EM�SI�COMO�
ALGUÏM�QUE�FEZ�UMA�ESCOLHA�E�NÎO�COMO�
uma vítima de uma questão que incide 
sobre sua vontade. Ponto nevrálgico do 
TEMA��QUE�O� LONGA�ESCOLHE�NÎO�APROFUN
DAR��DEIXANDO�APENAS�UM�INDICADOR�PARA�
A�COMPLEXA�DISCUSSÎO��4ALVEZ�NESSA�E�EM�
OUTRAS�ESCOLHAS�QUE�O�ROTEIRO�FAZ�EM�RELA
ção a aspectos polêmicos do tema resida 
seu ponto confuso e negativo, como se 
passasse com muita pressa por paisagens 
QUE� MERECERIAM� UM� OLHAR� MAIS� DEMO
rado, uma parada mais cuidadosa para 
VISUALIZAR�� MESMO� QUE� TIVESSE� QUE� ABRIR�
mão de tocar em tantos outros assuntos 
que acabaram passando de igual maneira. 
6!:)/�.!�!,-!�
5M� ROTEIRO� IMPACTANTE�� PRINCIPAL
mente porque seu foco não se concentra 
propriamente na dependência química e 
SIM�MAIS�NO�ESTRAGO�QUE�ELA�FAZ�EM�TODO�
o entorno afetivo. É bem doloroso de 
ACOMPANHAR�� E� NESSE� ASPECTO� 'ROENIN
gen assina novamente uma produção 
muito longe do puro entretenimento, cai 
novamente em sua visão mais realista e 
Prof. dr. Eduardo J. S. Honorato é psicólogo e psicanalista, doutor 
em Saúde da Criança e da Mulher. Denise Deschamps é psicóloga e 
psicanalista. Autores do livro Cinematerapia: Entendendo Conflitos. 
Participam de palestras, cursos e workshops em empresas e 
universidades. Coordenam o site www.cinematerapia.psc.br
dura, mas com um traço de uma leitura, 
ainda assim, carinhosa.
“Agora eu sei que preciso achar um 
jeito de preencher este grande buraco 
NEGRO� EM� MIMv� �.IC� FALA� NA� REUNIÎO��
QUANDO�CONSEGUE�l�CAR�hLIMPOv�POR�VÉRIOS�
IM
AG
EN
S:
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IV
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ÇÃ
O 
E 
SH
UT
TE
RS
TO
CK
MESES	�� .ESTE� DEPOIMENTO�� .IC� MOSTRA�
SEU�GRANDE�BURACO�VAZIO�INTERIOR��QUE�ELE�
procura preencher com drogas, enquanto 
outros preenchem com relacionamentos, 
com comida, com trabalho. Cada um 
COM�UMA�DEPENDÐNCIA�DIFERENTE��!�ETER
NA� FALTA� E� ANGÞSTIA� QUE� ESSE� hBURACO� NA�
ALMAv�TRAZ�EM�SEU�BOJO��.IC��DESDE�MUITO�
novo foi criado principalmente por seu 
pai e inserido em sua nova família, não 
l�CA�MUITO�CLARO�NO�ROTEIRO�O�PORQU�DIS
so, embora em algum momento ele diga 
COM� RAIVA� PARA� O� PAI� QUE� TALVEZ� TIVESSE�
sido melhor para ele se a mãe tivesse 
l�CADO�COM�SUA�GUARDA��$AVID��UM�PAI�
EXTREMAMENTE� AMOROSO� E� PRESENTE� EM�
RELA¥ÎO�A�.IC� �E� AOS� SEUS�OUTROS�l�LHOS	��
COMPANHEIRO�E�PRØXIMO��$IZ�SEMPRE�AO�
l�LHO�� AO� SE� SEPARAR� DELE� QUANDO� PARTE�
para as temporadas na casa da mãe, que 
o ama. Mas, de certaforma, se lançarmos 
UM�OLHAR�UM�TANTO�ANALÓTICO��TALVEZ�VEJA
MOS�NESSE�PAI�EXTREMAMENTE�AMOROSO�E�
DEVOTADO�UM�CERTO�ESPELHAMENTO�E�CON
TROLE� EXCESSIVO�� DOS� QUAIS�� EM�UM� SURTO�
-5)4/3�%345$/3�
3§/�&%)4/3�3/"2%�/3�
6!2)!$/3�&!4/2%3�
$!�$%0%.$º.#)!��
!,'5.3�#(%'!-�
!�#2%2�15%�4/$/�
35*%)4/�42!2)!�
%-�35!�6)$!�
!,'5-�'2!5�$%�
$%0%.$º.#)!�.§/�
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�I�G���^��IG�
��)�I
68 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
DE� RAIVA�POR� ABSTINÐNCIA��.IC�O� ACUSARÉ��
Tomaremos a essa altura um trecho de 
uma obra de Claude Olievenstein, O 
Não Dito das Emoções�� CONCEITUADO� PES
quisador da questão, que se refere mais 
Ì� RELA¥ÎO� COM�O� PROl�SSIONAL� QUE� CUIDA��
MAS�AQUI�PENSANDO�EM�.IC�E�$AVID��DIZ�
ELE��h!�RELA¥ÎO�QUE�O�TOXICÙMANO�VAI�ELA
borar com seu objeto remete os sujeitos 
que supostamente deveriam saber a uma 
FALTA�� � FALTA�DELESv��1UER�DIZER� COM� ISSO�
que o sujeito dependente assim teria um 
conhecer que acusa a falta disso no outro 
QUE� SE� OUTORGA� O� PODER� DE� AJUDÉ
LO�� 3E�
PENSARMOS�NA�QUEIXA�SOBRE�O�CONTROLE�DE�
$AVID� SOBRE�.IC�� TALVEZ� ISSO� FA¥A� ALGUM�
SENTIDO��DE�ALGO�QUE�PERTENCERIA� TÎO� SO
MENTE� A� .IC�� SEM� O� COMPARTILHAMENTO�
COM�O�PAI��QUE�ANGUSTIA�E�AO�MESMO�TEM
po é construtor de uma individualidade. 
“Eu não podia aceitar a vida como era. 
Eu nunca poderia engolir todos os seus 
venenos. Mas havia partes, partes tênues 
e mágicas, abertas para perguntas. Eu 
REFORMULEIv��DIZ�UM�TRECHO�DA�POESIA�DE�
#HARLES�"UKOWSKI�QUE�.IC�3HEFF�CITA�AO�
l�NAL�DOS�CRÏDITOS��l�QUE�ATENTO�ATÏ�O�l�NAL	��
4ALVEZ�NA�POESIA� SE�ENCONTRE�A� RESPOSTA�
QUE� O� l�LME� NÎO� DELINEIA�� NÎO� SOMENTE�
o longa, mas também quem se debruça 
sobre a questão da dependência química. 
%NQUANTO� O� SUJEITO� BUSCA� DESESPERADA
mente aquela sensação de euforia ímpar, 
PERDE� OS� PEQUENOS� PRAZERES� FUNDAMEN
tais do ato de viver, mesmo que este seja 
assim tão complicado, como falamos um 
POUCO�NA�COLUNA�ANTERIOR�SOBRE�O�l�LME�A 
Vida em Si (Life Itself/2018), ainda assim 
sempre vale a pena. É pouco afeito ao 
DESEJO� HUMANO� PENSAR� BEM
ESTAR� COMO�
estabilidade em um vibrar mais sereno, 
a troca da intensidade e quantidade por 
calma plenitude não é uma tarefa que se 
BUSQUE�AMIÞDE��AQUELE�ALGO�QUE�PRESERVA�
o corpo e as emoções dos solavancos que 
NOSSO�SENTIDO�DE�PRAZER�ORIENTA�A�BUSCA�
CONSTANTE��ACÞMULO�E�DESCARGA��3E�FOCAR
MOS�NESTE�ASPECTO��VEREMOS�QUE�A�QUES
tão que atravessa o sujeito dependente 
EM�NADA�DIFERE� DA� ANGÞSTIA� DE� TODO� SER�
HUMANO�� O� ISOLAMENTO� TEMIDO�� A� ARIDEZ�
da solidão é ao mesmo tempo um receio, 
AO�MESMO� TEMPO�UM�DESEJO�DE�ESGOTA
MENTO��.IC�EVIDENCIA�ESSE�CONm�ITO�DESDE�
muito antes do uso das drogas.
.%'!—§/�3/#)!,�
/� ROTEIRO�PASSA� POR� QUESTÜES� FUNDA
mentais, como nas cenas em que vemos 
COM� EXATIDÎO� QUE� OS� IRMÎOS� PEQUENOS�
DE�.IC�NÎO�DESCONHECEM�SUA�LUTA�CONTRA�
AS� DROGAS�� O� PEQUENO� *ASPER� �#HRISTIAN�
#ONVERY	� CHEGA� A� PERGUNTAR� DIRETAMEN
TE�PARA�OS�PAIS��h.IC�EST�USANDO�DROGAS�
NOVAMENTE�v�� )MPORTANTE� ESSE� PONTO�
COMO�PREVEN¥ÎO��.ÎO�DEVE�HAVER�FRENTE�
AOS�FAMILIARES�UMA�OCULTA¥ÎO�DA�REALIDA
DE�� O� FATO� DE�.IC� SER� DEPENDENTE� E� UM�
SER�ERRANTE� FRENTE�Ì� FAMÓLIA�NÎO� FAZ�COM�
QUE� DEIXE� DE� SER� UMA� ESPÏCIE� DE� QUERI
DO�ÓDOLO�IRMÎO�MAIS�VELHO�PARA�*ASPER�E�
$AISY��/AKLEY�"ULL	��¡�ATO�DE�PREVEN¥ÎO�
até manter uma conversa franca e direta, 
OBVIAMENTE� QUE� RESPEITANDO� AS� LIMITA
¥ÜES�DA� FAIXA�ETÉRIA��1UANDO�SE�OPERA�O�
que costuma ser nomeado de “carrossel 
da negação”, quase sempre em conjunto 
com o dependente, seu entorno acaba 
POR� ALIMENTAR� SUA� NÎO� CONSCIENTIZA¥ÎO�
sobre seu processo de adoecimento e há 
demora maior em buscar ajuda. David 
custará a entender isso, Karen o alertará, 
DANDO�UM�BASTA�EM�SUA�SÓNDROME�DE�SAL
vador desesperado. Eles então passarão 
a buscar orientação nos grupos de ajuda 
MÞTUA�� ENTENDENDO� ASSIM� SEU� PRØPRIO�
ADOECER��¡�FUNDAMENTAL�QUE�OS�QUE�CON
vivem com o dependente construam até 
antes dele a consciência de que há um 
adoecimento acontecendo. Manobras 
QUE� SE� COSTUMAM� FAZER� PARA� OCULTAR� DO�
!$)#4/�6%-�$/�
#/.#%)4/�$%�
3%2�%3#2!6/�/5�
$%0%.$%.4%��
2%-%4%.$/�!�
5-!�15%34§/�-!)3�
#/-0/24!-%.4!,�
$/�15%�#%2%"2!,��
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Querido Menino ‡.^�����������G��¢�Beautiful Boyˆ:�����hÔ��¢�!������G��
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<?�G���:�"È�����¢���G�G:�+G^����¢� /��
restante do social o comportamento do 
drogadicto só colaboram para que ele 
continue no padrão de negação.
(OJE�� DE� UMA� MANEIRA� GERAL� SE� EN
tende a tendência à dependência dentro 
de três fatores: alterações genéticas, fator 
HEREDITÉRIO�E�ALGUMAS�DINÊMICAS�PRESEN
TES� NAS� RELA¥ÜES� INICIAIS� DO� SUJEITO�� EM
bora cada corrente defenda com ênfase 
sua leitura, não há ainda compreensão 
DEl�NITIVA� SOBRE� O� PORQU� ALGUNS� SUJEI
tos seriam mais suscetíveis que outros a 
desenvolver a dependência química, ou 
SEJA��PERDER� TOTALMENTE�O� LIMIAR�DO�PRA
ZER�MOMENTÊNEO��TRANSFORMANDO�A�DROGA�
no centro de sua economia psíquica. A 
função de jogar na vivência mágica que 
a droga contém é para muitos estudiosos 
uma necessidade humana e saudável no 
SEU�SENTIDO�DE�UNIÎO�COLETIVA��-UITOS�PO
VOS�TÐM�EM�SEUS�RITUAIS�O�USO�DE�ALUCINØ
GENOS� E�OU� EUFORIZANTES�� ATÏ� AÓ�MATÏRIA�
COMPREENSIVA� PARA� UMA� CIVILIZA¥ÎO� QUE�
TEM� NO� CONSUMO� DO� ÉLCOOL� UM� IMPOR
tante marcador social, muitos consomem 
com frequência bebida alcoólica, mas 
APENAS�UM�PERCENTUAL�DESSES�SUJEITOS�DE
senvolvem a dependência ao álcool (há 
defesa que no caso da Cannabis sativa, 
conhecida como maconha, isso também 
TRARIA�UM�PERCENTUAL�AT�MENOR	��*�COM�
outras drogas conhecidas como “mais 
pesadas”, o uso de muitas delas trará 
inevitavelmente a dependência, variando 
APENAS�EM�PEQUENO�INTERVALO�QUE�DEPEN
de do organismo de cada pessoa. David, 
EM� UM� DETERMINADO� MOMENTO�� EXPE
rimentará a metanfetamina para tentar 
ENTENDER�O�QUE�SEU�l�LHO�SENTE�COM�SEU�
USO��O�ÞNICO�CONTATO�COM�A�DROGA�NÎO�O�
LEVOU�A�BUSCÉ
LA�MAIS�VEZES��EMBORA�TE
NHA�SENTIDO�A�INTENSIDADE�QUE�.IC�HAVIA�
descrito, um risco que remete ao fator 
adoecimento de todos em que tocamos 
anteriormente. Há neste ponto um lado 
mais emocionante, do tipo de sacrifício 
QUE�UM�PAI�PODE� FAZER�PARA�AJUDAR�O�l�
LHO��MAS� ANALITICAMENTE� TAMBÏM� PODE
ríamos pensar em sua disputa narcisista 
COM� O� l�LHO��MAIS� UMA� VEZ� SENDO�MAIS�
FORTE�QUE�ELE�AO�NÎO�SE�TORNAR�DEPENDEN
TE��%M�TERMOS�DE�RELA¥ÜES�AS�COISAS�NUN
ca são assim tão conscientes ou bonitas. 
/� l�LME� ENCERRA� FORNECENDO� DADOS�
sobre o alarmante índice de morte por 
overdose, a maior causa de morte de 
AMERICANOS� COM�MENOS�DE����ANOS�� RE
assegura do quanto há ainda grupos que 
trabalham seriamente no combate do 
QUE�CHAMA�DE�hEPIDEMIAv��O�QUE�NOS�FAZ�
PENSAR�EM�UMA�SOCIEDADE�CADA�VEZ�MAIS�
individualista, solitária e em busca de um 
PRAZER� RÉPIDO�E�CONSTANTE��!S�DROGAS� LI
cítas e ilícitas não estariam sendo um 
GRITO�DE�QUE�ALGO�IGUAL�AO�VAZIO�QUE�.IC�
descreve está sendo permanentemente 
construído. A dependência química é 
REALMENTE�UM�m�AGELO�HUMANO��MAS�NÎO�
¡�&5.$!-%.4!,�15%�/3�15%�#/.6)6%-�#/-�
/�$%0%.$%.4%�#/.3425!-�!�#/.3#)º.#)!�
$%�15%�(£�5-�!$/%#)-%.4/�!#/.4%#%.$/��
-!./"2!3�15%�3%�#/345-!-�&!:%2�0!2!�/#5,4!2�!�3)45!—§/�3œ�#/,!"/2!-�0!2!�
15%�3%�#/.4).5%�./�0!$2§/�$%�.%'!—§/
será ela a ponta de um enorme iceberg
que perigosamente escolhemos não ver e 
QUE�ENCARÉ
LO�TALVEZ�NOS�LEVE�A�UMA�PRE
venção ao abuso do uso das drogas mais 
VERDADEIRAMENTE�El�CIENTE��
)NFELIZMENTE� TALVEZ� ESSA� SEJA� UMA�
REm�EXÎO� SEM� MUITOS� RESULTADOS� PARA� OS�
PRØXIMOS�ANOS��0OIS�AINDA�ESTAMOS�MUI
to distantes de entender a dependência 
QUÓMICA�COMO�UM�QUADRO�DE�SAÞDE�COM
PLEXO��4ALVEZ� POR� ISSO� AS� PESSOAS� CONTI
nuem achando engraçado usar máscara 
DE�&ÉBIO�!SSUN¥ÎO�NO�#ARNAVAL�OU�FAZER�
PIADAS�SOBRE�O�COLUNISTA�,ÏO�$IAS��QUAN
do ambos assumiram sua dependência 
publicamente, justamente com o objetivo 
de mudar essa mentalidade. 
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PERlL Por Anderson Zenidarci
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ENE� %LIZA� 4IERNEY� NASCEU� EM�
������ EM� .OVA� 9ORK�� lLHA�
DO� GRANDE� MAGNATA� (OWARD�
3HERWOOD� 4IERNEY�� $ESDE�
CEDO�� DEMONSTROU� INTERESSE� PELA� CARREIRA�
DE�ATRIZ��3EMPRE�QUE�PODIA�� REPRESENTAVA�
PARA� SUA� FAMÓLIA� E� AMIGOS� NO� CLUBE�� NA�
ESCOLA� OU� EM� EVENTOS� BENElCENTES�� $E�
FAMÓLIA�QUE�SE�ESMERAVA�NA�EDUCA¥ÎO�DOS�
lLHOS��PASSOU�DOIS� ANOS�NA�3UӥA�� APREN-
DENDO�FRANCÐS�E�ETIQUETA��%M�UMA�DE�SUAS�
VIAGENS��VISITOU�O�ESTÞDIO�DA�7ARNER�"ROS���
E�A�DIRETORA�DE�ELENCO��QUANDO�A�VIU��lCOU�
IMPRESSIONADA�COM�SUA�BELEZA��SUGERINDO�
QUE� ELA� SE� TORNASSE� UMA� ATRIZ�� )NCLUSIVE�
PROPÙS� QUE� ASSINASSE� UM� CONTRATO�� MAS�
SEUS�PAIS�RECUSARAM��NÎO�QUERENDO�QUE�A�
lLHA�SEGUISSE�ESSA�CARREIRA��
%LA�ERA�RElNADA��ELEGANTE��FALAVA�mUEN-
TEMENTE� QUATRO� IDIOMAS� E� ENTENDIA� DE�
ARTES�PLÉSTICAS��HISTØRIA�DA�ARTE� E� LITERATU-
RA��%RA� UMA�PESSOA� DIFERENCIADA� POR� SUA�
CULTURA� E�MODOS�lNOS�� 3ENDO�MILIONÉRIA��
TINHA�TUDO�QUE�O�DINHEIRO�PODIA�COMPRAR��
MAS�NÎO�ESTAVA�FELIZ�
%NTUSIASMADA�COM�A�POSSIBILIDADE�DE�
REALIZAR� SEU� SONHO� DE� ATUAR� E� ENTEDIADA�
COM�A�ALTA�SOCIEDADE�FÞTIL�A�QUE�PERTENCIA��
COMUNICA� AOS� PAIS� QUE� DECIDIRA� ESTUDAR�
ARTES� CÐNICAS� E� COME¥AR�UMA�CARREIRA�DE�
ATRIZ��4IERNEY�ESTREOU�NO�CINEMA�EM�������
ESTRELANDO� O� lLME� O Retorno de Frank 
Jones, CAUSANDO�SENSA¥ÎO�COM�SUA�BELEZA�
E� ALGUMAS� CRÓTICAS� EM� RELA¥ÎO� Ì� ATUA¥ÎO. 
#ONSCIENTE� DE� SUAS� LIMITA¥ÜES�� RECONHE-
CEU�AS�FALHAS��ESTUDOU�MAIS�E�APRENDEU�A�
ATUAR�RAPIDAMENTE��¡�VISÓVEL�SUA�EVOLU¥ÎO�
DO�PRIMEIRO�lLME�AOS�REALIZADOS�POSTERIOR-
MENTE��MESES�DEPOIS��
%M������CASOU
SE�COM�O�ESTILISTA�/LEG�
#ASSINI�� 3EUS� PAIS� CONSERVADORES� SE� OPU-
SERAM�AO�CASAMENTO��POIS�ELE�ERA�DE�UMA�
FAMÓLIA�RUSSO
ITALIANA�E�NASCIDO�NA�&RAN¥A��
3UA� VIDA� ATÏ� ENTÎO� INVEJADA� PASSOU� A� TER�
SURPRESAS�NADA�AGRADÉVEIS�E�ASPECTOS�DE�UM�
lLME�DE�DRAMA�
'ENE�� GRÉVIDA�� RECEBEU� O� ABRA¥O� DE�
UMA� F� QUE�� SEM� QUE� ELA� SOUBESSE�� TINHA�
RUBÏOLA�� %LA� FOI� CONTAMINADA� E� A� DOEN¥A�
Sem EMOÇÃO
!�!42):�'%.%�%,):!�4)%2.%9��
#/.(%#)$!�#/-/�!�-5,(%2�-!)3�
"/.)4!�$!�()34œ2)!�$/�#).%-!��
-/342/5�!/�-5.$/�#/-/�"%,%:!��
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psique ciência&vida 71www.portalespacodosaber.com.br
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CAUSOU�DANOS�CONGÐNITOS�EM�SUA�PRIMEIRA�
lLHA��!NTOINETTE��QUE�NASCEU�SURDA��PARCIAL-
MENTE�CEGA�E�SEVERAMENTE�DElCIENTE�MEN-
TAL��%RA�TÎO�GRAVE�O�COMPROMETIMENTO�DA�
lLHA�QUE�ELA�TEVE�DE�lCAR�NUMA�INSTITUI¥ÎO�
POR�GRANDE�PARTE�DE�SUA�VIDA��%SSE�FATO�GE-
ROU�A�PRIMEIRA�CRISE�DE�DEPRESSÎO�PROFUNDA�
EM�'ENE�E�DESENCADEOU�UM�ABALO�SIGNIl-
CATIVO�NO� SEU�CASAMENTO��!� IMPRENSA� FEZ�
SENSACIONALISMO� DESSES� FATOS�� NÎO� RESPEI-
TANDO�A�PRIVACIDADE�NEM�A�DOR�DA�ESTRELA��
%M� ����� FOI� INDICADA� AO� /SCAR� DE�
MELHOR� ATRIZ� PELO� lLME�Amar Foi minha 
Ruína n� IRONICAMENTE� ESSE� TÓTULO� PARECE�
TER�SIDO�UMA�VERDADE�EM�SUA�VIDA. /�CA-
SAL�SE�EMPENHA�EM�UMA�CONCILIA¥ÎO�E�TEM�
OUTRA� lLHA�� DESSA� VEZ� SAUDÉVEL�� PORÏM�O�
CASAMENTO�NÎO�DURARIA�MUITO�MAIS�TEMPO��
SEPARAM
SE�EM������
%SSES�ACONTECIMENTOS�NÎO� FORAM�BEM�
ELABORADOS�POR�'ENE��QUE�TINHA�UMA�VIDA�
SEM�GRANDES�PROBLEMAS�ATÏ�ENTÎO�E�DE�RE-
PENTE�V�TUDO�RUIR��
#OME¥A� A� TOMAR� DOSES� EXCESSIVAS� DE�
COMPRIMIDOS�PARA�DORMIR��PARA�ACORDAR�E�
A�BEBER��HÉBITO�QUE�NUNCA�TIVERA��&OI�UMA�
FASE� MARCADA� POR� INÞMEROS� AMANTES�� DE�
ATORES�A�HOMENS�INmUENTES�E�PODEROSOS�DA�
ÏPOCA�� ENTRE� ELES� O� FUTURO� PRESIDENTE� DOS�
%5!�� NA� ÏPOCA� O� SEDUTOR� SENADOR� *OHN�
&��+ENNEDY��QUE�DEPOIS�DE�QUASE�UM�ANO�
JUNTOS� COMUNICOU�� FRIAMENTE�� QUE� NÎO� SE�
CASARIA�COM�ELA�POR�CAUSA�DE�SUAS�AMBI¥ÜES�
POLÓTICAS��0OIS��SENDO�ELA�DIVORCIADA�E�COM�
lLHOS��E�UMA�DELAS�DOENTE	��NÎO�SERIA�A�PES-
SOA�CERTA�PARA�ESTAR�AO�SEU�LADO��
/UTRA�CRISE�DEPRESSIVA�SEVERA��SEGUIDA�
DE� UMA� FASE� HIPOMANÓACA�� CONlGURANDO�
UM�TRANSTORNO�BIPOLAR��QUE�NÎO�FOI�DIAG-
NOSTICADO�NA�ÏPOCA	��.ESSA�OCASIÎO��lCOU�
INTERNADA� POR� LONGO�PERÓODO� EM� CLÓNICAS�
PSIQUIÉTRICAS��2ECUPERADA��VOLTOU�A�ATUAR��
E�DURANTE�AS�lLMAGENS�DE�Personal Affair 
COME¥OU� UM� ROMANCE� COM� O� PRÓNCIPE�
!LY�+HAN��&ICARAM�NOIVOS� EM������� EN-
QUANTO� +HAN� ESTAVA� SE� DIVORCIANDO� DE�
2ITA�(AYWORTH��
3EUS�PLANOS�DE�CASAMENTO��NO�ENTANTO��
ENCONTRARAM�UMA�FEROZ�OPOSI¥ÎO�DO�PAI�DE�
!LY��O�SULTÎO�!GA�+HAN�)))��QUE�NÎO�ACEITOU�
MAIS� UM� CASAMENTO� DO� lLHO� COM� hOUTRA�
$%3$%�#%$/�
$%-/.342/5�
).4%2%33%�0%,!�
#!22%)2!�$%�!42):��
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#/-5.)#!�!/3�
0!)3�15%�$%#)$)2!�
%345$!2�!24%3�
#º.)#!3�
DESQUALIlCADA�DE�(OLLYWOODv��!MEA¥ADO�
DE�SER�DESERDADO��!LY�A�ABANDONA�SEM�AO�
MENOS� UMA� SATISFA¥ÎO�� SIMPLESMENTE� VAI�
EMBORA�DO�PAÓS�E�ELA�lCA�SABENDO�DISSO�PE-
LOS�JORNAIS��!O�MESMO�TEMPO��O�EX
MARIDO�
SOLICITA�A�GUARDA�DA�SEGUNDA�lLHA��ALEGAN-
DO�QUE�'ENE�NÎO�TEM�CONDI¥ÜES�PSÓQUICAS�
DE�CUIDAR�DA�MENINA��/�CASO�CHEGOU�AOS�
TRIBUNAIS�E�� APØS�MUITA�EXPOSI¥ÎO�DE� SEUS�
PROBLEMAS�PESSOAIS�NA�MÓDIA��ELA�CONSEGUE�
lCAR�COM�A�GUARDA��QUEM�ACABOU�CUIDAN-
DO�E�EDUCANDO�A�MENINA�FOI�SUA�MÎE��POIS�
ELA�PASSOU��APØS�GANHAR�A�CAUSA��POR�VÉRIAS�
INTERNA¥ÜES�POR�PERÓODOS�LONGOS	��
-AS� DURANTE� AS� AUDIÐNCIAS�� POR� MEIO�
DE�MANCHETES� SENSACIONALISTAS�� A� IMPREN-
SA�TENTOU�DIFAMAR�SUA�IMAGEM�DE�TODAS�AS�
FORMAS�� $ESESPERADA�� SOBE� NO� TERRA¥O� DE�
UM�PRÏDIO�� AMEA¥ANDO�SE� JOGAR��PORÏM�Ï�
RESGATADA�A�TEMPO�DA�TENTATIVA�DE�SUICÓDIO��
!� ESSE� PERÓODO� SEGUIU
SE� OUTRA� FASE�
DE�DEPRESSÎO��TENDO�SIDO�INTERNADA�MAIS�
UMA�VEZ��
/S� TRATAMENTOS� DE� 4IERNEY� SE� ARRAS-
TARIAM� POR� ANOS�� COMPREENDENDO� DÞZIAS�
DE� SESSÜES� DE� TERAPIA� DE� ELETROCHOQUE� E�
INlNDÉVEIS�DIAS�CONTIDA��hEMBRULHADAv�EM�
LEN¥ØIS�MOLHADOS��PARA�hCONTROLAR�SUAS�MU-
Em 1945 foi indicada ao Oscar de melhor atriz 
�����‚����Amar Foi minha Ruína, ironicamente 
no mesmo período em que passa por uma forte 
crise no casamento com o estilista Oleg Cassini
DAN¥AS�DE�HUMORv��NA�REALIDADE��ESSE�hMÏ-
TODOv�DESUMANO�S�IMOBILIZAVA�A�PACIENTE��
INIBINDO� QUALQUER� MOVIMENTO� CORPORAL��
SEM�NENHUM�EFEITO�TERAPÐUTICO	�
%M� CONSEQUÐNCIA� DO� TRATAMENTO� DE�
ELETROCHOQUE�� PERDE� A� MEMØRIA� �A� RECU-
PEROU�MUITO�LENTAMENTE	��O�QUE�A�FOR¥OU�A�
lCAR�AFASTADA�DAS�PRODU¥ÜES�CINEMATOGRÉl-
CAS�NO�PERÓODO�DE������A�������
!NOS�MAIS� TARDE�� SE� TORNOU� UMA� ATI-
VISTA�E�PORTA
VOZ�CONTRA�ESSE� TRATAMENTO��
ESCLARECENDO�COM�SUA�SOFRIDA�VIVÐNCIA�OS�
MALEFÓCIOS� QUE� GERARAM� EM� SUA� RECUPE-
RA¥ÎO� E� MESMO� QUESTIONANDO� VEEMEN-TEMENTE� SUA�ElCÉCIA��$IZIA� hERA�COMO�SE�
EM� VEZ� DE�ME� AJUDAREM�� ESTIVESSEM�ME�
PUNINDO�POR�ESTAR�DEPRESSIVA��E�ME�GERAVA�
MAIS�DEPRESSÎO�AINDAv�
.A�TENTATIVA�DE�VOLTAR�A�ATUAR��INICIA�AS�
lLMAGENS�DE�Holiday for Lovers��MAS�NÎO�
AGUENTA�A�PRESSÎO�E�SOFRE�UM�COLAPSO�NER-
VOSO��SENDO�FOR¥ADA�A�ABANDONAR�O�lLME�E�
SER�INTERNADA�
%M� ����� CASOU
SE� COM�7�� (OWARD�
,EE��UM�MILIONÉRIO�TEXANO��EX
MARIDO�DE�
OUTRA�ESTRELA��(EDY�,AMMAR��(OWARD�FOI�
ACOLHEDOR��SABIA�DE�SEU�HISTØRICO�DEPRES-
SIVO�E�DE�INTERNA¥ÜES�E�NÎO�SE� IMPORTOU��
'ENE� LOGO� ENGRAVIDOU� E� PARECIA� QUE� l-
NALMENTE� TUDO� ESTAVA� CAMINHANDO� PARA�
UM�EQUILÓBRIO��ESTAVA�AFASTADA�DO�CINEMA�
QUE� A� ESTRESSAVA�� LONGE�DA� IMPRENSA� QUE�
A�PERSEGUIA��MORANDO� TRANQUILAMENTE�NO�
72 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
OS MÚLTIPLOS SINTOMAS DA DEPRESSÃO
Depressão é um estado de rebaixamento energético em todos os aspectos da vida de quem a vive. O sentimento é de que tudo parece fútil, ou sem real 
importância. E a sensação de que se perdeu, de forma irreversível, a capacidade de 
sentir alegria ou prazer na vida está muito presente. Tudo parece vazio e sem gra-
ça, o mundo é visto “sem cores”. Os sintomas depressivos são muitos e variados e 
podem ser divididos entre: cognitivos, fisiológicos e comportamentais. 
Nos cognitivos destacam-se: humor deprimido: desânimo persistente, tristeza, 
baixa autoestima, sentimentos de inutilidade, vazio, culpa e/ou irritabilidade; re-
dução da capacidade de experimentar prazer na maior parte das atividades antes 
consideradas agradáveis; diminuição da capacidade de pensar, de se concentrar, 
memorizar ou de tomar decisões; ideação suicida.
Nos fisiológicos podemos citar: fadiga ou sensação de perda de energia; altera-
ções do sono (mais frequentemente insônia, podendo ocorrer também sonolência 
excessiva ou sono interrompido); alterações do apetite (mais comumente perda 
do apetite); redução do interesse e prazer sexual; agitação motora, inquietude; 
alterações dos ritmos circadianos (dormir fora de hora). 
Nos comportamentais evidenciamos: retraimento social (isolamento social); 
chorar mais e com mais frequência; comportamentos suicidas; retardo psicomotor 
e lentificação generalizada ou agitação psicomotora; tentativa de suicídio; com-
portamento autodestrutivo (automutilação); falta de cuidados pessoais e desleixo.
Observação: Algumas pessoas com o transtorno depressivo mostram-se mais 
“apáticas” do que tristes, referindo-se muitas vezes ao “sentimento da falta de sen-
timentos”. Era exatamente assim que Gene Tierney descrevia o seu aspecto afe-
tivo, como “um enorme vazio sem emoção, sobrevivendo a um dia de cada vez”.
Anderson Zenidarci é mestre em Psicologia pela PUC-SP, supervisor e 
palestrante. Coordenador e professor do curso de especialização em 
Transtornos e Patologias Psíquicas pela Facis, professor de pós-graduação no 
curso de Psicologia de Saúde Hospitalar na PUC-SP. Atua há mais de 30 anos 
em atendimento clínico em diversos segmentos da Psicologia, com especial 
dedicação à psicossomática, transtornos e patologias psíquicas. 
PERlL
.AS� MEMØRIAS� ESCRITAS� EM� ������
4IERNEY� REVELA� E� DESCREVE� A� DEVASTA¥ÎO�
PROVOCADA� POR� SEUS� hDEMÙNIOS� INTERNOSv��
3EGUNDO� A� PRØPRIA� ATRIZ�� ELA� ESTEVE� VÉRIAS�
VEZES�hÌS�PORTAS�DA� LOUCURAv�E�hVIVIA�UMA�
DOR�IMENSA�E�CONTÓNUA�DENTRO�DE�SUA�ALMAv�
%MBORA�A�VIDA�AO�LADO�DO�MARIDO�TE-
NHA�SIDO�TRANQUILA��ELA�NUNCA�SE�RECUPEROU�
TOTALMENTE�DA�DEPRESSÎO��&ICOU�CASADA�ATÏ�
A�MORTE�DELE��EM�������6IVEU�POR�MAIS�DEZ�
ANOS�� PORÏM� RECLUSA� E� DEPRIMIDA� NO� SEU�
RANCHO��
-ORREU�EM�������AOS����ANOS��DE�EN-
lSEMA�PULMONAR�EM�CONSEQUÐNCIA�DO�USO�
EXCESSIVO� DE� CIGARROS�� hMÏTODOv� QUE� UTI-
LIZOU�PARA�ENGROSSAR�A�VOZ�QUE�DETESTAVA�
NOS�lLMES�
/� CONSAGRADO� CINEASTA� -ARTIN�
3CORSESE�� DECLARADO� F� DA� ESTRELA�� COMEN-
TA��h(OLLYWOOD�NÎO�REVERENCIA�SEU�TALENTO�
COMO�DEVERIA��POR�NÎO�ACEITAR�QUE�UMA�ES-
TRELA�TÎO�LINDA�FOSSE�TÎO�DOENTEv��%�COMPLE-
TA��h3UA�HISTØRIA�DARIA�UM�ØTIMO�ARGUMENTO�
PARA�UM�lLME�DRAMÉTICO�E�DE�SUCESSOv�
!0œ3�!,'5-!3�
#2)3%3�$%02%33)6!3��
#/-%—!�!�4/-!2�
$/3%3�%8#%33)6!3�
$%�#/-02)-)$/3�
0!2!�$/2-)2��
0!2!�!#/2$!2�%�
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#/.&)'52!.$/�5-�
42!.34/2./�")0/,!2
4EXAS� COM� UM� MARIDO� ATENCIOSO�� -AS��
COM���MESES�DE�GRAVIDEZ��SOFRE�UM�ABORTO�
ESPONTÊNEO�E�PERDE�O�lLHO�
%LA�� QUE� RECEBEU� O� CODINOME� DE� hA�
MULHER�MAIS� BONITA� DA� HISTØRIA� DO� CINE-
MAv�� PARECE� QUE� NÎO� CONSEGUIA� SER� FELIZ��
4IERNEY��QUE�ERA�CONHECIDA�NO�MEIO�ARTÓS-
TICO�POR�SER�UMA�PESSOA�GENTIL�E�ELEGANTE��
MESMO� COM� SEUS� PROBLEMAS� PSÓQUICOS��
ERA�FREQUENTEMENTE�CONVIDADA�PARA�ATUAR�
�PARTICIPOU�DE����lLMES	��2ETORNOU�AO�CI-
NEMA�NOVAMENTE�EM�������FEZ�DOIS�lLMES��
RECEBENDO�BOAS�CRÓTICAS��MAS�TRÐS�ANOS�DE-
POIS�SE�APOSENTOU�n�NÎO�QUERIA�MAIS�ATUAR��
Tierney estreou no cinema em 1940, estrelando 
��‚����O Retorno de Frank Jones, causando 
sensação com sua beleza e algumas críticas em 
relação à atuação
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MOMENTO DO LIVRO
Nas livrarias e na loja Escala www.escala.com.br
Assassinato, traição, vingança, 
romance e mistério compõem o 
pano de fundo para Um Estudo 
em Vermelho, que marca a estreia 
da parceria entre o detetive mais 
famoso do mundo, Sherlock Holmes, 
e o médico John Watson. A partir 
desse encontro, estará selado um 
SDFWR�HQWUH�DPERV�b۔1D�PHDGD�
LQFRORU�GD�YLGD��FRUUH�R�ਭ�R�YHUPHOKR�
do crime, e o nosso dever consiste 
em desenredá-lo, isolá-lo e expô-lo 
em toda a sua extensão”.
Livro: Sherlock Holmes Um Estudo em Vermelho
Número de páginas: 176
Editora: Lafonte
ATENDIMENTO CLÍNICO
74 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
Eduardo Lucas Andrade é psicanalista, membro Ebep: Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos, 
escritor, membro da Academia Bom-despachense de Letras. Autor de vários livros, dentre 
eles: Livrai-me de Todo Normal, Amém!, Psicanálise e Educação: Contribuições da Psicanálise à 
Pedagogia, As Lágrimas do Crocodilo Jão, Estrela: a Bezerra que Virou Saudades! e Risco de Vida: 
da Doença Crônica à Crônica da Doença. Palestrante em temáticas da saúde mental, educação e 
literatura. www.eduardolucasandrade.com.br Instagram: @eduatopsi
A clínica psicanalítica com foco no 
tratamento infantil é alvo, frequentemente, 
de resistências dos pais e/ou responsáveis, 
um comportamento caracterizado 
pela transferência de desejos 
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 Por Eduardo Lucas Andrade
QUANDO 
A CRIANÇA
QUASE 
INEXISTE
Aclínica psicanalítica com crianças, com seu infan-til e infância, encontra resistências que peram-bulam os desejos trans-
versais, anônimos e não anônimos, dos 
pais e/ou responsáveis. Françoise Dol-
to, pelo tato e elasticidade da técnica, 
estando atenta ao que ocorre na trans-
ferência com a criança e com os pais, 
isto é, estando atenta a esses transver-
sais pulsionais, propõe que em vários 
casos se recebam os pais junto com a 
criança e que ali eles digam o motivo 
de levá-la ao atendimento. Enquanto os 
pais, entendidos como função, aqueles 
que acolhem o “desamparo psíquico” 
(Ceccarelli, 2009), falam do motivo de 
levar a criança ali, a criança fi ca mane-
jando massinhas, lápis e/ou folhas.
A criança deve saber o que faz na 
clínica e nenhum pacto deve ser feito 
psique ciência&vida 75
ATENDIMENTO CLÍNICO
www.portalespacodosaber.com.br
Mesmo aceitando 
o atendimento dos 
filhos, alguns pais 
buscam sabotar o 
tratamento,
mas não retirem a 
criança da clínica. 
Os profissionais 
devem ser
capazes de 
manejar o 
tratamento sem
essa ajudaà obscura com os pais, uma vez que 
o tratamento é baseado no já postu-
lado por Freud “amor pela verdade” 
(Freud, 1937). Ferenczi reforça di-
zendo que o psicanalista deve se afas-
tar da hipocrisia profissional e não 
ficar fazendo semblantes que sirvam 
ao poder. Nesse caso, trata-se de não 
servir ao abuso perverso dos adultos 
ao desejo das crianças. Por perverso 
entenda aquele que força o outro ao 
lugar de objeto de seu gozo.
Certa vez, em meu consultório, 
uma tia trouxe a criança. A criança até 
então não sabia o que fazia ali. Meio 
sem jeito, a tia disse o motivo de levar a 
criança enquanto ao seu lado a criança 
fazia desenhos livres. Em determina-
dos dizeres da tia, a criança parava de 
desenhar, olhava para a tia e retomava 
agressivamente a folha. Após solicita-
ção minha para que a tia esperasse lá 
fora e, perguntada se tinha entendido, 
a criança me disse: “Entendi, aqui é 
para cuidar de mim! Estão preocupa-
dos com meus choros e a culpa das 
brigas deles não é minha”. Referindo-
-se às brigas dos pais com a irmã mais 
velha. A criança com sintoma chegou 
ali e sabemos que fazer falar o sintoma 
é o que Lacan chama de ser causa de 
desejo. Aqui algo já se inclinava para 
a descoberta da demanda da criança e 
posteriormente de seu desejo.
Atentos ao horizonte de nossa 
época devemos saber, justamente 
pelo suposto saber que nos é inves-
tido, que a criança pode ir à clínica 
com pais, tios, avós, vizinhos, aque-
les que a acolheram. Por sermos, “por 
definição, insocorríveis” (Ceccarelli, 
2009), palavra elegida por Cecca-
relli, buscamos laços e nos embara-
çamos nas demandas dos outros.
Em análise, a via é outro na qual 
não existe modelo na vida real.
A análise aproxima-se do esclare-
Narcisismo
Ferenczi diz da criança mal acolhida e 
seus efeitos na pulsão de morte, ponto 
que Joyce McDougall também aborda. 
A configuração de acolhida nos inte-
ressa para que se faça transferência. 
“A criança concretizará os sonhos 
dourados que os pais jamais realiza-
ram. [...] O amor dos pais, tão comove-
dor e no fundo tão infantil, nada mais é 
senão o narcisismo dos pais renascido, 
o qual, transformado em amor objetal, 
inequivocamente, revela sua natureza 
anterior” (Freud, 1914).
cimento sexual da criança, conforme 
aponta Klein em 1932. Por entrar no 
esclarecimento sexual toca-se nas 
dificuldades às quais os pais tanto 
tentam fugir. Como diz Freud, não 
se foge de si mesmo, pois a “fuga é o 
instrumento mais eficaz para se cair 
prisioneiro daquilo que se deseja evi-
tar” (Freud, 1907).
Ainda que os pais busquem sabo-
tar, mas não retirem a criança da clínica, 
nós “devemos necessariamente ser ca-
pazes de manejar o tratamento sem esta 
ajuda” (Klein, 1927). Com Ferenczi 
temos que enquanto o paciente apare-
ce o fi o de esperança não se rompeu. 
Acolher os que levam as crianças algu-
mas vezes faz-se necessário. O caso do 
pequeno Hans só foi possível devido 
ao envolvimento do pai. Freud desde 
cedo já sabia que a família participava 
da transferência e do tratamento.
Nos Três Ensaios Sobre a Teoria 
Sexual, Freud aponta as vagabunda-
gens pulsionais em jogo no aparelho 
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A análise aproxima-se do esclarecimento sexual da criança e por entrar nesse tema toca-se, em 
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Atentos ao 
horizonte de nossa 
época devemos 
saber, justamente 
pelo suposto 
saber que nos é 
investido, que a 
criança pode ir à 
clínica com pais, 
tios, avós, vizinhos, 
aqueles que a 
acolheram
que, em suas instâncias, observam o 
filho sempre como a criança que não 
cresce. A pulsão de saber é tida por 
Freud como de olhar e de controle. 
O sufixo “inho, meus meninos” se-
gue na ponta da língua da mãe e por 
aí vai. É comum quando uma mãe diz 
na clínica “meu menino” este ter 37, 
40 anos. O inconsciente é mesmo de 
outra ordem temporal.
Quanto a essa dificuldade de 
deixar que a filha cresça, chegou em 
minha clínica uma adolescente com 
sua mãe. A mãe falava pela criança 
enquanto a criança prestava atenção 
em tudo do consultório. A mãe per-
gunta: “Você pode atender minha fi-
lha surda e muda?” Eu disse: “Posso 
atender sua filha”. Ela, sem entender, 
repetiu a pergunta: “Você pode aten-
der minha filha surda e muda?”. Mais 
uma vez eu disse: “Posso atender sua 
filha”. Essa forma de apresentá-la 
já me chamou atenção. A criança 
chega no outro dia, entra no con-
sultório, esbarra e retira o aparelho 
de surdez, ainda pelo embaraço retira 
os óculos. Ali, naquele ato falho, 
ela se desprendia da deficiên-
cia já nomeada pela mãe. Com 
autonomia, colocou ambos os 
aparelhos ao seu lado e foi em 
RECALQUES, TABUS E PRECONCEITOS DOS PAIS
 PARA SABER MAIS 
Omundo literário foi um meio que descobri de transcrever o universo infan-til na clínica. Escrevo livros infantis que nascem a partir da escuta com as 
crianças e neles abordo temas que aos adultos são caros, devido aos seus re-
calques transbordantes em tabus e preconceitos. Escrevi As Lágrimas do Cro-
codilo Jão abordando o respeito à diversidade, controle de impulsos e poder da 
palavra. Lá na história o psicanalista é o elefante Dante de orelhas gigantes que 
trabalha acolhendo e escutando. Caio é um passari-
nho de saia que com seu estilo é forte e merece 
ser respeitado. O Jão tem lágrimas mágicas, 
pois expressar trata emoções e ele pode 
sim chorar. No final a criança completa 
a história, é dela o final. O livro carrega 
consigo um término e um interminável, 
com folhas indicando e dando espaço 
à interatividade da criança com desenhos, 
rabiscos e/ou escrita. O desamparo com a 
criança e a desacolhida começam quan-
do não a escutamos enquanto sujeito. 
Professores chegaram, inúmeras vezes, 
a me indagar sobre como abordar que 
passarinho usava saia. A resposta dada 
era que depois que elas ensinassem que 
crocodilo conversava estaria tudo mais 
fácil, pois assim começava a história. A 
dificuldade não era das crianças e sim do 
adulto. A criança que é acolhida, que tem 
lugar de voz, que brinca tem bases de afeto 
e âncoras simbólicas para construir sonhos 
e futuro que as guia como desejo de busca.
psíquico e já no primeiro ensaio 
Freud deixa claro que é de desvio que 
se constituem as sexualidades. Nesses 
desvios a criança suga dos pais leites 
do sintoma. Nos dizeres de Ferenczi, 
identifica-se com os agressores. Em 
Lacan temos que “o sintoma da crian-
ça acha-se em condição de responder 
ao que existe de sintomático na estru-
tura familiar” (Lacan, 1969).
Inocência
Na conferência sobre a vida se-xual dos seres humanos Freud 
resgata que “a infância era encarada 
como ‘inocente’ e isenta dos intensos 
desejos” (Freud, 1915). Ser inocen-
te, muitas das vezes, é não assumir 
o desejo. “Ele é inocente”, quando 
dizem isso, logo em seguida já vem 
alguém desejar por ele e gozar dessa 
posição. Porém, sabemos que nem 
o adulto nem a criança são inocen-
tes, são sexualmente desejosos. No 
campo da pulsão de morte temos a 
questão do suicídio, em que adultos 
acreditam que a criança seja inocen-
te a ponto de não se matar.
Saber que a criança deseja e que 
irá crescer fere o narcisismo dos pais 
ATENDIMENTO CLÍNICO
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Ser inocente é 
não assumir o 
desejo. “Ele é 
inocente”, quando 
dizem isso, logo 
em seguida já vem 
alguém desejar por 
ele e gozar dessa 
posição. Porém, 
nem o adulto 
nem a criança 
são inocentes, 
são sexualmente 
desejosos
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direção aos brinquedos. Tratamento 
vai e tratamento vem e a criançaco-
meça a construir demandas típicas de 
adolescentes e o tratamento volta-se à 
questão dos amores.
A mãe dessa adolescente, cerca de 
um mês depois, diz no consultório: 
“Sabe, ela depende de mim para tudo. 
Nas festas eu tenho que ir em todas as 
crianças e dizer a uma por uma que ela 
é defi ciente, diferente e que não pode 
se enturmar facilmente. É dolorido, 
pois ela acaba fi cando o tempo todo 
perto de mim”. Eita, gozo! Ali a mãe 
mostrou o que atualizava ao insistir co-
migo na indagação de se eu atendia a fi -
lha muda e surda. Na verdade, era ela, a 
mãe, que dependia da fi lha estar junti-
nha dela e não crescer. Se ela não podia 
brincar, imagine namorar! A mãe tinha 
o controle da criança, que pulsiona-
mente vazava invenções. Sabemos que 
o controle é não todo perante a pulsão.
Mais importante do que querer 
saber estruturas é, na clínica, estar-se 
atento às transversalidades da dinâ-
mica pulsional e transferencial. É im-
portante estarmos atentos, enquanto 
clínicos, ao que ocorre “na” e “sob” a 
transferência.
“Na” é o que ocorre na relação 
direta ali dentro do consultório 
e/ou quando o analista vai em dire-
ção da sala de espera. Pulsão, tensão, 
brigas e atualizações inconscientes 
quando estes estão a caminho do 
consultório e quando sentados na 
sala de espera também ditam impul-
sos dessas relações.
“Sob” são os pergaminhos do 
inconsciente que por ser atemporal 
direcionam coisas à análise e dela 
Ato de brincar
O brincar “é o meio de expressão mais 
importante da criança. Ao utilizar essa 
técnica lúdica, logo se descobre que 
a criança faz tantas associações aos 
elementos isolados de seu brinquedo 
quanto o adulto” (Klein, 1932). O brin-
car é uma linguagem para além das 
palavras e por esse motivo foi melhor 
do que saber libras. O inconsciente 
não é mudo e tampouco surdo.
faz seus usos. Tanto os pais quan-
to as crianças. “Vou contar pro seu 
analista”. “Seu analista não vai gos-
tar”. “Se você não fizer o dever não 
irá pra análise” etc. O analista co-
locado fantasmagoricamente como 
um grande outro castrador na ser-
ventia de quem paga. E “sob” pode 
também advir nas crianças, “lembrei 
de você”, “fiz para você” etc. O pa-
gamento, ato fálico por excelência, 
inclusive, é sexual, é pulsional e é 
transferencial. O pagamento não 
deve ditar na escuta do analista 
quem controla a clínica. No caso 
das crianças o pagamento encontra-
-se nas mãos muitas vezes dos pais. 
Para que a clínica com crianças não 
seja bancada pelos pais e para que 
as crianças assumam sua parte na-
quilo que é queixado, Françoise 
Dolto convoca os analistas ao tra-
balho de arranjar um pagamento no 
qual a criança se comprometa, seja 
por meio de figurinhas, desenhos, 
poemas, pedras, o que for. E esse 
pagamento não deve ser analisado, 
interpretado em sua essência e sim 
em seu modo de entrega.
Durante as brincadeiras, as crianças fazem tantas associações aos elementos isolados de seu 
brinquedo quanto o adulto
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Saber que a criança deseja e que irá crescer 
fere o narcisismo dos pais que, em suas 
instâncias, observam o filho sempre como a 
criança que não cresce. A pulsão de saber é 
tida por Freud como de olhar e de controle
REFERÊNCIAS
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Psicanalítico de Minas Gerais, ano XXXI, n. 58, p. 33-41, 2009.
DOLTO, F. Seminário de Psicanálise de Crianças 2. Rio de Janeiro: Guanabara, 1990a.
FERENCZI, S. Diário Clínico (trad. A. Cabral, trabalho original escrito em 1932). São Paulo: 
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��������G�I��G�hG:�$�d�!����I��9�-:9�Psicanálise IV 
(trad. A. Cabral, trabalho original escrito em 1933, p. 97-108). São Paulo: Martins Fontes, 1992c. 
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G��\I��IG:�$�d�!����I��9�-:9�Psicanálise IV (trad. A. Cabral, trabalho 
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FREUD, Anna. O Tratamento Psicanalítico de Crianças (trad. M. A. Moura Matos, trabalho 
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FREUD, Sigmund. Um Caso de Histeria, Três Ensaios sobre a Sexualidade e Outros Trabalhos 
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. Moral Sexual “Civilizada” e Doença Nervosa Moderna. In: Freud, S. Edição standard 
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original publicado em 1908). Rio de Janeiro: Imago, 1980b.
. Recordar, Repetir e Elaborar (Novas Recomendações sobre a Técnica da 
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. Sobre o Narcisismo: uma Introdução. In: Freud, S. Edição standard brasileira das 
Obras Psicológicas Completas, Vol. 14, p. 85-119 (originalmente publicado em 1914). Rio de 
Janeiro: Imago,1974. 
. O Esclarecimento Sexual das Crianças. In: Freud, S. Edição standard brasileira das 
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Janeiro: Imago, 1976a.
KLEIN, M. Psicanálise da Criança (trad. Pola Civelli, originalmente publicado em 1932). 3ª ed. São 
Paulo: Mestre Jou, 1981. 
LACAN, J. Outros Escritos�‡��G
:�0��G�	�H����9����������G��
���������G�#G�G�����(G�I�����
�\�
Vieira, 2003). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1969.
Pagamento
No caso de pacientes crianças, os pais me pagam e as crian-
ças também. É preciso raspar a de-
manda para encontrar o desejo! As 
crianças me pagam com desenhos, 
textos, parte da mesada, pedrinhas, 
figurinhas etc.
Teve criança que me pagava com 
figurinhas de chicletes que chupava 
toda semana. Para elaborar um luto 
da mãe, foi comunicada em sua últi-
ma sessão que teríamos apenas mais 
um encontro. Me pagou no último 
com o cartão da missa de sétimo 
dia da mãe, o único que ainda tinha. 
Pagou e disse: “Aí está! Ficará aqui. 
Agora tenho que seguir a vida, mes-
mo que com saudades”.
Teve ainda criança que, quando 
foi acordado que me pagaria com 
pequenos textos, disse: “Vou trazer! 
Posso trabalhar a noite toda, mas aju-
darei minha mãe a pagar minha aná-
lise!”. Outra me pagou com desenhos 
de notas de dinheiro.
Teve crianças pagando com arte. 
Esta havia feito transferência pela 
pulsão de morte e não pagava até 
que a transferência se formalizasse 
na relação dela com a clínica e não 
com a mãe a obrigando. Esta havia 
perdido o pai. Disse: “Pagarei com 
arte, assim quando eu sentir vontade 
de destruir eu vou construir. Tenho 
para pagar a capacidade que todo ar-
tista precisa. Uma vida amargurada; 
perdi o pai e minha mãe retirou meu 
celular esta semana”.
Na clínica e na vida as crianças são 
sujeitos de seus desejos! A elasticidade é 
técnica. A proposta ética segue naquelas 
belas palavras citadas por Freud: “Aqui-
lo que herdaste de teu pai, conquista-o 
para fazê-lo teu” (Freud, 1938).
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observarmos que 
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menino”, mas, na 
verdade, ele é 
um homem 
de 37 ou 
40 anos
80 psique ciência&vida
em contato
ANTIGOS E NOVOS PECADOS
Muito interessante a abordagem sobre os sete pecados capitais de um artigo publicado na edição 
157. É fato que, quando criança, ouviaem tom ameaçador que, de todos os “pecados” que o ser hu-
mano pode cometer, havia sete que davam uma espécie de passagem direta para o “inferno”. Eram 
justamente os chamados sete pecados capitais, que assombram a consciência há muito tempo. O 
diferencial da abordagem foi mostrar que hoje eles não são tão mortais assim. O texto diz que o que 
determina os efeitos deles são a intensidade e a frequência desses sentimentos no cotidiano. Portanto, 
OS�PECADOS�CAPITAIS�INSTITUÓDOS�NA�ERA�MEDIEVAL�GANHAM�NOVOS�SIGNIl�CADOS��VALORES�E�GRAVIDADES�AO�
longo dos séculos. Dessa forma, no mundo contemporâneo, as bases morais antigas perdem sua va-
lidade e surgem novos pecados. Os antigos passam a ser vistos como virtudes.
Mariana Bicalho, por e-mail
CAPA157_aprovada.indd 1
TRAUMAS E AUTOSSABOTAGEM 
�)DENTIl�QUEI
ME�MUITO�COM�O�FATOR�DA�AUTOSSABOTAGEM�NA�ENTREVISTA�PUBLICADA�NA�EDI
ção 140 da Psique. Gostaria de saber se o psicólogo Julio Peres atende em consultório 
ou se poderia indicar um colega para que pudesse aprofundar essa questão. Gostei 
principalmente da parte da entrevista em que o dr. Julio aborda o tema em eventos 
traumáticos, que atingem grande parte da população. O surpreendente é que alguns 
estudos epidemiológicos revelam que a maioria das pessoas já passou ou passará por 
episódios potencialmente traumáticos. 
Margarida Cristina del Gáudio Albergaria, por e-mail
CRISES E O BOM HUMOR
Muito se fala sobre a necessidade de levar a vida com bom humor e de forma mais 
LEVE��-AS��NOS�DIAS�ATUAIS��Ï�MUITO�DIFÓCIL��0OIS�BEM��HÉ�A�CRISE�MUNDIAL��REm�ETIDA�NA�
CRISE� l�NANCEIRA�� NA� PROl�SSIONAL�� PESSOAL� CONSTATADA� PELA� CRISE� DE� VALORES� E� SOCIAL�
diante da degradação das relações familiares e interpessoais. Então, em minha visão, 
O�GRANDE�DESAl�O�Ï�SUPERAR�O�ABATIMENTO�DIANTE�DESSE�CENÉRIO�E�NÎO�SE�DEIXAR�CON
taminar pela negatividade. O texto que saiu no número 157 auxilia a entender esse 
processo. O mau humor só serve para tornar mais difícil a caminhada e não ajuda 
a resolver os problemas. O texto alerta que todos temos de enfrentar muitas situa-
¥ÜES�SOFRIDAS�E�DESAGRADÉVEIS�NA�VIDA��AS�QUAIS�NÎO�TEMOS�COMO�MODIl�CAR�OU�EVITAR��
Nesses casos, o que fará a grande diferença no percurso desse caminho será a forma 
como escolheremos ultrapassá-lo. 
Thais Albuquerque, por e-mail
OMS INCLUI TRANSTORNO 
POR VIDEOGAME NO ROL 
DAS DOENÇAS MENTAIS
A inocente brincadeira dos jo-
gos digitais pode se transfor-
mar em um problema sério. 
Pelo menos na avaliação da 
Organização Mundial da Saúde 
(OMS). Desde 2018, a OMS in-
clui o transtorno por videoga-
me no rol das doenças mentais. 
A entidade considera que os 
videogames causam transtor-
nos patológicos e até viciam. O 
problema se caracteriza por um 
padrão de comportamento de 
jogo “contínuo ou recorrente”. A 
OMS vincula o transtorno a três 
condições negativas provocadas 
pelo mau uso dos jogos digitais. 
Primeiramente, por não contro-
lar a conduta de jogo quanto ao 
início, frequência, intensidade, 
duração, f inalização e contex-
to em que se joga. Em segundo 
lugar, o aumento da prioridade 
que se concede aos jogos em re-
lação a outros interesses vitais e 
atividades diárias do cotidiano. 
E, em terceiro, ao se manter a 
conduta ou acontecer uma es-
calada “apesar da ocorrência de 
consequências negativas”, se-
gundo a OMS. O transtorno se 
refere à utilização de jogos di-
gitais ou videogames, que pode 
ocorrer mediante conexão com 
internet ou sem ela.
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CONSELHO EDITORIAL
AICIL FRANCO é psicóloga, mestre e doutora em Psicologia 
Clínica pela USP. Professora no IJBA e na Escola Bahiana de 
Medicina e Saúde Pública, Salvador, BA.
ANA MARIA FEIJOO é doutora em Psicologia pela Universidade 
&EDERAL�DO�2IO�DE�*ANEIRO��AUTORA�DE�LIVROS�E�ARTIGOS�CIENTÓl�COS��
parecerista de diversas revistas e responsável técnica do 
Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do RJ.
ANA MARIA SERRA é PhD em Psicologia e terapeuta cognitiva 
pelo Institute of Psychiatry, Universidade de Londres. Diretora 
do Instituto de Terapia Cognitiva (ITC), atua em clínica, faz 
treinamento, consultoria e pesquisa. Presidente honorária, ex-
presidente e fundadora da ABPC. 
ANDRÉ FRAZÃO HELENE é biólogo, mestre e doutor em 
#IÐNCIAS�NA�ÉREA�DE�.EUROl�SIOLOGIA�DA�-EMØRIA�E�!TEN¥ÎO�
pela Universidade de São Paulo, onde também é professor no 
curso de Biociência e coordena o Laboratório de Ciências da 
Cognição no Instituto de Biociências. 
CLÁUDIO VITAL DE LIMA FERREIRA é psicólogo,
doutor em Saúde Mental pela Unicamp, pós-doutorado em 
Saúde Mental pela Universidade de Barcelona-Espanha, 
professor associado de Psicologia da Universidade Federal de 
Uberlândia. Autor de Aids e Exclusão Social.
DENISE TARDELI, graduação em Psicologia e Pedagogia. 
Mestrado em Educação e doutorado em Psicologia Escolar e 
do Desenvolvimento Humano, ambos pela USP. Pesquisadora 
na área da Psicologia Moral e Evolutiva. Professora 
universitária.
DENISE GIMENEZ RAMOS é coordenadora do Programa de 
Estudos Pós-Graduados da PUC-SP e membro da Sociedade 
Brasileira de Psicologia Analítica. 
KARIN DE PAULA, psicanalista, doutora pela PUC-SP, professora 
e supervisora clínica universitária e do CEP, autora do livro 
$em? Sobre a Inclusão e o Manejo do Dinheiro numa Psicanálise, e 
de vários outros artigos publicados.
LILIAN GRAZIANO é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, 
com pós-graduação em Psicoterapia Cognitiva Construtivista. 
É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia 
Positiva e Comportamento. Atua em clínica e consultoria. 
LILIANA LIVIANO WAHBA, psicóloga, PhD, professora da PUC-
SP. Presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica. 
Coeditora da Revista Junguiana. Diretora de Psicologia da Ser 
em Cena - Teatro para Afásicos.
MARISTELA VENDRAMEL FERREIRA é doutora em Audiologia 
pela University of Southampton – Inglaterra, mestre em 
Distúrbios da Comunicação pela PUC-SP, especialista em 
Psicoterapia Psicanalítica pelo Instituto de Psicologia da USP.
MÔNICA GIACOMINI, presidente da Sociedade Brasileira de 
Psicologia Hospitalar – biênio 2007/09. Especialista em 
Psicologia Hospitalar, psicóloga clínica junguiana, psicóloga 
do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HCFMUSP e 
supervisora titular do Aprimoramento em Psicologia Hospitalar 
em Ortopedia.
PAULA MANTOVANI é graduada em Psicologia pela Universidade 
Paulista, psicanalista, consultora editorial do programa de 
entrevistas da FNAC e membro correspondente do Espaço 
Moebius de Psicanálise de Salvador (BA).
PEDRO F. BENDASSOLLI é editor da GV Executivo, psicólogo 
graduado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e 
doutor em Psicologia Social pela USP. É também professor da 
Fundação Getulio Vargas e da ESPM.
LINHA DIRETA
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CANAL FACEBOOK: A revista Psique traz muitas informações interessantes 
também nas redes sociais. Acesse a fanpage: www.facebook.com/PortalEspacodoSaber
4EMAS�COMO�DESAl�OS�DA�ATUALIDADE�QUE�
os líderes enfrentam, desenvolvimento 
da capacidade de liderança, plano de ne-
GØCIOS��MARKETING�El�CIENTE��MELHORES�ES
tratégias empresariais, alto desempenho 
e como encantar clientes fazem parte do 
dia a dia do canadense Brian Tracy, con-
siderado um dos principais especialistas 
em business coaching do mundo. Tracy 
estudou e se especializou nas áreas de 
.EGØCIOS��%CONOMIA��(ISTØRIA��&ILOSOl�A�
e Psicologia, procurando aprimorar suas 
habilidades. Para ele, uma das principais 
DIl�CULDADES� ENCONTRADAS� � CRIAR� MECA
nismos para mudar de hábitos e, em con-
sequência, evoluir. Entrevista completa, 
publicada na edição135, pode ser con-
ferida no site www.psiquecienciaevida.
uol.com.br
Rua Ascencional, 172 – conjunto 21 – Morumbi – São Paulo – SP
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E UFSCAR PROMOVE CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM SAÚDE MENTAL
A UFSCar vai promover a segunda edição do 
curso de especialização em Saúde Mental e 
Cognição. A iniciativa é voltada a enfermeiros, 
psicólogos, terapeutas ocupacionais, médicos, 
ASSISTENTES�SOCIAIS��GERONTØLOGOS�E�PROl�SSIONAIS�
COM� FORMA¥ÎO� SUPERIOR� EM� ÉREAS� Al�NS�� QUE�
pretendem atuar ou estejam trabalhando com 
saúde mental e cognição. O curso debate con-
ceitos teóricos, valorizando a análise crítico-
REm�EXIVA�EM�TRÐS�EIXOS�PRINCIPAIS��TRANSTORNOS�
mentais e impacto social; conceitos, políticas 
públicas e humanização em saúde mental; e 
cognição e neurociência. As aulas terão a du-
ração de 22 meses, com carga horária de 368 
horas e periodicidade mensal. O curso tem iní-
cio no mês de março e acontecerá na última 
semana de cada mês, aos sábados e domingos, 
no Campus São Carlos da UFSCar. Informa-
ções no site https://saudemental2019.faiufscar.
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Ano 12 - Edição 158
Abril/2019
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82 psique ciência&vida www.portalespacodosaber.com.br
psiquiatria forense por Guido Arturo Palomba 
Guido Arturo Palomba 
é psiquiatra forense e 
membro emérito da 
Academia de Medicina 
de São Paulo.
os quais estão mancomunados com a si-
tuação política, os que dão choques etc.
Resultado: a ECT foi demonizada.
Por que faz bem? Porque dá um “rei-
nício” no cérebro, nos neurônios, nos 
axônios que estão carregados de eletrici-
dade (aliás, mensurável pelo eletroence-
falograma), sem efeitos colaterais.
Ademais, o paciente nem sabe que a 
tomou, dado o alto grau de gravidade clí-
nica, que o impossibilita de ter qualquer 
tipo de entendimento lógico sobre os fa-
tos que ocorrem ao seu redor.
As indicações, repetindo, dizem res-
peito a pacientes que apresentam qua-
dro endógeno de depressão orgânica, 
com alto risco de suicídio, situação esta 
EM�QUE�NENHUM�REMÏDIO�SE�MOSTRA�El-
caz, e esquizofrenia catatônica. Quem 
já viu catatonia com rigidez cérica (o 
indivíduo parece um boneco de cera), 
refratária a tudo, sabe que a ECT pode 
ser um santo remédio.
AR
QU
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Por exemplo, pegar o doente e ameaçar 
jogá-lo em um viveiro de cobras, para 
que tivesse um grande susto, ou fazer 
estrondos pelas costas, ou como fez um 
alienista ao criar o gyrator, engenhoca 
que consistia em amarrar o paciente em 
uma cadeira giratória e girá-lo até que 
tivesse convulsão. Pensamento correto, 
similar a quando o computador ou celu-
lar travam ou apresentam alguma falha e 
damos um “reinício” para ver se endirei-
ta. O que é certo é que muitas vezes esse 
procedimento funciona. Ou não?
Assim, após quase uma centúria, Ugo 
Cerletti e Lucio Bini criaram o eletro-
choque, ou eletroconvulsoterapia (ECT). 
Não vem ao caso dizer que é corrente de 
baixa amperagem, dura segundos etc., 
pois refoge ao tema. O importante é que 
apresenta resultados efetivos. 
Porém, com a vinda da antipsiquia-
tria, a ECT virou sinônimo de tortura, 
isso porque, à época, os presos políticos 
relataram que levavam choques elétricos 
da polícia.
Ou seja: eletroconvulsoterapia virou 
agressão ao doente mental, e, se levarmos 
em conta o que pensa a antipsiquiatria, 
talvez nem seja de fato alienado, pois, se-
gundo essa perspectiva, tal rótulo foi cria-
do pelos que querem internar o paciente, 
S
e eu adoecesse de depressão 
endógena ou de esquizofrenia 
catatônica, gostaria de ser tra-
tado por eletrochoque, pois é o 
tipo de tratamento que todos os gran-
des terapeutas da Psiquiatria pensaram, 
mesmo na época em que não existia cor-
rente elétrica.
Recordemos que as primeiras for-
mas de choque começaram logo depois 
de Pinel cortar as correntes dos loucos 
que estavam internados no hospício de 
Bicêtre. Com essa atitude extraordinária 
determinou, de uma vez por todas, que 
doentes mentais não são possuídos pelo 
demônio nem vagabundos que não se 
prestam ao trabalho e falam coisas inin-
teligíveis, escutam vozes que lhes dão or-
dens ou pensam ser napoleões, ideias que 
faziam parte do conceito sobre os aliena-
dos mentais. Com Pinel, a loucura passou 
a ser considerada doença mental. 
Assim, é preciso tratar. No entan-
to, à época, não havia nada mais do 
que sanguessugas, purgantes e banhos 
frios/quentes.
Os terapeutas então pensaram cor-
retamente: é preciso dar um choque no 
cérebro,embora, como dito, ainda não 
existisse eletricidade. E assim inventaram 
várias técnicas para atingir esse objetivo. 
CONTRARIANDO A ANTIPSIQUIATRIA, 
QUE RECRIMINA O 
ELETROCHOQUE, EM CASOS 
MAIS GRAVES ESSE TIPO DE 
RECURSO PODE TRAZER 
REAÇÕES CEREBRAIS 
EFICAZES QUE NENHUMA 
MEDICAÇÃO É CAPAZ DE FAZER 
Um santo remédio
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