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~----M·-------•·•• -• 
!).,dos Jnternacinnais d e Cata logação na Publicação (CIP) 
(C:ârna1"1 Bras ileira <lo Livro, S l', Brasil) 
\
----------- ---------------· 
Charn p" ~nc, f'0lTick 
_ Fo rma r il opinião: o novo j•)go políti co ! P a h·i<:k C hilrnpaF;n•?; traduç:io d.e 
C udhcnnc João de Freitas Tein:1ra. -- t>etrópo\is, RJ: Vov:s, 1996. 
\ 
l 
' l 
1 
fít·u lo 01·igina\: F<iire l'opin.ion : \e n o uveau jeu polit·ique. 
I:3BN 85-326-1699-2 
1. Ele içõ<:s-· Pesc1uisa d e opinião - França 2. França -- Pol íti•:a e governo -1981 
- Opin i.'io públi ca l. Ti ledo 
L 96 .39();] ·--- ------ ----
CDD-303 380944 
Índices par.1 catálogo sistem á tico: 
l'r;11-,ç•.: ()p, n1ão públic:<i: Control2 social: Sociologia 303 3809·14 
~ : 
Patrick Ch.an1.pagn.e 
~Q_RMAR~ A ()PIN'IÃ() 
----------·-~------------·------·-----
O novo jogo político 
Trnduçiío de Guilh<:: rrne Joiío de Fn,1t;1 s lcixcirn 
EDITOR!\ 
VOZES 
--.-------
Petrópol is 
1998 
> 
.. t 
CAPÍTULO I 
A invenção dos modos legítimos de 
exprimir a "opinião pública" 
.Uma noção tão conhecida como a de "opiniiío pública" é de tal modo fácil 
de apreender que, por esse motivo, talvez, seja mais difícil de analisar. 
Apresenta-se sob a forma, simultaneamente, familiar e erudita, que lhe foi 
atribuída pelos institutos de sondagem, cientistas políticos, imprensa e 
meio político; além disso, de algum modo, faz parte das formas elementares 
de percepção o u dos dados imedia tos da consciência po lítica Se, atualmen-
te, já não está em discussão sua exis tência, tampouco os meios ma is apro-
priados para avaliá-la é porque, nos últimos trinta anos, os institutos de 
sondage rn elaboraram urna técnica e un1a arte aparcnternente indiscutíveis 
para apreendê-la ele uma forma que se apresenta, simultaneamente, como 
objetiva e precisa. Embora não seja previs ta enquanto tal por nenhuma 
Constituição, a "opinião p ública" está, no entanto, estreitamente associada 
aos regin1es de democracia parlarn.entar; neste caso, os institutos de sonda-
gem são levados, naturalmente, a exportar sua experiência para os países 
do Terceiro Mundo (em particular, África), assim co mo para os regimes 
autoritários que se "democratizam" (URSS, Polônia, etc.). Na França, uma 
lei (de 19 ele ;ulho de 1977) chegou mesmo a consagrar, indiretamente, a 
autorida de cientifica dos institutos de sondagem ao criar uma "comissão 
das son dagens" composta por altos fun cionários oriund os do Conselho de 
Estado, Supremo Tribunal e Tribunal de Contas, encarregada de velar pelo 
respeito às regras deontológicas elementares que, b em cedo, a profissão 
tinha elaborado (o "código internacional das práticas leais em matéria de 
estudos de mercado e opinião", redigido a partir de 1948) a fim de que os 
resultados de tais sondagens, qL1e têm efeitos políticos, sejam insuspeitos 
43 
(tr<1t,1va-s1:, c.sseno,1Jrncntc, ele impedi r a publicaç5o de falsas sondagens 
ou ci<.ts ::<>n.1 lz1gcn,c; 1c•,1l1zadas cm condições ddeiluosas de amostragem com 
o obj ,:t i\ 'C' de " i11tox ic;1 1·") Desde 1945, soh o impulso de Jean Stoetzel, o 
l nsf' i t 1 t fn111.çni; d' Ofii11io11 pu/1liq11e (fFOP) Linha mostrndo sua vontade d e 
fazer urn trnlxilho trinto científico, quanto co1nerciaJ, através da publicação 
ele urn êt cev1st.:i (Sonrlages, q ue foi cditc1Cla entre 1939 e 1978) consagrada à 
aprc::-.entaç:iio e comentá rios dos resultados das pesq uisas consideradas 
m ;i is interessantes ~ ~1 ue eram, assim, colocadas à d isp osição do público 
inten·'S'.iado. A p.:trti r de 1984, foi a Sofres que tomou o bastão através da 
publiu,ção. todos os anos, ele um Etat de /'opi11io11 no qual são reagrupadas 
as soncbgens q ue parecem ser ma is s ignificativas, acom panhadas pelo 
comenlário ele cientistas polí ticos, jornalistas e, ri té mesmo, polí ticos. Se 21 
abundánci;i d:i~ son dagens publicadéls, hoje em dia, pela imprensa pode 
s uscitar, p<~riodicarnente, em alguns jorn alistas, lllTla ce rta irritação e m 
rela<;iiu d uma prá tica para cujo desenvolvimc nt'o e les próprios d eram s ua 
contribui ção, ocorre que as ún icas objeções de ord em científica gue ainda 
são colocadas por parte dos especialis tas e utilizadores de tal técnica 
(cientistas políticos e profissionais das sondagen s) incidem , daqui em 
cliérntc, sobre certos pontos de d e talhe (amos tra mal cons tituída, "coeficien-
te ele correção" discutível, etc.) e n 5o m a is sobre o própri o princípio de tais 
pesqu:sas . À maneira de indicadores econômicos, esses institutos s eguem, 
todélS ,15 sem a nas, as evoluções da opinião sobre os grandes problemas da 
atuil lidadl', assim como ;:is co tas de populariclaclc dos principais líderes 
políltcos. Em uma palavra, a "opinião pública" tal com o é ava li ada pelos 
i nst1tu l0~ ck so ncl ;igern to rnou -se urn a ins tituição socicil. 
Se os institutos de sondagem ch egi1 ram, ·assim, i1 impor nos campos 
político e jornalístico-e, portanto, bem além d isso- o fa to de gue a "op inião 
pt'11.Jl1ca" é redu tíve l ao que é ava liado por eles, obse rvamos a pers istência 
de sérias re~i sténc i as de u m cedo número de cspecia listas elas ciê ncias 
socia is propriamen te ditas: os his to ri adores e os sociólogos mostram a 
anligiiidade dessa noç5o e lembra m q ue, de fato, tra ta-se d e Uff\ referente 
im.1g i11<Írio, i.d,~<1 1 e u tópico q ue, essencialmente, serve ele princípio legiti-
n1atlcr Jus d iscursos e ações p olí ti cos. Dito por outras palavras, ruela Jeva 
a p(~ns,1r CJUC a "opinião pública '' não passél do p roduto cio encontro entre 
um fantas ma po lít ico lt«ldtcional - levar "o po vo" a falar nos regimes em 
qu<', supos tumen tc, ele é a fonte d a Jegi ri ITti dade do poder - e uma tecno-
logia social rnoclcrna : a sondagem, o questionário fechado e o apuramento 
q u <1se instdntâneo at ra vés de computadores. 
44 
Gênese social ria "opinião públicn" 
Ali<Ís, béista ler os d icionários contemporâneos que ,JCurnulé'lrn, como ~, e 
se tratasse de cstri1tos geológ icos, t·o1fas as sig11ificê\ÇÓ('S consti tuídc1s ,10 
longo da história p<1r<-1 nos darmos conta ela diversicladl' d os sentidos que, 
c:i tualmen te, pode ler a noção ele "opinião" e, ao n1esmo tempo, p:ira nos 
mterrogarmos sob re o tipo de "opinião" c1ue, do ponto ele v.íst.\ ci<:,·ntífico, 
os rnstitutos ele sondagem pretendem apreender. Com efeito, segundo 0 
Robert, por exemplo, ê\ noção ele opjniao pode design.:ir o resultad e d e '.UH 
Julgamento incliviclu<11 fome (nesse ca~;o, é sinônimo de "aprecia<:iio", " xi-
ece ·" " t " " · - ") 1 r 1 , cer cza , conv1cçao ou, inversamente, julgamí!11lo inclivicl1-1<1J 
incerto e subjeh vo (significando "impressão", "imaginaç:\o", "ponto dP 
vista", "sentimento", "conjetura", "suposiç;ão", "prcsunç~'ío") (lu, até mes-
~10, a a usê'.Ki;:i pura e s imples de qu<ilquer julgamento (é o c<1so d<1 '·crença", 
preconcei_to" ou "prevenção"). Tal noção pode designJr, igualmente, um 
prod~to_ nao m<1is individual, m as cole tivo e, então, expr ime t::into uma 
pos1çao mtelectual refletida, il té mesmo muito elabor ilda _como É 0 ec:iso 
ele uma "doutrina" religiosa (fala-se de "opinião da Igreja" a respeito de ta l 
p roblema de SOC1ed~d e) ou de um "sistema" filosófico ou político_ quanto 
um conjunto de atitud es colet1vas "espontâneas" ou de reprcsentaçôes 
cornpar tilhadris por um g rupo social. A mesma va riedade sernil n t·ie<1 obscr-
va-:,e a pr~pósit~ d o adjetivo "públ ico" que p ode qualificar o qu e s-2 refere 
ao povo cons ide r·ado em seu conjunto (e, então, s ignifica ''comum" 
·:g,;ral"); opõe-se, igua lmente, a "privado" e des igna o que, forma lmente'. 
e aber to a todos" (por exemplo, u m jard im "públ ico" ou um ,~scritor 
" público"*), isto é, na realidadt!, a todos o:; qLtc o desejarem ou puderem, 
o u mnda o que perten ce ao Es tado e pressupõe um " interesse coleti.vo"ou 
"_geral" ("dom ínio público" , "direi to púb lico", etc.). No t'ntc:into, esse adje-
ti vo t_E·n\ igu alrr~ent,e, um s,:n ti do m<lis dire ta men te po lítico e designa 
tambcm o que n ao e secreto , o que eleve ser feito "às clarus", assirn como 
as pesso <1s _que exercem uma função "o fi cial" ("homem público") e .. enfim, 
por extens<10, o que é "conhecido por todos" ("notório" ). 
Evidcnte1Y1cnte, a noção de "opinião públ ica" - que, atualmente, faz 
parte ele r~osso inconsciente político - também conheceu, desde seu p rimei-
ro apa rccllnen to na França, em meados cio século XVU.l, variações scmân-
------------·-·- --
"" N.T.: No originil l, Jcrivni11 "public''; funcionjrio ú disposiç~o Jl1S ;,1nalfi\l>etos p.,,r.1 cscrev~r c.1 rt;i~ e preencher documenros. . 
j 
l 
ticas da mesma amplitude. Com efeito, os trabalhos históricos que traçam 
su;:i gênese mostram que, até o final desse século, a "opinião" estava longe 
de ser uma noção tão positiva, do ponto de vista político, quanto possa ser 
em nossos dias. 
A breve evocação histórica que se segue v isa somente a colocar em 
perspectiva a noção de "opinião pública" e apóia-se em trabali1os 
recentes de h istoriadores, particularmente, em K. Backer, " Politique 
et opinion publique sous l' Ancien Régime", in Annales ESC, j.aneiro-
fevereiro de 1987, p. 41-71; S. Maza, "Le tribunal de la nat10n: les 
mémoires judiciai res et l'op i.nion publique à la finde l' Ancien Régi-
rne", i.n Annales ESC, janeiro-fevereiro de 1987, p. '73-90; R. C hartier, 
Les origines ct1lturelles rle la Réi•ol11tio1t frrmçaise, Paris, Ed. d u Seui l, 
1990; M. Ozouf, "Le concept d'opini on publique au XV[Ile siecle", i.n 
L'homnie régé11éré. Essais sur la Révolulio11 fran çaise, Paris, Gallimard, 
1989 (col. "I3ibliotheque des histoires"), .p. 21-53; J Sgard, "Naissance 
d e.: l'opinion p ublique", a ser p u blicado (colóquio de Ottawa, Les 
/wníe res du savoir, 1986). Ver também Centre de sciences po/1t1qiies do 
[nslitut rl'études juridiques de Nice, L'opinion publique, Paris, PUF, 1957 
(em particular, as contribuições de P. Ourliac, F. Ponteíl e G. Burdeau); 
e J. Habermns, L'espace public. Archéologie de Ia publicité com me díme11-
s ion const ít t1Live de, la société boiirgeoíse, Paris, Payot, 1986 (1962 pa ra a 
edição alemã). 
Se nos referirmos a um dos primeiros dicionários da língua francesa, a 
fim de apreendermos a utilização estabelecida, na época, para essa noção, 
assim como a filosofi a impl:lci ta veiculada po r ela, veremos que, desde 1621, 
n o Trésor de la langue françni"se lant ancienne que moderne, a noção de opinião 
comporta um dup lo sentido, ainda presente atualmente, embora bastante 
recalcado, porque remete de forma eviden te a uma oposição do tipo social: 
por um lado, a opinião é, com e feito, "a afirmação de alguém que não é 
perfeito", is to é, o julgamento irrefletido que é peculiar às classes populares 
e ign orantes(" a opinião dos loucos é estimadi\ como algo de popular"); por 
outro lado, ela é o que é "fixado por pessoas instruídas em qualquer 
ciência". Se, no fina l do século XVII, em seu dicionário, Furetiere indica com 
precisão gue a opinião é um "julgamento" que implica uma "deliberação" 
ou um "sentimento pêlrticular gue a pessoa acaba por formar ao rêlciocinar 
sobre as coisas", opõe também "a opinião de um au tor séri o" que pode ser 
"seguido nos casos duvidosos com segurança de consciência" às "opiniões 
errôneas" do p ovo. Furetiere mostra, igualmente, que a opinião pode ser 
um "sentimento geral ou de várias pessoas"; por tanto, não é somente 
46 
par ticular e privada, mas - sem ser "pública" no senhdo m oderno da 
palavra - pode ser mais ou menos amplamente compartilhada. Assim, n o 
início do século XVIII, o que é d esignado por "opinião" é, para as eli tes 
cultas, sinônimo de conhecimento p rovisório . Está si tuada entre a dúvid a 
e a certeza e, portanto, implica, pelo menos, um. esforço de julgamento 
pessoal. Na seqü ência da tradição platônica, opõe-se à "tiência" que é 
universal (Kant afirma que é absurdo op inar em matemática: temos conhe-
cimento d a matéria ou, então, abstemo-nos de qualquer julgamento). No 
entanto, essa opinião instruída opõe-se, igualmente, aos simples preconcei-
tos enraizados no par ticul<ir que caracterizam as opiniões populares. Por-
tanto, entre as p róprias opiniões, existe uma hierarquia: como a multidão 
inculta se opõe aos especialistas e sábios, assim também as opi rüões do 
"vulgar" distinguem-se das que se formam com a ajuda da razâo, após 
deliberação, e aproximam-se do conhecimento verdadeiro. Entre muitos 
outros autores do século XVIII, isso era reconh ecido p or La Rochefol1cauld 
q ltando, em u rna de suas máximas, declara que "podemos conservar nossas 
opiniões se forem razoáveis". 
O adjetivo "público" que, progressivamente, vai se colar, no final do 
século XVIII, à noção de "opinião" para formar essa entidade original -
embora in1precisa porque utilizada, desde a origern, com objetivos ampla-
m ente polêmicos1 - op õe-se, nessa época, me nos a "privado" ou "ín timo" 
do que a "segredo'', ''fingimento" ou "dissim ulação"2; além disso, inscre-
ve-se no m ovimento de contestação do absolutismo e arbi trá rio régio. Com 
efeito, a "opin ião púb lica" é, antes de rudo, a dos meios parlamentares 
porque tornam ''públicas" suas opiniões a .respeito das questões do reino 
(as" Admoestações" fe itas ao rei): contra a política do rei considerada como 
rodeada de mistérios, os parlamentares apresentam-se como defensores de 
um.a política qu e seria feita com h·ansparência e diante do público (de fato, 
do público "culto") . A "opinião pública" é também, um pouco mais ampla-
mente, a dos " letrados" que, em nome da "Razão" que julgam encarnar, 
arvoraram-se em uma espécie de tribunal de segunda ins tância q ue é 
ofe recido a todas as v ítimas da injus tiça e do arbitrário. Trata-se de utilizar 
o testemunh o do público mais vasto possível através de "documentos 
l . Segundo Mona 02ouf, só em 1798 é que, pela primeira vez, a exp ressão "opiniã o plib lica" aparece 
com o tal, em um dicionário. 
2. Sobre este aspecto, ver P. Bourdieu, La 11oblesse d'Etnt. Grandes écolcs et espril de corps, Paris, Ed. de 
Minuit, 1989, em especial, p . 545-548. 
47 
imp n:ssu,_," (que são 
1
ustêlrnen te o contrário das cartas corno selo do re i que 
conttnli
3
rn él t)rclern d.e prisão ou exílio sem iu.lgêlmento) e a urr1entar, ass1rn, 
a rubLcid0 d ..; das audic ncias da justiça (por ex:n1plo,_ é con h~ci_d~, o pa1-:e l 
<".icS('lll [.:it:nJLié\u por Vol ta ire ern algurnas questoes 1ud1c1a ls) -~ssa opiru ao 
pl'ibli<:<i" n ã.o ~ o res ultado da adição es ta tísti ca ~as _op1nlo~s ~º . 1T1a1~1, 
rnírnei o ele pessoas: '1 opmião popular, a da 1nult1dao, e ainda sm orun1? de 
"pai xôcs cl esregrncb s e versáteis" e continua ficando às rna rgens do po l1t1c_a 
p ropr iamente dila, embor a não sejn totalmen te 1gn~rad<: ~omen te a opm1-
ão el as " elites esclarecidas" pode ser decretada, senao rnfaltvel, pelo menos, 
Ltrúversa l e impessoal porque es tá baseada na razão. _Durante toda a p ri -
meira rnct<l de do s(·nilo XVIII, a "opin ião p ública" foi, ass lrn, menos a do 
público (no sentido amp lo do termo e1n no:sos dias) do q~·e ag1.~ela -
"torn<1da pública" - ele uma e lite social que treque nta as aca_dernws _e os 
s<ilôe;: li tcr:i rios; 1 dio se opõe à opi ni ão do povo (a gran de rnai on a, que _a inda 
é composta por ca1nponeses an alfabetos, não,,tern opinii'ío a :·espe;,to d: 
poli ti (' <l), 1n.'\S aos interesses particulares das cape li nhas poltt1cdS. que, 
segundo a burgu esic-1 "esclarec ida", ocupa1n nesse rno1nento o pod ei. 
A ·1 L
1
p irnão pública" é, ussim, urna espécie de rnáquina ele guerra 
idcológ icc\ " irnprovisacla", du ran te o século XVHI,yelas elttes mtek_:tuais 
e pe la bu rgu esi~t de toga a (im ele legi tinl.<H suas p ropnas re1v1nd1caçoes no 
campo pol ítico e c n ÍTilCJUC:cer o absolutismo régio E voluntan amente ~ue 
n ti li~.êlmos aqui 3 n oção de " improv isação", na ff1eclida e1n que s_en a fac1 l 
w ostrar 8 f;\I\<) d1·: ,~ 0crc nc i .~ lógica, as rnarchas à ré e as contrad1çoes, en tre 
d ivcrso:; au tores e no rnesrno a utor, que veri ficamos na construção progres-
s iv<icÍ~1 noçi1o de '1 opin i5o pública" e no sentido que lhe estó associado . C_om 
cfci!i), C> probit:m:i colocadoº essas elites intelec tuais é so rne1~te Justificar 
s u;1 entr:-ida cm urnjogo do qual a inda cs t§o a1nplainente <:;xclu1das e minar, 
poi: lodos os meios disponíveis, a legitimidade elo regime político estZ1be~ 
Ice i.cio . Escr[lores e fi lósofos p olíticos vão, Z1ssun, traba lhar ele fo tma mais 
ou ncnos coerente - utilizando expressões cl ivers1ficadi1S, m'1S rda liva-
rrwn te subs tituíveis - pan1 produzire rn, no campo poll tico, um novo pnn-
cíp1o de J.cgi tirnidadé~ que te:rn como p ropriedad e favcirccer seu capital 
csp <:·cífico (a capactdadc de raciocin<lr ) q ue eles tend:m a ~rvo r~r co1;,'~ 
c.; pi l<ll polí tico por excdénoo: Por o utras pa lavras, a op1rnao pubhc~. e 
u tu <'i ideologia profissicinal í: a o pirnão manifestada a rcspe ltO d:i p olt t1ca 
por grupos socia is 1.cstritos cuja profissão é produz:r opiniões e que pro~u­
r:>rn entr~H n o jogo p o lítico modificando-o e lrnnsfiguranclo suas opm1oes 
d.:: t·li tes l el 1 éld ~1 s crn op inião universal, irllcmpora l e nnónima corn valo r 
.!.S 
ni'l p olitica . O que merece sc~r charnaclo '' or) in1ão l) Llb lic,n" ,; ip ·- 1 , . .. 1 . - .... , r .::u. {_ t.:;,~( 
p arcel a r ica en1 ca pital cultural, sua própria op inião em nwt é 1·iJ polí:·ica; no 
e ntanto, é, de alguma forma, "clesparbcu.lar izadn" na rnecltdCJ e m. que: é 
apresentad<1 co.mo a opinião dn conlunidade ·- universal, ernbo t·,1 n umeri -
camente minoritária - dos sábios q ue examrnav;1m li vre e public ,cirncnle i'IS 
questões d e relig ião o u políhca e, na época, comunicava m-se, esse ncial-
n1ente por escrito. A publicação escri ta ou, pelo menos, a clel iberação, é 
considerada meio necessário para a formaçüo de u ma verdadeirn '' opmião 
pública" qu e transcen da as "opiniões indívicluJÍS e pa rticu lares": como 
p a ra a ciência, a produção de opiniões fundamentadas press upôe um 
trabalho específico de reflexão que deve ser coletivo . Por outras pa l ~wras, a 
opinião pública só pode s er correta e sábia a través do confronto p1~1blico 
das opiniões dos ma is "competentes" e "s;)bios" Em uma elas inúrner ;:i s 
publicações edi tados no ínícío da H.evolução 3, podemos ler, p or exemplo, o 
segu inte: "(pela convocação dos Estados Gerais), o rei s uplicou a todos os 
lumi nares do reino p ara se reunire1n ern vo lta do trono com o obj eti vo cl.e 
1lui11mar a coisa públi co"; os n1e1nbros dessa asse1nbléia deve riam "sc1;·uir 
uma via in tetrnmen te livre de preconceitos e lTêiÇilda soment<·: pelJ. raz~1o e 
eqüidade (embora fazendo concessões) no respei to pelos a n tigos cos tu-
m es". Essa opiniiio pública "esclarecida" que, por esse motivo~ suposl<1 -
m ente, ilum.ina a n;:1ç§o inteira, não desapa receu e m n ossvs d ias, cntbo ra 
coexista com aquela que é prod uz ida pe los institu tos de sondage m: C'Xpri -
me-se essenci a lmente sob a forma elos relatórios escritos peL1s "comissões 
ele reflexi:io" q ue congregam "personalida des cornpe tente:/' eff< torno d e 
problemas da socied ade d ifíceis ou inso lúvei s, pelo menos, em detern1i-
naclo es ta do da rnor3L pública'1 
As revir<woltas políticas induzidas pelzi RevolLtç5o rdon;aram o v il lor 
político associado à noção de "opini Pio pública" (ou a n oções equivil le n tcs) 
de fato, com 3 queda da realeza, já não se trata somen te ele Lun<1 ins l"iinci;1 
gue critica e corrige as decisões de um poder régio que tem sua p1·ópria 
lcg 111m1clad e, mas da próp ri a fo nt·e do novo poder. Tornou -se urn novo 
3. L' Ange, Plamtes d rc11résen/11 / iono; d'1 111 c1toycn décrélé pnssif nux r1tvyc11s deciétés nct1/s, Lyon, 1 mprnncric 
ele Lo uis Cu1t-y, 1790, 30 p. 
'1. Ver, sobre cst~ aspecto, D. J\il em.rni, "$;1vants et n1aitn.·s à penser: la fílb rica!ion d'une 1nOrt1lc· de !il 
\rocréa t~on i\r l tíic~e ll~ '',. in 1~ctc:; de ln rec!1erCht' e11 scienc:l!s socwt1~s, 76-77, 1T1.Jrço el e 1989, p. 82-103; l : l. ?ºu~~1cu & R. C hrist1n, L~ cons truction du n1arché. Le c:han1p aci núni st r ~Hif 01 la producrion d e 
[;i pol1t1que d u logcrnent"', in / \ eles de ln rcchcrchc C11 scie11ces sucwfr~; , 81-82, 1narço de 1990, r-(Ô ·SS 
·19 
p rincípio de legi timidade política e permite escapar ao vazio mortal q~e, 
no mundo social, ameaça tudo o que não tem leg1tmudade, n;m que seia, 
rnínima, evocada por Rousseau, no final de seu D1scor.irs s1a 1 ongtne :1 les 
fondements de t'inégnlit é panni les hom111es, quando observa .essa tendenCLa 
dos hom ens socializados para perguntarem "sempre aos outros º. que 
somos": Rou ssea u evoca essa busca constante de unla aprovação ou JU~t1-
ficativa de serm.os 0 que somos por uma instância qualqu~: (acaderru as, 
instituição escolar, críticos, júri, medição automática de aud1enc1a, grupos 
de pares, etc.), aparentemente exterior e desint~ress~da, que co~sagra, 
reconhece e diz q\te o que é merece ser, em suma, e legitimo. Na poht1ca, o 
poder deve ter ali cerces diferentes dele próprio ou, o que vem ª dar no 
mesmo, deve apoiar-se em um princípio que não seia exclusivamen:e a 
força. Neste aspecto, a noção de "opinião pública" apresentou-se, de sa1da, 
como um poderoso princípio de legi timação política na m:d1~a_em que essa 
nova instância muito amplamente manipulável porque e dtf1c1l de apreen-
dt"r de forma i;1contestável e apropriada para autorizar certns "manobras" n~ jogo político, permitia - segundo a expressão de Habcrmas - "converter 
a dominação em ra zão" ou, rnai:-; exatamente, rac1ona l1zar (no s:nt1do 
psicanalítico) a dominação: na rncdida em ~ue _ª_ "o?i~ião pú_blica''. e, com 
efe ito, a dos cidadiios esclarecidos pela razao, Jª nao e a d.o mdiv tduo o~ 
particular que, supostamente, tem condições de se exprimir, mas o que ha 
de universal (isto é, de racional) em cada um. Dito por outras palavras, o 
que domina, na Assernbléia ou alh ures, não é _tal ~ndivíduo part~~ular e 
interessado ou lal facção que pensa em seus pnvileg1os, mas a razao que 
está em. cada urn e fala a cada um, isto é, alguma coisa de impessoal e 
anônimo. Enquanto a legitim idad e que está assoóada ao prin cíp:o da 
autoridade é frágil porque se apó ia em uma imposição externa e v1s1\'.el e 
tende naturalmente para o autoritarismo puro e simples, pelo contra~1 0, 
aquela que deriva da "opinião pública" é muito mais poder_osa na medida 
em q ue se tra ta de uma imposição aparentemente interna: e aquela q;-ie os 
próprios indivíduos reconhecem porque faz apelo somente ao rac10omo e 
à persuasão. 
A rejeição da legitimidade do tipo monárquico e s ua substituição pela 
soberania nacional e/ ou popular continham em germe um alargamento do 
conteúdo da noção oriunda "das Luzes"; mas tal alargamen to a~ea_ça~a 
ser autodestruidor e fazer explodir a própria noção. Com efeito, a op1mao 
pública" não podia continuar sendo a das minorias esclareód~s- (os "sá-
bios"). Sob a pressão de uma verdadeira corren te revoluCLonana repre-
50 
i 
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. r 
'i 
sentada, em particular, por Sieyes (Qu'est-ce que lc Tiers EtaU), ela deveria 
se alargar e tornar-se a de uma parcela muito mais numerosa do povo (os 
"cidadãos") e, principalmente, daquela que, nos "clt1bes", pa rticipava mais 
ou menos ruidosamente da vida política e, ocasionalmente, saía de casa 
para se manifesta r n a via pública. Por ou tras palavras, a "opmião pública" 
tornou-se urna força de ação autônoma que reivindicava o exerdcio do 
poder. Indício, enb·e ouh·os, do papel central que foi chamada adesempe-
nhar na economia geral do sistema político que, nesse momento, se insta-
lou: a Convenção pretendeu que ela entrasse, oficialmente, no Panteão 
ideológico da Revolução ao instituir uma "acolhi.da da Opinião" que deve-
ria ser celebrada durante os "dias complementares" do calendário revolu-
cionário. Deixou de ser um simples contrapeso ao poder político ou um 
recurso contra a injustiça que podia ser desencadeado pelas minorias 
esclarecidas5. 
Portanto, o problema essencial que, de forma muito concreta, se colocou 
aos revolucionários - e que ainda hoje se coloca - é o dn determinação das 
pessoas con-1peten tes para exprimirem a "opinião pública" É que, parafra -
seando urna céleb re expressão, "a opinião pública" tornou-se uma noção 
demasiado sér ia do ponto de vista po líhco para ser d,~ixada ao povo. Como 
foi observado, há pouco tempo, por um publicista, a questão essencial neste 
campo é a da "organização da expressão da 'opinião pública"', na medida 
em gue ''o modo de expressão (tende a) criar o objeto"6 . Os constituintes 
foram obrigados a enfrentar efetivamente o problema da determinação das 
vias e meios parn apreender a "opinião pública", isto é, a vontade popular 
ou nacional e, de forma muito concreta, tiveram de designar os que bn.ham 
autoridade não só para d izer o que pensava e desejavt'I a "opinião pública", 
mas também para afirmá-lo de maneira pública, is lo é, oficialmente, com 
todas as conseqüência s políticas daí resultantes. As soluções práticas pro-
postas para resolver esse problema fund amental variaram no correr da 
his tória; além d isso, com os instrumentos técnicos, institucionais e mentais 
existentes, estiveram em relação es tTei ta com o gradual reconhecimento 
pelas classes superiores do esta tuto de "cidadão com plenos direitos", 
5. Sendo reivindicada pelos inte lectuais que prclendem ser seus deposit5rios e guardiães, essa forma de 
opinião pública lem-sc mantido a lé nossos dias. Exprime-se por pet ições e n;,s tomadas de posição 
públ icas de intelectuais prestigiosos das quais o manifesto ''j'accuse" de Zola consl ilui o modelo 
absoluto. Sobre este ponto, ver C. Charle, Ncrissn11ce des "i11 tellccl ue/s". Paris, Ed. de Monuit, 1990 (Col. 
"Le sens con1mun"). 
6. G. llu rdeau, in L'opinio11 publique, op. cit. 
51 
;itribu íclo íl urna parcela cad a vez inais importante da populàção (s:.frá!~ 
, . , . . . .l " - J 848 sufrógio universal n<asculrno; e, en irn, 
cens1 tano; em segu1c a, e1n . , . 
1945, sufrtí g io universal). ,. . . 
, . " .· · 1 e com força ele lei foi, de 
N . •e 1-ticA ·1 "o1:> tndío publica exp111n1ve . . ·· 
·" 1-· i ·1 ··, • · ·cn tas No plano 
fat o cl e:·;clc" ongen«, a ele pop ulilçõcs estrit·a m ente cHcuns . ,' .· . ·e-
. . ·t't ··i !n·d sC1bemos que a Revolltção .instaLtr ou um Jt;:g1111e ~cp1 
1.11s 1 1.1<.. ' , , · . . . . b. t'v restrrngir o nu1nero 
scntativo do tipo censitáno cp.1e tmba co1no o )~ _1 o e : ·- · n que algttns 
-- . - - i - to de participar do 1ogo poli t1co. ' 01 élSSll 
cl ;is pc,,soclS ,.orne ir ei s auniano da den10-
re vo1ucioná rios que tinbarn na cabeça º,,m odelo rou-~e - o (tenha sido 
(.! , .. . lo· J·? 1·,zn11 o f;üo de que a soberania a nnça . cr,1ci<1 d 1rcli.l ,p " t 1 te 
. . - . . . - , d, seus rep resentantes" (o qi_1e, a ·ua men . , 
l1m Jt:1d <1) au ~,tmplcs 'olo . ,e ' . , .· fundainento clzi deJT1ocracizi 
de1>:o u dE· nos cs.candali z Ztr J'I que e o propuo . . - , 
. . . . _. . .. .. - a mes ma severidade ou trzis hmttaçoes 
rcprcsent:1 t1'"i) , cul1,_a t,1n1 cun1 . l -l- direito de se 
. )ec1uena parte dos c1c aL aos o 
-e rno a '; que rcsc r vav<H1l a un«1 J · . . _ , 
e J . - . . . · l i .. . ,· t de votar para eleger seu s repre-1, , .... , 1 i1 ·'SlfftCOl1100 S1D1pCSCJJU0 . . , . 
e ef,d'-'.tl , '"· . . . . . . .., .· ,t·1rios segundo o pnnc1p10 que 
s cnLº1n tcs tenha sido lirn1tado aos pio~ ue ' , ·d.ção ii~clispcnsável para 
Pl-C'l"' t'c:t i ·1 to rn;u <.1 indC[Jenclênoa econom.1Cê\ a con 1 ·º • . . "C e ' ' ' 7 . . t s que neste asp" -
o c-·xt:ic.ício dos dire itos d o cicL1diio. Pztra os const1tu1n ~, t, d do [Jovo" 
. . - . . f'lóso fos das 1 uzes a von a e 
to ..;cf' LtJa n1 por convl,n1enc1a os i • ~ .. , . l E" . - o pela 
' · ···' . ~ d· . t<1 -te rac1on<i . · a raza 
.su sc-:: tívt:l de se cxpn rn1r so po ia set uma .von e\, . .. onsti tuido por 
•u~ I "o pOVlJ" reconhecido cio ponto ele vista po itlco, er,1 c . .t' m 
'-1 ' • . . ' .. _ . • . ,, . t C' leigos" que, supostamente, e1n1 ia 
uni<\ rn 1nnn a e](' vc rd<1dcn os san º·" ' . - , d e nsb-
. . _ . ·[ . 0 intcre,;se gerC11. Os h omens " 0 votc·s r;1 u011<HS e ck <K OJ '- o c.orn . . '· . , . l· ·rrr Rºpl'1l)lica'·) 
.1 " d >rd a"no unc10ca. " · tui11tcº (e, rnnis !arde, os dcputaL os . e esqu" . ' l d . . estr cit21mente 
_, · · <Y'll c; b<11xas que c epen 1am ·-\cnn.:t tn q u e ,-1s ci\n1a uéls socta is 1 ' - ' , , . 
; "" 1 T · ~ )Ó~ (1 i·uc-rrd fr~tn c:o-pn..1 s~ 1 an.a de )870/7l . 
, . .. . 1 '") . . . ' , -ia\~ <1cln1a, ~' lém de não podcrerri ser elei tos (encont r~rn-se na 
7. c .-Jll'\(I 1·1b:;cr\'il o ~t\I O i c\ ocado {, .· . "bl' . '') . . _pobres la1n pouc0 podcrn votar P"rª 
. . ! :-.d . . a co1sa pu ica , os n1a 1 ~ 
.. in,po~s:1b il 1 tl::"1rk de se e~ icarcm . - 1 bor ·os;i pobrcz<l· será q u e a pobreza 
, • . . 1. f· lt . nosultrJJ3rcmporno>sa a 1 ' ' S·:· r~ ll t ffpn.::;cn tJd OS.·: a1 nc <..I cl .J\ il . . . 1 Pm C)lle 1150 SOIT\05 capaZ.CS de 
. li tal I' ~n t<' o i ~e :1$. pe~son s JU gu. - . 1...kix~1 nt'~so en tend nnenl.0 i r 11 .u e.• ., l . -i • ,, . . -t 
. ~ - t t u e::.· no:;; conve1n? 'l Ange, op. c1 . 
dcd1b;,:r;n ·K1r no:i H'l<.::-.1nos ~1 rcs.pe1 o e o q 
t . . . - " líl icti nas <1s~cn1 bl~ias eleitorcús exige a if;t1L\!dade dos l.Jens pa ra qu ~ ~- '>~': · 'undo ;) ::. ct11 1 o; L 1 l u1nk~, .:"? po '- · - . . ·t·o ·\ qn ntercê . ( ... )O~. deputado~ 
' - ,7 - - r . ' ] sufrágio dos hornen~ que es íl ' • ' - . 
'is h,)1 nens ncus n0t) :;.~. bcnc tc1e 111 e t1 ·. . - 1 .· :l - . d '"' ·nJsiado Jb•eta p;i ra .SC'r cornpal l-
1. ~ . . , . , ·1 dos serv1do rC:> a S!>'* é\ I ial 0:3 co1no -:.: 1 i ;,::pri:-: . .:nt ." n ;1 cunc 1ç.lo s1.::1 \ 1 · • • _ . - do ciuc 05 ricos 11 s~rem levndos 
. \· d' ( ) Os Jobr~s tern mai s propens30 . \ 'd c~Hr1 "' .. lig rndaJ...:: .Jo c1c ~ .1n. ... · 1 t ,_ d .. 51 1., sub ::iisténC1a, us h on1ens 
. ) ,... .. -:>n·1pro1n 1;: tcr sua sorte e (1 cer cza t.: ' . 
i•clc t"rn•(Hlu d ."'. .;;; Cdlla\a!-' . ( ... ::-;.c-.ni 1...t. . . l 1, diferci:n lc dJ. vontade do~ 
" . - -etcn~ão de expn in H un-\a von ~1c e . 
:,t:n"I lorlun;1 it:-10 p t...11..te1n ter •' p r - . - - ·.- ,, 1 ' A. - ºJ' cit. E.SSl:' problen'a ;Jt'r~vc:ssou o 
, . . . - .. ,. ) · ~ os n1;n,le111 a :-,Cu ~crv1.,_n ' .. . nge1 . . .. . 
·n...:\.tvHlth..•s que o.., p3 t;'H.'"I t .- ':' ·l b ' -· indt\·assável.CL,sobrt!csteponto, A.Ca rngou, 
· .. 1~ndo X1X e: L';:-h:.:\·t·' n1i 0 ngt.:m d a in.vençao ta C(l li~~ . -· - . i - 71-72 março de 1988, P· 22--15. 
" L·.: :-;<"n(·\ dl· l'}sc·l.;·Ju"', :n Actcs rle lo recl rcrciie en 5t1e1u.t: ~ :..ac1i1 e:>, , 
52 
das antigas classes dominantes, viessern a vot<:i r como seu s senhor·: · .~ . De 
qualquer forma, pensavam que seria n n tito ped ir aos s imples indidduos 
para que tivessem o despojamento e o civismo que exigiam do "cicbclão" 
e, assim, afastaram todo procedimento que poderia ter ins lauraclo uma 
dernocracia cliretil que penni.tisse apreender a " vontade bruta d o v·ovo": 
son1ente os representantes eleitos po r un1 corpo cleitorz1 l, t é11nbém se-lecio-
nado, foram é1utorizados a afirmar a vontade cl ;1 n açiio . Porla111'0, \ ·crnos 
gue, insbtucioni\lmente, a única fonte el a "opinião p úbliu 1" é ccms tituícL1 
p elos representantes elei tos que, durante urna grn nck parte do S('cuJu XIX, 
monopolizaram a expressão da "opinião pública'' legítima ereconhecida 
do ponto de vista político 
O sis tema representativo que foi ado tado pelos consliluinlc:; ti nh.'l ~; i do 
concebido explicitamente pa ra filtrar e decantar a "opinião públ ica" cm u m 
duplo plano: por um lado, somente os cidadiios que, nê\ polítíG1 , cr«m 
capazes de ter uma opinião digna d esse nome, elcg i<1m seus rcprcscnl:anlcs 
esclarecidos; por outro, os eleitos só chegavam a colocar cm evtckncia (\ 
vontade popular n o lermo de deb<t tes contraditórios que se descnroli1 v<tm 
no interior elas asse1nbléiê1S parlamentares. Essa concepçiío ins tit'uci011 éil e 
jurídica da opinião na política, que vigorou durante ltmé1 gr·andc par te cio 
século XIX, é consagrada por Littré que, em seu Díctioruw1re, cJá U lmü 
primeiro sen ti do da noção ele opinião urna definiçi:ío do hpo político 
"parece r, sen timento do que opina a respeito de qualquer quesl~\o coloe<1da 
em clelibe ri'lção . A opi nião da maioria, da minoria de urn.n Ztssernbléi :1 ( .. . ). 
No plur;-11: vo t·os, sufrágios,,_ Portanto, a opinião clignil de entrar 11a p(>lílíc;.1 
nada tem a ver com a opinião-prcconcei to. Pnossupõc umil clisc11ssão p révi<1 
("questão co locad a em deliberação") em uma "asseITtbléia '' cujos mcrnbros 
vo tarão publicamente e, por conseqüência, assumiriio, diante de todo o 
mundo, sua opinião ("sufrágios"), a fim de alcançcHcrn it "rfü1io ria " 
Ao lado dessn solu ção institucional, <l form<1çiio da "opinii:l o ptihli c.i" 
implicava - pelo menos na ideologia das Luzes·- a liv re c irctdação clíls 
idéias e escritos, isto é, em política, o desenvol vimeni·o da irnprens;1 i.ncJe .. 
pendente. De fato, no início do período revolucionário, obscrv,rnws o 
esboço d e um 1ornalismo profissionali zodo (em pnrticu lar, com rc·vistil de 
imprensa, rubrica "correio d os leitores", etc.). No entzmto, n violência d;is 
luta s que a meaçavam o poder estêtbelecido e .:i dcscoberl·a, bana l, ele q:ie na 
polí tica as "evidên.cins racionais" (pelo rneno:; segundo os revolucio11cirios) 
niio se impõem a todos por si mesmas, conduziram bCtstn11 te ritp iclctrr1t·1J!·c 
os jacobinos a limitar a liberdade da imprensil : inúmeros jo rn a li stas, ,i.:usa-
53 
dos de "manipular", "deformar" ou "desviar" a "opinião pública", foram 
presos e a lguns foram guilhotinados Mais tarde, Augustin Cochin mostrou 
como, 'ºrn a Revoh.1ção, foi possível se constituir o que ele designa por uma 
"opin iiío social" que, na realidade, era uma opinião artificialmente fabrica-
da por minorias ativas; e la tinha a amplitude e unidade de um grande 
m ovimento de opinião sem perder a coesão e a conduta de lllna simples 
cabala9 . Considerada pelos p róprios revolucionários como demasiado in-
certa do ponto de vista p ol ítico, a noção de "opinião pública" desapareceu, 
na prática, desde 1793, de sua panóplia conceitual. Mais exatamente, cedeu 
provisoriamente o lugar a uma noção vizinha, a de "espírito público" gue, 
no plano ideológ ico, marca urna restrição análoga à restrição que observa-
mos no plano institucional com a distinção entre cidadãos "ativos" e 
"passivos" Com efeito, designa uma nova espécie de "opinião pública", a 
"verdadeira" por oposição àqu ela que, supostamente, é manipulada pelos 
contra-revolucionários; aquela que é "correta" porque es tá de acordo com 
o "Espirito da Revolução"; em sun-1a, aquela que, para o p oder, deverá ser 
comparülhada pelo povo. Na med ida em que, para os revolucionários, nem 
todas as opiniões são equivalentes, deixou de ter interesse constatar e 
registrar a "opinião pública" obtida elo livre debate d e opinião e proceder 
de acordo com ela, quer ;;eja favorável ou não ao poder es tabelecido. 
Dai em diante, os revolucionários decidiam o qiie deve ser 'ª opinião 
pública: o conteúdo da noção é decretado pelo poder estabelecido que 
impõe aos cidadãos o que, oficialmente, devem pensar. O "espírito público" 
é, assim, ll!na espécie de ''opinião pública'· ideal; é o que todos os cidadãos, 
se fossem virtuosos, deveriam pensar; em todo o caso, é a opinião que 
deverl\ manifestar, pelo menos, publicam en te, em unta tentativa para que 
isso venha a acontecer; de forma mais prosaica, é a opinião que devem 
exibir p<.iril não terem aborrecimentos. Ao nos referirmos a um dos sentidos 
elo adjetivo "público", seria quase possível dizer que o "espírito público" é 
a opinião "oficial", isto é, a opinião que é demonstrável em público na 
medida cm que es tá de acordo com a elevada idéia que o poder tem dos 
cid.nclãos e, portanto, do que devem pensar em relação à política . Se vemos 
ressurgir, na política, dois tipos ele opinião, o período revolucionário teve 
como efeito embaralhar um· tanto - sem c1ue ela tenha desaparecido total-
mente - a distinção siIT1ples que, anteriorment e, opunha as opiniões popu-
9. A . Cochin, L'cs11ril dLI ;ncolmiisnie, Paris, PUf', 1.979. 
54 
lares à opinião erudita: daí em diante, or um l· d .. . . . . -
privadas que, pelo fato de poderem ser ppolitica:en~~ ex1s_tem as op.m1oes 
revolucion, · · - d . erroneas ou contra-
, . anas,nao evemsairdocírculo famili are) . . . ·-
publicas, as que são proclamadas em .., , b l. 'l 01 ouh o, as opm10es 
,i ·. · fU ico acorneçar 1)e]aso · ·- d 
um gentes políticos (g.ue são " l ' ·. ' . e -. e. p1n1oes os 1omens pubhcos") oue d, d 
e ser dotados d 
1 
d . :t - evem ar exemplo 
e uma e eva a moral idade políhca - . 
os guias dos s imples cidadãos F d .. -- - e, po_rciue cornpe te-lhes ser 
. . ... ssa Jv1sao nao e teorica inas - .. 
forma muito concreta cada c·d d - , , . perpassa d e 
esquizofrenia política Os :is;er~a:ºc~~:~;st~ conden~~o ~ ~stúc ia ou_ à 
muito próximos ela s ih.1ação l . - . s que, neste c1sr.)ecto, estao 
revo uoonana evocada aq· · · · 
façamos uma idéia da im • . e U l, perrrntem que· 
caso . A título de testemuti,º:tancd1a da defasagem que pode existir neste 
'po emos otar amda Pavel I · 
rela ta o seguinte· "Q d e •• oungurne que 
· uan o estava na escola ped·. f 
redação sobre o tema: 'Quando eu f . . d ' ·, uam-no~ para ·azer uma 
nl . 01 gran e .. .. Como eu Jª t·1nh a uma e t 
ma 1a, respondi cosmonauta. Mils uma inenina di s . , . . ' er a 
pnncesa e comer bombons toda d A . s.e que desejava ser u.ma 
ara ·ul á-1 - . - . a v1 a. turma transformou-se em tribunal 
P_ J g a. 1odos os sov1ehcos devem enfrentar essa defi ,· ~ . - - .. 
sao entre o cienoa, essa d1v1-
esta velha pi~:i:~ :;sj~~~: ~asaa ea~;~~ ~e diz na .e,scol~ . Em meu país, conta-se 
hoje n.oPravda7-N- g p - Ojudeu. Voceleuoqueestavaescrito 
. ao,oqueera?-Naopossofalarpor telefone , E' , . 
acabar com ess e · f . ··· · necessano 
. t . a squ_izo Terua e reencontrar urna cultura única da vida Dito 
is o, ;.x1ste uma ternvel nostalgia por esse tempo sagrado no qual ~· bo 
era o icialmente bom e o ruim oficialmente maldito"1º. e m 
~~~' ~s revolucionários redescobriram :a principal contradição que 
. ui o tempo, tinha sido observada pelas "elites escl ·.• .d "· ' 
e verdade que a" · ·- , . . a1eo as . se 
e olítica ' opm1ao publica" consegutrá tanto mais força social 
p quanto mais espalhada estiver e, na melhor das l . , l -
se transformar na opinião d t d. - ~1po eses, 
JUSta e sáb' . d .d e o a a populaçao, ocorre que será mais 
" . · ~na me t a em. que for inspirada pela n-1inoría que" ensa 
bem ' isto e, d e acordo com a Razão. Pascal JiÍ ob . p . t _ ,, . . _ serva va que, espon-
1;:~:'.~cn,te, ,sao as opiruoes menos rígidas (que) agradam aos ho-
(Pensees, XXI~, 56). As "opmiões justas" ou, como dirão mais 
tarde os revoluc10nanos "virtuosas" P s ' t __ , ' ' re supuem. urn esforço ou 
enl:ao e so podem ser emitidas pelas elites esclarecidas ou minorias 
po lt1cas conscientes ciue d . - . . ' 'segun o a visao ottm tsta peculi'lr aos 'Tl. _ 
sofos_dns Lu~es" e _aos fisiocratas, atuam de maneira ~ ~s irairoa 
opm1ao do ma10r numero possível de pessoas. Em 1766, d'A~genta l 
10. Entrevista ao jorna l Libéralion de 14 de ma io de 1990. 
55 
cscrcv ii1, p o r exemplo, que "a opinião governa o rnundo", mas ac re_s -
cc>ntilV<I que são "os filósofos (que), con1 o tempo, governam a opm1ao 
cios horncns". E d' A. lernbert: "!Vlais tarde ou m ais cedo, os homens 
qu e= p en sam e e sc revem acab;:im governando a opi:nião; e n opiniã_o, 
como voc(!s s<1bem, governa o mundo". Ou a i.ndil Volta ire: "A opimao 
governa o rnundo, 1;1as são os sábios que, corno tempo,_ dirigem essa 
op íni;'i ~J" 1: a raz.i'ío peli'l qual, de mane!fa re illis ta, o s fllosofos propu-
nham ;·econhecet~ ele fato, essa "opi.niiio pública" como poder, mas 
consen' <1ndu em. t·elação a ela uma certa dis tânc ia porque, produto 
Jus hornc:1s, pode se engan ar e, p ortan to, só é vál ida na medida em 
que 
0 
q
11
c di.z é acE'. itáve l pel o homem esclarecido. lsso mesrno er~ 
rr>s u rniclo pnr Cham fort ao afirma r o seguinte: "A opiruão púb lica e 
urn<i jti nsd içilo que o born(~lll hones to nunca deve reconhecer, nem 
decl.u
1
M to talmente:" . Em sua obra Princi11es ele ln philosophie d11 dro1.t 
(182 1), J-Iegcl limi tou-se a constatar e tentar teorizar a ambiguidade 
d~ "opu1ião pi.'1blica (que) m ereci? tanto ser C!preciada, quanto despre-
z.acla" 1l l:m bor<i pudéssemos multip lica r as cil<ições, v a mos conclu tr 
c
0 1
,.
1 
[31,:rnqui qu e, no sécu lo XlX - tendo observado iguC1ln1.ente que a 
desig
1 1
aç·iio ele "opinião pública'' é reservada, de falo, il . opinião d,e 
1
.
1111
;
1 
tTiinnriZl -- deploro t;il s ilu<:1ção: com efeito, ' ' ideologia democra-
lic;; e a exigência ele igualdade transfo rmara m as "elites esclarecidas" 
cm "minorias 'privilegiadas" que impõem ao povo suas ideologias. 
F.vr>ca "todos os votos que têm uma repercussão na esfera política, os 
vo to:. cios ~a l c)es, butiques, cafés, em uma palavra, de todos os lugares 
no~ q
1 
ia is se forff1a o que se designa por opinião pública"; obsc [v a que 
"se trnla dos votos dos pcivílegiados" e não os d o povo ou, corno 
,.l triMn 
0
;; ins h tutos d e sondagem de n ossos d ias, os d e ",1most ras 
vcrcL1.:.kir«Hncnte reprcsenta ti v<'ls e\;,\ população em idade de votar". 
.'\ 11w111fest11çilo como novo r11odo de C.'-prim ír n opinifio pú/Jlirn 
Desde" origem., vcinos aparecer as princpais con t:e<diç~es - ai,1;daho}e 
prcsen\<cS, e rnbor ,1 fo r temente r ee<:1 lcadas - inerente s a noçao ele op1rnao 
pública". l' ara é\ S d [tcs sociais e políticas, a maSSél, espontaneamente, pensa 
1
r wl u u , até rncs rno, não pensa; p ortanto, é necessário proceder como se os 
qli::: ral ;; 111 ern seu no tT1 e (os e le i tos ) ;;1 exprimissem perfedarnen te ou, então~ 
po r uma espéci e de pres tidigitação, fazer com que elé\ ch ga o qu0 pensam 
os q ue s«bcrn p e nsa r, mas não têm a força do número .p<o'.ra d,~r forçil socia,; 
"º que pcns<11n, em surna, proceder d e modo que as ideias escla reodas 
----~·-------------------·-
11.. t-k~: cl, Pri 11cr!'e' :fr /a ;1l: i10so11lir« dt1 droit, Paris, Callimard, 1963 (Col. "ldées '), P· 3'17. 
56 
se tornem idéias-forç;i na medida em que são ddend ida.s p or grupos forte:; 
e numerosos. Essa hipocrisia encora jada coletivamente, L.JUe torna possível 
é\ ideologia democrática, consiste em mostrar qu e o povo "pensa bern" 
quand o diz o que as eli tes políticas pretendem que ele dig<1 e que "tem 
sempre razão ", exceto quando se engana; neste caso, as el ites pu líhcas 
devem saber "desafiar a opinião" e envidar esforços para convenc0-J;:i a 
p e nsar de maneir a diferente. Essa má fé coletiva explica também as incer-
tezas que, desde a origem, marcaram a questão da av'1liação exata dessa 
opinião. A própria impreci são da noção era funci onalme nte n ecessc.'iria . Ess<t 
avé\liação teria sido reJ3tivantentc sim.pies se os cic!adf1os s~: limtta~;:>em a 
exprimir através da eleição já que ter ia sido redutível unic<1rncnle ~' opiniJo 
parlé\mentar Orn, bem cedo, o poder dos eleí tos foi contestado ou, em todo 
caso, na política, sofreu a forte concorrência de umi'\ outr,i formél, mais 
direta, de expressão da opinião popular: a que se mzinifcsta na ru;:i . 
Desd e o período revolucionário, vemos a oposição eill"n:' os milil.M\tc·s 
dos clubes q u e pretendem ser o próprio povo e os dcpu t<1dos e leitos que se 
aprescntarn co rno os únicos representantes lega is do p ovo. Como saber 
verdadeira1nente o que pensa a opini3o 7 E, .:intcs de tudo, se r;:Í que ex i,<.;tc 
verdad eiramente o desejo de conhecê-li'17 Quais indíc ios permitem fa zer 
uma idéia a seu respeito? O que d eve ser a val ia do7 1\0 lado da "opini iio 
pública" ins ti tucional e "conven iente" da represen taçfio parla rn.e n ta r que é 
eleita por deternünado período (ern geral , quatro ou cinco <mos) e, e xceto 
s inais contrários, presume-se que exprima a "opini ã o púb lic<i ", corno apre-
ciar os "movimentos d e op inião" que podern se rn<'inífcs ta r a lhures e corno 
ju lgar sua importância e significação c1uando p a recem indi c;:ir d l:'fas,1gcns 
em relação co m <1 opini:10 oficial dos pC1.rlamcntares7 Que rep resentati vi-
dade têrn os que fazem petições o u <1ii1da os que desfil a m na rn<i e qu e, 
dirigindo-se aos parlamentares, proclamarn que são "o povo"~· Que pcnsctr 
dos que nac\;1 d izem ("a maior ia sil en ciosa") em rcL1 çào a essas minorias 
atlvas que pretendem represen tar toda a "op[11ião pública" 7 Os w· volu~ 
óoná rios d e 1789 enfrent;-1ram, de saíd<1, ta is questões q ue con tinuarn -;cndo 
contempor<1neas, ernbor:t se expr i1narn a través d e um vocabul<íri o , p or 
vezes, diferen te; com deito, o pode r de representação dos co1 i.st ituinks e 
dos membros ela Convenç3o foi, incessantemente,. élinl'ilÇMl o pelo q ue, bem 
cedo, foi d csign<ldo por" poder d a rua", is to é, pelos Jmo li n.;iclos d os cl ubc s 
políticos que descünn para a ru;;i e eshrnavam poder dispens;ir o!', ,-cprc-
sentantes que consideravam. pouco reprcsen t.:itivos de s ua \'ont;;icle . 
57 
Os observadores têm muita d ificuldade em apreciar a arnp litude d esses 
mov imentos de multidão, muitas vezes beirando o m otim , que surgem de 
forma bru tal e pretendem impor d iretamente uma vontade, quase sempre, 
sumária. Pretendem ser ou representar toda a "opinião pública" ou, pelo 
m enos, procuram invocar o teste munho d a "opinião pública", embora 
fi quemos sempre sem s aber a q uem se dirigem: será que pretendem fazer 
p ressão direta sobre os parlamentares? Esp eram m ostra r sua cólera aos 
cidadãos por intermédio da imprensa de opinião? Contam arrastar com eles 
os cidadãos q ue os observam na rua? Etc. O modo de ação desses movi-
mentos públicos d e protesto q ue, na origem, é incer to e confuso, acabou 
conhecendo, no correr do século XTX, uma evolução aná loga à que a p rópria 
noção d e "opinião pública" conheceu durante o século XVIII e, progressi-
vamente, transfo rmou-se ern u1n iinportante componente, levado em con-
sideração pelos atores do campo político, na luta pa ra definir o que, 
supostam ente, é a " opinião p úbli ca", mas ao preço de uma formalização 
que limitou tais movimentos a urna expressão regulada das opiniões q ue 
excluíam o puro e simples golpe de força . Da mesma for ma que a opinião 
"bruta" das classes pop u lares era rejeitada em proveito d a opinião ''elabo-
rada" dos cidadãos racion ais, assim também assistiu -se a uma "domestica-
ção" progressiva da mar:ifestação de rua ou, se quisermos, à invenção de 
u rna forma razoóvel, porque fortemen te enquadrada e controlada, da 
exp ressão direta das opiniões ao mesmo tempo que a um a largamento do 
público que irá recorrer a esse m odo de expressão que deixou de ser 
sornen te um meio de ação p op ular. Tendo visto surgir esse novo modo d e 
ação, embora sob i'l forma de motins periódicos e da expressão violenta e 
desordenada das classespopulares urbanas, a Revolução não pod ia servir 
de modelo parn os reformistas do século XTX. Duran te ll"'wito tempo, os 
movimentos revol ucionários mostraram seu antagonism o e contavam com 
me10s para impedir q ua lquer m ovimen to de protesto. Com efeito, ta is 
movimentos de con testação eram demasiado excepcionais e ligados ao 
co ntexto político -- igualmente, excep cional - para darem sua contribuição 
rela tivamente i1 defin ição da "opinião pública" em sua dimensão habitual 
e quase ins titucional. 
Esses désenvolvimentos h is tóricos fi cam devendo muito às comuni-
ca~-ões que foram apresentadas na mesa-redonda consagrada à "ma-
nifestação", no momento do Congresso Nacional da A ssociation 
frnnçaisc de scie11 ce politique que se realizou em Bordcaux do dia 5 a 8 
de outubro de 1988. Citaremos, em partícula~. a comunicação de 
Vincent Robert, "Aux or igines d e la rnanifestabon en France (1789-
58 
.. 
> 
1848)", mimeogrnfaclo, 21 p.; Domínique Reynié, "Théories du norn-
bre et manifestahon au XIXeme siecle", mimeografado, 18 p.; Michel 
Offerlé, "Descendre dans la rue: de la 'journée' à la 'mani.f' . Jalons pour 
une sociologie de la genese d e la man.ifesta tion", mimeografado, 45 p.; 
Domi.nique Cardon e Jean-Philippe Heurtm, "L'ordre de la manifes-
tation et le service d 'ordre", mimeografado, 40 p.; e Daniele Tarla-
kowsk.i, "Les manifestahons de rue (1918-1968)", mimeogra.fado, 12 p. 
A maior parte destas comunicações foram publicadas em P. Favre (sob 
a direção de), La manifestation, Paris, Presses de la Fondation nationa lc 
des sciences poli tiques, 1990, que poderá servir de referência ao leitor 
que pretender uma aná lise m ais detalhada sobre o tema. 
De fato, até meados do século XIX, a rua só foi investida coletivamen te 
de forma legítima por ocasião de comemorações e celebrações, sendo que 
os movimentos d e protes to eram, em princípio, proibidos. As primeiras 
manifes tações d e rua - mas será que podemos u tili zar essa designação sem 
cometer u m anacronism o7 - apa receram com o d es vio político de reuniões 
públicas que, na origem, eram do tipo .festivo (carnava l, festa d a rosa, fes ta 
es portiva, "banquetes", etc.) ou co memo ra tivo (funer a l d e Victor Noir, dia 
da Pátria, etc.) . Durante m.uito tempo, continuaram sendo um modo d e 
expressão poHtica à margem , já q ue n ão regulamentado; illiás, a maior 
parte d esses movimentos espontâneos procurava derrubar pela força os 
regimes políticos percebidos como fracos ou enfraq ttecidos. Os objehvos e 
o desenrolar ele tais ações coletivas foram, durante uma grande parte do 
século XIX, quase n ecessa riamente v iolentos, chegando muitas vezes ao 
ponto de erguerem barricadas. En travam em choque com os poderes 
estabelecidos que u tilizavam, não corno a tu;:il rnente, forças especial izadas 
para a manutenção da ordem, mas o exérci to que, sem experiência, reprimia 
quase semp re de forma bru tal, o que não p odia deixar de ser percebido 
como verdadeiros empreend imentos de sedição. 
Foi som ente em. meados do século XIX, entre fevereiro e m aio de 1848, 
que, segtrndo os hi s toriadores, começaram as ações coletivas que, segundo 
pa rece, apresentam, p ela p rimeira vez na França, algumas características 
das manifes tações contemporâneas: desfilam pe las ruas ele Paris cortejos 
pacífic os, maciços e d isciplinados (p or exemplo, cad<i corporação desfila 
atrás de sua bandeirola) que, por esse a to, pretendem exprimir seu apoio 
ao governo provisóri o "republicano" ameaçado pela "reação burguesa". 
Existe a í uma utilização negociada do espaço parisiense já que os " mani-
fes tantes" (a palavra aparece nessa ép oca) se reúnem em uma grande praça 
e depois desfilam pelas grandes artérias a fi m de d arem o máxim o de 
59 
vi:-,1b1 liclade h mass;i const1tuíclil por eles. Alérn disso, nn tes da dis persão, 
os m <mi fcc;t,Hltcs se dirigem para determinados locais politicamente signí-
fiu1t1 ,1051 t.:1i s com o êl Prefeitura ou o Palácio Bourbon. No entanto, n esse 
inomento, riinguém --- poder ou organizadores dos cortejos - sabe o que 
tilzer cornessas gnrn.des demonstraçües d e um novo tipo . Em junho de 1848, 
dc:sd•::' J tornad ;i do poder pela "d ireité1", uma lei sobre a "dispersão das 
cu ncentraçôes perigosas para a o rdem pública" foi votada a fim de pôr 
tcrnv) a ta is manifestações populares ele massa que susc1 tav am inquietação: 
d<ií ern dürnte, qualque r aglomeração na via p úblicêl poderá ser p roibida e 
t·o 1Tl<1 -se, por esse motivo, "sediciosa". 
A .: lasse dominante não vê a n ecessidade de as classes popu la res terem 
o dirctto ele se martifestar já que o sufrágio universa l (masculino) que vem 
el e ser ins taurado é considerado com.o um meio suficiente de expressão 
poJític.-i "das massas" a té então excluídas da vida política. A razão é a 
seguinte: na med id a cn\ g ue il manifes tação traz c::m germe a insurreição e, 
Jur;::ntc m u.ilo lernpo, aínd;t perm.aneceu m.aís próxima do rnolim e da 
an'1rqui,1 do que dos procedimentos eleito rai s e da expres.c.:ão p0cífica de 
t11n;i opiniiio, susci t0 uma fortt~ resis lênci;i p or parte dos poderes estabele-
cidos qu1~ acetla m mai s ,íacilm.ente a lei majnri tária inerente ao cegime 
d cm ocr;:\lico n<1 medida c m. guc esta se exprime d e forma a bstrata e ari tmé-
t11:<1 pcl<1 cons ult« do tipo eleito ral. Se o sufrágio uni\'crsa l foi, progressiva-
mcnt~~. admitido - a té rnesmu por aqueles que, no início, e ram contl'éÍrios à 
'->U<i .ido~·,10 - é porc1ue a lógicn eleitornl n ão modificou profundm11ente, 
cc1111 0 cr;1 temido por alguns, a compos ição política das assembléias. Além 
dl~,so, mesmo correndo o risco de dcixé1r as cl<1sses pupubres se exprirn.ir, 
L'ta preferível que o fizessem <tlT<i vés do procedimento ele ito ral, e não de 
uma fo rlll a dircla, nn rw_i, porque o "povo" era en t<lo, para fal<1r co1no 
'.) <Ltlr-...:, "sc:ri ;\lizaclo", isto é, ptilverizado e atomizildo, en1 swna, enl u1n 
cstnclo 1w guaJ os e feit os ele massa, sempre inquictcu'ltes, eram de a lgu1na 
12 fo rir'a nc:u tra i 1zad0 . .:; . 
Com o sufr<1gio un iversal, a lei do maior núm_e ro cone sempre o risco 
de ·;cr a k 1 cbs cl ;isses sociais qu e, nunlerica1nente, são ma is numerosas, 
VilO t;, ' ' d,1s cL1 sscs popula res .. É a rc:tzao pela yual o sufrágio universal deu 
o:-tgcm a fortes rcs1stênc1ilS por parte d as clas~es privi legiadas. Uma impor-
17. cr .. !·Ol>JC' este ponlo, o ;uligc• citado 1nais ncirn a de Alain Garrigou slJbl'e ZI instalação da cab ine 
ind"-· v.b~(i\'td, ê1ssiin 1...·Qmo o c1rt igo csc ritc) por Jco n ~ PLiul Sartr~ pouq.1 d epois de tvfaio d e 1968, 
'" [lc.:1~tiCtn!-, p1C:~e :, CCJn::.:", 111 Lrs Tt.•n!pS mc.·rlen11·s,318, .i~nt:l ro de 1973. 
60 
t~n te parcelêl cios segmentos políticos mais cons<~rvadurcs c:uns i1.k·rou 
~inda durante muito tempo, como i legítimo o foto de dar 0 d irei to cl<: v ot,~ 
as classes popu lares e, 12 f orliori, o d ireito de se elegerem; durante c1 scs~u nela 
meta~e do século XfX, alguns chegzun mes m o a most rar se u despn? .. !..O ern 
relaça o aos raros op erários eleitos, considerad os incultos e inClll npctP.: i(es;J 
Ocorre que ad1o~nar boletins de voto colocados nas urnas e ver "o pov._i" sob 
a ~orrna apresentavel ele .seus representantes eleitos - aliás, ori undos majo ri-
ta11arnente_ d a burguC:'.sta - apareceu, no final de con t<1s, preferível 3\s 
concentraçoesdos cidadãos na r ua e aos líderes - surgidos nJo se sabe com o 
- desses movimentos e chamados pejorativamente de "agi tadores". Es:,,a 
desconfiança em. relação ~i expressão direta ela vontaJe populélt~ cinbora 
'.~enos _for te'. con t1,'.1ua sempre presen te; a tu al rnente, o pocl er tende a opor a 
op1niao ~ubl,tc<i ta·!· como é avaliada pelos institu tos de so ndagem o u 
pelas eleiçoes as manitcstações de rua o rgan izadas por "mmorids baru lhen-
tas". 
,lndic<i d or, ent re out-ros, do recon.l1ecimento tardio desse tipo de a ·fi o 
p ol1t1ca., <:J ~'rn <inifestaçã_o ", no seu sentido atual, só cm 1866 é qu e ªFªc~u: 
nos d1 ctonari os. _O L1Ure cl{i a segui.n t'e ddinição : "urn rnovirneii to popuJn r, 
~ma concen tr,H,:ao d es t111 ada a rnani festar alguma i 11 tenção p o l il'ica" e julga 
util precisar, na mcd1d<1 em que isso estava longe de ser eviclE'nte l \il époc·,,, 
~ue as :;1.a1~ifestaçõcs "podem. ser p;icíficas". Quanto à cxpre~;~ii o fmni li<ir 
ma nif , s~.1 fot c nuda um século mais tarde, e m l 952, p<:::los es tuda ntes 
paus1enses . Vemos assun que, até a seguucf<i met;1de dl) século XJX, n.lo 
e~1s te te~·mo posil~:'.º pn.rn designar <:.'SSc tipo aind ;1 C'xcqx ion .i/ ck proci<; -
soes polJl!cas pc1c1hcas. No vocabulário o fi cial cio poder, ilpL:nns é conlw-
c~d~'iJ dcs~ g:~1 élç,1o "<i gl on~er.açües" que, pra ticamen lf' por d i:fi n i<;:'ío p•.llí t ic;1, 
sno. ilega1s porque s~u ~rnco objel'ivo é derrubar o poder es t;:ibcJeci do i'Or 
m eio da desorde m e v1olenc1a física _ 
6 1 
No entanto, podemos nos perguntar qual será a m o tivação p rofunda 
dessa espécie de vontade de fazer manifestações que conseg uiu emergir a 
despeito da repressão, qu ase sempre violenta, e quais interesses poderão 
encon trar os organizadores e participantes desses desfiles que, muitas 
vezes fatigantes, comp ortam sempre riscos ele confrontos p erigosos com as 
forças da ordem? Se, apesar das fortes resis tências do p oder em reconhecê-
la, a manifes tação de rua se impôs, progressivamente, como modo d e ação 
polí tica legítini.a, é porque permitia precisamen te qu e as pessoas exprimis-
sem a lgo d iferente do que pode ser d ito com um simples boletim de voto 
ou a assinaturn de uma petição. Expressão quase ins tantânea de um des-
contentamento o u indignação à m aneira do motirn, ela constitui sobre tudo 
a afirmação física de uma opinião: ao dar corpo a uma reivin dicação, 
contribui para t-r;u1sform ar uma simples op inião individual em idéia-força 
porque exprime urna determinação mais for te e um com promisso físico 
mais intenso do que em uma petição o u vo to .\ petição não passa de uma 
lis ta de nom es, muitas vezes obtid a ao cabo d e muito labor; por m ais longa 
que seja, co mparada a um a multidão que protesta, não passa de um eco 
bem fraco e de urna pálida imagem da "opinião pública". A eleição, assim 
cO!TlO mais tard e as sondagens de op inião, tende a minim.izar o peso e fetivo 
das m inorias ativas e barulhentas, d iluindo-as em "ma iorias si lenciosas", 
ao mesrno tempo que produz um consenso m ais a parente do que real. Se 
as sondagens de opinião foram mais facilmente ado tad as por uma ampla 
parcela da c lasse política, é porq ue se aproximam dos procedimentos 
ele itorais tradiciona is e, a pa r tir d a utilização de meios técnicos que operam 
por extrapolr.ição esta tís tica, permitem a produção de uma "vontade geral" 
abstra ta e aparentemente consens ual. 
Foi so mente no in ício da III República q ue se multiplicaram as "mani-
festações" no sentido moderno do te rmo . O rganizaram-se verdadeiros 
"com ícios ao ar livre", concen trações na via pública e "p asseatas" for madas 
por oper:ários sem trabalho, outras tan tas demonstrações públicas que são 
importadas explicitamen te da Inglaterra e pel;is quais as organizações · 
sind icais testam o ardor reivind ica tivo dos o p erários no mes m o tempo 
q lte t·entarn agir sobre os governan tes, o ferecend o-lhes o espetáculo, simul-
taneam ente inquietante e controlado, da mul tidão operária. A controvérsia 
sobre a eficácia das manifestações que opôs Jaures a Clcmenceau denuncia 
o impacto ainda incerto sobre o poder dessa nova forma de ação política 
que apenas age sobre aqu eles que a reconhecem como tal. Para a extrem a 
esquerda revolucionária que estava como obcecada pela imagem da "in-
62 
·r 
surreição final e gloriosa" e tinha nesse m ovimento uma visão trad;c · l d - 1 · • t0na 
a aça o co etiva, um d esfile d iscip linado, ordeiro e respeitador da legal.d _ d " f ,, - . 1 u 
e era uma arsa e na o podena consti tuir um meio de pressão sério sobre 
o poder: segundo seus partidários, para serem eficazes, as m anifestações 
devenam causar medo e c~n~tttu1r uma verdadeira demonstração d e força. 
Inversamente, para os SOC1al1s tas reformistas, a m anifes tação era um novo 
modo de expressão das opiniões que deveria fazer concorrência às instân -
cias parl~men.tares e ameaçar seu monopólio d e representaçã o; para os 
mais d.esfavorec1dos, pod eria ser um meio úti l para que sua voz fosse 
entez:~1~a p elo p oder, exercend.o pressão sobre es te pela m obilização da 
opirnao, em uma palavra, poderw ser um complemento do d ireito de voto, 
perm1hndo, pelo menos, que "o povo" chamasse à ordem seus próprios 
represen tantes ele itos. Os s,?cialistas fizeram campanha para que fosse 
reconhecido um verdadeiro dirc1to de manifes tnçi'ío" . Acabaram obtendo 
uma simples tolerância, com a condi ção de que os cortejos em questão se 
~presentassem d 1sC1plmados e .organizados, isto é, na medi da cm que fosse 
reduzida consideravelmen te a mcerteza inerente a esse tipo de ação coletiva. 
Foi, sem dúvida, em 1909, com o m ovimenfo designado pelos histo-
nad ~res co_:no "manifestação Ferre r", que a forma contemporânea da 
mamfestaçao se f1xou definitivamente. Como 0 desfile político esp _ t' . on 
aneo em favor do anarquis ta espanhol Ferrer "acabou mal", foi 
c.on vocada uma segunda mélnifes tação, desta ve<., pe lo Partido Socia-
lista e pela CGT; com efeito, estas o rganizações operárias pre tend iam 
p rovar que eram capazes de levar a classe operária a desfilar em 
urdem. ou, por outras pa la vr;:is, poderiam se milni festar "à maneira 
mglesa ", isto é, pacificamente, sem desordem ou violência. Tendo 
s ido "bem-.sucedida" neste aspecto, a segunda manifestação foi des-
cnta .pe la imp rensa clil época com uma linguagem que denuncia 
perfeita mente a con fusão que lançou sob re as categorias estabelecidas 
da percepção política e marca a novidade que téll acontecimento 
representav a: os jornalistas fa lam de uma "extraordinária passeata", 
de um a cun osa "procissão" na qual as pcssoils "ca minham ele braços 
dados", etc. 
Da multidifo aos "piíblicos" 
Assim, com a instauração do sufrágio universal (n-tasculino) e 0 desen-
volv1mento correlativo, durante a segunda metade do sécul o X.IX, de novas 
formas.de ações coletivas enquadradas por organizações "de m assa" como 
~: ~ar~dos ~1olític~s ou_ sindi,~a tos: ass~stimos a urna len ta trnnsfor~.ação 
oçao de oprniao publica . A te entao, e de forma quase exclusiva, esta 
63 
• 
era J cxpn:::ssã<! de u rna elite de ndadãos, em p rmc1p10, os mais bem 
in fo rrn.1dos e quilli ficados pela sua inteligência e moralidade que, após uma 
discus~:iio rc1Ci~mal, deveriam proclarnar publicamente e fazer respeitar -
cm face da "opinião comum" e "vulgar" - "uma opfrli~o autorizada, 
con~. j dcrad <1 corno in trinsecamen te justa e dirigida para o "bem comum" 
(o t1lliversé1l) . Essa opinião era "pública" no sentido em que tinha vo_caçã o, 
pelo fato de seu valor próprio, a ser tonwrln p1íblicn: "opinião l'ormal 
rL'con l1ecid ,1 pe l él~ ins ti tuições pol íticas", segundo a expressão de Haber-
m;:, s1.', tend1.,1, ... lc f.1lo, a ser reduzid a à opinião rrnijoritá ri a das instâncias 
parlnmentan:s. t\ "vontade cio povo'' n ão podia se exprimir dire tamente, 
11lé!S dc,·ia contenta r-se coirt a ntecliaç<lo de seus representantes cornpeten-
ks do po nto d e vistél político, reagrupados nas organizações que a m obili-
1..a v:1m e, sirnultanc<imente, a enq uadravam. No final d o sécul o X1X, com a 
multiplic<ição rlos movimen tos de massa e da s ma nifestações de rua (em 
par':icular, associíldos ~1 urbaniz<:içâ o e indus trialização) e, sobretudo, com 
a clifus.Jo de um<l imprensíl popular e nacional, surgiu um;:i outra "opin ião 
p úLilica", concorrente da precedente, que, antes de suplantá-la, coexistiu 
com cl<i ,1té m ea dos do sécul o XX . Essa nova opiniiio é, igua lmente, qualt-
ficada de "públici1", m.as com outro sentido exigido pela lógica democrc1-
tica: é, pc-:lo menos aparentemente, é1 o pinião do próprio público . Ess;i opinião 
dire ta ou espon lâne;:i n ão tem as mesmas características ela opinião pública 
cb s elites p olítica s que, em princípio, é o resu ltado ele um trabalho poli tico 
específico. Tr ata-se menos d a opinião resu ltante da reflexão d o que de 
p reconceitos proft.tnclamente en_raiz<1dos ou, então, de uma opinião alheia, 
pouco exigen te, mnl interiorizacln, rapidamente aband onadil, próxima da-
q uelél qul~ é emitida na tagarelagcm habitua l. Essa form.a de "opinião 
pli '.:ilica" q ue pass,1 pela irnprensn e~ p e los m ovirnentos pC1blicos ele pro t·esto 
ll)1 ;,encio reconhecida progressi vélm ei1le, ou seja, na rneclicla ern gue "a 
rnultidiio" foi deixando de ser sinôn imo de irracionalidade para a maioria 
das cli lt~s pnlíticéls. 
No fi11zil do sfrul o xrx. foi Gabriel Tarde o primeiro a " teorizar" d e 
forma posiliva - principalmente em su a ·obra L'opi11ion et ln foule 16 - essa 
15. J. Habcnnas, L'L•spact· µ 11 bfic Archtc,!ogie de ln pubhcllf co11u11c d1111c11 sio11 co11st itirt 1ve de ln sociéfé 
l>o 111ç:ev1st, "'"'ris, J>.1 yot, 19R6 {1 ~ ed . alemã, 1962), p. 255. Consagrctdo ao "concejtu d~ opinião 
publ1c:\", o capítulo V il dcsc1·cve perfo1tt1n1f:ntc a oposição ~ntre? c:ss~s du cl S (0rirt <.1 s d~i ''op_inião 
pub lica". e n1bor.1 de (o,'" ª ,ib>trata e marcada po r um 1ulgamento de v,1lor (exis te d egr•daçao da 
op1ni.-\O pt'1bliG1, do mcs1110 1nod•:t que ex ir. te dcgrad;ição do eç; paço pl1blico l."rn espaço publicitário). 
'l ó (_; TJ rdt:, L'C11i111i01 1 t.'I 1ti fou lc, PAris, PUF, ·1989 {co L "Rechcn:hc~ po!ill<.1uc.:; " ), corn uma i ntn:idL1ção de 
ll. Rc)'ni<' (l' ~d., 190'1). 
'!' 
nova relaçao entre a fo rmação dos "plÍbl icos", o cicscn volvnnento .:k 11 rn j o :nal is ~10 popular e o aparecimen to na cena política dessa nov,1 "opinião 
publica (chantélda por ele "Opinião" com nwi.Ctscula). Ao ab~inclunm a 
abordagem nor111ativa da "cip ini.50 plÍb lica", Télrcle lanç<1 ns b,1s<:s de um.:i 
v erd adeira análise sociológica desse fen ôm eno. P i.lr.1 ele, o funcbmento 
social dessa p rog ressão espetacular da opinião encontra-se no <1fX1rcc imen-
to e desenvolvimento dos "públicos" gue são prod uzidos por um novo 
modo de agregação que carac teriza as sociedades con tcrnpor,íncn.s De.sc·e·· 
ve como se fosse e m negativo os tradi cionais movimentos da.'> "multidôe::" 
- g ue, segundo ele, já fazem parte du passado - pélra ressa ltar mC'lhor .is 
novas carac t·crís ticas dos públicos. 
Seg undo Tarcle, a ação d as rn nl t idões é repetih v.:i e v w len t<1 (barrk<icl;1s, 
pilhagem de palácios, clemoliçiio, incêndios, m assacres); clcsencad~:i a-se 
repentinilrnente (basla um incid ente p ara suscitar L1m motim.) no momento 
de circunstâncias que, inuitas vezes, são extremas (os motins (fa fome); 
enquan to local izada, tem a consis tênc ia elos fogos ele palha (acaba t<'io 
rapidamente co mo hav ia surgido). Esse tipo ele ação ca racteriza-si~ pe la 
"pobreza da .imaginação na invenç~io dos símbolos que são sempre os 
mes mos, repelidos à saciedade" para exprim ir sentimenl'os cm público 
(procissões de bandeirolas, estátuas, relíquias e também, por vezes - como 
ain d a estão presentes os acon tecimentos lTágicos da Revolução - cabeças 
cortadas) e servem-se apenas de "aclamações" ou "voc iferações" . As rnul-
tid ões mostrnm uma "p rodigiosa intolerância", um "orgulho grotc:'.,Cl)" l' 
uma "s uscetib i !idade surgida dai l usão de su3onipotência" 17 Por oposição. 
T<irclc cl escrevl: o aparecimento das rnan ifcs l'açõi::s q ue são "nwis refkhcL1s 
e ca lculadas éi té mesmo ern (suas) vio lências" e pclns qu<11 s os "rt·1blicos" 
se expri mcm; mais Vél riildas, moslrélm quase sempre u m vcrcl.1clc1ro ··'espí-
ri to inventivo". Esses g ru pos que se manifes tam de uma forma diferente 
são ele origens d iversificadas e mais cons is t·cntes d o que as sirnplcs 111ulti .. 
dões d e circunstfincia; são mais tenazes, du raclouros e Glp;.izes cl<-.' açüe~ 
permnnentes, indo além da m anifes tação pont uill. Nes ta ob1·a, l~1rclc insis lc, 
sobretudo, sobre a estreita ligação existente en tre essas novas formas de 
ação co le tiv a e o desenvolvi1ncnto de uma impn!ns;1 nacio1w l; a liás, 0 
advento d esta, <i inda segundo el e, surgiL1 no período rcvolucion;ír: io, 1~m ­
bora seu desenvolvimento e fetivo só tivesse <1con h~odo n;:i scgund<1 met,1cle do século XIX. 
17. lóid., p. 5.1. 
65 
- - -------------
Nessas págin.as m.uito sugestivas que pouco falan1 da sua teoria da 
imi tação, Tarde analisa, de fato, o que, atualmente, designaríamos por 
processo de unificação nacional do mercado político que, nesse momento, 
se d esenvolve à sua frente com a im.prensa de ampla difusão (processo que 
irá se reforçar com.a televisão) e, correlativamente, o aparecimento de um 
novo modo de agregação social que se encontra na origem do que ele chama 
"grupos à distância" ou "públicos"rn Antes do desenvolvimento de uma 
irnprensa nacional, não existia "uma" opinião, mas "várias" opiniões locais, 
fragmentadas, diversas, ignorantes umas das outras e que incidiam sobre 
temas, muitas vezes, associados es trei tamente às preocupações profis-
sionais dos indivíduos ou às fofocas relativas à vida loca l. As notícias que 
chega varn do exterior eram raras, divulgadas com atraso e, além disso, mais 
ou menos deformadas . A difusão nacional da imprensa " nacionaliza", de 
alguma forma, os temas de conversação19: graças aos grandes jornais coti-
dianos e ao progresso dos meios de transporte, há "transmissão ins tantânea 
do pensamento a qualquer distância", permitindo "dar a todos os públicos 
a extensão indefinida de que são suscetíveis e estabelece entre eles e as 
multidões um conlTaste tão marcante" 2º. Segundo a metáfora de Tarde, a 
in<prensa é tm\a verdadeira "bomba aspirante-premente de informações" 
recebidas e propagadas, no próprio dia, de todos os p ontos do globo (pelo 
menos, indica ele com precisão, as que parecem interessantes ao jornalista 
e "tendo em v ista o objetivo que persegue e o partido do qual é a voz") . Ao 
impor simultaneamen te aos discursos e às conversações a maior pa rte de 
seus temas cotidianos, ela cria grupos cujos rnernbros, embo ra dispersos no 
espaço geográfico, tê m uma consistência considerada, por ele, do tipo 
"in telectual". 
Ao ouservar que a polílica veiculada pela imprensa tendia - em 
particular nas zonas urbanas - a substituir ;;s discussões sobre bana-
lidades, sendo que "a meteorologia política (tinha tomado o lugar) da 
meteorologia atmosférica", Tarde não estava pensando nos "barôme-
tros políticos" fabricados, atualmente, pelos institutos de sondagem 
18. Jv1d, p. 37 
19. P<1r.1 uma análise histó rica recente desse processo de nacionalização d0 espaço geográfico francês no 
fina l do seculo XIX, ver E. Weber, Lafin des lerroirs, Paris, Fayarcl, 1986. 
20. Estão sendo emp1·ccndid'5 anák;es aná logAs no guc d iz respeito à lele"" is.'io como fonte de temas das 
conversaçôes l1abitua is. Por exemplo, ver D. Boullier, La co11versritio11 té!e, Lares (Universidade de 
Rennes 2), 1987. 
66 
,. 
t: 
e cujas variações sazonais alünentam as conversaçõ ,5 -1, . 1 . - . . º e ' senao dos 
e1tores, pe o menos do rne10 pol1t1co-1ornalío; tico Most 
. . · - · rou, entretan-
to, seu fascm10 por ess~, p~de.r nascente dos jornal1sti1S parisienses. ue 
dessa forma fabricam publKos" isto é verdadei·ras" lt·d - q 
, " . . . ' ' ~ m u 1 oes d is -
persas . Tais JOmalistas, precisan1ente chamados "publici·sta " 
. < s por-
que cnam os temas de discussãopública e se dirigrern ao " d 
-bl' " " , . gran e pu ico , servem ao se u publico as conversações do dia" e decidem 
os lemas que, supostamente, são "simultaneamente emocionante_ 
para todos": "Basta, observ,a ele, um a pluma para colocar em movi~ 
mento milhões de línguas"-l_ 
Embora a análise de Tarde seja sumária, designa claramente, muitas 
vezes ele n1aneira pertinente, as principais transformações que se encon-
tram na ongem do poder dessa n ova forma de "op" . - " e 
, .- .- e . lrn.ao Olll O exagere 
que e p1opno de todos os que acreditam assistir a uma mudança, Tarde 
descreve, sem se p1;;ocupar com os detalhes, os efeitos sobre a política dessa 
imprensa nac10nal . Segundo ele, as notícias divulgadas por essa imprensa 
atm~em, m~tantaneamente, populações dispersas, acabando por formar 
um urnco_publ1co imenso, abstrato e soberano, graças a o trabalho de fusão 
das ~pm1oes pessoais e locais em opiniões sociais e nacionais que têm tanto 
mais força' pelo fato de serem amplamente compcutilhadas e terem conhe-
cimento disso : todo o mundo fica sabendo das notícias ao mesmo tempo e, 
portanto, pode tom_ar posição ao mesmo tempo. A atenuação dos particu-
lansrnos p:ovmc1a1s e costumes locais em razão da in tensificação das 
comurncaçoes e transportes e a rapidez cada vez maior na difusão das icléi as 
e gostos pela imprensa implicam assim L1ma semelhança crescen te das 
cor~versaçõ.es simultâneas eu: um campo geográfico cada vez nlais amplo 
e, em -~etnmento _da trad1çao e da razão, favorece ao mesmo tempo a 
importanc1a do numero de pessoas que compartilham a mesma opinião, 
sendo que os votos são contados, em. vez de serem. ponderados. 
21. lbid., P· 82. O PªP_e l da imprensa no caso Dreyfus gue, no final do século XIX, de ixou divid ida uma 
d
grand e p~1 t~ da l·ranç~ Ln~uenc iou, ccrta1nen tc, essa visão de Tarde crr1 relação ,10 poúcr exorbilante 
e la! rneto de co1nuni caçao. 
22 T 1 T · Ma a~a lse foz !e:11br<ir necessariarnente a q ue será fe ita, inais tarde, no inicl(l dos anos 60 fJOr Fdg•i-d 
onn a p o t d " d ·c ' - " r ~os1 o o po . errnass1 1cador" d.i televisão (L' espril du le111ps, f'a ris, G rassei, 1963). Neste 
aspecto, ela e igualmente 1nleressanle pelo falo de mostrai a visão, fundamentada parcialmente dos 
co1Hemporàneos em relação às transformações em curso . Uma pesguisa socio lógica so~re 05 ef~i tos 
pol'.ticos e.r~gendra~os pe l~ descnvolvunento da imprensa e dos 1neios de coinunicação deveria estar 
xnuito Jn;us atenta a rel.:1çao, bastante diferente, que os d ive rsos g nipos sociais rnantêni corn esses 
processos. -
67 
·L c\êl ve·z n1a ts f;zi ra dar valor às 
,; .·-, ·,J1' 1i ·--' ·1 i t··1 11.-i r ensa contn )LlJ cz, · - ~ l \J .. =i 1 \ , 1 ~- ( I , t - - - ' . 
_ · .. _ ;-,, .. 
1
·cirn,l lis tas 5 ~1 0 verdaclctros l ideres de op in ião e part1o p arn co1:;<1~- -- ~ . _ . -·i · d - a 
cc>cl<t vez nia is es tn .. •1 lamcrüe elas rn.arufes taçoes, cont!.l )Lll!l o pa ra 
tabr1e<lt~ão dcs:;e~; no\'OS gru pos que são os P ~,b l ~cos, constr~ngen,~ros 
a ,igi r de furni<i menos impulsiva: a t(~ n1esrno o pLLbltco econorn.1c~ is to 
é, u rn und o operéÍrio) "traduzindo (pela irnp:ensa) suas dcm~nda~, acaba 
l-
Jor ideal izá- las" , sendo gLLe "a trans fi guraçao de todos os grnpo:, s~ci~s 
.. - · "crescer te intelectu a li zaçao 
cm públi u 1s" ten1 com.o consequenoa u ma . ' -. _ : ._ ._ 
l' 
- ·. ]" S 'g LiI'dO Têlrde os J·orn <'l lLs ta s em seus ioir1ct1:> n1an1 elo rn une o soc1a , e . ' e . .. , . 
fesl"i.uu-se pral1caJTH~nte em favor dos pú b licos, em seu lugar, hcando ao 
· · dele - D1fcn:ntemente das 
seu lado e coloeirndo s eu ta len to ,., se i v1ço . :::, . . . , 
:-nullidõcs os p úblicos - indica Tarde com prec i s~o - existem essencia,-
' . . ·. . . . "I -va rn <1 IJ lumél dos publ1ostas a desen-
rnenle p ela e para ,, imprensa. J' . , d. 
· · · , · 1· -· ·" O público ªºe p or mterrne to 
cadem torrentes ele 1rqunas ou 11 is rn.o · . _ o . . _ , 
dus pub licis t;is, "rna 11 ifesta-se a tn:ivés deles, 1mp oe --s12 aos est~d,~~;as q ue 
-r. , -e c h.;;irna o poder da op1ru ao . se t cirnan1 seus execu tores . e o qut. s e < · 
No cnlantu, Ta rde observa juslament-e que esse poder do jornalismo 
' d · f) - 1C1ções esta submetida a q ue di fu_,,dc uma corrente cont1.n_ua e in t, t n ' - · ,· . , _ ; . _ 
urna lógic,1 elo tipo econôrnico l'' _q u e o publico dos ieitme ::> __ e ig u al 
mente urn<i cl i~ntela comercial. E a razão pela qu<il e le assun ila_ as 
op1.n iões s usciL0clas pela imprensa aos bens d e c~n~~mo ~o _ttpo 
econôm ico já que seu sucesso depende, cumo p1'1! a e"ses bens, da 
moela e de um certo número de ca rac te rís tie<1s soc1a1 s (ida de, estatuto 
soci ~l etc.)2-1_ Jn si~;te sob re s eu cc.iráter passageiro, "leve coff10 o ven-
. e ' .• J i · . outro A "verd ade" dessa to'' va ri ado e sem relaçao e e Uff\ e ia pai a · 
.' -- l eérncnos"discunda"doque"consurn ida",nãoseencon-op 1n1 M), ( u. · · . . . , _ 
tr:i na justez;:i e rn s i, mas c m seu poder quanti tativo, is to e, no nu~~ero 
ele indi víduos q u e , em de1 e rrninaclo momento, a co1npa1ttlharn · 
-----~·-----------
68 
A "0;1i111fio p1í/;/1ca" cumo ortrjafo 
Nos últimos vinte Mios, os h istor iadores têm ern.prcend1clc> pe:~qws.10' 
com o objetivo de avaliar o qu e, nêl prin-1cira metade d o s0culo XX,. eri1 
"verclJd eirélln en te" essa nova "opinião püblica"; alguns tentam mesm o 
apreend ê-la com uma precisão guc pretendem ser comp<Hfível ú que, 
segundo parece, a pr<'ítica contemporânea elas sondagE:ns ele op iníào cst<í. 
em condições de obter26 É paradoxal qu.c, levad os pel <~ preocupóÇíl<) de 
precisão, u m ce l'lo número d esses histori<idores ::icabern caind o invulv.n-
ta rizunente no ana croni sm o el e partir de uma ddinição co nlcn\JX>r<irn·· ~1 Ja 
"opinii\o pública'' que não era a dos atores his tóri cos . In vejando, .:in tcc ipa-
d am ente, os fut uros his toriadores que virão a es tud ar o período alurtl , d i;:.er 
0ue, nos últimos guarenta anos, as informações sobre a "opiniJo públ ica" 
estão se m ultiplicando e que é possíve l conhecê-1.a m elhor <llu<1 lrnu\l"e elo 
que n o pass21do, é esquecer q ue, n este campo, con.h eccr é t<imbém fazer 
existir e q u e a ig11 o r â n ci a equival e aqui a uma quase-i nexis tênc ia soc ial. Ao 
mobilizar todas as fontes disponíveis (imprensa, rnani fcs taçôes, assim 
como a rqui vos públicos, pesquisas ocasiona is, cultura popu L1r a lnwés de 
canções ou pichações, correio dos lei tores e jorna is p r ivados, e tc.) LibricMn 
uma "opin ião p ública" que, de fato, ningu ém chegou a conhecer dessa 
forma, fazendo clesapMecer ao mesnio tempo a especific icl acle desse objeto 
eminen temente his tórico É, sern dúvida, legítimo cio pon to ele vista cien tí-
fico procura r conhece r, no quadro de um.a "históna das m enta lidades", <l 
"opinião balb uciada pelas amplas camadas da populaçã o gue d eix ou pou-
cos docu1nentos nos quais viessem a se revelar seus sentimentos, idéias e 
preconceitos" (J. Ozouf); no en tanto, tal situação nad<:1 tem a ver com a 
reconsl"itui ção da "opinião públici1" propriamente d ila , em s u« de Fi n içiio 
histórica. Se o his to riador pode tenta r "fazer folar os que r«~o Lilam" e 
procurar apreender "d12 forma indireta a opin ião daqueles a quem não fo i 
dada a p ossib ilidade d e exprimi-la", em suma, se: e le pode fazer uma 
26. Ver, por exem plo, j. -). Beckcr, "f..'opinion", in K Rémond (sub a direção d e), l'vrir une h1sloi1P po/11"11/ <if, 
Paris, EJ. du SC'ui l, 1988 (e-oi. "U niv ers hi sto riqLLe"), p. 161-IB:•; J .-13. ÜLrrosc lle, "Opin ion, ;rltitu.:k, 
ment,,li té, mylhe. idéologie: essai de clarificat ion", in Rdalions i11ter11nlionnft•;, 1971, 2, p. 3 -23; l'. 
Laborie, "De l'opin io n publique à l'imag inaire social" , in Vi11g li er11e siéclc, abnl-ju nhn, p. 101 -117; !'. 
Laborie, "Opinion ct représent-ations.La Libérution et l'i rnage ele la RL'sistancc'', in J~cuue d'l tisf(Jire 
de la Jn 1xii:111e g«are 111ondi11fr cl de; co11jlris conre111porr1i11s, 131, 1983; ). O·Louf, "Mesu re d d é11 1c:sure: 
J'é tudc de l'opinion", in A 1111flles ESC, m arço-abri l de: 1966, 2, p . 32-1-3'15, e " l- '0 pinic•n publiqu e: 
apologie pour les sondages", in Fnire de /'ilistoin:, obr,1 co le ti,·~ sob· a dircç:\o de J. Lc Cuff e l' Norn, 
tomo Ili (Nouve•u ~ objets). Po ri s, C al lim;irJ, 197<1 (col. " lli bhothi:qLLc des hi•;to1 r~s"), I' 7:'0 -:!1 ~; . 
69 l 
espécie de "sondagem retrospechva", ocorre que a única opini~o públi:a 
realmente exis tente no passado, isto 6, a que exerceu efeitos polit1cos, nao 
é esta, mas somente "a opinião esclarecida" que se exprimia por escrito e a 
opinião barulhenta dos grupos que procuravam fazer ouvir sua voz nas 
manifestações públicas. Por exemplo, a tualmente, pode ser interessante 
fi car sabendo, a partir da análise secundária dàs primeiras sonct~9ens de 
opinião efetuadas pelo IFOP antes da Segunda Guerr~ Mun~d1al , que a 
aprov ação dos acordos de Munique não fo1 assun tao unamme como 
poderiam ter acreditado os contemporâneos: 37% das ~essoas interrogad as 
(em. condições ainda muito imperfeitas d e representatividade de amoslTa) 
declararam-se "conl-ra". No entanto, o caráter confidencial e, sobretudo, o 
pouco crédito que erél reconhecido a esse tipo de pesquisa. pela classe 
política d<J época fa z com qu e, diferen temente elo que se passana provavel-
inenle nos dias de hoje, essa "opinião silenciosa" ficou guardada nos 
clossiês do inshtuto de sondagem e não exisbu para os contemporâne os. 
No entanto, ta is his toriadores fornecem, embora involuntariamente, 
prec ios as indicações sobre o que era o conteúdo social e,fetivo dessa noção 
nntes que ela viesse a ser fortemente redutível ao que e produzido atual-
mente pela tecnologia das sondagens . Em prim.eiro lugar, lodos os que 
estudam tais fenômenos assinalam, de saída - não p ara que isso fique 
registrado com.o um fa to social, mas para deplorar tal op::ração em ~m. 
p lano 111.etodológico - a imprecisão conceitua! dessa noçao e o ca rater 
confu so, imperceptível, fugaz e inconstante do que se chama, durante esse 
período, "opini ão pública"; mostram que, ao escapar à observação dir~ta, 
es ta só pode ser discernível a través d e urn certo número de rnamfestaçoes 
v isíveis, mas incertas. De fato, limitam-se a constatar, sem. o saberem. plena-
rnente, que essa noção só tem uma definição unívoca no início do século 
XIX e, em seguida, tornou-se incerta do ponto de vista social porque sua 
própria definição transformou-se, então, em um pretexto de luta entre os 
grup os sociais. Em segundo lugar, quando os historiadores, nos ~n_os 60 -
isto é, no momento em. que, precisamente, se desenvolve a pratica elas 
sondagens - observam, igualmente para deplorar a situação, que os estudos 
de "opinião pública" do período que vai d o final do século XIX a té meados 
do XX, "se reduzem", de forina excessiva, à análise da irnprensa, 111nitarn-
27. C f. C. Pey refilte, "Lcs premiers sondages d'opinion", in R Rémond & ). Bourdin (sob a d ireção de), 
Edo•wrd Da/1utier. cite/ de gvt1verne111c11t, Pu1s, Presses de la FNSP, 1977. 
70 
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l-
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se, na realidade, a registrar a existência da nova forma de "opinião pública" 
que se exprime pela e através da imprensa com grande tiragem e que, nesse 
caso, tende a tornar-se dominante. Dito por Olt tras palavras, o interesse dos 
his toriadores desse período pela imprensa linha a sua razão de ser e explica-
va-se pelo peso considerável que ela tinha na formação da "opinião públi-
ca" do momen to . Por profissão, os jornalistas tornar-se-ão influentes 
"líderes de opinião": exprimem sua opinião que pensam ser também. a 
opinião de seus leitores e essa opinião pré-ajustada ao público, lida pelos 
leitores, tende a to rnar-se a opinião dos leitores e, por consequência, um 
importante componen te do que é percebido como "opinião pública" 
O desenvolvimento de um campo jornalístico re.lativarnente autônomo 
em relação ao campo político, de uma imprensa de grande difusão e, 
corre lativamente, o reconhecimento do direito ele associação política e 
sindical acarretaram a multiplicação das formas el e expressão política à 
margem ela rep resentação parlamentar e, entre outros, tiveram como efei to 
o alargamento do campo elos agentes que participavam do trabalho de 
produção e manipulação da noção de "opinião pública" . À medida l]Ue 
aun-1entou o número dos agentes que lutavam para defini -.la e agir sobre 
ela, a "opinião pública" escapou progressivamente ao controle de alguns 
para se tornm a resultante incerta de um conjunto de ações difíceis de 
controlar por um único agente, mesmo tratando-se do próprio poder 
políbco. A "opinião oficial" tornou-se un-t componente en tre outros da 
"opinião pública". Pouco inclinados para as abstrações, os historiadores 
observam, no correr desse período, o aparecimen to de u m processo de 
diversificação dos locais em que se engendra o que poderia ser charnado -
segundo alguns, de forma abusiva - de "opinião pública'' e opõem ao 
caráter ar tificial da construção de uma opinião a realidade de uma multi-
plicidade de opiniões dispersas no seio de urna população repleta de 
contras tes e ideologicamente dividida. "Propriamente fa lando, escreve um 
deles, não existe u1na opinião fra ncesa e é somenJe por convenção que 
utilizamos o s ingular. Na realidade, lemos de levar em consideração uma 
multiplicidade ele opiniões, tão numerosas q u anto o são as regiões, profis-
sões, escolas de pensamento, famílias espirituais"28 Essa verificação obje-
tiva corre o risco de esquecer que, na realidade política, o que existe é a 
crença na existência de uma opinião púb lica Enquanto Liltré ainda cita, a 
28. R Jl.émond, prefácio da obra de r. -j. Gecker, 1914. Co111me111 !cs Fmnçnis so111 cntrés rla11s ln gucrre, Paris, 
Presses de la FN SJ', 1977. 
71 
f"" ºi •;.1~-1lc> cks;;~ ,_.:-.. 1Ji.-i.::"si:ío, os aulores do século X\'111 e su;:is hesitações, 
Bnuwt n\;.islra ·-· e111 s ua obra Histoirc de ln /a11gue françazsf., publicilda em 
! 'J6:• .. 0 .succ~so político, no período contemporâneo, da noção; além disso, 
indtca com prccísZ\o ,1uc "seria necessário quase escrevê-!;:, com maiúsc~la" 
porque ''a Upm i<ln turnou-se não só un1a força incoercível, mvs uma cspec1e 
de j)•SSOd". 
"011111ulo p1íli/1c:r1" < /1111111lizaçr70 da 111n111fcslaçüo 
No iníno do s0culo XX, o reda tor do artigo "Opinião públi cv", da 
Crf'ntfr L:>1c1iclo1Jéâie Laro1.1 ssc, ainda afirma gue "o imponante é saber quem 
r«l)rc-'~'11t<1 ;., op ini<l<• pública" e se interroga: "qual é i1 p<:1rcela ela popul~ção 
,:11 j,1 ,1p in iii n f)es.1 sol>re o governo'"; desle modo, denunciava gue, dai e~1 
diilnle, o que cons titui problt=:rna j<\ não é a própriil existência da opm1 ao 
pú.:J)ic:a, nicis ;i div i::rsidade dos agentes que pretendem representá-la ou 
12xrnirni-lzi. Durilnl" a prim~ira metade do século XX, avolumou-se cor1~ z­
,:kr.l\'e:::lnwntc o peso dé:ls manifes tações de rua e da irn.prensa na defrn1çao 
'><.ici 1] dzi opini.1<' pública. Era cada vez mziior o nümcro das manifoslações 
e sua forni,1 fo i -S(' 11juslando par<1 se torna r um n1ocio de expressão quase 
in~.tiluciorntlizado das opiniões. A técnica ela manifest21ção ficou cada vez 
mais rdin,1Ja p;:ira se tor nar uma expressão "conveniente" das opiniões. 
s:-1 .,.-1 i.rwc nl:1c1os d1sposilivos que visa m produzir o máximo ele previs1-
biliclê1de: daí cm. diante, o percurso da manifestação é fixado com antece-
dt-ncia; urn certo tipo de comportamento "responsável" é exigido aos 
rn;inites tanles; o cor tejo toma d eterminada forma (frente, composição, 
lu ;~a r de dispersão, e tc .) e se caracteriza por uma cadência e modo d e 
dc~filar muito particulares,tão diferentes elos desfiles militares quanto das 
procissôes rcligio5aS ou movimentos erráticos das rnultidões; são design a-
do:. o que, na i.?poca, se ch~1ma d e "homens de confiança", esboço do que 
ser;\ 1'!1Ciis tmde o "serviço de ordem", colocados cm locais estratégicos (em 
particuL:1r, na frente elo cor tejo e no local da dispersi'io) a fim de evitarem os 
distúrbios. Existe lan1bérn uma verdadeira instrumentalização da manifes-
t.1çâo na medid;i em que esla se tornil urn meio racional para exercer pressão 
nos e:;pa<,_:os i nsti tuci onais do poder. 
Essa ocu pação tcmporá~ié1, c01n finalidé:lcle clemonstra liva, do espaço 
p•.'tblico urb;rno que se instala no início do século XX, comporta dois d~s 
elementos fL111damen ta1s característicos das manifestações modernas e d1-
krencic1dorc:; tanto das multidões anônimas e pacíficas, quanto dos motins 
e:;pnnt3neos e sem objetivo explícito: trata-se ela mobilização e enqua-
72 
i'i 
·tl> 
_,,, 
.-.,. 
dramento que exigem. um trabalho polí tico espe<'ll'1c,) e prcs~uptícrn ,1 
aprendizagem de urn <:1 verdadeira arte de como Jazer uma rn<inifcs t,ll:;;\CJ. 
Embora o rec t.trso à manifeslação continue sendo urna aç.:io pt1 lit1úrn1cntc 
arriscada na medida em que, para os organiz21d or«s, ,1 <c1n1plilude d .1 1nnbi-
lização nunci'l é tnteirarnen te previsível e seu "clescnrol<1i: cm ordern" nuncd 
é totalmente garantido, ocorre que as manifestações gue, esscnci<Ln1c·11lc, 
são promovidzi s por organizaçôes sindicais ou pulítiec1:,, com suas l<,'.C11icas 
espccífic;:is ele rnobilizaçi'ío e serviço de o rdem criado p~r~1 o efci lu, t·cnci<:m 
progressivamente a se banal izar e tornam-se ass im urn instrumento il:gJ1-
mo ele ação p olítica . ./\s organizações representa tivé:ls responsá veis é1pcrici-
~-oani sua técnicé:I na ocupação específica do espaço p úblico urbano, 
enqu;:into as forças da o rdem ;iprenclenl a conter csse1-> des files de uzn nt)\'O 
tipo e con trol M even tu ai~; excessos d os man if estan les U rn.i coJ ;-,1.:•c•ra<; ao 
cada vez n1;:iior chega rnesino" se inst;iur<:1r e11 tre os grupos c1ue prete nd em 
se manifestar e as forças de repressão a fim de que as rn aniít~sta ,~Cics se 
desenrolem de forma ordei ra . Após a Primeira Guerra M u ncl1al, <• SFJO * 
procura, de novo, lega li vi-las porqu e, segundo os socia lis tas, cbs consti-
tuem unia ou tra m.aneira ele votor ("vo tdr co1n os pés"): pn)rr1 0\·cr~do 
c:oncentraçôes e ancl <:1ndo juntos, prov;1n1os que so1nos nu m erusos J pcns21r 
da m esma forma. Portanto, n manifestação é, segundei os :,tnd icdlc•s , u ma 
espécie ele referend o que o Est·ado deve r ia, como na Cr;~-Oictanh~i, regul<i -
mentar e não rcprirnir. 
É somente no período enh·e-as-d uas-gucrrns, com a conguist.:i ddini -
tiva do espaço pa r isiense pelas manifestações ot:ic1·áriéls e "de esquerd;:i", 
que a rua se torna efe tivame nte um espaço normal e reconhcc[d o el e 
protesto e, portanto, um modo legíhmo de produção da "opinüio p úbl i-
ca"29. Com efe.ito, Paris constitui um lugar altamente cslTatégico, sirnulla-
nearnentc de forma simbólica e política, e, n a época, se beneficia de urn 
estiltuto jurídico de exceção. Desde a insurreiç·ão da Comuna ele 187'l, a 
capital é objeto de uma proibição geral no que diz respei lo às m,rnifo~. lações . 
Em Paris, são au torizadas somente as celebrações e comernoraçôes; qtt;rn to 
às manifestações propriamen te ditas, são permitidas apen21s no subúrbio. 
Essa proibição sistemática aindé\ fo i reforçada cm razão ela estr<1légid explí-
cita do Partido Comunista que, nos anos 20, pre lcncl ia provar que em c;ipdz 
~ N .T: Sig l.1 dit Sei;5o FriH'ICêSa dé1 lnternac ion~l (JpcráriJ. 
29. Sobre csle pon to, a lém d~ O. Ca rdan e J.-P. Heurlin j~ citados, l'Cr D. T~rt~J..owsk i , "Stralo'g1c, de b 
rue. J934· l 9J6", in Lc Mo11l•c111enl soci<ll, 135, ~bril-junho dt· 1 ~86, p. 31-t.2. 
7~ 
, :.> 
ele ocupar a rna e não queria deixá-la às forças polí ticas "da direita"; com 
efei to, estas "fazem manifestações" a partir de urna legalidade aparente por 
ocasião das festas nacionais ou comemorações que continuam. sendo auto-
rizadas (como o dia dn Pátria, o dia do Armistício ou ainda a Festa de Joana 
d' Are) . Portanto, esse período é marcado por um.a concorrência, p ara 
ocupar i1S ruas da capital, entre "a direita" e "a esquerda". Em um primeiro 
tempo, esta reaprendeu a se manifes tar n o subúrbio porque, em parte, 
perdeu sua tradição manifestante ante rior 21 guerra, cm rnzão da forte 
imigração opercíria Antes de tudo, as organizações s indicais e políticas do 
mundo operário exp~rimentaram u m ce rto número de técnicas destinadas 
a controlar esse tipo de ação coletiva ao canalizarem a v iolência do grupo, 
mas t<imbém ajudando-o a se defender contra a violência das forças da 
ordem u u das rnil ícias fascis tas Em segu i ela, a despeito das proibições, 
procuraram reconquistar as ruas d e Paris que eram, en tão, para o mundo 
operário, um espaço totalmente estranho. /\ direita sentia-se aí como se 
estivesse cm se u reduto e fazia manifestações barulhentas, e1n pequeno 
número, mas bastante visíveis no espaço político ern razão da gra nde 
farnilinridade que os manifestantes mantinham com a polí tica e, sobretudo, 
com o meio político-jo rnalístico parisiense. Os pa r tidários do poder esta-
belecido desfi lam com a a,rrogância de quem está em.seu reduto, m ostrando 
llnt certo d espren dimento e distan ciamento na forma de desempenharem 
seu papel (por oposição à "seriedade" dos manifes tantes operá rios). Para 
eles, trata-se somente de ocupar as ruas e proibi-las aos acl versários : os 
desfiles naciona lista~ são res tritos na medida em que os manifestantes, por 
vezes, e n1 uuiforme, ca ntinham de maneira muito rnilitat· com passo caden-
c iado, ocupando som.ente uma parte da calçada e formando um pequeno 
grupo que se distingue facilmente dos transeuntes desocup«dos. Inversa-
mente, a esquerda, ern Paris, não se sente em casa: para a nlaio ria dos 
manifestantes operários que moram no subúrbio, esta cidade constitui um 
lugar estranho. Porl«nto, pa ra os operários, promover manifestações em 
Pari s s ignifica invadir simbolicamente a capi tal30. Duran te muito tempo, o 
desenrolar das manifestações "de esquerda'' ficará marcado por uma incer-
teza c1 ue tinha a ver con1 o risco de confrontos do tipo físico, freqüentes nos 
m e ios populares. Exis te aind a uma relativa inadap tação entre as disposi-
30. Foi a mesma simbólica da tomada de posse que es teve amp lame nte en1 ação n a ocupação de usinas 
du rante o governo cio Fro11t popu!n ire (N.T.: O Fro11I pop11lnire, formado pela coalizão dos p•rlidos de 
e$quctda e extrema es<1uerda, tomou o poder após as eleições de 1936 e até 1938). 
74 ~ ,. ~-
:..~. ·~-
ções elos agentes que participam da manifestação e o hpo de manifestações 
que é projetado pelas organizações representativas. É isso gue exp lica o 
forte enquadran1ento que os organizadores devem inst;ilar a fim d e obte-
rem um ajustamento mínimo dos comportamentos dos manifestantes ope-
rários à nova forma de manifestação que é exigida pe lo jogo político. 
Portanto, durante esse período, desenvolvem-se as técnicas que tinham 
sido inventadas no infcio do século, em particular, no momento da mani-
festação de 1909: a p resença dos "homens de confiança"; os eleitos, à fr l'nte 
dos cortejos e cingidos com a faixa de pano tricolo1~ desempen.h;.im um 
importante papel para o desenrolar pacífico do desfile; o trajeto é fixado de 
antemão; e tc. No entanto, verifican10s, sobret udo, urna raciona iizJçã o em 
maior escala do "serviço de ordem": muito ma is numeroso e hierarquizado, 
acaba enquadrando os man ifestantes, muitas vezes, em todo o comprimen-
to do cortejo e, d aí em diante, serve tanto para m anter a ordem le vando 
certos manifestan tes a respeitarem a disciplina, quanto para proteger o 
cor tejocontra as provocações exteri ores. Para as manifestações "de esquer-
da", a impor tância do ser viço de ordem e da organizaçfü• do cortejo é tanto 
maior na medida em que tais manifes tações pretenden1 representar "o 
povo" e, portanto, são quase nc:cessariainenle maciças: ocupam toda a 
calçada e a tém.esmo os passeios; os manifestantes desfilam pelas grandes 
artérias a fim de aumentar e ampliar sua visibilidade; o co rdão do serviço 
de ordem cana liza-os e opera uma separação cnti:e os manifes tilntes e os 
simples espectadores. 
Após um lento ajustamento, as m anifes tações de esquerda torna ram a 
forma normalizada que é m antida até nossos dias: um i.mponente cortejo. 
marcado pela "descon tração", desfila de forma ordeira e se d ispersa sem 
inciden tes. Composto, em geral, por robustos militantes que utilizam bra-
çadeiras de cores v ivas para serem mais facilmente identi hcados, o serviço 
de ordem tornou-se um elemento constitu tivo essencial desse tipo de 
manifestações: permite o deslocamento pacífico das multidões na rua e 
garante a forma "cortejo" da manifestação, apressando ou afrouxando, se 
for necessário, a marcha dos manifestantes; delimita a manifestação em 
relação aos sim.ples espectadores ou aos grupos "provocadores" que pre-
tendam introduzir-se nelas; em uma palavrz1, garante a ordem no e do 
cortejo . 
O decreto que, em 1935, regulamenta o direito de fazer mar1ifestações, 
longe de transformá-las em uma "liberdade fundamental'', limitou, na 
75 
fl' ,tki,)dc, su ~· atii1 z;1..;· ii o . No ent·anto, n ão conseg uw dei xar de levar em 
Cl.•1 it<i ~·ssa irres1s tí\'e l conquista do espaço pi1 r isicnse e acabo u por criar um 
cnc1uc1clrantento pé)fé) essa n ova utilização d a rua que o poder não hnha 
n n5cguicl11 pro1!Jir de fo rma eficaz. Embora, nci época, as 1'nanifestações na 
V t il públiui se tivessem mul tiplicado, o recurso a essa forma de ação po lítica 
con tin ua sendo, du ponto de vistél social , m ui to diferenciado. Demons-
t1 cil.;:io d e torç;i dns grupos sociai s ctominados que só têm condições de 
co locM em d es taque seu número, ela é o recurso natural dos " partidos de 
cs.1uud.t'' e elo•; ~ rndicdt os ck assalaridclos (sobretud o op erários), que são 
conduzido::. "º mesmo tempo a prontovere1n m an ifes tações, no fina l de 
C<'n lns, rcpcliti\·;:is e ro tineiras . De forrnn m.a1s episódica, é o recurso tam-
bl.;m u tiliz,1d o pel;:i ' 'cfo citn", "católicos", "anligos comb21tentcs", " leigos", 
'c.1rnru nc <>.cs" e "l'stud an tcs"; no e ntanto, t·ais manifcstaçôes p re te ndem 
ser, cm gere)!, origi nais ou de granch:' enve rgadura, enquan to as manifcs-
ta.;-óe:> de "<1r tesãos e con1erci.antes", "pa l-ronato", "execuhvos" e "profissões 
lil>C'rais" siio c xc<:· 1x ionais:i1. Em b o ra sejam promovidas manifes tações por 
toda a Fr,1nça, é .sobret·udo em Paris que os clcs fil cs são organizados, em 
r:lzào da "supcrp o li tiza ção" ela capité:d e do imp acto q u e ta is demons trações 
tém CJl.l é1SC Semp re na imprensa pa ris iense que, cm grande t'ar te, exprime 
a "cipiniii o públic21" n acional, pelo menos, pa ra a c lasse política: todos os 
grupo~: sociais procuram promover man ifes tações e rn P nri s para consegui-
n~m o ni ,í xi rno de repe rcussões pol ít icc1s , sendo que tais co rtejos parisien ses 
consti lUl:'m, quase sempre, tempos fortes da vida pol ítica naciona l. Entre 
l 94 5 t: J 958, a s m a nif esta(;ões foram essencialtnente de na tu reza s indical, 
ao p<isso que, entre ] 958 '~ 1962, multiplicaram-se os desfil es do tipo m ais 
t:•xc-lus1v<1rn1:nte po líti co em relação com a g uerra da Argélia. Desde 1962 e, 
sobretudo, <ipós Mai o ele 1968, aparecer am no lado el as m ani fes tações 
rciv1ndir ;itivas tradicionais demons tr<c1ções el e um novo es ti lo que mos tra -
rao 1 com vigor <lS ct·ns11 ras qu e as manifestações tivera m d e se impor pa rn 
conseguirem ser reconh ecidas : si tuada !=: à margem elos aparelh os s indicais 
ou pl)líti.c0s tr<1cl icion;1is, muitas vezes, explicitamente d irigidas contra 
l' ;:, l\:~ ü ll'irnc1s, cl<1s cknuncia varn o aspecto demasiado codificado - e, por 
t.' SSc~ moti vo, rncí1c;iz - das lut:is o rganizad as por eles; além d isso, i ncidiam 
3'1. .-\ ul1l1D1\·.1, , d<: .1!)ptl:-O: p~Hí:l dcs 15n:1 r os i:; rupos qu•• fazem n1nrúfcslaçô<:s 11H.tica sornl'nte - COll"\O 
·: ert-n.os n1;i is .1d 1:in tL· - qu~ se fr.lla de desig1\JÇÔCS Jocal1Lad"s produzidas p('las rnan ifcst.i çôes para 
.1 pollli( a nd mcJida t..:111 CfUC u1na d <lS irnpliC(l\Ôt?S desse::i des files C faz~1 t..'XIStir CO lttivOS desse tipo 
·\o (-' . .;p~ço pu lit1i:o. Sobn~ ;;, gênese dC! catesoriil '"t!xccuL ivos"', ver L.13ohJn:cki, Les cndr~s. L1fo rm11t io11 
f'·p; ~r;;:11n· .;,_•cwl, Pan!i, Cd. de.· J\1 inuil , 1982 
76 
-l. 
sobre problemas Ja sociecfack mais gl obélis í 1110vi ifü·ntc\ ( iL' 111,1, 1-t 1 . 7 , 
..._ \ · · . - · t .Jl 1 1 l cl 
mu lher, méln.ifcs t21ção dos homossexu ais, mov imento ecológ ico, ck ) 
A "opiniiío púh/1rn" nnl es das sondagens 
Em 1956, ~m u m a coleção de larga d ifusão, é publicada uma nbr;1 e[,, 
A lfred Sa_uvy3· con sagrad a à "opinião públ.ica" l)lle foi regula rmente rce -
d1tad<1 ;:ite º. fmal dos anos 70. Esse livro é interessante: porque -- alérn d o 
1mport;111te impacto que E'XP.rceu sobre numeros<1s gera1;ões de cstud<in ,'es, 
pr~nc1 p,alrnc1,: tc de ciências_políticas - desenvo lve urna conccpçiio LI J. "opi-
rnao pllbl1ca c.1ue cons titui uma expressã o basta n te coe ren te ck:ss;1 noc;ão 
e da pos ição que, n a época, ocupava no jogo político, exêltam,~11tc ;intcs que 
fos~c p rofund amente rnoJi ficad a e recebes~;c um outro cc1nteúcl o c m clcc.or-
rê11 cia da prática das sondagen s. É s ig11ific'1tivo que o a utor c:scolhid,1 pMa 
redig ir essi1 obra tenJ1a sid o, não um especialista das sondagens ele: opini,1o 
(na ép oca, essa a tividade ain d<i era p ouco desc:n \' ülvida e recouJiec id a), 
ta mpouco um p ublicista, m as u m rep resentante elo "racion ali smo escLHe-
cid o". Tendo concl u íd o seus est·ucl os na Esco la Polü écnic;i, s imultaneamente 
de mógra fo e ccon omis t·él , dire tor do I11slit 11 t 11ntio11al rf'ét11des démosraiiliiques 
e professor no l nstiliit cl 'études politiques, o autor reconhecia co mo um fato 
que il "opin ião pública" existe e é um "poder anônimo" qw~ poder<i se 
tornar uma "fo rça polític<i " . Tem o cuidado de es tabelecer " d is linç·ilo entre 
a "op_iniiio públi ca " prop riamente elita e <1 s impl t's "n«1iori a da s o piniõl:S 
1ncl1v1dua1s sobre d e_te rminado te m a" ta l como p oderia ser aprecndidn, p or 
exemplo, por um reterendo: para Sauvy, a "op inião pública" é con~;t it uldri 
pelos votos ele todos os por ta-vozes de grupos mais o u me 11os rcs tri1·os (o 
q ue, _na ép oca, a c iência p olíti ca des ignava p or "g rup os de pressão") que se 
expnmem n ;:i m ídiri (imprensu e rádio). No en t·anto, acrescen l;:i um cri té rio 
supl ementar: é necessário que essas tornadas de posiçã.o, q ue dcvPrn apre-
scnt<H urna cer t<i coerência, n ão obedeçam !>i inplesrncnte iis clivisc1c::; sócio-
polít icas tr a d icionais porqu e, n esse caso, Jevariilm so mc:nt·c c m 
consid eração os deba tes políticos clássicos, g uase parl.1 1ncnta res, q Lt C rno-
b1 li:.:i m mé1is as id1::ologias da cl<1sse política do q 11e as opmiões , e m 1)cirte 
a utonomas, d o público. Se as opiniões expressas pur e:;se!> g rupos mino ri-
--·-------- -----·---
32. A . Sõ1wy, l_'opi11ion p11/Jliqt1e P;iris PUF 1' cd 1956 (Col "Que " is i'e '"J A 7• ~ ' lt - ' - J l _. ' ' 1 • • - ( " • • "' U l fflJ rCC• .1IÇciO e i:Hi\ 
e e 1979, ou <ep, um;i tiragem lOt• I que pode ser avaliad<t ~rn cerca d e '.i0.000 ~xe.n o i)brc· F11,b , 1 ) . • . , . ur, 
esgo tr1c a l J v;inos anos, css~ ldti1na n:t:-diçãCJ não vo ltou a ~~· r 11npn:ssri pcl'-1 t.:d itt:>r'. 
77 
tários não chegam a criaT comple tamente uma "opiniãop ública" artificial 
é p orque esses porta -vozes não podem afirmar qualquer bobagem: ficam 
devendo sua força ao foto de que exp rimem em público opiniões e senti-
mentos individuais que exis tem n os grupos e que eles sabem captar de 
forma intuitiva (no correr de conversações, da observação das diferentes 
reações d a "base", e tc.). N o entanto, Sauvy es tabelece a distinção - embora 
com uma certa confusão que, n a época, traduzia perfeitamen te a ambigüi-
dade da noção - entre "duas opiniões públicas, sendo ·que uma é aberta, 
declarada e a o utra profunda, embora mais diferenciada, (que é) ma is ou 
menos clandestina ou apenas m urmurada " (p. 14). Emanando de uma 
parcela reduzida dos cidad ãos, "a opinião declarada, a té m esm o proclama-
da co1n estardal haço", está dis tante do sufrágio universal e pode diferir da 
"opinião profunda" que só pode ser con.hecida através de métodos espe-
ci ais de investigação. Deplora que, longe de educa r os cidadãos ao in for-
má- los com honestidade, os agi tadores de opinião, que fab ricam as opiniões 
públicas decla radas, age m sobre tudo sobre os sentimentos, o subconsciente 
e o aspecto a fe tivo cio público, em vez da razão. Evocando, sem dúvida, 
sua própria experiência, constata con1 am argu ra g lle "o raciona lis ta, o 
razoável, des truido r de mitos, é sempre tnolv isto (pela opi ni ão p ública)" 
(p. 23). A lém d isso, Sauvy indica gue, pelo fa to de não se apresentar de 
saída, a opin ião püblica pode esta r sujeita a erros de apreciação, a té mesmo, 
d eformações proposita is; isso expli ca que os dirigentes po líticos possam ter 
uma idéia falsa a seu respeito (por exemplo, as cartas recebidas, embora não 
represen tativas de toda a população, podem causar impressão ao político) na 
m edida em qu e, por veze:>, pod e ser até mesmo manipulada (por exemplo, o 
polí tico pode es tar rodeado por representantes de grupos de p ressão cuja 
opinião não é necessariamente a d o público) . Apesar dessas falhas, Sauvy 
reconhece a essa força política uma cer ta utilidade sobretudo porque garanti-
ria, segw1do uma lei quase científica e independen tem ente das von tades 
individuais, i.una resistência passiva diante de políticos precipitados e aven-
tu reiros ("ela garante o equilíbrio, graças à ajuda da benevolente lei dos 
grandes n úrneros"). 
Níls cen to e vinte e sete p áginas desse livro, somente seis são consagra-
d as às sond agens de opinião propriamente ditas. Segundo o autor, es tas 
"não fornecem necessariamente u m conhecilnento da 'opinião pública' tal 
com o é entendida habitualmente" porque, embora os indivíduos p artici-
pem de forma muito desigual da formação da opinião pública d eclarada, 
os institutos de sondagem vão "cons ultar os discretos, os indecisos", "visi-
78 
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tar a velha enfe rma que tem poucas idéias sobre a questão" e vão lhe 
"atribuir, no fina l de con tas, o mesmo peso, a mesma im portância reconhe-
cid.a ª_º técnico e, sobretudo, ao homem confiante em s i e que dispõe d e uma 
op1mao contundente" (p. 40). "O conhecimento da to talidade das opiniões 
presta-se a pesquisas racionais e a cálculos matemá ticos " (p. 44); no entan to, 
é pouco útil do ponto d e v ista p olítico porque tais opiniões permanecem 
precisamen te privadas e d iscretas. Isso não acon tece com a opinião aberta, 
dec~ara da e qualitativa que, pelo fato de ser pública, faz p ar te elo jogo 
polihco. No entanto, s ua avaliação só pod e ser intuitiva; não deve s uperes-
tim~r as opiniões.adversas ou arrugas. Pelo contrário, consagra urnas ci.nqüE:n-
ta paginas (ou seja, quase metade do livro) à apresentação rápida dos "mi tos 
cole tivos" (da "id ade de ouro", "abundância", e tc.) e das g randes correntes 
de op inião, desde o início do século XX (sobre a semana elas "40 horas" , 0 
Estado, os tecnocratas, etc.), a fim de m os trar que a maior parte delas esteve 
na origem de grandes erros p olíticos o u econômicos ("espontânea ou 
dirigida, a opinião p úbl ica en ganou-se estrondosam ente em várias ocasiões 
da história contemporânea") porque a "opinião pública" se encontra, es-
pontanea m ente, do lado dos preconceitos e paixões . No entanto, é necessá -
rio segui-l a, pelo menos parcia lm en te, p orque, nos regimes dem ocráticos, 
os governantes não podem governar sem um m.ínimo de consentim en to 
por parte dos governados ("por s ua própria fo rça, a opinião exige ser 
seguida"). O único prob lema é conJtecê-la com precisão. O autor recomenda 
que não nos limitemo~ ao conhecimento d a opinião dos indivíduos verda-
deiramente interessados p e la questão e qu e podem exprim i-la de forma 
tumultuada; com efei to, se o conhecimento dessa "opinião pública d ecla-
rada" p ermite ao governo avançar sem encontrar as resis tências suscitadas 
por tais indivíduos, a experiência mostra, segundo o autor, gue essa opinião 
fabricada p or guem possui os meios p ara esse efeito defende, muitas vezes, 
interesses p a rticulares e raramente está de acordo com o bem p úblico e 0 
interesse geral. 
Fizemos uma apresentação m ais detalhada desta obra p orque constitui 
uma excelen te formalização teórica da realidade polltica a ntes da introdu-
ção das sondagens de opinião; também porque ai n da deixa aparecer clara -
men te as contrad ições dessa n oção antes que a prá tica das sondagens de 
opinião n ão as dissim ule por trás de uma fa chada erudüa que transformará 
postulados do tipo político em verdades cientificamente indiscutíveis. Com 
efeito, em Sauvy, en contramos ainda a tem ática tradicional gue se instalo u 
desde o final do século XVID: a opinião pública é lUTla força política incontor-
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n?ivel , rn<is cspon.tMH0<111w nle induzid<l e m erro ; os sábios e os go vernantes 
, Je,·en1 1n to Lrn<'i-b r:: esc larecê-1<1 corretamente para q ue evi.te as pai xões e 
i.·nT1~oncc1tos. 1\ história recente nã o predispunha o ;:iu to r ao otim ismo q ue 
cl l J l d il p ,1J [;:i h«1 b1 La r os "filósofos el as Luze.s" : veri f1'ca que o dcscn-
vol\i m ento d;1s técrn cas d e propaga nda e da informação d o Es tad o foi 
coloc;1do sobre tudo a serv iço elos regimes totalitários e que, até mesmo nas 
d cin•x rZ1c1as, <1 (lpin1,ío pública declarada, que se apóia ff\ais ou meno s na 
opi nião pública profunda e acaba por rcforç<1-Ja, é ma l conhecida e, muitas 
\'('Zes, m onopolizada por g r upos de pressão qc1e d ispõenl de importantes 
1nc.:o::: rna ter iais e se mani festam. de fo rma barulhen ta co1n a finalidade de 
ddcndercrn seu s privi légios p artiCLtlares e não o "bem. comurn". Assim, ao 
longo elo )1 \ ·ro , o a ulc' r man ifes ta um certo embar <:lÇO, simultaneamente, 
po lí tico e co tKc ih_r a i cm relação a essa .noção : ni10 pod e aderir v erdadeira-
1Ttenlt' a essa forçil políl icêl fac ilmente Juclib r ia cl<l , ou que se en gana com 
facilidade, sem p oder se pro n un cia r frnnca rnente em favo r de um governo 
cio:> sábios que se ria demasiado elitis té1 e, portanto, dema siado afas tado dos 
vaiores dcin ocráticos; d esej<i que a "op inião pública clcclaracla" seja repre-
scntat ivd do " op in ião profunda" , Ja nwntnnclo ao n:\es m o tempo --· o exe1n-
p iu esco lhido é s ignifica tivo -- qt1e a op in iiío da vdhinba, enferma e 
igno r.1nte, co n te tanto qudn lo a do técn ico experi e n te 
Fsscl v1s5o ren list;:i , rcs ig nnc.fa, pessimista e desenc;mtélda d<i op inião 
p t1b lica {:acompanhada , n a m esm a é poca, po r un1<1 visão norrn<l ti va, t(lm-
bé-111 lr:-,cl ic ion:ii .. cm.bor 01 iT1 2lis otimista e " mct"afís ica", entre os juris tas e 
JilósllfoS do dire ito \e1.T1 pa r ticu lar, entre os professores el e dircilo público) 
<e: q 1.1c e::, ti\ ;1ssocicH.la it iclcologin do " serviço público" e do Es tad o. No artigo 
<.: ''·~ nl e> pd o pubh i ~lil C cor1;es Burdeau sobre ess a noção n a Encyclopaed in 
L 111 ivcrsnl/s (l96t;, vol. L2), º "oprnião púb lic<:l" - pelo m enos a "vc rdad eira", 
is to é , a qw,~ pode ser ace ita razo<1veirnenlc por urna Leori a política da 
clt: rnocrac ia e se r en s rnad::'. n as facu lc1Z1des ele di r e ito aos fut uros "servidores 
.::Í(> f'<;\,1Jo" -- n :io :: (n ão deve ser) uma reivindi cc1ção da qual scp possível 
oh ter u m lwncfíc ic• i IT1cd loto e pcs~~oa l ,. ll'l<:lS "uma exigência d a mente ou 
ck• Uir<v:<io '' Implico ( d e vi,~ implicar) u m " julgamento pessoa l" e u m "es-
h.:·rço ele rc fl ex5o"; é geral •2 p r essu põe u rn <i cer ta dis tân cia ern. relação aos 
sujeitos que lhe es tã o sub n1etidos. É a in tcligêncí<i que deve tornar pzi r ticlo 
1..: n iio ;·, opi1tião d e urn grupo particular. E1n surna, é " o parecer ele um 
2:::pírlto li vre q ue se l iberou elos condicionamentos .sociais" . A "op inião 
:-'c'.!b1 i<-.:<l" ,5,, ~; ujJOstarnente, form.ada no plano do coletivo, entre [;-,divíduos 
d iicientes qlH:, 110 ·<:t'\tanto, estão de acordo n o qlli1dro da mesma atitude: é 
80 
o p onto de vista in telec tua l e rélc1on<íl de indtvíduo c; ' !l lL" 1·1 ;c1 l"·i ' i· ) . , 
' · ' ' · · l o - · ·' ~ \_ l:' 11 \ " l ) l · 
v1.dos diretamente pelo p roblen<él em. questão. 
,1 opini17o públ ica : uma "1hisâo be111fw1d11mc11tada" 
A rápida abordagem h is tórica que ac;:iba1nos d e fél z er p errn ilc apreen-
d er melhor as 11npl1caçõe.:: prop · " - - t· I' · _.. · 
. . , < ·- - 11n111.e11 e p o 1llc<1::; que , ncccssa uan'\E'ntc, se 
d 1ssunularn. por tras da luta pela imp· oc;içaco -1,, -· . ·J [. - · -- ·1 , 
. • L 'º llllld l e llllÇaO r;g1 t'J lllrl . 
~ern;'. te, sobretudo, ver que, nesse cam po, não p ode ex is tir definição "c ic .. n-
t1firn , mas somente uma clefin içao social. O qu e ex iste é: som ente urn 
conjunto, mais ou menos diferenciado ele ·0 gc·1't•'C c·r·11 ]11 t ·1 "]t e - · . 
. . _ , , '" ' ~ .. , • e e l [!l. OCLIJ'i.1111 
impor se u conce ito (em geral c!e form<r interess ildíl ). :l ' " · : - .· 11· " 
. . . _ , - , . ' ' l e op1n1ao p u J 1cíl . 
Ocupando u_n1zi pos1çao ce n tra.! e estra tégica (enq uanto p rincíp io dl~ k:giti -
1md~1el e) no tunCLonamento dos cam pos politicos elo tipo clentocrá tico, ~ssa 
noçao faz parte do regis tro da me tafís ica polí tica e não da ci ên c iil social. Os 
lllShlutos de ciênc ias polític<is semrre fizeram p:·u te 1ntcgra1lle d esse siste-
m a.dos agen tes que pélrticipam dil definição, produção ou rnan ipu laçao ct21 
enttd<icle "011ini'io p1'1bl'ca" ~ b · · · -. < • l. , c m 01a suil p artic1paçao tcnliél perinanecid o 
clL'.ran tc muito tcrnpo menos v isíve l d o que éltuaJn 1e 11 tc . Corn cfeil o, ;itc 0 
inKL~ dos anos 60: os. est'u c~ os sob re <'l opini ão qt1 e e rnrn cfotuacto5 pe los 
especia listas ela _cienoa pol1tica p<i r ti a m d e a lgu m a for m a el a defiruçao ·-
dornrnantc, na e p:ica , el o p on to de v is t;:i s o ci <1l - d <1 opinifl u p Ctb.l ioi· crn 
grande parte, 1noa1am sobre os "grupos d e press5o" e co nsis ti a m rw estudo 
da~ estratég ias dessas niinorias ativns e organizacléis (lo/1/Jir:s) que tentRvam 
rn t luencia r as ins tâ n cias polít icas (Parlamento e gover n o ) a o fo bricRrc:m, 
er~ ~,artJcu_lé~r, por m e io ele ca1np~nhas de imp rensa, 111ovirnentos d e " o p i· 
mao , rn a1s ou n 1enos art1ftoms . 0 1s trngu1arn- .. sc, rn ticlJrnc n i·c. dos e;; tu du,; 
de sociolog u:i e lei tora l que tinharn sua própria t ra cl iç~1 o e, na épric;i , l imiLi .. 
van i.-se estri tamente ao estudo cios cscrutín i.os políticos. 
. E~tafftO S vendo o impor tilnte g olpe ele força s m1bólico que fo i opc radn 
n~e1~uc1~ ,do~ a nos" 6,0 pelo~ age'.lte.s ü;teressa dos na pro1nnçiio da d e finição 
P , do_e rud1ta ele. opmi ao publica tal como a conhecemos atu :i lrnei itc . 
Ate en tao, essa n oção perrnanecia imprecisa em se u con lcúcJo e incert;i e rn 
s~1 aval1aç3o .. _Não_havia u1n<l definiçãeo unf voca e un i versa Jrncnte reconhe-
ci ª.da op1.n1ao publica, mas urn conjunto ele defin içôe.s concorrentes A 
pctrtir dos a11os 70 to rnoL1-s•' · 111· .. ·te e~ - · , · . . .. , . "- e. '" l J,aCJ 'c.o rn. coni:eu cío polít[can1:.::nt;• 
mdiscu tívcl. No momen to em qu2 Jeéln Stoetzel, fundndor do IFOF'. decla: 
tav<1, com uni.a aparente moct~s tia íni1- l<>ct1•ê1 l qlt'' a '"-, .. ,1 .... 1 .. -1,l ·~L't l 1 ) 1· r .. 1" 
- ~ ,. I "- (.'. '- 1-" J ~ :°: \. t ' ~ . _.; erC\) 
81 
no final de contas, a avaliação obbda pelas sondagens de opinião pública
33
, 
limitava-se a reconhecer implicitamente a falta de fundamento científico 
dessa noção, ao mesmo tempo que dava a caução de s ua autoridade 
universitária ao aparecimento ele uma nova crença coletiva: a que trans-
forma os institutos de sondagem nas únicas instâncias com a possibilidade 
de dizer o que é a "opinião pública". 
Aparenten-1ente, todas as concepções anteriores a respeito da opini~o 
pública foram como varridas pela tecnologia das sondagens de op1mao 
que, no final dos anos 60, se impôs definitivamente com seus diverso_s 
satélites (em particular, o marketing político e os conselheiros em comuni-
cação), enquanto, co rrelativamente, os líderes políticos aprendiam ª._se 
servu elas novas rníd ias (rádio e televisão) que, supostamente, iníluenc1a-
vafft a opinião . Depois de ter sido, durante muito tempo, o único instituto 
de sondagem, 0 ffOP assistiu ao aparecimento de concorrentes (a Sofres, 
em 1962, BVA, crn 1970; IPSOS, em 1975; Louis Harris, em 1977; e CSA, em 
1983) cujos diretores era1n, aliás, quase sempre, oriundos da empresa-matriz. 
Atualn
1
entc, urna das características essenciais desse campo de luta reside no 
importante papel que desernpenha aí a pesquisa comercial e no fato ele que 
essa noção é 0 objeto ele uma definição com pretensão científica, codifica~a e 
operando um procedimento específico de pesquisa. A representação polihca 
anterior (simultanei\mente, !iteráriil, imprecisa, intuitiva, qualitativa e, re-
lativamente, inverificável), que tinha sido dominante a té o início dos anos 
70 e pertTútia um certo jogo na apreciação, foi quase totalmente suplantada 
pela representação política dos insti tutos de sondagem. 
A precisão falsamente erudita que, daí em diante, marcou o _conceito de 
opinião pública, nem por isso irnpediu as utiliz,ações ldeologicas mais 
tradicionais. A análise semântica dos discursos de im.prensa mostra com 
abundância que a utilização jornallstico-política dessa n oção continua sen-
do imprecisa e contraditória; além disso, desempenha, d e fato, no discurso 
político, o papel de uma espécie de "operador polivalente": s:gundo o~ 
casos, a "opirnão pública" é urn simples espectador do )Ogo poht1co que, a 
maneira do coro no teatro grego antigo, pontua a ação dos atores com 
gargalhadas o u lágrimas.: ou, então, trata-se de um ator polí tico com plenos 
direitos que d eve ser escutado porque sua vontade, sempre Justa por 
33. Referia-se, de forma 1mplicita, à célebre dcfrnição da "inteligência" dada, no inicio do século, por 
Binet ao dizer que, por convenção, charnava "inteligência" o que era <1vahado pelos lestes que ele 
linha coricebido (o "Qf") . 
82 
''.'l' · .. i c 
. i 
' 
I' 
t 
definição, deve ser respeitada; ou, ainda, trata -se de um ator coletivo de 
segunda categoria que pode ser enganado (ou, até mesmo, que pode se 
enganar); quanto aos políticos -que, supostamen te, representarn a vontade 
popular - não devem se limitar a segui-la, mas têm igualmente com.o 
vocação corrigi-la e educá-la quando ela se engana, etc~' 
O sucesso dessa nova tecnologia sociat que não se limita à França, não 
se deve à ação de uma categoria particular de agentes sociais (cientist<is 
políticos ou profissionais das pesquisas de opinião, ou ainda jornalist<lS, 
etc.). Na realidade, sua expl icação es tá na diferenciação e autonomizaç~ío 
çrescentes dos campos políticos e nos efeitos resultantes daí. A imposição 
da tecnologiadas sondagens de opinião é o resultado de um verdadeiro 
trabalho coletivo de imposição no qual participam, com seus próprios 
interesses, diferentes mas convergentes, um certo nt.'unero de atores que 
fazem parte do campo político-jornalístico e têm um interesse comum na 
produção dessa nova crença: especialistas da sociologia eleitoral que, ao 
seguirem seu pendor ideológico, acabaram transformando os i_nstitutos de 
sondagem em "máquinas destinadas a fazer votar" em permanência, sendo 
que alguns deles saíram do anonimato e tomaram-se "personalidades 
midiáticas" ou diretores científicos, bem remunerados, de institutos de 
sondagem, ou ainda conselheiros importantes dos políticos; diretores dos 
próprios institutos de sondagem q Lte vêem nessa nova prática um mercado 
econômico a ser conquistado; jornalistas que, nessa nov<i técnica, encon-
tram produtos que têm profunda afinidade com a lógica da produção 
jornalística, gue são atraídos por essa avaliação, sin-1.ples e aparentemente 
indiscutível, das correntes de opinião e, além disso, podem anunciar ante-
cipadamente, como um scoop, os resultados prováveis das consultas eleito-
rais; enfim, políticos que utilizam essa técnica para introduzir llm mínimo 
de racionalização no trabalho, sempre incerto, de conquista elos elei tores. 
34. E. Lendowskí, Ln société réfléchie, Pa ris, Ed. du Seuil, 1989, p 21-51. 
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