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Gordon Clark - Predestinação

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PREDESTINAÇÃO 
GORDON H. CLARK 
 
 
 
 
 
 
 
TRADUÇÃO: STÉLIO MIKE 
 
REVISÃO: STÉLIO SALVADOR 
 
Projecto: Cosmovisão Escrituralista 
 
 
 
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Prefácio 
Talvez nenhum ensinamento da Bíblia seja mais odiado do que seu claro e difundido 
ensinamento de que Deus é Todo-Poderoso. A frase “a soberania de Deus” é frequentemente 
usada por pastores e pregadores, e a religião é muito popular na América. Todos falam sobre 
Deus, mas o Deus sobre o qual eles falam não é o Deus da Bíblia, e o que eles querem dizer com 
a frase “a soberania de Deus” tem pouca semelhança com a doutrina Bíblica do poder de Deus. 
Homens pecadores, como Paulo explicou em Romanos 1, não gostam de reter a idéia de Deus em 
suas mentes, então eles tentam suprimir sua idéia inata de Deus fabricando ídolos e substituindo 
aqueles ídolos, que eles chamam de Deus, pelo Deus da Escritura. O ateísmo, a negação directa 
de Deus, é um fenômeno relativamente raro na história do pensamento humano. O que aparece 
em grande escala são as muitas formas de religião falsa. Este devoto ódio religioso de Deus é 
encontrado em todas as culturas e em todos os tempos. Existem dezenas de milhares de falsas 
religiões (seu número é limitado apenas pela imaginação criativa de homens pecadores), e as 
chamadas grandes religiões mundiais - Hinduísmo, Islamismo, Budismo, Catolicismo, Judaísmo 
- são exemplos dessas falsas religiões inventadas por homens (e demônios), a fim de suprimir a 
verdade de Deus e da Escritura. 
Mesmo em muitas igrejas assim chamadas Cristãs, falsas idéias de Deus prevalecem. As Igrejas 
Cristãs nominais ensinam que Deus ama a todos e tem um plano maravilhoso para a sua vida. 
Mas a Bíblia contradiz essa noção de Gênesis ao Apocalipse. “Amei Jacó, mas odiei Esaú”, diz 
Deus tanto no Antigo como no Novo Testamento. (Eu menciono tanto o Antigo como o Novo 
Testamento, pois muitas igrejas falsamente afirmam que o Deus do Velho Testamento é bem 
diferente do Deus do Novo.) Jesus disse sobre Judas Iscariotes que teria sido melhor para ele se 
nunca tivesse sido nascido, por causa do horrível castigo que ele receberia pelos seus pecados. A 
noção de que Deus ama a todos é patentemente falsa. 
A maioria das igrejas rejeitou a doutrina Bíblica de Deus porque Deus não se encaixa em sua 
teologia imaginativa. Deus é todo-poderoso, mas muitas igrejas adoram um deus cujo poder é 
limitado pelo alegado livre arbítrio do homem. Deus é absolutamente justo, mas as igrejas 
adoram um deus que ignora o pecado e aceita homens pecadores como são. Deus sabe todas as 
 
 
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coisas, mas muitas igrejas adoram um deus que é ignorante em relação aos actos futuros dos 
seres humanos. Deus planejou toda a história, em todos os detalhes, mas a maioria das igrejas 
cultua um deus que está valentemente lutando para realizar seus propósitos apesar do curso da 
história. Muitas igrejas adoram um deus que quer que todos sejam saudáveis, felizes e ricos, mas 
Deus escolheu indivíduos específicos para a salvação, e ele não lhes prometeu toda a saúde, 
riqueza ou felicidade deste lado da eternidade. Muitas igrejas adoram um deus ignorante e fraco, 
mas o Deus da Escritura é aquele cujos olhos vêem tudo e cuja mão alcança todos os lugares. Ele 
irá de maneira alguma, como as Escrituras dizem, limpar os culpados - e todos nós somos 
culpados. Assim como Deus não nos criou para o nosso prazer, mas para o seu, ele não redime 
seu povo por causa de suas boas qualidades, mas unicamente por causa de suas boas qualidades. 
Ele é ao mesmo tempo o Criador Todo-Poderoso e Redentor Misericordioso; ele não é um criado 
que atende aos nossos caprichos. 
Neste livro, o Dr. Gordon H. Clark, o maior filósofo Cristão do século XX, apresenta o ensino 
Bíblico da soberania de Deus. Ele começa com a doutrina da criação, uma doutrina sob ataque 
contínuo nos últimos 140 anos pelos homens modernos que não desejam reter Deus em suas 
mentes. Mas Clark vê mais claramente do que muitos Criacionistas que a criação requer 
onipotência, e se alguém acredita na criação, é logicamente obrigado a acreditar na onipotência 
de Deus. Deus é literalmente Todo-Poderoso. Ele pode fazer o que quiser, e ninguém pode dizer 
a ele: O que fazes? 
Muitos livros foram escritos sobre o assunto da predestinação, mas este livro é de longe o mais 
claro e o mais Bíblico dos livros já publicados. Exorto o leitor a estudá-lo com cuidado. Não se 
deixe enganar pela aparente simplicidade do autor ou seu estilo de escrita. Muitos hoje 
confundem confusão com profundidade, e quando encontram um livro livre de confusão, pensam 
que é superficial. Predestinação - tanto a doutrina quanto este livro - não é superficial; é 
profundo e claro. Estude bem. Deus requer que o amemos com todas as nossas mentes, e a 
melhor maneira de começar é estudando o carácter do próprio Deus como Todo-Poderoso. 
 John Robbins 
Abril de 2006 
 
 
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Gordon Clark é uma potência intelectual no campo da 
apologética Cristã, um monte Everest em pessoa. Seus 
leitores nunca se decepcionam com ele no fim da leitura 
de qualquer um de seus livros. 
 Stélio Mike 
 
Gordon H. Clark é um “monstro” de erudição teológica e 
filosófica, é espectacular ver como ele maneja bem a 
palavra da verdade. Seus ensinos evidenciam a 
irracionalidade das cosmovisões anti-bíblicas e exaltam a 
racionalidade Cristã. 
 Stélio Salvador 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Moçambique: Maputo – Cidade 
1ª Edição - 21 de Abril de 2019 
2ª Edição - 13 de Maio de 2019 
 
Projecto: Cosmovisão Escrituralista 
 
Contactos: +258824333272 / +258845307074 
 
Publicado originalmente em inglês sob o título: 
Predestination 
Publicado pela: Trinity Foundation, EUA 
 
Todas as citações bíblicas foram extraídas da 
Versão: João Ferreira de Almeida – Corrigida, Fiel ao texto original 
 
Proibido a reprodução por quaisquer meios, 
salvo em breves citações, com indicação da fonte. 
 
 
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Prefácio 
 
ÍNDICE 
 
Introdução 
 
1. CRIAÇÃO 
Deus criou todas as coisas 
O Significado da criação 
Onipotência 
O Propósito da Criação 
Criação e a Igreja 
O Significado da Glória 
 
2. ONISCIÊNCIA 
Criação, Onipresença, e Providência 
Breve Resumo 
A natureza do conhecimento de Deus 
Stephen Charnock 
Numerosos Detalhes 
 
3. O DECRETO ETERNO E SUA EXECUÇÃO 
Planos e Actos de Deus 
Deus determina Decisões Humanas 
 
4. PREDESTINAÇÃO 
A Salvação é do Senhor 
O Beneplácito de Deus 
Romanos 9 
 
5. REGENERAÇÃO 
A Dádiva de Deus ao seu Filho 
A Pecaminosidade do Pecado 
Uma Nova Vida 
Whitefield e Hutcheson 
Graça Irresistível 
Arminianismo 
Fé 
Arrependimento 
 
 
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6. LIVRE ARBÍTRIO 
Um pouco de Filosofia 
Martinho Lutero 
Apelo às Escrituras 
Escrituras Adicionais 
Versículos Arminianos 
 
EPÍLOGO 
 
APÊNDICE 
Predestinação no Antigo Testamento 
Clark Pinnock e David Clines 
Gêneses 
Êxodo 
Deuteronômio 
Primeiro Samuel 
Segundo Samuel 
Primeiro Reis 
Segundo Crônicas 
Esdras 
Jó 
Salmos 
Provérbios 
Isaías 
Jeremias 
Ezequiel 
Os Cinco Pontos do Calvinismo 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Introdução 
Numa noite, assisti uma grande reunião de tendas em Indianápolis. No meio do sermão, 
enquanto o evangelista aquecia seu assunto, iniciou um ataque à predestinação; ou, para tornar a 
situação clara, pode-se dizer que o evangelista atacou a doutrina Calvinista da predestinação. 
Depois de cerca de dez minutos, ele parecia estar satisfeito por ter feito o que bem entendia. Masele hesitou por um momento. Talvez tenha ocorrido um pensamento fugaz de que, afinal, a 
Bíblia realmente fala de predestinação. Então ele acrescentou: “É claro”, e eu particularmente 
notei o claro, “eu aceito o que a Bíblia ensina sobre a predestinação”. O único problema era que 
ele nunca dava ao seu público o menor indício do que ele achava que a Bíblia ensina. 
Se a Bíblia tem algo a dizer sobre a predestinação, certamente não devemos ignorar essas 
passagens. Mas muitas pessoas ignoram. Elas dizem que a doutrina é controversa e não deve ser 
discutida. Isso é o que um professor da Bíblia disse à sua classe em uma faculdade supostamente 
Cristã: “A predestinação é controversa”. Um dos estudantes era um jovem Búlgaro. Ele queria 
aprender e pregar o Evangelho. Ele ouviu o professor e obedientemente considerou suas palavras. 
Não querendo atrasar seu serviço Cristão, ele tomou uma classe de trabalhadores Búlgaros da 
Escola Dominical em Chicago. Aqui ele poderia ensinar-lhes o Evangelho simples. Mas, para 
sua surpresa, eles o questionaram sobre a predestinação. O jovem pobre – aceitara o conselho do 
professor, nunca havia estudado o assunto e não podia ministrar ao seu povo. 
É estranho também que essa faculdade semi-Cristã, com sua aversão a doutrinas controversas, 
não se importasse em tomar posições insistentes em outras doutrinas que eram igualmente 
controversas entre os Cristãos - igualmente controversas e muito menos importantes. Parece que 
aqueles que condenam a controvérsia denotam impedir que outros disputem suas próprias 
peculiaridades. 
Há, no entanto, mais respeitáveis, menos superficiais, mais acadêmicos Cristãos que emitiram 
avisos sobre o estudo desta doutrina. Um desses senhores era o próprio João Calvino, a quem o 
evangelista não gostava tanto. Nas Institutas, Livro III, xxi, 1-2, Calvino escreveu: 
A discussão da predestinação - um assunto em si intrincado - fica muito perplexa e, portanto, 
perigosa, pela curiosidade humana, a qual nenhuma barreira pode impedi-la de vaguear em 
 
 
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labirintos proibidos, e subir além de sua esfera, como se determinada a não deixar nenhum dos 
segredos divinos sem escrutínio ou inexplorado. Como vemos multidões em toda parte culpadas 
dessa arrogância e presunção... é apropriado adverti-las dos limites de seu dever neste assunto.
1
 
Calvino não explicou quem eram essas pessoas que tentaram não deixar nenhum segredo divino 
sem escrutínio. Sem dúvida tais pessoas existiram em seus dias. Mas no século XX o problema 
oposto atormenta a comunidade Cristã. Há muito poucas pessoas que desejam entender até 
mesmo o ensino Bíblico mais simples. Esta não é uma idade teológica. Alguns escritores dizem 
que é uma era pós-Cristã. O que é necessário hoje é uma exortação para estudar a Bíblia. E 
parece que há menos perigo em estudar a Bíblia do que em ignorá-la. 
De facto, nas próximas linhas, Calvino diz quase a mesma coisa: “Não é razoável que o homem 
examine com impunidade as coisas que o Senhor determinou estarem escondidas em si mesmo... 
O segredo de sua vontade que ele determinou revelar-nos. Ele descobre [divulga] em sua 
Palavra”.2 Não é apenas irracional examinar a vontade oculta de Deus, como diz Calvino; é 
impossível. O conhecimento da predestinação deve ser buscado na vontade revelada de Deus, na 
Palavra e somente na Palavra. Não vamos nos intrometer em outro lugar com essa curiosidade 
que Calvino condena, mas não negligenciemos estudar cuidadosamente o que Deus nos revela e 
pretende que estudemos. 
Calvino também tem algumas palavras para aqueles que fecham os olhos para a revelação de 
Deus: 
Outros, desejosos de remediar este mal [da presunção], farão toda menção da predestinação para 
ser como se estivesse enterrada; eles ensinam os homens a evitar todas as questões concernentes a 
 
1
 Nota do editor: Comparar a tradução das Batalhas: A curiosidade humana torna a discussão da 
predestinação, já um pouco difícil por si só, muito confusa e até perigosa. Nenhuma restrição pode 
impedi-la de perambular em caminhos proibidos e avançar para as alturas. Se permitida, não deixará 
segredo para Deus que não irá procurar e desvendar. Uma vez que vemos tantos em todos os lados 
apressados nesta ousadia e insolência, entre eles certos homens, que de algum modo não são maus, devem 
recordar-se da medida do seu dever a este respeito. 
2
 Nota do editor: Comparar a tradução das Batalhas: Pois não é certo que o homem busque sem restrições 
as coisas que o Senhor quis que se escondessem em si mesmo…. Ele expôs pela sua Palavra os segredos 
de sua vontade que decidiu revelar-nos. 
 
 
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isso, como se fosse um precipício. Seja o que for que seja declarado na Escritura sobre a 
predestinação, devemos ser cautelosos em não negar aos crentes, para que não pareça que os 
defraudamos do favor de seu Deus, ou para reprovar e censurar o Espírito Santo por publicar o 
que seria útil por qualquer meio suprimir. 
3
 
É de notar que Calvino pretendia reprovar aqueles que desejavam especular sobre alguma outra 
base que não fosse a Palavra de Deus. O estudo a seguir irá se manter o mais próximo possível 
da Escritura. O exame de textos Bíblicos preencherá todas as páginas. A Bíblia foi dirigida a 
todas as classes de pessoas. Não se destinava a ser lida apenas por sacerdotes ou acadêmicos. A 
Epístola de Paulo aos Romanos, que é justamente considerada um tanto difícil, foi dirigida a 
“Todos os que estão em Roma, amados por Deus, chamados a ser santos”. Muitas dessas pessoas 
eram escravas. Sem dúvida, a maioria dos Cristãos em Roma vinha das classes mais baixas. Eles 
não tinham um ensino médio. Alguns deles não sabiam ler nem escrever. Mas Paulo esperava 
que eles, se não lessem, pelo menos ouvissem a leitura de sua carta. Qualquer um que alertar os 
Cristãos para ficarem longe de qualquer parte das Escrituras viola o endereço da carta de Paulo e 
presume saber melhor do que Deus, o que os Cristãos devem aprender. 
Um estudo da Bíblia mostrará que a predestinação não é uma doutrina obscura ou raramente 
mencionada. Ela permeia a Bíblia e acaba sendo muito fundamental. Em muitos lugares onde a 
palavra em si não é usada, a ideia está presente. Este é um dos pontos a ser produzido pelo 
seguinte exame cuidadoso de muitas passagens. Por exemplo, este estudo começará com o 
primeiro verso de Gênesis. Fala de criação. Predestinação não é mencionada. Mas o tipo de 
criação descrito neste primeiro verso e outros versículos que falam sobre o acto de criação de 
Deus não poderia ter ocorrido sem predestinação e intenção divina. 
Devemos tratar o assunto com cuidado? Bem, claro que devemos. A Confissão de Westminster, 
que define a doutrina presbiteriana, diz no capítulo III, seção VIII, 
 
3
 Nota do editor: Compare a tradução das Batalhas: Há outros que, desejando curar esse mal, exigem que 
todas as menções de predestinação estejam enterradas; na verdade, eles ensinam-nos a evitar qualquer 
questão, como um recife…. Portanto, devemos nos precaver contra privar os crentes de qualquer coisa 
revelada sobre a predestinação nas Escrituras, para que não pareçamos perversamente defraudá-los da 
bênção de seu Deus ou acusar e zombar o Espírito Santo por ter publicado o que é de alguma forma 
lucrativo suprimir. 
 
 
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A doutrina deste alto mistério da predestinação deve ser tratada com especial prudência e 
cuidado, para que os homens atendendo a vontade de Deus revelada em sua Palavra, e 
obedecendo, possam, a partir da certeza de sua vocação eficaz, ter a certeza de sua 
eleição eterna... Mas, evitar a doutrina, não é tratá-lacom cuidado. Evitar a doutrina é 
minar a garantia de salvação do Cristão e diminuir a glória de Deus. 
Manuseie com cuidado; somente lide com isso pelo comando de Deus. Alguns pensam que 
podem acrescentar à doutrina, material da experiência humana e descobrir os segredos que Deus 
não revelou; deixe-nos, por outro lado, não pensar que a Escritura é particularmente limitada e 
estreita. Deus de facto revelou muito. Não devemos tomar cada verso isoladamente e nos 
restringirmos a pedaços desarticulados de informação dispersa. Devemos comparar as Escrituras 
com as Escrituras. O que não é claro ou completo em um verso pode ser mais claro ou pode ser 
completado em outro. Nós devemos inferir e deduzir. Se a Bíblia ensina que Davi foi rei de 
Israel, e se ensina também que Salomão foi filho de Davi, podemos legitimamente inferir que 
Salomão foi filho de um rei de Israel. Sem dúvida, devemos evitar juntar dois e dois e ganhar 
cinco, mas não damos a Deus nenhuma honra se nunca conseguirmos nem três. A Confissão de 
Westminster, citada logo acima, diz no capítulo 1, seção VI, “Todo o conselho de Deus... está 
expressamente estabelecido na Escritura, ou, por boa e necessária dedução pode ser deduzido da 
Escritura”. Todo bom ministro faz isso quando prega um sermão. Sermões não são apenas 
citações de versículos. O bom pastor explica o que o versículo significa e, em sua explicação, usa 
outras passagens que nos ajudarão a entender. Qualquer outra coisa seria insensato. É tolice, 
portanto, quando os falsos mestres tentam nos impedir de examinar os versos sobre a 
predestinação e juntar dois e dois para obter quatro. O que é universalmente feito com outras 
doutrinas não pode ser negado neste caso. 
Agora, não queremos adicionar dois e dois e obter cinco. Mas não é o maior perigo termos 
apenas três? A infinita sabedoria de Deus é muito mais do que podemos entender. Não é apenas a 
sua vontade secreta que está além do nosso alcance, mas também é improvável que qualquer um 
de nós deva ver tudo o que ele revelou para o nosso entendimento. Deus de facto disse que toda a 
Escritura é proveitosa para a doutrina; nada disso está além da compreensão; mas cada um de nós 
perde boa parte disso. Lembre-se de como Jesus repreendeu seus discípulos no caminho de 
 
 
11 
 
Emaús: “Ó néscios, e tardos de coração para crer [em – Nota do tradutor] tudo o que os profetas 
disseram!... E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se 
achava em todas as Escrituras.” (Lucas 24:25). Lembre-se também que, fora do título “Deus de 
Abraão”, Jesus deduziu a doutrina da vida futura que os Saduceus negavam. Quantos de nós teria 
visto essa lição nesse título divino? Deve haver inumeráveis verdades na Bíblia que escapam às 
nossas mentes. Nosso perigo não é encontrar muito, mas encontrar muito pouco. Por outro lado, 
não devemos deixar de lado o estudo, com medo de que tudo seja impossivelmente difícil. Deus 
pretendia que estudássemos a Bíblia. Algumas de suas revelações são muito profundas. Mas 
também há lições fáceis para os escravos Romanos e aqueles que não têm ensino médio. Se Deus 
nos enviou uma carta, vamos lê-la com cuidado. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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1. CRIAÇÃO 
Tal como foi dito em algumas linhas atrás, um estudo da predestinação pode muito bem começar 
com a doutrina da criação. A razão para isso é que todos os actos de Deus reflectem seu carácter 
ou natureza. Uma doutrina Maometana da predestinação seria diferente da doutrina Cristã, 
porque o Islamismo e o Cristianismo têm dois conceitos diferentes de Deus. Agora, o primeiro 
acto de Deus no tempo é sua criação do universo. Quer desejemos pensar na criação de anjos, ou 
meramente do mundo físico e do homem, a criação mostra algo sobre Deus. Isso nos diz algo 
muito importante sobre o tipo de Deus que devemos afirmar. A importância desta informação 
será definitivamente mais percebida a medida em que o estudo prossegue. Assim Gênesis 1 
servirá como um começo. 
Deus criou todas as coisas 
“No princípio, Deus criou os céus e a terra. E criou Deus o homem à sua imagem… ASSIM os 
céus, a terra e todo o seu exército foram acabados.” Essa última frase vem de Gênesis 2:1. 
Nestes versos há duas coisas a serem particularmente notadas. Elas estão realmente nesses versos, 
assim como a vida futura está no título “Deus de Abraão”. Mas que essas duas coisas estão 
realmente nesses versículos, será mais claramente entendido quando forem comparadas com 
outras partes das Escrituras. Por comparação e dedução, os resumos são formados e depois temos 
a doutrina. Agora, as duas coisas nestes primeiros versos em Gênesis são a noção de criação e 
sua aplicação a todas as coisas. 
Como este segundo ponto, o “todas as coisas”, é o mais fácil de entender, nós começaremos com 
ele. Gênesis 1:1 diz que Deus criou os céus e a terra. Isso é muito abrangente. Abrange quase 
todas as coisas, mas não todas: não menciona anjos. Antes de podermos dizer que Deus criou 
absolutamente tudo, será necessário encontrar alguma indicação de que ele criou anjos. Isso terá 
que esperar. Mas a frase “os céus, a terra… e todo o seu exército” certamente pode ser usada 
para cobrir todo o universo físico. Gênesis 1:27 menciona a criação do homem. Gênesis 2:7 dá 
uma descrição mais detalhada desta criação: “E formou o SENHOR Deus o homem do pó da 
terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.” Isso indica 
 
 
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que a criação inclui mais do que o universo físico. Inclui a vida que foi dada ao corpo que havia 
sido formado da poeira. A vida é algo adicional ao pó, terra, argila. Deus é a fonte da vida do 
homem. Esses vários itens são uma boa parte de toda a criação. Eles percorrem um longo 
caminho para mostrar que Deus criou absolutamente tudo. 
Se os itens explicitamente mencionados até agora ainda não são suficientes para a inferência de 
que Deus criou absolutamente tudo, passagens auxiliares, tanto por seus detalhes adicionais 
quanto por sua maior generalidade, não deixarão sobrar dúvidas. Observe atentamente o quanto 
eles assimilam. 
Salmo 89:12: “O norte e o sul tu os criaste.” Isso é um pouco de detalhe, mas só um pouquinho. 
Não se pode ter certeza do que o norte e o sul significam aqui. O norte pode significar Tabor e 
Hermon, e o sul pode significar o Egipto. Mas também caberia no tema do Salmo, com suas 
referências aos céus, supor que o norte significa a região da Estrela do Norte. O versículo 
obviamente quer indicar a grande extensão da criação de Deus, mas talvez o máximo que 
possamos obter desse versículo seja que Deus criou muitas coisas. 
Mais informações podem ser obtidas no Salmo 104:30: “Envias o teu Espírito, e são criados”. O 
versículo 30 deve ser entendido à luz do versículo 24: “Ó SENHOR, quão variadas são as tuas 
obras!” A criação no verso 30 abrange todas as obras de Deus. Especificamente mencionadas são 
os céus, as nuvens, os anjos, a água, a grama, o gado, as árvores, os montes, os pássaros, a Lua, o 
Sol, os leões jovens e as coisas rasteiras inumeráveis: “Envias o teu Espírito, e são criados”. 
De certa forma isso é uma reminiscência de Gênesis 2:7. Assim como Deus soprou nas narinas 
de Adão a respiração ou o espírito da vida, assim também Deus enviou seu Espírito para os 
animais. Algumas pessoas têm medo de dizer que os animais têm alma. Eles não têm apenas 
almas, são almas. Algumas pessoas têm medo de dizer que os animais têm espírito. Mas Gênesis 
6:17 e 7:15, e Salmo 104:29, bem como Eclesiastes 3:21, atribuem espírito aos animais. Animais 
são almas. Eles não são apenas barro. Deus criou vida assim como pedras e lama.É claro que o 
Salmo 104 menciona pedras e lama, ou pelo menos água e colinas. Mas além disso, menciona 
uma coisa que estava faltando em Gênesis, a saber, anjos. Se foi a existência de anjos que nos 
impediu de inferir que Deus criou absolutamente tudo, esse obstáculo agora é removido. 
 
 
14 
 
Talvez alguém possa dizer que o versículo 4, onde os anjos são mencionados, está muito longe 
do versículo 30, onde a criação é mencionada. Realmente não está: Ambos os versos estão no 
mesmo Salmo e um tema é executado por toda parte. Mas, uma vez que até mesmo os melhores 
eruditos cometem erros, uma vez que o restante de nós comete muitos erros, e como devemos 
lidar com a Palavra de Deus com cuidado e cautela, é boa política usar muitos versículos para 
estabelecer uma doutrina. Nenhuma doutrina deve ser baseada em um único texto. 
Em uma ocasião, eu me opus ao que um professor da Bíblia estava dizendo. Eu pensei que ele 
estivesse enganado. Eu argumentei que ele estava construindo seu caso em um único verso. Sua 
resposta foi um pouco aguda: “Quantas vezes,” ele perguntou, “Deus deveria dizer algo para 
torná-lo verdadeiro?” Esse professor da Escola Bíblica, tão mal informado sobre a posição 
histórica Protestante em relação à interpretação, havia perdido completamente o ponto. Deus não 
precisa dizer algo nem uma vez para torná-lo verdadeiro; ele só pode pensar para si mesmo. Mas 
ele tem que dizer algumas coisas várias vezes antes de termos certeza de que temos o seu 
significado. Quando desejamos proclamar a Palavra de Deus publicamente, ou mesmo quando 
queremos decidir uma questão para nós mesmos, devemos ter tantos versos quanto possível. É 
muito fácil entender mal uma afirmação por si só. De facto, como é muito óbvio nas discussões 
sobre a predestinação, é possível entender mal uma combinação de muitos versos sobre o mesmo 
assunto. Não precisamos nos desculpar, portanto, por fazer tantas citações e tratar cada uma com 
cuidado. 
Estávamos falando agora da criação de anjos de Deus e citamos o Salmo 104:4, 30. Existem 
outros versículos; nós não dependemos apenas dessa passagem. O Salmo 148:5 diz: “Louvem o 
nome do SENHOR, pois mandou, e logo foram criados.” Esse “foram” inclue anjos e hostes, Sol, 
Lua e estrelas. O Sol, a Lua e as estrelas talvez tenham sido mencionados com bastante 
frequência agora - se lermos todo o primeiro capítulo de Gênesis e não apenas as poucas linhas 
citadas; mas esta segunda referência aos anjos é uma adição útil. Seria penoso continuar com 
todas as passagens bíblicas que afirmam a criação de Deus do universo físico. Se de facto 
alguém, talvez um estudante universitário Budista ou ignorante que nunca viu uma Bíblia - e um 
número surpreendente de meus alunos em cursos de filosofia nunca viu ou abriu uma Bíblia - 
ainda duvida que isso é o que a Bíblia ensina, deixe-o voltar para Neemias 9:6: “Só tu és 
 
 
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SENHOR; tu fizeste o céu, o céu dos céus, e todo o seu exército, a terra e tudo quanto nela há, os 
mares e tudo quanto neles há, e tu os guardas com vida a todos; e o exército dos céus te adora.” 
Embora deixemos aqui a criação do universo físico, outra referência do Antigo Testamento ao 
universo espiritual de anjos e homens será dada. Mais tarde, algo ao longo da mesma linha será 
visto no Novo Testamento. Mas no Antigo lemos em Isaías 42:5: “Assim diz Deus, o SENHOR, 
que criou os céus... e espraiou a terra... que dá a respiração ao povo que nela está, e o espírito aos 
que andam nela.” Isso se refere principalmente à humanidade. Quanto aos anjos, o Antigo 
Testamento, com exceção dos versos já citados, não é tão explícito quanto o Novo. Mas existem 
referências implícitas à criação de anjos. A visão de Isaías 6 dificilmente faria sentido se os 
serafins não fossem seres criados. Salmo 89:6, onde os “filhos dos poderosos” são anjos “no 
céu”, exalta o Senhor acima de todos eles. Em 1 Reis 22:19, “todo o exército do céu” são seus 
servos em pé ao redor do seu trono, e o Senhor envia um de seus espíritos para causar confusão 
em Acabe. Jó 1:6 retrata “os filhos de Deus” e Satanás com eles permanecendo 
subservientemente diante do Senhor. O Salmo 103:20 diz aos anjos “guardais os seus 
mandamentos”. Passagens semelhantes nas quais se diz que os anjos são usados como 
mensageiros, ministros e servos de Deus, são consistentes com a idéia de que são seres criados; 
Essas funções angélicas dificilmente são consistentes com a idéia de que eles são seres que 
existem independentemente de Deus. 
Todas as referências até agora vieram do Antigo Testamento. Há mais uma antes de irmos ao 
Novo Testamento. Esta é Isaías 45:7: “Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o 
mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas.” Esse é um versículo que muitas pessoas não 
sabem que está na Bíblia. Seu sentimento as choca. Elas pensam que Deus não poderia ter criado 
o mal. Mas isto é precisamente o que a Bíblia diz, e tem uma influência directa na doutrina da 
predestinação. 
Algumas pessoas que não desejam estender o poder de Deus sobre as coisas más, e 
particularmente sobre os males morais, tentam dizer que a palavra mal significa males naturais 
como terramotos e tempestades. A Bíblia de Scofield observa que a palavra hebraica aqui, ra, 
nunca é traduzida como pecado. Isso é verdade. Os editores dessa Bíblia devem ter olhado para 
 
 
16 
 
todos os exemplos de ra no Antigo Testamento e devem ter visto que isso nunca é traduzido 
como pecado na Versão King James. Mas o que a nota não diz é que muitas vezes é traduzida 
como maldade, como em Gênesis 6:5: “E viu o SENHOR que a maldade do homem se 
multiplicara sobre a terra” De facto, ra é traduzida maldade pelo menos cinquenta vezes no 
Antigo Testamento; e refere-se a uma variedade de pecados feios. A Bíblia, portanto, 
explicitamente ensina que Deus cria pecado. Este pode ser um pensamento intragável para 
muitas pessoas. Mas aí está, e todos podem ler por si mesmo. À medida que isso se torna um 
ponto importante na predestinação e constitui uma das principais objecções à doutrina, 
discutiremos isso mais adiante. Mas não deixe ninguém limitar Deus em sua criação. Não há 
nada independente dele. 
Agora chegamos ao Novo Testamento. Até agora, as referências à criação foram detalhadas. O 
escritor mencionou isto, aquilo, e outra coisa que Deus criou. No Novo Testamento, a regra usual 
é não mencionar detalhes, mas fazer afirmações gerais, abrangentes. Uma razão para isso é que o 
Novo Testamento assume a verdade do que é ensinado no Antigo Testamento. Não há 
necessidade de repetir. Algumas pessoas agem como se, ou mesmo afirmam definitivamente, não 
podemos aceitar nada do Antigo Testamento a menos que seja repetido no Novo. O princípio 
correcto, no entanto, é que não devemos descartar nada do Antigo, a menos que seja dito para 
fazê-lo no Novo - como, por exemplo, a lei cerimonial. Agora, o Novo Testamento diz que Deus 
criou todas as coisas. 
Actos 17:24 diz: “Deus que fez o mundo e tudo que nele há”. Efésios 3:9 repete a idéia: “Deus, 
que tudo criou por meio de Jesus Cristo.” É reiterado novamente em Colossenses 1:13-16, “Filho 
do seu amor,… O qual é imagem do Deus invisível,… Porque nele foram criadas todas as coisas 
que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam 
principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele.” Dois outros versos podem ser 
acrescentados, e estes devem ser suficientes. Hebreus 3:4 diz: “o que edificou todas as coisas é 
Deus.” E Hebreus 11:3 diz: “Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram 
criados.” Isso não é suficiente para mostrar que Deus criou todas as coisas? Mas desejamos ser 
muito minuciosose, portanto, acrescentaremos uma pequena seção sobre o significado da 
palavra criar. 
 
 
17 
 
O Significado da Criação 
Os versos já apresentados mostram a extensão universal da actividade criativa de Deus. Já que 
nenhuma coisa existente é excluída, uma vez que o uso repetido de “todas as coisas” não permite 
exceção, visto que não há a menor sugestão de algo existente antes da criação (excepto o próprio 
Deus, claro), segue-se que Deus não fez ou moldou as coisas com materiais pré-existentes. Um 
Carpinteiro pode pegar numa tábua e fazer algo a partir dela; se ele não tem nada para trabalhar, 
não há nada que possa fazer. Mas Deus criou todas as coisas “fora do” nada. Deus simplesmente 
disse: “Haja luz”, e houve luz. 
A idéia Bíblica da criação, portanto, é usar a expressão tradicional, criação “criação ex nihilo” ou 
“fiat”. “Fiat” significa “que seja feito”. Como diz o Salmo 33: 9: “Porque falou, e foi feito”. 
Algumas evidências adicionais da criação ex nihilo são encontradas no verbo criar. Este é um 
verbo que o Antigo Testamento restringe peculiarmente a Deus, e, com certas exceções especiais, 
que dificilmente são exceções a isso, nunca usados para o homem. 
Os teólogos conservadores costumam dizer que a doutrina da criação ex nihilo não pode se 
basear unicamente no significado do verbo criar (bara). Às vezes se diz que Deus “fez” os céus 
e a Terra. Assim também Deus produziu algumas coisas não directamente do nada, mas do pó do 
solo. É claro que Deus primeiro criou o pó da terra, e o Salmo 33:6 diz: “Pela palavra do 
SENHOR foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo espírito da sua boca.” 
Mas se um argumento completo não pode ser baseado no verbo criar, o uso de bara no Antigo 
Testamento certamente acrescenta evidências em favor da criação fiat. O uso em Gênesis já foi 
mostrado. Criação é um método de produção que não utiliza materiais pré-existentes. Deus criou 
“no princípio”. Nada precedeu. 
Mas há versos em que o verbo bara é usado e não se refere à criação original em Gênesis. Por 
exemplo, o Salmo 51:10 diz: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro”. Embora isto não seja 
criação ex nihilo, é, de acordo com o ensino da Escritura, algo que Davi não poderia ter feito por 
si mesmo. Somente Deus pode dar a um pecador um coração limpo. Porque estamos nos 
preparando para um estudo de predestinação, essa ideia é importante e será retomada mais tarde. 
 
 
18 
 
Mas aqui deixe a noção ser enfatizada por apenas uma ou duas referências. Jó 14:4 diz: “Quem 
do imundo tirará o puro? Ninguém” Considere também Ezequiel 36:25-27 “Então aspergirei 
água pura sobre vós… de todos os vossos ídolos vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo... 
e farei que andeis nos meus estatutos”. Estas são coisas que só Deus pode fazer. Daí o verbo 
bara no Salmo 51:10 designa uma acção divina. Três ou quatro versos em Isaías também usam o 
verbo bara para designar uma acção que somente Deus pode fazer. Isaías 4:5 diz: “E criará o 
SENHOR sobre todo o lugar do monte de Sião … uma nuvem de dia e uma fumaça…” Isaías 
57:19 diz: “Eu crio os frutos dos lábios”. E Isaías 65:17 diz: “Eis que eu crio novos céus e nova 
terra… Mas vós folgareis e exultareis perpetuamente no que eu crio; porque eis que crio para 
Jerusalém uma alegria.” 
De um modo ou de outro, esses versículos descrevem acções que somente Deus pode fazer. Isso 
parece inerente ao significado do verbo, mesmo que essas acções não sejam as da criação física 
original no começo. Assim, o uso e o significado do verbo criar acrescenta evidências à doutrina 
da criação fiat ou criação ex nihilo. 
 Diz-se que nem sempre isso é verdade para bara e que às vezes tem um homem como sujeito. À 
primeira vista, isso parece enfraquecer a evidência do carácter peculiar e totalmente singular da 
acção de Deus. Mas, pensando bem, não há muita força nessa objecção. Em Hebraico, existe um 
tipo de conjugação verbal completamente estranha às nossas línguas ocidentais. Estamos 
acostumados com a distinção entre as vozes activa e passiva. Talvez possamos imaginar uma voz 
intermediária como ocorre em grego. Mas o hebraico tem um sistema de seis ou sete diferentes - 
bem, eles não são exactamente vozes, mas são conjuntos de formas. O significado de um verbo 
muda de um conjunto para outro e às vezes muda drasticamente. O verbo bara é assim. Aqui 
estão cinco instâncias. 
Os dois primeiros exemplos estão em Josué 17:15,18: “E disse-lhes Josué: Se tão grande povo és, 
sobe ao bosque, e ali corta [bara], para ti, … as montanhas serão tuas. Ainda que é bosque, 
cortá-lo-ás [bara].” Os próximos dois são achados em Ezequiel 21:19: “Tu, pois, ó filho do 
homem, propõe dois caminhos, por onde venha a espada do rei de Babilônia. Ambos procederão 
de uma mesma terra, e escolhe [bara] um lugar; escolhe-o [bara] no cimo do caminho da 
 
 
19 
 
cidade.” O quinto exemplo é uma tradução diferente daquela em Josué, mas de significado 
semelhante. Ezequiel 23:47 diz: “E a multidão as apedrejará, e as golpeará [bara, cortar] com as 
suas espadas”. 
Esse uso não enfraquece as evidências para a criação fiat, pois alguém pode dizer que o verbo 
bara é realmente dois verbos. O significado reduzido é tão diferente e não relacionado a qualquer 
noção de criação que simplesmente não se relaciona com o assunto. Também deve ser notado, 
por tudo o que possa valer a pena, que este segundo uso de bara na sua “voz” diferente é 
extremamente raro. Não pode estar ligado à doutrina da criação. 
Onipotência 
Agora, por implicação, mesmo uma instância da criação ex nihilo exigiria um exercício de 
onipotência. Nenhum homem pode fazer qualquer coisa, não importa o quão leve, a partir do 
nada. E para a compreensão da predestinação, é necessário entender a onipotência de Deus. O 
fundamento da predestinação está no ser de Deus. Nós devemos saber o que Deus é, qual é o seu 
poder, qual é a sua posição como criador. 
Como uma introdução aos versículos que mencionam explicitamente a onipotência, dois 
versículos de amostra sobre o poder de Deus podem muito bem ser citados. 
Levantai ao alto os vossos olhos, e vede quem criou estas coisas; foi aquele que faz sair o exército 
delas segundo o seu número; ele as chama a todas pelos seus nomes; por causa da grandeza das 
suas forças, e porquanto é forte em poder, nenhuma delas faltará [Isaías 40:26]. 
Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua 
vontade são e foram criadas [Apocalipse 4:11]. 
Não há muito comentário necessário sobre essas duas passagens. O verso de Isaías enfatiza o 
poder de Deus. Por causa de sua força, ele pode controlar o que criou. O versículo do Novo 
Testamento, na tradução alternativa e mais precisa, baseia toda a harmonia do universo na 
soberana vontade de Deus. As coisas são o que são porque Deus as fez assim. Portanto, por esta 
razão, o Senhor é digno de receber glória e honra e poder. 
 
 
20 
 
Embora não haja menção da criação nos versículos seguintes, eles podem ser adicionados aqui 
com o propósito de enfatizar a onipotência de Deus. Para impor sua aliança e assegurar a Abraão 
que ele poderia fazer o que prometeu, Deus disse: “Eu sou o Deus Todo-Poderoso” (Gênesis 
17:1). Há também cinco outras referências em Gênesis à onipotência, como a de Gênesis 28:3, 
“Deus Todo-Poderoso”. Olhando posterior a Gênesis, Deus disse a Moisés: “Eu apareci a 
Abraão… como o Deus Todo-Poderoso” (Êxodo 6:3). Rute 1:20-21 diz: “grande amargura me 
tem dado o Todo-Poderoso… o Todo-Poderoso me tem feito mal.” No livro de Jó, há facilmente 
trinta referências ao Todo-Poderoso. Uma é Jó 40:2: “RESPONDEU mais o SENHOR a Jó, 
dizendo: Porventura o contendercontra o Todo-Poderoso é sabedoria?” 
Volte agora para o Novo Testamento. Apocalipse 1:8 diz: “Eu sou Alfa e o Ômega... diz o 
Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso.” Aqui o uso de Alfa e o Ômega é 
talvez uma afirmação tão boa da onipotência de Deus assim como a palavra Todo-Poderoso em 
si. A frase “Senhor Deus Todo-Poderoso” também é encontrada em Apocalipse 4:8; 11:17; 15:3; 
e 16:7,21,22; e uma frase equivalente ocorre em Apocalipse 16:14 e 19:15. A ideia de 
onipotência não se restringe a instâncias da palavra Todo-Poderoso. Apocalipse 19:6 diz: “o 
Senhor Deus Todo-Poderoso reina.” 
Mais tarde, outros versículos mais explicitamente relacionados à predestinação serão citados para 
mostrar a onipotência de Deus. Não pode haver dúvida sobre o poder de Deus para predestinar. 
A extensão da predestinação terá que ser mostrada através de certos versículos, pois embora 
Deus tivesse o poder de criar uma centena de planetas ao redor do Sol, parece que ele criou 
apenas dez. 
Assim também é possível que Deus de facto não tenha predestinado tudo o que ele poderia ter 
predestinado; mas se isto é assim ou não, deve ser determinado pelo exame de passagens 
pertinentes. Deixamos esta questão aberta no momento. Mas a conclusão é firme: Deus poderia 
predestinar tudo - não há limite para a onipotência. 
 
 
 
 
21 
 
O Propósito da Criação 
Mesmo em igrejas que são centradas na Bíblia, para não mencionar as sinagogas incrédulas de 
Satanás, o propósito da criação é um tópico que recebe pouca ênfase. Talvez as pessoas pensem 
que esse propósito é tão abrangente que não adianta ser específico. Depois que o Pastor em seu 
sermão disse que Deus criou todas as coisas para sua própria glória, tudo o que ele pode fazer é 
sentar ou mudar de assunto. 
O facto de que Deus criou todas as coisas para sua própria glória é realmente um ponto 
importante. Hebreus 2:10 não menciona especificamente o acto de criação, mas diz que todas as 
coisas existem pelo amor de Deus: “dele e por ele, e para ele, são todas as coisas”. Outra 
referência a todas as coisas é encontrada em Romanos 11:36, que diz: “dele e por ele, e para ele, 
são todas as coisas” As palavras “para ele” parecem indicar que Deus é o propósito da criação: 
Não está claro que a criação de alguma forma produz Deus ou que Deus é seu produto final 
evolutivo, mas que é um presente de Deus para si mesmo, por assim dizer: Ele fez para si mesmo, 
ele deu para si mesmo, foi criado “para ele”. Então existe a frase familiar do Salmo 19:1, “Os 
céus declaram a glória de Deus”. Seria tolice argumentar que apenas os céus e não a Terra 
declaram a glória de Deus. Mesmo que não haja aqui nenhuma menção explícita de todas as 
coisas, o sentido tem essa implicação. 
Há referências frequentes a partes da criação que são para a glória de Deus. Algumas a um grau 
maior e outras a um grau menor sugerem que todas as coisas glorificam a Deus. As palavras “por 
causa do seu nome” caracterizam várias dessas referências; por exemplo, “o SENHOR, por causa 
do seu grande nome, não desamparará o seu povo” (1 Samuel 12:22). Mais intimamente 
associado com a ideia de criação é Isaías 43:7: “os que criei para a minha glória.” Esta passagem 
muito instrutiva refere-se a Israel. Menciona como Deus controla e gerencia vários assuntos para 
o bem de Israel; para o bem de Israel, sem dúvida, mas, em última análise, porque esse controle 
exibe o poder e a glória de Deus. 
Existem certas complicações na questão sobre o propósito de Deus na criação. Um propósito 
refere-se a um resultado previsto e pretendido. Isso envolve uma quantidade de conhecimento. 
Não podemos pretender um resultado sobre o qual não sabemos nada. Por outro lado, quanto 
 
 
22 
 
mais sabemos, mais complicados se tornam os nossos propósitos. Portanto, é impossível falar 
muito sobre o propósito de Deus na criação sem dizer algo sobre seu conhecimento. Este assunto 
será discutido no próximo capítulo. 
Com qualquer quantidade de conhecimento, mesmo no caso da humanidade, há propósitos. Um 
estudante universitário quer um diploma porque precisa dele para entrar na faculdade de 
medicina; e ele estuda história e zoologia para obter seu diploma. Assim, ele pretende estudar; 
ele pretende obter seu diploma; ele pretende ir para a faculdade de medicina e se tornar um 
médico mais tarde. Assim também podemos perguntar sobre os propósitos mais imediatos e 
remotos de Deus. 
Até agora, os versos citados tinham a ver com o propósito final de Deus. Outros versículos que 
se baseiam no propósito final de Deus são os seguintes: Apocalipse 1:8, anteriormente citado 
para mostrar a onipotência de Deus, pode igualmente bem e talvez até melhor ser usado para 
apoiar a idéia de que o próprio Deus é o fim de suas próprias acções. O versículo foi: “Eu sou 
Alfa e o Ômega”. O versículo completamente semelhante é Isaías 44:6 “Eu sou o primeiro, e eu 
sou o último”, e as mesmas palavras são encontradas em Isaías 48:12. 
Assim como as palavras primeiro e Alfa indicam o começo ou a causa original, as palavras 
Ômega e último indicam o fim final. Talvez isso seja expresso mais claramente em Provérbios 
16:4: “O SENHOR fez todas as coisas para atender aos seus próprios desígnios”. O apoio 
adicional a essa proposição geral pode ser encontrado nas passagens Bíblicas onde se diz que o 
próprio Deus ou a glória de Deus é o objectivo pretendido e o propósito de algum evento 
particular. 1 Coríntios 11:7 diz que “O homem… é a imagem e glória de Deu”; e Isaías 46:13 diz: 
“estabelecerei em Sião a salvação, e em Israel a minha glória.” Mas se a glória de Deus é o fim 
ou propósito do homem e da igreja, assim também, é o fim de tudo que sustenta o homem e faz a 
igreja possível. Uma vez que a criação do homem é obviamente um passo indispensável na 
formação da igreja, temos uma cadeia de propósitos desde a criação, passando pela igreja, até a 
glória de Deus. 
O que é assim verdade sobre homem e a igreja, também pode ser visto sempre que a Bíblia 
reflecte sobre o propósito das obras da providência de Deus. Assim, Isaías 43:7, citado logo 
 
 
23 
 
acima, onde a referência geral é a Israel colectivamente, destaca cada israelita individualmente e 
assegura a cada um dos santos de Deus, seu amor imutável. Cada pessoa foi criada para a glória 
de Deus. 
Diz-se que as operações de Deus na condução e edificação da igreja são para sua glória, como 
em Isaías 60:21, onde diz: “todos os do teu povo serão justos (…) para que eu seja glorificado”. 
Ver também Isaías 61:3. 
Nestas três passagens, o sentido geral ou colectivo e a aplicação distributiva ou individual estão 
entrelaçados. Com esse entendimento, pode-se referir a Efésios 1:5: “Nos predestinou para filhos 
de adoção…Para louvor e glória da sua graça”. É claro que o assunto principal para o qual tudo 
isso é preparatório é a predestinação; mas aqui o verso é usado apenas para mostrar que a glória 
de Deus, a glória de sua graça, é o propósito da criação. A frase “Quando vier para ser 
glorificado nos seus santos” é encontrada em 2 Tessalonicenses 1:10. Essa noção é frequente no 
Novo Testamento. João 15:8 “Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto.” O apóstolo 
Pedro nos orienta que “Se alguém falar, fale segundo as palavras de Deus… para que em tudo 
Deus seja glorificado”. Há uma longa lista de versos nos quais vários detalhes são para glorificar 
a Deus e, portanto, a criação, pela qual esses detalhes surgem, tem esse propósito. 
Se alguém duvida que os princípios gerais estão implícitos nos exemplos particulares e, portanto, 
se pergunta se o propósito da criação pode ser visto no propósito da igreja, há um verso muito 
interessante que afirmaexactamente isso. 
Criação e a Igreja 
Efésios 3:8-10 diz o seguinte (estude-os cuidadosamente): 
A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por 
meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo, E demonstrar a todos qual seja a 
dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de 
Jesus Cristo; Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus… 
Note, apenas como um passo preliminar, que esta passagem menciona a pregação de Paulo, a 
criação do mundo, e uma certa revelação da sabedoria de Deus para as criaturas celestiais. 
 
 
24 
 
O principal problema exegético dessa passagem, que deve ser resolvido para compreendê-lo 
correctamente, é a identificação do antecedente da cláusula de propósito. Algo aconteceu para 
que a sabedoria de Deus fosse revelada por meio da igreja aos seres celestiais, de acordo com o 
propósito eterno de Deus, que propôs em Cristo Jesus nosso Senhor. O que foi que aconteceu 
com esse propósito? Qual é o antecedente da cláusula do propósito? 
Existem três, e aparentemente apenas três, possíveis antecedentes: a pregação de Paulo poderia 
ter esse propósito; o mistério estava oculto para esse propósito; ou Deus criou o mundo para esse 
propósito. 
A segunda dessas possibilidades é a menos provável. Podemos eliminá-la da consideração 
porque esta interpretação sustentaria que Deus guardou um certo mistério oculto desde o 
princípio para revelá-lo nos tempos do Novo Testamento. O único suporte na redacção dos 
versos para essa interpretação, além do facto de que o evento da ocultação é mencionado antes 
da cláusula de propósito, é a palavra agora. Ao enfatizar a palavra agora, pode-se dizer que o 
mistério ou segredo foi mantido oculto com o propósito de revelá-lo agora. É verdade que a 
posição enfática é dada ao verbo que poderia ser conhecido e, portanto, um contraste com a 
ocultação anterior é apontado. A palavra agora, entretanto, não é particularmente enfática e não 
pode suportar o peso dessa exegese. O fardo é considerável, pois embora seja possível esconder 
algo para revelá-lo em uma data posterior, é mais provável que a revelação seja o propósito da 
pregação de Paulo ou da criação do mundo por Deus. Ocultar é mais ou menos uma ideia 
negativa, e parece razoável esperar algum acontecimento definido e externo que tenha 
acontecido para o propósito declarado aqui. 
 Isso não é negar que existe alguma verdade mínima na noção de que Deus ocultou o mistério 
antes, para revelá-lo mais tarde. Certamente não poderia ter sido revelado mais tarde, se não 
tivesse sido ocultado antes. Mas esta é uma verdade relativamente sem importância, e a 
passagem tem muito mais a dizer. 
Vamos então considerar a próxima possibilidade. A interpretação de que Paulo foi chamado para 
pregar a fim de que a sabedoria de Deus pudesse ser conhecida parece se encaixar muito bem 
com o contexto anterior. 
 
 
25 
 
No versículo 8, Paulo havia acabado de se referir à graça que Deus lhe dera com o propósito de 
pregar o Evangelho aos gentios. A partir desse ponto, a longa e complicada frase continua até o 
final do versículo 13. Ainda mais atrás, no verso 2, a idéia da pregação de Paulo havia sido 
introduzida. Portanto, ninguém pode duvidar que a pregação de Paulo é a idéia principal da 
passagem, ou pelo menos uma das principais idéias. Se o ministério pessoal de Paulo retrocede 
ou não de sua posição central à medida que o parágrafo se aproxima do fim, e que outras idéias 
subordinadas podem ser encontradas nos versículos 9-11, deve, é claro, ser determinado por um 
exame directo. Mas a ideia da pregação de Paulo é sem dúvida proeminente. 
A questão agora é se a pregação de Paulo contem ou não, para o seu propósito declarado, a 
revelação da sabedoria de Deus para os poderes no Céu. É obviamente verdade que o propósito 
da pregação de Paulo foi a de revelar a sabedoria de Deus aos homens na Terra. Este foi o 
propósito de Deus e o propósito de Paulo. Mas foi o propósito de Deus (dificilmente poderia ter 
sido o propósito de Paulo) revelar sua sabedoria aos seres celestiais por meio da pregação de 
Paulo? 
 Alguns bons comentaristas pensam que isso é o que a passagem significa. Charles Hodge é um 
desses comentaristas. Além de sua objecção a outras interpretações, que estudaremos em breve, 
seu argumento positivo é o seguinte: 
O apóstolo está falando de sua conversão e chamada ao apostolado. Para ele foi a graça dada para 
pregar as riquezas insondáveis de Cristo, e para ensinar a todos os homens o plano da redenção, a 
fim de que através da igreja pudesse ser conhecida a multiforme sabedoria de Deus. É somente 
assim que a conexão deste verso com a idéia principal do contexto é preservada. Não é o desígnio 
da criação, mas o desígnio da revelação do mistério da redenção, da qual ele está falando aqui.
4
 
No momento, a única objecção à exegese de Hodge é a noção aparentemente peculiar de que a 
pregação de Paulo na Terra revela a sabedoria de Deus para os poderes no céu. Paulo pregou aos 
homens; ele não pregou a anjos, demônios ou a quem quer que esses poderes possam ser. É certo 
que, na cadeia das intenções divinas e nos propósitos dos propósitos, pode-se dizer que a 
pregação de Paulo e a fundação da igreja revelam a sabedoria de Deus para esses poderes, se 
 
4
 Charles Hodge, Comentário sobre Efésios, 119. 
 
 
26 
 
supormos que Deus direccionou sua atenção para o que estava acontecendo; seria um propósito 
com dois ou três passos removidos. Imediatamente, pareceria mais natural conectar a pregação 
de Paulo com seus efeitos sobre os homens, em vez de anjos ou demônios. 
Não há razão gramatical decisiva para que a pregação de Paulo não possa ser o antecedente da 
cláusula do propósito. A interpretação de Hodge é um significado bastante possível da passagem. 
E, como no caso da noção de ocultação, há pelo menos um mínimo de verdade nisso. Todos os 
propósitos de Deus formam um sistema conectado e, de alguma forma, um evento precedente 
tem para seu propósito qualquer coisa que o suceda. 
 Por outro lado, há uma terceira interpretação, também gramaticalmente possível, que parece ter 
razões mais importantes a seu favor, e que não sofre com as objecções levantadas contra ela. 
Gramaticamente, de facto, essa terceira interpretação não é apenas igualmente boa, mas de certa 
forma preferível; e faz melhor sentido fora da passagem como um todo. 
Quando dizemos que Deus criou o mundo com o propósito de mostrar sua sabedoria múltipla, 
nós conectamos a cláusula do propósito com seu antecedente mais próximo. Como qualquer um 
pode ver, a referência à pregação de Paulo está em várias cláusulas mais antigas. O antecedente 
imediato é a criação, e essa conexão imediata entre a criação e a cláusula do propósito é, nós 
acreditamos, de algum valor na decisão do assunto. Geralmente, é melhor escolher o antecedente 
mais próximo possível. Uma vez que, portanto, a sintaxe é pelo menos um pouco a seu favor, o 
melhor procedimento é examinar objecções contra a sua compreensão. 
As objecções são bem afirmadas por Charles Hodge. A visão de que Deus criou o universo para 
mostrar sua múltipla sabedoria é, como diz Hodge, a visão supralapsariana. Não importa o nome 
teológico técnico no momento. Contra essa visão, Hodge sugere quatro objecções. Primeiro, essa 
passagem é a única passagem nas Escrituras apresentada como afirmando directamente o 
supralapsarianismo; e o supralapsarianismo, diz Hodge, é estranho ao Novo Testamento. Em 
segundo lugar, além de tal consideração doutrinal, essa interpretação impõe uma conexão 
antinaturalsobre as cláusulas. A ideia de criação em Efésios 3:10 é inteiramente subordinada e 
não essencial. Poderia ter sido omitida, diz Hodge, sem afectar materialmente o sentido da 
passagem. Terceiro, o tema da passagem diz respeito a Paulo pregando o Evangelho; somente 
 
 
27 
 
conectando a cláusula do propósito com a pregação de Paulo, a unidade do contexto pode ser 
preservada. E quarto, a palavra agora, em contraste com a ocultação anterior, apoia a referência à 
pregação de Paulo. Foi a pregação de Paulo que pôs fim ao ocultamento do mistério. Essas são as 
quatro objecções de Hodge. 
Vamos considerar primeiro a última. Admitidamente, foi a pregação de Paulo que fundou a 
igreja, e a fundação da igreja tornou conhecida a sabedoria de Deus para os poderes no céu. A 
interpretação supralapsariana não nega que Paulo desempenhou essa parte importante no plano 
eterno de Deus. Mas mesmo assim, a pregação de Paulo não foi a causa imediata da revelação da 
sabedoria de Deus. Foi a existência da igreja que foi a causa imediata. No entanto, a gramática 
nos impede de dizer que a igreja foi fundada para que a sabedoria de Deus seja revelada. É 
verdade que a igreja foi fundada para revelar a sabedoria de Deus, mas isso não é o que o 
versículo diz. Agora, se vários eventos ocorreram, todos levando a esta revelação da sabedoria de 
Deus, incluindo a fundação da igreja, a pregação de Paulo e, claro, a morte e ressurreição de 
Cristo que Paulo pregou, a palavra agora no versículo não pode ser usada para destacar a 
pregação de Paulo em contraste com outros eventos mencionados na passagem. Esta quarta 
objecção é, portanto, pobre. 
Em seguida, a primeira objecção diz que esta é a única passagem alegada como afirmação directa 
do supralapsarianismo, e o supralapsarianismo é estranho ao Novo Testamento. A segunda 
metade desta objecção é um caso de implorar a questão. Se este versículo ensina 
supralapsarianismo, então a doutrina não é estranha ao Novo Testamento. Não devemos presumir 
que a doutrina é estranha ao Novo Testamento e depois determinarmos o que o versículo 
significa. Devemos primeiro determinar o que o versículo significa para descobrirmos se a 
doutrina é ou não estranha ao Novo Testamento. 
Para ter certeza, se esse único versículo fosse de facto o único versículo da Bíblia com 
conotações supralapsarianas, nós estaríamos justificados em considerar alguma suspeita dessa 
interpretação. Hodge não diz explicitamente que este é o único versículo; ele diz que é o único 
versículo alegado como afirmando directamente o supralapsarianismo. 
 
 
28 
 
Bem, na verdade, nem mesmo este versículo afirma directamente toda a visão supralapsariana 
complexa. Poucos versículos nas Escrituras afirmam directamente toda a doutrina principal. Não 
há um versículo, por exemplo, que nos dê a doutrina completa da Trindade. Portanto, devemos 
reconhecer graus de franqueza, afirmações parciais e até fragmentárias de uma doutrina. E com 
este reconhecimento, regularmente reconhecido no desenvolvimento de qualquer doutrina, é 
evidente que este versículo não está sozinho num isolamento suspeito. 
Mais da doutrina completa do supralapsarianismo virá à luz quando no próximo capítulo 
discutirmos sobre o conhecimento de Deus. O ponto principal da presente discussão é se o 
propósito da criação foi ou não tornar conhecida a sabedoria de Deus. Tudo o que é necessário 
neste ponto é evitar a suposição de que esse verso em Efésios não possa significar isso antes de 
examiná-lo. 
Assim, chegamos à segunda objecção. Hodge afirma que a interpretação supralapsariana deste 
versículo impõe uma conexão antinatural sobre as cláusulas. A idéia de criação, disse ele, é 
totalmente não essencial e poderia ter sido omitida sem afectar materialmente o sentido da 
passagem. 
Essa objecção não deixa claro que Hodge não sabe como lidar com a referência à criação? Ele 
afirma que não é essencial, uma chance, observação impensada que não afecta o sentido da 
passagem. Essa escrita descuidada não me parece ser o estilo habitual de Paulo. Por exemplo, em 
Gálatas 1:1 diz: “PAULO, apóstolo (não da parte dos homens, nem por homem algum, mas por 
Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos).” Por que Paulo mencionou que 
Deus havia ressuscitado Jesus Cristo? Se fosse uma observação casual sem conexão lógica com o 
sentido da passagem, uma observação destinada apenas a falar de algum aspecto aleatório da 
glória de Deus, Paulo poderia ter também dito, Deus que criou o universo. Mas é bastante claro 
que Paulo tinha um propósito consciente ao seleccionar a ressurreição em vez da criação. Ele 
queria enfatizar, contra seus detractores, que ele tinha sua autoridade apostólica vinda do próprio 
Jesus. E Jesus pôde pessoalmente dar-lhe essa autoridade porque não estava morto, mas fora 
ressuscitado por Deus. 
 
 
29 
 
Assim, como Paulo escolheu a idéia de ressurreição em Gálatas em vez da idéia de criação, ele 
também escolheu a idéia de criação em Efésios, em vez de ressurreição, porque a idéia de criação 
contribuiu com algum significado para seu pensamento. Certamente a interpretação 
supralapsariana ou teleológica de Efésios 3:10 acomoda a idéia de criação e, ao contrário, uma 
interpretação que não pode encontrar sentido nessas palavras do texto é uma interpretação mais 
pobre. 
A objecção restante é que somente tornando a pregação de Paulo o antecedente da cláusula de 
propósito a unidade do contexto pode ser preservada. O inverso parece ser o caso. Hodge não 
apenas não leva em conta a menção da criação e, assim, diminui a unidade do contexto, mas a 
ênfase adicional no propósito, partindo da criação para o presente, unifica a passagem de maneira 
bastante satisfatória. 
O entendimento supralapsariano ou teleológico da obra de Deus, isto é, o entendimento de que 
Deus trabalha para um propósito, nos permite combinar todas essas três interpretações, inclusive 
a segunda, que em si mesma tem tão pouco em seu favor um pensamento inteligível. Como Deus 
faz tudo com um propósito (e esta verdade será mais clara no próximo capítulo), e visto que tudo 
o que precede no tempo tem, de um modo geral, o propósito de preparar o que se segue, 
podemos dizer que Deus manteve o segredo oculto a fim de revelá-lo agora, e também que Paulo 
pregou para revelá-lo agora. Mas se Deus não tivesse criado o mundo, não teria existido Paulo 
para fazer a pregação, nenhuma igreja pela qual a revelação pudesse ser feita, e nenhum poder 
celestial sobre o qual pudesse imprimir a idéia da multiforme sabedoria de Deus. Somente 
conectando a cláusula de propósito com o antecedente imediato concernente à criação, um 
sentido unificado pode ser obtido da passagem como um todo. Concluímos, portanto, que esse 
foi o propósito da criação. 
O Significado da Glória 
Se foi suficientemente demonstrado agora que o propósito final da criação é a glória de Deus, 
este capítulo pode bem concluir com uma breve declaração sobre o que significa a glória. A 
palavra hebraica no Antigo Testamento e sua tradução grega no Novo às vezes designam a 
excelência interna do que quer que seja dito ter essa glória. 
 
 
30 
 
A palavra hebraica, em seu sentido literal, significa carga ou peso, grandeza ou abundância. Seu 
oposto é o termo leve. O peso de uma coisa é seu valor; uma coisa leve é inútil. Números 21:5 
refere-se ao “pão tão vil”. Isso não significa, como seria em um cenário moderno, que o pão 
estava bem fermentado e devidamente assado de modo que não estivesse pesado ou empapado. 
Isso significa que o pão era tão leve, havia tão pouco dele, que as pessoas estavam 
continuamente famintas. Em 1 Samuel 18:23, Davi pergunta se os servos de Saulconsideravam 
uma coisa leve, uma coisa sem importância, ser genro de um rei. Belsazar em Daniel 5:27 foi 
pesado nas balanças e achado em falta. Como o termo leve tem esses significados depreciativos, 
pesado é a palavra para excelência. 
Esse peso ou glória designa a excelência essencial de algo, pode ser visto em Gênesis 31:1, que 
fala da glória das riquezas; assim é em Ester 5:11. Quando os problemas de Jó vieram sobre ele, 
disse ele que Deus o havia tirado de sua glória (Jó 19: 9). Existem dezenas desses versos. Agora, 
além da excelência interna, a palavra glória pode significar a exibição dessa excelência. O brilho 
do Sol e das estrelas em 1 Coríntios 15:41 não é precisamente sua constituição interior, mas sua 
aparência externa. Ezequiel 1:28 deixa bem claro: “Como o aspecto do arco que aparece na 
nuvem no dia da chuva, assim era o aspecto do resplendor em redor. Este era o aspecto da 
semelhança da glória do SENHOR.” Isaías 6:1-3 é uma passagem mais familiar: “eu vi também 
ao Senhor assentado sobre um alto e sublime trono; e o seu séquito enchia o templo. Serafins 
estavam por cima dele... toda a terra está cheia da sua glória.” Outra passagem é Isaías 60:1-2 
“LEVANTA-TE, resplandece, porque vem a tua luz, e a glória do SENHOR vai nascendo sobre 
ti.” Novamente, existem dúzias de tais versículos (Lucas 2: 9; Actos 22:11; 2 Coríntios 3:7, 18; 2 
Coríntios 4:4, 6; Hebreus 1:3, etc.). 
Não inconsistentes com este uso da palavra glória são as instâncias em João 17:1, 4, 5, “é 
chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que também o teu Filho te glorifique a ti. Eu te 
glorifiquei na Terra… Glorifique-me.” E assim por diante, através deste grande capítulo. 
O propósito, então, da criação será, não a produção da excelência interna e eterna de Deus, mas a 
exibição de sua grandeza aos principados, aos poderes e a meros seres humanos. 
 
 
31 
 
O facto de que existe uma cadeia ou sistema de propósitos não deve ser negado. De facto, esses 
detalhes serão insistidos nos capítulos seguintes. Portanto, é bem verdade dizer que o propósito 
da criação, ou melhor, um propósito da criação, era que Abraão nascesse em Ur e mudasse sua 
família para a Palestina. Mas o propósito, o propósito final, o propósito inclusivo, é mostrar a 
excelência de Deus. Se a excelência de Deus contém conhecimento ou mistérios, então o 
propósito da criação é torná-los conhecidos. Estes são parte da glória de Deus. Se a excelência de 
Deus contém poder, então Deus levantou Faraó com o propósito de mostrar seu poder, não 
precisamente a ele, mas através dele, para que o nome de Deus pudesse ser declarado em toda a 
Terra, como é explicitamente declarado em Êxodo 9:16 e em Romanos 9:17. 
Os múltiplos propósitos subsidiários são todos resumidos e compreendidos em um único 
propósito final, a glória de Deus. É a revelação da excelência de Deus, a revelação do próprio 
Deus. Ele criou o mundo para mostrar sua majestade soberana. Ele é o Alfa e o Ômega, o 
primeiro e o último, o começo e o fim final e último. Somente percebendo a glória e a 
onipotência de Deus pode-se alcançar uma compreensão adequada da predestinação. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
32 
 
2. ONISCIÊNCIA 
Assim como a predestinação não pode ser entendida sem uma apreciação adequada da 
onipotência de Deus, a predestinação não pode ser entendida sem a percepção da onisciência de 
Deus. A razão é que a predestinação se relaciona com os propósitos e intenções de Deus, e estes 
são, por definição, limitados pelo conhecimento. Se você ou eu quisermos comprar uma caixa de 
doces para um amigo, precisamos conhecer o amigo, precisamos saber onde podemos comprá-lo 
e como podemos levá-lo até ele. Certamente, nos assuntos humanos, esse “conhecimento” pode 
não ser conhecimento algum. Nosso amigo pode ter acabado de ser morto em um acidente de 
carro; ou menos trágico, a loja em que pretendíamos comprar o doce pode ter abandonado o 
negócio. Mas com Deus estas surpresas são impossíveis. No primeiro caso, não pode haver 
propósitos sem o suposto conhecimento, e no último caso não pode haver propósito sem 
conhecimento real. Como acabamos de dizer, a predestinação é uma questão de propósito, 
devemos considerar a extensão do conhecimento de Deus. 
No capítulo anterior, onde o objectivo era mostrar que Deus criou todas as coisas, o primeiro 
passo foi indicar que Deus criou aquilo, e em seguida, e assim por diante, até esgotarmos a lista e 
podermos concluir que Deus criou todas as coisas. Aqui também se pode listar os itens que a 
Bíblia diz que Deus conhece e, finalmente, concluir que ele conhece todas as coisas. Este 
procedimento tem algumas vantagens. Eu tinha uma tia devota e humilde que, quando menina, 
servira como missionária aos Mórmons. Anos depois, ela avançou algumas opiniões teológicas 
para seu jovem sobrinho. Deus, disse ela, cuidava das coisas importantes do mundo e até estava 
atento ao trabalho de um jovem missionário; mas Deus não sabe o que estou fazendo na minha 
cozinha, disse ela, pois isso é insignificante demais para ele notar. Sem dúvida, isso era 
humildade; ela não pensava em si mesma mais do que deveria. Mas seu conceito Arminiano de 
Deus estava longe do que a Bíblia ensina. Ela era humilde, mas estava humilhando a Deus 
supondo que ele era tão limitado em sua extensão de atenção, que não podia atender às coisas 
importantes, assim como às coisas sem importância também. Se, deveríamos listar agora as 
coisas que a Bíblia diz que Deus sabe, descobríamos que ele sabe o que as mulheres fazem 
quando estão em suas cozinhas. 
 
 
33 
 
Mas existe uma maneira melhor de proceder, e os detalhes se encaixarão da mesma forma. O 
procedimento será mostrar como a doutrina da criação se relaciona com o conhecimento de Deus 
e como a onipresença e a providência se relacionam. Com essa informação, a natureza do 
conhecimento de Deus pode então ser discutida. 
Criação, onipresença e providência 
Há uma história sobre um visitante da fábrica de automóveis de Henry Ford nos primeiros dias. 
O próprio Sr. Ford escoltou o visitante por toda a parte. Eles pararam um momento para ver um 
capataz trabalhar em algum procedimento interessante. O visitante, com a aprovação óbvia do Sr. 
Ford, fez algumas perguntas ao capataz, que ele respondeu satisfatoriamente. Então o visitante 
perguntou: “Quantas peças separadas são necessárias para completar um carro?” O capataz com 
ligeiro desgosto respondeu que não conseguia pensar em nenhum fragmento de informação mais 
inútil. O Sr. Ford seguiu em frente e disse baixinho: “Existem 927 [ou qualquer que seja o 
número] peças.” 
Se agora um inventor e fabricante humano tem um conhecimento preciso de seu produto, é 
surpreendente que o artífice divino tenha um conhecimento ainda mais preciso do que ele fez? 
Visto que Deus criou todas as coisas, inferimos que Deus tem um conhecimento perfeito de toda 
a sua criação. Embora isso seja tão plausível em si mesmo, não precisamos confiar no Sr. Ford 
para nossa teologia. As analogias às vezes são enganosas e sempre precisamos das Escrituras. Há 
escritura para cobrir este ponto. No Salmo 139:2, 15-16, Davi reconhece que Deus o conhece 
porque Deus o criou. Os versos também têm outras implicações, mas aqui a atenção é 
direccionada para a idéia de que Davi foi feito, formado, especialmente trabalhado, e todos os 
seus membros foram catalogados. Os versos são: 
Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento... Os meus ossos 
não te foram encobertos, quando no oculto fui feito, e entretecido nas profundezas da terra. Os 
teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas;as 
quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia. 
Tome outro verso. O Salmo 104:24 diz: “Ó SENHOR, quão variadas são as tuas obras! Todas as 
coisas fizeste com sabedoria...” A construção das partes do universo é incrivelmente complexa, 
 
 
34 
 
muito mais do que um modelo T Ford. A sabedoria e o conhecimento exibidos nessas múltiplas 
obras estão além da nossa imaginação. A criação é, então, evidência da onisciência de Deus. A 
mesma ideia é encontrada em muitos outros versos. Por exemplo, Provérbios 3:19 diz: “O 
SENHOR, com sabedoria fundou a terra; com entendimento preparou os céus.” Novamente, 
Jeremias 10:12 diz: “Ele fez a terra com o seu poder; ele estabeleceu o mundo com a sua 
sabedoria, e com a sua inteligência estendeu os céus.” Sem dúvida, existem dúzias de tais versos. 
Estes devem ser suficientes para mostrar que a doutrina da criação pressupõe a doutrina da 
onisciência divina. Se alguma tia missionária humilde nega a segunda, ela deve, em coerência, 
negar a primeira. 
Em seguida vem a ideia da onipresença. Pode haver algum versículo na Bíblia que fala apenas da 
onipresença de Deus; mas todos os outros combinam isso com alguma outra doutrina. Portanto, 
em vez de fornecer uma prova separada da primeira, combinaremos onipresença e onisciência 
em um conjunto de referências. Os dois oni vão juntos. 
O profeta Jeremias diz: “Esconder-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? 
Diz o SENHOR. Porventura não encho eu os céus e a terra? Diz o SENHOR.” (23:24). A razão 
pela qual ninguém pode escapar da atenção de Deus é que Deus está em todo lugar. Ele enche o 
céu e a terra. O que está presente para ele, ele sabe. E enquanto o verso menciona apenas seres 
humanos que poderiam querer se esconder dele, a implicação é que Deus sabe tudo porque ele 
está em toda parte. 
Embora muitas vezes dizemos que Deus está em todo lugar no mundo, é melhor dizer que o 
mundo em todo lugar está em Deus. Actos 17:24-28 refere-se à criação, onipresença e, por 
implicação, conhecimento quando diz: “Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, não 
habita em templos feitos por mãos;” e então, quando acrescenta que “nele vivemos, nos 
movemos e temos nosso ser”, podemos inferir que as “todas as coisas” do versículo anterior 
também têm seu ser em Deus. Obviamente, Deus deve saber o que está assim presente para ele 
ou, então, em sua mente. Os bem conhecidos versos do Salmo 139 usam a idéia de onipresença 
para impor uma lição sobre o conhecimento de Deus: “Para onde devo ir do seu Espírito…? Se 
eu faço minha cama no Inferno, você está lá.” Não só no Inferno, mas se eu fritar bacon e ovos 
 
 
35 
 
na cozinha, “até lá sua mão me guiará, e sua mão direita me segurará.” A mesma combinação de 
idéias é encontrada também em Hebreus 4:13: “E não há criatura alguma encoberta diante dele; 
antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar.” 
Assim como a onipresença e criação apoiam a onisciência, o mesmo acontece com a providência. 
A criação e a providência são combinadas em Neemias 9:6, onde próximo à última frase está: 
“Tu os preserva a todos.” Salmo 36:6 diz: “Ó Senhor, Tu preserva homens e animais.” Falando 
particularmente sobre coisas rastejantes e bestas pequenas e grandes, Salmo 104:27 continua: 
“Todos esperam de ti, que lhes dês o seu sustento em tempo oportuno.” Outros versos sobre a 
providência mais tarde serão usados mais estreitamente em conjunção com a predestinação; mas 
aqui apenas um será adicionado agora. Em Mateus 6:32, Jesus diz: “Seu Pai celestial sabe que 
você precisa de todas essas coisas”. 
Este último verso que liga a providência ao conhecimento é o mais apropriado. Como Deus 
poderia exercer providência sobre toda a sua criação, a menos que ele conhecesse tudo? Visto 
que a providência de Deus diz respeito aos detalhes da vida, Deus deve conhecer esses detalhes. 
A palavra providência refere-se ao governo de Deus e ao controle das condições sob as quais o 
homem, a besta e as coisas rastejantes vivem; mas etimologicamente providência é uma questão 
de ver ou conhecer. 
Se o governo do mundo de Deus abrange a distribuição de recompensas eternas e castigo eterno, 
embora nenhum verso seja citado aqui, e se o mérito e o pecado dependem em parte dos 
pensamentos e intenções do coração, isto é, do segredo das motivações dos homens, então esse 
governo depende do conhecimento de Deus sobre os pensamentos mais íntimos dos homens. O 
Apóstolo nos diz que “o Senhor...trará à luz as coisas ocultas das trevas, e manifestará os 
desígnios dos corações” (1Coríntios 4:5). Todas essas considerações reforçam a doutrina da 
onisciência. 
Um exemplo disso é a confissão de Pedro: “SENHOR, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo.” 
(João 21:17). Este verso é particularmente para o ponto. Cristo conhece o coração de Pedro 
porque ele conhece todas as coisas. A condição do amor de Pedro não foi apenas um pouco de 
informação acidental que Jesus teve. Jesus era o Senhor Jeová, Deus, e ele conhecia o amor de 
 
 
36 
 
Pedro porque era onisciente. Com isto pode se assimilar João 2:24-25, “Mas o mesmo Jesus não 
confiava neles, porque a todos conhecia; e não necessitava de que alguém testificasse do homem, 
porque ele bem sabia o que havia no homem.” Estas duas últimas citações são frequentemente 
usadas para provar a divindade de Cristo; mas note que eles o fazem com base no facto de que 
Deus é onisciente. 
Breve Resumo 
As várias considerações agora apresentadas podem ser resumidas e aplicadas por outros 
versículos de aplicação geral. As Escrituras ensinam que Deus é um Deus de conhecimento. As 
palavras de 1 Samuel 2:3 são: “o SENHOR é o Deus de conhecimento, e por ele são as obras 
pesadas na balança”. O Salmo 147:5 diz: “Grande é o Senhor e de grande poder: Seu 
entendimento é infinito”. 
No caso de um leitor pensar que tudo isso significa o óbvio, deve-se notar que alguns ministros e 
teólogos ficaram tão confusos sobre a predestinação que negaram a onisciência. Pode ser que, 
mais tarde, esse leitor seja tentado a supor que há algumas coisas que Deus não sabe e não pode 
saber. Atribuir ignorância a Deus nos permite escapar de algumas objecções à predestinação; 
mas esta fuga custa a soberania, a onisciência, a sabedoria, até mesmo a divindade de Deus. 
Portanto, o propósito de “elaborar o óbvio”, de amontoar o material bíblico sobre o 
conhecimento de Deus, é, impedir qualquer desentendimento desastroso de predestinação. O 
leitor deve perguntar a si mesmo: “O material precedente, mais os detalhes a seguir, não 
mostram total e completamente que Deus sabe tudo?” 
É difícil dizer se as pessoas que têm dificuldade com a predestinação estão mais preocupadas 
com a presciência de Deus sobre os pensamentos e intenções do coração do homem ou com seu 
conhecimento de detalhes não humanos. Estes últimos não são tão importantes para nós como os 
primeiros, mas, no entanto, um parágrafo, pelo menos, deve ser inserido em algum lugar para 
mostrar o conhecimento de Deus de particularidades inanimadas. Um desses itens é o 
conhecimento de Deus das estrelas do céu. Esse conhecimento é mencionado várias vezes na 
Bíblia. Por exemplo, Deus trouxe Abraão ao abismo e disse: “Olha agora para os céus, e conta as 
estrelas, se as podes contar” (Gênesis 15:5). O que Abraão não pôde fazer (pois Jeremias 33:22 
 
 
37 
 
diz: “não se pode contar o exército dos céus”, [pelo homem, pelo menos]) Deus o pode fazer, 
pois ele “conta o número das estrelas, chama-as a todas pelos seus nomes.” (Salmos 147:4). Para 
este verso, acrescente “ele as chama a todas pelos seus nomes; por causa da grandeza das suas 
forças” (Isaías40:26). 
É interessante notar nesta última frase que o conhecimento de Deus parece dependente de seu 
poder. Na próxima subsecção sobre a natureza do conhecimento de Deus, isso será discutido. No 
momento, é suficiente terminar este pequeno resumo concluindo que a Bíblia ensina mais 
claramente que Deus conhece todas as coisas. 
A natureza do conhecimento de Deus 
Na discussão sobre a providência, logo acima, foi dito que etimologicamente a palavra se refere 
a ver as coisas, e mais definitivamente se refere a ver as coisas antes do tempo. João 6:64 diz: 
“Mas há alguns de vós que não crêem. Porque bem sabia Jesus, desde o princípio, quem eram os 
que não criam, e quem era o que o havia de entregar”. A frase “desde o princípio” só pode 
significar a partir do momento que essas pessoas começaram a segui-lo. Ou pode significar desde 
o começo da história do homem. Ou pode significar desde a eternidade, no mesmo sentido em 
que o apóstolo diz: “No princípio era a Palavra”. Uma vez que o Antigo Testamento profetiza 
que Cristo deveria ser traído, parece que esse conhecimento antecedeu o nascimento de Judas. 
Quando comparado com outros versos, este provavelmente significa que Jesus sabia desde toda a 
eternidade. O conhecimento de Deus é eterno. Se o conhecimento de Deus não fosse eterno, ele 
deveria ter aprendido alguma coisa em algum momento. E se ele aprendeu, ele deve ter sido 
ignorante anteriormente. E se ele tinha sido ignorante e aprendeu alguma coisa, por que ele não 
poderia esquecer algumas coisas depois de um tempo? 
Contudo, nem Deus aprende nem esquece. “Eis que não tosquenejará nem dormirá.” (Salmos 
121:4). 1Coríntios 2:11 diz: “Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito 
do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de 
Deus”. Esse verso indica, o que não é surpreendente, que Deus conhece a si mesmo; e se Deus é 
eterno e incriado, auto-existente, então seu conhecimento de si mesmo deve ser eterno. 
 
 
38 
 
A frase que se refere a Deus como “anuncia o fim desde o princípio” (Isaías 46:10), e o versículo 
“Conhecidas são a Deus, desde o princípio do mundo, todas as suas obras.” (Actos 15:18) 
indicam a eternidade do conhecimento divino. Se alguém insistisse que as palavras “desde o 
princípio do mundo” retrocedem o conhecimento de Deus apenas à data da criação, uma resposta 
já foi notável no conhecimento de Deus sobre si mesmo e em sua eterna liberdade da ignorância. 
Outra resposta será dada no início do próximo capítulo. 
Talvez um verso deva ser incluído para mostrar que Deus é eterno. Se ele não fosse eterno, então, 
é claro, seu conhecimento não seria eterno. Agora, a doutrina da criação ex nihilo pressupõe a 
eternidade de Deus, mas um verso especial é: “O alto e sublime, que habita a eternidade” (Isaías 
57:15); como também Gênesis 21:33, “Deus eterno”; Salmos 90:2, “de eternidade a eternidade, 
tu és Deus”; Salmo 102:26-27, “Eles perecerão... mas tu permanecerás, e os teus anos não terão 
fim”; e 1 Timóteo 1:17, “ao Rei dos séculos”. 
O final da última subsecção, teve um versículo ligando o conhecimento de Deus com seu poder. 
Ele sabe porque é onipotente. De facto, existem vários versículos que conectam o conhecimento 
de Deus e seu poder. Isso é esperado se tivermos em mente que Deus e seu poder são eternos. 
Quando ainda não havia nada, e só Deus existia, Deus sabia todas as coisas. Obviamente, esse 
conhecimento saiu ou residiu em si mesmo. Ele não poderia ter derivado de qualquer outra coisa, 
pois não havia mais nada. Era realmente autoconhecimento, pois seu conhecimento do universo 
era seu conhecimento de suas próprias intenções, sua própria mente, seus próprios propósitos e 
decisões. 
Em linguagem filosófica, isso significa que o conhecimento de Deus não é empírico. Ele não 
descobre a verdade. Ele sempre tem a verdade. O ponto é bastante importante e tem importantes 
orientações sobre a predestinação. Vamos dizer de novo por mais um parágrafo. Se Deus é de 
facto como a Bíblia o descreve, com o eterno autoconhecimento pelo qual ele cria e controla 
todos os aspectos do mundo, obviamente o conhecimento de Deus depende de si mesmo e não 
das coisas criadas. O conhecimento de Deus é auto-originado; ele não aprende de nenhuma fonte 
externa. Note que Provérbios 8:22 diz: “O SENHOR me possuiu no princípio de seus caminhos”. 
E a idéia é repetida e reforçada nos versículos seguintes. Isso mostra que Deus não aprendeu 
 
 
39 
 
sobre mim por me observar. Não diz que Deus me conhece desde o começo do meu caminho, 
mas desde o começo do seu caminho. Assim também Isaías 40:13 diz: “Quem guiou o Espírito 
do SENHOR, ou como seu conselheiro o ensinou?” Portanto, Deus é a fonte de sua onisciência. 
Ele não aprende com as coisas: seu conhecimento depende de si mesmo e é tão eterno quanto ele 
é. 
Stephen Charnock 
Existe agora uma maneira mais eficiente de buscar a questão da natureza do conhecimento de 
Deus. Um grande escritor Puritano, Stephen Charnock, escreveu um volume tremendamente 
longo sobre A Existência e Atributos de Deus. Embora seja impossível reproduzir tudo o que ele 
disse sobre o conhecimento de Deus, algumas selecções dos capítulos VIII e IX levarão a 
discussão adiante e, ao mesmo tempo, nos darão um exemplo da teologia Puritana. 
Charnock diz, 
Deus conhece a si mesmo porque seu conhecimento com sua vontade é a causa de todas as outras 
coisas;... ele é a primeira verdade e, portanto, é o objecto de sua compreensão. Visto que ele é 
todo conhecimento, ele tem em si mesmo o mais excelente objecto de conhecimento. Nenhum 
objecto é tão inteligível para Deus como Deus é para si mesmo, pois sua compreensão é sua 
própria essência. 
5
 
Em seguida, algumas páginas depois: 
Deus conhece seu próprio decreto e sua vontade e, portanto, deve conhecer todas as coisas futuras. 
Deus deve saber o que ele decretou para acontecer. Deus deve saber porque ele os desejou. Ele, 
portanto, conhece-os porque sabe o que desejou. O conhecimento de Deus não pode surgir das 
próprias coisas, pois então o conhecimento de Deus teria uma causa sem ele. Assim como Deus 
vê as coisas possíveis nas lentes de seu próprio poder, ele vê as coisas futuras nas lentes de sua 
vontade. 
6
 
Essa citação de Charnock menciona um conhecimento das coisas possíveis. Esta é uma ideia 
adicional que merece uma pequena explicação. Com apenas um conhecimento geral das 
 
5
 Charnock, A Existência e Atributos de Deus. 1873, I, 415. 
6
 Charnock, A Existência e Atributos de Deus. I, 433. 
 
 
40 
 
Escrituras, alguém poderia supor que Deus sabe o que poderia ter feito, mas não fez. Seria 
estranho dizer que Deus conhece os planetas reais ao redor do Sol, mas não conhece que outros 
planetas ele poderia ter criado. Contudo, não nos contentemos com apenas um conhecimento 
geral das Escrituras, o resíduo de uma vaga lembrança da leitura anterior. Romanos 4:17 diz: 
“Deus... chama as coisas que não são como se já fossem” 1 Coríntios 1:28 acrescenta: “Deus 
escolheu as que não são, para aniquilar as que são”. O que Deus chama e escolhe não é 
desconhecido para ele. Assim, ele sabe o que é possível, quer ele seja ou não real. 
Numerosos Detalhes 
Deus também sabe o que é impossível. Desde que ele conhece a si mesmo, ele sabe que não pode 
mentir. Essa “incapacidade” não é um limite para sua onipotência; Significa meramente que tudo 
o que Deus declara é ipso facto verdadeiro. Dizer que Deus pode mentir é tanto um mal-
entendido da natureza de Deus quanto dizer que um triângulo tem apenas dois lados é um mal-
entendido sobre a natureza de um triângulo. 
Parao propósito de estudar a predestinação, pode não ser tão necessário insistir no conhecimento 
de Deus sobre o possível, assim como é, insistir em seu conhecimento do que é ou será real. A 
razão é que a predestinação tem a ver com o que Deus pretende e com os propósitos. Nada do 
qual ele não tem propósito não pode vir a acontecer, porque o mundo é feito de acordo com a 
onisciência divina da presciência. 
Vamos continuar, portanto, a observar como explicitamente e em detalhes as Escrituras afirmam 
o conhecimento de Deus sobre o que é ou será real. Essas duas divisões são encontradas nas 
Escrituras e, na verdade, são encontradas juntas em um verso. Quando o Senhor desafia os ídolos 
e seus fabricantes em Isaías 41:22, ele diz: “anunciem-nos as coisas que hão-de acontecer; 
anunciai-nos as coisas passadas, para que atentemos para elas, e saibamos o fim delas; ou fazei-
nos ouvir as coisas futuras.”. A força do desafio está no facto de que os ídolos não conhecem 
nem o passado nem o futuro, enquanto Deus conhece os dois. 
Quanto às coisas passadas, era necessário que Deus as conhecesse para revelar, por exemplo, os 
estágios da criação e os eventos no Éden a Moisés muitos séculos depois. Nós dificilmente 
 
 
41 
 
poderíamos supor que as circunstâncias do assassinato de Abel por Caim, muito menos os 
sentimentos de Lameque em Gênesis 4:19-24, poderiam ter sido transmitidos de tempos em 
tempos a Moisés. Mas se alguém deveria considerar seriamente essa possibilidade, Deus ainda 
teria que assegurar a Moisés que a tradição oral fosse correcta. Quanto a Gênesis 1:1-25, se 
houvesse alguma tradição, Deus teria que conhecer e revelar esses eventos passados para iniciar 
a tradição. O conhecimento do passado está na base de Eclesiastes 3:15: “O que é, já foi; e o que 
há-de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou.” Outros versículos que afirmam o 
conhecimento de Deus do passado, presente, futuro ou todos os três são: Gênesis 1:18, 21, 25, 31: 
“E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom”. Salmo 50:11 diz: “Conheço todas 
as aves dos montes; e minhas são todas as feras do campo.” Deus conhece todas as acções dos 
homens, pois Jó 31:4 diz: “não vê ele os meus caminhos, e não conta todos os meus passos?” 
Seria tolice supor que Deus conhecia apenas os passos de Jó, e não os de Adão, Paulo, os seus e 
os meus. Mesmo se fosse assim, ainda assim implicaria que Deus preordenou todos os passos de 
Jó; e isso tem um peso considerável na conexão da preordenação com as tragédias. Além de Jó, 
Davi também teria que ser incluído, pois o Salmo 56:8 diz: “Tu contas as minhas vagueações; 
põe as minhas lágrimas no teu odre. Não estão elas no teu livro?” Aqui a Escritura afirma que 
Deus sabia e sabe o que Davi fez; até as lágrimas dele são guardadas na memória divina. Não 
somente Jó e Davi são conhecidos por Deus, mas a loucura de não estender o conhecimento de 
Deus a todos os homens é vista em Provérbios 5:21, “Eis que os caminhos do homem [todos os 
homens] estão perante os olhos do SENHOR, e ele pesa todas as suas veredas.” Deus não é 
ignorante sequer em relação a uma única coisa que qualquer homem faça. Este verso em 
Provérbios é completamente geral e inclui todas as acções dos homens que ainda são futuras para 
nós. 
Da mesma forma, quando o Senhor diz: “os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.” 
(Mateus 10:30), ele implica conhecimento do passado e do futuro. A declaração não se destina a 
ser limitada apenas àqueles judeus que realmente ouviram suas palavras naquele tempo e lugar. 
É uma afirmação perfeitamente geral do conhecimento de Deus de todos os detalhes em todos os 
momentos e em todos os lugares. 
 
 
42 
 
O mesmo é verdade para Lucas 22:11. Jesus sabia que “quando você entrar na cidade, um 
homem te encontrará carregando um cântaro de água ... e ele te mostrará um grande aposento 
mobiliado”. É verdade que em nossa vida quotidiana costumamos dizer: “Vá para a loja e você 
vai encontrar a Sra. Smith no balcão de cosméticos”, sem a nossa alegação de onisciência. Mas 
nossas previsões às vezes falham. A Sra. Smith pode ter sofrido um acidente naquela manhã e 
estar no hospital, em vez de estar no balcão. O stock pode até ter deixado cair sua linha de 
cosméticos e nenhum balcão desse tipo estará lá. Mas a predição de Jesus, como todas as outras 
profecias, muitas vezes feitas com séculos de antecedência, baseia-se no conhecimento de todos 
os detalhes para que não houvesse possibilidade do homem não encontrar um cântaro naquele dia 
ou não enchê-lo de água. Deus sabia não apenas que o jarro e a água estavam disponíveis; ele 
também sabia que o homem escolheria encher o jarro e carregá-lo no tempo e no lugar certo. Ele 
“discerni os pensamentos e intenções do coração” (Hebreus 4:12). “O inferno e a perdição estão 
perante o SENHOR; quanto mais os corações dos filhos dos homens?” (Provérbios 15:11). Deus 
disse a Eliseu e, portanto, deve ter sabido os planos secretos do rei da Síria (2 Reis 6:12). “de 
longe entendes o meu pensamento.” (Salmos 139:2). 
Para mencionar mais detalhes implícitos nos versos anteriores e explicitamente declarados em 
outros, Deus conhece os pecados de todo homem. Em Jó 11:11, Zofar diz: “Porque ele conhece 
aos homens vãos, e vê o vício (iniquidade – Nota do tradutor); e não o terá em consideração”. Se 
alguém sugerir que não podemos aceitar as palavras de Zofar como indubitavelmente verdadeiras, 
pois no final do livro Deus declara que os consoladores de Jó não falaram bem, todavia, Salmo 
14:2-3 diz: “O SENHOR olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum 
que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos e juntamente se fizeram 
imundos: não há quem faça o bem, não há sequer um.” Quando Davi diz: “Limpa-me das faltas 
secretas”, ele insinua que Deus as conhece, pois, caso contrário, Deus não podia limpá-lo. Ele 
conhece esses pecados antes deles serem cometidos. Em Deuteronômio 31:20, 21 Deus diz: 
“introduzirei o meu povo na terra que jurei a seus pais, que mana leite e mel… então se tornará a 
outros deuses, e os servirá, e me irritarão, e anularão a minha aliança… porquanto conheço a sua 
boa imaginação, o que ele faz hoje, antes que o introduza na terra que tenho jurado.” 
 
 
43 
 
O último verso deste capítulo é Gênesis 50:20. Depois que os irmãos de José o venderam como 
escravo e mais tarde o redescobriram como segundo governante do Egipto, e depois que o pai 
deles, Jacó, morreu, ficaram com medo de que José se vingasse deles. José respondeu: “Vós bem 
intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem”. Deus conhecia todos os pecados 
dos irmãos de José, e ele também sabia muito antes de acontecer que o bem resultaria desses 
pecados. 
Será que Deus meramente conhecia esses pecados antes do tempo, ou ele os predestinou e 
preordenou? Toda essa insistência no conhecimento de Deus, o conhecimento de Deus de todas 
as coisas, o conhecimento de Deus de todos os pecados, séculos antes de ocorrerem, desde a 
eternidade de facto, é uma preparação para a compreensão adequada da predestinação. Como 
será visto, alguns que pensam que são estudantes da Bíblia ficam tão confusos com a 
predestinação e as objecções contra essa doutrina dão o passo extremo de negar que Deus é todo 
o conhecimento. Certamente já foi dado o suficiente para excluir um refúgio tão ímpio da 
doutrina bíblica da predestinação. 
No entanto, este refúgio impiedoso tem alguma consistência para isso. Quer Deus pré-ordene ou 
não os actos pecaminosos, este capítulo deixou muito claro que ele conhece esses actos 
pecaminosos desde toda a eternidade. Este conhecimento do futuro não é o mesmo que o alegado 
conhecimentohumano do futuro. Podemos dizer descuidadamente que sabemos que choverá 
amanhã. Nós realmente não sabemos. Podemos ter uma opinião plausível de que vai chover; mas 
visto que nossas opiniões plausíveis estão várias vezes erradas, não podemos dizer que realmente 
sabemos. Mas Deus sabe. Ele não nutre uma opinião meramente plausível que pode se revelar 
equivocada. O que ele sabe sempre acontece. Quando Caim matou Abel, Deus sabia que os 
irmãos de José o venderiam como escravo. Este acto maligno era, portanto, inevitável. Não 
poderia não acontecer. Pré-conhecimento implica inevitabilidade. Se os irmãos de José o 
tivessem matado, como pensaram em fazer, Deus teria se enganado. A venda teve que acontecer. 
Isso significa que Deus preordena os actos pecaminosos? Bem, isso certamente significa que 
esses actos eram certos e determinados desde toda a eternidade. Isso significa que os irmãos não 
poderiam ter feito o contrário. Então quem fez esses actos certos? Os irmãos não podiam ter 
certeza, pois ainda não haviam nascido na época de Caim e Abel. Se Deus não os determinou, 
 
 
44 
 
então deve haver no universo uma força determinante independente de Deus. Você pode escapar 
desta conclusão simplesmente negando que Deus conhece todas as coisas. 
Essa fuga simples é simplesmente uma fuga de Deus e da Bíblia. Os versos seleccionados para 
este capítulo são apenas alguns que poderiam ter sido usados para mostrar que Deus sabe de tudo, 
mas eles são mais que suficientes para sustentar o assunto. Ninguém pode agora negar que a 
Bíblia ensina a onisciência de Deus. Mas, como foi visto apenas no último parágrafo, esses 
versículos geram outras implicações, que com a ajuda de passagens adicionais nos levarão ao 
próximo passo em nosso caminho. Tem a ver com o decreto eterno de Deus. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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3. O DECRETO ETERNO E SUA EXECUÇÃO 
Este capítulo pode muito bem começar repetindo alguns versos citados anteriormente. Actos 
15:17-18 diz: “…Diz o Senhor, que faz todas estas coisas, conhecidas são a Deus, desde o 
princípio do mundo, todas as suas obras.” Em vez disso, a revisão americana de 1901 substitutos, 
“diz o Senhor, que faz com que estas coisas conhecidas desde a antiguidade.” A versão King 
James é baseada no que geralmente pensa-se ser um texto inferior; mas a revisão americana é 
uma tradução duvidosa. Em face desses defeitos, a passagem precisa de um momento de estudo. 
 A ocasião é o Concílio de Jerusalém. Imediatamente antes da reunião, Paulo e Barnabé 
“declararam todas as coisas que Deus havia feito com eles”, principalmente no que diz respeito à 
conversão dos gentios. Quando alguns dos fariseus se opuseram a Paulo, o Concílio reuniu-se e 
Pedro defendeu Paulo. Depois de algum debate geral, Tiago deu a decisão. Ele declara que a 
inclusão dos gentios foi profetizada por Amós. A última frase em Amós é: “diz o Senhor que faz 
isto”; na boca de Tiago, a palavra isto torna-se “estas coisas”. Agora, a revisão americana deve 
estar errada quando diz: “o Senhor faz conhecer essas coisas”. O sentido, como é claro de Amós, 
é que o Senhor “faz” ou realiza essas coisas. Isto é, o Senhor converteu os gentios. Essas coisas, 
no entanto, eram “conhecidas” da antiguidade. A palavra conhecida não é o objecto do verbo 
fazer ou realizar, que na verdade é apenas um particípio; a palavra conhecida é adjectiva para 
essas coisas. Uma tradução literal é: “diz o Senhor fazendo estas coisas, conhecidas da 
antiguidade”. 
Mas quem conhecia essas coisas da antiguidade? Dificilmente Amós. A maioria dos Cristãos que 
viu essas coisas acontecendo não as entenderam. Amós ainda menos. Deus Foi as conheceu. Mas 
dizer que Deus conhecia essas coisas desde tempos antigos, desde os tempos de Moisés, ou 
mesmo desde os tempos Adão, é uma sugestão incongruente. Além de tal referência 
temporalmente limitada, as palavras podem ser igualmente bem traduzidas “desde a eternidade”, 
e é isso que o sentido do verso exige. 
 
 
 
 
46 
 
Os Planos e Actos de Deus 
Este verso, então, diz que Deus planeja e age. Talvez não diz exactamente que Deus planeja. Diz 
apenas que Deus conhece. Mas quem pode negar que Deus planeja? Embora o título do livro seja 
Predestinação, e o objectivo é acumular tantos versos quanto possível, pode ser desculpável não 
inserir aqui uma lista de todas as profecias registadas no Antigo Testamento. Qualquer um pode 
pensar em uma dúzia deles. Muitas profecias dizem explicitamente que Deus fará isto ou aquilo. 
Em um lugar, Deus disse a Abraão: “Eis que te farei frutificar e multiplicar, e tornar-te-ei uma 
multidão de povos”. Em um capítulo anterior, Deus prediz a escravidão dos israelitas no Egipto e 
diz: “aquela nação a quem eles servirão, Eu vou julgar.” Em ambos lugares, Deus declara seu 
plano e propósito. Não é apenas uma previsão de que algo vai acontecer de alguma forma, mas 
uma afirmação de que Deus fará isso. Portanto, Deus planeja esses eventos. O que está explícito 
aqui está implícito em todas as profecias. Todas elas significam que Deus age e planeja o que ele 
fará. E então ele faz isso. Deus planeja e age. 
No século XVIII, uma forma de religião chamada Deísmo foi popular. Os Deístas acreditavam 
em deus, uma espécie de deus que não fazia nada. Ele pode ter criado o mundo no começo, mas 
depois se sentou e deixou a natureza e a história progredirem sob suas próprias leis e forças. 
Milagres nunca aconteceram; a oração era inútil; intervenção divina era impossível. O Deísmo 
como um movimento se desintegrou no século XIX; mas suas variedades, chamadas por outros 
nomes, continuam a existir. Entre aqueles que aceitam boa parte da Bíblia, que aceitam milagres 
e a ressurreição, uma forma de Deísmo persiste na noção de que, mesmo que Deus saiba todas as 
coisas, ainda assim ele não faz nem causa todas as coisas. Por exemplo, Deus talvez soubesse 
que Judas Iscariotes trairia Cristo, mas ele não causou nem predestinou Judas a fazê-lo. Ele 
apenas se sentou e deixou Judas seguir suas próprias leis e inclinações. Mas esta visão deísta da 
causalidade divina é bíblica? Deve-se agora perguntar: que limites, se há algum, a Bíblia impõe à 
actividade de Deus? 
Para listar os exemplos da actividade de Deus enumerando tudo o que ele fez exigiria a repetição 
de toda a Bíblia. Deus criou o mundo; ele criou Adão; ele formou Eva a partir da costela de Adão; 
ele os expulsou do jardim do Éden; e ele enviou o dilúvio. Obviamente, uma enumeração nos 
 
 
47 
 
levaria desde o Gênesis até o Apocalipse. Mas a partir dessa grande massa de material, certos 
pontos importantes podem ser escolhidos para nos dar uma compreensão adequada da esfera da 
actividade de Deus. Queremos saber se Deus fez ou não todas essas coisas deliberadamente e de 
propósito. Ou, em vez de agir, ele simplesmente reagiu á algumas interrupções inesperadas e 
desagradáveis? Qual é a extensão do seu plano e a extensão da sua execução? Primeiro, algumas 
passagens do Antigo Testamento serão seleccionadas e, posteriormente, algumas passagens do 
Novo Testamento. 
As quatro primeiras referências são muito gerais no escopo. As duas primeiras não são apenas 
idênticas em pensamento; elas são quase idênticas no texto. O Salmo 115:3 diz: “o nosso Deus 
está nos céus; fez tudo o que lhe agradou.” E o Salmo 135:6 diz: “Tudo o que o SENHOR quis, 
fez, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos.” 
Ninguém fica surpreso em ouvir que o Senhor se agradou de libertar os filhos de Israel do Egipto, 
e assim fez. Mas pode-se, a princípio, surpreender-se ao ouvir que agradou ao Senhor escravizar 
aquelas pessoas por dois séculos ou mais,antes de libertá-las. Mas visto que o Senhor faz o que 
lhe agrada, segue-se inexoravelmente que não lhe agrada impedir a escravidão ou libertar da 
escravidão mais cedo. Tome qualquer exemplo que lhe venha à mente: a destruição de Jerusalém 
em 588 a.C., a destruição de Jerusalém em 70 d.C., o saque de Roma em 410 d.C., as guerras de 
Napoleão, Guilherme II e Hitler. Se Deus tivesse desejado, estas coisas não teriam acontecido, 
pois Deus faz tudo o que lhe agrada. No mínimo, devemos dizer que Deus se agradou em deixar 
a história ocorrer como ocorreu. 
Mas podemos dizer mais. A referência seguinte não apenas repete a ideia anterior, como também 
a acrescenta. É um verso, parte do qual já foi citado. Isaías 46:10 diz: “Que anuncio o fim desde 
o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho 
será firme, e farei toda a minha vontade.” A primeira frase sobre o fim desde princípio reflecte 
sobre a eternidade do conhecimento de Deus. Isso não precisa de mais ênfase. A frase “meu 
conselho será firme” contém uma idéia que precisa ser enfatizada nesse ponto. Quão extenso é o 
conselho de Deus? Conselho significa projecto ou plano. O que esse projecto ou propósito inclui? 
Alguma coisa foge disso? Aqui a seção sobre onisciência deve ser lembrada. Deus sabe tudo. Ele 
 
 
48 
 
pode, se for para prover cada animal e coisa rasteira. Ele pode, se for para levar a efeito as muitas 
profecias registadas. Uma mudança de dinastia era necessária para escravizar os israelitas no 
Egipto. Judas e Pôncio Pilatos tiveram que nascer em certo século e, portanto, seus pais tiveram 
que se casar em um determinado momento; e para isso muitas outras condições tinham que ser 
satisfeitas, e essas condições dependiam de eventos mais remotos. O cumprimento de qualquer 
profecia requer o controle de todo o universo, para que algo não impeça sua ocorrência. Quando, 
então, Deus diz: “Meu conselho será firme”, ele afirma controle onisciente e onipotente. Esse é o 
prazer dele. Ele organizou as coisas assim. Ele não apenas olhou para frente e viu o que 
aconteceria independentemente dele. Nada é independente dele. Ele criou todas as coisas. Assim, 
o curso da história do passado em direcção as coisas que ainda não foram feitas são partes do 
plano de Deus; e Deus, declarando o fim desde o princípio, diz: Meu conselho, meu plano, meu 
decreto será firme, e farei toda a minha vontade. Nada que Deus quer que seja feito é deixado 
sem ser feito. Se Deus não quisesse Jerusalém destruída, ele teria impedido. Claramente que ele 
queria que fosse destruída. 
O último desses quatro versos é igualmente geral no escopo, igualmente decisivo em clareza e 
um pouco mais explícito. Daniel 4:35 diz: “E todos os moradores da terra são reputados em nada, 
e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem 
possa estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazes?” 
A primeira frase desse versículo mostra que os desejos e as preferências humanas não podem ser 
impelidos como objecções às intenções de Deus. Não só os desejos do Faraó eram irrelevantes 
para a fuga dos israelitas, mas as esperanças piedosas de Jeremias não podiam impedir que Deus 
destruísse Jerusalém. É verdade, e a verdade é importante, que Deus usa os homens em seus 
planos. Deus usou Jeremias; mas ele o usou para aumentar a culpa dos reis perversos e dos falsos 
profetas. No entanto, Jeremias em si mesmo e todos os habitantes da Terra juntos são reputados 
em nada. O mundo e o curso da história não foram planejados para eles, mas para a glória de 
Deus. Visto que isto é assim, e por causa de sua onipotência, Deus faz de acordo com sua 
vontade e decreta tanto no Céu quanto na Terra; e ninguém pode estorvar a sua mão. Porque 
Deus quis destruir Jerusalém e decretou derrubar o Império Romano, nenhuma energia imperial e 
militar poderia segurar sua mão. Pela decisão de Deus, era inevitável, inevitável, inevitável, 
 
 
49 
 
necessário e irresistível que os bárbaros mergulhassem a Europa num período de Idade das 
Trevas, e que não apenas Belsazar, mas vários presidentes dos Estados Unidos também deveriam 
ser assassinados. Algumas pessoas podem não gostar de tudo isso, mas ninguém pode estorvar a 
mão de Deus nem se queixar dizendo: O que fazes? 
Estes versos foram completamente gerais no escopo. Deus controla tudo. Ele faz o que quiser. Os 
próximos dois versos apontam particularmente para um único evento, mas de tal forma que o 
escopo universal da acção de Deus é esclarecido. O primeiro deles também é de Daniel. Daniel 
11:36 diz: “E este rei… falará coisas espantosas, e será próspero, até que a ira se complete; 
porque aquilo que está determinado será feito.” Esse versículo se refere a um rei iníquo que deve 
prosperar por um tempo, “até que a ira se complete”. Então, um evento em particular, 
presumivelmente incluindo a destruição deste rei, deve ocorrer. Este evento foi predeterminado e 
é por isso que sua ocorrência é certa. O evento é um evento particular e individual, mas sua 
certeza é baseada no princípio de que tudo o que for determinado deve ser feito. 
O segundo verso refere-se a um evento diferente, mas as implicações são idênticas. Jó 23:13-14 
diz: “O que a sua alma quiser, isso fará. Porque cumprirá o que está ordenado a meu respeito, e 
muitas coisas como estas ainda tem consigo.” Aqui Jó reconhece que Deus não pode ser 
desviado da série de eventos que ele planejou. Tudo o que Deus deseja, isso ele faz. Isso pode 
significar que Jó deve sofrer, pois Deus fará a Jó o que Deus designou ou decretou para Jó. 
Assim como em Daniel, a certeza do evento particular depende do facto de que Deus determinou 
isso. Este princípio não se aplica mais ao evento que Jó tem em mente ou ao evento que Daniel 
tem em mente do que se aplica a todo evento do começo ao fim. 
Deus Determina Decisões Humanas 
O material acima mostra claramente que Deus planeja, decreta e controla todos os eventos. O 
mundo prossegue como Deus deseja. Este princípio geral é logicamente suficiente para justificar 
a predestinação. Mas a ênfase em um tipo de evento parece psicologicamente necessária. O 
problema é que algumas pessoas admitem que Deus controla grandes tendências históricas e, ao 
mesmo tempo, não entendem que isso requer o controle das decisões humanas. Essa loucura 
lógica leva essas pessoas a negarem que Deus decreta e causa cada escolha individual. Mas a 
 
 
50 
 
Bíblia não é apenas explícita; seus exemplos são numerosos. Primeiro, alguns versos do Antigo 
Testamento serão citados. Deuteronômio 2:30 diz: “Mas Siom, rei de Hesbom, não nos quis 
deixar passar por sua terra, porquanto o SENHOR teu Deus endurecera o seu espírito, e fizera 
obstinado o seu coração para to dar na tua mão, como hoje se vê.” Mas espere um minuto. 
Alguém, lendo os versículos anteriores, pode desejar observar que Deus não causa os eventos a 
que se refere, mas que ele simplesmente permite que eles aconteçam. Tal observação ignora a 
onipotência e soberania de Deus. Pressupõe que existe alguma força no universo independente de 
Deus; sem dúvida, Deus poderia neutralizar essa força, mas ele não o faz; e a força ou agente 
causa algum evento completamente à parte da causação de Deus. Agora, é verdade que Daniel 
11:36 não diz explicitamente que foi Deus quem determinou o que deveria ser feito. Todavia, 
quem mais poderia? Também é verdade que Isaías não diz explicitamente que Deus faz tudo: 
Isaías apenas diz que Deus faz tudo o que ele quer. Assim também, quando Jó 23:13-14 diz que 
“cumprirá o que está ordenado a meu respeito”, não há nenhuma afirmação explícita de que Deus 
ordena e faz tudo para todos. Mas como poderia ser de outraforma, se os versos se encaixam no 
argumento geral de seu contexto? 
O que incomoda certos Cristãos é a ideia de que Deus causa maus eventos. Alguns Cristãos até 
querem retirar alguns bons eventos do poder de Deus. Quando o Dr. Billy Graham pregou em 
Indianápolis, fui ouvi-lo. Perto do final do culto, ele pediu às pessoas que se apresentassem e 
uma multidão chegou. Com eles, diante de si, o evangelista Graham dirigiu-se ao grande público 
ainda em seus assentos e proferiu uma diatribe de cinco ou dez minutos contra o 
Presbiterianismo. Não ore por essas pessoas que se apresentaram, ele disse. Você pode ter orado 
por eles antes, e isso é bom. Você pode orar por eles mais tarde, e isso também será bom. Mas 
agora a oração é inútil, pois nem mesmo Deus pode ajudá-las. Elas devem aceitar a Cristo por 
vontade própria, por si mesmas, e Deus não tem poder sobre a vontade do homem. Claro, isso é 
um Arminianismo completo. Mas a maioria dos Cristãos está mais preocupada com a 
possibilidade de que Deus cause eventos malignos. 
O primeiro verso desta subsecção diz explicitamente que Deus endureceu o coração de Siom, rei 
de Hesbom. Talvez o faraó devesse ter sido usado para esse ponto. Quando Faraó é mencionado, 
algumas pessoas admitem relutantemente que a Bíblia diz que Deus endureceu seu coração, mas 
 
 
51 
 
retornam rapidamente dizendo que a Bíblia também diz que Faraó endureceu seu próprio coração. 
Isso, no entanto, não é muito eficaz como uma resposta. É verdade que Deus frequentemente age 
através de instrumentos humanos. A questão importante, portanto, é se Deus é ou não a causa 
desses instrumentos. Agora, no livro de Êxodo, o endurecimento do coração de Faraó é 
mencionado dezoito vezes, mais um verso que se aplica aos egípcios em geral. Êxodo 4:21; 7: 3, 
13; 9:12; 10:1, 20, 27; 11:10; 14: 4, 8 todos dizem que o Senhor endureceu o coração de Faraó. 
O verso extra diz que o Senhor endureceu o coração dos egípcios (Êxodo 14:17). Isso é onze 
vezes de dezanove vezes. Em Êxodo 7:14, 22; 8:19; 9: 7, 35 nenhuma menção explícita de quem 
endureceu o coração de Faraó é feita. Isso são cinco vezes. Os outros versículos, três em número, 
8:15, 32 e 9:34, dizem que Faraó endureceu seu coração. Quem, então, em face de onze 
declarações de que o Senhor endureceu o coração de Faraó, pode negar que Deus é a causa desse 
endurecimento? Não só essa afirmação é feita três vezes com mais frequência; mas é feita três 
vezes antes que a outra declaração seja feita uma vez. Afinal, quem dirige assuntos do Egipto, 
Faraó ou Deus? Naturalmente, o Faraó também endureceu seu próprio coração, pois Deus 
frequentemente usa instrumentalidades humanas em certas situações. Mas a causa última, 
original e primeira é Deus. 
Agora, após esta digressão sobre o caso paralelo do faraó, podemos voltar ao caso menos 
conhecido de Siom, rei de Hesbom, cujo espírito o Senhor fez obstinado com o propósito de 
entregá-lo nas mãos de Moisés. Podemos, de facto, retornar ao verso, Deuteronômio 2:30, mas 
dificilmente podemos dizer mais alguma coisa, excepto que não há nenhuma afirmação de que 
Siom endureceu seu próprio coração. A conclusão imediata, portanto, é que o endurecimento dos 
corações humanos está dentro do escopo da actividade divina. 
Mais adiante na Bíblia 1 Samuel 16:14 diz: “E o Espírito do SENHOR se retirou de Saul, e 
atormentava-o um espírito mau da parte do SENHOR”. Este versículo indica que as políticas, 
vitórias e sucessos anteriores de Saul, na unificação de Israel foram realizados através do 
Espírito do Senhor. O Espírito Santo lhe dera sabedoria e força. Agora o Espírito Santo deixou 
Saul. No momento, nenhum questionamento será feito sobre a questão se Saul foi regenerado e, 
desse ponto, desgenerado. O Espírito Santo pode habitar com um homem, especialmente um rei 
de Israel divinamente escolhido, com vários resultados. O que está claro aqui é que o Senhor 
 
 
52 
 
enviou um espírito à Saul para perturbá-lo ou aterrorizá-lo. O facto de que essa não é uma 
ocorrência totalmente singular será visto na próxima passagem. Em 1 Reis 22:20-23 o autor 
inspirado escreve: “E disse o SENHOR: Quem induzirá Acabe, para que suba, e caia em Ramote 
de Gileade? … Então saiu um espírito, e se apresentou diante do SENHOR, e disse: Eu o 
induzirei…Eu sairei, e serei um espírito de mentira na boca de todos os seus profetas. E ele disse: 
[o Senhor] Tu o induzirás, e ainda prevalecerás; sai e faze assim.” Esta passagem afirma que o 
Senhor queria que Acabe atacasse Ramote-Gileade e fosse morto ali. O próprio Acabe também 
queria atacar Ramote, pois esperava capturá-lo dos sírios. Todos os falsos profetas, conhecendo o 
desejo do rei, disseram-lhe o que ele queria ouvir e profetizavam o sucesso. Josafá, no entanto, o 
rei de Judá, que devia acompanhá-lo em batalha, queria uma profecia do Senhor. Micaías, um 
verdadeiro profeta, mas um homem a quem Acabe odiava, foi encontrado e trazido. Primeiro 
Micaías concordou com os falsos profetas - talvez sem entusiasmo ou de alguma forma 
renunciando à responsabilidade. Seus modos eram evidentes porque o rei disse: “Quantas vezes 
te conjurarei que não fales senão a verdade em nome de Jeová?” Sendo assim posto sob 
juramento, Micaías predisse a morte de Acabe. Micaías até mesmo disse a Acabe que Deus havia 
enviado um espírito maligno para atraí-lo para a morte. Apesar de tal discurso claro, Acabe 
atacou Ramote-Gileade e foi morto, pois Acabe não pôde resistir ao espírito mentiroso que Deus 
enviou. Acabe não pôde resistir porque Deus havia decretado: “Tu o induzirás, e ainda 
prevalecerás.” Na continuação, Deus direccionou a fuga de uma flecha não-reivindicada para a 
abertura nas juntas da armadura de Acabe, e ele morreu. Agora, observe, foi tão fácil para Deus 
controlar a decisão de Acabe quanto foi controlar a flecha sem rumo. 
É muito provável que algumas pessoas, lendo tudo isso, neguem que a Bíblia diz tais coisas; ou 
elas podem, depois de verificarem na Bíblia ver que as citações feitas aqui são exactas, reclamar 
que essas observações dão uma visão muito unilateral e, portanto, distorcida do que Deus faz. 
O primeiro grupo de pessoas são aqueles que pensam que, por serem Cristãos (de algum tipo), 
qualquer coisa que acreditam deve ser uma doutrina Cristã sadia, simplesmente porque acreditam 
nela. Eles acreditam, por que motivo é difícil dizer, que Deus não é a primeira e última causa de 
todas as coisas, porque ele simplesmente não pode ser a causa do mal. Este ponto de vista é, 
 
 
53 
 
obviamente, totalmente anticristão; a Bíblia o contradiz de capa a capa; e sua profissão de fé não 
é razão para supor que suas crenças são bíblicas. 
O segundo grupo de pessoas está melhor informado. Eles leram a Bíblia e pelo menos admitem 
que Deus é a causa de tudo. Mas eles reclamam que o material aqui coberto é unilateral e, 
portanto, constitui uma distorção da posição Bíblica. Esta queixa tem certamente um certo mérito 
inicial. É verdade que o material deste capítulo é unilateral. Se é, portanto, uma distorção ou não, 
é uma questão diferente. De qualquer maneira, qualquer livro que começa a explicar qualquer 
assunto, seu argumento de abertura deve ser unilateral, pela simples razão de que todos os lados 
não podem ser impressos na mesma página. O lado que foi mencionado nas últimas páginas é o 
lado que mais precisa ser enfatizado. Nenhum grupo notável de pessoas que acredita em Deus 
nega que Deus causa bons eventos, mesmo que alguns neguem que Deus causa todos os bons 
eventos. O mal-entendido popular e difundido da Bíblia consiste em negar que Deus causa maus 
eventos. Portanto, este facto deve primeiro ser estabelecido por numerosos exemplos de todas as 
partes da Escritura.O assunto não terminará aqui. Se o relato da predestinação parasse aqui, 
poderíamos dizer com razão que não era apenas unilateral, mas também distorcido. O objectivo 
culminante e mais imediato da predestinação é a salvação dos crentes. A fé é o dom de Deus e 
Deus escolhe, elege ou predestina aqueles a quem ele dará fé. Essa idéia e seus concomitantes 
não serão omitidos dessa explicação da predestinação. E então será visto que o todo não é tão 
unilateral, afinal. No entanto, para que o lado feliz seja devidamente compreendido e não seja 
mal concebido em um contexto não-Bíblico, a série actual de versos deve continuar um pouco 
mais. O objectivo é mostrar que Deus causa todas as coisas - todas as coisas más e todas as 
coisas boas. 
O próximo verso é 2 Crônicas 25:16, que diz: “Então parou o profeta, e disse: Bem vejo eu que 
já Deus deliberou destruir-te.” O profeta acabara de censurar ao Rei Amazias por sua idolatria. O 
rei disse que ouviu o suficiente e, se o profeta não quisesse ser espancado, deveria ficar quieto. 
Assim, o profeta terminou seu discurso com a declaração: “Eu sei que Deus deliberou destruir-
te.” O próximo exemplo da actividade determinante e causadora de Deus não é necessariamente 
uma causação do mal. É uma colecção de eventos, alguns dos quais podem ser maus e bons. O 
verso é Jó 14:5, que diz: “os seus dias estão determinados, contigo está o número dos seus meses; 
 
 
54 
 
e tu lhe puseste limites, e não passará além deles.” Esse versículo se refere ao tempo de vida de 
cada pessoa. “O homem que é nascido de uma mulher é de poucos dias...”. O tempo que um 
homem vive, o número de seus meses é decidido por Deus. Se Deus decidiu que Moisés ou Joe 
Doaks deveriam viver cinquenta e nove anos, três meses e onze dias, é isso. Essa é a fronteira ou 
limite além do qual eles não podem passar. 
Depois de Jó vem Salmos, e o Salmo 105:25 diz: “Virou o coração deles para que odiassem o 
seu povo, para que tratassem astutamente aos seus servos.” 
Esta é uma reiteração do que foi encontrado em Êxodo, e nos traz de volta ao título dessa 
subsecção. A subsecção tem sido aspirada pelo menos em dois pontos levemente diferentes. O 
principal deles é que Deus determina as escolhas que os homens fazem. Mas visto que os 
homens frequentemente fazem escolhas más, alguma atenção também foi dada ao facto de que 
Deus causa o mal. Aqui o mal é uma escolha humana. O salmista está se referindo aos egípcios a 
quem o Senhor, anos após a morte de José, fez odiar os israelitas. O ódio é um estado mental, 
uma escolha, possivelmente uma emoção. Não é apenas, principalmente, ou mesmo de todo uma 
acção visível. Pode resultar em acções visíveis, mas o ódio em si é totalmente mental. Essa 
mentalidade é o que Deus causou nos egípcios. Deus os fez pensar assim. O versículo diz 
claramente que Deus virou o coração deles para odiar o seu povo. 
Embora o mal e o ódio tenham recebido alguma ênfase nessa discussão, pois é isso que muitas 
pessoas falham quando lêem a Bíblia, Deus também provoca boas decisões, até mesmo 
transformando o ódio em favor. Porque “o SENHOR deu ao povo graça aos olhos dos egípcios, e 
estes lhe davam o que pediam” (Êxodo 12:36). Aqui Deus alterou e reconstruiu completamente a 
atitude mental dos egípcios. Obviamente, ele controla o que as pessoas pensam. 
O próximo verso contém um pequeno quebra-cabeça que não precisa ser resolvido agora, pois 
um dos pontos permanece inalterado. Provérbios 16:1 diz: “DO homem são as preparações do 
coração, mas do SENHOR a resposta da língua.” A Versão Revisada Americana, as traduções 
em francês e alemão dizem: “Os planos do coração pertencem ao homem; mas a resposta da 
língua é do SENHOR.” À primeira vista, a tradução do King James faz excelente sentido, e se 
encaixa perfeitamente no curso do presente argumento. Assim, o versículo significaria que o 
 
 
55 
 
Senhor controla tanto o que um homem pensa quanto o que ele diz. No entanto, como há uma 
pergunta sobre a tradução, seria imprudente seleccionar uma que seja alternativa simplesmente 
porque ela se ajusta tão bem ao presente argumento. O presente argumento é tão abundantemente 
reforçado que não precisa de um apoio duvidoso. A outra tradução pode parecer dizer que, 
independentemente do que um homem pensa por sua própria iniciativa, Deus controla as 
palavras que ele fala; de modo que ele pode pretender negar um pedido de empréstimo, mas 
encontrar-se concedendo em palavras. Isso certamente não pode ser o que o versículo significa; 
mas seja qual for o significado completo, inclui-se a ideia de que Deus controla o que um homem 
diz. 
O próximo verso novamente não é especificamente um caso do mal, mas tanto do bem quanto do 
mal assim como as circunstâncias indicam. É, no entanto, uma afirmação específica de que Deus 
controla os pensamentos dos homens. Provérbios 21:1 diz: “COMO ribeiros de águas assim é o 
coração do rei na mão do SENHOR, que o inclina a todo o seu querer.” Este versículo declara o 
princípio geral, e um exemplo particular é encontrado em Esdras 7:6, “segundo a mão do 
SENHOR seu Deus, que estava sobre ele, o rei [da Pérsia] lhe deu [Esdras] tudo quanto lhe 
pedira.” Deus controla todas as políticas e decisões governamentais. Deus não apenas fez com 
que Faraó odiasse os israelitas, ele fez com que Ciro enviasse os cativos de volta para construir 
Jerusalém. Ele também fez com que Adolph Hitler marchasse para a Rússia e causou Lyndon 
Johnson a escalar uma guerra no Vietnã. Deus transforma a mente de um governante na direcção 
que ele quiser. Se agora hesitamos em dizer que Provérbios 16:1 afirma que Deus controla os 
pensamentos de um homem, assim como seu discurso, Provérbios 21:1 diz isso claramente. Deus 
controla os pensamentos, planos e decisões dos homens. 
O próximo é Isaías 19:17, que diz: “E a terra de Judá será um espanto para o Egipto... por causa 
do propósito do SENHOR dos Exércitos, que determinou contra eles.” Não há nada de 
particularmente novo nesse versículo; é apenas mais um que atribui a Deus a determinação de 
trazer problemas a uma nação. 
Jeremias 13:13-14 são semelhantes, mas mais pisoteador: “Assim diz o SENHOR: Eis que eu 
encherei de embriaguez a todos os habitantes desta terra, e aos reis da estirpe de Davi, que estão 
 
 
56 
 
assentados sobre o seu trono, e aos sacerdotes, e aos profetas, e a todos os habitantes de 
Jerusalém. E fá-los-ei em pedaços atirando uns contra os outros”. Aqui a destruição determinada 
não é dirigida contra uma nação meramente mencionada pelo nome e em geral, mas 
especificamente contra indivíduos. Deus encherá essas pessoas de embriaguez e as arremessará 
uma contra a outra. 
Para concluir esta série de versos no Antigo Testamento, é apropriado citar Lamentações 3:38: 
“Porventura da boca do Altíssimo não sai tanto o mal como o bem?” Aqui Jeremias confronta o 
objector que pensa que Deus envia somente o bem e não o mal. Este é um mal-entendido 
fundamental sobre a natureza e a actividade divina. Deus é a causa original de tudo. De sua boca 
procede o bem e o mal. 
Agora é hora de voltar para o Novo Testamento, e mais uma vez uma série de versos serão 
seleccionados, começando em Mateus e indo até o fim. Com excepção do primeiro verso, todos 
contêm a palavra e a idéia de determinação. O primeiro verso contém a ideia, mas não a palavra 
em si. Mateus 26:53-54 diz: “Ou pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e que ele 
não me daria mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem 
que assim convém que aconteça?” “Assim convém que aconteça” são as palavras importantes. 
Jesus acabara de ser traído. Pedro, assim aprendemos de João, desembainhou a espada e cortoua 
orelha de um servo. Então Jesus repreendeu Pedro e lhe disse que ele, Jesus, poderia convocar 
doze legiões de anjos; mas se ele fizesse isso, como se cumpririam as Escrituras que diziam: 
Assim convém que aconteça? A palavra assim inclui a traição de Judas, a prisão e, por 
implicação, as provações e a crucificação. Essas coisas tinham que ser como elas ocorreram. 
Deve-se pensar cuidadosamente sobre as implicações da profecia com referência à extensão da 
actividade causadora de Deus. Não é o acto profetizado que somente em sua individualidade é 
fixado e determinado pelo decreto de Deus. Todos os detalhes que precederam o evento e 
tornaram possível e real tiveram que ser incluídos, caso contrário, o evento não teria acontecido. 
Judas foi escolhido pera seu papel repreensível, mas, em antecipação, os pais de Judas tiveram 
que ser escolhidos. Alguém pensa que Deus poderia ter escolhido Judas e poderia ter profetizado 
que assim convém que aconteça, sem saber quem seriam os pais de Judas? Se assim fosse, então 
 
 
57 
 
estava determinado que o sumo sacerdote empregasse um certo homem como servo e o enviasse 
naquela noite. O homem não poderia ter adoecido à tarde e ter ido para a cama, pois assim 
convinha que acontecesse. Ao mesmo tempo, Jesus repreendeu os oficiais. Por que eles vieram 
até ele à noite com um traidor? Eles não poderiam prendê-lo durante o dia quando ele estava 
ensinando abertamente no templo? Isto, evidentemente, indica o carácter covarde dos sacerdotes, 
mas os sacerdotes eram covardes e os oficiais vinham à noite e “tudo isso era feito para que as 
Escrituras dos profetas se cumprissem”. 
Os seis versos seguintes contêm, pelo menos em grego, a palavra determinar. Cada um deles 
indica algum aspecto da determinação de Deus. 
Lucas 22:22 diz: “o Filho do homem vai segundo o que está determinado; mas ai daquele homem 
por quem é traído!” Este verso é a predição de Cristo, enquanto ainda sentado à mesa no 
cenáculo, que Judas estava prestes a traí-lo. Deve ser notado o facto de que o que estava prestes a 
acontecer tinha sido determinado. Não foi Judas quem determinou o que iria acontecer. Judas, 
sem dúvida, pretendia trair a Cristo, mas ele poderia ter falhado. Não foi ele quem controlou 
todas as circunstâncias. Só Deus pode determinar o futuro. Deus determinou como o Filho do 
homem deveria morrer. 
Da mesma forma, o verso seguinte, Actos 2:23, diz: “A este que vos foi entregue pelo 
determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes”. O versículo é 
semelhante em pensamento, mas mais explícito. No versículo anterior, era necessário concluir 
que o poder determinante era Deus, eliminando todas as outras possibilidades. Aqui, não só Deus 
é explicitamente mencionado, mas há uma ênfase adicionada nas palavras “determinado 
conselho e presciência”. Isso indica um planejamento deliberado. Como este evento, a morte de 
Cristo, foi preordenado, assim também todo evento é preordenado porque Deus é onisciente; e 
nenhum detalhe, nem mesmo o número de cabelos na cabeça, escapa à sua presciência e 
deliberado conselho. Tudo faz parte do seu plano. De tudo o que Deus diz: “assim convém que 
aconteça”. 
Talvez o verso mais explícito e mais enfático ao longo destas linhas seja Actos 4:28. Actos 4:27-
28 diz: “Porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não 
 
 
58 
 
só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel; Para fazerem tudo o que a 
tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer.” 
Observe a quantidade de detalhes específicos nesta passagem. O contexto dos dois versos é uma 
oração espontânea por parte de uma companhia de crentes a quem Pedro e João relataram sua 
experiência com os saduceus. O povo agradece a Deus pela libertação dos apóstolos. Eles 
glorificam a Deus como criador. Eles reconhecem que ele falou através de Davi sobre a 
inimizade dos pagãos contra Deus. E eles particularizam essa inimizade na recente crucificação 
de Cristo. “De facto”, dizem em sua oração, “nesta cidade” (uma frase omitida na Versão King 
James), “contra o teu santo servo Jesus” (servo, em vez de filho, em referência a Isaías 42:1; 
43:10; 52:13, e versículos similares) “que tu ungiste” e separou para um propósito específico, 
“Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel; Para fazerem tudo o que a tua 
mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer.” Aqui diz na 
única palavra “tudo o que” que Deus preordenou ou predeterminou, a crucificação de Cristo com 
todas as suas circunstâncias acompanhantes. As circunstâncias explicitamente mencionadas 
foram os dois homens, Herodes e Pôncio Pilatos. Não se pode supor que Deus desde toda a 
eternidade preordenou a crucificação para acontecer em uma determinada data - a plenitude do 
tempo, não quando sua hora ainda não havia chegado (João 7:30, 8:20), mas somente quando 
chegou sua hora (João 13: 1, 17: 1) - e então esperou que alguém aparecesse para crucificar a 
Cristo. Muito pelo contrário, Herodes e Pôncio Pilatos foram incluídos individualmente no plano 
eterno; e, por estarem tão preordenados, reuniram-se para fazer o que Deus tinha decidido de 
antemão. A palavra é “preordenada” ou “predeterminada”. Os que dizem que Deus não 
preordena actos maus não devem agora abaixar suas cabeças de vergonha? A ideia de que um 
homem pode decidir o que fará, tal como Pilatos decidiu o que fazer com Jesus, sem que essa 
decisão seja eternamente controlada e determinada por Deus, torna absurda toda a Bíblia. 
Versos suficientes já foram citados, mas, para tornar o caso mais pesado, alguns versos de menor 
importância serão adicionados. Actos 10:42 dá outro exemplo da decisão determinante de Deus. 
O versículo diz: “ele é [Jesus] o que por Deus foi constituído [ordenado – Nota do tradutor] juiz 
dos vivos e dos mortos.” Nenhum comentário é necessário. 
 
 
59 
 
A passagem seguinte é Actos 17:24-26, que diz: “Deus... determinando os tempos já dantes 
ordenados, e os limites da sua habitação;” A pessoa fica mais impressionada com a força deste 
verso, se estudou as peregrinações dos povos. A maioria dos estudantes do ensino médio sabe 
das invasões da Ásia que varreram a Europa por volta do sétimo e oitavo séculos. Eles também 
podem se lembrar das invasões bárbaras durante as quais Roma foi saqueada em 410 d.C. Mais 
tarde, os Normandos invadiram a França e os Anglos invadiram a Inglaterra. Diz-se também que 
os habitantes da França ou da Gália emigraram para a Galácia. E por que os camponeses 
Lituanos podem entender frases simples na língua Sânscrita? Embora seja necessário um estudo 
cuidadoso e uma longa pesquisa para traçar os caminhos dessas migrações e fixar suas datas, a 
causa de todas elas, na data, no limite geográfico, e nas decisões humanas que iniciaram esses 
movimentos, é o decreto de Deus. É Deus quem decide quais pessoas devem se mover, quando 
devem se mover, e precisamente onde devem escolher parar de se mover. Deixe que estes versos 
sejam suficientes para o momento. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
60 
 
4. PREDESTINAÇÃO 
Com exceção de Actos 4:28, os versículos citados até agora não usavam a palavra predestinar ou 
predeterminar. A ideia pode ter sido claramente implícita, mas a própria palavra estava ausente. 
Agora, apenas alguns versículos devem ser dados, explicitamente, usando a palavra 
predeterminar ou predestinar. Além disso, esses versículos oferecem a oportunidade de mostrar 
que Deus controla, causa ou pré-determina eventos bons e eventos maus. Este último teve que 
ser enfatizado no últimocapítulo porque a ideia é chocante para muitas pessoas que professam 
ser Cristãs, mas que são lamentavelmente ignorantes em relação a Bíblia. Ao mesmo tempo, 
muitas dessas mesmas pessoas negam que Deus controla todo o bem. Sua noção de Deus é 
bizarra. Se elas admitem que Deus é onisciente, e algumas delas negam mesmo isso, elas ainda 
sustentam que muitos bons eventos ocorrem independentemente de Deus. 
A Salvação é do Senhor 
Dizem estas pessoas que a classe mais importante de bons eventos que Deus não controla são, os 
eventos da fé, aceitação de Cristo, regeneração, conversão. A salvação dos homens, dizem essas 
pessoas, está além do controle de Deus. Para mostrar como esses sentimentos são anticristãos, 
vários versos serão citados que contêm a palavra predestinado, e então outros versos serão dados 
sobre o mesmo assunto, mesmo que eles não contenham essa palavra em si. 
A primeira passagem é Romanos 8:28-30, que diz: “E sabemos que todas as coisas contribuem 
juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu 
propósito. Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à 
imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que 
predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que 
justificou a estes também glorificou.” 
A passagem começa com a proposição universal de que todas as coisas contribuem juntamente. 
Ou seja, cada detalhe da história, seja na Babilônia, no Egito ou nos Estados Unidos, se encaixa 
em um plano abrangente. Nada pode ser omitido: todas as coisas contribuem juntamente. É claro 
que é Deus quem trabalha elas juntamente. É verdade que o versículo não diz explicitamente que 
 
 
61 
 
Deus opera todas as coisas, mas no contexto da Bíblia o significado não pode ser que todas as 
coisas são independentes do controle divino, e através do mecanismo morto se encaixam para o 
propósito a seguir. Se “todas as coisas” fossem a força controladora, um ateísmo completo seria 
afirmado, pois a expressão “todas as coisas” é o termo grego que significa o universo. Se o 
universo controla seus detalhes, não há espaço para Deus. 
No sentido teístico ou Bíblico, portanto, todas as coisas contribuem juntamente para o bem 
daqueles que amam a Deus. Seria notável, se um universo naturalista mecanicamente 
contribuísse para o bem de um certo grupo de pessoas. Mas este projecto todo-inclusivo não é 
absurdo quando Deus está no controle e determina cada detalhe para o bem daqueles a quem ele 
escolheu, daqueles a quem ele elegeu, daqueles a quem ele chamou de acordo com seu propósito 
deliberado. Deus escolheu certas pessoas com propósito e trabalha todos os detalhes do universo 
para o bem delas. A tragédia ostensiva da crucificação de Cristo foi planejada para o bem delas. 
Nero, o Papado, Napoleão e Stalin contribuem para beneficiar os eleitos. Até a queda de um 
pardal. Deus determina tudo. 
Visto que o último capítulo abordou muito sobre o facto de Deus estar causando eventos maus, 
vale a pena apontar agora que esses eventos maus são para o bem dos santos. Deus causa o mal. 
Deus também faz o bem. E Deus causa o mal como um meio de abençoar seu povo. 
O verso agora dá uma explicação geral do projecto de Deus. Quem Deus previu, ele predestinou. 
Na discussão de Isaías 46:10, salientou-se que a presciência não é uma questão de olhar para o 
futuro e descobrir o que está ali. Deus conhece o futuro porque ele determinou isso. Além disso, 
a presciência, em seu uso Bíblico, refere-se mais a eventos bons do que a eventos maus. Isso não 
é negar a onisciência de Deus nem mesmo seu controle universal. Refere-se meramente ao uso 
literário. O Salmo 1:6 faz o contraste de que Deus conhece o caminho dos justos, mas o caminho 
dos ímpios perecerá. Então, também há Amós 3:2: “De todas as famílias da terra só a vós vos 
tenho conhecido”. Aqui o verbo conhecer significa escolher ou seleccionar. Obviamente, não é 
uma negação da onisciência. 
Portanto, aquelas pessoas que Deus conheceu, escolheu ou selecionou são precisamente os 
indivíduos a quem ele predestinou. O verbo grego pode igualmente ser traduzido como 
 
 
62 
 
predestinar ou predeterminar. O propósito directo desta predestinação é agora mencionado. 
Deus escolheu essas pessoas para serem conformes à imagem de seu Filho. Isto foi, naturalmente, 
para o seu bem, mas também era uma parte da glória de Cristo, pois fez dele o primogênito entre 
muitos irmãos. 
A predestinação é, naturalmente, um acto de Deus na eternidade. Para que seu desígnio fosse 
realizado no tempo, Deus chamou precisamente aquelas pessoas que ele predeterminou para 
serem conformes à imagem de Cristo. Esse chamado não é a pregação do Evangelho, embora 
ocorra em conjunto com essa pregação. Evangelistas dão uma chamada, uma chamada externa; 
mas Deus dá uma chamada interna e irresistível. Por esta razão, precisamente os mesmos 
indivíduos que foram escolhidos são agora chamados e justificados. No futuro, estas são as 
pessoas a quem Deus glorificará. É o mesmo grupo de pessoas durante todo o tempo. Ninguém 
está perdido ao longo do caminho; naturalmente não, porque Deus opera todas as coisas para o 
bem delas. Se Deus é por nós, quem será contra nós? 
O próximo verso no Novo Testamento que contém o verbo predeterminar é 1 Coríntios 2:7, que 
diz: “Mas falamos a sabedoria de Deus, oculta em mistério, a qual Deus ordenou [predestinou] 
antes dos séculos para nossa glória.” Este verso, ao contrário da passagem anterior, reflecte 
apenas indirectamente sobre a predestinação de Deus de determinadas pessoas. No entanto, até 
mesmo indirectamente talvez tenha um ponto. Paulo pregou a sabedoria de Deus aos coríntios. O 
conteúdo desta pregação eram segredos ou mistérios que Deus manteve escondidos dos gentios, 
e até mesmo dos judeus, na medida em que o Antigo Testamento não era tão claro como o Novo. 
Esta sabedoria oculta foi ordenada por Deus perante o mundo, para conferir glória a nós. A 
realização dessa intenção exigiu explicitamente a pregação de Paulo, e implicitamente sua 
conversão, e todas as outras circunstâncias que o levaram a Corinto. A predeterminação de Deus, 
portanto, é universal. 
Mas dois versos muito mais importantes são Efésios 1:5,11. Com alguns dos contextos eles 
dizem: “nos elegeu nele antes da fundação do mundo... nos predestinou ... segundo o beneplácito 
de sua vontade. Em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o 
propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade;” 
 
 
63 
 
Há algumas ideias expressas nesses versículos que não precisam ser discutidas porque, embora 
tenham sua própria importância, eles são irrelevantes, ou pelo menos desnecessários para o ponto 
principal: por exemplo, a ideia de uma herança, que a Versão Padrão Revisada omite 
descuidadamente no verso 11. Nem é preciso decidir se devemos ser perfeitos no amor ou se 
Deus nos predestinou em amor. Esses detalhes não podem obscurecer o escopo da predestinação. 
O versículo 4 ensina claramente que, antes da fundação do mundo, Deus escolheu Paulo e certos 
cidadãos de Éfeso e, por implicação, todos os santos para adopção. Antes de Caim e Abel 
nascerem, Deus escolheu Abel e não Caim. Antes de seu nascimento, Deus havia escolhido Jacó 
e rejeitado Esaú. Era certo desde toda a eternidade que Abel e Jacó seriam salvos e que Caim e 
Esaú seriam perdidos. 
Os meios de salvação foram escolhidos juntamente com as pessoas. Essas pessoas foram 
escolhidas em Cristo. Elas não deveriam ser salvas em outro nome. Não há outro nome pelo qual 
alguém possa ser salvo; e assim o relacionamento deles comCristo foi fixo e predeterminado 
antes de Deus criar o mundo. Dizer, como alguns pseudo-evangelistas podem dizer, que Deus 
não tem nada a ver com o homem aceitar a Cristo, é um sinal de ignorância ou animosidade em 
relação à mensagem Bíblica. 
O versículo 5 continua com o efeito de que Deus nos escolheu porque nos predestinou para 
adopção. A gramática grega permite que o particípio, havendo sido predestinados, seja retratado 
como contemporâneo ao chamado ou como precedendo o chamado. Isso faz pouca diferença na 
presente discussão. Toda a transacção ocorreu na eternidade antes da fundação do mundo. Como 
duas partes do decreto divino, é melhor chamá-las de co-eternas ao invés de contemporâneas. De 
qualquer forma, Deus decidiu adoptar Paulo e seus conversos éfesos muito antes de qualquer um 
deles ter nascido. 
O que é mais importante que o tempo preciso de um particípio grego é a ideia de que Deus nos 
chamou e nos predestinou “segundo o beneplácito de sua vontade”. Ele não nos chamou de 
acordo com nossa inteligência ao reconhecer uma bênção espiritual. Ele não escolheu os judeus 
porque eram mais numerosos que ou superiores a outras nações. Ele escolheu quem ele escolheu 
só porque ele quis: segundo o beneplácito de sua vontade. 
 
 
64 
 
O Beneplácito de Deus 
Neste ponto, mesmo ao custo de quebrar a passagem de Efésios em duas partes, parece 
apropriado abrir um parêntese bastante longo na ideia do beneplácito de Deus. Aparentemente, a 
palavra ocorre nove vezes no Novo Testamento. Vamos ver como é usada. 
A palavra grega é eudokia. Não é uma palavra do grego clássico, nem mesmo do grego comum 
antes do tempo de Cristo. Parece ter sido usada pela primeira vez, talvez para o próprio propósito, 
na tradução grega do Antigo Testamento chamada Septuaginta. Aqui, traduz a palavra hebraica 
ratson, uma palavra encontrada cinquenta e seis vezes. Em dezesseis desses casos, refere-se à 
vontade de um homem, às vezes em um mau sentido, como a arrogância, o capricho, o poder 
despótico; por exemplo, em Gênesis 49:6 é traduzida “vontade própria”. Ester 1:8 tem a palavra 
em um sentido bastante neutro. Ester 9:5 diz: “Feriram, pois, os judeus a todos os seus inimigos... 
e fizeram dos seus inimigos o que quiseram. [seu prazer]” Um sentido claramente bom da 
palavra é encontrado em Provérbios 14:35, “O rei se alegra no servo prudente”. Similarmente, 
Provérbios 16:15 e 19:12. 
Na Septuaginta, esta palavra hebraica ratson é traduzida, não somente por eudokia, a palavra 
para “beneplácito” encontrada em Efésios, mas também por outras palavras que significam 
“vontade”, “um acto de vontade” e o verbo “querer”. 
Os seguintes são alguns dos 40 casos em que a palavra hebraica se refere ao prazer ou à vontade 
de Deus: Provérbios 11:1,20; 12:22 e 15:8 dizem que um peso justo, acções corretas e a oração 
dos rectos são um prazer para Deus. A palavra é traduzida por prazer em Primeiro Crônicas 
16:10; 29:17; Esdras 10:11; Salmos 103: 21; 147: 10, 11; 149: 4; e Ageu 1:8. Primeiro Crônicas 
16:10 diz: “Gloriai-vos no seu santo nome; alegre-se o coração dos que buscam ao SENHOR.” 
[Na versão do autor: …dos que buscam seu bom prazer. – Nota do tradutor]. Os outros 
versículos dizem que Deus tem prazer na rectidão; que devemos agir de acordo com o seu prazer 
(duas vezes); que Deus não sente prazer nas pernas de um homem; mas ele tem prazer em seu 
povo; que ele sente prazer em sua casa ou em sua edificação. Em dois versos a palavra é 
traduzida por vontade (Deuteronômio 33:16; Salmo 40:8). A primeira refere-se à benevolência 
 
 
65 
 
daquele que habitava na sarça [a sarça ardente], e a segunda diz: “Deleito-me em fazer a tua 
vontade, ó Deus.” 
No Novo Testamento há apenas dois casos em que eudokia se refere a vontade ou desejo do 
homem. Romanos 10:1 diz: “IRMÃOS, o bom desejo do meu coração e a oração a Deus por 
Israel é para sua salvação.” Filipenses 1:15 fala de pregadores Cristãos que pregam a Cristo com 
sinceridade e boa vontade. Todas as outras instâncias se referem ao bom prazer de Deus. Para 
essas importantes passagens, agora nos voltamos. 
Cronologicamente, a primeira ocorrência foi no nascimento de Cristo, quando os anjos cantaram: 
“Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens.” (Lucas 2:14). Este 
verso foi seriamente distorcido pelo enfeite da publicidade comercial de Natal e pela falta de 
consideração da religião popular americana. A ideia parece ser que Deus promete paz e bênção 
aos homens de boa vontade, no sentido de que esses homens estão favoravelmente dispostos a 
seus semelhantes. A American Standard Version tem uma tradução exacta que exclui essa 
interpretação humanista: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra entre os homens em quem ele 
está bem satisfeito”. Alguém poderia dizer: “Homens da escolha de Deus”, ou muito literalmente 
“homens do bom prazer de Deus”. 
Supor que os homens têm boa vontade, e que eles consentem ou concordam, ou aceitam a graça 
de Deus, é contrário ao uso da Septuaginta e, desde que faz a salvação depender de um acto 
humano, é contrário também ao Novo Testamento em sua totalidade. Eudokia nesta passagem é a 
vontade soberana de Deus e não pode se referir ao homem. Assim, a canção dos anjos é que 
Deus enviou paz através de Cristo aos homens a quem ele escolheu. 
Os próximos dois exemplos, cronologicamente, são Mateus 11:26 e Lucas 10:21. Após o retorno 
dos setenta de sua missão de pregação, quando relataram a Jesus que alguns homens aceitaram a 
mensagem e outros não, de modo que seria mais tolerável para Tiro e Sidom, e até mesmo 
Sodoma, do que seria para Betsaida e Cafarnaum, Jesus oferece esta oração: “Graças te dou, ó 
Pai, Senhor do céu e da terra, que escondeste estas coisas [as coisas que os discípulos pregaram] 
aos sábios e inteligentes, e as revelaste às criancinhas; assim é, ó Pai, porque assim te aprouve.” 
Ou,“pois assim foi bem agradável aos teus olhos” (American Standard Version). Aqui a escolha 
 
 
66 
 
depende inteiramente da vontade soberana de Deus. Deus se esconde de alguns; ele se revela 
para os outros; e nenhuma influência externa controla sua escolha. É um decreto divino soberano. 
O próximo exemplo de eudokia está em Filipenses 2:13, onde Paulo nos diz para trabalhar nossa 
própria salvação. Se esta ordem nos parece estranha porque estamos tão conscientes de que a 
salvação é da graça, devemos nos lembrar de que as questões de justificação na santificação e 
santificação são um processo de mortificar as inclinações da carne e lutar pela justiça pessoal. 
Tudo isso é algo que fazemos, com muito esforço, como John Bunyan descreveu tão bem no 
Pilgrim’s Progress. No entanto, é tudo pela graça, pois, enquanto realizamos nossa própria 
salvação, é Deus quem trabalha em nós. O trabalho de Deus aqui consiste em duas partes: Ele 
nos capacita a fazermos boas obras, mas primeiro ele nos capacita a realizarmos esses actos; e 
ambos os trabalhos divinos são de seu bom prazer, conforme ele julgar adequado, por seu 
decreto soberano. 
Agora, a última instância da palavra eudokia no Novo Testamento ocorre em 2 Tessalonicenses 
1:11. Não é um verso muito surpreendente. Paulo está simplesmente orando para que Deus 
satisfaça em todos nós o bom prazer de sua bondade. A revisão americana faz soar como uma 
oração para que Deus satisfaça todos os nossos desejos para o bem. Esta é uma ideia 
incongruente. O versículo fala de Deus nos considerando digno de seu chamado. A ênfase recai 
sobre as acções de Deus, não do homem; de modo que a próxima frase deve se referir ao bom 
prazer de Deus, não aos desejos humanos. 
Estas são todas as ocorrências da eudokia, excepto aquelas em Efésios 1:5 e 9. Aqui,então, o 
longo parêntese chega ao fim, e a discussão de Efésios é retomada. 
O versículo 5, como foi visto, diz que Deus predestinou seus santos de acordo com o beneplácito 
de sua vontade. Isso aconteceu na eternidade. Agora, com o tempo, Deus nos revelou o mistério 
ou o segredo de sua vontade, de acordo com sua eudokia; e para enfatizar a soberania de Deus, a 
Palavra acrescenta, sua eudokia que ele previamente definiu como objectivo ou propósito. Então, 
indo ao versículo 11, o apóstolo diz que em Cristo obtivemos uma herança porque fomos pré-
ordenados, predeterminados ou predestinados; e essa acção divina ocorreu de acordo com o 
propósito daquele que opera todas as coisas de acordo com a recomendação ou conselho de sua 
 
 
67 
 
própria vontade. Observe que não há influência externa que transforma Deus de um jeito ou de 
outro. Como Isaías 40: 13-15 diz: “Quem guiou o Espírito do Senhor?… Com quem tomou ele 
conselho, que lhe desse entendimento?… Eis que as nações são consideradas por ele como a gota 
de um balde, e como o pó miúdo das balanças.” 
É mais apropriado concluir esta discussão de Efésios 1:4-11 repetindo um pensamento do último 
capítulo sobre o decreto eterno. O pensamento é que Deus controla todas as coisas. Mesmo neste 
capítulo, vimos em Romanos 8 que todas as coisas funcionam juntas. Esta não é uma afirmação 
ateísta de leis independentes de um universo materialista. É Deus quem trabalha todas as coisas. 
Agora, em Efésios 1:11, esta ideia é explicitamente declarada. Deus opera todas as coisas após o 
conselho de sua própria vontade. Ele faz exactamente o que quer com tudo. Nada escapa de sua 
predeterminação. Estes então são todos os versos nos quais a palavra predeterminar ocorre. Eles 
não são todos nos quais a idéia ocorre. Então continuamos. 
Romanos 9 
Muitas passagens que não contêm a palavra predeterminar, no entanto, expõem a ideia. A mais 
forte é, sem dúvida, o nono capítulo de Romanos. Vamos seguir suas seções mais importantes. 
Nesta epístola principal, Paulo tem explicado a doutrina da justificação pela fé à parte das obras. 
Duas objecções podem ser levantadas contra essa ênfase na fé à parte da lei. A primeira objecção 
é que a confiança na fé e a consequente depreciação das obras é um incentivo para o pecado. 
Paulo responde a essa objecção em Romanos 6, 7 e 8. A segunda objecção é que a justificação 
pela fé, a inclusão dos gentios, o abandono do ritual mosaico e a condenação dos judeus são 
todos contrários às promessas invioláveis que Deus fez para a sua nação escolhida. Esta segunda 
objecção é respondida em Romanos 9, 10 e 11, e a resposta abrange o plano de Deus da história 
do mundo. Aqui Paulo explica o que Deus pretendia, como a história cumpre as profecias e a 
soberania divina que faz do plano um sucesso. 
A primeira coisa que deve ser dita sobre Romanos 9 é que nenhuma interpretação dela pode ser 
correta se entrar em conflito com Romanos 8. Por outro lado, uma interpretação sólida é tão 
pequena em perigo de conflito, que é fácil ver que Romanos 9 reforça Romanos 8. Paulo havia 
 
 
68 
 
introduzido a predestinação como base para a garantia da salvação: quem ele mesmo conheceu, 
ele também predestinou, e a eles também chamou, justificou e glorificará. Uma vez no decorrer 
de uma conversa, observei que a predestinação é a base de nossa garantia de salvação. O 
cavalheiro com quem eu estava falando e que mostrava alguma aversão à soberania de Deus 
explodiu nesse ponto. Por que eu deveria colocar tanta ênfase nas doutrinas contrárias e 
controversas! Não admira que eu tenha ficado tão distante da simples mensagem da Bíblia! 
Qualquer Cristão sabe que a salvação é baseada no sangue derramado de Cristo, e não em 
alguma doutrina esquisita da predestinação. Bem, meu amigo estava meio certo. Nossa salvação 
do pecado e do inferno foi comprada pelo sangue redentor de Cristo. Nada neste livro nega ou 
entra em conflito com a doutrina da morte substitutiva de Cristo, expiação vicária e satisfação da 
justiça do Pai. Mas meu bom amigo não notou que eu não estava falando sobre salvação em si. 
Eu estava falando sobre a nossa garantia de salvação. E sem predestinação e perseverança dos 
santos, não pode haver garantia. Tanto para a conexão entre Romanos 8 e Romanos 9. Agora, 
para o último capítulo. 
Paulo começa afirmando seu desejo de que seus parentes, os Judeus, sejam salvos; porque para 
eles, pertencem a adopção, a glória, as alianças, a lei, o culto a Deus e as promessas. Eles tinham 
uma herança gloriosa, mas agora parece que tudo isso foi em vão: as promessas não foram 
cumpridas e os Judeus ficaram perdidos. Isso não reflecte na confiabilidade de Deus? 
O início da resposta é encontrado no versículo 6: Não que a palavra de Deus haja faltado. Aqui 
deve-se lembrar de Isaías 55:11: “minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para 
mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei.” Considere este 
versículo cuidadosamente. Diz que a pregação do Evangelho produz precisamente o efeito que 
Deus pretendia que acontecesse. Nem a Escritura nem mesmo a pregação de um humilde e 
obscuro ministro da Palavra deixa de realizar o que Deus quer. A Palavra é enviada para um 
determinado propósito e prospera nessa coisa precisa para a qual foi enviada. 
Agora, seríamos tentados a pensar que Deus havia falhado se pensássemos que Deus pretendia 
salvar todos os judeus. Muitos judeus acreditavam que nenhum filho de Abraão poderia se perder. 
Mas o que eles não entenderam é que Deus não escolheu todos. O versículo 6 explica claramente 
 
 
69 
 
que nem todos os cidadãos do Israel nacional são membros do Israel espiritual. Nem, como o 
versículo 7 continua, a descendência física de Abraão torna alguém num filho de Abraão. Abraão 
teve dois filhos, mas somente Isaque foi chamado. De facto, o próprio Abraão é um exemplo 
dessa escolha divina restritiva, pois ele foi chamado enquanto os outros cidadãos de Ur não 
foram. O versículo 11 continua com o exemplo mais evidente de escolha e rejeição divina. A 
passagem diz: “Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o 
propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que 
chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a 
Esaú.” A desobediência de Ismael e Esaú, ocorreu, é claro, depois que Deus os rejeitou, e da 
mesma forma, a desobediência dos judeus dos dias de Cristo não pode ser evidência do fracasso 
de Deus. É assim que Deus planejou isso. A Palavra de Deus não retorna a ele vazia; realiza o 
propósito para o qual foi enviado; portanto, Deus nunca pretendeu converter Ismael, Esaú ou os 
judeus dos dias de Cristo. O capítulo 11 mostra mais plenamente o que Deus pretendia realizar 
pela desobediência dos judeus; mas primeiro, o capítulo 9 deve ser ainda mais examinado. 
A verdade de que o plano de Deus não falha, mesmo quando grandes populações rejeitam a 
Cristo, é um pensamento muito reconfortante em épocas de decadência espiritual. O Cristianismo 
foi tão triunfante de 30 a 450 dC. Perseguições, sim; problemas em grande quantidade; heresias, 
um grande número; mas progresso visível e ininterrupto por 400 anos. Então veio um colapso 
que durou 1.100 anos. Primeiro as invasões dos bárbaros destruíram a civilização e iniciaram a 
anarquia. Quando, após quatro séculos de anarquia, algum tipo de estabilidade social surgiu, a 
Igreja Romana emergiu completamente corrupta. Houve alguma vida espiritual entre os 
Valdenses; O movimento de Wycliffe mostrou grande promessa até que ele morreu; mas no geral 
foi um tempo de incrível depravação. 
Então, no séculoXVI, veio o maior reavivamento do mundo. Por 150 anos a Europa desfrutou da 
pura pregação Cristã. Mas o tempo desde então tem sido um período de deterioração, verificado 
temporariamente por reavivamentos limitados. Hoje somos mais inferiores do que há muitos 
séculos, e parecemos encaminhados para as profundezas da ignorância espiritual e da apatia. 
Pequenos grupos, como os Valdenses, os Wyclifftistas e os Hussitas, manterão o evangelho vivo; 
mas quem pode ver o menor raio de esperança para qualquer avivamento mundial? 
 
 
70 
 
O plano de Deus falhou? Não, porque a profecia fala de uma grande apostasia vindoura. Este 
também é o plano de Deus. Lembre-se, Deus é onipotente. Ele pode fazer qualquer coisa. Na 
verdade, ele faz o que quiser. A onipotência não pode falhar. Lembre-se também de que todas as 
coisas, até mesmo a apostasia, trabalham juntas para o bem daqueles que Deus escolheu. 
Romanos 8 nos deu toda a segurança de que precisávamos. 
O argumento de Paulo, portanto, em resposta à objecção judaica, é que a justificação pela fé não 
anula as promessas a Israel porque as promessas não foram feitas a toda nação de Israel; elas 
foram feitas para o Israel espiritual de indivíduos escolhidos, o “Israel de Deus”, como Gálatas 
6:16 os chama. 
A próxima ideia nos versos citados tem a ver com a natureza da escolha de Deus. A escolha de 
Deus foi uma escolha não condicionada. Antecedeu o nascimento de Esaú e Jacó. O facto de que 
a escolha ocorreu antes de seu nascimento é enfatizado pela frase acrescentada, “nem tendo feito 
o bem e o mal”. Ou, lembrando-se de Efésios 1:4: “Ele nos escolheu nele antes da fundação do 
mundo”. O verso em Romanos não apenas enfatiza o facto de que a escolha de Deus precede 
nosso nascimento, mas também mostra claramente que a escolha de Deus não depende de nossas 
acções ou carácter. Os gêmeos não haviam feito nada de bom ou mal. A razão é que, em vez de 
Deus escolher seu povo porque eles são bons, eles se tornam bons porque Ele os escolheu. Para 
nos referir novamente a Efésios 1:4, Deus nos escolheu “para sermos santos e irrepreensíveis”. 
Tudo isso é tão claro que é ridículo como alguns teólogos que não gostam de predestinação 
tentam se esquivar dela. Emil Brunner tenta nos convencer que Paulo não está falando sobre 
Esaú e Jacó nos tempos dos patriarcas. De acordo com Brunner, Paulo está falando sobre os 
Edomitas no tempo de Malaquias. Porque esses Edomitas tinham feito tanto mal, Deus os 
rejeitou. 
Como no mundo alguém poderia sugerir uma interpretação tão perversa: não Esaú, mas Edom; 
não 2000 a.C., mas 400 aC; não antes de fazer qualquer bem ou mal, mas por ter feito o mal! 
Para oferecer uma interpretação tão ridiculamente falsa, é preciso ser o brilhante Emil Brunner 
ou completamente non compos mentis. 
 
 
71 
 
A razão para odiar a Esaú e amar a Jacó antes que eles fizessem algum bem ou mal é declarada 
no versículo 11 como “para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por 
causa das obras, mas por aquele que chama”. O chamado de Deus é inteiramente por causa do 
poder de Deus. Portanto, permanece. Se dependesse de nós, não suportaria; não conseguiria 
cumprir seu propósito. Mas porque é uma questão de eleição, de escolha divina, daquele que 
chama, e não uma questão de obras humanas, boas ou más, a promessa e o propósito de Deus 
permanecem. Nada pode impedir seu cumprimento. Isso faz com que seja uma questão de graça. 
Graça, onipotência e nossa segurança são ideias que se encaixam. Se nossa salvação dependesse 
de nossas próprias obras, não seria graça, mas salário; não misericórdia, mas justiça; não certa, 
mas impossível. 
No entanto, isso é o que alguns antigos judeus e alguns ministros modernos chamam de 
“injustiça de Deus”. Em resposta a essa acusação, Paulo enfatiza a soberania de Deus citando 
Êxodo 33:19: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia”, e tira a conclusão imediata: 
“Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece.” 
O trabalho humano e a vontade humana são postos de lado, pois a salvação é do Senhor. 
Agora, existem dois lados nessa moeda e é impossível ter um sem o outro. Deus escolheu e 
chamou Abraão, mas ele não escolheu e chamou os outros cidadãos de Ur. Deus escolheu Isaque, 
mas não Ismael. Deus amava a Jacó, mas odiava Esaú. Deus libertou os israelitas da escravidão, 
mas endureceu o faraó. Algumas pessoas gostam de permanecer sobre a primeira metade dos 
contrastes, e não apenas permanecer sobre ela, mas até negar a segunda metade. Mas a Bíblia dá 
os dois lados. Deus elege alguns, alguns apenas e não outros. Os outros não eram piores que os 
outros. De facto, a escolha foi feita antes de nascerem. E mesmo depois de nascerem, Abraão foi 
tão idólatra quanto as pessoas em Ur. Não há diferença, pois todos pecaram e carecem da glória 
de Deus. 
Pessoas que não estão bem fundamentadas na Bíblia se ofendem com a ideia de que Deus 
realmente endureceu o coração de Faraó. Agora, é interessante notar que o Faraó não se queixou 
de que Deus havia endurecido seu coração. Faraó estava bastante satisfeito. Mas outros 
reclamam por ele. Eles dizem que Deus é injusto se endurecer o coração de alguém. Se Deus é 
 
 
72 
 
onipotente e soberano, então é impossível resistir à sua vontade; e se um homem não pode 
resistir à vontade de Deus, por que Deus ainda se queixa? Paulo responde a essa objecção por um 
apelo ao Antigo Testamento. Em Isaías 29:16; 45:9; e 64:8 o profeta usa a ilustração do oleiro e 
sua argila. A primeira referência diz: “como se o oleiro fosse igual ao barro, e a obra dissesse do 
seu artífice: Não me fez?” A segunda referência diz: “Porventura dirá o barro ao que o formou: 
Que fazes?” E a terceira referência diz: “nós o barro e tu o nosso oleiro; e todos nós a obra das 
tuas mãos.” Jeremias, também, em 18:6, diz: “Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, 
ó casa de Israel? Diz o SENHOR. Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na 
minha mão, ó casa de Israel.” Essa comparação do Senhor com um oleiro e um homem com 
barro não é apenas uma analogia literária. É baseada no facto de que Deus criou o homem e 
formou seu corpo a partir do barro. A ideia ocorre duas vezes em Jó: “Peço-te que te lembres de 
que como barro me formaste.” (10:9); “do barro também eu fui formado” (33:6). Só porque a 
criação foi discutida três capítulos e muitas páginas atrás, não é para ser esquecido. Que Deus faz 
o homem como um oleiro faz uma tigela de barro não é uma ilustração - é um facto. Tomando 
este facto e essa comparação dessas passagens, Paulo responde à objecção contra a disposição 
soberana de Deus de todos os seres humanos, dizendo: “Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus 
replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não 
tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para 
desonra?” 
Visto que Deus é o criador, ele não pode ser injusto. Ele cria quaisquer objectos, coisas ou 
pessoas que lhe agradam. Se ele quisesse elefantes com duas pernas e robins [pequeno pássaro – 
Nota do tradutor] com quatro patas, ele os teria criado assim. Criados como são, eles não têm 
motivos para reclamação. Para entender a Bíblia, é preciso perceber que Deus é o criador 
soberano. Não há lei superior a ele que ordene: Não criarás elefantes com duas pernas, ou não 
odiarás a Esaú. Há muitos detalhes na doutrina da predestinação, e cada um deve receber o 
devido peso; mas o básico, o final, a resposta final para todas as objecções são as posições 
relativas do Criador e da criatura. Todas as objecções pressupõem que o homem é de alguma 
forma ou de outraindependente de Deus e obteve de algum lugar ou alcançou por seus próprios 
 
 
73 
 
esforços alguns direitos contra ele. Obviamente, tal visão é totalmente destrutiva para o 
Cristianismo. 
As pessoas que se opõem à predestinação têm uma opinião elevada de si mesmas e uma opinião 
baixa de Deus. Jó, que sem dúvida tinha uma opinião mais precisa do que essas pessoas, ainda 
tinha algo a aprender. Por esta razão, Eliú enfatiza a soberania de Deus e diz: “maior é Deus do 
que o homem... Por que razão contendes com ele, sendo que não responde acerca de todos os 
seus feitos?” (33:12-13). E o próprio Senhor acrescenta: “Onde estavas tu, quando eu fundava a 
terra? Faze-mo saber, se tens inteligência.… Ou desde os teus dias deste ordem à madrugada, ou 
mostraste à alva o seu lugar?… Ou poderás tu ajuntar as delícias do Sete-estrelo ou soltar os 
cordéis do Órion?” (38:4, 12, 31). “Então Jó respondeu ao SENHOR, dizendo: Eis que sou vil; 
que te responderia eu?” (40:4). E finalmente, na Versão Revisada Americana, “Eu sei que você 
pode fazer todas as coisas, e que nenhum propósito seu pode ser contido” (42:2). Jó havia 
aprendido a lição, mas muitos homens modernos continuam a objectar que isso destrói o livre 
arbítrio, degrada o homem, abole a moralidade e torna o homem num fantoche. 
Bem, isso pode destruir o livre arbítrio. Paulo em Romanos 9 acabara de dizer: “não depende do 
que quer”. As pessoas que dependem do livre-arbítrio devem rejeitar a misericórdia. Essa é 
precisamente a antítese que Paulo acabara de fazer. Mas essa visão não degrada o homem ou o 
elefante abaixo de suas próprias posições, a menos que alguém pense que é degradante ser uma 
criatura em vez de Criador. A predestinação também não abole a moralidade, se prestarmos 
atenção a Romanos 6 e 12. Nem a predestinação nem o predeterminismo tornam o homem numa 
marionete. 
Marionete é um boneco articulado trabalhado por cordas. Opera mecanicamente. Mas o 
Cristianismo não ensina nem implica uma visão mecanicista da vida. Nos tempos Puritanos, os 
escritores Reformados constantemente atacavam o mecanismo de Thomas Hobbes. John Gill, um 
grande Puritano Batista, defendeu o Calvinismo contra tal objecção e declarou que o homem é 
“livre não apenas de uma necessidade de coacção ou força, mas também de uma necessidade 
física da natureza.”7 Na linguagem moderna, isso significa que a vida não é um produto físico-
 
7
 John Gill, A Causa de Deus e Verdade, Soberana Graça edição. 188. 
 
 
74 
 
químico, nem as acções humanas são explicáveis pelas leis da física. As acções das marionetes 
são. 
Mas isso não quer dizer que os homens sejam mais independentes de Deus do que as marionetes 
de seus marionetistas. Muito pelo contrário. O manipulador de marionetes que quer fazer um 
show de Punch and Judy é limitado no número de coisas que pode fazer com suas mariontes. 
Elas são articuladas e controladas por cordas. Portanto, elas não podem dobrar onde não têm 
juntas nem em direcções opostas à construção das articulações. Um pouco do charme de uma 
marionete reside no facto de que o marionetista pode fazer tanto, mesmo sob suas rígidas 
limitações. Não, o homem não é uma marionete nas mãos de Deus. Ele é um pedaço de barro. 
Como tal, o barro não tem juntas. Da mesma massa Deus pode moldar um homem para a honra e 
outro homem para a desonra. De facto, a ilustração do pedaço de barro não faz justiça ao 
controle soberano de Deus, pois o oleiro humano não cria o barro, mas Deus o faz. Alguém é um 
Cristão maduro ou consistente até que, com o entendimento cante, 
Faça o seu próprio caminho, Senhor, tenha o seu próprio caminho; 
Mantenha o meu ser absoluto. 
Aplicando este princípio à rejeição de Deus aos judeus, Paulo exclama: “E que direis se Deus, 
querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos 
da ira, preparados para a perdição; Para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória 
nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou, os quais somos nós, a quem 
também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?” O significado da 
passagem é bem claro: Deus quis mostrar sua ira e mostrar seu poder. Isso foi dito anteriormente 
a respeito de Faraó: “Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder.” Há também 
outros propósitos. No tempo de Paulo, Deus cegou e entorpeceu os judeus (Romanos 11:7-8); 
cortou o seu ramo da boa oliveira da salvação, para enxertar naquela oliveira os gentios 
selvagens. E Deus enxertará de volta o ramo natural dos judeus. Tudo isso é predeterminado e 
inevitável. Permanece por causa da eleição soberana. 
 
 
75 
 
A predestinação, portanto, não entra em conflito com a justificação pela fé nem anula as 
promessas. Estas não foram feitas aos judeus como nação, mas a indivíduos escolhidos - a Jacó, 
não a Esaú. Não, a predestinação não anula as promessas: torna inevitável sua realização. O 
método pelo qual as promessas são cumpridas, não as promessas espectaculares de uma 
conversão indiscriminada dos judeus ou outros eventos que abalam o mundo, mas o método pelo 
qual as promessas de salvação são cumpridas em assuntos comuns, em sua vida e na minha, tais 
coisas como regeneração e conversão, ilustrarão e explicarão ainda mais a doutrina da 
predestinação. Para essas questões, agora nos voltamos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
76 
 
5. REGENERAÇÃO 
O último capítulo explicou vários versos que continham a ideia de predestinação, embora eles 
não contivessem a palavra em si. Existe agora outra colecção de versos em que mais uma vez 
ocorre a ideia sem a palavra predestinação. O assunto está intimamente relacionado à 
predestinação e, por ser um ponto crucial, ocorre regularmente em discussões como essas. As 
pessoas estão frequentemente dispostas a admitir que Deus predestinou Davi para ser rei e 
Jeremias para ser frustrado; mas e a própria salvação? Não cabe ao próprio homem se será salvo 
ou não? Ele não deve decidir por conta própria? Ele não deve aceitar a Cristo por si mesmo, por 
sua livre vontade, e não deve Deus aguardar sua decisão? Agora, a questão do livre-arbítrio será 
estudada no próximo capítulo; aqui é o lugar para considerar regeneração e arrependimento. 
Assim como um atleta deve recuar uma boa distância para começar a corrida em um salto em 
altura, também devemos recuar mais do que algumas pessoas antecipam para superar o problema 
da regeneração. De facto, devemos voltar à eternidade antes do mundo começar. Naquela 
eternidade, Deus, o Pai, deu um certo grupo de pessoas a Deus o Filho. Nada mais pode ser 
entendido sobre a regeneração sem ter em mente esta dádiva divina original. 
A dádiva de Deus ao Seu Filho 
O apóstolo João, embora não seja o único autor Bíblico que menciona o assunto, tem mais a 
dizer sobre isso do que qualquer um dos outros. Mais exactamente, não é o apóstolo João, mas o 
próprio Jesus que nos dá a informação. Leia os versículos cuidadosamente: 
Todo o que o Pai me dá virá a mim. E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de 
todos aqueles que me deu se perca [João 6:37, 39]. 
Ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos [João 10:28-
29]. 
Mas a passagem mais extensa é a oração sacerdotal de Jesus em João 17: 
“Assim como lhe deste poder sobre toda a carne, para que dê a vida eterna a todos quantos lhe 
deste...”. Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste; eram teus, e tu mos deste... 
 
 
77 
 
tudo quanto me deste provém de ti... Eu rogo por eles; nãorogo pelo mundo, mas por aqueles que 
me deste… Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste. Tenho guardado aqueles que tu 
me deste… Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo. 
Estes versos devem ser suficientes para convencer a todos de que Deus o Pai deu ao seu Filho 
um certo número de pessoas. Mas João não é o único autor bíblico que diz isso. O anjo em 
Mateus 1:21 não é tão explícito como Jesus foi em sua oração, mas mesmo assim ele disse a José: 
“Chamarás o seu nome JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados.” Nota: seu povo. 
Um pouco menos claramente, o Salmo 22, que antecipa a crucificação, no versículo 30 diz: 
“Uma semente o servirá”. A implicação é um pouco mais clara em Isaías 53:10: “Ele verá a sua 
posteridade” [Traduzido por semente na versão do autor – Nota do tradutor]. Esses dois versos 
por eles mesmos não dizem que Deus o Pai deu uma semente ao seu Servo Sofredor; mas eles 
dizem que o Messias tem uma semente ou posteridade e, em caso afirmativo, quem mais, a não 
ser Deus, poderia ter dado a ele? A mesma ideia está embutida em 2 Timóteo 2:19: “O Senhor 
conhece os que são seus”. Outro ponto de vista sobre o assunto é encontrado em Apocalipse 13:8 
e 21:27. Em ambos os versos, diz-se que o Cordeiro tem um livro no qual estão escritos os 
nomes dos salvos, e nos quais outros nomes não estão escritos. Em relação a esses versículos 
deve se acrescentar as referências que falam das ovelhas, por exemplo, João 10:3: “Chama pelo 
nome às suas ovelhas”. “Suas ovelhas” são mencionadas novamente no próximo verso. 
Certamente, isso é uma parábola, mas a aplicação óbvia é que certas pessoas são de Jesus. Agora 
estamos de volta a João novamente, e enquanto passagens de apoio podem ser encontradas 
espalhadas por todas as Escrituras, João fala mais claramente. 
Ele também fala mais claramente, ou pelo menos com igual clareza, em identificar essas pessoas 
como os eleitos. Isaías, é claro, diz que ele verá sua semente e ficará satisfeito. Mateus diz que 
ele salvará seu povo dos seus pecados; e isso é claro o suficiente. Mas leia novamente os 
versículos citados de João e seus contextos: “Todo o que o Pai me dá virá a mim.” Que nenhum 
de todos aqueles que me deu se perca. E nunca hão-de perecer, e ninguém as arrebatará da minha 
mão, e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai. Mais uma vez, ele dará a vida eterna a 
tantos quanto o Pai lhe der. E, “quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo”. 
 
 
 
78 
 
A Pecaminosidade do Pecado 
Há também um outro elo de intervenção. Regeneração e arrependimento pressupõem que o 
homem é um pecador. Para entender a regeneração, é necessário primeiro entender o que é a 
condição pecaminosa do homem. A razão para descrever a condição do homem pecador é 
mostrar a necessidade da regeneração. A salvação deve começar com um novo nascimento. Mas 
é somente Deus quem escolhe quem ele irá regenerar. Portanto, por causa da condição 
pecaminosa do homem, a regeneração pressupõe a predestinação. Mais uma vez o material 
Bíblico é abundante. 
Seria possível começar com Gênesis 2:17, mas talvez Gênesis 6:5 seja mais indicado: “E viu o 
SENHOR que… toda a imaginação dos pensamentos de seu coração [homem] era só má 
continuamente.” Nem Elifaz, o temanita, nem Bildade, o suita eram profetas do Senhor; ainda 
assim eles falaram a verdade em Jó 15:14 e 25:4 onde dizem. “Que é o homem, para que seja 
puro? E o que nasce da mulher, para ser justo. Como, pois, seria justo o homem para com Deus, 
e como seria puro aquele que nasce de mulher?” Embora Deus mais tarde condene os falsos 
amigos de Jó, eles falaram a verdade nesta ocasião, porque Davi no Salmo 51:5 diz a mesma 
coisa em linguagem mais forte. “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu 
minha mãe.” Note que não foi Bate-Seba que concebeu um bebê em pecado. A referência é a 
Davi e à mãe de Davi e, por implicação, a todos os demais. Algum tempo depois, Jeremias 17:9 
diz: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso”. Em Ezequiel 37, ele relata 
a visão do vale dos ossos secos. Deus pergunta a Ezequiel: “Porventura viverão estes ossos” Está 
implícito na resposta de Deus à sua própria pergunta a suposição de que os ossos por si mesmos 
não podem produzir vida. Na metade do capítulo, a visão muda um pouco, ou pelo menos há 
uma adição a ela. Além dos ossos secos espalhados pelo vale aberto, havia pessoas mortas em 
seus túmulos. Elas também não tinham poder para ressuscitarem a si mesmas. Somente Deus 
poderia ressuscitá-los e somente Deus poderia escolher quem ressuscitar. 
O Antigo Testamento tem muito a dizer sobre o pecado. O apóstolo Paulo em Romanos 3 resume 
várias passagens principalmente dos Salmos: “Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém 
que entenda; Não há ninguém que busque a Deus...”. Essa idéia, tirada do Salmo 14, afirma que 
 
 
79 
 
o pecado é universal (excepto Jesus); todos estão na mesma condição; estavam todos mortos 
como ossos secos. Esses dois versos também dizem explicitamente que ninguém busca a Deus. 
Não há dúvida de que há um verso que nos ordena: “Busque o Senhor”; mas o problema é que 
ninguém obedece a esse comando. Os homens devem buscar a Deus, mas ninguém o faz em sua 
condição pecaminosa. Para ser bem claro, nenhuma pessoa não regenerada quer nascer de novo. 
Pois, como o apóstolo diz: “Não há quem faça o bem, não há nem um só.” E você não acha que 
buscar o Senhor em obediência ao seu comando é fazer algo de bom? Mas o apóstolo diz que 
ninguém faz bem algum. Portanto, ninguém busca o Senhor ou deseja nascer de novo. Muito 
pelo contrário, “A sua garganta é um sepulcro aberto…Peçonha de áspides está debaixo de seus 
lábios; cuja boca está cheia de maldição e amargura. Não há temor de Deus diante de seus 
olhos ”. 
Tenha em mente porquê Paulo cita este material do Antigo Testamento. No capítulo 1 ele 
mostrou que os gentios eram pecadores - grandes pecadores grosseiros. No capítulo 2, ele 
mostrou que os judeus eram piores pecadores. Talvez os judeus nem sempre fossem tão 
grosseiros, embora às vezes tivessem sido; mas, além disso, os judeus assumiram uma 
responsabilidade maior e uma culpa maior porque receberam a revelação explícita de Deus. 
Então, os judeus também são pecadores. Então Paulo no terceiro capítulo, agrupando gentios e 
judeus, conclui que todos são pecadores. A seção citada resume os dois capítulos de modo que 
“toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus… Porque todos 
pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. 
Embora essa passagem seja condensada e forte, ela não é tudo de longe. Explicando sua doutrina 
de santificação, Paulo novamente aponta a natureza da condição pecaminosa. No capítulo 8, ele 
diz que “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de 
Deus, nem, em verdade, o pode ser. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus.” 
Considere estas palavras cuidadosamente. O homem não é meramente neutro entre Deus e 
Satanás. O homem em seu estado não regenerado está nitidamente em inimizade com Deus. Sua 
mente não está sujeita à lei de Deus. De facto, sua mente não pode estar tão sujeita. É totalmente 
impossível para um homem obedecer a Deus; em particular, é impossível para ele obedecer aos 
mandamentos de buscar, arrepender-se e acreditar. O homem é o inimigo de Deus. 
 
 
80 
 
A razão pela qual o homem não regenerado não pode buscar a Deus ou se arrepender de seus 
pecados é que ele está morto, e um homem morto não pode fazer nada. Ezequiel não foi o único 
escritor Bíblico que retratou o homem pecador como uma colecção de ossos secos. Pauloem 
Efésios 2:1,5 e Colossenses 2:13 diz a essas pessoas que elas foram ressuscitadas para novidade 
de vida. Morto, é claro, significa espiritualmente morto e incapaz de fazer qualquer coisa para 
agradar a Deus. A ideia de ressurreição pressupõe obviamente tal estado de morte. A ressurreição 
também pressupõe alguém que pode trazer os mortos à vida, pois claramente um homem morto 
não pode ressuscitar a si mesmo. Não tão incisivamente, e ainda inconfundivelmente, Romanos 
6:13 diz a mesma coisa, referindo-se aos Cristãos “como aqueles que estão vivos dentre os 
mortos”. 
Houve um professor da Bíblia que disse a seus ingênuos e confiantes estudantes que o homem 
estava doente em pecado. O homem estava tão doente que não conseguia se curar. Mas, embora 
tão doente, podia ir até a farmácia e comprar o remédio que o curaria. Este professor da Bíblia 
não conhecia a Bíblia; ele não queria conhecer; pois a Bíblia retrata o homem como morto, não 
apenas como doente, e o remédio não é apenas uma continuação e melhoria de nossa actual vida 
espiritual, mas uma ressurreição dos mortos - uma vida completamente nova. Nos Evangelhos 
também, João 5:24-25 usa a mesma ideia: “Quem ouve a minha Palavra… passou da morte para 
a vida…. vem a hora…em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem 
viverão.” Estes versos definitivamente se referem ao não regenerado como morto. Alguém pode, 
no entanto, agarrar-se a uma palha e exclamar: Vêem, os mortos podem fazer alguma coisa - eles 
podem ouvir! Bem, dificilmente. Lázaro estava em seu túmulo e Cristo clamou: “Lázaro, sai para 
fora”. Lázaro saiu bem; mas foi Cristo quem o ressuscitou, deu-lhe vida, fez com que ele ouvisse 
e vivesse. Note que 5:25 diz que os que ouvirem viverão. Isto implica necessariamente que 
aqueles que não vivem não podem ter ouvido. O verso, portanto, não afirma uma habilidade da 
parte de todos os mortos para ouvir. O próprio Jesus disse: “Por não poderdes ouvir a minha 
palavra.” (João 8:43). Essa é a limitação natural do homem. Apenas ouvem aqueles mortos que 
devem viver. E somente ouvem e vivem aqueles mortos que são abordados. Ninguém mais no 
cemitério em que Làzaro foi enterrado levantou-se. O verso, portanto, para repetir, não atribui 
qualquer habilidade aos mortos em geral. Só Lázaro foi chamado. 
 
 
81 
 
Ainda assim, alguém pode insistir que o verso diz que os mortos ouvem primeiro e depois 
voltam à vida. Assim, os mortos, pelo menos alguns mortos, podem fazer alguma coisa, e se 
esses mortos podem ouvir, então não importa quem é que esteja morto, sua morte não implica 
que ele não possa ouvir. Para responder a este argumento engenhoso, devemos ler o versículo 
com um pouco mais de cuidado. De facto, uma vez que a objecção recorre aos tempos verbais, 
será necessário estudar a construção gramatical do verso. Se a gramática é um pouco tediosa, 
pelo menos a explicação não será muito longa. 
O versículo diz que a hora está chegando quando os mortos ouvirão. O tempo futuro é usado aqui 
porque, embora a hora seja agora, ou esteja prestes a acontecer, esta hora ainda se estende ao 
segundo advento de Cristo e, portanto, é principalmente futura. Isso por si só não causa 
problemas. Mais tarde, alguns mortos ouvirão. Mas então o verso não diz que aqueles que ouvem 
agora, no presente, no futuro, depois de ouvirem, vivem; e isso não implica que eles ouvem antes 
de estarem vivos? Não, isso não é o que o verso diz ou implica. O versículo diz: “Os mortos 
ouvirão [tempo futuro]... e os que ouvirem viverão”. As palavras do King James “os que ouvem” 
traduzem um substantivo participativo, ou seja, o particípio é usado como um substantivo. 
Significa “os ouvintes”. Mesmo que este particípio passado (aoristo) funcionasse como um verbo, 
como os particípios usualmente fazem, ainda assim não indicaria necessariamente um 
antecedente do tempo ao verbo principal. Os particípios aorístos podem se referir ao tempo 
anterior, mas também se referem ao mesmo tempo tal como o verbo principal. Este particípio, no 
entanto, não funciona como um verbo, mas como um substantivo, e o elemento tempo é 
virtualmente inexistente. Se for feita uma tentativa de preservar o elemento tempo (aoristo), o 
melhor que pode ser feito é tomar o aoristo como um acto momentâneo em contraste com o 
verbo “viverá”, que olha para o futuro.8 
 
8
 Sobre os particípios gregos, ver Ernest DeWitt Burton, Sintaxe dos modos e Tempos, página 65, §142: 
“O particípio aoristo é algumas vezes usado como uma acção antecedente ao tempo da fala, mas 
subsequente ao do verbo principal.” O segundo exemplo de Burton é excepcionalmente claro, excepto 
quando sua qualificação “antecedente ao tempo de falar” não desempenhe nenhum papel sintáctico. O 
exemplo é Actos 25:13: “o rei Agripa e Berenice vieram a Cesaréia, a saudar Festo.” O particípio aoristo 
é “saudado” e, obviamente, aconteceu depois que os dois chegaram a Cesaréia. Depois de alguns outros 
 
 
82 
 
Talvez os detalhes da gramática grega são difíceis de seguir. Então, é ainda mais perigoso basear 
um argumento na referência de tempo ambíguo dos particípios gregos, a fim de fazer com que o 
apóstolo João contradiga todo o resto da Bíblia e a si mesmo também. Pois em um minuto 
veremos o que mais ele tem a dizer. Mas para concluir a explicação de João 5:25, deve-se 
perceber que o significado das palavras controla o sentido dos tempos. Afinal de contas, um 
homem morto, desde que esteja morto, não pode ouvir. Ouvir é uma função da vida. De facto, é 
assim que a presente passagem começou. No versículo 24, João diz: “Quem ouve a minha 
palavra,... passou da morte para a vida” - já passou da morte para a vida. Ouvir no tempo 
presente é a evidência de que aquele que estava morto se tornou vivo no tempo perfeito e assim 
permanece vivo para sempre. O apóstolo, então, no versículo 25, teria contradito o que ele 
acabara de dizer no versículo 24? 
Outras passagens da Escritura também indicam que a audição espiritual e a recepção da palavra 
são o efeito da acção de Deus. Isaías 50:4-5 diz: “O Senhor Deus... desperta-me o ouvido para 
que ouça… O Senhor DEUS me abriu os ouvidos.” Ezequiel 37:4 diz: “Ossos secos, ouvi a 
palavra do SENHOR”. Os ossos secos de facto ouviam, mas não por causa de qualquer 
habilidade inerente aos ossos secos. Eles ouviram porque o Senhor fez a respiração e a vida, 
carne e tendões, virem sobre eles. O próprio Jesus em João 8:43 afirma a incapacidade dos 
fariseus de ouvir a sua Palavra: “Por não poderdes ouvir a minha palavra.” E claramente, apenas 
quatro versículos depois, Jesus diz: “Quem é de Deus escuta as palavras de Deus: [note, portanto, 
que] vós não as escutais, porque não sois de Deus.” Veja também João 10:3, 16, 27. Será que os 
Arminianos, que nunca têm certeza de sua salvação eterna, podem ouvir estas palavras! 
Uma Nova Vida 
O facto de que a condição pecaminosa do não regenerado é como descrita acima, torna-se ainda 
mais claro quando é explicado como esta condição pecaminosa é superada e removida. A ideia 
de ouvir a Palavra de Cristo, a ideia de uma ressurreição espiritual, a ideia do acto de 
regeneração graciosa de Deus, tudo reforça a descrição anterior. Os parágrafos seguintes, 
 
exemplos, Burton comenta: “Em todos esses casos, dificilmente é possível duvidar que o particípio […] 
se refira a uma acção subsequente de facto e pensada àquela do verbo que segue” (66). 
 
 
83 
 
portanto, começando com alguns versos de João novamente,discutirão em torno da graça 
irresistível, regeneração, fé e arrependimento. 
O que a Bíblia diz sobre regeneração, ressurreição espiritual ou o novo nascimento confirma 
tudo o que já foi dito sobre a predestinação. A primeira passagem a ser examinada é João 1:12-
13. Quando João escreveu o seu Evangelho no final do primeiro século, muitas pessoas 
aceitaram a Cristo. Estes são os muitos que o receberam. “deu-lhes o poder de serem feitos filhos 
de Deus ... Os quais não nasceram do sangue [grego: sangues], nem da vontade da carne, nem da 
vontade do homem, mas de Deus”. O interesse anexa ao método de regeneração. O versículo 13 
não diz primeiro como a regeneração é realizada; diz primeiro como a regeneração não é 
realizada. As pessoas mencionadas não nasceram de novo “pelo sangue” (mais precisamente, 
pelos sangues). Os Judeus do dia de Cristo geralmente acreditavam que a descendência física de 
Abraão garantiu sua salvação. João Batista os repreendeu: “E não presumais, de vós mesmos, 
dizendo: Temos por pai a Abraão” (Mateus 3:9). E Paulo declara que “os que são da fé são filhos 
de Abraão” (Gálatas 3:7). Sangue ou raça, portanto, não é a causa da regeneração. A segunda e 
terceira maneira de não nascer de novo é a vontade da carne e a vontade do homem, ou melhor, a 
vontade de um homem. 
A distinção entre o segundo e o terceiro ponto, a vontade da carne e a vontade de um homem, é 
provavelmente que a vontade da carne se refere à natureza humana em geral. Todos os homens 
por nascimento são alienados de Deus. Não há nada na natureza humana que leve o homem à 
vida eterna. Isso já foi amplamente explicado pela descrição da condição pecaminosa do homem. 
O terceiro ponto contrasta a natureza humana geral com qualquer homem. Um determinado 
homem pode pensar que, independentemente da condição de outros homens, e 
independentemente de seu próprio estado pecaminoso, pode decidir por si mesmo aceitar a Cristo 
e ser salvo. Isto é o que João nega. Ninguém nasce de novo por um acto de sua vontade. 
Ninguém pode entender mal o texto. Diz categoricamente que aqueles que recebem Cristo 
nasceram, não pela vontade de um homem, mas de Deus. 
Para se tornar Cristão, a pessoa deve nascer de novo, nascer na família de Deus. Todos nós 
éramos “filhos da ira, como os outros também” (Efésios 2:3), e tivemos que renascer como filhos 
 
 
84 
 
de Deus. Obviamente, isso é algo que um homem não pode fazer. Quando alguém é “nascido do 
Espírito” (João 3:6), é a obra do Espírito. Um bebê não pode iniciar seu nascimento. Este é o 
acto de seus pais. Nenhum bebê escolhe ou decide nascer. É por isso que a mudança espiritual da 
morte do pecado para a novidade da vida é retratada como um nascimento. A imagem da 
ressurreição ensina a mesma lição. Somos ressuscitados dos mortos, mas não nos ressuscitamos a 
nós mesmos; é o acto de Deus. Daí a vontade do homem não tem nada a ver com isso, 
absolutamente. A dependência Arminiana da vontade humana simplesmente torna a salvação 
impossível. Alguns Arminianos podem de facto ter sido salvos - por uma bênção inconsistente. 
Mas a pregação Arminiana, como a do evangelista Charles G. Finney, é uma tragédia total. 
Antes, quando John Wesley afundou cada vez mais em sua persuasão semi-Romana e anti-
Bíblica, George Whitefield escreveu uma carta de condenação. Seria instrutivo se os Cristãos 
contemporâneos, que em geral nunca aprenderam as lições da Reforma, lessem e considerem 
cuidadosamente as advertências do santo George Whitefield. 
Whitefield e Hutcheson 
Whitefield descobriu que John Wesley estava prestes a publicar um sermão sobre predestinação. 
Em 25 de Junho de 1739, ele escreveu em particular a Wesley e pediu-lhe que não publicasse. 
Em 2 de Julho de 1739, ele escreveu novamente: “Querido e honrado senhor, se você tem 
alguma consideração pela paz da igreja, mantem contigo seu sermão sobre predestinação.” 
Assim que Whitefield deixou a Inglaterra em Agosto de 1739, Wesley publicou seu sermão, 
intitulado Free Grace, e anexado a ele, um hino de seu irmão Charles na Redenção Universal. 
Entre Agosto de 1739 e início de 1741, Whitefield escreveu várias vezes a Wesley, tentando 
persuadi-lo a voltar ao ensino Bíblico. Em uma carta, ele disse: “Que conceito carinhoso é chorar 
pela perfeição e, ainda assim, reprimir a doutrina da perseverança final. Mas você incorrerá 
nestes e muitos outros absurdos, porque você não reconhece a eleição. Oh, se você estudasse o 
pacto da graça.” Em 1741, Whitefield tornou pública sua carta de 24 de Dezembro de 1740. É 
uma longa carta de dezoito páginas impressas (na edição de Banner of Truth de Whitefield’s 
Journals, 1960). 
A seguir, alguns trechos desta carta. 
 
 
85 
 
Honrado senhor, como poderia entrar em seu coração para escolher um texto para refutar a 
doutrina da eleição fora de Romanos oito, onde esta doutrina é tão claramente afirmada, que uma 
vez falando com um Quaker sobre o assunto, ele não tinha outra maneira de evitar a força da 
afirmação do apóstolo do que dizer: “Creio que Paulo estava errado”. (...) Se você tivesse escrito 
claramente, primeiro deveria honrar o Senhor, provar sua proposição “que a graça de Deus é livre 
para todos”... mas você sabia que as pessoas... eram geralmente preconceituosas contra a doutrina 
da reprovação e, portanto, achavam que se você mantivesse a antipatia deles, poderia derrubar 
completamente a doutrina da eleição. Eu francamente reconheço que acredito na doutrina da 
reprovação. 
Esta é a doutrina estabelecida nas Escrituras e reconhecida como tal no décimo sétimo artigo da 
Igreja da Inglaterra, como o próprio bispo Burnet confessa; no entanto, o querido Sr. Wesley 
nega absolutamente isso. 
A longa carta deve ser lida em sua totalidade, mas como esse não é o lugar para se aprofundar na 
história do século XVIII, voltaremos ao primeiro século e ao Evangelho de João. O Evangelho 
de João contém outros versículos de apoio. Eles são tão claros que é difícil explicar como 
Wesley e Finney poderiam ter falhado em vê-los. “O vento sopra onde quer… assim é todo 
aquele que é nascido do Espírito” (João 3:8). Se os Cristãos contemporâneos não estão 
familiarizados com o trabalho de Whitefield, eles estão ainda menos familiarizados com os 
Puritanos, grandes e pequenos. George Hutcheson talvez estivesse no meio do caminho entre os 
grandes e pequenos. Um de seus comentários sobre João 3:8 acrescentará uma nota histórica e 
exegética à discussão. Em sua Exposição do Evangelho segundo João, ele diz neste lugar: 
O trabalho do Espírito é comparado ao vento, não apenas aqui, e naquele derramar extraordinário 
do Espírito, Actos 2:1-2, mas Canticles [Cantares de Salomão] 4:16; não apenas porque o Espírito 
e o vento têm um nome nas línguas originais das escrituras, mas por causa de muitas coisas em 
que um se parece com o outro; e no texto… nós temos estes: 1, Assim como o vento sopra 
livremente pelo mundo, não se sujeitando ao comando, nem se importando com a proibição de 
qualquer criatura, assim o Espírito, em seu trabalho, é um agente livre, trabalhando onde, em 
quem, quando e em que medida lhe agrada, e não será impedido por ninguém… . 
A verdade de que ninguém pode impedir a causalidade divina, é afirmada por João novamente 
em 5:21: “Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos e os vivifica [os faz viver], assim também 
o Filho vivifica aqueles que quer”. Aqui está novamente a figura de uma ressurreição, em vez de 
um renascimento. Mas os conceitos são os mesmos. É uma questão de produzir vida. Quem deve 
renascer ou ressuscitar depende totalmente da vontade de Deus. O Filho vivifica quem ele quer. 
 
 
86 
 
Ninguém pode deter a sua mão; Ninguém pode resistir à sua vontade.O assunto está 
inteiramente nas mãos de Deus. Deus é irresistível. 
Graça Irresistível 
Ênfase suficiente tem sido dada ao significado do renascimento e ressurreição como figuras de 
linguagem para a acção do Espírito Santo de Deus. Agora, sob a noção de graça irresistível, a 
Bíblia continua a revelar o poder causador da predestinação na vida dos pecadores mortos. A 
Bíblia fala muitas e muitas vezes sobre a graça irresistível. Além do verso previamente 
antecipado, considere a seguinte lista. 
Ezequiel 11:19 diz: “E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei 
da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne”. Esse versículo diz que Deus 
fará alguma coisa. Ele vai remover um coração de pedra e transplantar um coração de carne e 
colocar um novo espírito no paciente. Este paciente não pediu um transplante. Seu coração de 
pedra estava bastante satisfeito consigo mesmo. Era inimiga de Deus. Teria resistido à operação, 
se pudesse; mas não conseguiu. O poder de Deus é irresistível; e se Deus diz, eu removerei seu 
coração e lhe darei outro, ele fará isso, e ninguém poderá deter a mão dele. A mesma coisa é 
repetida quase literalmente em Ezequiel 36:26-27. 
Sem esse acto divino, a condição do homem é sem esperança. A pregação não produz nenhum 
efeito salvador. O pecador é incapaz de acreditar. João 12:38-39 cita Isaías 53:1 e acrescenta a 
implicação: “Por isso não podiam crer”, Em seguida ele faz outra citação de Isaías. O facto de 
que a salvação repousa na iniciativa divina e não na vontade do homem é indicado novamente 
em João 15:16: “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós”. Este verso não 
declara explicitamente que a escolha de Cristo é irresistível, mas os versículos precedentes 
afirmaram isso, e os seguintes afirmarão novamente. 
Actos 13:48 afirma que “creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna”. Se eles 
pudessem ter resistido a essa ordenação, não teriam crido. Visto que todos, sem exceção, creram, 
devem ter sido irresistivelmente preordenados. Mais adiante, em Actos 26:18, há uma descrição 
da conversão de Paulo e sua motivação. O motivo foi Deus. Deus decidiu enviar Paulo para abrir 
 
 
87 
 
os olhos dos gentios e convertê-los do poder de Satanás para Deus, a fim de que eles recebessem 
o perdão dos pecados. Agora parece que este verso pressupõe que Deus pode derrotar Satanás e 
converter os gentios. Mas a referência mais óbvia à graça irresistível está no próprio Paulo. Deus 
decidiu usar Paulo. Ele pretendia torná-lo um ministro e uma testemunha e, eventualmente, 
colocá-lo diante do rei Agripa, como neste capítulo. Deus poderia ter falhado? Paulo poderia ter 
resistido? Poderia uma criatura derrotar o plano e a intenção do Criador? Deus havia criado 
Paulo para esse propósito. É ridículo supor que o pedaço de barro, desta vez formado em um 
vaso de honra, poderia ter resistido ao Oleiro divino. 
Leia 2 Coríntios 4:6: “Deus…resplandeceu em nossos corações, para iluminação do 
conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo.” Deus poderia brilhar e impedirmos a 
luz? Se ele coloca conhecimento em nossas mentes, podemos decidir ser ignorantes? 
Por que é que um homem, um pecador morto, se volta para Deus? A resposta a esta pergunta era 
conhecida pelos santos do Antigo Testamento. Davi no Salmo 65:4 declara: “Bem-aventurado 
aquele a quem tu escolhes [Paulo, por exemplo], e fazes chegar a ti.” Tal como Adão em sua 
queda, Caim após o assassinato de Abel, os perversos reis de Israel, os pecadores não querem se 
aproximar de Deus. Eles querem fugir dele, colocá-lo fora de suas mentes e adorar coisas 
rastejantes ou bezerros de ouro, em vez de buscarem a face de Deus. Isso todos eles farão, isso 
todos nós faremos, a menos que Deus escolha alguns e faça com que essas pessoas se aproximem 
do seu santo templo. 
Efésios 2:5 e Filipenses 2:13 já foram discutidos, e agora podemos nos voltar para 1 
Tessalonicenses 5:9: “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação, 
por nosso Senhor Jesus Cristo.” E 2 Tessalonicenses 2:13-14, “por vos ter Deus elegido desde o 
princípio para a salvação... Para o que pelo nosso evangelho vos chamou… para alcançardes a 
glória de nosso SENHOR Jesus Cristo.” A salvação era o propósito da designação de Deus e 
para esse propósito ele nos escolheu. Como alguém poderia resistir e anular o que Deus fez 
“desde o princípio”? Agora, finalmente, para esta série de versículos, Tiago 1:18 diz: “Segundo a 
sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade”. Isso reforça João 1:13: Fomos gerados pela 
vontade de Deus. Pode uma criança ainda não gerada impedir o gerador de gerá-lo? Uma 
 
 
88 
 
pergunta simples como essa mostra o absurdo envolvido na negação da graça irresistível e da 
predestinação. 
Arminianismo 
Este é um lugar tão apropriado quanto qualquer outro para esboçar a teologia Arminiana que tão 
directamente ataca esses elementos penetrantes da revelação Bíblica. Esta teologia, introduzida 
no Protestantismo por James Arminius (Jacob Hermandszoon), cujas doutrinas foram 
condenadas pelo Sínodo de Dordt em 1620, mas que viviam em John Wesley e Charles G. 
Finney, sustenta que Deus elege pessoas para a vida eterna, não com base em seu mero bom 
prazer como a Bíblia diz, mas sob a condição da recepção voluntária da graça e sua perseverança 
nela. Isso faz com que o decreto de Deus dependa da escolha independente do homem e da 
capacidade de viver uma vida Cristã. 
No próximo lugar, essas pessoas sustentam que a morte de Cristo não salva ninguém. Cristo não 
pretendia salvar ninguém. Ele não tinha Abraão nem Paulo em mente. Ele não morreu por 
indivíduos definidos; ele não me amou e deu a sua vida por mim, como Paulo diz em Gálatas 
2:20; mas ele morreu por todos os homens indiscriminadamente. Ao morrer por todos os homens 
em massa, ele tornou a salvação meramente possível a todos os homens indiferentemente, mas 
ele não tornou a salvação real para ninguém. Ele realmente não salvou ninguém. Pois nessa visão 
Arminiana, Cristo na cruz não foi um substituto para Pedro, Tiago, João e os eleitos. Ele não 
pagou a penalidade por mim. Ele não pretendia salvar nenhuma pessoa em particular. 
Ao tornar a salvação real para alguns homens, o Espírito Santo, na visão Arminiana, exerce a 
mesma influência sobre todos os homens universalmente. Não há operação de graça irresistível. 
O Espírito trata todos os homens. Alguns estão salvos porque cooperam com ele. Outros estão 
perdidos porque resistem a ele. A salvação real depende da vontade do homem e não da vontade 
de Deus. 
Neste esquema, a salvação não é garantida pelo sacrifício de Cristo. De facto, a salvação não é 
absolutamente certa. Um homem que ao mesmo tempo coopera com o Espírito e crê 
verdadeiramente pode mais tarde se perder. Ninguém pode ter certeza nesta vida de que chegará 
 
 
89 
 
ao céu. Há sempre a possibilidade de que a vontade livre e mutável do homem vacile e mude, 
neste caso, o homem se tornará não regenerado. Claramente os Arminianos não têm o Evangelho. 
Eles não têm boas notícias. Eles deixam o homem na incerteza e no desespero. 
Fé 
Esta breve discussão sobre o Arminianismo mostra bem a importância da aplicação da redenção. 
O decreto eterno de Deus não é toda a história; nem a morte de Cristo na cruz. Os efeitos destes 
devem terminar em pecadores individuais. Um efeito é regeneração. Isso já foi discutido. A 
graça irresistível é outro factor na aplicação da redenção. Agora, o próximo factor na aplicação 
da redenção ao pecador individual é a fé - fé salvadora em Jesus Cristo. 
Um evangelista, evangelista infiel, disse a um grupo de pessoas que semanifestou ao seu convite, 
que Deus não poderia levá-los a aceitar a Cristo, mas que, se por sua própria vontade se 
decidissem por Cristo, então Deus os regeneraria. Asseguro ao mundo, como o inspirado 
salmista assegurou com autoridade há muito tempo, que Deus pode e faz com que os pecadores 
busquem seu rosto. Eu também posso assegurar ao mundo, como Paulo assegurou mais 
autoritariamente, que ninguém jamais foi salvo por esse tipo de “evangelismo”. Não é 
evangelismo porque não é o Evangelho. Não é o Evangelho. Não é uma boa notícia. É um 
esquema de salvação pela força da vontade humana. Mas um homem morto não pode buscar a 
Deus; ele não pode exercer fé em Jesus Cristo. A fé salvadora é uma actividade da vida espiritual 
e, sem essa vida, não pode haver actividade. Além disso, a fé salvadora não é o resultado do 
chamado livre arbítrio do homem. O homem, sozinho, não pode produzir fé salvadora. A fé não 
vem por nenhuma decisão independente. A Escritura é explícita, clara e inconfundível: “Porque 
pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.” (Efésios 2:8). 
Olhe para as palavras novamente: “É o dom de Deus”. Se Deus não der fé ao homem, nenhuma 
quantidade de força de vontade e decisão poderá produzi-la para ele. 
Numa certa cerimônia de formatura, ouvi um presidente do seminário interpretar mal esse 
versículo. Sua má interpretação não conseguiu livrar o versículo da ideia de que a fé é o dom de 
Deus, embora fosse, presumivelmente, sua intenção. Ele baseou seu argumento no facto de que a 
palavra fé em grego é feminina, e a palavra isto na frase “isto não vem de vós” é neutra. Portanto, 
 
 
90 
 
concluiu ele, que a palavra isto que não pode ter fé como seu antecedente. O antecedente, de 
acordo com este presidente do seminário, deve ser toda a frase precedente: “Porque pela graça 
sois salvos, por meio da fé” Agora, mesmo se isso fosse correcto, a fé ainda é uma parte da frase 
precedente e é, portanto, uma parte do dom. Tomar toda a frase como antecedente faz pouco 
sentido. Explicar que a graça é um dom é tautológico. Claro, se somos salvos pela graça, deve 
ser um dom. Ninguém poderia falhar esse ponto. Mas Paulo acrescenta: “salvos pela graça, por 
meio da fé”, e para ter certeza ele também acrescenta, e isto, que é fé não vem de vós mesmos. 
Mas e quanto à observação do presidente de que a fé é feminina e isto é neutro? Bem, é claro, 
esses são os gêneros das duas palavras; mas o presidente não sabia muita gramática grega. No 
caso dos substantivos concretos, por exemplo, a mãe, o navio, o caminho, a casa, os pronomes 
relativos que se seguem são geralmente femininos; mas o que o presidente não sabia é que 
substantivos abstractos como fé, esperança e caridade usam o neutro do pronome relativo. De 
facto, mesmo uma coisa feminina, um substantivo concreto, pode ter um neutro relativo (ver 
Gramática Grega de Goodwin § 1022). A moral dessa pequena história confirma a política 
Presbiteriana original de insistir em um ministro instruído. Ali estava um presidente do seminário 
distorcendo a mensagem divina por causa da ignorância do grego
9
 - ou, mais profundamente, 
uma vez que tenho motivos para julgar algumas de suas publicações, por causa de uma antipatia 
pela soberania divina. 
Voltando agora dessas observações gramaticais ao sentido do próprio versículo, pode-se ver 
facilmente que um doador escolhe a quem ele dará algo; e se ele não escolhe uma pessoa em 
particular, essa pessoa não recebe o presente. O presente, neste caso, é uma certa actividade 
mental chamada crença; em concreto, crer em Cristo. Não é qualquer tipo de fé, pois, embora o 
 
9
 A. Robertson em sua Gramática do Novo Testamento grego, página 704, lista seis excepções a regra 
comum de que os adjectivos concordam em gênero com seus substantivos: Actos 8:10; Judas 12; 2 Pedro 
2:17; 1 Pedro 2:19; 1 Coríntios 6:11 e 10:6. Estes incluem pronomes masculinos com substantivos 
femininos, adjectivos neutros com substantivos femininos e adjectivos neutros com substantivos 
masculinos. O mais interessante na presente conexão é 1 Pedro 2:19, onde duas vezes há um 
demonstrativo neutro com um substantivo feminino, paralelamente a Efésios 2:8. Eu relato que Robertson 
estranhamente afirma que o demonstrativo neutro em Efésios 2:8 não se refere ao substantivo fé. Ele não 
dá uma razão gramatical nem teológica para essa afirmação. 
 
 
91 
 
próprio versículo não diga explicitamente fé em Cristo, ninguém pode racionalmente negar que o 
contexto implica que Cristo é o objecto dessa fé. Note bem, Deus não dá ao receptor escolhido 
uma habilidade mental geral para acreditar. A capacidade mental geral foi um presente para toda 
a humanidade na criação. Esta capacidade mental foi viciada pelo pecado, e a humanidade é 
culpada de pensamentos errados. Mas, por essa mesma razão, não é tanto a capacidade mental 
em si que é prejudicada pelo pecado (embora em outra conexão isso seja verdadeiro e pertinente 
também), como a escolha voluntária de objectos para acreditar. O pecador mais turbulento pode 
muito bem crer na Segurança Social ou nas Nações Unidas, mas não pode crer em Cristo. A fé 
em Cristo é um dom, um dom obviamente dado apenas a alguns homens e não a todos. Esses 
“alguns” são aqueles que Deus escolheu, elegeu ou predestinou. 
Parenteticamente, pode-se notar aqui que as tentativas de melhorar a versão King James nem 
sempre são louváveis. A Nova Bíblia em Inglês diz: “Pois é por sua graça que você é salvo, 
confiando nele; não em seu própria obra. É um presente de Deus, não uma recompensa pelo 
trabalho realizado. Não há nada do que se gabar.” Embora essa não seja a pior tradução possível, 
ela não mantém o nível de precisão exigido para a tradução da Bíblia. Ela diz “por sua graça” e 
isso significa a graça de Cristo; mas o texto actual não indica se é a graça de Cristo ou do Pai. 
Simplesmente diz “pela graça”; por que não deixar assim? Em segundo lugar, não faz a possível 
correcção na frase seguinte: “pela graça vocês foram salvos”. Portanto, aqui não há melhoria 
sobre o King James. Terceiro, A Nova Bíblia em Inglês diz: “confiando nele”, em vez de “pela 
fé”. Acima foi apontado que, por implicação, o objecto da fé é Cristo; mas é uma expressão 
implícita e não explícita. Uma boa tradução deve seguir as palavras e não inserir as implicações. 
Então, para um último ponto, embora A Nova Bíblia usa a palavra obra e diz “não é uma 
recompensa pela obra realizada”, a omissão da palavra fé resulta em um enfraquecimento do 
contraste entre fé e obras. Esse enfraquecimento é visto ainda pelo facto de que a Nova Bíblia em 
Inglês não deixa claro que o presente que Deus dá é a fé. 
Embora o verso em Efésios seja o verso mais conhecido que declara fé como um dom, há outros. 
Romanos 12:3 também diz que a fé é um dom e acrescenta que Deus decide o tamanho, a 
extensão ou a medida do dom. As palavras são: “pense com moderação, conforme a medida da fé 
que Deus repartiu a cada um.” O contexto deixa claro que “cada um” não significa todo homem 
 
 
92 
 
no mundo inteiro, mas “todo homem que está entre vocês” Cristãos Romanos. Para essas pessoas, 
Deus mediu diferentes “medidas” de fé. Alguns homens crêem mais, alguns crêem menos. 
Quanto do que um homem crê, sem dúvida, depende imediatamente do quanto ele entende. 
Como Paulo havia dito no décimo capítulo, um homem não pode crer a menos que tenha ouvido 
as boas novas. Mas em última análise, o quanto das boas novas que ele crê, depende de Deus 
estabelecer a medida para ele. Isso está muito longe da insistência do evangelista fundamentalista 
de que à vontade não regenerada, com Deus estagnadode lado e desamparado, pode produzir fé 
em si mesma. Se um homem crê em alguma coisa, e o quanto ele acredita, é determinado por 
Deus. 
Efésios 6:23 implica a mesma coisa, quando Paulo, em sua bênção, diz: “Paz… e amor com fé da 
parte de Deus Pai”. Filipenses 1:29 reforça a ideia: “Porque a vós vos foi concedido, em relação 
a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele.” A ideia principal aqui é preparar 
os Filipenses para a perseguição, mas uma parte da preparação é o conhecimento de que Deus 
lhes dá fé. 
Menos explícito, porque é uma descrição dos resultados dos esforços evangelísticos, mas ainda 
assim bastante óbvio, é Actos 11:21. Quando os discípulos foram dispersos por causa da 
perseguição, eles pregaram o Evangelho onde quer que fossem, “E a mão do Senhor era com eles; 
e grande número creu”. Os pagãos acreditavam, é claro, porque a mão do Senhor estava com os 
Cristãos e tornou a sua pregação eficaz. Também menos explícito, mas ainda muito distante da 
noção de fé como uma possibilidade totalmente humana para homens não regenerados, é 1 
Coríntios 2:5, que diz: “Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no 
poder de Deus”. 
Mais explícito é 1 Coríntios 12:9 “Porque a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a 
outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência; E a outro, pelo mesmo Espírito, a fé.” A lista 
dos dons do Espírito continua e inclui milagres, profecias e línguas. Note que a fé é tanto um 
dom quanto o poder de operar milagres; e quem alegaria que o homem não regenerado (a menos 
que possuído por Satanás) poderia por si mesmo realizar milagres? 
 
 
93 
 
Estes versos são talvez os versos mais importantes que declaram que a fé é o dom de Deus. As 
Escrituras contêm mais uma multidão deles, descrevendo a natureza da fé, os resultados da fé e 
exemplos pessoais de fé. Nenhuma dessas passagens nega que a fé é um dom de Deus, e se elas 
não dizem explicitamente que Deus produz fé, seus contextos implicam ou pressupõem isso. 
Arrependimento 
Depois da fé, o próximo factor que deve ser discutido na aplicação da redenção ao indivíduo é o 
arrependimento. A primeira coisa a ser feita aqui é entender o significado da palavra 
arrependimento. A palavra em si é bastante infeliz. Foi introduzida na língua inglesa e na versão 
King James sob a influência da tradução da Vulgata de Jerônimo do texto grego. O latim de 
Jerónimo era melhor do que qualquer outra tradução do seu dia, mas entre seus defeitos estava o 
uso da penitência, em vez do que hoje chamamos de arrependimento. Fazer penitência é tentar 
pagar a dívida pelo pecado. Ninguém além de Cristo pode fazer isso; e confundir a metanoia 
com a penitência resultou em muito mal. A palavra grega no Novo Testamento é metanoia. 
Infelizmente, é tarde demais para mudar o idioma inglês; mas devemos ter cuidado para ver de 
forma precisa o significado da palavra no Novo Testamento. 
A melhor definição que conheço do arrependimento é a do Catecismo Menor: “O 
arrependimento para com a vida é uma graça salvadora, segundo a qual um pecador, recebendo o 
conhecimento de seu pecado e da misericórdia de Deus em Cristo, se enche de tristeza pelos seus 
pecados, abomina-os e se volta para Deus, resolvido a prestar-lhe obediência”. 
Em primeiro lugar, deve-se notar que o assunto é arrependimento para a vida. Esta é uma espécie 
de um gênero que inclui outros tipos de arrependimento. A metanóia, palavra do Novo 
Testamento significa uma mudança de mentalidade. Mas é claro que os homens mudam de 
mentalidade em todo o tipo de assunto. Sob o controle de certas ideias, um pai pode ter a 
intenção de dar ao seu filho pequeno um trenó para o Natal; mas depois ele muda de ideia, aceita 
outras ideias e decide dar-lhe um trem eléctrico. Este é um exemplo de metanoia, 
arrependimento, uma mudança de mentalidade; mas é claro que não é a mudança de mentalidade 
específica que o Novo Testamento fala. 
 
 
94 
 
O arrependimento para a vida é de facto uma mudança de mentalidade. Ideias anteriores são 
postas de lado, novas crenças são aceitas e, como resultado, diferentes condutas se manifestam. 
As novas ideias, para as quais o pecador muda, são resumidas no Catecismo. Anteriormente, ele 
tinha ideias incorrectas sobre o pecado; ele muda para um verdadeiro conceito de pecado. 
Anteriormente, ele tinha ideias erradas sobre Deus. Agora ele tem uma verdadeira compreensão 
da misericórdia de Deus em Cristo. Para ter certeza, e especialmente neste século XX, ele pode 
ter pensado que Deus era misericordioso, tão misericordioso que nunca puniria ninguém. Ele 
provavelmente pensou também que Cristo não era necessário para uma religião satisfatória. Mas 
agora ele tem uma verdadeira, não errônea, apreensão da misericórdia de Deus, como ocorre 
apenas em Cristo. Por causa dessas novas ideias, ele se volta com pesar e ódio de seu pecado a 
Deus e se esforça para obedecer às suas leis. Tal é a particular mudança de mentalidade que o 
inglês da King James Version designa como arrependimento. 
Agora, a conexão com a predestinação, mais directamente diz respeito a outro ponto. A primeira 
frase do Catecismo é: “O arrependimento para a vida é uma graça salvadora”. Quando alguém vê 
que não é apenas isso que o Catecismo diz, mas que o Catecismo resume correctamente a Bíblia, 
verá mais claramente como o arrependimento e a predestinação devem caminhar juntos. 
Se o arrependimento é uma graça, é um favor imerecido, a acção mental de arrependimento, a 
substituição das ideias seculares pelas Cristãs, é o favor ou dom de Deus. Quando Pedro pregou a 
Cornélio, não entendeu muito bem como Deus lidaria com os gentios. Ele já sabia que o 
arrependimento era um dom de Deus. Então, quando Cornélio recebeu o Espírito Santo, Pedro e 
aqueles a quem ele mais tarde contou o episódio disseram: “até aos gentios deu Deus o 
arrependimento para a vida.” (Actos 11:18). O arrependimento é uma concessão, um dom dado 
por Deus aos indivíduos particulares que ele escolhe. 
Deus não escolhe dar arrependimento a todos os homens. Em 2 Timóteo 2:25 o apóstolo escreve: 
“Instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento 
para conhecerem a verdade.” Obviamente, nem todos repudiam suas ideias seculares e 
reconhecem a verdade. Mas alguns repudiam. Aqui o apóstolo nos diz como nos conduzir na 
 
 
95 
 
presença daqueles que perseguem sua própria destruição, pois talvez Deus dê arrependimento a 
alguns deles. Naturalmente, é Deus quem escolhe a quem ele fará essa concessão. 
 
A escolha de Deus é feita contra um pano de fundo. Toda a história se encaixa em um esquema 
unificado. Portanto, em Actos 5:31, Lucas, citando Pedro, escreve: “Deus com a sua destra o 
elevou a Príncipe e Salvador, para dar a Israel.” Não pode haver arrependimento para a vida sem 
Cristo. Mas isso enfatiza ainda mais o controle de Deus. A mesma idea, embora não seja a 
mesma palavra, também ocorre no Antigo Testamento. Zacarias 12:10 é: “Mas sobre a casa de 
Davi, e sobre os habitantes de Jerusalém, derramarei o Espírito de graça e de súplicas; e olharão 
para mim, a quem traspassaram; e pranteá-lo-ão sobre ele, como quem pranteia pelo filho 
unigênito; e chorarão amargamente por ele, como se chora amargamente pelo primogênito.” As 
súplicas e lamentos são o efeito do derramamento de seu Espírito sobre a casa de Davi por parte 
de Deus. A súplica não é o resultado de qualquer inclinação natural para buscar a Deus, pois 
ninguém em si mesmo busca a Deus – nem um sequer. 
 
Não tão explícito, mas apoiando a ideia principal, é 2 Coríntios 7:10: “tristeza segundo Deus”, 
isto é, tristeza segundo Deus, tal como o Evangelho segundoJoão, seu autor - “A tristeza 
segundo Deus opera arrependimento” A causa da tristeza é Deus. 
 
Em conclusão, este capítulo mostrou que a aplicação da redenção aos indivíduos é causada por 
Deus. Quanto à regeneração, o homem não participa em nada. Ele não faz nada. Deus faz algo 
para ele. A vontade humana não tem papel algum. Nos casos de fé e arrependimento, o homem 
realmente faz alguma coisa. Fé e arrependimento são actividades mentais, combinando o 
intelecto e a vontade. O homem deve entender e acreditar. Mas embora estas sejam coisas que o 
homem faz, é Deus quem faz com que ele as faça, e sem essa causalidade o homem 
simplesmente não poderia ter esse estado de mente. A salvação é do Senhor. 
 
 
 
 
 
96 
 
6. LIVRE ARBÍTRIO 
Os capítulos anteriores foram uma exposição directa de várias centenas de versículos das 
Escrituras. Eles estabeleceram completamente as doutrinas da criação, onisciência, o decreto 
eterno, a predestinação e a aplicação da redenção. Neste capítulo, a exposição dá lugar a 
refutação; muitas pessoas levantaram objecções contra essas doutrinas, e aqui uma resposta é 
dada a uma delas. Isso significa que haverá menos exposição e mais argumentação, pois a 
exposição está realmente concluída. Haverá Bíblia suficiente; todas as passagens anteriormente 
citadas serão a base; mas haverá alguma filosofia e um pouco de história também. 
Uma Pequena Filosofia 
Uma das objecções comuns à predestinação é que ela entra em conflito com o livre arbítrio. A 
pessoa que faz essa objecção é, sem dúvida, correcta em uma coisa, a saber, o livre-arbítrio e a 
predestinação são conceitos contraditórios. Ninguém que conheça os significados dos termos 
pode acreditar nas duas doutrinas, a menos que seja totalmente insano. Mas nem todo mundo 
sabe o que as palavras significam. 
A ideia do livre arbítrio, ou, mais imprecisamente, da liberdade, é muito confusa; ou talvez se 
deva dizer que o termo liberdade foi aplicado por escritores diferentes à coisas bem diferentes. 
Parece-me que há uma gama mais ampla de significados entre os muito bem-educados do que 
entre a população comum. Pessoas comuns, Cristãs ou não, parecem ter uma noção clara e 
precisa do livre arbítrio; enquanto os filósofos diferem entre si e às vezes consigo mesmos. 
Por exemplo, o filósofo francês do século XVII René Descartes, o fundador da filosofia moderna, 
não apenas divergiu do significado comum, mas também pode ter sido inconsistente consigo 
mesmo. Em sua quarta Meditação, ele escreve que: 
A faculdade da vontade somente, ou a liberdade de escolha [é] tão grande que eu sou incapaz de 
conceber a ideia de outra que seja mais ampla e estendida; de modo que é principalmente minha 
vontade que me leva a discernir que tenho uma certa imagem e semelhança da Deidade... pois o 
poder da vontade consiste apenas nisso, que somos capazes de fazer ou não fazer a mesma coisa ... 
ou melhor … Nós agimos de tal modo que não estamos conscientes de que estamos sendo 
determinados a um determinado acto por qualquer força externa. 
 
 
97 
 
A primeira metade dessa citação parece reflectir a opinião comum: não há limites concebíveis 
para a liberdade. Até a liberdade de Deus não é mais ampla e extensa que a minha, diz ele. Mas a 
segunda metade parece fazer a liberdade consistir em nossa ignorância da força externa que 
controla a vontade. Certamente isso não é o que a maioria das pessoas quer dizer. Liberdade 
deve significar a ausência de limitação, não a ignorância de quais são as limitações reais. 
Na mesma página, Descartes diz outra coisa também que é inconsistente com a ideia de liberdade 
absoluta aparentemente afirmada no começo da citação que acabamos de fazer: 
Para a posse da liberdade não é necessário que eu pareça indiferente a cada um dos dois 
contrários; mas, pelo contrário, quanto mais me inclino em relação a ele, seja porque sei 
claramente que nele há a razão da verdade e da bondade, ou porque Deus, assim, internamente 
dispõe o meu pensamento, mais livremente escolho e abraço isso; e seguramente, a graça divina e 
o conhecimento natural, muito longe de diminuir a liberdade, aumenta-a e fortifica-a. 
Ele então prossegue dizendo que a liberdade da indiferença é o grau mais baixo de liberdade e 
“manifesta defeito ou negação do conhecimento em vez da perfeição da vontade”. 
Nestas palavras, Descartes sustenta que se o conhecimento ou graça divina controla e determina 
a vontade, somos mais livres do que se tivéssemos a liberdade da indiferença. A força pre-
determinadora da graça aumenta e fortalece a liberdade. Para o escritor actual, isso parece estar 
muito próximo da verdade; mas, em qualquer caso, é inconsistente com a liberdade de vontade, 
assim como isso é comumente entendido em objecções contra a predestinação. 
Se aqui Descartes parece inclinar-se para o Calvinismo, em Os Princípios da Filosofia I, 41, ele 
favorece a visão Romana e mais comum. Neste parágrafo ele afirma que Deus, apesar da 
onisciência e predestinação, “deixa as acções livres dos homens indeterminadas”; e ele não 
baseia essa afirmação na Bíblia e na dedução lógica, mas na experiência imediata: “Temos uma 
tal consciência da liberdade e da indiferença que existe em nós mesmos, que não há nada que 
possamos compreender mais clara ou perfeitamente”. Esta é uma afirmação que o filósofo 
Holandês Spinoza mais tarde destruiu em pedaços ao apontar que a consciência da liberdade não 
pode ser distinguida da ignorância da determinação. O pequeno Tommy, de quatro anos, bate o 
pé, faz uma birra [insistência em permanecer numa acção – Nota do tradutor] e quer o que quer 
quando quer. Ele sabe que é livre porque ele quer tanto energeticamente. Mas se sua mãe é sábia, 
 
 
98 
 
ela sabe que ele está agindo porque perdeu sua soneca. Tommy ignora as causas que o afectam. 
Assim também são, sem dúvida, todos adultos. Mas a ignorância não é liberdade. 
Além do argumento de Spinoza, o Cristianismo da Reforma insiste em apelar para as Escrituras, 
não para experiências. Foi o teólogo alemão do século XIX Friedrich Schleiermacher quem 
introduziu a experiência na teologia “Cristã”, e o Modernismo foi o resultado. Sem dúvida, todos 
nós temos experiências, experiências de muitos tipos; mas as análises dessas experiências não 
podem ser feitas por nossos recursos humanos comuns. Mesmo que psicólogos treinados pensem 
que os recursos humanos são suficientes para descobrir as causas do comportamento, eles 
concordariam que as pessoas que não são psicólogas treinadas são incompetentes para fazer a 
análise. Realmente, os psicólogos também são incompetentes, pois, a menos que um analista seja 
onisciente, seu fracasso em descobrir uma causa da acção não provaria a liberdade. Isso prova 
apenas ignorância. Somente a onisciência poderia saber que nenhuma causa está afectando a 
conduta de uma pessoa. Além da onisciência, a causa pode ser bastante real, mas permanece 
desconhecida. Portanto, qualquer um que afirme saber, por experiência imediata, que tem livre-
arbítrio, está implicitamente reivindicando ser tão onisciente quanto Deus. Um Cristão, no 
entanto, não analisa sua experiência. Um Cristão sabe que ele não é nem onisciente nem infalível. 
Portanto, ele se volta para a Bíblia para encontrar a análise de Deus de sua experiência. É isso 
que nos propomos a fazer. 
A questão, portanto, é: a Bíblia ensina a liberdade da vontade? Por liberdade da vontade 
entende-se o que a maioria das pessoas comuns quer dizer: a ausência de qualquer poder 
controlador, mesmo Deus e sua graça, e, portanto, a capacidade igual em qualquer situação de 
escolher entre dois cursos de acção incompatíveis. Há alguns semi-Calvinistas que, 
presumivelmentepor medo, afirmam a liberdade da vontade e, em seguida, mais ou menos 
disfarçam o facto de que eles definem a liberdade da vontade de um modo que a maioria das 
pessoas nunca imaginaria. Em uma situação semelhante, o filósofo e matemático Francês do 
século XVII Blaise Pascal, em suas Cartas Provinciais, espanta os Dominicanos por usar termos 
Jesuítas com significados Jansenistas. Os Jesuítas eram poderosos demais; eles estavam prestes a 
esmagar os Jansenistas; e os Dominicanos estavam com medo. Pascal afirma que os termos 
Jesuítas transmitirão os significados Jesuítas à população e, portanto, a teologia Dominicana, em 
 
 
99 
 
pensamento semelhante ao Jansenismo, será derrotada pelos termos que usa. Assim também, os 
semi-Calvinistas que usam termos Arminianos apoiam o Arminianismo, pois a população nunca 
descobrirá suas definições esotéricas. Liberdade da vontade, quase universalmente, significa que 
Deus não determina a escolha do homem. Isso significa que a vontade é sem causa, não 
predeterminada. O presente livro usa o livre arbítrio em seu sentido comum e comumente aceito. 
A questão é: a Bíblia ensina a liberdade da vontade? 
É tão óbvio que a Bíblia contradiz a noção de livre-arbítrio que a sua aceitação pelos Cristãos 
professos pode ser explicada apenas pelos contínuos estragos do pecado que cegam as mentes 
dos homens. Para alguns isso soa como uma declaração extrema. Mas o apelo é para a Bíblia, e a 
Bíblia diz que o coração do homem é enganoso acima da medida. Ele usará todos os dispositivos 
possíveis para evitar reconhecer que é um verme, um pedaço de argila, uma criatura e não um ser 
independente e autônomo. O apelo é para a Bíblia. Este apelo foi feito extensivamente nos 
capítulos anteriores. Será feito novamente neste capítulo. Mas primeiro uma pequena história da 
Igreja será útil. 
Martinho Lutero 
Depois da época dos apóstolos, a necessidade imediata da Igreja era formular e defender a 
divindade de Cristo, o que ela fez na doutrina da Trindade no Credo de Nicéia. A próxima coisa 
foi manter que Cristo era uma pessoa com duas naturezas. Isso foi estabelecido no credo de 
Calcedônia. Então Agostinho poderia tomar as doutrinas do pecado, graça e predestinação. A 
Igreja até esta data não tinha pensado muito sobre essas doutrinas. Mesmo o próprio Agostinho, 
em suas primeiras tentativas, não compreendeu bem o que a Bíblia queria dizer. Mas mais tarde 
na vida ele escreveu dois tratados que todos deveriam ler: Graça, Livre Arbítrio e Predestinação. 
A posição ali adoptada caracterizou Agostinianos ou Calvinistas daqueles dias até estes. 
A anarquia política, com sua consequente supressão do aprendizado e decadência moral, 
atormentou a Igreja visível pelos próximos mil anos. No século IX, Gottshalk pregou a 
predestinação e, ao fazê-lo, foi preso até morrer. Por várias décadas no século XIV, Wycliffe 
lançou alguma luz Bíblica na Inglaterra. Mas a grande Reforma começou com Lutero em 1517. 
 
 
100 
 
A Reforma teve um bom começo enfatizando a graça e denunciando a penitência e as 
indulgências. Graça e justificação pela fé somente, rapidamente conduziu à questões de 
predestinação e livre arbítrio. Um dos oponentes de Lutero foi Erasmo. Erasmo criou um nome 
para si mesmo escrevendo sátiras aos monges, mas de uma maneira mais acadêmica, reunindo 
alguns manuscritos gregos e publicando, isto é, imprimindo, um Novo Testamento grego pela 
primeira vez no Ocidente. Nenhum desses eventos fez de Erasmus um Luterano, no entanto. Em 
defesa do Romanismo, Erasmo publicou um livro sobre o livre arbítrio. 
Do ponto de vista acadêmico, este livro foi uma produção bastante pobre. Lutero achou isso tão 
ruim que não prestou atenção pública. Por causa de seu silêncio, começou o rumor de que Lutero 
havia encontrado sua correspondência, que ele não poderia responder a Erasmus e que seu 
movimento tinha que falhar. Os amigos de Lutero o pressionaram para responder a Erasmus. 
Lutero considerou isso inútil por ser tão fácil. Mas os rumores populares forçaram-no a escrever 
um livro de cerca de 400 páginas intitulado The Bondage of the Will. Além dos tratados de 
Agostinho, todos deveriam ler este livro de Lutero. Será visto claramente que o Protestantismo 
começou com uma negação do livre-arbítrio, e que sua reintrodução nas igrejas Protestantes um 
século depois foi um passo atrás em direcção ao Romanismo e justificação pelas obras. 
Quando Lutero estava convencido de que tinha que escrever contra Erasmo, ele cumpriu sua 
obrigação com tanto vigor e tamanha plenitude que tornou a citação difícil. Cada pequeno ponto 
é discutido tão minuciosamente que poucos parágrafos são suficientemente completos para fazer 
boas citações. Mas podemos tentar algumas. 
Pois embora você pense e escreva errado a respeito do “livre-arbítrio”, ainda assim nenhum 
pequeno agradecimento a você será da minha parte, pois você tornou meus próprios sentimentos 
muito mais fortemente confirmados, por eu ver a causa do “livre arbítrio” tratada por todos os 
poderes de tal e tão grande talento, e tão longe de ser melhorada, deixaram pior do que antes: o 
que deixa uma prova evidente de que o “livre arbítrio” é uma mentira descarada; e que, como a 
mulher no Evangelho, quanto mais é tomado pelos médicos, pior isso fica.
10
 
Isso, portanto, também é essencialmente necessário e saudável para os Cristãos saberem: que 
Deus não conhece nada por contingência, mas que ele prevê, finaliza e faz todas as coisas de 
 
10
 Martinho Lutero, A Escravidão da Vontade, Soberana Graça edição, 1971, 17. 
 
 
101 
 
acordo com sua vontade imutável, eterna e infalível. Por esse raio, o “livre-arbítrio” é jogado 
prostrado e totalmente em pedaços. Aqueles, portanto, que afirmam o “livre-arbítrio”, devem ou 
negar este raio, ou fingir não vê-lo, ou empurrá-lo deles.
11
 
Sobre a autoridade de Erasmo, então, “livre arbítrio” é um poder humano. Vontade, que pode, por 
si só, vontade e não vontade de abraçar a Palavra e obra de Deus, pela qual deve ser levada para 
as coisas que estão além de sua capacidade e compreensão. Se, então, a vontade pode e não 
vontade também pode amar e odiar. E se pode amar e odiar, pode, até certo ponto, obedecer a Lei 
e crer no Evangelho. Pois é impossível, se você pode querer e não querer, que você não possa, por 
essa vontade, começar algum tipo de obra, mesmo que, do impedimento da outra, você não seja 
capaz de aperfeiçoá-la. E, portanto, como entre as obras de Deus que levam à salvação, a morte, a 
cruz e todos os males do mundo estão contados, a vontade humana pode querer sua própria morte 
e perdição. Não, pode desejar todas as coisas enquanto puder abraçar a Palavra e a obra de Deus. 
Pois o que é que pode estar a baixo, acima, dentro e fora da Palavra e obra de Deus, excepto o 
próprio Deus? E o que resta aqui para a graça e o Espírito Santo? Isto é simplesmente atribuir a 
divindade ao “livre arbítrio”. Pois a vontade de abraçar a Lei e o Evangelho, não pecar e morrer, 
pertence ao poder de Deus somente: como Paulo testificou em mais de um lugar. 
12
 
Não que eu diga isso, aprovando os Sofistas a respeito do “livre-arbítrio”, mas porque os 
considero mais toleráveis, pois eles se aproximam mais da verdade. Pois, embora não digam, 
como eu, que o “livre-arbítrio” não é nada, mas, como dizem que não pode fazer nada sem graça, 
militam contra Erasmo, ou melhor, parecem militar contra si mesmos, e são jogados de um lado 
para o outro em uma mera discussão de palavras, estando mais confiantes por contendas do que 
pela verdade, que é exactamente como os Sofistas deveriam estar. Mas agora, vamos supor que 
um Sofista de posição nãomedíocre foi trazido diante de mim, com o qual eu poderia falar sobre 
essas coisas, em conversa familiar, e deveria pedir-lhe por seu julgamento liberal e sincero dessa 
maneira - “Se alguém deveria lhe dizer que aquilo era livre, que de seu próprio poder poderia ir 
apenas para um lado, isto é, o caminho ruim, e que poderia seguir o outro caminho de facto, 
aquele, o caminho certo, mas não por seu próprio poder, não, somente com a ajuda de outro - 
você poderia se conter de rir na cara dele, meu amigo?”- Pois desta forma, eu farei parecer que 
uma pedra ou uma pau tem “livre arbítrio”, porque pode subir e ir para baixo; embora, pelo seu 
próprio poder, possa ir apenas para baixo, mas pode subir apenas com a ajuda de outro.
13
 
O sentido, portanto, é este: vendo que muitos se afastam da fé, não há conforto para nós, mas o 
estar certo de que “o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que 
são seus, e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade.” (2 Timóteo 2:19). 
 
11
 Lutero, 38-39. 
12
 Lutero, p. 127. 
13
 Lutero, p. 103. Os sofistas mencionados por Lutero não são os gregos antigos, mas um certo grupo de 
teólogos medievais. 
 
 
102 
 
Esta então é a causa e a eficácia da semelhança - que Deus conhece os seus! Então segue a 
similitude - que existem diferentes vasos, alguns para honra e outros para desonra. Por isto é 
provado imediatamente que os vasos não se preparam, mas que o Mestre os prepara. E é isso que 
Paulo quis dizer, onde ele diz: “Não tem o oleiro poder sobre o barro?” Etc. (Romanos 9:21). 
Assim, a semelhança de Paulo permanece mais eficaz: e isso para provar que não existe tal coisa 
como “livre-arbítrio” aos olhos de Deus.14 
Eu omito aqui apresentar aqueles argumentos todo-poderosos extraídos do propósito da graça, da 
promessa, da força da lei, do pecado original e da eleição de Deus; dos quais, não há um que por 
si só não derrube totalmente o “livre-arbítrio”. ... Os argumentos, eu digo, omito apresentar, tanto 
porque eles são mais manifestos e mais forçados, assim como porque já os abordei. Pois se eu 
quisesse produzir todas aquelas partes de Paulo que derrubam o “livre-arbítrio”, eu não poderia 
fazer melhor do que continuar com um comentário contínuo sobre toda a sua epístola, como eu 
fiz no terceiro e quarto capítulo. Sobre os quais, particularmente, eu permaneci, para mostrar a 
todos os nossos amigos do “livre arbítrio” sua imprudência, quem assim lê Paulo nessas partes 
claras, assim como para ver qualquer coisa neles, excepto estes argumentos mais poderosos 
contra o “livre-arbítrio”… 15 
Vou concluir este livro, preparado, se necessário, para continuar essa discussão. Embora eu 
considere que agora satisfaço abundantemente o homem piedoso que deseja acreditar na verdade 
sem fazer resistência. Porque, se crermos que é verdade, que Deus conhece e preordena todas as 
coisas; que ele não pode ser enganado nem impedido em sua presciência e predestinação, e que 
nada pode acontecer, mas de acordo com sua vontade (que a razão é obrigada a confessar); então, 
mesmo de acordo com o próprio testemunho da razão, não pode haver “livre-arbítrio” - no 
homem, no anjo ou em qualquer criatura!
16
 
Embora a referência a seguir não seja a Martinho Lutero, pode ser inserida aqui como um pouco 
da história da igreja e uma evidência do que a Reforma realmente representava. William Tyndale 
Em Resposta ao Diálogo de Senhor Thomas More, escreve: 
Por que Deus abre os olhos de um homem e não de outro? Paulo proíbe perguntar porquê… Mas 
o papado pode fazer com que Deus não tenha segredo, escondido para si mesmo. Eles procuraram 
chegar ao fundo de sua sabedoria sem fundo; e porque eles não podem alcançar esse segredo, e 
serem orgulhosos demais para deixar isto em paz, e se concederem ignorância... eles vão e 
 
14
 Lutero,264. 
15
 Lutero, 360-361. 
16
 Lutero, p. 390. 
 
 
103 
 
estabelecem o livre arbítrio com os filósofos pagãos, e dizem que o livre arbítrio de um homem é 
a causa por que Deus escolhe um e não outro, contrariamente a todas as Escrituras.
17
 
Apelo às Escrituras 
Tanto pela história. A questão substancial é resolvida apenas por um apelo às Escrituras. É claro 
que Agostinho e Lutero, para não mencionar Calvino, apelaram para as Escrituras. Os capítulos 
anteriores deste livro foram um grande apelo às Escrituras. Pode ser difícil encontrar mais versos 
claros e definidos. Mas há um verso, mencionado acima em conexão com a eudokia de Deus, 
que em suas outras frases é tão claro que os Arminianos devem estar terrivelmente embaraçados 
com isso. Antes do versículo ser citado, no entanto, mais um parágrafo da filosofia será inserido. 
É um princípio sólido deixar a Bíblia falar por si mesma. Quase todo Cristão concorda que não 
se deve impor uma filosofia alienada à Bíblia ou tentar entender seu ensino com base em 
pressuposições seculares. Na minha experiência, no entanto, algumas pessoas que mais disseram 
isso foram as que mais violaram esse preceito perfeito. A razão básica para o procedimento delas 
pode muito bem ser os efeitos noéticos ou mentais do pecado original; mas a causa imediata é 
sua ignorância da filosofia. Como nunca estudaram a filosofia secular, acreditam que são 
inocentes de tal falsa doutrina; e como então elas poderiam impor às ideias filosóficas das 
Escrituras que nunca aprenderam? O que essas pessoas não percebem é que as ideias filosóficas 
dos grandes homens se filtram para a população em geral depois de um século ou mais. O que 
Schleiermacher disse na Alemanha no início do século XIX tornou-se uma pregação popular nos 
Estados Unidos no começo do século XX. A ciência, em particular a física, do final do século 
XVII permanece na mente comum hoje em dia, embora noventa e nove por cento dos cientistas a 
tenham abandonado totalmente ou em grande parte. Portanto, as pessoas que não estudaram 
filosofia são as que menos enxergam quando estão sendo impostas à Bíblia. Assim, juntamente 
com o desejo pecaminoso do homem de ser independente de Deus, as pessoas que pensam que 
são Cristãos muito bons defendem a liberdade da vontade. 
 
17
 William Tyndale, Uma Resposta ao Diálogo de Sr. Thomas More, Reimpressão da Parker Society, 
1850, 191. 
 
 
104 
 
Agora, entre as muitas passagens Bíblicas que negam o livre arbítrio, há uma tão clara e tão 
aguçada que não vejo como alguém poderia interpretá-la mal. Em Filipenses 2:12-13, o apóstolo 
Paulo nos diz que “operai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em 
vós tanto o querer como o efectuar, segundo a sua boa vontade”. A American Standard Version 
muda isso apenas para dizer: “pois é Deus quem opera em você tanto a vontade quanto o efectuar, 
para seu bem-estar”. Mesmo a não-confiável Revised Standard Version tem essencialmente a 
mesma coisa: “pois Deus opera em você, ambos: querer e efectuar para o seu bom prazer ”. A 
tradução King James parece ser a melhor. Agora, então, o que o versículo diz? Bem, é claro, diz 
que devemos operar nossa própria salvação. Sejamos bem claros no facto de que a Bíblia não 
ensina a salvação somente pela fé.
18
 A Bíblia ensina justificação somente pela fé. A justificação 
 
18
 Nota dos editores: Daqui até o final do parágrafo, o Dr. Clark erra de duas maneiras. Primeiro, a Bíblia 
enfaticamente ensina a salvação somente pela fé: “A tua fé te salvou; vai-te em paz” (Lucas 7:50). “E os 
que estão junto do caminho, estessão os que ouvem; depois vem o diabo, e tira-lhes do coração a palavra, 
para que não se salvem, crendo” (Lucas 8:12). “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu 
Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16). “E 
acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.” (Actos 2:21). “O qual te dirá 
palavras com que te salves, tu e toda a tua casa.” (Actos 11:14). “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás 
salvo.” (Actos 16:31). “Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus 
o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.” (Romanos 10:9). “Pelo qual também sois salvos se o 
retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado; se não é que crestes em vão.” (1 Coríntios 15:2). “Porque pela 
graça sois salvos, por meio da fé.” (Efésios 2:8). “…aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da 
pregação.” (1 Coríntios 1:21). “...os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se 
salvarem.” (2 Tessalonicenses 2:10). “por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em 
santificação do Espírito, e fé da verdade.” (2 Tessalonicenses 2:13). “Nós, porém, não somos daqueles 
que se retiram para a perdição, mas daqueles que crêem para a conservação da alma.” (Hebreus 10:39). 
Vemos nesses versos que a justificação não é um aspecto da salvação em igualdade com outros aspectos, 
mas é tão identificada com a salvação que os termos são trocados repetidamente. Ser justificado - ser 
declarado justo por causa da imputação da perfeita justiça de Cristo - é ser salvo. Tudo o mais - 
santificação, boas obras, glorificação - fluem disso. 
Segundo, o Dr. Clark erra quando diz que a santificação “consiste em obras que fazemos” e “de acções 
externas iniciadas por volições internas” e que “fazemos as coisas que produzem santificação”. Todas 
essas afirmações estão erradas. Santificação é a obra do Espírito Santo; não é algo que fazemos, nem é o 
resultado de algo que fazemos. A questão 75 do Catecismo Maior pergunta: “O que é santificação?” E 
responde: “A santificação é uma obra da graça de Deus…”. Na Confissão de Fé de Westminster, o 
capítulo sobre Santificação é separado e precede o capítulo sobre Boas Obras. Para mostrar que a 
santificação é a obra do Espírito Santo, não de nós mesmos, ela cita tais versículos como 1 Coríntios 6:10: 
 
 
105 
 
então é necessariamente seguida por um processo de santificação, e isso consiste em obras que 
fazemos. Consiste em acções externas iniciadas por volições internas. Devemos, portanto, operar 
nossa própria salvação; e isso com temor e tremor, porque devemos depender de Deus. O que 
então Deus faz em nosso processo de santificação? O versículo diz: Deus opera em nós. É uma 
coisa muito boa que Deus opere em nós, pois se ele não o fizesse, teríamos motivo para um 
temor e tremor de um tipo bem diferente. Deus opera em nós - isso é claro o suficiente. Mas o 
verso é mais definido e nos diz duas coisas que Deus faz em nós. Primeiro, ele opera em nós 
tanto que fazemos as coisas que produzem santificação. Deus opera em nós para que cantemos 
um salmo, ou confortemos os doentes, ou apreendamos um criminoso, ou preguemos o 
Evangelho. Essas são coisas que fazemos porque Deus opera em nós para fazê-las. Mas há algo 
que precede essa acção da qual depende o fazer. Não faríamos nenhuma dessas coisas se não 
quiséssemos primeiro fazê-las. Agora, o verso afirma claramente que Deus não apenas opera em 
nós o efectuar, mas ele primeiro opera o querer em nós. Deus opera em nós tanto para querer 
como o efectuar. 
Outros versos, como Efésios 1:11, anteriormente citados, diziam que Deus opera em todas as 
coisas universalmente. Este versículo declara em particular que Deus opera por vontade própria. 
É claro, portanto, que a vontade do homem não é livre, mas é dirigida pela operação de Deus. E 
para concluir com um lembrete, tanto este verso como aqueles que dizem que Deus opera todas 
as coisas, acrescentam “segundo o concelho de sua vontade”. É o mero prazer de Deus; é só 
porque ele quis isso; não é outra coisa senão pela sua decisão soberana, que fazemos o que 
fazemos e queremos o que queremos. 
 
“…mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do 
Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus.” João 17:17: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a 
verdade.” Efésios 5:26: “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra.” 
1Tessalonicenses 5:23: “E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo...” As boas obras não são 
santificação nem produzem santificação. Boas obras são um efeito, resultado da santificação do Espírito. 
O Dr. Clark sabia tudo isso, pois em seu livro Santificação, ele escreveu: “O capítulo 13 da Confissão de 
Westminster enfatiza o facto de que somos santificados por Deus, não por nossos próprios esforços; uma 
obediência imperfeita à lei moral é um resultado dessa santificação, e não a causa dela.” Ele conclui seu 
livro com as palavras de Cristo de João 17: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.” 
 
 
106 
 
Em muitas discussões sobre o livre-arbítrio, depois de citar e explicar uma dúzia ou mais de 
versos, e depois de ter enfrentado a teimosa oposição à doutrina da Reforma, eu frequentemente 
digo: “Bem, então, você me dá os versículos nos quais você baseia sua ideia de livre arbítrio.” 
Este desafio geralmente produz um olhar vazio. Nenhum versículo é necessário, eles dizem. 
Todo mundo sabe que ele é livre. Em outras palavras, essas pessoas que não estudaram filosofia 
não estão cientes de que estão repetindo Descartes no sentido de que é impossível conceber uma 
liberdade mais ampla do que a da vontade do homem, e quase citando suas próprias palavras: 
“Nós temos tal consciência da liberdade e da indiferença que existe em nós mesmos de que não 
há nada que compreendamos mais clara ou perfeitamente”. Assim, eles inconscientemente 
tentam impor uma filosofia secular à Bíblia. 
Um pouco de ênfase extra pode ser colocada no facto de que não há versos na Bíblia que 
afirmam o livre arbítrio. No Antigo Testamento, vários versículos falam de ofertas voluntárias. 
Isso não tem nada a ver com o tema do livre arbítrio. No Antigo Testamento, a lei exigia que os 
Israelitas dessem dízimos. Além dessa obrigação legal, eles poderiam, é claro, dar mais. O ácaro 
da viúva era muito mais do que um décimo de sua substância. Isso é o que foi chamado de oferta 
de livre-arbítrio. Claro que o termo livre arbítrio é inglês. O termo hebraico significa, 
abundantemente, desejosamente, espontaneamente, livremente, voluntariamente. A questão de 
Deus determinar ou não a vontade está ausente dos textos. Nem é Esdras 7:13 uma exceção: A 
mesma palavra é usada e repetida em Esdras 7:16. Mesmo se o rei pagão tivesse usado o termo 
inglês livre-arbítrio, não ficaríamos impressionados com sua teologia. De qualquer forma, 
Artaxerxes quis dizer apenas que, se alguém quiser ir a Jerusalém, pode. Se Deus inclina ou não 
o Israelita a decidir ir, não é considerado. Além disso, alguém conhece um Arminiano que baseia 
sua teoria em Esdras 7:13? 
Geralmente os Arminianos baseiam ingenuamente sua teoria em muitas declarações Bíblicas que 
dizem que esse homem e aquele homem quiseram fazer isto e aquilo. Bem, claro, a Bíblia afirma 
claramente que os homens têm vontade. Mas a questão não é se eles têm vontade, mas se Deus 
determina sua vontade. A questão não é se um homem escolhe; mas se sua escolha teve uma 
causa ou razão. O Calvinista nãonega vontade ou volição; ele nega que a vontade, como parte da 
criação, seja independente de Deus. 
 
 
107 
 
O Calvinista pode até dizer que a vontade é livre, não absolutamente ou livre de Deus, mas livre 
das leis da física e da química. De facto, o Calvinista reage fortemente contra o determinismo 
behaviorista. Entretanto ele afirma a predeterminação divina, a predestinação. 
Isso explica um capítulo da Confissão de Westminster que confunde algumas pessoas. Eles 
observam que o capítulo 9 é intitulado “Do Livre Arbítrio”. Então, a Confissão não afirma o 
livre-arbítrio? Não necessariamente. O presente capítulo também é intitulado “Livre Arbítrio”, 
mas obviamente não afirma o livre-arbítrio. É preciso ler o que o capítulo diz. Agora, a 
Confissão diz: “Deus dotou a vontade do homem com essa liberdade natural, [assim] que não é 
forçada, nem por qualquer necessidade absoluta da natureza determinada, para o bem ou para o 
mal.” Nem este parágrafo, nem as três referências das Escrituras sob ela (uma das quais será 
considerada mais adiante no presente capítulo) têm alguma coisa a dizer sobre a relação de Deus 
com a vontade. O que se afirma é que os actos voluntários não são forçados fisicamente (como 
no behaviorismo) nem determinados por qualquer necessidade absoluta da natureza.
19
 
Se um estudante deseja saber o que a Confissão ensina sobre o controle de Deus da vontade, 
como distinto da necessidade de controle da natureza, leia a seção 4 do mesmo capítulo e seção 1 
do capítulo 10. Certamente a Confissão não se contradiz na mesma página. 
O capítulo 9, seção 4, diz: 
Quando Deus converte um pecador, e o transforma para o estado de graça, ele o liberta de seu 
cativeiro natural sob o pecado, e somente por sua graça capacita-o livremente a querer e fazer 
aquilo que é espiritualmente bom; mas assim, por causa de sua corrupção remanescente, ele não 
deseja perfeitamente só o que é bom, mas também o que é mau. 
Ainda mais explícito é o capítulo 10, seção 1, que diz: 
Todos aqueles a quem Deus predestinou para a vida, e somente aqueles, ele está satisfeito, em seu 
tempo designado e aceito, efectivamente chamar, por sua Palavra e Espírito, daquele estado de 
pecado e morte em que eles estão por natureza, para a graça e salvação por Jesus Cristo; 
iluminando e salvando suas mentes espirituais para entender as coisas de Deus; tirando o seu 
coração de pedra, e dando-lhes um coração de carne; renovando suas vontades, e por seu poder 
 
19
 Veja O que os Presbiterianos crêem? Para uma discussão sobre este ponto. 
 
 
108 
 
onipotente determinando-os àquilo que é bom; e efectivamente atraí-los para Jesus Cristo; mas de 
maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça. 
Note que pelo seu poder todo-poderoso Deus determina as vontades dos homens. Admitindo que 
esta seção está relacionada apenas com aqueles a quem Deus predestinou para a vida, ela ainda 
diz que Deus determina as volições humanas. O santo predestinado vem a Deus livremente, isto 
é, de boa vontade, ou voluntariamente, mas somente depois que Deus o faz disposto. 
À Confissão, pode-se acrescentar a questão 67 do Catecismo Maior. O texto é semelhante. “O 
chamado eficaz é a obra do poder e da graça onipotente de Deus, mediante o qual… renova e 
determina poderosamente as suas vontades, de modo que… tornam-se dispostas…” etc. Um 
adversário do determinismo não encontrará muito conforto aqui. 
Não vai escapar da observação aguçada daqueles que deram as costas a Lutero e Calvino para 
retornar, não a Paulo, mas para Erasmo e Roma, que até agora apenas um verso, e não dúzias, foi 
apresentado. Essa deficiência pode ser facilmente e extensivamente remediada. Na verdade, isso 
já foi feito. 
Escrituras Adicionais 
Uma indicação anterior de que a vontade do homem não é livre é o facto de que nenhum homem 
pode derrotar a vontade de Deus. Por exemplo, Deus pré-ordenou que Davi fosse o rei de Israel; 
mas se é assim, então não só era impossível para Golias matar Davi e derrotar a vontade de Deus, 
mas também era impossível que Davi recusasse a honra e se recusasse a ser rei. A incapacidade 
de Golias era sem dúvida física; mas a de Davi era inteiramente psicológica, mental e volitiva. 
Ele não poderia querer ser um mero pastor. Sua vontade não era livre. Ele teve que aceitar a 
realeza. Um versículo que declara essa idéia de forma geral é Isaías 46:10: “O meu conselho será 
firme, e farei toda a minha vontade”. O seguinte versículo reitera a idéia: “Que chamo a ave de 
rapina desde o oriente, e de uma terra remota o homem do meu conselho; porque assim o disse, e 
assim o farei vir; eu o formei, e também o farei.” O homem do país distante teve que vir porque o 
Salmo 33:11 diz a mesma coisa: “O conselho do SENHOR permanece para sempre” Portanto, a 
escolha de Davi foi predeterminada. 
 
 
109 
 
Para prosseguir com Davi, esses versículos nos Salmos e Isaías também se aplicam a Ciro. Desde 
que o Senhor pré-ordenara Ciro para reconstruir Jerusalém, Ciro não poderia querer de outra 
forma. Considere Provérbios 21:1, que diz: “assim é o coração do rei na mão do SENHOR, que o 
inclina a todo o seu querer”. É surpreendente que qualquer um que se chama de Cristão e tenha 
lido até mesmo uma pequena parte da Bíblia negue que Deus controla as operações mentais de 
suas criaturas. O coração do homem está nas mãos do Senhor e o Senhor leva o coração do 
homem em qualquer direcção que o Senhor quiser. A ideia de que a vontade do homem é livre, 
independente de Deus, capaz de se transformar em qualquer uma das dúzias de direcções 
incompatíveis, é totalmente anti-Bíblica e não Cristã. Como uma clara negação de onipotência, 
destrona Deus e tira o homem do controle de Deus. 
Às vezes as pessoas tentam evitar essas conclusões afirmando que Deus é de facto onipotente, 
que ele pode controlar tudo, mas que ele abdicou e deixou os homens livres. Agora, em primeiro 
lugar, se Deus pode controlar a vontade do homem, então mesmo que ele se abdique do controle, 
a vontade do homem não é a per se autônoma, personalidade inviolável que essas pessoas dizem 
que é. Mas o que é mais importante, mesmo que alguns Arminianos escapem dessa 
inconsistência, a afirmação de que Deus pode mas não exerce controle, é, segundo a Bíblia, falsa. 
A Bíblia repetidamente afirma, não que Deus pode mas não faz, mas que Deus exerce esse 
controle. Isto é o que o Salmo 105:25 diz: “[O Senhor – Nota do tradutor] Virou o coração deles 
para que odiassem o seu povo”. Todo o Salmo é uma lista de coisas que Deus não apenas pode 
fazer, mas tem feito. Ele enviou José ao Egipto para preparar o tempo da fome; depois ele enviou 
Moisés; ele feriu o primogênito; ele deu ao seu povo as terras dos pagãos. No meio desta 
narrativa de suas maravilhosas obras, o Salmo diz que Deus fez os egípcios odiarem os israelitas. 
Se o ódio fosse apenas uma emoção, o verso ainda mostraria que Deus controla as actividades 
mentais conscientes dos homens. Mas, além da mera emoção, o ódio pressupõe um objecto para 
odiar; este objecto deve ser um objecto conhecido; e o ódio envolve algumas idéias muito 
definidas a respeito desse objecto. O verso, portanto, ensina que Deus controla nossas idéias e 
pensamentos. Pensamos o que pensamos, escolhemos o que escolhemos e amamos ou odiamos 
objectos definidos porque Deus predeterminou tais acções mentais. 
 
 
110 
 
Duas outras passagens do Antigo Testamento podem ser mencionadas. Esdras 6:22 diz: “porque 
o SENHOR os tinha alegrado, e tinha mudado o coração do rei da Assíria a favor deles”. Note 
que Deus não apenas pode; ele fez. Não há abdicação de poder.Em seguida, 1 Samuel 2:6-7 diz: 
“O SENHOR é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz tornar a subir dela.” 
Ele não apenas pode; ele faz. 
Um exemplo do Novo Testamento pode agora ser adicionado. Visto que Deus havia predestinado 
introduzir Cornélio e os gentios na igreja Cristã, Cornélio não poderia ter recusado, nem Pedro 
teria desejado permanecer em Jope naquele dia. Pedro não estava livre para fazer qualquer coisa. 
Foi predeterminado na eternidade que ele deveria ir a Cesaréia. Ele não poderia querer o 
contrário, pois o conselho de Deus permanece, ele faz toda a sua vontade, e ninguém pode lhe 
deter a mão ou dizer: O que fazes? 
Não vale a pena multiplicar exemplos. Não apenas Cornélio, mas todos os eleitos foram 
escolhidos antes da fundação do mundo. Neste contexto, algo deve ser dito sobre regeneração, 
arrependimento e fé. A discussão desses tópicos, dada em outro lugar, pode ser entendida como 
aplicável aqui. Mas o presente capítulo é mais direccionado contra uma objecção e, para esse 
propósito, princípios mais gerais dão uma resposta melhor. 
Esses teólogos, Romanistas e Arminianos, que argumentam em favor do livre arbítrio, às vezes 
dizem que Deus simplesmente não pode “violar a personalidade de um homem”. Na verdade, eu 
encontrei alguns que falam explicitamente sobre a soberania do homem. Geralmente, essas 
pessoas afirmam que Deus é esperto o suficiente para enganar os homens e, portanto, será capaz 
de controlar o curso geral da história e, especialmente, levá-la a uma conclusão satisfatória. Mas 
muitos detalhes Deus não pode controlar, porque ele não tem poder sobre o homem em sua 
liberdade. A ilustração de um jogo de xadrez é usada. O campeão mundial, Deus, não pode ditar 
os movimentos de seu oponente, mas ele pode sempre dar um checkmate nele. 
Esta é uma ilustração atraente, mas não ilustra nada na Bíblia. Além de tudo o mais na Bíblia, 
dois versos em Jeremias dispõem da soberania do homem e sua imunidade em relação a 
intervenção divina, mesmo no recesso mais profundo de sua vontade. Esses versos não 
 
 
111 
 
mencionam a vontade do homem. Como tantas vezes, ou na verdade sempre, no caso, os versos 
implicam mais do que eles dizem. Por essa razão, os Cristãos geralmente vêem muito menos na 
Bíblia do que aquilo que lá está. Desacostumados a deduzir conclusões logicamente, eles param 
na superfície do texto e não mergulham mais a fundo. Mas os Bereanos eram nobres 
precisamente porque comparavam as Escrituras com as Escrituras e tiravam conclusões. No 
presente exemplo, mesmo a comparação é desnecessária. Os próprios versículos implicam a 
conclusão. 
Jeremias 32:17 diz: “Ah Senhor DEUS…nada há que te seja demasiado difícil”. Dez versos 
depois, o texto usa uma pergunta retórica: “Eis que eu sou o SENHOR…acaso haveria alguma 
coisa demasiado difícil para mim?” Venha pensar sobre isso, esse sentimento é familiar, não é 
originalmente de Jeremias, pois Gênesis 18:14 diz: “Haveria coisa alguma difícil ao SENHOR?” 
Agora, o que “coisa alguma” inclui? Claro que inclui Sara ter um filho na velhice. Também 
inclui a captura de Jerusalém pelos Caldeus; para estes dois eventos estão aqueles especificados 
nos contextos. Mas o princípio em si é muito mais amplo. Quando Deus quis convencer Abraão e 
Sara de que teriam um filho, ele não disse: “Eu posso dar a vocês um filho”; ele disse: “Eu posso 
fazer qualquer coisa”. Portanto, o princípio geral se aplica a qualquer coisa e a tudo. Segue-se, 
portanto, que Deus pode controlar a vontade do homem. E quanto à “inviolabilidade da 
personalidade”, o homem não tem “direitos” que são invioláveis por Deus. Deus é o criador; o 
homem é uma criatura. “Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas?” Apenas retorne ao 
capítulo um sobre a criação. A onipotência resolve o argumento. Portanto, Deus pode controlar a 
vontade do homem, e os exemplos mostram que ele controla. 
Seria tedioso examinar outro exemplo? Talvez fosse tedioso, mas mostraria o quanto a Bíblia se 
opõe ao Arminianismo, ao Romanismo e ao livre arbítrio. A Bíblia constantemente contradiz a 
noção de que Deus não pode e não controla os pensamentos e decisões dos homens. Como Deus 
pode cumprir a profecia e dirigir o curso da história sem determinar as volições dos agentes é 
algo que os oponentes da pré-ordenação não podem explicar. A própria Bíblia nunca enfrenta 
essa dificuldade. Identifica muitos actos de vontade que Deus determinou. Segunda Crônicas 
10:15 nos dá um excelente exemplo. Roboão acabara de suceder seu pai Salomão. O povo de 
Israel pediu-lhe para reduzir os impostos. Os conselheiros de Salomão pediram a Roboão para 
 
 
112 
 
atender ao pedido do povo, mas os jovens amigos de Roboão o persuadiram a rejeitar a petição e 
a ameaçar em castiga-los com escorpiões. “Assim o rei não deu ouvidos ao povo, porque esta 
mudança vinha de Deus, para que o SENHOR confirmasse a sua palavra, a qual falara pelo 
ministério de Aías, o silonita, a Jeroboão, filho de Nebate”. Isso se refere a um acontecimento 
descrito em 1 Reis 11:29. O profeta Aías se encontrou com Jeroboão e deu-lhe a mensagem de 
Deus: “rasgarei o reino da mão de Salomão, e a ti darei as dez tribos.” 
Esta promessa foi cumprida, a profecia foi cumprida, Jeroboão conseguiu as dez tribos de Israel; 
o modo como ele as obteve é descrito na passagem das Crônicas. Isso Ocorreu pelo facto de 
Deus ter feito com que as pessoas decidissem fazer uma petição ao rei e, pelo facto de Deus ter 
feito com que o rei aceitasse os maus conselhos dos rapazes, e pelo facto de Deus ter feito com 
que o povo decidisse se rebelar sob a liderança de Jeroboão. As acções explícitas não poderiam 
ter ocorrido sem os vários actos de vontade por parte dos agentes. Suas decisões são uma parte 
essencial e indispensável da história. Se essas pessoas estivessem livres da pré-ordenação divina, 
se Deus não as tivesse determinado, o próprio Deus não poderia ter certeza de que a profecia se 
mostraria verdadeira. A versão King James diz que a causa era de Deus; a Versão Padrão 
Americana traduz, “foi provocado por Deus, para Jeová estabelecer a sua palavra”. Poderia ser 
traduzido, “a mudança de assunto foi de Deus”. Qualquer que seja a tradução, a ideia é que Deus 
não só poderia, mas controlava todos os factores, e entre estes as decisões ou volições dos 
homens eram essenciais. 
Versículos Arminianos 
Talvez alguém possa pensar que a justiça não foi feita aos versículos que os Arminianos 
costumam usar. Não é suficiente dizer que nenhum versículo ensina explicitamente o livre-
arbítrio, pois talvez alguns ensinem por implicação. Por isso, vários desses versículos precisam 
ser estudados. John Gill, um grande Puritano Batista, estudou 250 desses versículos. Aqui alguns 
serão retomados. Na maioria dos casos, o argumento de John Gill será abreviado ou até mesmo 
modificado; em dois casos muito importantes, ele será citado literalmente e em sua totalidade. 
Talvez o leitor possa decidir ler o original completo. Seu título é A causa de Deus e da verdade. 
 
 
113 
 
Um verso usado contra a predestinação é Deuteronômio 5:29, que diz: “Quem dera que eles 
tivessem tal coração que me temessem…para que bem lhes fosse a eles e a seus filhos para 
sempre”. Os Arminianos argumentam que esse desejo de Deus é inconsistente com os decretos 
de eleição e reprovação. Se houvesse tais decretos, o sentimento deste versículo seria hipócrita. 
O versículo implica, dizem os Arminianos, que Deus dá a todos os homens graça suficiente para 
a conversão, enquanto, a aceitação ou o uso desta graça pelo homem depende de seu livre 
arbítrio. 
Não é difícil responder a este argumento Arminiano. Primeiro, o desejo forte e sincero de Deuspela salvação de alguns homens é inteiramente consistente com um decreto para eleger essas 
pessoas. Para demonstrar isso, os Arminianos teriam que mostrar que Deus desejava a salvação 
de todos os homens; mas esse versículo se refere apenas aos Israelitas. Se algum versículo parece 
dizer que Deus deseja a salvação de todos e não está disposto que ninguém pereça, será discutido 
em sua ordem correta. Aqui, pelo menos, o desejo é restrito a poucas pessoas. Se este verso ou 
qualquer versículo fala de Deus como desejando a salvação de alguém que ele rejeitou como 
réprobo, haveria uma inconsistência implicando hipocrisia. Mas este não é o caso aqui, pois aqui 
Deus está falando de seu povo escolhido. 
John Gill argumenta ainda que o desejo de Deus neste versículo não se refere à salvação no Céu, 
mas à salvação das tragédias terrenas e à prosperidade temporal na terra prometida. Embora essa 
idéia possa surpreender algumas pessoas, o último versículo do capítulo torna plausível, porque 
fala de “prolongar os dias na terra que haverão de possuir”. 
No entanto, algumas pessoas podem supor que esse argumento se esquiva da importante questão. 
Eles podem dizer que a prosperidade temporal antecipa a salvação eterna, assim como os actos 
de cura física de Cristo acarretaram o perdão do pecado. O argumento Arminiano seria então: 
Deus deseja a salvação de todos os Israelitas, mas alguns foram perdidos. Portanto, a menos que 
Deus seja hipócrita, a doutrina da predestinação e os decretos devem ser abandonados. 
A essa forma de argumentação, deve-se mostrar, como já foi feito nos capítulos anteriores deste 
livro, que Deus, o Pai, deu ao seu Filho um certo povo; e que ele morreu para redimir esses 
indivíduos em particular e nenhum outro. Cristo morreu pelas ovelhas e não pelos lobos; na cruz 
 
 
114 
 
ele pretendia salvar Abraão e Paulo, mas ele não pretendia salvar os iníquos de Sodoma. Sua 
intenção foi cumprida porque a Escritura diz que ele verá sua semente; sua Palavra não retornará 
vazia; ele realizará precisamente o que foi pretendido; e ele ficará satisfeito. Quanto aos 
Israelitas que estavam perdidos, Paulo nos lembra que eles não são todos de Israel, que são de 
Israel; mas que há um Israel de Deus; e assim todo o Israel será salvo. Isto deve responder por 
Deuteronômio 5:29. 
John Gill também estudou Deuteronômio 30:19, que diz: “Os céus e a terra tomo hoje por 
testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; 
escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência.” Neste verso, Gill começa: “Estas 
palavras são frequentemente usadas pelos patronos do livre arbítrio.” Ele então destrói a doutrina 
do livre-arbítrio de forma mais abrangente do que no presente livro permitiu-se. Ele aponta que 
mesmo os Arminianos devem negar o livre arbítrio a Satanás, já que reconhecidamente ele não 
pode desejar nada de bom. Também deve ser notado que Deus não pode querer fazer nada de mal; 
nem os bons anjos; nem os redimidos no céu. Em nenhum desses casos, a pessoa tem a mesma 
capacidade de usar uma das duas linhas de acção incompatíveis. Em nenhum desses casos há 
qualquer liberdade de indiferença. A vontade de Deus é naturalmente “livre”, pois nenhum ser 
superior o controla; mas este facto não dá suporte ao livre arbítrio humano tal como foi definido. 
As cinco colunas de letras bem pequenas de Gill, explicando as funções e limitações da vontade, 
devem ser omitidas aqui. No que diz respeito ao verso em Deuteronômio, basta repetir que os 
Calvinistas não negam que o homem escolha. A questão é: Deus causa a escolha? O verso por si 
só não tem nada a dizer, de um jeito ou de outro, sobre a causa da escolha. Mas, para o uso 
Arminiano, teria que negar tal causação explicitamente. 
O Salmo 145:9 diz: “O SENHOR é bom para todos, e as suas misericórdias são sobre todas as 
suas obras”. Os Arminianos afirmam que esse sentimento é contrário às doutrinas de eleição e 
reprovação. Um escritor pergunta: “Por que se diz que suas misericórdias estão sobre todas as 
suas obras, se elas são tão restringidas de suas criaturas mais nobres?” E outro escreve: “Não 
deve ser dito, suas misericórdias estão sobre toda a sua obra; mas suas crueldades estão sobre 
todas as suas obras”. O último escritor ficou um pouco entusiasmado, pois a clara predestinação 
 
 
115 
 
coloca as misericórdias de Deus sobre pelo menos algumas de suas obras, por mais que sua 
crueldade ou severidade seja mostrada a outras, como Romanos 11:22 ensina. 
Deixando de lado esta exuberância Arminiana e dirigindo-se à objecção mais sóbria, pode-se 
insistir que a predestinação não restringe as misericórdias de Deus sobre todas as suas obras, nem 
mesmo exclui os réprobos. Mesmo pessoas que não têm participação na graça especial de Deus 
experimentam misericórdias divinas. Pois existem vários tipos de misericórdia. Nem todas estão 
inseparavelmente ligados à salvação. Tais misericórdias até mesmo os réprobos podem desfrutar. 
Deus “faz com que o seu Sol se levante sobre os maus e os bons, e faz chover sobre os justos e 
os injustos” (Mateus 5:45). Os Arminianos mais extremos antecipam os Universalistas, que 
negam que alguém esteja perdido: Eles rejeitam a idéia do Inferno e ensinam que todos são 
salvos. Mas como a Bíblia claramente ensina que nem todos são salvos, segue-se que as 
misericórdias de Deus são de vários tipos, e sua graça salvadora especial não é um complemento 
necessário de outros tipos. Isso é óbvio também por outra direcção. O Salmo não diz apenas que 
as misericórdias de Deus estão sobre toda a humanidade. Diz que elas estão sobre todas as suas 
obras. Mas se assim for, as misericórdias de Deus estão sobre animais, plantas e objectos 
inanimados; e nenhum Arminiano provavelmente afirmará que estes são todos objectos de 
salvação. Existem, portanto, vários tipos de misericórdia. Deus concede alguns desses nos 
réprobos. Portanto, a doutrina da predestinação não contradiz o Salmo 145:9. 
De facto, as doutrinas da predestinação e eleição incondicional representam Deus como sendo 
mais, não menos, misericordioso do que as doutrinas da eleição condicional e do livre arbítrio. O 
Calvinismo sustenta que a salvação de alguns é certa, garantida e segura. A salvação como os 
Arminianos descrevem, é incerta, precária e duvidosa. Na visão deles, a salvação depende da 
vontade independente e mutável do homem. Eles até afirmam que um homem, uma vez salvo, 
pode se perder, ser salvo novamente e finalmente perder-se. Os Calvinistas afirmam que a 
misericórdia de Deus é tal que ele mantém em suas mãos e que ninguém, nem mesmo o próprio 
homem, pode arrancá-la da mão do Pai. 
Os oponentes da predestinação usam vários mandamentos Bíblicos como se fossem 
inconsistentes com a posição Calvinista. Um exemplo que pode representar outros versículos 
 
 
116 
 
semelhantes é Isaías 1:16,17: “Lavai-vos, purificai-vos”. Esse mandamento supõe implicar que 
um homem pode purificar-se ou não, assim que quiser. O “ou não” presumivelmente apóia o 
livre arbítrio, e a habilidade implícita no mandamento se opõe à depravação total, e ambos juntos 
refutam a graça irresistível. O argumento é que, se a conversão fosse feita apenas pela irresistível 
graça de Deus, e o homem fosse puramente passivo, esses mandamentos para os ímpios são 
inúteis e, de facto, hipócritas. 
Em resposta a este argumento Arminiano, a primeira coisa a insistir é que os homens são 
imundos e precisam ser purificados; mas mais do que isso, eles são tão imundos que não podem 
se purificar, seja pelas purificações cerimoniais do Antigo Testamento ou por qualquer 
ordenança do Novo Testamento. Provérbios 20:9 faz a pergunta retórica: “Quem poderádizer: 
Purifiquei o meu coração, limpo estou de meu pecado?” A purificação do coração é obra de Deus, 
pois é Deus quem cria um coração limpo e lava completamente os pecadores de suas iniquidades 
(Salmo 51:2,10). Lembre-se também de Ezequiel 36:25: “Então aspergirei água pura sobre vós, e 
ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei”. 
Neste ponto os Arminianos desorientados respondem: Mas se esta é a obra de Deus somente, e o 
homem não ajuda em nada, então de que servem estes mandamentos? Visto que eles devem ser 
de alguma utilidade, o homem deve pelo menos poder ajudar na purificação. Essa resposta, no 
entanto, falha porque é baseada em uma falácia lógica. Supõe que, uma vez que o mandamento 
não pode ter o uso que os Arminianos querem, não pode ter uso algum. Visto que a Escritura diz 
muito claramente que o homem não pode purificar-se a si mesmo, deve-se ver qual o uso que a 
Escritura atribui a tais mandamentos. Isso não é difícil de fazer. Romanos 3:20 diz: “pela lei vem 
o conhecimento do pecado”. Os mandamentos são dados, não porque qualquer homem possa 
obedecê-los, mas a fim de convencer o homem de que ele é um pecador. Deixe-o tentar obedecer, 
e ele descobrirá que não pode. Quando um homem descobre isso, ficará mais disposto a ver a 
necessidade da graça divina. Provérbios 30:12 menciona “Há uma geração que é pura aos seus 
próprios olhos, mas que nunca foi lavada da sua imundícia”. Os mandamentos em discussão têm 
a intenção de convencer alguns pecadores de que não estão limpos e de que não podem se 
purificar. Por isso os mandamentos não são em vão, nem contradizem o Evangelho da graça. 
 
 
117 
 
Há outro mandamento, que, embora de natureza semelhante ao anterior, dá oportunidade para um 
maior desenvolvimento do argumento. Jeremias 4:4, quase uma repetição literal de 
Deuteronômio 10:4, diz: “Circuncidai-vos ao SENHOR, e tirai os prepúcios do vosso coração.” 
Estas palavras supostamente implicam que o homem não é totalmente depravado, mas que ele é 
capaz salvar a si mesmo e que Deus não exerce graça irresistível; pois, se as doutrinas 
Calvinistas fossem verdadeiras, o mandamento seria inútil. 
A questão sobre a inutilidade dos mandamentos já foi respondida; mas observe ainda em 
conexão com este versículo que a expressão figurativa circuncidando o coração muito 
provavelmente não se refere à regeneração, mas à conversão. Quando Deus ordenou que Abraão 
circuncidasse Isaque, Abraão já era um adorador sincero de Deus. Assim também era Isaque. Em 
vez desse versículo ter a ver com regeneração, mais provavelmente indica alguns obras 
subsequentes à regeneração. Significa que as pessoas agora sendo regeneradas devem 
imediatamente começar a mortificar os actos da carne e lutar pela justiça. Essa interpretação 
esvaziaria o versículo de todo o valor Arminiano. No entanto, é possível que o versículo se refira 
à regeneração. Mesmo assim, não tem valor Arminiano. Nós lemos no Novo Testamento sobre a 
circuncisão do coração, no Espírito e não na letra, cujo louvor é de Deus, não dos homens 
(Romanos 2:29). Nota que a circuncisão literal foi realizada por um homem, e na medida em que 
era feita em obediência a Deus, o homem era digno de uma medida de elogio: O Senhor poderia 
dizer: Muito bem, servo bom e fiel. Mas esta circuncisão não é realizada por um homem. É uma 
circuncisão feita sem as mãos (Colossenses 2:11). Até mesmo a circuncisão da carne, 
administrada aos bebês, expressa a passividade do receptor. Se isto é verdade do tipo e sombra 
do Antigo Testamento, deve ser muito mais verdadeiro para a realidade do Novo Testamento. A 
propósito, a tradução “circuncidar-se” poderia ser melhorada para “ser circuncidado”. O verbo 
aqui e na Septuaginta é passivo. Até a Vulgata Latina tem a voz passiva. Para uma observação 
final sobre este versículo, note que o que Deus manda aqui, seja circuncidado, ele mesmo 
promete fazer em outro lugar. Deuteronômio 30:6 diz: “E o SENHOR teu Deus circuncidará o 
teu coração…para que vivas.” Em nada disso os Arminianos podem obter qualquer ajuda ou 
conforto. 
 
 
118 
 
Outros versos do Antigo Testamento que os Arminianos usam, ou costumavam usar no século 
XVIII, devem ser omitidos. Um dos primeiros versículos do Novo Testamento bem conhecido 
que os Arminianos usam hoje, e eles o usaram várias vezes a partir deste actual escritor. É um 
verso tão popular entre eles, que citarei John Gill na íntegra. Ele tem cinco observações para 
fazer. Se algumas pessoas ficam intrigadas com a segunda observação, as outras quatro são 
claras o suficiente. 
Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes 
quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não 
quiseste! - Mateus 23:37. 
Nada é mais comum nas bocas e escritos dos Arminianos do que esta Escritura, que eles estão 
prontos a produzir em todas as ocasiões contra as doutrinas de eleição e reprovação, redenção 
particular, e o poder irresistível de Deus na conversão, e em favor da graça insuficiente, e do livre 
arbítrio e poder do homem, embora com muito pouco propósito, como parece quando as coisas 
seguintes são observadas. 
1. Por Jerusalém não devemos entender a cidade nem todos os habitantes; mas os governantes e 
governantes dele, tanto civis como eclesiásticos, especialmente o grande Sinédrio, que foi 
mantido nele, a quem melhor pertence o carácter descritivo de matar os profetas, e 
apedrejamentos, visto que foram enviados a eles por Deus, e que foram manifestamente distintos 
de seus filhos; sendo usual chamar aqueles que eram os chefes do povo, em um sentido civil ou 
eclesiástico, os pais (Actos vii. 2 e xxii. 1), e os que eram sujeitos e discípulos, crianças (xix. 44, 
Mateus xiii). 27, Isaías viii, 16, 18). Além disso, o discurso de nosso Senhor, em todo o contexto, 
é dirigido aos Escribas e Fariseus, aos guias eclesiásticos do povo e a quem os governadores civis 
prestaram uma atenção especial. Por isso, é manifesto que eles não são as mesmas pessoas que 
Cristo teria reunido, que não quiseram. Não se diz com que frequência eu quis reunir você, e você 
não quis, como o Dr. Whitby mais de uma vez inadvertidamente cita o texto; nem ele quis reunir 
Jerusalém, e ela não quis, como o mesmo autor o transcreve em outro lugar; nem quis recolher 
os seus filhos, e eles não quiseram, sob a forma que às vezes também é expressa por ele; mas eu 
quis reunis seus filhos, e você não quis, que observação sozinha é suficiente para destruir o 
argumento sobre esta passagem em favor do livre arbítrio. 
2. A reunião aqui mencionada não projecta uma reunião dos Judeus com Cristo internamente, 
pelo Espírito e graça de Deus; mas uma reunião deles com ele externamente, através de e sob o 
ministério da Palavra, para ouvi-lo pregar; de modo que pudessem ser levados a uma convicção e 
a um assentimento a ele, como o Messias; o qual, embora pudesse ter ficado aquém da fé 
salvadora, teria sido suficiente para tê-los preservado da ruína temporal, ameaçou a sua cidade e 
templo no seguinte verso - Eis que a vossa casa vai ficar-vos deserta: a preservação é 
representada pela galinha que reúne as suas galinhas debaixo das suas asas, e mostra que o texto 
não se preocupa com a controvérsia sobre o modo da operação da graça de Deus na conversão; 
 
 
119 
 
pois todos aqueles a quem Cristo reuniu neste sentido foram reunidos, apesar de toda a oposição 
feita pelos governantes do povo. 
3. Que a vontade de Cristo para reunir essas pessoas não deve ser entendida por sua vontade 
divina, ou por seu livre arbítrio como Deus; pois quem resistiu à sua vontade? Isso não pode serimpedido nem invalidado; ele fez o que quis; mas por sua vontade humana, ou por sua vontade 
como homem; que, embora não contrário à vontade divina, mas subordinada a ela, nem sempre é 
a mesma com ela, nem sempre é cumprida. Ele fala aqui como um homem e ministro da 
circuncisão, e expressa uma afeição humana pelos habitantes de Jerusalém, e um desejo ou 
vontade humana pelo seu bem temporal, exemplos de que afeição e vontade humanas podem ser 
observadas em Marcos x. 21, Lucas xix. 41 e xxii. 42. Além disso, esta vontade de reunir os 
Judeus a ele estava nele, e expressa por ele em certas várias vezes, por intervalos, e, portanto, ele 
diz: Quantas vezes eu quis reunir, & Considerando que a vontade divina é uma vontade 
invariável e imutável, é sempre a mesma, e nunca começa ou deixa de existir, e para qualquer que 
seja tal expressão é inaplicável; e, portanto, esta passagem da Escritura não contradiz a vontade 
absoluta e soberana de Deus nos actos distintivos, respeitando a eleição e a reprovação. 
4. As pessoas a quem Cristo reuniu não estão representadas como não estando dispostas a serem 
reunidas; mas seus governantes não estavam dispostos que eles fossem. A oposição e resistência à 
vontade de Cristo não foi feita pelo povo, mas por seus governantes. As pessoas comuns 
pareciam inclinadas a assistir ao ministério de Cristo, como parece nas vastas multidões que, em 
diferentes momentos e lugares, o seguiram; mas os principais sacerdotes e governantes fizeram 
tudo o que podiam para impedir a reunião deles com ele; e sua crença nele como o Messias, ao 
reduzir seu carácter, milagres e doutrinas, e aprovando um documento redigido, no qual todo 
aquele que o confessasse deveria ser expulso da sinagoga. De modo que o significado óbvio do 
texto é o mesmo com o do verso 13, onde nosso Senhor diz: Mas ai de vós, Escribas e Fariseus, 
hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar 
aos que estão entrando; e consequentemente, não é prova de resistência dos homens às operações 
do Espírito e da graça de Deus, mas de obstruções e desencorajamentos lançados no caminho do 
comparecimento ao ministério externo da Palavra. 
5. A fim de pôr de lado e derrubar as doutrinas da eleição, reprovação e redenção particular, deve 
ser provado que Cristo, como Deus, queria reunir, não apenas Jerusalém e seus habitantes, mas 
toda a humanidade, mesmo que não fosse eventualmente salva, e isso de uma maneira e forma 
espiritual de salvação para si mesmo, da qual não há a menor sugestão neste texto; e a fim de 
estabelecer a resistibilidade da graça de Deus, pela vontade perversa do homem, de modo a 
tornar-se sem efeito, deve ser provado que Cristo queria converter essas pessoas de maneira 
salvífica, e elas não quiseram ser convertidas; e que ele concedeu a mesma graça sobre elas, ele 
concede a outros que são convertidos; enquanto, a soma desta passagem está nestas poucas 
palavras, que Cristo, como homem, de uma consideração compassiva pelo povo dos Judeus, a 
quem ele foi enviado, os teria reunido sob seu ministério, e os instrui no conhecimento de si 
mesmo como o Messias; os quais, se tivessem recebido apenas nacionalmente, teriam assegurado 
a ele como galinhas debaixo da galinha de julgamentos iminentes que depois caíram sobre eles; 
 
 
120 
 
mas seus governadores, e não eles, não permitiriam que eles fossem reunidos de tal maneira, e 
impediram tudo o que podiam, dando-lhes qualquer crédito por ele como o Messias; embora 
tivesse sido dito e não quiseram, seria apenas um exemplo muito triste da perversidade da 
vontade do homem, que muitas vezes se opõe ao seu bem espiritual e temporal. 
O verso seguinte é Actos 7:51: “Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós 
sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais.” Esse versículo deve ser 
inconsistente com a graça irresistível, e implica, portanto, que o homem tem capacidade de se 
converter. Em resposta, pode-se dizer que, naturalmente, o funcionamento do Espírito Santo em 
algumas circunstâncias pode ser resistido. O que os oponentes devem mostrar é que a intenção 
do Espírito Santo de converter um indivíduo em particular pode ser resistida. Nem todos os actos 
do Espírito visam a conversão de alguém. Não há evidência em Actos 7 de que o Espírito Santo 
estivesse tentando converter os perseguidores de Estêvão. Eles eram de dura-cerviz e 
incircuncisos de coração. Eles não dão nenhuma evidência de sequer ter o que os Arminianos 
chamam de graça suficiente para aceitar a Cristo pelo livre arbítrio. Eles estão endurecidos 
contra Deus e resistiam ao Espírito enquanto operava em Estevam. 
Suponha, ao contrário da tonalidade de todo o capítulo, que o Espírito pretendeu realmente 
regenerar esses Fariseus, ou alguns deles. Os Arminianos teriam então que mostrar que essas 
pessoas não foram mais tarde regeneradas. Está claro nas Escrituras que muitas vezes Deus 
prepara um homem para a conversão através de vicissitudes anteriores. O homem a princípio 
resiste, mas na plenitude do tempo Deus o regenera. De facto, embora não seja mencionado neste 
capítulo, essa poderia ter sido a intenção de Deus em relação ao jovem que guardava as roupas 
dos Fariseus quando apedrejavam Estêvão. O jovem Saulo resistiu, junto com os outros. Mas ele 
não resistiu tanto que o Espírito foi obrigado a ceder. Ainda não era o momento para a conversão 
de Paulo, mas mesmo assim Deus estava trabalhando irresistivelmente. Em geral, embora seja 
bastante improvável que os Fariseus deste capítulo tenham-se convertido, os Arminianos teriam 
que provar dois pontos antes de poderem usar um verso como esse. Eles teriam que provar que a 
obra particular do Espírito era para o propósito de regenerar um homem, e que o homem nunca 
foi regenerado. Essas duas coisas não podem ser provadas. 
 
 
121 
 
Na discussão de Deuteronômio 5:29, houve uma antecipação inclinada a um versículo do Novo 
Testamento que parece dizer que Deus quer salvar todos os homens, mas que ele não tem o poder 
ou a capacidade de fazê-lo. Isto é, o verso supostamente afirma o livre arbítrio e nega a 
onipotência. Enquanto John Gill examina muitos versos em ambos os Testamentos, este será o 
último incluído aqui. E por esta última vez Gill será citado em sua totalidade: 
O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para 
connosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se. - 2 
Pedro 3:9. 
Esta Escritura aparece entre aquelas que se dizem ser muitos claras e expressas para a doutrina da 
redenção universal, e é observado, “que nenhum, oposto a todo é uma distribuição de todos e, 
portanto, significa que, Deus não deseja que nenhum dos seres humanos pereça ”. Mas, 
1. Não é verdade que Deus não quer que nenhum indivíduo da raça humana pereça, visto que ele 
fez e designou os ímpios para o dia do mal, homens ímpios, que são preordenados a esta 
condenação, tais como vasos de ira preparados para a destruição; sim, há alguns a quem Deus 
envia fortes ilusões, para que acreditem na mentira, a fim de que sejam condenados; e outros, 
cujo julgamento agora já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não 
dormita. Nem é sua vontade que todos os homens, neste grande sentido, devam arrepender-se, 
visto que ele retém de muitos tanto os meios como a graça do arrependimento; e embora seja sua 
vontade de preceito, que todos aqueles a quem a pregação do Evangelho é concedida devam se 
arrepender, não é sua vontade determinante levar todos ao arrependimento, pois quem resistiu à 
sua vontade? 
2. É bem verdade que o nenhum, sendo oposto a todo, é uma distribuição dele; mas tantoo 
nenhum como o todo devem ser limitados e restringidos por nós, a quem Deus é longânimo; Deus 
não deseja que ninguém mais não pereça, e deseja que não mais cheguem ao arrependimento, 
senão a nós a quem a sua longanimidade é a salvação. A chave, portanto, para abrir este texto está 
nas palavras eis emas, para nós, ou para o nosso bem; porque estas são as pessoas que Deus não 
queria que nenhuma delas perecesse, mas que todas chegassem ao arrependimento. Será 
apropriado, portanto, 
3. Para perguntar quem são estes. É evidente que eles são distinguidos dos escarnecedores que 
zombam da promessa da vinda de Cristo (versículos 3, 4), são chamados de amados (versos 1, 8, 
14, 17), devem ser entendidos cada um deles, como amados por Deus. Com um amor eterno e 
imutável, ou amados como irmãos pelo apóstolo e outros santos; nenhuma delas é verdade para 
toda a humanidade. Além disso, o desígnio das palavras é estabelecer os santos e confortá-los 
com a vinda de Cristo, até que, Deus foi longânimo para com eles, e que eles deveriam prestar 
contas sobre a salvação, versículo 15. Adicione a isto, que o apóstolo projecta manifestamente 
uma companhia ou sociedade à qual ele pertencia, e da qual ele fazia parte, e assim não pode 
querer dizer senão aqueles escolhidos por Deus, redimidos dentre os homens e chamados das 
 
 
122 
 
trevas para a maravilhosa luz; e tais eram as pessoas que o apóstolo escreve. Algumas cópias 
interpretam as palavras diumas, por sua causa; assim, a Alexandria MS, a versão siríaca, para 
você ou para o seu bem; da mesma forma que o Etíope. Ora, estas pessoas eram as eleitas, 
segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do 
sangue de Jesus Cristo, e tais, como estas, ou que pertencem à mesma eleição de graça, Deus não 
está querendo que alguns deles pereçam, mas deseja que todos eles tenham arrependimento para a 
vida; e, portanto, ele espera ser gracioso com eles e adiar a segunda vinda de Cristo. O caso 
permanece assim: Havia uma promessa da segunda vinda de Cristo, para julgar o mundo, 
entregue; Esperava-se que isso ocorresse muito rapidamente, embora tenha sido adiado por muito 
tempo. Por isso, os escarnecedores surgirão nos últimos dias, acusando o Senhor de negligência e 
dilatação em relação a sua promessa, embora não seja negligente em relação a ela, mas seja 
longânimo para com seus eleitos, esperando que seu número seja completado em vigorosa 
vocação; por causa deles suporta toda a idolatria, superstição e profanação que existem no mundo; 
mas quando o último homem que pertence a esse número for chamado, ele não ficará mais, mas 
descerá em chamas de fogo, tomará seus próprios eleitos para si e queimará o mundo e os iníquos 
nele. 
4. É de facto dito que o apóstolo, por eleitos, a quem ele escreve, não quer dizer homens 
absolutamente destinados à felicidade eterna, mas somente a homens que professam o 
Cristianismo, ou que eram membros visíveis da igreja de Cristo; convidá-os a certificarem-se de 
sua vocação e eleição, exorta-os a estarem atentos, considerando o diabo, seu adversário, que 
procura a quem possa devorar, e tomando cuidado para não cair em sua própria firmeza; sim, 
ele fala de alguns deles como tendo abandonado o caminho certo; e também profetiza que os 
falsos mestres que fazem deles mercadoria, nenhum deles, observa-se, podem ser supostamente 
os homens absolutamente eleitos para a salvação; e, também, que a igreja na Babilônia fosse 
eleita, junto com essas pessoas, que não poderiam ser conhecidas e mencionadas entre todos os 
seus membros. A todos os quais eu respondo, que os convocando a confirmar sua eleição com 
certeza não significa que seja precária e condicional, como mostrei em uma seção anterior; que 
exortações à sobriedade, e vigilância contra Satanás, e advertências sobre a queda, são pertinentes 
para aqueles que são absolutamente eleitos para a salvação; pois, embora Satanás não possa 
devorá-los, ele pode afligi-los muito; e, embora eles não caiam finalmente e totalmente da graça 
de Deus, ainda assim eles podem cair de algum grau de firmeza, tanto quanto à doutrina e graça 
da fé, que podem ser sua destruição, como também para a desonra de Deus: Não é verdade, que o 
apóstolo fala de qualquer um desses eleitos a quem ele escreveu, que haviam abandonado o 
caminho certo, mas de algumas outras pessoas; e embora ele profetizasse que os falsos mestres 
deviam fazer deles mercadoria, o significado é que, por suas belas palavras e bons discursos, eles 
deveriam ser capazes de tirar dinheiro de seus bolsos, não que eles destruíssem a graça de Deus 
operada em seus corações. Quanto à igreja na Babilônia que se diz ser com eles eleita, o apóstolo 
poderia dizer isto da igreja em geral, tal como fez em um julgamento de caridade, da igreja em 
Tessalônica, e outros, embora cada membro dela em particular não fosse eleito para a salvação. 
Sem prejuízo da doutrina da eleição absoluta. Além disso, as pessoas a quem ele escreve não 
eram membros visíveis de nenhuma igreja ou comunidade em particular, professavam o 
 
 
123 
 
Cristianismo, mas eram estrangeiros dispersos em várias partes do mundo, e eram tais que 
obtiveram fé preciosa com os apóstolos, e é uma forte evidência de serem homens absolutamente 
projectados para a felicidade eterna. E considerando que se sugere que estas pessoas chegaram ao 
arrependimento e, portanto, não podem ser as mesmas a quem Deus é longânimo, para que 
possam arrepender-se; Eu respondo que embora não sejam as mesmas pessoas individuais, ainda 
assim, são aqueles que pertencem ao mesmo corpo e número de eleitos, a quem o Senhor espera e 
a quem é longânimo, até que todos sejam levados a participar desta graça, tendo determinado que 
nenhum deles jamais pereceria. 
5. Portanto, segue-se que estas palavras não fornecem nenhum argumento em favor da redenção 
universal, nem militam contra a eleição e reprovação absoluta, ou a graça inconfundível na 
conversão; mas pelo contrário, mantem-os e estabelece-os, visto que parece ser a vontade de Deus, 
que nenhum daqueles que ele tenha escolhido em Cristo, dado a ele, e por quem ele morreu, 
jamais pereçam; e, na medida em que o arrependimento evangélico é necessário para eles, e eles 
não podem vir por si mesmos, ele livremente concede-os sobre eles, e, por sua graça 
irreconhecível, opera neles; e até que isto seja feito para e sobre cada um deles, ele guarda o 
mundo em existência, que é reservado ao fogo, contra o dia do julgamento e a perdição dos 
homens ímpios. 
Sem mais detalhes exegéticos, outro Batista, que em alguns pontos teve um entendimento ainda 
melhor da Escritura do que John Gill, pode ser mencionado. Ele é um pouco mais próximo do 
nosso tempo e um grande exemplo de pregação do evangelho da graça com poder, semana por 
semana. Esse homem é Charles Haddon Spurgeon. Infelizmente algumas edições de seus 
sermões foram feitas para remover suas fortes declarações Calvinistas. É melhor obter e ler os 
originais. Em The Early Years, não um sermão, mas uma parte da autobiografia de Spurgeon, 
John Anderson é citado: “Mr. Spurgeon é um Calvinista, que poucos dos ministros dissidentes de 
Londres agora são. Ele prega a salvação, não do livre arbítrio do homem, mas da boa vontade do 
Senhor, que poucos em Londres, para serem temidos, agora pregam. O próprio Spurgeon, em seu 
sermão “Livre-Arbítrio - um Escravo”, diz: “O erro do Arminianismo não é que ele contém a 
doutrina Bíblica da responsabilidade, mas que iguala essa doutrina com uma doutrina não-
Bíblica do livre-arbítrio. O homem, sendo caído, sua vontade não pode ser neutra ou “livre” para 
agir contrariamente à sua natureza. “O livre arbítrio” levou muitas almas parao inferno, mas 
nunca uma alma para o céu ainda. “Altamente recomendado para a leitura é o esquecido 
Spurgeon, por Iain H. Murray (A Bandeira da Verdade, 1966). 
 
 
124 
 
Agora, para um resumo: Este capítulo mostrou que a doutrina do livre-arbítrio é uma imposição 
de falsas filosofias sobre as Escrituras, de modo que a doutrina da salvação pela graça é 
seriamente distorcida. Também foi demonstrado que a Reforma Protestante, em seu retorno às 
Escrituras após um milênio de superstição, rejeitou uniformemente a doutrina papista e pagã do 
livre-arbítrio; mas que um século depois da Reforma essa falsa doutrina recapturou uma seção 
das igrejas não-Romanistas. Finalmente, as interpretações errôneas Arminianas de vários versos 
foram expostas, de modo que é claro que o Arminianismo é anti-Bíblico, mas que o Calvinismo é 
completamente fiel à Bíblia. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
125 
 
Epílogo 
Depois que Moisés resgatou seu povo da escravidão, Deus lhes concedeu um grande 
reavivamento da verdadeira religião. Para ter certeza, eles logo pecaram antes do bezerro de ouro, 
mas no momento da morte de Moisés, a nação como uma comunidade exibiu a adoração pura de 
Jeová. Esse alto nível de espiritualidade continuou durante toda a vida de Josué, pois “E serviu o 
povo ao SENHOR todos os dias de Josué, e todos os dias dos anciãos que ainda sobreviveram 
depois de Josué, e viram toda aquela grande obra do SENHOR, que fizera a Israel.” (Juízes 2: 7). 
Depois a deterioração se instalou, “E foi também congregada toda aquela geração a seus pais, e 
outra geração após ela se levantou, que não conhecia ao SENHOR, nem tampouco a obra que ele 
fizera a Israel. Então fizeram os filhos de Israel o que era mau aos olhos do SENHOR; e serviram 
aos baalins. E deixaram ao SENHOR Deus de seus pais, …e foram-se após outros deuses, dentre 
os deuses dos povos, que havia ao redor deles, e adoraram a eles; e provocaram o SENHOR à 
ira.” (Juízes 2: 10-12). 
Depois seguiu-se um período de altos e baixos durante vários séculos. Em certo sentido, Samuel 
pode ser chamado de precursor de Davi, sob o qual o povo em grande número retornou a Deus. 
Este grande reavivamento da adoração culminou na construção do Templo por Salomão. Depois 
veio a rebelião com sua triste história no norte e a apostasia mais lenta, mas igualmente fatal, no 
sul. 
O cativeiro castigou o povo um pouco, e sob Esdras e Neemias eles mais uma vez obedeceram a 
Deus. Mas não por muito tempo. Na época de Cristo, os Fariseus sistematicamente interpretaram 
erroneamente a lei e os Saduceus insistiram em ser modernos e relevantes para o seu tempo. 
Apenas alguns esperavam o consolo de Israel. 
Através do apóstolo Paulo, Deus se agradou de tornar conhecida a sua salvação aos gentios. 
Durante quatro séculos, o ímpeto Paulino continuou, em alguns aspectos teológicos, alcançando 
um nível mais alto no final do que no começo, mas em outros aspectos prejudicado pela 
continuação dos costumes pagãos que acabaram corrompendo as formas de adoração. Então 
vieram mil anos de ignorância, superstição e imoralidade. 
 
 
126 
 
 
Após os primeiros lampejos de Wycliffe e Hus, a luz clara do dia amanheceu com Zwínglio, 
Lutero, Calvino, Knox e os outros reformadores. Embora tenham sido reprimidos pelo fogo e 
pela espada em muitos lugares, o Evangelho foi tornado mais conhecido do que nunca antes - 
excepto apenas a pregação dos próprios apóstolos. Essa condição feliz continuou a culminar na 
Confissão de Westminster de 1647, embora Arminius já tivesse começado sua obra maligna. A 
partir de então, a história das igrejas Cristãs se assemelha ao período dos Juízes. 
Hoje, os grupos mais numerosos, os mais visíveis e os mais anunciados que se opõem à apostasia 
total retêm muito pouca teologia da Reforma. Ao contrário da Confissão de Westminster, com 
seus trinta e três capítulos, sua fé oficial está esgotada em meia dúzia de artigos; e quando 
pregam além disso, são qualquer coisa, menos Calvinistas. Homens como Spurgeon são difíceis, 
se não impossíveis, de encontrar. Talvez Martin Lloyd-Jones seja a abordagem mais próxima. J. I. 
Packer e outros colaboradores dos simpósios editados por Carl F. H. Henry, assim como alguns 
outros estudiosos, são conhecidos nos círculos eruditos. Sem dúvida, sete mil pessoas de estatura 
menor não dobraram os joelhos a Baal. Mas não há Elias, e a igreja reformada é apenas um 
remanescente. 
Somente em tal atmosfera de deterioração poderia ocorrer a seguinte imoralidade. Um pouco 
antes da metade do século, em uma situação polêmica, um cavalheiro protestou contra mim: 
Acredite em predestinação, se você quiser; mas não deixe que as pessoas saibam que você 
acredita. Tal era o conselho hipócrita e mundano de um líder fundamentalista americano. Mas 
tão ruim quanto a recomendação pessoal da hipocrisia é a evidência de quão longe o 
fundamentalismo americano se afastou da luz da Reforma Protestante. Há muitos ministros que 
dizem acreditar na Bíblia e ainda questionam se a predestinação deve ser pregada nas suas 
congregações, mesmo que seja verdadeira. 
A predestinação é uma doutrina tão difícil, então a objecção continua, e de facto uma doutrina 
tão controversa que talvez seria melhor não mencioná-la. É estranho que alguém faça essa 
objecção, se tem alguma idéia de como a doutrina permeia a Bíblia de capa a capa. Mas a 
objecção é de facto feita. Evangelistas inteligentes, cuja facilidade de expressão é excedida 
 
 
127 
 
apenas pela incompreensão das Escrituras, frequentemente usam a ilustração da ovelha e da 
girafa. Várias vezes ouvi uma pessoa dizer, Cristo nos disse para alimentar suas ovelhas - ele não 
disse para alimentar suas girafas. A ideia é que a grama está no chão e representa o mais fácil dos 
ensinamentos doutrinários. A matéria está em um jardim de infância ou no nível da Escola 
Dominical. Folhas nas árvores, que só girafas ou gênios podem alcançar, representam um ensino 
muito difícil, e se isso é tudo o que havia para comer, as ovelhas passariam fome. Mas as girafas 
não passariam fome mesmo que as árvores fossem desnudas, desde que houvesse muita grama. 
Essa é a ideia da ilustração; mas essa não é a ideia da Bíblia. 
A Bíblia, é claro, endossa a alimentação do leite aos bebês. As verdades mais simples devem ser 
ensinadas aos jovens Cristãos. A fé e o arrependimento são consideradas primeiros princípios; 
eles são leite para bebês. Mesmo assim, não está claro que a doutrina da justificação somente 
pela fé e a doutrina do arrependimento sejam tão simples e fáceis como os objectores desejariam. 
Afinal, eles dependem da doutrina da predestinação com todas as Escrituras citadas no presente 
livro. Alguns evangelistas pensam que “você deve nascer de novo” é uma doutrina fácil; Mas 
Nicodemos aprendeu que era muito difícil de entender. Nem os próprios evangelistas conseguem 
tornar isso simples para os ignorantes. Os evangelistas populares também podem querer pregar a 
divindade de Cristo; mas como isso envolve a doutrina da Trindade e o credo da Calcedônia, não 
se pode dizer que é uma doutrina muito simples e fácil. De facto, a predestinação é muito mais 
simples e fácil. A predestinação é muito fácil de entender. O verdadeiro problema é que o 
homem natural não gosta dela. 
A morte de Cristo, a expiação, ou, como é melhor chamada, a Satisfação, deve formar uma boa 
parte da pregação evangelística. Mas isso é muito fácil? Eu ouvi muitos evangelistas pregarem 
sobre a morte de Cristo sem mencionar que a morte de Cristo satisfez a justiça de seu pai. Esses 
evangelistas podem ter pregado algo simples, mas simplificaram omitindoa parte essencial. O 
princípio de ser simples é um princípio perigoso e não Bíblico. 
É assim porque, quaisquer que sejam as doutrinas que possam ser leite para bebês, a Bíblia não 
recomenda que nosso ensino termine com elas. Hebreus 5:12 - 6:3 condena o desejo de 
permanecer em uma Escola Dominical ou nível primário. As pessoas que permanecem satisfeitas 
 
 
128 
 
com as doutrinas elementares são “inábeis na Palavra da justiça”; e Deus os ordena que subam 
do leite para a carne forte, “não lançando de novo o fundamento do arrependimento… fé… da 
doutrina dos batismos, e da imposição das mãos, e da ressurreição dos mortos, e do juízo eterno”, 
mas Deus nos ordena a “prosseguir até a perfeição”. 
Ainda mais claramente, o último mandamento de Cristo traz à terrível condenação à aqueles que 
desejam silenciar a pregação da predestinação. “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações 
(…) Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado” Cristo não disse: Ensine 
todas as coisas, excepto algumas doutrinas difíceis, desagradáveis, controversas, avançadas, de 
nível universitário. 
Evangelistas e pregadores que desobedecem ao mandamento de Cristo omitindo seções grandes e 
importantes da Bíblia de sua pregação são culpados pelo sangue de seu povo. Paulo não era 
culpado. Ele disse em Actos 20:26-27: “Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do 
sangue de todos. Porque nunca deixei de vos anunciar todo o conselho de Deus.” As grandes 
denominações modernas são hoje apóstatas porque pregadores desobedientes têm evitado 
declarar todo o conselho de Deus. A predestinação foi silenciada; a depravação total foi atenuada; 
a regeneração foi mal entendida; o nascimento virginal foi negado; a Bíblia foi reduzida a mito; e 
as chamadas nações Cristãs se tornaram seculares. 
Se agora esperamos abalar as nações novamente, como Lutero e Calvino fizeram, devemos 
voltar a pregar todo o conselho de Deus. Se, por outro lado, essa esperança parece infundada, e 
como Jeremias devemos pregar àqueles que não obedecem, ainda assim Cristo nos mandou 
ensinar todas as coisas reveladas. Jerome Zanchius, perto do final de seu livro sobre 
Predestinação Absoluta, lista algumas razões para pregar a doutrina. Primeiro, ele diz, sem isso 
nós não podemos formar apenas e perceber bem as idéias de Deus: Presciência, perfeição, 
onipotência e graça soberana devem ser abandonadas, se a predestinação for negada. Segundo, 
para expandir a última das chamadas características de Deus, a graça de Deus não pode ser 
mantida sem predestinação: “Não há nem pode haver nenhuma mediação entre predestinar graça 
e salvação por mérito humano.” Terceiro, pela pregação da predestinação o homem é 
devidamente humilhado e somente Deus é exaltado: “A conversão e a salvação devem, na 
 
 
129 
 
própria natureza do caso, ser operadas e efetuadas por nós mesmos, ou por nós mesmos e por 
Deus juntos, ou somente pelo próprio Deus. Os Pelagianos são favoráveis ao primeiro caso. Os 
Arminianos ao segundo. Os verdadeiros crentes são favoráveis ao último.” Um leitor curioso 
pode querer pegar seu livro e ver o restante de suas nove razões. Mas a soma de todas as razões é 
que Deus nos ordena a ensinar ao mundo tudo o que ele revelou em sua Palavra. Não deixe 
ninguém desobedecer. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
130 
 
Apêndice 
Predestinação no Antigo Testamento 
 
Este estudo é uma pesquisa do que o Antigo Testamento diz sobre a predestinação. Mesmo um 
Arminiano sabe que o Novo Testamento usa a palavra várias vezes, mas muitos Cristãos pensam 
que o Antigo Testamento diz pouco ou nada sobre isso. Pelo contrário, o Antigo Testamento 
afirma a doutrina de maneira penetrante e explícita. Em particular, encontrar-se-á os dois ou três 
pontos principais sobre os quais os Arminianos argumentam mais vigorosamente. Uma delas é a 
afirmação Arminiana do livre arbítrio em oposição à negação do livre arbítrio por parte de 
Lutero e Calvino. Mas subjacentes a isso existem duas doutrinas mais fundamentais: eleição e 
reprovação. Os Calvinistas acreditam em ambos; Os Arminianos não acreditam em nada. Quer 
dizer, os Calvinistas acreditam que Deus é a causa tanto do pecado quanto da salvação, enquanto 
os Arminianos negam que Deus é a causa de qualquer um deles. No entanto, a dupla negação faz 
uma estranha combinação porque se pode pensar que aqueles que não gostam da idéia de 
reprovação seriam bastante felizes com a idéia de eleição. Mas todo o assunto é um pouco 
complicado, e ninguém pode fazer o mínimo progresso sem examinar os detalhes Bíblicos. 
O seguinte levantamento dos detalhes não é exaustivo, embora devesse ser exaustivo. Sua 
extensão é justificada pela falta generalizada de consciência de quão difundidas e explícitas são 
essas doutrinas no Antigo Testamento. Se o leitor não puder mergulhar de uma só vez, pode pelo 
menos consultar essas referências quando se preparar para ensinar uma lição da Escola 
Dominical sobre um determinado livro, ou quando ficar perplexo ao ler este ou aquele capítulo 
para suas devoções. 
Clark Pinnock e David Clines 
Há também um valor contemporâneo particular, um valor que sem dúvida tem sido e sem dúvida 
será repetido em outras situações. Recentemente, Clark H. Pinnock editou um livro, Grace 
Unlimited.
20
 O título é um pouco estranho, pois o livro defende uma espécie de graça que não é 
 
20
 Bethany Fellowship, 1975. Nota do editor: O ensaio do Dr. Clark foi originalmente escrito para ser 
publicado em um livro respondendo à Grace Unlimited. O volume projectado nunca apareceu. Nos anos 
 
 
131 
 
apenas limitada, mas realmente frustrada pelo livre arbítrio do homem. Para defender a tese de 
uma graça limitada e frustrada, o capítulo seis do livro de Pinnock, escrito por David J. A. Clines, 
professor da Universidade de Sheffield, Inglaterra, propõe estudar “Predestinação no Velho 
Testamento”. O capítulo começa com a mais excelente declaração sobre o método. Primeiro, 
adverte contra dois erros: “Podemos deixar de ver toda a gama da revelação Bíblica sobre o 
assunto, porque nós [itálico seu] escolhemos as categorias e termos que vão contar.” Segundo, 
podemos não ter o foco correto e assim distorcer os valores relativos. Então, positivamente, o 
autor, repetindo a idéia de “toda a gama da revelação Bíblica”, nos aconselha a “olhar para o 
ensino Bíblico como um todo”, e para esse fim “considerar as partes da Bíblia individualmente - 
pelo menos para começar.” 
Esta é uma excelente declaração de método. Mas o Sr. Clines não segue isso. Ele começa com 
Abraão em vez de Gênesis 1:1. Mais tarde, ele retorna aos primeiros capítulos de Gênesis por 
alguns pontos espalhados. Então ele pula para Provérbios! Tudo a partir de Êxodo através dos 
Salmos é omitido, com exceção das referências esparsas a medida que ele discute livros 
posteriores. Depois de Provérbios ele gasta três páginas sobre Eclesiastes e nas páginas 120-122 
ele cobre “A literatura profética”, adicionando menos de duas páginas sobre “outra literatura do 
Antigo Testamento”. Ele não tem nada, ou praticamente nada, em Jó, Salmos e Êxodo para Rute, 
nem para Ezequiel. Essas omissões extensivas contêm uma grande quantidade de material que 
contradiz frontalmente a posição do livro de Pinnock.
21
 O livro de Pinnock é um fenômeno 
 
desde 1975, Pinnock e outros descobriram algumas das implicações lógicas de suanegação da 
predestinação. Suas heresias são chamadas de “abertura da teologia de Deus”. Pinnock continua sendo um 
membro da Sociedade Teológica Evangélica, tendo sido publicamente abraçado (literalmente) por um de 
seus membros fundadores, Dr. Roger Nicole, um endossante de Evangélicos e Católicos Juntos. 
21
 O público leitor geral pode ficar bem impressionado com o livro Pinnock por dois motivos. Primeiro, os 
pedigrees acadêmicos dos autores, resumidos nas páginas 9 e 10, são impressionantes. Em segundo lugar, 
o estilo e a sinceridade dos escritores são atraentes. Tais características podem ganhar aceitação para as 
conclusões daqueles que não têm outra base para o julgamento. Agora, apesar dos pedigrees acadêmicos, 
o capítulo seis já se mostrou deficiente em estudos. Suas omissões são injustificadamente extensas. 
Certas outras deficiências, que muitos leitores deixarão de notar, podem muito bem ser mencionadas 
como um alerta contra a aprovação apressada. O Estoicismo não produz uma visão consistente da 
liberdade por causa de sua “visão de mundo atomista-determinista”. A verdade é que os Estóicos não 
 
 
132 
 
passageiro, mas as idéias nele contidas serão expressas em livros futuros, como nos livros 
anteriores. Assim, como o assunto é de interesse perene para os estudantes da Bíblia, o valor do 
presente estudo é, espero, mais do que a importância contemporânea. Mais uma vez, este não é 
um estudo exaustivo, mas as referências são mais do que uma pequena amostra. 
Gênesis 
A primeira alusão do Antigo Testamento à predestinação é Gênesis 1:1: “No princípio criou 
Deus os céus e a Terra”. A palavra predestinação não ocorre neste verso. Nem a palavra 
Trindade ocorre em parte alguma da Bíblia. Todavia a Bíblia ensina ambos. Nenhum sermão, 
nenhuma confissão de fé, nenhum livro sobre teologia pode restringir-se ao texto preciso da 
Bíblia. Se a Bíblia diz que Siquém está ao norte de Jerusalém, e se também diz que Berseba está 
ao sul de Jerusalém, podemos concluir que Berseba está ao sul de Siquém, mesmo que a Bíblia 
não o diga. A Escritura nos convida a comparar uma passagem com outra e a extrair as 
consequências. Com referência a Gênesis 1:1, a idéia de criação, explicada em muitos versos 
posteriores, justifica certas conclusões que se baseiam na doutrina da predestinação. 
 
eram atomistas. Se o autor entendeu mal o seu material de apoio no Estoicismo, é pelo menos possível 
que interprete mal as Escrituras também. 
Pág. 200 diz: “L'Homme [de Descartes] foi o primeiro grande modelo fisiológico mecanicista total do 
homem nos tempos modernos (Meditações sobre a Primeira Filosofia...).” A verdade é que Descartes não 
era um mecanicista: ele sustentava que a volição da alma poderia violar a lei física; isto é, ele excluiu o 
homem (L'homme) do mecanismo do restante do universo. 
Página 207 A nota 10 diz: “Alguns exemplos de tais sistemas são: (1) a Física Democritiana, isto é, a 
Física Grega Clássica.” A verdade é que a Física Democritiana não era a Física Grega Clássica. Antes de 
Demócrito, isto é, Tales para Anaxágoras, obviamente ainda não havia sido formulada, e depois de 
Demócrito foi explicitamente rejeitada por Platão, Aristóteles, os Estóicos e até mesmo pelos Epicuristas. 
Finalmente, dois dos autores cometem o mesmo erro na Gamática grega e um terceiro mal escapa. As 
páginas 182 e 200, discutindo Efésios 2:8, afirmam que o pronome demonstrativo neutro não pode se 
referir à fé porque a fé é feminina, e os pronomes devem concordar em gênero com seus referentes. A 
verdade é que os autores não estão cientes de que substantivos abstractos femininos frequentemente 
tomam o neutro nessas construções. Sua lógica também é pobre, pois se o demonstrativo se refere a toda a 
salvação, deve incluir a fé como uma parte, de modo que a fé permanece um dom de Deus, contrariando 
os desejos dos autores. 
 
 
133 
 
Há muitos versículos posteriores nas Escrituras, que, quando juntos, mostram que Deus criou o 
universo a partir do nada. Um desses versículos vem rapidamente: “Deus disse que haja luz, e 
houve luz.” A luz apareceu instantaneamente por decreto divino, por ordem divina. Mais tarde 
Deus formou o corpo de Adão fora da terra, mas depois ele deu vida ao barro. 
Criação ex nihilo, do nada, implica duas coisas. Primeiro, não havia poder anterior para estimular 
Deus; não havia ninguém para sugerir planos a Deus ou sugerir alterações nos planos que Deus 
tinha; ainda menos, alguém poderia derrotar os propósitos de Deus. Deus estava sozinho. Ele 
poderia fazer o que quisesse. 
Em segundo lugar, depois que Deus criou algo, a coisa não tinha autoridade para reclamar: Por 
que você me fez assim? Uma carriça não tem o direito de reclamar por não ser um elefante. Deus 
decidiu criar um mundo e um mundo, por definição, inclui diferenças. As coisas diferentes não 
têm o direito de responsabilizar Deus pelas qualidades que possuem ou pelas qualidades que lhes 
faltam. Deus é responsável por ninguém. Ele distribuiu asas, pernas, chifres e mentes da maneira 
que lhe convinha. Ninguém tem direitos em relação a Deus. 
Muitos dos itens do parágrafo anterior são declarados em maior ou menor detalhe em toda a 
Bíblia. Mas eles estão incluídos no conceito de criação. A criação implica o controle completo 
do Criador soberano sobre a criatura dependente. E o controle completo é predestinação. Assim, 
a primeira frase da Bíblia revela a doutrina aqui a ser estudada. 
Agora os Arminianos, pelo menos aqueles que escaparam da contaminação do liberalismo, 
acreditam na criação. Mas eles não conseguem ver o que isso significa. Eles supõem, 
particularmente no caso dos homens, se não de anjos, que uma vez que um ser é criado, ele, ela, 
pode legitimamente reivindicar que Deus é obrigado a tratá-lo como ele quer ser tratado, ao invés 
de como Deus decide tratá-lo. O homem tem direitos que Deus deve respeitar. Muito pelo 
contrário, o homem não tem direitos em oposição a Deus. Quaisquer que sejam os direitos que 
um homem tenha, embora o termo direitos dificilmente seja apropriado, como era o caso das 
qualidades, são aqueles que Deus decide dar a ele. Deus, como criador, pode dar, reter ou 
retomar quaisquer direitos que lhe agrade. Tudo o que ele dá ao homem é um presente e não uma 
 
 
134 
 
dívida. Ninguém tem qualquer direito sobre o Criador. Vamos ver com que cuidado o Antigo 
Testamento explica isso. 
Neste ponto, o autor deve escolher entre dois métodos de procedimento. Uma maneira seria 
colectar todas as passagens da criação, depois passar para outro tópico e colectar todas as 
passagens relativas ao controle dos reis por Deus, e depois à regeneração e ao dom da fé. Todos 
esses tópicos podem ser organizados em uma ordem lógica. 
O outro método, menos lógico, é proceder de Gênesis 1, para Gênesis 2 e para Malaquias 4. Isso 
traria passagens de justaposição que têm diferentes conteúdos. Apesar de seus resultados um 
tanto acidentais, este método será seguido aqui porque (1) o método mostrará o desenvolvimento 
da doutrina desde o tempo de Adão, Abraão e Moisés até o fim; (2) estará mais de acordo com a 
confiança necessária na exegese; e (3) permitirá ao leitor, algumas semanas depois de ler o 
material, encontrar facilmente um verso que perturba sua memória. 
A segunda passagem, depois de Gênesis 1:1, sobre o assunto até certo ponto é Gênesis 2:16-17. 
A ideia aqui é um exemplo específico de uma das implicações da criação. A discussão da criação, 
logo acima, insistiu que o homem não tem direitos em oposição a Deus.Aqui vemos Deus 
impondo obrigações ao homem. “E ordenou o SENHOR Deus… De toda a árvore do jardim 
comerás livremente… Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás”. O 
que Deus ordenou não foi determinado pelos gostos e aversões de Adão. 
Em seguida, pode-se citar o relato do dilúvio para mostrar o controle de Deus sobre as forças da 
natureza. Mais profundamente, a natureza não tem forças: elas são as forças de Deus, e ele envia 
inundações e terramotos como quiser. Mas como os Arminianos geralmente não contestam o 
controle de Deus sobre a natureza inanimada, esse ponto precisa de pouca ênfase. 
No entanto, quando as forças da natureza inanimada e da natureza humana se combinam para 
produzir eventos históricos, o Arminiano concorda apenas com hesitação. Em Gênesis 12:1 Deus 
faz certas promessas a Abraão. Deus, não Abraão, fará dos descendentes de Abraão uma grande 
nação. Deus vai abençoar e amaldiçoar. “À sua descendência”, diz Deus em Gênesis 12:7, “darei 
esta terra”. Então, em Gênesis 15:1, outras promessas são feitas. Em particular, Deus promete 
 
 
135 
 
que Abraão terá um herdeiro e uma numerosa posteridade (15:4-5). Mais precisamente, Deus em 
Gênesis 17:1 declara que ele é todo-poderoso. Isto é, ele pode fazer o que quiser. Agora, os 
Arminianos admitirão que Deus pode operar no corpo de uma mulher idosa para que ela possa 
ter um filho. Mas se Deus pode fazer qualquer coisa, ele também pode fazer com que Abraão 
escolha migrar para a Palestina e depois fazer com que Jacó migre para o Egipto, a fim de 
cumprir a profecia de Gênesis 15:13. Em vista de tais profecias, que resposta deve ser dada à 
pergunta: Seria possível que Jacó nunca mais descesse ao Egipto? Pode o homem querer impedir 
que as previsões de Deus aconteçam? Não deve o homem querer cumpri-las? 
Pode parecer estranho a princípio, mas a promessa de Deus a Abraão de vários descendentes não 
implica que Abraão não poderia ter escolhido cometer suicídio antes de ter gerado um filho? Se 
Deus prometeu dar a semente de Abraão a terra da Palestina, então era certo que Abraão teria 
filhos. Ele não tinha livre-arbítrio para escolher cometer suicídio. Deus controlou a vontade de 
Abraão para que ele não pudesse escolher o contrário. 
Parece forçado dizer que Deus controla as vontades dos homens? Considere outro verso. Abraão 
mudou-se para o sul, para Gerar, no reino de Abimeleque. Abimeleque imediatamente se 
apaixonou pela beleza de Sara. Ele a levou. Deus então falou ao rei em um sonho: “Deus, porém, 
veio a Abimeleque em sonhos de noite, e disse-lhe: Eis que morto serás por causa da mulher que 
tomaste; porque ela tem marido. Mas Abimeleque ainda não se tinha chegado a ela; por isso 
disse: Senhor, matarás também uma nação justa? Não me disse ele mesmo: É minha irmã? E ela 
também disse: É meu irmão. Em sinceridade do coração e em pureza das minhas mãos tenho 
feito isto. E disse-lhe Deus em sonhos: Bem sei eu que na sinceridade do teu coração fizeste isto; 
e também eu te tenho impedido de pecar contra mim; por isso não te permiti tocá-la” (Gênesis 
20:3-6). 
Isso é algo que os Arminianos não entendem, nem podem encaixar em sua teologia. Abimeleque 
não tinha livre arbítrio. Ele simplesmente não poderia ter escolhido deitar com Sara naquela 
noite, porque Deus controlou sua vontade e fez com que ele se abstivesse. Um livre arbítrio, é 
claro, é aquele que é determinado por nada. É igualmente capaz de fazer uma das duas opções 
 
 
136 
 
incompatíveis. Mas Deus determinou que Abimeleque não fizesse a única escolha; ele fez com 
que ele fizesse a outra. 
Deus pode e controla as vontades ou escolhas dos homens, porque ele é todo-poderoso. Não é 
necessário listar todos os versos nos quais a onipotência divina é afirmada. Mas um que vem 
logo depois de Gênesis 17:1 é Gênesis 28:3. Certamente, quem lê o Antigo Testamento na 
metade do caminho, é forçado a admitir que ensina a onipotência divina. Nada pode interferir nas 
decisões de Deus. Objectos criados são suas criações; ele pode transformá-los desta forma ou de 
outra que lhe agrade. 
Um outro verso em Gênesis, no entanto, deve ser listado porque é um dos mais claros versos 
Calvinistas e anti-Arminianos em toda a Bíblia. Depois da morte de Jacó, os irmãos de José 
ficaram com medo de que José pudesse se vingar deles por seus erros anteriores. Para eles, José 
respondeu: “Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem, para fazer 
como se vê neste dia, para conservar muita gente com vida.” (Gênesis 50:20). Os irmãos 
invejosos tinham anteriormente considerado assassinar José, mas eles mudaram de idéia e o 
venderam como escravo. Suas intenções eram más, mas Deus havia controlado suas vontades. 
Eles simplesmente não poderiam ter permanecido firmes em sua decisão de matar José, porque 
Deus decretara mandar José para o Egipto com o propósito de mais tarde salvar a família da 
fome. Os irmãos decidiram vender José. Deus controlou sua decisão. Eles não estavam livres 
para querer sua morte, nem deixá-lo ir também. Então termina Gênesis. 
Como o Dr. Clines no volume de Pinnock omite tudo, de Êxodo a Provérbios, aqui está o único 
lugar para comentar sobre seus argumentos sobre Gênesis. Na página 112, referente a Abraão, e 
presumivelmente também a José, ele escreve: “A história está focalizada… nos perigos que a 
promessa enfrenta…. É da tensão entre a promessa e a realidade da vida que a história ganha 
impulso. Assim, a predestinação não é o factor determinante absoluto do que acontece”. Que a 
pungência e a tensão da história dependem das realidades da vida podem muito bem ser admitido; 
mas a lógica pela qual o escritor tira sua conclusão não pode ser admitida. Mesmo se os claros 
versos Calvinistas tivessem sido omissos da história, ainda seria uma falácia concluir: “Portanto, 
a predestinação não é absolutamente determinante”. A ausência da história do factor 
 
 
137 
 
determinante não seria prova de sua ausência da realidade. Poderíamos argumentar que a 
predestinação é uma falsa doutrina porque 2 Crônicas 25:12 não menciona isso? Este argumento 
Arminiano do silêncio é repetido na página 113, onde o autor dá uma breve olhada em Adão, 
Caim e na torre de Babel. Ele argumenta que o texto não menciona os decretos eternos. 
Obviamente, a lógica é falaciosa. E além disso, enquanto 2 Crônicas 25:12 é realmente 
silencioso sobre a questão da predestinação, Gênesis não é silencioso. 
Êxodo 
Depois de Gênesis, o livro de Êxodo enfatiza a doutrina da predestinação, no que os Arminianos 
podem chamar de sua forma mais virulenta. Mas, independentemente das objeções Arminianas, 
Êxodo é tão claramente Calvinista, ou os Calvinistas são tão Exodusianos, que a existência 
continuada do Arminianismo é um milagre da cegueira. 
O começo deste material é Êxodo 4:21, “E disse o SENHOR a Moisés…eu lhe [Faraó] 
endurecerei o coração, para que não deixe ir o povo”. Em vista das previsões em Êxodo 3 e 4, 
nas quais a recusa do Faraó é predita (3:19), e por causa do texto explícito de 4:21, como pode 
um Arminiano dizer que Faraó estava livre para deixar os escravos irem? Se Deus endureceu seu 
coração, que possibilidade havia de que ele pudesse fazer o contrário? Deus não é onipotente? 
Não é possível a onipotência controlar a vontade do homem? Os Arminianos provavelmente se 
protegerão e responderão que Deus, visto que é onipotente, pode controlar suas criaturas, mas 
por respeito à sua integridade, ele não as controlará. Mas o que os Arminianos dizem que Deus 
não faria, o versículo diz que Deus fez. 
Agora é uma regra padrão da teologia que nenhuma doutrina deve se basear em um único 
versículo. Para evitar erros de interpretação, umCristão deve comparar as Escrituras com as 
Escrituras e usar tantos versículos quanto possível. No caso da predestinação, é fácil acumular 
versículos; a única dificuldade é encontrá-los todos. A afirmação particular do último versículo 
citado é repetida em Êxodo 7:3. Ele diz: “Eu, porém, endurecerei o coração de Faraó”. Suponha 
agora que alguém em desespero tente responder, Deus disse: “eu vou”; mas esse é o tempo 
futuro. Então ele mais tarde muda de ideia e não vai. Isso é de facto desespero. Além do facto de 
 
 
138 
 
que Deus nunca muda de idéia, pois ele é eternamente imutável, Êxodo 7:13 nos diz claramente 
que o que Deus predisse que faria, ele fez: “Ele endureceu [pretérito] o coração de Faraó”. 
Agora, existem alguns versos em que este evento é mencionado sem indicar quem produziu o 
endurecimento. Êxodo 7:22 simplesmente diz: “O coração de Faraó estava endurecido”. Então, 
com um suspiro de alívio, o Arminiano se apressa em Êxodo 8:15 e 32. Veja, ele diz: “o coração 
de Faraó se endureceu”. Alguns não Cristãos podem estar mais alegres e dizer: “Veja, a Bíblia se 
contradiz”. A suposta contradição, no entanto, logo desaparecerá à medida que a observação 
Arminiana for considerada. 
Um pouco de estatísticas irá melhorar a perspectiva. Êxodo menciona o endurecimento do 
coração do Faraó dezoito vezes, aos quais podem se adicionar um outro verso que se aplica aos 
egípcios em geral. Êxodo 4:21; 7: 3, 7:13; 9:12; 10:1, 20, 27; 11:10; 14:4,8 todos dizem que o 
Senhor endureceu o coração de Faraó. O versículo extra diz que o Senhor endureceu o coração 
dos egípcios (Êxodo 14:17). Isso é onze vezes em dezanove. Cinco instâncias, 7:14, 22; 8:19; 9:7, 
35, não especifica quem endureceu o coração de Faraó. Os outros versículos, três em número, 
8:15, 32 e 9:32, dizem que Faraó endureceu seu coração. Quem, então, diante das onze 
declarações de que o Senhor endureceu o coração de Faraó, pode negar que Deus é a causa desse 
endurecimento? Esta afirmação positiva não é apenas três vezes mais frequente, mas é feita três 
vezes antes da outra declaração ser feita uma vez. Afinal, quem comanda o Egipto - Faraó ou 
Deus? 
Bem, em dois sentidos diferentes, ambos Deus e Faraó, comandam o Egipto. E esse facto, que 
muitos Arminianos inconsistentes admitiriam, mostra como tanto Deus quanto Faraó podem 
endurecer o coração de Faraó. As dificuldades que os Arminianos enfrentam surgem de sua idéia 
geralmente não expressa de que a relação entre Deus e suas criaturas é essencialmente similar 
àquela entre duas criaturas. Mas se isso não é verdade em relação aos relacionamentos pessoais 
em um plano inferior, é excessivamente e excepcionalmente falso em um nível mais alto. A 
relação entre um general de quatro estrelas do exército e um subordinado não é aquela que se 
obtém entre dois soldados comuns de primeira classe. Muito menos é a relação do homem com o 
homem da mesma forma que a relação do homem com Deus. Um homem pode persuadir outro a 
 
 
139 
 
escolher um curso de acção; ele pode, por meio da tortura, forçar um homem a fazer alguma 
coisa; mas mesmo isso não é um controle onipotente da vontade do outro. Na situação habitual, a 
vontade da pessoa é obviamente livre dos outros. Este não é o caso entre Deus e o homem. 
Quando Paulo pregou em Atenas, se uma referência do Novo Testamento fosse permitida em um 
capítulo do Antigo Testamento, ele disse: “Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos”. 
O “nos” não se refere apenas a Paulo e outros Cristãos. Refere-se particularmente a Paulo e sua 
audiência pagã. Os pagãos viviam e se moviam, pensavam e falavam, em Deus. Suas mentes e a 
mente de Deus se interpenetravam. A doutrina da onipotência mostra que Deus pode controlar as 
vontades dos homens; a passagem em Actos deixa um pouco mais claro como Deus controla as 
vontades dos homens. Minha dor de dente não existe em tua mente; e muitos de teus 
pensamentos não existem na minha. Mas todo pensamento teu e meu de igual modo são achados 
na mente de Deus. Essa interpenetração, pelo menos, esclarece até certo ponto a maneira pela 
qual a mente do Criador controla os pensamentos de suas criaturas. 
Antes de deixar o Êxodo e o Faraó, podemos ver alguns dos propósitos de Deus em endurecer o 
coração de Faraó. Deus sempre age com um propósito. Êxodo 9:16 diz: “para isto te mantive, 
para mostrar meu poder em ti, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra.” Se Deus 
não tivesse endurecido o coração de Faraó, se a vontade de Faraó fosse livre, ele poderia ter 
deixado os Israelitas partirem, pelo menos depois de duas ou três pragas. Mas neste caso o poder 
de Deus nas outras pragas não teria sido manifestado, nem a grande libertação no Mar Vermelho. 
A fim de afogar o exército egípcio, depois que os Israelitas passaram com segurança, Deus 
endureceu o coração de Faraó. 
Deuteronômio 
Esta idéia de Deus controlando a vontade e os pensamentos dos homens não é algo raro ou 
excepcional na Bíblia. O próximo versículo é Deuteronômio 2:30: “Mas Siom, rei de Hesbom, 
não nos quis deixar passar por sua terra, porquanto o SENHOR teu Deus endurecera o seu 
espírito, e fizera obstinado o seu coração para to dar na tua mão.” 
Isto difere do caso do Faraó em Êxodo apenas pela ausência de qualquer afirmação de que Siom 
endureceu o seu próprio espírito. Caso contrário, o versículo afirma a actividade ou causalidade 
 
 
140 
 
de Deus e o propósito pelo qual ele fez Siom fazer o que fez. Então Moisés, na passagem, 
continua declarando que o propósito de Deus foi cumprido: Hesbom foi totalmente destruído e 
“somente o gado que tomamos por uma presa a nós mesmos”. 
Um versículo final de Deuteronômio é muito explícito; mas um versículo colateral que enfatiza a 
soberania de Deus, embora sua aplicação à predestinação seja brevemente tocada em uma frase, 
pode ser mencionado primeiro. Deuteronômio 10:17 diz: “Pois o SENHOR vosso Deus é o Deus 
dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de 
pessoas, nem aceita recompensas”. Um pregador Arminiano dificilmente poderia ser muito 
entusiasta em escolher este versículo como o texto para um sermão, embora ele pudesse insistir 
desajeitadamente que a idéia de predestinação não é proeminente. O contraste, no entanto, é que 
o pregador Calvinista poderia usar entusiasticamente o versículo para uma série de sermões. 
Esses versículos anteriores foram exemplos nos quais o Senhor fez com que certas pessoas 
pensassem em pensamentos e tomassem decisões para sua própria destruição. Mas os 
Arminianos consistentes também não gostam da idéia de que Deus faz com que as pessoas 
pensem em pensamentos e tomem decisões para seu próprio bem. Se a vontade é livre, Deus tão 
pouco pode causar boas inclinações, quanto causar decisões más. No entanto, Deuteronômio 
30:6 diz: “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração…para amares ao SENHOR teu 
Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas.” 
Circuncisão do coração é aqui presumivelmente idêntica à regeneração no Novo Testamento. Em 
qualquer caso, o versículo em discussão deixa claro que uma grande mudança espiritual está 
envolvida. Esta circuncisão fará com que eles amem a Deus de todo o coração, e fará com que 
eles “retornem e obedeçam a voz do Senhor”. A circuncisão é a causa; amar o Senhor é o 
resultado. Este versículo em particular não diz que se eles não são circuncidados eles não podem 
amar a Deus; embora essa ideia seja dada em outra parte da Bíblia. Mas obviamente diz que o 
acto de Deus fez com que eles o amassem. E é claro que Deus escolhe, determina, predestina ou 
selecciona quais pessoas ele irá circuncidar. Que esse tempo futuro esteja se referindomais à era 
messiânica do que ao tempo de Josué não diminui o argumento actual. Mais cedo ou mais tarde, 
Deus produz nessas pessoas a vontade do amor. 
 
 
141 
 
É impossível listar todos os versículos que se aplicam à doutrina da predestinação. Nem devem 
ser citados muitos versículos que não façam mais do que repetir uma ideia anterior. Por exemplo, 
a onipotência de Deus, declarada explicitamente em Gênesis, é declarada com a mesma clareza, 
mas sem muito desenvolvimento, em Êxodo 6:3; Números 24:4, 16; Rute 1:20, 21 e mais de 
duas dúzias de vezes em Jó. Tais versículos não precisam ser citados aqui, a menos que façam 
algum ponto particular. Mas o leitor deve estar ciente de que muito da doutrina da predestinação 
é difundida. 
Primeiro Samuel 
Primeiro Samuel 2:3, 6-9 parece adicionar um pouco. Eles dizem que Deus é um Deus de 
conhecimento; ele pesa as acções dos homens. Ele mata pessoas e as ressuscita. Ele guarda os 
pés dos seus santos. Por si mesmos, esses versículos não parecem apoiar a doutrina da 
predestinação em grande parte. Mas alguém pode supor, e mais tarde os versos confirmarão, que 
alguns desses eventos preditos, e o conhecimento pelo qual Deus os prediz, e o emprego de 
agentes humanos por Deus em alguns casos, pressupõe o controle de Deus sobre os pensamentos 
e as vontades dos homens. 
Primeiro o próprio Samuel acrescenta mais. Em 12:22, diz: “aprouve ao SENHOR fazer-vos o 
seu povo”. A razão pela qual os Judeus podiam adorar o Senhor, como faziam algumas vezes, 
era que Deus os havia escolhido. Isso não dependia de sua vontade. Deus não faz acepção de 
pessoas, e os Israelitas não eram um grande povo, nem possuíam qualidades que pudessem 
determinar que Deus os escolhesse. Sua escolha foi simplesmente pelo seu bom prazer. Isto 
resultou em seu pensamento, às vezes, que era bom sacrificar como Moisés ordenou. É claro que 
os Israelitas nem sempre tinham bons pensamentos, nem sempre adoravam a Deus como Moisés 
prescrevia. Porquê? Primeiro Samuel 16:14-15 diz: “E o Espírito do SENHOR se retirou de Saul, 
e atormentava-o um espírito mau da parte do SENHOR. Então os criados de Saul lhe disseram: 
Eis que agora o espírito mau da parte de Deus te atormenta.” 
Esse certamente deve ser um verso difícil para os Arminianos engolirem. Para o presente 
propósito, não é necessário decidir se Saul já foi regenerado ou não. Em ambos os casos, Deus 
tirou de Saul toda a sabedoria divina que lhe foi dada para governar seu povo. Tendo o Espírito 
 
 
142 
 
partido, Saul não estava livre para pensar os bons pensamentos ou desejar as boas acções de seu 
reinado primitivo. Não só ele foi incapaz de fazer o bem, o próprio Senhor enviou um espírito 
maligno sobre ele e, assim, fez com que ele escolhesse maus pensamentos e acções. A idéia de 
que o homem tem alguma integridade pessoal e liberdade que Deus não ousa violar é o contrário 
do que a Bíblia ensina. Deus predetermina os pensamentos e volições de um homem. Não é que 
Saul não pudesse fazer o bem, se assim desejasse. O ponto é que ele não poderia assim querer. 
Ele não estava livre; ele estava sob o poder de um espírito maligno que o Senhor lhe enviara. 
Segundo Samuel 
Um exemplo semelhante é dado em 2 Samuel 17:14: “Então disse Absalão e todos os homens de 
Israel: Melhor é o conselho de Husai, o arquita, do que o conselho de Aitofel (porém assim o 
SENHOR o ordenara, para aniquilar o bom conselho de Aitofel, para que o SENHOR trouxesse 
o mal sobre Absalão)”. Observe a cadeia de propósitos. Deus se propôs trazer o mal sobre 
Absalão. Para conseguir isso, ele não apenas enviou Husai para a câmara do conselho de Absalão, 
como também fez com que Absalão e todos os seus homens decidissem que o mau conselho de 
Husai era melhor do que o sábio conselho de Aitofel. Deus controlou seus pensamentos. Era 
impossível para Absalão pensar e decidir o contrário, pois Deus estava controlando suas mentes 
“para que o SENHOR trouxesse o mal sobre Absalão)”. A situação é ainda mais convincente 
porque é uma regra padrão de guerra para seguir uma vitória imediatamente. Mas então o general 
Bragg cometeu o mesmo erro depois de Chickamauga. Deus predestinou seu atraso também. 
Embora o livro de Pinnock faça apenas uma referência improvisada a Samuel, Reis e Crônicas, e 
não os considera seriamente, a observação incidental contradiz directamente o que esses livros 
dizem. Na página 123, o Dr. Clines afirma que na história de David, “a história se move no nível 
da intriga humana... e o narrador não faz uma pausa para indicar onde a mão de Deus pode estar 
nesta confusão de incidentes”. Esta afirmação é falsa. O narrador não apenas “faz uma pausa”, 
ele mostra explicitamente a mão de Deus nesses eventos. A razão pela qual Absalão aceitou o 
conselho de Husai foi que Deus havia decidido derrotar Absalão por esse meio particular. O caso 
é o mesmo com 1 Samuel 16:14, como acabamos de mostrar. Deus enviou o espírito maligno. Os 
 
 
143 
 
parágrafos seguintes mostrarão agora outros casos em que o Dr. Clines contradiz directamente a 
Bíblia. 
Primeiro Reis 
O mesmo tipo de situação é descrito em 1 Reis 22:20. O Senhor havia determinado matar Acabe. 
Para fazer isso, Deus enviou um espírito mentiroso para persuadir Acabe a lutar em Ramote-
Gileade. Observe que no versículo 22, depois que o espírito mentiroso, talvez confiante demais, 
garantiu persuadir Acabe, o Senhor disse: “Tu o induzirás, e ainda prevalecerás; sai e faze 
assim.” 
O leitor lembrará que Acabe se disfarçou para não atrair a atenção do inimigo; mas “um homem 
armou o arco, e atirou a esmo, e feriu o rei de Israel...” Deus controlou o vôo da flecha. Ele 
controlou tão facilmente a decisão de Acabe de ir à guerra. Acabe não poderia querer o contrário. 
Segundo Crônicas 
Segundo Crônicas 10:15 é outro exemplo da determinação divina da escolha do rei: “esta 
mudança vinha de Deus, para que o SENHOR confirmasse a sua palavra” - sua promessa a 
Jeroboão. Mais dois casos semelhantes ocorrem em 2 Crônicas. Em 25:17-23, a recusa de 
Amazias em levar a sério o aviso de Joás veio de Deus. Então, em um contexto mais feliz, 2 
Crônicas 36:22 relata que o Senhor despertou o espírito de Ciro para favorecer os Judeus. Em 
ambos os casos, Deus determina o que um homem pensa, assim como o que ele faz. 
Um líder Arminiano de uma geração anterior negou que Deus pudesse assim controlar o homem. 
A Liberdade da Vontade, de D. D. Whedon (1864), é um trabalho padrão sobre o assunto. A 
Parte II, seção 3, capítulo 4 diz o seguinte: 
Predestinação... não está apenas envolvida em dificuldades e perplexidades sem fim, mas em 
atender às demandas de uma teodicéia racional e da interpretação das Escrituras ... o texto da 
Escritura pode ser naturalmente interpretado sem quaisquer obrigações. 
Estranhamente, o livro de 438 páginas é quase completamente desprovido de referências Bíblicas. 
Isso me lembra de um encontro pessoal. Depois de citar e explicar uma dúzia ou mais de 
passagens para um debatedor recalcitrante, finalmente o desafiei a dar-me os versículos nos quais 
 
 
144 
 
ele baseava sua crença no livre-arbítrio. O pobre coitado me olhou estupefacto e finalmente 
resmungou que não precisava de nenhum versículo. A vontade é simplesmente livre. Mas para 
continuar com a tentativa mais erudita de Whedon: 
O Plano Divino, como abraçado na predeterminação de Deus, é um esquema que abrange apenas 
as acções Divinas. Supondo que na infinita distante “intemporalidade” anterior, Deus é 
empregado na selecção de todos os sistemas possíveis que a sua sabedoria melhor aprova, o 
sistema que deve ser visto como finalmente adoptado é um sistema que consiste, propriamente e 
directamente,de suas próprias acções futuras. Sabendo, de facto, pela perfeição absoluta de seu 
próprio atributo de onisciência, todas as possibilidades futuras... Deus, em plena presciência de 
todos os resultados do caso, planeja todas as suas próprias acções. As predeterminações de Deus 
de sua própria acção futura, ou curso de acção, devem ser consideradas até agora contingentes, já 
que sua execução ou existência é condicionada à existência de muitas acções livres pressupostas 
de agentes finitos, que não são capazes de serem colocados.
22
 
O escopo da presente publicação não inclui um exame da filosofia subjacente desta citação. 
Aqueles familiarizados com a história reconhecerão que ela postula uma “Idéia do Bem” 
superior e independente da vontade de Deus. Mas deixe isso passar. O ponto importante é que 
Whedon aqui nega o que a Bíblia afirma uma e outra vez. A predestinação não termina nas 
acções de Deus. São as acções e pensamentos dos homens que ele preordena. Não é de admirar 
que virtualmente não haja apelo às Escrituras em nenhum lugar do livro. O apelo às Escrituras 
neste estudo, embora incompleto, é longo e pode parecer tedioso. Sua finalidade é mostrar quão 
difundida é a doutrina da predestinação. Portanto, a lista continua. 
Esdras 
Esdras 1:1 repete 2 Crônicas 36:22: O Senhor despertou o espírito de Ciro para fazer uma 
proclamação. Esdras 6:22 declara que o Senhor “tinha mudado o coração do rei da Assíria a 
favor deles”. O próximo capítulo acrescenta: “O SENHOR Deus de Israel tinha dado; e, segundo 
a mão do SENHOR seu Deus, que estava sobre ele.” O último “ele” provavelmente significa 
Esdras, e não o rei; no entanto, foi o Senhor que determinou o que o rei decidiria. 
 
22
 Whedon, 293. Os itálicos são do Whedon. 
 
 
145 
 
Como o termo “livre-arbítrio” ocorre duas vezes neste capítulo, a consideração de tal “verso 
Arminiano” não estará errada. Esdras 7:13 é um decreto do rei Artaxerxes. Permitiu que todos os 
Judeus “que têm a livre vontade de ir a Jerusalém, irem com você” [versão do autor – Nota do 
tradutor]. Os versículos 15 e 16 dizem que eles podem levar suas “ofertas voluntárias” com eles. 
A questão das “ofertas de livre arbítrio” é facilmente descartada. Existem vários outros versos do 
Antigo Testamento que usam essa frase. Mas eles não têm nada a ver com a teoria do livre 
arbítrio. O termo hebraico para “livre arbítrio”, comparativamente a uma palavra inglesa, 
significa abundantemente, espontaneamente, voluntariamente. Contrasta com as ofertas que são 
prescritas por lei e que, portanto, não são espontâneas, nem mesmo abundantes. A questão de 
saber se Deus controla ou não a decisão é totalmente ausente. Assim também em 7:13 a mesma 
palavra hebraica é usada. Mesmo se o rei pagão tivesse usado o termo inglês “livre arbítrio”, não 
ficaríamos muito impressionados com sua teologia. Artaxerxes quis dizer simplesmente que, se 
algum Judeu quisesse retornar a Jerusalém, ele estaria livre para ficar livre das restrições reais. 
Mas Esdras, para indicar a visão inspirada do assunto, acrescenta em 7:27, 28: “Bendito seja o 
SENHOR Deus... que tal inspirou ao coração do rei... E que estendeu para mim a sua 
benignidade perante o rei.” Esdras não reflecte no mover de Deus sobre alguns Judeus para 
retornarem a Jerusalém, mas ele é muito claro em relação a Deus controlar Artaxerxes. 
Jó 
O próximo é o livro de Jó. Se este livro foi escrito por ou sobre alguém que viveu nos dias de 
Abraão, podemos ver quão cedo e quão enfaticamente Deus revelou o princípio da predestinação. 
O apóstolo Paulo, por mais que tenha o proclamado de maneira irrefragável, chegou atrasado. 
Muito do livro de Jó pode ser chamado de material de fundo. Tais passagens não tornam tudo 
explícito, mas dificilmente fazem sentido, excepto na doutrina Calvinista. 
Por exemplo, no capítulo 1, Satanás aparece no céu diante de Deus. Eles discutem sobre a justiça 
de Jó. Para o teste descrito, “E disse o SENHOR a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está na 
tua mão; somente contra ele não estendas a tua mão.” Quando os desastres e os trágicos lutos se 
seguiram, “Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma” Então Satanás pediu para atormentar 
Jó em seu corpo, pois Satanás disse: “estende a tua mão, e toca-lhe nos ossos, e na carne, e verás 
 
 
146 
 
se não blasfema contra ti na tua face! E disse o SENHOR a Satanás: Eis que ele está na tua mão; 
porém guarda a sua vida.” 
Os Arminianos geralmente se contentam em dizer que Deus “permite” que coisas, coisas más, 
aconteçam. Eles não estão dispostos a dizer que Deus faz com que elas aconteçam. E eles são 
induzidos a se indignarem se alguém diz que Deus faz um homem escolher o mal. Os Calvinistas 
perguntam: “o primeiro pode ser mantido sem o último?” 
Pode-se notar, em primeiro lugar, que o próprio Satanás considera sua própria tortura de Jó algo 
feito por Deus. “Estenda a mão”, diz Satanás, “e toca-lhe a carne”. Para não enfatizar esse ponto, 
e para reconhecer que Satanás foi a causa imediata da miséria de Jó, e até para dizer que Deus 
“permitiu” tudo, a idéia de permissão dificilmente absolve Deus da variedade Arminiana de 
responsabilidade. Deus sabia o que Satanás faria; e Deus disse: “Faça isto”. O próprio texto 
sublinha o ponto em que Satanás não pode fazer nada sem a permissão de Deus. O facto de que 
Satanás era a mão de Deus não é algo que os Arminianos podem aprovar. 
Mas tem mais. Mesmo antes do capítulo 2, os Sabeus destruíram alguns dos filhos de Jó com a 
espada. Omita o fogo do versículo 16. Os Caldeus mataram alguns outros servos e roubaram os 
camelos. Para realizar essas coisas, os Sabeus e os Caldeus tiveram que decidir fazê-las. O 
capítulo certamente não sugere dúvida de que Satanás poderia causar essas tragédias. Então ele 
deve ter sido capaz de controlar as volições dessas pessoas. Que seja dito uma vez, e que seja 
dito duas vezes, que Satanás não poderia ter usado os saqueadores a menos que Deus lhe tivesse 
dado permissão. Mas o facto é que Satanás controlava o que os Arminianos consideram como 
livre arbítrio. Vontade “livre”, no entanto, é aquela que nada a causa. 
Jó 10:8-9 repete uma idéia encontrada antes e outra que será repetida através do Antigo até ao 
Novo Testamento com ênfase crescente. Os versos dizem: “As tuas mãos me fizeram... como 
barro me formaste”. Uma vez que as implicações do Oleiro e da argila saem mais fortemente 
mais tarde, podemos aqui prosseguir para a próxima passagem. 
Jó 14:5 diz: “seus dias estão determinados…tu lhe puseste limites, e não passará além deles.” 
Isso obviamente indica que Deus controla a duração de sua vida. Essa grande predestinação não 
 
 
147 
 
preocupa nossos oponentes. É, no entanto, um dos muitos detalhes que juntos mostram que Deus 
governa todas as suas criaturas e todas as suas acções. A referência a “limites que ele não pode 
passar” [na versão do autor – Nota do tradutor] também pode significar nada mais do que a 
duração da vida. Mas se por acaso, como Actos 17:26, incluir os “limites de sua habitação”, a 
inferência seria que Deus determina onde um homem escolhe viver, de modo que ele não poderia 
escolher outro lugar. 
Há muitas passagens que não estabelecem por si só a doutrina completa da predestinação. Os 
Arminianos podem com razão insistir que um argumento baseado neles é logicamente 
inconclusivo. Não obstante, tantos detalhes são enumerados aqui e ali, que a descrição como um 
todo favorece a predestinação plena, e é desprovida de qualquer sugestão contrária. Por exemplo, 
Jó 15:14 ensina que os bebês não nascem justos, ou mesmo neutros, mas definitivamente 
pecaminosos. Mais convincenteé Jó 19:8-20. Esta passagem indica que Deus mudou os 
pensamentos e mentes dos irmãos, conhecidos, parentes, servas, filhos e esposa de Jó. Note que 
Deus não apenas causou certos tormentos físicos, mas fez com que as pessoas mencionadas 
mudassem sua actitude em relação a Jó. Nada nesta situação angustiante ocorreu sem a 
actividade divina. 
Em 23:10, Jó reconhece que Deus acabará por trazê-lo como ouro; mas, no entanto, é verdade 
que esses males são o que Deus deseja (v.13): “O que a sua alma quiser, isso fará. Porque 
cumprirá o que está ordenado a meu respeito. Porque Deus macerou o meu coração, e o Todo-
Poderoso me perturbou.” No primeiro capítulo, Satanás pediu permissão para fazer essas coisas, 
mas Jó reconhece que essas são acções de Deus. 
Outra ideia começa a surgir em Jó 31:4, uma ideia que é claramente contrária à doutrina do livre 
arbítrio. O verso diz: “Ou não vê ele os meus caminhos, e não conta todos os meus passos?” À 
primeira vista, pode parecer que Deus, depois de ser ignorante por um tempo, começou a olhar 
para Jó e contar seus passos. Assim, Deus aprendeu algo que ele não sabia antes. É por isso que a 
sentença acima diz que outra ideia começa a emergir. A ideia diz respeito ao conhecimento de 
Deus. Versos posteriores darão uma explicação mais adequada do conhecimento de Deus, e 
então ficará evidente que a onisciência e o livre-arbítrio não podem ser compatibilizados. 
 
 
148 
 
Em seguida, seria bom ler Jó 33:4-17, em que essas frases aparecem: “do barro também eu fui 
formado… ele observa todas as minhas veredas… não responde acerca de todos os seus feitos… 
revela ao ouvido dos homens, e lhes sela a sua instrução para apartar o homem daquilo que 
faz...” Novamente a Escritura diz que Deus é o Oleiro e nós somos o barro. Ele faz cada um de 
nós qualquer tipo de recipiente que ele escolhe. Ninguém pode chamá-lo para as contas; ele não 
é responsável por nós ou por qualquer outra pessoa. Se ele deseja mudar nossos propósitos e 
escolhas, ele o faz. 
Se algum homem deve tentar responsabilizar Deus, Deus responde (Jó 38:4,31), “Onde estavas 
tu, quando eu fundava a terra? Faze-mo saber, se tens inteligência….Ou poderás tu ajuntar as 
delícias do Sete-estrelo ou soltar os cordéis do Órion?” Não é prerrogativa do homem responder 
contra Deus. “Porventura o contender contra o Todo-Poderoso é sabedoria? Quem argúi assim a 
Deus, responda por isso.” (Jó 40:2). Estas não são as palavras de um Calvinista dirigindo-se a 
Jacob Arminius e John Wesley. Estas são as palavras de Deus. 
Mas talvez o verso mais forte, entre todos esses versos fortes, seja Jó 42:2. A versão King James 
diz: “Eu sei que você pode fazer tudo e que nenhum pensamento pode ser negado a você”. A 
American Standard Version de 1901 deixa um pouco mais claro: “Eu sei que você pode fazer 
todas as coisas, e que nenhum propósito seu pode ser contido.” Deus pode fazer todas as coisas. 
Ele pode e muda os pensamentos do homem. Foi seu propósito que Judas escolhesse trair a 
Cristo. Judas não poderia ter escolhido o contrário. Sua vontade não era livre. Caso contrário, 
Judas poderia ter arruinado o plano eterno de Deus e falsificado todas as profecias. Também foi 
o propósito de Deus mudar a vontade de Paulo. Paulo não poderia ter resistido à visão celestial. 
Caso contrário, Paulo teria sido capaz de arruinar os planos de Deus em pregar o Evangelho aos 
gentios. 
E toda essa teologia foi revelada a Jó talvez já há 2000 a.C. 
Salmos 
Os Salmos contêm um grande número de passagens que indirectamente influenciam a 
predestinação, ensinando a soberania de Deus. Estas serão omitidas aqui porque um oponente se 
 
 
149 
 
refugiaria em sua observação e se recusaria a ver suas implicações. Ele iria querer algo mais 
explícito. Bem, os Salmos fornecem tais versos também. No entanto, o Calvinista nunca 
renunciará à lógica: se a Escritura implica alguma coisa, essa coisa deve ser aceite. Se um 
estudante universitário em uma aula de lógica se queixa do silogismo antigo - todos os homens 
são mortais; Sócrates é um homem; Portanto, Sócrates é mortal - e comenta: “Eu concordo que 
todos os homens são mortais e que Sócrates é um homem, mas você não pode forçar em mim 
aquela mera lógica humana que implica que Sócrates é mortal”, o professor deve responder: Se 
você não entende a implicação, não consegue entender nada, pois nada é mais claro. 
Por isso, quando o Salmo 14 enfatiza a depravação total: “[Eles] têm-se corrompido, fazem-se 
abomináveis em suas obras, não há ninguém que faça o bem.”; e quando isto é unido a Jó 15:14 e 
25:4, e versos posteriores tanto no Antigo Testamento como no Novo, vê-se que todas as pessoas 
estão totalmente alienadas de Deus. Gênesis 6:5 diz que toda imaginação dos pensamentos do 
coração [do homem] era apenas má continuamente. O resultado não é simplesmente que o 
homem natural não pode fazer o bem; ele não pode nem querer. De que modo então, assim como 
Jó perguntou, pode um homem nascido de uma mulher ser puro? A vontade do homem deve ser 
mudada; e somente Deus pode tornar um homem puro. Deus deve redireccionar seus 
pensamentos. O próprio homem não está livre para fazê-lo. Deus, naturalmente, decide, escolhe, 
predestina quem ele purificará. 
Por que é que os Arminianos pensam que Deus não pode ou não vai alterar as intenções de um 
homem? O Salmo 33:6-11 diz, “Pela palavra do SENHOR foram feitos os céus…Porque falou, e 
foi feito… O SENHOR desfaz o conselho dos gentios, quebranta os intentos dos povos.” O 
Arminiano, sem dúvida, dirá que Deus envia pestes, tempestades ou fogo do Céu sobre os 
exércitos de reis perversos e, assim, anula seus planos. Então ele fez. Mas o Criador também não 
pode derrotar seus inimigos fazendo com que eles façam escolhas ineficientes? Se o Arminiano 
deve insistir que esses versículos não ensinam explicitamente que Deus causa as volições 
humanas, o que ele pode dizer sobre o versículo seguinte: “Bem-aventurada é a nação cujo Deus 
é o SENHOR, e o povo ao qual escolheu para sua herança.” Deus escolhe quem ele purificará; 
Deus escolhe quem serão seus herdeiros. Os herdeiros não resistem a sua escolha, porque Deus 
 
 
150 
 
controla sua resposta. Se este Salmo não for suficientemente explícito, os dois seguintes, e 
especialmente o segundo, não deixam lacunas. 
O Salmo 51:10 não toca na regeneração, mas em um homem já regenerado que pecou 
gravemente. Ele implora: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito 
recto.” Davi não afirma ser capaz de se purificar. Isso requer o poder criativo e onipotente de 
Deus. O verbo é o mesmo que em Gênesis 1:1, e na questão da criação, Davi não pode mais 
causá-lo, impedi-lo ou alterá-lo de qualquer maneira que não fosse o firmamento original. Davi 
também ora: “renova em mim um espírito recto.” Anteriormente, ele tinha pensamentos 
adúlteros e assassinos. Agora ele pede a Deus para mudar sua mente para que nunca mais ele 
pensasse assim. E embora isso quebre a ordem dos versos, é pertinente neste ponto unir 
Provérbios 20:9 com Jó e com o Salmo: “Quem poderá dizer: Purifiquei o meu coração?” 
Somente Deus pode regenerar a mente, ou mudar isto depois do pecado, e fazer com que pense 
em pensamentos santos. E se os Arminianos pensam em algum pensamento santo, devem 
agradecer a Deus por isso, em vez de se gabarem de seu livre-arbítrio. 
O próximo verso, Salmo 65:4, parece à primeira vista tão explícito quanto qualquer Calvinista 
poderia desejar. Não diz: “Bem-aventurado aquele a quem tu escolhes, e fazes chegar a ti.” A 
causalidade de misericórdia de Deus não é declarada aqui nos termos mais claros? Bem, não 
exactamente. A palavra causa não está no hebraico. Nem mesmo a forma causalHiphil da 
abordagem do verbo está no texto. É a forma de Piel - uma forma um pouco enfática, mas não 
muito causativa. Pior ainda, é aqui não tanto enfática como é uma maneira de transformar um 
verbo intransitivo em um transitivo. A tradução é: “Bem-aventurado o homem que tu escolhes e 
trazes para ti.” Não obstante, se essa não é uma declaração tão explícita de causalidade como o 
Calvinista poderia desejar, ainda é inteiramente Calvinista demais para o Arminiano. Clara e 
explicitamente, diz que Deus escolhe certas pessoas; e também diz que Deus traz essas pessoas 
para si mesmo. Se Deus os trouxer, eles não podem se recusar a ser trazidos. O Salmo como um 
todo elogia a onipotência de Deus e suas actividades em muitas esferas. O assunto é a soberania 
de Deus, não sua limitação. 
 
 
151 
 
Nada poderia ser mais anti-Bíblico do que a exortação de um evangelista contemporâneo muito 
popular. Quando algumas centenas de pessoas vieram pelo corredor para a frente depois do 
sermão, o evangelista dirigiu-se aos quinze mil em seus assentos: Você orou por aqueles que 
agora estão diante de mim, ele disse, e isso é bom; você orará por eles amanhã, e isso é bom; mas 
não há uso de sua oração por elas agora, pois nem mesmo Deus pode ajudá-las - elas devem 
decidir por si mesmas. A redacção aqui pode não ser absolutamente textual, mas a frase 
sublinhada [em itálico - Nota do tradutor] é precisamente, palavra por palavra, que o evangelista 
disse. A religião de Davi e a salvação de Davi eram completamente diferentes. 
Tais versos poderosos explícitos como o Salmo 65:4 tornam apropriado usar as passagens mais 
indirectas. Salmo 102:26-27 ensina a imutabilidade de Deus. Agora, se pelo livre arbítrio um 
homem pudesse resistir à escolha de Deus e se recusasse a ser levado ao templo sagrado, Deus 
teria que alterar seus planos. Ele teria que se ajustar a uma força independente. Ele não podia 
permanecer com a mesma mente. Mas Salmo 104:24, falando de “quão variadas são as tuas 
obras!”, Diz, “Todas as coisas fizeste com sabedoria”. Não teria sido muito sábio fazer um 
homem que pudesse perturbar os seus planos. A escolha de quem ele irá regenerar, assim como a 
escolha de homens e acções para cumprir suas profecias, pressupõe controle total. Caso contrário, 
Rute poderia ter deixado Naomi, retornado com Orfa e Davi nunca teria sido rei. Então não 
poderia ter existido mais tarde filho de Davi para salvar seu povo de seus pecados. 
Uma vez que os Arminianos, inconsistentemente, permitem a Deus algum controle sobre sua 
criação, o cerne da questão está localizado no conflito entre predestinação e livre arbítrio. Deus 
pode e causa terramotos. Deus pode controlar as volições dos seres humanos? Os Arminianos 
afirmam fortemente a independência do homem em relação a Deus. Mas a Escritura afirma o 
contrário. Seja a decisão de um homem seja boa ou má, Deus faz com que ele faça essa escolha. 
O Salmo 105:25 diz: “Virou o coração deles para que odiassem o seu povo, para que tratassem 
astutamente aos seus servos.” Pode parecer estranho que Deus faça alguém odiar seu povo. Mas 
pode parecer estranho para aqueles que são ignorantes da revelação de Deus ou que a rejeitam. O 
Salmo explicitamente diz que Deus virou o coração para o ódio; ele os fez pensar maus 
pensamentos; ele controlava suas decisões. 
 
 
152 
 
Não replica que Deus poderia, mas não controla todas as suas criaturas e todas as suas acções. O 
Salmo 115:3 diz: “Nosso Deus está nos céus; fez tudo o que lhe agradou.” Deus queria que Rute 
fosse a bisavó de Davi. Então ele fez o que quis. Ele não apenas alterou os primeiros 
pensamentos moabitas de Rute, mas também colocou pensamentos na mente de Boaz. Deus faz o 
que lhe agrada. Ele queria que Elias e Eliseu, para não mencionar Paulo, fizessem certas coisas. 
Ele queria que eles pensassem certos pensamentos e tomassem certas decisões. O que quer que 
Deus quisesse, ele fazia. Eles não escolheram Deus independentemente; Deus os escolheu. 
Recentemente, circulou uma história em que um evangelista distribuía adesivos para carros, lia-
se “Eu o achei”. Então, outras pessoas na mesma cidade colocaram adesivos que diziam: “Ele me 
achou”. 
A longa lista de versículos aqui citados pode parecer entediante. Seria mais assim se todo o 
material de apoio, três a seis vezes mais extenso fosse dado. Mas mesmo o pequeno número 
citado deveria informar a todos sobre a difusão da predestinação no Antigo Testamento. E se o 
Salmo 115:3 não for suficiente, observe sua repetição no Salmo 135:6: “Tudo o que o SENHOR 
quis, fez, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos.” O controle de Deus não é 
limitado aos anjos no céu e aos moluscos dos mares. Estende-se à Terra, onde a raça humana 
constitui a parte mais importante. 
O Salmo 139:1-24 completará a lista deste mais longo dos livros do Antigo Testamento. Este 
notável Salmo, que os Huguenotes e os Aliancistas cantaram com profunda devoção, exalta em 
particular a onisciência e onipresença de Deus. Pode haver versos na Bíblia que, de um modo 
geral e por uma proposição universal, afirmam que Deus sabe de tudo. Actos 15:18, “Conhecidas 
são a Deus, desde o princípio do mundo, todas as suas obras.” Pode ser um desses. Mas este 
Salmo descreve seu conhecimento de Davi. Deus conhece Davi melhor do que Davi conhece a si 
mesmo (verso 6). Os detalhes são numerosos; mas é claro que vinte e quatro versículos não 
podem listar dez mil. No entanto, a ideia é que Deus conhece Davi completamente. Agora, o que 
é verdade sobre Davi aqui deve ser verdade para todo ser humano. Deus só conhecia Davi e não 
César, Carlos Magno e John Doe? 
 
 
153 
 
Observe ainda como e de que forma Deus conheceu Davi e todo homem. O verso 15 começa a 
falar da condição de Davi antes dele nascer, quando ele foi feito em oculto no útero. Todos os 
seus membros foram escritos no livro de Deus, como um modelo preciso. No entanto, a tradução 
é um pouco imperfeita. Em vez da palavra membros, o hebraico diz dias, que então eram 
continuamente moldados, antes que qualquer um desses dias começasse. A Versão Padrão 
Revisada, que não é confiável, tem dias em vez de membros. A Versão Alemã em comum diz: “e 
avise-se todas as vezes que Buch geschrieben, die noch werden sollten.” [E todos os dias foram 
escritos no seu livro… Nota do tradutor] A versão francesa de Ostervald também tem dias. Este 
verso não pode ser restrito ao número de dias que Davi deveria viver, sem qualquer referência ao 
que ele fez neles. O Salmo já especificou seu sentar e levantar-se. Menciona explicitamente seus 
pensamentos no verso dois. Deus conhece todos os seus caminhos, incluindo cada palavra de sua 
língua. Essas acções, palavras e pensamentos foram escritas com precisão no livro de Deus antes 
de qualquer uma delas acontecer. Isso é predestinação. Cada pensamento e acção foram 
determinados desde a eternidade. Deus faz tudo o que lhe agrada. Ele executa seus projectos 
meticulosamente. E Davi não tinha livre-arbítrio, através do qual poderia ter feito do livro de 
Deus um livro de falsidades. 
Provérbios 
Até mesmo o livro de Provérbios, que consiste principalmente em instruções éticas, contém, 
embora poucas, algumas declarações muito fortes sobre a predestinação. No livro de Pinnock, 
Provérbios vem imediatamente depois de Gênesis. Não há nada sobre Jó e Salmos. Claramente, 
isso não é consistente com o método que o Dr. Clines estabeleceu em seu parágrafo de abertura. 
Agora, em Provérbios, ele diz: “Quando se trata de como um homem deve viver sua vida, 
Provérbios está dizendo que a predestinação não é o ponto; o que conta é como um homem 
[itálico meu] está determinando seu próprio futuro... no sentido de auto-predestinaçãohumana é 
fundamental para o ensino do livro.” 
Que os Provérbios são provérbios, que instruem os homens sobre o que é certo escolher, não 
pode ser contestado. Nem é relevante para o assunto principal. A questão principal é se a 
predestinação é divina ou humana. É o homem ou é Deus quem predestina e preordena? O 
 
 
154 
 
homem realmente escolhe - nenhum Calvinista nega isso; mas a questão é: Deus controla a 
escolha, ou o homem age independentemente? Vamos examinar Provérbios e ver. Provérbios 
16:1 diz: “Os preparativos do coração no homem e a resposta da língua são do Senhor.” A 
margem do King James dá “disposições” como um substituto para “preparativos”. Este versículo, 
claramente, não é restrito apenas aos factos da conversão. Geralmente cobre todos os 
pensamentos do coração e todas as respostas que alguém dá a qualquer pergunta. Este Deus 
opera, não meramente por métodos comuns de persuasão ou por outros meios de poder incerto, 
mas pela eficácia onipotente. Todo o material indirecto relativo à soberania de Deus, passado tão 
brevemente nas páginas anteriores, fornece o pano de fundo para o controle completo de Deus 
sobre a mente e o pensamento dos homens. O versículo em Provérbios continua indicando que as 
palavras que falamos, bem como os preparativos do coração, são do Senhor. Que isso é verdade, 
não apenas de Cristãos devotos, mas também de reis perversos, foi dito antes e será dito 
novamente. 
De facto, é dito novamente apenas três versículos adiante. Provérbios 16:4 declara: “O SENHOR 
fez todas as coisas para atender aos seus próprios desígnios, até o ímpio para o dia do mal.” Isso 
não é claro o suficiente para forçar um Arminiano a se tornar Calvinista ou a rejeitar 
completamente o Cristianismo? Parece que seria, se o Arminiano fosse racional. Deus fez o 
ímpio. Como um Oleiro com argila indiferente, Deus fez, da mesma massa, vasos de desonra, 
bem como vasos de honra. Isso fazia parte de seu plano eterno, e cada parte dele contribui para a 
manifestação de seu poder e glória. 
Há um momento atrás, fez-se referências aos reis perversos. Provérbios 21:1 fala de todos os reis, 
bons e maus: “COMO ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR, que o 
inclina a todo o seu querer.” Certamente ninguém pode sustentar seriamente que isto se refere 
apenas ao único rei, no qual isto aconteceu, no seu reinado quando o verso foi escrito pela 
primeira vez. Aplica-se ao Faraó, a Abimeleque e, como veremos, a Ciro e a todos os outros 
governantes. Deus gira seus corações para onde ele quiser. Ele causou a decisão de Hitler de 
invadir a Rússia - para o deleite de Churchill. Ele também fez com que Pôncio Pilatos executasse 
Cristo. Se Deus não tivesse controlado esse governador, Pilatos poderia ter ouvido a advertência 
de sua esposa e, assim, destruído todo o plano divino de salvação. Deus transforma os corações e 
 
 
155 
 
pensamentos dos governantes de qualquer maneira que lhe agrada; e cidadãos comuns, sujeitos 
ou escravos não são nem um pouco independentes ou livres. Ninguém pode escolher, senão 
como Deus ordena. 
É instrutivo notar como o livro de Pinnock tenta esvaziar este verso de seu significado. O Dr. 
Clines escreve: “Mais uma vez, quando encontramos... [Provérbios 21:1], não temos nenhuma 
afirmação doutrinária de que um rei nunca toma nenhuma decisão própria e é apenas uma 
marionete nas mãos de Deus. Isso seria contrário à visão geral de Provérbios, embora o 
provérbio em isolamento pudesse, sem dúvida, significar isso. Em vez disso, o que é ensinado 
aqui é que Deus, o governador do mundo, não pode ser impedido nem mesmo pelos reis...” 
O Calvinista pode ter algum conforto na admissão de que o verso em isolamento “poderia sem 
dúvida significar” o que o Calvinista diz que ele significa. Ele também pode aprovar não tomá-lo 
isoladamente. Não só deve ter seu contexto de Provérbios, mas Provérbios como um todo não 
deve ser isolado do resto da Bíblia, especialmente não de Êxodo através de Salmos, do qual o 
autor de Pinnock a isola. Quanto à referência a fantoches, deve-se notar que a Bíblia não se 
refere a fantoches; fala de um Oleiro e barro. Aliás, o barro é mais flexível e maleável do que os 
fantoches. 
O presente estudo não pretende ser uma dissertação teológica formal. Seu objectivo é apresentar 
uma boa amostra de material do Antigo Testamento sobre o tema geral do governo de Deus de 
“todas as suas criaturas e todas as suas acções”. No entanto, não é ilegítimo, mesmo com um 
objectivo tão restrito, apontar algumas das ramificações. A liberdade da vontade (Erasmus) e a 
Escravidão da vontade (Lutero) têm implicações que permeiam a teologia do começo ao fim. 
Um excelente volume sobre o assunto é A Doutrina Reformada da Predestinação, de Loraine 
Boettner. Tópicos que são imediatamente dependentes de uma visão de predestinação incluem a 
queda do homem e seu presente estado pecaminoso, a doutrina da regeneração, a possibilidade 
de segurança e santificação e, mais enfatizada nas objecções Arminianas, a questão da 
responsabilidade moral. 
 
 
156 
 
De uma maneira mais detalhada e técnica, tudo isso inclui teorias da volição. Algo sobre este 
assunto pode agora fornecer um exemplo da teologia envolvida, e também uma pausa na longa 
lista de citações Bíblicas. 
A predestinação é uma forma de necessitarismo. Há, claro, outras formas, nem Calvinistas, 
tampouco Cristãs. O Mecanismo ateísta com sua psicologia behaviorista é necessitário. Mas se 
isso fosse um argumento contra o Calvinismo, os Arminianos seriam condenados pelo 
Epicurismo, ou pelo menos pelo Romanismo. Se o professor William Cunningham era ou não 
um necessitarista, ele defendeu a ortodoxia do Dr. Thomas Chalmers contra as acusações de Sr. 
William Hamilton. Augustus Toplady e Jonathan Edwards também eram necessitarianos. 
Toplady dedicou grande energia para se opor a John Wesley. Toplady escreveu: 
O Arminianismo pavimentou o caminho para o ateísmo: despojando o Ser Divino, entre outros 
atributos, de sua ilimitada supremacia... de seu poder invencível, de sua independência absoluta. 
Não observa que a isenção de algumas coisas e eventos da providência de Deus, referem-se ao 
livre-arbítrio, à contingência e ao acaso... 
23
 
Em contraste com o Calvinismo, a teoria Arminiana da vontade pode ser chamada de teoria de 
contingência. Ou pode ser descrita como a liberdade de indiferença: isto é, nenhum motivo 
determina a vontade. Ela pode escolher o motivo mais fraco sobre o mais forte, ou, o que é mais 
importante, pode escolher sem qualquer motivo. Essa habilidade é frequentemente chamada de 
poder de escolha contrária. Dado um conjunto de antecedentes, não apenas externos, mas 
também internos, a decisão da vontade poderia ter sido o inverso do que era. Um evento 
contingente é aquele que pode ou não acontecer. É desprovido de certeza e, portanto, não pode 
ser conhecido de antemão ou previsto. Assim, a doutrina do livre arbítrio é uma negação da 
onisciência. 
Um dos argumentos Arminianos mais comuns contra o Calvinismo é que o necessitarismo 
destrói a responsabilidade moral, porque a última depende do livre arbítrio. Outro artigo que 
 
23
 As Obras Completas de Augustus Toplady, Londres [1794] 1987, 278. 
 
 
157 
 
escrevi dá a defesa Calvinista da responsabilidade;
24
 aqui o escritor notará apenas que os 
Epicuristas indeterministas, embora não tão imorais como frequentemente representados, eram 
menos estritos que os Estóicos “fatalistas”; e que os Fariseus, apesar de hipócritas, eram mais 
meticulosos em sua moralidade do que os Saduceus indeterministas. Nem se pode resistirà 
tentação de contrastar os Calvinistas e os Jesuítas. Esses parágrafos entre parênteses foram 
inseridos neste ponto porque a profecia de Isaías é uma contribuição tão importante para o tópico 
principal que merece qualquer ênfase que essa pausa na lista de versículos pode fornecer. 
Isaías 
Isaías tem cerca de duas dúzias de versículos que dizem respeito directamente à doutrina da 
predestinação. Esta estimativa não inclui parágrafos completos que, como Isaías 6, descrevem 
em termos de grandeza a gloriosa e terrível soberania de Deus. No entanto, dois versículos, 
versículos 9 e 10, de Isaías 6, devem ser listados. “Vai, e dize a este povo: Ouvis... e não 
entendeis… Engorda o coração deste povo, e faze-lhe pesados os ouvidos, e fecha-lhe os olhos; 
para que ele não veja com os seus olhos, e não ouça com os seus ouvidos, nem entenda com o 
seu coração, nem se converta e seja sarado.” Talvez numa data posterior Deus os converteria, e 
até mesmo no intervalo “Até que as cidades fiquem sem habitantes”, podia haver um décimo que 
adoraria a Deus; mas, na maior parte, Isaías devia pregar para cegar os olhos, fechar os ouvidos e 
fazer com que estupidamente não entendessem em seus corações. Considere: Este é o mesmo 
capítulo em que Isaías viu o Senhor em seu trono e seu séquito encheu o templo. Os versículos 9 
e 10 contradizem os versículos 1 a 4? Ou é assim que “toda a terra está cheia da sua glória”? 
A mesma idéia, e possivelmente uma parte da mesma situação, é repetida em Isaías 19:14: “O 
SENHOR derramou no meio dele um perverso espírito; e eles fizeram errar o Egito em toda a 
sua obra... .”A animosidade em relação à doutrina da predestinação está em grande parte, embora 
talvez não inteiramente, devido à idéia de que Deus causa o mal e o pecado. Alguém poderia até 
pensar que, se de facto ele causa, as Escrituras iriam disfarçar, diluir e esconder a terrível 
 
24
 Gordon H. Clark,“Determinismo e Responsabilidade”, The Evangelical Quarterly, Volume IV, n° 1, 
1932. Reimpresso em Contra as Igrejas: Trinity Review, 1989-1998, The Trinity Foundation, 2002, 84-
88. 
 
 
158 
 
verdade. Muito pelo contrário, o Antigo Testamento está cheio disso, e a causação do bem de 
Deus parece menos frequentemente mencionada. Isso não significa que o Antigo Testamento é 
desprovido da misericórdia e benignidade de Deus. Isso é frequente o suficiente. O significado é 
simplesmente que as referências directas à predestinação parecem vislumbrar o mal com mais 
frequência do que bem. O Novo Testamento inverte a proporção. Mas ambos os Testamentos 
explicita e enfaticamente ensinam ambos. 
Em seguida, Isaías 29:16 repete o tema do Oleiro e do barro, e condena quem reclama. Aliás, 
Faraó nunca reclamou. 
“CONSOLAI, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai benignamente” numa tonalidade que 
Handel lindamente aproxima. No entanto, Isaías 40:12-17 adverte aqueles que pensam que são 
alguma coisa em razão de sua independência de Deus: “Quem mediu na concha da sua mão as 
águas…? Quem guiou o Espírito do SENHOR, ou como seu conselheiro o ensinou? Com quem 
tomou ele conselho, que lhe desse entendimento...? Eis que as nações são consideradas por ele 
como a gota de um balde, e como o pó miúdo das balanças. Todas as nações são como nada 
perante ele… ” 
Que isto repreende a orgulhosa independência do livre arbítrio é óbvio; mas há outra ideia aqui 
também. A maioria dos Arminianos - há algumas exceções consistentes - admite que Deus é 
onisciente. Então, quando um Calvinista insiste que Deus sabe o que um homem fará em alguma 
data futura, os Arminianos respondem que o conhecimento não implica controle. Exemplos são 
dados: De pé sobre um promontório ou uma torre alta, abaixo da qual duas estradas se encontram 
em ângulos rectos, um observador vê dois carros se aproximando da intersecção em alta 
velocidade. O observador sabe que eles colidirão, mas não é ele quem causa a colisão. 
Dois erros arruínam esta ilustração. O primeiro erro é que o observador realmente não sabe. A 
colisão pode ser provável; mas apenas possivelmente um dos carros atinge uma pedra que caiu 
do penhasco em um ponto que o observador não pode ver. O outro carro continua ileso. O 
homem não é onisciente; Deus é. A segunda falha na ilustração tem pelo menos uma noção 
melhor de onisciência: mesmo que Deus saiba de tudo, dizem eles, ele não causa o evento em 
questão. Mas se Deus conhece um evento futuro, o evento é inevitável. Se não fosse inevitável, 
 
 
159 
 
então Deus poderia “conhecer” um evento futuro que finalmente nunca acontece. Mas isso é 
ignorância, não conhecimento. Se em 2000 a.C. Deus sabia que Hitler invadiria a Rússia, ou que 
eu deveria cortar o cabelo no dia 3 de Outubro às 2:20 da tarde, o evento seria inevitável. Agora, 
se Deus não determinou, quem fez isso? O evento estava determinado há 2000 aC. Se Deus não 
determinou, deve haver, além de Deus, outro poder que conserte pelo menos alguns eventos 
futuros. Deus descobre empiricamente que esses eventos ocorrerão, olhando para o futuro e 
vendo quais eventos seu rival decidiu causar. 
Tal visão é totalmente anti-Bíblica. “Quem guiou o Espírito do SENHOR, ou como seu 
conselheiro o ensinou? Com quem tomou ele conselho, que lhe desse entendimento...?” Oh, 
ninguém lhe ensinou, alguém pode dizer: Ele descobriu por si mesmo. Ele apenas examinou 
como seu universo criado funcionou e com a sagacidade de Sr. Isaac Newton descobriu o que 
aconteceria no futuro. Ninguém ensinou Newton. Mas se Newton tivesse criado os planetas e 
cuidadosamente organizado seu mecanismo para que eles girassem em órbitas elípticas, e se ele 
tivesse a onipotência para criar um mecanismo perfeito, ele não teria que olhar para o futuro e 
descobrir como eles estavam se movendo. Ele saberia como eles estavam se movendo porque ele 
os havia feito assim. Agora, Deus não é apenas um grande astrônomo; ele também é um 
psicólogo onipotente e, portanto, onisciente. 
Se o tema da pré-ordenação de eventos maus de Deus parece ter sido super enfatizado na 
exposição acima - embora seja a ênfase Bíblica e não uma invenção do presente escritor - Isaías 
43:7 diz que Deus criou, e portanto preordenou, para sua própria glória aqueles que levam seu 
nome. Quem se atreve a dizer que nem Deus pode ajudá-los? De facto, eles vêm a ele de bom 
grado; mas é Deus quem colocou seu nome neles e os fez dispostos. O versículo 10 continua: 
“Vós sois as minhas testemunhas, diz o SENHOR, e meu servo, a quem escolhi; para que o 
saibais, e me creiais, e entendais que eu sou o mesmo, e que antes de mim deus nenhum se 
formou, e depois de mim nenhum haverá.” Deus escolheu seus servos com um propósito, e os 
propósitos de Deus não podem falhar. Isaías então repete: “A esse povo que formei para mim; o 
meu louvor relatarão.” Será que essas pessoas, por uma alegada vontade livre, indeterminada, 
recusam? De modo algum: “o meu louvor relatarão” (43:21). 
 
 
160 
 
Isaías 45 é uma afirmação avassaladora da soberania de Deus. Começa com Ciro, o ungido do 
Senhor, e uma declaração do que Deus fará por ele e para ele. Então vem o que é provavelmente 
a declaração mais exaltada na Bíblia sobre a soberania de Deus. É totalmente destruidor para o 
Arminianismo. Os versos posteriores, claros em si mesmos, não devem ser ignorados; mas a 
seção intermediária pede elogios. O versículo 5 é apenas um lembrete do todo: “Eu sou o 
SENHOR, e não há outro; fora de mim não há Deus; eu te cingirei, ainda que tu não me 
conheças.” 
É uma vergonha interromper até mesmo uma citação incompleta, mas a tarefa actual é chamar a 
atenção para o seu significado. Deus cingiu Ciro, embora Cironão soubesse disso. Não se deve 
supor que, quando Deus cinge, guia e controla alguém, a pessoa está ciente disso. Mesmo a 
regeneração, como os Puritanos apontaram, não é uma experiência consciente; muito menos o 
controle de Deus de Faraó, Absalão ou Ciro. O conhecimento deles vem depois, se é que tem. 
Então o texto continua: “Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o 
SENHOR, faço todas estas coisas.” 
As duas teses mais inaceitáveis para os Arminianos são que Deus é a causa do pecado e que 
Deus é a causa da salvação. Em ambos os casos, os Arminianos buscam o livre arbítrio. O 
homem é a primeira causa de seu pecado e, ainda independente de Deus, o homem é a primeira 
causa de sua conversão. Isaías neste verso torna o Arminianismo Biblicamente impossível. 
A Bíblia Scofield é um bom exemplo de como os Arminianos tentam escapar do significado 
claro do verso. Scofield diz: “A palavra hebraica ra é traduzida como, „tristeza‟, „miséria‟, 
„adversidade‟, „aflições‟, „calamidades‟, mas nunca traduzida como pecado. Deus criou o mal 
apenas no sentido de que ele fez a tristeza, a miséria, etc., para ser os frutos certos do pecado.” 
Agora, o ponto mais notável sobre a nota de Scofield é que ele declarou a verdade quando disse: 
“ra… nunca é traduzida como pecado”. Como ele poderia ter feito tal declaração, sabendo que 
era verdade? A única resposta é que ele deve ter examinado todos os exemplos de ra no texto 
hebraico e, em seguida, ele deve ter determinado que em nenhum caso a King James traduziu 
como pecado. E isso é absolutamente verdade. Mas se ele comparou cada ocorrência de ra com 
sua tradução em todos os casos, ele não poderia deixar de notar que ra em Gênesis 6:5 e em 
 
 
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vários outros lugares é traduzido como maldade. De facto, ra é traduzido como maldade cerca de 
cinquenta vezes. Scofield não poderia deixar de notar isso; então ele diz apenas com verdade, ra 
nunca é traduzido como pecado. Já que Scofield favorece a palavra mal, uma lista parcial dos 
versos em que esta tradução ocorre será dada; e, segundo, haverá uma lista parcial em que o mal 
ou maldade é usada. 
Percorrendo a Bíblia, Scofield deve ter lido até Gênesis 2:9, 17; 3:5, 22; 6:5; 8:21; 44:4; 48:16; 
50:15, 17, 20. “O conhecimento do bem e do mal” não é simplesmente um conhecimento de 
tristeza ou calamidade; é principalmente um conhecimento de desobediência e pecado. 
Similarmente, Gênesis 3:5, 22 se refere tanto ao pecado quanto à sua punição. De facto, Gênesis 
3:22 dificilmente se refere à punição. É verdade que Adão foi banido do jardim; mas a palavra 
mal no verso refere-se a sua desobediência e pecado. 
Qualquer desculpa esfarrapada pode ser dada para excluir o pecado e reter apenas a punição nos 
quatro versos anteriores, Gênesis 6:5 é clara e incontestavelmente uma referência ao pecado. 
Deus não viu “adversidade” ou “aflições”; ele viu pensamentos pecaminosos. Rá, nesse versículo 
de qualquer modo, significa pecado. O mesmo é verdade em Gênesis 8:21. De facto, o pecado e 
sua punição estão separados aqui. Deus não irá novamente amaldiçoar ou ferir, como acabara de 
fazer, pois o coração do homem é mau. O dilúvio foi um castigo, mas o mal era o coração 
pecaminoso do homem. 
Perto do final de Gênesis ra se refere a um suposto roubo, muitos pecados dos quais o anjo 
redimiu Jacó, e três vezes o pecado dos irmãos contra José. Em 50:17 novamente o pecado é 
facilmente distinguível do castigo temido. 
É necessário percorrer todo o Antigo Testamento para mostrar que ra frequentemente significa 
pecado como distinto de sua punição? Não deveria ser necessário; mas para mostrar a difusão da 
doutrina e da perversidade do Arminianismo, algo de 2 Crônicas será listado: 22:4; 29:6; 33:2, 6; 
36:5, 9, 12. Acabe fez o que era mau aos olhos do Senhor. Nossos pais transgrediram e fizeram o 
mal aos olhos do Senhor. Manassés fez o mal aos olhos do Senhor. Ele fez muito mal aos olhos 
do Senhor. Jeoaquim fez mal aos olhos do Senhor. Ele fez o mal aos olhos do Senhor. 
 
 
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O mal, ra, não é traduzido uma única vez como pecado. Muito estranho, mas é verdade. Então há 
Isaías 56:2; 57:1; 59:7, 15; 65:12; 66:4. Todas as instâncias de ra ou mal. 
Agora, se Scofield soubesse que ra nunca foi traduzido como pecado, ele deve ter sabido que 
muitas vezes era traduzido como maldade. Maldade ou mau, como a tradução de ra, ocorre em 
Gênesis 6:5; 13:13; 38:7; 39: 9. Também em Deuteronômio 13:11 e 17:2. Também em 1 Samuel 
30:22; 2 Samuel 3:39; 1 Reis 2:44; Neemias 9:35; Ester 7:6, 9, 25; e Provérbios 21:12; 26:23, 26. 
Esses não são os únicos exemplos. 
Scofield disse a verdade literal quando afirmou que ra nunca é traduzido como pecado. Mas 
nada poderia ser mais falso do que a afirmação dele: “Deus criou o mal apenas no sentido de que 
ele fez com que a tristeza, a infelicidade, etc. fossem os frutos certos do pecado”. 
O significado Bíblico da palavra ra já foi abundantemente esclarecido. Mas há outro ponto 
também. Se ra significa simplesmente calamidades externas, então a palavra paz, que Deus 
também cria, só pode significar paz militar. As frases são paralelas. Mas esta interpretação reduz 
o versículo, ou esta parte do versículo, à trivialidade. Mesmo o versículo 1 dificilmente pode ser 
restrito a assuntos puramente políticos. O versículo 3 fala dos tesouros das trevas, das riquezas 
ocultas e do conhecimento de Deus. Jacó, meu servo, e Israel, meus eleitos, não são frases que se 
restrinjam à política e à economia. O versículo 6 fala da extensão do conhecimento de Deus em 
todo o mundo. Então vem “eu faço a paz e crio o mal”. Meramente paz militar? Não é paz com 
Deus? O versículo seguinte fala da justiça caindo do céu, não como orvalho, mas como chuva 
torrencial. Produza a salvação, e ao mesmo tempo frutifique a justiça; eu, o SENHOR, as criei. 
Ó Arminiano, Arminiano, tu que distorces os profetas e interpretas mal os que te são enviados; 
quantas vezes eu contei a seus filhos a pura verdade... e tu não os deixastes entender! 
Ainda há mais neste capítulo de Isaías. Mais uma vez encontramos o Oleiro e o barro. Isso indica 
que Deus não é responsável pelo homem. Ai do homem que reclama que Deus fez dele ou de 
qualquer outra pessoa um vaso de desonra. O barro não tem “direitos” contra o Oleiro. Nem tem 
livre arbítrio para decidir que tipo de taça ou jarro deve ser. 
 
 
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O lado sombrio e desagradável da doutrina, precisamente porque é desagradável, é ofensivo ao 
orgulho humano. Mas os dois lados são lados da mesma moeda. Deus é soberano em 
misericórdia também. Depois de enfatizar o poder criativo de Deus em 45:12, Isaías continua: 
“Eu o despertei [Ciro] em justiça, e todos os seus caminhos endireitarei”. Isso se aplica a tudo o 
que Ciro fez. Naturalmente, Isaías, que fez a previsão, e os Judeus devotos que a cumpriram 
estavam principalmente interessados no tratamento dado por Ciro a eles; mas Deus dirigiu Ciro 
em todos os detalhes de seu império e em todos os detalhes de sua vida privada. 
O que a Bíblia afirma tão claramente, Dr. Clines nega. Na página 122, ele escreve: 
Não se pode mostrar que os profetas acreditavam em um plano fixo que se estendia desde o início 
até o fim da história mundial. As predições proféticas (…) não significam que todos os eventos da 
história se movem em direcção a um objectivo divino. Eles são antes uma afirmação de que, 
dentro da história, Deus está trabalhando com seus propósitos. 
Agora, Isaías 45:13 não menciona todas as acções dos juízes ou dos últimos reis de Judá e Israel. 
No entanto, de forma clara e explícita, menciona todos os caminhos de Ciro. Mas então o Dr. 
Clines, em sua “Predestinação no Antigo Testamento”, não apenas

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