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São Paulo – 2013
1ª- edição
HISTÓRIA
Conexão
VOLUME 3
ENSINO MÉDIO
HISTÓRIA
3a- série
Roberto Catelli Junior
Bacharel e licenciado em História pela Pontifícia Universidade 
de São Paulo. Mestre em História pela Universidade de São 
Paulo. Professor de História da rede particular de ensino do 
estado de São Paulo. Assessor para organização de currículos 
e formador de professores na rede pública de ensino.
MANUAL DO
PROFESSOR
 Editores: Arnaldo Saraiva e Joaquim Saraiva
 Projeto gráfico e capa: Flávio Nigro
 Pesquisa iconográfica: Cláudio Perez
 Coordenação digital: Flávio Nigro e Nelson Quaresma
 Colaboração: Maria Soledad Más Gandini, Renata Pereira Lima Aspis e Roberto Giansanti
 Produção editorial: Maps World Produções Gráficas Ltda
 Direção: Maurício Barreto
 Direção editorial: Antonio Nicolau Youssef
 Gerência editorial: Carmen Olivieri
 Coordenação de produção: Larissa Prado
 Edição de arte: Jorge Okura
 Editoração eletrônica: Alexandre Tallarico, Flávio Akatuka, Francisco Lavorini, Juliana Cristina Silva, 
Veridiana Freitas, Vivian Trevizan e Wendel de Freitas
 Edição de texto: Ana Cristina Mendes Perfetti
 Revisão: Adriano Camargo Monteiro, Fabiana Camargo Pellegrini, 
Juliana Biggi e Luicy Caetano
 Pesquisa iconográfica: Elaine Bueno e Luiz Fernando Botter
 Cartografia: Maps World (Alexandre Bueno e Catherine A. Scotton)
 Conteúdos digitais: Esfera Digital
 Fotos da capa: Pirâmide do Egito – Photodisc; 
Pirâmide do Louvre – IDREAMSTOCK/Alamy/Glow Images
2013
Editora AJS Ltda. – Todos os direitos reservados
Endereço: R. Xavantes, 719, sl. 632
Brás – São Paulo – SP
CEP: 03027-000
Telefone: (011) 2081-4677
E-mail: editora@editoraajs.com.br
Título original: Conexão História
© Editora AJS Ltda, 2013
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
 Catelli Junior, Roberto
 Conexão história : volume 3 : ensino médio : 
 3º série / Roberto Catelli Junior. -- 1. ed. -- 
 São Paulo : Editora AJS, 2013.
 Bibliografia.
 "Suplementado pelo manual do professor"
 1. História (Ensino médio) I. Título.
13-06550 CDD-907
 Índices para catálogo sistemático:
 1. História : Ensino médio 907
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
 Catelli Junior, Roberto
 Conexão história : volume 3 : ensino médio : 
 3º série / Roberto Catelli Junior. -- 1. ed. -- 
 São Paulo : Editora AJS, 2013.
 Bibliografia.
 "Suplementado pelo manual do professor"
 1. História (Ensino médio) I. Título.
13-06550 CDD-907
 Índices para catálogo sistemático:
 1. História : Ensino médio 907
ISBN: 978-85-8319-003-5 (Aluno)
ISBN: 978-85-8319-004-2 (Professor)
Muitas gerações se fizeram as mesmas perguntas ao estudar História: Para que serve? Por que tenho 
de saber o que aconteceu na Revolução Francesa ou no Brasil colonial? Essas perguntas ainda persistem. 
Talvez você já tenha se perguntado isso.
A História, vista em si, talvez não pareça servir para nada. Ela só tem sentido quando lhe atribuímos 
um significado. E quanto mais questionarmos e refletirmos sobre os acontecimentos da história, mais 
poderemos refletir sobre a realidade que nos cerca e a vida que vivemos.
Quando estudo História com a única finalidade de memorizar fatos do passado para obter um resul-
tado satisfatório em uma avaliação, dificilmente ela terá algum sentido. Seria o mesmo que ouvir uma 
canção da qual não gosto repetidas vezes apenas para decorar sua letra e sequência melódica.
Para mim, autor desta obra e professor, estudar História significa, principalmente, estimular a reflexão, 
exercitar o espírito crítico e promover descobertas. Preciso sempre fazer perguntas: Em que a Revolução 
Francesa, por exemplo, se relaciona com o mundo em que vivo? Que ideias foram produzidas pelo ser huma-
no daquela época (século XVIII)? O que é diferente dos dias atuais? O que pensavam os revolucionários? 
Que sociedade eles queriam construir? Preciso ainda ser crítico o suficiente para saber identificar as dife-
rentes posições dos autores que têm interpretações contrárias. Por que concordo com um e discordo do 
outro? É preciso saber contextualizar o assunto em um duplo sentido: compreender os eventos históricos 
conforme a época em que se vivia, além de buscar construir as relações com o presente.
Estudar História pode ser também um profundo mergulho nas experiências vividas pelos seres huma-
nos, ao longo do tempo, nas mais diferentes dimensões: cultural, econômica, política e social. Podemos 
entrar em contato com modos de vida muito diversos do que conhecemos na atualidade e refletir sobre o 
significado daquelas experiências para o presente e para o futuro.
O que se estuda na História? Certamente não são apenas os grandes eventos políticos e econômicos, 
ainda que esses estabeleçam marcos para a humanidade. Podemos estudar a vida cultural, a condição 
feminina, a religiosidade, a música, o pensamento científico, as atividades esportivas, enfim, tudo aquilo 
que se refere à experiência de homens e mulheres em sociedade.
Nesse mergulho nas várias dimensões da vida humana não podemos nos limitar aos conhecimentos de 
História. Será necessário recorrer às Artes, às Ciências, à Filosofia, à Geografia e à Sociologia, pois sabemos 
que a vida humana não está compartimentada em conhecimentos disciplinares. Ao contrário, para com-
preender a sua história é preciso recorrer a todas as suas dimensões, formando uma rede de conhecimentos. 
Para estudar história precisamos acessar uma grande rede de conhecimentos para discutir a experi-
ência humana ao longo de milhares de anos. Muitos desses conhecimentos, por sua vez, podem, hoje, ser 
obtidos por meio da rede mundial de computadores e da variedade de linguagens disponíveis. É possível 
recorrer a internet, vídeos, cinema, televisão, rádio, enfim, a variadas fontes de informação que também 
contribuem para a construção do conhecimento histórico na escola.
Ao estudar História, cabe ainda perguntar quais fontes podemos utilizar. Os documentos escritos, os 
objetos da cultura material, as imagens, as histórias em quadrinhos, as obras literárias, as propagandas, 
as canções, os depoimentos gravados, ou seja, todo registro ou vestígio da vida humana pode ser fonte 
para o estudo da História.
Desejo que este material didático o auxilie a construir um sentido para seus estudos, embora isso não 
dependa apenas de um livro ou do professor. Estes podem apenas favorecer e despertar a sua curiosida-
de. Essa é minha intenção primeira com esta obra. A partir daí, e das informações disponíveis, recomendo 
o mais fundamental: faça perguntas, busque relações e atribua um significado para tudo. “Fazer sentido” 
também quer dizer “fazer sentir”: é preciso que esse processo nos desperte para algo. Caso contrário, 
tanto a História quanto a música, o futebol, a praia, o(a) namorado(a), os amigos, a família, o mundo, 
enfim, ficam incompletos e insuficientes.
O autor
APRESENTAÇÃO
CONHEÇA SEU LIVRO
PESQUISA
Orientações para organização de pesquisa 
sobre algum tema relevante para uma melhor 
compreensão dos conceitos, fatos históricos ou 
situações em estudo no capítulo.
CONTEXTO
Núcleo de desenvolvimento do conteúdo 
didático do livro, que contém informações tex-
tuais, cartográficas, visuais e esquemáticas.
LINHA DO TEMPO
Eventos e fatos históricos relativos ao tema 
do capítulo em desenvolvimento, organizados 
cronologicamente.
 NA INTERNET
Sugestão de links destinados ao detalhamen-
to e aprofundamento de assuntos estudados.TRABALHANDO COM DADOS
Apresentação de coleções de dados e infor-
mações, geralmente organizadas em tabelas, 
para suscitar discussões e dimensionamentos 
de fatos históricos e econômicos.
ROTEIRO DE TRABALHO
Proposta de atividades ordenadas a partir 
de algumas das seções com conteúdos previa-
mente fixados.
VESTIBULANDO
Apresentação de testes e questões exigidas 
em vestibulares e no Enem.
RELEITURA
Apresentação das ideias e conceitos estu-
dados no capítulo em linguagem distinta do 
texto didático como, por exemplo, letras de 
música, obras de arte ou publicações.
 PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
Sugestões de livros, filmes e sites que con-
têm mais e diversificadas informações sobre os 
temas estudados.
INTERDISCIPLINARIDADE
Apresenta relações entre os diversos con-
ceitos históricos estudados e outras disciplinas 
ou matérias com as quais o aluno tem contato.
DOCUMENTOS
Aqui são apresentados artigos, transcrições 
e informações que, quando discutidas, con-
solidam a aprendizagem e a significação dos 
conceitos estudados.
PONTO DE VISTA
Detalhamento ou confrontação de diferen-
tes pontos de vista sobre o assunto em estudo.
Relação dos objetos digitais 
de aprendizagem apresentados 
no livro.
Infográfico de fatos históricos 
organizados de forma contínua 
e cronológica
Conjunto de referências cruzadas 
de temas relevantes estudados ao 
longo dos livros da coleção.
UNIDADE 1 Conflitos e diversidade cultural no Brasil . . . . . . . . . . . . . 8
CAPÍTULO 1 O Brasil do sertão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
O sertão das secas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
O sertão – da Colônia à República . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
O sertão do cangaço . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18
O sertão do padre Cícero. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22
CAPÍTULO 2 O Brasil amazônico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
A Amazônia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
A independência e os conflitos 
durante o Império . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
A borracha e a belle époque . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
As transformações do ecossistema 
da Amazônia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
A ocupação da Amazônia no 
Brasil contemporâneo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46
A terra e o desenvolvimento na Amazônia . . . . . . . . 49
CAPÍTULO 3 Afro-brasileiros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
A África pré-colonial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
Os europeus na África . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63
Os africanos no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
UNIDADE 2 Cidadania e relações de poder . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82
CAPÍTULO 4 Nacionalismo, guerras mundiais e autoritarismo . . . . 84
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89
Imperialismo e nacionalismo 
no final do século XIX . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89
Trinta e um anos de guerra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 90
A Primeira Guerra Mundial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91
A República de Weimar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96
A crise de 1929 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98
A crise da República de Weimar e 
a ascensão do nazismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99
A construção do ideário nazista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100
O fascismo italiano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 102
A Guerra Civil Espanhola . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105
A Segunda Guerra Mundial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 107
A Guerra Fria: a Coreia, 
o Muro de Berlim e o Vietnã . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116
SUMÁRIO
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CAPÍTULO 5 A República varguista: 
da Revolução de 1930 ao Estado Novo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131
O fim do predomínio da oligarquia cafeeira 
e o governo Vargas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131
A Revolução Constitucionalista de 1932 . . . . . . . . . . 132
A Constituinte e a Constituição de 1934 . . . . . . . . . . 134
Fascismo e comunismo no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 135
O Estado Novo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 138
O fim da ditadura Vargas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143
CAPÍTULO 6 Ensaios democráticos no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .151
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 154
O governo Dutra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 154
Getúlio Vargas: presidente eleito . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 156
O governo JK e o desenvolvimentismo . . . . . . . . . . . . 160
Jânio Quadros e a renúncia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 165
O governo Goulart e asreformas de base . . . . . . . 167
CAPÍTULO 7 Da ditadura à democracia: 
golpe, guerrilha e abertura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 180
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 184
A montagem do poder ditatorial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 184
O governo Costa e Silva e o período 
do “milagre econômico” . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 186
A resistência e o Ato Institucional n. 5 . . . . . . . . . . . . 188
A cultura jovem nos anos 1960 
e o sentido de protesto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 194
O governo Médici . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200
De Geisel a Figueiredo: mudança de rumos . . . . 201
A abertura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 205
Sarney governa de 1985 a 1989 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 209
CAPÍTULO 8 O cidadão contemporâneo: um roteiro de estudo . . . 221
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 225
O Brasil democrático e 
socialmente desigual . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 225
A globalização e o desenvolvimento 
do capitalismo no mundo contemporâneo . . . . . . 231
Os Estados nacionais no contexto 
da globalização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 233
A crítica à globalização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 236
Os conflitos pós-Guerra Fria 
e as guerras do século XXI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 236
O ser humano e o meio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 251
Referências bibliográficas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 269
Gabarito . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 272
SUMÁRIO
CONTEÚDO DIGITAL
G Paisagens do Sertão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12
G Revolução de 1932 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133
G O DIP . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 140
G Getúlio Vargas – anos 1950 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 156
G Campanhas nacionalistas – anos 1970 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200
G Objetos sagrados de culturas africanas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .62
G Festas tradicionais brasileiras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .72
G Cidades destruídas pela guerra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 112
A Áudio de soldados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92
Declaração de Guerra, 1940 – Mussolini . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 108
A Hora do Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129
V Trecho de vídeo da Primeira Guerra Mundial . . . . . . . . . . . . . . . 92
V Olimpíadas de 1936 – Jesse Owens e Hitler . . . . . . . . . . . . . . . . 102
V Conflito entre israelenses e palestinos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 248
V Degelo na Antártida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 222
I Desmatamento e Mineração – impactos ambientais . . . . . . . .45
I Terras indígenas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47 I Sufragistas e o voto feminino . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 132
I Programa de Metas de Juscelino Kubitschek . . . . . . . . . . . . . . 161
I FMI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 204
I Aquecimento global . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 222
I Conflito entre judeus e palestinos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 247
I Violência no campo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .50
I Antigos reinos e impérios africanos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61
I Primeira Guerra Mundial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .93
I Ofensivas durante a Segunda Guerra Mundial . . . . . . . . . . . . 111
 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 à 268
G Imprensa alternativa na ditadura militar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 194
G Alemanha pós-queda . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117
Declaração de Guerra, 1940 – MussoliniV
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UNIDADE 1
Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidadeConflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade 
cultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasil
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O Brasil do sertão
Estudar a história brasileira significa desvendar acontecimentos marcados pela diversidade cultural. A formação multicultural do Brasil se constitui por uma grande variedade de grupos sociais que interagiram de maneira conflituosa.
Muitos antropólogos, historiadores e cientistas sociais, a exemplo de Gilberto 
Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Fernando de Azevedo e, mais recentemente, 
Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Roberto da Matta, Alfredo Bosi e Renato Ortiz, 
já se preocuparam em definir e compreender a cultura brasileira em suas múltiplas 
dimensões. Todos, a par de suas diferentes posições político-ideológicas, são unâni-
mes em concordar que a característica marcante de nossa cultura é a riqueza de sua 
diversidade, resultado de nosso processo histórico-social e das dimensões continen-
tais de nossa territorialidade.
Nesse sentido, o mais correto seria falarmos em “culturas brasileiras”, ao invés 
de “cultura brasileira”, dada a pluralidade étnica que contribuiu para sua formação.
FERNANDES, José Ricardo Oriá. Ensino de História e diversidade cultural: desafios e possibilidades. 
Cadernos CEDES, Campinas, v. 25, n. 67, set./dez. 2005. p. 379. Disponível em: 
<www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S0101-32622005000300009>. Acesso em: 18 abr. 2013.
Nesta unidade vamos colocar em destaque parte dessa diversidade cultural, buscan-
do compreender a história brasileira mais recente levando em conta a sua pluralidade. 
Vamos começar estudando o que denominamos como Brasil do sertão.
Lampião, o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, nasceu em 1897 e morreu em 1938. 
Pernambucano, era representante de uma cultura brasileira que não pode ser entendida 
apenas pelo que ocorria no Rio de Janeiro, então capital da República. Desde o período 
colonial, o sertão se diferenciou pela peculiaridade de sua formação territorial, por suas 
condições climáticas, por seu isolamento em relação ao centro de decisão de poder e 
por sua formação cultural singular. Para o antropólogo Darcy Ribeiro:
Conformou, também, um tipo particular de população com uma subcultura própria, 
a sertaneja, marcada por sua especialização ao pastoreio, por sua dispersão espacial 
e por traços característicos identificáveis no modo de vida, na organização da família, 
na estruturação do poder, na vestimenta típica, nos folguedos estacionais, na dieta, na 
culinária, na visão de mundo e numa religiosidade propensa ao messianismo.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 340.
CAPÍTULO 1
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O Brasil do sertão
Estudar a história brasileira significa desvendaracontecimentos marcados pela diversidade cultural. A formação multicultural do Brasil se constitui por uma grande variedade de grupos sociais que interagiram de maneira conflituosa.
Muitos antropólogos, historiadores e cientistas sociais, a exemplo de Gilberto 
Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Fernando de Azevedo e, mais recentemente, 
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THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS
Lampião com sua mulher, Maria Bonita, e 
cachorros. Nesta foto de 1936, tirada pelo 
fotógrafo Benjamin Abrahão, que acompanhou 
o bando, o cangaceiro aparece segurando um 
exemplar da revista musical Noite Ilustrada, 
que fazia sucesso na época.
CONTEXTO
O sertão das secas
A seca do Nordeste ocorre em sua região 
semiárida, que compreende cerca de 700 mil km2 
do território brasileiro. Lá as temperaturas médias 
são bastante elevadas durante todo o ano. Além 
disso, as chuvas são escassas e irregulares, haven-
do pouca umidade e ausência de rios perenes. 
As médias pluviométricas no semiárido, em alguns 
lugares, não ultrapassam os 400 mm anuais.
No sertão nordestino, o inverno seco pode durar 
até oito meses e o verão chuvoso até sete meses. A 
paisagem torna-se acinzentada nos períodos de seca 
e muito verde nas épocas de chuva. Quando as chu-
vas se avolumam no verão, a população das regiões 
secas diz que chegou o inverno, pois o calor torna-se 
mais ameno com a redução da secura.
A caatinga é um tipo de vegetação própria das 
extensões semiáridas. Conforme o geógrafo Nilo 
Bernardes:
A região das caatingas abrange, praticamente, to-
da a área dos estados do Ceará e do Rio Grande do 
Norte; quase todo o sudeste do estado do Piauí; a 
maior parte do este dos estados da Paraíba, de Per-
nambuco, das Alagoas e de Sergipe; a maior parte 
de todo o interior da Bahia e até mesmo uma apre-
ciável porção do extremo norte do estado de Minas 
Gerais. São mais de 800 mil km2 de extensão, 
Em 1936, o governo federal delimitou o que foi denominado 
Polígono das Secas, abrangendo mais de quarenta municípios entre 
o Piauí e o norte de Minas Gerais. Após diversas revisões de seu 
traçado, em 2010 o número de municípios incluídos contava 1 348.
O POLÍGONO DAS SECAS
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Cangaceiros como Lampião desafiaram o 
poder das autoridades brasileiras, impuseram 
suas próprias leis e mantiveram centenas de 
pessoas sob seu comando.
Estudar o Brasil significa, antes de tudo, 
compreender sua diversidade. Por isso, nesta 
unidade não podemos deixar de fazer referên-
cia à cultura que expressa as diferenças sociais 
e as várias formas de conflito presentes em 
nossa sociedade.
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Com base em Ministério da Integração Nacional. Relatório final: grupo de 
trabalho interministerial para redelimitação do semiárido nordestino e do 
polígono das secas. Brasília. Janeiro de 2005. 
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Lampião com sua mulher, Maria Bonita, e 
cachorros. Nesta foto de 1936, tirada pelo 
fotógrafo Benjamin Abrahão, que acompanhou 
o bando, o cangaceiro aparece segurando um 
Noite Ilustrada, 
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Cactos xiquexiques em Poço Redondo (SE), 2007. Os 
xiquexiques e os mandacarus (outra planta nativa 
do sertão) servem de alimento para seres humanos 
e animais. O xiquexique é uma planta rica em pro-
teínas, sais minerais, carboidratos e fibra. Deve-se 
a essa planta a sobrevivência de muitos rebanhos 
nordestinos durante as secas.
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significando que uma décima parte do território 
brasileiro é coberto pelas caatingas. Ao norte, 
elas chegam até a faixa praiana e, a oeste e ao sul, 
entram em contato com a região dos campos cer-
rados, características das nossas regiões centrais.
BERNARDES, Nilo. As caatingas. Revista Estudos 
Avançados. São Paulo: IEA/USP, maio/ago. 1999. n. 36. p. 69.
O geógrafo ainda esclarece que:
As caatingas aparecem nas áreas onde os totais 
anuais de chuva, em termos normais, já estão 
abaixo de 1 000 mm. […] De início se dizia que a 
caatinga – a mata (caa) clara (tinga), na língua 
indígena – era uma floresta espinhenta. Nos ma-
nuais de língua inglesa ela ainda é frequentemente 
assim referida (scrub-forest). Mas nem sempre os 
seus diversos tipos lembram realmente o porte de 
uma floresta e nem sempre eles são, na verdade, 
caracteristicamente espinhentos. Em algumas 
áreas, com efeito, a predominância das árvores lhe 
dá um porte que a caracteriza como caatinga arbó-
rea. Mas em muitos outros lugares somente ocorre 
a caatinga arbustiva, ora mais alta, ora mais baixa.
BERNARDES, op. cit., p. 71.
Nesse contexto se destacam as cactáceas, que 
se adaptaram à falta de chuvas: os mandacarus, 
os xiquexiques e as coroas-de-frade, entre outras 
plantas. A caatinga é uma vegetação de folhas 
caducas que se renovam todos os anos. Por isso, 
nos períodos de seca, os arbustos tornam-se galhos 
secos e as árvores ficam desfolhadas.
Há também as regiões úmidas do sertão, cha-
madas pela população local de brejos. Localizam-
-se em formações geográficas específicas, como 
serras, encostas e vales úmidos. Esses seriam os 
casos de Garanhuns, em Pernambuco, e Ribeira 
do Pombal, na Bahia. Segundo o geógrafo Aziz 
Ab’Sáber, tais regiões são essenciais para a eco-
nomia regional:
Os brejos são fundamentais para a produção de 
alimentos no domínio dos sertões, como mostra 
qualquer apanhado sobre a origem dos produtos 
comercializados nas feiras locais ou nos agres-
tes. De certa forma, o vigor e o sucesso das 
feiras nordestinas são o próprio termômetro da 
produtividade dessas áreas, cujos solos de mata 
deram origem à formação dos primeiros celeiros 
fornecedores de alimentos baratos e de uso tradi-
cional no amplo espaço sertanejo. O transporte a 
baixo custo, feito no lombo de jegues, aliado à bai-
xa expectativa de lucro dos camponeses brejeiros, 
garantiu a comercialização com níveis toleráveis 
de preços para as populações. A carne verde de ga-
do ou de animais de pequeno porte é quase sempre 
proveniente de todos os sertões, mas o restante 
do necessário à alimentação do povo sertanejo 
provém dos pequenos espaços, muito férteis, dos 
brejos que pontilham os sertões. Dali saem a 
mandioca e a farinha, o feijão, uma parte do café, 
um sem-número de frutas, além da rapadura e da 
aguardente, subprodutos de pequenas plantações 
de cana-de-açúcar.
AB’SÁBER, Aziz Nacib. Sertões e sertanejos: uma geogra-
fia humana sofrida. Revista Estudos Avançados, São Paulo: 
IEA/USP, maio/ago. 1999. n. 36. p. 20.
Em 2008, mais de 20 milhões de pessoas viviam 
no sertão e agreste nordestinos, sendo Caruaru 
(PE), Mossoró (RN), Feira de Santana (BA) e 
Campina Grande (PB) algumas cidades que são 
capitais regionais e centros de comércio. Ainda 
é preciso considerar que quase toda a extensão 
do sertão seco nordestino se situa nas chamadas 
depressões interplanálticas. Conforme o geó-
grafo Jurandyr Ross:
A depressão sertaneja e do São Francisco compre-
ende uma extensa área rebaixada e predominante-
mente aplanada, constituindo superfície de erosão 
que secciona uma grande diversidade de litologias 
e arranjos estruturais. Esta superfície apresenta 
inúmeros trechos com ocorrência de relevos resi-
duais constituindo inselbergs […]
ROSS, Jurandyr Sanches. Geografia do Brasil. 
São Paulo: Edusp, 1996. p. 63.
Esses inselbergs podem ser considerados ele-
vações residuais de relevos mais antigos.
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significando que uma décima parte do território 
brasileiro é cobertopelas caatingas. Ao norte, 
elas chegam até a faixa praiana e, a oeste e ao sul, 
entram em contato com a região dos campos cer-
rados, características das nossas regiões centrais.
BERNARDES, Nilo. As caatingas. Revista Estudos 
Avançados. São Paulo: IEA/USP, maio/ago. 1999. n. 36. p. 69.
O geógrafo ainda esclarece que:
As caatingas aparecem nas áreas onde os totais 
anuais de chuva, em termos normais, já estão 
abaixo de 1 000 mm. […] De início se dizia que a 
caatinga – a mata (caa) clara (tinga) clara (tinga) clara ( ), na língua 
indígena – era uma floresta espinhenta. Nos ma-
nuais de língua inglesa ela ainda é frequentemente 
assim referida (scrub-forest). Mas nem sempre os 
seus diversos tipos lembram realmente o porte de 
uma floresta e nem sempre eles são, na verdade, 
caracteristicamente espinhentos. Em algumas 
áreas, com efeito, a predominância das árvores lhe 
dá um porte que a caracteriza como caatinga arbó-
rea. Mas em muitos outros lugares somente ocorre 
a caatinga arbustiva, ora mais alta, ora mais baixa.
BERNARDES, op. cit., p. 71.
madas pela população local de 
-se em formações geográficas específicas, como 
serras, encostas e vales úmidos. Esses seriam os 
casos de Garanhuns, em Pernambuco, e Ribeira 
do Pombal, na Bahia. Segundo o geógrafo Aziz 
Ab’Sáber, tais regiões são essenciais para a eco-
nomia regional:
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Inselberg em Itaberaba (BA). Inselberg foi o nome dado em 1900 pelo geólogo alemão Bonhardt e quer dizer “montanha isolada”, “monte 
ilha” ou “morro testemunho”. Essas rochas costumam abrigar plantas de lento crescimento e longa vida, com baixa substituição de espécies.
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Há também as regiões agrestes, faixas de tran-
sição entre a zona da mata e o sertão seco. Nos 
agrestes chove mais do que no sertão e há zonas 
de pecuária intercaladas com zonas de agricultura. 
Trata-se da região mais povoada do interior nor-
destino. No período de grandes chuvas, ocorrem 
enchentes em algumas áreas onde os rios são mais 
rasos. As águas muitas vezes extravasam e correm 
pelos vales, atingindo moradias e plantações.
A população nordestina mais duramente atin-
gida pelas secas é aquela desprovida de terras. 
A falta de continuidade na produção rural gera 
grandes contingentes de desempregados que se 
transformam em retirantes – população que deixa 
seu local de origem para procurar meios de sobrevi-
vência em outra parte. Nesse sentido, afirma mais 
uma vez Aziz Ab’Sáber:
Alta fertilidade humana, forte seleção biológica 
e ausência de oportunidades de emprego para os 
sem-terra teriam que ocasionar o apelo à migra-
ção, numa desesperada luta pela sobrevivência. 
Assim, a grande região seca brasileira passou a ter 
o papel histórico de fornecer mão de obra barata 
para quase todas as outras regiões detentoras de 
algum potencial de emprego. Nordestinos de to-
dos os recantos mobilizaram-se nas mais variadas 
direções, seguindo a vaga de cada época. Para a 
Amazônia, nos fins do século passado e inícios do 
atual. Para São Paulo, desde a década de 1930.
Para Brasília nos anos [19]60. Para o norte do 
Paraná e São Paulo por todo o tempo, sobretu-
do depois da construção da estrada Rio-Bahia. 
Finalmente, para o norte de Goiás, às margens da 
Belém-Brasília, a Transamazônica e, para o sul do 
Pará, nos anos [19]70.
AB’SÁBER, op. cit., p. 26-7.
Essa caracterização do sertão seco nordesti-
no não significa que não há solução para que as 
famílias possam viver com dignidade e sem sofri-
mento na região. As soluções existem e depen-
dem, certamente, da ação estatal nos diferentes 
níveis. Contudo é preciso criar políticas sérias 
que não alimentem o que ficou conhecido como 
a indústria da seca, ou seja, a transferência de 
volumosos recursos para empreendimentos que 
jamais resolveram os problemas do sertanejo, 
mas, ao contrário, enriqueceram ainda mais certos 
empreendedores. Para algumas pessoas, acabar 
com a seca seria acabar com verbas e auxílios 
governamentais direcionados à região. Manter 
a seca, para essas pessoas, é uma forma de se 
apropriar de recursos sem investir naqueles que 
realmente necessitam. É preciso controlar tam-
bém os desmandos coronelistas, que influenciam 
o poder público e exploram os habitantes locais, 
além de se aproveitar de toda sorte de situações 
para benefício próprio.
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 foi o nome dado em 1900 pelo geólogo alemão Bonhardt e quer dizer “montanha isolada”, “monte 
ilha” ou “morro testemunho”. Essas rochas costumam abrigar plantas de lento crescimento e longa vida, com baixa substituição de espécies.
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O sertão – da Colônia à República
O processo inicial de colonização das terras que 
hoje são o Brasil ocorreu pelo litoral. Nessa região, 
desenvolveram-se as primeiras atividades econô-
micas. Nos mapas ao lado, observamos que, até o 
século XVII, as áreas de povoamento se situavam 
mais próximas ao litoral, sendo o interior pouco 
explorado e habitado.
Mesmo assim, ainda no século XVI começaram 
as primeiras incursões pelo interior com a finalidade 
de obter indígenas para serem escravizados. Além 
disso, iniciou-se também a busca de riquezas, como 
os metais preciosos tão abundantes na América 
espanhola e ainda desconhecidos no Brasil.
O sertão a que nos referimos aqui não inclui 
apenas o Nordeste das secas, mas também o inte-
rior de várias regiões. O antropólogo Darcy Ribeiro 
classificou essa região como o Brasil Sertanejo, 
o qual delimitou, ao afirmar:
Para além da faixa nordestina das terras frescas e 
férteis do massapé, com rica cobertura florestal, 
onde se implantaram os engenhos de açúcar, des-
dobram-se as terras de uma outra área ecológica. 
Começam pela orla descontínua ainda úmida do 
agreste e prosseguem com as enormes extensões 
semiáridas das caatingas. Mais além, penetrando 
já o Brasil Central, se elevam em planalto como 
campos cerrados que se estendem por milhares de 
léguas quadradas.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. 
São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 339.
No caso nordestino, ainda no século XVI, expli-
ca-nos mais uma vez Darcy Ribeiro:
O gado trazido pelos portugueses das Ilhas de Cabo 
Verde vinha já, provavelmente, aclimatado para 
a criação extensiva, sem estabulação, em que os 
próprios animais procuram suas aguadas e seu ali-
mento. Os primeiros lotes instalaram-se no agreste 
pernambucano e na orla do recôncavo baiano, 
suficientemente distanciados dos engenhos para 
não estragar os canaviais. Daí se multiplicaram e 
dispersaram em currais, ao longo dos rios perma-
nentes, formando as ribeiras pastoris. Ao fim do sé-
culo XVI, os criadores baianos e pernambucanos se 
encontravam já nos sertões do Rio São Francisco, 
prosseguindo ao longo dele, rumo ao sul e para 
além, rumo às terras do Piauí e do Maranhão. Seus 
rebanhos somariam então cerca de 700 mil cabe-
ças, que dobrariam no século seguinte.
RIBEIRO, op. cit., p. 341.
Assim, a região do sertão nordestino trans-
formou-se em uma produtora de couros e carnes 
que alimentariam a população que vivia na zona 
POVOAMENTO E URBANIZAÇÃO
Com base em SOUZA, Laura de Mello e. História da vida privada no 
Brasil; AZEVEDO, Aroldo de. A marcha do povoamento 
(séculos XVI e XVIII). In: AZEVEDO, Aroldo de. Vilas e cidades do 
Brasil colonial. Ensaio de geografia urbana retrospectiva. Boletim 
n 208, Geografia 11. São Paulo: FFLCH-USP, 1956.
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O sertão – da Colônia à República
O processo inicial de colonização das terras que 
hoje são o Brasil ocorreu pelo litoral. Nessa região, 
desenvolveram-seas primeiras atividades econô-
micas. Nos mapas ao lado, observamos que, até o 
século XVII, as áreas de povoamento se situavam 
mais próximas ao litoral, sendo o interior pouco 
explorado e habitado.
Mesmo assim, ainda no século XVI começaram 
as primeiras incursões pelo interior com a finalidade 
de obter indígenas para serem escravizados. Além 
disso, iniciou-se também a busca de riquezas, como 
os metais preciosos tão abundantes na América 
espanhola e ainda desconhecidos no Brasil.
O sertão a que nos referimos aqui não inclui 
apenas o Nordeste das secas, mas também o inte-
rior de várias regiões. O antropólogo Darcy Ribeiro 
classificou essa região como o Brasil Sertanejo, 
o qual delimitou, ao afirmar:
Para além da faixa nordestina das terras frescas e 
férteis do massapé, com rica cobertura florestal, 
onde se implantaram os engenhos de açúcar, des-
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açucareira. Até os dias atuais, as carnes salgadas, 
como a carne de sol, são uma tradição presente em 
cidades do sertão.
Essa criação extensiva de gado originou tam-
bém os primeiros latifúndios do sertão. Colonos 
recebiam da Coroa grandes quantidades de terras 
na forma de sesmaria. Por intermédio de carta régia 
expedida pelo rei, os colonos tomavam posse de 
terras desocupadas. Nessa atividade, o trabalho 
escravo não predominou, sendo comum o paga-
mento de vaqueiros que recebiam mantimentos e 
gado em troca de seu trabalho.
Desde o início, os conflitos dos europeus e seus 
descendentes com os povos indígenas tornaram-se 
inevitáveis na exploração do território com a finali-
dade de constituir pastos para o gado. Mais do que 
a catequese dos jesuítas ou as alianças interessei-
ras, nessa região as lutas armadas com os indíge-
nas foram mais comuns, podendo também estar aí 
uma das origens do cangaço, como veremos mais 
adiante. O povo Tabajara, por exemplo, que vivia no 
Nordeste, resistiu ferozmente aos colonizadores. 
Chegou mesmo a ocorrer a Guerra dos Bárbaros, 
quando indígenas do Rio Grande do Norte e do 
Ceará se uniram aos de outras capitanias para lutar 
contra o conquistador, entre o final do século XVII 
e o início do século XVIII. O historiador Frederico 
Pernambucano de Mello nos adianta:
Nos primórdios da vida social sertaneja, ao longo 
dos séculos XVII e XVIII, de forma generalizada, e 
mesmo de boa parte do XIX, em bolsões remotos, 
a vida da espingarda não se constituía apenas 
em procedimento legítimo à luz das circunstân-
cias, mas em ocupação francamente preferencial. 
O homem violento, afeito ao sangue pelo traque-
jo das tarefas pecuárias e adestrado no uso das 
armas branca e de fogo, mostrava-se vital num 
meio em que se impunha dobrar as resistências 
do índio e do animal bravio como condição para 
o assentamento das fazendas de criar. Naquele 
mundo primitivo, o heroísmo social se forjava pela 
valentia revelada no trato com o semelhante e 
pelo talento na condução cotidiana do empreendi-
mento pecuário. Nas festas de apartação em que 
se engalanavam [embelezavam] as fazendas no 
meado do ano, um e outro de tais valores – é dizer, 
valentia e talento – precisavam somar-se para a 
produção ou confirmação de heróis pelas vias da 
vaquejada bruta, corrida com o homem nos couros 
e por dentro dos paus da caatinga mais cerrada, ou 
da corrida de mourão, expressão moderna em que 
se resume toda a lúdica sertaneja da derrubada do 
boi. Nesse sentido, há versos de gesta que valem 
por um retrato sociológico, como o de Francisco 
das Chagas Batista: 
“Ali se aprecia muito
Um cantador, um vaqueiro
Um amansador de poldro
Que seja bom catingueiro
Um homem que mata onça
Ou então um cangaceiro”.
MELLO, Frederico Pernambucano de. Quem foi Lampião. 
Recife/Zurique: Stahli, 1993. p. 25-6.
No século XVIII, pode-se afirmar que já existia 
um núcleo significativo de povoamento no sertão, 
como mostra o mapa da página anterior, com 
predomínio da atividade pecuária. Além disso, 
as secas já causavam muitos problemas para a 
população local. Só nesse século foram registrados 
sete períodos de seca. O historiador Marco Antonio 
Villa menciona:
A seca de 1723-1727, que atingiu todo o Nordeste, 
promoveu, além de desastrosos efeitos econô-
micos, o deslocamento das populações para as 
áreas menos afetadas pelo flagelo e o surgimento 
de pequenos grupos de bandoleiros, que acaba-
ram marcando durante mais de dois séculos a 
história da região. […] Em 1777, depois de outras 
duas grandes secas, novamente o flagelo atingiu 
a região. A pecuária foi severamente atingida. 
Segundo Thomaz Pompeu, no Ceará, o gado 
“ficou reduzido a menos de um oitavo e fazendei-
ros que recolhiam mil bezerros não ficaram com 
20 nos anos seguintes”. O mesmo quadro de des-
truição atingiu o sertão das outras capitanias, que 
acabaram perdendo o mercado consumidor das 
Minas Gerais. […] Nos anos 1791-1793 ocorreu 
aquela que provavelmente foi a maior seca do sé-
culo XVIII, atingindo Ceará, Pernambuco, Bahia, 
Sergipe, Alagoas, Rio Grande do Norte, Paraíba e 
até o Piauí. No Ceará, segundo Joaquim Catunda, 
“no ano de 1792 as águas desapareceram comple-
tamente em grande parte da capitania. Morreram 
os gados, os vaqueiros, muitos fazendeiros e os 
animais domésticos e bravios. As estradas jun-
cadas de cadáveres, famílias inteiras mortas de 
fome e sede, e envolvidas no pó dos campos; o in-
terior deserto; a população esfaimada e dizimada 
pela peste nos povoados do litoral; atulhadas de 
retirantes as capitanias vizinhas, esmolando uns, 
furtando outros, trabalhando poucos.
VILLA, Marco Antonio. Vida e morte no sertão. 
São Paulo: Ática, 2001. p. 19-20.
A população estava sempre despreparada 
para os momentos de seca, por isso seus efeitos 
eram catastróficos. Surgiam epidemias, como a 
da varíola, em época de fome, e a vida econômica 
oscilava entre altos e baixos, conforme a extensão 
das secas. No século XIX, após a Independência do 
Brasil, o banditismo começou a se espalhar pelo 
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açucareira. Até os dias atuais, as carnes salgadas, 
como a carne de sol, são uma tradição presente em 
Essa criação extensiva de gado originou tam-
bém os primeiros latifúndios do sertão. Colonos 
recebiam da Coroa grandes quantidades de terras 
na forma de sesmaria. Por intermédio de carta régia 
expedida pelo rei, os colonos tomavam posse de 
terras desocupadas. Nessa atividade, o trabalho 
escravo não predominou, sendo comum o paga-
mento de vaqueiros que recebiam mantimentos e 
Desde o início, os conflitos dos europeus e seus 
descendentes com os povos indígenas tornaram-se 
inevitáveis na exploração do território com a finali-
dade de constituir pastos para o gado. Mais do que 
a catequese dos jesuítas ou as alianças interessei-
ras, nessa região as lutas armadas com os indíge-
nas foram mais comuns, podendo também estar aí 
uma das origens do cangaço, como veremos mais 
adiante. O povo Tabajara, por exemplo, que vivia no 
Nordeste, resistiu ferozmente aos colonizadores. 
Chegou mesmo a ocorrer a Guerra dos Bárbaros, 
“Ali se aprecia muito
Um cantador, um vaqueiro
Um amansador de poldro
Que seja bom catingueiro
Um homem que mata onça
Ou então um cangaceiro”.
MELLO, Frederico Pernambucano de. Quem foi Lampião.
Recife/Zurique: Stahli, 1993. p. 25-6.
No século XVIII, pode-se afirmar que já existia 
um núcleo significativo de povoamento no sertão, 
como mostra o mapa da página anterior, com 
predomínio da atividade pecuária. Além disso, 
as secas já causavam muitos problemas para a 
população local. Só nesse século foram registrados 
sete períodos de seca. O historiador Marco Antonio 
Villa menciona:
A seca de 1723-1727, que atingiu todo o Nordeste, 
promoveu, além de desastrosos efeitos econô-
micos, o deslocamento das populações paraas 
áreas menos afetadas pelo flagelo e o surgimento 
de pequenos grupos de bandoleiros, que acaba-
ram marcando durante mais de dois séculos a 
história da região. […] Em 1777, depois de outras 
duas grandes secas, novamente o flagelo atingiu 
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sertão nordestino nesses períodos de penúria. 
O governo imperial pouco investiu na região, embo-
ra tenham surgido os primeiros projetos de cons-
trução de açudes e se tenham introduzido camelos 
e dromedários como meio de transporte nesses 
locais de seca. Essa última iniciativa, entretanto, 
não obteve nenhum sucesso.
As secas continuaram no século XIX, e, nos 
períodos em que elas se estenderam, as cidades 
do sertão ficaram “inchadas” de retirantes à pro-
cura de comida e trabalho. Na seca de 1877, mais 
de 50 mil retirantes foram para Fortaleza em pou-
cas semanas. No mesmo ano, o jornal paraibano 
A Opinião noticiou, em 11 de novembro, que:
[…] os sertões estão ficando desertos pela emigra-
ção […]; e nos brejos surge a miséria pela supera-
bundância de emigrantes que de tudo precisam, e 
nada conduzem.
Apud VILLA, Marco Antonio. Vida e morte no sertão. 
São Paulo: Ática, 2001. p. 52.
Parte dessa população ia para o litoral e aca-
bava sendo explorada pelos produtores de açúcar, 
que pagavam ínfimos salários aos trabalhadores 
famintos. Outros retirantes iam para a Amazônia 
tentar a sorte na economia da borracha em ascen-
são. No entanto, chegavam à região endividados 
com o transporte e trabalhavam para pagar dívi-
das em regime que se aproximava da escravidão. 
Também doenças como a cólera, o tifo e a varíola 
mataram milhares de emigrantes. Em cidades 
como Fortaleza, meninas, filhas de retirantes, 
ainda muito jovens, já se entregavam à prostitui-
ção como forma de ganhar algum dinheiro na luta 
contra a fome.
Mesmo com as tragédias ocorridas durante a 
seca de 1877-1879, não houve mobilização gover-
namental suficiente para mudar a situação com 
relação à seca. O imperador Dom Pedro II não se 
manifestou quanto ao problema. As autoridades 
locais pareciam mais preocupadas com a lavou-
ra açucareira, não concentrando esforços no 
Nordeste das secas.
Ao longo do século XIX, o sul brasileiro acabou 
por se tornar um polo pecuário, tornando ainda 
mais difícil a situação da economia do sertão, que 
não era mais o único setor produtor de carnes e 
couros para as regiões litorâneas. Com a procla-
mação da República, evidentemente, os interesses 
dos cafeicultores do Sudeste brasileiro prevale-
ceram. O federalismo implementado tinha como 
principal objetivo permitir que os ricos governos 
do Sudeste pudessem fazer investimentos, sem 
ter de prestar contas ao governo federal e sem 
ter de destinar recursos aos estados de outras 
regiões do país.
No Nordeste, as famílias tradicionais oligárqui-
cas trataram de fazer funcionar a seu favor a nova 
ordem política. Os governos estaduais, regidos 
por constituições locais, passaram a servir dire-
tamente aos seus interesses. No caso do Ceará, a 
família Accioly, liderada inicialmente por Nogueira 
Accioly, teve o domínio político do estado entre 
1896 e 1912. Para se manter no poder, não só se 
submetia às ordens do governo federal, como 
contava com o auxílio de coronéis que garantiam 
os resultados eleitorais nas localidades. Aos seus 
opositores cabia a perseguição e a repressão. 
Em Pernambuco dominaram os Rosa e Silva, em 
Alagoas os Maltas e no Piauí os Pires Ferreira.
Quando entre 1898 e 1900 ocorreu uma grande 
seca, ficou claro que o governo federal não aten-
deria à região. O então presidente Campos Sales 
não destinou recursos suficientes para combater 
os efeitos dela. Em 1915, uma nova seca atingiu o 
Nordeste e mais uma vez os retirantes foram para 
as cidades. A fome e as doenças começaram a 
fazer muitos mortos. Obedecendo ao jogo oligár-
quico, os governadores não enfrentaram o gover-
no federal, e os recursos novamente não vieram 
para combater a seca. Para complicar ainda mais 
a situação, em 1915 a borracha amazônica já se 
encontrava em decadência como atividade econô-
mica, tornando ainda mais difíceis as migrações.
Nesse período, a região Nordeste começou a 
perder a liderança na produção de ovinos, bovinos 
e caprinos para o sul do país, pois milhares de 
animais morreram com a seca.
Em 1919, o então presidente Epitácio Pessoa 
propôs a realização de obras de irrigação no 
Nordeste, como a construção de açudes e poços. 
Queria ainda ampliar as estradas para facilitar a 
circulação de mercadorias na região. No entanto 
sofreu forte oposição no Congresso, principal-
mente da bancada do sudeste e do sul do país. 
A oposição temia, entre outros motivos, que 
essas atitudes levassem à desapropriação de 
terras irrigadas que não fossem cultivadas. Em 
1920, quando uma nova seca atingiu o Nordeste, 
Epitácio Pessoa conseguiu dar andamento a 
algumas obras. Construiu mais de 200 açudes e 
perfurou mais de 100 poços, além de reformar 
estradas e portos. No entanto, nos anos finais da 
Primeira República, não se repetiram os esforços 
de Epitácio Pessoa, que deixou o governo com a 
imagem desgastada.
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sertão nordestino nesses períodos de penúria. 
O governo imperial pouco investiu na região, embo-
ra tenham surgido os primeiros projetos de cons-
trução de açudes e se tenham introduzido camelos 
e dromedários como meio de transporte nesses 
locais de seca. Essa última iniciativa, entretanto, 
não obteve nenhum sucesso.
As secas continuaram no século XIX, e, nos 
períodos em que elas se estenderam, as cidades 
do sertão ficaram “inchadas” de retirantes à pro-
cura de comida e trabalho. Na seca de 1877, mais 
de 50 mil retirantes foram para Fortaleza em pou-
cas semanas. No mesmo ano, o jornal paraibano 
A Opinião noticiou, em 11 de novembro, que:
[…] os sertões estão ficando desertos pela emigra-
ção […]; e nos brejos surge a miséria pela supera-
bundância de emigrantes que de tudo precisam, e 
nada conduzem.
Apud VILLA, Marco Antonio. Vida e morte no sertão.
São Paulo: Ática, 2001. p. 52.
Parte dessa população ia para o litoral e aca-
bava sendo explorada pelos produtores de açúcar, 
que pagavam ínfimos salários aos trabalhadores 
ter de destinar recursos aos estados de outras 
regiões do país.
cas trataram de fazer funcionar a seu favor a nova 
ordem política. Os governos estaduais, regidos 
por constituições locais, passaram a servir dire-
tamente aos seus interesses. No caso do Ceará, a 
família Accioly, liderada inicialmente por Nogueira 
Accioly, teve o domínio político do estado entre 
1896 e 1912. Para se manter no poder, não só se 
submetia às ordens do governo federal, como 
contava com o auxílio de coronéis que garantiam 
os resultados eleitorais nas localidades. Aos seus 
opositores cabia a perseguição e a repressão. 
Em Pernambuco dominaram os Rosa e Silva, em 
Alagoas os Maltas e no Piauí os Pires Ferreira.
seca, ficou claro que o governo federal não aten-
deria à região. O então presidente Campos Sales 
não destinou recursos suficientes para combater 
os efeitos dela. Em 1915, uma nova seca atingiu o 
Nordeste e mais uma vez os retirantes foram para 
as cidades. A fome e as doenças começaram a 
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Acima, chegada de retirantes em Fortaleza (CE). Milhares de sertanejos que migraram para lá, na seca de 1915, foram abrigados 
em locais que ficaram conhecidos como “campos de concentração”, pois as pessoas não podiam sair sem permissão das autorida-
des, e as condições de vida e higiene eram as piores possíveis. Abaixo, foto de família em um desses “campos”, em cerca de 1910.
Arquivo particular
Biblioteca MunicipalMário de Andrade, São Paulo (SP)
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Acima, chegada de retirantes em Fortaleza (CE). Milhares de sertanejos que migraram para lá, na seca de 1915, foram abrigados 
em locais que ficaram conhecidos como “campos de concentração”, pois as pessoas não podiam sair sem permissão das autorida-
des, e as condições de vida e higiene eram as piores possíveis. Abaixo, foto de família em um desses “campos”, em cerca de 1910.
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O sertão do cangaço
O cangaço refere-se aos grupos de pessoas 
armadas que, com suas roupas e chapéus de couro, 
faziam assaltos, matavam opositores, enfim, viviam 
sob suas próprias regras. Esses homens e mulheres, 
os cangaceiros, estiveram muito presentes no ser-
tão nordestino entre os anos 1910 e 1940. A palavra 
“cangaço” faz referência a canga, peça de madeira 
que segura o boi pelo pescoço. É uma alusão à carga 
que os cangaceiros carregavam no corpo, a qual 
muitas vezes ultrapassava os vinte quilos.
De que maneira o cangaço estabelece rela-
ção com a história da pecuária e das secas no 
Nordeste? Para responder a essa questão é 
necessário estar atento ao duplo significado que 
o cangaço pode ter. 
É possível se reportar aos cangaceiros para 
fazer referência aos grupos de homens armados 
que prestavam serviço aos chefes políticos de 
dada localidade e que eram pagos para cumprir as 
ordens desses senhores. Esse tipo de grupo arma-
do já existia no Brasil há mais tempo, desde pelo 
menos o século XVIII. A historiadora Maria Isaura 
Pereira de Queiroz explica:
Qualquer dissensão, por pequena que fosse, no in-
terior de uma parentela, ou entre duas parentelas, 
imediatamente dava início a um conflito, que podia 
desenvolver-se na forma de uma “guerra de famí-
lias”, se estendendo por várias gerações. Assim, 
por exemplo, na luta entre Pereiras e Carvalhos, 
na zona de Pajeú de Flores, Pernambuco, a cada 
pequeno Pereira que nascia, aconselhavam seus 
avós, seus pais, seus padrinhos “que procurasse 
o seu Carvalho a quem devia liquidar”, o mesmo 
acontecia entre os Carvalhos e a pendência, ora 
violenta, ora larvada. […]
QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. História do cangaço. 
São Paulo: Global, 1997. p. 23.
Na Primeira República, essas lutas estavam 
diretamente ligadas à disputa oligárquica pelo 
domínio político local. Já os grupos de cangacei-
ros independentes surgiram mais tarde e lutavam 
em defesa de seus próprios interesses. Errantes 
e sem residência fixa, eram fugitivos da polícia e 
de grupos armados particulares que queriam seu 
extermínio. O mais famoso desses grupos, como 
veremos mais adiante, foi o liderado por Lampião 
entre 1920 e 1930. Esses grupos independentes 
eram uma resposta à miséria que se instalava no 
Nordeste principalmente nos períodos de seca.
Sobre a origem mais remota do cangaço, como 
já lembramos, devemos considerar que a própria 
história da colonização da região envolveu cons-
tantes conflitos entre a população indígena e os 
colonos pela posse da terra destinada à pecuária. 
Com isso, a utilização de armas e as lutas sangren-
tas entre indígenas e colonos eram comuns, assim 
como as brigas entre famílias. O ser humano do 
cangaço certamente nasceu dessa fusão cultural 
entre uma população indígena que resistia ao 
domínio e um grupo de colonizadores que lutava 
para conquistar terras a qualquer preço.
Os cangaceiros buscavam o enriquecimento 
pelo roubo, e se vingavam dos inimigos com vio-
lência e morte. Procuravam construir alianças que 
lhes garantissem segurança temporária. Uma das 
formas de os chefes locais evitarem o confronto 
com os cangaceiros era estabelecer alianças com 
o bando, que se transformavam em relações de 
compadrio. Conforme Maria Isaura P. de Queiroz:
Um dos melhores exemplos destas relações de 
aliança está no pacto implicitamente estabelecido 
entre Lampião e o poderoso chefe político do muni-
cípio de Jeremoabo, ao norte da Bahia, Cel. João Sá. 
Vangloriava-se João Sá de ser tão temido e respeita-
do, que o próprio Lampião, que tanto havia circulado 
pela região, nunca atacara as “suas” fazendas e 
a “sua” cidade. Na verdade, vários documentos 
demonstram que João Sá frequentava os acampa-
mentos de Lampião, principalmente o que estabe-
lecera no Raso da Catarina, sendo parceiro habitual 
das rodas de jogo que o chefe de cangaceiros ali 
organizava frequentemente. Este relacionamento 
se estreitara ainda mais porque João Sá aceitara 
ser padrinho de filhos de Lampião com Maria Bonita.
QUEIROZ, op. cit., p. 33.
Os bandoleiros também comprometiam comu-
nidades inteiras ao propagar o medo. Ameaçavam 
aqueles que se voltavam contra eles e premiavam 
com dinheiro e proteção os que estivessem do seu 
lado. Uma das atividades que exerciam era exata-
mente a venda de proteção a fazendeiros, com a 
qual o bando de Lampião ganhou muito dinheiro. 
Economicamente, aderir ao cangaço poderia ser 
uma forma de alcançar rendimento, coisa que o 
trabalho na terra ou outras atividades jamais pro-
porcionariam a um cidadão pobre. Os cangaceiros 
contavam com uma rede de colaboradores e pro-
tetores, os coiteiros, que informavam quando a 
polícia ou outro inimigo se aproximava.
Os inimigos do cangaço poderiam se alistar na polí-
cia ou aderir às volantes, grupo de soldados liderados 
por um tenente ou um sargento que perseguia os 
cangaceiros sem pertencer a um quartel fixo. Assim, 
o conflito ganhava dupla dimensão: de um lado, o 
grupo de cangaceiros assaltava, matava e ameaçava 
comunidades; de outro, as volantes e as polícias locais 
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O sertão do cangaço
O cangaço refere-se aos grupos de pessoas 
armadas que, com suas roupas e chapéus de couro, 
faziam assaltos, matavam opositores, enfim, viviam 
sob suas próprias regras. Esses homens e mulheres, 
os cangaceiros, estiveram muito presentes no ser-
tão nordestino entre os anos 1910 e 1940. A palavra 
“cangaço” faz referência a canga, peça de madeira 
que segura o boi pelo pescoço. É uma alusão à carga 
que os cangaceiros carregavam no corpo, a qual 
muitas vezes ultrapassava os vinte quilos.
De que maneira o cangaço estabelece rela-
ção com a história da pecuária e das secas no 
Nordeste? Para responder a essa questão é 
necessário estar atento ao duplo significado que 
o cangaço pode ter. 
É possível se reportar aos cangaceiros para 
fazer referência aos grupos de homens armados 
que prestavam serviço aos chefes políticos de 
dada localidade e que eram pagos para cumprir as 
ordens desses senhores. Esse tipo de grupo arma-
do já existia no Brasil há mais tempo, desde pelo 
menos o século XVIII. A historiadora Maria Isaura 
tantes conflitos entre a população indígena e os 
colonos pela posse da terra destinada à pecuária. 
Com isso, a utilização de armas e as lutas sangren-
tas entre indígenas e colonos eram comuns, assim 
como as brigas entre famílias. O ser humano do 
cangaço certamente nasceu dessa fusão cultural 
entre uma população indígena que resistia ao 
domínio e um grupo de colonizadores que lutava 
para conquistar terras a qualquer preço.
pelo roubo, e se vingavam dos inimigos com vio-
lência e morte. Procuravam construir alianças que 
lhes garantissem segurança temporária. Uma das 
formas de os chefes locais evitarem o confronto 
com os cangaceiros era estabelecer alianças com 
o bando, que se transformavam em relações de 
compadrio
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Lampião (à esquerda), em 1922, quando iniciou como chefe 
do cangaço. Na foto, tirada na Fazenda da Pedra, município de 
Princesa (PB), aparecem também Livino, Antônio Rosa e Antônio 
Ferreira, seus companheiros.
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ol
eç
ão
 p
ar
ti
cu
la
r
cometiam todotipo de violência em busca dos bandi-
dos e também para manter o domínio local.
Antônio Silvino foi um dos primeiros que 
formaram um desses grupos de cangaceiros inde-
pendentes. Nascido em 1875, em Pernambuco, era 
descendente de uma família tradicional da região. 
Em 1896, decidido a vingar a morte do pai, juntou-se 
a um bando já formado, do qual depois se tornou 
líder. Após liquidarem vários de seus inimigos, 
os bandoleiros prosseguiram lutando contra a 
polícia, promovendo assaltos e armando tocaias 
para autoridades e instituições governamentais. 
Silvino considerava as autoridades do governo, 
em todos os níveis, seu maior inimigo. Andava 
pelo sertão com um grupo pequeno, quase nunca 
superior a seis homens, fortemente armado. Em 
1912, tentou abandonar a vida de cangaceiro e 
pediu ao governo do Estado que perdoasse seus 
crimes. Como a resposta foi negativa, voltou a atuar 
como bandido. Cobrava impostos de comerciantes 
e negociantes, assaltava trens e não reconhecia 
nenhum tipo de autoridade legal. Em 1914, acabou 
sendo capturado no município de Taquaretinga (PE) 
pelas forças policiais lideradas por José Alvino, ex-
-comerciante que entrara para a polícia depois 
de ter sido assaltado por Antônio Silvino e que 
havia prometido capturar o cangaceiro. Silvino 
ficou preso por mais de vinte anos; libertado, foi 
morar com a esposa no Rio de Janeiro. Uma vez 
lá, solicitou emprego ao presidente Getúlio Vargas. 
Chegou mesmo a ser recebido pelo presidente, que 
lhe concedeu o emprego. Morreu em 1944.
Virgulino Ferreira da Silva, conhecido como 
Lampião, nasceu na fazenda de seus pais, no Vale 
do Pajeú, Pernambuco, em 1897. Era filho de um 
modesto fazendeiro que foi morar no estado per-
nambucano após matar inimigos no Ceará, sua terra 
natal. Depois de novos conflitos entre famílias, foi 
viver em Alagoas. Na cidade de Água Branca, seus 
filhos, incluindo Virgulino, começaram a participar 
de um grupo de cangaceiros. A polícia alagoana 
passou a perseguir os Ferreira da Silva após um 
ataque a uma vila. O pai de Lampião acabou sendo 
assassinado pela polícia. Em seguida morreu a 
mãe, e os irmãos regressaram para Pernambuco. 
Em 1918, Lampião ingressou no bando formado 
por Sinhô Pereira, descendente de família rica e 
influente de Pernambuco. Ganhou então o apelido 
por ser muito rápido no gatilho e porque de sua arma 
saía um constante clarão dos disparos, como um 
lampião. Em 1922, Sinhô Pereira abandonou a 
região e Lampião se tornou o chefe do bando.
A partir daí, o bando de Lampião começou a 
sobreviver de assaltos e das ameaças que fazia 
a fazendeiros e chefes locais. Temidos, os canga-
ceiros conseguiram estabelecer várias alianças, 
recebendo proteção de autoridades e fazendei-
ros. Quando se sentiam ameaçados, atacavam 
o inimigo e as pessoas que lhe eram próximas. 
Frequentemente Lampião enviava carta de cobran-
ça ou advertência a possíveis aliados ou inimigos. 
Em 1927, enviou uma carta de cobrança para o pre-
feito de Mossoró, Rodolfo Fernandes, na qual dizia:
Estando Eu ate aqui pretendo é dr [dinheiro]. Ja foi 
um a viso, ahi pa oSinhoris, si por acauso rezolver 
mi a mandar-me a importança qui aqui nos pedi, 
Eu envito di Entrada ahi porem não vindo esta 
Emportança eu entrarei ate ahi, penço qui adeus 
querer, eu entro, i vai aver muito estrago, por isto 
si viro dr eu não entro ahi mas nos resposte logo.
Apud MELLO, Frederico Pernambucano de. Quem foi 
Lampião. Recife/Zurique: Stahli, 1993. p. 142.
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cometiam todo tipo de violência em busca dos bandi-
 foi um dos primeiros que 
formaram um desses grupos de cangaceiros inde-
pendentes. Nascido em 1875, em Pernambuco, era 
descendente de uma família tradicional da região. 
Em 1896, decidido a vingar a morte do pai, juntou-se 
a um bando já formado, do qual depois se tornou 
líder. Após liquidarem vários de seus inimigos, 
os bandoleiros prosseguiram lutando contra a 
polícia, promovendo assaltos e armando tocaias 
para autoridades e instituições governamentais. 
Silvino considerava as autoridades do governo, 
em todos os níveis, seu maior inimigo. Andava 
pelo sertão com um grupo pequeno, quase nunca 
superior a seis homens, fortemente armado. Em 
1912, tentou abandonar a vida de cangaceiro e 
pediu ao governo do Estado que perdoasse seus 
crimes. Como a resposta foi negativa, voltou a atuar 
como bandido. Cobrava impostos de comerciantes 
e negociantes, assaltava trens e não reconhecia 
nenhum tipo de autoridade legal. Em 1914, acabou 
sendo capturado no município de Taquaretinga (PE) 
pelas forças policiais lideradas por José Alvino, ex-
a fazendeiros e chefes locais. Temidos, os canga-
ceiros conseguiram estabelecer várias alianças, 
recebendo proteção de autoridades e fazendei-
ros. Quando se sentiam ameaçados, atacavam 
o inimigo e as pessoas que lhe eram próximas. 
Frequentemente Lampião enviava carta de cobran-
ça ou advertência a possíveis aliados ou inimigos. 
Em 1927, enviou uma carta de cobrança para o pre-
feito de Mossoró, Rodolfo Fernandes, na qual dizia:
Estando Eu ate aqui pretendo é dr [dinheiro]. Ja foi 
um a viso, ahi pa oSinhoris, si por acauso rezolver 
mi a mandar-me a importança qui aqui nos pedi, 
Eu envito di Entrada ahi porem não vindo esta 
Emportança eu entrarei ate ahi, penço qui adeus 
querer, eu entro, i vai aver muito estrago, por isto 
si viro dr eu não entro ahi mas nos resposte logo.
Apud MELLO, Frederico Pernambucano de. Quem foi 
Lampião. Recife/Zurique: Stahli, 1993. p. 142.
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Em outra carta, de 1926, Lampião faz uma adver-
tência ao sargento José Antônio do Nascimento, 
delegado de Juazeiro do Norte (CE):
Eu lhi faço este, até não devia mi sujeitar a ti 
escrever porem sempre mando ti avizar pois eu 
soube qui no dia qui cheguei ahi na fazenda este-
ve prompto para vir mi voltar porem, Eu sempre 
lhi digo qui Voce crie juizo, e deixi de violencias, 
pois Eu venho chamado é por home, mesmo 
asim, com zuada não mi faz medo. Eu tenho visto 
é cousa forte, e não me asombra, portanto deve 
e tratar de fazer amigos não para fazer como diz 
voce. Sempre lhi avizo, qui E para depois não se-
arrepender e nada mais: não se zangue, isto E um 
conselho que lhi dou.
Apud MELLO, op. cit., p. 141.
O bando de Lampião era composto de um gran-
de número de homens e também mulheres – chegou 
a ter mais de 120 bandidos sob seu comando direto 
e mais de 300 divididos em outros grupos –, que 
se espalhavam por vários estados do Nordeste 
realizando diferentes ações. Quando necessário, 
dispersavam-se para escapar de uma luta que 
não podiam ganhar. Andavam à noite pelas matas 
para evitar serem vistos e apareciam sempre de 
surpresa. Maria Isaura Pereira de Queiroz conta:
Surgia inesperadamente nos povoados – como 
aconteceu em Souza, na Paraíba, em 1924. O ban-
do cortara previamente os fios do telégrafo, im-
possibilitando assim qualquer pedido de socorro 
para o exterior. Penetrando na vila, os cangaceiros 
pilharam as casas comerciais. Abasteceram-se 
em gêneros; envergaram roupas novas; organi-
zaram um baile; gozaram os favores de algumas 
mulheres que não lhes resistiram. Em seguida 
partiram, levando com eles um menino para car-
regar cobertores e bagagens – menino que mais 
tarde se tornou o cangaceiro Lua Branca.
QUEIROZ, op. cit., p. 49.
O historiador Frederico Pernambucano de 
Mello chama a atenção para a ostentação promo-
vida por Lampião. Com as cobranças e os saques 
realizados, ele conseguia sustentar o luxo. Explica 
o historiador:
Se a vestimenta dos bandoleiros do Nordeste 
sempre se mostrou imponente, a ponto de muitos 
jovens cederem à tentação de se ligar aos grupos 
por conta do fascínio quea beleza do trajo exercia 
sobre olhos habituados a cotidiano sem atrativos, 
a de Lampião refulgia num destaque que o tornava 
inconfundível em meio aos seus homens. Começa 
pelo tecido. Enquanto o brim mais comum para a 
confecção da calça e da túnica era a mescla azul ou 
o cáqui, ele preferia o tecido de cor grafite realçado 
por botões de ouro. Sobre a túnica, estreitadas por 
dobras e apresilhadas nas pontas, cingiam-se as 
cobertas em forma de X sobre o tórax. A de deitar e 
a de cobrir, como se dizia no costume. Ambas nor-
malmente em chita forrada, a estamparia de cores 
berrantes. As dele eram feitas em bramante da 
melhor qualidade […]. Os lenços de pescoço iam 
da seda pura de procedência inglesa ao tafetá fran-
cês. Estampados vivamente em cores fortes […]. 
Sem limite no amor ao ouro e às pedras preciosas, 
usava, exagerando a moda entre bandoleiros, anéis 
em quase todos os dedos das mãos, alguns com 
esmeralda, outros com rubi, outros ainda com 
brilhante solitário ou em chuveiro. Houve dedo que 
teve a honra de receber mais de um anel. Aliança, 
crucifixo, lapiseira, tesoura de unha, tudo de ouro 
puro. De ouro também as 15 moedas antigas de 
que se achava adornada a bandoleira do mosque-
tão, em cuja boca de cano se incrustavam duas 
alianças do mesmo metal.
MELLO, op. cit., p. 45-7.
Em 1926, Lampião foi chamado pelo padre 
Cícero para lutar contra a Coluna Prestes. 
Aceitou após promessa de que seria nomeado capi-
tão do exército e receberia uniformes e munição 
do governo federal. Isso não impediu, contudo, que 
seguisse depois sua vida como cangaceiro.
No final de 1930, Lampião juntou-se a Maria 
Bonita, que teria declarado amor a ele e dis-
posição de seguir com o bando. Foi a primeira 
mulher a ser admitida no grupo de cangaceiros. 
Depois disso, vários cangaceiros tiveram compa-
nheiras vivendo com o grupo. Maria Bonita e as 
outras mulheres lutavam com o bando, assumindo 
o papel de cangaceiras.
Nos anos 1930, Lampião e Maria Bonita insta-
laram-se em uma fazenda em Angico, no Sergipe. 
De lá ele comandava as várias células do grupo e 
participava de algumas incursões.
Frederico Pernambucano comenta:
[…] sem abandonar de todo os procedimentos 
velhíssimos do assalto direto e da venda de pro-
teção a fazendeiros e a quem quer que tivesse 
patrimônio a perder no sertão, troca o ataque 
frontal a cidades por uma espécie de imposto 
sobre transações imobiliárias. E ai de quem com-
prasse ou vendesse fazenda na região do baixo 
São Francisco sem comparecer com a cota fixada 
pela lei do cangaço. […] Nos anos finais da dé-
cada de [19]30, o cangaço sobrevivia menos pela 
força das armas que pela eficácia de relações 
de clientela e corrupção tecidas pela versatilidade 
extraordinária de seu chefe máximo.
MELLO, op. cit., p. 77 e 80.
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Em outra carta, de 1926, Lampião faz uma adver-
tência ao sargento José Antônio do Nascimento, 
delegado de Juazeiro do Norte (CE):
Eu lhi faço este, até não devia mi sujeitar a ti 
escrever porem sempre mando ti avizar pois eu 
soube qui no dia qui cheguei ahi na fazenda este-
ve prompto para vir mi voltar porem, Eu sempre 
lhi digo qui Voce crie juizo, e deixi de violencias, 
pois Eu venho chamado é por home, mesmo 
asim, com zuada não mi faz medo. Eu tenho visto 
é cousa forte, e não me asombra, portanto deve 
e tratar de fazer amigos não para fazer como diz 
voce. Sempre lhi avizo, qui E para depois não se-
arrepender e nada mais: não se zangue, isto E um 
conselho que lhi dou.
Apud MELLO, op. cit., p. 141.
O bando de Lampião era composto de um gran-
de número de homens e também mulheres – chegou 
a ter mais de 120 bandidos sob seu comando direto 
e mais de 300 divididos em outros grupos –, que 
se espalhavam por vários estados do Nordeste 
realizando diferentes ações. Quando necessário, 
dispersavam-se para escapar de uma luta que Cícero
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Cangaceiros e cangaceiras do bando de 
Lampião, em foto de cerca de 1936.
Cartaz de 1930 anuncia a recompensa oferecida 
pela morte ou captura de Lampião, o bandido mais 
procurado pelas autoridades nordestinas na época.
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Em Angico, Lampião foi traído por um vaqueiro 
que denunciou quem sabia seu paradeiro. Pedro de 
Cândida, coiteiro de Lampião, foi preso em 1938 e 
pressionado a revelar o esconderijo e a acompanhar 
a polícia até o local. Lá chegando, os policiais sur-
preenderam parte do bando e Lampião. Todos foram 
fuzilados e decapitados, e suas cabeças expostas 
em várias cidades nordestinas, como Piranhas (AL), 
Poço Redondo (SE) e Maceió (AL). Foram levadas 
ao Rio de Janeiro (RJ) e, por fim, a Salvador (BA), 
onde foram mumificadas.
A morte dos cangaceiros insere-se no contexto 
da implementação da ditadura do Estado Novo, 
quando uma nova ordem jurídica e um maior con-
trole do Estado sobre a vida local foram estabele-
cidos. Isso favoreceu a redução da corrupção nos 
órgãos do governo e limitou a ação dos coronéis.
Vários subgrupos ligados a Lampião que esca-
param da chacina se entregaram à polícia. Contudo 
um deles, chefiado por Corisco, continuou em 
ação. Em 1932, o grupo de Lampião já havia se 
dividido em três subgrupos: um sob o comando 
de Lampião, outro sob o comando de Virgínio e o 
último sob o comando de Corisco. Esses grupos 
realizavam ataques simultâneos, o que confundia 
as autoridades. Depois, reuniam-se para combinar 
novas estratégias, fazer novos planos e partilhar o 
que tinham saqueado. Após 1937, Corisco começou 
a agir por conta própria, afastando-se aos poucos 
de Lampião. Depois da morte deste, passou a per-
seguir seus supostos delatores e matadores. Vários 
foram assassinados até que, em 1940, o próprio 
Corisco foi morto em uma perseguição.
Concluindo, podemos afirmar que o cangaço 
tinha relação com brigas locais entre parentes 
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Monumento a padre Cícero 
em Juazeiro do Norte (CE), 
em foto de 2007.
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e vizinhos, mas também com disputas políticas, 
inserindo-se nesse universo na medida em que 
estabelecia alianças, debelava inimigos e escolhia 
aliados. No entanto, os cangaceiros independentes 
não foram prestadores de serviço dos homens 
ricos; ao contrário, determinavam as alianças con-
forme seus interesses. Para Maria Isaura Pereira de 
Queiroz, o cangaço podia funcionar, em algumas 
circunstâncias, como fiel da balança da luta entre 
duas grandes parentelas.
A decadência do açúcar e do algodão como ati-
vidades econômicas no final do século XIX, a crise 
da borracha na Amazônia nas primeiras décadas 
do século XX e a falta de empregos em um sertão 
que crescia em termos populacionais certamente 
colaboraram para que surgissem os cangaceiros 
independentes. Nesse sentido, o cangaço foi uma 
alternativa à miséria, embora nunca tenha se con-
figurado como movimento social que lutava contra 
a fome ou a pobreza extrema. Em 1920, um cordel 
de José Martins de Ataíde denunciava o destino 
do nordestino: “Pedir esmola hoje em dia / Não é 
boa profissão, / Então ele deixa a vida / Segue a pé 
para o sertão, / Somente pra se vingar / Vai pedir 
pra se alistar / No grupo de Lampião” (citado em: 
MELLO, op. cit., p. 59).
O sertão do padre Cícero
Não se pode deixar de considerar o sertão como 
espaço do sagrado. Palco de movimentos messiâni-
cos como Canudos, nessa terra árida foram e são 
frequentes os peregrinos, os beatos e os romeiros. 
O padre Cícero, chamado também de Padim 
Ciço, representa esse universo da crença popular, 
sendo uma das figuras religiosas mais cultuadasno 
interior nordestino até os dias atuais.
Cícero Romão Batista nasceu no município do 
Crato, no Ceará, em 1844. Ordenou-se padre em 
1870 e, dois anos depois, mudou-se para Juazeiro do 
Norte, onde permaneceu pelo resto da vida. Lá res-
taurou a capela de Nossa Senhora das Dores e pas-
sou a desenvolver um trabalho pastoral. Pregava 
em missões, participava de novenas e organizava 
festas religiosas e procissões. Sua popularidade 
foi aumentando ano após ano, sendo considerado 
um religioso despretensioso e dedicado ao povo.
Em 1889, durante uma missa, a lavadeira Maria 
de Araújo recebeu o sacramento e foi ao chão. A 
hóstia em sua boca parecia estar envolvida por 
um líquido cor de sangue. Esse acontecimento 
ficou conhecido como o “milagre de Juazeiro”. Isso 
ainda teria ocorrido outras vezes, e ficou provado, 
por um grupo de médicos, que ela não mordia a 
língua nem utilizava qualquer artifício. O fenômeno 
só acontecia quando o padre Cícero celebrava a 
missa. A comunidade local interpretou o episódio 
como uma alusão ao derramamento de sangue de 
Jesus Cristo para a salvação dos seres humanos, e 
multidões começaram a frequentar o vilarejo para 
ver o fenômeno.
Com o constante crescimento das romarias a 
Juazeiro do Norte, o bispado cearense interveio e 
cobrou explicações do padre Cícero, pois a Igreja 
Católica passava por um processo de romanização, 
ou seja, de negação das práticas locais e afirma-
ção das orientações do Vaticano para uniformizar 
as condutas. Em 1892, autoridades eclesiásticas 
consideraram que o ocorrido em Juazeiro não se 
tratava de um milagre, e ordenaram que se apre-
sentasse uma nova interpretação. No entanto, as 
romarias não cessaram, ampliando a crença popu-
lar no milagre. Nesse mesmo ano, o padre Cícero foi 
suspenso, proibido de pregar a religião católica. Em 
1896, persistindo as romarias e as missas, a Igreja 
Católica ordenou que ele se retirasse de Juazeiro. 
O padre foi para Salgueiro (PE) e, em 1898, viajou 
para Roma a fim de se explicar ao Santo Ofício. Lá 
foi julgado e o milagre, mais uma vez, condenado. 
No entanto, não foi expulso da Igreja. Novamente 
no Brasil, não conseguiu fazer com que o bispado 
cearense aceitasse seu retorno a Juazeiro. Voltou 
para a cidade, entretanto não reatou com a Igreja.
Nos muitos anos que este-
ve sob o comando da Igreja 
em Juazeiro, padre Cícero 
recebeu inúmeras doações 
de fiéis, que fizeram dele 
um homem de respeitá-
vel patrimônio. Tinha 
muitas terras, gado e 
comercializava vários 
produtos, entre eles 
borracha, cana-de-
-açúcar e algodão.
Monumento a padre Cícero 
em Juazeiro do Norte (CE), 
em foto de 2007.
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Nos muitos anos que este-
ve sob o comando da Igreja 
em Juazeiro, padre Cícero 
recebeu inúmeras doações 
de fiéis, que fizeram dele 
um homem de respeitá-
vel patrimônio. Tinha 
muitas terras, gado e 
comercializava vários 
produtos, entre eles 
borracha, cana-de-
-açúcar e algodão.
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e vizinhos, mas também com disputas políticas, 
inserindo-se nesse universo na medida em que 
estabelecia alianças, debelava inimigos e escolhia 
aliados. No entanto, os cangaceiros independentes 
não foram prestadores de serviço dos homens 
ricos; ao contrário, determinavam as alianças con-
forme seus interesses. Para Maria Isaura Pereira de 
Queiroz, o cangaço podia funcionar, em algumas 
circunstâncias, como fiel da balança da luta entre 
duas grandes parentelas.
A decadência do açúcar e do algodão como ati-
vidades econômicas no final do século XIX, a crise 
da borracha na Amazônia nas primeiras décadas 
do século XX e a falta de empregos em um sertão 
que crescia em termos populacionais certamente 
colaboraram para que surgissem os cangaceiros 
independentes. Nesse sentido, o cangaço foi uma 
alternativa à miséria, embora nunca tenha se con-
figurado como movimento social que lutava contra 
a fome ou a pobreza extrema. Em 1920, um cordel 
de José Martins de Ataíde denunciava o destino 
do nordestino: “Pedir esmola hoje em dia / Não é 
boa profissão, / Então ele deixa a vida / Segue a pé 
língua nem utilizava qualquer artifício. O fenômeno 
só acontecia quando o padre Cícero celebrava a 
missa. A comunidade local interpretou o episódio 
como uma alusão ao derramamento de sangue de 
Jesus Cristo para a salvação dos seres humanos, e 
multidões começaram a frequentar o vilarejo para 
ver o fenômeno.
Juazeiro do Norte, o bispado cearense interveio e 
cobrou explicações do padre Cícero, pois a Igreja 
Católica passava por um processo de romanização, 
ou seja, de negação das práticas locais e afirma-
ção das orientações do Vaticano para uniformizar 
as condutas. Em 1892, autoridades eclesiásticas 
consideraram que o ocorrido em Juazeiro não se 
tratava de um milagre, e ordenaram que se apre-
sentasse uma nova interpretação. No entanto, as 
romarias não cessaram, ampliando a crença popu-
lar no milagre. Nesse mesmo ano, o padre Cícero foi 
suspenso, proibido de pregar a religião católica. Em 
1896, persistindo as romarias e as missas, a Igreja 
Católica ordenou que ele se retirasse de Juazeiro. 
O padre foi para Salgueiro (PE) e, em 1898, viajou 
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Sem o apoio da Igreja, aliou-se aos coronéis 
locais. Os muitos romeiros que passaram a fre-
quentar a região eram encaminhados por ele para 
servirem como trabalhadores nas fazendas locais, 
resolvendo o grave problema de mão de obra 
enfrentado pelos proprietários. Em 1911, Juazeiro foi 
emancipada do município do Crato, e padre Cícero 
foi indicado para o cargo de prefeito pelo governador 
Nogueira Accioly, líder oligarca local. Transformado 
em importante líder político da região do Cariri, 
intermediou negociação para que cessassem as 
disputas armadas entre os vários coronéis locais. Em 
1912, foi eleito vice-presidente do Ceará e ampliou 
sua influência política sobre o Nordeste. Em 1914, 
liderou a chamada Sedição de Juazeiro, que 
depôs o governador. Depois voltou a ser prefeito de 
Juazeiro, deixando o cargo somente em 1927.
Nos anos 1930, perdeu espaço político após a 
ascensão de Getúlio Vargas. Tentou ainda recuperar 
o direito de sacerdócio, mas não obteve sucesso. 
Padre Cícero faleceu em 1934, aos 90 anos, causando 
grande comoção popular. As romarias continuaram 
e se intensificaram nos anos seguintes, e ele foi 
transformado em mito popular relacionado ao milagre 
original. Juazeiro do Norte se transformou em uma 
cidade-santuário, e até hoje milhares de romeiros 
visitam a grande imagem do padre Cícero. 
Em 2002, cerca de 500 mil pessoas participaram 
da romaria que se iniciou em 1.º de setembro e se 
estendeu até o dia 15 do mesmo mês. Fiéis das 
mais diferentes regiões costumam ir até Juazeiro 
do Norte para pedir pelas chuvas no sertão e pela 
cura de doenças. Nesse mesmo ano, uma comissão 
da Igreja deu início a um processo para reabilitar o 
padre Cícero, o que abriria caminho para, posterior-
mente, tentar beatificá-lo e canonizá-lo. Em 2006, o 
Vaticano recebeu um dossiê de nove volumes sobre 
a vida do padre Cícero. As informações, preparadas 
por especialistas em teologia, foram anexadas ao 
processo de canonização.
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Chapéu de couro de chefe 
cangaceiro, adornado com 
a efígie de Pedro II, flor de 
lis e signos de salomão. 
Óculos de alcance alemão com estojo em couro 
e liga de prata pertencentes a Lampião.
Alpercatas de ra-
bicho usadas por 
cangaceiros. 
Observe as imagens e leia o texto a seguir. Depois, responda as questões do Roteiro de trabalho.
Pesquisador estuda vestuário dos bandos
Os cangaceiros de Lampião contrariavamuma regra básica das táticas de guerrilha adotadas no século XX: em vez de usar um figurino discreto para se confundir com a caatinga, abu-savam do estilo espalhafatoso e chamativo, a começar pelos chapéus de couro, de aba larga, 
com enfeites e moedas de ouro coladas, refletindo o sol do sertão.
Esse vestuário, que incluía punhais de mais de 1 metro de lâmina e um total de 40 quilos de 
equipamento, foi estudado pelo pesquisador Antonio Amaury Corrêa de Araújo, autor de sete 
livros sobre cangaço e compadre de Sérgia Maria da Conceição, a Dadá, mulher de Corisco, con-
siderada a “estilista” do bando. Apesar de esse estilo ter ficado mais conhecido graças às fotos do 
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Sem o apoio da Igreja, aliou-se aos coronéis 
locais. Os muitos romeiros que passaram a fre-
quentar a região eram encaminhados por ele para 
servirem como trabalhadores nas fazendas locais, 
resolvendo o grave problema de mão de obra 
enfrentado pelos proprietários. Em 1911, Juazeiro foi 
emancipada do município do Crato, e padre Cícero 
foi indicado para o cargo de prefeito pelo governador 
Nogueira Accioly, líder oligarca local. Transformado 
em importante líder político da região do Cariri, 
intermediou negociação para que cessassem as 
disputas armadas entre os vários coronéis locais. Em 
1912, foi eleito vice-presidente do Ceará e ampliou 
sua influência política sobre o Nordeste. Em 1914, 
, que 
depôs o governador. Depois voltou a ser prefeito de 
Nos anos 1930, perdeu espaço político após a 
ascensão de Getúlio Vargas. Tentou ainda recuperar 
o direito de sacerdócio, mas não obteve sucesso. 
Padre Cícero faleceu em 1934, aos 90 anos, causando 
grande comoção popular. As romarias continuaram 
e se intensificaram nos anos seguintes, e ele foi 
transformado em mito popular relacionado ao milagre 
original. Juazeiro do Norte se transformou em uma 
cidade-santuário, e até hoje milhares de romeiros 
visitam a grande imagem do padre Cícero. 
Em 2002, cerca de 500 mil pessoas participaram 
da romaria que se iniciou em 1.º de setembro e se 
estendeu até o dia 15 do mesmo mês. Fiéis das 
mais diferentes regiões costumam ir até Juazeiro 
do Norte para pedir pelas chuvas no sertão e pela 
cura de doenças. Nesse mesmo ano, uma comissão 
da Igreja deu início a um processo para reabilitar o 
padre Cícero, o que abriria caminho para, posterior-
mente, tentar beatificá-lo e canonizá-lo. Em 2006, o 
Vaticano recebeu um dossiê de nove volumes sobre 
a vida do padre Cícero. As informações, preparadas 
por especialistas em teologia, foram anexadas ao 
processo de canonização.
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1. De que maneira o vestuário dos cangaceiros, conforme o texto, era adequado à realidade em que 
viviam?
2. Qual era a representação simbólica do vestuário de Lampião para outros cangaceiros e para 
parte da população?
3. No texto, que relações se estabelecem entre o poder e o vestuário?
árabe Benjamim Abrahão, que conviveu com o grupo entre 1934 e 1935, os cangaceiros nem sempre 
usaram roupas vistosas e coloridas. No início de sua história de bandoleiro, Lampião trajava paletó.
Depois do encontro com padre Cícero, em 1926, eles passaram a usar o uniforme de mescla azul-
-acinzentada dos batalhões patrióticos, grupos formados para combater a Coluna Prestes. Na época, 
Lampião ganhou até patente de capitão para enfrentar a coluna.
Passatempo – O hábito de usar enfeites nos chapéus, de acordo com Araújo, surgiu em 1934, quando 
Dadá, grávida, estava no Raso da Catarina, região desértica da Bahia, e para passar o tempo começou a 
bordar estrelas e outros objetos em bornais. Lampião gostou e pediu dois pares. A partir daí, vários can-
gaceiros passaram a usar os enfeites. “Lampião era o manequim do grupo. Há casos de cangaceiros que, 
mesmo sem ter problema de visão, usavam óculos somente porque tinham visto ele com um.”
A começar pelo chapéu, o equipamento se assemelhava a uma armadura para enfrentar as difíceis 
condições de vida na caatinga. No pescoço, talvez como uma lembrança dos embates com a Coluna 
Prestes, os cangaceiros usavam lenços vermelhos, presos por um anel, típicos dos gaúchos. Dois 
pedaços de pano eram trançados em “X” no corpo. Um era usado para fazer a torda (barraca) e 
outro um lençol. Em quatro bornais coloridos de pano, os cangaceiros levavam carne assada, farinha 
e rapadura, além de mudas de roupa e munição.
Nas borrachas – espécies de cantis feitos de couro –, seguia a água. Na cintura, as cartucheiras 
viajavam cheias de balas para pistola, revólver e fuzil. Presos ao cinto, além das pistolas Parabellum, 
ficavam os punhais. As armas longas preferidas eram os fuzis Winchester – iguais aos dos filmes de 
faroeste americanos – conhecidos no Nordeste como rifle cruzeta.
Poder – As alpercatas eram feitas de couro, presas com rebites de metal e muito resistentes, 
para facilitar a caminhada pelas veredas. Havia ainda o hábito de usar anéis de ouro e prata, além 
de perfume. “Como os cantores de pagode e os jogadores de futebol de hoje, os cangaceiros eram 
sinônimo de poder e dinheiro. Dá para imaginar o que significava para as mulheres a chegada deles 
a vilas paupérrimas do sertão”, ressalta Araújo.
PESQUISADOR estuda vestuário dos bandos. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 9 jun. 2002. 
Disponível em: <www.estadao.com.br>. Acesso em: 1 jun. 2013.
DOCUMENTOS
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Leia atentamente os textos a seguir e faça as atividades propostas no Roteiro de trabalho.
A normalista (1892)
Adolfo Caminha
F oi numa tarde infinitamente calma de dezembro de 1877 que o capitão Bernardino de Mendonça chegou a Fortaleza pela estrada nova de Mecejana, depois de penosíssima viagem.A seca dizimava populações inteiras no sertão. Famílias sucumbiam de fome e de peste, cas-
tigadas por um sol de brasa. Centenas de foragidos, arrastando os esqueletos seminus, cruzavam-se dia 
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árabe Benjamim Abrahão, que conviveu com o grupo entre 1934 e 1935, os cangaceiros nem sempre 
usaram roupas vistosas e coloridas. No início de sua história de bandoleiro, Lampião trajava paletó.
Depois do encontro com padre Cícero, em 1926, eles passaram a usar o uniforme de mescla azul-
-acinzentada dos batalhões patrióticos, grupos formados para combater a Coluna Prestes. Na época, 
Lampião ganhou até patente de capitão para enfrentar a coluna.
Passatempo – O hábito de usar enfeites nos chapéus, de acordo com Araújo, surgiu em 1934, quando 
Dadá, grávida, estava no Raso da Catarina, região desértica da Bahia, e para passar o tempo começou a 
bordar estrelas e outros objetos em bornais. Lampião gostou e pediu dois pares. A partir daí, vários can-
gaceiros passaram a usar os enfeites. “Lampião era o manequim do grupo. Há casos de cangaceiros que, 
mesmo sem ter problema de visão, usavam óculos somente porque tinham visto ele com um.”
A começar pelo chapéu, o equipamento se assemelhava a uma armadura para enfrentar as difíceis 
condições de vida na caatinga. No pescoço, talvez como uma lembrança dos embates com a Coluna 
Prestes, os cangaceiros usavam lenços vermelhos, presos por um anel, típicos dos gaúchos. Dois 
pedaços de pano eram trançados em “X” no corpo. Um era usado para fazer a torda (barraca) e 
outro um lençol. Em quatro bornais coloridos de pano, os cangaceiros levavam carne assada, farinha 
e rapadura, além de mudas de roupa e munição.
Nas borrachas – espécies de cantis feitos de couro –, seguia a água. Na cintura, as cartucheiras 
viajavam cheias de balas para pistola, revólvere fuzil. Presos ao cinto, além das pistolas Parabellum, 
ficavam os punhais. As armas longas preferidas eram os fuzis Winchester – iguais aos dos filmes de 
faroeste americanos – conhecidos no Nordeste como rifle cruzeta.
Poder – As alpercatas eram feitas de couro, presas com rebites de metal e muito resistentes, 
para facilitar a caminhada pelas veredas. Havia ainda o hábito de usar anéis de ouro e prata, além 
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S e noite no areial incandescente dos caminhos – abantesmas [fantasmas] da desgraça gemendo preces 
ao Deus dos cristãos, numa voz rouquenha, quase soluçada. Era um horror de misérias e aflições.
Bernardino de Mendonça foi dos últimos que abalaram do interior da província para o litoral na 
pista dos socorros públicos. Totalmente desiludido, quase arruinado, vendo todos os dias passarem 
pela sua porta, em Campo Alegre, magotes de emigrantes andrajosos que batiam do sertão num 
êxodo pungente, acossados pela necessidade, resolvera também ir-se com a família para Fortaleza, 
embora mais tarde fosse obrigado a procurar outros climas.
Era homem sadio, vigoroso, excessivamente trabalhador e dedicado. Contava a esse tempo qua-
renta anos, nada mais nada menos, e dizia com soberba, gabando o peito rijo, não se trocar por muito 
rapazola pimpão que aí vive nas cidades grandes caindo de tédio e preguiça, cheio de vícios secretos. 
Corria-lhe nas veias largas e azuis de matuto inteligente puro e abundante sangue português. Nunca 
sofrera a mais leve dor de cabeça. Conhecia a sífilis por ouvir falar. Casara muito moço, imberbe 
ainda, aos dezesseis anos, com uma prima colateral, D. Eulália de Mendonça Furtado, de uma famí-
lia de Furtados da Telha. Até então só tivera três filhos. […]
Mendonça abalara de Campo Alegre quando de todo lhe tinham fugido as esperanças d’inverno 
seguro, depois de ter visto estrebuchar a última rês no solo duro e estéril.
Todas as tardes, invariavelmente, da janela que dizia para o poente, ou em pé na varanda, con-
sultava o tempo, os horizontes cor de cinza, o céu d’um azul diáfano de safira, procurando bispar 
na inclemência da atmosfera imóvel a sombra fresca de uma nuvem, um indício qualquer de chuva.
Surpreendia, às vezes, crivando a transparência do ar, revoadas d’aves de arribação. Recolhia-se 
animado. Mas os dias passavam quentes e secos.
[…]
E pouco a pouco aquele estado de coisas foi atuando forte no espírito do sertanejo, como as vibra-
ções d’um clarim que dá sinal de marcha; pouco a pouco foi se convencendo que aquilo era uma 
situação impossível em que ele não devia absolutamente permanecer.
Os açudes estorricavam mostrando os leitos gretados pelo sol, duros como pedra; juritis encadea-
das iam espapaçar ofegantes no chão, defronte da casa; cascavéis chocalhavam no alpendre, ocultas, 
invisíveis, e todas as coisas tinham um aspecto desolado e lúgubre que se comunicava às criaturas.
Passava gente todo santo dia, a pé, de trouxa ao ombro, arrastando-se pesadamente.
Uma vez, ele próprio, Mendonça, vira de perto a agonia lenta de uma mulher asfixiada pela 
elefantíase, pernas inchadas, ventre inchado, rosto inchado – horrível.
Adolfo Caminha (1867-1897) nasceu em Aracati (CE), mas se mudou para o Rio de Janeiro ainda criança. Ingressou na 
Marinha em 1883, chegou ao posto de segundo-tenente e depois saiu da corporação. Seu primeiro romance, considerado uma 
obra naturalista, foi A normalista, publicado em 1893. No ano seguinte, após uma visita aos Estados Unidos, publicou No país 
dos ianques. Em 1895, publicou o livro Bom crioulo, no qual aborda a questão do homossexualismo. Seu último romance foi 
Tentação, publicado em 1896, um ano antes de falecer vítima da tuberculose.
Museu Casa de Maria 
Bonita. Paulo Afonso 
(BA), 2010.
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e noite no areial incandescente dos caminhos – abantesmas [fantasmas] da desgraça gemendo preces 
ao Deus dos cristãos, numa voz rouquenha, quase soluçada. Era um horror de misérias e aflições.
Bernardino de Mendonça foi dos últimos que abalaram do interior da província para o litoral na 
pista dos socorros públicos. Totalmente desiludido, quase arruinado, vendo todos os dias passarem 
pela sua porta, em Campo Alegre, magotes de emigrantes andrajosos que batiam do sertão num 
êxodo pungente, acossados pela necessidade, resolvera também ir-se com a família para Fortaleza, 
embora mais tarde fosse obrigado a procurar outros climas.
Era homem sadio, vigoroso, excessivamente trabalhador e dedicado. Contava a esse tempo qua-
renta anos, nada mais nada menos, e dizia com soberba, gabando o peito rijo, não se trocar por muito 
rapazola pimpão que aí vive nas cidades grandes caindo de tédio e preguiça, cheio de vícios secretos. 
Corria-lhe nas veias largas e azuis de matuto inteligente puro e abundante sangue português. Nunca 
sofrera a mais leve dor de cabeça. Conhecia a sífilis por ouvir falar. Casara muito moço, imberbe 
ainda, aos dezesseis anos, com uma prima colateral, D. Eulália de Mendonça Furtado, de uma famí-
lia de Furtados da Telha. Até então só tivera três filhos. […]
Mendonça abalara de Campo Alegre quando de todo lhe tinham fugido as esperanças d’inverno 
seguro, depois de ter visto estrebuchar a última rês no solo duro e estéril.
Todas as tardes, invariavelmente, da janela que dizia para o poente, ou em pé na varanda, con-
sultava o tempo, os horizontes cor de cinza, o céu d’um azul diáfano de safira, procurando bispar 
na inclemência da atmosfera imóvel a sombra fresca de uma nuvem, um indício qualquer de chuva.
Surpreendia, às vezes, crivando a transparência do ar, revoadas d’aves de arribação. Recolhia-se 
animado. Mas os dias passavam quentes e secos.
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1. Para Adolfo Caminha, qual é o destino dos homens que vivem sob a seca? 
2. De que maneira esse autor descreve a vida do sertanejo e a região das secas?
3. Com base nos versos de Rodolfo Coelho, pode-se estabelecer alguma relação entre a história das 
secas e a história do cangaço, mais especificamente a história de Lampião?
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Cordel é um gênero literário originário dos contadores de histórias orais que se disseminaram por diferentes regiões do Nor-
deste desde o século XIX. Essas histórias eram registradas e impressas em folhetos que organizavam a narrativa em forma de 
verso. A expressão “cordel” tem origem no fato de os folhetos serem inicialmente vendidos em varais estendidos nas feiras das 
cidades. Os cordéis podem versar sobre temas do cotidiano, fazer referência a temas históricos, a atos heroicos, histórias de 
amor, crimes ou contar a história de uma pessoa. No cordel transcrito nesta seção, o autor alagoano Rodolfo Coelho Cavalcante 
conta a história do encontro dele e de seu irmão com Lampião. Ele era palhaço de circo e, com seu irmão, encontrou Lampião 
por acaso em uma das estradas do sertão, em meados dos anos 1930. Nascido em 1917, Rodolfo começou a percorrer o Norte 
e o Nordeste ainda adolescente. Vivia de biscates e, mais tarde, começou a trabalhar como palhaço. Dedicando-se aos cordéis, 
escreveu cerca de dois mil deles até 1986, quando faleceu.
Decididamente era tempo de arrumar também “os seus cacos” e – adeus, Campo Alegre, adeus, 
carnaubais rumorejantes; adeus, igrejinha branca! Ir-se-ia fazer pela vida em qualquer parte, em 
Fortaleza,onde felizmente contava amigos políticos, correligionários dedicados que certamente lhe 
não recusariam uma acha de lenha, uma pouca d’água fresca, um punhado de farinha… Demais era 
homem, graças a Deus, forte como um novilho, tinha sangue nas veias – trabalharia!
[…] Não havia outro recurso, outro jeito senão marchar para a capital, para onde quer que fosse, 
como tantos outros infelizes empolgados pela miséria. Iria, que remédio? bater à porta de um amigo, de 
um correligionário, de um cristão. Lembrou-se então do “compadre João da Mata”, padrinho de Maria.
Muito bom: iria ao compadre.
CAMINHA, Adolfo. A normalista. Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa. 
Disponível em: <www.bibvirt.futuro.usp.br/index.php>. Acesso em: 1 jun. 2013.
O encontro de Rodolfo Cavalcante com Lampião (trecho de cordel)
Rodolfo Coelho Cavalcante
Foi Virgulino Ferreira
Pobre homem injustiçado
E por isto vingativo
Se tornou um acelerado,
Se a Justiça fosse reta
Nem Jornalista ou Poeta
O teria decantado.
Lampião era um bom filho
Nunca se pode negar,
Foi também bom companheiro
Como pode se provar
No epílogo da desdita
Junto a Maria Bonita
Os seus dias foi findar.
O homem por mais cruel
Tem seu lado positivo
por ser Centelha Divina,
E enquanto ele for vivo
Há esperança divina
De su’alma cristalina
Ter um rumo objetivo.
Embora sendo criança
Com meus 15 anos de idade
Pude ver em Lampião
Vítima da sociedade,
Talvez ele em outro meio
(Posso dizer sem receio)
Era útil à humanidade!
Não vi a hiena feroz
Nem o leão devorador,
Ao contrário: vi um ser
Realmente sofredor
Que só andava assustado
E para não ser caçado
Matava seja quem for…
CAVALCANTE, Rodolfo Coelho. O encontro 
de Rodolfo Cavalcante com Lampião Virgulino. 
Salvador: [s. n.], 1973.
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Decididamente era tempo de arrumar também “os seus cacos” e – adeus, Campo Alegre, adeus, 
carnaubais rumorejantes; adeus, igrejinha branca! Ir-se-ia fazer pela vida em qualquer parte, em 
Fortaleza, onde felizmente contava amigos políticos, correligionários dedicados que certamente lhe 
não recusariam uma acha de lenha, uma pouca d’água fresca, um punhado de farinha… Demais era 
homem, graças a Deus, forte como um novilho, tinha sangue nas veias – trabalharia!
[…] Não havia outro recurso, outro jeito senão marchar para a capital, para onde quer que fosse, 
como tantos outros infelizes empolgados pela miséria. Iria, que remédio? bater à porta de um amigo, de 
um correligionário, de um cristão. Lembrou-se então do “compadre João da Mata”, padrinho de Maria.
Muito bom: iria ao compadre.
CAMINHA, Adolfo. A normalista.
Disponível em: <www.bibvirt.futuro.usp.br/index.php>. Acesso em: 1 jun. 2013.
O encontro de Rodolfo Cavalcante com Lampião (trecho de cordel)
Rodolfo Coelho Cavalcante
Foi Virgulino Ferreira
Pobre homem injustiçado
E por isto vingativo
Se tornou um acelerado,
Se a Justiça fosse reta
Nem Jornalista ou Poeta
O teria decantado.
De su’alma cristalina
Ter um rumo objetivo.
Embora sendo criança
Com meus 15 anos de idade
Pude ver em Lampião
Vítima da sociedade,
Talvez ele em outro meio
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A PESQUISA
L evante informações sobre as últimas secas ocorridas na região Nordeste. Com base nessa pesquisa, tente responder às seguintes questões:
1. Ocorreram avanços para minimizar esse problema em relação ao que acontecia até 
a primeira metade do século XX? 
• Como tem sido a atuação dos governos local e federal nessa situação? 
• Qual(is) é(são) o(s) obstáculo(s) para solucionar o problema das secas? 
• Que soluções deram resultados positivos? 
Não se esqueça de consultar pelo menos duas fontes, pois tanto os dados como as interpretações 
podem ser diferentes conforme o autor da publicação. Depois, elabore um texto com base nos 
resultados obtidos, expondo suas conclusões sobre o problema das secas no Brasil contemporâneo.
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Nordeste, Nordestes: retratos contemporâneos
De forma geral, o Nordeste tem sido retratado nas mídias como o espaço das secas, dos retirantes, do mando e clientelismo das elites políticas e econômicas e de uma população desvalida, em especial no sertão do semiárido. Com efeito, é preciso considerar que ainda 
existe uma elevada concentração regional de recursos, em favor de áreas mais modernizadas do 
Centro-Sul. Se comparado às outras regiões brasileiras, de fato é no Nordeste onde estão os mais 
baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), as taxas de mortalidade infantil mais elevadas 
e os maiores bolsões de pobreza. 
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2011, realizada pelo IBGE, 
mostram que a região, apesar do recuo nas taxas de analfabetismo de jovens e adultos, ainda apre-
senta os percentuais mais elevados do país, em especial nas faixas de 40-49 anos e de 50 anos ou 
mais. O número médio de anos de estudo da região (seis anos) também ficou abaixo das demais. 
No Sudeste, por exemplo, a média registrada em 2011 foi de oito anos. O rendimento médio mensal 
também foi o mais baixo do país.
Entretanto, apesar dos obstáculos, o Sertão Nordestino é a região semiárida mais povoada do 
planeta. É preciso refletir também sobre até que ponto esse quadro social regional, de reconhecidas 
dificuldades, retrata a realidade complexa desta região brasileira no período atual. “Nordeste” ou 
“Nordestes”? É o que veremos a seguir, com base na análise de alguns temas.
1. Em grupo, escolham um núcleo de desenvolvimento econômico-social da região Nordeste. 
Conversem com os outros grupos para não escolher o mesmo tema, o que possibilitará, ao final 
da pesquisa, que a classe monte um amplo painel sobre novas realidades econômico-sociais da 
região. Vejam algumas sugestões de objetos de estudo:
• Campina Grande (PB) e Ilhéus (BA): constituição de polos tecnológicos, com empresas 
industriais, universidades e centros de pesquisa. Desenvolvimento em tecnologias da infor-
mação e, em Ilhéus, também de eletroeletrônicos.
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evante informações sobre as últimas secas ocorridas na região Nordeste. Com base nessa evante informações sobre as últimas secas ocorridas na região Nordeste. Com base nessa 
pesquisa, tente responder às seguintes questões:
1. Ocorreram avanços para minimizar esse problema em relação ao que acontecia até 1. Ocorreram avanços para minimizar esse problema em relação ao que acontecia até 
Como tem sido a atuação dos governos local e federal nessa situação? 
Qual(is) é(são) o(s) obstáculo(s) para solucionar o problema das secas? 
Que soluções deram resultados positivos? 
Não se esqueça de consultar pelo menos duas fontes, pois tanto os dados como as interpretações Não se esqueça de consultar pelo menos duas fontes, pois tanto os dados como as interpretações 
podem ser diferentes conforme o autor da publicação. Depois, elabore um texto com base nos podem ser diferentes conforme o autor da publicação. Depois, elabore um texto com base nos 
resultados obtidos, expondo suas conclusões sobre o problema das secas no Brasil contemporâneo.resultados obtidos, expondo suas conclusões sobre o problema das secas no Brasil contemporâneo.
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• Juazeiro (BA) e Petrolina (PE): cidades-núcleo da produção agrícola baseada em agricultu-
ra irrigada no médio vale do Rio São Francisco. A região é uma grande exportadora de frutas, 
incluindo uvas adaptadas às características climáticas locais.
• Ceará: polos calçadistas em Sobral, Vale do Cariri (Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha) e na 
Região Metropolitana de Fortaleza(em especial nos municípios de Maranguape e Horizonte), 
com centenas de fábricas e produção voltada ao mercado interno e à exportação de calçados, 
sandálias e chinelos de plástico e borracha.
• Recife (PE): núcleo digital para o desenvolvimento de softwares e produtos da tecnologia da infor-
mação e da comunicação, com parcerias entre governos, empresas privadas e universidades.
• Oeste da Bahia e sul do Maranhão e Piauí: produção de soja. Os municípios em áreas de 
cultivo de soja vêm conhecendo ritmos de crescimento na casa dos 10% ao ano. Evidentemente, 
deve-se considerar nesse caso que muitos produtores vêm de fora da região, trabalhadores 
rurais locais perdem suas terras e que parte da população acaba sendo arregimentada para 
funções em geral mal remuneradas no comércio e nos serviços nas cidades.
• Salvador (BA), Fortaleza (CE) e Natal (RN): turismo de Sol e praia, visitação cultural. 
Essas cidades estão entre as dez mais visitadas no país. 
• Olinda (PE) e São Luís (MA): visitação aos centros históricos e patrimônios culturais.
• Parque Nacional da Serra da Capivara (PI), Fernando de Noronha (PE) e Atol das 
Rocas (RN): visitação aos patrimônios ambientais.
• Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte, Alagoas e Ceará: fontes de energia. Em solo poti-
guar, está o maior campo de exploração terrestre de petróleo do país, o de Canto do Amaro. 
Ceará e Rio Grande do Norte estão se convertendo em polos de geração eólica.
• Semiárido nordestino: construção de cisternas para captação de água da chuva, abasteci-
mento doméstico e irrigação agrícola em comunidades rurais. A iniciativa pode ser discutida 
diante de outros projetos, como a transposição das águas do Rio São Francisco e as polêmicas 
que a envolvem.
2. Cada grupo deverá coletar informações sobre o tema escolhido em diferentes fontes: jornais, 
revistas, livros e internet.
3. Organizem as informações obtidas e avaliem as atividades, os setores econômicos, a infraestrutu-
ra e as redes técnicas, as taxas de crescimento e os benefícios sociais, além dos riscos e desafios 
sociais, ambientais, econômicos, políticos e culturais representados pelas atividades na região. 
O grupo deverá elaborar um relatório com os resultados obtidos e as principais conclusões. 
4. Com base no relatório, elaborem no Laboratório de Informática da escola sínteses e esque-
mas explicativos sobre o tema, seja em infográfico, mapa interativo, jogos ou linhas do tempo. 
Apresentem os resultados e conversem sobre eles com a turma.
5. Ao final das apresentações, cada estudante deverá elaborar individualmente um texto dissertati-
vo, analisando criticamente o Nordeste contemporâneo e refletindo em que medida o potencial de 
crescimento avaliado pelos grupos poderá trazer benefícios sociais às populações da região.
RESPONDA NO CADERNO
VESTIBULANDO
Procedimentos
• A questão 1 refere-se a conteúdos estudados neste 
capítulo, mas também a outros que não estão pre-
sentes aqui. Caso não consiga resolvê-la, recorra a 
outras fontes, como livros e sites, para pesquisar 
sobre os assuntos em que encontrou dificuldade. 
• Na questão 2, leia com atenção os versos que 
devem ser utilizados para avaliar a opção correta. 
Antes de buscar a resposta correta, identifique 
as ideias mais importantes contidas nos versos. 
• As questões 4 e 5 são dissertativas. Seja obje-
tivo em sua resposta e não deixe de mencionar 
os aspectos solicitados. Na questão 4, é preciso 
estabelecer a relação entre o cangaço e o con-
texto mais amplo da Primeira República. Já na 
questão 5, é necessário utilizar o texto citado 
para formular sua resposta.
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• Juazeiro (BA) e Petrolina (PE): cidades-núcleo da produção agrícola baseada em agricultu-
ra irrigada no médio vale do Rio São Francisco. A região é uma grande exportadora de frutas, 
incluindo uvas adaptadas às características climáticas locais.
• Ceará: polos calçadistas em Sobral, Vale do Cariri (Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha) e na 
Região Metropolitana de Fortaleza (em especial nos municípios de Maranguape e Horizonte), 
com centenas de fábricas e produção voltada ao mercado interno e à exportação de calçados, 
sandálias e chinelos de plástico e borracha.
• Recife (PE): núcleo digital para o desenvolvimento de 
mação e da comunicação, com parcerias entre governos, empresas privadas e universidades.
• Oeste da Bahia e sul do Maranhão e Piauí:
cultivo de soja vêm conhecendo ritmos de crescimento na casa dos 10% ao ano. Evidentemente, 
deve-se considerar nesse caso que muitos produtores vêm de fora da região, trabalhadores 
rurais locais perdem suas terras e que parte da população acaba sendo arregimentada para 
funções em geral mal remuneradas no comércio e nos serviços nas cidades.
• Salvador (BA), Fortaleza (CE) e Natal (RN):
Essas cidades estão entre as dez mais visitadas no país. 
• Olinda (PE) e São Luís (MA): visitação aos centros históricos e patrimônios culturais.
• Parque Nacional da Serra da Capivara (PI), Fernando de Noronha (PE) e Atol das 
Rocas (RN): visitação aos patrimônios ambientais.
• Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte, Alagoas e Ceará:
guar, está o maior campo de exploração terrestre de petróleo do país, o de Canto do Amaro. 
Ceará e Rio Grande do Norte estão se convertendo em polos de geração eólica.
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1. (Unifesp-SP) Canudos (1893-1897), Contestado 
(1912-1916), Juazeiro (1890-1924) e Cangaço (na 
década de 1920) demonstram que, na Primeira 
República,
a) o campo foi palco de intensos movimentos 
sociais que, embora heterogêneos, expressa-
vam revolta contra a miséria e a exclusão social.
b) a oligarquia dominante estava tão segura de 
seu poder que não se preocupou muito em 
reprimir movimentos carentes de ideias e de 
organização.
c) os movimentos insurrecionais foram poucos, 
mas muito perigosos para o sistema de poder, 
porque representavam apenas os pobres.
d) o sistema político, embora oligárquico, era 
flexível e aberto o suficiente para integrar e 
absorver os descontentamentos sociais.
e) os movimentos sociais expressavam reivindi-
cações e aspirações de caráter misto, rural 
e urbano, articulando milenarismo com anar-
quismo.
2. (Fuvest-SP) 
Visitei todo o comércio,
Fiz muito bom apurado,
E vi que de muito povo
Eu me achava acompanhado.
Alguns pediam esmolas:
Então não me fiz de rogado.
 Os versos de Chagas Baptista em homenagem 
ao cangaceiro Antonio Silvino, o “Governador do 
Sertão”, sugerem que o cangaço
a) possuía um caráter político institucional que 
ameaçava a estabilidade social e econômica 
do Nordeste.
b) contava com o apoio popular, propondo a 
reforma agrária e uma nova distribuição de 
renda.
c) representava a faceta do movimento anar-
quista, com propostas de socialização da 
terra nas áreas rurais.
d) era uma forma de banditismo sem ameaças 
à estabilidade fundiária e, portanto, aceito 
pelas oligarquias e trabalhadores.
e) tinha apoio popular e representava uma 
forma de resistência à opressão dos grandes 
proprietários rurais.
3. (PUC-MG) A implantação do regime republi-
cano não modificou a situação de miséria dos 
trabalhadores do campo, fazendo surgir um 
movimento denominado Cangaço. Sobre isso, é 
correto afirmar, exceto:
a) Seus integrantes rebelaram-se contra uma 
ordem social injusta e opressiva.
b) Em quase todos os bandos, as mulheres parti-
cipavam em pé de igualdade com os homens.
c) Os cangaceiros eram assalariados do crime, 
lutando a serviço dos coronéis que melhor 
pagassem.
d) Como fenômeno social, foi uma manifestação 
da revolta não organizada em termos políticos.
e) Os cangaceiros assaltavam propriedades e 
buscavam justiça pelas próprias mãos.
4. (UEG-GO) A peça teatral “O santo e a porca”, 
de Ariano Suassuna, tem comoreferência histó-
rica a Primeira República – período caracteriza-
do por fenômenos socioculturais como cangaço 
e fervor religioso. Analise a relação do governo 
republicano com esses fenômenos.
5. (Unicamp-SP) 
O bandido social é, em geral, membro de uma 
sociedade rural e, por razões várias, encarado como 
proscrito ou criminoso pelo Estado e pelos grandes 
proprietários. Apesar disso, continua a fazer parte da 
sociedade camponesa de que é originário e é consi-
derado herói por sua gente, seja ele um justiceiro, 
um vingador, ou alguém que rouba dos ricos.
(DÓRIA, Carlos Alberto. Saga. A grande História do Brasil.)
 Utilizando a definição anterior, explique o movi-
mento do cangaço brasileiro.
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A RELEITURA
A s duas canções que seguem fazem referência ao sertão nordestino e foram interpretadas por Luiz Gonzaga (1912-1990), grande compositor e cantor pernambucano, também conhecido como o Rei do Baião.
Luiz Gonzaga nasceu em 1912 em Exu (PE). Seu pai era sanfoneiro e por isso desde criança já tocava o instrumento. Em 1930, 
foi para o Ceará, onde se alistou no Exército brasileiro. Em 1939, deixou o Exército e foi para o Rio de Janeiro, onde começou a 
tocar em bares e festas. Em 1941, gravou seu primeiro disco como solista. Nos anos 1950, transformou-se em um dos principais 
divulgadores do baião e da cultura nordestina. Várias de suas canções fazem referência à seca e à vida do pobre do sertão nordestino. 
Asa Branca, um de seus maiores sucessos, tornou-se uma das canções mais populares do país. Faleceu em 1989, no Recife (PE).
29
 Canudos (1893-1897), Contestado 
(1912-1916), Juazeiro (1890-1924) e Cangaço (na 
década de 1920) demonstram que, na Primeira 
a) o campo foi palco de intensos movimentos 
sociais que, embora heterogêneos, expressa-
vam revolta contra a miséria e a exclusão social.
b) a oligarquia dominante estava tão segura de 
seu poder que não se preocupou muito em 
reprimir movimentos carentes de ideias e de 
c) os movimentos insurrecionais foram poucos, 
mas muito perigosos para o sistema de poder, 
d) o sistema político, embora oligárquico, era 
flexível e aberto o suficiente para integrar e 
e) os movimentos sociais expressavam reivindi-
cações e aspirações de caráter misto, rural 
e urbano, articulando milenarismo com anar-
d) era uma forma de banditismo sem ameaças 
à estabilidade fundiária e, portanto, aceito 
pelas oligarquias e trabalhadores.
e) tinha apoio popular e representava uma 
forma de resistência à opressão dos grandes 
proprietários rurais.
3. (PUC-MG) A implantação do regime republi-
cano não modificou a situação de miséria dos 
trabalhadores do campo, fazendo surgir um 
movimento denominado Cangaço. Sobre isso, é 
correto afirmar, exceto:
a) Seus integrantes rebelaram-se contra uma 
ordem social injusta e opressiva.
b) Em quase todos os bandos, as mulheres parti-
cipavam em pé de igualdade com os homens.
c) Os cangaceiros eram assalariados do crime, 
lutando a serviço dos coronéis que melhor 
pagassem.
d) Como fenômeno social, foi uma manifestação 
da revolta não organizada em termos políticos.
e) Os cangaceiros assaltavam propriedades e 
buscavam justiça pelas próprias mãos.
4. (UEG-GO) A peça teatral “O santo e a porca”, 
de Ariano Suassuna, tem como referência histó-
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THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS
Patativa do Assaré (Antônio Gonçalves da Silva) nasceu em 1909 na Serra de Santana, próximo ao município de Assaré, no Ceará. Ainda 
criança perdeu a visão de um olho por causa de uma doença e mais tarde ficou cego. Desde cedo gostava de criar versos. Retratando a vida 
do sertão, tornou-se um dos mais importantes cantadores sertanejos. Faleceu em 2002 na mesma cidade em que nasceu. LE
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AVozes da seca (1953)
Luiz Gonzaga e Zé Dantas
Seu dotô os nordestino têm muita gratidão
Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão
Mas dotô uma esmola a um homem qui é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão
É por isso que pidimo proteção a vosmicê
Home pur nóis escuído para as rédias do pudê
Pois dotô dos vinte estado temos oito sem chuvê 
Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê
Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barrage
Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage 
Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage
Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage
Se o dotô fizer assim, salva o povo do sertão 
Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação! 
Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão
Como vê, nosso distino mecê tem na vossa mão
GONZAGA, Luiz; DANTAS, Zé. Vozes da seca. In: Luiz Gonzaga e Gonzaguinha (CD). EMI, 2004.
Luiz Gonzaga, em 1956.
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Meu Deus, meu Deus
Setembro passou
Outubro e novembro
Já tamo em dezembro 
Meu Deus, que é de nós, 
Meu Deus, meu Deus 
Assim fala o pobre 
Do seco Nordeste 
Com medo da peste 
Da fome feroz 
Ai, ai, ai, ai 
A treze do mês 
Ele fez experiência 
Perdeu sua crença 
Nas pedras de sal, 
Meu Deus, meu Deus 
Mas noutra esperança 
Com gosto se agarra 
Pensando na barra 
Do alegre Natal 
Ai, ai, ai, ai 
Rompeu-se o Natal 
Porém barra não veio 
O sol bem vermeio 
Nasceu muito além 
Meu Deus, meu Deus 
Na copa da mata 
Buzina a cigarra 
Ninguém vê a barra 
Pois a barra não tem 
Ai, ai, ai, ai 
Sem chuva na terra 
Descamba janeiro, 
Depois fevereiro 
E o mesmo verão 
Meu Deus, meu Deus 
Entonce o nortista 
Pensando consigo 
Diz: “isso é castigo 
não chove mais não” 
Ai, ai, ai, ai 
Apela pra março 
Que é o mês preferido 
Do santo querido 
Senhor São José 
Meu Deus, meu Deus 
Mas nada de chuva 
Tá tudo sem jeito 
Lhe foge do peito 
O resto da fé…
Ai, ai, ai, ai
Agora pensando
Ele segue outra tria
Chamando a famia
Começa a dizer
Meu Deus, meu Deus
Eu vendo meu burro
Meu jegue e o cavalo
Nóis vamo a São Paulo
Viver ou morrer
Ai, ai, ai, ai
Nóis vamo a São Paulo
Que a coisa tá feia
Por terras alheia
Nós vamos vagar
Meu Deus, meu Deus
Se o nosso destino
Não for tão mesquinho
Ai pro mesmo cantinho
Nós torna a voltar
ASSARÉ, Patativa do. A triste partida. In: 
A triste partida (CD). Sony & BMG, 1998.
A triste partida (1964) 
Patativa do Assaré
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Vozes da seca (1953)
Luiz Gonzaga e Zé Dantas
Seu dotô os nordestino têm muita gratidão
Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão
Mas dotô uma esmola a um homem qui é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão
É por isso que pidimo proteção a vosmicê
Home pur nóis escuído para as rédias do pudê
Pois dotô dos vinte estado temos oito sem chuvê 
Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê
Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barrage
Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage 
Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage
Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage
Se o dotô fizer assim, salva o povo do sertão 
Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação! 
Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão
Como vê, nosso distino mecê tem na vossa mão
GONZAGA, Luiz; DANTAS, Zé. Vozes da seca. In: 
A triste partida (1964) 
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THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS
ROTEIRO DE TRABALHO
1. Que tipo de auxílio os autores da canção “Vozes da seca” reivindicavam para a região da seca?
2. Ainda nessa canção, quem seria o “dotô” que se contrapõe ao sertanejo?
3. Com base na canção “A triste partida”, reconstrua a trajetória do retirante nordestino.
4. Destaque um trecho de uma das canções citadas e utilize-ocomo tema para a elaboração de 
um pequeno texto sobre a história das secas no Nordeste, tendo como base o que foi estudado 
neste capítulo.
QUEIRÓS, Rachel de. O quinze. São Paulo: Siciliano, 1993.
Publicada originalmente em 1930, esta obra refere-se à seca de 1915, a qual a escritora viveu em sua infância. Assim 
como Vidas secas, de Graciliano Ramos, é um dos mais importantes romances modernistas que tratam de temas rela-
cionados à realidade social brasileira.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 89. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003.
Escrito em 1938, traça um perfil das pessoas e das condições de vida daqueles que vivem a seca do sertão nordestino. 
Esse romance é considerado parte da chamada segunda fase modernista, que colocou em foco temas sociais e con-
trastes marcantes, como é o caso das secas do Nordeste.
TÁVORA, Franklin. O cabeleira. São Paulo: Ática, 1997.
Romance publicado em 1876 que conta a história dos bandidos Joaquim Gomes e José Gomes, cangaceiros que atua-
ram no Nordeste em fins do século XVIII. A história apoia-se em fatos verídicos.
Abril despedaçado. Direção de Walter Salles. Brasil/Suíça/ França, 2001. (99 min).
O filme se passa em 1910 e retrata as brigas entre famílias no sertão nordestino, destacando temas como o sentido de 
vingança e as lutas que se estendem por gerações.
Baile perfumado. Direção de Lírio Ferreira e Paulo Caldas. Brasil, 1997. (93 min).
No filme, o jovem libanês Benjamin Abrahão consegue filmar Lampião com a colaboração do padre Cícero. Após con-
seguir fazer o filme com Lampião, sua exibição foi censurada por Getúlio Vargas. Baile perfumado recupera algumas 
das cenas originais do filme produzido por Benjamin.
Cangaço. Disponível em: <www.reidocangaco.cjb.net>. Acesso em: 13 abr. 2013.
Site com imagens, textos e várias informações sobre o cangaço.
Fundação Joaquim Nabuco – Literatura de cordel. 
Disponível em: <http://digitalizacao.fundaj.gov.br/fundaj>. Acesso em: 13 abr. 2013.
Espaço no site da Fundação Joaquim Nabuco que traz vários cordéis digitalizados.
 PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
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Que tipo de auxílio os autores da canção “Vozes da seca” reivindicavam para a região da seca?
Ainda nessa canção, quem seria o “dotô” que se contrapõe ao sertanejo?
Com base na canção “A triste partida”, reconstrua a trajetória do retirante nordestino.
Destaque um trecho de uma das canções citadas e utilize-o como tema para a elaboração de 
um pequeno texto sobre a história das secas no Nordeste, tendo como base o que foi estudado 
. São Paulo: Siciliano, 1993.
Publicada originalmente em 1930, esta obra refere-se à seca de 1915, a qual a escritora viveu em sua infância. Assim Publicada originalmente em 1930, esta obra refere-se à seca de 1915, a qual a escritora viveu em sua infância. Assim 
como Vidas secas, de Graciliano Ramos, é um dos mais importantes romances modernistas que tratam de temas rela-como Vidas secas, de Graciliano Ramos, é um dos mais importantes romances modernistas que tratam de temas rela-
. 89. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003.
Escrito em 1938, traça um perfil das pessoas e das condições de vida daqueles que vivem a seca do sertão nordestino. Escrito em 1938, traça um perfil das pessoas e das condições de vida daqueles que vivem a seca do sertão nordestino. 
Esse romance é considerado parte da chamada segunda fase modernista, que colocou em foco temas sociais e con-Esse romance é considerado parte da chamada segunda fase modernista, que colocou em foco temas sociais e con-
trastes marcantes, como é o caso das secas do Nordeste.
São Paulo: Ática, 1997.
 PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
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O Brasil amazônico
CAPÍTULO 2
No primeiro capítulo desta unidade, mencionamos a ideia de que o Brasil só pode ser compreendido se levarmos em conta o fato de que essa sociedade se constitui com base em uma pluralidade de culturas. No capítulo anterior, estu-
damos algumas particularidades da história política e cultural do Nordeste brasileiro. 
Neste capítulo, vamos nos debruçar sobre a região amazônica, a qual até os dias 
atuais abriga mais da metade da população indígena brasileira, ou seja, cerca de 
350 mil pessoas. No Amazonas 
vivem 60 povos diferentes, 27 em 
Rondônia, 36 no Pará, 13 no Acre, 
11 em Roraima, 10 no estado de 
Tocantins e 9 no Amapá.1 
Ao observarmos a divisão admi-
nistrativa do Brasil em regiões, 
verificamos que a região Norte é 
composta pelos estados citados 
acima (Amazonas, Pará, Tocantins, 
Amapá, Rondônia, Acre e Roraima). 
No entanto, o que se denomina 
Amazônia é uma porção do globo 
terrestre coberta por florestas 
tropicais, mais especificamente 
equatoriais. A Floresta Amazônica 
ultrapassa as fronteiras de vários 
países: Brasil, Bolívia, Peru, Equa-
dor, Colômbia, Venezuela, Guiana, 
Suriname e Guiana Francesa. A 
área total da floresta é de aproxi-
1 Conforme os dados do Instituto Socioambiental. 
Disponível em: <http://pib.socioambiental.org/pt/c/0/1/2/populacao-indigena-no-brasil>. Acesso em: 1 jun. 2013.
Com base em Atlas geográfico escolar. 
Rio de Janeiro: IBGE, 2009. p. 103..
A AMAZÔNIA
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O Brasil amazônico
CAPÍTULO 2
No primeiro capítulo desta unidade, mencionamos a ideia de que o Brasil só pode ser compreendido se levarmos em conta o fato de que essa sociedade se constitui com base em uma pluralidade de culturas. No capítulo anterior, estu-
damos algumas particularidades da história política e cultural do Nordeste brasileiro. 
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madamente 6,5 milhões de quilômetros quadrados, e, destes, cerca de 5 milhões 
estão em território brasileiro. No Brasil, a chamada Amazônia Legal extrapola a 
região Norte, atingindo os estados do Mato Grosso e do Maranhão.
Assim, ao estudarmos uma cultura que se pode chamar de amazônica, estamos 
fazendo referência à confluência de vários aspectos. Não se pode separar a história 
dos estados da região Norte da história da própria Floresta Amazônica. 
Na região da Amazônia, destacamos a grande presença de povos indígenas, mas 
por ela também já passaram africanos escravizados, colonizadores portugueses, 
além de invasores espanhóis e franceses. Trata-se, portanto, de uma região com uma 
imensa diversidade natural e cultural que construiu uma história particular.
No entanto, essa diversidade resultou também em muitos conflitos, que ainda 
se fazem presentes na atualidade. Primeiro foram os europeus que procuraram se 
apropriar dessas terras, dominando os povos indígenas e trazendo os africanos para 
trabalharem como cativos. Há ainda a luta pela posse de terras e riquezas da floresta, 
como madeiras, pedras preciosas e produtos extrativistas. Por isso, coloca-se até o 
presente o problema de como conciliar a conservação de uma das maiores riquezas 
naturais do planeta e permitir que as pessoas que ocupam as terras amazônicas pos-
sam viver com dignidade, respeitando as diferenças culturais.
Neste capítulo, vamos procurar compreender parte dessa história de conflitos e refle-
tir sobre os caminhos que ainda podem ser trilhados para que o ser humano e a floresta 
consigam conviver, sem que a violência seja uma das principais marcas dessa relação.
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A imagem acima, de autoria anônima, foi feita no século XIX e retrata índigenas da Amazônia sob controle de europeus. Não sabemosao certo o que os homens europeus pretendem fazer com essas pessoas. Aparentemente assustadas, as crianças se agarram aos 
adultos. De qualquer maneira, fica evidente que não se trata de uma convivência harmoniosa. Cenas como essa foram uma constante 
no relacionamento entre europeus e povos indígenas no Brasil colonial ou mesmo após a independência, quando os povos indígenas 
continuaram a ser utilizados como mão de obra barata, suas culturas desrespeitadas e suas terras invadidas.
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madamente 6,5 milhões de quilômetros quadrados, e, destes, cerca de 5 milhões 
estão em território brasileiro. No Brasil, a chamada Amazônia Legal extrapola a 
região Norte, atingindo os estados do Mato Grosso e do Maranhão.
Assim, ao estudarmos uma cultura que se pode chamar de amazônica, estamos 
fazendo referência à confluência de vários aspectos. Não se pode separar a história 
dos estados da região Norte da história da própria Floresta Amazônica. 
Na região da Amazônia, destacamos a grande presença de povos indígenas, mas 
por ela também já passaram africanos escravizados, colonizadores portugueses, 
além de invasores espanhóis e franceses. Trata-se, portanto, de uma região com uma 
imensa diversidade natural e cultural que construiu uma história particular.
No entanto, essa diversidade resultou também em muitos conflitos, que ainda 
se fazem presentes na atualidade. Primeiro foram os europeus que procuraram se 
apropriar dessas terras, dominando os povos indígenas e trazendo os africanos para 
trabalharem como cativos. Há ainda a luta pela posse de terras e riquezas da floresta, 
como madeiras, pedras preciosas e produtos extrativistas. Por isso, coloca-se até o 
presente o problema de como conciliar a conservação de uma das maiores riquezas 
naturais do planeta e permitir que as pessoas que ocupam as terras amazônicas pos-
sam viver com dignidade, respeitando as diferenças culturais.
Neste capítulo, vamos procurar compreender parte dessa história de conflitos e refle-
tir sobre os caminhos que ainda podem ser trilhados para que o ser humano e a floresta 
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OLINHA DO TEMPO
 500-1300 ¬ Povos ceramistas vivem na Ilha de Marajó (PA), criando a chamada 
cultura marajoara.
 1499 ¬ O navegador espanhol Vicente Pinzón percorre a costa das Guianas e 
a do Brasil, até a altura do Rio Amazonas.
 1541 ¬ Os espanhóis Gonzalo Pizarro e Francisco de Orellana partem de 
Quito (Equador) e alcançam no ano seguinte o Oceano Atlântico pelo 
Rio Amazonas. É a primeira vez que os europeus navegam por toda a 
extensão do Rio Amazonas.
 1549 ¬ Os franceses atacam, mas não conseguem dominar a região amazônica.
 1600 ¬ Os holandeses fundam as feitorias de Orange e Nassau, nas 
proximidades do Rio Xingu, afluente do Rio Amazonas.
 1612 ¬ Domínio francês do Maranhão e fundação de São Luís do Maranhão 
por La Ravardière.
 1615 ¬ Expulsão dos franceses de São Luís (Maranhão).
 1616 ¬ Francisco Caldeira de Castelo Branco funda o Forte do Presépio, 
marco da fundação da atual cidade de Belém, capital administrativa do 
estado do Pará; fundação de Santa Maria de Belém, no Pará.
 1659 ¬ Expulsão dos jesuítas do Maranhão.
 1661 ¬ Expulsão dos jesuítas de Belém.
 1669 ¬ Fundação do Forte de São José da Barra do Rio Negro, atual Manaus (AM).
 1684 ¬ Revolta de Beckman, no Maranhão, contra o monopólio das 
companhias de comércio.
 1713 ¬ Tratado de Utrecht: a França aceita o Rio Oiapoque como limite entre 
a Guiana e o Brasil.
 1743 ¬ Registro e descrição dos usos da borracha entre os nativos por La 
Condamine.
 1751 ¬ Criação do Estado do Grão-Pará e Maranhão, tendo Belém por capital.
 1755 ¬ Fundação da Companhia Grão-Pará e Maranhão, seguida da 
Companhia de Pernambuco e Paraíba.
 1759 ¬ Expulsão dos jesuítas da colônia portuguesa pelo marquês de Pombal.
 1778 ¬ Supressão da Companhia do Grão-Pará e Maranhão.
 1809 ¬ Conquista da Guiana Francesa.
 1823 ¬ Adesão do Grão-Pará à Independência.
 1835 ¬ Início da Cabanagem no Pará.
 1840 ¬ Fim da Cabanagem no Pará.
 1845 ¬ Criação do Diretório-Geral dos Índios.
 1848 ¬ A Vila de Manaus, criada em 1832, passa ser denominada Cidade da 
Barra do Rio Negro.
 1850 ¬ Criação da Província do Amazonas, desmembrada da Província do 
Grão-Pará; a borracha passa a ser a principal atividade econômica da 
região amazônica.
 1852 ¬ Criação da Província do Amazonas; organização da Companhia de 
Navegação do Amazonas pelo visconde de Mauá.
 1856 ¬ A cidade da Barra do Rio Negro passa a ser denominada cidade 
de Manaus.
 1867 ¬ Abertura da Bacia do Amazonas à navegação internacional.
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LINHA DO TEMPO
 500-1300 ¬ Povos ceramistas vivem na Ilha de Marajó (PA), criando a chamada 
cultura marajoara.
 1499 ¬ O navegador espanhol Vicente Pinzón percorre a costa das Guianas e 
a do Brasil, até a altura do Rio Amazonas.
 1541 ¬ Os espanhóis Gonzalo Pizarro e Francisco de Orellana partem de 
Quito (Equador) e alcançam no ano seguinte o Oceano Atlântico pelo 
Rio Amazonas. É a primeira vez que os europeus navegam por toda a 
extensão do Rio Amazonas.
 1549 ¬ Os franceses atacam, mas não conseguem dominar a região amazônica.
 1600 ¬ Os holandeses fundam as feitorias de Orange e Nassau, nas 
proximidades do Rio Xingu, afluente do Rio Amazonas.
 1612 ¬ Domínio francês do Maranhão e fundação de São Luís do Maranhão 
por La Ravardière.
 1615 ¬ Expulsão dos franceses de São Luís (Maranhão).
 1616 ¬ Francisco Caldeira de Castelo Branco funda o Forte do Presépio, 
marco da fundação da atual cidade de Belém, capital administrativa do 
estado do Pará; fundação de Santa Maria de Belém, no Pará.
 1659 ¬ Expulsão dos jesuítas do Maranhão.
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 1869 ¬ Início da construção do Teatro da Paz, em Belém (PA).
 1870-1912 ¬ Período da chamada belle époque amazônica.
 1877 ¬ Início da migração de nordestinos para os seringais.
 1878 ¬ Inauguração do Teatro da Paz em Belém (PA).
 1884 ¬ Abolição da escravatura legal no Amazonas.
 1889 ¬ Proclamação da República.
 1893-1896 ¬ Reformas e melhorias urbanas: construção da “Manaus moderna”.
 1910 ¬ Início da crise da borracha na Amazônia. Queda do preço no mercado 
internacional.
 1912 ¬ Inauguração da Ferrovia Madeira-Mamoré, que pretendia transportar a 
borracha. Seu objetivo era interligar a produção nas proximidades
dos rios Mamoré, Madeira, Guaporé e Beni (Bolívia).
 1966 ¬ Criação da Sudam, oferecendo incentivos fiscais para o 
desenvolvimento da agropecuária.
 Anos 1970 ¬ A exploração da madeira e a do gado passam a ser as principais 
atividades econômicas da região.
 1972 ¬ Inauguração da Rodovia Transamazônica.
 1988 ¬ Assassinato do líder seringalista Chico Mendes.
 2005 ¬ Assassinato de Dorothy Stang a mando de fazendeiros. A missionária 
desenvolvia projetos de desenvolvimento sustentável no Pará.
Trecho da Rodovia Transamazônica entre Marabá e 
Altamira, no Pará, em 2008.
Trecho da Ferrovia Madeira-Mamoré em Ribeirão, hoje 
Rondônia, em 1913.
Fachada do Teatro da Paz, Belém (PA), em 2007.
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I
Início da construção do Teatro da Paz, em Belém (PA).
Período da chamada belle époque amazônica.
Início da migração de nordestinos para os seringais.
Inauguração do Teatro da Paz em Belém (PA).
Abolição da escravatura legal no Amazonas.
Proclamação da República.
Reformas e melhorias urbanas: construção da “Manaus moderna”.
Início da crise da borracha na Amazônia. Queda do preço no mercado 
Inauguração da Ferrovia Madeira-Mamoré, que pretendia transportar a 
borracha. Seu objetivo era interligar a produção nas proximidades
dos rios Mamoré, Madeira, Guaporé e Beni (Bolívia).
Criação da Sudam, oferecendo incentivos fiscais para o 
desenvolvimento da agropecuária.
A exploração da madeira e a do gado passam a ser as principais 
atividades econômicas da região.
Inauguração da Rodovia Transamazônica.
Assassinato do líder seringalista Chico Mendes.
Assassinato de Dorothy Stang a mando de fazendeiros. A missionária 
desenvolvia projetos de desenvolvimento sustentável no Pará.
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CONTEXTO
A Amazônia
Alguns navegadores estiveram na região ama-
zônica antes de Portugal tomar posse efetivamen-
te das terras brasileiras após 1500. Entre eles, os 
espanhóis Vicente Pinzón e Diogo de Lepe. Ambos 
navegaram pelo Rio Amazonas, mas os conflitos 
com os indígenas e as dificuldades em navegar 
naquelas águas os fizeram recuar e não tomar 
posse da região.
Os europeus conseguiram navegar por toda 
a extensão do Rio Amazonas entre 1539 e 1541, 
quando Gonçalo Pizarro e Francisco Orellana 
lideraram uma expedição que partiu de Quito 
(Equador) e chegou ao Oceano Atlântico por esse 
rio. Com o feito, o imperador espanhol Carlos V 
concedeu a Orellana o título de capitão e gover-
nador das terras de que tomasse posse. No entan-
to, em sua segunda viagem, iniciada em 1545, 
Orellana fracassou em seu intento de penetrar no 
delta do Amazonas.
Os espanhóis realizaram outras expedições 
com a finalidade de tomar posse de terras na 
região até os anos 1560. Além deles, ingleses, 
franceses e holandeses também buscaram se 
estabelecer na Amazônia, negando os direitos 
dos portugueses e dos espanhóis no Tratado de 
Tordesilhas, celebrado em 1494.
Em 1600, os holandeses fundaram as feitorias de 
Orange e Nassau nas proximidades do Rio Xingu, 
afluente do Rio Amazonas. Também os ingleses 
conseguiram estabelecer feitorias no começo do 
século XVII. Tinham como intuito investir na coleta 
de drogas do sertão, entre elas a baunilha, o cacau, 
o gengibre, o cravo e a noz-moscada.
A efetiva conquista portuguesa da região 
começou a ocorrer no século XVI. No século XVII, 
Belém foi fundada. 
Isso aconteceu no momento em que Portugal 
estava sob o domínio da Coroa espanhola (1580-
1640). Conforme José Maia Bezerra Neto:
[…] a União Ibérica favoreceu o processo de ex-
pansão portuguesa na Região Amazônica, cuja 
maior parte pertencia aos espanhóis. […] Os por-
tugueses em sua conquista, devidamente autoriza-
dos pela Coroa espanhola, realizavam sua obra de 
ocupação e defesa da região, a serviço da própria 
Espanha contra os demais invasores europeus.
BEZERRA Neto, José Maia. A conquista portuguesa da 
Amazônia. In: ALVES FILHO, Armando et al. Pontos de his-
tória da Amazônia. 3. ed. Belém: Paka-Tatu, 2001. v. 1. p. 17.
No final do século XVI, os portugueses avan-
çaram sobre o litoral do Maranhão ocupado pelos 
franceses. Após expulsá-los de São Luís em 1615, 
prosseguiram na tentativa de ocupar as margens 
do Rio Amazonas. Em 1616, adentraram o Rio Pará 
e chegaram à Baía de Guajará, onde fundaram, em 
12 de janeiro, a cidade que recebeu primeiramente 
o nome de “Feliz Lusitânia” e depois Santa Maria 
de Belém do Grão (atual Belém, no Pará). Para 
defender o território, foi construído o Forte do 
Presépio na Baía de Guajará.
Entre 1618 e 1619, os portugueses tiveram 
de enfrentar os Tupinambá, que eram aliados 
dos franceses e haviam decidido expulsá-los da 
região. Os Tupinambá invadiram Nossa Senhora 
de Belém em 1619 e, após terem vários de seus 
Forte do Presépio, em foto de 2009. A 
primeira construção era de madeira e 
taipa. No final do século XVII, foi cons-
truída a edificação em pedra. A cidade 
cresceu às margens do forte, que se lo-
calizava entre o Rio Guajará e o Igarapé 
do Piri, um grande pântano.
Forte do Presépio, em foto de 2009. A 
primeira construção era de madeira e 
taipa. No final do século XVII, foi cons-
truída a edificação em pedra. A cidade 
cresceu às margens do forte, que se lo-
calizava entre o Rio Guajará e o Igarapé 
do Piri, um grande pântano.
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CONTEXTO
A Amazônia
Alguns navegadores estiveram na região ama-
zônica antes de Portugal tomar posse efetivamen-
te das terras brasileiras após 1500. Entre eles, os 
espanhóis Vicente Pinzón e Diogo de Lepe. Ambos 
navegaram pelo Rio Amazonas, mas os conflitos 
com os indígenas e as dificuldades em navegar 
naquelas águas os fizeram recuar e não tomar 
posse da região.
Os europeus conseguiram navegar por toda 
a extensão do Rio Amazonas entre 1539 e 1541, 
quando Gonçalo Pizarro e Francisco Orellana 
lideraram uma expedição que partiu de Quito 
(Equador) e chegou ao Oceano Atlântico por esse 
rio. Com o feito, o imperador espanhol Carlos V 
concedeu a Orellana o título de capitão e gover-
nador das terras de que tomasse posse. No entan-
to, em sua segunda viagem, iniciada em 1545, 
Orellana fracassou em seu intento de penetrar no 
de drogas do sertão, entre elas a baunilha, o cacau, 
o gengibre, o cravo e a noz-moscada.
começou a ocorrer no século XVI. No século XVII, 
Belém foi fundada. 
estava sob o domínio da Coroa espanhola (1580-
1640). Conforme José Maia Bezerra Neto:
çaram sobre o litoral do Maranhão ocupado pelos 
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guerreiros mortos, deixaram o local. A luta con-
tra as populações indígenas e sua escravização 
prosseguiu nos anos seguintes, e várias batalhas 
foram travadas contra holandeses e ingleses pelo 
domínio dessas terras. O domínio da cidade de 
Belém foi estrategicamente importante, pois ficou 
mais fácil controlar o acesso ao Rio Amazonas a 
partir do Oceano Atlântico.
A dominação portuguesa na Amazônia tornou-
-se ainda mais sólida com a presença dos missio-
nários cristãos vindos da Europa. Com a finalidade 
de catequizar os indígenas, as ordens religiosas 
foram fundamentais na construção da sociedade 
colonial. Franciscanos, carmelitas e, principal-
mente, jesuítas começaram a chegar à Amazônia 
para difundir o catolicismo na América portugue-
sa. A primeira ordem que chegou à colônia foi 
a Companhia de Jesus, fundada pelo espanhol 
Inácio de Loyola. Seus missionários, os jesuítas, 
em 1549, aportaram primeiramente na Bahia.
Assim como em outras regiões do país, os 
religiosos organizaram aldeamentos – também 
chamados de missões ou reduções – onde reali-
zavam o trabalho de conversão do indígena para o 
catolicismo. Além disso, inseriam os indígenas em 
um sistema de trabalho no qual o colono poderia 
utilizar, por períodos determinados, a mão de obra 
indígena em troca de pequeno pagamento. Era 
ainda função dos padres organizar os chamados 
descimentos, ou seja, eles subiam os rios para 
tentar convencer os indígenas a descer para os 
aldeamentos do litoral. Para tanto, procuravam 
mostrar os benefícios de ser cristão. Conforme o 
historiador Armando Alves Filho:
Paraessa tarefa, os missionários contavam com 
a ajuda de índios da própria tribo abordada. Esses 
índios, que já haviam sido “trabalhados” nas mis-
sões, funcionavam como propagandistas das van-
tagens da vida nos aldeamentos missionários. A 
música e o teatro eram estratégias pedagógicas 
adotadas no intuito do convencimento.
ALVES Filho, Armando. O trabalho forçado na Amazônia 
Colonial. In: ALVES FILHO, Armando et al., op. cit., p. 28-9.
Os conflitos entre jesuítas e colonos foram fre-
quentes, pois estes reclamavam da constante falta 
de mão de obra e da limitação da escravização dos 
indígenas. Só os indígenas resgatados de povos 
inimigos e os que se recusavam à evangelização 
poderiam ser efetivamente escravizados. Em mui-
tos casos, os que eram cedidos pelos jesuítas não 
eram devolvidos aos aldeamentos nem era paga a 
quantia combinada pela tarefa, o que aumentava 
a tensão entre colonos e missionários. O sistema 
que permitia aos colonos fazer uso dos indígenas 
não escravos aldeados denominava-se repartição. 
Cada jesuíta podia contar com até 150 deles para 
essa finalidade. Parte deles realizava trabalhos 
para os próprios jesuítas, que também exploravam 
as chamadas drogas do sertão. Vale lembrar que 
muitos colonos desrespeitavam a legislação colo-
nial, escravizando indígenas que eram retirados de 
aldeamentos ou capturados para serem comercia-
lizados em outras regiões da colônia.
Os vários enfrentamentos entre colonos e mis-
sionários acabaram por resultar na expulsão dos 
jesuítas do Maranhão em 1659 e de Belém em 1661. A conquista do Amazonas, de Antônio Parreiras, 1907. 
Óleo sobre tela, 90 cm 40 cm.
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guerreiros mortos, deixaram o local. A luta con-
tra as populações indígenas e sua escravização 
prosseguiu nos anos seguintes, e várias batalhas 
foram travadas contra holandeses e ingleses pelo 
domínio dessas terras. O domínio da cidade de 
Belém foi estrategicamente importante, pois ficou 
mais fácil controlar o acesso ao Rio Amazonas a 
A dominação portuguesa na Amazônia tornou-
-se ainda mais sólida com a presença dos missio-
nários cristãos vindos da Europa. Com a finalidade 
de catequizar os indígenas, as ordens religiosas 
foram fundamentais na construção da sociedade 
colonial. Franciscanos, carmelitas e, principal-
mente, jesuítas começaram a chegar à Amazônia 
para difundir o catolicismo na América portugue-
sa. A primeira ordem que chegou à colônia foi 
a Companhia de Jesus, fundada pelo espanhol 
Inácio de Loyola. Seus missionários, os jesuítas, 
Assim como em outras regiões do país, os 
religiosos organizaram aldeamentos – também 
 – onde reali-
mostrar os benefícios de ser cristão. Conforme o 
historiador Armando Alves Filho:
Para essa tarefa, os missionários contavam com 
a ajuda de índios da própria tribo abordada. Esses 
índios, que já haviam sido “trabalhados” nas mis-
sões, funcionavam como propagandistas das van-
tagens da vida nos aldeamentos missionários. A 
música e o teatro eram estratégias pedagógicas 
adotadas no intuito do convencimento.
ALVES Filho, Armando. O trabalho forçado na Amazônia 
Colonial. In: ALVES FILHO, Armando et al., op. cit., p. 28-9.
Os conflitos entre jesuítas e colonos foram fre-
quentes, pois estes reclamavam da constante falta 
de mão de obra e da limitação da escravização dos 
indígenas. Só os indígenas resgatados de povos 
inimigos e os que se recusavam à evangelização 
poderiam ser efetivamente escravizados. Em mui-
tos casos, os que eram cedidos pelos jesuítas não 
eram devolvidos aos aldeamentos nem era paga a 
quantia combinada pela tarefa, o que aumentava 
a tensão entre colonos e missionários. O sistema 
que permitia aos colonos fazer uso dos indígenas 
não escravos aldeados denominava-se repartição. 
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Com a promessa de que os africanos escravizados 
seriam enviados regularmente para a região, os jesu-
ítas retornaram em 1680. Mas em que medida existiu 
a escravidão africana na Amazônia? Por que não 
teve a mesma penetração que no litoral nordestino?
Uma das dificuldades para a introdução da mão 
de obra africana na Amazônia era o alto custo, 
excessivo para a dimensão da economia daquela 
região. Além disso, o grande contingente popula-
cional indígena levava os colonos a se interessarem 
primeiramente pelo aprisionamento de indígenas.
A criação da Companhia de Comércio do Grão-
Pará e Maranhão, em 1682, foi uma tentativa de 
desenvolver o tráfico de africanos escravizados na 
região. A ela foram concedidos o monopólio desse 
negócio por vinte anos e mais o fornecimento de 
gêneros de consumo e a exploração de drogas do 
sertão. No entanto o suprimento regular de afri-
canos escravizados pela Companhia não ocorreu, 
e isso contribuiu para que, em 1684, os colonos do 
Maranhão organizassem a Revolta de Beckman, 
liderada por Manuel Beckman. Entre suas princi-
pais reivindicações estava o direito de escravizar 
os indígenas. Depois que os rebeldes haviam 
prendido autoridades e decidido pela expulsão 
dos jesuítas do Maranhão, o movimento foi derro-
tado, seus líderes enforcados e a Companhia de 
Comércio extinta em 1685.
No século XVIII, durante a administração 
do marquês de Pombal (1750-1777), foi criada a 
Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão. Além 
disso, ampliou-se o fluxo de africanos escravizados 
para a região com a drástica redução da popula-
ção indígena, dizimada pela dominação europeia e 
por doenças como a varíola, o sarampo e a gripe. 
Entretanto não se pode afirmar que a mão de obra 
africana tenha predominado em algum momento 
nessa região, já que prevaleceu em todo o período 
a exploração da mão de obra indígena.
Durante a administração de Pombal, preten-
deu-se também transformar o indígena em cida-
dão, ou seja, mediante vários dispositivos legais 
reconheceu-se a igualdade do indígena diante do 
colonizador europeu, proibiu-se severamente a 
sua escravidão e os nativos foram incentivados 
a se transformar em produtores. Para tanto, foi 
criado, em 1845, o Diretório-Geral dos Índios, 
cujos diretores substituíram os jesuítas que che-
fiavam os aldeamentos. Antes disso, em 1759, os 
missionários foram expulsos da colônia. O Estado 
português pretendia garantir aos indígenas os 
direitos naturais do ser humano pregado por filó-
sofos iluministas, mas seu principal intuito era 
construir uma estratégia de povoamento e explo-
ração da riqueza amazônica, defendendo também 
as fronteiras de ataques estrangeiros.
Esse projeto civilizador, que pregava a nega-
ção definitiva da cultura indígena, integrando os 
indígenas à cultura europeia, não obteve sucesso. 
Em vez de libertá-los, acabou por permitir que fos-
sem ainda mais explorados. Sem a mediação dos 
jesuítas, os colonos acabaram por investir ainda 
mais na exploração da mão de obra indígena sem 
respeitar as ordenações reais que coibiam o des-
respeito aos indígenas e sua escravização.
A independência e os conflitos 
durante o Império
Até a independência, continuou a predominar 
na região amazônica, na qual estava inserida a 
capitania do Grão-Pará, os interesses de colonos 
portugueses que detinham o poder local e des-
frutavam de privilégios concedidos pela Coroa. 
A adesão do Grão-Pará ao processo de indepen-
dência só ocorreu em 15 de agosto de 1823, depois 
que o Lord Cochrane enviou ao Grão-Pará o brigue 
(navio com dois mastros de velas redondas) Mara-
nhão, sob o comando do capitão Pascoe Grenfell, 
para negociar a adesão da capitania ao Império.
Assim como ocorreu em outras regiões do país, 
a independência consumada no Rio de Janeiro, em 
7 de setembro de 1822, não significava a adesão 
automática das elites locais ao projetopolítico lide-
rado por Dom Pedro I. Muitos proprietários e nego-
ciantes temiam que a nova ordem pudesse afetar 
seus interesses. Aqueles que aderiram à indepen-
dência o fizeram porque haviam sido alijados do 
poder nos primeiros anos da década de 1820 e viam 
nela uma possibilidade de reaver o espaço perdido.
Beckman no Sertão do Alto Mearim, outra pintura de Antônio 
Parreiras, do século XIX.
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Com a promessa de que os africanos escravizados 
seriam enviados regularmente para a região, os jesu-
ítas retornaram em 1680. Mas em que medida existiu 
a escravidão africana na Amazônia? Por que não 
teve a mesma penetração que no litoral nordestino?
Uma das dificuldades para a introdução da mão 
de obra africana na Amazônia era o alto custo, 
excessivo para a dimensão da economia daquela 
região. Além disso, o grande contingente popula-
cional indígena levava os colonos a se interessarem 
primeiramente pelo aprisionamento de indígenas.
A criação da Companhia de Comércio do Grão-
Pará e Maranhão, em 1682, foi uma tentativa de 
desenvolver o tráfico de africanos escravizados na 
região. A ela foram concedidos o monopólio desse 
negócio por vinte anos e mais o fornecimento de 
gêneros de consumo e a exploração de drogas do 
sertão. No entanto o suprimento regular de afri-
canos escravizados pela Companhia não ocorreu, 
e isso contribuiu para que, em 1684, os colonos do 
Maranhão organizassem a Revolta de Beckman, 
liderada por Manuel Beckman. Entre suas princi-
pais reivindicações estava o direito de escravizar 
nessa região, já que prevaleceu em todo o período 
a exploração da mão de obra indígena.
deu-se também transformar o indígena em cida-
dão, ou seja, mediante vários dispositivos legais 
reconheceu-se a igualdade do indígena diante do 
colonizador europeu, proibiu-se severamente a 
sua escravidão e os nativos foram incentivados 
a se transformar em produtores. Para tanto, foi 
criado, em 1845, o 
cujos diretores substituíram os jesuítas que che-
fiavam os aldeamentos. Antes disso, em 1759, os 
missionários foram expulsos da colônia. O Estado 
português pretendia garantir aos indígenas os 
direitos naturais do ser humano pregado por filó-
sofos iluministas, mas seu principal intuito era 
construir uma estratégia de povoamento e explo-
ração da riqueza amazônica, defendendo também 
as fronteiras de ataques estrangeiros.
ção definitiva da cultura indígena, integrando os 
indígenas à cultura europeia, não obteve sucesso. 
Em vez de libertá-los, acabou por permitir que fos-
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A independência também não atenuou os con-
flitos sociais existentes, a exemplo da exploração 
dos indígenas, da condição miserável de muitas 
pessoas livres e da violência constante que a 
manutenção da escravidão representava. Após a 
independência, a população da região amazônica 
continuou a se dedicar à economia extrativista, 
especialmente do cacau, da borracha, de madei-
ras, frutos, couros de animais e sementes diver-
sas. Em pequena escala, havia uma agricultura 
dedicada à produção de guaraná, arroz, algodão, 
café e farinha de mandioca.
Todavia a região continuou a ter uma densidade 
demográfica pequena em relação a outras regiões 
do país e uma numerosa população indígena, que 
ainda era aproveitada como mão de obra barata 
por muitos grandes proprietários. Não se pode afir-
mar que o governo brasileiro tenha mudado radi-
calmente o cenário do período colonial no que se 
refere à relação com os povos indígenas. Conforme 
a historiadora Patrícia Maria Melo Sampaio:
Em termos de legislação imperial, passou a 
funcionar o Regulamento das Missões, de 24 de 
julho de 1845, estabelecendo a criação de uma 
Diretoria-Geral de Índios em cada província, que 
administraria as suas respectivas diretorias par-
ciais, devendo todos contar com a ação evange-
lizadora de missionários. Permitia-se o “aluguel” 
de turmas de índios para as obras públicas e par-
ticulares, com a contrapartida de pagamento de 
jornais e de dispensa ao término do contrato, para 
retorno aos respectivos aldeamentos ou sítios. 
Registraram-se inúmeros desmandos, desde o 
descumprimento dos contratos ao não pagamen-
to dos salários aos índios. Denúncia comum era a 
de que os diretores usavam os índios de sua juris-
dição em benefício próprio ou de pessoas de suas 
relações, tornando frequente o não atendimento 
das demandas de trabalhadores feitas pelos ad-
ministradores provinciais, em prejuízo de várias 
obras públicas. A partir de 1870, o crescimento 
do número de nordestinos, atraídos pela expan-
são da borracha, ofereceu alternativas de mão de 
obra, o que em parte explica a antecipação da abo-
lição na escravidão na província do Amazonas.
In: VAINFAS, Ronaldo (Org.). Dicionário do Brasil imperial. 
Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. p. 40-1.
A abolição da escravatura de africanos ocor-
reu no Amazonas em 1884. Mas essa antecipação 
não pode ser considerada o fim dessa forma de 
organização do trabalho na Amazônia, como bem 
explica o sociólogo José de Souza Martins:
[...] O gesto precursor das províncias do 
Amazonas e do Ceará, em 1884, na abolição da 
escravatura, esconde a verdadeira história da ser-
vidão nessas regiões. 
Essas mesmas províncias estavam na mesma 
época envolvidas na gestação da nova escravidão 
que se estenderia até os dias de hoje. Milhares de 
cearenses migravam, expulsos pela seca, para ou-
tras regiões do país e em grande quantidade para 
a Amazônia, para trabalhar na economia da borra-
cha. O Ceará se livrava, assim, de seus excedentes 
demográficos. Na província do Amazonas, eram 
escravizados na economia da servidão por dívida, 
que se multiplicou e se estende até os dias atuais.
MARTINS, José de Souza. A terceira abolição da 
escravatura. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 
15 maio 2005. Disponível em: <www.estadao.com.br>. 
Acesso em: 1 jun. 2013.
Não é possível estudar a história da Amazônia 
pós-independência sem fazer referência à Revolta 
da Cabanagem (1835-1840). No entanto, devemos 
salientar que as tensões se faziam presentes na 
região desde pelo menos 1808, quando ocorreu a 
Abertura dos Portos às Nações Amigas e a che-
gada da Corte portuguesa ao Rio de Janeiro. A 
partir daí, as relações econômicas foram se trans-
formando, com a maior presença da Inglaterra na 
região e a reorganização da economia local, que 
agora se deparava com novas condições para a 
realização do comércio. Essa presença inglesa 
incomodava as províncias do Norte, já que os 
comerciantes portugueses dominavam o mercado 
e eram fiéis solidários ao rei de Portugal. Os rumos 
e o futuro dos negócios tornavam-se incertos. 
Mesmo assim, houve crescimento econômico 
nesse período. Conforme a historiadora Magda Ricci:
Trabalhadores de madeireira em Bom Jesus, no Amazonas, 
em 2003. Nesse setor e em vários outros há, ainda hoje, 
denúncias de trabalho irregular e forçado, ou seja, do não 
cumprimento de leis trabalhistas: longas jornadas de trabalho, 
condições insalubres, ausência de pagamento de salário por 
endividamento e retenção do trabalhador no local de trabalho. 
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A independência também não atenuou os con-
flitos sociais existentes, a exemplo da exploração 
dos indígenas, da condição miserável de muitas 
pessoas livres e da violência constante que a 
manutenção da escravidão representava. Após a 
independência, a população da região amazônica 
continuou a se dedicar à economia extrativista, 
especialmente do cacau, da borracha, de madei-
ras, frutos, couros de animais e sementes diver-
sas. Em pequena escala, havia uma agricultura 
dedicada à produção de guaraná,arroz, algodão, 
Todavia a região continuou a ter uma densidade 
demográfica pequena em relação a outras regiões 
do país e uma numerosa população indígena, que 
ainda era aproveitada como mão de obra barata 
por muitos grandes proprietários. Não se pode afir-
mar que o governo brasileiro tenha mudado radi-
calmente o cenário do período colonial no que se 
refere à relação com os povos indígenas. Conforme 
Em termos de legislação imperial, passou a 
funcionar o Regulamento das Missões, de 24 de 
escravatura, esconde a verdadeira história da ser-
vidão nessas regiões. 
Essas mesmas províncias estavam na mesma 
época envolvidas na gestação da nova escravidão 
que se estenderia até os dias de hoje. Milhares de 
cearenses migravam, expulsos pela seca, para ou-
tras regiões do país e em grande quantidade para 
a Amazônia, para trabalhar na economia da borra-
cha. O Ceará se livrava, assim, de seus excedentes 
demográficos. Na província do Amazonas, eram 
escravizados na economia da servidão por dívida, 
que se multiplicou e se estende até os dias atuais.
MARTINS, José de Souza. A terceira abolição da 
escravatura. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 
15 maio 2005. Disponível em: <www.estadao.com.br>. 
Acesso em: 1 jun. 2013.
Não é possível estudar a história da Amazônia 
pós-independência sem fazer referência à Revolta 
da Cabanagem (1835-1840). No entanto, devemos 
salientar que as tensões se faziam presentes na 
região desde pelo menos 1808, quando ocorreu a 
Abertura dos Portos às Nações Amigas e a che-
gada da Corte portuguesa ao Rio de Janeiro. A 
partir daí, as relações econômicas foram se trans-
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Estudos mais recentes sobre as exportações por-
tuguesas para o Brasil vêm confirmando dados im-
portantes, notadamente que o Pará e o Maranhão 
juntos exportavam entre 1796 e 1799 cerca de 
13,6% dos produtos remetidos para a metrópole 
vindos do atual território do Brasil. Já entre 1804 
a 1807, esta porcentagem aumentava para 19% e, 
em ambos os casos, estas duas capitanias ocu-
pavam o quarto lugar no ranking das capitanias 
exportadoras. Entretanto, longe de ter um único 
grande produto de exportação, o Pará remetia para 
a Europa uma gama variada de gêneros.
RICCI, Magda. O fim do Grão-Pará e o nascimento 
do Brasil: movimentos sociais, levantes e deserções 
no alvorecer do Novo Império. In: PRIORE, Mary Del; 
GOMES, Flávio. Os senhores dos rios. Rio de Janeiro: 
Campus, 2003. p. 169.
Muitas festas aconteceram na região home-
nageando a presença de Dom João VI no Brasil. 
Entretanto, depois da Revolução Liberal do Porto, 
que exigia o retorno do rei a Lisboa, e sua volta 
efetiva em 1821, as tensões cresceram novamente 
no Norte da colônia, uma região onde os conflitos 
envolvendo escravos de origem africana, povos 
indígenas, autoridades de origem portuguesa e 
brasileiros eram constantes.
A própria Cabanagem, como movimento social, 
precisa ser entendida com base nesses marcos 
definidos acima, pois o início da revolta se deu 
quando o presidente da província, Lobo de Sousa, 
foi assassinado com o apoio de proprietários locais. 
Ele havia se indisposto com vários grupos sociais, 
instaurando uma crise de autoridade. Lobo de 
Sousa perseguiu e mandou prender muitos daque-
les que o criticavam e começou uma campanha 
contra os adversários da abdicação de Dom Pedro I 
que defendiam a restauração do trono. De qualquer 
modo, como explica ainda Magda Ricci:
Partindo do pressuposto que no dia 7 de janeiro a 
cadeia foi esvaziada pelos levantados cabanos e 
que ali foram encarcerados, desde então, apenas 
os governistas, os “inimigos da religião” e do 
“patriotismo” e liberdade, então se pode supor 
que o levante de 1835 teve adesões e inimigos que 
estavam muito longe da simples dicotomia entre 
explorados e exploradores, senhores e escravos. 
[…] Simultaneamente o documento escrito pelo 
tenente Joaquim Manoel revela ainda as intenções 
do levante cabano apontando para um interessan-
te campo de estudo. Ele afirmava que “a revolução 
era contra o governo e os maçons por serem, 
diziam os conspiradores, inimigos da religião”. 
[…] Primeiramente, é preciso lembrar que prati-
camente todos os documentos de época insistem 
em uma chamada crise grave de autoridade. A re-
volução era feita contra o governo, mas este não se 
resumia ao presidente da província do Grão-Pará, 
estando sempre associado a toda uma gama bem 
maior e mais complexa de autoridades, que iam 
desde as autoridades religiosas, representantes 
de Deus na terra, até o último dos senhores de 
escravos ou mesmo um simples pai de família. […]
RICCI, op. cit., p. 188.
A borracha e a belle époque
Em meados do século XVIII, o cientista natu-
ralista francês Charles Marie de La Condomine 
descobriu a borracha. Em contato com os povos 
indígenas, aprendeu a técnica de extração do 
látex da árvore que recebeu o nome de Hevea bra-
siliensis. Seu interesse pela substância (a seiva 
da seringueira) justificava-se por sua elasticidade, 
impermeabilidade e maleabilidade. Uma de suas 
primeiras aplicações industriais foi na confecção 
de borrachas de apagar. No início do século XIX, já 
era utilizada na produção de seringas e galochas.
Seu emprego só se diversificou após a des-
coberta do processo de vulcanização, em 1835, 
pelo cientista Charles Goodyear, que resolveu o 
problema da borracha de derreter com o calor e 
enrijecer no inverno. Com a introdução da nova 
técnica, conseguiu-se dar consistência fixa ao 
material. A borracha passou, então, a ser utiliza-
da na fabricação de rodas, correias, mangueiras, 
sapatos e outros produtos. Dessa forma, a pro-
dução de borracha na Amazônia, única região 
produtora no século XIX, cresceu de 156 toneladas 
em 1830 para 2 673 toneladas em 1860. Já a partir 
de 1850, a borracha passou a ser a principal ativi-
dade econômica da região, envolvendo os atuais 
estados do Pará, do Amazonas, do Acre e parte da 
Venezuela, do Peru e da Bolívia.
Entretanto, somente depois de 1890, com a 
popularização da bicicleta e a posterior fabrica-
ção de carros em série, a borracha começou a ser 
adquirida em larga escala por industriais europeus 
e norte-americanos. Com o crescimento da deman-
da pelo produto após 1870, rapidamente se desen-
volveu um importante centro comercial na cidade 
portuária de Belém, capital da província do Pará.
A estrutura produtiva organizou-se com base 
na atividade dos seringueiros, trabalhadores autô-
nomos que empregavam técnicas indígenas para 
extração do látex. Por meio de pequenos cortes 
nas árvores eles retiravam o líquido, que em segui-
da era submetido a um processo de coagulação. 
Depois entregavam o produto ao aviador, que 
financiava a produção da borracha oferecendo 
40
Estudos mais recentes sobre as exportações por-
tuguesas para o Brasil vêm confirmando dados im-
portantes, notadamente que o Pará e o Maranhão 
juntos exportavam entre 1796 e 1799 cerca de 
13,6% dos produtos remetidos para a metrópole 
vindos do atual território do Brasil. Já entre 1804 
a 1807, esta porcentagem aumentava para 19% e, 
em ambos os casos, estas duas capitanias ocu-
pavam o quarto lugar no ranking das capitanias 
exportadoras. Entretanto, longe de ter um único 
grande produto de exportação, o Pará remetia para 
a Europa uma gama variada de gêneros.
RICCI, Magda. O fim do Grão-Pará e o nascimento 
do Brasil: movimentos sociais, levantes e deserções 
no alvorecer do Novo Império. In: PRIORE, Mary Del; 
GOMES, Flávio. Os senhores dos rios. Rio de Janeiro: 
Campus, 2003. p. 169.
Muitas festas aconteceram na região home-
nageando a presença de Dom João VI no Brasil. 
Entretanto, depois da Revolução Liberal do Porto, 
que exigia o retorno do rei a Lisboa, e suavolta 
efetiva em 1821, as tensões cresceram novamente 
no Norte da colônia, uma região onde os conflitos 
envolvendo escravos de origem africana, povos 
A borracha e a 
ralista francês Charles Marie de La Condomine 
descobriu a borracha. Em contato com os povos 
indígenas, aprendeu a técnica de extração do 
látex 
siliensis
da seringueira) justificava-se por sua elasticidade, 
impermeabilidade e maleabilidade. Uma de suas 
primeiras aplicações industriais foi na confecção 
de borrachas de apagar. No início do século XIX, já 
era utilizada na produção de seringas e galochas.
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Inaugurado em 1896, o Teatro Amazonas, em Manaus, é uma das construções que fizeram parte da reforma urbana da cidade, pro-
movida com a riqueza adquirida pela comercialização da borracha. Para trazer a modernidade europeia a Manaus, importaram-se 
telhas, grades de ferro, móveis, mármores, lustres e outros objetos do Velho Mundo. Foto de 2009.
mercadorias de subsistência em troca. Mediante 
relação de compadrio, o aviador assumia uma 
postura de “protetor” dos seringueiros, garantindo 
assim o fornecimento da borracha pelo endivida-
mento de seus protegidos e pelo uso da violência 
contra aqueles que não se submetessem às con-
dições impostas pelas casas aviadoras. O aviador 
funcionava ainda como intermediário dos exporta-
dores estrangeiros, especialmente norte-america-
nos e ingleses, sediados em Manaus e Belém.
Além da utilização de mão de obra local, os 
aviadores financiavam a vinda de migrantes nor-
destinos para trabalhar nos seringais nos anos da 
expansão da borracha. Estranhos à extensa região 
amazônica, esses trabalhadores ficavam presos 
ao aviador, único canal comercial disponível para 
vender a borracha e comprar produtos de subsis-
tência. As populações indígenas da Amazônia, 
principalmente os Munduruku e os Apiacá, eram 
recrutadas à força para o trabalho nos seringais, 
com a rápida destruição de muitos grupos e a pro-
funda mudança dos elementos culturais nativos.
Embora obtivessem grande lucro nas operações 
com os seringueiros, os aviadores eram obrigados 
a recorrer a empréstimos bancários ou a adian-
tamentos dos exportadores em troca da garantia 
de revenda, para poderem financiar a produção 
nos seringais. Com isso acumulavam dívidas que, 
em situações de queda do preço da borracha, os 
obrigavam a vender o produto por preços que não 
cobriam o investimento inicial. Os maiores lucros 
ficavam reservados aos exportadores estrangei-
ros, o que mantinha a economia local subordinada 
ao mercado internacional, uma vez que não havia 
nenhum setor interno com condições para con-
trolar o mercado da borracha. Isso não impediu, 
contudo, a formação de grandes fortunas locais e 
um significativo desenvolvimento urbano.
A cidade de Belém cresceu de maneira ace-
lerada, atingindo uma população de aproximada-
mente 200 mil habitantes em 1910 (em 1872, eram 
somente 61 mil habitantes). A infraestrutura urba-
na ampliou-se em pouco tempo com a construção 
de bulevares, a introdução de bondes elétricos, 
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serviço telefônico, iluminação pública elétrica 
e água encanada. Após 1885, além de Belém, a 
cidade de Manaus despontou como importan-
te centro de exportação de borracha. Em 1884, 
Belém detinha cerca de 90% das exportações. Já 
em 1901, esse número caiu para 48%, ficando os 
52% restantes para a capital amazonense. Apesar 
de Manaus ter sido convertida em símbolo da 
expansão da borracha, ela só conseguiu suplantar 
Belém como centro comercial entre 1901 e 1905. 
Depois disso, a participação de Manaus oscilou 
sempre entre 40% e 45%.
Esse desenvolvimento econômico, que se deno-
minou belle époque amazônica, foi um surto de 
investimentos na tentativa de implantar aspectos da 
modernidade dos centros urbanos em cidades como 
Manaus e Belém. Tal modernização pode ser enten-
dida como uma necessidade gerada pelo incremen-
to da economia capitalista na região. Foi necessário, 
por exemplo, ampliar os portos para atender à cres-
cente demanda exportadora. Contudo, como adver-
te a historiadora Maria de Nazaré Sarges:
Desse modo, o conceito de modernidade está inti-
mamente ligado ao de progresso expresso através 
do desenvolvimento da vida urbana, da construção 
de ferrovias, da intensificação das transações co-
merciais e da internacionalização de mercados. […]
Na dinâmica cidade de Belém foram projetados, 
além do Porto de Belém, o Mercado Municipal 
do Ver-o-Peso (1901), o Hospital Dom Luiz e o 
Grêmio Literário (obras da colônia portuguesa), 
The Amazon Telegraph Company, linha telegráfica 
por cabos submarinos, substituída posteriormente 
pela Western Co., o Arquivo e Biblioteca Pública 
(1894), o Teatro da Paz (1878), 43 fábricas (incluindo 
desde chapéu até perfumaria), 5 bancos, 4 compa-
nhias seguradoras, além da implantação da ilumi-
nação a gás, sob a responsabilidade da Pará Eletric 
Railway and Ligthing Co. Ltd., autorizada a funcio-
nar pelo Decreto Federal n. 5.780, de 26.1.1905.
Entendemos que a ação dinamizadora do “embe-
lezamento do visual da cidade” estava associada 
à economia, à demografia, mas também aos valo-
res estéticos de uma classe social em ascensão 
(seringalistas, comerciantes, fazendeiros) e às ne-
cessidades de se dar a determinados segmentos 
da população da cidade segurança e acomodação, 
além da colocação em prática da ideia positivista de 
progresso enfatizada pelo novo regime republicano.
SARGES, Maria de Nazaré. Belém: riquezas produzindo a 
belle époque. 2. ed. Belém: Paka-Tatu, 2002. p. 138-9.
Belém e Manaus entraram em profunda crise 
após 1910. Após o preço do quilo da borracha sal-
tar de dois para seis dólares em poucos meses, as 
vendas começaram a cair por causa da produção 
asiática de borracha, que, financiada por indus-
triais norte-americanos e europeus, suplantou a 
produção brasileira no mercado internacional 
a partir de 1913. Como resultado da concorrência 
asiática, já em 1911 o preço da borracha caiu a 
pouco mais de um dólar, recuperando-se lenta-
mente nos anos que seguiram. O efeito da crise 
foi avassalador, obrigando aviadores a se desfa-
zerem da borracha estocada por preços muito 
menores do que o investimento realizado, para 
saldar suas dívidas com credores e bancos.
Assim, de 1910 a 1920 ocorreu o processo de 
declínio da economia amazônica, com a falência 
de casas aviadoras, a perda da posição de lide-
rança no mercado mundial e o endividamento dos 
governos estaduais, que compraram estoques de 
borracha a alto preço na tentativa de elevar o 
preço do produto. Entretanto, as razões estrutu-
rais da crise produtiva que se instalou na econo-
mia da borracha devem ser buscadas não apenas 
na concorrência asiática, mas também na falta 
de investimento e apoio governamental ao setor. 
Dominado pelos cafeicultores, o Estado brasilei-
ro não elaborou nenhuma política de crédito ou 
estímulo ao incremento das plantações de serin-
gueiras, tampouco procurou proteger produtores, 
exportadores e comerciantes brasileiros no sen-
tido de consolidar uma classe economicamente 
forte para dirigir o processo de produção da borra-
cha na região da Amazônia. Ao contrário, quando o 
governo do Pará promulgou uma lei estabelecendo 
uma taxação maior para os exportadores estran-
geiros, o governo federal, a pedido dos industriais 
norte-americanos, ordenou sua revogação.
Após 1930, mas principalmente depois da 
Segunda Guerra Mundial (1939-1945), asindús-
trias passaram a utilizar borracha sintética, cuja 
produção era superior à de borracha natural. 
Ainda assim, na região amazônica, o produto 
continua a ser produzido até os dias atuais, pre-
servando algumas das características do antigo 
sistema produtivo, particularmente no que se 
refere ao domínio do aviador sobre os seringuei-
ros. Nos anos 1970, diversos seringais entraram 
em decadência e muitas terras foram vendidas a 
empresários do Sul.
Surgiram os chamados seringueiros liber-
tos, trabalhadores que se recusaram a abandonar 
a região amazônica e passaram a vender livre-
mente sua produção. A partir desse grupo, foi 
organizado um sindicato de trabalhadores rurais 
no Acre sob a liderança de Wilson Pinheiro, assas-
sinado por fazendeiros em 1980. Seu sucessor, 
42
serviço telefônico, iluminação pública elétrica 
e água encanada. Após 1885, além de Belém, a 
cidade de Manaus despontou como importan-
te centro de exportação de borracha. Em 1884, 
Belém detinha cerca de 90% das exportações. Já 
em 1901, esse número caiu para 48%, ficando os 
52% restantes para a capital amazonense. Apesar 
de Manaus ter sido convertida em símbolo da 
expansão da borracha, ela só conseguiu suplantar 
Belém como centro comercial entre 1901 e 1905. 
Depois disso, a participação de Manaus oscilou 
sempre entre 40% e 45%.
Esse desenvolvimento econômico, que se deno-
minou belle époque amazônica, foi um surto de 
investimentos na tentativa de implantar aspectos da 
modernidade dos centros urbanos em cidades como 
Manaus e Belém. Tal modernização pode ser enten-
dida como uma necessidade gerada pelo incremen-
to da economia capitalista na região. Foi necessário, 
por exemplo, ampliar os portos para atender à cres-
cente demanda exportadora. Contudo, como adver-
te a historiadora Maria de Nazaré Sarges:
Desse modo, o conceito de modernidade está inti-
asiática de borracha, que, financiada por indus-
triais norte-americanos e europeus, suplantou a 
produção brasileira no mercado internacional 
a partir de 1913. Como resultado da concorrência 
asiática, já em 1911 o preço da borracha caiu a 
pouco mais de um dólar, recuperando-se lenta-
mente nos anos que seguiram. O efeito da crise 
foi avassalador, obrigando aviadores a se desfa-
zerem da borracha estocada por preços muito 
menores do que o investimento realizado, para 
saldar suas dívidas com credores e bancos.
declínio da economia amazônica, com a falência 
de casas aviadoras, a perda da posição de lide-
rança no mercado mundial e o endividamento dos 
governos estaduais, que compraram estoques de 
borracha a alto preço na tentativa de elevar o 
preço do produto. Entretanto, as razões estrutu-
rais da crise produtiva que se instalou na econo-
mia da borracha devem ser buscadas não apenas 
na concorrência asiática, mas também na falta 
de investimento e apoio governamental ao setor. 
Dominado pelos cafeicultores, o Estado brasilei-
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Avenida 16 de Novembro, em Belém (PA), em 1905, depois das 
reformas de modernização da cidade.
Vista do centro comercial e do mercado Ver-o-Peso, em Belém 
(PA). Foto de 2008.
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o seringueiro Chico Mendes (veja o boxe a 
seguir), também foi assassinado por fazendeiros 
em 1988. Além de lutarem pelo fim definitivo do 
antigo sistema produtivo centrado na figura do 
aviador, os trabalhadores passaram a defender a 
formação de reservas extrativistas na Amazônia. 
Por meio delas seria reconhecido o direito dos 
seringueiros de permanecerem em áreas tra-
dicionalmente ocupadas por eles, áreas estas 
pertencentes à União. Dessa forma, seriam mon-
tadas cooperativas extrativistas, preservando a 
Floresta Amazônica da devastação. Aliaram-se 
aos seringueiros outros grupos sociais ligados a 
atividades extrativistas, como os castanheiros e 
alguns povos indígenas da região. A questão da 
demarcação de terras e da manutenção da flores-
ta é, ainda hoje, objeto de diversos conflitos entre 
fazendeiros e extrativistas na Amazônia.
Chico Mendes
F rancisco Alves Mendes Filho nasceu em 1944 em Xapuri, no Acre. Seguindo desde criança a profissão do pai, Chico, como era conhecido, tornou-se o principal líder dos seringueiros na região, alcançando prestígio nacional e internacional na luta contra a devastação da Floresta Amazônica. Em 1975, firmou-se como líder 
sindical ao ser escolhido como secretário-geral do recém-fundado Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia. 
No ano seguinte, participou da luta com os seringueiros para impedir o desmatamento da Amazônia por meio dos 
“empates”, ações coletivas de trabalhadores extrativistas que visavam impedir a atuação de peões encarregados da 
derrubada da mata, convencendo-os a abandonar as motosserras. Em 1977, fundou o Sindicato dos Trabalhadores 
Rurais de Xapuri e foi eleito vereador pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Além disso, foi um dos fun-
dadores, em 1980, do Partido dos Trabalhadores (PT) no Acre. Em 1979, foi acusado de subversão e submetido a 
interrogatório pelo governo militar por promover debates públicos entre lideranças sindicais na Câmara Municipal. 
Durante toda a década de 1980 até sua morte, em 1988, Chico Mendes expôs para o mundo a questão da Amazônia 
e da devastação ambiental. Mais do que uma luta pela reforma agrária, percebeu que a floresta não devia ser loteada, 
mas sim permanecer patrimônio de todos. Dela os seringueiros tiram seu sustento, sem, no entanto, desmatá-la. 
Propôs a formação da União dos Povos da Floresta, que congregaria seringueiros e indígenas em um projeto de 
criação de reservas extrativistas que preservassem as áreas indígenas. O reconhecimento disso veio por intermédio 
de vários prêmios, incluindo o Global 500, concedido pela Organização das Nações Unidas (ONU). No entanto, 
Chico Mendes também colecionou muitos inimigos interessados na exploração econômica da Amazônia em outros 
moldes, principalmente os grandes fazendeiros. Ameaçado de morte, chegou a indicar em entrevistas os nomes de 
seus “possíveis futuros assassinos”, confirmando o que ocorreria pouco tempo depois.
Em 1988, foram implantadas as primeiras reservas extrativistas no Acre, o 
que implicou a desapropriação do Seringal Cachoeira, de propriedade de Darly 
Alves da Silva. Em 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes foi assassinado em 
sua casa. Darly Alves da Silva e seu filho, Darci, foram condenados, embora 
ainda haja a suspeita de outros poderosos envolvidos no crime. A morte do 
líder sindical chamou a atenção para a questão dos seringueiros e da floresta. 
Alguns de seus companheiros de luta ocupariam importantes cargos anos 
depois: Jorge Viana foi governador do Acre entre 1999 e 2006 e Marina Silva, 
ministra do Meio Ambiente entre 2003 e 2008 e candidata à presidência da 
República em 2010, atingindo quase 19,6 milhões de votos.
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em 1988.
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Com base em Atlas geográfico escolar. Rio de Janeiro: IBGE, 2009. p. 156.
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LOCALIZAÇÃO DE XAPURI (AC)
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o seringueiro Chico Mendes (veja o boxe a 
seguir), também foi assassinado por fazendeiros 
em 1988. Além de lutarem pelo fim definitivo do 
antigo sistema produtivo centrado na figura do 
aviador, os trabalhadores passaram a defender a 
formação de reservas extrativistas na Amazônia. 
Por meio delas seria reconhecido o direito dos 
seringueiros de permanecerem em áreas tra-
dicionalmente ocupadas por eles, áreas estas 
pertencentes à União. Dessa forma, seriam mon-
tadas cooperativasextrativistas, preservando a 
Floresta Amazônica da devastação. Aliaram-se 
aos seringueiros outros grupos sociais ligados a 
atividades extrativistas, como os castanheiros e 
alguns povos indígenas da região. A questão da 
demarcação de terras e da manutenção da flores-
ta é, ainda hoje, objeto de diversos conflitos entre 
fazendeiros e extrativistas na Amazônia.
Chico Mendes
F rancisco Alves Mendes Filho nasceu em 1944 em Xapuri, no Acre. Seguindo desde criança a profissão do pai, Chico, como era conhecido, tornou-se o principal líder dos seringueiros na região, alcançando prestígio nacional e internacional na luta contra a devastação da Floresta Amazônica. Em 1975, firmou-se como líder 
sindical ao ser escolhido como secretário-geral do recém-fundado Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia. 
No ano seguinte, participou da luta com os seringueiros para impedir o desmatamento da Amazônia por meio dos 
“empates”, ações coletivas de trabalhadores extrativistas que visavam impedir a atuação de peões encarregados da 
derrubada da mata, convencendo-os a abandonar as motosserras. Em 1977, fundou o Sindicato dos Trabalhadores 
Rurais de Xapuri e foi eleito vereador pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Além disso, foi um dos fun-
dadores, em 1980, do Partido dos Trabalhadores (PT) no Acre. Em 1979, foi acusado de subversão e submetido a 
interrogatório pelo governo militar por promover debates públicos entre lideranças sindicais na Câmara Municipal. 
Durante toda a década de 1980 até sua morte, em 1988, Chico Mendes expôs para o mundo a questão da Amazônia 
e da devastação ambiental. Mais do que uma luta pela reforma agrária, percebeu que a floresta não devia ser loteada, 
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As transformações do 
ecossistema da Amazônia
Ao longo do tempo, a Amazônia sofreu diferen-
tes devassamentos (expropriação do ser huma-
no e da natureza). Isso decorreu, por um lado, da 
visão de que essa região era uma grande área de 
recursos; por outro, da ideia de que recursos ines-
gotáveis deviam, obrigatoriamente, ser explora-
dos. Em outras palavras, por trás do slogan “vazio 
demográfico” estava a necessidade de ocupar 
esse espaço, baseado no “tripé”: necessidade 
de progresso, busca pela integração nacio-
nal/internacional e desenvolvimento econô-
mico. O resultado disso foi uma enorme pressão 
sobre os grupos sociais que lá habitam.
Após os anos 1960, ampliou-se a ocupação do 
território com a privatização gradativa de terras, 
minas e florestas. Isso ocasionou grande desi-
gualdade na distribuição dos recursos naturais, 
especialmente da terra. A maneira pela qual a 
região foi apropriada levou à exclusão social e à 
desterritorialização da população indígena, além 
de ter ocasionado enorme degradação ambiental.
O Estado, por sua vez, ainda hoje não consegue 
cumprir seu papel fiscalizador na região, o que faci-
lita atividades clandestinas como o garimpo e o nar-
cotráfico. Essas atividades são intensificadas pela 
pobreza em torno dos centros urbanos, que atinge 
principalmente a mão de obra nativa e os migrantes, 
levando as pessoas a ingressarem na clandestinidade.
Nos anos 1990, ocorreram transformações eco-
nômicas e políticas na região. A Amazônia tornou-
-se um espaço estratégico na inserção do país na 
globalização econômica, e as questões começaram 
a transitar em torno da revolução científico-tecnoló-
gica, da conservação ambiental e dos movimentos 
sociais. Novos atores nacionais e internacionais 
passaram a atuar, especialmente por meio de orga-
nizações não governamentais (ONGs). Para Antonia 
M. M. Ferreira e Enéas Salati, existem cinco fases 
históricas de transfiguração da região amazônica: 
“a de conquista e posse; a de ocupação; a de explo-
ração; a de valorização; e a de integração”1
Em cada um desses momentos houve uma 
forma diferente de devassamento do ser humano 
e da natureza.
O primeiro devassamento é conhecido tam-
bém como ciclo de drogas do sertão. Ele cons-
tituiu basicamente a busca por essas “drogas” 
1 FERREIRA, Antonia M. M.; SALATI, Enéas. Forças de transformação 
do ecossistema amazônico. Estudos Avançados, n. 54, maio/ago. 2005. 
p. 33. Dossiê Amazônia brasileira II.›. 
– canela, cravo, anil, madeira etc. –, que eram 
enviadas para a Europa nos séculos XVII e XVIII. 
Os povoamentos eram núcleos militares, coloniais 
e missões religiosas. Em razão da necessidade de 
mão de obra, os colonos iniciaram uma “caça ao 
indígena”, gerando conflitos com os jesuítas.
O segundo devassamento, que ocorreu no 
final do século XIX e começo do século XX, foi 
denominado ciclo da borracha. A demanda por 
borracha na Europa e nos Estados Unidos e a pro-
longada seca nordestina entre 1877 e 1880 foram 
suas principais causas. Houve grande aumento no 
contingente populacional, especialmente no recém-
-incorporado estado do Acre. Depois dos anos 1920, 
o crescimento de um mercado local impulsionou a 
agropecuária, além de atividades complementares 
de recursos, como a mineração e o extrativismo 
vegetal. No entanto, até 1970, elas não causaram 
grande impacto destrutivo na floresta.
Após 1970, ocorreu o terceiro grande devas-
samento impulsionado pela descoberta da rique-
za mineral e da pobreza dos solos. A ideia de 
“integrar para não entregar” levou à construção 
de estradas que cortam a região (entre elas a 
Transamazônica, na década de 1970) e aos incen-
tivos fiscais, ocasionando, consequentemente, 
um grande crescimento das migrações. Pequenos 
agricultores nordestinos foram expulsos de suas 
terras e orientados a avançar sobre terras amazô-
nicas “livres”. A nova e intensa ocupação rompeu 
com as atividades realizadas até então no local.
Nos anos 1980, a nova ordem econômica mun-
dial também se refletiu na Amazônia. Ainda con-
forme Antonia M. M. Ferreira e Enéas Salati:
Do ponto de vista nacional, a década de 1980 re-
presenta a implantação de uma política de moder-
nização desse território, visando à industrialização 
da Amazônia e à exploração de seus recursos mi-
nerais em bases modernizadas.
FERREIRA; SALATI, op. cit., p. 36.
O Programa Grande Carajás (PGC) foi implemen-
tado nessa época, trazendo a demanda por madeiras 
e energia hidráulica, a intensificação da exploração 
mineral e uma nova mobilidade populacional. A par-
tir daí, as migrações passaram a ocorrer dentro do 
próprio território amazônico, com deslocamentos 
que acompanham a demanda por mão de obra nas 
diferentes atividades econômicas. A população mais 
pobre começou a se deslocar de acordo com a explo-
ração de recursos, causando uma “desorganização” 
espacial. Um exemplo foi Serra Pelada, em 1985, 
quando mais de 500 mil pessoas se amontoaram em 
torno dessa área em busca de metais preciosos.
45
Ao longo do tempo, a Amazônia sofreu diferen-
 (expropriação do ser huma-
no e da natureza). Isso decorreu, por um lado, da 
visão de que essa região era uma grande área de 
recursos; por outro, da ideia de que recursos ines-
gotáveis deviam, obrigatoriamente, ser explora-
 “vazio 
demográfico” estava a necessidade de ocupar 
necessidade 
busca pela integração nacio-
desenvolvimento econô-
. O resultado disso foi uma enorme pressão 
Após os anos 1960, ampliou-se a ocupação do 
território com a privatização gradativa de terras, 
minas e florestas. Isso ocasionou grande desi-
gualdade na distribuição dos recursos naturais, 
especialmente da terra. A maneira pela qual a 
região foi apropriada levou à exclusão social e à 
desterritorialização da população indígena, além 
– canela, cravo, anil, madeira etc. –, que eram 
enviadas para a Europa nos séculos XVII e XVIII. 
Os povoamentos eram núcleos militares, coloniais 
e missões religiosas. Em razão da necessidade de 
mão de obra, os colonos iniciaramuma “caça ao 
indígena”, gerando conflitos com os jesuítas.
O segundo devassamento, que ocorreu no 
final do século XIX e começo do século XX, foi 
denominado ciclo da borracha. A demanda por 
borracha na Europa e nos Estados Unidos e a pro-
longada seca nordestina entre 1877 e 1880 foram 
suas principais causas. Houve grande aumento no 
contingente populacional, especialmente no recém-
-incorporado estado do Acre. Depois dos anos 1920, 
o crescimento de um mercado local impulsionou a 
agropecuária, além de atividades complementares 
de recursos, como a mineração e o extrativismo 
vegetal. No entanto, até 1970, elas não causaram 
grande impacto destrutivo na floresta.
Após 1970, ocorreu o terceiro grande devas-
samento impulsionado pela descoberta da rique-
za mineral e da pobreza dos solos. A ideia de 
“integrar para não entregar” levou à construção 
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O quarto grande devassamento ocorreu na 
década de 1990, marcada pela revolução científico-
-tecnológica, pela crise ambiental e pelos movi-
mentos sociais. A globalização passou a ser a pala-
vra de ordem, tendo em vista a preocupação com a 
escassez dos recursos naturais importantes para 
todo o planeta (como a água e a biodiversidade). 
O incentivo fiscal do governo, na década anterior, 
foi substituído pela atuação da iniciativa privada, 
que investiu em várias atividades, como a retirada 
de madeiras nobres, a mineração, a pecuária e o 
agronegócio. A Amazônia tornou-se o centro da 
discussão mundial, e seu futuro passou a ser con-
siderado o futuro do mundo. No entanto, o discurso 
da conservação caminhou lado a lado com o cres-
Mineradores em busca de ouro em Serra Pelada (PA), em 1986.
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cimento internacional da demanda por produtos 
como madeira, gado e grãos, cultivados na região. 
O resultado foi o desmatamento exacerbado.
Outro problema atual é que essas ativida-
des econômicas, apesar de seu grande impacto 
ambiental, absorvem pouca mão de obra. Elas 
também desestruturam as populações tradicio-
nais da Amazônia. Todo esse quadro leva a con-
flitos pela terra e ao crescimento desenfreado 
das cidades (algumas chegaram a crescer 7 000% 
entre 1980 e 1991). As novas aglomerações urba-
nas rompem com a cultura e a identidade étnica 
das populações nativas.
A ocupação da Amazônia no Brasil
contemporâneo
Nos dias atuais, a Amazônia ainda é ocupada 
por vários povos indígenas. Conforme o Instituto 
Socioambiental, em 2011 existiam entre 400 mil 
e 700 mil indígenas no Brasil, e mais da metade 
deles vivem nos estados da região Norte e em 
suas fronteiras, ou seja, dentro do espaço ama-
zônico. Há grande variedade linguística e cultu-
ral entre esses povos. Na tabela a seguir, identi-
ficamos alguns dos mais de 140 povos indígenas 
que ocupam o espaço amazônico.
As condições de vida desses muitos povos são 
bastante heterogêneas. Existem aqueles que vivem 
em regiões menos acessíveis e distantes das rotas 
de mercado, exercendo, por esse motivo, uma pres-
são ambiental inexpressiva, pois a demanda de 
recursos naturais está limitada às necessidades
de subsistência do grupo. Tais grupos podem ser 
divididos em duas subcategorias: povos cujas 
terras são razoavelmente protegidas de madeirei-
ros, garimpeiros e posseiros (os principais repre-
sentantes são os Enawenê Nawê); e povos que 
têm suas terras constantemente invadidas por 
elementos exteriores (como os Yanomami). Esses 
povos, por terem desenvolvido outros valores cul-
turais, demonstram pouco conhecimento sobre o 
mundo das mercadorias e acabam muitas vezes 
enganados por garimpeiros e outros intrusos em 
troca de produtos ou trabalhos mal remunerados.
Já outros povos indígenas são mais dependen-
tes do dinheiro e das mercadorias industrializadas. 
Utilizam os instrumentos dos “brancos” não apenas 
para ter status em sua tribo, mas também porque con-
sideram algumas peças indispensáveis a certas ativi-
dades (como machados, facas, espingardas, roupas, 
medicamentos etc.). Aos poucos, os conhecimentos 
tradicionais e sua mitologia estão sendo substituídos 
pela escola e por influências da sociedade industrial e 
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cimento internacional da demanda por produtos 
como madeira, gado e grãos, cultivados na região. 
O resultado foi o desmatamento exacerbado.
des econômicas, apesar de seu grande impacto 
ambiental, absorvem pouca mão de obra. Elas 
também desestruturam as populações tradicio-
nais da Amazônia. Todo esse quadro leva a con-
flitos pela terra e ao crescimento desenfreado 
das cidades (algumas chegaram a crescer 7 000% 
entre 1980 e 1991). As novas aglomerações urba-
nas rompem com a cultura e a identidade étnica 
das populações nativas.
A ocupação da Amazônia no Brasil
contemporâneo
por vários povos indígenas. Conforme o Instituto 
Socioambiental, em 2011 existiam entre 400 mil 
e 700 mil indígenas no Brasil, e mais da metade 
deles vivem nos estados da região Norte e em 
suas fronteiras, ou seja, dentro do espaço ama-
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correm o risco de ficar restritos às antigas gerações. 
Muitos indígenas trabalham em um sistema que 
pode ser considerado um resquício do grande período 
de exploração do látex. Como trabalhadores dessa 
atividade, facilmente são escravizados pelo sistema 
de adiamento, ou seja, pelo pagamento antecipado 
de algum valor que, depois, tem de ser revertido em 
trabalho. Disso resulta uma forma de escravidão por 
dívida. Há também o garimpo e o trabalho em madei-
reiras, muitas vezes praticados ilegalmente em áreas 
indígenas. Para evitar a fiscalização, garimpeiros ten-
tam se aliar a indígenas em troca de benefícios. No 
entanto, na prática do garimpo, joga-se mercúrio nos 
INSTITUTO Socioambiental. Disponível em: <www.socioambiental.org.br>. Acesso em: 18 abr. 2013.
Povos indígenas da Amazônia com grupos de mais de 2 mil habitantes
Nome
Família/
língua
UF (Brasil) – Países 
limítrofes
População 
estimada no 
Brasil
Ano da 
estimativa
Ticuna Ticuna AM – Peru/Colômbia 36 377 2009
Makuxi Karib
RR – Guiana 
Equatorial
29 931 2010
Guajajara Tupi-Guarani MA 19 471 2006
Yanomami (subgrupos 
Yanomami, Sanumá e Ninam)
Yanomami RR/AM – Venezuela 19 338 2011
Munduruku Munduruku PA 11 630 2010
Baré Nheengatu AM – Venezuela 10 275 2005
Mura Mura AM 9 299 2006
Sateré-Mawé Mawé AM/PA 9 156 2008
Wapixana Aruak RR – Guiana 7 000 2008
Tukano Tukano AM – Colômbia 6 241 2005
Kayapó (subgrupos Gorotire, 
A’ukre, Kikretun, Mekrãnoti, 
Kuben-Kran-Ken, Kokraimoro, 
Metuktire, Xikrin e Kararaô)
Jê MT/PA 5 923 2006
Baniwa Aruak
AM – Colômbia/ 
Venezuela
5 811 2005
Kaxinawá Pano AC – Peru 4 500 2004
Kulina Madihá Arawá AC/AM – Peru 3 500 2006
Apurinã Aruak AM 3 256 2006
Karajá Karajá MT/TO/PA 3 198 2010
Wai Wai (subgrupos Karafawyana, 
Xereu, Katuena e Mawayana)
Karib RR/AM/PA – Guiana 2 914 2005
Maku (subgrupos Yuhupde, Hupdá, 
Nadöb, Dow, Cacua e Nucak)
Maku AM – Colômbia 2 603 2005
Desana Tukano AM – Colômbia 2 204 2005
rios, o que traz enorme prejuízo ambiental a todos. 
Madeireiros também presenteiam os indígenas em 
troca da madeira a ser cortada.
Existem ainda os povos indígenas que perde-
ram a capacidade de produzir recursos para sua 
sobrevivência, vivendo principalmente perto dos 
centros urbanos. Atividades como caça, extração 
florestal e cultivo foram esgotadas nessas regi-
ões, tornando os indígenas dependentes do mer-
cado. Abandonando sua forma de vida originária, 
eles são obrigados a escolher entre viver em um 
ambiente desfavorável ou migrar paracidades ou 
áreas rurais mais distantes.
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Povos indígenas da Amazônia com grupos de mais de 2 mil habitantes
UF (Brasil) – Países 
limítrofes
População 
estimada no 
Brasil
Ano da 
estimativa
AM – Peru/Colômbia 36 377 2009
RR – Guiana 
Equatorial
29 931 2010
MA 19 471 2006
RR/AM – Venezuela 19 338 2011
PA 11 630 2010
AM – Venezuela 10 275 2005
AM 9 299 2006
AM/PA 9 156 2008
RR – Guiana 7 000 2008
AM – Colômbia 6 241 2005
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Indígenas das aldeias Barasano e Tuyuca 
peneirando a farinha do beiju (à base de 
mandioca). Manaus (AM), 2008.
Colono trabalhando em ter-
ra designada pelo Incra, em 
Altamira (PA), 1972.
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Ao lado desses povos indígenas há os rema-
nescentes dos grandes latifúndios do século XVIII, 
que mantêm relações de trabalho bastante antigas 
e estáveis, com base no sistema clientelista e no 
pagamento por espécie (o que leva muitas vezes 
ao endividamento do empregado). No entanto, para 
o meio ambiente, essas propriedades latifundiá-
rias produzem um impacto bem menor do que os 
latifúndios mais recentes, pois seu objetivo econô-
mico não é a acumulação de capital e a expansão 
territorial, mas sim a manutenção de um domínio 
senhorial. Após a década de 1970, com a chegada 
do outro tipo de latifúndio, alguns latifundiários 
tradicionais tiveram de modificar sua forma de 
produção por causa da concorrência.
Com a criação da Sudam (Superintendência 
do Desenvolvimento da Amazônia) em 1966, a 
região passou a oferecer incentivos fiscais gover-
namentais para o desenvolvimento da agropecuá-
ria. Foi o início da instalação de grandes latifúndios 
na região, o que causou inúmeros problemas sociais 
e ambientais. A floresta passou a ser vista como 
um “vazio demográfico” de subdesenvolvimento, 
que precisava ser desmatada para a chegada do 
capitalismo. Além do desmatamento, o massacre 
de grupos indígenas, o trabalho escravo, a expulsão 
dos posseiros e os conflitos pela terra foram outras 
consequências drásticas dessa situação.
Além disso, há os migrantes que vieram para 
a região e começaram a agir como posseiros, 
tomando posse das terras por meio dos desmata-
mentos. Vindos principalmente do Nordeste e do 
Sul, onde não dispunham de terras para produzir, 
desconhecem a floresta e cultivam elementos 
exteriores a ela, o que causa grande prejuízo 
ambiental. Estão nesse grupo tanto os pequenos 
agricultores como os trabalhadores sem terra e os 
sazonais, que, marcados por trajetórias sofridas 
que os levam até as terras inexploradas, enfren-
tam a violência dos grandes proprietários.
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Ao lado desses povos indígenas há os rema-
nescentes dos grandes latifúndios do século XVIII, 
que mantêm relações de trabalho bastante antigas 
e estáveis, com base no sistema clientelista e no 
pagamento por espécie (o que leva muitas vezes 
ao endividamento do empregado). No entanto, para 
o meio ambiente, essas propriedades latifundiá-
rias produzem um impacto bem menor do que os 
latifúndios mais recentes, pois seu objetivo econô-
mico não é a acumulação de capital e a expansão 
territorial, mas sim a manutenção de um domínio 
senhorial. Após a década de 1970, com a chegada 
do outro tipo de latifúndio, alguns latifundiários 
tradicionais tiveram de modificar sua forma de 
produção por causa da concorrência.
Com a criação da Sudam (Superintendência 
do Desenvolvimento da Amazônia) em 1966, a 
região passou a oferecer incentivos fiscais gover-
namentais para o desenvolvimento da agropecuá-
ria. Foi o início da instalação de grandes latifúndios 
na região, o que causou inúmeros problemas sociais 
e ambientais. A floresta passou a ser vista como 
um “vazio demográfico” de subdesenvolvimento, 
que precisava ser desmatada para a chegada do 
capitalismo. Além do desmatamento, o massacre 
de grupos indígenas, o trabalho escravo, a expulsão 
dos posseiros e os conflitos pela terra foram outras 
consequências drásticas dessa situação.
a região e começaram a agir como posseiros, 
tomando posse das terras por meio dos desmata-
mentos. Vindos principalmente do Nordeste e do 
Sul, onde não dispunham de terras para produzir, 
desconhecem a floresta e cultivam elementos 
exteriores a ela, o que causa grande prejuízo 
ambiental. Estão nesse grupo tanto os pequenos 
agricultores como os trabalhadores sem terra e os 
sazonais, que, marcados por trajetórias sofridas 
que os levam até as terras inexploradas, enfren-
tam a violência dos grandes proprietários.
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Durante a ditadura militar (1964-1985), grandes 
empreendimentos estatais foram justificados pela 
política de integração nacional, implementados 
para levar o capitalismo até o interior do Brasil. Tais 
empreendimentos envolviam maciços investimen-
tos em infraestrutura viária, construção de hidrelé-
tricas e programas de exploração de minérios, além 
dos incentivos fiscais aos proprietários privados. 
No início não demonstravam nenhuma preocupa-
ção ambiental, o que passou a ser questionado 
a partir dos anos 1980 por organizações interna-
cionais como o Banco Mundial. O resultado foi a 
atual exigência de estudos relacionados aos impac-
tos ambientais que poderiam ser ocasionados na 
região antes da aprovação de qualquer projeto.
Todos esses elementos fazem com que as ten-
sões sociais na região sejam enormes, além dos 
evidentes riscos para o ecossistema da Amazônia 
e para o ser humano que ali vive.
A terra e o desenvolvimento 
na Amazônia
No período do regime militar no Brasil, a quase 
totalidade do território amazônico brasileiro era 
propriedade da União e dos estados. Tanto as terras 
públicas e livres de titulação quanto as propriedades 
privadas eram ocupadas por pequenos posseiros 
que viviam do extrativismo, por populações nativas 
e por migrantes de longa data. Os conflitos entre 
seus habilitantes eram praticamente inexistentes.
A partir dos anos 1960, surgiu a teoria de que 
seria possível atrair para a Amazônia capitais pro-
dutivos vindos de outras regiões do país e do exte-
rior. Os militares iniciaram, então, um plano para 
integrá-la ao mercado nacional e internacional, que 
tinha nos incentivos fiscais sua principal estratégia, 
deixando a modernização da região nas mãos das 
grandes empresas privadas. O resultado foi catas-
trófico, já que os empresários investiram o dinheiro 
na especulação imobiliária (adquirindo muitas ter-
ras para vendas futuras) e na pecuária (o que cau-
sou um enorme desmatamento). O Estado investiu 
na infraestrutura local, construindo estradas, por-
tos, aeroportos etc., o que aumentou a devastação 
florestal. O projeto mais conhecido nessa direção 
é o da construção da Rodovia Transamazônica, 
que foi idealizada para ter 8 mil quilômetros de 
extensão e que nunca foi concluída. Além disso, 
o governo comprometeu-se a atrair mão de obra 
barata para trabalhar nas obras (como os nordesti-
nos que fugiam da seca), a qual lá permaneceu em 
condições precárias de sobrevivência.
Após os anos 1970, as terras públicas habita-
das por colonos, ribeirinhos e indígenas passaram 
a ser loteadas e vendidas em grandes dimensões 
para os novos investidores. Os novos proprietá-
rios, por sua vez, remarcaram os lotes em uma 
extensão bem maior do que a original. Muitas prá-
ticas ilegais de grilagem tornaram-se constantes, 
como a venda de um mesmo terreno para mais de 
um comprador, a venda de terras públicas por par-
ticulares (incluindo áreas de reservas ambientais 
e indígenas), a demarcaçãoda terra comprada, a 
falsificação de títulos de terra, o remembramento 
de lotes destinados à reforma agrária etc. Tudo isso 
resultou em uma enorme concentração de terras 
na Amazônia e na intensificação de conflitos.
O governo federal, por sua vez, regularizou por 
meio de medidas provisórias as terras griladas. 
Para “promover a região”, o Estado legalizou as pro-
priedades de até 60 mil hectares que tivessem sido 
Trecho da Rodovia Transamazônica entre Itaituba e 
Jacareacanga (PA), em 2001. O grande projeto de integração 
da região custou muito caro ao governo federal e atraiu muitos 
migrantes e colonizadores. A obra nunca foi concluída, existin-
do atualmente pouco mais de 2 mil quilômetros de rodovia, 
e grande parte desse trajeto sem asfalto. A construção da 
estrada gerou um enorme desmatamento em seu entorno, o 
que causa problemas até os dias atuais.
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Durante a ditadura militar (1964-1985), grandes 
empreendimentos estatais foram justificados pela 
política de integração nacional, implementados 
para levar o capitalismo até o interior do Brasil. Tais 
empreendimentos envolviam maciços investimen-
tos em infraestrutura viária, construção de hidrelé-
tricas e programas de exploração de minérios, além 
dos incentivos fiscais aos proprietários privados. 
No início não demonstravam nenhuma preocupa-
ção ambiental, o que passou a ser questionado 
a partir dos anos 1980 por organizações interna-
cionais como o Banco Mundial. O resultado foi a 
atual exigência de estudos relacionados aos impac-
tos ambientais que poderiam ser ocasionados na 
Todos esses elementos fazem com que as ten-
sões sociais na região sejam enormes, além dos 
evidentes riscos para o ecossistema da Amazônia 
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adquiridas ilegalmente, promovendo a expulsão dos 
antigos moradores. Os governos estaduais agiram 
da mesma maneira. Dessa forma, os antigos e legíti-
mos posseiros foram obrigados a deixar suas terras.
Após os anos 1970 surgiu, na região, a figura do 
pistoleiro, com a finalidade de proteger as gran-
des propriedades ociosas ou improdutivas contra a 
invasão dos posseiros. Por causa do pequeno con-
tingente policial, os fazendeiros introduziram os pis-
toleiros para “ajudá-los” na expulsão, além de uti-
lizá-los para assassinar lideranças e sindicalistas.
Também a partir dos anos 1970, a madeira e 
o gado passaram a ser as principais atividades 
econômicas da região. Ambas exigem grandes 
propriedades (concentrando, consequentemen-
te, a renda nas mãos de poucos), empregam 
pouca mão de obra e causam enorme destruição 
ambiental. E tudo isso para um rendimento baixo, 
já que os produtos não são industrializados.
O Pará é o estado mais afetado por conflitos 
de terra, tendo crescido bastante as ameaças e o 
número de mortes nos últimos dez anos. Com a 
construção das estradas federais nos anos 1970, 
houve uma “federalização das terras amazô-
nicas” por meio de decretos, o que fez ape-
nas 30% das terras paraenses ficarem sob a 
jurisdição do governo estadual. Os maiores 
beneficiados pela federalização foram os grandes 
proprietários rurais. Nos anos 1980, os decretos da 
época da ditadura foram revogados e as terras volta-
ram aos estados, mas a situação não foi resolvida. A 
indiferença do poder público e o apoio aos interesses 
dos latifundiários agravam a questão. O Pará ainda 
é o local onde a impunidade por crimes em conflitos 
de terras é maior. O caso do assassinato da freira 
Dorothy Stang, cujo julgamento foi relativamente 
rápido, foi uma exceção, já que a maior parte dos 
casos aguardam mais de dez anos para serem jul-
gados. Ela foi assassinada por pistoleiros, a mando 
de fazendeiros do município de Anapu, por defender 
a manutenção de um assentamento de pequenos 
coletores extrativistas de uma reserva ecológica.
Na proposta de desenvolvimento econômico da 
Amazônia, formulada durante a ditadura militar, 
foi criada a Zona Franca de Manaus, a fim de 
promover a ocupação de uma região despovoada. 
Pretendia-se atrair mão de obra e capital nacional 
e estrangeiro, dando à Amazônia condições de 
rentabilidade econômica global. Assim, realizou-
-se a Operação Amazônia, na qual se incluiu 
a criação da Zona Franca, que contemplava o 
discurso militarista nacionalista e o processo de 
transnacionalização do capital. Na verdade, essa 
combinação estava atrelada a um contexto inter-
Dorothy Stang (em foto de fevereiro de 2004) foi assassinada 
em 12 de fevereiro de 2005, aos 73 anos de idade. Nascida nos 
Estados Unidos, a missionária estava no Brasil desde 1972 e 
atuava no município de Anapu (PA), região da Transamazônica. 
Ela desenvolvia projetos sustentáveis para geração de empre-
go e renda. Atuava também em projetos 
de reflorestamento de áreas degra-
dadas. Ademais, trabalhava para 
o Projeto de Desenvolvimento 
Sustentável Esperança, no qual 
mais de 55 famílias seriam 
assentadas em terras confis-
cadas de fazendeiros e madei-
reiros pelo Instituto Nacional 
de Colonização e Reforma 
Agrária (Incra). Os assentados 
receberiam lotes de 100 hectares 
para criar gado de corte e produ-
zir leite, além de desenvolver uma 
agricultura familiar. Os 80 hectares 
restantes seriam preservados. Os 
fazendeiros e os madeireiros, por 
sua vez, prometeram assassinar 
a missionária se o projeto fos-
se adiante. Após o crime, dois 
executores foram presos e três 
fazendeiros, acusados como 
mandantes. Os assassinos fo-
ram julgados e condenados 
pelo crime. Desde 1971 até 
2005, 587 pessoas foram 
mortas por envolvimento 
em questões agrárias no 
sudeste e no sul do Pará.
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ASSASSINATOS DE CAMPONESES E 
TRABALHADORES RUAIS (1986-2006)
Observe a grande concentração de assassinatos no Pará. 
Organizado com base em dados da Comissão Pastoral 
da Terra. Disponíveis em: <http://www.cptnacional.org.
br/>. Acesso em 23 maio 2013.
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adquiridas ilegalmente, promovendo a expulsão dos 
antigos moradores. Os governos estaduais agiram 
da mesma maneira. Dessa forma, os antigos e legíti-
mos posseiros foram obrigados a deixar suas terras.
Após os anos 1970 surgiu, na região, a figura do 
pistoleiro, com a finalidade de proteger as gran-
des propriedades ociosas ou improdutivas contra a 
invasão dos posseiros. Por causa do pequeno con-
tingente policial, os fazendeiros introduziram os pis-
toleiros para “ajudá-los” na expulsão, além de uti-
lizá-los para assassinar lideranças e sindicalistas.
Também a partir dos anos 1970, a madeira e 
o gado passaram a ser as principais atividades 
econômicas da região. Ambas exigem grandes 
propriedades (concentrando, consequentemen-
te, a renda nas mãos de poucos), empregam 
pouca mão de obra e causam enorme destruição 
ambiental. E tudo isso para um rendimento baixo, 
já que os produtos não são industrializados.
O Pará é o estado mais afetado por conflitos 
de terra, tendo crescido bastante as ameaças e o 
número de mortes nos últimos dez anos. Com a 
construção das estradas federais nos anos 1970, 
houve uma “federalização das terras amazô-
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Disponível em: <http://g1.globo.com/natureza/noticia/2013/03/desmatamento-da-amazonia-sobe-26-em-6-meses-aponta-inpe.html>. 
Acesso em: 1 jun. 2013.
DESMATAMENTO NA AMAZÔNIA EM KM2 (1988-2012).
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A PONTO DE VISTA
nacional de relacionar a ordem nacional à ordem 
mundial, originando váriaszonas francas pelo 
mundo. Quando foi criada a brasileira, já existiam 
três zonas semelhantes no mundo: Kaoshiung 
(China), Shannon (Irlanda) e Kandla (Índia).
Nesse sentido, a Zona Franca de Manaus foi 
uma tentativa do governo militar de implementar 
uma área de livre-comércio, importação e exporta-
ção, e incentivos fiscais especiais. Essa iniciativa 
levou a outros investimentos em infraestrutura na 
região, sendo contemporânea à criação do Banco 
da Amazônia S. A. (Basa) e da Sudam. Coube à 
ditadura criar condições para o investimento capita-
lista industrial na região, especialmente por meio da 
diminuição do imposto aos investidores capitalistas.
Em 2006, o governo federal sancionou lei que 
permite a concessão de florestas públicas para 
exploração de atividades econômicas como o corte 
de madeiras. Dessa forma ele pretende reduzir a 
grilagem de terras e desenvolver uma economia 
sustentável na região. Assim o governo brasileiro 
toma as rédeas do processo de exploração dos 
recursos naturais da floresta e cede concessões de 
exploração, controlando os impactos sobre o meio 
ambiente e reduzindo a concentração de terras nas 
mãos de poucos. Em 2009, registrou-se significativo 
recuo no desmatamento da Amazônia. No entanto, 
não o suficiente para impedir que ainda fossem 
desmatados 7 mil km2 somente nesse ano. Entre 
2011 e 2012 forma desmatados outros 4,6 mil km2, o 
que equivale a um espaço equivalente a três cida-
des da dimensão de São Paulo. Observe no gráfico 
abaixo, o ritmo do desmatamento na Amazônia ao 
longo dos anos.
A redução do desmatamento também tem 
impacto positivo na emissão de gases do efeito 
estufa por causa da diminuição de gás carbônico 
na atmosfera.
A visão do progresso na Amazônia em Theodoro Braga
O pintor Theodoro Braga (1872-1953) tentou criar uma espécie de Renascimento Amazônico no início do século XX. Artista e historiador, já que realizava grandes pesquisas em fontes primárias para compor suas obras, ele fez parte de uma elite letrada amazônica que tentou 
definir uma “nova” interpretação da história do Brasil, na qual o Norte estaria no epicentro dos deba-
tes. Braga realizou tentativas de investigar o meio natural e os tipos raciais da região, aproximando a 
história natural da etnologia.
Sua principal tela foi Fundação da cidade de Nossa Senhora de Belém do Pará, de 1908, que 
marcou uma nova leitura da história da Amazônia. A obra foi encomendada pelo então prefeito da 
cidade Antônio Lemos, com quem o artista tinha uma relação de fidelidade. Considerado o marco 
do modernismo amazônico, o quadro retrata o episódio histórico a que se refere o título com todos 
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DESMATAMENTO NA AMAZÔNIA EM KM2 (1988-2012).
nacional de relacionar a ordem nacional à ordem 
mundial, originando várias zonas francas pelo 
mundo. Quando foi criada a brasileira, já existiam 
três zonas semelhantes no mundo: Kaoshiung 
Nesse sentido, a Zona Franca de Manaus foi 
uma tentativa do governo militar de implementar 
uma área de livre-comércio, importação e exporta-
ção, e incentivos fiscais especiais. Essa iniciativa 
levou a outros investimentos em infraestrutura na 
região, sendo contemporânea à criação do Banco 
da Amazônia S. A. (Basa) e da Sudam. Coube à 
ditadura criar condições para o investimento capita-
lista industrial na região, especialmente por meio da 
diminuição do imposto aos investidores capitalistas.
Em 2006, o governo federal sancionou lei que 
permite a concessão de florestas públicas para 
exploração de atividades econômicas como o corte 
de madeiras. Dessa forma ele pretende reduzir a 
grilagem de terras e desenvolver uma economia 
sustentável na região. Assim o governo brasileiro 
toma as rédeas do processo de exploração dos 
recursos naturais da floresta e cede concessões de 
exploração, controlando os impactos sobre o meio 
ambiente e reduzindo a concentração de terras nas 
mãos de poucos. Em 2009, registrou-se significativo 
recuo no desmatamento da Amazônia. No entanto, 
não o suficiente para impedir que ainda fossem 
desmatados 7 mil km2 somente nesse ano. Entre 
2011 e 2012 forma desmatados outros 4,6 mil km2, o 
que equivale a um espaço equivalente a três cida-
des da dimensão de São Paulo. Observe no gráfico 
abaixo, o ritmo do desmatamento na Amazônia ao 
longo dos anos.
A redução do desmatamento também tem 
impacto positivo na emissão de gases do efeito 
estufa por causa da diminuição de gás carbônico 
na atmosfera.
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1. Faça uma descrição detalhada da imagem.
2. Em que medida as ideias contidas no texto acima podem ser observadas na imagem?
3. A visão do autor do texto corresponde à realidade vivida pelas populações amazônicas 
no passado e no presente? Explique.
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SDOCUMENTOS
os personagens e atos grandiosos envolvidos. Theodoro Braga e seus contemporâneos almejavam 
reescrever a história pela pintura. Segundo o historiador Aldrin de Moura Figueiredo:
Como uma espécie de episódio embrionário, o retrato da fundação de Belém era, por si só e por isso 
mesmo, um mito fundador da identidade nacional na Amazônia. A escolha do tema possuía, em vista de 
seu significado histórico, intenções muito evidentes: o nascimento da capital do Pará legitimava a imagem 
do luso conquistador e criador dessa Feliz Lusitânia, como resultado desse encontro de dois povos dife-
rentes. Como fruto de uma criação divina por mãos humanas – paradisíaca portanto –, a cidade deveria 
nascer com características marcadas por valores cristãos, humanos, civilizados e heroicos.
FIGUEIREDO, Aldrin Moura. A gênese do progresso: Theodoro Braga e a pintura da fundação da Amazônia. In: GUZMÁN, 
Décio Marco Antônio de Alencar; BEZERRA NETO, José Maia. Terra matura: historiografia e história social na Amazônia. 
Belém: Paka-Tatu, 2002. p. 125.
Observe a imagem abaixo e responda às questões do Roteiro de trabalho.
Fundação da cidade de Nossa Senhora de Belém do Pará, de Theodoro Braga, 1908. Óleo sobre tela, 22,6 cm 51,0 cm.
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Leia o texto a seguir e depois responda as questões do Roteiro de trabalho.
Arrancada para conquistar o gigantesco mundo verde
O general Médici presidiu ontem no município de Altamira, no Estado do Pará, a soleni-dade de implantação, em plena selva, do marco inicial da construção da grande Rodovia Transamazônica, que cortará toda a Amazônia, nos sentido Leste-Oeste, numa extensão 
de mais de 3 000 quilômetros e interligará esta região com o Nordeste.
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os personagens e atos grandiosos envolvidos. Theodoro Braga e seus contemporâneos almejavam 
reescrever a história pela pintura. Segundo o historiador Aldrin de Moura Figueiredo:
Como uma espécie de episódio embrionário, o retrato da fundação de Belém era, por si só e por isso 
mesmo, um mito fundador da identidade nacional na Amazônia. A escolha do tema possuía, em vista de 
seu significado histórico, intenções muito evidentes: o nascimento da capital do Pará legitimava a imagem 
do luso conquistador e criador dessa Feliz Lusitânia, como resultado desse encontro de dois povos dife-
rentes. Como fruto de uma criação divina por mãos humanas – paradisíaca portanto –, a cidade deveria 
nascer com características marcadas por valores cristãos, humanos, civilizados e heroicos.
FIGUEIREDO, Aldrin Moura. A gênese do progresso: Theodoro Braga e a pintura da fundação da Amazônia. In: GUZMÁN, 
Décio Marco Antônio de Alencar; BEZERRA NETO, José Maia. 
Observe a imagem abaixo e responda às questões do 
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1. Com base no texto, o que significa, para o governo militar, desenvolvimento?
2. Que críticas podem ser feitas a essa maneira de conceber o desenvolvimento econômico?
ROTEIRO DE TRABALHO
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S O presidente emocionado assistiu à derrubada de uma árvore de 50 metros de altura, no traçado 
da futura rodovia, e descerrou a placa comemorativa do início da construção. […]
Descendo do carro que o conduzia, o presidente hasteou o pavilhão brasileiro em um mastro 
improvisado no tronco de uma árvore, enquanto uma banda militar tocava o Hino Nacional. Depois, 
descerrou uma placa de bronze incrustada no tronco de uma grande castanheira com cerca de dois 
metros de diâmetro, na qual estava inscrito:
“Nestas margens do Xingu, em plena selva amazônica, o Sr. Presidente da República dá início à cons-
trução da Transamazônica, numa arrancada histórica para a conquista deste gigantesco mundo verde”. […]
O presidente Garrastazu Médici aplaudiu entusiasticamente a derrubada, em plena selva amazô-
nica, ontem, de uma árvore de mais de 50 metros de altura, simbolizando assim a transposição de 
mais um obstáculo à construção da Rodovia Transamazônica. A solenidade, realizada nesta pequena 
cidade do interior do Pará, marcou o início das atividades de construção de mais um trecho daquela 
importante via de integração nacional, ligando Altamira a Rio Repartimento, numa extensão de 
300 quilômetros. […]
Segundo o coronel Castro Rebello, o custo total da Transamazônica está estimado em 320 milhões de 
cruzeiros. Será uma rodovia do tipo clássico de integração, com uma pista de 8,6 metros de largura, além de 
outros setenta metros laterais de desmatamento em toda sua extensão, de mais de 5 mil quilômetros. […]
O coronel Castro Rebello considerou a visita do presidente Médici àquele canteiro de obras uma 
motivação extraordinária para os milhares de operários, a cuja responsabilidade foi entregue a impor-
tante responsabilidade de integrar a Amazônia.
ARRANCADA para conquistar o gigantesco mundo verde. Folha de S.Paulo, São Paulo, 10 out. 1970. 
Disponível em: <http://almanaque.folha.uol.com.br/brasil_10out1970.htm>. Acesso em: 18 abr. 2013.
RESPONDA NO CADERNO
VESTIBULANDO
Procedimentos
• Nos testes que seguem, procure eliminar as 
alternativas incorretas. É preciso tomar o cui-
dado de verificar se o enunciado pede que se 
escolha a alternativa correta ou a incorreta. 
• Nas questões 1 e 2, do Enem, o próprio texto do 
enunciado, bem como conhecimentos dos atuais 
conflitos na região amazônica, colaboram para a 
resposta correta. 
1. (Enem) 
Em fevereiro de 1999, o Seminário Internacional 
sobre Direito Ambiental, ocorrido em Bilbao, na 
Espanha, propôs, na Declaração de Viscaia, a exten-
são dos direitos humanos ao meio ambiente, como 
instrumento de alcance universal. No parágrafo 3.o 
do artigo 1.o da referida declaração, fica estabeleci-
do: “O direito ao meio ambiente deverá ser exercido 
de forma compatível com os demais direitos huma-
nos, entre os quais o direito ao desenvolvimento”. 
No Brasil, o cumprimento desse direito configura 
um grande desafio. Na região Amazônica, por exem-
plo, tem havido uma coincidência entre as linhas 
de desmatamento e as novas fronteiras de desen-
volvimento do agronegócio, marcadas por focos 
de injustiça ambiental, com frequentes casos de 
escravização de trabalhadores, além de conflitos e 
crimes pela posse de terras, muitas vezes, impunes.
(Disponível em: <www.unicen.com.br/universoverde>. 
Acesso em: 9 maio 2009. Texto adaptado).
 Promover justiça ambiental, no caso da região 
Amazônica brasileira, implica:
a) fortalecer a ação fiscalizadora do Estado e viabi-
lizar políticas de desenvolvimento sustentável.
b) ampliar o mercado informal de trabalho para a 
população com baixa qualificação profissional.
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O presidente emocionado assistiu à derrubada de uma árvore de 50 metros de altura, no traçado 
da futura rodovia, e descerrou a placa comemorativa do início da construção. […]
Descendo do carro que o conduzia, o presidente hasteou o pavilhão brasileiro em um mastro 
improvisado no tronco de uma árvore, enquanto uma banda militar tocava o Hino Nacional. Depois, 
descerrou uma placa de bronze incrustada no tronco de uma grande castanheira com cerca de dois 
“Nestas margens do Xingu, em plena selva amazônica, o Sr. Presidente da República dá início à cons-
trução da Transamazônica, numa arrancada histórica para a conquista deste gigantesco mundo verde”. […]
O presidente Garrastazu Médici aplaudiu entusiasticamente a derrubada, em plena selva amazô-
nica, ontem, de uma árvore de mais de 50 metros de altura, simbolizando assim a transposição de 
mais um obstáculo à construção da Rodovia Transamazônica. A solenidade, realizada nesta pequena 
cidade do interior do Pará, marcou o início das atividades de construção de mais um trecho daquela 
importante via de integração nacional, ligando Altamira a Rio Repartimento, numa extensão de 
Segundo o coronel Castro Rebello, o custo total da Transamazônica está estimado em 320 milhões de 
cruzeiros. Será uma rodovia do tipo clássico de integração, com uma pista de 8,6 metros de largura, além de 
outros setenta metros laterais de desmatamento em toda sua extensão, de mais de 5 mil quilômetros. […]
O coronel Castro Rebello considerou a visita do presidente Médici àquele canteiro de obras uma 
motivação extraordinária para os milhares de operários, a cuja responsabilidade foi entregue a impor-
tante responsabilidade de integrar a Amazônia.
ARRANCADA para conquistar o gigantesco mundo verde. Folha de S.Paulo, São Paulo, 10 out. 1970. 
Disponível em: <http://almanaque.folha.uol.com.br/brasil_10out1970.htm>. Acesso em: 18 abr. 2013.
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c) incentivar a ocupação das terras pelo 
Estado brasileiro, em face dos interesses 
internacionais.
d) promover alternativas de desenvolvimento 
sustentável, em razão da precariedade tec-
nológica local.
e) ampliar a importância do agronegócio nas 
áreas de conflito pela posse de terras e com-
bater a violência no campo. 
2. (Enem) 
As queimadas, cenas corriqueiras no Brasil, con-
sistem em prática cultural relacionada com um 
método tradicional de “limpeza da terra” para intro-
dução e/ou manutenção de pastagem e campos 
agrícolas. Esse método consiste em: (a) derrubar 
a floresta e esperar que a massa vegetal seque; (b) 
atear fogo, para que os resíduos grosseiros, como 
troncos e galhos, sejam eliminados e as cinzas 
resultantes enriqueçam temporariamente o solo. 
Todos os anos, milhares de incêndios ocorrem no 
Brasil, em biomas como Cerrado, Amazônia e Mata 
Atlântica, em taxas tão elevadas, que se torna difí-
cil estimar a área total atingida pelo fogo. 
(CARNEIRO FILHO, A. Queimadas. Almanaque Brasil socioambien-
tal. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2007. Texto adaptado.) 
 Um modelo sustentável de desenvolvimento 
consiste em aliar necessidades econômicas e 
sociais à conservação da biodiversidade e da 
qualidade ambiental. Nesse sentido, o desmata-
mento de uma floresta nativa, seguido da utiliza-
ção de queimadas, representa: 
a) método eficaz para a manutenção da fertili-
dade do solo. 
b) atividade justificável, tendo em vista a oferta 
de mão de obra.
c) ameaça à biodiversidade e impacto danoso à 
qualidade do ar e ao clima global. 
d) destinação adequada para os resíduos sóli-
dos resultantes da exploração da madeira. 
e) valorização de práticas tradicionais dos 
povos que dependem da floresta para sua 
sobrevivência. 
3. (Ufam-AM) Com o registro da existência de 
mais de 700 grupos linguísticos – em sua maio-
ria pertencentesaos troncos linguísticos Tupi, 
Karib, Aruak, Pano, Tukano e Gê –, a Amazônia 
pré-colonial impôs grandes dificuldades para o 
processo de conquista colonial. Para os colonos 
portugueses dos dois primeiros séculos da con-
quista, a principal alternativa a esse dilema foi:
a) a obrigatoriedade do ensino e do uso da língua 
portuguesa nos aldeamentos missionários.
b) a adoção e difusão do Nheengatú, que, sendo 
uma forma de língua geral, permitia maior 
possibilidade de comunicação.
c) o uso da língua tupi-guarani, de maior difu-
são entre as nações indígenas da Amazônia.
d) a adoção do uso do português, nas cidades 
e vilas, e da língua geral nos aldeamentos 
indígenas.
e) todas as alternativas anteriores estão corretas.
4. (Unama-AM)
Na Amazônia, em todo o período colonial foi cons-
tante a exploração do índio, facilitada por uma 
legislação confusa que ora proibia, ora autorizava, ou 
simplesmente omitia. Não é de se espantar que, em 
determinados momentos desse período, avoluma-
ram-se as práticas da “guerra justa” e do “resgate”.
(ALVES FILHO, Armando. O trabalho forçado na Amazônia. 
In: ALVES FILHO, Armando et al. Pontos de história 
da Amazônia. 3. ed. rev. e ampl. Belém: Paka-Tatu, 2002. 
p. 31. Texto adaptado.)
 A partir da leitura do texto e dos estudos que a 
História nos oferece sobre o assunto, é correto 
dizer que:
a) Na Amazônia, como em todo o território brasilei-
ro, o índio foi o grande responsável pela geração 
de riquezas em todo o período colonial, pois a 
legislação vinda de Portugal permitia sua escra-
vização através das chamadas “guerras justas”.
b) O índio foi a mão de obra mais utilizada na 
Amazônia colonial, pois a própria legislação 
portuguesa dava brechas para essa explora-
ção, através das chamadas “guerras justas” 
e “tropas de resgate”.
c) Durante o período colonial, especialmente 
na Amazônia, foram constantes as lutas em 
torno de uma legislação local, acerca da uti-
lização da mão de obra indígena, visto que o 
Estado português já havia declarado ilegal o 
uso dessa força de trabalho.
d) A mão de obra usada na Amazônia, no período 
colonial, foi constituída basicamente da mão 
de obra nativa, através das “guerras justas”, e 
da mão de obra vinda do Nordeste brasileiro, 
através das chamadas “tropas de resgate”.
5. (Uepa-PA)
Cantador paraibano,
eu nasci lá em Monteiro,
aceitei vir à Amazônia,
para enriquecer primeiro,
trabalhando na borracha,
transformado em seringueiro.
Sempre gostei de fazer
o meu trabalho benfeito;
a borracha eu defumava,
do modo que era direito,
com semente de inajá
que davam melhor efeito.
Mas essas mesmas sementes
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c) incentivar a ocupação das terras pelo 
Estado brasileiro, em face dos interesses 
internacionais.
d) promover alternativas de desenvolvimento 
sustentável, em razão da precariedade tec-
nológica local.
e) ampliar a importância do agronegócio nas 
áreas de conflito pela posse de terras e com-
bater a violência no campo. 
2. (Enem)
As queimadas, cenas corriqueiras no Brasil, con-
sistem em prática cultural relacionada com um 
método tradicional de “limpeza da terra” para intro-
dução e/ou manutenção de pastagem e campos 
agrícolas. Esse método consiste em: (a) derrubar 
a floresta e esperar que a massa vegetal seque; (b) 
atear fogo, para que os resíduos grosseiros, como 
troncos e galhos, sejam eliminados e as cinzas 
resultantes enriqueçam temporariamente o solo. 
Todos os anos, milhares de incêndios ocorrem no 
Brasil, em biomas como Cerrado, Amazônia e Mata 
Atlântica, em taxas tão elevadas, que se torna difí-
cil estimar a área total atingida pelo fogo. 
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que defumavam melhor,
se ao patrão davam lucros,
me dava uma parte pior,
pois a fumaça cegava
silenciosa e sem dor.
(LOUREIRO, João de Jesus Paes. Cena V. In: Pássaro da terra. 
São Paulo: Escrituras, 1999. p. 32-3.)
 O mundo do trabalho no Brasil a que se refere o 
texto diz respeito ao trabalho:
a) das sociedades indígenas no espaço ama-
zônico, antes e depois da conquista euro-
peia, transitando dos regimes coletivos ao da 
escravidão.
b) da sociedade da borracha na Amazônia, 
entre o final do século XIX e o início do 
século XX, cuja principal característica foi 
o aviamento.
c) rural e urbano nas Minas Gerais do século 
XVIII, composto por diversidades de ativida-
des produtivas e com múltiplos mercados.
d) nas lavouras canavieira e cafeeira, com espa-
ços regionais distintos e diferentes formas 
de organização da produção.
e) das sociedades indígenas à época da con-
quista portuguesa, baseado na escravidão e 
no uso de mão de obra livre nordestina.
RELEITURA
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Índios e garimpeiros: uma relação complicada
Axé Silva
Segundo algumas estimativas históricas, o espaço que um dia se transformou no Brasil apresen-tava, no início do século XVI, uma população indígena de 5 milhões de habitantes. Porém o que se viu ao longo de 504 anos de existência foi um intenso processo de expropriação terri-
torial e a dizimação dos habitantes originais de nosso país. Ao se julgarem donos das terras, os por-
tugueses extinguiram várias aldeias, obrigando parcela considerável de indígenas a realizar trabalhos 
forçados. Sua escravização foi auxiliada em grande parte pela ação dos bandeirantes, caçadores de 
índios responsáveis pela morte de diversos deles. Agravando ainda mais a situação, muitas doenças 
trazidas por europeus e africanos, tais como sarampo, febre amarela, varíola e malária, potencializa-
ram o desaparecimento de enormes contingentes indígenas.
É sob a luz dessa genérica perspectiva histórica que compreendemos na atualidade a existência de 
uma pequena parcela de descendentes dos diversos povos que habitaram o Brasil. Hoje, a população 
indígena corresponde a cerca de 400 000 indivíduos, distribuídos em 215 etnias, com 170 línguas 
diferentes. Desses, 60% encontram-se na chamada Amazônia Legal, em reservas indígenas delimita-
das pelo governo federal. Somadas, suas áreas totalizam uma extensão correspondente a 11,12% do 
território nacional. É dessa superfície que os índios retiram recursos para a subsistência e mantêm 
tradições e conhecimentos. A Constituição Federal assegura aos povos indígenas a posse perma-
nente das terras, cabendo-lhe o uso exclusivo das riquezas presentes no trecho de suas reservas. É 
da Fundação Nacional do Índio (Funai) a responsabilidade pela fiscalização e proteção das áreas, 
incluindo a proibição de qualquer invasão.
Apesar de todos os aparatos legais existentes, observa-se em diversas áreas demarcadas a pre-
sença irregular de projetos governamentais, como estradas, usinas hidrelétricas, ferrovias e linhas 
de transmissão. Além disso, as áreas indígenas são tomadas por posseiros, arrendatários, grileiros, 
madeireiras, mineradoras e garimpeiros. Ocupações, obviamente, que provocam danos irreversíveis 
ao ecossistema local. Um exemplo significativo foi visto nas terras dos ianomâmis, onde a extração 
mineral ilegal gerou em alguns rios da região o seu assoreamento, ou seja, a deposição de sedimentos 
nos leitos, tornando-os mais rasos e largos e impedindo assim a passagem dos peixes em busca de 
alimentos ou mesmo dificultando o seu deslocamento para a reprodução. Em outros trechos, houve a 
contaminação por mercúrio, acelerando a escassez da pesca. Outro aspecto negativo é a transmissão 
de doenças para a população local, aumentando tristemente os índices de mortalidade.
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Pássaro da terra.
São Paulo: Escrituras, 1999. p. 32-3.)
O mundo do trabalho no Brasil a que se refere o 
a) das sociedades indígenas no espaço ama-
zônico, antes e depois da conquistaeuro-
peia, transitando dos regimes coletivos ao da 
b) da sociedade da borracha na Amazônia, 
entre o final do século XIX e o início do 
século XX, cuja principal característica foi 
o aviamento.
c) rural e urbano nas Minas Gerais do século 
XVIII, composto por diversidades de ativida-
des produtivas e com múltiplos mercados.
d) nas lavouras canavieira e cafeeira, com espa-
ços regionais distintos e diferentes formas 
de organização da produção.
e) das sociedades indígenas à época da con-
quista portuguesa, baseado na escravidão e 
no uso de mão de obra livre nordestina.
Índios e garimpeiros: uma relação complicada
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APorém nem sempre a entrada de garimpeiros e madeireiras é desconhecida pelos índios. Em cer-
tos casos, eles estimulam a exploração de suas terras, cobrando por isso valores equivalentes à quan-
tidade de madeira e riquezas minerais tiradas do território. A ausência de uma fiscalização severa na 
região provocou, nos últimos 24 meses, a morte de aproximadamente 100 pessoas. Entre as vítimas, 
garimpeiros, contrabandistas e índios.
Não é de hoje que índios e garimpeiros estabelecem confrontos intensos na Amazônia. Há pelo 
menos três décadas, os cintas-largas são espoliados por madeireiras, mineradoras e garimpeiros 
que utilizam força bruta para retirar recursos naturais. Um dos episódios mais marcantes dessa 
história ocorreu na década de 1960. Duas expedições foram organizadas em 1963 por Francisco 
de Brito, funcionário da empresa seringalista Arruda e Junqueira. Em uma delas, Brito alugou 
uma aeronave para sobrevoar a aldeia num dia de grande festividade para o povo cinta-larga. No 
momento do ataque foi lançada uma mistura de açúcar com arsênico que dispersou os participan-
tes da cerimônia. Em seguida, diversas cápsulas de explosivos foram arremessadas nas habitações. 
O fato dispersou a comunidade para o interior da mata. Não satisfeitos, os invasores organizaram 
uma segunda expedição, que encontrou o restante da população às margens do Rio Aripuanã, 
na altura do paralelo 11° sul. No confronto, alguns nativos foram mortos, dentre os quais uma 
índia pendurada viva e cortada ao meio com um facão… Brutal, o crime ficou conhecido como 
“O massacre do paralelo 11” e somente foi divulgado porque um dos participantes denunciou o 
caso, logo após saber que não receberia o valor prometido por seus contratantes. A chacina foi 
divulgada internacionalmente, mas os mandantes não foram sequer julgados. Recentemente, em 
abril deste ano [2004], deflagrou-se um novo conflito em território indígena, cujo resultado foi a 
morte de 29 garimpeiros. Dessa vez ocorreu na reserva Roosevelt, pertencente aos cintas-largas. 
O território apresenta uma área equivalente a 2,6 milhões de hectares, situada entre os estados de 
Rondônia e Mato Grosso. Encontra-se ali uma das maiores reservas de diamantes do mundo, com 
uma capacidade de produção fantástica, da ordem de 1 milhão de quilates de pedras preciosas por 
ano. Segundo a Funai, o contrabando de diamantes faz com que o Brasil deixe de arrecadar, anual-
mente, entre 600 e 800 milhões de dólares. Vale ressaltar que a extração mineral em terra indígena 
é ilegal e deve ser feita apenas com a autorização expressa do Congresso Nacional. Todavia, mui-
tos diamantes são retirados e enviados clandestinamente ao exterior para abastecer os mercados 
norte-americano e europeu.
O assassinato de garimpeiros em abril de 2004 é um episódio cruel que se soma a outros tantos, 
colocando em confronto protagonistas com interesses diversos no mesmo espaço. Acima de tudo, 
a recente tragédia levanta reflexões sobre muitas questões sem solução: as atividades minerais irre-
gulares, a invasão das terras indígenas, o tráfico internacional de diamantes, a dizimação do povo 
cinta-larga, a ausência de outras alternativas de trabalho para os garimpeiros, a relativa conivência 
dos órgãos públicos, o interesse das madeireiras e os intensos impactos socioambientais, geralmente 
irreversíveis. Todas essas indagações não são novas. É necessária, urgentemente, uma ação efetiva do 
governo. Além, claro, de um esclarecimento dos fatos, para que não se repitam discursos manique-
ístas, como os que frequentemente são veiculados nos meios de comunicação e que colocam quase 
sempre como culpada a população nativa.
SILVA, Axé. Índios e garimpeiros: uma relação complicada. Discutindo a geografia. 
São Paulo: Escala Educacional, ano I, n. 1, jul. 2004. p. 16-9.
1. Conforme o texto, qual é a atuação do governo federal na região?
2. Que relações se estabelecem entre os povos indígenas e os garimpeiros?
3. Reúna-se com alguns colegas e formulem uma proposta para solucionar casos como os citados 
no texto e evitar conflitos futuros na região. Tenham como preocupação a conservação da flores-
ta e dos povos que nela habitam.
56
Porém nem sempre a entrada de garimpeiros e madeireiras é desconhecida pelos índios. Em cer-
tos casos, eles estimulam a exploração de suas terras, cobrando por isso valores equivalentes à quan-
tidade de madeira e riquezas minerais tiradas do território. A ausência de uma fiscalização severa na 
região provocou, nos últimos 24 meses, a morte de aproximadamente 100 pessoas. Entre as vítimas, 
garimpeiros, contrabandistas e índios.
Não é de hoje que índios e garimpeiros estabelecem confrontos intensos na Amazônia. Há pelo 
menos três décadas, os cintas-largas são espoliados por madeireiras, mineradoras e garimpeiros 
que utilizam força bruta para retirar recursos naturais. Um dos episódios mais marcantes dessa 
história ocorreu na década de 1960. Duas expedições foram organizadas em 1963 por Francisco 
de Brito, funcionário da empresa seringalista Arruda e Junqueira. Em uma delas, Brito alugou 
uma aeronave para sobrevoar a aldeia num dia de grande festividade para o povo cinta-larga. No 
momento do ataque foi lançada uma mistura de açúcar com arsênico que dispersou os participan-
tes da cerimônia. Em seguida, diversas cápsulas de explosivos foram arremessadas nas habitações. 
O fato dispersou a comunidade para o interior da mata. Não satisfeitos, os invasores organizaram 
uma segunda expedição, que encontrou o restante da população às margens do Rio Aripuanã, 
na altura do paralelo 11° sul. No confronto, alguns nativos foram mortos, dentre os quais uma 
índia pendurada viva e cortada ao meio com um facão… Brutal, o crime ficou conhecido como 
“O massacre do paralelo 11” e somente foi divulgado porque um dos participantes denunciou o 
caso, logo após saber que não receberia o valor prometido por seus contratantes. A chacina foi 
divulgada internacionalmente, mas os mandantes não foram sequer julgados. Recentemente, em 
abril deste ano [2004], deflagrou-se um novo conflito em território indígena, cujo resultado foi a 
morte de 29 garimpeiros. Dessa vez ocorreu na reserva Roosevelt, pertencente aos cintas-largas. 
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LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE
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THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS
ALVES FILHO, Armando; ALVES JÚNIOR, José; MAIA NETO, José. Pontos de história da Amazônia. 3. ed. 
Belém: Paka-Tatu, 2001. v. 1.
Coletânea de artigos sobre a conquista portuguesa da Amazônia, o trabalho forçado, o projeto pombalino, a indepen-
dência do Pará e a Revolta da Cabanagem.
____________.Pontos de história da Amazônia. 2. ed. Belém: Paka-Tatu, 2000. v. 2.
Coletânea de artigos sobre a Revolução de 1930 no Pará e a presença dos governos militares na Amazônia.
DAOU, Ana Maria. A belle époque amazônica. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. (Descobrindo o Brasil).
Analisao período de apogeu da borracha na Amazônia e as transformações sociais e culturais ocorridas em função 
dessa atividade econômica.
MUNDURUKU, Daniel. O banquete dos deuses – conversa sobre a origem da cultura brasileira. São Paulo: 
Angra, 2000.
Nascido em Belém (PA), o autor é do povo indígena Munduruku (sobrenome que adotou). Formado em Filosofia, com 
licenciatura em História e Pedagogia, Daniel expõe neste livro uma visão indígena sobre a cultura brasileira.
VENTURA, Zuenir. Chico Mendes: crime e castigo. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.
Biografia de Chico Mendes, enfatizando, em especial, as circunstâncias que envolveram sua morte e o julgamento dos 
acusados como mandantes do crime.
Amazônia em chamas. Direção de John Frankenheimer. Estados Unidos, 1994. (123 min).
Cinebiografia do seringalista Chico Mendes, contando a história de seu envolvimento com o sindicalismo até a 
sua morte.
Amazônia: herança de uma utopia. Direção de Alexandre Valenti. Brasil, 2005 (90 min.). 
Aborda as tentativas de colonização da Amazônia no século XX e os impsctos redultantes desse processo
Biblioteca virtual do Amazonas. Disponível em: <www.bv.am.gov.br/portal>. Acesso em: 18 abr. 2013.
Acesso a livros digitais, textos e informações sobre o ecossistema amazônico, revistas históricas, mapas, fotos e 
outras informações sobre a região.
Instituto Socioambiental. Disponível em: <www.socioambiental.org>. Acesso em: 18 abr. 2013.
Organização não governamental que disponibiliza inúmeras informações sobre os povos indígenas brasileiros e sobre 
a Amazônia.
 PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
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ALVES FILHO, Armando; ALVES JÚNIOR, José; MAIA NETO, José. Pontos de história da Amazônia. 3. ed. . 3. ed. Pontos de história da Amazônia. 3. ed. Pontos de história da Amazônia
Coletânea de artigos sobre a conquista portuguesa da Amazônia, o trabalho forçado, o projeto pombalino, a indepen-Coletânea de artigos sobre a conquista portuguesa da Amazônia, o trabalho forçado, o projeto pombalino, a indepen-
 2. ed. Belém: Paka-Tatu, 2000. v. 2.
Coletânea de artigos sobre a Revolução de 1930 no Pará e a presença dos governos militares na Amazônia.Coletânea de artigos sobre a Revolução de 1930 no Pará e a presença dos governos militares na Amazônia.
 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. (Descobrindo o Brasil). 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. (Descobrindo o Brasil).
Analisa o período de apogeu da borracha na Amazônia e as transformações sociais e culturais ocorridas em função Analisa o período de apogeu da borracha na Amazônia e as transformações sociais e culturais ocorridas em função 
O banquete dos deuses – conversa sobre a origem da cultura brasileiraO banquete dos deuses – conversa sobre a origem da cultura brasileira. São Paulo: O banquete dos deuses – conversa sobre a origem da cultura brasileira. São Paulo: O banquete dos deuses – conversa sobre a origem da cultura brasileira
Nascido em Belém (PA), o autor é do povo indígena Munduruku (sobrenome que adotou). Formado em Filosofia, com Nascido em Belém (PA), o autor é do povo indígena Munduruku (sobrenome que adotou). Formado em Filosofia, com 
licenciatura em História e Pedagogia, Daniel expõe neste livro uma visão indígena sobre a cultura brasileira.licenciatura em História e Pedagogia, Daniel expõe neste livro uma visão indígena sobre a cultura brasileira.
Chico Mendes: crime e castigo. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.Chico Mendes: crime e castigo. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.Chico Mendes: crime e castigo.
Biografia de Chico Mendes, enfatizando, em especial, as circunstâncias que envolveram sua morte e o julgamento dos Biografia de Chico Mendes, enfatizando, em especial, as circunstâncias que envolveram sua morte e o julgamento dos 
 Direção de John Frankenheimer. Estados Unidos, 1994. (123 min). Direção de John Frankenheimer. Estados Unidos, 1994. (123 min).
Cinebiografia do seringalista Chico Mendes, contando a história de seu envolvimento com o sindicalismo até a Cinebiografia do seringalista Chico Mendes, contando a história de seu envolvimento com o sindicalismo até a 
. Direção de Alexandre Valenti. Brasil, 2005 (90 min.). . Direção de Alexandre Valenti. Brasil, 2005 (90 min.). 
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THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS
Afro-brasileiros
CAPÍTULO 3
Os brasileiros facilmente se reconhecem como herdeiros dos europeus. Primeiro dos portugueses, depois dos franceses e dos ingleses. Além disso, com a imigração de europeus, principalmente para o estado de São Paulo e 
o Sul do Brasil, passaram então a se reconhecer como descendentes de alemães, 
espanhóis, italianos etc. Sabemos também que descendemos dos povos indígenas. E 
dos africanos? Em que medida a cultura brasileira é, também, uma cultura africana?
É comum, mas errôneo, nos referirmos aos africanos como um todo homogêneo, já 
que o continente africano reúne culturas essencialmente diferentes. O Egito, por exem-
plo, tem uma cultura muito particular, que não apresenta quase nenhuma relação com 
a cultura e a história brasileiras. Então, com que parte da África estamos culturalmente 
relacionados? Com quais culturas africanas? Eis nosso desafio neste capítulo: buscar 
algumas raízes de nossa identidade, que é mais africana do que muitos supõem.
Missa da padroeira Nossa Senhora do 
Bonfim na Igreja de São Francisco Xavier. 
Porto Novo, Benim, 2011. Em destaque, 
Auguste Amaral, presidente da associação 
dos retornados brasileiros no Benin, onde 
vivem os agudás, que representam um 
grupo minoritário da população do país 
e possuem uma história particular: são 
descendentes de ex-escravos no Brasil que 
conseguiram retornar ao seu local de ori-
gem. Mas não voltaram os mesmos, seja 
pela dura vida que tivera, seja por levarem 
de volta ao Benim uma cultura que cons-
tituíram na América. Os águdas brincam 
o carnaval, festejam o Nosso Senhor do 
Bonfim e consomem pratos como a feijoada 
no estilo brasileiro. Os agudás nos convi-
dam a investigar e entender esse longo 
processo de formação cultural brasileira, no 
qual africanos, europeus e indígenas fun-
daram uma cultura particular marcada por 
muitos conflitos. Em especial, é necessário 
compreender a grande força que as cultu-
ras africanas exerceram nesse processo de 
construção de uma identidade brasileira. 
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Afro-brasileiros
CAPÍTULO 3
Os brasileiros facilmente se reconhecem como herdeiros dos europeus. Primeiro dos portugueses, depois dos franceses e dos ingleses. Além disso, com a imigração de europeus, principalmente para o estado de São Paulo e 
o Sul do Brasil, passaram então a se reconhecer como descendentes de alemães, 
espanhóis, italianos etc. Sabemos também que descendemos dos povos indígenas. E 
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THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS
Inclassificáveis
Que preto, que branco, que índio o quê? 
Que branco, que índio, que preto o quê?
Que índio, que preto, que branco o quê?
Que preto branco índio o quê?
Branco índio preto o quê?
Índio preto branco o quê?
Aqui somos mestiços mulatos
Cafuzos pardos mamelucos sararás
Crilouros guaranisseis e judárabes
Orientupis orientupis
Ameriquítalos luso nipo caboclos
Orientupis orientupis
Iberibárbaros indo ciganagôs
Somos o que somos
Inclassificáveis
Não tem um, tem dois
Não tem dois, tem três
Não tem lei, tem leis
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No dia da Lavagem do Bonfim, que ocorre desde 1754, católicos e 
adeptos do candomblé percorrem as ruas deSalvador cantando 
hinos dedicados a Jesus Cristo e Oxalá. As baianas usam turbantes, 
saias e braceletes e carregam vasos com água de cheiro.
A letra da canção acima, de Arnaldo Antunes, 
ajuda-nos a refletir: em relação à identidade cul-
tural, quem somos nós? Reconhecer a diversidade 
cultural de nossa formação pode ser uma maneira 
de compreender nossa riqueza cultural?
Contudo não podemos louvar a diversidade sem 
atentar para os conflitos e preconceitos que possam 
surgir, pois esse encontro de culturas nunca se fez 
de maneira pacífica ou como uma soma de saberes. 
Ao contrário, tentou-se eliminar as diferenças ou 
mostrar a superioridade de uma cultura sobre outra. 
Muitas vezes, as relações de poder nasceram do 
reconhecimento da existência de diferentes cultu-
ras. Para citar um exemplo, no processo de coloni-
zação do Brasil, os europeus julgavam possuir uma 
cultura superior à dos povos indígenas e africanos. 
Assim, consideravam que dominar esses povos e 
impor-lhes sua cultura e religião era algo nobre, era 
oferecer a salvação a que indígenas e africanos não 
teriam acesso de outro modo.
Não tem vez, tem vezes
Não tem Deus, tem deuses
Não há sol a sós
Aqui somos mestiços mulatos
Cafuzos pardos tapuias tupinamboclos
Americarataís yorubárbaros
Somos o que somos
Inclassificáveis
Que preto, que branco, que índio o quê?
Que branco, que índio, que preto o quê?
Que índio, que preto, que branco o quê?
Não tem um, tem dois
Não tem dois, tem três
Não tem lei, tem leis
Não tem vez, tem vezes
Não tem deus, tem deuses
Não tem cor, tem cores
Não há sol a sós [...]
ANTUNES, Arnaldo. Inclassificáveis. In: O silêncio (CD). BMG, 1996.
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Não tem vez, tem vezes
Não tem Deus, tem deuses
Não há sol a sós
Aqui somos mestiços mulatos
Cafuzos pardos tapuias tupinamboclos
Americarataís yorubárbaros
Somos o que somos
Inclassificáveis
Que preto, que branco, que índio o quê?
Que branco, que índio, que preto o quê?
Que índio, que preto, que branco o quê?
Não tem um, tem dois
Não tem dois, tem três
Não tem lei, tem leis
Não tem vez, tem vezes
Não tem deus, tem deuses
Não tem cor, tem cores
Não há sol a sós [...]
ANTUNES, Arnaldo. Inclassificáveis. In: O silêncio (CD). BMG, 1996.
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THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS
CONTEXTO
A África pré-colonial
A maior parte dos africanos trazidos para o 
Brasil como escravos veio da denominada África 
Atlântica, ou seja, da parte ocidental e centro-
-ocidental da chamada África Subsaariana. Essa 
região, que vai do Senegal a Angola, é historicamen-
te habitada por povos que viviam da agricultura e 
que conheciam a técnica da metalurgia. Pertencem 
ao tronco linguístico denominado banto ou nigero-
-congolês e carregam em sua organização social a 
luta contra a natureza hostil. Desde a Antiguidade, 
essas populações migraram à procura de savanas 
em meio aos desertos. Conforme Mary Del Priore e 
Renato Pinto Venâncio:
A crescente desertificação do Saara, assim como o 
árduo desflorestamento de áreas ao sul do deserto, 
convidava grupos a se estabelecerem, embora de 
forma dispersa, em planícies inundadas e sobre 
pequenas colinas. A escolha de tais lugares não era 
aleatória. Estas eram regiões facilmente defensá-
veis contra ataques de feras ou gente inimiga.
DEL PRIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato Pinto. Ancestrais. 
Rio de Janeiro: Campus, 2004. p. 2.
Nas savanas, formaram-se complexas organiza-
ções político-sociais. As aldeias eram separadas por 
terrenos incultos e rodeadas por terras cultivadas e 
mato – território de caça. Vários fatores, como guerras, 
crescimento da população e secas, levavam ao aumen-
to ou à diminuição constante dos grupos, em número 
de habitantes ou em território. O caráter migratório 
dessa população facilitava a multiplicação de famílias 
que, por vezes, se instalavam próximas a grupos de 
tradições e línguas completamente diversas das suas.
Aproximadamente no século I, começou a 
fusão das aldeias em microestados, que foram se 
constituindo ao longo de muito tempo. Instalados 
em regiões de savana, manguezais e rios, os povos 
de língua nigero-congolesa começaram a praticar 
o comércio do inhame e da palma com o povo 
pigmeu, expandindo-se pela região. Aos poucos, 
alguns povos começaram a introduzir a pecuária 
em suas atividades, garantindo a carne, o couro e 
o adubo para suas plantações.
As migrações e a adaptação aos diferentes 
ambientes originaram vários grupos étnicos e uma 
complexa cultura. Os falantes da língua banta, por 
exemplo, misturaram-se ao noroeste da floresta 
equatorial com aqueles que falavam a língua saaro-
-nilótica, formando assim uma nova cultura.
No ambiente hostil da África Atlântica, os povos 
estavam sujeitos a doenças como a malária e 
outros males trazidos por parasitas – exemplo disso 
é a mosca tsé-tsé, transmissora do protozoário 
causador da “doença do sono”. Por isso a presença 
do curandeiro era de vital importância para esses 
povos, importância reconhecida até mesmo pelos 
jesuítas portugueses, que chegaram a Angola no 
século XVI.
Outro fator que devastava as populações era 
a fome, que só não se fazia presente nas culturas 
irrigadas. Ainda conforme Mary Del Priore e Renato 
Pinto Venâncio:
[...] [as doenças e a fome] empurravam os grupos 
a trocar suas crianças por comida, famílias a ven-
der seus filhos e dependentes por um alqueire de 
sorgo ou milhete, e homens e mulheres a se deixar 
escravizar para não morrer de inanição.
PRIORE, Mary Del; VENÂNCIO, Renato Pinto, op. cit., p. 9.
Em razão das adversidades causadas por doen-
ças ou fome, a capacidade de um homem ou uma 
mulher produzir descendentes era extremamente 
valorizada. Nos homens, a virilidade aparecia como 
CHÁDICO (HAUÇÁ)
SEMÍTICO
EGÍPCIO ANTIGO
CUXÍTICO
BERBERE
BENUE-
-CONGO
(BANTO)
ADMAUA
ORIENTAL
ATLÂNTICO 
OCIDENTAL
MANDÊ
VOLTAICO
KWA
REGIÃO
SUBSAARIANA
ÁFRICA 
SUBEQUATORAL
ÁFRICA 
CENTRAL
ÁFRICA 
OCIDENTAL
CORDOFANIANONIGER-CONGO
CONGO
CORDOFANIANO
NILO-SAARIANO AFRO-ASIÁTICO COISSÃ
TRONCOS LINGUÍSTICOS
TRONCOS LINGUÍSTICOS 
AFRICANOS E SUAS FAMÍLIAS 
NA ATUALIDADE
Classificação de Joseph Greenberg das línguas africanas, hoje 
em torno de 1 900. Atualmente há mais de 260 milhões de 
falantes de mais de mil línguas da família nigero-congolesa.1
1 Conforme CASTRO, Yeda Pessoa de. A língua mina-jeué no Brasil: um falar africano em Ouro Preto do século XVIII. Belo Horizonte: Fapemig/
Fundação João Pinheiro, 2003. p. 35.
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CONTEXTO
A África pré-colonial
A maior parte dos africanos trazidos para o 
Brasil como escravos veio da denominada África 
Atlântica, ou seja, da parte ocidental e centro-
-ocidental da chamada África Subsaariana. Essa 
região, que vai do Senegal a Angola, é historicamen-
te habitada por povos que viviam da agricultura e 
que conheciam a técnica da metalurgia. Pertencem 
ao tronco linguístico denominado banto ou nigero-
-congolês e carregam em sua organização social a 
luta contra a natureza hostil. Desde a Antiguidade, 
essas populações migraram à procura de savanas 
em meio aos desertos. Conforme Mary Del Priore e 
Renato Pinto Venâncio:
A crescente desertificação do Saara, assim como o 
árduo desflorestamento de áreas ao sul do deserto, 
convidava grupos a se estabelecerem, embora de 
forma dispersa, em planícies inundadas e sobre 
pequenas colinas. A escolha de tais lugares não era 
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LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE
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THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS
um fator fundamental de aceitação social, assim 
como a fertilidade entre as mulheres. As estéreis 
eram desprezadas socialmente. Os que não tinham 
filhos corriam o risco de serem absorvidos por 
outros grupos familiares, saindo em desvantagemnas guerras, quando a captura de prisioneiros era 
prioridade. No Reino do Congo, por exemplo, a 
maternidade consolidou-se como um dos temas 
mais recorrentes entre as esculturas de madeira. 
Embora não haja dados demográficos confiáveis 
nem mesmo para o século XVIII, acredita-se que 
um terço das crianças morria antes mesmo de 
completar um ano de vida.
Na maior parte da África, antes da presença euro-
peia, a terra era um bem coletivo. Os pais de família 
recebiam um lote de terra do chefe local para culti-
var, com a condição de pagar um tributo em troca. 
Por esse motivo, os homens costumavam ter várias 
mulheres e muitos filhos para aumentar a produção. 
Isso foi denominado economia da poligamia. Nela 
o pai era valorizado de acordo com o tamanho de sua 
família, e as mulheres, de acordo com a quantidade 
de filhos. Muitas vezes, as mulheres eram adquiridas 
por meio de rapto ou do pagamento de um dote à 
Na África anterior à presença europeia, grupos humanos organizaram-se em torno de unidades familiares, a partir das quais consti-
tuíram-se aldeias e núcleos comerciais. Aproximadamente no século I, começou a fusão das aldeias em microestados. Mais tarde, a 
presença europeia e a expansão do tráfico de escravos agravaram os conflitos internos do continente, e em meados do século XIX 
praticamente toda a África foi repartida entre ingleses, belgas, alemães e italianos que buscavam novos mercados e matérias-primas.
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CIDADES E REINOS 
AFRICANOS ANTIGOS
sua linhagem, o que facilitava para os ricos possuir 
um maior número de esposas.
Já a relação entre idosos e jovens tinha várias 
implicações: se por um lado a maturidade e o conselho 
dos mais idosos eram valorizados, por outro a virili-
dade e a força da juventude desempenhavam papéis 
centrais nessas sociedades guerreiras. Com relação 
ao trabalho, em geral, os homens ficavam com a tare-
fa de desmatar, enquanto as mulheres cultivavam. 
A colheita, no entanto, era uma atividade coletiva.
Em quase todas as regiões, os grupos organi-
zavam-se em torno de uma unidade familiar, na 
qual o homem controlava filhos, esposas, parentes 
mais pobres e outros dependentes. Era a partir 
dessas unidades que se constituíam aldeias e 
núcleos comerciais.
Dentro dessas aldeias havia também uma 
hierarquia entre os escravos. Os mais valorizados 
eram os prisioneiros nobres, que serviam em ati-
vidades militares. Existiam ainda os escravos que 
trabalhavam ao lado dos camponeses, convivendo 
com os familiares destes e os chamando de pais. Os 
menos valorizados eram enviados a alguma fazenda 
de escravos para trabalhar sob a vigilância de um 
Com base em DUBY, Georges. Atlas historique 
mondial. Paris: Larousse, 2003. p. 216.
Com base em Enciclopédia Brittanica Kids. Disponível em: 
<http://kids.britannica.com/comptons/art-153245/Language-
Families-and-Languages-of-Africa>. Acesso em: 23 maio 2013.
DIVERSIDADE DE LÍNGUAS 
AFRICANAS
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CIDADES E REINOS 
AFRICANOS ANTIGOS
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THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS
Escultura ioruba representan-
do Exu, feita no século XX. 
Essa entidade que transita en-
tre o bem e o mal é o principal 
intermediário entre o céu e 
a terra. É ele quem informa 
Olodumaré (o deus supremo) 
sobre os demais deuses e so-
bre os seres humanos.
Nesta escultura de aproximadamente 
1900, da região do Congo, valoriza-se 
a figura materna que carrega seu filho.
Escultura ioruba repre-
sentando Xangô, feita 
no século XX.
feitor. Grande parte dos escravos podia adquirir os 
mesmos direitos de seus senhores, como o acú-
mulo de propriedades. Só lhe continuava restrito 
o direito de casar com mulheres livres e participar 
de assuntos políticos.
Depois do século XII, os escravos se tornaram 
mercadoria valiosa na África. Comenta a historia-
dora Marina de Mello e Souza:
Na região que abrange do leste do Rio Volta até o 
delta do Níger – terra dos acãs, acuamus, evés, dos 
povos iorubás e muitos outros – existiam reinos 
cujos chefes controlavam áreas consideráveis, se 
cercavam de pompa e privilégios, promoviam a 
construção de edifícios elaborados e estimulavam 
a confecção de objetos que impressionam até hoje 
pela beleza. Esses reinos tinham ligação entre si 
e com Ifé, espécie de cidade-mãe na qual se origi-
naram as formas de organização política e social 
das outras cidades da chamada Iorubalândia ou 
Iorubo. Dessa região saiu grande parte dos afri-
canos traficados para a América como escravos, 
por causa das vantagens que apresentava, como a 
abundância da oferta. Esses eram os prisioneiros 
das guerras entre diferentes grupos locais, vendi-
dos aos comerciantes europeus.
SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil africano. 
São Paulo: Ática, 2006. p. 20-1.
A relação com a natureza e as florestas também 
variava de um povo para outro. Entre os axantes 
e os acãs, por exemplo, a natureza era temida: 
um muro era construído para os isolar dela. Já no 
Benin (antiga Daomé), faziam-se sacrifícios para 
os deuses da mata com a intenção de pacificá-los. 
No entanto, a ida à floresta só ocorria por obrigação 
ou fuga na época de guerra e fome. Era comum a 
utilização de símbolos silvestres nas práticas reli-
giosas. O leopardo, no Benin, estava associado às 
figuras dos reis e, em toda a África Atlântica, sua 
pele era sinônimo de poder.
Entre os bantos, que mantiveram certa homo-
geneidade religiosa, havia a crença em um espírito 
criador, em espíritos de ancestrais e da natureza, 
rituais e feitiçarias. No século XV, o povo congo uti-
lizava estatuetas dos avós mortos para recuperar 
seus espíritos e achava que elas poderiam resolver 
problemas do cotidiano. Em relação à feitiçaria, 
acreditavam que havia os bons feiticeiros e os vin-
gadores. As divindades da natureza, como Ogum 
e Xangô, confundiam-se com as figuras humanas. 
No Reino de Cuba, por sua vez, a crença não era 
em um espírito criador, mas em três. Todas as des-
graças eram vistas como fruto da desordem social 
e moral da sociedade.
Em Gana (noroeste da África), os reis eram 
enterrados com sua comida, seus ornamentos e seus 
servidores, o que às vezes resultava na morte de 
vários escravos. Isso porque os ganenses julgavam 
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Escultura ioruba representan-
do Exu, feita no século XX. 
Essa entidade que transita en-
tre o bem e o mal é o principal 
intermediário entre o céu e 
a terra. É ele quem informa 
Olodumaré (o deus supremo) 
sobre os demais deuses e so-
bre os seres humanos.
Escultura ioruba repre-
sentando Xangô, feita 
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Museu de Arte de Seattle
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feitor. Grande parte dos escravos podia adquirir os 
mesmos direitos de seus senhores, como o acú-
mulo de propriedades. Só lhe continuava restrito 
o direito de casar com mulheres livres e participar 
de assuntos políticos.
Depois do século XII, os escravos se tornaram 
mercadoria valiosa na África. Comenta a historia-
dora Marina de Mello e Souza:
Na região que abrange do leste do Rio Volta até o 
delta do Níger – terra dos acãs, acuamus, evés, dos 
povos iorubás e muitos outros – existiam reinos 
cujos chefes controlavam áreas consideráveis, se 
cercavam de pompa e privilégios, promoviama 
construção de edifícios elaborados e estimulavam 
a confecção de objetos que impressionam até hoje 
pela beleza. Esses reinos tinham ligação entre si 
e com Ifé, espécie de cidade-mãe na qual se origi-
naram as formas de organização política e social 
das outras cidades da chamada Iorubalândia ou 
Iorubo. Dessa região saiu grande parte dos afri-
canos traficados para a América como escravos, 
por causa das vantagens que apresentava, como a 
abundância da oferta. Esses eram os prisioneiros 
das guerras entre diferentes grupos locais, vendi-
e os acãs, por exemplo, a natureza era temida: 
um muro era construído para os isolar dela. Já no 
Benin (antiga Daomé), faziam-se sacrifícios para 
os deuses da mata com a intenção de pacificá-los. 
No entanto, a ida à floresta só ocorria por obrigação 
ou fuga na época de guerra e fome. Era comum a 
utilização de símbolos silvestres nas práticas reli-
giosas. O leopardo, no Benin, estava associado às 
figuras dos reis e, em toda a África Atlântica, sua 
pele era sinônimo de poder.
geneidade religiosa, havia a crença em um espírito 
criador, em espíritos de ancestrais e da natureza, 
rituais e feitiçarias. No século XV, o povo congo uti-
lizava estatuetas dos avós mortos para recuperar 
seus espíritos e achava que elas poderiam resolver 
problemas do cotidiano. Em relação à feitiçaria, 
acreditavam que havia os bons feiticeiros e os vin-
gadores. As divindades da natureza, como Ogum 
e Xangô, confundiam-se com as figuras humanas. 
No Reino de Cuba, por sua vez, a crença não era 
em um espírito criador, mas em três. Todas as des-
graças eram vistas como fruto da desordem social 
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que os mortos viviam em um mundo igual ao dos 
vivos. O sacrifício humano ocorria em diversas 
regiões, como na Costa do Ouro e em Bissau.
Os iorubas e outros povos acreditavam em 
divindades da natureza que haviam sido assimi-
ladas pelos ancestrais fundadores das dinastias. 
Essas divindades são intermediárias entre os seres 
humanos e o deus criador, Olodum ou Olodumaré. 
Em uma categoria hierárquica inferior, estão os 
deuses que atuam como ministros do deus criador, 
destacando-se, dentre eles, Obatalá e Xangô. Este 
último havia sido rei de Oió, cidade ao norte do 
Reino de Ioruba. A tradição diz que, depois que o 
soberano foi destronado e enforcado na floresta, 
uma forte tempestade caiu sobre a cidade, mos-
trando a vingança de Xangô, desde então associado 
ao trovão e ao raio. Nas cerimônias dedicadas a 
esse orixá, os sacerdotes traziam uma cabeça na 
mão esquerda e uma figura feminina com a imagem 
de um “duplo machado” na mão direita. O machado 
era uma alusão aos raios lançados pela tempestade 
e a uma pedra neolítica encontrada por campone-
ses, interpretada como um presente da divindade.
As práticas religiosas africanas modificaram-se 
consideravelmente com a expansão islâmica após 
o século VII. O islamismo passou a ser a religião 
predominante nos entrepostos comerciais, princi-
palmente no norte da África. No sul, a expansão 
islâmica encontrou dificuldades. Entre os iorubas, 
por exemplo, a expansão islâmica havia chegado no 
século XV, e no fim do século XVIII ela ainda não 
havia obtido sucesso na conversão de fiéis. Para os 
muçulmanos e os cristãos, as religiões africanas 
eram consideradas “obras do diabo”; já para os 
africanos, os islamitas eram poderosos feiticeiros.
Os europeus na África 
O termo África não tem uma origem defini-
da; porém, sabe-se que seu uso foi introduzido 
tardiamente.
Nos séculos XV e XVI, na época da expansão 
ultramarina, os europeus denominavam o continen-
te africano de Etiópia. Já os gregos o chamavam 
de Líbia. O norte africano, desde a Antiguidade, 
foi objeto de conquista para vários povos (como 
os fenícios e os romanos). Com a expansão muçul-
mana na Península Ibérica, a partir do século VII 
d.C., o contato do norte da África com a Europa 
se estreitou. A parte oriental africana também 
era conhecida pelos europeus, mas tanto a África 
Atlântica como o sul do continente permaneceram 
desconhecidos por muito tempo.
A África Atlântica só teve contato com os euro-
peus a partir da expansão ultramarina. O comércio 
de ouro, marfim e escravos era realizado na região 
desde a Idade Média, mas durante séculos foi exclu-
sividade dos muçulmanos e dos berberes (nômades 
que habitavam o Saara e os territórios correspon-
dentes aos atuais Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e 
Egito). Somente após a primeira metade do século 
XV, foi iniciado um projeto de expansão e conquis-
ta da África Atlântica pelos portugueses, com a 
intenção de descobrir rotas para as especiarias 
das Índias e para a exploração aurífera na região. 
Como os mercadores muçulmanos monopolizavam 
o acesso continental e os comerciantes venezianos 
defendiam o acesso via Mediterrâneo, a solução 
lusa foi abrir novos caminhos pelo Oceano Atlântico. 
Essa área produtora de ouro logo se transformaria 
em um grande mercado de escravos.
O tráfico interno de escravos na África foi uma 
constante entre os séculos VIII e XVI. Ocorria princi-
palmente na costa ocidental (do Senegal até a Angola) 
e na costa oriental (do Quênia até Moçambique). 
Seu principal mecanismo eram as guerras internas. 
Povos derrotados eram transformados em escravos 
e vendidos. As guerras aconteciam, em geral, em 
razão do processo de formação ou expansionismo 
do Estado. Também a fome levava à escravidão: os 
mais miseráveis vendiam a si mesmos e aos filhos 
como escravos para poder se alimentar. Uma pessoa 
também poderia se tornar escrava por meio de uma 
decisão judicial. Uma dívida ou um crime poderiam 
Mulher dança durante a festa de Xangô, em Fortaleza (CE), em 
2003. No Brasil, Xangô é um orixá do candomblé, palavra origi-
nária do banto kandombile e que significa culto e oração. Xangô 
representa as forças ocultas da natureza, como o trovão, e para 
homenageá-lo as pessoas costumam usar colares de contas 
brancas e vermelhas. No catolicismo, como resultado do sincre-
tismo religioso, é identificado com São João, por isso é celebrado 
no mês de junho.
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século XV, e no fim do século XVIII ela ainda não 
havia obtido sucesso na conversão de fiéis. Para os 
muçulmanos e os cristãos, as religiões africanas 
eram consideradas “obras do diabo”; já para os 
africanos, os islamitas eram poderosos feiticeiros.
Os europeus na África 
O termo África não tem uma origem defini-
da; porém, sabe-se que seu uso foi introduzido 
tardiamente.
Nos séculos XV e XVI, na época da expansão 
ultramarina, os europeus denominavam o continen-
te africano de Etiópia. Já os gregos o chamavam 
de Líbia. O norte africano, desde a Antiguidade, 
foi objeto de conquista para vários povos (como 
os fenícios e os romanos). Com a expansão muçul-
mana na Península Ibérica, a partir do século VII 
d.C., o contato do norte da África com a Europa 
se estreitou. A parte oriental africana também 
era conhecida pelos europeus, mas tanto a África 
Atlântica como o sul do continente permaneceram 
desconhecidos por muito tempo.
A África Atlântica só teve contato com os euro-
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ser pagos com trabalho escravo. Tais escravos, con-
tudo, ainda poderiam se casar com pessoas livres e 
ter acesso aos meios de produção.
Com a organização do tráfico negreiro após o 
século XV, a dinâmica da escravização de homens, 
mulheres e crianças tomou um rumo completamente 
diverso. Primeiramente, houve grande incremento no 
número de pessoas aprisionadas para serem enviadas 
à América em troca de pagamento, que era sempre 
muitoinferior ao valor de um escravo na América.
Para se compreender a história da África 
Atlântica é necessário passar pelo tráfico interna-
cional de escravos, que marcou profundamente a 
região. Se no início essa parte da África foi ocupa-
da por portugueses, em seguida vieram outros euro-
peus: franceses, ingleses e holandeses. O tráfico 
foi responsável pelo enriquecimento de companhias 
europeias e mercadores do início da Idade Moderna, 
antes mesmo do surgimento do capitalismo. Se no 
século XVI Portugal e Espanha, como detentores 
das colônias americanas, dominavam o mercado de 
escravos africanos, no século XVII outras nações 
europeias passaram a controlar grandes proprieda-
des agrícolas com trabalho escravo no Novo Mundo 
e a recorrer à mão de obra cativa.
Desde o século XV, Portugal já ocupava os 
arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé. Do pri-
meiro ponto os portugueses atingiram os rios da 
Guiné, e de São Tomé foram para o Golfo de Benin. 
A partir daí estabeleceram vários entrepostos para 
o comércio de ouro e escravos: as duas mercadorias 
mais valiosas. Luanda, Senegâmbia e Benguela 
tornaram-se parceiros dos portugueses na aqui-
sição de escravos para serem vendidos pelos 
europeus. No século XVI, os ingleses começaram 
a disputar com os lusos os melhores postos de 
compra de escravos e as alianças com os chefes 
locais. A partir do século XVII, a região da Costa da 
Mina foi um importante fornecedor de mão de obra 
escrava para os traficantes europeus. Conforme a 
historiadora Marina de Mello e Souza:
[As realizações dos negócios] envolviam várias 
etapas, eram lentas e com gestos cheios de signifi-
cados simbólicos. Os navios tinham de pagar taxas 
de ancoragem, e os capitães ofereciam presentes 
para os chefes locais ou para os representantes 
dos reis, que moravam no interior do continente. 
Estes geralmente eram presenteados com tecidos 
finos, como brocados, veludos e sedas, com botas 
de couro, chapéus emplumados, casacos agaloa-
dos [enfeitados com galões], punhais e espadas 
trabalhadas, pipas de bebidas destiladas, cavalos 
e uma variedade de produtos que indicavam pres-
tígio. As trocas eram feitas aos poucos. Cada dia 
pequenas quantidades de escravos eram trocadas 
por tonéis de bebidas destiladas, tecidos da Índia 
e da Inglaterra, contas de vidro venezianas, uten-
sílios de metal, armas, pólvora, cavalos, barras 
de ferro, conchas trazidas de ilhas do Índico, que 
cumpriam funções de moeda em sociedades da 
África ocidental. Em razão desse processo lento, 
um navio podia levar até seis meses para comple-
tar sua carga e voltar ao porto de origem.
MELLO E SOUZA, op. cit., p. 59.
Quanto maiores os conflitos internos na África, 
mais favorecidos eram os portugueses em relação 
ao abastecimento de escravos. Leia a seguir a 
explicação de Roland Olivier.
O Benin passava, quando os portugueses lá chega-
ram pela primeira vez, pelos estágios finais de uma 
grande expansão territorial. Enquanto seus exércitos 
permaneceram lutando ativamente nas fronteiras, 
o Benin foi uma fonte principal de escravos. Mas 
quando, em meados do século XVI, o Benin atingiu 
os limites naturais de seu poder para controlar as 
províncias distantes, o fluxo de escravos diminuiu 
gradativamente e os comerciantes europeus tiveram 
que buscar seus suprimentos em outro lugar.
OLIVIER, Roland. A experiência africana. 
Rio de Janeiro: Zahar, 1994. p. 145.
Assim, o comércio de escravos acabou por 
intensificar os conflitos internos e os desequilíbrios 
populacionais. As capturas foram se ampliando. 
No século XV, estima-se a captura de menos de 
mil pessoas, elevando-se esse número para cerca 
de 30 mil por ano no século XVII e cerca de 80 mil 
no século seguinte. Aproximadamente dois terços 
dos capturados eram homens.
No fim do século XVIII, os movimentos liberais e 
democráticos ganharam força na Europa, e a escra-
vidão passou a ser condenada não mais apenas por 
religiosos ou intelectuais isolados. Na França e na 
Inglaterra, nasceu o movimento abolicionista, que 
considerava essa forma de trabalho um atraso à 
expansão do mercado. Aos poucos o tráfico deixou 
de existir, o que ocorreu no Brasil em 1850 com a 
promulgação da Lei Eusébio de Queiroz.
No entanto, até mesmo em decorrência do fato 
de a escravidão ser realizada na África antes da che-
gada dos europeus, esta prática não cessou total-
mente e permaneceu nas antigas rotas escravistas 
do Saara. O tráfico interno no continente atingiu seu 
apogeu no século XIX. A abolição da escravatura 
na África foi ainda muito lenta, permanecendo no 
Congo até 1889, no Senegal até 1892, na Gâmbia até 
1894, na Nigéria até 1900 e em Serra Leoa até 1928.
Em meados do século XIX, um novo processo de 
conquista europeu começou a ocorrer. Trata-se do 
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ser pagos com trabalho escravo. Tais escravos, con-
tudo, ainda poderiam se casar com pessoas livres e 
ter acesso aos meios de produção.
Com a organização do tráfico negreiro após o 
século XV, a dinâmica da escravização de homens, 
mulheres e crianças tomou um rumo completamente 
diverso. Primeiramente, houve grande incremento no 
número de pessoas aprisionadas para serem enviadas 
à América em troca de pagamento, que era sempre 
muito inferior ao valor de um escravo na América.
Para se compreender a história da África 
Atlântica é necessário passar pelo tráfico interna-
cional de escravos, que marcou profundamente a 
região. Se no início essa parte da África foi ocupa-
da por portugueses, em seguida vieram outros euro-
peus: franceses, ingleses e holandeses. O tráfico 
foi responsável pelo enriquecimento de companhias 
europeias e mercadores do início da Idade Moderna, 
antes mesmo do surgimento do capitalismo. Se no 
século XVI Portugal e Espanha, como detentores 
das colônias americanas, dominavam o mercado de 
escravos africanos, no século XVII outras nações 
europeias passaram a controlar grandes proprieda-
mais favorecidos eram os portugueses em relação 
ao abastecimento de escravos. Leia a seguir a 
explicação de Roland Olivier.
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neocolonialismo, no qual as potências europeias 
saíram em busca de novos mercados e matérias-
-primas para sua indústria em constante expansão. 
Praticamente todo o continente africano foi repartido 
entre ingleses, franceses, belgas, alemães e italianos. 
A escravidão foi realimentada e a segregação étnica 
tomou grandes proporções. Exemplo dessa herança na 
história do continente é o apartheid na África do Sul. 
No século XVII, a região da atual África do 
Sul foi colonizada por holandeses e franceses, 
chegando também os ingleses no século XVIII. 
Desde o início se estabeleceu o conflito com as 
várias etnias locais: bosquímanos, zulus e xho-
sas. Os europeus lutaram para dominar esses 
povos e explorar sua força de trabalho. Os des-
cendentes de holandeses denominaram-se afri-
cânderes ou bôeres e desenvolveram uma língua 
própria: o africânder. Em 1899 e 1902, em plena 
disputa pela dominação colonial, os britânicos 
entraram em conflito com os bôeres, iniciando-
-se a chamada Guerra dos Bôeres, que terminou 
com a vitória e dominação britânica da região. 
Com isso, os britânicos unificaram a região, que 
foi denominada como União Sul-Africana, poste-
riormente África do Sul.
Em 1947, ocorreu a independência da África do 
Sul, mas, no ano seguinte, a minoria branca repre-
sentada pelo Partido Nacional implantou o regime 
do apartheid, no qual o racismo se transformou em 
lei e vigorou até 1994.
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Com base em Atlas geográfico escolar. Rio de Janeiro: IBGE, 2009. p. 45.
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, no qual as potências europeias 
saíram em busca de novos mercados e matérias-
-primas para sua indústria em constante expansão.Praticamente todo o continente africano foi repartido 
entre ingleses, franceses, belgas, alemães e italianos. 
A escravidão foi realimentada e a segregação étnica 
tomou grandes proporções. Exemplo dessa herança na 
 na África do Sul. 
No século XVII, a região da atual África do 
Sul foi colonizada por holandeses e franceses, 
chegando também os ingleses no século XVIII. 
Desde o início se estabeleceu o conflito com as 
várias etnias locais: bosquímanos, zulus e xho-
sas. Os europeus lutaram para dominar esses 
povos e explorar sua força de trabalho. Os des-
cendentes de holandeses denominaram-se afri-
cânderes ou bôeres e desenvolveram uma língua 
própria: o africânder. Em 1899 e 1902, em plena 
disputa pela dominação colonial, os britânicos 
entraram em conflito com os bôeres, iniciando-
-se a chamada Guerra dos Bôeres, que terminou 
com a vitória e dominação britânica da região. 
Com isso, os britânicos unificaram a região, que 
foi denominada como União Sul-Africana, poste-
riormente África do Sul.
Em 1947, ocorreu a independência da África do 
Sul, mas, no ano seguinte, a minoria branca repre-
sentada pelo Partido Nacional implantou o regime 
do apartheid, no qual o racismo se transformou em 
lei e vigorou até 1994.
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Manifestação em apoio à elei-
ção de Nelson Mandela em 
1994. Na faixa, lê-se: “Adeus, 
apartheid; não volte mais”.
Durante o apartheid, a legislação segregacio-
nista limitou a circulação da população negra, 
que precisava de um documento de permissão 
oficial para poder circular nas áreas destinadas aos 
brancos. As áreas de trabalho, lazer e moradia de 
negros e brancos eram demarcadas pelo Estado. 
A palavra apartheid, em africânder, significa 
separação. Havia locais públicos, como praias 
e áreas de lazer, além de serviços públicos, 
como bibliotecas e escolas, que eram vetados 
aos negros. Somente os brancos tinham direitos 
civis; por isso, não era permitido aos negros votar, 
assumir cargos públicos ou participar de um júri. 
Era também proibido o casamento entre brancos 
e negros. Conforme a legislação segregacionista 
implementada pela minoria branca, todos aqueles 
que tivessem antepassados não brancos eram clas-
sificados como negros ou mestiços e receberiam 
documentos que contivessem essa informação, ou 
seja, todos esses seriam considerados como parte 
da população negra discriminada pela minoria 
branca que governava o país. 
Após o movimento de resistência liderado por 
Nelson Mandela, que estivera preso por muitos 
anos em razão de sua militância contra o apartheid, 
a África do Sul realizou, em 1994, as primeiras elei-
ções multirraciais. Nesse ano, Mandela, represen-
tando o partido denominado Congresso Nacional 
Africano, foi eleito o primeiro presidente negro da 
África do Sul.
Herança do apartheid na 
África do Sul: ba nheiros se-
parados pa ra ho mens bran-
cos e negros no centro de 
Johannesburgo, em 2001.
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Durante o apartheid, a legislação segregacio-
nista limitou a circulação da população negra, 
que precisava de um documento de permissão 
oficial para poder circular nas áreas destinadas aos 
brancos. As áreas de trabalho, lazer e moradia de 
negros e brancos eram demarcadas pelo Estado. 
A palavra apartheid, em africânder, significa 
separação. Havia locais públicos, como praias 
e áreas de lazer, além de serviços públicos, 
como bibliotecas e escolas, que eram vetados 
aos negros. Somente os brancos tinham direitos 
civis; por isso, não era permitido aos negros votar, 
assumir cargos públicos ou participar de um júri. 
Era também proibido o casamento entre brancos 
e negros. Conforme a legislação segregacionista 
implementada pela 
que tivessem antepassados não brancos eram clas-
sificados como negros ou mestiços e receberiam 
documentos que contivessem essa informação, ou 
seja, todos esses seriam considerados como parte 
da população negra discriminada pela minoria 
branca que governava o país. 
Nelson Mandela, que estivera preso por muitos 
anos em razão de sua militância contra o 
a África do Sul realizou, em 1994, as primeiras elei-
ções multirraciais. Nesse ano, Mandela, represen-
tando o partido denominado 
Africano
África do Sul.
Herança do apartheid na 
África do Sul: ba nheiros se-
parados pa ra ho mens bran-
cos e negros no centro de 
Johannesburgo, em 2001.
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Os africanos no Brasil
Sabemos que cerca de 220 povos e 5 milhões de 
habitantes viviam no atual território brasileiro antes 
da chegada dos portugueses em 1500. A partir daí os 
colonizadores começaram a se apossar das terras 
e a escravizar indígenas. Na segunda metade do 
século XVI, com o desenvolvimento da economia 
canavieira, o tráfico de escravos ganhou fôlego e 
começaram a vir as primeiras levas de africanos 
para a colônia. Estima-se que cerca de 50 mil afri-
canos chegaram ao Brasil no século XVI; no século 
seguinte teriam sido 550 mil, e, no século XVIII, por 
volta de 1 milhão e 700 mil africanos. No total, teriam 
chegado ao Brasil mais de 4 milhões de africanos, e, 
na América, mais de 10 milhões de seres humanos 
vindos da África foram feitos cativos.
Devemos lembrar que não só a cana-de-açúcar 
havia começado a se desenvolver no Brasil, mas 
também a criação de gado no interior, a extração 
de drogas do sertão no Norte e a cultura do fumo 
na Bahia; enfim, iniciava-se a organização de uma 
sociedade colonial predominantemente rural, na 
qual africanos escravizados e indígenas eram a 
mão de obra essencial para o funcionamento dessa 
economia. Além disso, os escravos eram utilizados 
para tarefas domésticas e urbanas.
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Ao longo do período colonial, a segregação 
racial foi ganhando contornos mais nítidos e o 
preconceito foi se reafirmando a todo momento. 
Para as pessoas consideradas brancas, o trabalho 
manual era tarefa destinada somente aos escravos. 
Assim, para as famílias mais abastadas, tarefas 
como cuidar da casa, cozinhar, cuidar das crianças, 
transportar cargas, fazer pequenos consertos ou 
até mesmo trabalhar como vendedor ambulante 
eram destinadas aos escravos. A posse de escra-
vos era um sinal de status, uma demonstração de 
riqueza. Sinhás passeavam pelas ruas com várias 
escravas para acompanhá-las. Além de lhes pres-
tarem serviço, eram a prova viva de sua abastança.
Uma vez no Brasil, os africanos eram generica-
mente chamados de boçais, termo que remetia à 
inferioridade das culturas africanas para os portu-
gueses. Depois de capturados, eram trazidos nus 
ou seminus e acorrentados nos porões dos navios. 
Muitos morriam nesse percurso. Ao chegarem aqui, 
eram besuntados com banha para participarem 
de leilões de venda de escravos nos mercados de 
cativos. Tratados como animais que serviriam como 
ferramenta de trabalho, toda a sua história anterior 
era desconsiderada. Seus proprietários despreza-
vam a origem, a língua, a religião e a história familiar 
dos escravizados. Quando estes aprendiam a língua 
ROTAS DE ESCRAVOS ENTRE BRASIL E ÁFRICA 
DURANTE O PERÍODO COLONIAL 
Com base em ALBUQUERQUE, Manoel Mauricio de. et al. Atlas Histórico Escolar. Rio de Janeiro: FAE, 1991. p. 42.
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Sabemos que cerca de 220 povos e 5 milhões de 
habitantes viviam no atual território brasileiro antes 
da chegada dos portugueses em 1500. A partir daí os 
colonizadores começaram a se apossar das terras 
e a escravizar indígenas. Na segunda metade do 
século XVI, com o desenvolvimento da economia 
canavieira, o tráfico de escravosganhou fôlego e 
começaram a vir as primeiras levas de africanos 
para a colônia. Estima-se que cerca de 50 mil afri-
canos chegaram ao Brasil no século XVI; no século 
seguinte teriam sido 550 mil, e, no século XVIII, por 
volta de 1 milhão e 700 mil africanos. No total, teriam 
chegado ao Brasil mais de 4 milhões de africanos, e, 
na América, mais de 10 milhões de seres humanos 
Devemos lembrar que não só a cana-de-açúcar 
havia começado a se desenvolver no Brasil, mas 
também a criação de gado no interior, a extração 
de drogas do sertão no Norte e a cultura do fumo 
na Bahia; enfim, iniciava-se a organização de uma 
sociedade colonial predominantemente rural, na 
qual africanos escravizados e indígenas eram a 
Ao longo do período colonial, a segregação 
racial foi ganhando contornos mais nítidos e o 
preconceito foi se reafirmando a todo momento. 
Para as pessoas consideradas brancas, o trabalho 
manual era tarefa destinada somente aos escravos. 
Assim, para as famílias mais abastadas, tarefas 
como cuidar da casa, cozinhar, cuidar das crianças, 
transportar cargas, fazer pequenos consertos ou 
até mesmo trabalhar como vendedor ambulante 
eram destinadas aos escravos. A posse de escra-
vos era um sinal de status, uma demonstração de 
riqueza. Sinhás passeavam pelas ruas com várias 
escravas para acompanhá-las. Além de lhes pres-
tarem serviço, eram a prova viva de sua abastança.
Uma vez no Brasil, os africanos eram generica-
mente chamados de boçais, termo que remetia à 
inferioridade das culturas africanas para os portu-
gueses. Depois de capturados, eram trazidos nus 
ou seminus e acorrentados nos porões dos navios. 
Muitos morriam nesse percurso. Ao chegarem aqui, 
eram besuntados com banha para participarem 
de leilões de venda de escravos nos mercados de 
cativos. Tratados como animais que serviriam como 
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portuguesa, os costumes do local e se mos-
travam obedientes aos senhores, passavam a 
ser chamados de ladinos. Os que nasciam no 
Brasil eram chamados de crioulos.
Como afirmado anteriormente, a maior 
parte dos africanos que vieram para o Brasil 
era procedente da África Atlântica. No sécu-
lo XVI, vinham da região do Rio Gâmbia, no 
Golfo da Guiné, da região do Congo e de 
Luanda. No século XVIII, muitos escravos 
vieram da Costa da Mina, ligada diretamente 
a comerciantes de Salvador e de Luanda, que 
abastecia principalmente o Rio de Janeiro. 
Podemos considerar, então, que chegaram 
ao Brasil mais africanos de origem sudanesa, 
vindos da região conhecida como Sudão oci-
dental, a qual abrigava muitas etnias, dentre 
elas: os hauçás, os fulanis e inúmeros grupos 
iorubas. Além desses, há os vários grupos 
bantos já citados.
Com isso, uma variedade de línguas, reli-
giões, enfim, uma variedade de culturas passou 
a conviver na colônia. Os africanos, no entanto, 
não puderam viver próximo de seus familiares, 
pois a lógica do comércio fazia com que as 
pessoas fossem separadas, não respeitando 
as culturas locais. Dessa forma, ao desembar-
car no Brasil, o africano chegava a uma terra 
desconhecida e precisava aprender a conviver 
com europeus, indígenas e africanos de outras 
etnias. Em alguns casos, escravos de um 
mesmo senhor poderiam pertencer a povos tra-
dicionalmente inimigos. Nesses casos, tudo que 
tinham em comum era a condição de escravo.
No Brasil, os escravos tinham de aprender 
a língua portuguesa para se comunicar com 
outros escravos e os senhores. Ocorria então 
um novo processo de socialização. Com sua 
identidade original negada pelos europeus, eram 
chamados pelos traficantes conforme sua ori-
gem ou ponto de venda na África. Poderiam ser 
conhecidos como João Mina, Manoel Benguela 
ou Maria Angola, por exemplo.
Contudo, os africanos escravizados não 
perdiam totalmente sua identidade original. 
Na escolha de parceiros sexuais, por exem-
plo, levavam em conta a origem do outro, 
preferindo companheiros da comunidade 
africana a que pertenciam. A partir das rela-
ções de parentesco e de trabalho que iam 
se formando, foram recriadas comunida-
des que mantinham as tradições culturais 
africanas e acrescentavam novas práticas 
constituídas no Brasil.
O barco do guarda-mor (no alto) e Cenas da Rua Direita (as duas 
imagens acima), de Paul Harro-Harring, 1840. O pintor e romancista 
dinamarquês esteve no Rio de Janeiro entre maio e agosto de 1840 
e retratou o cotidiano da cidade na série Esboços tropicais do Brasil. 
Adepto do Iluminismo, seu objetivo não era mostrar a natureza e a 
sociedade do Brasil, mas denunciar a brutalidade da escravidão. Nas 
imagens, diferentes tarefas exercidas pelos escravos: os remadores de 
embarcações, os carregadores urbanos e os vendedores ambulantes.
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THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS
Música transoceânica
Afinidades musicais entre Cabo Verde e Brasil ultrapassam a distância e o século
Eduardo Lobo
Violão, cavaquinho e percussão: formação instrumental típica da música brasileira. Certo? Não totalmente. Nas ilhas de Cabo Verde isso também é verdade. E as semelhanças não param aí. Há muito mais em comum 
entre o que se produz musicalmente no Brasil e no arquipélago do Oceano 
Atlântico, como nós, descobertos e colonizados pelos portugueses, e como nós, 
com forte influência de culturas africanas.
“Morna”, “coladeira” e “funaná” são os três ritmos musicais mais populares 
das ilhas de Cabo Verde. Ritmos que misturam toques de fado português, cho-
rinho brasileiro, batidas cubanas, tango argentino e raízes africanas. A influência 
brasileira é, sem dúvida, uma das mais fortes.
Cabo Verde foi um dos poucos casos em que o Brasil regressou à África para 
devolver cultura. No início do século passado, marinheiros brasileiros chegavam à 
ilha de São Vicente com seus instrumentos e, não raro, tocavam com os compositores 
locais. Assim, o chorinho e o samba influenciaram a música urbana do arquipélago.
A “morna” é o gênero que mais caracteriza o povo cabo-verdiano. É o blues do 
país. Uma música que nasceu do sofrimento do povo, tocada num ritmo lento e com 
letras que evocam a tristeza, o amor, a perda e a sodade, saudade em crioulo. E não 
se pode falar em “morna” sem citar Cesária Évora, a diva de Cabo Verde. Ela foi o grande divisor de águas para a música 
cabo-verdiana. Foi com seu sucesso internacional que as portas do mundo se abriram para a música do arquipélago. Com 
uma voz carregada de sentimento, frequentemente comparada a Billie Holiday, “Cize”, como gosta de ser chamada pelos 
amigos, chega aos 62 anos de idade, dona de uma carreira bastante peculiar, na qual o sucesso só veio tardiamente.
Como a maioria dos músicos e artistas de Cabo Verde, Cesária Évora nasceu em Mindelo, a capital cultural do 
país [...] começou a carreira cantando nos bares e bordéis de Mindelo e nos lares de aristocratas portugueses. Com a 
independência de Cabo Verde, em 1975, um regime socialista foi instalado no país, provocando a fuga da aristocracia 
portuguesa que tinha sido o sustento da cantora.
LOBO, Eduardo. Continente multicultural. Ano III, n. 29, 2005. p. 40.
Apresentação de Cesária Évora, 
a “diva de Cabo Verde”, em Los 
Angeles (Estados Unidos), em 
2008.
A presença cultural 
africana no Brasil
Podemos facilmente perceber a presença afri-
cana na origem da música brasileira e de algumas 
festas populares nacionais. O batuque, dança 
originária do Congo e de Angola, era praticado no 
Brasilpelos africanos e consistia em uma roda com 
uma dançarina ao centro e o acompanhamento de 
um violeiro. Daí surgiu a expressão batucada para 
designar as rodas, que, mais tarde, seriam sinônimo 
de rodas de samba. Durante o batuque, para sair 
da roda, a dançarina deveria encostar o umbigo no 
umbigo de outro dançarino que entrava. No idioma 
banto-quimbundo isso é denominado semba, pro-
vável origem da palavra samba.
Do Congo veio também a congada, dança dra-
mática realizada entre as festas de Natal e de 
Reis. Trata-se de uma mistura de ritmos africanos 
com elementos da cultura católica europeia, pois 
relaciona-se com o calendário das festas cristãs. 
Algumas congadas representam a luta dos povos 
negros, mas outras fazem referência às lutas entre 
cristãos e mouros na Europa. Outra influência 
dos bantos de Angola e do Congo é a presença 
do lundu, conhecido por ser uma dança sensual. 
Vale ressaltar que o lundu, de dança considera-
da indecente, se transformou, a partir do século 
XIX, em dança de salão aceita pela população de 
pessoas livres e pela elite.
Um caso típico das diferenças entre os grupos 
de africanos escravizados foi o que ocorreu na 
Bahia do século XIX, quando muitos africanos 
hauçás foram trazidos após serem aprisionados 
na guerra contra os iorubas. Esses hauçás, de 
tradição islâmica, distinguiam-se em muitos 
aspectos dos africanos de outras regiões que 
habitavam a Bahia.
A religião é um exemplo dessas novas relações 
que foram se constituindo. Africanos capturados 
como escravos podiam ser curandeiros, conhe-
cedores de práticas mágicas, de adivinhações e 
Jewel Samad/AFP/Getty Images
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Afinidades musicais entre Cabo Verde e Brasil ultrapassam a distância e o século
iolão, cavaquinho e percussão: formação instrumental típica da música 
brasileira. Certo? Não totalmente. Nas ilhas de Cabo Verde isso também 
é verdade. E as semelhanças não param aí. Há muito mais em comum 
entre o que se produz musicalmente no Brasil e no arquipélago do Oceano 
Atlântico, como nós, descobertos e colonizados pelos portugueses, e como nós, 
“Morna”, “coladeira” e “funaná” são os três ritmos musicais mais populares 
das ilhas de Cabo Verde. Ritmos que misturam toques de fado português, cho-
rinho brasileiro, batidas cubanas, tango argentino e raízes africanas. A influência 
Cabo Verde foi um dos poucos casos em que o Brasil regressou à África para 
devolver cultura. No início do século passado, marinheiros brasileiros chegavam à 
ilha de São Vicente com seus instrumentos e, não raro, tocavam com os compositores 
locais. Assim, o chorinho e o samba influenciaram a música urbana do arquipélago.
A “morna” é o gênero que mais caracteriza o povo cabo-verdiano. É o blues do 
país. Uma música que nasceu do sofrimento do povo, tocada num ritmo lento e com 
letras que evocam a tristeza, o amor, a perda e a sodade, saudade em crioulo. E não 
se pode falar em “morna” sem citar Cesária Évora, a diva de Cabo Verde. Ela foi o grande divisor de águas para a música 
cabo-verdiana. Foi com seu sucesso internacional que as portas do mundo se abriram para a música do arquipélago. Com 
Apresentação de Cesária Évora, 
a “diva de Cabo Verde”, em Los 
Angeles (Estados Unidos), em 
2008.
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Congadas de Catalão (GO), em apresentação de 2007.
O batuque em São Paulo, de Johann Baptist Spix e Karl 
Friedrich Philipp von Martius, 1817. Esses viajantes europeus 
retrataram a dança batuque, na qual ocorria a “umbigada”.
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Homem da etnia hauçá na Nigéria atual.
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intermediários entre o mundo divino e dos seres 
humanos. Mesmo como escravos no Brasil, eles 
continuavam a realizar essas tarefas. Jogavam 
pedras, praticavam danças de significado religioso 
ao som de tambores e preparavam compostos para 
beber ou comer, que incluíam extratos de plantas, 
dentes e penas de animais, cabelos e mesmo secre-
ções do corpo. Poderiam ter finalidades variadas, 
que seriam alcançadas ao cumprir o ritual. Esses 
ritos no Brasil eram chamados de calundus, palavra 
de origem banta.
Os africanos também costumavam criar bolsas 
de mandinga, comuns ainda em algumas regiões 
do Brasil. Elas eram feitas de pequenos sacos de 
pano ou couro que reuniam objetos variados, papéis 
com orações muçulmanas, católicas e dizeres 
relacionados às culturas africanas. Expressavam 
a síntese cultural e acreditava-se que ofereciam 
proteção aos que as usavam.
O candomblé, relacionado a cultos religiosos 
de origem ioruba e de Daomé (atual República 
de Benin), evocava as entidades sobrenaturais 
que são os orixás, heróis divinizados em reinos 
africanos. No entanto, essa prática religiosa era 
reprimida na colônia portuguesa, condenada pela 
Igreja Católica, que a considerava como força 
diabólica. Era permitido somente cultuar os san-
tos católicos. A religião cristã era apregoada aos 
escravos pelos colonizadores. Havia igrejas desti-
nadas somente aos escravos. Nessas, contudo, os 
escravos criaram uma correspondência entre os 
orixás do candomblé e os santos católicos. Iansã 
era Santa Bárbara, Xangô era São João Batista, 
São Jerônimo ou São Judas Tadeu e Iemanjá era 
Nossa Senhora da Conceição. Oxalufã era conhe-
cido como o Senhor do Bonfim na Bahia, Oxóssi 
como São Jorge (na Bahia) e São Sebastião (no 
Rio de Janeiro), Oxum como diversas Nossas 
Senhoras (da Conceição, das Candeias etc.) e 
Omulu como São Lázaro. Esse é um importante 
exemplo de como se foi construindo o sincretismo 
cultural que deu origem à cultura afro-brasileira.
Deve-se destacar, ainda, a importância das 
chamadas irmandades de pretos. As irmanda-
des surgiram originalmente na Europa medieval 
e foram trazidas ao Brasil pelos colonizadores 
portugueses. Como instituição laica, tinha por 
objetivo difundir o culto aos santos e garantir 
Festa de Iemanjá no Rio de Janeiro, em 2008. Iemanjá é a rainha das águas e o orixá da maternidade nas religiões afro-brasileiras. 
No sincretismo religioso é identificada com a santa católica Nossa Senhora dos Navegantes.
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THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS
Tambozeiros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, Minas Novas (MG), 
2004. As irmandades ainda representam uma forma de construção de identidades e laços sociais em 
muitas comunidades brasileiras, organizando festas e rituais que envolvem grandes grupos.
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Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. 
São Cristóvão (SE), 2007.
Rubens Chaves/Pulsar Imagens
Tambozeiros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, Minas Novas (MG), 
2004. As irmandades ainda representam uma forma de construção de identidades e laços sociais em 
muitas comunidades brasileiras, organizando festas e rituais que envolvem grandes grupos.
Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. 
São Cristóvão (SE), 2007.
Rubens Chaves/Pulsar Imagens
o esforço de evangelização. Também havia no 
Brasil as ordens terceiras, que se submetiam 
a uma ordem religiosa específica. Conforme 
Sérgio Chahon:
Situadas na base da pirâmide social e numerosasno ultramar, as irmandades negras, sobretudo as de 
escravos, desempenharam, com as bênçãos da Igreja 
e do padroado régio, papel relevante no processo de 
aculturação da população africana, estimulando-a 
ao exercício dos ritos católicos e à participação nos 
sacramentos. De um ponto de vista mais amplo, en-
quanto associações dotadas de legitimidade jurídica, 
serviram ao conjunto dos habitantes da América 
Portuguesa como o principal espaço de sociabilidade 
disponível na época e, para os cativos e libertos, desti-
tuídos de quase tudo, forneceram importantes meios 
para eles se exprimirem culturalmente e construírem 
uma identidade própria.
VAINFAS, Ronaldo (Org.). Dicionário do Brasil colonial 
(1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2000. p. 317.
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1. Que referências à história dos africanos no Brasil estão presentes na canção?
2. Faça uma pesquisa na internet para explicar as alusões ao dia 20 de novembro e aos quilombos.
3. O autor faz uma defesa da cultura afro-brasileira? Explique.
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A PONTO DE VISTA
Black Broder – 20 do 11
Mestre Negoativo/ Alexandre Cardoso – Berimbrown
Meus ancestrais
trazidos em navios negreiros
Muitos morreram de banzo antes de aqui chegar
A boca secava de sede,
caíram no samba para a dor passar
Criaram uma luta nas matas e debaixo do nariz do 
feitor
Dançavam prá disfarçar,
Batuque, São Bento Grande, Santa Maria,
São Bento pequeno, Iúna, Cavalaria.
É bom e tenho o prazer de dizer sou afro-brasileiro
Nossa cultura se expande pelo mundo inteiro
Tem até europeu tocando berimbau e pandeiro
Do mundo do açúcar a computadores
Toca-disco, fax, celular,
rádio de pilha, desemprego
Me mande um e-mail prá a gente se comunicar
Do mundo do açúcar a computadores
Toca-disco, fax, celular,
rádio de pilha, desemprego
Me mande um e-mail prá a gente se aquilombar
Hei, black broder
Levante e lute
Na moral
Hei, black broder
Se ligue e lute na moral
E aí, Domingo Jorge Velho, qual é a sua?
O quilombo permanece vivo, a luta continua
Na ditadura grandes mestres foram exi-
lados
Seu Rui Barbosa, cadê os livros da História 
que foram queimados?
Na minha cidade 21 de abril é feriado
e 20 de novembro mal é lembrado
Mas mesmo assim trago sorriso no rosto, 
tenho o samba no pé
Sou bamba de capoeira e acredito no meu 
candomblé
Aro bôbôi ôxum maré
patácuri ôgum comorodé odé
Cabecilhê kaô
Tem muito mais, não tenho preconceito
Pelo contrário, tenho orgulho estampado 
no peito
Somos miscigenados por inteiro
salve o povo índio branco afro-brasileiro
Hei, black broder
Levante e lute
Na moral
Hei, black broder
Se ligue e lute na moral
BERIMBROWN. Black Broder. 
In: Aglomerado (CD). Obi Music, 2003.
Que referências à história dos africanos no Brasil estão presentes na canção?
Faça uma pesquisa na internet para explicar as alusões ao dia 20 de novembro e aos quilombos.
O autor faz uma defesa da cultura afro-brasileira? Explique.
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PONTO DE VISTA
Mestre Negoativo/ Alexandre Cardoso – Berimbrown
Muitos morreram de banzo antes de aqui chegar
Criaram uma luta nas matas e debaixo do nariz do 
É bom e tenho o prazer de dizer sou afro-brasileiro
Nossa cultura se expande pelo mundo inteiro
Tem até europeu tocando berimbau e pandeiro
E aí, Domingo Jorge Velho, qual é a sua?E aí, Domingo Jorge Velho, qual é a sua?
O quilombo permanece vivo, a luta continuaO quilombo permanece vivo, a luta continua
Na ditadura grandes mestres foram exi-Na ditadura grandes mestres foram exi-
lados
Seu Rui Barbosa, cadê os livros da História Seu Rui Barbosa, cadê os livros da História 
que foram queimados?
Na minha cidade 21 de abril é feriadoNa minha cidade 21 de abril é feriado
e 20 de novembro mal é lembradoe 20 de novembro mal é lembrado
Mas mesmo assim trago sorriso no rosto, Mas mesmo assim trago sorriso no rosto, 
tenho o samba no pétenho o samba no pé
Sou bamba de capoeira e acredito no meu Sou bamba de capoeira e acredito no meu 
candomblé
Aro bôbôi ôxum maréAro bôbôi ôxum maré
patácuri ôgum comorodé odépatácuri ôgum comorodé odé
Cabecilhê kaô
Tem muito mais, não tenho preconceitoTem muito mais, não tenho preconceito
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DOCUMENTOS
VOCABULÁRIO 
Belicoso: que tem inclinação para o combate.
Idólatra: que adora ídolos.
Manilha: argola como adorno para os pulsos ou os tornozelos.
Leia atentamente o trecho da obra Esmeraldo de Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira, inter-
rompida em 1508, e observe o mapa europeu de 1530. Depois, faça as atividades propostas no 
Roteiro de trabalho.
Esmeraldo de Situ Orbis, 1505-1508
Duarte Pacheco Pereira
À ordem da obra convém dizermos da natureza da gente desta Serra Leoa e do seu modo de viver. E a maior parte dos moradores desta terra por um nome são chamados Boulões, e é gente belicosa que poucas vezes estão em paz. Estes chamam ao ouro “enloão” e água, 
“men”. E algumas vezes se acontece estes negros comerem outros homens, ainda que isto não usam 
tão comumente como se usa em outras partes desta Etiópia. E estes todos são idólatras e feiticeiros, 
e por feitiços se regem em tal maneira que os oráculos e os agouros sem dúvida se lhe dão.
Nesta terra há ouro, e não em muita quantidade, o qual os Boulões dão por sal, que levam a uma 
terra que chamam Coia, donde este ouro vem, que é assaz fino (quase vinte e três quilates), o qual 
costumam resgatar por manilhas de latão e por bacias tamanhas como as de barbeiro, e por lenço 
e pano vermelho [...] e panos de algodão e outras coisas. Estes negros têm os dentes limados e 
Mapa produzido na Europa 
em 1530, mostrando o con-
tinente africano e a presen-
ça de animais mitológicos.
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DOCUMENTOS
Leia atentamente o trecho da obra Esmeraldo de Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira, inter-
rompida em 1508, e observe o mapa europeu de 1530. Depois, faça as atividades propostas no
Roteiro de trabalho.
Esmeraldo de Situ Orbis, 1505-1508
Duarte Pacheco Pereira
À ordem da obra convém dizermos da natureza da gente desta Serra Leoa e do seu modo de viver. E a maior parte dos moradores desta terra por um nome são chamados Boulões, e é gente belicosa que poucas vezes estão em paz. Estes chamam ao ouro “enloão” e água, 
“men”. E algumas vezes se acontece estes negros comerem outros homens, ainda que isto não usam 
tão comumente como se usa em outras partes desta Etiópia. E estes todos são 
e por feitiços se regem em tal maneira que os oráculos e os agouros sem dúvida se lhe dão.
Nesta terra há ouro, e não em muita quantidade, o qual os Boulões dão por sal, que levam a uma 
terra que chamam Coia, donde este ouro vem, que é assaz fino (quase vinte e três quilates), o qual 
costumam resgatar por manilhas de latão e por bacias tamanhas como as de barbeiro, e por lenço 
e pano vermelho [...] e panos de algodão e outras coisas. Estes negros têm os dentes limados e 
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ROTEIRO DE TRABALHO
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Duarte Pacheco Pereira nasceu em Santarém (Portugal), em 1460. Dedicou-se desde jovem às expedições marítimas. Esteve a 
serviço dos reis Dom João II, Dom Manuel e Dom João III. Alguns historiadores afirmam que ele teria sido o primeiro navegador 
europeu a chegar às terras brasileiras em 1498, quando teria desembarcado nas proximidades da fronteira do Maranhão com o Pará. 
Foi governador do castelo de S. Jorge da Mina. Em 1503, partiu para o Oriente e participou de várias batalhas contra o samorim 
(governante) de Calicute. Foi aclamado herói em Portugal pelo rei Dom Manoel I por seus feitos no Oriente. Sua obra Esmeraldo 
de Situ Orbis, que ficou inacabada, é um roteiro comentado da costa africana ocidental e oriental. Faleceu em 1533, em Lisboa.
VOCABULÁRIO 
Alimária: qualquer animal, em especial quadrúpede; pessoa estúpida ou grosseira.
1. Duarte Pacheco trata os habitantes de Serra Leoa como selvagens? Justifique sua resposta 
citando trechos do documento e explicando-os.
2. Descreva a imagem levando em consideração todos os detalhes possíveis.
3. Com base no texto e na imagem, o que se pode concluir sobre a visão dos europeus a respeito 
dos povos africanos?
Lembre-se: uma biografia não apresenta o conjunto completo de fatos que compõem a vida de uma 
pessoa, mas uma seleção organizada conforme o olhar do biógrafo. Por isso, quando lemos biografias de 
uma mesma pessoa escritas por autores diferentes, podemos encontrar divergências e destaques a diferentes 
fatos relacionados à vida dela.
agudos como os de cão. Nesta terra há muitos elefantes e onças e outras muito desvairadas alimárias 
que nesta Espanha e em toda a Europa não há. Também há aqui homens selvagens, a que os Anti-
gos chamaram Sátiros, e são todos cobertos de um cabelo ou sedas, quase tão ásperas como de 
porco; e estes parecem criatura humana e usam coito com suas mulheres como nós usamos com as 
nossas; e em vez de falarem, gritam quando lhe fazem mal.
PEREIRA, Duarte Pacheco. Esmeraldo de Situ Orbis. Lisboa: Academia Portuguesa de História, 1953. p. 121. 
Apud DEL PRIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato Pinto. Ancestrais. Rio de Janeiro: Campus, 2004. p. 67. 
 NA INTERNET
Biografias afro-brasileiras
A extrema exploração a que os povos de origem africana foram submetidos no Brasil e os pre-
conceitos étnico e de cor existentes não foram suficientes para impedir que, ao longo da história 
brasileira, várias personalidades afrodescendentes se destacassem em diversos setores da vida 
social e no campo da cultura. 
Escolha duas dessas personalidades e pesquise na internet mais informações sobre elas. Podem 
ser pessoas que desempenharam papel significativo na política, em movimentos sociais, nas artes 
ou em alguma atividade científica ou profissional. 
Para realizar essa pesquisa, siga as orientações do Roteiro de trabalho abaixo.
1. Selecione alguns sites que forneçam informações sobre as duas personalidades escolhidas. 
Compare as informações obtidas nesses sites, confirmando os dados disponíveis, pois algumas 
vezes diferentes sites informam dados biográficos divergentes. 
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 nasceu em Santarém (Portugal), em 1460. Dedicou-se desde jovem às expedições marítimas. Esteve a 
serviço dos reis Dom João II, Dom Manuel e Dom João III. Alguns historiadores afirmam que ele teria sido o primeiro navegador 
europeu a chegar às terras brasileiras em 1498, quando teria desembarcado nas proximidades da fronteira do Maranhão com o Pará. 
Foi governador do castelo de S. Jorge da Mina. Em 1503, partiu para o Oriente e participou de várias batalhas contra o samorim 
(governante) de Calicute. Foi aclamado herói em Portugal pelo rei Dom Manoel I por seus feitos no Oriente. Sua obra Esmeraldo 
, que ficou inacabada, é um roteiro comentado da costa africana ocidental e oriental. Faleceu em 1533, em Lisboa.
qualquer animal, em especial quadrúpede; pessoa estúpida ou grosseira.
Duarte Pacheco trata os habitantes de Serra Leoa como selvagens? Justifique sua resposta 
dos como os de cão. Nesta terra há muitos elefantes e onças e outras muito desvairadas alimárias
que nesta Espanha e em toda a Europa não há. Também há aqui homens selvagens, a que os Anti-
gos chamaram Sátiros, e são todos cobertos de um cabelo ou sedas, quase tão ásperas como de 
porco; e estes parecem criatura humana e usam coito com suas mulheres como nós usamos com as 
nossas; e em vez de falarem, gritam quando lhe fazem mal.
PEREIRA, Duarte Pacheco. Esmeraldo de Situ Orbis. Lisboa: Academia Portuguesa de História, 1953. p. 121. 
Apud DEL PRIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato Pinto. Ancestrais. Rio de Janeiro: Campus, 2004. p. 67. 
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ROTEIRO DE TRABALHO
2. Selecione as informações que considerar mais significativas sobre as personalidades escolhi-
das, levando em consideração as atividades em que elas mais se destacaram.
3. Produza uma biografia para cada personalidade. Escreva o texto em terceira pessoa e não deixe 
de incluir a data e o local de nascimento e, se for o caso, de morte. Os eventos relacionados à 
vida de cada personalidade devem ser inseridos em ordem cronológica. Se possível, inclua uma 
fotografia das pessoas selecionadas.
4. Apresente para a turma pelo menos uma das biografias produzidas.
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INTERDISCIPLINARIDADE
África: retratos contemporâneos – uma Geografia
A África ocupa os noticiários com informes sobre guerras civis, golpes de Estado, dissemi-nação de epidemias, fome, pobreza e violência de toda ordem. Com efeito, o berço da humanidade, após séculos de dominação e colonização europeia, convive com o fraciona-
mento territorial e a criação de Estados e fronteiras sem levar em conta a sua extrema diversidade 
étnico-cultural. Há disputas e confrontos armados, boa parte deles opondo governos e grupos 
de oposição. Alguns países hoje estão com suas instituições políticas desestruturadas e com ausên-
cia de perspectivas para a população, casos extremos da Somália e da República Democrática do 
Congo. Países que alcançaram maior estabilidade política passam por fase de prosperidade econô-
mica, caso da África do Sul. Outros ainda convivem com regimes opressores e penúria social, como 
Zimbábue. No norte do continente, o sopro de liberdade levou à deposição de ditadores na Tunísia, 
Líbia e Egito, com ecos no Oriente Médio.
O relatório do Unaids (Programa da ONU sobre HIV/Aids) de 2012 indica que existem 34,2 
milhões com HIV no mundo, sendo 23,5 milhões na África subsaariana. Países do continente estão 
entre aqueles de mais baixo IDH do mundo. O Sahel, faixa de transição semiárida entre o Saara e as 
zonas tropicais ao sul, envolvendo Mauritânia, Mali, Burkina Faso, Níger, Chade, Sudão, Somália e 
outros, está entre as regiões mais pobres e devastadas do planeta.
A ausência de democracia, a seca, a fome, a perda de solos e as disputas pelos recursos existentes 
estão entre as principais problemáticas do continente. Mas as perguntas que ficam são: esse quadro, 
tão disseminado pelas mídias do Ocidente, é suficiente para retratar a África contemporânea? O que 
explica o forte interesse pelo continente de países como a China e os Estados Unidos?
Reflita sobre essas questões e faça as atividades propostas no Roteiro de trabalho a seguir.
1. Observe a tabela abaixo e depois faça o que se pede.
África: indicadores sociais e econômicos de países selecionados
País
Expectativa de vida 
(H/M) 2010-2015
IDH (2011) *
Crescimento PIB (% 
média anual) 2010
Exportações 
(em US$) 2009
África do Sul 53,1 / 54,1 0,619 2,8 73,1 bilhões
Argélia 71,9 / 75,0 0,698 3,0 39,2 bilhões
Egito 71,5 / 75,5 0,644 5,2 44,9 bilhões
Nigéria 51,7 / 53,4 0,459 7,9 39,0bilhões
Zimbábue 54,0 / 52,7 0,376 9,0 2,9 bilhões
(*) Para comparação: Brasil – 0,718; Noruega – 0,943.
Fontes: Fundo das Nações Unidas para a População; Relatório IDH-PNUD; Banco Mundial.
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2. Selecione as informações que considerar mais significativas sobre as personalidades escolhi-
das, levando em consideração as atividades em que elas mais se destacaram.
3. Produza uma biografia para cada personalidade. Escreva o texto em terceira pessoa e não deixe 
de incluir a data e o local de nascimento e, se for o caso, de morte. Os eventos relacionados à 
vida de cada personalidade devem ser inseridos em ordem cronológica. Se possível, inclua uma 
fotografia das pessoas selecionadas.
4. Apresente para a turma pelo menos uma das biografias produzidas.
INTERDISCIPLINARIDADE
África: retratos contemporâneos – uma Geografia
A África ocupa os noticiários com informes sobre guerras civis, golpes de Estado, dissemi-nação de epidemias, fome, pobreza e violência de toda ordem. Com efeito, o berço da humanidade, após séculos de dominação e colonização europeia, convive com o fraciona-
mento territorial e a criação de Estados e fronteiras sem levar em conta a sua extrema diversidade 
étnico-cultural. Há disputas e confrontos armados, boa parte deles opondo governos e grupos 
de oposição. Alguns países hoje estão com suas instituições políticas desestruturadas e com ausên-
cia de perspectivas para a população, casos extremos da Somália e da República Democrática do 
Congo. Países que alcançaram maior estabilidade política passam por fase de prosperidade econô-
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a) Após comparar os dois mapas, escreva um texto expondo o que você observou. Nesse texto, 
estabeleça relações entre a presença de recursos naturais e a apropriação social desses 
recursos em países do continente africano.
b) Com base nos mapas, indique as zonas críticas quanto a hostilidades à vida humana e o potencial 
de crescimento econômico dessas regiões, levando em consideração suas riquezas naturais.
c) Avalie efeitos da presença estrangeira recente em função de interesses econômicos (em 
especial, da China).
ÁFRICA: HOSTILIDADES À VIDA 
HUMANA
ÁFRICA: RIQUEZAS NATURAIS 
(DISTRIBUIÇÃO E APROPRIAÇÃO)
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• Compare os indicadores sociais e econômicos dos países escolhidos e escreva um pequeno 
texto explicando o que você observou. Se achar necessário, faça uma rápida pesquisa sobre 
esses países.
2. Observe e compare os mapas abaixo. Depois, faça o que se pede.
Com base em FERREIRA, Graça Maria Lemos. Atlas geográfico: espaço mundial. São Paulo: Moderna, 2010. p. 82.
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ÁFRICA: HOSTILIDADES À VIDA 
HUMANA
 Compare os indicadores sociais e econômicos dos países escolhidos e escreva um pequeno 
texto explicando o que você observou. Se achar necessário, faça uma rápida pesquisa sobre 
Observe e compare os mapas abaixo. Depois, faça o que se pede. 1
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RESPONDA NO CADERNO
VESTIBULANDO
Procedimentos
Em todas as questões, leia atentamente os enuncia-
dos e para cada uma delas escreva uma frase que 
sintetize as ideias principais do texto citado. Depois 
disso, analise as alternativas ou elabore a resposta. 
1. (Enem)
A Superintendência Regional do Instituto do 
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) 
desenvolveu o projeto “Comunidades Negras de 
Santa Catarina”, que tem como objetivo preservar 
a memória do povo afrodescendente no sul do 
país. A ancestralidade negra é abordada em suas 
diversas dimensões: arqueológica, arquitetônica, 
paisagística e imaterial. Em regiões como a do 
Sertão de Valongo, na cidade de Porto Belo, a fixa-
ção dos primeiros habitantes ocorreu imediata-
mente após a abolição da escravidão no Brasil. O 
Iphan identificou nessa região um total de 19 refe-
rências culturais, como os conhecimentos tradi-
cionais de ervas de chá, o plantio agroecológico 
de bananas e os cultos adventistas de adoração.
(Adaptado de: <http://portal.iphan.gov.br/portal/montar
DetalheConteudo.do?id=14256&sigla=Noticia&retor=
detalheNoticia>. Acesso em: 1 jun. 2009.)
 O texto permite analisar a relação entre cultura 
e memória, demonstrando que
a) as referências culturais da população afro-
descendente estiveram ausentes no sul do 
país, cuja composição étnica se restringe 
aos brancos.
b) a preservação dos saberes das comunida-
des afrodescendentes constitui importante 
elemento na construção da identidade e da 
diversidade cultural do país.
c) a sobrevivência da cultura negra está basea-
da no isolamento das comunidades tradicio-
nais, com proibição de alterações em seus 
costumes.
d) os contatos com a sociedade nacional têm 
impedido a conservação da memória e dos 
costumes dos quilombolas em regiões como 
a do Sertão de Valongo.
e) a permanência de referenciais culturais que 
expressam a ancestralidade negra com-
promete o desenvolvimento econômico da 
região. 
2. (Enem)
A Revolução Cubana veio demonstrar que os 
negros estão muito mais preparados do que se 
pode supor para ascender socialmente. Com 
efeito, alguns anos de escolaridade francamente 
aberta e de estímulo à autossuperação aumen-
taram rapidamente o contingente de negros que 
alçaram aos postos mais altos do governo, da 
sociedade e da cultura cubana. Simultaneamente 
toda a parcela negra da população liberada da dis-
criminação e do racismo confraternizou com os 
outros componentes da sociedade aprofundando 
o grau de solidariedade. 
Tudo isso demonstra claramente que a democra-
cia racial é possível, mas só é praticável conjun-
tamente com a democracia social. Ou bem há 
democracia para todos, ou não há democracia 
para ninguém, porque à opressão do negro con-
denado à dignidade de lutador da liberdade cor-
responde o opróbrio do branco posto no papel de 
opressor dentro de sua própria sociedade. 
(Adaptado de: RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formação e 
o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.) 
 Segundo Darcy Ribeiro a ascensão social dos 
negros cubanos, resultado de uma educação 
inclusiva, com estímulos à autossuperação, de-
monstra que 
a) a democracia racial está desvinculada da 
democracia social.
b) o acesso ao ensino pode ser entendido como 
um fator de pouca importância na estrutura-
ção de uma sociedade.
c) a questão racial mostra-se irrelevante no 
caso das políticas educacionais do governo 
cubano.
d) as políticas educacionais da Revolução 
Cubana adotaram uma perspectiva racial 
antidiscriminatória.
e) os quadros governamentais em Cuba esti-
veram fechados aos processos de inclusão 
social da população negra.
3. (Ufscar-SP) Aconteceu num debate, num país 
europeu. Da assistência, alguém me lançou a 
seguinte pergunta:
– Para si o que é ser africano?
Falava-se, inevitavelmente, de identidade versus 
globalização.
Respondi com uma pergunta:
– E para si o que é ser europeu?
O homem gaguejou. Ele não sabia responder. Mas 
o interessante é que, para ele, a questão da defini-
ção de uma identidade se colocava naturalmente 
para os africanos. Nunca para os europeus. Ele 
nunca tinha colocado a questão ao espelho.
(COUTO, Mia. In: HERNANDEZ, Leila Leite. A África na sala 
de aula. Visita à História contemporânea, 2005.)
Segundo o texto, o autor
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VESTIBULANDO
Procedimentos
Em todas as questões, leia atentamente os enuncia-
dos e para cada uma delas escreva uma frase que 
sintetize as ideias principais do texto citado. Depois 
disso, analise as alternativas ou elabore a resposta. 
1. (Enem)
A Superintendência Regional do Instituto do 
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) 
desenvolveuo projeto “Comunidades Negras de 
Santa Catarina”, que tem como objetivo preservar 
a memória do povo afrodescendente no sul do 
país. A ancestralidade negra é abordada em suas 
diversas dimensões: arqueológica, arquitetônica, 
paisagística e imaterial. Em regiões como a do 
Sertão de Valongo, na cidade de Porto Belo, a fixa-
ção dos primeiros habitantes ocorreu imediata-
mente após a abolição da escravidão no Brasil. O 
Iphan identificou nessa região um total de 19 refe-
rências culturais, como os conhecimentos tradi-
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a) valoriza a ideia de que existe uma identidade 
natural entre os povos europeus, favorecendo 
a globalização.
b) denuncia a ideia genérica, presente entre os 
europeus, de que há uma suposta identidade 
natural entre os africanos.
c) lembra o fato de que a Europa tem uma his-
tória de tendência à globalização, em função 
da ausência de conflitos entre seus Estados-
-nação.
d) defende a existência de uma essência natural 
do que é ser europeu e do que é ser africano.
e) indica os valores culturais e nacionais euro-
peus e africanos como fundadores do pro-
cesso de globalização.
4. (Unicamp-SP)
Um dos maiores problemas nos estudos históri-
cos no Brasil acerca da escravidão é seu relativo 
RELEITURA
Pratos da boa lembrança
Lucas Figueiredo
Dos 1,8 milhão de africanos que foram forçados a deixar o continente e servir como escravos no Brasil na época da corrida do ouro, 99,5% não voltaram para casa. Apenas 8 mil, aproxi-madamente, conseguiram regressar. Apesar de formarem um grupo pequeno, os chamados 
“retornados” foram capazes de um feito extraordinário: levaram a cultura brasileira para a África e 
ensinaram seus filhos, netos e bisnetos a amarem a terra onde haviam se tornado escravos.
O regresso de ex-escravos – na verdade, muitos haviam saído da África quando ainda eram bebês 
ou tinham nascido no Brasil, no cativeiro – se deu principalmente no final do século XVIII e durante 
o século XIX. Após comprarem ou ganharem a alforria, eles adotaram os sobrenomes portugueses de 
seus antigos donos e fizeram o caminho de volta para a África. Assim, países de língua francesa e de 
população majoritariamente muçulmana, como o Benin, receberam levas de ex-escravos de sobre-
nomes estranhos, como Silva, Souza, Santos, Rocha, Amaral, Monteiro e Campos, entre outros. 
Muitos que deixaram o Brasil levaram também um punhado de ouro contrabandeado dos garimpos 
de Minas, riqueza com a qual começaram suas novas vidas. [...]
Com a volta dos ex-escravos, a culinária do Benin absorveu diversos pratos brasileiros. Dos 
mineiros, eles herdaram a farofa; dos baianos, a moqueca, o acarajé e o abará, que chamam de ablá. 
“Também gostamos muito de moyo (molho), cousido (cozido), feijoada e carne de sol”, afirma 
Abraham, que mora na capital do Benin, Cotonou, e trabalha a cerca de 100 quilômetros dali, na 
Embaixada Brasileira, em Lagos, na vizinha Nigéria. Possivelmente, o costume de comer carne de 
sol também tenha sido introduzido no país pelos escravos que trabalhavam nos garimpos de ouro e 
diamante de Minas, onde o produto era fartamente consumido.
Os ingredientes para preparar os pratos brasileiros são encontrados nos impressionantes merca-
dos a céu aberto de Cotonou e Porto Novo, onde, entre outros produtos, se vendem testículos de 
macaco, que teriam poderes afrodisíacos, e fetiches vodu. O modo de preparo dos pratos brasileiros 
desconhecimento da história e da cultura africa-
nas. Aí, a história do Congo tem muitas lições 
a dar, quer para os interessados no estudo da 
África, quer para os estudiosos da escravidão e da 
cultura negra na diáspora colonial. Afinal, a região 
do Congo-Angola foi daquelas que mais fornece-
ram africanos para o Brasil, especialmente para 
o Sudeste, posição assumida no século XVII e 
consolidada na virada do século XVIII para o XIX.
(Adaptado de: VAINFAS, Ronaldo; MELLO E SOUSA, Marina de. 
Catolização e poder no tempo do tráfico: o reino do 
Congo da conversão coroada ao movimento Antoniano, 
séculos XV-XVIII. Tempo, n. 6, 1998. p. 95-6.)
a) O que foi a “diáspora colonial” citada no 
texto anterior?
b) Identifique duas influências africanas no 
Brasil atual.
c) Nomeie e explique, no Brasil atual, uma decor-
rência da prática da escravidão negra.
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a) valoriza a ideia de que existe uma identidade 
natural entre os povos europeus, favorecendo 
b) denuncia a ideia genérica, presente entre os 
europeus, de que há uma suposta identidade 
c) lembra o fato de que a Europa tem uma his-
tória de tendência à globalização, em função 
da ausência de conflitos entre seus Estados-
d) defende a existência de uma essência natural 
do que é ser europeu e do que é ser africano.
e) indica os valores culturais e nacionais euro-
peus e africanos como fundadores do pro-
Um dos maiores problemas nos estudos históri-
cos no Brasil acerca da escravidão é seu relativo 
desconhecimento da história e da cultura africa-
nas. Aí, a história do Congo tem muitas lições 
a dar, quer para os interessados no estudo da 
África, quer para os estudiosos da escravidão e da 
cultura negra na diáspora colonial. Afinal, a região 
do Congo-Angola foi daquelas que mais fornece-
ram africanos para o Brasil, especialmente para 
o Sudeste, posição assumida no século XVII e 
consolidada na virada do século XVIII para o XIX.
(Adaptado de: VAINFAS, Ronaldo; MELLO E SOUSA, Marina de. 
Catolização e poder no tempo do tráfico: o reino do 
Congo da conversão coroada ao movimento Antoniano, 
séculos XV-XVIII. Tempo, n. 6, 1998. p. 95-6.)
a) O que foi a “diáspora colonial” citada no 
texto anterior?
b) Identifique duas influências africanas no 
Brasil atual.
c) Nomeie e explique, no Brasil atual, uma decor-
rência da prática da escravidão negra.
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Adiverge muito das técnicas usadas no Brasil. Os ingredientes também têm suas diferenças. Mas, ape-
sar das variações de sabor, o que importa é a herança cultural presente na cozinha do Benin.
A influência brasileira também está na língua dos beninenses. Palavras como chave, cama, manga, 
garfo e colher são usadas pela população – em especial, por aqueles que falam a língua fon.
A Embaixada Brasileira, em Lagos, chegou a ter um curso de português durante anos, mas as aulas 
foram interrompidas por problemas operacionais. Abraham, que não é “agudá”, foi o aluno mais 
bem-sucedido. Fala e escreve português com desenvoltura. Ele chegou, inclusive, a se tornar pro-
fessor. Um de seus alunos era Bons Amaral, que, apesar da condição de “agudá”, aprendeu pouco. 
“Torcemos para que as aulas voltem, pois muita gente aqui no Benin gostaria de aprender a língua 
que era falada por seus antepassados”, afirma Abraham.
FIGUEIREDO, Lucas. Raízes do Brasil. O Estado de Minas, 
5 jun. 2005. Caderno especial Ouro de Minas: 300 anos de História. p. 15-21.
VOCABULÁRIO 
Agudá: nome dos descendentes dos ex-escravos que vieram do Brasil e vivem no Benin, os quais, em geral, 
adotam sobrenomes portugueses.
Cardápio Brasil
Nívia Pombo
[…] 
Nos engenhos, as refeições cotidianas eram simples. Em dias festivos, no entanto, a mesa podia ser farta: assados, doces, ensopados, verduras, frutas, molhos e pastéis faziam parte dos banquetes senhoriais.
Em Pernambuco, a despeito da colonização holandesa, a permanência de receitas portuguesas é 
evidente. Algumas com pitadasde ingredientes coloniais como o bolo de rolo, feito com uma massa 
fina à base de farinha de trigo e recheado com goiabada. No Maranhão, o prato mais significativo 
mistura elementos da culinária portuguesa, africana e indígena: o cuxá. A base da comida é a vina-
greira, verdura africana. Junta-se a ela o caruru ou língua-de-vaca, erva de cor e sabor fortes utilizada 
pelos indígenas. Dos portugueses vêm o gergelim e o preparo: as folhas são maceradas e transforma-
das numa papa servida com arroz branco ou peixe frito.
É na Bahia, porém, que a adaptação dos hábitos culinários africanos foi mais forte. As cozinhas 
das iaiás, entregues às negras, ganharam novos sabores. O viajante inglês Thomas Lindlev (1740-
1833) escreveu no século XIX sobre as deliciosas conservas de frutas feitas pelas escravas. Debret 
(1768-1848) registrou o costume de comer pela manhã pães de ló quentinhos entregues por negras.
Mas o que conquistou mesmo o paladar nacional e internacional foram as comidas oferecidas 
aos orixás do Candomblé. O acarajé, citado pela primeira vez no século XVIII, era vendido nas ruas 
em tabuleiros que as escravas equilibravam sobre a cabeça enquanto cantavam para atrair fregueses. 
Massa de feijão-fradinho frita no azeite de dendê, o acarajé é servido à orixá Oyá-Iansã, deusa dos 
ventos e tempestades. Em 2004, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico 
Nacional como patrimônio imaterial.
Alguns pratos indígenas também passaram pela transformação das cozinheiras africanas. É o caso 
do caruru, o típico dos típicos na Bahia. Segundo o folclorista Câmara Cascudo (1898-1986), o prato 
de origem tupi (cad-ruru, folha grossa) consistia num esparregado [guisado] de quiabos, crustáceos, 
peixes e ervas, tendo sofrido alterações nas cozinhas dos engenhos, ganhando ingredientes como o 
dendê e o amendoim. Atualmente, em Salvador, a comida é servida na Festa dos Meninos, que cele-
bra o dia dos orixás gêmeos nagôs sincretizados nos santos católicos Cosme e Damião.
POMBO, Nívia. Cardápio Brasil. Nossa História. 
São Paulo: Vera Cruz, ano 3, n. 29, mar. 2006. p. 33-4.
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diverge muito das técnicas usadas no Brasil. Os ingredientes também têm suas diferenças. Mas, ape-
sar das variações de sabor, o que importa é a herança cultural presente na cozinha do Benin.
A influência brasileira também está na língua dos beninenses. Palavras como chave, cama, manga, 
garfo e colher são usadas pela população – em especial, por aqueles que falam a língua fon.
A Embaixada Brasileira, em Lagos, chegou a ter um curso de português durante anos, mas as aulas 
foram interrompidas por problemas operacionais. Abraham, que não é “
bem-sucedido. Fala e escreve português com desenvoltura. Ele chegou, inclusive, a se tornar pro-
fessor. Um de seus alunos era Bons Amaral, que, apesar da condição de “agudá”, aprendeu pouco. 
“Torcemos para que as aulas voltem, pois muita gente aqui no Benin gostaria de aprender a língua 
que era falada por seus antepassados”, afirma Abraham.
FIGUEIREDO, Lucas. Raízes do Brasil.
5 jun. 2005. Caderno especial Ouro de Minas: 300 anos de História. p. 15-21.
VOCABULÁRIO 
Agudá: nome dos descendentes dos ex-escravos que vieram do Brasil e vivem no Benin, os quais, em geral, 
adotam sobrenomes portugueses.
Cardápio Brasil
Nívia Pombo
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ROTEIRO DE TRABALHO
FIGUEIREDO, Luciano (Org.). Raízes africanas. Rio de Janeiro: Sabin, 2009. (Revista de História no bolso).
Coletânea de pequenos artigos publicados na Revista História, editada pela Biblioteca Nacional, que aborda temas 
como a identidade cultural afro-brasileira, a religiosidade e o comércio de escravos. 
LOPES, Nei. Dicionário escolar afro-brasileiro. São Paulo: Selo Negro, 2006.
Reúne verbetes sobre temas relacionados ao universo afro-brasileiro.
ARAUJO, Kelly Cristina. Áfricas no Brasil. São Paulo: Scipione, 2004.
Resgata a história do relacionamento Brasil e África a partir da expansão marítima europeia e explora os diversos 
aspectos culturais que aproximam o Brasil da África, dentre eles: o candomblé, a congada e a capoeira.
DEL PRIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato Pinto. Ancestrais. Rio de Janeiro: Campus, 2004.
Retoma a história da África Atlântica desde o período anterior à presença europeia no continente. Analisa o tráfico 
negreiro e suas consequências para os reinos africanos, além de examinar casos específicos, como os da Sene-
gâmbia, do Congo, de Angola e da Costa do Marfim. Traz muitas imagens que retratam como os europeus viam os 
povos africanos.
Conspiração violenta. Direção de Ralph Nelson. Estados Unidos, 1975. (101 min).
História de um líder ativista negro durante o regime do apartheid na África do Sul.
Hotel Ruanda. Direção de Terry George. Estados Unidos/Itália/África do Sul, 2004. (121 min).
Aborda o conflito político ocorrido em Ruanda em 1994 que levou quase um milhão de pessoas à morte.
Sophiatown: sobrevivendo ao apartheid. Direção de Pascale Lambe. África do Sul, 2003. (82 min).
Documentário sobre a cidade sul-africana de Sophiatown, foco de resistência ao apartheid nos anos 1940 e 1950.
A cor da cultura. Disponível em: <http://www.acordacultura.org.br/>. Acesso em: 19 abr. 2013.
Artigos, notícias e entrevistas relacionados à valorização da cultura afro-brasileira.
Memória de África. Disponível em: <http://memoria-africa.ua.pt>. Acesso em: 19 abr. 2013.
Coletâneas de textos, documentos e imagens com a história das colônias portuguesas na África.
Museu Afrobrasil. Disponível em: <http://www.museuafrobrasil.org.br/>. Acesso em 19 abr. 2013.
Portal do museu que tem como finalidade a valorização da produção cultural afro-brasileira.
 PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
1. Retire argumentos do primeiro texto para explicar de que maneira a cultura do Brasil colonial foi 
levada para a África.
2. Explique em que medida a culinária retrata uma síntese cultural no Brasil.
3. Por que o acarajé baiano pode ser tombado como patrimônio da cultura imaterial do Brasil?
4. Faça uma pesquisa em jornais, livros, revistas e sites sobre outras possíveis influências bra-
sileiras na África. Dirija sua pesquisa para os países que estiveram diretamente relacionados 
com o Brasil no período de vigência do tráfico de escravos. Caso seja necessário, retome o item 
Contexto para verificar que países podem ser pesquisados. Por fim, responda: De que maneira a 
história brasileira interferiu na história de países africanos?
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. Rio de Janeiro: Sabin, 2009. (Revista de História no bolso).. Rio de Janeiro: Sabin, 2009. (Revista de História no bolso).
Coletânea de pequenos artigos publicados na Revista História, editada pela Biblioteca Nacional, que aborda temas Coletânea de pequenos artigos publicados na Revista História, editada pela Biblioteca Nacional, que aborda temas 
como a identidade cultural afro-brasileira, a religiosidade e o comércio de escravos. 
. São Paulo: Selo Negro, 2006.
Reúne verbetes sobre temas relacionados ao universo afro-brasileiro.
. São Paulo: Scipione, 2004.
 PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
Retire argumentos do primeiro texto para explicar de que maneira a cultura do Brasil colonial foi 
Explique em que medida a culinária retrata uma síntese cultural no Brasil.
Por que o acarajé baiano pode ser tombado como patrimônio da cultura imaterial do Brasil?
Faça uma pesquisa em jornais, livros, revistas e sites sobre outras possíveis influências bra-
sileiras na África. Dirija sua pesquisa para os países que estiveram diretamente relacionados 
com o Brasil no período de vigência do tráfico de escravos. Caso seja necessário, retome o item 
 para verificar que países podem ser pesquisados. Por fim, responda: De que maneira a 
história brasileira interferiu na história de paísesafricanos?
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UNIDADE 2
Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações 
de poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poder
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Nacionalismo, guerras mundiais 
e autoritarismo
CAPÍTULO 4
Nacionalismo, guerras mundiais 
e autoritarismo
CAPÍTULO 4
Podemos fazer referência à cidadania desde pelo menos a Grécia antiga, quan-do os homens livres nascidos na cidade podiam debater e decidir sobre as questões públicas. Na Idade Média e parte da Idade Moderna, a cidadania foi 
negligenciada. No entanto, após as revoluções burguesas, principalmente a inglesa 
e a francesa, a cidadania voltou a fazer parte dos discursos e da prática dos 
que defendiam a construção de um novo modelo de sociedade. Daí em 
diante, muitas lutas ocorreram em nome da cidadania. Reivindicavam-se 
maior participação política, voto direto e respeito a uma Constituição. 
Tratava-se de uma cidadania que garantia a igualdade dos seres huma-
nos diante da lei.
Durante todo o século XIX, ocorreram movimentos sociais 
que lutavam pela ampliação dos direitos dos trabalhadores, das 
mulheres, das crianças, buscando conquistar maior igualdade 
social. Podemos dizer ainda que a defesa da cidadania esteve 
presente em grande parte dos discursos políticos de diferentes 
continentes no século XX. No entanto, esse foi também um 
século no qual ocorreram duas guerras mundiais, muitas dita-
duras e em que vários países foram submetidos às ordens impe-
rialistas de outros. No caso brasileiro, os períodos de predomínio 
de governos oligárquicos ou ditatoriais excederam aos períodos nos 
quais se constituíram governos democráticos.
Nesse contexto, em que medida foi possível ampliar a cidadania 
no século XX? Para responder a essa pergunta, neste capítulo vamos 
estudar o período em que ocorreram as duas guerras mundiais. Mas pri-
meiro vamos buscar uma definição para o que denominamos cidadania.
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Lembrando – quando acordei no meio da noite vi a casa em ruínas, de George Grosz, 1937. Óleo sobre tela, 73 cm 93 cm. Realizada 
no período entreguerras, esta pintura de Grosz é uma referência às marcas profundas que a Primeira Guerra Mundial deixou na 
sociedade europeia. Nunca se tinha visto tamanha destruição e mortalidade em um conflito. Havia a certeza de que o mundo não 
poderia ser mais o mesmo após essa experiência. George Grosz nasceu em 1893 na Alemanha e foi um dos representantes do 
movimento artístico denominado expressionismo, que procurava ressaltar os sentimentos do ser humano. Após aderir ao Partido 
Comunista e fazer obras de caráter crítico-satírico, foi perseguido na Alemanha, indo viver nos Estados Unidos a partir de 1932. 
Voltou ao seu país somente em 1958.
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A PONTO DE VISTA
O que é cidadania?
Maria de Lourdes Manzini-Covre
O que é ser cidadão? Para muita gente, ser cidadão confunde-se com o direito de votar. Mas quem já teve alguma experiência política – no bairro, igreja, escola, sindicato etc. – sabe que o ato de votar não garante nenhuma cidadania, se não vier acompanhado de determinadas 
condições de nível econômico, político, social e cultural.
Podemos afirmar que ser cidadão significa ter direitos e deveres, ser súdito e ser soberano. Tal 
situação está descrita na Carta de Direitosda Organização das Nações Unidas (ONU), de 1948, 
que tem suas primeiras matrizes marcantes nas cartas de Direito dos Estados Unidos (1776) e da 
Revolução Francesa (1789). Sua proposta mais funda de cidadania é a de que todos os homens 
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1. Defina cidadania tendo como base as obser-
vações da autora do texto.
2. Considerando a sua definição sobre cidada-
nia, você a pratica em sua vida cotidiana?
3. Formem grupos com a orientação do pro-
fessor e criem uma situação-problema que 
possa ser resolvida por meio do exercício 
da cidadania.
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Asão iguais ainda que perante a lei, sem discriminação de raça, credo ou cor. E ainda: a todos 
cabem o domínio sobre seu corpo e sua vida, o acesso a um salário condizente para promover a 
própria vida, o direito à educação, à saúde, à habitação, ao lazer. E mais: é direito de todos poder 
expressar-se livremente, militar em partidos políticos e sindicatos, fomentar movimentos sociais, 
lutar por seus valores. Enfim, o direito de ter uma vida digna de ser homem.
Isso tudo diz mais respeito aos direitos do cidadão. Ele também deve ter deveres: ser o próprio 
fomentador da existência dos direitos a todos, ter responsabilidade em conjunto pela coletivida-
de, cumprir as normas e propostas elaboradas e decididas coletivamente, fazer parte do governo, 
direta ou indiretamente, ao votar, ao pressionar através dos movimentos sociais, ao participar de 
assembleias – no bairro, sindicato, partido ou escola. E mais: pressionar os governos municipal, esta-
dual, federal e mundial (em nível de grandes organismos internacionais como o Fundo Monetário 
Internacional – FMI).
Na realidade, essas propostas são difíceis de serem efetivadas, pois quem detém o poder cuida 
de encaminhar as coisas na direção que atenda basicamente aos seus interesses, e não ao interesse 
de todos, apesar da aparência contrária. Contudo, existe a Carta Universal e ela transparece, em 
maior ou menor grau, nas Constituições de cada país. A Constituição é uma arma na mão de todos 
os cidadãos, que devem saber usá-la para encaminhar e conquistar propostas mais igualitárias. Por 
esse motivo, o que apresentei como direitos e deveres (conteúdo do exercício de cidadania) é algo 
possível mas dependente do enfrentamento político adotado por quem tem pouco poder. Só existe 
cidadania se houver a prática da reivindicação, da apropriação de espaços, da pugna [luta] para fazer 
valer os direitos do cidadão. Neste sentido, a prática da cidadania pode ser a estratégia, por excelên-
cia, para a construção de uma sociedade melhor. Mas o primeiro pressuposto dessa prática é que 
esteja assegurado o direito de reivindicar os direitos, e que o conhecimento deste se estenda cada vez 
mais a toda a população.
As pessoas tendem a pensar a cidadania apenas em termos dos direitos a receber, negligenciando 
o fato de que elas próprias podem ser o agente da existência desses direitos. Acabam por relevar 
os deveres que lhes cabem, omitindo-se no sentido de serem também, de alguma forma, parte do 
governo, ou seja, é preciso trabalhar para conquistar esses direitos. Em vez de meros receptores, são 
acima de tudo sujeitos daquilo que podem conquistar. Se existe um problema em seu bairro ou em 
sua rua, por exemplo, não se deve esperar que a solução venha espontaneamente. É preciso que os 
moradores se organizem e busquem uma solução capaz de atingir vários níveis, entre eles o de pres-
sionar os órgãos governamentais competentes.
Desse modo, penso que a cidadania é o próprio direito à vida no sentido pleno. Trata-se de um 
direito que precisa ser construído coletivamente, não só em termos do atendimento às necessidades 
básicas, mas de acesso a todos os níveis de existência, incluindo o mais abrangente, o papel do(s) 
homem(ns) no Universo.
MANZINI-COVRE, Maria de Lourdes. O que é cidadania? São Paulo: Brasiliense, 1991. p. 8-11.
Detalhe da imagem da p. 101.
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são iguais ainda que perante a lei, sem discriminação de raça, credo ou cor. E ainda: a todos 
cabem o domínio sobre seu corpo e sua vida, o acesso a um salário condizente para promover a 
própria vida, o direito à educação, à saúde, à habitação, ao lazer. E mais: é direito de todos poder 
expressar-se livremente, militar em partidos políticos e sindicatos, fomentar movimentos sociais, 
lutar por seus valores. Enfim, o direito de ter uma vida digna de ser homem.
Isso tudo diz mais respeito aos direitos do cidadão. Ele também deve ter deveres: ser o próprio 
fomentador da existência dos direitos a todos, ter responsabilidade em conjunto pela coletivida-
de, cumprir as normas e propostas elaboradas e decididas coletivamente, fazer parte do governo, 
direta ou indiretamente, ao votar, ao pressionar através dos movimentos sociais, ao participar de 
assembleias – no bairro, sindicato, partido ou escola. E mais: pressionar os governos municipal, esta-
dual, federal e mundial (em nível de grandes organismos internacionais como o Fundo Monetário 
Internacional – FMI).
Na realidade, essas propostas são difíceis de serem efetivadas, pois quem detém o poder cuida 
de encaminhar as coisas na direção que atenda basicamente aos seus interesses, e não ao interesse 
de todos, apesar da aparência contrária. Contudo, existe a Carta Universal e ela transparece, em 
maior ou menor grau, nas Constituições de cada país. A Constituição é uma arma na mão de todos 
os cidadãos, que devem saber usá-la para encaminhar e conquistar propostas mais igualitárias. Por 
esse motivo, o que apresentei como direitos e deveres (conteúdo do exercício de cidadania) é algo 
possível mas dependente do enfrentamento político adotado por quem tem pouco poder. Só existe 
cidadania se houver a prática da reivindicação, da apropriação de espaços, da pugna [luta] para fazer 
valer os direitos do cidadão. Neste sentido, a prática da cidadania pode ser a estratégia, por excelên-
cia, para a construção de uma sociedade melhor. Mas o primeiro pressuposto dessa prática é que 
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O LINHA DO TEMPO
 1882 ¬ Formação da Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália).
 1907 ¬ Formação da Tríplice Entente (França, Inglaterra e Rússia).
 1914 ¬ Assassinato do herdeiro do trono austro-húngaro, Francisco Ferdinando, em 
Sarajevo. A Áustria, apoiada pela Alemanha, declara guerra à Sérvia. Início da 
Primeira Guerra Mundial. A França derrota a Alemanha na batalha de Marne. O 
Japão adere à Entente. A Turquia alia-se à Alemanha e à Áustria-Hungria.
 1915 ¬ A Itália adere à Entente. A Bulgária alia-se à Alemanha e à Áustria-Hungria.
 1916 ¬ A Romênia adere à Entente.
 1917 ¬ Revolução socialista na Rússia; o país retira-se da guerra. Entrada dos Estados 
Unidos na Primeira Guerra Mundial. A Grécia adere à Entente.
 1918 ¬ “14 Pontos de Wilson”: plano de paz formulado pelo presidente norte-americano 
Woodrom Wilson. Rendição da Alemanha. Início da República de Weimar.
 1919 ¬ Assinatura do Tratado de Versalhes; Benito Mussolini funda o movimento Fascio 
di Combattimento. Fundação do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores 
Alemães, conhecido como Nazi.
 1921 ¬ Fundação do Partido Nacional Fascista Italiano.
 1922 ¬ Mussolini convoca a Marcha sobre Roma e assume o governo da Itália.1929 ¬ Quebra da Bolsa de Nova York.
 1932 ¬ Franklin Roosevelt é eleito presidente nos Estados Unidos e implanta o New Deal.
Prisão do assassino de Francisco Ferdi-
nando em Sarajevo, em 28 de junho de 
1914, logo depois do ataque.
Grupo de soldados norte-americanos em na-
vio rumo à França para participar da Primeira 
Guerra Mundial, em 1917.
Mussolini, rodeado de adeptos do fascismo, con-
duz a Marcha sobre Roma. Foto de 1922.
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LINHA DO TEMPO
 Formação da Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália).
 Formação da Tríplice Entente (França, Inglaterra e Rússia).
 Assassinato do herdeiro do trono austro-húngaro, Francisco Ferdinando, em Assassinato do herdeiro do trono austro-húngaro, Francisco Ferdinando, em 
Sarajevo. A Áustria, apoiada pela Alemanha, declara guerra à Sérvia. Início da Sarajevo. A Áustria, apoiada pela Alemanha, declara guerra à Sérvia. Início da 
Primeira Guerra Mundial. A França derrota a Alemanha na batalha de Marne. O Primeira Guerra Mundial. A França derrota a Alemanha na batalha de Marne. O 
Japão adere à Entente. A Turquia alia-se à Alemanha e à Áustria-Hungria.Japão adere à Entente. A Turquia alia-se à Alemanha e à Áustria-Hungria.
Primeira Guerra Mundial. A França derrota a Alemanha na batalha de Marne. O 
Japão adere à Entente. A Turquia alia-se à Alemanha e à Áustria-Hungria.
Primeira Guerra Mundial. A França derrota a Alemanha na batalha de Marne. O Primeira Guerra Mundial. A França derrota a Alemanha na batalha de Marne. O 
Japão adere à Entente. A Turquia alia-se à Alemanha e à Áustria-Hungria.
Primeira Guerra Mundial. A França derrota a Alemanha na batalha de Marne. O 
 A Itália adere à Entente. A Bulgária alia-se à Alemanha e à Áustria-Hungria. A Itália adere à Entente. A Bulgária alia-se à Alemanha e à Áustria-Hungria.
 Revolução socialista na Rússia; o país retira-se da guerra. Entrada dos Estados Revolução socialista na Rússia; o país retira-se da guerra. Entrada dos Estados 
Unidos na Primeira Guerra Mundial. A Grécia adere à Entente.
 “14 Pontos de Wilson”: plano de paz formulado pelo presidente norte-americano “14 Pontos de Wilson”: plano de paz formulado pelo presidente norte-americano 
Woodrom Wilson. Rendição da Alemanha. Início da República de Weimar.Woodrom Wilson. Rendição da Alemanha. Início da República de Weimar.
 Assinatura do Tratado de Versalhes; Benito Mussolini funda o movimento Assinatura do Tratado de Versalhes; Benito Mussolini funda o movimento Fascio 
. Fundação do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores . Fundação do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores 
 Fundação do Partido Nacional Fascista Italiano.
 Mussolini convoca a Marcha sobre Roma e assume o governo da Itália. Mussolini convoca a Marcha sobre Roma e assume o governo da Itália.
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O 1933 ¬ Oliveira Salazar institui um governo autoritário em Portugal. Adolf Hitler 
torna-se chanceler na Alemanha. Fim da República de Weimar.
 1934 ¬ Morte do presidente alemão Hindenburg. Hitler passa a exercer também esta 
função e se torna Führer (em alemão, condutor, líder).
 1936 ¬ Republicanos ganham as eleições na Espanha. Ofensiva fascista dá início à 
Guerra Civil Espanhola. Hitler assina acordo com a Itália de Mussolini.
 1938 ¬ A Áustria é anexada à Alemanha.
 1939 ¬ Francisco Franco e a Falange derrotam os republicanos. Início do governo 
fascista na Espanha. Assinatura do tratado de não agressão entre Alemanha 
e União Soviética. A Alemanha invade a Polônia, e a Inglaterra e a França 
respondem com declaração de guerra. Marco da Segunda Guerra Mundial.
 1940 ¬ Tropas alemãs ocupam a França. Formação do Eixo (Alemanha, Itália e Japão).
 1941 ¬ Alemanha rompe o tratado de não agressão e invade a URSS. Ataque japonês 
à base naval norte-americana de Pearl Harbour. Os Estados Unidos entram na 
guerra e assinam a Carta do Atlântico. O presidente norte-americano, Franklin 
D. Roosevelt, e Winston Churchill, primeiro--ministro do Reino Unido, realizaram 
um encontro secreto a bordo de um navio no Oceano Atlântico e redigiram um 
plano de paz que ficou conhecido como Carta do Atlântico. Invasão da Grécia e 
da Iugoslávia pelos nazistas. Ataque alemão sobre Londres.
 1942 ¬ Abertura do campo de concentração de extermínio de Treblinka, em Varsóvia. 
Primeiro ataque aéreo norte-americano na Europa.
 1943 ¬ Mussolini é destituído. Capitulação da Itália. Rendição dos alemães em 
Stalingrado. Rendição italiana e alemã no norte da África.
 1944 ¬ Retomada da França pelos exércitos aliados.
 1945 ¬ A Alemanha é invadida pelas tropas aliadas e Berlim é ocupada. Os Estados 
Unidos lançam bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroxima e 
Nagasáqui. O Japão assina capitulação. Final da Segunda Guerra Mundial; 
conferência de Ialta define acordos de fronteiras entre Roosevelt (Estados 
Unidos), Stalin (URSS) e Churchill (Inglaterra); criação da Organização das 
Nações Unidas (ONU); conferência de Potsdam divide a Alemanha em quatro 
zonas de ocupação: francesa, norte-americana, inglesa e soviética.
 Pós-1945 ¬ Início da Guerra Fria. Oposição e conflito entre os blocos socialista e capitalista.
 1947 ¬ Início da Doutrina Truman.
 1948 ¬ Congresso dos Estados Unidos aprova o Plano Marshall.
 1949 ¬ Divisão das duas Alemanhas: Ocidental capitalista e Oriental socialista. Criação 
da aliança militar entre a Europa capitalista e a América do Norte, Organização do 
Tratado do Atlântico Norte (Otan). A União Soviética cria o Comecon.
 1955 ¬ Formalização do Pacto de Varsóvia unindo militarmente a Albânia, a Tchecoslo-
váquia, a Bulgária, a Polônia, a Hungria, a Romênia e a Alemanha Oriental.
A bomba atômica foi 
lançada em Naga-
sáqui, no Japão, em 
9 de agosto de 1945, 
três dias depois da 
bomba lançada em Hi-
roxima. As duas bom-
bas juntas provoca-
ram a morte de mais 
de 350 mil pessoas.
Base naval norte-americana de Pearl Harbour, ata-
cada por aviões japoneses em dezembro de 1941.
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 1933 ¬ Oliveira Salazar institui um governo autoritário em Portugal. Adolf Hitler 
torna-se chanceler na Alemanha. Fim da República de Weimar.
 1934 ¬ Morte do presidente alemão Hindenburg. Hitler passa a exercer também esta 
função e se torna Führer (em alemão, condutor, líder).Führer (em alemão, condutor, líder).Führer
 1936 ¬ Republicanos ganham as eleições na Espanha. Ofensiva fascista dá início à 
Guerra Civil Espanhola. Hitler assina acordo com a Itália de Mussolini.
 1938 ¬ A Áustria é anexada à Alemanha.
 1939 ¬ Francisco Franco e a Falange derrotam os republicanos. Início do governo 
fascista na Espanha. Assinatura do tratado de não agressão entre Alemanha 
e União Soviética. A Alemanha invade a Polônia, e a Inglaterra e a França 
respondem com declaração de guerra. Marco da Segunda Guerra Mundial.
 1940 ¬ Tropas alemãs ocupam a França. Formação do Eixo (Alemanha, Itália e Japão).
 1941 ¬ Alemanha rompe o tratado de não agressão e invade a URSS. Ataque japonês 
à base naval norte-americana de Pearl Harbour. Os Estados Unidos entram na 
guerra e assinam a Carta do Atlântico. O presidente norte-americano, Franklin 
D. Roosevelt, e Winston Churchill, primeiro--ministro do Reino Unido, realizaram 
um encontro secreto a bordo de um navio no Oceano Atlântico e redigiramum 
plano de paz que ficou conhecido como Carta do Atlântico. Invasão da Grécia e 
da Iugoslávia pelos nazistas. Ataque alemão sobre Londres.
 1942 ¬ Abertura do campo de concentração de extermínio de Treblinka, em Varsóvia. 
Primeiro ataque aéreo norte-americano na Europa.
 1943 ¬ Mussolini é destituído. Capitulação da Itália. Rendição dos alemães em 
Stalingrado. Rendição italiana e alemã no norte da África.
 Mussolini é destituído. Capitulação da Itália. Rendição dos alemães em 
Stalingrado. Rendição italiana e alemã no norte da África.
 Mussolini é destituído. Capitulação da Itália. Rendição dos alemães em 
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LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE
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THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS
CONTEXTO
Imperialismo e nacionalismo no 
final do século XIX
Com a derrota de Napoleão Bonaparte na 
Europa e a realização do Congresso de Viena 
em 1815, procurou-se restabelecer o equilíbrio 
político entre as nações. Ao longo do século XIX, 
ocorreram outros conflitos que resultaram nas 
unificações italiana e alemã e na reorganização 
das fronteiras de alguns países. A unificação 
alemã, em especial, criou condições para que a 
Alemanha surgisse nos anos seguintes como uma 
das maiores potências econômicas da Europa. 
Desenvolveu rapidamente sua indústria, podendo 
dessa forma competir com a Grã-Bretanha, que, 
até então, era a grande potência imperial mundial. 
Com a unificação criou-se o Segundo Reich 
(Império) alemão, que tinha pretensões expan-
sionistas, animadas internamente por um fervor 
nacionalista e pela defesa do pangermanismo, 
ou seja, defesa da unificação dos povos de cultura 
germânica. Na América, os Estados Unidos des-
pontavam como uma força econômica industrial.
Nas últimas décadas do século XIX, havia 
vários países industrializados. Ocorreu uma 
depressão generalizada dos preços no mercado 
internacional, uma vez que havia uma superpro-
dução, e a livre concorrência de preços fazia-os 
baixarem na disputa por mercados. Em conse-
quência, os lucros caíram e muitas empresas 
faliram ou foram absorvidas por grandes cor-
porações. Dessa forma, os Estados tenderam a 
adotar medidas protecionistas para sua indús-
tria, retraindo a livre concorrência. Formaram-se 
grandes empresas com características de cartel 
que dominaram o mercado em muitos casos de 
maneira monopolista, surgindo o que se denomi-
na capitalismo monopolista.
Uma das maneiras de ampliar os lucros seria 
retomar a expansão colonial, ampliando as exporta-
ções e constituindo novos mercados consumidores. 
Construíram-se, então, novos impérios, e a disputa 
entre as nações imperialistas europeias se acirrou. 
Foi nesse período que se tornou conhecido o 
termo “imperialismo”, que passou a designar a nova 
divisão do mundo pelas potências capitalistas.
A Alemanha, que se unificou tardiamente 
em relação a outras nações europeias, não 
conseguiu conquistar tantas colônias quanto os 
britânicos. Suas poucas conquistas na África eram 
desproporcionais ao grande desenvolvimento 
militar e industrial alcançado após os anos 1870.
Em 1885, foi realizada a Conferência de 
Berlim, com a participação de 14 países industria-
lizados, incluindo os Estados Unidos. Nesse encon-
tro se discutiram as bases e os princípios da cha-
mada partilha da África. Pode-se considerar que 
a disputa imperialista está entre as causas diretas 
da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Toda a Ásia 
e a África já haviam sido repartidas entre os países 
industrializados na década de 1910.
Politicamente, várias disputas territoriais ali-
mentavam a discórdia entre as nações europeias 
desde o século XIX. Na segunda metade desse 
século, ocorreu a independência dos Estados 
eslavos (na região dos Bálcãs), que até então 
faziam parte do Império Turco-Otomano: Sérvia, 
Montenegro, Bulgária e Romênia. Aliada da Sérvia 
e protetora dos eslavos, a Rússia procurou domi-
nar a região. A Sérvia, por sua vez, tinha como 
objetivo conquistar regiões do Império Austro-
Húngaro (onde vivia mais de uma dezena de 
nacionalidades), ao qual os alemães também 
pretendiam fazer frente, ampliando seus domínios 
na Europa. A França, por sua vez, derrotada pela 
Alemanha em 1870 na Guerra Franco-Prussiana, 
aliou-se aos britânicos no combate a novas ofen-
sivas germânicas. Naquele confronto, a França 
havia perdido a região da Alsácia-Lorena, rica em 
carvão utilizado pelas indústrias.
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Representação francesa da divisão da África pelos países 
europeus durante a Conferência de Berlim, 1885.
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Com a derrota de Napoleão Bonaparte na 
Europa e a realização do Congresso de Viena 
em 1815, procurou-se restabelecer o equilíbrio 
político entre as nações. Ao longo do século XIX, 
ocorreram outros conflitos que resultaram nas 
unificações italiana e alemã e na reorganização 
das fronteiras de alguns países. A unificação 
alemã, em especial, criou condições para que a 
Alemanha surgisse nos anos seguintes como uma 
das maiores potências econômicas da Europa. 
Desenvolveu rapidamente sua indústria, podendo 
dessa forma competir com a Grã-Bretanha, que, 
até então, era a grande potência imperial mundial. 
Reich
(Império) alemão, que tinha pretensões expan-
sionistas, animadas internamente por um fervor 
desproporcionais ao grande desenvolvimento 
militar e industrial alcançado após os anos 1870.
Em 1885, foi realizada a Conferência de 
Berlim, com a participação de 14 países industria-
lizados, incluindo os Estados Unidos. Nesse encon-
tro se discutiram as bases e os princípios da cha-
mada partilha da África. Pode-se considerar que 
a disputa imperialista está entre as causas diretas 
da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Toda a Ásia 
e a África já haviam sido repartidas entre os países 
industrializados na década de 1910.
Politicamente, várias disputas territoriais ali-
mentavam a discórdia entre as nações europeias 
desde o século XIX. Na segunda metade desse 
século, ocorreu a independência dos Estados 
eslavos (na região dos Bálcãs), que até então 
faziam parte do Império Turco-Otomano: Sérvia, 
Montenegro, Bulgária e Romênia. Aliada da Sérvia 
e protetora dos eslavos, a Rússia procurou domi-
nar a região. A Sérvia, por sua vez, tinha como 
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Nesse contexto de avanço imperialista e dis-
puta pela hegemonia na Europa, os russos fir-
maram um acordo com a França, da mesma 
forma que estes últimos se aliaram aos britâ-
nicos. França e Inglaterra formaram a Entente 
Cordiale em 1904, consolidando a divisão da 
maior parte da Ásia e da África entre esses dois 
países. Em 1907, definiu-se o que ficou conhe-
cido como a Tríplice Entente, a aliança entre 
Inglaterra, França e Rússia. Nos termos do acor-
do entre França e Grã-Bretanha, pesou mais uma 
vez a partilha colonial da África. Em 1904, os dois 
países já haviam assinado um acordo secreto que 
deixava o Egito para os britânicos e o Marrocos 
para a França, excluindo a Alemanha da possi-
bilidade de explorar o Marrocos. Começariam, 
assim, a se formar as forças que entrariam em 
conflito na Primeira Guerra Mundial.
Do outro lado, já havia se formado também a 
Tríplice Aliança, que reunia o Império Austro-
Húngaro, a Alemanha e a Itália. Este último 
país, no entanto, embora tivesse conflitos com 
a França pela dominação de regiões na África, 
mantinha também conflitos de caráter expan-
sionista com a Áustria-Hungria, pois disputava 
a região do Tirol e da Ístria desde o processo 
de unificação, ocorrido algumas décadas antes. 
Nesse contexto, a Itália assinou

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