Prévia do material em texto
São Paulo – 2013 1ª- edição HISTÓRIA Conexão VOLUME 3 ENSINO MÉDIO HISTÓRIA 3a- série Roberto Catelli Junior Bacharel e licenciado em História pela Pontifícia Universidade de São Paulo. Mestre em História pela Universidade de São Paulo. Professor de História da rede particular de ensino do estado de São Paulo. Assessor para organização de currículos e formador de professores na rede pública de ensino. MANUAL DO PROFESSOR Editores: Arnaldo Saraiva e Joaquim Saraiva Projeto gráfico e capa: Flávio Nigro Pesquisa iconográfica: Cláudio Perez Coordenação digital: Flávio Nigro e Nelson Quaresma Colaboração: Maria Soledad Más Gandini, Renata Pereira Lima Aspis e Roberto Giansanti Produção editorial: Maps World Produções Gráficas Ltda Direção: Maurício Barreto Direção editorial: Antonio Nicolau Youssef Gerência editorial: Carmen Olivieri Coordenação de produção: Larissa Prado Edição de arte: Jorge Okura Editoração eletrônica: Alexandre Tallarico, Flávio Akatuka, Francisco Lavorini, Juliana Cristina Silva, Veridiana Freitas, Vivian Trevizan e Wendel de Freitas Edição de texto: Ana Cristina Mendes Perfetti Revisão: Adriano Camargo Monteiro, Fabiana Camargo Pellegrini, Juliana Biggi e Luicy Caetano Pesquisa iconográfica: Elaine Bueno e Luiz Fernando Botter Cartografia: Maps World (Alexandre Bueno e Catherine A. Scotton) Conteúdos digitais: Esfera Digital Fotos da capa: Pirâmide do Egito – Photodisc; Pirâmide do Louvre – IDREAMSTOCK/Alamy/Glow Images 2013 Editora AJS Ltda. – Todos os direitos reservados Endereço: R. Xavantes, 719, sl. 632 Brás – São Paulo – SP CEP: 03027-000 Telefone: (011) 2081-4677 E-mail: editora@editoraajs.com.br Título original: Conexão História © Editora AJS Ltda, 2013 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Catelli Junior, Roberto Conexão história : volume 3 : ensino médio : 3º série / Roberto Catelli Junior. -- 1. ed. -- São Paulo : Editora AJS, 2013. Bibliografia. "Suplementado pelo manual do professor" 1. História (Ensino médio) I. Título. 13-06550 CDD-907 Índices para catálogo sistemático: 1. História : Ensino médio 907 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Catelli Junior, Roberto Conexão história : volume 3 : ensino médio : 3º série / Roberto Catelli Junior. -- 1. ed. -- São Paulo : Editora AJS, 2013. Bibliografia. "Suplementado pelo manual do professor" 1. História (Ensino médio) I. Título. 13-06550 CDD-907 Índices para catálogo sistemático: 1. História : Ensino médio 907 ISBN: 978-85-8319-003-5 (Aluno) ISBN: 978-85-8319-004-2 (Professor) Muitas gerações se fizeram as mesmas perguntas ao estudar História: Para que serve? Por que tenho de saber o que aconteceu na Revolução Francesa ou no Brasil colonial? Essas perguntas ainda persistem. Talvez você já tenha se perguntado isso. A História, vista em si, talvez não pareça servir para nada. Ela só tem sentido quando lhe atribuímos um significado. E quanto mais questionarmos e refletirmos sobre os acontecimentos da história, mais poderemos refletir sobre a realidade que nos cerca e a vida que vivemos. Quando estudo História com a única finalidade de memorizar fatos do passado para obter um resul- tado satisfatório em uma avaliação, dificilmente ela terá algum sentido. Seria o mesmo que ouvir uma canção da qual não gosto repetidas vezes apenas para decorar sua letra e sequência melódica. Para mim, autor desta obra e professor, estudar História significa, principalmente, estimular a reflexão, exercitar o espírito crítico e promover descobertas. Preciso sempre fazer perguntas: Em que a Revolução Francesa, por exemplo, se relaciona com o mundo em que vivo? Que ideias foram produzidas pelo ser huma- no daquela época (século XVIII)? O que é diferente dos dias atuais? O que pensavam os revolucionários? Que sociedade eles queriam construir? Preciso ainda ser crítico o suficiente para saber identificar as dife- rentes posições dos autores que têm interpretações contrárias. Por que concordo com um e discordo do outro? É preciso saber contextualizar o assunto em um duplo sentido: compreender os eventos históricos conforme a época em que se vivia, além de buscar construir as relações com o presente. Estudar História pode ser também um profundo mergulho nas experiências vividas pelos seres huma- nos, ao longo do tempo, nas mais diferentes dimensões: cultural, econômica, política e social. Podemos entrar em contato com modos de vida muito diversos do que conhecemos na atualidade e refletir sobre o significado daquelas experiências para o presente e para o futuro. O que se estuda na História? Certamente não são apenas os grandes eventos políticos e econômicos, ainda que esses estabeleçam marcos para a humanidade. Podemos estudar a vida cultural, a condição feminina, a religiosidade, a música, o pensamento científico, as atividades esportivas, enfim, tudo aquilo que se refere à experiência de homens e mulheres em sociedade. Nesse mergulho nas várias dimensões da vida humana não podemos nos limitar aos conhecimentos de História. Será necessário recorrer às Artes, às Ciências, à Filosofia, à Geografia e à Sociologia, pois sabemos que a vida humana não está compartimentada em conhecimentos disciplinares. Ao contrário, para com- preender a sua história é preciso recorrer a todas as suas dimensões, formando uma rede de conhecimentos. Para estudar história precisamos acessar uma grande rede de conhecimentos para discutir a experi- ência humana ao longo de milhares de anos. Muitos desses conhecimentos, por sua vez, podem, hoje, ser obtidos por meio da rede mundial de computadores e da variedade de linguagens disponíveis. É possível recorrer a internet, vídeos, cinema, televisão, rádio, enfim, a variadas fontes de informação que também contribuem para a construção do conhecimento histórico na escola. Ao estudar História, cabe ainda perguntar quais fontes podemos utilizar. Os documentos escritos, os objetos da cultura material, as imagens, as histórias em quadrinhos, as obras literárias, as propagandas, as canções, os depoimentos gravados, ou seja, todo registro ou vestígio da vida humana pode ser fonte para o estudo da História. Desejo que este material didático o auxilie a construir um sentido para seus estudos, embora isso não dependa apenas de um livro ou do professor. Estes podem apenas favorecer e despertar a sua curiosida- de. Essa é minha intenção primeira com esta obra. A partir daí, e das informações disponíveis, recomendo o mais fundamental: faça perguntas, busque relações e atribua um significado para tudo. “Fazer sentido” também quer dizer “fazer sentir”: é preciso que esse processo nos desperte para algo. Caso contrário, tanto a História quanto a música, o futebol, a praia, o(a) namorado(a), os amigos, a família, o mundo, enfim, ficam incompletos e insuficientes. O autor APRESENTAÇÃO CONHEÇA SEU LIVRO PESQUISA Orientações para organização de pesquisa sobre algum tema relevante para uma melhor compreensão dos conceitos, fatos históricos ou situações em estudo no capítulo. CONTEXTO Núcleo de desenvolvimento do conteúdo didático do livro, que contém informações tex- tuais, cartográficas, visuais e esquemáticas. LINHA DO TEMPO Eventos e fatos históricos relativos ao tema do capítulo em desenvolvimento, organizados cronologicamente. NA INTERNET Sugestão de links destinados ao detalhamen- to e aprofundamento de assuntos estudados.TRABALHANDO COM DADOS Apresentação de coleções de dados e infor- mações, geralmente organizadas em tabelas, para suscitar discussões e dimensionamentos de fatos históricos e econômicos. ROTEIRO DE TRABALHO Proposta de atividades ordenadas a partir de algumas das seções com conteúdos previa- mente fixados. VESTIBULANDO Apresentação de testes e questões exigidas em vestibulares e no Enem. RELEITURA Apresentação das ideias e conceitos estu- dados no capítulo em linguagem distinta do texto didático como, por exemplo, letras de música, obras de arte ou publicações. PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR Sugestões de livros, filmes e sites que con- têm mais e diversificadas informações sobre os temas estudados. INTERDISCIPLINARIDADE Apresenta relações entre os diversos con- ceitos históricos estudados e outras disciplinas ou matérias com as quais o aluno tem contato. DOCUMENTOS Aqui são apresentados artigos, transcrições e informações que, quando discutidas, con- solidam a aprendizagem e a significação dos conceitos estudados. PONTO DE VISTA Detalhamento ou confrontação de diferen- tes pontos de vista sobre o assunto em estudo. Relação dos objetos digitais de aprendizagem apresentados no livro. Infográfico de fatos históricos organizados de forma contínua e cronológica Conjunto de referências cruzadas de temas relevantes estudados ao longo dos livros da coleção. UNIDADE 1 Conflitos e diversidade cultural no Brasil . . . . . . . . . . . . . 8 CAPÍTULO 1 O Brasil do sertão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 O sertão das secas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 O sertão – da Colônia à República . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 O sertão do cangaço . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18 O sertão do padre Cícero. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22 CAPÍTULO 2 O Brasil amazônico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32 CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36 A Amazônia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36 A independência e os conflitos durante o Império . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38 A borracha e a belle époque . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40 As transformações do ecossistema da Amazônia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45 A ocupação da Amazônia no Brasil contemporâneo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46 A terra e o desenvolvimento na Amazônia . . . . . . . . 49 CAPÍTULO 3 Afro-brasileiros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58 CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60 A África pré-colonial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60 Os europeus na África . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63 Os africanos no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67 UNIDADE 2 Cidadania e relações de poder . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82 CAPÍTULO 4 Nacionalismo, guerras mundiais e autoritarismo . . . . 84 CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89 Imperialismo e nacionalismo no final do século XIX . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89 Trinta e um anos de guerra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 90 A Primeira Guerra Mundial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91 A República de Weimar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96 A crise de 1929 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98 A crise da República de Weimar e a ascensão do nazismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99 A construção do ideário nazista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 O fascismo italiano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 102 A Guerra Civil Espanhola . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105 A Segunda Guerra Mundial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 107 A Guerra Fria: a Coreia, o Muro de Berlim e o Vietnã . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116 SUMÁRIO C or bi s/ La ti ns to ck C or bi s/ La ti ns to ck CAPÍTULO 5 A República varguista: da Revolução de 1930 ao Estado Novo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129 CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131 O fim do predomínio da oligarquia cafeeira e o governo Vargas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131 A Revolução Constitucionalista de 1932 . . . . . . . . . . 132 A Constituinte e a Constituição de 1934 . . . . . . . . . . 134 Fascismo e comunismo no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 135 O Estado Novo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 138 O fim da ditadura Vargas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143 CAPÍTULO 6 Ensaios democráticos no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .151 CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 154 O governo Dutra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 154 Getúlio Vargas: presidente eleito . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 156 O governo JK e o desenvolvimentismo . . . . . . . . . . . . 160 Jânio Quadros e a renúncia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 165 O governo Goulart e asreformas de base . . . . . . . 167 CAPÍTULO 7 Da ditadura à democracia: golpe, guerrilha e abertura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 180 CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 184 A montagem do poder ditatorial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 184 O governo Costa e Silva e o período do “milagre econômico” . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 186 A resistência e o Ato Institucional n. 5 . . . . . . . . . . . . 188 A cultura jovem nos anos 1960 e o sentido de protesto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 194 O governo Médici . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 De Geisel a Figueiredo: mudança de rumos . . . . 201 A abertura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 205 Sarney governa de 1985 a 1989 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 209 CAPÍTULO 8 O cidadão contemporâneo: um roteiro de estudo . . . 221 CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 225 O Brasil democrático e socialmente desigual . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 225 A globalização e o desenvolvimento do capitalismo no mundo contemporâneo . . . . . . 231 Os Estados nacionais no contexto da globalização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 233 A crítica à globalização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 236 Os conflitos pós-Guerra Fria e as guerras do século XXI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 236 O ser humano e o meio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 251 Referências bibliográficas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 269 Gabarito . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 272 SUMÁRIO CONTEÚDO DIGITAL G Paisagens do Sertão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 G Revolução de 1932 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133 G O DIP . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 140 G Getúlio Vargas – anos 1950 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 156 G Campanhas nacionalistas – anos 1970 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 G Objetos sagrados de culturas africanas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .62 G Festas tradicionais brasileiras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .72 G Cidades destruídas pela guerra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 112 A Áudio de soldados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92 Declaração de Guerra, 1940 – Mussolini . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 108 A Hora do Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129 V Trecho de vídeo da Primeira Guerra Mundial . . . . . . . . . . . . . . . 92 V Olimpíadas de 1936 – Jesse Owens e Hitler . . . . . . . . . . . . . . . . 102 V Conflito entre israelenses e palestinos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 248 V Degelo na Antártida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 222 I Desmatamento e Mineração – impactos ambientais . . . . . . . .45 I Terras indígenas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47 I Sufragistas e o voto feminino . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 132 I Programa de Metas de Juscelino Kubitschek . . . . . . . . . . . . . . 161 I FMI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 204 I Aquecimento global . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 222 I Conflito entre judeus e palestinos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 247 I Violência no campo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .50 I Antigos reinos e impérios africanos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61 I Primeira Guerra Mundial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .93 I Ofensivas durante a Segunda Guerra Mundial . . . . . . . . . . . . 111 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 à 268 G Imprensa alternativa na ditadura militar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 194 G Alemanha pós-queda . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117 Declaração de Guerra, 1940 – MussoliniV LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS R og ér io R ei s/ P ul sa r Im ag en s 8 UNIDADE 1 Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidadeConflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade Conflitos e diversidade cultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasilcultural no Brasil 9 O Brasil do sertão Estudar a história brasileira significa desvendar acontecimentos marcados pela diversidade cultural. A formação multicultural do Brasil se constitui por uma grande variedade de grupos sociais que interagiram de maneira conflituosa. Muitos antropólogos, historiadores e cientistas sociais, a exemplo de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Fernando de Azevedo e, mais recentemente, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Roberto da Matta, Alfredo Bosi e Renato Ortiz, já se preocuparam em definir e compreender a cultura brasileira em suas múltiplas dimensões. Todos, a par de suas diferentes posições político-ideológicas, são unâni- mes em concordar que a característica marcante de nossa cultura é a riqueza de sua diversidade, resultado de nosso processo histórico-social e das dimensões continen- tais de nossa territorialidade. Nesse sentido, o mais correto seria falarmos em “culturas brasileiras”, ao invés de “cultura brasileira”, dada a pluralidade étnica que contribuiu para sua formação. FERNANDES, José Ricardo Oriá. Ensino de História e diversidade cultural: desafios e possibilidades. Cadernos CEDES, Campinas, v. 25, n. 67, set./dez. 2005. p. 379. Disponível em: <www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S0101-32622005000300009>. Acesso em: 18 abr. 2013. Nesta unidade vamos colocar em destaque parte dessa diversidade cultural, buscan- do compreender a história brasileira mais recente levando em conta a sua pluralidade. Vamos começar estudando o que denominamos como Brasil do sertão. Lampião, o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, nasceu em 1897 e morreu em 1938. Pernambucano, era representante de uma cultura brasileira que não pode ser entendida apenas pelo que ocorria no Rio de Janeiro, então capital da República. Desde o período colonial, o sertão se diferenciou pela peculiaridade de sua formação territorial, por suas condições climáticas, por seu isolamento em relação ao centro de decisão de poder e por sua formação cultural singular. Para o antropólogo Darcy Ribeiro: Conformou, também, um tipo particular de população com uma subcultura própria, a sertaneja, marcada por sua especialização ao pastoreio, por sua dispersão espacial e por traços característicos identificáveis no modo de vida, na organização da família, na estruturação do poder, na vestimenta típica, nos folguedos estacionais, na dieta, na culinária, na visão de mundo e numa religiosidade propensa ao messianismo. RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 340. CAPÍTULO 1 R og ér io R ei s/ P ul sa r Im ag en s 10 O Brasil do sertão Estudar a história brasileira significa desvendaracontecimentos marcados pela diversidade cultural. A formação multicultural do Brasil se constitui por uma grande variedade de grupos sociais que interagiram de maneira conflituosa. Muitos antropólogos, historiadores e cientistas sociais, a exemplo de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Fernando de Azevedo e, mais recentemente, CAPÍTULO 1 R og ér io R ei s/ P ul sa r Im ag en s LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Lampião com sua mulher, Maria Bonita, e cachorros. Nesta foto de 1936, tirada pelo fotógrafo Benjamin Abrahão, que acompanhou o bando, o cangaceiro aparece segurando um exemplar da revista musical Noite Ilustrada, que fazia sucesso na época. CONTEXTO O sertão das secas A seca do Nordeste ocorre em sua região semiárida, que compreende cerca de 700 mil km2 do território brasileiro. Lá as temperaturas médias são bastante elevadas durante todo o ano. Além disso, as chuvas são escassas e irregulares, haven- do pouca umidade e ausência de rios perenes. As médias pluviométricas no semiárido, em alguns lugares, não ultrapassam os 400 mm anuais. No sertão nordestino, o inverno seco pode durar até oito meses e o verão chuvoso até sete meses. A paisagem torna-se acinzentada nos períodos de seca e muito verde nas épocas de chuva. Quando as chu- vas se avolumam no verão, a população das regiões secas diz que chegou o inverno, pois o calor torna-se mais ameno com a redução da secura. A caatinga é um tipo de vegetação própria das extensões semiáridas. Conforme o geógrafo Nilo Bernardes: A região das caatingas abrange, praticamente, to- da a área dos estados do Ceará e do Rio Grande do Norte; quase todo o sudeste do estado do Piauí; a maior parte do este dos estados da Paraíba, de Per- nambuco, das Alagoas e de Sergipe; a maior parte de todo o interior da Bahia e até mesmo uma apre- ciável porção do extremo norte do estado de Minas Gerais. São mais de 800 mil km2 de extensão, Em 1936, o governo federal delimitou o que foi denominado Polígono das Secas, abrangendo mais de quarenta municípios entre o Piauí e o norte de Minas Gerais. Após diversas revisões de seu traçado, em 2010 o número de municípios incluídos contava 1 348. O POLÍGONO DAS SECAS M ar io Y os hi da /A rq ui vo d a ed it or a Cangaceiros como Lampião desafiaram o poder das autoridades brasileiras, impuseram suas próprias leis e mantiveram centenas de pessoas sob seu comando. Estudar o Brasil significa, antes de tudo, compreender sua diversidade. Por isso, nesta unidade não podemos deixar de fazer referên- cia à cultura que expressa as diferenças sociais e as várias formas de conflito presentes em nossa sociedade. M ap s W or ld Com base em Ministério da Integração Nacional. Relatório final: grupo de trabalho interministerial para redelimitação do semiárido nordestino e do polígono das secas. Brasília. Janeiro de 2005. 11 Lampião com sua mulher, Maria Bonita, e cachorros. Nesta foto de 1936, tirada pelo fotógrafo Benjamin Abrahão, que acompanhou o bando, o cangaceiro aparece segurando um Noite Ilustrada, M ar io Y os hi da /A rq ui vo d a ed it or a 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Cactos xiquexiques em Poço Redondo (SE), 2007. Os xiquexiques e os mandacarus (outra planta nativa do sertão) servem de alimento para seres humanos e animais. O xiquexique é uma planta rica em pro- teínas, sais minerais, carboidratos e fibra. Deve-se a essa planta a sobrevivência de muitos rebanhos nordestinos durante as secas. R ub en s C ha ve s/ P ul sa r Im ag en s significando que uma décima parte do território brasileiro é coberto pelas caatingas. Ao norte, elas chegam até a faixa praiana e, a oeste e ao sul, entram em contato com a região dos campos cer- rados, características das nossas regiões centrais. BERNARDES, Nilo. As caatingas. Revista Estudos Avançados. São Paulo: IEA/USP, maio/ago. 1999. n. 36. p. 69. O geógrafo ainda esclarece que: As caatingas aparecem nas áreas onde os totais anuais de chuva, em termos normais, já estão abaixo de 1 000 mm. […] De início se dizia que a caatinga – a mata (caa) clara (tinga), na língua indígena – era uma floresta espinhenta. Nos ma- nuais de língua inglesa ela ainda é frequentemente assim referida (scrub-forest). Mas nem sempre os seus diversos tipos lembram realmente o porte de uma floresta e nem sempre eles são, na verdade, caracteristicamente espinhentos. Em algumas áreas, com efeito, a predominância das árvores lhe dá um porte que a caracteriza como caatinga arbó- rea. Mas em muitos outros lugares somente ocorre a caatinga arbustiva, ora mais alta, ora mais baixa. BERNARDES, op. cit., p. 71. Nesse contexto se destacam as cactáceas, que se adaptaram à falta de chuvas: os mandacarus, os xiquexiques e as coroas-de-frade, entre outras plantas. A caatinga é uma vegetação de folhas caducas que se renovam todos os anos. Por isso, nos períodos de seca, os arbustos tornam-se galhos secos e as árvores ficam desfolhadas. Há também as regiões úmidas do sertão, cha- madas pela população local de brejos. Localizam- -se em formações geográficas específicas, como serras, encostas e vales úmidos. Esses seriam os casos de Garanhuns, em Pernambuco, e Ribeira do Pombal, na Bahia. Segundo o geógrafo Aziz Ab’Sáber, tais regiões são essenciais para a eco- nomia regional: Os brejos são fundamentais para a produção de alimentos no domínio dos sertões, como mostra qualquer apanhado sobre a origem dos produtos comercializados nas feiras locais ou nos agres- tes. De certa forma, o vigor e o sucesso das feiras nordestinas são o próprio termômetro da produtividade dessas áreas, cujos solos de mata deram origem à formação dos primeiros celeiros fornecedores de alimentos baratos e de uso tradi- cional no amplo espaço sertanejo. O transporte a baixo custo, feito no lombo de jegues, aliado à bai- xa expectativa de lucro dos camponeses brejeiros, garantiu a comercialização com níveis toleráveis de preços para as populações. A carne verde de ga- do ou de animais de pequeno porte é quase sempre proveniente de todos os sertões, mas o restante do necessário à alimentação do povo sertanejo provém dos pequenos espaços, muito férteis, dos brejos que pontilham os sertões. Dali saem a mandioca e a farinha, o feijão, uma parte do café, um sem-número de frutas, além da rapadura e da aguardente, subprodutos de pequenas plantações de cana-de-açúcar. AB’SÁBER, Aziz Nacib. Sertões e sertanejos: uma geogra- fia humana sofrida. Revista Estudos Avançados, São Paulo: IEA/USP, maio/ago. 1999. n. 36. p. 20. Em 2008, mais de 20 milhões de pessoas viviam no sertão e agreste nordestinos, sendo Caruaru (PE), Mossoró (RN), Feira de Santana (BA) e Campina Grande (PB) algumas cidades que são capitais regionais e centros de comércio. Ainda é preciso considerar que quase toda a extensão do sertão seco nordestino se situa nas chamadas depressões interplanálticas. Conforme o geó- grafo Jurandyr Ross: A depressão sertaneja e do São Francisco compre- ende uma extensa área rebaixada e predominante- mente aplanada, constituindo superfície de erosão que secciona uma grande diversidade de litologias e arranjos estruturais. Esta superfície apresenta inúmeros trechos com ocorrência de relevos resi- duais constituindo inselbergs […] ROSS, Jurandyr Sanches. Geografia do Brasil. São Paulo: Edusp, 1996. p. 63. Esses inselbergs podem ser considerados ele- vações residuais de relevos mais antigos. 12 significando que uma décima parte do território brasileiro é cobertopelas caatingas. Ao norte, elas chegam até a faixa praiana e, a oeste e ao sul, entram em contato com a região dos campos cer- rados, características das nossas regiões centrais. BERNARDES, Nilo. As caatingas. Revista Estudos Avançados. São Paulo: IEA/USP, maio/ago. 1999. n. 36. p. 69. O geógrafo ainda esclarece que: As caatingas aparecem nas áreas onde os totais anuais de chuva, em termos normais, já estão abaixo de 1 000 mm. […] De início se dizia que a caatinga – a mata (caa) clara (tinga) clara (tinga) clara ( ), na língua indígena – era uma floresta espinhenta. Nos ma- nuais de língua inglesa ela ainda é frequentemente assim referida (scrub-forest). Mas nem sempre os seus diversos tipos lembram realmente o porte de uma floresta e nem sempre eles são, na verdade, caracteristicamente espinhentos. Em algumas áreas, com efeito, a predominância das árvores lhe dá um porte que a caracteriza como caatinga arbó- rea. Mas em muitos outros lugares somente ocorre a caatinga arbustiva, ora mais alta, ora mais baixa. BERNARDES, op. cit., p. 71. madas pela população local de -se em formações geográficas específicas, como serras, encostas e vales úmidos. Esses seriam os casos de Garanhuns, em Pernambuco, e Ribeira do Pombal, na Bahia. Segundo o geógrafo Aziz Ab’Sáber, tais regiões são essenciais para a eco- nomia regional: O B R A SI L D O S ER TÃ O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS G Inselberg em Itaberaba (BA). Inselberg foi o nome dado em 1900 pelo geólogo alemão Bonhardt e quer dizer “montanha isolada”, “monte ilha” ou “morro testemunho”. Essas rochas costumam abrigar plantas de lento crescimento e longa vida, com baixa substituição de espécies. Fa bi o C ol om bi ni Há também as regiões agrestes, faixas de tran- sição entre a zona da mata e o sertão seco. Nos agrestes chove mais do que no sertão e há zonas de pecuária intercaladas com zonas de agricultura. Trata-se da região mais povoada do interior nor- destino. No período de grandes chuvas, ocorrem enchentes em algumas áreas onde os rios são mais rasos. As águas muitas vezes extravasam e correm pelos vales, atingindo moradias e plantações. A população nordestina mais duramente atin- gida pelas secas é aquela desprovida de terras. A falta de continuidade na produção rural gera grandes contingentes de desempregados que se transformam em retirantes – população que deixa seu local de origem para procurar meios de sobrevi- vência em outra parte. Nesse sentido, afirma mais uma vez Aziz Ab’Sáber: Alta fertilidade humana, forte seleção biológica e ausência de oportunidades de emprego para os sem-terra teriam que ocasionar o apelo à migra- ção, numa desesperada luta pela sobrevivência. Assim, a grande região seca brasileira passou a ter o papel histórico de fornecer mão de obra barata para quase todas as outras regiões detentoras de algum potencial de emprego. Nordestinos de to- dos os recantos mobilizaram-se nas mais variadas direções, seguindo a vaga de cada época. Para a Amazônia, nos fins do século passado e inícios do atual. Para São Paulo, desde a década de 1930. Para Brasília nos anos [19]60. Para o norte do Paraná e São Paulo por todo o tempo, sobretu- do depois da construção da estrada Rio-Bahia. Finalmente, para o norte de Goiás, às margens da Belém-Brasília, a Transamazônica e, para o sul do Pará, nos anos [19]70. AB’SÁBER, op. cit., p. 26-7. Essa caracterização do sertão seco nordesti- no não significa que não há solução para que as famílias possam viver com dignidade e sem sofri- mento na região. As soluções existem e depen- dem, certamente, da ação estatal nos diferentes níveis. Contudo é preciso criar políticas sérias que não alimentem o que ficou conhecido como a indústria da seca, ou seja, a transferência de volumosos recursos para empreendimentos que jamais resolveram os problemas do sertanejo, mas, ao contrário, enriqueceram ainda mais certos empreendedores. Para algumas pessoas, acabar com a seca seria acabar com verbas e auxílios governamentais direcionados à região. Manter a seca, para essas pessoas, é uma forma de se apropriar de recursos sem investir naqueles que realmente necessitam. É preciso controlar tam- bém os desmandos coronelistas, que influenciam o poder público e exploram os habitantes locais, além de se aproveitar de toda sorte de situações para benefício próprio. 13 foi o nome dado em 1900 pelo geólogo alemão Bonhardt e quer dizer “montanha isolada”, “monte ilha” ou “morro testemunho”. Essas rochas costumam abrigar plantas de lento crescimento e longa vida, com baixa substituição de espécies. Fa bi o C ol om bi ni 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS O sertão – da Colônia à República O processo inicial de colonização das terras que hoje são o Brasil ocorreu pelo litoral. Nessa região, desenvolveram-se as primeiras atividades econô- micas. Nos mapas ao lado, observamos que, até o século XVII, as áreas de povoamento se situavam mais próximas ao litoral, sendo o interior pouco explorado e habitado. Mesmo assim, ainda no século XVI começaram as primeiras incursões pelo interior com a finalidade de obter indígenas para serem escravizados. Além disso, iniciou-se também a busca de riquezas, como os metais preciosos tão abundantes na América espanhola e ainda desconhecidos no Brasil. O sertão a que nos referimos aqui não inclui apenas o Nordeste das secas, mas também o inte- rior de várias regiões. O antropólogo Darcy Ribeiro classificou essa região como o Brasil Sertanejo, o qual delimitou, ao afirmar: Para além da faixa nordestina das terras frescas e férteis do massapé, com rica cobertura florestal, onde se implantaram os engenhos de açúcar, des- dobram-se as terras de uma outra área ecológica. Começam pela orla descontínua ainda úmida do agreste e prosseguem com as enormes extensões semiáridas das caatingas. Mais além, penetrando já o Brasil Central, se elevam em planalto como campos cerrados que se estendem por milhares de léguas quadradas. RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 339. No caso nordestino, ainda no século XVI, expli- ca-nos mais uma vez Darcy Ribeiro: O gado trazido pelos portugueses das Ilhas de Cabo Verde vinha já, provavelmente, aclimatado para a criação extensiva, sem estabulação, em que os próprios animais procuram suas aguadas e seu ali- mento. Os primeiros lotes instalaram-se no agreste pernambucano e na orla do recôncavo baiano, suficientemente distanciados dos engenhos para não estragar os canaviais. Daí se multiplicaram e dispersaram em currais, ao longo dos rios perma- nentes, formando as ribeiras pastoris. Ao fim do sé- culo XVI, os criadores baianos e pernambucanos se encontravam já nos sertões do Rio São Francisco, prosseguindo ao longo dele, rumo ao sul e para além, rumo às terras do Piauí e do Maranhão. Seus rebanhos somariam então cerca de 700 mil cabe- ças, que dobrariam no século seguinte. RIBEIRO, op. cit., p. 341. Assim, a região do sertão nordestino trans- formou-se em uma produtora de couros e carnes que alimentariam a população que vivia na zona POVOAMENTO E URBANIZAÇÃO Com base em SOUZA, Laura de Mello e. História da vida privada no Brasil; AZEVEDO, Aroldo de. A marcha do povoamento (séculos XVI e XVIII). In: AZEVEDO, Aroldo de. Vilas e cidades do Brasil colonial. Ensaio de geografia urbana retrospectiva. Boletim n 208, Geografia 11. São Paulo: FFLCH-USP, 1956. M ap s W or ld 14 O sertão – da Colônia à República O processo inicial de colonização das terras que hoje são o Brasil ocorreu pelo litoral. Nessa região, desenvolveram-seas primeiras atividades econô- micas. Nos mapas ao lado, observamos que, até o século XVII, as áreas de povoamento se situavam mais próximas ao litoral, sendo o interior pouco explorado e habitado. Mesmo assim, ainda no século XVI começaram as primeiras incursões pelo interior com a finalidade de obter indígenas para serem escravizados. Além disso, iniciou-se também a busca de riquezas, como os metais preciosos tão abundantes na América espanhola e ainda desconhecidos no Brasil. O sertão a que nos referimos aqui não inclui apenas o Nordeste das secas, mas também o inte- rior de várias regiões. O antropólogo Darcy Ribeiro classificou essa região como o Brasil Sertanejo, o qual delimitou, ao afirmar: Para além da faixa nordestina das terras frescas e férteis do massapé, com rica cobertura florestal, onde se implantaram os engenhos de açúcar, des- O B R A SI L D O S ER TÃ O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS açucareira. Até os dias atuais, as carnes salgadas, como a carne de sol, são uma tradição presente em cidades do sertão. Essa criação extensiva de gado originou tam- bém os primeiros latifúndios do sertão. Colonos recebiam da Coroa grandes quantidades de terras na forma de sesmaria. Por intermédio de carta régia expedida pelo rei, os colonos tomavam posse de terras desocupadas. Nessa atividade, o trabalho escravo não predominou, sendo comum o paga- mento de vaqueiros que recebiam mantimentos e gado em troca de seu trabalho. Desde o início, os conflitos dos europeus e seus descendentes com os povos indígenas tornaram-se inevitáveis na exploração do território com a finali- dade de constituir pastos para o gado. Mais do que a catequese dos jesuítas ou as alianças interessei- ras, nessa região as lutas armadas com os indíge- nas foram mais comuns, podendo também estar aí uma das origens do cangaço, como veremos mais adiante. O povo Tabajara, por exemplo, que vivia no Nordeste, resistiu ferozmente aos colonizadores. Chegou mesmo a ocorrer a Guerra dos Bárbaros, quando indígenas do Rio Grande do Norte e do Ceará se uniram aos de outras capitanias para lutar contra o conquistador, entre o final do século XVII e o início do século XVIII. O historiador Frederico Pernambucano de Mello nos adianta: Nos primórdios da vida social sertaneja, ao longo dos séculos XVII e XVIII, de forma generalizada, e mesmo de boa parte do XIX, em bolsões remotos, a vida da espingarda não se constituía apenas em procedimento legítimo à luz das circunstân- cias, mas em ocupação francamente preferencial. O homem violento, afeito ao sangue pelo traque- jo das tarefas pecuárias e adestrado no uso das armas branca e de fogo, mostrava-se vital num meio em que se impunha dobrar as resistências do índio e do animal bravio como condição para o assentamento das fazendas de criar. Naquele mundo primitivo, o heroísmo social se forjava pela valentia revelada no trato com o semelhante e pelo talento na condução cotidiana do empreendi- mento pecuário. Nas festas de apartação em que se engalanavam [embelezavam] as fazendas no meado do ano, um e outro de tais valores – é dizer, valentia e talento – precisavam somar-se para a produção ou confirmação de heróis pelas vias da vaquejada bruta, corrida com o homem nos couros e por dentro dos paus da caatinga mais cerrada, ou da corrida de mourão, expressão moderna em que se resume toda a lúdica sertaneja da derrubada do boi. Nesse sentido, há versos de gesta que valem por um retrato sociológico, como o de Francisco das Chagas Batista: “Ali se aprecia muito Um cantador, um vaqueiro Um amansador de poldro Que seja bom catingueiro Um homem que mata onça Ou então um cangaceiro”. MELLO, Frederico Pernambucano de. Quem foi Lampião. Recife/Zurique: Stahli, 1993. p. 25-6. No século XVIII, pode-se afirmar que já existia um núcleo significativo de povoamento no sertão, como mostra o mapa da página anterior, com predomínio da atividade pecuária. Além disso, as secas já causavam muitos problemas para a população local. Só nesse século foram registrados sete períodos de seca. O historiador Marco Antonio Villa menciona: A seca de 1723-1727, que atingiu todo o Nordeste, promoveu, além de desastrosos efeitos econô- micos, o deslocamento das populações para as áreas menos afetadas pelo flagelo e o surgimento de pequenos grupos de bandoleiros, que acaba- ram marcando durante mais de dois séculos a história da região. […] Em 1777, depois de outras duas grandes secas, novamente o flagelo atingiu a região. A pecuária foi severamente atingida. Segundo Thomaz Pompeu, no Ceará, o gado “ficou reduzido a menos de um oitavo e fazendei- ros que recolhiam mil bezerros não ficaram com 20 nos anos seguintes”. O mesmo quadro de des- truição atingiu o sertão das outras capitanias, que acabaram perdendo o mercado consumidor das Minas Gerais. […] Nos anos 1791-1793 ocorreu aquela que provavelmente foi a maior seca do sé- culo XVIII, atingindo Ceará, Pernambuco, Bahia, Sergipe, Alagoas, Rio Grande do Norte, Paraíba e até o Piauí. No Ceará, segundo Joaquim Catunda, “no ano de 1792 as águas desapareceram comple- tamente em grande parte da capitania. Morreram os gados, os vaqueiros, muitos fazendeiros e os animais domésticos e bravios. As estradas jun- cadas de cadáveres, famílias inteiras mortas de fome e sede, e envolvidas no pó dos campos; o in- terior deserto; a população esfaimada e dizimada pela peste nos povoados do litoral; atulhadas de retirantes as capitanias vizinhas, esmolando uns, furtando outros, trabalhando poucos. VILLA, Marco Antonio. Vida e morte no sertão. São Paulo: Ática, 2001. p. 19-20. A população estava sempre despreparada para os momentos de seca, por isso seus efeitos eram catastróficos. Surgiam epidemias, como a da varíola, em época de fome, e a vida econômica oscilava entre altos e baixos, conforme a extensão das secas. No século XIX, após a Independência do Brasil, o banditismo começou a se espalhar pelo 15 açucareira. Até os dias atuais, as carnes salgadas, como a carne de sol, são uma tradição presente em Essa criação extensiva de gado originou tam- bém os primeiros latifúndios do sertão. Colonos recebiam da Coroa grandes quantidades de terras na forma de sesmaria. Por intermédio de carta régia expedida pelo rei, os colonos tomavam posse de terras desocupadas. Nessa atividade, o trabalho escravo não predominou, sendo comum o paga- mento de vaqueiros que recebiam mantimentos e Desde o início, os conflitos dos europeus e seus descendentes com os povos indígenas tornaram-se inevitáveis na exploração do território com a finali- dade de constituir pastos para o gado. Mais do que a catequese dos jesuítas ou as alianças interessei- ras, nessa região as lutas armadas com os indíge- nas foram mais comuns, podendo também estar aí uma das origens do cangaço, como veremos mais adiante. O povo Tabajara, por exemplo, que vivia no Nordeste, resistiu ferozmente aos colonizadores. Chegou mesmo a ocorrer a Guerra dos Bárbaros, “Ali se aprecia muito Um cantador, um vaqueiro Um amansador de poldro Que seja bom catingueiro Um homem que mata onça Ou então um cangaceiro”. MELLO, Frederico Pernambucano de. Quem foi Lampião. Recife/Zurique: Stahli, 1993. p. 25-6. No século XVIII, pode-se afirmar que já existia um núcleo significativo de povoamento no sertão, como mostra o mapa da página anterior, com predomínio da atividade pecuária. Além disso, as secas já causavam muitos problemas para a população local. Só nesse século foram registrados sete períodos de seca. O historiador Marco Antonio Villa menciona: A seca de 1723-1727, que atingiu todo o Nordeste, promoveu, além de desastrosos efeitos econô- micos, o deslocamento das populações paraas áreas menos afetadas pelo flagelo e o surgimento de pequenos grupos de bandoleiros, que acaba- ram marcando durante mais de dois séculos a história da região. […] Em 1777, depois de outras duas grandes secas, novamente o flagelo atingiu 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS sertão nordestino nesses períodos de penúria. O governo imperial pouco investiu na região, embo- ra tenham surgido os primeiros projetos de cons- trução de açudes e se tenham introduzido camelos e dromedários como meio de transporte nesses locais de seca. Essa última iniciativa, entretanto, não obteve nenhum sucesso. As secas continuaram no século XIX, e, nos períodos em que elas se estenderam, as cidades do sertão ficaram “inchadas” de retirantes à pro- cura de comida e trabalho. Na seca de 1877, mais de 50 mil retirantes foram para Fortaleza em pou- cas semanas. No mesmo ano, o jornal paraibano A Opinião noticiou, em 11 de novembro, que: […] os sertões estão ficando desertos pela emigra- ção […]; e nos brejos surge a miséria pela supera- bundância de emigrantes que de tudo precisam, e nada conduzem. Apud VILLA, Marco Antonio. Vida e morte no sertão. São Paulo: Ática, 2001. p. 52. Parte dessa população ia para o litoral e aca- bava sendo explorada pelos produtores de açúcar, que pagavam ínfimos salários aos trabalhadores famintos. Outros retirantes iam para a Amazônia tentar a sorte na economia da borracha em ascen- são. No entanto, chegavam à região endividados com o transporte e trabalhavam para pagar dívi- das em regime que se aproximava da escravidão. Também doenças como a cólera, o tifo e a varíola mataram milhares de emigrantes. Em cidades como Fortaleza, meninas, filhas de retirantes, ainda muito jovens, já se entregavam à prostitui- ção como forma de ganhar algum dinheiro na luta contra a fome. Mesmo com as tragédias ocorridas durante a seca de 1877-1879, não houve mobilização gover- namental suficiente para mudar a situação com relação à seca. O imperador Dom Pedro II não se manifestou quanto ao problema. As autoridades locais pareciam mais preocupadas com a lavou- ra açucareira, não concentrando esforços no Nordeste das secas. Ao longo do século XIX, o sul brasileiro acabou por se tornar um polo pecuário, tornando ainda mais difícil a situação da economia do sertão, que não era mais o único setor produtor de carnes e couros para as regiões litorâneas. Com a procla- mação da República, evidentemente, os interesses dos cafeicultores do Sudeste brasileiro prevale- ceram. O federalismo implementado tinha como principal objetivo permitir que os ricos governos do Sudeste pudessem fazer investimentos, sem ter de prestar contas ao governo federal e sem ter de destinar recursos aos estados de outras regiões do país. No Nordeste, as famílias tradicionais oligárqui- cas trataram de fazer funcionar a seu favor a nova ordem política. Os governos estaduais, regidos por constituições locais, passaram a servir dire- tamente aos seus interesses. No caso do Ceará, a família Accioly, liderada inicialmente por Nogueira Accioly, teve o domínio político do estado entre 1896 e 1912. Para se manter no poder, não só se submetia às ordens do governo federal, como contava com o auxílio de coronéis que garantiam os resultados eleitorais nas localidades. Aos seus opositores cabia a perseguição e a repressão. Em Pernambuco dominaram os Rosa e Silva, em Alagoas os Maltas e no Piauí os Pires Ferreira. Quando entre 1898 e 1900 ocorreu uma grande seca, ficou claro que o governo federal não aten- deria à região. O então presidente Campos Sales não destinou recursos suficientes para combater os efeitos dela. Em 1915, uma nova seca atingiu o Nordeste e mais uma vez os retirantes foram para as cidades. A fome e as doenças começaram a fazer muitos mortos. Obedecendo ao jogo oligár- quico, os governadores não enfrentaram o gover- no federal, e os recursos novamente não vieram para combater a seca. Para complicar ainda mais a situação, em 1915 a borracha amazônica já se encontrava em decadência como atividade econô- mica, tornando ainda mais difíceis as migrações. Nesse período, a região Nordeste começou a perder a liderança na produção de ovinos, bovinos e caprinos para o sul do país, pois milhares de animais morreram com a seca. Em 1919, o então presidente Epitácio Pessoa propôs a realização de obras de irrigação no Nordeste, como a construção de açudes e poços. Queria ainda ampliar as estradas para facilitar a circulação de mercadorias na região. No entanto sofreu forte oposição no Congresso, principal- mente da bancada do sudeste e do sul do país. A oposição temia, entre outros motivos, que essas atitudes levassem à desapropriação de terras irrigadas que não fossem cultivadas. Em 1920, quando uma nova seca atingiu o Nordeste, Epitácio Pessoa conseguiu dar andamento a algumas obras. Construiu mais de 200 açudes e perfurou mais de 100 poços, além de reformar estradas e portos. No entanto, nos anos finais da Primeira República, não se repetiram os esforços de Epitácio Pessoa, que deixou o governo com a imagem desgastada. 16 sertão nordestino nesses períodos de penúria. O governo imperial pouco investiu na região, embo- ra tenham surgido os primeiros projetos de cons- trução de açudes e se tenham introduzido camelos e dromedários como meio de transporte nesses locais de seca. Essa última iniciativa, entretanto, não obteve nenhum sucesso. As secas continuaram no século XIX, e, nos períodos em que elas se estenderam, as cidades do sertão ficaram “inchadas” de retirantes à pro- cura de comida e trabalho. Na seca de 1877, mais de 50 mil retirantes foram para Fortaleza em pou- cas semanas. No mesmo ano, o jornal paraibano A Opinião noticiou, em 11 de novembro, que: […] os sertões estão ficando desertos pela emigra- ção […]; e nos brejos surge a miséria pela supera- bundância de emigrantes que de tudo precisam, e nada conduzem. Apud VILLA, Marco Antonio. Vida e morte no sertão. São Paulo: Ática, 2001. p. 52. Parte dessa população ia para o litoral e aca- bava sendo explorada pelos produtores de açúcar, que pagavam ínfimos salários aos trabalhadores ter de destinar recursos aos estados de outras regiões do país. cas trataram de fazer funcionar a seu favor a nova ordem política. Os governos estaduais, regidos por constituições locais, passaram a servir dire- tamente aos seus interesses. No caso do Ceará, a família Accioly, liderada inicialmente por Nogueira Accioly, teve o domínio político do estado entre 1896 e 1912. Para se manter no poder, não só se submetia às ordens do governo federal, como contava com o auxílio de coronéis que garantiam os resultados eleitorais nas localidades. Aos seus opositores cabia a perseguição e a repressão. Em Pernambuco dominaram os Rosa e Silva, em Alagoas os Maltas e no Piauí os Pires Ferreira. seca, ficou claro que o governo federal não aten- deria à região. O então presidente Campos Sales não destinou recursos suficientes para combater os efeitos dela. Em 1915, uma nova seca atingiu o Nordeste e mais uma vez os retirantes foram para as cidades. A fome e as doenças começaram a O B R A SI L D O S ER TÃ O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Acima, chegada de retirantes em Fortaleza (CE). Milhares de sertanejos que migraram para lá, na seca de 1915, foram abrigados em locais que ficaram conhecidos como “campos de concentração”, pois as pessoas não podiam sair sem permissão das autorida- des, e as condições de vida e higiene eram as piores possíveis. Abaixo, foto de família em um desses “campos”, em cerca de 1910. Arquivo particular Biblioteca MunicipalMário de Andrade, São Paulo (SP) 17 Acima, chegada de retirantes em Fortaleza (CE). Milhares de sertanejos que migraram para lá, na seca de 1915, foram abrigados em locais que ficaram conhecidos como “campos de concentração”, pois as pessoas não podiam sair sem permissão das autorida- des, e as condições de vida e higiene eram as piores possíveis. Abaixo, foto de família em um desses “campos”, em cerca de 1910. 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS O sertão do cangaço O cangaço refere-se aos grupos de pessoas armadas que, com suas roupas e chapéus de couro, faziam assaltos, matavam opositores, enfim, viviam sob suas próprias regras. Esses homens e mulheres, os cangaceiros, estiveram muito presentes no ser- tão nordestino entre os anos 1910 e 1940. A palavra “cangaço” faz referência a canga, peça de madeira que segura o boi pelo pescoço. É uma alusão à carga que os cangaceiros carregavam no corpo, a qual muitas vezes ultrapassava os vinte quilos. De que maneira o cangaço estabelece rela- ção com a história da pecuária e das secas no Nordeste? Para responder a essa questão é necessário estar atento ao duplo significado que o cangaço pode ter. É possível se reportar aos cangaceiros para fazer referência aos grupos de homens armados que prestavam serviço aos chefes políticos de dada localidade e que eram pagos para cumprir as ordens desses senhores. Esse tipo de grupo arma- do já existia no Brasil há mais tempo, desde pelo menos o século XVIII. A historiadora Maria Isaura Pereira de Queiroz explica: Qualquer dissensão, por pequena que fosse, no in- terior de uma parentela, ou entre duas parentelas, imediatamente dava início a um conflito, que podia desenvolver-se na forma de uma “guerra de famí- lias”, se estendendo por várias gerações. Assim, por exemplo, na luta entre Pereiras e Carvalhos, na zona de Pajeú de Flores, Pernambuco, a cada pequeno Pereira que nascia, aconselhavam seus avós, seus pais, seus padrinhos “que procurasse o seu Carvalho a quem devia liquidar”, o mesmo acontecia entre os Carvalhos e a pendência, ora violenta, ora larvada. […] QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. História do cangaço. São Paulo: Global, 1997. p. 23. Na Primeira República, essas lutas estavam diretamente ligadas à disputa oligárquica pelo domínio político local. Já os grupos de cangacei- ros independentes surgiram mais tarde e lutavam em defesa de seus próprios interesses. Errantes e sem residência fixa, eram fugitivos da polícia e de grupos armados particulares que queriam seu extermínio. O mais famoso desses grupos, como veremos mais adiante, foi o liderado por Lampião entre 1920 e 1930. Esses grupos independentes eram uma resposta à miséria que se instalava no Nordeste principalmente nos períodos de seca. Sobre a origem mais remota do cangaço, como já lembramos, devemos considerar que a própria história da colonização da região envolveu cons- tantes conflitos entre a população indígena e os colonos pela posse da terra destinada à pecuária. Com isso, a utilização de armas e as lutas sangren- tas entre indígenas e colonos eram comuns, assim como as brigas entre famílias. O ser humano do cangaço certamente nasceu dessa fusão cultural entre uma população indígena que resistia ao domínio e um grupo de colonizadores que lutava para conquistar terras a qualquer preço. Os cangaceiros buscavam o enriquecimento pelo roubo, e se vingavam dos inimigos com vio- lência e morte. Procuravam construir alianças que lhes garantissem segurança temporária. Uma das formas de os chefes locais evitarem o confronto com os cangaceiros era estabelecer alianças com o bando, que se transformavam em relações de compadrio. Conforme Maria Isaura P. de Queiroz: Um dos melhores exemplos destas relações de aliança está no pacto implicitamente estabelecido entre Lampião e o poderoso chefe político do muni- cípio de Jeremoabo, ao norte da Bahia, Cel. João Sá. Vangloriava-se João Sá de ser tão temido e respeita- do, que o próprio Lampião, que tanto havia circulado pela região, nunca atacara as “suas” fazendas e a “sua” cidade. Na verdade, vários documentos demonstram que João Sá frequentava os acampa- mentos de Lampião, principalmente o que estabe- lecera no Raso da Catarina, sendo parceiro habitual das rodas de jogo que o chefe de cangaceiros ali organizava frequentemente. Este relacionamento se estreitara ainda mais porque João Sá aceitara ser padrinho de filhos de Lampião com Maria Bonita. QUEIROZ, op. cit., p. 33. Os bandoleiros também comprometiam comu- nidades inteiras ao propagar o medo. Ameaçavam aqueles que se voltavam contra eles e premiavam com dinheiro e proteção os que estivessem do seu lado. Uma das atividades que exerciam era exata- mente a venda de proteção a fazendeiros, com a qual o bando de Lampião ganhou muito dinheiro. Economicamente, aderir ao cangaço poderia ser uma forma de alcançar rendimento, coisa que o trabalho na terra ou outras atividades jamais pro- porcionariam a um cidadão pobre. Os cangaceiros contavam com uma rede de colaboradores e pro- tetores, os coiteiros, que informavam quando a polícia ou outro inimigo se aproximava. Os inimigos do cangaço poderiam se alistar na polí- cia ou aderir às volantes, grupo de soldados liderados por um tenente ou um sargento que perseguia os cangaceiros sem pertencer a um quartel fixo. Assim, o conflito ganhava dupla dimensão: de um lado, o grupo de cangaceiros assaltava, matava e ameaçava comunidades; de outro, as volantes e as polícias locais 18 O sertão do cangaço O cangaço refere-se aos grupos de pessoas armadas que, com suas roupas e chapéus de couro, faziam assaltos, matavam opositores, enfim, viviam sob suas próprias regras. Esses homens e mulheres, os cangaceiros, estiveram muito presentes no ser- tão nordestino entre os anos 1910 e 1940. A palavra “cangaço” faz referência a canga, peça de madeira que segura o boi pelo pescoço. É uma alusão à carga que os cangaceiros carregavam no corpo, a qual muitas vezes ultrapassava os vinte quilos. De que maneira o cangaço estabelece rela- ção com a história da pecuária e das secas no Nordeste? Para responder a essa questão é necessário estar atento ao duplo significado que o cangaço pode ter. É possível se reportar aos cangaceiros para fazer referência aos grupos de homens armados que prestavam serviço aos chefes políticos de dada localidade e que eram pagos para cumprir as ordens desses senhores. Esse tipo de grupo arma- do já existia no Brasil há mais tempo, desde pelo menos o século XVIII. A historiadora Maria Isaura tantes conflitos entre a população indígena e os colonos pela posse da terra destinada à pecuária. Com isso, a utilização de armas e as lutas sangren- tas entre indígenas e colonos eram comuns, assim como as brigas entre famílias. O ser humano do cangaço certamente nasceu dessa fusão cultural entre uma população indígena que resistia ao domínio e um grupo de colonizadores que lutava para conquistar terras a qualquer preço. pelo roubo, e se vingavam dos inimigos com vio- lência e morte. Procuravam construir alianças que lhes garantissem segurança temporária. Uma das formas de os chefes locais evitarem o confronto com os cangaceiros era estabelecer alianças com o bando, que se transformavam em relações de compadrio O B R A SI L D O S ER TÃ O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Lampião (à esquerda), em 1922, quando iniciou como chefe do cangaço. Na foto, tirada na Fazenda da Pedra, município de Princesa (PB), aparecem também Livino, Antônio Rosa e Antônio Ferreira, seus companheiros. C ol eç ão p ar ti cu la r cometiam todotipo de violência em busca dos bandi- dos e também para manter o domínio local. Antônio Silvino foi um dos primeiros que formaram um desses grupos de cangaceiros inde- pendentes. Nascido em 1875, em Pernambuco, era descendente de uma família tradicional da região. Em 1896, decidido a vingar a morte do pai, juntou-se a um bando já formado, do qual depois se tornou líder. Após liquidarem vários de seus inimigos, os bandoleiros prosseguiram lutando contra a polícia, promovendo assaltos e armando tocaias para autoridades e instituições governamentais. Silvino considerava as autoridades do governo, em todos os níveis, seu maior inimigo. Andava pelo sertão com um grupo pequeno, quase nunca superior a seis homens, fortemente armado. Em 1912, tentou abandonar a vida de cangaceiro e pediu ao governo do Estado que perdoasse seus crimes. Como a resposta foi negativa, voltou a atuar como bandido. Cobrava impostos de comerciantes e negociantes, assaltava trens e não reconhecia nenhum tipo de autoridade legal. Em 1914, acabou sendo capturado no município de Taquaretinga (PE) pelas forças policiais lideradas por José Alvino, ex- -comerciante que entrara para a polícia depois de ter sido assaltado por Antônio Silvino e que havia prometido capturar o cangaceiro. Silvino ficou preso por mais de vinte anos; libertado, foi morar com a esposa no Rio de Janeiro. Uma vez lá, solicitou emprego ao presidente Getúlio Vargas. Chegou mesmo a ser recebido pelo presidente, que lhe concedeu o emprego. Morreu em 1944. Virgulino Ferreira da Silva, conhecido como Lampião, nasceu na fazenda de seus pais, no Vale do Pajeú, Pernambuco, em 1897. Era filho de um modesto fazendeiro que foi morar no estado per- nambucano após matar inimigos no Ceará, sua terra natal. Depois de novos conflitos entre famílias, foi viver em Alagoas. Na cidade de Água Branca, seus filhos, incluindo Virgulino, começaram a participar de um grupo de cangaceiros. A polícia alagoana passou a perseguir os Ferreira da Silva após um ataque a uma vila. O pai de Lampião acabou sendo assassinado pela polícia. Em seguida morreu a mãe, e os irmãos regressaram para Pernambuco. Em 1918, Lampião ingressou no bando formado por Sinhô Pereira, descendente de família rica e influente de Pernambuco. Ganhou então o apelido por ser muito rápido no gatilho e porque de sua arma saía um constante clarão dos disparos, como um lampião. Em 1922, Sinhô Pereira abandonou a região e Lampião se tornou o chefe do bando. A partir daí, o bando de Lampião começou a sobreviver de assaltos e das ameaças que fazia a fazendeiros e chefes locais. Temidos, os canga- ceiros conseguiram estabelecer várias alianças, recebendo proteção de autoridades e fazendei- ros. Quando se sentiam ameaçados, atacavam o inimigo e as pessoas que lhe eram próximas. Frequentemente Lampião enviava carta de cobran- ça ou advertência a possíveis aliados ou inimigos. Em 1927, enviou uma carta de cobrança para o pre- feito de Mossoró, Rodolfo Fernandes, na qual dizia: Estando Eu ate aqui pretendo é dr [dinheiro]. Ja foi um a viso, ahi pa oSinhoris, si por acauso rezolver mi a mandar-me a importança qui aqui nos pedi, Eu envito di Entrada ahi porem não vindo esta Emportança eu entrarei ate ahi, penço qui adeus querer, eu entro, i vai aver muito estrago, por isto si viro dr eu não entro ahi mas nos resposte logo. Apud MELLO, Frederico Pernambucano de. Quem foi Lampião. Recife/Zurique: Stahli, 1993. p. 142. 19 C ol eç ão p ar ti cu la r cometiam todo tipo de violência em busca dos bandi- foi um dos primeiros que formaram um desses grupos de cangaceiros inde- pendentes. Nascido em 1875, em Pernambuco, era descendente de uma família tradicional da região. Em 1896, decidido a vingar a morte do pai, juntou-se a um bando já formado, do qual depois se tornou líder. Após liquidarem vários de seus inimigos, os bandoleiros prosseguiram lutando contra a polícia, promovendo assaltos e armando tocaias para autoridades e instituições governamentais. Silvino considerava as autoridades do governo, em todos os níveis, seu maior inimigo. Andava pelo sertão com um grupo pequeno, quase nunca superior a seis homens, fortemente armado. Em 1912, tentou abandonar a vida de cangaceiro e pediu ao governo do Estado que perdoasse seus crimes. Como a resposta foi negativa, voltou a atuar como bandido. Cobrava impostos de comerciantes e negociantes, assaltava trens e não reconhecia nenhum tipo de autoridade legal. Em 1914, acabou sendo capturado no município de Taquaretinga (PE) pelas forças policiais lideradas por José Alvino, ex- a fazendeiros e chefes locais. Temidos, os canga- ceiros conseguiram estabelecer várias alianças, recebendo proteção de autoridades e fazendei- ros. Quando se sentiam ameaçados, atacavam o inimigo e as pessoas que lhe eram próximas. Frequentemente Lampião enviava carta de cobran- ça ou advertência a possíveis aliados ou inimigos. Em 1927, enviou uma carta de cobrança para o pre- feito de Mossoró, Rodolfo Fernandes, na qual dizia: Estando Eu ate aqui pretendo é dr [dinheiro]. Ja foi um a viso, ahi pa oSinhoris, si por acauso rezolver mi a mandar-me a importança qui aqui nos pedi, Eu envito di Entrada ahi porem não vindo esta Emportança eu entrarei ate ahi, penço qui adeus querer, eu entro, i vai aver muito estrago, por isto si viro dr eu não entro ahi mas nos resposte logo. Apud MELLO, Frederico Pernambucano de. Quem foi Lampião. Recife/Zurique: Stahli, 1993. p. 142. 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Em outra carta, de 1926, Lampião faz uma adver- tência ao sargento José Antônio do Nascimento, delegado de Juazeiro do Norte (CE): Eu lhi faço este, até não devia mi sujeitar a ti escrever porem sempre mando ti avizar pois eu soube qui no dia qui cheguei ahi na fazenda este- ve prompto para vir mi voltar porem, Eu sempre lhi digo qui Voce crie juizo, e deixi de violencias, pois Eu venho chamado é por home, mesmo asim, com zuada não mi faz medo. Eu tenho visto é cousa forte, e não me asombra, portanto deve e tratar de fazer amigos não para fazer como diz voce. Sempre lhi avizo, qui E para depois não se- arrepender e nada mais: não se zangue, isto E um conselho que lhi dou. Apud MELLO, op. cit., p. 141. O bando de Lampião era composto de um gran- de número de homens e também mulheres – chegou a ter mais de 120 bandidos sob seu comando direto e mais de 300 divididos em outros grupos –, que se espalhavam por vários estados do Nordeste realizando diferentes ações. Quando necessário, dispersavam-se para escapar de uma luta que não podiam ganhar. Andavam à noite pelas matas para evitar serem vistos e apareciam sempre de surpresa. Maria Isaura Pereira de Queiroz conta: Surgia inesperadamente nos povoados – como aconteceu em Souza, na Paraíba, em 1924. O ban- do cortara previamente os fios do telégrafo, im- possibilitando assim qualquer pedido de socorro para o exterior. Penetrando na vila, os cangaceiros pilharam as casas comerciais. Abasteceram-se em gêneros; envergaram roupas novas; organi- zaram um baile; gozaram os favores de algumas mulheres que não lhes resistiram. Em seguida partiram, levando com eles um menino para car- regar cobertores e bagagens – menino que mais tarde se tornou o cangaceiro Lua Branca. QUEIROZ, op. cit., p. 49. O historiador Frederico Pernambucano de Mello chama a atenção para a ostentação promo- vida por Lampião. Com as cobranças e os saques realizados, ele conseguia sustentar o luxo. Explica o historiador: Se a vestimenta dos bandoleiros do Nordeste sempre se mostrou imponente, a ponto de muitos jovens cederem à tentação de se ligar aos grupos por conta do fascínio quea beleza do trajo exercia sobre olhos habituados a cotidiano sem atrativos, a de Lampião refulgia num destaque que o tornava inconfundível em meio aos seus homens. Começa pelo tecido. Enquanto o brim mais comum para a confecção da calça e da túnica era a mescla azul ou o cáqui, ele preferia o tecido de cor grafite realçado por botões de ouro. Sobre a túnica, estreitadas por dobras e apresilhadas nas pontas, cingiam-se as cobertas em forma de X sobre o tórax. A de deitar e a de cobrir, como se dizia no costume. Ambas nor- malmente em chita forrada, a estamparia de cores berrantes. As dele eram feitas em bramante da melhor qualidade […]. Os lenços de pescoço iam da seda pura de procedência inglesa ao tafetá fran- cês. Estampados vivamente em cores fortes […]. Sem limite no amor ao ouro e às pedras preciosas, usava, exagerando a moda entre bandoleiros, anéis em quase todos os dedos das mãos, alguns com esmeralda, outros com rubi, outros ainda com brilhante solitário ou em chuveiro. Houve dedo que teve a honra de receber mais de um anel. Aliança, crucifixo, lapiseira, tesoura de unha, tudo de ouro puro. De ouro também as 15 moedas antigas de que se achava adornada a bandoleira do mosque- tão, em cuja boca de cano se incrustavam duas alianças do mesmo metal. MELLO, op. cit., p. 45-7. Em 1926, Lampião foi chamado pelo padre Cícero para lutar contra a Coluna Prestes. Aceitou após promessa de que seria nomeado capi- tão do exército e receberia uniformes e munição do governo federal. Isso não impediu, contudo, que seguisse depois sua vida como cangaceiro. No final de 1930, Lampião juntou-se a Maria Bonita, que teria declarado amor a ele e dis- posição de seguir com o bando. Foi a primeira mulher a ser admitida no grupo de cangaceiros. Depois disso, vários cangaceiros tiveram compa- nheiras vivendo com o grupo. Maria Bonita e as outras mulheres lutavam com o bando, assumindo o papel de cangaceiras. Nos anos 1930, Lampião e Maria Bonita insta- laram-se em uma fazenda em Angico, no Sergipe. De lá ele comandava as várias células do grupo e participava de algumas incursões. Frederico Pernambucano comenta: […] sem abandonar de todo os procedimentos velhíssimos do assalto direto e da venda de pro- teção a fazendeiros e a quem quer que tivesse patrimônio a perder no sertão, troca o ataque frontal a cidades por uma espécie de imposto sobre transações imobiliárias. E ai de quem com- prasse ou vendesse fazenda na região do baixo São Francisco sem comparecer com a cota fixada pela lei do cangaço. […] Nos anos finais da dé- cada de [19]30, o cangaço sobrevivia menos pela força das armas que pela eficácia de relações de clientela e corrupção tecidas pela versatilidade extraordinária de seu chefe máximo. MELLO, op. cit., p. 77 e 80. 20 Em outra carta, de 1926, Lampião faz uma adver- tência ao sargento José Antônio do Nascimento, delegado de Juazeiro do Norte (CE): Eu lhi faço este, até não devia mi sujeitar a ti escrever porem sempre mando ti avizar pois eu soube qui no dia qui cheguei ahi na fazenda este- ve prompto para vir mi voltar porem, Eu sempre lhi digo qui Voce crie juizo, e deixi de violencias, pois Eu venho chamado é por home, mesmo asim, com zuada não mi faz medo. Eu tenho visto é cousa forte, e não me asombra, portanto deve e tratar de fazer amigos não para fazer como diz voce. Sempre lhi avizo, qui E para depois não se- arrepender e nada mais: não se zangue, isto E um conselho que lhi dou. Apud MELLO, op. cit., p. 141. O bando de Lampião era composto de um gran- de número de homens e também mulheres – chegou a ter mais de 120 bandidos sob seu comando direto e mais de 300 divididos em outros grupos –, que se espalhavam por vários estados do Nordeste realizando diferentes ações. Quando necessário, dispersavam-se para escapar de uma luta que Cícero O B R A SI L D O S ER TÃ O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Cangaceiros e cangaceiras do bando de Lampião, em foto de cerca de 1936. Cartaz de 1930 anuncia a recompensa oferecida pela morte ou captura de Lampião, o bandido mais procurado pelas autoridades nordestinas na época. Fo to s: C ol eç ão P ar ti cu la r Em Angico, Lampião foi traído por um vaqueiro que denunciou quem sabia seu paradeiro. Pedro de Cândida, coiteiro de Lampião, foi preso em 1938 e pressionado a revelar o esconderijo e a acompanhar a polícia até o local. Lá chegando, os policiais sur- preenderam parte do bando e Lampião. Todos foram fuzilados e decapitados, e suas cabeças expostas em várias cidades nordestinas, como Piranhas (AL), Poço Redondo (SE) e Maceió (AL). Foram levadas ao Rio de Janeiro (RJ) e, por fim, a Salvador (BA), onde foram mumificadas. A morte dos cangaceiros insere-se no contexto da implementação da ditadura do Estado Novo, quando uma nova ordem jurídica e um maior con- trole do Estado sobre a vida local foram estabele- cidos. Isso favoreceu a redução da corrupção nos órgãos do governo e limitou a ação dos coronéis. Vários subgrupos ligados a Lampião que esca- param da chacina se entregaram à polícia. Contudo um deles, chefiado por Corisco, continuou em ação. Em 1932, o grupo de Lampião já havia se dividido em três subgrupos: um sob o comando de Lampião, outro sob o comando de Virgínio e o último sob o comando de Corisco. Esses grupos realizavam ataques simultâneos, o que confundia as autoridades. Depois, reuniam-se para combinar novas estratégias, fazer novos planos e partilhar o que tinham saqueado. Após 1937, Corisco começou a agir por conta própria, afastando-se aos poucos de Lampião. Depois da morte deste, passou a per- seguir seus supostos delatores e matadores. Vários foram assassinados até que, em 1940, o próprio Corisco foi morto em uma perseguição. Concluindo, podemos afirmar que o cangaço tinha relação com brigas locais entre parentes 21 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Monumento a padre Cícero em Juazeiro do Norte (CE), em foto de 2007. R od ri go L ob o/ JC Im ag em e vizinhos, mas também com disputas políticas, inserindo-se nesse universo na medida em que estabelecia alianças, debelava inimigos e escolhia aliados. No entanto, os cangaceiros independentes não foram prestadores de serviço dos homens ricos; ao contrário, determinavam as alianças con- forme seus interesses. Para Maria Isaura Pereira de Queiroz, o cangaço podia funcionar, em algumas circunstâncias, como fiel da balança da luta entre duas grandes parentelas. A decadência do açúcar e do algodão como ati- vidades econômicas no final do século XIX, a crise da borracha na Amazônia nas primeiras décadas do século XX e a falta de empregos em um sertão que crescia em termos populacionais certamente colaboraram para que surgissem os cangaceiros independentes. Nesse sentido, o cangaço foi uma alternativa à miséria, embora nunca tenha se con- figurado como movimento social que lutava contra a fome ou a pobreza extrema. Em 1920, um cordel de José Martins de Ataíde denunciava o destino do nordestino: “Pedir esmola hoje em dia / Não é boa profissão, / Então ele deixa a vida / Segue a pé para o sertão, / Somente pra se vingar / Vai pedir pra se alistar / No grupo de Lampião” (citado em: MELLO, op. cit., p. 59). O sertão do padre Cícero Não se pode deixar de considerar o sertão como espaço do sagrado. Palco de movimentos messiâni- cos como Canudos, nessa terra árida foram e são frequentes os peregrinos, os beatos e os romeiros. O padre Cícero, chamado também de Padim Ciço, representa esse universo da crença popular, sendo uma das figuras religiosas mais cultuadasno interior nordestino até os dias atuais. Cícero Romão Batista nasceu no município do Crato, no Ceará, em 1844. Ordenou-se padre em 1870 e, dois anos depois, mudou-se para Juazeiro do Norte, onde permaneceu pelo resto da vida. Lá res- taurou a capela de Nossa Senhora das Dores e pas- sou a desenvolver um trabalho pastoral. Pregava em missões, participava de novenas e organizava festas religiosas e procissões. Sua popularidade foi aumentando ano após ano, sendo considerado um religioso despretensioso e dedicado ao povo. Em 1889, durante uma missa, a lavadeira Maria de Araújo recebeu o sacramento e foi ao chão. A hóstia em sua boca parecia estar envolvida por um líquido cor de sangue. Esse acontecimento ficou conhecido como o “milagre de Juazeiro”. Isso ainda teria ocorrido outras vezes, e ficou provado, por um grupo de médicos, que ela não mordia a língua nem utilizava qualquer artifício. O fenômeno só acontecia quando o padre Cícero celebrava a missa. A comunidade local interpretou o episódio como uma alusão ao derramamento de sangue de Jesus Cristo para a salvação dos seres humanos, e multidões começaram a frequentar o vilarejo para ver o fenômeno. Com o constante crescimento das romarias a Juazeiro do Norte, o bispado cearense interveio e cobrou explicações do padre Cícero, pois a Igreja Católica passava por um processo de romanização, ou seja, de negação das práticas locais e afirma- ção das orientações do Vaticano para uniformizar as condutas. Em 1892, autoridades eclesiásticas consideraram que o ocorrido em Juazeiro não se tratava de um milagre, e ordenaram que se apre- sentasse uma nova interpretação. No entanto, as romarias não cessaram, ampliando a crença popu- lar no milagre. Nesse mesmo ano, o padre Cícero foi suspenso, proibido de pregar a religião católica. Em 1896, persistindo as romarias e as missas, a Igreja Católica ordenou que ele se retirasse de Juazeiro. O padre foi para Salgueiro (PE) e, em 1898, viajou para Roma a fim de se explicar ao Santo Ofício. Lá foi julgado e o milagre, mais uma vez, condenado. No entanto, não foi expulso da Igreja. Novamente no Brasil, não conseguiu fazer com que o bispado cearense aceitasse seu retorno a Juazeiro. Voltou para a cidade, entretanto não reatou com a Igreja. Nos muitos anos que este- ve sob o comando da Igreja em Juazeiro, padre Cícero recebeu inúmeras doações de fiéis, que fizeram dele um homem de respeitá- vel patrimônio. Tinha muitas terras, gado e comercializava vários produtos, entre eles borracha, cana-de- -açúcar e algodão. Monumento a padre Cícero em Juazeiro do Norte (CE), em foto de 2007. R od ri go L ob o/ JC Im ag em Nos muitos anos que este- ve sob o comando da Igreja em Juazeiro, padre Cícero recebeu inúmeras doações de fiéis, que fizeram dele um homem de respeitá- vel patrimônio. Tinha muitas terras, gado e comercializava vários produtos, entre eles borracha, cana-de- -açúcar e algodão. 22 e vizinhos, mas também com disputas políticas, inserindo-se nesse universo na medida em que estabelecia alianças, debelava inimigos e escolhia aliados. No entanto, os cangaceiros independentes não foram prestadores de serviço dos homens ricos; ao contrário, determinavam as alianças con- forme seus interesses. Para Maria Isaura Pereira de Queiroz, o cangaço podia funcionar, em algumas circunstâncias, como fiel da balança da luta entre duas grandes parentelas. A decadência do açúcar e do algodão como ati- vidades econômicas no final do século XIX, a crise da borracha na Amazônia nas primeiras décadas do século XX e a falta de empregos em um sertão que crescia em termos populacionais certamente colaboraram para que surgissem os cangaceiros independentes. Nesse sentido, o cangaço foi uma alternativa à miséria, embora nunca tenha se con- figurado como movimento social que lutava contra a fome ou a pobreza extrema. Em 1920, um cordel de José Martins de Ataíde denunciava o destino do nordestino: “Pedir esmola hoje em dia / Não é boa profissão, / Então ele deixa a vida / Segue a pé língua nem utilizava qualquer artifício. O fenômeno só acontecia quando o padre Cícero celebrava a missa. A comunidade local interpretou o episódio como uma alusão ao derramamento de sangue de Jesus Cristo para a salvação dos seres humanos, e multidões começaram a frequentar o vilarejo para ver o fenômeno. Juazeiro do Norte, o bispado cearense interveio e cobrou explicações do padre Cícero, pois a Igreja Católica passava por um processo de romanização, ou seja, de negação das práticas locais e afirma- ção das orientações do Vaticano para uniformizar as condutas. Em 1892, autoridades eclesiásticas consideraram que o ocorrido em Juazeiro não se tratava de um milagre, e ordenaram que se apre- sentasse uma nova interpretação. No entanto, as romarias não cessaram, ampliando a crença popu- lar no milagre. Nesse mesmo ano, o padre Cícero foi suspenso, proibido de pregar a religião católica. Em 1896, persistindo as romarias e as missas, a Igreja Católica ordenou que ele se retirasse de Juazeiro. O padre foi para Salgueiro (PE) e, em 1898, viajou O B R A SI L D O S ER TÃ O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Sem o apoio da Igreja, aliou-se aos coronéis locais. Os muitos romeiros que passaram a fre- quentar a região eram encaminhados por ele para servirem como trabalhadores nas fazendas locais, resolvendo o grave problema de mão de obra enfrentado pelos proprietários. Em 1911, Juazeiro foi emancipada do município do Crato, e padre Cícero foi indicado para o cargo de prefeito pelo governador Nogueira Accioly, líder oligarca local. Transformado em importante líder político da região do Cariri, intermediou negociação para que cessassem as disputas armadas entre os vários coronéis locais. Em 1912, foi eleito vice-presidente do Ceará e ampliou sua influência política sobre o Nordeste. Em 1914, liderou a chamada Sedição de Juazeiro, que depôs o governador. Depois voltou a ser prefeito de Juazeiro, deixando o cargo somente em 1927. Nos anos 1930, perdeu espaço político após a ascensão de Getúlio Vargas. Tentou ainda recuperar o direito de sacerdócio, mas não obteve sucesso. Padre Cícero faleceu em 1934, aos 90 anos, causando grande comoção popular. As romarias continuaram e se intensificaram nos anos seguintes, e ele foi transformado em mito popular relacionado ao milagre original. Juazeiro do Norte se transformou em uma cidade-santuário, e até hoje milhares de romeiros visitam a grande imagem do padre Cícero. Em 2002, cerca de 500 mil pessoas participaram da romaria que se iniciou em 1.º de setembro e se estendeu até o dia 15 do mesmo mês. Fiéis das mais diferentes regiões costumam ir até Juazeiro do Norte para pedir pelas chuvas no sertão e pela cura de doenças. Nesse mesmo ano, uma comissão da Igreja deu início a um processo para reabilitar o padre Cícero, o que abriria caminho para, posterior- mente, tentar beatificá-lo e canonizá-lo. Em 2006, o Vaticano recebeu um dossiê de nove volumes sobre a vida do padre Cícero. As informações, preparadas por especialistas em teologia, foram anexadas ao processo de canonização. T A P O N T O D E V IS T A P O N T O D E V IS T A PONTO DE VISTA Chapéu de couro de chefe cangaceiro, adornado com a efígie de Pedro II, flor de lis e signos de salomão. Óculos de alcance alemão com estojo em couro e liga de prata pertencentes a Lampião. Alpercatas de ra- bicho usadas por cangaceiros. Observe as imagens e leia o texto a seguir. Depois, responda as questões do Roteiro de trabalho. Pesquisador estuda vestuário dos bandos Os cangaceiros de Lampião contrariavamuma regra básica das táticas de guerrilha adotadas no século XX: em vez de usar um figurino discreto para se confundir com a caatinga, abu-savam do estilo espalhafatoso e chamativo, a começar pelos chapéus de couro, de aba larga, com enfeites e moedas de ouro coladas, refletindo o sol do sertão. Esse vestuário, que incluía punhais de mais de 1 metro de lâmina e um total de 40 quilos de equipamento, foi estudado pelo pesquisador Antonio Amaury Corrêa de Araújo, autor de sete livros sobre cangaço e compadre de Sérgia Maria da Conceição, a Dadá, mulher de Corisco, con- siderada a “estilista” do bando. Apesar de esse estilo ter ficado mais conhecido graças às fotos do Fo to s: C ol eç ão P ar ti cu la r 23 Sem o apoio da Igreja, aliou-se aos coronéis locais. Os muitos romeiros que passaram a fre- quentar a região eram encaminhados por ele para servirem como trabalhadores nas fazendas locais, resolvendo o grave problema de mão de obra enfrentado pelos proprietários. Em 1911, Juazeiro foi emancipada do município do Crato, e padre Cícero foi indicado para o cargo de prefeito pelo governador Nogueira Accioly, líder oligarca local. Transformado em importante líder político da região do Cariri, intermediou negociação para que cessassem as disputas armadas entre os vários coronéis locais. Em 1912, foi eleito vice-presidente do Ceará e ampliou sua influência política sobre o Nordeste. Em 1914, , que depôs o governador. Depois voltou a ser prefeito de Nos anos 1930, perdeu espaço político após a ascensão de Getúlio Vargas. Tentou ainda recuperar o direito de sacerdócio, mas não obteve sucesso. Padre Cícero faleceu em 1934, aos 90 anos, causando grande comoção popular. As romarias continuaram e se intensificaram nos anos seguintes, e ele foi transformado em mito popular relacionado ao milagre original. Juazeiro do Norte se transformou em uma cidade-santuário, e até hoje milhares de romeiros visitam a grande imagem do padre Cícero. Em 2002, cerca de 500 mil pessoas participaram da romaria que se iniciou em 1.º de setembro e se estendeu até o dia 15 do mesmo mês. Fiéis das mais diferentes regiões costumam ir até Juazeiro do Norte para pedir pelas chuvas no sertão e pela cura de doenças. Nesse mesmo ano, uma comissão da Igreja deu início a um processo para reabilitar o padre Cícero, o que abriria caminho para, posterior- mente, tentar beatificá-lo e canonizá-lo. Em 2006, o Vaticano recebeu um dossiê de nove volumes sobre a vida do padre Cícero. As informações, preparadas por especialistas em teologia, foram anexadas ao processo de canonização. PONTO DE VISTA 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS ROTEIRO DE TRABALHO P O N T O D E V IS T A D E V IS T A P O N T O D E V IS T A P O N T O D E V IS T A 1. De que maneira o vestuário dos cangaceiros, conforme o texto, era adequado à realidade em que viviam? 2. Qual era a representação simbólica do vestuário de Lampião para outros cangaceiros e para parte da população? 3. No texto, que relações se estabelecem entre o poder e o vestuário? árabe Benjamim Abrahão, que conviveu com o grupo entre 1934 e 1935, os cangaceiros nem sempre usaram roupas vistosas e coloridas. No início de sua história de bandoleiro, Lampião trajava paletó. Depois do encontro com padre Cícero, em 1926, eles passaram a usar o uniforme de mescla azul- -acinzentada dos batalhões patrióticos, grupos formados para combater a Coluna Prestes. Na época, Lampião ganhou até patente de capitão para enfrentar a coluna. Passatempo – O hábito de usar enfeites nos chapéus, de acordo com Araújo, surgiu em 1934, quando Dadá, grávida, estava no Raso da Catarina, região desértica da Bahia, e para passar o tempo começou a bordar estrelas e outros objetos em bornais. Lampião gostou e pediu dois pares. A partir daí, vários can- gaceiros passaram a usar os enfeites. “Lampião era o manequim do grupo. Há casos de cangaceiros que, mesmo sem ter problema de visão, usavam óculos somente porque tinham visto ele com um.” A começar pelo chapéu, o equipamento se assemelhava a uma armadura para enfrentar as difíceis condições de vida na caatinga. No pescoço, talvez como uma lembrança dos embates com a Coluna Prestes, os cangaceiros usavam lenços vermelhos, presos por um anel, típicos dos gaúchos. Dois pedaços de pano eram trançados em “X” no corpo. Um era usado para fazer a torda (barraca) e outro um lençol. Em quatro bornais coloridos de pano, os cangaceiros levavam carne assada, farinha e rapadura, além de mudas de roupa e munição. Nas borrachas – espécies de cantis feitos de couro –, seguia a água. Na cintura, as cartucheiras viajavam cheias de balas para pistola, revólver e fuzil. Presos ao cinto, além das pistolas Parabellum, ficavam os punhais. As armas longas preferidas eram os fuzis Winchester – iguais aos dos filmes de faroeste americanos – conhecidos no Nordeste como rifle cruzeta. Poder – As alpercatas eram feitas de couro, presas com rebites de metal e muito resistentes, para facilitar a caminhada pelas veredas. Havia ainda o hábito de usar anéis de ouro e prata, além de perfume. “Como os cantores de pagode e os jogadores de futebol de hoje, os cangaceiros eram sinônimo de poder e dinheiro. Dá para imaginar o que significava para as mulheres a chegada deles a vilas paupérrimas do sertão”, ressalta Araújo. PESQUISADOR estuda vestuário dos bandos. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 9 jun. 2002. Disponível em: <www.estadao.com.br>. Acesso em: 1 jun. 2013. DOCUMENTOS D O C U M E N T O S Leia atentamente os textos a seguir e faça as atividades propostas no Roteiro de trabalho. A normalista (1892) Adolfo Caminha F oi numa tarde infinitamente calma de dezembro de 1877 que o capitão Bernardino de Mendonça chegou a Fortaleza pela estrada nova de Mecejana, depois de penosíssima viagem.A seca dizimava populações inteiras no sertão. Famílias sucumbiam de fome e de peste, cas- tigadas por um sol de brasa. Centenas de foragidos, arrastando os esqueletos seminus, cruzavam-se dia 24 árabe Benjamim Abrahão, que conviveu com o grupo entre 1934 e 1935, os cangaceiros nem sempre usaram roupas vistosas e coloridas. No início de sua história de bandoleiro, Lampião trajava paletó. Depois do encontro com padre Cícero, em 1926, eles passaram a usar o uniforme de mescla azul- -acinzentada dos batalhões patrióticos, grupos formados para combater a Coluna Prestes. Na época, Lampião ganhou até patente de capitão para enfrentar a coluna. Passatempo – O hábito de usar enfeites nos chapéus, de acordo com Araújo, surgiu em 1934, quando Dadá, grávida, estava no Raso da Catarina, região desértica da Bahia, e para passar o tempo começou a bordar estrelas e outros objetos em bornais. Lampião gostou e pediu dois pares. A partir daí, vários can- gaceiros passaram a usar os enfeites. “Lampião era o manequim do grupo. Há casos de cangaceiros que, mesmo sem ter problema de visão, usavam óculos somente porque tinham visto ele com um.” A começar pelo chapéu, o equipamento se assemelhava a uma armadura para enfrentar as difíceis condições de vida na caatinga. No pescoço, talvez como uma lembrança dos embates com a Coluna Prestes, os cangaceiros usavam lenços vermelhos, presos por um anel, típicos dos gaúchos. Dois pedaços de pano eram trançados em “X” no corpo. Um era usado para fazer a torda (barraca) e outro um lençol. Em quatro bornais coloridos de pano, os cangaceiros levavam carne assada, farinha e rapadura, além de mudas de roupa e munição. Nas borrachas – espécies de cantis feitos de couro –, seguia a água. Na cintura, as cartucheiras viajavam cheias de balas para pistola, revólvere fuzil. Presos ao cinto, além das pistolas Parabellum, ficavam os punhais. As armas longas preferidas eram os fuzis Winchester – iguais aos dos filmes de faroeste americanos – conhecidos no Nordeste como rifle cruzeta. Poder – As alpercatas eram feitas de couro, presas com rebites de metal e muito resistentes, para facilitar a caminhada pelas veredas. Havia ainda o hábito de usar anéis de ouro e prata, além O B R A SI L D O S ER TÃ O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS N T O S D O C U M EN T O S D O C U M EN T O S D O C U M EN T O S D O C U M EN T O S e noite no areial incandescente dos caminhos – abantesmas [fantasmas] da desgraça gemendo preces ao Deus dos cristãos, numa voz rouquenha, quase soluçada. Era um horror de misérias e aflições. Bernardino de Mendonça foi dos últimos que abalaram do interior da província para o litoral na pista dos socorros públicos. Totalmente desiludido, quase arruinado, vendo todos os dias passarem pela sua porta, em Campo Alegre, magotes de emigrantes andrajosos que batiam do sertão num êxodo pungente, acossados pela necessidade, resolvera também ir-se com a família para Fortaleza, embora mais tarde fosse obrigado a procurar outros climas. Era homem sadio, vigoroso, excessivamente trabalhador e dedicado. Contava a esse tempo qua- renta anos, nada mais nada menos, e dizia com soberba, gabando o peito rijo, não se trocar por muito rapazola pimpão que aí vive nas cidades grandes caindo de tédio e preguiça, cheio de vícios secretos. Corria-lhe nas veias largas e azuis de matuto inteligente puro e abundante sangue português. Nunca sofrera a mais leve dor de cabeça. Conhecia a sífilis por ouvir falar. Casara muito moço, imberbe ainda, aos dezesseis anos, com uma prima colateral, D. Eulália de Mendonça Furtado, de uma famí- lia de Furtados da Telha. Até então só tivera três filhos. […] Mendonça abalara de Campo Alegre quando de todo lhe tinham fugido as esperanças d’inverno seguro, depois de ter visto estrebuchar a última rês no solo duro e estéril. Todas as tardes, invariavelmente, da janela que dizia para o poente, ou em pé na varanda, con- sultava o tempo, os horizontes cor de cinza, o céu d’um azul diáfano de safira, procurando bispar na inclemência da atmosfera imóvel a sombra fresca de uma nuvem, um indício qualquer de chuva. Surpreendia, às vezes, crivando a transparência do ar, revoadas d’aves de arribação. Recolhia-se animado. Mas os dias passavam quentes e secos. […] E pouco a pouco aquele estado de coisas foi atuando forte no espírito do sertanejo, como as vibra- ções d’um clarim que dá sinal de marcha; pouco a pouco foi se convencendo que aquilo era uma situação impossível em que ele não devia absolutamente permanecer. Os açudes estorricavam mostrando os leitos gretados pelo sol, duros como pedra; juritis encadea- das iam espapaçar ofegantes no chão, defronte da casa; cascavéis chocalhavam no alpendre, ocultas, invisíveis, e todas as coisas tinham um aspecto desolado e lúgubre que se comunicava às criaturas. Passava gente todo santo dia, a pé, de trouxa ao ombro, arrastando-se pesadamente. Uma vez, ele próprio, Mendonça, vira de perto a agonia lenta de uma mulher asfixiada pela elefantíase, pernas inchadas, ventre inchado, rosto inchado – horrível. Adolfo Caminha (1867-1897) nasceu em Aracati (CE), mas se mudou para o Rio de Janeiro ainda criança. Ingressou na Marinha em 1883, chegou ao posto de segundo-tenente e depois saiu da corporação. Seu primeiro romance, considerado uma obra naturalista, foi A normalista, publicado em 1893. No ano seguinte, após uma visita aos Estados Unidos, publicou No país dos ianques. Em 1895, publicou o livro Bom crioulo, no qual aborda a questão do homossexualismo. Seu último romance foi Tentação, publicado em 1896, um ano antes de falecer vítima da tuberculose. Museu Casa de Maria Bonita. Paulo Afonso (BA), 2010. Fr an co H of f/ P ul sa r Im ag en s 25 e noite no areial incandescente dos caminhos – abantesmas [fantasmas] da desgraça gemendo preces ao Deus dos cristãos, numa voz rouquenha, quase soluçada. Era um horror de misérias e aflições. Bernardino de Mendonça foi dos últimos que abalaram do interior da província para o litoral na pista dos socorros públicos. Totalmente desiludido, quase arruinado, vendo todos os dias passarem pela sua porta, em Campo Alegre, magotes de emigrantes andrajosos que batiam do sertão num êxodo pungente, acossados pela necessidade, resolvera também ir-se com a família para Fortaleza, embora mais tarde fosse obrigado a procurar outros climas. Era homem sadio, vigoroso, excessivamente trabalhador e dedicado. Contava a esse tempo qua- renta anos, nada mais nada menos, e dizia com soberba, gabando o peito rijo, não se trocar por muito rapazola pimpão que aí vive nas cidades grandes caindo de tédio e preguiça, cheio de vícios secretos. Corria-lhe nas veias largas e azuis de matuto inteligente puro e abundante sangue português. Nunca sofrera a mais leve dor de cabeça. Conhecia a sífilis por ouvir falar. Casara muito moço, imberbe ainda, aos dezesseis anos, com uma prima colateral, D. Eulália de Mendonça Furtado, de uma famí- lia de Furtados da Telha. Até então só tivera três filhos. […] Mendonça abalara de Campo Alegre quando de todo lhe tinham fugido as esperanças d’inverno seguro, depois de ter visto estrebuchar a última rês no solo duro e estéril. Todas as tardes, invariavelmente, da janela que dizia para o poente, ou em pé na varanda, con- sultava o tempo, os horizontes cor de cinza, o céu d’um azul diáfano de safira, procurando bispar na inclemência da atmosfera imóvel a sombra fresca de uma nuvem, um indício qualquer de chuva. Surpreendia, às vezes, crivando a transparência do ar, revoadas d’aves de arribação. Recolhia-se animado. Mas os dias passavam quentes e secos. 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS 1. Para Adolfo Caminha, qual é o destino dos homens que vivem sob a seca? 2. De que maneira esse autor descreve a vida do sertanejo e a região das secas? 3. Com base nos versos de Rodolfo Coelho, pode-se estabelecer alguma relação entre a história das secas e a história do cangaço, mais especificamente a história de Lampião? ROTEIRO DE TRABALHO N T O S D O C U M EN T O S D O C U M EN T O S D O C U M EN T O S D O C U M EN T O S Cordel é um gênero literário originário dos contadores de histórias orais que se disseminaram por diferentes regiões do Nor- deste desde o século XIX. Essas histórias eram registradas e impressas em folhetos que organizavam a narrativa em forma de verso. A expressão “cordel” tem origem no fato de os folhetos serem inicialmente vendidos em varais estendidos nas feiras das cidades. Os cordéis podem versar sobre temas do cotidiano, fazer referência a temas históricos, a atos heroicos, histórias de amor, crimes ou contar a história de uma pessoa. No cordel transcrito nesta seção, o autor alagoano Rodolfo Coelho Cavalcante conta a história do encontro dele e de seu irmão com Lampião. Ele era palhaço de circo e, com seu irmão, encontrou Lampião por acaso em uma das estradas do sertão, em meados dos anos 1930. Nascido em 1917, Rodolfo começou a percorrer o Norte e o Nordeste ainda adolescente. Vivia de biscates e, mais tarde, começou a trabalhar como palhaço. Dedicando-se aos cordéis, escreveu cerca de dois mil deles até 1986, quando faleceu. Decididamente era tempo de arrumar também “os seus cacos” e – adeus, Campo Alegre, adeus, carnaubais rumorejantes; adeus, igrejinha branca! Ir-se-ia fazer pela vida em qualquer parte, em Fortaleza,onde felizmente contava amigos políticos, correligionários dedicados que certamente lhe não recusariam uma acha de lenha, uma pouca d’água fresca, um punhado de farinha… Demais era homem, graças a Deus, forte como um novilho, tinha sangue nas veias – trabalharia! […] Não havia outro recurso, outro jeito senão marchar para a capital, para onde quer que fosse, como tantos outros infelizes empolgados pela miséria. Iria, que remédio? bater à porta de um amigo, de um correligionário, de um cristão. Lembrou-se então do “compadre João da Mata”, padrinho de Maria. Muito bom: iria ao compadre. CAMINHA, Adolfo. A normalista. Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa. Disponível em: <www.bibvirt.futuro.usp.br/index.php>. Acesso em: 1 jun. 2013. O encontro de Rodolfo Cavalcante com Lampião (trecho de cordel) Rodolfo Coelho Cavalcante Foi Virgulino Ferreira Pobre homem injustiçado E por isto vingativo Se tornou um acelerado, Se a Justiça fosse reta Nem Jornalista ou Poeta O teria decantado. Lampião era um bom filho Nunca se pode negar, Foi também bom companheiro Como pode se provar No epílogo da desdita Junto a Maria Bonita Os seus dias foi findar. O homem por mais cruel Tem seu lado positivo por ser Centelha Divina, E enquanto ele for vivo Há esperança divina De su’alma cristalina Ter um rumo objetivo. Embora sendo criança Com meus 15 anos de idade Pude ver em Lampião Vítima da sociedade, Talvez ele em outro meio (Posso dizer sem receio) Era útil à humanidade! Não vi a hiena feroz Nem o leão devorador, Ao contrário: vi um ser Realmente sofredor Que só andava assustado E para não ser caçado Matava seja quem for… CAVALCANTE, Rodolfo Coelho. O encontro de Rodolfo Cavalcante com Lampião Virgulino. Salvador: [s. n.], 1973. 26 Decididamente era tempo de arrumar também “os seus cacos” e – adeus, Campo Alegre, adeus, carnaubais rumorejantes; adeus, igrejinha branca! Ir-se-ia fazer pela vida em qualquer parte, em Fortaleza, onde felizmente contava amigos políticos, correligionários dedicados que certamente lhe não recusariam uma acha de lenha, uma pouca d’água fresca, um punhado de farinha… Demais era homem, graças a Deus, forte como um novilho, tinha sangue nas veias – trabalharia! […] Não havia outro recurso, outro jeito senão marchar para a capital, para onde quer que fosse, como tantos outros infelizes empolgados pela miséria. Iria, que remédio? bater à porta de um amigo, de um correligionário, de um cristão. Lembrou-se então do “compadre João da Mata”, padrinho de Maria. Muito bom: iria ao compadre. CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: <www.bibvirt.futuro.usp.br/index.php>. Acesso em: 1 jun. 2013. O encontro de Rodolfo Cavalcante com Lampião (trecho de cordel) Rodolfo Coelho Cavalcante Foi Virgulino Ferreira Pobre homem injustiçado E por isto vingativo Se tornou um acelerado, Se a Justiça fosse reta Nem Jornalista ou Poeta O teria decantado. De su’alma cristalina Ter um rumo objetivo. Embora sendo criança Com meus 15 anos de idade Pude ver em Lampião Vítima da sociedade, Talvez ele em outro meio O B R A SI L D O S ER TÃ O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS ROTEIRO DE TRABALHO ES Q U IS A P ES Q U IS A PESQUISA L evante informações sobre as últimas secas ocorridas na região Nordeste. Com base nessa pesquisa, tente responder às seguintes questões: 1. Ocorreram avanços para minimizar esse problema em relação ao que acontecia até a primeira metade do século XX? • Como tem sido a atuação dos governos local e federal nessa situação? • Qual(is) é(são) o(s) obstáculo(s) para solucionar o problema das secas? • Que soluções deram resultados positivos? Não se esqueça de consultar pelo menos duas fontes, pois tanto os dados como as interpretações podem ser diferentes conforme o autor da publicação. Depois, elabore um texto com base nos resultados obtidos, expondo suas conclusões sobre o problema das secas no Brasil contemporâneo. IN T E R D IS C IP L IN A R ID A D E INTERDISCIPLINARIDADE Nordeste, Nordestes: retratos contemporâneos De forma geral, o Nordeste tem sido retratado nas mídias como o espaço das secas, dos retirantes, do mando e clientelismo das elites políticas e econômicas e de uma população desvalida, em especial no sertão do semiárido. Com efeito, é preciso considerar que ainda existe uma elevada concentração regional de recursos, em favor de áreas mais modernizadas do Centro-Sul. Se comparado às outras regiões brasileiras, de fato é no Nordeste onde estão os mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), as taxas de mortalidade infantil mais elevadas e os maiores bolsões de pobreza. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2011, realizada pelo IBGE, mostram que a região, apesar do recuo nas taxas de analfabetismo de jovens e adultos, ainda apre- senta os percentuais mais elevados do país, em especial nas faixas de 40-49 anos e de 50 anos ou mais. O número médio de anos de estudo da região (seis anos) também ficou abaixo das demais. No Sudeste, por exemplo, a média registrada em 2011 foi de oito anos. O rendimento médio mensal também foi o mais baixo do país. Entretanto, apesar dos obstáculos, o Sertão Nordestino é a região semiárida mais povoada do planeta. É preciso refletir também sobre até que ponto esse quadro social regional, de reconhecidas dificuldades, retrata a realidade complexa desta região brasileira no período atual. “Nordeste” ou “Nordestes”? É o que veremos a seguir, com base na análise de alguns temas. 1. Em grupo, escolham um núcleo de desenvolvimento econômico-social da região Nordeste. Conversem com os outros grupos para não escolher o mesmo tema, o que possibilitará, ao final da pesquisa, que a classe monte um amplo painel sobre novas realidades econômico-sociais da região. Vejam algumas sugestões de objetos de estudo: • Campina Grande (PB) e Ilhéus (BA): constituição de polos tecnológicos, com empresas industriais, universidades e centros de pesquisa. Desenvolvimento em tecnologias da infor- mação e, em Ilhéus, também de eletroeletrônicos. 27 evante informações sobre as últimas secas ocorridas na região Nordeste. Com base nessa evante informações sobre as últimas secas ocorridas na região Nordeste. Com base nessa pesquisa, tente responder às seguintes questões: 1. Ocorreram avanços para minimizar esse problema em relação ao que acontecia até 1. Ocorreram avanços para minimizar esse problema em relação ao que acontecia até Como tem sido a atuação dos governos local e federal nessa situação? Qual(is) é(são) o(s) obstáculo(s) para solucionar o problema das secas? Que soluções deram resultados positivos? Não se esqueça de consultar pelo menos duas fontes, pois tanto os dados como as interpretações Não se esqueça de consultar pelo menos duas fontes, pois tanto os dados como as interpretações podem ser diferentes conforme o autor da publicação. Depois, elabore um texto com base nos podem ser diferentes conforme o autor da publicação. Depois, elabore um texto com base nos resultados obtidos, expondo suas conclusões sobre o problema das secas no Brasil contemporâneo.resultados obtidos, expondo suas conclusões sobre o problema das secas no Brasil contemporâneo. INTERDISCIPLINARIDADE 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS • Juazeiro (BA) e Petrolina (PE): cidades-núcleo da produção agrícola baseada em agricultu- ra irrigada no médio vale do Rio São Francisco. A região é uma grande exportadora de frutas, incluindo uvas adaptadas às características climáticas locais. • Ceará: polos calçadistas em Sobral, Vale do Cariri (Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha) e na Região Metropolitana de Fortaleza(em especial nos municípios de Maranguape e Horizonte), com centenas de fábricas e produção voltada ao mercado interno e à exportação de calçados, sandálias e chinelos de plástico e borracha. • Recife (PE): núcleo digital para o desenvolvimento de softwares e produtos da tecnologia da infor- mação e da comunicação, com parcerias entre governos, empresas privadas e universidades. • Oeste da Bahia e sul do Maranhão e Piauí: produção de soja. Os municípios em áreas de cultivo de soja vêm conhecendo ritmos de crescimento na casa dos 10% ao ano. Evidentemente, deve-se considerar nesse caso que muitos produtores vêm de fora da região, trabalhadores rurais locais perdem suas terras e que parte da população acaba sendo arregimentada para funções em geral mal remuneradas no comércio e nos serviços nas cidades. • Salvador (BA), Fortaleza (CE) e Natal (RN): turismo de Sol e praia, visitação cultural. Essas cidades estão entre as dez mais visitadas no país. • Olinda (PE) e São Luís (MA): visitação aos centros históricos e patrimônios culturais. • Parque Nacional da Serra da Capivara (PI), Fernando de Noronha (PE) e Atol das Rocas (RN): visitação aos patrimônios ambientais. • Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte, Alagoas e Ceará: fontes de energia. Em solo poti- guar, está o maior campo de exploração terrestre de petróleo do país, o de Canto do Amaro. Ceará e Rio Grande do Norte estão se convertendo em polos de geração eólica. • Semiárido nordestino: construção de cisternas para captação de água da chuva, abasteci- mento doméstico e irrigação agrícola em comunidades rurais. A iniciativa pode ser discutida diante de outros projetos, como a transposição das águas do Rio São Francisco e as polêmicas que a envolvem. 2. Cada grupo deverá coletar informações sobre o tema escolhido em diferentes fontes: jornais, revistas, livros e internet. 3. Organizem as informações obtidas e avaliem as atividades, os setores econômicos, a infraestrutu- ra e as redes técnicas, as taxas de crescimento e os benefícios sociais, além dos riscos e desafios sociais, ambientais, econômicos, políticos e culturais representados pelas atividades na região. O grupo deverá elaborar um relatório com os resultados obtidos e as principais conclusões. 4. Com base no relatório, elaborem no Laboratório de Informática da escola sínteses e esque- mas explicativos sobre o tema, seja em infográfico, mapa interativo, jogos ou linhas do tempo. Apresentem os resultados e conversem sobre eles com a turma. 5. Ao final das apresentações, cada estudante deverá elaborar individualmente um texto dissertati- vo, analisando criticamente o Nordeste contemporâneo e refletindo em que medida o potencial de crescimento avaliado pelos grupos poderá trazer benefícios sociais às populações da região. RESPONDA NO CADERNO VESTIBULANDO Procedimentos • A questão 1 refere-se a conteúdos estudados neste capítulo, mas também a outros que não estão pre- sentes aqui. Caso não consiga resolvê-la, recorra a outras fontes, como livros e sites, para pesquisar sobre os assuntos em que encontrou dificuldade. • Na questão 2, leia com atenção os versos que devem ser utilizados para avaliar a opção correta. Antes de buscar a resposta correta, identifique as ideias mais importantes contidas nos versos. • As questões 4 e 5 são dissertativas. Seja obje- tivo em sua resposta e não deixe de mencionar os aspectos solicitados. Na questão 4, é preciso estabelecer a relação entre o cangaço e o con- texto mais amplo da Primeira República. Já na questão 5, é necessário utilizar o texto citado para formular sua resposta. 28 • Juazeiro (BA) e Petrolina (PE): cidades-núcleo da produção agrícola baseada em agricultu- ra irrigada no médio vale do Rio São Francisco. A região é uma grande exportadora de frutas, incluindo uvas adaptadas às características climáticas locais. • Ceará: polos calçadistas em Sobral, Vale do Cariri (Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha) e na Região Metropolitana de Fortaleza (em especial nos municípios de Maranguape e Horizonte), com centenas de fábricas e produção voltada ao mercado interno e à exportação de calçados, sandálias e chinelos de plástico e borracha. • Recife (PE): núcleo digital para o desenvolvimento de mação e da comunicação, com parcerias entre governos, empresas privadas e universidades. • Oeste da Bahia e sul do Maranhão e Piauí: cultivo de soja vêm conhecendo ritmos de crescimento na casa dos 10% ao ano. Evidentemente, deve-se considerar nesse caso que muitos produtores vêm de fora da região, trabalhadores rurais locais perdem suas terras e que parte da população acaba sendo arregimentada para funções em geral mal remuneradas no comércio e nos serviços nas cidades. • Salvador (BA), Fortaleza (CE) e Natal (RN): Essas cidades estão entre as dez mais visitadas no país. • Olinda (PE) e São Luís (MA): visitação aos centros históricos e patrimônios culturais. • Parque Nacional da Serra da Capivara (PI), Fernando de Noronha (PE) e Atol das Rocas (RN): visitação aos patrimônios ambientais. • Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte, Alagoas e Ceará: guar, está o maior campo de exploração terrestre de petróleo do país, o de Canto do Amaro. Ceará e Rio Grande do Norte estão se convertendo em polos de geração eólica. O B R A SI L D O S ER TÃ O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS 1. (Unifesp-SP) Canudos (1893-1897), Contestado (1912-1916), Juazeiro (1890-1924) e Cangaço (na década de 1920) demonstram que, na Primeira República, a) o campo foi palco de intensos movimentos sociais que, embora heterogêneos, expressa- vam revolta contra a miséria e a exclusão social. b) a oligarquia dominante estava tão segura de seu poder que não se preocupou muito em reprimir movimentos carentes de ideias e de organização. c) os movimentos insurrecionais foram poucos, mas muito perigosos para o sistema de poder, porque representavam apenas os pobres. d) o sistema político, embora oligárquico, era flexível e aberto o suficiente para integrar e absorver os descontentamentos sociais. e) os movimentos sociais expressavam reivindi- cações e aspirações de caráter misto, rural e urbano, articulando milenarismo com anar- quismo. 2. (Fuvest-SP) Visitei todo o comércio, Fiz muito bom apurado, E vi que de muito povo Eu me achava acompanhado. Alguns pediam esmolas: Então não me fiz de rogado. Os versos de Chagas Baptista em homenagem ao cangaceiro Antonio Silvino, o “Governador do Sertão”, sugerem que o cangaço a) possuía um caráter político institucional que ameaçava a estabilidade social e econômica do Nordeste. b) contava com o apoio popular, propondo a reforma agrária e uma nova distribuição de renda. c) representava a faceta do movimento anar- quista, com propostas de socialização da terra nas áreas rurais. d) era uma forma de banditismo sem ameaças à estabilidade fundiária e, portanto, aceito pelas oligarquias e trabalhadores. e) tinha apoio popular e representava uma forma de resistência à opressão dos grandes proprietários rurais. 3. (PUC-MG) A implantação do regime republi- cano não modificou a situação de miséria dos trabalhadores do campo, fazendo surgir um movimento denominado Cangaço. Sobre isso, é correto afirmar, exceto: a) Seus integrantes rebelaram-se contra uma ordem social injusta e opressiva. b) Em quase todos os bandos, as mulheres parti- cipavam em pé de igualdade com os homens. c) Os cangaceiros eram assalariados do crime, lutando a serviço dos coronéis que melhor pagassem. d) Como fenômeno social, foi uma manifestação da revolta não organizada em termos políticos. e) Os cangaceiros assaltavam propriedades e buscavam justiça pelas próprias mãos. 4. (UEG-GO) A peça teatral “O santo e a porca”, de Ariano Suassuna, tem comoreferência histó- rica a Primeira República – período caracteriza- do por fenômenos socioculturais como cangaço e fervor religioso. Analise a relação do governo republicano com esses fenômenos. 5. (Unicamp-SP) O bandido social é, em geral, membro de uma sociedade rural e, por razões várias, encarado como proscrito ou criminoso pelo Estado e pelos grandes proprietários. Apesar disso, continua a fazer parte da sociedade camponesa de que é originário e é consi- derado herói por sua gente, seja ele um justiceiro, um vingador, ou alguém que rouba dos ricos. (DÓRIA, Carlos Alberto. Saga. A grande História do Brasil.) Utilizando a definição anterior, explique o movi- mento do cangaço brasileiro. R A R EL EI T U R A RELEITURA A s duas canções que seguem fazem referência ao sertão nordestino e foram interpretadas por Luiz Gonzaga (1912-1990), grande compositor e cantor pernambucano, também conhecido como o Rei do Baião. Luiz Gonzaga nasceu em 1912 em Exu (PE). Seu pai era sanfoneiro e por isso desde criança já tocava o instrumento. Em 1930, foi para o Ceará, onde se alistou no Exército brasileiro. Em 1939, deixou o Exército e foi para o Rio de Janeiro, onde começou a tocar em bares e festas. Em 1941, gravou seu primeiro disco como solista. Nos anos 1950, transformou-se em um dos principais divulgadores do baião e da cultura nordestina. Várias de suas canções fazem referência à seca e à vida do pobre do sertão nordestino. Asa Branca, um de seus maiores sucessos, tornou-se uma das canções mais populares do país. Faleceu em 1989, no Recife (PE). 29 Canudos (1893-1897), Contestado (1912-1916), Juazeiro (1890-1924) e Cangaço (na década de 1920) demonstram que, na Primeira a) o campo foi palco de intensos movimentos sociais que, embora heterogêneos, expressa- vam revolta contra a miséria e a exclusão social. b) a oligarquia dominante estava tão segura de seu poder que não se preocupou muito em reprimir movimentos carentes de ideias e de c) os movimentos insurrecionais foram poucos, mas muito perigosos para o sistema de poder, d) o sistema político, embora oligárquico, era flexível e aberto o suficiente para integrar e e) os movimentos sociais expressavam reivindi- cações e aspirações de caráter misto, rural e urbano, articulando milenarismo com anar- d) era uma forma de banditismo sem ameaças à estabilidade fundiária e, portanto, aceito pelas oligarquias e trabalhadores. e) tinha apoio popular e representava uma forma de resistência à opressão dos grandes proprietários rurais. 3. (PUC-MG) A implantação do regime republi- cano não modificou a situação de miséria dos trabalhadores do campo, fazendo surgir um movimento denominado Cangaço. Sobre isso, é correto afirmar, exceto: a) Seus integrantes rebelaram-se contra uma ordem social injusta e opressiva. b) Em quase todos os bandos, as mulheres parti- cipavam em pé de igualdade com os homens. c) Os cangaceiros eram assalariados do crime, lutando a serviço dos coronéis que melhor pagassem. d) Como fenômeno social, foi uma manifestação da revolta não organizada em termos políticos. e) Os cangaceiros assaltavam propriedades e buscavam justiça pelas próprias mãos. 4. (UEG-GO) A peça teatral “O santo e a porca”, de Ariano Suassuna, tem como referência histó- 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Patativa do Assaré (Antônio Gonçalves da Silva) nasceu em 1909 na Serra de Santana, próximo ao município de Assaré, no Ceará. Ainda criança perdeu a visão de um olho por causa de uma doença e mais tarde ficou cego. Desde cedo gostava de criar versos. Retratando a vida do sertão, tornou-se um dos mais importantes cantadores sertanejos. Faleceu em 2002 na mesma cidade em que nasceu. LE IT U R A R EL EI T U R A R EL EI T U R A R EL EI T U R A R EL EI T U R A R EL EI T U R AVozes da seca (1953) Luiz Gonzaga e Zé Dantas Seu dotô os nordestino têm muita gratidão Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão Mas dotô uma esmola a um homem qui é são Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão É por isso que pidimo proteção a vosmicê Home pur nóis escuído para as rédias do pudê Pois dotô dos vinte estado temos oito sem chuvê Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barrage Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage Se o dotô fizer assim, salva o povo do sertão Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação! Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão Como vê, nosso distino mecê tem na vossa mão GONZAGA, Luiz; DANTAS, Zé. Vozes da seca. In: Luiz Gonzaga e Gonzaguinha (CD). EMI, 2004. Luiz Gonzaga, em 1956. Lu iz A lf re do /O C ru ze ir o/ EM /D .A P re ss Meu Deus, meu Deus Setembro passou Outubro e novembro Já tamo em dezembro Meu Deus, que é de nós, Meu Deus, meu Deus Assim fala o pobre Do seco Nordeste Com medo da peste Da fome feroz Ai, ai, ai, ai A treze do mês Ele fez experiência Perdeu sua crença Nas pedras de sal, Meu Deus, meu Deus Mas noutra esperança Com gosto se agarra Pensando na barra Do alegre Natal Ai, ai, ai, ai Rompeu-se o Natal Porém barra não veio O sol bem vermeio Nasceu muito além Meu Deus, meu Deus Na copa da mata Buzina a cigarra Ninguém vê a barra Pois a barra não tem Ai, ai, ai, ai Sem chuva na terra Descamba janeiro, Depois fevereiro E o mesmo verão Meu Deus, meu Deus Entonce o nortista Pensando consigo Diz: “isso é castigo não chove mais não” Ai, ai, ai, ai Apela pra março Que é o mês preferido Do santo querido Senhor São José Meu Deus, meu Deus Mas nada de chuva Tá tudo sem jeito Lhe foge do peito O resto da fé… Ai, ai, ai, ai Agora pensando Ele segue outra tria Chamando a famia Começa a dizer Meu Deus, meu Deus Eu vendo meu burro Meu jegue e o cavalo Nóis vamo a São Paulo Viver ou morrer Ai, ai, ai, ai Nóis vamo a São Paulo Que a coisa tá feia Por terras alheia Nós vamos vagar Meu Deus, meu Deus Se o nosso destino Não for tão mesquinho Ai pro mesmo cantinho Nós torna a voltar ASSARÉ, Patativa do. A triste partida. In: A triste partida (CD). Sony & BMG, 1998. A triste partida (1964) Patativa do Assaré 30 Vozes da seca (1953) Luiz Gonzaga e Zé Dantas Seu dotô os nordestino têm muita gratidão Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão Mas dotô uma esmola a um homem qui é são Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão É por isso que pidimo proteção a vosmicê Home pur nóis escuído para as rédias do pudê Pois dotô dos vinte estado temos oito sem chuvê Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barrage Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage Se o dotô fizer assim, salva o povo do sertão Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação! Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão Como vê, nosso distino mecê tem na vossa mão GONZAGA, Luiz; DANTAS, Zé. Vozes da seca. In: A triste partida (1964) O B R A SI L D O S ER TÃ O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS ROTEIRO DE TRABALHO 1. Que tipo de auxílio os autores da canção “Vozes da seca” reivindicavam para a região da seca? 2. Ainda nessa canção, quem seria o “dotô” que se contrapõe ao sertanejo? 3. Com base na canção “A triste partida”, reconstrua a trajetória do retirante nordestino. 4. Destaque um trecho de uma das canções citadas e utilize-ocomo tema para a elaboração de um pequeno texto sobre a história das secas no Nordeste, tendo como base o que foi estudado neste capítulo. QUEIRÓS, Rachel de. O quinze. São Paulo: Siciliano, 1993. Publicada originalmente em 1930, esta obra refere-se à seca de 1915, a qual a escritora viveu em sua infância. Assim como Vidas secas, de Graciliano Ramos, é um dos mais importantes romances modernistas que tratam de temas rela- cionados à realidade social brasileira. RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 89. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. Escrito em 1938, traça um perfil das pessoas e das condições de vida daqueles que vivem a seca do sertão nordestino. Esse romance é considerado parte da chamada segunda fase modernista, que colocou em foco temas sociais e con- trastes marcantes, como é o caso das secas do Nordeste. TÁVORA, Franklin. O cabeleira. São Paulo: Ática, 1997. Romance publicado em 1876 que conta a história dos bandidos Joaquim Gomes e José Gomes, cangaceiros que atua- ram no Nordeste em fins do século XVIII. A história apoia-se em fatos verídicos. Abril despedaçado. Direção de Walter Salles. Brasil/Suíça/ França, 2001. (99 min). O filme se passa em 1910 e retrata as brigas entre famílias no sertão nordestino, destacando temas como o sentido de vingança e as lutas que se estendem por gerações. Baile perfumado. Direção de Lírio Ferreira e Paulo Caldas. Brasil, 1997. (93 min). No filme, o jovem libanês Benjamin Abrahão consegue filmar Lampião com a colaboração do padre Cícero. Após con- seguir fazer o filme com Lampião, sua exibição foi censurada por Getúlio Vargas. Baile perfumado recupera algumas das cenas originais do filme produzido por Benjamin. Cangaço. Disponível em: <www.reidocangaco.cjb.net>. Acesso em: 13 abr. 2013. Site com imagens, textos e várias informações sobre o cangaço. Fundação Joaquim Nabuco – Literatura de cordel. Disponível em: <http://digitalizacao.fundaj.gov.br/fundaj>. Acesso em: 13 abr. 2013. Espaço no site da Fundação Joaquim Nabuco que traz vários cordéis digitalizados. PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR Co le çã o Pa rt ic ul ar 31 Que tipo de auxílio os autores da canção “Vozes da seca” reivindicavam para a região da seca? Ainda nessa canção, quem seria o “dotô” que se contrapõe ao sertanejo? Com base na canção “A triste partida”, reconstrua a trajetória do retirante nordestino. Destaque um trecho de uma das canções citadas e utilize-o como tema para a elaboração de um pequeno texto sobre a história das secas no Nordeste, tendo como base o que foi estudado . São Paulo: Siciliano, 1993. Publicada originalmente em 1930, esta obra refere-se à seca de 1915, a qual a escritora viveu em sua infância. Assim Publicada originalmente em 1930, esta obra refere-se à seca de 1915, a qual a escritora viveu em sua infância. Assim como Vidas secas, de Graciliano Ramos, é um dos mais importantes romances modernistas que tratam de temas rela-como Vidas secas, de Graciliano Ramos, é um dos mais importantes romances modernistas que tratam de temas rela- . 89. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. Escrito em 1938, traça um perfil das pessoas e das condições de vida daqueles que vivem a seca do sertão nordestino. Escrito em 1938, traça um perfil das pessoas e das condições de vida daqueles que vivem a seca do sertão nordestino. Esse romance é considerado parte da chamada segunda fase modernista, que colocou em foco temas sociais e con-Esse romance é considerado parte da chamada segunda fase modernista, que colocou em foco temas sociais e con- trastes marcantes, como é o caso das secas do Nordeste. São Paulo: Ática, 1997. PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS O Brasil amazônico CAPÍTULO 2 No primeiro capítulo desta unidade, mencionamos a ideia de que o Brasil só pode ser compreendido se levarmos em conta o fato de que essa sociedade se constitui com base em uma pluralidade de culturas. No capítulo anterior, estu- damos algumas particularidades da história política e cultural do Nordeste brasileiro. Neste capítulo, vamos nos debruçar sobre a região amazônica, a qual até os dias atuais abriga mais da metade da população indígena brasileira, ou seja, cerca de 350 mil pessoas. No Amazonas vivem 60 povos diferentes, 27 em Rondônia, 36 no Pará, 13 no Acre, 11 em Roraima, 10 no estado de Tocantins e 9 no Amapá.1 Ao observarmos a divisão admi- nistrativa do Brasil em regiões, verificamos que a região Norte é composta pelos estados citados acima (Amazonas, Pará, Tocantins, Amapá, Rondônia, Acre e Roraima). No entanto, o que se denomina Amazônia é uma porção do globo terrestre coberta por florestas tropicais, mais especificamente equatoriais. A Floresta Amazônica ultrapassa as fronteiras de vários países: Brasil, Bolívia, Peru, Equa- dor, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. A área total da floresta é de aproxi- 1 Conforme os dados do Instituto Socioambiental. Disponível em: <http://pib.socioambiental.org/pt/c/0/1/2/populacao-indigena-no-brasil>. Acesso em: 1 jun. 2013. Com base em Atlas geográfico escolar. Rio de Janeiro: IBGE, 2009. p. 103.. A AMAZÔNIA D et al he d a im ag em d a p. 5 7 32 O Brasil amazônico CAPÍTULO 2 No primeiro capítulo desta unidade, mencionamos a ideia de que o Brasil só pode ser compreendido se levarmos em conta o fato de que essa sociedade se constitui com base em uma pluralidade de culturas. No capítulo anterior, estu- damos algumas particularidades da história política e cultural do Nordeste brasileiro. D et al he d a im ag em d a p. 5 7 O B R A SI L A M A ZÔ N IC O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS madamente 6,5 milhões de quilômetros quadrados, e, destes, cerca de 5 milhões estão em território brasileiro. No Brasil, a chamada Amazônia Legal extrapola a região Norte, atingindo os estados do Mato Grosso e do Maranhão. Assim, ao estudarmos uma cultura que se pode chamar de amazônica, estamos fazendo referência à confluência de vários aspectos. Não se pode separar a história dos estados da região Norte da história da própria Floresta Amazônica. Na região da Amazônia, destacamos a grande presença de povos indígenas, mas por ela também já passaram africanos escravizados, colonizadores portugueses, além de invasores espanhóis e franceses. Trata-se, portanto, de uma região com uma imensa diversidade natural e cultural que construiu uma história particular. No entanto, essa diversidade resultou também em muitos conflitos, que ainda se fazem presentes na atualidade. Primeiro foram os europeus que procuraram se apropriar dessas terras, dominando os povos indígenas e trazendo os africanos para trabalharem como cativos. Há ainda a luta pela posse de terras e riquezas da floresta, como madeiras, pedras preciosas e produtos extrativistas. Por isso, coloca-se até o presente o problema de como conciliar a conservação de uma das maiores riquezas naturais do planeta e permitir que as pessoas que ocupam as terras amazônicas pos- sam viver com dignidade, respeitando as diferenças culturais. Neste capítulo, vamos procurar compreender parte dessa história de conflitos e refle- tir sobre os caminhos que ainda podem ser trilhados para que o ser humano e a floresta consigam conviver, sem que a violência seja uma das principais marcas dessa relação. B ib lio te ca P úb lic a e U ni ve rs it ár ia d e N eu ch at el , S uí ça /T he A rt A rc hi ve /O th er Im ag es A imagem acima, de autoria anônima, foi feita no século XIX e retrata índigenas da Amazônia sob controle de europeus. Não sabemosao certo o que os homens europeus pretendem fazer com essas pessoas. Aparentemente assustadas, as crianças se agarram aos adultos. De qualquer maneira, fica evidente que não se trata de uma convivência harmoniosa. Cenas como essa foram uma constante no relacionamento entre europeus e povos indígenas no Brasil colonial ou mesmo após a independência, quando os povos indígenas continuaram a ser utilizados como mão de obra barata, suas culturas desrespeitadas e suas terras invadidas. 33 madamente 6,5 milhões de quilômetros quadrados, e, destes, cerca de 5 milhões estão em território brasileiro. No Brasil, a chamada Amazônia Legal extrapola a região Norte, atingindo os estados do Mato Grosso e do Maranhão. Assim, ao estudarmos uma cultura que se pode chamar de amazônica, estamos fazendo referência à confluência de vários aspectos. Não se pode separar a história dos estados da região Norte da história da própria Floresta Amazônica. Na região da Amazônia, destacamos a grande presença de povos indígenas, mas por ela também já passaram africanos escravizados, colonizadores portugueses, além de invasores espanhóis e franceses. Trata-se, portanto, de uma região com uma imensa diversidade natural e cultural que construiu uma história particular. No entanto, essa diversidade resultou também em muitos conflitos, que ainda se fazem presentes na atualidade. Primeiro foram os europeus que procuraram se apropriar dessas terras, dominando os povos indígenas e trazendo os africanos para trabalharem como cativos. Há ainda a luta pela posse de terras e riquezas da floresta, como madeiras, pedras preciosas e produtos extrativistas. Por isso, coloca-se até o presente o problema de como conciliar a conservação de uma das maiores riquezas naturais do planeta e permitir que as pessoas que ocupam as terras amazônicas pos- sam viver com dignidade, respeitando as diferenças culturais. Neste capítulo, vamos procurar compreender parte dessa história de conflitos e refle- tir sobre os caminhos que ainda podem ser trilhados para que o ser humano e a floresta 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS A D O T EM P O L IN H A D O T EM P O L IN H A D O T EM P O L IN H A D O T EM P OLINHA DO TEMPO 500-1300 ¬ Povos ceramistas vivem na Ilha de Marajó (PA), criando a chamada cultura marajoara. 1499 ¬ O navegador espanhol Vicente Pinzón percorre a costa das Guianas e a do Brasil, até a altura do Rio Amazonas. 1541 ¬ Os espanhóis Gonzalo Pizarro e Francisco de Orellana partem de Quito (Equador) e alcançam no ano seguinte o Oceano Atlântico pelo Rio Amazonas. É a primeira vez que os europeus navegam por toda a extensão do Rio Amazonas. 1549 ¬ Os franceses atacam, mas não conseguem dominar a região amazônica. 1600 ¬ Os holandeses fundam as feitorias de Orange e Nassau, nas proximidades do Rio Xingu, afluente do Rio Amazonas. 1612 ¬ Domínio francês do Maranhão e fundação de São Luís do Maranhão por La Ravardière. 1615 ¬ Expulsão dos franceses de São Luís (Maranhão). 1616 ¬ Francisco Caldeira de Castelo Branco funda o Forte do Presépio, marco da fundação da atual cidade de Belém, capital administrativa do estado do Pará; fundação de Santa Maria de Belém, no Pará. 1659 ¬ Expulsão dos jesuítas do Maranhão. 1661 ¬ Expulsão dos jesuítas de Belém. 1669 ¬ Fundação do Forte de São José da Barra do Rio Negro, atual Manaus (AM). 1684 ¬ Revolta de Beckman, no Maranhão, contra o monopólio das companhias de comércio. 1713 ¬ Tratado de Utrecht: a França aceita o Rio Oiapoque como limite entre a Guiana e o Brasil. 1743 ¬ Registro e descrição dos usos da borracha entre os nativos por La Condamine. 1751 ¬ Criação do Estado do Grão-Pará e Maranhão, tendo Belém por capital. 1755 ¬ Fundação da Companhia Grão-Pará e Maranhão, seguida da Companhia de Pernambuco e Paraíba. 1759 ¬ Expulsão dos jesuítas da colônia portuguesa pelo marquês de Pombal. 1778 ¬ Supressão da Companhia do Grão-Pará e Maranhão. 1809 ¬ Conquista da Guiana Francesa. 1823 ¬ Adesão do Grão-Pará à Independência. 1835 ¬ Início da Cabanagem no Pará. 1840 ¬ Fim da Cabanagem no Pará. 1845 ¬ Criação do Diretório-Geral dos Índios. 1848 ¬ A Vila de Manaus, criada em 1832, passa ser denominada Cidade da Barra do Rio Negro. 1850 ¬ Criação da Província do Amazonas, desmembrada da Província do Grão-Pará; a borracha passa a ser a principal atividade econômica da região amazônica. 1852 ¬ Criação da Província do Amazonas; organização da Companhia de Navegação do Amazonas pelo visconde de Mauá. 1856 ¬ A cidade da Barra do Rio Negro passa a ser denominada cidade de Manaus. 1867 ¬ Abertura da Bacia do Amazonas à navegação internacional. S éc u lo X V I S éc u lo X V II S éc u lo X V II I S éc u lo X IX 34 LINHA DO TEMPO 500-1300 ¬ Povos ceramistas vivem na Ilha de Marajó (PA), criando a chamada cultura marajoara. 1499 ¬ O navegador espanhol Vicente Pinzón percorre a costa das Guianas e a do Brasil, até a altura do Rio Amazonas. 1541 ¬ Os espanhóis Gonzalo Pizarro e Francisco de Orellana partem de Quito (Equador) e alcançam no ano seguinte o Oceano Atlântico pelo Rio Amazonas. É a primeira vez que os europeus navegam por toda a extensão do Rio Amazonas. 1549 ¬ Os franceses atacam, mas não conseguem dominar a região amazônica. 1600 ¬ Os holandeses fundam as feitorias de Orange e Nassau, nas proximidades do Rio Xingu, afluente do Rio Amazonas. 1612 ¬ Domínio francês do Maranhão e fundação de São Luís do Maranhão por La Ravardière. 1615 ¬ Expulsão dos franceses de São Luís (Maranhão). 1616 ¬ Francisco Caldeira de Castelo Branco funda o Forte do Presépio, marco da fundação da atual cidade de Belém, capital administrativa do estado do Pará; fundação de Santa Maria de Belém, no Pará. 1659 ¬ Expulsão dos jesuítas do Maranhão. O B R A SI L A M A ZÔ N IC O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS A D O T EM P O L IN H A D O T EM P O L IN H A D O T EM P O L IN H A D O T EM P O S éc u lo X IX S éc u lo X X S éc u lo X X I 1869 ¬ Início da construção do Teatro da Paz, em Belém (PA). 1870-1912 ¬ Período da chamada belle époque amazônica. 1877 ¬ Início da migração de nordestinos para os seringais. 1878 ¬ Inauguração do Teatro da Paz em Belém (PA). 1884 ¬ Abolição da escravatura legal no Amazonas. 1889 ¬ Proclamação da República. 1893-1896 ¬ Reformas e melhorias urbanas: construção da “Manaus moderna”. 1910 ¬ Início da crise da borracha na Amazônia. Queda do preço no mercado internacional. 1912 ¬ Inauguração da Ferrovia Madeira-Mamoré, que pretendia transportar a borracha. Seu objetivo era interligar a produção nas proximidades dos rios Mamoré, Madeira, Guaporé e Beni (Bolívia). 1966 ¬ Criação da Sudam, oferecendo incentivos fiscais para o desenvolvimento da agropecuária. Anos 1970 ¬ A exploração da madeira e a do gado passam a ser as principais atividades econômicas da região. 1972 ¬ Inauguração da Rodovia Transamazônica. 1988 ¬ Assassinato do líder seringalista Chico Mendes. 2005 ¬ Assassinato de Dorothy Stang a mando de fazendeiros. A missionária desenvolvia projetos de desenvolvimento sustentável no Pará. Trecho da Rodovia Transamazônica entre Marabá e Altamira, no Pará, em 2008. Trecho da Ferrovia Madeira-Mamoré em Ribeirão, hoje Rondônia, em 1913. Fachada do Teatro da Paz, Belém (PA), em 2007. R ic ar do T el es /P ulsa r Im ag en s Ic on og ra ph ia R en at o Lu iz F er re ir a/ A E 35 S éc u lo X IX S éc u lo X X S éc u lo X X I Início da construção do Teatro da Paz, em Belém (PA). Período da chamada belle époque amazônica. Início da migração de nordestinos para os seringais. Inauguração do Teatro da Paz em Belém (PA). Abolição da escravatura legal no Amazonas. Proclamação da República. Reformas e melhorias urbanas: construção da “Manaus moderna”. Início da crise da borracha na Amazônia. Queda do preço no mercado Inauguração da Ferrovia Madeira-Mamoré, que pretendia transportar a borracha. Seu objetivo era interligar a produção nas proximidades dos rios Mamoré, Madeira, Guaporé e Beni (Bolívia). Criação da Sudam, oferecendo incentivos fiscais para o desenvolvimento da agropecuária. A exploração da madeira e a do gado passam a ser as principais atividades econômicas da região. Inauguração da Rodovia Transamazônica. Assassinato do líder seringalista Chico Mendes. Assassinato de Dorothy Stang a mando de fazendeiros. A missionária desenvolvia projetos de desenvolvimento sustentável no Pará. 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS CONTEXTO A Amazônia Alguns navegadores estiveram na região ama- zônica antes de Portugal tomar posse efetivamen- te das terras brasileiras após 1500. Entre eles, os espanhóis Vicente Pinzón e Diogo de Lepe. Ambos navegaram pelo Rio Amazonas, mas os conflitos com os indígenas e as dificuldades em navegar naquelas águas os fizeram recuar e não tomar posse da região. Os europeus conseguiram navegar por toda a extensão do Rio Amazonas entre 1539 e 1541, quando Gonçalo Pizarro e Francisco Orellana lideraram uma expedição que partiu de Quito (Equador) e chegou ao Oceano Atlântico por esse rio. Com o feito, o imperador espanhol Carlos V concedeu a Orellana o título de capitão e gover- nador das terras de que tomasse posse. No entan- to, em sua segunda viagem, iniciada em 1545, Orellana fracassou em seu intento de penetrar no delta do Amazonas. Os espanhóis realizaram outras expedições com a finalidade de tomar posse de terras na região até os anos 1560. Além deles, ingleses, franceses e holandeses também buscaram se estabelecer na Amazônia, negando os direitos dos portugueses e dos espanhóis no Tratado de Tordesilhas, celebrado em 1494. Em 1600, os holandeses fundaram as feitorias de Orange e Nassau nas proximidades do Rio Xingu, afluente do Rio Amazonas. Também os ingleses conseguiram estabelecer feitorias no começo do século XVII. Tinham como intuito investir na coleta de drogas do sertão, entre elas a baunilha, o cacau, o gengibre, o cravo e a noz-moscada. A efetiva conquista portuguesa da região começou a ocorrer no século XVI. No século XVII, Belém foi fundada. Isso aconteceu no momento em que Portugal estava sob o domínio da Coroa espanhola (1580- 1640). Conforme José Maia Bezerra Neto: […] a União Ibérica favoreceu o processo de ex- pansão portuguesa na Região Amazônica, cuja maior parte pertencia aos espanhóis. […] Os por- tugueses em sua conquista, devidamente autoriza- dos pela Coroa espanhola, realizavam sua obra de ocupação e defesa da região, a serviço da própria Espanha contra os demais invasores europeus. BEZERRA Neto, José Maia. A conquista portuguesa da Amazônia. In: ALVES FILHO, Armando et al. Pontos de his- tória da Amazônia. 3. ed. Belém: Paka-Tatu, 2001. v. 1. p. 17. No final do século XVI, os portugueses avan- çaram sobre o litoral do Maranhão ocupado pelos franceses. Após expulsá-los de São Luís em 1615, prosseguiram na tentativa de ocupar as margens do Rio Amazonas. Em 1616, adentraram o Rio Pará e chegaram à Baía de Guajará, onde fundaram, em 12 de janeiro, a cidade que recebeu primeiramente o nome de “Feliz Lusitânia” e depois Santa Maria de Belém do Grão (atual Belém, no Pará). Para defender o território, foi construído o Forte do Presépio na Baía de Guajará. Entre 1618 e 1619, os portugueses tiveram de enfrentar os Tupinambá, que eram aliados dos franceses e haviam decidido expulsá-los da região. Os Tupinambá invadiram Nossa Senhora de Belém em 1619 e, após terem vários de seus Forte do Presépio, em foto de 2009. A primeira construção era de madeira e taipa. No final do século XVII, foi cons- truída a edificação em pedra. A cidade cresceu às margens do forte, que se lo- calizava entre o Rio Guajará e o Igarapé do Piri, um grande pântano. Forte do Presépio, em foto de 2009. A primeira construção era de madeira e taipa. No final do século XVII, foi cons- truída a edificação em pedra. A cidade cresceu às margens do forte, que se lo- calizava entre o Rio Guajará e o Igarapé do Piri, um grande pântano. R og ér io R ei s/ P ul sa r Im ag en s 36 CONTEXTO A Amazônia Alguns navegadores estiveram na região ama- zônica antes de Portugal tomar posse efetivamen- te das terras brasileiras após 1500. Entre eles, os espanhóis Vicente Pinzón e Diogo de Lepe. Ambos navegaram pelo Rio Amazonas, mas os conflitos com os indígenas e as dificuldades em navegar naquelas águas os fizeram recuar e não tomar posse da região. Os europeus conseguiram navegar por toda a extensão do Rio Amazonas entre 1539 e 1541, quando Gonçalo Pizarro e Francisco Orellana lideraram uma expedição que partiu de Quito (Equador) e chegou ao Oceano Atlântico por esse rio. Com o feito, o imperador espanhol Carlos V concedeu a Orellana o título de capitão e gover- nador das terras de que tomasse posse. No entan- to, em sua segunda viagem, iniciada em 1545, Orellana fracassou em seu intento de penetrar no de drogas do sertão, entre elas a baunilha, o cacau, o gengibre, o cravo e a noz-moscada. começou a ocorrer no século XVI. No século XVII, Belém foi fundada. estava sob o domínio da Coroa espanhola (1580- 1640). Conforme José Maia Bezerra Neto: çaram sobre o litoral do Maranhão ocupado pelos O B R A SI L A M A ZÔ N IC O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS guerreiros mortos, deixaram o local. A luta con- tra as populações indígenas e sua escravização prosseguiu nos anos seguintes, e várias batalhas foram travadas contra holandeses e ingleses pelo domínio dessas terras. O domínio da cidade de Belém foi estrategicamente importante, pois ficou mais fácil controlar o acesso ao Rio Amazonas a partir do Oceano Atlântico. A dominação portuguesa na Amazônia tornou- -se ainda mais sólida com a presença dos missio- nários cristãos vindos da Europa. Com a finalidade de catequizar os indígenas, as ordens religiosas foram fundamentais na construção da sociedade colonial. Franciscanos, carmelitas e, principal- mente, jesuítas começaram a chegar à Amazônia para difundir o catolicismo na América portugue- sa. A primeira ordem que chegou à colônia foi a Companhia de Jesus, fundada pelo espanhol Inácio de Loyola. Seus missionários, os jesuítas, em 1549, aportaram primeiramente na Bahia. Assim como em outras regiões do país, os religiosos organizaram aldeamentos – também chamados de missões ou reduções – onde reali- zavam o trabalho de conversão do indígena para o catolicismo. Além disso, inseriam os indígenas em um sistema de trabalho no qual o colono poderia utilizar, por períodos determinados, a mão de obra indígena em troca de pequeno pagamento. Era ainda função dos padres organizar os chamados descimentos, ou seja, eles subiam os rios para tentar convencer os indígenas a descer para os aldeamentos do litoral. Para tanto, procuravam mostrar os benefícios de ser cristão. Conforme o historiador Armando Alves Filho: Paraessa tarefa, os missionários contavam com a ajuda de índios da própria tribo abordada. Esses índios, que já haviam sido “trabalhados” nas mis- sões, funcionavam como propagandistas das van- tagens da vida nos aldeamentos missionários. A música e o teatro eram estratégias pedagógicas adotadas no intuito do convencimento. ALVES Filho, Armando. O trabalho forçado na Amazônia Colonial. In: ALVES FILHO, Armando et al., op. cit., p. 28-9. Os conflitos entre jesuítas e colonos foram fre- quentes, pois estes reclamavam da constante falta de mão de obra e da limitação da escravização dos indígenas. Só os indígenas resgatados de povos inimigos e os que se recusavam à evangelização poderiam ser efetivamente escravizados. Em mui- tos casos, os que eram cedidos pelos jesuítas não eram devolvidos aos aldeamentos nem era paga a quantia combinada pela tarefa, o que aumentava a tensão entre colonos e missionários. O sistema que permitia aos colonos fazer uso dos indígenas não escravos aldeados denominava-se repartição. Cada jesuíta podia contar com até 150 deles para essa finalidade. Parte deles realizava trabalhos para os próprios jesuítas, que também exploravam as chamadas drogas do sertão. Vale lembrar que muitos colonos desrespeitavam a legislação colo- nial, escravizando indígenas que eram retirados de aldeamentos ou capturados para serem comercia- lizados em outras regiões da colônia. Os vários enfrentamentos entre colonos e mis- sionários acabaram por resultar na expulsão dos jesuítas do Maranhão em 1659 e de Belém em 1661. A conquista do Amazonas, de Antônio Parreiras, 1907. Óleo sobre tela, 90 cm 40 cm. M us eu H is tó ri co d o P ar á, B el ém 37 guerreiros mortos, deixaram o local. A luta con- tra as populações indígenas e sua escravização prosseguiu nos anos seguintes, e várias batalhas foram travadas contra holandeses e ingleses pelo domínio dessas terras. O domínio da cidade de Belém foi estrategicamente importante, pois ficou mais fácil controlar o acesso ao Rio Amazonas a A dominação portuguesa na Amazônia tornou- -se ainda mais sólida com a presença dos missio- nários cristãos vindos da Europa. Com a finalidade de catequizar os indígenas, as ordens religiosas foram fundamentais na construção da sociedade colonial. Franciscanos, carmelitas e, principal- mente, jesuítas começaram a chegar à Amazônia para difundir o catolicismo na América portugue- sa. A primeira ordem que chegou à colônia foi a Companhia de Jesus, fundada pelo espanhol Inácio de Loyola. Seus missionários, os jesuítas, Assim como em outras regiões do país, os religiosos organizaram aldeamentos – também – onde reali- mostrar os benefícios de ser cristão. Conforme o historiador Armando Alves Filho: Para essa tarefa, os missionários contavam com a ajuda de índios da própria tribo abordada. Esses índios, que já haviam sido “trabalhados” nas mis- sões, funcionavam como propagandistas das van- tagens da vida nos aldeamentos missionários. A música e o teatro eram estratégias pedagógicas adotadas no intuito do convencimento. ALVES Filho, Armando. O trabalho forçado na Amazônia Colonial. In: ALVES FILHO, Armando et al., op. cit., p. 28-9. Os conflitos entre jesuítas e colonos foram fre- quentes, pois estes reclamavam da constante falta de mão de obra e da limitação da escravização dos indígenas. Só os indígenas resgatados de povos inimigos e os que se recusavam à evangelização poderiam ser efetivamente escravizados. Em mui- tos casos, os que eram cedidos pelos jesuítas não eram devolvidos aos aldeamentos nem era paga a quantia combinada pela tarefa, o que aumentava a tensão entre colonos e missionários. O sistema que permitia aos colonos fazer uso dos indígenas não escravos aldeados denominava-se repartição. 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Com a promessa de que os africanos escravizados seriam enviados regularmente para a região, os jesu- ítas retornaram em 1680. Mas em que medida existiu a escravidão africana na Amazônia? Por que não teve a mesma penetração que no litoral nordestino? Uma das dificuldades para a introdução da mão de obra africana na Amazônia era o alto custo, excessivo para a dimensão da economia daquela região. Além disso, o grande contingente popula- cional indígena levava os colonos a se interessarem primeiramente pelo aprisionamento de indígenas. A criação da Companhia de Comércio do Grão- Pará e Maranhão, em 1682, foi uma tentativa de desenvolver o tráfico de africanos escravizados na região. A ela foram concedidos o monopólio desse negócio por vinte anos e mais o fornecimento de gêneros de consumo e a exploração de drogas do sertão. No entanto o suprimento regular de afri- canos escravizados pela Companhia não ocorreu, e isso contribuiu para que, em 1684, os colonos do Maranhão organizassem a Revolta de Beckman, liderada por Manuel Beckman. Entre suas princi- pais reivindicações estava o direito de escravizar os indígenas. Depois que os rebeldes haviam prendido autoridades e decidido pela expulsão dos jesuítas do Maranhão, o movimento foi derro- tado, seus líderes enforcados e a Companhia de Comércio extinta em 1685. No século XVIII, durante a administração do marquês de Pombal (1750-1777), foi criada a Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão. Além disso, ampliou-se o fluxo de africanos escravizados para a região com a drástica redução da popula- ção indígena, dizimada pela dominação europeia e por doenças como a varíola, o sarampo e a gripe. Entretanto não se pode afirmar que a mão de obra africana tenha predominado em algum momento nessa região, já que prevaleceu em todo o período a exploração da mão de obra indígena. Durante a administração de Pombal, preten- deu-se também transformar o indígena em cida- dão, ou seja, mediante vários dispositivos legais reconheceu-se a igualdade do indígena diante do colonizador europeu, proibiu-se severamente a sua escravidão e os nativos foram incentivados a se transformar em produtores. Para tanto, foi criado, em 1845, o Diretório-Geral dos Índios, cujos diretores substituíram os jesuítas que che- fiavam os aldeamentos. Antes disso, em 1759, os missionários foram expulsos da colônia. O Estado português pretendia garantir aos indígenas os direitos naturais do ser humano pregado por filó- sofos iluministas, mas seu principal intuito era construir uma estratégia de povoamento e explo- ração da riqueza amazônica, defendendo também as fronteiras de ataques estrangeiros. Esse projeto civilizador, que pregava a nega- ção definitiva da cultura indígena, integrando os indígenas à cultura europeia, não obteve sucesso. Em vez de libertá-los, acabou por permitir que fos- sem ainda mais explorados. Sem a mediação dos jesuítas, os colonos acabaram por investir ainda mais na exploração da mão de obra indígena sem respeitar as ordenações reais que coibiam o des- respeito aos indígenas e sua escravização. A independência e os conflitos durante o Império Até a independência, continuou a predominar na região amazônica, na qual estava inserida a capitania do Grão-Pará, os interesses de colonos portugueses que detinham o poder local e des- frutavam de privilégios concedidos pela Coroa. A adesão do Grão-Pará ao processo de indepen- dência só ocorreu em 15 de agosto de 1823, depois que o Lord Cochrane enviou ao Grão-Pará o brigue (navio com dois mastros de velas redondas) Mara- nhão, sob o comando do capitão Pascoe Grenfell, para negociar a adesão da capitania ao Império. Assim como ocorreu em outras regiões do país, a independência consumada no Rio de Janeiro, em 7 de setembro de 1822, não significava a adesão automática das elites locais ao projetopolítico lide- rado por Dom Pedro I. Muitos proprietários e nego- ciantes temiam que a nova ordem pudesse afetar seus interesses. Aqueles que aderiram à indepen- dência o fizeram porque haviam sido alijados do poder nos primeiros anos da década de 1820 e viam nela uma possibilidade de reaver o espaço perdido. Beckman no Sertão do Alto Mearim, outra pintura de Antônio Parreiras, do século XIX. A nt ôn io P ar re ir as , N it er ói 38 Com a promessa de que os africanos escravizados seriam enviados regularmente para a região, os jesu- ítas retornaram em 1680. Mas em que medida existiu a escravidão africana na Amazônia? Por que não teve a mesma penetração que no litoral nordestino? Uma das dificuldades para a introdução da mão de obra africana na Amazônia era o alto custo, excessivo para a dimensão da economia daquela região. Além disso, o grande contingente popula- cional indígena levava os colonos a se interessarem primeiramente pelo aprisionamento de indígenas. A criação da Companhia de Comércio do Grão- Pará e Maranhão, em 1682, foi uma tentativa de desenvolver o tráfico de africanos escravizados na região. A ela foram concedidos o monopólio desse negócio por vinte anos e mais o fornecimento de gêneros de consumo e a exploração de drogas do sertão. No entanto o suprimento regular de afri- canos escravizados pela Companhia não ocorreu, e isso contribuiu para que, em 1684, os colonos do Maranhão organizassem a Revolta de Beckman, liderada por Manuel Beckman. Entre suas princi- pais reivindicações estava o direito de escravizar nessa região, já que prevaleceu em todo o período a exploração da mão de obra indígena. deu-se também transformar o indígena em cida- dão, ou seja, mediante vários dispositivos legais reconheceu-se a igualdade do indígena diante do colonizador europeu, proibiu-se severamente a sua escravidão e os nativos foram incentivados a se transformar em produtores. Para tanto, foi criado, em 1845, o cujos diretores substituíram os jesuítas que che- fiavam os aldeamentos. Antes disso, em 1759, os missionários foram expulsos da colônia. O Estado português pretendia garantir aos indígenas os direitos naturais do ser humano pregado por filó- sofos iluministas, mas seu principal intuito era construir uma estratégia de povoamento e explo- ração da riqueza amazônica, defendendo também as fronteiras de ataques estrangeiros. ção definitiva da cultura indígena, integrando os indígenas à cultura europeia, não obteve sucesso. Em vez de libertá-los, acabou por permitir que fos- O B R A SI L A M A ZÔ N IC O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS A independência também não atenuou os con- flitos sociais existentes, a exemplo da exploração dos indígenas, da condição miserável de muitas pessoas livres e da violência constante que a manutenção da escravidão representava. Após a independência, a população da região amazônica continuou a se dedicar à economia extrativista, especialmente do cacau, da borracha, de madei- ras, frutos, couros de animais e sementes diver- sas. Em pequena escala, havia uma agricultura dedicada à produção de guaraná, arroz, algodão, café e farinha de mandioca. Todavia a região continuou a ter uma densidade demográfica pequena em relação a outras regiões do país e uma numerosa população indígena, que ainda era aproveitada como mão de obra barata por muitos grandes proprietários. Não se pode afir- mar que o governo brasileiro tenha mudado radi- calmente o cenário do período colonial no que se refere à relação com os povos indígenas. Conforme a historiadora Patrícia Maria Melo Sampaio: Em termos de legislação imperial, passou a funcionar o Regulamento das Missões, de 24 de julho de 1845, estabelecendo a criação de uma Diretoria-Geral de Índios em cada província, que administraria as suas respectivas diretorias par- ciais, devendo todos contar com a ação evange- lizadora de missionários. Permitia-se o “aluguel” de turmas de índios para as obras públicas e par- ticulares, com a contrapartida de pagamento de jornais e de dispensa ao término do contrato, para retorno aos respectivos aldeamentos ou sítios. Registraram-se inúmeros desmandos, desde o descumprimento dos contratos ao não pagamen- to dos salários aos índios. Denúncia comum era a de que os diretores usavam os índios de sua juris- dição em benefício próprio ou de pessoas de suas relações, tornando frequente o não atendimento das demandas de trabalhadores feitas pelos ad- ministradores provinciais, em prejuízo de várias obras públicas. A partir de 1870, o crescimento do número de nordestinos, atraídos pela expan- são da borracha, ofereceu alternativas de mão de obra, o que em parte explica a antecipação da abo- lição na escravidão na província do Amazonas. In: VAINFAS, Ronaldo (Org.). Dicionário do Brasil imperial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. p. 40-1. A abolição da escravatura de africanos ocor- reu no Amazonas em 1884. Mas essa antecipação não pode ser considerada o fim dessa forma de organização do trabalho na Amazônia, como bem explica o sociólogo José de Souza Martins: [...] O gesto precursor das províncias do Amazonas e do Ceará, em 1884, na abolição da escravatura, esconde a verdadeira história da ser- vidão nessas regiões. Essas mesmas províncias estavam na mesma época envolvidas na gestação da nova escravidão que se estenderia até os dias de hoje. Milhares de cearenses migravam, expulsos pela seca, para ou- tras regiões do país e em grande quantidade para a Amazônia, para trabalhar na economia da borra- cha. O Ceará se livrava, assim, de seus excedentes demográficos. Na província do Amazonas, eram escravizados na economia da servidão por dívida, que se multiplicou e se estende até os dias atuais. MARTINS, José de Souza. A terceira abolição da escravatura. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 15 maio 2005. Disponível em: <www.estadao.com.br>. Acesso em: 1 jun. 2013. Não é possível estudar a história da Amazônia pós-independência sem fazer referência à Revolta da Cabanagem (1835-1840). No entanto, devemos salientar que as tensões se faziam presentes na região desde pelo menos 1808, quando ocorreu a Abertura dos Portos às Nações Amigas e a che- gada da Corte portuguesa ao Rio de Janeiro. A partir daí, as relações econômicas foram se trans- formando, com a maior presença da Inglaterra na região e a reorganização da economia local, que agora se deparava com novas condições para a realização do comércio. Essa presença inglesa incomodava as províncias do Norte, já que os comerciantes portugueses dominavam o mercado e eram fiéis solidários ao rei de Portugal. Os rumos e o futuro dos negócios tornavam-se incertos. Mesmo assim, houve crescimento econômico nesse período. Conforme a historiadora Magda Ricci: Trabalhadores de madeireira em Bom Jesus, no Amazonas, em 2003. Nesse setor e em vários outros há, ainda hoje, denúncias de trabalho irregular e forçado, ou seja, do não cumprimento de leis trabalhistas: longas jornadas de trabalho, condições insalubres, ausência de pagamento de salário por endividamento e retenção do trabalhador no local de trabalho. R ic ke y R og er s/ R eu te rs /L at in st oc k 39 A independência também não atenuou os con- flitos sociais existentes, a exemplo da exploração dos indígenas, da condição miserável de muitas pessoas livres e da violência constante que a manutenção da escravidão representava. Após a independência, a população da região amazônica continuou a se dedicar à economia extrativista, especialmente do cacau, da borracha, de madei- ras, frutos, couros de animais e sementes diver- sas. Em pequena escala, havia uma agricultura dedicada à produção de guaraná,arroz, algodão, Todavia a região continuou a ter uma densidade demográfica pequena em relação a outras regiões do país e uma numerosa população indígena, que ainda era aproveitada como mão de obra barata por muitos grandes proprietários. Não se pode afir- mar que o governo brasileiro tenha mudado radi- calmente o cenário do período colonial no que se refere à relação com os povos indígenas. Conforme Em termos de legislação imperial, passou a funcionar o Regulamento das Missões, de 24 de escravatura, esconde a verdadeira história da ser- vidão nessas regiões. Essas mesmas províncias estavam na mesma época envolvidas na gestação da nova escravidão que se estenderia até os dias de hoje. Milhares de cearenses migravam, expulsos pela seca, para ou- tras regiões do país e em grande quantidade para a Amazônia, para trabalhar na economia da borra- cha. O Ceará se livrava, assim, de seus excedentes demográficos. Na província do Amazonas, eram escravizados na economia da servidão por dívida, que se multiplicou e se estende até os dias atuais. MARTINS, José de Souza. A terceira abolição da escravatura. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 15 maio 2005. Disponível em: <www.estadao.com.br>. Acesso em: 1 jun. 2013. Não é possível estudar a história da Amazônia pós-independência sem fazer referência à Revolta da Cabanagem (1835-1840). No entanto, devemos salientar que as tensões se faziam presentes na região desde pelo menos 1808, quando ocorreu a Abertura dos Portos às Nações Amigas e a che- gada da Corte portuguesa ao Rio de Janeiro. A partir daí, as relações econômicas foram se trans- 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Estudos mais recentes sobre as exportações por- tuguesas para o Brasil vêm confirmando dados im- portantes, notadamente que o Pará e o Maranhão juntos exportavam entre 1796 e 1799 cerca de 13,6% dos produtos remetidos para a metrópole vindos do atual território do Brasil. Já entre 1804 a 1807, esta porcentagem aumentava para 19% e, em ambos os casos, estas duas capitanias ocu- pavam o quarto lugar no ranking das capitanias exportadoras. Entretanto, longe de ter um único grande produto de exportação, o Pará remetia para a Europa uma gama variada de gêneros. RICCI, Magda. O fim do Grão-Pará e o nascimento do Brasil: movimentos sociais, levantes e deserções no alvorecer do Novo Império. In: PRIORE, Mary Del; GOMES, Flávio. Os senhores dos rios. Rio de Janeiro: Campus, 2003. p. 169. Muitas festas aconteceram na região home- nageando a presença de Dom João VI no Brasil. Entretanto, depois da Revolução Liberal do Porto, que exigia o retorno do rei a Lisboa, e sua volta efetiva em 1821, as tensões cresceram novamente no Norte da colônia, uma região onde os conflitos envolvendo escravos de origem africana, povos indígenas, autoridades de origem portuguesa e brasileiros eram constantes. A própria Cabanagem, como movimento social, precisa ser entendida com base nesses marcos definidos acima, pois o início da revolta se deu quando o presidente da província, Lobo de Sousa, foi assassinado com o apoio de proprietários locais. Ele havia se indisposto com vários grupos sociais, instaurando uma crise de autoridade. Lobo de Sousa perseguiu e mandou prender muitos daque- les que o criticavam e começou uma campanha contra os adversários da abdicação de Dom Pedro I que defendiam a restauração do trono. De qualquer modo, como explica ainda Magda Ricci: Partindo do pressuposto que no dia 7 de janeiro a cadeia foi esvaziada pelos levantados cabanos e que ali foram encarcerados, desde então, apenas os governistas, os “inimigos da religião” e do “patriotismo” e liberdade, então se pode supor que o levante de 1835 teve adesões e inimigos que estavam muito longe da simples dicotomia entre explorados e exploradores, senhores e escravos. […] Simultaneamente o documento escrito pelo tenente Joaquim Manoel revela ainda as intenções do levante cabano apontando para um interessan- te campo de estudo. Ele afirmava que “a revolução era contra o governo e os maçons por serem, diziam os conspiradores, inimigos da religião”. […] Primeiramente, é preciso lembrar que prati- camente todos os documentos de época insistem em uma chamada crise grave de autoridade. A re- volução era feita contra o governo, mas este não se resumia ao presidente da província do Grão-Pará, estando sempre associado a toda uma gama bem maior e mais complexa de autoridades, que iam desde as autoridades religiosas, representantes de Deus na terra, até o último dos senhores de escravos ou mesmo um simples pai de família. […] RICCI, op. cit., p. 188. A borracha e a belle époque Em meados do século XVIII, o cientista natu- ralista francês Charles Marie de La Condomine descobriu a borracha. Em contato com os povos indígenas, aprendeu a técnica de extração do látex da árvore que recebeu o nome de Hevea bra- siliensis. Seu interesse pela substância (a seiva da seringueira) justificava-se por sua elasticidade, impermeabilidade e maleabilidade. Uma de suas primeiras aplicações industriais foi na confecção de borrachas de apagar. No início do século XIX, já era utilizada na produção de seringas e galochas. Seu emprego só se diversificou após a des- coberta do processo de vulcanização, em 1835, pelo cientista Charles Goodyear, que resolveu o problema da borracha de derreter com o calor e enrijecer no inverno. Com a introdução da nova técnica, conseguiu-se dar consistência fixa ao material. A borracha passou, então, a ser utiliza- da na fabricação de rodas, correias, mangueiras, sapatos e outros produtos. Dessa forma, a pro- dução de borracha na Amazônia, única região produtora no século XIX, cresceu de 156 toneladas em 1830 para 2 673 toneladas em 1860. Já a partir de 1850, a borracha passou a ser a principal ativi- dade econômica da região, envolvendo os atuais estados do Pará, do Amazonas, do Acre e parte da Venezuela, do Peru e da Bolívia. Entretanto, somente depois de 1890, com a popularização da bicicleta e a posterior fabrica- ção de carros em série, a borracha começou a ser adquirida em larga escala por industriais europeus e norte-americanos. Com o crescimento da deman- da pelo produto após 1870, rapidamente se desen- volveu um importante centro comercial na cidade portuária de Belém, capital da província do Pará. A estrutura produtiva organizou-se com base na atividade dos seringueiros, trabalhadores autô- nomos que empregavam técnicas indígenas para extração do látex. Por meio de pequenos cortes nas árvores eles retiravam o líquido, que em segui- da era submetido a um processo de coagulação. Depois entregavam o produto ao aviador, que financiava a produção da borracha oferecendo 40 Estudos mais recentes sobre as exportações por- tuguesas para o Brasil vêm confirmando dados im- portantes, notadamente que o Pará e o Maranhão juntos exportavam entre 1796 e 1799 cerca de 13,6% dos produtos remetidos para a metrópole vindos do atual território do Brasil. Já entre 1804 a 1807, esta porcentagem aumentava para 19% e, em ambos os casos, estas duas capitanias ocu- pavam o quarto lugar no ranking das capitanias exportadoras. Entretanto, longe de ter um único grande produto de exportação, o Pará remetia para a Europa uma gama variada de gêneros. RICCI, Magda. O fim do Grão-Pará e o nascimento do Brasil: movimentos sociais, levantes e deserções no alvorecer do Novo Império. In: PRIORE, Mary Del; GOMES, Flávio. Os senhores dos rios. Rio de Janeiro: Campus, 2003. p. 169. Muitas festas aconteceram na região home- nageando a presença de Dom João VI no Brasil. Entretanto, depois da Revolução Liberal do Porto, que exigia o retorno do rei a Lisboa, e suavolta efetiva em 1821, as tensões cresceram novamente no Norte da colônia, uma região onde os conflitos envolvendo escravos de origem africana, povos A borracha e a ralista francês Charles Marie de La Condomine descobriu a borracha. Em contato com os povos indígenas, aprendeu a técnica de extração do látex siliensis da seringueira) justificava-se por sua elasticidade, impermeabilidade e maleabilidade. Uma de suas primeiras aplicações industriais foi na confecção de borrachas de apagar. No início do século XIX, já era utilizada na produção de seringas e galochas. O B R A SI L A M A ZÔ N IC O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Inaugurado em 1896, o Teatro Amazonas, em Manaus, é uma das construções que fizeram parte da reforma urbana da cidade, pro- movida com a riqueza adquirida pela comercialização da borracha. Para trazer a modernidade europeia a Manaus, importaram-se telhas, grades de ferro, móveis, mármores, lustres e outros objetos do Velho Mundo. Foto de 2009. mercadorias de subsistência em troca. Mediante relação de compadrio, o aviador assumia uma postura de “protetor” dos seringueiros, garantindo assim o fornecimento da borracha pelo endivida- mento de seus protegidos e pelo uso da violência contra aqueles que não se submetessem às con- dições impostas pelas casas aviadoras. O aviador funcionava ainda como intermediário dos exporta- dores estrangeiros, especialmente norte-america- nos e ingleses, sediados em Manaus e Belém. Além da utilização de mão de obra local, os aviadores financiavam a vinda de migrantes nor- destinos para trabalhar nos seringais nos anos da expansão da borracha. Estranhos à extensa região amazônica, esses trabalhadores ficavam presos ao aviador, único canal comercial disponível para vender a borracha e comprar produtos de subsis- tência. As populações indígenas da Amazônia, principalmente os Munduruku e os Apiacá, eram recrutadas à força para o trabalho nos seringais, com a rápida destruição de muitos grupos e a pro- funda mudança dos elementos culturais nativos. Embora obtivessem grande lucro nas operações com os seringueiros, os aviadores eram obrigados a recorrer a empréstimos bancários ou a adian- tamentos dos exportadores em troca da garantia de revenda, para poderem financiar a produção nos seringais. Com isso acumulavam dívidas que, em situações de queda do preço da borracha, os obrigavam a vender o produto por preços que não cobriam o investimento inicial. Os maiores lucros ficavam reservados aos exportadores estrangei- ros, o que mantinha a economia local subordinada ao mercado internacional, uma vez que não havia nenhum setor interno com condições para con- trolar o mercado da borracha. Isso não impediu, contudo, a formação de grandes fortunas locais e um significativo desenvolvimento urbano. A cidade de Belém cresceu de maneira ace- lerada, atingindo uma população de aproximada- mente 200 mil habitantes em 1910 (em 1872, eram somente 61 mil habitantes). A infraestrutura urba- na ampliou-se em pouco tempo com a construção de bulevares, a introdução de bondes elétricos, D o ri va l M o re ir a/ P ul sa r Im ag en s 41 D o ri va l M o re ir a/ P ul sa r Im ag en s 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS serviço telefônico, iluminação pública elétrica e água encanada. Após 1885, além de Belém, a cidade de Manaus despontou como importan- te centro de exportação de borracha. Em 1884, Belém detinha cerca de 90% das exportações. Já em 1901, esse número caiu para 48%, ficando os 52% restantes para a capital amazonense. Apesar de Manaus ter sido convertida em símbolo da expansão da borracha, ela só conseguiu suplantar Belém como centro comercial entre 1901 e 1905. Depois disso, a participação de Manaus oscilou sempre entre 40% e 45%. Esse desenvolvimento econômico, que se deno- minou belle époque amazônica, foi um surto de investimentos na tentativa de implantar aspectos da modernidade dos centros urbanos em cidades como Manaus e Belém. Tal modernização pode ser enten- dida como uma necessidade gerada pelo incremen- to da economia capitalista na região. Foi necessário, por exemplo, ampliar os portos para atender à cres- cente demanda exportadora. Contudo, como adver- te a historiadora Maria de Nazaré Sarges: Desse modo, o conceito de modernidade está inti- mamente ligado ao de progresso expresso através do desenvolvimento da vida urbana, da construção de ferrovias, da intensificação das transações co- merciais e da internacionalização de mercados. […] Na dinâmica cidade de Belém foram projetados, além do Porto de Belém, o Mercado Municipal do Ver-o-Peso (1901), o Hospital Dom Luiz e o Grêmio Literário (obras da colônia portuguesa), The Amazon Telegraph Company, linha telegráfica por cabos submarinos, substituída posteriormente pela Western Co., o Arquivo e Biblioteca Pública (1894), o Teatro da Paz (1878), 43 fábricas (incluindo desde chapéu até perfumaria), 5 bancos, 4 compa- nhias seguradoras, além da implantação da ilumi- nação a gás, sob a responsabilidade da Pará Eletric Railway and Ligthing Co. Ltd., autorizada a funcio- nar pelo Decreto Federal n. 5.780, de 26.1.1905. Entendemos que a ação dinamizadora do “embe- lezamento do visual da cidade” estava associada à economia, à demografia, mas também aos valo- res estéticos de uma classe social em ascensão (seringalistas, comerciantes, fazendeiros) e às ne- cessidades de se dar a determinados segmentos da população da cidade segurança e acomodação, além da colocação em prática da ideia positivista de progresso enfatizada pelo novo regime republicano. SARGES, Maria de Nazaré. Belém: riquezas produzindo a belle époque. 2. ed. Belém: Paka-Tatu, 2002. p. 138-9. Belém e Manaus entraram em profunda crise após 1910. Após o preço do quilo da borracha sal- tar de dois para seis dólares em poucos meses, as vendas começaram a cair por causa da produção asiática de borracha, que, financiada por indus- triais norte-americanos e europeus, suplantou a produção brasileira no mercado internacional a partir de 1913. Como resultado da concorrência asiática, já em 1911 o preço da borracha caiu a pouco mais de um dólar, recuperando-se lenta- mente nos anos que seguiram. O efeito da crise foi avassalador, obrigando aviadores a se desfa- zerem da borracha estocada por preços muito menores do que o investimento realizado, para saldar suas dívidas com credores e bancos. Assim, de 1910 a 1920 ocorreu o processo de declínio da economia amazônica, com a falência de casas aviadoras, a perda da posição de lide- rança no mercado mundial e o endividamento dos governos estaduais, que compraram estoques de borracha a alto preço na tentativa de elevar o preço do produto. Entretanto, as razões estrutu- rais da crise produtiva que se instalou na econo- mia da borracha devem ser buscadas não apenas na concorrência asiática, mas também na falta de investimento e apoio governamental ao setor. Dominado pelos cafeicultores, o Estado brasilei- ro não elaborou nenhuma política de crédito ou estímulo ao incremento das plantações de serin- gueiras, tampouco procurou proteger produtores, exportadores e comerciantes brasileiros no sen- tido de consolidar uma classe economicamente forte para dirigir o processo de produção da borra- cha na região da Amazônia. Ao contrário, quando o governo do Pará promulgou uma lei estabelecendo uma taxação maior para os exportadores estran- geiros, o governo federal, a pedido dos industriais norte-americanos, ordenou sua revogação. Após 1930, mas principalmente depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), asindús- trias passaram a utilizar borracha sintética, cuja produção era superior à de borracha natural. Ainda assim, na região amazônica, o produto continua a ser produzido até os dias atuais, pre- servando algumas das características do antigo sistema produtivo, particularmente no que se refere ao domínio do aviador sobre os seringuei- ros. Nos anos 1970, diversos seringais entraram em decadência e muitas terras foram vendidas a empresários do Sul. Surgiram os chamados seringueiros liber- tos, trabalhadores que se recusaram a abandonar a região amazônica e passaram a vender livre- mente sua produção. A partir desse grupo, foi organizado um sindicato de trabalhadores rurais no Acre sob a liderança de Wilson Pinheiro, assas- sinado por fazendeiros em 1980. Seu sucessor, 42 serviço telefônico, iluminação pública elétrica e água encanada. Após 1885, além de Belém, a cidade de Manaus despontou como importan- te centro de exportação de borracha. Em 1884, Belém detinha cerca de 90% das exportações. Já em 1901, esse número caiu para 48%, ficando os 52% restantes para a capital amazonense. Apesar de Manaus ter sido convertida em símbolo da expansão da borracha, ela só conseguiu suplantar Belém como centro comercial entre 1901 e 1905. Depois disso, a participação de Manaus oscilou sempre entre 40% e 45%. Esse desenvolvimento econômico, que se deno- minou belle époque amazônica, foi um surto de investimentos na tentativa de implantar aspectos da modernidade dos centros urbanos em cidades como Manaus e Belém. Tal modernização pode ser enten- dida como uma necessidade gerada pelo incremen- to da economia capitalista na região. Foi necessário, por exemplo, ampliar os portos para atender à cres- cente demanda exportadora. Contudo, como adver- te a historiadora Maria de Nazaré Sarges: Desse modo, o conceito de modernidade está inti- asiática de borracha, que, financiada por indus- triais norte-americanos e europeus, suplantou a produção brasileira no mercado internacional a partir de 1913. Como resultado da concorrência asiática, já em 1911 o preço da borracha caiu a pouco mais de um dólar, recuperando-se lenta- mente nos anos que seguiram. O efeito da crise foi avassalador, obrigando aviadores a se desfa- zerem da borracha estocada por preços muito menores do que o investimento realizado, para saldar suas dívidas com credores e bancos. declínio da economia amazônica, com a falência de casas aviadoras, a perda da posição de lide- rança no mercado mundial e o endividamento dos governos estaduais, que compraram estoques de borracha a alto preço na tentativa de elevar o preço do produto. Entretanto, as razões estrutu- rais da crise produtiva que se instalou na econo- mia da borracha devem ser buscadas não apenas na concorrência asiática, mas também na falta de investimento e apoio governamental ao setor. Dominado pelos cafeicultores, o Estado brasilei- O B R A SI L A M A ZÔ N IC O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Avenida 16 de Novembro, em Belém (PA), em 1905, depois das reformas de modernização da cidade. Vista do centro comercial e do mercado Ver-o-Peso, em Belém (PA). Foto de 2008. C ol eç ão p ar ti cu la r R og ér io R ei s/ P ul sa r Im ag en s 43 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS o seringueiro Chico Mendes (veja o boxe a seguir), também foi assassinado por fazendeiros em 1988. Além de lutarem pelo fim definitivo do antigo sistema produtivo centrado na figura do aviador, os trabalhadores passaram a defender a formação de reservas extrativistas na Amazônia. Por meio delas seria reconhecido o direito dos seringueiros de permanecerem em áreas tra- dicionalmente ocupadas por eles, áreas estas pertencentes à União. Dessa forma, seriam mon- tadas cooperativas extrativistas, preservando a Floresta Amazônica da devastação. Aliaram-se aos seringueiros outros grupos sociais ligados a atividades extrativistas, como os castanheiros e alguns povos indígenas da região. A questão da demarcação de terras e da manutenção da flores- ta é, ainda hoje, objeto de diversos conflitos entre fazendeiros e extrativistas na Amazônia. Chico Mendes F rancisco Alves Mendes Filho nasceu em 1944 em Xapuri, no Acre. Seguindo desde criança a profissão do pai, Chico, como era conhecido, tornou-se o principal líder dos seringueiros na região, alcançando prestígio nacional e internacional na luta contra a devastação da Floresta Amazônica. Em 1975, firmou-se como líder sindical ao ser escolhido como secretário-geral do recém-fundado Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia. No ano seguinte, participou da luta com os seringueiros para impedir o desmatamento da Amazônia por meio dos “empates”, ações coletivas de trabalhadores extrativistas que visavam impedir a atuação de peões encarregados da derrubada da mata, convencendo-os a abandonar as motosserras. Em 1977, fundou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri e foi eleito vereador pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Além disso, foi um dos fun- dadores, em 1980, do Partido dos Trabalhadores (PT) no Acre. Em 1979, foi acusado de subversão e submetido a interrogatório pelo governo militar por promover debates públicos entre lideranças sindicais na Câmara Municipal. Durante toda a década de 1980 até sua morte, em 1988, Chico Mendes expôs para o mundo a questão da Amazônia e da devastação ambiental. Mais do que uma luta pela reforma agrária, percebeu que a floresta não devia ser loteada, mas sim permanecer patrimônio de todos. Dela os seringueiros tiram seu sustento, sem, no entanto, desmatá-la. Propôs a formação da União dos Povos da Floresta, que congregaria seringueiros e indígenas em um projeto de criação de reservas extrativistas que preservassem as áreas indígenas. O reconhecimento disso veio por intermédio de vários prêmios, incluindo o Global 500, concedido pela Organização das Nações Unidas (ONU). No entanto, Chico Mendes também colecionou muitos inimigos interessados na exploração econômica da Amazônia em outros moldes, principalmente os grandes fazendeiros. Ameaçado de morte, chegou a indicar em entrevistas os nomes de seus “possíveis futuros assassinos”, confirmando o que ocorreria pouco tempo depois. Em 1988, foram implantadas as primeiras reservas extrativistas no Acre, o que implicou a desapropriação do Seringal Cachoeira, de propriedade de Darly Alves da Silva. Em 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes foi assassinado em sua casa. Darly Alves da Silva e seu filho, Darci, foram condenados, embora ainda haja a suspeita de outros poderosos envolvidos no crime. A morte do líder sindical chamou a atenção para a questão dos seringueiros e da floresta. Alguns de seus companheiros de luta ocupariam importantes cargos anos depois: Jorge Viana foi governador do Acre entre 1999 e 2006 e Marina Silva, ministra do Meio Ambiente entre 2003 e 2008 e candidata à presidência da República em 2010, atingindo quase 19,6 milhões de votos. Chico Mendes, em 1988. Fe rn an do M ar qu es /A E Com base em Atlas geográfico escolar. Rio de Janeiro: IBGE, 2009. p. 156. M ap s W or ld LOCALIZAÇÃO DE XAPURI (AC) 44 o seringueiro Chico Mendes (veja o boxe a seguir), também foi assassinado por fazendeiros em 1988. Além de lutarem pelo fim definitivo do antigo sistema produtivo centrado na figura do aviador, os trabalhadores passaram a defender a formação de reservas extrativistas na Amazônia. Por meio delas seria reconhecido o direito dos seringueiros de permanecerem em áreas tra- dicionalmente ocupadas por eles, áreas estas pertencentes à União. Dessa forma, seriam mon- tadas cooperativasextrativistas, preservando a Floresta Amazônica da devastação. Aliaram-se aos seringueiros outros grupos sociais ligados a atividades extrativistas, como os castanheiros e alguns povos indígenas da região. A questão da demarcação de terras e da manutenção da flores- ta é, ainda hoje, objeto de diversos conflitos entre fazendeiros e extrativistas na Amazônia. Chico Mendes F rancisco Alves Mendes Filho nasceu em 1944 em Xapuri, no Acre. Seguindo desde criança a profissão do pai, Chico, como era conhecido, tornou-se o principal líder dos seringueiros na região, alcançando prestígio nacional e internacional na luta contra a devastação da Floresta Amazônica. Em 1975, firmou-se como líder sindical ao ser escolhido como secretário-geral do recém-fundado Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia. No ano seguinte, participou da luta com os seringueiros para impedir o desmatamento da Amazônia por meio dos “empates”, ações coletivas de trabalhadores extrativistas que visavam impedir a atuação de peões encarregados da derrubada da mata, convencendo-os a abandonar as motosserras. Em 1977, fundou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri e foi eleito vereador pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Além disso, foi um dos fun- dadores, em 1980, do Partido dos Trabalhadores (PT) no Acre. Em 1979, foi acusado de subversão e submetido a interrogatório pelo governo militar por promover debates públicos entre lideranças sindicais na Câmara Municipal. Durante toda a década de 1980 até sua morte, em 1988, Chico Mendes expôs para o mundo a questão da Amazônia e da devastação ambiental. Mais do que uma luta pela reforma agrária, percebeu que a floresta não devia ser loteada, O B R A SI L A M A ZÔ N IC O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS As transformações do ecossistema da Amazônia Ao longo do tempo, a Amazônia sofreu diferen- tes devassamentos (expropriação do ser huma- no e da natureza). Isso decorreu, por um lado, da visão de que essa região era uma grande área de recursos; por outro, da ideia de que recursos ines- gotáveis deviam, obrigatoriamente, ser explora- dos. Em outras palavras, por trás do slogan “vazio demográfico” estava a necessidade de ocupar esse espaço, baseado no “tripé”: necessidade de progresso, busca pela integração nacio- nal/internacional e desenvolvimento econô- mico. O resultado disso foi uma enorme pressão sobre os grupos sociais que lá habitam. Após os anos 1960, ampliou-se a ocupação do território com a privatização gradativa de terras, minas e florestas. Isso ocasionou grande desi- gualdade na distribuição dos recursos naturais, especialmente da terra. A maneira pela qual a região foi apropriada levou à exclusão social e à desterritorialização da população indígena, além de ter ocasionado enorme degradação ambiental. O Estado, por sua vez, ainda hoje não consegue cumprir seu papel fiscalizador na região, o que faci- lita atividades clandestinas como o garimpo e o nar- cotráfico. Essas atividades são intensificadas pela pobreza em torno dos centros urbanos, que atinge principalmente a mão de obra nativa e os migrantes, levando as pessoas a ingressarem na clandestinidade. Nos anos 1990, ocorreram transformações eco- nômicas e políticas na região. A Amazônia tornou- -se um espaço estratégico na inserção do país na globalização econômica, e as questões começaram a transitar em torno da revolução científico-tecnoló- gica, da conservação ambiental e dos movimentos sociais. Novos atores nacionais e internacionais passaram a atuar, especialmente por meio de orga- nizações não governamentais (ONGs). Para Antonia M. M. Ferreira e Enéas Salati, existem cinco fases históricas de transfiguração da região amazônica: “a de conquista e posse; a de ocupação; a de explo- ração; a de valorização; e a de integração”1 Em cada um desses momentos houve uma forma diferente de devassamento do ser humano e da natureza. O primeiro devassamento é conhecido tam- bém como ciclo de drogas do sertão. Ele cons- tituiu basicamente a busca por essas “drogas” 1 FERREIRA, Antonia M. M.; SALATI, Enéas. Forças de transformação do ecossistema amazônico. Estudos Avançados, n. 54, maio/ago. 2005. p. 33. Dossiê Amazônia brasileira II.›. – canela, cravo, anil, madeira etc. –, que eram enviadas para a Europa nos séculos XVII e XVIII. Os povoamentos eram núcleos militares, coloniais e missões religiosas. Em razão da necessidade de mão de obra, os colonos iniciaram uma “caça ao indígena”, gerando conflitos com os jesuítas. O segundo devassamento, que ocorreu no final do século XIX e começo do século XX, foi denominado ciclo da borracha. A demanda por borracha na Europa e nos Estados Unidos e a pro- longada seca nordestina entre 1877 e 1880 foram suas principais causas. Houve grande aumento no contingente populacional, especialmente no recém- -incorporado estado do Acre. Depois dos anos 1920, o crescimento de um mercado local impulsionou a agropecuária, além de atividades complementares de recursos, como a mineração e o extrativismo vegetal. No entanto, até 1970, elas não causaram grande impacto destrutivo na floresta. Após 1970, ocorreu o terceiro grande devas- samento impulsionado pela descoberta da rique- za mineral e da pobreza dos solos. A ideia de “integrar para não entregar” levou à construção de estradas que cortam a região (entre elas a Transamazônica, na década de 1970) e aos incen- tivos fiscais, ocasionando, consequentemente, um grande crescimento das migrações. Pequenos agricultores nordestinos foram expulsos de suas terras e orientados a avançar sobre terras amazô- nicas “livres”. A nova e intensa ocupação rompeu com as atividades realizadas até então no local. Nos anos 1980, a nova ordem econômica mun- dial também se refletiu na Amazônia. Ainda con- forme Antonia M. M. Ferreira e Enéas Salati: Do ponto de vista nacional, a década de 1980 re- presenta a implantação de uma política de moder- nização desse território, visando à industrialização da Amazônia e à exploração de seus recursos mi- nerais em bases modernizadas. FERREIRA; SALATI, op. cit., p. 36. O Programa Grande Carajás (PGC) foi implemen- tado nessa época, trazendo a demanda por madeiras e energia hidráulica, a intensificação da exploração mineral e uma nova mobilidade populacional. A par- tir daí, as migrações passaram a ocorrer dentro do próprio território amazônico, com deslocamentos que acompanham a demanda por mão de obra nas diferentes atividades econômicas. A população mais pobre começou a se deslocar de acordo com a explo- ração de recursos, causando uma “desorganização” espacial. Um exemplo foi Serra Pelada, em 1985, quando mais de 500 mil pessoas se amontoaram em torno dessa área em busca de metais preciosos. 45 Ao longo do tempo, a Amazônia sofreu diferen- (expropriação do ser huma- no e da natureza). Isso decorreu, por um lado, da visão de que essa região era uma grande área de recursos; por outro, da ideia de que recursos ines- gotáveis deviam, obrigatoriamente, ser explora- “vazio demográfico” estava a necessidade de ocupar necessidade busca pela integração nacio- desenvolvimento econô- . O resultado disso foi uma enorme pressão Após os anos 1960, ampliou-se a ocupação do território com a privatização gradativa de terras, minas e florestas. Isso ocasionou grande desi- gualdade na distribuição dos recursos naturais, especialmente da terra. A maneira pela qual a região foi apropriada levou à exclusão social e à desterritorialização da população indígena, além – canela, cravo, anil, madeira etc. –, que eram enviadas para a Europa nos séculos XVII e XVIII. Os povoamentos eram núcleos militares, coloniais e missões religiosas. Em razão da necessidade de mão de obra, os colonos iniciaramuma “caça ao indígena”, gerando conflitos com os jesuítas. O segundo devassamento, que ocorreu no final do século XIX e começo do século XX, foi denominado ciclo da borracha. A demanda por borracha na Europa e nos Estados Unidos e a pro- longada seca nordestina entre 1877 e 1880 foram suas principais causas. Houve grande aumento no contingente populacional, especialmente no recém- -incorporado estado do Acre. Depois dos anos 1920, o crescimento de um mercado local impulsionou a agropecuária, além de atividades complementares de recursos, como a mineração e o extrativismo vegetal. No entanto, até 1970, elas não causaram grande impacto destrutivo na floresta. Após 1970, ocorreu o terceiro grande devas- samento impulsionado pela descoberta da rique- za mineral e da pobreza dos solos. A ideia de “integrar para não entregar” levou à construção 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS I O quarto grande devassamento ocorreu na década de 1990, marcada pela revolução científico- -tecnológica, pela crise ambiental e pelos movi- mentos sociais. A globalização passou a ser a pala- vra de ordem, tendo em vista a preocupação com a escassez dos recursos naturais importantes para todo o planeta (como a água e a biodiversidade). O incentivo fiscal do governo, na década anterior, foi substituído pela atuação da iniciativa privada, que investiu em várias atividades, como a retirada de madeiras nobres, a mineração, a pecuária e o agronegócio. A Amazônia tornou-se o centro da discussão mundial, e seu futuro passou a ser con- siderado o futuro do mundo. No entanto, o discurso da conservação caminhou lado a lado com o cres- Mineradores em busca de ouro em Serra Pelada (PA), em 1986. S am ue l I av el b er g /k in o. co m .b r cimento internacional da demanda por produtos como madeira, gado e grãos, cultivados na região. O resultado foi o desmatamento exacerbado. Outro problema atual é que essas ativida- des econômicas, apesar de seu grande impacto ambiental, absorvem pouca mão de obra. Elas também desestruturam as populações tradicio- nais da Amazônia. Todo esse quadro leva a con- flitos pela terra e ao crescimento desenfreado das cidades (algumas chegaram a crescer 7 000% entre 1980 e 1991). As novas aglomerações urba- nas rompem com a cultura e a identidade étnica das populações nativas. A ocupação da Amazônia no Brasil contemporâneo Nos dias atuais, a Amazônia ainda é ocupada por vários povos indígenas. Conforme o Instituto Socioambiental, em 2011 existiam entre 400 mil e 700 mil indígenas no Brasil, e mais da metade deles vivem nos estados da região Norte e em suas fronteiras, ou seja, dentro do espaço ama- zônico. Há grande variedade linguística e cultu- ral entre esses povos. Na tabela a seguir, identi- ficamos alguns dos mais de 140 povos indígenas que ocupam o espaço amazônico. As condições de vida desses muitos povos são bastante heterogêneas. Existem aqueles que vivem em regiões menos acessíveis e distantes das rotas de mercado, exercendo, por esse motivo, uma pres- são ambiental inexpressiva, pois a demanda de recursos naturais está limitada às necessidades de subsistência do grupo. Tais grupos podem ser divididos em duas subcategorias: povos cujas terras são razoavelmente protegidas de madeirei- ros, garimpeiros e posseiros (os principais repre- sentantes são os Enawenê Nawê); e povos que têm suas terras constantemente invadidas por elementos exteriores (como os Yanomami). Esses povos, por terem desenvolvido outros valores cul- turais, demonstram pouco conhecimento sobre o mundo das mercadorias e acabam muitas vezes enganados por garimpeiros e outros intrusos em troca de produtos ou trabalhos mal remunerados. Já outros povos indígenas são mais dependen- tes do dinheiro e das mercadorias industrializadas. Utilizam os instrumentos dos “brancos” não apenas para ter status em sua tribo, mas também porque con- sideram algumas peças indispensáveis a certas ativi- dades (como machados, facas, espingardas, roupas, medicamentos etc.). Aos poucos, os conhecimentos tradicionais e sua mitologia estão sendo substituídos pela escola e por influências da sociedade industrial e 46 cimento internacional da demanda por produtos como madeira, gado e grãos, cultivados na região. O resultado foi o desmatamento exacerbado. des econômicas, apesar de seu grande impacto ambiental, absorvem pouca mão de obra. Elas também desestruturam as populações tradicio- nais da Amazônia. Todo esse quadro leva a con- flitos pela terra e ao crescimento desenfreado das cidades (algumas chegaram a crescer 7 000% entre 1980 e 1991). As novas aglomerações urba- nas rompem com a cultura e a identidade étnica das populações nativas. A ocupação da Amazônia no Brasil contemporâneo por vários povos indígenas. Conforme o Instituto Socioambiental, em 2011 existiam entre 400 mil e 700 mil indígenas no Brasil, e mais da metade deles vivem nos estados da região Norte e em suas fronteiras, ou seja, dentro do espaço ama- O B R A SI L A M A ZÔ N IC O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS correm o risco de ficar restritos às antigas gerações. Muitos indígenas trabalham em um sistema que pode ser considerado um resquício do grande período de exploração do látex. Como trabalhadores dessa atividade, facilmente são escravizados pelo sistema de adiamento, ou seja, pelo pagamento antecipado de algum valor que, depois, tem de ser revertido em trabalho. Disso resulta uma forma de escravidão por dívida. Há também o garimpo e o trabalho em madei- reiras, muitas vezes praticados ilegalmente em áreas indígenas. Para evitar a fiscalização, garimpeiros ten- tam se aliar a indígenas em troca de benefícios. No entanto, na prática do garimpo, joga-se mercúrio nos INSTITUTO Socioambiental. Disponível em: <www.socioambiental.org.br>. Acesso em: 18 abr. 2013. Povos indígenas da Amazônia com grupos de mais de 2 mil habitantes Nome Família/ língua UF (Brasil) – Países limítrofes População estimada no Brasil Ano da estimativa Ticuna Ticuna AM – Peru/Colômbia 36 377 2009 Makuxi Karib RR – Guiana Equatorial 29 931 2010 Guajajara Tupi-Guarani MA 19 471 2006 Yanomami (subgrupos Yanomami, Sanumá e Ninam) Yanomami RR/AM – Venezuela 19 338 2011 Munduruku Munduruku PA 11 630 2010 Baré Nheengatu AM – Venezuela 10 275 2005 Mura Mura AM 9 299 2006 Sateré-Mawé Mawé AM/PA 9 156 2008 Wapixana Aruak RR – Guiana 7 000 2008 Tukano Tukano AM – Colômbia 6 241 2005 Kayapó (subgrupos Gorotire, A’ukre, Kikretun, Mekrãnoti, Kuben-Kran-Ken, Kokraimoro, Metuktire, Xikrin e Kararaô) Jê MT/PA 5 923 2006 Baniwa Aruak AM – Colômbia/ Venezuela 5 811 2005 Kaxinawá Pano AC – Peru 4 500 2004 Kulina Madihá Arawá AC/AM – Peru 3 500 2006 Apurinã Aruak AM 3 256 2006 Karajá Karajá MT/TO/PA 3 198 2010 Wai Wai (subgrupos Karafawyana, Xereu, Katuena e Mawayana) Karib RR/AM/PA – Guiana 2 914 2005 Maku (subgrupos Yuhupde, Hupdá, Nadöb, Dow, Cacua e Nucak) Maku AM – Colômbia 2 603 2005 Desana Tukano AM – Colômbia 2 204 2005 rios, o que traz enorme prejuízo ambiental a todos. Madeireiros também presenteiam os indígenas em troca da madeira a ser cortada. Existem ainda os povos indígenas que perde- ram a capacidade de produzir recursos para sua sobrevivência, vivendo principalmente perto dos centros urbanos. Atividades como caça, extração florestal e cultivo foram esgotadas nessas regi- ões, tornando os indígenas dependentes do mer- cado. Abandonando sua forma de vida originária, eles são obrigados a escolher entre viver em um ambiente desfavorável ou migrar paracidades ou áreas rurais mais distantes. 47 Povos indígenas da Amazônia com grupos de mais de 2 mil habitantes UF (Brasil) – Países limítrofes População estimada no Brasil Ano da estimativa AM – Peru/Colômbia 36 377 2009 RR – Guiana Equatorial 29 931 2010 MA 19 471 2006 RR/AM – Venezuela 19 338 2011 PA 11 630 2010 AM – Venezuela 10 275 2005 AM 9 299 2006 AM/PA 9 156 2008 RR – Guiana 7 000 2008 AM – Colômbia 6 241 2005 MT/PA 5 923 2006 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS I Indígenas das aldeias Barasano e Tuyuca peneirando a farinha do beiju (à base de mandioca). Manaus (AM), 2008. Colono trabalhando em ter- ra designada pelo Incra, em Altamira (PA), 1972. Fa bi o C ol om bi ni S ol an o Jo sé /A E Ao lado desses povos indígenas há os rema- nescentes dos grandes latifúndios do século XVIII, que mantêm relações de trabalho bastante antigas e estáveis, com base no sistema clientelista e no pagamento por espécie (o que leva muitas vezes ao endividamento do empregado). No entanto, para o meio ambiente, essas propriedades latifundiá- rias produzem um impacto bem menor do que os latifúndios mais recentes, pois seu objetivo econô- mico não é a acumulação de capital e a expansão territorial, mas sim a manutenção de um domínio senhorial. Após a década de 1970, com a chegada do outro tipo de latifúndio, alguns latifundiários tradicionais tiveram de modificar sua forma de produção por causa da concorrência. Com a criação da Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia) em 1966, a região passou a oferecer incentivos fiscais gover- namentais para o desenvolvimento da agropecuá- ria. Foi o início da instalação de grandes latifúndios na região, o que causou inúmeros problemas sociais e ambientais. A floresta passou a ser vista como um “vazio demográfico” de subdesenvolvimento, que precisava ser desmatada para a chegada do capitalismo. Além do desmatamento, o massacre de grupos indígenas, o trabalho escravo, a expulsão dos posseiros e os conflitos pela terra foram outras consequências drásticas dessa situação. Além disso, há os migrantes que vieram para a região e começaram a agir como posseiros, tomando posse das terras por meio dos desmata- mentos. Vindos principalmente do Nordeste e do Sul, onde não dispunham de terras para produzir, desconhecem a floresta e cultivam elementos exteriores a ela, o que causa grande prejuízo ambiental. Estão nesse grupo tanto os pequenos agricultores como os trabalhadores sem terra e os sazonais, que, marcados por trajetórias sofridas que os levam até as terras inexploradas, enfren- tam a violência dos grandes proprietários. 48 Fa bi o C ol om bi ni Ao lado desses povos indígenas há os rema- nescentes dos grandes latifúndios do século XVIII, que mantêm relações de trabalho bastante antigas e estáveis, com base no sistema clientelista e no pagamento por espécie (o que leva muitas vezes ao endividamento do empregado). No entanto, para o meio ambiente, essas propriedades latifundiá- rias produzem um impacto bem menor do que os latifúndios mais recentes, pois seu objetivo econô- mico não é a acumulação de capital e a expansão territorial, mas sim a manutenção de um domínio senhorial. Após a década de 1970, com a chegada do outro tipo de latifúndio, alguns latifundiários tradicionais tiveram de modificar sua forma de produção por causa da concorrência. Com a criação da Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia) em 1966, a região passou a oferecer incentivos fiscais gover- namentais para o desenvolvimento da agropecuá- ria. Foi o início da instalação de grandes latifúndios na região, o que causou inúmeros problemas sociais e ambientais. A floresta passou a ser vista como um “vazio demográfico” de subdesenvolvimento, que precisava ser desmatada para a chegada do capitalismo. Além do desmatamento, o massacre de grupos indígenas, o trabalho escravo, a expulsão dos posseiros e os conflitos pela terra foram outras consequências drásticas dessa situação. a região e começaram a agir como posseiros, tomando posse das terras por meio dos desmata- mentos. Vindos principalmente do Nordeste e do Sul, onde não dispunham de terras para produzir, desconhecem a floresta e cultivam elementos exteriores a ela, o que causa grande prejuízo ambiental. Estão nesse grupo tanto os pequenos agricultores como os trabalhadores sem terra e os sazonais, que, marcados por trajetórias sofridas que os levam até as terras inexploradas, enfren- tam a violência dos grandes proprietários. O B R A SI L A M A ZÔ N IC O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Durante a ditadura militar (1964-1985), grandes empreendimentos estatais foram justificados pela política de integração nacional, implementados para levar o capitalismo até o interior do Brasil. Tais empreendimentos envolviam maciços investimen- tos em infraestrutura viária, construção de hidrelé- tricas e programas de exploração de minérios, além dos incentivos fiscais aos proprietários privados. No início não demonstravam nenhuma preocupa- ção ambiental, o que passou a ser questionado a partir dos anos 1980 por organizações interna- cionais como o Banco Mundial. O resultado foi a atual exigência de estudos relacionados aos impac- tos ambientais que poderiam ser ocasionados na região antes da aprovação de qualquer projeto. Todos esses elementos fazem com que as ten- sões sociais na região sejam enormes, além dos evidentes riscos para o ecossistema da Amazônia e para o ser humano que ali vive. A terra e o desenvolvimento na Amazônia No período do regime militar no Brasil, a quase totalidade do território amazônico brasileiro era propriedade da União e dos estados. Tanto as terras públicas e livres de titulação quanto as propriedades privadas eram ocupadas por pequenos posseiros que viviam do extrativismo, por populações nativas e por migrantes de longa data. Os conflitos entre seus habilitantes eram praticamente inexistentes. A partir dos anos 1960, surgiu a teoria de que seria possível atrair para a Amazônia capitais pro- dutivos vindos de outras regiões do país e do exte- rior. Os militares iniciaram, então, um plano para integrá-la ao mercado nacional e internacional, que tinha nos incentivos fiscais sua principal estratégia, deixando a modernização da região nas mãos das grandes empresas privadas. O resultado foi catas- trófico, já que os empresários investiram o dinheiro na especulação imobiliária (adquirindo muitas ter- ras para vendas futuras) e na pecuária (o que cau- sou um enorme desmatamento). O Estado investiu na infraestrutura local, construindo estradas, por- tos, aeroportos etc., o que aumentou a devastação florestal. O projeto mais conhecido nessa direção é o da construção da Rodovia Transamazônica, que foi idealizada para ter 8 mil quilômetros de extensão e que nunca foi concluída. Além disso, o governo comprometeu-se a atrair mão de obra barata para trabalhar nas obras (como os nordesti- nos que fugiam da seca), a qual lá permaneceu em condições precárias de sobrevivência. Após os anos 1970, as terras públicas habita- das por colonos, ribeirinhos e indígenas passaram a ser loteadas e vendidas em grandes dimensões para os novos investidores. Os novos proprietá- rios, por sua vez, remarcaram os lotes em uma extensão bem maior do que a original. Muitas prá- ticas ilegais de grilagem tornaram-se constantes, como a venda de um mesmo terreno para mais de um comprador, a venda de terras públicas por par- ticulares (incluindo áreas de reservas ambientais e indígenas), a demarcaçãoda terra comprada, a falsificação de títulos de terra, o remembramento de lotes destinados à reforma agrária etc. Tudo isso resultou em uma enorme concentração de terras na Amazônia e na intensificação de conflitos. O governo federal, por sua vez, regularizou por meio de medidas provisórias as terras griladas. Para “promover a região”, o Estado legalizou as pro- priedades de até 60 mil hectares que tivessem sido Trecho da Rodovia Transamazônica entre Itaituba e Jacareacanga (PA), em 2001. O grande projeto de integração da região custou muito caro ao governo federal e atraiu muitos migrantes e colonizadores. A obra nunca foi concluída, existin- do atualmente pouco mais de 2 mil quilômetros de rodovia, e grande parte desse trajeto sem asfalto. A construção da estrada gerou um enorme desmatamento em seu entorno, o que causa problemas até os dias atuais. C la ud io L ar an ge ir a/ ki no .c om .b r 49 Durante a ditadura militar (1964-1985), grandes empreendimentos estatais foram justificados pela política de integração nacional, implementados para levar o capitalismo até o interior do Brasil. Tais empreendimentos envolviam maciços investimen- tos em infraestrutura viária, construção de hidrelé- tricas e programas de exploração de minérios, além dos incentivos fiscais aos proprietários privados. No início não demonstravam nenhuma preocupa- ção ambiental, o que passou a ser questionado a partir dos anos 1980 por organizações interna- cionais como o Banco Mundial. O resultado foi a atual exigência de estudos relacionados aos impac- tos ambientais que poderiam ser ocasionados na Todos esses elementos fazem com que as ten- sões sociais na região sejam enormes, além dos evidentes riscos para o ecossistema da Amazônia C la ud io L ar an ge ir a/ ki no .c om .b r 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS adquiridas ilegalmente, promovendo a expulsão dos antigos moradores. Os governos estaduais agiram da mesma maneira. Dessa forma, os antigos e legíti- mos posseiros foram obrigados a deixar suas terras. Após os anos 1970 surgiu, na região, a figura do pistoleiro, com a finalidade de proteger as gran- des propriedades ociosas ou improdutivas contra a invasão dos posseiros. Por causa do pequeno con- tingente policial, os fazendeiros introduziram os pis- toleiros para “ajudá-los” na expulsão, além de uti- lizá-los para assassinar lideranças e sindicalistas. Também a partir dos anos 1970, a madeira e o gado passaram a ser as principais atividades econômicas da região. Ambas exigem grandes propriedades (concentrando, consequentemen- te, a renda nas mãos de poucos), empregam pouca mão de obra e causam enorme destruição ambiental. E tudo isso para um rendimento baixo, já que os produtos não são industrializados. O Pará é o estado mais afetado por conflitos de terra, tendo crescido bastante as ameaças e o número de mortes nos últimos dez anos. Com a construção das estradas federais nos anos 1970, houve uma “federalização das terras amazô- nicas” por meio de decretos, o que fez ape- nas 30% das terras paraenses ficarem sob a jurisdição do governo estadual. Os maiores beneficiados pela federalização foram os grandes proprietários rurais. Nos anos 1980, os decretos da época da ditadura foram revogados e as terras volta- ram aos estados, mas a situação não foi resolvida. A indiferença do poder público e o apoio aos interesses dos latifundiários agravam a questão. O Pará ainda é o local onde a impunidade por crimes em conflitos de terras é maior. O caso do assassinato da freira Dorothy Stang, cujo julgamento foi relativamente rápido, foi uma exceção, já que a maior parte dos casos aguardam mais de dez anos para serem jul- gados. Ela foi assassinada por pistoleiros, a mando de fazendeiros do município de Anapu, por defender a manutenção de um assentamento de pequenos coletores extrativistas de uma reserva ecológica. Na proposta de desenvolvimento econômico da Amazônia, formulada durante a ditadura militar, foi criada a Zona Franca de Manaus, a fim de promover a ocupação de uma região despovoada. Pretendia-se atrair mão de obra e capital nacional e estrangeiro, dando à Amazônia condições de rentabilidade econômica global. Assim, realizou- -se a Operação Amazônia, na qual se incluiu a criação da Zona Franca, que contemplava o discurso militarista nacionalista e o processo de transnacionalização do capital. Na verdade, essa combinação estava atrelada a um contexto inter- Dorothy Stang (em foto de fevereiro de 2004) foi assassinada em 12 de fevereiro de 2005, aos 73 anos de idade. Nascida nos Estados Unidos, a missionária estava no Brasil desde 1972 e atuava no município de Anapu (PA), região da Transamazônica. Ela desenvolvia projetos sustentáveis para geração de empre- go e renda. Atuava também em projetos de reflorestamento de áreas degra- dadas. Ademais, trabalhava para o Projeto de Desenvolvimento Sustentável Esperança, no qual mais de 55 famílias seriam assentadas em terras confis- cadas de fazendeiros e madei- reiros pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Os assentados receberiam lotes de 100 hectares para criar gado de corte e produ- zir leite, além de desenvolver uma agricultura familiar. Os 80 hectares restantes seriam preservados. Os fazendeiros e os madeireiros, por sua vez, prometeram assassinar a missionária se o projeto fos- se adiante. Após o crime, dois executores foram presos e três fazendeiros, acusados como mandantes. Os assassinos fo- ram julgados e condenados pelo crime. Desde 1971 até 2005, 587 pessoas foram mortas por envolvimento em questões agrárias no sudeste e no sul do Pará. C ar lo s S ilv a/ A E/ R eu te rs M ap s W or ld ASSASSINATOS DE CAMPONESES E TRABALHADORES RUAIS (1986-2006) Observe a grande concentração de assassinatos no Pará. Organizado com base em dados da Comissão Pastoral da Terra. Disponíveis em: <http://www.cptnacional.org. br/>. Acesso em 23 maio 2013. 50 adquiridas ilegalmente, promovendo a expulsão dos antigos moradores. Os governos estaduais agiram da mesma maneira. Dessa forma, os antigos e legíti- mos posseiros foram obrigados a deixar suas terras. Após os anos 1970 surgiu, na região, a figura do pistoleiro, com a finalidade de proteger as gran- des propriedades ociosas ou improdutivas contra a invasão dos posseiros. Por causa do pequeno con- tingente policial, os fazendeiros introduziram os pis- toleiros para “ajudá-los” na expulsão, além de uti- lizá-los para assassinar lideranças e sindicalistas. Também a partir dos anos 1970, a madeira e o gado passaram a ser as principais atividades econômicas da região. Ambas exigem grandes propriedades (concentrando, consequentemen- te, a renda nas mãos de poucos), empregam pouca mão de obra e causam enorme destruição ambiental. E tudo isso para um rendimento baixo, já que os produtos não são industrializados. O Pará é o estado mais afetado por conflitos de terra, tendo crescido bastante as ameaças e o número de mortes nos últimos dez anos. Com a construção das estradas federais nos anos 1970, houve uma “federalização das terras amazô- O B R A SI L A M A ZÔ N IC O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS I Disponível em: <http://g1.globo.com/natureza/noticia/2013/03/desmatamento-da-amazonia-sobe-26-em-6-meses-aponta-inpe.html>. Acesso em: 1 jun. 2013. DESMATAMENTO NA AMAZÔNIA EM KM2 (1988-2012). P O N T O D E V IS T A PONTO DE VISTA nacional de relacionar a ordem nacional à ordem mundial, originando váriaszonas francas pelo mundo. Quando foi criada a brasileira, já existiam três zonas semelhantes no mundo: Kaoshiung (China), Shannon (Irlanda) e Kandla (Índia). Nesse sentido, a Zona Franca de Manaus foi uma tentativa do governo militar de implementar uma área de livre-comércio, importação e exporta- ção, e incentivos fiscais especiais. Essa iniciativa levou a outros investimentos em infraestrutura na região, sendo contemporânea à criação do Banco da Amazônia S. A. (Basa) e da Sudam. Coube à ditadura criar condições para o investimento capita- lista industrial na região, especialmente por meio da diminuição do imposto aos investidores capitalistas. Em 2006, o governo federal sancionou lei que permite a concessão de florestas públicas para exploração de atividades econômicas como o corte de madeiras. Dessa forma ele pretende reduzir a grilagem de terras e desenvolver uma economia sustentável na região. Assim o governo brasileiro toma as rédeas do processo de exploração dos recursos naturais da floresta e cede concessões de exploração, controlando os impactos sobre o meio ambiente e reduzindo a concentração de terras nas mãos de poucos. Em 2009, registrou-se significativo recuo no desmatamento da Amazônia. No entanto, não o suficiente para impedir que ainda fossem desmatados 7 mil km2 somente nesse ano. Entre 2011 e 2012 forma desmatados outros 4,6 mil km2, o que equivale a um espaço equivalente a três cida- des da dimensão de São Paulo. Observe no gráfico abaixo, o ritmo do desmatamento na Amazônia ao longo dos anos. A redução do desmatamento também tem impacto positivo na emissão de gases do efeito estufa por causa da diminuição de gás carbônico na atmosfera. A visão do progresso na Amazônia em Theodoro Braga O pintor Theodoro Braga (1872-1953) tentou criar uma espécie de Renascimento Amazônico no início do século XX. Artista e historiador, já que realizava grandes pesquisas em fontes primárias para compor suas obras, ele fez parte de uma elite letrada amazônica que tentou definir uma “nova” interpretação da história do Brasil, na qual o Norte estaria no epicentro dos deba- tes. Braga realizou tentativas de investigar o meio natural e os tipos raciais da região, aproximando a história natural da etnologia. Sua principal tela foi Fundação da cidade de Nossa Senhora de Belém do Pará, de 1908, que marcou uma nova leitura da história da Amazônia. A obra foi encomendada pelo então prefeito da cidade Antônio Lemos, com quem o artista tinha uma relação de fidelidade. Considerado o marco do modernismo amazônico, o quadro retrata o episódio histórico a que se refere o título com todos 51 DESMATAMENTO NA AMAZÔNIA EM KM2 (1988-2012). nacional de relacionar a ordem nacional à ordem mundial, originando várias zonas francas pelo mundo. Quando foi criada a brasileira, já existiam três zonas semelhantes no mundo: Kaoshiung Nesse sentido, a Zona Franca de Manaus foi uma tentativa do governo militar de implementar uma área de livre-comércio, importação e exporta- ção, e incentivos fiscais especiais. Essa iniciativa levou a outros investimentos em infraestrutura na região, sendo contemporânea à criação do Banco da Amazônia S. A. (Basa) e da Sudam. Coube à ditadura criar condições para o investimento capita- lista industrial na região, especialmente por meio da diminuição do imposto aos investidores capitalistas. Em 2006, o governo federal sancionou lei que permite a concessão de florestas públicas para exploração de atividades econômicas como o corte de madeiras. Dessa forma ele pretende reduzir a grilagem de terras e desenvolver uma economia sustentável na região. Assim o governo brasileiro toma as rédeas do processo de exploração dos recursos naturais da floresta e cede concessões de exploração, controlando os impactos sobre o meio ambiente e reduzindo a concentração de terras nas mãos de poucos. Em 2009, registrou-se significativo recuo no desmatamento da Amazônia. No entanto, não o suficiente para impedir que ainda fossem desmatados 7 mil km2 somente nesse ano. Entre 2011 e 2012 forma desmatados outros 4,6 mil km2, o que equivale a um espaço equivalente a três cida- des da dimensão de São Paulo. Observe no gráfico abaixo, o ritmo do desmatamento na Amazônia ao longo dos anos. A redução do desmatamento também tem impacto positivo na emissão de gases do efeito estufa por causa da diminuição de gás carbônico na atmosfera. 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS 1. Faça uma descrição detalhada da imagem. 2. Em que medida as ideias contidas no texto acima podem ser observadas na imagem? 3. A visão do autor do texto corresponde à realidade vivida pelas populações amazônicas no passado e no presente? Explique. ROTEIRO DE TRABALHO P O N T O D E V IS T A P O N T O D E V IS T A D O C U M EN T O SDOCUMENTOS os personagens e atos grandiosos envolvidos. Theodoro Braga e seus contemporâneos almejavam reescrever a história pela pintura. Segundo o historiador Aldrin de Moura Figueiredo: Como uma espécie de episódio embrionário, o retrato da fundação de Belém era, por si só e por isso mesmo, um mito fundador da identidade nacional na Amazônia. A escolha do tema possuía, em vista de seu significado histórico, intenções muito evidentes: o nascimento da capital do Pará legitimava a imagem do luso conquistador e criador dessa Feliz Lusitânia, como resultado desse encontro de dois povos dife- rentes. Como fruto de uma criação divina por mãos humanas – paradisíaca portanto –, a cidade deveria nascer com características marcadas por valores cristãos, humanos, civilizados e heroicos. FIGUEIREDO, Aldrin Moura. A gênese do progresso: Theodoro Braga e a pintura da fundação da Amazônia. In: GUZMÁN, Décio Marco Antônio de Alencar; BEZERRA NETO, José Maia. Terra matura: historiografia e história social na Amazônia. Belém: Paka-Tatu, 2002. p. 125. Observe a imagem abaixo e responda às questões do Roteiro de trabalho. Fundação da cidade de Nossa Senhora de Belém do Pará, de Theodoro Braga, 1908. Óleo sobre tela, 22,6 cm 51,0 cm. M us eu d e A rt e de B el ém ( M A B E) , P ar á Leia o texto a seguir e depois responda as questões do Roteiro de trabalho. Arrancada para conquistar o gigantesco mundo verde O general Médici presidiu ontem no município de Altamira, no Estado do Pará, a soleni-dade de implantação, em plena selva, do marco inicial da construção da grande Rodovia Transamazônica, que cortará toda a Amazônia, nos sentido Leste-Oeste, numa extensão de mais de 3 000 quilômetros e interligará esta região com o Nordeste. 52 os personagens e atos grandiosos envolvidos. Theodoro Braga e seus contemporâneos almejavam reescrever a história pela pintura. Segundo o historiador Aldrin de Moura Figueiredo: Como uma espécie de episódio embrionário, o retrato da fundação de Belém era, por si só e por isso mesmo, um mito fundador da identidade nacional na Amazônia. A escolha do tema possuía, em vista de seu significado histórico, intenções muito evidentes: o nascimento da capital do Pará legitimava a imagem do luso conquistador e criador dessa Feliz Lusitânia, como resultado desse encontro de dois povos dife- rentes. Como fruto de uma criação divina por mãos humanas – paradisíaca portanto –, a cidade deveria nascer com características marcadas por valores cristãos, humanos, civilizados e heroicos. FIGUEIREDO, Aldrin Moura. A gênese do progresso: Theodoro Braga e a pintura da fundação da Amazônia. In: GUZMÁN, Décio Marco Antônio de Alencar; BEZERRA NETO, José Maia. Observe a imagem abaixo e responda às questões do O B R A SI L A M A ZÔ N IC O LINHADO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS 1. Com base no texto, o que significa, para o governo militar, desenvolvimento? 2. Que críticas podem ser feitas a essa maneira de conceber o desenvolvimento econômico? ROTEIRO DE TRABALHO O C U M EN T O S D O C U M EN T O S O presidente emocionado assistiu à derrubada de uma árvore de 50 metros de altura, no traçado da futura rodovia, e descerrou a placa comemorativa do início da construção. […] Descendo do carro que o conduzia, o presidente hasteou o pavilhão brasileiro em um mastro improvisado no tronco de uma árvore, enquanto uma banda militar tocava o Hino Nacional. Depois, descerrou uma placa de bronze incrustada no tronco de uma grande castanheira com cerca de dois metros de diâmetro, na qual estava inscrito: “Nestas margens do Xingu, em plena selva amazônica, o Sr. Presidente da República dá início à cons- trução da Transamazônica, numa arrancada histórica para a conquista deste gigantesco mundo verde”. […] O presidente Garrastazu Médici aplaudiu entusiasticamente a derrubada, em plena selva amazô- nica, ontem, de uma árvore de mais de 50 metros de altura, simbolizando assim a transposição de mais um obstáculo à construção da Rodovia Transamazônica. A solenidade, realizada nesta pequena cidade do interior do Pará, marcou o início das atividades de construção de mais um trecho daquela importante via de integração nacional, ligando Altamira a Rio Repartimento, numa extensão de 300 quilômetros. […] Segundo o coronel Castro Rebello, o custo total da Transamazônica está estimado em 320 milhões de cruzeiros. Será uma rodovia do tipo clássico de integração, com uma pista de 8,6 metros de largura, além de outros setenta metros laterais de desmatamento em toda sua extensão, de mais de 5 mil quilômetros. […] O coronel Castro Rebello considerou a visita do presidente Médici àquele canteiro de obras uma motivação extraordinária para os milhares de operários, a cuja responsabilidade foi entregue a impor- tante responsabilidade de integrar a Amazônia. ARRANCADA para conquistar o gigantesco mundo verde. Folha de S.Paulo, São Paulo, 10 out. 1970. Disponível em: <http://almanaque.folha.uol.com.br/brasil_10out1970.htm>. Acesso em: 18 abr. 2013. RESPONDA NO CADERNO VESTIBULANDO Procedimentos • Nos testes que seguem, procure eliminar as alternativas incorretas. É preciso tomar o cui- dado de verificar se o enunciado pede que se escolha a alternativa correta ou a incorreta. • Nas questões 1 e 2, do Enem, o próprio texto do enunciado, bem como conhecimentos dos atuais conflitos na região amazônica, colaboram para a resposta correta. 1. (Enem) Em fevereiro de 1999, o Seminário Internacional sobre Direito Ambiental, ocorrido em Bilbao, na Espanha, propôs, na Declaração de Viscaia, a exten- são dos direitos humanos ao meio ambiente, como instrumento de alcance universal. No parágrafo 3.o do artigo 1.o da referida declaração, fica estabeleci- do: “O direito ao meio ambiente deverá ser exercido de forma compatível com os demais direitos huma- nos, entre os quais o direito ao desenvolvimento”. No Brasil, o cumprimento desse direito configura um grande desafio. Na região Amazônica, por exem- plo, tem havido uma coincidência entre as linhas de desmatamento e as novas fronteiras de desen- volvimento do agronegócio, marcadas por focos de injustiça ambiental, com frequentes casos de escravização de trabalhadores, além de conflitos e crimes pela posse de terras, muitas vezes, impunes. (Disponível em: <www.unicen.com.br/universoverde>. Acesso em: 9 maio 2009. Texto adaptado). Promover justiça ambiental, no caso da região Amazônica brasileira, implica: a) fortalecer a ação fiscalizadora do Estado e viabi- lizar políticas de desenvolvimento sustentável. b) ampliar o mercado informal de trabalho para a população com baixa qualificação profissional. 53 O presidente emocionado assistiu à derrubada de uma árvore de 50 metros de altura, no traçado da futura rodovia, e descerrou a placa comemorativa do início da construção. […] Descendo do carro que o conduzia, o presidente hasteou o pavilhão brasileiro em um mastro improvisado no tronco de uma árvore, enquanto uma banda militar tocava o Hino Nacional. Depois, descerrou uma placa de bronze incrustada no tronco de uma grande castanheira com cerca de dois “Nestas margens do Xingu, em plena selva amazônica, o Sr. Presidente da República dá início à cons- trução da Transamazônica, numa arrancada histórica para a conquista deste gigantesco mundo verde”. […] O presidente Garrastazu Médici aplaudiu entusiasticamente a derrubada, em plena selva amazô- nica, ontem, de uma árvore de mais de 50 metros de altura, simbolizando assim a transposição de mais um obstáculo à construção da Rodovia Transamazônica. A solenidade, realizada nesta pequena cidade do interior do Pará, marcou o início das atividades de construção de mais um trecho daquela importante via de integração nacional, ligando Altamira a Rio Repartimento, numa extensão de Segundo o coronel Castro Rebello, o custo total da Transamazônica está estimado em 320 milhões de cruzeiros. Será uma rodovia do tipo clássico de integração, com uma pista de 8,6 metros de largura, além de outros setenta metros laterais de desmatamento em toda sua extensão, de mais de 5 mil quilômetros. […] O coronel Castro Rebello considerou a visita do presidente Médici àquele canteiro de obras uma motivação extraordinária para os milhares de operários, a cuja responsabilidade foi entregue a impor- tante responsabilidade de integrar a Amazônia. ARRANCADA para conquistar o gigantesco mundo verde. Folha de S.Paulo, São Paulo, 10 out. 1970. Disponível em: <http://almanaque.folha.uol.com.br/brasil_10out1970.htm>. Acesso em: 18 abr. 2013. 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS c) incentivar a ocupação das terras pelo Estado brasileiro, em face dos interesses internacionais. d) promover alternativas de desenvolvimento sustentável, em razão da precariedade tec- nológica local. e) ampliar a importância do agronegócio nas áreas de conflito pela posse de terras e com- bater a violência no campo. 2. (Enem) As queimadas, cenas corriqueiras no Brasil, con- sistem em prática cultural relacionada com um método tradicional de “limpeza da terra” para intro- dução e/ou manutenção de pastagem e campos agrícolas. Esse método consiste em: (a) derrubar a floresta e esperar que a massa vegetal seque; (b) atear fogo, para que os resíduos grosseiros, como troncos e galhos, sejam eliminados e as cinzas resultantes enriqueçam temporariamente o solo. Todos os anos, milhares de incêndios ocorrem no Brasil, em biomas como Cerrado, Amazônia e Mata Atlântica, em taxas tão elevadas, que se torna difí- cil estimar a área total atingida pelo fogo. (CARNEIRO FILHO, A. Queimadas. Almanaque Brasil socioambien- tal. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2007. Texto adaptado.) Um modelo sustentável de desenvolvimento consiste em aliar necessidades econômicas e sociais à conservação da biodiversidade e da qualidade ambiental. Nesse sentido, o desmata- mento de uma floresta nativa, seguido da utiliza- ção de queimadas, representa: a) método eficaz para a manutenção da fertili- dade do solo. b) atividade justificável, tendo em vista a oferta de mão de obra. c) ameaça à biodiversidade e impacto danoso à qualidade do ar e ao clima global. d) destinação adequada para os resíduos sóli- dos resultantes da exploração da madeira. e) valorização de práticas tradicionais dos povos que dependem da floresta para sua sobrevivência. 3. (Ufam-AM) Com o registro da existência de mais de 700 grupos linguísticos – em sua maio- ria pertencentesaos troncos linguísticos Tupi, Karib, Aruak, Pano, Tukano e Gê –, a Amazônia pré-colonial impôs grandes dificuldades para o processo de conquista colonial. Para os colonos portugueses dos dois primeiros séculos da con- quista, a principal alternativa a esse dilema foi: a) a obrigatoriedade do ensino e do uso da língua portuguesa nos aldeamentos missionários. b) a adoção e difusão do Nheengatú, que, sendo uma forma de língua geral, permitia maior possibilidade de comunicação. c) o uso da língua tupi-guarani, de maior difu- são entre as nações indígenas da Amazônia. d) a adoção do uso do português, nas cidades e vilas, e da língua geral nos aldeamentos indígenas. e) todas as alternativas anteriores estão corretas. 4. (Unama-AM) Na Amazônia, em todo o período colonial foi cons- tante a exploração do índio, facilitada por uma legislação confusa que ora proibia, ora autorizava, ou simplesmente omitia. Não é de se espantar que, em determinados momentos desse período, avoluma- ram-se as práticas da “guerra justa” e do “resgate”. (ALVES FILHO, Armando. O trabalho forçado na Amazônia. In: ALVES FILHO, Armando et al. Pontos de história da Amazônia. 3. ed. rev. e ampl. Belém: Paka-Tatu, 2002. p. 31. Texto adaptado.) A partir da leitura do texto e dos estudos que a História nos oferece sobre o assunto, é correto dizer que: a) Na Amazônia, como em todo o território brasilei- ro, o índio foi o grande responsável pela geração de riquezas em todo o período colonial, pois a legislação vinda de Portugal permitia sua escra- vização através das chamadas “guerras justas”. b) O índio foi a mão de obra mais utilizada na Amazônia colonial, pois a própria legislação portuguesa dava brechas para essa explora- ção, através das chamadas “guerras justas” e “tropas de resgate”. c) Durante o período colonial, especialmente na Amazônia, foram constantes as lutas em torno de uma legislação local, acerca da uti- lização da mão de obra indígena, visto que o Estado português já havia declarado ilegal o uso dessa força de trabalho. d) A mão de obra usada na Amazônia, no período colonial, foi constituída basicamente da mão de obra nativa, através das “guerras justas”, e da mão de obra vinda do Nordeste brasileiro, através das chamadas “tropas de resgate”. 5. (Uepa-PA) Cantador paraibano, eu nasci lá em Monteiro, aceitei vir à Amazônia, para enriquecer primeiro, trabalhando na borracha, transformado em seringueiro. Sempre gostei de fazer o meu trabalho benfeito; a borracha eu defumava, do modo que era direito, com semente de inajá que davam melhor efeito. Mas essas mesmas sementes 54 c) incentivar a ocupação das terras pelo Estado brasileiro, em face dos interesses internacionais. d) promover alternativas de desenvolvimento sustentável, em razão da precariedade tec- nológica local. e) ampliar a importância do agronegócio nas áreas de conflito pela posse de terras e com- bater a violência no campo. 2. (Enem) As queimadas, cenas corriqueiras no Brasil, con- sistem em prática cultural relacionada com um método tradicional de “limpeza da terra” para intro- dução e/ou manutenção de pastagem e campos agrícolas. Esse método consiste em: (a) derrubar a floresta e esperar que a massa vegetal seque; (b) atear fogo, para que os resíduos grosseiros, como troncos e galhos, sejam eliminados e as cinzas resultantes enriqueçam temporariamente o solo. Todos os anos, milhares de incêndios ocorrem no Brasil, em biomas como Cerrado, Amazônia e Mata Atlântica, em taxas tão elevadas, que se torna difí- cil estimar a área total atingida pelo fogo. 4. O B R A SI L A M A ZÔ N IC O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS que defumavam melhor, se ao patrão davam lucros, me dava uma parte pior, pois a fumaça cegava silenciosa e sem dor. (LOUREIRO, João de Jesus Paes. Cena V. In: Pássaro da terra. São Paulo: Escrituras, 1999. p. 32-3.) O mundo do trabalho no Brasil a que se refere o texto diz respeito ao trabalho: a) das sociedades indígenas no espaço ama- zônico, antes e depois da conquista euro- peia, transitando dos regimes coletivos ao da escravidão. b) da sociedade da borracha na Amazônia, entre o final do século XIX e o início do século XX, cuja principal característica foi o aviamento. c) rural e urbano nas Minas Gerais do século XVIII, composto por diversidades de ativida- des produtivas e com múltiplos mercados. d) nas lavouras canavieira e cafeeira, com espa- ços regionais distintos e diferentes formas de organização da produção. e) das sociedades indígenas à época da con- quista portuguesa, baseado na escravidão e no uso de mão de obra livre nordestina. RELEITURA R EL EI T U R A R EL EI T U R A R EL EI T U R A R EL EI T U R A Índios e garimpeiros: uma relação complicada Axé Silva Segundo algumas estimativas históricas, o espaço que um dia se transformou no Brasil apresen-tava, no início do século XVI, uma população indígena de 5 milhões de habitantes. Porém o que se viu ao longo de 504 anos de existência foi um intenso processo de expropriação terri- torial e a dizimação dos habitantes originais de nosso país. Ao se julgarem donos das terras, os por- tugueses extinguiram várias aldeias, obrigando parcela considerável de indígenas a realizar trabalhos forçados. Sua escravização foi auxiliada em grande parte pela ação dos bandeirantes, caçadores de índios responsáveis pela morte de diversos deles. Agravando ainda mais a situação, muitas doenças trazidas por europeus e africanos, tais como sarampo, febre amarela, varíola e malária, potencializa- ram o desaparecimento de enormes contingentes indígenas. É sob a luz dessa genérica perspectiva histórica que compreendemos na atualidade a existência de uma pequena parcela de descendentes dos diversos povos que habitaram o Brasil. Hoje, a população indígena corresponde a cerca de 400 000 indivíduos, distribuídos em 215 etnias, com 170 línguas diferentes. Desses, 60% encontram-se na chamada Amazônia Legal, em reservas indígenas delimita- das pelo governo federal. Somadas, suas áreas totalizam uma extensão correspondente a 11,12% do território nacional. É dessa superfície que os índios retiram recursos para a subsistência e mantêm tradições e conhecimentos. A Constituição Federal assegura aos povos indígenas a posse perma- nente das terras, cabendo-lhe o uso exclusivo das riquezas presentes no trecho de suas reservas. É da Fundação Nacional do Índio (Funai) a responsabilidade pela fiscalização e proteção das áreas, incluindo a proibição de qualquer invasão. Apesar de todos os aparatos legais existentes, observa-se em diversas áreas demarcadas a pre- sença irregular de projetos governamentais, como estradas, usinas hidrelétricas, ferrovias e linhas de transmissão. Além disso, as áreas indígenas são tomadas por posseiros, arrendatários, grileiros, madeireiras, mineradoras e garimpeiros. Ocupações, obviamente, que provocam danos irreversíveis ao ecossistema local. Um exemplo significativo foi visto nas terras dos ianomâmis, onde a extração mineral ilegal gerou em alguns rios da região o seu assoreamento, ou seja, a deposição de sedimentos nos leitos, tornando-os mais rasos e largos e impedindo assim a passagem dos peixes em busca de alimentos ou mesmo dificultando o seu deslocamento para a reprodução. Em outros trechos, houve a contaminação por mercúrio, acelerando a escassez da pesca. Outro aspecto negativo é a transmissão de doenças para a população local, aumentando tristemente os índices de mortalidade. 55 Pássaro da terra. São Paulo: Escrituras, 1999. p. 32-3.) O mundo do trabalho no Brasil a que se refere o a) das sociedades indígenas no espaço ama- zônico, antes e depois da conquistaeuro- peia, transitando dos regimes coletivos ao da b) da sociedade da borracha na Amazônia, entre o final do século XIX e o início do século XX, cuja principal característica foi o aviamento. c) rural e urbano nas Minas Gerais do século XVIII, composto por diversidades de ativida- des produtivas e com múltiplos mercados. d) nas lavouras canavieira e cafeeira, com espa- ços regionais distintos e diferentes formas de organização da produção. e) das sociedades indígenas à época da con- quista portuguesa, baseado na escravidão e no uso de mão de obra livre nordestina. Índios e garimpeiros: uma relação complicada 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS ROTEIRO DE TRABALHO EI T U R A R EL EI T U R A R EL EI T U R A R EL EI T U R A R EL EI T U R A R EL EI T U R APorém nem sempre a entrada de garimpeiros e madeireiras é desconhecida pelos índios. Em cer- tos casos, eles estimulam a exploração de suas terras, cobrando por isso valores equivalentes à quan- tidade de madeira e riquezas minerais tiradas do território. A ausência de uma fiscalização severa na região provocou, nos últimos 24 meses, a morte de aproximadamente 100 pessoas. Entre as vítimas, garimpeiros, contrabandistas e índios. Não é de hoje que índios e garimpeiros estabelecem confrontos intensos na Amazônia. Há pelo menos três décadas, os cintas-largas são espoliados por madeireiras, mineradoras e garimpeiros que utilizam força bruta para retirar recursos naturais. Um dos episódios mais marcantes dessa história ocorreu na década de 1960. Duas expedições foram organizadas em 1963 por Francisco de Brito, funcionário da empresa seringalista Arruda e Junqueira. Em uma delas, Brito alugou uma aeronave para sobrevoar a aldeia num dia de grande festividade para o povo cinta-larga. No momento do ataque foi lançada uma mistura de açúcar com arsênico que dispersou os participan- tes da cerimônia. Em seguida, diversas cápsulas de explosivos foram arremessadas nas habitações. O fato dispersou a comunidade para o interior da mata. Não satisfeitos, os invasores organizaram uma segunda expedição, que encontrou o restante da população às margens do Rio Aripuanã, na altura do paralelo 11° sul. No confronto, alguns nativos foram mortos, dentre os quais uma índia pendurada viva e cortada ao meio com um facão… Brutal, o crime ficou conhecido como “O massacre do paralelo 11” e somente foi divulgado porque um dos participantes denunciou o caso, logo após saber que não receberia o valor prometido por seus contratantes. A chacina foi divulgada internacionalmente, mas os mandantes não foram sequer julgados. Recentemente, em abril deste ano [2004], deflagrou-se um novo conflito em território indígena, cujo resultado foi a morte de 29 garimpeiros. Dessa vez ocorreu na reserva Roosevelt, pertencente aos cintas-largas. O território apresenta uma área equivalente a 2,6 milhões de hectares, situada entre os estados de Rondônia e Mato Grosso. Encontra-se ali uma das maiores reservas de diamantes do mundo, com uma capacidade de produção fantástica, da ordem de 1 milhão de quilates de pedras preciosas por ano. Segundo a Funai, o contrabando de diamantes faz com que o Brasil deixe de arrecadar, anual- mente, entre 600 e 800 milhões de dólares. Vale ressaltar que a extração mineral em terra indígena é ilegal e deve ser feita apenas com a autorização expressa do Congresso Nacional. Todavia, mui- tos diamantes são retirados e enviados clandestinamente ao exterior para abastecer os mercados norte-americano e europeu. O assassinato de garimpeiros em abril de 2004 é um episódio cruel que se soma a outros tantos, colocando em confronto protagonistas com interesses diversos no mesmo espaço. Acima de tudo, a recente tragédia levanta reflexões sobre muitas questões sem solução: as atividades minerais irre- gulares, a invasão das terras indígenas, o tráfico internacional de diamantes, a dizimação do povo cinta-larga, a ausência de outras alternativas de trabalho para os garimpeiros, a relativa conivência dos órgãos públicos, o interesse das madeireiras e os intensos impactos socioambientais, geralmente irreversíveis. Todas essas indagações não são novas. É necessária, urgentemente, uma ação efetiva do governo. Além, claro, de um esclarecimento dos fatos, para que não se repitam discursos manique- ístas, como os que frequentemente são veiculados nos meios de comunicação e que colocam quase sempre como culpada a população nativa. SILVA, Axé. Índios e garimpeiros: uma relação complicada. Discutindo a geografia. São Paulo: Escala Educacional, ano I, n. 1, jul. 2004. p. 16-9. 1. Conforme o texto, qual é a atuação do governo federal na região? 2. Que relações se estabelecem entre os povos indígenas e os garimpeiros? 3. Reúna-se com alguns colegas e formulem uma proposta para solucionar casos como os citados no texto e evitar conflitos futuros na região. Tenham como preocupação a conservação da flores- ta e dos povos que nela habitam. 56 Porém nem sempre a entrada de garimpeiros e madeireiras é desconhecida pelos índios. Em cer- tos casos, eles estimulam a exploração de suas terras, cobrando por isso valores equivalentes à quan- tidade de madeira e riquezas minerais tiradas do território. A ausência de uma fiscalização severa na região provocou, nos últimos 24 meses, a morte de aproximadamente 100 pessoas. Entre as vítimas, garimpeiros, contrabandistas e índios. Não é de hoje que índios e garimpeiros estabelecem confrontos intensos na Amazônia. Há pelo menos três décadas, os cintas-largas são espoliados por madeireiras, mineradoras e garimpeiros que utilizam força bruta para retirar recursos naturais. Um dos episódios mais marcantes dessa história ocorreu na década de 1960. Duas expedições foram organizadas em 1963 por Francisco de Brito, funcionário da empresa seringalista Arruda e Junqueira. Em uma delas, Brito alugou uma aeronave para sobrevoar a aldeia num dia de grande festividade para o povo cinta-larga. No momento do ataque foi lançada uma mistura de açúcar com arsênico que dispersou os participan- tes da cerimônia. Em seguida, diversas cápsulas de explosivos foram arremessadas nas habitações. O fato dispersou a comunidade para o interior da mata. Não satisfeitos, os invasores organizaram uma segunda expedição, que encontrou o restante da população às margens do Rio Aripuanã, na altura do paralelo 11° sul. No confronto, alguns nativos foram mortos, dentre os quais uma índia pendurada viva e cortada ao meio com um facão… Brutal, o crime ficou conhecido como “O massacre do paralelo 11” e somente foi divulgado porque um dos participantes denunciou o caso, logo após saber que não receberia o valor prometido por seus contratantes. A chacina foi divulgada internacionalmente, mas os mandantes não foram sequer julgados. Recentemente, em abril deste ano [2004], deflagrou-se um novo conflito em território indígena, cujo resultado foi a morte de 29 garimpeiros. Dessa vez ocorreu na reserva Roosevelt, pertencente aos cintas-largas. O B R A SI L A M A ZÔ N IC O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS ALVES FILHO, Armando; ALVES JÚNIOR, José; MAIA NETO, José. Pontos de história da Amazônia. 3. ed. Belém: Paka-Tatu, 2001. v. 1. Coletânea de artigos sobre a conquista portuguesa da Amazônia, o trabalho forçado, o projeto pombalino, a indepen- dência do Pará e a Revolta da Cabanagem. ____________.Pontos de história da Amazônia. 2. ed. Belém: Paka-Tatu, 2000. v. 2. Coletânea de artigos sobre a Revolução de 1930 no Pará e a presença dos governos militares na Amazônia. DAOU, Ana Maria. A belle époque amazônica. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. (Descobrindo o Brasil). Analisao período de apogeu da borracha na Amazônia e as transformações sociais e culturais ocorridas em função dessa atividade econômica. MUNDURUKU, Daniel. O banquete dos deuses – conversa sobre a origem da cultura brasileira. São Paulo: Angra, 2000. Nascido em Belém (PA), o autor é do povo indígena Munduruku (sobrenome que adotou). Formado em Filosofia, com licenciatura em História e Pedagogia, Daniel expõe neste livro uma visão indígena sobre a cultura brasileira. VENTURA, Zuenir. Chico Mendes: crime e castigo. São Paulo: Cia. das Letras, 2004. Biografia de Chico Mendes, enfatizando, em especial, as circunstâncias que envolveram sua morte e o julgamento dos acusados como mandantes do crime. Amazônia em chamas. Direção de John Frankenheimer. Estados Unidos, 1994. (123 min). Cinebiografia do seringalista Chico Mendes, contando a história de seu envolvimento com o sindicalismo até a sua morte. Amazônia: herança de uma utopia. Direção de Alexandre Valenti. Brasil, 2005 (90 min.). Aborda as tentativas de colonização da Amazônia no século XX e os impsctos redultantes desse processo Biblioteca virtual do Amazonas. Disponível em: <www.bv.am.gov.br/portal>. Acesso em: 18 abr. 2013. Acesso a livros digitais, textos e informações sobre o ecossistema amazônico, revistas históricas, mapas, fotos e outras informações sobre a região. Instituto Socioambiental. Disponível em: <www.socioambiental.org>. Acesso em: 18 abr. 2013. Organização não governamental que disponibiliza inúmeras informações sobre os povos indígenas brasileiros e sobre a Amazônia. PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR E d so n S at o /P ul sa r Im ag en s 57 ALVES FILHO, Armando; ALVES JÚNIOR, José; MAIA NETO, José. Pontos de história da Amazônia. 3. ed. . 3. ed. Pontos de história da Amazônia. 3. ed. Pontos de história da Amazônia Coletânea de artigos sobre a conquista portuguesa da Amazônia, o trabalho forçado, o projeto pombalino, a indepen-Coletânea de artigos sobre a conquista portuguesa da Amazônia, o trabalho forçado, o projeto pombalino, a indepen- 2. ed. Belém: Paka-Tatu, 2000. v. 2. Coletânea de artigos sobre a Revolução de 1930 no Pará e a presença dos governos militares na Amazônia.Coletânea de artigos sobre a Revolução de 1930 no Pará e a presença dos governos militares na Amazônia. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. (Descobrindo o Brasil). 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. (Descobrindo o Brasil). Analisa o período de apogeu da borracha na Amazônia e as transformações sociais e culturais ocorridas em função Analisa o período de apogeu da borracha na Amazônia e as transformações sociais e culturais ocorridas em função O banquete dos deuses – conversa sobre a origem da cultura brasileiraO banquete dos deuses – conversa sobre a origem da cultura brasileira. São Paulo: O banquete dos deuses – conversa sobre a origem da cultura brasileira. São Paulo: O banquete dos deuses – conversa sobre a origem da cultura brasileira Nascido em Belém (PA), o autor é do povo indígena Munduruku (sobrenome que adotou). Formado em Filosofia, com Nascido em Belém (PA), o autor é do povo indígena Munduruku (sobrenome que adotou). Formado em Filosofia, com licenciatura em História e Pedagogia, Daniel expõe neste livro uma visão indígena sobre a cultura brasileira.licenciatura em História e Pedagogia, Daniel expõe neste livro uma visão indígena sobre a cultura brasileira. Chico Mendes: crime e castigo. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.Chico Mendes: crime e castigo. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.Chico Mendes: crime e castigo. Biografia de Chico Mendes, enfatizando, em especial, as circunstâncias que envolveram sua morte e o julgamento dos Biografia de Chico Mendes, enfatizando, em especial, as circunstâncias que envolveram sua morte e o julgamento dos Direção de John Frankenheimer. Estados Unidos, 1994. (123 min). Direção de John Frankenheimer. Estados Unidos, 1994. (123 min). Cinebiografia do seringalista Chico Mendes, contando a história de seu envolvimento com o sindicalismo até a Cinebiografia do seringalista Chico Mendes, contando a história de seu envolvimento com o sindicalismo até a . Direção de Alexandre Valenti. Brasil, 2005 (90 min.). . Direção de Alexandre Valenti. Brasil, 2005 (90 min.). PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Afro-brasileiros CAPÍTULO 3 Os brasileiros facilmente se reconhecem como herdeiros dos europeus. Primeiro dos portugueses, depois dos franceses e dos ingleses. Além disso, com a imigração de europeus, principalmente para o estado de São Paulo e o Sul do Brasil, passaram então a se reconhecer como descendentes de alemães, espanhóis, italianos etc. Sabemos também que descendemos dos povos indígenas. E dos africanos? Em que medida a cultura brasileira é, também, uma cultura africana? É comum, mas errôneo, nos referirmos aos africanos como um todo homogêneo, já que o continente africano reúne culturas essencialmente diferentes. O Egito, por exem- plo, tem uma cultura muito particular, que não apresenta quase nenhuma relação com a cultura e a história brasileiras. Então, com que parte da África estamos culturalmente relacionados? Com quais culturas africanas? Eis nosso desafio neste capítulo: buscar algumas raízes de nossa identidade, que é mais africana do que muitos supõem. Missa da padroeira Nossa Senhora do Bonfim na Igreja de São Francisco Xavier. Porto Novo, Benim, 2011. Em destaque, Auguste Amaral, presidente da associação dos retornados brasileiros no Benin, onde vivem os agudás, que representam um grupo minoritário da população do país e possuem uma história particular: são descendentes de ex-escravos no Brasil que conseguiram retornar ao seu local de ori- gem. Mas não voltaram os mesmos, seja pela dura vida que tivera, seja por levarem de volta ao Benim uma cultura que cons- tituíram na América. Os águdas brincam o carnaval, festejam o Nosso Senhor do Bonfim e consomem pratos como a feijoada no estilo brasileiro. Os agudás nos convi- dam a investigar e entender esse longo processo de formação cultural brasileira, no qual africanos, europeus e indígenas fun- daram uma cultura particular marcada por muitos conflitos. Em especial, é necessário compreender a grande força que as cultu- ras africanas exerceram nesse processo de construção de uma identidade brasileira. F ra n s le m m en s / A la m y /O th er I m ag es R ic ar do T el es /P ul sa r Im ag en s 58 Afro-brasileiros CAPÍTULO 3 Os brasileiros facilmente se reconhecem como herdeiros dos europeus. Primeiro dos portugueses, depois dos franceses e dos ingleses. Além disso, com a imigração de europeus, principalmente para o estado de São Paulo e o Sul do Brasil, passaram então a se reconhecer como descendentes de alemães, espanhóis, italianos etc. Sabemos também que descendemos dos povos indígenas. E F ra n s le m m en s / A la m y /O th er I m ag es LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Inclassificáveis Que preto, que branco, que índio o quê? Que branco, que índio, que preto o quê? Que índio, que preto, que branco o quê? Que preto branco índio o quê? Branco índio preto o quê? Índio preto branco o quê? Aqui somos mestiços mulatos Cafuzos pardos mamelucos sararás Crilouros guaranisseis e judárabes Orientupis orientupis Ameriquítalos luso nipo caboclos Orientupis orientupis Iberibárbaros indo ciganagôs Somos o que somos Inclassificáveis Não tem um, tem dois Não tem dois, tem três Não tem lei, tem leis El ói C or rê a/ S EC O M No dia da Lavagem do Bonfim, que ocorre desde 1754, católicos e adeptos do candomblé percorrem as ruas deSalvador cantando hinos dedicados a Jesus Cristo e Oxalá. As baianas usam turbantes, saias e braceletes e carregam vasos com água de cheiro. A letra da canção acima, de Arnaldo Antunes, ajuda-nos a refletir: em relação à identidade cul- tural, quem somos nós? Reconhecer a diversidade cultural de nossa formação pode ser uma maneira de compreender nossa riqueza cultural? Contudo não podemos louvar a diversidade sem atentar para os conflitos e preconceitos que possam surgir, pois esse encontro de culturas nunca se fez de maneira pacífica ou como uma soma de saberes. Ao contrário, tentou-se eliminar as diferenças ou mostrar a superioridade de uma cultura sobre outra. Muitas vezes, as relações de poder nasceram do reconhecimento da existência de diferentes cultu- ras. Para citar um exemplo, no processo de coloni- zação do Brasil, os europeus julgavam possuir uma cultura superior à dos povos indígenas e africanos. Assim, consideravam que dominar esses povos e impor-lhes sua cultura e religião era algo nobre, era oferecer a salvação a que indígenas e africanos não teriam acesso de outro modo. Não tem vez, tem vezes Não tem Deus, tem deuses Não há sol a sós Aqui somos mestiços mulatos Cafuzos pardos tapuias tupinamboclos Americarataís yorubárbaros Somos o que somos Inclassificáveis Que preto, que branco, que índio o quê? Que branco, que índio, que preto o quê? Que índio, que preto, que branco o quê? Não tem um, tem dois Não tem dois, tem três Não tem lei, tem leis Não tem vez, tem vezes Não tem deus, tem deuses Não tem cor, tem cores Não há sol a sós [...] ANTUNES, Arnaldo. Inclassificáveis. In: O silêncio (CD). BMG, 1996. 59 Não tem vez, tem vezes Não tem Deus, tem deuses Não há sol a sós Aqui somos mestiços mulatos Cafuzos pardos tapuias tupinamboclos Americarataís yorubárbaros Somos o que somos Inclassificáveis Que preto, que branco, que índio o quê? Que branco, que índio, que preto o quê? Que índio, que preto, que branco o quê? Não tem um, tem dois Não tem dois, tem três Não tem lei, tem leis Não tem vez, tem vezes Não tem deus, tem deuses Não tem cor, tem cores Não há sol a sós [...] ANTUNES, Arnaldo. Inclassificáveis. In: O silêncio (CD). BMG, 1996. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS CONTEXTO A África pré-colonial A maior parte dos africanos trazidos para o Brasil como escravos veio da denominada África Atlântica, ou seja, da parte ocidental e centro- -ocidental da chamada África Subsaariana. Essa região, que vai do Senegal a Angola, é historicamen- te habitada por povos que viviam da agricultura e que conheciam a técnica da metalurgia. Pertencem ao tronco linguístico denominado banto ou nigero- -congolês e carregam em sua organização social a luta contra a natureza hostil. Desde a Antiguidade, essas populações migraram à procura de savanas em meio aos desertos. Conforme Mary Del Priore e Renato Pinto Venâncio: A crescente desertificação do Saara, assim como o árduo desflorestamento de áreas ao sul do deserto, convidava grupos a se estabelecerem, embora de forma dispersa, em planícies inundadas e sobre pequenas colinas. A escolha de tais lugares não era aleatória. Estas eram regiões facilmente defensá- veis contra ataques de feras ou gente inimiga. DEL PRIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato Pinto. Ancestrais. Rio de Janeiro: Campus, 2004. p. 2. Nas savanas, formaram-se complexas organiza- ções político-sociais. As aldeias eram separadas por terrenos incultos e rodeadas por terras cultivadas e mato – território de caça. Vários fatores, como guerras, crescimento da população e secas, levavam ao aumen- to ou à diminuição constante dos grupos, em número de habitantes ou em território. O caráter migratório dessa população facilitava a multiplicação de famílias que, por vezes, se instalavam próximas a grupos de tradições e línguas completamente diversas das suas. Aproximadamente no século I, começou a fusão das aldeias em microestados, que foram se constituindo ao longo de muito tempo. Instalados em regiões de savana, manguezais e rios, os povos de língua nigero-congolesa começaram a praticar o comércio do inhame e da palma com o povo pigmeu, expandindo-se pela região. Aos poucos, alguns povos começaram a introduzir a pecuária em suas atividades, garantindo a carne, o couro e o adubo para suas plantações. As migrações e a adaptação aos diferentes ambientes originaram vários grupos étnicos e uma complexa cultura. Os falantes da língua banta, por exemplo, misturaram-se ao noroeste da floresta equatorial com aqueles que falavam a língua saaro- -nilótica, formando assim uma nova cultura. No ambiente hostil da África Atlântica, os povos estavam sujeitos a doenças como a malária e outros males trazidos por parasitas – exemplo disso é a mosca tsé-tsé, transmissora do protozoário causador da “doença do sono”. Por isso a presença do curandeiro era de vital importância para esses povos, importância reconhecida até mesmo pelos jesuítas portugueses, que chegaram a Angola no século XVI. Outro fator que devastava as populações era a fome, que só não se fazia presente nas culturas irrigadas. Ainda conforme Mary Del Priore e Renato Pinto Venâncio: [...] [as doenças e a fome] empurravam os grupos a trocar suas crianças por comida, famílias a ven- der seus filhos e dependentes por um alqueire de sorgo ou milhete, e homens e mulheres a se deixar escravizar para não morrer de inanição. PRIORE, Mary Del; VENÂNCIO, Renato Pinto, op. cit., p. 9. Em razão das adversidades causadas por doen- ças ou fome, a capacidade de um homem ou uma mulher produzir descendentes era extremamente valorizada. Nos homens, a virilidade aparecia como CHÁDICO (HAUÇÁ) SEMÍTICO EGÍPCIO ANTIGO CUXÍTICO BERBERE BENUE- -CONGO (BANTO) ADMAUA ORIENTAL ATLÂNTICO OCIDENTAL MANDÊ VOLTAICO KWA REGIÃO SUBSAARIANA ÁFRICA SUBEQUATORAL ÁFRICA CENTRAL ÁFRICA OCIDENTAL CORDOFANIANONIGER-CONGO CONGO CORDOFANIANO NILO-SAARIANO AFRO-ASIÁTICO COISSÃ TRONCOS LINGUÍSTICOS TRONCOS LINGUÍSTICOS AFRICANOS E SUAS FAMÍLIAS NA ATUALIDADE Classificação de Joseph Greenberg das línguas africanas, hoje em torno de 1 900. Atualmente há mais de 260 milhões de falantes de mais de mil línguas da família nigero-congolesa.1 1 Conforme CASTRO, Yeda Pessoa de. A língua mina-jeué no Brasil: um falar africano em Ouro Preto do século XVIII. Belo Horizonte: Fapemig/ Fundação João Pinheiro, 2003. p. 35. 60 CONTEXTO A África pré-colonial A maior parte dos africanos trazidos para o Brasil como escravos veio da denominada África Atlântica, ou seja, da parte ocidental e centro- -ocidental da chamada África Subsaariana. Essa região, que vai do Senegal a Angola, é historicamen- te habitada por povos que viviam da agricultura e que conheciam a técnica da metalurgia. Pertencem ao tronco linguístico denominado banto ou nigero- -congolês e carregam em sua organização social a luta contra a natureza hostil. Desde a Antiguidade, essas populações migraram à procura de savanas em meio aos desertos. Conforme Mary Del Priore e Renato Pinto Venâncio: A crescente desertificação do Saara, assim como o árduo desflorestamento de áreas ao sul do deserto, convidava grupos a se estabelecerem, embora de forma dispersa, em planícies inundadas e sobre pequenas colinas. A escolha de tais lugares não era A FR O -B R A SI LE IR O S LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS um fator fundamental de aceitação social, assim como a fertilidade entre as mulheres. As estéreis eram desprezadas socialmente. Os que não tinham filhos corriam o risco de serem absorvidos por outros grupos familiares, saindo em desvantagemnas guerras, quando a captura de prisioneiros era prioridade. No Reino do Congo, por exemplo, a maternidade consolidou-se como um dos temas mais recorrentes entre as esculturas de madeira. Embora não haja dados demográficos confiáveis nem mesmo para o século XVIII, acredita-se que um terço das crianças morria antes mesmo de completar um ano de vida. Na maior parte da África, antes da presença euro- peia, a terra era um bem coletivo. Os pais de família recebiam um lote de terra do chefe local para culti- var, com a condição de pagar um tributo em troca. Por esse motivo, os homens costumavam ter várias mulheres e muitos filhos para aumentar a produção. Isso foi denominado economia da poligamia. Nela o pai era valorizado de acordo com o tamanho de sua família, e as mulheres, de acordo com a quantidade de filhos. Muitas vezes, as mulheres eram adquiridas por meio de rapto ou do pagamento de um dote à Na África anterior à presença europeia, grupos humanos organizaram-se em torno de unidades familiares, a partir das quais consti- tuíram-se aldeias e núcleos comerciais. Aproximadamente no século I, começou a fusão das aldeias em microestados. Mais tarde, a presença europeia e a expansão do tráfico de escravos agravaram os conflitos internos do continente, e em meados do século XIX praticamente toda a África foi repartida entre ingleses, belgas, alemães e italianos que buscavam novos mercados e matérias-primas. M ap as : M ap s W or ld CIDADES E REINOS AFRICANOS ANTIGOS sua linhagem, o que facilitava para os ricos possuir um maior número de esposas. Já a relação entre idosos e jovens tinha várias implicações: se por um lado a maturidade e o conselho dos mais idosos eram valorizados, por outro a virili- dade e a força da juventude desempenhavam papéis centrais nessas sociedades guerreiras. Com relação ao trabalho, em geral, os homens ficavam com a tare- fa de desmatar, enquanto as mulheres cultivavam. A colheita, no entanto, era uma atividade coletiva. Em quase todas as regiões, os grupos organi- zavam-se em torno de uma unidade familiar, na qual o homem controlava filhos, esposas, parentes mais pobres e outros dependentes. Era a partir dessas unidades que se constituíam aldeias e núcleos comerciais. Dentro dessas aldeias havia também uma hierarquia entre os escravos. Os mais valorizados eram os prisioneiros nobres, que serviam em ati- vidades militares. Existiam ainda os escravos que trabalhavam ao lado dos camponeses, convivendo com os familiares destes e os chamando de pais. Os menos valorizados eram enviados a alguma fazenda de escravos para trabalhar sob a vigilância de um Com base em DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2003. p. 216. Com base em Enciclopédia Brittanica Kids. Disponível em: <http://kids.britannica.com/comptons/art-153245/Language- Families-and-Languages-of-Africa>. Acesso em: 23 maio 2013. DIVERSIDADE DE LÍNGUAS AFRICANAS I 61 CIDADES E REINOS AFRICANOS ANTIGOS I 1 2 3 4 5 6 7 8 9 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Escultura ioruba representan- do Exu, feita no século XX. Essa entidade que transita en- tre o bem e o mal é o principal intermediário entre o céu e a terra. É ele quem informa Olodumaré (o deus supremo) sobre os demais deuses e so- bre os seres humanos. Nesta escultura de aproximadamente 1900, da região do Congo, valoriza-se a figura materna que carrega seu filho. Escultura ioruba repre- sentando Xangô, feita no século XX. feitor. Grande parte dos escravos podia adquirir os mesmos direitos de seus senhores, como o acú- mulo de propriedades. Só lhe continuava restrito o direito de casar com mulheres livres e participar de assuntos políticos. Depois do século XII, os escravos se tornaram mercadoria valiosa na África. Comenta a historia- dora Marina de Mello e Souza: Na região que abrange do leste do Rio Volta até o delta do Níger – terra dos acãs, acuamus, evés, dos povos iorubás e muitos outros – existiam reinos cujos chefes controlavam áreas consideráveis, se cercavam de pompa e privilégios, promoviam a construção de edifícios elaborados e estimulavam a confecção de objetos que impressionam até hoje pela beleza. Esses reinos tinham ligação entre si e com Ifé, espécie de cidade-mãe na qual se origi- naram as formas de organização política e social das outras cidades da chamada Iorubalândia ou Iorubo. Dessa região saiu grande parte dos afri- canos traficados para a América como escravos, por causa das vantagens que apresentava, como a abundância da oferta. Esses eram os prisioneiros das guerras entre diferentes grupos locais, vendi- dos aos comerciantes europeus. SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil africano. São Paulo: Ática, 2006. p. 20-1. A relação com a natureza e as florestas também variava de um povo para outro. Entre os axantes e os acãs, por exemplo, a natureza era temida: um muro era construído para os isolar dela. Já no Benin (antiga Daomé), faziam-se sacrifícios para os deuses da mata com a intenção de pacificá-los. No entanto, a ida à floresta só ocorria por obrigação ou fuga na época de guerra e fome. Era comum a utilização de símbolos silvestres nas práticas reli- giosas. O leopardo, no Benin, estava associado às figuras dos reis e, em toda a África Atlântica, sua pele era sinônimo de poder. Entre os bantos, que mantiveram certa homo- geneidade religiosa, havia a crença em um espírito criador, em espíritos de ancestrais e da natureza, rituais e feitiçarias. No século XV, o povo congo uti- lizava estatuetas dos avós mortos para recuperar seus espíritos e achava que elas poderiam resolver problemas do cotidiano. Em relação à feitiçaria, acreditavam que havia os bons feiticeiros e os vin- gadores. As divindades da natureza, como Ogum e Xangô, confundiam-se com as figuras humanas. No Reino de Cuba, por sua vez, a crença não era em um espírito criador, mas em três. Todas as des- graças eram vistas como fruto da desordem social e moral da sociedade. Em Gana (noroeste da África), os reis eram enterrados com sua comida, seus ornamentos e seus servidores, o que às vezes resultava na morte de vários escravos. Isso porque os ganenses julgavam G al er ia E nt w is tl e, L on dr es /A lb um /a kg -i m ag es /W er ne r Fo rm an /L at in st oc k S ea tl e A rt M us eu m /C or bi s/ La ti ns to ck Nesta escultura de aproximadamente G al er ia E nt w is tl e, L on dr es /A lb um /a kg -i m ag es /W er ne r Fo rm an /L at in st oc k Escultura ioruba representan- do Exu, feita no século XX. Essa entidade que transita en- tre o bem e o mal é o principal intermediário entre o céu e a terra. É ele quem informa Olodumaré (o deus supremo) sobre os demais deuses e so- bre os seres humanos. Escultura ioruba repre- sentando Xangô, feita S ea tl e A rt M us eu m /C or bi s/ La ti ns to ck Museu de Arte de Seattle G 62 feitor. Grande parte dos escravos podia adquirir os mesmos direitos de seus senhores, como o acú- mulo de propriedades. Só lhe continuava restrito o direito de casar com mulheres livres e participar de assuntos políticos. Depois do século XII, os escravos se tornaram mercadoria valiosa na África. Comenta a historia- dora Marina de Mello e Souza: Na região que abrange do leste do Rio Volta até o delta do Níger – terra dos acãs, acuamus, evés, dos povos iorubás e muitos outros – existiam reinos cujos chefes controlavam áreas consideráveis, se cercavam de pompa e privilégios, promoviama construção de edifícios elaborados e estimulavam a confecção de objetos que impressionam até hoje pela beleza. Esses reinos tinham ligação entre si e com Ifé, espécie de cidade-mãe na qual se origi- naram as formas de organização política e social das outras cidades da chamada Iorubalândia ou Iorubo. Dessa região saiu grande parte dos afri- canos traficados para a América como escravos, por causa das vantagens que apresentava, como a abundância da oferta. Esses eram os prisioneiros das guerras entre diferentes grupos locais, vendi- e os acãs, por exemplo, a natureza era temida: um muro era construído para os isolar dela. Já no Benin (antiga Daomé), faziam-se sacrifícios para os deuses da mata com a intenção de pacificá-los. No entanto, a ida à floresta só ocorria por obrigação ou fuga na época de guerra e fome. Era comum a utilização de símbolos silvestres nas práticas reli- giosas. O leopardo, no Benin, estava associado às figuras dos reis e, em toda a África Atlântica, sua pele era sinônimo de poder. geneidade religiosa, havia a crença em um espírito criador, em espíritos de ancestrais e da natureza, rituais e feitiçarias. No século XV, o povo congo uti- lizava estatuetas dos avós mortos para recuperar seus espíritos e achava que elas poderiam resolver problemas do cotidiano. Em relação à feitiçaria, acreditavam que havia os bons feiticeiros e os vin- gadores. As divindades da natureza, como Ogum e Xangô, confundiam-se com as figuras humanas. No Reino de Cuba, por sua vez, a crença não era em um espírito criador, mas em três. Todas as des- graças eram vistas como fruto da desordem social A FR O -B R A SI LE IR O S LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS que os mortos viviam em um mundo igual ao dos vivos. O sacrifício humano ocorria em diversas regiões, como na Costa do Ouro e em Bissau. Os iorubas e outros povos acreditavam em divindades da natureza que haviam sido assimi- ladas pelos ancestrais fundadores das dinastias. Essas divindades são intermediárias entre os seres humanos e o deus criador, Olodum ou Olodumaré. Em uma categoria hierárquica inferior, estão os deuses que atuam como ministros do deus criador, destacando-se, dentre eles, Obatalá e Xangô. Este último havia sido rei de Oió, cidade ao norte do Reino de Ioruba. A tradição diz que, depois que o soberano foi destronado e enforcado na floresta, uma forte tempestade caiu sobre a cidade, mos- trando a vingança de Xangô, desde então associado ao trovão e ao raio. Nas cerimônias dedicadas a esse orixá, os sacerdotes traziam uma cabeça na mão esquerda e uma figura feminina com a imagem de um “duplo machado” na mão direita. O machado era uma alusão aos raios lançados pela tempestade e a uma pedra neolítica encontrada por campone- ses, interpretada como um presente da divindade. As práticas religiosas africanas modificaram-se consideravelmente com a expansão islâmica após o século VII. O islamismo passou a ser a religião predominante nos entrepostos comerciais, princi- palmente no norte da África. No sul, a expansão islâmica encontrou dificuldades. Entre os iorubas, por exemplo, a expansão islâmica havia chegado no século XV, e no fim do século XVIII ela ainda não havia obtido sucesso na conversão de fiéis. Para os muçulmanos e os cristãos, as religiões africanas eram consideradas “obras do diabo”; já para os africanos, os islamitas eram poderosos feiticeiros. Os europeus na África O termo África não tem uma origem defini- da; porém, sabe-se que seu uso foi introduzido tardiamente. Nos séculos XV e XVI, na época da expansão ultramarina, os europeus denominavam o continen- te africano de Etiópia. Já os gregos o chamavam de Líbia. O norte africano, desde a Antiguidade, foi objeto de conquista para vários povos (como os fenícios e os romanos). Com a expansão muçul- mana na Península Ibérica, a partir do século VII d.C., o contato do norte da África com a Europa se estreitou. A parte oriental africana também era conhecida pelos europeus, mas tanto a África Atlântica como o sul do continente permaneceram desconhecidos por muito tempo. A África Atlântica só teve contato com os euro- peus a partir da expansão ultramarina. O comércio de ouro, marfim e escravos era realizado na região desde a Idade Média, mas durante séculos foi exclu- sividade dos muçulmanos e dos berberes (nômades que habitavam o Saara e os territórios correspon- dentes aos atuais Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e Egito). Somente após a primeira metade do século XV, foi iniciado um projeto de expansão e conquis- ta da África Atlântica pelos portugueses, com a intenção de descobrir rotas para as especiarias das Índias e para a exploração aurífera na região. Como os mercadores muçulmanos monopolizavam o acesso continental e os comerciantes venezianos defendiam o acesso via Mediterrâneo, a solução lusa foi abrir novos caminhos pelo Oceano Atlântico. Essa área produtora de ouro logo se transformaria em um grande mercado de escravos. O tráfico interno de escravos na África foi uma constante entre os séculos VIII e XVI. Ocorria princi- palmente na costa ocidental (do Senegal até a Angola) e na costa oriental (do Quênia até Moçambique). Seu principal mecanismo eram as guerras internas. Povos derrotados eram transformados em escravos e vendidos. As guerras aconteciam, em geral, em razão do processo de formação ou expansionismo do Estado. Também a fome levava à escravidão: os mais miseráveis vendiam a si mesmos e aos filhos como escravos para poder se alimentar. Uma pessoa também poderia se tornar escrava por meio de uma decisão judicial. Uma dívida ou um crime poderiam Mulher dança durante a festa de Xangô, em Fortaleza (CE), em 2003. No Brasil, Xangô é um orixá do candomblé, palavra origi- nária do banto kandombile e que significa culto e oração. Xangô representa as forças ocultas da natureza, como o trovão, e para homenageá-lo as pessoas costumam usar colares de contas brancas e vermelhas. No catolicismo, como resultado do sincre- tismo religioso, é identificado com São João, por isso é celebrado no mês de junho. Ja rb as O liv ei ra /F ol ha Im ag em 63 século XV, e no fim do século XVIII ela ainda não havia obtido sucesso na conversão de fiéis. Para os muçulmanos e os cristãos, as religiões africanas eram consideradas “obras do diabo”; já para os africanos, os islamitas eram poderosos feiticeiros. Os europeus na África O termo África não tem uma origem defini- da; porém, sabe-se que seu uso foi introduzido tardiamente. Nos séculos XV e XVI, na época da expansão ultramarina, os europeus denominavam o continen- te africano de Etiópia. Já os gregos o chamavam de Líbia. O norte africano, desde a Antiguidade, foi objeto de conquista para vários povos (como os fenícios e os romanos). Com a expansão muçul- mana na Península Ibérica, a partir do século VII d.C., o contato do norte da África com a Europa se estreitou. A parte oriental africana também era conhecida pelos europeus, mas tanto a África Atlântica como o sul do continente permaneceram desconhecidos por muito tempo. A África Atlântica só teve contato com os euro- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS ser pagos com trabalho escravo. Tais escravos, con- tudo, ainda poderiam se casar com pessoas livres e ter acesso aos meios de produção. Com a organização do tráfico negreiro após o século XV, a dinâmica da escravização de homens, mulheres e crianças tomou um rumo completamente diverso. Primeiramente, houve grande incremento no número de pessoas aprisionadas para serem enviadas à América em troca de pagamento, que era sempre muitoinferior ao valor de um escravo na América. Para se compreender a história da África Atlântica é necessário passar pelo tráfico interna- cional de escravos, que marcou profundamente a região. Se no início essa parte da África foi ocupa- da por portugueses, em seguida vieram outros euro- peus: franceses, ingleses e holandeses. O tráfico foi responsável pelo enriquecimento de companhias europeias e mercadores do início da Idade Moderna, antes mesmo do surgimento do capitalismo. Se no século XVI Portugal e Espanha, como detentores das colônias americanas, dominavam o mercado de escravos africanos, no século XVII outras nações europeias passaram a controlar grandes proprieda- des agrícolas com trabalho escravo no Novo Mundo e a recorrer à mão de obra cativa. Desde o século XV, Portugal já ocupava os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé. Do pri- meiro ponto os portugueses atingiram os rios da Guiné, e de São Tomé foram para o Golfo de Benin. A partir daí estabeleceram vários entrepostos para o comércio de ouro e escravos: as duas mercadorias mais valiosas. Luanda, Senegâmbia e Benguela tornaram-se parceiros dos portugueses na aqui- sição de escravos para serem vendidos pelos europeus. No século XVI, os ingleses começaram a disputar com os lusos os melhores postos de compra de escravos e as alianças com os chefes locais. A partir do século XVII, a região da Costa da Mina foi um importante fornecedor de mão de obra escrava para os traficantes europeus. Conforme a historiadora Marina de Mello e Souza: [As realizações dos negócios] envolviam várias etapas, eram lentas e com gestos cheios de signifi- cados simbólicos. Os navios tinham de pagar taxas de ancoragem, e os capitães ofereciam presentes para os chefes locais ou para os representantes dos reis, que moravam no interior do continente. Estes geralmente eram presenteados com tecidos finos, como brocados, veludos e sedas, com botas de couro, chapéus emplumados, casacos agaloa- dos [enfeitados com galões], punhais e espadas trabalhadas, pipas de bebidas destiladas, cavalos e uma variedade de produtos que indicavam pres- tígio. As trocas eram feitas aos poucos. Cada dia pequenas quantidades de escravos eram trocadas por tonéis de bebidas destiladas, tecidos da Índia e da Inglaterra, contas de vidro venezianas, uten- sílios de metal, armas, pólvora, cavalos, barras de ferro, conchas trazidas de ilhas do Índico, que cumpriam funções de moeda em sociedades da África ocidental. Em razão desse processo lento, um navio podia levar até seis meses para comple- tar sua carga e voltar ao porto de origem. MELLO E SOUZA, op. cit., p. 59. Quanto maiores os conflitos internos na África, mais favorecidos eram os portugueses em relação ao abastecimento de escravos. Leia a seguir a explicação de Roland Olivier. O Benin passava, quando os portugueses lá chega- ram pela primeira vez, pelos estágios finais de uma grande expansão territorial. Enquanto seus exércitos permaneceram lutando ativamente nas fronteiras, o Benin foi uma fonte principal de escravos. Mas quando, em meados do século XVI, o Benin atingiu os limites naturais de seu poder para controlar as províncias distantes, o fluxo de escravos diminuiu gradativamente e os comerciantes europeus tiveram que buscar seus suprimentos em outro lugar. OLIVIER, Roland. A experiência africana. Rio de Janeiro: Zahar, 1994. p. 145. Assim, o comércio de escravos acabou por intensificar os conflitos internos e os desequilíbrios populacionais. As capturas foram se ampliando. No século XV, estima-se a captura de menos de mil pessoas, elevando-se esse número para cerca de 30 mil por ano no século XVII e cerca de 80 mil no século seguinte. Aproximadamente dois terços dos capturados eram homens. No fim do século XVIII, os movimentos liberais e democráticos ganharam força na Europa, e a escra- vidão passou a ser condenada não mais apenas por religiosos ou intelectuais isolados. Na França e na Inglaterra, nasceu o movimento abolicionista, que considerava essa forma de trabalho um atraso à expansão do mercado. Aos poucos o tráfico deixou de existir, o que ocorreu no Brasil em 1850 com a promulgação da Lei Eusébio de Queiroz. No entanto, até mesmo em decorrência do fato de a escravidão ser realizada na África antes da che- gada dos europeus, esta prática não cessou total- mente e permaneceu nas antigas rotas escravistas do Saara. O tráfico interno no continente atingiu seu apogeu no século XIX. A abolição da escravatura na África foi ainda muito lenta, permanecendo no Congo até 1889, no Senegal até 1892, na Gâmbia até 1894, na Nigéria até 1900 e em Serra Leoa até 1928. Em meados do século XIX, um novo processo de conquista europeu começou a ocorrer. Trata-se do 64 ser pagos com trabalho escravo. Tais escravos, con- tudo, ainda poderiam se casar com pessoas livres e ter acesso aos meios de produção. Com a organização do tráfico negreiro após o século XV, a dinâmica da escravização de homens, mulheres e crianças tomou um rumo completamente diverso. Primeiramente, houve grande incremento no número de pessoas aprisionadas para serem enviadas à América em troca de pagamento, que era sempre muito inferior ao valor de um escravo na América. Para se compreender a história da África Atlântica é necessário passar pelo tráfico interna- cional de escravos, que marcou profundamente a região. Se no início essa parte da África foi ocupa- da por portugueses, em seguida vieram outros euro- peus: franceses, ingleses e holandeses. O tráfico foi responsável pelo enriquecimento de companhias europeias e mercadores do início da Idade Moderna, antes mesmo do surgimento do capitalismo. Se no século XVI Portugal e Espanha, como detentores das colônias americanas, dominavam o mercado de escravos africanos, no século XVII outras nações europeias passaram a controlar grandes proprieda- mais favorecidos eram os portugueses em relação ao abastecimento de escravos. Leia a seguir a explicação de Roland Olivier. A FR O -B R A SI LE IR O S LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS neocolonialismo, no qual as potências europeias saíram em busca de novos mercados e matérias- -primas para sua indústria em constante expansão. Praticamente todo o continente africano foi repartido entre ingleses, franceses, belgas, alemães e italianos. A escravidão foi realimentada e a segregação étnica tomou grandes proporções. Exemplo dessa herança na história do continente é o apartheid na África do Sul. No século XVII, a região da atual África do Sul foi colonizada por holandeses e franceses, chegando também os ingleses no século XVIII. Desde o início se estabeleceu o conflito com as várias etnias locais: bosquímanos, zulus e xho- sas. Os europeus lutaram para dominar esses povos e explorar sua força de trabalho. Os des- cendentes de holandeses denominaram-se afri- cânderes ou bôeres e desenvolveram uma língua própria: o africânder. Em 1899 e 1902, em plena disputa pela dominação colonial, os britânicos entraram em conflito com os bôeres, iniciando- -se a chamada Guerra dos Bôeres, que terminou com a vitória e dominação britânica da região. Com isso, os britânicos unificaram a região, que foi denominada como União Sul-Africana, poste- riormente África do Sul. Em 1947, ocorreu a independência da África do Sul, mas, no ano seguinte, a minoria branca repre- sentada pelo Partido Nacional implantou o regime do apartheid, no qual o racismo se transformou em lei e vigorou até 1994. M ap s W or ld Com base em Atlas geográfico escolar. Rio de Janeiro: IBGE, 2009. p. 45. ÁFRICA ATUAL 65 , no qual as potências europeias saíram em busca de novos mercados e matérias- -primas para sua indústria em constante expansão.Praticamente todo o continente africano foi repartido entre ingleses, franceses, belgas, alemães e italianos. A escravidão foi realimentada e a segregação étnica tomou grandes proporções. Exemplo dessa herança na na África do Sul. No século XVII, a região da atual África do Sul foi colonizada por holandeses e franceses, chegando também os ingleses no século XVIII. Desde o início se estabeleceu o conflito com as várias etnias locais: bosquímanos, zulus e xho- sas. Os europeus lutaram para dominar esses povos e explorar sua força de trabalho. Os des- cendentes de holandeses denominaram-se afri- cânderes ou bôeres e desenvolveram uma língua própria: o africânder. Em 1899 e 1902, em plena disputa pela dominação colonial, os britânicos entraram em conflito com os bôeres, iniciando- -se a chamada Guerra dos Bôeres, que terminou com a vitória e dominação britânica da região. Com isso, os britânicos unificaram a região, que foi denominada como União Sul-Africana, poste- riormente África do Sul. Em 1947, ocorreu a independência da África do Sul, mas, no ano seguinte, a minoria branca repre- sentada pelo Partido Nacional implantou o regime do apartheid, no qual o racismo se transformou em lei e vigorou até 1994. M ap s W or ld ÁFRICA ATUAL 1 2 3 4 5 6 7 8 9 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Manifestação em apoio à elei- ção de Nelson Mandela em 1994. Na faixa, lê-se: “Adeus, apartheid; não volte mais”. Durante o apartheid, a legislação segregacio- nista limitou a circulação da população negra, que precisava de um documento de permissão oficial para poder circular nas áreas destinadas aos brancos. As áreas de trabalho, lazer e moradia de negros e brancos eram demarcadas pelo Estado. A palavra apartheid, em africânder, significa separação. Havia locais públicos, como praias e áreas de lazer, além de serviços públicos, como bibliotecas e escolas, que eram vetados aos negros. Somente os brancos tinham direitos civis; por isso, não era permitido aos negros votar, assumir cargos públicos ou participar de um júri. Era também proibido o casamento entre brancos e negros. Conforme a legislação segregacionista implementada pela minoria branca, todos aqueles que tivessem antepassados não brancos eram clas- sificados como negros ou mestiços e receberiam documentos que contivessem essa informação, ou seja, todos esses seriam considerados como parte da população negra discriminada pela minoria branca que governava o país. Após o movimento de resistência liderado por Nelson Mandela, que estivera preso por muitos anos em razão de sua militância contra o apartheid, a África do Sul realizou, em 1994, as primeiras elei- ções multirraciais. Nesse ano, Mandela, represen- tando o partido denominado Congresso Nacional Africano, foi eleito o primeiro presidente negro da África do Sul. Herança do apartheid na África do Sul: ba nheiros se- parados pa ra ho mens bran- cos e negros no centro de Johannesburgo, em 2001. D av id T ur nl ey /C or bi s/ La ti ns to ck A P 66 Durante o apartheid, a legislação segregacio- nista limitou a circulação da população negra, que precisava de um documento de permissão oficial para poder circular nas áreas destinadas aos brancos. As áreas de trabalho, lazer e moradia de negros e brancos eram demarcadas pelo Estado. A palavra apartheid, em africânder, significa separação. Havia locais públicos, como praias e áreas de lazer, além de serviços públicos, como bibliotecas e escolas, que eram vetados aos negros. Somente os brancos tinham direitos civis; por isso, não era permitido aos negros votar, assumir cargos públicos ou participar de um júri. Era também proibido o casamento entre brancos e negros. Conforme a legislação segregacionista implementada pela que tivessem antepassados não brancos eram clas- sificados como negros ou mestiços e receberiam documentos que contivessem essa informação, ou seja, todos esses seriam considerados como parte da população negra discriminada pela minoria branca que governava o país. Nelson Mandela, que estivera preso por muitos anos em razão de sua militância contra o a África do Sul realizou, em 1994, as primeiras elei- ções multirraciais. Nesse ano, Mandela, represen- tando o partido denominado Africano África do Sul. Herança do apartheid na África do Sul: ba nheiros se- parados pa ra ho mens bran- cos e negros no centro de Johannesburgo, em 2001. A FR O -B R A SI LE IR O S LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Os africanos no Brasil Sabemos que cerca de 220 povos e 5 milhões de habitantes viviam no atual território brasileiro antes da chegada dos portugueses em 1500. A partir daí os colonizadores começaram a se apossar das terras e a escravizar indígenas. Na segunda metade do século XVI, com o desenvolvimento da economia canavieira, o tráfico de escravos ganhou fôlego e começaram a vir as primeiras levas de africanos para a colônia. Estima-se que cerca de 50 mil afri- canos chegaram ao Brasil no século XVI; no século seguinte teriam sido 550 mil, e, no século XVIII, por volta de 1 milhão e 700 mil africanos. No total, teriam chegado ao Brasil mais de 4 milhões de africanos, e, na América, mais de 10 milhões de seres humanos vindos da África foram feitos cativos. Devemos lembrar que não só a cana-de-açúcar havia começado a se desenvolver no Brasil, mas também a criação de gado no interior, a extração de drogas do sertão no Norte e a cultura do fumo na Bahia; enfim, iniciava-se a organização de uma sociedade colonial predominantemente rural, na qual africanos escravizados e indígenas eram a mão de obra essencial para o funcionamento dessa economia. Além disso, os escravos eram utilizados para tarefas domésticas e urbanas. M ap s W or ld Ao longo do período colonial, a segregação racial foi ganhando contornos mais nítidos e o preconceito foi se reafirmando a todo momento. Para as pessoas consideradas brancas, o trabalho manual era tarefa destinada somente aos escravos. Assim, para as famílias mais abastadas, tarefas como cuidar da casa, cozinhar, cuidar das crianças, transportar cargas, fazer pequenos consertos ou até mesmo trabalhar como vendedor ambulante eram destinadas aos escravos. A posse de escra- vos era um sinal de status, uma demonstração de riqueza. Sinhás passeavam pelas ruas com várias escravas para acompanhá-las. Além de lhes pres- tarem serviço, eram a prova viva de sua abastança. Uma vez no Brasil, os africanos eram generica- mente chamados de boçais, termo que remetia à inferioridade das culturas africanas para os portu- gueses. Depois de capturados, eram trazidos nus ou seminus e acorrentados nos porões dos navios. Muitos morriam nesse percurso. Ao chegarem aqui, eram besuntados com banha para participarem de leilões de venda de escravos nos mercados de cativos. Tratados como animais que serviriam como ferramenta de trabalho, toda a sua história anterior era desconsiderada. Seus proprietários despreza- vam a origem, a língua, a religião e a história familiar dos escravizados. Quando estes aprendiam a língua ROTAS DE ESCRAVOS ENTRE BRASIL E ÁFRICA DURANTE O PERÍODO COLONIAL Com base em ALBUQUERQUE, Manoel Mauricio de. et al. Atlas Histórico Escolar. Rio de Janeiro: FAE, 1991. p. 42. 67 Sabemos que cerca de 220 povos e 5 milhões de habitantes viviam no atual território brasileiro antes da chegada dos portugueses em 1500. A partir daí os colonizadores começaram a se apossar das terras e a escravizar indígenas. Na segunda metade do século XVI, com o desenvolvimento da economia canavieira, o tráfico de escravosganhou fôlego e começaram a vir as primeiras levas de africanos para a colônia. Estima-se que cerca de 50 mil afri- canos chegaram ao Brasil no século XVI; no século seguinte teriam sido 550 mil, e, no século XVIII, por volta de 1 milhão e 700 mil africanos. No total, teriam chegado ao Brasil mais de 4 milhões de africanos, e, na América, mais de 10 milhões de seres humanos Devemos lembrar que não só a cana-de-açúcar havia começado a se desenvolver no Brasil, mas também a criação de gado no interior, a extração de drogas do sertão no Norte e a cultura do fumo na Bahia; enfim, iniciava-se a organização de uma sociedade colonial predominantemente rural, na qual africanos escravizados e indígenas eram a Ao longo do período colonial, a segregação racial foi ganhando contornos mais nítidos e o preconceito foi se reafirmando a todo momento. Para as pessoas consideradas brancas, o trabalho manual era tarefa destinada somente aos escravos. Assim, para as famílias mais abastadas, tarefas como cuidar da casa, cozinhar, cuidar das crianças, transportar cargas, fazer pequenos consertos ou até mesmo trabalhar como vendedor ambulante eram destinadas aos escravos. A posse de escra- vos era um sinal de status, uma demonstração de riqueza. Sinhás passeavam pelas ruas com várias escravas para acompanhá-las. Além de lhes pres- tarem serviço, eram a prova viva de sua abastança. Uma vez no Brasil, os africanos eram generica- mente chamados de boçais, termo que remetia à inferioridade das culturas africanas para os portu- gueses. Depois de capturados, eram trazidos nus ou seminus e acorrentados nos porões dos navios. Muitos morriam nesse percurso. Ao chegarem aqui, eram besuntados com banha para participarem de leilões de venda de escravos nos mercados de cativos. Tratados como animais que serviriam como 1 2 3 4 5 6 7 8 9 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS portuguesa, os costumes do local e se mos- travam obedientes aos senhores, passavam a ser chamados de ladinos. Os que nasciam no Brasil eram chamados de crioulos. Como afirmado anteriormente, a maior parte dos africanos que vieram para o Brasil era procedente da África Atlântica. No sécu- lo XVI, vinham da região do Rio Gâmbia, no Golfo da Guiné, da região do Congo e de Luanda. No século XVIII, muitos escravos vieram da Costa da Mina, ligada diretamente a comerciantes de Salvador e de Luanda, que abastecia principalmente o Rio de Janeiro. Podemos considerar, então, que chegaram ao Brasil mais africanos de origem sudanesa, vindos da região conhecida como Sudão oci- dental, a qual abrigava muitas etnias, dentre elas: os hauçás, os fulanis e inúmeros grupos iorubas. Além desses, há os vários grupos bantos já citados. Com isso, uma variedade de línguas, reli- giões, enfim, uma variedade de culturas passou a conviver na colônia. Os africanos, no entanto, não puderam viver próximo de seus familiares, pois a lógica do comércio fazia com que as pessoas fossem separadas, não respeitando as culturas locais. Dessa forma, ao desembar- car no Brasil, o africano chegava a uma terra desconhecida e precisava aprender a conviver com europeus, indígenas e africanos de outras etnias. Em alguns casos, escravos de um mesmo senhor poderiam pertencer a povos tra- dicionalmente inimigos. Nesses casos, tudo que tinham em comum era a condição de escravo. No Brasil, os escravos tinham de aprender a língua portuguesa para se comunicar com outros escravos e os senhores. Ocorria então um novo processo de socialização. Com sua identidade original negada pelos europeus, eram chamados pelos traficantes conforme sua ori- gem ou ponto de venda na África. Poderiam ser conhecidos como João Mina, Manoel Benguela ou Maria Angola, por exemplo. Contudo, os africanos escravizados não perdiam totalmente sua identidade original. Na escolha de parceiros sexuais, por exem- plo, levavam em conta a origem do outro, preferindo companheiros da comunidade africana a que pertenciam. A partir das rela- ções de parentesco e de trabalho que iam se formando, foram recriadas comunida- des que mantinham as tradições culturais africanas e acrescentavam novas práticas constituídas no Brasil. O barco do guarda-mor (no alto) e Cenas da Rua Direita (as duas imagens acima), de Paul Harro-Harring, 1840. O pintor e romancista dinamarquês esteve no Rio de Janeiro entre maio e agosto de 1840 e retratou o cotidiano da cidade na série Esboços tropicais do Brasil. Adepto do Iluminismo, seu objetivo não era mostrar a natureza e a sociedade do Brasil, mas denunciar a brutalidade da escravidão. Nas imagens, diferentes tarefas exercidas pelos escravos: os remadores de embarcações, os carregadores urbanos e os vendedores ambulantes. Fo to s: In st it ut o M or ei ra S al le s, S ão P au lo ( S P ) 68 Fo to s: In st it ut o M or ei ra S al le s, S ão P au lo ( S P ) A FR O -B R A SI LE IR O S LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Música transoceânica Afinidades musicais entre Cabo Verde e Brasil ultrapassam a distância e o século Eduardo Lobo Violão, cavaquinho e percussão: formação instrumental típica da música brasileira. Certo? Não totalmente. Nas ilhas de Cabo Verde isso também é verdade. E as semelhanças não param aí. Há muito mais em comum entre o que se produz musicalmente no Brasil e no arquipélago do Oceano Atlântico, como nós, descobertos e colonizados pelos portugueses, e como nós, com forte influência de culturas africanas. “Morna”, “coladeira” e “funaná” são os três ritmos musicais mais populares das ilhas de Cabo Verde. Ritmos que misturam toques de fado português, cho- rinho brasileiro, batidas cubanas, tango argentino e raízes africanas. A influência brasileira é, sem dúvida, uma das mais fortes. Cabo Verde foi um dos poucos casos em que o Brasil regressou à África para devolver cultura. No início do século passado, marinheiros brasileiros chegavam à ilha de São Vicente com seus instrumentos e, não raro, tocavam com os compositores locais. Assim, o chorinho e o samba influenciaram a música urbana do arquipélago. A “morna” é o gênero que mais caracteriza o povo cabo-verdiano. É o blues do país. Uma música que nasceu do sofrimento do povo, tocada num ritmo lento e com letras que evocam a tristeza, o amor, a perda e a sodade, saudade em crioulo. E não se pode falar em “morna” sem citar Cesária Évora, a diva de Cabo Verde. Ela foi o grande divisor de águas para a música cabo-verdiana. Foi com seu sucesso internacional que as portas do mundo se abriram para a música do arquipélago. Com uma voz carregada de sentimento, frequentemente comparada a Billie Holiday, “Cize”, como gosta de ser chamada pelos amigos, chega aos 62 anos de idade, dona de uma carreira bastante peculiar, na qual o sucesso só veio tardiamente. Como a maioria dos músicos e artistas de Cabo Verde, Cesária Évora nasceu em Mindelo, a capital cultural do país [...] começou a carreira cantando nos bares e bordéis de Mindelo e nos lares de aristocratas portugueses. Com a independência de Cabo Verde, em 1975, um regime socialista foi instalado no país, provocando a fuga da aristocracia portuguesa que tinha sido o sustento da cantora. LOBO, Eduardo. Continente multicultural. Ano III, n. 29, 2005. p. 40. Apresentação de Cesária Évora, a “diva de Cabo Verde”, em Los Angeles (Estados Unidos), em 2008. A presença cultural africana no Brasil Podemos facilmente perceber a presença afri- cana na origem da música brasileira e de algumas festas populares nacionais. O batuque, dança originária do Congo e de Angola, era praticado no Brasilpelos africanos e consistia em uma roda com uma dançarina ao centro e o acompanhamento de um violeiro. Daí surgiu a expressão batucada para designar as rodas, que, mais tarde, seriam sinônimo de rodas de samba. Durante o batuque, para sair da roda, a dançarina deveria encostar o umbigo no umbigo de outro dançarino que entrava. No idioma banto-quimbundo isso é denominado semba, pro- vável origem da palavra samba. Do Congo veio também a congada, dança dra- mática realizada entre as festas de Natal e de Reis. Trata-se de uma mistura de ritmos africanos com elementos da cultura católica europeia, pois relaciona-se com o calendário das festas cristãs. Algumas congadas representam a luta dos povos negros, mas outras fazem referência às lutas entre cristãos e mouros na Europa. Outra influência dos bantos de Angola e do Congo é a presença do lundu, conhecido por ser uma dança sensual. Vale ressaltar que o lundu, de dança considera- da indecente, se transformou, a partir do século XIX, em dança de salão aceita pela população de pessoas livres e pela elite. Um caso típico das diferenças entre os grupos de africanos escravizados foi o que ocorreu na Bahia do século XIX, quando muitos africanos hauçás foram trazidos após serem aprisionados na guerra contra os iorubas. Esses hauçás, de tradição islâmica, distinguiam-se em muitos aspectos dos africanos de outras regiões que habitavam a Bahia. A religião é um exemplo dessas novas relações que foram se constituindo. Africanos capturados como escravos podiam ser curandeiros, conhe- cedores de práticas mágicas, de adivinhações e Jewel Samad/AFP/Getty Images 69 Afinidades musicais entre Cabo Verde e Brasil ultrapassam a distância e o século iolão, cavaquinho e percussão: formação instrumental típica da música brasileira. Certo? Não totalmente. Nas ilhas de Cabo Verde isso também é verdade. E as semelhanças não param aí. Há muito mais em comum entre o que se produz musicalmente no Brasil e no arquipélago do Oceano Atlântico, como nós, descobertos e colonizados pelos portugueses, e como nós, “Morna”, “coladeira” e “funaná” são os três ritmos musicais mais populares das ilhas de Cabo Verde. Ritmos que misturam toques de fado português, cho- rinho brasileiro, batidas cubanas, tango argentino e raízes africanas. A influência Cabo Verde foi um dos poucos casos em que o Brasil regressou à África para devolver cultura. No início do século passado, marinheiros brasileiros chegavam à ilha de São Vicente com seus instrumentos e, não raro, tocavam com os compositores locais. Assim, o chorinho e o samba influenciaram a música urbana do arquipélago. A “morna” é o gênero que mais caracteriza o povo cabo-verdiano. É o blues do país. Uma música que nasceu do sofrimento do povo, tocada num ritmo lento e com letras que evocam a tristeza, o amor, a perda e a sodade, saudade em crioulo. E não se pode falar em “morna” sem citar Cesária Évora, a diva de Cabo Verde. Ela foi o grande divisor de águas para a música cabo-verdiana. Foi com seu sucesso internacional que as portas do mundo se abriram para a música do arquipélago. Com Apresentação de Cesária Évora, a “diva de Cabo Verde”, em Los Angeles (Estados Unidos), em 2008. Jewel Samad/AFP/Getty Images 1 2 3 4 5 6 7 8 9 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Congadas de Catalão (GO), em apresentação de 2007. O batuque em São Paulo, de Johann Baptist Spix e Karl Friedrich Philipp von Martius, 1817. Esses viajantes europeus retrataram a dança batuque, na qual ocorria a “umbigada”. G er al do G om es /O pç ão B ra si l I m ag en s C ol eç ão p ar ti cu la r Homem da etnia hauçá na Nigéria atual. P au l A lm as y/ C or bi s/ La ti ns to ck 70 G er al do G om es /O pç ão B ra si l I m ag en s A FR O -B R A SI LE IR O S LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS intermediários entre o mundo divino e dos seres humanos. Mesmo como escravos no Brasil, eles continuavam a realizar essas tarefas. Jogavam pedras, praticavam danças de significado religioso ao som de tambores e preparavam compostos para beber ou comer, que incluíam extratos de plantas, dentes e penas de animais, cabelos e mesmo secre- ções do corpo. Poderiam ter finalidades variadas, que seriam alcançadas ao cumprir o ritual. Esses ritos no Brasil eram chamados de calundus, palavra de origem banta. Os africanos também costumavam criar bolsas de mandinga, comuns ainda em algumas regiões do Brasil. Elas eram feitas de pequenos sacos de pano ou couro que reuniam objetos variados, papéis com orações muçulmanas, católicas e dizeres relacionados às culturas africanas. Expressavam a síntese cultural e acreditava-se que ofereciam proteção aos que as usavam. O candomblé, relacionado a cultos religiosos de origem ioruba e de Daomé (atual República de Benin), evocava as entidades sobrenaturais que são os orixás, heróis divinizados em reinos africanos. No entanto, essa prática religiosa era reprimida na colônia portuguesa, condenada pela Igreja Católica, que a considerava como força diabólica. Era permitido somente cultuar os san- tos católicos. A religião cristã era apregoada aos escravos pelos colonizadores. Havia igrejas desti- nadas somente aos escravos. Nessas, contudo, os escravos criaram uma correspondência entre os orixás do candomblé e os santos católicos. Iansã era Santa Bárbara, Xangô era São João Batista, São Jerônimo ou São Judas Tadeu e Iemanjá era Nossa Senhora da Conceição. Oxalufã era conhe- cido como o Senhor do Bonfim na Bahia, Oxóssi como São Jorge (na Bahia) e São Sebastião (no Rio de Janeiro), Oxum como diversas Nossas Senhoras (da Conceição, das Candeias etc.) e Omulu como São Lázaro. Esse é um importante exemplo de como se foi construindo o sincretismo cultural que deu origem à cultura afro-brasileira. Deve-se destacar, ainda, a importância das chamadas irmandades de pretos. As irmanda- des surgiram originalmente na Europa medieval e foram trazidas ao Brasil pelos colonizadores portugueses. Como instituição laica, tinha por objetivo difundir o culto aos santos e garantir Festa de Iemanjá no Rio de Janeiro, em 2008. Iemanjá é a rainha das águas e o orixá da maternidade nas religiões afro-brasileiras. No sincretismo religioso é identificada com a santa católica Nossa Senhora dos Navegantes. R ic ar do A zo ur y/ P ul sa r Im ag en s 71 1 2 3 4 5 6 7 8 9 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Tambozeiros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, Minas Novas (MG), 2004. As irmandades ainda representam uma forma de construção de identidades e laços sociais em muitas comunidades brasileiras, organizando festas e rituais que envolvem grandes grupos. M ar co A nt on io S á/ ki no .c om .b r Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. São Cristóvão (SE), 2007. Rubens Chaves/Pulsar Imagens Tambozeiros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, Minas Novas (MG), 2004. As irmandades ainda representam uma forma de construção de identidades e laços sociais em muitas comunidades brasileiras, organizando festas e rituais que envolvem grandes grupos. Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. São Cristóvão (SE), 2007. Rubens Chaves/Pulsar Imagens o esforço de evangelização. Também havia no Brasil as ordens terceiras, que se submetiam a uma ordem religiosa específica. Conforme Sérgio Chahon: Situadas na base da pirâmide social e numerosasno ultramar, as irmandades negras, sobretudo as de escravos, desempenharam, com as bênçãos da Igreja e do padroado régio, papel relevante no processo de aculturação da população africana, estimulando-a ao exercício dos ritos católicos e à participação nos sacramentos. De um ponto de vista mais amplo, en- quanto associações dotadas de legitimidade jurídica, serviram ao conjunto dos habitantes da América Portuguesa como o principal espaço de sociabilidade disponível na época e, para os cativos e libertos, desti- tuídos de quase tudo, forneceram importantes meios para eles se exprimirem culturalmente e construírem uma identidade própria. VAINFAS, Ronaldo (Org.). Dicionário do Brasil colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2000. p. 317. G 72 A FR O -B R A SI LE IR O S LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS 1. Que referências à história dos africanos no Brasil estão presentes na canção? 2. Faça uma pesquisa na internet para explicar as alusões ao dia 20 de novembro e aos quilombos. 3. O autor faz uma defesa da cultura afro-brasileira? Explique. ROTEIRO DE TRABALHO E V IS T A P O N T O D E V IS T A P O N T O D E V IS T A PONTO DE VISTA Black Broder – 20 do 11 Mestre Negoativo/ Alexandre Cardoso – Berimbrown Meus ancestrais trazidos em navios negreiros Muitos morreram de banzo antes de aqui chegar A boca secava de sede, caíram no samba para a dor passar Criaram uma luta nas matas e debaixo do nariz do feitor Dançavam prá disfarçar, Batuque, São Bento Grande, Santa Maria, São Bento pequeno, Iúna, Cavalaria. É bom e tenho o prazer de dizer sou afro-brasileiro Nossa cultura se expande pelo mundo inteiro Tem até europeu tocando berimbau e pandeiro Do mundo do açúcar a computadores Toca-disco, fax, celular, rádio de pilha, desemprego Me mande um e-mail prá a gente se comunicar Do mundo do açúcar a computadores Toca-disco, fax, celular, rádio de pilha, desemprego Me mande um e-mail prá a gente se aquilombar Hei, black broder Levante e lute Na moral Hei, black broder Se ligue e lute na moral E aí, Domingo Jorge Velho, qual é a sua? O quilombo permanece vivo, a luta continua Na ditadura grandes mestres foram exi- lados Seu Rui Barbosa, cadê os livros da História que foram queimados? Na minha cidade 21 de abril é feriado e 20 de novembro mal é lembrado Mas mesmo assim trago sorriso no rosto, tenho o samba no pé Sou bamba de capoeira e acredito no meu candomblé Aro bôbôi ôxum maré patácuri ôgum comorodé odé Cabecilhê kaô Tem muito mais, não tenho preconceito Pelo contrário, tenho orgulho estampado no peito Somos miscigenados por inteiro salve o povo índio branco afro-brasileiro Hei, black broder Levante e lute Na moral Hei, black broder Se ligue e lute na moral BERIMBROWN. Black Broder. In: Aglomerado (CD). Obi Music, 2003. Que referências à história dos africanos no Brasil estão presentes na canção? Faça uma pesquisa na internet para explicar as alusões ao dia 20 de novembro e aos quilombos. O autor faz uma defesa da cultura afro-brasileira? Explique. D et al he d a ob ra d a p. 6 8. 73 PONTO DE VISTA Mestre Negoativo/ Alexandre Cardoso – Berimbrown Muitos morreram de banzo antes de aqui chegar Criaram uma luta nas matas e debaixo do nariz do É bom e tenho o prazer de dizer sou afro-brasileiro Nossa cultura se expande pelo mundo inteiro Tem até europeu tocando berimbau e pandeiro E aí, Domingo Jorge Velho, qual é a sua?E aí, Domingo Jorge Velho, qual é a sua? O quilombo permanece vivo, a luta continuaO quilombo permanece vivo, a luta continua Na ditadura grandes mestres foram exi-Na ditadura grandes mestres foram exi- lados Seu Rui Barbosa, cadê os livros da História Seu Rui Barbosa, cadê os livros da História que foram queimados? Na minha cidade 21 de abril é feriadoNa minha cidade 21 de abril é feriado e 20 de novembro mal é lembradoe 20 de novembro mal é lembrado Mas mesmo assim trago sorriso no rosto, Mas mesmo assim trago sorriso no rosto, tenho o samba no pétenho o samba no pé Sou bamba de capoeira e acredito no meu Sou bamba de capoeira e acredito no meu candomblé Aro bôbôi ôxum maréAro bôbôi ôxum maré patácuri ôgum comorodé odépatácuri ôgum comorodé odé Cabecilhê kaô Tem muito mais, não tenho preconceitoTem muito mais, não tenho preconceito 1 2 3 4 5 6 7 8 9 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICE D et al he d a ob ra d a p. 6 8. ÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS DOCUMENTOS VOCABULÁRIO Belicoso: que tem inclinação para o combate. Idólatra: que adora ídolos. Manilha: argola como adorno para os pulsos ou os tornozelos. Leia atentamente o trecho da obra Esmeraldo de Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira, inter- rompida em 1508, e observe o mapa europeu de 1530. Depois, faça as atividades propostas no Roteiro de trabalho. Esmeraldo de Situ Orbis, 1505-1508 Duarte Pacheco Pereira À ordem da obra convém dizermos da natureza da gente desta Serra Leoa e do seu modo de viver. E a maior parte dos moradores desta terra por um nome são chamados Boulões, e é gente belicosa que poucas vezes estão em paz. Estes chamam ao ouro “enloão” e água, “men”. E algumas vezes se acontece estes negros comerem outros homens, ainda que isto não usam tão comumente como se usa em outras partes desta Etiópia. E estes todos são idólatras e feiticeiros, e por feitiços se regem em tal maneira que os oráculos e os agouros sem dúvida se lhe dão. Nesta terra há ouro, e não em muita quantidade, o qual os Boulões dão por sal, que levam a uma terra que chamam Coia, donde este ouro vem, que é assaz fino (quase vinte e três quilates), o qual costumam resgatar por manilhas de latão e por bacias tamanhas como as de barbeiro, e por lenço e pano vermelho [...] e panos de algodão e outras coisas. Estes negros têm os dentes limados e Mapa produzido na Europa em 1530, mostrando o con- tinente africano e a presen- ça de animais mitológicos. T O S D O C U M EN T O S D O C U M EN T O S D O C U M EN T O S D O C U M EN T O S C ol eç ão P ar ti cu la r/ T he B ri dg em an /K ey st on e 74 DOCUMENTOS Leia atentamente o trecho da obra Esmeraldo de Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira, inter- rompida em 1508, e observe o mapa europeu de 1530. Depois, faça as atividades propostas no Roteiro de trabalho. Esmeraldo de Situ Orbis, 1505-1508 Duarte Pacheco Pereira À ordem da obra convém dizermos da natureza da gente desta Serra Leoa e do seu modo de viver. E a maior parte dos moradores desta terra por um nome são chamados Boulões, e é gente belicosa que poucas vezes estão em paz. Estes chamam ao ouro “enloão” e água, “men”. E algumas vezes se acontece estes negros comerem outros homens, ainda que isto não usam tão comumente como se usa em outras partes desta Etiópia. E estes todos são e por feitiços se regem em tal maneira que os oráculos e os agouros sem dúvida se lhe dão. Nesta terra há ouro, e não em muita quantidade, o qual os Boulões dão por sal, que levam a uma terra que chamam Coia, donde este ouro vem, que é assaz fino (quase vinte e três quilates), o qual costumam resgatar por manilhas de latão e por bacias tamanhas como as de barbeiro, e por lenço e pano vermelho [...] e panos de algodão e outras coisas. Estes negros têm os dentes limados e A FR O -B R A SI LE IR O S LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS ROTEIRO DE TRABALHO ROTEIRO DE TRABALHO D O C U M EN T O S D O C U M EN T O S D O C U M EN T O S D OC U M EN T O S D O C Duarte Pacheco Pereira nasceu em Santarém (Portugal), em 1460. Dedicou-se desde jovem às expedições marítimas. Esteve a serviço dos reis Dom João II, Dom Manuel e Dom João III. Alguns historiadores afirmam que ele teria sido o primeiro navegador europeu a chegar às terras brasileiras em 1498, quando teria desembarcado nas proximidades da fronteira do Maranhão com o Pará. Foi governador do castelo de S. Jorge da Mina. Em 1503, partiu para o Oriente e participou de várias batalhas contra o samorim (governante) de Calicute. Foi aclamado herói em Portugal pelo rei Dom Manoel I por seus feitos no Oriente. Sua obra Esmeraldo de Situ Orbis, que ficou inacabada, é um roteiro comentado da costa africana ocidental e oriental. Faleceu em 1533, em Lisboa. VOCABULÁRIO Alimária: qualquer animal, em especial quadrúpede; pessoa estúpida ou grosseira. 1. Duarte Pacheco trata os habitantes de Serra Leoa como selvagens? Justifique sua resposta citando trechos do documento e explicando-os. 2. Descreva a imagem levando em consideração todos os detalhes possíveis. 3. Com base no texto e na imagem, o que se pode concluir sobre a visão dos europeus a respeito dos povos africanos? Lembre-se: uma biografia não apresenta o conjunto completo de fatos que compõem a vida de uma pessoa, mas uma seleção organizada conforme o olhar do biógrafo. Por isso, quando lemos biografias de uma mesma pessoa escritas por autores diferentes, podemos encontrar divergências e destaques a diferentes fatos relacionados à vida dela. agudos como os de cão. Nesta terra há muitos elefantes e onças e outras muito desvairadas alimárias que nesta Espanha e em toda a Europa não há. Também há aqui homens selvagens, a que os Anti- gos chamaram Sátiros, e são todos cobertos de um cabelo ou sedas, quase tão ásperas como de porco; e estes parecem criatura humana e usam coito com suas mulheres como nós usamos com as nossas; e em vez de falarem, gritam quando lhe fazem mal. PEREIRA, Duarte Pacheco. Esmeraldo de Situ Orbis. Lisboa: Academia Portuguesa de História, 1953. p. 121. Apud DEL PRIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato Pinto. Ancestrais. Rio de Janeiro: Campus, 2004. p. 67. NA INTERNET Biografias afro-brasileiras A extrema exploração a que os povos de origem africana foram submetidos no Brasil e os pre- conceitos étnico e de cor existentes não foram suficientes para impedir que, ao longo da história brasileira, várias personalidades afrodescendentes se destacassem em diversos setores da vida social e no campo da cultura. Escolha duas dessas personalidades e pesquise na internet mais informações sobre elas. Podem ser pessoas que desempenharam papel significativo na política, em movimentos sociais, nas artes ou em alguma atividade científica ou profissional. Para realizar essa pesquisa, siga as orientações do Roteiro de trabalho abaixo. 1. Selecione alguns sites que forneçam informações sobre as duas personalidades escolhidas. Compare as informações obtidas nesses sites, confirmando os dados disponíveis, pois algumas vezes diferentes sites informam dados biográficos divergentes. 75 nasceu em Santarém (Portugal), em 1460. Dedicou-se desde jovem às expedições marítimas. Esteve a serviço dos reis Dom João II, Dom Manuel e Dom João III. Alguns historiadores afirmam que ele teria sido o primeiro navegador europeu a chegar às terras brasileiras em 1498, quando teria desembarcado nas proximidades da fronteira do Maranhão com o Pará. Foi governador do castelo de S. Jorge da Mina. Em 1503, partiu para o Oriente e participou de várias batalhas contra o samorim (governante) de Calicute. Foi aclamado herói em Portugal pelo rei Dom Manoel I por seus feitos no Oriente. Sua obra Esmeraldo , que ficou inacabada, é um roteiro comentado da costa africana ocidental e oriental. Faleceu em 1533, em Lisboa. qualquer animal, em especial quadrúpede; pessoa estúpida ou grosseira. Duarte Pacheco trata os habitantes de Serra Leoa como selvagens? Justifique sua resposta dos como os de cão. Nesta terra há muitos elefantes e onças e outras muito desvairadas alimárias que nesta Espanha e em toda a Europa não há. Também há aqui homens selvagens, a que os Anti- gos chamaram Sátiros, e são todos cobertos de um cabelo ou sedas, quase tão ásperas como de porco; e estes parecem criatura humana e usam coito com suas mulheres como nós usamos com as nossas; e em vez de falarem, gritam quando lhe fazem mal. PEREIRA, Duarte Pacheco. Esmeraldo de Situ Orbis. Lisboa: Academia Portuguesa de História, 1953. p. 121. Apud DEL PRIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato Pinto. Ancestrais. Rio de Janeiro: Campus, 2004. p. 67. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS ROTEIRO DE TRABALHO 2. Selecione as informações que considerar mais significativas sobre as personalidades escolhi- das, levando em consideração as atividades em que elas mais se destacaram. 3. Produza uma biografia para cada personalidade. Escreva o texto em terceira pessoa e não deixe de incluir a data e o local de nascimento e, se for o caso, de morte. Os eventos relacionados à vida de cada personalidade devem ser inseridos em ordem cronológica. Se possível, inclua uma fotografia das pessoas selecionadas. 4. Apresente para a turma pelo menos uma das biografias produzidas. R ID A D E IN T ER D S C IP LI N A R ID A D E INTERDISCIPLINARIDADE África: retratos contemporâneos – uma Geografia A África ocupa os noticiários com informes sobre guerras civis, golpes de Estado, dissemi-nação de epidemias, fome, pobreza e violência de toda ordem. Com efeito, o berço da humanidade, após séculos de dominação e colonização europeia, convive com o fraciona- mento territorial e a criação de Estados e fronteiras sem levar em conta a sua extrema diversidade étnico-cultural. Há disputas e confrontos armados, boa parte deles opondo governos e grupos de oposição. Alguns países hoje estão com suas instituições políticas desestruturadas e com ausên- cia de perspectivas para a população, casos extremos da Somália e da República Democrática do Congo. Países que alcançaram maior estabilidade política passam por fase de prosperidade econô- mica, caso da África do Sul. Outros ainda convivem com regimes opressores e penúria social, como Zimbábue. No norte do continente, o sopro de liberdade levou à deposição de ditadores na Tunísia, Líbia e Egito, com ecos no Oriente Médio. O relatório do Unaids (Programa da ONU sobre HIV/Aids) de 2012 indica que existem 34,2 milhões com HIV no mundo, sendo 23,5 milhões na África subsaariana. Países do continente estão entre aqueles de mais baixo IDH do mundo. O Sahel, faixa de transição semiárida entre o Saara e as zonas tropicais ao sul, envolvendo Mauritânia, Mali, Burkina Faso, Níger, Chade, Sudão, Somália e outros, está entre as regiões mais pobres e devastadas do planeta. A ausência de democracia, a seca, a fome, a perda de solos e as disputas pelos recursos existentes estão entre as principais problemáticas do continente. Mas as perguntas que ficam são: esse quadro, tão disseminado pelas mídias do Ocidente, é suficiente para retratar a África contemporânea? O que explica o forte interesse pelo continente de países como a China e os Estados Unidos? Reflita sobre essas questões e faça as atividades propostas no Roteiro de trabalho a seguir. 1. Observe a tabela abaixo e depois faça o que se pede. África: indicadores sociais e econômicos de países selecionados País Expectativa de vida (H/M) 2010-2015 IDH (2011) * Crescimento PIB (% média anual) 2010 Exportações (em US$) 2009 África do Sul 53,1 / 54,1 0,619 2,8 73,1 bilhões Argélia 71,9 / 75,0 0,698 3,0 39,2 bilhões Egito 71,5 / 75,5 0,644 5,2 44,9 bilhões Nigéria 51,7 / 53,4 0,459 7,9 39,0bilhões Zimbábue 54,0 / 52,7 0,376 9,0 2,9 bilhões (*) Para comparação: Brasil – 0,718; Noruega – 0,943. Fontes: Fundo das Nações Unidas para a População; Relatório IDH-PNUD; Banco Mundial. 76 2. Selecione as informações que considerar mais significativas sobre as personalidades escolhi- das, levando em consideração as atividades em que elas mais se destacaram. 3. Produza uma biografia para cada personalidade. Escreva o texto em terceira pessoa e não deixe de incluir a data e o local de nascimento e, se for o caso, de morte. Os eventos relacionados à vida de cada personalidade devem ser inseridos em ordem cronológica. Se possível, inclua uma fotografia das pessoas selecionadas. 4. Apresente para a turma pelo menos uma das biografias produzidas. INTERDISCIPLINARIDADE África: retratos contemporâneos – uma Geografia A África ocupa os noticiários com informes sobre guerras civis, golpes de Estado, dissemi-nação de epidemias, fome, pobreza e violência de toda ordem. Com efeito, o berço da humanidade, após séculos de dominação e colonização europeia, convive com o fraciona- mento territorial e a criação de Estados e fronteiras sem levar em conta a sua extrema diversidade étnico-cultural. Há disputas e confrontos armados, boa parte deles opondo governos e grupos de oposição. Alguns países hoje estão com suas instituições políticas desestruturadas e com ausên- cia de perspectivas para a população, casos extremos da Somália e da República Democrática do Congo. Países que alcançaram maior estabilidade política passam por fase de prosperidade econô- A FR O -B R A SI LE IR O S LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS a) Após comparar os dois mapas, escreva um texto expondo o que você observou. Nesse texto, estabeleça relações entre a presença de recursos naturais e a apropriação social desses recursos em países do continente africano. b) Com base nos mapas, indique as zonas críticas quanto a hostilidades à vida humana e o potencial de crescimento econômico dessas regiões, levando em consideração suas riquezas naturais. c) Avalie efeitos da presença estrangeira recente em função de interesses econômicos (em especial, da China). ÁFRICA: HOSTILIDADES À VIDA HUMANA ÁFRICA: RIQUEZAS NATURAIS (DISTRIBUIÇÃO E APROPRIAÇÃO) M ap as : M ap s W or ld • Compare os indicadores sociais e econômicos dos países escolhidos e escreva um pequeno texto explicando o que você observou. Se achar necessário, faça uma rápida pesquisa sobre esses países. 2. Observe e compare os mapas abaixo. Depois, faça o que se pede. Com base em FERREIRA, Graça Maria Lemos. Atlas geográfico: espaço mundial. São Paulo: Moderna, 2010. p. 82. 77 ÁFRICA: HOSTILIDADES À VIDA HUMANA Compare os indicadores sociais e econômicos dos países escolhidos e escreva um pequeno texto explicando o que você observou. Se achar necessário, faça uma rápida pesquisa sobre Observe e compare os mapas abaixo. Depois, faça o que se pede. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS RESPONDA NO CADERNO VESTIBULANDO Procedimentos Em todas as questões, leia atentamente os enuncia- dos e para cada uma delas escreva uma frase que sintetize as ideias principais do texto citado. Depois disso, analise as alternativas ou elabore a resposta. 1. (Enem) A Superintendência Regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desenvolveu o projeto “Comunidades Negras de Santa Catarina”, que tem como objetivo preservar a memória do povo afrodescendente no sul do país. A ancestralidade negra é abordada em suas diversas dimensões: arqueológica, arquitetônica, paisagística e imaterial. Em regiões como a do Sertão de Valongo, na cidade de Porto Belo, a fixa- ção dos primeiros habitantes ocorreu imediata- mente após a abolição da escravidão no Brasil. O Iphan identificou nessa região um total de 19 refe- rências culturais, como os conhecimentos tradi- cionais de ervas de chá, o plantio agroecológico de bananas e os cultos adventistas de adoração. (Adaptado de: <http://portal.iphan.gov.br/portal/montar DetalheConteudo.do?id=14256&sigla=Noticia&retor= detalheNoticia>. Acesso em: 1 jun. 2009.) O texto permite analisar a relação entre cultura e memória, demonstrando que a) as referências culturais da população afro- descendente estiveram ausentes no sul do país, cuja composição étnica se restringe aos brancos. b) a preservação dos saberes das comunida- des afrodescendentes constitui importante elemento na construção da identidade e da diversidade cultural do país. c) a sobrevivência da cultura negra está basea- da no isolamento das comunidades tradicio- nais, com proibição de alterações em seus costumes. d) os contatos com a sociedade nacional têm impedido a conservação da memória e dos costumes dos quilombolas em regiões como a do Sertão de Valongo. e) a permanência de referenciais culturais que expressam a ancestralidade negra com- promete o desenvolvimento econômico da região. 2. (Enem) A Revolução Cubana veio demonstrar que os negros estão muito mais preparados do que se pode supor para ascender socialmente. Com efeito, alguns anos de escolaridade francamente aberta e de estímulo à autossuperação aumen- taram rapidamente o contingente de negros que alçaram aos postos mais altos do governo, da sociedade e da cultura cubana. Simultaneamente toda a parcela negra da população liberada da dis- criminação e do racismo confraternizou com os outros componentes da sociedade aprofundando o grau de solidariedade. Tudo isso demonstra claramente que a democra- cia racial é possível, mas só é praticável conjun- tamente com a democracia social. Ou bem há democracia para todos, ou não há democracia para ninguém, porque à opressão do negro con- denado à dignidade de lutador da liberdade cor- responde o opróbrio do branco posto no papel de opressor dentro de sua própria sociedade. (Adaptado de: RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.) Segundo Darcy Ribeiro a ascensão social dos negros cubanos, resultado de uma educação inclusiva, com estímulos à autossuperação, de- monstra que a) a democracia racial está desvinculada da democracia social. b) o acesso ao ensino pode ser entendido como um fator de pouca importância na estrutura- ção de uma sociedade. c) a questão racial mostra-se irrelevante no caso das políticas educacionais do governo cubano. d) as políticas educacionais da Revolução Cubana adotaram uma perspectiva racial antidiscriminatória. e) os quadros governamentais em Cuba esti- veram fechados aos processos de inclusão social da população negra. 3. (Ufscar-SP) Aconteceu num debate, num país europeu. Da assistência, alguém me lançou a seguinte pergunta: – Para si o que é ser africano? Falava-se, inevitavelmente, de identidade versus globalização. Respondi com uma pergunta: – E para si o que é ser europeu? O homem gaguejou. Ele não sabia responder. Mas o interessante é que, para ele, a questão da defini- ção de uma identidade se colocava naturalmente para os africanos. Nunca para os europeus. Ele nunca tinha colocado a questão ao espelho. (COUTO, Mia. In: HERNANDEZ, Leila Leite. A África na sala de aula. Visita à História contemporânea, 2005.) Segundo o texto, o autor 78 VESTIBULANDO Procedimentos Em todas as questões, leia atentamente os enuncia- dos e para cada uma delas escreva uma frase que sintetize as ideias principais do texto citado. Depois disso, analise as alternativas ou elabore a resposta. 1. (Enem) A Superintendência Regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desenvolveuo projeto “Comunidades Negras de Santa Catarina”, que tem como objetivo preservar a memória do povo afrodescendente no sul do país. A ancestralidade negra é abordada em suas diversas dimensões: arqueológica, arquitetônica, paisagística e imaterial. Em regiões como a do Sertão de Valongo, na cidade de Porto Belo, a fixa- ção dos primeiros habitantes ocorreu imediata- mente após a abolição da escravidão no Brasil. O Iphan identificou nessa região um total de 19 refe- rências culturais, como os conhecimentos tradi- A FR O -B R A SI LE IR O S LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS a) valoriza a ideia de que existe uma identidade natural entre os povos europeus, favorecendo a globalização. b) denuncia a ideia genérica, presente entre os europeus, de que há uma suposta identidade natural entre os africanos. c) lembra o fato de que a Europa tem uma his- tória de tendência à globalização, em função da ausência de conflitos entre seus Estados- -nação. d) defende a existência de uma essência natural do que é ser europeu e do que é ser africano. e) indica os valores culturais e nacionais euro- peus e africanos como fundadores do pro- cesso de globalização. 4. (Unicamp-SP) Um dos maiores problemas nos estudos históri- cos no Brasil acerca da escravidão é seu relativo RELEITURA Pratos da boa lembrança Lucas Figueiredo Dos 1,8 milhão de africanos que foram forçados a deixar o continente e servir como escravos no Brasil na época da corrida do ouro, 99,5% não voltaram para casa. Apenas 8 mil, aproxi-madamente, conseguiram regressar. Apesar de formarem um grupo pequeno, os chamados “retornados” foram capazes de um feito extraordinário: levaram a cultura brasileira para a África e ensinaram seus filhos, netos e bisnetos a amarem a terra onde haviam se tornado escravos. O regresso de ex-escravos – na verdade, muitos haviam saído da África quando ainda eram bebês ou tinham nascido no Brasil, no cativeiro – se deu principalmente no final do século XVIII e durante o século XIX. Após comprarem ou ganharem a alforria, eles adotaram os sobrenomes portugueses de seus antigos donos e fizeram o caminho de volta para a África. Assim, países de língua francesa e de população majoritariamente muçulmana, como o Benin, receberam levas de ex-escravos de sobre- nomes estranhos, como Silva, Souza, Santos, Rocha, Amaral, Monteiro e Campos, entre outros. Muitos que deixaram o Brasil levaram também um punhado de ouro contrabandeado dos garimpos de Minas, riqueza com a qual começaram suas novas vidas. [...] Com a volta dos ex-escravos, a culinária do Benin absorveu diversos pratos brasileiros. Dos mineiros, eles herdaram a farofa; dos baianos, a moqueca, o acarajé e o abará, que chamam de ablá. “Também gostamos muito de moyo (molho), cousido (cozido), feijoada e carne de sol”, afirma Abraham, que mora na capital do Benin, Cotonou, e trabalha a cerca de 100 quilômetros dali, na Embaixada Brasileira, em Lagos, na vizinha Nigéria. Possivelmente, o costume de comer carne de sol também tenha sido introduzido no país pelos escravos que trabalhavam nos garimpos de ouro e diamante de Minas, onde o produto era fartamente consumido. Os ingredientes para preparar os pratos brasileiros são encontrados nos impressionantes merca- dos a céu aberto de Cotonou e Porto Novo, onde, entre outros produtos, se vendem testículos de macaco, que teriam poderes afrodisíacos, e fetiches vodu. O modo de preparo dos pratos brasileiros desconhecimento da história e da cultura africa- nas. Aí, a história do Congo tem muitas lições a dar, quer para os interessados no estudo da África, quer para os estudiosos da escravidão e da cultura negra na diáspora colonial. Afinal, a região do Congo-Angola foi daquelas que mais fornece- ram africanos para o Brasil, especialmente para o Sudeste, posição assumida no século XVII e consolidada na virada do século XVIII para o XIX. (Adaptado de: VAINFAS, Ronaldo; MELLO E SOUSA, Marina de. Catolização e poder no tempo do tráfico: o reino do Congo da conversão coroada ao movimento Antoniano, séculos XV-XVIII. Tempo, n. 6, 1998. p. 95-6.) a) O que foi a “diáspora colonial” citada no texto anterior? b) Identifique duas influências africanas no Brasil atual. c) Nomeie e explique, no Brasil atual, uma decor- rência da prática da escravidão negra. A R EL EI T U R A R EL EI T U R A R EL EI T U R A 79 a) valoriza a ideia de que existe uma identidade natural entre os povos europeus, favorecendo b) denuncia a ideia genérica, presente entre os europeus, de que há uma suposta identidade c) lembra o fato de que a Europa tem uma his- tória de tendência à globalização, em função da ausência de conflitos entre seus Estados- d) defende a existência de uma essência natural do que é ser europeu e do que é ser africano. e) indica os valores culturais e nacionais euro- peus e africanos como fundadores do pro- Um dos maiores problemas nos estudos históri- cos no Brasil acerca da escravidão é seu relativo desconhecimento da história e da cultura africa- nas. Aí, a história do Congo tem muitas lições a dar, quer para os interessados no estudo da África, quer para os estudiosos da escravidão e da cultura negra na diáspora colonial. Afinal, a região do Congo-Angola foi daquelas que mais fornece- ram africanos para o Brasil, especialmente para o Sudeste, posição assumida no século XVII e consolidada na virada do século XVIII para o XIX. (Adaptado de: VAINFAS, Ronaldo; MELLO E SOUSA, Marina de. Catolização e poder no tempo do tráfico: o reino do Congo da conversão coroada ao movimento Antoniano, séculos XV-XVIII. Tempo, n. 6, 1998. p. 95-6.) a) O que foi a “diáspora colonial” citada no texto anterior? b) Identifique duas influências africanas no Brasil atual. c) Nomeie e explique, no Brasil atual, uma decor- rência da prática da escravidão negra. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS LE IT U R A R EL EI T U R A R EL EI T U R A R EL EI T U R A R EL EI T U R A R EL EI T U R Adiverge muito das técnicas usadas no Brasil. Os ingredientes também têm suas diferenças. Mas, ape- sar das variações de sabor, o que importa é a herança cultural presente na cozinha do Benin. A influência brasileira também está na língua dos beninenses. Palavras como chave, cama, manga, garfo e colher são usadas pela população – em especial, por aqueles que falam a língua fon. A Embaixada Brasileira, em Lagos, chegou a ter um curso de português durante anos, mas as aulas foram interrompidas por problemas operacionais. Abraham, que não é “agudá”, foi o aluno mais bem-sucedido. Fala e escreve português com desenvoltura. Ele chegou, inclusive, a se tornar pro- fessor. Um de seus alunos era Bons Amaral, que, apesar da condição de “agudá”, aprendeu pouco. “Torcemos para que as aulas voltem, pois muita gente aqui no Benin gostaria de aprender a língua que era falada por seus antepassados”, afirma Abraham. FIGUEIREDO, Lucas. Raízes do Brasil. O Estado de Minas, 5 jun. 2005. Caderno especial Ouro de Minas: 300 anos de História. p. 15-21. VOCABULÁRIO Agudá: nome dos descendentes dos ex-escravos que vieram do Brasil e vivem no Benin, os quais, em geral, adotam sobrenomes portugueses. Cardápio Brasil Nívia Pombo […] Nos engenhos, as refeições cotidianas eram simples. Em dias festivos, no entanto, a mesa podia ser farta: assados, doces, ensopados, verduras, frutas, molhos e pastéis faziam parte dos banquetes senhoriais. Em Pernambuco, a despeito da colonização holandesa, a permanência de receitas portuguesas é evidente. Algumas com pitadasde ingredientes coloniais como o bolo de rolo, feito com uma massa fina à base de farinha de trigo e recheado com goiabada. No Maranhão, o prato mais significativo mistura elementos da culinária portuguesa, africana e indígena: o cuxá. A base da comida é a vina- greira, verdura africana. Junta-se a ela o caruru ou língua-de-vaca, erva de cor e sabor fortes utilizada pelos indígenas. Dos portugueses vêm o gergelim e o preparo: as folhas são maceradas e transforma- das numa papa servida com arroz branco ou peixe frito. É na Bahia, porém, que a adaptação dos hábitos culinários africanos foi mais forte. As cozinhas das iaiás, entregues às negras, ganharam novos sabores. O viajante inglês Thomas Lindlev (1740- 1833) escreveu no século XIX sobre as deliciosas conservas de frutas feitas pelas escravas. Debret (1768-1848) registrou o costume de comer pela manhã pães de ló quentinhos entregues por negras. Mas o que conquistou mesmo o paladar nacional e internacional foram as comidas oferecidas aos orixás do Candomblé. O acarajé, citado pela primeira vez no século XVIII, era vendido nas ruas em tabuleiros que as escravas equilibravam sobre a cabeça enquanto cantavam para atrair fregueses. Massa de feijão-fradinho frita no azeite de dendê, o acarajé é servido à orixá Oyá-Iansã, deusa dos ventos e tempestades. Em 2004, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional como patrimônio imaterial. Alguns pratos indígenas também passaram pela transformação das cozinheiras africanas. É o caso do caruru, o típico dos típicos na Bahia. Segundo o folclorista Câmara Cascudo (1898-1986), o prato de origem tupi (cad-ruru, folha grossa) consistia num esparregado [guisado] de quiabos, crustáceos, peixes e ervas, tendo sofrido alterações nas cozinhas dos engenhos, ganhando ingredientes como o dendê e o amendoim. Atualmente, em Salvador, a comida é servida na Festa dos Meninos, que cele- bra o dia dos orixás gêmeos nagôs sincretizados nos santos católicos Cosme e Damião. POMBO, Nívia. Cardápio Brasil. Nossa História. São Paulo: Vera Cruz, ano 3, n. 29, mar. 2006. p. 33-4. 80 diverge muito das técnicas usadas no Brasil. Os ingredientes também têm suas diferenças. Mas, ape- sar das variações de sabor, o que importa é a herança cultural presente na cozinha do Benin. A influência brasileira também está na língua dos beninenses. Palavras como chave, cama, manga, garfo e colher são usadas pela população – em especial, por aqueles que falam a língua fon. A Embaixada Brasileira, em Lagos, chegou a ter um curso de português durante anos, mas as aulas foram interrompidas por problemas operacionais. Abraham, que não é “ bem-sucedido. Fala e escreve português com desenvoltura. Ele chegou, inclusive, a se tornar pro- fessor. Um de seus alunos era Bons Amaral, que, apesar da condição de “agudá”, aprendeu pouco. “Torcemos para que as aulas voltem, pois muita gente aqui no Benin gostaria de aprender a língua que era falada por seus antepassados”, afirma Abraham. FIGUEIREDO, Lucas. Raízes do Brasil. 5 jun. 2005. Caderno especial Ouro de Minas: 300 anos de História. p. 15-21. VOCABULÁRIO Agudá: nome dos descendentes dos ex-escravos que vieram do Brasil e vivem no Benin, os quais, em geral, adotam sobrenomes portugueses. Cardápio Brasil Nívia Pombo A FR O -B R A SI LE IR O S LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS ROTEIRO DE TRABALHO FIGUEIREDO, Luciano (Org.). Raízes africanas. Rio de Janeiro: Sabin, 2009. (Revista de História no bolso). Coletânea de pequenos artigos publicados na Revista História, editada pela Biblioteca Nacional, que aborda temas como a identidade cultural afro-brasileira, a religiosidade e o comércio de escravos. LOPES, Nei. Dicionário escolar afro-brasileiro. São Paulo: Selo Negro, 2006. Reúne verbetes sobre temas relacionados ao universo afro-brasileiro. ARAUJO, Kelly Cristina. Áfricas no Brasil. São Paulo: Scipione, 2004. Resgata a história do relacionamento Brasil e África a partir da expansão marítima europeia e explora os diversos aspectos culturais que aproximam o Brasil da África, dentre eles: o candomblé, a congada e a capoeira. DEL PRIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato Pinto. Ancestrais. Rio de Janeiro: Campus, 2004. Retoma a história da África Atlântica desde o período anterior à presença europeia no continente. Analisa o tráfico negreiro e suas consequências para os reinos africanos, além de examinar casos específicos, como os da Sene- gâmbia, do Congo, de Angola e da Costa do Marfim. Traz muitas imagens que retratam como os europeus viam os povos africanos. Conspiração violenta. Direção de Ralph Nelson. Estados Unidos, 1975. (101 min). História de um líder ativista negro durante o regime do apartheid na África do Sul. Hotel Ruanda. Direção de Terry George. Estados Unidos/Itália/África do Sul, 2004. (121 min). Aborda o conflito político ocorrido em Ruanda em 1994 que levou quase um milhão de pessoas à morte. Sophiatown: sobrevivendo ao apartheid. Direção de Pascale Lambe. África do Sul, 2003. (82 min). Documentário sobre a cidade sul-africana de Sophiatown, foco de resistência ao apartheid nos anos 1940 e 1950. A cor da cultura. Disponível em: <http://www.acordacultura.org.br/>. Acesso em: 19 abr. 2013. Artigos, notícias e entrevistas relacionados à valorização da cultura afro-brasileira. Memória de África. Disponível em: <http://memoria-africa.ua.pt>. Acesso em: 19 abr. 2013. Coletâneas de textos, documentos e imagens com a história das colônias portuguesas na África. Museu Afrobrasil. Disponível em: <http://www.museuafrobrasil.org.br/>. Acesso em 19 abr. 2013. Portal do museu que tem como finalidade a valorização da produção cultural afro-brasileira. PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR 1. Retire argumentos do primeiro texto para explicar de que maneira a cultura do Brasil colonial foi levada para a África. 2. Explique em que medida a culinária retrata uma síntese cultural no Brasil. 3. Por que o acarajé baiano pode ser tombado como patrimônio da cultura imaterial do Brasil? 4. Faça uma pesquisa em jornais, livros, revistas e sites sobre outras possíveis influências bra- sileiras na África. Dirija sua pesquisa para os países que estiveram diretamente relacionados com o Brasil no período de vigência do tráfico de escravos. Caso seja necessário, retome o item Contexto para verificar que países podem ser pesquisados. Por fim, responda: De que maneira a história brasileira interferiu na história de países africanos? D et al he d a im ag em d a p. 7 0. 81 . Rio de Janeiro: Sabin, 2009. (Revista de História no bolso).. Rio de Janeiro: Sabin, 2009. (Revista de História no bolso). Coletânea de pequenos artigos publicados na Revista História, editada pela Biblioteca Nacional, que aborda temas Coletânea de pequenos artigos publicados na Revista História, editada pela Biblioteca Nacional, que aborda temas como a identidade cultural afro-brasileira, a religiosidade e o comércio de escravos. . São Paulo: Selo Negro, 2006. Reúne verbetes sobre temas relacionados ao universo afro-brasileiro. . São Paulo: Scipione, 2004. PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR Retire argumentos do primeiro texto para explicar de que maneira a cultura do Brasil colonial foi Explique em que medida a culinária retrata uma síntese cultural no Brasil. Por que o acarajé baiano pode ser tombado como patrimônio da cultura imaterial do Brasil? Faça uma pesquisa em jornais, livros, revistas e sites sobre outras possíveis influências bra- sileiras na África. Dirija sua pesquisa para os países que estiveram diretamente relacionados com o Brasil no período de vigência do tráfico de escravos. Caso seja necessário, retome o item para verificar que países podem ser pesquisados. Por fim, responda: De que maneira a história brasileira interferiu na história de paísesafricanos? 1 2 3 4 5 6 7 8 9 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS 82 UNIDADE 2 Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações Cidadania e relações de poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poderde poder S te de lij k M u se um . 83 Nacionalismo, guerras mundiais e autoritarismo CAPÍTULO 4 Nacionalismo, guerras mundiais e autoritarismo CAPÍTULO 4 Podemos fazer referência à cidadania desde pelo menos a Grécia antiga, quan-do os homens livres nascidos na cidade podiam debater e decidir sobre as questões públicas. Na Idade Média e parte da Idade Moderna, a cidadania foi negligenciada. No entanto, após as revoluções burguesas, principalmente a inglesa e a francesa, a cidadania voltou a fazer parte dos discursos e da prática dos que defendiam a construção de um novo modelo de sociedade. Daí em diante, muitas lutas ocorreram em nome da cidadania. Reivindicavam-se maior participação política, voto direto e respeito a uma Constituição. Tratava-se de uma cidadania que garantia a igualdade dos seres huma- nos diante da lei. Durante todo o século XIX, ocorreram movimentos sociais que lutavam pela ampliação dos direitos dos trabalhadores, das mulheres, das crianças, buscando conquistar maior igualdade social. Podemos dizer ainda que a defesa da cidadania esteve presente em grande parte dos discursos políticos de diferentes continentes no século XX. No entanto, esse foi também um século no qual ocorreram duas guerras mundiais, muitas dita- duras e em que vários países foram submetidos às ordens impe- rialistas de outros. No caso brasileiro, os períodos de predomínio de governos oligárquicos ou ditatoriais excederam aos períodos nos quais se constituíram governos democráticos. Nesse contexto, em que medida foi possível ampliar a cidadania no século XX? Para responder a essa pergunta, neste capítulo vamos estudar o período em que ocorreram as duas guerras mundiais. Mas pri- meiro vamos buscar uma definição para o que denominamos cidadania. D et al he d e im ag em d a p. 1 07 C ol eç ão p ar ti cu la r 84 LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS ak g- im ag es /I nt er co nt in en ta l P re ss Lembrando – quando acordei no meio da noite vi a casa em ruínas, de George Grosz, 1937. Óleo sobre tela, 73 cm 93 cm. Realizada no período entreguerras, esta pintura de Grosz é uma referência às marcas profundas que a Primeira Guerra Mundial deixou na sociedade europeia. Nunca se tinha visto tamanha destruição e mortalidade em um conflito. Havia a certeza de que o mundo não poderia ser mais o mesmo após essa experiência. George Grosz nasceu em 1893 na Alemanha e foi um dos representantes do movimento artístico denominado expressionismo, que procurava ressaltar os sentimentos do ser humano. Após aderir ao Partido Comunista e fazer obras de caráter crítico-satírico, foi perseguido na Alemanha, indo viver nos Estados Unidos a partir de 1932. Voltou ao seu país somente em 1958. P O N T O D E V IS T A PONTO DE VISTA O que é cidadania? Maria de Lourdes Manzini-Covre O que é ser cidadão? Para muita gente, ser cidadão confunde-se com o direito de votar. Mas quem já teve alguma experiência política – no bairro, igreja, escola, sindicato etc. – sabe que o ato de votar não garante nenhuma cidadania, se não vier acompanhado de determinadas condições de nível econômico, político, social e cultural. Podemos afirmar que ser cidadão significa ter direitos e deveres, ser súdito e ser soberano. Tal situação está descrita na Carta de Direitosda Organização das Nações Unidas (ONU), de 1948, que tem suas primeiras matrizes marcantes nas cartas de Direito dos Estados Unidos (1776) e da Revolução Francesa (1789). Sua proposta mais funda de cidadania é a de que todos os homens 85 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS 1. Defina cidadania tendo como base as obser- vações da autora do texto. 2. Considerando a sua definição sobre cidada- nia, você a pratica em sua vida cotidiana? 3. Formem grupos com a orientação do pro- fessor e criem uma situação-problema que possa ser resolvida por meio do exercício da cidadania. ROTEIRO DE TRABALHO T O D E V IS T A P O N T O D E V IS T A P O N T O D E V IS T A P O N T O D E V IS T Asão iguais ainda que perante a lei, sem discriminação de raça, credo ou cor. E ainda: a todos cabem o domínio sobre seu corpo e sua vida, o acesso a um salário condizente para promover a própria vida, o direito à educação, à saúde, à habitação, ao lazer. E mais: é direito de todos poder expressar-se livremente, militar em partidos políticos e sindicatos, fomentar movimentos sociais, lutar por seus valores. Enfim, o direito de ter uma vida digna de ser homem. Isso tudo diz mais respeito aos direitos do cidadão. Ele também deve ter deveres: ser o próprio fomentador da existência dos direitos a todos, ter responsabilidade em conjunto pela coletivida- de, cumprir as normas e propostas elaboradas e decididas coletivamente, fazer parte do governo, direta ou indiretamente, ao votar, ao pressionar através dos movimentos sociais, ao participar de assembleias – no bairro, sindicato, partido ou escola. E mais: pressionar os governos municipal, esta- dual, federal e mundial (em nível de grandes organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional – FMI). Na realidade, essas propostas são difíceis de serem efetivadas, pois quem detém o poder cuida de encaminhar as coisas na direção que atenda basicamente aos seus interesses, e não ao interesse de todos, apesar da aparência contrária. Contudo, existe a Carta Universal e ela transparece, em maior ou menor grau, nas Constituições de cada país. A Constituição é uma arma na mão de todos os cidadãos, que devem saber usá-la para encaminhar e conquistar propostas mais igualitárias. Por esse motivo, o que apresentei como direitos e deveres (conteúdo do exercício de cidadania) é algo possível mas dependente do enfrentamento político adotado por quem tem pouco poder. Só existe cidadania se houver a prática da reivindicação, da apropriação de espaços, da pugna [luta] para fazer valer os direitos do cidadão. Neste sentido, a prática da cidadania pode ser a estratégia, por excelên- cia, para a construção de uma sociedade melhor. Mas o primeiro pressuposto dessa prática é que esteja assegurado o direito de reivindicar os direitos, e que o conhecimento deste se estenda cada vez mais a toda a população. As pessoas tendem a pensar a cidadania apenas em termos dos direitos a receber, negligenciando o fato de que elas próprias podem ser o agente da existência desses direitos. Acabam por relevar os deveres que lhes cabem, omitindo-se no sentido de serem também, de alguma forma, parte do governo, ou seja, é preciso trabalhar para conquistar esses direitos. Em vez de meros receptores, são acima de tudo sujeitos daquilo que podem conquistar. Se existe um problema em seu bairro ou em sua rua, por exemplo, não se deve esperar que a solução venha espontaneamente. É preciso que os moradores se organizem e busquem uma solução capaz de atingir vários níveis, entre eles o de pres- sionar os órgãos governamentais competentes. Desse modo, penso que a cidadania é o próprio direito à vida no sentido pleno. Trata-se de um direito que precisa ser construído coletivamente, não só em termos do atendimento às necessidades básicas, mas de acesso a todos os níveis de existência, incluindo o mais abrangente, o papel do(s) homem(ns) no Universo. MANZINI-COVRE, Maria de Lourdes. O que é cidadania? São Paulo: Brasiliense, 1991. p. 8-11. Detalhe da imagem da p. 101. 86 são iguais ainda que perante a lei, sem discriminação de raça, credo ou cor. E ainda: a todos cabem o domínio sobre seu corpo e sua vida, o acesso a um salário condizente para promover a própria vida, o direito à educação, à saúde, à habitação, ao lazer. E mais: é direito de todos poder expressar-se livremente, militar em partidos políticos e sindicatos, fomentar movimentos sociais, lutar por seus valores. Enfim, o direito de ter uma vida digna de ser homem. Isso tudo diz mais respeito aos direitos do cidadão. Ele também deve ter deveres: ser o próprio fomentador da existência dos direitos a todos, ter responsabilidade em conjunto pela coletivida- de, cumprir as normas e propostas elaboradas e decididas coletivamente, fazer parte do governo, direta ou indiretamente, ao votar, ao pressionar através dos movimentos sociais, ao participar de assembleias – no bairro, sindicato, partido ou escola. E mais: pressionar os governos municipal, esta- dual, federal e mundial (em nível de grandes organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional – FMI). Na realidade, essas propostas são difíceis de serem efetivadas, pois quem detém o poder cuida de encaminhar as coisas na direção que atenda basicamente aos seus interesses, e não ao interesse de todos, apesar da aparência contrária. Contudo, existe a Carta Universal e ela transparece, em maior ou menor grau, nas Constituições de cada país. A Constituição é uma arma na mão de todos os cidadãos, que devem saber usá-la para encaminhar e conquistar propostas mais igualitárias. Por esse motivo, o que apresentei como direitos e deveres (conteúdo do exercício de cidadania) é algo possível mas dependente do enfrentamento político adotado por quem tem pouco poder. Só existe cidadania se houver a prática da reivindicação, da apropriação de espaços, da pugna [luta] para fazer valer os direitos do cidadão. Neste sentido, a prática da cidadania pode ser a estratégia, por excelên- cia, para a construção de uma sociedade melhor. Mas o primeiro pressuposto dessa prática é que N A CI O N A LI SM O , G U ER R A S M U N D IA IS E A U TO RI TA RI SM O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS A D O T EM P O L IN H A D O T EM P O L IN H A D O T EM P O L IN H A D O T EM P O LINHA DO TEMPO 1882 ¬ Formação da Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália). 1907 ¬ Formação da Tríplice Entente (França, Inglaterra e Rússia). 1914 ¬ Assassinato do herdeiro do trono austro-húngaro, Francisco Ferdinando, em Sarajevo. A Áustria, apoiada pela Alemanha, declara guerra à Sérvia. Início da Primeira Guerra Mundial. A França derrota a Alemanha na batalha de Marne. O Japão adere à Entente. A Turquia alia-se à Alemanha e à Áustria-Hungria. 1915 ¬ A Itália adere à Entente. A Bulgária alia-se à Alemanha e à Áustria-Hungria. 1916 ¬ A Romênia adere à Entente. 1917 ¬ Revolução socialista na Rússia; o país retira-se da guerra. Entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial. A Grécia adere à Entente. 1918 ¬ “14 Pontos de Wilson”: plano de paz formulado pelo presidente norte-americano Woodrom Wilson. Rendição da Alemanha. Início da República de Weimar. 1919 ¬ Assinatura do Tratado de Versalhes; Benito Mussolini funda o movimento Fascio di Combattimento. Fundação do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, conhecido como Nazi. 1921 ¬ Fundação do Partido Nacional Fascista Italiano. 1922 ¬ Mussolini convoca a Marcha sobre Roma e assume o governo da Itália.1929 ¬ Quebra da Bolsa de Nova York. 1932 ¬ Franklin Roosevelt é eleito presidente nos Estados Unidos e implanta o New Deal. Prisão do assassino de Francisco Ferdi- nando em Sarajevo, em 28 de junho de 1914, logo depois do ataque. Grupo de soldados norte-americanos em na- vio rumo à França para participar da Primeira Guerra Mundial, em 1917. Mussolini, rodeado de adeptos do fascismo, con- duz a Marcha sobre Roma. Foto de 1922. B et tm an n/ C or bi s/ La ti ns to ck C or bi s/ La ti ns to ck H ul to n A rc hi ve /G et ty Im ag es 87 LINHA DO TEMPO Formação da Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália). Formação da Tríplice Entente (França, Inglaterra e Rússia). Assassinato do herdeiro do trono austro-húngaro, Francisco Ferdinando, em Assassinato do herdeiro do trono austro-húngaro, Francisco Ferdinando, em Sarajevo. A Áustria, apoiada pela Alemanha, declara guerra à Sérvia. Início da Sarajevo. A Áustria, apoiada pela Alemanha, declara guerra à Sérvia. Início da Primeira Guerra Mundial. A França derrota a Alemanha na batalha de Marne. O Primeira Guerra Mundial. A França derrota a Alemanha na batalha de Marne. O Japão adere à Entente. A Turquia alia-se à Alemanha e à Áustria-Hungria.Japão adere à Entente. A Turquia alia-se à Alemanha e à Áustria-Hungria. Primeira Guerra Mundial. A França derrota a Alemanha na batalha de Marne. O Japão adere à Entente. A Turquia alia-se à Alemanha e à Áustria-Hungria. Primeira Guerra Mundial. A França derrota a Alemanha na batalha de Marne. O Primeira Guerra Mundial. A França derrota a Alemanha na batalha de Marne. O Japão adere à Entente. A Turquia alia-se à Alemanha e à Áustria-Hungria. Primeira Guerra Mundial. A França derrota a Alemanha na batalha de Marne. O A Itália adere à Entente. A Bulgária alia-se à Alemanha e à Áustria-Hungria. A Itália adere à Entente. A Bulgária alia-se à Alemanha e à Áustria-Hungria. Revolução socialista na Rússia; o país retira-se da guerra. Entrada dos Estados Revolução socialista na Rússia; o país retira-se da guerra. Entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial. A Grécia adere à Entente. “14 Pontos de Wilson”: plano de paz formulado pelo presidente norte-americano “14 Pontos de Wilson”: plano de paz formulado pelo presidente norte-americano Woodrom Wilson. Rendição da Alemanha. Início da República de Weimar.Woodrom Wilson. Rendição da Alemanha. Início da República de Weimar. Assinatura do Tratado de Versalhes; Benito Mussolini funda o movimento Assinatura do Tratado de Versalhes; Benito Mussolini funda o movimento Fascio . Fundação do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores . Fundação do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Fundação do Partido Nacional Fascista Italiano. Mussolini convoca a Marcha sobre Roma e assume o governo da Itália. Mussolini convoca a Marcha sobre Roma e assume o governo da Itália. 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS A D O T EM P O L IN H A D O T EM P O L IN H A D O T EM P O L IN H A D O T EM P O 1933 ¬ Oliveira Salazar institui um governo autoritário em Portugal. Adolf Hitler torna-se chanceler na Alemanha. Fim da República de Weimar. 1934 ¬ Morte do presidente alemão Hindenburg. Hitler passa a exercer também esta função e se torna Führer (em alemão, condutor, líder). 1936 ¬ Republicanos ganham as eleições na Espanha. Ofensiva fascista dá início à Guerra Civil Espanhola. Hitler assina acordo com a Itália de Mussolini. 1938 ¬ A Áustria é anexada à Alemanha. 1939 ¬ Francisco Franco e a Falange derrotam os republicanos. Início do governo fascista na Espanha. Assinatura do tratado de não agressão entre Alemanha e União Soviética. A Alemanha invade a Polônia, e a Inglaterra e a França respondem com declaração de guerra. Marco da Segunda Guerra Mundial. 1940 ¬ Tropas alemãs ocupam a França. Formação do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). 1941 ¬ Alemanha rompe o tratado de não agressão e invade a URSS. Ataque japonês à base naval norte-americana de Pearl Harbour. Os Estados Unidos entram na guerra e assinam a Carta do Atlântico. O presidente norte-americano, Franklin D. Roosevelt, e Winston Churchill, primeiro--ministro do Reino Unido, realizaram um encontro secreto a bordo de um navio no Oceano Atlântico e redigiram um plano de paz que ficou conhecido como Carta do Atlântico. Invasão da Grécia e da Iugoslávia pelos nazistas. Ataque alemão sobre Londres. 1942 ¬ Abertura do campo de concentração de extermínio de Treblinka, em Varsóvia. Primeiro ataque aéreo norte-americano na Europa. 1943 ¬ Mussolini é destituído. Capitulação da Itália. Rendição dos alemães em Stalingrado. Rendição italiana e alemã no norte da África. 1944 ¬ Retomada da França pelos exércitos aliados. 1945 ¬ A Alemanha é invadida pelas tropas aliadas e Berlim é ocupada. Os Estados Unidos lançam bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroxima e Nagasáqui. O Japão assina capitulação. Final da Segunda Guerra Mundial; conferência de Ialta define acordos de fronteiras entre Roosevelt (Estados Unidos), Stalin (URSS) e Churchill (Inglaterra); criação da Organização das Nações Unidas (ONU); conferência de Potsdam divide a Alemanha em quatro zonas de ocupação: francesa, norte-americana, inglesa e soviética. Pós-1945 ¬ Início da Guerra Fria. Oposição e conflito entre os blocos socialista e capitalista. 1947 ¬ Início da Doutrina Truman. 1948 ¬ Congresso dos Estados Unidos aprova o Plano Marshall. 1949 ¬ Divisão das duas Alemanhas: Ocidental capitalista e Oriental socialista. Criação da aliança militar entre a Europa capitalista e a América do Norte, Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). A União Soviética cria o Comecon. 1955 ¬ Formalização do Pacto de Varsóvia unindo militarmente a Albânia, a Tchecoslo- váquia, a Bulgária, a Polônia, a Hungria, a Romênia e a Alemanha Oriental. A bomba atômica foi lançada em Naga- sáqui, no Japão, em 9 de agosto de 1945, três dias depois da bomba lançada em Hi- roxima. As duas bom- bas juntas provoca- ram a morte de mais de 350 mil pessoas. Base naval norte-americana de Pearl Harbour, ata- cada por aviões japoneses em dezembro de 1941. B et tm an n/ C or bi s/ La ti ns to ck B et tm an n/ C or bi s/ La ti ns to ck 88 1933 ¬ Oliveira Salazar institui um governo autoritário em Portugal. Adolf Hitler torna-se chanceler na Alemanha. Fim da República de Weimar. 1934 ¬ Morte do presidente alemão Hindenburg. Hitler passa a exercer também esta função e se torna Führer (em alemão, condutor, líder).Führer (em alemão, condutor, líder).Führer 1936 ¬ Republicanos ganham as eleições na Espanha. Ofensiva fascista dá início à Guerra Civil Espanhola. Hitler assina acordo com a Itália de Mussolini. 1938 ¬ A Áustria é anexada à Alemanha. 1939 ¬ Francisco Franco e a Falange derrotam os republicanos. Início do governo fascista na Espanha. Assinatura do tratado de não agressão entre Alemanha e União Soviética. A Alemanha invade a Polônia, e a Inglaterra e a França respondem com declaração de guerra. Marco da Segunda Guerra Mundial. 1940 ¬ Tropas alemãs ocupam a França. Formação do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). 1941 ¬ Alemanha rompe o tratado de não agressão e invade a URSS. Ataque japonês à base naval norte-americana de Pearl Harbour. Os Estados Unidos entram na guerra e assinam a Carta do Atlântico. O presidente norte-americano, Franklin D. Roosevelt, e Winston Churchill, primeiro--ministro do Reino Unido, realizaram um encontro secreto a bordo de um navio no Oceano Atlântico e redigiramum plano de paz que ficou conhecido como Carta do Atlântico. Invasão da Grécia e da Iugoslávia pelos nazistas. Ataque alemão sobre Londres. 1942 ¬ Abertura do campo de concentração de extermínio de Treblinka, em Varsóvia. Primeiro ataque aéreo norte-americano na Europa. 1943 ¬ Mussolini é destituído. Capitulação da Itália. Rendição dos alemães em Stalingrado. Rendição italiana e alemã no norte da África. Mussolini é destituído. Capitulação da Itália. Rendição dos alemães em Stalingrado. Rendição italiana e alemã no norte da África. Mussolini é destituído. Capitulação da Itália. Rendição dos alemães em N A CI O N A LI SM O , G U ER R A S M U N D IA IS E A U TO RI TA RI SM O LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS CONTEXTO Imperialismo e nacionalismo no final do século XIX Com a derrota de Napoleão Bonaparte na Europa e a realização do Congresso de Viena em 1815, procurou-se restabelecer o equilíbrio político entre as nações. Ao longo do século XIX, ocorreram outros conflitos que resultaram nas unificações italiana e alemã e na reorganização das fronteiras de alguns países. A unificação alemã, em especial, criou condições para que a Alemanha surgisse nos anos seguintes como uma das maiores potências econômicas da Europa. Desenvolveu rapidamente sua indústria, podendo dessa forma competir com a Grã-Bretanha, que, até então, era a grande potência imperial mundial. Com a unificação criou-se o Segundo Reich (Império) alemão, que tinha pretensões expan- sionistas, animadas internamente por um fervor nacionalista e pela defesa do pangermanismo, ou seja, defesa da unificação dos povos de cultura germânica. Na América, os Estados Unidos des- pontavam como uma força econômica industrial. Nas últimas décadas do século XIX, havia vários países industrializados. Ocorreu uma depressão generalizada dos preços no mercado internacional, uma vez que havia uma superpro- dução, e a livre concorrência de preços fazia-os baixarem na disputa por mercados. Em conse- quência, os lucros caíram e muitas empresas faliram ou foram absorvidas por grandes cor- porações. Dessa forma, os Estados tenderam a adotar medidas protecionistas para sua indús- tria, retraindo a livre concorrência. Formaram-se grandes empresas com características de cartel que dominaram o mercado em muitos casos de maneira monopolista, surgindo o que se denomi- na capitalismo monopolista. Uma das maneiras de ampliar os lucros seria retomar a expansão colonial, ampliando as exporta- ções e constituindo novos mercados consumidores. Construíram-se, então, novos impérios, e a disputa entre as nações imperialistas europeias se acirrou. Foi nesse período que se tornou conhecido o termo “imperialismo”, que passou a designar a nova divisão do mundo pelas potências capitalistas. A Alemanha, que se unificou tardiamente em relação a outras nações europeias, não conseguiu conquistar tantas colônias quanto os britânicos. Suas poucas conquistas na África eram desproporcionais ao grande desenvolvimento militar e industrial alcançado após os anos 1870. Em 1885, foi realizada a Conferência de Berlim, com a participação de 14 países industria- lizados, incluindo os Estados Unidos. Nesse encon- tro se discutiram as bases e os princípios da cha- mada partilha da África. Pode-se considerar que a disputa imperialista está entre as causas diretas da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Toda a Ásia e a África já haviam sido repartidas entre os países industrializados na década de 1910. Politicamente, várias disputas territoriais ali- mentavam a discórdia entre as nações europeias desde o século XIX. Na segunda metade desse século, ocorreu a independência dos Estados eslavos (na região dos Bálcãs), que até então faziam parte do Império Turco-Otomano: Sérvia, Montenegro, Bulgária e Romênia. Aliada da Sérvia e protetora dos eslavos, a Rússia procurou domi- nar a região. A Sérvia, por sua vez, tinha como objetivo conquistar regiões do Império Austro- Húngaro (onde vivia mais de uma dezena de nacionalidades), ao qual os alemães também pretendiam fazer frente, ampliando seus domínios na Europa. A França, por sua vez, derrotada pela Alemanha em 1870 na Guerra Franco-Prussiana, aliou-se aos britânicos no combate a novas ofen- sivas germânicas. Naquele confronto, a França havia perdido a região da Alsácia-Lorena, rica em carvão utilizado pelas indústrias. C ol eç ão p ar ti cu la r/ A lb um /a kg -i m ag es /L at in st oc k Representação francesa da divisão da África pelos países europeus durante a Conferência de Berlim, 1885. 89 Com a derrota de Napoleão Bonaparte na Europa e a realização do Congresso de Viena em 1815, procurou-se restabelecer o equilíbrio político entre as nações. Ao longo do século XIX, ocorreram outros conflitos que resultaram nas unificações italiana e alemã e na reorganização das fronteiras de alguns países. A unificação alemã, em especial, criou condições para que a Alemanha surgisse nos anos seguintes como uma das maiores potências econômicas da Europa. Desenvolveu rapidamente sua indústria, podendo dessa forma competir com a Grã-Bretanha, que, até então, era a grande potência imperial mundial. Reich (Império) alemão, que tinha pretensões expan- sionistas, animadas internamente por um fervor desproporcionais ao grande desenvolvimento militar e industrial alcançado após os anos 1870. Em 1885, foi realizada a Conferência de Berlim, com a participação de 14 países industria- lizados, incluindo os Estados Unidos. Nesse encon- tro se discutiram as bases e os princípios da cha- mada partilha da África. Pode-se considerar que a disputa imperialista está entre as causas diretas da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Toda a Ásia e a África já haviam sido repartidas entre os países industrializados na década de 1910. Politicamente, várias disputas territoriais ali- mentavam a discórdia entre as nações europeias desde o século XIX. Na segunda metade desse século, ocorreu a independência dos Estados eslavos (na região dos Bálcãs), que até então faziam parte do Império Turco-Otomano: Sérvia, Montenegro, Bulgária e Romênia. Aliada da Sérvia e protetora dos eslavos, a Rússia procurou domi- nar a região. A Sérvia, por sua vez, tinha como 1 2 3 4 5 6 7 8 C A P ÍTU LO LINHA DO TEMPOÍNDICEÍNDICEÍNDICE OD THESAURUSTHESAURUSTHESAURUS Nesse contexto de avanço imperialista e dis- puta pela hegemonia na Europa, os russos fir- maram um acordo com a França, da mesma forma que estes últimos se aliaram aos britâ- nicos. França e Inglaterra formaram a Entente Cordiale em 1904, consolidando a divisão da maior parte da Ásia e da África entre esses dois países. Em 1907, definiu-se o que ficou conhe- cido como a Tríplice Entente, a aliança entre Inglaterra, França e Rússia. Nos termos do acor- do entre França e Grã-Bretanha, pesou mais uma vez a partilha colonial da África. Em 1904, os dois países já haviam assinado um acordo secreto que deixava o Egito para os britânicos e o Marrocos para a França, excluindo a Alemanha da possi- bilidade de explorar o Marrocos. Começariam, assim, a se formar as forças que entrariam em conflito na Primeira Guerra Mundial. Do outro lado, já havia se formado também a Tríplice Aliança, que reunia o Império Austro- Húngaro, a Alemanha e a Itália. Este último país, no entanto, embora tivesse conflitos com a França pela dominação de regiões na África, mantinha também conflitos de caráter expan- sionista com a Áustria-Hungria, pois disputava a região do Tirol e da Ístria desde o processo de unificação, ocorrido algumas décadas antes. Nesse contexto, a Itália assinou