Prévia do material em texto
70 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III Unidade III 7 ESTRUTURA DE ECOSSISTEMA E FLUXO DE ENERGIA NO SISTEMA ECOLÓGICO 7.1 Estrutura de Ecossistema O termo ecossistema é usado para denotar a comunidade biológica junto ao ambiente abiótico em que ela está estabelecida. Assim, os ecossistemas normalmente incluem produtores primários, decompositores e detritívoros, certa quantidade de matéria orgânica morta, herbívoros, carnívoros e parasitos, mais o ambiente físico-químico que proporciona as condições de vida e atua como uma fonte e um dreno para energia e matéria. Durante a primeira parte do século XX, emergiram diversos novos conceitos que levaram o estudo da ecologia para novas direções. Um deles foi a percepção de que as relações de alimentação conectam organismos numa entidade funcional única, a comunidade biológica. À frente, entre os diversos personagens desse novo ponto de vista ecológico durante os anos 1920, estava o ecólogo inglês Charles Elton (1900-1991). Elton argumentou que os organismos que vivem no mesmo lugar não apenas têm tolerâncias semelhantes aos fatores físicos do ambiente, mas também interagem uns com os outros, de forma mais relevante, num sistema de relações de alimentação, o qual chamou de teia alimentar. Todo organismo deve alimentar-se de algum modo para obter nutrição e pode ser alimento de algum outro organismo. Uma década mais tarde, em 1935, o ecólogo vegetal inglês Arthur George Tansley (1871- 1955) levou a ideia de Elton a um importante passo, ao considerar os organismos, com os fatores físicos que os circundam, como sistemas ecológicos. Tansley olhou essa estrutura – que chamou de ecossistema – como a unidade fundamental da organização ecológica; visualizou as partes biológicas e físicas da natureza juntas, unificadas pela dependência dos organismos em suas vizinhanças físicas e por suas contribuições para a manutenção das condições e da composição do mundo físico. Todos os ecossistemas, inclusive a biosfera, são abertos: há uma entrada e uma saída necessárias de energia. Evidentemente os ecossistemas abaixo do nível da biosfera também estão abertos, em vários graus, aos fluxos de materiais, bem como à imigração e à emigração dos organismos. Por conseguinte, representa uma parte importante do conceito de ecossistema reconhecer que existe tanto um ambiente de entrada quanto um de saída, acoplados e essenciais, para que funcione e se mantenha. Um ecossistema conceitualmente completo inclui ambientes de entrada e saída com o sistema delimitado, ou seja, ecossistema = AE + S + AS, onde: AE = ambiente de entrada; S = sistema propriamente dito; e AS = ambiente de saída. 71 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA Sistema (como delimitado) Outras formas de energia Sol Materiais e organismos de saídade entrada AmbienteAmbiente Energia e materiais processados; emigração de organismos Figura 32 – Modelo de ecossistema com uma entrada e uma saída de energia e materiais no sistema Uma das características universais de todo ecossistema, seja ele terrestre, aquático ou elaborado pelo homem (agrícola), é a interação dos componentes autotróficos e heterotróficos. Na parte autotrófica, de plantas ou partes de plantas que contêm clorofila, predominam a fixação de energia luminosa, a utilização de substâncias inorgânicas simples e a construção de substâncias orgânicas complexas; na parte heterotrófica, de solos e sedimentos, matéria em decomposição, raízes etc., predominam a utilização, o rearranjo e a decomposição de materiais complexos. Do ponto de vista biológico, é conveniente reconhecer os seguintes componentes que constituem o ecossistema: • substâncias inorgânicas: C, N, CO2, H2O, outras mais envolvidas nos ciclos dos materiais; • compostos orgânicos: proteínas, lipídios, carboidratos, substâncias húmicas etc., que ligam o biótico e o abiótico; • o ambiente atmosférico, o hidrológico e o do substrato, incluindo o regime climático e outros fatores físicos; • produtores, organismos autotróficos, principalmente as plantas verdes, que manufaturam o alimento a partir de substâncias inorgânicas simples; • macroconsumidores ou fagótrofos,: organismos heterotróficos, principalmente animais que ingerem outros organismos ou matéria orgânica particulada; • microconsumidores, saprótrofos ou decompositores, organismos heterotróficos, principalmente bactérias e fungos, que obtêm sua energia ou degradando tecidos mortos, ou absorvendo matéria orgânica dissolvida segregada por – ou extraída de – plantas ou outros organismos. As atividades decompositoras dos saprótrofos liberam nutrientes inorgânicos de modo disponível aos produtores; também fornecem alimento para os macroconsumidores e, com frequência, excretam substâncias parecidas com hormônios, que inibem ou estimulam outros componentes bióticos do ecossistema. 72 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III IVA IA IIA IVB Estrato autotrófico Energia solar Estrato heterotrófico IIIB IIB IB IIIA V Solo Água Sedimentos Material geológico matriz Material geológico matriz Ar Figura 33 – Comparação entre um ecossistema terrestre (campo de gramíneas) e um ecossistema aquático (lago ou mar). Unidades necessárias para o funcionamento são: entrada de energia (e outras formas); água; nutrientes (compostos abióticos básicos – orgânicos e inorgânicos) em solos, sedimentos e água; e organismos autotróficos e heterotróficos que compreendam as redes alimentares bióticas. Os sistemas terrestres e os aquáticos funcionam de maneiras semelhantes, mas as espécies são, em grande parte, diferentes. Além disso, as plantas verdes (e o fitoplâncton) são pequenas (frequentemente microscópicas) em sistemas de águas profundas, e grandes em ecossistemas terrestres e em alguns de águas rasas Além dos fluxos de energia e dos ciclos de matéria, os ecossistemas são ricos em redes de informação, que compreendem fluxos de comunicação, físicos e químicos, que interligam todas as partes e governam ou regulam o sistema em sua totalidade. Consequentemente, os ecossistemas podem ser considerados cibernéticos na natureza (de kybernetes, que significa piloto ou governador), mas as funções de controle são internas ou difusas, ao contrário das funções externas e especificadas nos mecanismos elaborados pelo homem. 7.2 Exemplos de ecossistemas Um dos melhores modos de se começar a estudar ecologia é considerar um lago pequeno e um prado ou campo abandonado, em que as características básicas dos ecossistemas podem ser convenientemente examinadas e a natureza dos ecossistemas aquáticos e terrestres pode ser constatada. Qualquer área exposta à luz, mesmo um gramado, uma jardineira de janela ou um microcosmo cultivado em laboratório, pode ser observada para se começar o estudo de ecossistemas, desde que as dimensões físicas e a diversidade biótica não sejam tão grandes a ponto de tornarem difíceis as observações do todo. Consideremos seis exemplos: um lago pequeno, um prado, uma bacia hidrográfica, um microcosmo, uma cidade e um agroecossistema. 7.2.1 Lago e prado A inseparabilidade entre organismos vivos e o ambiente não vivo é imediatamente aparente com a primeira amostra coletada. Plantas, animais e micro-organismos não só vivem no lago e 73 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/02 /2 01 4 ECOLOGIA no prado, mas também modificam a natureza química da água, do solo e do ar, que compõem o ambiente físico. Assim, uma garrafa de água do lago ou uma pazada de lama do fundo, ou de solo do prado, é uma mistura de organismos vivos, tanto vegetais quanto animais, e de compostos inorgânicos e orgânicos. Alguns dos animais e plantas maiores podem ser separados da amostra para estudo ou contagem, mas seria difícil separar completamente a miríade de pequenas coisas vivas da matriz não viva sem mudar o caráter da água. É verdade que se poderia autoclavar a amostra de água, de lama do fundo ou de solo, de modo que apenas o material não vivo permanecesse, mas esse resíduo então não mais seria água do lago ou solo do prado. Teria aparência e características inteiramente diferentes. Os componentes básicos de um ecossistema aquático e de outro terrestre são analisados a seguir: • substâncias abióticas: incluem compostos básicos inorgânicos e orgânicos, tais como água, gás carbônico, oxigênio, cálcio, nitrogênio, enxofre e sais de fósforo, aminoácidos e húmicos, entre outros. Uma pequena porção dos nutrientes vitais está em solução e imediatamente à disposição dos organismos, mas uma porção muito maior é mantida em reserva, em matéria particulada, bem como nos próprios organismos. A velocidade de liberação dos nutrientes, a partir dos sólidos, a entrada de energia solar e o ciclo de temperatura, a duração do dia e outras condições climáticas são os processos mais importantes que regulam diariamente a velocidade de funcionamento de todo o ecossistema. • organismos produtores: em um lago, os produtores podem ser de dois tipos principais – grandes plantas flutuantes ou enraizadas, geralmente crescendo apenas em águas rasas, e minúsculas plantas flutuantes, geralmente algas, chamadas de fitoplâncton, distribuídas por todo o lago até a profundidade em que a luz penetra. Quando abundante, o fitoplâncton dá à água uma cor esverdeada; de outro modo, esses produtores não são visíveis ao observador casual, e sua presença não é notada pelo leigo. Ainda assim, em extensões de água grandes e profundas (como nos oceanos), o fitoplâncton é muito mais importante do que a vegetação enraizada na produção de alimento básico para o ecossistema. Nos campos e nas comunidades terrestres, em geral, ocorre o inverso: as enraizadas predominam, mas pequenos organismos fotossintéticos, como algas, musgos e liquens, também ocorrem no solo, nas rochas e nos caules das plantas. Nos locais em que esses substratos são úmidos e expostos à luz, tais microprodutores podem contribuir substancialmente para a produção orgânica. • organismos consumidores: são os herbívoros, que se alimentam diretamente das plantas vivas ou de partes das plantas. No lago, há dois tipos: zooplâncton (plâncton animal) e bentos (formas que vivem no fundo), criando um paralelo com os dois tipos de produtores. Herbívoros dos campos também se apresentam em dois tamanhos, os pequenos insetos e outros invertebrados que se alimentam de plantas e os grandes roedores e mamíferos ungulados que pastam. Os consumidores secundários ou carnívoros, tais como insetos e peixes predadores, no lago, e insetos, aranhas, aves e mamíferos predadores, no campo, alimentam-se dos consumidores primários ou de outros consumidores secundários. Há também os detritívoros e os decompositores. 74 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III Figura 34 – Foto de uma alga aquática microscópica – Anabaena sp 7.2.2 Bacia hidrográfica ou de drenagem Embora os componentes biológicos do lago e do prado pareçam autossuficientes, estes são, na verdade, sistemas muito abertos, que formam parte de sistemas maiores de bacias hidrográficas. Seu funcionamento e sua estabilidade relativa, ao longo dos anos, são determinados, em grande parte, pelas taxas de influxo e efluxo de água, materiais e organismos de outras áreas da bacia. Muitas vezes, ocorre um influxo líquido de materiais quando as massas de água são pequenas, ou quando o efluxo está restrito. Se o material orgânico de esgotos ou de efluentes industriais, por exemplo, não puder ser assimilado, o rápido acúmulo de tais materiais poderá destruir o sistema. A expressão eutrofização cultural (enriquecimento cultural) vem sendo amplamente usada para denotar a poluição orgânica que resulta das atividades humanas. A erosão do solo e a perda de nutrientes de uma floresta perturbada ou de um campo cultivado inadequadamente não apenas empobrece esses ecossistemas, como também tais efluxos provavelmente apresentem impactos eutróficos, ou de outro tipo, rio abaixo. Por isso, a bacia hidrográfica inteira, e não somente a massa de água ou o trecho de vegetação, deve ser considerada a unidade mínima de ecossistema, quando se trata de interesses humanos. A unidade de ecossistema para gerenciamento prático deve incluir, para cada metro quadrado ou hectare de água, uma área pelo menos vinte vezes maior de bacia de drenagem terrestre. Em outras palavras, os campos, as florestas, as massas de água e as cidades, interligadas por um sistema de riachos ou rios (ou, às vezes, por uma rede subterrânea de drenagem) interagem como uma unidade prática, no ecossistema, tanto para o estudo quanto para o gerenciamento. O conceito de bacia hidrográfica ajuda a colocar em perspectiva muitos dos nossos problemas e conflitos. Por exemplo, as causas e as soluções da poluição da água não serão encontradas olhando-se apenas para dentro da água; geralmente, é o gerenciamento incorreto da bacia hidrográfica que destrói nossos recursos aquáticos. A bacia de drenagem inteira deve ser considerada a unidade de gerenciamento. 75 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA Saiba mais Eutrofização ou eutroficação é o nome que se dá ao fenômeno causado pelo excesso de nutrientes (compostos químicos ricos em fósforo ou nitrogênio) numa massa de água, provocando um aumento excessivo de algas. Estas, por sua vez, fomentam o desenvolvimento dos consumidores primários e, eventualmente, de outros elementos da teia alimentar nesse ecossistema. Esse aumento da biomassa pode levar a uma diminuição do oxigênio dissolvido, provocando a morte e a consequente decomposição de muitos organismos, diminuindo a qualidade da água e, eventualmente, causando alteração profunda do ecossistema. Esses processos podem ocorrer naturalmente, como consequência da lixiviação da serrapilheira acumulada numa bacia de drenagem por fortes chuvas, ou por ação do homem, por meio da descarga de efluentes agrícolas, urbanos ou industriais, no que se chama eutrofização cultural. Veja mais no livro: TUNDISI, J. G. Água no século XXI: enfrentado a escassez. São Carlos: Rima, 2003. 7.2.3 Microcosmo Pequenos mundos autossuficientes ou microcosmos, em frascos ou outros recipientes, podem simular em miniatura a natureza dos ecossistemas. Tais montagens podem ser consideradas microecossistemas. Sistemas totalmente fechados que requerem somente energia luminosa (biosferas em miniatura) são muito difíceis de serem realizados em pequena escala. Os microcosmos experimentais geralmente variam desde sistemas parcialmente fechados, abertos para trocas gasosas com a atmosfera, mas fechados para trocas de nutrientes e organismos, até (no extremo oposto) sistemas muito abertos, que envolvem conjuntos de organismos mantidos em várias espécies de quimiostatos e turbidostatos, com influxo e efluxo regulados, tanto de nutrientes quanto de organismos. Os microcosmos bem-projetados podem exibir a maioria das funções básicas e estruturas tróficas de um ecossistemaao ar livre, se não todas elas, mas, por necessidade, a variedade e o tamanho dos componentes estão muito reduzidos. As vantagens para o estudo e a experimentação incluem limites discretos e facilidade de replicação e manipulação. Em um sentido real, os microcosmos são modelos (simplificações) vivos e funcionais da natureza, mas não devem ser considerados duplicatas de nenhum ecossistema do mundo real. A pesquisa de microcosmos está se mostrando útil, por exemplo, para testar diversas hipóteses ecológicas geradas da observação da natureza. 76 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III Tubo antipastagem Erlenmeyer de 250 ml ou maior Trocas gasosas pelo tampão de algodão Nível do meio de cultura líquido Fontes de luz fluorescente Solução de eletrólitos Tubo para retirada Entrada de ar Tampão de algodão Ladrão Eletrodos (A) (B) (C) (D) Nível do meio de cultura Tubo para trocas gasosas Frasco de Roux de 750 ml Bactéria Alga (Dunaliella) Camarão marinho (Artemia) Todos de cultura axênica Algas, 3 tipos Bactérias e fungos, 13 ou mais tipos (isolados) Ostrácodos, 1 ou mais tipos Nematoides, (?) Protozoários, 3 ou mais tipos Todos derivados por semeadura a partir de um tanque de esgoto ao ar livre I II III 12V 500Ω I Figura 35 – Três tipos de microcosmos de laboratório. I. Um quimiostato, simples e barato, no qual um fluxo de meio de cultura (B) passa da câmara de cultura (C) para um vidro que recebe o excesso (D) e é regulado, ajustando-se à corrente elétrica que alimenta uma bomba de eletrólise (A). No turbidostato, a regulação para manter um estado constante é realizada por um sensor colocado dentro da comunidade cultivada, que responde à densidade (turbidez) dos organismos (regulação interna, em contraste com a regulação externa, de “entrada constante”, do quimiostato). II. Um microcosmo gnotobiótico ou “definido” contendo três espécies de cultura axênica (isto é, pura). O tubo provê uma área na qual as algas podem multiplicar-se, livres de pastagem pelo camarão (espera-se que isso previna a pastagem excessiva). III. Um microcosmo “derivado” de um sistema ao ar livre, mediante semeadura múltipla. O sistema 1 está aberto, e os sistemas 2 e 3 estão fechados a fluxos de materiais, porém abertos à entrada de energia luminosa e trocas gasosas com a atmosfera. O equilíbrio dos sistemas fechados, se for alcançado, resultará da regulação do ciclo de nutrientes pela comunidade, em vez de ser obtido por dispositivos mecânicos de controle (como no quimiostato ou no turbidostato) 77 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA A B Figura 36 – Extensos ecossistemas experimentais ao ar livre ou “mesocosmos”. A) Uma série de cilindros compridos, na orla da baía de Narragansett, Rhode Island, EUA, que simula condições e comunidades na baía marinha rasa, proporcionando, assim, oportunidades para a observação de efeitos de alterações experimentais, como a introdução de poluentes. B) Recipientes plásticos flutuantes (que se estendem bem abaixo da área da zona fótica) grandes o bastante para manter muitos componentes da coluna d’água (incluindo peixes pequenos) em uma baía da Columbia Britânica, Canadá 78 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III Para IRGA (1 l/min) Entrada para chuva Descondensador Microcosmo: 15 cm diâm. x 10 cm prof. Entrada de ar ambiente Recipiente de plástico preto PVC, que se encolhe com calor Veda-juntas dow corning 3140 RTV Garrafa de coleta de lixiviado (250 ml) Areia queimada, lavada com água destilada Isolamento de fibra de vidro Disco de plexigias Desvio de pressão Pares termoelétricos Plexiaglas: 3,2 mm espes., 18,4 cm diâm. Plexiaglas: 6,4 mm espes., 16,5 cm diâm. int x 43,0 cm alt. Figura 37 – Um microcosmo terrestre de laboratório no qual uma amostra de vegetação e solo de uma comunidade de campo abandonado está contida em um recipiente transparente. O metabolismo da comunidade é monitorado pela medição contínua do fluxo de CO2 por meio de um analisador infravermelho de gases (IRGA). Como a perturbação, muitas vezes, altera o monitoramento da ciclagem mineral, o lixiviado que sai do fundo da coluna de solo pode ser usado como uma medida do impacto da perturbação 7.2.4 Cidade, um ecossistema heterotrófico Uma cidade, especialmente uma industrializada, é um ecossistema incompleto ou heterotrófico, dependente de grandes áreas externas a ele para a obtenção de energia, alimentos, fibras, água e outros materiais. A cidade difere de um ecossistema heterotrófico natural, como um recife de ostras, uma vez que apresenta: • um metabolismo muito mais intenso por unidade de área, exigindo um influxo maior de energia concentrada (atualmente suprida, na maior parte, por combustíveis fósseis); • uma grande necessidade de entrada de materiais, como metais para uso comercial e industrial, além do necessário para a sustentação da própria vida; • uma saída maior e mais venenosa de resíduos, muitos dos quais são substâncias químicas sintéticas mais tóxicas do que os seus precursores naturais. 79 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA Desse modo, os ambientes de entrada e saída são relativamente mais importantes para os sistemas urbanos do que no caso de um sistema autotrófico, como uma floresta. Corrente aquática por cima do recife Vista lateral Vista de cima Fluxo energético(cal/(m2) (dia)) Ostras, bivalves, vermes, carangueijos, cracas, muitas espécies Energia alimentar em células vegetais Correntes de ar e de transportação da cidade Energia de alimentos e combustíveis Pessoas e máquinas, muitas profissões Fluxos de alimentos e combustíveis Energia de alimentos e combustiveis Rede de esgotos Correntes portadoras de alimentos em horas diferentes Calor e dejetos Calor e dejetos Calor e dejetos Energia térmica Energia térmica 57 kcal/(m2) (dia) 3.980 kcal/(m2) (dia) Energia alimentar Organismos do recife Pessoas e máquinas Calor A B Figura 38 – Ecossistemas heterotróficos. A) Uma “cidade” natural – um recife de ostras, que depende do influxo de energia alimentar a partir de uma grande área do meio circundante. B) Uma cidade industrializada mantida por um influxo maciço de combustível e alimentos, com um efluxo, de tamanho correspondente, de efluentes e calor. As necessidades energéticas por metro quadrado ficam em torno de setenta vezes as do recife, ou seja, umas 4.000 kcal/dia, o que representa aproximadamente 1,5 milhão de kcal por ano Na verdade, a maioria das áreas metropolitanas, mesmo em regiões áridas, apresenta um substancial cinturão verde ou componente autotrófico, composto de árvores, arbustos, gramados e, em muitos casos, lagos, mas a produção orgânica desse componente verde não sustenta, de maneira apreciável, as pessoas e as máquinas que povoam tão densamente a área urbano- industrial. Sem os enormes influxos de alimentos, combustível, energia elétrica e água, as máquinas (automóveis, fábricas etc.) deixariam de funcionar. Os parques, os campos e as florestas urbanas, naturalmente, têm um valor estético e recreativo enorme; além de servir para atenuar os extremos de temperatura, para reduzir o barulho e outras formas de poluição, para fornecerhabitats a pássaros canoros e outros pequenos animais etc. Contudo, a mão de obra e o combustível gastos para irrigar, fertilizar, cortar, podar, remover galhos e folhas, e em outras tarefas necessárias para manter o verde público e particular da cidade somam-se ao custo energético (e financeiro) de se morar em centro urbano. A tabela a seguir mostra um comparativo entre o bosque residencial de Madison, Wisconsin, EUA, e uma floresta adjacente natural e não alterada. Aproximadamente 30% do condado estão cobertos de concreto, construções ou outras superfícies impermeáveis, mas, por área ocupada, o bosque residencial apresenta uma variedade muito maior de espécies vegetais, sendo mais produtivo em razão da horticultura humana e, principalmente, aos subsídios de fertilizantes e água. Pouca ou nenhuma matéria orgânica é exportada da floresta natural, porém mais da metade 80 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III da produção anual da vegetação residencial é exportada para depósitos de lixo ou aterros, como madeira, folhas e grama cortada. Seria melhor para a sociedade se essa matéria orgânica pudesse ser incorporada em solos agrícolas e quintais de casas. Felizmente, existe agora uma tendência nessa direção. Tabela 2 – Comparativo de floresta natural e bosque residencial adjacente em Madison, Wisconsin, EUA. Floresta Floresta natural Bosque urbano Número de espécies arbóreas 10 75 Número de espécies arbustivas 20 74 Biomassa arbórea (peso seco médio acima do solo) 27 kg/m 2 10 kg/m2 Produção líquida, com base na área ocupada, excluindo-se 30% de área sem vegetação na área residencial 812 g/m2 719 g/m2 Fertilizante aplicado 0 54 kg/acre Matéria orgânica exportada/ano 0 497 g/m2 Água de irrigação 0 Muita (quantidade desconhecida) Fonte: Odum (1988, p. 52). A rápida urbanização e o crescimento das cidades nos últimos anos mudaram a fisionomia da Terra mais do que, provavelmente, qualquer outro resultado da atividade humana em toda a história. Mesmo nos países economicamente muito pobres, as cidades estão crescendo em um ritmo muito mais rápido do que a população em geral. As cidades não ocupam uma área tão grande da paisagem terrestre – apenas de 1% a 5% no mundo inteiro. Alteram, porém, a natureza de rios, florestas e campos, naturais e cultivados, para não falar na atmosfera e nos oceanos, por causa do seu impacto sobre os extensos ambientes de entrada e de saída. Uma cidade pode afetar uma floresta distante não só diretamente, pela poluição atmosférica ou pela demanda por produtos de madeira, mas também indiretamente, alterando o gerenciamento da floresta. Por exemplo, uma grande demanda de papel induz uma pressão econômica muito forte, no sentido de converter uma floresta natural de várias espécies e várias idades em uma plantação de uma única espécie e de uma única idade, especialmente adaptada para a produção de pasta de papel. Isso sem citar o consumo de energia pela cidade, a poeira gerada e o calor. Finalizando, é necessário aos líderes urbanos e rurais colocarem os interesses comuns acima dos interesses especiais, caso contrário, a administração da cidade como um ecossistema funcional existirá somente no papel. 81 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA Saiba mais Conheça o novo Código Florestal brasileiro: BRASIL. Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012. Dispõe sobre a proteção da vegetação nativa; altera as Leis nos 6.938, de 31 de agosto de 1981, 9.393, de 19 de dezembro de 1996, e 11.428, de 22 de dezembro de 2006; revoga as Leis nos 4.771, de 15 de setembro de 1965, e 7.754, de 14 de abril de 1989, e a Medida Provisória no 2.166-67, de 24 de agosto de 2001; e dá outras providências. Brasília, 2012. Disponível em: <http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Lei/L12651.htm>. Acesso em: 23 jan. 2014. 7.2.5 Agroecossistemas Ecossistemas agrícolas que apresentam uma dependência energética de regiões distantes e uma saída que exerce impacto sobre elas, assim como as cidades. Ao contrário das cidades, naturalmente, os agroecossistemas têm um componente autotrófico, verde, como parte integrante. Diferem dos ecossistemas naturais ou seminaturais, que utilizam a energia solar e recursos como lagos e florestas, em três pontos básicos: • a energia auxiliar que aumenta ou subsidia a entrada de energia solar está sob o controle do homem, consistindo em trabalho humano e animal, fertilizantes, pesticidas, água de irrigação, combustível para mover a maquinaria etc.; • a diversidade de organismos é muito reduzida (novamente pela ação humana), para maximizar a produção de um determinado alimento ou outro produto; • as plantas e os animais dominantes sofrem seleção artificial, e não seleção natural. Em outras palavras, os agroecossistemas são projetados e gerenciados para canalizar uma conversão máxima de energia solar e de outros tipos de energia em produtos comestíveis, por meio de um duplo processo: empregando energia auxiliar para executar trabalho de manutenção que, em sistemas naturais, seria realizado pela energia solar (permitindo, assim, que mais energia solar seja convertida diretamente em alimento); e pela seleção genética de plantas comestíveis e animais domésticos, adaptados para otimizar a produção nesse ambiente especializado e subsidiado com energia. Como ocorre com todo uso intensivo e especializado da terra, além dos benefícios, existem custos, que incluem a erosão do solo, a poluição pelo escoamento de pesticidas e fertilizantes, o alto custo dos subsídios de combustível e a aumentada vulnerabilidade às mudanças meteorológicas e às pragas. Aproximadamente 10% da área terrestre do mundo não coberta de gelo são cultivados, convertidos, 82 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III principalmente, a partir de campos e florestas naturais, e também de desertos e brejos. Mais de 20% da área terrestre são pastos destinados à produção animal, em vez de vegetal. Assim, aproximadamente 30% do mundo terrestre são dedicados à agropecuária. Recentes análises de compreensão da situação mundial de alimentos enfatizam que todas as melhores terras, ou seja, as terras mais facilmente cultivadas com a tecnologia atual, já estão sendo usadas. Estender a agricultura para terrenos adicionais e menos adequados será muito caro e poderá exigir novos tipos de agroecossistemas. Os princípios do desenvolvimento de ecossistemas são significativos nas relações entre os seres humanos e a natureza, porque a tendência de desenvolvimento, em sistemas naturais, de um aumento na estrutura e na complexidade por unidade de fluxo energético (como se fosse uma estratégia de produção máxima) contrasta com a meta humana de produção máxima (tentando obter a maior colheita possível). O reconhecimento da base ecológica desse conflito entre os seres humanos e a natureza é um primeiro estágio no estabelecimento de políticas racionais de gerenciamento do ambiente. Lembrete Agroecossistemas são sistemas que recebem a interferência humana, diferentemente dos sistemas naturais. Saiba mais Acesse o seguinte artigo científico, em que o autor compara biomas no Brasil e domínios de paisagem. COUTINHO, L. M. O conceito de bioma. Acta Bot. Bras., v. 20, n. 1, p. 13-23, 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/abb/v20n1/02.pdf>. Acesso em: 7 jan. 2014. 7.3 Níveis tróficos – cadeias e teias alimentares A transferência de energia alimentar, desde a fonte, nos autótrofos(plantas), até uma série de organismos que consomem e são consumidos, chama-se cadeia alimentar ou cadeia trófica. Em cada transferência, uma proporção da energia potencial perde-se como calor. Portanto, quanto menor a cadeia alimentar, ou quanto mais próximo o organismo do início da cadeia, maior a energia disponível à população. As cadeias alimentares são de dois tipos básicos: a cadeia de pastagem, que, começando de uma base de planta verde, passa por herbívoros que pastam, até carnívoros, podendo ser terrestre ou aquática; e a cadeia de detritos, que passa de matéria orgânica não viva para micro-organismos e, depois, para organismos comedores de detritos (detritívoros) e seus predadores. As cadeias alimentares não são sequências isoladas, estão interligadas. O padrão de interconexões, com frequência, é denominado rede alimentar ou rede trófica. Em comunidades naturais complexas, 83 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA diz-se que os organismos que obtêm seu alimento por meio de fotossíntese, pelo mesmo número de estágios, pertencem ao mesmo nível trófico. Assim, as plantas verdes (produtores) ocupam o primeiro nível; os herbívoros, o segundo nível (consumidores primários); carnívoros primários, o terceiro nível (consumidores secundários); e carnívoros secundários, o quarto nível (consumidores terciários). Essa classificação trófica é de função, e não de espécies como tais. Uma dada população de uma espécie pode ocupar mais de um nível trófico, segundo a fonte da energia assimilada. O fluxo de energia através de um nível trófico é igual à assimilação total (A) a esse nível, a qual, por sua vez, é igual à produção (P) de biomassa e matéria orgânica mais a respiração (R). As cadeias alimentares são relativamente conhecidas por todos, uma vez que nos alimentamos do peixe que comeu o peixe menor e este se alimentou do zooplâncton, que comeu o fitoplâncton, que ficou com a energia solar. Podemos também nos alimentar da vaca, que comeu o capim, que fixou a energia solar; ou podemos usar uma cadeia muito mais curta, comendo o cereal, que fixou a energia solar. No último caso, o ser humano funciona como consumidor primário no segundo nível trófico. Na cadeia alimentar capim-vaca-ser humano, funcionamos no terceiro nível trófico (consumidor secundário). Em geral, os seres humanos tendem a ser consumidores tanto primários como secundários, já que a nossa dieta, na maioria, compreende uma mistura de alimentos vegetais e animais. Consequentemente, o fluxo de energia divide-se entre dois níveis tróficos ou mais, na proporção da porcentagem de alimento vegetal e animal ingerido. Decompositores (fungos e bactérias) Consumidor terciário Fungos e bactérias Serpente Pássaro Gafanhoto Planta Consumidor secundário Consumidor primário Produtos Figura 39 – Representação esquemática (sem escala) de uma cadeia alimentar terrestre simples: planta → gafanhoto → pássaro → serpente → fungos e bactérias decompositoras 84 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III Figura 40 – Representação esquemática (sem escala) de uma teia alimentar de um ecossistema de terra firme. Note a multiplicidade das relações alimentares Geralmente o leigo não reconhece que se perde energia potencial em cada transferência de energia. Apenas uma pequena parcela da energia solar disponível é fixada, no início, pela planta. Em consequência, o número de consumidores, tais como as pessoas, que pode ser sustentado por uma dada saída de produção primária depende, em grande parte, do comprimento da cadeia alimentar. Cada elo na nossa cadeia alimentar agrícola tradicional diminui a energia disponível por cerca de uma ordem de grandeza (ordem de dez). Portanto, um menor número de pessoas pode ser sustentado quando a dieta contém grandes quantidades de carne. A carne desaparecerá, ou será muito reduzida, se houver muitas pessoas a serem alimentadas com uma dada base de produção primária. Os princípios das cadeias alimentares e o funcionamento das duas leis da termodinâmica estão representados nos fluxogramas a seguir. Nesses diagramas, os polígonos representam níveis tróficos sucessivos, e os caminhos ou linhas que os ligam retratam o fluxo energético para dentro e para fora de cada nível. Os influxos de energia equilibram os efluxos, conforme a exigência da Primeira Lei da Termodinâmica, e a cada transferência de energia ocorre dispersão de energia em calor não disponível (a respiração), conforme dita a segunda lei. Um modelo muito simples de fluxo energético para os três níveis tróficos foi apresentado no fluxograma e introduz as notações-padrão para os vários fluxos, ilustrando a maneira pela qual o fluxo energético se reduz substancialmente a cada nível sucessivo, independentemente 85 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA de serem considerados o fluxo total (E e A) ou os componentes (P e R). Também são mostrados o metabolismo duplo dos produtores (isto é, a produção líquida e a bruta) e o aproveitamento luminoso da ordem de 50% absorção e 1% de conversão, no primeiro nível trófico. A produtividade secundária (P2 e P3 no fluxograma) é de cerca de 10% em níveis tróficos sucessivos de consumidores, embora a eficiência tenda a ser mais alta, digamos, 20% nos níveis de carnívoros. Quando for alta a qualidade nutritiva da fonte energética (fotossintato retirado ou segregado diretamente dos tecidos vegetais), as eficiências de transferência poderão ser muito mais altas. Entretanto, como tanto os vegetais quanto os animais produzem muita matéria orgânica difícil de ser digerida (celulose, lignina, quitina), além de inibidores químicos para desencorajar consumidores potenciais, as transferências realizadas entre níveis tróficos inteiros são, em média, de 20% ou menos. Produtores 1 Plantas verdes Níveis tróficos Luz total E e LA PB ou A kcal/m2/dia Calor 3.000 1.500 15 1,5 0,3 R L LA PL P2 P3 R R P E A A PE PL NU 2 3 NA Herbívoros Consumidores Carnívoros Figura 41 – Diagrama simplificado de fluxo energético mostrando três níveis tróficos (compartimentos 1, 2 e 3) em uma cadeia alimentar linear. A notação-padrão para os fluxos sucessivos de energia é a seguinte: E, entrada total de energia; LA, luz absorvida pela cobertura vegetal; PB, produção primária bruta; A, assimilação total; PL, produção primária líquida; P, produção secundária (de consumidores); NU, energia não utilizada (armazenada ou exportada); NA, energia não assimilada pelos consumidores (egerida); R, respiração. A linha embaixo do diagrama mostra a ordem de grandeza das perdas energéticas esperadas nos principais pontos de transferência, a partir de uma entrada solar de 3 mil quilocalorias por metro quadrado por dia A seguir, as cadeias de pastagem e de detritos são representadas como fluxos separados em um fluxograma energético em forma de Y, ou de dois canais. Esse modelo é mais realista do que o de um único canal, porque se adéqua à estrutura estratificada básica dos ecossistemas; o consumo direto de plantas vivas e a utilização da matéria orgânica morta geralmente ocorrem separados temporal e espacialmente; os macroconsumidores (animais fagotróficos) e os microconsumidores (bactérias e fungos saprotróficos) diferem muito em relação tamanho-metabolismo e nas técnicas necessárias para seu estudo. A porção da energia da produção líquida que flui ao longo dos dois caminhos varia em diferentes tipos de ecossistema e, muitasvezes, varia anualmente ou com a estação, dentro do mesmo ecossistema. Entretanto, em todos os ecossistemas, as cadeias de pastagem e de detritos 86 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III estão interligadas, de modo que mudanças podem ocorrer rapidamente nos fluxos em resposta a entradas de funções motrizes de fora do sistema. Todo o alimento ingerido por animais de pasto não é realmente assimilado; uma parte (por exemplo, o material não digerido nas fezes) é desviada para a cadeia de detritos. O impacto do animal de pasto sobre a comunidade depende da velocidade com que ele remove o material vivo, e não apenas da quantidade de energia assimilada do alimento. O zooplâncton marinho frequentemente “pasta” uma quantidade maior de fitoplâncton do que consegue assimilar, sendo o excesso egerido para a cadeia de detritos. Luz solar Plantas Consumidores de detritos Cadeia de detritos Cadeia de pastagem Herbívoros Predadores Predadores Figura 42 – Modelo de fluxo energético em forma de Y, que mostra a ligação entre as cadeias alimentares de pastagem e de detritos O caminho de detritos está subdividido em três fluxos, um fluxo da matéria orgânica particulada (MOP) e outros dois fluxos da matéria orgânica dissolvida (MOD). Fungos como micorrizas, pulgões, parasitos e agentes patogênicos extraem ativamente o fotossintato direto do sistema vascular ou dos tecidos vegetais, enquanto a maioria dos micro-organismos saprotróficos utiliza a MOD, que exsuda ou “vaza” das células, das raízes etc. Estudos recentes mostraram que esses dois caminhos podem ser responsáveis por grande proporção do fluxo energético total no oceano e em florestas que tenham sistemas de micorrizas dissolvidos. Duas cadeias alimentares que formam subsistemas distintos estão restritas, em grande parte, a ecossistemas terrestres ou de águas rasas. A cadeia alimentar granívora origina-se das sementes, fontes energéticas de alta qualidade e que são itens importantes na dieta tanto de animais como de seres humanos. A cadeia alimentar nectarívora origina-se do nectário das plantas com flores que dependem dos insetos e de outros animais para a polinização. O caminho anaeróbio (sem a presença de oxigênio) apresenta-se como uma via separada, ao lado dos fluxos de pastagem direta da MOD e da MOP. Todos os quatro caminhos de fluxo energético são importantes, mas permanece desconhecida a quantidade exata de energia primária que passa por cada uma das quatro vias nos diferentes tipos de ecossistemas. 87 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA Matéria vegetal B A Anaeróbia Compostos inorgânicos reduzidos Néctar (6) Matéria orgânica dissolvida (5) (MOD) Matéria orgânica dissolvida (4) (MOP) Extração ativa (3) Micorrizas Granívora (2) Pastagem direta (1) Cadeias alimentares Plantas (Fontes primárias de energia) Tecido vivo Sementes Sistema vascular Tecido morto Exsudato Flores Bactérias quimiolitotróficas Micróbios MOP MOD Consumidores Pastagem direta Figura 43 – Modelos de cadeias alimentares de caminhos múltiplos com aplicação especial para ecossistemas terrestres (A) e para ecossistemas aquáticos (B). (MOD – matéria orgânica dissolvida; MOP – matéria orgânica particulada) 7.4 Atributos do ecossistema Os ecossistemas podem ser terrestres ou aquáticos. O termo ecossistema é usado para indicar a comunidade biológica (produtores primários, decompositores, detritívoros, herbívoros etc.), com o ambiente abiótico em que ela está inserida. Todas as variáveis abióticas, como parâmetros climáticos (radiação solar, intensidade luminosa, fotoperíodo, pluviosidade etc.), compostos inorgânicos no solo e na água, assim como as comunidades que habitam 88 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III os diferentes tipos de ecossistemas, são componentes muito importantes para determinar a sua funcionalidade. Por meio dos componentes bióticos, iniciando pelos produtores, começa a incorporação da energia solar, transformando-se em energia térmica, e assim por diante. Juntamente com a incorporação de energias ao longo da cadeia alimentar, há uma intensa ciclagem de nutrientes, de inorgânicos para orgânicos, tudo isso promovendo a vida e sua continuidade. Saiba mais Conforme a Hipótese Gaia, os organismos individuais não somente se adaptam ao ambiente físico, mas, mediante sua ação conjunta nos ecossistemas, também adaptam o ambiente geoquímico segundo as necessidades biológicas. Dessa maneira, as comunidades de organismos e os seus ambientes de entrada e saída desenvolvem-se em conjunto com os ecossistemas. A química da atmosfera e o ambiente físico fortemente tamponado da Terra são completamente diferentes das condições reinantes em qualquer outro planeta do nosso sistema solar, fato que levou à Hipótese Gaia, a qual sustenta que os organismos, principalmente os micro-organismos, evoluíram com o ambiente físico, formando um sistema complexo de controle, o qual mantém favoráveis à vida as condições da Terra. Conheça mais no livro: BOTKIN, D. R.; KELLER, E. A. Ciência ambiental: Terra, um planeta vivo. Rio de Janeiro: LTC, 2011. 681 p. 7.5 Fluxo de energia no sistema ecológico Todas as entidades biológicas necessitam de matéria para sua construção e de energia para suas atividades, não apenas para os organismos individualmente, mas para as populações e comunidades que eles formam na natureza. A importância intrínseca dos fluxos de energia e de matéria significa que os processos das comunidades são fortemente vinculados ao ambiente abiótico. Energia é a capacidade de realizar trabalho. Nós, humanos, consumimos uma grande proporção da produção biológica da Terra. A cada ano, plantas, algas e bactérias fotossintetizantes coletam bastante energia da luz do Sol, para fazer 224 bilhões de toneladas de biomassa seca. Aproximadamente 59% dessa biomassa são produzidos nos ecossistemas terrestres. A produção terrestre, uma fração impressionante de 35% a 40%, é usada pelos humanos, seja diretamente, como alimento e cultivos de fibras, seja indiretamente, como alimento dos animais. 89 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA Os oceanos, uma fonte de alimento para as pessoas que vivem próximas à costa, estão agora proporcionando alimentos para grande parte da população humana ao redor do mundo. Em 1950, a captura total de peixes e outros frutos do mar foi de cerca de 20 milhões de toneladas. A captura total aumentou para 75 milhões de toneladas em 1980 e agora se estabilizou em cerca de 90 milhões de toneladas anualmente. A produção anual pelas fazendas de peixes aumentou de 5 milhões de toneladas, em 1980, para mais de 40 milhões de toneladas, atualmente. Quanto da produção das algas nos oceanos é exigido para sustentar os pesqueiros dos quais nós dependemos? Podemos esperar coletar ainda mais dos oceanos? Em 1995, dois ecólogos marinhos, Daniel Pauly e Villy Christensen, trabalhando no International Center For Living Aquatic Resources Management (Centro Internacional para Gestão dos Recursos da Vida Aquática), nas Filipinas, pensaram em aplicar seus conhecimentos de fluxo de energia nos ecossistemas naturais a essas questões. Pauly e Christensen (1995) assumiram que, a cada passo na cadeia alimentar, que leva desde as algas microscópicas até ospeixes que comemos, cerca de 90% da energia consumida são usados para manter o consumidor. Isso significa que somente 10% são convertidos, por meio do crescimento e da reprodução, em biomassa, e, assim, em alimento potencial para outros organismos. Dos estudos de dieta de organismos marinhos, os ecólogos estimaram que o número de passos de alimentação levando das algas até os peixes varia, em média, de 1,5 para ecossistemas costeiros e de recifes até 3 para o oceano aberto. Conhecendo o número de passos de alimentação e assumindo uma eficiência de transferência de energia de 10% por passo, eles fizeram cálculos simples para converter os peixes coletados em quantidades de algas necessárias para sustentá-los. Usando dados desde a década de 1980, eles mostraram que, para os pesqueiros na costa, que produzem uma parte dos alimentos do mar consumida pelos humanos, o crescimento de algas exigido para sustentar a coleta chegou de 24% a 35% da produção total do ecossistema. Como não comemos tudo o que cresce no mar, Pauly e Christensen (1995) sugeriram que a coleta humana poderia estar se aproximando de seu limite superior – uma previsão sustentada pela subsequente estabilização da captura de peixes selvagens. Somente no oceano aberto, onde exploramos de forma ineficiente os pesqueiros altamente dispersos, no fim de uma longa cadeia alimentar, usurpamos uma fração pequena (cerca de 2%) da produção total. Energia dissipada nos diferetentes níveis tróficos Consumidor Secundário Consumidor Primário ProdutorEnergia Sol Decompositores Figura 44 – Representação esquemática (sem escala) da transferência unidirecional de energia que ocorre nas cadeias alimentares. A energia é gradualmente dissipada ao passar pelos níveis tróficos 90 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III Lembrete O fluxo de energia é sempre unilateral, diminuindo a energia a cada nível. 7.5.1 Leis da termodinâmica Durante a primeira metade do século XX, um químico chamado Alfred Lotka (1880-1949), estudando sistemas ecológicos, considerou as populações de comunidades como sistemas transformadores de energia. A transformação de energia mais fundamental nesses sistemas é a conversão da luz em energia química pela fotossíntese. As transformações de energia adicionais acontecem à medida que os herbívoros convergem a energia dos compostos de carbono em plantas e outros autótrofos em energia que eles podem usar para seus próprios metabolismo, atividade, crescimento e reprodução. Analogamente, os carnívoros utilizam a energia dos compostos de carbono contidos em suas presas. Lotka acreditava que o tamanho de um sistema e as taxas de transformação de energia e materiais dentro dele obedeciam a certos princípios termodinâmicos que governam todas as transformações de energia. Da mesma forma que as máquinas mais pesadas e rápidas exigem mais combustível para operar do que as mais leves e lentas, e as máquinas ineficientes, as transformações de energia nos ecossistemas crescem na proporção direta do seu tamanho (aproximadamente a massa total de seus organismos constituintes), da sua produtividade (taxas de transformação) e da sua ineficiência. A Terra propriamente dita é uma gigantesca máquina termodinâmica na qual a circulação dos ventos e correntes oceânicas e a evaporação das águas são dirigidas pela energia do Sol. Esta é também assimilada pelas plantas e, em última instância, alimenta a maioria dos sistemas biológicos. As ideias de Lotka sobre os ecossistemas, publicadas em 1925, não foram muito compreendidas nem apreciadas naquela época. Permaneceu assim até que Raymond Lindeman (1915-1942), um jovem ecólogo aquático da Universidade de Minnesota, EUA, trouxesse o conceito do ecossistema como um sistema transformador de energia para a atenção de muitos ecólogos. Em sua publicação de 1942, a estrutura para compreender os sistemas ecológicos com base em princípios de termodinâmica causou profunda impressão. Ele adotou a noção de Tansley do ecossistema como unidade fundamental na ecologia e o conceito de Elton de cadeia alimentar, incluindo os nutrientes inorgânicos na base, como as expressões mais úteis da estrutura do ecossistema. A cadeia alimentar pela qual a energia passa através do ecossistema tem muitas conexões – plantas, herbívoros e carnívoros, por exemplo –, as quais Lindeman denominou de níveis tróficos. Além disso, ele visualizou uma pirâmide de energia dentro do ecossistema com menos energia atingindo cada nível trófico sucessivamente acima. Também argumentou que a energia era perdida em cada nível trófico em razão do trabalho executado pelos organismos naquele nível e da ineficiência das transformações das energias biológicas. Assim, as plantas coletam somente uma parte da energia da luz disponível do Sol. Os herbívoros coletam ainda menos daquela energia, porque as plantas usam uma parte do que assimilam para se manter, e essa parte não está disponível para eles como biomassa de planta. O mesmo pode ser dito dos consumidores secundários que se alimentam dos herbívoros e de cada nível sucessivamente 91 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA mais alto da cadeia alimentar. A maior parte da energia no alimento que consumimos é usada para nos mantermos e torna-se pouca biomassa para o próximo nível trófico na cadeia alimentar. Herbívoros Primeiro carnívoro Segundo carnívoro Plantas Figura 45 – Lindeman visualizou uma pirâmide de energia no ecossistema. A largura de cada barra representa a quantidade de energia em cada nível trófico. Energia é perdida, a cada transferência, para um nível trófico superior Por volta de 1950, o conceito de ecossistema tinha sido completamente introduzido no pensamento ecológico e dado origem a um novo ramo da Ecologia, a ecologia de ecossistema, focalizada na ciclagem da matéria e da energia associada por meio dos ecossistemas. A energia e as massas dos elementos, tais como o carbono, proporcionam uma “moeda” comum que os ecólogos podem usar para comparar a estrutura e o funcionamento de diferentes ecossistemas. As medidas de energia e assimilação de nutrientes tornaram-se as ferramentas para explorar esse novo conceito termodinâmico do ecossistema. O comportamento da energia em um sistema ecológico é descrito pelas leis da termodinâmica descritas a seguir. • Primeira Lei da Termodinâmica ou Lei da Conservação da Energia: diz que a energia pode ser transformada de um tipo em outro, mas não pode ser criada nem destruída. A luz, por exemplo, é um tipo de energia, pois pode ser transformada em trabalho, calor etc. Outro exemplo é uma hidrelétrica. As quedas de água geram energia potencial, transformada em energia mecânica, transformada, por sua vez, em energia elétrica. Assim, a energia muda de um tipo para outro, mas não é criada nem destruída. Não se inventa energia, não se fabrica energia. • Segunda Lei da Termodinâmica ou Lei da Entropia: diz que nenhum processo que implique uma transformação de energia ocorrerá espontaneamente, a menos que haja degradação da energia de forma menos concentrada para uma forma dispersa. O calor de um objeto quente, por exemplo, tenderá espontaneamente a se dispersar no ambiente mais frio. A Segunda Lei da Termodinâmica pode ser expressa também do seguinte modo: já que alguma energia sempre se dispersa em energia térmica não disponível, nenhuma transformação espontânea de energia (por exemplo, 92 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III a luz) em energiapotencial (por exemplo, o protoplasma) é 100% eficiente. A entropia é uma medida de energia não disponível que resulta de transformações. O termo também é usado como índice geral da desordem associada à degradação da energia. Quente Frio Morno Morno Partículas de soluto movem-se da região de alta concentração para a de baixa concentração O calor flui do corpo quente para o corpo frio Bicos de cobre Estado inicial Estado final A ordem torna-se desordem Figura 46 – Algumas ilustrações da Segunda Lei da Termodinâmica. Em cada caso, uma quantidade de energia – no bloco de cobre quente, nas partículas do soluto, em um lado de um tanque e nos livros arrumados – é dissipada. Na natureza, os processos orientam-se aos estados aleatórios, ou desordem. Apenas um fornecimento de energia pode reverter essa tendência e reconstruir o estado inicial a partir do final. Neste, contudo, a desordem irá prevalecer, porque a quantidade total de energia no universo é finita Os organismos, os ecossistemas e a biosfera apresentam a seguinte característica termodinâmica essencial: conseguem criar e manter um alto grau de ordem interna ou uma condição de baixa entropia (pequena quantidade de desordem ou de energia não disponível em um sistema). Alcança-se uma baixa entropia por intermédio de uma contínua e eficiente dissipação de energia de alta utilidade (por exemplo, luz ou alimento) para dar energia de baixa utilidade (por exemplo, calor). No ecossistema, a “ordem” de uma estrutura complexa de biomassa é mantida pela respiração total da comunidade, que expulsa continuamente a desordem. Desse modo, os ecossistemas e os organismos são sistemas termodinâmicos abertos, fora do ponto de equilíbrio, que trocam continuamente energia e matéria com o ambiente, para diminuir a entropia interna, à medida que aumenta a entropia externa (obedecendo, assim, às leis da termodinâmica). 93 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA (A) Raios solares, 100 unidades Forma diluída de energia Sol Folha de carvalho Sistema de conversão energética (C) Açúcares, 2 unidades Forma concentrada de energia (B) Calor, 98 unidades Forma muito diluída (dispersada) de energia Figura 47 – Ilustração das duas leis da termodinâmica – conversão de energia solar em energia alimentar (açúcares) pela fotossíntese. A – B + C (primeira lei); C é sempre menor que A, em virtude da dissipação durante a conversão (segunda lei) As várias formas de vida estão todas acompanhadas por mudanças energéticas, apesar de nenhuma energia ser criada nem destruída (Primeira Lei da Termodinâmica). A energia que chega à superfície terrestre como luz é equilibrada pela energia que sai da superfície como radiação térmica. A essência da vida reside na progressão de tais mudanças, como o crescimento, a autoduplicação e a síntese de relações complexas de matéria. Sem as transferências de energia, que acompanham todas essas mudanças, não poderia haver nem a vida, nem os sistemas ecológicos. A civilização é apenas uma das extraordinárias proliferações naturais que dependem do influxo constante da energia concentrada. Se a civilização se tornasse um sistema fechado, pela sua incapacidade de obter e armazenar uma quantidade suficiente de energia de alta utilidade, ela logo se tornaria desordenada, conforme dita a segunda lei. Os ecologistas investigam como a luz está relacionada com os sistemas ecológicos e como a energia é transformada dentro do sistema. Assim, as relações entre vegetais produtores e animais consumidores, entre predador e presa, sem mencionar quantidades e tipos de organismos em um dado ambiente, são todas limitadas e controladas pelo fluxo de energia, de formas concentradas a dispersadas. Os ecologistas interessam-se especialmente em como se transformam o combustível, a energia atômica e outras formas de energia concentrada nas sociedades industriais. Portanto, as mesmas leis básicas que regem os sistemas não vivos, como motores elétricos e automóveis, também regem todos os tipos de ecossistemas. A diferença é que os sistemas vivos utilizam uma parte da sua energia disponível internamente para o autoconserto e para a “expulsão” da desordem, enquanto as máquinas têm de ser consertadas e substituídas com o uso de energia externa. 94 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III Atualmente a Terra está longe de um estado energético estável, porque enormes diferenças de energia potencial e de temperatura são mantidas em razão do influxo contínuo de energia luminosa solar. Contudo, o processo de ir em direção ao estado estável é responsável pela sucessão de mudanças energéticas que constituem fenômenos naturais no planeta. A situação é parecida com a de uma pessoa que aciona um moinho, andando dentro de uma roda vertical: a pessoa nunca chega ao final da roda, mas o esforço para chegar resulta em processos bem-definidos. Assim, quando a energia solar atinge a Terra, ela tende a ser degradada em energia térmica. Somente uma parte muito pequena da energia luminosa absorvida pelas plantas verdes é transformada em energia potencial ou alimentar; a maioria vira calor, o qual logo passa para fora da planta, do ecossistema e da biosfera. O restante do mundo biológico obtém a sua energia química potencial das substâncias orgânicas produzidas pela fotossíntese vegetal ou pela quimiossíntese de micro-organismos. Um animal, por exemplo, consome a energia química potencial do alimento e converte grande parte em calor, para permitir que uma pequena parte da energia seja restabelecida como a energia química potencial de protoplasma novo. A cada passo da transferência de energia de um organismo para outro, grande parte da energia degrada-se em calor. Entretanto, a entropia não é toda negativa. À medida que diminui a quantidade de energia disponível, a qualidade do restante pode ser consideravelmente melhorada. 7.5.2 Qualidade e quantidade de energia A energia tem qualidade, além de quantidade. As calorias não são iguais porque as mesmas quantidades de energia, de formas diferentes, variam amplamente no seu potencial de trabalho. Mede-se a qualidade de energia pela energia usada na transformação, ou, mais especificamente, pela quantidade de um tipo de energia necessária para desenvolver outro tipo, em uma cadeia de transformações energéticas, como numa cadeia alimentar. É a medição da capacidade da fonte de energia de realizar trabalho útil. À medida que a quantidade de energia declina numa cadeia, a qualidade da energia realmente convertida na nova forma aumenta proporcionalmente a cada passo. Em outras palavras, à medida que se degrada a quantidade, eleva-se a qualidade. A qualidade do recurso – ou da energia – é uma consideração tão importante como a quantidade de energia envolvida nas várias cadeias alimentares. Por exemplo, a qualidade do recurso de fotossintato extraído por fungos micorrizas é muito maior do que a do extraído por folhas mortas, em facilidade de assimilação. Consequentemente, as transferências, ao longo do caminho, de micorrizas, são rápidas, e a eficiência de assimilação é alta. É importante observar, também, que todas as cadeias alimentares têm um potencial de retroalimentação, pois os consumidores, muitas vezes, transportam nutrientes e formas disseminantes, ou produzem hormônios que afetam a planta-fonte, frequentemente, de forma benéfica. No caso das micorrizas, esses fungos transportam nutrientes minerais para as raízes da planta, em troca do alimento de alta qualidade obtido dela. Formas altamente concentradas, como o petróleo, apresentam potencial de trabalho maior e, portanto, qualidadesuperior em relação a formas mais diluídas, como a luz solar, que, por sua vez, é de qualidade superior ao calor de baixa temperatura, que está ainda mais dispersado. Mede-se a qualidade 95 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA de energia pela energia usada na transformação, ou, mais especificamente, pela quantidade de um tipo de energia necessário para desenvolver outro tipo, em uma cadeia de transformações energéticas, como uma cadeia alimentar ou uma cadeia de conversões energéticas que levam à geração de eletricidade. Consequentemente, à medida que a quantidade declina em uma cadeia, a qualidade da energia realmente convertida na nova forma aumenta. 7.5.3 Fotossíntese e respiração A fotossíntese é um processo pelo qual as plantas verdes transformam energia radiante ou eletromagnética em energia química. O processo visa, basicamente, fornecer energia para que a planta possa sintetizar carboidratos a partir do dióxido de carbono (CO2). Ao realizar fotossíntese, a maioria dos organismos libera um importante subproduto na atmosfera, o oxigênio (O2). De uma perspectiva humana, a fotossíntese é o processo mais importante que ocorre na Terra. Durante sua ocorrência, plantas, algas e bactérias fotossintetizantes são capazes de “tirar proveito do Sol”, utilizando a energia radiante para converter moléculas simples – dióxido de carbono e água – em moléculas orgânicas complexas que podem ser utilizadas, igualmente, por plantas e animais, como fontes de energia e de moléculas estruturais. Além disso, a fotossíntese libera oxigênio para o ar que respiramos, e é esse oxigênio que exerce papel importante na respiração celular e na síntese de ATP (adenosina trifosfato). Portanto, sem a fotossíntese, plantas e animais, incluindo os seres humanos, ficariam sufocados e passariam fome. A fotossíntese é a via pela qual virtualmente toda a energia entre em nossa biosfera. A cada ano, mais de 250 bilhões de toneladas de açúcar são produzidas, no mundo, pelos organismos fotossintetizantes. A importância da fotossíntese, contudo, estende-se além do peso absoluto desse produto. Sem esse fluxo de energia solar canalizado, principalmente, pelos cloroplastos das células eucarióticas, o ritmo da vida no planeta iria diminuir rapidamente e, então, cessaria quase completamente. 7.5.4 Fotossíntese: perspectiva histórica A importância da fotossíntese na economia da natureza não havia sido reconhecida até um período relativamente recente. Aristóteles e outros gregos, observando que o processo de vida dos animais era dependente dos alimentos consumidos, acreditavam que as plantas obtinham seu alimento diretamente do solo. Há mais de 350 anos, em um dos primeiros experimentos biológicos cuidadosamente planejados, o médico belga Jan Baptist van Helmont (1577-1644) ofereceu a primeira evidência experimental de que o solo, isoladamente, não alimentava as plantas. Ele cultivou uma pequena árvore de salgueiro em um vaso de cerâmica, onde adicionava apenas água. No final de cinco anos, o salgueiro apresentava um ganho de peso de 74,4 quilogramas, enquanto o peso do solo havia diminuído apenas 57 gramas. Com base nesses resultados, van Helmont concluiu que todas as substâncias da planta eram produzidas a partir da água, e não do solo. Entretanto suas conclusões foram amplas demais. 96 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III No final do século XVIII, o cientista e pastor inglês Joseph Priestley (1733-1804) relatou que acidentalmente havia encontrado um método de restaurar o ar que tinha sido prejudicado pela queima de velas. No dia 17 de agosto de 1771, ele colocou um ramo de hortelã (vivo) no ar em que uma vela de cera havia sido queimada e descobriu que, no dia 27 do mesmo mês, outra vela poderia ser acesa no mesmo ar. O agente empregado pela natureza com o propósito restaurador, segundo ele, era a vegetação. Priestley ampliou suas observações e logo demonstrou que o ar “restaurado” pela vegetação não era “totalmente” inconveniente para um camundongo. Seus experimentos ofereceram as primeiras explicações lógicas de como o ar se mantinha “puro” e capaz de dar suporte à vida, apesar da queima de chamas incontáveis e da respiração de muitos animais. Quando ele foi agraciado com uma medalha por sua descoberta, em um trecho de seu discurso afirmava que por essas descobertas podemos assegurar que nenhuma planta cresce em vão, mas limpa e purifica a nossa atmosfera. Hoje poderíamos simplesmente explicar os experimentos de Priestley dizendo que as plantas absorvem o CO2 produzido pela combustão ou liberado pelos animais, e que os animais absorvem o O2 liberado pelas plantas. Pouco tempo depois, o médico holandês Jan Ingenhousz (1730-1799) confirmou os trabalhos de Priestley e demonstrou que o ar era “restaurado” somente na presença da luz do Sol e apenas pelas partes verdes da planta. Em 1796, Ingenhousz sugeriu que o dióxido de carbono é quebrado na fotossíntese para liberar carbono e oxigênio, sendo este liberado sob a forma de gás. Posteriormente, descobriu-se que a proporção de átomos de carbono, hidrogênio e oxigênio nos açúcares e no amido era por volta de um átomo de carbono por molécula de água (CH2O), como indica a palavra “carboidrato”. Portanto, na reação geral da fotossíntese: CO2 + H2O + energia luminosa → (CH2O) + O2 Assumia-se que os carboidratos originavam-se da combinação de moléculas de água e átomos de carbono do dióxido de carbono e que o oxigênio era liberado pelo dióxido de carbono. Essa hipótese, inteiramente plausível, era amplamente aceita, mas foi derrubada. O pesquisador que colocou em dúvida essa teoria foi Cornelius Bernardus van Niel (1897-1985). Ele propôs a seguinte equação genérica para a fotossíntese: CO2 + 2H2A + energia luminosa → (CH2O) + H2O + 2ª Onde A representa uma substância oxidável. Niel propôs que a água – e não o dióxido de carbono – era a fonte de oxigênio na fotossíntese. Em 1937, Robin Hill (1899-1991) demonstrou que, quando expostos à luz, os cloroplastos isolados eram capazes de produzir O2 na ausência de CO2. Essa liberação de O2 dirigida pela luz na ausência de CO2, chamada de reação de Hill, ocorria somente quando os cloroplastos eram iluminados e supridos com um receptor de elétrons artificial. Tal descoberta corroborou, seis anos depois, a proposta de van Niel. 97 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA A evidência mais convincente de que o O2 liberado na fotossíntese era derivado de H2O ocorreu em 1941, quando pesquisadores utilizaram isótopos pesados de oxigênio para seguir o oxigênio da água até a forma gasosa. Por fim, o fisiologista vegetal inglês chamado Frederick Frost Blackman (1866-1947) demonstrou em seus experimentos que a fotossíntese apresenta duas fases: uma dependente da luz e outra não. As muitas reações que ocorrem durante a fotossíntese são divididas em dois processos: reações de transdução de energia e reações de fixação do carbono. Frequentemente as reações de transdução de energia são consideradas luminosas (ou dependentes da luz), em razão da importância da luz nessas reações. Tradicionalmente as reações de fixação do carbono são referidas como de escuro, ou independentes da luz. Os produtos primários da fotossíntese são moléculas de glicídios, principalmente sacarose e amido, que posteriormente podem ser convertidas nos diversos tipos de substâncias de que a planta necessita. A fotossíntese é afetada por diversos fatores, dentre os quais se destacam a temperatura,a concentração de CO2 na atmosfera e a intensidade e o comprimento de onda da luz. Plantas mantidas em condições ideais de luminosidade e de concentração de gás carbônico atmosférico aumentam a taxa fotossintética à medida que sobe a temperatura ambiental até 35o C. A partir desse limite, o aumento de temperatura causa drástica redução não apenas da fotossíntese, mas da maioria das reações vitais. Isso porque as enzimas celulares sofrem desnaturação em temperaturas elevadas. A concentração de gás carbônico no ar atmosférico, cujo volume atualmente oscila entre 0,03% e 0,04%, é bem inferior à quantidade que a planta seria capaz de utilizar na fotossíntese. Isso pode ser demonstrado submetendo-se uma planta a concentrações crescentes de gás carbônico no ar ao seu redor, mantidas as condições ideais de luminosidade e de temperatura. Nessa situação, verifica-se que a taxa de fotossíntese aumenta proporcionalmente à concentração de CO2, até esta atingir 0,3%, cerca de dez vezes a concentração atmosférica normal; a partir daí, o aumento na concentração de CO2 não determina nenhum aumento na taxa de fotossíntese. Portanto, no ambiente natural, em condições ideais de luminosidade e de temperatura, a planta só não realiza a taxa máxima de fotossíntese porque não há gás carbônico suficiente na atmosfera. Diz-se, então, que o CO2 atua como fator limitante do processo de fotossíntese. Em condições ideais de temperatura e concentração de gás carbônico atmosférico, a taxa de fotossíntese cresce proporcionalmente ao aumento de luminosidade, até atingir certo valor-limite, chamado de ponto de saturação luminosa (ou ponto de saturação fótica). Este corresponde a uma intensidade a partir da qual a taxa de fotossíntese deixa de aumentar. O comprimento de onda das radiações luminosas é um fator importante na fotossíntese, pois a eficiência do processo depende da absorção de luz pela clorofila. Esse pigmento absorve luz com mais eficiência nos comprimentos de onda correspondentes ao azul, ao violeta e ao vermelho. 98 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III 0 10 2 4 6 8 10 20 30 40 50 Temperatura (ºC) Intensidade luminosa alta Intensidade luminosa baixa Ta xa re la tiv a de fo to ss ín te se 0 400 500 600 700500 2 4 6 8 10 1.000 1.500 2.000 2.500 Intensidade luminosa (lux) Comprimento de onda da luz (nm) Ta xa re la tiv a de fo to ss ín te se PSL Picos de absorção de luz pela clorofila GranaCloroplasto Luz Luz refletida Luz refletida Luz Absorvida Luz refletida Figura 48 – À esquerda, gráficos que mostram o efeito do aumento da temperatura (A) e da intensidade luminosa (B) sobre a fotossíntese. (C): representação esquemática dos comprimentos de onda mais absorvidos pela clorofila. As cores de luz mais absorvidas são azul e vermelho, e a menos absorvida e, portanto, mais refletida é a luz de cor verde. O gráfico, na parte inferior do esquema, é denominado curva ou espectro de absorção de luz pela clorofila e mostra as quantidades relativas de energia absorvida em cada comprimento de onda A planta utiliza parte dos produtos da fotossíntese como fonte de energia para o funcionamento de suas células. Isso ocorre por meio da respiração celular, processo bioquímico em que moléculas orgânicas e de oxigênio se combinam, originando gás carbônico, água e energia. Assim, as equações gerais da respiração e da fotossíntese são inversas: Fotossíntese: CO2 + 2H2O → C(H2O) + O2 + H2O Respiração: C(H2O) + O2 → CO2 + H2O Durante o dia, a planta faz fotossíntese, consumindo gás carbônico e produzindo oxigênio, cuja maior parte é eliminada para a atmosfera através dos estômatos. Ao mesmo tempo que faz fotossíntese, a planta respira; nesse processo, utiliza parte do oxigênio produzido na fotossíntese. Ao respirar, a planta libera gás carbônico, que é imediatamente utilizado para a fotossíntese. À noite, ela deixa de fazer fotossíntese, mas não de respirar, absorvendo o oxigênio acumulado no mesófilo e produzindo gás carbônico pela respiração. Esse gás é rapidamente consumido na fotossíntese, logo que amanhece. Sob determinada intensidade luminosa, as taxas de fotossíntese e de respiração se equivalem, por isso a planta não realiza trocas gasosas com o ambiente. Todo o oxigênio liberado na fotossíntese é 99 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA utilizado na respiração, e todo o gás carbônico produzido na respiração é utilizado na fotossíntese. A intensidade luminosa em que isso ocorre é chamada de ponto de compensação luminosa (ou ponto de compensação fótica). 6 6 4 4 2 2 0 2 4 6 Intensidade luminosa Ponto de saturação luminosa Taxa de fotossíntese Qu an tid ad e de C O 2 co ns um id a na fo to ss ín te se Quantidade de CO 2 consum ida na fotossíntese Taxa de respiração Ponto de compensação luminosa (fótico) Figura 49 – Gráfico que representa o efeito da luminosidade sobre as taxas de fotossíntese e respiração em uma planta Para poder crescer, as plantas precisam receber, pelo menos algumas horas por dia, a intensidade de luz superior ao seu ponto de compensação luminosa; caso contrário, não haverá matéria orgânica disponível para o crescimento. O ponto de compensação luminosa varia nas diferentes plantas. Espécies com pontos de compensação elevados só conseguem viver em locais de alta luminosidade, sendo, por isso, chamadas de plantas heliófilas ou plantas de sol. Espécies com pontos de saturação de compensação luminosa baixos necessitam de intensidades menores de luz e vivem em ambientes sombreados, sendo chamadas de plantas umbrófilas ou plantas de sombra. A respeito de pigmentos clorofila A e B: Há diversos tipos de clorofila que diferem entre si nos detalhes da sua estrutura molecular e nas suas propriedades específicas de absorção. A clorofila A ocorre em todos os eucariontes fotossintetizantes e nas cianobactérias. Não surpreendentemente, a clorofila A é essencial para a produção de oxigênio pela fotossíntese realizada pelos organismos desses 100 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III grupos. As plantas, algas verdes e euglenas também contêm o pigmento clorofila B, o qual tem um espectro de absorção ligeiramente diferente da clorofila A. A clorofila B é um pigmento acessório, que não está diretamente envolvido na transdução de energia na fotossíntese, mas serve para ampliar a faixa de luz que pode ser usada na fotossíntese. Quando uma molécula de clorofila B absorve luz, a energia é transferida para a molécula de clorofila A, que então a transforma em energia química durante a fotossíntese. Nas folhas da maioria das plantas verdes, a clorofila A geralmente representa ¾ do conteúdo total de clorofilas, e a clorofila B constitui o restante (RAVEN; EVERT; EICHHORN, 2001). 7.5.5 Energia, dinheiro e civilização A história da civilização está intimamente ligada às fontes energéticas disponíveis. Caçadores e coletores viviam como partes de cadeias alimentares naturais em ecossistemas de energia solar, atingindo as suas maiores densidades em sistemas com subsídios naturais, em locais litorâneos e ribeirinhos. Com o desenvolvimento da agricultura e da aquacultura, a capacidade de suporte aumentou muito, à medida que os seres humanos tornavam-se mais hábeis em cultivar plantas e domesticar animais, bem como em subsidiara produção primária comestível. Durante muitos séculos, a lenha e outras formas de biomassa forneciam a principal fonte de energia; as grandes pirâmides, catedrais, cidades e fazendas foram construídas com a potência muscular animal e a humana, movida a biomassa combustível, em grande parte, por escravos. Esse longo período pode ser chamado de Idade da Potência Muscular. Atualmente estamos vivendo no período dos combustíveis fósseis, proporcionando à população mundial a possibilidade de dobrar seu consumo, aproximadamente, a cada cinquenta anos. “Máquinas serventes” movidas a gasolina ou eletricidade, têm substituído, pouco a pouco, o trabalho animal e o humano (pelo menos nos países desenvolvidos). Até pouco tempo atrás, parecia provável que, à medida que escasseassem os combustíveis fósseis, a terceira idade da humanidade seria a da energia atômica. No entanto, a eliminação da desordem associada a essa fonte tem dado problemas até agora, sendo o seu futuro imprevisível. Ao se considerarem as fontes potenciais, é preciso lembrar que, sem exceção, a energia tem de ser gasta para se desenvolver e manter um fluxo de energia aproveitável a partir de uma fonte. Consequentemente, as melhores fontes são aquelas que prometem a maior produção líquida de energia, ou seja, a maior quantidade de energia disponível para o trabalho, depois de pagos os necessários custos energéticos. A adequação da qualidade da fonte e o uso são a segunda consideração importante. O dinheiro tornou-se força importante na civilização; representa um fluxo em sentido oposto ao fluxo energético, pois sai das cidades e fazendas em troca da energia e dos recursos que entram. Ao contrário da energia, porém, o dinheiro circula. Na teoria, pelo menos, pode ser convertido em unidades de energia corrigidas segundo a qualidade (por exemplo, calorias), a fim de se estabelecer um valor monetário para os bens e serviços da natureza. Uma limitação dos sistemas econômicos atuais, de qualquer ideologia política, está nos que lidam principalmente com bens e serviços produzidos pelo homem, deixando 101 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA sem preço e subvalorizados (isto é, externos ao sistema monetário) os igualmente importantes bens e serviços naturais que sustentam a vida na Terra. De modo geral, ecologistas e economistas concordam que é urgente a abolição das diferenças entre valores do mercado e valores que não são do mercado (ou corrigir-se, em outras palavras, a falha do mercado no que se refere aos bens e serviços da natureza), pois cada um desses dois conjuntos de valores depende do outro. 8 PRODUTIVIDADE E CICLOS BIOGEOQUÍMICOS 8.1 Produtividade A luz do Sol é a fonte de energia, em última instância, da maior parte do que é orgânico, incluindo as necessidades de energia da sociedade humana. Os combustíveis fósseis, tais como o óleo e o carvão, originam-se dos restos de organismos acumulados em milhões de anos como depósitos de matéria orgânica na crosta terrestre. A luz do Sol determina as correntes de ar, que cada vez mais coletamos como energia eólica, e evapora a água, que, por fim, cai como chuva e enche os rios que represamos para obter energia hidrelétrica. Sem a energia do Sol, os sistemas biológicos não existiriam como nós os conhecemos, nem nós existiríamos para saber de sua inexistência. As plantas, as algas e algumas bactérias capturam a energia luminosa e a transformam em energia de ligações químicas – e em carboidratos – pela fotossíntese. Esse processo de assimilação de energia, que subjaz todas as funções ecossistêmicas, é denominado de produção primária. Sem a produção primária praticamente nada do que chamamos de vida existiria. Denominamos de produtividade a quantidade de matéria orgânica produzida num determinado período (geralmente um ano) por uma comunidade, uma população ou um ecossistema. Temos a produção primária, a produção secundária etc. 8.1.1 Produtividade primária bruta e produtividade primária líquida – PPB e PPL Quase 99% de toda a biomassa terrestre são constituídos de plantas. A fotossíntese é o processo de transformação de energia solar em energia química. As plantas respiram; então, parte da energia obtida é gasta na respiração. A taxa em que produtores de um ecossistema convertem energia solar em energia química na forma de biomassa é a produtividade primária bruta (PPB). Para permanecerem vivos, crescerem e se reproduzirem, os produtores de um ecossistema devem utilizar, em sua própria respiração, parte da biomassa que produzem. A produtividade primária líquida (PPL) é a taxa na qual os produtores utilizam a fotossíntese para armazenar energia menos a taxa de utilização da energia armazenada por meio da respiração aeróbica. Em outras palavras: PPL = PPB - R, Onde R significa a energia utilizada na respiração. 102 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III A PPL mede a velocidade na qual os produtores podem fornecer o alimento de que os demais organismos (consumidores) necessitam. Observe a distinção entre a produtividade primária bruta e a produtividade primária líquida. A planta utiliza parte de sua PPB para sobreviver, na sua própria respiração. A energia remanescente fica disponível aos consumidores. Fotossíntese Crescimento e reprodução Respiração Produção primária bruta Energia perdida e não disponível aos consumidores Produção primária líquida (energia disponível para os consumidores) Figura 50 – Esquema representativo da produção realizada pelas plantas, mostrando a fotossíntese, a produção primária bruta, a respiração e a produção primária líquida Os produtores são a fonte de todo alimento no ecossistema. Apenas a biomassa representada pela PPL está disponível em forma de alimento para os consumidores, que utilizam somente parte dessa quantidade. Consequentemente, a PPL da Terra acaba por limitar o número de consumidores que podem sobreviver no planeta. As plantas e outros autótrofos fotossintéticos formam a base da maior parte das cadeias alimentares e são, portanto, denominados produtores primários do ecossistema. Os ecólogos estão interessados na taxa de produção primária (denominada de produtividade primária), porque ela determina a energia total disponível para o ecossistema. Como foi mencionado, a energia total assimilada pela fotossíntese representa a podução primária bruta. As plantas usam parte dessa energia para se manter e manter suas necessidades metabólicas por meio da respiração. Em consequência, a biomassa das plantas contém muito menos energia do que a energia total assimilada. A energia acumulada na biomassa das plantas e, assim, disponível aos consumidores é denominada de produção primária líquida. A produção primária varia com a latitude. A combinação favorável de intensidade solar, temperaturas altas, chuvas abundantes e muitos nutrientes na maior parte dos trópicos úmidos resulta na mais alta produtividade da Terra. Nos ecossistemas temperados e polares, as baixas temperaturas e as longas noites de inverno reduzem a produção. 103 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA 8.1.2 Pirâmides ecológicas A massa total de matéria orgânica contida em um ser vivo (ou em um conjunto de seres vivos) é a sua biomassa. A quantidade de biomassa é diretamente proporcional à quantidade de energia química potencial disponível nas moléculas orgânicas. Assim, a biomassa de cada nível trófico em uma cadeia ou teia alimentar pode ser representada por gráficos em formade pirâmides chamados de pirâmides de energia. Nesse tipo de gráfico, a base corresponde ao nível trófico dos produtores, e, em sequência, rumo ao ápice, são representados os níveis dos consumidores primários, dos consumidores secundários e assim por diante. A largura de cada nível no gráfico representa a quantidade de energia disponível para o nível trófico seguinte. C2 C1 P Nível dos consumidores primários (C1) Nível dos consumidores secundários (C2) Nível dos produtores (P) 8,3 kcal A B 1.190 kcal 14.900 kcal Figura 51 – Uma pirâmide de energia mostra a quantidade de energia química potencial disponível em cada nível trófico de um ecossistema. As representações podem ser tanto planas quanto tridimensionais Outro tipo de representação gráfica denominada pirâmide de números é utilizado para indicar a quantidade de indivíduos existentes em cada nível trófico de uma cadeia alimentar. Por exemplo, na cadeia formada por capim, gafanhotos e sapos, uma pirâmide de números mostra a quantidade de plantas que constituem o nível dos produtores, a quantidade de gafanhotos no nível dos consumidores primários e a quantidade de sapos no nível dos consumidores secundários. Eventualmente, se houver apenas um produtor de grande porte (uma árvore, por exemplo) e muitos consumidores secundários (lagartas de borboletas, por exemplo), o gráfico não terá formato de pirâmide, apesar de receber essa denominação. 104 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III C2 C1 P C2 C1 P A B 700 gafanhotos 700 lagartas Consumidor secundário Consumidor secundário Consumidor primário Consumidor primário ProdutorProdutor 1 árvore 20 pássaros 5.000 plantas de capim 30 sapos Figura 52 – Representação esquemática, sem escala, de duas cadeias alimentares com as correspondentes pirâmides de números. A) A forma típica de pirâmide, com base larga e ápice estreito, representa cadeias alimentares nas quais os produtores são plantas pequenas (capim, por exemplo) e os herbívoros e predadores são relativamente grandes. B) No gráfico representativo de cadeias alimentares em que os produtores são de grande porte (uma árvore, por exemplo) e os herbívoros são relativamente pequenos (lagartas, por exemplo), a base do gráfico é reduzida e não apresenta forma de pirâmide 8.1.3 Cadeias de decomposição: saprótrofos, decompositores e detritívoros Quando as plantas e os animais morrem, seus corpos tornam-se recursos para outros organismos. Naturalmente, em certo sentido, a maioria dos consumidores vive de matéria morta – o carnívoro captura e mata sua presa, e a folha viva apreendida por um herbívoro está morta no momento em que a digestão se inicia. Os herbívoros, os carnívoros e os parasitos se distinguem de forma decisiva dos organismos decompositores e detritívoros por afetarem diretamente a taxa com que seus recursos são produzidos. Seja um leão devorando uma gazela, uma gazela comendo ervas ou as ervas parasitadas por fungos causadores de ferrugem, a ação de capturar o recurso prejudica sua capacidade de gerar novos recursos (mais gazelas ou mais folhas de ervas). Diferentemente desses grupos, os saprótrofos (organismos que utilizam matéria orgânica morta) não controlam a taxa com que seus recursos se tornam disponíveis ou se regeneram; eles dependem da taxa com que alguma outra força (senescência, doença, luta, queda das folhas das árvores) libera o recurso do qual vivem. 105 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA Distinguem-se dois grupos de saprótrofos: decompositores (bactérias e fungos) e detritívoros (animais consumidores de matéria morta). A decomposição envolve a liberação de energia e a mineralização de nutrientes químicos – conversão de elementos da forma orgânica para a inorgânica. A decomposição, definida como a desintegração gradual da matéria orgânica morta, é realizada por agentes físicos e biológicos. Culmina com a ruptura das moléculas complexas, ricas em energia, por parte de seus consumidores (decompositores e detritívoros), resultando em dióxido de carbono, água e nutrientes inorgânicos. Não só os corpos mortos de animais e plantas servem de recurso para os decompositores e detritívoros. A matéria orgânica morta é produzida continuamente durante a vida dos animais e das plantas, podendo constituir um recurso importante. Os organismos unitários se desprendem de partes mortas à medida que se desenvolvem e crescem – por exemplo, as películas das larvas de artrópodes, a pele das serpentes, a pele, a pelugem, as penas e os chifres de outros vertebrados etc. Entre os fungos, encontram-se especialistas de penas e de chifres, e existem artrópodes que se especializam em pele desprendida. A pele humana é um recurso para os ácaros domésticos, que são habitantes onipresentes da poeira das casas, causando problemas a muitas pessoas alérgicas. O desprendimento contínuo de partes mortas é característico de organismos modulares. Alguns pólipos de uma colônia de hidroides ou de corais morrem e se decompõem, e outras partes deles continuam regenerando novos pólipos. A maioria das plantas perde as folhas velhas e forma novas; a queda sazonal da serrapilheira sobre o chão da floresta é a mais importante de todas as fontes de recursos para decompositores e detritívoros, mas os produtores não morrem nesse processo. Nas raízes das plantas superiores também há desprendimento contínuo das coifas e das células corticais, à medida que esses órgãos crescem no interior do solo. Essa oferta de matéria orgânica a partir das raízes produz a rizosfera, muito rica em recursos. Os tecidos dos vegetais, em geral, são permeáveis, de modo que açúcares e compostos nitrogenados solúveis também se tornam disponíveis na superfície das folhas, sustentando o crescimento de bactérias e fungos. Por fim, as fezes dos animais, sejam elas produzidas por detritívoros, herbívoros, carnívoros ou parasitos, constituem outra categoria de recursos para decompositores e detritívoros. São formadas por de matéria orgânica morta, quimicamente relacionada com o alimento dos seus produtores. 8.1.3.1 Decompositores: bactérias e fungos Caso os detritívoros não removam um recurso imediatamente após a sua morte (como as hienas consumindo uma zebra morta), o processo de decomposição costuma iniciar-se com a colonização por bactérias e fungos. Ao mesmo tempo, há possibilidade de ocorrer outras mudanças: as enzimas dos tecidos mortos podem começar a autólise e decompor os carboidratos e as proteínas até formas mais simples e solúveis. A matéria morta também pode ser lixiviada (carregada) pela chuva ou, em ambientes aquáticos, perder minerais e compostos orgânicos solúveis, à medida que estes forem dissolvidos na água. As bactérias e os esporos dos fungos são onipresentes no ar e na água e, em geral, estão presentes sobre a matéria (e, com frequência, no interior dela), mesmo antes que esteja morta. Costumam ser os primeiros a ter acesso a um recurso. Esses colonizadores iniciais tendem a usar materiais solúveis, em 106 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III especial, aminoácidos e açúcares que se difundem livremente. Carecem do rol de enzimas necessárias para digerir matérias estruturais, como a celulose, a lignina, a quitina e a queratina. Muitas espécies de Penicillum, Mucor e Rhizopus, os chamados fungos do açúcar, no solo, crescem com rapidez nas fases iniciais da decomposição. Juntamente com as bactérias que possuemfisiologias oportunistas semelhantes, eles tendem a apresentar explosões populacionais sobre os substratos mortos recentemente. À medida que os recursos livres disponíveis são consumidos, essas populações entram em colapso, deixando densidades muito altas de estágios residuais, a partir dos quais podem ocorrer novas explosões populacionais, tão logo se torne disponível outro recurso recém-morto. Figura 53 – Os fungos são decompositores eficazes. Os cogumelos produzidos pelo fungo moita-de-enxofre (Hypholoma fasciculare), na Bélgica, são corpos de frutificação produzidos pelas invisíveis e muito maiores massas de hifas filamentosas que penetram na madeira em decomposição e nas folhas da serrapilheira Observação Alguns grupos de fungos agem como decompositores, outros, por exemplo, são comestíveis, como o conhecido champignon. 8.1.3.2 Detritívoros: animais que se alimentam de matéria orgânica morta Frutos caídos, por exemplo, são facilmente explorados por muitos tipos de consumidores oportunistas, incluindo aves, insetos e mamíferos. Porém, como todos os detritos, os frutos em decomposição têm uma microflora associada, nesse caso, dominada principalmente por leveduras. As moscas-das-frutas (Drosophila sp.) se especializam em alimentos dessas leveduras e em seus subprodutos. Tem-se, então, de acordo com estudos realizados na Austrália, drosófilas com preferências por determinadas categorias de frutas e hortaliças em decomposição. Exemplos: Drosophila hydei e D. immigrans preferem melões; D. busckii é especializada em hortaliças em decomposição; e D. simulans consome uma variedade de frutos. Uma grande proporção da matéria orgânica morta nos solos e em sedimentos aquáticos provavelmente consista em fezes de invertebrados, que os detritívoros costumam incluir em suas 107 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA dietas. Em alguns casos, pode ocorrer, inclusive, a reingestão das próprias fezes, ou seja, o detritívoro ingere suas próprias fezes como recurso alimentar. Esse fato recebe o nome de coprofagia. 8.2 Ciclos biogeoquímicos A forma mais simples de visualizar um ciclo biogeoquímico é estabelecer um fluxograma, no qual os compartimentos representam os locais em que um elemento químico é armazenado (denominados compartimentos de armazenamento ou pools) e as setas representam as trajetórias de transferências. A taxa de transferência ou o fluxo é a quantidade, por unidade de tempo, em que um elemento químico entra ou sai de um compartimento de armazenamento. Quando um elemento químico migra de um compartimento de armazenamento para outro, costuma-se dizer que o compartimento receptor é um depósito. Por exemplo, as florestas (que são compartimentos de armazenamento de carbono) podem funcionar como um depósito de carbono proveniente da atmosfera, sequestrando e armazenando o carbono na madeira, nas folhas e nas raízes. A quantidade de carbono transferida da atmosfera para as florestas em escala espacial global é o fluxo, que pode ser mensurado em unidades, como os bilhões de toneladas de carbono por ano. A Atmosfera Lago Solo B (a) (b) A B C Fluxo de B para A Fluxo de A para B Evaporação Fluxo de B para A Precipitação Fluxo de A para B Fluxo de B para C Fluxo de C para B Escoamento superficial Figura 54 – Partes básicas de um ciclo bioquímico. a) A e B são compartimentos de armazenamento. Os elementos químicos fluem de um compartimento para outro. b) Alguns componentes do ciclo hidrológico Um ciclo biogeoquímico é geralmente esquematizado para um único elemento químico; porém, por vezes, é também esquematizado para um composto – por exemplo, a água (H2O). A primeira questão a ser observada em ciclos biogeoquímicos refere-se à necessidade de elementos químicos para a vida e aos limites impostos por esses elementos químicos. Todos os seres vivos são feitos de elementos químicos; porém, dos 103 elementos conhecidos, somente 24 são necessários para o processo de vida. Esses 24 elementos estão divididos em macronutrientes, elementos necessários em grandes quantidades para todas as formas de vida, e micronutrientes, elementos igualmente necessários, mas em menores quantidades, para algumas espécies de vida. 108 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III Os macronutrientes, por sua vez, incluem os seis principais elementos que formam os tijolos fundamentais para a existência de vida: o carbono, o hidrogênio, o nitrogênio, o oxigênio, o fósforo e o enxofre. Cada um deles exerce papel especial nos organismos. O carbono é o tijolo básico dos compostos orgânicos. Juntamente com o oxigênio e o hidrogênio, o carbono forma os carboidratos. O nitrogênio, com esses três outros componentes, forma as proteínas. O fósforo é o elemento energético que ocorre nos compostos chamados ATP e ADP, fundamentais na transferência e na utilização da energia no interior das células. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 1 2 3 4 5 6 7 Grupo Lantanídeos Actinídeos Pe río do Figura 55 – Tabela periódica dos elementos químicos Somando-se aos seis principais elementos, outros macronutrientes também exercem papéis importantes. O cálcio, por exemplo, é o elemento estrutural, presente nos ossos dos vertebrados, nas conchas ou nos crustáceos, bem como nas paredes das células de árvores em formação. O sódio e o potássio são importantes na transmissão de sinais pelo sistema nervoso. Inúmeros metais necessários para os organismos vivos são requeridos por enzimas específicas. Para que haja sobrevida, os elementos químicos devem estar disponíveis nos momentos certos, em quantidades adequadas e em corretas concentrações em relação uns aos outros. Os elementos químicos podem também ser tóxicos para algumas formas de vida ou ecossistemas. O mercúrio, por exemplo, é tóxico mesmo em baixas concentrações. O cobre e muitos outros elementos são necessários em baixas concentrações para os processos de vida, porém são tóxicos quando presentes em concentrações elevadas. Durante todos os 4,6 bilhões de anos da história da Terra, as rochas e os solos têm sido continuamente criados, mantidos, transformados e destruídos por processos físicos, químicos e biológicos. Coletivamente, os processos responsáveis pela formação e pela transformação dos materiais da Terra são denominados ciclos geológicos. O ciclo geológico é descrito de forma mais eficaz como um grupo de ciclos: tectônico, hidrológico, da camada rochosa e biogeoquímico. 109 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA • Ciclo tectônico: envolve a criação e a destruição da camada sólida externa da Terra, a litosfera, que possui uma espessura de cerca de 100 km e é subdividida em vários grandes segmentos denominados placas, que se movimentam em relação aos outros. • Ciclo hidrológico: é a movimentação da água dos oceanos para a atmosfera e para os continentes e de volta para os oceanos. É um ciclo impulsionado pela energia solar, que provoca as evaporações. • Ciclo das rochas: consiste em vários processos que produzem as rochas e os solos. Depende do ciclo tectônico, pela energia, e do ciclo hidrológico, pela água. • Ciclo biogeoquímico: em um ecossistema, os ciclos químicos iniciam-se com estímulos (inputs) externos. No solo, estímulos químicos em um ecossistema vêm da atmosfera, por meio das chuvas, da areia transportada pelo vento e das cinzas vulcânicasdecorrentes de erupções e do solo contíguo, bem como de fluxos de ribeirões, das inundações e das águas subterrâneas de mananciais. Ciclo hidrológico Ciclo biogeoquímico Ciclo das rochas Ciclo tectônico Metamorfi smo Crosta oce ânica Cr os ta co nt in en ta l Aq ue im en to e fu sã o Erupção H2O H2O Dorsal oceânica Limites entre placas divergentes (Expansão do fundo oceânico) Limite de placa convergente (zona de subducção) Erosão e intemperismo Depósito de sedimentosLitificação Figura 56 – Diagrama idealizado do ciclo geológico, incluindo os ciclos tectônico, hidrológico, das rochas e o biogeoquímico 110 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III 8.2.1 Ciclo do nitrogênio O nitrogênio é essencial para a vida, porque é necessário para a produção das proteínas e do DNA. O nitrogênio livre (N2 não combinado com nenhum outro elemento químico) constitui aproximadamente 80% do ar atmosférico. Entretanto, muitos organismos não podem utilizar diretamente esse nitrogênio. Alguns, como os animais, necessitam de nitrogênio em um composto orgânico. Outros, incluindo as plantas, as algas e as bactérias, podem absorver nitrogênio mesmo na forma de íons de nitrato (NO3 -) ou íons de amônia (NO4). Pelo fato de o nitrogênio ser um elemento químico não reativo, poucos processos convertem o nitrogênio molecular em um desses compostos. A luz o oxida produzindo o óxido nítrico. Na natureza, todas as outras formas de conversão do nitrogênio molecular para formas biológicas utilizáveis são realizadas por bactérias. O ciclo do nitrogênio é um dos mais importantes e mais complexos ciclos globais. O processo de conversão inorgânica do nitrogênio molecular, na atmosfera, para amônia ou nitrato é denominado fixação de nitrogênio. Uma vez nessas formas, o nitrogênio pode ser utilizado pelas plantas, nos continentes, e pelas algas, nos oceanos. Por meio de reações químicas, bactérias, plantas e algas podem converter esses compostos de nitrogênio inorgânicos em orgânicos; assim, o nitrogênio torna-se disponível para a cadeia alimentar ecológica. Quando os organismos morrem, outras bactérias convertem os compostos orgânicos contendo nitrogênio de volta em amônia, nitrato ou nitrogênio molecular, que retornam para a atmosfera. O processo que libera o nitrogênio fixo de volta para a forma de nitrogênio molecular é chamado de desnitrificação. Quase todos os organismos dependem do nitrogênio convertido pelas bactérias. Alguns organismos desenvolveram relações simbióticas com essas bactérias. Por exemplo, as raízes da família das ervilhas possuem nódulos que fornecem um habitat para as bactérias. Estas recebem compostos orgânicos para se alimentarem a partir das plantas, e, por sua vez, as plantas obtêm nitrogênio utilizável. Tais plantas podem crescer de outra forma em ambientes pobres em nitrogênio. Quando morrem, continuam fornecendo ao solo matéria orgânica rica em nitrogênio, contribuindo, desse modo, para a fertilidade do solo. As árvores de amieiros (Alnus glutinosa), igualmente, fazem a fixação do nitrogênio por meio de bactérias simbiontes (que mantêm relações simbióticas) em suas raízes. Essas árvores crescem ao longo de ribeirões, e suas folhas ricas em nitrogênio caem dentro da água desses ribeirões, aumentando o fornecimento de elementos químicos de maneira biologicamente aproveitável para os organismos existentes. As bactérias que fixam o nitrogênio são também simbiontes no estômago de alguns animais, particularmente, nos ruminantes. Esses animais, que incluem búfalos, vacas, cervídeos, alces e girafas, têm um peculiar estômago com quatro câmaras. As bactérias fornecem mais da metade do total de nitrogênio necessário para os animais, sendo o restante fornecido pelas proteínas existentes nas plantas que eles comem. No que se refere à disponibilidade para a vida, o nitrogênio se enquadra em algum lugar entre o carbono e o fósforo. Assim como o carbono, o nitrogênio tem uma fase gasosa e é o principal componente da atmosfera terrestre. No entanto, ao contrário do carbono, não é muito reativo, 111 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA e a sua conversão depende fundamentalmente da atividade biológica. Dessa forma, o ciclo do nitrogênio é não apenas essencial para a vida, mas também impulsionado por ela. No início do século XX, descobriu-se que processos industriais poderiam converter as moléculas de nitrogênio em compostos necessários para as plantas. Isso aumentou fortemente a disponibilidade de nitrogênio para fertilizantes. Atualmente a fixação industrial do nitrogênio é a maior fonte comercial de fertilizantes à base desse elemento. A quantidade fixada industrialmente é cerca de 50% da fixada na biosfera. O nitrogênio presente no escoamento superficial proveniente do uso na agricultura é um poluidor potencial da água. Esse elemento se combina com o oxigênio em atmosferas de alta temperatura. Como um dos resultados, inúmeros processos industriais modernos de combustão produzem óxido de nitrogênio. Tais processos incluem a queima de combustíveis fósseis em motores movidos a diesel e a gasolina. Assim, o óxido de nitrogênio, que é um poluente do ar, é, indiretamente, resultado da atividade industrial e da tecnologia moderna. O óxido de nitrogênio desempenha papel significativo na poluição urbana. Em síntese, os compostos de nitrogênio são ora benéficos, ora prejudiciais para a sociedade e para o meio ambiente. O nitrogênio é necessário a todas as formas de vida, e seus compostos são utilizados em vários processos tecnológicos e na agricultura. Porém, é também uma fonte de poluição do ar e da água. Plantas terrestres 3500 Solo orgânico – N 9500 Atividades antrópicas Fixação industrial 100 20 Atmosfera 4.000.000.000 Desnitrificação 110 Desnitrificação (por bactérias) NO3 – ou NO2 – → N2 Nitrogênio fixado → Nitrogênio molecular NO2 → NH3 Nitrogênio molecular → AmôniaDesnitrificação ≤ 200 Fixação do nitrogênio (por bactérias) Fixação por relâmpagos < 3 Fixação do nitrogênio (por bactérias) Fixação biológica 140 Fixação biológica 30 Ciclagem internaCiclagem interna 1200 Erosão do solo, escoamento superficial e fluxo dos rios 36 Oceanos 50 Enterrados em sedimentos marinhos 10 8000 Maresia 15 Figura 57 – O ciclo global do nitrogênio. Os números nos retângulos indicam as quantidades armazenadas, e os números com setas indicam o fluxo anual em 1012 g de N2. Deve-se notar que a fixação industrial do nitrogênio é quase igual à fixação biológica global 112 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III Descargas elétricas 20 Solo 1200 Organismos ? Fixação na terra 140 Fixação nos oceanos 30 Desnitrificação em terra 130 Desnitrificação no oceano 110 Troca oceano/atmosfera 50 Reciclagem marinha 6000 Ecoamento superficial 36 Fontes humanas (indústrias automóveis) 90 Enterrando nos sedimentos 10 Atmosfera sobre terra Atmosfera sobre oceanos Nitrogênio orgânico Mais reduzido Mais oxidado Amonificação Desnitrificação por Pseudomonas Redução assimilativa de nitrogênio Redução consumidora de energia Oxidações aeróbicas produtoras de energia Reações de redução anaeróbicas acopladas com oxidações produtoras de energia Nitrito (NO2 –) NO Óxido nitroso(N2O) Nitrogênio molecular (N2) Nitrato (NO3 –) Amônio (NH4 +) Nitrificação por Nitrosomona, Nitrosococcus Fixação de nitrogênio por cianobactérias Rhizobium, Azotobacter Nitrificação por Nitrobacter, Nitrosococcus Figura 58 – O nitrogênio assume diversos estados de oxidação diferentes à medida que recicla através dos ecossistemas. Os tamanhos estimados dos compartimentos (caixas escuras) e das transferências entre os compartimentos (caixas claras) são expressos em gigatoneladas (Gt) e Gt/ano, respectivamente 8.2.2 Ciclo do fósforo O fósforo, um dos seis principais elementos químicos necessários em grandes quantidades a todas as formas de vida, é, com frequência, um nutriente limitante para o crescimento das algas e das plantas. No entanto, se for muito abundante, poderá causar problemas ambientais. Ao contrário do carbono e do nitrogênio, o fósforo não possui fase gasosa na Terra. Por isso, o ciclo do fósforo é significativamente diferente do apresentado pelos demais elementos. Sua taxa de transferência no sistema terrestre é lenta quando comparada às do carbono e do nitrogênio; está presente na atmosfera somente em pequenas partículas de poeira. Além disso, o fósforo tende a formar compostos que são 113 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA relativamente insolúveis em água e, como consequência, não é quimicamente alterado de forma rápida. Ocorre comumente no estado oxidado de fosfato, que se combina com cálcio, potássio, magnésio e ferro para formar os minerais. O fósforo entra na biota por meio de sua absorção como fosfato por plantas, algas e algumas bactérias. Em um ecossistema relativamente estável, boa parte do fósforo absorvido pela vegetação é devolvida ao solo quando as plantas morrem. Apesar disso, parte dele é inevitavelmente perdida para os ecossistemas. Esse elemento é transportado pelos rios em direção aos oceanos, na forma solúvel em água ou como partículas em suspensão. Resíduos industriais Do solo para a água doce Biota continental Os números em representam quantidades armazenadas em milhões de toneladas (1012g) Os números em representam fluxos em milhões de toneladas (1018g) por ano 4000 100 10 Jazídas exploráveis 10.000 a 60.000 10 50200 100.000 1000 100.000.000 1000 0,1 0,01 20 2 200 13 20.000.000.000 Fertilizantes Solos Rochas Crosta terrestre Oceano Pesca comercial Biota marítima Sedimentos oceânicos Água doce Ilhas Pássaros que excretam o guano Figura 59 – O ciclo global do fósforo, que é reciclado no solo pela biota nos continentes, por meio dos processos geológicos que expõem as rochas ao intemperismo; pelos pássaros, que produzem o guano; e pelos seres humanos. Ainda que a crosta terrestre possua grande quantidade de fósforo, somente uma parte reduzida dele pode ser extraída pela mineração, utilizando-se de métodos convencionais. Portanto, o fósforo é um recurso de cada produção. Os valores da quantidade armazenada ou em movimento (em fluxo) estão compilados por várias fontes. Estimativas são aproximadas, na ordem da magnitude Uma forma importante pela qual o fósforo ressurge dos oceanos para os continentes envolve a alimentação de pássaros nos oceanos, como no caso dos pelicanos chilenos. Esses pássaros se alimentam de peixes pequenos, particularmente de anchovas, as quais, por sua vez, alimentam-se de minúsculos plânctons oceânicos. Os plânctons oceânicos se proliferam onde os nutrientes, como o fósforo, estão presentes. Regiões oceânicas com correntes ascendentes, conhecidas como ressurgências (ou afloramentos), carregam os nutrientes, incluindo o fósforo, de regiões oceânicas abissais para a superfície. Ressurgências ocorrem próximo aos continentes, em que os ventos predominantes sopram das regiões litorâneas para os oceanos, conduzindo as águas superficiais para longe da costa, permitindo que águas profundas aflorem e substituam aquelas inicialmente deslocadas; transportam muitos nutrientes, incluindo o fósforo, das grandes profundidades dos oceanos até a superfície. 114 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III Os pássaros que se alimentam de peixes se reproduzem e constroem os seus ninhos em ilhas distantes da costa, onde estão protegidos de predadores. Com o tempo, os locais desses ninhos ficam cobertos com excrementos, ricos em fósforo, denominados guano. Os pássaros se aninham aos milhares, e os depósitos de guano acumulam-se ao longo dos séculos. Em climas relativamente secos, o adubo endurece em uma camada semelhante às rochas, podendo atingir mais de 40 metros de espessura. Sem os plânctons, os peixes e os pássaros, o fósforo poderia permanecer no oceano; sem as correntes ascendentes, não estaria disponível. 8.2.3 Ciclo do enxofre Os organismos precisam de enxofre porque esse elemento é constituinte de dois aminoácidos, a cisteína e a metionina, mas a importância do enxofre nos ecossistemas vai além disso. Como o nitrogênio, o enxofre existe em muitas formas reduzidas e oxidadas, por isso segue vias químicas complexas que afetam a circulação dos outros elementos. A forma mais oxidada de enxofre é o sulfato (SO4 2-); as formas mais reduzidas são o sulfeto de hidrogênio (H2S) e as formas orgânicas, como aquelas encontradas nos aminoácidos. Para assimilar o enxofre, os organismos reduzem o sulfato a enxofre orgânico (SO4 2- → S orgânico) num processo que consome energia. Nos ambientes aeróbicos, a redução do sulfato a enxofre orgânico equilibra a oxidação do enxofre orgânico de volta para sulfato, o que ocorre diretamente, ou com o sulfeto (SO3 2-), como um passo intermediário. Essa oxidação ocorre quando os animais excretam enxofre orgânico em excesso em sua dieta e quando os micro-organismos decompõem as plantas e os detritos animais. 115 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA Emissões vulcânicas 3 Queima de combustíveis fósseis 65 Absorção pela vegetação 67 Absorção de gás pela superfície do mar 32 Escoamento superficial 122 Decomposição, produção de íons de sulfeto 28 Decomposição de matéria orgânica morta 3 Intemperização 66 Atmosfera sobre a terra Atmosfera sobre o oceano Enxofre elementar (S)Oxidação desassimilativa (por toda parte) Redução de enxofre assimilativa (plantas e micro- organismos) Doador de elétron no lugar de H2O: bactéria fotoautótrofa Reações de redução anaeróbicas acopladas com reações de oxidação produtoras de energia Oxidações aeróbicas produtoras de energia Redução consumidora de energia 14 18 Redução de enxofre desassimilativa, receptor de elétrons (desalforbio, Desulfomonas) Bactérias aeróbicas quimioautótrofas (Thiobacillas) Sulfeto (SO1 2–) Sulfato (SO4 2–) Enxofre orgânicoMais reduzido Mais oxidado Sulfeto (S2–, H2S, FeS) Dessulfidração (ameróbica) Thiobacillus Figura 60 – O enxofre circula através de vias químicas complexas que afetam o ciclo dos outros elementos. Os tamanhos estimados dos compartimentos (caixas escuras) e as transferências entre os compartimentos (caixas claras) estão expressos em gigatoneladas (Gt) e Gt/ano, respectivamente Em condições anaeróbicas, como em sedimentos alagados, o sulfato pode funcionar como oxidante. Nesses ambientes redutores, as bactérias Desulfovibrio e Desulfomonas podem usar a redução do sulfato para oxidar o carbono orgânico. Oacoplamento dessas reações disponibiliza alguma energia para eles. O enxofre reduzido pode então ser usado pelas bactérias fotossintetizadoras para assimilar o carbono por vias análogas às da fotossíntese nas plantas verdes. Nessas reações, o enxofre toma o lugar do átomo de oxigênio na água como doador de elétrons. Assim, o enxofre elemental (S) se acumula, a menos que os sedimentos sejam expostos à areação ou à água oxigenada. Nessas condições, o enxofre elemental pode ser oxidado ainda mais por bactérias aeróbicas quimioautótrofas, como a Thiobacillus, em sulfeto e sulfato. 116 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III O caminho do enxofre reduzido, produzido em condições anaeróbicas, depende da disponibilidade de metais. Normalmente o sulfeto de hidrogênio se forma (H2S) e escapa dos sedimentos rasos e dos solos nodosos como um gás, com o seu cheiro característico de ovo podre. As condições anaeróbicas geralmente favorecem a redução do íon férrico (FeS). Os sulfetos são normalmente associados ao carvão e ao depósito de óleo, que não têm oxigênio livre. Quando esses materiais são expostos à atmosfera em rejeitos de minas ou queimados para produzir energia, o enxofre reduzido se oxida em sulfato. Assim, oxidado, combina-se com a água para produzir ácido sulfúrico (H2SO4), o grande componente da chuva ácida e da drenagem ácida de minas. Figura 61 – Os córregos drenando refugo de minas de carvão podem ser extremamente ácidos. Quando materiais como esses espólios de minas do Condado de Tioga, Pensilvânia, são expostos ao ar, os sulfetos que contêm são oxidados em sulfato, que se combina com a água para produzir acido sulfúrico 8.2.4 Ciclo do carbono O carbono é o elemento que sustenta todas as substâncias orgânicas, desde o carvão e o petróleo até o DNA (ácido desoxirribonucleico), o composto que carrega a informação genética. Apesar de ser imprescindível para a vida, o carbono não é um dos elementos químicos mais abundantes na crosta da Terra. Constitui apenas 0,032% do peso da crosta, posição distante da ocupada por oxigênio (45,2%), silício (29,5%), alumínio (8,0%), ferro (5,8%), cálcio e magnésio (2,8%). Observe que o carbono tem uma fase gasosa que faz parte de seu ciclo. Essa fase ocorre na atmosfera terrestre na forma de dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4), ambos gases que provocam o efeito estufa. O carbono penetra na atmosfera pela respiração dos seres vivos, por incêndios que queimam compostos orgânicos e, ainda, por difusão a partir dos oceanos; é removido da atmosfera por meio da fotossíntese das plantas, pelas algas e pela fotossíntese de determinadas bactérias. O carbono existe nos oceanos em inúmeras formas inorgânicas, o que inclui o dióxido de carbono dissolvido como carbonato (CO3 2-) e bicarbonato (HCO3); também existe em compostos orgânicos de organismos marinhos e em seus derivados, como as conchas (CaCO3). Penetra no oceano a partir da atmosfera, pela simples difusão do dióxido de carbono, que se dissolve e é convertido em carbonato e bicarbonato. As algas marinhas e as bactérias fotossintetizadoras (cianobactérias ou algas azuis) retiram da água o que necessitam de carbono em uma de suas formas. O elemento químico é transportado do solo dos continentes para os oceanos por meio de rios e ribeirões, na forma dissolvida, incluindo-se os componentes orgânicos, e na forma de partículas orgânicas (partículas minúsculas de matéria orgânica). Os ventos, igualmente, transportam pequenos particulados orgânicos dos continentes para os oceanos. O transporte por meio de rios e ribeirões constitui uma fração relativamente pequena do fluxo total de 117 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA carbono em direção aos oceanos. Entretanto, nas escalas locais e regionais, a contribuição de carbono oriunda dos rios é importante para as áreas costeiras, tais como os deltas e os sapais, que, em geral, são muito produtivos biologicamente. O carbono penetra na biota por meio da fotossíntese e retorna para a atmosfera ou para a água pela respiração ou pelos incêndios. Quando os organismos morrem, a maior parte de sua matéria orgânica se decompõe em compostos inorgânicos, incluindo o dióxido de carbono. Certa quantidade pode ser enterrada onde não há oxigênio suficiente para tornar possível essa conversão ou onde as temperaturas são muito frias para a decomposição. Nesses locais, a matéria orgânica é armazenada. Por anos, décadas e séculos, a armazenagem ocorre em pântanos, incluindo regiões de inundação às margens de rios, bacias hidrográficas, pântanos, sedimentos no fundo do mar e regiões próximas aos polos. Por longos períodos de tempo (de milhares a milhões de anos), certas quantidades podem ser enterradas com sedimentos que se tornarão rochas sedimentares. Esse carbono é transformado em combustíveis fósseis, como gás natural, petróleo e carvão. O ciclo do dióxido de carbono entre os organismos terrestres e a atmosfera possui um grande fluxo. Aproximadamente 15% do total de carbono existente na atmosfera são anualmente retirados pela fotossíntese e liberados pela respiração nos continentes. Dessa forma, conforme já registrado, a vida possui um efeito amplo na química da atmosfera. Carbono armazenado na biota continental, rochas, solos e combustíveis fósseis Carbono armazenado na atmosfera Carbono armazenado na biota oceânica, água e sedimentos Armazenamento em sedimentos ma e em tochas sedimentares (100.000) Armazenamento de combustíveis fósseis (4000)* Desgaste e erosão (0,6/ano) Transformações no uso do solo (2,2/ano) Respiração e fotossíntese nos oceânica (107/ano) Queima de combustíveis fósseis (6,3/ano) Armazenamento nas plantas terrestres (560)* Respiração e fotossíntese nos continentes (120/ano) (a) Petróleo Vulcões (0,1/ano) Carvão 0,5 Armazenamento no solo (1580)* (b) * Unidades de armazenamento em bilhões de toneladas de carbono Unidade de armazenamento em bilhões de toneladas de carbono Armazenamento em oceânicas superfícies 38.000*? ? Figura 62 – a) Ciclo global generalizado do carbono. b) As partes do ciclo do carbono estão simplificadas para ilustrar a natureza cíclica da movimentação do carbono 118 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III Gases do efeito estufa Os gases do efeito estufa são substâncias que absorvem parte da radiação infravermelha emitida principalmente pela superfície terrestre e dificultam seu escape para o espaço. Isso impede que ocorra perda demasiada de calor para o espaço, mantendo a Terra aquecida. O efeito estufa é um fenômeno natural que acontece desde a formação da Terra e é necessário para a manutenção da vida no planeta, pois, sem ele, a temperatura média da Terra seria 33° C mais baixa, impossibilitando a vida no planeta tal como conhecemos hoje. O aumento dos gases estufa na atmosfera tem potencializado esse fenômeno natural, causando aumento da temperatura (mudança climática). A atmosfera é uma camada que envolve o planeta e é constituída de vários gases. Os principais são o nitrogênio (N2) e o oxigênio (O2), que, juntos, compõem 99% da atmosfera. Alguns outros gases encontram-se presentes em pequenas quantidades, incluindo os conhecidos como gases de efeito estufa (GEE). Dentre esses gases estão o dióxido de carbono (CO2), o metano (CH4), o óxido nitroso (N2O), os perfluorcarbonetos (PFCs) e, também, o vapor de água. Nos últimos cem anos, devido ao progressivoincremento na concentração dos gases do efeito estufa, a temperatura global tem aumentado. Tal incremento tem sido provocado pelas atividades humanas que emitem esses gases. A potencialização do efeito estufa pode resultar em consequências sérias para a vida na Terra num futuro próximo. Ecólogos sugerem que o aquecimento global deve alterar o clima a uma velocidade maior que a capacidade de adaptação dos organismos. Nesse contexto, a atenção dos cientistas tem sido direcionada às florestas tropicais, por serem possíveis sumidouros naturais de CO2. Dentre elas, a floresta amazônica destaca-se por ser a maior do mundo. Entre os gases do efeito estufa que estão aumentando em concentração, o CO2, o CH4 e o N2O são os mais importantes. Os CFCs também têm a capacidade de reter a radiação infravermelha emitida pela Terra. Contudo, as ações para diminuir suas emissões estão num estágio bem mais avançado, quando comparadas às emissões dos outros gases. Historicamente, os países industrializados têm sido responsáveis pela maior parte das emissões globais desses gases. Contudo, na atualidade, vários países em desenvolvimento, entre eles China, Índia e Brasil, também se encontram entre os grandes emissores. Numa base per capita, os países em desenvolvimento continuam tendo emissões consideravelmente mais baixas do que os países industrializados. Na fonte da emissão também pode se observar um padrão global. Enquanto a maior parte das emissões decorrentes da queima de combustíveis fósseis (75% das emissões globais de CO2) provém dos países industrializados, as emissões decorrentes das mudanças no uso da Terra (25% das emissões globais de CO2) têm como seus maiores responsáveis os países em desenvolvimento. Mecanismos de redução das emissões de gases do efeito estufa (GEE), como o sequestro de carbono, estão sendo executados no contexto do mercado de carbono estabelecido pelo Protocolo de Quioto e outros acordos. Fonte: Escola Viva (2010) 119 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA Observação Dois conceitos muito utilizados em estudos do ciclo da água são percolação e drenagem, que significam, respectivamente, processo pelo qual a água entra no solo e nas formações rochosas até o lençol freático; e movimento de deslocamento da água nas superfícies, durante a precipitação 8.2.5 Ciclo da água O ciclo hidrológico é a movimentação da água dos oceanos para a atmosfera e para os continentes e de volta para os oceanos. Os processos envolvidos incluem a evaporação da água oriunda dos oceanos, as precipitações nos continentes, a evaporação nos continentes e o escoamento superficial dos ribeirões, dos rios e das águas subterrâneas percoladas. O ciclo hidrológico é impulsionado pela energia solar, que evapora a água proveniente dos oceanos, dos corpos, dos solos e da vegetação. De um total de 1,3 bilhão de km2 de água existente na Terra, 97% estão nos oceanos e 2% estão nas geleiras e nas calotas polares. O restante se encontra em águas doces nos solos e na atmosfera. Ainda que isso represente apenas uma pequena parcela da água na Terra, a água presente nos solos é fundamental para a movimentação de elementos químicos, para esculpir a paisagem, provocar o intemperismo das rochas, transportar sedimentos e servir para o consumo. A água contida na atmosfera – somente 0,001% do total sobre a Terra – circula rapidamente para produzir chuva e escoamento superficial dos recursos hídricos. As taxas anuais de transferência dos compartimentos de armazenamento no ciclo hidrológico definem um balanço global da água: 577.000 km3/ano. De maneira similar, a precipitação nos continentes (119.000 km3/ano) é equilibrada pela evaporação superficial do solo e pela evaporação da água percolada mais próxima à superfície. Especialmente importantes, sob uma perspectiva ambiental, as taxas de transferência nos continentes são pequenas relativamente ao que acontece nos oceanos. Por exemplo, a maior parte da água que evapora dos oceanos precipita-se novamente sobre os próprios oceanos. Nos continentes, a maior parte da água que cai em forma de precipitação tem origem na evaporação da água dos solos. Isso significa que a transformação no uso do solo, em escala regional, como a construção de grandes barragens ou reservatórios, pode alterar a quantidade de água evaporada na atmosfera e, com isso, mudar o local e a quantidade de chuvas – a água necessária para o aumento das safras e para o suprimento das cidades. Além disso, o solo fica impermeabilizado com a pavimentação de amplas áreas urbanas, ocorrendo menos infiltrações; consequentemente, as águas da chuva escorrem mais rapidamente e em maior volume, aumentando as enchentes e provocando inundações. O fornecimento de água em cidades de regiões semiáridas, por meio de bombeamento de água subterrânea ou transporte de água de montanhas distantes por meio de aquedutos (canais abertos), pode aumentar a evaporação, incrementando a precipitação e a umidade de uma dada região. A cada ano, aproximadamente, 60% da água que cai por precipitação no solo evaporam-se e são absorvidos pela atmosfera. Uma parte menor (cerca de 40%) retorna aos oceanos por meio do 120 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III escoamento superficial e subterrâneo. Essa pequena taxa de transferência anual fornece recursos para os rios, as áreas urbanas e a agricultura. Infelizmente, a distribuição das chuvas sobre os continentes está longe de ser uniforme. Isso resulta em escassez de água ou déficit hídrico em algumas regiões. Conforme a população humana aumenta, a escassez de água torna-se mais frequente nas regiões áridas e semiáridas, locais em que a água já não é naturalmente abundante. Em escala de abordagem espacial, local e regional, a unidade hidrológica principal da paisagem é a bacia hidrográfica (também denominada de bacia de drenagem). Uma bacia hidrográfica é a região ou superfície que contribui para o escoamento superficial (runoff) de um dado rio ou ribeirão e normalmente recebe o nome de seu principal rio ou ribeirão, como a bacia do rio Mississipi, nos EUA. O termo é geralmente utilizado na avaliação das condições hidrológicas de uma área, como o fluxo de um ribeirão ou o escoamento da água pelas encostas das montanhas. As bacias de drenagem variam muito em tamanho, desde menos que um hectare (2,5 acres) até milhões de metros quadrados. Escoamento superficial das águas de chuva (Runoff) 72 458 Precipitações119 Vento 47 (da atmosfera para continentes) Evaporação Evaporação 505 Transpiração Escoamento superficial Nível d´água Infiltração Água subterrânea (para o oceano) 47 (somatória, superfície e subterrânea) Compartimentos de armazenamento de água Compartimento Volume (milhares de km3) Porcentagem do total de água Oceanos 1.338.000 96,5 Geleiras e calotas de gelo 24.064 1,74 Água subterrânea rasa 10.530 0,76 Lagos 176 0,013 Umidade do solo 17 0,001 Atmosfera 13 0,001 Rios 2 0,0002 Figura 63 – O ciclo hidrológico, mostrando a transferência de água (milhares de km3/ano) dos oceanos até a atmosfera, desta até os continentes e, depois, retornando novamente aos oceanos 121 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA Aquífero Guarani É a denominação dada ao sistema hidroestratigráfico mesozoico constituído por depósitos de origem fluviolacustre/eólicos do triássico (formações Piramboia e Rosário do Sul, no Brasil, e Buena Vista, no Uruguai) e pordepósitos de origem eólica do jurássico (formação Botucatu, no Brasil; Missiones, no Paraguai; e Tacuarenbó, no Uruguai e Argentina). Sua área de ocorrência, de 1.195.200 km2, extrapola a porção brasileira da bacia do Paraná em mais de 839.800 km2 (MS = 213.200 km2, RS = 157.600 km2, SP = 155.800 km2; PR = 131.300 km2; GO = 55.000 km2; MG = 51.300 km2; SC = 49.200 km2; e MT = 26.400 km2) e estende-se na direção do Paraguai (71.700 km2), Argentina (225.300 km2) e Uruguai (58.400 km2). O Aquífero é confinado pelos basaltos da formação Serra Geral (cretáceo) e por sedimentos permotriássicos de baixa permeabilidade. As reservas brasileiras de água subterrânea desse Aquífero são estimadas em 48.000 km2, sendo as recargas naturais nos 118.000 km2 de afloramento da ordem de 26km3/ano, enquanto as recargas indiretas, reduzidas pelos potenciais hidráulicos superiores das águas acumuladas nos basaltos e sedimentos do grupo Bauru/Caiuá, da ordem de 140 km3/ano. O tempo de renovação de suas águas é de trezentos anos, contra 20 mil anos na Grande Bacia Artesiana da Austrália, por exemplo. As águas são de excelente qualidade para consumo doméstico, industrial e irrigação e, em função das temperaturas superiores a 30° C, em todo o domínio confinado, vêm sendo utilizadas para desenvolvimento de balneários. Em cerca de 70% da área de ocorrência, onde as cotas topográficas são inferiores aos 500 m, há possibilidade de os poços serem jorrantes. O extrativismo é dominante, e o desperdício é flagrante, exigindo medidas urgentes nos planos nacional e internacional. O Aquífero Guarani é uma importante reserva de água de excelente qualidade, que necessita de proteção e conservação. Fonte: Tundisi (2003, p. 23). Saiba mais Leia mais sobre ciclagem de nutrientes no livro: RICKLEFS, R. E. A economia da natureza: um livro-texto em ecologia básica. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. cap. 22. 122 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III Resumo O termo ecossistema é usado para denotar a comunidade biológica junto ao ambiente abiótico em que ela se encontra estabelecida. Assim, os ecossistemas normalmente incluem produtores primários, decompositores e detritívoros, certa quantidade de matéria orgânica morta, herbívoros, carnívoros e parasitos, mais o ambiente físico-químico que proporciona as condições de vida e atua como fonte e dreno para energia e matéria. Desde o século XX, vários estudos observacionais vêm sendo desenvolvidos sobre ecossistemas e seu funcionamento na dinâmica das comunidades. Hoje se sabe que as relações de alimentação conectam organismos numa entidade funcional única, a comunidade biológica. Todos os ecossistemas, inclusive a biosfera, são abertos: há uma entrada e uma saída necessária de energia. Evidentemente, os ecossistemas abaixo do nível da biosfera também estão abertos, em vários graus, aos fluxos de materiais, bem como à imigração e à emigração dos organismos. Por conseguinte, representa uma parte importante reconhecer que existe tanto um ambiente de entrada quanto um ambiente de saída, acoplados e essenciais, para que o ecossistema funcione e se mantenha. Uma das características universais de todo ecossistema, seja ele terrestre, aquático ou elaborado pelo homem (agrícola), é a interação dos componentes autotróficos e heterotróficos. De um ponto de vista biológico, reconhecem-se os seguintes componentes que constituem o ecossistema: substâncias inorgânicas (C, N, CO2, H2O) e outras mais envolvidas nos ciclos dos materiais; compostos orgânicos, proteínas, lipídios, carboidratos, substâncias húmicas etc., que ligam o biótico e o abiótico; o ambiente atmosférico, o hidrológico e o do substrato, incluindo o regime climático e outros fatores físicos; produtores, organismos autotróficos, principalmente, as plantas verdes, que manufaturam o alimento a partir de substâncias inorgânicas simples; macroconsumidores ou fagótrofos, que são organismos heterotróficos, principalmente, animais que ingerem outros organismos ou matéria orgânica particulada; microconsumidores ou saprótrofos ou decompositores, que são organismos heterotróficos, sobretudo, bactérias e fungos, que obtêm a sua energia degradando tecidos mortos ou absorvendo matéria orgânica dissolvida segregada ou extraída de plantas ou outros organismos. As atividades decompositoras dos saprótrofos liberam nutrientes inorgânicos de modo disponível aos produtores; também fornecem alimento para os macroconsumidores e, com frequência, excretam substâncias parecidas com hormônios que inibem ou estimulam outros componentes bióticos do ecossistema. Como exemplos de ecossistemas, temos: lago, prado, bacia hidrográfica ou de drenagem, microcosmo, agroecossistema e cidade. 123 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA A rápida urbanização e o crescimento das cidades nos últimos anos mudou a aparência da Terra mais do que, provavelmente, qualquer outro resultado da atividade humana em toda a história. As cidades alteram a natureza de rios, florestas e campos, naturais e cultivados, para não mencionar a atmosfera e os oceanos, por causa do seu impacto sobre os extensos ambientes de entrada e de saída. Uma cidade pode afetar uma floresta distante não só diretamente, pela poluição atmosférica ou pela demanda por produtos de madeira, mas também indiretamente, alterando o gerenciamento da floresta. A transferência de energia alimentar, desde a fonte, nos autótrofos (plantas), ao longo de uma série de organismos que consomem e são consumidos, chama-se cadeia alimentar ou cadeia trófica. Em cada transferência, uma proporção da energia potencial perde-se como calor. Portanto, quanto menor a cadeia alimentar, ou quanto mais próximo o organismo do início da cadeia, maior a energia disponível à população. As cadeias alimentares são de dois tipos básicos: a cadeia de pastagem e a cadeia de detritos. São relativamente conhecidas por todo o mundo, uma vez que nos alimentamos do peixe, que comeu o peixe menor, que se alimentou do zooplâncton, que comeu o fitoplâncton, que fixou a energia solar; ou podemos nos alimentar da vaca, que comeu o capim, que fixou a energia solar; ou podemos usar uma cadeia muito mais curta, comendo o cereal que fixou a energia solar. Em todos os ecossistemas, as cadeias de pastagem e de detritos estão interligadas, de modo que mudanças podem ocorrer rapidamente nos fluxos, em resposta a entradas de funções motrizes de fora do sistema. Todo o alimento ingerido por animais de pasto não é realmente assimilado; uma parte, por exemplo, o material não digerido nas fezes, é desviada para a cadeia de detritos. O impacto do animal de pasto sobre a comunidade depende da velocidade em que ele remove o material vivo, e não apenas da quantidade de energia assimilada do alimento. Todas as entidades biológicas necessitam de matéria para sua construção e de energia para suas atividades. Isso é verdadeiro não apenas para os organismos individualmente, mas para as populações e comunidades que eles formam na natureza. Energia é a capacidade de realizar trabalho. O comportamento da energia em um sistema ecológico é descrito pelas leis da termodinâmica. A Primeira Lei da Termodinâmica, ou Lei da Conservação da Energia, diz que a energia pode ser transformada de um tipo em outro, mas não pode ser criada nem destruída. A Segunda Lei da Termodinâmica, ou Lei da Entropia, diz que nenhum processo que implique uma transformação 124 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : Fab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III de energia ocorrerá espontaneamente, a menos que haja uma degradação da energia de uma forma menos concentrada para uma forma dispersa. A energia tem qualidade, além de quantidade. Todas as calorias não são iguais, porque as mesmas quantidades de formas diferentes de energia variam amplamente no seu potencial de trabalho. Mede-se a qualidade de energia pela usada na transformação ou, mais especificamente, pela quantidade de um tipo de energia necessária para desenvolver outro tipo. Formas altamente concentradas, como o petróleo, apresentam um potencial de trabalho maior e, portanto, uma qualidade superior em relação a formas mais diluídas, como a luz solar. A fotossíntese é um processo pelo qual as plantas verdes transformam energia radiante ou eletromagnética em energia química. O processo visa, basicamente, fornecer energia para que a planta possa sintetizar carboidratos, a partir do dióxido de carbono (CO2). Ao realizar fotossíntese, a maioria dos organismos libera um importante subproduto na atmosfera, o oxigênio (O2). Durante o processo, plantas, algas e bactérias fotossintetizantes são capazes de “tirar proveito do Sol”, utilizando a energia radiante para converter moléculas simples – dióxido de carbono e água – em moléculas orgânicas complexas, que podem ser utilizadas, igualmente, por plantas e animais, como fontes de energia e de moléculas estruturais. Além disso, a fotossíntese libera oxigênio para o ar que respiramos, e é esse oxigênio que exerce papel importante na respiração celular e na síntese de ATP (adenosina trifosfato). As muitas reações que ocorrem durante a fotossíntese são divididas em dois processos: reações de transdução de energia e reações de fixação do carbono. Frequentemente, as reações de transdução de energia são consideradas luminosas (ou dependentes da luz), em razão da importância da luz nessas reações. Tradicionalmente, as reações de fixação do carbono estão sendo referidas como reações de escuro ou reações independentes da luz. A luz do Sol é a fonte de energia, em última instância, para a maioria dos organismos vivos, incluindo as necessidades de energia da espécie humana. Sem a energia do Sol, os sistemas biológicos não existiriam como nós os conhecemos, nem nós existiríamos para saber de sua inexistência. As plantas, as algas e algumas bactérias capturam a energia luminosa e a transformam em energia de ligações químicas, em carboidratos, pela fotossíntese. Esse processo de assimilação de energia, que subjaz todas as funções ecossistêmicas, é denominado de produção primária. Sem ela, praticamente nada do que chamamos de vida existiria. Denominamos de produtividade a quantidade de matéria orgânica produzida num determinado período (geralmente um ano) por uma comunidade, uma população ou um ecossistema. Temos a produção primária, a produção secundária etc. 125 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA Produção primária é a taxa em que produtores de um ecossistema convertem energia solar em energia química na forma de biomassa; corresponde à produtividade primária bruta (PPB). Produtividade primária líquida (PPL) é a taxa na qual os produtores utilizam a fotossíntese para armazenar energia menos a taxa de utilização da energia armazenada por meio da respiração aeróbica. Em outras palavras, PPL = PPB - R, em que R significa a energia utilizada na respiração. Pirâmides ecológicas representam a massa orgânica total de cada nível trófico. Podem ser representadas por gráficos em forma de pirâmides chamados de pirâmides de energia. Nesse tipo de gráfico, a base corresponde ao nível trófico dos produtores, e, em sequência, rumo ao ápice, são representados os níveis dos consumidores primários, dos consumidores secundários e assim por diante. Outro tipo de representação gráfica, denominado pirâmide de números, é utilizado para indicar a quantidade de indivíduos existentes em cada nível trófico de uma cadeia alimentar. Há ainda os decompositores e os organismos detritívoros no final da cadeia. Ciclos biogeoquímicos são geralmente esquematizados para um único elemento químico, porém, por vezes, o são também para um composto, por exemplo, a água (H2O). O ciclo do nitrogênio é um dos mais importantes e mais complexos ciclos globais. O processo de conversão inorgânica molecular, na atmosfera, para amônia ou nitrato é denominado fixação de nitrogênio. Uma vez nessas formas, o nitrogênio pode ser utilizado pelas plantas, nos continentes, e pelas algas, nos oceanos. Por meio de reações químicas, bactérias, plantas e algas podem converter esses compostos de nitrogênio inorgânico em orgânico; assim, o nitrogênio torna-se disponível para a cadeia alimentar ecológica. Quando os organismos morrem, outras bactérias convertem os compostos orgânicos contendo nitrogênio de volta em amônia, nitrato ou nitrogênio molecular, que retornam para a atmosfera. O processo que libera o nitrogênio fixo de volta para a forma de nitrogênio molecular é chamado de desnitrificação. O ciclo do fósforo é significativamente diferente dos ciclos do carbono e do nitrogênio. A taxa de transferência do fósforo no sistema terrestre é lenta quando comparada com as do carbono e do nitrogênio. O fósforo está presente na atmosfera somente em pequenas partículas de poeira. Além disso, tende a formar compostos que são relativamente insolúveis em água. Como consequência, não é quimicamente alterado de forma rápida. Ocorre comumente no estado oxidado de fosfato, que se combina com cálcio, potássio, magnésio e ferro para formar os minerais. Entra na biota por meio de sua absorção, como fosfato, por plantas, algas e algumas bactérias. Em um ecossistema relativamente estável, boa parte do fósforo absorvido pela vegetação é devolvida ao solo quando as plantas morrem. 126 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III O ciclo do enxofre envolve formas oxidadas e não oxidadas. A forma mais oxidada de enxofre é o sulfato (SO4 2-); as formas mais reduzidas são o sulfeto de hidrogênio (H2S) e as formas orgânicas, como aquelas encontradas nos aminoácidos. Para assimilar o enxofre, os organismos reduzem o sulfato a enxofre orgânico (SO4 2- → S orgânico), num processo que consome energia. Nos ambientes aeróbicos, a redução do sulfato em enxofre orgânico equilibra a oxidação do enxofre orgânico de volta para sulfato, o que ocorre diretamente ou com o sulfeto (SO3 2-) como um passo intermediário. Essa oxidação ocorre quando os animais excretam enxofre orgânico em excesso em sua dieta e quando os micro-organismos decompõem as plantas e os detritos animais. O carbono é o elemento que sustenta todas as substâncias orgânicas, desde o carvão e o petróleo até o DNA. Apesar de ser imprescindível para a vida, o carbono não é um dos elementos químicos mais abundantes na crosta da Terra; tem uma fase gasosa que faz parte de seu ciclo, que ocorre na atmosfera terrestre na forma de dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4). O carbono penetra na atmosfera pela respiração dos seres vivos, por incêndios que queimam compostos orgânicos e, ainda, por difusão a partir dos oceanos. É removido da atmosfera por meio da fotossíntese das plantas, pelas algas e pela fotossíntese de determinadas bactérias. O ciclo da água envolve a evaporação da água oriunda dos oceanos, as precipitações nos continentes, a evaporação nos continentes e o escoamento superficial dos ribeirões, dos rios e das águas subterrâneas percoladas. O ciclo hidrológico é impulsionado pela energia solar, que evapora a água provenientedos oceanos, dos corpos, dos solos e da vegetação. Exercícios Questão 1. A tirinha abaixo retrata uma cadeia alimentar: Fonte: Disponível em: <www.atividadesedesenhos.com>. 127 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 ECOLOGIA Com base na figura, leia as afirmativas abaixo relativas às cadeias alimentares: I − As cadeias alimentares podem ocorrer isoladamente em um ecossistema. II − Podemos definir cadeias alimentares como sendo uma sequência de organismos que dependem uns dos outros para se alimentarem. III − Em alguns casos, encontramos organismos produtores no primeiro trófico de uma cadeia alimentar. IV − Os decompositores são fungos e bactérias que também participam da cadeia alimentar e são eles os responsáveis por devolverem à natureza os nutrientes que retiram da matéria orgânica. Estão corretas as afirmativas: A) I e II. B) III e IV. C) Somente IV. D) II e IV. E) I e III. Resposta correta: alternativa D. Análise das afirmativas I – Afirmativa incorreta. Justificativa: é impossível uma cadeia alimentar manter-se isoladamente, pois um mesmo organismo que participa de uma cadeia alimentar também pode participar de várias outras ao mesmo tempo. Por exemplo, há organismos que são carnívoros e herbívoros, ou seja, que atuam em uma cadeia alimentar como consumidores primários e consumidores secundários ou terciários. II – Afirmativa correta. Justificativa: as cadeias alimentares são sequências de organismos que dependem uns dos outros para se alimentarem, dividindo-se em produtores – consumidores primários – consumidores secundários e assim, sucessivamente. III – Afirmativa incorreta. Justificativa: os organismos produtores estarão sempre no primeiro trófico de uma cadeia alimentar, pois eles são os únicos que conseguem produzir o próprio alimento e, consequentemente, o alimento dos consumidores primários. 128 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade III IV – Afirmativa correta. Justificativa: os decompositores são representados pelos fungos e bactérias, sendo os responsáveis por transformar a matéria orgânica para reutilização da natureza. Questão 2. O ciclo biogeoquímico é o percurso realizado no meio ambiente por um elemento químico essencial à vida. O termo é derivado do fato de que há um movimento cíclico de elementos que formam os organismos vivos (“bio”) e o ambiente geológico (“geo”), onde intervêm mudanças químicas. Ao longo do ciclo, cada elemento é absorvido e reciclado por componentes bióticos (seres vivos) e abióticos (ar, água, solo) da biosfera, e às vezes pode se acumular durante um longo período de tempo em um mesmo lugar. É por meio dos ciclos biogeoquímicos que os elementos químicos e compostos químicos são transferidos entre os organismos e entre diferentes partes do planeta. Com relação aos ciclos biogeoquímicos, analise as seguintes afirmativas: I − No ciclo do carbono: as cadeias de carbono formam as moléculas orgânicas através dos seres autotróficos por meio da fotossíntese, na qual o gás carbônico é absorvido, fixado e transformado em matéria orgânica pelos produtores. O carbono volta ao ambiente através do gás carbônico por meio da respiração. II − No ciclo do oxigênio: o gás oxigênio é produzido durante a construção de moléculas orgânicas pela respiração e consumido quando essas moléculas são oxidadas na fotossíntese. III − No ciclo da água: a energia solar possui um papel importante, pois ela permite que a água em estado líquido sofra evaporação. O vapor de água, nas camadas mais altas e frias, condensa-se e forma nuvens que, posteriormente, precipitam-se na forma de chuva, e a água dessa chuva retorna ao solo formando rios, lagos, oceanos ou ainda se infiltrando no solo e formando os lençóis freáticos. IV − No ciclo do nitrogênio: uma das etapas é a de fixação do nitrogênio, na qual algumas bactérias utilizam o nitrogênio atmosférico e fazem-no reagir com oxigênio para produzir nitrito, que será transformado em amônia no processo de nitrificação. Assinale a alternativa correta: A) Somente as afirmativas II e IV são verdadeiras. B) Somente as afirmativas I e II são verdadeiras. C) Somente as afirmativas I, III e IV são verdadeiras. D) Somente as afirmativas II, III e IV são verdadeiras. E) Somente as afirmativas I e III são verdadeiras. Resolução desta questão na plataforma. 129 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 FIGURAS E ILUSTRAÇÕES Figura 1 RICKLEFS, R. E. A economia da natureza: um livro-texto em ecologia básica. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. p. 3. Figura 2 BEGON, M.; HARPER, J. L.; TOWNSEND, C. R. Ecologia: de indivíduos a ecossistemas. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 59. Figura 3 LOPES, S. Biologia. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 181. Volume único. Figura 4 BEGON, M.; HARPER, J. L.; TOWNSEND, C. R. Ecologia: de indivíduos a ecossistemas. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 60. Figura 5 RICKLEFS, R. E. A economia da natureza: um livro-texto em ecologia básica. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. p. 41. Figura 6 ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. p. 160. Figura 7 LOPES, S. Biologia. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 339. Volume único. Figura 8 LOPES, S. Biologia. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 338. Volume único. Figura 9 AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Fundamentos da biologia moderna. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2006. p. 676. 130 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Figura 10 AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Fundamentos da biologia moderna. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2006. p. 677. Figura 11 RICKLEFS, R. E. A economia da natureza: um livro-texto em ecologia básica. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. p. 283. Figura 12 ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. p. 219. Figura 13 ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. p. 243. Figura 14 ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. p. 226. Figura 15 ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. p. 226. Figura 16 RICKLEFS, R. E. A economia da natureza: um livro-texto em ecologia básica. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. p. 487. Figura 17 RICKLEFS, R. E. A economia da natureza: um livro-texto em ecologia básica. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. p. 257. Figura 18 AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Fundamentos da biologia moderna. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2006. p. 55. Figura 19 AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Fundamentos da biologia moderna. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2006. p. 53. 131 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Figura 20 AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Fundamentos da biologia moderna. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2006. p. 61. Figura 21 AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Fundamentos da biologia moderna. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2006. p. 63. Figura 22 AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Fundamentos da biologia moderna. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2006. p. 602. Figura 23 AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Fundamentos da biologia moderna. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2006. p. 689. Figura 24 RICKLEFS, R. E. A economia da natureza: um livro-texto em ecologia básica. 6. ed. Rio de Janeiro:Guanabara Koogan, 2010. p. 309. Figura 25 AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Fundamentos da biologia moderna. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2006. p. 675. Figura 26 RICKLEFS, R. E. A economia da natureza: um livro-texto em ecologia básica. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. p. 259. Figura 27 RICKLEFS, R. E. A economia da natureza: um livro-texto em ecologia básica. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. p. 311. Figura 28 RICKLEFS, R. E. A economia da natureza: um livro-texto em ecologia básica. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. p. 311. Figura 29 ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. P.323. 132 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Figura 30 LOPES, S. Biologia. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 25. Volume único. Figura 31 LOPES, S. Biologia. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 27. Volume único. Figura 32 LOPES, S. Biologia. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 28. Volume único. Figura 33 LOPES, S. Biologia. São Paulo: Saraiva, 2008. p.. 494. Volume único. Figura 34 ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. p. 11. Figura 35 ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. p. 13. Figura 36 FERMINO, F. S. 1997. Estrutura e dinâmica de algas do perífiton de Eichhorniaazurea azurea (Sw.) Künth em lagoas costeiras eutrofizadas do litoral do Rio Grande do Sul (Osório, RS). Dissertação (Mestrado em Ecologia) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, 1997. p. 98. Figura 37 ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. p. 44. Figura 38 ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. p. 45. Figura 39 ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. p. 46. 133 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Figura 40 ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. p. 51. Figura 41 AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Fundamentos da biologia moderna. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2006. p. 26. Figura 42 AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Fundamentos da biologia moderna. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2006. p. 27. Figura 43 ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. p. 86. Figura 44 ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. p. 86. Figura 45 ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. p. 88. Figura 46 AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Fundamentos da biologia moderna. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2006. p. 28. Figura 47 RICKLEFS, R. E. A economia da natureza: um livro-texto em ecologia básica. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. p. 414. Figura 48 RAVEN, P. H.; EVERT, R.; EICHHORN, S. Biologia vegetal. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001, p. 95. Figura 49 ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. p. 62. 134 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Figura 50 AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Fundamentos da biologia moderna. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2006. p. 359. Figura 51 AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Fundamentos da biologia moderna. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2006. p. 360. Figura 52 ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. p. 70. Figura 53 AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Fundamentos da biologia moderna. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2006. p. 28. Figura 54 AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Fundamentos da biologia moderna. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2006. p. 29. Figura 55 AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Fundamentos da biologia moderna. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2006. p. 273. Figura 56 BOTKIN, D. R.; KELLER, E. A. Ciência ambiental: Terra, um planeta vivo. Rio de Janeiro: LTC, 2011. p. 82. Figura 57 BOTKIN, D. R.; KELLER, E. A. Ciência ambiental: Terra, um planeta vivo. Rio de Janeiro: LTC, 2011. p. 83. Figura 58 BOTKIN, D. R.; KELLER, E. A. Ciência ambiental: Terra, um planeta vivo. Rio de Janeiro: LTC, 2011. p. 85. Figura 59 BOTKIN, D. R.; KELLER, E. A. Ciência ambiental: Terra, um planeta vivo. Rio de Janeiro: LTC, 2011. p. 96. 135 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Figura 60 RICKLEFS, R. E. A economia da natureza: um livro-texto em ecologia básica. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. p. 437. Figura 61 BOTKIN, D. R.; KELLER, E. A. Ciência ambiental: Terra, um planeta vivo. Rio de Janeiro: LTC, 2011. p. 97. Figura 62 RICKLEFS, R. E. A economia da natureza: um livro-texto em ecologia básica. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. p. 444. Figura 63 RICKLEFS, R. E. A economia da natureza: um livro-texto em ecologia básica. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. p. 445. Figura 64 BOTKIN, D. R.; KELLER, E. A. Ciência ambiental: Terra, um planeta vivo. Rio de Janeiro: LTC, 2011. p. 92. Figura 65 BOTKIN, D. R.; KELLER, E. A. Ciência ambiental: Terra, um planeta vivo. Rio de Janeiro: LTC, 2011. p. 87. Figura 66 BOTKIN, D. R.; KELLER, E. A. Ciência ambiental: Terra, um planeta vivo. Rio de Janeiro: LTC, 2011. p. 177. Figura 67 LOPES, S. Biologia. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 263. Volume único. Figura 68 ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. p. 19. Figura 69 AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Fundamentos da biologia moderna. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2006. Página 115. 136 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 REFERÊNCIAS AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Fundamentos da biologia moderna. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2006. BEGON, M.; HARPER, J. L.; TOWNSEND, C. R. Ecologia: de indivíduos a ecossistemas. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 740. BOTKIN, D. R.; KELLER, E. A. Ciência ambiental: Terra, um planeta vivo. Rio de Janeiro: LTC, 2011. p. 681. BRASIL. Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012. Dispõe sobre a proteção da vegetação nativa; altera as Leis nos 6.938, de 31 de agosto de 1981, 9.393, de 19 de dezembro de 1996, e 11.428, de 22 de dezembro de 2006; revoga as Leis nos 4.771, de 15 de setembro de 1965, e 7.754, de 14 de abril de 1989, e a Medida Provisória nº 2.166-67, de 24 de agosto de 2001; e dá outras providências. Brasília, 2012. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Lei/L12651.htm>. Acesso em: 23 jan. 2014. BROWN, J. H. E.; LOMOLINO, M. V. Biogeografia. Ribeirão Preto: Funpec, 2006. COUTINHO, L. M. O conceito de bioma. Acta Bot. Bras., v. 20, n. 1, p. 13-23, 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/abb/v20n1/02.pdf>. Acesso em: 7 jan. 2014. COX, C. B.; MOORE, P. D. Biogeografia: uma abordagem ecológica e evolucionária. Rio de Janeiro: LTC, 2009. p. 398. CRESPÍ, A. L. Resistência e resiliência ecológica: uma aproximação à caracterização fitoestrutural das comunidades arbustivas do Parque Natural do Alvão (norte de Portugal). Silva Lusitana, Lisboa, v. 9, n. 2, p. 171-89, 2001. Disponível em: <http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/slu/v9n2/9n2a05.pdf>. Acesso em: 7 jan. 2014. ESCOLA VIVA. Os gases do efeito estufa. 2010. Disponível em: <http://www.escolaviva.xpg.com.br/ Geografia2%20-%20Os%20%20gases%20do%20efeito%20estufa.html>. Acesso em: 3 fev. 2014. FERMINO, F. S. 1997. Estrutura e dinâmica de algas do perífiton de Eichhorniaazurea azurea (Sw.) Künth em lagoas costeiras eutrofizadas do litoral do Rio Grande do Sul(Osório, RS). Dissertação (Mestrado em Ecologia) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, 1997. p. 127. FRANCISCO, W. C. Bacias hidrográficas do Brasil. Mundo Educação, [s.d]. Disponível em: <http://www. mundoeducacao.com/geografia/bacias-hidrograficas-brasil.htm>. Acesso em: 3 jan. 2014. KREBS, J. R.; DAVIES, N. B. Introdução à ecologia comportamental. São Paulo: Atheneu, 1996. LEHFELD, L. S.; CARVALHO, N. C. B.; BALBIM, L. I. Código florestal brasileiro: comentado e anotado. São Paulo: Método, 2013. p. 344. 137 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 LOPES, S. Biologia. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 782. Volume único. MARTINEZ, M. Competição. Infoescola, Florianópolis, [s.d.]. Disponível em: <http://www.infoescola. com/relacoes-ecologicas/competicao-2/>. Acesso em: 3 jan. 2014. MILLER JÚNIOR, G. T. Ciência ambiental. São Paulo: Thomson, 2008. p. 123. ODUM, E. P. Primary and Secondary Energy Flow in Relation to Ecosystem Structure. INTERNATIONAL CONGRESS OF ZOOLOGY, 16., 1963, Washington. Proceedings... Washington: NAS/NRC, 1963. p. 336-8. ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. p. 460. PAULY, D. & CHRISTENSEN, V. 1995. Primary production required to sustain global fisheries. Nature 374: 255- 257. PINTO-COELHO, R. M. Fundamentos em ecologia. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2000. p. 252. PORTER, N. Webster’s Unabridged Dictionary. Springfield, 1913. Disponível em: <http://www.webster- dictionary.org/definition/ecology> Acesso em: 6 jan. 2014. RAVEN, P. H.; EVERT, R.; EICHHORN, S. Biologia vegetal. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001, p. 906. RICKLEFS, R. E. A economia da natureza: um livro-texto em ecologia básica. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. p. 546. TOWNSEND, C. R.; BEGON, M.; HARPER, J. L. Fundamentos em ecologia. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008. TILMAN, D. Resource Competition and Community Structure. Princeton: Princeton University Press, 1982. Front Cover. TUNDISI, J. G. Água no século XXI: enfrentado a escassez. São Carlos: Rima, 2003. p. 247. VOO ininterrupto de 200 dias. Pesquisa Fapesp, n. 213, p. 14, nov. 2013. Disponível em: <http:// revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2013/11/Pesquisa_214.pdf>. Acesso em: 21 jan. 2014. ZIMMER, C. O livro de ouro da evolução. Tradução de Jorge Luis Calife. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998. p. 520-2. Exercícios Unidade I – Questão 1: UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO (UFES). Vestibular 2004: Conhecimentos Gerais. Disponível em: < http://exercicios.brasilescola.com/exercicios-biologia/ exercicios-sobre-evolucao.htm>. Acesso em: 14 jan. 2015. 138 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Unidade II – Questão 1: CENTRO UNIVERSITÁRIO DA FEI (FEI). Vestibular 2º/2004: Exame 2 Administração: Questão 51. Disponível em: <http://portal.fei.edu.br/Vestibular%20%20Provas%20 Anteriores/Exame2_2_2004adm.pdf>. Acesso em: 14 jan. 2015. Unidade II – Questão 2: UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS (Ufscar). Vestibular 2009: Geografia: Questão 28 Disponível em: <http://download.uol.com.br/vestibular2/prova/ufscar_2009_bio_fis_geo. pdf>. Acesso em: 14 jan. 2015. 139 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 140 CB IO - R ev isã o: V al ér ia /J ul ia na - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 7/ 02 /2 01 4 Informações: www.sepi.unip.br ou 0800 010 9000