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HISTÓRIA HISTÓRIA ECONÔMICA Fabiano Prosa Helder Henrique Jacovetti Gasperotto Unidade 01 - As bases do pensamento Econômico: Mercantilismo e Capitalismo Industrial CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: Conhecer os principais conceitos do Mercantilismo e do capitalismo industrial. ESTUDANDO E REFLETINDO “Ao se repensar o tempo histórico tendo como referência as relações homem-natureza, pode-se ainda avançar na compreensão das diversas temporalidades vividas pela sociedade e nas formulações das periodizações e marcos de rupturas. Assim como defendia Lévi-Strauss, as grandes transformações irreversíveis da sociedade podem ser basicamente divididas em dois grandes períodos. O primeiro momento desse longo processo foi a revolução agrícola, com a criação da agricultura, responsável por mudanças significativas nas relações entre os homens, a terra e as plantas e animais. O segundo grande momento foi o da revolução industrial dos séculos XVIII e XIX, que introduziu relações entre o homem e os recursos naturais em escala sem precedentes, impondo novo ritmo no processo de transformações e de permanências. Esses dois momentos correspondem à constituição de novas formas de os homens organizarem o tempo, com novos ritmos, e de se organizarem no seu tempo cotidiano: ao longo desse processo, o tempo da natureza foi sendo substituído pelo tempo da fábrica”. (in: BRASIL, Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros Curriculares Nacionais: ensino médio: ciências humanas e suas tecnologias. Brasília: Ministério da Educação/Secretaria de Educação Média e Tecnológica, 1999, pg. 49.) Mercantilismo: O pensamento Mercantilista (Capitalismo Comercial) O conflito do acúmulo de capitais corrobora com o que dizia a ética paternalista cristã que condenava a usura (lucro, acúmulo de capitais). Esse conflito cresce conforme o comércio da época se desenvolve. E é nesse período que a expansão marítima vai tomando corpo, o capitalismo comercial (mercantilismo) se prolifera e uma nova estrutura produtiva começa a imperar. Uma sociedade também surge e começa a ficar descontente com essa situação, a burguesia quer acumular seus lucros sem o peso do pecado imposto pelo cristianismo (catolicismo) da época. Começa, assim, a ética protestante; do outro lado, uma nova religião ganha muitos adeptos, pois o protestantismo vai dar razão ao pensamento da acumulação de capitais sem remorso. O mercantilismo pode ser empregado para designar a fase inicial do sistema capitalista. Trata-se de uma política econômica, que vai de 1500 até a Revolução Industrial, e que tinha como base o desenvolvimento econômico com o acúmulo de riquezas exercidas com o comércio do ouro e prata. Quanto maior o acúmulo de riquezas, mais fortalecido ficaria seu reino. Essa fase do desenvolvimento do sistema capitalista está associada à expansão comercial e a explorações de colônias na América. Assim sendo, o capitalismo tem sua base na acumulação de capital. “O termo capitalismo designa, com muita propriedade, este sistema cujos pilares são a busca de lucros e a acumulação de capital. O capital é a fonte dos lucros e, portanto, a fonte de acumulações de capital ulteriores. Esse processo, contrariamente à charada do ovo e da galinha, teve um início. A acumulação primitiva de capital ocorreu no período ora analisado. As quatro primeiras fontes de acumulação inicial de capital foram: (1) o rápido crescimento do volume do intercâmbio do comércio de mercadorias; (2) o sistema de produção manufatureira; (3) o regime de enclousure dos campos e (4) a grande inflação de preços”. (HUNT; SHERMAN. 2007, p. 34). O sistema vigente teve alguns condicionantes para o seu desenvolvimento, como o cerceamento do campo (enclousure), a exploração das colônias e dos metais preciosos que elas continham, a inflação reinante nessa época e o renascimento intelectual. Capitalismo Industrial O liberalismo Clássico e a Revolução Industrial: diferentemente dos mercantilistas, os pensadores do capitalismo industrial propunham uma maior liberdade comercial, isto é, não ficaria restrito ao mercado interno, fazendo expandir o mercado externo. Essa economia foi desenvolvida acompanhada da inovação tecnológica, as máquinas substituindo a mão de obra artesanal, a indústria passando a ser o principal setor de empregos. O desenvolvimento das máquinas causou o aumento da produção e o consequente aumento do acúmulo de capitais, aumentando, assim, o lucro. Juntamente com desenvolvimento da economia, a sociedade também passa a assimilar esse processo, que levou a um grande êxodo rural; o processo de urbanização ajudou a indústria emergente, fornecendo a mão de obra barata. Muitos trabalhadores artesanais ou não se revoltaram com as máquinas que lhes tiravam o emprego; em alguns pontos, eles quebraram máquinas nas fábricas, pois não perceberam que o que havia mudado era o sistema. A mudança era na estrutura do sistema capitalista, com a máquina acelerando a produção e esta acelerando o lucro. A doutrina liberal clássica veio para ficar definitivamente no pensamento econômico e social dessa época; ela é marcada por diversos pensadores, mas cabe lembrar Adam Smith e Robert Malthus. A filosofia de Adam Smith fazia oposição ferrenha à teoria da ética paternalista cristã: ele propunha um livre mercado, sem aquela ideia de que os ricos deveriam promover o bem-estar dos pobres. Smith defendia a ideia de que a prosperidade econômica dependia da capacidade produtiva da economia e a capacidade produtiva dependeria da acumulação de capital e da força de trabalho, força de trabalho atrelada a um baixo salário. Assim, o acúmulo de capitais seria maior e o lucro também. Ele defendia a liberdade econômica com a lei da oferta e da procura. Robert Malthus postulava a preocupação com o crescimento populacional; no final do século XVIII, o pastor anglicano Thomas Robert Malthus lançou sua famosa teoria, segundo a qual a razão para a existência da miséria e das enfermidades sociais seria o descompasso entre a capacidade de produção de alimentos, que se daria numa progressão aritmética PA (1, 2, 3, 4, 5...), em relação ao crescimento populacional, que se daria numa progressão geométrica PG (1, 2, 4, 8, 16...). Malthus chegou a propor que só deveriam ter filhos aqueles que pudessem criar, e que os pobres em decorrência disso deveriam abster-se do sexo. Além disso, defendia a tese de que o estado não deveria dar assistência à saúde das populações pobres. Para ele, se não acontecessem "obstáculos positivos", como guerras, epidemias, que causassem grande mortandade, o desequilíbrio entre a produção de alimentos e o crescimento populacional geraria o caos total. Malthus errou, pois a tecnologia possibilitou um aumento exponencial na produção de alimentos que hoje são produzidos a taxas superiores às do crescimento populacional; além disso, temos verificado uma tendência à estabilização do crescimento populacional nos países desenvolvidos, além de uma desaceleração do crescimento em grande parte dos países subdesenvolvidos, especialmente nas últimas décadas. Com isso podemos concluir que, se há fome no mundo e no Brasil, hoje, isso não se deve à falta de alimentos ou ao excesso de pessoas, mas à má distribuição e destinação dos mesmos. BUSCANDO CONHECIMENTO Biografia de Adam Smith: Adam Smith (1723-1790) foi economista escocês. Considerado o pai da economia moderna. O mais importante teórico do liberalismo econômico do século XVIII. Autorda obra "Uma Investigação Sobre a Natureza" e a "Causa da Riqueza das Nações", que é referência para os economistas. Adam Smith (1723-1790) nasceu em Kirkcaldy, Escócia, e foi batizado no dia 5 de junho de 1723. Filho do advogado Adam Smith e de Margaret Douglas, ficou órfão aos dois anos de idade. Fez o curso secundário no Burgh School of Kirkcaldy. Estudou Filosoia em Glasgow, na Universidade de Edimburgo e em 1740, ingressou no Balliol College da Universidade de Oxford. Radicado em Edimburgo, em 1748, deu cursos sobre ética e economia até ser nomeado professor de Lógica, na Universidade de Glasgow, em 1751. Assumiu a cátedra de filosofia Moral, em 1752. Publicou seu principal tratado, "The Theory of Moral Sentiments" (1759). Como tutor do duque de Buccleuch, viajou pela França e Suíça entre 1763 e 1766, onde teve contato com os fisiocratas, como Voltaire e François Quesnay, fundador da fisiocracia. De volta à Escócia abandonou a atividade acadêmica e alternou sua residência entre Kirkcaldy e Londres, e publicou sua obra principal, "An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations" (1776), obra que teve importância fundamental para o nascimento da economia política liberal e para o progresso de toda a teoria econômica. Pregava a não intervenção do Estado na economia e um Estado limitado às funções de guardião da segurança pública, mantenedor da ordem e garantia da propriedade privada. Adam Smith defendia a liberdade contratual, pela qual patrões e empregados seriam livres para negociar os contratos de trabalho. Foi nomeado inspetor de alfândega em Edimburgo (1777), onde passou o resto da vida, e encerrou sua carreira profissional como reitor da Universidade de Glasgow. Postumamente ainda foi publicado "Essays on Philosophical Subjects" (1795). Adam Smith faleceu em Edimburgo, Escócia, no dia 17 de julho de 1790. Disponível em: http://www.e-biografias.net/adam_smith/ Unidade 02 - As bases do pensamento Econômico: Marx e Keynes CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: Conhecer os principais conceitos da Teoria Econômica Marxista e da Doutrina de Keynes ESTUDANDO E REFLETINDO Teoria econômica Marxista Marx estudou a sociedade da época e a sua estrutura econômica. Esse estudo ficou conhecido como materialismo histórico. Ele estudou a relação de causa e efeito desse sistema, analisando as leis, a religião, costumes, códigos morais, o sistema econômico e as relações sociais (duas classes sociais – burguesia e proletariado). “O modo de produção compunha-se de dois elementos: (1) as forças produtivas e (2) as relações de produção. As forças produtivas englobam as ferramentas, fábricas, equipamentos, o conjunto de habilidades e conhecimentos adquiridos pela força de trabalho, os recursos naturais e o nível tecnológico. As relações de produção constituíam as relações sociais que os homens mantinham entre si, em particular a relação de propriedade ou não propriedade que cada classe de homens estabelecida com os meios de produção, implicando determinada forma de repartição dos frutos da atividade produtiva. O conjunto do sistema econômico, ou modo de produção, foi criado por Marx base ou infraestrutura. As religiões, a ética, as leis, os costumes e as instituições sociais compunham a superestrutura.” (HUNT; SHERMAN. 2007 p. 92). Sendo assim, o Modo de Produção era composto pelas forças produtivas – fábricas, equipamentos, tecnologia e mão de obra, e as relações de produção – relações sociais, propriedade e classes sociais. Infraestrutura é o sistema econômico ou o modo de produção, e a superestrutura é a religião, leis, os costumes (família), as instituições sociais (escola) e a própria ideologia. As classes sociais segundo Marx seriam duas: a burguesia (que detém os meios de produção) e o proletariado (que vende sua força de trabalho); nesta relação entre os meios de produção e a força de trabalho, após a força de trabalho ter produzido o produto, os que detinham os meios de produção vendiam os produtos com preços superiores à quantia investida inicialmente. Isso foi chamado por Marx de mais-valia; então, quanto menor o salário maior o trabalho mais lucro se obteria. Capitalismo financeiro Doutrina de Keynes Nesta teoria, ele analisou o que acontecia com o sistema capitalista e fez propostas para solucionar seus problemas. Ele faz um embasamento com três vertentes: a poupança, as importações e os impostos. No caso da importação, faz-se necessário diminuí-la ou contrabalancear com o aumento das importações. A poupança financia os investimentos de capital. Os impostos forneceriam ao governo a aquisição de bens e serviços. Para Keynes, a intervenção do Estado na economia é necessária para se evitar crises, gerar empregos, contendo os gastos públicos e controlando a demanda dos produtos para não gerar inflação, controlando assim a emissão de moedas. As ideias de Keynes ficaram vigentes até a década de 70; a partir daí, surgiram os economistas neoclássicos, que criticavam a teoria Keynesiana por possuir um Estado pesado, oneroso e ineficiente em relação às suas contas (déficit público). BUSCANDO CONHECIMENTO Economia Primitiva divisão natural do trabalho (distingue homens, mulheres, crianças e velhos); igualdade socioeconômica; coletivismo; ausência do Estado. - Escravismo apogeu de Atenas e Roma; dívidas e derrotas na guerra; propriedade privada; Estado controlado pela elite. - Feudalismo base agrícola, meio rural; sociedade estamental (domínio do clero e da nobreza sobre os servos); ideologia da igreja cristã. - Capitalismo Comercial transição do feudalismo para o capitalismo; a burguesia se afirma no poder econômico; a religião protestante e o fim da usura. - Capitalismo Industrial a separação do capital-trabalho; a mais-valia; duas classes sociais: burguesia e proletariado; Liberalismo econômico (Estado Liberal). - Capitalismo Financeiro Terceira Revolução Industrial; Formação de grandes conglomerados; Quarta revolução industrial atual fase. Modo de Produção Modo de produção é uma estrutura global formada por estruturas regionais, a saber: 1) Econômica existe uma inter-relação dos modos de produção de bens materiais, de tal forma que um domina os outros. É o modo de produção. 2) Jurídico-política leis e as políticas públicas. 3) Ideológica um conjunto estruturado de representações e ideias. Processo de Produção É todo processo de transformação de uma matéria-prima ou produto natural, já trabalhado previamente, em um produto específico. A matéria-prima é transformada pela atividade humana e de máquinas em um produto. matéria transformação produto prima atividade instrumento humana de trabalho Unidade 03. O Modo de Produção Feudal CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: Nessa unidade compreenderemos a organização, o desenvolvimento e as contradições do modo de produção feudal, denominado Feudalismo. A organização do Feudalismo deve-se a uma reunião de fatores, dentre os quais podemos apontar o legado deixado pelos romanos durante o processo de desagregação ou decadência do Império, quando a população das cidades seguia em direção ao campo, pois os altos impostos cobrados pelo Estado intensificaram o êxodo urbano, ressaltando também a necessidade de proteção contra as invasões bárbaras, principalmente após a conquista de Roma peloshérulos, liderados pelo rei Odoacro, em 476. Os camponeses passaram a viver em grandes propriedades rurais denominadas “Vilas Romanas” e o sistema de trabalho era conhecido como “Colonato”, responsável pela coletivização das atividades no campo. Podemos afirmar que o modelo econômico feudal, representado pelas grandes propriedades rurais e pela servidão coletiva, deriva da organização do trabalho rural nas “Vilas Romanas” nos séculos V e VI. ESTUDANDO E REFLETINDO A Idade Média divide-se em dois períodos: Alta Idade Média (séc. V - X): organização, estruturação e desenvolvimento do modelo econômico e suas repercussões políticas e sociais. Baixa Idade Média (séc. XI – XV): declínio e desestruturação do Feudalismo a partir do advento das Cruzadas e da reabertura das rotas comerciais no mar Mediterrâneo, resultando na monetarização da economia na Europa Ocidental. O Feudalismo é o modelo econômico da Idade Média, apresentando também características políticas e sociais próprias. Principais características do Feudalismo Economia agrícola: A principal atividade econômica desenvolvida nos feudos era a agricultura (especialmente trigo), por meio do trabalho coletivo dos servos. Também somava-se a essa atividade, a prática do artesanato e o pastoreio. Autossuficiência: Produziam tudo aquilo de que necessitavam, ou seja, não havia relações econômicas de compra e venda interfeudais. Lembrando que as necessidades eram poucas (alimentos, ferramentas e vestuário) e supridas no cotidiano do feudo pelo trabalho desempenhado pelos servos. Economia amonetária: Sem circulação de moedas. Embora as moedas existissem desde a Idade Antiga, durante o período feudal elas pouco circularam, pois em razão da autossuficiência, as relações comerciais praticamente inexistiam, quando muito, realizavam-se trocas de produtos entre os servos. Porém, essas trocas de gêneros diversos levavam em consideração as necessidades de cada indivíduo ou família naquele momento, pois não havia produção de excedentes e nem sempre aquilo que um deles tinha a oferecer interessava ao outro. Descentralização política: Cada senhor feudal administrava politicamente o seu feudo, às vezes mais que um, caracterizando a autonomia feudal e o estabelecimento dos padrões de pesos, medidas e moedas dentro da sua área de dominação. Sociedade Estamental: A posição social do indivíduo era estabelecida desde o nascimento, impossibilitando a mobilização social, seja de ascensão ou declínio. Suserania e Vassalagem: Relação de lealdade, fidelidade e reciprocidade entre suseranos e vassalos. Suserano – nobre que concedia terras para outro nobre. Vassalo – nobre que recebia as terras do suserano. O feudo era uma grande propriedade rural controlada politicamente pelo senhor feudal (representante da nobreza) – “não existe senhor sem terra e não existe terra sem senhor feudal” – na qual todo tipo de trabalho era exercido pelos servos (camponeses). Embora a palavra servo, derivada do latim servus, signifique escravo, a servidão medieval não é caracterizada como tal, pois os servos, embora com algumas restrições, tinham direito ao uso coletivo do solo e ficavam com parte daquilo de produziam, desde que cumprissem com suas obrigações. Os feudos dividiam-se em áreas ou domínios internos. Manso Senhorial: (terras do senhor feudal) Parte do feudo de uso exclusivo do senhor feudal, onde se encontravam a moradia senhorial, a moenda de trigo, o armazém e a área de cultivo agrícola senhorial. Tinha que ser arada, semeada e colhida, antes das demais áreas do feudo. Manso Servil: (terras dos servos) Parte do feudo de uso coletivo dos servos, na qual estavam as moradias servis, oficina e área de cultivo agrícola servil. Terras Comuns ou de Reserva: Parte do feudo de uso comum, representada pelos bosques (obtenção de lenha), rios (obtenção de água) e pastos (pastoreio de rebanhos). BUSCANDO CONHECIMENTO Dentro do feudo, os servos tinham algumas obrigações a cumprir. Obrigações servis: Talha: Parte da produção servil, geralmente 50%, destinada ao senhor feudal. Tal obrigação incidia não só sobre os produtos agrícolas, mas também sobre todo e qualquer gênero oriundo da produção servil. Corveia: Dias da semana, geralmente 2 ou 3, nos quais os servos deixavam o manso servil para trabalhar no manso senhorial, pois mesmo nessa parte do feudo, o trabalho era integralmente realizado pelos servos. Banalidades: Pagamento, com parte da produção, toda vez que o servo necessitasse utilizar as instalações senhoriais, tais como, ferramentas ou moinho de trigo. Mão-morta: Pagamento, com parte da produção, na ocasião do falecimento do servo-mor, ou seja, aquele que mantinha o vínculo com o senhor feudal, para que seus familiares continuassem no feudo iniciando um novo compromisso nas relações servis-senhoriais. Vintém: Pagamento, com parte da produção, para a igreja católica medieval. Conforme verificamos anteriormente, a carga tributária paga pelos servos era excessiva e, tratando-se de um modelo econômico amonetário, ou seja, sem circulação de moedas, tais tributos eram pagos com parte daquilo que os servos produziam. Um ditado da Idade Média dizia que “feliz é o servo que come do seu próprio trigo.” Essas obrigações tributárias servis garantiam o sustento cotidiano da nobreza – classe social predominante, pois enquanto alguns trabalhavam (servos), outros governavam (senhores feudais), guerreavam (cavaleiros) ou rezavam (clérigos), mantendo nos membros da nobreza, os respectivos poderes: político, militar e religioso. A desagregação do modelo feudal deve-se a uma série de fatores, dentre as quais se destaca a monetarização da economia a partir do advento das Cruzadas (séc. XII-XIV), responsável pela reabertura das rotas comerciais no mar Mediterrâneo, no momento em que os europeus se depararam com a explosão de cores, odores e sabores do oriente, representadas, respectivamente, pelos finos tecidos chineses, tapetes persas, perfumes e óleos aromáticos árabes e especiarias indianas (pimenta, cravo, canela...). Outro fator preponderante foi o aumento da população servil em descompasso com a produção de alimentos, desequilibrando o sistema econômico feudal e obrigando muitos camponeses a abandonar as terras, marcando um lento processo de êxodo rural. Além dos fatores citados, os séculos XIV e XV, foram marcados pela peste e pela guerra. A Peste Negra, epidemia que vitimou aproximadamente 1/3 da população da Europa Ocidental e a Guerra dos Cem Anos (1337-1453) entre Inglaterra e França, contribuíram para agravar a situação de crise já existente. Os limites do feudo foram ultrapassados e um novo modo de vida descortinou-se diante dos olhos dos camponeses. As trocas de gêneros não eram mais viáveis ou atraentes, pois as moedas circulantes permitiam trocá-las por qualquer outro produto de necessidade individual. A economia agrícola ou rural tornou-se coadjuvante do modelo comercial urbano que se iniciava nas várias cidades que surgiam ao longo das muralhas feudais, entroncamento de estradas ou margens de rios. Unidade 04. Mercantilismo CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: Compreender a transição econômica feudal-capitalista, durante a Baixa Idade Média, ocasião na qual ocorreu a monetarização da economia, originando o modelo econômico mercantilista. ESTUDANDO E REFLETINDO As Cruzadas – Guerra Santa Cristã contra os islâmicos – possibilitaram a reabertura nas rotas comerciais no mar Mediterrâneo e, consequentemente,ocorreu o Renascimento Comercial e Urbano europeu, pois várias rotas de comércio surgiram e se intensificaram nesse momento histórico. As principais rotas de comércio eram: Rota do Mediterrâneo: (Constantinopla – Península Itálica) monopolizada pelas cidades italianas – Gênova e Veneza – abrangia a bacia do mar Mediterrâneo, desde Constantinopla – principal entreposto comercial de produtos orientais – até a península itálica, de onde tais produtos seriam distribuídos no continente Europeu. Rota de Champagne: (Península Itálica – Flandres) era a rota terrestre que distribuía as mercadorias nas mais diferentes regiões da Europa Ocidental, sendo que a região francesa de Champagne era a principal, pois nela se realizavam as principais feiras medievais, locais de intenso comércio, empréstimos e trocas de moedas. Rota do mar do Norte: (Flandres – Constantinopla) comandada pela cidade de Bruges, nessa rota havia um intenso comércio de madeira, peles de animais, peixes e couro, cujos lucros obtidos possibilitavam a compra de produtos orientais em Constantinopla. Essas rotas comerciais eram responsáveis pela distribuição das mercadorias que seriam comercializadas nas feiras medievais, as quais se realizavam duas vezes ao ano, embora mudassem de lugar, duravam aproximadamente seis meses. O comércio tornou-se a principal atividade econômica nas cidades que surgiram ao longo da Baixa Idade Média (séc. XII – XV). Algumas cidades se agrupavam regionalmente em associações de comerciantes ou ligas comerciais com o intuito de evitar a concorrência de comerciantes estrangeiros. A mais importante dessas associações comerciais foi a “Liga Hanseática”, a qual abrangia um grande número de cidades localizadas no norte da Europa e tinha por objetivo monopolizar o comércio na região. Dentro das cidades, que, na maior parte das vezes, eram muradas, também havia as associações de artesãos, denominadas “corporações de ofício”. Essas corporações reuniam vários artesãos de uma mesma atividade profissional, tais como: corporação de oficio dos ferreiros, corporação de ofício dos vidreiros, corporação de ofício dos padeiros e assim por diante. A função das corporações de oficio era estabelecer o “justo preço” e, dessa forma, minimizar a concorrência entre os artesãos. Também amparavam o trabalhador e sua família em caso de acidente ou óbito. Outra figura importante nas cidades era o cambista, responsável pela troca de moedas a serem utilizadas nas feiras medievais, pois, na maioria delas, os comerciantes só aceitavam as moedas da região. O banqueiro era o individuo que efetuava empréstimos em moedas ou emitia letras de câmbio. Enfim, essas transformações exigiam novas diretrizes econômicas, pois a posse de terras não era mais o fator de diferenciação social. Portanto, a nobreza detentora das propriedades rurais perdia o seu status de classe social dominante para a recém-surgida burguesia, composta principalmente pelos comerciantes, cambistas e banqueiros, os quais detinham uma outra fonte de riquezas, as moedas acumuladas a partir das transações econômico-comerciais. “...nos primórdios do feudalismo, a terra, por si só, constituía a medida da riqueza do homem. Com a expansão do comércio surgiu um novo tipo de riqueza – a riqueza do dinheiro.” (HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. 21ª. Edição. Rio de Janeiro: LTC, 1986, pág. 35) O mercantilismo – conjunto de medidas econômicas responsáveis pelo desenvolvimento do capitalismo comercial na Idade Moderna (séc. XV – XVIII) – é fruto da aliança entre o rei e a burguesia durante o período de transformações sociais e econômicas na Baixa Idade Média. Os burgueses estavam interessados em fortalecer e ampliar suas relações comerciais, mas encontravam diversos entraves no mundo feudal, tais como: a existência de pedágios interfeudais e a diversificação de pesos, medidas e moedas, frutos da descentralização política do feudalismo. Para favorecer a burguesia, era necessário implantar a intervenção real, ou seja, a centralização política e a concentração de poderes na figura do rei, o qual, por sua vez, precisava do apoio e do dinheiro da burguesia para enfraquecer a nobreza feudal. Podemos afirmar que essa aliança só foi possível naquele contexto histórico, pois ambos estavam interessados em formas diferentes de poder. Enquanto a burguesia buscava a ascensão e o poder econômico, o rei queria monopolizar o poder político e formar um Estado Nacional. Os impostos recolhidos e os empréstimos da burguesia ao rei fortaleceriam o Estado Nacional e financiariam a estruturação do Exército Nacional Profissional e Remunerado, responsável pela defesa dos interesses do rei em detrimento da nobreza feudal. Dentro do Estado Nacional – território outrora dividido em diversos feudos – as barreiras interfeudais seriam eliminadas e os pesos, medidas e moedas seriam padronizados, resultando na ampliação do comércio praticado pela burguesia. “Passaram a existir leis nacionais, línguas nacionais e até igrejas nacionais (...) os homens passaram a dever fidelidade não à sua cidade ou ao seu senhor feudal, mas ao rei, que é o monarca de toda uma nação (...) Necessitava-se de uma autoridade central, um Estado Nacional. Um poder supremo que pudesse colocar em ordem o caos feudal. Os velhos senhores já não podiam preencher sua função social. Sua época passara. Era chegado o momento oportuno para um poder central forte.” (idem, pág. 70 e 71) O principal objetivo das práticas mercantilistas era o enriquecimento do Estado Nacional Absolutista, por isso entendemos o envolvimento direto da monarquia com os rumos comerciais da nação. BUSCANDO CONHECIMENTO Principais características do mercantilismo Metalismo: Acúmulo de metais preciosos (ouro e prata) como sinônimo de riqueza de uma nação, ou seja, a medida de riqueza na nação era definida pela quantidade de ouro e prata acumulados em seus cofres. Balança Comercial Favorável: Consistia em manter os níveis econômicos de exportação sempre acima dos de importação, ou seja, buscar o superávit da balança comercial. “O que importa é exportar”. Intervencionismo ou Protecionismo Estatal: O Estado criava barreiras alfandegárias para dificultar a entrada de produtos estrangeiros, em vista da manutenção da balança comercial favorável. Intervenção do Estado na economia. Monopólio Comercial: Exclusividade na comercialização de alguns produtos ou gêneros tropicais, obtidos pela metrópole nas colônias de exploração e distribuídos na Europa. Exploração Colonial: Sistema ou Pacto Colonial – relação bilateral de dominação e dependência entre metrópole e colônia, na qual a colônia fornece metais preciosos, produtos tropicais e matérias-primas para a metrópole e recebe desta os produtos manufaturados de que necessita. A exploração de colônias era fator preponderante para a manutenção da balança comercial favorável da metrópole, contribuindo de forma decisiva para o acúmulo de metais preciosos e, consequentemente, para o enriquecimento do Estado Nacional. Unidade 05 - Processo de acumulação primitiva do capital CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: Caracterizar o conceito estabelecido pelo filósofo e economista alemão Karl Marx para descrever o surgimento e o funcionamento do Capitalismo Industrial. ESTUDANDO E REFLETINDO Segundo Marx, a origem do Capitalismo não está simplesmente vinculada à divisão do trabalho, característica das manufaturas europeias dos séculos XVI e XVII. O processo de acumulaçãoprimitiva do capital estaria estreitamente ligado à expropriação da produção familiar, artesanal ou corporativa, pois separou definitivamente os produtos dos seus meios de produção, formando um exército de proletários (trabalhadores empregados) e outro exército de reserva (trabalhadores desempregados), sendo que esses últimos são os responsáveis pelos níveis de salários que os trabalhadores empregados recebem. Meios de Produção: conjunto dos meios de trabalho (instalações, infraestrutura produtiva, ferramentas, máquinas e equipamentos diversos) e objetos de trabalho (recursos naturais e matérias-primas) utilizados pelo indivíduo, responsáveis pela transformação da natureza. Modo de Produção: Representa a organização socioeconômica associada ao desenvolvimento da força produtiva, ou seja, artesanal, manufaturado ou industrial. Existem seis Modos de Produção: Primitivo, Asiático, Escravista, Feudal, Capitalista e Comunista. Os modos de produção são formados pelo conjunto das forças produtivas e pelo conjunto das relações de produção Forças Produtivas: Representa a reunião da força de trabalho humana com os meios de produção, ou seja, a utilização das instalações, infraestrutura produtiva, ferramentas, máquinas e equipamentos diversos e dos recursos naturais e matérias-primas, caracterizando todas as forças utilizadas para transformar a natureza na produção de bens materiais. A principal força de produção é o próprio homem, com seu corpo, sua energia, sua inteligência e seu conhecimento. O colonialismo (exploração dos recursos naturais das colônias pelas metrópoles) contribuiu significativamente para a acumulação de capitais nas principais nações industriais europeias, beneficiando principalmente a burguesia, classe social diretamente ligada ao setor produtivo-comercial-financeiro. Segundo Marx, esse modelo explorador foi responsável pela formação das duas principais classes sociais antagônicas, ou seja, a burguesia (detentora dos meios de produção) e o proletariado (força de trabalho empregada pela burguesia). “O dinheiro e a mercadoria não são, desde o início, capital, tão- pouco os meios de produção e de vida. Carecem da transformação em capital. Mas esta mesma transformação só pode processar-se em circunstâncias determinadas, que se condensam no seguinte: duas espécies muito diferentes de possuidores de mercadorias têm de se pôr frente a frente e entrar em contacto, de um lado proprietários de dinheiro, de meios de produção e de vida, aos quais o que interessa é valorizar a soma de valor por eles possuída por meio da compra de força de trabalho alheia; do outro lado trabalhadores livres, vendedores da força de trabalho própria e por isso vendedores de trabalho. Trabalhadores livres no duplo sentido de que nem eles próprios pertencem imediatamente aos meios de produção, como os escravos, servos, etc., nem também os meios de produção lhes pertencem, como no caso do camponês que trabalha a sua propriedade, antes estão livres deles, livres e sem responsabilidades. Com esta polarização do mercado das mercadorias estão dadas as condições fundamentais da produção capitalista. (MARX, Karl. O Capital) Trabalho Artesanal: O artesão realiza todas as etapas da produção, desde a obtenção da matéria-prima até o acabamento e posterior comercialização do produto. Ele é o proprietário dos meios de produção, isto é, instalações físicas, ferramentas e equipamentos diversos. Além disso, o artesão é o responsável pela administração do seu tempo dedicado à produção. Durante a Baixa Idade Média, as oficinas artesanais controladas pelas corporações de ofício, deveriam estabelecer o Justo Preço do produto; na verdade, era uma maneira de equilibrar as relações entre o artesão e o consumidor, proporcionando vantagens para ambos. Trabalho Manufaturado: Ocorre a divisão do trabalho, na qual cada artesão realiza uma ou mais etapas da produção. Nas oficinas de manufatura, o trabalhador é contratado para trabalhar uma determinada jornada de trabalho em troca de um pagamento pré-estabelecido (salário). O processo produtivo continua sendo artesanal, porém, o trabalhador não dispõe das ferramentas e equipamentos, os quais pertencem ao dono da manufatura que controla o ritmo da produção e fica com a diferença existente entre os gastos com os meios de produção e o valor de venda do produto final (lucro ou mais-valia). Trabalho Industrial ou Maquinofaturado: É representado pela introdução das máquinas no processo produtivo, as quais possibilitaram a aceleração do ritmo da produção e, consequentemente, o aumento do consumo. Ocorre a intensificação da divisão do trabalho e da exploração da mão de obra dos proletários (trabalhadores assalariados das indústrias), os quais começam a se organizar e reivindicar melhores condições de vida, trabalho e salários. O trabalhador torna-se, definitivamente, vendedor da sua força de trabalho e especializa-se numa determinada função do processo industrial. Essas transformações estruturais nos meios e modos de produção são definidas, historicamente, como Primeira Revolução Industrial (século XVIII), que foi exclusivamente inglesa. BUSCANDO CONHECIMENTO Texto complementar “Dois homens esperam na fila para comprar entradas para o espetáculo. Cada um paga $9,90 por três poltronas. Ao se afastar da bilheteria, um deles se reúne a seus dois amigos. Entram no teatro, sentam-se e esperam que o pano se levante. O outro homem deixa a bilheteria, coloca-se no passeio em frente ao teatro e, com as entradas na mão, aborda os transeuntes. "Quer um lugar no centro para hoje?", pergunta. Pode ser que acabe vendendo as entradas (por $4,40 cada) ou pode ser que não venda. Não importa. Há alguma diferença entre os seus $9,90 e os do outro homem? Há, sim. O dinheiro do Sr. Cambista é capital, o dinheiro do Sr. Frequentador do Teatro, não. Onde está a diferença? O dinheiro só se torna capital quando é usado para adquirir mercadorias ou trabalho com a finalidade de vendê-los novamente, com lucro. O Cambista não queria ver o espetáculo. Pagou $9,90 com a esperança de tê-los de volta - com acréscimo. Portanto, seu dinheiro tinha a função de capital. O Sr. Frequentador do Teatro, por outro lado, pagou seus $9,90 sem pensar em consegui-los de volta - simplesmente desejava ver o espetáculo. Seu dinheiro não tinha a função de capital. Da mesma forma, quando o pastor vendia sua lã a dinheiro, a fim de comprar pão para comer, não estava usando esse dinheiro como capital. Mas quando o negociante pagava o dinheiro da lã com a esperança de vendê-la novamente a um preço mais elevado, usava o dinheiro como capital. Quando o dinheiro é empregado num empreendimento ou transação que dá (ou promete dar) lucro, esse dinheiro se transforma em capital. É a diferença entre vender para comprar para uso (fase pré-capitalista) e comprar para vender com o objetivo de ganhar (fase capitalista). Mas o que é que o capitalista compra para vender com lucro? Entradas de teatro? lã? carros? chapéus? casas? Não. Não é nenhuma dessas coisas, e ao mesmo tempo é parte de todas elas. Converse com um trabalhador na indústria. Ele lhe dirá que o patrão lhe paga salário pela sua capacidade de trabalhar. É a força de trabalho do operário que o capitalista compra para vender com lucro, mas é evidente que o capitalista não vende a força de trabalho de seu operário. O que ele realmente vende - e com lucro – são as mercadorias que o trabalho do operário transformou de matérias-primas em produtos acabados. O lucro vem do fato de receber o trabalhador um salário menor do que o valor da coisa produzida.O capitalista é dono dos meios de produção - edifícios, máquinas, matéria-prima; compra a força de trabalho. É toda associação dessas duas coisas que decorre a produção capitalista. Observe o leitor que o dinheiro não é a única forma de capital. Um industrial de hoje pode ter pouco ou nenhum dinheiro, e não obstante ser possuidor de grande volume de capital. Pode ser dono de meios de produção. Isso, o seu capital, aumenta na medida em que ele compra a força de trabalho. Uma vez iniciada uma indústria moderna, ela obtém seus lucros e acumula seu capital muito depressa. Mas de onde veio inicialmente o capital - antes de começar a indústria moderna? É uma pergunta importante, porque, sem a existência do capital acumulado, o capitalismo industrial, tal como o conhecemos, não teria sido possível. Nem teria sido possível sem a existência de uma classe trabalhadora livre e sem propriedades - gente que tinha de trabalhar para os outros para viver. Como se criaram essas duas condições? Poderíamos dizer que o capital necessário para iniciar a produção capitalista veio das almas cuidadosas, que trabalharam duro, gastaram apenas o indispensável e ajuntaram as economias aos poucos. Houve sempre quem economizasse, é verdade, mas não foi dessa forma que se concentrou a massa de capital inicial. Seria bonito se assim fosse, mas a verdade é bem diversa. A verdade não é tão bonita. Antes da idade capitalista, o capital era acumulado principalmente através do comércio - termo elástico, significando não apenas a troca de mercadorias, mas incluindo também a conquista, pirataria, saque, exploração. Não foi em vão que as cidades-Estados italianas se prontificaram a ajudar a Europa ocidental nas Cruzadas. O término dessas guerras "religiosas" encontrou Veneza, Gênova e Pisa controlando um fraco império e os conquistadores italianos aproveitaram ao máximo sua oportunidade. Uma corrente de riqueza do Oriente para as mãos de seus comerciantes e banqueiros. Uma das melhores autoridades no assunto, John A. Hobson, disse sobre esse comércio italiano com o Oriente: "Assim, muito cedo foram lançadas as bases do comércio lucrativo que proporcionou à Europa ocidental a riqueza necessária para a posterior expansão dos métodos capitalistas de produção." (HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. 21ª. Edição. Rio de Janeiro: LTC,1986, pág.156-158) Unidade 06 - Antecedentes da industrialização CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: Compreender a origem das práticas capitalistas industriais ESTUDANDO E REFLETINDO INDUSTRIALIZAÇÃO OU REVOLUÇÃO INDUSTRIAL INGLESA Os trabalhadores assalariados originaram-se dentro das oficinas de manufaturas, as quais eram representadas profissionalmente pelo mestre-artesão (geralmente era o dono da oficina), o oficial (conhecedor do oficio) e os jornaleiros (aqueles que recebiam um salário pela jornada de trabalho realizada). Denomina-se Primeira Revolução Industrial ou Revolução Industrial Inglesa, o conjunto de transformações ocorridas na Inglaterra ao longo da segunda metade do século XVIII, quando a principal evidência foi a introdução das máquinas no processo produtivo, intensificando a divisão do trabalho e consequentemente a aceleração da produção e o aumento do consumo. Embora tais mudanças sejam ambientadas no século XVIII, elas são decorrentes das características econômicas da Inglaterra desde o século XV, pois foram profundamente marcadas pela orientação mercantilista do absolutismo monárquico inglês, em especial durante a monarquia da rainha Elizabeth I (1558- 1603), período no qual se verifica um grande desenvolvimento econômico do Estado, completado posteriormente no período da Revolução Puritana (1642- 1649) e no Commonwealth (Comunidade Britânica) de Cromwell (1649-1659), quando vigorou, na Inglaterra, o modelo republicano. 6.1- Antecedentes da Revolução Industrial Inglesa O pioneirismo inglês explica-se a partir da análise de uma série de fatores ocorridos ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII que, quando conjugados, possibilitaram as transformações econômicas e sociais responsáveis pela Revolução Industrial. Acúmulo de Capitais Durante o período mercantilista, a Inglaterra promoveu o acúmulo de capitais por meio do comércio marítimo, principalmente após a publicação do Ato de Navegação em 1651 que, entre outras coisas, determinava que “todas as mercadorias comercializadas pela Inglaterra deveriam ser transportadas por navios ingleses”, proibindo, portanto, o comércio externo feito por navios estrangeiros. Evidenciam-se, nessa prática, as características do nacionalismo e do protecionismo inglês, pois tal medida, além de estimular a indústria naval na Inglaterra, beneficiando diretamente a burguesia, envolvida no comércio internacional, tentava afastar a principal rival inglesa no comércio marítimo, a Holanda, a qual exercia uma supremacia naval. O Ato de Navegação foi a resposta do governo inglês ao poderio naval e comercial holandês em meados do século XVII. Naquela época, os Países Baixos constituíam-se na maior potência comercial e dispunham da maior frota mercante do mundo, que transportava bens e riquezas de todas as partes do globo. Amsterdã havia se tornado o centro financeiro mundial e os seus bancos emprestavam dinheiro a muitos governos estrangeiros. Ao mesmo tempo, a Inglaterra desenvolvia uma poderosa marinha, tanto mercante, quanto bélica, desenvolvia as manufaturas, expandia o Império, e abria muitos novos mercados internacionais ao seu comércio. (www.wikipedia.org) BUSCANDO CONHECIMENTO Ascensão Política da Burguesia As Revoluções Inglesas do século XVII possibilitaram a ascensão política da burguesia. Revolução Puritana (1642-1649): Fonte: http://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/06/revolucao-puritanismo.jpg Revolução burguesa em oposição ao absolutismo monárquico do rei Carlos I, demonstrando a rivalidade entre as forças instituídas pela monarquia (nobreza anglicana e cavalaria) e as novas forças trazidas pelos republicanos (burguesia puritana e exército). A vitória dos puritanos e a decapitação do rei Carlos X simbolizam o fim do absolutismo monárquico inglês e o início da ascensão política da burguesia, a qual se reuniu no parlamento britânico para discutir os rumos políticos e econômicos da nação. Entretanto, a República transformou-se num governo ditatorial sob o comando de Oliver Cromwell, líder dos puritanos durante a revolução. O Protetorado de Cromwell promoveu profundas transformações econômicas em benefício da burguesia, mas com o seu falecimento em 1658, a monarquia foi restaurada e os anseios absolutistas dos reis Carlos II (1660-1685) e Jaime II (1685- 1688) tornaram-se evidentes, resultando em uma nova revolução burguesa. Revolução Gloriosa (1688-1689): Revolução burguesa responsável pela deposição do rei Jaime II e coroação do rei Guilherme de Orange, o qual perante os líderes burgueses assinou a “Declaração dos Direitos”, impondo limites ao poder político do monarca e implantando definitivamente na Inglaterra a Monarquia Parlamentar, segundo a qual “o rei reina e o Parlamento governa”. “O fim do absolutismo na Inglaterra significou a vitória de um importante segmento da sociedade: a burguesia. Aos poucos, as restrições mercantilistas foram desaparecendo, atendendo assim ao grande anseio da burguesia manufatureira e industrial.” (História do Mundo Ocidental.FTD, São Paulo, 2005) Unidade 07 - Características da industrialização CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Identificar as principais características do processo de industrialização ESTUDANDO E REFLETINDO Abundância de Mão de Obra A abundância de mão de obra barata utilizada nas indústrias inglesas nos séculos XVIII e XIX é resultado dos cercamentos (enclosures) ocorridos desde os séculos XVI e XVII, quando as pequenas propriedades agrícolas foram tomadas pelos grandes senhores de terras (“latifundiários”) e, consequentemente, os camponeses eram expulsos de suas terras, migrando para as áreas urbanas (êxodo rural) e se tornaram os trabalhadores assalariados das indústrias. Paralelamente ao êxodo rural, as propriedades eram transformadas em grandes áreas agrícolas, que deixaram de produzir apenas o necessário para o consumo local e se tornaram capazes de suprir as necessidades de alimentos da população urbana, possibilitando uma relação de integração do meio urbano com o rural. Para controlar o excedente de mão de obra urbana e evitar a vadiagem nas ruas das cidades inglesas, foram aprovadas severas leis que puniam os desocupados, transformando-os em escravos ou enforcando-os publicamente. Em razão disso, os trabalhadores se sujeitavam às longas jornadas de trabalho diárias, aos baixíssimos salários e às péssimas condições de vida. “A Revolução Industrial não dependeu só de um tipo qualquer de expansão econômica, técnica ou científica, mas da criação da fábrica, isto é, de um sistema fabril mecanizado, a produzir em quantidades tão grandes e a um custo tão rapidamente decrescente a ponto de não depender de uma demanda existente, mas de criar o seu próprio mercado. (...) “No século XVIII, uma relativa quantidade de proprietários com espírito comercial já monopolizava a terra, cultivada por arrendatários empregando camponeses sem terra ou pequenos agricultores. Isso significa que, diferentemente de outros países, a agricultura inglesa estava predominantemente dirigida para o mercado. E preparada para aumentar a produção de modo a alimentar uma propriedade agrícola em rápido crescimento e fornecer excedentes de mão de obra para as cidades e indústrias.” (CANÊDO, Letícia. A Revolução Industrial. São Paulo: Atual, 1994. p. 31) Riqueza Mineral e Inovações Técnicas Abundância de Recursos Minerais Os recursos minerais fundamentais para a industrialização, ferro e carvão, eram abundantes no território inglês e contribuíram significativamente para o advento da industrialização na Inglaterra. O carvão era o combustível das indústrias inglesas, o ferro a matéria-prima e o vapor a fonte de energia. A obtenção de tais recursos minerais se dava a partir da exploração do trabalho dos mineradores (carvoeiros) ingleses. Inovações e Invenções Tecnológicas As máquinas, inseridas no longo processo de desenvolvimento e transformação das manufaturas em indústrias, caracterizaram as mudanças nos meios de produção, denominadas “Revolução Industrial”. “Os jornais de 150 anos atrás não tinham seções de "O Impossível Acontece", com suas histórias de acontecimentos incríveis. Se tivessem, a Birmingham Gazette, de 11 de março de 1776, teria sabido imediatamente onde colocar esta surpreendente notícia: "Na última sexta-feira, uma máquina a vapor construída segundo os novos princípios do Sr. Watt foi posta em funcionamento em Bloomfield Colliery na presença de alguns homens de ciência cuja curiosidade fora estimulada pela possibilidade de ver os primeiros movimentos de uma máquina tão singular e poderosa. Com esse exemplo, as dúvidas dos inexperientes se dissipam e a importância e utilidade da invenção se firmam decididamente. [Foi] inventada pelo Sr. Watt, após muitos anos de estudo e grande variedade de experiências custosas e trabalhosas." Em 1800, a importância e utilidade da invenção, do Sr. Watt, havia se tornado tão evidente aos ingleses que ela estava em uso em 30 minas de carvão, 22 minas de cobre, 28 fundições, 17 cervejarias e 8 usinas de algodão. (...) O aparecimento da máquina movida a vapor foi o nascimento do sistema fabril em grande escala.” (HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem) Principais Máquinas Lançadeira Volante (1733) – John Kay Aumentou a capacidade de tecelagem (produção de tecido), pois acelerava a produção, provocando a necessidade, cada vez maior, de obtenção de matéria-prima (fios de algodão). Spinning Jenny (1764) – James Hargreaves Aumentou a produção de fios de algodão, suprindo a necessidade de obtenção de matéria-prima provocada pela invenção de 1733. Essa máquina fazia vários fios ao mesmo tempo, porém os mesmos eram quebradiços e dificultavam a produção. Water Frame (1769) – Richard Arkwright Produzia fios grossos e era movida a água, o que a tornava bastante viável no processo de produção têxtil. Mule (1779) – Samuel Crompton Foi a combinação de duas invenções anteriores, a spinning jenny e a water frame. Produzia fios finos e resistentes, resolvendo o problema da produção de fios. Entretanto, a alta produção de fios não era totalmente absorvida pelas tecelagens, pois o ritmo de produção dessas fábricas de tecido era lento em razão dos teares serem manuais. Tear Mecânico (1785) – Edmund Cartwright Aumentou o ritmo da produção de tecidos, absorvendo maior quantidade de fios, pois acelerava o processo de produção de tecidos. Máquina a Vapor (1765) – James Watt Considerada a principal invenção da Revolução Industrial, possibilitou maior velocidade no processo produtivo, de modo geral, pois tal cilindro metálico movido a vapor era utilizado como fonte de energia nos mais diferentes tipos de máquinas. BUSCANDO CONHECIMENTO Para aprofundar seu conhecuimento recomendamos que você assita AL filme Tempos Modernos (Modern Times) – 1936 “É um filme do cineasta britânico Charles Chaplin, em que o seu famoso personagem "O Vagabundo" (The Tramp) tenta sobreviver em meio ao mundo moderno e industrializado. É considerado uma forte crítica ao capitalismo (...) bem como uma crítica aos maus tratos que os empregados passaram a receber depois da Revolução Industrial. Nesse filme Chaplin quis passar uma mensagem social. Cada cena é trabalhada para que a mensagem chegue verdadeiramente tal qual seja. E nada parece escapar: máquina tomando o lugar dos homens, as facilidades que levam a criminalidade, a escravidão. O amor também surge, mas surge quase paternal: o de um vagabundo por uma menina de rua. Tempos Modernos é ao mesmo tempo comédia, ao mesmo tempo drama e romance. Um trabalhador de uma fábrica, tem um colapso nervoso por trabalhar de forma quase escrava. É levado para um hospício, e quando retorna para a “vida normal”, para o barulho da cidade, encontra a fábrica já fechada. Charles vai em busca de outro destino, mas acaba se envolvendo numa confusão: pois é tomado como o líder comunista por trás da greve que esta a acontecer e acaba por ser preso. Quando é libertado e depois de uma agradável estadia na prisão, decide fazer de tudo para voltar para lá e ao ver a jovem que fugiu da adoção, decide se entregar em seu lugar. Não dá certo, pois uma grã-fina tinha visto o que houve e estraga tudo. Mesmo assim, ele faz de tudo para ir preso, no entanto os dois acabam escapando e vão tentar a vida de outra maneira. A amizade que surge entre os dois é bela, porém não os alimenta. Ele tem que arrumar um emprego rapidamente. Consegue um emprego numa outra fábrica, mas logoos operários entram em greve e ele mete-se novamente em perigo. No meio da confusão, vai preso ao jogar sem querer uma pedra na cabeça de um policial. Fonte: www.wikipedia.com Unidade 08 - Trabalho assalariado CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: A divisão do trabalho, verificada nas manufaturas inglesas, proporcionou a separação entre capital e trabalho a partir da exploração da mão de obra do proletariado (operariado) resultava em lucro para os empregadores (burgueses). ESTUDANDO E REFLETINDO O conflito entre proletariado e burguesia é fruto das contradições da Revolução Industrial, pois o trabalhador exercia longas jornadas de trabalho diárias, mas vivia em péssimas condições de vida, recebendo baixíssimos salários e trabalhando em condições insalubres. “As máquinas, que podiam ter tornado mais leve o trabalho, na realidade, o fizeram pior. Eram tão eficientes que tinham de fazer sua mágica durante o maior tempo possível. Para seus donos, representavam tamanho capital que não podiam parar - tinham de trabalhar, trabalhar sempre. Além disso, o proprietário inteligente sabia que arrancar tudo da máquina, o mais depressa possível, era essencial porque, com as novas invenções, elas podiam tornar-se logo obsoletas. Por isso os dias de trabalho eram longos, de 16 horas. Quando conquistaram o direito de trabalhar em dois turnos de 12 horas, os trabalhadores consideraram tal modificação como uma bênção. Mas os dias longos, apenas, não teriam sido tão maus. Os trabalhadores estavam acostumados a isso. Em suas casas, no sistema doméstico, trabalhavam durante muito tempo. A dificuldade maior foi adaptar-se à disciplina da fábrica. Começar numa hora determinada, para, noutra, começar novamente, manter o ritmo dos movimentos da máquina - sempre sob as ordens e a supervisão rigorosa de um capataz - isso era novo.” (HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem) Segundo Karl Marx, “o lucro é fruto da mais-valia”, ou seja, da apropriação do tempo da força de trabalho e do tempo do trabalhador em benefício do empregador. Buscando melhores condições de vida, trabalho e salários, o operariado se organiza em associações de trabalhadores, originando as Trade Unions ou Sindicatos e, utilizando-se da prática de greves, reivindica a redução da jornada de trabalho e melhores salários. A expansão do mercado consumidor, em decorrência da aceleração do processo produtivo (Revolução Industrial), necessitava de um grande número de trabalhadores nas indústrias e, para suprir essa demanda, indivíduos de ambos os sexos e idades eram recrutados. Entre os séculos XVI e XVIII, ocorre uma transformação nas forças de produção, o artesão que outrora realizava o trabalho nas oficinas, torna-se trabalhador assalariado. As mulheres e crianças eram igualmente exploradas em longas jornadas de trabalho diárias, fazendo com que os lares do período se tornassem locais de acomodação precária da mão de obra explorada nas indústrias. “Casas superlotadas, sujas e em mau estado, roupas esfarrapadas, e reclamações frequentes sobre a comida insatisfatória, tanto na quantidade como na qualidade, caracterizavam os lares pesquisados... Crianças de menos de 16 anos trabalhavam em 96 das 129 famílias estudadas... Metade delas tinha idade inferior a 12 anos. Trinta e quatro tinham 8 anos e menos, e doze tinham menos de 5 anos.” (Idem. pág. 116 e 117) Essa classe operária surgida durante o processo de industrialização inglesa expandiu e consolidou o modelo capitalista industrial: por meio da exploração do trabalho e dos baixos salários, uma massa de indivíduos despossuídos (proletariado) sustentava aqueles que possuíam os meios de produção (burguesia). O trabalho exaustivo e insalubre nas fábricas obrigava os indivíduos a cumprir jornadas diárias de até 16 horas, independentemente do sexo ou idade, sem qualquer garantia ou lei trabalhista que preservasse sua integridade física ou profissional. As condições de trabalho eram as mais degradantes possíveis. As doenças, os acidentes graves e a baixa expectativa de vida faziam parte do cotidiano desses trabalhadores, os quais buscavam meios de organização coletiva em associações ou sindicatos, vislumbrando melhores condições no trabalho cotidiano. BUSCANDO CONHECIMENTO Texto Complementar “Todo homem é rico ou pobre, de acordo com o grau em que consegue desfrutar das coisas necessárias, das coisas convenientes e dos prazeres da vida. Todavia, uma vez implantada plenamente a divisão do trabalho, são muito poucas as necessidades que o homem consegue atender com o produto de seu próprio trabalho. A maior parte delas deverá ser atendida com o produto do trabalho de outros, e o homem será então rico ou pobre, conforme a quantidade de serviço alheio que está em condições de encomendar ou comprar. Portanto, o valor de qualquer mercadoria, para a pessoa que a possui, mas não tenciona usá-la ou consumi-la ela própria, senão trocá-la por outros bens, é igual à quantidade de trabalho que essa mercadoria lhe dá condições de comprar ou comandar. Consequentemente, o trabalho é a medida real do valor de troca de todas as mercadorias. O preço real de cada coisa - ou seja, o que ela custa à pessoa que deseja adquiri-la - é o trabalho e o incômodo que custa a sua aquisição. O valor real de cada coisa, para a pessoa que a adquiriu e deseja vendê-la ou trocá-la por qualquer outra coisa, é o trabalho e o incômodo que a pessoa pode poupar a si mesma e pode impor a outros. O que é comprado com dinheiro ou com bens, é adquirido pelo trabalho, tanto quanto aquilo que adquirimos com o nosso próprio trabalho. Aquele dinheiro ou aqueles bens na realidade nos poupam este trabalho. Eles contêm o valor de uma certa quantidade de trabalho que permutamos por aquilo que, na ocasião, supomos conter o valor de uma quantidade igual. O trabalho foi o primeiro preço, o dinheiro de compra original que foi pago por todas as coisas. Não foi por ouro ou por prata, mas pelo trabalho, que foi originalmente comprada toda a riqueza do mundo; e o valor dessa riqueza, para aqueles que a possuem, e desejam trocá-la por novos produtos, é exatamente igual à quantidade de trabalho que essa riqueza lhes dá condições de comprar ou comandar. Riqueza é poder, como diz Hobbes. Mas a pessoa que adquire ou herda uma grande fortuna não necessariamente adquire ou herda, com isto, qualquer poder político, seja civil ou militar. Possivelmente sua fortuna pode dar-lhe os meios para adquirir esses dois poderes, mas a simples posse da fortuna não lhe assegurará nenhum desses dois poderes. O poder que a posse dessa fortuna lhe assegura, de forma imediata e direta, é o poder de compra; um certo comando sobre todo o trabalho ou sobre todo o produto do trabalho que está então no mercado. Sua fortuna é maior ou menor, exatamente na proporção da extensão desse poder; ou seja, de acordo com a quantidade de trabalho alheio ou - o que é a mesma coisa - do produto do trabalho alheio que esse poder lhe dá condições de comprar ou comandar. O valor de troca de cada coisa será sempre exatamente igual à extensão desse poder que essa coisa traz para o seu proprietário. Entretanto, embora o trabalho seja a medida real do valor de troca de todas as mercadorias, não é essa a medida pela qual geralmente se avalia o valor das mercadorias. Muitas vezes é difícil determinar com certeza a proporção entre duas quantidades diferentes de trabalho. Não será sempre só o tempo gasto em dois tipos diferentes de trabalho que determinará essa proporção. Deve-se levar em contatambém os graus diferentes de dificuldade e de engenho empregados nos respectivos trabalhos. Pode haver mais trabalho em uma tarefa dura de uma hora do que em duas horas de trabalho fácil; como pode haver mais trabalho em uma hora de aplicação a uma ocupação que custa dez anos de trabalho para aprender, do que em um trabalho de um mês em uma ocupação comum e de fácil aprendizado. Ora, não é fácil encontrar um critério exato para medir a dificuldade ou o engenho exigidos por um determinado trabalho. Efetivamente, ao permutar entre si produtos diferentes de tipos diferentes de trabalho, costuma-se considerar uma certa margem para os dois fatores. Essa, porém, é ajustada não por medição exata, mas pela pechincha ou regateio do mercado, de acordo com aquele tipo de igualdade aproximativa que, embora não exata, é suficiente para a vida diária normal. Além disso, é mais frequente trocar uma mercadoria por outras mercadorias - e, portanto, comprá-las - do que por trabalho. Por conseguinte, é mais natural estimar seu valor de troca pela quantidade de alguma outra mercadoria, do que com base no trabalho que ela pode comprar. Aliás, a maior parte das pessoas tem mais facilidade em entender o que significa uma quantidade de uma mercadoria específica, do que o significado de uma quantidade de trabalho. Com efeito, a primeira é um objeto plenamente palpável, ao passo que a segunda é uma noção abstrata que, embora possamos torná-la suficientemente inteligível, não é basicamente tão natural e tão óbvia.” SMITH, Adam. A Riqueza das Nações. volume I, Nova Cultural, 1988, Coleção "Os Economistas", pág. 17-54) Unidade 09 - Trabalho e movimento sindical CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Analisar o movimento social e as transformações ocorridas nas relações de trabalho com o advento da globalização e reconfiguração dos modelos produtivos. ESTUDANDO E REFLETINDO A história do movimento sindical perpassa por uma trajetória que atravessa o século XX se anunciando como um poder político de enfrentamento e resistência gerados, sobretudo, pelo modelo fordista de produção. Esse movimento ganhou projeção e maior expressão política no período pós guerra, em decorrência da consolidação de governos social-democratas em vários países. No contexto da social democracia, a partir dos anos 50, os sindicatos ocuparam um lugar importante no cenário produtivo e atuaram como mediações importantes nas relações de trabalho, contribuindo para conquistas trabalhistas significativas e consolidação do poder sindical. Para Rodrigues e Lima (2009) O sistema econômico e social que emergiu após a Segunda Guerra Mundial e até inícios dos anos 1970, em grande parte da Europa Ocidental, EUA e Japão, foi responsável por uma estabilidade que representou um incremento do bem-estar e aumento da riqueza em todos esses países. Durante o período, além do aumento do bem-estar e altas taxas de crescimento econômico, a democracia e o Estado de Bem-Estar Social foram consolidados e o Estado estimulou o desenvolvimento da atividade produtiva através de empréstimos e investimentos de longo prazo. Esses investimentos, em cada país, coordenados pelos Estados nacionais, embora assumissem alguns aspectos mais específicos, tinham como principal característica o processo de regulação do Estado no que tange à política macroeconômica, ou seja, uma decisiva intervenção do Estado na economia, com o objetivo de garantir o equilíbrio no campo econômico e a paz social no terreno político. Essas singularidades se manifestavam em diferenças no padrão dos gastos públicos, na organização do sistema de bem-estar social e na presença maior ou menor do Estado nas decisões econômicas. Desse modo, o complexo de arranjos institucionais e corporativos se constituiu na essência do que veio a ser denominado compromisso fordista e foi o principal ponto de apoio de sua estruturação. Vale dizer, Estado, grandes corporações e sindicatos passaram a ser a nova base desse regime de acumulação que se caracterizava pela produção em massa de bens padronizados e em série. Mais recentemente alguns estudos apontam para um momento que tem sido interpretado como “crise” da organização sindical Uma importante análise desse cenário de reconfiguração política dos movimentos sindicais está na obra de Leôncio Martins Rodrigues, Destino do sindicalismo. Na sua pesquisa, Rodrigues indica tendências para o movimento sindical, partindo de cenários de países industrializados nos quais os índices de sindicalização tem se retraído expressivamente. Aponta possibilidades para o futuro do sindicalismo inferindo que "não seria preciso ressaltar que os pesquisadores mais favoráveis aos sindicatos inclinam-se a vislumbrar saídas para o movimento sindical, enquanto os mais hostis acham que os sindicatos terão muita dificuldade para sobreviver no tipo de habitat que se delineia para o século XXI." (p. 295). Corroboram com as ideias de Rodrigues a reconfiguração obervada no modelo produtivo que evidencia um desgaste nas bases institucionais sobre as quais o sindicalismo se desenvolveu. Elementos como competição global, quadros recessivos e incertezas progressivas no cenário econômico contribuíram para a necessidade de reformulação das relações sindicais, desafinado os sindicatos a procurarem novos caminhos. Os efeitos da revolução da microeletrônica, bem o fenômeno da globalização da sociedade também atingiram as bases da organização sindical que ainda se sustenta em demandas de acesso aos bens ou poder (público ou privado). Somam-se a isso questões como as alterações no mundo do trabalho que apresentam novas demandas para a ação sindical. Anunciam-se como dificuldades à organização sindical, questões como aumento do desemprego, crescimento de relações de trabalho em condições precárias, regimes parciais, regimes temporários e outros, que ocupam no princípio do século XXI, parcelas muito significativa da economia. Para Rodrigues O assalariamento, que caracterizou a relação capital/trabalho durante largo período, criou as condições de agregação de direitos sociais aos contratos de trabalho. Já a flexibilidade propiciada pela revolução tecnológica, representada pela informatização e a telemática, desterritorializou a produção e o trabalho, internacionalizando os mercados, desorganizando identidades coletivas fundadas no local, no regional, no nacional. O "local" é ressignificado dentro dos nós de uma sociedade em rede, na qual atuam empresas, Estados e trabalhadores. Para esse autor, os assalariados são os mais afetados pela nova ordem econômica mundial. As conquistas obtidas durante décadas de atuação sindical que resultaram em saldos sociais positivos dão espaço para a marcha da competitividade global gerando fragilidades na organização sindical devido as características da fragmentação, dispersão territorial e vulnerabilidade social. BUSCANDO CONHECIMENTO MOVIMENTO OPERÁRIOS Por tantas adversidades, os trabalhadores chegaram à conclusão que precisavam começar a lutar por seus direitos. Ludismo O Ludismo estorou em 1811, foi uma das primeiras revoltas dos operários que eram contra os avanços tecnológicos, que substituíam homens por máquinas, e o nome deriva de um dos líderes, Ned Ludd. Eram revoltas radicais, onde os trabalhadores invadiam as fábricas, e destruíam as máquinas, ficando conhecidos como “quebradores de máquinas”. Existiam esquadrões luditas, que andavam armados com martelos, pistolas, lanças, e durante a noite, andavam de um distrito ao outro, destruindotudo que encontravam. Porém, muitos manifestantes foram condenados à prisão, à morte, à deportação e até à forca. O Ludismo ocorreu durante alguns anos, mas aos poucos os manifestantes constataram que não eram contra as máquinas que deveriam reagir, e sim ao uso que os proprietários faziam delas, abusando da mão-de-obra dos operários. Cartismo De forma um pouco mais organizada, em 1836 surgiu o Cartismo, constituído pela “Associação dos Operários” e liderado por Feargus O’Connor e William Lovett. Reinvidicavam direitos políticos, como o sufrágio universal (direito de voto), o voto secreto, melhoria das condições e jornadas de trabalho. Redigiram a “Carta da Povo”, onde pediam um conjunto de reformas junto ao Parlamento. Inicialmente, as exigências não foram aceitas pelo Parlamento, havendo grandes movimentos e revoltas por parte dos operários. Depois de muitas tentativas e lutas, o Cartismo foi se dissolvendo até chegar ao fim. Porém, o espírito do movimento não se perdeu, e ganhou maior presença política depois de um tempo, fazendo com que algumas leis trabalhistas fossem criadas. Trade-Unions e Sindicatos Os operários chegaram à conclusão de que a união era fundamental para se contrapor ao poder burguês, então criararam os “trade-unions”, associações formadas pelos operários, mas que possuiam uma evolução muito lenta nas reinvidicações que faziam. Porém, evoluíram e formaram os sindicatos, que eram sistemas de organização que defendiam seus direitos, eram os focos de resistência à expolaração capitalista. Mas diferente dos sindicatos de hoje, tinham muita dificuldade de atuação. A burguesia via um grande perigo nessas associações, e os sindicatos eram ameaçados pela violência. Portanto, as reuniões tinham que ser secretas, não havendo sedes sindicais. Mas aos poucos foram se organizando e realizando greves e protestos. E os proprietários levavam prejuízo, pois não tinha quem trabalhasse durante as manifestações. Em 1824, diante de todo esse crescimento das lutas operárias, a Inglaterra acaba aprovando a primeira lei, que permite a organização sindical dos trabalhadores. Depois dessa conquista, o sindicalismo se fortalece ainda mais. A partir desse momento, começaram a surgir organizações de federações que unificavam várias categorias dos trabalhadores, e em 1830 foi fundada a primeira entidade geral dos operários ingleses. Chegou a ter cerca de 100 mil membros. Em 1866, ocorreu o primeiro congresso internacional das organizações de trabalhadores de vários países, que representou um grande avanço na unidade dos assalariados, onde surge a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Mas a burguesia sempre achava novos meios de interferir, e reprimir os sindicatos. A história da legislação trabalhista dependeu de muitas lutas, os operários e sindicados resistiram à muita pressão para que hoje, todos pudessem ter os direitos trabalhistas. Fonte: http://revolucao-industrial.info/mos/view/Movimentos_oper%C3%A1rios/ Unidade 10 - O impacto da Revolução Industrial nas cidades CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: Observar o impacto da Revolução Industrial nas cidades inglesas, o qual provocou, entre outras coisas, uma maior concentração urbana e uma revolução nos meios de transporte, representado, principalmente pelas ferrovias. ESTUDANDO E REFLETINDO Entre as diversas transformações provocadas pela Revolução industrial, destaca-se o desenvolvimento das atividades urbanas em detrimento do meio rural, pois a concentração industrial aconteceu nas proximidades das fontes de energia e matérias-primas e principalmente nas cidades, devido à necessidade de obtenção de mão de obra. O processo de industrialização foi responsável pelo surgimento de algumas cidades na Inglaterra e pelo aumento significativo da população de várias outras, fazendo com que o crescimento urbano ou urbanização fosse uma das principais características inglesas do século XVIII. “Em 1801, em todo o continente (europeu), não havia mais de 23 cidades com mais de 100 mil habitantes, agrupando menos de 2% da população da Europa. Em meados do século, seu número já se elevava para 42; em 1900 eram 135 e, em 1913, 15% dos europeus moravam em cidades. Quanto às cidades de mais de 500 mil habitantes que, na época, pareciam monstros, só existiam duas no início do século XIX: Londres e Paris. Nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, elas eram 149. (RÉMOND, René. Introdução à História de Nosso Tempo. O século XIX: 1815-1914. São Paulo: Cultrix, 1976. p. 137) Durante seus primeiros anos a Revolução Industrial esteve essencialmente vinculada à indústria têxtil de algodão, mas, com o passar do tempo, verificou-se um conjunto de transformações econômicas, sociais e urbanas. Antes do advento da indústria a sociedade era basicamente rural, ou seja, a maioria da população vivia no campo. Foi em função das transformações nos meios de produção ocorridas ao longo do século XVIII que essa situação inverteu- se. No decorrer do século XIX o processo de urbanização intensificou-se, pois as pessoas abandonavam o campo e se dirigiam para as cidades em busca de trabalho. Essa concentração urbana é característica das nações industrializadas, onde uma pequena parcela da população ainda reside no campo, pois as atividades urbano-industriais superam, significativamente, as atividades agrícola-rurais, pois essas também sofreram profundas transformações nos métodos de produção, de tal modo que um número cada vez menor de trabalhadores rurais, auxiliados pelas máquinas agrícolas, produziam cada vez mais alimentos e matérias-primas. “O sistema fabril, com sua organização eficiente em grande escala e sua divisão do trabalho, representou um aumento tremendo na produção. As mercadorias saíam das fábricas num ritmo intenso. Esse aumento da produção foi em parte provocado pelo capital, abrindo caminho na direção dos lucros. (...) As mercadorias produzidas nas fábricas encontravam também um mercado interno simultaneamente com o mercado externo. Isso devido ao crescimento da população da própria Inglaterra. (...) Outra causa do crescimento da população foi o fato de que as pessoas se alimentavam melhor, graças a progressos surpreendentes na agricultura. (Esses progressos foram, em parte, resultado do crescimento da população) Tal como houve uma revolução industrial, houve também uma revolução agrícola. (...) E tal como houve melhoramento nas ferramentas e máquinas usadas na indústria, assim o século XVIII viu novos e melhores arados, enxadas, etc., usados na agricultura”. (HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. p. 172-174) BUSCANDO CONHECIMENTO Cidade de Birmingham (Inglaterra, 1886) (A evolução das cidades. Coleção Histórica em Revista. Rio de Janeiro: 1996.) “Coketown era uma cidade de tijolos vermelhos, ou melhor, de tijolos que seriam vermelhos se a fumaça e as cinzas permitissem, cidade de máquinas e de altas chaminés. Apresentava muitas ruas largas, todas iguais, e muitas ruazinhas ainda mais iguais, cheias de pessoas também muito iguais, pois todas saíam e entravam nas mesmas horas, andando com passo igual na mesma calçada, para fazer o mesmo trabalho; para elas, cada dia era parecido com o da véspera e com o dia seguinte.” (DICKENS, Charles. In: ENDERS, Armelle e outros. História em curso. Rio de Janeiro: FGV, 2008.) A Revolução Industrial provocou grandes mudanças em algumas cidades inglesas, a partir de finais do século XVIII. A imagem de Birmingham, de 1886, e o fragmento do romance“Tempos Difíceis”, reproduzido acima, apresentam sinais dessas transformações. Unidade 11 - Inovações Tecnológicas e inovações da economia CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: abordar o conceito de globalização pautado no desenvolvimento tecnológico. ESTUDANDO E REFLETINDO A Nova Ordem Mundial e a Globalização A Nova Ordem Mundial apresenta basicamente duas faces: uma geopolítica e outra econômica. Na geopolítica, a grande mudança foi o fim da Guerra Fria e, consequentemente, o fim da bipolarização de poder entre as duas superpotências, de um lado os EUA, do outro lado a URSS, esses países lideravam seus blocos militares. Na economia, a disputa era entre o sistema capitalista liderado pelos EUA e do sistema socialista liderado pela URSS. A Guerra Fria foi um período onde ocorreu o conflito ideológico, militar e econômico que envolvia os EUA, que representava o sistema capitalista, do outro lado a URSS, que representava o socialismo. A caracterização do mundo bipolar no cenário mundial estava embasada na capacidade militar das duas superpotências. Essa situação do mundo bipolar foi do pós-guerra até o fim da URSS em 1991 (alguns autores consideram as reformas de 1985 - Perestróica e Glasnost; outros consideram a queda do muro de Berlim em 1989). Na atual fase, o mundo é considerado como multipolar, e o poder é medido pela capacidade econômica, como: disponibilidade de capitais, avanço tecnológico, qualificação da mão de obra, nível de produtividade e índices de competitividade. São esses os novos padrões de poder e influência no mundo, que explicam a emergência recente de países, como o Japão e a Alemanha. Já a então Rússia, embora seja a herdeira principal do poderoso arsenal nuclear soviético, o parque industrial russo é, em geral, obsoleto e pouco produtivo, e o país encontrava-se mergulhado em profunda crise social, política e econômica. Nessa primeira etapa do atual mundo globalizado (anos 1990 e 2000), os países de maiores economias eram os EUA, o Japão e Alemanha. Em meados dos anos 2000, a Rússia recupera sua economia e volta ao cenário de superpotência; outro país que superou suas expectativas foi a China, que se tornou a segunda economia do mundo atual. Outro importante aspecto da nova ordem mundial, que é muito polêmico e vem sendo muito discutido, é o aprofundamento da tendência da globalização em suas várias facetas. Mas, então, o que vem a ser a globalização? A globalização é a mais recente fase da expansão capitalista, a qual visa aumentar os mercados e, portanto, os lucros. O atual processo de globalização nos revela que a expansão agora pode dispensar a invasão de tropas, a ocupação territorial. Agora a invasão é muito mais silenciosa, sutil e eficaz. Trata-se de uma invasão de mercadorias, capitais, serviços, informações e pessoas. As novas armas são a agilidade e a eficiência das comunicações e do controle de dados e informações. A mais antiga faceta da globalização é a invasão de mercadorias em todos os países. Com a intensificação dos fluxos comerciais no mundo, produtos são levados e trazidos por enormes navios, trens, caminhões e aviões, que circulam por uma moderna e intrincada rede de transportes, espalhadas pelo mundo. Há, assim, uma globalização do consumo, com a intensificação do comércio que, na verdade, é resultante da globalização da produção. Paralelamente à globalização do consumo e da produção, ocorre a intensificação do fluxo de viajantes pelo mundo, seja a negócios, turismo ou imigrando, e uma invasão cultural de costumes, de comportamento, de hábitos de consumo. Entrelaçando todos os países, esse domínio constitui-se de uma cultura de massas, que se origina principalmente nos EUA, que ainda são, de longe, a nação mais poderosa e influente do planeta. O american way of life (o modo norte-americano de viver) é difundido pelos filmes de Hollywood e enlatados na televisão pelas notícias da TV a cabo, pelos fast-foods, pelas músicas, pelos musicais da Broadway. Percebe-se, então, que a globalização apresenta várias dimensões: econômica, social, política e cultural. Assim, esse fenômeno pode ser entendido como uma intensificação dos fluxos de mercadorias e serviços, capitais e tecnologias, informações e pessoas, que só se viabilizou em função dos avanços tecnológicos. Porém, a globalização tem uma face perversa, pois ela abarca o mundo de forma bastante desigual. Alguns lugares, regiões e países estão mais integrados do que outros, acentuando, assim, a tendência de concentração de capital, pois aqueles que estão integrados têm maior capacidade de concorrer neste mundo tão competitivo. BUSCANDO CONHECIMENTO Dimensões da Globalização A globalização está concentrando renda: os países ricos ficam mais ricos, e os pobres, mais pobres. Há muitos motivos para isso. Alguns deles: a redução das tarifas de importação beneficiou muito mais os produtos exportados pelos mais ricos. Os países mais ricos continuam a subsidiar seus produtos agrícolas, inviabilizando as exportações dos mais pobres. Com essas diferenças de câmbio, os países ricos se aproveitam da situação, impondo aos países pobres uma dependência tecnológica e econômica. A geopolítica mundial está se ajustando aos arranjos desse novo espaço mundial, o qual é a chave para explicar as diferentes lógicas da ordenação territorial, juntamente com a geopolítica. Essa nova ordenação territorial passa pelo modo de produção capitalista, que é a base da nova ordem mundial. Observamos um mundo desigual onde o atual modelo de desenvolvimento econômico divide o mundo em ricos e pobres, em uma sociedade de consumo e do outro lado os excluídos. Esse atual modo de produção capitalista levou à formação de grandes monopólios capitalistas (multinacionais, hoje denominadas de transnacionais), fato que se tornou mais evidente com o fim do socialismo na ex-URSS. O domínio e o expansionismo das grandes corporações se deve a três fatores, principalmente: 1) Mobilidade de capitais; existe no mundo globalizado uma necessidade de mobilidade de capitais, que é caracterizado pelo sistema financeiro 2) Avanço da produção; necessita da mobilidade de capitais, do desenvolvimento de tecnologias, mão de obra barata, do controle das reservas minerais e de fontes de energia. 3) Ação internacional dos governos mais poderosos; é o resultado da mobilidade social e do avanço de produção, porém existe uma necessidade de intervenção Globalização: é a mais recente fase da expansão capitalista, a qual visa aumentar os mercados e, portanto, os lucros. do Estado na economia, ficando vigente a ação dos países ricos sobre os países pobres. Nessa tríade está a base da formação do modo de produção capitalista que rege o mercado mundial. Globalização Após a queda do muro de Berlim, a reunificação da Alemanha, a desarticulação do bloco soviético e do leste europeu, onde o socialismo foi abandonado e o capitalismo “adotado”, o capitalismo ocupa uma vasta área, se expande e transforma essas novas áreas. Porém, esta aparente tranquilidade da expansão do capitalismo, passa a encontrar alguns obstáculos, problemas mais ou menos graves, como: o a produção científica e tecnológica (como conseguir uma modernização sem o desenvolvimento da ciência e da tecnologia); o desemprego; o comércio de armas; o a violência urbana; o drogas; o os direitos humanos; o a ecologia; o a biotecnologia; o as guerras; o a escassez de água; o o crescimento demográfico (7 bilhões– 2011); o a distribuição de recursos materiais; o a grande diferença das classes sociais. Será difícil o sistema econômico mundial conseguir equacionar esses problemas, tentar equilibrar a liberdade de mercado e seus efeitos na sociedade. Unidade 12 - Características do processo de globalização CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: Identificar e analisar as principais características do processo de globalização ESTUDANDO E REFLETINDO Principais características do processo de globalização: Distribuição dos limites entre o internacional e o nacional (enfraquecimento do Estado-Nação); Emergência das transnacionais; Diminuição dos espaços devido aos avanços tecnológicos, que propiciam maior velocidade às comunicações; Existência de uma sociedade planetária e outra nacional. Sistemas de Produção Características Taylorismo Separação entre as tarefas de concepção e de execução requer procedimentos mecânicos que dispensam o raciocínio dos trabalhadores; Divisão e subdivisão das tarefas; As tarefas destinadas aos trabalhadores são extremamente simples; Controle do tempo de execução dos movimentos dos trabalhadores para eliminar o desperdício de tempo. Fordismo Ford aperfeiçoou o taylorismo, introduzindo o uso de esteiras móveis em toda a fábrica (linha de montagem); O ritmo da esteira determina o ritmo de trabalho trabalhador fixo num certo ponto, sendo as ferramentas e o objeto a ser trabalhado transportados até ele; Replanejamento dos movimentos dos trabalhadores e inovações das ferramentas e máquinas, visando acelerar o ritmo de produção; Elaborou sua diretriz econômica, objetivando diminuir o custo dos produtos. Toyotismo Uso de máquinas sofisticadas com terceirização de várias atividades; Emprego de pouca mão de obra, porém especializada; Estoques quase zerados tanto de matérias-primas, como de produtos acabados; Acomodação dos trabalhadores ao novo sistema, acabando com a organização e a consciência de classe. O Modelo Japonês A origem do atual sucesso do Japão é datada da época da segunda guerra mundial, quando o Japão recebe o Dr. Deming, para um ciclo de palestras no país. Deming fazia palestras sobre administração com os presidentes das vinte e uma principais indústrias japonesas. Todavia, as ideias de Deming não foram capazes de entrar em seu próprio país, pois os EUA haviam se transformado na primeira nação com uma concepção de administração vigente há muito tempo no país; sendo assim, eles não tinham problemas com inovação, produtividade; eram os mais competitivos. Não precisavam de novos modelos sobre produtividade e qualidade. Porém, logo ele foi descoberto pelos americanos; isso aconteceu por meio de uma repórter de televisão, Clare Crawfor-Mason, que produzia um documentário sobre o Japão e sua prosperidade econômica chamado: “Se o Japão pode... porque não podemos?”. Diretrizes do JPC – Japanese Productivity Center O Centro Japonês de Produtividade foi mediador de uma espécie de pacto social na década de 50. Esse pacto postulava três diretrizes para o desenvolvimento produtivo da economia do país. Essas diretrizes foram aceitas pelos empresários, empregados, sindicatos e, obviamente, pelo governo. Dentro dessas diretrizes, estava a estabilidade e segurança no emprego, garantindo assim o emprego do operário. Além disso, a produção aumentaria, garantindo maiores lucros para os empresários e impostos para o governo. O empresário paga os impostos corretamente e o governo aplica em desenvolvimento social, garantindo educação e saúde para o seu povo. Outro fator importante é que foi passado também aos operários o TQC – Controle da Qualidade Total, o JIT – Just in Time (ou apenas A Tempo), e o TPM – Manutenção Produtiva Total. E ensina que, antes da ação, o operário deve planejá-la. Stakhanovismo Ocorreu na Rússia, nasceu dentro do sistema operário, sem pressão alguma por parte dos dirigentes das empresas do estado; procurava aumentar o rendimento com a simplificação da operação, aumentando o seu ritmo e favorecendo, assim, os operários. O Partido Comunista auxiliou os stakhanovistas a consumar esse movimento. BUSCANDO CONHECIMENTO Vocabulário Globalização – Termo cunhado pelos norte-americanos; significa, ao pé da letra: internacionalização das relações econômicas, sociais e políticas. A visão dos estudiosos sobre o conceito é polêmica. Alguns o entendem como um processo de adequação das dinâmicas nacionais a uma dinâmica preponderante no âmbito internacional, sem traumas. Outros acreditam que a globalização é a sofisticação máxima do sistema capitalista, portanto, violenta e traumática, gerando desemprego, interferindo nas culturas nacionais e abalando a soberania das nações. Nacionalismo – Valorização do Estado como nação soberana. Com a globalização, o Estado perde sua legitimidade e vigor porque suas instituições básicas – soberania, estado social e defesa nacional – perdem poder. A ideia de pátria, assim, se dilui. Isso aparece claramente no comportamento de um alto executivo de corporação internacional, que se sente desobrigado de ser leal à pátria em benefício da empresa onde trabalha. Neoliberalismo – Doutrina que ganhou espaço com o fim do bloco socialista. Tem como objetivo a manutenção do livre jogo das forças econômicas e a iniciativa dos indivíduos. Prega a privatização e a menor intervenção possível do Estado como gestor da economia. Consenso de Washington – também conhecido como neoliberalismo, foi realizado em 1989, com o auxílio do FMI (Fundo Monetário Internacional), visando à economia de mercado nos países da América Latina. Foi então proposto que esses países se abrissem ao capital estrangeiro, adotando amplas privatizações, menor participação do Estado na economia nacional e menores investimentos sociais. Ordenamento territorial e o desenvolvimento tecnológico A organização social do território atual está indissociável do meio técnico, pois a tecnociência constrói a base das redes sociais e a insere na economia internacional, o que nos leva ao mercado financeiro mundial e à busca incessante pelo desenvolvimento econômico. Essas distorções sociais e territoriais precisam ser corrigidas para que alcancemos a plenitude da cidadania, pois a territorialidade é conhecida como a sociedade dos espaços, ou seja, cada sociedade apresenta um espaço diferenciado resultante do modelo econômico atual e da falta de organização territorial abrangente da sociedade. Assim sendo, segundo Milton Santos, consideramos o espaço geográfico do mundo atual como um meio técnico- científico-informacional. O meio técnico-científico-informacional é o espaço geográfico do mundo atual, isto é, ele é a cara geográfica da globalização. Dentro desse processo existem três períodos para o desenvolvimento das redes: período pré-técnico ou meio natural, o período mecânico e o período atual (informacional). E, assim, nós temos o desenvolvimento do meio técnico- científico-informacional. O período pré-técnico ou meio natural está na fase pré-revolução, pré- industrial, isto é, antes das máquinas. As redes se formavam espontaneamente. O período mecânico está diretamente ligado ao desenvolvimento das máquinas, no período da Revolução industrial, as redes se formam em etapas e com diferentes formas de energia. O período atual da chamada pós-modernidade é o período informacional; nesse momento, as redes estão difusas, não atuando apenas no próprio território, mas em todo o mundo. Dentro do atual arranjoespacial, vemos duas segmentações: a Horizontalidade e a Verticalidade. A Horizontalidade ocorre de forma contínua, como região enquanto região, isto é, existe uma forma contínua do território. A Verticalidade, por sua vez, suprime essa continuidade dos pontos, os espaços ficam separados uns dos outros; esses pontos estariam ligados pelas formas sociais, econômicas dentro do processo de globalização. A verticalidade se acelera quanto maiores forem as necessidades da produção nos lugares. Com a atual globalização, a verticalização dos lugares é cada vez mais forte. Unidade 13 - Economia extrativista no Brasil colonial CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: Analisaremos nessa unidade as atividades econômicas desenvolvidas ao longo do Pré-Colonial brasileiro (1500-1530), no qual as relações de trabalho eram predominantemente marcadas pelo escambo entre indígenas e europeus em decorrência da exploração do pau-brasil. ESTUDANDO E REFLETINDO Mesmo com a descoberta das terras brasileiras, Portugal continuava empenhado no comércio com as Índias, pois as especiarias que os portugueses encontravam lá eram de grande valia para sua comercialização na Europa. Enquanto realizava este lucrativo comércio, Portugal aqui no Brasil realizava o extrativismo do pau-brasil, explorando da Mata Atlântica toneladas da valiosa madeira, cuja tinta vermelha era comercializada na Europa. Os historiadores muitas vezes distinguem duas formas de colonialismo, principalmente com base no número de pessoas do país colonizador que se estabelecem na colônia: Colônia de Povoamento: Na colonização de povoamento, os colonizadores buscam desenvolver a região colonizada. Criam leis, organizam, investem em infraestrutura e lutam por melhorias. Como exemplo, as Trezes Colônias, que deram origem aos Estados Unidos da América. Essas colônias foram criadas por pessoas que vieram morar no território. Famílias inteiras, que necessitavam de comércio, escolas, bibliotecas, bancos, etc. Também precisavam de uma economia diversificada, com agricultura, pesca, criação de diversos tipos de animais, e até manufaturas. Geraram uma nação rica e desenvolvida; Colônia de Exploração: Os colonizadores buscavam retirar recursos naturais e minerais. Nessas colônias, pretendia-se apenas explorar o que tivesse algum lucro, fosse pau-brasil, ouro, prata, ou até artigos plantados, como tabaco, algodão, cana-de-açúcar, etc. Nem sempre eram famílias que vinham, e foi utilizada a mão- de-obra escrava. Esse tipo de colônia gerou países com grandes dificuldades para se desenvolver, com má distribuição de terras, grandes diferenças sociais, preconceito. . As três primeiras décadas da colonização portuguesa em terras brasileiras. Os portugueses construíram, neste período, diversas feitorias no litoral. Estas tinham como função armazenar madeira (pau-brasil), facilitando o transporte para as caravelas. Os portugueses usaram mão-de-obra indígena na exploração do pau- brasil, em troca de espelhos, chocalhos, facas e outras bugigangas, os índios eram convencidos a trabalharem no corte e carregamento do pau-brasil para os navios. Esta troca de trabalho por objetos é conhecida como escambo. A exploração do pau-brasil, principal atividade econômica desta época, era monopólio da coroa portuguesa. Esta podia conceder a exploração à particulares em troca do pagamento de 1/5 da madeira extraída. Nestes 30 anos de exploração do pau-brasil, houve devastação de grande parte da vegetação litorânea nativa. O pau-brasil foi praticamente eliminado das matas entre o litoral do Rio de Janeiro até o do Rio Grande do Norte. Neste período houve contrabando de pau-brasil praticado por europeus, principalmente franceses. A coroa portuguesa precisou enviar ao Brasil expedições de caráter militar para proteger a costa brasileira. Cristóvão Jacques comandou uma das principais expedições deste tipo, entre os anos de 1516 a 1526. Como pudemos analisar, durante os primeiros anos da efetivação da posse do território brasileiro pela coroa portuguesa (descobrimento ou “achamento” do Brasil), não houve um projeto de colonização efetiva, pois os interesses econômicos dos portugueses estavam voltados para o comércio de especiarias orientais, principalmente em razão da importância econômica da pimenta-do- reino trazida das Índias. Desse modo, as relações econômicas que se desenvolveram nas terras brasileiras eram essencialmente extrativistas e dependiam do escambo entre indígenas e portugueses, segundo o qual, os nativos trabalhavam na extração do pau-brasil (procuravam, cortavam as árvores, atoravam e transportavam a madeira até as feitorias no litoral, onde a mesma era depositada em locais previamente preparados para o armazenamento dos produtos que seguiriam viagem para a Europa.) Em troca do trabalho empreendido, os indígenas recebiam dos portugueses produtos diversos, os quais, para os portugueses, eram de baixo valor econômico-comercial; entretanto, para os indígenas, eram produtos de valor inestimável, pois não havia qualquer possibilidade de os nativos fabricarem algo semelhante (facas, machados, foices, enxadas, espelhos, tesouras, anzóis...). Verifica-se nessa relação uma situação de relativa vantagem para ambos, pois enquanto a madeira seria comercializada na Europa como matéria-prima para as indústrias têxteis, os produtos europeus “facilitariam” o cotidiano dos indígenas brasileiros. BUSCANDO CONHECIMENTO Texto Complementar “Descoberto assim o território que haveria de constituir o Brasil, não se tardou muito em procurar aproveitá-lo. As perspectivas não eram brilhantes. O famoso Américo Vespúcio, que viajou como piloto alternadamente com espanhóis e portugueses, e que nos deu com suas cartas a primeira descrição do novo mundo, escreverá a respeito: "Pode-se dizer que não encontramos nada de proveito". E devia ser assim para aqueles navegantes- mercadores que se tinham lançado em arriscadas empresas marítimas unicamente na esperança de trazerem para o comércio europeu as preciosas mercadorias do Oriente. Que interesse tinha para eles uma terra parcamente habitada por tribos nômades ainda na idade da pedra, e que nada de útil podiam oferecer? Assim mesmo, contudo, o espírito empreendedor daqueles aventureiros conseguiu encontrar algo que poderia satisfazer suas ambições. Espalhada por larga parte da costa brasileira, e com relativa densidade, observou-se uma espécie vegetal semelhante a outra já conhecida no Oriente, e de que se extraía uma matéria corante empregada na tinturaria. Tratava-se do pau-brasil, mais tarde batizado cientificamente com o nome de Caesalpinia echinata. Os primeiros contactos com o território que hoje constitui o Brasil, devem-se àquela madeira que se perpetuaria no nome do país. Não foi difícil obter que os indígenas trabalhassem; miçangas, tecidos e peças de vestuário, mais raramente canivetes, facas e outros pequenos objetos os enchiam de satisfação; e em troca desta quinquilharia, de valor ínfimo para os traficantes, empregavam-se arduamente em servi-los. Para facilitar o serviço e apressar o trabalho, também se presenteavam os índios com ferramentas mais importantes e custosas: serras, machados. Assim mesmo, a margem de lucros era considerável, pois a madeira alcançava grandes preços na Europa. O negócio, sem se comparar embora com os que se realizavam no Oriente, não era desprezível, e despertou bastante interesse.” (PRADO JR, Caio. História Econômica do Brasil. 40ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1993)Unidade 14 - Economia Açucareira no Brasil Colonial CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: compreender que a ocupação efetiva da faixa litorânea da região nordeste e sudeste do território brasileiro, esteve essencialmente vinculada ao desenvolvimento da economia açucareira nesses locais. ESTUDANDO E REFLETINDO A efetiva colonização do Brasil deve-se à necessidade de ocupação dos territórios pertencentes à coroa portuguesa no litoral atlântico da América do Sul – conforme assegurava o Tratado de Tordesilhas, assinado com os espanhóis em 1494 – e que, naquele momento, sofriam constantes ameaças de invasões estrangeiras, principalmente pelos franceses. Conforme sugere a frase atribuída ao rei português D. João III, o colonizador, era necessário “ocupar para não perder”, visto que, frequentemente, embarcações francesas aportavam no Brasil e realizavam o escambo de pau-brasil com os nativos. O nordeste brasileiro foi o ponto inicial da colonização, embora o primeiro engenho de cana-de-açúcar do Brasil tenha se instalado na região sul-sudeste, mais precisamente em São Vicente. No decorrer dos séculos XVI e XVII, a região de São Vicente ficou economicamente marginalizada, pois no nordeste as condições climáticas (clima tropical quente e úmido) e pedológicas (solo de massapé) eram mais favoráveis, além do que, a região ficava mais próxima da Europa e isso facilitava a exportação do açúcar. “Na faixa litorânea, o Nordeste representou o primeiro centro de colonização e de urbanização da nova terra. (...) Até meados do século XVIII, a região nordestina concentrou as atividades econômicas e a vida social mais significativa da Colônia. (...) A empresa açucareira foi o núcleo central da ativação socioeconômica do Nordeste. O açúcar tem uma longa e variada história, tanto no que se refere a seu uso quanto à localização geográfica. (BORIS, Fausto. História Concisa do Brasil. São Paulo: Edusp, 2002, p. 38-39) Em 1534 foi instalado no Brasil o primeiro engenho de cana-de-açúcar, cujo nome era “Engenho de São Jorge dos Erasmos”. Localizado em São Vicente, esse engenho foi administrado pelo português Martim Afonso de Sousa, o qual, a partir de uma expedição oficial (organizada pela coroa portuguesa), iniciou efetivamente a colonização do Brasil. Porém, analisando informações históricas a respeito do movimento de interiorização do território brasileiro, nós nos deparamos com a figura dos “paulistas” que, a partir do século XVI, focaram o povoamento no Planalto do Piratininga, após transporem a Serra do Mar devido ao declínio da atividade canavieira no litoral. Segundo Capistrano de Abreu em “Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil”: “Depois de instalar São Vicente, Martim Afonso transpôs a serra de Paranapiacaba e criou outra vila, que posteriormente mudou de sede e nome, transformando-se insensivelmente na atual cidade de São Paulo.” A vila de São Paulo estava economicamente marginalizada, pois a concentração econômica do complexo açucareiro dos engenhos de cana-de- açúcar encontrava-se no nordeste. Sobre a situação da vila de São Paulo, Belmonte escreveu: “Separada do mar, vive separada da metrópole. O isolamento a obriga a agir por si própria e bastar-se às suas necessidades (...), perdido no deserto, entregue a si próprio, São Paulo do Campo do Piratininga chega ao limiar do século XVII povoado por milhares de índios e menos de duzentos brancos (...), é evidente a pobreza da vila, pobreza que só se atenua no fim do século, com o advento do grande ciclo do ouro no bandeirismo paulista”. Entretanto, no nordeste brasileiro, a economia açucareira encontrou as condições climáticas e pedológicas necessárias para pleno desenvolvimento da cana-de-açúcar, visando à produção de açúcar e aguardente para suprir as necessidades de consumo do mercado externo. A economia açucareira esteve estreitamente vinculada ao modelo de colonização de exploração, cujo objetivo era a obtenção de lucros no contexto do mercantilismo. Principais Características da Colonização de Exploração Grandes propriedades rurais (latifúndios), monocultura de cana-de-açúcar, exploração da mão de obra escrava africana e produção destinada ao mercado externo (exportações), como forma de sustentar a metrópole no contexto mercantilista. Produção de açúcar – para suprir a demanda de consumo das nações europeias – e de aguardente – produto utilizado como moeda de troca no mercado de escravos africanos. O advento da economia açucareira no Brasil está diretamente vinculado ao início da utilização da mão de obra escrava africana. Foi durante a economia açucareira que se empreendeu a substituição da exploração da mão de obra indígena pela mão de obra escrava africana, mais precisamente durante as décadas de 1870, 1880 e 1890, quando os negros representavam aproximadamente 40% da força de trabalho empregada nos engenhos e, a partir de 1638, compunham a totalidade dos trabalhadores, uma vez que o tráfico de escravos também proporcionava vultosos lucros no contexto das relações comerciais mercantilistas. Durante décadas, informações imprecisas afirmavam ser o negro mais forte do que o indígena brasileiro e, portanto, mais apto ao árduo trabalho nas lavouras, porém historiadores contemporâneos encontraram no fator da acumulação de capitais, através do tráfico negreiro, o real motivo da preferência pela escravidão negra. “Os cativos realizavam um grande número de tarefas, sendo concentrados em sua maioria nos pesados trabalhos do campo. A situação de quem trabalhava na moenda, nas fornalhas e nas caldeiras poderia ser pior. (...) Muitos cativos eram treinados desde cedo para esse serviço, considerado também um castigo para os rebeldes (Idem, p. 41) Participação dos Holandeses na Economia Açucareira Desde os primeiros tempos da economia açucareira, os holandeses tiveram papel relevante com seus investimentos e financiamentos, pois a instalação de um engenho e a aquisição de escravos requeria o emprego de vultosas somas, as quais eram proporcionadas pelos banqueiros holandeses, interessados, obviamente, na obtenção do lucro posterior. Essa relação econômica existente entre Portugal, Brasil e Holanda, foi rompida na ocasião da União Ibérica (1580-1640), quando Portugal passou ao domínio espanhol, formando o Império Colonial Ibérico, sob o comando do rei Filipe II da Espanha. No contexto da União Ibérica, os portos brasileiros foram fechados para os navios holandeses, ou seja, o lucrativo comércio açucareiro e a estreita relação econômica entre Brasil e Holanda foram rompidos. “A consequência mais significativa da união das duas coroas se deu no plano das relações internacionais. A proximidade entre Portugal e os Países Baixos desaparecia, dando lugar a um período de confrontação aberta, como decorrência do conflito existente entre os Países Baixos e a Espanha. No mundo colonial americano, a luta girou em torno do comércio de açúcar (...)” (Idem, p. 44-45) Em decorrência desse episódio e pretendendo retomar as relações econômico-açucareiras, os holandeses invadiram o litoral nordeste brasileiro – principal região produtora de açúcar – e ali permaneceram por um período de 24 anos (1630-1654), denominando a região de “Brasil Holandês”. Com a Restauração Portuguesa em 1640, desenrolou-se no Brasil, entre os anos de 1644-1654, uma luta contra os holandeses, denominada “Insurreição Pernambucana”, cujo desfecho na Batalha dos Guararapes, em 1654, foi a expulsão dos mesmos que, a partir de então, iniciaram uma produçãode açúcar nas Antilhas, concorrendo de forma desvantajosa para o Brasil com o açúcar brasileiro e, consequentemente, provocaram a decadência da economia açucareira nordestina. BUSCANDO CONHECIMENTO “Os donatários, que em regra não dispunham de grandes recursos próprios, levantaram fundos tanto em Portugal como na Holanda, tendo contribuído em boa parte banqueiros e negociantes judeus. A perspectiva principal do negócio está na cultura da cana-de-açúcar. Tratava-se de um produto de grande valor comercial na Europa. (...) O clima quente e úmido da costa ser-lhe-ia altamente favorável; e quanto à mão de obra, contou-se a princípio com os indígenas que, como vimos, eram relativamente numerosos e pacíficos no litoral. Estas perspectivas seriam amplamente confirmadas; o único fator ainda ignorado antes da tentativa, a qualidade do solo, revelar-se-ia surpreendentemente propício, em alguns pontos pelo menos da extensa costa. Foi o caso, particularmente do Extremo-Nordeste, na planície litorânea hoje ocupada pelo Estado de Pernambuco; e do contorno da baía de Todos os Santos (o Recôncavo baiano, como seria chamado). Não seriam, aliás, os únicos: de uma forma geral, toda a costa brasileira presta-se ao cultivo da cana-de-açúcar. É nesta base, portanto, que se iniciarão a ocupação efetiva e a colonização do Brasil. Sem entrar nos pormenores das vicissitudes sofridas pelos primeiros colonos, seus sucessos e fracassos, examinemos como se organizará sua economia. O regime de posse da terra foi o da propriedade alodial e plena. Entre os poderes dos donatários das capitanias estava, como vimos, o de disporem das terras, que se distribuíram entre os colonos. As doações foram em regra muito grandes, medindo-se os lotes por muitas léguas. O que é compreensível: sobravam as terras, e as ambições daqueles pioneiros recrutados a tanto custo, não se contentariam evidentemente com propriedades pequenas; não era a posição de modestos camponeses que aspiravam no novo mundo, mas de grandes senhores e latifundiários. Além disso, e sobretudo por isso, há um fator material que determina este tipo de propriedade fundiária. A cultura da cana somente se prestava, economicamente, a grandes plantações. Já para desbravar convenientemente o terreno (tarefa custosa neste meio tropical e virgem tão hostil ao homem) tornava-se necessário o esforço reunido de muitos trabalhadores; não era empresa para pequenos proprietários isolados. Isto feito, a plantação, a colheita e o transporte do produto até os engenhos onde se preparava o açúcar, só se tomava rendoso quando realizado em grandes volumes. Nestas condições, o pequeno produtor não podia subsistir. São, sobretudo, estas circunstâncias que determinarão o tipo de exploração agrária adotada no Brasil: a grande propriedade. (...) a organização das grandes propriedades açucareiras da colônia foi sempre, desde o início, mais ou menos a mesma. É ela a grande unidade produtora que reúne, num mesmo conjunto de trabalho produtivo, um número mais ou menos avultado de indivíduos sob a direção imediata do proprietário ou seu feitor. (...) O seu elemento central é o engenho, isto é, a fábrica propriamente, onde se reúnem as instalações para a manipulação da cana e o preparo do açúcar. O nome de "engenho" estendeu-se depois da fábrica para o conjunto da propriedade com suas terras e culturas: "engenho" e "propriedade canavieira" se tornaram sinônimos. Embora o proprietário explore, em regra, diretamente suas terras (como ficou entendido acima), há casos frequentes em que cede partes delas a lavradores que se ocupam com a cultura e produzem a cana por conta própria, obrigando-se contudo a moerem sua produção no engenho do proprietário. São as chamadas fazendas obrigadas; o lavrador recebe metade do açúcar extraído da sua cana, e ainda paga pelo aluguel das terras que utiliza urna certa porcentagem, variável segundo o tempo e os lugares, e que vai de 5 a 20%. (...) Os lavradores, embora estejam socialmente abaixo dos senhores de engenho, não são pequenos produtores, da categoria de camponeses. Trata-se de senhores de escravos, e suas lavouras, sejam em terras próprias ou arrendadas, formam como os engenhos grandes unidades. A razão por que nem todas as propriedades dispõem de engenho próprio são as proporções e o custo das instalações necessárias. O engenho é um estabelecimento complexo, compreendendo numerosas construções e aparelhos mecânicos: moenda (onde a cana é espremida); caldeira, que fornece o calor necessário ao processo de purificação do caldo; casa de purgar, onde se completa esta purificação. Além de outras, o que todas as propriedades possuem é, em regra, a casa-grande, a habitação do senhor; a senzala dos escravos; e instalações acessórias: oficinas, estrebarias, etc. Suas terras, além dos canaviais, são reservadas para outros fins: pastagens para animais de trabalho; culturas alimentares para o pessoal numeroso; matas para fornecimento de lenha e madeira de construção. A grande propriedade açucareira é um verdadeiro mundo em miniatura em que se concentra e resume a vida toda de uma pequena parcela da humanidade.” (PRADO JR, Caio. História Econômica do Brasil. Unidade 15 - Economia mineradora no Brasil colonial CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: Estudar a economia mineradora e as diversas transformações provocadas pela “corrida do ouro” e ocupação das terras na região das Minas Gerais. ESTUDANDO E REFLETINDO Após algumas décadas percorrendo o interior do território brasileiro, os paulistas, enfim, realizariam um velho sonho dos colonizadores do Brasil, descobririam as primeiras minas de ouro no interior do território brasileiro. “Em 1695, no rio das Velhas, próximo às atuais Sabará e Caeté, no Estado de Minas Gerais, ocorreram as primeiras descobertas significativas de ouro. A tradição associa essas primeiras descobertas ao nome de Borba Gato, genro de Fernão Dias, conhecido como “o caçador de Esmeraldas’. Durante os quarenta anos seguintes, foi encontrado ouro em Minas Gerais, na Bahia, em Goiás e Mato Grosso”. (BORIS, Fausto. História Concisa do Brasil. São Paulo: Edusp, 2002, p. 52) A mineração provocou profundas transformações no cotidiano da colônia e da metrópole, pois tão logo a informação da descoberta de ouro chegou a Portugal, a coroa reorientou o modelo de exploração, fiscalização e tributação colonial; afinal de contas, esse metal era sinônimo de riqueza nacional para as nações mercantilistas europeias e, dentro desse contexto econômico, era necessário acumular o máximo possível de ouro e prata, evitando de todas as formas o contrabando e a sonegação de impostos. O ouro também atraiu a atenção dos brasileiros que viviam na região litorânea nordestina, a qual se encontrava em decadência em razão do declínio das atividades açucareiras após a expulsão dos holandeses e o início da concorrência do açúcar produzido nas Antilhas. Tributação e Fiscalização na Região Mineradora Quinto: determinava que um quinto, ou seja, 20% de todo o ouro extraído no Brasil pertenceria à coroa portuguesa. Capitação ou Capitalização: imposto cobrado (17g per capita) sobre o número de escravos maiores de 12 anos empregados na região mineradora. Os mineradores sem escravos pagavam o imposto sobre si mesmos. Finta: estabelecia um mínimo de arrecadação anual de 100 arrobas de quinto acumulado, sendo que, se esse mínimo não fosse atingido, os mineradores deveriam completar a diferença. Casas de Fundição: tinha a finalidade de pesar, “quintar” (tirar o quinto), fundir o ouro em barras e marcar com o brasãoda coroa portuguesa. Para complementar essa medida, foi determinada a proibição da circulação do ouro em pó. Essas determinações tinham por objetivo aumentar a arrecadação tributária da coroa portuguesa no Brasil, pois, desde a Restauração (1640), a economia de Portugal encontrava-se desestabilizada, devido aos efeitos negativos da União Ibérica (1580-1640). Alguns movimentos de contestação eclodiram na região em razão dos pesados tributos, entre os quais se destaca a Sedição ou Revolta de Filipe dos Santos (1720), o qual protestava contra a instalação das Casas de Fundição. Após executar o líder dessa rebelião, a coroa portuguesa determinou a diminuição do quinto para 12%, porém, o nome do tributo foi mantido. Entretanto, a ação da coroa portuguesa não atingiu os objetivos pretendidos, pois a distância, a corrupção e a sonegação, dificultavam o trabalho dos funcionários reais. Consequências da Mineração Conforme fora citado anteriormente, a mineração trouxe uma série de transformações para a colônia, entre as quais podemos citar: Deslocamento do eixo econômico e demográfico do nordeste açucareiro (litoral) para o sudeste minerador (interior), promovendo a interiorização do território brasileiro. Crescimento demográfico, em decorrência da intensa imigração portuguesa, uma vez que os mesmos estavam interessados na exploração e, se possível, no controle da região das minas. Deslocamentos populacionais (migrações) internos, devido ao afluxo de nordestinos, paulistas e gaúchos para a região mineradora. Desenvolvimento do comércio interno, pois era necessário suprir as necessidades básicas de consumo (charque, farinha de mandioca, pólvora, rapadura, cachaça...) dos moradores da região das Minas Gerais. Surgimento de novos grupos sociais (proprietários de lavras, funcionários da coroa, advogados, padres, militares, comerciantes, tropeiros, artesãos, artistas e escravos), tornando a sociedade mineradora mais flexibilizada quando comparada à sociedade açucareira (senhores de engenho e escravos). Fundação de arraiais, vilas e cidades (urbanização) em decorrência da exploração aurífera. O apogeu da mineração no Brasil encontra-se entre os anos de 1733 a 1748, começando a declinar a partir dessa data e, mesmo durante a fase de esplendor, outras atividades complementavam a economia, tais como: a pecuária, a produção de farinha de mandioca, rapadura, açúcar e cachaça. BUSCANDO CONHECIMENTO O texto abaixo, do economista e historiador Celso Furtado, apresenta-nos, didaticamente, a relação existente entre a economia mineradora do Brasil e a dependência econômica de Portugal para com a Inglaterra, desde a assinatura do Tratado de Methuen em 1703, também conhecido como Tratado dos Panos e Vinhos, pois estabelecia uma relação bilateral (desvantajosa para os portugueses) entre essas duas nações. “O ciclo do ouro brasileiro trouxe um forte estímulo ao desenvolvimento manufatureiro, uma grande flexibilidade à sua capacidade para importar, e permitiu uma concentração de reservas que fizeram do sistema bancário inglês o principal centro financeiro da Europa. A Portugal, entretanto, a economia do ouro proporcionou apenas uma aparência de riqueza, repetindo o pequeno reino a experiência da Espanha no século anterior. Como agudamente observou Pombal, na segunda metade do século, o ouro era uma riqueza puramente fictícia para Portugal: os próprios negros que trabalhavam nas minas tinham que ser vestidos pelos ingleses. Contudo, nem mesmo Pombal, que tinha uma visão lúcida da situação da dependência política em que vivia seu país e uma vontade de ferro, conseguiu modificar fundamentalmente as relações com a Inglaterra. Na verdade, essas relações constituíam uma ordem superior de coisas sem a qual não seria fácil explicar a sobrevivência do pequeno reino como Metrópole de um dos mais ricos impérios coloniais da época. (...) O último quartel do século XVIII veria a decadência da mineração do ouro no Brasil. A Inglaterra já havia, sem embargo, entrado em plena revolução industrial. As necessidades de mercados cada vez mais amplos para as manufaturas em processo de rápida mecanização impõem nesse país o abandono progressivo dos princípios protecionistas. O tratado de Methuen, que criava uma situação de privilégio para os vinhos portugueses no mercado inglês, é fortemente criticado do ponto de vista dos novos ideais liberais. O problema fundamental da Inglaterra passa a ser a abertura dos grandes mercados europeus para as suas manufaturas, e com esse fim tornava-se indispensável eliminar as ataduras da era mercantilista. Com efeito, no tratado de 1786, firmado com a França, a Inglaterra pôs praticamente fim ao privilégio aduaneiro que desde o começo do século haviam gozado os vinhos portugueses em seu mercado, única contrapartida econômica, que recebera Portugal nos cento e cinquenta anos anteriores de vassalagem econômica. Em suas memórias, o Marquês de Pombal afirma categoricamente que a Inglaterra havia reduzido Portugal a uma situação de dependência, conquistando o reino sem os inconvenientes de uma conquista militar: que todos os movimentos do governo eram regulados de acordo com os desejos da Inglaterra.” FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Nacional, 2005. Unidade 16 - Renascimento agrícola CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: Compreender a economia do período de transição entre a economia açucareira nordestina e o advento da cafeicultura no Rio de Janeiro e Vale do Paraíba. ESTUDANDO E REFLETINDO Conforme o ouro escasseava, buscava-se uma alternativa econômica viável e, nesse momento de transição do século XVIII para o XIX, a agricultura volta a ser a atividade de destaque, porém, na ausência de um produto-chave, como outrora fora a cana-de-açúcar, verifica-se uma diversificação agrícola, cujos principais produtos eram: cana-de-açúcar, algodão, tabaco, cacau, café, entre outros. A retomada da atividade agrícola brasileira é uma consequência de diversos fatores internos e externos. Internamente ocorria o declínio da atividade mineradora, fato que exigia um redirecionamento econômico. Externamente, mais precisamente na Europa, ocorriam consecutivamente a Revolução Industrial e o crescimento da população urbana. Nesse contexto, o Brasil se posicionaria como país periférico, ou seja, fornecedor de matérias-primas e produtos agrícolas (alimentos) para as nações industrializadas. O algodão tornar-se-ia o principal produto das exportações brasileiras desse período, pois era a matéria-prima da Revolução Industrial Inglesa. Desde 1776, as relações entre a metrópole inglesa e suas colônias na América do Norte foram rompidas pela Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, ocasião na qual travaram uma Guerra de Independência (1776-1783) contra a Inglaterra. Durante esse período de conflito, o Brasil tornou-se o principal fornecedor de algodão para as indústrias têxteis inglesas, contribuindo positivamente com a retomada das atividades agrícolas brasileiras (Renascimento Agrícola). Boris Fausto (2008) defende que a grande propriedade se impôs na Economia brasileira. O sistema de plantation, ou seja, a monocultura, utilizando a mão de obra escrava foi a base para a produção em larga escala destinada principalmente à exportação. O Vale do Paraíba, região que se estende do Rio a São Paulo, ofereceu território fértil para o início de um rico ciclo cafeeiro no Brasil. Prevalecia no Brasil a lei do mais forte, isto é, quem tinha mais condições de explorar a terraaproveitava, expandia seu território e lucrava com a produção, Segundo Fausto (2008): Para implantar uma fazenda de café, o fazendeiro tinha de fazer investimentos significativos, que incluíam a derrubada da mata, o preparo da terra, o plantio, as instalações e a compra de escravos. Além disso, se o cafeeiro é uma planta perene – ou seja, o plantio não deve ser renovado a curto prazo – as primeiras colheitas só ocorrem após quatro anos. (p.187) O mercado interno brasileiro não consumia, principalmente porque a produção do café era feita em larga escala. Portanto, o Brasil dependia do mercado externo. Os Estados Unidos tornaram-se o principal consumidor do café brasileiro, além da Alemanha e Escandinávia. Porém, mesmo que a produção fosse tão volumosa, as técnicas para o trabalho nos cafezais ainda eram simples e o sistema de transporte era precário: Antes da construção das ferrovias, o transporte era feito por tropas de burros, a carga de uma guia chamada de arreador e de tropeiros escravos. Essas tropas percorriam várias vezes por ano os caminhos que iam dom vale do Paraíba ao Rio de Janeiro. Na ida, carregavam a produção da fazenda e na volta traziam ferramentas e mantimentos, como bacalhau, carne-seca e toucinho. (FAUSTO, 2008, p.188) O capital inglês ajudou em grande parte para o desenvolvimento da região já que era necessária a construção de estradas de ferro para o transporte do café. Em 1868, foi construída a estrada de ferro que ligava Santos a Jundiaí por uma companhia inglesa, a São Paulo Railway Co. Limited (SPR). A empresa não se interessou por estender as estradas até Rio Claro e, então, os próprios fazendeiros financiaram a construção da estrada de ferro, Boris Fausto (2008) enaltece o fato, dizendo: A Companhia Paulista de Estradas de Ferro surgiu como uma empresa formada com capitais brasileiros ligados aos negócios do café (p.201). BUSCANDO CONHECIMENTO “(...) Ocorre na segunda metade do século mais um fator particular que estimula a agricultura brasileira. Até então, o grande gênero tropical fora o açúcar. Outro virá emparelhar-se a ele, e sobrepujá-lo-á em breve: o algodão. Embora conhecido imemorialmente, o papel do algodão nunca fora de destaque; em particular na Europa, onde nada havia que o avantajasse às fibras de produção local então utilizadas para os mesmos fins que ele: o linho ou a lã. Os progressos técnicos do séc. XVIII permitirão o seu aproveitamento em medida quase ilimitada, e ele se tornará a principal matéria-prima industrial do momento, entrando para o comércio internacional em proporções que este desconhecia ainda em qualquer outro ramo. Arkwright constrói o seu fuso em 1769, no mesmo ano em que Watt obtém patente para a máquina a vapor que tornaria possível o emprego desta energia em larga escala. Em 1787 Cartwright inventa o tear mecânico. São datas preciosas para o Brasil. O consumo do algodão na Inglaterra, o grande centro da indústria têxtil moderna, acompanha estas datas. Não ia no quinquênio 1771/5 além de 4,76 milhões de libras (peso); no penúltimo do século (1791/5), logo depois da introdução do tear mecânico, atingirá 26 milhões. Já não bastavam para este volume considerável os antigos e tradicionais fornecedores do Oriente; e a América, aproveitando suas reservas imensas de terras virgens, virá preencher a falta e tornar-se-á o grande produtor moderno do algodão. O Brasil terá sua parte que a princípio não é pequena, neste surto sem paralelo no passado do comércio algodoeiro.O algodão é produto nativo da América, inclusive do Brasil, e já era utilizado pelos nossos indígenas antes da vinda dos europeus. Com a colonização o seu cultivo se difundiu. Fiado e tecido em panos grosseiros, servia para vestimenta dos escravos e classes mais pobres da população. Exportou-se mesmo, ocasionalmente, em pequenas quantidades; e na falta da moeda, os novelos de fio e panos de algodão chegaram a circular em certas regiões como tal; hábito que tanto se arraigou, que no Maranhão, p. ex., exprimiam-se ainda naquelas mercadorias, em princípios do séc. XIX, os valores monetários locais: novelo de fio, por 100 réis: e rolo de pano, por 10$000. Mas até o terceiro quartel do séc. XVIII, quando começa a ser exportado regularmente, o algodão nada mais representa que uma insignificante cultura de expressão local e valor mínimo. É somente quando se torna mercadoria de grande importância no mercado internacional que o algodão começa a aparecer, tornando-se mesmo uma das principais riquezas da colônia. Verifica-se aí, mais uma vez, o papel que representa na economia brasileira a função exportadora: é ela o fator único determinante de qualquer atividade econômica de vulto. E isto se comprovará novamente neste mesmo setor da produção algodoeira, pouco depois do período que ora nos ocupa, quando vem o reverso da medalha e a fibra brasileira é desbancada e quase excluída do mercado internacional pelos seus concorrentes. A produção decairá logo em seguida, e as regiões produtoras que não contaram com um substituto, encerram com um colapso sua brilhante e curta trajetória. A primeira remessa de algodão brasileiro para o exterior (com exclusão daquela remessa pequena e intermitente exportação do séc. XVI, referida acima e que não progrediu), data, ao que parece, de1760, e provém do Maranhão que neste ano exporta 651 arrobas. De Pernambuco exporta-se a partir de 1778, sendo em quantidade insignificante até 1781. A Bahia e o Rio de Janeiro seguirão o passo. Mas é no Maranhão que o progresso da cultura algodoeira é mais interessante, porque ela parte aí do nada, de uma região pobre e inexpressiva no conjunto da colônia. O algodão dar-lhe-á vida e transformá-la-á, em poucos decênios, numa das mais ricas e destacadas capitanias. Deveu-se isto em particular à Companhia geral do comércio do Grão-Pará e do Maranhão, concessionária desde 1756 do monopólio desse comércio. É esta companhia que fornecerá créditos, escravos e ferramentas aos lavradores; que os estimulará a se dedicarem ao algodão, cuja favorável conjuntura começava a se delinear. A Companhia não colherá os melhores frutos do seu trabalho: extingue-se em 1777 com a cessação do seu privilégio que não é renovado. Mas o impulso estava dado, e o Maranhão continuará em sua marcha ascendente. Será ultrapassado mais tarde por Pernambuco e Bahia, que contavam ao se lançarem na empresa com recursos de gente e capitais muito mais amplos. Mas o Maranhão terá, pelo menos num momento, seu lugar no grande cenário da economia brasileira. (PRADO JR, Caio. História Econômica do Brasil. 40ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1993) Unidade 17. Economia Cafeeira CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: Analisar a economia cafeeira, principal atividade econômica a partir de meados do século XIX, responsável por um conjunto de transformações econômicas, sociais e políticas no Brasil. ESTUDANDO E REFLETINDO A cafeicultura desenvolveu-se plenamente no Brasil durante a segunda metade do século XIX. Embora haja registros de que as primeiras sementes de café tenham chegado ao Pará, ainda no século XVIII, obtidas as primeiras mudas, foram usadas apenas como planta ornamental. Foi na região sudeste (Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais) que a atividade cafeeira teve finalidades comerciais. A partir de meados do século XIX, o mercado consumidor externo expandiu-se em decorrência de vários fatores, entre os quais podemos destacar o hábito das camadas médias da sociedade norte-americana e europeia de consumir café. Também encontramos registros de que o café era a bebidada razão e, desde a difusão dos ideais iluministas pela Europa no século XVIII, era a bebida preferida dos pensadores, escritores, cientistas, intelectuais e comerciantes, pois “clareava” as ideias, ao contrário do álcool que as ofuscava. “Café, a bebida sóbria, o poderoso alimento do cérebro, que, ao contrário de outros destilados, eleva a pureza e a lucidez; o café, que remove da imaginação as nuvens e seu peso sombrio e que ilumina a realidade das coisas de repente com o brilho da verdade”.(Jules Michelet, historiador francês: 1798-1874) “A propagação do racionalismo pela Europa foi espelhada pela difusão de uma nova bebida, o café, que promovia acuidade e clareza de pensamento”. (STANDAGE, Tom. História do mundo em 6 Copos. Rio de Janeiro: ZAHAR, 2005) Entretanto, não foram esses pensadores e intelectuais os responsáveis pelo aumento da demanda do produto no exterior. As camadas médias e baixas da sociedade também adquiriram o hábito de beber café. A industrialização das nações ocidentais europeias e norte-americana contribuiu significativamente para a ampliação das exportações do produto, pois, segundo consta, o café mantinha os indivíduos despertos e aptos ao trabalho nas longas jornadas diárias dentro das indústrias. A produção de café com finalidades comerciais iniciou-se no Rio de Janeiro, pois ali havia terras disponíveis e uma maior proximidade com o litoral Atlântico, fundamental para realizar as exportações do produto. As fazendas de café no Rio de Janeiro e no Vale do Paraíba (para onde o cultivo expandiu-se nos primeiros anos do século XIX) apresentavam uma característica tradicional de produção, ou seja, grandes propriedades (latifúndios), monocultura, mão de obra escrava africana e produção destinada ao mercado externo (exportações). Quando a expansão das lavouras atingiu o Oeste Paulista, em meados no século XIX, o modelo tradicional foi substituído pelo modelo empresarial, o qual, entre outras características, adotou a mão de obra livre (assalariada) dos imigrantes europeus. Rio de Janeiro e Vale do Paraíba: modelo tradicional – técnicas rudimentares de cultivo (enxada e foice) e utilização da mão de obra escrava africana – baixa produtividade. “Os instrumentos de trabalho básicos e quase exclusivos da grande lavoura cafeeira foram a enxada e a foice. Os escravos ajustaram- se a essas ferramentas tradicionais do trabalhador da terra no Brasil, e as condições topográficas do vale do Paraíba favoreceram seu uso.” (FAUSTO, Boris. História Concisa do Brasil) Oeste Paulista: modelo empresarial – novas técnicas de cultivo (arado e despolpador de grãos) e utilização da mão de obra assalariada dos imigrantes – maior produtividade. “No grande planalto do interior de São Paulo reuniam-se as condições mais favoráveis de solo e de clima para a lavoura do café. Aí se encontra a terra roxa, de alta produtividade (...). Embora não devamos exagerar nos avanços tecnológicos, foi no Oeste Paulista que se introduziram o arado e o despolpador. Este significou uma verdadeira revolução na técnica de descascamento de grãos.” (Idem) O desenvolvimento da cafeicultura no Oeste Paulista, em detrimento do Vale do Paraíba, deu origem a uma nova classe social: a burguesia cafeeira que, diferentemente dos antigos latifundiários açucareiros do nordeste brasileiro, destinaram os excedentes de capitais para outras áreas da economia, tais como as indústrias de bens de consumo não-duráveis (alimentos, bebidas e têxteis). Durante a segunda metade do século XIX, principalmente a partir de 1870, verificou-se um surto de industrialização no Brasil, especificamente em São Paulo. Porém, tal industrialização foi efêmera, pois a cafeicultura representava a principal atividade econômica nacional e, quando o preço do café oscilava no mercado internacional diminuindo os lucros, diminuíam-se também os investimentos no segmento industrial. Nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX, o preço do café diminuía vertiginosamente, pois além das supersafras internas, que aumentavam a oferta do produto, internacionalmente ocorriam crises econômicas nas nações liberais industrializadas e as importações de café eram diminuídas. A partir das décadas de 30 e 40 (Era Vargas), ocorreria o início da industrialização brasileira e o café seria apenas mais um produto das exportações brasileiras. BUSCANDO CONHECIMENTO O mercado mundial do café se ampliava, na medida em que o produto deixava de ser um artigo de luxo para se incorporar à cultura e ao consumo cotidiano das populações em diversos lugares do mundo. A participação do café brasileiro no mercado mundial elevou-se de 20% na década de 1820 para mais de 50%, entre 1880 e 1889. Estruturada a princípio na grande propriedade agroexportadora e na mão de obra escrava, a economia cafeeira, a partir da segunda metade do século XIX, passou a adotar progressivamente o trabalho livre. O tráfico negreiro foi extinto em 1850, e a expansão da lavoura cafeeira no Oeste Paulista aumentava a necessidade de mão de obra. Com o objetivo de atrair imigrantes para o Brasil, o governo lançou campanhas na Europa, distribuindo folhetos que prometiam terra e fartura. O comércio exterior se dinamizou, com a exportação crescente de café e a importação de produtos franceses e ingleses para atender aos novos núcleos urbanos, estimulando o desenvolvimento do sistema bancário. A expansão da cafeicultura brasileira deu-se no contexto da Segunda Revolução Industrial, desencadeada, sobretudo na Inglaterra. Interessados em expandir seus mercados, os investidores ingleses aplicaram vultosos recursos no Brasil. A influência da Inglaterra na economia brasileira vinha desde os tempos coloniais, e se ampliou quando a família real transferiu-se para o Brasil em 1808. No século XIX, o capital inglês tomou-se ainda mais presente na economia brasileira, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, com investimentos na construção de ferrovias, portos e no transporte urbano. A feição dos centros urbanos se modificou, contando com mais estabelecimentos comerciais, bancos, iluminação, telégrafos, um novo traçado das ruas e, já no final do século XIX, a presença de bondes elétricos, em substituição aos de tração animal. Unidade 18 - Industrialização CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: Ressaltar a importância e o processo da industrialização brasileira. ESTUDANDO E REFLETINDO A Primeira Guerra Mundial, ocorrida entre 1914 e 1918, favoreceu o crescimento do setor industrial brasileiro durante a República Velha. Neste período a indústria europeia estava totalmente concentrada na produção de armas, munições, veículos de transporte e medicamentos necessários para o esforço de guerra. Dessa forma, as indústrias europeias deixaram de produzir mercadorias para o resto do mundo. Mas havia limites nesse processo, pois no Brasil ainda não havia indústria de base, indústria pesada, tais como indústria siderúrgica e metalúrgica. Nesse período a indústria brasileira começou a se diversificar e desenvolver. O capital para financiar a industrialização brasileira veio da agro exportação, principalmente do Café. A economia agroexportadora brasileira foi responsável pela montagem de canais de escoamento da produção, tais como a construção de portos e ferrovias. A posse de Getúlio Vargas simbolizou o final da República Velha e o início de novos tempos, mas o que de fato ocorreu foi um rearranjo, uma acomodação dos interesses das elites, umaruptura com “continuísmo”, pois a elite cafeeira paulista, que esteve no poder, direta ou indiretamente durante aproximadamente 35 anos, foi afastada, mas outras elites pertencentes ao grupo que chegou ao poder foram beneficiadas. Em 1940, foi oficialmente estabelecido um salário mínimo, o qual deveria satisfazer às necessidades básicas dos trabalhadores, quais sejam: alimentação, moradia, transporte, vestuário e lazer. Embora tais necessidades tenham se modificado substancialmente com o passar das décadas, é evidente que o poder de compra do salário mínimo não era significante. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939) e o enfrentamento dos nazifascistas alemães e italianos na Europa, o governo viu-se obrigado a se posicionar em relação ao conflito. Embora na esfera política houvesse simpatizantes de ambos os lados, Vargas conseguiu manter-se neutro até 1942, tentando angariar vantagens econômicas em troca de apoio ideológico-militar. Negociava tanto com os alemães quanto com os Estados Unidos. Enquanto alguns oficiais da FAB (Força Aérea Brasileira) viajaram para a Alemanha e se encontraram com o todo poderoso chefe da propaganda nazista Hermann Göring, seu ministro das relações internacionais, Osvaldo Aranha, viajou para Washington para negociar com o presidente Roosevelt. O ataque militar japonês a Pearl Harbour, em dezembro de 1941, provocou a declaração de guerra dos EUA ao eixo, forçando o Brasil a se decidir rapidamente. Com as promessas norte-americanas de que o Export-Import Bank (Eximbank) financiaria a construção da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda/RJ, o Brasil, em agosto de 1942, declarou guerra ao eixo, em apoio aos países aliados, em especial aos Estados Unidos, permitindo a esse país instalar bases militares no litoral nordeste brasileiro. Os anos de governo do presidente Juscelino Kubitschek foram denominados “Anos Dourados”, devido ao modelo político-econômico nacional- desenvolvimentista, isto é, um misto de investimentos público-privados, no qual o governo assumia o compromisso de investir nos setores estratégicos da economia (energia, transporte, alimentação, educação e industrialização de base), enquanto os investimentos estrangeiros seriam destinados principalmente para a implantação de indústrias de bens de consumo, sobretudo para as automobilísticas. A construção de Brasília – a nova Capital Federal – foi a principal realização desse governo. A Novacap foi a empresa estatal responsável pela administração das obras, as quais só foram possíveis graças aos convênios entre as principais empreiteiras do país. A proposta de planejamento e estudo para a mudança da capital já estava prevista nas Constituições de 1891, 1934, 1937 e 1946, entretanto Juscelino Kubitschek, ainda em campanha presidencial, assumiu um compromisso público com esse artigo constitucional, pois afirmava que a integração nacional era necessária e Brasília, construída na região Centro-Oeste, dentro do Estado de Goiás, distando algumas dezenas de quilômetros da divisa do Estado de Minas Gerais, seria o epicentro de tal integração. BUSCANDO CONHECIMENTO A industrialização brasileira Publicado por: Eduardo de Freitas Engenhos de açúcar primeira etapa da indústria no país. O Brasil é considerado um país emergente ou em desenvolvimento. Apesar disso, está quase um século atrasado industrialmente e tecnologicamente em relação às nações que ingressaram no processo de industrialização no momento em que a Primeira Revolução Industrial entrou em vigor, como Inglaterra, Alemanha, França, Estados Unidos, Japão e outros. As indústrias no Brasil se desenvolveram a partir de mudanças estruturais de caráter econômico, social e político, que ocorreram principalmente nos últimos trinta anos do século XIX. O conjunto de mudanças aconteceu especialmente nas relações de trabalho, com a expansão do emprego remunerado que resultou em aumento do consumo de mercadorias, a abolição do trabalho escravo e o ingresso de estrangeiros no Brasil como italianos, alemães, japoneses, dentre muitas outras nacionalidades, que vieram para compor a mão de obra, além de contribuir no povoamento do país, como ocorreu na região Sul. Um dos maiores acontecimentos no campo político foi a proclamação da República. Diante desses acontecimentos históricos, o processo industrial brasileiro passou por quatro etapas. • Primeira etapa: essa ocorreu entre 1500 e 1808, quando o país ainda era colônia. Dessa forma, a metrópole não aceitava a implantação de indústrias (salvo em casos especiais, como os engenhos) e a produção tinha regime artesanal. • Segunda etapa: corresponde a uma fase que se desenvolveu entre 1808 a 1930, que ficou marcada pela chegada da família real portuguesa em 1808. Nesse período foi concedida a permissão para a implantação de indústria no país a partir de vários requisitos, dentre muitos, a criação, em 1828, de um tributo com taxas de 15% para mercadorias importadas e, em 1844, a taxa tributária foi para 60%, denominada de tarifa Alves Branco. Outro fator determinante nesse sentido foi o declínio do café, momento em que muitos fazendeiros deixaram as atividades do campo e, com seus recursos, entraram no setor industrial, que prometia grandes perspectivas de prosperidade. As primeiras empresas limitavam-se à produção de alimentos, de tecidos, além de velas e sabão. Em suma, tratava-se de produtos sem grandes tecnologias empregadas. • Terceira etapa: período que ocorreu entre 1930 e 1955, momento em que a indústria recebeu muitos investimentos dos ex-cafeicultores e também em logística. Assim, houve a construção de vias de circulação de mercadorias, matérias-primas e pessoas, proveniente das evoluções nos meios de transporte que facilitaram a distribuição de produtos para várias regiões do país (muitas ferrovias que anteriormente transportavam café, nessa etapa passaram a servir os interesses industriais). Foi instalada no país a Companhia Siderúrgica Nacional, construída entre os anos de 1942 e 1947, empresa de extrema importância no sistema produtivo industrial, uma vez que abastecia as indústrias com matéria-prima, principalmente metais. No ano de 1953, foi instituída uma das mais promissoras empresas estatais: a PETROBRAS. • Quarta etapa: teve início em 1955, e segue até os dias de hoje. Essa fase foi promovida inicialmente pelo presidente Juscelino Kubitschek, que promoveu a abertura da economia e das fronteiras produtivas, permitindo a entrada de recursos em forma de empréstimos e também em investimentos com a instalação de empresas multinacionais. Com o ingresso dos militares no governo do país, no ano de 1964, as medidas produtivas tiveram novos rumos, como a intensificação da entrada de empresas e capitais de origem estrangeira comprometendo o crescimento autônomo do país, que resultou no incremento da dependência econômica, industrial e tecnológica em relação aos países de economias consolidadas. No fim do século XX houve um razoável crescimento econômico no país, promovendo uma melhoria na qualidade de vida da população brasileira, além de maior acesso ao consumo. Houve também a estabilidade da moeda, além de outros fatores que foram determinantes para o progresso gradativo do país. Disponível em http://www.mundoeducacao.com/geografia/a-industrializacao-brasileira.htm Unidade 19 - Economia brasileira pós 64 CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: Analisar a situação econômica do Brasil após o golpe militar que sucedeu o governo de João Goulart, em 1964. ESTUDANDO E REFLETINDO Economia Brasileira pós-1964O modelo econômico adotado após 64 foi uma tentativa de consolidar o modelo econômico implantado por Juscelino Kubitschek, pois ele não rompe com o padrão de desenvolvimento de JK. No início dos anos 60, percebia-se uma crise econômica, que foi vista como resultado da quebra do dinamismo econômico e uma diminuição do ritmo dos investimentos industriais. Para resolver a crise, o Estado amplia a emissão de tesouro, que acarreta a elevação da inflação ou admite a subordinação ao crédito internacional, devendo aceitar as condições impostas por ele. Esta segunda alternativa enfrentava o problema de um governo instável e frágil, que acarretaria um risco para os investidores estrangeiros. Neste momento, ocorriam greves em muitos setores, até mesmo dentro do exército (como a greve dos sargentos), que ameaçavam a hierarquia e a ordem interna. Devido às pressões populares e ao fraco desenvolvimento e desempenho econômico, e em nome da burguesia emergente, a solução seria a tomada do poder pelos militares, o que acontece em 1964, havendo assim uma redefinição do poder no país com um novo pacto: burguesia-militares. Com o golpe de 64, a política econômica cria condições para a retomada do crescimento econômico e financeiro. Mas o grande problema desse período foi a falta de investimentos e a inflação galopante, que seria enfrentada com o arrocho salarial, com uma nova legislação trabalhista que atrelaria o trabalhador a uma poupança forçada, o que forneceria recursos para a indústria; criação de um novo sindicato que fortaleceria a dominação do empregado pela classe empresarial. Outro problema foi o fantasma da demissão, que colocava o trabalhador subordinado à fábrica. A rotatividade de empregos proporcionava baixos salários e uma margem de lucros maior para o empresário. Esta política foi fundamental para o crescimento econômico pós 68, porém ela vai estrangular a classe operária. O Brasil fez empréstimos para crescer economicamente; esse período ficou conhecido como “Milagre Brasileiro”. O país se endividou e o crescimento econômico diminuiu, atrelado à crise mundial do petróleo (1973) que gera uma crise interna. E a indústria multinacional, por sua vez, fazia a descapitalização, não havendo capital para reinvestir internamente. A crise estava inserida nos altos juros dos empréstimos e no custo do capital financeiro. No governo Geisel, há uma tentativa de implantar o II PND Plano de Desenvolvimento Nacional (I PND – I Plano Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, válido para os anos de 1972 a 1974. Os objetivos da política regional ali enumerados têm por base, fundamentalmente, o PIN – Programa de Integração Nacional. De modo geral, o I PND acentua a tendência do Estado de procurar enfocar suas políticas territoriais através de estratégias de “integração nacional”. O II PND atinge os anos de 1975 a 1979. É, de certo modo, conhecida a mudança de enfoque nas diretrizes maiores do desenvolvimento nacional (representado por esse plano e pelos demais que o precederam), que deveria promover a substituição do setor de bens de consumo renováveis pelo setor de bens de produção, através da empresa estatal. Este plano enfrenta dificuldades, como: a falta de definição de um novo setor industrial, a falta de novos financiamentos externos e a resistência do Sudeste em relação aos projetos aplicados em outras áreas. Mas estas dificuldades estão ligadas à especulação da ciranda financeira. A falha econômica do II PND foi o fracasso em alterar os padrões de acumulação, preservando as taxas de crescimento, havendo uma rapidez nos ganhos do setor financeiro. A falha política foi a adoção de uma estratégia que não conquistou o apoio da classe econômica dominante. A partir daí, o governo enfrenta grande oposição em suas tentativas de resolver os problemas econômicos do país. Na gestão de Simonsen, os beneficiados foram os grandes banqueiros, em detrimento da burguesia industrial (pequenos e médios empresários) e do setor agrícola. Isto levou a um processo inflacionário e ao aumento da dívida interna. Além disso, o governo não conseguia conter os gastos públicos. Esta crise gera tensões que levam ao surgimento dos movimentos grevistas que reivindicam empregos. Em 1981, nenhuma das medidas anti-inflacionárias havia dado resultados positivos e a recessão se prolongara. Em mais uma tentativa de sair da crise, o governo propõe o aumento das exportações. Mas o governo é obrigado a recorrer ao FMI para tentar sair da crise, assim o governo passa a enfrentar a oposição da burguesia e das forças populares. Na tentativa de legitimação do governo militar, foi criada a DSN (Doutrina de Segurança Nacional) que se tornou o instrumento ideológico que facilitaria a expansão do capitalismo. O regime militar perde sua sustentação com o fim do milagre econômico, que passa a ter um processo de abertura política. No período do regime militar, houve um forte favorecimento às multinacionais e estatais no processo de acumulação, enquanto que a pequena burguesia sentia-se prejudicada. Com isso, houve uma politização das forças armadas, que passa a se preocupar com a sucessão presidencial e a legitimidade do regime militar. BUSCANDO CONHECIMENTO Determinantes do "milagre" econômico brasileiro (1968-1973): uma análise empírica Fernando A. VelosoI; André VillelaII; Fabio GiambiagiIII [...] O período 1968-1973 é conhecido como "milagre" econômico brasileiro, em função das extraordinárias taxas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) então verificadas, de 11,1% ao ano (a.a.). Uma característica notável do "milagre" é que o rápido crescimento veio acompanhado de inflação declinante e relativamente baixa para os padrões brasileiros, além de superávits no balanço de pagamentos. Embora esse período tenha sido amplamente estudado, não existe um consenso em relação aos determinantes últimos do "milagre". As interpretações encontradas na literatura podem ser agrupadas em três grandes linhas. A primeira linha de interpretação enfatiza a importância da política econômica do período, com destaque para as políticas monetária e creditícia expansionistas e os incentivos às exportações. Uma segunda vertente atribui grande parte do "milagre" ao ambiente externo favorável, devido à grande expansão da economia internacional, melhoria dos termos de troca e crédito externo farto e barato. Já uma terceira linha de interpretação credita grande parte do "milagre" às reformas institucionais do Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG) do Governo Castello Branco (19641967), em particular às reformas fiscais/tributárias e financeira, que teriam criado as condições para a aceleração subseqüente do crescimento.1 O objetivo desse artigo é quantificar, através de uma metodologia de regressões de crescimento com dados de painel, a importância de possíveis determinantes do "milagre" brasileiro. Em particular, verificamos em que medida o "milagre" decorreu da situação externa favorável e do desempenho de variáveis de política econômica associadas à estabilidade macroeconômica, política fiscal, nível de desenvolvimento do sistema financeiro e grau de abertura ao exterior. Também investigamos até que ponto o crescimento econômico observado no período 1968-1973 decorreu das reformas implementadas a partir de 1964. Neste artigo, estimaremos regressões de painel baseadas em uma versão ampliada do modelo neo-clássico de crescimento. Utilizaremos inicialmente painéis de seis anos para uma amostra de 62 países, durante o período entre 1962 e 1997, onde um dos subperíodos corresponde aos anos do"milagre". Embora o painel seja estimado para o período 1962-1997, o objetivo da análise é quantificar o crescimento previsto pelo modelo para o período do "milagre" econômico brasileiro de 1968-1973, e avaliar até que ponto este modelo consegue explicar a aceleração de crescimento de 1968-1973 em relação ao período anterior (1962-1967). A metodologia de quantificação dos determinantes do crescimento utilizada nesse artigo baseia-se em Easterly et alii (1997), que avaliaram o efeito das reformas econômicas no crescimento econômico da América Latina entre 1991 e 1993. Essa metodologia tem sido recentemente empregada em diversos estudos que procuram quantificar os determinantes do crescimento na América Latina, como, por exemplo, De Gregorio e Lee (1999), Fernández-Arias e Montiel (2001) e Loayza et alii (2005). Uma contribuição deste artigo é o fato de combinar a literatura de regressões de crescimento com dados de painel com o estudo de um episódio de aceleração de crescimento, na medida em que a escolha dos períodos no painel foi feita de modo a cobrir o período de duração do "milagre" econômico brasileiro. Os resultados mostram que tanto o ambiente externo como as variáveis de política econômica explicam uma parcela relativamente pequena da aceleração do crescimento brasileiro observada entre 1962-1967 e 1968-1973. Esses resultados são robustos ao uso de diferentes metodologias econométri-cas, como o estimador de efeito fixo, o estimador GMM em diferenças de Arellano e Bond (1991) e o estimador GMM de sistema de Blundell e Bond (1998). Os resultados também são robustos à inclusão nas regressões da razão investimento/PIB e da variável de abertura de Sachs e Warner (1995). Em princípio, essa evidência parece corroborar os resultados de estudos recentes sobre episódios de aceleração do crescimento, como Hausmann et alii (2005) e Rodrik e Subramanian (2004). Em um estudo sobre mais de 80 episódios de aceleração do crescimento desde a década de 1950, Hausmann et alii (2005) apresentam evidências de que acelerações de crescimento são em larga medida imprevisíveis. Em particular, a maioria dos episódios de aceleração de crescimento não está relacionada aos determinantes comumente postulados em regressões de crescimento, e reformas econômicas em geral não produzem acelerações de crescimento. Rodrik e Subramanian (2004) confirmam esse resultado em um estudo de um episódio de aceleração do crescimento na Índia durante a década de 1980. No entanto, um estudo mais aprofundado do período 1968-1973 no Brasil mostra que essa interpretação não é apropriada no caso do "milagre" brasileiro. A primeira evidência nesse sentido é o fato de que o modelo de crescimento estimado com base em painéis de seis anos superestima fortemente o crescimento econômico brasileiro no período anterior ao "milagre" e subestima o crescimento no período em que ele ocorreu. Isso sugere a possibilidade de que, pelo menos em parte, a aceleração de crescimento associada ao "milagre" tenha decorrido do efeito defasado das reformas do PAEG. De fato, Simonsen e Campos (1974) atribuem parte do "milagre" às reformas econômicas implementadas no Governo Castello Branco. Nesse sentido, os principais formuladores do PAEG argumentam que o período 1964-1973 deve ser visto de forma unificada. A interpretação dos autores é de que, a partir de 1964, o modelo econômico brasileiro teria mudado, no sentido de transformar a economia brasileira em uma economia de mercado aberta ao exterior. Segundo os autores, o período 1964-1967 teria sido um período caracterizado por um "esforço de restauração", diante da situação de descontrole inflacionário, déficits crônicos no balanço de pagamentos e colapso do investimento herdados do governo anterior, o que implicaria um sacrifício temporário das taxas de crescimento. Em função do ajuste macroeconômico e das reformas institucionais associadas ao PAEG, teriam sido criadas as condições que tornariam possível a aceleração do crescimento no período 1968-1973. Para testar essa conjectura, estendemos nossa análise para painéis de dez anos, incluindo o período 1964-1973 entre seus subperíodos. Os resultados mostram que o modelo de regressões de crescimento com dados de painel prevê uma taxa de crescimento para o Brasil no período 1964-1973 bastante próxima da taxa de crescimento efetivamente verificada no período. A combinação dos resultados dos painéis de crescimento de seis e dez anos conduz, portanto, a uma interpretação do "milagre" brasileiro bastante distinta da que decorre dos estudos de aceleração de crescimento de Hausmann et alii (2005) e Rodrik e Subramanian (2004). Em conjunto, nossos resultados indicam que o episódio de aceleração do crescimento associado ao "milagre" decorreu em grande medida do efeito defasado das reformas associadas ao PAEG. Para leitura desse artigo complete acesse o endereço eletrônico http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71402008000200006 Unidade 20 - A atual situação econômica do Brasil e o cenário mundial CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivo: Analisar as principais características da economia atual, estabelecendo relação com o contexto mundial. ESTUDANDO E REFLETINDO A partir do final dos anos 80, já era possível identificar no Brasil os efeitos da política econômica orientada pelo neoliberalismo. Na década de 90 as ações do governo são marcadas por uma onda de privatizações e medidas para o controle inflacionário. Em 1º de julho de 1994 passou a vigorar a nova moeda do país, o Real. O Banco Central fixou uma paridade entre o Real e o Dólar, a fim de valorizar a nova moeda. Um Real era o equivalente a Um Dólar. O Plano Real animou empresários e a população, e impulsionou o consumo interno. Mas o que era festa virou preocupação para o governo. Com o consumo em alta, temia-se a volta da inflação. Durante o Primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso a principal preocupação era controlar a inflação. Para isto, o governo elevou as taxas de juros da economia Outra iniciativa de destaque de FHC foi privatizar empresas estatais, como a Vale do Rio Doce e Sistema Telebrás. Enfrentou muitas críticas de vários setores da sociedade, principalmente de partidos de oposição, como o PT (Partido dos Trabalhadores). Surgiram muitas denúncias relacionadas às privatizações, de favorecimentos para determinadas empresas internacionais na compra das estatais. No final do segundo mandato (2002) de FHC, a inflação foi contida entretanto, durante a distribuição de renda no Brasil continuou desigual, a renda dos 20% da população rica continuou cerca de 30 vezes maior que a dos 20% da população mais pobre. O Brasil ficou em excessiva dependência do Fundo Monetário Internacional (FMI). Alguns autores apontam que foi durante esse período que se consolidou no Brasil a política econômica neoliberal. No período que sucedeu a saída de Fernando Fenrique Cardoso do governo brasileiro, não houve grandes mudanças na política econômica adotada. O cenário de relativa estabilidade resultou em a diminuição, em cerca de 168 bilhões de reais, da dívida externa, porém não conseguiu frear o aumento da dívida interna que pulou do patamar de 731 bilhões de reais no ano de 2002 para um trilhão de reais em fevereiro de 2006. O governo Lula emprega uma fatia do seu orçamento em programas de caráter social como: Fome Zero; Bolsa Família; Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti); Luz para todos; Brasil Alfabetizado e Educação de Jovens e Adultos; ProUni ; Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE); Programa de Aceleração do Crescimento(PAC)... Em 2011 A gestão Dilma Rousseff iniciou-se dando seguimento à política econômica do Governo Lula. BUSCANDO CONHECIMENTO Leia a seguir fragmentos da entrevista concedida pelo economista Celso Furtado à Revista de Economia Mackenzie em 15 de novembro de 2002. [..] REM: Como o senhor analisa a situação econômica do mundo? CELSO FURTADO: Não se pode ignorar que o mundo atravessa um processo de reciclagem, de transformação, cujo alcance ainda não conhecemos. Veja o peso dos Estados Unidos, país que por decênios foi se impondo como uma potência dominante mundial. Hoje, especialmente depois do fim da Guerra Fria, essa grande potência não tem mais diante de si nenhum grande desafio. Surgiu apenas esse desafio absurdo que é o de combate ao “terrorismo islâmico”, que ninguém leva a sério, pois se trata, na verdade, de um problema de polícia. Daí a desorientação dos Estados Unidos. A economia norte-americana não avança, o crescimento é pequeno e eles estão dando voltas, inventando fórmulas, como, por exemplo, a de tentar uma saída pela via do endividamento do governo, interno e externo. Estão tentando aumentar os gastos públicos, mas dependem de financiamento externo. Por outro lado, pensam em fazer isso para aumentar o volume dos negócios, e não para corrigir o desemprego. A recente “expedição militar” punitiva ao Iraque, em 2003, exemplifica esse tipo de política. Só que nem assim conseguiram reativar a economia. REM: E a situação do Brasil? CELSO FURTADO: É preciso pensar que o Brasil vive uma fase muito complexa, difícil. Isso não é somente aqui. Você olha para a América Latina e o quadro é completamente diverso do que era, hoje é uma região onde não há praticamente desenvolvimento. Um país como a Argentina, que tinha um dinamismo forte e um mercado interno ágil, não encontra saída. O México está se submetendo a essa integração com os Estados Unidos, o que é bastante negativo para o país. Vivi no México, sei que os mexicanos têm uma consciência muito grande do perigo que representa para o destino deles a integração com os Estados Unidos, sob controle norte-americano. Porém, agora aceitaram enveredar por um caminho completamente distinto. Por fim, outros países da América Latina, como o Peru, o Equador, e os da América Central também dão sinais de uma perda de rumo. [...] REM: Em outras palavras, o que o senhor sugere é que o Brasil precisa voltar a ter controle dos câmbios. CELSO FURTADO: Exato. Assim, o País recuperará as alavancas de manejo que lhe permitem ter uma política própria. Sem o controle desses instrumentos, pode haver a qualquer instante uma fuga de capitais em grande escala, o que deixaria o Brasil de joelhos. Porque a verdade é essa: o País continua ameaçado por uma saída de capitais especulativos, o que cria, naturalmente, uma insegurança e uma vulnerabilidade enorme. O perigo é sermos levados a reduzir significativamente nossos investimentos, e, por conseguinte, aceitar a estagnação econômica – caso em que todos os outros problemas se complicariam. [...] REM: O que o senhor acha da Reforma Tributária? CELSO FURTADO: É um tema essencial, mas ninguém o discute. Por quê? Quando Fernando Henrique [o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso] tomou posse, disse que deveria resolver o problema da inflação e entender-se com o Fundo Monetário. Estudando mais de perto, vi que o entendimento deles com o FMI tinha implícita uma reforma fiscal importante para enfrentar a situação adversa do Brasil. O déficit em conta corrente era grande, 5% ou 6% do produto nacional. Mas era financiado pela inflação, que chegou a render 5% do produto nacional. A inflação era o imposto mais alto, e era oculto. Lembro-me de ter feito os cálculos: ela incidia sobre a economia brasileira muito mais que o imposto de renda. Portanto, cabia a pergunta: acabando a inflação, o que ficaria em seu lugar, como fonte de novos recursos? Imaginei que iriam fazer uma reforma fiscal que permitisse aumentar a poupança interna. Mas a reforma fiscal não veio. Porque exigia uma redistribuição de renda, e era aí que a coisa tropeçava. O que ninguém queria enxergar é que, sem reforma fiscal, os recursos mobilizados teriam como contrapartida o endividamento externo. A inflação, que, aparentemente, acabou, foi substituída por uma nova dívida externa colossal. O passivo brasileiro praticamente quintuplicou durante os oito anos de governo Fernando Henrique. Qualquer redução da dívida externa exigiria redução de despesas. Os recursos do governo para investimentos foram desviados para o serviço da dívida. E a economia ficou estagnada. É uma situação complexa, porque a classe dirigente brasileira, que é a beneficiária dessa concentração de renda, nunca aceitou uma discussão séria sobre isso. [...] REM: A economista Maria da Conceição Tavares, certa feita, em palestra proferida na UERJ, expressou um certo desalento ao comentar que ela havia sido professora de vários economistas no controle das políticas econômicas brasileiras, tais como Gustavo Franco, e de tudo o que ela ensinou eles haviam simplesmente ignorado o principal, ou seja, a ética. O que o senhor pensa sobre isso? CELSO FURTADO: O que mais me surpreende é o desinteresse e o pessimismo desses economistas em relação ao Brasil. Quando houve essa mudança no cenário internacional, e obrigaram o Brasil, até por cegueira de muitos, a aceitar essa forma de integração indiscriminada – quando na verdade o País tivera um êxito enorme no modelo baseado em mercado interno –, houve gente pensando que talvez eu estivesse errado. Falei com o Fernando Henrique na época, e ele me disse: “Olhe, Celso, estou convencido de que o Brasil não tem muita chance. O espaço disponível que temos para manobrar é muito pequeno”. É difícil entender que esse pessimismo tenha se espalhado tanto. Se é assim, vou defender o meu emprego, meus interesses imediatos. No caso de um país, isso significava integrar-se de tal forma à economia mundial que se perdia o ideal de nação, de interesse nacional. A atual situação econômica mundial O que se pode dizer é que o conceito de projeto nacional se fundava em bases frágeis. Sou originário das áreas mais pobres do Brasil, e nos anos do imediato pós-guerra tive a oportunidade de viajar pela Europa destruída. Vi a reconstrução européia, que foi fantástica. Na Alemanha, tinha gente quase passando fome, mas trabalhando. Percebi que o homem tem recursos que são na verdade subestimados. Daí a conclusão de que teríamos de encontrar nosso caminho. Se o Brasil chegou ao grau de pessimismo e de pouca ética à que refere Maria da Conceição, talvez seja porque, depois de uma fase de 50 anos de crescimento fácil, tenha entrado numa fase de dificuldades. Os economistas do governo anterior ficaram imaginando qual seria a saída mais conveniente. Houve discussões entre eles sobre o modelo viável a partir de então. Imaginou-se até a volta ao modelo de substituição de importações. Mas atualmente o problema é outro: que possibilidade existe de investir em setores mais nobres, em tecnologia de vanguarda? Muita gente me diz: “por esse caminho não se pode ir muito longe, pois nosso mercado interno é pequeno”. Mas eu respondo que o nosso mercado é muito maior do que se pensa. O importante é persistir, e não se desarmar, como se fez recentemente. O grande erro do Brasil, principalmente no governo Fernando Henrique, foi se desarmar por completo diante das forças internacionais, ficar na dependência do mercado. Mercado esse que passou a ser uma assombração, e que nada mais é do que um conjunto de interesses bem definidos.O chamado “mercado” acabou asfixiando a economia nacional, e o Brasil entrou nessa fase de perda de identidade, de perda do autocontrole, sem as alavancas de manejo que possuía. Um exemplo é o controle de câmbio, que as autoridades monetárias sabiam manejar muito bem. A íntegra dessa entrevista você encontra no endereço eletrônico http://www.centrocelsofurtado.org.br/arquivos/image/201108311227390.entrevista_a_atual_situacao _economica_mundial.pdf Av. Ernani Lacerda de Oliveira, 100 Bairro: Pq. Santa Cândida CEP: 13603-112 Araras / SP (19) 3321-8000 ead@unar.edu.br Rua Américo Gomes da Costa, 52 / 60 Bairro: São Miguel Paulista CEP: 08010-112 São Paulo / SP (11) 2031-6901 eadsp@unar.edu.br www.unar.edu.br 0800-772-8030 POLOS EAD Capa História Historia econômica Capa História