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HISTÓRIA
HISTÓRIA ECONÔMICA
Fabiano Prosa
Helder Henrique Jacovetti Gasperotto
Unidade 01 - As bases do pensamento Econômico: 
Mercantilismo e Capitalismo Industrial 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivo: Conhecer os principais conceitos do Mercantilismo e do 
capitalismo industrial. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
“Ao se repensar o tempo histórico tendo como referência as 
relações homem-natureza, pode-se ainda avançar na 
compreensão das diversas temporalidades vividas pela sociedade e 
nas formulações das periodizações e marcos de rupturas. Assim 
como defendia Lévi-Strauss, as grandes transformações 
irreversíveis da sociedade podem ser basicamente divididas em dois 
grandes períodos. O primeiro momento desse longo processo foi a 
revolução agrícola, com a criação da agricultura, responsável por 
mudanças significativas nas relações entre os homens, a terra e as 
plantas e animais. O segundo grande momento foi o da revolução 
industrial dos séculos XVIII e XIX, que introduziu relações entre o 
homem e os recursos naturais em escala sem precedentes, 
impondo novo ritmo no processo de transformações e de 
permanências. Esses dois momentos correspondem à constituição 
de novas formas de os homens organizarem o tempo, com novos 
ritmos, e de se organizarem no seu tempo cotidiano: ao longo 
desse processo, o tempo da natureza foi sendo substituído pelo 
tempo da fábrica”. (in: BRASIL, Ministério da Educação. Secretaria 
de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros Curriculares 
Nacionais: ensino médio: ciências humanas e suas tecnologias. 
Brasília: Ministério da Educação/Secretaria de Educação Média e 
Tecnológica, 1999, pg. 49.) 
 
 
 
 
Mercantilismo: O pensamento Mercantilista (Capitalismo Comercial) 
O conflito do acúmulo de capitais corrobora com o que dizia a ética 
paternalista cristã que condenava a usura (lucro, acúmulo de capitais). Esse 
conflito cresce conforme o comércio da época se desenvolve. E é nesse período 
que a expansão marítima vai tomando corpo, o capitalismo comercial 
(mercantilismo) se prolifera e uma nova estrutura produtiva começa a imperar. 
Uma sociedade também surge e começa a ficar descontente com essa 
situação, a burguesia quer acumular seus lucros sem o peso do pecado imposto 
pelo cristianismo (catolicismo) da época. Começa, assim, a ética protestante; do 
outro lado, uma nova religião ganha muitos adeptos, pois o protestantismo vai 
dar razão ao pensamento da acumulação de capitais sem remorso. 
O mercantilismo pode ser empregado para designar a fase inicial do 
sistema capitalista. Trata-se de uma política econômica, que vai de 1500 até a 
Revolução Industrial, e que tinha como base o desenvolvimento econômico com o 
acúmulo de riquezas exercidas com o comércio do ouro e prata. Quanto maior o 
acúmulo de riquezas, mais fortalecido ficaria seu reino. 
Essa fase do desenvolvimento do sistema capitalista está associada à 
expansão comercial e a explorações de colônias na América. Assim sendo, o 
capitalismo tem sua base na acumulação de capital. 
 
“O termo capitalismo designa, com muita propriedade, este 
sistema cujos pilares são a busca de lucros e a acumulação de 
capital. O capital é a fonte dos lucros e, portanto, a fonte de 
acumulações de capital ulteriores. Esse processo, contrariamente à 
charada do ovo e da galinha, teve um início. A acumulação 
primitiva de capital ocorreu no período ora analisado. As quatro 
primeiras fontes de acumulação inicial de capital foram: (1) o 
rápido crescimento do volume do intercâmbio do comércio de 
mercadorias; (2) o sistema de produção manufatureira; (3) o 
regime de enclousure dos campos e (4) a grande inflação de 
preços”. 
(HUNT; SHERMAN. 2007, p. 34). 
 O sistema vigente teve alguns condicionantes para o seu desenvolvimento, 
como o cerceamento do campo (enclousure), a exploração das colônias e dos 
metais preciosos que elas continham, a inflação reinante nessa época e o 
renascimento intelectual. 
 
Capitalismo Industrial 
O liberalismo Clássico e a Revolução Industrial: diferentemente dos 
mercantilistas, os pensadores do capitalismo industrial propunham uma maior 
liberdade comercial, isto é, não ficaria restrito ao mercado interno, fazendo 
expandir o mercado externo. 
Essa economia foi desenvolvida acompanhada da inovação tecnológica, as 
máquinas substituindo a mão de obra artesanal, a indústria passando a ser o 
principal setor de empregos. O desenvolvimento das máquinas causou o aumento 
da produção e o consequente aumento do acúmulo de capitais, aumentando, 
assim, o lucro. 
Juntamente com desenvolvimento da economia, a sociedade também 
passa a assimilar esse processo, que levou a um grande êxodo rural; o processo 
de urbanização ajudou a indústria emergente, fornecendo a mão de obra barata. 
Muitos trabalhadores artesanais ou não se revoltaram com as máquinas 
que lhes tiravam o emprego; em alguns pontos, eles quebraram máquinas nas 
fábricas, pois não perceberam que o que havia mudado era o sistema. A mudança 
era na estrutura do sistema capitalista, com a máquina acelerando a produção e 
esta acelerando o lucro. 
A doutrina liberal clássica veio para ficar definitivamente no pensamento 
econômico e social dessa época; ela é marcada por diversos pensadores, mas 
cabe lembrar Adam Smith e Robert Malthus. 
A filosofia de Adam Smith fazia oposição ferrenha à teoria da ética 
paternalista cristã: ele propunha um livre mercado, sem aquela ideia de que os 
ricos deveriam promover o bem-estar dos pobres. Smith defendia a ideia de que 
a prosperidade econômica dependia da capacidade produtiva da economia e a 
capacidade produtiva dependeria da acumulação de capital e da força de 
trabalho, força de trabalho atrelada a um baixo salário. Assim, o acúmulo de 
capitais seria maior e o lucro também. Ele defendia a liberdade econômica com a 
lei da oferta e da procura. 
Robert Malthus postulava a preocupação com o crescimento populacional; 
no final do século XVIII, o pastor anglicano Thomas Robert Malthus lançou sua 
famosa teoria, segundo a qual a razão para a existência da miséria e das 
enfermidades sociais seria o descompasso entre a capacidade de produção de 
alimentos, que se daria numa progressão aritmética PA (1, 2, 3, 4, 5...), em relação 
ao crescimento populacional, que se daria numa progressão geométrica PG (1, 2, 
4, 8, 16...). 
 Malthus chegou a propor que só deveriam ter filhos aqueles que 
pudessem criar, e que os pobres em decorrência disso deveriam abster-se do 
sexo. Além disso, defendia a tese de que o estado não deveria dar assistência à 
saúde das populações pobres. Para ele, se não acontecessem "obstáculos 
positivos", como guerras, epidemias, que causassem grande mortandade, o 
desequilíbrio entre a produção de alimentos e o crescimento populacional geraria 
o caos total. 
Malthus errou, pois a tecnologia possibilitou um aumento exponencial na 
produção de alimentos que hoje são produzidos a taxas superiores às do 
crescimento populacional; além disso, temos verificado uma tendência à 
estabilização do crescimento populacional nos países desenvolvidos, além de uma 
desaceleração do crescimento em grande parte dos países subdesenvolvidos, 
especialmente nas últimas décadas. 
Com isso podemos concluir que, se há fome no mundo e no Brasil, hoje, 
isso não se deve à falta de alimentos ou ao excesso de pessoas, mas à má 
distribuição e destinação dos mesmos. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
Biografia de Adam Smith: 
Adam Smith (1723-1790) foi economista escocês. Considerado o pai da economia 
moderna. O mais importante teórico do liberalismo econômico do século XVIII. Autorda 
obra "Uma Investigação Sobre a Natureza" e a "Causa da Riqueza das Nações", que é 
referência para os economistas. 
Adam Smith (1723-1790) nasceu em Kirkcaldy, Escócia, e foi batizado no dia 5 de junho de 
1723. Filho do advogado Adam Smith e de Margaret Douglas, ficou órfão aos dois anos 
de idade. Fez o curso secundário no Burgh School of Kirkcaldy. Estudou Filosoia em 
Glasgow, na Universidade de Edimburgo e em 1740, ingressou no Balliol College da 
Universidade de Oxford. 
Radicado em Edimburgo, em 1748, deu cursos sobre ética e economia até ser nomeado 
professor de Lógica, na Universidade de Glasgow, em 1751. Assumiu a cátedra de filosofia 
Moral, em 1752. Publicou seu principal tratado, "The Theory of Moral Sentiments" (1759). 
Como tutor do duque de Buccleuch, viajou pela França e Suíça entre 1763 e 1766, onde 
teve contato com os fisiocratas, como Voltaire e François Quesnay, fundador da 
fisiocracia. 
De volta à Escócia abandonou a atividade acadêmica e alternou sua residência entre 
Kirkcaldy e Londres, e publicou sua obra principal, "An Inquiry into the Nature and Causes 
of the Wealth of Nations" (1776), obra que teve importância fundamental para o 
nascimento da economia política liberal e para o progresso de toda a teoria econômica. 
Pregava a não intervenção do Estado na economia e um Estado limitado às funções de 
guardião da segurança pública, mantenedor da ordem e garantia da propriedade privada. 
Adam Smith defendia a liberdade contratual, pela qual patrões e empregados seriam 
livres para negociar os contratos de trabalho. Foi nomeado inspetor de alfândega em 
Edimburgo (1777), onde passou o resto da vida, e encerrou sua carreira profissional como 
reitor da Universidade de Glasgow. Postumamente ainda foi publicado "Essays on 
Philosophical Subjects" (1795). 
Adam Smith faleceu em Edimburgo, Escócia, no dia 17 de julho de 1790. 
 
Disponível em: http://www.e-biografias.net/adam_smith/ 
 
Unidade 02 - As bases do pensamento Econômico: Marx e 
Keynes 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivo: Conhecer os principais conceitos da Teoria Econômica Marxista e 
da Doutrina de Keynes 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
Teoria econômica Marxista 
Marx estudou a sociedade da época e a sua estrutura econômica. Esse 
estudo ficou conhecido como materialismo histórico. Ele estudou a relação de 
causa e efeito desse sistema, analisando as leis, a religião, costumes, códigos 
morais, o sistema econômico e as relações sociais (duas classes sociais – burguesia 
e proletariado). 
“O modo de produção compunha-se de dois elementos: (1) as 
forças produtivas e (2) as relações de produção. As forças 
produtivas englobam as ferramentas, fábricas, equipamentos, o 
conjunto de habilidades e conhecimentos adquiridos pela força de 
trabalho, os recursos naturais e o nível tecnológico. As relações de 
produção constituíam as relações sociais que os homens 
mantinham entre si, em particular a relação de propriedade ou 
não propriedade que cada classe de homens estabelecida com os 
meios de produção, implicando determinada forma de repartição 
dos frutos da atividade produtiva. O conjunto do sistema 
econômico, ou modo de produção, foi criado por Marx base ou 
infraestrutura. As religiões, a ética, as leis, os costumes e as 
instituições sociais compunham a superestrutura.” 
(HUNT; SHERMAN. 2007 p. 92). 
 
Sendo assim, o Modo de Produção era composto pelas forças produtivas – 
fábricas, equipamentos, tecnologia e mão de obra, e as relações de produção – 
relações sociais, propriedade e classes sociais. 
Infraestrutura é o sistema econômico ou o modo de produção, e a 
superestrutura é a religião, leis, os costumes (família), as instituições sociais 
(escola) e a própria ideologia. 
As classes sociais segundo Marx seriam duas: a burguesia (que detém os 
meios de produção) e o proletariado (que vende sua força de trabalho); nesta 
relação entre os meios de produção e a força de trabalho, após a força de 
trabalho ter produzido o produto, os que detinham os meios de produção 
vendiam os produtos com preços superiores à quantia investida inicialmente. Isso 
foi chamado por Marx de mais-valia; então, quanto menor o salário maior o 
trabalho mais lucro se obteria. 
 
Capitalismo financeiro 
Doutrina de Keynes 
Nesta teoria, ele analisou o que acontecia com o sistema capitalista e fez 
propostas para solucionar seus problemas. Ele faz um embasamento com três 
vertentes: a poupança, as importações e os impostos. 
 No caso da importação, faz-se necessário diminuí-la ou contrabalancear 
com o aumento das importações. A poupança financia os investimentos de 
capital. Os impostos forneceriam ao governo a aquisição de bens e serviços. 
 Para Keynes, a intervenção do Estado na economia é necessária para se 
evitar crises, gerar empregos, contendo os gastos públicos e controlando a 
demanda dos produtos para não gerar inflação, controlando assim a emissão de 
moedas. 
As ideias de Keynes ficaram vigentes até a década de 70; a partir daí, 
surgiram os economistas neoclássicos, que criticavam a teoria Keynesiana por 
possuir um Estado pesado, oneroso e ineficiente em relação às suas contas (déficit 
público). 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
Economia Primitiva 
 divisão natural do trabalho (distingue homens, mulheres, crianças e velhos); 
 igualdade socioeconômica; 
 coletivismo; 
 ausência do Estado. 
 
- Escravismo 
 apogeu de Atenas e Roma; 
 dívidas e derrotas na guerra; 
 propriedade privada; 
 Estado controlado pela elite. 
 
- Feudalismo 
 base agrícola, meio rural; 
 sociedade estamental (domínio do clero e da nobreza sobre os servos); 
 ideologia da igreja cristã. 
 
- Capitalismo Comercial 
 transição do feudalismo para o capitalismo; 
 a burguesia se afirma no poder econômico; 
 a religião protestante e o fim da usura. 
 
- Capitalismo Industrial 
 a separação do capital-trabalho; 
 a mais-valia; 
 duas classes sociais: burguesia e proletariado; 
  Liberalismo econômico (Estado Liberal). 
 
- Capitalismo Financeiro 
 Terceira Revolução Industrial; 
 Formação de grandes conglomerados; 
  Quarta revolução industrial atual fase. 
 
Modo de Produção 
 
 
Modo de produção é uma estrutura global formada por estruturas 
regionais, a saber: 
1) Econômica  existe uma inter-relação dos modos de produção de bens 
materiais, de tal forma que um domina os outros. É o modo de produção. 
2) Jurídico-política  leis e as políticas públicas. 
3) Ideológica  um conjunto estruturado de representações e ideias. 
 
 
 
Processo de Produção 
É todo processo de transformação de uma matéria-prima ou produto 
natural, já trabalhado previamente, em um produto específico. A matéria-prima é 
transformada pela atividade humana e de máquinas em um produto. 
 
matéria transformação produto
 prima 
 
 
 atividade instrumento 
 humana de trabalho 
 
Unidade 03. O Modo de Produção Feudal 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivo: Nessa unidade compreenderemos a organização, o 
desenvolvimento e as contradições do modo de produção feudal, denominado 
Feudalismo. 
 A organização do Feudalismo deve-se a uma reunião de fatores, dentre os 
quais podemos apontar o legado deixado pelos romanos durante o processo de 
desagregação ou decadência do Império, quando a população das cidades seguia 
em direção ao campo, pois os altos impostos cobrados pelo Estado intensificaram 
o êxodo urbano, ressaltando também a necessidade de proteção contra as 
invasões bárbaras, principalmente após a conquista de Roma peloshérulos, 
liderados pelo rei Odoacro, em 476. 
 Os camponeses passaram a viver em grandes propriedades rurais 
denominadas “Vilas Romanas” e o sistema de trabalho era conhecido como 
“Colonato”, responsável pela coletivização das atividades no campo. 
 Podemos afirmar que o modelo econômico feudal, representado pelas 
grandes propriedades rurais e pela servidão coletiva, deriva da organização do 
trabalho rural nas “Vilas Romanas” nos séculos V e VI. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
A Idade Média divide-se em dois períodos: 
 Alta Idade Média (séc. V - X): organização, estruturação e desenvolvimento do 
modelo econômico e suas repercussões políticas e sociais. 
 Baixa Idade Média (séc. XI – XV): declínio e desestruturação do Feudalismo a 
partir do advento das Cruzadas e da reabertura das rotas comerciais no mar 
Mediterrâneo, resultando na monetarização da economia na Europa Ocidental. 
O Feudalismo é o modelo econômico da Idade Média, apresentando também 
características políticas e sociais próprias. 
Principais características do Feudalismo 
 Economia agrícola: A principal atividade econômica desenvolvida nos feudos 
era a agricultura (especialmente trigo), por meio do trabalho coletivo dos 
servos. Também somava-se a essa atividade, a prática do artesanato e o 
pastoreio. 
 Autossuficiência: Produziam tudo aquilo de que necessitavam, ou seja, não 
havia relações econômicas de compra e venda interfeudais. Lembrando que 
as necessidades eram poucas (alimentos, ferramentas e vestuário) e supridas 
no cotidiano do feudo pelo trabalho desempenhado pelos servos. 
 Economia amonetária: Sem circulação de moedas. Embora as moedas 
existissem desde a Idade Antiga, durante o período feudal elas pouco 
circularam, pois em razão da autossuficiência, as relações comerciais 
praticamente inexistiam, quando muito, realizavam-se trocas de produtos 
entre os servos. Porém, essas trocas de gêneros diversos levavam em 
consideração as necessidades de cada indivíduo ou família naquele momento, 
pois não havia produção de excedentes e nem sempre aquilo que um deles 
tinha a oferecer interessava ao outro. 
 Descentralização política: Cada senhor feudal administrava politicamente o 
seu feudo, às vezes mais que um, caracterizando a autonomia feudal e o 
estabelecimento dos padrões de pesos, medidas e moedas dentro da sua 
área de dominação. 
 Sociedade Estamental: A posição social do indivíduo era estabelecida desde o 
nascimento, impossibilitando a mobilização social, seja de ascensão ou 
declínio. 
 Suserania e Vassalagem: Relação de lealdade, fidelidade e reciprocidade entre 
suseranos e vassalos. Suserano – nobre que concedia terras para outro nobre. 
Vassalo – nobre que recebia as terras do suserano. 
O feudo era uma grande propriedade rural controlada politicamente pelo 
senhor feudal (representante da nobreza) – “não existe senhor sem terra e não 
existe terra sem senhor feudal” – na qual todo tipo de trabalho era exercido pelos 
servos (camponeses). 
Embora a palavra servo, derivada do latim servus, signifique escravo, a 
servidão medieval não é caracterizada como tal, pois os servos, embora com 
algumas restrições, tinham direito ao uso coletivo do solo e ficavam com parte 
daquilo de produziam, desde que cumprissem com suas obrigações. 
Os feudos dividiam-se em áreas ou domínios internos. 
 Manso Senhorial: (terras do senhor feudal) Parte do feudo de uso exclusivo do 
senhor feudal, onde se encontravam a moradia senhorial, a moenda de trigo, 
o armazém e a área de cultivo agrícola senhorial. Tinha que ser arada, 
semeada e colhida, antes das demais áreas do feudo. 
 Manso Servil: (terras dos servos) Parte do feudo de uso coletivo dos servos, na 
qual estavam as moradias servis, oficina e área de cultivo agrícola servil. 
 Terras Comuns ou de Reserva: Parte do feudo de uso comum, representada 
pelos bosques (obtenção de lenha), rios (obtenção de água) e pastos 
(pastoreio de rebanhos). 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
Dentro do feudo, os servos tinham algumas obrigações a cumprir. 
Obrigações servis: 
 Talha: Parte da produção servil, geralmente 50%, destinada ao senhor feudal. 
Tal obrigação incidia não só sobre os produtos agrícolas, mas também sobre 
todo e qualquer gênero oriundo da produção servil. 
 Corveia: Dias da semana, geralmente 2 ou 3, nos quais os servos deixavam o 
manso servil para trabalhar no manso senhorial, pois mesmo nessa parte do 
feudo, o trabalho era integralmente realizado pelos servos. 
 Banalidades: Pagamento, com parte da produção, toda vez que o servo 
necessitasse utilizar as instalações senhoriais, tais como, ferramentas ou 
moinho de trigo. 
 Mão-morta: Pagamento, com parte da produção, na ocasião do falecimento do 
servo-mor, ou seja, aquele que mantinha o vínculo com o senhor feudal, para 
que seus familiares continuassem no feudo iniciando um novo compromisso 
nas relações servis-senhoriais. 
 Vintém: Pagamento, com parte da produção, para a igreja católica medieval. 
Conforme verificamos anteriormente, a carga tributária paga pelos servos 
era excessiva e, tratando-se de um modelo econômico amonetário, ou seja, sem 
circulação de moedas, tais tributos eram pagos com parte daquilo que os servos 
produziam. 
Um ditado da Idade Média dizia que “feliz é o servo que come do seu 
próprio trigo.” 
Essas obrigações tributárias servis garantiam o sustento cotidiano da 
nobreza – classe social predominante, pois enquanto alguns trabalhavam (servos), 
outros governavam (senhores feudais), guerreavam (cavaleiros) ou rezavam 
(clérigos), mantendo nos membros da nobreza, os respectivos poderes: político, 
militar e religioso. 
A desagregação do modelo feudal deve-se a uma série de fatores, dentre 
as quais se destaca a monetarização da economia a partir do advento das 
Cruzadas (séc. XII-XIV), responsável pela reabertura das rotas comerciais no mar 
Mediterrâneo, no momento em que os europeus se depararam com a explosão 
de cores, odores e sabores do oriente, representadas, respectivamente, pelos finos 
tecidos chineses, tapetes persas, perfumes e óleos aromáticos árabes e especiarias 
indianas (pimenta, cravo, canela...). 
 Outro fator preponderante foi o aumento da população servil em 
descompasso com a produção de alimentos, desequilibrando o sistema 
econômico feudal e obrigando muitos camponeses a abandonar as terras, 
marcando um lento processo de êxodo rural. 
 Além dos fatores citados, os séculos XIV e XV, foram marcados pela peste e 
pela guerra. A Peste Negra, epidemia que vitimou aproximadamente 1/3 da 
população da Europa Ocidental e a Guerra dos Cem Anos (1337-1453) entre 
Inglaterra e França, contribuíram para agravar a situação de crise já existente. 
 Os limites do feudo foram ultrapassados e um novo modo de vida 
descortinou-se diante dos olhos dos camponeses. As trocas de gêneros não eram 
mais viáveis ou atraentes, pois as moedas circulantes permitiam trocá-las por 
qualquer outro produto de necessidade individual. 
 A economia agrícola ou rural tornou-se coadjuvante do modelo comercial 
urbano que se iniciava nas várias cidades que surgiam ao longo das muralhas 
feudais, entroncamento de estradas ou margens de rios. 
 
 
Unidade 04. Mercantilismo 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivo: Compreender a transição econômica feudal-capitalista, durante a 
Baixa Idade Média, ocasião na qual ocorreu a monetarização da economia, 
originando o modelo econômico mercantilista. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
As Cruzadas – Guerra Santa Cristã contra os islâmicos – possibilitaram a 
reabertura nas rotas comerciais no mar Mediterrâneo e, consequentemente,ocorreu o Renascimento Comercial e Urbano europeu, pois várias rotas de 
comércio surgiram e se intensificaram nesse momento histórico. 
 As principais rotas de comércio eram: 
 Rota do Mediterrâneo: (Constantinopla – Península Itálica) monopolizada 
pelas cidades italianas – Gênova e Veneza – abrangia a bacia do mar 
Mediterrâneo, desde Constantinopla – principal entreposto comercial de 
produtos orientais – até a península itálica, de onde tais produtos seriam 
distribuídos no continente Europeu. 
 Rota de Champagne: (Península Itálica – Flandres) era a rota terrestre que 
distribuía as mercadorias nas mais diferentes regiões da Europa Ocidental, 
sendo que a região francesa de Champagne era a principal, pois nela se 
realizavam as principais feiras medievais, locais de intenso comércio, 
empréstimos e trocas de moedas. 
 Rota do mar do Norte: (Flandres – Constantinopla) comandada pela cidade 
de Bruges, nessa rota havia um intenso comércio de madeira, peles de 
animais, peixes e couro, cujos lucros obtidos possibilitavam a compra de 
produtos orientais em Constantinopla. 
Essas rotas comerciais eram responsáveis pela distribuição das mercadorias 
que seriam comercializadas nas feiras medievais, as quais se realizavam duas 
vezes ao ano, embora mudassem de lugar, duravam aproximadamente seis 
meses. 
 
 O comércio tornou-se a principal atividade econômica nas cidades que 
surgiram ao longo da Baixa Idade Média (séc. XII – XV). 
Algumas cidades se agrupavam regionalmente em associações de 
comerciantes ou ligas comerciais com o intuito de evitar a concorrência de 
comerciantes estrangeiros. A mais importante dessas associações comerciais foi a 
“Liga Hanseática”, a qual abrangia um grande número de cidades localizadas no 
norte da Europa e tinha por objetivo monopolizar o comércio na região. 
Dentro das cidades, que, na maior parte das vezes, eram muradas, também 
havia as associações de artesãos, denominadas “corporações de ofício”. Essas 
corporações reuniam vários artesãos de uma mesma atividade profissional, tais 
como: corporação de oficio dos ferreiros, corporação de ofício dos vidreiros, 
corporação de ofício dos padeiros e assim por diante. 
A função das corporações de oficio era estabelecer o “justo preço” e, dessa 
forma, minimizar a concorrência entre os artesãos. Também amparavam o 
trabalhador e sua família em caso de acidente ou óbito. 
Outra figura importante nas cidades era o cambista, responsável pela troca 
de moedas a serem utilizadas nas feiras medievais, pois, na maioria delas, os 
comerciantes só aceitavam as moedas da região. O banqueiro era o individuo que 
efetuava empréstimos em moedas ou emitia letras de câmbio. 
Enfim, essas transformações exigiam novas diretrizes econômicas, pois a 
posse de terras não era mais o fator de diferenciação social. Portanto, a nobreza 
detentora das propriedades rurais perdia o seu status de classe social dominante 
para a recém-surgida burguesia, composta principalmente pelos comerciantes, 
cambistas e banqueiros, os quais detinham uma outra fonte de riquezas, as 
moedas acumuladas a partir das transações econômico-comerciais. 
 
“...nos primórdios do feudalismo, a terra, por si só, constituía a 
medida da riqueza do homem. Com a expansão do comércio 
surgiu um novo tipo de riqueza – a riqueza do dinheiro.” 
(HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. 
21ª. Edição. Rio de Janeiro: LTC, 1986, pág. 35) 
 
O mercantilismo – conjunto de medidas econômicas responsáveis pelo 
desenvolvimento do capitalismo comercial na Idade Moderna (séc. XV – XVIII) – é 
fruto da aliança entre o rei e a burguesia durante o período de transformações 
sociais e econômicas na Baixa Idade Média. 
 Os burgueses estavam interessados em fortalecer e ampliar suas relações 
comerciais, mas encontravam diversos entraves no mundo feudal, tais como: a 
existência de pedágios interfeudais e a diversificação de pesos, medidas e 
moedas, frutos da descentralização política do feudalismo. 
 Para favorecer a burguesia, era necessário implantar a intervenção real, ou 
seja, a centralização política e a concentração de poderes na figura do rei, o qual, 
por sua vez, precisava do apoio e do dinheiro da burguesia para enfraquecer a 
nobreza feudal. 
 Podemos afirmar que essa aliança só foi possível naquele contexto 
histórico, pois ambos estavam interessados em formas diferentes de poder. 
Enquanto a burguesia buscava a ascensão e o poder econômico, o rei queria 
monopolizar o poder político e formar um Estado Nacional. 
 Os impostos recolhidos e os empréstimos da burguesia ao rei fortaleceriam 
o Estado Nacional e financiariam a estruturação do Exército Nacional Profissional 
e Remunerado, responsável pela defesa dos interesses do rei em detrimento da 
nobreza feudal. 
 Dentro do Estado Nacional – território outrora dividido em diversos feudos 
– as barreiras interfeudais seriam eliminadas e os pesos, medidas e moedas seriam 
padronizados, resultando na ampliação do comércio praticado pela burguesia. 
 
“Passaram a existir leis nacionais, línguas nacionais e até igrejas 
nacionais (...) os homens passaram a dever fidelidade não à sua 
cidade ou ao seu senhor feudal, mas ao rei, que é o monarca de 
toda uma nação (...) 
Necessitava-se de uma autoridade central, um Estado Nacional. 
Um poder supremo que pudesse colocar em ordem o caos feudal. 
Os velhos senhores já não podiam preencher sua função social. 
Sua época passara. Era chegado o momento oportuno para um 
poder central forte.” 
 (idem, pág. 70 e 71) 
 
O principal objetivo das práticas mercantilistas era o enriquecimento do 
Estado Nacional Absolutista, por isso entendemos o envolvimento direto da 
monarquia com os rumos comerciais da nação. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
Principais características do mercantilismo 
 Metalismo: Acúmulo de metais preciosos (ouro e prata) como sinônimo de 
riqueza de uma nação, ou seja, a medida de riqueza na nação era definida 
pela quantidade de ouro e prata acumulados em seus cofres. 
 Balança Comercial Favorável: Consistia em manter os níveis econômicos de 
exportação sempre acima dos de importação, ou seja, buscar o superávit 
da balança comercial. “O que importa é exportar”. 
 Intervencionismo ou Protecionismo Estatal: O Estado criava barreiras 
alfandegárias para dificultar a entrada de produtos estrangeiros, em vista 
da manutenção da balança comercial favorável. Intervenção do Estado na 
economia. 
 Monopólio Comercial: Exclusividade na comercialização de alguns 
produtos ou gêneros tropicais, obtidos pela metrópole nas colônias de 
exploração e distribuídos na Europa. 
 Exploração Colonial: Sistema ou Pacto Colonial – relação bilateral de 
dominação e dependência entre metrópole e colônia, na qual a colônia 
fornece metais preciosos, produtos tropicais e matérias-primas para a 
metrópole e recebe desta os produtos manufaturados de que necessita. 
A exploração de colônias era fator preponderante para a manutenção da 
balança comercial favorável da metrópole, contribuindo de forma decisiva para o 
acúmulo de metais preciosos e, consequentemente, para o enriquecimento do 
Estado Nacional. 
 
 
Unidade 05 - Processo de acumulação primitiva do capital 
 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivo: Caracterizar o conceito estabelecido pelo filósofo e economista 
alemão Karl Marx para descrever o surgimento e o funcionamento do Capitalismo 
Industrial. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
Segundo Marx, a origem do Capitalismo não está simplesmente vinculada 
à divisão do trabalho, característica das manufaturas europeias dos séculos XVI e 
XVII. 
 O processo de acumulaçãoprimitiva do capital estaria estreitamente ligado 
à expropriação da produção familiar, artesanal ou corporativa, pois separou 
definitivamente os produtos dos seus meios de produção, formando um exército 
de proletários (trabalhadores empregados) e outro exército de reserva 
(trabalhadores desempregados), sendo que esses últimos são os responsáveis 
pelos níveis de salários que os trabalhadores empregados recebem. 
 Meios de Produção: conjunto dos meios de trabalho (instalações, 
infraestrutura produtiva, ferramentas, máquinas e equipamentos diversos) 
e objetos de trabalho (recursos naturais e matérias-primas) utilizados pelo 
indivíduo, responsáveis pela transformação da natureza. 
 Modo de Produção: Representa a organização socioeconômica associada 
ao desenvolvimento da força produtiva, ou seja, artesanal, manufaturado 
ou industrial. Existem seis Modos de Produção: Primitivo, Asiático, 
Escravista, Feudal, Capitalista e Comunista. Os modos de produção são 
formados pelo conjunto das forças produtivas e pelo conjunto das relações 
de produção 
 Forças Produtivas: Representa a reunião da força de trabalho humana com 
os meios de produção, ou seja, a utilização das instalações, infraestrutura 
produtiva, ferramentas, máquinas e equipamentos diversos e dos recursos 
naturais e matérias-primas, caracterizando todas as forças utilizadas para 
transformar a natureza na produção de bens materiais. A principal força de 
produção é o próprio homem, com seu corpo, sua energia, sua inteligência 
e seu conhecimento. 
O colonialismo (exploração dos recursos naturais das colônias pelas 
metrópoles) contribuiu significativamente para a acumulação de capitais nas 
principais nações industriais europeias, beneficiando principalmente a burguesia, 
classe social diretamente ligada ao setor produtivo-comercial-financeiro. 
Segundo Marx, esse modelo explorador foi responsável pela formação das 
duas principais classes sociais antagônicas, ou seja, a burguesia (detentora dos 
meios de produção) e o proletariado (força de trabalho empregada pela 
burguesia). 
 
“O dinheiro e a mercadoria não são, desde o início, capital, tão-
pouco os meios de produção e de vida. Carecem da transformação 
em capital. Mas esta mesma transformação só pode processar-se 
em circunstâncias determinadas, que se condensam no seguinte: 
duas espécies muito diferentes de possuidores de mercadorias têm 
de se pôr frente a frente e entrar em contacto, de um lado 
proprietários de dinheiro, de meios de produção e de vida, aos 
quais o que interessa é valorizar a soma de valor por eles possuída 
por meio da compra de força de trabalho alheia; do outro lado 
trabalhadores livres, vendedores da força de trabalho própria e por 
isso vendedores de trabalho. Trabalhadores livres no duplo sentido 
de que nem eles próprios pertencem imediatamente aos meios de 
produção, como os escravos, servos, etc., nem também os meios de 
produção lhes pertencem, como no caso do camponês que 
trabalha a sua propriedade, antes estão livres deles, livres e sem 
responsabilidades. Com esta polarização do mercado das 
mercadorias estão dadas as condições fundamentais da produção 
capitalista. (MARX, Karl. O Capital) 
 Trabalho Artesanal: O artesão realiza todas as etapas da produção, desde a 
obtenção da matéria-prima até o acabamento e posterior comercialização 
do produto. Ele é o proprietário dos meios de produção, isto é, instalações 
físicas, ferramentas e equipamentos diversos. Além disso, o artesão é o 
responsável pela administração do seu tempo dedicado à produção. 
Durante a Baixa Idade Média, as oficinas artesanais controladas pelas 
corporações de ofício, deveriam estabelecer o Justo Preço do produto; na 
verdade, era uma maneira de equilibrar as relações entre o artesão e o 
consumidor, proporcionando vantagens para ambos. 
 Trabalho Manufaturado: Ocorre a divisão do trabalho, na qual cada artesão 
realiza uma ou mais etapas da produção. Nas oficinas de manufatura, o 
trabalhador é contratado para trabalhar uma determinada jornada de 
trabalho em troca de um pagamento pré-estabelecido (salário). O processo 
produtivo continua sendo artesanal, porém, o trabalhador não dispõe das 
ferramentas e equipamentos, os quais pertencem ao dono da manufatura 
que controla o ritmo da produção e fica com a diferença existente entre os 
gastos com os meios de produção e o valor de venda do produto final 
(lucro ou mais-valia). 
 Trabalho Industrial ou Maquinofaturado: É representado pela introdução 
das máquinas no processo produtivo, as quais possibilitaram a aceleração 
do ritmo da produção e, consequentemente, o aumento do consumo. 
Ocorre a intensificação da divisão do trabalho e da exploração da mão de 
obra dos proletários (trabalhadores assalariados das indústrias), os quais 
começam a se organizar e reivindicar melhores condições de vida, trabalho 
e salários. O trabalhador torna-se, definitivamente, vendedor da sua força 
de trabalho e especializa-se numa determinada função do processo 
industrial. Essas transformações estruturais nos meios e modos de 
produção são definidas, historicamente, como Primeira Revolução 
Industrial (século XVIII), que foi exclusivamente inglesa. 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
Texto complementar 
“Dois homens esperam na fila para comprar entradas para o espetáculo. Cada um 
paga $9,90 por três poltronas. Ao se afastar da bilheteria, um deles se reúne a seus dois 
amigos. Entram no teatro, sentam-se e esperam que o pano se levante. O outro homem 
deixa a bilheteria, coloca-se no passeio em frente ao teatro e, com as entradas na mão, 
aborda os transeuntes. "Quer um lugar no centro para hoje?", pergunta. Pode ser que 
acabe vendendo as entradas (por $4,40 cada) ou pode ser que não venda. Não importa. 
Há alguma diferença entre os seus $9,90 e os do outro homem? Há, sim. O dinheiro 
do Sr. Cambista é capital, o dinheiro do Sr. Frequentador do Teatro, não. Onde está a 
diferença? 
O dinheiro só se torna capital quando é usado para adquirir mercadorias ou 
trabalho com a finalidade de vendê-los novamente, com lucro. O Cambista não queria ver 
o espetáculo. Pagou $9,90 com a esperança de tê-los de volta - com acréscimo. Portanto, 
seu dinheiro tinha a função de capital. O Sr. Frequentador do Teatro, por outro lado, pagou 
seus $9,90 sem pensar em consegui-los de volta - simplesmente desejava ver o espetáculo. 
Seu dinheiro não tinha a função de capital. 
Da mesma forma, quando o pastor vendia sua lã a dinheiro, a fim de comprar pão 
para comer, não estava usando esse dinheiro como capital. Mas quando o negociante 
pagava o dinheiro da lã com a esperança de vendê-la novamente a um preço mais 
elevado, usava o dinheiro como capital. Quando o dinheiro é empregado num 
empreendimento ou transação que dá (ou promete dar) lucro, esse dinheiro se transforma 
em capital. É a diferença entre vender para comprar para uso (fase pré-capitalista) e 
comprar para vender com o objetivo de ganhar (fase capitalista). 
Mas o que é que o capitalista compra para vender com lucro? Entradas de teatro? 
lã? carros? chapéus? casas? Não. Não é nenhuma dessas coisas, e ao mesmo tempo é parte 
de todas elas. Converse com um trabalhador na indústria. Ele lhe dirá que o patrão lhe 
paga salário pela sua capacidade de trabalhar. É a força de trabalho do operário que o 
capitalista compra para vender com lucro, mas é evidente que o capitalista não vende a 
força de trabalho de seu operário. O que ele realmente vende - e com lucro – são as 
mercadorias que o trabalho do operário transformou de matérias-primas em produtos 
acabados. O lucro vem do fato de receber o trabalhador um salário menor do que o valor 
da coisa produzida.O capitalista é dono dos meios de produção - edifícios, máquinas, matéria-prima; 
compra a força de trabalho. É toda associação dessas duas coisas que decorre a produção 
capitalista. 
Observe o leitor que o dinheiro não é a única forma de capital. Um industrial de 
hoje pode ter pouco ou nenhum dinheiro, e não obstante ser possuidor de grande volume 
de capital. Pode ser dono de meios de produção. Isso, o seu capital, aumenta na medida em 
que ele compra a força de trabalho. 
Uma vez iniciada uma indústria moderna, ela obtém seus lucros e acumula seu 
capital muito depressa. Mas de onde veio inicialmente o capital - antes de começar a 
indústria moderna? É uma pergunta importante, porque, sem a existência do capital 
acumulado, o capitalismo industrial, tal como o conhecemos, não teria sido possível. Nem 
teria sido possível sem a existência de uma classe trabalhadora livre e sem propriedades - 
gente que tinha de trabalhar para os outros para viver. Como se criaram essas duas 
condições? 
Poderíamos dizer que o capital necessário para iniciar a produção capitalista veio 
das almas cuidadosas, que trabalharam duro, gastaram apenas o indispensável e 
ajuntaram as economias aos poucos. Houve sempre quem economizasse, é verdade, mas 
não foi dessa forma que se concentrou a massa de capital inicial. Seria bonito se assim 
fosse, mas a verdade é bem diversa. A verdade não é tão bonita. 
Antes da idade capitalista, o capital era acumulado principalmente através do 
comércio - termo elástico, significando não apenas a troca de mercadorias, mas incluindo 
também a conquista, pirataria, saque, exploração. 
Não foi em vão que as cidades-Estados italianas se prontificaram a ajudar a Europa 
ocidental nas Cruzadas. O término dessas guerras "religiosas" encontrou Veneza, Gênova e 
Pisa controlando um fraco império e os conquistadores italianos aproveitaram ao máximo 
sua oportunidade. Uma corrente de riqueza do Oriente para as mãos de seus comerciantes 
e banqueiros. Uma das melhores autoridades no assunto, John A. Hobson, disse sobre esse 
comércio italiano com o Oriente: "Assim, muito cedo foram lançadas as bases do comércio 
lucrativo que proporcionou à Europa ocidental a riqueza necessária para a posterior 
expansão dos métodos capitalistas de produção." 
(HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. 
21ª. Edição. Rio de Janeiro: LTC,1986, pág.156-158) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Unidade 06 - Antecedentes da industrialização 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivo: Compreender a origem das práticas capitalistas industriais 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
INDUSTRIALIZAÇÃO OU REVOLUÇÃO INDUSTRIAL INGLESA 
Os trabalhadores assalariados originaram-se dentro das oficinas de 
manufaturas, as quais eram representadas profissionalmente pelo mestre-artesão 
(geralmente era o dono da oficina), o oficial (conhecedor do oficio) e os 
jornaleiros (aqueles que recebiam um salário pela jornada de trabalho realizada). 
Denomina-se Primeira Revolução Industrial ou Revolução Industrial Inglesa, 
o conjunto de transformações ocorridas na Inglaterra ao longo da segunda 
metade do século XVIII, quando a principal evidência foi a introdução das 
máquinas no processo produtivo, intensificando a divisão do trabalho e 
consequentemente a aceleração da produção e o aumento do consumo. 
Embora tais mudanças sejam ambientadas no século XVIII, elas são 
decorrentes das características econômicas da Inglaterra desde o século XV, pois 
foram profundamente marcadas pela orientação mercantilista do absolutismo 
monárquico inglês, em especial durante a monarquia da rainha Elizabeth I (1558-
1603), período no qual se verifica um grande desenvolvimento econômico do 
Estado, completado posteriormente no período da Revolução Puritana (1642-
1649) e no Commonwealth (Comunidade Britânica) de Cromwell (1649-1659), 
quando vigorou, na Inglaterra, o modelo republicano. 
 
 
 
6.1- Antecedentes da Revolução Industrial Inglesa 
 O pioneirismo inglês explica-se a partir da análise de uma série de fatores 
ocorridos ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII que, quando conjugados, 
possibilitaram as transformações econômicas e sociais responsáveis pela 
Revolução Industrial. 
 
Acúmulo de Capitais 
Durante o período mercantilista, a Inglaterra promoveu o acúmulo de 
capitais por meio do comércio marítimo, principalmente após a publicação do Ato 
de Navegação em 1651 que, entre outras coisas, determinava que “todas as 
mercadorias comercializadas pela Inglaterra deveriam ser transportadas por navios 
ingleses”, proibindo, portanto, o comércio externo feito por navios estrangeiros. 
Evidenciam-se, nessa prática, as características do nacionalismo e do 
protecionismo inglês, pois tal medida, além de estimular a indústria naval na 
Inglaterra, beneficiando diretamente a burguesia, envolvida no comércio 
internacional, tentava afastar a principal rival inglesa no comércio marítimo, a 
Holanda, a qual exercia uma supremacia naval. 
 
O Ato de Navegação foi a resposta do governo inglês ao poderio 
naval e comercial holandês em meados do século XVII. Naquela 
época, os Países Baixos constituíam-se na maior potência 
comercial e dispunham da maior frota mercante do mundo, que 
transportava bens e riquezas de todas as partes do globo. 
Amsterdã havia se tornado o centro financeiro mundial e os seus 
bancos emprestavam dinheiro a muitos governos estrangeiros. 
Ao mesmo tempo, a Inglaterra desenvolvia uma poderosa 
marinha, tanto mercante, quanto bélica, desenvolvia as 
manufaturas, expandia o Império, e abria muitos novos mercados 
internacionais ao seu comércio. (www.wikipedia.org) 
 
 
 
 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
Ascensão Política da Burguesia 
 As Revoluções Inglesas do século XVII possibilitaram a ascensão política da 
burguesia. 
Revolução Puritana (1642-1649): 
 
Fonte: http://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/06/revolucao-puritanismo.jpg 
 
Revolução burguesa em oposição ao absolutismo monárquico do rei Carlos 
I, demonstrando a rivalidade entre as forças instituídas pela monarquia (nobreza 
anglicana e cavalaria) e as novas forças trazidas pelos republicanos (burguesia 
puritana e exército). 
A vitória dos puritanos e a decapitação do rei Carlos X simbolizam o fim do 
absolutismo monárquico inglês e o início da ascensão política da burguesia, a qual 
se reuniu no parlamento britânico para discutir os rumos políticos e econômicos 
da nação. 
Entretanto, a República transformou-se num governo ditatorial sob o 
comando de Oliver Cromwell, líder dos puritanos durante a revolução. O 
Protetorado de Cromwell promoveu profundas transformações econômicas em 
benefício da burguesia, mas com o seu falecimento em 1658, a monarquia foi 
restaurada e os anseios absolutistas dos reis Carlos II (1660-1685) e Jaime II (1685-
1688) tornaram-se evidentes, resultando em uma nova revolução burguesa. 
 
Revolução Gloriosa (1688-1689): 
Revolução burguesa responsável pela deposição do rei Jaime II e coroação 
do rei Guilherme de Orange, o qual perante os líderes burgueses assinou a 
“Declaração dos Direitos”, impondo limites ao poder político do monarca e 
implantando definitivamente na Inglaterra a Monarquia Parlamentar, segundo a 
qual “o rei reina e o Parlamento governa”. 
 
 “O fim do absolutismo na Inglaterra significou a vitória de 
um importante segmento da sociedade: a burguesia. Aos poucos, 
as restrições mercantilistas foram desaparecendo, atendendo assim 
ao grande anseio da burguesia manufatureira e industrial.” 
(História do Mundo Ocidental.FTD, São Paulo, 2005) 
 
 Unidade 07 - Características da industrialização 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivos: 
Identificar as principais características do processo de industrialização 
 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
Abundância de Mão de Obra 
A abundância de mão de obra barata utilizada nas indústrias inglesas nos 
séculos XVIII e XIX é resultado dos cercamentos (enclosures) ocorridos desde os 
séculos XVI e XVII, quando as pequenas propriedades agrícolas foram tomadas 
pelos grandes senhores de terras (“latifundiários”) e, consequentemente, os 
camponeses eram expulsos de suas terras, migrando para as áreas urbanas 
(êxodo rural) e se tornaram os trabalhadores assalariados das indústrias. 
 Paralelamente ao êxodo rural, as propriedades eram transformadas em 
grandes áreas agrícolas, que deixaram de produzir apenas o necessário para o 
consumo local e se tornaram capazes de suprir as necessidades de alimentos da 
população urbana, possibilitando uma relação de integração do meio urbano com 
o rural. 
 Para controlar o excedente de mão de obra urbana e evitar a vadiagem nas 
ruas das cidades inglesas, foram aprovadas severas leis que puniam os 
desocupados, transformando-os em escravos ou enforcando-os publicamente. 
 Em razão disso, os trabalhadores se sujeitavam às longas jornadas de 
trabalho diárias, aos baixíssimos salários e às péssimas condições de vida. 
 
 
 
 
“A Revolução Industrial não dependeu só de um tipo qualquer de 
expansão econômica, técnica ou científica, mas da criação da 
fábrica, isto é, de um sistema fabril mecanizado, a produzir em 
quantidades tão grandes e a um custo tão rapidamente 
decrescente a ponto de não depender de uma demanda existente, 
mas de criar o seu próprio mercado. 
(...) 
“No século XVIII, uma relativa quantidade de proprietários com 
espírito comercial já monopolizava a terra, cultivada por 
arrendatários empregando camponeses sem terra ou pequenos 
agricultores. Isso significa que, diferentemente de outros países, a 
agricultura inglesa estava predominantemente dirigida para o 
mercado. E preparada para aumentar a produção de modo a 
alimentar uma propriedade agrícola em rápido crescimento e 
fornecer excedentes de mão de obra para as cidades e indústrias.” 
(CANÊDO, Letícia. A Revolução Industrial. São Paulo: Atual, 1994. 
p. 31) 
 
Riqueza Mineral e Inovações Técnicas 
Abundância de Recursos Minerais 
 Os recursos minerais fundamentais para a industrialização, ferro e carvão, 
eram abundantes no território inglês e contribuíram significativamente para o 
advento da industrialização na Inglaterra. 
 O carvão era o combustível das indústrias inglesas, o ferro a matéria-prima 
e o vapor a fonte de energia. 
 A obtenção de tais recursos minerais se dava a partir da exploração do 
trabalho dos mineradores (carvoeiros) ingleses. 
 
Inovações e Invenções Tecnológicas 
 As máquinas, inseridas no longo processo de desenvolvimento e 
transformação das manufaturas em indústrias, caracterizaram as mudanças nos 
meios de produção, denominadas “Revolução Industrial”. 
 
 
 
“Os jornais de 150 anos atrás não tinham seções de "O Impossível 
Acontece", com suas histórias de acontecimentos incríveis. Se 
tivessem, a Birmingham Gazette, de 11 de março de 1776, teria 
sabido imediatamente onde colocar esta surpreendente notícia: 
"Na última sexta-feira, uma máquina a vapor construída segundo 
os novos princípios do Sr. Watt foi posta em funcionamento em 
Bloomfield Colliery na presença de alguns homens de ciência cuja 
curiosidade fora estimulada pela possibilidade de ver os primeiros 
movimentos de uma máquina tão singular e poderosa. Com esse 
exemplo, as dúvidas dos inexperientes se dissipam e a importância 
e utilidade da invenção se firmam decididamente. [Foi] inventada 
pelo Sr. Watt, após muitos anos de estudo e grande variedade de 
experiências custosas e trabalhosas." Em 1800, a importância e 
utilidade da invenção, do Sr. Watt, havia se tornado tão evidente 
aos ingleses que ela estava em uso em 30 minas de carvão, 22 
minas de cobre, 28 fundições, 17 cervejarias e 8 usinas de algodão. 
(...) O aparecimento da máquina movida a vapor foi o nascimento 
do sistema fabril em grande escala.” (HUBERMAN, Leo. História da 
Riqueza do Homem) 
 
Principais Máquinas 
 
 Lançadeira Volante (1733) – John Kay 
Aumentou a capacidade de tecelagem (produção de tecido), pois acelerava 
a produção, provocando a necessidade, cada vez maior, de obtenção de 
matéria-prima (fios de algodão). 
 Spinning Jenny (1764) – James Hargreaves 
Aumentou a produção de fios de algodão, suprindo a necessidade de 
obtenção de matéria-prima provocada pela invenção de 1733. Essa 
máquina fazia vários fios ao mesmo tempo, porém os mesmos eram 
quebradiços e dificultavam a produção. 
 Water Frame (1769) – Richard Arkwright 
Produzia fios grossos e era movida a água, o que a tornava bastante viável 
no processo de produção têxtil. 
 Mule (1779) – Samuel Crompton 
Foi a combinação de duas invenções anteriores, a spinning jenny e a water 
frame. Produzia fios finos e resistentes, resolvendo o problema da 
produção de fios. Entretanto, a alta produção de fios não era totalmente 
absorvida pelas tecelagens, pois o ritmo de produção dessas fábricas de 
tecido era lento em razão dos teares serem manuais. 
 Tear Mecânico (1785) – Edmund Cartwright 
Aumentou o ritmo da produção de tecidos, absorvendo maior quantidade 
de fios, pois acelerava o processo de produção de tecidos. 
 Máquina a Vapor (1765) – James Watt 
Considerada a principal invenção da Revolução Industrial, possibilitou 
maior velocidade no processo produtivo, de modo geral, pois tal cilindro 
metálico movido a vapor era utilizado como fonte de energia nos mais 
diferentes tipos de máquinas. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
Para aprofundar seu conhecuimento recomendamos que você assita AL 
filme Tempos Modernos (Modern Times) – 1936 
 “É um filme do cineasta britânico Charles Chaplin, em que o seu famoso personagem "O 
Vagabundo" (The Tramp) tenta sobreviver em meio ao mundo moderno e industrializado. 
É considerado uma forte crítica ao capitalismo (...) bem como uma crítica aos maus tratos 
que os empregados passaram a receber depois da Revolução Industrial. 
Nesse filme Chaplin quis passar uma mensagem social. Cada cena é trabalhada para que 
a mensagem chegue verdadeiramente tal qual seja. E nada parece escapar: máquina 
tomando o lugar dos homens, as facilidades que levam a criminalidade, a escravidão. O 
amor também surge, mas surge quase paternal: o de um vagabundo por uma menina de 
rua. 
Tempos Modernos é ao mesmo tempo comédia, ao mesmo tempo drama e romance. 
Um trabalhador de uma fábrica, tem um colapso nervoso por trabalhar de forma quase 
escrava. É levado para um hospício, e quando retorna para a “vida normal”, para o 
barulho da cidade, encontra a fábrica já fechada. 
Charles vai em busca de outro destino, mas acaba se envolvendo numa confusão: pois é 
tomado como o líder comunista por trás da greve que esta a acontecer e acaba por ser 
preso. 
Quando é libertado e depois de uma agradável estadia na prisão, decide fazer de tudo 
para voltar para lá e ao ver a jovem que fugiu da adoção, decide se entregar em seu 
lugar. Não dá certo, pois uma grã-fina tinha visto o que houve e estraga tudo. Mesmo 
assim, ele faz de tudo para ir preso, no entanto os dois acabam escapando e vão tentar a 
vida de outra maneira. A amizade que surge entre os dois é bela, porém não os alimenta. 
Ele tem que arrumar um emprego rapidamente. 
Consegue um emprego numa outra fábrica, mas logoos operários entram em greve e ele 
mete-se novamente em perigo. 
No meio da confusão, vai preso ao jogar sem querer uma pedra na cabeça de um policial. 
Fonte: www.wikipedia.com 
 
Unidade 08 - Trabalho assalariado 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivo: A divisão do trabalho, verificada nas manufaturas inglesas, 
proporcionou a separação entre capital e trabalho a partir da exploração da mão 
de obra do proletariado (operariado) resultava em lucro para os empregadores 
(burgueses). 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
O conflito entre proletariado e burguesia é fruto das contradições da 
Revolução Industrial, pois o trabalhador exercia longas jornadas de trabalho 
diárias, mas vivia em péssimas condições de vida, recebendo baixíssimos salários e 
trabalhando em condições insalubres. 
 
“As máquinas, que podiam ter tornado mais leve o trabalho, na 
realidade, o fizeram pior. Eram tão eficientes que tinham de fazer 
sua mágica durante o maior tempo possível. Para seus donos, 
representavam tamanho capital que não podiam parar - tinham 
de trabalhar, trabalhar sempre. Além disso, o proprietário 
inteligente sabia que arrancar tudo da máquina, o mais depressa 
possível, era essencial porque, com as novas invenções, elas 
podiam tornar-se logo obsoletas. Por isso os dias de trabalho eram 
longos, de 16 horas. Quando conquistaram o direito de trabalhar 
em dois turnos de 12 horas, os trabalhadores consideraram tal 
modificação como uma bênção. 
Mas os dias longos, apenas, não teriam sido tão maus. Os 
trabalhadores estavam acostumados a isso. Em suas casas, no 
sistema doméstico, trabalhavam durante muito tempo. A 
dificuldade maior foi adaptar-se à disciplina da fábrica. Começar 
numa hora determinada, para, noutra, começar novamente, 
manter o ritmo dos movimentos da máquina - sempre sob as 
ordens e a supervisão rigorosa de um capataz - isso era novo.” 
(HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem) 
 
 Segundo Karl Marx, “o lucro é fruto da mais-valia”, ou seja, da apropriação 
do tempo da força de trabalho e do tempo do trabalhador em benefício do 
empregador. 
 Buscando melhores condições de vida, trabalho e salários, o operariado se 
organiza em associações de trabalhadores, originando as Trade Unions ou 
Sindicatos e, utilizando-se da prática de greves, reivindica a redução da jornada 
de trabalho e melhores salários. 
 A expansão do mercado consumidor, em decorrência da aceleração do 
processo produtivo (Revolução Industrial), necessitava de um grande número de 
trabalhadores nas indústrias e, para suprir essa demanda, indivíduos de ambos os 
sexos e idades eram recrutados. 
 Entre os séculos XVI e XVIII, ocorre uma transformação nas forças de 
produção, o artesão que outrora realizava o trabalho nas oficinas, torna-se 
trabalhador assalariado. 
 As mulheres e crianças eram igualmente exploradas em longas jornadas de 
trabalho diárias, fazendo com que os lares do período se tornassem locais de 
acomodação precária da mão de obra explorada nas indústrias. 
 
“Casas superlotadas, sujas e em mau estado, roupas esfarrapadas, 
e reclamações frequentes sobre a comida insatisfatória, tanto na 
quantidade como na qualidade, caracterizavam os lares 
pesquisados... 
Crianças de menos de 16 anos trabalhavam em 96 das 129 famílias 
estudadas... Metade delas tinha idade inferior a 12 anos. Trinta e 
quatro tinham 8 anos e menos, e doze tinham menos de 5 anos.” 
(Idem. pág. 116 e 117) 
 
 Essa classe operária surgida durante o processo de industrialização inglesa 
expandiu e consolidou o modelo capitalista industrial: por meio da exploração do 
trabalho e dos baixos salários, uma massa de indivíduos despossuídos 
(proletariado) sustentava aqueles que possuíam os meios de produção 
(burguesia). 
 O trabalho exaustivo e insalubre nas fábricas obrigava os indivíduos a 
cumprir jornadas diárias de até 16 horas, independentemente do sexo ou idade, 
sem qualquer garantia ou lei trabalhista que preservasse sua integridade física ou 
profissional. 
 As condições de trabalho eram as mais degradantes possíveis. As doenças, 
os acidentes graves e a baixa expectativa de vida faziam parte do cotidiano desses 
trabalhadores, os quais buscavam meios de organização coletiva em associações 
ou sindicatos, vislumbrando melhores condições no trabalho cotidiano. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
Texto Complementar 
 “Todo homem é rico ou pobre, de acordo com o grau em que consegue desfrutar 
das coisas necessárias, das coisas convenientes e dos prazeres da vida. Todavia, uma vez 
implantada plenamente a divisão do trabalho, são muito poucas as necessidades que o 
homem consegue atender com o produto de seu próprio trabalho. A maior parte delas 
deverá ser atendida com o produto do trabalho de outros, e o homem será então rico ou 
pobre, conforme a quantidade de serviço alheio que está em condições de encomendar ou 
comprar. 
Portanto, o valor de qualquer mercadoria, para a pessoa que a possui, mas não 
tenciona usá-la ou consumi-la ela própria, senão trocá-la por outros bens, é igual à 
quantidade de trabalho que essa mercadoria lhe dá condições de comprar ou comandar. 
Consequentemente, o trabalho é a medida real do valor de troca de todas as mercadorias. 
O preço real de cada coisa - ou seja, o que ela custa à pessoa que deseja adquiri-la - é o 
trabalho e o incômodo que custa a sua aquisição. O valor real de cada coisa, para a pessoa 
que a adquiriu e deseja vendê-la ou trocá-la por qualquer outra coisa, é o trabalho e o 
incômodo que a pessoa pode poupar a si mesma e pode impor a outros. O que é comprado 
com dinheiro ou com bens, é adquirido pelo trabalho, tanto quanto aquilo que adquirimos 
com o nosso próprio trabalho. Aquele dinheiro ou aqueles bens na realidade nos poupam 
este trabalho. Eles contêm o valor de uma certa quantidade de trabalho que permutamos 
por aquilo que, na ocasião, supomos conter o valor de uma quantidade igual. O trabalho 
foi o primeiro preço, o dinheiro de compra original que foi pago por todas as coisas. Não foi 
por ouro ou por prata, mas pelo trabalho, que foi originalmente comprada toda a riqueza 
do mundo; e o valor dessa riqueza, para aqueles que a possuem, e desejam trocá-la por 
novos produtos, é exatamente igual à quantidade de trabalho que essa riqueza lhes dá 
condições de comprar ou comandar. 
Riqueza é poder, como diz Hobbes. Mas a pessoa que adquire ou herda uma 
grande fortuna não necessariamente adquire ou herda, com isto, qualquer poder político, 
seja civil ou militar. Possivelmente sua fortuna pode dar-lhe os meios para adquirir esses 
dois poderes, mas a simples posse da fortuna não lhe assegurará nenhum desses dois 
poderes. O poder que a posse dessa fortuna lhe assegura, de forma imediata e direta, é o 
poder de compra; um certo comando sobre todo o trabalho ou sobre todo o produto do 
trabalho que está então no mercado. Sua fortuna é maior ou menor, exatamente na 
proporção da extensão desse poder; ou seja, de acordo com a quantidade de trabalho 
alheio ou - o que é a mesma coisa - do produto do trabalho alheio que esse poder lhe dá 
condições de comprar ou comandar. O valor de troca de cada coisa será sempre 
exatamente igual à extensão desse poder que essa coisa traz para o seu proprietário. 
Entretanto, embora o trabalho seja a medida real do valor de troca de todas as 
mercadorias, não é essa a medida pela qual geralmente se avalia o valor das mercadorias. 
Muitas vezes é difícil determinar com certeza a proporção entre duas quantidades 
diferentes de trabalho. Não será sempre só o tempo gasto em dois tipos diferentes de 
trabalho que determinará essa proporção. Deve-se levar em contatambém os graus 
diferentes de dificuldade e de engenho empregados nos respectivos trabalhos. 
Pode haver mais trabalho em uma tarefa dura de uma hora do que em duas horas 
de trabalho fácil; como pode haver mais trabalho em uma hora de aplicação a uma 
ocupação que custa dez anos de trabalho para aprender, do que em um trabalho de um 
mês em uma ocupação comum e de fácil aprendizado. Ora, não é fácil encontrar um 
critério exato para medir a dificuldade ou o engenho exigidos por um determinado 
trabalho. Efetivamente, ao permutar entre si produtos diferentes de tipos diferentes de 
trabalho, costuma-se considerar uma certa margem para os dois fatores. Essa, porém, é 
ajustada não por medição exata, mas pela pechincha ou regateio do mercado, de acordo 
com aquele tipo de igualdade aproximativa que, embora não exata, é suficiente para a vida 
diária normal. 
Além disso, é mais frequente trocar uma mercadoria por outras mercadorias - e, 
portanto, comprá-las - do que por trabalho. Por conseguinte, é mais natural estimar seu 
valor de troca pela quantidade de alguma outra mercadoria, do que com base no trabalho 
que ela pode comprar. Aliás, a maior parte das pessoas tem mais facilidade em entender o 
que significa uma quantidade de uma mercadoria específica, do que o significado de uma 
quantidade de trabalho. Com efeito, a primeira é um objeto plenamente palpável, ao passo 
que a segunda é uma noção abstrata que, embora possamos torná-la suficientemente 
inteligível, não é basicamente tão natural e tão óbvia.” SMITH, Adam. A Riqueza das 
Nações. volume I, Nova Cultural, 1988, Coleção "Os Economistas", pág. 17-54) 
 
 
Unidade 09 - Trabalho e movimento sindical 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Analisar o movimento social e as transformações ocorridas nas relações de 
trabalho com o advento da globalização e reconfiguração dos modelos 
produtivos. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
A história do movimento sindical perpassa por uma trajetória que atravessa 
o século XX se anunciando como um poder político de enfrentamento e 
resistência gerados, sobretudo, pelo modelo fordista de produção. 
 Esse movimento ganhou projeção e maior expressão política no período 
pós guerra, em decorrência da consolidação de governos social-democratas em 
vários países. 
No contexto da social democracia, a partir dos anos 50, os sindicatos 
ocuparam um lugar importante no cenário produtivo e atuaram como mediações 
importantes nas relações de trabalho, contribuindo para conquistas trabalhistas 
significativas e consolidação do poder sindical. 
Para Rodrigues e Lima (2009) 
 
O sistema econômico e social que emergiu após a Segunda 
Guerra Mundial e até inícios dos anos 1970, em grande parte da 
Europa Ocidental, EUA e Japão, foi responsável por uma 
estabilidade que representou um incremento do bem-estar e 
aumento da riqueza em todos esses países. Durante o período, 
além do aumento do bem-estar e altas taxas de crescimento 
econômico, a democracia e o Estado de Bem-Estar Social foram 
consolidados e o Estado estimulou o desenvolvimento da 
atividade produtiva através de empréstimos e investimentos de 
longo prazo. 
Esses investimentos, em cada país, coordenados pelos Estados 
nacionais, embora assumissem alguns aspectos mais específicos, 
tinham como principal característica o processo de regulação do 
Estado no que tange à política macroeconômica, ou seja, uma 
decisiva intervenção do Estado na economia, com o objetivo de 
garantir o equilíbrio no campo econômico e a paz social no 
terreno político. Essas singularidades se manifestavam em 
diferenças no padrão dos gastos públicos, na organização do 
sistema de bem-estar social e na presença maior ou menor do 
Estado nas decisões econômicas. 
Desse modo, o complexo de arranjos institucionais e corporativos 
se constituiu na essência do que veio a ser denominado 
compromisso fordista e foi o principal ponto de apoio de sua 
estruturação. Vale dizer, Estado, grandes corporações e sindicatos 
passaram a ser a nova base desse regime de acumulação que se 
caracterizava pela produção em massa de bens padronizados e 
em série. 
 
Mais recentemente alguns estudos apontam para um momento que tem 
sido interpretado como “crise” da organização sindical 
Uma importante análise desse cenário de reconfiguração política dos 
movimentos sindicais está na obra de Leôncio Martins Rodrigues, Destino do 
sindicalismo. 
 Na sua pesquisa, Rodrigues indica tendências para o movimento sindical, 
partindo de cenários de países industrializados nos quais os índices de 
sindicalização tem se retraído expressivamente. Aponta possibilidades para o 
futuro do sindicalismo inferindo que "não seria preciso ressaltar que os 
pesquisadores mais favoráveis aos sindicatos inclinam-se a vislumbrar saídas para 
o movimento sindical, enquanto os mais hostis acham que os sindicatos terão 
muita dificuldade para sobreviver no tipo de habitat que se delineia para o século 
XXI." (p. 295). 
Corroboram com as ideias de Rodrigues a reconfiguração obervada no 
modelo produtivo que evidencia um desgaste nas bases institucionais sobre as 
quais o sindicalismo se desenvolveu. Elementos como competição global, quadros 
recessivos e incertezas progressivas no cenário econômico contribuíram para a 
necessidade de reformulação das relações sindicais, desafinado os sindicatos a 
procurarem novos caminhos. 
 Os efeitos da revolução da microeletrônica, bem o fenômeno da 
globalização da sociedade também atingiram as bases da organização sindical 
que ainda se sustenta em demandas de acesso aos bens ou poder (público ou 
privado). Somam-se a isso questões como as alterações no mundo do trabalho 
que apresentam novas demandas para a ação sindical. 
Anunciam-se como dificuldades à organização sindical, questões como 
aumento do desemprego, crescimento de relações de trabalho em condições 
precárias, regimes parciais, regimes temporários e outros, que ocupam no 
princípio do século XXI, parcelas muito significativa da economia. 
Para Rodrigues 
O assalariamento, que caracterizou a relação capital/trabalho 
durante largo período, criou as condições de agregação de 
direitos sociais aos contratos de trabalho. Já a flexibilidade 
propiciada pela revolução tecnológica, representada pela 
informatização e a telemática, desterritorializou a produção e o 
trabalho, internacionalizando os mercados, desorganizando 
identidades coletivas fundadas no local, no regional, no nacional. 
O "local" é ressignificado dentro dos nós de uma sociedade em 
rede, na qual atuam empresas, Estados e trabalhadores. 
Para esse autor, os assalariados são os mais afetados pela nova ordem 
econômica mundial. 
As conquistas obtidas durante décadas de atuação sindical que resultaram 
em saldos sociais positivos dão espaço para a marcha da competitividade global 
gerando fragilidades na organização sindical devido as características da 
fragmentação, dispersão territorial e vulnerabilidade social. 
 
 
 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
MOVIMENTO OPERÁRIOS 
Por tantas adversidades, os trabalhadores chegaram à conclusão que precisavam 
começar a lutar por seus direitos. 
 
Ludismo 
O Ludismo estorou em 1811, foi uma das primeiras revoltas dos operários que eram 
contra os avanços tecnológicos, que substituíam homens por máquinas, e o nome deriva 
de um dos líderes, Ned Ludd. Eram revoltas radicais, onde os trabalhadores invadiam as 
fábricas, e destruíam as máquinas, ficando conhecidos como “quebradores de máquinas”. 
Existiam esquadrões luditas, que andavam armados com martelos, pistolas, lanças, e 
durante a noite, andavam de um distrito ao outro, destruindotudo que encontravam. 
Porém, muitos manifestantes foram condenados à prisão, à morte, à deportação e até à 
forca. 
O Ludismo ocorreu durante alguns anos, mas aos poucos os manifestantes constataram 
que não eram contra as máquinas que deveriam reagir, e sim ao uso que os proprietários 
faziam delas, abusando da mão-de-obra dos operários. 
 
Cartismo 
De forma um pouco mais organizada, em 1836 surgiu o Cartismo, constituído pela 
“Associação dos Operários” e liderado por Feargus O’Connor e William Lovett. 
Reinvidicavam direitos políticos, como o sufrágio universal (direito de voto), o voto 
secreto, melhoria das condições e jornadas de trabalho. Redigiram a “Carta da Povo”, 
onde pediam um conjunto de reformas junto ao Parlamento. 
Inicialmente, as exigências não foram aceitas pelo Parlamento, havendo grandes 
movimentos e revoltas por parte dos operários. 
Depois de muitas tentativas e lutas, o Cartismo foi se dissolvendo até chegar ao fim. 
Porém, o espírito do movimento não se perdeu, e ganhou maior presença política depois 
de um tempo, fazendo com que algumas leis trabalhistas fossem criadas. 
 
Trade-Unions e Sindicatos 
Os operários chegaram à conclusão de que a união era fundamental para se contrapor ao 
poder burguês, então criararam os “trade-unions”, associações formadas pelos operários, 
mas que possuiam uma evolução muito lenta nas reinvidicações que faziam. Porém, 
evoluíram e formaram os sindicatos, que eram sistemas de organização que defendiam 
seus direitos, eram os focos de resistência à expolaração capitalista. Mas diferente dos 
sindicatos de hoje, tinham muita dificuldade de atuação. 
A burguesia via um grande perigo nessas associações, e os sindicatos eram ameaçados 
pela violência. Portanto, as reuniões tinham que ser secretas, não havendo sedes 
sindicais. Mas aos poucos foram se organizando e realizando greves e protestos. E os 
proprietários levavam prejuízo, pois não tinha quem trabalhasse durante as 
manifestações. 
Em 1824, diante de todo esse crescimento das lutas operárias, a Inglaterra acaba 
aprovando a primeira lei, que permite a organização sindical dos trabalhadores. Depois 
dessa conquista, o sindicalismo se fortalece ainda mais. 
A partir desse momento, começaram a surgir organizações de federações que unificavam 
várias categorias dos trabalhadores, e em 1830 foi fundada a primeira entidade geral dos 
operários ingleses. Chegou a ter cerca de 100 mil membros. 
Em 1866, ocorreu o primeiro congresso internacional das organizações de trabalhadores 
de vários países, que representou um grande avanço na unidade dos assalariados, onde 
surge a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). 
Mas a burguesia sempre achava novos meios de interferir, e reprimir os sindicatos. A 
história da legislação trabalhista dependeu de muitas lutas, os operários e sindicados 
resistiram à muita pressão para que hoje, todos pudessem ter os direitos trabalhistas. 
 
Fonte: http://revolucao-industrial.info/mos/view/Movimentos_oper%C3%A1rios/ 
 
Unidade 10 - O impacto da Revolução Industrial nas cidades 
 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivo: Observar o impacto da Revolução Industrial nas cidades inglesas, 
o qual provocou, entre outras coisas, uma maior concentração urbana e uma 
revolução nos meios de transporte, representado, principalmente pelas ferrovias. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
Entre as diversas transformações provocadas pela Revolução industrial, 
destaca-se o desenvolvimento das atividades urbanas em detrimento do meio 
rural, pois a concentração industrial aconteceu nas proximidades das fontes de 
energia e matérias-primas e principalmente nas cidades, devido à necessidade de 
obtenção de mão de obra. 
O processo de industrialização foi responsável pelo surgimento de algumas 
cidades na Inglaterra e pelo aumento significativo da população de várias outras, 
fazendo com que o crescimento urbano ou urbanização fosse uma das principais 
características inglesas do século XVIII. 
 
“Em 1801, em todo o continente (europeu), não havia mais de 23 
cidades com mais de 100 mil habitantes, agrupando menos de 2% 
da população da Europa. Em meados do século, seu número já se 
elevava para 42; em 1900 eram 135 e, em 1913, 15% dos europeus 
moravam em cidades. Quanto às cidades de mais de 500 mil 
habitantes que, na época, pareciam monstros, só existiam duas no 
início do século XIX: Londres e Paris. Nas vésperas da Primeira 
Guerra Mundial, elas eram 149. (RÉMOND, René. Introdução à 
História de Nosso Tempo. O século XIX: 1815-1914. São Paulo: Cultrix, 
1976. p. 137) 
 
 Durante seus primeiros anos a Revolução Industrial esteve essencialmente 
vinculada à indústria têxtil de algodão, mas, com o passar do tempo, verificou-se 
um conjunto de transformações econômicas, sociais e urbanas. 
 Antes do advento da indústria a sociedade era basicamente rural, ou seja, a 
maioria da população vivia no campo. Foi em função das transformações nos 
meios de produção ocorridas ao longo do século XVIII que essa situação inverteu-
se. 
 No decorrer do século XIX o processo de urbanização intensificou-se, pois 
as pessoas abandonavam o campo e se dirigiam para as cidades em busca de 
trabalho. 
 Essa concentração urbana é característica das nações industrializadas, onde 
uma pequena parcela da população ainda reside no campo, pois as atividades 
urbano-industriais superam, significativamente, as atividades agrícola-rurais, pois 
essas também sofreram profundas transformações nos métodos de produção, de 
tal modo que um número cada vez menor de trabalhadores rurais, auxiliados 
pelas máquinas agrícolas, produziam cada vez mais alimentos e matérias-primas. 
 
“O sistema fabril, com sua organização eficiente em grande escala 
e sua divisão do trabalho, representou um aumento tremendo na 
produção. As mercadorias saíam das fábricas num ritmo intenso. 
Esse aumento da produção foi em parte provocado pelo capital, 
abrindo caminho na direção dos lucros. (...) As mercadorias 
produzidas nas fábricas encontravam também um mercado 
interno simultaneamente com o mercado externo. Isso devido ao 
crescimento da população da própria Inglaterra. 
(...) Outra causa do crescimento da população foi o fato de que as 
pessoas se alimentavam melhor, graças a progressos 
surpreendentes na agricultura. (Esses progressos foram, em parte, 
resultado do crescimento da população) Tal como houve uma 
revolução industrial, houve também uma revolução agrícola. 
(...) E tal como houve melhoramento nas ferramentas e máquinas 
usadas na indústria, assim o século XVIII viu novos e melhores 
arados, enxadas, etc., usados na agricultura”. (HUBERMAN, Leo. 
História da Riqueza do Homem. p. 172-174) 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
Cidade de Birmingham (Inglaterra, 1886) 
 
(A evolução das cidades. Coleção Histórica em Revista. Rio de Janeiro: 1996.) 
 
“Coketown era uma cidade de tijolos vermelhos, ou melhor, de 
tijolos que seriam vermelhos se a fumaça e as cinzas permitissem, 
cidade de máquinas e de altas chaminés. Apresentava muitas ruas 
largas, todas iguais, e muitas ruazinhas ainda mais iguais, cheias 
de pessoas também muito iguais, pois todas saíam e entravam nas 
mesmas horas, andando com passo igual na mesma calçada, para 
fazer o mesmo trabalho; para elas, cada dia era parecido com o da 
véspera e com o dia seguinte.” (DICKENS, Charles. In: ENDERS, 
Armelle e outros. História em curso. Rio de Janeiro: FGV, 2008.) 
 
A Revolução Industrial provocou grandes mudanças em algumas cidades 
inglesas, a partir de finais do século XVIII. A imagem de Birmingham, de 1886, e o 
fragmento do romance“Tempos Difíceis”, reproduzido acima, apresentam sinais 
dessas transformações. 
 
Unidade 11 - Inovações Tecnológicas e inovações da 
economia 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivo: abordar o conceito de globalização pautado no desenvolvimento 
tecnológico. 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
A Nova Ordem Mundial e a Globalização 
A Nova Ordem Mundial apresenta basicamente duas faces: uma 
geopolítica e outra econômica. Na geopolítica, a grande mudança foi o fim da 
Guerra Fria e, consequentemente, o fim da bipolarização de poder entre as duas 
superpotências, de um lado os EUA, do outro lado a URSS, esses países lideravam 
seus blocos militares. Na economia, a disputa era entre o sistema capitalista 
liderado pelos EUA e do sistema socialista liderado pela URSS. 
A Guerra Fria foi um período onde ocorreu o conflito ideológico, militar e 
econômico que envolvia os EUA, que representava o sistema capitalista, do outro 
lado a URSS, que representava o socialismo. A caracterização do mundo bipolar 
no cenário mundial estava embasada na capacidade militar das duas 
superpotências. 
Essa situação do mundo bipolar foi do pós-guerra até o fim da URSS em 
1991 (alguns autores consideram as reformas de 1985 - Perestróica e Glasnost; 
outros consideram a queda do muro de Berlim em 1989). 
Na atual fase, o mundo é considerado como multipolar, e o poder é 
medido pela capacidade econômica, como: disponibilidade de capitais, avanço 
tecnológico, qualificação da mão de obra, nível de produtividade e índices de 
competitividade. São esses os novos padrões de poder e influência no mundo, 
que explicam a emergência recente de países, como o Japão e a Alemanha. Já a 
então Rússia, embora seja a herdeira principal do poderoso arsenal nuclear 
soviético, o parque industrial russo é, em geral, obsoleto e pouco produtivo, e o 
país encontrava-se mergulhado em profunda crise social, política e econômica. 
Nessa primeira etapa do atual mundo globalizado (anos 1990 e 2000), os 
países de maiores economias eram os EUA, o Japão e Alemanha. Em meados dos 
anos 2000, a Rússia recupera sua economia e volta ao cenário de superpotência; 
outro país que superou suas expectativas foi a China, que se tornou a segunda 
economia do mundo atual. 
Outro importante aspecto da nova ordem mundial, que é muito polêmico e 
vem sendo muito discutido, é o aprofundamento da tendência da globalização 
em suas várias facetas. Mas, então, o que vem a ser a globalização? 
A globalização é a mais recente fase da expansão capitalista, a qual visa 
aumentar os mercados e, portanto, os lucros. O atual processo de globalização 
nos revela que a expansão agora pode dispensar a invasão de tropas, a ocupação 
territorial. Agora a invasão é muito mais silenciosa, sutil e eficaz. Trata-se de uma 
invasão de mercadorias, capitais, serviços, informações e pessoas. As novas armas 
são a agilidade e a eficiência das comunicações e do controle de dados e 
informações. 
A mais antiga faceta da globalização é a invasão de mercadorias em todos 
os países. Com a intensificação dos fluxos comerciais no mundo, produtos são 
levados e trazidos por enormes navios, trens, caminhões e aviões, que circulam 
por uma moderna e intrincada rede de transportes, espalhadas pelo mundo. Há, 
assim, uma globalização do consumo, com a intensificação do comércio que, na 
verdade, é resultante da globalização da produção. 
Paralelamente à globalização do consumo e da produção, ocorre a 
intensificação do fluxo de viajantes pelo mundo, seja a negócios, turismo ou 
imigrando, e uma invasão cultural de costumes, de comportamento, de hábitos de 
consumo. Entrelaçando todos os países, esse domínio constitui-se de uma cultura 
de massas, que se origina principalmente nos EUA, que ainda são, de longe, a 
nação mais poderosa e influente do planeta. O american way of life (o modo 
norte-americano de viver) é difundido pelos filmes de Hollywood e enlatados na 
televisão pelas notícias da TV a cabo, pelos fast-foods, pelas músicas, pelos 
musicais da Broadway. 
Percebe-se, então, que a globalização apresenta várias dimensões: 
econômica, social, política e cultural. Assim, esse fenômeno pode ser entendido 
como uma intensificação dos fluxos de mercadorias e serviços, capitais e 
tecnologias, informações e pessoas, que só se viabilizou em função dos avanços 
tecnológicos. 
Porém, a globalização tem uma face perversa, pois ela abarca o mundo de 
forma bastante desigual. Alguns lugares, regiões e países estão mais integrados 
do que outros, acentuando, assim, a tendência de concentração de capital, pois 
aqueles que estão integrados têm maior capacidade de concorrer neste mundo 
tão competitivo. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
Dimensões da Globalização 
 
A globalização está concentrando renda: os países ricos ficam mais ricos, e 
os pobres, mais pobres. Há muitos motivos para isso. Alguns deles: a redução das 
tarifas de importação beneficiou muito mais os produtos exportados pelos mais 
ricos. Os países mais ricos continuam a subsidiar seus produtos agrícolas, 
inviabilizando as exportações dos mais pobres. Com essas diferenças de câmbio, 
os países ricos se aproveitam da situação, impondo aos países pobres uma 
dependência tecnológica e econômica. 
A geopolítica mundial está se ajustando aos arranjos desse novo espaço 
mundial, o qual é a chave para explicar as diferentes lógicas da ordenação 
territorial, juntamente com a geopolítica. 
Essa nova ordenação territorial passa pelo modo de produção capitalista, 
que é a base da nova ordem mundial. 
 
 
Observamos um mundo desigual onde o atual modelo de desenvolvimento 
econômico divide o mundo em ricos e pobres, em uma sociedade de consumo e 
do outro lado os excluídos. 
Esse atual modo de produção capitalista levou à formação de grandes 
monopólios capitalistas (multinacionais, hoje denominadas de transnacionais), fato 
que se tornou mais evidente com o fim do socialismo na ex-URSS. 
 O domínio e o expansionismo das grandes corporações se deve a três 
fatores, principalmente: 
1) Mobilidade de capitais; existe no mundo globalizado uma necessidade de 
mobilidade de capitais, que é caracterizado pelo sistema financeiro 
2) Avanço da produção; necessita da mobilidade de capitais, do desenvolvimento 
de tecnologias, mão de obra barata, do controle das reservas minerais e de fontes 
de energia. 
3) Ação internacional dos governos mais poderosos; é o resultado da mobilidade 
social e do avanço de produção, porém existe uma necessidade de intervenção 
Globalização: é a mais 
recente fase da expansão 
capitalista, a qual visa 
aumentar os mercados e, 
portanto, os lucros. 
do Estado na economia, ficando vigente a ação dos países ricos sobre os países 
pobres. 
 Nessa tríade está a base da formação do modo de produção capitalista que 
rege o mercado mundial. 
 
 
 
Globalização 
Após a queda do muro de Berlim, a reunificação da Alemanha, a 
desarticulação do bloco soviético e do leste 
europeu, onde o socialismo foi abandonado 
e o capitalismo “adotado”, o capitalismo 
ocupa uma vasta área, se expande e transforma essas novas áreas. 
Porém, esta aparente tranquilidade da expansão do capitalismo, passa a 
encontrar alguns obstáculos, problemas mais ou menos graves, como: 
o a produção científica e tecnológica (como conseguir uma 
modernização sem o desenvolvimento da ciência e da tecnologia); 
o desemprego; 
o comércio de armas; 
o a violência urbana; 
o drogas; 
o os direitos humanos; 
o a ecologia; 
o a biotecnologia; 
o as guerras; 
o a escassez de água; 
o o crescimento demográfico (7 bilhões– 2011); 
o a distribuição de recursos materiais; 
o a grande diferença das classes sociais. 
Será difícil o sistema econômico mundial conseguir equacionar esses 
problemas, tentar equilibrar a liberdade de mercado e seus efeitos na sociedade. 
 
Unidade 12 - Características do processo de globalização 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivo: Identificar e analisar as principais características do processo de 
globalização 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
Principais características do processo de globalização: 
 Distribuição dos limites entre o internacional e o nacional (enfraquecimento do 
Estado-Nação); 
 Emergência das transnacionais; 
 Diminuição dos espaços devido aos avanços tecnológicos, que propiciam maior 
velocidade às comunicações; 
 Existência de uma sociedade planetária e outra nacional. 
Sistemas de Produção Características 
Taylorismo 
 Separação entre as tarefas de concepção e de execução  requer 
procedimentos mecânicos que dispensam o raciocínio dos trabalhadores; 
 Divisão e subdivisão das tarefas; 
 As tarefas destinadas aos trabalhadores são extremamente simples; 
 Controle do tempo de execução dos movimentos dos trabalhadores para 
eliminar o desperdício de tempo. 
Fordismo 
 Ford aperfeiçoou o taylorismo, introduzindo o uso de esteiras móveis em toda 
a fábrica (linha de montagem); 
 O ritmo da esteira determina o ritmo de trabalho  trabalhador fixo num certo 
ponto, sendo as ferramentas e o objeto a ser trabalhado transportados até ele; 
 Replanejamento dos movimentos dos trabalhadores e inovações das 
ferramentas e máquinas, visando acelerar o ritmo de produção; 
 Elaborou sua diretriz econômica, objetivando diminuir o custo dos produtos. 
Toyotismo 
 Uso de máquinas sofisticadas com terceirização de várias atividades; 
 Emprego de pouca mão de obra, porém especializada; 
 Estoques quase zerados tanto de matérias-primas, como de produtos 
acabados; 
 Acomodação dos trabalhadores ao novo sistema, acabando com a organização 
e a consciência de classe. 
O Modelo Japonês 
 A origem do atual sucesso do Japão é datada da época da segunda guerra 
mundial, quando o Japão recebe o Dr. Deming, para um ciclo de palestras no país. 
 Deming fazia palestras sobre administração com os presidentes das vinte e 
uma principais indústrias japonesas. Todavia, as ideias de Deming não foram 
capazes de entrar em seu próprio país, pois os EUA haviam se transformado na 
primeira nação com uma concepção de administração vigente há muito tempo no 
país; sendo assim, eles não tinham problemas com inovação, produtividade; eram 
os mais competitivos. Não precisavam de novos modelos sobre produtividade e 
qualidade. 
 Porém, logo ele foi descoberto pelos americanos; isso aconteceu por meio 
de uma repórter de televisão, Clare Crawfor-Mason, que produzia um 
documentário sobre o Japão e sua prosperidade econômica chamado: “Se o 
Japão pode... porque não podemos?”. 
Diretrizes do JPC – Japanese Productivity Center 
 O Centro Japonês de Produtividade foi mediador de uma espécie de pacto 
social na década de 50. Esse pacto postulava três diretrizes para o 
desenvolvimento produtivo da economia do país. Essas diretrizes foram aceitas 
pelos empresários, empregados, sindicatos e, obviamente, pelo governo. 
Dentro dessas diretrizes, estava a estabilidade e segurança no emprego, 
garantindo assim o emprego do operário. Além disso, a produção aumentaria, 
garantindo maiores lucros para os empresários e impostos para o governo. O 
empresário paga os impostos corretamente e o governo aplica em 
desenvolvimento social, garantindo educação e saúde para o seu povo. 
Outro fator importante é que foi passado também aos operários o TQC – 
Controle da Qualidade Total, o JIT – Just in Time (ou apenas A Tempo), e o TPM – 
Manutenção Produtiva Total. E ensina que, antes da ação, o operário deve 
planejá-la. 
Stakhanovismo 
Ocorreu na Rússia, nasceu dentro do sistema operário, sem pressão 
alguma por parte dos dirigentes das empresas do estado; procurava aumentar o 
rendimento com a simplificação da operação, aumentando o seu ritmo e 
favorecendo, assim, os operários. O Partido Comunista auxiliou os stakhanovistas 
a consumar esse movimento. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
Vocabulário 
Globalização – Termo cunhado pelos norte-americanos; significa, ao pé da letra: 
internacionalização das relações econômicas, sociais e políticas. A visão dos 
estudiosos sobre o conceito é polêmica. Alguns o entendem como um processo 
de adequação das dinâmicas nacionais a uma dinâmica preponderante no âmbito 
internacional, sem traumas. Outros acreditam que a globalização é a sofisticação 
máxima do sistema capitalista, portanto, violenta e traumática, gerando 
desemprego, interferindo nas culturas nacionais e abalando a soberania das 
nações. 
Nacionalismo – Valorização do Estado como nação soberana. Com a globalização, 
o Estado perde sua legitimidade e vigor porque suas instituições básicas – 
soberania, estado social e defesa nacional – perdem poder. A ideia de pátria, 
assim, se dilui. Isso aparece claramente no comportamento de um alto executivo 
de corporação internacional, que se sente desobrigado de ser leal à pátria em 
benefício da empresa onde trabalha. 
Neoliberalismo – Doutrina que ganhou espaço com o fim do bloco socialista. Tem 
como objetivo a manutenção do livre jogo das forças econômicas e a iniciativa 
dos indivíduos. Prega a privatização e a menor intervenção possível do Estado 
como gestor da economia. 
Consenso de Washington – também conhecido como neoliberalismo, foi realizado 
em 1989, com o auxílio do FMI (Fundo Monetário Internacional), visando à 
economia de mercado nos países da América Latina. Foi então proposto que 
esses países se abrissem ao capital estrangeiro, adotando amplas privatizações, 
menor participação do Estado na economia nacional e menores investimentos 
sociais. 
Ordenamento territorial e o desenvolvimento tecnológico 
A organização social do território atual está indissociável do meio técnico, 
pois a tecnociência constrói a base das redes sociais e a insere na economia 
internacional, o que nos leva ao mercado financeiro mundial e à busca incessante 
pelo desenvolvimento econômico. 
Essas distorções sociais e territoriais precisam ser corrigidas para que 
alcancemos a plenitude da cidadania, pois a territorialidade é conhecida como a 
sociedade dos espaços, ou seja, cada sociedade apresenta um espaço 
diferenciado resultante do modelo econômico atual e da falta de organização 
territorial abrangente da sociedade. Assim sendo, segundo Milton Santos, 
consideramos o espaço geográfico do mundo atual como um meio técnico-
científico-informacional. 
O meio técnico-científico-informacional é o espaço geográfico do mundo 
atual, isto é, ele é a cara geográfica da globalização. 
 Dentro desse processo existem três períodos para o desenvolvimento das 
redes: período pré-técnico ou meio natural, o período mecânico e o período 
atual (informacional). E, assim, nós temos o desenvolvimento do meio técnico- 
científico-informacional. 
 O período pré-técnico ou meio natural está na fase pré-revolução, pré- 
industrial, isto é, antes das máquinas. As redes se formavam espontaneamente. 
 O período mecânico está diretamente ligado ao desenvolvimento das 
máquinas, no período da Revolução industrial, as redes se formam em etapas e 
com diferentes formas de energia. 
O período atual da chamada pós-modernidade é o período informacional; 
nesse momento, as redes estão difusas, não atuando apenas no próprio território, 
mas em todo o mundo. 
 Dentro do atual arranjoespacial, vemos duas segmentações: a 
Horizontalidade e a Verticalidade. 
 A Horizontalidade ocorre de forma contínua, como região enquanto região, 
isto é, existe uma forma contínua do território. 
 A Verticalidade, por sua vez, suprime essa continuidade dos pontos, os 
espaços ficam separados uns dos outros; esses pontos estariam ligados pelas 
formas sociais, econômicas dentro do processo de globalização. 
 A verticalidade se acelera quanto maiores forem as necessidades da produção 
nos lugares. Com a atual globalização, a verticalização dos lugares é cada vez 
mais forte. 
 
 
Unidade 13 - Economia extrativista no Brasil colonial 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivo: Analisaremos nessa unidade as atividades econômicas 
desenvolvidas ao longo do Pré-Colonial brasileiro (1500-1530), no qual as relações 
de trabalho eram predominantemente marcadas pelo escambo entre indígenas e 
europeus em decorrência da exploração do pau-brasil. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
Mesmo com a descoberta das terras brasileiras, Portugal continuava 
empenhado no comércio com as Índias, pois as especiarias que os portugueses 
encontravam lá eram de grande valia para sua comercialização na Europa. 
Enquanto realizava este lucrativo comércio, Portugal aqui no Brasil realizava 
o extrativismo do pau-brasil, explorando da Mata Atlântica toneladas da valiosa 
madeira, cuja tinta vermelha era comercializada na Europa. 
Os historiadores muitas vezes distinguem duas formas de colonialismo, 
principalmente com base no número de pessoas do país colonizador que se 
estabelecem na colônia: 
 
Colônia de Povoamento: Na colonização de povoamento, os colonizadores 
buscam desenvolver a região colonizada. Criam leis, organizam, investem em 
infraestrutura e lutam por melhorias. Como exemplo, as Trezes Colônias, que 
deram origem aos Estados Unidos da América. Essas colônias foram criadas por 
pessoas que vieram morar no território. Famílias inteiras, que necessitavam de 
comércio, escolas, bibliotecas, bancos, etc. Também precisavam de uma economia 
diversificada, com agricultura, pesca, criação de diversos tipos de animais, e até 
manufaturas. Geraram uma nação rica e desenvolvida; 
Colônia de Exploração: Os colonizadores buscavam retirar recursos naturais e 
minerais. Nessas colônias, pretendia-se apenas explorar o que tivesse algum lucro, 
fosse pau-brasil, ouro, prata, ou até artigos plantados, como tabaco, algodão, 
cana-de-açúcar, etc. Nem sempre eram famílias que vinham, e foi utilizada a mão-
de-obra escrava. Esse tipo de colônia gerou países com grandes dificuldades para 
se desenvolver, com má distribuição de terras, grandes diferenças sociais, 
preconceito. 
. 
 As três primeiras décadas da colonização portuguesa em terras brasileiras. 
Os portugueses construíram, neste período, diversas feitorias no litoral. 
Estas tinham como função armazenar madeira (pau-brasil), facilitando o 
transporte para as caravelas. 
Os portugueses usaram mão-de-obra indígena na exploração do pau-
brasil, em troca de espelhos, chocalhos, facas e outras bugigangas, os índios eram 
convencidos a trabalharem no corte e carregamento do pau-brasil para os navios. 
Esta troca de trabalho por objetos é conhecida como escambo. 
A exploração do pau-brasil, principal atividade econômica desta época, era 
monopólio da coroa portuguesa. Esta podia conceder a exploração à particulares 
em troca do pagamento de 1/5 da madeira extraída. 
Nestes 30 anos de exploração do pau-brasil, houve devastação de grande 
parte da vegetação litorânea nativa. O pau-brasil foi praticamente eliminado das 
matas entre o litoral do Rio de Janeiro até o do Rio Grande do Norte. Neste 
período houve contrabando de pau-brasil praticado por europeus, principalmente 
franceses. 
A coroa portuguesa precisou enviar ao Brasil expedições de caráter militar 
para proteger a costa brasileira. Cristóvão Jacques comandou uma das principais 
expedições deste tipo, entre os anos de 1516 a 1526. 
 
Como pudemos analisar, durante os primeiros anos da efetivação da posse 
do território brasileiro pela coroa portuguesa (descobrimento ou “achamento” do 
Brasil), não houve um projeto de colonização efetiva, pois os interesses 
econômicos dos portugueses estavam voltados para o comércio de especiarias 
orientais, principalmente em razão da importância econômica da pimenta-do-
reino trazida das Índias. 
Desse modo, as relações econômicas que se desenvolveram nas terras 
brasileiras eram essencialmente extrativistas e dependiam do escambo entre 
indígenas e portugueses, segundo o qual, os nativos trabalhavam na extração do 
pau-brasil (procuravam, cortavam as árvores, atoravam e transportavam a 
madeira até as feitorias no litoral, onde a mesma era depositada em locais 
previamente preparados para o armazenamento dos produtos que seguiriam 
viagem para a Europa.) 
Em troca do trabalho empreendido, os indígenas recebiam dos 
portugueses produtos diversos, os quais, para os portugueses, eram de baixo 
valor econômico-comercial; entretanto, para os indígenas, eram produtos de valor 
inestimável, pois não havia qualquer possibilidade de os nativos fabricarem algo 
semelhante (facas, machados, foices, enxadas, espelhos, tesouras, anzóis...). 
Verifica-se nessa relação uma situação de relativa vantagem para ambos, 
pois enquanto a madeira seria comercializada na Europa como matéria-prima 
para as indústrias têxteis, os produtos europeus “facilitariam” o cotidiano dos 
indígenas brasileiros. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
Texto Complementar 
 
“Descoberto assim o território que haveria de constituir o Brasil, não se tardou muito em 
procurar aproveitá-lo. As perspectivas não eram brilhantes. O famoso Américo Vespúcio, 
que viajou como piloto alternadamente com espanhóis e portugueses, e que nos deu com 
suas cartas a primeira descrição do novo mundo, escreverá a respeito: "Pode-se dizer que 
não encontramos nada de proveito". E devia ser assim para aqueles navegantes-
mercadores que se tinham lançado em arriscadas empresas marítimas unicamente na 
esperança de trazerem para o comércio europeu as preciosas mercadorias do Oriente. Que 
interesse tinha para eles uma terra parcamente habitada por tribos nômades ainda na 
idade da pedra, e que nada de útil podiam oferecer? Assim mesmo, contudo, o espírito 
empreendedor daqueles aventureiros conseguiu encontrar algo que poderia satisfazer suas 
ambições. Espalhada por larga parte da costa brasileira, e com relativa densidade, 
observou-se uma espécie vegetal semelhante a outra já conhecida no Oriente, e de que se 
extraía uma matéria corante empregada na tinturaria. Tratava-se do pau-brasil, mais tarde 
batizado cientificamente com o nome de Caesalpinia echinata. Os primeiros contactos com 
o território que hoje constitui o Brasil, devem-se àquela madeira que se perpetuaria no 
nome do país. 
Não foi difícil obter que os indígenas trabalhassem; miçangas, tecidos e peças de vestuário, 
mais raramente canivetes, facas e outros pequenos objetos os enchiam de satisfação; e em 
troca desta quinquilharia, de valor ínfimo para os traficantes, empregavam-se arduamente 
em servi-los. Para facilitar o serviço e apressar o trabalho, também se presenteavam os 
índios com ferramentas mais importantes e custosas: serras, machados. Assim mesmo, a 
margem de lucros era considerável, pois a madeira alcançava grandes preços na Europa. O 
negócio, sem se comparar embora com os que se realizavam no Oriente, não era 
desprezível, e despertou bastante interesse.” 
 
(PRADO JR, Caio. História Econômica do Brasil. 
40ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1993)Unidade 14 - Economia Açucareira no Brasil Colonial 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivo: compreender que a ocupação efetiva da faixa litorânea da região 
nordeste e sudeste do território brasileiro, esteve essencialmente vinculada ao 
desenvolvimento da economia açucareira nesses locais. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
A efetiva colonização do Brasil deve-se à necessidade de ocupação dos 
territórios pertencentes à coroa portuguesa no litoral atlântico da América do Sul 
– conforme assegurava o Tratado de Tordesilhas, assinado com os espanhóis em 
1494 – e que, naquele momento, sofriam constantes ameaças de invasões 
estrangeiras, principalmente pelos franceses. 
 Conforme sugere a frase atribuída ao rei português D. João III, o 
colonizador, era necessário “ocupar para não perder”, visto que, frequentemente, 
embarcações francesas aportavam no Brasil e realizavam o escambo de pau-brasil 
com os nativos. 
 O nordeste brasileiro foi o ponto inicial da colonização, embora o primeiro 
engenho de cana-de-açúcar do Brasil tenha se instalado na região sul-sudeste, 
mais precisamente em São Vicente. 
 No decorrer dos séculos XVI e XVII, a região de São Vicente ficou 
economicamente marginalizada, pois no nordeste as condições climáticas (clima 
tropical quente e úmido) e pedológicas (solo de massapé) eram mais favoráveis, 
além do que, a região ficava mais próxima da Europa e isso facilitava a exportação 
do açúcar. 
 
“Na faixa litorânea, o Nordeste representou o primeiro centro de 
colonização e de urbanização da nova terra. (...) Até meados do 
século XVIII, a região nordestina concentrou as atividades 
econômicas e a vida social mais significativa da Colônia. (...) A 
empresa açucareira foi o núcleo central da ativação 
socioeconômica do Nordeste. O açúcar tem uma longa e variada 
história, tanto no que se refere a seu uso quanto à localização 
geográfica. (BORIS, Fausto. História Concisa do Brasil. São Paulo: 
Edusp, 2002, p. 38-39) 
 
Em 1534 foi instalado no Brasil o primeiro engenho de cana-de-açúcar, 
cujo nome era “Engenho de São Jorge dos Erasmos”. Localizado em São Vicente, 
esse engenho foi administrado pelo português Martim Afonso de Sousa, o qual, a 
partir de uma expedição oficial (organizada pela coroa portuguesa), iniciou 
efetivamente a colonização do Brasil. 
 Porém, analisando informações históricas a respeito do movimento de 
interiorização do território brasileiro, nós nos deparamos com a figura dos 
“paulistas” que, a partir do século XVI, focaram o povoamento no Planalto do 
Piratininga, após transporem a Serra do Mar devido ao declínio da atividade 
canavieira no litoral. 
Segundo Capistrano de Abreu em “Caminhos Antigos e Povoamento do 
Brasil”: 
“Depois de instalar São Vicente, Martim Afonso transpôs a serra de 
Paranapiacaba e criou outra vila, que posteriormente mudou de 
sede e nome, transformando-se insensivelmente na atual cidade de 
São Paulo.” 
 
A vila de São Paulo estava economicamente marginalizada, pois a 
concentração econômica do complexo açucareiro dos engenhos de cana-de-
açúcar encontrava-se no nordeste. 
Sobre a situação da vila de São Paulo, Belmonte escreveu: 
“Separada do mar, vive separada da metrópole. O isolamento a 
obriga a agir por si própria e bastar-se às suas necessidades (...), 
perdido no deserto, entregue a si próprio, São Paulo do Campo do 
Piratininga chega ao limiar do século XVII povoado por milhares de 
índios e menos de duzentos brancos (...), é evidente a pobreza da 
vila, pobreza que só se atenua no fim do século, com o advento do 
grande ciclo do ouro no bandeirismo paulista”. 
 
 Entretanto, no nordeste brasileiro, a economia açucareira encontrou as 
condições climáticas e pedológicas necessárias para pleno desenvolvimento da 
cana-de-açúcar, visando à produção de açúcar e aguardente para suprir as 
necessidades de consumo do mercado externo. 
A economia açucareira esteve estreitamente vinculada ao modelo de 
colonização de exploração, cujo objetivo era a obtenção de lucros no contexto do 
mercantilismo. 
 
Principais Características da Colonização de Exploração 
 Grandes propriedades rurais (latifúndios), monocultura de cana-de-açúcar, 
exploração da mão de obra escrava africana e produção destinada ao mercado 
externo (exportações), como forma de sustentar a metrópole no contexto 
mercantilista. 
 Produção de açúcar – para suprir a demanda de consumo das nações 
europeias – e de aguardente – produto utilizado como moeda de troca no 
mercado de escravos africanos. 
O advento da economia açucareira no Brasil está diretamente vinculado ao 
início da utilização da mão de obra escrava africana. Foi durante a economia 
açucareira que se empreendeu a substituição da exploração da mão de obra 
indígena pela mão de obra escrava africana, mais precisamente durante as 
décadas de 1870, 1880 e 1890, quando os negros representavam 
aproximadamente 40% da força de trabalho empregada nos engenhos e, a partir 
de 1638, compunham a totalidade dos trabalhadores, uma vez que o tráfico de 
escravos também proporcionava vultosos lucros no contexto das relações 
comerciais mercantilistas. 
Durante décadas, informações imprecisas afirmavam ser o negro mais forte 
do que o indígena brasileiro e, portanto, mais apto ao árduo trabalho nas 
lavouras, porém historiadores contemporâneos encontraram no fator da 
acumulação de capitais, através do tráfico negreiro, o real motivo da preferência 
pela escravidão negra. 
 
“Os cativos realizavam um grande número de tarefas, sendo 
concentrados em sua maioria nos pesados trabalhos do campo. A 
situação de quem trabalhava na moenda, nas fornalhas e nas 
caldeiras poderia ser pior. (...) Muitos cativos eram treinados desde 
cedo para esse serviço, considerado também um castigo para os 
rebeldes (Idem, p. 41) 
 
Participação dos Holandeses na Economia Açucareira 
Desde os primeiros tempos da economia açucareira, os holandeses tiveram 
papel relevante com seus investimentos e financiamentos, pois a instalação de um 
engenho e a aquisição de escravos requeria o emprego de vultosas somas, as 
quais eram proporcionadas pelos banqueiros holandeses, interessados, 
obviamente, na obtenção do lucro posterior. 
 Essa relação econômica existente entre Portugal, Brasil e Holanda, foi 
rompida na ocasião da União Ibérica (1580-1640), quando Portugal passou ao 
domínio espanhol, formando o Império Colonial Ibérico, sob o comando do rei 
Filipe II da Espanha. 
 No contexto da União Ibérica, os portos brasileiros foram fechados para os 
navios holandeses, ou seja, o lucrativo comércio açucareiro e a estreita relação 
econômica entre Brasil e Holanda foram rompidos. 
 
“A consequência mais significativa da união das duas coroas se 
deu no plano das relações internacionais. A proximidade entre 
Portugal e os Países Baixos desaparecia, dando lugar a um período 
de confrontação aberta, como decorrência do conflito existente 
entre os Países Baixos e a Espanha. No mundo colonial americano, 
a luta girou em torno do comércio de açúcar (...)” (Idem, p. 44-45) 
Em decorrência desse episódio e pretendendo retomar as relações 
econômico-açucareiras, os holandeses invadiram o litoral nordeste brasileiro – 
principal região produtora de açúcar – e ali permaneceram por um período de 24 
anos (1630-1654), denominando a região de “Brasil Holandês”. 
Com a Restauração Portuguesa em 1640, desenrolou-se no Brasil, entre os 
anos de 1644-1654, uma luta contra os holandeses, denominada “Insurreição 
Pernambucana”, cujo desfecho na Batalha dos Guararapes, em 1654, foi a 
expulsão dos mesmos que, a partir de então, iniciaram uma produçãode açúcar 
nas Antilhas, concorrendo de forma desvantajosa para o Brasil com o açúcar 
brasileiro e, consequentemente, provocaram a decadência da economia 
açucareira nordestina. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
“Os donatários, que em regra não dispunham de grandes recursos próprios, 
levantaram fundos tanto em Portugal como na Holanda, tendo contribuído em boa parte 
banqueiros e negociantes judeus. A perspectiva principal do negócio está na cultura da 
cana-de-açúcar. Tratava-se de um produto de grande valor comercial na Europa. (...) O 
clima quente e úmido da costa ser-lhe-ia altamente favorável; e quanto à mão de obra, 
contou-se a princípio com os indígenas que, como vimos, eram relativamente numerosos e 
pacíficos no litoral. Estas perspectivas seriam amplamente confirmadas; o único fator ainda 
ignorado antes da tentativa, a qualidade do solo, revelar-se-ia surpreendentemente 
propício, em alguns pontos pelo menos da extensa costa. Foi o caso, particularmente do 
Extremo-Nordeste, na planície litorânea hoje ocupada pelo Estado de Pernambuco; e do 
contorno da baía de Todos os Santos (o Recôncavo baiano, como seria chamado). Não 
seriam, aliás, os únicos: de uma forma geral, toda a costa brasileira presta-se ao cultivo da 
cana-de-açúcar. É nesta base, portanto, que se iniciarão a ocupação efetiva e a colonização 
do Brasil. Sem entrar nos pormenores das vicissitudes sofridas pelos primeiros colonos, seus 
sucessos e fracassos, examinemos como se organizará sua economia. O regime de posse da 
terra foi o da propriedade alodial e plena. Entre os poderes dos donatários das capitanias 
estava, como vimos, o de disporem das terras, que se distribuíram entre os colonos. As 
doações foram em regra muito grandes, medindo-se os lotes por muitas léguas. O que é 
compreensível: sobravam as terras, e as ambições daqueles pioneiros recrutados a tanto 
custo, não se contentariam evidentemente com propriedades pequenas; não era a posição 
de modestos camponeses que aspiravam no novo mundo, mas de grandes senhores e 
latifundiários. Além disso, e sobretudo por isso, há um fator material que determina este 
tipo de propriedade fundiária. A cultura da cana somente se prestava, economicamente, a 
grandes plantações. Já para desbravar convenientemente o terreno (tarefa custosa neste 
meio tropical e virgem tão hostil ao homem) tornava-se necessário o esforço reunido de 
muitos trabalhadores; não era empresa para pequenos proprietários isolados. Isto feito, a 
plantação, a colheita e o transporte do produto até os engenhos onde se preparava o 
açúcar, só se tomava rendoso quando realizado em grandes volumes. Nestas condições, o 
pequeno produtor não podia subsistir. São, sobretudo, estas circunstâncias que 
determinarão o tipo de exploração agrária adotada no Brasil: a grande propriedade. 
(...) a organização das grandes propriedades açucareiras da colônia foi sempre, 
desde o início, mais ou menos a mesma. É ela a grande unidade produtora que reúne, num 
mesmo conjunto de trabalho produtivo, um número mais ou menos avultado de indivíduos 
sob a direção imediata do proprietário ou seu feitor. (...) O seu elemento central é o 
engenho, isto é, a fábrica propriamente, onde se reúnem as instalações para a manipulação 
da cana e o preparo do açúcar. O nome de "engenho" estendeu-se depois da fábrica para o 
conjunto da propriedade com suas terras e culturas: "engenho" e "propriedade canavieira" 
se tornaram sinônimos. Embora o proprietário explore, em regra, diretamente suas terras 
(como ficou entendido acima), há casos frequentes em que cede partes delas a lavradores 
que se ocupam com a cultura e produzem a cana por conta própria, obrigando-se contudo 
a moerem sua produção no engenho do proprietário. São as chamadas fazendas obrigadas; 
o lavrador recebe metade do açúcar extraído da sua cana, e ainda paga pelo aluguel das 
terras que utiliza urna certa porcentagem, variável segundo o tempo e os lugares, e que vai 
de 5 a 20%. (...) Os lavradores, embora estejam socialmente abaixo dos senhores de 
engenho, não são pequenos produtores, da categoria de camponeses. Trata-se de senhores 
de escravos, e suas lavouras, sejam em terras próprias ou arrendadas, formam como os 
engenhos grandes unidades. 
A razão por que nem todas as propriedades dispõem de engenho próprio são as 
proporções e o custo das instalações necessárias. O engenho é um estabelecimento 
complexo, compreendendo numerosas construções e aparelhos mecânicos: moenda (onde a 
cana é espremida); caldeira, que fornece o calor necessário ao processo de purificação do 
caldo; casa de purgar, onde se completa esta purificação. Além de outras, o que todas as 
propriedades possuem é, em regra, a casa-grande, a habitação do senhor; a senzala dos 
escravos; e instalações acessórias: oficinas, estrebarias, etc. Suas terras, além dos canaviais, 
são reservadas para outros fins: pastagens para animais de trabalho; culturas alimentares 
para o pessoal numeroso; matas para fornecimento de lenha e madeira de construção. A 
grande propriedade açucareira é um verdadeiro mundo em miniatura em que se concentra 
e resume a vida toda de uma pequena parcela da humanidade.” 
 
(PRADO JR, Caio. História Econômica do Brasil. 
 
 
Unidade 15 - Economia mineradora no Brasil colonial 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivo: Estudar a economia mineradora e as diversas transformações 
provocadas pela “corrida do ouro” e ocupação das terras na região das Minas 
Gerais. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
Após algumas décadas percorrendo o interior do território brasileiro, os 
paulistas, enfim, realizariam um velho sonho dos colonizadores do Brasil, 
descobririam as primeiras minas de ouro no interior do território brasileiro. 
“Em 1695, no rio das Velhas, próximo às atuais Sabará e Caeté, no 
Estado de Minas Gerais, ocorreram as primeiras descobertas 
significativas de ouro. A tradição associa essas primeiras 
descobertas ao nome de Borba Gato, genro de Fernão Dias, 
conhecido como “o caçador de Esmeraldas’. Durante os quarenta 
anos seguintes, foi encontrado ouro em Minas Gerais, na Bahia, 
em Goiás e Mato Grosso”. (BORIS, Fausto. História Concisa do 
Brasil. São Paulo: Edusp, 2002, p. 52) 
 
 A mineração provocou profundas transformações no cotidiano da colônia e 
da metrópole, pois tão logo a informação da descoberta de ouro chegou a 
Portugal, a coroa reorientou o modelo de exploração, fiscalização e tributação 
colonial; afinal de contas, esse metal era sinônimo de riqueza nacional para as 
nações mercantilistas europeias e, dentro desse contexto econômico, era 
necessário acumular o máximo possível de ouro e prata, evitando de todas as 
formas o contrabando e a sonegação de impostos. 
 O ouro também atraiu a atenção dos brasileiros que viviam na região 
litorânea nordestina, a qual se encontrava em decadência em razão do declínio 
das atividades açucareiras após a expulsão dos holandeses e o início da 
concorrência do açúcar produzido nas Antilhas. 
 
Tributação e Fiscalização na Região Mineradora 
 Quinto: determinava que um quinto, ou seja, 20% de todo o ouro extraído 
no Brasil pertenceria à coroa portuguesa. 
 
 Capitação ou Capitalização: imposto cobrado (17g per capita) sobre o 
número de escravos maiores de 12 anos empregados na região 
mineradora. Os mineradores sem escravos pagavam o imposto sobre si 
mesmos. 
 Finta: estabelecia um mínimo de arrecadação anual de 100 arrobas de 
quinto acumulado, sendo que, se esse mínimo não fosse atingido, os 
mineradores deveriam completar a diferença. 
 Casas de Fundição: tinha a finalidade de pesar, “quintar” (tirar o quinto), 
fundir o ouro em barras e marcar com o brasãoda coroa portuguesa. Para 
complementar essa medida, foi determinada a proibição da circulação do 
ouro em pó. 
 Essas determinações tinham por objetivo aumentar a arrecadação tributária 
da coroa portuguesa no Brasil, pois, desde a Restauração (1640), a economia de 
Portugal encontrava-se desestabilizada, devido aos efeitos negativos da União 
Ibérica (1580-1640). 
Alguns movimentos de contestação eclodiram na região em razão dos 
pesados tributos, entre os quais se destaca a Sedição ou Revolta de Filipe dos 
Santos (1720), o qual protestava contra a instalação das Casas de Fundição. Após 
executar o líder dessa rebelião, a coroa portuguesa determinou a diminuição do 
quinto para 12%, porém, o nome do tributo foi mantido. 
Entretanto, a ação da coroa portuguesa não atingiu os objetivos 
pretendidos, pois a distância, a corrupção e a sonegação, dificultavam o trabalho 
dos funcionários reais. 
 
Consequências da Mineração 
 Conforme fora citado anteriormente, a mineração trouxe uma série de 
transformações para a colônia, entre as quais podemos citar: 
 Deslocamento do eixo econômico e demográfico do nordeste açucareiro 
(litoral) para o sudeste minerador (interior), promovendo a interiorização 
do território brasileiro. 
 
 Crescimento demográfico, em decorrência da intensa imigração 
portuguesa, uma vez que os mesmos estavam interessados na exploração 
e, se possível, no controle da região das minas. 
 Deslocamentos populacionais (migrações) internos, devido ao afluxo de 
nordestinos, paulistas e gaúchos para a região mineradora. 
 Desenvolvimento do comércio interno, pois era necessário suprir as 
necessidades básicas de consumo (charque, farinha de mandioca, pólvora, 
rapadura, cachaça...) dos moradores da região das Minas Gerais. 
 Surgimento de novos grupos sociais (proprietários de lavras, funcionários 
da coroa, advogados, padres, militares, comerciantes, tropeiros, artesãos, 
artistas e escravos), tornando a sociedade mineradora mais flexibilizada 
quando comparada à sociedade açucareira (senhores de engenho e 
escravos). 
 Fundação de arraiais, vilas e cidades (urbanização) em decorrência da 
exploração aurífera. 
O apogeu da mineração no Brasil encontra-se entre os anos de 1733 a 
1748, começando a declinar a partir dessa data e, mesmo durante a fase de 
esplendor, outras atividades complementavam a economia, tais como: a pecuária, 
a produção de farinha de mandioca, rapadura, açúcar e cachaça. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
O texto abaixo, do economista e historiador Celso Furtado, apresenta-nos, 
didaticamente, a relação existente entre a economia mineradora do Brasil e a 
dependência econômica de Portugal para com a Inglaterra, desde a assinatura do 
Tratado de Methuen em 1703, também conhecido como Tratado dos Panos e 
Vinhos, pois estabelecia uma relação bilateral (desvantajosa para os portugueses) 
entre essas duas nações. 
 
“O ciclo do ouro brasileiro trouxe um forte estímulo ao desenvolvimento manufatureiro, 
uma grande flexibilidade à sua capacidade para importar, e permitiu uma concentração de 
reservas que fizeram do sistema bancário inglês o principal centro financeiro da Europa. A 
Portugal, entretanto, a economia do ouro proporcionou apenas uma aparência de riqueza, 
repetindo o pequeno reino a experiência da Espanha no século anterior. Como agudamente 
observou Pombal, na segunda metade do século, o ouro era uma riqueza puramente fictícia 
para Portugal: os próprios negros que trabalhavam nas minas tinham que ser vestidos 
pelos ingleses. Contudo, nem mesmo Pombal, que tinha uma visão lúcida da situação da 
dependência política em que vivia seu país e uma vontade de ferro, conseguiu modificar 
fundamentalmente as relações com a Inglaterra. Na verdade, essas relações constituíam 
uma ordem superior de coisas sem a qual não seria fácil explicar a sobrevivência do 
pequeno reino como Metrópole de um dos mais ricos impérios coloniais da época. 
(...) O último quartel do século XVIII veria a decadência da mineração do ouro no Brasil. A 
Inglaterra já havia, sem embargo, entrado em plena revolução industrial. As necessidades 
de mercados cada vez mais amplos para as manufaturas em processo de rápida 
mecanização impõem nesse país o abandono progressivo dos princípios protecionistas. 
O tratado de Methuen, que criava uma situação de privilégio para os vinhos portugueses 
no mercado inglês, é fortemente criticado do ponto de vista dos novos ideais liberais. O 
problema fundamental da Inglaterra passa a ser a abertura dos grandes mercados 
europeus para as suas manufaturas, e com esse fim tornava-se indispensável eliminar as 
ataduras da era mercantilista. 
Com efeito, no tratado de 1786, firmado com a França, a Inglaterra pôs praticamente fim ao 
privilégio aduaneiro que desde o começo do século haviam gozado os vinhos portugueses 
em seu mercado, única contrapartida econômica, que recebera Portugal nos cento e 
cinquenta anos anteriores de vassalagem econômica. 
Em suas memórias, o Marquês de Pombal afirma categoricamente que a Inglaterra havia 
reduzido Portugal a uma situação de dependência, conquistando o reino sem os 
inconvenientes de uma conquista militar: que todos os movimentos do governo eram 
regulados de acordo com os desejos da Inglaterra.” 
 
FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Nacional, 2005. 
 
 
Unidade 16 - Renascimento agrícola 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivo: Compreender a economia do período de transição entre a 
economia açucareira nordestina e o advento da cafeicultura no Rio de Janeiro e 
Vale do Paraíba. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
Conforme o ouro escasseava, buscava-se uma alternativa econômica viável 
e, nesse momento de transição do século XVIII para o XIX, a agricultura volta a ser 
a atividade de destaque, porém, na ausência de um produto-chave, como outrora 
fora a cana-de-açúcar, verifica-se uma diversificação agrícola, cujos principais 
produtos eram: cana-de-açúcar, algodão, tabaco, cacau, café, entre outros. 
A retomada da atividade agrícola brasileira é uma consequência de 
diversos fatores internos e externos. Internamente ocorria o declínio da atividade 
mineradora, fato que exigia um redirecionamento econômico. Externamente, mais 
precisamente na Europa, ocorriam consecutivamente a Revolução Industrial e o 
crescimento da população urbana. 
 Nesse contexto, o Brasil se posicionaria como país periférico, ou seja, 
fornecedor de matérias-primas e produtos agrícolas (alimentos) para as nações 
industrializadas. 
O algodão tornar-se-ia o principal produto das exportações brasileiras 
desse período, pois era a matéria-prima da Revolução Industrial Inglesa. Desde 
1776, as relações entre a metrópole inglesa e suas colônias na América do Norte 
foram rompidas pela Declaração de Independência dos Estados Unidos da 
América, ocasião na qual travaram uma Guerra de Independência (1776-1783) 
contra a Inglaterra. 
Durante esse período de conflito, o Brasil tornou-se o principal fornecedor 
de algodão para as indústrias têxteis inglesas, contribuindo positivamente com a 
retomada das atividades agrícolas brasileiras (Renascimento Agrícola). 
Boris Fausto (2008) defende que a grande propriedade se impôs na 
Economia brasileira. O sistema de plantation, ou seja, a monocultura, utilizando a 
mão de obra escrava foi a base para a produção em larga escala destinada 
principalmente à exportação. O Vale do Paraíba, região que se estende do Rio a 
São Paulo, ofereceu território fértil para o início de um rico ciclo cafeeiro no Brasil. 
Prevalecia no Brasil a lei do mais forte, isto é, quem tinha mais condições 
de explorar a terraaproveitava, expandia seu território e lucrava com a produção, 
Segundo Fausto (2008): 
 
Para implantar uma fazenda de café, o fazendeiro tinha de fazer 
investimentos significativos, que incluíam a derrubada da mata, o 
preparo da terra, o plantio, as instalações e a compra de escravos. 
Além disso, se o cafeeiro é uma planta perene – ou seja, o plantio 
não deve ser renovado a curto prazo – as primeiras colheitas só 
ocorrem após quatro anos. (p.187) 
 
O mercado interno brasileiro não consumia, principalmente porque a 
produção do café era feita em larga escala. Portanto, o Brasil dependia do 
mercado externo. Os Estados Unidos tornaram-se o principal consumidor do café 
brasileiro, além da Alemanha e Escandinávia. Porém, mesmo que a produção 
fosse tão volumosa, as técnicas para o trabalho nos cafezais ainda eram simples e 
o sistema de transporte era precário: 
 
 
Antes da construção das ferrovias, o transporte era feito por 
tropas de burros, a carga de uma guia chamada de arreador e de 
tropeiros escravos. Essas tropas percorriam várias vezes por ano 
os caminhos que iam dom vale do Paraíba ao Rio de Janeiro. Na 
ida, carregavam a produção da fazenda e na volta traziam 
ferramentas e mantimentos, como bacalhau, carne-seca e 
toucinho. (FAUSTO, 2008, p.188) 
 
O capital inglês ajudou em grande parte para o desenvolvimento da região 
já que era necessária a construção de estradas de ferro para o transporte do café. 
Em 1868, foi construída a estrada de ferro que ligava Santos a Jundiaí por uma 
companhia inglesa, a São Paulo Railway Co. Limited (SPR). A empresa não se 
interessou por estender as estradas até Rio Claro e, então, os próprios fazendeiros 
financiaram a construção da estrada de ferro, Boris Fausto (2008) enaltece o fato, 
dizendo: A Companhia Paulista de Estradas de Ferro surgiu como uma empresa 
formada com capitais brasileiros ligados aos negócios do café (p.201). 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
“(...) Ocorre na segunda metade do século mais um fator particular que estimula a 
agricultura brasileira. Até então, o grande gênero tropical fora o açúcar. Outro virá 
emparelhar-se a ele, e sobrepujá-lo-á em breve: o algodão. Embora conhecido 
imemorialmente, o papel do algodão nunca fora de destaque; em particular na Europa, 
onde nada havia que o avantajasse às fibras de produção local então utilizadas para os 
mesmos fins que ele: o linho ou a lã. Os progressos técnicos do séc. XVIII permitirão o seu 
aproveitamento em medida quase ilimitada, e ele se tornará a principal matéria-prima 
industrial do momento, entrando para o comércio internacional em proporções que este 
desconhecia ainda em qualquer outro ramo. Arkwright constrói o seu fuso em 1769, no 
mesmo ano em que Watt obtém patente para a máquina a vapor que tornaria possível o 
emprego desta energia em larga escala. Em 1787 Cartwright inventa o tear mecânico. São 
datas preciosas para o Brasil. O consumo do algodão na Inglaterra, o grande centro da 
indústria têxtil moderna, acompanha estas datas. Não ia no quinquênio 1771/5 além de 
4,76 milhões de libras (peso); no penúltimo do século (1791/5), logo depois da introdução 
do tear mecânico, atingirá 26 milhões. Já não bastavam para este volume considerável os 
antigos e tradicionais fornecedores do Oriente; e a América, aproveitando suas reservas 
imensas de terras virgens, virá preencher a falta e tornar-se-á o grande produtor 
moderno do algodão. O Brasil terá sua parte que a princípio não é pequena, neste surto 
sem paralelo no passado do comércio algodoeiro.O algodão é produto nativo da 
América, inclusive do Brasil, e já era utilizado pelos nossos indígenas antes da vinda dos 
europeus. Com a colonização o seu cultivo se difundiu. Fiado e tecido em panos 
grosseiros, servia para vestimenta dos escravos e classes mais pobres da população. 
Exportou-se mesmo, ocasionalmente, em pequenas quantidades; e na falta da moeda, os 
novelos de fio e panos de algodão chegaram a circular em certas regiões como tal; hábito 
que tanto se arraigou, que no Maranhão, p. ex., exprimiam-se ainda naquelas 
mercadorias, em princípios do séc. XIX, os valores monetários locais: novelo de fio, por 
100 réis: e rolo de pano, por 10$000. Mas até o terceiro quartel do séc. XVIII, quando 
começa a ser exportado regularmente, o algodão nada mais representa que uma 
insignificante cultura de expressão local e valor mínimo. É somente quando se torna 
mercadoria de grande importância no mercado internacional que o algodão começa a 
aparecer, tornando-se mesmo uma das principais riquezas da colônia. 
 Verifica-se aí, mais uma vez, o papel que representa na economia brasileira a 
função exportadora: é ela o fator único determinante de qualquer atividade econômica 
de vulto. E isto se comprovará novamente neste mesmo setor da produção algodoeira, 
pouco depois do período que ora nos ocupa, quando vem o reverso da medalha e a fibra 
brasileira é desbancada e quase excluída do mercado internacional pelos seus 
concorrentes. A produção decairá logo em seguida, e as regiões produtoras que não 
contaram com um substituto, encerram com um colapso sua brilhante e curta trajetória. A 
primeira remessa de algodão brasileiro para o exterior (com exclusão daquela remessa 
pequena e intermitente exportação do séc. XVI, referida acima e que não progrediu), 
data, ao que parece, de1760, e provém do Maranhão que neste ano exporta 651 arrobas. 
De Pernambuco exporta-se a partir de 1778, sendo em quantidade insignificante até 1781. 
A Bahia e o Rio de Janeiro seguirão o passo. Mas é no Maranhão que o progresso da 
cultura algodoeira é mais interessante, porque ela parte aí do nada, de uma região pobre 
e inexpressiva no conjunto da colônia. O algodão dar-lhe-á vida e transformá-la-á, em 
poucos decênios, numa das mais ricas e destacadas capitanias. Deveu-se isto em 
particular à Companhia geral do comércio do Grão-Pará e do Maranhão, concessionária 
desde 1756 do monopólio desse comércio. 
 É esta companhia que fornecerá créditos, escravos e ferramentas aos lavradores; 
que os estimulará a se dedicarem ao algodão, cuja favorável conjuntura começava a se 
delinear. A Companhia não colherá os melhores frutos do seu trabalho: extingue-se em 
1777 com a cessação do seu privilégio que não é renovado. Mas o impulso estava dado, e 
o Maranhão continuará em sua marcha ascendente. Será ultrapassado mais tarde por 
Pernambuco e Bahia, que contavam ao se lançarem na empresa com recursos de gente e 
capitais muito mais amplos. Mas o Maranhão terá, pelo menos num momento, seu lugar 
no grande cenário da economia brasileira. 
 
(PRADO JR, Caio. História Econômica do Brasil. 
40ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1993) 
 
 
Unidade 17. Economia Cafeeira 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivo: Analisar a economia cafeeira, principal atividade econômica a 
partir de meados do século XIX, responsável por um conjunto de transformações 
econômicas, sociais e políticas no Brasil. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
A cafeicultura desenvolveu-se plenamente no Brasil durante a segunda 
metade do século XIX. Embora haja registros de que as primeiras sementes de 
café tenham chegado ao Pará, ainda no século XVIII, obtidas as primeiras mudas, 
foram usadas apenas como planta ornamental. Foi na região sudeste (Rio de 
Janeiro, São Paulo e Minas Gerais) que a atividade cafeeira teve finalidades 
comerciais. 
 A partir de meados do século XIX, o mercado consumidor externo 
expandiu-se em decorrência de vários fatores, entre os quais podemos destacar o 
hábito das camadas médias da sociedade norte-americana e europeia de 
consumir café. 
 Também encontramos registros de que o café era a bebidada razão e, 
desde a difusão dos ideais iluministas pela Europa no século XVIII, era a bebida 
preferida dos pensadores, escritores, cientistas, intelectuais e comerciantes, pois 
“clareava” as ideias, ao contrário do álcool que as ofuscava. 
 
 
 
 
 
“Café, a bebida sóbria, o poderoso alimento do cérebro, que, ao 
contrário de outros destilados, eleva a pureza e a lucidez; o café, 
que remove da imaginação as nuvens e seu peso sombrio e que 
ilumina a realidade das coisas de repente com o brilho da 
verdade”.(Jules Michelet, historiador francês: 1798-1874) 
 
“A propagação do racionalismo pela Europa foi espelhada pela 
difusão de uma nova bebida, o café, que promovia acuidade e 
clareza de pensamento”. (STANDAGE, Tom. História do mundo 
em 6 Copos. Rio de Janeiro: ZAHAR, 2005) 
 
Entretanto, não foram esses pensadores e intelectuais os responsáveis pelo 
aumento da demanda do produto no exterior. As camadas médias e baixas da 
sociedade também adquiriram o hábito de beber café. A industrialização das 
nações ocidentais europeias e norte-americana contribuiu significativamente para 
a ampliação das exportações do produto, pois, segundo consta, o café mantinha 
os indivíduos despertos e aptos ao trabalho nas longas jornadas diárias dentro 
das indústrias. 
A produção de café com finalidades comerciais iniciou-se no Rio de 
Janeiro, pois ali havia terras disponíveis e uma maior proximidade com o litoral 
Atlântico, fundamental para realizar as exportações do produto. 
 As fazendas de café no Rio de Janeiro e no Vale do Paraíba (para onde o 
cultivo expandiu-se nos primeiros anos do século XIX) apresentavam uma 
característica tradicional de produção, ou seja, grandes propriedades (latifúndios), 
monocultura, mão de obra escrava africana e produção destinada ao mercado 
externo (exportações). 
 Quando a expansão das lavouras atingiu o Oeste Paulista, em meados no 
século XIX, o modelo tradicional foi substituído pelo modelo empresarial, o qual, 
entre outras características, adotou a mão de obra livre (assalariada) dos 
imigrantes europeus. 
Rio de Janeiro e Vale do Paraíba: modelo tradicional – técnicas rudimentares de 
cultivo (enxada e foice) e utilização da mão de obra escrava africana – baixa 
produtividade. 
“Os instrumentos de trabalho básicos e quase exclusivos da grande 
lavoura cafeeira foram a enxada e a foice. Os escravos ajustaram-
se a essas ferramentas tradicionais do trabalhador da terra no 
Brasil, e as condições topográficas do vale do Paraíba favoreceram 
seu uso.” (FAUSTO, Boris. História Concisa do Brasil) 
 
Oeste Paulista: modelo empresarial – novas técnicas de cultivo (arado e 
despolpador de grãos) e utilização da mão de obra assalariada dos imigrantes – 
maior produtividade. 
 
“No grande planalto do interior de São Paulo reuniam-se as 
condições mais favoráveis de solo e de clima para a lavoura do 
café. Aí se encontra a terra roxa, de alta produtividade (...). Embora 
não devamos exagerar nos avanços tecnológicos, foi no Oeste 
Paulista que se introduziram o arado e o despolpador. Este 
significou uma verdadeira revolução na técnica de descascamento 
de grãos.” (Idem) 
 
O desenvolvimento da cafeicultura no Oeste Paulista, em detrimento do 
Vale do Paraíba, deu origem a uma nova classe social: a burguesia cafeeira que, 
diferentemente dos antigos latifundiários açucareiros do nordeste brasileiro, 
destinaram os excedentes de capitais para outras áreas da economia, tais como as 
indústrias de bens de consumo não-duráveis (alimentos, bebidas e têxteis). 
Durante a segunda metade do século XIX, principalmente a partir de 1870, 
verificou-se um surto de industrialização no Brasil, especificamente em São Paulo. 
Porém, tal industrialização foi efêmera, pois a cafeicultura representava a 
principal atividade econômica nacional e, quando o preço do café oscilava no 
mercado internacional diminuindo os lucros, diminuíam-se também os 
investimentos no segmento industrial. 
Nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX, o preço 
do café diminuía vertiginosamente, pois além das supersafras internas, que 
aumentavam a oferta do produto, internacionalmente ocorriam crises econômicas 
nas nações liberais industrializadas e as importações de café eram diminuídas. 
A partir das décadas de 30 e 40 (Era Vargas), ocorreria o início da 
industrialização brasileira e o café seria apenas mais um produto das exportações 
brasileiras. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
O mercado mundial do café se ampliava, na medida em que o produto 
deixava de ser um artigo de luxo para se incorporar à cultura e ao consumo 
cotidiano das populações em diversos lugares do mundo. A participação do café 
brasileiro no mercado mundial elevou-se de 20% na década de 1820 para mais de 
50%, entre 1880 e 1889. 
 
 
 
Estruturada a princípio na grande propriedade agroexportadora e na mão 
de obra escrava, a economia cafeeira, a partir da segunda metade do século XIX, 
passou a adotar progressivamente o trabalho livre. O tráfico negreiro foi extinto 
em 1850, e a expansão da lavoura cafeeira no Oeste Paulista aumentava a 
necessidade de mão de obra. Com o objetivo de atrair imigrantes para o Brasil, o 
governo lançou campanhas na Europa, distribuindo folhetos que prometiam terra 
e fartura. 
O comércio exterior se dinamizou, com a exportação crescente de café e a 
importação de produtos franceses e ingleses para atender aos novos núcleos 
urbanos, estimulando o desenvolvimento do sistema bancário. 
A expansão da cafeicultura brasileira deu-se no contexto da Segunda 
Revolução Industrial, desencadeada, sobretudo na Inglaterra. Interessados em 
expandir seus mercados, os investidores ingleses aplicaram vultosos recursos no 
Brasil. 
A influência da Inglaterra na economia brasileira vinha desde os tempos 
coloniais, e se ampliou quando a família real transferiu-se para o Brasil em 1808. 
No século XIX, o capital inglês tomou-se ainda mais presente na economia 
brasileira, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, com investimentos na 
construção de ferrovias, portos e no transporte urbano. A feição dos centros 
urbanos se modificou, contando com mais estabelecimentos comerciais, bancos, 
iluminação, telégrafos, um novo traçado das ruas e, já no final do século XIX, a 
presença de bondes elétricos, em substituição aos de tração animal. 
 
Unidade 18 - Industrialização 
 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivo: Ressaltar a importância e o processo da industrialização brasileira. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
A Primeira Guerra Mundial, ocorrida entre 1914 e 1918, favoreceu o 
crescimento do setor industrial brasileiro durante a República Velha. Neste 
período a indústria europeia estava totalmente concentrada na produção de 
armas, munições, veículos de transporte e medicamentos necessários para o 
esforço de guerra. Dessa forma, as indústrias europeias deixaram de produzir 
mercadorias para o resto do mundo. 
Mas havia limites nesse processo, pois no Brasil ainda não havia indústria 
de base, indústria pesada, tais como indústria siderúrgica e metalúrgica. Nesse 
período a indústria brasileira começou a se diversificar e desenvolver. 
O capital para financiar a industrialização brasileira veio da agro 
exportação, principalmente do Café. A economia agroexportadora brasileira foi 
responsável pela montagem de canais de escoamento da produção, tais como a 
construção de portos e ferrovias. 
A posse de Getúlio Vargas simbolizou o final da República Velha e o início 
de novos tempos, mas o que de fato ocorreu foi um rearranjo, uma acomodação 
dos interesses das elites, umaruptura com “continuísmo”, pois a elite cafeeira 
paulista, que esteve no poder, direta ou indiretamente durante aproximadamente 
35 anos, foi afastada, mas outras elites pertencentes ao grupo que chegou ao 
poder foram beneficiadas. 
 Em 1940, foi oficialmente estabelecido um salário mínimo, o qual deveria 
satisfazer às necessidades básicas dos trabalhadores, quais sejam: alimentação, 
moradia, transporte, vestuário e lazer. Embora tais necessidades tenham se 
modificado substancialmente com o passar das décadas, é evidente que o poder 
de compra do salário mínimo não era significante. 
Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939) e o enfrentamento dos 
nazifascistas alemães e italianos na Europa, o governo viu-se obrigado a se 
posicionar em relação ao conflito. Embora na esfera política houvesse 
simpatizantes de ambos os lados, Vargas conseguiu manter-se neutro até 1942, 
tentando angariar vantagens econômicas em troca de apoio ideológico-militar. 
 Negociava tanto com os alemães quanto com os Estados Unidos. Enquanto 
alguns oficiais da FAB (Força Aérea Brasileira) viajaram para a Alemanha e se 
encontraram com o todo poderoso chefe da propaganda nazista Hermann 
Göring, seu ministro das relações internacionais, Osvaldo Aranha, viajou para 
Washington para negociar com o presidente Roosevelt. 
 O ataque militar japonês a Pearl Harbour, em dezembro de 1941, provocou 
a declaração de guerra dos EUA ao eixo, forçando o Brasil a se decidir 
rapidamente. 
Com as promessas norte-americanas de que o Export-Import Bank 
(Eximbank) financiaria a construção da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta 
Redonda/RJ, o Brasil, em agosto de 1942, declarou guerra ao eixo, em apoio aos 
países aliados, em especial aos Estados Unidos, permitindo a esse país instalar 
bases militares no litoral nordeste brasileiro. 
 Os anos de governo do presidente Juscelino Kubitschek foram 
denominados “Anos Dourados”, devido ao modelo político-econômico nacional-
desenvolvimentista, isto é, um misto de investimentos público-privados, no qual o 
governo assumia o compromisso de investir nos setores estratégicos da economia 
(energia, transporte, alimentação, educação e industrialização de base), enquanto 
os investimentos estrangeiros seriam destinados principalmente para a 
implantação de indústrias de bens de consumo, sobretudo para as 
automobilísticas. 
A construção de Brasília – a nova Capital Federal – foi a principal realização 
desse governo. A Novacap foi a empresa estatal responsável pela administração 
das obras, as quais só foram possíveis graças aos convênios entre as principais 
empreiteiras do país. 
A proposta de planejamento e estudo para a mudança da capital já estava 
prevista nas Constituições de 1891, 1934, 1937 e 1946, entretanto Juscelino 
Kubitschek, ainda em campanha presidencial, assumiu um compromisso público 
com esse artigo constitucional, pois afirmava que a integração nacional era 
necessária e Brasília, construída na região Centro-Oeste, dentro do Estado de 
Goiás, distando algumas dezenas de quilômetros da divisa do Estado de Minas 
Gerais, seria o epicentro de tal integração. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
A industrialização brasileira 
Publicado por: Eduardo de Freitas 
 
Engenhos de açúcar primeira etapa da indústria no país. 
 
O Brasil é considerado um país emergente ou em desenvolvimento. Apesar disso, está 
quase um século atrasado industrialmente e tecnologicamente em relação às nações que 
ingressaram no processo de industrialização no momento em que a Primeira Revolução 
Industrial entrou em vigor, como Inglaterra, Alemanha, França, Estados Unidos, Japão e 
outros. 
As indústrias no Brasil se desenvolveram a partir de mudanças estruturais de caráter 
econômico, social e político, que ocorreram principalmente nos últimos trinta anos do 
século XIX. 
O conjunto de mudanças aconteceu especialmente nas relações de trabalho, com a 
expansão do emprego remunerado que resultou em aumento do consumo de 
mercadorias, a abolição do trabalho escravo e o ingresso de estrangeiros no Brasil como 
italianos, alemães, japoneses, dentre muitas outras nacionalidades, que vieram para 
compor a mão de obra, além de contribuir no povoamento do país, como ocorreu na 
região Sul. Um dos maiores acontecimentos no campo político foi a proclamação da 
República. Diante desses acontecimentos históricos, o processo industrial brasileiro 
passou por quatro etapas. 
• Primeira etapa: essa ocorreu entre 1500 e 1808, quando o país ainda era colônia. Dessa 
forma, a metrópole não aceitava a implantação de indústrias (salvo em casos especiais, 
como os engenhos) e a produção tinha regime artesanal. 
• Segunda etapa: corresponde a uma fase que se desenvolveu entre 1808 a 1930, que 
ficou marcada pela chegada da família real portuguesa em 1808. Nesse período foi 
concedida a permissão para a implantação de indústria no país a partir de vários 
requisitos, dentre muitos, a criação, em 1828, de um tributo com taxas de 15% para 
mercadorias importadas e, em 1844, a taxa tributária foi para 60%, denominada de tarifa 
Alves Branco. Outro fator determinante nesse sentido foi o declínio do café, momento em 
que muitos fazendeiros deixaram as atividades do campo e, com seus recursos, entraram 
no setor industrial, que prometia grandes perspectivas de prosperidade. As primeiras 
empresas limitavam-se à produção de alimentos, de tecidos, além de velas e sabão. Em 
suma, tratava-se de produtos sem grandes tecnologias empregadas. 
 
• Terceira etapa: período que ocorreu entre 1930 e 1955, momento em que a indústria 
recebeu muitos investimentos dos ex-cafeicultores e também em logística. Assim, houve a 
construção de vias de circulação de mercadorias, matérias-primas e pessoas, proveniente 
das evoluções nos meios de transporte que facilitaram a distribuição de produtos para 
várias regiões do país (muitas ferrovias que anteriormente transportavam café, nessa 
etapa passaram a servir os interesses industriais). Foi instalada no país a Companhia 
Siderúrgica Nacional, construída entre os anos de 1942 e 1947, empresa de extrema 
importância no sistema produtivo industrial, uma vez que abastecia as indústrias com 
matéria-prima, principalmente metais. No ano de 1953, foi instituída uma das mais 
promissoras empresas estatais: a PETROBRAS. 
• Quarta etapa: teve início em 1955, e segue até os dias de hoje. Essa fase foi promovida 
inicialmente pelo presidente Juscelino Kubitschek, que promoveu a abertura da economia 
e das fronteiras produtivas, permitindo a entrada de recursos em forma de empréstimos e 
também em investimentos com a instalação de empresas multinacionais. Com o ingresso 
dos militares no governo do país, no ano de 1964, as medidas produtivas tiveram novos 
rumos, como a intensificação da entrada de empresas e capitais de origem estrangeira 
comprometendo o crescimento autônomo do país, que resultou no incremento da 
dependência econômica, industrial e tecnológica em relação aos países de economias 
consolidadas. No fim do século XX houve um razoável crescimento econômico no país, 
promovendo uma melhoria na qualidade de vida da população brasileira, além de maior 
acesso ao consumo. Houve também a estabilidade da moeda, além de outros fatores que 
foram determinantes para o progresso gradativo do país. 
 
Disponível em http://www.mundoeducacao.com/geografia/a-industrializacao-brasileira.htm 
 
Unidade 19 - Economia brasileira pós 64 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivo: Analisar a situação econômica do Brasil após o golpe militar que 
sucedeu o governo de João Goulart, em 1964. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
Economia Brasileira pós-1964O modelo econômico adotado após 64 foi uma tentativa de consolidar o 
modelo econômico implantado por Juscelino Kubitschek, pois ele não rompe com 
o padrão de desenvolvimento de JK. 
 No início dos anos 60, percebia-se uma crise econômica, que foi vista 
como resultado da quebra do dinamismo econômico e uma diminuição do ritmo 
dos investimentos industriais. 
 Para resolver a crise, o Estado amplia a emissão de tesouro, que acarreta a 
elevação da inflação ou admite a subordinação ao crédito internacional, devendo 
aceitar as condições impostas por ele. Esta segunda alternativa enfrentava o 
problema de um governo instável e frágil, que acarretaria um risco para os 
investidores estrangeiros. 
 Neste momento, ocorriam greves em muitos setores, até mesmo dentro do 
exército (como a greve dos sargentos), que ameaçavam a hierarquia e a ordem 
interna. 
 Devido às pressões populares e ao fraco desenvolvimento e desempenho 
econômico, e em nome da burguesia emergente, a solução seria a tomada do 
poder pelos militares, o que acontece em 1964, havendo assim uma redefinição 
do poder no país com um novo pacto: burguesia-militares. 
 Com o golpe de 64, a política econômica cria condições para a retomada 
do crescimento econômico e financeiro. 
 Mas o grande problema desse período foi a falta de investimentos e a 
inflação galopante, que seria enfrentada com o arrocho salarial, com uma nova 
legislação trabalhista que atrelaria o trabalhador a uma poupança forçada, o que 
forneceria recursos para a indústria; criação de um novo sindicato que fortaleceria 
a dominação do empregado pela classe empresarial. 
 Outro problema foi o fantasma da demissão, que colocava o trabalhador 
subordinado à fábrica. A rotatividade de empregos proporcionava baixos salários 
e uma margem de lucros maior para o empresário. Esta política foi fundamental 
para o crescimento econômico pós 68, porém ela vai estrangular a classe operária. 
 O Brasil fez empréstimos para crescer economicamente; esse período ficou 
conhecido como “Milagre Brasileiro”. 
 O país se endividou e o crescimento econômico diminuiu, atrelado à crise 
mundial do petróleo (1973) que gera uma crise interna. E a indústria multinacional, 
por sua vez, fazia a descapitalização, não havendo capital para reinvestir 
internamente. 
 A crise estava inserida nos altos juros dos empréstimos e no custo do 
capital financeiro. 
 No governo Geisel, há uma tentativa de implantar o II PND Plano de 
Desenvolvimento Nacional (I PND – I Plano Nacional de Desenvolvimento 
Econômico e Social, válido para os anos de 1972 a 1974. Os objetivos da política 
regional ali enumerados têm por base, fundamentalmente, o PIN – Programa de 
Integração Nacional. De modo geral, o I PND acentua a tendência do Estado de 
procurar enfocar suas políticas territoriais através de estratégias de “integração 
nacional”. O II PND atinge os anos de 1975 a 1979. É, de certo modo, conhecida a 
mudança de enfoque nas diretrizes maiores do desenvolvimento nacional 
(representado por esse plano e pelos demais que o precederam), que deveria 
promover a substituição do setor de bens de consumo renováveis pelo setor de 
bens de produção, através da empresa estatal. Este plano enfrenta dificuldades, 
como: a falta de definição de um novo setor industrial, a falta de novos 
financiamentos externos e a resistência do Sudeste em relação aos projetos 
aplicados em outras áreas. Mas estas dificuldades estão ligadas à especulação da 
ciranda financeira. 
 A falha econômica do II PND foi o fracasso em alterar os padrões de 
acumulação, preservando as taxas de crescimento, havendo uma rapidez nos 
ganhos do setor financeiro. 
 A falha política foi a adoção de uma estratégia que não conquistou o apoio 
da classe econômica dominante. 
 A partir daí, o governo enfrenta grande oposição em suas tentativas de 
resolver os problemas econômicos do país. Na gestão de Simonsen, os 
beneficiados foram os grandes banqueiros, em detrimento da burguesia industrial 
(pequenos e médios empresários) e do setor agrícola. Isto levou a um processo 
inflacionário e ao aumento da dívida interna. Além disso, o governo não 
conseguia conter os gastos públicos. 
 Esta crise gera tensões que levam ao surgimento dos movimentos grevistas 
que reivindicam empregos. 
 Em 1981, nenhuma das medidas anti-inflacionárias havia dado resultados 
positivos e a recessão se prolongara. 
 Em mais uma tentativa de sair da crise, o governo propõe o aumento das 
exportações. Mas o governo é obrigado a recorrer ao FMI para tentar sair da crise, 
assim o governo passa a enfrentar a oposição da burguesia e das forças 
populares. 
 Na tentativa de legitimação do governo militar, foi criada a DSN (Doutrina 
de Segurança Nacional) que se tornou o instrumento ideológico que facilitaria a 
expansão do capitalismo. 
 O regime militar perde sua sustentação com o fim do milagre econômico, 
que passa a ter um processo de abertura política. 
 No período do regime militar, houve um forte favorecimento às 
multinacionais e estatais no processo de acumulação, enquanto que a pequena 
burguesia sentia-se prejudicada. Com isso, houve uma politização das forças 
armadas, que passa a se preocupar com a sucessão presidencial e a legitimidade 
do regime militar. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
Determinantes do "milagre" econômico brasileiro (1968-1973): uma análise empírica 
Fernando A. VelosoI; André VillelaII; Fabio GiambiagiIII 
[...] 
O período 1968-1973 é conhecido como "milagre" econômico brasileiro, em função das 
extraordinárias taxas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) então verificadas, de 
11,1% ao ano (a.a.). Uma característica notável do "milagre" é que o rápido crescimento 
veio acompanhado de inflação declinante e relativamente baixa para os padrões 
brasileiros, além de superávits no balanço de pagamentos. 
Embora esse período tenha sido amplamente estudado, não existe um consenso em 
relação aos determinantes últimos do "milagre". As interpretações encontradas na 
literatura podem ser agrupadas em três grandes linhas. A primeira linha de interpretação 
enfatiza a importância da política econômica do período, com destaque para as políticas 
monetária e creditícia expansionistas e os incentivos às exportações. Uma segunda 
vertente atribui grande parte do "milagre" ao ambiente externo favorável, devido à 
grande expansão da economia internacional, melhoria dos termos de troca e crédito 
externo farto e barato. Já uma terceira linha de interpretação credita grande parte do 
"milagre" às reformas institucionais do Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG) 
do Governo Castello Branco (19641967), em particular às reformas fiscais/tributárias e 
financeira, que teriam criado as condições para a aceleração subseqüente do 
crescimento.1 
O objetivo desse artigo é quantificar, através de uma metodologia de regressões de 
crescimento com dados de painel, a importância de possíveis determinantes do "milagre" 
brasileiro. Em particular, verificamos em que medida o "milagre" decorreu da situação 
externa favorável e do desempenho de variáveis de política econômica associadas à 
estabilidade macroeconômica, política fiscal, nível de desenvolvimento do sistema 
financeiro e grau de abertura ao exterior. Também investigamos até que ponto o 
crescimento econômico observado no período 1968-1973 decorreu das reformas 
implementadas a partir de 1964. 
Neste artigo, estimaremos regressões de painel baseadas em uma versão ampliada do 
modelo neo-clássico de crescimento. Utilizaremos inicialmente painéis de seis anos para 
uma amostra de 62 países, durante o período entre 1962 e 1997, onde um dos 
subperíodos corresponde aos anos do"milagre". 
Embora o painel seja estimado para o período 1962-1997, o objetivo da análise é 
quantificar o crescimento previsto pelo modelo para o período do "milagre" econômico 
brasileiro de 1968-1973, e avaliar até que ponto este modelo consegue explicar a 
aceleração de crescimento de 1968-1973 em relação ao período anterior (1962-1967). 
A metodologia de quantificação dos determinantes do crescimento utilizada nesse artigo 
baseia-se em Easterly et alii (1997), que avaliaram o efeito das reformas econômicas no 
crescimento econômico da América Latina entre 1991 e 1993. Essa metodologia tem sido 
recentemente empregada em diversos estudos que procuram quantificar os 
determinantes do crescimento na América Latina, como, por exemplo, De Gregorio e Lee 
(1999), Fernández-Arias e Montiel (2001) e Loayza et alii (2005). 
Uma contribuição deste artigo é o fato de combinar a literatura de regressões de 
crescimento com dados de painel com o estudo de um episódio de aceleração de 
crescimento, na medida em que a escolha dos períodos no painel foi feita de modo a 
cobrir o período de duração do "milagre" econômico brasileiro. 
Os resultados mostram que tanto o ambiente externo como as variáveis de política 
econômica explicam uma parcela relativamente pequena da aceleração do crescimento 
brasileiro observada entre 1962-1967 e 1968-1973. Esses resultados são robustos ao uso 
de diferentes metodologias econométri-cas, como o estimador de efeito fixo, o estimador 
GMM em diferenças de Arellano e Bond (1991) e o estimador GMM de sistema de Blundell 
e Bond (1998). Os resultados também são robustos à inclusão nas regressões da razão 
investimento/PIB e da variável de abertura de Sachs e Warner (1995). 
Em princípio, essa evidência parece corroborar os resultados de estudos recentes sobre 
episódios de aceleração do crescimento, como Hausmann et alii (2005) e Rodrik e 
Subramanian (2004). Em um estudo sobre mais de 80 episódios de aceleração do 
crescimento desde a década de 1950, Hausmann et alii (2005) apresentam evidências de 
que acelerações de crescimento são em larga medida imprevisíveis. Em particular, a 
maioria dos episódios de aceleração de crescimento não está relacionada aos 
determinantes comumente postulados em regressões de crescimento, e reformas 
econômicas em geral não produzem acelerações de crescimento. Rodrik e Subramanian 
(2004) confirmam esse resultado em um estudo de um episódio de aceleração do 
crescimento na Índia durante a década de 1980. 
No entanto, um estudo mais aprofundado do período 1968-1973 no Brasil mostra que 
essa interpretação não é apropriada no caso do "milagre" brasileiro. A primeira evidência 
nesse sentido é o fato de que o modelo de crescimento estimado com base em painéis 
de seis anos superestima fortemente o crescimento econômico brasileiro no período 
anterior ao "milagre" e subestima o crescimento no período em que ele ocorreu. Isso 
sugere a possibilidade de que, pelo menos em parte, a aceleração de crescimento 
associada ao "milagre" tenha decorrido do efeito defasado das reformas do PAEG. 
De fato, Simonsen e Campos (1974) atribuem parte do "milagre" às reformas econômicas 
implementadas no Governo Castello Branco. Nesse sentido, os principais formuladores do 
PAEG argumentam que o período 1964-1973 deve ser visto de forma unificada. A 
interpretação dos autores é de que, a partir de 1964, o modelo econômico brasileiro teria 
mudado, no sentido de transformar a economia brasileira em uma economia de mercado 
aberta ao exterior. Segundo os autores, o período 1964-1967 teria sido um período 
caracterizado por um "esforço de restauração", diante da situação de descontrole 
inflacionário, déficits crônicos no balanço de pagamentos e colapso do investimento 
herdados do governo anterior, o que implicaria um sacrifício temporário das taxas de 
crescimento. Em função do ajuste macroeconômico e das reformas institucionais 
associadas ao PAEG, teriam sido criadas as condições que tornariam possível a aceleração 
do crescimento no período 1968-1973. 
Para testar essa conjectura, estendemos nossa análise para painéis de dez anos, incluindo 
o período 1964-1973 entre seus subperíodos. Os resultados mostram que o modelo de 
regressões de crescimento com dados de painel prevê uma taxa de crescimento para o 
Brasil no período 1964-1973 bastante próxima da taxa de crescimento efetivamente 
verificada no período. 
A combinação dos resultados dos painéis de crescimento de seis e dez anos conduz, 
portanto, a uma interpretação do "milagre" brasileiro bastante distinta da que decorre 
dos estudos de aceleração de crescimento de Hausmann et alii (2005) e Rodrik e 
Subramanian (2004). Em conjunto, nossos resultados indicam que o episódio de 
aceleração do crescimento associado ao "milagre" decorreu em grande medida do efeito 
defasado das reformas associadas ao PAEG. 
 
Para leitura desse artigo complete acesse o endereço eletrônico 
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71402008000200006 
 
Unidade 20 - A atual situação econômica do Brasil e o 
cenário mundial 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivo: Analisar as principais características da economia atual, 
estabelecendo relação com o contexto mundial. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
A partir do final dos anos 80, já era possível identificar no Brasil os efeitos 
da política econômica orientada pelo neoliberalismo. Na década de 90 as ações 
do governo são marcadas por uma onda de privatizações e medidas para o 
controle inflacionário. 
Em 1º de julho de 1994 passou a vigorar a nova moeda do país, o Real. O 
Banco Central fixou uma paridade entre o Real e o Dólar, a fim de valorizar a nova 
moeda. Um Real era o equivalente a Um Dólar. 
O Plano Real animou empresários e a população, e impulsionou o 
consumo interno. Mas o que era festa virou preocupação para o governo. Com o 
consumo em alta, temia-se a volta da inflação. 
Durante o Primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso a principal 
preocupação era controlar a inflação. Para isto, o governo elevou as taxas de juros 
da economia 
Outra iniciativa de destaque de FHC foi privatizar empresas estatais, como 
a Vale do Rio Doce e Sistema Telebrás. Enfrentou muitas críticas de vários setores 
da sociedade, principalmente de partidos de oposição, como o PT (Partido dos 
Trabalhadores). 
Surgiram muitas denúncias relacionadas às privatizações, de 
favorecimentos para determinadas empresas internacionais na compra das 
estatais. 
No final do segundo mandato (2002) de FHC, a inflação foi contida 
entretanto, durante a distribuição de renda no Brasil continuou desigual, a renda 
dos 20% da população rica continuou cerca de 30 vezes maior que a dos 20% da 
população mais pobre. O Brasil ficou em excessiva dependência do Fundo 
Monetário Internacional (FMI). Alguns autores apontam que foi durante esse 
período que se consolidou no Brasil a política econômica neoliberal. 
No período que sucedeu a saída de Fernando Fenrique Cardoso do 
governo brasileiro, não houve grandes mudanças na política econômica adotada. 
O cenário de relativa estabilidade resultou em a diminuição, em cerca de 168 
bilhões de reais, da dívida externa, porém não conseguiu frear o aumento da 
dívida interna que pulou do patamar de 731 bilhões de reais no ano de 2002 para 
um trilhão de reais em fevereiro de 2006. 
O governo Lula emprega uma fatia do seu orçamento em programas de 
caráter social como: Fome Zero; Bolsa Família; Programa de Erradicação do 
Trabalho Infantil (Peti); Luz para todos; Brasil Alfabetizado e Educação de Jovens e 
Adultos; ProUni ; Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE); Programa de 
Aceleração do Crescimento(PAC)... 
Em 2011 A gestão Dilma Rousseff iniciou-se dando seguimento à política 
econômica do Governo Lula. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
Leia a seguir fragmentos da entrevista concedida pelo economista Celso 
Furtado à Revista de Economia Mackenzie em 15 de novembro de 2002. 
 
[..] 
 
REM: Como o senhor analisa a situação econômica do mundo? 
CELSO FURTADO: Não se pode ignorar que o mundo atravessa um processo de 
reciclagem, de transformação, cujo alcance ainda não conhecemos. Veja o peso dos 
Estados Unidos, país que por decênios foi se impondo como uma potência dominante 
mundial. Hoje, especialmente depois do fim da Guerra Fria, essa grande potência não tem 
mais diante de si nenhum grande desafio. 
Surgiu apenas esse desafio absurdo que é o de combate ao “terrorismo islâmico”, que 
ninguém leva a sério, pois se trata, na verdade, de um problema de polícia. Daí a 
desorientação dos Estados Unidos. A economia norte-americana não avança, o 
crescimento é pequeno e eles estão dando voltas, inventando fórmulas, como, por 
exemplo, a de tentar uma saída pela via do endividamento do governo, interno e externo. 
Estão tentando aumentar os gastos públicos, mas dependem de financiamento externo. 
Por outro lado, pensam em fazer isso para aumentar o volume dos negócios, e não para 
corrigir o desemprego. A recente “expedição militar” punitiva ao Iraque, em 2003, 
exemplifica esse tipo de política. Só que nem assim conseguiram reativar a economia. 
 
REM: E a situação do Brasil? 
CELSO FURTADO: É preciso pensar que o Brasil vive uma fase muito complexa, difícil. Isso 
não é somente aqui. Você olha para a América Latina e o quadro é completamente 
diverso do que era, hoje é uma região onde não há praticamente desenvolvimento. Um 
país como a Argentina, que tinha um dinamismo forte e um mercado interno ágil, não 
encontra saída. O México está se submetendo a essa integração com os Estados Unidos, 
o que é bastante negativo para o país. Vivi no México, sei que os mexicanos têm uma 
consciência muito grande do perigo que representa para o destino deles a integração 
com os Estados Unidos, sob controle norte-americano. Porém, agora aceitaram enveredar 
por um caminho completamente distinto. Por fim, outros países da América Latina, como 
o Peru, o Equador, e os da América Central também dão sinais de uma perda de rumo. 
 
[...] 
 
REM: Em outras palavras, o que o senhor sugere é que o Brasil precisa voltar a ter 
controle dos câmbios. 
CELSO FURTADO: Exato. Assim, o País recuperará as alavancas de manejo que lhe 
permitem ter uma política própria. Sem o controle desses instrumentos, pode haver a 
qualquer instante uma fuga de capitais em grande escala, o que deixaria o Brasil de 
joelhos. Porque a verdade é essa: o País continua ameaçado por uma saída de capitais 
especulativos, o que cria, naturalmente, uma insegurança e uma vulnerabilidade enorme. 
O perigo é sermos levados a reduzir significativamente nossos investimentos, e, por 
conseguinte, aceitar a estagnação econômica – caso em que todos os outros problemas 
se complicariam. 
 
[...] 
 
REM: O que o senhor acha da Reforma Tributária? 
CELSO FURTADO: É um tema essencial, mas ninguém o discute. Por quê? Quando 
Fernando Henrique [o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso] tomou 
posse, disse que deveria resolver o problema da inflação e entender-se com o Fundo 
Monetário. Estudando mais de perto, vi que o entendimento deles com o FMI tinha 
implícita uma reforma fiscal importante para enfrentar a situação adversa do Brasil. O 
déficit em conta corrente era grande, 5% ou 6% do produto nacional. Mas era financiado 
pela inflação, que chegou a render 5% do produto nacional. A inflação era o imposto 
mais alto, e era oculto. Lembro-me de ter feito os cálculos: ela incidia sobre a economia 
brasileira muito mais que o imposto de renda. Portanto, cabia a pergunta: 
acabando a inflação, o que ficaria em seu lugar, como fonte de novos recursos? Imaginei 
que iriam fazer uma reforma fiscal que permitisse aumentar a poupança interna. Mas a 
reforma fiscal não veio. Porque exigia uma redistribuição de renda, e era aí que a coisa 
tropeçava. O que ninguém queria enxergar é que, sem reforma fiscal, os recursos 
mobilizados teriam como contrapartida o endividamento externo. A inflação, que, 
aparentemente, acabou, foi substituída por uma nova dívida externa colossal. O passivo 
brasileiro praticamente quintuplicou durante os oito anos de governo Fernando Henrique. 
Qualquer redução da dívida externa exigiria redução de despesas. Os recursos do 
governo para investimentos foram desviados para o serviço da dívida. E a economia ficou 
estagnada. É uma situação complexa, porque a classe dirigente brasileira, que é a 
beneficiária dessa concentração de renda, nunca aceitou uma discussão séria sobre isso. 
 
[...] 
REM: A economista Maria da Conceição Tavares, certa feita, em palestra proferida na 
UERJ, expressou um certo desalento ao comentar que ela havia sido professora de vários 
economistas no controle das políticas econômicas brasileiras, tais como Gustavo Franco, e 
de tudo o que ela ensinou eles haviam simplesmente ignorado o principal, ou seja, a 
ética. O que o senhor pensa sobre isso? 
CELSO FURTADO: O que mais me surpreende é o desinteresse e o pessimismo desses 
economistas em relação ao Brasil. Quando houve essa mudança no cenário internacional, 
e obrigaram o Brasil, até por cegueira de muitos, a aceitar essa forma de integração 
indiscriminada – quando na verdade o País tivera um êxito enorme no modelo baseado 
em mercado interno –, houve gente pensando que talvez eu estivesse errado. Falei com o 
Fernando Henrique na época, e ele me disse: “Olhe, Celso, estou convencido de que o 
Brasil não tem muita chance. O espaço disponível que temos para manobrar é muito 
pequeno”. É difícil entender que esse pessimismo tenha se espalhado tanto. Se é assim, 
vou defender o meu emprego, meus interesses imediatos. 
No caso de um país, isso significava integrar-se de tal forma à economia mundial que se 
perdia o ideal de nação, de interesse nacional. 
A atual situação econômica mundial O que se pode dizer é que o conceito de projeto 
nacional se fundava em bases frágeis. Sou originário das áreas mais pobres do Brasil, e 
nos anos do imediato pós-guerra tive a oportunidade de viajar pela Europa destruída. Vi 
a reconstrução européia, que foi fantástica. Na Alemanha, tinha gente quase passando 
fome, mas trabalhando. Percebi que o homem tem recursos que são na verdade 
subestimados. Daí a conclusão de que teríamos de encontrar nosso caminho. Se o Brasil 
chegou ao grau de pessimismo e de pouca ética à que refere Maria da Conceição, talvez 
seja porque, depois de uma fase de 50 anos de crescimento fácil, tenha entrado numa 
fase de dificuldades. Os economistas do governo anterior ficaram imaginando qual seria a 
saída mais conveniente. 
Houve discussões entre eles sobre o modelo viável a partir de então. Imaginou-se até a 
volta ao modelo de substituição de importações. Mas atualmente o problema é outro: 
que possibilidade existe de investir em setores mais nobres, em tecnologia de vanguarda? 
Muita gente me diz: “por esse caminho não se pode ir muito longe, pois nosso mercado 
interno é pequeno”. Mas eu respondo que o nosso mercado é muito maior do que se 
pensa. O importante é persistir, e não se desarmar, como se fez recentemente. O grande 
erro do Brasil, principalmente no governo Fernando Henrique, foi se desarmar por 
completo diante das forças internacionais, ficar na dependência do mercado. Mercado 
esse que passou a ser uma assombração, e que nada mais é do que um conjunto de 
interesses bem definidos.O chamado “mercado” acabou asfixiando a economia nacional, 
e o Brasil entrou nessa fase de perda de identidade, de perda do autocontrole, sem as 
alavancas de manejo que possuía. Um exemplo é o controle de câmbio, que as 
autoridades monetárias sabiam manejar muito bem. 
 
A íntegra dessa entrevista você encontra no endereço eletrônico 
http://www.centrocelsofurtado.org.br/arquivos/image/201108311227390.entrevista_a_atual_situacao
_economica_mundial.pdf 
 
 
 
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