Prévia do material em texto
AATTUUAALLIIDDAADDEE DDOO AAUUTTOO DDAA BBAARRCCAA DDOO IINNFFEERRNNOO Gil Vicente é o maior dramaturgo português. Pertence ao primeiro Renascimento. Por isso, é meio primitivo e ainda preso a técnicas e princípios medievais. Por que, então, lê-lo hoje, na era da cibernética e dos projetos interestelares? A resposta é uma só: porque ele permanece atual, apesar de alguns aspectos arcaizan- tes. Os problemas que investigou não foram superados pela tec- nologia. Será que o século XX resolveu a injusta hierarquização dos valores e das pessoas? O fato de se poder viajar num supersô- nico elimina o medo da morte? A Internet diminui o desejo de amar ou a ânsia por atitudes corretas? Enfim, há coisas que não mudam com o progresso do homem. Essas coisas podem ser chamadas de constantes metafísicas. Delas decorrem algumas noções essenciais sobre ética, comportamento ou convívio social. Gil Vicente preocu- pou-se com problemas dessa natureza. O Auto da Barca do Inferno foi escrito numa época semelhante à nossa, quando o homem se expunha aos perigos dos oceanos em busca de novos continentes, assim como hoje se buscam planetas desconhecidos na imensidão do espaço. Diferentemente de Ca- mões, que, em Os Lusíadas, demonstrou euforia pela face desbra- vadora do século XVI, Gil Vicente preocupou-se com a sistematiza- ção de uma ética para seu tempo. Julgava que progresso sem ética era ilusão para apressadinhos. Por isso, criticou os desvios do que considerava os caminhos para o comportamento ético. Orientando- -se por um cristianismo ideal, o dramaturgo deixou mais de qua- renta autos, escritos e encenados entre 1502 (Monólogo do Vaqueiro) e 1536 (Floresta de Enganos), du- rante os reinados de D. Manuel e D. João III. Em sua obra, procura demonstrar que a vida terrena deve se guiar por princípios religiosos, claramente assumidos. O Auto da Barca do Inferno concretiza esses princípios mediante alegoria de um julgamento após a morte, de que participam o Diabo e o Anjo. Trata-se de uma espécie de figuração do Juízo Final. Aí, as almas defrontam-se com seu destino na eternidade. Condenações e absolvições seguem o rígido código da moralidade cristã, entendida em sua versão ascética e medievalizante. Apesar disso, a peça é muito engraçada. O autor emprega o humor e o sarcasmo para denunciar o apego do homem à vida terrena, envolvido em paixões, desejos e vícios. A isso se soma a mestria verbal de Gil Vicente, visto que é o maior dramaturgo do fim da Idade Média européia, e também um dos grandes poetas do período. TTEEXXTTOO EE CCOONNTTEEXXTTOO No Museu das Janelas Verdes, em Lisboa, existe um quadro que poderia ilustrar o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente. Trata-se de um painel anônimo da primeira metade do século XVI, repro- SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 5 • ANGLO VESTIBULARES AAUUTTOO DDAA BBAARRCCAA DDOO IINNFFEERRNNOO Gil Vicente ANALISE DA OBRA IVAN TEIXEIRA Gil Vicente ´ duzido no presente volume. Concretiza a idéia que então se tinha do inferno, tal como o concebeu a ima- ginação católica da Idade Média. No centro, há um enorme caldeirão com cinco condenados dentro. Dois são padres. Ao redor, homens e mulheres, to- dos nus, são torturados por horríveis demônios. O fogo domina tudo. No canto da esquerda, uma diaba extrai com um ferro moedas da boca de um homem amarrado. Este, em vida, deve ter idolatrado o dinhei- ro, figura que Gil Vicente retrata como o Onzeneiro. À sua direita, próximo ao caldeirão, outro demônio despeja o conteúdo de um porco na boca de um ho- mem deitado. Pode estar sendo pingado, isto é, o con- teúdo derramado deve ser banha fervente, processo também mencionado no auto vicentino. Em baixo, à direita do quadro, há outro frade, subjugado pela nu- dez de uma mulher, a maior fraqueza dos frades de Gil Vicente. Atrás, presidindo ao festival de torturas, aparece um demônio especial, com ares de rei dos tormentos, que lembra o protagonista do Auto da Bar- ca do Inferno. Jerônimo Bosch, que morreu um ano antes da encenação deste auto (1517), tornou-se célebre por quadros desse tipo. O Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, dessa mesma época, também apresenta descrições do inferno. Enfim, a Divina Comédia de Dante, a maior alegoria da vida após a morte, im- pregnou toda sensibilidade do final da Idade Média. Do ponto de vista técnico, o auto de Gil Vicente tam- bém possui semelhanças com o painel anônimo por- tuguês. Ambos são primitivos, carecem da noção de perspectiva e gostam de pequenas aglomerações humanas. Da mesma forma, fundem o real com o imaginário, colocam-se a serviço de conceitos da Igreja Católica. Por sinal, o catolicismo, nessa altura, começou a enfrentar a maior crise de sua história: a Reforma protestante. Lutero era também atormenta- do com a idéia do pecado e do inferno. Tal preocupa- ção levou-o a formular o conceito da predestinação das almas, noção nova para o tempo. Haveria alguma diferença importante entre o pai- nel das Janelas Verdes e o Auto da Barca do Inferno? Sim. O pintor era austero e pesadão. Muito estático e sem humor. Suas figuras são quase esculturais. Gil Vicente, ao contrário, concebeu demônios perversa- mente graciosos, dominados pela ironia. Assim é o capitão da barca do inferno, cuja linguagem não dis- pensa o palavrão em insinuações picantes. Demons- tra-se até simpático em sua mordacidade contra o nobre, o frade, o juiz e outros aproveitadores. O cria- dor do teatro português deve ter apreciado Erasmo de Roterdã, cujo Elogio da Loucura, de 1509, caracte- riza-se pela sátira espirituosa. Gil Vicente é o maior re- presentante desse tipo de literatura em Portugal. Por essa perspectiva, filia-se à tradição menipéia, isto é, aquela criada por Luciano de Samósata, escritor gre- go do século II. O Auto da Barca do Inferno é seme- lhante a um de seus livros, o Diálogo dos Mortos. Ne- le, o autor idealiza a conversa do barqueiro Caronte com seus passageiros, durante a travessia do Letes, que separa os dois lados da vida. Enfim, a idéia básica de Gil Vicente pertence a tempos imemoriais. Esse ti- po de literatura meio fantástica e alegórica foi tam- bém aproveitado por Machado de Assis, cujas Memó- rias Póstumas de Brás Cubas apresentam o relato pro- duzido por um defunto. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 6 • ANGLO VESTIBULARES Inferno, painel português do século XVI. Museu das Janelas Verdes, Lisboa. SSÁÁTTIIRRAA SSOOCCIIAALL EE MMOORRAALLIIDDAADDEE O anjo e o demônio são figuras paradoxais no ce- nário do Auto da Barca do Inferno. O Anjo é sem gra- ça; só consegue dar boas-vindas a um bobo e a qua- tro cruzados que morreram pela expansão do cris- tianismo, no norte da África, em luta contra os isla- mitas. O diabo é liberal; recebe todo mundo com hu- mor e simpatia, ainda que falsa. Só não recebe o Ju- deu, por razões bastante complexas. Seria porque os hebreus possuíam uma religião tão diferente da católica que pareceria injusto julgá-lo por critérios cristãos? Ou seria porque Gil Vicente, neste auto, o considera tão ruim a ponto de o rivalizar com o pró- prio demônio? Difícil saber. Mas sabe-se que a po- sição vicentina diante dos judeus foi contraditória. Às vezes, ele os defende; às vezes, os ataca. Em Por- tugal, na ocasião, houve diversos tumultos de cris- tãos contra judeus. Isso, de certa forma, está repre- sentado no Auto da Barca do Inferno. Na verdade, to- da a vida social portuguesa do fim da Idade Média acha-se genialmente captada neste auto. Gil Vicente era um mestre da representação so- cial. Suas personagens pertencem à categoria dos ti- pos, espécie de personagem mais própria para sim- bolizar as diversas camadas da sociedade. Há gente da nobreza, do clero e do povo. Todavia, as diferenças de hierarquia, tão importantes na vida real, se anulam perante as ironias do Diabo. Ele só leva em conta a essência das pessoas. Se bons, ao céu; se maus, aoin- ferno. Mas há um elemento intrigante em tudo isso, sugerido acima. Apesar dos futuros tormentos que reserva para todos, o Diabo é ótimo anfitrião. Discute, argumenta, pondera o que as pessoas tem a dizer, an- tes de condená-las. O Anjo, ao contrário, mantém-se caladão. Argumenta pouco e é autoritário. No caso do Judeu, nem lhe dirige a palavra. A existência na barca do Anjo é muito calma. Os quatro cruzados, ao se di- rigirem a ela, expressam a idéia de que a verdadeira vida começa na morte. Só sabem cantar hinos em louvor a Deus. Por outro lado, as pessoas recebidas pelo Demônio transbordam de alegria terrena. Tra- zem mais nervos, embora sempre aplicados à obten- ção de vantagens. Enfim, o pensamento básico do Auto da Barca do Inferno é contra a vida como ela é. Moraliza em sentido contrário à dinâmica das coisas, como se os interesses humanos não possuíssem os próprios mecanismos de proibição e liberdade. Assim como um governo regulador das taxas do mercado, esta peça procura impor normas à sociedade. Por es- sa perspectiva, o autor torna-se meio submisso à mo- ralidade católica, quase sempre repressora. Quer di- zer, ele pensa como católico, porque acreditava na re- ligião. No Auto da Índia, condena a expansão do di- nheiro, em nome da preservação da família, que deve- ria se basear em conceitos estáticos da tradição, e não no vaivém da busca pela sobrevivência. Todavia, esse argumento não limita o teatro vicentino, porque a éti- ca de seus autos é sempre superada pela arte. É isso que os torna tão atuais. Embora não se conceba mais o inferno como ele o concebia, o Auto da Barca do In- ferno permanece vivíssimo. Por isso, em sentido con- trário ao que se disse acima, é possível afirmar tam- bém que o catolicismo é que foi utilizado por Gil Vi- cente, na medida em que se valeu dele para construir os autos. A crítica literária sempre exaltou o zelo de Gil Vi- cente pela virtude, esquecendo-se de que isso, às vezes, pode ser tão opressivo quanto a hierarquia do poder, que o dramaturgo não cansava de criticar. Enfim, ele foi o teatrólogo da corte de D. Manuel e D. João III, durante as três primeiras décadas do século XVI, conforme se viu acima. Na época, a no- breza possuía seus artistas oficiais. Em certa medi- da, estes eram obrigados a expressar em arte os pre- ceitos que, teoricamente, orientavam reis e fidalgos. Isso pode explicar, em parte, as críticas de Gil Vi- cente contra o clero, porque, não raro, a igreja se opu- nha aos interesses da coroa. Todavia, jamais questio- nou a idéia de uma religião santa e imaculada, que, em rigor, nunca existiu. Se visto pela teoria do críti- co russo Mikhail Bakthin (a tradição luciânica), o teatro vicentino pode ganhar um pouco mais de fle- xibilidade, coisa que já possui em larga escala, mes- mo quando lido pela óptica da ação moralizadora do autor. AARRTTEE GGÓÓTTIICCAA Composição típica do teatro vicentino, o Auto da Barca do Inferno é uma alegoria moralizante ou, sim- plesmente, um “auto de moralidade”, como o próprio autor o denominou. Falta-lhe unidade de ação, isto é, não conta uma estória com suspense ou surpresa na trama, como era usual no teatro clássico grego, que ele não conheceu. Ao fundar o teatro português, em 1502, com a encenação do Monólogo do Vaqueiro, Gil Vicente julgava estar inventando o teatro no mundo, em continuação à recente tradição dos dramaturgos espanhóis Torres Naharro e Juan del Encina. A au- sência de conflito dramático nesse tipo de teatro cor- responde mais ou menos ao desconhecimento da perspectiva em pintura, como se pode observar nos quadros religiosos do fim da Idade Média. Nesse sen- tido, e também pela religiosidade, o teatro vicentino pode ser classificado de gótico, como as pinturas de Cimabue, Duccio e Giotto. As catedrais da baixa Ida- de Média, em cujos frisos de baixo-relevo há inú- meras figurações de almas penando no inferno, são a máxima expressão da arte gótica. Enfim, o Auto da Barca do Inferno está para a literatura européia, assim como o gótico está para as artes plásticas: marca o fim da Idade Média e o início do Renascimento. Não se pode esquecer, por exemplo, que a Capela Pazzi de Brunelleschi, inauguradora da arquitetura renascen- SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 7 • ANGLO VESTIBULARES tista, ainda possui traços medievais. O mesmo acon- tece com o teatro vicentino, com a diferença que ten- de mais para a Idade Média. A função didática dos fri- sos, esculturas, vitrais e pinturas do período gótico torna mais evidente o parentesco de Gil Vicente com as artes plásticas da época. O didatismo de tal arte consistia em representar episódios bíblicos mediante unidades justapostas, sem coesão narrativa. Apenas insinua uma estória. O Auto da Barca do Inferno também se baseia na coor- denação de quadros isolados, que só se interligam pe- la presença do Diabo e do Anjo, o que ainda não lhe dá unidade narrativa. Limita-se a abordar fragmentos das vidas dos condenados, constituindo-se numa se- qüência linear de cenas, justapostas umas às outras. Num certo sentido, sua finalidade é igualmente didá- tica, pois pretendia ensinar a virtude e combater o ví- cio. Por isso, classifica-se como teatro alegórico. O conceito de alegoria será retomado mais adiante. O Auto da Barca do Inferno pode ser também considerado expressão da arte gótica, porque enfatiza o tema da morte. Com efeito, o auto revela influências das famosas Danças Macabras, tipo de literatura bas- tante divulgado durante a Idade Média européia. O crítico português Queirós Veloso assim descreve essas danças: “[...] ronda infernal de defuntos, de todas as condições e de todas as idades, dançando com esque- letos, para significar o poder absoluto da Morte sobre o homem, por mais alta que seja a sua hierarquia”. Atualmente, na Inglaterra, os romances de mistério e terror, em que a morte é uma ameaça constante, são considerados literatura gótica, que esteve muito em moda no século XVIII nesse país. RROOTTEEIIRROO DDEE LLEEIITTUURRAA A peça abre-se com os preparativos do embarque do Diabo para sua morada. Em cena, dois navios: o do inferno e o do céu. Diante deles, os respectivos co- mandantes: o Diabo e o Anjo. Esses dois são persona- gens fixas, não saem de cena. As demais são itineran- tes, porque suas falas são episódicas. Depois de prota- gonizarem as respectivas cenas, as personagens iti- nerantes praticamente não participam mais da peça. Um ou outro volta a participar, como é o caso do Bo- bo (Joane), que auxilia o Anjo em sua tarefa de julgar as almas que pretendem embarcar para o céu. DDiiaabboo Quem primeiro fala é o Diabo, que demonstra muita euforia em sua função de transportar as almas perdidas. Pertence à tradição clássica a idéia de que um barqueiro conduzia as almas na travessia da fron- teira entre a vida e a morte, conforme se viu acima. Possui um companheiro, que o auxilia em sua faina de navegador: DDiiaabboo À barca, à barca, houlá! que temos gentil maré! -Ora venha o caro1 a ré! Companheiro Feito, feito! Diabo Bem está, Vai tu, muitieramá2! Atesa3 aquele palanco4, e despeja aquele banco pera a gente que virá. — À barca, à barca, uuh! Asinha5, que se quer ir. Oh, que tempo de partir, SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 8 • ANGLO VESTIBULARES 1 O mesmo que carro, parte inferior das vergas nas velas trian- gulares. O Diabo quer posicionar a vela conforme o vento. 2 Em má hora. 3 Estica. 4 Corda para erguer as velas. 5 Depressa. Frontispício da primeira edição da obra completa (Compilaçam) de Gil Vicente, de 1562. Louvores a Berzebu! — Ora, sus6!, que fazes tu? Despeja7 todo esse leito8. Nessa fala de abertura do auto, o Diabo convoca os passageiros e dá ordens ao ajudante, mostrando-se muito inquieto. Demonstra conhecimento sobre o equipamento do navio. É excelente capitão ou arrais. Do ponto de vista artístico, o Diaboé, de longe, a me- lhor personagem da peça. Apresenta extrema desen- voltura em sua linguagem insinuante e irônica, que, no trecho acima, saltita de alegria e entusiasmo. Ao longo da peça, trata todos como verdadeiro anfitrião, louvando os vícios que os trouxeram à barca. Possui gestos delicados, palavras agudas e quase sempre ambíguas. Às vezes, demonstra seu lado cruel; mas, via de regra, é um magnífico dissimulado. FFiiddaallggoo ee AAnnjjoo O primeiro a chegar é um nobre, D. Anrique (= Henrique). Dentre as personagens itinerantes, esta é a que permanece mais tempo em cena. Traz consigo um pajem, que lhe segura a cauda do manto e lhe traz uma cadeira. O manto e a cadeira são as insígnias de sua fatuidade, de seu destino vazio. O demônio obri- ga-o a embarcar, fundado na idéia de que a vida dele determinou a condenação. O Fidalgo se defende, conquistando o direito de recorrer ao Anjo, que se mantém soberbo e quase indiferente. Este o acusa de presunção e tirania. Abusara dos pobres. Por isso, não pode ser recebido no céu: Não vindes vós de maneira pera ir neste navio. Essoutro vai mais vazio: a cadeira9 entrará, e o rabo10 caberá, e todo vosso senhorio. Vós ireis mais espaçoso, com fumosa11 senhoria, cuidando na tirania do pobre povo queixoso; e porque, de generoso12, desprezastes os pequenos, Achar-vos-eis tanto menos quanto mais fostes fumoso13. Por este trecho expressivo, vê-se que o Anjo não dispensa também a ironia em seu trato com os conde- nados. Diante da sua acusação contra o nobre, pode- se perguntar: mas como a sociedade do Antigo Re- gime admitia críticas tão pesadas, visto Gil Vicente ser um artista comissionado? A resposta é simples: o tea- trólogo, na passagem, não criticou a essência da no- breza nem a estrutura social da época, e sim um aci- dente, o caso isolado de um nobre que transgredia os princípios da própria classe. Afinal, a nobreza, em te- se, era cristã. A justiça fazia parte de sua ética. Logo, ao condenar D. Anrique, Gil Vicente nada mais fez do que preservar a doutrina da nobreza, embora, na prá- tica, todos os nobres fossem como essa personagem. Por outro lado, haveria alguém na platéia de Gil Vi- cente que, publicamente, confessasse identidade com a fatuidade de D. Anrique? É pouco provável. Depois da fala transcrita acima, o Fidalgo torna à outra barca. Aí, o demônio sente mórbido prazer em demonstrar que a amante dele o traíra em vida e que a esposa ficara feliz com sua morte. Derrotado, o Fi- dalgo precipita-se na quentura da barca. Esse proce- dimento repete-se com os demais passageiros. Litera- riamente, o Fidalgo também é personagem forte, so- bretudo por seu arrependimento final, quando reco- nhece que vivera erradamente: Ao inferno todavia! Inferno há í14 pera mi?! Ó triste! Enquanto vivi não cuidei15 que o í havia. Tive16 que era fantesia17 folgava ser adorado; SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 9 • ANGLO VESTIBULARES 6 Interjeição de entusiasmo. 7 Limpa, arruma espaço (para as almas que virão). 8 Espaço entre o mastro central e a popa. 9 Símbolo de nobreza. 10 Cauda do manto. Símbolo de nobreza. 11 Presunsosa. 12 Vocábulo de sentido duvidoso, no contexto. Pode equivaler a nobre, fidalgo, vaidoso. 13 Sentido dos dois últimos versos: quanto mais vaidoso (fu- moso) foste em vida, tanto menos serás considerado aqui. 14 Aí. 15 Pensei. 16 Pensei. 17 Imaginação, invenção. O embarque de D. Anrique. confiei em meu estado e não vi que me perdia. — Venha essa prancha! Veremos Esta barca de tristura. OOnnzzeenneeiirroo Em seguida, entra o Onzeneiro, com uma gran- de bolsa de dinheiro, agora vazia. Apesar da ganância em vida, nada conseguiu trazer para a morte. Onze- neiro quer dizer agiota, o que cobra juros acima da ta- xa consentida. O termo deriva de onzena, que vem de onze (por cento). O Anjo emprega onzena com o sen- tido de usura, chamando-a filha da ambição. De tudo que o Onzeneiro juntara na terra, nada lhe valeu con- tra a austeridade do Anjo e a astúcia do Diabo. Era muito velho, pois o Diabo espanta-se com sua demo- ra. Assim como o Fidalgo quis voltar à casa para con- solar a amante, o Onzeneiro, na hora do embarque, demonstrou desejos de retornar à vida para buscar dinheiro. Igualmente ao Judeu, era muito apegado ao lucro. BBoobboo Depois, vem o bobo Joane, que derrama um enor- me xingamento contra o capitão do inferno, ao perce- ber que este o quer levar: Ao inferno, eramá18?! Hiu! hiu! barca do cornudo! Pero Vinagre19, beiçudo, beiçudo, rachador d’Alverca20, huhá! Sapateiro da Candosa21! Antrecosto22 de Carrapato! Hiu! Caga no sapato, filho da grande aleivosa23! Tua mulher é tinhosa24 e há de partir um sapo chentado25 no guardenapo, neto da cagarrinhosa26! Furta-cebola! Hiu! hiu! Excomungado nas erguejas27! Burrela28, cornudo sejas! Toma o pão que te caiu, a mulher que te fugiu pera a Ilha da Madeira! Cornudo atá mangueira29, o demo que te pariu! Hiu! hiu! Lanço-te uma pulha30 de pica naquela31! Hump! hump! Caga na vela! Hiu! Cabeça de grulha32! Perna de cigarra velha, caganita de coelha, pelourinho de Pampulha33, mija n’agulha! Mija n’ agulha! Essa fala configura uma pequena obra-prima do non-sense, que é um tipo de texto baseado na acumu- lação absurda de expressões ou frases sem sentido preciso. De fato, o texto é repleto de ruídos sem signi- ficado racional, mas que expressam a fúria do falante: hiu, hump! Compõem-se de uma sonoridade estri- dente, sugerindo uma sinfonia de vogais e consoantes em combinações estranhas e contundentes. Como ocorre com todas as personagens, a linguagem de Joane é moldada de acordo com sua ocupação em vida. É tosca, repleta de simplicidades fortes. Dá a me- dida de sua estado social e de seu espírito desarticu- lado. Gil Vicente era mestre em captar os diversos ní- veis de fala da sociedade. Mas o Anjo pondera que os males causados pelo Bobo decorriam de inocência, e não da malícia. Por isso, determina que fique ao lado de sua barca, para embarcar depois. Aí, auxiliará o An- jo em sua análise das almas que hão de chegar. A si- tuação de Joane encarna o princípio bíblico de que os pobres de espírito pertencem ao reino do céu. SSaappaatteeiirroo O Sapateiro (Joanantão = João Antão) traz um carregamento de formas, com as quais roubava os clientes. Se o Demônio o ameaça, o Anjo consuma a condenação, afirmando que a carga impossibilita seu embarque para o céu. Como as demais personagens, o Sapateiro tem uma certa complexidade: roubava, é verdade; mas nem por isso deixava de assistir missas e ajudar os outros. Possui traços humanos. Um pouco mais de psicologia individual, e deixaria de ser um simples conceito. Isso também se reflete em sua lin- guagem, semelhante à do bobo Joane. Em meio ao vazio da morte, o Sapateiro agarra-se às formas, que SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 10 • ANGLO VESTIBULARES 18 Má hora. 19 Pessoa conhecida na época. 20 Localidade em Portugal. 21 Localidade em Portugal. 22 Entrecosto: carne entre as costelas de um animal. 23 Mulher adúltera. 24 Relativo ao demônio. 25 Posto, sentado. 26 Lembra cagarrão, cagão, no sentido de medroso. 27 Igrejas. 28 A expressão fazer burrela referia-se a atos imbecis e veatórios. 29 Termo preso à mango, que em Portugal designa o pênis. 30 Insulto. 31 Mário Fiúza afirma que naquela se refere à pulha, do verso an- terior. O sentido dos versos seria: quando fizeres um insulto, que a ofensa recaia sobre ti. Pica está por machucar, ofender. 32 Pessoa tagarela. 33 Lugar perto de Lisboa. lhe deram vida na terra. Com isso, Gil Vicente quer re- presentar o apego do homem nos valores materiais, que o teatrólogo considerava ilusórios. FFrraaddee Logo após, surge o Frade, trazendo pela mão a namorada Florença. Ambos cantam e dançam. Além da mulher, suas insígnias são a espada, o escudo e o capacete,que representam sua paixão pela vida e pe- lo esporte. Ama a esgrima, o canto e a dança, sem de- monstrar nenhuma identidade com o sacerdócio. Fi- gura um belo caso de vocação desencontrada. Quan- do recorre ao Anjo, o bobo Joane, que estava de lado, o fulmina com o argumento de que a namorada invali- da seu direito de apelação. Como personagem, o Fra- de é também uma rica invenção de Gil Vicente. Traz certas incoerências muito humanas. Amava a vida e as mulheres. Talvez devesse ser condenado, pois não fora capaz de se decidir entre os prazeres e a penitên- cia. Quis conciliar as coisas, e isso resultou em hipo- crisia. Mas trata-se apenas de um defeito, e não pro- priamente de um crime imperdoável. Todavia, há uma passagem na cena do Frade que pode sugerir conexão de Gil Vicente com as idéias da Reforma luterana. Trata-se do trecho em que cri- tica a permissividade sexual, não apenas de Frei Ba- briel (este era o nome do Frade), mas de toda a or- dem dos dominicanos. Ao ver o Frade com a namo- rada, o Diabo pergunta: Pois entrai! Eu tangerei34 e faremos um serão35. Essa dama é ela vossa? Frade Por minha la tenho eu E sempre a tive de meu. Diabo Fezestes bem, que é fermosa. E não vos punham lá grosa36 no vosso convento santo? Frade E eles faziam outro tanto!...37 Igualmente a Lutero, Gil Vicente pretendia mo- ralizar a igreja, só que por caminhos diferentes. Lu- tero procurou humanizar o sacerdócio, concedendo aos religiosos o direito do casamento, ao passo que o teatrólogo português condenava os padres por se en- tregarem aos prazeres do amor. Convém reforçar a idéia de que a Reforma luterana se iniciou no ano da encenação do O Auto da Barca do Inferno. Assim, se o Anjo tivesse um pouco mais de flexibilidade, po- deria perdoar o Frade. Enfim, Gil Vicente criou uma personagem capaz de gerar simpatia, sobretudo por seu respeito à namorada. Queria o melhor para ela, pois procurou livrá-la do inferno. Seu talento para a música e para a dança indicam um caráter vivaz e sensível. Mediante a condenação do Frade, pode-se ver o quanto Gil Vicente era rigoroso em sua moral, subordinada aos princípios ideais de uma igreja im- pecável. Mais do que isso, vê-se como sabia represen- tar as inclinações que caracterizam os temperamentos e os tipos sociais. BBrrííssiiddaa VVaazz Depois do Frade, aparece a mais terrível das al- mas penadas, a alcoviteira Brísida Vaz, cujos perten- ces são seiscentas virgindades. Passara a vida sedu- zindo meninas para os padres. Embora seja apenas um conceito, essa personagem funciona como supor- te para que o Diabo demonstre uma face mais huma- na de sua personalidade, tratando-a de Senhora, como nas cantigas de amor do período trovadoresco. Brísi- da é repugnante; por isso, o Diabo a deseja. Diante do Anjo, ela evoca o fato de ter auxiliado os padres em seus prazeres carnais. Funda nisso sua pretensão de ir para o céu. O Anjo a desconsidera; o Diabo a rece- be, prometendo bons tratos. A alcoviteira simboliza o interesse puro e simples. Nada que faz lhe dá prazer. Funciona apenas como instrumento para a satisfação dos outros. Visa somente a um lucro sem graça. Se- duz meninas, mas não as quer para si. Por outro lado, pratica bruxaria como meio de sedução. Quer dizer, conquistava mediante narcóticos e encantamentos. Aproxima-se dos traficantes de hoje. Pela ética atual, não teria salvação. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 11 • ANGLO VESTIBULARES 34 Tocarei. 35 Festa. 36 Pôr grosa significa censurar. 37 Isto é: os outros frades também tinham amantes. JJuuddeeuu Depois de Brísida, vem o Judeu. Esta cena é o contrário das outras. Sua alma deseja embarcar, mas o Diabo a recusa. Traz um bode (insígnia da religião judaica) às costas, insistindo em embarcar com ele. O Diabo toma o bode como pretexto e não o deixa em- barcar. O Judeu recorre ao Anjo, mas Joane não per- mite que chegue a falar, acusando-o de desrespeito à religião católica. Rejeitado por ambas as barcas, o Ju- deu é forçado a ir a reboque, com o bode preso a uma coleira. Como personagem, não possui maiores en- cantos. Funciona como simples alegoria de um tipo racial e cultural, contra quem, neste auto, Gil Vicente demonstra preconceito. Em termos atuais, tanto o Anjo quanto o Diabo seriam condenados por sua re- cusa do Judeu, pois não apresentam argumentos pa- ra isso. Na fala final do Diabo, neste quadro, há uma possível alusão ao mito de Ahasverus, o judeu erran- te, cujo destino é vagar sem paradeiro por causa de sua ofensa a Cristo. Numa perspectiva mais limitada, se poderia dizer que o Judeu foi condenado por causa de seu apego extremado à religião judaica, pois até no outro mundo faz questão de ostentar sua crença, sim- bolizada no bode que leva às costas. Nesse sentido, a peça estaria ensinando que a verdadeira religião é a católica. CCoorrrreeggeeddoorr,, PPrrooccuurraaddoorr ee EEnnffoorrccaaddoo Os três passageiros seguintes simbolizam a in- conveniência da burocracia. São eles: o Corregedor, o Procurador e o Enforcado. Trazendo autos e uma va- ra à mão (insígnias), o Corregedor fala por fórmulas jurídicas, em latim. O Diabo o imita, produzindo um latinório bem engraçado. O Bobo mete-se a erudito e também se expressa em língua de advogado. A prin- cipal acusação, aqui, consiste na corrupção pelas vias legais. Nesse esquema, até a mulher do Corregedor tomara parte, sempre com o apoio do Procurador, que entra em cena carregando livros (insígnia). O En- forcado, ainda com a corda ao pescoço (insígnia), fora iludido por Garcia Moniz, tesoureiro da Casa da Moe- da, que lhe dissera ser honroso morrer por furtos. Es- sa personagem simboliza o ladrão idiota que rouba sem vantagens, servindo de mero instrumento aos mais espertos, que o manipulam de cima. Paga com a eterna perdição. Na verdade, essas personagens tipi- ficam aspectos de um mesmo problema, que é o uso das instituições para privilégios pessoais. Também aqui, a linguagem é poderoso instrumento para a ca- racterização do nível das personagens. CCaavvaalleeiirrooss Depois do Enforcado, vêm, enfim, os quatro Ca- valeiros. Dirigem-se com altivez à barca do céu, des- prezando a figura bisbilhoteira do Diabo. Recebidos como mártires da igreja, ganham a vida eterna como recompensa. Novamente, a linguagem procura traçar o perfil das entidades. Os Cavaleiros só cantam hinos, o que demonstra o interesse deles em conquistar o reino do céu. Não valem nada como criação de teatro. São bonecos que representam uma beatitude muito espiritualizada para ser real. Como guerreiros, deveri- am mostrar pelo menos um pouco de amor às armas. Nesse particular, são personagens sem decisão, pois guerreavam pensando no céu. A ética cristã do inte- resse, bem pouco apreciável hoje, agradava ao dis- curso do poder na Idade Média. Pela perspectiva do cristianismo tradicional, esta cena contém toda a mo- ralidade da peça: os homens devem passar pela vida terrena com os olhos na eternidade. Mas é possível pensar também que Gil Vicente não acreditasse, de fato, que o melhor da vida estava na espiritualidade assexuada dos quatro Cavaleiros, pois suas persona- gens mais interessantes nascem daquilo que conde- na, isto é, do envolvimento com a vida terrena e suas paixões. Expôs a idéia do ascetismo ideal, mas não a encarnou em verdadeiros homens, como faz com o padre, com o sapateiro, com o agiota e com os de- mais. O Bobo também é interessante, embora não tenha sido condenado. Na economia dramática do Auto da Barca do Inferno, o Diabo resulta infinitamen- te superior ao Anjo, traço curioso numa peça que pro- cura combater a influência do demônio. HHUUMMAANNIISSMMOO No parágrafo anterior ficou esboçado o que se entende por Humanismo no teatro vicentino: ao abor- dar idéias religiosas, ele as encarna em pessoas vivas, com traços de sensível humanidade. Todo humanista europeu acreditana religião e no teocentrismo. Gil Vi- cente, enfim, enquadra-se no Humanismo por causa de seu estudo do aspecto terreno da manifestação de Deus, pois acreditava que o homem é a maior proje- ção de sua vontade. Muito além de um simples mora- lizador, Gil Vicente satiriza as paixões da natureza hu- mana, também previstas pelo projeto divino. Com efeito, o dramaturgo não se preocupa apenas em con- verter ou moralizar. Delicia-se no retrato dos tipos, na caracterização das camadas e na reprodução das lin- guagens. Possui fascínio por descobrir o traço certo que possa se traduzir em símbolo expressivo dos di- versos grupos sociais e dos vários temperamentos. Preocupava-se tanto com os tipos sociais quanto com os tipos psicológicos, conforme se vê pelas persona- gens do Auto da Barca do Inferno. O Judeu é apenas um tipo social, mas o Frade é predominantemente psi- cológico, embora seja também um estereótipo social. Da mesma forma, com o Sapateiro. A alcoviteira é um detestável aglomerado de traços estereotipados das pessoas viciadas na vantagem pela vantagem, sem nenhuma paixão que a justifique. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 12 • ANGLO VESTIBULARES TTEEAATTRROO PPOOÉÉTTIICCOO Afinal, em que consiste a grandeza do teatro vi- centino? Consiste em sua atualidade, decorrente so- bretudo do domínio sobre a poesia. Sua maior con- quista é a linguagem poética, geradora de todas as complexidades de que se tem falado aqui. A expe- riência dele com os redondilhos é impressionante. As rimas, as agudezas, as metáforas, os trocadilhos, as ambigüidades, os paradoxos, os símbolos, os ba- lanços rítmicos — tudo isso conduz ao universo das composições imortais. Ao lado de Camões e Pessoa, Gil Vicente é a maior expressão da arte portuguesa, que aliás só atingiu universalidade na literatura. Se tivesse escrito em prosa, talvez não fosse tão expres- sivo. Existe muita prosa expressiva, é claro. O que se pretende dizer é que o talento de Gil Vicente era es- sencialmente poético. Seu texto produz a impressão de que não poderia ser feito de outra forma. A enor- me capacidade de representação social do teatro vicentino advém de sua inclinação para a poesia sa- tírica, que depende da escolha certa, do tom preciso e agudo da palavra adequada. É exemplo dessa jus- teza a passagem em que o Judeu, diante do Diabo, di- rige-se ao Fidalgo, já na barca, ordenando-lhe que insulte o barqueiro em seu nome. Esse pequeno tra- ço insinua o poder do dinheiro nas relações sociais, pois afinal um judeu característico tinha ascensão so- bre muitos nobres. Outro exemplo de força poética observa-se no seguinte trecho da fala do Demônio: Ó padre frei-capacete cuidei que tínheis barrete! Percebe-se, aqui, a concisão própria da boa poe- sia, em que se diz muito com pouco. O termo com- posto frei-capacete revela a duplicidade do comporta- mento do padre, que deveria se dedicar ao sacerdó- cio, e não à esgrima. Barrete é um tipo de gorro usa- do pelos clérigos, mas pode indicar também a posi- ção hierárquica do usuário. Tal espécie de símbolo irônico aparece com freqüência no Auto da Barca do Inferno. Aliás, o traço mais característico do Diabo é a ironia, uma ironia fina e ferina, cortante. A ironia con- siste em insinuar o contrário do que se afirma. Assim, as tiradas do Diabo possuem sempre duplo sentido. Como se afirmou acima, o Anjo também é irônico, o que pode ser observado nestes versos de sua fala com o Fidalgo: Pera vossa fantesia mui estreita é esta barca. Em rigor, o Anjo acha que, por sua pequenez, o Fidalgo não cabe em sua barca. Todavia, diz que o céu é menor que ele, deixando claro que é bem maior. O que era maior que o céu era apenas o conceito que o Fidalgo fazia de si mesmo. Ao lado de expressões sutis como essa, o auto apresenta seqüências grosseiras, com palavrões e termos agressivos, como, por exem- plo, os xingamentos do Bobo e do Judeu. Não se pode esquecer, enfim, que a própria na- tureza do auto conduz o texto mais para o universo da poesia do que para o da encenação. Assim, as peças de Gil Vicente não perdem muito se forem apenas li- das, em vez de encenadas. Certamente, admitem be- las montagens. Mas seus recursos cênicos não são tão significativos quanto os do teatro que explora os imprevistos das estórias de paixão. Por outro lado, a leitura (solitária ou em grupo), amplia seu poder de sugestão, porque o auto se aproxima mais da poesia dramática do que propriamente da peça de teatro. A experiência vicentina encontra diversas res- sonâncias na literatura contemporânea. No Brasil, o exemplo mais célebre talvez seja Morte e Vida Seve- rina (1956), de João Cabral de Melo Neto. Igualmente, ao pai do teatro português, João Cabral adota a justa- posição de cenas e o verso redondilho. Aproxima-se ainda pelo tom explicativo da sátira contra as desi- gualdades sociais, assim como pela ênfase na tonali- dade poética do enunciado. As personagens possuem a mesma constituição alegórica, representando cada uma um determinado tipo social do Nordeste. Por fim, o subtítulo remete imediatamente ao teatro primitivo de Gil Vicente: “Auto de Natal Pernambucano”. De fato, o texto cabralino obedece à estrutura do auto, isto é, classifica-se mais como poesia dramática do que propriamente como peça de teatro. Talvez mais popular do que Morte e Vida Severi- na, mas igualmente vicentino, é o Auto da Compade- cida (1959), de Ariano Suassuna. Se o texto de Cabral mantém a sisudez de quem se revolta com a banaliza- ção da morte entre as populações pobres, o de Suas- suna dissolve-se no humor fácil das manifestações folclóricas. Seus tipos populares, seu verso espontâ- neo e sua generosidade expansiva derivam da tra- dição vicentina, cuja texto improvisado deixou fundas influências na cultura popular do Nordeste. Assim nasceu a literatura de cordel entre nós. Essa origem tem explicação: a estrutura do teatro vicentino chegou ao Brasil na segunda metade do século XVI, com os jesuítas, que adaptaram a experiência cortesã de Gil Vicente ao desafio da catequese indígena. Mediante a maleabilidade didática do auto alegórico, puderam iniciar a cristianização dos ameríndios. Dentre todos os jesuítas que adotaram a literatura como forma de ensinamento, destaca-se José de Anchieta, que dei- xou diversas obras nesse gênero. AALLEEGGOORRIIAA Sem noção clara do que seja alegoria é impossí- vel apreciar o Auto da Barca do Inferno. Variante do discurso irônico, a alegoria define-se como enuncia- do de duplo sentido. Afirma uma coisa nas palavras e sugere outra no significado. Trata-se de uma espécie SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 13 • ANGLO VESTIBULARES de metáfora amplificada, em que quadros e cenas su- portam uma significação figurada, que transcende a aparência. O segundo sentido é sempre mais impor- tante que o primeiro. Geralmente, o texto alegórico encarna conceitos religiosos ou ideológicos: por um lado, o Diabo é barqueiro; por outro, é a encarnação do mal. O Corregedor representa a corrupção, sendo também juiz. O Frade simboliza a lascívia e o culto do prazer, sem deixar de ser padre dominicano. Não se pode esquecer que o Auto da Barca do Inferno foi concebido como a primeira cena de uma trilogia, em que os dois outros espaços da vida após a morte fo- ram figurados pela idéia do purgatório (Auto da Barca do Purgatório) e do paraíso (Auto da Barca da Glória). Enfim, alegoria diz a para significar b, sendo que se- gundo elemento é uma versão ideológica do primei- ro. Na ironia, há apenas o disfarce do enunciador em face de um aspecto superficial do assunto. Na alego- ria, a inversão constitui-se na essência da significação. Mediante um sentido, ela diverte; mediante outro, educa, moraliza. LLEEIITTUURRAA EE EEXXEERRCCííCCIIOOSS Tanto que o Frade foi embarcado, veio uma alco- viteira, por nome Brísida Vaz, a qual, chegando à bar- ca infernal, diz desta maneira: BrísidaHoulá da barca! Houlá! Diabo Quem chama? Brísida Brísida Vaz. Diabo Eh! aguarda-me, rapaz! Como nom vem ela já? 38 Companheiro 5. Diz que nom há de vir cá sem Joana de Valdês! 39 Diabo Entrai vós, e remareis. Brísida Nom quero eu entrar lá. Diabo Que saboroso arrecear!... Brísida 10. Nom é essa barca que eu cato40. Diabo E trazeis vós muito fato41? Brísida O que me convém levar. Diabo Que é o que haveis de embarcar? Brísida Seiscentos virgos42 postiços 15. e três arcas de feitiços43 que nom podem mais levar. Três almários44 de mentir e cinco cofres de enleios45, e alguns furtos alheios, 20. assi em jóias de vestir; guarda-roupa de encobrir, SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 14 • ANGLO VESTIBULARES Frontispício de Edição Seiscentista do Auto da Barca do Inferno. 38 O Diabo dirige-se ao Companheiro, anunciando a vinda de Brí- sida, como se já fosse esperada. 39 O Companheiro responde, afirmando que Brísida dizia que só viria ao Inferno quando pudesse trazer consigo Joana de Valdês, que era pessoa conhecida na época da encenação. 40 Procuro. 41 Bens móveis, roupas. 42 Himens, virgindades. Virgo, na época, era palavrão. Hoje, é co- mo se dissesse: trago comigo seiscentos cabaços. 43 Brísida fazia feitiços para seduzir as meninas. 44 Armários. 45 Envolvimentos, intrigas. enfim — casa movediça46; um estrado de cortiça, com dous coxins47 de embair48. 25. A mor cárrega49 que é: essas moças que vendia50. Daquesta51 mercadoria Trago-a eu, muito à bofé52! Diabo Ora ponde aqui o pé. Brísida 30. Hui! e eu vou pera o paraíso! Diabo E quem te dixe53 a ti isso? Brísida Lá hei de ir desta maré. Eu sou uma mártela54 tal, açoutes tenho levados55 35. e tormentos suportados que ninguém me foi igual. Se fosse ao fogo infernal lá iria todo o mundo! A estoutra barca, cá fundo, 40. me vou eu, que é mais real56. E chegando à barca da Glória, diz ao Anjo: Brísida Barqueiro, mano, meus olhos57. Prancha a Brísida Vaz! Anjo Eu não sei quem te cá traz... Brísida Peço-vo-lo de giolhos58! 45. Cuidais que trago piolhos, anjo de Deus, minha rosa? Eu sou aquela preciosa que dava as moças a molhos59. A que criava as meninas 50. pera os cônegos da Sé... Passai-me, por vossa fé, meu amor, minhas boninas60, olhos de perlinhas61 finas! E eu sou apostolada62, 55. engelhada63 e martalada64 e fiz cousas mui divinas. Santa Úrsula nom converteu tantas cachopas65 como eu: todas salvas polo meu66 60. que nenhuma se perdeu67. E prouve àquele do céu68 que todas acharam dono. Cuidais que dormia eu sono? Nem ponto se me perdeu! 69 Anjo 65. Ora vai lá embarcar, Não me estês70 importunando. Brísida Pois estou-vos eu contando o porque me haveis de levar. Anjo Não cureis de importunar71, 70. que não podeis ir aqui. Brísida E que má hora eu servi, pois não me há de aproveitar! Torna Brísida Vaz à barca do Inferno, dizendo: Brísida Hou barqueiros da má hora! Que é da prancha, que eis me vou? 75. E há já muito que aqui estou e pareço mal cá de fora. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 15 • ANGLO VESTIBULARES 46 Tanto pode significar coisa transitória, bens materiais quanto a barraca em que moravam as prostitutas na Idade Média. Elas tinham vida ambulante. 47 Almofadas. 48 Enganar, iludir. 49 Carga. 50 Mário Fiúza, professor português, afirma que Brísida Vaz entra em cena com uma porção de meninas, para simbolizar a profissão de alcoviteira ou cafetina. 51 Desta. 52 Por minha palavra, por boa fé. 53 Disse. 54 Mártir. Em vida, apanhava da justiça. 55 Trata-se de complemento do objeto direto, por isso concorda com ele. O mesmo ocorre com suportados, no verso seguinte. 56 Mais bonita. 57 Brísida usa com o Anjo a linguagem que usava para seduzir meninas. 58 Joelhos. 59 Aos montes. 60 Espécie de flor. 61 Diminutivo de pérola. 62 Semelhante aos apóstolos, pelo sofrimento. Ela apanhava sem- pre. 63 Relativo a anjo, angelical. 64 Martirizada. 65 Moças. 66 Graças a mim. 67 Todas acharam homem. 68 Agradou a Deus. 69 Nos dois versos finais dessa fala, Brísida encarece seu empe- nho no trabalho. Não deixou escapar nenhuma menina. 70 Estejais. 71 Não vos preocupeis em incomodar, isto é, pare de atrapalhar. Diabo Ora entrai, minha senhora, e sereis bem recebida... Se vivestes santa vida, 80. vós o sentireis agora... 1. Observe os versos 14-28 do texto apresentado acima. Neles, Brísida Vaz: a) relaciona o que deixou na terra e que era a- bençoado pela igreja. b) relaciona o que deveria trazer consigo e que lhe valeu a perdição. c) enumera o que traz consigo e que se relacio- nava com sua atividade em vida. d) inventaria os bens recebidos por seus serviços de alcoviteira. e) enumera o conforto obtido com seus serviços de auxiliar dos frades. 2. Observe os versos 44-64. Neles, Brísida Vaz apre- senta os fundamentos de sua pretensão ao céu. Em essência, seus fundamentos resumem-se ao: a) auxílio prestado às moças desamparadas, li- vrando-as da miséria. b) auxílio prestado à igreja, fornecendo mulhe- res aos padres. c) auxílio prestado ao trabalho de Santa Úrsula, convertendo meninas. d) auxílio prestado à sociedade, arranjando casa- mento para meninas solteiras. e) rigor no trabalho, livrando meninas da lascí- via dos padres. 3. A linguagem usada por Brísida com o Anjo pode ser um elemento caracterizador de sua profissão. Assinale a alternativa que melhor descreva essa linguagem: a) sedutora, apresentando técnicas que, em vida, o falante utilizava em sua profissão. b) reflexiva, voltada para as próprias virtudes. c) ambígua, pois tanto descreve a lascívia dos pa- dres quanto a de quem fala. d) melíflua, na medida em que espelha os há- bitos do falante em seu trato com os frades. e) desequilibrada, pois se orienta no sentido de provocar o Anjo. 4. Assinale a alternativa que apresenta o melhor argumento para se considerar Brísida Vaz per- sonagem alegórica: a) ela ama o próprio trabalho, embora desagrade à igreja. b) a igreja a define como anomalia. c) a sociedade é responsável por sua atividade. d) contraria a finalidade do homem. e) ela se define por traços estereotipados. 5. Brísida afirma que fez coisas “mui divinas”, “sal- vou” e “converteu” mais meninas do que Santa Úrsula. Nessas passagens, como em outras, sua linguagem caracteriza-se pelo uso de: a) deboche e denúncia. b) metáfora e alegoria. c) ironia e hipérbole. d) ambigüidade e ironia. e) ambigüidade e metonímia. 6. O Auto da Barca do Inferno não apresenta unida- de de ação. Tomando como verdade essa afirma- ção, responda: a) Como se explica, tecnicamente, essa falta de unidade? b) Historicamente, teria sido possível a Gil Vicen- te escrever uma peça com unidade de ação? 7. O teatro vicentino apresenta preocupação ética. Tomando essa afirmação como verdade, res- ponda: a) Por que o teatro vicentino é ético? b) Em que sentido a sátira possui relação com a preocupação ética do autor? 8. O Auto da Barca do Inferno foi encenado para os reis portugueses. Responda: a) As idéias contidas no auto são específicas do autor ou fazem parte de uma espécie de reper- tório coletivo? b) se o auto foi encenado para a nobreza, como en- tender as críticas dirigidas contra essa classe? 9. O teatro vicentino é poético. Responda: a) qual a razão técnica dessa afirmação? b) por que o Auto da Barca do Inferno pode ser classificado como moralidade? 10. As personagens de o Auto da Barca do Inferno são tipos alegóricos. Responda: a) o que se entende por personagens típicas ou alegóricas? b) quais as três personagens com maior implica- ção social no Auto da Barca do Inferno? RREESSPPOOSSTTAASS 1. C 2. B 3. A 4. E 5. D 6. a) Ausência de enredo com princípio, meioe fim. A peça limita-se à justaposição de cenas inde- pendentes, unidas apenas pelo fato envolve- rem alguns interlocutores constantes, que são as personagens fixas no palco. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 16 • ANGLO VESTIBULARES b) Sim, desde que conhecesse o teatro clássico dos gregos, em evidência no Renascimento ita- liano. O teatro com unidade de ação contém uma estória com trama, intriga ou enredo. Para isso, o final deveria ser uma conseqüência do começo, isto é, a peça deveria apresentar o de- senrolar de um conflito entre as personagens. 7. a) Trata-se de teatro ético porque se preocupa muito com os costumes e os comportamentos sociais. b) Mediante a sátira, o autor critica comporta- mentos que considerava fora de um padrão ético previsto pela moral cristã do catolicismo medieval, concebido idealmente. 8. a) Fazem parte da moral católica, tal como era concebida pela Idade Média. b) O auto não critica a essência da nobreza, li- mita-se a denunciar os maus nobres, de que D. Anrique é exemplo. Essa é a tônica de sua críti- ca. Todavia, pode-se detectar uma denúncia mais profunda na passagem em que o Diabo afirma que o pai de D. Anrique também tinha ido para o inferno. Isso pode sugerir que todos os nobres são perversos, mas não é um enun- ciado explícito e unívoco. 9. a) Porque é escrito em verso e também porque explora com sabedoria os recursos expressi- vos da língua. Além das rimas, há muitas su- tilezas sonoras, trocadilhos e insinuações ori- ginais. Nas primeiras edições, os versos agru- pavam-se em estrofes de oito versos. b) Classifica-se como auto de moralidade porque se reveste de propósito didático, ensinando verdades consagradas pela religião católica. 10. a) São personagens que representam certos gru- pos sociais, certos conceitos ou vícios bem definidos. b) O Fidalgo, o Procurador e o Corregedor, por- que estão diretamente ligados aos mecanismos administrativos da sociedade. Representam a corrupção das instituições públicas. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 17 • ANGLO VESTIBULARES