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1.5. A decisão sobre o que produzir Como os fatores produtivos são escassos e as necessidades humanas ilimitadas, os agentes econômicos precisam decidir onde aplicar preferencialmente os recursos disponíveis. Ao formular a política econômica, o Governo pode induzir a economia a produzir mais bens para o mercado interno nacional e menos para a exportação, ou, inversamente, aumentar as exportações com redução da oferta interna. Essas escolhas referem-se às possibilidades de produção da economia. 1.5.1. A curva de possibilidades de produção Reduzindo-se a totalidade de bens da economia a apenas dois produtos (feijão e soja), ou a dois conjuntos de bens (exportáveis e domésticos), a escolha entre uma e outra alternativa pode ser representada na parte (A) da Figura 4. Figura 4 – Fronteira das possibilidades de produção, ou curva de transformação Suponha que a economia escolha a combinação C0, produzindo f0 de feijão para o mercado interno nacional e s0 de soja para atender à exportação, com todas as terras férteis ocupadas. Desejando aumentar a produção de soja para o mercado externo, passando, por exemplo, de s0 para s1, será necessário que o cultivo de soja avance em terras anteriormente ocupadas com feijão. Assim, a produção de feijão cairá para f1. Se a economia empregar todos os seus recursos na produção de feijão, ela obterá a produção máxima fM de feijão e produção nula de soja; inversamente, empregando todas as terras, capitais e mão-de-obra na produção de soja, ela colherá sM toneladas de soja e zero tonelada de feijão. Em qualquer ponto sobre a curva, haverá uma combinação tecnicamente eficiente na produção dos dois bens, pois todos os recursos estarão sendo plenamente empregados e a produção total permanece constante. O ponto final de equilíbrio dependerá dos preços de mercado ou de decisões políticas. Se os preços da soja (ps) subirem no mercado externo, os produtores nacionais tenderão a produzir mais soja e menos feijão. Tanto as oscilações de mercado como as decisões políticas, provocarão mudanças no preço do feijão (pf), alterando os preços relativos (ps/pf) e as quantidades demandadas de cada bem. O equilíbrio mudará para outro ponto sobre a curva de transformação, como de C0 para C1 (Figura 4, (A)). Em uma situação de pleno emprego dos recursos, a curva de transformação ou fronteira das possibilidades de produção (FPP) indica quanto a economia deverá renunciar de determinado bem, por unidade de acréscimo da produção de outro. Qualquer ponto sobre a curva indica uma produção total constante, com a redução da produção de um bem sendo compensada pelo aumento da produção de outro. Havendo desemprego de recursos, ou ineficiência em sua utilização, como terras férteis livres, mão-de-obra desocupada, ou capital ocioso, a economia estaria em um ponto abaixo da FPP, como no ponto A da Figura 5, parte (A), produzindo fa de feijão e sa, de soja. Assim, no curto prazo, seria possível aumentar a produção tanto de feijão, como de soja. Nos anos de 1970, quando o Brasil incentivou o aumento da produção de soja para exportação, a ideia era a de que a existência de terras livres na fronteira agrícola e a concessão de crédito subsidiado para a agricultura impediriam a queda da produção de alimentos para o setor urbano. Também é possível aumentar-se a produção no curto prazo, com mudanças tecnológicas que incrementem a produtividade dos fatores, como novas técnicas de plantio, sementes geneticamente melhoradas, contratação de mão- de-obra mais bem treinada, novos arranjos das máquinas e equipamentos existentes etc. No longo prazo, como no ano 2007, é possível aumentar simultaneamente a oferta de ambos os bens, deslocando a FPP para cima e para a direita, devido à realização de novos investimentos de capital (compra de tratores, equipamentos de irrigação e adubos). Esses novos investimentos podem ser realizados pela utilização de poupanças acumuladas ou por financiamentos, de fontes nacionais e internacionais. Assim, seria possível elevar tanto a produção de soja, como a de feijão, atingindo-se a combinação C’1 (s1,f’1), sobre a FPP’ da Figura 4, parte (B). Nessa figura, a mudança da curva de transformação para a direita, paralelamente, indica a ocorrência de mudança técnica na mesma proporção na produção dos dois bens. As mesmas quantidades de insumos são requeridas, como antes, para produzir uma unidade de cada um dos bens (custos constantes no longo prazo): o acréscimo possível da produção de soja (sM – sM) é igual à variação possível de feijão (fM - fM ). Já na Figura 5, o crescimento econômico (deslocamento da FPP) ocorre com acumulação de capital e progresso técnico diferenciado entre os setores. Na parte (A) da figura, a dotação de recursos torna-se mais intensa na produção de produtos manufaturados do que no setor primário (agropecuária, extrativa vegetal e mineral). Isso pode ser percebido pelo fato de que o acréscimo possível da produção de manufaturas, dado pela maior abertura da FPP no eixo das abscissas, é maior do que no caso da produção primária. Figura 5 Mudanças na curva de transformação com o desenvolvimento econômico Isso se explica porque, no processo de desenvolvimento, aumenta mais a demanda de produtos manufaturados em relação à demanda de produtos primários. Cresce substancialmente a demanda de eletrodomésticos, automóveis, computadores. Isso pode ser percebido pelo fato de que, no ponto de equilíbrio E1, o acréscimo da produção de bens primários (a1 – a0) foi menor do que o acréscimo da produção de bens manufaturados (m1 – m0). O mesmo ocorre com a produção de bens públicos, como rodovias, defesa nacional, educação, pesquisa científica, cuja demanda expande-se consideravelmente no processo de desenvolvimento econômico (parte (B) da Figura 5). Tendo em vista que a urbanização, industrialização e desenvolvimento evoluem no mesmo sentido, os gastos com a geração de bens públicos tendem a aumentar no tempo, elevando a produtividade e o bem-estar social. 1.5.2. Mudanças na curva de transformação Variações nos fatores considerados constantes determinarão um deslocamento da curva para a direita. Primeiro, quanto maiores forem as disponibilidades de recursos produtivos da economia, mais afastada da origem estará a curva (Figura 6). Figura 6 Segundo, variações tecnológicas iguais para os processos de produção dos dois bens deslocarão a curva para a direita e paralelamente. Figura 7 Se a variação tecnológica for maior para o processo de produção do bem Y, maior será o deslocamento em relação a esse eixo. Figura 8 1.5.3. Custos crescentes A razão da curva de transformação ser decrescente se deve ao fato de os recursos disponíveis serem limitados. O formato da curva mostra que se decresce a taxas crescentes; isto significa que a substituição entre quantidades dos dois bens se torna cada vez mais difícil. Isto quer dizer que, na medida em que se está consumindo (produzindo) pouco de um bem, o sacrifício de se consumir (produzir) menos ainda é muito grande. Por exemplo, passando de B para C, ganham-se 10 milhões de camisas e sacrificam-se 20 mil carros. Agora, ao se passar de D para E, ganham-se 10 milhões de camisas, porém, sacrificam-se 40 mil carros. Figura 9 Curva de transformação (camisas x carros) Este fenômeno dos custos crescentes surge na medida em que se transfere recursos adequados e eficientes de uma atividade para outra, onde eles se apresentam ineficientes e inadequados. Assim, se se insistir somente na produção decamisas, tem-se que recorrer aos soldadores de chapas de aço para passarem a pregar mangas de camisas, ainda que muito poucos consigam fazê-lo. Essa é a razão de se esperar a vigência da lei dos custos crescentes, ou dos rendimentos decrescentes. 1.6. A economia como ciência Notadamente, convém à Economia, como a qualquer outra ciência, a delimitação de seu núcleo e a correta especificação de seu objeto. Mas na realidade é muito difícil separar os fatores essencialmente econômicos dos extra-econômicos, pois todos são significativos para o exame de qualquer sistema social. Neste sentido, a autonomia de cada um dos ramos das Ciências Sociais não deve ser confundida com um total isolamento, pois todas as manifestações das modernas sociedades se encontram interligadas, apenas que a realidade deve ser observada sob diferentes óticas e investigada em termos não unilaterais. Num esquema de visualização gráfica vem: Figura 10 REALIDADE Aspecto Material do objeto Na verdade cada ciência observa e analisa a realidade do aspecto material do seu objeto, segundo sua própria lógica formal. O fato porém é que as visões sobre o mesmo objeto acabam se inter-relacionando. a) Economia e Política Essa interdependência é secular, pois sendo a política a arte de governar, ou o exercício do poder, é natural que esse poder tente exercer o domínio sobre a coisa econômica. Através das instituições, principalmente do Estado, os grupos de dominação procuram interferir numa distribuição de renda que lhes seja conveniente. Por exemplo, os agricultores na época da política do "café com leite" mantinham o uso da política do Estado para lhes conceder vantagens econômicas. O mesmo ocorre hoje com os industriais que querem apropriar-se de crédito subsidiado ou tarifas aduaneiras que lhes protejam o mercado interno, fora da competição externa, garantindo- lhes lucros maiores. Coisa não muito distinta é a ação dos trabalhadores organizados, petroleiros, metalúrgicos do ABC, bancários etc., que conseguem salários maiores que os demais trabalhadores pouco organizados, logo com menor força política. Finalmente, cabe no Brasil falar da oligarquia nordestina que politicamente vem de longa data se locupletando com as transferências de renda inter-regionais. b) Economia e História Os próprios sistemas econômicos estão condicionados à evolução histórica da civilização. As ideias que constroem as teorias são formuladas nutri contexto histórico onde se desenvolvem as atividades e as instituições econômicas. A pesquisa empírica sobre os fatos econômicos é levada avante a partir do registro histórico das informações sobre a realidade que se propõe a analisar. A vantagem dos estudos num contexto particular da História decorre do volume generalizado de informações que são levantadas sobre o ambiente em que transcorrem os fatos econômicos. A História do ambiente enriquece os resultados analíticos. Fica evidente que os produtores de café conseguiam manter seu nível de venda, num momento de crise, quando representavam o poder político, nos idos anos do primeiro quarto deste século, o que não acontece no momento atual. O conhecimento do quadro político e social ajuda a entender a evolução dos fatos econômicos. c) Economia e Geografia Os acidentes geográficos interferem no desempenho das atividades econômicas e, inúmeras vezes, as divisões regionais são utilizadas para se estudar as questões ligadas aos diferenciais de distribuição de renda, de recursos produtivos, de localização de empresas, dos efeitos de poluição sobre o meio ambiente, do equilíbrio dado pelos custos de transporte, das economias de aglomeração urbana etc. Na verdade, todas as atividades econômicas têm um conteúdo especial, que muitas vezes não se refere apenas aos custos de transporte. d) Economia e Sociologia Quando a política econômica visa atingir os indivíduos de certas classes sociais, interfere diretamente no objeto da sociologia, isto é, a dinâmica da mobilidade social entre as diversas classes de renda. As políticas salariais ou de gastos sociais (educação, saúde, transportes, alimentação etc.) são exemplos que direta ou indiretamente influenciam essa mobilidade. e) Economia, Matemática e Estatística A Economia faz uso da lógica matemática e das probabilidades estatísticas. Muitas relações de comportamento econômico podem ser expressas através de funções matemáticas, como por exemplo: a quantidade demandada (Q) por um indivíduo é uma função linear da renda disponível (R), do preço do bem (P), dos preços do substituto (S) e do complementar (C), isto é: Q = a - bP + cR + dS - eC, Em que a, b, c, d, e e são constantes. Pode-se escrever também que a poupança da coletividade (S) é função da renda disponível (R) e da taxa de juros (i), ou seja: S = a + bR - ci Todavia, a economia não é uma ciência exata em que se pode programar os resultados sem erros. Por exemplo, se todos ganhassem mais renda, é fácil imaginar que nem todos iriam gastar as mesmas proporções em consumo. É praticamente impossível prever com exatidão o comportamento de um particular indivíduo, mas se indagado o aluno poderia responder com base no valor médio de gastos da coletividade. Como pessoa inteligente é quase certo que estaria baseando-se no valor onde a probabilidade de ocorrência é maior, isto é, onde a margem de erro for mínima. Essa estratégia de se estimar as relações econômicas, matematicamente formuladas, a partir da minimização dos desvios estatísticos aleatórios, é conhecida como econometria, uma espécie de mistura da economia, matemática e estatística.