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Capítulo (1).pdf Capítulo (2).pdf Capítulo (3).pdf Capítulo (4).pdf Capítulo (5).pdf Capítulo (6).pdf Capítulo (7).pdf Capítulo (8).pdf Capítulo (9).pdf Capítulo (10).pdf FIGURAS e TABELAS.pdf Capítulo 1 Introdução Espécies ameaçadas geralmente declinam devido à perda de habitat, sobre-exploração, introdução de espécies e poluição. Além disso, em populações de tamanhos pequenos fatores estocásticos (demográfi cos, ambientais, genéticos e catastrófi cos) aumentam o seu risco de extinção. A genética da conservação é o uso da teoria e técnicas genéticas para reduzir os riscos de extinção em espécies ameaçadas. Termos Biodiversidade, biorecursos, catástrofes, estocasticidade demográfi ca, ecoserviços, em perigo, estocasticidade ambiental, potencial evolutivo, vórtex de extinção, forense, diversidade genética, deriva genética, estocasticidade genética, endogamia, depressão endogâmica, expurgo, especiação, estocástico, ameaçado, vulnerável Seleção de espécies ameaçadas: Sentido horário: panda (China), uma orquídea Australiana, cacatua de palmeira (Austrália), tuatara (Nova Zelândia), sapo fl echa venenoso (América do Sul), peixe pulmonado (Austrália), pinheiro Wollemi (Austrália) e borboleta- de-cauda-de-andorinha da Córsega. INTRODUÇÃO2 A sexta “extinção” Biodiversidade é a variedade de ecossistemas, espécies, populações dentro de espécies, e diversidade genética entre e dentro dessas popu- lações. A diversidade biológica do planeta está sendo rapidamente re- duzida como conseqüência direta e indireta das atividades humanas. Embora não conhecido, um grande número de espécies já foi extinto, enquanto muitas outras têm tamanhos populacionais reduzidos que as colocam em risco. Muitas espécies atualmente necessitam da inter- venção humana para assegurar sua sobrevivência. A escala do problema é enorme e tem sido chamada de a “sexta extinção”, uma vez que sua magnitude se compara as outras cinco ex- tinções em massa reveladas por registros geológicos. Extinção é uma parte natural do processo evolutivo, no qual as espécies tipicamente persistem por aproximadamente 5-10 milhões de anos. Quando as ex- tinções são balanceadas pela origem de novas espécies (especiação), a biodiversidade é mantida. Extinções em massa, tais como os cata- clismos cósmicos que eliminaram muito da fl ora e fauna no fi nal do Cretáceo, a 65 milhões de anos atrás, são diferentes. Foram necessários muitos milhões de anos para a proliferação de mamíferos e plantas an- giospermas para substituir os dinossauros e as plantas gimnospermas existentes anteriormente. A sexta extinção é igualmente dramática. As espécies estão sendo perdidas em taxas que ultrapassam a origem de novas espécies e, diferente das extinções em massa anteriores, esta é principalmente devido às atividades humanas. A genética da conservação, assim como todas as disciplinas que compõem a biologia da conservação, é motivada pela necessidade de reduzir as taxas atuais de extinção e preservar a biodiversidade. Por que preservar a biodiversidade? Os humanos obtêm muitos benefícios diretos e indiretos do mundo vivo. Assim, temos interesse em conservar a biodiversidade pelos re- cursos que usamos, pelos ecoserviços que ela nos proporciona, pelo prazer que nos dá os organismos vivos, e por questões éticas. Os biorecursos incluem todos os nossos alimentos, muitas drogas farmacêuticas, fi bras naturais, borracha, madeira, etc. Seu valor é de muitos bilhões de dólares anuais. Por exemplo, cerca de 25% de todas as prescrições farmacêuticas nos Estados Unidos contêm ingredientes ativos derivados de plantas. Além disso, o mundo natural contém mui- tos recursos novos potencialmente úteis. Formigas sintetizam novos antibióticos que estão sendo investigados para a medicina humana, a seda das aranhas é mais forte, proporcionalmente ao peso, do que o aço, e pode proporcionar a base para o desenvolvimento de fi bras leves de alta elasticidade, etc. Ecoserviços são funções biológicas essenciais que benefi ciam as pes- soas, cedidas sem nenhum custo pelos organismos vivos. Os exemplos incluem a produção do oxigênio pelas plantas, o controle do clima pelas fl orestas, o ciclo dos nutrientes, a purifi cação da água, o controle natural das pestes, e a polinização de plantas cultivadas. Em 1997, A diversidade biológica do planeta está sendo rapidamente exaurida como conseqüência das ações humanas Quatro justifi cativas para a manutenção da biodiversidade são: valor econômico dos biorecursos; ecoserviços; valor estético; e direitos de vida dos organismos ESPÉCIES EM PERIGO E EXTINTAS 3 Tabela 1.1 | Extinções registradas, de 1600 até o presente, para espécies distribuídas em continentes e ilhas de todo o mundo Taxa Total Porcentagem de taxa extintas Porcentagem de extinções em ilhas Mamíferos 85 2,1 60 Aves 113 1,3 81 Répteis 21 0,3 91 Anfíbios 2 0,05 0 Peixes 23 0,1 4 Invertebrados 98 0,01 49 Plantas com fl ores 384 0,2 36 Fonte: Primack (2002). estes serviços foram avaliados em U$ 33 trilhões (1012) por ano, quase o dobro dos U$ 18 trilhões anuais do produto nacional global. Muitos humanos desfrutam do prazer oferecido (valor estético) pelos organismos vivos, expresso no cultivo de plantas ornamentais, na manutenção de animais de estimação, nas visitas aos zoológicos, no ecoturismo e no acompanhamento de documentários sobre a vida selvagem. Isso se traduz em valor econômico direto. Por exemplo, es- tima-se que os coalas contribuam com US$ 750 milhões anuais para a indústria de turismo Australiana. As justifi cativas éticas para a conservação da biodiversidade são simplesmente que nossa espécie não tem o direito de levar outras espécies à extinção, o que se compara ao horror do genocídio entre populações humanas. Espécies em perigo e extintas Extinções registradas As extinções registradas desde 1600 para diferentes grupos de ani- mais e plantas, em ilhas e continentes, são dados na Tabela 1.1. Em- bora mais de 700 extinções tenham sido registradas até o presente, a proporção de espécies que se extinguiram é pequena, represen- tando apenas 1-2% nos mamíferos e aves. Entretanto o padrão das extinções é preocupante, uma vez que as taxas de extinção têm, no geral, aumentado com o tempo (Fig. 1.1) e muitas espécies estão ago- ra ameaçadas. Além disso, muitas extinções devem ter ocorrido sem terem sido registradas. A perda de habitat pode ter resultado na extinção de muitas espécies não descritas, especialmente de inver- tebrados, plantas e microorganismos. Provavelmente pouquíssimas espécies novas devem ter evoluído para substituir aquelas perdidas nesse intervalo de tempo. A maioria das extinções registradas, e uma proporção signifi cativa das espécies atualmente ameaçadas, estão em ilhas (Tabela 1.1). Por exemplo, 81% de todas as aves extintas viveram em ilhas, número qua- tro vezes maior que a proporção de espécies de aves que vivem em ilhas. Mais de 800 extinções foram documentadas desde o início dos registros em 1600, a maioria sendo de espécies de ilhas INTRODUÇÃO4 São classifi cadas como ameaçadas 18 % das espécies animais vertebrados, 29 % de invertebrados e 49 % das espécies de plantas As projeções indicam elevadas taxas de extinção no futuro próximo Espécies ameaçadas são aquelas com alto risco de extinção imediata 1600 0,0 0,1 0,2 0,3 0,4 1700 1800 1900 2000 P e rc e n ta ge o f ta x o n b e co m in g e x ti n ct Year Birds Mammals Extensãoda ameaça A IUCN, a União para a Conservação Mundial, defi ne como ameaçadas as espécies com um alto risco de extinção dentro de um curto perí- odo de tempo. Estas espécies ameaçadas são classifi cadas dentro das categorias criticamente em perigo, em perigo e vulneráveis. Em peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos, a IUCN classifi cou 30%, 21%, 25%, 12% e 24% das espécies avaliadas, respectivamente, como ameaçadas. Das 4763 espécies de mamíferos, 3,8% estão criticamente em perigo, 7,1% em perigo e 13,0% vulneráveis, enquanto que os 76% restantes são considerados em baixo risco. A situação é similar em invertebrados com 29% das espécies avaliadas classifi cadas como ameaçadas. A situação em plantas é ainda mais alarmante. A IUCN classifi - cou 49% das plantas como ameaçadas, com 53% dos musgos, 23% das gimnospermas, 54% das dicotiledôneas e 26% das monocotiledôneas ameaçadas. Há considerável incerteza sobre esses dados, com exceção dos dados de mamíferos, aves e gimnospermas, uma vez que muitas espécies não foram avaliadas nos demais grupos. Estimativas para mi- croorganismos não estão disponíveis, já que o número de espécies para este grupo não é conhecido. Projeção das taxas de extinção Com o aumento contínuo das populações humanas e o impacto pre- visto sobre a vida selvagem, existe um consenso de que as taxas de extinção deverão acelerar marcadamente, por até mil vezes ou mais que a taxa ‘normal’ deduzida dos registros fósseis. O que é uma espécie ameaçada? A classifi cação da IUCN em criticamente em perigo, em perigo, vulne- rável e baixo risco refl ete graus de risco de extinção. Elas são defi nidas em termos de taxas de declínio no tamanho populacional, restrições na área do habitat, o tamanho populacional atual e/ou a probabilidade de extinção prevista quantitativamente. Espécies criticamente em pe- rigo são aquelas que exibem qualquer uma das características descritas sob os itens A-E na Tabela 1.2, por exemplo, redução de ≥80% do tama- nho populacional nos últimos 10 anos ou três gerações, ou uma área TRADUZIR Fig. 1.1 Mudanças mundiais nas taxas de extinção ao longo do tempo em mamíferos e pássaros (depois de Smith et al.1995). As taxas de extinção geralmente têm aumentado em períodos de 50 anos sucessivos. O QUE É UMA ESPÉCIE AMEAÇADA? 5 Listar uma espécie ou subespécie como em perigo fornece uma base científi ca para a proteção legal nacional e internacional e pode levar a ações corretivas para sua recuperação Tabela 1.2 | Designações de espécies dentro das categorias criticamente em perigo, em perigo ou vulnerável (IUCN, 2002). Uma espécie em conformidade com qualquer um dos critérios de A – E na coluna de ‘Criticamente em perigo’ é defi nida como dentro dessa categoria. Regras similares são aplicadas para as categorias ‘Em perigo’ e ‘Vulnerável’. Critérios (qualquer um de A – E) Criticamente em perigo Em Perigo Vulnerável A. Redução do tamanho populacional atual ou projetado 80% de declínio nos últimos 10 anos ou três gerações 50% 20% B. Extensão de ocorrência ou área de ocupação < 100 km2 < 5.000 km2 < 20.000 km2 < 10 km2 e dois dos itens seguintes: < 500 km2 < 2.000 km2 (1) severamente fragmentada ou ocorrência conhecida em um único local (2) declínio continuo e (3) fl utuações extremas ≤ 5 locais ≤ 10 locais C. Tamanho populacional e declínio contínuo estimado, ou população severamente fragmentada < 250 indivíduos maduros < 2500 < 10.000 D. Tamanho populacional estimado < 50 indivíduos maduros < 250 < 1.000 E. Análise quantitativa mostrando a probabilidade de extinção na natureza Pelo menos 50% nos próximos 10 anos ou três gerações, ou o que for maior 20% em 20 anos, ou cinco gerações 10% em 100 anos de ocupação ≤100 quilômetros quadrados, ou uma população estável de ≤250 adultos maduros, ou uma probabilidade de extinção de ≥50% nos próximos 10 anos ou três gerações, ou alguma combinação destes. Por exemplo, o rinoceronte de Java, classifi cado como criticamente em perigo, sobrevive com somente 65 indivíduos no Sudeste da Ásia e esse número continua em declínio. Da mesma forma, critérios que representam menor grau de amea- ça são utilizadas para classifi car as espécies nas categorias “em perigo” ou “vulneráveis”. Espécies que não se encaixam em nenhum dos crité- rios da Tabela 1.2 são designadas como em baixo risco de extinção. Embora existam muitos outros sistemas para categorizar o grau de ameaça que são utilizados por alguns paises e estados em particular, a IUCN proporciona o único sistema internacional e é a base para a ela- boração da lista de espécies apresentada no Livro Vermelho das espécies ameaçadas da IUCN. No geral, usamos os critérios da IUCN em todo este livro. Importância da listagem O reconhecimento da ameaça é a base para a proteção legal das espécies. Muitos países possuem, por exemplo, Leis de Espécies Ame- açadas que proporcionam uma proteção legal a elas e estabelecem a formulação de planos de recuperação. Adicionalmente, espécies amea- çadas são protegidas do comércio por países que assinaram a Conven- ção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES). INTRODUÇÃO6 Os fatores primários que contribuem para as atuais extinções são perda de habitat, introdução de espécies, sobre-exploração e poluição. Esses fatores são gerados pelo homem e estão relacionados ao crescimento das populações humanas Fatores ambientais acidentais (estocásticos), catastrófi cos, demográfi cos e genéticos aumentam o risco de extinção em populações pequenas Quais as causas das extinções? Fatores associados à ação humana Os fatores primários que contribuem para a extinção estão direta ou indiretamente relacionados aos impactos humanos. A população hu- mana está crescendo exponencialmente e chegou a 6 bilhões em 12 de outubro de 1999. Até 2050, projeta-se que a população atingirá 8,9 bilhões de indivíduos, chegando a 10-11 bilhões ao redor de 2070, e então declinando. Isto representa um aumento de cerca de 75% sobre a população atual. Conseqüentemente, os impactos humanos sobre os animais selvagens e plantas irão piorar no futuro próximo. Fatores estocásticos Fatores relacionados à ação humana freqüentemente reduzem as populações a tamanhos nos quais as espécies fi cam susceptíveis a efeitos acidentais ou estocásticos. Estes são fl utuações naturais sen- tidas por pequenas populações. Eles podem ter origens ambientais, catastrófi cas, demográfi cas, ou genéticas. Os fatores estocásticos são amplamente discutidos em todo o livro. Mesmo que a causa original do declínio da população seja removida, os problemas surgidos em pequenas populações persistirão, a menos que os números sejam restabelecidos. Estocasticidade ambiental é a variação randômica imprevisível dos fatores ambientais, tais como variação nos níveis de precipitação e variação no suprimento de alimento. Estocasticidade demográfi ca é a variação nas taxas de nascimento, morte e razão sexual devida somente ao acaso. Catástrofes são eventos ambientais extremos de- vidos a tornados, inundações, inverno severo, etc. A estocasticidade genética abrange os impactos deletérios da en- dogamia, a perda da diversidade genética e o acúmulos de mutações sobre as espécies. A endogamia (produção de descendentes de pais relacionados), na média, reduz a taxa de nascimentos e aumenta a taxa de mortalidade (depressão endogâmica) nos descendentes endo- gâmicos. A perda da diversidade genética reduz a habilidade da po- pulação de adaptar-se a mudanças ambientais via seleção natural. A estocasticidade ambiental e demográfi ca, e oimpacto das ca- tástrofes, interagem com a diversidade genética e o endocruzamen- to em seus efeitos adversos sobre as populações. Se as populações tornam-se pequenas por alguma razão, elas tornam-se mais endo- gâmicas, promovendo mais redução no tamanho populacional e aumentando a endogamia. Ao mesmo tempo, populações menores perdem variação genética (diversidade) e conseqüentemente apre- sentam uma redução em sua habilidade de se adaptar e evoluir às mudanças ambientais. Esta interação entre tamanho populacional reduzido, perda da diversidade genética e endogamia é referida como vórtex de extinção. As intrincadas interações entre os fatores genéticos, demográfi cos, e ambientais pode tornar bastante difícil a identifi cação da(s) causa(s) imediata(s) de qualquer evento particular de extinção. O QUE É GENÉTICA DA CONSERVAÇÃO? 7 Pantera da Flórida O que é genética da conservação? Genética da conservação é o uso da teoria e técnicas genéticas para reduzir o risco de extinção das espécies ameaçadas. Seu objetivo em longo prazo é preservar espécies como entidades dinâmicas capazes de lidar com mudanças ambientais. A genética da conservação é derivada da genética evolutiva e da teoria da genética quantitativa que forma a base da seleção de plantas e animais domésticos. Entretanto, estas teorias geralmente concentram-se sobre grandes populações onde a constituição genética das populações é governada por fatores deter- minísticos (coefi cientes de seleção, etc.). A genética da conservação é agora uma disciplina a parte que focaliza as conseqüências que sur- gem da redução de uma população, uma vez grande e exogâmica, para pequenas unidades onde fatores estocásticos e efeitos da endogamia são extremamente importantes. O campo da genética da conservação também inclui o uso das aná- lises genéticas moleculares para elucidar aspectos da biologia da espé- cie relevantes para o seu manejo e conservação. Os principais temas incluem: Os efeitos deletérios da endogamia sobre a reprodução e sobrevivên-• cia (depressão endogâmica) Perda da diversidade genética e a habilidade de evoluir em resposta • a mudanças ambientais (perda do potencial evolutivo) Fragmentação das populações e redução do fl uxo gênico• Maior importância dos processos estocásticos (deriva genética), em • relação à seleção natural, como o principal processo evolutivo Acumulação e perda (expurgo) de mutações deletérias• Manejo genético de pequenas populações em cativeiro e os efeitos • adversos da adaptação ao ambiente do cativeiro sobre o sucesso da reintrodução Resolução de incertezas taxonômicas• Defi nição de unidades de manejo dentro dos limites das espécies• Uso de análises genéticas moleculares em questões forenses e elu-• cidação de aspectos da biologia das espécies importantes para a conservação Alguns exemplos são dados abaixo. Redução do risco de extinção pela minimização da endogamia e da perda da diversidade genética Muitas populações pequenas e ameaçadas são endogâmicas e têm re- duzido níveis de diversidade genética. Por exemplo, a ameaçada pan- tera da Flórida sofre de problemas genéticos como evidenciado pela baixa diversidade genética e defeitos relacionados à endogamia (pouco esperma e anormalidades físicas). Para aliviar esses efeitos, indivíduos de sua subespécie mais relacionada do Texas têm sido introduzidos nesta população. Populações de cativeiro de muitas espécies ameaça- das (por exemplo, mico-leão-dourado) são manejadas para minimizar a perda da diversidade genética e endogamia. INTRODUÇÃO8 Pinheiro Wollemi Pica-pau Picoides borealis Verme-de-veludo Identifi cação de espécies ou populações em risco devido a redução da diversidade genética Os leões asiáticos existem na natureza somente em uma pequena popu- lação na Floresta Gir na Índia e apresentam baixos níveis de diversida- de genética. Conseqüentemente, eles têm uma habilidade para evoluir severamente comprometida, bem como são susceptíveis a riscos demo- gráfi cos e ambientais. O pinheiro Wollemi, uma espécie Australiana recentemente descoberta e conhecida anteriormente somente por re- gistros fósseis, não contém diversidade genética em centenas de locos entre os indivíduos. Seu risco de extinção é extremo. É susceptível a um fungo comum (die-back), e todos os indivíduos que foram testados foram similarmente susceptíveis. Em conseqüência, instituiu-se um programa que envolve manter o local de sua ocorrência em segredo, o estabelecimento de quarentena, e a propagação de plantas em outras localidades. Resolução da estrutura de populações fragmentadas A informação sobre a extensão do fl uxo gênico entre as populações é critica para determinar se a espécie requer ajuda humana para trans- locação de indivíduos de forma a prevenir a endogamia e a perda da diversidade genética. Populações naturais do pica-pau Picoides borealis (red-cockaded) são fragmentadas, causando diferenciação genética entre elas e reduzindo a diversidade genética nas populações pequenas. Con- seqüentemente parte do manejo dessa espécie envolve a introdução (translocação) de indivíduos nas pequenas populações para minimizar os riscos de endogamia e de perda da diversidade genética. Resolução de incertezas taxonômicas O status taxonômico de muitos invertebrados e plantas inferiores é freqüentemente desconhecido. Assim, uma espécie aparentemente de baixo risco e amplamente distribuída pode, na realidade, compor um complexo de espécies distintas, algumas raras ou ameaçadas. Na Aus- trália, espécies de tarântulas são aparentemente amplamente distri- buídas na fl oresta tropical do norte e são coletadas por comerciantes. Entretanto, especialistas podem identifi car, mesmo entre os espécimes comercializados em lojas especializadas, espécies ainda não descritas, algumas das quais podem ser nativas de regiões restritas. Estudos si- milares têm mostrado que a Austrália é a casa de mais de 100 espécies de vermes-de-veludo (Peripatus) distribuídas localmente, ao contrário das sete espécies morfológicas de ampla distribuição previamente reconhecidas. Até mesmo a tuatara, réptil único da Nova Zelândia, é composto de duas espécies ao invés de apenas uma. Da mesma forma, os marcadores genéticos podem revelar que po- pulações que pensamos estarem ameaçadas pertencem, de fato, a es- pécies comuns, atraindo recursos e proteção não merecidos. Análises com marcadores moleculares têm demonstrado que o roedor colonial ameaçado do grupo Geomys (pocket gopher) da Geórgia, USA é indistin- guível de uma espécie relacionada mais comum naquela região. O QUE É GENÉTICA DA CONSERVAÇÃO? 9 Salmão Oncorhynchus kisutch Marsupial Lasiorhinus krefftii Wallaby-de-pata-preta Defi nição de unidades de manejo dentro dos limites das espécies Populações de uma espécie podem ser adaptadas a ambientes levemen- te diferentes e serem sufi cientemente diferenciadas para merecerem um manejo como unidades separadas. Seus híbridos podem estar em desvantagem, algumas vezes apresentando isolamento reprodutivo parcial. Por exemplo, o salmão Oncorhynchus kisutch (e muitas outras es- pécies de peixes) apresenta diferenciação genética entre as populações de diferentes localidades geográfi cas. Isso evidencia a adaptação a dife- rentes condições (morfologia, habilidade de natação e idade de matu- ração). Assim, elas devem ser manejadas como populações separadas. Detecção de hibridação Muitas espécies raras de plantas, peixes salmonídeos e canídeos são ameaçados por “hibridação incomum” ao cruzarem com espécies que são abundantes no ambiente em que vivem. Análises genéticas mole- culares têm mostrado que a espécie criticamente em perigo de lobo da Etiópia (simianjackal) está sujeito à hibridação com os cães domésticos locais. Amostragem não-invasiva para análises genéticas Muitas espécies são difíceis de capturar, ou fi cam extremamente estres- sadas no processo de captura. O DNA dessas espécies pode ser obtido de pêlos, penas, descamações de pele, fezes, etc. através de amostra- gem não-invasiva, e posteriormente amplifi cado, de maneira que es- tudos genéticos podem ser completados sem perturbar o animal. Por exemplo, o marsupial Lasiorhinus krefftii (hairy-nosed wombat) do norte da Austrália, criticamente em perigo, é um animal noturno que vive em buracos e que somente pode ser capturado com difi culdade. Sua captura deixa-os estressados e eles aprendem a evitar as armadilhas. A amostragem tem sido realizada colocando-se fi tas adesivas na entra- da de suas tocas, o que permite a coleta de pêlos quando os animais saem destas. O DNA obtido de forma não-invasiva pode ser usado para identifi car indivíduos, determinar padrões de cruzamentos e estrutu- ra populacional, e medir níveis de diversidade genética. Defi nição de locais para reintrodução As análises moleculares podem fornecer informações adicionais a respeito da distribuição histórica das espécies, expandindo as possi- bilidades para as ações conservacionistas. Por razões ecológicas, as reintroduções devem ocorrer preferivelmente dentro da distribuição histórica da espécie. O marsupial australiano Lasiorhinus krefftii exis- te em uma única população de aproximadamente 100 animais em Clermont, Queensland, Austrália. Amostras de DNA obtidas de pele de museu identifi caram uma população extinta de um marsupial em Deniliquin, New South Wales, como pertencendo a esta espécie. Assim, Deniliquin é um local potencial para reintroduções. Similarmente, informações resultantes da genotipagem de DNA de ossos sub-fósseis revelaram que o pato de Laysan, atualmente classifi cado como em pe- rigo, anteriormente existia em outras ilhas além de sua atual distribui- ção nas Ilhas Havainas. INTRODUÇÃO10 Baleia-jubarte Escolha das melhores populações para reintrodução Populações de ilhas são consideradas uma fonte genética valiosa para restabelecimento de populações do continente, particularmente na Austrália e Nova Zelândia. Entretanto, análises genéticas moleculares revelaram que a população do wallaby-de-pata-preta de rochedos da Ilha Barrow, Austrália (uma fonte potencial de indivíduos para rein- trodução no continente) apresenta variação genética extremamente baixa e reduzida taxa reprodutiva (devido a endogamia). Algumas populações do continente, numericamente menores e mais ameaça- das, são geneticamente mais saudáveis e são, dessa forma, fontes mais apropriadas de animais para reintroduções em outras localidades do continente. Alternativamente, o agrupamento de várias populações de diferentes ilhas poderia proporcionar uma população geneticamente saudável e adequada para propósitos de reintrodução. Análise forense Os métodos de genética molecular são amplamente aplicados para pro- ver evidências forenses em casos de litígios. Estas incluem a detecção de caça e coletas ilegais. A venda de carne de baleias ameaçadas para consumo tem sido detectada através da análise de amostras no Japão e Coréia do Sul. Seqüências de DNA mitocondrial mostraram que cerca de 9 % da carne de baleia vendida provêm de espécies protegidas, ao invés de serem de baleias-minke caçadas legalmente. Métodos têm sido desenvolvidos para identifi car a espécie de origem usando pequenas quantidades de DNA isolado de nadadeiras de tubarões, e trabalhos estão em andamento para identifi car a presença de ossos de tigres nos remédios asiáticos. Entendimento da biologia das espécies Muitos aspectos da biologia das espécies podem ser determinados usando análises genéticas moleculares. Por exemplo, padrões de cruza- mento e sistemas de reprodução são freqüentemente difíceis de serem determinados em espécies ameaçadas. Estudos usando marcadores ge- néticos provaram que fêmeas da tartaruga marinha cabeçuda cruzam com vários machos. O sistema de reprodução em muitas plantas tem sido estabelecido usando-se análises genéticas. A sexagem de aves é freqüentemente difícil, resultando em vários casos onde duas aves do mesmo sexo foram colocadas juntas para acasalar. Métodos de genética molecular estão agora disponíveis para a sexagem de aves sem recorrer a cirurgias. A paternidade pode ser determinada em muitas espécies, incluindo chipanzés. Os ursos marrons ameaçados dos Pirineus são noturnos, reservados e perigosos. Métodos baseados na análise do DNA de pêlos e fezes têm sido desenvolvidos para realizar o censo desses ani- mais. Indivíduos podem ser sexados e individualmente identifi cados. Conhecer os padrões de migração e dispersão é freqüentemente crítico para assegurar a sobrevivência das espécies. Estes são difíceis de serem diretamente determinados, mas podem ser inferidos usando-se análises genéticas. Cada um desses aspectos será explicado nos capítulos que se seguem. LEITURAS SUGERIDAS 11 LEITURAS SUGERIDAS Frankham, R., J. D. Ballou & D. A. Briscoe. 2002. Introduction to Conservation Genetics. Cambridge University Press, Cambridge, UK. Comprehensive textbook of conservation genetics. Chapter 1 has an extended treatment of these topics, plus references. IUCN. 2002. Red List of Threatened Species. Website with full details of the international recognized IUCN categorization system for designating threatened species, plus up-to-date summaries of the proportions of species threatened in different major groups and categorization lists for animals and links to a plant database. Leakey, R. & R. Lewin. 1995. The Sixth Extinction: Biodiversity and its Survival. Phoenix, London. Account of the biodiversity crisis written for a general audience. Meffe, G. K. & C. R. Carroll. 1997. Principles of Conservation Biology, 2nd edn. Sinauer, Sunderland, MA. Basic textbook in conservation biology, with a reasonable coverage of genetic issues. Primack, R. B. 2002. Essentials of Conservation Biology, 3rd edn. Sinauer, Sunderland, MA. Basic textbook in conservation biology with a good, but limited coverage of genetic issues. Capítulo 2 Diversidade Genética A diversidade genética é necessária para as populações se adaptarem às mudanças ambientais. Populações grandes de espécies naturalmente exogâmicas geralmente têm ampla diversidade genética, mas esta é tipicamente reduzida nas espécies em perigo. Termos Diversidade alélica, aloenzima, polimorfi smo de tamanho de fragmentos amplifi cados (AFLP), fi ngerprint de DNA, eletroforese, valor adaptativo, genoma, equilíbrio de Hardy-Weinberg, herdabilidade, hermafrodita, heterozigosidade, íntrons, loco, microssatélite, DNA mitocondrial (DNAmt), monomórfi co, carga genética, exogamia, reação em cadeia da polimerase (PCR), polimorfi smo, sonda, caráter quantitativo, variação genética quantitativa, locos de caracteres quantitativos (QTL), polimorfi smo de DNA amplifi cado ao acaso (RAPD), polimorfi smo de tamanho em fragmento de restrição (RFLP), substituição silenciosa, polimorfi smo de substituição em um único nucleotídeo (SNP), substituições sinônimas Um jabuti de Galápagos e um eletroferograma de um sequenciador de DNA ilustrando a diversidade genética em um loco de microssatélite entre indivíduos dessa espécie IMPORTÂNCIA DA DIVERSIDADE GENÉTICA 13 Importância da diversidade genética A IUCN, a primeira organização internacional para a conservação, reconhece a necessidade de conservar a diversidadegenética como uma das três prioridades globais de conservação. Existem dois aspec- tos principais e relacionados. Primeiro, a mudança ambiental é um processo contínuo e a diversidade genética é necessária para as popu- lações evoluírem e se adaptarem a tais mudanças. Segundo, a perda da diversidade genética está geralmente associada com a endogamia e a redução geral na reprodução e sobrevivência (valor adaptativo). Programas de reprodução em cativeiro e manejo da vida silvestre geralmente reconhecem a importância de minimizar a perda da diver- sidade genética e a endogamia. As ações de manejo para populações em cativeiro incluem a consulta à pedigrees para o estabelecimento de casais para a reprodução ou para a escolha de indivíduos para reintro- dução na natureza. Os níveis de diversidade genética são analisados e monitorados nas populações selvagens de espécies em perigo, e o fl uxo gênico entre populações selvagens isoladas pode ser aumentado. Este capítulo discute a base dos dois principais aspectos relaciona- dos à diversidade genética, defi ne o que ela é, descreve métodos para medi-la e faz uma revisão das evidências de sua amplitude nas espécies que estão ou não em perigo. O que é a diversidade genética? A diversidade genética é manifestada por diferenças em muitos carac- teres, incluindo a cor dos olhos, da pele e do cabelo nos humanos, cor e padrões de bandamento das conchas dos caracóis, cor das fl ores nas plantas, e diferenças nas proteínas, enzimas e seqüências de DNA de quase todos os organismos. Os genes são seqüências de nucleotídeos em uma região particular (loco) de uma molécula de DNA. A diversidade genética representa se- qüências ligeiramente diferentes. Por sua vez, variantes da seqüência do DNA podem ser expressas em diferenças na seqüência de aminoá- cidos da proteína codifi cada pelo loco. Tal variação na proteína pode ocasionar diferenças em funções bioquímicas, morfológicas ou com- portamentais que causam diferenças nas taxas reprodutivas, de sobre- vivência ou no comportamento dos indivíduos. A terminologia usada para descrever a diversidade genética é defi - nida na Tabela 2.1. A diversidade genética é geralmente descrita usan- do polimorfi smo, heterozigosidade média, e diversidade alélica. Por exemplo, a análise eletroforética de aloenzimas (ver adiante) em leões Africanos revelou que seis dos 26 locos que codifi cam proteínas (23%) eram variáveis (polimórfi cos), 7,1% dos locos, em média, eram hetero- zigotos, e que existia uma média de 1,27 alelos por loco (diversidade alélica). Estes níveis de diversidade genética são típicos de variação eletroforética para mamíferos não ameaçados. Ao contrário, leões Asi- áticos em perigo têm pouca diversidade genética. A diversidade genética é o material bruto sobre a qual a seleção natural atua para permitir a adaptação e evolução dos organismos e a sua adequação às mudanças ambientais. A perda da diversidade genética reduz o potencial evolutivo e está também associado com a redução do sucesso reprodutivo. Diversidade genética é a variedade de alelos e genótipos presentes no grupo sob estudo (populações, espécies ou grupos de espécies) Leão Asiático DIVERSIDADE GENÉTICA14 Medindo a diversidade genética Técnicas moleculares tais como eletroforese de aloenzimas ou genoti- pagem de microssatélites (ver abaixo) medem a diversidade genética em locos individuais. A composição genética de uma população é geralmente descrita em termos de freqüências dos alelos, número de alelos e heterozigosidade Tabela 2.1 | Terminologia usada para descrever a diversidade genética. Loco (plural locos) A região em um cromossomo na qual um gene em particular está localizado. A seqüência nucleotídica em um loco pode codifi car para uma estrutura ou função particular, por exemplo, o segmento do DNA codifi cando para a enzima álcool desidrogenase é um loco separado daqueles que codifi cam para as hemoglobinas. Locos moleculares tais como microssatélites (ver abaixo), são simplesmente segmentos de DNA que podem ter produtos não funcionais. Alelos Variantes diferentes da seqüência nucleotídica em um mesmo loco (gene) em cromossomos homólogos, e.g. A 1 , A 2 , A 3 , A 4 , etc. Genótipo A combinação de alelos presente em um loco em um individuo, por exemplo, A 1 A 1 , A 1 A 2 , ou A 2 A 2 . Genótipos são heterozigotos (A 1 A 2 ) ou homozigotos (A 1 A 1 ou A 2 A 2 ). Genoma O material genético completo de uma espécie, ou indivíduo; a seqüência nucleotídica inteira do DNA, incluindo todos os locos e todos os cromossomos. Homozigoto Um indivíduo com duas cópias do mesmo alelo em um loco, por exemplo, A 1 A 1 . Heterozigoto Um indivíduo com dois alelos diferentes em um loco, por exemplo, A 1 A 2 . Freqüência alélica A freqüência relativa de um alelo particular em uma população (freqüentemente referido como freqüência gênica). Por exemplo, se uma população de uma espécie diplóide tem 8 indivíduos A 1 A 1 e 2 indivíduos A 1 A 2 , então existem 18 copias do alelo A 1 e 2 do alelo A 2 . Assim, o alelo A 1 tem uma freqüência de 0,9 e o alelo A 2 uma freqüência de 0,1. Polimórfi co A presença em uma espécie de dois ou mais alelos em um loco, por exemplo, A 1 e A 2 . Locos polimórfi cos são geralmente defi nidos como tendo o alelo mais freqüente em uma freqüência menor que 0,99 ou menor que 0,95 (para minimizar problemas com diferentes tamanhos amostrais). Monomórfi co Um loco é monomórfi co numa população se este possui somente um alelo, por exemplo, A 1 . Todos os indivíduos são homozigotos para o mesmo alelo. Ausência de diversidade genética. Proporção de locos polimórfi cos (P) Número de locos polimórfi cos / número total de locos amostrados. Por exemplo, se 3 de 10 locos amostrados são polimórfi cos e 7 são monomórfi cos, P 3 = 0,3 10 = Heterozigosidade média (H) Soma das proporções de heterozigotos em todos os locos / número total de locos amostrados. Por exemplo, se as proporções de heterozigotos em 10 locos em uma população são 0,2, 0,4, 0,1, 0, 0, 0, 0, 0, 0 e 0, então H (0,2 0,4 0,1 0 0 0 0 0 0 0) = 0,07 10 + + + + + + + + + = Em geral, são empregadas as heterozigosidades esperadas (ver abaixo), considerando que estas são menos sensíveis ao tamanho amostral do que a heterozigosidade observada. Em populações com acasalamento ao acaso, as heterozigosidades observada e esperada são usualmente similares. Diversidade alélica (A) Média do número de alelos por loco. Por exemplo, se o número de alelos em 10 locos são 2, 3, 2, 1, 1, 1, 1, 1, 1 e 1, então A (2 3 2 1 1 1 1 1 1 1) = 1,4 10 + + + + + + + + + = MEDINDO A DIVERSIDADE GENÉTICA 15 Tabela 2.2 | Números e freqüências para cada genótipo do loco que codifi ca a proteína da clara do ovo em patos-eider da Escócia. Os indivíduos foram genotipados por eletroforese de proteínas. R refere-se ao alelo de migração mais rápida e L ao mais lento. Genótipos RR RL LL Total Números 37 24 6 67 Freqüência genotípica 0,552 0,358 0,090 1,00 Fonte: Milne & Robertson (1965). As informações que coletamos fornecem os números de cada genótipo num loco. Isso é ilustrado para o loco de uma proteína da clara do ovo do pato-eider escocês, uma espécie que foi severamente reduzida devido a caça para obtenção de penas para a confecção de travesseiros (Tabela 2.2). As freqüências genotípicas são calculadas a partir da pro- porção de cada genótipo na amostra total (por exemplo, freqüência genotípica de RR = 37/67 = 0,552). Os resultados são geralmente descritosna forma de freqüências alélicas, ao invés de freqüências genotípicas. Usamos as letras p e q para representar as freqüências relativas para os dois alelos no loco. A freqüência do alelo R (p) é simplesmente a proporção de todos os alelos examinados que são R. Note que dobramos o número de cada homo- zigoto e do total, uma vez que os patos são diplóides (cada ave herdou uma cópia do loco de cada pai). (2 × FF) + FS = 2 × Total p (2.1) O cálculo no Exemplo 2.1 mostra que 73% dos alelos neste loco corres- pondem ao alelo R e 27% ao L. Eider ducks TRADUZIR Exemplo 2.1 Cálculo das freqüências dos alelos R e L em um loco de proteína da clara do ovo do pato-eider A freqüência para o alelo R (p) é obtida como segue: = (2 × 37) + 24 = 0,73 2 × 67 p e para L (q) como × = (2 × 6) + (1 24) = 0,27 (2 × 67) q A soma de suas freqüências é igual a 1,00, isto é = 0,73 + 0,27 = 1,00p + q As freqüências alélicas também podem ser descritas como porcentagens. DIVERSIDADE GENÉTICA16 A medida da diversidade genética em um loco é expressa como hete- rozigosidade. A heterozigosidade observada (H o ) é simplesmente a pro- porção dos indivíduos amostrados que são heterozigotos. Por exemplo, a freqüência de heterozigotos no loco da proteína da clara do ovo no pato-eider é 24/67 = 0,36 (Tabela 2.2). Em geral, quando comparamos a amplitude da diversidade genética entre populações ou espécies usa- mos a heterozigosidade média (Tabela 2.1). Diversidade Alélica O número médio de alelos por loco (diversidade alélica) também é usado para caracterizar o nível de diversidade genética. Por exemplo, existem dois alelos no loco determinando diferenças na proteína da clara do ovo nos patos-eider e três alelos num loco de microssatélite em tendilhões-de-Laysan, descrito abaixo no Exemplo 2.2. Quando mais de um loco é estudado, a diversidade alélica (A) é a média do número de alelos de todos os locos (Tabela 2.1). Por exemplo, o leão Africano tem um total de 33 alelos em 26 locos de aloenzimas amostrados, então A = 33/26 = 1,27. Examinemos agora os fatores que infl uenciam as freqüências dos alelos e genótipos em uma população, e a relação entre as freqüências alélicas e genótipicas sob o pressuposto de união aleatória dos gametas (equivalente ao cruzamento ao acaso). Equilíbrio de Hardy-Weinberg Vamos iniciar com o caso mais simples – o de uma população gran- de onde o cruzamento é ao acaso e não existe mutação, migração ou seleção. Neste caso, a freqüência dos alelos e genótipos atinge um equilíbrio depois de apenas uma geração. O equilíbrio é chamado de equilíbrio de Hardy-Weinberg, em homenagem a seus propositores. Embora simples, o equilíbrio de Hardy-Weinberg é crucial na genéti- ca da conservação e genética evolutiva. Ele proporciona a base para detectar desvios do acasalamento ao acaso, para testar a ocorrência de seleção, modelar os efeitos da endogamia e seleção, e estimar as freqüências alélicas em locos que mostram dominância. Este caso simples pode ser apresentado como um modelo matemá- tico que mostra as relações entre as freqüências dos alelos e genóti- pos. Assuma que estamos trabalhando com um loco com dois alelos A 1 e A 2 com freqüências relativas de p e q (p + q = 1) numa população grande onde os cruzamentos ocorrem ao acaso. Imagine organismos marinhos hermafroditas (no qual cada indivíduo libera esperma e ovos) espalhando seus gametas na água, de maneira que espermatozói- des e ovos unem-se ao acaso (Tabela 2.3). Uma vez que a freqüência do alelo A 1 na população é p, a freqüência dos espermatozóides ou ovos carregando este alelo também é p. A probabilidade de um espermato- zóide carregando A 1 unir-se com um ovo carregando o mesmo alelo e produzir um zigoto A 1 A 1 é, portanto, p x p = p2, e a probabilidade de um espermatozóide A 2 fertilizar um ovo A 2 , para produzir um zigoto A 2 A 2 é, da mesma forma, q x q = q2. Zigotos heterozigotos podem ser produzidos de duas formas, não interessando qual gameta contribui A heterozigosidade é a medida mais comumente utilizada para caracterizar a diversidade genética para um loco A diversidade alélica também é usada para caracterizar a diversidade genética Em populações grandes onde a reprodução ocorre ao acaso, as freqüências alélicas e genotípicas em um loco autossômico atingem o equilíbrio após uma geração quando não existe a atuação de nenhuma força (ausência de mutação, migração ou seleção) EQUILÍBRIO DE HARDY-WEINBERG 17 com qual alelo, e sua freqüência esperada é, portanto, 2 x p x q = 2pq. Conseqüentemente, as freqüências genotípicas esperadas para os zi- gotos A 1 A 1 , A 1 A 2 e A 2 A 2 , são p2, 2pq e q2, respectivamente. Estas são as freqüências genotípicas do equilíbrio de Hardy-Weinberg. Tabela 2.3 | Freqüências genotípicas resultante da união ao acaso de gametas para um loco autossômico. Ovo A 1 A 2 p q A 1 p p2 pq Espermatozóide A 1 A 1 A 1 A 2 A 2 q pq q2 A 2 A 1 A 2 A 2 As freqüências genotípicas resultante na progênie são A 1 A 1 A 1 A 2 A 2 A 2 p2 2pq q2 Estas são as freqüências genotípicas do equilíbrio de Hardy-Weinberg. Note que as freqüências genotípicas somam um, isto é, p2 + 2pq + q2 = (p + q) 2 =1. Se as freqüências dos alelos A 1 e A 2 são 0,9 e 0,1, então as freqüências genotípicas no equilíbrio de Hardy-Weinberg são: A 1 A 1 A 1 A 2 A 2 A 2 Total 0,92 2 x 0,9 x 0,1 0,12 1,0 0,81 0,18 0,01 1,0 As freqüências dos dois alelos não mudaram, indicando que as fre- qüências alélicas estão em equilíbrio. Conseqüentemente, as freqüên- cias alélicas e genotípicas estão em equilíbrio depois de uma geração de cruzamento ao acaso e se mantêm assim perpetuamente na ausên- cia de outros fatores. O equilíbrio de Hardy-Weinberg é esperado para todos os locos, exceto para aqueles localizados nos cromossomos sexuais. Esses locos ligados ao sexo possuem diferentes doses de locos em machos e fêmeas e tem um equilíbrio de Hardy-Weinberg que difere daquele de outros locos não ligados ao sexo (locos autossômicos). A relação entre as freqüências alélicas e genotípicas de acordo com o equilíbrio de Hardy-Weinberg é mostrada na Fig. 2.1. A fi gura ilustra dois pontos. Primeiro, as freqüências dos heterozigotos não podem ser maiores do que 0,5 (50%) para um loco com dois alelos. Isso ocorre quando ambos os alelos tem freqüências de 0,5. Segundo, quando um alelo é raro, a maioria de suas cópias está em heterozigose, enquanto que quando este alelo está em alta freqüência muitos deles estão em homozigose. Fig. 2.1 Relação entre freqüências genotípicas e alélicas numa população em equilíbrio de Hardy-Weinberg 0,00 0,00 0,25 0,50 0,75 1,00 0,25 0,50 0,75 1,00 G e n o ty p e f re q u e n c y Frequency of A 1 A 1 A 2 A 2 A 2 A 1 A 1 TRADUZIR DIVERSIDADE GENÉTICA18 Para obter o equilíbrio de Hardy-Weinberg nós assumimos: Um tamanho populacional grande• Uma população fechada (sem migração)• Ausência de mutação• Segregação Mendeliana normal dos alelos• Igual fertilidade dos genótipos dos pais• União dos gametas ao acaso• Igual capacidade de fertilização dos gametas• Igual sobrevivência de todos os genótipos• Na Tabela 2.4, as freqüências genotípicas para o loco da proteína da clara do ovo do pato-eider são comparadas com as freqüências do equi- líbrio de Hardy-Weinberg. Os valores de p e q, calculados previamente,são usados para calcular p2, 2pq, e q2. Essas freqüências são então multi- plicadas pelo número total (67) para obterem-se os números esperados para os três genótipos. Os números observados para cada genótipo são muito próximos dos números esperados em equilíbrio de Hardy-Weinberg. Em geral, em populações naturais grandes e exogâmicas (mais ou menos de re- produção ao acaso), encontramos concordância com as expectativas para a maioria dos locos. Isto não signifi ca que os locos não estejam sujeitos a mutação, migração, seleção e efeitos de amostragem, mas somente que estes efeitos são freqüentemente muito pequenos para serem detectados com tamanhos amostrais realísticos. As freqüências genotípicas para a maioria dos locos geralmente correspondem às freqüências genotípicas esperadas de Hardy- Weinberg em populações grandes naturalmente exogâmicas Tabela 2.4 | Comparação das freqüências genotípicas observadas com as esperadas no equilíbrio de Hardy- Weinberg, para o loco da proteína da clara do ovo do pato-eider. Genótipos RR RL LL Total Números observados (O) 37 24 6 67 Freqüências esperadas p2 2pq q2 1,0 0,732 2 x 0,73 x 0,27 0,272 1,0 0,5329 0,3942 0,0729 1,0 Números esperados (E) (freqüências esperadas x 67) 35,7 26,4 4,9 67 Os desvios das freqüências genotípicas daquelas esperadas no equilíbrio de Hardy- Weinberg são altamente informativos, permitindo-nos detectar a ocorrência de endogamia, fragmentação de populações, migração e seleção Desvios do equilíbrio de Hardy-Weinberg Quando qualquer dos pressupostos que compõem a base do equilí- brio de Hardy-Weinberg (ausência de migração, seleção ou mutação, e união ao acaso dos gametas) é violado, então irão ocorrer desvios do equilíbrio das freqüências genotípicas. Dessa forma, o equilíbrio de Hardy-Weinberg proporciona uma hipótese nula que permite detec- tar se a população não apresenta reprodução ao acaso, se esta ocor- rendo migração ou seleção. Trataremos disso neste e nos próximos capítulos. Heterozigosidade esperada A diversidade genética num loco é caracterizada pela heterozigosidade esperada, heterozigosidade observada e diversidade alélica. Para um EQUILÍBRIO DE HARDY-WEINBERG 19 loco com dois alelos com freqüências p e q, a heterozigosidade espera- da é H e = 2pq (também chamada de diversidade gênica). Quando exis- tem mais que dois alelos, é mais simples calcular a heterozigosidade esperada como sendo um menos a soma do quadrado das freqüências dos alelos: e – ∑ # alelos 2 =1 = 1 i i H p (2.2) onde p i é a freqüência do alelo i. Geralmente prefere-se descrever a H e ao invés da heterozigosidade observada. O Exemplo 2.2 ilustra os cálculos da heterozigosidade esperada para um loco de microssatélite nos tendilhões-de-Laysan. A heterozigo- sidade esperada, baseada nas freqüências alélicas desse loco, é 0,663. Para determinar o potencial evolutivo de uma espécie, é necessário estimar a amplitude da diversidade genética considerando todos os locos no genoma. É improvável que a informação sobre um único loco de uma espécie represente precisamente a diversidade genética para todos os locos. Por exemplo, os mamíferos possuem ao redor de 35.000 locos funcionais. Conseqüentemente, as medidas de diversidade ge- nética (H o , H e ) são provenientes da média de muitos locos amostrados aleatoriamente. Por exemplo, como descrito acima, a heterozigosidade média detectada usando eletroforese de proteínas para 26 locos nos leões Africanos é 7,1%. Estimativa da freqüência de um alelo recessivo Usando o método de contagem de alelo descrito acima, não é possível determinar a freqüência de um alelo que mostre dominância num loco, uma vez que os homozigotos (AA) não podem ser fenotipicamen- te distinguidos dos heterozigotos (Aa). Entretanto, o equilíbrio de Har- dy-Weinberg proporciona um meio de estimar as freqüências de tais alelos. Homozigotos recessivos (aa) são fenotipicamente distinguíveis e têm, para um loco em equilíbrio de Hardy-Weinberg, uma freqüência esperada de q2. Assim, a freqüência do alelo recessivo pode ser estima- da como a raiz quadrada dessa freqüência. Por exemplo, a freqüên- cia do nanismo associado à distrofi a de cartilagem dos ossos longos no condor da Califórnia, uma espécie em perigo de extinção, é 0,03, Exemplo 2.2 Cálculo da heterozigosidade esperada para um loco de microssatélite no ameaçado tendilhão-de-Laysan (Tarr et al. 1998) As freqüências alélicas para três alelos são 0,364, 0,352 e 0,284, respectivamente. Conseqüentemente, a heterozigosidade esperada em equilíbrio de Hardy-Weinberg é H e = 1 – (0,3642 + 0,3522 + 0,2842) = 1 – (0,1325 + 0,1239 + 0,0807) = 0,663 Nesse loco, as heterozigosidades observada e esperada de 0,659 e 0,663 são muito similares. A heterozigosidade esperada de Hardy-Weinberg é usualmente utilizada quando descrevemos a diversidade genética, uma vez que ela é menos sensível a amostragem do que a heterozigosidade observada A heterozigosidade média sobre vários locos é usada para caracterizar a diversidade genética numa espécie O equilíbrio de Hardy- Weinberg proporciona um modo para estimar as freqüências dos alelos recessivos em populações com reprodução ao acaso DIVERSIDADE GENÉTICA20 então o alelo recessivo que causa esta condição tem uma freqüência estimada de √0,03 = 0,17. Esta é uma freqüência surpreendentemente alta para um alelo recess ivo letal, mas não é incomum em outras po- pulações derivadas de muito poucos indivíduos fundadores, incluindo populações de outras espécies em perigo. Uma vez que existem vários pressupostos na base deste método de estimativa de q (acasalamento ao acaso, ausência de seleção ou migra- ção), esse nunca deve ser usado para locos onde todos os genótipos podem ser distinguidos. Extensão da diversidade genética Populações grandes de espécies exogâmicas geralmente contêm uma grande quantidade de diversidade genética. Esta é manifestada nas variações morfológicas, comportamentais e fi siológicas em muitas populações. Esta variação é composta tanto de variações sem base ge- nética, resultante da infl uência ambiental sobre os indivíduos, como por variações com base genética devidas às diferenças nos alelos e na heterozigosidade em muitos locos. Um exemplo desta grande quan- tidade de diversidade genética inerente a uma espécie é a variedade de raças de cachorros que têm sido produzidas a partir do genoma do lobo (Fig. 2.2). Com exceção de umas poucas mutações, a variedade de raças de cachorros refl ete a amplitude da diversidade genética que estava presente nos lobos ancestrais. Populações grandes de espécies naturalmente exogâmicas geralmente têm alta diversidade genética Fig. 2.2 Diversidade de raças de cachorros. Todas derivam do lobo cinza. traduzir EXTENSÃO DA DIVERSIDADE GENÉTICA 21 A diversidade genética pode ser medida em diferentes níveis. Isto inclui a diversidade em caracteres mensuráveis (variação quantitativa), os efeitos diretos visíveis dos alelos deletérios, variação nas proteínas, e medidas diretas da variação nas seqüências de DNA. Variação quantitativa Os caracteres de maior importância na conservação são aqueles que determinam a saúde e o sucesso reprodutivo dos organismos. Estes in- cluem atributos como número de descendentes produzidos, produção de sementes nas plantas, habilidade de acasalamento, longevidade, taxa de crescimento, comportamentos para evitar predadores, peso corporal, altura, força, etc. Coletivamente, esses tipos de característi- cas são chamados de caracteres quantitativos. Virtualmente todos os caracteres quantitativos numa espécie exogâmica exibemdiversidade genética. Por exemplo, diversidade genética tem sido encontrada para caracteres reprodutivos (produção de ovos nas galinhas, número de descendentes em carneiros, camundongos, porcos e moscas de frutas, produção de sementes em plantas, etc.), para taxa de crescimento no tamanho (em gado, porcos, camundongos, galinhas, moscas de fruta e plantas), para composição química (conteúdo de gordura em animais, níveis de proteína e de óleo no arroz), para comportamento (em insetos e mamíferos) e para resistência a doenças em plantas e animais. Carac- terísticas quantitativas são determinadas por muitos locos (locos de caracteres quantitativos, ou QTL). A diversidade genética para um caráter quantitativo é geralmente determinada medindo-se as similaridades do caráter entre muitos indivíduos relacionados e determinando a proporção da variação fenotípica que é herdável (herdabilidade). Discutiremos isto no Ca- pítulo 3. Alelos deletérios A amplitude da diversidade encontrada nas populações que é atribu- ível a alelos deletérios é critico em biologia da conservação porque esses alelos reduzem a viabilidade e o sucesso reprodutivo quando ocorrem em homozigose devido ao endocruzamento. Alelos deletérios são constantemente gerados por mutações e removidos pela seleção. Conseqüentemente, todas as populações exogâmicas contêm alelos raros deletérios (carga genética). Geralmente eles ocorrem em freqü- ência menor que 1%. São exemplos as síndromes genéticas humanas raras, tais como fenilcetonúria, albinismo e doença de Huntington. Síndromes equivalentes existem nas populações selvagens de plantas e animais. Por exemplo, mutações que levam a ausência de clorofi la são encontradas em muitas espécies de plantas. Uma gama de defeitos com bases genéticas têm sido descritas em muitos animais que estão em perigo (nanismo no condor da Califórnia, má absorção de vitamina E no cavalo-de-Przewalski, criptorquidismo e defeitos cardíacos fatais na pantera da Florida, ausência de testículos em coalas e ausência de pelagem nos lêmures vermelho-com-colar (red-ruffed lemur). Os caracteres quantitativos são os de maior importância para a conservação Todas as populações exogâmicas possuem uma ‘carga’ de alelos deletérios raros que podem ser expostos pela endogamia DIVERSIDADE GENÉTICA22 Proteínas A primeira medida de diversidade genética molecular foi feita em 1966 pelo estudo da variação alélica em locos que codifi cam para proteínas solúveis. A técnica usada para distinguir as variantes é a eletrofore- se, a qual separa as moléculas de acordo com a sua carga elétrica e massa molecular em um gradiente de potencial elétrico (Quadro 2.1). Entretanto, somente cerca de 30% das mudanças no DNA resultam em mudanças nas cargas das proteínas, de maneira que essa técnica subes- tima signifi cativamente a medida total da diversidade genética. A eletroforese de proteínas é tipicamente realizada usando-se amos- tras de sangue, fígado ou rim em animais, ou folhas e pontas de raízes nas plantas, uma vez que estes contêm ampla quantidade e variedades de proteínas solúveis. Conseqüentemente, os animais devem ser capturados para obterem-se amostras de sangue, ou mortos para obterem-se amostras de fígado ou rim. Estas práticas são indesejáveis para espécies em perigo. Proteínas solúveis são moléculas relativamente frágeis e as técnicas para o seu estudo, ao contrário das técnicas para estudo do DNA, requerem amostras frescas ou recém-congeladas logo após sua obtenção. As primeiras análises de variações eletroforéticas, em humanos e moscas de frutas, surpreendentemente revelaram altos níveis de di- versidade genética. Resultados similares são encontrados para muitas espécies que possuem tamanhos populacionais grandes. Por exemplo, em humanos (baseado em 104 locos) 32% dos locos são polimórfi cos com uma heterozigosidade média de 6%. A Tabela 2.5 sumariza as heterozigosidades de aloenzimas para vários grupos taxonômicos principais. A heterozigosidade média (H) dentro das espécies é menor nos vertebrados (6,4%) do que nos invertebrados (11,3%), possivelmente devido ao menor tamanho populacional nos vertebrados. Muitas informações sobre a diversidade genética têm sido obtidas usando-se eletroforese para separação de proteínas Tabela 2.5 | Diversidade genética de aloenzimas em diferentes taxa. H é a heterozigosidade média das populações. H Vertebrados Total 0,064 Mamíferos 0,054 Aves 0,054 Répteis 0,090 Anfíbios 0,094 Peixes 0,054 Invertebrados Total 0,113 Insetos 0,122 Crustáceos 0,063 Moluscos 0,121 Plantas Total 0,113 Gimnospermas 0,160 Monocotiledôneas 0,144 Dicotiledôneas 0,096 Fonte: Hamrick & Godt (1989); Ward et al. (1992). Existe extensiva diversidade genética em locos que codifi cam para proteínas na maioria das populações grandes de espécies exogâmicas. Através da análise em eletroforese verifi ca-se que, em média, 28% dos locos são polimórfi cos e 7% são heterozigotos EXTENSÃO DA DIVERSIDADE GENÉTICA 23 Quadro 2.1 Medindo a diversidade genética em proteínas usando eletroforese de aloenzimas A seqüência de aminoácidos que compõem uma proteína é determinada pela seqüência de bases no DNA que codifi ca aquela proteína. Uma parte das mudanças de bases que ocorrem no DNA resulta na mudança de aminoácido na posição correspondente da proteína. Como cinco dos 20 aminoácidos que ocorrem naturalmente são eletricamente carregados (lisina, arginina e histidina [+], ácido glutâmico e ácido aspártico [–]), aproximadamente 30% das substituições de bases resultam em mudanças na carga elétrica da proteína. Essas mudanças podem ser detectadas separando-se as proteínas em um gradiente de potencial elétrico e posteriormente visualizando-as através do uso de coloração histoquímica loco- específi ca. Este processo é chamado de eletroforese de aloenzimas. Por exemplo, se o DNA nos alelos de um loco tem as seqüências: DNA DNA com substituição de bases Fita do DNA . . . TAC GAA CTG CAA . . . . . . TAC GAA CCG CAA . . . RNAm . . . AUG CUU GAC GUU . . . . . . AUG CUU GGC GUU . . . Seqüências . . . met– leu– asp– val . . . . . . met– leu– gly– val . . . dos aminoácidos a proteína a direita irá migrar mais lentamente em direção ao ânodo em um gradiente de potencial elétrico devido a substituição do aminoácido glicina (gly), que não possui carga elétrica, pelo aminoácido ácido aspártico (asp), de carga negativa. Power supply Negative pole Buffer Buffer Gel S F Positive pole Positions of proteins after migration Initial positions of proteins Um aparelho de gel de eletroforese (depois de Hedrick 1983). Os extratos de proteínas solúveis são colocados em posições espaçadas ao longo do topo do gel. Um gradiente de potencial elétrico aplicado ao gel causa a migração das proteínas através do gel. Proteínas codifi cadas pelo mesmo loco gênico, mas com diferentes cargas, migram para posições diferentes (R-rápida vs. L-lenta), permitindo a identifi cação de diferentes alelos num loco. Proteínas de locos específi cos são detectadas através de sua atividade enzimática utilizando-se colorações histoquímicas. traduzir DIVERSIDADE GENÉTICA24 DNA Coleta de amostras de DNA para medidas de diversidade genética Qualquer material biológico contendo DNA pode ser usado para medir a diversidade genética com técnicas moleculares modernas. São apro- priados, por exemplo, pêlos soltos, pele, penas, fezes, urina, cascas de ovos, sangue, tecidos, saliva e sêmen. Peles de museu e tecidos preser- vados proporcionam material adequado e até mesmo fósseis podem sergenotipados. Os únicos requisitos são que as amostras contenham algum DNA não degradado e que não exista contaminação com DNA de outros indivíduos ou espécies proximamente relacionadas. Amplifi cação do DNA usando a PCR Muitos métodos atuais utilizados para medir a diversidade do DNA baseiam-se na reação em cadeia da polimerase (PCR), a qual permite a amplifi cação no laboratório de seqüências especifi cas do DNA, fre- qüentemente a partir de pequenas amostras iniciais (Fig. 2.3). A genotipagem dos indivíduos pode ser feita após uma amostragem não-invasiva ou ‘remota’ e amplifi cação via PCR do DNA Fig. 2.3 Amostragem não-invasiva do DNA e o uso da reação em cadeia da polimerase (PCR) para amplifi car o DNA. A PCR é usada para amplifi car (gerar múltiplas cópias) o DNA a partir de pequenas amostras. A PCR é essencialmente uma versão em tubo da replicação do DNA, exceto pelo fato de que através dessa técnica replica-se somente uma região de interesse do DNA. O DNA é extraído e purifi cado de amostras biológicas e adicionado a uma mistura de reação contendo todos os reagentes necessários. Estes incluem oligonucleotídeos iniciadores, uma enzima termoestável de replicação do DNA (Taq polimerase), magnésio, os quatro nucleotídeos que compõem o DNA e uma solução tampão. Os iniciadores são homólogos às seqüências conservadas de DNA existente nas extremidades (regiões fl anqueadoras) da seqüência de DNA a ser amplifi cada (isto é, o loco de interesse). A enzima Taq polimerase replica o DNA, os nucleotídeos são usados para a construção da nova fi ta de DNA e o magnésio e a solução tampão são necessários para que a enzima trabalhe. Ciclos repetidos de temperatura são usados para desnaturar o DNA (separar as fi tas), para permitir aos iniciadores se aderirem às regiões de fl anqueamento (anelamento) e para replicar as seqüências de DNA entre esses iniciadores (extensão). Cada ciclo dobra a quantidade do DNA de interesse. traduzir EXTENSÃO DA DIVERSIDADE GENÉTICA 25 A grande vantagem de medir a diversidade no DNA, ao contrário da variação na proteína, é que a amostragem pode freqüentemente ser realizada de forma não-invasiva e os genótipos podem ser identifi ca- dos após a amplifi cação do DNA. Uma vez que amostras extremamente pequenas de DNA (tão pequenas quanto o conteúdo de uma única cé- lula) podem ser amplifi cadas milhões de vezes pela PCR, somente mi- núsculas amostras biológicas são agora necessárias para a realização das análises genéticas moleculares. Isto contrasta com a eletroforese de proteínas onde os animais devem ser capturados ou mortos para obterem-se as amostras. Conseqüentemente, o desenvolvimento de metodologias de amostragem ‘remota’ representa um grande avanço para as espécies de interesse na conservação. Para amplifi car um segmento de DNA de interesse, regiões conser- vadas específi cas em cada um dos lados do segmento de interesse de- vem ser identifi cadas para permitir o desenvolvimento de iniciadores para as reações de PCR. O segmento a ser amplifi cado é defi nido pelos iniciadores e encontra-se entre eles. As seqüências dos iniciadores po- dem freqüentemente ser deduzidas das informações de seqüências publicadas para o DNA mitocondrial (DNAmt), mas freqüentemente devem ser desenvolvidas para os locos nucleares, especialmente para microssatélites (veja abaixo). Iniciadores desenvolvidos para uma es- pécie podem também funcionar numa espécie proximamente relacio- nada. Por exemplo, iniciadores humanos geralmente funcionam em chimpanzés, e alguns dos iniciadores dos ruminantes domésticos fun- cionam na gazela da Arábia, que está em perigo. Existe uma série de técnicas disponíveis para medir direta ou indi- retamente a variação na seqüência de bases do DNA, e novos métodos são desenvolvidos regularmente (Quadro 2.2). O seqüenciamento do DNA é conduzido rotineiramente, especialmente para propósitos taxo- nômicos. Os microssatélites (número variável de repetições curtas em tandem) tornaram-se os marcadores de escolha para estudos popula- cionais. Os microssatélites apresentam vantagens sobre os outros mé- todos disponíveis para se avaliar o polimorfi smo do DNA uma vez que eles são altamente variáveis, genótipos individuais podem ser direta- mente inferidos, e indivíduos podem ser genotipados após amostragem não-invasiva. Eles têm a desvantagem de que novos iniciadores devem ser desenvolvidos para cada espécie, embora iniciadores de espécies relacionadas irão freqüentemente funcionar em ambas espécies. Quadro 2.2 Técnicas para medir a diversidade genética no DNA MICROSSATÉLITES: REPETIÇÕES DE SEQÜÊNCIAS SIMPLES (SSR) OU REPETIÇÕES CURTAS EM TANDEM (STR) Locos de microssatélites são repetições em tandem de pequenos motivos de DNA, que tipicamente apresentam tamanho entre 1-5 bases. Como exemplo, são mostradas seqüências de DNA com as bases CA repetidas 7 e 9 vezes. Repetições CA são encontradas em muitas espécies. O número de repetições de microssatélites é muito variável devido a ‘escorregões’ durante a replicação do DNA. Abaixo são ilustrados as seqüências da fi ta dupla do DNA de três genótipos, dois homozigotos diferentes e um heterozigoto, junto com seus padrões de bandas visto em gel de eletroforese. X e Y são seqüências conservadas de DNA que fl anqueiam a repetição do microssatélite e que representam os sítios de ligação dos iniciadores. Uma ampla variedade de métodos está disponível para medir a diversidade genética nas seqüências de bases do DNA, sendo os microssatélites o método atualmente preferido DIVERSIDADE GENÉTICA26 A 1 A 1 A 1 A 2 A 2 A 2 X C A C A C A C A C A C A C A Y X G T G T G T G T G T G T G T Y XCACACACACACACACACAY XGTGTGTGTGTGTGTGTGTY XCACACACACACACACACAY XGTGTGTGTGTGTGTGTGTY X A C A C A C A C A C A C A C Y X T G T G T G T G T G T G T G Y X A C A C A C A C A C A C A C Y X T G T G T G T G T G T G T G Y XACACACACACACACACACY XTGTGTGTGTGTGTGTGTGY Tamanhos dos fragmentos no gel (Amostras aplicadas no topo, migração para a parte inferior da página, com os fragmentos menores, de migração mais rápida, produzidos pelo alelo A 1 ). A diversidade dos microssatélites é detectada pela amplifi cação do DNA usando PCR. Seqüências únicas conservadas (iniciadores) fl anqueando os microssatélites são usadas para especifi car a região do DNA a ser amplifi cada. Os fragmentos de DNA resultantes são separados de acordo com o tamanho usando eletroforese em gel de acrilamida ou agarose. Após a separação, os fragmentos são detectados por (1) géis corados com brometo de etídio (um corante de DNA), (2) uso de iniciadores marcados radioativamente e autoradiografi a de géis, ou (3) uso de iniciadores marcados com fl uorescência e separação do produto da PCR em seqüenciador automático de DNA. Como mostrado acima, se um indivíduo é heterozigoto para dois alelos de microssatélites que apresentam números diferentes de repetições, serão detectadas duas bandas de diferentes tamanhos. Os microssatélites medem a variação genética para locos que são neutros (não sujeitos a seleção) uma vez que as repetições em tandem estão geralmente localizadas em segmentos não-codantes do DNA. FINGERPRINT DE DNA: MINISSATÉLITES OU NÚMERO VARIÁVEL DE REPETIÇÕES EM TANDEM (VNTR) Seqüências com número variável de repetições em tandem são encontrados por todo o genoma de humanos e outros eucariotos. Essas seqüências de minissatélites têm seqüências centrais de repetição com tamanhos variáveis de 10-100 bases (isto é, são maiores do que os microssatélites). A tipagem de indivíduos para um fi ngerprint de DNA resulta em um ‘código de barras’, onde cada indivíduo é geralmente único. Para identifi car minissatélites,o DNA é purifi cado, cortado com uma enzima de restrição que corta fora da repetição, liberando o fragmento de DNA minissatélite, e o DNA fragmentado é separado de acordo com o tamanho em um gel de agarose. As duas fi tas dos fragmentos de DNA são separadas (desnaturadas) e transferidas para uma membrana (Southern blotting). A membrana com o DNA aderido é colocada em uma solução contendo muitas cópias de DNA de fi ta simples da seqüência central de repetição marcado radioativamente (sonda). As sondas radioativamente marcadas ligam-se (hibridam-se) a fragmentos de minissatélites sobre a membrana por complementaridade de pareamento de bases. As sondas de DNA fi ta simples não hibridadas retiradas através de lavagens, a membrana é secada e a posição dos minissatélites é revelada por autoradiografi a. O número de repetições é altamente variável, de forma que cada indivíduo em espécies exogâmicas normalmente tem um fi ngerprint de DN A único (com exceção dos gêmeos idênticos). São ilustrados abaixo três genótipos para um único loco de minissatélites e os seus padrões de bandas no gel. ‘o’ representa uma única repetição da seqüência central. Muitos desses locos são tipados simultaneamente, resultando em um padrão de bandas equivalentes a um código de barras. EXTENSÃO DA DIVERSIDADE GENÉTICA 27 -----ooooo----- -----oooooo----- -----oooooo----- -----ooooo----- -----ooooo----- -----oooooo----- Fragmentos de DNA sobre o gel Os fi ngerprints de DNA são altamente variáveis, identifi cam a variação do DNA nuclear sob uma ampla faixa de locos, e não necessitam de conhecimento a priori da seqüência de DNA nas espécies a serem genotipadas. As desvantagens são que os locos não são normalmente identifi cáveis separadamente, uma vez que os fragmentos derivam de muitos locais diferentes no genoma. A herança das bandas não é defi nida e, por requerer uma considerável quantidade de DNA, essa técnica não pode ser usada em casos de amostragem não-invasiva. Atualmente o fi ngerprint de DNA está sendo substituído por métodos que permitam a amostragem não-invasiva e seguida pela análise por PCR, tais como microssatélites, AFLP ou RAPDs. SEQÜENCIAMENTO DE DNA A maneira mais direta para medir a diversidade genética é determinar a seqüência de bases do DNA. Isto é geralmente feito usando-se seqüenciadores de DNA. O seqüenciamento ainda é relativamente demorado e caro, e tem sido usado primariamente para propósitos taxonômicos, onde o DNAmt e/ou locos nucleares são seqüenciados para um pequeno número de indivíduos. Entretanto, melhorias técnicas têm reduzido marcadamente os custos e o tempo para o seqüenciamento de DNA, como é evidente no Projeto Genoma do DNA Humano e em esforços similares para outras espécies. OUTROS MÉTODOS Outros métodos, incluindo polimorfi smo de tamanho em fragmento de restrição (RFLP), polimorfi smo de DNA amplifi cado ao acaso (RAPD), polimorfi smo de tamanho em fragmento amplifi cado (AFLP), polimorfi smo de conformação em fi ta simples (SSCP) e polimorfi smo de um único nucleotídeo (SNP) são detalhados em Frankham et al. (2002). DNA Mitocondrial (DNAmt) A mitocôndria possui uma pequena molécula de DNA circular que é maternalmente herdada (da mãe para a prole) na maioria das espécies. O DNAmt é relativamente abundante, uma vez que existem muitas mi- tocôndrias por célula, e é fácil purifi car. A diversidade genética nesse DNA pode ser detectada através de diversos métodos, incluindo cortes com enzimas de restrição (RFLP), SSCP e seqüenciamento (Quadro 2.2). Já estão disponíveis iniciadores para vários locos do DNAmt que fun- cionam para muitas espécies. Esses locos podem ser amplifi cados via PCR e os produtos seqüenciados. O seqüenciamento do DNAmt tem algumas vantagens sobre outras técnicas, como o fato de poder ser uti- lizado após uma amostragem não-invasiva, apresentar uma alta taxa de mutação e ser altamente variável, e poder ser usado para rastrear especifi camente a linhagem feminina dos descendentes ou os padrões de migração. Sua desvantagem é que investiga somente a unidade de herança materna. Nos Capítulos 6 e 9 apresentaremos considerações O DNA mitocondrial é maternalmente herdado na maioria das espécies. Ele é amplamente usado para estudar as relações taxonômicas e as diferenças entre as populações de uma espécie DIVERSIDADE GENÉTICA28 adicionais sobre a variação do DNAmt, considerando que seu principal uso na conservação está na resolução de incertezas taxonômicas, na defi nição de unidades de manejo, e no auxílio ao entendimento de aspectos importantes da biologia das espécies. O DNA dos cloroplastos das plantas pode ser usado para propostas similares. Níveis de diversidade genética no DNA O primeiro estudo extensivo da variação na seqüência do DNA em um loco numa população foi realizado para o loco do gene álcool de- sidrogenase (Adh) em moscas de frutas. Entre 11 amostras, 43 sítios foram polimórfi cos ao longo de 2379 pares de bases. A maioria das mu- danças de base (42/43) não resultou em substituições de aminoácidos (isto é, são silenciosas, ou substituições sinônimas) uma vez que elas ocorriam em regiões não-codantes dos locos (íntrons), ou envolviam a terceira posição do códon que determinava o aminoácido. Tais va- riações não são detectadas pela eletroforese das proteínas. Variações de seqüências no loco da Adh foram ainda maiores em duas espécies de plantas exogâmicas da família Brassica do que a encontrada nas moscas de frutas. Os maiores níveis de diversidade genética no DNA são tipicamente encontrados nas seqüências com pouco signifi cado funcional. Essas va- riantes ou não codifi cam para produtos funcionais, ou as substituições não mudam as funções das moléculas, isto é, não são fenotipicamen- te expressas. Dessa forma, a seleção não atua contra tais mudanças. Inversamente, a menor diversidade genética é encontrada em regiões moleculares funcionalmente importantes, tais como os sítios ativos das enzimas. Muito do DNA em um organismo não codifi ca para pro- dutos funcionais. Existem duas exceções importantes para a generalização de que o polimorfi smo é menor em regiões com funções importantes. Essas são o complexo de histocompatibilidade principal (MHC – uma grande fa- mília de genes que desempenham um papel central no sistema imune dos vertebrados e no combate a doenças) e os locos de auto-incompa- tibilidade (SI) em plantas. Ambas as regiões têm níveis extremamente altos de diversidade genética devido à seleção natural que favorece diferenças entre indivíduos dentro das populações. Os microssatélites são atualmente usados rotineiramente para medir a diversidade genética em uma variedade de espécies, muitas delas em perigo. Tipicamente eles mostram altos níveis de polimorfi s- mo e muitos alelos por loco. Por exemplo, repetições CA são comuns e freqüentemente variam em número de repetições dentro de uma população. Tal diversidade tem sido encontrada em todas as espécies até agora examinadas. Dados de uma pesquisa sobre a variação de mi- crossatélites em oito locos em 39 chimpanzés selvagens detectaram uma média de 5,75 alelos por loco e uma heterozigosidade média de 0,70 (Tabela 2.6). O poder de resolução dos microssatélites permite a determinação de paternidades e a detecção de migrantes, geralmente impossível de ser realizado com a resolução das aloenzimas. Existe uma grande diversidade genética nas seqüências do DNA entre os indivíduos de uma espécie exogâmica A maioria do polimorfi smo encontrado no DNA tem pouco signifi cado funcional, uma vez que ocorrem em regiões não-codantes do genoma, ou não alteram as seqüências de aminoácidos de uma proteína Os microssatélites proporcionamuma das maneiras mais práticas e poderosas atualmente disponíveis para acessar a diversidade genética em espécies ameaçadas BAIXA DIVERSIDADE GENÉTICA EM ESPÉCIES AMEAÇADAS 29 Baixa diversidade genética em espécies ameaçadas A abundante diversidade genética encontrada em populações grandes contrasta com a encontrada em muitas populações pequenas ou popu- lações que sofreram gargalo. Por exemplo, o elefante marinho do norte foi caçado até quase a extinção, mas subseqüentemente se recuperou do gargalo em seu tamanho populacional. Esta espécie não exibe va- riação em aloenzimas e possui nível substancialmente reduzido de va- riação em microssatélites em comparação a espécies relacionadas que não passaram por um gargalo. A maioria das espécies ameaçadas tem menor diversidade genética do que espécies relacionadas não ameaçadas, com grande tamanho populacional (Tabela 2.7). De 137 espécies ameaçadas examinadas, 77% têm menor diversidade genética do que espécies relacionadas não em perigo. Por exemplo, espécies em perigo tais como o marsupial Lasiorhinus krefftii do norte e o lobo da Etiópia apresentam pouca va- riação em locos de microssatélites quando comparados com espécies relacionadas não ameaçadas. No geral, espécies ameaçadas têm 60% da diversidade genética das espécies não ameaçadas. Como veremos, a explicação mais provável é que espécies ameaçadas sofreram reduções no tamanho populacional que resultaram diretamente na perda da diversidade genética. Komodo Mago TRADUZIR Tabela 2.6 | Variação em oito locos de microssatélites em 39 chimpanzés selvagens do Parque Nacional Gombe, Tanzânia. São dadas as freqüências alélicas em cada um dos oito locos, com as proporções de heterozigosidade individual (H) para cada loco e o número médio de alelos por loco (A). Loco Alelo D19S431 D9S905 D18S536 DS243 D1S548 D9S922 D2S1326 D9S302 1 0,458 0,086 0,412 0,197 0,219 0,016 0,258 0,071 2 0,097 0,186 0,074 0,224 0,516 0,210 0,182 0,014 3 0,042 0,057 0,074 0,210 0,266 0,064 0,061 0,057 4 0,014 0,243 0,265 0,013 0,290 0,288 0,014 5 0,028 0,429 0,176 0,132 0,355 0,182 0,071 6 0,361 0,224 0,064 0,030 0,100 7 0,586 8 0,029 9 0,057 H 0,647 0,712 0,718 0,799 0,615 0,737 0,780 0,629 H média = 0,705 A = 5,75 Fonte: Constable et al. (2001). Populações pequenas ou populações que sofreram gargalo freqüentemente têm uma diversidade genética reduzida Espécies ameaçadas geralmente têm menores níveis de diversidade genética do que espécies não ameaçadas TRADUZIR Komodo dragon DIVERSIDADE GENÉTICA30 Quais componentes da diversidade genética determinam a habilidade para evoluir? O potencial evolutivo é medido de forma mais direta estimando-se a variação genética quantitativa para o sucesso reprodutivo. O sucesso reprodutivo é o número de descendentes férteis com que um indivíduo contribui para a próxima geração, e inclui a sobrevivência até a matu- ridade sexual e a habilidade de reproduzir e criar seus descendentes. Infelizmente, esta variação genética quantitativa é a mais difícil de ser medida e é o aspecto da diversidade genética para o qual temos menos informação nas espécies ameaçadas. Outras medidas tais como a varia- ção no DNA e em aloenzimas somente refl etem o potencial evolutivo se estiverem correlacionados com a variação genética quantitativa. Infelizmente, as correlações entre as medidas moleculares e quantita- tivas da diversidade genética são freqüentemente baixas. LEITURAS SUGERIDAS 'Frankham, R., J. D. Ballou & D. A. Briscoe. 2002. Introduction to Conservation Genetics. Cambridge University Press, Cambridge, UK. Chapters 3--5 have extended treatments of these topics, plus references. Avise, J. C. & J. Hamrick. (eds.) 1996. Conservation Genetics: Case Histories from Nature. Chapman & Hall, New York. Advanced scientifi c reviews on the conservation of major groups of animals and plants, including considerable information on genetic diversity. Smith, T. B. & R. K. Wayne. (eds.) 1996. Molecular Genetic Approaches in Conservation. Oxford University Press, New York. Contains information on genetic diversity in threatened species and the diverse molecular methods for measuring it. Advanced. A variação genética quantitativa para características de história de vida é a principal determinante do potencial evolutivo. Infelizmente, temos pouca informação sobre esta forma de diversidade genética e ela é a mais difícil de ser medida Tabela 2.7 | Níveis de diversidade genética de microssatélites numa série de espécies ameaçadas e espécies relacionadas não ameaçadas. O número médio de alelos por loco (A) e heterozigosidade (H) são dados para os locos polimórfi cos. As espécies globalmente ameaçadas, ou previamente ameaçadas, são colocadas adjacentes às espécies não ameaçadas mais relacionadas para as quais existem dados disponíveis. Espécies ameaçadas A H Espécies não ameaçadas A H Rinoceronte preto 4,2 0,69 Búfalo Africano 8,6 0,73 Lobo mexicano 2,7 0,42 Lobo cinza 4,5 0,62 Lobo da Etiópia 2,4 0,21 Coiote 5,9 0,68 Cachorro selvagem Africano 3,5 0,56 Cachorro doméstico 6,4 0,73 Gueopardo 3,4 0,39 Leão Africano 4,3 0,66 Corvo Mariana 1,8 0,16 Corvo Africano 6,0 0,68 Falcão-de-Mauritius 1,4 0,10 Falcão Europeu 5,5 0,68 Falcão-de-Seychelles 1,3 0,12 Falcão Maior 4,5 0,59 Falcão peregrino 4,1 0,48 Falcão Menor 5,4 0,70 Coala 8,0 0,81 Lasirhinus kre" tii do norte 2,1 0,32 Lasirhinus kre" tii do sul 5,9 0,71 Marsupial Potorous de pata-longa 3,7 0,56 Wallaby Petrogale assimilis 12,0 0,86 Wallaby Onychogalea fraenata 11,6 0,83 Dragão-de-Komodo 4,0 0,31 Jacaré Americano 8,3 0,67 Mogno 9,7 0,55 Mogno Real 9,3 0,67 Fonte: Frankham et al. (2002). Cheetah Capítulo 3 Genética evolutiva de populações naturais As populações evoluem através da ação da mutação, migração, seleção e o acaso. A diversidade genética surge da mutação, ou é adicionada por imigrações, e é removida por seleção, ou perdida por deriva genética em populações pequenas. O balanço entre mutação e seleção resulta numa “carga” de alelos deletérios raros. Melanismo industrial na mariposa- de-pintas: mariposas-de-pintas e melânicas (pretas) sobre árvores de áreas poluídas (tronco de árvore escurecida) e não-poluídas (árvore com líquen) na Inglaterra. A forma melânica é mais bem camufl ada em áreas poluídas e a forma de- pintas nas áreas não poluídas (de Kettlewell 1973). Termos Evolução adaptativa, variância aditiva, clina, variância dominante, evolução, valor adaptativo, fl uxo gênico, marcador genético, interação genótipo x ambiente, herdabilidade, variância de interação, introgressão, letal, mutação, carga genética, balanço mutação-seleção, seleção natural, mutação neutra, valor adaptativo relativa, sucesso reprodutivo, coefi ciente de seleção, seletivamente neutro. GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS32 Fatores de controle da evolução de populações Nosso objetivo na genética da conservação é preservar as espécies como entidades dinâmicas, capazes de evoluírem para adaptarem-se as mudanças ambientais. Dessa forma, é essencial entender as forças determinando as mudanças evolutivas. Esta informação é central para o planejamento do manejo genético de populações ameaçadas e em pe- rigo. Uma vez que evolução, em seu nível mais básico, é uma mudança na composição genética de uma população, esta requer diversidade ge- nética. Conseqüentemente, devemos compreender como a diversidade genética surge, quais formas de diversidade genética existem e como ele é perdida. Em seu nível mais simples, evolução envolve qualquer mudançana freqüência de um alelo devido à mutação, migração (fl uxo gênico), seleção ou deriva. Os papéis desses fatores podem ser sumarizados como seguem: A • mutação é a fonte de toda a diversidade genética, mas é uma força evolutiva fraca, uma vez que as taxas mutacionais são geralmente muito baixas A • migração (fl uxo gênico) reduz as diferenças geradas por mutação, seleção e deriva entre as populações A • seleção é a única força que causa mudanças evolutivas que me- lhor adapta as populações a seus ambientes Efeitos da • deriva em populações pequenas levam a perda da diver- sidade genética Fragmentação• e migração reduzida limitam o fl uxo gênico gerando diferenciação ao acaso entre sub-populações derivadas da mesma população fonte original. Uma população em evolução pode ser modelada como um sistema complexo infl uenciado por mutação, migração, seleção e deriva, ope- rando dentro do contexto do sistema reprodutivo (Fig. 3.1). Para avaliar a importância dos componentes de uma população em evolução, nós a modelamos sem a ação de nenhum desses fatores, depois com cada As populações evoluem através da ação da seleção, mutação, migração e deriva Evolução em seu nível mais simples é uma mudança na freqüência de um alelo Fig. 3.1 Uma população evoluindo como um sistema complexo TRADUZIR ORIGEM E REGENERAÇÃO DA DIVERSIDADE GENÉTICA 33 um dos fatores individualmente, seguido por dois fatores ao mesmo tempo, etc. Fazendo isso podemos estimar o impacto de cada fator e qual é o provável papel que cada um tem na evolução. Adicionalmente, podemos identifi car aquelas circunstâncias onde fatores particulares podem ser ignorados, uma vez que é raro todos os fatores terem simul- taneamente efeitos signifi cantes. Por exemplo, as mutações ocorrem em taxas muito baixas, e freqüentemente podemos ignorá-las no curto prazo. No capítulo anterior mostramos que num loco autossômico as fre- qüências alélicas e genotípicas estão em equilíbrio de Hardy-Weinberg depois de uma geração de cruzamento ao acaso em populações livres de mutação, migração, seleção ou deriva. Abaixo consideramos a ação independente da mutação, migração e seleção, e então a ação con- junta da mutação com a seleção. Os efeitos da deriva são geralmente pequenos em populações grandes, e adiaremos até o Capitulo 4 o seu tratamento detalhado. Origem e regeneração da diversidade genética A diversidade genética é o material bruto sobre o qual a seleção natu- ral atua para causar mudanças evolutivas adaptativas. Muitas espé- cies naturalmente exogâmicas com populações grandes carregam um estoque substancial de diversidade genética (Capitulo 2). Aqui discuti- remos as seguintes questões: como a diversidade genética é produzida, e quão rapidamente ela é recuperada se for perdida? Mutação Uma mutação é uma mudança genética súbita num alelo ou cromos- somo. Toda a diversidade genética origina-se da mutação. A palavra mutação refere-se tanto ao processo pelo qual surgem novas variantes genéticas (por meio de erros naturais durante a replicação do DNA, elementos genéticos móveis, quebras cromossômicas, etc.) como aos produtos do processo mutacional (por exemplo, mutação de olho bran- co na mosca da fruta). Os padrões de diversidade genética nas populações são o resultado de uma variedade de forças que atuam para eliminar ou aumentar e dispersar estes novos alelos mutantes e rearranjos cromossômicos en- tre indivíduos e populações. Na genética da conservação nós estamos preocupados em saber: Com que velocidade o processo mutacional aumenta a diversidade • genética nas populações? Como as mutações afetam o potencial adaptativo e o sucesso repro-• dutivo das populações? Que importância tem a acumulação das mutações deletérias no de-• clínio do valor adaptativo em populações pequenas? As mutações mais importantes são aquelas em locos que afetam os caracteres de valor adaptativo, mais notavelmente as mutações letais A mutação é a fonte fundamental de toda a diversidade genética GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS34 ou deletérias. Algumas mutações, tais como a do alelo de melanismo escuro em mariposa, aumentam de fato a valor adaptativo em áreas poluídas, uma vez que as mariposas que carregam essa mutação são mais bem camufl adas sobre as árvores enegrecidas e então sofrem menos predação por aves. Entretanto, muitas mutações que ocorrem em regiões não-codantes do genoma e aquelas que não resultam em substituições de aminoácidos nas proteínas (substituições silenciosas) provavelmente têm pouco ou nenhum impacto sobre o valor adaptati- vo (mutações neutras). Mutações neutras são, entretanto, importantes como marcadores e relógios moleculares que proporcionam informa- ções valiosas sobre as diferenças genéticas entre os indivíduos, popu- lações e espécies. A taxa da mutação é crítica para o seu papel na evolução. As taxas são baixas. Para uma variedade de locos em espécies de eucariotos, a taxa de mutação espontânea típica é de uma nova mutação por loco por 100.000 gametas (10–5) por geração (Tabela 3.1). As taxas de mu- tação são similares entre todos os eucariotos, exceto aquelas para os microssatélites. Taxas de mutação por base nucleotídica são claramente mais bai- xas do que para um dado loco, uma vez que tipicamente existem 1000 ou mais bases por loco gênico. O DNA mitocondrial tem uma taxa mu- tacional muito maior do que os locos nucleares, fazendo deste uma ferramenta valiosa no estudo de processos evolutivos mais recentes. As taxas mutacionais para caracteres quantitativos são aproximada- mente 10-3 vezes a variância ambiental por geração para um conjunto de caracteres numa série de espécies. Esta taxa aparentemente alta, comparada com a que ocorre num só loco, é porque uma mutação em qualquer um dos muitos locos controlando o caráter pode afetar a característica. As mutações ocorrem geralmente em taxas muito baixas Tabela 3.1 | Taxas de mutação espontâneas para diferentes locos e caracteres em uma variedade de espécies de eucariotos. Taxas médias aproximadas são dadas como a freqüência de novas mutações por loco por geração, a menos que outros pressupostos sejam especifi cados. Mutações morfológicas Camundongos, milho e mosca de fruta (normal → mutante) ~1 x 10-5/loco Locos de aloenzimas (mudança de mobilidade) 0,1 x 10-5/loco Microssatélites Mamíferos 1 x 10-4/loco Nucleotídeos de DNA 10-8 – 10-9/loco Nucleotídeos de DNAmt Mamíferos 5 – 10 x nuclear Caracteres quantitativos* Mosca de fruta, camundongos e milho 10-3 x V E /caráter * V E é a variação ambiental para o caráter. Fonte: Houle et al. (1996); Hedrick (2000). MIGRAÇÃO E FLUXO GÊNICO 35 A mutação é um processo recorrente onde novos alelos continuam a surgir a todo tempo. Isto é, de fato, uma reação química lenta. Pode- mos modelar o impacto da mutação sobre uma população consideran- do um só loco com dois alelos A 1 e A 2 com freqüências de p e q, e com mutação mudando somente A 1 para A 2 numa taxa de u por geração, como segue: Taxa de mutação u A 1 A 2 Freqüências iniciais dos alelos p o q o A freqüência p 1 do alelo A 1 na próxima geração é a freqüência dos ale- los que não mutaram, a saber: p 1 = p o (1 – u) (3.1) Assim, a freqüência do alelo A 1 declina. A mudança na freqüência do alelo A 1 (∆p) é a diferença entre as freqüências nas duas gerações: ∆p = p 1 – p o = p o (1 – u) – p o ∆p = – u p o (3.2) Conseqüentemente, a freqüência de A 1 declina numa proporção quedepende da taxa de mutação u e da freqüência inicial p o . Existe um au- mento correspondente na freqüência de A 2 (∆p = +u p o ). Uma vez que a taxa de mutação para mutações morfológicas é aproximadamente 10–5, a mudança máxima na freqüência do alelo é 10–5 quando p = 1. Este va- lor é muito pequeno e pode ser ignorado em muitas circunstâncias. Quando a diversidade genética é inteiramente perdida numa es- pécie, esta é regenerada somente por mutação. Tendo em vista que as taxas de mutação são baixas, os tempos de regeneração são muito longos, levando de milhares a milhões de gerações para recuperar a variação em um loco (Capítulo 5). Migração e fl uxo gênico Ao contrário do processo lento de mutação, a mistura de alelos de duas ou mais populações geneticamente diferenciadas pode rapidamente restaurar a diversidade genética. No Capítulo 7 são discutidos os bene- fícios e os riscos potenciais de promover mistura gênica para restaurar a diversidade genética em espécies em perigo. Os conjuntos gênicos de populações parcialmente isoladas diver- gem ao longo do tempo como um resultado da deriva e seleção. Mi- grações e intercruzamentos subseqüentes reduzem tais diferenças. O impacto da migração é ilustrado pelas freqüências dos alelos do grupo sangüíneo B nas populações humanas na Eurásia (Fig. 3.2). Antes de aproximadamente 1.500 anos atrás, o alelo B era essencialmente au- sente na Europa Ocidental, mas existia em altas freqüências no Orien- te. Entretanto, entre 1.500 e 500 anos atrás, ocorreram uma sucessão de invasões de Mongóis e Tártaros na Europa. Como era típico de tais invasões militares, eles deixaram um rasto de saques e estupros e, As taxas de mutação são muito baixas, a mutação é uma força evolutiva muito fraca e em muitas circunstâncias pode ser ignorada em curto prazo A diversidade genética é regenerada por mutação somente num período de milhares a milhões de gerações A introdução de imigrantes de uma população dentro de outra reduz a diferenciação genética entre as populações e pode restaurar a perda da diversidade genética GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS36 conseqüentemente, deixaram alguns alelos orientais para trás. Note o decréscimo gradual na freqüência do alelo do grupo sangüíneo B do oriente para o ocidente (chamado clina). A mudança na freqüência do alelo devido à mutação é: ∆q = m(q m – q o ) (3.3) onde m é a taxa de migração, q m a freqüência alélica nos imigrantes e q o a freqüência na população original. Assim, a mudança na freqüência alélica de uma geração para outra depende da proporção dos alelos contribuídos pelos imigrantes, e da diferença na freqüência alélica entre imigrantes e a população origi- nal. A migração pode ter efeitos muito grandes sobre as freqüências alélicas e é muito mais efetiva em restaurar a diversidade genética do que a mutação. Por exemplo, se os imigrantes são homozigotos para um alelo ausente da população nativa, e 20% da população na próxima geração são imigrantes, então o alelo imigrante aumenta em freqü- ência de 0 para 0,2 em uma única geração. No Capítulo 4 mostramos como taxas de migração tão baixas como um migrante por geração é o sufi ciente para prevenir as populações de divergirem geneticamente. Muitas espécies em perigo são ameaçadas pelo fl uxo gênico (in- trogressão) de espécies relacionadas não ameaçadas. A equação 3.3 pode ser usada para estimar a taxa de imigração a partir de dados de freqüências alélicas. Por exemplo, aproximadamente 22% do material genético da população do Vale Web de lobo da Etiópia, derivam de cães domésticos (Exemplo 3.1). Fig. 3.2 Freqüência do alelo do grupo sangüíneo B ao longo da Eurásia, resultante da invasão de Mongóis e Tártaros entre 1500 e 500 anos atrás (de Mourant et al. 1976). Antes desse período, presume-se que o alelo do grupo sangüíneo B não ocorria na Europa ocidental, como é ausente nos nativos Basques da Espanha, e em outras populações isoladas. O impacto genético da migração depende da proporção de alelos levados pelos imigrantes e da diferença na freqüência entre a população nativa e a dos imigrantes TRADUZIR SELEÇÃO E ADAPTAÇÃO 37 Exemplo 3.1 Estimativa da introgressão genética de cachorro- doméstico no lobo da Etiópia, uma espécie em perigo de extinção, através das freqüências dos alelos de microssatélites (dados de Gotteli et al. 1994) Os lobos da Etiópia são geneticamente distintos dos cachorros domésti- cos, mas hibridações ocorrem em áreas onde eles co-ocorrem, como no Vale Web, Etiópia. A população do Platô Sanetti é relativamente pura. A contribuição do material genético dos cachorros domésticos na popula- ção do Vale Web pode ser estimada usando-se as freqüências alélicas no loco de microssatélite 344. Os cachorros não possuem o alelo J, enquanto que os lobos puros da Etiópia são homozigotos para este. As freqüências deste alelo são: População Freqüência do alelo J Sanetti q o 1,00 (lobo ‘velho’ – ‘puro’ da Etiópia) Vale Web q 1 0,78 (‘novo’ – contendo a mistura com cachorro) Cachorros domésticos q m 0,00 (‘imigrantes’) Todos os alelos não-J na população do Vale Web vieram dos cachorros. A equação 3.3 pode ser rearranjada para fornecer uma expressão para a migração ou taxa de introgressão m ∆ − −1 0 m 0q q q = m(q q= ) Assim, − − 1 0 m 0 q q m = q q Aplicando-se nessa expressão as freqüências dos alelos dadas acima, obtemos − = − 0,78 1,0 0,22 0 1,0 m = Assim, aproximadamente 22% da composição genética da população dos lobos do Vale Web da Etiópia derivam dos cachorros domésticos. Essa é uma contribuição acumulada dos alelos de cachorros, não uma esti- mativa por geração. Indivíduos fenotipicamente anormais, suspeitos de serem indivíduos híbridos, representam aproximadamente 17% da po- pulação. Estimativas de outros locos de microssatélites também podem ser feitas e a melhor estimativa viria dos resultados de todos os locos relevantes combinados. Seleção e adaptação Os ambientes físicos e bióticos de virtualmente todas as espécies estão continuamente mudando. Para sobrevivências em prazo longo, as es- pécies devem ajustar-se as estas mudanças. O clima fl utua ao longo do tempo, o nível do mar constrói e quebra conexões entre blocos de ter- ra, e coberturas de gelo avançam e retraem. Pestes, parasitas e doenças desenvolvem novas formas, trocando de hospedeiros e espalhando-se para novas localidades, e novos competidores podem surgir. A evolu- ção adaptativa tem sido descrita num número grande de animais e As espécies evoluem em resposta as mudanças ambientais. Mudanças evolutivas adaptativas ocorrem através do impacto da seleção sobre a variação genética, aumentando a freqüência de alelos benéfi cos GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS38 plantas. Por exemplo, mudanças evolutivas em animais têm sido docu- mentadas para morfologia, comportamento, forma de cor, resistência a plantas hospedeiras, tamanho da presa, tamanho do corpo, tolerân- cia ao álcool, taxa reprodutiva, sobrevivência, resistência a doenças, evitação de predadores, tolerância a poluentes, resistência a biocidas, etc. Mudanças evolutivas adaptativas a uma ampla faixa de condições têm sido descritas em plantas, incluindo aquelas para condições de solo, estresses a água, inundação, regimes de luz, exposição ao vento, pastagem, poluição do ar e herbicidas. De particular importância durante a ‘sexta extinção’ são as mudan- ças ambientais causadas pelas atividades humanas. O aquecimento global está ocorrendo em conseqüência das práticas industriaise agrí- colas. As espécies têm que mudar ou adaptarem-se a estas condições climáticas alteradas. Aves, borboletas e plantas já alteraram suas áreas de distribuição. Os humanos têm sido responsáveis por translocações de espécies, extinções de espécies utilizadas como alimentos, e intro- duções inadvertidas ou deliberadas de novos agentes químicos no am- biente. Em muitos casos, mudanças evolutivas adaptativas têm sido registradas nas espécies afetadas. Coelhos na Austrália rapidamente desenvolveram resistência ao vírus mixoma quando este foi introduzi- do como uma medida de controle (Quadro 3.1). Mais de 200 espécies de mariposas mundialmente distribuídas apresentam melanismo em áre- as de poluição industrial. Várias espécies de plantas têm desenvolvido tolerância a metais pesados no processo de colonização de depósitos de resíduos de minas de metais pesados e as plantas estão progressiva- mente desenvolvendo resistência aos herbicidas. A adaptação pode representar modifi cações fi siológicas ou com- portamentais onde indivíduos mudam para dar conta das condições alteradas, ou adaptações genéticas onde a seleção natural altera a composição genética das populações ao longo de várias ou muitas gerações. As adaptações fi siológicas dos indivíduos incluem modifi cações nos níveis de hemoglobinas para lidar com altitude, respostas imu- nes para combater doenças, indução de enzimas para lidar com dietas alteradas, etc. Adaptações comportamentais podem incluir preferên- cias alimentares alteradas, comportamentos de evitação, etc. Existe, entretanto um limite para a adaptação fi siológica. Se as mudanças ambientais são tão extremas que nenhum indivíduo pode agüentar, então estas espécies tornam-se local ou globalmente extintas. Mudanças evolutivas por meio da seleção natural é um mecanismo de longo prazo em resposta a mudanças ambientais. Esta é referida como evolução adaptativa. Quando mudanças evolutivas adaptativas continuam através do tempo, elas podem permitir a uma população ou espécie progredir em condições mais extremas do que qualquer in- dividuo poderia originalmente tolerar. A evolução adaptativa é observada onde quer que grandes popula- ções geneticamente variáveis estejam sujeitas a ambientes bióticos ou físicos alterados. Isto é de fundamental importância em cinco contex- tos de conservação: Preservação da habilidade de evolução das espécies• Perda do potencial adaptativo evolutivo nas pequenas populações• Ao enfrentar uma mudança ambiental, as espécies devem adaptar-se ou encarar a extinção Mudanças evolutivas adaptativas podem possibilitar as populações adaptarem- se a condições que nenhum indivíduo poderia previamente sobreviver SELEÇÃO E ADAPTAÇÃO 39 Quadro 3.1 Mudanças evolutivas adaptativas rápidas em coelhos na Austrália após a introdução do vírus mixoma como um agente de controle (Fenner & Ratcli e 1965) Colonizadores europeus introduziram coelhos na Austrália no século dezenove para caça esportiva. Várias tentativas foram feitas sem sucesso até coelhos selvagens genuínos serem introduzidos em 1859. Os coelhos selvagens aumentaram rapidamente em número até que atingiram proporções de praga por todo o país. Os coelhos causaram o declínio de muitas espécies nativas e foram uma das causas do declínio dos marsupiais nativos do grupo Macrotis (bilbies) os quais também fazem tocas. Quando os vírus mixoma foram introduzidos na Austrália para o controle dos coelhos em 1950, a taxa de mortalidade dos coelhos infectados foi acima de 99%. Uma forte seleção direcional resultou em um rápido aumento na resistência genética dos coelhos ao vírus mixoma. O vírus mixoma também desenvolveu uma menor virulência, uma vez que isto aumentou a probabilidade de ser transmitido. Os dados abaixo refl etem somente as mudanças genéticas em coelhos resistentes, uma vez que a mesma linhagem menos severa de vírus foi usada em todo o estudo. A mortalidade dessa linhagem do vírus caiu de aproximadamente 90% para 25% em 1958 (o sexto evento epizoótico). TRADUZIR GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS40 Muitas espécies em perigo vivem atualmente somente na periferia • de sua distribuição histórica, e devem, dessa forma, adaptarem-se ao que previamente era um ambiente marginal Adaptação genética ao cativeiro e seus efeitos deletérios no sucesso • da reintrodução (Capítulo 8) Adaptação de populações translocadas ao seu novo ambiente• A seleção surge porque diferentes genótipos têm diferentes taxas de sobrevivência e reprodução, resultando em mudanças nas freqüências dos alelos. Alelos cujos portadores produzem grandes números de des- cendentes férteis que sobrevivem até a idade reprodutiva aumentam em freqüência, enquanto que aqueles alelos cujos portadores tem pou- cos descendentes decrescem em freqüências. A seleção opera em todos os estágios do ciclo de vida. Em animais isto envolve a habilidade de acasalamento e a fertilidade de machos e fêmeas, sucesso de fertilização de espermatozóides e ovos, número de descendentes por fêmeas, sobrevivência dos descendentes até a idade reprodutiva e longevidade. Em plantas, a seleção pode envolver a pro- dução de pólen, a habilidade do pólen em atingir o estigma das fl ores, germinar, crescer pelo estilete e fertilizar o óvulo, número de ovos, viabilidade dos zigotos fertilizados, sua habilidade para dispersar, germinar e crescer até a maturidade sexual, e a fertilidade da planta resultante. Recessivo letal Para ilustrar e modelar a ação da seleção natural nós examinaremos um caso extremo, o dos alelos recessivos letais. Esses alelos deletérios não prejudicam a habilidade dos heterozigotos, mas todos os homozi- gotos morrem (letal). Por exemplo, todos os indivíduos homozigotos para o nanismo associado à condrodistrofi a no condor da Califórnia, uma espécie ameaçada, morrem ao redor do período de eclosão. No Quadro 3.2 está modelado o efeito da seleção contra essa síndrome. Iniciamos com um alelo normal (+) numa freqüência p e o alelo letal recessivo (dw) numa freqüência q. Com reprodução ao acaso, as freqü- ências genotípicas na formação do zigoto são iguais às freqüências p2, 2pq, q2 do equilíbrio de Hardy-Weinberg. Entretanto, os três genótipos têm sobrevivências diferenciadas. O fator importante nos efeitos gené- ticos da seleção não é a sobrevivência absoluta, mas a sobrevivência re- lativa dos três genótipos. Por exemplo, se os genótipos ++, +dw e dwdw têm 75%, 75% e 0% de sobrevivência, os valores relativos 1, 1, e 0 de- terminam o impacto da seleção. Denominamos esses valores de valor adaptativo relativo, onde ao genótipo(s) com maior valor adaptativo é dado o valor máximo de 1. A freqüência de sobrevivência dos adultos é obtida multiplicando- se a freqüência inicial pelo valor adaptativo relativo. Por exemplo, a freqüência do homozigoto letal vai de q2 na fertilização a q2 x 0 = 0 nos adultos. Depois da seleção, perdemos uma proporção da população (– q2), então o total não mais atinge 1. Como mostrado, devemos dessa forma dividir pelo total (1 – q2) para obter a freqüência relativa. A freqüência alélica na geração subseqüente é então obtida deter- minando-se a freqüência alélica nos sobreviventes, usando-se o método A seleção é única força que causa evolução adaptativa A seleção reduz a freqüência dos alelos deletérios SELEÇÃO E ADAPTAÇÃO 41 de contagem dos alelos descrito previamente. Métodos para predize- rem as mudanças nas freqüências dos alelos devido a qualquer forma de seleção são similares ao que usamos aqui. California condor TRADUZIR Quadro 3.2 Modelando o impacto da seleção contra acondrodistrofi a (o nanismo associado a distrofi a de cartilagem dos ossos longos) (um recessivo letal) no condor da Califórnia Phenotype Normal Normal dwarf Genotype ++ +dw dwdw Total Zygotic frequencies p2 2pq q2 1,0 Relative fi tnesses 1 1 0 (lethal) After selection (frequency × fi tness) p2 ×1 2pq × 1 q2 × 0 = 0 1– q2 Adjusted frequencies p q 2 2 1– pq q 2 2 1– 0 1,0 The frequency of the dw allele in the next generation after selection (q 1 ) is = = = + pq q – q q q q q 21 homozygites +½ heterozygotes 0 (1 ) total 1– (1– )(1+ ) = q q q 1 1+ (3.4) Note that we substituted 1 − q for p, as p + q = 1. The change in frequency ∆q is: ∆ = = q q – q q q q q – q = q q 1 (1+ ) – 1+ 1+ ∆ = – q q q 2 1+ (3.5) A equação 3.5 demonstra que a freqüência do alelo letal dw sem- pre declina, uma vez que o sinal de ∆q é negativo. Além disso, a taxa de declínio diminui marcadamente em freqüências alélicas menores, uma vez que é dependente de q2. Por exemplo, se q é 0,5, ∆q é – 0,167, enquanto que se q é 0,1, ∆q é – 0,009. O exemplo 3.2 usa a equação 3.4 para calcular a mudança na freqüência dos alelos dw no condor da Califórnia. GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS42 Exemplo 3.2 Como a freqüência do alelo recessivo letal da condrodistrofi a declina rapidamente devido a seleção no condor da Califórnia? O alelo da condrodistrofi a tem uma freqüência inicial de aproximada- mente 0,17 na fertilização (Capítulo 2). Todos os homozigotos morrem, assim a freqüência é reduzida nos adultos sobreviventes. A freqüência esperada do alelo deletério em adultos, resultante dessa seleção natural, pode ser prevista usando-se a equação 3.4 e substituindo q = 0,17, como segue: 1 q q = = + q 0,17 = 0,145 1 (1 + 0,17) Assim, a freqüência deve cair de 17% para 14,5% como resultado de uma geração de seleção natural A seleção não é aplicada somente para genes letais. Qualquer alelo que mude o valor adaptativo relativo esta sujeito à seleção. Se o efeito sobre o valor adaptativo é pequeno então a mudança na freqüência do alelo será correspondentemente menor. Na genética da conservação, estamos preocupados com a seleção contra mutantes deletérios (descrito acima) e com a seleção favorecendo alelos que melhorem a habilidade de uma população para adaptar-se a mudanças ambientais. Usaremos o melanismo industrial na mariposa- de-pintas da Inglaterra para ilustrar mudanças evolutivas adaptativas. A camufl agem é crítica para evitar a predação por aves, uma vez que as mariposas-de-pintas são ativas durante a noite e descansam sobre as árvores durante o dia. Antes da revolução industrial, suas asas com pintas claras e escuras fi cavam bem camufl adas quando descansavam sobre os troncos das árvores manchadas com coberturas de liquens nas áreas centrais da Inglaterra (página frontal do capítulo). Entretanto, a poluição do enxofre vinda da industrialização matou muito do líquen e a fuligem escureceu as árvores. A mariposa-de-pintas tornou-se clara- mente visível. A variante escura (melânica) previamente rara tornou-se melhor camufl ada sobre os troncos escuros e sofreu menos predação. Isso resultou numa freqüência maior do alelo melânico (M) nas áreas industriais que nas áreas relativamente não poluídas (Quadro 3.3). A forma melânica da mariposa-de-pintas foi registrada pela primeira vez em 1848, mas em 1900 representavam aproximadamente 90% de todas as mariposas nas áreas poluídas. No Quadro 3.3 é desenvolvido um modelo desta seleção e, uma vez que o sinal de ∆q é positivo, mostra que a freqüência do alelo M sempre aumenta até que o alelo seja fi xado (p =1). A taxa de mudança depende da força de seleção contra a forma não-melânica (s, coefi ciente de sele- ção) e as freqüências de p e q. Espera-se que o controle da poluição reverta as forças seletivas. Como previsto, a freqüência das formas melânicas (agora pobremente camufl adas) declinou marcadamente. Num local próximo a Liverpool, esta caiu de 90% para 10% nos últimos 40 anos, e declínios similares têm sido observados em outras áreas do Reino Unido. Mudanças para- lelas têm também ocorrido na sub-espécie da mariposa-de-pintas da América do Norte. A seleção aumenta a freqüência de alelos vantajosos SELEÇÃO E ADAPTAÇÃO 43 Quadro 3.3 Mudanças adaptativas nas freqüências do melanismo industrial devido a seleção em áreas poluídas (depois de Kettlewell 1973; Majerus 1998; Grant 1999) O mapa do Reino Unido com diagramas em formato de pizza mostra a freqüência das formas melânica, melânica-suave (insularia) e não-melânica (típica) das mariposas nos anos de 1950. A forma melânica tem altas freqüências nas áreas industriais (áreas centrais, ao redor de Londres no sudeste e ao redor de Glasgow até o noroeste) e baixas freqüências em áreas menos poluídas. A forma melânica da mariposa é devida a um alelo dominante. O impacto da seleção sobre as formas melânicas e típicas são dados abaixo (o alelo da forma insularia é aqui ignorado, mas isto não afeta nossas conclusões). Iniciamos com as freqüências p e q para os alelos melânicos (M) e típicos (t), respectivamente, e assumimos que estamos lidando com uma população grande de acasalamento ao acaso, sem migração ou mutação. A seleção é assumida ocorrer nos adultos, mas antes da reprodução. Desde que o genótipo tt tem menor sobrevivência que os melânicos nas áreas poluídas, embora não seja conhecido o valor preciso, damos a este um valor adaptativo relativo de 1 – s, onde s é o coefi ciente de seleção. O valor de s representa a redução do valor adaptativo do genótipo tt comparado ao valor adaptativo dos genótipos MM e Mt. Por exemplo, se a sobrevivência de tt foi somente 70% da sobrevivência de MM e Mt, então o coefi ciente de seleção é 1 – 0,7 = 0,3. Melânica MM Melânica Mt Típica tt Total Freqüências zigóticas p2 2pq q2 1,0 Valor adaptativo relativo 1 1 1 – s Após seleção p2 2pq q2 (1 – s) 1 – sq2 Freqüências ajustadas 2 2 1– p sq 2 2 1– pq sq 2 2 2 – 1– q pq sq 1,0 TRADUZIR GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS44 Seleção sobre caracteres quantitativos A discussão acima se aplica a seleção sobre diferenças devido à locos únicos. Entretanto, na genética da conservação estamos preocupados primariamente com a evolução do sucesso reprodutivo, um caráter quantitativo afetado por muitos locos, e com como a habilidade para se adaptar é afetada pela redução de tamanho da população, fragmen- tação, e mudanças no ambiente. O potencial evolutivo imediato de uma população é determinado pela herdabilidade. Exploramos agora este parâmetro em mais detalhes. A herdabilidade (h2) é uma medida fundamental de como um ca- ráter quantitativo é efetivamente transmitido de uma geração para a próxima. A herdabilidade é a proporção da variância total de um caráter numa população que é devida a diferenças genéticas, ao invés das diferenças ambientais entre os indivíduos. A herdabilidade refl ete o grau de semelhança entre parentes para o caráter e é facilmente me- dida pela comparação do caráter entre os parentes. A Fig. 3.3 ilustra três intensidades contrastantes de relação entre pais e descendentes e as diferenças correspondentes na herdabilidade. A fi gura 3.3a mostra um exemplo de herança completa. Para um dado caráter, pais que apresentam valores maiores que a média produzem descendentes com valores igualmente grandes, enquanto que pais com valores menores que a média produzem descendentes com valores Freqüência de M após seleção (p1) é + +2 2 1 2 2 2 2 2 (1/ 2)2 = + = = = 1– 1– 1– 1– 1– p pq p pq p(p q) p p sq sq sq sq sq A mudança na freqüência de M (∆p) é – –∆ 2 1 2 2 2 2 – 1– = = = = 1– 1– 1– p p p( sq ) spq p p p p sq sq sq Assim, uma vez que o sinal de ∆p é positivo, o alelo do melanismo aumenta em freqüência. A taxa de aumento depende do coefi ciente de seleção e das freqüências alélicas. Isso pode ser ilustrado usando-se um exemplo numérico. Se o alelo do melanismo estava em uma freqüência p de 0,005 em 1848, e os típicos tinham somente 70% de sobrevivência dos melânicos (s = 0,3) em áreas poluídas, então a freqüência do alelo melânico poderia mudar em uma geração para p p sq 1 2 2 0, 005 = = = 0, 0071 1– 1– (0,3× 0, 995 ) A mudança na freqüência é ∆p = p 1 – p = 0,0071 – 0,005 = 0,0021 Assim, o alelo do melanismo aumentou em 0,0021 na primeira geração, de 0,005 para 0,0071, um aumento de ~40%. O potencial evolutivo imediato de uma população é determinado pela herdabilidade A inclinação da curva de relação entre a média dos descendentes e a média dos pais é uma medida direta da herdabilidade (h2) de um caráter. SELEÇÃO SOBRE CARACTERES QUANTITATIVOS 45 igualmente menores. Esse caráter tem uma alta herdabilidade. Nesse caso, a inclinação que defi ne a relação da média dos pais com a média dos descendentes (coefi ciente de regressão) é 1. Nesse exemplo, é claro que as diferenças ambientais entre os pais e entre os descendentes, tem infl uência negligenciável sobre o fenótipo do caráter (uma herda- bilidade de 1). Um exemplo que se aproxima desse nível de relação é a contagem de sulcos na impressão digital em humanos. Na Fig. 3.3b está representada a herança menos completa. Pais com altos valores fenotípicos produzem descendentes com valores maiores do que a média, porém mais próximos da média da população do que dos próprios pais. Pais com valores fenotípicos baixos produzem des- cendentes com valores não tão baixos quanto os deles. A inclinação da relação entre a média dos descendentes e a média dos pais é < 1 e a herdabilidade tem um valor intermediário. Parte da superioridade ou inferioridade dos pais é devido ao ambiente, e não aos efeitos genéticos e, dessa forma, não podem ser herdados por seus descendentes. Muitas características quantitativas têm relação desse tipo, incluindo a lar- gura da concha no caracol Partula e o tamanho do corpo em muitas espécies incluindo os sauins ameaçados da espécie Saguinus oedipus. Na Fig 3.3c está representada uma ausência de relação entre os va- lores fenotípicos dos pais e dos descendentes. A inclinação da relação é 0. Pais com valores altos e baixos do caráter têm descendentes com valores similares distribuídos aleatoriamente ao redor da média. Neste caso h2 é zero. Tais relações são encontradas em populações homozigo- tas, como na dos pinheiros de Wollemi onde todas as diferenças entre pais e entre descendentes são de origem ambiental. Algumas caracte- rísticas reprodutivas em populações exogâmicas, tais como as taxas de concepção em gado, também se aproximam deste valor. As relações mostradas na Fig. 3.3 também indicam como popula- ções particulares irão responder à seleção para caracteres particulares. Essas predições aplicam-se bem se estamos considerando a seleção natural favorecendo certos fenótipos, ou quando estamos fazendo seleção para o melhoramento de plantas e animais domésticos. Para Fig. 3.3 Relações hipotéticas entre os valores médios dos pais e dos descendentes para três casos, representando relações (a) completas, (b) incompletas e (c) ausência de relações entre pais e descendentes. As linhas sólidas representam as melhores curvas da relação entre descendentes e pais. Partula snail TRADUZIR TRADUZIR GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS46 caracteres com alta herdabilidade (Fig. 3.3a) predizemos uma alta resposta de seleção. Nesse caso, os pais que apresentam valores altos para um caráter o fazem porque possuem alelos determinando altos valores. Se a seleção natural, ou um geneticista agrônomo, determinar que somente aqueles indivíduos com valores em um certo nível acima da média da população são os que serão pais, então seus descendentes irão herdar alelos com altos valores. Ao contrário, onde a herdabilida- de é zero (Fig. 3.3c), todas as diferenças entre os pais em potencial são devido a diferenças ambientais não herdáveis, dessa forma, não inte- ressam quais indivíduos se reproduzem, e a geração dos descendentes terá um média similar daquela da geração parental. A herdabilidade intermediária (Fig. 3.3b) prediz uma resposta seletiva intermediária. Por exemplo, a herdabilidade de 0,5 prediz que os descendentes terão uma média que desviará da média da população em metade do valor de desvio que seus pais apresentam da média. As herdabilidades são predições diretas da resposta evolutiva. Como notado acima, a herdabilidade é a proporção da variância total de um caráter devido à diversidade genética: 2 G P V h = V (3.6) onde V G é a proporção da variação devido a diferenças genéticas entre os indivíduos e V P é a quantidade total de variação fenotípica. A quan- tidade de variação genética para o caráter é determinada pelo nível de heterozigosidade nos locos envolvidos na determinação do caráter. A quantidade total de variação num caráter entre todos os indiví- duos (V P ) é composta da variação devido a diferenças genéticas entre os indivíduos (V G ) e diferenças causadas pelo ambiente (V E ): + P G E V = V V (3.7) V E pode ser calculada medindo-se a quantidade de variação do caráter entre indivíduos que são geneticamente idênticos (por exemplo, uma população tornou-se completamente homozigota através da endoga- mia). V P – V E fornece então o valor de V G . A variação genética pode ser, dessa forma, dividida em variâncias aditiva, dominante e interação (epistática) D I + + G A V = V V V (3.8) V A é a variação devido ao efeito médio dos alelos e é o componente que determina o potencial evolutivo imediato. Estritamente, V A é o com- ponente da variação genética que compõe a herdabilidade (h2 = V A / V P ) para predição da resposta de seleção. V D é devido à variação na do- minância e refl ete a susceptibilidade para depressão endogâmica. V I é devido a interações entre locos e é um importante determinante do impacto do exocruzamento. Os valores de herdabilidade são específi cos para caracteres indi- viduais de populações particulares vivendo sobre condições ambien- tais exclusivas. Populações diferentes podem ter diferentes níveis de A herdabilidade está diretamente relacionada ao nível de heterozigosidade em uma população A herdabilidade estimada é específi ca para um determinado caráter numa população particular em um dado ambiente GENÓTIPO X INTERAÇÃO AMBIENTAL 47 variação genética; aquelas com maior heterozigosidade terão maior herdabilidade quando comparadas num mesmo ambiente. Apesar dessas condições, a herdabilidade estimada para caracteres similares mostra padrões relativamente consistentes em magnitude entre popu- lações de uma espécie, e entre as espécies (Tabela 3.2). A característica notável da herdabilidade é que ela é menor para caracteres de valor adaptativo do que para caracteres mais periferica- mente relacionados a ele (Tabela 3.2). Genótipo x interação ambiental Diferenças na performance de genótipos em ambientes diferentes são referidas como interações genótipo x ambiente. Em geral, essas interações se desenvolvem quando as populações seadaptam a con- dições ambientais particulares, e sobrevivem e reproduzem melhor em suas condições nativas do que em outros ambientes. As interações genótipo x ambiente podem produzir categorias de desempenho que se alteram em diferentes ambientes, ou magnitudes de diferenças que variam em ambientes diversos. Um exemplo clássico é dado pelo crescimento e sobrevivência de indivíduos transplantados da planta Potentilla provenientes de elevações alta, média e baixa na Califórnia (Fig. 3.4). Quando cultivadas em cada um dos três ambientes, os tipos cresceram geralmente melhor nos ambientes dos quais elas origina- ram e pobremente nos ambientes mais diferentes. Tabela 3.2 | Herdabilidade do bico, tamanho do corpo (ou comprimento do tarso) e caracteres de valor adaptativo para aves selvagens. Valores maiores que 100% ou menos que 0 podem surgir devido a variação amostral em experimentos pequenos h2 (%) Espécie Valor adaptativo Tamanho do corpo Tamanho do bico Ganso do Canadá 11 46 Ficedula albicollis – 5, 0, 29,32 47, 59 35, 48, 56, 40, 44 Tendilhão-medium-ground de Darwin – 17 42, 61, 95 75, 102, 103, 108 Tendilhão-de-cactus de Darwin 37,110,126 2, 13, 44, 129 Tendilhão-grande-de-cactus de Darwin 54, 95 67, 69, 104, 137 Estorninho-europeu 34 49 Chapim-grande 37, 48 59, 59, 61, 64, 76 49, 71, 68 Pingüim 92 76 Pombo 28, 50 50, 58 Galo vermelho silvestre 30 35, 50 Pardal-americano 27, 36, 71, 101 40, 123, 71, 59 Média 21 61 67 Fonte: Smith (1993); Weigensberg & Roff (1996); Lynch & Walsh (1998). Tendilhões-medium-ground de Darwin: diferenças no tamanho do bico produzidas pela seleção natural Genótipos podem mostrar performances diferentes em diferentes ambientes GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS48 As interações genótipo x ambiente são mais signifi cantes para ma- nejo genético de espécies em perigo porque: O sucesso reprodutivo de espécies translocadas não pode ser pre-• visto se existem signifi cantes, mas pouco conhecidas, interações genótipo x ambiente O sucesso de populações reintroduzidas pode ser comprometido • pela adaptação genética ao cativeiro – genótipos superiores em con- dições de cativeiro podem ter baixo valor adaptativo quando libera- dos no ambiente selvagem Crescimento no nível do mar Crescimento em 1400 m Crescimento em 3050 m Potentilla g. nevasensis de 3050m Potentilla g. hanseni de 1400m No survivors Potentilla g. typica do nível do mar Fig. 3.4 Interações genótipo x ambiente na planta Potentilla. Os tipos de Potentilla derivados de alta, média e baixa altitudes foram transplantados em seus locais nativos e em diferentes locais na Califórnia, monitorando-se o seu crescimento e sobrevivência (depois de Clausen et al. 1940). As populações cresceram geralmente melhor em seu próprio ambiente e pobremente no ambiente mais diferente. TRADUZIR BALANÇO MUTAÇÃO – SELEÇÃO 49 A mistura do material genético de populações de diferentes ambien-• tes pode gerar genótipos com baixo desempenho sob algumas, ou todas, as condições O conhecimento das interações genótipo • x ambiente pode infl uen- ciar a escolha de populações que retornarão ao ambiente selvagem Balanço mutação – seleção Valor seletivo das mutações No início deste capítulo apontamos que novas mutações estão sendo continuamente adicionadas as populações, embora em uma taxa mui- to baixa. Temos também considerado o destino evolutivo de alelos alta- mente deletérios (letais recessivos) e alelos benéfi cos. Qual a proporção de mutações pertencentes em cada categoria? Como a maioria do genoma não é expressa em fenótipo (isto é, DNA não-codante), as mutações nestas regiões não afetarão o valor adapta- tivo e serão seletivamente neutras. Essas mutações são, entretanto, valiosas na genética da conservação uma vez que elas resultam em marcadores genéticos (alelos que diferem na freqüência entre indi- víduos ou populações), tais como os microssatélites utilizados para a identifi cação de indivíduos, populações e espécies. As mutações que al- teram a seqüência de aminoácidos das proteínas, mas que não afetam o seu funcionamento fi siológico, são também seletivamente neutras e proporcionam marcadores (por exemplo, aloenzimas). As mutações dentro de um loco funcional serão, predominante- mente, deletérias, uma vez que mudanças ao acaso na seqüência do DNA de um loco geralmente ocorrerão de um alelo funcional para um estado menos-funcional. Uma pequena proporção das mutações é vantajosa. Existe pouca evidencia sobre a proporção de mutações dessas di- ferentes categorias. Como a maioria do DNA não esta envolvida na codifi cação de proteínas ou outras funções óbvias, muitas mutações são provavelmente neutras ou quase neutras. Daquelas com efeitos fenotípicos, a grande maioria é deletéria, e talvez somente 1-2% têm efeitos benéfi cos. As mutações deletérias ocorrem em muitos locos, então suas taxas cumulativas por gameta são muito maiores do que as taxas dadas aci- ma para um só loco. Essas taxas cumulativas são de grande importância quando consideramos a carga total das mutações nas populações e o impacto da endogamia sobre elas. Por exemplo, a taxa total de mutação letal recessiva na mosca de fruta, em nematódeos e em samambaias é aproximadamente 0,001 por genoma haplóide por geração. Consi- derando que existem outras mutações deletérias que não são letais, a taxa cumulativa das mutações deletérias é consideravelmente alta. A carga genética Quando a seleção é capaz de remover os alelos deletérios das popu- lações, o tempo levado é tão longo que na realidade novas mutações geralmente ocorrem antes da mutação prévia ter sido eliminada, espe- cialmente para alelos recessivos. Um balanço (equilíbrio) é alcançado Baixas freqüências de alelos deletérios são encontradas em muitos locos em todas as populações exogâmicas, devido ao balanço entre sua adição por mutação e sua remoção pela seleção natural A maioria das mutações novas é deletéria Mutações deletérias ocorrem em milhares de locos no genoma, assim sua taxa cumulativa é relativamente alta GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS50 entre adição de alelos deletérios por mutação e sua remoção por seleção (balanço mutação-seleção). Conseqüentemente, em todas as populações naturalmente exogâmicas são encontradas baixas freqü- ências de alelos deletérios (carga genética). Essas mutações são extre- mamente importantes no entendimento das conseqüências deletérias do endocruzamento porque o aumento desse último aumenta a pro- babilidade desses alelos serem expressos em genótipos homozigotos (Capítulos 4 e 5). Apontamos anteriormente que os modelos populacionais podem combinar os efeitos de vários processos. A equação para a freqüência do equilíbrio (q) devido à mutação e seleção atuando simultaneamente sobre um alelo deletério autossômico recessivo é ˆ = u q s (3.9) onde u é a taxa de mutação e s é o coefi ciente de seleção. Por exemplo, a condrodistrofi a no condor da Califórnia é uma característica recessivo letal, então s = 1. Se u = 10-5, a freqüência do equilíbrio é prevista de ser √10-5/1 = 0,0032. Vários pontos importantes sumarizam a carga genética: Carga genética é encontrada em todas as espécies, incluindo espé-• cies ameaçadas Alelos deletérios são normalmente encontrados apenas em baixas • freqüências, em geral muito menores que 1% em qualquer loco Alelos deletérios são encontrados em muitos locos• Existem diferenças nas freqüências dos alelos deletérios de acordo • com o modo de herança e dominância A maioria das mutações deletérias é parcialmente recessiva• LEITURA SUGERIDA Frankham, R., J. D. Ballou. &D. A. Briscoe. 2002. Introduction to Conservation Genetics. Cambridge University Press, Cambridge, UK. Chapters 6, 7 and 9 have extended treatments of these topics, plus references. Briggs, D. & S. M. Walters. 1997. Plant Variation and Evolution, 3rd edn. Cambridge University Press, Cambridge, UK. Reviews evidence for adaptive genetic changes in plants. Falconer, D. S. & T. F. C. Mackay. 1996. Introduction to Quantitative Genetics, 4th edn. Longman, Harlow, UK. This textbook provides a very clear treatment of the topics in this chapter with a focus on animal breeding applications. Futuyma, D. J. 1998. Evolutionary Biology, 3rd edn. Sinauer, Sunderland, MA. A textbook with a broad readable coverage of evolution, adaptations and the genetic processes underlying them. Hartl, D. L. & A. G. Clarke. 1997. Principles of Population Genetics, 3rd edn. Sinauer, Sunderland, MA. A widely used textbook on population genetics. Hedrick, P. W. 2000. Genetics of Populations, 2nd edn. Jones & Bartlett, Boston, MA. This textbook has extensive, authoritative treatments of many of the topics in this chapter. Capítulo 4 Conseqüências genéticas do tamanho populacional pequeno As populações com que os conservacionista se preocupam são pequenas e/ou estão diminuindo de tamanho. Populações pequenas e isoladas sofrem endogamia acelerada e perda da diversidade genética, o que leva a um vigor reprodutivo reduzido (depressão endogâmica) e menor habilidade para evoluir em resposta à mudanças ambientais. Termos Gargalo populacional, tamanho populacional efetivo, potencial evolutivo, estatística F, fi xação, média harmônica, população idealizada, idênticos por descendência, endogamia, coefi ciente de endogamia, depressão endogâmica, metapopulação, distribuição de Poisson, deriva genética ao acaso, estocasticidade Falcão-de-Maurício: uma espécie que sobreviveu a um gargalo populacional que a reduziu a somente um par, mas que fi cou com “cicatrizes” genéticas. CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO52 Importância das populações pequenas na biologia da conservação Populações pequenas ou em declínio são mais propensas à extin- ção do que populações grandes e estáveis. Espécies nas quais os tamanhos populacionais de adultos são estáveis e menores do que 50, 250 ou 1000 indivíduos são, respectivamente, designadas como criticamente em perigo, em perigo e vulnerável (Capítulo 1). Somente ~100 indivíduos (adultos mais juvenis) da espécie cri- ticamente em perigo do marsupial Lasiorhinus krefftii sobrevivem na Austrália, enquanto que a população da planta Argyroxiphium sandwicense ssp. Sandwicense (Mauna Kea silversword) declinou para aproximadamente duas dezenas no Havaí. Algumas espécies alcan- çaram números tão baixos que elas existem, ou existiram, somente em cativeiro. Estas incluem o órix da Arábia (Oryx leucoryx), o fer- ret-de-pé-preto (Mustela nigripes), o bisão europeu (Bison bonasus), o veado-Pere-David (Elaphurus davidianus), o cavalo-de-Przewalski (E. caballus przewalskii), o órix-de-Cimitarra (Oryx dammah), o condor da Califórnia (Gymnogyps californianus), o frango-d’água-de-Guam (Gallirallus owstoni), a árvore de Franklin (Franklinia alatamaha), e o alface-de-arame-de-Malheur (Stephanomeria malheurensis). Algumas espécies sofreram reduções no tamanho populacional (gargalos populacionais), mas depois se recuperaram. O Falcão das Ilhas Maurício (Falco punctatus) declinou para um só par, mas agora se recuperou para 400-500 aves (Box 4.1). Os elefantes marinhos do norte (Mirounga angustirostris) foram reduzidos a 20-30 indivíduos, mas agora somam mais de 150000 indivíduos. Essas populações pagam um preço genético pelo seu gargalo; elas geralmente têm altos níveis de endoga- mia, baixo vigor reprodutivo, diversidade genética reduzida e habilida- de de evoluir comprometida (Box 4.1). Quadro 4.1 Gargalo populacional no Falcão das Ilhas Maurício (Falco punctatus) e suas conseqüências genéticas (após Groombridge et al. 2000) O declínio do Falcão das Ilhas Maurício iniciou-se com a destruição da fl oresta nativa e seu mergulho em direção à extinção resultou da diminuição da espessura da casca dos ovos e grande redução na eclodibilidade devido ao uso do inseticida DDT, iniciado nos anos 1940. Em 1974, sua população contava com somente quatro indivíduos, com a subseqüente população descendendo de somente um único par de reprodutores. Sob manejo intensivo a população cresceu para 400- 500 aves em 1997. Embora esta seja uma história de sucesso, a população recuperada do Falcão- de-Maurício carrega cicatrizes genéticas devido à sua quase extinção. Ele agora possui baixo nível de diversidade em locos de microssatélites, com 70% menos diversidade genética e 85% menos heterozigosidade do que a média encontrada em falcões não ameaçados (ver abaixo). Antes do seu declínio, o Falcão-de-Maurício possuía uma vigorosa diversidade genética, conforme verifi cado através da análise de peles de museus de 1829-1894, embora ela fosse mais baixa do que aquela observada para outras espécies de falcões não ameaçados. Espécies alvo de conservação têm, por defi nição, tamanho populacional pequeno ou em declínio Frango-d’água-de-Guam PERDA DA DIVERSIDADE GENÉTICA 53 Espécie A H e Em perigo Falcão-de-Maurício Recuperado 1,41 0,10 Peles de museu 3,10 0,23 Fora de perigo Falcão Europeu 5,50 0,68 O vigor reprodutivo do Falcão-de-Maurício tem sido negativamente afetado pela endogamia nos primeiros anos pós-gargalo populacional, com fertilidade e produtividade menor do que em outros falcões, e maior mortalidade de adultos em cativeiro. Perda da diversidade genética Muitas espécies em perigo têm sofrido gargalos populacionais (Tabela 4.1) ou longos períodos em tamanhos populacionais pequenos. Como conseqüência a diversidade genética é geralmente perdida, reduzindo o potencial evolutivo. Por exemplo, o elefante marinho do norte não possui nenhuma diversidade nas aloenzimas. Tais perdas são conseqü- ência da amostragem ao acaso com que a transmissão dos alelos ocorre de uma geração para a próxima. Tabela 4.1 | Gargalos populacionais em espécies em perigo (número de fundadores em cativeiro) Espécies Tamanho do Gargalo Populacional Mamíferos Órix da Arabia 10 Ferret-de-pés-pretos 7 Bisão Europeu 13 Rinoceronte Indiano 17 Veado-de-Père-David ~5 Cavalo-de-Przewalski 12 Leopardo-das-neves 7 Aves Condor da Califórnia 14 Frango-d’água-de-Guam 12 Falcão-de-Maurício 2 Ganso havaiano 17 Papagaio de Porto Rico 13 Grou americano 14 Invertebrados Grilo-do-campo Britânico 12 Fonte: Ver Frankham et al. (2002). A diversidade genética é perdida quando os tamanhos populacionais são reduzidos Órix da Arábia Grou americano CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO54 Efeitos do acaso e deriva genética Quando populações sexuais diplóides reproduzem, a geração seguinte é derivada de uma amostra dos gametas parentais. Em pequenas po- pulações alguns alelos, especialmente aqueles raros, podem não ser transmitidos devido apenas ao acaso. As freqüências dos alelos que são transmitidos para as gerações seguintes provavelmente irão diferir daquelas nos parentais (Fig. 4.1). Ao longo de várias gerações as fre- qüências dos alelos fl utuam de uma geração para outra, um processo chamado de deriva genética ao acaso. O efeito do acaso surge da amostragem aleatória dos gametas nas populações pequenas Deriva genética Pode parecer que os efeitos do acaso têm somente pequenos efeitos so- bre a composição genéticadas populações. Entretanto, a amostragem dos gametas ao acaso dentro de pequenas populações tem três conse- qüências de grande signifi cado em evolução e conservação: perda da diversidade genética e fi xação de alelos dentro das popula-• ções com conseqüente redução no potencial evolutivo diversifi cação entre populações replicadas da mesma fonte original • (por exemplo, populações fragmentadas) deriva genética sobrepujando a seleção natural• Estas características são exemplifi cadas nas populações do besouro-da- farinha na Fig. 4.2. Primeiro, populações individuais mostram deriva genética. Por exemplo, na população com N = 10 marcada com asteris- co, a freqüência do alelo inicia em 0,5, cai por três gerações, depois eleva-se e cai até a geração 20 quando seu valor é aproximadamente 0,65. Note que as fl utuações nas freqüências para as populações de Fig. 4.1 Deriva genética nas freqüências alélicas em uma população pequena de mico- leão-dourado. p, q e r são as freqüências dos alelos A 1 , A 2 e A 3 , respectivamente. O alelo A 3 é perdido devido ao acaso. Além disso, as freqüências de A 1 e A 2 mudam de uma geração à outra, com A 1 aumentando e A 2 diminuindo. A deriva genética causa impactos importantes sobre a evolução de populações pequenas Os efeitos do acaso são maiores em populações pequenas do que em populações grandes DERIVA GENÉTICA 55 tamanho N = 10 são muito maiores do que para populações com N = 100, ilustrando claramente que a deriva genética é maior em pequenas populações. Segundo, algumas populações perdem diversidade genética e al- cançam a fi xação (homozigosidade). Sete das 12 populações com N = 10 tornaram-se homozigotas após 20 gerações. Seis das sete populações fi xaram o alelo tipo selvagem e uma fi xou o alelo preto. Nenhuma das populações com N = 100 tornou-se fi xada para nenhum dos dois alelos após 20 gerações. Terceiro, existe diversifi cação ao acaso entre as réplicas das popu- lações, particularmente nas populações N = 10. Todas estas populações iniciam com freqüências de 0,5, contudo terminam com freqüências variando de 0 a 1. Novamente, a diversifi cação entre as réplicas das populações é muito menor para as populações N = 100. Finalmente, fi ca claro pelo padrão geral que a seleção natural fa- voreceu o alelo tipo selvagem (+) em detrimento do mutante preto (b). Entretanto, a deriva genética foi mais forte que a seleção e resultou na fi xação de b em uma população com N=10. Populações naturais fragmentadas irão experimentar estes efeitos em todos os seus locos genéticos, com fragmentos pequenos sofrendo deriva genética mais intensa do que fragmentos maiores. O impacto sobre as freqüências dos alelos da redução do tamanho populacional para um único par de parentais é mostrado na Fig. 4.3 para uma população experimental de mosca-de-fruta. Note a perda de Fig. 4.2 Deriva genética ao acaso dos alelos do tipo selvagem (+) e preto (b) em um loco para cor do corpo no besouro-da-farinha (Tribolium castaneum). Dois tamanhos populacionais foram usados, N=10 e N=100, com 12 réplicas cada. Todas as populações iniciaram com freqüências de 0,5 para os dois alelos e foram mantidas pela amostragem ao acaso de 10 ou 100 indivíduos para serem os parentais de cada geração posterior (após Rich et al. 1979). Houve grande variação na freqüência dos alelos nas populações pequenas (N = 10) devido à deriva genética ao acaso, tanto entre réplicas como de geração para geração em réplicas individuais. De modo oposto, as freqüências dos alelos na população grande mostrou maior consistência. Gargalos populacionais resultam na perda de alelos (especialmente de alelos raros), diversidade genética diminuída e mudanças aleatórias na freqüência dos alelos TRADUZIR CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO56 alelos, particularmente dos alelos raros, e que as freqüências dos ale- los mudaram daquelas na população parental. Réplicas de populações sofrendo gargalo variaram em relação aos alelos que elas perderam e nas freqüências dos alelos que elas retiveram. Na média, a heterozigo- sidade caiu de 0,61 na população base para 0,44 nas populações que sofreram gargalo, e o número de alelos caiu de 12 para 3,75. Note que o efeito cumulativo da manutenção das populações em um tamanho po- pulacional igual a 100 por 57 gerações resultou em uma perda similar de diversidade genética, um assunto que discutiremos abaixo. Perda de heterozigosidade após gargalos populacionais A proporção da heterozigosidade inicial mantida após uma geração em gargalo é 1 0 1 = 1 – 2 H H N (4.1) onde H 1 é a heterozigosidade imediatamente após o gargalo, e H 0 é a heterozigosidade existente antes. Uma proporção de 1/(2N) da hetero- zigosidade original é perdida. Assim, gargalos que duram uma geração devem ser severos antes que tenham um impacto substancial sobre a heterozigosidade. Um gargalo que reduz a população a um tamanho igual a 2 ainda conserva 75% da heterozigosidade inicial. No experi- mento descrito na Fig. 4.3 a heterozigosidade caiu de 0,61 para 0,44 após o gargalo, conforme aqui previsto. Um gargalo populacional de N = 25 reduz a heterozigosidade em 2%, enquanto um gargalo de 100 a reduz em somente 0,5%. A perda da diversidade genética acontece predominantemente por reduções Fig. 4.3 Efeito de gargalos populacionais sobre populações experimentais de moscas- de-fruta. A distribuição das freqüências alélicas em um loco de microssatélite na grande população exogâmica base, em quatro réplicas populacionais sujeitas a um gargalo de um par de moscas, e em quatro populações mantidas em um tamanho de 100 por 57 gerações (England 1997). Alelos são perdidos, especialmente os raros, e as freqüências dos alelos são distorcidas nas populações submetidas ao gargalo. TRADUZIR EFEITOS DAS RESTRIÇÕES PROLONGADAS DOS TAMANHOS POPULACIONAIS SOBRE A DIVERSIDADE GENÉTICA 57 prolongadas no tamanho populacional, ao invés de por gargalos que duram apenas uma única geração. No Falcão-de-Maurício a heterozi- gosidade declinou 57%, caindo de 0,23 para 0,10, em conseqüência de um gargalo populacional que resultou na permanência de um único casal (Box 4.1). Mesmo essa perda sendo maior do que a esperada, mais diversidade genética pode ter sido perdida durante as seis gerações que a população passou com tamanho menor que 50 indivíduos. Mui- tas populações selvagens ameaçadas mostram evidências de perda da diversidade genética devido a gargalos no tamanho populacional de durações variadas (Tabela 2.7). Efeitos das restrições prolongadas dos tamanhos populacionais sobre a diversidade genética O impacto do tamanho populacional reduzido ocorre em cada geração e as perdas acumulam-se com o tempo. Se o tamanho populacional é constante em cada geração, a equação 4.1 pode ser ampliada para obter-se uma expressão para os efeitos das restrições prolongadas do tamanho populacional sobre a heterozigosidade, como segue: 0 1 = 1 – 2 t t H H N (4.2) Fig. 4.4 Declínio previsto na heterozigosidade ao longo do tempo em populações de diferentes tamanhos. onde t é o número de gerações. Os declínios exponenciais previstos na heterozigosidade com o tempo (medido em gerações) em diferentes tamanhos populacionais são mostrados na Fig. 4.4. Espera-se que to- das as populações percam diversidade genética, mas a taxa de perda é maior em populações pequenas do que em populações grandes. O exemplo 4.1 demonstra que as populações de tamanho 500 per- derão somente cerca de 5% de sua heterozigosidade inicial ao longo de50 gerações, enquanto que populações com N = 25 perderão 64% de sua heterozigosidade inicial. Além disso, quanto menor o interva- lo entre gerações mais rápido será, em tempo absoluto, essa perda. A perda da heterozigosidade é um processo de diminuição contínua que é mais rápido nas populações pequenas do que nas grandes populações TRADUZIR CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO58 Conseqüentemente, populações de tamanhos similares de ferrets-de- pés-pretos, que apresentam intervalo entre gerações de dois anos, per- derão diversidade genética mais rapidamente do que elefantes, com intervalo entre gerações de 26 anos. Exemplo 4.1 Perda esperada de heterozigosidade devido a manutenção na redução do tamanho populacional Da equação 4.2, a proporção esperada da heterozigosidade mantida atra- vés de 50 gerações em uma população de tamanho 500 é: ( ) = = = × 0 1 1 999 = 1 – 1 – 0,951 2 2 500 1000 t 50t 50 H H N Para uma população com N=25, espera-se que a proporção da heterozi- gosidade inicial mantida na geração 50 seja ( ) = = = × 0 1 1 49 = 1 – 1 – 0,364 2 2 25 50 t 50t 50 H H N Endogamia Até agora consideramos os efeitos do pequeno tamanho populacional sobre a perda da diversidade genética e a conseqüente perda do poten- cial evolutivo. O tamanho populacional reduzido também tem efeitos agudos resultantes da endogamia. Em populações fechadas pequenas, o acasalamento entre indivídu- os aparentados (endogamia) é inevitável. Com o tempo, todos os indiví- duos tornam-se relacionados de tal maneira que acasalamentos entre indivíduos não relacionados são impossíveis. Isso não é o resultado de uma escolha ativa de acasalamentos entre indivíduos relacionados, mas simplesmente uma conseqüência do pequeno número de funda- dores e do pequeno tamanho populacional. A endogamia também se torna inevitável em grandes populações, mas isso leva mais tempo. A endogamia é de profunda importância na biologia da conserva- ção, uma vez que ela leva a reduções na heterozigosidade, à redução da reprodução e sobrevivência (vigor reprodutivo), e aumento do ris- co de extinção (Capítulo 5). A perda do vigor reprodutivo como uma conseqüência da endogamia é referida como depressão endogâmica. Por exemplo, em um estudo com 44 populações de mamíferos em ca- tiveiro, indivíduos endogâmicos apresentaram mortalidade de juve- nis mais alta do que indivíduos exogâmicos em 41 casos. Em média, acasalamentos entre irmãos resultaram em uma redução de 33% na sobrevivência juvenil. Existem evidências esmagadoras de que a endogamia também afe- ta negativamente as populações selvagens. Por exemplo, em uma meta análise de 157 conjuntos de dados de 34 taxa, indivíduos endogâmicos tiveram atributos piores quando comparados com indivíduos exogâmi- cos em 141 casos (90%), em dois casos foram iguais, e somente em 14 fo- ram em direção oposta. A endogamia é deletéria para uma diversidade A endogamia é inevitável nas populações pequenas e leva à redução na reprodução e sobrevivência ENDOGAMIA 59 de animais e plantas, incluindo o mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia), o tetraz-das-pradarias (Tympanuchus cupido), a gralha-azul me- xicana (Aphelocoma ultramarina), o passeriforme Melospiza melodia, o falcão-americano-quiriquiri (Falco sparverius), o rouxinol (Acrocephalus sp.), o salmão do Atlântico (Salmo salar), os pequenos peixes do deserto do gênero Poeciliopsis, a truta-arco-íris (Oncorhynchus mykiss), e muitas espécies de plantas. Medindo a endogamia: coefi ciente de endogamia (F) A conseqüência primária do acasalamento entre parentes é que seus descendentes possuem uma maior probabilidade de herdar alelos que são cópias recentes da mesma seqüência de DNA (idênticos por descendência). Por exemplo, na Fig. 4.5 os descendentes A 1 A 1 ou A 2 A 2 resultantes de autofertilização herdaram dois alelos que são cópias idênticas dos alelos A 1 ou A 2 de seu pai. As duas cópias idênticas de um alelo não precisam vir de um indivíduo da geração anterior, mas po- dem vir de um ancestral de uma geração mais remota. Na Fig. 4.5 um descendente resultante de um cruzamento entre irmãos pode herdar duas cópias do alelo A1, A2, A3, ou A4 de seus avós. Dizemos que os avós são ancestrais comuns, uma vez que eles são ancestrais tanto da mãe como do pai do indivíduo. O coefi ciente de endogamia de um indivíduo (F) é a probabilidade de que ele carregue alelos em um loco que sejam idênticos por descendência Fig. 4.5 Coefi cientes de endogamia para indivíduos resultantes de autofertilização e cruzamento entre irmãos TRADUZIR CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO60 A probabilidade de que os alelos que se unem em um loco em um indivíduo são idênticos por descendência é chamado de coefi ciente de endogamia (F). Como F é uma probabilidade, esta varia de 0 em indiví- duos exogâmicos até 1 em indivíduos completamente endogâmicos. Para calcular o coefi ciente de endogamia cada ancestral não endo- gâmico é marcado como tendo alelos únicos (A 1 A 2 , A 3 A 4 , etc) (Fig. 4.5). A probabilidade de que um indivíduo herda dois alelos idênticos por descendência (A 1 A 1 , A 2 A 2 , etc) é computado das vias de herança, assu- mindo segregação Mendeliana normal. Por exemplo, com autofertilização o coefi ciente de endogamia é a probabilidade de que o descendente X herde dois alelos A 1 , ou dois alelos A 2 . O indivíduo X tem uma chance igual a ½ de herdar o alelo A 1 do óvulo e uma chance igual a ½ de herdar este alelo através do pólen. Conseqüentemente, a probabilidade de que X herde dois alelos A1 idênticos é ½ x ½ = ¼. A probabilidade de que X herde dois alelos A2 também é ½ x ½ = ¼. O coefi ciente de endogamia é então a proba- bilidade de herdar tanto A 1 A 1 ou A 2 A 2 = ¼ + ¼ = 0,5. Da mesma forma, um descendente de um cruzamento entre irmãos (irmãos completos) tem F = 0,25. Conseqüências genéticas da endogamia A endogamia também pode se referir a um sistema de acasalamento onde indivíduos relacionados cruzam a uma taxa maior do que a es- perada por cruzamento aleatório, tal como ocorre na autofertilização, no cruzamento entre irmãos, etc. Quando isso acontece, a freqüência de heterozigotos é reduzida, e a dos homozigotos é aumentada, em relação às expectativas de Hardy-Weinberg. Podemos ver como isso acontece na forma mais extrema de endogamia, a autofertilização, se- guindo as freqüências genotípicas esperadas sob herança Mendeliana (Fig. 4.6). Se um indivíduo A 1 A 2 se autofertilizar, a heterozigosidade diminui pela metade em sua progênie, e continua a ser reduzida pela metade em cada geração subseqüente. A endogamia aumenta os níveis de homozigose e expõe alelos recessivos deletérios Fig. 4.6 Efeito da autofertilização sobre as freqüências genotípicas. A freqüência de heterozigotos é reduzida pela metade com cada geração de autofertilização Conseqüentemente, a defi ciência de heterozigotos em populações, comparado ao esperado no equilíbrio de Hardy-Weinberg, indica cru- zamento não ao acaso. TRADUZIR ENDOGAMIA 61 Esta redução na heterozigosidade devido à endogamia está direta- mente relacionada ao coefi ciente de endogamia F. A Tabela 4.2 mostra os efeitos da endogamia, baseados em F, sobre as freqüências genotí- picas. Quando não existe endogamia (F = 0), as freqüências genotípicas estão em equilíbrio de Hardy-Weinberg. Quando F = 0,5, a proporção de heterozigotos na população é reduzidaem 50%. A endogamia não altera diretamente as freqüências dos alelos. Ela altera as freqüências genotípicas. A endogamia está freqüentemente associada com pequenas populações e mudanças nas freqüências dos alelos em tais populações devido à deriva genética, como discutido anteriormente. Uma conseqüência prática principal da endogamia é que os homo- zigotos para os alelos recessivos deletérios tornam-se mais freqüentes do que em populações que se reproduzem ao acaso. Esta é a causa primária da depressão endogâmica. Uma vez que populações natu- ralmente exogâmicas contêm alelos deletérios (na maioria das vezes parcialmente recessivos) em freqüências baixas no balanço seleção- mutação, a endogamia aumenta os riscos de expor esses alelos como homozigotos, como ilustrado para a condrodistrofi a no condor da Ca- lifórnia, na Tabela 4.3. A freqüência dos homozigotos dw/dw é mais do que o dobro em uma população com coefi ciente de endogamia de 25%. Este efeito ocorre em todos os locos com alelos deletérios e pode ter um efeito cumulativo muito grande sobre o valor adaptativo e a saúde dos indivíduos. Tabela 4.2 | Freqüências genotípicas sob acasalamento ao acaso comparado com aqueles em populações com coefi cientes de endogamia F. Genótipos População F +/+ +/m m/m Cruzamento ao acaso 0 p2 2pq q2 Parcialmente endogâmica F p2 + Fpq 2pq (1 – F) q2 + Fpq Tabela 4.3 | Freqüências genotípicas esperadas sob endogamia no loco da condrodistrofi a em condores da Califórnia. O alelo letal recessivo tem uma freqüência de aproximadamente 0,17. As freqüências genotípicas esperadas são mostradas para o cruzamento ao acaso e para o cruzamento entre irmãos (F = 0,25), determinadas usando a fórmula na Tabela 4.2. Os fi lhotes homozigotos dw/dw morrem. Genótipos População +/+ +/m m/m Cruzamento ao acaso 0,6889 0,2822 0,0289 Parcialmente endogâmica: F = 0,25 0,7242 0,2116 0,0642 Valores de F podem ser diretamente calculados comparando-se as heterozigosidades observada (H o ) e esperada (H e ) em uma população. Como H o = (1- F) 2pq e H e = 2pq (Tabela 4.2), então: A endogamia reduz a freqüência de heterozigotos em proporção à F, e expões alelos deletérios raros Endogamia e heterozigosidade são inversamente relacionadas CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO62 –= e 1 0 H F H (4.3) Esta relação também pode ser usada para medir o efeito acumulado da endogamia ao longo do tempo se a heterozigosidade na geração t (H t ) é comparada a heterozigosidade inicial (H 0 ): –= 0 1 t H F H (4.4) Pedigrees Quando disponíveis, os pedigrees podem ser usados para se determinar o coefi ciente de endogamia de um indivíduo. Isto nos permite avaliar os efeitos da endogamia sobre as taxas de sobrevivência ou reprodução, etc. usando dados de indivíduos com diferentes níveis de endogamia. O cálculo de F através de princípios básicos torna-se impraticável quan- do lidamos com pedigrees complexos. Conseqüentemente, métodos alternativos mais simples têm sido desenvolvidos para estas situações. O coefi ciente de endogamia pode ser obtido pela contagem de in- divíduos na trajetória que vai desde um dos pais e passa através do ancestral comum até o outro pai (incluindo ambos os pais), e usando esse número de indivíduos na trajetória como potência para o valor ½. O ½ refl ete a probabilidade de que um alelo seja transmitido de uma geração para a próxima, e a potência refl ete o número de passos entre pais-descendentes no pedigree. Por exemplo, na Fig 4.7 existem três indivíduos conectando os pais do individuo X através de seu ancestral comum A, i.e. através de D, A e E. O coefi ciente de endogamia de X é (½)3, se A não for ele mesmo endogâmico. Em pedigrees mais complexos, os pais de um individuo podem ser relacionados através de mais do que um ancestral comum, ou do mesmo ancestral através de diferentes vias. Cada ancestral comum, e cada via, contribui com uma probabilidade adicional da progênie ter identidade por descendência. O coefi ciente de endogamia é a soma de todas as probabilidades, como segue: ( ) = + ∑ n ca 1 1 2 F F (4.5) onde n é o número de indivíduos na via desde um dos pais até o ances- tral comum e de volta para o outro pai, e F ca é o coefi ciente de endoga- mia daquele ancestral comum em particular. Essas contribuições para a endogamia são somadas para cada via diferente ligando ambos os pais para cada ancestral comum. Aplicamos este método para o pedigree simples da Fig 4.8. Contan- do os indivíduos de um dos pais até o outro passando pelo ancestral comum (A) são F, D, B, A, C, E e G, fazendo n = 7 passos. Assim F X na Fig. 4.8 é (½)7 (1 + F A ), sendo 1/ 128 se o individuo A não for endogâmico. Para pedigrees complexos, os coefi cientes de endogamia são geral- mente calculados usando programas computacionais. Existem métodos simples para determinar a endogamia a partir de pedigrees Fig. 4.7 Pedigree com acasalamento entre meio-irmãos Fig. 4.8 Pedigree com um ancestral comum mais distante. As linhas pontilhadas representam vias para outros ancestrais que não estão no caminho para o ancestral comum A. ENDOGAMIA 63 Endogamia em populações pequenas com cruzamento ao acaso Enquanto que uma minoria de plantas rotineiramente se autofertiliza, os animais normalmente não o fazem. Apesar das muitas oportunida- des para indivíduos aparentados se acasalarem devido à proximidade física dos irmãos, fi lhos e pais, acasalamentos endogâmicos geralmen- te são mais raros do que se espera pela proximidade. Muitas espécies desenvolveram mecanismos para evitar a endogamia. De fato, dois dos locos genéticos mais variáveis conhecidos, os locos de auto-incompati- bilidade (self-incompatibility – IS) em plantas e os locos do complexo de histocompatibilidade principal (major histocompatibility – MHC) em vertebrados, estão associados com o mecanismo para evitar a endogamia. Em populações grandes onde o acasalamento é ao acaso, a endo- gamia é próxima a zero uma vez que existe muito pouca chance de acasalamento com um parente. Entretanto, em populações pequenas e fechadas, cada indivíduo eventualmente torna-se relacionado por descendência e a endogamia é inevitável. Combinando os conceitos das Equações 4.2 e 4.4 podemos derivar uma expressão para a endoga- mia em uma população fechada com acasalamentos aleatórios após t gerações, a saber: – – = = tt t H F H N0 1 1 1 2 (4.6) Assim, a endogamia acumula com as gerações em todas as populações fi nitas e fechadas, a uma taxa dependente de seu tamanho (Fig. 4.9). O exemplo 4.2 ilustra o rápido acúmulo da endogamia em uma po- pulação pequena fechada com somente quatro indivíduos por geração. A população atinge um coefi ciente de endogamia médio de 74% na ge- ração 10. Este valor é, aproximadamente, equivalente ao nível de endo- gamia causado por duas gerações de autofertilização ou seis gerações de acasalamento entre irmãos verdadeiros – mas, neste exemplo, isso Em espécies naturalmente exogâmicas, a endogamia surge predominantemente do tamanho populacional pequeno A endogamia é acumulada ao longo do tempo, e é mais rápida em populações pequenas do que em grandes Fig. 4.9 Aumento no coefi ciente de endogamia F em função do tempo em populações fi nitas de diferentes tamanhos (N). A endogamia aumenta mais rapidamente em populações pequenas do que em grandes. TRADUZIR CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO64 foi alcançado em uma população com acasalamento ao acaso. Uma vezque populações em cativeiro de espécies em perigo dentro de zôos individuais são freqüentemente desse tamanho, os indivíduos têm que ser movidos entre instituições se quisermos minimizar essa endoga- mia acelerada (Capítulo 8). Exemplo 4.2 Acumulação de endogamia em pequenas populações fechadas de cativeiro Muitas populações de cativeiro de espécies ameaçadas em zôos individu- ais são pequenas e acumulariam endogamia rapidamente se elas fossem mantidas fechadas, i.e. sem troca de indivíduos entre zôos. Se um zôo inicia um programa de reprodução com quatro indivíduos não relacio- nados e mantêm a população reprodutiva em quatro pais por geração ao longo de várias gerações, o coefi ciente de endogamia aumentaria como segue: Geração 0 F = 0 Geração 1 – – – – = = = 1 F N 1 1 1 1 1 1 0,125 2 8 Geração 2 – – – – = = = 2 2 F N 1 1 1 1 1 1 0,23 2 8 Geração 3 – – – – = = = 3 3 F N 1 1 1 1 1 1 0,33 2 8 Geração 10 – – – – = = = 10 10 F N 1 1 1 1 1 1 0,74 2 8 Assim, o coefi ciente de endogamia aumenta rapidamente e alcança 74% na 10ª geração. Medindo o tamanho populacional Até agora temos discutido os impactos do tamanho sobre os processos genéticos dentro das populações, no sentido de que este esteja rela- cionado ao tamanho absoluto, ou de censo. Esse raramente é o caso. Muitas populações de pequenos mamíferos e insetos fl utuam ampla- mente em tamanho, e é o tamanho mínimo que mais profundamente afeta os processos genéticos (ver adiante). Similarmente, a maioria das populações contém indivíduos juvenis e pós-reprodutivos. Entre os re- produtivos, pode existir considerável variação nas suas contribuições para as gerações subseqüentes. Além disso, as espécies variam em seus sistemas de acasalamento (por exemplo, monogamia, haréns), e apre- sentam desde acasalamento aproximadamente ao acaso até autoferti- lização e reprodução assexual. O mesmo número de indivíduos pode resultar em impactos gené- ticos muito diferentes em distintas espécies, dependendo da estrutu- ra populacional e do sistema de acasalamento. Conseqüentemente, temos que defi nir precisamente o que queremos dizer com tamanho populacional em genética da conservação. Faremos isso comparando populações reais com uma população idealizada hipotética. MEDINDO O TAMANHO POPULACIONAL 65 A população idealizada Iniciamos assumindo uma população grande (essencialmente infi ni- ta) com acasalamentos ao acaso, da qual tomamos uma amostra de indivíduos adultos de tamanho N para formar a população ideal (Fig. 4.10). Essa população é mantida como uma população fechada onde o acasalamento ocorre ao acaso em sucessivas gerações. Alelos podem ser perdidos pelo acaso, e a freqüência dos alelos pode fl utuar devido à deriva genética. As condições simplifi cadas aplicadas à população ideal são: O número de indivíduos se reproduzindo é constante em todas as • gerações As gerações são distintas e não se sobrepõem• Não existe migração ou fl uxo gênico• Todos os indivíduos são reprodutores em potencial• Todos os indivíduos são hermafroditas• A união dos gametas é ao acaso, incluindo a possibilidade de • autofertilização Não existe seleção em nenhum estágio do ciclo de vida• A mutação é ignorada• O número médio de descentes por adulto é 1, com variância de 1• A população ideal, à qual todas as outras são comparadas, é uma população de hermafroditas fechada, onde os acasalamentos ocorrem ao acaso, com gerações discretas, tamanho constante, e variação no tamanho das famílias de acordo com a distribuição de Poisson Fig. 4.10 População idealizada. De uma população base bastante grande uma amostragem hipotética de N adultos é tomada e esta população é mantida como uma população fechada com acasalamentos aleatórios, com número constante de pais em cada geração. Dentro da população, os indivíduos reproduzindo contribuem igual- mente com gametas para o pool do qual os zigotos são formados. A sobrevivência dos gametas é ao acaso, de forma que as contribuições dos adultos para a próxima geração não são iguais. O número médio dos descendentes por adulto é 1, mas pode variar de 0, 1, 2, 3, 4, etc. para diferentes indivíduos, de acordo com os termos da distribuição de Poisson. As características da população idealizada são bem defi nidas por causa desses pressupostos, para os quais muita teoria tem sido deriva- da. Conseqüentemente, equalizando as populações reais à população idealizada, essa teoria pode ser utilizada para fazer previsões práticas. Geração Gametas 1 0 Indivíduos em Reprodução Indivíduos em Reprodução Gametas 2 POPULACÃO BASE (N = ∞) 2N N 2N N CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO66 Tamanho populacional efetivo (N e ) Podemos padronizar a defi nição de tamanho populacional descreven- do-o em termos de seu tamanho populacional efetivo (N e ). O tamanho efetivo de uma população é o tamanho de uma população idealiza- da que perderia diversidade genética (ou se tornaria endogâmica) na mesma taxa da população atual. Por exemplo, se uma população real perde diversidade genética na mesma taxa que uma população ideal de 100 indivíduos, então dizemos que esta tem um tamanho efetivo de 100 indivíduos, mesmo que ela tenha um tamanho de censo de 1000 indivíduos. Assim, o N e de uma população é uma medida de seu com- portamento genético, relativo aquele de uma população ideal. Todas as conseqüências genéticas adversas do tamanho populacio- nal pequeno dependem do tamanho efetivo populacional, ao invés do número absoluto de indivíduos. Conseqüentemente, N e deve ser usado no lugar de N nas equações 4.1, 4.2 e 4.6. Como veremos, na prática, o tamanho efetivo de uma população é geralmente signifi cantemente menor do que o número de adultos. Se uma população real tem todas as propriedades de uma popula- ção ideal então N e = N. Entretanto, quaisquer características de uma população real que desvie daquela de uma população ideal fará com que o tamanho do censo seja diferente de N e . Populações reais desviam em estrutura dos pressupostos da população idealizada apresentando proporção sexual desigual, alta variação nos tamanhos das famílias, números variáveis em gerações sucessivas, e tendo sobreposição en- tre gerações. Em geral estes fatores desviam de tal forma que N e < N. Tem-se observado que os efeitos combinados desses fatores reduzem o tamanho efetivo para, em média, 11% do tamanho de censo em popu- lações não manejadas. Por exemplo, a migração durante o inverno do salmão-chinook (Oncorhynchus tshawytscha) no rio Sacramento, na Cali- fórnia, tem aproximadamente 2000 adultos, mas seu tamanho efetivo foi estimado em somente 85 indivíduos (N e /N = 0,04), muito menor do que previamente reconhecido. A preocupação com aspectos genéticos são muito mais imediatas com um tamanho efetivo de 85 indivíduos do que com 2000. A implicação é que espécies em perigo com 250 adultos podem ter tamanhos efetivos de apenas 25 indivíduos por longo tempo, e per- derem metade de sua heterozigosidade atual em 34 gerações. Neste período a população terá se tornado endogâmica ao ponto em que a depressão endogâmica aumenta o risco de extinção (Capitulo 5). Medindo tamanho efetivo populacional Uma vez que N e « N precisamos estimar os impactos sobre o tamanho efetivo da população da proporção desigual dos sexos, da variação no tamanho da família, e das fl utuações no tamanho populacional ao lon- go das gerações. Desviosna proporção sexual têm efeitos mínimos, e fl utuações no tamanho populacional têm os maiores efeitos. Nenhuma diferença clara ou consistente têm sido encontrada entre os principais grupos taxonômicos. Os processos genéticos em populações pequenas dependem do tamanho populacional efetivo, e não do número de indivíduos As estimativas do tamanho populacional efetivo que abrangem todos os fatores relevantes resultam em cerca de apenas 11% do tamanho de censo O tamanho populacional efetivo pode ser estimado a partir de dados demográfi cos sobre a proporção dos sexos, variância no tamanho das famílias e fl utuações no tamanho populacional ao longo das gerações, ou a partir de dados genéticos. MEDINDO O TAMANHO POPULACIONAL 67 Proporção sexual desigual Em muitas populações selvagens o número de fêmeas e machos repro- duzindo não são iguais. Muitos mamíferos têm haréns onde um ma- cho acasala com muitas fêmeas, com muitos machos tendo pouca ou nenhuma contribuição genética para a próxima geração. Isso ocorre de uma forma extrema nos elefantes marinhos, onde um único macho pode manter 100 ou mais fêmeas em seu harém. Em algumas poucas espécies, a situação é contrária. A equação que leva em consideração os efeitos da proporção desigual dos sexos é: ( )e 4 ∼ N N N N + N ef em ef em (4.7) onde N ef é o número efetivo de fêmeas reproduzindo e N em o número efetivo de machos reproduzindo. Este é o tamanho populacional efeti- vo em uma geração devido somente à proporção sexual, assumindo-se que todas as outras características estão de acordo com uma população idealizada. À medida que as proporções sexuais desviam de 1:1, a proporção N e /N diminui. Por exemplo, um harém de elefante marinho com um macho e 100 fêmeas tem um tamanho efetivo de apenas 4 indivíduos (Exemplo 4.3). Exemplo 4.3 Redução no tamanho efetivo devido a proporção desigual dos sexos em elefantes-marinhos Se um harém tem um macho e 100 fêmeas, o tamanho efetivo é ( )e × × = = + ∼ N N N N + N ef em ef em 4 4 100 1 3,96 100 1 Assim o tamanho efetivo do harém é 3,96, aproximadamente 4% do ta- manho real de 101 indivíduos. Variação no tamanho familiar Os tamanhos das famílias (produção de descendentes por indivíduo durante a vida) nas populações selvagens geralmente mostram maior variação do que o esperado para a população idealizada. Em uma po- pulação estável de uma espécie monogâmica de reprodução aleatória, o tamanho médio da família (k) é de 2 indivíduos (uma média de 1 macho e uma fêmea para substituir ambos os pais) e a variância (V k ) é 2. Note que a variância iguala-se a média para uma distribuição de A proporção sexual desigual reduz o tamanho efetivo da população em direção ao número do sexo com menos indivíduos reproduzindo Quando a variação no tamanho da família excede aquela da distribuição de Poisson, a taxa N e /N declina CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO68 Poisson. A maior parte das espécies na natureza têm taxas V k /k bem maiores do que o valor de 1 assumido para a população idealizada. A alta variação nos tamanhos das famílias na natureza é devido parti- cularmente a indivíduos que não contribuem com descendentes para a próxima geração. Efeitos similares mas menos extremos surgem de famílias muito grandes e muito pequenas. O efeito da variação nos tamanhos das famílias em uma população tendo a estrutura de uma população idealizada é ( )e ∼ N N V +k 4 2 (4.8) Este é o tamanho populacional efetivo em uma geração devido somen- te ao tamanho da família. Esta equação indica que quanto maior a variância no tamanho da família, menor é o tamanho populacional efetivo. Por exemplo, no Tentilhão-dos-cactos (Geospiza scandens) a alta variância no tamanho da família (6,74), comparada ao esperado pela distribuição de Poisson (2 indivíduos), reduz o tamanho populacional efetivo para menos da metade do número de pares reprodutores (Exemplo 4.4). Se os animais reproduzindo são manejados de tal forma que todos produzam o mesmo número de descendentes (i.e. os tamanhos das fa- mílias são igualados), V k = 0. Em uma população estável de uma espécie monogâmica isto corresponde a cada família contribuindo com 1 ma- cho e 1 fêmea que serão os pais da próxima geração. Substituindo V k = 0 na equação 4.8 obtemos N e ~ 2N. Assim, o tamanho efetivo de uma população pode ser aproximadamente o dobro do número dos pais. Quando todas as famílias contribuem com alelos igualmente para a próxima geração, existe o mínimo de distorção nas freqüências dos alelos e a proporção da diversidade genética passada é maximizada. Além disso, existe uma escolha melhor dos acasalamentos e a endoga- mia é minimizada. Esta observação é de crucial importância para o manejo das popu- lações de cativeiro. A equalização do tamanho das famílias permite, potencialmente, que o limitado espaço existente em cativeiro para a reprodução de espécies em perigo seja dobrado (Capítulo 8). Exemplo 4.4 Redução no tamanho populacional efetivo dos Tentilhões- dos-cactos devido à alta variância no tamanho das famílias. A variância no tamanho da família no Tentilhão-dos-cactos é de 6,74, comparada com o valor de 2 assumido para uma população idealizada. A equação 4.8 pode ser rearranjada para dar ( ) e ∼ N N V +k 4 2 Se inserimos o valor observado dentro dessa equação, obtemos ( ) e =∼ N N + 4 0,46 6,74 2 A equalização do tamanho das famílias leva à uma duplicação aproximada do tamanho populacional efetivo, comparado ao tamanho de fato da população MEDINDO O TAMANHO POPULACIONAL 69 Flutuação no tamanho populacional As maiores reduções nas taxas de Ne/N surgem das fl utuações no tama- nho populacional ao longo das gerações. O tamanho das populações selvagens varia em número em conseqüência da variação na dispo- nibilidade de alimento, condições climáticas, epidemias, catástrofes, predação, etc. Por exemplo, populações de lince e lebre-americana fl u- tuam em tamanho, a lebre mostrando uma diferença de tamanho de aproximadamente 30 vezes entre os anos de alta e baixa, e o lince uma diferença de aproximadamente 80 vezes. Além disso, declínios popula- cionais de 70-90% devido a secas, doenças, etc. não são incomuns para grandes mamíferos. O tamanho efetivo de uma populacional que fl utua não é a média aritmética, mas a média harmônica dos tamanhos populacionais efe- tivos ao longo de t gerações: ( )e ei∑∼N N t 1 (4.9) onde N ei é o tamanho efetivo na geração i, e N e é o tamanho populacio- nal efetivo geral a longo prazo. O tamanho efetivo em longo prazo é próximo do menor tamanho de N e observado em uma geração. Por exemplo, o elefante marinho do norte foi reduzido a 20-30 indivíduos, mas recuperou-se para mais de 150000. Seu tamanho populacional efetivo durante este tempo é de aproximadamente 60 indivíduos (Exemplo 4.5). Este valor é bem mais próximo do tamanho populacional mínimo do que da média aritmé- tica ou do máximo. Esta relação é melhor explicada se notarmos que um alelo perdido em uma geração de pequeno tamanho populacional não é ganho novamente quando a população se recupera. Da mesma forma, a endogamia causada pelo pequeno tamanho populacional não é reduzida quando a população aumenta em tamanho. Exemplo 4.5 Redução no N e devido a fl utuações no tamanho populacional O elefante marinho do norte foi reduzido pela caça a 20-30 indivíduos. Desde então eles se recuperaram para mais de 150.000 indivíduos. Para simplifi car, assumimosque o tamanho populacional efetivo declinou de 150.000 para 20 e recuperou-se para 150.000 indivíduos em um período de 3 gerações. O tamanho efetivo da população é ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( )e e e e= = =+ + + +N N N N1 2 3 t t 60 1 1 1 1 150000 1 20 1 150000 O tamanho populacional efetivo de 60 é muito mais próximo do tama- nho mínimo do que da média do tamanho (100.006). O tamanho populacional efetivo também pode ser estimado usan- do-se equações, como a equação 4.2, relacionando mudanças na diver- sidade genética com o N e . Flutuações no tamanho populacional, ao longo das gerações, reduz o Ne abaixo do número médio de adultos Lince CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO70 Fragmentação populacional Muitas populações ao redor do mundo tornaram-se fragmentadas, fre- qüentemente como resultado das atividades humanas. Os impactos da fragmentação das populações sobre a diversidade genética, diferencia- ção, endogamia e risco de extinção dependem do nível de fl uxo gênico entre os fragmentos. Este, por sua vez, depende do: Número de fragmentos populacionais• Distribuição dos tamanhos populacionais nos fragmentos• Distribuição geográfi ca das populações• Distância entre os fragmentos• Habilidade de dispersão das espécies• Ambiente da matriz entre os fragmentos e seu impacto sobre a • dispersão Tempo desde a fragmentação• Taxas de extinção e recolonização nos fragmentos.• Todas as questões de perda da diversidade genética e depressão endo- gâmica, relacionadas à redução do tamanho populacional, tornam-se importantes quando as populações são fragmentadas. Em populações fragmentadas com fl uxo gênico diminuído, esses efeitos adversos são geralmente mais severos do que em uma população não fragmentada de mesmo tamanho total. Os efeitos da fragmentação populacional são ilustrados na Fig. 4.11, onde quatro fragmentos pequenos e isolados (SS) são compa- rados a uma grande população única (SL) de mesmo tamanho total inicial. A população grande (1) possui quatro alelos, A 1 , A 2 , A 3 e A 4 . Em um período de tempo pequeno, as quatro populações SS (2) tornam- se rapidamente homozigotas e perdem valor adaptativo através da depressão endogâmica. A perda de diversidade genética é mais lenta na população grande e única (3) – ela perde somente o alelo A 4 . En- tretanto, a fi xação na população SS ocorre ao acaso, de tal forma que todos os quatro alelos são mantidos, enquanto que a população SL perdeu o alelo A 4 . Assim, desde que não ocorra extinção de nenhuma população SS, elas mantêm maior diversidade genética do que a po- pulação SL. Entretanto, em longo prazo, as taxas de extinção serão maiores nos fragmentos de populações menores devido a estocasticidade ambien- tal e demográfi ca, catástrofes e fatores genéticos (Capítulo 5). Com a extinção de algumas populações SS (4), a população SL mantêm mais diversidade genética e apresenta maior vigor reprodutivo do que todas as populações SS combinadas (agora somente duas populações). O pica-pau (Picoides borealis) no sudeste dos USA ilustra muitas das características e dos problemas genéticos associados com a fragmenta- ção de habitat para uma espécie que tinha uma distribuição contínua (Box 4.2). Populações de pica-paus isoladas e pequenas mostram perda de diversidade genética quando comparadas com populações grandes. A diferenciação entre populações em diferentes fragmentos é eviden- te, com populações adjacentes sendo geralmente mais similares. As populações pequenas deverão sofrer com a depressão endogâmica. As conseqüências genéticas da fragmentação populacional dependem criticamente do nível de fl uxo gênico. Com fl uxo gênico restrito, a fragmentação é geralmente altamente deletéria em longo prazo. FRAGMENTAÇÃO POPULACIONAL 71 Fig. 4.11 Conseqüências genéticas de uma população grande e única (SL) versus vários fragmentos de populações pequenas (SS) completamente isoladas, inicialmente com mesmo tamanho populacional, através de diferentes escalas de tempo. (1) A1-A4 representam os quatro alelos inicialmente presentes na população. Num curto período de tempo, sem a ocorrência de extinção, espera-se que as várias populações pequenas (2) apresentem fi xação mais rapidamente, mas retenham maior diversidade genética total do que a população grande e única (3). A probabilidade de que um alelo seja totalmente perdido na população grande é maior do que para todas as populações pequenas combinadas. Entretanto as populações SS serão, cada uma, mais endogâmicas do que a população SL. Em longo prazo, quando extinções de populações pequenas ocorrem, o total das pequenas populações sobreviventes (4) reterá menos diversidade genética do que a população grande e única (5). traduzir Quadro 4.2 Impacto da fragmentação de habitat sobre a metapopulação da espécie em perigo de extinção do pica-pau-da-crista-vermelha, no sudeste dos USA (Stangel et al. 1992; Kulhavy et al. 1995; Daniels et al. 2000). O pica-pau-de-crista-vermelha já foi comum nas fl orestas primárias de pinheiros do sudeste dos Estados Unidos. O seu número diminuiu, primariamente, devido à perda de habitat, sendo colocados na lista de espécies ameaçadas dos USA em 1970. Eles agora sobrevivem em sítios isolados e dispersos no sudeste dos USA (ver mapa). Um plano de recuperação da espécie está sendo implementado para manejá-la. CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO72 Existe pouca migração entre os sítios isolados. Como previsto, as populações menores mostram as maiores perdas de diversidade genética e a maior divergência. Existe uma divergência moderada nas freqüências alélicas entre as populações de pica-pau. Há uma tendência geral de maior similaridade genética entre populações geografi camente próximas – mostrada na análise de agrupamento das distâncias genéticas (ver Capítulo 6) entre 14 populações. Simulações de computador (Capítulo 5) indicam que as menores populações de pica-pau provavelmente sofrerão com a depressão endogâmica no futuro próximo. Em resposta a ameaça imposta pela fragmentação, o manejo dos pica-paus envolve a proteção ambiental, melhoria na disponibilidade de habitat através da construção de buracos de ninhos artifi ciais, reintroduções dentro de habitats apropriados onde as populações tornaram-se extintas, e aumento das populações pequenas para minimizar a endogamia e a perda da diversidade genética. Este é um dos programas de manejo mais amplos para uma população fragmentada em qualquer lugar no mundo. Medidas da fragmentação populacional: estatística F A endogamia resultante da fragmentação populacional pode ser usada para medir o grau de diferenciação que ocorreu entre os frag- mentos. A diferenciação entre os fragmentos ou sub-populações está Pica-pau-de-crista-vermelha O grau de diferenciação entre fragmentos pode ser descrito dividindo-se a endogamia total em componentes dentro e entre populações (estatística F) TRADUZIR FRAGMENTAÇÃO POPULACIONAL 73 diretamente relacionada com os coefi cientes de endogamia dentro e entre populações. A endogamia na população total (F IT ) pode ser dividida dentro dela devido a: Endogamia dos indivíduos em relação às suas sub-populações ou • fragmentos, F IS , e Endogamia devido à diferenciação entre sub-populações, em rela-• ção à população total, F ST . Referimos à F IT , F IS e F ST como estatística F. O F IS é o coefi ciente de endo- gamia, F, calculado como a média de todos os indivíduos de todos os fragmentos populacionais. O F ST é o efeito da subdivisão populacionalsobre a endogamia. Com altas taxas de fl uxo gênico entre os fragmen- tos, o F ST é baixo. Com baixas taxas de fl uxo gênico entre fragmentos, as populações divergem e tornam-se endogâmicas, e o F ST aumenta. A estatística F pode ser calculada usando-se a equação 4.3, a qual relaciona a heterozigosidade e a endogamia. Esta permite que a es- tatística F seja determinada a partir da heterozigosidade obtida com marcadores genéticos usando-se as seguintes equações: = H F H I IS S 1 – (4.10) = H F H S ST T 1 – (4.11) = H F H I IT T 1 – (4.12) onde H I é heterozigosidade observada obtida pela média de todos os fragmentos populacionais, H S é a heterozigosidade esperada de Hardy- Weinberg obtida pela média de todos os fragmentos populacionais, e H T é a heterozigosidade esperada de Hardy-Weinberg para a população total (equivalente ao H e ). O F ST varia de 0 (sem diferenciação entre os fragmentos) a 1 (fi xação de diferentes alelos nos fragmentos). O exemplo 4.6 ilustra o cálculo da estatística F com base nas he- terozigosidades para o teixo-do-Pacífi co (Taxus brevifolia) em perigo no oeste da América do Norte. Esta espécie exibe endogamia dentro das populações (F IS > 0) e diferenciação entre populações (F ST > 0). Exemplo 4.6 Cálculo da estatística F para o raro teixo-do-Pacífi co (dados de El-Kassaby & Yanchuk 1994) Este exemplo é baseado nas freqüências genotípicas e heterozigosidades para 21 locos de aloenzimas em nove populações canadenses. A hetero- zigosidade observada média (H I ) através das nove populações foi 0,085, enquanto que a heterozigosidade esperada média para estas populações (H S ) foi 0,166. Conseqüentemente, a endogamia F IS dentro das populações é = = = H F H I IS S 0,085 1 – 1 – 0,49 0,166 Teixo-do-Pacífi co CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO74 Este é um nível alto de endogamia, mas não se deve à autofertiliza- ção, uma vez que esta espécie tem sexos separados. Isto se deve prova- velmente ao agrupamento de indivíduos aparentados (prole crescendo perto de seus pais e agrupamento de parentes em estoques de sementes agrupadas por aves e roedores). A heterozigosidade esperada medida através da média de todas as nove populações (H T ) foi 0,18, então a endogamia devido a diferen- ciação populacional (F ST ) é = = = H F H S ST T 0,166 1 – 1 – 0,078 0,180 Este valor indica apenas um grau modesto de diferenciação populacio- nal. A endogamia total devido tanto à endogamia dentro das populações como à diferenciação entre elas (F IT ) é = = = H F H I IT T 0,085 1 – 1 – 0,53 0,18 Os valores de F ST geralmente são inversamente relacionados à ha- bilidade de dispersão. Baseado em dados de aloenzimas, eles medem 0,25-0,3 para mamíferos, répteis e anfíbios, mas são menores para pei- xes (0,14), insetos (0,10) e são ainda mais baixos em aves (0,05). Valores em plantas variam de 0,5 em espécies com autofertilização até 0,1 em espécies exogâmicas com polinização pelo vento. Geralmente os valo- res de F ST acima de 0,15 são considerados um indicativo de diferencia- ção signifi cativa entre fragmentos. Fluxo gênico entre fragmentos populacionais Em uma população fragmentada com o tamanho dos fragmentos fi xos e iguais (N e ), e taxas iguais de fl uxo gênico (m) entre todas as popula- ções, um equilíbrio entre deriva e migração é alcançado, onde o F ST é previsto ser: ( )= +F N mST e 1 4 1 (4.13) Sewal Wright obteve o surpreendente resultado de que um único mi- grante por geração entre populações ideais é o sufi ciente para prevenir a diferenciação completa elas (e fi xação de alelos). Populações com taxas de migração de mais de um migrante por geração não exibem fi xação, enquanto que aquelas com menos de um migrante por gera- ção diferenciam a ponto de que algumas populações são fi xadas para alelos alternativos. Esses resultados são independentes do tamanho populacional. Um migrante tem tanto impacto sobre o equilíbrio em uma população grande como em uma população pequena. Isso parecia um paradoxo até ser reconhecido que um migrante representa, proporcionalmente, uma taxa de migração muito maior em populações pequenas do que em populações grandes. As taxas de migração mais altas em pequenas populações neutralizam sua maior perda de variação devido à deriva. O fl uxo gênico reduz os efeitos genéticos da fragmentação populacional Um único migrante por geração é considerado sufi ciente para prevenir a diferenciação completa das populações ideais, independente de seu tamanho SELEÇÃO EM POPULAÇÕES PEQUENAS 75 As conclusões acima assumem que migrantes e residentes têm a mesma probabilidade de produzir descendente, e que todos os frag- mentos populacionais possuem estruturas idealizadas, além da ocor- rência do fl uxo gênico. É improvável que estes pressupostos sejam realísticos. Em populações reais até 10 migrantes por geração podem ser necessários. Estrutura populacional Os impactos genéticos da fragmentação populacional podem variar de insignifi cantes a severos, dependendo dos detalhes da estrutura popu- lacional resultante e dos padrões de migração entre fragmentos. Em geral, as conseqüências genéticas gerais em longo prazo de diferentes estruturas populacionais são piores para metapopulações do que para outras estruturas, uma vez que elas passam por freqüentes gargalos populacionais associados à extinções regulares e eventos de recolo- nizações. Por exemplo, na Finlândia existem aproximadamente1600 campinas apropriadas para a população da borboleta-de-Glanville (Me- litaea cinxia), 320-524 sendo ocupadas em 1993-1996. Nessa metapopu- lação a taxa de substituição populacional é alta, com uma média de 200 extinções e 114 colonizações por ano, e efeitos genéticos deletérios têm sido documentados. Seleção em populações pequenas Em populações fechadas as freqüências alélicas mudam predominan- temente através da deriva genética e seleção. Em populações grandes a seleção geralmente domina as mudanças nas freqüências dos alelos, nos alelos sujeitos à seleção natural. Por outro lado, em populações pequenas a deriva genética é usualmente a força dominante a causar mudanças nas freqüências dos alelos, mesmo para alelos sujeitos à seleção natural. Isso é evidente no exemplo do besouro-da-farinha na Fig. 4.2. A habilidade da deriva para sobrepor a seleção depende da vanta- gem ou desvantagem seletiva do alelo (i.e. o coefi ciente de seleção, s). Quando s < 1/2 N e , a deriva supera a seleção. Por exemplo, em popula- ções com tamanho efetivo abaixo de 50 indivíduos (N abaixo de apro- ximadamente 500 indivíduos), alelos com s ≤ 0,01 são efetivamente neutros e sujeitos aos efeitos da deriva. Isto proporciona uma impor- tante percepção para a genética da conservação; a seleção é menos efe- tiva em pequenas do que em grandes populações. LEITURA SUGERIDA Frankham, R., J. D. Ballou & D. A. Briscoe. 2002. Introduction to Conservation Genetics. Cambridge University Press, Cambridge, UK. Chapters 8, 10, 11 and 13 have extended treatments of these topics, along with references. Falconer, D. S. & T. F. C. Mackay. 1996. Introduction to Quantitative Genetics, 4th edn. Longman, Harlow, UK Chapter 3 provides a very clear introduction to the topics in this chapter. Hanski, I. & M. Gilpin. (eds.) 1997. Metapopulation Biology: Ecology, Borboletas-de-Glanville O impacto da fragmentação populacional depende dos detalhesda estrutura populacional resultante A seleção é menos efetiva em populações pequenas do que em grandes CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO76 Genetics and Evolution. Academic Press, San Diego, CA. A fi ne collection of relevant papers on fragmented populations. See especially the chapters by Hedrick & Gilpin, Barton & Whitlock and Giles & Goudet. Hedrick, P. W. 2000. Genetics of Populations, 2nd edn. Jones & Bartlett, Boston, MA. Chapters 5--7 provide clear treatments of many of the genetic issues relating to small populations and population fragmentation. Capítulo 5 Genética e extinção O endocruzamento e a perda da diversidade genética são inevitáveis em pequenas populações de espécies ameaçadas. Em curto prazo elas reduzem a reprodução e a sobrevivência e, em longo prazo, diminuem a capacidade das populações evoluírem em resposta às mudanças ambientais e aumentam o risco de extinção. Termos Seleção balanceadora, catástrofes, estocasticidade demográfi ca, estocasticidade ambiental, vórtex de extinção, estocasticidade genética, vantagem do heterozigoto, depressão endogâmica, equivalentes letais, complexo principal de histocompatibilidade (MHC), tamanho populacional mínimo viável (MVP), esgotamento populacional mutacional, poliploidia, análise de viabilidade populacional (PVA), expurgo, auto- incompatibilidade Dodô, espécie já extinta, e sua distribuição prévia na Ilha Maurício GENÉTICA E EXTINÇÃO78 A genética e o destino das espécies em perigo Há pouco mais de uma década atrás, a contribuição dos fatores genéti- cos para o destino das espécies em perigo era considerada desprezível. Considerava-se que as fl utuações demográfi cas e ambientais (estocas- ticidade), e as catástrofes, provavelmente causariam a extinção antes que a deterioração genética se tornasse uma ameaça séria às popu- lações selvagens. Ainda hoje existe uma controvérsia saudável sobre isso. Entretanto, existe agora um conjunto convincente de evidências teóricas e práticas indicando que as mudanças genéticas em pequenas populações estão intimamente envolvidas com o seu destino. Especifi - camente, tem-se mostrado que: Muitas populações sobreviventes estão geneticamente comprome- tidas (diversidade genética reduzida e endocruzamento) A perda da diversidade genética aumenta a suscetibilidade das po-• pulações à extinção, ao menos em alguns casos A perda da diversidade está relacionada a um menor valor • adaptativo O endocruzamento causa extinção em populações experimentais • deliberadamente endogâmicas O endocruzamento contribui para a extinção em algumas popula-• ções naturais e existe evidência circunstancial para implicá-la em muitos outros casos Projeções computacionais indicam que o endocruzamento causará • elevados riscos de extinção nas populações naturais ameaçadas. Depressão endogâmica Apesar do ceticismo inicial, existem agora evidências claras e irre- futáveis da ocorrência de depressão endogâmica em populações de cativeiro e da natureza. Por exemplo, progênies endogâmicas apre- sentaram maior mortalidade do que progênies exogâmicas em 41 de 44 populações de mamíferos de cativeiro (Fig. 5.1). No caso do hipopó- tamo-pigmeu (Hexaprotodon liberiensis), os descendentes endogâmicos A ameaça genética mais imediata para as espécies em perigo é a depressão endogâmica Fig. 5.1 Depressão endogâmica para a sobrevivência de juvenis em 44 populações de mamíferos de cativeiro (Ralls & Ballou 1983). A mortalidade juvenil em indivíduos exogâmicos está plotada contra aquela em indivíduos endogâmicos das mesmas populações. A linha representa igual sobrevivência de indivíduos endogâmicos e exogâmicos. Muitas populações fi cam abaixo da linha, indicando que o endocruzamento é deletério. A GENÉTICA E O DESTINO DAS ESPÉCIES EM PERIGO 79 apresentaram 55% de mortalidade juvenil, enquanto que os descen- dentes exogâmicos tiveram 25% de mortalidade. Também existe agora evidência substancial de que o endocruza- mento tem conseqüências deletérias na natureza. Por exemplo, 90% dos 157 conjuntos de dados para 34 taxa mostraram progênies endogâ- micas com menor sobrevivência, reprodução ou tamanho, etc. do que progênies exogâmicas (Capítulo 4). Características da depressão endogâmica Para entender os impactos prováveis da depressão endogâmica nas populações selvagens, é importante considerar suas características e causas. Essas são: A depressão endogâmica tem sido observada em virtualmente toda • espécie naturalmente exogâmica investigada adequadamente, e pode ser esperada em espécies não estudadas Espécies naturais exogâmicas de todos os principais taxa mostram • níveis médios de depressão endogâmica relativamente similares Todos os componentes do sucesso reprodutivo estão sujeitos a de-• pressão endogâmica Características mais intimamente relacionadas ao sucesso reprodu-• tivo mostram maior depressão endogâmica do que aquelas que são perifericamente relacionadas ao valor adaptativo A depressão endogâmica é maior para o valor adaptativo total do • que para os seus componentes A depressão endogâmica é maior em condições mais estressantes• Famílias, populações e espécies diferem na extensão da depressão • endogâmica A depressão endogâmica é proporcional à quantidade de • endocruzamento Endocruzamento lento geralmente causa menos depressão endo-• gâmica do que uma quantidade equivalente de endocruzamento rápido, mas, freqüentemente, a diferença é pequena Espécies naturalmente endogâmicas mostram depressão endogâmi-• ca, mas sua magnitude é geralmente menor do que a encontrada em espécies naturalmente exogâmicas. Bases genéticas da depressão endogâmica O endocruzamento aumenta a freqüência de homozigotos para alelos deletérios e a depressão endogâmica resultante depende da freqüência desses alelos, de seus níveis de heterozigosidade, sendo eles recessivos, e do o nível de endocruzamento. O endocruzamento reduz a heterozi- gosidade em proporção à quantidade de endocruzamento. Assim espe- ramos, e geralmente observamos, uma relação linear entre depressão endogâmica e F. A depressão endogâmica é causada por dois processos diferentes, dominância e vantagem do heterozigoto. Com dominância, o endo- cruzamento aumenta a freqüência de homozigotos para alelos reces- sivos deletérios, permitindo assim que esses alelos sejam expressos. Para que os alelos contribuam para a depressão endogâmica eles de- vem ser parcialmente ou completamente recessivos. Com a vantagem do heterozigoto, os alelos que apresentam maior valor adaptativo Hipopótamo-pigmeu A magnitude da depressão endogâmica depende da freqüência dos alelos deletérios, da sua dominância, do número de locos com alelos deletérios, e da quantidade de endocruzamento A depressão endogâmica só ocorre quando há dominância ou vantagem do heterozigoto e quando se acumula por todos os locos polimórfi cos que afetam uma característica GENÉTICA E EXTINÇÃO80 como heterozigotos causam depressão endogâmica quando o endo- cruzamento diminui a freqüência desses heterozigotos em relação aos homozigotos. Qual mecanismo está operando é uma questão im- portante. Embora ambos os processos causem depressão endogâmica, eles respondem de forma diferente à seleção natural. Com dominância dos alelos vantajosos, a seleção pode reduzir as freqüências dos alelos deletérios (processo denominado expurgo), mas não pode fazer isso quando há vantagem do heterozigoto. Considera-se que a dominância de alelos favoráveis seja o principal mecanismo contribuindopara a depressão endogâmica. Geralmente numerosos locos (talvez milhares) estarão envolvidos na ocorrência de depressão endogâmica para o valor adaptativo e seus componentes. Variabilidade na depressão endogâmica Uma vez que a depressão endogâmica depende da freqüência dos ale- los deletérios, espera-se que ela tenha um grande elemento estocástico. Pequenas populações endogâmicas estão sujeitas à deriva genética, e o mesmo alelo deletério pode estar ausente em uma população e presen- te em uma freqüência relativamente alta em outra. Além disso, indi- víduos com o mesmo F esperado irão apresentar diferenças dos níveis atuais de heterozigosidade devido à amostragem envolvida na herança Mendeliana. Diferentes locos serão homozigotos em diferentes indiví- duos, apenas devido ao acaso. Conseqüentemente, espécies diferentes, populações dentro de uma espécie, famílias dentro de populações, e indivíduos dentro de famílias irão variar em seus complementos de alelos deletérios, e manifestarão de formas diferentes a depressão en- dogâmica (Fig. 5.1). Uma vez que muitos locos afetam o sucesso repro- dutivo, é altamente improvável que a fi xação de alelos deletérios seja evitada em todos os locos. Isso explica a natureza onipresente, mas altamente variável, da depressão endogâmica. Entretanto, a maioria dos estudos encontra pouca evidência de diferenças na extensão média da depressão endogâmica entre os prin- cipais taxa diplóides de espécies naturalmente exogâmicas. Por exem- plo, não existe diferença signifi cativa na depressão endogâmica entre as ordens de mamíferos, sob condições de cativeiro. A depressão endogâmica é maior para as gimnospermas do que para as angiospermas. Isso pode estar relacionado a um maior nível de poliploidia (mais que duas doses de cada cromossomo) observado neste último grupo. Uma vez que a taxa de aumento na homozigosida- de é mais lenta em poliplóides do que em diplóides, espera-se que os poliplóides sofram menos depressão endogâmica. Remoção de alelos deletérios O endocruzamento aumenta a homozigosidade, expondo os alelos deletérios recessivos à seleção. Conseqüentemente os alelos deletérios são removidos (ou expurgados) mais rapidamente do que ocorreria sob acasalamento ao acaso. Em populações com longo histórico de endocruzamento, como em plantas que se autofertilizam ou populações de animais que se man- tiveram pequenas por longo tempo, a freqüência de alelos deletérios A depressão endogâmica apresenta um grande elemento estocástico A depressão endogâmica pode ser reduzida, ou “purifi cada”, pela seleção contra alelos deletérios, mas é improvável que isso a elimine A GENÉTICA E O DESTINO DAS ESPÉCIES EM PERIGO 81 pode ter sido reduzida pela sua remoção. Isto faz surgir uma questão: esperamos ver menos depressão endogâmica nestes casos? Enquanto espécies de plantas que se autofertilizam ou que são naturalmente endogâmicas continuam mostrando níveis de depres- são endogâmica, sua magnitude é geralmente menor do que em po- pulações exogâmicas relacionadas. Isto implica que algum expurgo ocorreu. Estudos também sugerem que um histórico de redução do tamanho populacional em animais diminui, mas não elimina, a de- pressão endogâmica. Embora exista uma considerável variação na extensão da depressão endogâmica, sua ocorrência quase universal indica que os responsá- veis pelo manejo da vida selvagem precisam adotar estratégias para minimizar o endocruzamento em populações ameaçadas. Medição da depressão endogâmica A depressão endogâmica geralmente é medida comparando-se o valor adaptativo de organismos endogâmicos com o de grupos controle de organismos não-endogâmicos. Os grupos controle devem ser contem- porâneos dos endogâmicos e ter experimentado as mesmas condições ambientais. Existem duas abordagens básicas para medir a depressão endogâmica: Calcular a proporção entre a média dos endogâmicos e a média dos • não-endogâmicos, ou Fazer uma análise de regressão entre a medida de um caráter (isto • é, sobrevivência, fecundidade, tamanho) contra o coefi ciente de en- docruzamento obtido das genealogias. Uma medida geral da depressão endogâmica (δ) é o declínio pro- porcional na média devido a uma determinada quantidade de endocruzamento: δ = valor adaptativo dos descendentes endogâmicos1 – valor adaptativo dos descendentes não - endogâmicos (5.1) Esta fórmula não especifi ca o nível de endocruzamento, o qual deve ser defi nido para cada caso. O exemplo 5.1 ilustra o uso da equação 5.1 para estimar a depressão endogâmica na gazela-dorca. δ é usado com mais freqüência em plantas. Uma vez que muitas plantas podem ser autofertilizadas, a estimativa usual da depressão Espécies naturalmente endogâmicas e populações que historicamente tem tido o seu tamanho reduzido mostram depressão endogâmica, mas geralmente a sua magnitude é menor do que em outras populações A depressão endogâmica geralmente é medida como o declínio proporcional na média de um caráter quantitativo por unidade de aumento no coefi ciente de endocruzamento Exemplo 5.1 Depressão endogâmica na gazela-dorca (Gazella dorcas) A sobrevivência de juvenis de 50 gazelas-dorca exogâmicas e 42 endogâ- micas foram de 72,0% e 40,5%. Qualquer indivíduo com F > 0 foi defi nido como endogâmico, mas o nível médio de endocruzamento encontrado foi de aproximadamente 0,25 (irmãos completos). A depressão endogâ- mica (δ) para a sobrevivência de juvenis nesta espécie é: δ = = =valor adaptativo dos descendentes endogâmicos1 – 1 – 0, 44 valor adaptativo dos descendentes não - endogâmicos 0,405 0,720 Gazela-Dorca GENÉTICA E EXTINÇÃO82 endogâmica é obtida pela comparação das progênies oriundas de au- tofertilização e de reprodução cruzada; o impacto do endocruzamento devido a um coefi ciente de endocruzamento de 50%. Equivalentes Letais A maneira usual para expressar e comparar a extensão da depressão endogâmica na sobrevivência dos animais é através dos equivalentes letais. Esta é a inclinação da regressão da sobrevivência sobre o nível de endocruzamento. A probabilidade de sobrevivência até uma idade particular, S, pode ser expressa como: S = e – (A+BF) (5.2) onde e–A é o valor adaptativo na população exogâmica, F é o coefi ciente de endocruzamento, e B é a taxa na qual o valor adaptativo declina com o aumento do endocruzamento. Se tomamos o logaritmo natural (ln) esta se torna uma relação linear: ln S = – A – BF (5.3) B mede o dano genético adicional que pode ser expresso em indivíduos totalmente homozigotos (F = 1). Assim, B é o numero de equivalentes letais por gametas, e 2B é o número por indivíduos. Um equivalente letal é defi nido como um grupo de alelos prejudiciais que causaria, em média, uma morte se estivesse em homozigose, ou seja, um alelo letal, ou dois alelos cada um com 50% de probabilidade de causar a morte, etc. F Vivos Mortos 0 86 55 0,125 5 2 0,25 12 18 0,375 1 5 Fig. 5.2 Relação entre sobrevivência e coefi ciente de endocruzamento no okapi, Okapia johnstoni (dados de Bois et al. 1990). Regressão linear entre o logaritmo natural de sobrevivência com o coefi ciente de depressão endogâmica. O tamanho dos círculos indicam o tamanho amostral. Okapi RELAÇÃO ENTRE ENDOCRUZAMENTO E EXTINÇÃO 83 Para estimar o equivalente letal, dados sobre a taxa de sobrevivên- cia dos indivíduos com diferentes coefi cientes de endocruzamento são coletados e uma regressão linear ponderada é usada para estimar A e B. A Figura 5.2 ilustra a relação entre o ln de S e o coefi ciente de endo- cruzamento para o okapi (Okapia johnstoni),com a linha de regressão inserida. A inclinação da linha (B) é -1,80, indicando que a população contém 1,8 equivalente letais haplóides e 3,6 equivalentes letais di- plóides. Ralls e colaboradores encontraram que o número médio de equivalentes letais para 40 populações de mamíferos de cativeiro foi de 1,57 (B) por conjunto haplóide e 3,14 (2B) por diplóide, embora as espécies variem amplamente. Estes valores indicam que cada gameta contém mutações deletérias que equivalem a entre um e dois letais quando em homozigose. Valores similares têm sido calculados para outras populações animais, inclusive para humanos. Relação entre endocruzamento e extinção A primeira evidência da relação entre endocruzamento e extinção veio de populações deliberadamente endogâmicas de laboratório e animais domésticos e plantas. Entre 80% e 100% das populações deliberada- mente endogâmicas morrem após oito gerações de cruzamentos en- tre irmãos ou três gerações de autofertilização. Por exemplo, todas as 338 populações de codornas japonesas, endogâmicas pelo cruzamen- to contínuo entre irmãos, foram extintas depois de quatro gerações. Exemplos oriundos de camundongos e moscas-de-fruta são mostrados na Fig. 5.3. Taxa de endocruzamento e risco de extinção Populações naturais de animais e plantas exogâmicas estão geral- mente sujeitas a baixas taxas de endocruzamento, dependente de Populações de laboratório, animais domésticos e plantas deliberadamente endogâmicas têm grandemente elevadas suas taxas de extinção Mesmo um endocruzamento lento aumenta o risco de extinção Fig 5.3 Relação entre endocruzamento e extinção (Frankham 1995). Populações de camundongos e duas espécies de moscas-de-fruta (uma delas com duas populações) foram endrocruzadas através de acasalamento entre irmãos. A estocasticidade demográfi ca teve muito pouca ou nenhuma contribuição nessas extinções. A proporção de populações sendo extintas aumentou com o endocruzamento, mas as extinções não tiveram início até que níveis intermediários de endocruzamento fossem alcançados. GENÉTICA E EXTINÇÃO84 seu tamanho populacional. Um endocruzamento mais lento permi- te à seleção natural mais gerações para eliminar alelos deletérios e geralmente causa menos depressão endogâmica do que um endocru- zamento rápido para a mesma quantidade total de endocruzamento. Entretanto, geralmente as diferenças são pequenas. Mesmo taxas lentas de endocruzamento aumentam o risco de ex- tinção; isso apenas faz com que leve mais tempo para que haja o acú- mulo de endocruzamento e a ocorrência da extinção. Por exemplo, 15 populações de moscas-de-fruta de um total de 60, endogâmicas devido ao tamanho de 67 indivíduos por geração, foram extintas dentro de 210 gerações, enquanto que cinco de um total de seis réplicas de po- pulações de moscas caseiras, com tamanho de 50 indivíduos, foram extintas após 64 gerações. Endocruzamento e extinção em populações selvagens Uma vez que o endocruzamento leva a um elevado risco de extinção em populações de cativeiro, é lógico extrapolar o mesmo para as po- pulações selvagens. Entretanto, relacionar a extinção nas populações selvagens a efeitos genéticos é difícil, uma vez que determinar as cau- sas exatas da extinção na natureza nunca é fácil e os dados genéticos necessários freqüentemente são inexistentes. No entanto, três linhas de evidências suportam esta idéia: Muitas populações selvagens sofrem perda de diversidade genética • e depressão endogâmica Tem-se mostrado que a depressão endogâmica e a perda da variação • genética contribuem para a extinção das populações na natureza Projeções computacionais prevêem que o endocruzamento aumen-• tará o risco de extinção para as populações selvagens. Muitas populações selvagens estão geneticamente comprometidas Alguns biólogos conservacionistas têm argumentado que a estocas- ticidade ambiental e demográfi ca e as catástrofes poderiam levar as populações à extinção antes que os fatores genéticos se tornassem um problema. Esta previsão não é totalmente verdadeira, uma vez que a maioria das espécies ameaçadas tem menor diversidade genética do Existe evidência crescente de que o endocruzamento eleva o risco de extinção nas populações naturais tA maior parte das espécies ameaçadas possuem diversidade genética diminuída Quadro 5.1 Populações insulares de wallabies-de-pata-preta dos rochedos têm persistido por mais de 1600 gerações em pequenos tamanhos, são altamente endogâmicas, têm baixos níveis de diversidade genética e exibem depressão endogâmica (Eldridge et al. 1999). Os wallabies-dos-rochedos são cangurus de 1 metro de altura que habitam áreas rochosas não agricultáveis do continente Australiano e suas ilhas (ver mapa abaixo). A população de wallabies da Ilha Barrow (localidade 1) está isolada do continente por 8000 anos (aproximadamente 1600 gerações) e tem um tamanho populacional relativamente pequeno. A diversidade de microssatélites na população da Ilha Barrow e em populações de outras ilhas (pontos sem números) é marcadamente mais baixa do que nas áreas continentais de Exmouth (2) e Wheatbelt (3). RELAÇÃO ENTRE ENDOCRUZAMENTO E EXTINÇÃO 85 que as espécies não ameaçadas relacionadas, e assim provavelmente estão sofrendo depressão endogâmica e perda da adaptabilidade. Por exemplo, o wallaby-de-pata-preta dos rochedos na Ilha Barrow e em outras ilhas da costa oeste da Austrália possuem níveis de diversidade genética muito baixos e a única população da ilha investigada (Ilha Barrow) exibe depressão endogâmica (Box 5.1). Além disso, os euros (uma grande espécie de canguru, Macropus robustus) da Ilha Barrow também têm diversidade genética reduzida e sofrem de anemia crôni- ca e cargas de parasitas mais altas do que animais do continente. População local Proporção de locos polimórfi cos Número médio de alelos por loco Heterozigosidade média Ilha Barrow (1) 0,1 1,2 0,05 Continente Exmouth (2) 1,0 3,4 0,62 Wheatbelt (3) 1,0 4,4 0,56 Desde seu isolamento a população da Ilha Barrow tem sobrevivido a fl utuações estocásticas e catástrofes, mas sofre de problemas genéticos que aumentam o seu risco de extinção. Ela tem um coefi ciente de endocruzamento de 0,91 e apresenta depressão endogâmica quando comparada com as populações do continente. A freqüência de fêmeas lactantes é de 92% na população do continente, mas somente 50% na Ilha Barrow. Populações de ilhas têm sido vistas como fontes ideais para a restauração de populações reduzidas ou extintas do continente, especialmente na Austrália. Entretanto, elas são candidatas ruins para translocações se ainda existem populações alternativas do continente, uma vez que elas geralmente têm baixa diversidade genética e são endogâmicas. Wallaby-de-pata-preta GENÉTICA E EXTINÇÃO86 Evidência direta e circunstancial de extinções devido ao endocruzamento e à perda da diversidade genética Evidência direta do envolvimento do endocruzamento na extinção de populações naturais tem sido apresentada para as populações da bor- boleta fi nlandesa (Box 5.2). O endocruzamento foi um importante pre- visor do risco de extinção depois que foram considerados os efeitos de todas as outras variáveis ecológicas e demográfi cas. Adicionalmente, populações experimentais da planta prímula-da-noite, fundadas com baixos níveis de diversidade genética (e alto endocruzamento), exibi- ram taxa de extinção de 75% após três gerações na natureza, enquan- to que populações com endocruzamento mais baixo mostraram uma taxa de extinção de apenas 21%. Quadro 5.2 Endocruzamento e risco de extinção em populações de borboletas na Finlândia (Saccheri et al.1998) Utilizando análises genéticas moleculares, foram determinados os níveis de heterozigosidade em 42 populações de borboletas na Finlândia em 1995, e a sua extinção ou sobrevivência foi registrada no ano seguinte. Dessas populações, 35 sobreviveram até o outono de 1996 e sete foram extintas. As taxas de extinção foram maiores para populações com menor heterozigosidade, um indicador do endocruzamento, mesmo após levar em conta os efeitos das variáveis demográfi cas e ambientais (tamanho populacional, tendência do tamanho populacional ao longo do tempo e área) que sabidamente afetam o risco de extinção, como mostrado na fi gura abaixo. As diferentes curvas representam a relação entre a probabilidade de extinção e a proporção de locos heterozigotos por população com diferentes números (1-5) de grupos larvais. Há evidência direta de que o endocruzamento e a perda da diversidade genética aumentam o risco de extinção para populações na natureza Espera-se que populações menores sejam mais propensas à extin- ção do que as populações maiores, por razões demográfi cas, ecológicas e genéticas. Uma forte relação foi observada entre o tamanho popu- lacional e a persistência no carneiro norte-americano (Ovis canadensis) (Fig. 5.4). Todas as populações com <50 indivíduos tornaram-se extintas den- tro de 50 anos. Uma ampla variedade de fatores demográfi cos, ecoló- gicos e genéticos (incluindo endocruzamento e perda de diversidade genética) pode ter contribuído para estas extinções. Similarmente, as É mais provável que populações pequenas sofram extinção por razões genéticas e ecológicas do que populações grandes Borboletas-de-Glanville Bighorn RELAÇÃO ENTRE ENDOCRUZAMENTO E EXTINÇÃO 87 extinções de mamíferos nos parques nacionais no oeste norte-america- no foram relacionadas à área do parque e, presumivelmente, ao tama- nho populacional. As extinções foram mais freqüentes para populações com tamanho populacional inicial menor, com grandes fl utuações nos tamanhos populacionais e tempo de geração menor. Embora isso seja esperado quando se levam em consideração as questões demográfi cas e ambientais, esses efeitos também são previstos a partir das teorias genéticas. Os declínios no tamanho populacional ou extinção na natureza têm sido atribuídos ao endocruzamento, ao menos em parte, em muitas outras populações incluindo a pantera da Florida (Puma concolor coryi), os lobos-cinzentos (Canis lupus) da Ilha Royale, o Tretraz-das-pradarias (Tympanuchus cupido), a ave-de-pradarias Tympanuchus cupido cupido, o pi- ca-pau-malhado-médio (Dendrocopos medius), a víbora-européia-comum (Vipera berus), e muitas espécies de ilhas. Projeções computacionais Projeções computacionais incorporando dados reais de história de vida são freqüentemente usadas para acessar o impacto combinado de todos os fatores determinísticos e estocásticos sobre a probabilidade de extinção das populações. Isso é chamado de análise de viabilidade populacional (ver adiante). Em resumo, informações sobre o tamanho populacional, taxas de nascimento e sobrevivência e suas variações com a idade e o tempo, junto com medidas de depressão endogâmica, mudanças na qualidade de habitat, etc. formam os dados de entrada utilizados por programas computacionais. Modelos estocásticos são então executados através de ciclos repetidos para se projetar o destino das populações no futuro. Brooks e colaboradores encontraram que os efeitos do endocru- zamento sobre a sobrevivência de juvenis, em níveis encontrados em mamíferos de cativeiro, reduziram o tempo médio de extinção em cer- ca de 25-31% em 20 espécies de animais com tamanhos populacionais típicos para espécies ameaçadas. Uma projeção computacional seme- lhante realizada para a planta rara genciana-européia (Gentiana lutea) forneceu resultados similares. Fig 5.4 As taxas de extinção são maiores em populações pequenas do que em grandes. Relação entre persistência e tamanho populacional no carneiro norte- americano (após Berger 1990). Projeções computacionais prevêem que o endocruzamento eleva o risco de extinção para a maioria das populações selvagens exogâmicas GENÉTICA E EXTINÇÃO88 Relação entre perda de diversidade genética e extinção As populações naturais enfrentam uma pressão contínua das mudan- ças ambientais, incluindo novas doenças, pestes, parasitas, competido- res e predadores, poluição, e mudanças climáticas globais induzidas pelo homem. Espécies naturalmente exogâmicas com grandes popula- ções normalmente possuem grande reserva de diversidade genética, o que gera diferenças entre os indivíduos, permitindo a adaptação a tais pressões (Capitulo 2). Respostas evolutivas às mudanças ambientais têm sido observadas em muitas espécies (Capitulo 3). Acredita-se que a perda da diversidade genética em populações pequenas de espécies ameaçadas reduza sua habilidade de evoluir, e aumente seu risco de extinção em resposta às mudanças ambientais. Embora evidências experimentais validem esta previsão, existem ape- nas uns poucos exemplos onde a extinção de populações naturais pode ser diretamente atribuída à falta de variação genética. Relação entre perda da diversidade genética em locos de auto- incompatibilidade e extinção em plantas A evidência mais direta de relação entre a perda da diversidade gené- tica e o aumento do risco de extinção vem do estudo de locos de auto- incompatibilidade em plantas. Aproximadamente metade de todas as espécies de plantas com fl ores tem sistemas genéticos para prevenir a autofertilização. A auto-incompatibilidade é regulada por um ou mais locos que podem carregar 50 ou mais alelos em grandes populações. Se o mesmo alelo está presente em um grão de pólen e no estigma, a fertilização por este grão de pólen não terá sucesso. Acredita-se que a auto-incompatibilidade evoluiu para evitar os efeitos deletérios do endocruzamento. Os alelos da auto-incompatibilidade podem ser perdidos pela de- riva genética em populações pequenas, levando a uma proporção reduzida de pólen que pode fertilizar os óvulos de qualquer indiví- duo, e eventualmente reduzida produção de sementes e extinção. Por exemplo, a população de margaridas Hymenoxys acaulis var. glabra de Illinois foi reduzida a três plantas e não se reproduziu por 15 anos, apesar da polinização pelas abelhas. Ela tinha tão poucos alelos de auto-incompatibilidade que se encontrava funcionalmente extinta. As plantas, entretanto, produziram sementes viáveis quando fertilizadas com o pólen de grandes populações de Ohio e Canadá. A margarida-da- savana Rutidosis leptorrhynchoides, no leste da Austrália, também mostra um número reduzido de alelos de auto-incompatibilidade. Apesar da redução do valor adaptativo devido à perda de alelos de auto-incom- patibilidade ter sido documentada em apenas algumas espécies de plantas, é provável que isso se torne um problema para a maioria das plantas ameaçadas e auto-incompatíveis. Relação entre perda da diversidade genética e suscetibilidade a doenças, pestes e parasitas Novos patógenos constituem uma das mais terríveis ameaças para to- das as espécies. A perda da diversidade genética diminui severamente Populações com baixa diversidade genética têm mais difi culdade para lidar com extremos ambientais e doenças do que populações com alta diversidade genética A perda de alelos de auto- incompatibilidade em populações pequenas de muitas espécies de plantas leva a um baixo sucesso reprodutivo Margarida-das-savanas, ameaçada Espera-se que populações com baixa diversidade genética sofram mais seriamente de doenças, pestes e parasitasdo que aquelas com alta diversidade genética RELAÇÃO ENTRE PERDA DE DIVERSIDADE GENÉTICA E EXTINÇÃO 89 a capacidade de resposta das populações a essa pressão. Por exemplo, a castanha americana chegou próxima a extinção nos anos de 1950 pela introdução de uma doença causada por fungos (chestnut blight), já que ela não tinha nenhuma variação genética para resistência. Antes a castanha dominava as fl orestas do nordeste dos USA e este evento foi um dos maiores desastres ecológicos a atacar aquele país. O complexo principal de histocompatibilidade (MHC) é um grande grupo de locos presente nos vertebrados, que está envolvido no reco- nhecimento de moléculas antigênicas de patógenos e na regulação da resposta do sistema imune. A variação genética nesses locos está entre as mais altas conhecidas para quaisquer locos. Quanto mais he- terozigoto um individuo é, contra mais patógenos o individuo pode responder. Da mesma forma, quanto mais variável uma população é, mais provável é que alguns indivíduos possam resistir a um patógeno. Esta diversidade genética é mantida pela seleção favorecendo hetero- zigotos e pela seleção favorecendo alelos raros (seleção balanceadora). Dessa forma, é previsto, e suportado por algumas evidências, que a perda da diversidade nesses locos reduz a habilidade das populações para responder contra novas formas de patógenos. Apesar da seleção manter a diversidade, alelos serão perdidos pela deriva genética em populações pequenas, aumentando a chance de que um patógeno que possa matar um indivíduo possa matar todos os demais. Após ataques seqüenciais por diferentes patógenos, é mais provável a persistência de populações com alta diversidade genética do que a persistência de populações com baixa diversidade (Fig. 5.5). Por exemplo, populações do peixe-barrigudinho Poeciliopsis que apresentam baixa diversidade genética têm cargas de parasitas maiores do que populações com gran- de diversidade. A mortalidade devido a parasitas nematódeos gastroin- testinais, seguida a períodos de alta densidade populacional, é elevada em carneiros da raça Soay (Ovis aries) com baixa diversidade genética e alto endocruzamento. Fig 5.5 Exemplo hipotético da relação entre a diversidade genética e a resistência a doenças. Duas populações pequenas e endogâmicas, cada uma homozigota para diferentes alelos, são resistentes a uma doença mas não à outra. Por outro lado, uma população maior contendo ambos os alelos possui resistência a ambas as doenças. Peixe do gênero Poeciliopsis com parasitas trematódeos (pontos pretos) GENÉTICA E EXTINÇÃO90 Populações geneticamente viáveis Escassez de espaço para espécies ameaçadas Existe uma falta severa de habitat na natureza para muitas espécies ameaçadas, e uma falta crítica de instalações para a reprodução em ca- tiveiro. Portanto é essencial estabelecer a melhor maneira de utilizar os recursos disponíveis. Esta seção aborda a seguinte pergunta: ‘Quão grande as populações devem ser para que sejam geneticamente viáveis em longo prazo?’ Esse assunto tem sido discutido sob o título de tama- nho populacional mínimo viável (PMV), o tamanho mínimo necessário para reter o sucesso reprodutivo e o potencial evolutivo por centenas de anos. Isso não signifi ca que as populações de menor tamanho não tenham futuro, mas somente que seu sucesso reprodutivo e seu poten- cial evolutivo estarão provavelmente comprometidos, e que elas terão um aumento no risco de extinção. Como lembrou Soulé: “não existem casos sem esperança, somente pessoas sem esperança e casos caros.” Quão grande? Três componentes genéticos devem ser considerados ao responder essa questão: O tamanho populacional é grande o sufi ciente para evitar a depres-• são endogâmica? Existe diversidade genética sufi ciente para a evolução ocorrer em • resposta à mudança ambiental? A população é grande o sufi ciente para evitar o acúmulo de novas • mutações deletérias? Diferentes autores têm apresentado várias estimativas (Tabela 5.1). Consideramos cada um desses pontos abaixo: Tabela 5.1 | Quão grande as populações devem ser para manter sua “saúde” genética? Várias estimativas do tamanho populacional efetivo (N e ) necessário são dadas. Também é fornecido o tempo para recuperar os níveis normais de diversidade genética após perda completa da diversidade. Objetivo N e Tempo de recuperação (gerações) Evitar a depressão endogâmica 50 Reter potencial evolutivo 500 5000 570-1250 102 – 103 Reter diversidade genética em um loco 105 – 106 105 – 107 Evitar o acúmulo de mutações deletérias 12 – 1000 Fonte: ver Frankham et al. (2002). Retenção do sucesso reprodutivo Franklin e Soulé, baseados na experiência de criadores de animais, sugeriram que um tamanho populacional efetivo de 50 indivíduos se- ria sufi ciente para evitar a depressão endogâmica em um curto prazo tempo. Entretanto é provável que, em longo prazo, isso seja uma su- bestimativa severa. Como os recursos para manter as espécies ameaçadas são limitados, é extremamente importante identifi car o tamanho populacional mínimo necessário para reter a “saúde” genética, evitando-se a depressão endogâmica e mantendo o potencial evolutivo. Os tamanhos populacionais atuais das espécies ameaçadas geralmente são muito pequenos para evitar a deterioração genética. Nenhuma população fi nita está imune de uma eventual depressão endogâmica POPULAÇÕES GENETICAMENTE VIÁVEIS 91 Uma vez que o endocruzamento aumenta a uma taxa de 1/(2N e ) por geração, todas as populações fi nitas e fechadas eventualmente se tornarão endogâmicas. Além disso, como a depressão endogâmica é proporcional ao coefi ciente de endocruzamento, não existe limiar co- nhecido abaixo do qual o endocruzamento não seja deletério. Espera- se que mesmo níveis baixos de endocruzamento resultem em algum nível baixo de depressão endogâmica. Com base nos impactos do en- docruzamento encontrados em mamíferos de cativeiro, poderíamos esperar cerca de 2% de depressão endogâmica quando F = 0,01, 4% quando F = 0,02, e 15% quando F = 0,10, apenas para a sobrevivência de juvenis. A depressão endogâmica tem sido descrita em populações de mos- cas-de-fruta mantidas por muitas gerações em tamanhos efetivos de aproximadamente 50 indivíduos e em populações de moscas caseiras com N e ~ 90 indivíduos dentro de cinco gerações. Não sabemos precisamente quão grandes as populações devem ser para evitar uma depressão endogâmica signifi cativa em longo prazo, mas o tamanho necessário é claramente muito maior do que um tama- nho efetivo de 50 indivíduos. De modo perturbador, aproximadamente metade de todas as populações de mamíferos ameaçados em cativeiro têm N de menos que 50 indivíduos, e provavelmente estão sofrendo depressão endogâmica ou provavelmente a sofrerão em breve. Em qual ponto o endocruzamento se tornará sufi ciente para causar extinções? O tempo estimado para a extinção de populações da mos- ca caseira com diferentes tamanhos aproximou-se do tamanho efeti- vo em gerações, ou seja, 54 gerações para N e = 50. O risco de extinção em populações de camundongos e moscas-de-fruta que se tornaram rapidamente endogâmicas aumenta marcadamente em F = 0,5 e acima disso (Fig. 5.3 acima). Na prática, populações selvagens que foram listadas como em peri- go entre 1985-1991 possuíam entre 100-1000 indivíduos. Similarmente, o esquema da IUCN para a categorização do risco de extinção utiliza 50, 250, e 1000 adultos em populações de tamanhos estáveis como o valor para a sua inclusão nas categorias de criticamente em perigo, em perigo e vulnerável,respectivamente. Uma vez que a razão N e /N é de aproximadamente 0,1, muitas dessas populações terão tamanhos efetivos de 50 ou menos indivíduos e estão em risco de extinção pela depressão endogâmica, a menos que seus tamanhos sejam substancial- mente aumentados. Retenção do potencial evolutivo Uma vez que nosso objetivo é conservar as espécies como entidades dinâmicas capazes de responder às mudanças ambientais, o seu po- tencial evolutivo deve ser mantido. Existe uma gama de estimativas do tamanho populacional necessário para manter a diversidade genética e o potencial evolutivo em longo prazo, mas uma concordância geral é um N e de pelo menos 500 indivíduos (Tabela 5.1). Uma vez que este debate tem implicações importantes para a prática do manejo genéti- co das populações selvagens e de cativeiro, exploramos a base dessas estimativas. Populações com tamanhos efetivos de 50 indivíduos em mosca-da-fruta e 90 indivíduos em moscas caseiras mostram depressão endogâmica Tamanhos populacionais efetivos de 500-5000 têm sido sugeridos como necessários para manter o potencial evolutivo GENÉTICA E EXTINÇÃO92 Franklin sugeriu um tamanho efetivo de 500 indivíduos, argumen- tando que a variação genética aditiva determina o potencial evolutivo, e isso está diretamente relacionado a heterozigosidade. Ele assumiu que o nível de variação genética aditiva em equilíbrio era dependen- te de um balanço entre a perda devido à deriva e a renovação pela mutação. Usando informações sobre a taxa de mutação para uma característica quantitativa, ele concluiu que um tamanho efetivo de 500 indivíduos era necessário para manter o nível original da variação genética aditiva. Lande sugeriu que era necessário um valor de 5000, argumentan- do que somente cerca de 10% das novas mutações geradas são úteis para mudanças genéticas futuras, uma vez que a maioria é deletéria. Embora tenha havido reservas em relação a essa estimativa, em geral é aceito que um tamanho efetivo entre 500 e 5000 seja necessário para reter o potencial evolutivo em curto prazo. O tamanho de censo em populações selvagens deve ser aproxima- damente uma ordem de magnitude maior do que o valor de N e que calculamos, ou seja, 5000-50000, uma vez que estimativas compreen- sivas de N e /N são aproximadamente 0,1 (Capitulo 4). Isso aumenta o ta- manho mínimo necessário para manter a viabilidade em longo prazo, e encaixa-se dentro da faixa de valores obtidos a partir da consideração de outras ameaças não-genéticas. O destino das espécies com N e < 500 Espécies com tamanhos efetivos insufi cientes para a manutenção da diversidade genética em longo prazo não estão condenadas à extinção imediata. Em geral elas sofrerão diminuição da diversidade genética e redução da habilidade para evoluir. Elas se tornarão endogâmicas em uma taxa dependente de seu tamanho, com conseqüente redução nas taxas de reprodução e sobrevivência, e necessitarão de uma cres- cente intervenção humana para assegurar sua sobrevivência. Isso pode ocorrer através da melhoria ambiental (isolando-as de competidores, evitando a introdução de doenças, restaurando o habitat, etc.) ou do manejo para aumentar a reprodução e sobrevivência. Retenção da diversidade genética em longo prazo em um loco particular Alguns locos, tais como os locos de auto-incompatibilidade em plantas e os locos do sistema MHC em vertebrados, são tão importantes para a sobrevivência que é essencial reter sua diversidade genética. Os ta- manhos populacionais necessários para manter essa diversidade são muito maiores do que aqueles para caracteres quantitativos, uma vez que as taxas de mutação são baixas para locos individuais. Baseado no equilíbrio mutação-deriva, Lande & Barrowclough sugeriram que seria necessário um tamanho efetivo populacional entre 105-106. Esses tamanhos são inacessíveis para muitas espécies para as quais há uma preocupação conservacionista (especialmente vertebrados), dado a atual disponibilidade de habitat e de recursos para a conservação. De fato, populações estáveis desses tamanhos nem são consideradas como ameaçadas. O tamanho populacional necessário para manter a diver- sidade em locos sujeitos à seleção balanceadora (por exemplo, locos Populações selvagens na natureza requerem tamanho de censo de indivíduos adultos cerca de 10 vezes maior do que os valores de N e estimados acima, ou seja, de alguns milhares até dezenas de milhares de indivíduos Espécies onde o tamanho efetivo é menor que 500 indivíduos não estão fadadas à extinção imediata, mas se tornarão cada vez mais vulneráveis com o tempo Tamanhos efetivos populacionais entre 105-106 são necessários para reter a diversidade em um loco devido ao balanço entre mutação e deriva POPULAÇÕES GENETICAMENTE VIÁVEIS 93 do sistema SI e MHC) será menor do que esta estimativa, mas também pode ser uma meta inacessível. Tempo para recuperar a diversidade genética A perda da diversidade genética poderia ser pouco preocupante se ela fosse recuperada rapidamente por mutação. Entretanto, as taxas de mutação são muito baixas, de forma que os tempos de recuperação são longos (Tabela 5.1). A diversidade num loco com uma taxa de mutação de 10-5-10-7 por geração leva de 100000 a 10 milhões de gerações para ser recuperada. A variação genética quantitativa requer somente 100-1000 gerações para se recuperar – o equivalente a aproximadamente 2600- 26000 anos para elefantes! Uma vez que não podemos contar com as mutações para a recuperação da diversidade no espaço de tempo de interesse da conservação, todo esforço deve ser feito para preservar a diversidade genética existente. Evitando o acúmulo de novas mutações deletérias Os alelos que têm efeitos benéfi cos ou prejudiciais apenas pequenos sobre um caráter tornam-se efetivamente neutros em populações reduzidas. Ou seja, seu destino é determinado pelo acaso e não pelo seu coefi ciente de seleção. Assim, uma parte das novas mutações le- vemente deletérias se tornará homozigota em pequenas populações, resultando em um sucesso reprodutivo reduzido que poderá eventu- almente levar à extinção (esgotamento populacional mutacional). A signifi cância do acúmulo mutacional em populações de reprodução sexuada é controversa. As estimativas dos tamanhos efetivos popula- cionais necessários para prevenir declínios devido ao acúmulo muta- cional têm variado de 12 a 1000. Metas genéticas no manejo de populações selvagens Temos conhecimento de somente alguns poucos planos de manejo para espécies em perigo na natureza onde os objetivos genéticos são defi nidos. No mico-leão-dourado o objetivo é reter 98% da diversidade genética por 100 anos, o que corresponde a um N e ~ 400 indivíduos. Atualmente o tamanho do censo é de aproximadamente 600 indivídu- os selvagens, mais de 400 animais nas fl orestas resultantes de re-intro- duções, e aproximadamente 500 indivíduos em cativeiro. A taxa N e /N deve exceder a 0,27 para atingir este objetivo baseado em todos os ani- mais, ou 0,4 para os animais selvagens. Uma vez que isso é improvável, a meta genética não está sendo alcançada, primariamente em conse- qüência da falta de habitat disponível para a expansão populacional. Metas genéticas no manejo de populações de cativeiro: um compromisso Como discutido previamente, existe muito menos recursos disponíveis para manter todas as espécies que precisam ser reproduzidas em cati- veiro do que seria necessário, especialmente se os números recomen- dados acima fossem usados (isto é, N e = 500 por espécie). Os zoológicos alojam aproximadamente540000 vertebrados e, na melhor das hipó- teses, somente metade do espaço é apropriado para a propagação de Se a diversidade genética é perdida, ela pode ser recuperada apenas lentamente por mutação, levando centenas ou milhares de gerações para ser recuperada aos níveis originais Algumas mutações levemente deletérias são fi xadas pelo acaso em pequenas populações, resultando em sucesso reprodutivo reduzido. O tamanho das populações necessário para evitar tal efeito não é certo Poucos programas de manejo para espécies em perigo na natureza incluem objetivos genéticos Populações de cativeiro de espécies em perigo são geralmente manejadas para reter 90% de sua diversidade genética por 100 anos GENÉTICA E EXTINÇÃO94 animais em perigo. Estima-se que aproximadamente 2000 espécies de vertebrados necessitem da reprodução em cativeiro para prevenir a ex- tinção. Manter cada uma dessas espécies num tamanho efetivo de 500 indivíduos (assumindo N e /N = 0,3 em cativeiro) requer espaço para 3,3 milhões de animais, aproximadamente 12 vezes o espaço disponível. O compromisso atual é manejar as espécies em perigo em cativeiro para se conservar 90% da diversidade genética existente por 100 anos. O período de 100 anos é decorrente da esperança de que habitats sel- vagens poderão se tornar disponíveis após o declínio da população humana, previsto para ocorrer dentro de 100-200 anos. Baseado na equação 4.2 isso requer um N e de: e 475 =N L (5.4) onde L é o tempo de geração em anos. Conseqüentemente, o tamanho necessário é inversamente proporcional ao tempo de geração, uma das poucas circunstâncias onde as espécies de vida longa estão em vanta- gem. Por exemplo, o tamanho efetivo necessário para manter 90% da heterozigosidade original no camundongo-de-pata-branca é de 1769 in- divíduos, que tem um tempo de geração de 14 semanas, 475 indivíduos para uma espécie com uma geração por ano, e 18 para os fl amingos do Caribe com um tempo de geração de 26 anos. Embora manter 90% da diversidade genética por 100 anos possa ser um compromisso prático razoável, é improvável que todas as espécies que necessitem de reprodução em cativeiro possam ser alojadas. Além disso, o custo desse compromisso é o aumento do endocruzamento e a redução do sucesso reprodutivo. Uma perda aceitável de 10% da heterozigosidade corresponde a um aumento do coefi ciente de endo- cruzamento de 10% com conseqüente depressão endogâmica. Após 100 anos, os indivíduos nascidos em cativeiro serão relacionados uns aos outros como se fossem primos de primeiro grau (F = 0,0625) ou meio- irmãos (F = 0,125), reduzindo a sobrevivência juvenil em aproximada- mente 15% e o valor adaptativo total em cerca de 25%. Os custos sobre o valor adaptativo provavelmente serão maiores se as espécies forem posteriormente reintroduzidas dentro de ambientes selvagens severos. Assim, os programas de reprodução em cativeiro estão balanceando os riscos de endocruzamento moderado em 100 anos contra os benefícios da manutenção de mais espécies em perigo dentro dos recursos dispo- níveis. Esta não é uma escolha atrativa, mas é necessário. Análise de viabilidade populacional (PVA) O deterioramento genético é apenas uma parte dos processos de ame- aça enfrentados pelas espécies. Populações selvagens enfrentam uma série de ameaças tanto de fatores determinísticos como estocásticos que podem atuar, e interagir, para levar as populações à extinção. Con- seqüentemente, as questões genéticas devem ser consideradas num contexto amplo de conservação. Esta seção trata dessa conexão e está preocupada em acessar o risco de extinção a partir de todos os fatores. Então consideramos os meios para avaliar as opções de manejo para a recuperação das espécies em perigo e ameaçadas. A análise de viabilidade populacional acessa o impacto combinado dos fatores determinísticos e estocásticos sobre os risco de extinção, permitindo a avaliação de opções de manejo alternativas nos programas de recuperação das espécies ANÁLISE DE VIABILIDADE POPULACIONAL (PVA) 95 Avaliações do risco de extinção são necessárias para que as popu- lações possam ser classifi cadas de acordo com o risco relativo, e para que prioridades de conservação possam ser estabelecidas. Avaliações numéricas dos riscos podem ser fornecidas através da análise de viabi- lidade populacional (PVA). Aqui apresentamos uma breve introdução a este campo. Fatores determinísticos Fatores determinísticos são aqueles processos que têm uma direção e uma magnitude relativamente consistente. A maioria dos fatores de- terminísticos que causam declínio e extinção estão direta ou indireta- mente associados às ações humanas, a saber: Destruição do habitat para o desenvolvimento urbano e da agricul-• tura, etc. Super exploração para uso comercial ou recreativo• Poluição inadvertida e aplicação deliberada de pesticidas, herbici-• das, etc. Espécies exóticas introduzidas intencionalmente, ou por acidente • (por exemplo, a água de lastro dos navios, comércio internacional) Uma combinação dos fatores acima.• Enquanto a perda de habitat é o principal fator documentado, na maio- ria dos casos vários desses fatores se combinam para levar as espécies para a extinção. Além disso, esses fatores determinísticos reduzem os tamanhos populacionais ao ponto onde processos estocásticos adicio- nais podem se tornar signifi cantes e levar ao golpe fi nal. Fatores estocásticos Ao contrário dos fatores determinísticos, os processos estocásticos nas populações pequenas têm um grande componente do acaso com efeitos variando em direção e magnitude. Como brevemente visto no Capitulo 1, existem quatro formas de estocasticidade relevantes para o risco de extinção nas pequenas populações: Estocasticidade demográfi ca • Esta descreve as fl utuações naturais nas taxas de nascimento e morte, e razão sexual. A extinção pode ocorrer se, por acaso, todos os indivíduos em uma população pe- quena são estéreis, ou todos são de um mesmo sexo. Por exemplo, os últimos seis indivíduos do passeriforme Ammodramus maritimus nigrescens eram todos machos, um evento com uma probabilidade de (1/2)6 = 1,6%. Estocasticidade ambiental • As taxas de nascimento e morte podem variar devido à variações no ambiente, tais como fl utuações na pre- cipitação, temperatura, densidade de competidores, predadores, fontes de alimento, etc. Por exemplo, as taxas de nascimento e mor- te dos cangurus-vermelhos (Macropus rufus) são fortemente afetadas pela precipitação. Estocasticidade genética • Abrange a depressão endogâmica, a perda de variabilidade genética e o acúmulo de novas mutações deletérias. Catástrofes • Eventos ambientais extremos tais como ciclones, in- vernos severos, queimadas, inundações, erupções vulcânicas e Um número grande e crescente de espécies tem sido reduzido por fatores determinísticos associados direta ou indiretamente com as ações humanas Populações pequenas enfrentam ameaças adicionais: estocasticidade demográfi ca, ambiental e genética, e catástrofes Papagaio-de-Porto Rico GENÉTICA E EXTINÇÃO96 epidemias de doenças podem ser a causa fi nal das extinções. Por exemplo, um furacão causou um declínio signifi cante no número populacional do papagaio-de-Porto Rico, enquanto que recentemen- te os leões Africanos em Serengeti sofreram alta mortalidade devido à cinomose, e muitas espécies de sapos em todo o mundo estão sen- do levados à extinção por uma doença causada por fungos. Interação dos fatores estocásticos Os impactos combinados dos fatoresestocásticos são mais danosos do que a soma de seus efeitos individuais. A pressão humana geralmente leva a tamanhos populacionais pequenos. Isso promove o endocru- zamento e conseqüente redução nas taxas de nascimento e sobrevi- vência. Por outro lado, isso causa ainda mais redução no tamanho populacional, aumento da instabilidade demográfi ca e um mergulho cíclico para a extinção, chamado de vórtex de extinção (Fig. 5.6). Fig 5.6 O vórtex de extinção. Este descreve as possíveis interações entre os impactos humanos, endocruzamento, perda de diversidade genética e instabilidade demográfi ca numa espiral rumo à extinção. Fatores estocásticos operam em um ciclo retroalimentado chamado de “vórtex de extinção” A variação no tamanho da população devido à estocasticidade demo- gráfi ca e ambiental e às catástrofes reduz o tamanho efetivo da popula- ção e aumenta a taxa de endocruzamento, aumentando assim o risco de extinção. Impactos combinados A ameaça total sofrida por uma população é o efeito combinado de fa- tores determinísticos e fatores estocásticos demográfi cos, ambientais e genéticos, mais a ocorrência ocasional de catástrofes. Conseqüente- mente, as ações para recuperar espécies ameaçadas devem visar não apenas as causas originais do declínio (geralmente fatores determinís- ticos), mas também as ameaças estocásticas adicionais. A identifi ca- ção dos fatores mais importantes que estão determinando o risco de extinção pode ajudar a identifi car possíveis ações corretivas para as populações ameaçadas. A análise de viabilidade populacional (Fig. 5.7) é usada para prever o risco de extinção a partir dos impactos combina- dos de todas as ameaças determinísticas e estocásticas. O risco de extinção refl ete os impactos combinados e as interações de todos os fatores determinísticos e estocásticos ANÁLISE DE VIABILIDADE POPULACIONAL (PVA) 97 Previsão das probabilidades de extinção: análise de viabilidade populacional (PVA) As PVAs geralmente são realizadas através da entrada de dados, num programa de computador, de informações sobre: Taxas de nascimento, sobrevivência e suas variâncias• Número de populações• Tamanhos populacionais• Capacidade do habitat• Freqüência e efeitos das ameaças (por exemplo, catástrofes, caça, etc.)• Outros detalhes sobre a história de vida da espécie (por exemplo, • suscetibilidade a depressão endogâmica, taxas de fl uxo gênico entre as populações, etc.). Realizam-se então projeções sobre as populações no tempo futuro (Fig. 5.8). Os conceitos usados nos programas de simulação computacional são baseados no conhecimento acumulado por mais de 100 anos de pesquisa em demografi a populacional, ecologia e genética. Um exem- plo do tipo de informação necessária para rodar uma PVA no pacote do programa VORTEX é dado para o mico-leão-dourado na Fig. 5.9. As PVAs são usadas para prever o risco de extinção numa espécie em particular, para comparar opções alternativas de manejo para re- cuperar uma espécie ameaçada, e como uma ferramenta de pesquisa. Quando utilizadas para comparar opções de recuperação, elas podem acessar os impactos do controle da caça, os impactos da remoção de um predador, etc. Fig 5.7 As análises de viabilidade populacional (PVA) modelam os efeitos de diferentes histórias de vida, ambiente e fatores de ameaça, sobre o tamanho populacional e o risco de extinção das populações ou espécies. Fig 5.8 Ciclo de eventos em uma análise de viabilidade populacional (PVA), a medida em que ela progride através das gerações. GENÉTICA E EXTINÇÃO98 Muitas réplicas da simulação (geralmente 500-1000) são conduzidas para um determinado conjunto de dados de entrada, uma vez que as projeções para uma população irão variar entre essas simulações esto- cásticas. Por exemplo, a variação entre as réplicas simuladas para da ave Zosterops lateralis chlorocephalus (todas utilizando dados iniciais idên- ticos) é mostrada na Fig. 5.10. Os resultados geralmente são resumidos considerando-se todas as simulações. As PVAs geralmente fornecem os tamanhos populacionais, a taxa de crescimento, a proporção das si- mulações onde ocorreu extinção, e algumas reportam a proporção da heterozigosidade retida. Fig 5.9 Exemplo das informações utilizadas como dados de entrada numa simulação da análise de viabilidade populacional (PVA) para o mico-leão-dourado, usando o pacote computacional VORTEX (depois de Ballou et al. 1998). O exemplo apresentado é de apenas uma das várias populações dessa espécie. EV é a variação ambiental para o parâmetro. As variáveis de entrada são explicadas no manual do programa VORTEX. As réplicas das simulações realizadas pelo programa de PVA, usando os mesmos parâmetros de entrada de dados, fornece trajetórias populacionais amplamente variáveis em conseqüência da variação estocástica ANÁLISE DE VIABILIDADE POPULACIONAL (PVA) 99 Genética e PVA A depressão endogâmica é o único fator genético incorporado nas PVAs. Para sua incorporação precisamos saber: A susceptibilidade da espécie à depressão endogâmica• Quais componentes do valor adaptativo são afetados pelo endocru-• zamento (sobrevivência, fecundidade) A extensão do isolamento entre fragmentos, ou seja, as taxas de mi-• gração e de fl uxo gênico, uma vez que estes afetam o coefi ciente de endocruzamento O sistema de reprodução (exogamia • vs. autofertilização, monogamia vs. poligamia vs. hermafroditismo, etc.); este afeta o N e O tamanho populacional e a razão sexual.• Como discutido acima, as PVAs têm revelado que a depressão endogâ- mica aumenta substancialmente o risco de extinção para uma gama de espécies. Quão úteis são as previsões das PVAs? A principal limitação da PVA é que os dados existentes sobre a história de vida para a maioria das espécies ameaçadas são insufi cientes. Uma análise completa da viabilidade pode, portanto, não ser possível, ou elas podem ter baixa confi abilidade. Entretanto, as contribuições mais importantes das estimativas de risco utilizando PVA não vêm necessa- riamente da avaliação quantitativa dos riscos de extinção propriamen- te dito. Ao contrário, o processo de conduzir uma PVA envolve: A compilação das informações sobre a historia de vida da espécie• A identifi cação de todos os processos de ameaça agindo sobre ela• Os PVAs mostram que a depressão endogâmica freqüentemente aumenta o risco de extinção nas espécies ameaçadas Com freqüência, o maior valor de um PVA é o seu uso como uma ferramenta para ajudar no planejamento da recuperação de espécies ameaçadas, pra permitir a adaptação do manejo, para determinar os pontos fracos e para comparar opções de recuperação, ao invés de fornecer previsões acuradas do risco de extinção Fig 5.10 Variabilidade estocástica entre réplicas de simulações de PVA em projeções para a população da ave Zosterops lateralis chlorocephalus da Ilha Heron, Great Barrier Reef, Austrália (dados de Brook & Kikkawa 1998). Os dados de entrada são idênticos para todas as simulações; a variabilidade observada resulta do fato de que o programa computacional usa geradores de números randômicos para mimetizar a estocasticidade demográfi ca, ambiental e catastrófi ca natural para as populações. Quanta variabilidade é adicionada pelo gerador de números randômicos depende do tamanho populacional, da teoria de amostragem e da variância das taxas fornecida pelos dados de entrada. A linha em negrito é o tamanho observado da população de Z. lateralis chlorocephalus. Zosterops lateralis chlorocephalus GENÉTICA E EXTINÇÃO100 O acesso da provávelimportância desses processos (análise • sensitiva) A identifi cação de potenciais estratégias de recuperação e a avalia-• ção de seus impactos relativos A identifi cação das defi ciências de conhecimento sobre as espécies, • e a formulação de propostas de pesquisas para remediá-las. Assim, benefícios consideráveis podem ser obtidos através do processo de PVA, mesmo se as previsões quantitativas não forem adequadamen- te acuradas. A PVA proporciona um processo de planejamento trans- parente que deve ter consistência interna. Além disso, o processo de recuperação pode ser operado de uma maneira adaptativa. As proje- ções da PVA podem ser atualizadas à medida que mais informações sobre as espécies são acumuladas, e práticas de manejo podem ser mo- duladas à luz das previsões da PVA. Tamanhos populacionais mínimos viáveis (PMV) Como habitat e recursos fi nanceiros são limitados, é essencial que de- terminemos os tamanhos mínimos e as áreas de habitat necessárias para manter populações viáveis em longo prazo. A PVA foi originalmen- te inventada para determinar o tamanho populacional mínimo viável (PMV) e a área de habitat para o urso-cinzento (Ursus arctos horribilis). Diferentes estimativas do tamanho necessário, baseadas em uma variedade de argumentos teóricos e dados empíricos, são apresentadas na Tabela 5.2. Com base em evidências empíricas, Thomas sugeriu que uma população com 10 indivíduos é muito pequena, 100 é geralmente Há um consenso de que o tamanho necessário para que uma população seja viável em longo prazo é de, ao menos, milhares até dezenas de milhares de indivíduos Tabela 5.2 | Tamanhos necessários para a viabilidade das populações em longo prazo para superarem as diferentes ameaças. A variação refere-se à tendência para o tamanho populacional fl utuar. N e N Ameaça 1. Perda da diversidade genética 500-5000 5000-50000 2. Acúmulo mutacional 1000 10000 3. Estocasticidade demográfi ca 10s-100 4. Estocasticidade ambiental 1000+ 5. Catástrofes 1000+ Dados Empíricos (Thomas 1990) Aves e mamíferos: Variação média 1000 Variação alta 10000 Insetos Variação média 10000 Variação alta 100000 PVAs para 100 espécies de vertebrados >6000 Fonte: Thomas (1990); Nunney & Campbell (1993); Reed et al. (2003). ANÁLISE DE VIABILIDADE POPULACIONAL (PVA) 101 inadequado, 1000 é adequado para espécies com variabilidade típica no tamanho populacional, enquanto que 10.000 deve permitir uma persistência em médio e longo prazo de aves e mamíferos que mostram grandes fl utuações no tamanho populacional. O tamanho necessário não é universal e é amplamente aceito que depende fortemente dos detalhes da biologia da espécie, do ambiente que ela ocupa e dos tipos de ameaça enfrentados pelas mesmas. Entretanto, esses pressupostos podem ser um artefato devido ao fato da avaliação ser realizada para um número fi xo de anos, uma vez que as previsões dos PMVs para 99% de persistência por 40 gerações foram relativamente consistentes para os principais taxa e ambientes em um estudo com 100 espécies. Pelos dados mostrados na Tabela 5.2 fi ca claro que as populações de- vem ter um número de ao menos alguns milhares de indivíduos para serem viáveis em longo prazo. Tanto o tamanho populacional utilizado como referência para que as espécies sejam listadas como ameaçadas, como o tamanho populacional utilizado como meta de recuperação para as espécies protegidas sob a lei das espécies ameaçadas dos USA, são muito pequenos. O tamanho médio na lista é aproximadamente 1000 indivíduos para animais e 100 para plantas. Além disso, o tama- nho populacional médio para um táxon ser considerado recuperado é de aproximadamente 1550 indivíduos. Uma implicação preocupante desses números é que mesmo as maiores reservas (com exceção da Antártica) são muito pequenas para manter tamanhos populacionais adequados para a sobrevivência, por um longo prazo, dos grandes herbívoros e especialmente grandes carnívoros. SUGESTÕES DE LEITURA Frankham, R., J. D. Ballou & D. A. Briscoe. 2002. Introduction to Conservation Genetics. Cambridge University Press, Cambridge, UK. Chapters 2, 12, 14 and 20 have extended treatments of these topics, along with references. Beissinger, S. R. & D. R. McCullough. 2002. Population Viability Analysis. University of Chicago Press, Chicago, IL. Proceedings of a conference on PVA. See especially contributions by Mills & Lindberg, Ralls et al. and Shaffer et al. Ecological Bulletin. 2000. Volume 48: Population Viability Analysis. Special issue on PVA. See especially papers by Akc¸akaya & Sj¨ogren- Gulve, Akc¸akaya, and Lacy. Ralls, K., J. D. Ballou & A. Templeton. 1988. Estimates of lethal equivalents and the cost of inbreeding in mammals. Conservation Biology 2, 185-- 193. Classic paper on the impacts of inbreeding on captive mammals. Saccheri, I., M. Kuussaari, M. Kankare, P. Vikman, W. Fortelius & I. Hanski. 1998. Inbreeding and extinction in a butterfl y metapopulation. Nature 392, 491--494. Describes the fi rst direct evidence that inbreeding contributes to the extinction of wild populations in nature. Westemeier, R. L., J. D. Brawn, S. A. Simpson, T. L. Esker, R. W. Jansen, J. W. Walk, E. L. Kershner, J. L. Bouzart & K. N. Paige. 1998. Tracking the long-term decline and recovery of an isolated population. Science 282, 1695--1698. Describes the decline of a small, isolated greater prairie chicken population in Illinois due to loss of genetic diversity and Os tamanhos populacionais usados para incluir ou retirar uma espécie da lista de espécies ameaçadas são geralmente menores do que aqueles recomendados acima GENÉTICA E EXTINÇÃO102 inbreeding, and its recovery following introduction of unrelated birds from other states. Young, A. G., A. H. D. Brown, B. G. Murray, P. H. Thrall & C. H. Miller. 2000. Genetic erosion, restricted mating and reduced viability in fragmented populations of the endangered grassland herb Rutidosis leptorrhynchoides. Pp. 335--359 in A. G. Young & G. M. Clarke, eds. Genetics, Demography and Viability of Fragmented Populations. Cambridge University Press, Cambridge, UK. Describes fi tness consequences of loss of genetic diversity for self-incompatibility alleles in an endangered plant. Capítulo 6 Resolução de incertezas taxonômicas e defi nição de unidades de manejo O status taxonômico dos organismos deve ser estabelecido acuradamente para que não seja negada proteção às espécies em perigo, e nem esforços sejam perdidos com espécies abundantes. A informação genética ajuda na resolução de incertezas taxonômicas e na defi nição de unidades de manejo dentro das espécies. Termos Alopátrico, alopoliploidia, autopoliploidia, conceito biológico de espécie, espécies crípticas, permutabilidade ecológica, unidade evolutiva signifi cativa (ESU), permutabilidade, distância genética, fi xação independente de alelos, unidade de manejo, depressão exogâmica, árvores fi logenéticas, poliploidia, especiação, subespécies, simpatria, taxa Wallabies-dos-rochedos na Austrália, com os cromossomos de uma amostra das espécies. Muitas estão em perigo. Métodos genéticos têm ajudado a resolver as incertezas taxonômicas nesse grupo. RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO104 Importância da exatidão taxonômica na biologia da conservação O status taxonômico de muitos taxa não está resolvido. Isso é particu- larmente verdadeiro para plantas inferiores e animais invertebrados, mas também se aplica a animais grandes e óbvios, incluindo os veados, wallabies e lobos. Em conservação muitas decisões erradas podem ser tomadas se ostatus taxonômico das populações não estiver determinado correta- mente. Isso inclui: Podemos deixar que espécies não reconhecidas que estão em perigo • tornem-se extintas Espécies em perigo podem fi car sem proteção legal, enquanto que • populações de espécies comuns, ou híbridos entre espécies, podem ter proteção garantida Espécies diagnosticadas incorretamente podem ser hibridadas com • outras espécies, resultando em redução do sucesso reprodutivo Recursos podem ser desperdiçados com espécies abundantes ou po-• pulações híbridas Populações que poderiam ser usadas para melhorar o valor adapta-• tivo das populações endogâmicas podem ser esquecidas Este capítulo explora o raciocínio e as metodologias utilizadas para defi nir o status taxonômico. Uma abordagem semelhante é usada para distinguir unidades de manejo dentro das espécies, uma vez que o cru- zamento de populações geneticamente diferenciadas pode resultar na redução do valor adaptativo (depressão exogâmica) e no rompimento de grupos evolutivos únicos. As incertezas taxonômicas resultam, predominantemente, da au- sência de dados adequados. A descrição de muitas espécies é basea- da em informações limitadas sobre a distribuição geográfi ca de um pequeno número de características (geralmente morfológicas) de base genética desconhecida. Os vermes-de-veludo (Filo Onychophora) na Austrália proporcionam um exemplo extremo. Apenas sete espécies foram reconhecidas em uma revisão de 1985, baseada na morfologia. Entretanto, mais de 100 espécies claramente divergentes são agora identifi cadas usando aloenzimas e microssatélites. O “agrupamento” incorreto de várias espécies distintas dentro de uma espécie reconhecida tem deixado sem proteção espécies em pe- rigo. Sabemos agora que as tuataras ameaçadas na Nova Zelândia, os únicos membros sobreviventes de uma antiga ordem de répteis, inclui duas espécies, uma das quais estava em sério risco de extinção (Box 6.1). Da mesma maneira, a ameaçada tartaruga-de-Kemp (Lepidochelys kempii) é uma espécie geneticamente distinta, ao invés de ser uma es- pécie relacionada e não ameaçada como era previamente imaginado. A sua proteção é agora promovida. Helianthus exilis, um girassol da Ca- lifórnia, não era protegido por ser proximamente relacionado a outro girassol com o qual hibridava. Entretanto, a análise genética molecular identifi cou H. exilis como uma espécie em perigo distinta e merecedora de conservação. Muitas decisões inapropriadas de conservação podem ser feitas se o status de um táxon está incerto Verme-de-veludo IMPORTÂNCIA DA EXATIDÃO TAXONÔMICA NA BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO 105 Quadro 6.1 Incerteza taxonômica em tuataras e pumas da América do Norte, e suas implicações para a conservação (Daugherty et al. 1990; Culver et al. 2000) TUATARA As tuataras ameaçadas na Nova Zelândia são os únicos sobreviventes de uma ordem primitiva de répteis, e pensava-se tratar de uma única espécie. Estudos de diferentes populações de ilhas usando 25 locos de aloenzimas e dados de morfologia revelaram que elas consistem de três grupos distintos, Sphenodon punctatus punctatus no norte, uma subespécie no oeste do Estreito de Cook (S. p. western), e S. guntheri. A última era negligenciada e encontrava-se em sério risco de extinção sem um manejo ativo de conservação. PUMAS DA AMÉRICA DO NORTE Os mastozoólogos reconheciam aproximadamente oito subespécies morfológicas de pumas norte-americanos (também chamados de cougars, panteras e leões- da-montanha), incluindo a criticamente em perigo puma-da-Flórida. Entretanto, a análise através de marcadores microssatélites e DNA mitocondrial não encontrou nenhuma diferenciação signifi cativa entre as populações, mas separou-as das subespécies da América do Sul. Uma implicação importante para a conservação é que o número de subespécies separadas que necessitam de conservação é reduzido. Além disso, a controversa decisão recente de aumentar a população de pumas-da-Flórida utilizando indivíduos da subespécie do Texas para remover a depressão endogâmica, pode agora ser reconhecida como uma ação de manejo lógica envolvendo apenas a simples translocação de indivíduos, e não como uma decisão controversa de hibridar subespécies distintas. Tuatara Puma RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO106 Por outro lado, a divisão de uma espécie em dois ou mais taxa reco- nhecidos pode levar a decisões conservacionistas errôneas. Duas joani- nhas raras da Nova Zelândia (Prodontria sp.), previamente considerados diferentes espécies, pertencem a uma única espécie, como mostrado pela análise de dados de aloenzimas. Similarmente, não existe diferen- ciação genética entre as oito subespécies morfologicamente reconhe- cidas dos pumas norte-americanos, incluindo a puma criticamente em perigo da Flórida (Box 6.1). A distinção das corujas-pintadas (Strix occidentalis) do norte e da Califórnia, no oeste dos Estados Unidos, é bastante controversa. A hibridação entre populações cujas taxonomias é incorreta tem cria- do problemas em algumas ações de conservação. Por exemplo, o único exemplar do pássaro dusky sea (Ammodramus maritimus nigrescens) restante foi hibridado sem sucesso com uma subespécie inapropriada e tornou- se extinto. A infertilidade em uma população de cativeiro do antílope dik-dik (Madoqua sp.) foi devido à mistura de diferentes raças cromossô- micas (provavelmente espécies não descritas), e um problema similar foi encontrado em macacos-da-noite (gênero Aotus). Inversamente, a última coruja-boobook da Ilha Norfolk (Ninox novaeseelandiae undulata) foi hibri- dada com sucesso ao seu taxon mais próximo da Nova Zelândia. Híbridos entre espécies comuns têm algumas vezes sido erroneamente identifi ca- dos como espécies raras que necessitam de conservação. A falha para reconhecer o grau de diferenciação genética entre as subespécies (possivelmente espécies separadas) de orangotangos de Bornéo e Sumatra levou à sua hibridação em muitos zoológicos. A preocupação com a possível hibridação também tem infl uenciado as decisões de manejo em direção oposta. Por exemplo, duas populações de lobos-mexicanos (Canis lupus baileyi) foram mantidas separadas de uma população “pura” pequena e endogâmica, uma vez que esta era incorretamente suspeita de haver hibridado com cachorros, coiotes ou lobos-cinzentos (ver Capítulo 9). Na prática, a taxonomia de grupos particulares de populações ge- ralmente pode ser resolvida com sufi cientes dados morfológicos, repro- dutivos e genéticos. Marcadores genéticos, incluindo cromossomos, aloenzimas, microssatélites, fi ngerprint de DNA e DNA mitocondrial, freqüentemente ajudam. Entretanto, para compreender esse uso dos marcadores genéticos, precisamos primeiro rever o que se quer dizer por espécie biológica, o que queremos conservar, e como as populações se diferenciam e se tornam novas espécies. O que é uma espécie? A maior parte das espécies nomeadas têm sido delimitadas, com base em caracteres morfológicos, como grupos de indivíduos que são dis- tintos de todos os outros grupos. A defi nição morfológica das espécies, entretanto, pode ter conexão limitada com a genética ou evolução. Al- guns grupos de indivíduos parecem inicialmente indistinguíveis mor- fologicamente, mas são compostos por duas ou mais espécies distintas (espécies crípticas). Os veados-muntjac da China (Muntiacus reevesi) e Índia (Muntiacus muntjak) são morfologicamente similares, ainda que o primeiro tenha 46 cromossomos e último tenha 6 cromossomos nos Não existe uma defi nição de espécie universalmente aceita SUBESPÉCIES 107 machos e 7 nas fêmeas, sendo claramente espécies distintas. De modo confuso, não existe uma defi nição universalmente aceitapara responder a questão “O que é uma espécie?”. Existem pelo me- nos 22 defi nições. Essas incluem desde defi nições baseadas em mor- fologia, ecologia e genética até defi nições baseadas em características biológicas, história evolutiva e fi logenia. Algumas defi nições podem, e isso têm acontecido, classifi car os sexos de uma espécie como espécies separadas. Outras defi nições mais úteis são baseadas em unidades evo- lutivas e fl uxo gênico. O conceito biológico de espécie tem sido a defi nição de espécie mais aceita na genética populacional e evolutiva e na biologia da conserva- ção. Essa defi ne uma espécie como um grupo de indivíduos e populações naturais que na prática, ou potencialmente, se intercruzam e que não cruzam com indivíduos de outros grupos. Essa defi nição reconhece que indivíduos dentro de uma espécie podem trocar material genético, en- quanto que aqueles de diferentes espécies normalmente não o fazem. Essa defi nição proporciona um meio prático para delimitar geneti- camente as espécies. Grupos de indivíduos compartilhando a mesma área estarão trocando material genético se eles pertencerem à mesma espécie, mas não se eles pertencerem a espécies separadas. Populações da mesma espécie separadas geografi camente serão capazes de cruzar e produzir descendentes férteis na primeira geração e nas gerações subseqüentes. De modo oposto, populações de espécies diferentes irão falhar no acasalamento ou produzirão descendentes com sobrevivên- cia e fertilidade reduzida. Por exemplo, leões e tigres podem ser hibri- dados, mas suas progênies serão estéreis. O conceito biológico de espécie não trata adequadamente com for- mas assexuadas e habitualmente endogâmicas, torna-se confuso para espécies que hibridam, e possui pouca relevância para a classifi cação de espécimes fósseis. Dada essas limitações, não é de surpreender que o conceito biológico de espécie seja controverso. A lei norte-americana de espécies ameaçadas (US Endangered Species Act) é baseada no concei- to biológico de espécie, mas tem encontrado difi culdades por excluir híbridos da conservação e por não lidar adequadamente com formas assexuadas. A falta de uma defi nição reconhecidamente universal para espécie cria enormes difi culdades na biologia da conservação. Subespécies Freqüentemente as subespécies ameaçadas recebem proteção da lei e são focos de substancial esforço de conservação. Subespécies são agru- pamentos de populações dentro de uma espécie que compartilham uma distribuição geográfi ca ou habitat únicos, e que são distinguíveis de outras subdivisões da espécie em várias características com base ge- nética. Membros de diferentes subespécies normalmente não exibem um isolamento reprodutivo marcante. Eles geralmente podem produ- zir descendentes férteis, embora possa haver alguma redução na fertili- dade ou na sobrevivência desses descendentes. O cruzamento entre as subespécies de orangotangos de Bornéo e Sumatra produz descenden- tes férteis sem nenhuma redução aparente na taxa de sobrevivência. As defi nições de espécie geralmente reconhecem que indivíduos dentro de uma espécie exogâmica podem trocar material genético entre si, mas não com indivíduos de outras espécies Subespécies são populações parcialmente diferenciadas dentro de uma espécie RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO108 O conceito de subespécie é mais subjetivo do que o conceito de espécie. Elas podem ser consideradas mais adequadamente como po- pulações à parte no processo evolutivo de divergência em direção à especiação completa. Populações distintas dentro da espécie e das subespécies tam- bém podem receber proteção da lei, como descrito mais adiante no capítulo. Como uma espécie surge? As espécies surgem de duas formas. A primeira é pela diversifi cação, quando uma espécie anterior dá origem a duas ou mais espécies des- cendentes. Isto ocorre quando as populações diferenciam-se genetica- mente, tornam-se reprodutivamente isoladas e são ditas especiadas. A especiação freqüentemente envolve o isolamento físico ao menos parcial. A segunda forma é através de uma mudança gradual dentro de uma espécie ao longo do tempo, de tal forma que ela seja considerada uma espécie diferente num tempo futuro. Neste capítulo, nos preocu- paremos com a diversifi cação das espécies. Fatores de isolamento Os fatores de isolamento físico são resultantes, com freqüência, de mudanças geográfi cas (aparecimento de montanhas, desertifi cação, divisão de rios, mudanças no nível do mar e deriva dos continentes) ou da expansão de organismos para novos territórios. Se as populações isoladas tornam-se tão diferentes de forma que elas não se intercruzam após um contato secundário, então a especiação é chamada alopátrica. Essa é geralmente considerada a forma mais comum de especiação nos animais. A especiação também pode ocorrer dentro da distribuição da es- pécie ancestral, tal como ocorre quando uma espécie dispersa de um hospedeiro para outro. Isso é chamado de especiação simpátrica. Por exemplo, a mosca-das-frutas Rhagoletis pomonella, que realiza a corte e o acasalamento sobre as frutas em desenvolvimento de suas plan- tas hospedeiras, começaram a utilizar maçãs em 1864 e cerejas em 1960. Como essas árvores possuem períodos de frutifi cação levemente diferentes, isso proporcionou um mecanismo de isolamento e forças seletivas levaram à diferenciação entre as populações nos diferentes hospedeiros. Essa pode ser uma forma comum de especiação em para- sitas. Evidências sobre a importância da especiação simpátrica estão sendo acumuladas. Evidências recentes indicam que a adaptação a diferentes ambien- tes tem um papel importante, ou mesmo predominante, no desenvol- vimento do isolamento reprodutivo. Por exemplo, o peixe esgana-gata (Gasterosteus aculeatus) de três populações isoladas em lagos no oeste do Canadá desenvolveram, independentemente, formas bentônicas e limnéticas com diferentes tamanhos e dietas, depois da retração gla- cial há 10.000 anos atrás. As formas bentônicas e limnéticas de dife- rentes lagos não são reprodutivamente isoladas. Entretanto, as formas bentônicas versus limnéticas dos mesmos lagos ou de lagos diferentes mostram isolamento reprodutivo. A especiação envolve a divergência genética das populações até que elas estejam reprodutivamente isoladas As populações podem se tornar isoladas por características geográfi cas (alopatria) ou por uma mudança (por exemplo, mudança de hospedeiro) dentro do mesmo ambiente (simpatria) O isolamento reprodutivo surge da adaptação a diferentes ambientes COMO UMA ESPÉCIE SURGE? 109 Especiação “instantânea” Muitas espécies de plantas surgiram “instantaneamente” via poliploi- dia quando o número cromossômico aumentou, por exemplo, para 4n (tetraplóide). Essas formas são, em grau elevado, reprodutivamente isoladas de seus progenitores. Por exemplo, a sequóia (Sequoia sempervi- rens) é um hexaplóide com 66 cromossomos enquanto seu parente vivo mais próximo tem 2n = 22. Existem duas formas de poliploidia, autopoliploidia e alopoliploi- dia. Os autopoliplóides se formam pelo aumento do número de con- juntos cromossômicos de uma espécie, aparentemente pela produção de gametas diplóides. Por exemplo, existem formas diplóides (2n = 22) e autotetraplóides (4n = 44) da espécie em perigo de margarida-das- savanas no leste da Austrália. Espécies alopoliplóides originam-se pela combinação de conjuntos cromossômicos completos de duas espécies pré-existentes, como des- crito para a rara orquídea autotetraplóide de Hong Kong (Spirantheshongkongensis) da Fig. 6.1. Essa forma de poliploidia é muito mais co- mum na natureza do que a autopoliploidia. Muitas espécies de plantas têm sido formadas “instantaneamente” devido a poliploidia Fig 6.1 Especiação “instantânea” na rara orquídea de Hong Kong através de alopoliploidia (após Sun 1996). A orquídea rara Spiranthes hongkongensis surgiu pela combinação de complementos cromossômicos completos de duas espécies distintas, cada uma com 30 cromossomos (S. sinensis e S. spiralis), produzindo uma espécie com 60 cromossomos. O provável modo de formação de S. hongkongensis é indicado acima. O cruzamento inicial entre as espécies progenitoras diplóides produziu um híbrido estéril. Uma duplicação espontânea do número de cromossomos, presumidamente em um botão de fl or (ou a produção de gametas diplóides raros) gerou gametas que formaram um alopoliplóide fértil. Evidências de aloenzimas indicam que o autotetraplóide S. hongkongensis formou-se somente uma vez já que todos os indivíduos têm o mesmo genótipo multiloco. Esta orquídea pode cruzar com seu progenitor diplóide S. sinensis, mas as progênies são triplóides inférteis. RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO110 A freqüência de poliploidia varia entre os taxa de plantas, sendo 47-70% em angiospermas, 95% em pteridófi tas, mas apenas 5% em gimnospermas. A poliploidia é muito mais rara em animais (especial- mente em mamíferos e aves) do que em plantas. Poliplóides que se reproduzem sexuadamente são conhecidos em alguns poucos grupos de peixes e sapos, mas animais poliplóides são mais freqüentemente partenogenéticos (reprodução a partir de um óvulo não fertilizado), como por exemplo, em alguns anfíbios, répteis e insetos. Animais poli- plóides de interesse da conservação incluem muitas espécies de peixes salmonídeos tetraplóides. A especiação geralmente é lenta A maior parte da especiação ocorre gradualmente através de longos períodos de tempo, presumidamente em milhares ou milhões de anos. Por exemplo, algumas populações de plantas isoladas geografi camente por pelo menos 20 milhões de anos, tais como os plátanos (Platanus sp.) e bananas (Musa) na América e Ásia, ainda formam híbridos férteis. Si- milarmente, algumas aves distribuídas na Europa e América, tais como os pássaros das famílias Paridae e Certhidae e corvos, são tão semelhan- tes que eles são classifi cados como da mesma espécie. Alguns casos de especiação têm sido mais rápidos, mas continuam levando muitos milhares de anos. Por exemplo, algumas populações de ursos polares (Ursus maritimus) e de roedores da subfamília Arvicolinae (Cricetidae) separadas pela glaciação no Pleistoceno, ocorrida a 1,8 milhão de anos atrás, desenvolveram isolamento reprodutivo ao menos parcial. Em média, moscas-das-frutas (o melhor grupo estudado) levam entre 1,5- 3,5 milhões de anos de separação para especiar. Entretanto, as moscas- de-frutas Havaianas se especiaram em apenas 500000 anos. Os peixes ciclídeos no Lago Nabugabo, na África, especiaram-se dentro de 4000 anos. Cerca de 170 espécies de ciclídeos evoluíram no Lago Vitória den- tro de 500000-750000 anos. Elas estão agora sendo exterminadas pela introdução de um peixe carnívoro. A especiação simpátrica nas moscas Rhagoletis, mencionada previamente, é um dos exemplos mais rápidos. Como a evolução é um processo contínuo, algumas populações se- rão observadas no meio do caminho do processo de especiação. Elas são parcialmente diferenciadas, mostram algum isolamento reprodu- tivo e são muito difíceis de serem classifi cadas. As subespécies podem representar populações que estão caminhando em direção ao status de espécie completa. Os wallabies-dos-rochedos da Austrália (mostrados na página inicial deste capítulo), muitos dos quais estão em perigo, são exemplos de populações “pegas no ato” de especiação. As populações e espécies mostram vários graus de diferenciação na morfologia, cro- mossomos, aloenzimas e DNAmt. Muitas exibem somente isolamento reprodutivo parcial, e existem várias zonas de hibridação. Uso de análises genéticas na delimitação de espécies As análises usando marcadores genéticos geralmente podem ajudar na delimitação de espécies, mas isso é mais defi nitivo para populações simpátricas do que para alopátricas. A especiação geralmente leva de milhares a milhões de anos, com exceção daquela devido a poliploidia USO DE ANÁLISES GENÉTICAS NA DELIMITAÇÃO DE ESPÉCIES 111 Uso de análises genéticas na delimitação de espécies simpátricas Populações simpátricas compartilham, ou sobrepõem, a mesma distri- buição geográfi ca. De acordo com o conceito biológico de espécie, po- pulações simpátricas da mesma espécie devem trocar alelos, enquanto que diferentes espécies compartilhando a mesma região geográfi ca não o fazem. Conseqüentemente, se qualquer marcador genético mostra ausência de troca gênica, duas populações simpátricas pertencentes a diferentes espécies são identifi cadas. Na prática, vários locos são ne- cessários para tal diagnóstico. Por exemplo, foi demonstrado que duas formas simpátricas de ratos-canguru (pequenos marsupiais pertencen- tes ao gênero Potorous) no sudeste da Austrália eram diferentes espécies com base nos seus diferentes números de cromossomos e na ausência de alelos compartilhados em cinco locos de aloenzimas (Fig. 6.2). As duas formas são, claramente, reprodutivamente isoladas. O rato-can- guru-de-patas-longas (Potorous longipes) existe em número muito baixo e é uma espécie em perigo. Morfologicamente similares, os vermes-de- veludo (Peripatus sp.) de um mesmo tronco de árvore nas Montanhas Azuis, em Sidney, Austrália, fi xaram diferenças em 86% dos 21 locos de aloenzimas. Conseqüentemente, eles são espécies claramente diferen- tes que divergiram a milhões de anos atrás. Se duas populações simpátricas compartilham alelos em todos os locos, então a hipótese de que eles são a mesma espécie não pode A análise genética pode ser utilizada para fornecer um diagnóstico defi nitivo do status taxonômico de populações simpátricas Fig 6.2 Dois ratos-cangurus simpátricos no sudeste da Austrália pertencem a espécies separadas, como indicado pela falta de troca de genes (Seebeck & Johnson 1980). Os ratos-cangurus são pequenos marsupiais noturnos parecidos com cangurus muito pequenos. Entre 1967 e 1978, quatro ratos-cangurus coletados no sudeste da Austrália pareciam diferir das espécies de ocorrência conhecida para aquela área. O rato-canguru- de-patas-longas tem patas traseiras maiores, possui cerca do dobro de tamanho dos outros ratos-cangurus simpátricos, e as duas formas possuem diferentes números de cromossomos e não compartilham alelos em cinco locos de aloenzimas. Rato-canguru-de-patas-longas RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO112 ser rejeitada. Por exemplo, com base em aloenzimas e morfologia, foi demonstrado que duas joaninhas raras que apresentavam diferentes colorações e eram simpátricas na Nova Zelândia pertenciam à mesma espécie. Uso de análises genéticas na delimitação de espécies alopátricas Como as populações alopátricas estão fi sicamente isoladas, elas geral- mente não têm oportunidade para a troca de material genético. Para distinguir espécies utilizando-se o conceito biológico de espécie, o ide- al seria a existência de evidências oriundas do cruzamento entre as populações. Esterilidade do híbrido, ou sobrevivência marcadamente reduzida, indicariam espécies separadas. Por outro lado, se os híbridos fossem totalmente viáveis e férteis por várias gerações, então as popu- lações pertenceriam à mesma espécie. Tais cruzamentos são geralmen- te impraticáveis, especialmente em espécies ameaçadas. Conseqüentemente, os marcadores genéticossão freqüentemente utilizados para delimitar espécies alopátricas. Diferenças cromossômi- cas fi xadas normalmente proporcionam uma evidência defi nitiva para o status de espécie distinta, uma vez que muitas diferenças cromossô- micas resultam em esterilidade parcial nos indivíduos heterozigotos. Por exemplo, os veados-muntjac da China e Índia são morfologica- mente similares, mas são claramente espécies distintas, uma vez que, como descrito acima, eles têm diferentes números cromossômicos. A similaridade de cromossomos em populações alopátricas não é uma evidência defi nitiva de que elas pertençam à mesma espécie, mas dife- renças nos cromossomos indicam espécies distintas. A classifi cação baseada em marcadores moleculares é mais arbitrá- ria do que para espécies simpátricas, uma vez que ela é baseada na inferência de isolamento reprodutivo. Na prática, duas populações são consideradas como pertencentes a espécies diferentes se elas forem tão diferenciadas geneticamente como são duas espécies bem reconheci- das em um grupo relacionado. Por exemplo, orangotangos de Bornéo e Sumatra diferem no DNA mitocondrial, proteínas, fi ngerprints de DNA, e por uma inversão cromossômica, e diferem tanto quanto outras es- pécies distintas bem conhecidas de primatas. Conseqüentemente têm- se sugerido que eles sejam classifi cados como espécies diferentes, ao invés de duas subespécies (Box 6.2). Entretanto, cruzamentos entre as duas formas são viáveis e férteis nas gerações F 1 e F 2 . Têm-se utilizado marcadores genéticos para estabelecer que as no- vas formas de mamíferos descobertas no Vietnã e Laos são distintas das espécies já conhecidas. Por exemplo, o saola ou boi-de-Vu-Quang (Pseu- doryx nghetinhensis) foi identifi cado como uma espécie distinta com base na análise morfológica e de DNA. Acredita-se que apenas umas poucas centenas de indivíduos desta espécie existam, logo ela deve ser considerada em perigo. Se a diferenciação entre populações alopátricas é muito menor do que aquela entre duas espécies bem reconhecidas no mesmo gênero ou em gêneros relacionados, então as populações são consideradas como pertencentes à mesma espécie. Por exemplo, a população do roe- dor colonial Geomys pinetis da Geórgia, USA, era constituída por menos de 100 indivíduos nos anos de 1960 e foi listada como uma espécie em Populações alopátricas que diferem cromossomicamente são normalmente espécies diferentes. Entretanto, o uso de outros marcadores genéticos é menos defi nitivo e requer a calibração que considera a diferenciação genética de outras espécies bem reconhecidas USO DE ANÁLISES GENÉTICAS NA DELIMITAÇÃO DE ESPÉCIES 113 Quadro 6.2 Diferenciação genética entre os orangotangos de Bornéo e Sumatra: eles são espécies separadas? (Xu & Arnason 1996; Zhi et al., 1996) Os orangotangos de Bornéo e Sumatra são restritos às suas respectivas ilhas no sudeste da Ásia. Eles diferem na morfologia e no comportamento, e têm sido designados como subespécies. Os orangotangos de Bornéo e Sumatra diferem por uma inversão cromossômica pericêntrica (um segmento cromossômico invertido), por diferenças nas seqüências do DNAmt (abaixo), em locos nucleares codifi cadores de proteínas (abaixo) e no fi ngerprint de DNA. A estimativa do tempo de divergência de um ancestral comum é de cerca de 1,7 milhão de anos, muito anterior à separação de Bornéo e Sumatra pelo aumento no nível do mar a 10-20000 anos atrás. Como geneticamente eles são tão diferentes quanto espécies claramente reconhecidas, como chimpanzés e bonobos, têm-se sugerido o status de espécies completas para as duas formas. Híbridos são encontrados em muitos zoológicos e são viáveis e férteis nas gerações F 1 e F 2 . Conseqüentemente, eles não podem ser reconhecidos como espécies distintas de acordo com o conceito biológico de espécie, mas podem ser reconhecidos sob outras defi nições de espécies. Isso ilustra a confusão criada pelas diferentes defi nições de espécie. A proposta para classifi cá-los como espécies diferentes foi mudada. Independentemente de seus status taxonômicos formais, eles representam unidades evolutivas distintas e devem ser manejados separadamente. RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO114 perigo. Análises subseqüentes baseadas em morfologia, aloenzimas, cromossomos e DNA mitocondrial não revelaram nenhuma diferença consistente entre essa população e populações próximas mais comuns de Geomys pinetis do sudeste. Com base nisso, a forma colonial desse roedor não é reconhecida como uma espécie separada. As evidências a respeito da habilidade dos dados de morfologia, cromossomos, aloenzimas, marcadores de DNA nuclear e DNA mito- condrial para predizer corretamente o status taxonômico, como de- terminado por experimentos de cruzamentos, são apenas limitadas. Dados para wallabies-dos-rochedos e roedores nativos da Austrália sugerem que os cromossomos proporcionam uma melhor previsão do isolamento reprodutivo do que os marcadores moleculares. Infeliz- mente, as análises cromossômicas estão atualmente fora da moda para o delineamento do status taxonômico. O DNA mitocondrial é um dos marcadores moleculares mais fre- qüentemente utilizados para delimitar taxa. Entretanto, esse tem vá- rias limitações. Primeiro, a diferenciação do DNA mitocondrial pode ser produzida pela falta de dispersão das fêmeas, enquanto que a dis- persão dos machos pode estar mantendo as populações geneticamente homogêneas em locos nucleares. Segundo, os padrões do DNA mito- condrial em diferentes populações também podem trazer equívocos de interpretação, resultantes da ocorrência de seleção. Terceiro, a deri- va pode levar a árvores de relacionamentos incorretas se a população fundadora, antes da divergência, tenha sido polimórfi ca. Conseqüente- mente é imprudente usar apenas o DNA mitocondrial como base para defi nir o status taxonômico. Na ausência de dados de cruzamento, as delimitações de espécies mais convincentes são baseadas na concordância de uma ampla va- riedade de informações (morfologia, comportamento reprodutivo, cro- mossomos, marcadores nucleares e DNA mitocondrial), ou com base nos cromossomos. Distância genética Para delimitar populações alopátricas como meras populações, ou su- bespécies, ou como espécies distintas, necessitamos de uma medida de diferenciação genética ou distância genética. Podemos então compa- rar essa distância com aquela entre espécies bem defi nidas em grupos relacionados. A extensão do isolamento reprodutivo entre populações está correlacionada com sua diferenciação genética (Tabela 6.1). A me- dida mais comumente utilizada é a distância genética de Nei, D N . Pri- meiro defi nimos o índice de similaridade genética de Nei, I N ( ) ( ) ( ) = ∑ ∑ ∑ m i=1, m m i=1, i=1, p p I p p ix iy ix iy N 2 2 (6.1) e então a transformamos para obter a distância genética de Nei A distância genética de Nei é a medida mais comumente usada de diferenciação genética entre populações e espécies DISTÂNCIA GENÉTICA 115 ( )–=D IN Nln (6.2) onde p ix é a freqüência do alelo i na população (ou espécie) X, p iy é a fre- qüência do alelo i na população (ou espécie) Y, m é o número de alelos num loco, e ln é o logaritmo para a base e. Quando as freqüências alélicas são similares em duas populações (p ix = p iy ), a similaridade genética aproxima-se de 1 e a distância gené- tica aproxima-se de zero. Inversamente, quando as duas populações não compartilham nenhum alelo, o índice de similaridade genética é zero e a distância genética é infi nita. O exemplo 6.1 ilustra o cálculo da distância genéticaa partir de um loco de aloenzima no pica-pau- de-crista-vermelha, uma espécie em perigo. As estimativas devem ser baseadas em numerosos locos para proporcionar estimativas de dis- tâncias genéticas confi áveis. Exemplo 6.1 Cálculo da distância genética de Nei Duas populações do pica-pau-de-crista-vermelha apresentam as seguin- tes freqüências alélicas no loco da lactato desidrogenase (Ldh) (dados de Stangel et al. 1992). Alelo da Ldh Freqüências Vernon Apalachicola B 0,023 0,019 C 0,977 0,885 D 0,000 0,096 Para calcular a distância genética precisamos computar os quadrados das freqüências alélicas e os produtos de suas freqüências entre as po- pulações. Para a população de Vernon a soma dos quadrados das freqü- ências é = + =∑ p ix2 2 2 20,023 + 0,977 0,000 0,995 e para Apalachicola = + =∑ p iy2 2 2 20,019 + 0,885 0,096 0,793 O numerador é a soma dos produtos cruzados, como segue: ( ) = × + × + × =∑ p pix iy 0,023 0,019 0,997 0,885 0 0,096 0,865 Conseqüentemente, a similaridade genética de Nei para a comparação de Vernon e Apalachicola é ( )( ) ( ) ( ) ( ) = = ∑ ∑ ∑ p p I p p ix iy ix iy N 2 2 0,865 0,865 = = 0,994 0,8700,955 × 0,793 e a distância genética é ( ) ( )– –= = =D IN Nln ln 0,994 0,006 Conseqüentemente, a distância genética entre as populações de pica- paus de Vernon e Apalachicola é somente 0.006, ou seja, as populações são geneticamente muito similares. RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO116 Quão grandes são as distâncias genéticas em espécies bem defi nidas? As distâncias genéticas geralmente aumentam quando subimos os níveis hierárquicos taxonômicos, passando de populações dentro das espécies para espécies, gêneros e famílias. Por exemplo, a distância ge- nética média obtida pela análise de aloenzimas em moscas-das-frutas do complexo de espécies Drosophila willistoni aumenta a partir das po- pulações isoladas geografi camente (média D = 0,03), para subespécies (D = 0,23), para espécies distintas (D = 1,21). Entretanto, essa relação é muito próxima e com “ruídos”, como pode ser visto na Tabela 6.1. Por exemplo, subespécies de lagartos mostram distâncias genéticas maio- res do que espécies de macacos, roedores Geomys e aves. Tabela 6.1 | Diferenças genéticas entre subespécies e espécies, usando a distância genética de Nei, D N Comparação D N Subespécies Veado-vermelho (Cervus elaphus) 0,02 Camundongo 0,19 Roedor Geomys 0,004-0,26 Esquilo-de-chão 0,10 Lagartos 0,34-0,35 Grupo Drosophila willistoni 0,23±0,03 Plantas (pimentas) 0,02-0,07 Espécies Macacos (Macaca sp.) 0,02-0,10 Esquilo-de-chão 0,56 Roedor Geomys 0,12 Aves (Catharus) 0,01-0,03 Tentilhões-de-Galápagos 0,004-0,07 Lagartos (Anolis) 1,32-1,75 Lagartos (Crotaphytus) 0,12-0,27 Amphisbaenias 0,61-1,01 Salamandras 0,18-3,00 Teleósteos (Xiphophorus) 0,36-0,52 Teleósteos (Hypentelium) 0,09-0,33 Moscas-das-frutas (distintas espécies) grupo obscura 0,29-0,99 grupo willistoni 1,21±0,06 espécies Havaianas 0,33-2,82 Plantas (pimentas) 0,05-0,79 Fonte: Nei (1987). Geralmente as distâncias genéticas aumentam com o nível de isolamento reprodutivo, mas essa relação tem muito “ruído” CONSTRUÇÃO DE ÁRVORES FILOGENÉTICAS 117 Construção de árvores fi logenéticas Com freqüência estamos interessados nas relações evolutivas entre as populações e espécies (ver Capítulo 9). Por exemplo, podemos querer identifi car as populações ou subespécies mais proximamente relacio- nadas para usar em programas de reprodução que visem a recuperação de espécies ameaçadas. Por exemplo, se as relações verdadeiras entre as seis subespécies do pássaro Ammodramus maritimus fossem conheci- das, o último indivíduo da subespécie A. m. nigrescens poderia ter sido cruzado, provavelmente com sucesso, com uma subespécie relaciona- da da costa Atlântica ao invés de cruzá-lo com a forma da costa do Gol- fo. Árvores fi logenéticas refl etindo relações evolutivas entre espécies (ou populações) podem ser construídas usando-se dados genéticos. O exemplo 6.2 fornece uma ilustração simples da construção de uma ár- vore baseada em dados de seqüência de DNAmt para a coruja-boobook da Ilha Norfolk e seus parentes presumidamente mais próximos. Um grande número de métodos estatísticos está agora disponível para a produção de árvores a partir de marcadores moleculares e de morfologia, incluindo métodos de matrizes de distância (UPGMA), má- xima parcimônia e métodos de máxima verossimilhança. Pacotes de programas computacionais estão disponíveis para a realização dessas análises (como por exemplo, os programas PAUP, PHYLIP, HENNIG86). Esses métodos geralmente produzem árvores confi áveis se existir As informações obtidas através de marcadores genéticos ou morfológicos podem ser utilizadas para a construção de árvores fi logenéticas Exemplo 6.2 Construção de uma árvore fi logenética a partir de dados de seqüências de DNA (Norman et al. 1998) São apresentadas abaixo as diferenças entre as seqüências de DNAmt da coruja-boobook da Ilha Norfolk (IN) (Ninox novaeseelandiae undulata) e de seus parentes presumidamente mais próximos. A coruja-boobook da IN declinou para somente um indivíduo e a melhor opção para recuperar a espécie foi cruzá-la com a subespécie mais proximamente relacionada. O cruzamento da fêmea remanescente com um macho de uma subes- pécie relacionada da Nova Zelândia (NZ) produziu 16 descendentes na F 1 . A análise subseqüente de seqüências do DNAmt (298 bases) confi r- mou que a subespécie escolhida para o cruzamento era a mais intima- mente relacionada, corroborando a informação existente para dados morfológicos. Comparação Diferenças entre pares de bases do DNAmt Coruja-boobook IN – Coruja-boobook NZ 2 Coruja-boobook IN – Coruja-boobook da Tasmânia 8 Coruja-boobook NZ – Coruja-boobook da Tasmânia 8 Coruja N. strenua – Coruja N. rufa 13 Coruja-boobook IN – Coruja N. strenua 21 Coruja-boobook IN – Coruja N. rufa 23 Coruja-boobook da Ilha Norfolk RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO118 informação sufi ciente, ou seja, muitos locos, numerosos nucleotídeos ou aminoácidos, ou numerosa quantidade de caracteres morfológicos, ou preferencialmente uma combinação destes. As árvores somente irão refl etir acuradamente as relações evolu- tivas se os marcadores forem neutros, se as taxas de mutação neutra forem similares em diferentes linhagens evolutivas e se a população fundadora for monomórfi ca. Por exemplo, a árvore de DNAmt para primatas é discordante de uma ampla variedade de evidências morfo- lógicas, cromossômicas, comportamentais e genéticas, provavelmente em conseqüência da seleção. Quando ocorre seleção ou as taxas mu- tacionais são desiguais em diferentes linhagens, as taxas de evolução diferem, o comprimento dos braços são distorcidos, e a árvore inferida pode não concordar com a árvore real. Quando a população inicial é polimórfi ca, como freqüentemente é o caso, a fi xação de diferentes seqüências iniciais em diferentes li- nhagens (chamada de fi xação independente de alelos) pode levar à inferência de fi logenias incorretas. Esta situação pode ser resolvida se Colocando-se os parentes mais próximos juntos, obtemos a árvore abai- xo. O comprimento dos ramos são proporcionais ao número de diferen- ças de bases entre os taxa e, dessa forma, devem aproximar-se do tempo evolutivo desde a divergência. Assim, o comprimento de cada um dos ra- mos até o nó abaixo da coruja-boobook IN e da coruja-boobook IZ é igual a 1 (total de 2 diferenças entre eles). Esses diferem da coruja-boobook da Tasmânia por 8 bases,então atribuímos 4 para o segmento que vai da coruja-boobook da Tasmânia até o nó abaixo dele, e 4 para o segmento do nó até a coruja-boobook IN e a coruja-boobook NZ. Como a diferença de uma base já foi atribuída para as distâncias entre o nó até a coruja- boobook IN e até a coruja-boobook NZ, é atribuído 3 para a seção desde seus nós até o nó de junção com a coruja-boobook da Tasmânia. Metade das 13 diferenças entre a coruja N. strenua e a coruja N. rufa (6,5) é atribu- ída a cada segmento até o seu nó. Finalmente, a diferença média entre coruja-boobook IN – coruja N. strenua e coruja-boobook IN – coruja N. rufa é de 22 bases, então atribuímos metade disso (11) para cada segmento até o nó mais baixo. No lado esquerdo já atribuímos o valor 4, restando 7 para o segmento até o nó mais baixo. No lado direito, 6,5 foi alocado para o segmento até o primeiro nó, restando 4,5 para ser alocado ao segmento desse nó até o nó mais baixo. Árvores baseadas em marcadores genéticos somente refl etirão as relações evolutivas de forma acurada se as taxas de evolução forem constantes nas diferentes linhagens, se os marcadores forem neutros e se a população fundadora for monomórfi ca (ou se existirem muitos marcadores herdados independentemente) DEPRESSÃO EXOGÂMICA 119 existirem dados disponíveis para muitos locos independentes. Reco- menda-se a utilização de aproximadamente 30 locos polimórfi cos de aloenzimas ou 20 locos de microssatélites. A fi logenia consenso em primatas, baseada em vários locos nucleares, é concordante com as outras evidências. As árvores fi logenéticas ou árvores gênicas são utilizadas para mui- tos outros propósitos na biologia da conservação (Capítulo 9). Depressão Exogâmica O cruzamento de populações (ou de taxa superiores) geneticamente diferenciadas cria o risco de que os descendentes híbridos na primei- ra geração e em gerações subseqüentes sofram redução no sucesso reprodutivo. Muitas subespécies bem defi nidas divergiram até o ponto onde os cruzamentos entre elas resultam em um menor valor adaptativo. Não se deve esperar que o cruzamento entre os tigres de Bengala e da Si- béria produza descendentes adaptados para um dos dois ambientes. A principal razão para a resolução das incertezas taxonômicas é evitar o estabelecimento de tais cruzamentos. Populações que se diferenciaram como resultado da adaptação a di- ferentes habitats podem mostrar um valor adaptativo reduzido quando cruzadas, porque os híbridos podem não ser adaptados a nenhum dos habitats. Por exemplo, existe um sucesso reprodutivo reduzido e uma produção de descendentes com desenvolvimento anormal na zona de hibridação entre duas populações de vermes-de-veludo no leste Aus- traliano. Um caso menos severo de depressão exogâmica é encontrada nos sapos corroboree, Pseudophyrne sp., nas montanhas do sudeste da Austrália. Populações alopátricas do norte e do sul de sua distribuição possuem diferenças sutis no padrão de coloração e em alcalóides da pele, e exibem uma distância genética de 0,17-0,49. Os híbridos entre as populações são férteis e viáveis, mas exibem 17% de anormalidade larval, comparada a <4% nos cruzamentos dentro das regiões. A pro- babilidade de que populações diferenciadas devido à deriva genética exibam depressão exogâmica é menor do que a probabilidade de sua ocorrência em populações diferenciadas pela adaptação. Assim, é im- portante, mas difícil, determinar se a diferenciação populacional é devido à deriva ou à adaptação. Extensão da depressão exogâmica em animais e plantas A extensão e signifi cância da depressão exogâmica é motivo de contro- vérsia. Evidências em mamíferos e aves são escassas, com exceção dos casos onde a taxonomia não é resolvida adequadamente. O exemplo mais amplamente citado, mas irônico, é do ibex-dos-Alpes (Capra ibex) que vive nas montanhas Tatra da Eslováquia. A população foi elimina- da pela adição ao estoque Europeu de animais de diferentes subespé- cies adaptados aos desertos da Turquia e do Sinai. A causa da extinção foi o rompimento do ciclo reprodutivo, com híbridos mal adaptados se acasalando no início do outono e, fatalmente, tendo seus fi lhotes em fevereiro, o mês mais frio. Depressão exogâmica é a redução no sucesso reprodutivo resultante do cruzamento de populações A depressão exogâmica pode ser esperada em cruzamentos entre diferentes subespécies ou espécies A depressão exogâmica também pode ocorrer quando são cruzadas as populações de uma espécie que se adaptaram a habitats diferentes A depressão exogâmica em cruzamentos entre populações da mesma espécie tem sido documentada para animais em apenas alguns poucos casos, mas pode ser mais comum em plantas Tigre RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO120 A depressão exogâmica tem sido detectada para algumas caracte- rísticas em cruzamentos experimentais entre diferentes subespécies de camundongos, mas essa foi pequena em comparação aos efeitos be- néfi cos dos cruzamentos (heterose). O órix-da-Arábia considerado em perigo está sofrendo simultaneamente com a depressão endogâmica e com a depressão exogâmica, mas existem diferenças cromossômicas segregando nessa população. A depressão exogâmica tem sido clara- mente documentada num copépode da região entre-maré que mostra marcada diferenciação genética e limitada dispersão em distâncias geográfi cas relativamente curtas. Em vários casos onde a depressão exogâmica tem sido detectada em animais, a presumida taxonomia tem se demonstrado errada. Por exemplo, cruzamentos entre diferentes populações de macacos-da- noite e de antílopes dik-diks resultaram em descendentes estéreis. Em ambos os casos, as duas formas contribuintes vieram de diferentes lo- calidades, tinham diferentes números cromossômicos e eram, muito provavelmente, espécies ou subespécies não descritas. A depressão exogâmica é mais freqüente quando os cruzamentos ocorrem entre populações que sofreram adaptação signifi cativa a condições locais e quando a dispersão é limitada. Como já era de se esperar, a maior parte das evidências de depressão exogâmica vêm de plantas com essas características. Atualmente, grande cuidado é dado em relação à mistura de popu- lações. Por exemplo, dúvidas sobre o bom senso de se cruzar diferentes populações de lobos-cinzentos têm sido expressas, mesmo sabendo que elas claramente pertencem à mesma espécie. Muitos geneticistas de po- pulações consideram que a preocupação com a depressão exogâmica para espécies cuja taxonomia é adequadamente resolvida é, com freqü- ência, injustifi cada. A depressão exogâmica é freqüentemente mencio- nada, mas os benefícios dos cruzamentos são pouco abordados. Mesmo onde a depressão exogâmica ocorre, quando duas popula- ções parcialmente endogâmicas e diferenciadas são cruzadas, ela não será um fenômeno de longa duração. A menos que os indivíduos híbri- dos da geração F 1 sejam estéreis ou apresentem um valor adaptativo muito baixo, a seleção natural irá atuar sobre a ampla variação gené- tica na população híbrida adaptando-a a seu ambiente. Geralmente, a população híbrida irá atravessar, na pior das hipóteses, um declínio temporário no valor adaptativo e então aumentar. Defi nição de unidades de manejo das espécies Evidentemente, as espécies exigem manejo como unidades separadas. Entretanto, as populações de uma espécie podem estar caminhando para a especiação. Se elas mostram uma diferenciação adaptativa signi- fi cativa a diferentes habitats ou uma diferenciação genética signifi cati- va, então isso pode justifi car o seu manejo comolinhagens evolutivas separadas para fi ns de conservação. A adequação do manejo separado depende do balanço entre o custo de manter duas (ou mais) popula- ções versus uma e do risco de ocorrência da depressão exogâmica ou de benefícios (maior diversidade genética e valor adaptativo) acumulados da fusão das populações. Mesmo se os cruzamentos de populações resultarem em depressão exogâmica, a seleção natural geralmente levará a uma rápida recuperação e, freqüentemente, a um valor adaptativo eventualmente maior As populações de uma espécie podem ser sufi cientemente diferenciadas em características adaptativas ou em composição genética, a ponto de ser necessário o seu manejo separado DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO DAS ESPÉCIES 121 Defi nir unidades de manejo das espécies é mais difícil e controver- so do que defi nir espécie. Abaixo, descrevemos o conceito de unidades evolutivamente signifi cativas, junto com uma proposta mais recente para defi nir tais unidades com base na permutabilidade genética e ecológica. Unidades evolutivamente signifi cativas (ESU) A maioria dos biólogos conservacionistas acredita que populações geneticamente diferenciadas de uma espécie não deveriam ser mis- turadas e requerem manejo genético separados. Essas populações são chamadas de unidades evolutivamente signifi cativas. Inicialmente, o conceito foi aplicado a populações com isolamento reprodutivo e his- tórico, e com características adaptativas distintas de outras populações dentro da espécie. Moritz propôs que marcadores genéticos fossem usados para defi nir unidades de manejo de espécies. Se os genótipos do DNAmt não apresentam sobreposição entre populações e os locos nucleares mostram divergência signifi cativa nas freqüências dos ale- los, então elas devem ser defi nidas como ESUs separadas e manejadas separadamente. Em termos gerais, isso freqüentemente signifi ca que subespécies bem defi nidas são unidades de manejo, embora isso pode não ser o caso em grupos pouco estudado. Embora muitas ESUs tenham sido defi nidas em espécies ameaçadas, o conceito tem sido criticado. Em particular, ESUs defi nidas usando somente marcadores moleculares ignoram as diferenças adaptativas. É improvável que distintas ESUs sejam detectadas em espécies com alto fl uxo gênico, ainda que as populações tenham diferenças adaptativas e justifi quem o manejo separado. Ao contrário, em taxa com baixo fl uxo gênico, as populações que se diferenciaram por deriva genética podem ser designadas como ESUs separadas, ainda que elas não sejam adap- tativamente diferentes – nesse caso elas podem se benefi ciar do fl uxo gênico. Defi nição de unidades de manejo com base na permutabilidade Crandall e colegas recentemente propuseram que as unidades de ma- nejo de uma espécie sejam baseadas na permutabilidade ecológica ou genética das populações, ou seja, na possibilidade de substituirmos uma população pela outra. Essa proposta tenta delinear se existe di- ferenciação adaptativa, se existe fl uxo gênico, e se a diferenciação é histórica ou recente. Se duas populações são adaptadas a ambientes similares então elas são permutáveis, mas se elas são adaptadas a am- bientes diferentes então elas não são ecologicamente permutáveis. Se as composições genéticas de duas populações são similares, elas são permutáveis, mas se elas são geneticamente diferenciadas elas não ge- neticamente permutáveis. Os autores afi rmam que esse sistema trata de forma mais adequada muitos dos casos onde o processo de ESU pro- duziu resultados com justifi cativa duvidosa. Na prática, as populações são classifi cadas como + (permutabilidade rejeitada) ou – (permutabilidade aceita) em cada uma das quatro células representando a permutabilidade genética e ecológica, recente ou his- tórica (Fig.6.3). Isso resulta em 16 categorias de divergência entre duas populações. No geral, quanto mais pontuações + maior a diferenciação. Uma unidade evolutivamente signifi cativa (ESU) é uma população que tem alta prioridade para conservação em separado Unidades de manejo podem ser defi nidas usando-se a permutabilidade genética e ecológica RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO122 A permutabilidade genética está preocupada com os limites de disper- são de nova variação genética através do fl uxo gênico. A permutabili- dade é rejeitada quando existe evidência de fl uxo gênico restrito entre populações, enquanto ela é aceita quando existe evidência de fl uxo gênico amplo. A evidência de fl uxo gênico é baseada idealmente em múltiplos locos nucleares (aloenzimas, microssatélites, etc.). A permutabilidade ecológica é rejeitada (+) onde existe evidência de diferenciação populacional devido à seleção natural ou deriva ge- nética. A evidência pode ser baseada em diferenças nas características da historia de vida, morfologia, habitat, ou em locos sob seleção, e tais diferenças devem ser, idealmente, comprovadamente herdáveis. Interpretamos isso, primariamente, como um refl exo da diferenciação adaptativa. As escalas de tempo recente e histórica são incluídas para distin- guir os processos evolutivos naturais de fl uxo gênico limitado do iso- lamento populacional recente. Além disso, elas distinguem contato secundário e fl uxo gênico em longo prazo. Recomendações de manejo são dadas para cada uma das oito ca- tegorias na Fig. 6.3. O exemplo 6.3 ilustra a aplicação da metodologia para o rinoceronte-preto (Diceros bicornis) e para o escaravelho Cicindela puritana. Essa metodologia proporciona um meio lógico para delimitar populações que justifi que o seu manejo de forma separada, sem ter um número excessivo de unidades de manejo que não mostram diferen- ciação adaptativa. Em contraste, o termo ESU tem sido aplicado para cada categoria da Fig. 6.3, levando a um grande número de unidades de manejo, algumas das quais com justifi cativa duvidosa. Exemplo 6.3 Atribuição dos rinocerontes-pretos e dos escaravelhos para as categorias de permutabilidade RINOCERONTE-PRETO Para os rinocerontes-pretos da África não existem motivos sufi cientes para rejeitar tanto a permutabilidade genética como a permutabilida- de ecológica. As populações mostram fl uxo gênico e seus habitats são similares. Conseqüentemente, ele foi categorizado como caso 1 (- -/- -), levando à recomendação de que a espécie seja manejada como uma úni- ca população. Por outro lado, os dados de DNAmt têm sido usados como argumento a favor de duas subespécies que merecem ser manejadas separadamente. ESCARAVELHO Com base em dados de DNAmt (baixo fl uxo gênico e diferenciação signi- fi cativa), os escaravelhos do Rio Connecticut e da Baia Chesapeake, nos USA, não são geneticamente permutáveis. Além disso, eles não são ecolo- gicamente permutáveis tendo como base parâmetros de habitat. Assim, eles foram classifi cados como categoria 7 (+ +/+ -), indicando forte dife- renciação adaptativa. A recomendação para fi ns conservacionistas foi para manejar as duas populações como unidades separadas. Populações do leste e oeste da Baia de Chesapeake foram genética e ecologicamente permutáveis (--/--). Rinoceronte-preto DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO DAS ESPÉCIES 123 Fig 6.3 Defi nição de unidades de manejo de uma espécie com base na permutabilidade genética e ecológica (Crandall et al. 2000). Esse método tem sido proposto para medir categorias de distinção entre populações e recomendar ações de manejo para cada categoria. As categorias de distinção das populações são baseadas na rejeição (+) ou impossibilidade de rejeição (–) da hipótese nula de permutabilidade genética e ecológica para escalas de tempo recente e histórica. À medida que o número que representa a força relativa da evidência aumenta (primeira coluna), também aumentaa evidência para a diferenciação signifi cativa entre as populações. E sc al a d e T e m p o Hipótese nula de permutabilidade Genética Ecológica Recente Histórica Força Relativa da Evidência Evidência de distinção adaptativa Ação de manejo recomendada 8 +|+ +|+ Tratar como espécies separadas por muito tempo 7 +|+ –|+ +|+ +|– Tratar como espécies separadas 6 –|+ +|+ Tratar como populações distintas (mistura recente, perda de distinção genética) 5 +|– +|+ Convergência natural em permutabilidade ecológica – tratar como uma única população. 4 (a) (b) (c) +|+ –|– –|– +|+ –|+ –|+ Convergência antropogênica – tratar como populações distintas. (a) e (b) distinção ecológica recente, então tratar como populações distintas. (c) Permitir fl uxo gênico consistente com a estrutura populacional atual 3 –|+ –|– Permitir fl uxo gênico consistente com a estrutura populacional atual; tratar como populações distintas 2 +|– +|– Permitir fl uxo gênico consistente com a estrutura populacional atual: tratar como uma única população 1 +|– –|– –|– –|+ –|– +|– +|– –|+ –|+ +|– –|– –|– Tratar como uma única população; se a permutabilidade é devida a efeitos antropogênicos, restaurar as condições históricas; se for natural, permitir o fl uxo gênico LEITURA SUGERIDA Frankham, R., J. D. Ballou & D. A. Briscoe. 2002. Introduction to Conservation Genetics. Cambridge University Press, Cambridge, UK. Chapter 15 has a slightly extended treatment of these topics, along with references. Avise, J. C. & J. Hamrick. 1996. Conservation Genetics: Case Histories from Nature. Chapman & Hall, New York. Advanced scientifi c reviews that RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO124 describe many cases of resolving taxonomic uncertainties with the aid of molecular genetic techniques. Claridge, M. F., H. A. Dawah & M. R. Wilson. 1997. Species: The Units of Biodiversity. Chapman & Hall, London. A collection of scientifi c papers on species, including the many different defi nitions. Crandall, K. A., O. R. P. Bininda-Edmonds, G. M. Mace & R. K. Wayne. 2000. Considering evolutionary processes in conservation biology: an alternative to ‘evolutionarily signifi cant units’. Trends in Ecology and Evolution 15, 290--295. Method proposed for using genetic and ecological differences between populations within species as a basis for deciding on whether they deserve separate management. Futuyma, D. J. 1998. Evolutionary Biology, 3rd edn. Sinauer, Sunderland, MA. A textbook with an excellent readable coverage of speciation and the genetic processes underlying it. Hall, B. G. 2001. Phylogenetics Made Easy: A How-to Manual for Molecular Biologists. Sinauer, Sunderland, MA. A clearly written guide to building phylogenetic trees from molecular data. Nei, M. & S. Kumar. 2000. Molecular Evolution and Phylogenetics. Oxford University Press, New York. Textbook on genetic distances and molecular methods in taxonomy. Capítulo 7 O manejo genético de espécies ameaçadas em ambiente natural O manejo genético in situ de espécies ameaçadas abrange a recuperação de populações pequenas e endogâmicas, o manejo de populações fragmentadas, o impedimento da deterioração genética devido à hibridação com espécies relacionadas e a minimização dos impactos deletérios causados pela retirada de indivíduos da natureza através da exploração humana. Dentro deste contexto, as análises de viabilidade populacional podem cumprir o papel de quantificar os níveis de ameaça e de avaliar comparativamente as diferentes alternativas de manejo. Termos Clones, corredor, introgressão, metapopulação, análises de sensitividade, reprodução suplementar, suporte reprodutivo, translocação O pica-pau em perigo Picoides borealis, do sudoeste dos EUA O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL124 A relevância da genética para o manejo de populações ameaçadas A aplicação da genética em práticas de manejo de espécies ameaçadas em ambientes naturais ainda tem sido bastante limitada, o que ocorre especialmente devido à falta de reconhecimento da sua importância. Já nos referimos anteriormente a alguns dos poucos exemplos existen- tes, os quais serão apresentados aqui em maiores detalhes. Com base no que já foi discutido, podemos considerar, em síntese, que as principais contribuições da genética para a biologia da conser- vação são: a resolução de incertezas taxonômicas para que os responsáveis pelo • manejo possam estar confiantes sobre o status das populações que se pretende conservar e sobre suas relações com outras populações (Capítulo 6) o delineamento de unidades de manejo distintas dentro das espé-• cies como sendo entidades biologicamente significativas para a con- servação (Capítulo 6) a detecção de declínios de diversidade genética. Os marcadores ge-• néticos mais sensíveis, particularmente os microssatélites, têm o poder de detectar reduções de heterozigose e de diversidade alélica em populações pequenas e fragmentadas o desenvolvimento de teorias que descrevem o passado e fazem pre-• dições sobre o futuro, em termos de mudanças da variação genética. Todas estas teorias têm um elemento central em comum - a diversi- dade genética é dependente do Ne o reconhecimento de que os tamanhos efetivos das populações são • comumente em torno de uma ordem de magnitude menor do que o tamanho obtido através de censos populacionais o reconhecimento de que a perda da diversidade genética respon-• sável pela variação quantitativa envolvida no sucesso reprodutivo reduz a capacidade das populações evoluírem em resposta às mu- danças do ambiente a detecção da depressão causada pelo endocruzamento em espécies • ameaçadas nos habitats naturais o reconhecimento de que a depressão por endocruzamento é um • resultado esperado em quase todos os casos de endocruzamento severo o reconhecimento de que a depressão por endocruzamento poten-• cial deve ser inferida através de sua correlação com a redução da variação genética o reconhecimento de que o grau de fragmentação e as taxas de fluxo • gênico podem ser inferidos através da distribuição de marcadores genéticos dentro e entre populações. Várias destas aplicações podem ser ilustradas pelo exemplo da pan- tera da Flórida (Quadro 7.1). Este capítulo segue aproximadamente a ordem das ações estabeleci- das para o manejo genético de populações naturais, como apresentado no fluxograma da Fig. 7.1. Como em qualquer ação conservacionista, antes de construirmos um plano de manejo devemos conhecer o que O manejo genético in situ de populações ameaçadas ainda é bastante incipiente A RELEVÂNCIA DA GENÉTICA PARA O MANEJO DE POPULAÇÕES AMEAÇADAS 125 Quadro 7.1 Identificação de problemas genéticos na pantera da Flórida e sua redução através do manejo genético (Roelk et al. 1993; Barone et al. 1994; Land & Lacy 2000) A pantera da Flórida é uma espécie ameaçada restrita a uma pequena população de aproximadamente 60-70 indivíduos no sul da Flórida, especialmente no Big Cypress e nos ecossistemas adjacentes ao Parque Nacional Everglades. Antes da colonização européia eram distribuídas por toda a região sudeste dos EUA, e outras subespécies podiam ser encontradas ao longo da América do Norte e América do Sul. Desde 1973 as principais causas de mortalidade têm sido atropelamentos em estradas, a caça ilegal, além de diversos outros tipos de injúrias. Uma análise de viabilidade populacional realizada em 1989 (ver Capítulo 5) estimou que esta população apresentava uma alta probabilidade de extinção num curto espaço de tempo, a menos que ações mitigadorasfossem realizadas. Uma avaliação mais recente foi menos pessimista. Análises de alozimas, morfologia e DNAmt indicaram que uma parte da população havia recebido previamente uma introdução de alelos (introgressão) de uma subespécie de puma da América do Sul. Posteriormente, registros revelaram que animais da América do Sul haviam sido soltos na população por um criador privado entre 1956 e 1966. Os animais híbridos estão localizados em áreas afastadas dos animais mais autênticos. A população autêntica apresenta níveis de diversidade genética muito inferiores em relação aos híbridos, outras populações de pumas e felinos em geral. Subespécie % de heterozigose em alozimas (amplitude) % heterozigose em fingerprint de DNA Florida (autêntica) 1,8 10.4 Florida (introgredida) 1,8 29.7 Pumas do oeste dos EUA 4,3 (2,0-6,7) 46.9 Outros felinos 3,0-8,0 - Gato doméstico - 44.0 As panteras da Flórida autênticas também apresentam evidências de depressão por endocruzamento, incluindo anormalidades morfológicas (pêlos eriçados e cauda torcida), problemas cardíacos e o sêmen de pior qualidade entre todos os felinos. Todos os machos ‘puros’ têm pelo menos um testículo retido na cavidade abdominal (criptorquidismo). As panteras da Flórida também são altamente vulneráveis a doenças infecciosas. Normal Coiled tail, abnormal acrosome O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL126 estamos conservando. Durante todo este capítulo assumiremos que as incertezas taxonômicas tenham sido resolvidas e que todas as unida- des de manejo tenham sido identificadas (Capítulo 6), e trataremos do manejo genético dentro destas unidades. O aumento do tamanho da população Um dos principais objetivos do manejo de espécies ameaçadas é rever- ter o declínio populacional, o que reduz simultaneamente a maioria dos efeitos estocásticos ameaçadores (demográficos, ambientais, catas- tróficos e genéticos). Quando populações grandes passam por declínios recentes de N e ≥ 50 e se expandem rapidamente, os impactos genéticos são mínimos. Apesar do gargalo, reduções de curto prazo desta magni- tude oferecem poucas oportunidades para que a variação seja perdida por deriva genética (Capítulo 4). O primeiro passo do processo de aumento populacional é identi- ficar e remover as causas do declínio. Esta é a área de atuação dos bi- ólogos e ecólogos de campo. As medidas a serem tomadas incluem o controle legal da caça e da exploração, a criação de reservas, a redução dos poluentes, a melhoria da qualidade dos habitats e a erradicação dos predadores e competidores exóticos. Estas ações geralmente bene- ficiam muitas espécies nativas que habitam a região manejada. Dessa maneira, as espécies ameaçadas atuam como ‘bandeiras’ para proteger toda a comunidade. Tais procedimentos têm resultado em sucesso para diversas espé- cies. Por exemplo, os rinocerontes indianos aumentaram de 27 para aproximadamente 600 indivíduos no Parque Nacional Chitwan, no Como a pantera da Flórida pode ser recuperada? Dado que se trata de uma população extremamente pequena, a prioridade é aumentar seu tamanho através da proteção e melhoria de habitats adicionais e da redução das ameaças existentes. A construção de corredores sob as estradas reduz significativamente as mortes causadas por atropelamentos. Uma vez que estas panteras apresentam tanto os sinais genéticos quanto os sinais físicos da depressão por endocruzamento, ficou claro que suas performances melhoraram onde houve a imigração de indivíduos de outras populações. Dado que não existem outras populações na Flórida, as únicas fontes de indivíduos são de outras subespécies. A subespécie mais próxima é a do Texas, a qual foi contígua com a população da Flórida e provavelmente tinham um histórico de fluxo gênico antes do declínio. Após estudos extensivos foi tomada a decisão de se introduzir seis a oito fêmeas do Texas. A ocorrência de depressão por exocruzamento era improvável, dado que não havia evidências sobre este tipo de problema tanto nos animais híbridos da Flórida quanto em pumas híbridos de cativeiro. Embora o ideal teria sido a realização de análises genéticas para a comparação das duas subespécies anteriormente à tomada desta decisão, análises posteriores revelaram que todas as populações de panteras/pumas da América do Norte são muito similares. Oito indivíduos do Texas foram, portanto, introduzidos. Uma progênie de trinta e dois sobreviventes exocruzados é conhecida (até junho de 2001), incluindo alguns indivíduos de segunda geração e proles de híbridos retrocruzados. Os híbridos F1 não apresentam caudas torcidas e nem pêlos eriçados, e parecem ser mais robustos do que as panteras da Flórida autênticas. Um dos principais objetivos do manejo de populações selvagens é aumentar o tamanho das populações pequenas Indian rhinoceros O AUMENTO DO TAMANHO DA POPULAÇÃO 127 Nepal, após a caça ter sido banida e a reserva de caça real ter sido trans- formada em Parque Nacional. Da mesma maneira, o elefante marinho do norte expandiu sua população de 20-30 indivíduos para mais de 150 000 após a eliminação da caça e a criação de proteção legal. As populações do falcão-de-Mauritius, da águia careca e do falcão pere- grino se recuperaram após o controle do uso do DDT e a realização de programas de reprodução assistida. Após a implementação de medidas de proteção, que incluem o uso de amas-secas e translocações, Petroica traversi, um passeriforme das ilhas Chatham, Nova Zelândia, aumentou sua populaçao de cinco para mais de 140 indivíduos. A população de uma outra ave, Gallirallus sylves- tris, da ilha Lord Howe, Austrália, que chegou a apenas 20-30 indivídu- os, se recuperou após a erradicação de sua ameaça principal, que eram Fig. 7.1 Fluxograma das questões consideradas no manejo genético de espécies ameaçadas na natureza. O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL128 os porcos, e a criação de um programa de reprodução em cativeiro e soltura de curto prazo, tendo atingido em torno de 200 espécimes. No caso das plantas, muitas espécies têm se recuperado após a implemen- tação de medidas como a proteção legal, a minimização da exploração, a criação de reservas e a remoção de herbívoros exóticos. Nos casos em que os números são extremamente baixos, formas de conservação ex situ têm sido utilizadas para posterior reintrodução (Capítulo 8). Ao mesmo tempo em que as informações genéticas devem ajudar a alertar os biólogos da conservação para a extensão das ameaças, as ações de manejo acima citadas envolvem pouco, ou até mesmo nada, de genética. No entanto, a recuperação do tamanho em populações altamente endocruzadas pode ser melhorada substancialmente após a introdução de variação genética adicional (veja abaixo). O diagnóstico de problemas genéticos Antes de se aplicar o manejo genético numa população natural é ne- cessário diagnosticar suas condições (Capítulos 2 e 4). Cinco questões devem ser respondidas: Qual o tamanho da população (1. N e )? Ela passou por gargalos significativos no passado?2. Ela perdeu diversidade genética?3. Ela está sofrendo depressão por endocruzamento?4. Ela é geneticamente fragmentada?5. Estas questões têm sido respondidas para muitas espécies ameaçadas, como os guepardos, o marsupial Lasiorhinus krefftii, o pica-pau Picoides borealis e o pinheiro de Wollemi. Nos casos em que não há medidas di- retas de diversidade genética ou de endocruzamento, pode-se utilizar a teoria para estimá-las, como mostrado no Exemplo 7.1. Até o momento, a realização de tais diagnósticos tem sido a prin- cipal contribuição da genética para a conservação das populações A maior contribuição do manejo genético para as populações selvagens tem sido o diagnóstico do status genético Exemplo 7.1Estimativa da perda de diversidade genética e endocruzamento devido ao tamanho reduzido das populações Logo após 1900 a população de panteras da Flórida declinou para apenas 30-50 animais. Assumindo-se um N e /N de 0,10, um intervalo entre gera- ções de 7 anos e N = 50 de 1920 a 1990, seríamos capazes de pressupor que as panteras da Flórida apresentavam baixa diversidade genética e foram altamente endocruzadas em 1990? Partindo-se da equação 4.2, a proporção da heterozigose original res- tante numa população é: e = = × t t H H N 10 0 10 1 1 = 1 – = 1 – 0,9 0,35 2 2 5 dado que N e = 50/10 = 5 e 70 anos = 10 gerações. A RECUPERAÇÃO DE POPULAÇÕES PEQUENAS, ENDOCRUZADAS E COM BAIXA DIVERSIDADE GENÉTICA 129 selvagens. Entretanto, o uso destas informações no planejamento de ações de conservação ainda é incipiente. Abaixo são consideradas as ações de manejo que deveriam ser tomadas para reduzir os problemas genéticos. A recuperação de populações pequenas, endocruzadas e com baixa diversidade genética Uma estratégia de manejo efetiva para a recuperação de populações pequenas, endocruzadas e com baixa diversidade genética é a introdu- ção de indivíduos de outras populações, o que permite melhorar a efi- ciência reprodutivo e restaurar a diversidade genética. Existem muitas evidências experimentais de que este procedimento pode resultar em sucesso. Como exemplo, uma pequena população isolada da serpente Vipera berus, na Suécia, e uma pequena população da ave Tympanuchus cupido, do estado de Illinois, apresentaram aumento das taxas reprodu- tivas e dos tamanhos populacionais após a introdução de imigrantes (Fig. 7.2). Apesar dos evidentes benefícios deste procedimento, existem pou- cos exemplos de sua utilização (veja abaixo). Fonte de imigrantes não aparentados para a recuperação genética Os indivíduos escolhidos para serem introduzidos em populações en- docruzadas para recuperação da capacidade reprodutiva e da diversi- dade genética devem ser: não endocruzados (se disponíveis), ou• endocruzados, mas geneticamente diferenciados em relação à po-• pulação na qual estejam sendo introduzidos. Um exemplo da situação acima é evidenciado pelos wallabies australia- nos (Capítulo 5). A espécie Petrogale lateralis apresenta várias populações endocruzadas em ilhas, que poderiam ser combinadas para aumentar a diversidade genética e a capacidade reprodutiva da espécie. O mate- rial genético combinado das populações de todas as ilhas deve conter a maior parte dos alelos de microssatélites encontrados nas populações do continente. No futuro, possivelmente será necessário o uso de indi- víduos resultantes de cruzamentos entre as populações das ilhas para reintrodução em localidades do continente, desde que as raposas, sua principal ameaça, sejam eliminadas. Quando não há disponibilidade de indivíduos não aparentados do mesmo táxon, indivíduos de outras subespécies podem ser utilizados Baseando-se apenas na teoria, seríamos capazes de estimar que aproximadamente 65% de sua heterozigose teria sido perdida, um valor próximo da perda observada estimada a partir da comparação das pan- teras da Flórida com os pumas do oeste dos EUA (Quadro 7.1). A partir da equação 4.4 espera-se um coeficiente de endocruzamento de 0,65, nível este em que efeitos deletérios seriam certamente esperados. Populações pequenas e endocruzadas podem ser recuperadas através da introdução de indivíduos não relacionados Indivíduos de populações geneticamente distantes, ou de outros taxa que resultem em cruzamentos férteis, podem ser utilizados para aumentar o tamanho de pequenas populações endocruzadas Swedish adder Greater prairie chicken O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL130 para reduzir os efeitos negativos do endocruzamento, como realizado, por exemplo, na pantera da Flórida (Quadro 7.1) e na coruja Ninox nova- eseelandiae undulata (Capítulo 6). Se uma espécie ameaçada persiste na forma de uma única popula- ção, a única fonte possível de material genético adicional é de espécies com as quais possam se cruzar com sucesso. Uma clorose de origem chinesa depreciou severamente os castanheiros norte-americanos. Dado que a espécie chinesa de castanheiro é resistente à clorose, ela tem sido cruzada com a espécie americana para introduzir alelos de resistência. A opção de cruzar uma espécie ameaçada com uma espécie relacio- nada requer extremo cuidado. Deve ser avaliada com base em dados experimentais, para que haja certeza de que os híbridos da F 1 e das ge- rações subseqüentes sejam férteis e viáveis. Ao mesmo tempo em que existe uma ampla gama de potenciais benefícios, existem também sé- rios riscos de depressão por exocruzamento. Em alguns casos, mesmo que um determinado nível de depressão por exocruzamento ocorra, a depressão por endocruzamento será amplamente reduzida e a seleção natural irá eventualmente remover a maior parte, ou toda a depressão causada pelo exocruzamento. Dado que a magnitude da diferenciação genética varia consideravelmente entre as espécies, dentro de alguns táxons os cruzamentos entre espécies podem ser equivalentes aos cru- zamentos entre subespécies de outros táxons (Tabela 6.1). Manejo de espécies restritas a uma única população e de diversidade genética baixa Sob a perspectiva genética, a pior situação é a existência de uma es- pécie ameaçada representada por uma única população, sendo esta endocruzada e sem subespécies ou espécies relacionadas disponíveis para adicionar variação. Nestes casos, as informações sobre a perda de diversidade genética servem apenas como indicadores da fragilidade da espécie. Quanto menor a diversidade genética, menor o potencial Fig. 7.2 Recuperação da capacidade reprodutiva devido à introdução de imigrantes em populações pequenas e parcialmente endocruzadas de (a) Vipera berus, na Suécia (Madsen et al. 1999), e (b) Tympanuchus cupido, em Illinois – as translocações tiveram início em 1992 (Westemeier et al. 1998). Para as espécies que são constituídas por uma única população endocruzada, as únicas opções de manejo são melhorar seus habitats e minimizar os riscos associados com as mudanças ambientais (especialmente doenças) e com os pequenos tamanhos populacionais MANEJO GENÉTICO DE POPULAÇÕES FRAGMENTADAS 131 evolutivo, menor o valor adaptativo, e maiores as probabilidades de que a espécie tenha um comprometimento de sua capacidade de resis- tir às mudanças do ambiente. Para espécies frágeis, os procedimentos de manejo devem ser instituídos para: aumentar o tamanho populacional (veja acima)• estabelecer populações em várias localidades (para minimizar os • riscos de catástrofes) maximizar as taxas reprodutivas melhorando os habitats• considerar a implementação de programas de reprodução em cati-• veiro e outros procedimentos de conservação ex situ isolá-las das mudanças ambientais.• O regime acima deve incluir quarentena contra doenças introduzidas, o controle de pestes, predadores e competidores e a realização de mo- nitoramento, de maneira que ações de proteção possam ser iniciadas tão logo surjam novas ameaças. Por exemplo, o recentemente desco- berto e ameaçado pinheiro de Wollemi, da Austrália, não apresenta diversidade genética alguma, tanto dentro quanto entre as populações (Capítulo 1). A recuperação desta espécie de planta requer (a) restrição do acesso às populações mantendo-se suas localizações em segredo, (b) permissão de acesso apenas a pessoas com autorização, (c) implemen- tação de um protocolo de higiene restritivo para se evitar a introdução de doenças, (d) manejo do fogo e (e) a manutenção de amostras ex situ de cada planta em jardins botânicos. Além disso, a propagação da es- pécie para fins comerciais estáaumentando o tamanho populacional, reduzindo os riscos de efeitos estocásticos. O furão-de-pés-negros apresenta uma baixa diversidade genética, mas é um caso menos extremo. Seu plano de recuperação requer a criação de uma população de cativeiro que possa fornecer indivíduos para o restabelecimento de 10 populações na natureza, em diferentes localidades, para minimizar os riscos de doenças e de outras catástro- fes ambientais. Manejo genético de populações fragmentadas Muitas espécies ameaçadas têm seus habitats fragmentados, como ilustrado pelo panda gigante (Fig. 7.3). As opções de manejo para maxi- mizar a diversidade genética e minimizar o endocruzamento e o risco de extinção destas populações são aumentar a área e a qualidade do habitat• aumentar artificialmente os níveis e as taxas de fluxo gênico atra-• vés da translocação de indivíduos, de maneira a se atingir os níveis históricos criar corredores de habitats, e• restabelecer populações em habitats adequados onde a espécie te-• nha se tornado extinta Para se reduzir ou evitar as conseqüências genéticas deletérias da fragmentação, o fluxo gênico deve ser restabelecido movendo-se indi- víduos (translocação) ou gametas, ou ainda, estabelecendo-se porções As conseqüências genéticas da fragmentação populacional podem ser aliviadas com o restabelecimento dos níveis históricos de fluxo gênico entre os fragmentos, com a melhora da qualidade dos habitats e com o restabelecimento de populações em áreas onde a espécie tenha se tornado extinta O fluxo gênico deve ser restabelecido para reduzir os riscos de extinção em fragmentos geneticamente isolados O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL132 de habitats que possam servir como corredores de migração entre os fragmentos. Os benefícios da imigração têm sido observados em mui- tos casos. Na pequena planta Scabiosa columbaria indivíduos resultan- tes de cruzamentos entre diferentes populações apresentaram valor adaptativo 2,5 vezes maior do que aqueles resultantes de cruzamentos realizados dentro de uma única população. De maneira similar, proje- ções computacionais indicaram que a imigração irá reduzir os riscos de extinção de duas pequenas populações de rinocerontes negros do leste da África (Quadro 7.2). A translocação de indivíduos entre populações pode ser financei- ramente custosa, especialmente para grandes animais. Existem tam- bém os riscos de injúrias, como a transmissão de doenças e problemas comportamentais advindos da soltura. Por exemplo, leões machos matam os filhotes, assim como machos sexualmente maduros de mui- tas espécies matam os intrusos. No entanto, os custos da translocação podem ser reduzidos pela inseminação artificial, em espécies para as quais esta tecnologia tem sido aperfeiçoada (veja abaixo). Os mesmos cuidados que se deve adotar para evitar a depressão por exocruzamen- to, discutidos previamente, devem ser exercitados para se planejar as translocações. Corredores entre fragmentos de habitats (freqüentemente reco- mendados por razões não genéticas) podem restabelecer o fluxo gêni- co entre populações isoladas. As espécies variam em suas necessidades Fig. 7.3 Fragmentação dos habitats do panda gigante na China (Lu et al. 2001). Panda MANEJO GENÉTICO DE POPULAÇÕES FRAGMENTADAS 133 Quadro 7.2 Modelagem dos efeitos da depressão por endocruzamento e da imigração na sobrevivência de populações de rinocerontes negros no Kenia (Dobson et al. 1992) As populações de rinocerontes negros são ameaçadas ao longo de toda a área de distribuição da espécie, principalmente devido à caça. No leste da África nenhuma população apresentava mais do que 60 animais no início dos anos 90, e a situação se encontra provavelmente pior atualmente. A distribuição é fragmentada e não há fluxo gênico entre a maioria, senão todos, os fragmentos. Dobson e seus colaboradores investigaram os fatores demográficos e genéticos que provavelmente estariam contribuindo com os riscos de extinção, além de aspectos que deveriam ser considerados no manejo. Simulações computacionais estocásticas (AVP) foram utilizadas para projetar a história de cada indivíduo, desde seu nascimento até sua morte, incluindo sua contribuição como reprodutor (Capítulo 5). Para a construção dos arquivos de entrada foram utilizados dados de populações encontradas em santuários de vida selvagem, contendo a identidade e a filiação de cada indivíduo e taxas de sobrevivência e reprodução específicas de cada idade e sexo, além das taxas de imigração de diferentes classes etárias e sexos. As populações de Lewa Downs e do Parque Nacional de Nakuru, no Quênia, foram modeladas para 200 anos, considerando-se (a) ausência de imigração e depressão por endocruzamento (apenas as estocasticidades ambientais e demográficas), (b) depressão por endocruzamento, mas ausência de imigração e (c) depressão por endocruzamento e imigração de um indivíduo a cada 10 anos durante os 50 primeiros anos. O valor utilizado para representar os efeitos do endocruzamento na sobrevivência foi uma aproximação obtida da média dos valores apresentados por várias populações de mamíferos mantidos em cativeiro. Os números iniciais de indivíduos das duas populações foram baseados em seus tamanhos reais, sendo 10 fêmeas e 3 machos em Lewa Downs e 7 fêmeas e 11 machos no Parque Nacional Nakuru. Black rhinoceros O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL134 para que um corredor seja um caminho de migração efetivo. A propos- ta mais ambiciosa deste tipo é o ‘The Wildlands Project’ – cujo objetivo é estabelecer corredores do norte ao sul da América do Norte. Estes corredores ligariam as reservas existentes, e tanto as reservas quan- to os corredores, seriam protegidos por zonas tampão compostas por habitats adequados para os animais e plantas. Devido aos desafios sociais, políticos e financeiros, o intervalo de tempo para se atingir este objetivo seria de centenas de anos. No entanto, este sistema será essencial se pretendemos conservar a biodiversidade em longo prazo. Com as mudanças climáticas globais, plantas e animais precisarão mudar suas distribuições para acompanhar os movimentos das zonas climáticas. Na situação atual, tais movimentos seriam freqüentemen- te impedidos por habitats antrópicos que se encontram entre as áreas protegidas. Apesar de serem freqüentes os casos de fragmentação de populações de espécies ameaçadas, ainda existem poucos casos de uso da imigra- ção como uma medida prática para se reduzir o endocruzamento e a perda de diversidade genética em populações selvagens de animais e plantas. Indivíduos têm sido introduzidos em pequenas populações do pica-pau em perigo Picoides borealis, dado que simulações computacio- nais haviam previsto que seriam extintos se o número de indivíduos não fosse aumentado. Outros casos de aplicação desta estratégia em animais são a pantera da Flórida (Quadro 7.1) e o mico-leão-dourado (Quadro 8.3). Dois exemplos da botânica envolvem plantas auto-incompatíveis, nas quais a perda de alelos dos locos que determinam a auto-incompa- tibilidade tem reduzido a taxa reprodutiva devido à escassez de pólen compatível (Capítulo 5). A população ameaçada de Hymenoxys acaulis, de Illinois, estava incapacitada de se reproduzir porque continha pou- cos alelos de auto-incompatibilidade (S). Por isto, foram cruzadas com plantas do estado de Ohio. Além disso, sementes das populações de Ohio e Ontário foram introduzidas para aumentar a diversidade de alelos S e recuperar a capacidade reprodutiva da população. O excesso de consumo por ovelhas reduziu a população de Argyroxi- phium sandwicense para apenas 50 plantas adultas. Posteriormente, 450 indivíduos foram cultivados e introduzidos na natureza para aumen- tar as populações. Entretanto, análisesgenéticas revelaram que todos os indivíduos introduzidos foram obtidos a partir da progênie de ape- nas duas plantas fêmeas. Por isto, apresentavam diversidade genética No caso (a) os parâmetros estocásticos levaram a um risco de extinção de mais de 50% após 200 anos na menor população, Lewa Downs, mas menos de 10% na população maior (Nakuru). Considerando-se a depressão por endocruzamento (caso b), as probabilidades de extinção aumentaram para 76 e 22%, respectivamente. Considerando-se a depressão por endocruzamento e a imigração, os riscos de extinção foram reduzidos para aproximadamente 40 e 5%, respectivamente (caso c). Conseqüentemente, pressupõe-se que a imigração reduza os riscos de extinção dessas populações fragmentadas de rinocerontes. Migrações adicionais após os 50 primeiros anos resultam em reduções adicionais nos riscos de extinção. O manejo genético de populações fragmentadas é o grande desafio ainda não atingido na genética da conservação Mauna Kea silversword MANEJO GENÉTICO DE POPULAÇÕES FRAGMENTADAS 135 menor do que a população original selvagem. Como se trata de uma espécie auto-incompatível, os indivíduos plantados produziram ape- nas 20% da quantidade normal de sementes. Para contornar este pro- blema, os indivíduos plantados têm sido polinizados com pólen de indivíduos não aparentados da população natural, o que aumentou a produção de sementes para 60%, possivelmente porque este pólen carrega diferentes alelos S. Manejo do fluxo gênico O manejo do fluxo gênico requer que as seguintes questões sejam consideradas: quais indivíduos translocar?• quantos?• com que freqüência?• de onde para onde?• quando a translocação deve começar?• quando deve ser cessada?• Com tantas variáveis, projeções computacionais do tipo apresentado no Quadro 7.2 serão freqüentemente necessárias para se otimizar o manejo. O objetivo é identificar um regime que mantenha populações geneticamente viáveis e seja adequado às outras necessidades de ma- nejo, além de ser economicamente compatível. As análises genéticas devem ser incluídas nos programas de monitoramento para garantir a manutenção da capacidade adaptativa. O restabelecimento de populações extintas Para se maximizar o tamanho populacional e minimizar os riscos de extinção, as populações que se tornaram extintas devem ser restabele- cidas a partir das populações remanescentes, isto, é claro, se os habi- tats ainda puderem suportá-las. Quais populações devem ser utilizadas para restabelecer as popu- lações extintas? Para minimizar o endocruzamento e maximizar a diversidade genética, a população re-fundada deve ser uma amostra da maioria ou de todas as populações existentes. Um caso de má esco- lha de populações é apresentado para o coala no sudoeste da Austrália (Quadro 7.3). Populações de ilhas com baixa variabilidade genética fo- ram utilizadas para reintrodução, dado que havia um grande número de indivíduos disponíveis nestes locais. Os aspectos genéticos foram ignorados, o que resultou em efeitos deletérios. Quando existem evidências de diferenciação genética adaptati- va entre as populações existentes (por exemplo, muitas espécies de plantas), os indivíduos translocados devem vir das populações mais prováveis de serem as melhores adaptadas ao habitat em questão. Freqüentemente, esta será a população sobrevivente mais próxima geograficamente. O restabelecimento deve ser feito utilizando-se a população mais diversificada geneticamente e com o maior sucesso reprodutivo no tipo de ambiente em que será realizada a soltura. Alternativamente, uma amostragem de todas as populações pode ser utilizada quando todas elas têm o mesmo nível de adaptação ao ambiente de soltura. Muitas variáveis devem ser consideradas ao se manejar o fluxo gênico. Isto requer um monitoramento genético contínuo, projeções computacionais para otimizar as estratégias de manejo e manejo adaptativo Para manter o tamanho da população o maior possível, as populações extintas devem ser restabelecidas através da translocação de outras populações O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL136 Quadro 7.3 Reintrodução de coalas no sudoeste da Austrália: um programa mal projetado com impactos genéticos adversos (Houlden et al. 1996; Sherwin et al. 2000; Seymour et al. 2001) O coala é um marsupial singular, endêmico do oeste da Austrália. Além de ser um ícone cultural, presta um importante papel nos lucros obtidos com o turismo. Originalmente era encontrado de Queensland a Victoria e no sul da Austrália, mas seus números têm sido reduzidos devido à caça, à perda de habitats e doenças. Nos anos 30, os coalas já habitavam menos de 50% de sua distribuição original, tendo desaparecido no sul da Austrália e estava quase extinto em Victoria. No entanto, eles ainda eram considerados comuns em Queensland, onde eles se recuperaram sem assistência em larga escala. O comércio de peles deixou de existir nesta época e os coalas se tornaram protegidos por lei em todos os estados. Desde então, muitos esforços têm sido feitos para a conservação desta espécie. Muitas translocações de animais ocorreram na região sudeste. Uma população foi fundada a partir de dois ou três indivíduos em French Island (FI), Victoria, no final do século 19. Na ausência de predadores, essa população rapidamente atingiu a capacidade suporte. Indivíduos excedentes de French Island foram utilizados para fundar uma outra população em Kangaroo Island (KI) (18 adultos fundadores, mais alguns jovens) em 1923-25, e para suplementar uma população fundada em Phillip Island (PI) por volta de 1870. As populações de Phillip e French Island foram amplamente utilizadas para suplementar as populações continentais de Victoria, e a população de Kangaroo Island foi utilizada para reforçar as populações continentais do sul da Austrália. A população continental re-estocada do sul da Austrália sofreu, portanto, três gargalos, Victoria continental → French Island → Kangaroo Island → sul da Austrália continental. Desde 1923, 10000 animais foram translocados para 70 localidades. O reforço de populações utilizando-se indivíduos de populações que passaram por gargalos resultou em perda de diversidade genética e endocruzamento. As populações de Victoria e do sul da Austrália apresentam em torno da metade da diversidade genética das populações menos perturbadas localizadas mais ao norte. A população de Kangaroo Island apresenta a menor diversidade genética de Koala CONSIDERAÇÕES GENÉTICAS NO DESENHO DE RESERVAS 137 Considerações genéticas no desenho de reservas Muitas questões ecológicas, políticas e genéticas devem ser levadas em consideração para o desenho de reservas naturais. Soulé & Simberloff sugeriram que três passos devem ser seguidos: (a) identificar espécies alvo, ou espécies-chave, cujas perdas reduziriam significativamente a biodiversidade na reserva, (b) determinar o tamanho mínimo popula- cional necessário para garantir uma alta probabilidade de sobrevivên- cia destas espécies em longo prazo, e (c) utilizando-se as densidades populacionais conhecidas destas espécies, estimar a área necessária para manter os números mínimos. Já as questões genéticas envolvidas no desenho de reservas seriam: a reserva é grande o suficiente para suportar uma população gene-• ticamente viável? a espécie ocorre na área da futura reserva?• deve haver uma grande reserva ou várias reservas menores?• A partir dos argumentos apresentados no Capítulo 5, seria necessária uma reserva de tamanho suficiente para manter uma população efe- tiva de pelo menos algumas centenas de indivíduos e uma população real de vários milhares de indivíduos. As espécies ameaçadas devem ser mantidas em uma única grande reserva ou em várias reservas menores? Geralmente, uma única grande reservaé mais desejável sob o ponto de vista genético, principalmente se existe o risco de as populações se tornarem extintas nas reservas pequenas. Por outro lado, a proteção contra catástrofes requer mais de uma reserva. A situação mais segura é manter mais de uma reserva de tamanhos consideráveis, garantindo-se que haja fluxo gênico entre elas de maneira natural ou artificial. Na prática, a escolha tem sido um processo fortuito, determinado muito mais pelas políticas locais, pelos usos alternativos do solo e pela necessidade de reservas para propósi- tos de usos múltiplos (por exemplo, recreação), do que por princípios biológicos. todas as populações amostradas. Todas as populações do sudoeste demonstram freqüências similares de alelos de microssatélites, enquanto as populações localizadas mais ao norte exibem considerável diferenciação genética interpopulacional. As translocações também levaram a um aumento de freqüência de machos sem testículos (aplasia testicular), o que é mais acentuado na população continental do sul da Austrália, na qual o gargalo foi mais severo. O que deveria ter sido feito para evitar estes problemas? A perda de diversidade genética e a depressão por endocruzamento teriam sido evitadas se a população de French Island tivesse sido fundada com um número maior de indivíduos, ou se a diversidade genética tivesse sido aumentada para dar-lhe uma base melhor. O que pode ser feito para reverter os problemas atuais? A estratégia mais eficiente seria introduzir mais diversidade genética nas populações do sudoeste (tanto nas ilhas quanto no continente) a partir de populações próximas que apresentem alta diversidade genética. As reservas precisam ser suficientemente grandes para suportar as espécies alvo, e conter os habitats aos quais as espécies estejam adaptadas. O fluxo gênico, natural ou artificial, deve ocorrer entre as reservas O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL138 Introgressão e hibridação Introgressão é o fluxo de alelos de uma espécie ou subespécie para outra. Tipicamente, as hibridações ocorrem quando o homem introduz espé- cies exóticas nas áreas de ocorrência de espécies raras aparentadas, ou altera o habitat, de maneira que espécies previamente isoladas são postas em contato secundário. A introgressão é uma ameaça à integridade ge- nética de vários canídeos, patos, peixes, plantas, e outros organismos. A introgressão pode ser detectada utilizando-se uma ampla varie- dade de marcadores genéticos, incluindo alozimas, microssatélites, fingerprints de DNA e, quando apropriado, cromossomos. Análises de alozimas em leões asiáticos de cativeiro detectaram alelos de leões africanos. As ameaçadas panteras da Flórida consistem de duas popu- lações, uma das quais apresenta introgressão de uma subespécie de pantera sul-americana (Quadro 7.1). Fêmeas do criticamente em perigo lobo da Etiópia têm se hibridado com cães domésticos, em níveis que variam nas diferentes populações (Exemplo 3.1). Uma forma particularmente deletéria de hibridação é aquela que ocorre entre populações diplóides e tetraplóides, resultando em tri- plóides estéreis. Um exemplo deste tipo de hibridação ocorre na planta em perigo Rutidosis leptorrhynchoides, da Austrália. Controle da introgressão A árvore Cercocarpus traskiae (Quadro 7.4) é um exemplo de manejo de uma espécie sujeita à hibridação. Neste caso, a informação genética foi fundamental para se descobrir o problema da hibridação e para a identificação dos indivíduos híbridos, mas teve um papel limitado no processo de recuperação. Algumas opções para solucionar o problema da introgressão in- cluem a eliminação da espécie introduzida, ou a translocação de in- divíduos puros para regiões isoladas ou para o cativeiro. O sucesso é difícil de ser atingido. Por exemplo, não seria nada prático remover todos os cães domésticos do habitat do lobo da Etiópia. Algumas espécies são ameaçadas devido ao cruzamento com espécies relacionadas mais abundantes. Análises genéticas podem ser utilizadas para detectar a introgressão e indivíduos híbridos Endangered grassland daisy A introgressão pode ser reduzida através da remoção da espécie que potencialmente se hibridiza, da eliminação dos indivíduos híbridos ou da expansão do número de indivíduos puros Quadro 7.4 Cercocarpus traskiae: identificação de híbridos com uma espécie aparentada e implementação de um plano de recuperação (Rieseberg & Swensen 1996) Cercocarpus traskiae é uma pequena árvore em perigo quase inteiramente restrita a uma única encosta da Ilha Santa Catalina, na Califórnia. A espécie é extremamente rara, tendo declinado de 40 para 11 plantas em 1996. Este declínio ocorreu como conseqüência da introdução de cabras no local. Um inventário botânico realizado na ilha no final dos anos 70 identificou vários indivíduos que lembravam uma outra espécie, C. betuloides, ou indivíduos com características intermediárias entre as duas espécies. Estudos genéticos utilizando alozimas e RAPDs identificaram seis das 11 árvores adultas como sendo C. traskiae puras e as outra cinco como sendo híbridas com C. betuloides. O manejo de C. traskiae teve início colocando-se cercas ao redor das C. traskiae verdadeiras, o que resultou na produção de aproximadamente 70 mudas, sendo a maioria alozimicamente puras. Várias amostras das plantas puras têm sido propagadas e 16 indivíduos foram plantados na ilha. O maior problema que permanece é a presença de cabras, porcos e os bisões e veados recentemente introduzidos, que comem as plantas e arrancam suas raízes.Catalina mahogany OS IMPACTOS DA EXPLORAÇÃO 139 Os impactos da exploração Muitas espécies de animais e plantas selvagens são coletadas ou caça- das, por exemplo, peixes, árvores, cervos e elefantes. Estas práticas re- duzem os tamanhos efetivos e a diversidade genética das populações, trazendo conseqüências deletérias. Para os elefantes asiáticos, por exemplo, a caça tem impactado a razão sexual, a taxa reprodutiva e o tamanho efetivo populacional (Quadro 7.5). Além disso, estima-se que a caça irá reduzir drasticamente a diversidade genética dos alces e dos veados de cauda branca. Quadro 7.5 Os impactos da caça na razão sexual, no tamanho efetivo populacional, no sucesso reprodutivo e na viabilidade populacional dos elefantes asiáticos (Sukumar et al. 1998) A caça pelo marfim tem causado um impacto devastador na razão sexual, dado que apenas os elefantes asiáticos machos apresentam presas. Nos últimos 20 anos, a caça no sul da Índia dizimou a população de machos, de maneira que na reserva Periyar existem apenas seis machos adultos para 605 fêmeas. Da equação 4.7, Ne = 24. Além disso, com um número tão pequeno de machos, as taxas reprodutivas das fêmeas também declinaram. As fêmeas que não se reproduzem durante a juventude permanecem estéreis pelo resto da vida. A caça não afeta apenas a razão sexual e o tamanho efetivo, mas também reduz o sucesso reprodutivo. A exploração pode alterar a razão sexual, o Ne, o sistema reprodutivo, o intervalo entre as gerações, o fluxo gênico e pode resultar em endocruzamento e em perda de diversidade genética Asian elephant A exploração seletiva imposta pelo homem pode alterar a composição genética e os fenótipos das populações Os impactos da exploração seletiva podem ser aliviados pela mudança dos regimes de coleta ou eliminando-se as coletas em parte das populações A caça seletiva deve favorecer fenótipos particulares dentro das po- pulações. Por exemplo, grandes peixes, elefantes com as maiores presas e os veados com grandes galhadas são preferencialmente capturados. Isto deve resultar em pressões de seleção que mudam os fenótipos das espécies, conflitando com as forças da seleção natural e reduzindo o valor adaptativo da população.Por exemplo, a caça pelo marfim está aumentando a freqüência de elefantes machos sem presas em várias populações da África e da Ásia. Estes machos sem presas têm menor capacidade de obter pares para o acasalamento e são menos capazes de enfrentar predadores. A solução obvia para este problema é reduzir a seletividade da caça, mas isto é difícil de ser conseguido na prática. A caça aos elefan- tes é uma atividade ilegal e, por isto, não sujeita a regulamentação. Apesar de muitos acordos internacionais, a pesca também é difícil de regulamentar, o que pode ser atestado pelo colapso de muitos re- cursos pesqueiros. Como as espécies comerciais ocorrem freqüente- mente em grandes quantidades, embora muitas estejam se tornando escassas, uma opção é preservar uma proporção da população. Dessa maneira, estoques completamente selvagens são mantidos para re- povoar as áreas de coleta, minimizando os impactos genéticos da pesca. Os impactos genéticos e evolutivos da caça seletiva têm recebido muito pouca atenção no manejo de espécies ameaçadas. O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL140 Manejo genético de espécies sem reprodução biparental Muitas espécies de plantas e alguns animais não apresentam reprodu- ção biparental. Portanto, requerem estratégias de manejo modificadas. Isto inclui: espécies que se reproduzem assexuadamente• espécies autógamas• espécies poliplóides (muitas espécies de plantas e algumas poucas • espécies de animais) Abaixo consideramos suas características e as modificações que acarre- tam no manejo genético. Espécies assexuadas Muitas espécies de plantas são capazes de reprodução vegetativa, atra- vés de brotos, bulbos, rizomas, etc. Espécies com reprodução exclusiva- mente assexuada em geral ocorrem na forma de um ou poucos tipos de clones. Os clones são essencialmente idênticos, embora possa ocorrer diversidade genética entre os diferentes tipos. Por exemplo, o arbusto triplóide australiano em perigo Lomatia tasmanica existe na forma de um único clone, e a planta em perigo Limonium dufourii, da Espanha, consiste de vários tipos de clones triplóides. Numa espécie totalmente clonal o endocruzamento não é uma pre- ocupação. No entanto, espécies que existem na forma de um único clone essencialmente não apresentam variação para se adaptarem às mudanças do ambiente. Elas são similares a populações endocruzadas de espécies sexuadas. Esta fragilidade requer um tipo de manejo pare- cido com o utilizado no pinheiro de Wollemi (veja acima). Em espécies que realizam tanto a reprodução sexuada quanto a assexuada, o número de indivíduos geneticamente distintos deve ser muito menor do que o número de indivíduos de uma amostra. Por exemplo, 53 indivíduos do arbusto australiano em perigo Haloragoden- dron lucasii consistiram de apenas sete tipos de clones, uma diversidade genética bastante reduzida se comparada a uma espécie equivalente de reprodução sexuada. A manutenção da diversidade genética em espécies de reprodução assexuada requer que a estrutura das populações seja considerada na conservação in situ, no restabelecimento de populações extintas e na obtenção de amostras para conservação ex situ. A maior prioridade é identificar e manter o maior número possível de clones distintos. Espécies autógamas Aproximadamente 20% das espécies de plantas fazem autofecundação com freqüência, como a espécie em perigo Stephanomeria malheurensis, e 40% das espécies fazem autofecundação ocasionalmente, como Bank- sia brownii. Espécies predominantemente autógamas são geralmente menos heterozigotas do que espécies com fecundação biparental, com maior proporção da diversidade genética distribuída entre populações, do As espécies que não apresentam reprodução biparental requerem um manejo genético modificado, dado que diferem na distribuição e nas taxas de perda de diversidade genética e em suas respostas ao endocruzamento Em espécies assexuadas, muitos indivíduos devem apresentar genótipos idênticos, de maneira que é necessário um grande cuidado para se amostrar toda a diversidade de clones existentes dentro delas Espécies autógamas geralmente apresentam menos heterozigose dentro das populações e maior diferenciação entre as populações, se comparadas com as espécies de reprodução biparental. Conseqüentemente, é necessário um esforço muito maior para se preservar a diversidade interpopulacional dessas espécies A AVALIAÇÃO DAS ESTRATÉGIAS DE RECUPERAÇÃO 141 que dentro delas. As populações comumente contêm alelos únicos. Conseqüentemente, alelos têm maiores probabilidades de serem eli- minados pela perda de populações locais em espécies autógamas do que em espécies biparentais. O endocruzamento não é um problema tão grave para as espécies autógamas, dado que geralmente sofrem me- nos depressão por endocruzamento. No entanto, muitas populações autofecundantes fazem fecunda- ção biparental periodicamente, e a oportunidade de fazê-la deve ser preservada em espécies ameaçadas. A redução do fluxo gênico devido à fragmentação das populações é menos importante em espécies naturalmente endocruzadas, dado que muitas vezes elas já são altamente fragmentadas. Para se preservar a diversidade genética dentro das populações e a heterozigose nos in- divíduos, pequenas populações fragmentadas devem ser aumentadas com indivíduos de outros fragmentos. Espécies poliplóides O manejo genético de espécies poliplóides de fecundação biparental (a maioria das angiospermas e pteridófitas) segue os mesmos princípios das espécies diplóides com sistema reprodutivo similar. No entanto, os problemas genéticos são geralmente menos sérios do que nos equiva- lentes diplóides. Por exemplo, uma população de tetraplóides contém duas vezes mais cópias de cada alelo do que uma população diplóide de mesmo tamanho efetivo. Portanto, os poliplóides provavelmente sofram menos depressão por endocruzamento e menos perda de di- versidade genética em pequenas populações do que os diplóides. Con- seqüentemente, os poliplóides devem tolerar tamanhos populacionais menores do que os diplóides. Entretanto, os tamanhos necessários para se evitar as estocasticidades demográficas e ambientais, bem como as catástrofes, são similares (veja Capítulo 5). A avaliação das estratégias de recuperação Muitos procedimentos têm sido recomendados para a recuperação de populações ameaçadas, incluindo as restrições legais à exploração, a re- moção de predadores, a melhora e preservação dos habitats, a reprodu- ção em cativeiro, etc. As análises de Viabilidade Populacional (AVP) são freqüentemente utilizadas para se avaliar e comparar estas opções (Ca- pítulo 5). Em geral, inicia-se com análises de sensitividade, seguidas de AVPs detalhadas que comparam as várias opções específicas de manejo. Análises de sensitividade As análises de sensitividade constituem uma importante ferramenta para se avaliar programas de recuperação de espécies ameaçadas. Es- tas análises envolvem variações progressivas nos valores médios dos diferentes parâmetros utilizados nas AVPs, em ambas as direções, e a avaliação de seus efeitos no risco de extinção ou no tamanho das popu- lações. Dessa maneira, os parâmetros cujos valores mais influenciam no resultado podem ser identificados. Por exemplo, o resultado é mais sensitivo a variações na sobrevivência dos juvenis, taxas reprodutivas Brown’s banksia As recomendações para o manejo genético de espécies poliplóides são similares a aquelas feitas para espécies diplóides, embora pequenos tamanhos populacionais e o endocruzamento sejam preocupações menores As análises de viabilidade populacional são amplamente utilizadas como uma ferramenta de manejo que permite comparar opções para se recuperar espécies As análises de sensitividade envolvema determinação do impacto relativo de diferentes parâmetros sobre os riscos de extinção O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL142 dos adultos, níveis de predação, etc? Opções alternativas de manejo podem, portanto, ser comparadas. Por exemplo, a sobrevivência no primeiro ano de vida demonstrou ser o parâmetro cuja variação mais causou impactos sobre o crescimento populacional da ave Tympanuchus cupido. Conseqüentemente, o manejo deve focar no aumento do sucesso dos ninhos e na sobrevivência das ninhadas e dos jovens de até um ano de idade. As análises de sensitividade podem mudar nossa percepção sobre a importância dos fatores de ameaça. Por exemplo, a predação dos filho- tes por leões e hienas tem sido considerada a maior ameaça para a via- bilidade dos guepardos. Entretanto, análises de sensitividade revelaram que esta espécie é muito mais sensível a mudanças na sobrevivência dos adultos do que de filhotes. Da mesma maneira, durante muitos anos o manejo da tartaruga Caretta caretta focou a questão aparentemente ób- via de que o aumento da sobrevivência dos recém nascidos iria reverter o declínio populacional. Mas análises de sensitividade demonstraram que a redução da mortalidade dos adultos pelas redes de pesca de ca- marão era a maneira mais eficiente de se prevenir o declínio. Estudos de caso Gallirallus sylvestris A população de Gallirallus sylvestris declinou para 20-30 indivíduos nos anos 70 devido à exploração pelo homem no passado e, principalmen- te, devido a predação e destruição do habitat por porcos introduzidos. A recuperação desta ave procedeu-se com o extermínio dos porcos e com um programa de reprodução em cativeiro e reintrodução, no qual 86 indivíduos nascidos em cativeiro foram soltos num período de quatro anos. Uma análise retrospectiva do programa de recupera- ção confirmou que os procedimentos de manejo implementados eram realmente necessários. A probabilidade de extinção para 100 anos era de 100% se nenhuma ação fosse adotada, 40% se apenas os porcos tives- sem sido controlados e 2% para a combinação de controle dos porcos e reprodução em cativeiro. Embora apenas o controle dos porcos já teria removido a principal causa de ameaça, isto por si só não garantiria que a população atingisse números suficientes para evitar a extinção por fatores estocásticos. Atualmente, G. sylvestris tem uma população relativamente estável de aproximadamente 200 indivíduos na ilha, e seu status foi mudado de em perigo para vulnerável. Enquanto o lado ecológico desse pro- grama é considerado um modelo, o manejo genético ficou longe de ser satisfatório. Dado que apenas três casais contribuíram para o pro- grama de reprodução em cativeiro, a população total será muito mais endocruzada do que antes do programa. Além disso, é provável que a variação genética seja perdida devido à contribuição desigual desses casais. Portanto, seria desejável que a base genética do programa de reprodução em cativeiro tivesse sido aumentada pela adição de mais indivíduos férteis, uma vez que se sabia que se reproduziam com su- cesso no cativeiro. Infelizmente, análises da variabilidade genética da população não têm sido realizadas e nenhuma ação corretiva foi pla- nejada. Além disso, o monitoramento rotineiro cessou. Uma AVP prospectiva concluiu que a população é altamente Lord Howe Island woodhen REPRODUÇÃO SUPLEMENTAR E TECNOLOGIAS DE REPRODUÇÃO ASSISTIDA 143 sensível a pequenas mudanças nas taxas de mortalidade e fecundidade (por exemplo, devido à depressão por endocruzamento) e catástrofes causadas por espécies exóticas ou doenças. O estabelecimento de uma segunda população numa outra ilha foi recomendado para minimizar estes riscos, mas este procedimento não foi implementado. O salmão Oncorhynchus tshawytscha Em Oregon, EUA, o salmão Oncorhynchus tshawytscha tem declinado dra- maticamente desde o início do século passado, primariamente devido à degradação do seu habitat causada pelo acúmulo de matéria em sus- pensão produzido pela construção de estradas e pelo desmatamento. A cada ano, na primavera, menos de 300 indivíduos têm subido o rio South Umpqua para desovar. Uma AVP dessa população estimou riscos muito baixos de extinção em 100 e 200 anos, assumindo-se que o habi- tat não se torne mais degradado. No entanto, esta conclusão foi alta- mente sensível a incertezas dependentes da densidade populacional. O risco de extinção estimado foi de 100% assumindo-se a continuação da degradação do ambiente em taxas similares às do passado. Pedicularis furbishiae Esta planta herbácea perene e em perigo já chegou a ser dada como ex- tinta. Entretanto, aproximadamente 5000 indivíduos foram descober- tos em 28 colônias ao longo de um trecho de 230 km de um único rio localizado em Maine e New Brunswick, noroeste da América do Norte. Esta espécie ocorre apenas nos barrancos do rio voltados para o norte, num tipo de ambiente que sofre distúrbios periódicos. Trata-se de uma hemiparasita de estágios iniciais de sucessão que não pode invadir os barrancos dos rios degradados pelo menos nos três primeiros anos de sucessão, e em fases mais tardias são eliminadas por competidoras mais altas, o que leva a um ciclo regular de colonização e extinção (a espécie existe como uma metapopulação). Uma AVP demonstrou que as populações individuais tinham probabilidade de extinção de 87% em 100 anos, de maneira que a sobrevivência da espécie é criticamen- te dependente do balanço entre colonização e extinção. Como as ex- tinções freqüentemente excedem as colonizações, a viabilidade desta espécie em longo prazo é bastante tênue. Além disso, a capacidade da população de se adaptar em longo prazo é questionável, dado que as quatro populações da espécie não apresentaram diversidade genética em 22 locos de alozimas. Reprodução suplementar e tecnologias de reprodução assistida A reprodução em cativeiro é uma importante opção de conservação para espécies com alto risco de extinção na natureza. No próximo ca- pítulo trataremos do manejo genético de populações em cativeiro, ou ex situ. Concluiremos este capítulo enfatizando brevemente três casos que são intermediários entre manejo na natureza e em cativeiro. Chinook salmon Furbish’s lousewort O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL144 Reprodução suplementar A reprodução suplementar é utilizada amplamente no manejo de pei- xes para aumentar as populações selvagens. Isto difere da reprodução em cativeiro tradicional porque adultos selvagens são trazidos para o cativeiro, se reproduzem, e suas progênies são parcialmente criadas antes de serem soltas. Não há populações de cativeiro permanentes. O manejo destes programas tem dois objetivos freqüentemente confli- tantes: a soltura de um grande número de juvenis e a manutenção da diversidade genética das populações selvagens. Para espécies altamente prolíferas, como muitos peixes, apenas um pequeno número de adul- tos é necessário para produzir os juvenis para serem soltos, e a captura deste pequeno número de adultos pode ser o desejado para espécies ameaçadas. Entretanto, este procedimento deve reduzir a diversidade genética e aumentar o endocruzamento à medida que as populações selvagens passam a experimentar tamanho efetivo reduzido devido ao tamanho desigual das famílias (Capítulo 4). Embora a genética tenha inicialmente recebido pouca atenção nestes programas, nos últimos passou a ser mais enfatizada. Suporte reprodutivo Algumas populações selvagens que não são autosustentáveis são man- tidas pela soltura regular de populações de cativeiro (suporte repro- dutivo). O ganso Nene (ganso havaiano) tem sido sujeito a um longo programa de reintrodução, dado que as populações selvagens não parecem ser autosustentáveis. Estoques de peixes de cativeiro são am- plamente utilizadospara aumentar as populações selvagens de muitas espécies, especialmente aqueles que favorecem os pescadores. Esses suportes reprodutivos geralmente apresentam impactos dele- térios de longo prazo na composição genética e no sucesso reprodutivo dos estoques selvagens, como: (a) redução do tamanho efetivo popula- cional, (b) perda de diversidade genética, (c) depressão por endocruza- mento e (d) redução do sucesso reprodutivo resultante de adaptações genéticas ao cativeiro que são deletérias na natureza. Adaptação gené- tica é um problema em peixes quando os habitats selvagens são repo- voados utilizando-se populações que passaram por muitas gerações em cativeiro, dado que eles geralmente têm menor capacidade reproduti- va nos ambientes selvagens (ver Capítulo 8). Tecnologias de reprodução assistida As tecnologias de reprodução assistida, incluindo a inseminação artifi- cial, bancos genéticos, coleta e criopreservação de gametas, fertilização in vitro, transferência de embriões, transferência nuclear (clonagem) e os bancos de sementes e tecidos, estão avançando rapidamente. O objetivo em longo prazo é suplementar as populações selvagens com indivíduos produzidos em cativeiro, ou mesmo ressuscitar espécies ex- tintas a partir de tecidos ou materiais genéticos preservados. Embora muitas destas tecnologias ainda estejam em fase de desenvolvimento e não estejam disponíveis para muitas espécies selvagens, elas têm o potencial de contribuir significativamente com a conservação genéti- ca das seguintes maneiras: A reprodução suplementar envolve a captura de adultos da natureza, a reprodução em condições controladas e a soltura da prole na natureza Algumas populações selvagens são regularmente aumentadas com indivíduos de populações de cativeiro, mas isto pode ser em longo prazo geneticamente prejudicial Nene A inseminação artificial, os bancos genéticos de longo prazo, a coleta de gametas, a criopreservação de gametas, a fertilização in vitro e a transferência de embriões e de núcleos (clonagem), podem contribuir para a conservação de espécies ameaçadas REPRODUÇÃO SUPLEMENTAR E TECNOLOGIAS DE REPRODUÇÃO ASSISTIDA 145 a transferência de material genético entre populações altamente • fragmentadas pode ser facilitada pela criopreservação de sêmen de machos de alguns fragmentos e a inseminação artificial de fêmeas em outros bancos genéticos de espécies altamente ameaçadas podem preser-• var a diversidade genética em longo prazo sem a perda de alelos que acompanha a reprodução normal ao longo de muitas gerações a contribuição genética de indivíduos mortos pode ser resgatada • pela coleta de seus gametas logo após a morte embriões de espécies em perigo podem ser implantados em espé-• cies relacionadas, aumentando as taxas reprodutivas das espécies em perigo a transferência de núcleos e a clonagem pode facilitar o manejo ge-• nético quando os números de indivíduos limitam as oportunidades reprodutivas A aplicação das tecnologias reprodutivas no manejo genético de ani- mais ameaçados tem focado as populações de cativeiro e têm sido utilizadas em apenas algumas poucas espécies. Enquanto estes pro- cedimentos têm considerável potencial de aplicação em espécies de animais ‘carismáticos’ em perigo, para os quais a consciência pública daria suporte às despesas envolvidas, não é provável que sejam ampla- mente aplicáveis. Entretanto, em plantas, bancos de tecidos e semen- tes e a criopreservação têm amplas aplicações. SUGESTÕES DE LEITURA Frankham, R., J. D. Ballou & D. A. Briscoe. 2002. Introduction to Conservation Genetics. Cambridge University Press, Cambridge, UK. Capítulos 16 e 20 oferecem um tratamento mais extenso sobre estes tópicos, mais referências. Avise, J. C. & J. L. Hamrick. (eds.) 1996. Conservation Genetics: Case Histories from Nature. Chapman & Hall, New York. Contém histórias de casos sobre manejo na natureza de espécies ameaçadas. Beissinger, S. R. & D. R. McCullough. (eds.) 2002. Population Viability Analysis. University of Chicago Press, Chicago, IL. São os resultados de uma conferência sobre AVP que revisou a contribuição das AVP para o manejo de espécies ameaçadas. Ecological Bulletin. 2000. Volume 48: Population Viability Analysis. Um volume especial dedicado ao processo de AVP e suas contribuições para a conservação. Falk, D. A. & K. E. Holsinger. 1991. Genetics and Conservation of Rare Plants. Oxford University Press, New York. Contém uma série de capítulos sobre o manejo na natureza de espécies de plantas ameaçadas. Lanza, R. P., B. L. Draper & P. Damián. 2000. Cloning Noah’s ark. Scientific American 87 (5), 84-89. Descreve o uso real e potencial de tecnologias de reprodução artificial na conservação. Woodford, J. 2000. The Wollemi Pine: The Incredible Discovery of a Living Fossil from the Age of the Dinosaurs. Text Publishing, Melbourne, Australia. Um livro popular interessante e bem escrito sobre a descoberta, conservação e a genética do Wollemi pine. Capítulo 8 Reprodução em cativeiro e reintrodução Espécies ameaçadas podem ser manejadas em cativeiro para maximizar a retenção da diversidade genética em longo prazo. Para que este objetivo seja atingido, comumente evitam-se os cruzamentos entre indivíduos aparentados. As populações de cativeiro podem gerar indivíduos para a realização de reintroduções na natureza. No entanto, o sucesso destes programas de reintrodução pode ser comprometido pela depressão causada pelos endocruzamentos, pela perda de diversidade genética e pela adaptação genética das populações ao cativeiro. Termos Coancestria, conservação ex situ, parentesco, parentesco médio, minimização dos níveis de parentesco, reintrodução, studbook, translocação Uma seleção de espécies em perigo que têm sido reproduzidas ou propagadas em cativeiro e reintroduzidas na natureza: a planta Argyroxiphium sandwicense (Havaí), o condor da Califórnia, o furão-de-pés- negros (América do Norte), o cavalo-de-Przewalski (Mongólia) e o órix da Arábia. POR QUE REPRODUZIR EM CATIVEIRO? 147 Por que reproduzir em cativeiro? Estima-se que apenas para vertebrados terrestres entre 2000-3000 espé- cies irão necessitar de reprodução em cativeiro nos próximos 200 anos para que não sejam extintas. Atualmente, 25 espécies de animais, in- cluindo o órix da Arábia, o furão de pés negros, o condor da Califórnia, a ave Gallirallus owstoni, o veado-de-Père-David, o cavalo-de-Przewalski, o órix scimitar-horned, o peixe Cyprinodon alvarezi, 11 espécies de gastró- podes do gênero Partula, além da árvore Franklinia alatamaha e várias outras espécies de plantas têm sido preservados em cativeiro após a ex- tinção na natureza. Além disso, muitas espécies ameaçadas possuem populações em cativeiro que funcionam como uma garantia contra a extinção na natureza. Neste capítulo enfatizaremos principalmente os animais, dado que a reprodução em cativeiro é geralmente mais complexa para estes or- ganismos do que para as plantas. A IUCN tem reconhecido a importante contribuição dos programas de reprodução em cativeiro, dado que eles: estabelecem populações • ex situ em locais seguros educam e engajam o público nas questões conservacionistas e criam • um foco para atrair fundos garantem oportunidades para a pesquisa sobre a biologia básica • das espécies, produzindo conhecimentos que podem ser aplicados à conservação na natureza garantem animais para programas de reintrodução, quando esta • estratégia é conveniente. A dimensão das atividades de propagação e reprodução em cativeiro Hoje, cerca de 1150 zoológicos e aquários do mundo todo abrigam aproximadamente 1,2 milhões de animais. Talvez 5-10% do espaço dis- ponível seja utilizado para