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A PRESENÇA DO BULLYING NOS CONTOS DE FADAS: UMA ANÁLISE 
REFLEXIVA 
 
LÍVIA CRISTINA CORTEZ LULA DE MEDEIROS (LIVINHACORTEZ@HOTMAIL.COM). 
 
 
Resumo 
O artigo é recorte de uma pesquisa de mestrado e objetiva investigar as 
contribuições da literatura para a discussão e reflexão sobre a prática do bullying, 
em situação escolarizada. Sua relevância consiste em oferecer ao professor 
subsídios para ampliar suas competências no ensino de leitura e literatura, a partir 
do (re)conhecimento do potencial problematizador e crítico do texto literário, 
fundamentais para trabalho educativo sobre a prática do bullying, tão comum nas 
escolas atualmente. Entende–se que o trabalho sistematizado com contos de fadas 
favorece à criança trabalhar suas emoções e angústias, tendo em vista o poder 
imaginativo presente na ficção, que permite aprender mais sobre conflitos íntimos 
do ser humano e ensaiar suas possíveis soluções, por meio de uma experiência 
vicária. Em termos metodológicos, o trabalho se configura como uma pesquisa 
bibliográfica, fundamentada em estudos sobre literatura e bullying. Adotou–se 
como procedimento central a análise de contos de fadas, com ênfase em aspectos 
presentes nos contos que favorecem a discussão e reflexão crítica em torno da 
temática do bullying. Privilegiou–se como foco de análise, o conto de fadas “A gata 
borralheira”, dos irmãos Grimm. Elegeram–se como referencial teórico os estudos 
de Amarilha (2004), Bettelheim (2007), Olweus (1993) e Vygotsky (1997). A 
análise aponta elementos presentes no referido contos que possibilitam o 
aprendizado sobre a condição humana e a reflexão de sentimentos e anseios da 
infância, no modo como aborda a vida e a subjetividade do leitor. Nesse sentido, a 
literatura reafirma–se como importante campo para o debate e a compreensão de 
aspectos da realidade do leitor, uma vez que desenvolve neles a autonomia, o 
pensamento crítico e argumentativo, por meio de uma experiência rica, formativa e 
imaginativa. Reconhece–se, ainda, a necessidade de se encarar a prática do 
bullying como um problema preocupante que deve ser debatido e combatido, no 
contexto escolar. 
 
Palavras-chave: 
Contos de fadas, Literatura, Bullying. 
 
Este artigo é recorte de uma pesquisa de mestrado e objetiva investigar qual a 
contribuição da literatura para a discussão e reflexão sobre bullying, que se 
caracteriza como agressões constantes entre pares e que tem como palco principal: 
a escola. Acreditando que o trabalho com a literatura na sala de aula é um caminho 
que permite, com a mediação do professor, uma discussão e problematização a 
partir das histórias lidas e, portanto, uma possibilidade para a promoção de uma 
reflexão crítica e aprofundada sobre a própria condição humana, é que nos 
propomos a fazer esta interlocução entre a literatura e o bullying. 
Sua relevância consiste em apresentar ao professor subsídios para ampliar suas 
competências no ensino de leitura e literatura a partir do (re)conhecimento do 
potencial problematizador e crítico do texto literário, fundamentais para trabalho 
educativo sobre a prática do bullying nas escolas. Além disso, esta investigação se 
propõe a analisar um conto de fadas sob a ótica do bullying, apresentando as 
possibilidades de trabalho a partir deste gênero literário e ampliando o olhar do 
professor na busca por uma educação mais humanitária, em que as diferenças 
sejam aceitas em prol de uma convivência pacífica no ambiente escolar. 
. Em termos metodológicos, o estudo compreende uma pesquisa de natureza 
bibliográfica, fundamentada em estudos sobre literatura e bullying. Adotou-se como 
procedimento central a análise de conto de fadas, com ênfase em aspectos 
presentes nos contos que favorecem a discussão e reflexão crítica em torno da 
temática do bullying. Privilegiou-se como foco de análise o conto de fadas "A Gata 
Borralheira", dos irmãos Grimm. 
Apresenta como referencial teórico, os estudos de Amarilha (2004; 2006), 
Beaudoin e Taylor (2006), Bettelheim (2007), Casassus (2009), Coelho (1991), 
Middelton-Moz e Zawadski (2007), Olweus (1993) e Vygotsky (1997). 
É somente a partir de um estudo mais apurado sobre o bullying, que poderemos 
apontar as possíveis soluções para o problema, e o diálogo com a literatura infantil, 
certamente, é importante para a construção de caminhos que culminem em 
alternativas para o combate desse mal, considerando que a subjetividade presente 
na literatura, abre possibilidades de interação com o texto, permitindo ao leitor dar 
significação a sua própria vida a partir da história, fazendo-o pensar sobre si 
mesmo. 
Colocar o problema do bullying em foco é uma forma de permitir que este seja mais 
conhecido em relação as suas especificidades, causas e conseqüências, tanto para o 
agressor quanto para a vítima; permitindo entender o porquê de existirem 
observadores omissos diante de tamanha violência. 
O Conto de Fadas: Um baú de possibilidades 
 Reconhecendo a leitura de literatura infantil, como um meio catalisador da 
atenção da criança e como via para o desenvolvimento da consciência crítica desta, 
o trabalho com a literatura abre um leque de possibilidades que ultrapassam o puro 
prazer, isso porque, ao ler, o indivíduo se abre a novos conhecimentos, fazendo 
interlocuções com o que já conhece, permitindo-o refletir e construir sua própria 
interpretação, seu próprio olhar sobre o texto. 
É sobre isso que Iser (1996) discute como sendo o efeito da estética, que se 
estabelece, justamente, na interação entre o leitor e o texto literário, num 
determinado contexto, acrescentando que "os apelos do texto devem ser cifrados, 
pois perdem seu efeito sobre o receptor, quanto mais diretamente são comunicados 
e mais sua natureza se evidencia" (ISER, 1996: 91), ou seja, os elementos do texto 
que "intrigam" o leitor é o ponto-chave presente na literatura capaz de 
desestabilizar e provocar mudança. 
Ainda sobre este diálogo do leitor com o texto, Iser (1996) faz a seguinte 
contemplação: 
O texto literário alcança assim o grau de estranheza indispensável para que as 
disposições de seus receptores sejam afetadas. [...] o texto deixa de ser mero 
reflexo do repertório das disposições de seus leitores, pois exige deles atividades, 
assim possibilitando que se "abra" a hierarquia cristalizada dos constituintes 
psíquicos. Essa "abertura" produz um movimento que sentimos como libertação 
latente, pois somos capazes de suspender a exigência do censor e a validez do 
domínio estabelecido ao menos durante um certo tempo, o da leitura. (p.91) 
O que evidencia a importância da leitura de literatura como sendo um momento em 
que permite ao sujeito divagar por mundos desconhecidos, buscando compreender 
a dinâmica do texto, fazendo inferências, enfim, construindo e reconstruindo, num 
movimento de constante aprendizagem, por isso que a literatura infantil precisa 
estar presente nas salas de aula, afinal, mudanças de comportamento, somente 
são possíveis, quando se realiza uma reflexão que possibilite a construção de uma 
consciência crítica. 
A interação social promovida dentro da sala de aula é favorável ao levantamento de 
questionamentos, dúvidas, opiniões em relação a assuntos que prejudicam a paz na 
escola, como é o caso do bullying. Portanto, o professor tem um papel fundamental 
no estímulo ao debate e a reflexão, partindo do trabalho com a literatura. 
 De acordo com Amarilha (2004), a literatura infantil possibilita a criança 
"organizar o impacto fragmentado e caótico da experiência de mundo que seus 
limites de criança impõem" (AMARILHA, 2004: 20). O texto, portanto, serve como 
referência para o enriquecimento do conhecimento de mundo da criança, o que 
permitirá que esta, desenvolva confiança para buscar novas leituras, construindo 
sua capacidade de interpretação emrelação a estas. 
Crianças nitidamente mais jovens [...], para quem as primeiras páginas foram lidas 
em voz alta, puderam continuar a leitura sozinhas, interessar-se pelos problemas 
sociais e políticos colocados e compreendê-los, ao menos parcialmente. Tanto é 
verdade que não existem temas "tabus", e a criança se interessa por assuntos 
importantes e sérios toda vez que são abordados de maneira capaz de tocá-las 
(HELD, 1989: 161). 
Os contos da literatura infantil estão imersos na possibilidade de se discutirem 
assuntos relevantes para o crescimento intelectual da criança; basta que se abram 
debates, construindo, juntamente com os alunos, idéias a respeito de assuntos que 
também os afligem. Essa atitude é fundamental pela força argumentativa que 
envolve. 
 Os contos de fadas, especialmente, possibilitam a discussão sobre os 
conflitos humanos, abrindo portas para determinadas verdades sobre as quais o 
homem necessita refletir, isto porque são fundamentados em necessidades 
humanas básicas como: a auto-realização do indivíduo, o desejo de ser aceito e a 
luta pela preservação física (COELHO, 1991; 2005); sendo, portanto, narrativas 
capazes de transmitir experiências subjetivas complexas e vivências emocionais 
delicadas para crianças e, também, para adultos. 
 Como conseqüência, observa-se que as crianças demonstram um enorme 
gosto por este gênero literário. Este gosto pelos contos, não é gratuito, tendo em 
vista que esses ajudam a criança à, inconscientemente, trabalhar suas angústias, 
permitindo-a imaginar, viver experiências diferentes da sua realidade, satisfazer 
desejos não prováveis de serem vividos no mundo real, promovendo uma sensação 
de saciedade. 
 As características presentes nos contos de fadas, tais como a 
personificação entre o bem e o mal, o conflito vivenciado pelo personagem 
principal, a solução trazida através de um elemento mágico e o desfecho em que o 
bem se sobressai e vence o mal, possibilitam à criança encontrar suas próprias 
soluções, dando-lhe a confiança necessária para acreditar em si mesma. 
 Segundo Bettelheim (2007), 
É importante prover a criança moderna com imagens de heróis que têm de partir 
para o mundo sozinhos e que - apesar de no início ignorarem o futuro que lhes 
reserva - encontram nele lugares seguros ao seguir seus caminhos com profunda 
confiança interior. O herói do conto de fadas avança isolado por algum tempo, 
assim como a criança moderna com freqüência se sente isolada (p.19). 
 Desta forma, a criança, a partir dessas histórias, compreende que, assim 
como os heróis, ela pode, em algum momento, se sentir rejeitada, mas, que isto 
não é condição para a vida inteira, pois, há a possibilidade de mudança, 
proporcionando à criança a segurança de que, após transpor os obstáculos da vida, 
ela "é capaz de alcançar relações significativas e compensadoras com o mundo ao 
seu redor" (BETTELHEIM, 2007: 20). 
 Além disso, os contos de fadas ajudam à criança a conviver com o seu 
próprio inconsciente, amadurecendo psicologicamente, organizando e aliviando 
suas angústias, havendo, portanto, uma ajuda terapêutica que permite à criança 
refletir sobre a sua própria condição e encontrar o melhor caminho a seguir. 
 O conto não dá soluções prontas, ao contrário, ele permite que a própria criança 
decida se é relevante para sua vida, aquilo que a história revela sobre a natureza 
humana. A liberdade é, portanto, o ponto-chave, presente nos contos de fadas, que 
abre as portas para que a criança, inconscientemente, "faça uso" do que naquele 
momento é significativo para sua vida, ou guarde as experiências vivenciadas, a 
partir da leitura/contação do conto, para um momento que lhe seja necessário e 
importante. 
Portanto, o envolvimento proporcionado pelos contos de fadas possibilita à criança 
se entender melhor, na medida em que estimula sua imaginação, ajuda a 
desenvolver seu intelecto e tornar claras suas emoções, estar em harmonia com 
suas ansiedades e aspirações, reconhecer suas dificuldades e formular soluções 
para os problemas que a perturbam e o mais importante, permite todo este 
desenvolvimento sem que a criança corra risco algum, justamente, por estar no 
mundo do imaginário. 
A leitura dos contos de fadas, principalmente, abre portas para um trabalho mais 
acurado com as emoções, que representam o campo vital de cada um de nós, já 
que o que sentimos sobre nós mesmos, determina, em grande parte, o que nós 
somos (CASASSUS, 2009). Quanto maior for o nosso equilíbrio emocional, maior a 
força que nos impulsiona para adaptar e transformar o nosso mundo interior e o 
mundo a nossa volta, ou seja, nossa capacidade de evoluirmos enquanto seres 
humanos. Portanto, a emoção participa da formação do caráter, ou seja, está 
presente nos processos de organização e formação da estrutura psicológica 
fundamental da personalidade (VIGOTSKI, 1998). 
Por isto, o trabalho com a literatura infantil é um caminho para se trabalhar essas 
emoções e, consequentemente, para a formação de sujeitos que saibam se 
valorizar, respeitando suas diferenças, assim como a dos demais, ou seja, que 
aceitem a diversidade e saibam como se posicionar diante dela. 
A Gata que não deveria ser Borralheira: reflexões sobre o bullying 
 Partindo da compreensão de que os contos de fadas possibilitam ao homem 
caminhos para refletir sobre si mesmo e a entender melhor suas emoções e 
conflitos, pela forte carga emocional que apresentam, é que nos propomos a 
selecionar e analisar o conto de fadas "A Gata Borralheira" na versão dos irmãos 
Grimm, datado de 1812, por este ser um conto disseminado por inúmeros meios há 
alguns séculos e, principalmente, por permitir uma maior discussão e reflexão 
crítica sobre a prática do bullying. 
 A história se inicia com uma grande perda, a personagem principal é 
acometida pela morte da mãe, o que a deixa imensamente triste. O pai, um homem 
rico, não demora muito até se casar novamente e a segunda mulher traz consigo as 
suas duas filhas. É partindo deste enredo que se inicia a saga da menina, obra 
clássica compilada pelos irmãos Grimm a partir de histórias populares, cujos 
informantes, em grande parte, foram mulheres cultas da sua própria classe social 
(TATAR, 2004). 
No desenrolar da narrativa, a menina é submetida aos mais árduos trabalhos, 
sendo tratada como a empregada da família, sofrendo todo tipo de humilhação sem 
reclamar. Até o momento em que o rei, que estava à procura de uma esposa para 
seu filho, resolve dar uma enorme festa e a menina deseja muito ir. A madrasta, no 
entanto, não permite e mesmo após muitas tarefas realizadas pela menina, a 
promessa de poder ir ao baile não é cumprida. 
Mas o desejo da menina é tão forte que ela acaba recebendo ajuda de um 
passarinho mágico e vai à tão esperada festa e, de tão linda, acaba conquistando o 
príncipe, porém, sempre tem que deixá-lo para voltar para casa, antes da família, 
para não ser descoberta, e assim, se sucede por duas noites. Na terceira noite, o 
esperto príncipe consegue ficar com um sapatinho de ouro da amada e vai a sua 
busca, encontra-a e leva-a embora consigo em seu cavalo, deixando para traz a 
madrasta e as irmãs assustadas e pálidas de raiva. 
Um fato bem presente no nosso mundo: a morte de um ente querido é o ponto de 
partida do conto e, assim como ocorre conosco, há um enorme sentimento de 
perda dos que aqui permanecem; como não se entristecer diante de uma perda tão 
significativa? Assim se sente a menina da história com a morte da sua mãe, 
destacando uma característica comum nos contos de fadas que se inicia com a 
perda do referencial humano do herói da história, deixando-o abandonado a própria 
sorte e empurrando-o para a vida, em busca de entender e superar os obstáculos 
que o mundo lhe impõe.Confrontando "a criança honestamente com as dificuldades 
humanas básicas" (BETTELHEIM, 2007: 15). 
 Esses obstáculos dão forças à criança a superar a insegurança e o medo 
da morte e da separação dos pais, mostrando-lhe que há como enfrentar os 
obstáculos da vida sozinha e sair vitoriosa, sem experimentar mesma angústia de 
separação novamente. 
 Uma frase dita pela mãe da criança, antes de morrer, entretanto, chama a 
atenção: "Filha querida, sê devota e boa: então o bom Deus sempre te valerá, e eu 
por ti lá do céu estarei perto de ti" (GRIMM, 2003: 3) e a partir deste momento, a 
menina se vê no dever de exercitar essa devoção. 
 Ao casar-se novamente, o pai dá início a trajetória de humilhações as quais 
a menina se submete, como está descrito no trecho a seguir: 
 - Essa bobalhona não tem de ficar na sala conosco, - diziam elas. - Quem quer 
comer pão, tem que trabalhar para merecê-lo! Para fora com essa criada! 
Elas lhes tomaram os vestidos, deram-lhe um avental cinzento para vestir e 
tamancos de pau para calçar. 
 - Olhem só para a bela princesa, como está enfeitada!, -exclamaram elas, e 
levaram a moça para a cozinha. (GRIMM, 2003: 4). 
Estas novas irmãs vêm exercitar o outro lado da moeda, enquanto a menina é boa, 
as irmãs são más, mostrando a dualidade, sempre presente nos contos de fadas, 
entre o bem e o mal, de uma maneira breve e incisiva, na qual o mal é tão 
presente quanto o bem. Como reforça Bettelheim (2007), "o bem e o mal são 
corporificados sob a forma de algumas personagens e de suas ações, uma vez que 
o bem e o mal são onipresentes na vida e as propensões para ambos estão 
presentes em todo homem" (p.16). 
Esta maldade realizada pelas irmãs se corporifica a partir das humilhações 
constantes e cada vez mais cruéis às quais a menina é exposta, o que justamente 
caracterizam o bullying, como afirma Olweus (2006) Bullying ou "vitimização" de 
um modo geral: [ocorre quando] uma pessoa é atacada ou "vitimizada" quando ele 
ou ela é exposto, repetidamente a ações negativas partidas de uma ou mais 
pessoas (p. 9). (tradução nossa) 
Portanto, o bullying se caracteriza quando há a intenção de denegrir a imagem e 
auto-estima do outro, quando o objetivo é fazer com que este outro acredite que é 
menor e que por ser menor, tem menos valor. E como podemos ver, há inúmeras 
formas de bullying, mas todas apresentam a mesma finalidade e é justamente essa 
diversidade de formas de se praticar o bullying, o que dificulta sua identificação e o 
confunde com "brincadeira de mau gosto", termo que, muitas vezes, os pais e 
professores utilizam para reduzir a gravidade dessa ação (BEAUDOIN e TAYLOR, 
2006). 
Retomando a subserviência da menina para com a madrasta e as irmãs, há uma 
reflexão importante a ser feita. Segundo Olweus (2006), as pessoas que são 
escolhidas pelos bullies, (palavra ainda sem tradução literal para o português, mas 
que se assemelha ao termo "valentão") geralmente demonstram ser tímidas, são 
mais caladas e reclusas, não se socializando abertamente com as outras pessoas. 
São essas as características que atraem os bullies, exatamente por essas pessoas 
agüentarem caladas as mais terríveis agressões, não tendo coragem de denunciar 
seus agressores. Esta atitude, além de favorecer a continuidade das agressões, vai, 
aos poucos, refletindo sobre a própria conduta da vítima, que passa a acreditar que 
merece todas as humilhações sofridas. 
Na história "A Gata Borralheira" retrata bem esta aceitação por parte da menina, 
que de nada reclama, permanecendo devota e boa, mesmo diante de atitudes tão 
vis. Há, portanto, uma construção distorcida da identidade da personagem sobre si 
mesma, na medida em que se acostuma a condição imposta por outros, 
caracterizando-se como uma típica vítima, isto porque nossa identidade se 
expressa pela maneira como agimos e reagimos ao que está ao nosso redor 
(CASASSUS, 2009). 
Observe o trecho destacado a seguir: 
Lá ela tinha de fazer serviços pesados desde a manhã até a noite, levantar-se antes 
do amanhecer, carregar água, acender o fogo, cozinhar e lavar. E ainda por cima as 
irmãs lhe causavam toda a sorte de desgostos, zombavam dela e esparramavam as 
ervilhas e lentilhas na cinza do borralho, para que ela tivesse que catá-las e separá-
las de novo. À noite, cansada de trabalhar, ela não tinha cama, mas tinha que se 
deitar nas cinzas ao lado do fogão. E porque ela, por causa disso, parecia sempre 
empoeirada e suja, elas a chamavam de Gata Borralheira (GRIMM, 2003: 4). 
 Como podemos notar, a menina sofria diversos ataques de bullying desde a 
obrigação em realizar atividades pesadas, copiosamente, sem receber qualquer tipo 
de ajuda, até agressões verbais que culminaram no apelido que intitula a história, 
"Gata Borralheira". 
 A mudança de postura da menina é percebida no momento em que ela 
realmente tem um desejo seu, que gostaria de realizar: ir ao baile oferecido pelo 
rei, pois, apesar de obedecer as ordens das irmãs, ela começa a mostrar sua voz, 
ainda que timidamente. Como relata esta passagem da narrativa, "Gata Borralheira 
obedeceu, mas chorou, porque também gostaria de ir ao baile, e pediu à madrasta 
que a deixasse ir" (GRIMM, 2003: 8), a passividade vai dando lugar à utilização de 
meios que a ajudem a alcançar o seu objetivo. 
 Mais uma vez o bullying é praticado com a personagem, agora pela 
madrasta, que, frente às súplicas da menina, faz uso da sua autoridade para impor 
condições à ida desta ao baile, acreditando que enteada nunca conseguiria realizar 
as tarefas; contudo, apesar das condições terem sido alcançadas pela menina, não 
resultaram no cumprimento da promessa, já que ao final de muito trabalho, ela 
escuta: - Nada disso vai te adiantar; não virás conosco porque não tens vestido e 
não sabes dançar; nós ficaríamos com vergonha de ti (GRIMM, 2003: 10), 
demonstrando total falta de justiça por parte do agressor. 
 Esta tendência a fazer uso da autoridade ou da força para intimidar o outro 
é uma característica comum aos bullies, que se distinguem pela impulsividade e 
uma forte necessidade de dominar o outro e por uma visão relativamente positiva 
de si mesmos, isto porque, mesmo sem demonstrar, eles também são ansiosos e 
inseguros e, por isso, estão sempre buscando reafirmar sua superioridade. É 
comum, assim como ocorre durante todo conto analisado, que os bullies obriguem 
suas vítimas a realizarem os mais diversos tipos de tarefas que os satisfaçam 
pessoalmente, assim como a exigência de coisas de valor, reforçando o seu poder 
(FANTE e PEDRA, 2008), como quando, na história, as irmãs tomam da menina 
todos os seus belos vestidos (GRIMM, 2003). 
Neste momento, surge um questionamento: por que a omissão do pai? É evidente, 
na história, que o pai, não apenas se omite como reforça o bullying sofrido pela 
filha, ao também referir-se a ela pelo apelido, como podemos destacar na seguinte 
passagem: "E tu, Gata Borralheira - disse ele - o que queres ganhar?". Geralmente, 
a conduta dos pais, não é o reforço do bullying, como está apresentado no conto, 
mas sim uma falta de observação dos filhos, ou seja, eles não percebem o que está 
se passando e, simplesmente, acreditam que tudo está bem, já que, como 
discutimos, as vítimas não costumam falar sobre as agressões sofridas e, portanto, 
não delatam seus agressores. 
Felizmente, transpondo as barreiras impostas pelo pai, madrasta e irmãs, a menina 
dá o primeiro impulso para um final diferente das milhares de vítimas que sofrem 
bullying no mundo real. Ela se veste de coragem com a ajuda do passarinho, que 
nesta história representa o elemento mágico, elemento este, sempre presente nos 
contos de fadas, e que vem com o objetivo de auxiliar o herói a superar os 
obstáculos e alcançar seus desejos. 
Então,vestida com lindo traje, a menina adentra a festa e encanta o príncipe, não 
apenas por sua beleza, mas por demonstrar uma liberdade que antes não existia, 
por enfrentar seus medos, por deixar de lado a subserviência sem limite, por ouvir 
suas próprias vontades. Sendo, sem dúvida, um surpreendente desfecho pela 
superação que representa. 
Então ela lavou as mãos e o rosto, apareceu e curvou-se diante do filho do rei, que 
lhe estendeu o sapatinho de ouro. Aí ela sentou-se sobre um banquinho, tirou o pé 
do pesado tamanco de madeira e enfiou-o no sapatinho, que se adaptou com 
perfeição. E quando ela se levantou, e o príncipe a fitou no rosto, reconheceu a bela 
moça que dançara com ele, e exclamou: - Está é a noiva verdadeira (GRIMM, 2003: 
22-23). 
 Como terminam a madrasta e as duas irmãs? Tipicamente como termina o 
mal nos contos de fadas: vencido. As invejosas irmãs não tiveram acesso a riqueza 
e o prestígio tão desejados, reforçando a convicção de que o crime não compensa. 
Esta é a razão pela qual, nas histórias de fadas, as pessoas más nunca triunfam. 
Uma possibilidade de mudança 
 Como vimos, a literatura abre um mar de possibilidades de identificação do 
leitor, que dá vida ao livro, no instante em que inicia sua leitura, tornando-se, 
portanto, um co-autor da história. Isto permite ao leitor vivenciar uma experiência 
pessoal e intransferível ao entrar em contato com o mundo do imaginário. É 
possível que haja uma identificação com a personagem principal da história ou com 
os demais personagens, já que isso dependerá da maneira como ele irá significar a 
história. 
 A história "A Gata Borralheira", assim como os demais contos presentes na 
literatura, permite uma discussão mais aprofundada sobre os conflitos humanos, ao 
privilegiar aspectos problemáticos que dão ao leitor a possibilidade de refletir sobre 
a temática implicitamente discutida. Isto nos mostra claramente a importância do 
trabalho com os contos de fadas junto às crianças, isso porque, embora a história 
tenha sido escrita há muitos anos, continua sendo atual e significativa. 
Não foi intenção dos irmãos Grimm escreverem um conto que permitisse uma 
reflexão sobre o bullying, afinal, este é um problema que só hoje ganhou o 
reconhecimento como desvio de comportamento (na verdade o problema já existia 
tanto é que existe o conto), mas a riqueza do enredo, da sua linguagem oferece 
condições para que o conto seja analisado sobre esta ótica e permita um 
crescimento e amadurecimento do leitor, na medida em que o desequilibra e o faz 
refletir sobre sua própria vida. 
É este caráter realista que fundamenta a literatura, que oferece ao leitor a 
possibilidade de fazer inter-relações com a sua vida, a partir das metáforas 
presentes no texto. Permitindo ao leitor, que sofre bullying ou que são testemunhas 
do fenômeno, além da identificação com a personagem, vislumbrarem a esperança 
de mudança da situação, assim como fez a menina da história. 
Todos nós temos inquietações durante toda a vida que precisam ser resolvidas, a 
literatura, sem dúvida é uma arte que está em constante diálogo com a vida, já que 
é criada a partir da realidade e, exatamente, por isso, nos abre as portas para que, 
por nós mesmos, consigamos resolver nossos problemas mais íntimos. 
 
REFERÊNCIAS 
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