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JulianoHeinen_ComentariosaLeideAcesso_1ed_jan14_MIOLO_GRAFICA.indd 2 24/01/2014 10:57:38 marcelop Texto digitado marcelop Texto digitado PÁGINA EM BRANCO marcelop Texto digitado Belo Horizonte 2015 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURT MANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO 6ª edição marcos bittencourt6vol.indb 3 20/04/2015 21:20:29 © 2005 Editora Fórum Ltda. 2007 2ª edição 2008 3ª edição 2010 4ª edição 2014 5ª edição 2015 6ª edição É proibida a reprodução total ou parcial desta obra, por qualquer meio eletrônico, inclusive por processos xerográficos, sem autorização expressa do Editor. Conselho Editorial Adilson Abreu Dallari Alécia Paolucci Nogueira Bicalho Alexandre Coutinho Pagliarini André Ramos Tavares Carlos Ayres Britto Carlos Mário da Silva Velloso Cármen Lúcia Antunes Rocha Cesar Augusto Guimarães Pereira Clovis Beznos Cristiana Fortini Dinorá Adelaide Musetti Grotti Diogo de Figueiredo Moreira Neto Egon Bockmann Moreira Emerson Gabardo Fabrício Motta Fernando Rossi Flávio Henrique Unes Pereira Floriano de Azevedo Marques Neto Gustavo Justino de Oliveira Inês Virgínia Prado Soares Jorge Ulisses Jacoby Fernandes Juarez Freitas Luciano Ferraz Lúcio Delfino Marcia Carla Pereira Ribeiro Márcio Cammarosano Marcos Ehrhardt Jr. Maria Sylvia Zanella Di Pietro Ney José de Freitas Oswaldo Othon de Pontes Saraiva Filho Paulo Modesto Romeu Felipe Bacellar Filho Sérgio Guerra Luís Cláudio Rodrigues Ferreira Presidente e Editor Coordenação editorial: Leonardo Eustáquio Siqueira Araújo Av. Afonso Pena, 2770 – 16º andar – Funcionários – CEP 30130-007 Belo Horizonte – Minas Gerais – Tel.: (31) 2121.4900 / 2121.4949 www.editoraforum.com.br – editoraforum@editoraforum.com.br B624m Bittencourt, Marcus Vinicius Corrêa Manual de direito administrativo / Marcus Vinicius Corrêa Bittencourt. 6. ed. Belo Horizonte: Fórum, 2015. 215 p. ISBN 978-85-450-0070-9 1. Direito administrativo. 2. Administração Pública. 3. Poder administrativo. 4. Ato administrativo. 5. Contrato administrativo. 6. Serviço público. 7. Administração direta. 8. Administração indireta. 9. Empresa pública. 10. Responsabilidade civil do Estado. 11. Intervenção do Estado na economia. 12. Intervenção do Estado na propriedade. I. Título. CDD: 341.3 CDU: 349.2 Informação bibliográfica deste livro, conforme a NBR 6023:2002 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT): BITTENCOURT, Marcus Vinicius Corrêa. Manual de direito administrativo. 6. ed. Belo Horizonte: Fórum, 2015. 215 p. ISBN 978-85-450-0070-9 marcos bittencourt6vol.indb 4 20/04/2015 21:20:29 Para minhas filhas, Amanda e Carolina, minha esposa Gisele e meus pais, Maria Júlia e Mário. marcos bittencourt6vol.indb 5 20/04/2015 21:20:29 JulianoHeinen_ComentariosaLeideAcesso_1ed_jan14_MIOLO_GRAFICA.indd 2 24/01/2014 10:57:38 marcelop Texto digitado marcelop Texto digitado PÁGINA EM BRANCO marcelop Texto digitado SUMÁRIO CAPÍTULO 1 INTRODUÇÃO AO DIREITO ADMINISTRATIVO ......................................15 1.1 Noção geral de Direito ..................................................................................15 1.2 Direito Público e Direito Privado ................................................................15 1.3 Origem do Direito Administrativo .............................................................16 1.4 Conceito e objeto do Direito Administrativo.............................................17 1.4.1 Critério do Poder Executivo .........................................................................17 1.4.2 Critério do serviço público ...........................................................................18 1.4.3 Critério das relações jurídicas ......................................................................18 1.4.4 Critério teleológico ........................................................................................19 1.4.5 Critério negativo ou residual .......................................................................19 1.4.6 Critério da Administração Pública..............................................................19 1.5 Fontes do Direito Administrativo ...............................................................20 1.5.1 Lei ....................................................................................................................21 1.5.2 Jurisprudência ................................................................................................21 1.5.3 Doutrina ..........................................................................................................22 1.5.4 Costume ..........................................................................................................22 CAPÍTULO 2 REGIME JURÍDICO ADMINISTRATIVO .........................................................23 2.1 Regime jurídico ..............................................................................................23 2.2 Regime jurídico administrativo ...................................................................23 2.3 Princípios da Administração Pública .........................................................24 2.3.1 Princípio da supremacia do interesse público sobre o interesse privado ............................................................................................................25 2.3.2 Princípio da indisponibilidade dos interesses públicos pela Administração ................................................................................................26 2.3.3 Princípio da legalidade .................................................................................26 2.3.4 Princípio da impessoalidade ........................................................................27 2.3.5 Princípio da moralidade ...............................................................................28 2.3.6 Princípio da publicidade ..............................................................................28 2.3.7 Princípio da eficiência ...................................................................................29 2.3.8 Princípio da razoabilidade ...........................................................................30 2.3.9 Princípio da proporcionalidade ..................................................................31 2.3.10 Princípio da motivação .................................................................................31 2.3.11 Princípio da segurança jurídica ...................................................................32 marcos bittencourt6vol.indb 7 20/04/2015 21:20:29 2.4 Poderes administrativos ...............................................................................32 2.4.1 Poder normativo ............................................................................................33 2.4.2 Poder hierárquico ..........................................................................................35 2.4.3 Poder disciplinar ............................................................................................35 2.4.4 Poder de polícia .............................................................................................37 2.4.4.1 Conceito ..........................................................................................................37 2.4.4.2 Polícia administrativa e polícia judiciária ..................................................38 2.4.4.3 Manifestações do poder de polícia..............................................................38 2.4.4.4 Atributos do poder de polícia ......................................................................39 CAPÍTULO 3 ADMINISTRAÇÃOPÚBLICA .............................................................................41 3.1 Introdução ......................................................................................................41 3.2 Desconcentração e descentralização ...........................................................42 3.3 Órgãos públicos .............................................................................................44 3.3.1 Conceito ..........................................................................................................44 3.3.2 Teorias sobre as relações do Estado com os agentes públicos ................45 3.3.3 Classificação dos órgãos ...............................................................................46 3.4 Administração Indireta .................................................................................46 3.4.1 Autarquia ........................................................................................................47 3.4.2 Fundações públicas .......................................................................................48 3.4.3 Sociedades de economia mista e empresas públicas ................................49 3.5 Novas figuras .................................................................................................50 3.5.1 Contratos de gestão .......................................................................................50 3.5.1.1 Contrato de gestão entre o Poder Público e entidades da Administração Indireta .................................................................................51 3.5.1.2 “Contrato” entre órgãos ...............................................................................52 3.5.1.3 Contrato entre o Poder Público e as “organizações sociais” ...................52 3.5.2 Agências executivas ......................................................................................53 3.5.3 Agências reguladoras ....................................................................................53 3.5.4 Consórcios públicos ......................................................................................55 3.6 Entidades paraestatais ..................................................................................55 3.6.1 Serviços sociais autônomos ..........................................................................56 3.6.2 Fundações de apoio .......................................................................................56 3.6.3 Organizações sociais .....................................................................................56 3.6.4 Organizações da sociedade civil de interesse público .............................57 CAPÍTULO 4 AGENTES PÚBLICOS .............................................................................................59 4.1 Conceito e classificação dos agentes públicos ...........................................59 4.2 Servidor público ............................................................................................60 4.2.1 Conceito ..........................................................................................................60 marcos bittencourt6vol.indb 8 20/04/2015 21:20:29 4.2.2 Cargo, emprego e função .............................................................................61 4.2.3 Investidura ......................................................................................................63 4.2.3.1 Requisitos para investidura em cargo público ..........................................64 4.2.3.2 Formas de provimento ..................................................................................65 4.2.4 Vacância ..........................................................................................................67 4.2.5 Concurso público ...........................................................................................68 4.2.6 Acumulação de cargos públicos ..................................................................69 4.3 Direitos constitucionais dos servidores públicos ......................................71 4.3.1 Direito de greve e de livre associação sindical ..........................................71 4.3.2 Remuneração ..................................................................................................72 4.3.3 Estabilidade e disponibilidade ....................................................................74 4.3.4 Outros direitos dos servidores ocupantes de cargo público ...................76 4.4 Aposentadoria ................................................................................................77 4.4.1 Modalidades de aposentadoria ...................................................................77 4.4.2 Proventos ........................................................................................................78 4.4.3 Contagem de tempo para aposentadoria ...................................................79 4.4.4 Previdência complementar ..........................................................................79 4.4.5 Pensão por morte ...........................................................................................80 4.4.6 Revisão de benefícios ....................................................................................80 4.5 Responsabilidade do servidor .....................................................................80 4.6 Processos administrativos de apuração de faltas disciplinares ..............81 4.6.1 Sindicância ......................................................................................................84 4.6.2 Processo administrativo disciplinar............................................................84 4.6.3 Reexame do processo administrativo disciplinar .....................................86 4.6.4 Processo administrativo disciplinar em rito sumário ..............................87 4.6.5 Prescrição ........................................................................................................88 CAPÍTULO 5 ATO ADMINISTRATIVO .......................................................................................89 5.1 Conceito de ato administrativo ...................................................................89 5.2 Elementos do ato administrativo ................................................................90 5.2.1 Agente competente ........................................................................................91 5.2.2 Finalidade .......................................................................................................91 5.2.3 Forma ..............................................................................................................92 5.2.4 Motivo .............................................................................................................92 5.2.5 Objeto ..............................................................................................................93 5.3 Perfeição, validade e eficácia ........................................................................93 5.4 Atributos do ato administrativo ..................................................................94 5.4.1 Presunção de legitimidade e de veracidade ..............................................94 5.4.2 Imperatividade...............................................................................................95 5.4.3 Autoexecutoriedade ......................................................................................96 5.5 Discricionariedade e vinculação ..................................................................97 marcos bittencourt6vol.indb 9 20/04/2015 21:20:29 5.6 Classificação ...................................................................................................98 5.6.1 Quanto à presença de supremacia do Estado – Atos de império e atos de gestão ..............................................................................................985.6.2 Quanto à estrutura – Atos simples, complexos e compostos ..................98 5.6.3 Quanto aos destinatários – Atos gerais e individuais ..............................99 5.7 Espécies de atos administrativos .................................................................99 5.8 Anulação, revogação e convalidação dos atos administrativos ...........100 CAPÍTULO 6 LICITAÇÃO ...............................................................................................................103 6.1 Conceito de licitação e sua obrigatoriedade ............................................103 6.2 Princípios da licitação .................................................................................105 6.3 Dispensa e inexigibilidade da licitação ....................................................106 6.4 Modalidades de licitação ............................................................................113 6.4.1 Concorrência .................................................................................................114 6.4.2 Tomada de preços .......................................................................................115 6.4.3 Convite ..........................................................................................................115 6.4.4 Concurso .......................................................................................................115 6.4.5 Leilão .............................................................................................................116 6.4.6 Pregão ............................................................................................................116 6.5 Comissão de licitação ..................................................................................117 6.6 Homologação, anulação e revogação da licitação ..................................118 CAPÍTULO 7 CONTRATOS ADMINISTRATIVOS .................................................................121 7.1 Introdução ....................................................................................................121 7.2 Conceito de contrato administrativo ........................................................122 7.3 Características dos contratos administrativos .........................................122 7.3.1 Administração Pública em posição de supremacia ................................122 7.3.2 Finalidade pública .......................................................................................122 7.3.3 Forma prevista em lei .................................................................................123 7.3.4 Contrato de adesão ......................................................................................123 7.3.5 Natureza intuitu personae ............................................................................124 7.3.6 Cláusulas exorbitantes ................................................................................124 7.3.7 Mutabilidade ................................................................................................126 7.4 Execução do contrato administrativo .......................................................126 7.4.1 Teoria do fato do príncipe ..........................................................................127 7.4.2 Teoria do fato da Administração ...............................................................127 7.4.3 Teoria da imprevisão ...................................................................................128 7.4.4 Fatos imprevistos .........................................................................................128 7.5 Extinção do contrato administrativo ........................................................128 marcos bittencourt6vol.indb 10 20/04/2015 21:20:29 7.6 Contratos em espécie ..................................................................................129 7.7 Convênios e consórcios administrativos ..................................................130 CAPÍTULO 8 RESPONSABILIDADE EXTRACONTRATUAL DO ESTADO ................133 8.1 Considerações iniciais .................................................................................133 8.2 Evolução ........................................................................................................134 8.3 Responsabilidade do Estado no Brasil .....................................................137 8.4 Reparação do dano ......................................................................................137 8.5 Hipóteses excludentes e atenuantes da responsabilidade estatal ........138 CAPÍTULO 9 CONTROLE DOS ATOS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA ..................141 9.1 Introdução ....................................................................................................141 9.2 Tipos de controle .........................................................................................141 9.2.1 Quanto ao órgão controlador.....................................................................141 9.2.2 Quanto ao momento de realização ...........................................................142 9.2.3 Quanto à posição do órgão controlador ...................................................142 9.2.4 Quanto ao conteúdo do ato controlado ....................................................143 9.3 Controle administrativo .............................................................................143 9.3.1 Ouvidoria ......................................................................................................144 9.4 Controle legislativo .....................................................................................145 9.4.1 Tribunal de Contas ......................................................................................147 9.5 Controle jurisdicional .................................................................................149 9.6 Meios específicos de controle jurisdicional .............................................150 CAPÍTULO 10 IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA ...............................................................153 10.1 Considerações gerais ...................................................................................153 10.2 Sujeito passivo ..............................................................................................153 10.3 Sujeito ativo ..................................................................................................154 10.4 Modalidades .................................................................................................154 10.5 Sanções ..........................................................................................................158 10.6 Processo administrativo .............................................................................159 10.7 Processo judicial ..........................................................................................160 10.8 Prescrição ......................................................................................................161 CAPÍTULO 11 PROCESSO ADMINISTRATIVO ........................................................................163 11.1 Considerações gerais ...................................................................................163 11.2 Conceito de processo administrativo .......................................................164 11.3 Objetivos do processo administrativo ......................................................165 marcos bittencourt6vol.indb 11 20/04/2015 21:20:29 11.4 Princípios do processo administrativo .....................................................166 11.5 Fases do processo administrativo .............................................................167 11.5.1 Instauração ...................................................................................................167 11.5.2 Instrução .......................................................................................................16711.5.3 Decisão ..........................................................................................................168 11.5.4 Reexame ........................................................................................................168 CAPÍTULO 12 SERVIÇO PÚBLICO................................................................................................171 12.1 Noção de serviço público ...........................................................................171 12.2 Princípios do serviço público .....................................................................172 12.2.1 Princípio da igualdade ................................................................................173 12.2.2 Princípio da continuidade ..........................................................................173 12.2.3 Princípio da mutabilidade ..........................................................................175 12.2.4 Outros princípios do serviço público .......................................................176 12.3 Classificação dos serviços públicos ...........................................................177 12.4 Prestação do serviço público ......................................................................177 12.4.1 Concessão de serviço público ....................................................................179 12.4.2 Permissão de serviço público .....................................................................179 12.4.3 “Autorização” de serviço público ..............................................................180 12.4.4 Parcerias público-privadas .........................................................................180 12.5 Principais aspectos da concessão de serviço público .............................181 12.5.1 Licitação ........................................................................................................181 12.5.2 Equilíbrio econômico-financeiro ...............................................................182 12.5.3 Intervenção ...................................................................................................183 12.5.4 Extinção do contrato de concessão............................................................185 12.5.4.1 Encampação ..................................................................................................185 12.5.4.2 Caducidade ...................................................................................................186 12.5.4.3 Anulação .......................................................................................................187 12.5.4.4 Rescisão pelo concessionário .....................................................................188 12.5.5 Arbitragem no contrato de concessão de serviços públicos ..................188 CAPÍTULO 13 INTERVENÇÃO DO ESTADO NA ORDEM ECONÔMICA ...............................189 13.1 Princípios gerais da ordem econômica .....................................................189 13.2 Intervenção do Estado na ordem econômica ...........................................189 13.3 Modalidades de intervenção ......................................................................190 13.3.1 Monopólio ....................................................................................................190 13.3.2 Repressão ao abuso econômico .................................................................191 13.3.3 Controle de abastecimento .........................................................................191 13.3.4 Tabelamento de preços ...............................................................................191 marcos bittencourt6vol.indb 12 20/04/2015 21:20:29 CAPÍTULO 14 INTERVENÇÃO DO ESTADO NA PROPRIEDADE ..................................193 14.1 Introdução ....................................................................................................193 14.2 Limitações administrativas ........................................................................193 14.3 Ocupação temporária ..................................................................................194 14.4 Requisição .....................................................................................................195 14.5 Tombamento ................................................................................................196 14.6 Servidão administrativa..............................................................................197 14.7 Desapropriação ............................................................................................197 14.7.1 Conceito de desapropriação .......................................................................197 14.7.2 Competências ...............................................................................................198 14.7.3 Fundamentos da desapropriação ..............................................................199 14.7.4 Objeto da desapropriação...........................................................................200 14.7.5 Fases da desapropriação .............................................................................200 14.7.5.1 Declaração de desapropriação ...................................................................201 14.7.5.2 Execução da desapropriação ......................................................................202 14.7.6 Imissão provisória na posse .......................................................................203 14.7.7 Retrocessão ...................................................................................................203 CAPÍTULO 15 BENS PÚBLICOS .....................................................................................................205 15.1 Conceito de domínio público .....................................................................205 15.2 Classificação dos bens públicos .................................................................206 15.3 Afetação e desafetação dos bens públicos ...............................................208 15.4 Regime jurídico dos bens públicos ...........................................................208 15.5 Bens públicos em espécie ...........................................................................209 15.6 Utilização especial de bens públicos por particular ...............................211 REFERÊNCIAS ............................................................................................................213 marcos bittencourt6vol.indb 13 20/04/2015 21:20:29 JulianoHeinen_ComentariosaLeideAcesso_1ed_jan14_MIOLO_GRAFICA.indd 2 24/01/2014 10:57:38 marcelop Texto digitado marcelop Texto digitado PÁGINA EM BRANCO marcelop Texto digitado CAPÍTULO 1 INTRODUÇÃO AO DIREITO ADMINISTRATIVO 1.1 Noção geral de Direito O direito positivo se apresenta como o complexo de normas de com- portamento estabelecidas de forma compulsória pelo Poder Público num dado território. Direito positivo, portanto, é aquele encontrado nas cons- tituições, leis, códigos, regulamentos e outros instrumentos normativos. A ciência do Direito, por sua vez, consiste no estudo dessas normas de conduta, buscando-se o seu real conteúdo. Segundo o ensinamento de Paulo Dourado de Gusmão, além de a ciência do Direito corresponder ao estudo das normas jurídicas para descobrir o seu verdadeiro significado, também tem por finalidade a construção do sistema jurídico, bem como “estabelecer as suas raízes sociais e históricas”.1 Todo o direito objetivo de um Estado constitui a ordem jurídica, entendida como o “complexo de normas jurídicas positivas dominante, em momento histórico, numa sociedade determinada”.2 1.2 Direito Público e Direito Privado Num Estado determinado, a ordem jurídica se apresenta una. Torna-se necessário, no entanto, separar o Direito em diversos ramos para o seu estudo. A primeira distinção básica do ordenamentojurídico é feita entre Direito Público e Direito Privado, tendo origem no Direito Romano com Ulpiano. 1 GUSMÃO, Paulo Dourado de. Introdução ao estudo do direito. 9. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1982. p. 15. 2 GUSMÃO, Paulo Dourado de. Introdução ao estudo do direito, p. 80. marcos bittencourt6vol.indb 15 20/04/2015 21:20:29 16 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO Inúmeros fundamentos têm sido expostos para justificar tal distin- ção, sendo o interesse e a posição dos sujeitos de direito aqueles que mais se destacam. Segundo o critério do interesse, o objeto de atuação do Direito Público se restringe ao interesse público, enquanto o do Direito Privado se mantém nos limites dos interesses particulares. Deve-se recordar, entretanto, que certas searas do Direito Privado, como o Direito de Família, também objetivam interesses gerais, retirando a força desse fundamento. Com base no critério da posição dos sujeitos, o Direito Público se- ria aquele que constitui e organiza o Estado e outras entidades públicas dotados de ius imperii (poder de império) nas suas atividades; o Direito Privado seria aquele em que as partes estão em posição de paridade. Esse fundamento possui uma aceitação maior entre os estudiosos para justificar essa antiga repartição do Direito entre público e privado. Esclareça-se, con- tudo, que essa demarcação não pode ser vista como campos intransponíveis das duas áreas. O Direito Público não existe em contraposição ao Direito Privado. Nas lições de José de Oliveira Ascensão, “o direito privado não pode ser considerado o direito dos egoísmos individuais, como o direito público não pode ser considerado o direito das forças de dominação”.3 Não existe uma noção de embate, mas sim de complemento e coordenação entre os setores de Direito Público e de Direito Privado. Assim, tradicionalmente, o Direito Administrativo, objeto de estudo deste curso, é considerado ramo do Direito Público por regular a organi- zação e atividade da Administração Pública em posição de supremacia frente aos particulares. Atualmente, essa divisão básica entre Direito Público e Privado perdeu muito de sua importância, tendo em vista a realidade jurídica moderna que mescla nos seus diversos campos os interesses públicos e privados. Para fins didáticos, entretanto, tal divisão ainda permite facilitar a análise e o entendimento de diversos institutos de cada setor jurídico. 1.3 Origem do Direito Administrativo A origem do Direito Administrativo como conjunto independente de princípios ocorreu após as revoluções que determinaram a queda das monarquias absolutistas em fins do século XVIII. Ao lado do Direito Constitucional, o surgimento do Direito Administrativo desencadeou-se com a noção de Estado de Direito, este com fundamento nos princípios da legalidade e da “separação de poderes”. Esses princípios limitaram o 3 ASCENSÃO, José de Oliveira. O direito: introdução e teoria geral: uma perspectiva luso-brasi- leira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1978. p. 285. marcos bittencourt6vol.indb 16 20/04/2015 21:20:30 17CAPÍTULO 1INTRODUÇÃO AO DIREITO ADMINISTRATIVO poder estatal frente aos direitos dos cidadãos. Através do princípio da lega- lidade, passou-se a entender que todos devem submeter-se à lei, inclusive os governantes, destruindo-se a ideia de que o monarca estaria acima da ordem jurídica e não poderia ser responsabilizado pelos seus atos. Já o princípio da “separação de poderes” confere, em verdade, equilíbrio entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, representado pelo sistema de freios e contrapesos no sistema jurídico brasileiro. O poder controla e limita o poder. No decorrer deste trabalho, será examinada a diversificação do conteúdo do Direito Administrativo com o passar do tempo, bem como o desenvolvimento peculiar deste ramo do Direito, conforme o tipo de formação do Estado. 1.4 Conceito e objeto do Direito Administrativo O conhecimento de um objeto modifica-se conforme a posição do sujeito que o estuda. Da mesma forma, o entendimento sobre o conceito de Direito Administrativo altera-se de acordo com o prisma filosófico pelo qual é analisado e pela visão ideológica que o estudioso do Direito possui. A conceituação do Direito Administrativo altera-se segundo o critério adotado pelos autores ao buscarem delimitar o seu objeto. Arrolam-se, em seguida, os principais fundamentos utilizados para definir o Direito Administrativo. Desde logo deve ser salientado que os cri- térios e definições apresentados não são considerados errados, mas apenas insuficientes na descrição do objeto de estudo de Direito Administrativo. 1.4.1 Critério do Poder Executivo A denominada Escola Italiana Clássica, por meio de Lorenzo Meucci, considerava o Direito Administrativo como o setor do Direito que analisa os atos do Poder Executivo. No Brasil, nesse mesmo sentido, Carlos S. de Barros Júnior define Direito Administrativo nos seguintes termos: “conjunto de princípios ju- rídicos que disciplinam a organização e a atividade do Poder Executivo, inclusive os órgãos descentralizados, bem como as atividades tipicamente administrativas exercidas por outros Poderes”.4 Inúmeras críticas levantam-se contra essa definição do objeto de estudo do Direito Administrativo. O Poder Executivo exerce outras atividades regidas pelo Direito Constitucional — como a iniciativa e 4 BARROS JÚNIOR, Carlos Schmidt de. Compêndio de direito administrativo. São Paulo: M. Limonad, 1963. v. 1, p. 81. marcos bittencourt6vol.indb 17 20/04/2015 21:20:30 18 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO promulgação de leis — e pelo Direito Internacional Público, como a celebração de tratados que não constituem objeto de estudo do Direito Administrativo. Observe-se também que, mesmo os outros Poderes, Legislativo e Judiciário, podem exercer atividade administrativa, além de suas funções precípuas. 1.4.2 Critério do serviço público Na França, a Escola do Serviço Público, por meio de Léon Duguit (1859-1928), Gaston Jèze (1869-1953) e Roger Bonnard (1879-1944), enten- dia o serviço público como centro do Direito Administrativo. No Brasil, Themistocles Brandão Cavalcanti adotou esse conteúdo, definindo o Direito Administrativo como “o conjunto de princípios e normas jurídicas que presidem à organização e ao funcionamento dos serviços públicos”.5 Ocorre, entretanto, que a expressão “serviço público” se apresenta muito imprecisa. Seja qual for o entendimento adotado, tal critério é defi- ciente para definir esse setor do Direito. Duguit, por exemplo, compreendia o serviço público como ativi- dade ou organização, em sentido amplo, abrangendo todas as funções do Estado, introduzindo na área de estudo do Direito Administrativo certas normas que, na verdade, são objeto de estudo do Direito Constitucional e do Direito Processual. Jèze, por sua vez, entendia o serviço público como atividade ou orga- nização em sentido estrito, englobando a atividade material exercida pelo Estado para satisfação de necessidades coletivas. Essa acepção, contudo, não abrange outras áreas da função administrativa como o fomento e a polícia administrativa, que também se inserem no Direito Administrativo. 1.4.3 Critério das relações jurídicas Segundo esse critério seguido por Laferrière, o Direito Administrativo corresponde ao conjunto de normas que regem as relações recíprocas entre a Administração e os administrados. A crítica a esse objeto decorre, em primeiro lugar, da ausência de menção ao campo interno de atuação do Poder Público como, por exemplo, as competências e relações internas entre seus órgãos. Acrescente-se ainda que outros ramos do Direito Público (Direito Constitucional, Direito Penal, Direito Tributário, entre outros) também estruturamrelações do Poder Público com os administrados. 5 CAVALCANTI, Themistocles Brandão. Instituições de direito administrativo brasileiro. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1936. p. 79. marcos bittencourt6vol.indb 18 20/04/2015 21:20:30 19CAPÍTULO 1INTRODUÇÃO AO DIREITO ADMINISTRATIVO 1.4.4 Critério teleológico Vittorio Emmanuele Orlando (1860-1952) prefere conceber o Direito Administrativo como conjunto de regras que dirigem o Poder Público para consecução de seus fins. No Brasil, Oswaldo Aranha Bandeira de Mello seguiu tal entendimento ao definir o Direito Administrativo como “ordena- mento jurídico da atividade do Estado-poder, enquanto tal, ou de quem faça as suas vezes, de criação de utilidade pública, de maneira direta e imediata”.6 1.4.5 Critério negativo ou residual Conforme essa corrente, o objeto do Direito Administrativo consiste em atividades desenvolvidas pelo Estado para o cumprimento dos seus fins, com a exclusão das funções legislativas e jurisdicionais. 1.4.6 Critério da Administração Pública Essa corrente entende o Direito Administrativo como aquele que rege a Administração Pública. Grande parte dos doutrinadores brasileiros, como Ruy Cirne Lima e Hely Lopes Meirelles, adota esse critério. Fernando Andrade de Oliveira, seguindo essa linha, conceitua o Direito Administrativo nos seguintes termos: “conjunto de princípios e normas que, sob a Constituição, têm por objeto reger a organização e o exercício das atividades do Estado destinadas à satisfação concreta e imediata dos interesses públicos, mediante atos jurídicos tipificados pela autoexecutoriedade, de caráter provisório, posto que sujeitos ao controle jurisdicional de legalidade”.7 Hely Lopes Meirelles define Direito Administrativo salientando a administração pública no sentido material: “conjunto harmônico de prin- cípios jurídicos que regem os órgãos, os agentes e as atividades públicas tendentes a realizar concreta, direta e imediatamente os fins desejados pelo Estado”.8 Para este curso, o Direito Administrativo consiste no conjunto de princípios que regulam a organização dos agentes, órgãos e pessoas jurídicas que compõem a Administração Pública, bem como o exercício 6 BANDEIRA DE MELLO, Oswaldo Aranha. Princípios gerais de direito administrativo. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1979. v. 1, p. 176. 7 Cf. OLIVEIRA, Fernando Andrade de. Conceituação do direito administrativo: parte I. Revista de Direito Administrativo – RDA, n. 120, p. 14-48, abr./jun. 1975; e OLIVEIRA, Fernando Andrade de. Conceituação do direito administrativo: parte II. Revista de Direito Administrativo – RDA, n. 121, p. 16-57, jul./set. 1975. 8 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro. 23. ed. atual. por Eurico de Andrade Azevedo, Délcio Balestero Aleixo e José Emmanuel Burle Filho. São Paulo: Malheiros, 1998. p. 35. marcos bittencourt6vol.indb 19 20/04/2015 21:20:30 20 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO da função administrativa, entendida esta como a atuação direta, concreta e imediata por parte dos entes administrativos ou até por particulares, em determinadas hipóteses, a título de cumprir as finalidades públicas previstas em lei. 1.5 Fontes do Direito Administrativo O que é fonte do Direito? A fonte do Direito identifica a origem da norma jurídica, a gênese de formação da ordem jurídica. Não existe, contudo, uniformidade na doutrina sobre esse tema. Tradicionalmente, existem as chamadas fontes materiais e as fontes formais de Direito. Fontes materiais consistem nos fatores sociais que irão criar a neces- sidade de elaboração do Direito. Tais fenômenos possuem natureza distinta: econômica, moral, religiosa, cultural, dentre outras. Para demonstrar como se apresentam as fontes materiais do Direito, pode-se citar o exemplo dado por Paulo Dourado de Gusmão ao mencionar que “em 1929 deu-se, em Nova Iorque, o crack da Bolsa de Valores, iniciando-se o fenômeno conhe- cido por ‘Grande Depressão’, causando pânico em todo o mundo, falên- cias de bancos, de indústrias e de fazendeiros. Resultado: intervenção do Estado no campo econômico, leis limitando preços, limitando a liberdade contratual e o exercício do direito de propriedade”.9 Hans Kelsen (1881-1973) entende que a noção de fontes materiais não possui caráter científico-jurídico, apesar de influenciarem a criação de normas jurídicas, além de se distinguirem das fontes do direito positivo, pois estas são vinculantes, enquanto as fontes materiais só se tornarão vinculantes quando assumirem o caráter de uma norma jurídica. Fontes formais são os instrumentos pelos quais as normas se apre- sentam na sociedade, ou seja, são os meios que produzem norma jurídica e compõem o direito vigente numa determinada época. Miguel Reale entende que essa antiga distinção entre fonte formal e fonte material do Direito acarreta inúmeros equívocos no campo da ciência jurídica, uma vez que as chamadas fontes materiais do Direito tratam do “problema do fundamento ético ou do fundamento social das normas jurí- dicas, situando-se, por conseguinte, fora do campo da Ciência do Direito”. Desse modo, esse autor compreende a expressão “fonte do Direito” apenas em um único sentido, ou seja, como “fonte de regras obrigatórias, dotadas de vigência e de eficácia”.10 9 GUSMÃO, Paulo Dourado de. Introdução ao estudo do direito, p. 128. 10 REALE, Miguel. Lições preliminares de direito. 25. ed. São Paulo: Saraiva, 2000. p. 140-141. marcos bittencourt6vol.indb 20 20/04/2015 21:20:30 21CAPÍTULO 1INTRODUÇÃO AO DIREITO ADMINISTRATIVO Segundo Hely Lopes Meirelles, seguindo a doutrina tradicional ad- ministrativista, existem quatro fontes principais do Direito Administrativo: a lei, a jurisprudência, a doutrina e os costumes.11 Cabe analisar a compa- tibilidade dessas fontes com o pensamento de Miguel Reale. 1.5.1 Lei A lei pode ser considerada a fonte básica do Direito Administrativo brasileiro, principalmente levando-se em conta a tradição do Direito pátrio, em que há o primado da lei (normas editadas pelo Estado), atri- buindo valor secundário às outras fontes do Direito. Compreenda-se a lei em sentido amplo, ou seja, como norma geral, abstrata e impessoal, englobando a Constituição da República e as dos Estados, emendas constitucionais, leis complementares, leis delegadas, leis ordinárias, medidas provisórias, decretos legislativos, resoluções, tratados, regu- lamentos, instruções e outros instrumentos que contêm um comando abstrato e geral. Assim, as normas jurídicas criam situações jurídicas positivamente válidas, sendo exteriorizadas com força obrigatória numa dada sociedade. 1.5.2 Jurisprudência A jurisprudência consiste no conjunto de reiteradas decisões do Poder Judiciário no mesmo sentido verificada em casos similares. Nos Estados Unidos da América e na Inglaterra, que adotam o sis- tema da common law, a construção jurisprudencial constitui uma relevante fonte de Direito, pois nesses sistemas tais decisões detêm força vinculante. O Direito se consolida por meio dos precedentes judiciais (stare decisis), que consistem em julgamentos de casos concretos que influenciarão situações assemelhadas no futuro. No Brasil, que possui tradição do direito legislado, a jurisprudência não tem força obrigatória além do caso concreto decidido. Como visto, no Direito brasileiro segue-se a supremacia da lei como fonte de produção de Direito com caráter obrigatório. Não se pode, no entanto, considerar irrelevante a jurisprudência no Direito pátrio, uma vez que a interpretação do Direito Administrativo realizada pelos julgados revela o verdadeiro alcance e sentido da norma prevista na ordem jurídi- ca, contribuindo diretamente para a construção de institutos de Direito Público. Dessa forma, as decisões judiciais uniformes complementamo sistema de direito positivo. 11 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro, p. 41. marcos bittencourt6vol.indb 21 20/04/2015 21:20:30 22 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO 1.5.3 Doutrina A doutrina consiste nos estudos, pareceres e lições de juristas, professores e outros operadores do Direito. Também chamada de Direito Científico por Savigny (1779-1861), a doutrina colabora decisivamente para a elaboração do direito positivo. No Direito Romano, os estudos dos jurisconsultos integravam o Direito, sendo decisivos para julgamento de questões forenses. Apesar desse prestígio, atualmente, muitos autores questionam se a doutrina pode figurar no rol das fontes do Direito Administrativo, uma vez que os ensinamentos dos estudiosos não detêm força coativa nem eficácia. 1.5.4 Costume Costume, segundo as lições de Oswaldo Aranha Bandeira de Mello, “é a regra de conduta surgida da consciência comum do povo, ante a ob- servância, de maneira constante e uniforme, sob a convicção de que tem o caráter de determinação jurídica”.12 Observa-se uma utilização maior dos costumes em determinados setores jurídicos, como no Direito Comercial, mas atualmente sua aplica- ção se apresenta apenas subsidiária, tendo em vista a predominância do Direito legislado. Para configurar o costume jurídico é necessária a presença de dois requisitos: a) uso – elemento material que consiste na observância reiterada da norma; b) opinio juris vel necessitatis – elemento subjetivo que se apresenta na con- vicção generalizada de que a norma estabelecida é necessária e obrigatória. A maioria dos estudiosos entende que o costume é fonte do Direito Administrativo seja quando preenche as lacunas do sistema jurídico, seja quando auxilia a interpretação e incidência de outras normas, contudo não se admite o costume contra legem, ou seja, quando se contrapõe ao direito positivo. 12 BANDEIRA DE MELLO, Oswaldo Aranha. Princípios gerais de direito administrativo, v. 1, p. 325. marcos bittencourt6vol.indb 22 20/04/2015 21:20:30 CAPÍTULO 2 REGIME JURÍDICO ADMINISTRATIVO 2.1 Regime jurídico O regime jurídico consiste num conjunto de princípios que discipli- nam o modo como certa atividade deve ser exercida. O Estado pode exercer sua atividade administrativa por meio de um regime jurídico de direito privado, semelhante ao da livre iniciativa, ou por um regime jurídico especial, de direito público, dependendo do que esteja previsto no ordenamento jurídico para cada situação. Não cabe, portanto, à Administração Pública escolher qual o regime que utilizará, pois a submissão a um determinado regime jurídico já se encontra prevista na Constituição ou na lei. Observe-se que, mesmo quando a Administração Pública utiliza institutos próprios do regime jurídico de direito privado, sempre conti- nuará a submeter-se a restrições e exercendo prerrogativas específicas do regime de direito público. Por exemplo, o art. 173, §1º, da Constituição Federal determina que as empresas públicas e sociedades de economia mista que explorem atividade econômica se sujeitam ao regime jurídico próprio das empresas privadas, inclusive quanto aos direitos e obrigações trabalhistas, ou seja, seus empregados serão regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho. Mesmo assim, para compor os quadros dessas entidades, a Constituição prevê a necessidade de seus empregados serem aprovados previamente em concurso público de provas ou provas e títulos (art. 37, II). 2.2 Regime jurídico administrativo Apresenta-se o regime jurídico administrativo como um sistema especial que coloca a Administração Pública numa posição de supremacia perante os administrados para satisfazer as necessidades coletivas, mas, por outro lado, estabelece uma série de restrições ao modo de agir do Poder Público. marcos bittencourt6vol.indb 23 20/04/2015 21:20:30 24 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO O regime jurídico administrativo pode ser representado pelo bi- nômio prerrogativas/restrições, pois ao administrador público se atribuem várias prerrogativas e “privilégios” para realizar as finalidades públicas que não são encontrados nas relações de direito privado. Em contrapartida, no entanto, existem limitações à sua liberdade de atuar para proteção aos direitos dos administrados frente ao Estado. Assim, para garantir a supremacia do interesse público, o regime ju- rídico administrativo assegura prerrogativas (como o poder de expropriar, o poder de alterar e rescindir unilateralmente os contratos administrativos e o exercício do poder de polícia) e faculdades diferenciadas (por exemplo, prazos judiciais mais dilatados e presunção de veracidade de seus atos). Para compreender a que título são recebidos tais poderes, cabe subli- nhar novamente que a atividade administrativa corresponde ao exercício de uma “função”. Todo aquele que desempenha uma função tem o dever de satisfazer interesses que pertencem a terceiros. O interesse de terceiro, nesse caso, corresponde ao interesse da coletividade. Celso Antônio Bandeira de Mello ensina que “para desincumbir-se de tal dever, o sujeito necessita manejar poderes, sem os quais não teria como atender à finalidade que deve perseguir para a satisfação do inte- resse alheio. Assim, ditos poderes são irrogados, única e exclusivamente, para propiciar o cumprimento do dever a que estão jungidos; ou seja: são conferidos como meios impostergáveis ao preenchimento da finalidade que o exercente de função deverá suprir”.13 As restrições, por sua vez, se apresentam na observância dos vários princípios que informam a Administração Pública como o princípio da legalidade, na obrigatoriedade de realização de concursos públicos para preencher os quadros dos entes administrativos e na necessidade de licitar previamente para celebrar contratos, apenas para citar alguns exemplos. Assim, o regime jurídico administrativo limita a atuação do Poder Público na busca exclusiva do atendimento aos interesses públicos. 2.3 Princípios da Administração Pública Os princípios constituem as estruturas da ciência jurídica que detêm a função de criação, aplicação e interpretação do Direito. Para Celso Antônio Bandeira de Mello, princípio é “mandamento nuclear de um sistema, verdadeiro alicerce dele, disposição fundamental que se irradia sobre diferentes normas compondo-lhes o espírito e servindo de critério 13 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de direito administrativo. 14. ed. São Paulo: Malheiros, 2002. p. 81. marcos bittencourt6vol.indb 24 20/04/2015 21:20:30 25CAPÍTULO 2REGIME JURÍDICO ADMINISTRATIVO para sua exata compreensão e inteligência, exatamente por definir a lógica e a racionalidade do sistema normativo, no que lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico”.14 Encontram-se expressamente previstos no art. 37, caput, da Constituição os princípios básicos que informam a Administração Pública: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Além disso, há ainda princípios do Direito Administrativo que, apesar de estarem im- plícitos no ordenamento jurídico, são de fundamental importância para a compreensão do sistema, como é o caso do princípio da supremacia do interesse público sobre o interesse privado e da indisponibilidade do interesse público. 2.3.1 Princípio da supremacia do interesse público sobre o interesse privado À Administração Pública cabe a tutela dos interesses públicos. Estes têm supremacia sobre os interesses particulares para garantir a própria conservação do sistema e a estabilidade da ordem social. Segundo Celso Antônio Bandeira de Mello, todo o sistema de Direito Administrativo se constrói tendo em vista os princípios da supremacia do interesse público sobre o particulare o princípio da indisponibilidade do interesse público pela Administração.15 O princípio da supremacia do interesse público atribui um status especial ao Estado frente ao particular. Essa peculiar posição deriva da necessidade de proteger os interesses públicos, conferindo certas prerro- gativas previstas no ordenamento jurídico como, por exemplo, presunção de legitimidade e veracidade dos atos administrativos, bem como forma especial de execução judicial. Além disso, o Estado se apresenta nas relações com os administrados numa posição de autoridade, podendo inclusive impor unilateralmente obrigações aos particulares. A desapropriação é um exemplo da manifestação do princípio da supremacia do interesse público sobre o privado. Nesse instituto, ocorre a transferência de um bem particular para o domínio público, visando atender necessidades coletivas. Observe-se que a Administração Pública exerce função administra- tiva, consubstanciada no dever de satisfazer certas finalidades em favor do interesse da coletividade, utilizando para isso certos poderes. Esses poderes apresentam caráter instrumental, ou seja, podem ser operados pela Administração apenas para atendimento do dever previsto na norma em favor do interesse público. 14 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de direito administrativo, 14. ed., p. 807-808. 15 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de direito administrativo, 14. ed., p. 39. marcos bittencourt6vol.indb 25 20/04/2015 21:20:30 26 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO 2.3.2 Princípio da indisponibilidade dos interesses públicos pela Administração O interesse público é gerido e protegido pela Administração Pública. Qual é, entretanto, esse interesse público que deve ser tutelado? Quem exerce função administrativa vincula-se a satisfazer interesses públicos, isto é, interesses da coletividade. Apesar de existirem certas críticas dentro da própria doutrina ita- liana, devemos lembrar a distinção entre interesses primários do Estado e interesses secundários apresentada por Renato Alessi.16 O interesse secundário está presente quando o Estado se conduz mo- vido por interesses apenas seus, como, por exemplo, resistir ao pagamento de indenizações, mesmo que procedentes, cobrar tributos por valores exa- gerados, estabelecer uma remuneração ínfima aos seus servidores etc. Está, nesses casos, apenas atendendo a seus interesses egoísticos, individuais, e não aos interesses primários, ou seja, aos interesses da coletividade que a lei consagra. No caso da Administração Pública, esta não pode dispor livremente dos interesses que tem o dever de cuidar, pois, na verdade, não pertencem a ela, mas ao povo. Conforme ensinamento de Ruy Cirne Lima, a adminis- tração consiste na “atividade do que não é senhor absoluto”.17 Desse modo, as competências decorrentes do regime jurídico ad- ministrativo são deferidas a título de cuidar dos interesses primários de toda a população, e não para tutelar conveniências particulares do Estado enquanto pessoa, e muito menos dos seus governantes. 2.3.3 Princípio da legalidade O surgimento do princípio da legalidade teve origem no nascimento do próprio Estado de Direito. Configura uma das maiores garantias do administrado frente ao Poder Público. Traz a noção de soberania popular, nos termos do art. 1º, parágrafo único, da Constituição Federal: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. Representa uma integral subordinação do Poder Público à pre- visão legal. Os agentes da Administração Pública devem atuar sempre de conformidade com a lei, pois esta foi elaborada pelos representantes 16 ALESSI, Renato. Sistema istituzionale del diritto amministrativo italiano. 3. ed. Milano: Giuffrè, 1960. p. 197. 17 LIMA, Ruy Cirne. Princípios de direito administrativo. 5. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1982. p. 21. marcos bittencourt6vol.indb 26 20/04/2015 21:20:30 27CAPÍTULO 2REGIME JURÍDICO ADMINISTRATIVO do povo. Nas relações de direito privado é lícito fazer tudo que a lei não proíbe, com base no princípio da autonomia da vontade. Já com relação à Administração Pública, só é permitido fazer o que a lei autoriza. Consoante as lições de Carlos Ari Sundfeld, “a ligação da Administração Pública com a lei é, portanto, extensa e inafastável, podendo ser resumida como segue: a) seus atos não podem contrariar, implícita ou explicitamente, a letra, o espírito ou a finalidade da lei; b) a Administração não pode agir quando a lei não autorize expressamente, pelo que nada pode exigir ou vedar aos particulares que não esteja previamente imposto nela”.18 Assim, a Administração Pública não pode, mediante mero ato administrativo, conceder direitos, estabelecer obrigações ou impor proibições aos cidadãos. A criação de um novo tributo, por exemplo, sempre dependerá de lei. Apenas a lei em sentido formal, ou seja, o ato resultante do exercício da função legislativa, pode inovar o orde- namento jurídico. 2.3.4 Princípio da impessoalidade A Administração Pública, no exercício de suas funções, deve atuar de forma objetiva, uma vez que tem como missão tutelar o interesse pú- blico. A impessoalidade da atuação administrativa pode ser verificada em duas frentes. Em primeiro lugar, é vedado à Administração Pública prejudicar ou favorecer certas pessoas ou grupos. O princípio da impessoalidade para Hely Lopes Meirelles representa o próprio princípio da finalidade que determina uma atuação do administrador público dirigida ao fim público, impessoal, previsto na lei.19 Qualquer ato administrativo que busque atingir outro objetivo que não seja o interesse público estará sujeito à anulação por desvio de finalidade, também denominado de desvio de poder. Nas palavras de Manoel de Oliveira Franco Sobrinho, desvio de poder consiste em “ação efetivada longe do espírito da lei, ou melhor, exercitada fora do fim previsto, qualificado, considerado como finalidade própria do ato”.20 Em segundo lugar, deve-se entender que os atos administrativos sempre são imputados à pessoa jurídica e não ao agente público que o pratica. Nesse sentido, determina o art. 37, §1º, da Constituição que “a publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos 18 SUNDFELD, Carlos Ari. Direito administrativo ordenador. São Paulo: Malheiros, 1993. p. 30. 19 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro, p. 88. 20 FRANCO SOBRINHO, Manoel de Oliveira. O controle da moralidade administrativa. São Paulo: Saraiva, 1974. p. 180. marcos bittencourt6vol.indb 27 20/04/2015 21:20:30 28 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos”. A Lei nº 9.784/99, que trata do processo administrativo no âmbito federal, sintetiza esses dois aspectos do princípio da impessoalidade: “objetividade no atendimento do interesse público, vedada a promoção pessoal de agentes ou autoridades” (art. 2º, parágrafo único, III). Para Diogo de Figueiredo Moreira Neto, o princípio da impessoali- dade também veda ao Estado perseguir interesses públicos secundários, desligados dos interesses primários previstos em lei. “Neste caso enfatiza- -se a natureza jurídica ficta da personalização do Estado que, por isso, ja- mais deve atuar em seu exclusivo benefício, mas sempre no da sociedade”.21 2.3.5 Princípio da moralidade Com previsão expressa no art. 37, caput, da Constituição, a mo- ralidade administrativa é condição essencial no agir do administrador público. Além de se comportar conforme o estatuído no ordenamento jurídico, o agente públicodeve ter uma “atuação segundo padrões éticos de probidade, decoro e boa-fé” (art. 2º, IV, da Lei nº 9.784/99). Assim, o ato administrativo, além de ser legal, também tem de ser honesto. Os atos de improbidade administrativa, segundo o art. 37, §4º, da Constituição, “importarão a suspensão dos direitos políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao erário, na forma e gradação previstas em lei, sem prejuízo da ação penal cabí- vel”. A Lei nº 8.429/92 disciplina os atos de improbidade administrativa, modalidades, cominações e processos de apuração. A violação à probidade administrativa pode configurar até mesmo crime de responsabilidade quando cometida pelo Presidente da República (art. 85, V, da CF). A moralidade administrativa ainda encontra proteção no art. 5º, LXXIII, da Constituição, ao prever que qualquer cidadão pode propor ação popular visando a anular ato lesivo à moralidade administrativa. 2.3.6 Princípio da publicidade Como já mencionado, a Administração Pública tutela interesses de terceiros (no caso, interesses da coletividade). Deve, portanto, existir trans- parência em toda a atuação da administração, que permita conhecimento 21 MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Curso de direito administrativo: parte introdutória, parte geral, parte especial. 12. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2002. p. 93. marcos bittencourt6vol.indb 28 20/04/2015 21:20:30 29CAPÍTULO 2REGIME JURÍDICO ADMINISTRATIVO e controle real por parte da sociedade a respeito da condução de seus interesses. Tal transparência no trato da coisa pública nada mais é que o princípio da publicidade expressamente previsto no art. 37, caput, da Constituição Federal. Para Juarez Freitas, “o agente público precisa prestar contas de todos os seus atos e velar para que tudo seja feito com a visibilidade do sol do meio-dia, preservando sua própria reputação, somente se admitindo que não o faça por excepcional e estrita exigência superior do interesse público (v.g., de segurança) ou por ditames da dignidade da pessoa humana”.22 Em regra, os atos devem ser publicados, seja para conhecimento geral seja para produção de seus efeitos. Assim, fica claro, frente ao art. 5º, XXXIII, da Constituição, que todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, só se admitindo sigilo quando imprescindível à segurança da sociedade e do Estado, consoante hipóteses previstas no ordenamento jurídico. 2.3.7 Princípio da eficiência Com a reforma administrativa promovida especialmente pela Emenda Constitucional nº 19/98, houve a inclusão do princípio da eficiência no art. 37, caput, da Constituição. Observe-se que o princípio da eficiência já se encontrava previsto no Decreto-Lei nº 200/67, buscando disciplinar o com- portamento dos servidores públicos e o controle da Administração Pública. A previsão do princípio da eficiência no plano constitucional significa uma tentativa de alteração do paradigma existente, para um sistema de mérito, possibilitando maior controle de resultados na atividade administrativa. Nesse sentido, Emerson Gabardo conclui que “verifica-se completamente plausível a existência de várias formas de aplicação tópica do princípio da eficiência administrativa, tanto como parâmetro de interpretação, quanto diretriz de organização e atividade administrativas. Na qualidade de mecanismo de controle dos atos administrativos e responsabilização funcional do agente público, a explicitação da eficiência passa a incrementar o exercício da au- totutela e a fiscalização social da atividade administrativa”.23 Assim, exige-se a apresentação de resultados positivos para o serviço público e satisfatório atendimento das necessidades do adminis- trado não apenas na conduta do servidor público, mas também de toda Administração Pública. 22 FREITAS, Juarez. O controle dos atos administrativos e os princípios fundamentais. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 1999. p. 70. 23 GABARDO, Emerson. Princípio constitucional da eficiência administrativa. São Paulo: Dialética, 2002. p. 147. marcos bittencourt6vol.indb 29 20/04/2015 21:20:30 30 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO Para a doutrina italiana, o princípio da eficiência é conhecido como o princípio da “boa administração”, exigindo que a Administração Pública funcione com rapidez, perfeição e rendimento. Buscando alcançar o máximo de resultado com o mínimo de custo possível deve pautar-se a Administração Pública, contudo não se deve esquecer o sistema em que está inserido o princípio da eficiência. Não se pode olvidar os princípios da legalidade e da moralidade em nome de uma eficiência própria de empresas privadas e inaplicável na seara pública. Nesse sentido, exemplifica Ubirajara Costódio Filho: “suponha-se que em determinado Município, a Administração local deflagre um projeto de pavimentação em anti-pó das vias públicas e obtenha, ao longo da sua execução, o resultado de pavimentação de 100% das vias públicas previstas no programa, mas sem observar as regras legais de licitação para contratar as empresas privadas responsáveis pelos trabalhos. Nessa hipótese, ainda que se pudesse alegar e comprovar a eficiência dos resultados finais, os princípios da legalidade e da moralidade estariam violados. Daí a impor- tância de não se perder de vista que o princípio da eficiência não é filho único da Administração Pública, senão irmão mais novo dos princípios da legalidade, moralidade, impessoalidade e publicidade”.24 2.3.8 Princípio da razoabilidade No exercício de sua função administrativa, não cabe à Administração Pública, mesmo existindo certa liberdade frente ao caso concreto (discri- cionariedade), decidir de modo irracional, ou seja, fora dos padrões de normalidade da sociedade. Claramente se percebe que uma atitude desarrazoada não se coa- duna à finalidade da lei e será passível de anulação pelo Poder Judiciário. Verifica-se desde logo que, apesar de não estar expressamente previsto na Constituição, o princípio da razoabilidade tem como fundamento o próprio princípio da legalidade. O exame judicial não irá invadir o mérito do ato discricionário, por- quanto a liberdade conferida pelo legislador foi estabelecida nos limites da lei. Uma conduta fora dos padrões de normalidade por parte do admi- nistrador público ultrapassa tais limites e torna possível a análise judicial do caso concreto. Logo, o princípio da razoabilidade se apresenta como instrumento de controle aos limites da discricionariedade administrativa pelo Poder Judiciário. 24 Cf. COSTÓDIO FILHO, Ubirajara. A Emenda Constitucional nº 19/98 e o princípio da eficiência na Administração Pública. Cadernos de Direito Constitucional e Ciência Política, v. 7, n. 27, p. 209- 217, abr./jun. 1999. marcos bittencourt6vol.indb 30 20/04/2015 21:20:30 31CAPÍTULO 2REGIME JURÍDICO ADMINISTRATIVO 2.3.9 Princípio da proporcionalidade Para Maria Sylvia Zanella Di Pietro, o princípio da proporcionali- dade configura apenas um dos aspectos do princípio da razoabilidade, apesar de a Lei nº 9.784/99 mencioná-los separadamente.25 O núcleo do princípio da proporcionalidade reside no art. 2º, parágrafo único, VI, da Lei nº 9.784/99: “adequação entre meios e fins, vedada a imposição de obrigações, restrições e sanções em medida superior àquelas estritamente necessárias ao atendimento do interesse público”.26 O seu fundamento constitucional reside também no princípio da legalidade, ou seja, o ato administrativo expedido de modo despropor- cional ao fim visado pela lei, acarretará a sua anulação. 2.3.10 Princípio da motivação O princípio da motivação determina que a Administração Pública tem por dever expor os motivos, isto é, apresentar os pressupostos de fato e de direitoque a levaram a expedir determinado ato administrativo. Tal exposição permitirá verificar a congruência da conduta adminis- trativa com a lei. Para isso, a motivação deve ser anterior ou concomitante à emissão do ato, tanto para os atos vinculados como para os atos discri- cionários. O momento da apresentação dos motivos constitui elemento de suma importância para impedir a elaboração de razões “de encomenda” para justificar certa conduta administrativa. Essa necessidade de indicar os motivos de um ato administrativo caracteriza o Estado Democrático de Direito que tem como base a sobe- rania popular. Desse modo, torna-se possível a análise judicial, compa- rando-se a atuação administrativa com os princípios da Administração Pública. Nesse sentido, o art. 50 da Lei nº 9.784/99, que trata do processo administrativo no âmbito federal, prescreve que os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurí- dicos, quando: I - neguem, limitem ou afetem direitos ou interesses; II - imponham ou agravem deveres, encargos ou sanções; 25 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo. 13. ed. São Paulo: Atlas, 2001. p. 81. 26 Para atingir a finalidade pública, a competência administrativa deverá ser executada com mo- deração, respeitando sempre o princípio da proporcionalidade. A Lei citada, nesse aspecto, po- sitivou síntese feliz de Jesús González Pérez, que ensina que o princípio da proporcionalidade “não postula outra coisa senão uma adequação entre meios e fins” (PÉREZ, Jesús González. El principio general de la buena fe en el derecho administrativo. Madrid: Civitas, 1983. p. 39). marcos bittencourt6vol.indb 31 20/04/2015 21:20:30 32 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO III - decidam processos administrativos de concurso ou seleção pública; IV - dispensem ou declarem a inexigibilidade de processo licitatório; V - decidam recursos administrativos; VI - decorram de reexame de ofício; VII - deixem de aplicar jurisprudência firmada sobre a questão ou discrepem de pareceres, laudos, propostas e relatórios oficiais; VIII - importem anulação, revogação, suspensão ou convalidação de ato administrativo. 2.3.11 Princípio da segurança jurídica O princípio da segurança jurídica está previsto no art. 2º, caput, da Lei nº 9.784/99, com o conteúdo apresentado no parágrafo único, inciso XIII, parte final, deste artigo, ao determinar entre os critérios que devem ser observados num processo administrativo: “interpretação da norma administrativa da forma que melhor garanta o atendimento do fim público a que se dirige, vedada aplicação retroativa de nova interpretação”. A estabilidade das relações jurídicas constitui ideia básica num Estado de Direito. O princípio da segurança jurídica, ao lado dos princípios da boa-fé e de proteção à confiança, reforçam as relações entre o cidadão e a Administração Pública. Em virtude do desenvolvimento cultural, jurídico e social de um Estado, existe a possibilidade da Administração Pública alterar a inter- pretação de uma norma jurídica, mas esse novo entendimento não pode levar a desconstituir as relações jurídicas anteriores entre o cidadão e a Administração Pública que já estavam consolidadas. A aplicação retroa- tiva de nova interpretação em situações pretéritas traria desconfiança e intranquilidade para a sociedade. Outros institutos do processo administrativo como a decadência e a prescrição também estão intimamente ligados à noção de segurança jurídica. No mesmo sentido, quando se analisa que a própria lei deve respeitar o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada, preceitos protegidos pela própria Constituição, o princípio da segurança jurídica também se faz presente. 2.4 Poderes administrativos Para que a Administração Pública possa tutelar adequadamente os interesses coletivos, o regime jurídico administrativo confere a ela marcos bittencourt6vol.indb 32 20/04/2015 21:20:30 33CAPÍTULO 2REGIME JURÍDICO ADMINISTRATIVO determinadas prerrogativas que se apresentam na forma de poderes administrativos. Como instrumentos para o exercício da função adminis- trativa, essas prerrogativas de autoridades apenas podem ser utilizadas nos limites da lei. A Administração Pública, como mencionado, exerce função admi- nistrativa. Para Celso Antônio Bandeira de Mello “existe função quando alguém está investido no dever de satisfazer dadas finalidades em prol do interesse de outrem, necessitando, para tanto, manejar os poderes requeridos para supri-las”.27 Assim, os poderes administrativos ou “poderes-deveres” são meros instrumentos para que o agente público, investido na função, possa desempenhar adequadamente o seu dever de satisfazer os interesses públicos. Serão examinados os poderes normativo, disciplinar, hierárquico, bem como o poder de polícia. Para Hely Lopes Meirelles, os poderes ad- ministrativos poderiam ainda ser classificados em “poder vinculado” e “poder discricionário”, de acordo com a liberdade do agente público para a prática de seus atos. “Poder vinculado ou regrado é aquele que o direito positivo — a lei — confere à Administração Pública para a prática de ato de sua competência, determinando os elementos e requisitos necessários à sua formalização”. O agente está totalmente preso ao previsto na lei. “Poder discricionário é o que o Direito concede à Administração, de modo explícito ou implícito, para a prática de atos administrativos com liberdade na escolha de sua conveniência, oportunidade e conteúdo”.28 Em verdade, assiste razão a Maria Sylvia Zanella Di Pietro, ao ensi- nar que os poderes discricionário e vinculado “não existem como poderes autônomos”.29 Discricionariedade e vinculação são, no máximo, atributos de outros poderes da Administração, como será visto em seguida. 2.4.1 Poder normativo Hely Lopes Meirelles denomina essa prerrogativa de poder regu- lamentar.30 A expressão “poder normativo”, entretanto, é mais adequada, pois exprime toda a competência normativa que pode ser exercida pela Administração Pública. O poder regulamentar, na verdade, consiste em ato administrativo normativo que compete exclusivamente ao Chefe do Poder Executivo da União, dos Estados, Municípios e Distrito Federal, com a função de 27 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de direito administrativo, 14. ed. p. 43. 28 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro, p. 102-103. 29 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 86. 30 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro, p. 112. marcos bittencourt6vol.indb 33 20/04/2015 21:20:30 34 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO expedir normas complementares à lei, para sua fiel execução. O poder normativo emanado da Administração Pública ainda pode consistir em vários outros atos administrativos normativos como instruções expedidas por ministros, regimentos pelos quais os órgãos colegiados estabelecem normas sobre o seu funcionamento interno, instruções, portarias, circula- res, deliberações etc. O regulamento, apresentado mediante decreto, expede normas para fiel execução da lei, consoante os termos do art. 84, IV, da Constituição Federal. Essas normas não têm o condão de inovar originariamente a or- dem jurídica, ou seja, criar novos direitos, novas obrigações ou vedações, pois ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, senão em virtude de lei (art. 5º, II, da Constituição). Uma vez que sua função consiste em explicar a lei para sua correta execução, o conteúdo do regu- lamento de execução está integralmente subordinado aos ditames legais, não se admitindo estabelecer normas que possam contrariar, restringir ou ampliar o disposto na lei. Dessa forma, no Direito brasileiro, em regra, não sãoadmitidos regulamentos autônomos ou independentes, encontrados em outros sistemas jurídicos, que teriam a função de expedir normas ainda não disciplinadas por lei. No sistema constitucional brasileiro o regulamento é dependente de lei prévia. Cabe mencionar, no entanto, que a Emenda Constitucional nº 32 alterou o art. 84, VI, para outorgar ao Presidente da República competên- cia para “dispor, mediante decreto, sobre: a) organização e funcionamento da administração federal, quando não implicar aumento de despesa nem criação ou extinção de órgãos públicos”. Para alguns autores, como Maria Sylvia Zanella Di Pietro, fica restabelecido um único caso de regulamento autônomo no Direito brasileiro, com esse dispositivo, ao dispor sobre matéria de organização administrativa, independentemente de prévia existência de lei. O regulamento é um dever do Chefe do Poder Executivo para ex- plicitar o conteúdo da lei, para tratar sobre a sua execução, ou até mesmo interpretar as disposições legais. Como isso se opera? Logicamente, algu- mas leis não necessitam de complementação. Todos os elementos neces- sários para a sua execução estarão presentes. Em outras leis, entretanto, o legislador deixou uma certa discricionariedade para que o administrador concretize a execução do previsto em lei. Há a necessidade de estabelecer, mediante um regulamento, uma uniformização dos comportamentos que podem ser exigidos dos administrados para cumprimento desta lei, caso contrário, cada órgão público estabeleceria um procedimento próprio. O princípio da igualdade seria claramente violado. O particular seria tratado de forma distinta em situações similares. Deve existir um comportamento uniforme perante situações iguais, respeitando o princípio da igualdade na aplicação da lei. Exemplo de Celso Antônio Bandeira de Mello quanto marcos bittencourt6vol.indb 34 20/04/2015 21:20:30 35CAPÍTULO 2REGIME JURÍDICO ADMINISTRATIVO a esta situação podemos encontrar no Regulamento do Imposto de Renda. Este irá dispor em que formulários serão feitas as declarações, de que modo e sob que disposição se apresentarão os lançamentos, onde, em que prazo e até em que horário será aceita a entrega das declarações etc. São aspectos que a lei não menciona como o cidadão deve proceder. O Congresso Nacional possui competência para sustar atos norma- tivos do Executivo que exorbitem do poder regulamentar (art. 49, V, da Constituição Federal). Além disso, os atos normativos federais e estaduais, como as leis, são passíveis de controle de constitucionalidade exercido pelo Supremo Tribunal Federal (art. 102, I, “a”, da Constituição). 2.4.2 Poder hierárquico Para se compreender qual o conteúdo do poder hierárquico, faz-se necessário esclarecer o que significa hierarquia. Esta pode ser definida como relações internas de coordenação e subordinação existentes na Administração Pública, atribuindo competências para órgãos e agentes para o adequado desempenho da função administrativa. O poder hierárquico busca coordenar, controlar e corrigir a ativi- dade administrativa, mediante uma série de prerrogativas deferidas pelo ordenamento jurídico como dar ordens; fiscalizar e corrigir a atividade dos subordinados; delegar e avocar competências, desde que não seja atribui- ção exclusiva, segundo a lei; bem como rever os atos administrativos para verificar sua legalidade, conveniência e oportunidade, com a possibilidade de anulá-los ou revogá-los, se for o caso. Este controle hierárquico, também chamado de autotutela, abrange o poder de aplicar punições aos subordinados. Por sua relevância e por questões didáticas, este poder disciplinar será apresentado separadamente. 2.4.3 Poder disciplinar Define-se o poder disciplinar como aquele que compete à Administração Pública para apurar infrações e aplicar penalidades aos servidores públicos e outras pessoas submetidas à disciplina administrativa como, por exemplo, alunos de entidade de ensino público. O poder disciplinar também tem como fundamento a hierarquia encontrada na Administração Pública, buscando sempre aprimorar o serviço público, mediante controle das funções e condutas internas dos seus servidores. Não se deve confundir o exercício do poder disciplinar com as me- didas punitivas decorrentes do poder de polícia administrativa, nem com o poder punitivo do Estado exercido pela Justiça Penal. Enquanto o poder marcos bittencourt6vol.indb 35 20/04/2015 21:20:30 36 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO disciplinar consiste num sistema punitivo interno do Poder Público que atinge apenas infrações ligadas ao serviço administrativo, tanto o poder de polícia quanto o poder punitivo do Estado possuem finalidade social, por meio de uma aplicação genérica sobre toda a sociedade. Conclui-se, portanto, que o poder disciplinar diz respeito a uma relação de sujeição especial, ou seja, apenas se aplica a pessoas que possuem um vínculo espe- cial com a Administração Pública. Nesse sentido, Rafael Munhoz de Mello ensina que existem duas categorias de relações travadas entre o Estado e os indivíduos: relações de sujeição geral e relações de sujeição especial. Para esse autor, relações de sujeição geral “são as decorrentes do poder de império estatal, que atinge a todos os indivíduos que se encontram no território do Estado, indiscriminadamente. Já as segundas têm um âmbito bem mais restrito, abrangendo apenas as pessoas que mantêm com o ente estatal uma especial vinculação jurídica, que dá ensejo a um regime espe- cífico, caracterizado por uma sujeição mais aguda do particular frente ao Estado”.31 Assim, o vínculo jurídico entre o Estado e o servidor público é um exemplo claro de relação de sujeição especial. Tendo conhecimento de irregularidade praticada pelo agente, a autoridade competente tem obrigatoriamente que instaurar processo administrativo para sua apuração e aplicar a penalidade, se necessário. A autoridade administrativa não tem liberdade de escolha entre punir ou não punir. Caso não responsabilize o servidor, incidirá em crime de condescendência criminosa, previsto no art. 320 do Código Penal. Há, contudo, certa discricionariedade no exercício do poder disci- plinar em vários aspectos dos procedimentos disciplinares. Em primeiro lugar, os estatutos dos servidores públicos não preveem normas rígidas em comparação com o Direito Penal, quanto ao procedi- mento a ser seguido. Em segundo lugar, a legislação disciplinar permite à autoridade competente considerar, na escolha da pena, a natureza e a gravidade da infração e os danos que dela provierem para o serviço público como, por exemplo, prevê o art. 128 da Lei nº 8.112/90 (Estatuto dos Servidores Públicos Federais). Em terceiro lugar, a lei utiliza expressões amplas e imprecisas para conceituar certas faltas, como proibição de manifestação de apreço ou desapreço na repartição. Dessa forma, existe liberdade conferida pelo legis- lador para a autoridade verificar se, perante o caso concreto, foi cometida ou não alguma infração administrativa. 31 MELLO, Rafael Munhoz de. Sanção administrativa e princípio da legalidade. In: FIGUEIREDO, Lúcia Valle (Coord.). Devido processo legal na Administração Pública. São Paulo: M. Limonad, 2001. p. 170. marcos bittencourt6vol.indb 36 20/04/2015 21:20:30 37CAPÍTULO 2REGIME JURÍDICO ADMINISTRATIVO Não pode ser aplicada penalidade, por mais simples que seja, como uma mera advertência, sem prévia apuração por meio de processo legal em que sejam assegurados os princípios do contraditório e da ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes (art. 5º, LV, da CF). 2.4.4 Poder de polícia 2.4.4.1 Conceito Modernamente, configura-se poder de polícia como a atividade administrativa que condiciona o exercício das liberdades individuais em benefíciodo interesse da coletividade. A Constituição Federal garante o exercício normal dos direitos indi- viduais, mas não permite o abuso. Para evitar tal excesso, a Administração Pública exerce o poder de polícia, tendo como fundamento o princípio da supremacia do interesse público sobre o particular. Uma vez que o exercício do poder de polícia configura fato gerador para cobrança de taxa, conforme rezam o art. 145, II, da Constituição e o art. 77 do Código Tributário Nacional, houve previsão legal (art. 78 do CTN) explicando o conteúdo dessa atividade administrativa: “Considera-se poder de polícia a atividade da Administração Pública que, limitando ou discipli- nando direito, interesse ou liberdade, regula a prática de ato ou abstenção de fato, em razão de interesse público concernente à segurança, à higiene, à ordem, aos costumes, à disciplina da produção e do mercado, ao exercício de atividades econômicas dependentes de concessão ou autorização do Poder Público, à tranquilidade pública ou ao respeito à propriedade e aos direitos individuais ou coletivos”. Dessa forma, o Poder Público limita o exercício dos direitos e atividades que possam afetar a coletividade, como por exemplo, os setores de segurança, saúde e moralidade públicas. Celso Antônio Bandeira de Mello apresenta dois conceitos de poder de polícia. Em sentido amplo, consiste na atividade estatal de condicionar a liberdade e a propriedade ajustando-as aos interesses coletivos, engloban- do atos do Poder Legislativo e do Poder Executivo. Já em sentido restrito, entendem-se como próprias do poder de polícia as intervenções, gerais e abstratas (regulamentos), concretas e específicas (autorizações, licenças e injunções) do Poder Executivo, “destinadas a alcançar o mesmo fim de prevenir e obstar ao desenvolvimento de atividades particulares contras- tantes com os interesses sociais”.32 Nunca é demais lembrar que a atividade de polícia adminis- trativa encontra seus limites na lei, ou seja, é passível de exame de 32 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de direito administrativo. 14. ed. p. 697. marcos bittencourt6vol.indb 37 20/04/2015 21:20:31 38 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO legalidade quando exorbite de sua normalidade, como qualquer atuação da Administração Pública. 2.4.4.2 Polícia administrativa e polícia judiciária Maria Sylvia Zanella Di Pietro ensina que o poder de polícia pode ser verificado tanto na área administrativa como na área judiciária. Tradicionalmente, a polícia administrativa tem sido exercida preventi vamente para impedir ações antissociais, enquanto a polícia judiciária atua repressivamente, aplicando o Direito Penal aos criminosos. Di Pietro demonstra, contudo, que a distinção apontada é relativa, ao exemplificar que a polícia administrativa pode atuar de forma preventiva, proibindo o porte de arma ou a direção de veículos automotores, ou pode atuar de forma repressiva, apreendendo a arma inadequadamente utilizada ou a licença do motorista.33 Álvaro Lazzarini distingue polícia administrativa de polícia judiciária com base na existência de ilícito penal. Desse modo, a polícia administrativa atua quando ocorre um ilícito administrativo, já a polícia judiciária entra em ação na hipótese de ilícito penal.34 Hely Lopes Meirelles compreende que a polícia administrativa e a polícia judiciária se distinguem, uma vez que aquela incide sobre bens, direitos e atividades e está disseminada por toda a Administração Pública, enquanto esta atingiria as pessoas, sendo privativa de corporações espe- cíficas (polícia civil e militar).35 2.4.4.3 Manifestações do poder de polícia O poder de polícia se expressa mediante normas previstas em leis, regulamentos ou qualquer outro instrumento normativo, que estabele- cem as hipóteses de limitação dos direitos em abstrato ou por meio de atos administrativos em concreto, condicionando o exercício dos direitos individuais conforme estabelecido no ordenamento jurídico, seja preven- tivamente (fiscalização, notificação, autorização), seja repressivamente (interdição de atividade, demolições, fechamento de estabelecimentos). Em qualquer manifestação do poder de polícia deve estar presente o princípio da proporcionalidade, no sentido de adequar os meios postos em ação frente aos fins que devem ser tutelados. 33 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 111. 34 Cf. LAZZARINI, Álvaro. Do poder de polícia. Revista de Jurisprudência do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, v. 20, n. 98, p. 20-25, jan./fev. 1986. 35 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro, p. 115. marcos bittencourt6vol.indb 38 20/04/2015 21:20:31 39CAPÍTULO 2REGIME JURÍDICO ADMINISTRATIVO 2.4.4.4 Atributos do poder de polícia Em regra, a discricionariedade, a autoexecutoriedade e a coercibili- dade são apontadas como características ou atributos do poder de polícia. A discricionariedade é compreendida como a liberdade conferida pela lei ao administrador público para decidir, perante o caso concreto, qual a melhor solução frente determinada questão e pode ser encontrada na maioria das manifestações do poder de polícia. Em certos casos, en- tretanto, o modo como deve agir a Administração Pública já se encontra totalmente previsto na lei, só restando ao agente público cumprir o esta- belecido. Por exemplo, caso o administrado preencha todas as condições para conseguir a sua licença para dirigir automóveis, a Administração está obrigada a conceder tal pedido, uma vez que sua atividade de fiscalização, nessa hipótese, é vinculada. A autoexecutoriedade consiste na faculdade conferida ao Poder Público de executar suas próprias decisões sem necessitar de autorização do Poder Judiciário. A Administração Pública pode, por exemplo, apreen- der alimentos deteriorados, impróprios para o consumo. Observe-se, no entanto, que tal atributo apenas existe quando há prévia lei permitindo ou quando a urgência se faz necessária; caso contrário, a atividade admi- nistrativa estará exorbitando os parâmetros legais. Coercibilidade significa que os atos de polícia devem ser obedecidos pelos administrados mesmo que estes não concordem com o seu conteúdo, incluída a possibilidade de a Administração Pública utilizar a força para cumprir sua decisão. marcos bittencourt6vol.indb 39 20/04/2015 21:20:31 JulianoHeinen_ComentariosaLeideAcesso_1ed_jan14_MIOLO_GRAFICA.indd 2 24/01/2014 10:57:38 marcelop Texto digitado marcelop Texto digitado PÁGINA EM BRANCO marcelop Texto digitado CAPÍTULO 3 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 3.1 Introdução A Administração Pública, considerada objeto de estudo do Direito Administrativo e instrumento para realização direta dos interesses da cole- tividade, traduz diferentes significados a respeito de um mesmo fenômeno. As acepções principais, para fins de compreensão do tema, examinam a Administração Pública em sentido subjetivo e em sentido objetivo. A Administração Pública em sentido subjetivo, formal ou orgânico corres- ponde às pessoas jurídicas e órgãos que executam a função administrativa. Consiste na chamada Administração Direta e Indireta, tema do presente capítulo. A Administração Pública em sentido objetivo, material ou funcional con- siste na própria função administrativa. Para se alcançar preliminarmente o conteúdo da função admi- nistrativa, faz-se necessário recordar as várias manifestações do poder estatal. Os Poderes Legislativo, Judiciário e Executivo exercem, respec- tivamente, determinadas atribuições: a função legislativa, que trata da criação de normas gerais e abstratas; a função judicial, que aplica a lei para solução de conflitos frente a um caso concreto; e a função admi- nistrativa, que concretiza direta e imediatamente os fins previstos no ordenamento jurídico.Apesar de cada Poder desempenhar essencialmente essas funções, existe a necessidade de seus órgãos executarem atribuições que, em tese, pertenceriam a outro Poder. Esse método de distribuição de funções, vital para o equilíbrio e harmonia entre os Poderes, tem previsão constitucional. São exemplos de tais intervenções o art. 68 da Constituição, que permite ao Poder Executivo elaborar leis delegadas, bem como as hipóteses em que o Senado processa e julga o Presidente da República por crime de responsabilidade (art. 52, I, da CF). marcos bittencourt6vol.indb 41 20/04/2015 21:20:31 42 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO Da mesma forma, os Poderes Legislativo e Judiciário realizam atos administrativos na composição de sua estrutura e funcionamento, como numa licitação para adquirir veículos oficiais ou num concurso público para provimento de cargos. Assim, a função administrativa é a execução concreta dos ditames legais que visam satisfazer direta e imediatamente a finalidade pública. Segundo a doutrina tradicional, o fomento, o poder de polícia, o serviço público e a intervenção exprimem as diversas manifestações da atividade administrativa. O fomento consiste na função de incentivar ações privadas diri- gidas a interesses gerais, como financiamentos para construção de casas populares, subvenções e auxílios para entidades privadas beneficentes etc. A polícia administrativa ou poder de polícia, como já visto, re- presenta o condicionamento ao exercício dos direitos individuais para preservação do interesse coletivo. O serviço público significa a prestação de utilidades pelo aparelha- mento estatal ou por particulares, mediante um regime jurídico de Direito Público, para satisfazer necessidades da coletividade. A intervenção do Estado é a atuação administrativa referente à regulação e fiscalização do Poder Público sobre a atividade econômica desenvolvida pela iniciativa privada, bem como a presença do Estado no desempenho de atividade econômica por meio de empresas estatais, executadas num regime de Direito Privado. Apenas na regulação e fiscali- zação do Estado sobre a atividade econômica se encontra a administração pública como atividade administrativa. Na atuação direta do Estado no campo econômico, este age, basicamente, por meio de um regime de Direito Privado, que descaracteriza a função administrativa. 3.2 Desconcentração e descentralização O Poder Público busca encontrar a maneira mais eficiente de sa- tisfazer as necessidades do cidadão. Com esse objetivo, as competências administrativas podem ser exercidas de forma centralizada, quando a própria esfera política (União, Estados, Municípios ou Distrito Federal) exerce diretamente suas atribuições, ou de forma descentralizada, quan- do particulares ou pessoas jurídicas criadas pelo Estado desempenham atividade administrativa. Quando o Estado, por si mesmo, centraliza as atividades adminis- trativas, ocorre internamente uma repartição de competências entre seus órgãos. Chama-se de desconcentração administrativa a partilha de atribuições entre vários órgãos que pertencem a uma pessoa jurídica. A descentralização, por sua vez, trata da repartição de competências entre pessoas físicas ou jurídicas. Pressupõe a existência de pelo menos duas pessoas. A descentralização pode ser política ou administrativa. marcos bittencourt6vol.indb 42 20/04/2015 21:20:31 43CAPÍTULO 3ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA A descentralização política se apresenta quando a pessoa descentrali- zada executa competências próprias, decorrente de legitimidade conferida pela Constituição. Nessa hipótese, a pessoa descentralizada possui auto nomia, ou seja, possibilidade de elaborar suas próprias leis. Um exemplo de descentralização política é a competência deferida pela Constituição aos Estados e Municípios na Federação brasileira. A descentralização administrativa consiste no recebimento de compe- tências pela pessoa descentralizada deferidas pela pessoa central. Nesse caso, a entidade descentralizada detém apenas capacidade de autoadmi nistração, ou seja, poder de gerenciar seus próprios interesses, de acordo, entretanto, com as determinações legais expedidas pela entidade central. Conforme didaticamente sustenta Maria Sylvia Zanella Di Pietro,36 a descentralização administrativa pode ser dividida em descentralização geográfica (territorial), descentralização por serviços (funcional ou técnica) e descentralização por colaboração. Na descentralização territorial, a entidade descentralizada com perso nalidade jurídica de Direito Público recebe uma competência administrativa genérica da entidade central para ser exercida nos seus limites territoriais. Essa competência genérica administrativa envolve atividades na área de saúde, segurança, assistência social, dentre outras, para atender às polí- ticas públicas de uma região, mas com integral submissão à orientação legal expedida pelo ente central. No Brasil, tal forma de descentralização administrativa podia ser observada nas figuras dos territórios federais. Na descentralização por serviços, o Estado, por lei específica, institui uma pessoa jurídica de direito público ou de direito privado, à qual transfere a titularidade e a execução de certo serviço público. As autarquias, fundações públicas, empresas públicas e sociedades de economia mista são exemplos desse tipo de descentralização administrativa. O art. 37, XIX, da Constituição Federal determina que apenas por lei específica poderá ser criada autarquia e autorizada a instituição de empresa pública, de sociedade de economia mista e de fundação, cabendo à lei complementar, neste último caso, definir as áreas de sua atuação. Na descentralização por colaboração, o Estado, por meio de contrato ou ato administrativo unilateral, transfere apenas a execução de certo serviço público para particulares que, até então, não possuíam nenhum vínculo com o Poder Público. A concessão e a permissão de serviços públicos constituem espécies dessa modalidade de descentralização administrativa. Observe-se que, nesta hipótese de descentralização, o Poder Público não se despoja da titularidade do serviço, mas apenas transfere a execução ao particular para que este a desenvolva segundo as regras estabelecidas 36 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 342-349. marcos bittencourt6vol.indb 43 20/04/2015 21:20:31 44 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO previamente pelo poder concedente, inclusive quanto à política tarifária. O concessionário ou permissionário deve respeitar, todavia, o regime jurí- dico estabelecido pelo Estado, tendo em vista que está em jogo o interesse da coletividade. O aspecto positivo nessa forma de descentralização consiste na pres- tação do serviço público sem a necessidade de o Estado investir grandes quantias de capital público e, ainda assim, conservar a disponibilidade sobre o serviço. Ao particular caberá executar essa atividade, por sua conta e risco, sendo remunerado, em regra, pelas tarifas cobradas diretamente dos usuários. 3.3 Órgãos públicos 3.3.1 Conceito Sob o prisma subjetivo, a Administração Pública consiste nos órgãos públicos e pessoas jurídicas. No âmbito federal, o Decreto-Lei nº 200/67, no seu art. 4º, prevê que a Administração Pública federal compreende: I - A Administração Direta, que se constitui dos serviços integrados na estrutura administrativa da Presidência da República e dos Ministérios; II - A Administração Indireta, que compreende as seguintes categorias de entidades, dotadas de personalidade jurídica própria: a) Autarquias; b) Empresas Públicas; c) Sociedades de Economia Mista; d) Fundações Públicas. Em primeiro lugar, a Administração Direta é formada pelos órgãos que exercem atividade administrativano interior das pessoas políticas (União, Estados, Municípios e Distrito Federal). Em que consistem os órgãos? Segundo Celso Antônio Bandeira de Mello, os órgãos são “unidades abstratas que sintetizam os vários círculos de atribuições do Estado.37 Encontra-se um conceito de órgão previsto na Lei nº 9.784/99: “uni- dade de atuação integrante da estrutura da Administração direta e da 37 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de direito administrativo, 14. ed., p. 122. marcos bittencourt6vol.indb 44 20/04/2015 21:20:31 45CAPÍTULO 3ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA estrutura da Administração indireta” (art. 1º, §2º, I). Dessa forma, órgão constitui parte de uma pessoa, de uma entidade. Diferente das pessoas, entretanto, o órgão não possui perso- nalidade jurídica, ou seja, não pode contrair obrigações nem exercer direitos em nome próprio, uma vez que integra a organização de uma entidade, seja de natureza política (União, Estados, Municípios e Distrito Federal), seja de uma pessoa da Administração Pública Indireta (autarquias, fundações públicas, empresas públicas e socie- dades de economia mista). 3.3.2 Teorias sobre as relações do Estado com os agentes públicos O Estado, como toda pessoa jurídica, é um ente abstrato, uma ficção criada pela lei para permitir a realização de objetivos que, isoladamente, as pessoas físicas não alcançariam. Como ente abstrato, o Estado não possui vontade própria e, dessa forma, vale-se dos agentes públicos para exter- nar o seu querer. A questão que se apresenta consiste em como atribuir o agir e a manifestação do agente público ao ente estatal. Para resolver esse dilema, surgiram várias teorias para explicar as relações do Estado com os agentes públicos, das quais se destacam a teoria do mandato, a teoria da representação e a teoria do órgão. A teoria do mandato entende o agente público como manda- tário da pessoa jurídica, trazendo noções de Direito Privado para o âmbito do Direito Público. A principal crítica a essa teoria consiste em não explicar como o Estado, que não tem vontade própria, pode outorgar o mandato. A teoria da representação vê o agente público como o representante do Estado por força de lei, tal qual um tutor ou curador no Direito Privado representa um incapaz. Além de não ter cabimento comparar o Estado a um incapaz, podem ser levantados os mesmos argumentos referentes à teoria do mandato, ou seja, como poderia o Estado instituir seus próprios representantes. A teoria do órgão, criada por Otto Gierke, explica que a pessoa jurí- dica manifesta a sua vontade por meio dos seus órgãos. Assim, os agentes públicos instalados nos diversos órgãos expedem atos administrativos e estes são imputados ao próprio Estado. Afasta-se a noção de representação e mandato que pressupõe a existência de pelo menos duas pessoas. Está presente a ideia de imputação, o agir dos agentes públicos significa manifes- tação da própria pessoa jurídica. Como o órgão integra a pessoa jurídica, só há o Estado expressando sua vontade. Esta teoria é a mais aceita para explicar a manifestação de vontade por parte do Estado. marcos bittencourt6vol.indb 45 20/04/2015 21:20:31 46 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO 3.3.3 Classificação dos órgãos Quanto à posição estatal, Hely Lopes Meirelles38 classifica os órgãos em independentes, autônomos, superiores e subalternos. Independentes são aqueles que possuem suas atribuições dire- tamente previstas na Constituição Federal e representam os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. Caracterizam-se pela inexistência de subordinação hierárquica ou funcional. Como exemplos são citados as chefias do Executivo, as Casas Legislativas (Câmara dos Deputados, Senado, Assembleias Estaduais e Câmara de Vereadores) e os Tribunais. Autônomos são aqueles subordinados diretamente à chefia dos órgãos independentes e possuem autonomia administrativa, financeira e técnica, como os Ministérios, Secretarias de Estado e de Município. Superiores são órgãos que se caracterizam pelo exercício de funções de direção, controle e comando. Estão subordinados ao controle hierárquico de uma chefia e não possuem autonomia administrativa nem financeira, como os Departamentos e Coordenadorias. Subalternos estão subordinados hierarquicamente a órgãos supe- riores, desempenhando atividades de mera execução, como as seções de expediente e de pessoal. Quanto à estrutura, Celso Antônio Bandeira de Mello classifica os órgãos em simples e colegiais, “conforme suas decisões sejam formadas e manifestadas individualmente por seus agentes ou, então, coletiva- mente pelo conjunto de agentes que os integram (como, por exemplo, as Comissões, os Conselhos etc.), caso, este, em que suas deliberações são imputadas ao corpo deliberativo, e não a cada qual de seus componentes”.39 Quanto às funções, também ensina Celso Antônio Bandeira de Mello que os órgãos podem ser “(a) ativos, que são os que expressam decisões estatais para o cumprimento dos fins da pessoa jurídica; (b) de controle, que são os prepostos a fiscalizar e controlar a atividade de outros órgãos ou agentes, e (c) consultivos, que são os de aconselhamento e elucidação (pareceres) para que sejam tomadas as providências pertinentes pelos órgãos ativos”.40 3.4 Administração Indireta A Administração Pública Indireta decorre da descentralização por serviços que consiste na instituição pelo Estado, por meio de lei, de uma pessoa jurídica de direito público ou privado à qual se atribui a titularidade 38 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro, p. 70-72. 39 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de direito administrativo, 14. ed., p. 123. 40 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de direito administrativo, 14. ed., p. 123. marcos bittencourt6vol.indb 46 20/04/2015 21:20:31 47CAPÍTULO 3ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA e a execução de determinado serviço público. Autarquias, fundações públicas, empresas públicas e sociedades de economia mista integram a Administração Indireta (art. 4º do Decreto-Lei nº 200/67). Ensina Maria Sylvia Zanella Di Pietro que, na descentralização por serviços, existe a especialização dos fins ou atividades da entidade. Desse modo, “o reconhecimento da capacidade específica das autarquias deu origem ao princípio da especialização, que as impede de exercer atividades diversas daquelas para as quais foram instituídas”.41 3.4.1 Autarquia Segundo Maria Sylvia Zanella Di Pietro, a autarquia consiste em “pessoa jurídica de direito público, criada por lei, com capacidade de autoadministração, para o desempenho de serviço público descentraliza- do, mediante controle administrativo exercido nos limites da lei”.42 São pessoas administrativas, com capacidade de autoadministração, criadas por lei específica (art. 37, XIX, da CF), mas a sua organização decorre de regulamento ou estatuto expedido por decreto. Para Hely Lopes Meirelles, as autarquias correspondem a uma longa manus do Estado,43 pois desempe- nham em nome próprio, com especialização, atividades típicas do Poder Público. Como são criadas com personalidade jurídica de direito público, as autarquias estão submetidas integralmente ao regime jurídico admi- nistrativo aplicado à Administração Direta, ou seja, possuem as mesmas prerrogativas e restrições do Poder Central. Assim, os seus servidores serão admitidos mediante concurso pú- blico, ressalvados os cargos em comissão, para provimento, em regra, de cargos públicos (regime estatutário). Também existe a obrigatoriedade de licitação para contratações pelas autarquias, ressalvadas as hipóteses de dispensa e inexigibilidade (art. 37, XXI, da CF). Em contrapartida, essas pessoas administrativas usufruem das mes- mas prerrogativas que o Estado detém, como a imunidade de impostos sobre patrimônio, renda e serviços(art. 150, §2º, da CF); submetem-se a processo especial de execução (art. 100 da CF); prazo processual em quá- druplo para contestar e em dobro para recorrer (art. 188 do CPC); prescrição quinquenal de suas dívidas (Decreto-Lei nº 4.597/42) etc. 41 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 361. 42 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 361. 43 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro, p. 299. marcos bittencourt6vol.indb 47 20/04/2015 21:20:31 48 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO O patrimônio das autarquias é formado inicialmente pela transfe- rência de bens da entidade central que as criou. É considerado domínio público e, portanto, submetido ao regime jurídico próprio dos bens pú- blicos. Quanto ao controle dos seus atos, as autarquias são controladas pela Administração Direta, apenas para que não se afastem dos fins es- tabelecidos na sua lei de criação. Há um controle político também pelas chefias do Poder Executivo correspondente à nomeação e dispensa dos dirigentes das autarquias. Outrossim, também seus atos são controlados financeiramente pelo Tribunal de Contas (art. 71, II, da CF). Como exemplos de autarquias, podem ser citados o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). Encontram-se ainda as autarquias de regime especial que são instituí- das com certas características específicas, como competências reguladoras, que lhes conferem maior independência frente ao ente instituidor, para atender peculiaridades de suas atividades. São exemplos o Banco Central do Brasil e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). Inúmeras universidades federais, apesar de não executarem ativi- dade típica do Estado, mas atuarem na área social, foram criadas sob a forma de autarquias em regime especial de ensino, como a Universidade Federal do Paraná e a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Destaca-se nas Universidades a peculiaridade de existir um mandato a ser cumprido pelo seu dirigente máximo (reitor), impedindo a sua exoneração de ofício. Tal característica confere uma independência maior frente à Administração Direta, oriunda da autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial prevista no art. 207 da Constituição. 3.4.2 Fundações públicas As fundações públicas são pessoas administrativas cuja criação depende de autorização por lei específica, com capacidade de autoadministração, para desempenho de atividade atribuída ao Estado no âmbito social, sujeita a controle administrativo ou tutela exercida nos limites da lei. Encontram-se, na doutrina, divergências com relação à natureza jurídica dessas entidades. Alguns autores entendem que as fundações governamentais possuem natureza privada. Outra corrente prega que a natureza será pública ou privada, dependendo da lei que autoriza a sua instituição. Por último, encontram-se entendimentos que, após a Constituição Federal de 1988, as fundações instituídas pelo Estado sempre terão natureza pública. Enquanto patrimônio personalizado instituído pelo Poder Público, caracterizam-se as fundações públicas pelo desempenho de atividade marcos bittencourt6vol.indb 48 20/04/2015 21:20:31 49CAPÍTULO 3ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA atribuída ao Estado no âmbito social (saúde, educação, cultura, assisten- cialismo). São exemplos de fundações públicas a Fundação Nacional de Saúde, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e a Fundação Universidade de Brasília. Segundo o art. 37, XIX, da Constituição, somente por lei específica poderá ser autorizada a instituição de fundação. Esta adquirirá perso- nalidade jurídica, com a inscrição da escritura pública de sua instituição no Registro Civil das Pessoas Jurídicas, não se lhes aplicando as demais disposições do Código Civil concernentes às fundações (art. 5º, §3º, do Decreto-Lei nº 200/67). 3.4.3 Sociedades de economia mista e empresas públicas Sociedades de economia mista e empresas públicas são pessoas jurídicas de direito privado cuja criação é autorizada por lei específica (art. 37, XIX, da CF), submetidas ao controle estatal, com vinculação aos fins definidos na lei instituidora, para exercer atividade econômica, seja para intervenção do Estado no domínio econômico (art. 173 da CF), seja para prestação de serviço público (art. 175 da CF). Quanto à natureza jurídica dessas entidades, o art. 5º do Decreto- Lei nº 200/67 é claro ao determinar que possuem personalidade jurídica de direito privado. Observe-se, todavia, que o regime aplicado a essas pessoas não é inteiramente afastado do regime de direito público, tendo em vista que pertencem à Administração Pública (art. 37, caput, da CF) e, deste modo, estão vinculadas ao atendimento de interesses da coleti- vidade. Maria Sylvia Zanella Di Pietro afirma que “embora elas tenham personalidade dessa natureza, o regime jurídico é híbrido, porque o direito privado é parcialmente derrogado pelo direito público”.44 Por exemplo, seus servidores são ocupantes de emprego público e regidos pela legislação trabalhista. Apesar disso, dependem de concurso público de provas ou de provas e títulos (art. 37, II, da CF) para sua contratação. A própria Constituição, no art. 173, §1º, prevê a possibilidade de essas pessoas jurídicas executarem atividade econômica de duas formas: como intervenção do Estado no domínio econômico ou como prestadoras de serviço público. Tais entidades apenas intervêm no domínio econômico em caráter excepcional e suplementar, quando necessário aos imperativos da segu- rança nacional ou a relevante interesse coletivo (art. 173 da CF). Quando causarem prejuízos a terceiros, as sociedades de econo- mia mista e empresas públicas que prestam serviço público respondem 44 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 378. marcos bittencourt6vol.indb 49 20/04/2015 21:20:31 50 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO objetivamente, ou seja, independentemente de dolo ou culpa.45 Apenas as pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos respondem objetivamente nos termos do artigo 37, §6º, da Constituição. Somente lei específica pode autorizar a instituição de empresa pública e sociedade de economia mista (art. 37, XIX, da CF). Tendo em vista que dependem de autorização legislativa para sua criação, também necessitam de lei para sua extinção. As sociedades de economia mista e as empresas públicas distin- guem-se entre si principalmente em três aspectos. Em primeiro lugar, pela forma de organização, pois sociedades de economia mista sempre são sociedades anônimas (sociedade por ações) por previsão do art. 5º do Decreto-Lei nº 200/67, enquanto as empresas públicas podem assumir qualquer das formas admitidas em direito. Em segundo lugar, a compo- sição do capital: na sociedade de economia mista, o capital será público e privado; na empresa pública, apenas formado por capital público. Em terceiro lugar, compete aos juízes federais processar e julgar as causas em que empresa pública federal for interessada na condição de autora, ré, assistente ou opoente, exceto as de falência, as de acidentes de trabalho e as sujeitas à Justiça Eleitoral e à Justiça do Trabalho, nos termos do art. 109 da Constituição Federal. Quanto às sociedades de economia mista federal, pelo silêncio da Constituição, suas causas, em regra, poderão ser decididas na esfera estadual. 3.5 Novas figuras Novas figuras surgiram na Administração Pública com o advento da reforma administrativa, principalmente mediante a Emenda Constitucional nº 19/98, como o contrato de gestão, as agências executivas e asagências reguladoras. 3.5.1 Contratos de gestão Com o objetivo de alcançar melhores resultados na Administração Pública, criaram-se novos instrumentos no âmbito do Direito Público, para conferir maior autonomia aos entes administrativos ou estabelecer parcerias com entidades privadas sem fins lucrativos. Dentre tais medidas, sobressai o contrato de gestão. Desde 1991, inúmeros decretos, como o Decreto nº 137/91 (Programa de Gestão das Empresas Estatais), tratavam do contrato de gestão na área 45 Ver o Capítulo 8, sobre responsabilidade extracontratual do Estado. marcos bittencourt6vol.indb 50 20/04/2015 21:20:31 51CAPÍTULO 3ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA federal. A intenção principal era liberar as pessoas administrativas da Administração Indireta de certos controles decorrentes do regime de direito público, caso atingissem determinadas metas previamente estipuladas. Conforme esclarece Maria Sylvia Zanella Di Pietro, quanto a esses contratos com entes da Administração Indireta, “tendo sido a matéria disciplinada apenas por meio de decreto, os poucos contratos de gestão celebrados na esfera federal acabaram sendo impugnados pelo Tribunal de Contas, já que as exigências de controle ou decorrem da própria Constituição ou de leis infraconstitucionais, não podendo ser derrogadas por meio de decreto ou de contrato”.46 Com a Emenda Constitucional nº 19/98, o contrato de gestão passou para a alçada constitucional com previsão no art. 37, §8º: “a autonomia gerencial, orçamentária e financeira da administração direta e indireta poderá ser ampliada mediante contrato, a ser firmado entre seus admi- nistradores e o poder público, que tenha por objeto a fixação de metas de desempenho para o órgão ou entidade, cabendo à lei dispor sobre: I - o prazo de duração do contrato; II - os controles e critérios de avaliação de desempenho, direitos, obrigações e responsabilidade dos dirigentes; III - a remuneração do pessoal”. Diante desse panorama, pode-se separar três situações distintas frente ao instituto contrato de gestão: a) contrato entre o Poder Público e entidades da Administração Indireta; b) “contrato” entre órgãos; c) contrato entre o Poder Público e “organizações sociais”. 3.5.1.1 Contrato de gestão entre o Poder Público e entidades da Administração Indireta Conforme prevê o art. 37, §8º, da Constituição, as entidades da Administração Indireta poderão celebrar contrato de gestão com o Estado. Neste contrato de gestão devem ser estabelecidas metas a serem cumpridas pelo ente administrativo e, em contrapartida, este receberá maior autono- mia no desempenho de suas funções. Em primeiro lugar, é questionado se realmente este ajuste teria a natureza jurídica de um contrato, uma vez que não existem interesses opostos nesta avença. Assim, como existe uma sintonia de interesses, a natureza jurídica teria, na verdade, a configuração de um convênio.47 46 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 282. 47 Para analisar o conceito de convênio administrativo, ver o Capítulo 7. marcos bittencourt6vol.indb 51 20/04/2015 21:20:31 52 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO Em segundo lugar, não é possível conferir maior autonomia às pes- soas administrativas mediante contrato, afastando o regime jurídico dos entes da Administração Indireta previsto em lei. A solução para tal dilema é dada por Celso Antônio Bandeira de Mello ao interpretar o dispositivo constitucional. Como o art. 37, §8º, “menciona que a lei disporá sobre o prazo de duração de tais contratos, controles, avaliação, responsabilidades e remuneração de pessoal, haver-se-á de entender que tal lei, de par com os sobreditos aspectos, mencionará quais os controles que podem ser suspen- sos no caso de serem travados os contratos. Como consequência, resultará ampliada a autonomia das entidades contratantes. É claro, então, que dita lei terá de ser explícita com relação ao que poderá ser afetado, isto é, em quê o regime nela disposto substituirá o regime diverso que vigoraria se não houvera o contrato”.48 Assim, apenas após a elaboração da lei mencionada no art. 37, §8º, da Constituição, poderiam ser celebrados validamente contratos de gestão entre o Estado e entidades da Administração Indireta. 3.5.1.2 “Contrato” entre órgãos Como visto no estudo sobre órgãos, estes, como centros de compe- tências, não possuem personalidade jurídica e, logo, não têm vontade pró- pria para exercer direitos e contrair obrigações. A capacidade de ser titular de direitos e obrigações pertence apenas às pessoas, físicas ou jurídicas. Assim, houve um equívoco dos criadores da Emenda Constitucional nº 19/98 quanto ao teor do art. 37, §8º, ao prever uma impossibilidade jurídica como são os “contratos” firmados entre órgãos. Nesse sentido, leciona Celso Antônio Bandeira de Mello que é “ju- ridicamente inexequível um contrato entre órgãos, pois estes são apenas repartições internas de competências do próprio Estado... Só pode contratar quem seja sujeito de direitos e obrigações, vale dizer: pessoa. Portanto, nem o Estado pode contratar com seus órgãos, nem eles entre si, que isto seria um contrato consigo mesmo — se se pudesse formular suposição tão desatinada”.49 3.5.1.3 Contrato entre o Poder Público e as “organizações sociais” Existe a possibilidade de celebração de um contrato de gestão do Poder Público com entidades privadas sem fins lucrativos que exercem atividade de interesse público. Contrato de gestão, neste caso, seria um 48 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de direito administrativo, 14. ed., p. 208. 49 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de direito administrativo, 14. ed., p. 209. marcos bittencourt6vol.indb 52 20/04/2015 21:20:31 53CAPÍTULO 3ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA ajuste entre o Estado e a entidade qualificada como organização social, com o intuito de formar uma parceria entre as partes para fomento e execução de atividades de ensino, pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, cultura, saúde e preservação do meio ambiente, conforme se apreende da Lei nº 9.637/98 (art. 1º e art. 5º). Nesta hipótese de contrato, também serão fixadas metas a serem al- cançadas pela organização social que receberá, em contrapartida, uma série de benefícios do Estado, como verbas orçamentárias e servidores públicos trabalhando em suas atividades, mas sendo pagos pelos cofres públicos. Observe-se que o contrato de gestão, “quando celebrado com entidades da Administração Indireta, tem por objetivo ampliar a sua au- tonomia; porém, quando celebrado com organizações sociais, restringe a sua autonomia, pois, embora entidades privadas, terão que sujeitar-se a exigências contidas no contrato de gestão”.50 3.5.2 Agências executivas Conforme Maria Sylvia Zanella Di Pietro, agência executiva é a “qualificação dada à autarquia ou fundação que celebre contrato de gestão com órgão da Administração Direta a que se acha vinculada, para melhoria da eficiência e redução de custos”.51 Objetiva melhorar a eficiência dessas entidades que operam no setor de atividades exclusivas do Estado, ou seja, competências onde predominam atividades que por sua natureza não podem ser delegadas a instituições não estatais (fiscalização, exercício do poder de polícia, regulação, fomento, segurança interna, tributação etc.). São requisitos para transformação em agência executiva (art. 51 da Lei nº 9.649/98 e art. 1º, §1º, do Decreto nº 2.487/98): a) ter um plano estratégico de reestruturação e de desenvolvimento institucional em andamento ou já concluído; b) ter celebrado contrato de gestão com o respectivo Ministério supervisor. Uma vez celebrado o contrato de gestão, ocorrerá a qualificação como agência executiva por decreto do Presidente da República. A primeira transformação de autarquia no âmbitofederal em agência executiva ocorreu com o Instituto Nacional da Metrologia, Normatização e Qualidade Industrial (INMETRO). 3.5.3 Agências reguladoras No sistema brasileiro, agências reguladoras correspondem a autar- quias em regime especial com função de, dependendo do estabelecido na 50 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 284. 51 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 393. marcos bittencourt6vol.indb 53 20/04/2015 21:20:31 54 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO sua lei instituidora, disciplinar e fiscalizar matérias sob sua competência; assumir os poderes que, na concessão, na permissão e na autorização, eram antes desempenhados pela própria Administração Pública Direta, na qualidade de poder concedente; compor conflitos de interesses; dentre outras inúmeras atribuições. Nesse sentido, Phillip Gil França, ressaltando a independência dessas entidades, define as agências reguladoras como “autarquias especiais dotadas de prerrogativas que objetivam, principal- mente, assegurar sua imparcialidade na regulação dos setores da econo- mia nacional que estão sob sua responsabilidade”.52 Atuam conforme as mesmas normas constitucionais a que estão submetidas as autarquias e mais o regime especial definido nas respectivas leis de criação. Para compreender em que consiste tal regime especial, ensina Marçal Justen Filho: “Ainda que a expressão ‘autarquia especial’ comporte inúmeros significados, um núcleo fundamental consiste na ausência de submissão da entidade, no exercício de suas competências, à interferência de outros entes administrativos”. Explica ainda o autor que “a produção dos atos de competência da autarquia não depende da aprovação prévia ou posterior da Administração direta, tal como não se verifica uma com- petência de revisão desses atos”.53 Apenas a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL) e a Agência Nacional do Petróleo (ANP) têm fundamento constitucional (arts. 21, XI e 177, §2º, III). Em regra, há maior autonomia em relação à Administração Direta, dentre outros motivos, decorrente da estabilidade de seus dirigentes, garantida para exercício de mandato fixo, bem como do caráter final de suas decisões, que não são passíveis de apreciação por outros órgãos ou entidades da Administração. As atribuições das agências reguladoras quanto às concessões e per- missões de serviço público resumem-se às funções que o poder concedente exerce nesses tipos de contratos ou atos de delegação: regulamentar os serviços, realizar o procedimento licitatório para escolha do concessionário, celebrar o contrato de concessão ou permissão ou praticar ato unilateral de outorga da autorização, definir o valor da tarifa e de sua revisão ou reajuste, controlar a execução dos serviços, aplicar sanções, encampar, decretar a caducidade, fazer a rescisão amigável, fazer a reversão dos bens ao término da concessão, exercer o papel de ouvidor de denúncias e reclamações dos usuários, enfim, exercer, em regra, as prerrogativas que a lei outorga ao Poder Público na concessão e permissão. 52 FRANÇA, Phillip Gil. A regulação da prestação de serviço público de telefonia e a proteção do cidadão. In: COSTADELLO, Angela Cassia (Coord.). Serviço público: direitos fundamentais, formas organizacionais e cidadania. Curitiba: Juruá, 2005. p. 157. 53 JUSTEN FILHO, Marçal. O direito das agências reguladoras independentes. São Paulo: Dialética, 2002. p. 391. marcos bittencourt6vol.indb 54 20/04/2015 21:20:31 55CAPÍTULO 3ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA Alguns autores54 entendem que, antes do surgimento de entida- des autárquicas com a denominação de agências reguladoras no Direito brasileiro, já existiam autarquias com funções normativas, como o Banco Central, não significando isto, portanto, novidade na sua criação no Brasil. 3.5.4 Consórcios públicos Tradicionalmente, a doutrina define consórcio, no âmbito público, como uma relação jurídica firmada entre entidades estatais da mesma natureza, como, por exemplo, dois ou mais municípios, visando alcançar um objetivo comum de forma associada. A Lei nº 11.107/05, entretanto, ao disciplinar os contratos de consór- cios públicos, tratou de maneira diversa a presente matéria, trazendo uma nova construção jurídica sobre o tema. Essa lei dispõe sobre normas gerais para a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios contratarem consórcios públicos para a realização de objetivos de interesse comum. Inicialmente, o art. 1º, §2º, desse instrumento normativo, aceita a participação de entidades de natureza distinta no consórcio, contrariando o entendimento tradicional. Determina ainda, em seu art. 5º, a celebração de um contrato de consórcio público, entre as entidades envolvidas, bem como obriga a constituição de uma pessoa jurídica específica para representar o consórcio, que poderá ser pessoa jurídica de direito público (chamada de “associação pública”) ou de direito privado (art. 6º). No caso de constituída uma associação pública, esta será considerada integrante da Administração indireta de todos os entes da Federação consorciados (art. 6º, §1º). O art. 241 da Constituição Federal, fundamento de validade da pre- sente legislação, prevê que as leis disciplinadoras dos consórcios públicos e dos convênios de cooperação autorizem a gestão associada de serviços públicos, bem como a transferência total ou parcial de encargos, serviços, pessoal e bens essenciais à continuidade dos serviços transferidos. 3.6 Entidades paraestatais Em que consistem as “entidades paraestatais”? Não há uniformidade na doutrina quanto ao uso dessa expressão. O entendimento mais adequa- do pertence a Celso Antônio Bandeira de Mello e a Maria Sylvia Zanella Di Pietro55 que qualificam como paraestatais as entidades do terceiro setor,56 54 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de direito administrativo, 14. ed., p. 150; DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 395. 55 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 405. 56 O primeiro setor corresponde ao Estado, enquanto o segundo setor se refere à iniciativa privada. marcos bittencourt6vol.indb 55 20/04/2015 21:20:31 56 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO ou seja, pessoas jurídicas de direito privado que colaboram com o Estado ao executar atividade de interesse público sem fins lucrativos e recebem, em contrapartida, incentivos por parte do Poder Público. Uma vez que estão ao lado do Estado, não integram a Administração Pública. Distinguem-se como entidades paraestatais, no sentido apresentado, os serviços sociais autônomos, as fundações de apoio, as organizações sociais e as organizações sociedade civil de interesse público. 3.6.1 Serviços sociais autônomos Segundo Hely Lopes Meirelles, serviços sociais autônomos “são todos aqueles instituídos por lei, com personalidade de Direito Privado, para ministrar assistência ou ensino a certas categorias sociais ou grupos profissionais, sem fins lucrativos, sendo mantidos por dotações orçamentárias ou por contribuições parafiscais. São entes paraestatais, de cooperação com o poder público, com administração e patrimônio próprios, revestindo a forma de instituições parti- culares convencionais (fundações, sociedades civis ou associações) ou peculiares ao desempenho de suas incumbências estatutárias”. Como exemplos dessas entidades podem ser citados SENAI, SENAC, SESC, SESI e outros. 3.6.2 Fundações de apoio As fundações ou entidades de apoio são pessoas jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, instituídas por servidores públicos. São funda- ções, associações ou cooperativas, para a prestação de serviços sociais não exclusivos do Estado. Mediante convênio, são vinculadas com entidades da Administração Direta ou Indiretacomo universidades e hospitais públicos. 3.6.3 Organizações sociais A organização social configura uma qualificação conferida a pessoas jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, que desempenham serviços sociais não exclusivos do Estado (ensino, pesquisa científica, desenvolvi- mento tecnológico, proteção e preservação do meio ambiente, cultura e saúde). Paulo Modesto ensina que “ser organização social não significa apresentar uma estrutura jurídica inovadora, mas possuir um título jurídico especial, conferido pelo Poder Público em vista do atendimento de requisitos gerais de constituição e funcionamento previstos expressamente em lei”.57 57 MODESTO, Paulo. Reforma do marco legal do Terceiro Setor no Brasil. Revista Eletrônica sobre a Reforma do Estado – RERE, Salvador, n. 5, mar./maio 2006. Disponível em: <http://www.direi- todoestado.com.br>. Acesso em: 21 fev. 2014. marcos bittencourt6vol.indb 56 20/04/2015 21:20:31 57CAPÍTULO 3ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA Essas entidades são fiscalizadas pelo Poder Público, uma vez que se vinculam a este mediante contrato de gestão. Nesse contrato, as respon- sabilidades e obrigações, tanto do Poder Público como da organização social, são estabelecidas. Questões como metas a serem atingidas pela organização social, os prazos de execução e critérios objetivos de avalia- ção de desempenho são definidos nesse instrumento. Em contrapartida, receberão incentivos do Estado como a percepção de verbas orçamentárias, cessão especial de servidores públicos com ônus para origem, dispensa de licitação nos contratos de prestação de serviços firmados entre o Estado e a organização social e uso de bens públicos sem licitação. As organizações sociais estão disciplinadas na esfera federal pela Lei nº 9.637/98. 3.6.4 Organizações da sociedade civil de interesse público Organização da sociedade civil de interesse público corresponde à qualificação deferida a pessoas jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, criadas por particulares para desempenhar serviços sociais não exclusivos do Estado (assistência social, promoção da cultura, promoção gratuita da educação etc.), sendo fomentadas e fiscalizadas por este. Um instrumento denominado Termo de Parceria irá vincular estas entidades privadas com o Poder Público, estabelecendo metas que devem ser cum- pridas pela organização, em troca de incentivo estatal. Tal qualificação encontra-se regulada pela Lei nº 9.790/99. Maria Sylvia Zanella Di Pietro ensina que, apesar de existirem muitos pontos em comum entre organizações sociais e organizações da sociedade civil de interesse público, o objetivo dos idealizadores destes entes é distinto. Enquanto “nas organizações sociais, o intuito evidente é o de que elas assumam determinadas atividades hoje, desempenhadas, como serviços públicos, por entidades da Administração Pública, resul- tando na extinção destas últimas”, nas organizações da sociedade civil de interesse público, “trata-se, no caso, de real atividade de fomento, ou seja, de incentivo à iniciativa privada de interesse público”.58 58 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 415. marcos bittencourt6vol.indb 57 20/04/2015 21:20:31 JulianoHeinen_ComentariosaLeideAcesso_1ed_jan14_MIOLO_GRAFICA.indd 2 24/01/2014 10:57:38 marcelop Texto digitado marcelop Texto digitado PÁGINA EM BRANCO marcelop Texto digitado CAPÍTULO 4 AGENTES PÚBLICOS 4.1 Conceito e classificação dos agentes públicos Conceitua-se agente público como toda pessoa física que exerce uma função pública, de forma permanente ou temporária, com ou sem remuneração. Quanto à classificação dos agentes públicos, não há uniformidade na doutrina. De forma didática, pode-se classificar os agentes públicos em agentes políticos, servidores públicos e particulares no exercício de função pública. Os agentes políticos pertencem à cúpula dos Poderes. Desempenham com independência suas funções, investidos de prerrogativas e respon- sabilidades previstas na Constituição e em leis especiais. Como exemplos de agentes políticos citam-se os Chefes do Poder Executivo (Presidente da República, Governadores e Prefeitos) e seus auxiliares imediatos (Ministros de Estado e Secretários estaduais e municipais), membros dos Poderes Legislativos (Senadores, Deputados e Vereadores), do Poder Judiciário (Juízes), do Ministério Público, representantes diplomáticos e demais autoridades que atuam com independência funcional. Os servidores públicos são as pessoas físicas que compõem os quadros da Administração Pública, mediante relação profissional, recebendo remuneração direta do Estado. Abrangem: a) servidores ocupantes de cargo público, submetidos a um regime estatutário; b) servidores ocupantes de emprego público, contratados, principalmente, sob regime trabalhista; c) servidores temporários, contratados por tempo determinado para atender a necessidade temporária de excepcional interesse público (art. 37, IX, da CF), sem estarem vinculados a cargo ou emprego público; marcos bittencourt6vol.indb 59 20/04/2015 21:20:32 60 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO d) servidores militares, subordinados a disciplina própria, diversa do regime estatutário e trabalhista. Os servidores das empresas públicas e sociedades de economia mista são empregados públicos regidos principalmente pela legislação trabalhista. Existem ainda particulares no exercício de função pública, episodicamen- te ou não. Não há, nesta hipótese, relação profissional direta com o Poder Público. Nesta categoria, o exercício da função pública pode decorrer de: a) delegação do Poder Público, no caso daqueles que executam serviços notariais e de registro (art. 236 da CF), os leiloeiros, tradutores e intérpretes públicos. Apesar de serem atividades fiscalizadas pelo Estado, caracterizam-se pelo exercício de função pública, em seu próprio nome, sem vínculo em- pregatício direto com o Poder Público. A remuneração auferida decorre do serviço prestado a usuários do serviço; b) designação de cidadãos para o exercício de funções públicas episódicas, sem remuneração, como jurados para o Tribunal do Júri e convocados para prestação do serviço eleitoral. Hely Lopes Meirelles os denomina de agen- tes honoríficos, uma vez que são convocados “em razão de sua condição cívica, de sua honorabilidade ou de sua notória capacidade profissional, mas sem qualquer vínculo empregatício ou estatutário e, normalmente, sem remuneração”;59 c) vontade própria do particular ao desempenhar função pública em situações de emergência como epidemia, incêndio e enchente. São os de- nominados “gestores de negócios públicos” por Celso Antônio Bandeira de Mello.60 Uma vez realizada a classificação dos agentes públicos, é impor- tante analisar a sua principal categoria, os servidores públicos, e o seu atual regime. 4.2 Servidor público 4.2.1 Conceito A expressão “servidor público” é uma denominação ampla que abrange todo aquele que se vincula profissionalmente com a Administração Pública, seja por meio de cargo ou emprego público. Excepcionalmente, servidores podem ser contratados para atender a necessidade temporária, mas não estarão ocupando cargo ou emprego público (art. 37, IX, da CF). 59 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro, p. 78-79. 60 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de direito administrativo, 14. ed., p. 225. marcos bittencourt6vol.indb 60 20/04/2015 21:20:32 61CAPÍTULO 4AGENTES PÚBLICOS 4.2.2 Cargo, emprego e função Tanto cargo como emprego público consubstanciam um conjunto de atribuições e responsabilidades previstas em lei que são cometidas a um servidor público, distinguindo-se pelo tipo de vínculo que liga o servidor ao Estado. Já o conceito de função corresponde ao conjuntode atribuições às quais não corresponde nem cargo nem emprego. Na Constituição Federal, encontram-se claramente duas funções: (a) funções de confiança (art. 37, V); (b) função exercida por servidores contratados temporariamente (art. 37, IX – “a lei estabelecerá os casos de contratação por tempo determinado para atender a necessidade temporária de excepcional interesse público”). Nesta segunda hipótese, vige, na área federal, a Lei nº 8.745/93. Em sua redação original, o art. 39 da CF determinava a obrigatorie- dade de um mesmo regime para os servidores dentro de cada esfera de governo, nos seguintes termos: “A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios instituirão, no âmbito de sua competência, regime jurídico único e planos de carreira para os servidores da administração pública direta, das autarquias e das fundações públicas”. Com o advento da Emenda Constitucional nº 19/98, excluiu-se a exigência de regime jurídico único, contida no caput do art. 39. Assim, cada esfera de governo teria liberdade para adotar regimes jurídicos diferentes, concomitantemente, ou seja, estatutário e celetista para seus servidores. Contudo, em agosto de 2007, o Supremo Tribunal Federal concedeu liminar na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 2.135,61 a fim de sus- pender, até julgamento final da ação, a vigência da nova redação do art. 39, caput, da Constituição Federal, efetuada pela Emenda Constitucional nº 19/98, mantendo-se a redação original do dispositivo, em virtude de inconstitucionalidade formal na sua tramitação. Dessa forma, restaurou-se a obrigatoriedade de um regime jurídico único em cada esfera pública. Na esfera federal, em virtude dessa decisão do STF, apenas a Lei nº 8.112/90 poderá ser aplicada, estabelecendo o regime estatutário como regime jurídico único para os servidores da União, autarquias e fundações públicas. A natureza do vínculo jurídico entre ocupantes de cargo e o Estado é, como visto, estatutária. No vínculo estatutário ou institucional, o Estado, ressalvadas determinadas garantias constitucionais deferidas, poderá mo- dificar por lei o regime jurídico de seus servidores, não existindo a garantia de manutenção das condições originais da época da nomeação. Assim, vantagens inicialmente previstas podem ser posteriormente retiradas. Esses direitos não se agregam definitivamente ao patrimônio jurídico dos 61 STF. ADI nº 2.135-MC/DF, Pleno. Rel. Min. Néri da Silveira. Rel. p/ acórdão Min. Ellen Gracie. Julg. 02.08.2007. DJe, 07 mar. 2008. marcos bittencourt6vol.indb 61 20/04/2015 21:20:32 62 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO servidores estatutários. Em compensação, o ordenamento jurídico defere aos servidores ocupantes de cargo público proteções e garantias especiais, com a intenção de assegurar condições para uma atuação impessoal e livre de interferências. Importante ressaltar que essas prerrogativas que se concedem aos servidores estatutários não são privilégios pessoais, mas garantias necessá- rias ao adequado exercício de suas funções estatais, para evitar influências indevidas e desvio de finalidade na atividade do servidor. A natureza da relação jurídica entre ocupantes de emprego e o Estado é contratual, regida, principalmente, pela legislação trabalhista (CLT), respeitadas as disposições constitucionais aplicáveis tanto a ser- vidores estatutários como aos empregados públicos, como é o caso do concurso público (art. 37, II). Nas relações contratuais, o regime jurídico (direitos e responsabilidades) estabelecido na celebração do contrato não é passível de alteração unilateral e constitui direito adquirido do empregado público. Os cargos públicos são encontrados nas pessoas jurídicas de direito público, enquanto os empregos públicos se apresentam nas pessoas de di- reito privado e, excepcionalmente, nas pessoas jurídicas de direito público. Conforme o art. 37, I, da Constituição Federal, modificado pela Emenda Constitucional nº 19/98, os cargos, empregos e funções públicas são acessíveis aos brasileiros, natos ou naturalizados, bem como aos es- trangeiros, na forma da lei. Saliente-se que a lei não poderá estabelecer distinção entre brasileiros natos e naturalizados, salvo nos casos previstos na própria Constituição (art. 12, §2º, da CF). O art. 12, §3º, da Constituição distingue entre brasileiros natos e naturalizados ao prever que são privativos de brasileiro nato os cargos de Presidente da República, Vice-presidente da República, Presidente da Câmara dos Deputados, Presidente do Senado Federal, Ministro do Supremo Tribunal Federal, carreira diplomática, Oficial das Forças Armadas e Ministro de Estado da Defesa. Na regra do art. 37, I, en- tretanto, a menção a brasileiros refere-se indistintamente a natos ou naturalizados. Torna-se possível, portanto, a partir da EC nº 19/98, o acesso de estrangeiros a cargos, empregos e funções públicas, desde que haja lei estabelecendo em que condições tal situação se dará, uma vez que a norma constitucional em questão possui eficácia limitada. Já é admitido, entretanto, que professores, técnicos e cientistas estrangeiros, possam ocupar cargos públicos em universidades públicas e centros de pesquisa federais, conforme expressa previsão do art. 5º, §3º, da Lei nº 8.112/90, em decorrência da Emenda Constitucional nº 11, de 30 de abril de 1996. marcos bittencourt6vol.indb 62 20/04/2015 21:20:32 63CAPÍTULO 4AGENTES PÚBLICOS 4.2.3 Investidura Define-se investidura ou provimento como o ato pelo qual o agente público se vincula ao Estado. Normalmente, a investidura pode ser ad- ministrativa ou política; originária ou derivada; vitalícia, efetiva ou em comissão. A investidura administrativa é aquela em que o agente se vincula a cargo, emprego, função ou mandato administrativo, por meio de nomeação ou contratação. A investidura política ocorre por eleição direta ou indireta, por meio de sufrágio universal ou restrito para cumprir mandatos como membros do Poder Legislativo e nas Chefias do Poder Executivo. Também pode ser encontrada nos cargos em comissão dos auxiliares diretos dos Chefes do Poder Executivo como os Ministros e Secretários de Estado ou para certos cargos do Poder Judiciário (Ministros dos Tribunais Superiores) e do Ministério Público (Procurador-Geral da República). A investidura originária é a que vincula pela primeira vez o agente ao cargo, emprego ou função, seja por nomeação seja por contratação, como a nomeação para cargo, após aprovação em concurso público. Já a investidura derivada funda-se em vínculo já existente entre o ser- vidor e a Administração como, por exemplo, a reintegração ou a promoção. Sobre a promoção, a Constituição Federal prevê no art. 39, §2º, que “A União, os Estados e o Distrito Federal manterão escolas de governo para a formação e o aperfeiçoamento dos servidores públicos, constituindo-se a participação nos cursos um dos requisitos para a promoção na carreira, facultada, para isso, a celebração de convênios ou contrato entre os entes federados”. A investidura vitalícia é aquela em que o seu ocupante só pode per- der o cargo por sentença judicial transitada em julgado como os cargos de membros da Magistratura (art. 95, I, da CF), do Ministério Público (art. 128, §5º, I, “a”, da CF) e dos Tribunais de Contas (art. 73, §3º, da CF). Considera-se investidura efetiva a que depende de concurso para que o servidor passe a pertencer em definitivo aos quadros da Administração Pública, para o desempenho profissional de atividades técnicas e admi- nistrativas do Estado. Apenas o servidor ocupante de cargo de provimento efetivo, após três anos de efetivo exercício e ser aprovado na avaliação do seu estágio probatório, adquire o direito à estabilidade (art. 41, caput e §4º, da CF). A investidura em comissão é aquelaque possui caráter precário, em que o agente pode ser livremente nomeado ou exonerado. Diferente do cargo de provimento efetivo, o servidor não necessita ser aprovado em concurso público de provas ou provas e títulos para ocupar cargo em comissão. marcos bittencourt6vol.indb 63 20/04/2015 21:20:32 64 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO Os cargos em comissão e as funções de confiança destinam-se apenas às atribuições de direção, chefia e assessoramento. As funções de confiança são exercidas exclusivamente por servidores ocupantes de cargo efetivo. Já com relação aos cargos em comissão, estes podem ser preenchidos por servidores de carreira ou por pessoas sem nenhum vínculo anterior com o Poder Público. O art. 37, V, da Constituição prevê a futura publicação de lei que estabelecerá em que casos, condições e percentuais mínimos os cargos em comissão serão preenchidos necessariamente por servidores de carreira. 4.2.3.1 Requisitos para investidura em cargo público A Lei nº 8.112/90, que dispõe sobre o regime jurídico dos servidores públicos civis da União, autarquias e das fundações públicas federais, determina, em seu art. 5º, os requisitos básicos para investidura em cargo público: I - a nacionalidade brasileira; II - o gozo dos direitos políticos; III - a quitação com as obrigações militares e eleitorais; IV - o nível de escolaridade exigido para o exercício do cargo; V - a idade mínima de dezoito anos; VI - aptidão física e mental. Tal previsão não impede a possibilidade de exigência de outros requisitos estabelecidos em lei para cargos específicos. O art. 5º, §3º, dessa lei permite que as universidades e instituições de pesquisa científica e tecnológica federais titularizem seus cargos com professores, técnicos e cientistas estrangeiros, conforme previsão consti- tucional (art. 207, §§1º e 2º). Cabe assinalar a importância da regular investidura do servidor público. Para a prática de um ato administrativo, o agente que o expede necessita estar legitimamente investido no cargo para que possa exercer a competência prevista em lei. Em determinadas situações, entretanto, a investidura do agente se apresenta maculada por um defeito que afetará sua vinculação com o Estado e o exercício de suas atribuições. Maria Sylvia Zanella Di Pietro exemplifica tal situação: “falta de requisito legal para in- vestidura, como certificado de sanidade vencido; inexistência de formação universitária para função que a exige, idade inferior ao mínimo legal; o mesmo ocorre quando o servidor está suspenso do cargo, ou exerce funções depois de vencido o prazo de sua contratação, ou continua em exercício marcos bittencourt6vol.indb 64 20/04/2015 21:20:32 65CAPÍTULO 4AGENTES PÚBLICOS após a idade-limite para aposentadoria compulsória”.62 Essa ilegalidade afeta a competência do ato administrativo, mas não se confunde com o crime de usurpação de função previsto no art. 328 do Código Penal, em que o sujeito exerce uma atribuição de cargo, emprego ou função pública, sem ocorrer nenhuma forma de investidura. O exemplo clássico de exercício de função pública por agente de fato, descrito por Odília Ferreira da Luz Oliveira, aconteceu na antiga Roma: “Barbário Felipe, cuja condição de escravo fugitivo era ignorada, foi nomeado pretor e exerceu as funções até que se teve conhecimento de sua real condição”.63 Com relação aos atos praticados pelo agente de fato, grande parte da doutrina reputa-os válidos, tendo em vista sua aparência de legitimidade e visando tutelar a boa-fé dos administrados. No caso de Barbário Felipe, foram considerados válidos seus atos, uma vez que se imaginava estar o agente regularmente provido no cargo. Ressalte-se que a validade dos atos praticados por funcionário de fato depende de exame caso a caso e apenas é garantida em nome da segu- rança jurídica e da boa-fé da população. Se for possível constatar claramente a ausência total de competência do agente público, os atos praticados serão considerados nulos, como no caso do usurpador de função. 4.2.3.2 Formas de provimento A Lei nº 8.112/90, em seu art. 8º, estabelece como formas de provi- mento de cargos públicos: nomeação, promoção, readaptação, reversão, aproveitamento, reintegração e recondução. A Lei nº 9.527/97 aboliu as formas de provimento denominadas transferência e ascensão, tendo em vista serem modalidades inconstitucionais de provimento de cargos por não respeitarem a obrigatoriedade do concurso público (art. 37, II, da CF). A nomeação será feita: em caráter efetivo, quando se tratar de cargo isolado de provimento efetivo ou de carreira; em comissão, para cargos de confiança vagos. Apenas haverá posse nos casos de provimento de cargo por nomeação. A posse consiste na assinatura do respectivo termo, no qual deve- rão constar as atribuições, os deveres, as responsabilidades e os direitos inerentes ao cargo ocupado. Antes da posse, haverá prévia inspeção médica oficial para análise das condições físicas e mentais do nomeado. 62 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 221. 63 OLIVEIRA, Odília Ferreira da Luz. Manual de direito administrativo. Rio de Janeiro: Renovar, 1997. p. 64. marcos bittencourt6vol.indb 65 20/04/2015 21:20:32 66 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO Em regra, a posse ocorrerá no prazo de trinta dias contados da publicação do ato de provimento, pessoalmente ou mediante procuração específica. Caso a posse não ocorra no prazo de 30 dias contados da pu- blicação do ato de provimento, ficará sem efeito a nomeação. Para fins de controle, no ato da posse, o servidor apresentará de- claração de bens e valores que constituem seu patrimônio e declaração quanto ao exercício ou não de outro cargo, emprego ou função pública. O exercício corresponde ao efetivo desempenho das atribuições do cargo público ou da função de confiança. Em regra, é de quinze dias o prazo para o servidor empossado em cargo público entrar em exercício, contados da data da posse, no âmbito federal. O servidor será exonerado do cargo ou será tornado sem efeito o ato de sua designação para função de confiança, se não entrar em exercício nos prazos previstos em lei. O servidor nomeado para cargo de provimento efetivo fica su- jeito a estágio probatório, a partir do seu exercício. Como a Emenda Constitucional nº 19/98 alterou o art. 41 da Constituição, estabelecendo que são estáveis após três anos de efetivo exercício os servidores nomeados para cargo de provimento efetivo em virtude de concurso público, no âmbito federal, o estágio probatório passou a ser de trinta e seis meses, conforme entendimento do Superior Tribunal de Justiça ao analisar o MS nº 12.523.64 Durante o estágio, a aptidão e capacidade do servidor serão objeto de avaliação para o desempenho do cargo, observados os seguintes fatores: a) assiduidade; b) disciplina; c) capacidade de iniciativa; d) produtividade; e) responsabilidade. Quatro meses antes do término do período do estágio probatório, será submetida à homologação da autoridade competente a avaliação do desempenho do servidor, realizada por comissão constituída para essa finalidade, de acordo com o que dispuser a lei ou o regulamento da res- pectiva carreira ou cargo, sem prejuízo da continuidade de apuração dos fatores em questão. Se o servidor não for aprovado no estágio probatório, deverá ser exonerado ou, se estável, reconduzido ao cargo anteriormente ocupado. A readaptação é a investidura do servidor em cargo de atribuições e responsabilidades compatíveis com a limitação que tenha sofrido em sua 64 STJ. MS nº 12.523/DF, 3ª Seção. Rel. Min. Felix Fischer. Julg. 22.04.2009. DJe, 18 ago. 2009 marcos bittencourt6vol.indb 66 20/04/2015 21:20:32 67CAPÍTULO 4AGENTESPÚBLICOS capacidade física ou mental verificada em inspeção médica. Se julgado incapaz para o serviço público, o readaptando será aposentado. A readap- tação será efetivada em cargo de atribuições afins, respeitada a habilitação exigida, nível de escolaridade e equivalência de vencimentos e, na hipótese de inexistência de cargo vago, o servidor exercerá suas atribuições como excedente, até a ocorrência de vaga (art. 24 e parágrafos da Lei nº 8.112/90). A reversão consiste no retorno à atividade de servidor aposentado: (i) por invalidez, quando junta médica oficial declarar insubsistentes os motivos da aposentadoria; ou (ii) no interesse da Administração, desde que: (a) tenha solicitado a reversão; (b) a aposentadoria tenha sido voluntária; (c) estável quando na atividade; (d) a aposentadoria tenha ocorrido nos cinco anos anteriores à solicitação; (e) haja cargo vago (art. 25 da Lei nº 8.112/90). Por sua vez, a reintegração corresponde à reinvestidura do servidor estável no cargo anteriormente ocupado, ou no cargo resultante de sua transformação, quando invalidada a sua demissão por decisão administra- tiva ou judicial, com ressarcimento de todas as vantagens. Na hipótese de o cargo ter sido extinto, o servidor ficará em disponibilidade, observado o disposto nos arts. 30 e 31. Encontrando-se provido o cargo, o seu eventual ocupante será reconduzido ao cargo de origem, sem direito à indenização ou aproveitado em outro cargo, ou, ainda, posto em disponibilidade (art. 28 e parágrafos da Lei nº 8.112/90). A recondução significa o retorno do servidor estável ao cargo ante- riormente ocupado e decorrerá de: (i) inabilitação em estágio probatório relativo a outro cargo; (ii) reintegração do anterior ocupante (art. 29 da Lei nº 8.112/90). O aproveitamento corresponde ao retorno obrigatório à atividade do servidor em disponibilidade em cargo de atribuições e vencimentos compatíveis com o anteriormente ocupado (art. 30 da Lei nº 8.112/90). 4.2.4 Vacância A vacância do cargo público decorre de: (a) exoneração; (b) demissão; (c) promoção; (d) readaptação; (e) aposentadoria; (f) posse em outro cargo inacumulável; e (g) falecimento, conforme prevê o art. 33 da Lei nº 8.112/90. Desde já deve ser salientado que a exoneração consiste em uma for- ma de desligamento do servidor do cargo público, a pedido ou de ofício, sem o caráter de penalidade. A exoneração de ofício ocorre quando não satisfeitas as condições do estágio probatório; ou quando, tendo tomado posse, o servidor não entrar em exercício no prazo estabelecido. A exoneração de servidor ocupante de cargo em comissão e a dispensa de função de confiança ocorrem de acordo com a vontade da autoridade competente ou a pedido do próprio servidor. marcos bittencourt6vol.indb 67 20/04/2015 21:20:32 68 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO A demissão, ao contrário da exoneração, corresponde a uma forma de vacância em virtude do cometimento de uma infração administrativa grave pelo servidor ocupante de cargo efetivo. Tem a natureza jurídica de penalidade (art. 127 da Lei nº 8.112/90). 4.2.5 Concurso público A investidura em cargo ou emprego público de provimento efetivo depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista em lei (art. 37, II, da CF). A jurisprudência majoritária admite a legalidade de exigência de exame psicotécnico em concursos públicos (para membro da Polícia Federal, por exemplo), desde que não haja caráter sigiloso e seja passível de recurso, para que não ocorra a violação ao princípio do devido processo legal. Nos termos da Súmula nº 686 do STF, “só por lei se pode sujeitar a exame psicotécnico a habilitação de candidato a cargo público”. O prazo de validade do concurso público será de até dois anos, prorrogável uma vez, por igual período (art. 37, III, da CF). Assim, dentro deste prazo de validade poderá ocorrer a investidura do candidato no cargo ou emprego público. Durante o prazo previsto no edital de convocação, o candidato aprovado em concurso público de provas ou de provas e títulos será con- vocado com prioridade sobre novos concursados para assumir cargo ou emprego, na carreira (art. 37, IV, da CF). Grande parte da doutrina e jurisprudência entende que a aprova- ção em concurso público gera mera expectativa de direito à nomeação. Conforme prevê o art. 37, IV, citado acima, o candidato apenas poderia pleitear tal direito, no caso de desrespeito à ordem de classificação. O atual entendimento do Supremo Tribunal Federal, contudo, reconhece um dever do Estado em nomear candidatos aprovados dentro do prazo de validade do concurso desde que existam vagas e necessidade de pessoal.65 Assim, na hipótese do edital mencionar um determinado número de vagas, o candidato aprovado dentro dessa quantidade terá direito à nomeação. 65 “Recurso extraordinário. Administrativo. Concurso Público. 2. Acórdão que negou provimento à apelação, assentando a inexistência de direito subjetivo à nomeação de candidatos aprovados em concurso para provimento de cargo de Professor Assistente. 3. Criação de dois cargos de Professor Assistente no Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito, quando se encon- trava em pleno curso o tempo de eficácia do concurso público. Ocorrência de contratação de pro- fessores e renovação de contrato. 4. Precedente da Turma no RE 192.569-PI, em que se assegurou a nomeação de concursados, eis que existentes vagas e necessidade de pessoal. 5. Constituição, art. 37, IV. Prequestionamento verificado. 6. Recurso extraordinário conhecido e provido” (STF. RE nº 273.605/SP, 2ª Turma. Rel. Min. Néri da Silveira. Julg. 23.04.2002. DJ, 28 jun. 2002). marcos bittencourt6vol.indb 68 20/04/2015 21:20:32 69CAPÍTULO 4AGENTES PÚBLICOS A Constituição prevê que a lei deve reservar percentual dos cargos e empregos públicos para as pessoas portadoras de deficiência e definir os critérios de sua admissão (art. 37, VIII). No âmbito federal, até 20% das vagas oferecidas em concurso público podem ser reservadas a pessoas portadoras de deficiência (art. 5º, §2º, da Lei nº 8.112/90). Fabrício Motta alerta que “por se tratar de direito fundamental, em razão da inspiração ditada pelos princípios da igualdade e da dignidade da pessoa humana, a interpretação das questões atinentes à reserva de vagas para portadores de deficiência nos concursos públicos deve visar à eficácia máxima dos princípios citados, evadindo-se do formalismo e da errônea presunção de que a Administração está prestando algum favor ao portador ou que este será necessariamente ineficiente, prejudicando o bom andamento das relevantes atividades daquela”.66 4.2.6 Acumulação de cargos públicos A regra é a proibição de acumulação remunerada de cargos públi- cos. Apenas em certas hipóteses se permite a acumulação de cargos: a de dois cargos de professor, a de um cargo de professor com outro técnico ou científico e a de dois cargos ou empregos privativos de profissionais de saúde, com profissões regulamentadas. Essas exceções, entretanto, devem preencher ainda duas condições: deve existir compatibilidade de horários e ser respeitado o teto remuneratório dos servidores públicos que corres- ponde ao subsídio mensal dos ministros do Supremo Tribunal Federal (art. 37, XI, da CF). Esta é a redação do art. 37, XVI, da CF: Art. 37. [...] XVI - é vedada a acumulação remunerada de cargos públicos, exceto, quando houver compatibilidade de horários, observado em qualquer caso o disposto no inciso XI. a) a de dois cargos de professor; b) a de um cargo de professor com outro técnico ou científico; c) a de dois cargos ou empregos privativos de profissionais de saúde, com profissões regulamentadas; Desde aépoca do Brasil Colônia, há previsão da proibição de acu- mular cargos públicos, sempre com a intenção de alcançar maior eficiência 66 MOTTA, Fabrício. A reserva de vagas nos concursos públicos para os portadores de deficiên- cia: análise do art. 37, inc. VIII da Constituição Federal. In: MOTTA, Fabrício (Coord.). Concurso público e Constituição. Belo Horizonte: Fórum, 2005. p. 208-209. marcos bittencourt6vol.indb 69 20/04/2015 21:20:32 70 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO na prestação dos serviços públicos à comunidade, bem como afastar qualquer forma de privilégio na Administração Pública. Observe-se que a Constituição Federal de 1988 ampliou o princípio da inacumulabilidade ao estender, no art. 37, XVII, a proibição a empregos e funções e abran- ger, além da Administração Direta, as autarquias, fundações, empresas públicas, sociedades de economia mista, suas subsidiárias e sociedades controladas, direta ou indiretamente, pelo Poder Público. Como mencionado, existem hipóteses de acumulação permitidas pelo texto constitucional, condicionada à compatibilidade de horários e desde que seja respeitado o teto remuneratório previsto no art. 37, XI, da Constituição (subsídio mensal, em espécie, dos Ministros do Supremo Tribunal Federal). Saliente-se que exceções devem ser interpretadas res- tritivamente, conforme clássico preceito de hermenêutica. É interessante relembrar que essas exceções não constituem um privilégio injustificado para conceder prestígio a determinadas carreiras, mas são autorizadas em prol da própria coletividade. Seja permitindo que servidores preparados, que já demonstraram sua capacidade ao lograrem êxito em um concurso público, possam repassar seus conhecimentos téc- nicos e científicos no exercício da docência em benefício da sociedade, seja satisfazendo necessidades públicas de falta de pessoal na área de saúde, a importância dessas ressalvas para proteger o interesse comum da socieda- de se apresenta adequada ao se confrontar o atual ordenamento jurídico pátrio com a realidade do país. Apesar de a Constituição da República não definir o conteúdo da expressão “cargo técnico ou científico”, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça entende que preenche referido requisito aquele cargo para cujo exercício sejam exigidos conhecimentos técnicos es- pecíficos e habilitação legal, não necessariamente de nível superior. Nesse sentido: Recurso Ordinário em Mandado de Segurança. Constitucional. Acumulação de cargos públicos. Professor e técnico judiciário. Impossibilidade. 1. A Constituição Federal vedou expressamente a acumulação de cargos públicos, admitindo-a apenas quando houver compatibilidade de horários, nas hipóteses de dois cargos de professor; de um cargo de professor e outro técnico ou científico; e de dois cargos privativos de profissionais de saúde. 2. E, para fins de acumulação, resta assentado no constructo doutrinário- -jurisprudencial que cargo técnico é o que requer conhecimento específico na área de atuação do profissional. 3. Não é possível a acumulação dos cargos de professor e Técnico Judiciário, de nível médio, para o qual não se exige qualquer formação específica e cujas atribuições são de natureza eminentemente burocrática. marcos bittencourt6vol.indb 70 20/04/2015 21:20:32 71CAPÍTULO 4AGENTES PÚBLICOS 4. Precedentes. 5. Recurso improvido. (STJ. RMS nº 14.456/AM, 6ª Turma. Rel. Min. Hamilton Carvalhido. Julg. 25.11.2003. DJ, 02 fev. 2004) Dessa forma, se o cargo possuir como conteúdo apenas competên- cias meramente burocráticas, sem exigir nenhuma especialidade, não será possível acumulá-lo com um cargo de professor. Outras normas constitucionais sobre acumulação de cargo são: a) art. 38, III – possibilidade de servidor investido em mandato de verea- dor continuar no exercício de seu cargo, emprego ou função, desde que haja compatibilidade de horários, hipótese em que perceberá as vantagens correspondentes a sua condição de servidor e de vereador; b) art. 95, parágrafo único, I – veda aos juízes “exercer, ainda que em dis- ponibilidade, outro cargo ou função, salvo uma de magistério”; c) art. 128, §5º, II, “d” – veda também aos membros do Ministério Público “exercer, ainda que em disponibilidade, qualquer outra função pública, salvo uma de magistério”. 4.3 Direitos constitucionais dos servidores públicos 4.3.1 Direito de greve e de livre associação sindical O art. 37, VII, da Constituição garante o direito de greve ao servi- dor público, que será exercido nos termos e nos limites definidos em lei específica. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal entende que esse dispositivo constitucional não é autoaplicável e, dessa forma, necessita de regulamentação disciplinada em lei ordinária específica para seu amplo exercício.67 Segundo esse entendimento, portanto, o direito de greve do servidor público civil constituiria norma constitucional de eficácia limitada, conforme a clássica sistematização de José Afonso da Silva.68 Em virtude do julgamento dos mandados de injunção nº 670/ES, nº 708/DF e nº 712/PA,69 o Supremo Tribunal Federal passou a aceitar a possibilidade de disciplina provisória do direito de greve, ao decidir 67 STF. MI nº 20/DF, Pleno. Rel. Min. Celso de Mello. Julg. 19.05.1994. DJ, 22 nov. 1996. 68 Cf. SILVA, José Afonso da. Aplicabilidade das normas constitucionais. 3. ed. São Paulo: Malheiros, 1998. 69 STF: MI nº 670/ES, Pleno. Rel. Min. Maurício Corrêa. Rel. p/ acórdão Min. Gilmar Mendes. Julg. 25.10.2007. DJe, 31 out. 2008; MI nº 708/DF, Pleno. Rel. Min. Gilmar Mendes. Julg. 25.10.2007. DJe, 31 out. 2008; e MI nº 712/PA, Pleno. Rel. Min. Eros Grau. Julg. 25.10.2007. DJe, 31 out. 2008. marcos bittencourt6vol.indb 71 20/04/2015 21:20:32 72 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO pela aplicação da Lei nº 7.783/89, no que couber, aos servidores públicos, enquanto não for suprida a omissão legislativa. É garantido ainda ao servidor público civil o direito à livre associação sindical (art. 37, VI, da CF). 4.3.2 Remuneração A remuneração, em sentido amplo, corresponde à retribuição que o servidor público civil percebe pelo desempenho de suas funções. A Emenda Constitucional nº 19/98 acrescentou o §4º do art. 39, es- tabelecendo uma nova forma de remuneração para determinados agentes públicos chamada subsídio: “O membro de Poder, o detentor de mandato eletivo, os Ministros de Estado e os Secretários Estaduais e Municipais serão remunerados exclusivamente por subsídio fixado em parcela única, vedado o acréscimo de qualquer gratificação, adicional, abono, prêmio, verba de representação ou outra espécie remuneratória, obedecido, em qualquer caso, o disposto no art. 37, X e XI”. Assim, podem ser encontradas duas espécies de estipêndios per- cebidos pelo servidor público: os vencimentos (remuneração em sentido estrito) e os subsídios. Enquanto os vencimentos correspondem a uma parte fixa e uma variável, composta por outras vantagens pecuniárias de naturezas diversas, o subsídio constitui uma parcela única. A Constituição Federal determina que serão obrigatoriamente remu- nerados por subsídios: a) todos os agentes mencionados no art. 39, §4º: membro de Poder, de- tentor de mandato eletivo, Ministros de Estado e Secretários Estaduais e Municipais; b) membros do Ministério Público (art. 128, §5º, I, “c”); c) membros da Advocacia-Geral da União, Procuradores dos Estados e do Distrito Federal e os Defensores Públicos (art. 135); d) ministros do Tribunal de Contas da União (art. 73, §3º); e) servidores públicos policiais (art. 144, §9º). Facultativamente, será opção do legislador de cada esfera pública remunerar mediante subsídios os servidores públicos organizados em carreira (art. 39, §8º, da CF). Os vencimentosdos servidores públicos e o subsídio de que trata o art. 39, §4º, da Constituição somente poderão ser fixados ou alterados por lei espe cífica, observada a iniciativa privativa em cada caso, assegurada revisão geral anual, sempre na mesma data e sem distinção de índices (art. 37, X, da CF). marcos bittencourt6vol.indb 72 20/04/2015 21:20:32 73CAPÍTULO 4AGENTES PÚBLICOS O teto remuneratório dos servidores públicos corresponde ao subsí- dio mensal dos Ministros do Supremo Tribunal Federal, previsto no art. 37, XI, da CF: “a remuneração e o subsídio dos ocupantes de cargos, funções e empregos públicos da administração direta, autárquica e fundacional, dos membros de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, dos detentores de mandato eletivo e dos demais agentes políticos e os proventos, pensões ou outra espécie remuneratória, percebidos cumulativamente ou não, incluídas as vantagens pessoais ou de qualquer outra natureza, não poderão exceder o subsídio mensal, em espécie, dos Ministros do Supremo Tribunal Federal, aplicando-se como limite, nos Municípios, o subsídio do Prefeito, e nos Estados e no Distrito Federal, o subsídio mensal do Governador no âmbito do Poder Executivo, o subsídio dos Deputados Estaduais e Distritais no âmbito do Poder Legislativo e o subsídio dos Desembargadores do Tribunal de Justiça, limitado a noventa inteiros e vinte e cinco centésimos por cento do subsí- dio mensal, em espécie, dos Ministros do Supremo Tribunal Federal, no âmbito do Poder Judiciário, aplicável este limite aos membros do Ministério Público, aos Procuradores e aos Defensores Públicos”. Observe-se, entretanto, que o Supremo Tribunal Federal, por maio- ria, deferiu liminar na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 3.854,70 ajuizada pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), sobre os novos limites remuneratórios para a magistratura estadual, para excluir a submissão dos membros da magistratura estadual ao subteto de remunera- ção. A decisão não aboliu os limites de subsídio dos membros dos tribunais superiores e dos desembargadores federais e estaduais. Ocorre que antes da liminar o teto da remuneração dos juízes da União, correspondendo ao valor do subsídio do STF, era maior que o dos juízes estaduais. Tendo em vista que o Poder Judiciário nacional é uno, não se poderia admitir tratamento desigual entre os juízes federais e estaduais. Outro limite consiste na impossibilidade de os vencimentos dos cargos do Poder Legislativo e do Poder Judiciário serem superiores aos pagos pelo Poder Executivo (art. 37, XII, da CF). O art. 37, XIII, da Constituição determina que “é vedada a vincu- lação ou equiparação de quaisquer espécies remuneratórias para o efeito de remuneração de pessoal do serviço público”. Os acréscimos pecuniários percebidos por servidor público não serão computados nem acumulados para fins de concessão de acréscimos ulteriores. O art. 37, XV, prevê a irredutibilidade da remuneração dos servi- dores públicos, contudo estabelece algumas ressalvas: “o subsídio e os 70 STF. ADI nº 3.854/DF, Pleno. Rel. Min. Cezar Peluso. Julg. 28.02.2007. DJe, 29 jun. 2007. marcos bittencourt6vol.indb 73 20/04/2015 21:20:32 74 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO vencimentos dos ocupantes de cargos e empregos públicos são irredutíveis, ressalvado o disposto nos incisos XI e XIV deste artigo e nos arts. 39, §4º, 150, II, 153, III, e 153, §2º, I”. A Constituição Federal ainda prevê no art. 39, §1º, que “a fixação dos padrões de vencimento e dos demais componentes do sistema re- muneratório observará: I - a natureza, o grau de responsabilidade e a complexidade dos cargos componentes de cada carreira; II - os requisitos para a investidura; III - as peculiaridades dos cargos”. O art. 39, §5º, da Constituição determina que lei da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios poderá estabelecer a relação entre a maior e a menor remuneração dos servidores públicos, obedecendo-se, em qualquer caso, ao teto remuneratório (art. 37, XI, da CF). Em nome do princípio da publicidade, a Constituição Federal prevê que os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário publicarão anualmente os valores do subsídio e da remuneração dos cargos e empregos públicos. (art. 39, §6º, da CF). Ainda “lei da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios disciplinará a aplicação de recursos orçamentários pro- venientes da economia com despesas correntes em cada órgão, autarquia e fundação, para aplicação no desenvolvimento de programas de qualidade e produtividade, treinamento e desenvolvimento, modernização, reapa- relhamento e racionalização do serviço público, inclusive sob a forma de adicional ou prêmio de produtividade” (art. 39, §7º, da CF). 4.3.3 Estabilidade e disponibilidade O art. 41 da Constituição defere ao servidor público ocupante de cargo efetivo o direito à estabilidade com o objetivo de permitir o exercício de suas funções públicas com mais desembaraço: “são estáveis após três anos de efetivo exercício os servidores nomeados para cargo de provimento efetivo em virtude de concurso público”. Não basta, no entanto, o mero transcurso de tempo para que o servidor adquira o direito à estabilidade. Faz-se necessário ainda sua aprovação numa avaliação especial de desempe nho do estágio probatório para que se alcance o direito à permanência nos quadros da Administração Pública (art. 41, §4º, da CF). A estabilidade jurídica estabelecida no art. 41 tem como fundamento assegurar um serviço prestado de forma técnica e impessoal pelo Estado. Consoante ensina Cármen Lúcia Antunes Rocha,71 o instituto da estabili- dade conjuga o “profissionalismo que deve predominar no serviço público contemporâneo” com a impessoalidade, “que impede práticas nepotistas 71 ROCHA, Cármen Lúcia Antunes. Princípios constitucionais dos servidores públicos. São Paulo: Saraiva, 1999. p. 252. marcos bittencourt6vol.indb 74 20/04/2015 21:20:32 75CAPÍTULO 4AGENTES PÚBLICOS e personalistas na Administração Pública”. Assim, conclui a autora que “a estabilidade não pode ser considerada uma garantia do servidor, mas, antes, uma segurança para o cidadão. Ela confere estabilidade ao próprio serviço público e à Administração Pública, marcando uma qualidade que dá segurança à sociedade quanto à continuidade das atividades que lhe são essenciais”. Essa estabilidade, contudo, não é absoluta, uma vez que, perante determinadas situações, poderá o servidor público estável perder o cargo. A Reforma Administrativa realizada pela EC nº 19/98 alterou vários dis- positivos que versavam sobre o regime jurídico dos servidores em geral, modificando também o instituto da estabilidade. Foram previstas duas novas hipóteses constitucionais de desliga- mento do cargo para o servidor estável. Atualmente, o servidor poderá perder o cargo não apenas por sentença judicial transitada em julgado (art. 41, §1º, I) ou processo administrativo em que lhe seja assegurada ampla defesa (art. 41, §1º, II), mas também por procedimento de avaliação periódica de desempenho (art. 41, §1º, III), na forma de lei complementar, assegurada ampla defesa e para adequação de despesa com pessoal prevista na lei complementar que regulamenta o art. 169, caput, da Constituição (Lei Complementar nº 101/2000). Cabe salientar essa nova hipótese denominada processo de exoneração por excesso de despesa. O art. 19 da Lei Complementar nº 101/2000 (Lei de Responsabilidade Fiscal) fixa o limite de despesa com pessoal em percentual que incide sobre a receita corrente líquida aplicável a cada ente da Federação: para a União, 50%, para Estados e Municípios, 60%. O art. 169, §2º, da Constituição de- termina que serão imediatamente suspensos todos os repasses de verbas federais ouestaduais aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios que não observarem esses limites. Para respeitar os limites do art. 19 da Lei de Responsabilidade Fiscal, deverão ser adotadas as seguintes medidas: (a) redução em pelo menos 20% das despesas com cargos em comissão e funções de confiança; e (b) exoneração dos servidores não estáveis. Se ainda não for alcançado o patamar previsto, o novo §4º do art. 169 da Constituição Federal entende que a providência seja o desliga- mento de servidores estáveis, mediante ato normativo motivado de cada um dos Poderes em que se especifiquem a atividade funcional e o órgão ou unidade administrativa objeto da redução de pessoal. O servidor terá direito a uma indenização correspondente a um mês de remuneração por ano de serviço e, uma vez desligado, o cargo será extinto. A criação de outro cargo, emprego ou função com atribuições iguais ou semelhantes fica vedada num período de quatro anos. A Lei Federal nº 9.801/99 dispõe sobre normas gerais para perda de cargo público por excesso de despesa. marcos bittencourt6vol.indb 75 20/04/2015 21:20:32 76 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO A Constituição Federal estabelece que, uma vez “invalidada por sentença judicial a demissão do servidor estável, será ele reintegrado, e o eventual ocupante da vaga, se estável, reconduzido ao cargo de origem, sem direito a indenização, aproveitado em outro cargo ou posto em dis- ponibilidade com remuneração proporcional ao tempo de serviço” (art. 41, §2º, da CF). Disponibilidade remunerada corresponde a um direito decorrente da garantia à estabilidade do servidor. Caso seja “extinto o cargo ou de- clarada a sua desnecessidade, o servidor estável ficará em disponibilidade, com remuneração proporcional ao tempo de serviço, até seu adequado aproveitamento em outro cargo” (art. 41, §3º, da CF). 4.3.4 Outros direitos dos servidores ocupantes de cargo público O art. 39, §3º, da Constituição Federal ainda determina que se aplicam aos servidores ocupantes de cargo público as normas do art. 7º, IV (salário mínimo), VII (garantia de salário, nunca inferior ao mínimo, para os que percebem remuneração variável), VIII (décimo terceiro salário com base na remuneração integral ou no valor da aposentadoria), IX (re- muneração do trabalho noturno superior à do diurno), XII (salário-família pago em razão do dependente do trabalhador de baixa renda nos termos da lei), XIII (duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e quarenta e quatro semanais, facultada a compensação de horários e a redução da jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho), XV (repouso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos), XVI (remuneração do serviço extraordinário superior, no mínimo, em cinquenta por cento à do normal), XVII (gozo de férias anuais remune- radas com, pelo menos, um terço a mais do que o salário normal), XVIII (licença à gestante, sem prejuízo do emprego e do salário, com a duração de cento e vinte dias), XIX (licença paternidade, nos termos fixados em lei), XX (proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incen- tivos específicos, nos termos da lei), XXII (redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança) e XXX (proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil), podendo a lei estabelecer requisitos diferenciados de admissão quando a natureza do cargo o exigir. Segundo a Súmula Vinculante nº 16 do STF, “os artigos 7º, IV, e 39, §3º (redação da EC nº 19/98), da Constituição, referem-se ao total da remuneração percebida pelo servidor público”. marcos bittencourt6vol.indb 76 20/04/2015 21:20:32 77CAPÍTULO 4AGENTES PÚBLICOS 4.4 Aposentadoria A Emenda Constitucional nº 41/2003 alterou o instituto da apo- sentadoria para o servidor público. Ao servidor público titular de cargo efetivo é assegurado regime de previdência de caráter contributivo e soli dário, mediante contribuição do respectivo ente público, dos servidores ativos e inativos e dos pensionistas, observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e atuarial (art. 40). Os servidores públicos ocupan- tes exclusivamente de cargo em comissão, cargo temporário e emprego público regulam-se pelo regime geral de previdência social (art. 40, §13). A mesma situação ocorre com os servidores das entidades da Administração Indireta com personalidade jurídica de direito privado. 4.4.1 Modalidades de aposentadoria A aposentadoria dos servidores ocupantes de cargo efetivo poderá ser (art. 40, §1º, da CF): a) por invalidez permanente do servidor (proventos integrais ou proporcionais); b) voluntária (proventos integrais ou proporcionais); c) compulsória, por ter sido atingido o limite de 70 anos de idade (proventos proporcionais, salvo se a integralidade dos proventos já decorresse do pre- enchimento das condições que autorizariam aposentadoria voluntária com proventos integrais). Ainda em trâmite no Congresso Nacional, a Proposta de Emenda Constitucional nº 457/2005 tem como conteúdo alterar a redação da aposentadoria compulsória nos seguintes termos: Art. 40. ...§1º ... II – compulsoriamente, com proventos proporcionais ao tempo de contri- buição, aos 70 (setenta) anos de idade, ou aos 75 (setenta e cinco) anos de idade, na forma de lei complementar; (...) Art. 2º O Ato das Disposições Constitucionais Transitórias passa a vigorar acrescido do seguinte art. 99: “Art. 99. Até que entre em vigor a lei complementar de que trata o inciso II do §1º do art. 40 da Constituição Federal, os Ministros do Supremo Tribunal Federal, dos Tribunais Superiores e do Tribunal de Contas da União aposentar-se-ão, compulsoriamente, aos 75 (setenta e cinco) anos de idade, nas condições do art. 52 da Constituição Federal.” marcos bittencourt6vol.indb 77 20/04/2015 21:20:32 78 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO 4.4.2 Proventos Os proventos consistem na remuneração percebida pelos aposen- tados. Não poderão exceder, quando de sua concessão, a remuneração do respectivo servidor no cargo efetivo em que se deu a aposentadoria, valendo a mesma regra para as pensões (art. 40, §2º, da CF). Salvo quando ocorrida em cargos acumuláveis, é vedada a percepção de mais de uma aposentadoria com base no regime previdenciário previsto no art. 40 (art. 40, §6º, da CF). Quando ocorrida a hipótese de proventos acumuláveis, a soma deles será detida no valor-limite correspondente ao teto de retribuição dos servidores (art. 37, XI, da CF – subsídio dos Ministros do STF). Este mesmo limite se aplicará no caso de acúmulo de proventos com remuneração de cargo acumulável (art. 40, §11, da CF): “Aplica-se o limite fixado no art. 37, XI, à soma total dos proventos de inatividade, inclusive quando decorrentes da acumulação de cargos ou empregos públicos, bem como de outras atividades sujeitas a contribuição para o regime geral de previdência social, e ao montante resultante da adição de proventos de inatividade com remuneração de cargo acumulável na forma desta Constituição, cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração, e de cargo eletivo”. O art. 37, §10, da Constituição Federal ainda prevê que “é vedada a percepção simultânea de proventos de aposentadoria decorrentes do art. 40 ou dos arts. 42 e 142 com a remuneração de cargo, emprego ou função pública, ressalvados os cargos acumuláveis na forma desta Constituição, os cargos eletivos e os cargos em comissão declarados em lei de livre no- meação e exoneração”. São hipóteses de aposentadoria com proventos integrais: a) a resultante de invalidez permanente decorrente de acidente em serviço, moléstia profissional ou de doençagrave, contagiosa ou incurável, espe- cificadas em lei; b) quando se tratar de aposentadoria voluntária de servidor que, contan- do, no mínimo, dez anos de efetivo exercício no serviço público e cinco no cargo efetivo em que se dará a aposentadoria, haja completado 35 anos de contribuição e 60 anos de idade, se homem, ou 30 de contribuição e 55 anos, se mulher (art. 40, III, “a”, da CF). Nesse último caso, os limites de idade e o tempo de contribuição serão reduzidos em cinco anos para o professor que comprove exclusiva- mente tempo de efetivo exercício das funções de magistério na educação infantil e no ensino fundamental e médio (art. 40, §5º, da CF). São hipóteses de aposentadoria com proventos proporcionais ao tempo de contribuição: marcos bittencourt6vol.indb 78 20/04/2015 21:20:32 79CAPÍTULO 4AGENTES PÚBLICOS a) a resultante de invalidez permanente não decorrente de acidente em serviço, nem de moléstia profissional, doença grave ou incurável, especi- ficadas em lei; b) no caso de aposentadoria voluntária, aos 65 anos de idade, se homem, e 60, se mulher (art. 40, III, “b”), se não houverem preenchido os requisitos de 35 anos de contribuição, se homem, e 30, se mulher, assim como os cinco anos no cargo efetivo em que se dará a aposentadoria; c) no caso de aposentadoria compulsória, que ocorre aos 70 anos de idade. Segundo a nova redação dada ao art. 40, §4º da CF, pela Emenda Constitucional nº 47/2005, é vedada a adoção de requisitos e critérios dife- renciados para a concessão de aposentadoria aos servidores estatutários, ressalvados, nos termos definidos em leis complementares, os casos de servidores: “I - portadores de deficiência; II - que exerçam atividades de risco; III - cujas atividades sejam exercidas sob condições especiais que prejudiquem a saúde ou a integridade física”. 4.4.3 Contagem de tempo para aposentadoria O servidor tem direito de contar para fins de aposentadoria tanto o tempo de contribuição federal, estadual, ou municipal, bem como o tempo de serviço correspondente para fins de disponibilidade (art. 40, §9º, da CF). Para fins de aposentadoria, é ainda assegurada a contagem recíproca do tempo de contribuição na administração pública e na atividade privada, rural e urbana, hipótese em que os diversos regimes de previdência social se compensarão financeiramente, segundo critérios estabelecidos em lei (art. 201, §9º, da CF). A Lei nº 9.796/99 disciplina a compensação financeira entre o Regime Geral de Previdência Social e os regimes de previdência dos servidores da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios nos casos de contagem recíproca de contribuição para efeito de aposentadoria. A Constituição Federal proíbe que lei estabeleça qualquer forma de tempo de contribuição ficto (art. 40, §10). 4.4.4 Previdência complementar O art. 40, §14, da Constituição autoriza que a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, uma vez instituído o regime de previ- dência complementar para os respectivos servidores titulares de cargo efetivo, poderão fixar para o valor de aposentadorias e pensões, a serem concedidas segundo o regime até aqui descrito, o limite máximo previsto no regime geral da Previdência Social para os benefícios nela previstos. Isso só poderá ser aplicado ao servidor que houver ingressado no serviço marcos bittencourt6vol.indb 79 20/04/2015 21:20:32 80 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO público antes da instituição do correspondente regime de previdência complementar, mediante prévia e expressa opção dele (art. 40, §16, da CF). A Lei nº 12.618/2012 estabeleceu o regime de previdência comple- mentar para os servidores públicos federais titulares de cargo efetivo. 4.4.5 Pensão por morte A pensão consiste na quantia devida aos dependentes do servidor público falecido. Nesta hipótese de vacância do cargo público (falecimento), o bene- ficiário ou beneficiários do servidor têm direito a uma pensão, cujo valor corresponderá: I - ao valor da totalidade dos proventos do servidor falecido, até o limite máximo estabelecido para os benefícios do regime geral de previdência social de que trata o art. 201, acrescentado de setenta por cento da parcela excedente a este limite, caso aposentado à data do óbito; ou II - ao valor da totalidade da remuneração do servidor no cargo efetivo em que se deu o falecimento, até o limite máximo estabelecido para os benefícios do regime geral de previdência social de que trata o art. 201, acrescentado de setenta por cento da parcela excedente a este limite, caso em atividade na data do óbito (art. 40, §7º, da CF). 4.4.6 Revisão de benefícios É assegurado o reajustamento dos benefícios para preservar-lhes, em caráter permanente, o valor real, conforme critérios estabelecidos em lei (art. 40, §8º, da CF). Embora a Constituição se reporte expressamente à revisão de proventos de aposentadoria, vale também para os proventos da disponibilidade. 4.5 Responsabilidade do servidor No exercício de suas competências, o servidor público pode ser responsabilizado na esfera civil, administrativa e penal. A responsabilidade civil possui natureza patrimonial e decorre do entendimento que aquele que causa dano a outrem é obrigado a repará-lo, conforme art. 186 do Código Civil. Esta responsabilidade pode surgir de uma ação (ato comissivo) ou de uma omissão. Pode decorrer de um ato doloso, em que o agente teve a intenção de causar um prejuízo a outrem, ou de um ato culposo, em que o agente não queria o resultado danoso, mas agiu com negligência, imperícia ou imprudência. O dano que gera a marcos bittencourt6vol.indb 80 20/04/2015 21:20:33 81CAPÍTULO 4AGENTES PÚBLICOS responsabilidade civil do servidor pode ser causado ao Estado ou a tercei- ros. Neste segundo caso, o servidor responderá perante a Fazenda Pública, exercendo esta o seu direito de regresso, caso seja condenada, buscando reparação econômica para os cofres públicos. Há responsabilidade penal quando o servidor pratica crime ou con- travenção, na qualidade de agente público. A infração penal será apurada perante o Poder Judiciário. Há responsabilidade administrativa quando o servidor comete ilícitos administrativos definidos em lei, em regra, previstos nos estatutos dos servidores. Normalmente, a infração funcional será apurada pela própria Administração através de processo administrativo adequado, e o servidor estará sujeito a penas disciplinares previamente estabelecidas em lei. Saliente-se que o agente público poderá ser responsabilizado civil, penal e administrativamente por uma mesma conduta, uma vez que a natureza das sanções é distinta. Nesse sentido, o art. 125 da Lei nº 8.112/90 dispõe que as sanções civis, penais e administrativas poderão cumular-se, sendo independentes entre si. Desta forma, a regra é a independência das instâncias, ou seja, pode ocorrer uma condenação em uma das esferas e absolvição nas outras. Os estatutos dos servidores públicos, entretanto, preveem hipóteses de comunicabilidade de instâncias. Assim, o art. 126 da Lei nº 8.112/90, por exemplo, determina que a “responsabilidade administrativa do servidor será afastada no caso de absolvição criminal que negue a existência do fato ou sua autoria”. Nesse mesmo sentido, o art. 935 do novo Código Civil, ao prever que “a responsabilidade civil é independente da criminal, não se podendo questionar mais sobre a existência do fato, ou sobre quem seja o seu autor, quando estas questões se acharem decididas no juízo criminal”. Partindo desse raciocínio, se o agente público for absolvido por falta de provas no âmbito penal, prevalece a regra da independência das respon- sabilidades, isto é, poderá ser condenado na esfera civil e administrativa. 4.6 Processos administrativos de apuração de faltasdisciplinares Cabe tratar com mais profundidade a apuração das infrações administrativas cometidas por servidores públicos e as penalidades administrativas. Como analisado anteriormente ao tratar do poder disciplinar, este consiste no dever de apurar ilícitos administrativos e aplicar penalidades às pessoas que se vinculam, de alguma forma, à Administração Pública. A manifestação desse poder também é encontrada numa relação profissional, mediante a instauração de um processo administrativo para examinar se marcos bittencourt6vol.indb 81 20/04/2015 21:20:33 82 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO infrações funcionais foram cometidas por agentes no âmbito do Poder Público. Observe-se que o poder do Estado de punir seus agentes deve ser exercido quando necessário, mas deverá sempre ser apurado por meio de um processo administrativo. Além dos princípios constitucionais do art. 37, caput da Constituição,72 já examinados anteriormente e presentes em toda atividade administrativa, é necessário respeitar os princípios da ampla defesa e do contraditório, expressamente previstos na Constituição da República, no art. 5º, LV: “aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral, são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”. Conforme ensina Romeu Felipe Bacellar Filho, “O princípio da am- pla defesa, aplicado ao processo administrativo disciplinar, é compreendi- do de forma conjugada com o princípio do contraditório, desdobrando-se (i) no estabelecimento da oportunidade da defesa, que deve ser prévia a toda decisão capaz de influir no convencimento do julgador; (ii) na exigên- cia de defesa técnica; (iii) no direito à instrução probatória que, se de um lado impõe à Administração a obrigatoriedade de provar suas alegações, de outro, assegura ao servidor a possibilidade de produção probatória compatível; (iv) na previsão de recursos administrativos, garantindo o duplo grau de exame no processo”.73 Tais requisitos são obrigatórios para a concretização do princípio do devido processo legal previsto no art. 5º, LIV: “ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal”. Não foi apenas mera coincidência a previsão da necessidade de um devido processo administrativo legal com ampla defesa e contraditório no Título II da Constituição Federal, que trata dos direitos e garantias fun- damentais. Em primeiro lugar, o processo deve ser compreendido como uma garantia de todo aquele que está sendo acusado de uma determinada falta. Nesse sentido, o servidor, acusado de uma infração disciplinar, terá a oportunidade de apresentar a sua defesa e comprovar suas alegações no desenvolvimento de um processo administrativo. Este será o ambiente adequado e idôneo em que o acusado poderá defender-se. Segundo a Súmula Vinculante nº 5 do STF, “a falta de defesa téc- nica por advogado no processo administrativo disciplinar não ofende a Constituição”. Tendo em vista a necessidade de um regular processo adminis- trativo, em que serão assegurados os princípios da ampla defesa e do contraditório, o instituto denominado verdade sabida é inconstitucional. 72 Princípios da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da publicidade e da eficiência. 73 BACELLAR FILHO, Romeu Felipe. Princípios constitucionais do processo administrativo discipli nar. São Paulo: M. Limonad, 1998. p. 347. marcos bittencourt6vol.indb 82 20/04/2015 21:20:33 83CAPÍTULO 4AGENTES PÚBLICOS A verdade sabida, meio de apuração de faltas e aplicação de penalidades previsto em determinados estatutos dos servidores públicos, consiste na mera verificação direta e pessoal do cometimento de uma infração admi- nistrativa pela autoridade que detém competência para aplicar a sanção e a imediata imposição da respectiva pena. Não existindo ampla defesa e contraditório, qualquer penalidade estabelecida é considerada nula. Após regular processo administrativo, portanto, deve ser sancionado o servidor que, comprovadamente, cometeu ilícitos administrativos. Sanção administrativa, segundo Daniel Ferreira, consiste na “direta e imediata consequência jurídica, restritiva de direitos, de caráter repressivo, a ser imposta no exercício da função administrativa, em virtude de um com- portamento juridicamente proibido, comissivo ou omissivo”.74 Em virtude do princípio da legalidade e da tipicidade, compete à lei definir qual conduta configura ilícito administrativo e a sua correspon- dente sanção. Quanto ao princípio da legalidade, apenas em decorrência do exercício da função legislativa pode ser inovado o ordenamento jurídico, estabelecendo tanto a descrição do ilícito administrativo como a própria penalidade respectiva. Conforme Marçal Justen Filho assevera, “submeter a competência punitiva ao princípio da legalidade equivale a afirmar que somente o povo, como titular da soberania última, é quem se encarregará de qualificar certos atos como ilícitos e de escolher as sanções correspon- dentes e adequadas”.75 Em relação à importância do princípio da tipicidade, assinala Geraldo Ataliba que “o Estado não surpreende seus cidadãos: não adota decisões inopinadas que os aflijam. A previsibilidade da ação estatal é magno desígnio que ressuma de todo o contexto de preceitos orgânicos e funcionais postos no âmago do sistema constitucional”.76 Assim sendo, levando em consideração a semelhança dos sistemas, inúmeros prin- cípios do Direito Penal são aplicados em relação a punições no Direito Administrativo. O princípio da tipicidade, portanto, consiste na necessi- dade de que os comportamentos reprováveis estejam descritos por uma norma legal, atuando como uma garantia aos cidadãos para ciência das condutas admitidas ou não pelo ordenamento. A Lei nº 8.112/90 prevê no art. 127 as penalidades disciplinares que podem ser aplicadas aos servidores estatutários no âmbito federal: adver- tência; suspensão; demissão; cassação de aposentadoria ou disponibilidade; destituição de cargo em comissão e destituição de função comissionada. O art. 130, §2º, desta lei, ainda prevê a possibilidade da pena de suspensão 74 FERREIRA, Daniel. Sanções administrativas. São Paulo: Malheiros, 2001. p. 34. 75 JUSTEN FILHO, Marçal. Curso de direito administrativo. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 398. 76 ATALIBA, Geraldo. República e Constituição. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1985. p. 145-146. marcos bittencourt6vol.indb 83 20/04/2015 21:20:33 84 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO ser convertida em multa, na base de 50% por dia de vencimento ou re- muneração, ficando o servidor obrigado a permanecer em serviço. Cabe à autoridade competente decidir por essa conversão, quando houver conveniência para o serviço. Dentre os meios que a Administração Pública possui para esclare- cimentos de fatos internamente, a sindicância será analisada em primeiro lugar. 4.6.1 Sindicância Existem duas espécies de sindicância: como processo de investigação e como processo punitivo. Sindicância como instrumento de investigação é, segundo Hely Lopes Meirelles, “meio sumário de elucidação de irregularidades no serviço para subsequente instauração de processo e punição ao infrator”.77 Os mo- tivos que justificam a abertura de uma sindicância investigatória consistem na ocorrência de um fato de certa gravidade no interior da Administração Pública e na inexistência de elementos capazes de comprovar a existência da falta administrativa e/ou seu autor. Sindicância como processo punitivo representa meio sumário para apuração de faltas puníveis com penalidades leves. Esta segunda espécie foi adotada expressamente pela Lei nº 8.112/90. Consoante o art. 145 dessa lei, da sindicância pode resultar: (a) arquivamento do processo; (b) aplicaçãode penalidade de advertência ou suspensão de até 30 dias; (c) instauração de processo disciplinar. Desse modo, nesse processo de sindicância, em que deve existir ampla defesa e contraditório, o servidor poderá receber penas leves que, segundo a Lei nº 8.112/90, são as penas de advertência ou suspensão de até 30 dias. Caso a falta possa ensejar, em tese, penalidades graves como pena de suspensão por mais de 30 dias, demissão, cassação de aposentadoria ou disponibilidade, ou destituição de cargo em comissão, o meio adequado para processar tal infração será o processo administrativo disciplinar (art. 146 da Lei nº 8.112/90). 4.6.2 Processo administrativo disciplinar Para Hely Lopes Meirelles, processo administrativo disciplinar é “meio de apuração e punição de faltas graves dos servidores públicos e demais pessoas sujeitas ao regime funcional de determinados estabeleci- mentos da Administração”.78 77 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro, p. 570. 78 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro, p. 567. marcos bittencourt6vol.indb 84 20/04/2015 21:20:33 85CAPÍTULO 4AGENTES PÚBLICOS As fases do processo administrativo disciplinar de procedimento ordinário são, no âmbito federal: (a) instauração, com a publicação do ato que constituir a comissão; (b) inquérito administrativo, que compreende instrução, defesa e relatório; (c) julgamento (art. 151 da Lei nº 8.112/90). A instauração do processo administrativo disciplinar tem início com a publicação da portaria que constituiu a comissão processante, composta de três servidores estáveis designados pela autoridade competente (art. 149 da Lei nº 8.112/90). Observa-se, portanto, que, em virtude do princípio da oficialidade, compete à Administração, o impulso de ofício do processo. A autoridade que tiver conhecimento de infração no serviço público está obrigada a realizar a sua apuração imediata. Eventuais impedimentos e suspeições com relação aos membros da comissão devem ser levantados para evitar a nulidade do processo administrativo. A Lei nº 8.112/90 determina que “não poderá participar de comissão de sindicância ou de inquérito, cônjuge, companheiro ou parente do acusado, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau” (art. 149, §2º). Outras hipóteses de impedimento ou suspeição estão previstas nos arts. 18 a 21 da Lei nº 9.784/99, que pode ser utilizada subsidiariamente no âmbito federal. Um processo administrativo disciplinar eficiente depende direta- mente da escolha dos membros que irão compor a comissão processante. Assim, deverão ser indicados servidores responsáveis e conscientes da importante função que irão desempenhar e da verdadeira finalidade desse instituto. Para alcançar o seu desiderato de forma imparcial, a comissão também deverá ser composta por servidores estáveis, buscando reduzir influências externas que possam afetar o resultado dos seus trabalhos. Cabe destacar ainda a importância de instituir comissões permanen- tes de sindicância e processo disciplinar no interior da Administração, em respeito ao princípio do juiz natural, conforme expressamente previsto na Constituição da República, em seu art. 5º, incisos XXXVII, “não haverá juízo ou tribunal de exceção”, e LIII, “ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente”. A determinação prévia dos servidores que poderão compor a Comissão de inquérito administrativo garante a imparcialidade do pro- cessamento do feito, bem como a independência do juízo em relação às partes envolvidas, para se alcançar um julgamento objetivo e sem qualquer prejulgamento. Ao tratar do princípio do juiz natural, Romeu Bacellar Filho ensina que “a comissão deve ser permanente, para evitar que o administrador, ao seu talante, selecione os membros integrantes com o intuito preconcebido de absolver ou punir”.79 79 BACELLAR FILHO, Romeu Felipe. Direito administrativo. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 88. marcos bittencourt6vol.indb 85 20/04/2015 21:20:33 86 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO Existe a possibilidade de suspensão preventiva do acusado por até 60 dias, com eventual prorrogação por igual prazo, sem prejuízo da remuneração, que tem natureza de medida cautelar realizada pela autoridade instauradora para que o servidor acusado não venha a influir na apuração da irregularidade. No inquérito administrativo, ocorre, em primeiro lugar, a instrução do feito em que se asseguram os princípios do contraditório e ampla defesa (art. 5º, LV, da CF). Após a instrução, se tipificada a infração, o servidor será indiciado com especificação dos fatos a ele imputados e das respec- tivas provas. Em seguida, o indivíduo será citado para apresentar defesa, em regra, em 10 dias. No caso de o indiciado, regularmente citado, não apresentar a sua defesa, no prazo estabelecido, estará configurada a revelia. Nessa hipóte- se, a autoridade instauradora do processo designará um servidor como defensor dativo, que deverá ser ocupante de cargo efetivo superior ou de mesmo nível, ou ter nível de escolaridade igual ou superior ao do indiciado, para apresentar defesa em seu lugar (art. 164, §2º). O inquérito administrativo se encerra com o relatório conclusivo de competência da comissão. O julgamento será proferido pela autoridade instauradora do pro- cesso, salvo se a penalidade a ser aplicada exceder a sua alçada. Nesse julgamento a autoridade competente acatará o relatório da comissão, salvo quando contrário à prova dos autos (art. 168 da Lei nº 8.112/90). Há incidência do princípio da proporcionalidade na aplicação das penalidades, uma vez que a autoridade julgadora deverá considerar a natureza e a gravidade da infração cometida, os danos que dela provierem para o serviço público, as circunstâncias agravantes ou atenuantes e os antecedentes funcionais para a escolha da sanção. Importa salientar que não se deve considerar eficiente um processo disciplinar apenas por ter sido aplicada uma penalidade. A punição não é o objetivo final e necessário do processo administrativo. A finalidade desse instrumento consiste em permitir a apresentação de resposta pelo acusado a qualquer denúncia efetuada dentro da Administração Pública, esclarecimentos de fatos e eventual aplicação de penalidade, uma vez verificada a responsabilidade administrativa de algum agente. 4.6.3 Reexame do processo administrativo disciplinar Além de pedido de reconsideração e de recursos administrativos, garantias do duplo grau de exame do processo, a Lei nº 8.112/90 prevê, nos arts. 174 a 182, uma hipótese denominada pedido de revisão do processo administrativo disciplinar. O pedido de revisão conceitua-se como instrumento de reexame do processo administrativo, de ofício ou a pedido, em caso de surgirem fatos marcos bittencourt6vol.indb 86 20/04/2015 21:20:33 87CAPÍTULO 4AGENTES PÚBLICOS novos ou circunstâncias suscetíveis de comprovar a sua inocência ou a inadequação da penalidade aplicada. Pode ser requerido a qualquer tempo pelo servidor ou por qualquer pessoa da família, em caso de falecimento, ausência ou desaparecimento do servidor. Da revisão do processo não poderá resultar agravamento da pena- lidade, como decorrência lógica do princípio da ampla defesa. 4.6.4 Processo administrativo disciplinar em rito sumário Tendo em vista a facilidade de configuração objetiva de prova, a Lei nº 8.112/90 ainda prevê legítimo um processo administrativo disciplinar em rito sumário para as seguintes infrações: (a) acumulação ilegal de cargos, empregos ou funções públicas (art. 37, XVI e XVII da CF e art. 132, XII da Lei nº 8.112/90); (b) abandono de cargo (art. 138 da Lei nº 8.112/90); (c) inassiduidade habitual (art. 139 da Lei nº 8.112/90). No caso de acumulação ilegal, a autoridade competentenotificará o servidor, por intermédio de sua chefia imediata, para apresentar opção no prazo improrrogável de dez dias contados da data da ciência e, na hipótese de omissão, adotará procedimento sumário (art. 133 da Lei nº 8.112/90). A instauração inicia-se com a publicação do ato que constituir a comissão, a ser composta por dois servidores estáveis, e simultânea in- dicação da autoria e materialidade da transgressão objeto da apuração. A instrução sumária compreende indiciação, defesa (cinco dias) e relatório (conclusivo). O julgamento deve ser proferido no prazo de cinco dias. Saliente-se a possibilidade de opção pelo servidor até o último dia de prazo para defesa comprovar sua boa-fé, hipótese em que se converterá automaticamente em pedido de exoneração do outro cargo. Uma vez caracterizada a acumulação ilegal e provada a má-fé, será aplicada a pena de demissão, destituição ou cassação de aposentadoria ou disponibilidade em relação aos cargos, empregos ou funções públicas em regime de acumulação ilegal, hipótese em que os órgãos ou entidades de vinculação serão comunicados. Subsidiariamente, aplicam-se os Títulos IV e V da Lei nº 8.112/90. O abandono de cargo consiste na “ausência intencional do servidor ao serviço por mais de trinta dias consecutivos” (art. 138 da Lei nº 8.112/90). A inassiduidade habitual configura-se na “falta ao serviço, sem causa justificada, por sessenta dias, interpoladamente, durante o período de doze meses” (art. 139 da Lei nº 8.112/90). Quanto ao rito sumário no caso de abandono de cargo e inassidui- dade habitual, será adotado também o procedimento previsto no artigo 133 dessa lei, observando-se especialmente que, quanto à indicação da materialidade, na hipótese de abandono de cargo, deverá ser feita a indi- cação precisa do período de ausência intencional do servidor ao serviço marcos bittencourt6vol.indb 87 20/04/2015 21:20:33 88 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO superior a trinta dias; no caso de inassiduidade habitual, caberá a indica- ção dos dias de falta ao serviço sem causa justificada, por período igual ou superior a 60 dias interpoladamente durante o período de 12 meses. Após a apresentação da defesa, a comissão elaborará relatório conclusivo e remeterá o processo à autoridade instauradora para julgamento. 4.6.5 Prescrição De acordo com o art. 142, da Lei nº 8.112/90, a ação disciplinar prescreverá: I - em cinco anos, quanto às infrações puníveis com demissão, cassação de aposentadoria ou disponibilidade e destituição de cargo em comissão; II - em dois anos, quanto à suspensão; III - em 180 dias, quanto à advertência. Saliente-se, contudo, que os prazos de prescrição na lei penal aplicam-se às infrações disciplinares capituladas também como crime (art. 142, §2º). Esses prazos de prescrição começam a correr da data em que o fato se tornou conhecido (art. 142, §1º). A abertura de sindicância ou a instauração de processo administra- tivo disciplinar interrompe a prescrição, até a decisão final proferida por autoridade competente (art. 142, §3º). marcos bittencourt6vol.indb 88 20/04/2015 21:20:33 CAPÍTULO 5 ATO ADMINISTRATIVO 5.1 Conceito de ato administrativo Define-se ato jurídico como declaração que tem por fim imediato adquirir, resguardar, transferir, modificar e extinguir direitos. O ato jurídico é uma espécie do gênero fato jurídico, compreendido este como qualquer acontecimento a que o ordenamento jurídico lhe atribua efeitos jurídicos. Assim, fato jurídico pode ser um acontecimento material ou uma ação humana, desde que decorram efeitos jurídicos. Como distinguir o ato jurídico das outras espécies de fatos jurídicos? O ato jurídico, por ser uma manifestação de vontade, corresponde a uma ação voluntária do ser humano, visando alcançar determinado efeito jurídico. Os outros fatos jurídicos correspondem a eventos decorrentes da natureza ou de ações humanas, neste caso, sem a intenção de buscar qualquer efeito jurídico específico. Tais considerações preliminares fazem-se necessárias, uma vez que o ato administrativo é uma espécie de ato jurídico. Para Celso Antônio Bandeira de Mello, em sentido amplo, ato admi- nistrativo corresponde a uma “declaração do Estado (ou de quem lhe faça as vezes — como, por exemplo, um concessionário de serviço público), no exercício de prerrogativas públicas, manifestada mediante providências jurídicas complementares da lei a título de lhe dar cumprimento, e sujeitas a controle de legitimidade por órgão jurisdicional”.80 Esse conceito amplo engloba atos administrativos individuais, normativos, unilaterais ou bi- laterais (contratos), declarações de juízo, de conhecimento, de opinião e de vontade. Hely Lopes Meirelles compreende o fenômeno ato administrativo como “toda manifestação unilateral de vontade da Administração Pública 80 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de direito administrativo, 14. ed., p. 339-340. marcos bittencourt6vol.indb 89 20/04/2015 21:20:33 90 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO que, agindo nessa qualidade, tenha por fim imediato adquirir, resguardar, transferir, modificar, extinguir e declarar direitos, ou impor obrigações aos administrados ou a si própria”.81 Maria Sylvia Zanella Di Pietro apresenta um conceito mais restrito de ato administrativo ao defini-lo como “declaração do Estado ou de quem o represente, que produz efeitos jurídicos imediatos, com obser- vância da lei, sob regime jurídico de direito público e sujeita a controle pelo Poder Judiciário”.82 Entende-se restrito este conceito, pois a autora, ao mencionar que o ato administrativo produz efeitos jurídicos imedia- tos, distingue-o do ato normativo, bem como impede que tal conceito englobe os atos materiais e os atos enunciativos, uma vez que estes não produzem efeitos jurídicos. Pode-se conceituar ato administrativo como declaração jurídica, expedida em decorrência do exercício da função administrativa, sob um regime jurídico de direito público. Alerte-se, contudo, que a Administração Pública, além dos atos administrativos, exerce atos regidos pelo Direito Privado (locação, compra e venda etc.) e atos materiais (por exemplo, a construção de uma ponte). Todos esses atos são considerados atos da Administração Pública, mas não são atos administrativos, seja por não estarem submetidos ao regime jurídico administrativo (atos de direito privado), seja por não produzirem efeitos jurídicos (atos materiais). 5.2 Elementos do ato administrativo Não há uniformidade na doutrina a respeito de quais seriam os elementos ou requisitos do ato administrativo, necessários para sua exis- tência e validade perante o sistema normativo. Tradicionalmente, a dou- trina indica cinco elementos para configurar o ato administrativo: sujeito (competência), finalidade, forma, motivo e objeto. A maioria dos autores utiliza o vocábulo elemento como sinônimo de requisito. Maria Sylvia Zanella Di Pietro considera como elementos básicos do ato administrativo: sujeito, objeto, forma, motivo e finalidade.83 No direito positivo, a Lei nº 4.717/65, que trata da ação popular, em seu art. 2º, faz menção indireta aos requisitos do ato administrativo: agente competente, finalidade, forma, motivo e objeto. Nesse sentido será estudado o presente tema. 81 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro, p. 131. 82 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 181. 83 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 187. marcos bittencourt6vol.indb 90 20/04/2015 21:20:33 91CAPÍTULO 5ATO ADMINISTRATIVO 5.2.1 Agente competente Diversamente do Direito Privado, em que basta a capacidade para que o sujeito possa exercer direitos e contrair obrigações, no Direito Administrativo,além de ser capaz, é necessário que o agente possua com- petência para praticar atos administrativos. Essa competência administra- tiva, compreendida como o poder deferido ao agente para desempenho de seus deveres, sempre decorre de lei e nesta encontra os seus limites. Como ensina Cesar A. Guimarães Pereira, “a competência é pressuposto para o exercício da função administrativa”.84 A competência é irrenunciável, tendo em vista que, para o agente público, há, antes de tudo, o dever de exercer as atribuições em prol da coletividade, quando necessário. A competência, no entanto, pode ser objeto de delegação ou avocação, desde que não se trate de competência exclusiva a determinado órgão ou agente. Segundo o art. 13 da Lei nº 9.784/99, que trata do processo adminis- trativo no âmbito federal, não podem ser objeto de delegação: I - a edição de atos de caráter normativo; II - a decisão de recursos administrativos; III - as matérias de competência exclusiva do órgão ou autoridade. 5.2.2 Finalidade A consequência a que o Poder Público visa com a expedição do ato administrativo denomina-se finalidade. Consequentemente, a finalidade é posterior à prática do ato, por ser o objetivo buscado pelo Estado. Como é determinada previamente pelo legislador, também é considerada um requisito vinculado do ato administrativo, pois o agente não possui liber- dade para sua escolha. Todo ato administrativo deve sempre mirar um fim de interesse público. Caso o agente utilize institutos de Direito Público para alcançar interesses particulares, sua conduta será ilegal por desvio de finalidade. Um exemplo dessa hipótese é a expedição de um decreto de desapropria- ção referente a um imóvel que pertence a um inimigo pessoal, apenas para prejudicá-lo. Além disso, cada ato administrativo tem um objetivo próprio defini- do em lei. Se não for observada a finalidade prevista no sistema normativo 84 PEREIRA, Cesar A. Guimarães. Elisão tributária e função administrativa. São Paulo: Dialética, 2001. p. 143. marcos bittencourt6vol.indb 91 20/04/2015 21:20:33 92 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO para o correspondente ato, também será ilegal por desvio de finalidade. Como exemplo, pode-se citar a remoção de um servidor a título de puni- ção. Esse ato é ilegal, uma vez que o instituto da remoção não se encontra previsto no ordenamento jurídico como penalidade administrativa, mas como instrumento que permite o deslocamento de servidores, dentro do mesmo quadro, a pedido ou de ofício. 5.2.3 Forma A forma, em sentido estrito, corresponde à concretização do ato ad- ministrativo. Todo ato administrativo precisa de um formato para existir, embora nem sempre o ordenamento jurídico prescreva uma forma espe- cífica para expedição de atos. Nesse sentido, o art. 22 da Lei nº 9.784/99, que trata do processo administrativo no âmbito federal prevê que “os atos do processo administrativo não dependem de forma determinada senão quando a lei expressamente exigir”. Em geral, os atos administrativos são expressos de forma escrita, contudo, é possível encontrar atos orais ou até mesmo por gestos como seriam as sinalizações de um guarda de trânsito. A motivação também será analisada com o requisito forma e não se identifica com os motivos. A motivação representa a apresentação expressa dos motivos que levaram o agente a editar o ato administrativo. Em sentido amplo, a forma consiste em todas as formalidades e procedimentos indispensáveis para a expedição de um ato específico, sob pena de nulidade. Tanto a desobediência da forma específica de um ato como a do procedimento necessário acarretam a ilegalidade do ato administrativo. Assim, a exteriorização de uma declaração de desapropriação oralmente ou a não existência do processo licitatório anterior a uma contratação feita pelo Estado irão viciar os atos administrativos. Deve-se salientar que a forma representa uma garantia para o ci- dadão e para a própria Administração, pois permite o controle dos atos administrativos. Dessa maneira, é possível contrastar o ato expedido com o ordenamento jurídico. 5.2.4 Motivo O motivo corresponde às razões que levaram o agente a editar o ato administrativo. Segundo Maria Sylvia Zanella Di Pietro, moti- vo “é o pressuposto de fato e de direito que serve de fundamento ao ato administrativo”.85 Pode estar previamente fixado em lei (elemento 85 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 195. marcos bittencourt6vol.indb 92 20/04/2015 21:20:33 93CAPÍTULO 5ATO ADMINISTRATIVO vinculado) ou ficar à livre escolha do agente público, nos termos da lei (elemento discricionário). O pressuposto de fato é a circunstância fática que determinou a realização do ato. Essa situação ocorrida no mundo dos fatos deve corres- ponder à hipótese prevista na lei (pressuposto de direito) para dar ensejo à expedição do ato administrativo. A falta de motivo ou a menção a motivo falso viciam o ato admi- nistrativo. Para controlar esse aspecto, cada vez mais se exige a motivação que, como já mencionado, é a exposição dos motivos, demonstrando que as situações mencionadas realmente ocorreram. A teoria dos motivos determinantes se apresenta como instrumento de controle da Administração Pública. Por essa teoria, uma vez apresentados os motivos que levaram à emissão de um ato, mesmo na hipótese de o ordena- mento jurídico não exigir a motivação, o ato ficará umbilicalmente atrelado a esses pressupostos e, no caso de motivo falso, inexistente ou juridicamente inadequado para a produção dos efeitos jurídicos esperados, esse ato será considerado inválido. Por exemplo, na exoneração de um servidor ocupante de cargo em comissão, em que a lei não exige expressamente apresentação de motivo, se for alegado, como razão de tal ato, a contenção de gastos para respeitar o limite da Lei de Responsabilidade Fiscal com despesas de pessoal e, posteriormente, for nomeada outra pessoa para o mesmo cargo de con- fiança, o ato será inválido pela apresentação de motivo falso ou inexistente. 5.2.5 Objeto Objeto é a própria declaração do ato. São os efeitos jurídicos imedia- tos decorrentes do ato administrativo. Pode ser fixado em lei, ou seja, ser um requisito vinculado, ou deixado à livre escolha do sujeito, nos termos da lei, isto é, discricionário. Segundo Maria Sylvia Zanella Di Pietro, para identificar esse requi- sito, “basta verificar o que o ato enuncia, prescreve, dispõe”.86 O objeto deve ser conforme o ordenamento jurídico (lícito); possível de realização fática e jurídica; definido com relação aos destinatários e seus efeitos; e moralmente correto, sob pena de invalidação. 5.3 Perfeição, validade e eficácia O ato administrativo perfeito é aquele em que todos os seus requi- sitos se fazem presentes (agente, finalidade, forma, motivo e objeto), uma vez que completou o seu ciclo de formação. 86 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 191. marcos bittencourt6vol.indb 93 20/04/2015 21:20:33 94 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO O ato administrativo é considerado válido quando se encontra conforme os termos previstos no ordenamento jurídico. Torna-se eficaz o ato administrativo quando está apto para produzir os seus efeitos jurídicos específicos. Observe-se que os campos de perfeição, validade e eficácia são inde- pendentes, isto é, não há uma vinculação necessária entre essas qualidades do ato administrativo. Assim, ser um ato administrativo perfeito não significa ser neces- sariamente válido. Os requisitos devem estar conforme o ordenamento jurídico. Da mesma forma, um ato perfeito e válido não será obrigatoriamente eficaz, uma vez que a ocorrência de seus efeitos pode ainda depender de uma condição ou termo inicial. 5.4 Atributosdo ato administrativo Os atributos do ato administrativo representam qualidades que demonstram que esse ato está disciplinado pelo regime jurídico admi- nistrativo, distinto do regime dos atos de direito privado. Os atributos do ato administrativo são a presunção de legitimidade e veracidade, a imperatividade e a autoexecutoriedade. 5.4.1 Presunção de legitimidade e de veracidade A presunção de legitimidade corresponde à adequação do ato administrativo ao disposto na lei. Assim, presume-se que os atos admi- nistrativos foram expedidos de acordo com o que dispõe o ordenamento jurídico, admitindo, entretanto, prova em contrário. Já a presunção de veracidade refere-se ao mundo dos fatos. São considerados verdadeiros, até prova em contrário, os fatos mencionados pela Administração Pública no exercício das suas funções. Tal atributo, presente em todos os atos administrativos, confere maior segurança jurídica para a condução da atividade administrativa para que sejam cumpridos os fins previstos em lei. Como consequência desta qualidade, enquanto não for atestado vício em algum requisito do ato, este continuará produzindo efeitos jurídicos como se válido fosse. Também, em regra, ocorrerá a inversão do ônus da prova, pois essa presunção é relativa, ou seja, admite prova em contrário. Cabe ao adminis- trado comprovar que o ato administrativo em questão não é legítimo ou que os fatos em que se fundamentou o Poder Público não correspondem à verdade. marcos bittencourt6vol.indb 94 20/04/2015 21:20:33 95CAPÍTULO 5ATO ADMINISTRATIVO 5.4.2 Imperatividade A imperatividade consiste em que os atos administrativos se im- ponham a terceiros, independentemente de sua concordância. Quando o Estado atua investido desta qualidade, diz-se que age em virtude de seu “poder de império”. Para Renato Alessi, a imperatividade é consequência do chamado “poder extroverso”, que, segundo as lições de Celso Antônio Bandeira de Mello, configura aquele “que permite ao Poder Público edi- tar provimentos que vão além da esfera jurídica do sujeito emitente, ou seja, que interferem na esfera jurídica de outras pessoas, constituindo-as unilateralmente em obrigações”.87 O Estado é a única organização que, de forma legítima, detém este poder de constituir unilateralmente obrigações em relação a terceiros. Esse exercício de autoridade tem sido efetuado por estruturas es- tatais que desempenham atividades exclusivas do Poder Público, ou seja, no dever de regulamentar, fiscalizar, fomentar etc. Como exemplo de ato que possui imperatividade, apresenta-se a declaração de desapropriação, pois, mesmo no caso de discordância do cidadão, proprietário do bem em tela, quanto à sua alienação, esta poderá operar-se. Outros exemplos são a cobrança e fiscalização de tributos e o exercício de poder de polícia. Observe-se, entretanto, que apesar deste atributo de impor obriga- ções ser um instrumento legítimo de ação estatal, não se afasta a possibi- lidade de serem utilizados meios de atuação consensual do Poder Público junto aos cidadãos. Como ensina Diogo de Figueiredo Moreira Neto, “a consensualidade não exclui, porém, a imperatividade, senão que com ela coexiste in potentia, restrita ao que a lei estabeleça como indisponível”.88 Principalmente quando se trata de um Estado Democrático de Direito, a utilização de instrumentos jurídicos de autoridade deve ser colocada em prática apenas em hipóteses estritamente necessárias. Nesse sentido, Alexandre Santos de Aragão afirma, ao tratar das finalidades de um Estado Democrático de Direito, que “muitas vezes esses objetivos podem ser melhor alcançados de forma consensual do que coercitiva, não fazendo sentido que a Administração tenha sempre que necessariamente optar por mecanismos regulatórios verticais, não tão eficientes e mais gravosos para os interesses envolvidos”.89 Observa-se claramente que deve ocorrer a aplicação do princípio da proporcionalidade. Como já mencionado, o princípio da proporcionalidade 87 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de direito administrativo. 17. ed. São Paulo: Malheiros, 2004. p. 383. 88 MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Curso de direito administrativo: parte introdutória, parte geral, parte especial. 12. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2002. p. 137. 89 ARAGÃO, Alexandre Santos de. Agências reguladoras e a evolução do direito administrativo econô mico. Rio de Janeiro: Forense, 2002. p. 110. marcos bittencourt6vol.indb 95 20/04/2015 21:20:33 96 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO encontra o seu núcleo no art. 2º, parágrafo único, inciso VI, da Lei nº 9.784/99: “adequação entre meios e fins, vedada a imposição de obrigações, restrições e sanções em medida superior àquelas estritamente necessárias ao atendimento do interesse público”. Assim, sempre que se puder rea- lizar o interesse público, mediante atuação consensual do particular, os mecanismos coercitivos deverão ser evitados, uma vez que se apresentam desproporcionais. Como exemplo de utilização de medidas consensuais para realização de objetivos públicos, Floriano de Azevedo Marques Neto levanta a pos- sibilidade de a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) substituir a imposição de multas administrativas pelo estabelecimento de novas metas de ampliação dos serviços prestados pela concessionária. Dessa forma, segundo o autor, “a unilateralidade e a exorbitância tradicionais no exercício da autoridade pública (poder extroverso) têm que dar lugar à interlocução, à mediação e à ponderação entre interesses divergentes, sem descurar, por óbvio, da proteção da coletividade contra abusos dos agentes econômicos”.90 Torna-se viável, portanto, a utilização harmônica de instrumentos de autoridade ou de consensualidade pela Administração Pública para melhor adequação das atividades administrativas, que devem estar em sintonia com a correta missão de um Estado Democrático de Direito. É certo, assim, que constantemente se verifique o uso proporcional de tais providências, buscando alcançar as metas públicas da maneira menos onerosa ao cidadão. 5.4.3 Autoexecutoriedade A autoexecutoriedade corresponde à possibilidade de a Administração Pública tomar as suas decisões e colocá-las em execução, sem necessidade de intervenção do Poder Judiciário. Também é um atributo que não está presente em todos os atos admi- nistrativos, mas apenas quando estiver expressamente previsto na lei ou em caso de medida urgente, para que não ocorra um dano maior aos interesses da coletividade. Exemplo de ato administrativo que possui o atributo de autoexecutoriedade consiste na interdição de restaurante pela Vigilância Sanitária, por falta de higiene na conservação dos produtos alimentícios. Quando não houver disposição legal autorizando a execução direta pela Administração Pública e não configurar situação de emergência, o 90 Cf. MARQUES NETO, Floriano Peixoto de Azevedo. Aspectos jurídicos do exercício do poder de sanção por órgão regulador do setor de energia elétrica. Revista de Direito Administrativo – RDA, v. 221, p. 353-370, 2000. marcos bittencourt6vol.indb 96 20/04/2015 21:20:33 97CAPÍTULO 5ATO ADMINISTRATIVO Poder Público terá dois caminhos: ou se utiliza de meios indiretos para convencer o cidadão a cumprir a sua decisão, como no caso de conceder um desconto no pagamento antecipado de multas; ou terá que recorrer ao Poder Judiciário. 5.5 Discricionariedade e vinculação Como visto anteriormente, o ordenamento jurídico confere de- terminados poderes instrumentais à Administração Pública, para que essa possa tutelar os interesses que foram colocados sob sua guarda. A atividade administrativa não pode ser exercida fora dos trilhos demarcados pela lei. Quando a lei estabelece que, perante determinadas circunstâncias, a Administraçãosó pode dar uma específica solução, toda a atuação do administrador público se encontra vinculada ao determinado pelo legisla- dor. Um exemplo de atividade vinculada é a cobrança de um tributo pelo agente fazendário. No art. 3º do Código Tributário Nacional, encontra-se o conceito de tributo como “prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilí- cito, instituída em lei”. No final do art. 3º está previsto que o tributo deve ser cobrado “mediante atividade administrativa plenamente vinculada”. Assim, não cabe ao agente fazendário decidir se cobra ou não o tributo. Ao ocorrer o fato gerador da cobrança do tributo, correspondente à hipótese de incidência prevista em lei, o agente deverá obrigatoriamente cobrar o tributo, nos termos previstos, sob pena de responsabilidade. Se o legislador entender que, diante do caso concreto, caberá ao agente público decidir qual será a melhor solução dentre aquelas permi- tidas pela lei, existe discricionariedade administrativa. O legislador tem consciência de que não reúne condições para prever todas as hipóteses que podem ocorrer no mundo dos fatos e, dessa forma, defere certa liberdade ao agente para que este escolha a solução mais adequada perante aquela conjuntura. A escolha dessa decisão realiza-se por meio de critérios de oportunidade, conveniência e justiça. Como exemplo de discricionariedade administrativa, tem-se o deferimento ou não de licença para capacitação ao servidor público federal (art. 87 da Lei nº 8.112/90). O servidor pode, após cada quinquênio de efetivo exercício, afastar-se das suas atribuições, com a respectiva remuneração, por até três meses, para participar de curso de capacitação profissional, no interesse da Administração. Caberá à autoridade competente decidir se é conveniente ou oportuno, permitir que o servidor usufrua dessa licença. Dependendo da quantidade de trabalho na repar- tição ou do curso que o agente queira participar, a autoridade emitirá um juízo de valor, decidindo pela concessão ou não da licença para capacitação. A discricionariedade reside nessa decisão. marcos bittencourt6vol.indb 97 20/04/2015 21:20:33 98 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO Não se deve confundir, entretanto, discricionariedade com arbi- trariedade. Na discricionariedade, o agente público age com liberdade dentro da lei, enquanto, na arbitrariedade, a atuação do administrador ultrapassa os limites legais. Todo ato arbitrário é nulo, pois extrapola o permitido pelo ordenamento jurídico, acarretando a responsabilidade do agente que o emitiu. Como certos aspectos do ato sempre são vinculados, não há ato administrativo inteiramente discricionário. No ato vinculado, todos os elementos estão estabelecidos em lei. Já no ato discricionário, alguns ele- mentos vêm definidos minuciosamente em lei (competência, finalidade e forma), enquanto outros são deixados para a análise do agente público (motivo e objeto), com maior ou menor liberdade de apreciação da opor- tunidade e conveniência. Em consequência disso, o ato vinculado só é examinado sob o aspecto da legalidade, isto é, apenas é contrastado com a previsão legal. O ato dis- cricionário, por sua vez, pode ser analisado sob aspecto da legalidade e do mérito (oportunidade e conveniência diante do interesse público a atingir). O mérito do ato administrativo representa a escolha feita pelo administra- dor público quanto à conveniência e oportunidade na expedição de um ato discricionário. Não há mérito nos atos vinculados, pois não há decisão a ser tomada pelo agente público. O legislador já decidiu previamente qual é a solução adotada para determinada hipótese nos atos vinculados. 5.6 Classificação 5.6.1 Quanto à presença de supremacia do Estado – Atos de império e atos de gestão Os atos de império são aqueles exercidos pela Administração em posição de autoridade, com as prerrogativas e privilégios decorrentes do regime de direito público para submeter os interesses dos administrados aos fins previstos em lei, como a criação de um novo tributo. Por sua vez, os atos de gestão são exercidos pelo Estado em posição de igualdade com os administrados e regidos pelo direito comum, como um contrato de locação entre o Poder Público e um particular. 5.6.2 Quanto à estrutura – Atos simples, complexos e compostos Os atos simples são aqueles que têm origem na manifestação de vontade de um único órgão, singular ou colegiado, como a nomeação de marcos bittencourt6vol.indb 98 20/04/2015 21:20:33 99CAPÍTULO 5ATO ADMINISTRATIVO um agente público pelo Presidente da República e a decisão tomada pelo conselho de contribuintes. Os atos complexos surgem da declaração de dois ou mais órgãos cujas vontades homogêneas se fundem para formar um único ato com o mesmo objeto e finalidade, como um decreto assinado pelo Chefe do Executivo e referendado pelo Ministro de Estado. Os atos compostos decorrem da declaração de dois ou mais órgãos, em que a vontade de um dos órgãos, expressa mediante um ato adminis- trativo, é apenas um instrumento para a formalização do ato principal, normalmente, para este se tornar exequível. A principal diferença entre ato complexo e ato composto consiste na formação de um ato único no primeiro, enquanto no segundo, praticam-se dois atos, um principal e outro instrumental (pressuposto ou complemen- tar ao principal). Por exemplo, autorização (ato principal) de certo agente depende de visto (ato acessório) de autoridade superior. 5.6.3 Quanto aos destinatários – Atos gerais e individuais Os atos gerais são atos que possuem uma norma abstrata, impessoal, endereçada a um número indeterminado de pessoas, tais como regula- mentos, resoluções, regimentos etc. Os atos individuais são aqueles que produzem efeitos jurídicos imedia- tos a pessoas determinadas, afetando sua situação particular, como o ato de demissão de um servidor público e o tombamento de um imóvel específico. 5.7 Espécies de atos administrativos Tradicionalmente, a doutrina estabelece cinco espécies de atos admi- nistrativos: normativos, ordinatórios, negociais, enunciativos e punitivos. Os atos normativos são aqueles que possuem uma norma geral, abstrata e impessoal como os decretos regulamentares e regimentos. Observe-se, entretanto, que os decretos expedidos pelos Chefes do Poder Executivo podem exprimir ou um ato administrativo individual, como no caso de um decreto de desapropriação, ou um ato normativo, como no caso de um regulamento. Já os atos ordinatórios são aqueles que exteriorizam um comando aos servidores públicos quanto ao comportamento nos trabalhos internos da Administração Pública. Uma circular expedida por autoridade para transmitir ordens aos seus subordinados a respeito da organização interna de uma repartição pública é exemplo de ato ordinatório. Os atos enunciativos expressam uma situação de interesse particular ou público, como atestados e certidões expedidas por órgãos públicos. marcos bittencourt6vol.indb 99 20/04/2015 21:20:33 100 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO Os atos negociais contêm uma convergência de vontades entre Administração e os administrados, num regime jurídico de direito público, como nas licenças e autorizações deferidas pelo Poder Público por meio de alvará. Os atos punitivos ou sancionadores são aqueles que estabelecem punições aplicadas a todos aqueles que desrespeitam as determinações administrativas, seja servidor público ou não, expressas no ordenamento jurídico. A aplicação da sanção depende de prévio processo administrativo em que sejam respeitados os princípios da ampla defesa e contraditório. As multas administrativas e a pena de demissão são exemplos de atos punitivos. 5.8 Anulação, revogaçãoe convalidação dos atos administrativos O ato administrativo pode se extinguir no momento em que cumpriu sua finalidade. Na realidade, entretanto, essa hipótese ideal de extinção dos atos administrativos nem sempre ocorre. Outras formas de extinção são, às vezes, necessárias para corrigir algum vício ou adequar a atividade administrativa à realidade. A anulação corresponde à desconstituição do ato administrativo por motivo de ilegalidade. A anulação produz efeitos retroativos à data em que foi emitido o ato viciado (efeitos ex tunc, ou seja, desde então). Tanto a Administração Pública, por meio de seu poder de autotutela, como o Poder Judiciário, quando provocado, podem anular um ato administra- tivo viciado. Por exemplo, um edital de licitação deve ser anulado caso exista alguma forma de preferência em suas cláusulas, beneficiando algum licitante específico. A revogação consiste em ato administrativo discricionário pelo qual a Administração extingue um ato perfeito e válido, por questões de oportunidade e conveniência frente ao interesse público. Segundo Daniele Coutinho Talamini, a revogação “é uma forma de extinção dos atos administrativos, praticada no exercício da competência discricionária, que visa a suprimir sem retroatividade a eficácia de determinado ato que produz ou está prestes a produzir efeitos inconvenientes e inoportunos”.91 Desse modo, a revogação não acarreta efeitos retroativos, ou seja, seus efeitos são ex nunc (desde agora). A partir da revogação, o ato deixará de produzir efeitos para o futuro, mas os efeitos produzidos anteriormente são preservados. Apenas a Administração Pública pode revogar os atos administrativos discricionários, porque seus fundamentos (oportunida- de e conveniência), não são passíveis de exame pelo Poder Judiciário. 91 TALAMINI, Daniele Coutinho. Revogação do ato administrativo. São Paulo: Malheiros, 2002. p. 260. marcos bittencourt6vol.indb 100 20/04/2015 21:20:33 101CAPÍTULO 5ATO ADMINISTRATIVO O legislador deferiu competência ao administrador público para decidir, perante o caso concreto, qual a melhor solução e não ao juiz. O Supremo Tribunal Federal uniformizou sua jurisprudência nesse sentido mediante a expedição de duas súmulas: - Súmula nº 346 – “A Administração Pública pode declarar a nulidade de seus próprios atos”. - Súmula nº 473 – “A Administração pode anular seus próprios atos, quando eivados de vícios que os tornem ilegais, porque deles não se originam direito, ou revogá-los, por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos e ressalvada, em todos os casos, a apreciação judicial”. O art. 53 da Lei nº 9.784/99 também prevê que a Administração Pública deve anular seus próprios atos, quando eivados de vício de lega- lidade, e pode revogá-los por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos. O direito da Administração de anular os atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários decai em cinco anos, contados da data em que foram praticados, salvo comprovada má-fé (art. 54 da Lei nº 9.784/99). No Direito Administrativo brasileiro, admite-se a possibilidade de convalidação do ato administrativo, ou seja, corrigir o vício existente em um ato ilegal, com efeitos retroativos ao momento de sua execução. O art. 55 da Lei nº 9.784/99 prevê a possibilidade de a própria Administração Pública convalidar atos que apresentarem defeitos sanáveis em decisão na qual se evidencie não acarretarem lesão ao interesse público nem prejuízo a terceiros. Weida Zancaner define convalidação como “um ato, exarado pela Administração Pública, que se refere expressamente ao ato a convalidar para suprir seus defeitos e resguardar os efeitos por ele produzidos”.92 Segundo as lições da autora, são passíveis de convalidação os atos que contêm os seguintes vícios: a) quanto à competência; b) quanto à formalidade, entendida como a forma própria prevista em lei para a validade de certo ato; c) quanto ao procedimento, desde que a convalidação não acarrete o desvio da finalidade, em razão da qual o procedimento foi inicialmente instaurado.93 92 ZANCANER, Weida. Da convalidação e da invalidação dos atos administrativos. 2. ed., 3. tir. São Paulo: Malheiros, 2001. p. 56. 93 ZANCANER, Weida. Da convalidação e da invalidação dos atos administrativos, p. 68-73. marcos bittencourt6vol.indb 101 20/04/2015 21:20:34 102 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO Quando a convalidação se refere ao vício de competência do agente, também é chamada de ratificação. Weida Zancaner sustenta que, em regra, não existe discricionarie- dade para a Administração Pública decidir se convalida ou não um deter- minado ato convalidável. Apenas há uma hipótese em que a Administração Pública poderá escolher se deve convalidar ou invalidar conforme juízo discricionário. “É o caso de ato discricionário praticado por autoridade in- competente. Destarte, nestes casos pode a Administração Pública, segundo um juízo subjetivo, optar se quer convalidar ou invalidar o ato viciado”.94 Embora grande parte de doutrina não aceite a convalidação quanto ao objeto viciado, admite-se a chamada conversão ou sanatória do objeto de ato administrativo inválido para um determinado fim, podendo, no entanto, ser aproveitado para outro, preservando-se os efeitos já produzi- dos. Maria Sylvia Zanella Di Pietro exemplifica com a conversão de uma concessão de uso feita sem licitação, quando necessária por lei, em uma permissão precária que não necessita de certame licitatório, buscando dar validade à utilização de bem público.95 94 ZANCANER, Weida. Da convalidação e da invalidação dos atos administrativos, p. 56-57. 95 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 229. marcos bittencourt6vol.indb 102 20/04/2015 21:20:34 CAPÍTULO 6 LICITAÇÃO 6.1 Conceito de licitação e sua obrigatoriedade Não é permitido ao Estado livremente contratar, seja para a execução de obras e serviços, seja para adquirir e alienar bens. O regime jurídico ad- ministrativo, como já examinado, determina a necessidade de previamente ocorrer um processo previsto em lei, chamado licitação, para escolher com quem o Poder Público irá contratar. A licitação corresponde a um processo administrativo, mediante o qual, a Administração Pública decidirá qual a proposta mais vantajosa para firmar um contrato. Esse processo consiste em uma série de atos preparatórios do ato final buscado pelo ente público. Como há uma competição entre os interessados para a escolha da melhor proposta, o processo formal é necessário para garantir um tratamento isonômico aos licitantes. A Constituição Federal determina no art. 22, XXVII, que compete privativamente à União legislar sobre normas gerais de licitação e contrata- ção, em todas as modalidades, para as administrações públicas diretas, au- tárquicas e fundacionais da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, obedecendo-se ao disposto no art. 37, XXI, e para as empresas públicas e sociedades de economia mista, nos termos do art. 173, §1º, III. Observe-se, entretanto, que todas as entidades federativas podem expedir normas específicas sobre licitação e contratação para atender suas peculiaridades. O art. 37, XXI, da Constituição Federal prevê que, com exceção das hipóteses de dispensa e inexigibilidade de licitação previstas em lei, “as obras, serviços, compras e alienações serão contratados mediante processo de licitação pública que assegure igualdade de condições a todos os con- correntes, com cláusulas que estabeleçam obrigações de pagamento, man- tidas as condições efetivas da proposta, nos termos da lei, o qual somente marcos bittencourt6vol.indb 103 20/04/2015 21:20:34 104 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUALDE DIREITO ADMINISTRATIVO permitirá as exigências de qualificação técnica e econômica indispensáveis à garantia do cumprimento das obrigações”. Para as empresas públicas e sociedades de economia mista que explorem atividade econômica, o art. 173, §1º, III, da Constituição Federal determina que lei deverá estabelecer o estatuto jurídico dessas entidades, que deverá dispor, entre outros aspectos, sobre licitação e contratação de obras, serviços, compras e alienações, observados os princípios da admi- nistração pública. Ainda na Constituição Federal, o art. 175 dispõe que a prestação de serviços públicos poderá ser executada sob regime de concessão ou permissão, sempre precedida de licitação para a escolha do particular que irá colaborar com o Estado. A Lei nº 8.666/93 estabelece normas gerais sobre licitações e con- tratos administrativos pertinentes a obras, serviços, inclusive de publici- dade, compras, alienações e locações no âmbito dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Além dos órgãos da Administração Direta, os fundos especiais, as autarquias, as fundações públicas, as empresas públicas, as sociedades de economia mista e demais entidades controladas diretamente ou indiretamente pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios também devem respeitar o contido nessa lei. Assim, as obras, serviços, compras, alienações, concessões, per- missões e locações da Administração Pública, quando contratadas com particulares, obrigatoriamente serão precedidas de licitação, salvo os casos de dispensa e inexigibilidade de licitação previstos em lei. A Lei nº 12.462/2011 instituiu um regime diferenciado de contrata- ções públicas, buscando uma atualização da disciplina de licitações no país. Sem revogar a legislação de licitação e contratação tradicional, o Regime Diferenciado de Contratação (RDC) da Lei nº 12.462/2011 nasceu com o intuito de ser temporário para utilização apenas para as licitações e contratos necessários à realização dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016, Copa das Confederações de 2013, Copa do Mundo de 2014 e das obras de infraestrutura e de contratação de serviços para os aeroportos das capitais dos Estados da Federação distantes até 350km das cidades sedes dos referidos campeonatos mundiais, mas em virtude de amplia- ções no seu texto a lei passou a incluir ações do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), aplicação em obras e serviços de engenharia para construção, ampliação e reforma de estabelecimentos penais e unidades de atendimento socioeducativo e no Sistema Único de Saúde (SUS). A Lei do RDC estabelece cinco regimes de execução indireta de obras e serviços de engenharia: a empreitada por preço unitário, a empreitada por preço global, a contratação por tarefa, a empreitada integral e a contratação integrada. Esta última espécie se constitui em um novo regime de execu- ção indireta de obras e serviços de engenharia, no qual o contratado fica marcos bittencourt6vol.indb 104 20/04/2015 21:20:34 105CAPÍTULO 6LICITAÇÃO incumbido não apenas da execução das obras e dos serviços, mas também das etapas prévias de elaboração e desenvolvimento dos projetos básicos e executivos correspondentes. 6.2 Princípios da licitação As finalidades da licitação consistem em garantir a observância do princípio da isonomia entre os licitantes, selecionar a proposta mais van- tajosa para a Administração Pública e a promoção do desenvolvimento nacional sustentável. O art. 3º da Lei nº 8.666/93 prevê como princípios da licitação: o prin- cípio da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da igualdade, da publicidade, da probidade administrativa, da vinculação ao instrumento convocatório, do julgamento objetivo e dos que lhe são correlatos. O princípio da legalidade determina que o processo licitatório se caracteriza, em regra, como uma atividade vinculada. Desse modo, será reduzida a subjetividade do administrador na condução desse processo, uma vez que a lei já estabeleceu a sequência de atos previamente. Nesse sentido, o art. 4º da Lei nº 8.666/93 determina que: “Todos quantos parti- cipem de licitação promovida pelos órgãos ou entidades a que se refere o art. 1º têm direito público subjetivo à fiel observância do pertinente pro- cedimento estabelecido nesta Lei, podendo qualquer cidadão acompanhar o seu desenvolvimento, desde que não interfira de modo a perturbar ou impedir a realização dos trabalhos”. O princípio da impessoalidade decorre do próprio princípio de igualdade que deve existir na escolha da proposta mais vantajosa. Deve existir imparcialidade por parte da Administração Pública na licitação, sendo vedado qualquer critério subjetivo, tratamento diferenciado ou preferência durante o processo de decisão que frustre o seu caráter competi- tivo. Não obstante, o art. 3º, §2º, da Lei nº 8.666/93 prevê que, em igualdade de condições, como critério de desempate, será assegurada preferência, sucessivamente, aos bens e serviços: produzidos no País; produzidos ou prestados por empresas brasileiras; produzidos ou prestados por empresas que invistam em pesquisa e no desenvolvimento de tecnologia no País. Os princípios da moralidade e da probidade apontam para uma atuação honesta por parte da Administração Pública e dos particulares que com ela se relacionam. Há divergência na doutrina ao apontar qual a real diferença entre o princípio da moralidade e da probidade, tendo em vista serem conceitos jurídicos indeterminados. O princípio da publicidade corresponde à transparência que deve existir na Administração Pública com relação aos seus atos. Significa trazer ao conhecimento tanto da sociedade como dos licitantes os atos do processo de licitação. Assim, “a licitação não será sigilosa, sendo públicos marcos bittencourt6vol.indb 105 20/04/2015 21:20:34 106 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO e acessíveis ao público os atos de seu procedimento, salvo quanto ao conteúdo das propostas até a respectiva abertura” (art. 3º, §3º, da Lei nº 8.666/93). Ainda o art. 4º desta Lei estatui que qualquer cidadão pode acompanhar o desenvolvimento da licitação, desde que não interfira de modo a perturbar ou impedir a realização dos trabalhos. O princípio do julgamento objetivo vincula-se à ideia de um trata- mento isonômico que deve existir na escolha da melhor proposta. Critérios imparciais de decisão serão os parâmetros da comissão de licitação na fase de classificação, conforme o estabelecido no instrumento convocatório. Os tipos de licitação, previstos no §1º do art. 45 da Lei nº 8.666/93, concretizam este princípio do julgamento objetivo: menor preço, melhor técnica, técnica e preço e maior lance ou oferta, nesse último caso, nos casos de alienação de bens ou concessão de direito real de uso. O princípio da vinculação ao instrumento convocatório corres- ponde à necessidade de respeito às regras estabelecidas no edital ou na carta-convite. O instrumento convocatório vincula tanto a Administração Pública como os participantes da licitação, quanto ao conteúdo do contrato que será futuramente celebrado. Cabe ressaltar a estrita vinculação da Administração Pública aos termos do instrumento convocatório que elabo- rou. Nesse sentido, o art. 41 da Lei nº 8.666/93 prevê que: “A Administração não pode descumprir as normas e condições do edital, ao qual se acha estritamente vinculada”. 6.3 Dispensa e inexigibilidade da licitação A regra é a realização de licitação, ou seja, existindo a necessidade de celebrar algum contrato com terceiros, deve ser realizado prévio certame licitatório. O sistema normativo, entretanto, prevê que, em determinadas hipóteses, a Administração Pública pode dispensar a licitação ou considerar inviável a realização deste processo. Nestes casos, é permitida a contrataçãodireta do particular. A dispensa de licitação consiste numa faculdade deferida ao adminis- trador público perante determinadas hipóteses taxativamente estabelecidas pelo legislador. Até seria possível ocorrer a licitação nessas circunstâncias, pois existe competição para contratar o objeto que a Administração Pública necessita, contudo, o administrador público, ao examinar o caso concreto, decidirá, motivadamente, qual é a solução mais conveniente para o inte- resse público naquela situação: licitar ou não. Essa discricionariedade existe, tendo em vista que, muitas vezes, a realização de um processo licitatório acarreta um prejuízo ao interesse público defendido pelo Estado. O artigo 17, I e II e o art. 24 da Lei 8.666/93 determinam quais são as hipóteses de dispensa de licitação. marcos bittencourt6vol.indb 106 20/04/2015 21:20:34 107CAPÍTULO 6LICITAÇÃO No art. 17, I, é dispensada a licitação na alienação de bens imóveis da Administração Pública nos casos de: a) dação em pagamento; b) doação, permitida exclusivamente para outro órgão ou entidade da ad- ministração pública, de qualquer esfera de governo, ressalvado o disposto nos itens “f”, “h” e “i”; c) permuta, por outro imóvel que atenda aos requisitos constantes do inciso X do art. 24 da Lei; d) investidura; e) venda a outro órgão ou entidade da Administração Pública, de qualquer esfera de governo; f) alienação gratuita ou onerosa, aforamento, concessão de direito real de uso, locação ou permissão de uso de bens imóveis residenciais construídos, destinados ou efetivamente utilizados no âmbito de programas habitacio- nais ou de regularização fundiária de interesse social desenvolvidos por órgãos ou entidades da administração pública; g) procedimentos de legitimação de posse de que trata o art. 29 da Lei nº 6.383, de 07 de dezembro de 1976, mediante iniciativa e deliberação dos órgãos da Administração Pública em cuja competência legal inclua-se tal atribuição; h) alienação gratuita ou onerosa, aforamento, concessão de direito real de uso, locação ou permissão de uso de bens imóveis de uso comercial de âm- bito local com área de até 250 m² (duzentos e cinquenta metros quadrados) e inseridos no âmbito de programas de regularização fundiária de interesse social desenvolvidos por órgãos ou entidades da administração pública; i) alienação e concessão de direito real de uso, gratuita ou onerosa, de terras públicas rurais da União na Amazônia Legal onde incidam ocupações até o limite de 15 (quinze) módulos fiscais ou 1.500ha (mil e quinhentos hec- tares), para fins de regularização fundiária, atendidos os requisitos legais. Segundo o §3º do art. 17, considera-se investidura: a) a alienação aos proprietários de imóveis lindeiros de área remanescen- te ou resultante de obra pública, área esta que se tornar inaproveitável isoladamente, por preço nunca inferior ao da avaliação e desde que não ultrapasse a 50% do valor estabelecido para a modalidade convite, aplicável às compras e serviços que não se refiram a obras e serviços de engenharia; b) a alienação aos legítimos possuidores diretos ou, na falta destes, ao Poder Público, de imóveis para fins residenciais construídos em núcleos urbanos marcos bittencourt6vol.indb 107 20/04/2015 21:20:34 108 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO anexos a usinas hidrelétricas, desde que considerados dispensáveis na fase de operação dessas unidades e não integrem a categoria de bens reversíveis ao final da concessão. Nos termos do §2º do art. 17, com redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005, a Administração Pública também poderá conceder título de pro- priedade ou de direito real de uso de imóveis, dispensada licitação, quando o uso destinar-se: I - a outro órgão ou entidade da Administração Pública, qualquer que seja a localização do imóvel; II - a pessoa natural que, nos termos da lei, regulamento ou ato norma- tivo do órgão competente, haja implementado os requisitos mínimos de cultura, ocupação mansa e pacífica e exploração direta sobre área rural situada na Amazônia Legal, superior a 1 (um) módulo fiscal e limitada a 15 (quinze) módulos fiscais, desde que não exceda 1.500ha (mil e qui- nhentos hectares). As hipóteses do inciso II do §2º do art. 17 ficam dispensadas de autori- zação legislativa, mas devem se submeter aos seguintes condicionamentos: I - aplicação exclusivamente às áreas em que a detenção por particular seja comprovadamente anterior a 1º de dezembro de 2004; II - submissão aos demais requisitos e impedimentos do regime legal e ad- ministrativo da destinação e da regularização fundiária de terras públicas; III - vedação de concessões para hipóteses de exploração não contempladas na lei agrária, nas leis de destinação de terras públicas, ou nas normas legais ou administrativas de zoneamento ecológico-econômico; e IV - previsão de rescisão automática da concessão, dispensada notificação, em caso de declaração de utilidade, ou necessidade pública ou interesse social. Ainda a hipótese do inciso II do §2º do art. 17: I - só se aplica a imóvel situado em zona rural, não sujeito a vedação, impedimento ou inconveniente a sua exploração mediante atividades agropecuárias; II - fica limitada a áreas de até quinze módulos fiscais, desde que não ex- ceda mil e quinhentos hectares, vedada a dispensa de licitação para áreas superiores a esse limite; III - pode ser cumulada com o quantitativo de área decorrente da figura prevista na alínea “g” do inciso I do caput do art. 17, até o limite previsto no inciso II deste parágrafo. marcos bittencourt6vol.indb 108 20/04/2015 21:20:34 109CAPÍTULO 6LICITAÇÃO No art. 17, II, é dispensada a licitação na alienação de bens móveis nos seguintes casos: a) doação, permitida exclusivamente para fins e uso de interesse social, após avaliação de sua oportunidade e conveniência socioeconômica, rela- tivamente à escolha de outra forma de alienação; b) permuta, permitida exclusivamente entre órgãos ou entidades da Administração Pública; c) venda de ações, que poderão ser negociadas em bolsa, observada a legislação específica; d) venda de títulos, na forma da legislação pertinente; e) venda de bens produzidos ou comercializados por órgãos ou entidades da Administração Pública, em virtude de suas finalidades; f) venda de materiais e equipamentos para outros órgãos ou entidades da Administração Pública, sem utilização previsível por quem deles dispõe. O art. 24 determina que a licitação é dispensável nos seguintes casos: I - para obras e serviços de engenharia de valor até 10% do limite previsto na alínea “a”, do inciso I do art. 23, desde que não se refiram a parcelas de uma mesma obra ou serviço ou ainda para obras e serviços da mesma natureza e no mesmo local que possam ser realizadas conjunta e concomitantemente; II - para outros serviços e compras de valor até 10% do limite previsto na alínea “a”, do inciso II do artigo anterior e para alienações, nos casos previstos na Lei 8.666/93, desde que não se refiram a parcelas de um mes- mo serviço, compra ou alienação de maior vulto que possa ser realizada de uma só vez; III - nos casos de guerra ou grave perturbação da ordem; IV - nos casos de emergência ou de calamidade pública, quando caracte- rizada urgência de atendimento de situação que possa ocasionar prejuízo ou comprometer a segurança de pessoas, obras, serviços, equipamentos e outros bens, públicos ou particulares, e somente para os bens necessários ao atendimento da situação emergencial ou calamitosa e para as parcelas de obras e serviços que possam ser concluídas no prazo máximo de 180 (cento e oitenta) dias consecutivos e ininterruptos, contados da ocorrên- cia da emergência ou calamidade, vedada a prorrogação dos respectivos contratos; V - quando nãoacudirem interessados à licitação anterior e esta, justifi- cadamente, não puder ser repetida sem prejuízo para a Administração, mantidas, neste caso, todas as condições preestabelecidas; marcos bittencourt6vol.indb 109 20/04/2015 21:20:34 110 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO VI - quando a União tiver que intervir no domínio econômico para regular preços ou normalizar o abastecimento; VII - quando as propostas apresentadas consignarem preços manifestamente superiores aos praticados no mercado nacional, ou forem incompatíveis com os fixados pelos órgãos oficiais competentes, casos em que, observado o parágrafo único do art. 48 desta lei e, persistindo a situação, será admitida a adjudicação direta dos bens ou serviços, por valor não superior ao constante do registro de preços, ou dos serviços; VIII - para a aquisição, por pessoa jurídica de direito público interno, de bens produzidos ou serviços prestados por órgão ou entidade que integre a Administração Pública e que tenha sido criado para esse fim específico em data anterior à vigência desta lei, desde que o preço contratado seja compatível com o praticado no mercado; IX - quando houver possibilidade de comprometimento da segurança nacional, nos casos estabelecidos em decreto do Presidente da República, ouvido o Conselho de Defesa Nacional; X - para a compra ou locação de imóvel destinado ao atendimento das finalidades precípuas da administração, cujas necessidades de instalação e localização condicionem a sua escolha, desde que o preço seja compatível com o valor de mercado, segundo avaliação prévia; XI - na contratação de remanescente de obra, serviço ou fornecimento, em consequência de rescisão contratual, desde que atendida a ordem de classificação da licitação anterior e aceitas as mesmas condições oferecidas pelo licitante vencedor, inclusive quanto ao preço, devidamente corrigido; XII - nas compras de hortifrutigranjeiros, pão e outros gêneros perecíveis, no tempo necessário para a realização dos processos licitatórios correspon- dentes, realizadas diretamente com base no preço do dia; XIII - na contratação de instituição brasileira incumbida regimental ou estatutariamente da pesquisa, do ensino ou do desenvolvimento institu- cional, ou de instituição dedicada à recuperação social do preso, desde que a contratada detenha inquestionável reputação ético-profissional e não tenha fins lucrativos; XIV - para a aquisição de bens ou serviços nos termos de acordo interna- cional específico aprovado pelo Congresso Nacional, quando as condições ofertadas forem manifestamente vantajosas para o Poder Público; XV - para a aquisição ou restauração de obras de arte e objetos históricos, de autenticidade certificada, desde que compatíveis ou inerentes às finalidades do órgão ou entidade; marcos bittencourt6vol.indb 110 20/04/2015 21:20:34 111CAPÍTULO 6LICITAÇÃO XVI - para a impressão dos diários oficiais, de formulários padronizados de uso da administração, e de edições técnicas oficiais, bem como para prestação de serviços de informática a pessoa jurídica de direito público interno, por órgãos ou entidades que integrem a Administração Pública, criados para esse fim específico; XVII - para a aquisição de componentes ou peças de origem nacional ou es- trangeira, necessários à manutenção de equipamentos durante o período de garantia técnica, junto ao fornecedor original desses equipamentos, quando tal condição de exclusividade for indispensável para a vigência da garantia; XVIII - nas compras ou contratações de serviços para o abastecimento de navios, embarcações, unidades aéreas ou tropas e seus meios de desloca- mento quando em estada eventual de curta duração em portos, aeroportos ou localidades diferentes de suas sedes, por motivo de movimentação operacional ou de adestramento, quando a exiguidade dos prazos legais puder comprometer a normalidade e os propósitos das operações e desde que seu valor não exceda ao limite previsto na alínea “a” do inciso II do art. 23 da Lei nº 8.666/93; XIX - para as compras de material de uso pelas Forças Armadas, com exceção de materiais de uso pessoal e administrativo, quando houver necessidade de manter a padronização requerida pela estrutura de apoio logístico dos meios navais, aéreos e terrestres, mediante parecer de comissão instituída por decreto; XX - na contratação de associação de portadores de deficiência física, sem fins lucrativos e de comprovada idoneidade, por órgãos ou entidades da Administração Pública, para a prestação de serviços ou fornecimento de mão de obra, desde que o preço contratado seja compatível com o praticado no mercado; XXI - para a aquisição de bens e insumos destinados exclusivamente à pesquisa científica e tecnológica com recursos concedidos pela Capes, pela Finep, pelo CNPq ou por outras instituições de fomento a pesquisa credenciadas pelo CNPq para esse fim específico; XXII - na contratação de fornecimento ou suprimento de energia elétrica e gás natural com concessionário, permissionário ou autorizado, segundo as normas da legislação específica; XXIII - na contratação realizada por empresa pública ou sociedade de economia mista com suas subsidiárias e controladas, para a aquisição ou alienação de bens, prestação ou obtenção de serviços, desde que o preço contratado seja compatível com o praticado no mercado; XXIV - para a celebração de contratos de prestação de serviços com as orga- nizações sociais, qualificadas no âmbito das respectivas esferas de governo, para atividades contempladas no contrato de gestão; marcos bittencourt6vol.indb 111 20/04/2015 21:20:34 112 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO XXV - na contratação realizada por Instituição Científica e Tecnológica (ICT) ou por agência de fomento para a transferência de tecnologia e para o licenciamento de direito de uso ou de exploração de criação protegida; XXVI - na celebração de contrato de programa com ente da Federação ou com entidade de sua administração indireta, para a prestação de serviços públicos de forma associada nos termos do autorizado em contrato de consórcio público ou em convênio de cooperação; XXVII - na contratação da coleta, processamento e comercialização de resíduos sólidos urbanos recicláveis ou reutilizáveis, em áreas com siste- ma de coleta seletiva de lixo, efetuados por associações ou cooperativas formadas exclusivamente por pessoas físicas de baixa renda reconhecidas pelo poder público como catadores de materiais recicláveis, com o uso de equipamentos compatíveis com as normas técnicas, ambientais e de saúde pública; XXVIII - para o fornecimento de bens e serviços, produzidos ou prestados no País, que envolvam, cumulativamente, alta complexidade tecnológica e defesa nacional, mediante parecer de comissão especialmente designada pela autoridade máxima do órgão; XXIX - na aquisição de bens e contratação de serviços para atender aos contingentes militares das Forças Singulares brasileiras empregadas em operações de paz no exterior, necessariamente justificadas quanto ao preço e à escolha do fornecedor ou executante e ratificadas pelo Comandante da Força; XXX - na contratação de instituição ou organização, pública ou privada, com ou sem fins lucrativos, para a prestação de serviços de assistência técnica e extensão rural no âmbito do Programa Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural na Agricultura Familiar e na Reforma Agrária, instituído por lei federal; XXXI - nas contratações visando ao cumprimento do disposto nos arts. 3º, 4º, 5º e 20 da Lei nº 10.973, de 02 de dezembro de 2004, observados os princípios gerais de contratação dela constantes; XXXII - na contratação em que houver transferência de tecnologia de pro- dutos estratégicos para o SistemaÚnico de Saúde (SUS), no âmbito da Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990, conforme elencados em ato da direção nacional do SUS, inclusive por ocasião da aquisição destes produtos durante as etapas de absorção tecnológica; XXXIII - na contratação de entidades privadas sem fins lucrativos, para a implementação de cisternas ou outras tecnologias sociais de acesso à água para consumo humano e produção de alimentos, para beneficiar as famílias rurais de baixa renda atingidas pela seca ou falta regular de água. marcos bittencourt6vol.indb 112 20/04/2015 21:20:34 113CAPÍTULO 6LICITAÇÃO Os percentuais referidos nos incisos I e II do caput do art. 24 serão 20% para compras, obras e serviços contratados por consórcios públicos, sociedade de economia mista, empresa pública e por autarquia ou fundação qualificadas, na forma da lei, como agências executivas. Há, entretanto, hipóteses em que é impossível à Administração Pública realizar licitação, uma vez que não há viabilidade de competição, pressuposto necessário para este processo. Essas hipóteses de inexigibilidade de licitação estão previstas no art. 25: I - para aquisição de materiais, equipamentos, ou gêneros que só possam ser fornecidos por produtor, empresa ou representante comercial exclusivo, vedada a preferência de marca, devendo a comprovação de exclusividade ser feita através de atestado fornecido pelo órgão de registro do comércio do local em que se realizaria a licitação ou a obra ou o serviço, pelo sindicato, federação ou confederação patronal, ou, ainda, pelas entidades equivalentes (fornecedor exclusivo); II - para contratação de serviços técnicos enumerados no art. 13 da Lei de Licitações,96 de natureza singular, com profissionais ou empresas de notó- ria especialização, vedada a inexigibilidade para serviços de publicidade e divulgação; e III - para a contratação de profissional de qualquer setor artístico, dire- tamente ou através de empresário exclusivo, desde que consagrado pela crítica especializada ou pela opinião pública. Observe-se que as hipóteses de inexigibilidade são apenas exempli- ficativas. Desse modo, perante uma determinada circunstância que impede o caráter competitivo numa eventual disputa, mesmo não existindo previ- são legal, poderia o administrador público justificadamente não realizar a licitação por ser inexigível. 6.4 Modalidades de licitação As modalidades de licitação consistem em formas de procedimen- to previstos em lei para que seja alcançado o objeto que será contratado. Assim, modalidade de licitação não é sinônimo de tipo de licitação. Como visto, os tipos de licitação representam a definição dos critérios objetivos de julgamento das propostas (art. 45, §1º, da Lei nº 8.666/93). 96 “Art. 13. Para os fins desta Lei, consideram-se serviços técnicos profissionais especializados os trabalhos relativos a: I - estudos técnicos, planejamentos e projetos básicos ou executivos; II - pareceres, perícias e avaliações em geral; III - assessorias ou consultorias técnicas e auditorias financeiras ou tributárias; IV - fiscalização, supervisão ou gerenciamento de obras ou serviços; V - patrocínio ou defesa de causas judiciais ou administrativas; VI - treinamento e aperfeiçoa- mento de pessoal; VII - restauração de obras de arte e bens de valor histórico; VIII - (Vetado)”. marcos bittencourt6vol.indb 113 20/04/2015 21:20:34 114 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO O art. 22 da Lei nº 8.666/93 estabelece como modalidades de licitação a concorrência, a tomada de preços, o convite, o concurso e o leilão. A Lei nº 10.520/2002 ainda prevê o pregão como nova modalidade de licitação. Segundo o §8º do art. 22 da Lei de Licitações, é proibida a combi- nação das modalidades. A concorrência, tomada de preços e convite são chamadas de moda- lidades comuns de licitação, pois será escolhido o procedimento conforme o valor estimado da futura contratação, nos termos dos limites fixados no art. 23 da Lei nº 8.666/93. Nos casos em que a modalidade a ser utilizada for convite, a Administração poderá utilizar a tomada de preços e, em qualquer caso, a concorrência (art. 23, §4º, da Lei nº 8.666/93). 6.4.1 Concorrência A concorrência é a modalidade com ampla publicidade para assegu- rar a participação de quaisquer interessados que preencham os requisitos previstos no edital. Caracteriza a concorrência a sua universalidade, ou seja, aberta a participação de quaisquer interessados que comprovem na fase de habilitação preliminar possuir as condições necessárias de qualifi- cação solicitadas no edital para execução do objeto que será futuramente contratado. Essa modalidade é utilizada para contratações de elevados valores, conforme limites estabelecidos no art. 23 da Lei nº 8.666/93. Também pode ser utilizada para compra e alienação de bens imóveis de qualquer valor, bem como nas concessões de direito real de uso e nas licitações interna- cionais, admitindo-se neste último caso, tomada de preços e convite (art. 23, §3º, da Lei nº 8.666/93). O procedimento de concorrência está minuciosamente previsto em lei, contendo as seguintes fases: I - edital, que corresponde à “lei” da licitação e do contrato; II - habilitação, em que ocorre a sessão pública de abertura dos envelopes de documentação e sua apreciação. Consoante o art. 27 da Lei nº 8.666/93 são exigidos documentos que comprovem a habilitação jurídica, qualificação técnica, qualificação econômico-financeira, regularidade fiscal e trabalhis- ta, e cumprimento do disposto no inciso XXXIII do art. 7º da Constituição Federal (proibições quanto ao trabalho infantil); III - classificação ou julgamento, fase em que se estabelece a ordem de classificação dos licitantes habilitados na fase anterior, segundo critérios objetivos do edital, que podem ser menor preço; melhor técnica; técnica e preço; maior lance ou oferta (em casos de alienação de bens ou concessão de direito real de uso). marcos bittencourt6vol.indb 114 20/04/2015 21:20:34 115CAPÍTULO 6LICITAÇÃO IV - homologação, que representa a aprovação do procedimento pela auto- ridade competente; V - adjudicação, pela qual a autoridade competente atribui ao vencedor o objeto da licitação. É o ato final do procedimento. 6.4.2 Tomada de preços A tomada de preços é modalidade de licitação realizada entre interessados previamente cadastrados ou que preencham os requisitos para cadastramento até o terceiro dia anterior à data do recebimento das propostas, observada a necessária qualificação. Utilizada para contratações e obras de médio vulto. Caracteriza-se esta modalidade pela exigência de prévia habilitação, mediante inscrição no registro cadastral. 6.4.3 Convite O convite é modalidade de licitação para contratações de pequeno valor entre, no mínimo, três interessados do ramo pertinente a seu objeto, cadastrados ou não, escolhidos e convidados pela unidade administrativa e da qual podem participar também aqueles que, não sendo convidados, estiverem cadastrados na correspondente especialidade e manifestarem seu interesse com antecedência de 24 horas da apresentação de propostas. Caso haja no local de realização mais de três possíveis interessados, a cada novo convite realizado para objeto idêntico ou assemelhado, é obrigatório o convite a, no mínimo, mais um interessado, enquanto existirem cadastrados não convidados nas últimas licitações (art. 22, §6º, da Lei nº 8.666/93). Quando, por limitações do mercado ou manifesto desinteresse dos convidados, for impossível a obtenção de pelo menos três licitantes, essas circunstâncias deverão ser devidamente justificadas no processo, sob pena de repetição do convite (art. 22, §7º, da Lei nº 8.666/93). O convite é a única modalidade de licitação em que a lei não exige publicação de edital, já que a convocaçãose faz por escrito, com antece- dência mínima de cinco dias úteis, por meio da chamada carta-convite. 6.4.4 Concurso O concurso é modalidade de licitação entre quaisquer interessados para escolha de trabalho técnico, científico ou artístico, mediante a institui- ção de prêmio ou remuneração aos vencedores. Tem por finalidade incenti- var o surgimento de novos valores no âmbito cultural ou obter um trabalho técnico para desenvolvimento de alguma atividade administrativa. marcos bittencourt6vol.indb 115 20/04/2015 21:20:34 116 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO Não se confunde com o processo de seleção para acesso a cargos e empregos públicos, também denominado concurso público, previsto no art. 37, II, da Constituição Federal. Por mais que seja difícil estabelecer parâmetros objetivos para decidir qual será o melhor trabalho apresentado, deverá sempre existir algum critério prévio no edital para avaliação dos participantes. Desta forma, para garantir a moralidade e impessoalidade do concurso, muitas vezes deverão os candidatos apresentarem pseudônimos. Assim, só após o julgamento do trabalho vencedor pela comissão, a identidade do parti- cipante será revelada. 6.4.5 Leilão O leilão é modalidade de licitação entre quaisquer interessados para a venda de bens móveis inservíveis para a Administração ou de produ- tos legalmente apreendidos ou penhorados, ou para a alienação de bens imóveis prevista no art. 19, a quem possa oferecer o maior lance, igual ou superior ao da avaliação. Na licitação para venda de bens imóveis, a modalidade obrigató- ria é a concorrência, com ressalva para as hipóteses do art. 19, ou seja, para imóveis adquiridos por dação em pagamento ou procedimento judicial. 6.4.6 Pregão O pregão é modalidade de licitação para aquisição de bens e servi- ços comuns, qualquer que seja o valor estimado da contratação, em que a disputa pelo fornecimento é feita por meio de propostas e lances em sessão pública. O parágrafo único do art. 1º da Lei nº 10.520/2002 considera como bens e serviços comuns “aqueles cujos padrões de desempenho e qualidade possam ser objetivamente definidos pelo edital, por meio de especificações usuais no mercado”, isto é, o objeto perseguido pelo Poder Público não demanda uma avaliação mais minuciosa a respeito de suas características, sendo facilmente encontrado no mercado. As antigas medidas provisórias que disciplinavam o pregão res- tringiam sua utilização ao estabelecer que só a pessoa jurídica União poderia utilizar tal procedimento. A presente lei alterou esse quadro, que por muitos autores era considerado inconstitucional, facultando a sua realização do procedimento de pregão pelas esferas federal, estadual e municipal. Dois aspectos próprios do pregão demonstram a sua singularidade: a inversão das chamadas etapas de habilitação e julgamento e a apresentação marcos bittencourt6vol.indb 116 20/04/2015 21:20:34 117CAPÍTULO 6LICITAÇÃO de propostas escritas, seguida de uma fase de lances sucessivos para a escolha da melhor proposta (critério do menor preço). Diferentemente das outras modalidades licitatórias, em primeiro lugar far-se-á a classificação das propostas no pregão e, terminada essa fase, os documentos de habilitação do licitante vencedor serão examinados pelo pregoeiro. Caso o licitante não atenda às exigências previstas no edital com relação à qualificação, o pregoeiro analisará as ofertas subsequentes e a qualificação dos licitantes, respeitada a ordem de classificação, e assim sucessivamente, até a apuração de uma que atenda ao edital, declarando esse licitante o vencedor do certame. A fase de julgamento consiste, primeiramente, na apresentação de propostas por escrito, em sessão pública, pelos competidores. O licitante que apresentar a oferta de menor valor e os autores das ofertas com preços até dez por cento superiores àquela poderão fazer novos lances sucessivos, até a decisão do vencedor. Caso não existam pelo menos três propostas nessas condições, poderão os autores das melhores ofertas, até o máximo de três, apresentar novos lances sucessivos, quaisquer que sejam os preços anteriormente propostos. Tendo em vista seu caráter peculiar, o pregão confere maior celeridade e economia na aquisição de bens e serviços comuns pelo Estado. Por isso, deverá ser utilizada com mais frequência essa nova modalidade, pois poderá o administrador público optar pelo seu procedimento ao invés das chamadas modalidades comuns de licitação (concorrência, tomada de preços e convite). 6.5 Comissão de licitação Ressalvada a modalidade de pregão, as diversas fases que levam à escolha da proposta mais vantajosa são conduzidas por uma comissão permanente ou especial, composta por, no mínimo, três integrantes, sendo dois deles servidores qualificados pertencentes aos quadros permanentes dos órgãos da Administração Pública que estão realizando a licitação. Assim, a habilitação preliminar, a inscrição em registro cadastral, a sua alteração ou cancelamento, bem como as propostas serão processadas e julgadas por essa comissão (art. 51 da Lei nº 8.666/93). Conforme o art. 51, §4º, da Lei nº 8.666/93, a investidura dos mem- bros das comissões permanentes não poderá ultrapassar um ano, sendo proibida a recondução de todos os membros para a mesma comissão no período subsequente. Excepcionalmente, na hipótese de convite, a comissão poderá ser substituída por servidor formalmente designado, no caso de pequenas uni- dades administrativas e tendo em vista a exiguidade de pessoal disponível. Para julgamento dos pedidos de inscrição em registro cadas- tral, sua alteração ou cancelamento, a comissão será composta por marcos bittencourt6vol.indb 117 20/04/2015 21:20:34 118 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO profissionais legalmente habilitados no caso de obras, serviços ou aquisição de equipamentos. Apesar da discricionariedade que a autoridade competente detém para nomear os membros da comissão, não se permite a escolha de ser- vidores sem capacidade técnica para sua composição, seja para conferir a habilitação dos licitantes, seja para julgamento da melhor proposta. Marçal Justen Filho exemplifica tal situação: “Em suma, não se admite que a comissão de licitação para construção de uma hidrelétrica seja integrada por nutricionistas”.97 Todos os membros das comissões de licitação responderão soli- dariamente por todos os atos praticados pela comissão, salvo se posição individual divergente estiver devidamente fundamentada e registrada em ata lavrada na reunião em que tiver sido tomada a decisão (art. 51, §3º, da Lei nº 8.666/93). Na hipótese de concurso, o julgamento será feito por uma comissão especial integrada por pessoas de reputação ilibada e reconhecido conhe- cimento da matéria em exame, sejam servidores públicos ou não (art. 51, §5º, da Lei nº 8.666/93). 6.6 Homologação, anulação e revogação da licitação Após a decisão da proposta vencedora, caberá à autoridade com- petente efetuar um controle de todo o processo, verificando, por meio do seu poder de autotutela, a legalidade dos atos praticados e a permanência dos motivos que levaram ao desenvolvimento da licitação. Nesse sentido, ensina Edgar Guimarães: “De fato, três são as hipóteses neste ponto, ho- mologar o procedimento em face de sua regularidade formal e material, e da permanência dos motivos que ensejaram a abertura do certame, adjudicando o objeto na sequência, revogar o concurso licitacional em razão de fato superveniente e por motivos de interesse público ou, ainda, anulá-lo por ilegalidade”.98 Ressalte-se que a anulação e a revogação podem ocorrer a qualquer tempo, uma vez verificado motivo para tanto. O art. 49 da Lei nº 8.666/93 determina que a autoridade competentepara a aprovação do procedimento somente poderá revogar a licitação por motivos de interesse público decorrente de fato superveniente devidamente comprovado, pertinente e suficiente para justificar tal conduta. Exemplo de tal situação é a realização de uma licitação para serviço de reforma de 97 JUSTEN FILHO, Marçal. Comentários à Lei de Licitações e Contratos Administrativos: com comen- tários à MP 2.026, que disciplina o pregão. 7. ed. São Paulo: Dialética, 2000. p. 494. 98 GUIMARÃES, Edgar. Controle das licitações públicas. São Paulo: Dialética, 2002. p. 67. marcos bittencourt6vol.indb 118 20/04/2015 21:20:34 119CAPÍTULO 6LICITAÇÃO um antigo imóvel público. Durante o processo licitatório, ocorre um in- cêndio que destrói essa repartição. Tendo em vista esse infortúnio, caberá à autoridade competente revogar a licitação de reforma do bem, uma vez que não existe mais imóvel a ser restaurado. Acrescenta ainda esse mesmo artigo 49 que a autoridade competente deverá anular o processo licitatório por ilegalidade, de ofício ou por provoca- ção de terceiros, mediante parecer escrito e devidamente fundamentado. marcos bittencourt6vol.indb 119 20/04/2015 21:20:34 JulianoHeinen_ComentariosaLeideAcesso_1ed_jan14_MIOLO_GRAFICA.indd 2 24/01/2014 10:57:38 marcelop Texto digitado marcelop Texto digitado PÁGINA EM BRANCO marcelop Texto digitado CAPÍTULO 7 CONTRATOS ADMINISTRATIVOS 7.1 Introdução A noção de contrato refere-se a uma relação jurídica que surge de livre acordo de vontades em que as partes envolvidas se obrigam reci- procamente a prestações contrapostas, tornando-se “lei” o ajustado entre os contratantes. O entendimento majoritário na doutrina concebe que a Administração Pública pode celebrar contratos de direito privado e contratos administrativos. Os contratos de direito privado realizados pelo Poder Público regem-se basicamente pelos princípios de direito comum com relação ao seu conteúdo e efeitos, como um contrato de compra e venda de um veículo ou um contrato de locação. Quanto aos contratos administrativos, estes são regidos pelos princípios de direito público, como o contrato de concessão de serviço público e o contrato de obra pública. Apesar da intervenção de várias normas de direito público nos contratos de direito privado celebrados pelo Poder Público, isso não significa que estes perdem sua natureza privada. Tais normas, em regra, dizem respeito às sujeições a que o Estado está obrigado a res- peitar. Nesse aspecto, realmente, não há diferença entre os contratos administrativos e os contratos de direito privado firmados pelo Estado. O contrato administrativo, contudo, estará regido pelo direito público, uma vez que se submete ao regime jurídico administrativo, com suas prerrogativas e restrições. Neste caso, as prerrogativas sob a forma de cláusulas exorbitantes constituem a grande distinção existente entre contratos administrativos e contratos de direito privado firmados pela Administração Pública. Admite-se, entretanto, a aplicação supletiva de normas privadas, desde que congruentes com a natureza pública do instituto. marcos bittencourt6vol.indb 121 20/04/2015 21:20:34 122 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO 7.2 Conceito de contrato administrativo O contrato administrativo consiste em relação jurídica decorrente de acordo de vontades firmado pelo Estado, como autoridade, com pessoas jurídicas de direito privado ou de direito público, para o desenvolvimento de finalidades de interesse da coletividade, observando o regime jurídico de direito público. Caracteriza-se um contrato administrativo por ter como conteúdo a execução de um serviço público, pela existência de cláusulas exorbitantes ou por ser assim denominado pela própria lei. Como examinado em capítulo anterior, compete à União estabelecer normas gerais de licitação e contratação, em todas as modalidades, para as administrações públicas diretas, autárquicas e fundacionais da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, obedecendo-se ao disposto no art. 37, XXI, da Constituição Federal, e para as empresas públicas e sociedades de economia mista, nos termos do art. 173, §1º, III, também da Constituição Federal (art. 22, XXVII, da CF). Assim, a Lei nº 8.666/93, alterada pela Lei nº 8.883/94 e pela Lei nº 9.648/98, estabelece as normas gerais de contratação pelas esferas públicas. Não se pode esquecer, contudo, outros instrumentos legais que também tratam da matéria de contratos administrativos, como a Lei nº 8.987/95 que estabelece normas gerais de concessão e permissão de serviços públicos. 7.3 Características dos contratos administrativos Em virtude do impacto do regime jurídico administrativo, os con- tratos administrativos possuem características que, basicamente, ressaltam as distinções existentes entre estes e os contratos de direito privado. 7.3.1 Administração Pública em posição de supremacia A existência de cláusulas exorbitantes para proteção do interesse público garante ao Estado uma posição proeminente frente aos particu- lares. Essa posição especial da Administração Pública, no entanto, não confere um poder absoluto sobre o desenvolvimento do contrato, pois as prerrogativas deferidas não significam privilégios, mas apenas os poderes instrumentais necessários para o Estado realizar os seus fins. 7.3.2 Finalidade pública Toda a conduta do Estado deve se dirigir aos interesses públicos pri- mários, ou seja, interesses da coletividade. A finalidade pública, portanto, marcos bittencourt6vol.indb 122 20/04/2015 21:20:34 123CAPÍTULO 7CONTRATOS ADMINISTRATIVOS não é uma peculiaridade do contrato administrativo. Em todos os contratos celebrados pelo Estado, sejam administrativos ou de direito privado, existe o objetivo de alcançar a satisfação dos interesses públicos. Nos contratos administrativos, entretanto, há um cuidado maior para o atingimento da finalidade pública, mediante o exercício de certas prerrogativas pelo Poder Público. Não se trata apenas de interesses ego- ísticos nessa relação. Nas palavras de Caio Tácito: “A tônica do contrato se desloca da simples harmonia de interesses para a consecução de um fim de interesse público”.99 7.3.3 Forma prevista em lei Desde a realização de prévio processo de licitação, quando necessá- rio, até a forma específica como será celebrado o ajuste, há previsão legal das condições necessárias para a formalização dos contratos. Tais forma- lidades exigidas devem ser compreendidas antes de tudo como garantia do particular contratado e para permanente controle da legalidade e da moralidade da atuação administrativa. Assim, ressalvados alguns contratos de pequeno valor e pagamento imediato, em que se admite a forma verbal, todos os contratos administra- tivos devem ter a forma escrita (art. 60, parágrafo único, da Lei nº 8.666/93). Segundo o art. 62, o termo de contrato é obrigatório nos casos de con- corrência e de tomada de preços, bem como nas dispensas e inexigibilidades cujos preços estejam compreendidos nos limites destas duas modalidades de licitação, e facultativos nos demais em que a Administração Pública poderá utilizar carta-contrato, nota de empenho de despesa, autorização de compra ou ordem de execução de serviço. O art. 55 da Lei nº 8.666/93 prevê as cláusulas necessárias que devem constar do contrato de ordem regulamentar, como as que dizem respeito ao objeto e forma de execução, e as de ordem econômica ou financeiras, que tratam de preço e reajustes. Ainda segundo o art. 57, §3º, da Lei de Licitações e Contratos, é vedado o contrato por prazo indeterminado. 7.3.4 Contrato de adesão As cláusulas regulamentares são aquelas que tratam a respeito do objeto contratado e sua forma de execução, hipóteses de rescisão e respon-sabilidades das partes. O contrato administrativo se caracteriza por ser um 99 TÁCITO, Caio. Direito administrativo. São Paulo: Saraiva, 1975. p. 292. marcos bittencourt6vol.indb 123 20/04/2015 21:20:34 124 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO contrato de adesão, em virtude de que todas as cláusulas regulamentares ou de serviço são estabelecidas unilateralmente pelo Poder Público. O particular, ao participar da licitação ou ao contratar diretamente com o Estado, já tem conhecimento do conteúdo da execução do contrato administrativo, elaborado previamente pela Administração Pública. A questão a ser discutida antes da celebração do acordo, durante o processo licitatório, se resume, basicamente, às cláusulas econômicas ou financeiras que conferem o equilíbrio econômico-financeiro do contrato. 7.3.5 Natureza intuitu personae O contrato será celebrado exclusivamente com o particular escolhi- do, tendo em vista os seus requisitos pessoais, analisados objetivamente, em regra, durante a fase de habilitação do procedimento licitatório, quando houver licitação, ou mesmo numa contratação direta, nos casos de dispensa e inexigibilidade. Em decorrência dessa característica de pessoalidade, não se aceita a possibilidade de cessão ou sub-rogação no contrato administrativo, ressalvadas hipóteses previstas em lei e nas cláusulas contratuais. Assim, a subcontratação total ou parcial do objeto do ajuste, a associação do con- tratado com outrem, a cessão ou transferência, total ou parcial, e a fusão, cisão ou incorporação, não admitidas no edital e no contrato, consistem em motivos para rescisão do contrato (art. 78, VI, da Lei nº 8.666/93). 7.3.6 Cláusulas exorbitantes Para muitos, a principal peculiaridade dos contratos administrati- vos que os distinguem dos contratos de direito privado são as chamadas cláusulas exorbitantes. Essas cláusulas exorbitantes, implícitas no sistema ou explícitas na lei ou no contrato, conferem prerrogativas à Administração Pública, objetivando proteger o interesse da coletividade. Não são admitidas estas prerrogativas em contratos de direito comum, uma vez que haveria um desequilíbrio na relação firmada entre particulares que descaracterizaria o instituto. A exigência de garantia, a alteração unilateral, a rescisão unilateral, a fiscalização, as penalidades, as restrições ao uso da exceptio non adimpleti contractus são algumas das cláusulas exorbitantes que podem ser encontradas na Lei nº 8.666/93, independente de outras que podem ser exercidas, pois decorrem implicitamente da natureza do instituto, mesmo que não estejam expressamente previstas no contrato ou na lei, tendo em vista a própria necessidade da Administração Pública em ter à sua disposição tais instru- mentos de controle na execução dos contratos administrativos. marcos bittencourt6vol.indb 124 20/04/2015 21:20:35 125CAPÍTULO 7CONTRATOS ADMINISTRATIVOS Quanto à garantia, esta pode ser exigida, a critério da autoridade competente e desde que esteja prevista no edital ou na carta-convite, para contratações de obras, serviços e compras. Ao contratado caberá escolher dentre as seguintes espécies de garantia: caução em dinheiro ou títulos da dívida pública, seguro-garantia e fiança bancária. Tal garantia apresentada deverá ser devolvida após a execução do contrato e, se for feita em dinheiro, atualizada monetariamente. A fiscalização ocorre na execução dos contratos, por meio de repre- sentante da Administração, para fiel cumprimento do que foi ajustado. Com relação às penalidades administrativas, estas apenas podem ser aplicadas unilateralmente pela Administração pela inexecução total ou parcial do contrato, após a apresentação de defesa pelo contratado. As sanções de advertência, multa, suspensão temporária de participação em licitação e impedimento de contratar com a Administração, por prazo não superior a dois anos e declaração de inidoneidade para licitar ou contratar com a Administração Pública estão previstas no art. 87 da Lei nº 8.666/93. Nos contratos administrativos, há restrições ao uso da exceptio non adimpleti contractus. A “exceção de contrato não cumprido” significa que, existindo duas partes num contrato, uma não pode exigir o cumprimento da prestação devida pela outra, se não cumpriu a sua. Tendo em vista o interesse público que está em jogo, o particular contratado não pode deixar de executar a sua obrigação contratual, mesmo que o Estado não cumpra sua parte. A Lei nº 8.666/93, contudo, prevê no art. 78, XV, a possibilidade de o particular contratado optar pela rescisão do contrato ou pela suspensão do cumprimento de suas obrigações na hipótese de atraso superior a noventa dias dos pagamentos devidos pela Administração decorrentes de obras, serviços ou fornecimento ou parcelas destes, já recebidos ou executados, salvo em caso de calamidade pública, grave perturbação da ordem interna ou guerra. De qualquer forma, se o Poder Público não cumprir uma obrigação determinante para a execução do contrato, poderá o contratado suspender suas obrigações, até mesmo por uma impossibilidade de execução. Por exemplo, se para dar início às obras de construção de hospital público, o contratado tiver que aguardar a desapropriação de terreno particular pelo Estado. Por motivos de relevante interesse público devidamente justificados, é possível a rescisão unilateral pela Administração. O contratado será ressar- cido dos prejuízos que houver sofrido, tendo direito ainda à devolução da garantia, aos pagamentos devidos pela execução do contrato até a data da rescisão, bem como do pagamento do custo da desmobilização (art. 79, §2º, da Lei nº 8.666/93). marcos bittencourt6vol.indb 125 20/04/2015 21:20:35 126 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO À Administração Pública foi deferida a prerrogativa de mutabilidade unilateral que consiste em modificar unilateralmente os contratos adminis- trativos em prol dos interesses da coletividade, com a devida justificativa. No mesmo sentido, é possível a alteração unilateral por questões técnicas e quantitativas das cláusulas regulamentares pela Administração para melhor adequação às finalidades de interesse público (art. 58, I, da Lei nº 8.666/93). Em contrapartida, o contratado tem o direito ao resta- belecimento do equilíbrio econômico-financeiro inicialmente firmado, por aditamento (art. 65, §6º, da Lei nº 8.666/93). Tal poder de alteração, entretanto, é limitado. É inadmissível a substituição do objeto do contrato (aquisição de veículos ser substituída por serviços de limpeza e vigilância, por exemplo). Além disso, existem limites de ordem quantitativa. O contratado só está obrigado a aceitar os acréscimos e supressões que se fizerem nas obras, serviços ou compras até 25% do valor inicial atualizado do contrato, e, no caso particular de reforma de edifício ou de equipamento, até o limite de 50% para os seus acréscimos (art. 65, §1º, da Lei nº 8.666/93). 7.3.7 Mutabilidade Tal como o interesse público que busca proteger, o contrato admi- nistrativo, como visto, apresenta-se com a característica da mutabilidade. O contrato administrativo possui um conteúdo essencialmente dinâmico para assegurar o total atendimento do interesse público, permitindo mo- dificações para otimizar o resultado que se espera alcançar. Em decorrên- cia dessas alterações realizadas pela Administração, haverá o direito do contrato de manutenção do equilíbrio econômico. 7.4 Execução do contrato administrativo A execução do contrato deve ocorrer nos termos das cláusulas estabelecidas, respondendo cada uma das partes pelas consequências de sua inexecução. É obrigação do contratado reparar, corrigir, remover, reconstruir ou substituir, às suas custas, vícios, defeitos ou incorreções naexecução do objeto ou do material utilizado. Cabe ao contratado responder pelos encargos trabalhistas, pre- videnciários, fiscais e comerciais resultantes da execução do contrato. A responsabilidade pelo pagamento não é transferida à Administração pela inadimplência do contratado pelos encargos trabalhistas, fiscais e comer- ciais, nem poderá onerar o objeto do contrato ou restringir a regularização e o uso das obras e edificações, inclusive perante o Registro de Imóveis. marcos bittencourt6vol.indb 126 20/04/2015 21:20:35 127CAPÍTULO 7CONTRATOS ADMINISTRATIVOS Só cabe à Administração responder solidariamente com o contratado pelos encargos previdenciários resultantes da execução do contrato (art. 71, §§1º e 2º, da Lei nº 8.666/93). É possível a subcontratação de partes da obra, serviço ou fornecimento na execução do contrato, até o limite permitido pela Administração em cada caso. Se houver a prestação de obra, serviço ou fornecimento em descon- formidade com o previsto em cláusula contratual poderá o Poder Público rejeitar o objeto ajustado no todo ou em parte. Certos fatos supervenientes à celebração do contrato podem afetar a sua execução, acarretando uma recomposição da equação econômico- -financeira ou, até mesmo, a extinção do acordo. Para solucionar tais entraves foram criadas a teoria do fato do príncipe, a teoria do fato da Administração e a teoria da imprevisão. 7.4.1 Teoria do fato do príncipe O fato do príncipe ou factum principis é providência geral tomada pelo Estado, que atinge indiretamente o contrato administrativo, causando uma onerosidade extraordinária ao contratado. Nesse ato, o Estado age como autoridade pública, não como parte no contrato, bem como a circunstância apenas afeta reflexamente a relação jurídica. Exemplo normalmente men- cionado na doutrina é o aumento do tributo federal incidente sobre matéria- -prima necessária à execução do contrato administrativo no âmbito federal. O contratado terá direito à reposição ao equilíbrio econômico- -financeiro, conforme o art. 65, II, “d”, da Lei nº 8.666/93. 7.4.2 Teoria do fato da Administração O fato da Administração consiste em ação ou omissão do Estado como parte no contrato, que afeta diretamente o ajuste, impossibilitando a sua regular execução ou causando seu desequilíbrio econômico. Nesse sentido, o inciso XVI do art. 78 da Lei nº 8.666/93 que reza ser motivo para rescisão do contrato a “não liberação, por parte da Administração, de área, local ou objeto para execução de obra, serviço ou fornecimento, nos prazos contratuais, bem como das fontes de materiais naturais especificadas no projeto”. Um exemplo de fato da Administração ocorre quando o Poder Público não promove a desapropriação de imóvel particular para o início da construção de um hospital público. Caso o fato da Administração ocasione a quebra da equação econô- mico-financeira, terá o contratado direito à recomposição da mesma, nos termos do art. 65, II, “d”, da Lei nº 8.666/93. marcos bittencourt6vol.indb 127 20/04/2015 21:20:35 128 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO 7.4.3 Teoria da imprevisão Na hipótese de ocorrer um evento externo ao contrato, de ordem eco- nômica, estranho à vontade das partes, imprevisível, afetando extraordinariamente o equilíbrio estabelecido e impondo uma execução excessivamente onerosa para o contratado, poderá ocorrer a revisão do contrato para a sua adequação a essas novas circunstâncias, com base na chamada teoria da imprevisão. Corresponde a aplicação da cláusula rebus sic stantibus aos contratos administrativos. A cláusula rebus sic stantibus consiste na possibilidade de revisão dos termos do contrato, tendo em vista a alteração das circunstâncias de fato que levaram à celebração do ajuste. Desta forma, se os contratantes soubessem que a conjuntura seria alterada, teriam firmado o acordo em termos diferentes. No Direito Público, a teoria da imprevisão decorreu da jurisprudên- cia do Conselho de Estado francês que, em virtude da Primeira Guerra Mundial, deferiu vários pedidos de recomposição de contratos adminis- trativos dos concessionários de serviço público. A possibilidade de aplicação da teoria da imprevisão nos contratos administrativos também decorre do art. 65, II, “d”, da Lei nº 8.666/93. 7.4.4 Fatos imprevistos A doutrina cita ainda os chamados fatos imprevistos como hipó- teses de revisão da equação econômico-financeira. São circunstâncias ou situações que já preexistiam quando da celebração do contrato, mas que não eram previstas pelas partes, acarretando uma onerosidade maior para a realização do objeto ajustado. Demandam uma adequação nas cláusulas financeiras e nos prazos previstos anteriormente, com base também no art. 65, II, “d”, da Lei nº 8.666/93. Exemplo de fato imprevisto é a descoberta de um sítio arqueológico durante as escavações para a construção de um metrô. Para preservar o valor histórico e cultural desse achado, o projeto dessa obra deverá sofrer modificações. 7.5 Extinção do contrato administrativo O contrato administrativo pode ser extinto pela conclusão integral do objeto nos termos do estabelecido na avença, pelo encerramento do prazo determinado, pelo advento de força maior ou caso fortuito, e por rescisão (administrativa, amigável, judicial ou de pleno direito). Quando ocorre a entrega do objeto acertado ou termina o prazo fixado no acordo, não há maiores problemas quanto à extinção do ajuste. Nos demais casos, entretanto, em que o contrato administrativo é extinto sem o cumprimento do pactuado, certas questões podem ser levantadas. marcos bittencourt6vol.indb 128 20/04/2015 21:20:35 129CAPÍTULO 7CONTRATOS ADMINISTRATIVOS O art. 78, XVII, da Lei nº 8.666/93 prevê como hipótese de rescisão do contrato a ocorrência de caso fortuito ou de força maior, regularmente comprovada, impeditiva da execução do contrato. Caso fortuito e força maior consistem em fatos supervenientes, excepcionais e imprevisíveis, alheios à vontade das partes, que impossibili- tam o prosseguimento do contrato. Se for possível a execução do contrato, aplica-se a teoria da imprevisão para a recomposição das cláusulas finan- ceiras, caso seja impossível a continuação do acordo, ocorre a extinção do contrato administrativo. Como nem contratante nem contratado podem ser responsabilizados pela inexecução, o contrato resolve-se sem o dever de qualquer das partes indenizar a outra. A Lei nº 8.666/93, em seu art. 79, prevê três tipos de rescisão: unila- teral, amigável e judicial. No art. 78, XII, encontra-se a possibilidade de rescisão unilateral (administrativa) pela Administração, por motivo de interesse público. Nessa hipótese, como já visto, o contratado faz jus ao ressarcimento dos prejuízos. Rescisão amigável ou distrato é feita por acordo entre as partes e reduzida a termo, desde que haja conveniência para a Administração. Se haverá indenização ou não, depende do que for ajustado nesse momento. Normalmente, a rescisão judicial é requerida pelo contratado, já que este não pode paralisar a execução do contrato nem fazer a rescisão unila- teral, quando haja inexecução contratual pela Administração. Observe que a Administração não precisa ajuizar nenhum pedido ao Poder Judiciário, uma vez que o ordenamento jurídico concede o poder de rescindir unila- teralmente o contrato. Hely Lopes Meirelles menciona ainda a chamada rescisão de pleno direito “que se verifica independentemente de manifestação de vontade de qualquer das partes, diante da só ocorrência de fato extintivo do con- trato previsto na lei, no regulamento ou no próprio texto do ajuste, tais como o falecimento do contratado, a dissolução da sociedade, a falência da empresa, a insolvência civil, o perecimento do objeto contratado e de- mais eventos de efeitossemelhantes”.100 Pode existir ou não indenização, dependendo do que estiver previsto. 7.6 Contratos em espécie Diversos são os tipos de contratos administrativos realizados pela Administração Pública. Destacam-se, pela sua maior frequência, os se- guintes contratos: 100 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro, p. 223. marcos bittencourt6vol.indb 129 20/04/2015 21:20:35 130 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO Concessão de serviço público é contrato administrativo mediante o qual o Poder Público transfere a prestação de serviço público a particular para que este o explore em seu nome, por sua conta e risco, auferindo a remuneração, em regra, pela tarifa paga pelo usuário. Delega-se apenas a execução do serviço, mantendo o Estado a titularidade do mesmo. Concessão de obra pública é contrato administrativo mediante o qual o Poder Público transfere a particular execução de uma obra pública, de forma que o concessionário seja remunerado pela exploração da obra, por prazo determinado. Concessão de uso de bem público é contrato administrativo mediante o qual a Administração transfere o uso de bem público a particular para fina- lidades específicas como no caso de banca instalada em mercados públicos. Contrato de obra pública tem como objeto construção, reforma, fabrica- ção, recuperação ou ampliação de bem público à custa da Administração. Não há contrato firmado com particular na execução direta de obra pública, pois a própria Administração, por seus meios e agentes, realiza a atividade. Já na execução indireta de obra pública, existe um contrato entre particular e o Poder Público para a realização da obra mediante os seguintes regimes: a) empreitada por preço global – quando se contrata a execução da obra por preço certo e total; b) empreitada por preço unitário – quando se contrata a execução da obra por preço certo de unidades determinadas; c) tarefa – quando se ajusta mão-de-obra para pequenos trabalhos por preço certo, com ou sem fornecimento de materiais; d) empreitada integral – quando se contrata um empreendimento em sua in- tegralidade, compreendendo todas as etapas das obras, serviços e instalações necessárias, sob inteira responsabilidade da contratada até a sua entrega ao contratante em condições de entrada em operação, atendendo-se aos requisitos técnicos e legais para sua utilização em condições de segurança estrutural e ope- racional e com as características adequadas às finalidades para que foi contratada. Contrato de prestação de serviço consiste no acordo para obter deter- minada utilidade de interesse direto para a Administração referente a serviços comuns ou técnico-profissionais realizados por particulares, como serviços de limpeza e vigilância em repartições públicas. 7.7 Convênios e consórcios administrativos Convênio administrativo é um instrumento de cooperação mútua entre pessoas jurídicas da Administração Pública ou entre entidades particulares marcos bittencourt6vol.indb 130 20/04/2015 21:20:35 131CAPÍTULO 7CONTRATOS ADMINISTRATIVOS e o Poder Público. Para Hely Lopes Meirelles, convênios administrativos “são acordos firmados por entidades públicas de qualquer espécie, ou entre estas e organizações particulares, para realização de objetivos de interesse comum dos partícipes”.101 O convênio se caracteriza, portanto, pelos interesses comuns dos participantes, não opostos como nos contratos. Por sua vez, consórcios administrativos são ajustes entre entidades da Administração Pública da mesma espécie, para alcançar objetivos comuns. Conforme o art. 116 da Lei nº 8.666/93, as disposições desta lei são aplicadas aos convênios e outros instrumentos congêneres celebrados por órgãos e entidades da Administração, no que couber. 101 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro, p. 343. marcos bittencourt6vol.indb 131 20/04/2015 21:20:35 JulianoHeinen_ComentariosaLeideAcesso_1ed_jan14_MIOLO_GRAFICA.indd 2 24/01/2014 10:57:38 marcelop Texto digitado marcelop Texto digitado PÁGINA EM BRANCO marcelop Texto digitado CAPÍTULO 8 RESPONSABILIDADE EXTRACONTRATUAL DO ESTADO 8.1 Considerações iniciais A responsabilidade civil consiste no dever de reparação econômica de danos causados na esfera patrimonial de terceiros. Pode ser contratual ou extracontratual, caso seja estabelecida previamente num contrato ou não. Já se tratou a respeito da responsabilidade contratual do Estado quando se analisou o tema contratos administrativos. Cabe agora examinar a responsabilidade extracontratual do Poder Público. O Estado, como pessoa jurídica de direito público, pode ser respon- sabilizado extracontratualmente em virtude de prejuízo causado a terceiros por atos e omissões de seus agentes. A responsabilidade extracontratual do Estado corresponde à obri- gação de o Poder Público recompor prejuízos causados a particulares, mediante indenização em dinheiro, em decorrência de ações ou omissões, comportamentos materiais ou jurídicos, lícitos ou ilícitos, imputáveis aos agentes públicos no exercício de suas funções. Importante salientar que mesmo atos lícitos praticados por agentes do Estado, caso ocasionem prejuízos ao patrimônio de particulares, impli- cam em responsabilidade do Poder Público. Nesse sentido, Mário Diney Corrêa Bittencourt sustenta que “a legalidade do ato do servidor e mesmo o seu empenho louvável não excluem a indenizabilidade pelo Estado do dano sofrido pelo particular”.102 Como exemplo de ato lícito que acarreta o dever de indenizar para o Poder Público, Diogenes Gasparini apresen- ta a construção de um calçadão que interessa à coletividade, contudo 102 Cf. BITTENCOURT, Mário Diney Corrêa. Responsabilidade civil do Estado por danos decor- rentes da intranqüilidade pública. Revista dos Tribunais, v. 78, n. 649, p. 30-44, nov. 1989. marcos bittencourt6vol.indb 133 20/04/2015 21:20:35 134 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO impede a utilização de um prédio construído e normalmente utilizado como garagem. Indaga-se a respeito da possibilidade do exercício das funções le- gislativas e judiciais acarretarem a responsabilidade estatal. Embora predomine o entendimento da irresponsabilidade do Estado por danos decorrentes de atos legislativos por inúmeros fundamentos (ser o Poder Legislativo soberano; expedição de normas gerais e abstra- tas que oneram igualmente todos os cidadãos, nas mesmas situações; impossibilidade de responsabilizar os parlamentares eleitos pela própria comunidade),103 o Supremo Tribunal Federal tem admitido que, uma vez comprovado que a lei inconstitucional causou prejuízo ao cidadão, é pos- sível responsabilizar o Estado (RDA 189/305 e 191/175). Para Diogo de Figueiredo Moreira Neto, também a omissão legis- lativa pode acarretar a responsabilidade patrimonial do Estado, conforme decisões do STF neste sentido, em processos de mandado de injunção, em que tem fixado um prazo para que o direito garantido constitucionalmente do impetrante seja regulamentado pelo Congresso Nacional, casos em que a falta de regulamentação do direito, no prazo assinado, acarreta mora do Congresso, cabendo a União arcar com os danos dela decorrentes.104 Da mesma forma, apesar da jurisprudência acolher o entendimento de que o Estado não é responsável por prejuízos em virtude de atos judiciais e pela quantidade de argumentos nesse sentido (ser o Poder Judiciário soberano; atuação independente dos juízes; magistrado não é servidor administrativo; ofensa ao princípio da imutabilidade da coisa julgada),105 a Constituição Federal é clara ao prever no art. 5º, LXXV, que “o Estado indenizará o condenado por erro judiciário, assim como o que ficar preso além do tempo fixado na sentença”. Segundo Diogo de FigueiredoMoreira Neto, o Estado também pode ser levado a responder pelos danos decorrentes da prisão preventiva, na hipótese de posterior absolvição do acusado, uma vez que o princípio da dignidade humana ficaria, assim, vulnerado pela medida acautelatória penal sem causa (art. 1º, III, da CF).106 8.2 Evolução Numa primeira fase, imperou a chamada teoria da irresponsabilidade do Estado, principalmente nas monarquias absolutistas, fundada numa 103 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 519. 104 MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Curso de direito administrativo: parte introdutória, parte geral, parte especial, p. 580. 105 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 521. 106 MOREIRA NETO l, parte especial, p. 581. marcos bittencourt6vol.indb 134 20/04/2015 21:20:35 135CAPÍTULO 8RESPONSABILIDADE EXTRACONTRATUAL DO ESTADO ideia de soberania enquanto autoridade sem possibilidade de contestação pelo súdito. As expressões the king can do no wrong e le roi ne peut mal faire são bem representativas desta época. Essa teoria da irresponsabilidade estatal nunca foi admitida no Brasil. Já numa segunda fase, passou-se a entender a possibilidade de responsabilização do Estado, por meio das teorias civilistas, ou seja, com base em princípios do Direito Civil, apoiados na noção de culpa. Numa primeira etapa de transição da total irresponsabilidade do Estado para uma forma de responsabilização com base no Direito Privado, partiu-se da divisão entre atos de império e atos de gestão. O Estado, ao atuar em posição de igualdade com os particulares exercendo atos de gestão, poderia ser responsabilizado, por meio de aplicação de princípios de Direito Civil. Caso estivesse numa posição de supremacia, editando atos de império com todas as prerrogativas de autoridade, seria regido por um direito especial, exorbitante do direito comum, e, assim, não teria o dever de reparar dano causado a outrem. Foi muito criticada essa visão de um “Estado esquizofrênico”, pois não se compreende possível dividir a personalidade do Estado, bem como, na prática, separar os atos de império dos atos de gestão. Ainda nesta fase civilista da responsabilidade estatal, nasceu a teoria da culpa civil ou da responsabilidade subjetiva. O Estado seria responsável pelos atos de seus agentes, desde que demonstrada a culpa. A maior parte da doutrina entende que esta teoria da responsabilidade subjetiva inspirou o art. 15 do Código Civil Brasileiro de 1916 ao estabelecer que: “As pessoas jurídicas de direito público são civilmente responsáveis por atos dos seus representantes que nessa qualidade causem danos a terceiros, procedendo de modo contrário ao direito ou faltando a dever prescrito por lei, salvo o direito regressivo contra os causadores do dano”. A partir do famoso arrêt Blanco, em 1873, decidido pela jurispru- dência francesa, estabeleceu-se o entendimento de que o Estado teria realmente o dever de reparar danos causados na esfera patrimonial de terceiros, mas com fundamento em princípios de Direito Público (teorias publicistas). Nesse caso, a menina Ágnes Blanco foi colhida por uma composição ferroviária da Companhia Nacional Manufatureira do Fumo do Estado francês. Em virtude de uma ação de indenização, surgiu um conflito de competência sobre qual seria o tribunal competente para julgar esse feito, uma vez que as questões referentes ao Estado eram julgadas por um tribunal administrativo com função jurisdicional (contencioso administrativo), enquanto as questões entre particulares passavam pelo crivo do Poder Judiciário (jurisdição comum). O Tribunal de Conflitos francês decidiu que caberia ao tribunal administrativo a competência dessa questão, tendo em vista que a responsabilidade do Estado não poderia ser regida por princípios do Código Civil. marcos bittencourt6vol.indb 135 20/04/2015 21:20:35 136 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO Atualmente, existem duas teorias publicistas principais: a teoria da culpa do serviço e a teoria do risco. A teoria da culpa do serviço ou da culpa administrativa desvincula a responsabilidade do Estado da ideia de culpa do funcionário, passando a entender como centro da responsabilidade do Estado a culpa do serviço público. Esta culpa anônima do serviço público compreende três formas, estabelecidas na jurisprudência do Conselho de Estado francês: quando o serviço prestado não funcionou (culpa in omittendo), funcionou mal (culpa in committendo) ou funcionou tardiamente. Caberia ao particular comprovar a culpa (faute) do serviço, para responsabilizar o Estado, sem a necessidade de apreciar a culpa do agente público. A teoria do risco traz uma responsabilidade objetiva do Estado, sem se questionar se houve dolo ou culpa. O fundamento dessa teoria é o princípio de igualdade dos ônus e encargos sociais, ou seja, os benefícios e prejuízos devem ser repartidos igualmente entre os membros da sociedade. A noção de culpa das teorias anteriores é substituída pela ideia de nexo de causalidade entre a conduta do Estado e o prejuízo sofrido pelo particular. A teoria da responsabilidade objetiva prescinde, deste modo, dos elementos subjetivos dolo ou culpa. Chamada de teoria do risco, tendo em vista que parte da ideia de que a atuação estatal envolve sempre um risco de dano. Segundo as palavras de Hely Lopes Meirelles, essa teoria “baseia-se no risco que a atividade pública gera para os administrados e na possibilidade de acarretar dano a certos membros da comunidade, impondo-lhes um ônus não suportado pelos demais. Para compensar essa desigualdade indivi- dual, criada pela própria Administração, todos os outros componentes da coletividade devem concorrer para a reparação do dano, através do erário, representado pela Fazenda Pública. O risco e a solidariedade social são, pois, os suportes desta doutrina, que, por sua objetividade e partilha dos encargos, conduz à mais perfeita justiça distributiva, razão pela qual tem merecido o acolhimento dos Estados modernos, inclusive o Brasil, que a consagrou pela primeira vez no art. 194 da CF de 1946”.107 Para Hely Lopes Meirelles, a teoria do risco divide-se em risco ad- ministrativo e risco integral.108 No caso do risco administrativo, apesar de existir uma responsabilida- de objetiva do Poder Público, são admissíveis situações excludentes ou ate- nuantes da responsabilidade estatal como a culpa da vítima ou força maior. Na teoria do risco integral, por sua vez, sempre o Estado teria o dever de reparar, não importando se houve alguma responsabilidade da vítima. Essa teoria, entretanto, nunca foi aceita pela doutrina e jurispru- dência brasileira. 107 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro, p. 532. 108 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro, p. 532-533. marcos bittencourt6vol.indb 136 20/04/2015 21:20:35 137CAPÍTULO 8RESPONSABILIDADE EXTRACONTRATUAL DO ESTADO 8.3 Responsabilidade do Estado no Brasil A Constituição Federal de 1988, seguindo uma tradição estabele- cida desde a Constituição Federal de 1946, determinou, em seu art. 37, §6º, a responsabilidade objetiva do Estado e responsabilidade subjetiva do funcionário. Art. 37. [...] §6º As pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa. Para ocorrer a responsabilidade objetiva são exigidos os seguintes requisitos: (a) pessoa jurídica de direito público ou de direito privado prestadora de serviço público; (b) entidades prestem serviço público; (c) dano causado a terceiro em decorrência da prestação de serviço público (nexo de causalidade); (d) dano causado por agente,de qualquer tipo; (e) agente aja nessa qualidade, no exercício de suas funções. Verifica-se desde já que não apenas pessoas jurídicas que pertencem à Administração Pública são responsabilizadas objetivamente por danos causados por seus agentes, mas também entidades particulares como concessionárias e permissionárias de serviço público também respondem objetivamente por prejuízos a particulares. Nessa mesma linha, esse dispositivo constitucional (art. 37, §6º) não incide sobre as pessoas administrativas da Administração Indireta que exploram atividade econômica. Assim, no caso de empresas públicas e sociedades de economia mista que não prestam serviços públicos, devem ser aplicados os princípios de responsabilidade civil próprios do Direito Privado. Em que pese a aplicação da teoria da responsabilidade objetiva ser adotada pela Constituição Federal, o Poder Judiciário, em determinados julgamentos, utiliza a teoria da culpa administrativa para responsabilizar o Estado em casos de omissão. Assim, a omissão na prestação de serviço público tem levado à aplicação da teoria da culpa do serviço público (faute du service). A culpa decorreu da omissão do Estado, quando este deveria ter agido. Por exemplo, o Poder Público não conservou adequadamente as rodovias e ocorreu um acidente automobilístico com terceiros. 8.4 Reparação do dano Quanto à reparação do dano, esta pode ser obtida administrativa- mente ou mediante ação de indenização junto ao Poder Judiciário. Para marcos bittencourt6vol.indb 137 20/04/2015 21:20:35 138 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO conseguir o ressarcimento do prejuízo, a vítima deverá demonstrar o nexo de causalidade entre o fato lesivo e o dano, bem como o valor do prejuízo. Uma vez indenizada a vítima, fica a pessoa jurídica com o direito de regresso contra o responsável, isto é, com o direito de recuperar o valor da indenização junto ao agente que causou o dano, desde que este tenha agido com dolo ou culpa. Na hipótese de servidor estatutário federal, a Lei nº 8.112/90 estabelece que, em caso de dano a terceiros, o servidor responderá perante a Fazenda Pública, em ação regressiva (art. 122, §2º). Essa obrigação de reparar o dano estende-se aos sucessores e contra eles será executada, até o limite do valor da herança recebida (art. 122, §3º). Observe-se que não está sujeito a prazo prescricional a ação regressi- va contra o agente público que agiu com dolo ou culpa para a recuperação dos valores pagos pelos cofres públicos, conforme inteligência do art. 37, §5º, da Constituição Federal: “A lei estabelecerá os prazos de prescrição para ilícitos praticados por qualquer agente, servidor ou não, que causem prejuízos ao erário, ressalvadas as respectivas ações de ressarcimento”. 8.5 Hipóteses excludentes e atenuantes da responsabilidade estatal A responsabilidade do Poder Público não existirá ou será atenuada quando a conduta da Administração Pública não der causa ao prejuízo ou concorrerem outras circunstâncias que possam afastar ou mitigar sua responsabilidade. Em geral, são chamadas causas excludentes da responsabilidade estatal a força maior e a culpa exclusiva da vítima. Nestes casos, não exis- tindo nexo de causalidade entre a conduta da Administração e o dano ocorrido, a responsabilidade estatal será afastada. Numa hipótese de força maior, ou seja, de um acontecimento ex- cepcional e imprevisível, alheio à vontade do Estado, como um raio que incendeia uma casa, não cabe responsabilizar o Poder Público pelo sinistro ocorrido. Existe, entretanto, a possibilidade de responsabilizar o Estado, mesmo na ocorrência de uma circunstância de força maior, desde que a vítima comprove o comportamento culposo da Administração Pública. Por exemplo, num primeiro momento, uma enchente que causou danos a particulares pode ser entendida como uma hipótese de força maior e afastar a responsabilidade estatal, contudo, se o particular comprovar que os bueiros entupidos concorreram para o incidente, o Estado também responderá, pois a prestação do serviço de limpeza pública foi deficiente. Ensina Maria Sylvia Zanella Di Pietro que “na hipótese de caso fortuito, em que o dano seja decorrente de ato humano, de falha da marcos bittencourt6vol.indb 138 20/04/2015 21:20:35 139CAPÍTULO 8RESPONSABILIDADE EXTRACONTRATUAL DO ESTADO Administração, não ocorre exclusão; quando se rompe, por exemplo, uma adutora ou um cabo elétrico, causando dano a terceiros, não se pode falar em força maior”.109 Nos casos em que está presente a culpa da vítima, duas situações podem surgir: a) o Estado não responde, desde que comprove que houve culpa exclusiva do lesado; b) o Estado responde parcialmente, se demonstrar que houve culpa con- corrente do lesado para a ocorrência do dano. Observe-se que cabe ao Poder Público o ônus de provar a culpa da vítima ou a existência de força maior. 109 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo, p. 518. marcos bittencourt6vol.indb 139 20/04/2015 21:20:35 JulianoHeinen_ComentariosaLeideAcesso_1ed_jan14_MIOLO_GRAFICA.indd 2 24/01/2014 10:57:38 marcelop Texto digitado marcelop Texto digitado PÁGINA EM BRANCO marcelop Texto digitado CAPÍTULO 9 CONTROLE DOS ATOS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 9.1 Introdução Da análise do regime jurídico administrativo, verificou-se que determi- nados valores, consubstanciados em princípios, norteiam toda a conduta da Administração Pública, para que esta gerencie adequadamente os interesses que estão sob sua guarda. Para que esses princípios não sejam violados, os órgãos dos Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário detêm função perma- nente de verificação e correção das atividades desempenhadas pelo Estado. Faz-se necessário enfatizar também a fiscalização efetuada pelo Ministério Público (art. 127 da CF), a quem incumbe, dentre inúmeras funções, promover o inquérito civil e a ação civil pública para proteção do patrimônio público e social, bem como de outros interesses difusos e coletivos (art. 129 da CF). Finalmente não se pode esquecer o importante papel do cidadão no controle das decisões tomadas pelo Poder Público. O controle popular, para muitos, é ainda o mais eficiente na defesa dos interesses públicos. 9.2 Tipos de controle Na doutrina, vários critérios podem ser estabelecidos para analisar e com- preender o controle dos atos da Administração Pública. Dentre eles, destacam- -se os aspectos referentes ao órgão que exerce o controle, ao momento de sua realização, à posição do órgão que controla e ao conteúdo do ato controlado. 9.2.1 Quanto ao órgão controlador O controle pode ser administrativo, legislativo ou judicial, depen- dendo da função desempenhada pelo órgão que exerce a fiscalização. Mais adiante será analisada essa classificação. marcos bittencourt6vol.indb 141 20/04/2015 21:20:35 142 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO 9.2.2 Quanto ao momento de realização O controle prévio (a priori) é o controle preventivo que visa a impedir a expedição de ato ilegal ou contrário ao interesse público. Exemplo de con- trole prévio ocorre na competência privativa do Senado ao aprovar previa- mente, por voto secreto, após arguição pública, a escolha de magistrados, nos casos estabelecidos na Constituição Federal; Ministros do Tribunal de Contas da União indicados pelo Presidente da República; Governador de Território; Presidente e Diretores do Banco Central; Procurador-Geral da República ou titulares de outros cargos que a lei determinar (art. 52, III, da Constituição Federal). O controle concomitante é aquele que exercido ao mesmo tempo em que se realiza a atividade, como no caso da celebração de um contrato administrativo. O controle posterior (a posteriori) é o quebusca adaptar os atos já expedidos ao interesse público ou ao ordenamento jurídico mediante revogação, anulação ou convalidação, ou ainda confirmar a sua validade como, por exemplo, na anulação ou homologação de um resultado final de concurso público. 9.2.3 Quanto à posição do órgão controlador O controle interno representa aquele que cada um dos Poderes efetua sobre sua própria atividade administrativa. O sistema de controle interno dos Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário previsto no art. 74 da Constituição Federal representa manifestação desse controle interno. O controle hierárquico, baseado na distribuição e escalonamento de competências entre os diversos órgãos e agentes dentro de uma pessoa jurídica da Administração Pública, visando a orientar, coordenar e fis- calizar a atividade administrativa, também se enquadra como forma de controle interno. O controle externo pode ser examinado sob dois aspectos: (a) quando um dos Poderes realiza sobre os atos do outro; ou (b) o controle finalístico110 da Administração Pública Direta sobre as pessoas jurídicas que compõem a Administração Indireta. Diferente do controle hierárquico que ocorre automaticamente dentro da estrutura interna das pessoas jurídicas, o controle finalístico é limitado nos estritos termos da lei e diz respeito apenas aos atos expressamente nela indicados. Consoante Hely Lopes Meirelles, não existe no controle finalístico “fundamento hierárquico, porque não há subordinação entre a entidade 110 Também denominado “tutela”, principalmente pela doutrina alienígena. marcos bittencourt6vol.indb 142 20/04/2015 21:20:35 143CAPÍTULO 9CONTROLE DOS ATOS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA controlada e a autoridade ou o órgão controlador. É um controle teleoló- gico, de verificação do enquadramento da instituição no programa geral do Governo e de seu acompanhamento dos atos de seus dirigentes no de- sempenho de suas funções estatutárias, para o atingimento das finalidades da entidade controlada”.111 9.2.4 Quanto ao conteúdo do ato controlado O controle de legalidade ou legitimidade é aquele exercido por todos os Poderes para examinar a validade de seus atos realizados em decorrência da função administrativa perante o estabelecido no ordenamento jurídico. O controle de mérito, por sua vez, consiste na apreciação subjetiva quanto à conveniência e oportunidade nas decisões tomadas pelo Estado, em face do interesse público. 9.3 Controle administrativo O controle administrativo corresponde ao exame que a Administração Pública faz sobre sua conduta, quanto à legalidade ou ao mérito de seus atos. Pode ser realizado de ofício ou mediante provocação do interessado. Engloba tanto os órgãos da Administração Direta como as entidades que integram a Administração Indireta. O controle administrativo sobre os atos realizados pelos órgãos da Administração Direta consiste num controle interno, que tem como fun- damento o chamado dever de autotutela que incumbe à Administração Pública homologar ou rever os próprios atos, quando ilegais, inoportunos ou inconvenientes. Nesse sentido, a Súmula nº 473 do Supremo Tribunal Federal enuncia: “A Administração pode anular seus próprios atos, quan- do eivados de vícios que os tornem ilegais, porque deles não se originam direitos; ou revogá-los, por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos, e ressalvada, em todos os casos, a apreciação judicial”. A Lei nº 9.784/99, que trata do processo administrativo no âmbito federal, também prescreve, no seu art. 53, que “A Administração deve anular seus próprios atos, quando eivados de vício de legalidade, e pode revogá-los por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos”. Cabe relembrar ainda o instituto da convalidação tratado no art. 55 da Lei nº 9.784/99: “Em decisão na qual se evidencie não acarretarem lesão 111 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro, p. 546. marcos bittencourt6vol.indb 143 20/04/2015 21:20:35 144 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO ao interesse público nem prejuízo a terceiros, os atos que apresentarem defeitos sanáveis poderão ser convalidados pela própria Administração”. Já o controle administrativo sobre as entidades da Administração Indireta, também denominado de tutela, consiste num controle externo efetuado pela Administração Direta, visando a impedir que a autarquia, fundação pública, empresa pública ou sociedade de economia mista se desviem dos objetivos previstos na lei específica que as criou ou instituiu. Só pode ser exercido nos estritos limites estabelecidos em lei, sob pena de violar a autonomia conferida a essas pessoas administrativas. Conforme prevê o art. 26 do Decreto-Lei nº 200/67, a supervisão ministerial sobre a Administração Indireta busca, basicamente, garantir a realização dos objetivos fixados nos atos de constituição da entidade; harmonia com a política e a programação do Governo; a eficiência adminis- trativa e a autonomia administrativa, operacional e financeira da entidade. 9.3.1 Ouvidoria As ouvidorias funcionam como instrumentos de controle dos órgãos e entidades da Administração Pública, constituindo um canal de acesso dos membros da coletividade, verdadeiros titulares dos interesses públicos, às autoridades administrativas. A sociedade, dessa maneira, conta com mais uma forma de manifestação do controle popular, por muitos considerado o mais eficiente dos controles. O ouvidor, também chamado de ombudsman, possui características semelhantes a certos órgãos encontrados também em países europeus, como o defensor del pueblo da Espanha ou o defensor cívico regional da Itália, possibilitando maior efetividade ao exercício do direito consti- tucional de petição. A partir do momento em que passa a existir uma unidade administrativa preparada para receber, analisar e processar as representações formuladas pela população, mais célere e eficaz será a resposta dada pelo organismo estatal. O termo ombudsman surgiu na Suécia, em 1713, quando o Rei Charles XII instituiu um representante para examinar as atividades do Reino e informar as irregularidades encontradas ao soberano. Saliente-se que, para se desincumbir a contento do seu relevante mister, esse órgão ou agente público deve ser dotado de autonomia administrativa e garantias para investigar com desembaraço os abusos cometidos pelos administradores públicos contra os administrados. Por exemplo, o artigo 4º da Portaria nº 767 do Ministério da Justiça determina que o ouvidor eleitoral da Polícia Federal é independente e que não poderá ser filiado a partido político nem possuir vínculo com a Polícia Federal, condições necessárias para preservar a imparcialidade desse agente no exercício de suas atribuições. marcos bittencourt6vol.indb 144 20/04/2015 21:20:35 145CAPÍTULO 9CONTROLE DOS ATOS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 9.4 Controle legislativo O controle legislativo representa a fiscalização perpetrada pelas corporações legislativas das diversas esferas públicas (Congresso Nacional, Assembleias Estaduais e Câmaras de Vereadores) e pelos respectivos Tribunais de Contas, órgãos auxiliares do Poder Legislativo, sobre os atos do Poder Executivo, atos administrativos do Poder Judiciário e das pessoas jurídicas da Administração Indireta. O controle legislativo pode ser de natureza política ou financeira. São exemplos de hipóteses do controle político previstas nos incisos do art. 49 da Constituição Federal a competência do Congresso Nacional para: a) resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional; b) autorizar o Presidente da República a declarar guerra, a celebrar a paz, a permitir que forças estrangeiras transitempelo território nacional ou nele permaneçam temporariamente, ressalvados os casos previstos em lei complementar; c) autorizar o Presidente e o Vice-Presidente da República a se ausentarem do País, quando a ausência exceder a quinze dias; d) aprovar o estado de defesa e a intervenção federal, autorizar o estado de sítio, ou suspender qualquer uma dessas medidas; e) sustar os atos normativos do Poder Executivo que exorbitem do poder regulamentar ou dos limites de delegação legislativa; f) apreciar os atos de concessão e renovação de concessão de emissoras de rádio e televisão; g) aprovar iniciativas do Poder Executivo referentes a atividades nucleares; h) autorizar, em terras indígenas, a exploração e o aproveitamento de re- cursos hídricos e a pesquisa e lavra de riquezas minerais; i) aprovar, previamente, a alienação ou concessão de terras públicas com área superior a dois mil e quinhentos hectares. A Câmara dos Deputados e o Senado Federal, ou qualquer de suas comissões, poderão convocar Ministros de Estado ou quaisquer titulares de órgãos diretamente subordinados à Presidência da República para prestarem, pessoalmente, informações sobre assunto previamente deter- minado, importando crime de responsabilidade a ausência sem justifica- ção adequada. As Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal marcos bittencourt6vol.indb 145 20/04/2015 21:20:35 146 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO poderão encaminhar pedidos escritos de informações a Ministros de Estado ou a qualquer das pessoas referidas no caput do artigo 50, importando em crime de responsabilidade a recusa, ou a falta de atendimento, no prazo de trinta dias, bem como a prestação de informações falsas (art. 50, caput e §2º, da CF). Com relação ao Senado, salientam-se algumas hipóteses de controle legislativo: a) processar e julgar o Presidente e o Vice-Presidente da República nos crimes de responsabilidade, bem como os Ministros de Estado e os Comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica nos crimes da mesma natureza conexos com aqueles; b) processar e julgar os Ministros do Supremo Tribunal Federal, o Procurador-Geral da República e o Advogado-Geral da União nos crimes de responsabilidade; c) autorizar operações externas de natureza financeira, de interesse da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e dos Municípios; d) fixar, por proposta do Presidente da República, limites globais para o montante da dívida consolidada da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios; e) dispor sobre limites globais e condições para as operações de crédito exter- no e interno da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, de suas autarquias e demais entidades controladas pelo Poder Público federal; f) dispor sobre limites e condições para a concessão de garantia da União em operações de crédito externo e interno; g) estabelecer limites globais e condições para o montante da dívida mobi- liária dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Nas duas primeiras hipóteses mencionadas, que tratam do julga- mento de autoridades pelo cometimento de crime de responsabilidade, funcionará como Presidente o do Supremo Tribunal Federal, limitando-se a condenação, que somente será proferida por dois terços dos votos do Senado Federal, à perda do cargo, com inabilitação, por oito anos, para o exercício de função pública, sem prejuízo das demais sanções judiciais cabíveis. Quanto ao aspecto financeiro, esse controle está previsto no art. 70 ao art. 75 da Constituição Federal. A fiscalização contábil, financeira, orçamentária, operacional e pa- trimonial da União e das entidades da Administração Direta e Indireta, quanto à legalidade, legitimidade, economicidade (relação custo-benefício), marcos bittencourt6vol.indb 146 20/04/2015 21:20:35 147CAPÍTULO 9CONTROLE DOS ATOS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA aplicação das subvenções e renúncia de receitas, será exercida pelo Congresso Nacional, mediante controle externo, e pelo sistema de controle interno de cada Poder (art. 70 da CF). A prestação de contas cabe a qualquer pessoa física ou jurídica, pública ou privada, que utilize, arrecade, guarde, gerencie ou administre dinheiros, bens e valores públicos ou pelos quais a União responda, ou que, em nome desta, assuma obrigações de natureza pecuniária (parágrafo único do art. 70 da CF). O controle externo, quanto à fiscalização contábil, financeira e orça- mentária, no âmbito federal, será exercido pelo Congresso Nacional, com o auxílio do Tribunal de Contas da União. 9.4.1 Tribunal de Contas Como órgão técnico e auxiliar do Poder Legislativo, o Tribunal de Contas da União é composto por nove Ministros e possui competência em todo o território nacional. Seus membros são nomeados dentre brasileiros de idoneidade moral e reputação ilibada, de notórios conhecimentos jurídicos, contábeis, econômicos e financeiros ou de administração pública, com mais de trinta e cinco anos e menos de sessenta e cinco anos de idade e com mais de dez anos de exercício de função e de efetiva atividade profissional correspon- dentes às especialidades mencionadas. Um terço dos seus membros são escolhidos pelo Presidente da República, com aprovação do Senado, sendo dois alternadamente dentre auditores e membros do Ministério Público junto ao Tribunal, indicados em lista tríplice pela própria Corte, segundo os critérios de antiguidade e merecimento. O Congresso Nacional escolhe os outros dois terços. Aos Ministros conferem-se as mesmas garantias e prerrogativas dos Ministros do Superior Tribunal de Justiça e apenas poderão aposentar-se com as vantagens oriundas de seus cargos após o efetivo exercício de suas funções por mais de cinco anos. São competências do Tribunal de Contas da União (art. 71 da CF): I - apreciar as contas prestadas anualmente pelo Presidente da República, mediante parecer prévio que deverá ser elaborado em sessenta dias a contar de seu recebimento;112 II - julgar as contas dos administradores e demais responsáveis por dinhei- ros, bens e valores públicos da administração direta e indireta, incluídas as 112 Observe-se que o Tribunal de Contas da União apenas aprecia as contas anuais do Presidente, mas compete exclusivamente ao Congresso Nacional julgar anualmente as contas prestadas pelo Presidente da República (art. 49, IX, da CF). marcos bittencourt6vol.indb 147 20/04/2015 21:20:36 148 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO fundações e sociedades instituídas e mantidas pelo Poder Público federal, e as contas daqueles que derem causa a perda, extravio ou outra irregula- ridade de que resulte prejuízo ao erário público; III - apreciar, para fins de registro, a legalidade dos atos de admissão de pessoal, a qualquer título, na Administração Direta e Indireta, incluídas as fundações instituídas e mantidas pelo Poder Público, excetuadas as nomea ções para cargo de provimento em comissão, bem como a das concessões de aposentadorias, reformas e pensões, ressalvadas as melhorias posteriores que não alterem o fundamento legal do ato concessório; IV - realizar, por iniciativa própria, da Câmara dos Deputados, do Senado Federal, de Comissão técnica ou de inquérito, inspeções e auditorias de natureza contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial, nas unidades administrativas dos Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, e demais entidades referidas no item II; V - fiscalizar as contas nacionais das empresas supranacionais de cujo capital social a União participe, de forma direta ou indireta, nos termos do tratado constitutivo; VI - fiscalizar a aplicação de quaisquer recursos repassados pela União mediante convênio, acordo, ajuste ou outros instrumentos congêneres, a Estado,ao Distrito Federal ou a Município; VII - prestar as informações solicitadas pelo Congresso Nacional, por qualquer de suas Casas, ou por qualquer das respectivas comissões, sobre a fiscalização contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial e sobre resultados de auditorias e inspeções realizadas; VIII - aplicar aos responsáveis, em caso de ilegalidade de despesa ou irre- gularidade de contas, as sanções previstas em lei, que estabelecerá, entre outras cominações, multa proporcional ao dano causado ao erário; IX - assinar prazo para que o órgão ou entidade adote as providências necessárias ao exato cumprimento da lei, se verificada ilegalidade; X - sustar, se não atendido, a execução do ato impugnado, comunicando a decisão à Câmara dos Deputados e ao Senado Federal; XI - representar ao Poder competente sobre irregularidades ou abusos apurados. Quando se prevê que o Tribunal de Contas da União “julga” as contas dos administradores e de todos aqueles responsáveis por valores públicos, não se está falando de atividade jurisdicional. As decisões to- madas por esse órgão técnico têm natureza administrativa e, desta forma, podem passar pelo crivo do Poder Judiciário. marcos bittencourt6vol.indb 148 20/04/2015 21:20:36 149CAPÍTULO 9CONTROLE DOS ATOS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA As decisões tomadas pelo Tribunal de Contas da União de que resultem imputação de débito ou multa terão eficácia de título executivo. No caso de contrato irregular, o ato de sustação será adotado dire- tamente pelo Congresso Nacional, que solicitará, de imediato, ao Poder Executivo as medidas cabíveis. Caso o Congresso Nacional ou o Poder Executivo, no prazo de noventa dias, não efetivar as providências neces- sárias, o Tribunal decidirá a respeito (art. 71, §§1º e 2º, da CF). Os responsáveis pelo controle interno, ao tomarem conhecimento de qualquer irregularidade ou ilegalidade, dela darão ciência ao Tribunal de Contas da União, sob pena de responsabilidade solidária. Como manifestação da participação popular, a Constituição Federal prevê que qualquer cidadão, partido político, associação ou sindicato tem legitimidade para, na forma da lei, denunciar irregularidades ou ilegali- dades perante o Tribunal de Contas da União (art. 74, §2º). As normas estabelecidas do art. 70 ao art. 75 aplicam-se, no que couber, à organização, composição e fiscalização dos Tribunais de Contas dos Estados e do Distrito Federal, bem como dos Tribunais e Conselhos de Contas dos Municípios. 9.5 Controle jurisdicional Existem, basicamente, dois sistemas de controle judicial da Administração Pública: sistema do contencioso administrativo (sistema francês) e o sistema judiciário ou jurisdição única (sistema inglês). O sistema do contencioso administrativo de origem francesa deter- mina uma dualidade de jurisdição: jurisdição administrativa para casos que envolvem a Administração Pública e jurisdição comum para controvérsias entre particulares. O sistema da jurisdição única de origem inglesa, por sua vez, entende que sejam litígios, de natureza administrativa ou de interesses privados, sempre serão decididos judicialmente pela Justiça Comum. Assim, os órgãos judiciários são os únicos que possuem o monopólio da função jurisdicional para decidir com definitividade ao transitar em julgado os seus julgamentos. O sistema brasileiro de controle dos atos da Administração Pública teve influência do Direito Público norte-americano. Desta forma, desde a instauração da República é adotado o sistema da jurisdição única. O funda- mento constitucional encontra-se previsto no art. 5º, XXXV, que diz que “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”. Observe-se que a Administração Pública pode decidir litígios, con- tudo suas decisões não possuem a força e a definitividade próprias dos julgamentos realizados pelo Poder Judiciário no exercício de sua função jurisdicional. marcos bittencourt6vol.indb 149 20/04/2015 21:20:36 150 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO Cabe ao Judiciário o exame da legalidade e agora, pelos art. 5º, LXXIII, e 37 da Constituição Federal, a análise da moralidade no âmbito da Administração Pública. Como já examinado no estudo sobre o ato administrativo, não pode o Poder Judiciário invadir o mérito do ato administrativo discricionário. O legislador concedeu a competência para decidir qual a melhor solução perante o caso concreto ao administrador público. A apreciação subjetiva, ou seja, o juízo de conveniência e oportunidade é de competência exclusiva do administrador público, não cabendo ao juiz tal decisão. 9.6 Meios específicos de controle jurisdicional Além das ações comuns de Processo Civil para movimentar o Poder Judiciário, os chamados remédios constitucionais constituem meio próprio para provocar o controle judicial contra atos ou omissões de autoridades públicas. São eles o habeas corpus, mandado de segurança individual e coletivo, mandado de injunção, habeas data, ação popular e ação civil pública. Conforme previsão do art. 5º, LXVIII, da Constituição Federal, cabe habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder. O Código de Processo Penal (Decreto-Lei nº 3.689/41) disciplina o habeas corpus (arts. 647 a 667). Cabe mandado de segurança para proteger direito líquido e certo, não amparado por habeas corpus ou habeas data, quando o responsável pela ilegalidade ou abuso de poder for autoridade pública ou agente de pessoa jurídica no exercício de atribuições do Poder Público (art. 5º, LXIX, da CF). A Lei nº 12.016/2009 regula este remédio constitucional. Podem impetrar mandado de segurança coletivo (art. 5º, LXX): a) partido político com representação no Congresso Nacional; b) organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente consti- tuída e em funcionamento há pelo menos um ano, em defesa dos interesses de seus membros ou associados. O mandado de injunção é cabível sempre que a falta de norma regu- lamentadora torne inviável o exercício dos direitos e liberdades consti- tucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania (art. 5º, LXXI, da CF). O habeas data configura remédio constitucional (art. 5º, LXXII): a) para assegurar o conhecimento de informações relativas à pessoa do impetrante, constantes de registros ou bancos de dados de entidades go- vernamentais ou de caráter público; marcos bittencourt6vol.indb 150 20/04/2015 21:20:36 151CAPÍTULO 9CONTROLE DOS ATOS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA b) para a retificação de dados, quando não se prefira fazê-lo por processo sigiloso, judicial ou administrativo. Pode propor ação popular qualquer cidadão que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência (art. 5º, LXXIII, da CF). A ação civil pública é um instrumento utilizável, cautelarmente, para evitar danos ao meio ambiente, ao consumidor, aos bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico ou paisagístico, ou, então, para promover a responsabilidade de quem haja causado lesão a estes mesmos bens. Pode ser proposta não apenas pelo Ministério Público (art. 129, III, da CF), mas também, consoante a Lei nº 7.347/85, pela Defensoria Pública, pela União, pelos Estados, pelos Municípios, por autarquias, sociedades de economia mista, empresas públicas, fundações, bem como pelas associações constituídas há pelo menos um ano e que tenham entre suas finalidades institucionais a de proteger os interesses jurídicos referidos.marcos bittencourt6vol.indb 151 20/04/2015 21:20:36 JulianoHeinen_ComentariosaLeideAcesso_1ed_jan14_MIOLO_GRAFICA.indd 2 24/01/2014 10:57:38 marcelop Texto digitado marcelop Texto digitado PÁGINA EM BRANCO marcelop Texto digitado CAPÍTULO 10 IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA 10.1 Considerações gerais Elencada expressamente na Constituição Federal como princípio básico da Administração Pública (art. 37, caput), a moralidade consiste na honestidade e boa-fé que deve nortear a atuação de todo aquele que exerce função pública. A preocupação em combater os atos de improbidade administra- tiva fica manifesta ao ser considerado como crime de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentem contra a probidade na Administração (art. 85, V, da CF). A Constituição Federal prevê ainda, em seu art. 37, §4º, que os atos de improbidade administrativa, ou seja, violações ao princípio da mora- lidade, acarretarão a suspensão dos direitos políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao erário, na forma e gradação previstas em lei, sem prejuízo da ação penal cabível. São estabelecidos os contornos deste dispositivo constitucional na Lei nº 8.429/92 que trata das hipóteses, sanções e dos processos de apuração dos atos de improbidade administrativa. 10.2 Sujeito passivo Segundo a Lei nº 8.429/92, serão punidos todos os atos de improbida- de praticados contra a Administração Pública Direta e Indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Municípios, de Território, de empresa incorporada ao patrimônio público ou de entidade para cuja criação ou custeio o erário haja concorrido ou concorra com mais de cinquenta por cento do patrimônio ou da receita anual. Acrescenta o parágrafo único do art. 1º da Lei de Improbidade Administrativa que também estão sujeitos às penalidades os atos de marcos bittencourt6vol.indb 153 20/04/2015 21:20:36 154 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO improbidade praticados contra o patrimônio de entidade que receba sub- venção, benefício ou incentivo, fiscal ou creditício, de órgão público bem como daquelas para cuja criação ou custeio o erário haja concorrido ou concorra com menos de cinquenta por cento do patrimônio ou da receita anual, limitando-se, nestes casos, a sanção patrimonial à repercussão do ilícito sobre a contribuição dos cofres públicos. 10.3 Sujeito ativo Para fins de aplicação da Lei de Improbidade Administrativa, é con- siderado agente público todo aquele que exerce, ainda que transitoriamente ou sem remuneração, por eleição, nomeação, designação, contratação ou qualquer outra forma de investidura ou vínculo, mandato, cargo, emprego ou função nas entidades anteriormente citadas. Além disso, esta lei aplica-se mesmo àquele que não for agente público, mas induza ou concorra para a prática do ato de improbidade ou dele se beneficie sob qualquer forma direta ou indireta. Perderá o agente público ou terceiro beneficiário todos os bens ou valores acrescidos ao seu patrimônio, uma vez comprovado o enriqueci- mento ilícito do agente público. Quando o ato de improbidade causar lesão ao patrimônio público ou ensejar enriquecimento ilícito, caberá à autoridade administrativa res- ponsável pela apuração representar ao Ministério Público, para a indispo- nibilidade dos bens do indiciado que assegurem o integral ressarcimento do dano, ou sobre o acréscimo patrimonial resultante do enriquecimento ilícito. O sucessor daquele que causar lesão ao patrimônio público ou se enriquecer ilicitamente está sujeito a reparar o prejuízo até o limite do valor da herança. 10.4 Modalidades A Lei nº 8.429/92 classifica três modalidades de atos de improbidade administrativa: a) atos de improbidade administrativa que importam enriquecimento ilícito (art. 9º); b) atos de improbidade administrativa que causam prejuízo ao erário (art. 10); c) atos de improbidade administrativa que atentam contra os princípios da Administração Pública (art. 11). Ato de improbidade administrativa que importa enriquecimento ilícito é todo aquele que auferir qualquer tipo de vantagem patrimonial indevida marcos bittencourt6vol.indb 154 20/04/2015 21:20:36 155CAPÍTULO 10IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA em razão do exercício de cargo, mandato, função, emprego ou atividade nas entidades mencionadas, conforme determina o art. 9º da Lei nº 8.429/92. Em seguida, encontra-se um rol exemplificativo de hipóteses de ato de improbidade que acarretam enriquecimento ilícito: I - receber, para si ou para outrem, dinheiro, bem móvel ou imóvel, ou qual- quer outra vantagem econômica, direta ou indireta, a título de comissão, percentagem, gratificação ou presente de quem tenha interesse, direto ou indireto, que possa ser atingido ou amparado por ação ou omissão decor- rente das atribuições do agente público; II - perceber vantagem econômica, direta ou indireta, para facilitar a aquisição, permuta ou locação de bem móvel ou imóvel, ou a contratação de serviços pelas entidades mencionadas por preço superior ao valor de mercado; III - perceber vantagem econômica, direta ou indireta, para facilitar a alie- nação, permuta ou locação de bem público ou o fornecimento de serviço por ente estatal por preço inferior ao valor de mercado; IV - utilizar, em obra ou serviço particular, veículos, máquinas, equipamen- tos ou material de qualquer natureza, de propriedade ou à disposição de qualquer das entidades mencionadas, bem como o trabalho de servidores públicos, empregados ou terceiros contratados por essas entidades; V - receber vantagem econômica de qualquer natureza, direta ou indireta, para tolerar a exploração ou a prática de jogos de azar, de lenocínio, de narcotráfico, de contrabando, de usura ou de qualquer outra atividade ilícita, ou aceitar promessa de tal vantagem; VI - receber vantagem econômica de qualquer natureza, direta ou indireta, para fazer declaração falsa sobre medição ou avaliação em obras públicas ou qualquer outro serviço, ou sobre quantidade, peso, medida, qualidade ou característica de mercadorias ou bens fornecidos a qualquer das enti- dades mencionadas; VII - adquirir, para si ou para outrem, no exercício de mandato, cargo, emprego ou função pública, bens de qualquer natureza cujo valor seja desproporcional à evolução do patrimônio ou à renda do agente público; VIII - aceitar emprego, comissão ou exercer atividade de consultoria ou assessoramento para pessoa física ou jurídica que tenha interesse suscetível de ser atingido ou amparado por ação ou omissão decorrente das atribuições do agente público, durante a atividade; IX - perceber vantagem econômica para intermediar a liberação ou aplicação de verba pública de qualquer natureza; marcos bittencourt6vol.indb 155 20/04/2015 21:20:36 156 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO X - receber vantagem econômica de qualquer natureza, direta ou indire- tamente, para omitir ato de ofício, providência ou declaração a que esteja obrigado; XI - incorporar, por qualquer forma, ao seu patrimônio bens, rendas, verbas ou valores integrantes do acervo patrimonial das entidades mencionadas; XII - usar, em proveito próprio, bens, rendas, verbas ou valores integrantes do acervo patrimonial das entidades. Ato de improbidade administrativa que causa lesão ao erário configura qualquer ação ou omissão, dolosa ou culposa, que enseje perda patrimo- nial, desvio, apropriação, malbaratamento ou dilapidação dos bens ou haveres das entidades referidas, conforme prevê o art. 10. Também há um rol exemplificativo desse tipo de ato: I - facilitar ou concorrer por qualquer forma para a incorporação ao pa- trimônio particular, de pessoa física ou jurídica, de bens,rendas, verbas ou valores integrantes do acervo patrimonial das entidades mencionadas; II - permitir ou concorrer para que pessoa física ou jurídica privada utilize bens, rendas, verbas ou valores integrantes do acervo patrimonial das entidades mencionadas, sem a observância das formalidades legais ou regulamentares aplicáveis à espécie; III - doar a pessoa física ou jurídica bem como ao ente despersonalizado, ainda que de fins educativos ou assistências, bens, rendas, verbas ou valores do patrimônio de qualquer das entidades mencionadas, sem observância das formalidades legais e regulamentares aplicáveis à espécie; IV - permitir ou facilitar a alienação, permuta ou locação de bem integrante do patrimônio de qualquer das entidades referidas, ou ainda a prestação de serviço por parte delas, por preço inferior ao de mercado; V - permitir ou facilitar a aquisição, permuta ou locação de bem ou serviço por preço superior ao de mercado; VI - realizar operação financeira sem observância das normas legais e re- gulamentares ou aceitar garantia insuficiente ou inidônea; VII - conceder benefício administrativo ou fiscal sem a observância das formalidades legais ou regulamentares aplicáveis à espécie; VIII - frustrar a licitude de processo licitatório ou de processo seletivo para celebração de parcerias com entidades sem fins lucrativos, ou dispensá-los indevidamente (redação com vigência a partir de 360 dias da publicação oficial da Lei nº 13.019/2014); marcos bittencourt6vol.indb 156 20/04/2015 21:20:36 157CAPÍTULO 10IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA IX - ordenar ou permitir a realização de despesas não autorizadas em lei ou regulamento; X - agir negligentemente na arrecadação de tributo ou renda, bem como no que diz respeito à conservação do patrimônio público; XI - liberar verba pública sem a estrita observância das normas pertinentes ou influir de qualquer forma para a sua aplicação irregular; XII - permitir, facilitar ou concorrer para que terceiro se enriqueça ilicitamente; XIII - permitir que se utilize, em obra ou serviço particular, veículos, máqui- nas, equipamentos ou material de qualquer natureza, de propriedade ou à disposição de qualquer das entidades mencionadas, bem como o trabalho de servidor público, empregados ou terceiros contratados por essas entidades; XIV - celebrar contrato ou outro instrumento que tenha por objeto a pres- tação de serviços públicos por meio da gestão associada sem observar as formalidades previstas na lei; XV - celebrar contrato de rateio de consórcio público sem suficiente e prévia dotação orçamentária, ou sem observar as formalidades previstas na lei; XVI - facilitar ou concorrer, por qualquer forma, para a incorporação, ao patrimônio particular de pessoa física ou jurídica, de bens, rendas, verbas ou valores públicos transferidos pela Administração Pública a entidades privadas mediante celebração de parcerias, sem a observância das formali- dades legais ou regulamentares aplicáveis à espécie (redação com vigência a partir de 360 dias da publicação oficial da Lei nº 13.019/2014); XVII - permitir ou concorrer para que pessoa física ou jurídica privada utilize bens, rendas, verbas ou valores públicos transferidos pela Administração Pública a entidade privada mediante celebração de parcerias, sem a ob- servância das formalidades legais ou regulamentares aplicáveis à espécie (redação com vigência a partir de 360 dias da publicação oficial da Lei nº 13.019/2014); XVIII - celebrar parcerias da Administração Pública com entidades privadas sem a observância das formalidades legais ou regulamentares aplicáveis à espécie (redação com vigência a partir de 360 dias da publicação oficial da Lei nº 13.019/2014); XIX - frustrar a licitude de processo seletivo para celebração de parcerias da Administração Pública com entidades privadas ou dispensá-lo indevi- damente (redação com vigência a partir de 360 dias da publicação oficial da Lei nº 13.019/2014); marcos bittencourt6vol.indb 157 20/04/2015 21:20:36 158 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO XX - agir negligentemente na celebração, fiscalização e análise das prestações de contas de parcerias firmadas pela Administração Pública com entidades privadas (redação com vigência a partir de 360 dias da publicação oficial da Lei nº 13.019/2014); XXI - liberar recursos de parcerias firmadas pela Administração Pública com entidades privadas sem a estrita observância das normas pertinentes ou influir de qualquer forma para a sua aplicação irregular (redação com vigência a partir de 360 dias da publicação oficial da Lei n. 13.019/2014) Ato de improbidade administrativa que atenta contra os princípios da Administração Pública é toda e qualquer ação ou omissão que viole os deve- res de honestidade, imparcialidade, legalidade, e lealdade às instituições, segundo o estabelecido no art. 11 da Lei nº 8.429/92. Novamente, esta lei descreve uma lista exemplificativa de condutas que configuram este ato: I - praticar ato visando a fim proibido em lei ou regulamento ou diverso daquele previsto, na regra de competência; II - retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício; III - revelar fato ou circunstância de que tem ciência em razão das atribuições e que deva permanecer em segredo; IV - negar publicidade aos atos oficiais; V - frustrar a licitude de concurso público; VI - deixar de prestar contas quando esteja obrigado a fazê-lo; VII - revelar ou permitir que chegue ao conhecimento de terceiro, antes da respectiva divulgação oficial, teor de medida política ou econômica capaz de afetar o preço de mercadoria, bem ou serviço; VIII - descumprir as normas relativas à celebração, fiscalização e aprovação de contas de parcerias firmadas pela Administração Pública com entidades privadas (redação com vigência a partir de 360 dias da publicação oficial da Lei nº 13.019/2014). 10.5 Sanções De acordo com o art. 12 da Lei nº 8.429/92, independentemente das sanções penais, civis e administrativas previstas na legislação específica, está o responsável pelo ato de improbidade sujeito às seguintes cominações, que podem ser aplicadas isolada ou cumulativamente, de acordo com a gravidade do fato: marcos bittencourt6vol.indb 158 20/04/2015 21:20:36 159CAPÍTULO 10IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA a) para atos de improbidade administrativa que importam enriquecimento ilícito (art. 9º): perda dos bens ou valores acrescidos ilicitamente ao patri- mônio, ressarcimento integral do dano, quando houver, perda da função pública, suspensão dos direitos políticos de oito a dez anos, pagamento de multa civil de até três vezes o valor do acréscimo patrimonial e proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de dez anos; b) para atos de improbidade administrativa que causam prejuízo ao erário (art. 10): ressarcimento integral do dano, perda dos bens ou valores acres- cidos ilicitamente ao patrimônio, se concorrer esta circunstância, perda da função pública, suspensão dos direitos políticos de cinco a oito anos, pagamento de multa civil de até duas vezes o valor do dano e proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de cinco anos; c) atos de improbidade administrativa que atentam contra os princípios da Administração Pública (art. 11): ressarcimento integral do dano, se houver, perda da função pública, suspensão dos direitos políticos de três a cinco anos, pagamento de multa civil de até cem vezes o valor da remuneração percebidapelo agente e proibição de contratar com o Poder Público ou re- ceber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de três anos. Observe-se que, na fixação das penas previstas na Lei nº 8.429/92, o juiz levará em conta a extensão do dano causado, bem como o proveito patrimonial obtido pelo agente. 10.6 Processo administrativo Como decorrência do direito constitucional de petição, qualquer pessoa poderá representar à autoridade administrativa competente para que seja instaurada investigação destinada a apurar a prática de ato de improbidade. A representação, que será escrita ou reduzida a termo e assina- da, poderá ser rejeitada pela autoridade administrativa em despacho fundamentado, caso não contenha a qualificação do representante, as informações sobre o fato e sua autoria e a indicação das provas de que tenha conhecimento. Tal rejeição, contudo, não impede a representação ao Ministério Público. Para apurar qualquer ilícito previsto nesta lei, o Ministério Público, de ofício, a requerimento de autoridade administrativa ou mediante marcos bittencourt6vol.indb 159 20/04/2015 21:20:36 160 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO representação formulada, poderá requisitar a instauração de inquérito policial ou procedimento administrativo. Uma vez apresentada corretamente a representação, a autoridade determinará a imediata apuração dos fatos que, em se tratando de servi- dores federais, será processada na forma prevista nos arts. 148 a 182 da Lei nº 8.112/90 e, em se tratando de servidor militar, de acordo com os respectivos regulamentos disciplinares. A comissão processante, por sua vez, deverá dar conhecimento ao Ministério Público e ao Tribunal ou Conselho de Contas da existência de processo administrativo para apurar a prática de ato de improbidade. O Ministério Público ou Tribunal ou Conselho de Contas poderá, a requeri- mento, designar representante para acompanhar o processo administrativo. No caso de fundados indícios de responsabilidade, a comissão representará ao Ministério Público ou à procuradoria do órgão para que requeira ao juiz competente a decretação do sequestro dos bens do agente ou terceiro que tenha enriquecido ilicitamente ou causado dano ao patri- mônio público. Se for necessário, o pedido incluirá a investigação, o exame e o bloqueio de bens, contas bancárias e aplicações financeiras mantidas pelo indiciado no exterior, nos termos da lei e dos tratados internacionais. 10.7 Processo judicial A ação principal, que terá o rito ordinário, será proposta pelo Ministério Público ou pela pessoa jurídica interessada, dentro de trinta dias da efetivação da medida cautelar (art. 17). Há expressa vedação a transação, acordo ou conciliação nessas ações (art. 17, §1º, da Lei nº 8.429/92). A Fazenda Pública, quando for o caso, promoverá as ações necessá- rias à complementação do ressarcimento do patrimônio público. Caso a ação principal tenha sido proposta pelo Ministério Público, a pessoa jurídica interessada integrará a lide na qualidade de litisconsorte, devendo suprir as omissões e falhas da inicial e apresentar ou indicar os meios de prova de que disponha. O Ministério Público, se não ingressar no processo como parte, atuará obrigatoriamente, como fiscal da lei, sob pena de nulidade. A propositura da ação prevenirá a jurisdição do juízo para todas as ações posteriormente intentadas que possuam a mesma causa de pedir ou o mesmo objeto. A ação será instruída com documentos ou justificação que conte- nham indícios suficientes da existência do ato de improbidade ou com razões fundamentadas da impossibilidade de apresentação de qualquer dessas provas, observada a legislação vigente, inclusive as disposições inscritas nos arts. 16 a 18 do Código de Processo Civil. marcos bittencourt6vol.indb 160 20/04/2015 21:20:36 161CAPÍTULO 10IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA Estando a petição inicial em devida forma, o juiz mandará autuá-la e ordenará a notificação do requerido, para oferecer manifestação por escrito, que poderá ser instruída com documentos e justificações, dentro do prazo de quinze dias. Recebida a manifestação, o juiz, no prazo de trinta dias, em decisão fundamentada, rejeitará a ação, se convencido da inexistência do ato de improbidade, da improcedência da ação ou da inadequação da via eleita. Uma vez recebida a petição inicial, será o réu citado para apresentar contestação. Da decisão que receber a petição inicial, caberá agravo de instrumento. Em qualquer fase do processo, reconhecida a inadequação da ação de improbidade, o juiz extinguirá o processo sem julgamento do mérito. Aplica-se aos depoimentos ou inquirições realizadas nos processos regidos pela Lei de Improbidade Administrativa o disposto no art. 221, caput e §1º, do Código de Processo Penal. A sentença que julgar procedente ação civil de reparação de dano ou decretar a perda dos bens havidos ilicitamente determinará o pagamento ou a reversão dos bens, conforme o caso, em favor da pessoa jurídica prejudicada pelo ilícito. A perda da função pública e a suspensão dos direitos políticos só se efetivam com o trânsito em julgado da sentença condenatória. Considera-se crime a representação por ato de improbidade contra agente público ou terceiro beneficiário, quando o autor da denúncia o sabe inocente. A pena é detenção de seis a dez meses e multa. Além da sanção penal, o denunciante estará sujeito a indenizar o denunciado pelos danos materiais, morais ou à imagem que houver provocado. A autoridade judicial ou administrativa competente poderá deter- minar o afastamento do agente público do exercício do cargo, emprego ou função, sem prejuízo da remuneração, quando a medida se fizer necessária à instrução processual. A aplicação das sanções previstas nesta lei independe: I - da efetiva ocorrência de dano ao patrimônio público, salvo quanto à pena de ressarcimento; II - da aprovação ou rejeição das contas pelo órgão de controle interno ou pelo Tribunal ou Conselho de Contas. 10.8 Prescrição As ações destinadas a levar a efeito as sanções previstas na Lei nº 8.429/92 podem ser propostas: marcos bittencourt6vol.indb 161 20/04/2015 21:20:36 162 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO I - até cinco anos após o término do exercício de mandato, de cargo em comissão ou de função de confiança; II - dentro do prazo prescricional previsto em lei específica para faltas disciplinares puníveis com demissão a bem do serviço público, nos casos de exercício de cargo efetivo ou emprego. marcos bittencourt6vol.indb 162 20/04/2015 21:20:36 CAPÍTULO 11 PROCESSO ADMINISTRATIVO 11.1 Considerações gerais O vocábulo “processo” expressa algo dinâmico, em movimento, dirigido a determinado fim. Como explica Celso Antônio Bandeira de Mello ao prefaciar a obra Processo administrativo: princípios constitucionais e a Lei 9.784/1999,113 enquanto o ato administrativo deve ser estudado sob uma perspectiva fotográfica, o processo administrativo deve ser analisado sob uma perspectiva cinematográfica. Em sentido amplo, processo consiste em instrumento utilizado pelos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário para executar suas fun- ções típicas. Assim, pode-se compreender um processo legislativo, para a elaboração de normas gerais e abstratas (lei); um processo judicial, para compor conflitos de interesses, cujo ato final será uma sentença e um pro- cesso administrativo, para concretizar direta e imediatamente os anseios da coletividade, mediante a edição de um ato administrativo. Tendo em vista que o processo judicial e o processo administrativo existem para aplicar a lei ao caso concreto,cabe estabelecer suas diferenças. O processo judicial se inicia somente mediante provocação das partes que formam uma relação trilateral: juiz, que representa o Estado e irá solucionar o conflito entre as partes em litígio, autor e réu. Uma vez esgotada a via recursal, o processo judicial produzirá coisa julgada, ou seja, sua decisão terá caráter definitivo, não sendo mais passível de ques- tionamento em nenhuma esfera. O processo administrativo, em contrapartida, pode ser instaurado tanto por provocação do interessado como ex officio, isto é, por impul- so da própria Administração Pública, formando uma relação bilateral: 113 Cf. MOREIRA, Egon Bockmann. Processo administrativo: princípios constitucionais e a Lei 9.784/1999. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 2003. marcos bittencourt6vol.indb 163 20/04/2015 21:20:36 164 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO administrado e Administração. O Poder Público, além de ser parte inte- ressada, decide a questão. Tendo em vista essa posição peculiar do Estado, a decisão emanada do processo administrativo não produz coisa julgada no sistema brasileiro. Ensina Hely Lopes Meirelles que a chamada “coisa julgada administrativa”, nada mais é que “uma preclusão de efeitos inter- nos”,114 não possuindo o mesmo alcance da coisa julgada judicial. Dessa forma, é possível o reexame pelo Poder Judiciário. Acrescente-se ainda que o processo administrativo é, em regra, gratuito, diversamente do processo judicial, uma vez que a Administração também detém interesses que serão alcançados na conclusão desse processo. No âmbito federal, a Lei nº 9.784/99 estabelece normas básicas sobre o processo administrativo, visando, em especial, à proteção dos direitos dos administrados e ao melhor cumprimento dos fins da Administração. Essa lei também se aplica aos órgãos dos Poderes Legislativo e Judiciário da União, quando no desempenho de função administrativa. Conforme o art. 69 da Lei nº 9.784/99, esta é aplicada subsidiaria- mente em processos administrativos federais específicos como processos administrativos disciplinares e processos licitatórios. Saliente-se novamente que só possui aplicação na Administração Pública federal, não podendo ser utilizada por Estados e Municípios. Cada esfera da Federação tem competência para legislar sobre processos administrativos aplicados na sua atividade. 11.2 Conceito de processo administrativo Processo administrativo “é uma sucessão itinerária e encadeada de atos administrativos que tendem, todos, a um resultado final e conclusi- vo”, segundo Celso Antônio Bandeira de Mello.115 A partir desse conceito, pode-se distinguir processo de procedimento. Conforme ensina Egon Bockmann Moreira, “processo e procedimen- to têm clássica diferenciação quanto ao seu conteúdo jurídico: o primeiro retrata relação jurídica específica, de caráter processual em sentido estrito; já o segundo define puramente o desenrolar dos atos e fatos que configuram o começo, meio e fim do processo — realidade que, de direito (positivo e cientificamente), não significa relação jurídica. São conceitos jurídicos que designam fenômenos diversos no mundo do Direito”.116 114 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro, p. 557. 115 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de direito administrativo, 14. ed. p. 429. 116 MOREIRA, Egon Bockmann. Processo administrativo: princípios constitucionais e a Lei 9.784/1999, p. 38. marcos bittencourt6vol.indb 164 20/04/2015 21:20:36 165CAPÍTULO 11PROCESSO ADMINISTRATIVO Parte da doutrina entende que não existe um processo administra- tivo, porquanto tal fenômeno seria um instrumento exclusivo da função jurisdicional, com a presença de contraditório e ampla defesa. Nesse sentido, haveria apenas um “procedimento administrativo”, como tradi- cionalmente denomina o Direito brasileiro. Deve-se compreender, entretanto, que o processo é uma forma de manifestação da função pública que cada Poder detém. Assim, processo administrativo consiste em um conjunto de atos concatenados, no exer- cício da função administrativa, dirigidos a uma tomada de decisão nessa esfera, enquanto procedimento é o rito, o caminho, o aspecto externo do processo. Um processo administrativo pode ter vários procedimentos, de- pendendo da decisão que deve ser tomada e da finalidade a ser alcançada pela Administração Pública. 11.3 Objetivos do processo administrativo Sem dúvida nenhuma, em primeiro lugar deve-se destacar que o processo deve ser visto como uma garantia dos administrados. Não basta apenas controlar o Estado quanto ao resultado que deve ser alcançado. Também deve ser analisado de que modo o Poder Público está se dirigindo em busca destes fins. Compreende-se que o processo administrativo é uma forma de assegurar o controle das tomadas de decisão da Administração Pública e garantia dos direitos fundamentais dos administrados. Também pode ser destacado como objetivo do processo adminis- trativo um comportamento mais eficiente por parte do Estado, a partir do momento em que o administrado pode levar ao conhecimento da Administração Pública dados e alegações que de outro modo o Poder Público não conseguiria. Por meio do processo administrativo, o cidadão poderá trazer informações ao conhecimento da Administração, inclusive com a real possibilidade de influir no mérito das decisões tomadas pelo Estado. Nesse sentido, Rodrigo Pironti Aguirre de Castro conclui que “o processo administrativo, qualquer que seja sua denominação e abran- gência, confere ao administrado a possibilidade de controle da atividade da Administração Pública, mormente na verificação de suas atribuições — impossibilitando decisões precipitadas e fundadas em critérios eminen- temente subjetivos — e no empenho em busca da realização do interesse público em suas atividades”.117 117 CASTRO, Rodrigo Pironti Aguirre de. Processo administrativo e controle da atividade regulatória. Belo Horizonte: Fórum, 2005. p. 144-145. marcos bittencourt6vol.indb 165 20/04/2015 21:20:36 166 MARCUS VINICIUS CORRÊA BITTENCOURTMANUAL DE DIREITO ADMINISTRATIVO 11.4 Princípios do processo administrativo Tomando por base o art. 2º da Lei nº 9.784/99, são princípios do processo administrativo, sem prejuízo de outros implícitos ou decorrentes do sistema adotado, os princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. No parágrafo único deste art. 2º, apresenta-se um rol exemplificativo de critérios a serem utilizados nos processos administrativos. Muitos destes critérios correspondem à aplicação concreta dos princípios mencionados: I - atuação conforme a lei e o Direito; II - atendimento a fins de interesse geral, vedada a renúncia total ou parcial de poderes ou competências, salvo autorização em lei; III - objetividade no atendimento do interesse público, vedada a promoção pessoal de agentes ou autoridades; IV - atuação segundo padrões éticos de probidade, decoro e boa-fé; V - divulgação oficial dos atos administrativos, ressalvadas as hipóteses de sigilo previstas na Constituição; VI - adequação entre meios e fins, vedada a imposição de obrigações, res- trições e sanções em medida superior àquelas estritamente necessárias ao atendimento do interesse público; VII - indicação dos pressupostos de fato e de direito que determinarem a decisão; VIII - observância das formalidades essenciais à garantia dos direitos dos administrados; IX - adoção de formas simples, suficientes para propiciar adequado grau de certeza, segurança e respeito aos direitos dos administrados; X - garantia dos direitos à comunicação, à apresentação de alegações finais, à produção de provas e à interposição de recursos, nos processos