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Secretaria da Educação do Estado do Ceará SEDUC-CE Professor Nível A - Especialidade: Língua Espanhola Edital Nº 030/2018 – SEDUC/SEPLAG, de 19 de Julho de 2018 JL150-2018 DADOS DA OBRA Título da obra: Secretaria da Educação do Estado do Ceará - SEDUC - CE Cargo: Professor Nível A - Especialidade: Língua Espanhola (Baseado no Edital Nº 030/2018 – SEDUC/SEPLAG, de 19 de Julho de 2018) • Conhecimentos Específicos Autora Ana Maria Gestão de Conteúdos Emanuela Amaral de Souza Diagramação/ Editoração Eletrônica Elaine Cristina Igor de Oliveira Ana Luiza Cesário Thais Regis Produção Editoral Suelen Domenica Pereira Julia Antoneli Leandro Filho Capa Joel Ferreira dos Santos APRESENTAÇÃO CURSO ONLINE PARABÉNS! ESTE É O PASSAPORTE PARA SUA APROVAÇÃO. A Nova Concursos tem um único propósito: mudar a vida das pessoas. Vamos ajudar você a alcançar o tão desejado cargo público. Nossos livros são elaborados por professores que atuam na área de Concursos Públicos. 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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola 1 Leitura e compreensão de textos em Língua Espanhola considerando os diversos gêneros textuais. ............................ 01 2 Tendências pedagógicas sobre o ensino de Língua Espanhola: abordagem da linguagem sob novos enfoques. ............. 06 3 Uso e domínio das estratégias de leitura (skimming, scanning, prediction e outras). ............................................................ 15 3.1 compreensão geral do texto. ................................................................................................................................................................ 16 3.2 Reconhecimento de informações específicas. ................................................................................................................................ 18 3.3 Inferência e predição. ............................................................................................................................................................................... 19 3.4 Palavras cognatas e falsos cognatos. ................................................................................................................................................. 20 4 Vocabulário: domínio de vocabulário compatível com a interpretação de texto dentro do conteúdo exigido. ................21 5 Aspectos linguísticos e gramaticais. ............................................................................................................................................................ 24 5.1 El alfabeto gráfico y oral. ........................................................................................................................................................................ 30 5.2 Artículos. ........................................................................................................................................................................................................ 30 5.3 Pronombres personales y de tratamiento. ...................................................................................................................................... 32 5.4 Presente de indicativo: ser, estar y tener. ......................................................................................................................................... 32 5.5 Adjetivos posesivos. .................................................................................................................................................................................. 33 5.6 Contracciones. ............................................................................................................................................................................................. 33 5.7 Combinaciones. .......................................................................................................................................................................................... 33 5.8 Perífrasis de futuro. ................................................................................................................................................................................... 34 5.9 Los numerales. ............................................................................................................................................................................................ 34 5.10 El artículo neutro LO. ............................................................................................................................................................................. 35 5.11 Adverbios y expresiones de tiempo. ............................................................................................................................................... 35 5.12 Verbos. ......................................................................................................................................................................................................... 36 5.13 Pronombres demostrativos. ................................................................................................................................................................ 39 5.14 Adverbios y pronombres interrogativos. ....................................................................................................................................... 40 5.15 Formación del plural. ............................................................................................................................................................................. 41 5.16 Lugares (establecimientos comerciales) y medios de transporte. ....................................................................................... 42 5.17 La familia. .................................................................................................................................................................................................... 43 5.18 Los colores. ................................................................................................................................................................................................ 43 5.19 Objetos variados. ..................................................................................................................................................................................... 44 6 Divergências léxicas (heterosemánticos, heterotónicos, heterogenéricos). ................................................................................ 48 7 Apócope. ................................................................................................................................................................................................................508 Relação entre língua, cultura e sociedade. ............................................................................................................................................... 51 9 O tratamento da produção escrita como processo (revisão/correção e reescrita). .................................................................. 62 10 Compreensão de textos de autores modernos e/ou contemporâneos. .................................................................................... 76 11 Avaliação no ensino e aprendizagem da Língua Espanhola na educação básica. ................................................................... 85 12 Competências e habilidades propostas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio para a disciplina de Língua Espanhola. .............................................................................................................................................................................................92 1 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola 1 LEITURA E COMPREENSÃO DE TEXTOS EM LÍNGUA ESPANHOLA CONSIDERANDO OS DIVERSOS GÊNEROS TEXTUAIS. Tipos de texto O aluno utilizará o conhecimento de tipos de texto: - na leitura, na escrita e na produção e compreensão da fala; - no reconhecimento e na compreensão da organi- zação textual; - no reconhecimento da função social do texto; - na participação de interações de natureza diversas (diálogos, apresentações orais etc.). A determinação dos conteúdos referentes a tipos de texto (orais e escritos) se pauta por tipos com os quais os alunos nessa faixa etária estão mais familiarizados como usuários de sua língua materna: - pequenas histórias, quadrinhas, histórias em qua- drinhos, instruções de jogos, anedotas, trava-línguas, anúncios, pequenos diálogos, rótulos de embalagens, cartazes, canções, pequenas notícias; - entrevistas, programação de TV, textos publici- tários, cartas, reportagens, classificados, poemas, edi- toriais de jornal, artigos jornalísticos, textos de enci- clopédias, verbetes de dicionários, receitas, estatutos, declarações de direitos. Conhecimento sistêmico Os conteúdos referentes ao conhecimento sistêmi- co são incluídos na dependência das escolhas temáticas e dos tipos de texto. Além disso, dá-se pouca ênfase a esse conhecimento, já que o foco, neste ciclo, é em compreensão geral e no envolvimento na negociação do significado. A inclusão do que vai ser ensinado será determinada pelo tipo de conhecimento sistêmico ne- cessário para se resolver a tarefa elaborada pelo profes- sor. Isso quer dizer que ao aluno serão ensinados for- malmente os itens relativos ao conhecimento sistêmico (vocabulário, estruturas gramaticais etc.) necessários para resolver a tarefa. Na verdade, o aluno se deparará com mais itens nesse nível do que terá de aprender para resolver as tarefas. Aprender a se engajar no discurso por meio de lín- gua estrangeira, desconhecendo certos itens nesse ní- vel, é parte do que o aluno terá de aprender a fazer. Ou seja, terá de operar na língua estrangeira com um certo nível de imprecisão em relação ao significado, o que não é, aliás, muito diferente do que faz como usuário de sua língua materna em muitas situações de uso. Conteúdos relativos ao conhecimento sistêmico: - atribuição de significado a diferentes aspectos morfológicos, sintáticos e fonológicos; - identificação de conectores que indicam uma rela- ção semântica; - identificação do grau de formalidade na escrita e na fala; - reconhecimento de diferentes tipos de texto a par- tir de indicadores de organização textual; - compreensão e produção de textos orais com mar- cas entonacionais e pronúncia que permitam a com- preensão do que está sendo dito. Conteúdos atitudinais Os conteúdos atitudinais envolvem: - a preocupação em ser compreendido e compreen- der outros, tanto na fala quanto na escrita; - a valorização do conhecimento de outras culturas como forma de compreensão do mundo em que vive; - o reconhecimento de que as línguas estrangeiras aumentam as possibilidades de compreensão dos valo- res e interesses de outras culturas; - o reconhecimento de que as línguas estrangeiras possibilitam compreender-se melhor; - o interesse por apreciar produções escritas e orais em outras línguas. Os usos dos conteúdos do conhecimento sistêmi- co, de mundo e de organização textual e os conteúdos atitudinais na construção social do significado são via- bilizados por meio de procedimentos metodológicos que irão possibilitar o desenvolvimento das habilida- des comunicativas. É claro que esses procedimentos variarão da dependência do(s) tipo(s) de habilidade(s) comunicativa(s) a serem enfatizadas. A questão do método Antes de tratar da questão de como as habilidades comunicativas concretizarão o componente metodoló- gico, cabe discutir uma questão que tem sido frequente nas preocupações dos professores de Língua Estrangei- ra: a procura de um método ideal. Essa questão esteve presente durante quase um século (1880-1980), com uma sucessão de métodos - o método da gramática e tradução, o método direto, o método audiovisual, o método audiolingual, o que alguns chamam de mé- todo nocional-funcional -, cada um sendo descartado sucessivamente para dar lugar a algo que se apresen- tava como mais atraente. Na década atual, no entanto, o método não é mais visto como um modelo pronto e definitivo. Já no fim da década de 80 os métodos começaram a ser questionados por serem vistos como excessiva- mente prescritivos, não levando em conta o contexto da aprendizagem, como se as condições para que esta pu- desse acontecer fossem as mesmas em todas as partes do mundo. Passou-se a perceber que os métodos não 2 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola são passíveis de avaliação empírica; as tentativas feitas nesse sentido mostraram que os resultados produzidos por diferentes métodos refletem os aspectos por eles enfatizados no ensino, sendo, assim, difícil poder afir- mar que o método X seja melhor do que o método Y. Além do mais, passou-se a ter uma percepção maior a respeito de questões políticas envolvidas na divulgação dos métodos, ou seja, o benefício mercadológico para seus proponentes e até uma forma de imperialismo cul- tural neles embutida. A partir da década de 80 uma nova visão aparece. Prefere-se falar em abordagens em vez de métodos, já que aquelas situam-se em um nível mais conceptual, que permite maior flexibilidade nas suas realizações. Em vez de se acatar imposições feitas por diferentes mé- todos, pensa-se mais em termos de uma variedade de opções pedagógicas derivadas de concepções teóricas específicas da linguagem e da aprendizagem de línguas, além de se considerar sempre as práticas didáticas de- rivadas do conhecimento acumulado em relação ao en- sino e aprendizagem de Língua Estrangeira. Isso tudo tem ainda por base uma fundamentação teórica sobre a natureza da interação em sala de aula. É por isso que a questão “método”, tal qual a sala de aula, envolve um processo dinâmico cíclico, cheio de incertezas e sem fim, que reflete a articulação entre abordagem e interação em sala de aula. As abordagens estão alicerçadas em princípios de natureza variada, já considerados neste documento: - sociointeracional da aprendizagem em sala de aula; - Cognitiva, em relação a como o conhecimento lin- guístico é construído por meio do envolvimento na ne- gociação do significado, como também no que se refere aos pré-conhecimentos (língua materna e outros) que o aluno traz; - Afetiva, tendo em vista a experiência de vir a se constituir como ser discursivo em uma língua estrangei- ra; - Pedagógica, em relação ao fato de que o uso da linguagem é parte central do que o aluno tem de apren- der.Esses princípios constituem a base do desenvol- vimento de uma metodologia de ensino que envolve como ensinar determinados conteúdos, pelo uso de di- ferentes procedimentos metodológicos. Gêneros textuais: aspectos conceituais e funcio- nais Os estudos acerca dos gêneros textuais vêm sendo feitos desde a Retórica Antiga, com ênfase nas classifi- cações tradicionais da literatura que, desde Platão, têm tido uma insistente discussão. Brandão (2003) argumen- ta que esses estudos “têm atravessado, ao longo dos tempos, as preocupações dos estudiosos da linguagem, interessando tanto à história da retórica quanto às pes- quisas contemporâneas em poética e semiótica literária e às teorias linguísticas atuais”. Entretanto, a Linguísti- ca ingressou nesses estudos há pouco tempo. Brandão (2003) acrescenta que isso se deveu ao fato de que a Linguística, como “ciência específica da linguagem”, é recente e também porque “sua preocupação inicial foi com as unidades menores que o texto”. Assim, somente a partir dos anos 60, a Linguística deixa de privilegiar os estudos centrados no fonema, na palavra e na frase para centrar-se nos estudos do texto e suas especificidades. Com o avanço dos estudos linguísticos e com a en- trada do texto e do discurso também como objetos de estudo da Linguística, os gêneros textuais passaram a fazer parte das reflexões de muitos estudiosos. Objeti- vando discutir teoricamente essa questão, expomos, a seguir, as principais teorias relacionadas a alguns teó- ricos e estudiosos da área, enfocando os aspectos que serão abordados na análise dos dados da pesquisa. Mikhail Bakhtin Os estudos do russo Mikhail Bakhtin (2003) se des- tacam nas questões relativas aos gêneros do texto, em decorrência da sua preocupação com o discurso como um todo e com as condições de produção e recepção da atividade verbal. Mesmo que o direcionamento das discussões acerca dos gêneros discursivos de Bakhtin não tenha enfoca- do a área de ensino e aprendizagem de línguas, suas ideias têm influenciado as pesquisas de muitos autores, tomando como base, na maioria das vezes, suas con- cepções concernentes aos gêneros. Bakhtin (2003) afirma que o uso da língua se con- cretiza por meio de enunciados. Tais enunciados são individuais e únicos. Apesar disso, “cada campo de uti- lização da língua elabora seus tipos relativamente es- táveis de enunciados” (orais ou escritos) e esses são de possibilidades inesgotáveis dentro dos diversos campos da atividade humana. Isso porque a diversidade dos gêneros segue os parâmetros sociais e históricos das práticas discursivas de um determinado universo social (BAKHTIN, 2003, p. 262). Para Bakhtin, os gêneros têm seu próprio âmbito de existência e não podem ser substituídos aleatoriamente. O que determina o uso deste ou daquele gênero são as necessidades comunicativas dos membros de uma de- terminada esfera da atividade social. Para ele, “os enun- ciados e seus tipos, isto é, os gêneros discursivos, são correias de transmissão entre a história da sociedade e a história da linguagem” (BAKHTIN, 2003). É mediante as necessidades do seu uso que os fenômenos linguís- ticos surgem no sistema da língua. “Nenhum fenômeno 3 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola novo (fonético, léxico, gramatical) pode integrar o siste- ma da língua sem ter percorrido um complexo e longo caminho de experimentação e elaboração de gêneros e estilos” (BAKHTIN, 2003). Por serem extremamente vinculados às necessida- des sociais e aos padrões históricos dos diversos cam- pos da atividade humana, há dificuldade em registrar quantitativamente todos os gêneros. Há uma variedade incalculável de gêneros nas esferas da sociedade. Por exemplo: na esfera jornalística, temos o editorial, a carta do leitor, o artigo de opinião, os classificados, as notí- cias etc.; na esfera religiosa, temos o sermão, a prece, a oração, e assim por diante. Nesse sentido, ao passo que cada esfera da atividade humana se desenvolve, mais gêneros surgem para atender as exigências das práti- cas sociais ligadas a essas esferas, pois “são inesgotá- veis as possibilidades da multiforme atividade humana” (BAKHTIN, 2003). Bakhtin elabora uma classificação para os gêneros do discurso, dividindo-os em dois grupos: gêneros dis- cursivos primários e gêneros discursivos secundários. Os gêneros primários correspondem aos gêneros simples ou do cotidiano e são produzidos onde cada esfera da atividade humana se realiza, materializando-se em seu contexto específico, como a conversação informal face a face ou os bilhetes pessoais, informais. Já os gêneros secundários são os gêneros complexos, mais elabora- dos, como, por exemplo, romances, conferências aca- dêmicas, dramas, pesquisas científicas de toda espécie, entre outros. Esses gêneros secundários são desenvol- vidos com base em um convívio cultural mais formal, e são geralmente, mas não exclusivamente, produzidos na modalidade escrita da língua. Eles absorvem e trans- formam os gêneros primários, que passam a fazer parte constitutiva dos gêneros mais complexos, e, por conse- guinte, se afastam da situação imediata de produção do enunciado e de seus contextos reais de uso. Para Bakhtin (2003), o que determina se o gênero é primário ou secundário não é a modalidade da língua (oral ou escrita), mas as condições reais de produção desse gênero, sendo que estas condições estão intima- mente ligadas às esferas de comunicação em que os gêneros estão sendo usados. O romance, que pertence à esfera literária, por exemplo, pode absorver vários gê- neros primários, como um diálogo, uma carta, um bilhe- te, uma oração, entre outros. A esse fenômeno de ab- sorção do gênero primário pelo gênero secundário, no caso do romance, Bakhtin denominou de transmutação. O próprio gênero primário, nessa situação, passa a ser constitutivo do gênero secundário e não uma simples incorporação. Bakhtin apresenta como base para os seus estudos sócio interacionista, principalmente, o caráter dialógi- co da linguagem, que também funcionou como marco para os estudos dos gêneros discursivos. Para desenvol- ver sua teoria dos gêneros, Bakhtin faz críticas a algu- mas teorias linguísticas, especialmente nas discussões sobre a constituição do discurso, uma vez que, para muitas dessas teorias, falante e ouvinte assumem papéis estanques, em que o ouvinte exerce o papel apenas de receptor. Esse tipo de concepção é tido, por Bakhtin, até certo ponto, como ficção. Para ele, o ouvinte, ao perce- ber e compreender o significado (linguístico) do discur- so, ocupa simultaneamente em relação a ele uma ativa posição responsiva: concorda ou discorda dele (total ou parcialmente), completa-o, aplica-o, prepara-se para usá-lo, etc. (...) toda compreensão é prenhe de resposta, e nessa ou naquela forma a gera obrigatoriamente: o ouvinte se torna falante (BAKHTIN, 2003, p. 271). O enunciado não acaba na compreensão do signifi- cado. O outro, o interlocutor, está sempre na produção do discurso, na constituição dos sentidos, mesmo que o seu turno de voz não se manifeste de imediato, ou, ainda, mesmo que ele não se manifeste verbalmente. O enunciado é sempre ativamente respondido. Essa inte- ração dá-se em forma de cooperação mútua, de acor- dos, de desacordos entre os interlocutores, que, com- pletam os discursos ou se preparam para deles fazer uso etc. (BAKHTIN, 2003). É nessa perspectiva que nossa pesquisa se direciona para o livro didático. De acordo com essa teoria, os textos produzidos pelos alunos na escola não são unilaterais; não acabam depois de sua produção. Eles são dirigidos a alguém (seja ao destinatário real ou não), e isso deve ser considerado pelo professor e pelos autores dos materiais didáticos utilizados nas aulas de línguas.Esses textos devem dar lugar à palavra do outro, à resposta do outro, tornando-se, assim, um elo na interação social, no contexto da sala de aula. É, então, função da escola também buscar o estabelecimento desse elo, para que esses textos possam ter significados reais para os alunos. Desse modo, concordamos com Bakhtin quando ele argumenta que as palavras e as orações, ao serem trata- das fora de um contexto, tornam-se impessoais; não são ditas nem escritas para ninguém. Mas, em se tratando de enunciados concretos, inseridos em uma prática so- cial, existe um autor e um destinatário. Não há produção de textos sem interlocução, sem possíveis destinatários. Para Bakhtin (2003, p. 301), todo texto tem um des- tinatário, seja ele “um participante-interlocutor direto do diálogo”; seja ele “uma coletividade diferenciada de especialistas de algum campo especial da comunicação cultural”; seja ele “um público mais ou menos diferencia- do, um povo, [...] uma pessoa íntima, um estranho etc”. Seja qual for o destinatário, ele é sempre determinado pelo campo da atividade humana e da vida aos quais se referem os enunciados. São os destinatários, para quem falamos ou escrevemos, que determinam a composição 4 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola e, em particular, o estilo do enunciado. “Cada gênero do discurso em cada campo da comunicação discursiva tem a sua concepção típica de destinatário que o deter- mina como gênero (op. cit.) ”. O destinatário, ainda segundo Bakhtin, é um traço que constitui todo enunciado. Direcionamo-nos sempre para alguém quando falamos ou escrevemos. O que vai determinar a forma como nos direcionamos, isto é, o tipo de nossas escolhas individuais, é o grau de maior ou menor familiaridade entre nós e os outros partici- pantes do discurso. Produzir um e-mail, por exemplo, para alguém próximo (um amigo, um namorado, um ir- mão etc.) será diferente de produzir um e-mail para um estranho ou para alguém que ocupe uma posição social de hierarquia (um diretor, um chefe, um professor etc.). Com o intuito de distinguir oração (unidade da lín- gua) de enunciado (unidade da comunicação discur- siva), em sua obra Estética da Criação Verbal, Bakhtin apresenta algumas peculiaridades do enunciado, tais como: • a alternância dos sujeitos do discurso, ou seja, a atitude dialógica dos interlocutores; • a expressividade, ou seja, a relação subjetiva do falante com o conteúdo do objeto e do sentido do seu enunciado, como também a sua relação frente aos par- ticipantes da comunicação discursiva. A expressividade é um elemento inerente ao enunciado, pois não existe enunciado imparcial, isto é, sem uma posição valorativa do autor; • a conclusibilidade do enunciado, ou seja, o discur- so de um acaba para dar vez ao discurso do outro. O outro, ao tomar sua posição de falante, concretiza seu enunciado (vontade ou intenção discursiva) em um gê- nero determinado pela situação de interação. O gêne- ro, por sua vez, possui sua forma relativamente estável padronizada pelo campo da atividade humana. Assim, apesar da individualidade e da subjetividade, a intenção discursiva do falante é aplicada e adaptada ao gênero escolhido, constituindo-se e desenvolvendo-se em uma determinada forma de gênero (BAKHTIN, 2003, p. 282). Não falamos nem escrevemos de qualquer jeito, pois dependemos da atitude compreensiva e res- ponsiva do outro. Esse é um princípio do caráter dia- lógico da linguagem e, também, do processo de cons- tituição e de identificação dos gêneros textuais. Por esse motivo, dizemos sempre que os gêneros seguem padrões relativamente estáveis de estilo, de forma e de conteúdo. “Os gêneros organizam o nosso discur- so”; assim, quando nos deparamos com enunciados alheios, já prevemos e, também, já identificamos, a que gênero pertencem esses enunciados, pela forma que os constitui, pela intenção discursiva do falante, pela relação interativa dos participantes e pelas condições de produção desses enunciados, entre outros aspectos. “Se os gêneros do discurso não existissem e nós não os dominássemos [...] a comunicação discursiva seria qua- se impossível” (BAKHTIN, 2003, p. 283). John M. Swales A visão de Swales (1990) sobre gênero textual está associada ao uso da escrita no âmbito acadêmico. Em sua obra Genre Analysis – English in Academic and Research Settings, o autor trabalha os conceitos de co- munidade discursiva, gênero e tarefa. É também nesse trabalho que o autor dá continuidade a sua pesquisa de 1984, na qual desenvolveu um modelo de análise de gênero denominado CARS (create a research space) aprimorando-o, depois, em 1990. Swales apresenta, em seus trabalhos, um programa de ensino para desenvol- ver nos aprendizes (nativos ou não-nativos) a capacida- de de produzir textos no contexto acadêmico utilizando as características dos gêneros adequadamente. O modelo CARS, uma das grandes contribuições do autor aos estudos dos gêneros, tem influenciado muitos pesquisadores, principalmente aqueles interessados na análise e no ensino dos gêneros textuais no âmbito aca- dêmico e profissional. Swales propõe seis características como forma de identificar um grupo de indivíduos como uma comuni- dade discursiva: • uma comunidade discursiva concorda amplamen- te com um conjunto de objetivos públicos comuns; • uma comunidade discursiva tem mecanismos co- muns de intercomunicação entre os seus membros; • uma comunidade discursiva utiliza seus mecanis- mos que promovem a participação dos membros para proporcionar a troca de informações e para fornecer um feedback; • uma comunidade discursiva utiliza e, portanto, possui um ou mais gêneros de forma compartilhada; • uma comunidade discursiva, por possuir determi- nados gêneros, compartilha de itens lexicais específicos; • uma comunidade discursiva tem um nível razoável de membros com um grau adequado de conteúdo rele- vante e discurso especializado. De acordo com Swales, uma comunidade dis- cursiva: - possui um conjunto perceptível de objetivos que podem ser reformulados pública e explicitamente e também, em parte, podem ser estabelecidos por seus membros. Tais objetivos podem ser consensuais ou dis- tintos, mas sempre relacionados; - possui mecanismos de intercomunicação entre seus membros; 5 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola - usa mecanismos de participação para uma série de propósitos, tais como promover o incremento da in- formação e do feedback, para canalizar a inovação, para manter o sistema de crenças e de valores da comunida- de e para aumentar o espaço profissional; - utiliza uma seleção crescente de gêneros no al- cance de seu conjunto de objetivos e na prática de seus mecanismos participativos; já adquiriu e continua bus- cando uma terminologia específica; - possui uma estrutura hierárquica explícita ou im- plícita que orienta os processos de admissão e de pro- gresso dentro dela. Depois de explorar sua noção de comunidade dis- cursiva, Swales (1990) expõe a noção de gênero textual. O autor destaca alguns aspectos na caracterização dos gêneros e, com base nesses aspectos, adota uma defini- ção. Apresentamos, a seguir, esses aspectos, para che- garmos à noção de gênero, conforme a orientação do próprio autor. - Um gênero é uma classe de eventos comunicati- vos. Swales admite a ideia de classe pelo fato de que um gênero não se constitui apenas do discurso em si. Com- preende também o papel desse discurso, seu ambiente de produção e recepção e os participantes, incluindo, nesse conjunto, fatores históricos e culturais. Esse as- pecto, a nosso ver, é primordial para se constituir o con- ceito de gênero, pois é a partir daí que percebemos que não só os fatorespuramente linguísticos constituem o gênero, mas muitos outros fatores estão envolvidos, como bem afirma Swales. - O principal elemento que transforma uma coleção de eventos comunicativos em um gênero é o conjunto de propósitos comunicativos compartilhados. Segundo Swales (1990, p. 46), “gêneros são veícu- los comunicativos para alcançar metas”. Como lembra o autor, não são os aspectos formais e estruturais que definem o gênero, mas, sim, os propósitos comunica- tivos compartilhados pela comunidade discursiva. “É o propósito comunicativo que direciona as atividades linguísticas da comunidade discursiva” (p. 10). Essa é a condição defendida pelo autor como determinante para a identificação de um gênero. Entretanto, Swales admi- te que o propósito comunicativo não está imune a difi- culdade como elemento chave na determinação de um gênero, pois ele é uma característica menos evidente e demonstrável de que, digamos, a forma e, portanto, é pouco útil como primeiro critério. É fato que o propósito de algum gênero terá dificuldade, em si mesmo, de ad- quirir considerável valor heurístico. Enfatizar a primazia do propósito pode requerer que o analista realize um número regular de investigações independentes e es- clarecedoras, oferecendo, assim, proteção contra uma classificação flexível baseada em características estilísti- cas e crenças herdadas, tais como, tipificar os artigos de pesquisa em simples relatos de experimentos (SWALES, 1990, p. 46). Desse modo, muitas vezes, o leitor tem que usar seu conhecimento de mundo para identificar o propó- sito comunicativo ou os propósitos comunicativos de determinados gêneros, mesmo que ele tenha, às vezes, de iniciar a análise por outros elementos característicos do gênero, como a forma. Como ressalta Swales, embo- ra seja, no geral a mais importante, em alguns casos, a identificação do propósito comunicativo do gênero não é observável diretamente, exigindo, do analista, a abor- dagem de outros fenômenos. - Exemplares de gêneros variam em sua prototi- picidade. Apesar de destacar o propósito comunicativo como principal elemento de definição do gênero, Swales re- conhece que outras propriedades, como a forma, a es- trutura e as expectativas da audiência, também servem para identificar um exemplar como prototípico de um gênero em particular. Mas, ao analisar, devemos obser- var que os exemplares de gêneros também variam em sua prototipicidade; por isso é muito importante que não nos detenhamos somente em uma única caracte- rística do gênero. - A razão que subjaz a um gênero estabelece restrições sobre possíveis contribuições em termos de conteúdo, posicionamento e forma. Os propósitos comunicativos que estão vinculados aos gêneros são, de forma geral, reconhecidos pelos membros da comunidade discursiva, na qual os gêne- ros circulam, pois, o gênero tem uma lógica própria em função de um propósito que a comunidade reconhece. Dessa maneira, algumas convenções são aguardadas e reveladas no gênero, ou seja, essas convenções são uti- lizadas pelos membros de acordo com o entendimento do propósito do gênero. A razão, vinculada às conven- ções do discurso, estabelece restrições em termos de conteúdo, posicionamento e forma. O reconhecimento do propósito comunicativo pe- los membros da comunidade discursiva pode se dar em níveis diferentes ou, como lembra Swales, pode ser re- conhecido ou não, se o interlocutor não fizer parte da comunidade do discurso. - A terminologia relativa a gêneros, usada por uma comunidade discursiva, é uma importante fonte de percepção. Segundo Swales (1990, p. 54), o conhecimento das convenções de um gênero é, provavelmente, maior para aqueles que lidam com eles diária ou profissionalmente do que para aqueles que apenas têm contatos casuais. 6 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola O resultado disso são as nomenclaturas relativas aos gêneros, que refletem a visão dos membros mais ex- perientes e ativos da comunidade sobre eventos comu- nicativos, reconhecidos por eles como ações retóricas recorrentes. Pelo motivo exposto acima, é extremamente neces- sário observar nas nossas salas de aula o que nossos alunos sabem e/ou precisam saber sobre as especifi- cidades de determinados gêneros, pois muitos deles, ou melhor, muitos de nós não temos conhecimento de como produzir certos gêneros, e de qual é o seu propó- sito comunicativo. Após sumarizar as características apresentadas por Swales (1990), vale apresentar o conceito de gênero, no qual o autor agrupa todas as particularidades mostradas acima: Um gênero compreende uma classe de eventos co- municativos em que os membros da comunidade com- partilham os mesmos propósitos comunicativos. Esses propósitos são reconhecidos pelos membros mais expe- rientes da comunidade discursiva original e constituem a razão do gênero. Esta racionalidade modela a estrutura esquemática do discurso e influencia e restringe as es- colhas de conteúdo e estilo. O propósito comunicativo, além de ser um critério privilegiado, também opera para sustentar o escopo de um gênero, mantendo-se enfoca- do estreitamente em determinada ação retórica compa- tível com o gênero. Além do propósito, os exemplares de um gênero exibem vários padrões de semelhança em termos de estrutura, estilo, conteúdo e audiência. Se num exemplar forem realizadas todas as expectativas sobre a caracterização de um determinado gênero, esse exemplar será visto como prototípica pela comunidade discursiva em que ele circula. Os nomes dos gêneros, herdados e produzidos pelas comunidades discursivas e importados por outras, constituem uma comunicação etnográfica valiosa, mas necessitam posteriormente de validação adicional. (SWALES, 1990, p. 58). Em seus trabalhos mais recentes, Swales também re- visa seu conceito de gênero, principalmente a noção de propósito comunicativo. Decorrente da dificuldade de uma identificação precisa do propósito comunicativo, Swales (2001), em um artigo em coautoria com Askeha- ve, reavalia sua visão acerca desse ponto, discutindo as limitações do seu conceito. Propósito comunicativo pas- sa a ser visto, então, por esses autores, como um critério privilegiado na identificação de um gênero, e não como o critério determinante. No entanto, a identificação exa- ta do gênero, como o próprio Swales reconheceu, não está livre de dificuldades. Ao contrário, muitas vezes é importante observar outras características constitutivas do gênero. Bhatia (1993) exemplifica uma dessas dificuldades na identificação do gênero, citando as táticas usadas por repórteres experientes, no intuito de mascarar suas posições políticas sob forma de notícias objetivas. Le- vando em consideração obstáculos, como o exemplo ci- tado por Bhatia, Swales começa a priorizar o contexto de produção, pois o propósito de um gênero também está sujeito a questões sócio- históricas. Uma reportagem, embora se apresente como objetiva, pode se tornar um texto altamente opinativo e político, por exemplo. Em suma, os conceitos de gênero e suas especifi- cidades, explorados por Swales em seus trabalhos, são pertinentes para a nossa pesquisa também pelo fato de o autor trabalhar com contextos educacionais específi- cos. Aspectos como o propósito comunicativo e a forma composicional serão explorados no intuito de avaliar se os livros didáticos de língua inglesa explicitam para quê e como são produzidos os textos. Luiz Antônio Marcuschi Os trabalhos de Marcuschi (2003a, 2003b, 2006) apresentam uma discussão acerca dos gêneros textuais e suas especificidades. O autor também chama a aten- ção para a distinção entre gênero textual e tipo tex- tual, tão comumente confundidos na escola. Marcuschi (2003a) levanta vários argumentos como formade dis- tinguir essas duas entidades e apresenta uma noção de gênero textual inserida em um contexto sócio-histórico. Devido ao fato de o termo gênero estar, tradicional- mente, atrelado aos estudos literários, é comum, na es- cola, o uso do termo tipo de texto para gênero de texto, relacionando-o assim a carta, memorando, reportagem, artigo de opinião etc. Isso constitui um equívoco na construção do conhecimento na sala de aula de línguas, pois muitas das propostas de produção de texto, oral ou escrito, se referem aos tipos textuais e não aos gêne- ros. Marcuschi (2003a) esclarece essa questão argumen- tando que tipo de texto são sequências textuais defini- das pela natureza linguística de sua composição, como aquelas propostas por Adam (1992). O que chamamos de gêneros textuais está muito além dessas sequências, envolvem características específicas como propósito co- municativo, interlocutores, suporte etc. Para Marcuschi, os gêneros caracterizam-se muito mais por suas funções comunicativas, cognitivas e ins- titucionais do que por suas peculiaridades linguísticas e estruturais; mas isso não quer dizer que a forma deve ser desprezada. De acordo com o autor, os gêneros textuais são “fenômenos históricos, profundamente vinculados à vida cultural e social” (MARCUSCHI 2003) e colaboram para a ordenação e estabilização das atividades comu- nicativas do dia-a-dia. Talvez seja por essa razão que, assim como surgem, podem desaparecer, pois seu fun- 7 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola cionamento está vinculado às necessidades e atividades socioculturais e às inovações tecnológicas. A exemplo disso, temos a grande circulação do gênero e-mail e, paralelamente, uma enorme redução no uso do tradi- cional gênero carta pessoal. Além de esclarecer questões sobre os tipos textuais e sobre os gêneros textuais, Marcuschi, em outro traba- lho (2003), discute a questão do suporte dos gêneros. É pertinente para nós esse ponto, já que o nosso trabalho envolve um tipo especial de suporte – o livro didático. Para esse autor, o livro didático, além de suporte, pode ser visto como um simulador, em várias dimensões si- multaneamente, de diversos gêneros. Por isso, o livro didático não deverá ser considerado um gênero secun- dário, conforme alguns autores chegaram a especular. Em seu interior, os gêneros não perdem as suas funções originais; eles adquirem outras funcionalidades. Para Marcuschi, a noção de suporte nos leva a per- ceber como se dá a circulação social dos gêneros. Se- gundo o autor, os suportes podem ser: convencionais, “tendo em vista sua função de portarem ou fixarem tex- tos” (2003b, p. 20), como a página da Internet, o jornal, o livro didático; e incidentais, tendo em vista sua eventua- lidade, por não serem destinados a esse fim, como, por exemplo, o corpo humano, quando são tatuados com uma imagem, um poema ou uma declaração de amor. Segundo Marcuschi (2003a), algumas vezes os gê- neros são determinados pelas formas, na maioria das vezes pela função e, ainda outras vezes, pelo suporte ou ambiente em que o texto aparece. Os gêneros textuais estão presentes em todas as nossas práticas sociais, já que não podemos nos co- municar verbalmente a não ser através deles. Segundo Marcuschi (2006, p. 25), os gêneros devem ser vistos na relação com as práticas sociais, os aspectos cogni- tivos, os interesses, as relações de poder, as tecnolo- gias, as atividades discursivas e no interior da cultura. Eles mudam, fundem-se, misturam-se para manter sua identidade funcional com inovação organizacional. Des- sa forma, seria quase impossível identificar, em dados numéricos, todos os gêneros existentes, assim como é também pouco provável conhecê-los em sua totalidade, pois, como ressalta Antunes (2002, p. 70), “os gêneros se determinam por fatores da situação de uso dos textos” e somente pela análise dos contextos reais de uso, pode- mos verificar a existência e a funcionalidade de alguns gêneros. Em suma, o que caracteriza os gêneros textuais não são somente os aspectos formais, mas as funções que eles exercem nas práticas sociais partilhadas por uma mesma comunidade discursiva. Dessa maneira, os gêneros textuais podem ser definidos como ritos sociais transformados em texto. Fonte: LIMA, A. M. J. Os gêneros textuais e o ensino da produção de texto: análise de propostas em livros didáticos de língua inglesa. 2007 2 TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS SOBRE O ENSINO DE LÍNGUA ESPANHOLA: ABORDAGEM DA LINGUAGEM SOB NOVOS ENFOQUES. Em nossa sociedade, o conhecimento de Línguas Estrangeiras é muito valorizado no âmbito profissional, porém, no caso do ensino médio, mais do que encarar o novo idioma apenas como uma simples ferramenta, um instrumento que pode levar à ascensão, é preciso entendê-lo como um meio de integrar-se e agir como cidadão. Nesse sentido, o foco do ensino não pode es- tar, ao menos de modo exclusivo e predominante, na preparação para o trabalho ou para a superação de pro- vas seletivas, como o vestibular. Essas situações fazem parte da vida do aluno, mas não são as únicas, talvez nem sejam as principais e, acima de tudo, não se esgo- tam nelas mesmas. Para que o ensino da língua estrangeira adquira sua verdadeira função social e contribua para a construção da cidadania, é preciso, pois, que se considere que a formação ou a modificação de atitudes também pode ocorrer – como de fato ocorre – a partir do contato ou do conhecimento com/sobre o estrangeiro, o que nos leva, de maneira clara e direta, a pensar o ensino do Es- panhol, antes de mais nada, como um conjunto de valo- res e de relações interculturais. Havendo, na escola, acesso a revistas, jornais, livros, TV, vídeo, gravador, computador etc., típicos do mun- do fora da sala de aula, tais recursos podem ser usados na elaboração de tarefas pedagógicas, para deixar claro para o aluno a vinculação do que se faz em sala de aula com o mundo exterior (as pessoas estão no seu dia-a- -dia envolvidas na construção social do significado; as possibilidades que existem fora da sala de aula de se continuar a aprender Língua Estrangeira. Critérios para Inclusão de Línguas Estrangeiras no Currículo Independentemente de se reconhecer a importân- cia do aprendizado de várias línguas, em vez de uma única, e de se pôr em prática uma política de pluralismo linguístico, nem sempre há a possibilidade de se incluir mais do que uma língua estrangeira no currículo. Os motivos podem ir da falta de professores até a dificuldade de incluir um número elevado de disciplinas na grade escolar. Assim, uma questão que precisa ser enfrentada é qual, ou quais línguas estrangeiras incluir no currículo. 8 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Pelo menos três fatores devem ser considerados: -fatores históricos; -fatores relativos às comunidades locais; . -fatores relativos à tradição. Fatores históricos Os fatores históricos estão relacionados ao papel que uma língua específica representa em certos mo- mentos da história da humanidade, fazendo com que sua aprendizagem adquira maior relevância. A relevân- cia é frequentemente determinada pelo papel hege- mônico dessa língua nas trocas internacionais, gerando implicações para as trocas interacionais nos campos da cultura, da educação, da ciência, do trabalho etc. O caso típico é o papel representado pelo inglês, em função do poder e da influência da economia norte- -americana. Essa influência cresceu ao longo deste sécu- lo, principalmente a partir da Segunda Guerra Mundial, e atingiu seu apogeu na chamada sociedade globaliza- da e de alto nível tecnológico, em que alguns indivíduos vivem neste final do século. O inglês, hoje, é a língua mais usada no mundo dos negócios, e em alguns países, comoHolanda, Suécia e Finlândia, seu domínio é prati- camente universal nas universidades. É possível antever que, no futuro, outras línguas desempenhem esse papel. Deve-se considerar também o papel do espanhol, cuja importância cresce em função do aumento das tro- cas econômicas entre as nações que integram o Merca- do das Nações do Cone Sul (Mercosul). Esse é um fenô- meno típico da história recente do Brasil, que, apesar da proximidade geográfica com países de fala espanhola, se mantinha impermeável à penetração do espanhol. Fatores relativos às comunidades locais A convivência entre comunidades locais e imigran- tes ou indígenas pode ser um critério para a inclusão de determinada língua no currículo escolar. Justifica-se pelas relações envolvidas nessa convivência: as relações culturais, afetivas e de parentesco. Por outro lado, em comunidades indígenas e em comunidades de surdos, nas quais a língua materna não é o português, justifica- -se o ensino de Língua Portuguesa como segunda lín- gua. Fatores relativos à tradição O papel que determinadas línguas estrangeiras tra- dicionalmente desempenham nas relações culturais en- tre os países pode ser um fator a ser considerado. O francês, por exemplo, desempenhou e desempenha im- portante papel do ponto de vista das trocas culturais entre o Brasil e a França e como instrumental de acesso ao conhecimento de toda uma geração de brasileiros. Aprender línguas significa aprender conheci- mento e seu uso Diferentemente do que ocorre em outras disciplinas do currículo, na aprendizagem de línguas o que se tem a aprender é também, imediatamente, o uso do conhe- cimento, ou seja, o que se aprende e o seu uso devem vir juntos no processo de ensinar e aprender línguas. As- sim, caracterizar o objeto de ensino significa caracterizar os conhecimentos e os usos que as pessoas fazem deles ao agirem na sociedade. Portanto, ao ensinar uma lín- gua estrangeira, é essencial uma compreensão teórica do que é a linguagem, tanto do ponto de vista dos co- nhecimentos necessários para usá-la quanto em relação ao uso que fazem desses conhecimentos para construir significados no mundo social. A natureza sociointeracional da linguagem O uso da linguagem (tanto verbal quanto visual) é essencialmente determinado pela sua natureza socioin- teracional, pois quem a usa considera aquele a quem se dirige ou quem produziu um enunciado. Todo significa- do é dialógico, isto é, é construído pelos participantes do discurso. Além disso, todo encontro interacional é crucialmente marcado pelo mundo social que o envolve: pela instituição, pela cultura e pela história. Isso quer dizer que os eventos interacionais não ocorrem em um vácuo social. Ao contrário, ao se envolverem em uma interação tanto escrita quanto oral, as pessoas o fazem para agirem no mundo social em um determinado mo- mento e espaço, em relação a quem se dirigem ou a quem se dirigiu a elas. É nesse sentido que a construção do significado é social. As marcas que definem as identida- des sociais (como pobres, ricos, mulheres, homens, ne- gros, brancos, homossexuais, heterossexuais, idosos, jo- vens, portadores de necessidades especiais, falantes de variedades estigmatizadas ou não, falantes de línguas de prestígio social ou não etc.) são intrínsecas na deter- minação de como as pessoas podem agir no discurso ou como os outros podem agir em relação a elas nas várias interações orais e escritas das quais participam. Vale dizer que o exercício do poder no discurso e o de resistência a ele são típicos dos encontros interacio- nais que se vivem no dia-a-dia. Quem usa a linguagem com alguém, o faz de algum lugar determinado social e historicamente. Assim, os significados construídos no mundo social refletem os embates discursivos. 9 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola A relação entre língua estrangeira e língua ma- terna na aprendizagem O processo sociointeracional de construir conheci- mento linguístico e aprender a usá-lo já foi percorrido pelo aluno no desafio de aprender sua língua materna. Ao chegar à quinta série, a criança já é um falante com- petente de sua língua para os usos que se apresentam nas comunidades discursivas8 imediatas das quais par- ticipa em sua socialização em casa ou nas brincadeiras com os amigos fora de casa, e em outras comunidades discursivas. Essas outras comunidades podem exigir a aprendizagem de uma variedade da língua materna ou de padrões interacionais diferentes dos que teve acesso em casa (por exemplo, modos de interagir com outra pessoa em sala de aula). Neste percurso, o aluno já aprendeu usos da lin- guagem com os quais pode não ter se familiarizado em casa (por exemplo, na leitura e na produção de um texto escrito), tendo também interiorizado sua natureza sociointeracional (por exemplo, ao aprender a conside- rar as marcas das identidades sociais, idade, gênero etc. daqueles com quem fala em contextos sociais específi- cos) e começado a construir conhecimento de nature- za metalinguística nas aulas de língua materna. Isso lhe possibilita pensar, falar, ler e escrever sobre sua própria língua. Enfim, o aluno já sabe muito sobre sua língua materna e sobre como usá-la, ou seja, sabe muito sobre linguagem. Em linhas gerais, o que a aprendizagem de uma Lín- gua Estrangeira vai fazer é: -Aumentar o conhecimento sobre linguagem que o aluno construiu sobre sua língua materna, por meio de comparações com a língua estrangeira em vários níveis; -Possibilitar que o aluno, ao se envolver nos proces- sos de construir significados nessa língua, se constitua em um ser discursivo no uso de uma língua estrangeira. A relação do processo de ensinar e aprender língua estrangeira com os temas transversais Ensino de Língua Estrangeira: modo singular para focalizar a relação entre linguagem e sociedade. A aprendizagem de Língua Estrangeira representa outra possibilidade de se agir no mundo pelo discurso além daquela que a língua materna oferece. Da mes- ma forma que o ensino da língua materna, o ensino de Língua Estrangeira incorpora a questão de como as pessoas agem na sociedade por meio da palavra, cons- truindo o mundo social, a si mesmos e os outros à sua volta. Portanto, o ensino de línguas oferece um modo singular para tratar das relações entre a linguagem e o mundo social, já que é o próprio discurso que constrói o mundo social. A aprendizagem de Língua Estrangeira oferece aces- so a como são construídos os temas propostos como transversais em práticas discursivas de outras socieda- des. É uma experiência de grande valor educacional, posto que fornece os meios para os aprendizes se dis- tanciarem desses temas ao examiná-los por meio de discursos construídos em outros contextos sociais de modo a poderem pensar sobre eles, criticamente, no meio social em que vivem. Assim, os temas transversais, que têm um foco claro em questões de interesse social, podem ser facilmen- te trazidos para a sala de aula via Língua Estrangeira. A análise das interações orais e escritas em sala de aula é um meio privilegiado para tratar dos temas transversais ao se enfocar as escolhas linguísticas que as pessoas fa- zem para agir no mundo social. Isso pode ser feito tan- to do ponto de vista das escolhas temáticas; os conhe- cimentos de mundo acionados (aquilo do que se fala, sobre o que se escreve, ou se lê); quanto do ponto de vista das escolhas sistêmicas (nos níveis sintático, mor- fológico, léxico-semântico, fonético-fonológico) e de organização textual (tipos de texto) e ainda da variação linguística (como comunidades de falantes de regiões diferentes de um mesmo país variam no uso da língua, por exemplo). Um procedimento pedagógico útil para mostrar ao aluno que a linguagem é uma prática social, ou seja, en- volveescolhas da parte de quem escreve ou fala para construir significados em relação a outras pessoas em contextos culturais, históricos e institucionais específi- cos é submeter todo texto oral e escrito a sete pergun- tas: quem escreveu/falou, sobre o que, para quem, para que, quando, de que forma, onde? Essas perguntas se- rão retomadas a seguir. Escolhas temáticas Os temas transversais podem ser focalizados pela análise comparativa de como questões particulares são tratadas no Brasil e nos países onde as línguas estran- geiras são faladas como língua materna e/ou língua oficial. Essas questões podem envolver tópicos como: o respeito à ética nas relações cotidianas, no trabalho, e no meio político brasileiro; a preocupação com a saúde; a garantia de que todo cidadão brasileiro tenha direi- to ao trabalho; a consciência dos perigos de uma so- ciedade que privilegia o consumo em detrimento das relações entre as pessoas; o respeito aos direitos hu- manos (aqui incluídos os culturais e os linguísticos); a preservação do meio ambiente; a percepção do corpo como fonte de prazer; a consciência da pluralidade de expressão da sexualidade humana; a mudança no papel que a mulher desempenha na sociedade; a organização política das minorias étnicas. Por exemplo, os maoris na Nova Zelândia, os quechuas no Peru, os argelinos na 10 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola França, os ianomâmis no Brasil e na Venezuela e não- -étnicas. por exemplo, idosos, portadores de necessida- des especiais, homossexuais, falantes de uma variedade não hegemônica. É claro que está implícita aqui a necessidade de que os textos abordem os temas transversais, que podem ser tratados em níveis diferentes, dependendo do pré- -conhecimento de mundo, sistêmico e de organização textual do aluno. Isso não quer dizer, contudo, que esses temas só podem ser trazidos para a sala de aula quando o aluno tiver avançado nesses conhecimentos. Pode-se, por exemplo, tratar da questão da posição da mulher na sociedade ou da preservação do meio ambiente em tex- tos que envolvam pouco conhecimento sistêmico ou até que envolvam mais conhecimento desse tipo do que o aluno disponha. Em outras palavras, a questão crucial é o objetivo proposto para a realização da tarefa pedagó- gica, levando-se em conta a adequação do tema à idade do aluno e ao meio social em que vive. Cabe aos professores exercerem seu sentido críti- co na escolha do conteúdo tematizado. A tematização da poluição em uma cidade como Nova York ou Ma- dri, contudo, pode ser levantada não só em uma cidade grande como São Paulo, mas também em outras cida- des menores, por meio da comparação com outros tipos de problemas ecológicos (por exemplo, a contaminação dos mananciais de onde vem a água potável de um lu- garejo). É nesse sentido que a aula de Língua Estrangeira pode aprimorar o conhecimento de mundo do aluno. Note-se também que as línguas estrangeiras dão acesso sobre o modo como certas questões sociais (as am- bientais, por exemplo) são tratadas em nível planetário. Este posicionamento em relação às temáticas tra- tadas em sala de aula questiona o fenômeno do texto sobre a escova de dente tão comum em sala de aula de Língua Estrangeira, que desloca a linguagem do mun- do social. A temática de um texto sobre uma escova de dente não situa, imediatamente, a linguagem como um fenômeno social, já que o engajamento discursivo pela motivação temática não está patente, a menos que esse texto seja tratado em sala de aula em um contexto inte- racional que o faça valer como prática social, como será mostrado a seguir. Compare-se o texto sobre uma escova de den- te com outros que problematizem as questões que se vivenciam no mundo social: a ética na política, as difi- culdades cada vez maiores de se conseguir emprego, a importância de se utilizar práticas preventivas na vida sexual, o respeito aos direitos de todos os cidadãos sem distinção de gênero, etnia ou opção sexual etc. O en- gajamento discursivo aqui é imediato, tendo em vista as temáticas sugerirem a vida social de forma explícita. Continuando-se com o mesmo fenômeno do tex- to sobre escova de dente, pode-se dizer, contudo, que o uso em sala de aula de propagandas de diferentes tipos de escova de dente pode situar os participantes discursivos fazendo algo no mundo social por meio da linguagem (por exemplo, vendendo um produto utili- zando uma propaganda) se for tratado como tal. É nesse sentido que as sete perguntas anteriormente sugeridas podem ser utilizadas em sala de aula: quem elaborou a propaganda (uma agência, homem, mulher etc.), do que trata (um tipo de escova de dente nova), para quem (uma escova tão sofisticada que só poderá ser compra- da por quem tem dinheiro, uma escova dobrável para caber em bolso de homens etc.), quando (uma propaganda elaborada em uma determinada época, quando não havia muita sofisticação nos tipos de escova de dente, quando o desenvolvimento tecnológico era menor etc.), de que forma (o texto conta uma historinha, apresenta um diálogo, é ilustrado etc.), onde foi publicado (em um revista de jovens, de mulheres etc.), para que (qual é o resultado da propaganda nos receptores). A questão central, portanto, é a visão de linguagem que subjaz à prática do professor e como ela é viabilizada por meio da metodologia de ensino. Escolhas de organização textual A utilização em sala de aula de tipos de textos dife- rentes, além de contribuir para o aumento do conheci- mento intertextual do aluno, pode mostrar claramente que os textos são usados para propósitos diferentes na sociedade. Por exemplo, a comparação de um texto publicado em um editorial de um jornal do movimento de defesa dos direitos dos argelinos na França, de afro- -americanos nos Estados Unidos ou dos indígenas no México, com um editorial de um jornal conservador des- ses países sobre o mesmo assunto, e ainda, com uma história contada por um indivíduo desses grupos sociais sobre sua vida, pode situar para os alunos o fato de que, ao agirem no discurso por meio da linguagem, as pessoas fazem es- colhas de organização textuais na dependência de seus propósitos comunicativos no mundo. Esses significados refletem suas visões de mundo, projetos políticos etc. É claro que será útil também comparar esses textos com um outro da mesma natureza (temática e de tipo) pu- blicado em um jornal brasileiro, por exemplo. Esse tra- balho de natureza intercultural pode evidenciar como a organização política na luta pela emancipação de mi- norias étnicas tem sido concretizada em outros países e no Brasil. 11 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Escolhas sistêmicas Colocar o foco nas escolhas sistêmicas feitas por participantes discursivos específicos em línguas estran- geiras particulares pode ajudar a chamar a atenção para a maneira como a representação discursiva do mundo social é feita em línguas diferentes. Por exemplo, a aná- lise de textos acadêmicos em inglês, nos quais os usuá- rios excluem cada vez mais o item lexical .man/homem em seu uso genérico tanto na língua escrita quanto na língua oral (por exemplo:. O homem do final do século XX deverá ter um alto nível de letramento em sua língua materna e, pelo menos, em uma língua estrangeira.), preferindo itens como o .human-being/ser humano., .person/pessoa. etc. Da mesma forma, pode-se ana- lisar textos em inglês em que a referência pronominal de uma palavra, não claramente marcada pelo gênero, como .teacher/professor., tende a ser cada vez mais fei- ta por pronomes que marcam tanto o gênero masculino quanto feminino (por exemplo, .he/she (ele/ela). Ou até formas do tipo .(s)he (ele(a)).). Esses dois exemplos ilus- tram como a luta da mulher por sua emancipação tem afetado arepresentação discursiva. Outra questão importante é observar como alguns itens lexicais são escolhidos para se referir às minorias ou a pessoas em situação de desigualdade (os negros, os gays/as lésbicas, as mulheres, os indígenas, os imi- grantes, os mendigos etc.) em certo tipo de imprensa. Os tabloides ingleses, por exemplo, são cheios de re- presentações sociais negativas dessas pessoas. A com- paração com as manchetes da imprensa marrom brasi- leira pode ser muito reveladora. É interessante ressaltar as contradições sociais refletidas nos discursos de uma mesma língua: a representação discursiva da emancipa- ção da mulher em algumas formas de discurso em in- glês coexiste, paralelamente, com outras representações negativas da mulher e das minorias. Essa visão é extre- mamente útil para se perceber as culturas como sendo múltiplas e plurais, e espaços de conflitos. A análise das marcas discursivas leva para o centro da sala de aula uma o tradicional que a representa como sendo unívoca e não plural, pasteurizada/idealizada e não real. Um outro ponto que pode ser focalizado são as es- colhas no nível da sintaxe; por exemplo, a questão da transitividade. Chamar a atenção do aluno para o fato de que ao elaborar a manchete de um jornal, o jornalis- ta que escolhe usar uma passiva tira o foco de atenção de quem é o causador de um fato e focaliza a ação. Por exemplo, dizer que um indígena foi assassinado é dife- rente de indicar quem o assassinou. A consciência crítica de como a linguagem é usada no mundo social pode ser bem desenvolvida em Língua Estrangeira, devido ao distanciamento que ela oferece, possibilitando um estranhamento mais fácil em rela- ção ao modo como as pessoas usam a linguagem na sociedade. Ao mesmo tempo que isso traz para o cen- tro do currículo a relação da linguagem com o mundo social, constitui um modo de integrar os temas trans- versais com a área de Língua Estrangeira. Além disso, a consciência crítica em relação à linguagem possibilita o surgimento de novas práticas sociais por meio da cria- ção de espaços na escola para a construção de contra discursos. VARIAÇÃO LINGUÍSTICA A questão da variação linguística em Língua Estran- geira pode ajudar não só a compreensão do fenômeno linguístico da variação na própria língua materna, como também do fato de que a língua estrangeira não existe só na variedade padrão, conforme a escola normalmen- te apresenta. Aqui não é suficiente mostrar a relação entre grupos sociais diferentes (regionais, de classe so- cial, profissionais, de gênero etc.) e suas realizações lin- guísticas; é necessário também indicar que as variações linguísticas marcam as pessoas de modo a posicioná-las no discurso, o que pode muitas vezes excluí-las de cer- tos bens materiais e culturais. É útil apresentar para o aluno, por exemplo, como a variedade do inglês falado pelos negros americanos é discriminada na sociedade e, portanto, como, estes equivocadamente, são posicionados no discurso como inferiores. A comparação com variedades não hegemô- nicas do português brasileiro pode ser esclarecedora, já que seus falantes também sofrem discriminação social. Isso quer dizer que algumas variedades linguísticas têm mais prestígio social do que outras. Para ilustrar este fato, basta comparar o valor dado a variedades rurais e variedades urbanas nas trocas interacionais urbanas. Comparar falantes dessas duas variedades em uma situação em que estão se candidatando a um emprego na cidade pode esclarecer para o aluno como as varie- dades linguísticas, entre outros fatores que revelam sua identidade social (classe social, etnia, gênero, opção se- xual etc.), marcam as pessoas na vida social, o que pode fazer com que uma obtenha emprego e outra não. Não se deve esquecer ainda que as marcas de va- riedades são frequentemente fruto de processos de ex- clusão. A consciência desses processos na escola pode colaborar na compreensão de que diferença linguísti- ca não pode ser equacionada com inferioridade, como também, consequentemente, na criação de uma socie- dade mais justa, já que a linguagem é central na deter- minação das relações humanas e da identidade social das pessoas. Assim, reafirma-se o direito de ser diferen- te cultural e linguisticamente. PLURALIDADE CULTURAL O tema transversal Pluralidade Cultural merece um tratamento especial devido ao fato de o ensino de Lín- gua Estrangeira se prestar, sobremodo, ao enfoque des- sa questão. 12 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Esse tema pode ser focalizado a fim de desmistifi- car compreensões homogeneizadoras de culturas es- pecíficas, que envolvem generalizações típicas de aulas de Língua Estrangeira do tipo, por exemplo, os ingleses ou os franceses são .assim ou assado.. É extremamente educativo expor o aluno à diversidade cultural francesa, por exemplo, ao observar a vida em uma cidade como Paris, em que grupos de nacionalidades diferentes tais como franceses, argelinos, portugueses, senegaleses, e de outros tipos de minorias coexistem, nem sempre de forma pacífica, na construção de natureza multifacetada do que é a cultura francesa. Trata-se de algo extremamente enriquecedor para o aluno, que constrói uma compreensão mais real do que é a complexidade cultural de um país e também uma percepção crítica das tradicionais visões pasteurizadas e unilaterais de uma cultura (por exemplo, as visões tra- dicionais de que os ingleses tomam chá às cinco horas da tarde ou de que são todos extremamente polidos). Comparativamente, a pluralidade cultural brasileira (indígenas, negros, brancos, católicos, seguidores de cultos religiosos de origem africana, judeus, sambistas, adeptos de reggae etc.) pode ser trazida à tona em uma tentativa de acabar com visões estereotipadas do que é ser brasileiro. Em um país culturalmente plural como o Brasil, é pernicioso trabalhar em sala de aula com uma visão que exclui grande parte da população brasileira das representações que a criança costuma ter no discur- so pedagógico (o que inclui também suas representa- ções em material didático): branco, católico, morador do .sul-maravilha., classe média, falante de uma variedade hegemônica etc. Em relação ao tema Pluralidade Cultural, também é essencial que se traga para a sala de aula o fato de que, pelos processos de colonização, muitas línguas estran- geiras, tradicionalmente equacionadas com as línguas faladas pelos nativos dos países colonizadores (Ingla- terra, Espanha, França etc.), são hoje usadas em várias partes do mundo como línguas oficiais e até mesmo como línguas maternas. Não faz sentido, por exemplo, considerar o espanhol somente como a língua da Espa- nha, como também considerar o inglês somente como a língua da Inglaterra ou dos Estados Unidos, ou o francês como a língua da França. É útil chamar a atenção para a complexidade cultural dessas línguas faladas como línguas oficiais ou línguas maternas em países tão distantes, geográfica e/ou cul- turalmente, como Nova Zelândia e Jamaica, no caso do inglês, ou Peru e Argentina, no caso do espanhol, ou Argélia e Congo, no caso do francês. No que se refere a uma língua hegemônica como o inglês por ter uma grande penetração internacional, não só como língua oficial de países que foram antigas colônias da Grã-Bretanha, mas também como língua es- trangeira, devido ao poderio econômico e político do Reino Unido nas primeiras décadas deste século e dos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial até hoje é essencial que se focalize a questão da pluralida- de cultural representada pelos países que usam o inglês como língua oficial. Além, é claro, da motivação educa- cional implícita nessa percepção histórico-social da lín- gua inglesa, também é um meio de focalizar as questões de naturezasociopolítica, que devem ser consideradas no processo de ensino e aprendizagem de uma língua estrangeira. Cabe ressaltar ainda o papel do inglês na sociedade atual. Essa língua, que se tornou uma espécie de língua franca, invade todos os meios de comunicação, o co- mércio, a ciência, a tecnologia no mundo todo. É, em geral, percebida no Brasil como a língua de um único país, os Estados Unidos, devido ao seu papel atual na economia internacional. Todavia, o inglês é usado tão amplamente como língua estrangeira e língua oficial em tantas partes do mundo, que não faz sentido atualmen- te compreendê-lo como a língua de um único país. As pessoas podem fazer uso dessa língua estran- geira para seu benefício, apropriando-se dela de modo crítico. É esta concepção que se deve ter da aprendizagem de uma língua estrangeira, notadamente do inglês: usá- -lo para se ter acesso ao conhecimento em vários níveis (nas áreas científicas, nos meios de comunicação, nas relações internacionais entre indivíduos de várias na- cionalidades, nos usos de tecnologias avançadas etc.). O acesso a essa língua, tendo em vista sua posição no mercado internacional das línguas estrangeiras, por as- sim dizer, representa para o aluno a possibilidade de se transformar em cidadão ligado à comunidade global, ao mesmo tempo que pode compreender, com mais clare- za, seu vínculo como cidadão em seu espaço social mais imediato. A importância do inglês no mundo contemporâneo, pelos motivos de natureza político-econômica, não dei- xa dúvida sobre a necessidade de aprendê-lo. Esses mesmos fatores de natureza sociopolítica de- vem orientar o trabalho do professor. Não se pode ig- norar o papel relativo que línguas estrangeiras diferen- tes têm em momentos políticos diversos da história da humanidade (o latim na época do Império Romano) e de países específicos (o espanhol atualmente no Brasil). Isso afeta a função social que línguas estrangeiras espe- cíficas adquirem ao serem percebidas como sendo de mais prestígio e de mais utilidade, determinando suas inclusões nos currículos escolares. A consciência dessas questões deve ser tratada pedagogicamente em sala de aula ao se chamar a atenção para a utilização do inglês no mundo contemporâneo nas várias áreas da atividade humana. Solicitar que os alunos atuem como etnógrafos 13 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola em suas práticas sociais, fazendo anotações dos usos de inglês ao mesmo tempo que tomam consciência dos vários países que usam esta língua como língua oficial ou língua materna, parece ser essencial para sua cons- cientização de aspectos de natureza sociopolítica relacionados à aprendizagem dessa língua. O levantamento de países que usam o inglês como língua materna e/ou língua oficial só nas Américas (Barbados, Belize, Canadá, Dominica, Estados Unidos, Guiana, Granada, Jamaica, Santa Lúcia, Trinidad e Tobago etc.) pode ser, portanto, útil nessa conscien- tização. Ainda na temática de aspectos sociopolíticos referentes à aprendizagem de uma língua estrangeira é notável a presença, cada vez maior, do espanhol no Brasil. Sua crescente importância, devido ao Mercosul, tem determinado sua inclusão nos currículos escolares, prin- cipalmente nos estados limítrofes com países onde o es- panhol é falado. A aprendizagem do espanhol no Brasil e do português nos países de língua espanhola na Amé- rica é também um meio de fortalecimento da América Latina, pois seus habitantes passam a se (re)conhecerem não só como uma força cultural expressiva e múltipla, mas também política (um bloco de nações que podem influenciar a política internacional). Esse interesse cada vez maior pela aprendizagem do espanhol pode contri- buir na relativização do inglês como língua estrangei- ra hegemônica no Brasil, como, aliás, igualmente nes- se sentido, seria essencial a inserção de outras línguas estrangeiras (francês, italiano, alemão etc.) no currículo. Embora em um nível diferente, devido ao papel que os Estados Unidos representam na economia interna- cional, a mesma vinculação do inglês com os Estados Unidos é detectada na associação do espanhol com a Espanha no Brasil. Chamar a atenção por meio de tra- balhos de pesquisa para os países que usam o espanhol tanto como língua materna e/ou língua oficial nas Amé- ricas (Argentina, Bolívia, Chile, Cuba, El Salvador, Equa- dor, Guatemala, Paraguai, Uruguai etc.) traz para a sala de aula aspectos de natureza sociopolítica da aprendi- zagem de uma língua estrangeira, além de contribuir para uma percepção intercultural da América Latina. Fonte: Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua estrangeira De acordo com os Orientações Curriculares Nacio- nais para o Ensino Médio o que se objetiva é delinear alguns princípios gerais que permitam aos docentes: a) realizar uma reflexão criteriosa acerca da função da Língua Espanhola na escola regular; b) estabelecer os objetivos realizáveis, consideran- do-se as peculiaridades (regionais, institucionais e de toda ordem) de cada situação de ensino, e das relações entre o universo hispânico e o brasileiro, em toda a sua heterogeneidade constitutiva; c) selecionar e sequenciar os conteúdos – temáti- cos, culturais, nocional-funcionais e gramaticais – mais indicados para a consecução dos objetivos propostos; e d) definir a(s) linha(s) metodológica(s) e as estraté- gias mais adequadas, tendo em vista tanto o processo de ensino–aprendizagem quanto os resultados que se pretende alcançar, e, de acordo com isso, fazer a esco- lha do material didático adequado para a abordagem e estabelecer critérios de avaliação condizentes com suas escolhas e plausíveis nessa situação. Objetivos e Conteúdos a serem ensinados: Em relação aos objetivos e conteúdos s serem con- siderados para o ensino do Espanhol, pensando que o objetivo maior da presença da língua estrangeira na grade curricular é a formação do indivíduo, podemos selecionar temas ligados direta e/ou indiretamente a essa proposta. Nesse sentido, pensando sobretudo na ideia de transversalidade, tão presente na lei que rege a educação brasileira – podem-se incluir reflexões sobre: Políticas: formas de governo, estruturas governa- mentais, relações de poder e de soberania, direito a voto, representações partidárias etc; Econômicas: poder aquisitivo, orçamento – público, privado e pessoal –, estratégias de publicidade e consu- mo, recursos agrícolas e industriais, mercado de traba- lho etc; Educação: sistema educativo, estrutura educacional, inclusão/exclusão (social e étnica), função política e so- cial da educação etc; Sociais: habitação, escalas e representações sociais, saúde, segurança, transportes etc; Esportes: valorização e prestígio social, fins da sua prática (profissional, econômico, prazer, saúde...), locais de realização, custos etc; Lazer: opções em função de fatores econômicos, educacionais e sociais; Informação: papel da imprensa, confiabilidade, acesso à informação, meios de divulgação da informa- ção (jornais, revistas, rádio, televisão, Internet) etc; Línguas e linguagens: questões relativas a políti- cas linguísticas, à diversidade de línguas presentes nos diversos países, às línguas indígenas, ao seu reconhe- cimento e preservação, ao papel da língua estudada na formação do estudante, na história e na sociedade contemporânea (questões locais e globais), no proces- so de globalização; aos efeitos da globalização sobre as línguas e linguagens etc. Para que a consecução de tais objetivos seja possí- vel, é preciso adotar uma visão ampliada dos conteúdos a serem incluídos nos programas de curso para além das tradicionais habilidades (ouvir, falar, ler, entender) e das sequências lexicais e componentesgramaticais pró- prios da norma culta. 14 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola É fundamental trabalhar as linguagens não apenas como formas de expressão e comunicação, mas como constituintes de significados, conhecimentos e valores. Estão aí incorporadas as quatro premissas apontadas pela Unesco como eixos estruturais da educação na so- ciedade contemporânea: aprender a conhecer, apren- der a fazer, aprender a viver e aprender a ser. Mas cabe perguntar: o que significa formar cidadãos no espaço da aula de língua estrangeira? Como desen- volver – e o que significa fazê-lo – o senso de cidadania em aula de língua estrangeira? A reflexão sobre o papel da língua que se estuda e das comunidades que as fa- lam, na sua complexa relação com o mundo em geral e com o nosso próprio espaço e a nossa própria língua, é de crucial importância na constituição dessa cidadania. O que muitas vezes se observa no ensino de Língua Espanhola, é que ele está permeado pela ideia de que existe um mundo único e homogêneo constituído de objetos sempre idênticos que apenas mudam de nome quando se passa de uma língua a outra, algo que por vezes reduz o tratamento da variedade à apresenta- ção de extensos “vocabulários” em que se oferecem as “equivalências”; só as palavras e certas formas muda- riam na passagem de um código a outro Qual variedade ensinar? É preciso lembrar, antes de tudo, que nenhum falante de nenhuma língua conhece a fundo todas as variedades existentes. Cada professor, seja porque é falante nativo de dada região seja por- que optou por uma variedade determinada, tem a “sua” própria forma de expressão. Por vezes também, como falante estrangeiro, inevitavelmente combina fragmen- tos de variedades diferentes. Em princípio, essa é a sua forma “natural” de se ex- pressar, a que conhece melhor e à qual se sente mais vinculado. Portanto, essa deve ser a modalidade fun- damental de expressar-se, em aula ou fora dela. É cla- ro que o fato de o professor empregar uma variedade qualquer não o exime do dever de mostrar aos alunos que existem outras, tão ricas e válidas quanto a usada por ele, e, dentro do possível, criar oportunidades de aproximação a elas, derrubando estereótipos e precon- ceitos. Nesse sentido, o papel de professores passa a ser quase o de articuladores de muitas vozes. O que não se pode é transformar essa amostragem num sim- ples conjunto de “curiosidades”, dar-lhe essa caracte- rística de “almanaque”, desconsiderando a construção histórica que é a língua, resultado de muitas falas data- das e localizadas O ensino de Línguas Estrangeiras sempre manteve a gramática em lugar de destaque, dando aos exercícios estruturais um lugar privilegiado, como se mediante a sua realização o aluno pudesse vir a ser treinado para produzir respostas sempre corretas (JOVANOVIC, 1986). Embora essa visão, surgida há mais de meio sécu- lo, ainda esteja bastante presente nas aulas de Línguas Estrangeiras, ela não pode ser mantida quando o enfo- que adotado sinaliza direções e propósitos muito mais abrangentes. Nesse sentido, o conhecimento que o alu- no possui da gramática da língua materna (explícito ou implícito) permite que ele interaja, desde cedo, com a comunidade na qual está inserido. O conhecimento gramatical necessário em língua estrangeira deve levar o estudante a ser capaz de pro- duzir enunciados – simples ou complexos – que tenham uma função discursiva determinada. Essa capacidade, obviamente, vai muito além da simples conjugação ver- bal, da exatidão no emprego das pessoas verbais ou das regras de concordância, por exemplo. Assim, o foco da gramática deve voltar-se para o papel que ela desempe- nha nas relações interpessoais e discursivas. Cabe lembrar, ainda, que o que precisa ser privile- giado no ensino de uma língua estrangeira é a amos- tragem e a reflexão sobre a divisão que nela mesma se organiza ao redor do que é possível e do que é impossí- vel dizer (uma questão que vai muito além do certo e do errado do ponto de vista da norma gramatical vigente e reconhecida), sendo que a gramática representa ape- nas uma das formas dessa divisão, configurada também por outros eixos, entre eles o da coesão, da coerência, da relação com o outro, da adequação a contextos e situações. O ensinar a língua não se confunde com um aban- donar totalmente a reflexão sobre o modo como se apresenta essa língua em cada caso nem a metalingua- gem que se emprega para explicar alguns desses fatos Para que o ensino da língua estrangeira adquira sua verdadeira função social e contribua para a construção da cidadania, é preciso, pois, que se considere que a formação ou a modificação de atitudes também pode ocorrer – como de fato ocorre – a partir do contato ou do conhecimento com/sobre o estrangeiro, o que CO- NHECIMENTOS DE LÍNGUA ESTRANGEIRA – ESPANHOL nos leva, de maneira clara e direta, a pensar o ensino do Espanhol, antes de mais nada, como um conjunto de valores e de relações interculturais. Almeida Filho (2001), afirma que: os professores de línguas precisam, entre outras cousas, produzir o seu ensino e buscar explicar por que procedem das manei- ras como o fazem. Para dar conta desse duplo desafio, o movimento comunicativo tem sugerido alçarmos a posição mais alta, o nível de abstração das crenças e pressupostos guias. Isso equivale a elevar a abstração do nível do método (materialidade de ensino, fórmula estável de ação pedagógica) para abordagem (conjun- to de conceitos nucleados sobre aspectos cruciais do aprender e ensinar uma nova língua). 15 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Ainda de acordo com o mesmo autor uma abor- dagem de ensino se estabelece a partir da reflexão e consolidação de um conjunto de concepções e princí- pios, segundo as experiências, crenças e pressupostos específicos de cada docente, ancorados (em maior ou menor medida) nas ideias sobre o que significa ensi- nar, ideias essas que podem ser próprias (resultantes de experiências e reflexões pessoais) ou de outros (outros professores, instituições, organismos, agentes educa- cionais, alunos, autores de materiais didáticos, sistemas de avaliação etc.) Vale lembrar que o enfoque adotado deve ser integrador e eficaz para que se atinjam os ob- jetivos propostos e que o conjunto de concepções com as quais as ações do docente se vinculam deve refletir coerência. Materiais pedagógicos O material didático é um conjunto de recursos dos quais o professor se vale na sua prática pedagógica, entre os quais se destacam, os livros didáticos, textos, vídeos, as gravações sonoras (de textos, canções), os materiais auxiliares ou de apoio, como gramáticas, di- cionários, entre outros. Assim, um manual de instruções de funcionamento de um aparelho ou a embalagem de um produto alimentício pode, em dado momento, converter-se em material didático de grande utilidade. Uma seleção adequada, que leve em conta o planeja- mento do curso como um todo, incorporará alguns ou vários desses recursos de forma harmoniosa, o que, por sua vez, implica não se ater exclusivamente a apenas um deles, posto que nenhum é tão abrangente que con- temple todos os aspectos relacionados à língua em es- tudo. Contudo, sabe-se da tradição, bastante estendida e consolidada, de se contar com o apoio constante dos livros didáticos, senão como o único material utilizado, ao menos como o principal, o que leva, em certas oca- siões, a uma dependência excessiva. É fundamental encarar o livro didático como um ponto de referência para o trabalho docente, como um recurso, não o único, facilitador do processo de ensinar e aprender, como um guia orientador geral, que auxilia na seleção e organização dos objetivos e conteúdos. Visto a partir dessa concepção, o livro didáticoé – ou deve ser – um recurso a mais, entre tantos, de que o professor dispõe para estruturar e desenvolver seu curso e suas aulas, mesmo quando ele é o responsável por sua elaboração/organização, o que pode constituir em alguns casos uma vantagem e em outros, uma desvantagem. É bom ressaltar que, quer sejam escolhidos os materiais disponíveis no mercado, quer sejam os produzidos ad hoc pelos professores, quer sejam as próprias metodologias, todos se apoiam em pressu- postos teóricos nem sempre suficientemente claros, explícitos, para o professor. Muitas vezes, essas teorias ou crenças que dão suporte às escolhas feitas operam silenciosamente, sem que o professor tenha clara cons- ciência delas, de seus fundamentos e do que postulam, para garantir a coerência entre o que se pensa e o que se faz. É fundamental, portanto, reconhecer o que está por trás de uma metodologia, de um manual, de um material didático para poder, em consequência, não apenas dia- logar com esses pressupostos, mas também para não ser presa do último modelo da moda e de interesses puramente comerciais. Fonte: Orientações Curriculares para o Ensino Fun- damental 3 USO E DOMÍNIO DAS ESTRATÉGIAS DE LEITURA (SKIMMING, SCANNING, PREDICTION E OUTRAS). As estratégias de leitura são atividades que podem ser ensinadas ao leitor com o objetivo de direcionar sua atenção para as relações de ordem linguística construí- das no discurso, conscientizando-o sobre a importân- cia da língua nessa construção, reconhecendo a inter- dependência semântica existente entre as palavras no discurso. (COELHO, 2015) Ainda de acordo com a autora, na medida em que as estratégias de leitura buscam ensinar o leitor a reco- nhecer no discurso todos os elementos e recursos usa- dos pelo autor para a construção de sentido, passam a apresentar-se com uma função didática, as quais têm por objetivos instrumentalizar o leitor para o ato de ler. A estratégia de leitura chamada Skimming é um tipo de leitura que busca o maior número possível de infor- mações ao primeiro contato com um texto. É um “pas- sar de olhos” pelo texto para identificar sua ideia geral, tema central. É depois do skimming que o leitor decide se continua ou não com a leitura, se deve ou não apro- fundar o nível de compreensão do texto. Exemplo: na leitura de jornal: quando lemos um jor- nal, geralmente aplicamos essa estratégia nas manche- tes e até mesmo nos textos e em suas respectivas dicas tipográficas (figuras, tabelas, quadros, etc.), passando os olhos pelo jornal e, eventualmente, quando a notícia ou o artigo nos interessa, paramos e passamos a ler com mais atenção o texto, passando, assim, para um outro nível de compreensão do texto, não mais somente a ideia geral do texto. 16 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Para aprender a aplicar a estratégia, num primeiro momento, precisamos forçar a leitura rápida, precisa- mos treinar nossos olhos a correrem pelo texto em pou- cos segundos para tirarmos a ideia geral do texto. É uma técnica de leitura que consiste em correr rapidamente os olhos pelo texto até localizar a informação específica desejada, que complementa a primeira. O scanning é prática rotineira na vida das pessoas. Alguns exemplos típicos são o uso do dicionário para obter informação sobre o significado de palavras ou a utilização do índice de um livro para encontrar um arti- go ou capítulo de interesse. Na verdade, ela geralmente acontece depois que fa- zemos um skimming no texto. Scanning é, portanto, um tipo de leitura (mais detalhada e atenta) que faz com que o leitor obtenha informações específicas dentro do texto. Um tipo mais aprofundado de leitura que varia de acordo com os objetivos do leitor. Fonte: http://livresaber.sead.ufscar.br Prediciton passa a ser um dos primeiros passos do professor em aproximar o aluno do texto. Esta estraté- gia consiste em fazer com que o aluno faça suposições diante do texto não lido, organizando-se mentalmente para a leitura, isto o instigará a pensar sobre o provável tema do texto antes do começo da leitura. (OLIVEIRA E FELDMAN, 2013) Adamy (2003), especialista em ensino da língua inglesa, relacionou 14 estratégias que exploram o co- nhecimento enciclopédico, interacional e linguístico do leitor, nas quais citaremos algumas aqui, além de skim- ming e scaninng: Suposição contextual – Trata-se de tentar descobrir o significado de palavras ou expressões desconhecidas através do contexto de um texto. Os alunos tornam-se leitores eficientes quando lidam com vocabulário in- compreensível e tentam compreender o significado de palavras desconhecidas a Identificação de palavras-chave – Palavras-chave são aquelas palavras que aparecem repetidamente no texto. Elas normalmente são essenciais para a compreensão do texto. As palavras-chave são aquelas que os leitores deveriam procurar no dicionário, caso não saibam o seu significado, é claro. Palavras cognatas- São aquelas palavras que são semelhantes em grafia e também no significado na língua materna dos alunos e na língua estrangeira. Compreender palavras de conexão (conectores) – Essas palavras simples ou expressões dão coesão e coe- rência ao texto. Eles conectam ideias e organizam sua estrutura. Alguns exemplos de palavras de conexão são: no entanto, assim, a fim de, enquanto isso, mas, etc. Elas podem ter sentido de adição, conclusão, contraste, re- sultado e assim por diante. As estratégias de leitura favorecem esse melhor aproveitamento da leitura na medida em que permitem um percurso detalhado e consciente do leitor pelo dis- curso, chamando-o a atenção para aspectos específicos que podem passar despercebidos no ato de ler (COE- LHO, 2015) Fonte: ADAMY, Daline Schramm. Reading Strategies for master’s and doctoral proficiency language test can- didates. 3.1 COMPREENSÃO GERAL DO TEXTO. O ensino da leitura, por meio de estratégias, auxi- lia na construção de sentido do texto. Analisando dessa forma, compreende-se que as estratégias de leitura são habilidades usadas para promover sua compreensão, caracterizando-se por serem planos flexíveis aos lei- tores, que de fato buscam alcançar metas e objetivos desejados no texto (SANTORUM, SCHERER, 2008). Le- ffa (1989) afirma que o uso das estratégias de leitura capacita o leitor a avaliar a sua própria compreensão, tornado a leitura um processo consciente de construção de significado. À medida que ele desenvolve esta cons- ciência, ele começa a busca pelo objetivo pretendido e o texto produzido, sua organização e também levanta hipóteses sobre o conteúdo que está lendo, visando um melhor nível de compreensão, pela análise global do texto e o uso do seu conhecimento prévio. Conforme Schutz (2006), o exercício da leitura em L2, como em qualquer outra língua estrangeira, deve iniciar a partir de textos com vocabulário reduzido, como por exem- plo: narrativas curtas, histórias em quadrinho (tirinhas), cartoon, propaganda, anúncio, entre muitos outros gê- neros textuais, de preferência com uso moderado de ex- pressões idiomáticas, regionalismos e palavras difíceis. A proximidade com o nível de conhecimento do aluno é uma condição importante, tão importante quanto o grau de atratividade do texto que deve ser do interesse do leitor. A estratégia a ser desenvolvida é buscar a ideia cen- tral, ser perseverante e deduzir o significado das pala- vras pelo contexto, se necessário. Diante disso, o ensi- no de leitura constitui-se em uma importante forma de instrumentalizar o educando a buscar a compreensão de leitura, tanto na L1, quanto na L2. De acordo com Weinstein e Mayer (1986), as estratégias ou processos cognitivos referem-se a um grande grupo de ações que auxiliam a governar comportamento, emoção, motiva- ção, comunicação,atenção e compreensão leitora. 17 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Esses mesmos autores esclarecem que as estratégias de leitura se subdividem em cognitivas e metacogniti- vas. As cognitivas são processos mentais mais familia- res que permitem, por exemplo, o trabalho de dedução do significado das palavras através do contexto, até ler rapidamente o texto em busca da ideia central (skim- ming). As estratégias metacognitivas são mais voltadas para o pensar sobre a experiência de leitura em si e en- volvem uma conscientização do indivíduo acerca de seu próprio processo mental, o saber sobre o próprio saber. Assim, quando o leitor relê uma sentença ou um pará- grafo, porque percebe que não entendeu o que leu, por exemplo, ele está adotando uma estratégia metacogni- tiva. Para Schraw (1998), De acordo com estudos de autores como Duke e Pearson (2002), Kopke (1997), Lima (2009), Solé (1998), Tomitch (2002), entre outros, três momentos são iden- tificados como etapas de leitura e que auxiliam o leitor na construção do significado do texto. No que se refere à fase de pré–leitura, o professor deve trazer atividades que estejam relacionadas ao assunto do texto, com ob- jetivo de verificar o que os alunos sabem sobre o tema a ser lido e o que não sabem, preparando-os assim, para a leitura do texto. Esta etapa inclui discussões prévias sobre o assunto do texto, como por exemplo, explora- ção de figuras que façam parte ou relacionam-se com o texto. O professor deve ter como objetivo a motiva- ção do aluno para a leitura do texto que será explorado, para que ele possa construir um prévio significado do seu sentido. Alguns exemplos de atividades de pré-leitura in- cluem a apresentação de um trecho de um filme ou uma música, cujo trabalho contextualizado envolva as palavras-chave, a utilização de perguntas que estimu- lem a formulação de hipóteses que devem ser verifica- das no texto, a menção a um fato do cotidiano que tem relação com o que será lido, entre outras possibilidades. A fase da leitura é o momento que o aluno lê o texto, uma, duas, três vezes ou mais, sem frustração. Essa fase envolve atividades que o auxiliam e servem como guia para a compreensão do texto. Neste momento, é impor- tantíssimo o papel do professor, que no momento de leitura, cuidadosamente planejado, deve servir de an- daime para a construção do significado do texto. Ao for- mular perguntas sobre o material lido e modelar como encontrar as respostas no texto, o professor mostra ao seu aluno como utilizar diferentes estratégias para auxi- liar a compreensão textual. E por fim, há a fase da pós- -leitura que faz a ligação entre o texto lido e a realidade do aluno, objetivando consolidar o que foi aprendido. Essa fase faz com que o aluno utilize as informações aprendidas no texto, em outros contextos e/ou tarefas, como a execução de projetos, discussões com os cole- gas, pesquisa mais detalhada sobre o assunto, criação de cartazes, e exposição do assunto para outro público, dentre outras atividades. Fonte: Leitura em Língua Estrangeira Moderna - http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br Compreensão Escrita: A concepção da leitura como um processo inte- rativo, refletida nas atividades propostas; a presença de atividades de pré e pós-leitura; a diversidade de gêne- ros, tipos textuais e suportes oferecidos pela coleção; o estímulo ao uso de estratégias diversificadas por parte do aprendiz nas tarefas de compreensão e interpreta- ção; o trabalho com a polifonia, isto é, com as muitas vozes presente nos textos e com a intertextualidade; o trabalho voltado para a pluralidade de interpretações; a presença de atividades que contribuam para a forma- ção do leitor reflexivo e crítico e para a formação do leitor literário, entendendo a leitura literária como uma atividade de fruição e não apenas um pretexto para a exploração de vocabulário e de estruturas gramaticais; e a presença de estímulos à ampliação do universo de leitura (contextualização dos fragmentos, incentivo à leitura de textos completos, associação dos textos e de seus autores a uma determinada época, a um período da História, a uma corrente estética). Produção Escrita: A concepção da escrita como um processo interati- vo, em constante reformulação e a consequente possi- bilidade oferecida ao aprendiz de contemplar e refletir sobre as diferentes etapas do processo de produção (definição de tema, objetivos, provável veículo de difu- são do texto, estratégias a serem utilizadas dependendo dos objetivos e do tipo do texto a ser escrito, organi- zação geral, primeiras tentativas até chegar ao produto final); a diversidade de gêneros trabalhados; a explici- tação das condições de produção e das características sócio discursivas dos textos: quem escreve, para quem, com que objetivo e em que suporte; a exploração dos diversos recursos linguísticos e dos mecanismos de coe- são e coerência necessários a uma produção não apenas correta, mas, sobretudo, adequada às suas finalidades. Fonte: Coleção Explorando o Ensino do Espanhol – vol. 16 Compreensão da leitura A compreensão da leitura na língua materna, se- gunda língua ou língua estrangeira, requer várias habi- lidades linguísticas e metalinguísticas inter-relacionadas que permitem ao leitor a produção do sentido do tex- to a partir de saberes nos níveis: léxico, morfossintático 18 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola e semântico. Além disso, habilidades socioculturais – como o conhecimento de mundo – agregam-se ao do- mínio do sistema de escrita pelo leitor, possibilitando- -lhe maior ou menor entendimento da leitura. Entretanto, embora várias habilidades cognitivas se- jam importantes para o desenvolvimento da leitura, as habilidades metacognitivas parecem primordiais para a aprendizagem formal na escola em virtude de sua na- tureza consciente (KATO, 1999). Nesse sentido, grande número de estudos tem evidenciado uma relação es- treita entre a aprendizagem da leitura e as habilidades metalinguísticas (consciências fonológica, morfológica, léxica, sintática e semântica). No contexto da aprendizagem de uma língua es- trangeira, Kato (1999), cuja língua materna é o japonês, comenta que, em sua aprendizagem de leitura do por- tuguês do Brasil, recorreu às inferências para descobrir o significado de palavras desconhecidas. A autora afirma que um leitor proficiente em sua língua materna pode compartilhar entre as duas línguas as estratégias e os procedimentos que utiliza para a leitura, compensando com vantagens o deficit no domínio linguístico da lín- gua estrangeira. Além disso, a autora sugere que co- nhecer o universo cultural da língua em que o texto foi escrito, a utilização das pistas do próprio texto e de suas ilustrações pode facilitar o processo de compreensão do leitor não proficiente na língua estrangeira. Specht e Guimarães (2013), sugerem que os profes- sores utilizem o texto como alicerce do trabalho peda- gógico, levando os alunos a refletir sobre as estruturas da língua (relação entre palavras, frases, orações, perío- dos e parágrafos) e, também, a utilizar o contexto (sen- tido do texto) como auxílio na ampliação do vocabulário na língua estrangeira. Em outras palavras, considera-se fundamental que os professores de espanhol (língua es- trangeira) orientem os alunos a utilizar o contexto (senti- do do texto) tanto para identificar as palavras desconhe- cidas como para apreender as diferentes estruturas da língua (das mais simples às mais complexas), de maneira que possam adquirir progressivamente maior domínio do espanhol. Enfim, é importante que no ensino da lín- gua estrangeira, assim como no ensino da língua ma- terna, os professores utilizem “textos” como objeto de estudo, pois neles encontrarãoelementos para refletir, com os alunos, sobre o uso adequado de todos os con- teúdos da língua. Desta forma, os professores estarão promovendo o desenvolvimento das habilidades meta- linguísticas de seus alunos, o que envolve a capacidade de reflexão e autocontrole intencional tanto sobre os próprios objetos linguísticos como sobre sua utilização. 3.2 RECONHECIMENTO DE INFORMAÇÕES ESPECÍFICAS. A compreensão de textos escritos é encarada como parte da competência comunicativa e está vinculada não só às situações de ensino e aprendizagem, mas também — e principalmente — à função que ela desempenha nas atividades reais que integram as competências ge- rais do indivíduo. De acordo com o MCER (Marco Común Europeo de Referencia para las Lenguas, são classificados como tex- to (oral e/ou escrito): [...] declarações e instruções pú- blicas, discursos, conferências, apresentações públicas e sermões, rituais (cerimônias, serviços religiosos formais), peças de teatro, espetáculos, leituras, músicas, comen- tários esportivos, retransmissões de notícias, debates e discussões públicas, diálogos, conversas telefônicas, entrevistas de trabalho, livros, publicações literárias, re- vistas, jornais, manuais de instruções, livros didáticos, histórias em quadrinhos, charges, catálogos, folhetos, material publicitário, cartazes e sinais públicos, sinais de supermercados e lojas, embalagens e etiquetas de pro- dutos, moedas, formulários e questionários, dicionários, cartas, faxes (comerciais e profissionais), cartas pessoais, redações e exercícios, memorandos, relatórios e traba- lhos, anotações, bilhetes e mensagens, bases de dados etc. Fonte: Gretel Eres FERNÁNDEZ e Daniela S. K. KA- NASHIRO. Leitura em língua estrangeira: entre... As competências e habilidades a serem desenvol- vidas em língua estrangeira moderna foram agrupa- das, devido a fins unicamente didáticos, uma vez que devem ser desenvolvidas como componentes inter-re- lacionados e interligados em três eixos: representação e comunicação; investigação e compreensão; e contex- tualização sociocultural. Figuram da seguinte forma no documento (PCN-EM, 1999, p. 143): Representação e comunicação: Escolher o registro adequado à situação na qual se processa a comunicação e o vocábulo que reflita a idéia que pretende comunicar. Utilizar mecanismos de coerências e coesão na pro- dução oral e/ou escrita. Utilizar estratégias verbais e não verbais para com- pensar as falhas, favorecer a efetiva comunicação e al- cançar o efeito pretendido em situações de produção e leitura. 19 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Conhecer e usar as línguas estrangeiras modernas como instrumento de acesso a informações a outras culturas e grupos sociais. Investigação e compreensão: Compreender de que forma determinada expressão pode ser interpretada em razão de aspectos sociais e/ ou culturais. Analisar os recursos expressivos da linguagem ver- bal, relacionando textos/contextos mediante a natureza, função, organização, estrutura, de acordo com as con- dições de produção/recepção (intenção, época, local, interlocutores participantes de criação e propagação de ideias e escolhas, tecnologias disponíveis). Contextualização sociocultural: Saber distinguir as variantes linguísticas. Compreender em que medida os enunciados refle- tem a forma de ser, pensar, agir e sentir de quem os produz. Nas situações de ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras (LEs), as atividades voltadas para o desen- volvimento da compreensão leitora podem ocorrer sob a forma de tarefas variadas a serem realizadas pelos aprendizes e, para tanto, estes podem utilizar-se de di- ferentes estratégias disponíveis para executá-las. Fonte: Parâmetros Curriculares Nacionais – Ensino Médio 3.3 INFERÊNCIA E PREDIÇÃO. SOBRE A ‘PREDICTION” OU INFERÊNCIA Aproximar o discente do texto em Língua Estrangei- ra da mesma forma como faria com um texto em língua materna é uma das tarefas designadas ao docente. Aju- dar a este leitor a perceber a importância e o uso des- ta e outras estratégias já praticadas na língua materna, também é uma outra atividade que compõe o seu papel como facilitador. Dentro destas estratégias faz com que a predição (prediction, em inglês) seja um componente desse processo de percepção. Diante de várias ferramentas utilizadas no trabalho da predição, estão conhecimento prévio sobre o assunto (em inglês “background knowledge”), o conhecimento linguístico, o conhecimento semântico, o contexto não linguístico, conhecimento sobre a estrutura do texto, e diante de tais elementos o leitor é convidado a formar expectativas sobre o material ainda não lido. Observe abaixo maiores detalhes sobre os elemen- tos supracitados: -O Conhecimento Prévio (“background knowledge”) – refere-se ao conhecimento do mundo, ou seja, a baga- gem cultural adquirida pelo leitor, o seu entendimento sobre o assunto; -Conhecimento Linguístico – reconhecer se a pala- vra é um advérbio, substantivo, adjetivo etc; -Conhecimento Semântico – conjunto de palavras que forma o contexto imediato no qual a palavra desco- nhecida está inserida (descobrir o significado das pala- vras, ideias que antecedem ou vem depois e contribuem para o sentido total do texto). Compreender o significa- do do texto como um todo; - Conhecimento linguístico – é um grupo de pistas que nos dirá se a palavra é um verbo, um advérbio, substantivo etc.; -Contexto não-linguístico – são as imagens, figuras, tabelas, números, símbolos, etc. que nos ajudarão a in- ferir o conteúdo de um texto; - Conhecimento sobre a estrutura do texto – o título, subtítulo, a divisão do texto em parágrafos, etc. também poderá ajudar na predição. Sobre os marcadores tipográficos Os Marcadores Tipográficas são recursos visuais, di- cas gráficas de fácil e rápido reconhecimento. São co- muns em várias línguas e são utilizadas para chamar a atenção do leitor. São apresentados em textos de na- turezas diversas e apresentam ao leitor informações objetivas e específicas através de NÚMEROS (100, R$ 2.000,00, 20%, 2nd, etc.), TIPOS (itálico, negrito, etc.), SÍMBOLOS ( &, H2O, =, $, @, %, :, >, #.kg, etc.), LETRAS MAIÚSCULAS (Paris, John, etc.), SIGLAS: RSVP (Réson- dez S’il Vous Plaît – responda, por favor; USA), TÍTULOS, SUBTÍTULOS, IMAGENS TABELAS, GRÁFICOS, DIVISÃO DE PARÁGRAFOS, SINAIS, FOTOGRAFIAS enfim, auxiliam na compreensão do texto. Como se processa a predição? É importante saber que esta estratégia tem início com a pré-leitura, pois o aluno é levado a predizer sobre o texto já a partir do título, subtítulo, imagens, marca- dores tipográficos etc. Esses elementos contribuem para aguçar a curiosidade do leitor sobre o conteúdo a ser lido que será confirmada ou não com a leitura. O objetivo da predição é preparar mentalmente o aluno para a leitura, estimulando-o a pensar sobre o provável assunto do texto antes do início da leitura. De- pois desta, ele compara o conteúdo do texto com a sua hipótese. Fonte: D’Ambrosio, Izabel Silva Souza. ““PREDIC- TION” OU INFERÊNCIA & MARCADORES TIPOGRÁFI- COS.” 20 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola 3.4 PALAVRAS COGNATAS E FALSOS COGNATOS Os falsos cognatos em espanhol são considerados realmente os “falsos amigos”, por se tratarem de pa- lavras muito parecidas na semântica com a língua por- tuguesa, porém, possuem um significado totalmente diferente do que parecem ser e isso, pode ocasionar em falha de interpretação e comunicação numa conversa na língua espanhola. FALSOS COGNATOS SIGNIFICADO EM PORTUGUÊS Acordar Lembrar Agasajar Atenção, Agradar Alejado Afastado, Distante Apellido Sobrenome Asignatura Disciplina, Matéria Asistir Frequentar Aula Sala de aula Acreditar CreditarBerro Agrião Bolso Bolsa Borracha Bêbada Borrar Apagar Brincar Pular Brinco Pulo, Salto Cajón Gaveta Cana Cabelo branco Celoso Ciumento Colar Coar Copo Floco Crianza Criação, Educação Conozco Conheço Despido Demissão Dirección Endereço Embarazo Gravidez Enojar Aborrecer Enojo Raiva Ferias Feira Guitarra Violão Gajo Gomo Inversión Investimento Jubilado Aposentado Jugar Brincar Largo Comprido Novela Romance Oficina Escritório Oso Urso Pago Pagamento Papa Batata Película Filme Pegar Colar, Grudar Pelado Careca Pelo Cabelo Polvo Pó, Poeira Prender Acender Quitar Tirar Raro Esquisito Reparar Consertar Rico Gostoso Salada Salgada Rato Momento Rojo Vermelho Salsa Molho Sitio Lugar Talón Calcanhar Tapa Tampa Tarjeta Cartão Taza Xícara Tirar Atirar Vaso Copo Velho Pelo Vereda Calçada Zueco Tamanco Zurdo Canhoto 21 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola 4 VOCABULÁRIO: DOMÍNIO DE VOCABULÁRIO COMPATÍVEL COM A INTERPRETAÇÃO DE TEXTO DENTRO DO CONTEÚDO EXIGIDO. No âmbito do ensino-aprendizagem de línguas es- trangeiras (LE), o ensino do léxico foi, durante muito tempo, relegado para um segundo plano. Em palavras de Bartol Hernández (2010: 85): “Hasta hace muy poco el léxico ha sido considerado el hermano pobre de la gramática, que era la que concitaba la máxima aten- ción por parte de los docentes”. Neste sentido, profes- sores e alunos não partilham uma visão comum. Para os primeiros, o problema centra-se na gramática; para os segundos, as palavras são muito importantes. Desta forma, os docentes não são partidários de ensinar pala- vras, enquanto que os alunos sentem a necessidade de aprendê-las (Bartol Hernández, 2010). Folse (2004) refere que a aprendizagem de uma lín- gua envolve numerosos aspetos, como, por exemplo, a pronúncia, a escrita, a sintaxe e a pragmática, sendo o mais importante o estudo do seu vocabulário. E este foi o aspeto mais negligenciado no ensino-aprendizagem de uma língua estrangeira (Meara, 1980). No entanto, nas últimas décadas, são vários os autores que reivin- dicam o papel central do vocabulário no processo de aprendizagem de uma língua. Laufer, Meara e Nation através de vários estudos da área, propõem algumas ideias para o ensino de voca- bulário: • Ensinar vocabulário em contexto O ensino-aprendizagem de vocabulário através do contexto é uma das técnicas mais citadas em trabalhos desta área de investigação (Suau Jiménez, 2000; Nation e Mera, 2002; Nation, 2003). Esta técnica promove a inferência lexical através de textos escritos e/ou orais. Uma boa forma de usar esta técnica é através da leitu- ra e audição (competências recetivas). Clarke e Nation (1980) comprovam que, aplicando a técnica de apren- dizagem das palavras em contexto através de quatro passos específicos, os alunos são capazes de aprender novas palavras (inferência de significado) através da lei- tura dos textos. Esses passos consistem no seguinte procedimento: primeiro o aluno deve observar a própria palavra, nor- malmente no contexto de uma frase. O segundo passo consiste em dar atenção ao contexto gramatical, nor- malmente numa frase. O terceiro passo consiste em analisar o contexto mais amplo da palavra, normalmen- te após observar várias frases; o quarto e último passo consiste em adivinhar a palavra e verificar se esse signi- ficado é correto. (2003) propõe que o professor leia textos ou histó- rias em voz alta com o objetivo de apresentar o vocabu- lário de determinada área temática. O autor refere que a aprendizagem de vocabulário a partir de input recebi- do pode ser reforçada se se prestar atenção às palavras desconhecidas, se se examinarem as novas unidades, ou se o professor promover uma explicação rápida sobre as novas palavras, enquanto os alunos ouvem a história. Meara7 incentiva o ensino de vocabulário em contexto através, por exemplo, da leitura dos títulos dos jornais. Isto é, se num título aparecer alguma palavra desconhe- cida, a leitura da notícia dar-nos-á pistas sobre o signi- ficado e uso da mesma palavra. A nosso ver, a aplicação desta técnica através de input escrito tem um duplo be- nefício, pois o aprendente, para além de inferir o signifi- cado das palavras, acede à sua forma gráfica. No entanto, será sempre importante adequar o ma- terial usado (tanto oral como escrito) ao nível dos conhe- cimentos dos alunos. • Ensinar vocabulário através de um programa lexical Para Laufer, é fundamental que o professor crie o seu próprio programa lexical, com base nos seus materiais de ensino, nas listas de frequência e nas próprias neces- sidades dos alunos. A autora recomenda que se verifique cada palavra no programa lexical sempre que os alunos se exponham a ela. O ideal seria proporcionar entre seis e dez exposi- ções até que a palavra seja adquirida. Nestas exposições devem incluir-se não só a apresentação de palavras ou unidades lexicais, mas também a de combinações sin- tagmáticas e a de expressões idiomáticas. Por um lado, as expressões idiomáticas devem ser tratadas como uni- dades individuais de significado; por outro, a apresen- tação das possibilidades combinatórias das palavras é fundamental na aprendizagem e ensino do vocabulário. • Ensinar vocabulário prestando atenção às “synfor- ms” Laufer chama a atenção para o ensino-aprendizagem das chamadas formas lexicais semelhantes (synforms), mas com significados diferentes. Trata-se de pares de palavras, ou grupos de palavras, que apresentam gran- des semelhanças a nível fonético, gráfico ou morfológi- co. Pelas suas características e pela dificuldade que re- presentam para os alunos, que facilmente as confundem, a autora recomenda que não se apresentem ao mesmo tempo; antes devem ser trabalhadas individualmente até que o aluno as conheça e identifique o seu significado. Alguns exemplos para o português são: férias/ feira/ fe- riado; lençol/ lenço; manhã/ amanhã. 22 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola • Ensinar vocabulário através do contraste entre L1 (Língua Materna) e a LE (Língua Estrangeira) Partindo da evidência de que a aprendizagem de uma LE começa com a projeção do léxico da L1 na L2, assumimos que o fenômeno da transferência está pre- sente neste processo e é uma das causas principais dos erros lexicais. Ao ensinar vocabulário através de uma perspectiva contrastiva, pretende-se pôr em evidência as semelhanças e diferenças presentes entre a L1 e a LE com o objetivo de reduzir os erros de interferência a ní- vel da forma e significado. No caso de línguas próximas, como por exemplo, o ensino do português a falantes de espanhol, o fenômeno da transferência vê-se reforçado. Torna-se necessário selecionar e apresentar os conteú- dos lexicais segundo uma perspectiva contrastiva, de- terminando as diferenças e semelhanças do ponto de vista formal e semântico. • Ensinar vocabulário através do uso de materiais autênticos Atualmente, os materiais autênticos assumem um papel primordial no ensino de línguas estrangeiras, pois o seu uso permite que o aluno conheça e esteja em contato com o uso real da língua meta. Meara12 reco- menda a visualização de filmes em versão original. O autor sugere que o filme seja visto várias vezes (três ou quatro) acompanhado das respetivas legendas, seguido de uma última visualização, sem legendas. Nesta última passagem, o aluno será capaz de entender praticamente a totalidade do mesmo. O mesmo autor também reco- menda a audição de canções para a aprendizagem de vocabulário. Está comprovado que o que se aprende com a interação de outros sentidos é mais facilmente retido na memória de longo prazo. • Ensinar vocabulário através do recurso à tradução, glossários e dicionários O recurso à tradução na aula de LE põe emevidên- cia o uso de uma estratégia que, espontaneamente, é usada pelos alunos. Laufer defende o uso desta estraté- gia de forma sensata e adequada, referindo ainda que as investigações comprovam que as traduções dadas pelo professor ou encontradas num bom dicionário bilíngue são benéficas para a compreensão leitora e a aprendiza- gem de palavras. Neste sentido, também Cervero e Pichardo (2000) referem que os glossários são válidos como ferramen- tas de trabalho na aprendizagem de vocabulário sempre que ofereçam ao aprendente informação complemen- tar: gramatical, semântica, pragmática, etc. Para as atividades de compreensão, sugere que os alunos procurem palavras desconhecidas, as quais são registradas enquanto ouvem, leem ou traduzem algu- ma informação e que depois confirmem os significados dessas palavras através da consulta de dicionários. Estas estratégias podem funcionar como atividades comple- mentares à leitura de textos e livros na LE. • Ensinar vocabulário através da revisão Pelas investigações realizadas no campo da psico- linguística, sabe-se que de toda a informação que o ser humano retém, 80% da mesma perde-se num breve período de tempo - 24 horas – e, consequentemente, quanto mais tempo passe sem que essa informação seja utilizada, maior será a perda da mesma (Gairns e Redman 1992, Cervero e Pichardo Castro, 2000, Nation, 2001). Neste sentido, é necessário rever e reciclar o vo- cabulário aprendido na sala de aula. Vários autores de- fendem que a revisão do vocabulário deve ser espaçada no tempo. As investigações comprovam que os alunos devem praticar as palavras em pequenas quantidades distribuídas ao longo de um período de tempo em vez de o fazerem de uma só vez numa única aula (Coady, 1995). Quanto ao tipo de exercícios a utilizar, há uma infinidade de possibilidades, desde a aplicação de ma- pas mentais, sopa de letras, palavras cruzadas, o uso de cartões com a palavra na L1 e a sua tradução, ou pedin- do aos alunos que escrevam todas as palavras de que se lembram sobre um tema estudado durante um determi- nado período de tempo (1 minuto). • Ensinar vocabulário através da realização de exer- cícios de produção As competências de produção, quer sejam escritas ou orais, constituem a comprovação de que o input re- cebido foi compreendido e assimilado. Meara defende que a escrita é uma boa maneira de consolidar o co- nhecimento sobre as palavras. O autor ainda refere que este tipo de atividades não pressupõe um estado de ansiedade e pressão de tempo, pois permite acender e ensaiar vocabulário que mais tarde se poderá usar no discurso oral. Neste sentido, Nation recomenda que os professores desenhem cuidadosamente atividades de escrita e expressão oral, pois são excelentes oportuni- dades para aprender vocabulário. • Ensinar vocabulário através do ensino de estraté- gias de aprendizagem Limitar a aquisição de vocabulário às horas de aulas é limitar o desenvolvimento da competência lexical dos alunos. Desta forma, é necessário o ensino de estraté- 23 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola gias com o objetivo de favorecer a autonomia e com- promisso do aluno neste processo: “When class time is limited, encourage learners to keep individual vocabula- ry notebooks or computer files as a strategy for increa- sing vocabulary size” (Laufer et al., 2005: 3). Capacitar os alunos com estratégias de aprendizagem permite promover a autonomia dos mesmos na aprendizagem do vocabulário. Conclui-se que o ensino de vocabulário nas aulas de LE deve fazer parte de um programa lexical estruturado, variado e significativo. O ensino do mes- mo deve responder aos interesses e necessidades dos alunos. Fonte: https://www.unicv.edu.cv/images/ ail/156Dias.pdf O lugar do léxico no ensino de língua estrangeira A questão lexical vem atraindo mais e mais a atenção de estudiosos do ensino de línguas estrangei- ras. Para Calvez (2000), o maior problema, por exemplo em níveis avançados de aprendizagem de língua estran- geira está na área semântico-lexical. Ainda, segundo Born (1985), a maior fonte de erros muda do compo- nente gramatical nos níveis mais elementares para o componente léxico semântico nos níveis mais adianta- dos. Percebe-se, que apesar de notarmos uma crescente preocupação com a questão lexical de meados da déca- da de 80 para cá, este crescimento se mostra, paradoxal- mente, muito assimétrico se comparado a outras áreas da investigação em lingüística aplicada. Conforme esclarece Scherer (2002), e Maiaguasha (1993) reconhecem que apesar de o vocabulário ser, por vezes, considerado o “convidado de honra” do ensino de língua estrangeira, ainda não é dado a ele o trata- mento e a atenção necessária. Infelizmente, devido à escassez dos estudos voltados para a área semântico- -lexical do ensino de línguas, a nossa pesquisa se en- contra também relativamente limitada. Ainda hoje há uma grande preocupação, segundo Phabhu (1990), no que tange ao descobrimento do melhor método a ser adotado. É como se essa prática pudesse dar cabo de todos os problemas relacionados à aprendizagem. No entanto, a questão vocabular é posta de lado. Fonte: https://www.maxwell.vrac.puc-rio. br/8756/8756_3.PDF Exemplos de Vocabulário Saudações – Saludos Formas de tratamento - Formal e informal Tratamento informal; Tú (você)--Usar esse tratamento com as pessoas que você já tenha intimidade, por exemplo: amigos, fa- mília, conhecidos etc. Tratamento formal; USTED (Senhor,senhora, você) Usa-se com pessoas desconhecidas, que tenha mais idade que você, no tra- balho, negócios, reuniões etc. Cumprimentos em Espanhol Tú-informal ¡Hola! ¿Que tal? - Cumprimento informal mais utilizado ¡Hola! - (oi) ¿Cómo estás? (Como está você?) USTED - Formal Buenos días- até as 12 horas. (Bom dia) Buen día - menos usual, geralmente usado na Ar- gentina. (Bom dia) Buenas tardes - até o escurecer .(Boa tarde) Buenas noches- depois do escurecer.(Boa noite) ¡Hola! ¿Qué tal está?- (Oi! tudo bem?) ¿Cómo está usted? (Cómo está o senhor(a) / você?) Para responder: -Estupendo (ótimo) -Muy bíen (muito bem) -Bíen (bem) -Regular (regular) -Mal -Fatal (horrível) Veja alguns diálogos de exemplo: Informal; Hola Juan ¿Que tal? Formal; Buenos días, señor Gonzáles. Despedidas Hasta luego- (Até logo) Hasta pronto Hasta más tarde - (Até mais tarde) Hasta mañana-(Até manhã) Hasta la vista Adiós, Chau- (tchau) 24 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Dias da Semana ESPANHOL PORTUGUÊS Lunes Segunda-feira Martes Terça-feira Miércoles Quarta-feira Jueves Quinta-feira Viernes Sexta-feira Sábado Sábado Domingo Domingo Meses do Ano: ESPANHOL PORTUGUÊS Enero Janeiro Febrero Fevereiro Marzo Março Abril Abril Mayo Maio Junio Junho Julio Julho Agosto Agosto Septiembre Setembro Octubre Outubro Noviembre Novembro Diciembre Dezembro 5 ASPECTOS LINGUÍSTICOS E GRAMATICAIS. O espanhol, idioma cuja origem remonta ao latim vulgar, nasceu na Espanha, mais precisamente num local conhecido como reino de Castela. Por esse motivo rece- beu, primeiramente, o nome “castelhano”. Após muitos séculos de seu nascimento e muitas foram as mudanças pelas quais a língua passou, o idioma foi trazido à Amé- rica pelos conquistadores espanhóis e com isso entrou em contato com línguas autóctones e, posteriormente, com línguas de imigrantes de outros países do mundo. A variação Para tratar das características e do ensino do espa- nhol da América, é imprescindível ter claro que as línguas naturais sofrem mudanças e que esse é um atributo ine- rente às línguas vivas. A visão propagada historicamente de que o espanhol da Espanha, castiço, seja o único que se deve ensinar, ou que seja “o espanhol mais correto”, ignoraa riqueza da língua: suas variantes. Além disso, essa visão equivocada reflete preconceitos linguísticos e pode ser prejudicial ao ensino, já que exclui proprieda- des importantes da língua. De acordo com Alkmim (2001), nenhuma língua existe de forma completamente homogênea, língua e variação são realidades indissociáveis. Em qualquer co- munidade linguística é possível observar a existência de uma variação nos modos pelos quais seus integrantes se comunicam, e essa variedade constitui o seu repertorio verbal. Ao abordar as implicações do tratamento das va- riantes no ensino de língua, Antunes (2003) aponta que a noção de superioridade de determinadas variantes linguísticas é um mito que deve ser desmascarado, que nenhuma variante deve ser desvalorizada ou conside- rada como incorreta. A autora também ressalta como equívoca a ideia conservadora de que a língua do pas- sado é superior e de que as variações são usos corrom- pidos da língua. O espanhol na américa Cada país utiliza a língua espanhola de acordo com sua história, seu contexto, sua realidade, cada um atri- bui à sua variante suas próprias características. Contu- do, segundo afirma Moreno Fernández (2000) em seu livro ¿Qué español enseñar?, as semelhanças são muito maiores do que as diferenças. Para o autor, a maior par- te das diferenças reside no campo léxico e, ainda assim, a maior parte do léxico do espanhol é compartilhada entre diferentes países hispano falantes. Entre as características do espanhol da América de uso bastante expressivo, estão o “seseo”, o “voseo”, o “loísmo”, o uso de “ustedes” para tratamento informal, além dos vocabulários próprios de cada região ou país Na hispano América, em geral, usa-se a terceira pessoa do plural (e o pronome “ustedes”) tanto para situações de tratamento formal quanto para situações de tratamento informal. Assim como o uso do “seseo”, o uso de “ustedes” em situações informais não é uma característica exclusiva da América, já que o uso de “vo- sotros” nessas mesmas situações ocorre no centro e no norte da Espanha. A quantidade de vocábulos próprios do espanhol da América é enorme. Com o fim de exem- plificar, é possível mencionar os termos “colectivo” e “guagua”, usados respectivamente na Argentina e em Porto Rico, equivalentes ao termo “autobús”, usado na Espanha (em português, “ônibus”). Também os termos “sudadera” e “buzo”, usados respectivamente na Co- lômbia e na Argentina, equivalentes ao termo peninsu- lar “chándal” (em português, “moletom”). 25 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Implicações para o ensino de Espanhol e Língua Estrangeira O ensino das características do espanhol, frente à diversidade do idioma da América Latina, pode apre- sentar-se como um grande desafio ao professor. Muitos não sabem como nem onde buscar conhecer melhor e de maneira mais detalhada tantas variantes, tanta diver- sidade de sons, palavras, expressões. Para isso, são pre- ciosas as sugestões de Moreno Fernández (2000) sobre fontes de informação sobre as variantes do espanhol, classificadas por ele em: obras descritivas (trabalhos de investigação, geolinguística e estudos monográficos so- bre falas específicas) e os dicionários de interesse geo- linguístico que incluam informação sobre a procedência das vozes e que recolham o léxico de determinados ter- ritórios. Há um preceito difundido por muitos pesquisadores sobre o ensino de línguas em geral, e que pode otimizar o ensino do espanhol da América: o uso de textos au- tênticos. Aqui o texto é entendido como uma produção cultural que extrapola o sistema de código verbal escri- to. Além disso, o texto autêntico é elaborado e emitido em um contexto de circulação social sem fins específi- cos de ensino de língua estrangeira. O ensino que parte de textos gerados em uma situação comunicativa real fomenta o estudo da língua com todas as suas proprie- dades (pragmática, sintaxe, semântica) contemplando diferentes variantes, bem como a relação entre as uni- dades, estruturas e o sentido total do texto. Para An- tunes (2003), deve-se lançar mão da análise de textos como meio para desenvolver reflexão crítica e incorpo- ração dos padrões necessários para ampliar a eficiên- cia comunicativa, gramatical, lexical, textual e discursiva do aluno. Podendo ser posto em prática em diferentes contextos de ensino de espanhol, como por exemplo o ensino superior, o ensino médio e o ensino de espanhol para fins específicos, desde que haja uma seleção ade- quada de gêneros e de tipos textuais, bem como dos temas e vocabulário abordados. Fonte: Gretel Eres FERNÁNDEZ e Daniela S. K. KA- NASHIRO. Leitura em língua estrangeira: entre... A questão de que gramática ensinar foi muito dis- cutida, nos últimos anos, por estudiosos, por pesqui- sadores no ensino de língua espanhola. Desde a bus- ca pelo tipo de exercícios, atividades, de tarefas que se configuram mais pertinentes para a aprendizagem dos aspectos gramaticais, até as abordagens de ensino que privilegiam um contexto de comunicação são fontes de pesquisa, de estudos atuais. estudiosos que explicitam e aconselham que o estudo da gramática esteja pautado desde uma perspectiva mais interacionista. Abordar o estudo sobre gramática, no ensino de ELE, não é tarefa fácil, pois encontramos várias crenças. Há professores que afirmam não ser necessário traba- lhá-la em aula e outros que não dissociam o ensino da gramática, talvez, porque esta lhe proporciona maior segurança no conteúdo, atendimento às expectativas dos alunos quanto aos conteúdos trabalhados, enfim há mais razões para o ensino da gramática do que para não ensiná-la. Definir gramática é um tanto quanto complexo, pois pode-se encontrar várias acepções e a sua empre- gabilidade também é múltipla, mas necessitamos, para dar prosseguimento a este estudo defini-la. Segundo o Dicionário de Didática de Línguas (1983), a gramática pode ser definida como 1. Descrição do funcionamento geral de uma língua materna. 2. Descrição da morfologia e da sintaxe de uma lín- gua materna. 3. Disciplina que estuda as regras de funcionamento ou de evolução de toda uma língua natural. 4. Conjunto de prescrições normativas que regem certas zonas e certos pormenores do uso linguístico e desempenham um papel de discriminação sociolinguís- tica. 5. Sistema formal construído pelo linguista para es- tabelecer um mecanismo susceptível de produzir frases consideradas como gramaticais pelos falantes de uma língua. 6. Sistema interiorizado pelo falante-ouvinte de uma língua e que lhe permite produzir e compreender as fra- ses dessa língua. (DICIONÁRIO DE DIDÁCTICA DE LÍN- GUAS, 1983, p. 364). Deve-se ensiná-la, pois é necessária para a aprendi- zagem da língua. Mas de que forma podemos ensiná- -la para que ocorra uma aprendizagem significativa? Se pautarmos o ensino da língua estrangeira numa pers- pectiva comunicativa, não podemos pensar em alunos que sejam repetidores de palavras e sons isolados, mui- to menos de exercícios que não reflitam a situação real de uso comunicativo. Se entendermos o uso da linguagem como um con- junto de práticas sociais, historicamente construídas e dinâmicas, através das quais se age no mundo, partici- pando em interações com os outros e construindo com eles o fazer cotidiano (CLARK, 1996/2000 apud Referen- ciais Curriculares do Estado do Rio Grande do Sul), não podemos dar lugar exclusivo a exercícios gramaticais prescritivos. Compreender e produzir interações em uma dada língua não é combinar sons, palavras e regras para en- tender e formar frases, mas sim, usar os recursos lin- 26 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola guísticos para refletir sobre eles, sobre as escolhas que fazemos, para aprender outrosrecursos que se tornam relevantes para a relação com o outro em diferentes contextos. Ensinar o vocabulário e regras gramaticais poderá ser focado, mas servindo aos propósitos de uso da lin- guagem. O trabalho com os aspectos linguísticos tem como objetivo fornecer aos alunos os instrumentos necessários para realizar as tarefas propostas, sempre de modo contextualizado e priorizando o sentido em vez de priorizar os exercícios mecânicos que não con- tribuem para uma aprendizagem da língua estrangeira que permita ser o aluno usuário de uma língua e cultu- ras diferentes As aulas de ELE devam promover o desenvolvimen- to integral e autônomo do educando. A língua e seus recursos linguísticos servirão para que o usuário da lín- gua possa produzir seu discurso, fazer-se compreender e compreender o discurso de seu interlocutor. A com- petência gramatical é o conhecimento linguístico dos elementos léxicos, morfossintáticos, fonológicos e se- mânticos. Fonte: O ensino da gramática nas aulas de língua espanhola - http://www.ucs.br/etc/conferencias/index. php/anpedsul/9anpedsul/paper/viewFile/748/490 Gramática A perspectiva metodológica adotada nestas suges- tões, que concebe a linguagem como forma de expres- são e comunicação e também como constituinte de sig- nificados, redefine o papel e o lugar da gramática na disciplina espanhol na Educação Básica, como salientam as OCEM (p. 144): O conhecimento gramatical necessário em língua estrangeira deve levar o estudante a ser capaz de pro- duzir enunciados – simples ou complexos – que tenham uma função discursiva determinada. Essa capacidade, obviamente, vai muito além da simples conjugação ver- bal, da exatidão no emprego das pessoas verbais ou das regras de concordância, por exemplo. Assim, o foco da gramática deve voltar-se para o papel que ela desempe- nha nas relações interpessoais e discursivas. A abordagem da gramática deve, portanto, ser de tipo reflexivo e, sempre que possível, indutivo, pensan- do a forma e as estruturas como instrumentos para a comunicação, fazendo com que o aluno entenda o tema gramatical a partir do uso. Utilizando os conhecimentos linguísticos e discursivos prévios que o aluno possui da língua materna, devem-se incentivar processos de asso- ciações entre forma e função e, a partir dessas relações, estimular a construção de regras e a sistematização do conhecimento. O caminho então parte da observação e análise do uso, por meio de amostras autênticas e con- textualizadas, passa pela formulação e discussão das re- gras – sempre fundamentadas no uso – e, se necessário, pela sistematização – esquemas, resumos, sínteses, qua- dros sinóticos etc. – para chegar à apropriação dos componentes gramaticais como elementos para a construção do discurso. Esse tipo de abordagem rompe, de certa forma, com a noção tradicional de progressão de conteúdos gra- maticais do mais fácil ao mais difícil, pois se o eixo do material didático são os temas geradores e, se a partir deles, os gêneros se constituem como gatilho dos con- teúdos que serão trabalhados nas unidades, não é pos- sível seguir estritamente o critério de começar o estudo da gramática pelos artigos para chegar, em uma série posterior, aos tempos do subjuntivo, por exemplo. Em uma notícia – gênero que pode ser bastante produtivo desde os primeiros contatos com a língua estrangeira – normalmente aparecem diferentes tempos verbais e outras ocorrências linguísticas consideradas tradicio- nalmente como complexas e, por isso, focalizadas so- mente em estágios mais avançados. Sendo assim, insistimos: ao explorar tópicos gramaticais em função do texto/ gênero, o professor dificilmente poderá guiar-se rigorosamente pelas noções de fácil e difícil e isso, no nosso ponto de vista, pode dar bastante dinamicidade ao processo de ensino/aprendizagem. Seguindo nessa perspectiva, a aquisição dos conhe- cimentos linguísticos será mais produtiva se os exer- cícios privilegiarem a utilização da língua em práticas orais e escritas, em detrimento de exercícios que enfa- tizam nomenclaturas, classificações e repetição mecâ- nica de estruturas. Assim, será mais interessante que o aluno conte aos colegas, oralmente ou por escrito, algo interessante que lhe aconteceu, e para isso terá neces- sariamente de usar tempos verbais no passado, do que completar frases com verbos nos tempos indicados en- tre parênteses. Da mesma forma, ao descrever um amigo ou um parente, ou um lugar que conheceu, o aluno precisará empregar artigos e fazer a concordância de gênero e número, e o fará de forma mais natural e significativa do que completando lacunas em um texto ou passando frases – muitas vezes inverossímeis – para o plural: Nessa linha de pensamento, deixa de ter sentido o ensino de línguas que objetiva apenas o conhecimento metalinguístico e o domínio consciente de regras gra- maticais que permitem, quando muito, alcançar resulta- dos puramente medianos em exames escritos. Esse tipo de ensino, que acaba por tornar-se uma simples repeti- ção, ano após ano, dos mesmos conteúdos, cede lugar, 27 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola na perspectiva atual, a uma modalidade de curso que tem como princípio geral levar o aluno a comunicar-se de maneira adequada em diferentes situações da vida cotidiana. (PCN-EM, p. 26) Podemos resumir dizendo que o conhecimento gra- matical que deve ser adquirido só será de fato útil, im- portante, significativo, se o aluno puder tirar proveito dele e empregá-lo em situações de uso da língua que se aproximem o mais possível daquelas que ocorrem no mundo social. A gramática é, então, um dos instru- mentos (não é o único) para o desenvolvimento das habilidades de ler, escrever, ouvir e falar e, consequen- temente, não deve ser abordada, estudada e emprega- da sem ser por meio delas. Desenvolvimento de habilidades e competências Segundo os PCN-EM, ao pensar-se numa apren- dizagem significativa, é necessário considerar os mo- tivos pelos quais é importante conhecer-se uma ou mais línguas estrangeiras. Se em lugar de pensarmos, unicamente, nas habilidades lingüísticas, pensarmos em competências a serem dominadas, talvez seja possível estabelecermos as razões que de fato justificam essa aprendizagem. Dessa forma, a competência comunicativa só pode- rá ser alcançada se, num curso de línguas, forem desen- volvidas as demais competências que a integram [...]. O que o documento propõe é que se deve pensar o ensino das habilidades linguísticas no contexto mais amplo das competências. Assim, além da comunicativa, torna-se relevante considerar também outras compe- tências que permitam ao aluno saber, por exemplo: dis- tinguir variantes linguísticas e reconhecer a diversidade cultural; escolher o registro adequado ao contexto em que se produz a situação comunicativa; compreender os aspectos socioculturais que interferem na interpretação de palavras, expressões, gestos, formas de tratamento, etc.; utilizar mecanismos de coesão e coerência próprios da língua estudada; usar estratégias verbais e não ver- bais para evitar ou compensar falhas na comunicação, para alcançar o efeito pretendido etc. Esses componentes, evidentemente, não ocorrem isoladamente, mas se integram no momento da inte- ração, e o professor, na hora de elaborar os exercícios, deve procurar formas de evidenciá-los para que os alu- nos se conscientizem de sua importância. Do mesmo modo, em situações reais de comunicação, normalmen- te usamos mais de uma habilidade: ouvimos e falamos, lemos e ouvimos, lemos e escrevemos e, às vezes, fa- zemos tudo ao mesmo tempo. Por isso, torna-se mais produtivo também que o material busque integrar as habilidades, por meio de atividades que reproduzam o que fazemos no cotidiano. Os critérios principaispara a elaboração dos exercí- cios são: o enfoque do tema da unidade, a contextuali- zação, o uso de gêneros rentáveis e, sempre que possí- vel, autênticos, e a implicação dos fatores associados à expressão e à recepção. No caso das habilidades interpretativas, trata-se de estabelecer uma compreensão mais aprofundada das produções discursivas do idioma/cultura que se estuda, englobando diversos níveis de construção de sentido – compreensão detalhada, seletiva e global, conforme o gênero e os propósitos da leitura/audição –, propondo questões que enfoquem pré-leitura/audição, leitura/audição e pós leitura/ No caso das habilidades expressivas, trata-se de le- var o aluno a “expressar suas ideias e sua identidade no idioma do outro”, situando-se como “um indivíduo que tem algo a dizer, em outra língua, a partir do co- nhecimento da sua realidade e do lugar que ocupa na sociedade.” (OCEM, p. 152), através de propostas que configurem interações escrita e oral próprias do mundo social. Vejamos algumas propostas para o trabalho com as habilidades: Leitura Pode-se começar por uma ativação dos conheci- mentos prévios sobre o tema, o gênero, o vocabulário etc. Uma discussão inicial sobre o tema é um recurso para que os alunos comecem a pensar no que já sabem e possam manifestar suas opiniões. Nesse momento, dependendo do estágio de contato com a língua em que estão, os alunos podem falar em português, porque o objetivo da pré-leitura é introduzir o tema e o gênero e, por isso, pode-se ter mais resultado se for permitido que se expressem sem a preocupação com falar em es- panhol. Na etapa da leitura, podem-se explorar os elemen- tos gráficos do texto (formato, título, imagens etc.) bem como as convenções e os modos de ler constitu- tivos do gênero e da tipologia textual: ler um verbete de dicionário demanda estratégias diferentes daquelas requeridas por um poema, por exemplo. E aqui cabe destacar a importância de proporcio- nar ao aluno o contato com diferentes gêneros literá- rios (contos, romances, poemas etc), realçando as es- tratégias de leitura que esses textos requerem. Assim, os exercícios de compreensão leitora, sempre de acordo com o gênero em foco, devem: a) estimular o desenvolvimento de estratégias va- riadas, como a localização de informação, a produção de inferência, o uso dos conhecimentos prévios, a com- preensão global, seletiva e detalhada do texto; b) explorar o caráter polifônico dos textos e a inter- textualidade; 28 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola c) favorecer a pluralidade de interpretações; d) contribuir para a formação de um leitor reflexivo e crítico. Os exercícios devem ser diversificados de modo a focalizar, com relação aos gêneros: os aspectos formais/ gráficos (a arquitetura do texto), a função e os objeti- vos; os componentes discursivos e gramaticais; o voca- bulário; os aspectos sociolinguísticos; as condições de produção (quem escreve o texto, onde, por quê, para quem), circulação (em que suporte, para chegar a quais leitores) e recepção (quem lê, onde, por quê). Podem ser de diferente natureza: completar, associar informações, relacionar palavras ao tema, a definições e/ou imagens, responder perguntas abertas, formular perguntas etc, procurando-se privilegiar os exercícios que demandem a releitura e a reflexão. Na fase de pós-leitura, é possível ampliar o trabalho com o tema e com o gênero por meio de produções orais ou escritas: realizar um debate, fazer uma pesquisa para aprofundar o que foi lido/discutido, preparar carta- zes, criar um blog, entrevistar alguém, criar uma propa- ganda ou uma campanha educativa etc. Audição Com relação a esta habilidade, além de reiterar a pertinência dos áudios e vídeos em função do tema da unidade, é indispensável destacar a necessidade de se- lecionar amostras que sejam autenticamente orais: uma entrevista, um telejornal, a cena de um filme, um docu- mentário, um capítulo de novela, um programa de culi- nária, um discurso, uma conferência etc., e que ilustrem diferentes variedades linguísticas. Pode-se seguir um caminho semelhante ao da leitu- ra, ou seja, começar por atividades de pré-audição que ativem o conhecimento prévio dos alunos, seguir com exercícios de audição que levem em consideração os aspectos específicos da expressão oral e que requerem diferentes estratégias de com- preensão, como pausas, silêncio, interrupções, entona- ção, ritmo, gestos etc. Propor exercícios que contemplem a distinção de sons, a compreensão detalhada (tudo o que é dito deve ser entendido), se- letiva (algumas informações são mais importantes de acordo com o propósito de quem escuta) e a global (entendimento geral, sem demandar necessariamente que se entenda tudo o que foi dito), que suscitem o po- sicionamento crítico e que considerem o texto (materia- lizado no áudio ou vídeo) em função de seus propósitos e das prováveis reações dos in- terlocutores. Ao preparar os exercícios, o professor deve cuidar para que sejam coerentes com o que a compreensão oral requer em situações do cotidiano. É uma boa opor- tunidade de integrar esta habilidade com a produção escrita e oral. Por exemplo, ouvir uma notícia e contá- -la a outra pessoa, explicar como se prepara um prato depois de ouvir uma receita, contar o capítulo de uma novela a uma pessoa que não assistiu, anotar as ideias principais de uma confe- rência, comenta opiniões apresentadas por alguém em uma entrevista etc. Na fase de pós-audição, assim como na pós-leitura, o trabalho com o tema e o gênero pode ser ampliado, inclusive explorando outros áudios e vídeos que se re- lacionem, de alguma forma, com o que foi trabalhado na unidade. Expressão oral Assim como a expressão escrita, a expressão oral sempre deve partir de algum insumo, como uma leitura, um áudio, um vídeo, etc,.que aproxime o aluno ao tema, motivando e favorecendo a sua expressão. Esse procedimento contextualiza e transforma a fala em uma atitude natural de contato com a língua/cul- tura. Embora o contexto da sala de aula aponte para a necessidade de simular situações de interação oral, devem-se propor atividades que tentem promover uma comunicação autêntica dos alunos entre si e destes com o professor e lhes possibilite construir seu discurso, situando-se no discurso do outro, proporcionando-se assim as condições inerentes à interlocução. Algumas possibilidades práticas são: diálogos livres e controlados (para que se conheçam, solucionem um problema, cheguem a um acordo, definam como realizar alguma tarefa etc.); debates (em que devem argumen- tar, opinar sobre o tema da unidade, um fato recente, uma questão polêmica etc.); entrevistas (para uma pes- quisa sobre o tema, para uma seção do jornal da turma etc.); dramatizações (de um trecho de uma peça teatral, de um esquete relacionado ao tema preparado por eles mesmos, de uma cena de novela etc.); representações (de um telejornal, de um programa de entrevistas, de variedades ou de culinária etc.); apresentação de traba- lhos etc. A diversidade de propostas de expressão oral, como sugerida no parágrafo anterior, propicia o uso de di- ferentes funções comunicativas (apresentar-se, opinar, argumentar, pedir, desculpar-se etc.), o uso de estraté- gias de comunicação verbais e não verbais, a escolha do registro e do vocabulário adequados à situação, aspec- tos relevantes para o desenvolvimento de competências associadas a esta habilidade linguística. Expressão escrita A produção escrita deve, se possível, inscrever-se numa situação comunicativa que se aproxime ao máxi- mo daquelas vividas no cotidiano. Aqui caberia, então, 29 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola perguntar por que, para quem e como escrevemosna vida diária. Se for possível reproduzir essas situações e condições no contexto da sala de aula, será muito mais significativa e rentável a aquisição de conhecimentos. Portanto, um critério que talvez seja o mais importante, embora o mais difícil de atender, é que as produções escritas dos alunos tenham outros interlocutores além do professor, ou seja, o texto produzido pelo estudante não deve ter como única finalidade a leitura e a correção feitas pelo docente; é ideal que esse texto seja escrito com um propósito comunicativo e para um leitor (ou leitores) definido. Nesse caso, a correção, quando ne- cessária, incluiria, além dos aspectos linguísticos, tam- bém a adequação do gênero ao contexto, os compo- nentes discursivos, sociolinguísticos, pragmáticos etc. A escrita pode ser individual, em duplas ou em gru- pos, mas sempre contextualizada, a partir de discussões sobre o tema da unidade, de gêneros/textos ou de al- guma situação específica (por exemplo, a necessidade de uma campanha educativa na escola), de modo que se motive não a simples redação de um texto, mas sim um uso significativo da língua, a expressão de um sig- nificado próprio, que tenha um objetivo. É necessário que a proposta defina o gênero e explicite as condições de produção: para quem, com que objetivo e em que suporte se escreve. Como acontece no mundo social com grande parte dos textos que produzimos, os exer- cícios devem prever o planejamento do texto escrito e as reformulações, sendo assim, a ênfase deve recair no processo de escrever/criar (lembremos que o propósito é o desenvolvimento ou aperfeiçoamento da habilidade de produzir textos) e não no produto final. Algumas tarefas escritas podem ser: preparar uma campanha educativa, com relação ao tema da unidade, e elaborar cartazes e folhetos; criar um blog coletivo ou individual para escrever, por exemplo, sobre esportes, viagens, jogos, passatempos; ler anúncios e escrever e- -mail solicitando informações; redigir as conclusões de um debate; ler um programa de um curso ou um folheto divulgando bolsas e intercâmbios e escrever um e-mail pedindo mais informações, uma carta de solicitação ou preencher um formulário de inscrição; escrever uma car- ta para a seção Cartas ao Diretor de um jornal; preparar roteiro para apresentação de um trabalho; redigir notí- cias para a representação de um telejornal; elaborar o roteiro de um esquete ou de uma cena de novela etc. Apresentamos a seguir, outras sugestões de ativi- dades, relacionadas às competências e habilidades, cujo objetivo é dar ênfase aos aspectos que, segundo Cas- sany (2006), devem ser incluídos no trabalho com textos (orais e escritos), a partir da perspectiva de letramento: • comparar notícias sobre o mesmo fato veiculadas em diferentes jornais e identificar quais informações são privilegiadas, os dados ressaltados e omitidos, a lingua- gem usada etc.; • explicitar as ideias que estão subentendidas em uma reportagem, uma notícia, um editorial; • analisar a sequência das notícias apresentadas em um telejornal, bem como o papel das imagens; • identificar os conhecimentos prévios necessários para a compreensão de uma charge, de uma piada, de uma crônica; • reconhecer posicionamentos explícitos ou impli- citamente sugeridos em um artigo de opinião, em um telejornal, em um talk show; • identificar diferentes tipologias textuais em uma entrevista; explicar ou descrever as informações • transmitidas por textos não verbais em propagan- das, histórias em quadrinhos, charges, folhetos etc; • retextualizar textos, transformando, por exemplo, uma entrevista em uma notícia ou uma resenha, uma história em quadrinhos em um conto, uma charge em uma piada, uma notícia em uma reportagem, para des- tacar a tipologia textual mais frequente em cada gênero; • compor uma notícia a partir de manchetes sobre um fato, o que permite comparar os diversos textos que serão produzidos e verificar as diferentes perspectivas; • dar títulos a notícias apresentadas sem eles, possi- bilitando assim a reflexão sobre sua capacidade de sín- tese e de impacto sobre o leitor; • converter uma entrevista oral em entrevista escrita e analisar as especificidades de cada modalidade; Para resumir, ressaltamos que, no trabalho com as competências e habilidades, deve-se incentivar a co- municação (oral e escrita), de maneira contextualizada, relacionada aos conteúdos abordados, a partir de uma perspectiva de gênero, considerando as condições de produção, circulação e recepção, as relações autor-lei- tor, a função, os objetivos, as características do texto/ gênero. Deve haver conexão interna na unidade, de ma- neira que o tema, os textos, a gramática e as habilidades se integrem e promovam um aprendizado mais holísti- co. Fonte: COLEÇÃO EXPLORANDO O ENSINO ESPA- NHOL – vol.16 30 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola 5.1 EL ALFABETO GRÁFICO Y ORAL. Letra Como se lê a a b be c ce ch che d de e e f efe g ge h hache i i j jota k ka l ele ll elle m eme n ene ñ eñe o o p pe q cu r ere rr erre s esse t te u u v uve w Uve doble x equis y igriega z zeta 5.2 ARTÍCULOS. A língua espanhola, assim como a língua portuguesa, possui dois tipos de artigos (artículos): Artigos definidos e indefinidos. Ambos se tratam de palavras variáveis que se antepõem a um substantivo ou qualquer palavra que indique gênero ou número. Confira abaixo os artigos definidos e indefinidos. Definidos Masculino Feminino Singular El (ele) La (ela) Plural Los (eles) Las (elas) Indefinidos Masculino Feminino Singular Un (um) Una (uma) Plural Unos (uns) Unas (umas) Exemplos: Artigos Definidos: • El auto - O carro (singular – masculino) • Los autos – Os carros (plural – masculino) • La casa – A casa (singular – feminino) • Las casas – As casas (plural – feminino) Artigos Indefinidos: • Un hombre – Um homem (singular – masculino) • Unos hombres – Uns homens (plural – masculino) • Una mujer – Uma mulher (singular – feminino) • Unas mujeres – Umas mulheres (plural – feminino) Atención! Atenção! É importante o uso do artigo definido para indicar as horas, dias da semana e datas. Exemplo: • Son las seis en punto. (São seis em ponto). • El resultado de los exámenes saldrá en lunes. (O resultado dos exames sairá segunda – feira). • Nascí el 19 de febrero de 1999. (Nasci dia 19 de fevereiro de 1999). Observação: Diante de números que indicam horas ou se usa o artigo definido ou decidir por não precisa colocar a pa- lavra horas. Quando se trata de nome de pessoa, país, região ou continente, não se usa o artigo, a menos que este esteja determinado por um adjetivo, oração relativa ou com- plemento. Existem algumas exceções como: La Habana, La Argentina, La Índia, Los Estados Unidos, El Japón, etc. 31 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola No que se refere as formas de tratamento, também utilizamos artigo definido, menos quando se trata de “Don”. Exemplo: Don Juan es muy bello. (Don Juan é muito bonito). Muito importante saber que o artigo “la” pode ser substituído em alguns casos pelo artigo “el” e “un” por “unas”. Isso acontece com palavras que possuem subs- tantivos femininos no singular iniciado por “a“ ou por “há” tônico, para evitar cacofonia. Veja os exemplos: • El alma (a alma) • El agua (a água) • Un águila (uma águia) • Un hada (uma fada) Porém, quando estes mesmos substantivos estive- rem no plural, então se usa o artigo “las”. Exemplo: Las aguas (as águas), Las almas (as almas), las águilas (as águias), lãs hadas (as fadas). Fonte: https://www.infoescola.com/espanhol/articulos/ 5.3 Pronombres personales y de tratamiento. Os pronomes pessoais ou pronombres personales são grupos de palavrasque usamos para expressar a nossa fala, a do nosso interlocutor e a de terceiros. Os pronomes pessoais são palavras que usamos quando queremos falar de nós mesmos (primeira pes- soa), do ouvinte referido pelo falante (segunda pessoa) e o conjunto dos demais falantes (terceira pessoa). Eles se dividem em: pronome pessoal do caso reto e prono- me pessoal do caso oblíquo. Os pronomes do caso reto têm a função de sujeito ou podem simplesmente substituir aquele numa oração subordinada. São tônicos porque possuem seu próprio acento de intensidade, sem depender de outras classes de palavras. São eles: SINGULAR PLURAL 1ª PERSONA YO NOSOTROS 2ª PERSONA TÚ, *VOS VOSOSTROS 3ª PERSONA ÉL, ELLA, USTED ELLOS, ELLAS, USTEDES *Muitos países latino-americanos usam o pronome pessoal vos no lugar de tú e usted. Seu uso implica numa conjugação verbal diferente do pronome tú, exemplo: Tú bebes – Vos bebés Tú sales – Vos salís Alguns usos dos pronomes do caso reto: Pablo fue de vacaciones a Italia. Él se quedó 15 días allá. (el pronombre sujeto está sustituyendo el nombre/sujeto de la primera oración) Paulo foi de férias à Itália. Ele ficou 15 dias lá. (O pronome do caso reto está substituindo o nome/sujeito da primeira oração) Yo (pronombre sujeto) tengo hambre. / Eu tenho fome. (pronome do caso reto) Os pronomes do caso oblíquo têm a função de com- plemento verbal não preposicional ou como formador dos verbos pronominais. São átonos porque necessitam do verbo para com ele formar uma unidade acentual, de pronúncia forte. PERSONA GRAMATICAL SINGULAR PLURAL 1ª PERSONA ME NOS 2ª PERSONA TE OS 3ª PERSONA LO, LA LOS, LAS 3ª PERSONA LO (neutro) _____ 3ª PERSONA LE, *SE LES, *SE Os pronomes do caso reto LE/LES substituem o objeto indireto da oração. Mas quando na mesma já existe a presença dos pronomes de complemento direto, aqueles devem ser substituídos por SE. As funções dos pronomes do caso oblíquo são: 1. Complemento verbal no preposicional. / Com- plemento verbal não preposicional. O pronome pode aparecer substituindo o objeto di- reto e indireto da oração. Exemplos: Merche ganó un ordenador. (objeto directo) / Mer- cedes ganhou um computador. (objeto direto) Merche lo ganó. (pronombre complemento directo) / Mercedes o ganhou. (pronome complemento direto) Merche dio un regalo (objeto directo) a su ma- dre (objeto indirecto). / Mercedes deu um presen- te (objeto direto) para sua mãe (objeto indireto). Merche se (pronombre complemento indirecto) lo (pronombre de complemento directo) dio. / Mercedes o deu para sua mãe. (complemento objeto direto) 2. Formantes de los verbos pronominales. / Forma- dores dos verbos pronominais. Em espanhol existem inúmeros verbos pronomi- nais, tais como: acostarse, despertarse, presentarse etc. Quando esses verbos são conjugados, a partícula se que os acompanham admite várias formas distintas de acordo com o pronome oblíquo átono a que fazem referência. 32 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Exemplos: Todos los días me despierto a las 8:00. / Acordo às 8:00 todos os dias. Mis padres se acuestan muy tarde. / Meus pais se deitam muito tarde. Fonte: https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/espanhol/pronombres-personales-tratamento.htm 5.4 PRESENTE DE INDICATIVO: SER, ESTAR Y TENER. Usando o presente do indicativo no Espanhol O presente de indicativo indica uma ação expressada pelo verbo que se dá no mesmo momento em que se fala. Por exemplo: (Yo) estudio español. (Yo) hablo español. (Tú) eres mi amigo. (Yo) Tengo hambre. O presente do indicativo também é usado para expressar ações frequentes; Yo siempre voy a la escuela en autobús escolar. Ações no futuro; En el próximo més mis compañeros se van de vacaciones. expressar ordens: . ¿Por qué no tomas unos días libres de tu trabajo? VERBOS SER, ESTAR Y TENER (PRESENTE DE INDICATIVO) Pronombres Verbo SER Verbo ESTAR Verbo TENER Yo Soy Estoy Tengo Tú Eres Estás Tienes Él/Ella/Usted Es Está Tiene Nosotros(as) Somos Estamos Tenemos Vosotros(as) Sois Estáis Tenéis Ellos(as)/Ustedes Son Están Tienen Empleo de los verbos SER, ESTAR y TENER: Principales usos del verbo ser: ?decir el nombre. (Ej.: Soy Francisco/Esther/Teresa?) ?decir la nacionalidad. (Ej.: Ella es española/brasileña / holandesa ?) ?decir la profesión. (Ej.: Él es abogado/profesor/ingeniero?) ?describir física o psicológicamente a una persona. (Ej.: Es guapa e inteligente.) ?Identificar personas. (Ej.: Él es mi tío, Ella es mi profesora). Principales usos del verbo estar: ?situar (Ej.: Estoy en el colegio/en el club /en la oficina/ en la playa?) ?expresar estados físicos (Ej.: Ella está cansada/ enferma?). ?expresar estados psicológicos (Ej.:Estás alegre/ nervioso/ preocupado?). Principales usos del verbo tener: ?expresar voluntad (Ej.: Tengo ganas de tomar en helado.) ?posesión (Ej.: Mi madre tiene libros españoles) ?sensaciones fisiológicas (Ej.: ?tienen sed / hambre/ sueño/ dolor de ?) ?necesidades (Ej.: Él tiene que trabajar) ?edad(Ej.: Tiene 30 años) Fonte: http://www.espanholgratis.net 33 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola 5.5 ADJETIVOS POSESIVOS. Substituem o artigo para expressar posse e, geral- mente, são colocados antes do substantivo ou adjetivo. Eles são: MI / MIS TU / TUS SU / SUS NUESTRO / NUESTROS (NUESTRA / NUESTRAS) VUESTRO / VUESTROS (VUESTRA / VUESTRAS) SU / SUS Ex.: / Nuestro representante / Esta es vuestra escue- la / Sus buenos comportamientos. Mi - Mis = meu,meus, minha, minhas; Tu - Tus = seu, seus, sua, suas; Su - Sus= seu, seus, sua, suas; Nuestro, Nuestros, Nuestra, Nuestras = nosso, nos- sos, nossa, nossas; Vuestro, Vuestros, Vuestra, Vuestras = vosso, vos- sos, vossa, vossas; Su, Sus = seus, suas Exemplos: Mi auto es nuevo. (possuidor Yo) Meu carro é novo. Mis bolígrafos están en casa. (possuidor Yo) Minhas canetas estão em casa. Nuestro autobús salió. (possuidor Nosotros) Nosso ônibus saiu. Sus libros están en el salón. (possuidor Él / ella/Us- ted) Seus livros estão na sala. Nuestras ropas son estupendas. (possuidor noso- tras) Nossas roupas são sensacionais. Vuestro tío está llamando. (possuidor vosotros) Vosso tio está te chamando Fonte:http://www.cursosonlinesp.com.br/product_ downloads/y/Curso%20Espanhol%20Basico.pdf 5.6 CONTRACCIONES. Diferente do português, o espanhol tem somente duas contrações, al (a + el) e del (de + el), e essa é uma das peculiaridades da língua espanhola. Vejamos abaixo algumas combinações em espa- nhol com sua tradução em português e depois alguns exemplos retirados de manchetes do jornal El País. a la – al – ao a las – às a los – aos de la – da del – do de las – das de los – dos en la – na en el – no en las – nas en los – nos por la – pela por el – pelo por las – pelas por los – pelos Exemplos: Las pistas del ántrax apuntan a un científico ligado a la CIA Jörg Haider, No estoy en la derecha ni en la izquierda, estoy al frente. El asesinato de un vicepresidente resucita el mie- do a la guerra en Afganistán. Las ayudas al campo parten en dos a la Europa comunitaria. Fonte: https://espanhol.forumdeidiomas.com.br/as- -contracoes/ 5.7 COMBINACIONES. No espanhol todas as palavras que combinam são escritas separadamente, diferente do português. Ex: De la – (da) De las (das) De los (dos) Por el (pelo) Por la (pela) En el (no) En la (na) En un (num) Em uma (numa) 34 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola 5.8 PERÍFRASIS DE FUTURO. Para expressar uma ação que irá acontecer em um fu- turo próximo (não muito distante do presente), podemos usar a seguinte perífrase verbal: Perífrasis: Ir + a + infinitivo Para formaresta perífrase, utilizamos o verbo ir (no presente: voy, vas, va, vamos, vais, van) mais a preposi- ção a seguido do infinitivo do verbo principal. Ex: Futuro con IR + A + INFINITVO Mañana – yo voy a estudiar spañol -Tú vas - Él, ella, ud. Va - Nosotros (as) vamos - Vosotros (as) vais - Ellos, ellas, uds. van Fique atento que há um detalhe que diferencia esta estrutura do espanhol da do português. Em espanhol, temos a preposição A depois do ver- bo IR. Em português, ela não existe. Compare: -Yo voy a ganar las elecciones. (Eu vou ganhar as eleições.) -¿Hasta dónde vas a llegar? (Até onde vais chegar?) -Chile va a luchar mucho por llegar lo más lejos posible. (Chile vai lutar muito para chegar o mais longe possível.) -Vamos a ganar. (Vamos ganhar.) -¿Vais a dejar que la prensa mundial se ría de La Roja? (Ides deixar que a imprensa mundial ría da -”Fú- ria” [roja: vermelha - alusão à seleção espanhola]? -Van a necesitar mucha ayuda. (Vão necessitar de muita ajuda.) Fonte: www.guiapraticodeespanhol.com.br 5.9 LOS NUMERALES. Os números cardinais são aqueles mais usados, os quais indicam a quantidade exata. 0 – cero 4 - cuatro 8 - ocho 12 - doce 1 - uno (un); una 5 - cinco 9 - nueve 13 - trece 2 - dos 6 - seis 10 - diez 14 - catorce 3 - tres 7 - siete 11 - once 15 - quince 16 - dieciséis 21 - veintiuno 26 - veintiséis 17 - diecisiete 22 - veintidós 27 - veintisiete 18 - dieciocho 23 - veintitrés 28 - veintiocho 19 - diecinueve 24 - veinticuatro 29 - veintinueve 20 - veinte 25 - veinticinco De 31 a 99 - Os números são escritos em duas pa- lavras, unidas pela conjunção y. Ex: treinta y uno/a 30 - treinta 40 - cuarenta 50 - cincuenta 60 - sesenta 70 - setenta 80 - ochenta 90 - noventa De 100 a 999 - Usa-se cien para fazer referência exata ao número 100; ciento para os demais casos. 100 - cien / ciento 200 - doscientos (as) 300 - trescientos (as) 400 - cuatrocientos (as) 500 - quinientos (as) 600 - seiscientos (as) 700 - setecientos (as) 800 - ochocientos (as) 900 - novecientos (as) De 1000 a 9999.999 - A palavra mil é invariável para quantidades exatas. 1.000 - Mil (Nunca “un mil”) 10.000 - Diez mil 100.000 - Cien mil 500.000 - Quinientos (as) mil Fonte: http://soespanhol.com.br/conteudo/nume- rais.php 35 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola 5.10 EL ARTÍCULO NEUTRO LO. O artigo neutro é um artigo definido, mas nunca vai diante de um substantivo (nome), uma vez que não exis- tem substantivos neutros em espanhol; tampouco de- signa gênero ou número. Ademais, cumpre, na oração, diferentes funções, como a de substantivar e intensificar o valor dos adjetivos, advérbio e particípios; de fazer re- ferência a situações passadas ou coisas conhecidas pelo interlocutor. Segundo a Real Academia Espanhola, há duas clas- ses de construção formadas pelo artigo neutro: 1. Referencial: O lo referencial faz referência a elementos definidos abstratos ou inanimados no discurso: Ejemplos: Lo + Adjetivo Lo bonito es ser feliz. (O bonito é ser feliz) Lo importante es que termine este trabajo. (O impor- tante é que termine este trabalho) Lo + Participio Lo sucedido me dejó feliz. (O que sucedeu me deixou feliz) Lo prohibido le gusta más. (Ele gosta mais do que é proibido) Lo + Adverbio Lo más triste de la situación. (O mais triste da situação) Lo poco que hizo fue suficiente. (O pouco que fez foi suficiente) Lo + Que / De No sabemos lo que piensa María de Jorge. (Não sabe- mos o que Maria pensa de Jorge) Lo que quiero es estudiar más. (O que quero é estu- dar mais) Lo de mañana es más importante. (O de amanhã é mais importante) 2. Enfático: O lo enfático intensifica o valor dos adjetivos, dos adverbio e dos particípios. Sempre deve ser utilizado com o pronome relativo que: Ejemplos: Lo + Adjetivo + que ¡Lo inteligente que es esta mujer! (Quão inteligente é esta mulher!) Lo fácil que fue la prueba. (A prova foi muito fácil) Lo + Adverbio + que Lo tarde que has llegado ayer. (Quão tarde chegou ontem) ¿Te acuerdas lo demasiado que fue la fiesta? (Lembra o quanto a festa foi exagerada?) Lo + Participio + que Nos sabes lo atrasado que he llegado para la reu- nión. (Não sabe o quão atrasado cheguei para a reunião) 3. Otros usos: • Para hacer referencia a situaciones pasadas o cosas conocidas por el interlocutor: Lo del mes pasado fue mejor. (O do mês passado foi melhor) Llegaremos atrasados en lo de Ana. (Chegaremos atrasados no de Ana) • Con pronombres posesivos: Lo tuyo es mejor. (O teu é melhor) Lo mío está más nuevo que lo suyo. (O meu está mais novo que o seu) Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/espanhol/los- -articulos-el-articulo-neutro-lo-en-espanol.htm 5.11 ADVERBIOS Y EXPRESIONES DE TIEMPO. O Advérbio é uma parte invariável da frase que mo- difica o significado do verbo, adjetivo ou de outras pa- lavras e orações. 1) Adverbios de afirmación - Sí, claro, cierto, también 2) Adverbios de negación - No, tampoco, jamás, nunca 3) Locuciones adverbiales de afirmación - En efec- to, por supuesto, ¡como no! 4) Locuciones adverbiales de negación - Al contra- rio, en absoluto, ni siquiera 5) Adverbios de duda - Quizá(s) (quizá), acaso, pro- bablemente 6) Locuciones adverbiales de duda - A lo mejor (equivalente a talvez), parece ser 7) Adverbios de modo Así, casi, bien, mal, despacio (devagar), deprisa (de- pressa), aprisa (com rapidez), adrede (feito com toda intenção). 36 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Os adverbios terminados em – mente: fácilmente, simplemente, orgullosamente. 8) Adverbios de tempo Aún, todavía (ambos expressam o «ainda»), ya (já), ayer (ontem), anteayer, hoy (hoje), mañana (amanhã), tarde, temprano, pronto (estes dois últimos podem ser traduzidos como cedo), siempre, nunca, jamás, antes, primero, después luego, ahora (agora), mientras (enquanto, entretanto) 9) Locuciones adverbiales de tiempo De pronto, a veces, de ahora en adelante, a menudo (frequentemen- te), hoy por hoy. 10) Adverbios de lugar Arriba, abajo, delante (dian- te, ante, perante), adelante (adiante, mais para lá, mais para cima), atrás, dentro, fuera, afuera, cerca (perto), le- jos (longe), alrededor (ao redor...), aparte (à parte, sepa- radamente), aquí, ahí, allí, donde, junto, detrás, encima (num lugar superior em relação a outro), debajo (num lugar inferior em relação a outro). Nos casos de dentro/adentro, fuera/afuera, donde/ adónde, delante/adelante a diferença consiste em que as formas que incluem a letra “a” são as que vão acom- panhadas de verbos ou outras palavras que expressem movimento. Ex.: Estuvimos dentro de la casa. / Salieron afue- ra un rato / ¿Adónde vamos? / Más adelante se verá quien decía la verdad. Os advérbios de quantidade mais usuais no Espanhol. Demasiado/a, (demais) Bastante , (bastante) Mucho/a, (muito/a) Todo/a,( todo/a) Poco/a,(pouco/a) Menos,(menos) Sólo( só, somente) Mitad,( metade) Tan,( tanto) Tanto, (tanto) Algo, (algum) Nada, (nada) Apenas,(apenas) Casi ,(quase) Cuánto,(quanto) Fonte: http://www.cursosonlinesp.com.br/product_ downloads/y/Curso%20Espanhol%20Basico.pdf 5.12 VERBOS. . Os verbos em espanhol apresentam três tipos de conjunções, tal qual no Português: Primeira Conjugação (Primera Conjugación): verbos terminados em –AR, por exemplo: hablar, cantar, bailar, amar e estar. Segundo Conjugação (Segunda Conjugación): terminado en –ER, por exemplo: hacer, comer, vender, tener e temer. Terceira Conjugação (Tercera Conjugación): terminado en –IR, por exemplo: partir, vivir, venir, subir e escribir. Classificação dos Verbos (Clasificación de los Verbos) Os verbos emespanhol, são classificados em: Verbos Regulares: são aqueles verbos que não so- frem alterações no seu radical. Seguem o mesmo modelo de conjugação de acordo com determinado tempo ver- bal e modo, por exemplo, hablar, comer e partir. Verbo da Primeira Conjugação “Hablar” (Presente do Indicativo) yo hablo tú hablas él/ella/usted habla nosotros/nosotras hablamos vosotros/vosotras habláis ellos/ellas/ustedes hablan Verbo da Segunda Conjugação “Comer” (Presente do Indicativo) yo como tú comes él/ella/usted come nosotros/ nosotras comemos vosotros/ vosotras coméis ellos/ellas/ ustedes comen 37 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Verbo da Terceira Conjugação “Partir” (Presente do Indicativo) yo parto tú partes él/ella/usted parte nosotros/nosotras partimos vosotros/vosotras partís ellos/ellas/ustedes parten Verbos Irregulares: são aqueles verbos que sofrem alterações no radical. Não seguem o mesmo modelo de conjugação de acordo com determinado tempo verbal e modo, por exemplo, jugar, agradecer, decir. Verbo da Primeira Conjugação “Jugar” (Presente do Indicativo) yo juego tú juegas él/ella/usted juega nosotros/nosotras jugamos vosotros/vosotras jugais ellos/ellas/ustedes juegan Verbo da Segunda Conjugação “Agradecer” (Pre- sente do Indicativo) yo agradezco tú agradeces él/ella/usted agradece nosotros/nosotras agradecemos vosotros/vosotras agradeceis ellos/ellas/ustedes agradecen Verbo da Terceira Conjugação “Decir” (Presente do Indicativo) yo digo tú dices él/ella/usted dice nosotros/nosotras decimos vosotros/vosotras decís ellos/ellas/ustedes dicen Tempos Verbais (Tiempos Verbales) Os tempos verbais no espanhol são divididos em presente, pretérito e futuro nos modos indicativo, subjuntivo e imperativo. Eles podem ser simples, com- postos, perfeitos e imperfeitos. Modos de Verbos Os modos dos verbos em espanhol são classificados em: Modo Indicativo: Presente, Pretérito Imperfecto ou Copretérito, Pretérito Perfecto ou Pretérito Compuesto, Pretérito Perfecto Simple ou Pretérito Indefinido, Pre- térito Pluscuamperfecto, Futuro Simple ou Futuro Im- perfecto, Futuro Perfecto ou Futuro Compuesto, Condi- cional Simple ou Pospretéritoz, Condicional Compuesto. Modo Subjuntivo: Presente, Pretérito Imperfecto, Pretérito Perfecto ou Pretérito Compuesto, Pretérito Plus- cuamperfecto, Futuro Simple ou Futuro Imperfecto, Futuro Perfecto ou Futuro Compuesto Modo Imperativo: afirmativo e negativo (somente da segunda pessoa adiante) Formas Verbais As formas verbais podem ser pessoais e não pes- soais. No primeiro caso, as pessoas gramaticais (yo, tu, él, ella, usted, vosotros, vosotras, nosotros, nosotras, ellos, ellas, ustedes) são indicadas. Já as formas não pessoais não indicam as pessoas gramaticais sendo classificadas de três maneiras, a saber: Infinitivo: hablar, bailar, cantar, comer, vender, hacer, venir, partir, ir. Gerúndio: hablando, bailando, cantando, comendo, vendiendo, haciendo, viniendo, partiendo, yendo. Particípio: hablado, bailado, cantado, comido, vendi- do, hecho, venido, partido, ido. Note que as formas verbais são classificadas em sim- ples e compostas. As formas compostas se formam com o verbo auxiliar haber (haver): verbo auxiliar conjugado + particípio do verbo principal. As formas compostas ocorrem nos tempos: pretérito perfecto, pretérito pluscuamperfecto, futuro perfecto (nos modos indicativo e subjuntivo) e condicional compuesto do indicativo. Segue abaixo as conjugações do verbo hablar (falar) nas formas compostas: Pretérito Perfecto del Indicativo: verbo haber no Presente do Indicativo + o Particípio do verbo principal: 38 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola yo he hablado tú has hablado él/ella/usted ha hablado nosotros/nosotras hemos hablado vosotros/vosotras habéis hablado ellos/ellas/ustedes han hablado Pretérito Perfecto del Subjuntivo: verbo haber no Presente do Subjuntivo + o Particípio do verbo principal: yo haya hablado tú hayas hablado él/ella/usted haya hablado nosotros/nosotras hayamos hablado vosotros/vosotras hayáis hablado ellos/ellas/ustedes hayan hablado Pretérito Pluscuamperfecto del Indicativo: verbo haber no Pretérito Imperfeito do indicativo + o Particípio do verbo principal: yo había hablado tú habías hablado él/ella/usted había hablado nosotros/nosotras habíamos hablado vosotros/vosotras habíais hablado ellos/ellas/ustedes habían hablado Pretérito Pluscuamperfecto del Subjuntivo: verbo haber no Pretérito Imperfeito do Subjuntivo + o Particípio do verbo principal: yo hubiera/hubiese habla- do tú hubieras/hubieses ha-blado él/ella/usted hubiera/hubiese habla-do nosotros/nosotras hubiéramos/hubiésemos hablado vosotros/vosotras hubierais/ hubieseis hablado ellos/ellas/ustedes hubieran/hubiesen ha-blado Futuro Perfecto del Indicativo: verbo haber no Fu- turo Simples+ o Particípio do verbo principal: yo habré hablado tú habrás hablado él/ella/usted habrá hablado nosotros/nosotras habremos hablado vosotros/vosotras habréis hablado ellos/ellas/ustedes habrán hablado Futuro Perfecto del Subjuntivo: verbo haber no Futu- ro Simples do subjuntivo + o Particípio do verbo principal: yo hubiere hablado tú hubieres hablado él/ella/usted hubiere hablado nosotros/nosotras hubiéremos hablado vosotros/vosotras hubiereis hablado ellos/ellas/ustedes hubieren hablado Condicional Compuesto del Indicativo: verbo ha- ber no Condicional + o Particípio do verbo principal: yo habría hablado tú habrías hablado él/ella/usted habría hablado nosotros/nosotras habríamos hablado vosotros/vosotras habríais hablado ellos/ellas/ustedes habrían hablado Lista de Verbos em Espanhol Segue abaixo alguns dos mais utilizados verbos em espanhol: acostumbrar (acostumar) amar (amar) andar (andar) actuar (atuar) beber (beber) caminar (caminhar) coger (pegar) comer (comer) contestar (responder) correr (correr) dar (dar) decir (dizer) describir (descrever) despertar (despertar, se levantar) describir (descrever) dibujar: (desenhar) dormir (dormir) 39 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola elegir (escolher) escribir (escrever) escuchar (escutar) estar (estar) estudiar (estudar) haber (haver) hablar (falar) hacer (fazer) imaginar (imaginar) intentar (tentar) ir (ir) jugar (brincar) leer (ler) llamar (chamar) llorar (chorar) mirar: (olhar) oír (ouvir) odiar (odiar) pegar (colar) pensar (pensar) poder (poder) poner (por) posseer (possuir) preguntar (perguntar) presentar (apresentar) querer (querer) regalar (presentear) saber (saber) salir (sair) saludar (cumprimentar) ser (ser) soler (costumar) tener (ter) trabajar (trabalhar) traer (trazer) venir (ir) ver (ver) vivir (viver) Fonte: https://www.todamateria.com.br/verbos-no-espanhol-verbos-en-espanol/ 5.13 PRONOMBRES DEMOSTRATIVOS. Os pronomes demonstrativos indicam a relação de proximidade entre o objeto a que se refere e os diversos par- ticipantes do diálogo. São palavras variáveis que acompanham ou substituem um nome, assim, indicando a posição dos seres no espaço e no tempo com relação a forma gramatical. Os pronomes demonstrativos em espanhol são: Numero Masculino Feminino Neutro Singular ÉSTE (Este) ÉSTA (Esta) ESTO (Isto) Plural ÉSTOS (Estes) ÉSTAS (Estas) - Singular ÉSE (Esse) ÉSA (Essa) ESO (Isso) Plural ÉSOS (Esses) ÉSAS (Essas) - Singular AQUÉL (Aquele) AQUÉLLA (Aquela) AQUELLO (Aquilo) Plural AQUÉLLOS (Aqueles) AQUÉLLAS (Aquelas) - 40 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Alguns exemplos: • Éste es el libro que tengo en las manos. (O pronome demonstrativo leva acento por estar distante do substantivo a que se refere). (Este éo livro que tenho nas mãos). • Ése el el libro que tú compraste. (Esse é o libro que tu comprastes) Também usa-se a forma a forma neutra em espa- nhol para se referir a algo que não se conhece, ou seja, são aquelas que fazem referência com o conceito abs- trato, estão sempre no singular e nunca são utilizadas diante de substantivo, como por exemplo: • ¿Qué es eso? / Eso es una bandeja. (Que é isso? / Isso é uma bandeja) • Esto no quiero saber / Eso tampoco / Aquello menos (Isto não quero saber / Isso, tampouco / Aquilo, menos) Os pronomes demonstrativos podem ainda, exercer função de adjetivo o pronome.Exemplo: • Aquellas chicas son muy lindas. (Aquelas moças são muito bonitas). Importante saber que é que os demonstrativos não admitem contração com preposição. Temos alguns: En esa (nessa), em esto (nisto), naquele (en aquel) e desta (de esta). Fonte: https://www.infoescola.com/espanhol/pro- nomes-demonstrativos-em-espanhol/ 5.14 ADVERBIOS Y PRONOMBRES INTERROGATIVOS. Advérbios qualificam, modificam ou descrevem verbos, adjetivos ou outros advérbios e expressam as circunstâncias em que se desenvolvem os fatos. No espanhol, um advérbio é geralmente forma- do pelo acréscimo do sufixo – mente a um adjetivo feminino. Exemplos: Adjetivo masculino Adjetivo feminino Advérbio claro clara -------> Claramente tranquilo tranquila tranquilamente Quando o adjetivo apresenta a mesma forma para o feminino e o masculino, só se adiciona o sufixo – mente. Adjetivo Advérbio Alegre -------> alegremente frecuente frecuentemente fácil fácilmente Note: Quando o adjetivo é escrito com acento, o advérbio também será acentuado. Muitas vezes, porém, o advérbio não possui o sufi- xo –mente. 1. Quando muy precede o advérbio, o sufixo – mente não é adicionado. Exemplos: Ella habla rápidamente. (Ela fala rapidamente.) Ella habla muy rápido. (Ela fala muito rápido.) 2. Alguns advérbios comuns que não terminam em – mente: Espanhol Português bien bem mal mal mucho muito poco pouco bastante bastante demasiado demais muy muito nunca nunca peor pior siempre sempre Exemplos: Tú hablas muy bien. (Você fala muito bem.) Normalmente como poco, pero a veces como mu- cho. (Normalmente eu como pouco, mas às vezes eu como muito.) 3. Outra maneira de formar um advérbio é utilizan- do a preposição con, de, sin, por + um advérbio, for- mando uma locução adverbial. Exemplos: Advérbio Locução Adverbial Cuidadosamente (cuidadosamente) con cuidado 41 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Perfectamente (perfeitamente) con perfección Cariñosamente (carinhosamente) con cariño Alegremente (Alegremente) Con alegría Completamente (completamente) Por completo Frecuentemente (frequentemente) Con frecuencia Indudablemente (indubitavelmente) Sin duda Inmediatamente (imediatamente) De inmediato 4. Quando dois advérbios modificam o mesmo verbo, somente o segundo advérbio adota o sufixo –mente. Note que o primeiro advérbio assume a forma feminina do adjetivo. Exemplos: Fabio trabaja lenta y cuidadosamente. (Fábio trabalha lenta e cuidadosamente.) El autor escribió rápida y fácilmente. (O autor escreveu rápida e facilmente.) Fonte: https://www.educabras.com/vestibular/materia/espanhol 5.15 FORMACIÓN DEL PLURAL. O plural em espanhol possui o mesmo significado que em Português, faz parte do Gênero de número que ao contrário do singular serve para expressar mais de um número. Para tanto existe uma regra para ser seguida, observe o quadro abaixo: Singular terminados em: Para formar plural, adiciona- -se: Exemplos: A,e,i,o,u s Música – Músicas Falda – Faldas (saia – saias) Á, é, ó S Pantalón – Pantalones (calça – calças) Consoante Es Papel – papeles (papel - papeis) Porém, a regra acima possui algumas exceções, como por exemplo, os substantivos terminados em “z”, para for- mar plural deve necessariamente ser substituídos o “z” pelo “c”. Ex: Matriz – Matrices(Matriz, molde). Também existem alguns substantivos que terminados em “s” permanecem iguais, não sofrem mudanças no plu- ral, como: El lunes – Los lunes (A segunda – As segundas), que indica o dia da semana. Os substantivos terminados em “í” e “ú”, também sofrem mudanças, nesse caso adiciona “es”. Ex: Emoción – Emo- ciones (Emoção – Emoções). O mesmo acontece com os substantivos terminados em “á”. EX: Faralá – faralaes (Babado – Babados), já em outros casos apenas se acrescenta o “s”. Ex: Sofá – Sofás (Sofá – Sofás). Temos ainda os substantivos terminados em “s” e “x” precedidos de vogal átona que são invariáveis, ou seja, não mudam no plural, permanecem da mesma forma que no singular. Ex: La crisis – Las crisis (A crise – As crises). Impor- tante lembrar que os artigos “El e La” se modificam também ao assumirem a forma do plural, como por exemplo: “El-Los” , “La – Las”. Fonte: https://www.infoescola.com/espanhol/plural-em-espanhol/ 42 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola 5.16 LUGARES (ESTABLECIMIENTOS COMERCIALES) Y MEDIOS DE TRANSPORTE. aeroporto aeropuerto açougue carnicería banco banco bar bar biblioteca biblioteca bombeiros bomberos cabeleireiro peluquería cemitério cementerio cinema cine correio correo delegacia comisaría escola escuela escritório de advo- gados bufete de abogados estádio estadio fábrica fábrica floricultura floristería hotel hotel igreja iglesia livraria librería loja de móveis tienda de muebles loja de presentes tienda de regalos museu museo padaria panadería polícia policía posto de gasolina gasolinera restaurante restaurante sapataria zapatería sorveteria heladería supermercado supermercado teatro teatro universidade universidad Fonte: http://soespanhol.com.br/conteudo/voc6_CO- MERCIO.php Español Português Autobús Ônibus Avión Avião Avioneta Avião pequeno Barca Barco Barco o Buque Navio Bicicleta o Bici Bicicleta Camión Caminhão Coche Carro Cohete Foguete Crucero Cruzeiro Furgoneta Furgão Globo Balão Helicóptero Helicóptero Metro Metrô Motocicleta o moto Moto Petrolero Petroleiro Portaaviones Porta-aviões Submarino Submarino Taxi Taxi Tranvía Bonde Tren Trem Velero Veleiro Yate Iate Note a diferença entre o português e o espanhol em relação aos meios de transportes: No Brasil, falamos: Vou de táxi. Já em espanhol, falamos: Voy en táxi. Assim, usamos a preposição de em português + meios de transporte. Enquanto, usamos a preposição en em espanhol + medios de transporte. Los terminos generales de transporte • Carnet de conducir - Carteira de habilitação • Las llaves - as chaves (Chama-se as chaves no plural porque você recebe duas, a oficial e a reserva.) • El mapa de caminos - O mapa da estrada • Tanque de bencina - tanque da gasolina • Gasolina, gas-oil, nafta, bencina - gasolina • El seguro - o seguro • El sistema de navegación GPS - o GPS • Manejar / conducir - dirigir Fonte: http://www.guiapraticodeespanhol.com.br 43 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola 5.17 LA FAMILIA. Membros da Família vô / avó abuelo / abuela cunhado / cunhada cuñado / cuñada enteado / enteada hijastro / hijastra esposo / esposa esposo / esposa filho / filha hijo / hija irmão / irmã hermano / hermana marido / mulher marido / mujer neto / neta nieto / nieta noivo / noiva novio / novia pai / mãe padre / madre papai / mamãe papá / mamá padastro / madastra padrastro / madrastra primo / prima primo / prima sobrinho / sobrinha sobrino / sobrina sogro / sogra suegro / suegra tio / tia tío / tía Estado Civil casado / casada casado / casada separado / separada separado / separada solteiro / solteira soltero / soltera viúvo / viúva viudo / viuda Fonte: http://www.soespanhol.com.br/conteudo/voc4_FAMILIA.php5.18 LOS COLORES. Os nomes dados às cores (los colores) possuem algumas semelhanças em espanhol e português, mas existem outros bem diferentes. Vejamos alguns exemplos de cores em Espanhol e sua tradução para o Português 44 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Fonte: https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/espanhol/los-colores.htm 5.19 OBJETOS VARIADOS. Comidas Diversas (Comidas Diversas) Português Espanhol almôndega albóndiga arroz arroz blanco canelone canalone farinha harina farofa fariña feijão frijol lasanha lasaña lentilha lenteja macarrão macarrón mandioca mandioca / yuca massa pasta molho salsa molho branco salsa blanca molho de tomate salsa de tomate 45 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola nhoque ñoqui omelete tortilla ovo frito huevo frito panqueca panqueque pinhão piñón polenta polenta purê de batatas puré de papas salada de maionese ensalada rusa sopa sopa Lanches (Meriendas) amendoim maní / cacahuete batatas fritas papas fritas batata palha papa al hilo biscoito bizcocho bolacha (água e sal) galleta salada cachorro-quente pancho (arg.) / perrito caliente (esp.) frios fiambre geleia jalea hambúrguer hamburguesa maionese mayonesa / mahonesa manteiga mantequilla mel miel mortadela mortadela mostarda mostaza pão pan pão de forma pan de molde pão preto pan negro pastel torta frita patê paté pipoca palomitas de maíz / rosetas pizza pizza presunto jamón queijo queso requeijão requesón rosquinhas rosquillas sanduíche bocadillo salame salame salgadinhos saladitos torrada tostada Temperos (Condimentos) azeite, óleo aceite orégano orégano pimenta pimienta sal sal vinagre vinagre Objetos da casa banheiro cuarto de baño cozinha cocina hall recibidor escritório gabinete quarto dormitorio sala de estar cuarto de estar sala de jantar comedor chão suelo chaminé chimenea churrasqueira parrillero escada escalera fechadura cerradura garagem garaje janela ventana jardim jardín parede pared porão sótano porta puerta sacada balcón telhado tejado terraço terraza teto techo tomada enchufe Palavras relacionadas (Palabras relacionadas) aluguel alquiler apartamento apartamento / piso bairro barrio condôminos comunidad de vecinos despesa / gasto expensas domicílio domicilio parcela cuota residência residencia vizinho vecino 46 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Animais (Animales) abelha abeja águia águila aranha araña avestruz avestruz baleia ballena barata cucaracha bode chivo boi buey borboleta mariposa búfalo búfalo cavalo caballo cabra cabra cachorro perro camelo camello canguru canguro caranguejo cangrejo cegonha cigüeña chimpanzé chimpancé codorna codorniz coelho conejo coruja búho / lechuza crocodilo cocodrilo dinossauro dinosaurio dragão dragón elefante elefante estrela-do-mar estrellamar foca foca formiga hormiga frango pollo gaivota gaviota galo gallo galinha gallina gato gato girafa jirafa golfinho delfín grilo grillo hipopótamo hipopótamo jacaré caimán / yacaré javali jabalí joaninha mariquita lagosta langosta leão león lombriga lombriz macaco macaco / mono mosca mosca mosquito mosquito morcego murciélago onça onza ovelha oveja pássaro pájaro pato pato peixe pez pinguim pingüino pomba paloma porco puerco rato ratón sapo sapo tartaruga tortuga tigre tigre touro toro urso oso vaca vaca zebra cebra Profissões (Profesiones) açougueiro carnicero administrador administrador advogado abogado aeromoça azafata arquiteto arquitecto artesão artesano bancário bancario bibliotecário bibliotecario bombeiro bombero cabeleireiro peluquero caixa cajero cantor cantante carteiro cartero chaveiro cerrajero chofer chófer costureira costurera cozinheiro cocinero dentista dentista 47 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola diretor director eletricista electricista empregada do- méstica criada / emplea- da encanador plomero / fonta-nero enfermeira enfermera engenheiro ingeniero engraxate limpiabotas / lustrabotas estagiário pasante faxineira asistenta fotógrafo fotógrafo garçom camarero gari basurero guarda guardia jardineiro jardinero juiz juez mecânico mecánico médico médico motorista conductor padeiro panadero pediatra pediatra pedreiro albañil pintor pintor policial policía professor profesor salva-vidas salvavidas secretária secretaria vendedor vendedor sapateiro zapatero Estaciones del año (estações do ano ) primavera primavera verão verano outono otoño inverno invierno Fonte: http://soespanhol.com.br Fenómenos climáticos (fenômenos climáticos) amanhecer amanecer anoitecer anochecer arco-íris arco iris brisa brisa calor calor cerração cerrazón chuva lluvia ensolarado soleado entardecer atardecer escuro oscuro frio frío furacão huracán geada escarcha / helada mormaço bochorno neve nieve nublado nublado raio rayo relâmpago relámpago sol sol temporal temporal trovão trueno ventania ventolera vento viento Material escolar: Espanhol Português Bolígrafo Caneta Lápiz Lápis Lápices de color Lápis de cor Sacapuntas Apontador Tijera Tesoura Cuaderno Caderno Estuche Estojo Regla Régua Crayon Giz de cera Carpeta Pasta Pegamento Cola Cinta adhesiva Fita adesiva Mochila Mochila 48 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola 6 DIVERGÊNCIAS LÉXICAS (HETEROSEMÁNTICOS, HETEROTÓNICOS, HETEROGENÉRICOS). Antes de se iniciar a apresentação acerca dos vocá- bulos heterossemânticos, heterotônicos e heterogené- ricos, é importante estabelecer a distinção entre aquisi- ção e aprendizagem. De acordo com a distinção feita por S. Krashen, en- tende-se que a aquisição de um idioma é um processo espontâneo e inconsciente de internalização das regras, por meio da mera exposição natural, enquanto que a aprendizagem constitui um processo consciente que se dá por meio da instrução formal em sala de aula. (GAR- GALLO,1999). A partir daí, percebe-se que o estudante brasileiro que aprende o espanhol em seu próprio país não pas- sa pelo processo de aquisição da Língua Estrangeira, uma vez que não tem a possibilidade de utilizar a LE no ambiente “extra classe”. Fato esse que justifica a utili- zação da língua materna durante os estudos da língua estrangeira, uma vez que o estudante não se encontra em um sistema de imersão total na língua alvo. Os heterossemânticos são vocábulos muito semelhantes na grafia e na pronúncia do espanhol e do português. Porém, possuem significados diferentes em ambas as línguas. O estudo dos vocábulos heterossemânticos é de ex- trema importância, como forma de aceleração do pro- cesso de aprendizagem, uma vez que se trata do grupo de vocábulos chamados de falsos cognatos, ou ainda, “falsos amigos” e também por serem encontrados de forma abundante na relação entre os dois idiomas. Embora apresentam semelhança gráfica e/ou fono- lógica, são completamente distintos do ponto de vista semântico, podendo levar o aprendiz a cometer gran- des erros de interpretação e, por consequência, podem dificultar a eficácia da compreensão. Devido ao exposto, pode-se assegurar que o grupo dos vocábulos heterossemânticos constitui-se em gran- de “ameaça” ao processo comunicativo, sendo capaz de causar interferências significativas na comunicação. Segundo Almeida Filho (apud FIALHO, 2005) “o léxico entre as duas línguas é constituído por 60% de cognatos idênticos e 30% de cognatos falsos” (sic). Ob- serva-se aí, que, durante o estudo da língua espanhola, o aprendiz irá deparar-se com uma infinidade de vocá- bulos que são “verdadeiros” cognatos, e o estudo dos heterossemânticos tem como objetivo prepará-lo para não tomar o falso por verdadeiro. Os estudosde Andrade Neta (2007) apontam uma divisão na classificação dos heterossemânticos, propos- ta por Fernandez Bechara e Gustavo Moure. Sendo da seguinte maneira: A- Formas semelhantes com significados com- pletamente distintos: diz respeito aos vocábulos que apresentam forma semelhante ou idêntica em ambos os idiomas e que, diferem totalmente quanto ao significa- do em ambas as línguas. Assim, não oferecem nenhum significado comum nas línguas confrontadas, como, por exemplo: ambos os idiomas possuem a palavra “BER- RO”. Porém, o que se passa é que essa palavra em por- tuguês significa soltar um grito, enquanto que em es- panhol descreve uma hortaliça que tem como vocábulo equivalente em português o nome: agrião. B- Formas semelhantes com um ou mais de um significado semelhante e outro ou vários outros distintos: os vocábulos que pertencem a esse grupo possuem um ou mais equivalentes, apresentam outro ou outros distintos, ou seja, sem correspondência no português e no espanhol. O vocábulo “ACORDAR”, por exemplo, em ambas as línguas, apresenta o sentido de “estar de acordo”. No entanto, apresenta significados muito diferentes em ambas as línguas, uma vez que em português também é sinônimo de “DESPERTAR-SE”, enquanto que em espanhol é sinônimo dos vocábulos “DECIDIR, ACORDARSE” que em português significam “LEMBRAR-SE”. C- Formas semelhantes com significados distin- tos no uso atual: são os vocábulos que possuem uma origem comum e que já chegaram a compartilhar, em fases anteriores, o mesmo significado nas duas línguas, como por exemplo, a palavra latir originada do latim. Essa palavra significava “pulsar, latir” o coração e ao mesmo tempo descrevia o “ladrar” do cachorro. Deu- -se, porém, que a língua portuguesa manteve para esse vocábulo apenas o sentido de “ladrar”, que é o latir do cachorro, enquanto que em espanhol apenas se mante- ve o sentido de “latir, pulsar” que é o “bater” do coração. Existe ainda um grande número de vocábulos he- terossemânticos encontrados na relação entre os idio- mas português e espanhol. Pode-se perceber, a partir da apresentação dos mesmos, a grande semelhança quanto à pronúncia e à escrita, assim como a diferença semântica existente entre esses vocábulos. Sendo assim após essas observações, acredita-se que o estudo dos heterossemânticos, no início do pro- cesso ensino-aprendizagem, colabora de maneira subs- tancial com o aprendiz a fim de se evitar equívocos de interpretação e, consequentemente, facilitar a capacida- de de compreensão comunicativa 49 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Os heterofônicos “são palavras com grafia seme- lhante em português e espanhol, mas na pronúncia têm a sílaba tônica diferente. ” (MILANI,2000, p. 22). A autora ainda ressalta que há inúmeros casos de hete- rotonia entre as duas línguas. Propõe-se que o estudo dos heterotônicos seja precedido pelo estudo das regras de acentuação, que são encontradas em menor número no idioma espa- nhol que no português, principalmente em relação ao hiato. Tal proposta justifica-se pelo fato de que ao contrário da língua portuguesa, na qual todas as pa- roxítonas terminadas em ditongo são acentuadas; em espanhol não se acentuam as “graves ou llanas” (que correspondem às paroxítonas) terminadas em ditongo. Sendo assim, o aluno poderá ser levado a perce- ber com facilidade a diferença de tonicidade existente entre as palavras que nas duas línguas terminam em ditongo. Um bom exemplo para que o aprendiz possa iden- tificar tal diferença consiste no par linguístico apresen- tado abaixo: Português Espanhol Secretária Secretaria Secretaria Secretaría Percebe-se, pelo exemplo, que, em português, as paroxítonas terminadas em ditongo são acentuadas, e em espanhol, as “graves ou llanas”, terminadas em ditongo, não são. Além disso, percebe-se que quando houver duas palavras de mesma grafia em ambos os idiomas, sendo elas terminadas em ditongo, sem que haja acentuação, a silaba tônica da palavra em espa- nhol será diferente daquela existente na palavra em português. Português Espanhol Elogio elogio Asfixia asfixia Acredita-se que o estudo dos vocábulos heterotô- nicos, bem como o estudo contrastivo das regras de acentuação, podem levar o aprendiz a desenvolver mais rapidamente a sua capacidade leitora e ortográfi- ca, uma vez que poderá utilizar-se dos conhecimentos que já possui em sua LM e aplicá-los em relação à LE. Os Heterogenéricos, são substantivos que, na lín- gua espanhola, têm gênero diferente do português (MI- LANI,2000, p. 47). São vocábulos que, em sua maioria, são idênticos ou semelhantes quanto à forma gráfica e ao significado e que, porém, divergem quanto ao gê- nero em relação ao outro idioma. Assim, encontram-se palavras cujo gênero é feminino em português e mascu- lino em espanhol e vice-versa. Valorizar o estudo desses vocábulos uma vez que a partir do seu conhecimento, o estudante poderá reali- zar, corretamente, é de suma importância. É necessá- rio que o professor demonstre ao aluno não apenas a identificação dos vocábulos heterogenéricos de modo isolado, mas, sim, de forma contextualizada. Acredita-se que a explicação a respeito dos hetero- genéricos deve ser seguida da apresentação dos casos especiais de uso dos artigos masculinos el / un + subs- tantivo feminino existente no idioma espanhol, para facilitar a aprendizagem e evitar futuros equívocos. De acordo com a regra, empregam-se os artigos masculinos el / un diante de substantivos femininos singulares cuja silaba inicial seja formada por “a” ou “ha” tônicas, desde que não haja entre eles a interposi- ção de qualquer palavra. Tal medida é utilizada a fim de se evitar a repetição de dois sons iguais. Dessa forma, evita-se a repetição do “a” final existente nos artigos femininos la / una e o “a” ou “ha” tônico no início da palavra subsequente. Portanto o uso dos artigos mas- culinos “el” 8 e “un” diante das palavras iniciadas com “a” ou “ha” tônicos permitem a elisão fonética. Por meio da apresentação dessa regra, o aluno sa- berá identificar que nem todas as palavras precedidas pelos artigos masculinos el / un em espanhol são ne- cessariamente masculinas. A melhor maneira de cons- cientizar o aluno dessa diferença está, na demonstra- ção de que o adjetivo que acompanha o substantivo indica o gênero do mesmo. Verifica-se desse modo que na frase: “el hada ma- drina” (a fada madrinha) o adjetivo madrina está no feminino, e, portanto, o artigo masculino “el” precede o substantivo feminino hada (fada) por uma questão de eufonia e não por se tratar de um substantivo mas- culino. Por outro lado, observando a frase em espanhol: “el árbol florido” (a árvore florida), percebe-se que o adjetivo (florido) que acompanha o substantivo “árbol” (árvore) encontra-se no masculino, logo o substantivo “árbol” pertence ao gênero masculino na língua espa- nhola. Um outro fato importante é que se pode ensinar aos alunos por meio da análise contrastiva entre o por- tuguês e o espanhol a relação estabelecida entre os substantivos espanhóis terminados em “aje”. Nos livros didáticos e nas gramáticas trazem a informação de que esses são masculinos. Porém, a partir do contraste realizado com a língua portuguesa, o aprendiz perceberá que todos os subs- tantivos que terminam em “aje” em espanhol, além de 50 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola serem femininos na língua portuguesa, terminarão sempre em “agem”, como o caso de: mensaje(E) – mensagem(P), paisaje(E) – paisagem(P) etc. Contudo, deve-se alertar que nem todos os substantivos que terminam em “agem”, em português, terão, em espanhol, a terminação “aje” e serão masculinos. Portanto acredita-se que intervenções como essas, além de outras que podemser desenvolvidas pelo professor, permitem aos alunos um maior desenvolvimento em relação ao avanço na interlíngua e são capazes de evitar a fos- silização de erros cometidos na LE por interferência da LM. Fonte: O estudo dos heterogenéricos, heterossemânticos e heterotônicos como aceleradores do processo ensi- no-aprendizagem do idioma espanhol para os acadêmicos de um curso de Letras. Disponível em: www. http://seer. uftm.edu.br 7 APÓCOPE. Como já sabemos, os adjetivos, ou seja, aqueles que qualificam um nome (substantivo) concordam em gênero e número com esse. Na língua espanhola há um grupo de adjetivos, que ao se encontrarem diante de um substantivo masculino ou feminino, esteja ele no singular ou no plural, perdem o som ao final da palavra, este som refere-se à letra ou à sílaba final. A esse fenômeno dá-se o nome de apócope. Assim, a apócope ocorre nos seguintes casos: a) Quando os pronomes possessivos mío(s), mía(s), tuyo(s), tuya(s), suyo(s), suya(a) forem utilizados diante de qualquer substantivo masculino ou feminino, no singular ou no plural. Passarão a ser escritos na forma apocopada: mi(s), tu(s) e su(s). Mi libro es aquel azul. Meu livro é aquele azul. Tus gafas están sucias. Teus óculos estão sujos. Tu amiga es muy guapa. Tua amiga é muito bonita. Sus padres son simpáticos. Seus pais são simpáticos. b) As palavras, “grande” e “cualquiera” sofrem apócope, perdendo, respectivamente, a sílaba final e a letra final, sempre que vierem antes de um substantivo masculino ou feminino, porém só no singular. É importante lembrar que não ocorrerá apócope quando a palavra “grande” for precedida dos advérbios “más” ou “menos”. Vamos a evitar um gran escándalo. Vamos evitar um grande escândalo. Podemos sentarnos en cualquier mesa. Podemos nos sentar em qualquermesa. Es la casa más grande que ya visité. É a maior casa que já visitei. c) Também usa-se a apócope no numeral cardinal “ciento”, que perde a sílaba final quando vier antes de um substantivo masculino ou feminino no plural. Este animal pesa más de cien kilos. Este animal pesa mais de cemquilos. Hay más de cien personas en la fiesta. Há mais de cem pessoas na festa. d) Com as palavras “primero” e “tercero”, “ bueno” e “malo”, “alguno” e “ninguno” ocorre a perda da letra final diante de um substantivo masculino singular. E “ninguno” ao perder a letra “o” receberá um acento gráfico: “ningún”, Embora não sigam a regra geral, existem alguns casos (exceções) em que estas palavras poderão vir diante de um substantivo feminino. Nem sempre seu uso é recomendável, assim não colocaremos exemplos. 51 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola uan llegó en primer lugar. João chegou em primeiro lugar. El domingo es un buen día para pasear. O domingo é um bom dia para passear. Algún día te volveré a visitar. Algum dia voltarei a te visitar. No tengo ningún recurso ahora. Não tenho nenhum recurso agora. e) A palavra, “Santo”, em espanhol, também perde a sílaba final diante de um nome masculino, passando a ser utilizado como “San”. Com exceção das palavras femininas e das palavras que começam por “to” e “do” como: “Santo Domingo, Santo Tomé, Santo Tomás e Santo Toribio” Siempre participo de las fiestas de San Juan Sempre participo das festas de São João. Ojalá que San Pedro mande lluvia. Tomara que São Pedro mande chuva. Hoy es día de Santa Teresa. Hoje é dia de Santa Tereza. Vamos a rezarle a Santo Toribio. Vamos rezar para São Toribio. f) Diante de substantivo masculino plural, ou da palavra “mil”, os numerais compostos de “uno” perdem a vogal “o” final: veintiuno, treinta y uno, cuarenta y uno, etc. Também podemos encontrar casos em que o numeral “uno” torna-se feminino antes da palavra “mil” em concordância com o substantivo posterior, também feminino. Veja os exemplos: Tengo veintiún años. Tenho vinte e um anos. El coche cuesta cuarenta y un mil reales. O carro custa quarenta e um mil reais. Pagaron treinta y una mil pesetas por el viaje. Pagaram trinta e uma mil pesetas pela viagem. Além das apócopes dos adjetivos, existem algumas que ocorrem em palavras de outras classes gramaticais. Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/espanhol/apocope.htm 8 RELAÇÃO ENTRE LÍNGUA, CULTURA E SOCIEDADE. Língua como fenômeno cultural, histórico, social e cognitivo; Uma significação básica para o termo linguagem é a de um conjunto de signos devidamente estruturados para o propósito da comunicação. Assim, linguagem não se limita ao aspecto verbal, compreendendo também outros campos, como o da imagem, do som, do tato etc. Dentro de cada um desses campos, há ainda um sem número de linguagens específicas. Quando se fala em linguagens relacionadas à imagem, por exemplo, pode-se pensar na linguagem da televisão; quanto à televisão, pode-se pensar na linguagem da telenovela, dos documentários, dos programas de auditório, dos seriados, da propaganda e assim por diante. Um conjunto de signos passa a ser chamado de linguagem quando os usuários desses signos compartilham significações para os mesmos fenômenos. Na linguagem dos programas esportivos da televisão, por exemplo, são comuns as seguintes características, entre outras: a) o jogo é mostrado do alto, a uma certa distância, para que o espectador possa ter ideia do conjunto); b) o locutor narra o jogo passo por passo, mesmo sabendo que o espectador está vendo as imagens do jogo ao mes- mo tempo em que ele; c) o locutor costuma narrar de forma mais vibrante as jogadas que potencialmente podem resultar em gol. 52 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Aqueles procedimentos, entre outros, têm sua sig- nificação compartilhada entre o canal que apresenta e o espectador que assiste à partida: quando o locutor Galvão Bueno exagera na vibração, num jogo envol- vendo a seleção brasileira de futebol, o torcedor pode ficar irritado, mas sabe que faz parte daquele código. Se não concordar, pode tentar assistir ao jogo em outro canal: vai encontrar, talvez, um locutor menos efusivo. Essas considerações parecem óbvias, mas não tanto. Imagine uma situação em que, durante jogo da sele- ção brasileira, válido pela Copa do Mundo, o mesmo Galvão vibre mais a cada jogada do time adversário e quase chegue ao delírio com os gols do adversário. As regras do código desenvolvido para o futebol, no caso, na TV Globo, não podem ser alteradas bruscamente, para não haver estranhamento do público. São os costumes, as práticas comuns observadas numa determinada sociedade (em outras palavras, a cultura) os fatores determinantes para se compor as diversas linguagens que se desenvolvem nessa comu- nidade. A manifestação de linguagem mais complexa desenvolvida pela humanidade é a linguagem verbal. Esta, por seu turno, também se apresenta de diversas maneiras: a linguagem formal (utilizada pelo jornalis- mo, pela medicina etc.), a linguagem popular, a lin- guagem familiar, entre outros registros (que veremos mais adiante). É importante frisar que a Língua conta com regras determinadas para seu uso, nas diversas modalidades em que ela se apresenta. Mas a Língua está longe de ser um código fixo, rígido, que se pode “prender” num bom livro de gramática. A Língua é um fenômeno vibrante, que se modifica constantemente, graças à capacidade cognitiva, à criatividade e à intera- ção entre seus falantes: Língua é um fenômeno cultural, histórico, social e cognitivo que varia ao longo do tempo e de acordo com os falantes: ela se manifesta no uso e é sensível ao uso. [...] A Língua é uma atividade constitutiva com a qual podemos construir sentidos; é uma for- ma cognitiva com a qual podemos expressar nossos sentimentos, ideias, ações e representar o mundo; é uma forma de ação pela qual podemos interagir com nossos semelhantes. (MARCUSCHI, L.A. Exercícios de compreensão oucopiação nos manuais de ensino de língua? Em Aberto, Brasília, n.69, jan./mar. 1996, p. 71-2) Note-se, portanto, que, a Língua é uma forma de linguagem cujas características são tão ou mais dinâ- micas do que a linguagem da televisão ou dos sinais de trânsito, por exemplo. A história secular da escola, com trabalho reduzido à questão formal da Língua escrita, disseminou preconceitos diversos em relação à lingua- gem verbal, como a desvalorização da linguagem oral e dos registros populares, entre outros. Fonte: MARCUSCHI, L.A. Exercícios de compreensão ou copiação nos manuais de ensino de língua? Em Aber- to, Brasília, n.69, jan./mar. 1996, p. 71-72 Língua e linguagem como referência inicial É lugar-comum na história da humanidade a existência das línguas naturais como resposta às necessidades de o homem viver em sociedade, compartilhando e transmitindo experiências, práticas e pensamentos aos seus pares. Essa experiência compartilhada e configurada no seu sistema vocabular unifica-os e singulariza-os, distinguindo-os dos outros. Assim, à medida que a língua institui-se forma especí- fica de intercomunicação, entre os indivíduos de uma determinada sociedade, fortalece os laços internos de tal grupo e torna-se patrimônio coletivo de seus mem- bros, embora, cada indivíduo use essa língua de modo peculiar. Mas o homem nos processos intercomunicativos não se utiliza apenas de signos verbais, (as palavras); recorre a outras tipologias de signos, também conven- cionados socialmente. Uma e outra forma de represen- tação e comunicação entre os indivíduos por meio de signos constituem a linguagem humana, que garante ao homem supremacia em relação aos outros animais. Em outros termos, a linguagem é toda forma de expressão do homem mediada por signos; e a língua é uma destas formas. De forma consensual, os estudiosos detectam entre tais fenômenos que a linguagem é uma habilida- de humana determinada biologicamente; e a língua é um conjunto de signos e regras que se combinam entre eles, cujos significados são socialmente convenciona- dos; e que a exposição do indivíduo, ainda na tenra ida- de, a um ambiente lingüístico é essencial para o pleno desenvolvimento da linguagem. Desta forma, língua e linguagem são fenômenos que fazem do homem um ser de interação sociocultural. Alguns conceitos de cultura De acordo com os vários tratados relacionados à cultura e seus conceitos, relata-se que, até para antro- pólogos, sociólogos e outros estudiosos das ciências sócio humanas é muito difícil conceituar cultura, che- gando a ser uma árdua tarefa dada à complexidade de sua história, a qual dificulta consideravelmente o acesso ao seu significado. Segundo Morin, (1991): A cultura, que é caracterís- tica da sociedade humana, é organizada / organizadora via o veículo cognitivo que é a linguagem, a partir do 53 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola capital cognitivo coletivo dos conhecimentos adquiri- dos, das aptidões aprendidas, das experiências vividas, da memória histórica, das crenças míticas de uma socie- dade. Assim, se manifestam ´representações colectivas´, ´imaginário colectivo´. E, dispondo do seu capital cogni- tivo, a cultura institui as regras /normas que organizam a sociedade, dirigem os comportamentos individuais. As regras / normas culturais geram processos sociais e re- generam globalmente a complexidade social adquirida por essa mesma cultura. Para Schelling (1991), [...] pode-se dizer que o termo cultura é ele próprio cultural, na medida em que como produto de desenvol- vimento histórico de um diálogo da sociedade consigo mesma ela traz a marca de sua formação. Partes desse diálogo social podem ser retraçadas até suas origens e fixadas dentro de diferentes discursos e tradições cog- nitivas. (SCHELLING, 1991, p. 21) Dentre os linguistas que se envolveram com os es- tudos da inter-relação língua / cultura / sociedade, Chia- vegatto cita Labov que iniciou sua teoria com uma forte reação a N. Chomsky por ter enfocado, no que se refere à comunicação, apenas o falante e o ouvinte, não levan- do em consideração a heterogeneidade da língua, o que para Labov foi considerada como parte da estrutura de sua teoria e, assim, seus trabalhos puderam ser siste- matizados. Nesta perspectiva seus estudos mostraram que o social é o fator que condiciona a ocorrência das variações. Vários estudos surgiram no decorrer da evolução da Linguística que se dedicaram a essa vertente para que se chegasse ao reconhecimento da idissociabilidade língua / cultura / sociedade. Fonte: Língua, sociedade e cultura - periodicos.ifpb. edu.br/index.php/principia/article/download/ Cultura e Identidade Tudo o que se fala sobre cultura hoje tem sua ori- gem no conceito criado por Edward Tylor (1832-1917), quem a definiu pela primeira vez a partir da Etnologia, ciência cuja maior contribuição, na atualidade, é a de criar meios que combatam o racismo e a hegemonia cultural. Para Tylor, cultura e civilização, tomadas em seu sentido etnológico mais vasto, são um conjunto com- plexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, o direito, os costumes e as outras capacidades ou hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade. (apud CUCHE, 2002, p. 35). Portanto, para Tylor, a cultura se relaciona à capaci- dade humana de adquirir e transmitir hábitos no grupo social ao qual se pertence. Essa ideia não será nunca abandonada, ainda que novas perspectivas venham somar-se a ela, conforme é o caso de Franz Boas (1858- 1942), que, segundo Assis (2008), foi o primeiro pesqui- sador a realizar estudos das culturas primitivas por ob- servação direta. Assis nos esclarece que suas discussões ajudaram muito na desconstrução do conceito de raça, antecipando os estudos genéticos, pois suas pesquisas comprovaram que a classificação humana através dos aspectos físicos não poderia dar conta da complexidade das diferenças entre os homens. Há diversos autores de fácil acesso a qualquer pro- fessor que se interesse pelo tema, e que podem ajudar na discussão do conceito de cultura. É o caso, por exem- plo, de Roque Laraia (2004, p. 25), que explora o tema, definindo objetivamente cultura como sendo um “com- portamento aprendido, tudo aquilo que independe de uma transmissão genética”. É importante que se leiam os estudos apresentados por Denys Cuche (2002), em cuja obra reconstitui, dida- ticamente, a gênese social da palavra cultura, passando pelas diferentes concepções que esta ganhou ao lon- go da história humana. Mas o que esse autor ressalta não difere da concepção clássica, embora apresente elementos importantes, como se vê a seguir: noção de cultura se revela então o instrumento adequado para acabar com as explicações naturalizantes dos compor- tamentos humanos. A natureza, no homem, é inteiramente interpretada pela cultura. As diferenças que poderiam parecer mais ligadas a propriedades biológicas particulares como a diferença de sexo [...] a divisão sexual dos papéis e das tarefas nas sociedades resulta fundamentalmente da cultura e por isso varia de uma sociedade para outra. Cuche explica o comportamento de homens e mu- lheres através da cultura, pondo por terra qualquer pos- sibilidade de interpretação de controles da natureza ou, acrescentaria eu, de religiões. Os homens e as mulheres se comportam de acordo com suas culturas – cultura no plural porque, no mesmo contexto social, há diferentes culturas que interagem entre si, determinando diferen- ças locais. Portanto, nem todos os homens brasileiros são iguais, apesar de se falar em “cultura brasileira”. E, se comparamos esses homens brasileiros a homens de outras culturas, as diferenças podem ou não ser signifi- cativas, pois além da questão da nacionalidade, hámui- tíssimos outros fatores que interferem, como a idade, o nível de escolaridade, o socioeconômico, a religião etc. O crescente interesse pela compreensão da cultura e seus derivados (multiculturalismo e interculturalismo) se dá como consequência natural do processo migrató- rio cada vez mais intenso entre diferentes populações. Não é por outro motivo que nos Estados Unidos, por ser uma sociedade pluricultu- ral, esse tema é bastante presente em pesquisas, pois 54 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola precisam compreender e possibilitar saídas para a con- vivência entre diferentes culturas migratórias. Países da Europa também se dedicam a esse tema, em especial a Inglaterra, a França e a Espanha, para onde está mi- grando uma população que vem de países colonizados por eles no passado. No entanto, há diferenças bem sig- nificativas entre umas perspectivas e outras, no que se refere à compreensão do que seria multiculturalismo e interculturalismo, conforme me referirei mais adiante. Outro nome imprescindível nessa discussão é o de Stuart Hall (2006, p. 51), em cujo ensaio que estou to- mando como referência, se vale da observação de Homi Bhabha para afirmar que o multiculturalismo é um termo valise que se expandiu de forma heterogênea, enquanto multicultural tornou-se um significante osci- lante. No entanto, e apesar disso, opta por usá-lo em seu ensaio, porque não lhe resta alternativa senão continuar utilizando e interrogando esse termo. Para Hall (op. cit., p. 51), longe de ser uma doutrina estabelecida, o multiculturalismo é uma ideia profunda- mente questionada, seja pela direita conservadora, seja pelos liberais, seja por modernizadores de diferentes convicções políticas. Diante disso, formula uma pergun- ta, à qual responde com uma nova pergunta: “Pode um conceito que significa tantas coisas diferentes e que tão efetivamente acirra os ânimos de inimigos tão diversos e contraditórios realmente ter algo a dizer? Por outro lado, sua condição contestada não constitui precisamente seu valor?” (op. cit, p. 54). Apesar de consciente da complexidade do tema e da imprecisão do termo, o estudioso nos ajuda a enten- der que as sociedades multiculturais não são algo novo, pois os deslocamentos dos povos têm sido mais a regra do que a exceção. Mas ressalta que esse processo se acentua mais na época a que chama de “modernidade tardia” (op. cit., p. 54), ou seja, a partir do final da primei- ra metade do século XX, com o fim da II Guerra Mun- dial, quando se intensifica o fenômeno do pós-colonial. E entende que há três episódios que muito colaboram para isso: o fim do sistema imperial europeu e das lutas pela descolonização e independência nacional, o fim da guerra fria e a globalização. Sobre a globalização afirma que são suas tendências de homogeneizar que levam à “proliferação subalterna da diferença” (op. cit., p. 60). E nisso, segundo o autor, consistiria o paradoxo da globa- lização contemporânea. Seu ensaio, em última análise, quer conhecer a pre- sença negra que há na Grã-Bretanha desde o século XVI para, então, compreender sua própria identidade cultu- ral, discutindo questões de racismo e etnicidade. Com esse propósito, retoma o termo hibridismo para explicar que este não se refere a indivíduos híbri- dos, que podem ser contrastados com os ‘tradicionais’ e ‘modernos’ como sujeitos plenamente formados. Tra- ta-se de um processo de tradução cultural, agonístico uma vez que nunca se completa, mas que permanece em sua indecidibilidade (op. cit, p. 74). Portanto, não há que se entender hibridismo como fusão racial de uma determinada população, mas sim como um processo inacabado e lento de tradução cul- tural, e que se dá com todos os povos. E essa hibridiza- ção não deve ser entendida como perda de identidade. Ao contrário, é ela que permite o fortalecimento das identidades já existentes, a partir da abertura de novas possibilidades. Não pensar assim é retornar à ideia da etnicidade de maneira absolutista e jogar por terra a grande conquista dos estudos culturais no que se refere à compreensão de que somos híbridos, complexos e inacabados. O caso contrário seria apostar no binarismo racial e reconhe- cer a autoridade de determinados grupos étnicos sobre outros. E para os que somos professores de línguas estrangeiras modernas no Brasil (seja Inglês, Espanhol, Italiano, Alemão ou Francês), essa compreensão me pa- rece fundamental, porque pode desfazer equívocos his- tóricos que colocaram as populações indígenas como inferiores às europeias. Para intensificar essa discussão, tomo algumas ideias de uma obra publicada na Espanha, por entender que a perspectiva apresentada pelos autores interessa, em muito, a professores de Espanhol no Brasil. Refiro-me a García Martínez et alii (2007), que fazem uma didática exposição sobre o que seria cultura, multiculturalismo e interculturalismo. Os autores recuperam o conceito definido pela UNESCO, que entende a cultura como o conjunto dos traços distintivos, espirituais e materiais, intelectuais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou um grupo social e que abrangem, além das artes e das letras, os modos de vida, a maneira de viver juntos, os sistemas de valores, as tradições e as crenças. Percebe-se, não há novidade no conceito trazido pela UNESCO, apesar de sempre aparecerem elemen- tos novos que vão se somando aos anteriores, de forma a definir de maneira mais plena o que se entende por cultura. Também não há nada novo quando os autores chamam a atenção para o aspecto mutante e renovador da cultura, conforme outros autores já trazidos aqui o fizeram. Portanto, dizer que “a cultura é um construto em permanente mudança” não é uma ideia nova, mas pode nos valer como intensificação do conceito e como confirmação de que os diferentes autores, independen- temente de suas origens culturais, falam a mesma coisa. E é verdade que a cultura é um construto em per- 55 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola manente mudança, conforme também ressaltou Hall em fragmentos que acabamos de ver. Mas vale destacar que os já referidos autores espanhóis reforçam a ideia de que cada um de nós constrói sua própria cultura e, consequentemente, nossa identidade cultural. Portanto, as diferenças culturais que nos distinguem de outros povos não é nada extraordinário. Ao contrá- rio, trata-se de algo perfeitamente normal e, segundo os autores, essa compreensão é a base da educação inter- cultural. Mas antes de falar mais detalhadamente sobre o que seria a educação intercultural, interessa-me mos- trar de que forma os autores associam cultura à identi- dade cultural: A identidade cultural se refere ao grau em que uma pessoa se sente conectada, parte de um grupo cultural, ao próprio grupo de referência no qual cresceu: inclui uma complexa combinação de fatores, tais como auto- -identificação, sentido de pertencimento ou exclusão, desejo de participar em atividades de grupo. Não é difícil concluir que apenas um aprendiz que tenha referências quanto à sua identidade cultural poderá obter bons re- sultados no processo de aprendizagem. O problema, no nosso caso, é que trabalhamos com línguas estrangei- ras e, nesse sentido, pode parecer que o sentimento de pertencimento poderia estar na cultura estrangeira. E é claro que estou propondo exatamente o contrário. Ou seja, a identidade cultural da língua estrangeira precisa ser trabalhada de forma que o aprendiz se valha dela para intensificar o seu processo de pertencimento cultu- ral ao ambiente no qual vive. Não fosse assim, a apren- dizagem de uma língua estrangeira desestabilizaria os aprendizes. Mas, lamentavelmente, é possível que haja ainda quem acredite que aprender língua com cultura ésair de si para ser o outro, como se isso fosse possível. Portanto, e com base no que foi dito anteriormente, a identidade de um indivíduo se vincula aos bens patri- moniais que pertencem à sua comunidade cultural. Isso implica que esse indivíduo precisa aprender normas, valores, costumes, o que só pode acontecer no conta- to com o outro porque, isoladamente, ninguém pode aprender o que se faz socialmente. Daí que apenas for- mamos (ou construímos) nossa identidade no diálogo com outras pessoas e outras culturas. E, de novo, como professores de línguas estrangeiras esse é um privilégio que vivemos todos os dias na nossa prática profissional. Portanto, o processo de construção da identidade é um processo social e não se limita aos muros da escola, apesar desta exercer um papel fundamental. Fonte: COLEÇÃO EXPLORANDO O ENSINO ESPA- NHOL – Vol. 16 TEXTO COMPLEMENTAR CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADE E DISCURSO: IMPLICAÇÕES NO ENSINO/APRENDIZAGEM DE LÍN- GUA ESPANHOLA Valesca Brasil Irala Para começo de conversa... Não é de hoje que se multiplicam, na área dos estu- dos da linguagem, obras coletivas de circulação nacional que abordam em suas temáticas questões relacionadas a aspectos identitários. Essas obras reúnem trabalhos de diferentes enfoques que se propõem a discutir o que é identidade em contextos específicos e qual a relação entre esse termo e os estudos da linguagem. A pergunta que nos cabe então é a seguinte: o que isso tem a ver com a aula de espanhol no contexto brasileiro? Já de antemão eu poderia dizer que muito, mas seria uma res- posta um tanto superficial neste momento. Entretanto, antes de começar a discorrer sobre a questão da identi- dade tal qual ela é entendida em geral pelas pesquisas mais recentes da área da linguagem, gostaria de narrar uma situação no mínimo anedótica que me aconteceu recentemente. Condicionada a compreender identidade a partir das teorias que a abordam, ao participar de um even- to binacional Brasil-Uruguai organizado por entidades governamentais (prefeituras, ministérios etc.), realizado em uma cidade brasileira localizada na faixa de fronteira, encontrei entre os grupos de trabalho propostos pela programação do evento, um que se denominava “Iden- tidade”. Iniciadas as apresentações, pude me dar conta de que as discussões formadas em torno do vocábulo identidade a que se refeririam naquele local estavam relacionadas estritamente à temática da documenta- ção, ou seja, a obtenção da carteira de identidade ou de certidões de nascimento (ou dificuldade para obtê- -las) para brasileiros e/ou uruguaios que, por inúmeras questões (especialmente familiares), passavam a viver no país vizinho (no caso, brasileiros no Uruguai e uru- guaios no Brasil). Por que a situação se tornou anedótica? Pelo fato de que, como professora de espanhol que sou, com formação em linguística aplicada, não imaginava que a obtenção de documentos tão simples (na minha visão), como uma carteira de identidade ou uma certidão de nascimento, pudessem tornar-se assunto de tamanha complexidade. Em suma, a identidade que me propunha a discutir naquele momento era outra, a priori, bastante complexa, aquela que nossos mais notáveis pensadores trataram de definir e que se tornou tema de debate em nossos cursos de formação. Essa experiência nos traz, no 56 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola final das contas, a possibilidade de discutirmos, a seguir, a questão identitária e sua relação com o ensino de es- panhol no país. Situações, imaginários, movimentos... Como constatei em Irala (2009a, p. 183), questões identitárias têm sido estudadas por pesquisadores não só da área da linguagem, mas também da Psicologia, Educação, Sociologia, Antropologia, Estudos Culturais, em pesquisas de cunho disciplinar e também transdis- ciplinar. Há, portanto, um vasto campo teórico aberto pelo termo identidade e existem vários pesquisadores dedicando-se a entender inúmeras questões existentes em nossas práticas cotidianas, como por exemplo, as questões de gênero, de sexualidade, de classe, de raça ou temáticas emergentes como a obesidade, as cons- truções sociais/ culturais sobre a juventude, a velhice, as profissões, os portadores de necessidades especiais etc. Muitos desses temas estão presentes há mais de uma década nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensi- no Fundamental (MEC/SEF, 1998) como temas transver- sais, havendo a recomendação de sua didatização nesse nível de ensino. A justificativa para incluí-los nos documentos nor- teadores da educação brasileira se deve ao fato de que os mesmos são vistos como basilares para a construção da cidadania, entendida atualmente como eixo central da educação escolar. Portanto, tais temas não deveriam ser trabalhados em uma ou outra disciplina do currícu- lo, mas sim em todas elas, além de serem “orientadores também do convívio escolar” (PCN-EF, p. 27). A ampla área da linguagem, principalmente as cor- rentes que abordam mais sistematicamente as ques- tões identitárias, tem muito a contribuir para a reflexão desses temas denominados transversais, pois como afir- ma Di Fanti (2005, p. 21), “enunciar é agir, é tomar atitu- de diante do outro (discurso, interlocutor, fato)”. Portan- to, tratando-se de identidade, é impossível concebê-la fora da relação com o outro, pois é na diferença com esse outro que conseguimos afirmar categoricamente quem supomos ser, ainda que essa afirmação seja sem- pre incompleta, ilusória, provisória, contingente. Portanto, a visão de identidade a que muitas orien- tações teóricas têm se filiado é aquela que se opõe a uma ideia de fechamento, de perpetuação, de unidade de qualquer natureza para os diferentes sujeitos e para as diferentes situações. Nessa visão, seria impossível acreditar em “perda da identidade” ou na existência de identidades de grupo homogêneas, como comumente observamos nos enunciados do cotidiano: “nós, os bra- sileiros...”, “nós, os docentes...”, “nós, o governo...”, “eles, os argentinos...”, “eles, os homossexuais...”, “eles, os po- líticos...” etc. Essa demarcação entre o “nós” e “eles” possibilita que, ao afirmarmos nossa identidade, nos diferenciemos dos outros e estabeleçamos, como sintetizam Brennei- sen; Tarini (2008, p. 84), a criação de “posições biná- rias de identificação entre o certo/errado, bom/ruim, rico/pobre, homem/mulher, heterossexual/homosse- xual” etc. Silva (2000, p. 75) afirma que tal demarcação (“nós”/“eles”) funciona, no fundo, como um processo de classificação, e complementa: “as classificações são sempre feitas a partir do ponto de vista da identidade” (op. cit., p. 82), estabelecida socialmente a partir de hie- rarquias que evidenciam uma pauta perpassada por re- lações de poder. Para exemplificar o que isso significa, tomarei duas situações em que questões identitárias variadas se colo- cam (oriundas de observações cotidianas): Situação 1: Relato de uma aluna, na universidade, contando que conheceu um rapaz colombiano e que esse se apresen- tou como detentor do “melhor espanhol”, pois, segundo ele, na Colômbia, entre os países hispano-americanos, é onde se fala o espanhol mais “puro”, nas suas palavras, o “mais semelhante ao da Espanha”. O relato aqui apresentado remete ao que Silva (op. cit., p. 83) nos coloca a respeito do quanto as questões identitárias podem estar imbricadas com relações de po- der, pois o que se evidencia no discurso do interlocutor de minha aluna é a presença de um claro processo de normalização. Para a autora, “normalizar significa eleger – arbitrariamente – uma identidade específica como o parâmetro em relação ao qual as outras identidades são avaliadas e hierarquizadas”. Assim, tal identidade rece- be “todas as características positivas possíveis” e ganhaforça de “identidade normal”, sendo vista como “natural, desejável, única”. O caso específico da questão abordada pelo ra- paz traduz a reinauguração/reatualização de discursos presentes desde o período da colonização da América Espanhola, em vigor de maneira bastante presente nas políticas educacionais implantadas por diferentes ver- tentes políticas ao longo de vários períodos históricos e em diferentes países colonizados, os quais legitimam ainda hoje a possibilidade da existência de enunciados como esse, vistos por muitos como “naturais” (não é preciso dizer que, no Brasil, na atualidade, muitos donos de escolas de idiomas e alunos que buscam essas esco- las produziriam discursos semelhantes, ou até mesmo professores de espanhol brasileiros), que ainda supõem a existência de uma variedade como superior à outra (cf. IRALA, 2004). 57 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola O exemplo da situação 1 não se afasta de outro exemplo descrito por mim (2009a, p. 183), em que um aluno do ensino fundamental de uma escola pública, na disciplina de espanhol, perguntava-me “Sora, a senho- ra é brasileira?” ou ainda, de um relato de um colega, que, ao entregar seu currículo de recém-formado em Letras em uma escola/ cursinho pré-vestibular, rece- beu como resposta: “nós aqui já temos uma professora espanhola mesmo, espanhola de Montevidéu”. Há, em todos esses discursos, uma evidente necessidade de enunciar/elucidar quem estaria legitimado, quem seria o “dono”, quem poderia ou não falar em nome da ou pela língua espanhola. O tratamento da língua como propriedade é também uma questão identitária e mo- tora tanto para a compreensão do contato intercultu- ral, quanto para o ensino de línguas estrangeiras, como podemos observar. Situação 2: Trechos de uma entrevista com uma brasileira mo- radora da zona de fronteira Brasil-Uruguai a respeito dos 7 anos de escolaridade em que teve aulas de espa- nhol como língua estrangeira na escola: a gente estu- dava as “calles” de Madri (...), palavras que não faziam sentido (...), o que a gente sabia era desconsiderado (...). Eu não me importava com as aulas. A língua estrangeira não é importante [na escola], o importante é português e matemática. Ninguém dava muita importância (...), ela [a professora] não exigia muito. A pronúncia dela era diferente. Ela falava português na aula, não sei se por- que recém tinha saído da faculdade e não se sentia à vontade para falar sempre em espanhol (...). Os alunos uruguaios diziam: “professora, não é assim que se pro- nuncia”. E ela se revoltava. Os uruguaios saiam pior que eu nas provas e ela justificava que usava o Espanhol da Espanha (...). Por exemplo, é “jugo” em espanhol e é “zumo” para lá (...). Os meus colegas diziam: “Ah... estu- dar espanhol, pra quê?”. O trecho acima transcrito nos faz pensar em inúme- ras questões que estão de alguma maneira relacionadas à temática das identidades; podemos citar pelo menos quatro: a) identidade fronteiriça; b) identidade profis- sional do professor de línguas; c) identidade de aluno de língua estrangeira/segunda língua; d) identidade de falante “nativo” de língua espanhola. a) identidade fronteiriça: mesmo sendo a pluralida- de cultural um dos temas centrais da abordagem trans- versal prescrita pelos PCN, o que se percebe, pela en- trevista (ainda que não se pretenda aqui nenhum efeito generalizante) é que, mesmo sendo por si só a fronteira um tema digno de tematização dentro das questões de cidadania e transversalidade, esse é ainda ofuscado pelo currículo oficial da escola onde a entrevistada estudou ao longo de sua escolarização e, provavelmente, seja também secundário ou negado em grande parte das escolas localizadas ao longo da faixa de fronteira, que, como já apontei, com base em dados oficiais, ocupa 27% do território nacional brasileiro e abriga aproxima- damente 10 milhões de habitantes. Talvez nesse sentido a visão marxista de fronteira- -zona, aquela em que as decisões do poder central li- mitam ou entravam o desenvolvimento, seja ainda pre- ponderante, no caso educacional, se comparada à visão funcionalista, que parece adequar-se atualmente de maneira bastante produtiva no que tange aos aspectos econômicos e comerciais. A sensibilização em torno de questões de “identidade fronteiriça” em termos educa- cionais se coloca como muito mais ampla e complexa do que podem sugerir as abstrações pautadas em mui- tos documentos oficiais. Para dar um exemplo, no caso do Uruguai, depois de décadas de políticas monolíngues em favor do es- panhol, aponta-se, para a zona de fronteira com o Bra- sil, o “reconhecimento da língua materna [o português] no espaço da educação formal” (BEHARES; BROVETTO, 2009, p. 166). Ou seja, no âmbito das políticas linguís- tico-educativas daquele país, surge a possibilidade de iniciar um processo de reversão (lenta) da situação de diglossia, entendida nos termos de Hamel como par- te integrante de um “conflito intercultural”, em que há “uma relação assimétrica entre práticas discursivas do- minantes que geralmente se cristalizam no espanhol como língua dominante e práticas discursivas domina- das” (1988, p. 51; grifos do autor). No caso específico, a assimetria foi sendo construída tradicionalmente de forma “autoevidente”, já que muitos uruguaios, mesmo tendo como língua materna o português – conhecido por muito tempo nas pesquisas sociolinguísticas pela designação Dialetos Portugueses do Uruguai (DPU) – ti- veram toda sua escolarização, incluindo a alfabetização, em língua espanhola (cf. ELIZAINCIN, 1992). No caso da entrevistada da situação 2, uma sen- sibilização necessária em torno das questões frontei- riças primou pela ausência ao longo do período em que estudou na escola brasileira. Que fatores poderiam ser apontados para compreender esse apagamento? É preciso dizer que não existe uma única resposta, mas alguns indícios: primeiro, até pouco tempo, o discurso oficial (central) negava, como afirmou Colombo (1997, p. 67), a existência desse espaço fronteiriço, instaurando “uma linha de separação” que via a fronteira em duas partes, “atribuindo-lhe a cada parte uma homogeneida- de com o resto do país” e, por consequência, tratando a “língua” e o ensino da mesma maneira. Assim, “o professor teve que assumir esse discur- so (contra sua própria realidade) e cultivar na sala de aula uma realidade ilusória” (op. cit.) que foi sendo 58 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola instaurada. Segundo, como são muito recentes as ini- ciativas (nascidas, é preciso enfatizar, no âmbito oficial dos países envolvidos) em prol dessa sensibilização em torno da interculturalidade fronteiriça, tanto pais, alu- nos e os próprios professores guardam os efeitos de (e foram constituídos identitariamente por) um momento histórico oposto ao que atualmente vai começando a configurar-se, já que tradicionalmente tais experiências (linguísticas e culturais) eram ignoradas e/ou estigmati- zadas pelas anteriores políticas oficiais. Nesse sentido, é preciso compreender o que afirma Colombo: “a força de permanência dessas ideias prévias” (op. cit. p. 66; grifo da autora) ainda é muito presente como elemento cons- titutivo do percurso identitário de muitos fronteiriços. b) identidade profissional do professor de línguas: a entrevista da aluna (situação 2) é marcada, no que se re- fere às expectativas atreladas à identidade docente, por dois aspectos centrais: aparente ausência de “domínio” do idioma por parte da professora e vinculação do ensi- no de espanhol à opção de uma variedade desconheci- da/distante daquela praticada na região. Em relação ao primeiro aspecto, Oliveira (2009, p. 29) é categórico ao afirmar: “a grande maioria dos professores de línguas estrangeirasnas escolas públicas no Brasil falam muito pouco ou não falam a língua estrangeira que lecionam”, acrescentando que “os cursos superiores responsáveis pela formação de professores de línguas estrangeiras não estão cumprindo seu papel satisfatoriamente”. A afirmação de Oliveira, apesar de contundente, descortina um problema já antigo e muito presente no que se refere à formação de professores (diga-se de passagem, ampliada com a disseminação desenfreada de cursos de Letras nos últimos anos no país). Ainda nesse sentido, Paiva (2009, p. 32) afirma que existe uma premissa básica a ser satisfeita para ser um professor de qualquer língua estrangeira: “é preciso que o pro- fessor saiba a língua”. É evidente que os saberes que se colocam aqui como necessários não se restringem à ha- bilidade oral, mas é inegável que na história do ensino de línguas essa é uma dimensão bastante valorizada e presente no imaginário de alunos, pais e sociedade em geral. Tanto é assim, que é bastante comum ouvir de graduandos em Letras que não se sentem seguros para ensinar a língua estrangeira, porque não a falam como gostariam (cf. IRALA, 2008). Tal sentimento de insegurança não é visto neste tra- balho, assim como em Coracini (2007, p. 48), como um problema a ser resolvido, mas como um desafio para a formação de professores, sem tentar eliminar “as con- tradições e conflitos”, mas sim procurar entendê-los como “constitutivos do sujeito e de todas as relações sociais”. Nessa visão, rejeita-se uma concepção (diga- -se de passagem dominante em muitos programas de formação docente) de “eficácia como um em-si, como uma espécie de etiqueta que seria colada no professor, uma qualidade intrínseca [...] independentemente das situações encontradas” (BRESSOUX apud SAUJAT, 2004, p. 6), ou ainda, como aponto em Irala (2009b, p. 15), como a “síndrome do final feliz”, compreendida como um projeto de eficácia total almejada insistentemente pelos discursos prescritivos que envolvem a ação do- cente, que espera do professor sempre coerência, solu- ções perfeitas, decisões salvacionistas. É nesse contexto que podemos encontrar diferentes relatos de docentes angustiados diante de situações novas, como por exem- plo, o ensino de língua num contexto fronteiriço, dife- renciado em muitos aspectos daqueles evidenciados na maioria dos cursos de formação de professores de lín- gua espanhola. Em relação ao segundo aspecto, a respeito da op- ção da variedade utilizada pela professora, entendemos que esse é também um tema recorrente entre aqueles que angustiam professores iniciantes ou em forma- ção e constitui, sem dúvida, uma das temáticas mais abordadas, ainda hoje, nos cursos de formação inicial e continuada para professores de espanhol, tanto que as próprias Orientações Curriculares para o Ensino Mé- dio (2006) dedicam várias páginas sobre esse assunto, tratando-o como uma “questão crucial” (p.135). É comum observar que professores que estudaram a língua em contextos formais, muitos exclusivamente no curso de Letras, irão inevitavelmente combinar “fragmentos de variedades diferentes” (op. cit., p. 136), sem que haja a expectativa de que esse professor deva “passar ao aprendiz uma variedade definida” (BARRIOS, 2002, p. 107), como já se pensou no início da difusão do espanhol no país e talvez ainda se pense em muitas localidades, até porque o processo de inserção numa língua é sempre incompleto, disperso, não-linear, mesmo que se pretenda o contrário, que a intenção seja a de “dominá-la” em todos os seus âmbitos. Portanto, não há equivalência ou sinonímia entre competência profissional do professor de línguas e um conhecimento possível da língua em sua plenitude ou totalidade, inclusive porque, mesmo na língua materna, esse domínio não ocorre, pois, uma “língua completa, sem falhas, sem problemas, uma língua homogênea, autônoma, logo, que supõe um sentido transparente, literal” (GRIGOLETTO, 2007, p. 29) simplesmente não existe. c) identidade de aluno de língua estrangeira/se- gunda língua: a afirmação da aluna na situação 2 de que a comunidade escolar valoriza as disciplinas de Português e Matemática não reflete uma experiência isolada, exclusiva daquele contexto, mas revela nes- se discurso, aparentemente isolado, o que muitos alunos em centenas (ou milhares) de salas de aula vi- venciam no Brasil e possivelmente em outros países. 59 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Basta acessar o Youtube e digitar “aula de espanhol”, que serão encontrados dezenas de vídeos criados, em geral por alunos da educação básica, para mostrar a in- satisfação ou descaso em relação às aulas de língua que frequentam. Entre os vídeos, chama atenção um que se intitula Afasta de mim a aula de espanhol!!!, em que o aluno faz uma paródia da música de Chico Buarque, Afasta de mim esse cálice. Atitudes dessa natureza podem aparentemente ser vistas de forma reducionista como atos de rebeldia, mas por outro lado, nos chamam atenção para o fato de que é necessária muita mobilização em torno de uma maior valorização das línguas estrangeiras no cenário nacional, pois, como afirma Leffa (2009, p. 117), a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), no que se refere às línguas estrangeiras, “garante a liturgia do ensino, não a apren- dizagem efetiva. Não dá as garantias mínimas de tempo e de infraestrutura básica para que o aluno aprenda”. Nesse sentido, ainda de acordo com Leffa (op. cit.), numa sociedade competitiva como a nossa, sabe-se que o conhecimento de línguas estrangeiras confere poder e prestígio a quem o detém, portanto, a “própria socie- dade, geralmente por meio da escola” incute no aluno o mecanismo sutil, mas eficiente, de autoexclusão, capaz de levar muitos alunos a dizerem “Ah... estudar espa- nhol, pra quê?”, fazendo o mesmo com outras línguas estrangeiras, como aponta o autor para o caso do inglês. Além disso, a sala de aula de língua estrangeira, inevitavelmente, muito mais do que um encontro, é um lugar de confronto. Como apontou Revuz (1998, p. 215), “as línguas são objeto de investimentos fortes, frequentemente passionais”, e esses nem sempre são levados em conta quando o que se espera são exclusi- vamente “aprendizagens bem-sucedidas”. Como lem- bra a autora (p. 216), cada método, ou mesmo a soma de vários métodos, pode ser capaz de produzir alunos ditos “brilhantes”, mas também “seus refratários”, por- que aprender uma língua, diferentemente de outras disciplinas da educação básica às quais os alunos estão expostos, não é apenas um “objeto de conhecimento in- telectual”. Língua é “também objeto de uma prática”. No caso do contexto da entrevistada, por vivenciar a reali- dade fronteiriça, essa prática extrapolava – e fazia mais sentido – fora da escola do que dentro. d) identidade de falante “nativo” de língua espa- nhola: embora a entrevistada fosse brasileira, possibili- tou, por meio de sua narrativa, trazer a experiência de colegas seus que, mesmo tendo como língua materna o espanhol, precisavam assistir às aulas de espanhol como língua estrangeira, e passar, como ela afirma, pela situação de serem avaliados de forma menos satisfatória do que seus colegas brasileiros. É preci- so dizer nesse sentido que, diferentemente de outros idiomas ensinados no Brasil, tem-se tornado cada vez mais comum falantes de espanhol como língua materna estudarem essa língua como estrangeira, principalmen- te em função dos processos migratórios frequentes nas últimas décadas, em que argentinos, uruguaios, bolivia- nos, peruanos etc. passaram a residir no Brasil, sem falar em toda a extensão territorial fronteiriça, em que alunos hispânicos, mesmo morando em países vizinhos, optam por escolarizar-se no Brasil. Portanto, esse contexto aparentemente inusitado (ode ter em sala de aula colegas que têm como língua materna a língua estrangeira estudada) pode, à primeira vista, facilitar o interesse e a motivação dos demais por aprender essa língua, mas, por outro lado, tende a adi- cionar um ingrediente complexificador ao ambiente de aprendizagem de línguas, que já é, por si só, caracteriza- do por alto grau de mobilização subjetiva. A pesquisa de Lourenço (2005) abordou essa temá- tica no contexto de formação de professores, através do estudo das representações de alunas uruguaias em contexto de aprendizagem de espanhol como língua es- trangeira no curso de Letras, agenciado por professoras brasileiras. Nessa pesquisa, a autora encontrou atitude semelhante à dos colegas uruguaios da entrevistada da situação 2, os quais entravam em discussão com a pro- fessora e corrigiam a sua pronúncia. Lourenço (op. cit., p. 64) também relata a tentativa inicial por parte das alu- nas universitárias uruguaias de ocupar “um lugar de po- der com relação à língua”, poder esse frustrado, por não encontrarem, “nas aulas de espanhol ministradas [...], o mesmo espanhol que elas usam para se comunicarem no seu país”. Nos dois casos parece aflorar a questão nativo e não-nativo tão conhecida historicamente no ensino de línguas. A mesma foi discutida por Rajagopalan (2005), o qual se refere ao “trauma de ser professor não-nati- vo”. Esse trauma, como podemos evidenciar, pode ser alimentado ou ampliado, dependendo do contexto de atuação do professor e da presença ou ausência de ex- pectativas alinhadas a uma visão ainda presente no ima- ginário do ensino de línguas, em que a competência do falante “nativo” aparece como meta até em programas de formação continuada, como relatam Gimenez e Ma- teus (2005). Em Irala (2009a), constatei o movimento, diga-se de passagem recente, surgido na linguística aplicada, na tentativa de minimizar ou eliminar a interpelação semeada no senso comum que vê o falante “nativo” como modelo para a aprendizagem de línguas; entre- tanto, a desconstrução do nativo como referência não propõe outro termo substitutivo, que seja convincente para o senso comum, qualificando quais práticas de lin- guagem deveriam ser evidenciadas como objetivo no ensino de línguas. A falta de uma meta de caráter obje- tivante, como normalmente esperam alunos de língua 60 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola estrangeira e seus familiares, também é capaz de provo- car ansiedade e deslocamentos conflitivos do ponto de vista identitário, gerando diferentes configurações, como as que se apresentam nos exemplos de Louren- ço e na narrativa da entrevistada. Relação entre discurso e identidade Ao tratar-se de discurso e identidade é preciso que se diga que não há homogeneidade de concep- ções e pressupostos teóricos e metodológicos. Muito pelo contrário. Se vamos a um site de buscas da in- ternet e digitamos “análise do discurso”, por exemplo, encontraremos centenas de trabalhos que poderão não ter nenhuma relação entre si e mesmo assim se- rão definidos pelos pressupostos de uma análise do discurso. As diferentes análises do discurso têm ocupado um espaço significativo nas publicações da ciência da linguagem e das ciências sociais e, portanto, conhecer o que pertence a um ou a outro domínio nem sem- pre pode parecer fácil. Dito isso, faço um recorte que delimita minha explanação em direção a uma das di- versas análises do discurso a que temos acesso, o que significa adotar apenas uma das visões possíveis de discurso e uma das mais difundidas em termos de pu- blicação, pelo grande número de traduções e pesqui- sa no Brasil: o quadro epistemológico originalmente conhecido como AD, cujas principais referências são Michel Pêcheux, na França, e Eni Orlandi, no Brasil. A relação entre discurso e identidade nos ajuda a compreender, como professores, diferentes situações que nos são apresentadas quando se pensa a com- plexidade das questões de linguagem, do ensino de línguas, da relação entre os sujeitos falantes das mais variadas línguas e também entre os sujeitos-alunos e sujeitos-professores. Abaixo, faço uma síntese de seis premissas fundamentais para essa compreensão: 1º) “Saber que não há neutralidade nem mesmo no uso mais aparentemente cotidiano dos signos” (ORLANDI, 1999, p. 9). 2º) Saber que a ciência não é “neutra, a-históri- ca, apolítica e a-ideológica” (BERTOLDO; CORACINI, 2003, p. 13), como também não o são os discursos que circulam na sociedade. 3º) Saber que a linguagem é constitutivamente “lugar do equívoco e do conflito” (op. cit.). 4º) Saber que o sujeito vive “na ilusão de ser a origem do seu dizer” (op. cit.), quando esse dizer se constrói a partir de uma memória discursiva anterior, que o constitui identitariamente. 5º) Saber que vivemos na “ilusão de sermos cons- cientes de tudo” (ORLANDI, 1999, p. 9), embora não o sejamos. 6º) Saber que não existe o sentido verdadeiro ou literal e sim que “os sentidos e os sujeitos se constituem em processos em que há transferências, jogos simbóli- cos dos quais não temos o controle e nos quais o equí- voco – o trabalho da ideologia e do inconsciente – estão largamente presentes” (op. cit. p.60). E na sala de aula: como fica? Retomo aqui a pergunta inicial: o que isso tem a ver com a aula de espanhol no contexto brasileiro? Dizer que tem muito a ver, depois das situações e teorizações apresentadas, parece fazer mais sentido do que antes, pois é bem provável que algumas das questões que ex- planei tenham sido objeto de preocupação, dúvida ou interesse de muitos professores para compreender o que acontece na dinâmica da sala de aula e no universo de ensino de línguas. Entretanto, bem sabemos também que o discurso das políticas educacionais atuais, por diferentes meca- nismos, atribui ao professor uma carga de responsabi- lidades cada vez maior, basta lembrar que até pouco tempo veiculava-se na televisão um comercial em que apareciam falantes de diversas línguas afirmando ser o professor o profissional responsável pelo desenvolvi- mento de seus países. Diante de discursos como esses, que afetam e constituem a identidade docente, utilizei em Irala (2009b, p. 15) as designações “professor super- -homem ou professora-mulher maravilha” para afirmar que a tensão que envolve hoje em dia o exercício da profissão é justamente delineada por esse discurso que vê no professor um solucionador de todos os problemas da sociedade, quando sabemos, no fundo, que a ques- tão é bem mais complexa. Seja como for, estamos, como professores, engen- drados nas teias desses discursos e não nos livramos delas facilmente. Por isso, sempre queremos resolver os problemas, as tensões, as contradições e assumir, de alguma maneira, esse papel salvacionista que cons- tantemente somos interpelados a desempenhar. Dessa forma, estamos na incessante busca da melhor maneira para tratar de questões como as que demandam a te- mática da identidade. Em primeiro lugar, gostaria de reiterar a afirmação de Orlandi (1998, p. 204): “identidade não se aprende”, portanto, identidade não se ensina. Não posso ter a ilu- são de que, a partir da inserção de discussões como a que exemplificou Siqueira (2009, p. 80), em que um alu- no de classe média alta na faixa dos 14 anos sugere que “a solução para acabar com a violência e a criminalidade no país seria explodir as favelas”, o professor, ao peda- gogizar criticamente o tema, como sugere o autor, com “seu potencial argumentativo e/ou persuasivo”, consiga modificar a concepção do aluno sobre a relação entre criminalidade e pobreza. Há, nessa situação, como em 61 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola outras vivenciadas dentro do contexto escolar, elemen- tos identitários e ideológicos muito maisamplos, os quais escapam à “liturgia do ensino”. Isso não significa que tenhamos que ignorar ou des- considerar em sala de aula esses aspectos por serem desconfortáveis, conflitivos, às vezes até bombásticos do ponto de vista do professor. Tais questões estão na ordem do dia dentro da escola e fora dela, na rua ou nas comunidades da internet, com ou sem autorização da instituição escolar. Tanto é assim que só ouvimos aumentar os relatos sobre discriminação e ofensas ex- perimentadas em espaços como o educativo (cf. BREN- NEISEN; TARINI, 2008, p. 85) e também na internet. Esse aparente descontrole no convívio social é o exemplo mais explícito de que as questões identitárias movimen- tam o espaço escolar e não escolar, independentemente de sua presença no escopo das disciplinas ou como uma temática transversal. É preciso dizer que nós, docentes, quando nos dispomos a trazer esses temas para a sala de aula, também estamos colocando em evidência, naquele espaço, a possibilidade de “discutir radicalmente as nossas fragilidades” (GIGGI, 2009), pois não somos, como professores, sujeitos independentes da história, da ideologia e do inconsciente, somos também sujeitos em/com identidades, sendo assim, nosso discurso nunca é neutro, nem portador da verdade universal. Outro aspecto que considero fundamental ressaltar é que, mesmo em contextos pedagógicos onde ques- tões identitárias não se apresentam, a priori, explicita- mente, não significa que elas não existam. Ou seja, às vezes o contexto imediato pode não desencadear/ mo- bilizar os alunos a discutirem temáticas relacionadas à pluralidade cultural de maneira institucionalizada, prin- cipalmente quando dentro da escola já são clássicos de- terminados estranhamentos entre grupos de jovens de “tribos” diferentes. Na aula de língua, uma possibilidade para abordar a temática seja talvez a condição de deslocar a discus- são para aspectos identitários não-marcados no refe- rido contexto, ajudando a provocar o estranhamento necessário para introduzir tais questões, tateando pos- sibilidades. Ou seja, não adianta o professor trazer um texto em língua estrangeira sobre “góticos” ou “emos” porque verifica que na sua aula existem alunos des- sas tribos, no sentido de incluir a questão da plurali- dade, principalmente se ele observar que tais alunos são rejeitados pelo grupo, pois o tratamento explícito da questão pode até piorar a dinâmica das relações. Nesse caso, se a aula é de espanhol, uma possibili- dade para introduzir a temática da pluralidade talvez seja aproveitar os aparatos culturais oferecidos, princi- palmente pelos meios de comunicação, como novelas, filmes, programas humorísticos, propagandas, em que, por exemplo, a figura de estrangeiros ou a própria lín- gua são tematizadas (personagens hispânicos, brasilei- ros falando espanhol ou mesclando as duas línguas etc.). Em relação à questão dos estrangeiros, não são ra- ros os programas televisivos em rede aberta que volta e meia, na ficção ou não, trazem a presença de figuras que, por exemplo, são ridicularizadas pelo seu sotaque. Normalmente os jovens acompanham programas dessa natureza e, se incentivados, poderão eles mesmos cole- tar situações retiradas da mídia sobre esse assunto para depois serem abordadas e discutidas em sala de aula. Esse processo de sensibilização é lento e muitas ve- zes poderá acontecer de os alunos dizerem algo do tipo “nunca havia pensado sobre isso antes”, e será essa uma grande vitória do professor, mas também outros afir- marem “isso é uma bobagem”. O fato é que as questões identitárias, sejam quais forem os aspectos em que se desenvolvam, acabam sempre nos direcionando, como sujeitos em discurso que somos, para um caminho per- turbador, que mexe com certezas, com pré-construídos, com verdades, com um modo excessivamente prag- mático de ver o mundo em que o capitalismo vem, ao longo da história, tentando nos fazer acreditar. Assim, esse é um terreno sempre arenoso para habitar e, como professores, é preciso que saibamos disso até para com- preender quando um aluno afirma que discutir esses as- suntos não passa de “bobagem”. Para concluir a conversa... Quando comecei a falar de identidade, manifestei minha frustração ao narrar minha participação em um evento que, abordando o tema, se referia exclusiva- mente à questão da obtenção de documentação para estrangeiros no país e para brasileiros no exterior. Se naquele instante não vinculei toda a discussão por mim já conhecida dos estudos da linguagem e das ciências humanas/sociais sobre identidade ao assunto da obtenção de documentação é porque, confesso, faltou-me sensibilidade para compreender o quão di- fícil deve ser para alguém não ser cidadão. No final das contas, sem carteira de identidade um estrangeiro não pode procurar emprego, não usufrui de nenhum direito, não tem e não pode nada no país onde reside, já que ele está simplesmente ignorado/apagado en- quanto sujeito. Ter uma certidão de nascimento e uma identidade de papel é o primeiro passo no processo de inclusão social. O interessante nesse jogo de inclusão/exclusão é que nada garante que, por meio da obtenção desse papel, está assegurada a condição de cidadão a esse estrangeiro, como pude perceber certa vez, quando es- cutei uma aluna uruguaia dizendo que, no primeiro ano em que viveu no Brasil, passou trancada dentro de casa, 62 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola sem interagir com ninguém, porque não falava portu- guês e não queria que na rua, nas lojas, nos restauran- tes etc., as pessoas percebessem que não era brasileira. A subjetividade dessa aluna foi, com certeza, marcada fortemente por um processo tenso de relação com o mesmo e o diferente, com a identidade e a alteridade. Se existe uma palavra-chave para compreender as diversas situações e vivências aqui apresentadas, por menor relação que elas possam parecer ter umas com as outras, pode ser resumida em uma só: sensibilidade. Não só para saber que a diferença existe, mas para de alguma maneira conseguir compreender posições iden- titárias divergentes das nossas. Afinal de contas, esse é o grande desafio de nós professores, de nossos alunos, enfim, da humanidade em geral. É nesse caminho desestabilizador que nos cabe trilhar. Fonte: COLEÇÃO EXPLORANDO O ENSINO ESPA- NHOL – Vol. 16 9 O TRATAMENTO DA PRODUÇÃO ESCRITA COMO PROCESSO (REVISÃO/CORREÇÃO E REESCRITA). Produção de textos: usos e das funções sociais da escrita Se considerarmos a trajetória da produção de tex- tos na escola, podemos constatar que essa prática lin- guística sempre foi uma tarefa complexa e polêmica. Ao traçarmos um panorama histórico dessa atividade, po- demos constatar que os saberes e as concepções sobre língua e sobre linguagem determinaram os modos de conceber e de encaminhar o trabalho com a escrita em sala de aula. Sabe-se que a concepção dos profissionais da edu- cação (professores, gestores educacionais, autores de documentos oficiais e de materiais didáticos) influencia, sobremaneira, no direcionamento das práticas escolares. No que se refere ao ensino de Língua Portuguesa, as concepções de língua(gem) são decisivas para a estrutu- ração do trabalho docente. Para Kato (1995), as atitudes e as concepções assumidas pelo professor são decisivas no processo de aprendizagem para se configurar o tipo de intervenção nesse processo. Travaglia (1997) postu- la que a concepção de língua(gem) altera, substancial- mente, o modo de organizar a pedagogia linguística e considera essa questão tão importante quanto a postu- ra que se tem em relação à educação. Geraldi (1997) considera que toda e qualquer me- todologia de ensino articula uma opção política com os mecanismos/procedimentos utilizados em sala de aula.Essa opção política envolve além de questões teóricas ligadas à educação, uma concepção de linguagem que justifica para que se ensina o que se ensina. As esco- lhas e as ações dos professores são influenciadas pelas agências governamentais (concepções presentes em documentos oficiais, como Parâmetros Curriculares Na- cionais, nos testes de avaliações externas), pelos autores de materiais didáticos, pelos cursos de formação inicial de professores, pelos cursos de formação continuada de professores, entre outros. Essa formação teórico-meto- dológica, somada a um conhecimento prático do que é ser professor, cria uma cultura do ensinar e do aprender, que determina a escolha dos conteúdos, o tratamento didático dado a eles, os recursos utilizados, os objeti- vos pedagógicos, etc. Considerando esses pressupos- tos, pode-se questionar: qual é o lugar da produção de textos na escola? Para responder a esse questionamen- to, faz-se necessário fazer um compilado dos estudos realizados por pesquisadores que buscaram analisar a atividade de escrita. As atividades prévias (preparação para a escrita), e a revisão/reescrita eram consideradas dispensáveis, pois inibiriam a inspiração natural de quem escreve, “quebra- riam” o encanto da tarefa de escrita. Nessa perspectiva, escrever consistiria em apenas articular informações, ha- bilidade advinda de um dom. Produzir textos, então, passou a ser suporte para o trabalho com estratégias procedimentais, a partir de pressupostos iniciais da constituição da linguística tex- tual. O trabalho com as propriedades do texto imprimiu a ideia de texto como pretexto, não somente para um ensino da gramática normativa, mas também para o en- sino da gramática textual, uma vez que havia acreditava- -se de que ao domínio das regras corresponderia o sa- ber como proceder no ato da escrita. ‘ Conforme postula Bakhtin (2000), toda intera- ção linguística acontece por meio de textos, os gêneros são verdadeiros instrumentos de interação, nas mais di- versas situações de uso da linguagem. Assim, abarcar a diversidade de gêneros como objeto de ensino em aulas de língua portuguesa significa inserir os alunos nos mais diversos eventos de letramento. Bronckart (1999) considera que a atividade de lin- guagem é, ao mesmo tempo, o lugar e o meio das in- terações sociais constitutivas do ser humano; “é nessa prática que se elaboram os mundos discursivos que organizam e semiotizam as representações sociais do mundo”. Assim, toda produção de texto é uma ação social situada, produzida por indivíduos singulares em situações sociais específicas, o que redimensiona a questão da autoria, ou seja, não basta um texto bem 63 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola escrito, é necessário que o sujeito produtor do texto se constitua como um sujeito autor. É por meio das prá- ticas sociais de linguagem que o indivíduo transforma e constrói os significados para todos os elementos de sua cultura. A questão da autoria é fundamental para a ressignificação do processo de produção de textos, pois incorpora o aluno em uma prática social situada. Fonte: O processo de revisão/reescrita textual: uma análise da proposta de livros didáticos de língua portu- guesa – www. caletroscopio.ufop.br/index.php/caletros- copio Antunes (2004) afirma que uma visão interacionista da escrita supõe (...), encontro, parceria, envolvimento entre sujeitos para que aconteça a comunhão das idéias, das informações e das intenções pretendidas. Entende- -se como base nos estudos da autora, que todo proces- so de escrita é uma “expressão interativa”, ou seja, um processo em que há materialização de informações, de ideias, de intenções, de sentimentos, enfim de tudo que pretendemos compartilhar com o outro. Tal processo, de acordo com a autora, reclama as seguintes etapas: planejamento, escrita, revisão e rees- crita. Na primeira etapa, o aluno deve delimitar o tema, selecionar os objetivos a atingir com o seu texto, sele- cionar o gênero discursivo apropriado, ordenar ideias e selecionar o registro (formal ou informal). Na segunda, é o momento de registrar o que foi definido no plane- jamento, compreende a etapa de selecionar o léxico e a ordem dos enunciados em conformidade com o objeti- vo comunicativo. A última etapa compreende a revisão e reescrita do texto, nessa etapa, o aluno revisa o que foi escrito, con- firma se seus objetivos comunicativos foram pontuados de maneira clara. Além disso, é o momento de observar a clareza, a progressão temática, a sintaxe, a semântica, a pontuação, a ortografia e a divisão do texto. De acordo com Antunes (2004), as práticas de es- crita devem: - contemplar o aluno enquanto autor do seu texto; - atender a “vínculos comunicativos”; - corresponder aos usos sociais da escrita; - atender as diferentes formas estruturais e comu- nicativas que os textos exigem; - ser dirigidos a um leitor; - privilegiar uma escrita contextualizada; - orientar o aluno para a coerência do texto; - observar os aspectos gramaticais. O processo de escrita é completado pela leitura. O leitor ao tomar um texto busca, de acordo com Antunes (2004), recuperar, interpretar e compreender o conteúdo e as intenções pretendidas pelo autor. Elementos icôni- cos, advérbios, modalizadores são exemplos de sinais e palavras que direcionam o leitor durante a compreen- são e interpretação dos diversos textos. Nas aulas de leitura, outra questão que deve ser considerada é a interpretação do texto como um todo. Vale a pena lembrar a relevância de levar o aluno a iden- tificar o tema ou a ideia central do texto, sua finalidade, sua orientação ideológica; a discernir entre seu argu- mento ou informação principal e seus argumentos ou informações secundárias. (ANTUNES, 2014) A leitura deve ser crítica, pois é preciso que o aluno perceba os traços ideológicos que perpassam nas en- trelinhas dos textos. Esse processo de leitura pode ser aplicado a todos os gêneros discursivos que circulam no cotidiano do aluno e naqueles que são trabalhados em sala de aula. Por fim, a leitura não deve ser separada do sentido, do contexto, da interação. Fonte: Leitura e produção textual em aulas de língua espanhola – Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/ LeC/article/viewFile/28263/15972 TEXTO COMPLEMENTAR INICIATIVAS PARA A IMPLANTAÇÃO DO ESPA- NHOL: A DISTÂNCIA ENTRE O DISCURSO E A PRÁ- TICA Neide Maia González A sanção da Lei 11.161, em 05/08/2005 trouxe con- sigo a necessidade de que decisões a respeito da im- plantação da oferta da disciplina Língua Espanhola nas escolas tivessem de ser tomadas pelas várias instâncias que regulam as atividades educativas de nosso país, nos níveis municipal, estadual e federal. Desde aquela data até o momento em que este texto estava sendo escrito, temos procurado acompanhar, tanto quanto possível, as diversas ações – ou a falta delas, em alguns casos – e fomos testemunha de alguns gestos positivos, mas também de uma sucessão de iniciativas desencontradas e incoerentes, que envolvem, por um lado, a falta de entendimento entre essas diversas instâncias (lembre- mos que a lei é federal, mas sua implementação depen- de dos municípios e principalmente dos estados); por outro, envolvem também um jogo permanente com a informação (relativo a números, necessidades, possibi- lidades, disponibilidades etc.) veiculada por organismos interessados na questão e pela imprensa, jogo esse que não tem feito outra coisa senão levar a uma conveniente desinformação. Além disso, observa-se uma disputa ferrenha pela ocupação de espaços (quem forma professores, como os forma, que materiais se utilizarão etc.) de modo a ga- rantir hegemonias de diversa índole (linguística, cultural, mas também política e econômica). 64 CONHECIMENTOSESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Como se pode ver, portanto, a Lei 11.161, que além de tudo apresenta imprecisões e ambiguidades, trouxe consigo problemas, disputas, mas também abriu espa- ços para discussões e tomadas de posição que poderão, a médio e longo prazo, trazer benefícios para o ensino do espanhol e para a educação no Brasil. Neste capítulo, faremos referência a algumas dessas iniciativas, a nosso ver bem-intencionadas e de quali- dade, mas, ao mesmo tempo, procuraremos apontar um pouco a distância que ainda existe entre algumas delas e o que por ora chamaremos, de modo bastante amplo, de prática; distância essa que provavelmente se deve a uma falta de objetivos e de planejamento claros bem como de coordenação entre as diversas instâncias políticas. Comentaremos, especificamente, duas dessas iniciativas, tomadas no âmbito do governo federal, pelo Ministério da Educação: a publicação de um capítulo específico sobre Conhecimentos de Espanhol no volu- me das Orientações Curriculares para o Ensino Médio (OCEM) do Ministério da Educação/SEB (2006) e a in- clusão da língua espanhola, juntamente com a língua inglesa, no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), tanto na sua versão para as séries finais (6º a 9º anos) do Ensino Fundamental (PNLD 2011) quanto para o Ensino Médio (PNLD 2012). Nosso foco, neste momento, será mais o PNLD 2011, não apenas em virtude de termos participado diretamente de todo o processo na qualida- de de representante do componente curricular Língua Estrangeira Moderna (LEM) na Comissão Técnica insti- tuída pelo MEC, mas também porque o outro processo (PNLD 2012) ainda está sendo iniciado e não nos cabe neste momento tecer comentários até que ele esteja concluído; neste último caso, faremos apenas referên- cia a alguns dados do Edital, neste momento já publi- cado pelo FNDE em seu portal. Trataremos de enfatizar a importância dessas iniciativas, em especial como si- nalizadoras dos rumos que desejaríamos que tomasse o ensino de línguas estrangeiras na escola regular, e da produção de materiais para esse fim, algo que, quer seja pelas razões já apontadas, quer seja por um conjunto de outras questões que tradicionalmente vêm marcando nossas práticas, está distante ainda de acontecer, mas que desejamos que aconteça. As Orientações Curriculares para o Ensino Médio - Conhecimentos de Espanhol Sancionada a Lei 11.161 em 05 de agosto de 2005, recebemos imediatamente um convite por parte da Se- cretaria da Educação Básica (SEB), do Ministério da Edu- cação, inicialmente, para compor a equipe que escreve- ria sobre o componente curricular LEM. No entanto, por diferentes razões, mas, sobretudo, pelo fato de que o espanhol passava a ser, a partir dessa lei, a única língua explicitamente designada como de oferta obrigatória, tomou-se a decisão de que teríamos um capítulo à par- te e específico para questões relacionadas ao ensino e aprendizagem desse idioma. O impacto dessa decisão exigiu de nós um grande esforço no sentido de entender os motivos pelos quais havíamos chegado a essa situação inédita e surpreen- dente para todos os que nos dedicamos ao ensino do espanhol no Brasil e também no sentido de traçar ru- mos para que a oferta do ensino da língua espanhola não ficasse atrelada estritamente a questões de merca- do, sobretudo tendo em conta o peso que a assinatu- ra do Tratado do Mercosul havia tido sobre essa nova situação. Ficava claro, assim, que as OCEM (MEC/SEB, 2006) deveriam sinalizar os rumos que o ensino da Lín- gua Espanhola deveria seguir, o que lhes dava, portanto, um caráter até certo ponto regulador que, nas etapas posteriores, precisaria ser amplamente discutido pelas comunidades nas quais esse ensino se concretizaria. A nossa interpretação foi e continua sendo a de que a sanção da lei esteve claramente associada a um ges- to marcado, de forma inequívoca, por objetivos de na- tureza cultural, política e econômica, “[...] uma vez que a LDB prevê a possibilidade de oferta de mais de uma língua estrangeira, sem nenhuma outra especificação” (OCEM, p. 127). Por isso dizemos, ainda na introdução ao documento, que a Lei 11.161 constitui “[...] um gesto de política linguística, que exige uma reflexão acerca do lugar que essa língua [o espanhol] pode e deve ocupar no processo educativo.”, bem como “[...] uma reflexão sobre a maneira possível de trabalhá-la com o máximo de qualidade e o menor índice de reducionismo, um re- ducionismo a que, ao longo da história, se viu afetada a nossa relação com a Língua Espanhola e com os povos que a falam” (p. 128). Esse reducionismo a que fazemos menção se traduz em idealizações, em representações, em estereótipos de todo tipo, quando não de precon- ceitos, a respeito da língua (parecida com a nossa, fá- cil, de estudo dispensável...), na sua enorme variedade, muitas vezes apagada ou rechaçada, e de seus falantes. Todos eles circulam livremente pela imprensa, aparecem em diversas falas e muitas vezes povoam os próprios materiais produzidos para o ensino do espanhol. Fica claro, então, no documento citado, o papel educativo, formador que deve ter o ensino de línguas estrangeiras, neste caso especificamente o do espanhol, na educação regular, razão pela qual se torna impres- cindível trabalhar a língua não apenas como forma de expressão, mas como constituinte de significados e valores que devem ser permanentemente objetos de reflexão, inclusive na relação que estabelecem com os nossos próprios significados e valores e com outros tantos que circulam por esse mundo globalizado. Assu- mimos que o ensino da língua estrangeira deve levar o 65 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola estudante a ver-se e constituir-se como sujeito a partir do contato e da exposição ao outro, à diferença, ao reconhecimento da diversidade, valorizando inclusive a diversidade que o constitui e que nem sempre ele reconhece e aceita. Como já dissemos antes, o docu- mento sinaliza rumos, tanto para a concepção de en- sino de línguas quanto para a elaboração de materiais para esse ensino. Em linhas gerais, podemos dizer que, nas OCEM, • trabalha-se com determinados conceitos de língua e cultura e com as formas de abordá-las no mundo de hoje e em nossa sociedade, nas quais as antigas habilidades se diluem e interpenetram; • procura-se superar o caráter puramente vei- cular do ensino de línguas nesse nível, dando-lhe um peso especial no processo educativo global, pelo que se entende que essa disciplina só tem sentido se inte- ragir com as demais presentes no currículo escolar; • parte-se do pressuposto de que a exposição à alteridade, à diversidade, à heterogeneidade e à con- vivência com o diverso constituem-se num caminho fértil para a construção da identidade, além de abri- rem a possibilidade de desconstruir estereótipos e de superar preconceitos; por isso, uma das competências bastante valorizadas no documento é a (inter-) pluri- cultural; • não se tem a pretensão de trazer soluções para todos os eventuais problemas e/ou desafios do ensino em questão, razão pela qual as OCEM não constituem um plano curricular, ficando este a cargo dos estabe- lecimentos escolares, responsáveis pela elaboração do seu projeto político pedagógico (PPP), em função da sua realidade e das suas necessidades; • oferece-se, por isso mesmo, uma reflexão de caráter amplo e não um modelo fechado, com se- quenciamento de conteúdos, sugestões de atividades a serem seguidas à risca e uma única e exclusiva linha de abordagem; • proporcionam-se algumas reflexões de caráter teórico-prático para poder compreender um pouco mais os conflitos inerentes à educação, ao ato de en- sinar, à cultura que consolida a profissão de professor, ao aprendizado de Línguas Estrangeirase à constru- ção de visão de mundo, para que seja possível, quiçá, melhor lidar com eles. As OCEM constituíram-se, e ainda se constituem, portanto, na abertura de um caminho que terá de ser permanentemente revisto, reavaliado à medida que for sendo percorrido. Mas indica um rumo e esse rumo está diretamente relacionado a um determinado mo- mento histórico e político, bem como a um momento da pesquisa no campo dos estudos da linguagem e da linguística aplicada. Na sua parte mais específica, para sinalizar esse rumo, as OCEM refletem sobre algumas especificida- des no ensino da língua espanhola a brasileiros. Para dar conta disso, aborda-se, em primeiro lugar, uma questão crucial, que permanentemente aflige os pro- fessores e também os produtores de materiais didáti- cos: a heterogeneidade do espanhol, expressa nas suas muitas variedades, de diferentes naturezas (social, re- gional, entre muitas outras). O que fazer com ela? Que espanhol ensinar? – perguntamo-nos. Aparentemente, e num primeiro plano, a aborda- gem das variedades do espanhol seria uma questão de natureza fundamentalmente didática, que exige deci- sões e escolhas. No entanto, é preciso explicitar que se trata também, talvez, sobretudo, de uma questão de caráter político e ideológico, que precisa ser en- frentada com o máximo de consciência, até para que não fiquemos sujeitos ao peso do poder e dos inte- resses econômicos que procuram dar a ela uma solu- ção hegemônica, até mesmo quando essa hegemonia vem atenuada (para não dizer disfarçada) pela noção de panhispanismo. Tal noção, segundo Fanjul (2008), propaga uma política supranacional que não condiz com o direcionamento que se pretende dar ao ensino do espanhol, em especial quando o pensamos como um elemento chave no processo de integração com as nações vizinhas, um argumento reiteradamente utiliza- do até para que a Lei 11.161 fosse aprovada. Segundo Fanjul (2008, s. p.), [...] todos esses passos na integração regional nos campos educativo e cultural apontam uma perspecti- va para o espanhol no Brasil bastante diferenciada da uniformização panhispânica e da “essência linguística” supranacional que essa política propaga mediante pro- dutos para o mercado de ensino já elaborados para condições completamente diferentes. A afirmação de Fanjul se mostra totalmente com- patível com o que preconizam as OCEM, nas quais se estimulam – até mesmo para tornar possível o projeto de integração latino-americana – a negação da hege- monia linguística e cultural e o contato com a diver- sidade, com a heterogeneidade constitutiva do espa- nhol. Por isso, no documento se propõe que a pergun- ta “‘Que Espanhol ensinar?’ seja substituída por uma outra: ‘Como ensinar o Espanhol, essa língua tão plural ...?’” (OCEM, p. 134). Para dar conta disso, o professor de espanhol atua- ria como um articulador de vozes, passando, sempre que necessário e possível, a palavra para as muitas vo- zes, os muitos sotaques, que representem as muitas realidades e histórias que conformam a riqueza desse mundo falado por uma língua efetivamente policêntri- ca, uma língua que são muitas línguas. 66 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Uma digressão a título de ilustração Apenas a título de ilustração dessa postura, clara- mente marcada pela valorização da heterogeneidade – algo que se mostra necessário quando pensamos que este texto constitui um capítulo de um dos volumes da coleção Explorando o ensino, do MEC –, faremos uma breve digressão e mencionaremos uma experiência vivi- da há vários anos, quando, com duas colegas de depar- tamento (Maite Celada e Zulma Kulikowski), aceitamos o convite para escrever roteiros para uma pós-produção que a Fundação Padre Anchieta – TV Cultura de São Paulo estava realizando a partir de um programa para o ensino de espanhol por meio de vídeo, elaborado na Espanha (Salamanca), intitulado Viaje al Español . O programa se passava integralmente em território espanhol e a variante privilegiada era o castelhano cen- tro-peninsular. Já tocada pelo discurso da integração, a emissora paulista de TV educativa se mostrava preocu- pada com isso e nos propôs – e cito as palavras ouvidas na primeira reunião – “estender uma ponte entre o es- panhol falado na Espanha e o falado na América”. Desse desafio, que coincidia com nossa convicção teórica de que a variação não é um fato marginal, mas constitu- tivo das línguas, nasceram, por sua vez, duas decisões capitais que tomamos já nos primeiros programas da série. A primeira foi a de propor aos espectadores que fizéssemos, juntos, mais do que uma viagem ao espa- nhol (un viaje al español), uma viagem com o espanhol (un viaje con el español). Ao mesmo tempo, tal proposta antecipava o que queríamos: mais do que ensinar va- riedades (coisa que era praticamente impossível dentro do espaçotempo de que dispúnhamos e que talvez nos tivesse imposto certas reduções) ou apontar curiosida- des de almanaque que carregam as tintas sobre os este- reótipos (coisa da qual fugíamos), desejávamos refazer alguns percursos, exibi-los e tratar de compreendê-los em sua complexidade histórica. A opção pela cumplicidade do com nos coloca- va, ademais, no caminho da amostragem, da citação, o que, por sua vez, implicava uma opção enunciativa: não era questão de apenas falar sobre; era preciso fazer falar, dar a palavra e instalar a polifonia, até para evitar o perigo de que a variante da apresentadora – minha colega de equipe Maite Celada, argentina de Buenos Aires – estabelecesse simplesmente uma polaridade com a norma predominante no programa original. Era preciso, então, mostrar, exibir a variedade, levá-la à tela e fazê-la representar. Não é à toa que dei à minha parte de um trabalho feito pelas três participantes do projeto em 1996 (e que retomo aqui) o título “A variedade entra na tela”. Ao exibir a variedade, nos rendíamos às vozes mais sedutoras da cultura (claro que da posterior aos anos 70) das quais fala Bosi num texto de 1995 (p. 7): Em vez de unidade estrutural, todas as vozes mais sedutoras da cultura ensinaram a ver os encantos da di- ferença, da pluralidade, do fragmento, da exceção, da errância, do descentramento, do acaso, dos pontos de fuga, das ambiguidades, das indeterminações, enfim (e por que não) do caos. Uma das expressões claras dessa opção pelo des- centramento foi, tanto quanto o nosso modo de enca- rar a variação da língua espanhola na América, o nosso movimento para deslocar a atenção dos espectadores para o não estritamente castelhano (ou madrilenho) na Península e em outras regiões que integram a na- ção espanhola, mediante a incorporação e o tratamento (não assumidos pelo programa espanhol) de variantes peninsulares, como a andaluza, e também de outras lín- guas peninsulares, como o galego, o vasco e o catalão. Também ilustra a opção pelo descentramento o reco- nhecimento das outras línguas americanas e inclusive de outra voz no rumor, a do portunhol fronteiriço. Tam- bém marca essa opção o breve e suave questionamento que fazemos, em um dos programas, da legitimidade de estabelecer um centro geográfico unificador e regu- lador, representado de certa forma pela Real Academia de la Lengua, que às vezes termina por dar às variações o estatuto de desvios acidentais. Ainda não se falava, à época, do panhispanismo, algo posterior à realização daquele programa. Mas se voltarmos às ideias de Fanjul (2008), vemos que o centro regulador ainda não deixou de existir, apenas mudou um pouco de cara. Creio que o que tentamos fazer naquele programa, e que usamos aqui para sugerir uma forma possível de trabalhar a diversidade, pode ser resumido da seguinte maneira: tratamos de eliminar o centro (e, consequente- mente, a ideia de irradiação a partir desse centro), quesubstituímos pela ideia de percurso (de mundos, cultu- ras, variedades e sentidos), o que ficou reforçado pela substituição do ao (al) (que implica, aliás, um para [ha- cia], e um ter acesso a) pelo com, talvez aquele que está embutido em cumplicidade, em compartilhar, em com- preender, em coexistir, em comunicar. Evidentemente não falamos de comunicação simplesmente como parti- cipação de algo a outros sujeitos. Trata-se, aqui, de outra comunicação, aquela que E. Coseriu (1977, p. 206) defi- ne como “comunicación con otro”, garantida por essa dimensão da linguagem dada pela alteridade do sujeito, pelo fato de que, segundo mostra o autor, a consciência criadora de linguagem é uma consciência aberta a ou- tras consciências. Vistas assim as coisas, o próprio senti- do de comunicativo (que visa a garantir a tão decantada competência comunicativa), um enfoque que predomi- nou nas últimas décadas e ainda se mostra forte entre nós, ganha um sentido mais amplo e menos restrito do que aquele que com muita frequência se observa nos materiais que o adotam, ao menos nas suas declarações 67 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola de intenção, já que muitas vezes, em que pesem essas intenções, nem isso ocorre de fato. A vivência e o conta- to com situações e práticas de linguagem socioculturais efetivas e variadas, trabalhadas naquilo que as constitui, a partir das condições em que ocorrem, observando os efeitos que produzem, passam, assim, a dar maior con- sistência às habilidades de escuta, de leitura, de fala e de escrita, que precisam ser abordadas de forma inte- grada, pois nas relações interpessoais, quer sejam elas estabelecidas por contato direto quer sejam mediadas por algum meio tecnológico, elas se conjugam, se arti- culam e se complementam. Habilidades e competências estão, assim, em função de “...permitir o conhecimento sobre o outro, a reflexão sobre o modo como interagir ativamente num mundo plurilíngue e multicultural, he- terogêneo.” (OCEM, p. 150). A segunda decisão tomada para realizar a proposta da TV Cultura, em consonância com a primeira e certa- mente consequência daquela, surgiu da viagem de trem com a qual começa a parte central do programa espa- nhol, uma espécie de novela cujos personagens centrais são Juan e Carmen; viagem e novela que, de certo modo, articulam toda a série didática. Reflete-se na seguinte afirmação feita a certa altura pela nossa apresentado- ra: No basta un tren para hacer un viaje al español, e muito menos, diria agora, com o espanhol. Essa foi, tal- vez, a maneira que encontramos de começar a ampliar aqueles limites que já estavam dados de antemão no programa original. Afinal de contas, íamos cruzar ocea- nos e cordilheiras. Além do mais, legitimávamos, assim, cada um desses tantos “espanhóis” com que nos íamos deparar; e os legitimávamos como representativos do espanhol, coerentes com a ideia de pluralidade, hete- rogeneidade – única que nos podia garantir a harmonia de cada variante em sua autonomia – por cima da mas- sa, que talvez tivesse descaracterizado tudo. Por isso, na parte escrita por Celada no trabalho de 1996, lemos: Ora, sem dúvida, mostrar a língua reduzida ao geral (como se isto, além de tudo, fosse um fato) teria sido reiterar o gesto homogeneizador que apaga a diferença e é por isso que ela foi mostrada. Mas, para mostrar a diferença evitando a perspectiva “exótica” encalhada no estereótipo, foi necessário tornar visíveis os efeitos de um traço fundamentalmente humano: a inevitável força da interpretação. É possível encontrar marcas dessa segunda tomada de posição por todo lado em nossa parte do programa. Uma delas – talvez a mais evidente – é o papel que terminamos dando à apresentadora, em realidade uma articuladora de citações: uma palavra, uma expressão, um traço estilístico, um gesto ou um modo de entoar que apareciam de repente em seu próprio discurso, em sua própria voz; uma representação; a introdução de outras vozes dialogando com a sua ou diretamente representando. Por isso mesmo, num dos programas, a apresentadora diz: ¡Qué coro, cuántas voces, cuántos tonos! Essa articulação de citações não se limitava, por outro lado, à menção das variedades. Queria também chegar a certa plenitude funcional da linguagem, e por isso introduzia, exibia – às vezes num tom brincalhão – discursos e possíveis falantes desses discursos: o da autoridade, o do conselho, o do contar, entre tantos outros. E nessa articulação polifônica (de citações e de vozes) se infiltra a cultura, é claro que em seu sentido antropológico; infiltra-se, em síntese, a história. Dessa intertextualidade nasce, então, o que se quis dar a en- tender a todos: o que é o (o?) espanhol; é alinhavando todas as citações que se pode construir o sentido – ou os sentidos – de nosso próprio texto. Para encerrarmos as referências a esse programa, no qual se tratou de buscar uma solução para lidar com a heterogeneidade do espanhol, e que usamos aqui, como já foi dito, para apontar um caminho possível para o tratamento da heterogeneidade do espanhol, vamos fazer referência a uma estratégia interessante utilizada num dos episódios, no qual se consideravam os meios de transporte público e suas designações em diversas variantes do espanhol (peninsulares e americanas). Para não corroborar a ideia equivocada de que existiria um mundo sempre idêntico para cuja referência disporía- mos de palavras diferentes, usadas em diferentes espa- ços sociais, porém “equivalentes”, adotamos uma estra- tégia (que se repete em outros episódios do programa). Após mencionar diversos termos usados para designar os meios de transporte em diferentes regiões (ómni- bus, autobús, colectivo, liebre, guagua), a narradora do programa anuncia a exibição de um fragmento do filme cubano La permuta, no qual a permuta de dois imóveis, em função de necessidades específicas de duas famílias (cabe lembrar que em Cuba os imóveis não se vendem), ocorria no espaço de una guagua – um ônibus que percorre a cidade de Havana. Ao final do fragmento, a protagonista exibia sua felicidade exclamando: ¡Bendito sea el que inventó la guagua! A narradora encerra a sua participação, então, mostrando que um cubano, como de resto nenhum outro falante, jamais poderia renun- ciar a sua forma de falar, que jamais uma guagua, esta na qual a protagonista do filme resolve uma questão essencial para sua vida, seria o mesmo que un ómnibus ou un colectivo ou una liebre... Por isso, fecha o episódio afirmando que, para um cubano, […] al fin y al cabo, una guagua es una guagua. Cada forma de expressão, cada aspecto sociocultural integra o idioma como um todo, intrinsecamente heterogêneo, em cada espaço social e cultural que focalizemos, mas enquanto expressão é única, irrepetível, insubstituível. Nesse sentido, o termo “sinônimo” é pura ficção. 68 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Voltando às OCEM Abandonando a digressão ilustrativa e retomando, agora, os comentários ao texto das OCEM, nele fazemos ainda considerações sobre outras particularidades do espanhol como língua estrangeira no Brasil, entre elas a de certas representações sobre essa língua que circulam em nossa sociedade e aparecem com frequência na fala de nossos alunos: questões relacionadas à tão decanta- da (e tão enganosa) proximidade entre as línguas por- tuguesa e espanhola (que também constitui, em grande medida, um estereótipo, além de alimentar outros) e dos seus efeitos, quer seja nas expectativas de facilidade prontamente frustradas, quer seja nas marcas que ela deixa na produção estrangeira, questões que têm sido objeto de pesquisas no âmbito acadêmico, porém que nem sempre vemos refletidas nas nossas práticas ou mesmo na produção de materiais parao ensino. Do ponto de vista didático, essas reflexões nos le- vam a insistir na importância de não estimular o que Celada (2002) classifica como a “sensação de compe- tência espontânea”, mostrando que o aprendizado do espanhol, como o de qualquer outra língua estrangeira, e mesmo levando em conta a forma singular de ser es- trangeira que a língua espanhola tem para os brasileiros, requer esforço e estudo, para que seja possível superar estágios de interlíngua bastante conhecidos de todos os que atuamos como professores e pesquisadores nes- sa área. Mas é preciso, também, reconhecer a condição de estrangeiros que nunca deixamos de ter e as formas especiais que temos, os brasileiros, de ser estrangeiros nessa língua. Da mesma forma, desenvolve-se nas OCEM uma re- flexão a respeito do papel da gramática no ensino e na aprendizagem da língua espanhola. Afirma-se que “[...] a gramática – normativa, prescritiva e proscritiva – pau- tada na norma culta, modalidade escrita, não é a única que deve ter lugar na aula de língua estrangeira nem deve ser o eixo do curso.” (p. 144). Com isso, aponta-se que é fundamental que a gramática esteja permanente- mente associada a práticas variadas de linguagem em sociedade e seja, portanto, abordada de forma sempre contextualizada. Em síntese, a gramática é importante, mas não pode ser o eixo condutor do ensino da língua, até porque há outras formas de trabalhar os limites do que é possível e do que não é possível dizer e fazer em determinadas línguas e culturas. No que se refere ao aspecto mais propriamente didático, em conformidade com a visão plural sempre defendida pelo MEC, as OCEM não determinam um en- foque único, a ser seguido por todos. Elas se propõem a definir alguns princípios gerais que permitam aos docentes: refletir sobre a função da Língua Espanhola na escola regular; estabelecer os objetivos realizáveis, considerando-se as peculiaridades de cada situação de ensino, e das relações entre o universo hispânico e o brasileiro; selecionar e sequenciar os conteúdos – temá- ticos, culturais, nocional-funcionais e gramaticais – mais indicados para a consecução dos objetivos propostos; definir a(s) linha(s) metodológica(s) e as estratégias mais adequadas; fazer a escolha do material didático adequa- do para a abordagem; estabelecer critérios de avaliação condizentes com suas escolhas e plausíveis nessa situa- ção. O que se apresenta, em matéria de conteúdos a se- rem trabalhados, tem um caráter meramente sugestivo e está organizado em torno a grandes temas geradores, apoiados, sobretudo, na ideia de transversalidade pre- sente na lei que rege a educação brasileira. Aos grandes temas selecionados, não necessariamente os mesmos relacionados no documento, devem vir subordinadas as questões mais propriamente linguísticas, sempre traba- lhadas em associação às competências, às habilidades, bem como aos gêneros e tipos textuais diversificados que se espera sejam trabalhados sempre como práticas sociais de linguagem. Assim, estimula-se que sejam fei- tas reflexões sobre: • política: formas de governo, estruturas gover- namentais, relações de poder e de soberania, direito a voto, representações partidárias etc. • economia: poder aquisitivo, orçamento – pú- blico, privado e pessoal –, estratégias de publicidade e consumo, recursos agrícolas e industriais, mercado de trabalho etc. • educação: sistema educativo, estrutura educa- cional, inclusão/exclusão (social e étnica), função políti- ca e social da educação etc. • sociedade: habitação, escalas e representações sociais, saúde, segurança, transportes etc. • esportes: valorização e prestígio social, fins da sua prática (profissional, econômico, prazer, saúde...), locais de realização, custos etc. • lazer: opções em função de fatores econômicos, educacionais e sociais. • informação: papel da imprensa, confiabilidade, acesso à informação, meios de divulgação da informa- ção (jornais, revistas, rádio, televisão, Internet) etc. • línguas e linguagens: questões relativas a po- líticas linguísticas, à diversidade de línguas presentes nos diversos países, às línguas indígenas, ao seu reco- nhecimento e preservação, ao papel da língua estudada na formação do estudante, na história e na sociedade contemporânea (questões locais e globais), no proces- so de globalização; aos efeitos da globalização sobre as línguas e linguagens etc. 69 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Deixa-se, claro, entretanto, que Ainda que essa lista possa e deva adaptar-se às di- ferentes realidades do país, é importante que a aborda- gem da língua estrangeira esteja subordinada à análise de temas relevantes na vida dos estudantes, na socie- dade da qual fazem parte, na sua formação enquanto cidadãos, na sua inclusão. (OCEM, p. 150) Para a consecução de tais objetivos, entende-se que é preciso adotar uma visão ampliada dos conteúdos a serem incluídos nos programas de curso para além das tradicionais habilidades, das sequências lexicais e componentes gramaticais próprios da norma culta, bem como de conjuntos de atos de fala desvinculados de um contexto amplo e relevante nessa situação. Um tema gerador de caráter bem amplo pode e deve levar a reflexões de natureza variada: linguística, pragmático- -discursiva, (inter-, multi-) cultural, sócio-histórica, Só- cio-Econômica, política etc. No que se refere mais especificamente à questão metodológica, as OCEM assumem que “[...] considera- -se mais oportuno, em lugar de defender o seguimento deste ou daquele método de ensino de línguas, advogar pela adoção de princípios e pressupostos teóricos mais amplos que conduzam à reflexão e à crítica.” (p. 153). Princípios e pressupostos esses que precisam ser expli- citados sempre para que não se corra o risco de ope- rar no perigoso plano do vazio teórico. É fundamental, afirma-se nas OCEM, [...] reconhecer o que está por trás de uma meto- dologia, de um manual, de um material didático para poder, em consequência, não apenas dialogar com es- ses pressupostos, mas também para não ser presa do último modelo da moda [cujas bases teóricas com fre- quência desconhecemos] e de interesses puramente co- merciais. (p. 155) Chega-se, assim, a uma questão fundamental no processo de ensino e aprendizagem de uma língua estrangeira: a escolha dos materiais que serão utiliza- dos para alcançar os objetivos almejados, que devem ser condizentes com a concepção de língua/linguagem adotada, com a concepção mais ampla relativa à função que queremos dar a esse ensino e a essa aprendizagem no âmbito em que eles se dão. Lembremos que aqui estamos falando de Língua Estrangeira Moderna – Espa- nhol como componente curricular numa (mas poderia ser em todas) etapa importante do processo educativo formal e é nessa perspectiva que precisamos conduzir nosso trabalho e também focalizar a escolha dos mate- riais. Nas OCEM, entende-se que o [...] material didático é um conjunto de recursos dos quais o professor se vale na sua prática pedagógica, entre os quais se destacam, grosso modo, os livros di- dáticos, os textos, os vídeos, as gravações sonoras [...], os materiais auxiliares ou de apoio, como gramáticas, dicionários, entre outros. (p. 154) Além disso, é importante ter claro que os materiais didáticos, sobretudo o livro didático, são um meio e não um fim, elementos de mediação e não objetos da aprendizagem, tampouco os compiladores da matéria a ser aprendida de modo automático, os sinalizadores dos rumos do ensino, aqueles que, sobretudo na ausên- cia de propostas curriculares claras (que é o caso mais frequente em nossas escolas), funcionam como o currí- culo oculto a ser seguido passo a passo, sem reflexão e crítica. Para fechar, então, esta parte de nosso texto, relativa àsOCEM, retomamos brevemente algumas das ques- tões cruciais que aqui apareceram e o que elas sinali- zam: a primeira delas é a tomada de posição em rela- ção ao papel do ensino de uma língua estrangeira na educação básica (e ampliamos a ideia, agora, para a sua etapa anterior ao Ensino Médio, isto é, para o Ensino Fundamental), antes de mais nada e fundamentalmen- te educativo, um ensino que, no diálogo e na comple- mentaridade com os demais componentes curriculares, colabore para a formação do cidadão. No capítulo das OCEM correspondente a Conhecimentos de Línguas Es- trangeiras, ao abordar a questão da cidadania na sua relação com o ensino e aprendizagem de língua estran- geira, afirma-se: Admite-se que o conceito é muito amplo e hete- rogêneo, mas entende-se que ‘ser cidadão’ envolve a compreensão sobre que posição/lugar uma pessoa (o aluno, o cidadão) ocupa na sociedade. Ou seja, de que lugar ele fala na sociedade? Por que essa é a sua posi- ção? Ele quer estar nela? Quer mudá-la? Quer sair dela? Essa posição o inclui ou o exclui? Nessa perspectiva, no que compete ao ensino de idiomas, a disciplina Língua Estrangeira Moderna pode incluir o desenvolvimento da cidadania. (p. 91) Isso implica que “[...] o valor educacional da apren- dizagem de uma língua estrangeira vai muito além de meramente capacitar o aprendiz a usar uma determina- da língua estrangeira para fins comunicativos.” (p. 92). Em torno dessa grande questão, que é o ponto de partida para todo o ensino de línguas no âmbito da edu- cação formal, em todos os seus níveis, organizam-se, portanto, as demais questões: a adoção de um enfoque coerente com essa concepção, integrador e eficaz para que sejam atingidos os objetivos propostos; a substitui- ção do eixo gramatical, por um eixo temático que faça sentido para o aprendiz, em função do qual deverão es- tar a sequenciação dos conteúdos de diversas naturezas e o desenvolvimento integrado das competências e ha- bilidades, as atividades a serem propostas, os gêneros e tipos textuais a serem apresentados e praticados; a substituição das hegemonias em prol de um trabalho que contemple a variedade, a heterogeneidade, em per- manente diálogo com a realidade e a língua, igualmente 70 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola heterogêneas, dos aprendizes; a prática de avaliações que revelem critérios claros, plausíveis e adequados a essa situação; a escolha de materiais que atendam a to- das essas exigências e possam contribuir para que esse objetivo maior e todos os demais objetivos subsidiá- rios sejam alcançados e que efetivamente a disciplina Língua Estrangeira Moderna (neste caso o Espanhol) contribua para uma melhor compreensão do sentido do termo cidadania e para a inclusão, local e global, do educando. Portanto, os materiais didáticos, incluídas aí as co- leções didáticas, para o ensino do espanhol precisam estar em conformidade com essa grande decisão em relação à forma de entender a função do ensino do es- panhol na educação regular brasileira e de colocá-la em prática. Para ampliar nossas reflexões a esse respeito, passaremos agora a abordar a segunda grande iniciati- va em nível federal no sentido de apoiar a implementa- ção da lei 11.161: a inclusão da disciplina LEM – Inglês e Espanhol – no PNLD 2011 (seleção e aquisição de cole- ções didáticas para os anos finais do Ensino Fundamen- tal) e no PNLD 2012 (seleção e aquisição de coleções didáticas para o Ensino Médio). O Programa Nacional do Livro Didático Conforme afirmamos no princípio deste capítulo, em meio a um conjunto de ações desencontradas e incoerentes observadas nas diversas esferas do poder público, entre 2008 e 2009 tivemos duas boas surpre- sas, ainda que tenham sido alvo de muitas críticas e ainda que a explicitação de duas línguas termine por configurar o reconhecimento de uma obrigatoriedade que tem seus problemas: trata-se do reconhecimento das disciplinas de Língua Estrangeira Moderna (LEM) Inglês e Espanhol como componentes curriculares e sua consequente inclusão no Programa Nacional do Li- vro Didático do Ministério da Educação executado pela Secretaria de Educação Básica – SEB/MEC e pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Escolar (FNDE) – o PNLD 2011 –, para os anos finais do Ensino Fundamental, e o PNLD 2012, para o Ensino Médio. Não vamos discutir aqui a legitimidade dessa ex- plicitação de duas línguas por parte do MEC, um tema que mereceria um trabalho à parte, mas vamos tratar de descrever um pouco o programa e ver em que medi- da, por meio de seus editais, ele também sinaliza rumos para a educação linguística no Brasil, estabelecendo uma interlocução evidente com as OCEM e outros do- cumentos norteadores da educação no Brasil, entre eles os Parâmetros Curriculares Nacionais (MEC/ SEF, 1998; MEC/SEB, 2000). Por outro lado, trataremos de mostrar, a partir da primeira experiência já parcialmente viven- ciada (PNLD 2011), a distância que ainda existe entre as propostas educacionais do MEC e o que de fato se vem fazendo na prática, particularmente na produção de livros para o ensino de línguas estrangeiras, mais es- pecificamente de espanhol. Em que pesem as dúvidas, as críticas, as falhas, a inclusão de Línguas Estrangeiras no PNLD e nos demais programas do MEC/FNDE é um fato a se comemorar. As escolas públicas de todo o país, sejam elas da esfera federal, estadual ou municipal, podem aderir ao progra- ma e receber coleções didáticas relativas aos diversos componentes curriculares para serem utilizadas pelos alunos. E é inegável a contribuição que dá essa iniciativa para a inclusão social de um grande contingente da po- pulação brasileira. As coleções que se inscrevem no PNLD, a partir das exigências feitas no edital correspondente, passam por um longo, complexo, rigoroso e sigiloso processo de seleção, subdividido em várias etapas e com a parti- cipação de muitos especialistas, de vários níveis e vá- rias regiões do país. Estes atuam ou como membro das Comissões Técnicas correspondentes, designadas pelo ministério, ou como Coordenadores de Área e Institu- cionais (estes vinculados à instituição escolhida para levar a cabo o processo de avaliação, via de regra uma universidade federal), ou como Coordenadores Ad- juntos, responsáveis pelo trabalho mais direto com os Avaliadores, estes últimos escolhidos entre especialis- tas reconhecidos na área, com atuação quer no Ensi- no Superior, quer no Ensino Básico, e provenientes das diversas regiões do país; além desses, conta-se, ainda, nas equipes, com leitores críticos, revisores, e por vezes com alguns consultores, responsáveis por tarefas es- pecíficas (pelo rastreamento de sites citados nas obras, pela parte técnica e informática etc.) . Por fim, as equi- pes contam com o apoio da equipe técnica do MEC, que funciona no âmbito da Secretaria de Educação Bá- sica (SEB): a Coordenadoria Geral de Materiais Didáti- cos (COGEAM). A avaliação é precedida de uma etapa de triagem, feita por um instituto técnico (via de regra o Instituto de Pesquisas Tecnológicas [IPT] de São Paulo) designado para a verificação das coleções, que devem apresentar-se segundo as determinações dos editais, não podendo conter determinadas falhas previstas num anexo do edital; e por uma etapa de pré-análise. Os avaliadores passam por um período de treinamento para tomar ciência dos critérios de avaliação, da ficha elaborada pela coordenação de área e para receberem suas coleções. A avaliação das coleções, sempre a partir de exemplares de obras descaracterizadas, é feita com base no preenchimento dessa ficha de avaliação, cujos itens baseiam-se nos critérios do edital correspondente, todos eles eliminatórios, e é levada a cabo por no míni- mo dois avaliadores que não têm conhecimento um do outro, seguidade uma etapa de intercâmbio de fichas não identificadas e de outra constituída de uma reunião 71 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola de ambos com a Coordenação Adjunta, para chegar, assim, à ficha consolidada, que passa, então, à coor- denação de área para as decisões finais, as quais de- verão também ser corroboradas pelo representante da Comissão Técnica, a quem cabe supervisionar e apro- var todo o processo. Essas avaliações terminam com a elaboração do Guia de Livros Didáticos, que contém, além de uma introdução geral sobre a área bastante elucidativa, as resenhas críticas das coleções aprova- das, nas quais não apenas se descrevem as coleções, mas também se apresentam seus pontos de destaque e seus eventuais pontos fracos, alertando o professor a respeito de como utilizá-las e complementá-las. Tam- bém se elaboram criteriosos pareceres técnicos sobre as coleções excluídas, que são enviados às editoras e autores. No caso das línguas estrangeiras, os livros selecio- nados são consumíveis, isto é, pertencerão ao aluno e não terão de ser devolvidos para reutilização, além de que virão acompanhados de um CD de áudio e de um Manual do Professor. Na elaboração dos editais do PNLD que devem guiar a apresentação e a avaliação das coleções, são levados em conta: os documentos norteadores da edu- cação brasileira (LDB, PCN, OCEM); a legislação com- plementar; e as pesquisas recentes, tanto sobre a lín- gua e a cultura quanto sobre o seu ensino e aprendiza- gem. Assim sendo, em conformidade com os princípios gerais que balizam o ensino e a aprendizagem das lín- guas estrangeiras na atualidade, nessa etapa da edu- cação formal, no edital do PNLD 2011 (para o Ensino Fundamental, 6º a 9º anos) assume-se que o livro deve ter por objetivos, entre outros, possibilitar ao aprendiz: • vivenciar uma experiência de comunicação hu- mana pelo uso de uma língua estrangeira, no que se refere a novas e diversificadas maneiras de se expres- sar e de ver o mundo; e • refletir sobre os costumes ou maneiras de agir e interagir em diferentes situações e culturas, em con- fronto com as formas próprias do universo cultural dos alunos, de modo a promover neles uma visão plural e heterogênea do mundo e a fazer entender o papel de cada um como cidadão em nível local e global. Guardadas as devidas proporções e a adequação às diferentes faixas etárias, o edital do PNLD 2012 – En- sino Médio apresenta uma coerência absoluta em rela- ção às propostas do edital anterior, na medida em que considera a(s) linguagem(ns) como uma atividade, ao mesmo tempo funcional, de interação, social, política, em estado permanente de construção, historicamen- te ininterrupta e continuada, eminentemente textual e discursiva, uma forma de criação de objetos artísticos, um conjunto complexo de regularidades que, no en- tanto, se subordinam às necessidades interativas dos sujeitos e se constituem como um meio de acesso do homem a valores culturais e históricos de diferentes re- giões e culturas. Em ambos os editais assume-se, então, uma pos- tura idêntica, compatível com a finalidade maior do ensino de línguas na Educação Básica, a educativa, es- boçada nos PCN e claramente assumida nas OCEM, nos capítulos dedicados às linguagens: Adquirir conhecimentos, nesta área, portanto, vai além de saber o conjunto de normas gramaticais que regulam o uso socialmente prestigiado da língua. Im- plica promover a ampliação das competências comu- nicativas já adquiridas nos primeiros anos do convívio social, pelo incentivo à leitura, à escrita, à oralidade pú- blica formal, à análise dos diferentes objetos textuais que circulam em também diferentes suportes. (PNLD 2012, p. 23) Os critérios de avaliação das coleções estão subdi- vididos, nos dois programas e nos respectivos editais, em dois grandes blocos: Critérios Eliminatórios Comuns a todas as Áreas e Critérios Eliminatórios Específicos das Áreas. São Critérios Eliminatórios Comuns a todas as Áreas, tanto no PNLD 2011 quanto no PNLD 2012: • Respeito à legislação, às diretrizes e às normas oficiais relativas ao ensino fundamental. • Observância de princípios éticos necessários à construção da cidadania e ao convívio social republica- no. • Coerência e adequação entre a abordagem teórico-metodológica assumida pela coleção e a pro- posta didático-pedagógica e objetivos explicitados. • Correção e atualização de conceitos, informa- ções e procedimentos. • Observância das características e finalidades específicas do Manual do Professor e adequação da co- leção à linha pedagógica nele apresentada. • Adequação da estrutura editorial e do projeto gráfico aos objetivos didático-pedagógicos da coleção. No caso específico do PNLD 2011 que, como foi dito, comentaremos mais detidamente, por tratar-se de um processo de avaliação já concluído no momento em que escrevemos este capítulo, esperava-se que, nos limites do possível, as coleções: • apresentassem linguagem contextualizada e inserida em práticas discursivas variadas e autênticas; • oferecessem um ensino de gramática e voca- bulário integrado ao ensino das quatro habilidades (ler, escrever, falar, ouvir), privilegiando uma perspectiva co- municativa, no sentido mais amplo já descrito no item em que comentamos as OCEM; • contribuíssem para a formação de um aprendiz autônomo, que tenha conhecimento consciente de um repertório de estratégias de aprendizagem; 72 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola • reconhecessem as marcas identitárias dos di- versos alunos brasileiros, a diversidade de contextos de ensino e aprendizagem e previssem a diversidade do público-alvo; • desnaturalizassem as desigualdades e promo- vessem o respeito às diferenças, inclusive na relação com o estrangeiro. Nos Critérios Eliminatórios Específicos, levaram-se em conta, entre outras coisas: • a estrutura e organização das coleções, das quais se esperava clareza, coerência entre os propósi- tos explicitados e a sua colocação em prática, na forma de materiais para o ensino e aprendizagem, e a ade- quação ao nível e às finalidades dessa etapa educativa; • a coletânea de textos orais e escritos (inclusive os literários), observando-se a diversidade (de gêneros, tipos, modalidades e suportes), a autenticidade, a ade- quação aos objetivos almejados e a possibilidade que proporcionam de ampliação de horizontes. Um outro conjunto de critérios está vinculado à ex- ploração das chamadas quatro habilidades: compreen- são escrita, compreensão oral, produção escrita e pro- dução oral. Um dos critérios utilizados, além dos que expomos a seguir, foi o de que essas habilidades não fossem vistas de modo estanque, mas sim de forma interdependente, integrada, até porque não se pode negar que, na sociedade globalizada e informatizada da atualidade, elas se interpenetram e por vezes até se confundem. Na avaliação do desenvolvimento pelas coleções dessas quatro habilidades, levou-se em conta e valorizou-se, então, o que especificamos a seguir, de modo sintético para cada habilidade. Compreensão Escrita: a concepção da leitura como um processo interativo, refletida nas atividades pro- postas; a presença de atividades de pré e pós-leitura; a diversidade de gêneros, tipos textuais e suportes oferecidos pela coleção; o estímulo ao uso de estra- tégias diversificadas por parte do aprendiz nas tarefas de compreensão e interpretação; o trabalho com a po- lifonia, isto é, com as muitas vozes presente nos textos e com a intertextualidade; o trabalho voltado para a pluralidade de interpretações; a presença de atividades que contribuam para a formação do leitor reflexivo e crítico e para a formação do leitor literário, entenden- do a leitura literária como uma atividade de fruiçãoe não apenas um pretexto para a exploração de voca- bulário e de estruturas gramaticais; e a presença de estímulos à ampliação do universo de leitura (contex- tualização dos fragmentos, incentivo à leitura de textos completos, associação dos textos e de seus autores a uma determinada época, a um período da História, a uma corrente estética). Produção Escrita: a concepção da escrita como um processo interativo, em constante reformulação e a con- sequente possibilidade oferecida ao aprendiz de con- templar e refletir sobre as diferentes etapas do processo de produção (definição de tema, objetivos, provável veí- culo de difusão do texto, estratégias a serem utilizadas dependendo dos objetivos e do tipo do texto a ser es- crito, organização geral, primeiras tentativas até chegar ao produto final); a diversidade de gêneros trabalhados; a explicitação das condições de produção e das caracte- rísticas sociodiscursivas dos textos: quem escreve, para quem, com que objetivo e em que suporte; a explora- ção dos diversos recursos linguísticos e dos mecanismos de coesão e coerência necessários a uma produção não apenas correta, mas, sobretudo, adequada às suas fina- lidades. Compreensão Oral: a presença de um CD de áudio com boa qualidade de som e de fácil utilização, com in- dicações precisas para a localização das faixas por parte de alunos e professores, que não se restringisse apenas à apresentação oral dos textos que aparecem no livro do aluno, e que também fosse representativo da diver- sidade que desejávamos que fosse devidamente explo- rada, com um mínimo de verossimilhança, que apresen- tasse uma compatibilidade entre as vozes, os sotaques, a prosódia e as inflexões e os possíveis falantes repre- sentados por essas vozes; o trabalho, nas atividades, com a compreensão intensiva, a extensiva e a seletiva; a presença de atividades que explorassem a diversida- de de gêneros e situações e as variedades linguísticas (sociais, regionais e outras); o estímulo à interpretação dos textos orais em relação a seus objetivos, condições de produção e as prováveis reações dos interlocutores e seus efeitos para a comunicação. Produção Oral: a presença de atividades que levem ao uso de diferentes estratégias de comunicação (ver- bais e não verbais); a presença de situações diversifica- das de comunicação que permitam ao aprendiz a prá- tica de diversas formas de comunicação oral para além dos clássicos diálogos (conversação, entrevistas, deba- tes, apresentação de trabalhos, dramatizações, leitura, inclusive de textos poéticos e outros gêneros orais); o estímulo ao uso de diversas funções comunicativas; a preparação do aprendiz para a escolha e o uso de regis- tros, variedades de linguagem e itens lexicais, além de gestualidade, adequados às diversas práticas orais. Um outro componente avaliado foi o dos Conhe- cimentos linguístico-discursivos: gramática e vocabulá- rio e neste levaram-se em conta os seguintes critérios: a apresentação pelas coleções de insumo linguístico contextualizado e inserido em práticas discursivas va- riadas e autênticas; a correção, atualização e precisão dos conteúdos gramaticais e do vocabulário trabalha- dos; a adequação dos recursos (sonoros, visuais etc.) 73 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola aos conteúdos temáticos; a integração entre as formas linguísticas enfocadas e as atividades que visam ao de- senvolvimento das quatro habilidades; a apresentação e exploração de usos adequados às novas formas de comunicação; o trabalho com expressões e idiomatis- mos; o uso de estratégias de organização e expansão de conhecimento lexical; a precisão e adequação do vo- cabulário trabalhado e das traduções apresentadas nos glossários por vezes presentes nas coleções; a presença de atividades com vocabulário que considerem o nível fonético, fonológico, morfológico, sintático, semântico e pragmático-discursivo das palavras. As obras também foram avaliadas em relação ao componente Diversidade, cidadania e consciência crí- tica, fundamental num processo de ensino de línguas com uma concepção educativa. Levaram-se em conta, nesse sentido: o reconhecimento e respeito, nas cole- ções, à diversidade global e local, diversidade essa tra- tada sem idealizações e também sem preconceitos ou exotismos, com a apresentação de atividades que visem a desfazer os muitos estereótipos que circulam em nos- sa sociedade; a presença de atividades que estimulem a percepção e a valorização da realidade do aluno em relação a outras realidades (sociais, culturais, linguísti- cas etc.) e que levem à conscientização de que as di- ferenças sociais, raciais, de gênero, dentre outras, são socialmente construídas e podem causar desigualdades se não forem tratadas de modo adequado e respeito- so; a presença de atividades que estimulem a percepção da heterogeneidade dos usuários da língua estrangeira estudada (nacionalidades, gêneros, classes sociais, per- tencimento étnico-racial, profissões, trabalhos, espaços de poder etc.), trabalhada juntamente com a heteroge- neidade constitutiva do próprio aprendiz, de modo que este, vendo e compreendendo o outro, possa ver-se e compreender-se a si mesmo; a presença de atividades que tenham relevância para a realidade social política e cultural brasileira e que promovam positivamente a imagem da mulher, do afro-descendente e das etnias indígenas, além dos direitos humanos, das crianças e adolescentes, bem como a não discriminação de qual- quer tipo e a não violência. Da mesma forma que no PNLD 2010 – anos iniciais do EF – considerou-se também como fator de exclusão a qualidade do Manual do Professor. Entendeu-se que ele não deve limitar-se, tal como ocorre muitas vezes, a trazer as respostas às atividades propostas no Livro do Aluno, devendo ir muito além e servir inclusive como um material de estudo, contribuindo para a formação continuada do professor. Levaram-se em conta, então: a clareza na apresentação da proposta teórico-metodo- lógica e do enfoque adotado; a coerência entre o afir- mado e o realizado na coleção (propostas de atividades, exercícios etc.); a presença de uma proposta não fecha- da no que se refere à solução dos exercícios apresenta- dos; a presença de sugestões claras para o uso do livro e para ampliação das atividades; a citação das referências bibliográficas, bem como a apresentação de sugestões de leitura para o professor. Del dicho al hecho hay un trecho: a distância entre o dito e o feito na produção e utilização de materiais para o ensino de ELE Aprender sem pensar é esforço vão; pensar sem nada aprender é nocivo. (Kung Fu Tzu) É impossível abrir um livro sem que ele nos ensine alguma coisa. (Confúcio) Em que pese todo o detalhamento do Edital PNLD 2011, e sua relação clara com documentos anteriores nos quais esse caráter educativo do ensino de língua estrangeira na Educação Básica vem sendo reiterada- mente valorizado, o primeiro processo avaliativo do livro didático, descrito neste capítulo, foi ainda bastan- te decepcionante. Atribuímos, em parte, os problemas encontrados, que levaram a um número muito grande de coleções excluídas, à surpresa que significou, para as editoras e autores, a inclusão do espanhol nos anos finais do Ensino Fundamental, já que tudo indicava que isso ocorreria apenas para o Ensino Médio. No entanto, é preciso levar em conta que grande parte dos materiais analisados e excluídos já estão em circulação, são ven- didos a preços bastante altos e usados para ensinar os nossos jovens, razão pela qual não se justificam alguns dos problemas neles encontrados. Acreditamos e espe- ramos que, superada esta etapa, superem-se também as graves deficiências encontradas e possamos contar com materiais melhor elaborados e que sejam mais adequados ao tipo deensino de língua estrangeira que queremos garantir aos alunos de escolas públicas. Este é, portanto, o início de um processo de transformação nas obras didáticas de língua estrangeira, visto que, até então, não havia clareza do que se esperava de obras de qualidade para o contexto da escola pública, o que foi, então, proposto como critérios de avaliação no Edital PNLD 2011. Problemas que levaram às exclusões Um primeiro grande problema constatado nas co- leções excluídas foi a total distância, quando não in- coerência, entre o discurso (aquilo que aparece ou na Introdução ou no Manual do Professor) e a prática efe- tiva. Isto é, a maioria das coleções excluídas se filia, no discurso, a determinadas teorias e propostas metodo- lógicas, bem como a alguns documentos que norteiam a educação em nosso país (PCN, OCEM), sem que, no entanto, o efeito disso se constate nas propostas de 74 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola trabalho que apresentam. Muitas delas ficam distantes até mesmo do mais elementar da já clássica abordagem comunicativa, em princípio a predominante. Em muitos casos, fica evidente que, com a finalidade de adequar-se ao edital, foram acrescentadas, de última hora, em livros já disponíveis, informações, referências e reflexões mal assimiladas, que não deixam suas marcas nas atividades desenvolvidas e, além do mais, os tornam incoerentes. Estes apresentam-se bastante desatualizados do ponto de vista metodológico e muitas vezes também nas in- formações veiculadas. Os discursos sobre ensino de lín- guas constantes nas coleções, por exemplo, assumiam, por vezes, uma visão socioconstrutivista de aprendiza- gem, mas promoviam a formação de hábito linguístico e/ou um ensino totalmente centrado no professor. O problema anterior se reflete claramente no Ma- nual do Professor. Ficam claras, nele, as incoerências apontadas antes: muitos são insuficientes e nem sequer explicitam a sua base teórica e a sua proposta metodo- lógica; muitos confundem ou misturam questões de na- tureza muito diversa e aprofundam a incoerência entre o discurso e a prática; em alguns casos encontramos so- luções fechadas ou erradas para exercícios, orientações ao professor imprecisas e até mesmo mal escritas, com erros, tanto nas propostas para a condução das ativi- dades, quanto na adequação das respostas sugeridas; em outros, encontram-se informações bibliográficas er- radas ou desatualizadas; em outros aparecem informa- ções soltas e desnecessárias, posto que em nada con- tribuem para a obra; e, na maioria, constata-se pouca ou nenhuma preocupação com a função formativa que deveria ter o Manual em relação ao professor. Um outro problema constatado nas coleções foi o enorme volume de erros de todo tipo: muitíssimos de revisão, outros tantos na correlação livros-CD; impre- cisões na orientação ao professor a respeito de como desenvolver certas atividades; erros de natureza cultural, com informações equivocadas ou desatualizadas; erros de ortografia e de pontuação, de sintaxe e de concor- dância; erros de tradução (nos glossários, em especial). Esses erros aparecem, em alguns casos, tanto no input oferecido aos alunos quanto nas instruções dadas ao professor, em alguns casos mal redigidas, com equívo- cos e construções não próprias das línguas ensinadas. Em algumas coleções, a presença de erros próprios de interlíngua foi evidente. Contudo, mais ainda chamaram a atenção os erros conceituais: categorias e vocábulos mal classificados (por exemplo: lo[s], la[s], le[s] classifica- dos como pronomes reflexivos, gustar classificado com um verbo defectivo, só conjugado na terceira pessoa), regras mal formuladas, informações linguísticas desa- tualizadas, imprecisas, confusas ou diretamente com graves equívocos. Algumas coleções foram excluídas fundamentalmente por essa quantidade de erros, algo que torna impossível a sua utilização em sala de aula. Outro ponto importante que levou à exclusão foi a for- ma inadequada e insuficiente de trabalhar, de modo in- tegrado e de acordo com os objetivos educativos dos cursos a que se destinam esses materiais, as chamadas quatro habilidades (compreensão e produção escri- ta, compreensão e produção oral). Observou-se pouca integração entre elas e delas com o conhecimento de vocabulário. A análise das propostas para o desenvolvi- mento dessas habilidades nas coleções excluídas deixou claro o conceito de língua com que, no fundo, quase todas trabalham, em desacordo com o que dizem tra- balhar e com o que se solicita no Edital. A maioria des- sas coleções tem, ainda, um perfil claramente estrutural, voltado para a incorporação, a automatização e o trei- no de pronúncia (nem sempre bem feito), de estruturas gramaticais e de vocabulário (com sérios problemas, em alguns casos). A coletânea de textos mostrou-se muitas vezes po- bre, com escassa presença de textos autênticos (quando estes existem, o que nem sempre ocorre), de gêneros e tipologias diversificados, bem como o trabalho incon- sistente de formação do leitor reflexivo e crítico e a pra- ticamente nula preocupação com a formação do leitor literário. As atividades de produção escrita ficam bas- tante restritas à produção de sentenças e, quando vão além disso, ainda têm predominantemente o caráter da velha atividade de redação escolar, em que se leva em conta não o processo, mas o produto final, muitas vezes feito sem planejamento, sem a consideração dos seus propósitos, dos seus destinatários e dos meios em que o texto a ser produzido poderia circular. As atividades de compreensão oral em muitos casos limitam-se à escuta, por vezes desnecessária, dos textos presentes no livro do aluno, sendo mínima a presença de textos de fontes variadas (rádio, TV, cinema, Internet etc.). As atividades de produção oral se concentram em propostas de repe- tição e substituição de itens a partir de alguns modelos ou de conversas com colegas, sem o estabelecimento de finalidades precisas, e sem preocupação com esco- lha, por parte do aluno, de registro e vocabulário ade- quados à situação de fala, que lhe permitam fazer-se entender, sem preocupação com levá-lo a negociar sen- tidos para compreender e ser compreendido pelo seu interlocutor. No fundo, nos livros, tudo está organizado ainda em função da exploração de itens gramaticais e de vocabulário. Também se mostraram inconsistentes algumas das propostas classificadas de transversais e interdisciplina- res. Em algumas coleções sequer são mencionadas. Em outras, quando o são, algumas mostram-se impraticá- veis, outras são pouco relevantes e, na maioria dos ca- sos, faltam orientações, em especial ao professor, sobre como implementar as atividades. Muitas vezes, o diálogo 75 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola entre as disciplinas foi proposto através de orientações simplificadas para o professor ou para o aluno, na forma de instruções do tipo “peça ajuda ao professor de ma- temática”, “O professor de artes pode ajudar na elabo- ração de cartazes”. Em alguns casos, revela-se um profundo desconhe- cimento das muitas facetas da realidade brasileira e da diversidade que caracteriza as situações de ensino em nosso país. Realidades como a rural, a indígena e ou- tras tantas são praticamente ignoradas e reina absoluta a classe média urbana, com todos os seus valores. Al- guns desses problemas foram interpretados, inclusive, como potenciais fatores de exclusão de certos grupos de aprendizes, já que são ignorados ou subrepresenta- dos os grupos aos quais pertence uma grande parcela dos nossos alunos de instituições públicas. Outro fator importante que levou à exclusão de uma grande quantidade de coleções foi o trabalho quase inexistente e, quando existente, no mínimo sofrível, com a variaçãonas línguas. Algumas nem fazem menção às variedades linguísticas (nem diatópicas, nem diastrá- ticas, nem diafásicas), outras as reduzem a pequenas questões, meras “curiosidades”, como um que outro sotaque mal trabalhado ou mal imitado por algum dos que gravam faixas nos CDs; e outras o fazem com erros graves, quando não com certo grau de preconceito e muita estereotipia. Constata-se que faltam conhecimen- tos básicos de sociolinguística e dialetologia, dentre ou- tros, conhecimentos esses que poderiam dar bases mais sólidas para a abordagem desses temas. Chama particu- larmente a atenção a quase ignorância com relação às variedades americanas e suas peculiaridades em todos os níveis. Tanto quanto isso, chama a atenção o trata- mento inadequado ou parcial (quando existe) de fenô- menos como o voseo, o seseo, o yeísmo e outros tantos. O problema maior Os problemas relatados apontam para uma questão muito séria: o nível insuficiente de formação ou a falta de atualização de alguns produtores de manuais ou a falta de cuidado no controle dessas produções por parte das editoras responsáveis. Nota-se, lamentavelmente, por parte de alguns autores, uma integração precária entre os conhecimentos de língua, os conhecimentos sobre a língua e seus instrumentos de análise e descrição; entre os conhecimentos de cultura e suas formas de apresen- tação, pois esta, em alguns casos, é explorada de modo absolutamente redutor e estereotipado, sem atividades reflexivas e críticas; uma incapacidade de pôr em práti- ca, no desenvolvimento das propostas didático-peda- gógicas, os conhecimentos teórico-metodológicos Preocupa-nos sobremaneira a constatação de que, na formação do professor e do produtor de materiais di- dáticos, os conhecimentos de didática e os conhecimen- tos de língua parecem não se complementar, parecem dissociados, como se um não dependesse do outro para o êxito de qualquer atividade de ensino e aprendi- zagem. Preocupa-nos, também, o enorme abismo que parece haver entre a pesquisa acadêmica sobre a língua e sobre as formas de levar a cabo o ensino e a apren- dizagem e a produção de materiais. Muitas vezes esses conhecimentos aparecem apenas na forma de um dis- curso vazio e reproduzido, sem efeitos práticos. Constata-se, consequentemente, uma perigosa re- produção do senso comum, das “verdades” não verifi- cadas, de “regras” superadas, de afirmações que não passaram por nenhuma averiguação ou crivo nem por qualquer tipo de reflexão e crítica. A “experiência”, pon- to de apoio e “bandeira” fundamental de alguns desses produtores de livros, embora importante e necessária, não garante a qualidade dos materiais. Além dela, é preciso estudo, atualização mediante leitura e pesqui- sa sistemática, aprofundamento das questões, até para saber como apresentá-las de modo simples (mas não redutor), claro, preciso e correto. E essa pesquisa não pode se limitar a apenas um dos componentes daquilo que deveria configurar a formação integral de um pro- fessor. O que se espera A exclusão das coleções que não atenderam aos critérios do Edital significa – usando palavras pronun- ciadas pelas coordenadoras de área e institucional do PNLD 2011 – “a proteção de uma qualidade do ensino de língua estrangeira nas escolas públicas, que aten- dem a alunos a quem, por muito tempo, o acesso a esse bem cultural foi praticamente negado.” Espera-se que essas primeiras avaliações contribuam, de fato, para uma mudança qualitativa nos materiais produzidos, mas também na formação dos que produzem materiais e na forma de pensar e praticar o ensino de línguas na escola regular. Espera-se que as editoras passem a produzir os livros que interessam à nossa escola, aos nossos alunos e ao sentido de educação linguística, mais do que propriamente de ensino de línguas, que queremos privilegiar. Isso tudo para que o lema ado- tado no Guia de Livros Didáticos do PNLD 2011 possa de fato ser posto em prática: “Lugar de aprender língua estrangeira é na escola”. Espera-se também, portanto, [...] que a universalização da distribuição de livros didáticos de espanhol e de inglês para escolas públi- cas contribua também para que seja possível a essas escolas elaborar projetos político-pedagógicos que integrem ao máximo o ensino dessas línguas em suas grades, com propostas de trabalho de qualidade, ga- rantindo, para as línguas estrangeiras, distribuição de carga horária justa e adequada. (Guia PNLD 2011, p. 13) 76 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Por fim, sugere-se que os editais já publicados e aqueles que ainda o serão, que os textos introdutórios e resenhas que aparecem nos diversos Guias do Livro Didático publicados e por publicar sejam objeto de es- tudo e reflexão por parte dos formadores de professo- res, professores, coordenadores pedagógicos, autores e editores de materiais para o ensino e quantos mais estiverem empenhados na melhoria da educação em nosso país, em especial no âmbito público, posto que se trata de reflexões sérias e coerentes, feitas com bases teórico-metodológicas sólidas, apoiadas em pesquisas e pensadas para a realidade nacional. 10 COMPREENSÃO DE TEXTOS DE AUTORES MODERNOS E/OU CONTEMPORÂNEOS. A compreensão escrita está na compreensão do processo de leitura, que inclui não apenas o texto es- crito, mas também a compreensão e a produção orais. A polissemia da noção de leitura faz com que o pro- fessor depare com diferentes concepções e orientações teórico-metodológicas no trabalho com a leitura na es- cola. Entender, por exemplo, a leitura como uma ativi- dade de construção de sentidos, leva a afirmar que o sentido não está no texto como algo a ser descoberto, mas se produz mediante uma negociação intensa entre o que ao leitor este texto oferece e aquilo que ele traz de seu conhecimento de mundo, modelos cognitivos e conhecimento sistêmico, por exemplo. De acordo com essa perspectiva, têm especial rele- vância os aspectos cognitivos que constituem a leitura e, portanto, os conhecimentos prévios e sua ativação, movimento essencial para a compreensão de um texto (KLEIMAN, 2002), uma vez que toda leitura implica uma mobilização, por parte do leitor, dos conhecimentos que ele adquiriu, durante a sua vida, os quais são de tipos diversos, abarcando, desde o conhecimento linguístico até o chamado conhecimento de mundo. Ao tratar de leitura, no entanto, pode-se conside- rar, ainda, que esta atividade mobiliza, também, por parte do estudante-leitor, uma percepção acerca de seu modo de estar no mundo. Compreende-se, portanto, que o trabalho com a leitura, na escola, se situa na tensão entre o que traz o leitor e o que o texto, como objeto histórico, lhe apre- senta, propiciando-lhe reafirmar, questionar, deslocar seus conhecimentos já construídos. No trabalho com a leitura, é preciso, assim, considerar tanto as condições de produção do texto quanto aquelas de sua leitura, o que significa levar em conta, entre outros aspectos, o contexto sócio-histórico em que essa produção está in- serida, ou seja, sua relação com outros textos e também com outros discursos, visto que o sentido não está nem no texto nem nos sujeitos, mas nesse espaço em que estão situados os sujeitos sociais relacionados pelo viés do texto. Diante de um texto, portanto, o leitor não apenas reconhece o que está posto, mas produz sentidos, a par- tir de sua relação com o dito, uma vez que todo leitor é também um sujeito inscrito social e historicamente, constituído por uma história de leitura que irá definir os seus modos de ler. Importa, no entanto, lembrar que a leitura tende a ser múltipla, mas não pode ser qualquer uma, dado que as condições de produção de um texto podem nos indicar os sentidos possíveis de serem atri- buídos a ele, apontando o quepode (ou não) ser dito sobre aquele texto, considerando suas relações com ou- tros textos, com o contexto sócio-histórico de sua pro- dução, entre outros aspectos. A escola pode trabalhar no sentido de “modificar as condições de produção da leitura do estudante” (OR- LANDI, 2001, p.44), fazendo com que ele construa uma história de leituras e, também, ajudando-o no resgate da história dos sentidos, que atravessam os textos, cuja leitura é proposta, ou seja, auxiliando-o na observação da relação desse texto com outros textos, com os dis- cursos de que é parte e, também, com outras leituras que foram feitas a respeito desse objeto de análise, que é o texto. Aproveitando-se do que, no processo de lei- tura, é passível de sistematização e olhando para o texto como “aberto”, podemos auxiliar no trabalho de cons- trução de leituras, que não se restrinjam à repetição do dito, mas que constituam como um trabalho efetivo do sujeito sobre o lido. Na perspectiva de ensino de espanhol estabelecida por estes parâmetros, ler é uma atividade sociodiscursi- va e intercultural fundamental para a formação dos in- divíduos. Deve, portanto, ser fortemente estimulada no processo de ensino-aprendizagem dos estudantes, para que eles possam acessar informações de variados tipos, enfrentar-se com pontos de vista diversos acerca de um mesmo tema, entrar em contato com o conhecimento sócio-cultural produzido no mundo hispano-falante e posicionar-se mais criticamente e mais autonomamente frente às demandas contemporâneas e futuras. Fonte: Parâmetros para a Educação Básica do Estado de Pernambuco Produção escrita Um dos primeiros aspectos a considerar em re- lação ao processo de produção da escrita é o próprio desafio que ela representa: é uma interação que se es- tabelece em ausência do interlocutor, diferençando-se 77 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola da interação oral, na qual os parceiros encontram-se em presença na simultaneidade da fala. Logo, o interlocutor do texto escrito a razão mesma da existência do texto vem a ser um projeto do escritor que utilizará estraté- gias da língua escrita para suprir essa não-presença. As- sim, quem escreve se vê obrigado a expor informações/ ideias de maneira mais clara, planejada e detalhada que na situação de interação face a face, caracterizando tal processo como aquele que precisa evitar a ambiguidade e perseguir a clareza. Além disso, há a questão de que o conhecimento exigido do código linguístico é de na- tureza diversa na situação de interação escrita se com- parada com a oral e que, ainda, os possíveis contextos socioculturais, relevantes na constituição dos diferentes sentidos, na escrita precisam ser recuperados por quem escreve, enquanto na oral ambos os participantes po- dem estabelecer as referências necessárias. No contexto social brasileiro, no qual a circulação do escrito é de acesso desigual, é possível que o jovem aluno dos terceiro e quarto ciclos não tenha tido opor- tunidade de conviver com a importância e com o papel social dessa forma de manifestação discursiva. Não por desconhecimento da modalidade, pois ele se encontra em processo de construção de sua expressão escrita em língua materna, o problema se constitui no conhe- cimento prévio que esse aluno detém em relação aos espaços sociais que requerem o seu uso. Uma forma de tentar ultrapassar as dificuldades que a escrita apresenta para esse momento da aprendiza- gem seria utilizar, como base de todo o planejamento, as relações que se podem estabelecer entre o conheci- mento de mundo e as diferentes formas de organizá- -lo em textos por meio da escrita. Essa aprendizagem requer que se tenha uma compreensão clara da relação entre o processo de escrita e um determinado produto (o seu produto específico), considerado (s) seu (s) obje- tivo (s) e possíveis utilizações sociointeracionais. A questão da metacognição do processo da escrita põe em evidência a relação entre o que se está apren- dendo, o como e qual o propósito da aprendizagem. Importa ter clareza 99 do que se espera que o aluno produza na modalidade escrita: é preciso que haja uma relação de possibilidade real de existência da tarefa e o seu resultado, isto é, que a solicitação de produção escrita ao aluno deixe clara a situação de comunicação: quem escreve, com que finalidade, para quem, de modo que necessidades e desejos possam vir a ser expressos, já que o uso da linguagem só se concretiza a partir de um lugar de produção histórico, cultural e institucional- mente determinado. Outros elementos dizem respeito a: - motivações extremamente ligadas aos interesses da faixa etária e ao grupo social no qual se inserem os alunos; - incentivo à criatividade resultante da possibili- dade de se atenuarem as relações de poder na sala de aula, permitindo situações de produção nas quais o aluno possa contribuir de forma mais atuante; - Trabalho em grupo forma que permite mais fa- cilmente a concretização da ideia de que os sentidos se produzem na interação; - o papel do professor na visão sociointeracionis- ta o de responsável pela organização das interações na sala de aula, bem como o de buscar o equilíbrio das relações nesse contexto. A ativação desses metaconhecimentos adquiridos ao longo da seriação escolar é instrumento impor- tante na construção do texto escrito, tanto do ponto de vista da relação entre leitura e escrita como da possibilidade de transposições do oral para o escrito. Outra questão é traçar metas realistas para a pro- dução escrita. Isso é possível a partir da observação das condições em que se desenvolve a aprendiza- gem, da definição das etapas didáticas e da escolha de ferramentas apropriadas. Entre as etapas que po- dem caracterizar as tarefas de produção escrita (pla- nejamento, produção e revisão) mereceria especial atenção a de revisão do texto produzido. Esta pode ser realizada com a cooperação de um colega de modo a colaborar na construção da aprendizagem; na percepção de que o significado é uma construção social, viabilizada na própria tarefa de produzir um texto em conjunto; e na compreensão de que a tarefa de produção escrita requer aprimoramento do texto produzido em razão da necessidade de perseguir a clareza e de se antever as dificuldades que o leitor possa ter. Uma das ferramentas essenciais para a produção escrita diz respeito ao uso de materiais que devem estar disponíveis como apoio para consulta, inclusive em momentos de avaliações formais. Porque encon- trar saídas e soluções para impasses da escrita como tarefa do próprio aluno corrobora a busca da auto- nomia na construção do conhecimento. Os materiais a serem utilizados como apoio tanto podem ser adquiridos dentre publicações disponíveis como ser elaborados pelo grupo de aprendizes e/ ou pelo professor. A opção pelo material dependerá das atividades a serem desenvolvidas, de modo que a cada grupo pode corresponder um conjunto não exa- tamente igual ao de outro de mesmo nível, no que diz respeito aos conteúdos sobre o que se escreve e não propriamente a conhecimento sistêmico e orga- nizações textuais. A relação material de apoio/tarefa se estabelece a partir das necessidades e desejos de- tectados pelo professor em relação ao grupo. 78 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Seguem alguns recursos que podem ser utilizados como apoio nas aulas de produção escrita em Língua Estrangeira: - dicionário, mono ou bilíngue; -glossário construído em sala de aula, constituído à medida que avancem os temas; uma possibilidade é haver um rodízio da responsabilidade das anotações entre os grupos de aprendizes, os quais estarão res- ponsáveis por transmitir aos demais o registro feito em sala; - guias de apoio,que contenham: * conjugações: em que constem não só paradig- mas, mas também explicações sobre o uso de modos e tempos verbais predominantes nos tipos de textos em estudo e os efeitos de sentido que criam esses usos; * elementos gramaticais: considerados fundamen- tais para a compreensão dos tipos de textos que este- jam sendo produzidos; * características dos tipos de textos em estudo: in- formações sobre quem produziu, para quem, sobre o que, quando, porque e onde; o texto de suporte escri- to ou oral, e ainda, o tipo de veículo no qual se insere o texto (revista, jornal etc.). Como forma de estruturar a aprendizagem da produção escrita em Língua Estrangeira, alguns ele- mentos precisam ser observados. O estímulo escrito e/ ou oral deverá ser analisado quanto às suas regras de organização textual, de modo que o processo de es- truturação da escrita tenha fundamentos e referências bem explicitados. Outra questão importante diz respeito ao apro- veitamento da Língua Estrangeira escrita que existe no contexto sociocultural da situação escolar: é uma experiência adquirida numa situação concreta de co- municação, facilitadora da sua utilização em outros contextos. Consideradas essas observações, não convém so- licitar que um aluno produza um texto escrito em Lín- gua Estrangeira sem o prévio conhecimento do seu processo de produção/circulação. O professor pode considerar a análise de um tipo de texto e/ou conhe- cimento de mundo como fonte primária de informa- ções. A articulação desses diferentes conhecimentos é relevante para a organização de todo o planejamento e permite iluminar os caminhos a serem percorridos pelo aluno. Fonte: Parâmetros Curriculares Nacionais - tercei- ro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua es- trangeira /http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/ pcn_estrangeira.pdf COMPREENSÃO O processo da compreensão escrita e oral envolve fatores relativos ao processamento da informação, cog- nitivos e sociais. Os fatores relativos ao processamento da informação têm a ver com a atenção, a percepção e decodificação dos sons e letras, a segmentação mor- fológica e sintática, a atribuição do significado ao nível léxico-semântico, e a integração de uma informação a outra. Os fatores cognitivos envolvem a contribuição do leitor/ouvinte, a construção do significado (a formulação de hipóteses sobre os significados possíveis com base no seu pré-conhecimento de mundo) e de organização textual e os fatores sociais, que englobam a interação/ falante e escritor/ouvinte localizada na história, na insti- tuição e na cultura. Isso significa dizer que compreender envolve crucialmente a percepção da relação interacio- nal entre quem fala, o que, para quem, por que, quando e onde. Deve-se dizer, ainda, que a compreensão é uma atividade com propósito definido, pois aqueles envol- vidos nesse processo estabelecem objetivos quanto à finalidade do ato de compreender em que estão enga- jados (por exemplo, ler um jornal, ouvir uma notícia no rádio, compreender um texto escrito sobre as regras de um jogo, ler uma bula etc., definem objetivos de com- preensão específicos). Outro aspecto importante é que o resultado do processo de compreensão é variado por estarem envolvidas pessoas diferentes, com propósitos interacionais nem sempre iguais, e conhecimento de mundo variados. Na sala de aula, esse resultado envol- verá, portanto, as contribuições, as divergências, crenças e valores dos participantes desse contexto na constru- ção social do significado. Percebe-se, portanto, a com- plexidade do processo de compreensão com o qual o aluno de Língua Estrangeira se depara. Contudo, deve- -se ressaltar que esse processo já foi vivenciado pelo aluno na aprendizagem de sua língua materna, o que deve facilitar a aprendizagem da compreensão escrita e oral em Língua Estrangeira. Compreensão escrita Provavelmente, o fator mais característico da com- preensão escrita seja a ausência do interlocutor. Ao con- trário do que ocorre, em geral, na compreensão oral, normalmente o interlocutor não está presente face a face, mas os vestígios de sua presença restam nas mar- cas que o escritor escolheu deixar no texto. Cabe ao leitor, com base nessas marcas, se envolver na conversa com o escritor. Há evidências dessa conver- sa entre o leitor e o escritor em certas marcas do discur- so escrito (por exemplo, em resumo, como já apontei acima etc.) em que fica clara a natureza interacional do discurso escrito. No que se refere ao ensino da com- 79 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola preensão escrita em Língua Estrangeira, para facilitar o engajamento discursivo do leitor-aluno, cabe privilegiar o conhecimento de mundo e textual que ele tem como usuário de sua língua materna, para se ir pouco a pouco introduzindo o conhecimento sistêmico. Desse modo, o foco no terceiro ciclo é em compreensão geral, enquan- to no quarto ciclo é em compreensão geral e detalhada. Um aspecto importante relacionado ao ensino da leitura é que ensinar a ler não envolve necessariamente fazer ler em voz alta. A leitura em voz alta abarca o conhecimen- to sobre a estrutura sonora da língua e pode atrasar o engajamento do aluno na construção do significado. O que é crucial no ensino de leitura é a ativação do conhe- cimento prévio do leitor, o ensino de conhecimento sis- têmico previamente definidos para níveis de compreen- são específicos e a realização pedagógica da noção de que o significado é uma construção social. Além disso, a leitura abarca elementos outros que o próprio texto escrito, tais como as ilustrações, gráficos, tabelas etc., que colaboram na construção do significado, ao indicar o que o escritor considera esclarecedor ou principal na estrutura semântica do texto. Segue-se a explicitação de cada um desses conhecimentos em relação ao papel que desempenham na aprendizagem da leitura. O conhecimento de mundo tem um papel primor- dial, pois, ao ler, o aluno cria hipóteses sobre o significa- do que está construindo com base em seu pré-conhe- cimento. Por exemplo, ao encontrar a palavra cinema em um texto, o leitor aciona o seu conhecimento sobre cinema. Assim, caminha pelo texto projetando coerência por meio da representação do mundo textual que vai elaborando com base do que se sabe sobre cinema. O conhecimento de organização textual também facilita a leitura ao indicar para o aluno como a informa- ção está organizada no texto. Por exemplo, ao ler uma história, o leitor-aluno, confiando em seu conhecimento da organização de histórias, sabe que sua compreensão será balizada pelo modo como as histórias se organi- zam. Assim, após encontrar a situação da história em que estão apresentados os personagens e o contexto em que atuam, o aluno se prepara para encontrar o pro- blema, em seguida a solução e a avaliação. O conhecimento sistêmico contribui para a ativação e a confirmação das hipóteses que o aluno está elabo- rando. Nos estágios iniciais de aprendizagem, o conhe- cimento referente aos itens lexicais é crucial, já que fa- cilita a ativação de conhecimento do mundo do aluno. O conhecimento da morfologia da Língua Estrangeira, ao indicar o papel gramatical do item, colabora para a compreensão. Por exemplo, a marca de advérbio -men- te, em espanhol e português; -ment, em francês; e -ly, em inglês indica para o leitor o modo como a ação ver- bal está se desenvolvendo. Parte desse tipo de conhecimento também englo- ba os elos coesivos que o leitor tem de reconhecer no estabelecimento da referência pronominal, lexical etc., como também os conectores das partes do dis- curso. Por exemplo, ao identificar que os conectores parce que, em francês, because, em inglês e porque, em espanhol, indicam uma relação semântica de causa entre duas partes dodiscurso, o leitor tem sua com- preensão facilitada por entender a relação semântica, ainda que tenha dificuldades com outros elementos sistêmicos. Em relação a esse conhecimento é preciso não esquecer que o tipo de conhecimento requerido do aluno é em nível de reconhecimento apenas, não de produção. Ao ensinar os tipos de conhecimento menciona- dos, o professor deve se balizar pelos conhecimentos que o aluno tem de sua língua materna e do mundo. Por exemplo, numa atividade de leitura, o professor deve fazer com que o aluno tome consciência do que já sabe ao explorar itens lexicais cognatos. O estabelecimento de metas realistas faz parte de qualquer processo de ensino e aprendizagem. No caso da leitura, metas realistas estão intrinse- camente vinculadas à definição do nível de compreen- são que se deseja alcançar. Esse fator, por sua vez, relaciona-se com a autoestima do aluno, pois o desa- fio encontrado é enfrentado com sucesso. Orientações didáticas para o ensino da compreensão escrita. Primeiramente, é necessário que o professor es- colha o texto a ser usado para, a seguir, estabelecer um propósito para a leitura (o que pode ser feito em conjunto com a classe). Esse propósito definirá o nível de compreensão a ser alcançado, o que pode abarcar desde uma compreensão geral em relação ao que é tratado no texto, até a procura de uma informação es- pecífica, por exemplo, uma data, um nome etc. É útil pensar sobre o trabalho em fases que podem ser cha- madas de pré-leitura, leitura e pós-leitura. Pré-leitura Esta fase é caracterizada pela sensibilização do aluno em relação aos possíveis significados a serem construídos na leitura com base na elaboração de hi- póteses. Engloba: - ativar o conhecimento prévio dos alunos em re- lação ao conhecimento de mundo: explorar o título, subtítulos, figuras, gráficos, desenhos, autor, fonte; - ativar o pré-conhecimento do aluno em relação à organização textual: explorar itens lexicais (era uma vez), cabeçalhos (de carta), a distribuição gráfica do texto (listagem de ingredientes) etc., reveladores da organização textual; 80 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola - situar o texto, identificando quem é o autor, o lei- tor virtual, quando e onde publicado e com que propó- sito (a quais interesses serve), de modo a evidenciar a leitura como uma prática sociointeracional. Leitura Nesta fase que o aluno tem de projetar o seu co- nhecimento de mundo e a organização textual nos elementos sistêmicos do texto. Com base no nível de compreensão previamente estabelecido, o professor ca- pitaliza nas estratégias de leitura que o aluno tem como leitor em sua língua materna e nos itens lexicais e gra- maticais semelhantes aos da língua materna e em outros itens sistêmicos diferentes, na dependência do nível de compreensão. É claro que para níveis de compreensão mais detalhada a familiarização com elementos sistêmi- cos diferentes da língua materna será necessária. É importante também que o aluno aprenda a adivinhar o significado de palavras que não conhece, por meio de pistas contextuais, da mesma forma que é essencial que aprenda a desconsiderar a necessidade de conhecer todos os itens lexicais para ler. São importantes as estratégias de integração de uma informação a outra, o estabelecimento dos elos coesivos e a utilização de estratégias de inferência. É crucial que o aluno aprenda a distinguir entre informações centrais na estrutura semântica do texto e os detalhes. Pós-leitura Ao final da leitura, o professor poderá planejar ativi- dades destinadas a levar os alunos a pensar sobre o tex- to, emitir suas reações e avaliar, criticamente, as ideias do autor. O foco essencial é no relacionamento do mun- do do aluno com as ideias do autor. Esses aspectos mais críticos evidenciados nesta fase devem perpassar toda a atividade de leitura, embora pedagogicamente estejam concentrados aqui. Para o desenvolvimento da habilidade de compreen- são escrita é necessário poder dispor de uma grande variedade de textos de diversos tipos, provenientes de jornais, revistas, instruções de jogos e de funcionamen- to de aparelhos, livros, da Internet etc. Será importante envolver os alunos nesse processo de coleta de textos para se assegurar, por um lado, o interesse dos alunos, e por outro lado, a conexão entre o que se faz na sala de aula de Língua Estrangeira e o mundo fora da escola onde a língua estrangeira é usada. Neste particular, os livros didáticos, em geral, não cumprem esse objetivo, pois os textos que neles se encontram são, na maioria das vezes, elaborados e/ou selecionados tendo em vis- ta o ensino do componente sistêmico, que na propos- ta destes parâmetros não é fim, mas sim um dos tipos de conhecimento que possibilitam a aprendizagem de Língua Estrangeira pelo envolvimento no discurso. A vi- são de leitura adotada difere daquela tradicionalmente seguida em sala de aula e em material didático, centra- da em aspectos de decodificação da palavra escrita, em que o único conhecimento utilizado pelo leitor-aluno é o sistêmico, baseando-se numa concepção de leitu- ra em que o significado é inerente ao texto e não uma construção social. Exemplos de tarefas de compreensão escrita: Exemplo 1 Meta: distinguir as ideias principais dos detalhes com base na organização textual. Fase: leitura. Atividade: identificar as ideias centrais em cada parágrafo de uma história de modo a produzir um resumo. Exemplo 2 Meta: formular hipóteses sobre o conteúdo de tex- tos, usando-se o conhecimento prévio, de mundo dos alunos. Fase: pré-leitura. Atividade: responder perguntas, participar de discussão sobre determinado assunto, que será posteriormente encontrado em um texto. Exemplo 3 Meta: desenvolver atitude crítica. Fase: pós-leitura. Atividade: identificar alguns sinais de preconceitos na maneira como pessoas ou lugares são tratados no texto. Exemplo 4 Meta: localizar e levantar informações em um texto. Fase: leitura. Atividade: encontrar nomes de pessoas ou de lugares, datas. Comentários: O exemplo 1 chama a atenção para como a orga- nização textual reflete a organização da informação no texto, o que possibilita distinguir as ideias centrais de ideias secundárias; O exemplo 2 indica que a construção do significado depende da contribuição dos leitores, ao mesmo tempo que mostra que a leitura é um ato social; O exemplo 3 desenvolve a consciência no leitor de que as pessoas quando usam a linguagem fazem esco- lhas que refletem suas visões de mundo, preconceitos etc. O exemplo 4 indica que leitores têm propósitos es- pecíficos, ou seja, nem sempre é necessário ler o texto todo, dependendo do objetivo da leitura. 81 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola Orientações didáticas para o ensino da produção escrita e da produção oral Tendo em vista a semelhança entre esses dois processos, serão tratados em conjunto, ressalvando-se, é claro, as peculiaridades referentes a cada modalidade. No ensino da produção escrita e oral é particularmente importante fazer com que o aluno se dê conta de como os três tipos de conhecimento de mundo, sistêmico e da organização textual estão articulados na construção do significado. Além disso, ao escrever e ao falar, o aluno precisa perceber o ato interacional envolvido na escrita e na fala, pois quem usa a linguagem o faz em relação a alguém, com um propósito determinado etc., ou seja, para agir no mundo social. Em suma, não escreve ou fala simplesmente para cumprir uma tarefa escolar, sem se dar conta de quem são os participantes envolvidos, seus propósitos etc. Para melhor esclarecer a articulação desses conhecimentos no ensino de produção escrita e oral, apresentam-se dois quadros. O QuadroI refere-se à produção escrita e o Quadro II à oral. Nesses quadros são expostas algumas possibilidades de articulação dos conhecimentos no uso da linguagem e um conjunto de tratamentos metodológi- cos, facilitadores da aprendizagem dessas habilidades comunicativas. São apresentados, no Quadro I, o tema Esportes, e no Quadro II, o tema Eu e o Outro, a título de ilustração, a serem desenvolvidos na produção escrita e na produção oral dos alunos, respectivamente. Algumas indicações em relação ao conhecimento sistêmico e de organização textual são oferecidas para que possam servir de apoio para o desenvolvimento de outras propostas. As indicações em relação ao conhecimento sistêmico são apresentadas em (a), (b), (c) e (d), de modo a oferecer um conjunto de elementos que possibilitem a abordagem de um determinado tema a partir da produção de um tipo específico de texto. Os quadros, portanto, respondem as seguintes perguntas: Sobre o que se vai escrever ou falar? Qual é o tema? Que tipo de texto será produzido na escrita e na fala? Que elementos sistêmicos serão usados para tal? Qual o tratamento metodológico? QUADRO I TIPOS DE CONHECIMENTO 82 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola 83 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola QUADRO II TIPOS DE CONHECIMENTO 84 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola 85 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola 11 AVALIAÇÃO NO ENSINO E APRENDIZAGEM DA LÍNGUA ESPANHOLA NA EDUCAÇÃO BÁSICA. Conceito A avaliação é parte integrante e intrínseca ao pro- cesso educacional, indo muito além da visão tradicional, que focaliza o controle externo do aluno por meio de notas e conceitos. A função da avaliação é alimentar, sustentar e orien- tar a ação pedagógica e não apenas constatar um certo nível do aluno. Está implícito, também, que não se ava- liam só os conteúdos conceituais, mas também os pro- cedimentais e os atitudinais, indo além do que se ma- nifesta, até a identificação das causas. A avaliação assim entendida oferece descrição e explicação; é um meio de se compreender o que se alcança e por quê. Torna-se, desse modo, uma atividade iluminadora e alimentadora do processo de ensino e aprendizagem, uma vez que dá retorno ao professor sobre como melhorar o ensino, possibilitando correções no percurso, e retorno ao alu- no sobre seu próprio desenvolvimento. Ensinar torna-se, então, um processo dinâmico no qual há reações, ao fluir da interação, entre professor e aluno, entre aluno e aluno e entre aluno e conteúdos. É um processo interativo e negociável, essencial, tanto para o processo de aprendizagem quanto para balizar o desenvolvimento de programas e currículos. Nessa perspectiva, as decisões a serem tomadas a respeito de conteúdo, métodos e objetivos necessitam de infor- mações que vêm da avaliação, que deve ser, portanto, contínua e sistemática, oferecendo uma interpretação qualitativa do conhecimento construído. Deverá ficar claro, a partir dessas considerações, que avaliação não deve ser confundida com testes, tão fre- quentes na avaliação de Língua Estrangeira. Estes são instrumentos, meios para um fim. Os testes, ou provas, constituem meios de se ava- liar um aspecto apenas do processo de aprendizagem, ou seja, o produto em relação ao desempenho, tendo em vista determinados conteúdos ou objetivos, em ter- mos de progresso ou de proficiência. Não podem ja- mais constituir-se em instrumentos de ameaça ou inti- midação, para mostrar apenas o que o aluno não sabe, situando-se acima de suas possibilidades. Outro proble- ma com os testes é que apresentam grandes dificulda- des na sua preparação para que fiquem garantidas cla- reza nas instruções, coerência com o que foi ensinado e ausência de ambiguidades, e, particularmente no caso de língua estrangeira, contextualização do item que está sendo testado. Ao se preparar um teste é fundamental ter clareza do propósito no uso daquele instrumento, o que vale dizer, ter clareza a respeito do que se está avaliando. Como todos os aspectos de uma avaliação formativa, os testes também devem ter por objetivo me- lhorar o conhecimento e não apenas fazer julgamentos. Isso significa que se torna essencial a interação profes- sor-aluno em relação ao teste, após sua utilização: a de- volução deve envolver uma discussão dos resultados e das possíveis razões para a falta de sucesso, se for o caso, evitando-se, assim, um sentimento de fracasso. Deve-se ter bem claro que os testes são só um ele- mento da avaliação, que se refere ao produto da apren- dizagem, cabendo mais como componentes de uma avaliação somativa. Vale dizer: uma avaliação que se proponha responder apenas às perguntas “Funcionou? O que aconteceu?” não permite mais ajustes no desen- volvimento de um programa ou na aplicação de um tipo de material ou de metodologia. Refere-se ao “depois”. O que interessa particularmente a uma avaliação for- mativa, como a que aqui se propõe, é encontrar meios de responder às perguntas: “Está funcionando? O que está acontecendo?”. Assim, de acordo com o teor das respostas, poder redirecionar o percurso. Refere-se ao “durante”. Eis uma analogia sugerida para ajudar a en- tender a diferença. Quando a cozinheira experimenta a sopa na cozinha, está fazendo uma avaliação formativa (há possibilidades de se fazerem ajustes no processo de cozimento); quando os comensais experimentam a sopa na sala de jantar estão fazendo uma avaliação somativa (o produto está sendo oferecido como pronto). É necessário enfatizar a diferença entre avaliar a capacidade de desempenho do aluno e estabelecer diferentes níveis de proficiência. A avaliação somativa, e os testes em particular, dão informação e certificam os níveis de proficiência alcançados, mas não revelam o desenvolvimento do processo de aprendizagem. Em uma avaliação formativa interativa há procedimentos constantes e personalizados envolvendo professor e alunos, a partir de critérios não apenas normativos, mas principalmente pessoais, que irão envolver, da parte do professor, uma reflexão sobre si mesmo (sua autoavaliação) e sobre os alunos, e, da parte dos alunos, uma autoavaliação e uma avaliação do professor. A participação dos alunos no processo avaliativo é fundamental para que fique garantida a interação e a pluralidade de visões. Avaliar para quem Outra pergunta relevante: para quem é necessária a avaliação, a quem se destinam os resultados? A res- posta é múltipla. Ela é necessária para o professor, para o aluno, para os pais e para a sociedade. O professor necessita, a partir de uma avaliação do nível do aluno ao 86 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola início do curso, acompanhar a evolução do processo de aprendizagem, as dificuldades e suas possíveis causas, a eficácia das práticas pedagógicas utilizadas para poder monitorar sua atuação. O aluno precisa ter indicações imediatas e contínuas do resultado de sua atividade, sem esperar até o final do bimestre, do semestre ou do ano para receber um julgamento, satisfatório ou não. Os pais, como participantes diretamente envolvidos no processo educacional de seus filhos, precisam ter infor- mações sobre o desenvolvimento do trabalho destes. À sociedade, a quem o sistema educacional deve uma satisfação sobre sua eficácia, deve, por certo, interessar o acompanhamento do que acontece nas salas de aula. A dimensão afetiva Em se tratando de avaliação de aprendizagem de Língua Estrangeira cabe discutir-se uma dimensão, per- tinente em toda situação de ensino e aprendizagem, mas de crucial importância no contexto específico que diz respeito a essa área. É a dimensão afetiva. A situação de aprendizagem de Língua Estrangei-ra tem características que a distinguem da situação de aprendizagem de outras disciplinas. Na aprendizagem de outra língua há de se ter em conta vários fatores que podem dificultar a aprendizagem, dependendo de ca- racterísticas individuais dos alunos: a frustração da não- -comunicação, a reação emocional que pode decorrer da percepção de traços da outra língua que parecem artificiais e até ridículos, a incerteza na ativação de co- nhecimento adequado de mundo, a falta de um senso de orientação e de intuição para com o que é certo e o que é errado e a discrepância entre o estilo de aprendi- zagem do aluno e o que o professor enfatiza. Esses fatores derivam de três aspectos problemáti- cos principais: as diferenças entre a língua materna e a língua estrangeira, o dilema entre privilegiar-se o saber sobre a língua ou saber usá-la e a escolha entre uma aprendizagem racional ou uma aprendizagem intuitiva. O primeiro desses aspectos é inerente ao próprio obje- to de estudo e deverá variar dependendo das línguas envolvidas. O segundo depende da orientação que o professor, como organizador do ensino, der a seu tra- balho docente, enquanto o terceiro dependerá mais de características individuais de estilos de aprendizagem e de estudo. Do mesmo modo que todos os aspectos menciona- dos no parágrafo anterior devem ser levados em conta no trabalho pedagógico e no relacionamento professor- -aluno, devem também ser levados em conta na ava- liação. Cabe ao professor acompanhar atentamente as reações dos alunos e refletir sobre elas, levando em conta os possíveis efeitos de aspectos decorrentes do domínio afetivo na aprendizagem, em vez de julgá-las apenas pelos desempenhos em testes, por exemplo. Coerência entre o foco de ensino e o da avaliação É essencial que a avaliação tenha como foco o que é também enfatizado no ensino. Por exemplo, em um programa que tenha como foco o desenvolvimento da habilidade de leitura, a avaliação deverá também centrar-se nessa habilidade, não levando em conta fatores como pronúncia, produção escrita ou aspectos do uso oral da língua, podendo ser feita em língua materna para possibilitar a concentração na tarefa e não na compreensão das instruções. Ou ainda, supondo- se que tenha sido necessário ensinar um determinado aspecto gramatical para facilitar o desenvolvimento da compreensão escrita, esse aspecto só deverá ser avaliado do ponto de vista de sua função no desenvolvimento da competência em leitura. Testes que tenham como objetivo apenas verificar o domínio do conhecimento sistêmico pelo aluno e as tradicionais questões de compreensão escrita, que só fazem o aluno procurar no texto a resposta usando estratégias de decodificação, não são formas adequadas de avaliação de compreensão escrita por não envolverem a colaboração do leitor na construção social do significado. Em resumo, um curso de leitura só deve avaliar o desempenho do aluno na construção de significados por meio de textos escritos. A avaliação: um processo integrado e contínuo A avaliação contínua, fazendo da observação seu principal instrumento e nela diretamente envolvendo o aluno, leva mais em conta as interações sociais desen- volvidas e reguladas do que, por exemplo, a correção. O avaliador se empenha em regular as interações em sala de aula para corrigir rotas de percurso, utilizando um vasto repertório de técnicas sociais, com sensibilidade e percepção dos problemas, a fim de que se crie um cli- ma emocional ótimo, conducente a uma aprendizagem também ótima. Isso significa que o professor deve acon- selhar, coordenar, dirigir, liderar, encorajar, animar, esti- mular, partilhar, aceitar, escutar, respeitar e compreen- der o aluno. Deve colocar-se em seu lugar para que a outra língua não se lhe apresente como “estrangeira”, isto é, estranha a ele, mas sim como a língua de ou- tras pessoas, que ele, pouco a pouco, vai aprendendo a apreciar e à qual, cada vez mais ele vai aprendendo a dar sentido. Se isso é importante para o ensino é também particularmente importante para a avaliação de Língua Estrangeira, como ela é aqui entendida. Critérios de avaliação Após tratar da avaliação no que diz respeito a as- pectos conceituais de sua natureza, de seu papel e de sua função na aprendizagem em geral e na aprendiza- 87 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola gem de Língua Estrangeira em particular, é importante focalizar a avaliação em relação aos objetivos propostos para Língua Estrangeira nos terceiro e quarto ciclos. Ao final do quarto ciclo espera-se que o aluno te- nha, gradativamente, atingido os objetivos propostos neste documento. Gradativamente é uma palavra im- portante, e o que se entende por ela está representado na Figura 1. À medida que se avança na aprendizagem e que a ênfase no conhecimento sistêmico passa a ser maior, este passa também a ter maior ênfase na avaliação, levando- se sempre em conta seu papel ancilar no processo de ensino e aprendizagem de Língua Estrangeira, como aqui entendido. Essa avaliação deve, portanto, ser feita sempre de forma contextualizada e considerando sua relevância na construção do aluno como ser discursivo em Língua Estrangeira. A seguir, são apresentados os critérios de avaliação das habilidades comunicativas, que refletem o que se espera que o aluno aprenda. Quanto à compreensão escrita, o aluno deverá ser capaz de: - demonstrar compreensão geral de tipos de textos variados, apoiado em elementos icônicos (gravuras, ta- belas, fotografias, desenhos) e/ou em palavras cognatas; - selecionar informações específicas do texto; - demonstrar conhecimento da organização textual por meio do reconhecimento de como a informação é apresentada no texto e dos conectores articuladores do discurso e de sua função enquanto tais; - demonstrar consciência de que a leitura não é um processo linear que exige o entendimento de cada palavra; - demonstrar consciência crítica em relação aos ob- jetivos do texto, em relação ao modo como escritores e leitores estão posicionados no mundo social; - demonstrar conhecimento sistêmico necessário para o nível de conhecimento fixado para o texto. A avaliação da compreensão oral, quando esta ha- bilidade tiver sido trabalhada, envolverá aspectos se- melhantes àqueles mencionados para a compreensão escrita, acrescidos do conhecimento dos padrões de na- tureza fonético-fonológica e de interação social. A avaliação da produção, tanto escrita quanto oral, dependerá naturalmente da ênfase com que essas habi- lidades serão enfocadas no programa de ensino. O alu- no deverá ser capaz de: - demonstrar adequação na produção, no que diz respeito, particularmente, a aspectos que afetam o sig- nificado no nível da sintaxe, da morfologia, do léxico e da fonologia; - demonstrar conhecimento dos padrões interacio- nais e de tipos de textos orais e escritos pertinentes a contextos específicos de uso da língua estrangeira; - demonstrar conhecimento de que escritores/falan- tes têm em mente leitores e ouvintes posicionados de modo específico na sociedade. Na produção oral, acrescente-se a necessidade de demonstrar adequação no uso de traços entonacio- nais e conhecimentos ao nível fonológico. Em relação à avaliação dessa habilidade comunicativa, é importante notar que a avaliação decorre mais da observação cons- tante do que de uma prova ao final do semestre. Para a produção escrita, os critérios de avaliação deverão basear-se no foco do ensino e aprendizagem de Língua Estrangeira no ensino fundamental, ou seja, o envolvimento do aluno na construção do significado. A avaliação dessa habilidade deverá ser semelhante à situação de ensino: concentração no significado e na relevância do que é produzido em termos de como o aluno se constitui como ser discursivo,mais do que na correção gramatical. Esta aumentará gradativamente ao longo da construção da interlíngua do aluno. O critério principal para a avaliação de qualquer das habilidades é que ela não se dê em situação diferente da situação de ensino. Orientações para uma avaliação formativa Os alunos e o professor são as fontes de informação no contexto de avaliação formativa. O principal instru- mento é a observação sistemática pelo professor: obser- vação de si mesmo e do aluno, no que se refere à reali- zação das tarefas, à colaboração com os companheiros e com o professor, às atitudes e à motivação. É claro que, ao início do trabalho com uma determinada turma, torna-se necessário ter uma base que possibilite ava- liar o desenvolvimento de suas diferentes etapas. Essa base pode ser obtida a partir de testes que forneçam informações referentes ao nível de proficiência, atitudes, opiniões e crenças, tanto relativas ao objeto de apren- dizagem quanto ao processo envolvido naquele tipo de aprendizagem. Entrevistas, conversas informais, pequenos relatos podem revelar qual é a percepção de língua estrangeira do aluno, não só quanto à função social, mas também quanto ao que está envolvido em sua aprendizagem; podem evidenciar qual é a atitude face outras culturas; podem indicar o nível de motivação para a aprendiza- gem da língua. Essas informações serão de grande im- portância para direcionar o curso no seu planejamento que, dentro do espírito desse tipo de avaliação, deve estar sempre sujeito às reformulações indicadas pela si- tuação de ensino e aprendizagem. Para que se possa tirar o maior proveito de todas essas informações e de outras obtidas ao longo do curso, é indispensável, no entanto, que todas as decisões e todos os eventos sejam 88 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola registrados para reflexão conjunta de professor e alu- nos. O objetivo é sempre o de ter informações contínuas e imediatas, à medida que o processo se desenvolve. Assim, para se ter melhor acesso a esse processo, a ava- liação deve ser flexibilizada para que os tópicos a serem testados não precisem ser iguais para todos, os testes podem ser realizados em conjunto na execução de um projeto etc. Um procedimento que pode ser útil em relação à participação do aluno no processo avaliativo é solicitar- -lhes que nos últimos cinco minutos da aula registrem no papel sua avaliação da própria aprendizagem: o que aprendi nesta aula? Esses registros, coletados com pe- riodicidade a critério do professor, por certo vão lhe for- necer informações relevantes sobre o desenvolvimento da aprendizagem de indivíduos e da classe como um todo. Devolvidos aos alunos, os registros passarão a constituir um diário de sua aprendizagem. Esse proce- dimento tem relação com os aspectos metacognitivos de aprendizagem, além de indicar para o professor as diferenças entre aquilo que ele tem no seu planejamen- to como alvo de ensino e o que os alunos indicam ter aprendido. Por exemplo, o professor pode ter tido como objetivo para uma determinada aula ensinar uma forma verbal e o aluno registrar que aprendeu itens lexicais específicos. Duas questões podem ser levantadas ainda no que se refere à avaliação formativa. Dizem respeito às difi- culdades de se viabilizar na prática este tipo de avalia- ção tendo em vista, por um lado, a tradição de se usar a avaliação somativa na prática educacional, criando problemas para o professor repensar sobre o processo avaliativo de outra forma; e, por outro, o cotidiano ex- tremamente complicado da vida do professor dificulta o uso de um tipo de avaliação, que requer múltiplas for- mas de avaliar o processo pelo qual o aluno passa. Esse tipo de avaliação exige mais tempo de um profissional que está, via de regra, tentando melhorar seu salário ao assumir cargas horárias inconcebíveis para quem preci- sa, necessariamente, refletir sobre o que faz. Isso é ainda mais complicado para o professor de Língua Estrangei- ra, pois, pelo fato de suas turmas terem poucas aulas semanais, trabalha com um número maior de alunos. Fonte: Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua estrangeira A avaliação somativa Diferentemente da avaliação formativa, a avaliação somativa geralmente ocorre no final do processo de en- sino/aprendizagem e é necessária para obter informa- ções sobre os resultados. O que muitas vezes ocorre no ambiente escolar é a utilização de somente esse tipo de avaliação e, dessa maneira, os professores não levam em consideração todo o percurso, somente avaliam a eta- pa final. De acordo com Perrenoud (1999), na avaliação da aprendizagem, o professor não deve permitir que os resultados das provas periódicas, geralmente de caráter classificatório, sejam supervalorizadas em detrimento de suas observações diárias, de caráter diagnóstico. Corroborando esta ideia, Solé (1998) indica que: [...] por diferentes motivos, os professores podem sentir a necessidade de realizar avaliações de tipo mais pontual – porque querem se sentir mais seguros, porque esta é a linha da escola etc. Nestes casos, em minha opinião deve-se contrastar a informação obtida nas situações de prova ou exame com a que procede das observa- ções, planejadas ou intuitivas, derivadasdas situações de aprendizagem da qual os alunos participaram. Assim como a proposta de basear a avaliação (ava- liação somativa) dos estudantes no balanço permitido pela prática de uma avaliação formativa não deve ser lida como uma negação da avaliação em si mesma, pro- nunciar-se a respeito desta não deveria significar exclu- sivamente emitir pareceres sobre os resultados obtidos em uma situação pontual. Ao selecionar os instrumentos para uma avaliação somativa, não necessariamente é preciso elaborar uma prova em modelo tradicional, dessa maneira estaríamos limitando as possibilidades de avaliar. Outras alternativas podem ser exploradas e cabe ao professor propor um tipo de avaliação que atenda às necessidades e à heterogeneidade dos alu- nos, mantendo sempre coerência entre sua planificação e seus objetivos de aprendizagem. A avaliação somativa constitui uma das fontes prin- cipais de informação para a tomada de decisões rela- tivas à promoção dos alunos e os professores se vêem obrigados a tomar decisões a partir dos resultados en- contrados. Outro fator a ser considerado é que a es- pera por resultados uniformes acaba saindo frustrada devido à diversidade de maneiras de aprender que um professor encontra em sala. Sendo assim, essas diversas maneiras de aprender devem acarretar diferentes ma- neiras de avaliar para que se possa suprir a demanda do alunado. Em relação aos elementos que devem ser levados em consideração, Freixes e Aran (2000) indicam que se- ria um erro não considerar a informação concedida pela avaliação somativa, mas também seria limitar-se a ela. Por uma parte, é necessário valorizar o grau de aprendi- zagem conseguido pelo aluno ao término do curso, mas também é necessário considerar o processo que o levou a esse estágio de aprendizagem. Assim sendo, a avaliação cumpre uma função so- cial, ela tem uma razão de existir dentro do contexto escolar e, considerando essa função, os professores 89 CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS PROFESSOR NÍVEL A - Língua Espanhola podem optar por diversas maneiras de colocá-la em prática, inclusive com as tradicionais provas e testes, desde que contribuam a ajudar os alunos em seu pro- cesso de aprendizagem. A autoavaliação Incluímos aqui a autoavaliação como uma possível modalidade de avaliação do processo de ensino/apren- dizagem. Em um sentido amplo, podemos dizer que se produz autoavaliação quando uma pessoa avalia suas próprias atuações (ARREDONDO; DIAGO, 2007) e, quan-