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1 Faculdade de Economia, Universidade Federal Fluminense Microeconomia III – 1° semestre de 2015 Lista 10 - Capítulo 37: Informação Assimétrica Respostas 1. Em Viçosa, Minas Gerais, 1000 pessoas desejam vender seus carros. Suponha que o valor de mercado de um bom carro seja R$1.200, enquanto o de um “abacaxi” seja a metade disso. O problema é que somente o vendedor de cada carro sabe se seu carro é bom ou se é um “abacaxi”. Quando há incerteza com relação à qualidade do carro, os compradores se dispõem a comprar um carro pelo valor esperado de um carro. a. Sendo s a proporção de bons carros no mercado, escreva uma expressão para o preço de mercado de um carro qualquer. Preço de mercado = (s*1200) + [(1-s)*600]. b. Suponha que haja três grupos de vendedores: 200 donos de bons carros, cujo preço de reserva é R$1.000; 400 donos de bons carros cujo preço de reserva é R$800; e 400 donos de abacaxis, com preço de reserva de R$600. Que grupos de vendedores conseguem vender seus carros? Se os três grupos vendessem seus carros, o preço de mercado seria dado pelo valor esperado de um carro: VE = (0,2*1200) + (0,4*1200) + (0,4)*600 = R$960. Esse preço não é suficientemente grande para convencer os vendedores de bons carros com alto preço de reserva (R$1.000) a se desfazerem de seus carros. Assim, no equilíbrio, nem todos os carros serão vendidos. Se apenas os dois outros grupos oferecessem seus carros, o preço de mercado seria (0,5*1200) + (0,5)*600 = R$900. Como R$900 > R$800, no equilíbrio, esses dois grupos venderiam seus carros. c. Há uma falha neste mercado? Explique. Sim, a falha de mercado – causada por informação assimétrica – é que o primeiro grupo de vendedores potenciais, que se desfaria de bom grado de seus carros pelo valor de R$1.200, acaba não conseguindo vendê-los. 2. Dois tipos de “mp3 players” são produzidos localmente: originais e falsificados. Os consumidores atribuem valor de R$1400 ao primeiro tipo e de R$800 ao segundo tipo. No momento da compra, porém, não conseguem diferenciar um do outro; somente algum tempo depois, conseguem identificar se o produto é original ou não. Os consumidores são neutros ao risco: se há uma probabilidade q de adquirir um produto original, então o valor esperado de uma compra de um “mp3 player” é: 1400q + 800(1 – q). Os produtores de “mp3 players”, de qualquer tipo, são capazes de produzi-los a um custo constante de R$1150. O mercado é competitivo (portanto, o lucro econômico é zero). a. Suponha que a fiscalização estatal fosse capaz de eliminar todas as falsificações do mercado. Qual seria o preço de equilíbrio? R$1150. (Como o mercado é competitivo, lucros são nulos). b. Se não houvesse vendedores de “mp3 players” originais (e os consumidores soubessem disto), quantos “mp3 players” você esperaria encontrar no mercado? Vendedores não venderiam produtos falsificados por menos de R$1.150; compradores não estariam dispostos a pagar mais do que R$800 por eles. Em equilíbrio, não haveria vendas. c. Seria possível haver um equilíbrio em que se soubesse que havia quantidades iguais (positivas) dos dois tipos de “mp3 players” sendo oferecidas no mercado? Não haveria trocas. A disponibilidade a pagar média seria de R$1.100, o que é menos que os custos de produção. d. Vamos mudar a premissa com relação à tecnologia (e à honestidade dos produtores). Suponha que cada produtor local possa escolher que tipo de “mp3 player” produzirá: original ou falsificado, com custo unitário de R$1150 para um, e R$1100 para o outro. O que ocorreria no equilíbrio? Não haveria trocas. Todos os produtores tenderiam a preferir produzir os falsificados. Porém, a disponibilidade a pagar por eles é de R$800, o que é menos que os custos de produção. e. Assumindo que cada produtor pudesse fazer a escolha descrita no item (d), seria recomendável uma intervenção estatal que banisse os “mp3 players” falsificados? Sem a intervenção estatal, não haverá, nem produção, nem excedente do consumidor. Se as falsificações forem banidas, então, no equilíbrio, haverá produção e excedente do consumidor positivo. (Resta saber qual é o custo de fiscalização por parte do governo, fiscalização esta que é um bem público... mas isto é outra história!). 3. No mercado de trabalho de Niterói, RJ, há exatamente dois tipos de trabalhadores. Um deles tem produtividade marginal (constante) no valor de R$10 por hora, enquanto a do outro vale R$15. Há igual número de trabalhadores de cada tipo. Uma firma não tem como distinguir os dois tipos de trabalhadores. Mesmo depois de contratá-los, não é possível monitorá-los para saber que tipo de trabalhador foi contratado. 2 a. Se o mercado de trabalho for competitivo, que salário horário será oferecido aos trabalhadores? Salário médio = q*15 + (1 – q)10. Como q = 0,5, então o salário médio é 12,50. b. Suponha que a universidade local ofereça um curso de microeconomia III. Os trabalhadores mais produtivos consideram que fazer esse curso é tão desagradável quanto um corte no salário horário da ordem de R$3, enquanto para os trabalhadores menos produtivos, a desutilidade do curso é de R$6. A firma é capaz de observar se os indivíduos assistem ao curso de microeconomia ou não. (Há lista de presença diária, e um diploma é concedido ao final do curso). Qual será o salário horário de cada tipo de trabalhador, supondo que apenas os muito talentosos matriculem-se no curso? Igual à produtividade marginal de cada tipo de trabalho, conforme indicado no enunciado do exercício. c. Para cada tipo de trabalhador, indique os benefícios líquidos associados a cursar microeconomia. Haverá um equilíbrio separador? Para os muito talentosos, diferencial de salário é 15 (com diploma) – 10 (sem diploma) = 5. O custo da educação é 3. Portanto, o benefício líquido seria 2. Para os pouco talentosos, o diferencial de salário é o mesmo (5), porém o custo da educação é 6, o que implica um benefício líquido potencial de -1. Haveria, portanto, um equilíbrio separador, no qual somente os muito talentosos decidiriam matricular-se no curso. d. Suponha que o professor de microeconomia seja substituído por outro, mais dinâmico, de modo que a desutilidade das aulas seja de apenas R$1 para os mais talentosos, e de R$4 para os menos talentosos. Haverá um equilíbrio separador? Para os muito talentosos, diferencial de salário é 15 – 10 = 5. O custo da educação é 1. Portanto, o benefício líquido seria 4. Para os pouco talentosos, o custo da educação é 4. Portanto, o benefício líquido é 1, que é positivo. Todos teriam interesse em matricular-se: não haveria, portanto, um equilíbrio separador. Muito talentosos não teriam como se diferenciar dos pouco talentosos. 4. Suponha que, em razão de sua produtividade, um trabalhador de tipo “pouco talentoso” valha R$1.000 ao mês para a firma “O Fluminense S.A.”, de Niterói, enquanto um trabalhador “muito talentoso” valha R$2.500 mensais. Em Niterói, há duas vezes mais trabalhadores pouco talentosos do que muito talentosos. Os pouco talentosos são conhecidos por tentar se passar por muito talentosos nas entrevistas de emprego, e é impossível determinar a um baixo custo a que tipo pertence cada trabalhador. Além disso, é muito caro monitorar a produtividade individual no dia-a-dia. Assistir a uma hora de um curso de microeconomia (gratuito) causa desutilidade equivalente a um desconto de R$50 no salário para os muito talentosos, e de R$100 para os pouco talentosos. (A informação sobre essas desutilidades é pública). Se todas as outras firmas oferecerem salários iguais à produtividade do cidadão médio, qual das seguintes estratégias será a mais inteligente para a firma “O Fluminense S.A.”? Por quê? (a) Oferecer salário mensal de R$2.000, desde que trabalhadores assistama 6 horas de aulas/ mês. (b) Oferecer salário mensal de R$2.000, desde que trabalhadores assistam a 4 horas de aulas/mês. (c) Oferecer salário mensal de R$1.750, desde que trabalhadores assistam a 6 horas de aulas/mês. (d) Oferecer salário mensal de R$1.660, desde que trabalhadores assistam a 1 hora de aulas/mês. (e) Oferecer salário mensal de R$2.600, desde que trabalhadores assistam a 8 horas de aulas/mês. Custo da educação: 100h para pouco talentosos; 50 h para muito talentosos Alternativa salarial (em outras firmas): 2/3*1000 + 1/3*2500 = 1500 Equilíbrio separador ocorrerá se benefício líquido de adquirir educação for: - positivo para os muito talentosos, e - negativo para os muito talentosos. Testemos a alternativa (a). 2000 – 1500 = 500 é o diferencial de salário entre aqueles que sinalizam sua capacidade por meio de educação e os demais trabalhadores. 50*6 = 300 é o custo de adquirir educação para os muito talentosos. 100*6 = 600 é o custo de adquirir educação para os pouco talentosos. Há equilíbrio separador? 500 – 300 > 0? Sim. 500 – 600 < 0? Sim. Portanto, há equilíbrio separador. Testemos a alternativa (b). 2000 – 1500 = 500 é o diferencial de salário entre aqueles que sinalizam sua capacidade por meio de educação e os demais trabalhadores 50*4 = 200 é o custo de adquirir educação para os muito talentosos 100*4 = 400 é o custo de adquirir educação para os pouco talentosos Há equilíbrio separador? 500 – 200 > 0? Sim. 3 500 – 400 < 0? Não. Portanto, não há equilíbrio separador! Os pouco talentosos também têm incentivo a adquirir educação, e a firma continua tendo dificuldades para distinguir os pouco dos muito talentosos. O raciocínio utilizado para testar a alternativa (b) é aplicável às alternativas (c), (d) e (e): em nenhuma delas, há equilíbrio separador. Assim, a letra (a) corresponde a estratégia mais eficiente para a “O Fluminense S.A”. 5. O Sr. Eufrásio Botafogo é madeireiro. Ele tem apenas um empregado, Seu João. Se Seu João trabalhar por x horas, ele obterá x centímetros cúbicos de madeira. Cada centímetro cúbico de madeira é vendido por R$1. O custo (ou “desutilidade”) do esforço, para Seu João, é dado por c(x) = x²/10. a. Qual é o número eficiente de centímetros cúbicos de árvore a cortar? Lucro = p.f(x) – s(f(x)), onde s(f(x)) é a remuneração oferecida ao trabalhador, em função da produção observada. No ponto de eficiência, deve-se maximizar o lucro, sujeito a s(f(x)) – c(x) ≥ 0, com igualdade no caso-limite (não há razão para pagar mais do que a restrição de participação exige). Portanto, trata-se de maximizar, via escolha de x, a expressão p.f(x) – c(x) 1*x – x²/10 f’(x) = c’(x) 1 = 2x/10 x* = 5. b. Se o máximo que Seu João pode obter em outros empregos é zero, então quanto o Sr. Botafogo deve lhe pagar para que ele faça o nível eficiente de esforço? Deveria pagar o suficiente para compensar o custo do esforço no nível ótimo, x*, determinado no item (a): (x*)²/10 = 5²/10 = R$2,50. c. Qual seria o lucro líquido do Sr. Eufrásio? p.f(x*) – s(f(x*)) = 5 – 2,50 = R$2,50. d. Suponha que Seu João tivesse a opção de viver com transferências de renda no valor de R$1 (o que não envolveria nenhuma desutilidade de esforço). Quanto o Sr. Botafogo teria que pagar agora para manter o interesse de Seu João pelo emprego? Em razão da restrição de participação (s(f(x)) – c(x) ≥ utilidade de reserva (ou outside option), o Sr. Botafogo terá que compensar o esforço de Seu João ($2,50) e ainda lhe pagar R$1,00, a fim de evitar que ele prefira sua outside option. Assim, temos: s(f(x*)) = c(x*) + outside option: Portanto, s(f(x*)) = 2,50 + 1,00 = $3,50. e. Suponha agora que a alternativa do item (d) – a transferência de renda – não esteja mais disponível. Agora, o Sr. Botafogo decide alugar a madeireira ao Seu João por um valor fixo. Qual deveria ser o valor do aluguel? Agora, o contrato oferecido será s(f(x)) = f(x) – A (o trabalhador fica com todo o produto, descontado apenas o aluguel). A restrição de participação é s(f(x)) – c(x) ≥ 0 (não há outside option) f(x*) – A – c(x*) = 0 A = f(x*) – c(x*) = 5 – 2,50 = R$2,50. 6. (ANPEC 2009) O Sr. Principal (doravante P) possui um pedaço de terra e deseja contratar o Sr. Agente (doravante A) para plantar batatas em sua propriedade. A produção de batatas é dada pela função xy 8 em que x é a quantidade de esforço despendida por A na plantação. Suponha que o preço do produto é igual a 1, de modo que y também mede o valor do produto. Ao exercer o nível de esforço x, A incorre em um custo dado por 2 4 1 )( xxc . O contrato entre os dois é o de aluguel, ou seja, A paga a P uma quantia fixa R e fica com o excedente s = y - R. A utilidade de A é u(s,x) = s - c(x). O problema de P é maximizar seu lucro π = y – s, dadas as restrições de participação e de incentivo de A. Calcule o valor ótimo do aluguel, R*. Lucro do principal: π = y(x) – s(x) Utilidade do agente: u = s(x) – c(x) Contrato prevê que lucro residual seja do agente: s(x) = y(x) – R Primeiro, vamos encontrar o esforço ótimo x*, que é dado pela maximização do lucro, sujeito à restrição de participação do agente. (Podemos ignorar o aluguel por enquanto). Max π = y(x) – s(x), S.A. s(x) – c(x) = 0 s = c(x) Isto equivale a: Max π = y(x) – c(x) y’(x) = c’(x) 8.½.x-½ = ¼*2.x x3/2 = 8 x* = 82/3 Agora, voltamos à restrição de participação s(x) – c(x) = 0, e nela incluímos o contrato indicado no enunciado, que nada mais é do que um aluguel. Portanto, s(x) neste caso é igual a y(x) – R. Assim, teremos: s(x) – c(x) = 0 y(x) – R – c(x) = 0 R = y(x) – c(x). Substituindo x*, teremos: R = 8.x½ - ¼.x² R = 12 . 7. Vimos de que maneira a informação assimétrica pode reduzir a qualidade média dos produtos vendidos em um determinado mercado à medida que as mercadorias de baixa qualidade vão eliminando as de alta qualidade (seleção adversa). Nos mercados onde prevalece a informação assimétrica, você concordaria ou discordaria dos itens apresentados a seguir? Explique. a. O governo deveria implementar padrões de qualidade; por exemplo, não deveria ser permitido que as empresas vendessem produtos de baixa qualidade. 4 Esta opção envolve um custo de monitoramento, pois, após a implementação de um padrão de qualidade, o governo deveria verificar sistematicamente se tal padrão vem sendo respeitado, além de resolver disputas entre produtores e consumidores. Cabe notar, ainda, que os consumidores podem preferir os produtos de baixa qualidade, caso estes tenham preços suficientemente baixos. b. O produtor de uma mercadoria de alta qualidade provavelmente estaria disposto a oferecer uma ampla garantia para seu produto. Esta é a solução de menor custo para o problema da informação assimétrica. A venda de produtos com garantia ampla permite aos produtores de alta qualidade diferenciar seus produtos em relação aos produtos de baixa qualidade, pois, para os produtores destes últimos, esse tipo de garantia apresenta custos potenciais muito elevados. c. O governo deveria exigir que todas as empresas passassem a oferecer amplas garantias para seus respectivos produtos. Ao exigir que todas as empresas ofereçam garantias amplas, o governo estaria eliminando o valor das garantias oferecidas pelos produtores de alta qualidade como sinalizadoras de mercado. 8. Uma companhia seguradora está considerando a possibilidade de vender três tipos de apólices de seguro contra incêndio: (i) seguro de cobertura total, (ii) seguro com franquia de $10.000, e (iii) seguro com cobertura de 90% dos prejuízos totais. Com qual dessas três apólices a companhia corre mais riscos de sofrer em razão de perigo moral? Os problemas de risco moral surgem,no caso do seguro contra incêndio, quando a parte segurada pode influenciar a probabilidade de ocorrência de um incêndio e a magnitude da perda ocorrida em decorrência de um incêndio. O dono da propriedade pode se comportar de forma a reduzir a probabilidade de um incêndio – por exemplo, inspecionando e substituindo qualquer fiação defeituosa – ou a magnitude das perdas – pela instalação de sistemas de alarme ou pelo armazenamento de artigos de valor distantes das áreas onde a probabilidade da ocorrência de incêndio é alta. Depois de adquirir um seguro de cobertura total, o segurado possui pouco estímulo para reduzir a probabilidade ou a magnitude da perda e, portanto, a probabilidade de que haja risco moral torna-se grande. A fim de compararmos uma cobertura com franquia de $10.000 com uma cobertura de 90% dos prejuízos totais, necessitaríamos de informações sobre o valor da perda potencial. Ambas as apólices reduzem o problema do risco moral da cobertura completa. Entretanto, se o valor da propriedade for menor (maior) que $100.000, a perda total será menor (maior) com a cobertura de 90% do que com a franquia de $10.000. À medida que o valor da propriedade ultrapassar $100.000, o proprietário tenderá a se engajar em mais esforços para a prevenção de incêndios sob a apólice que oferece cobertura de 90% dos prejuízos do que sob a apólice com franquia de $10.000.