Prévia do material em texto
Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 1 Material didático – Bioquímica Básica QUÍMICA DE AMINOÁCIDOS, PEPTÍDEOS E PROTEÍNAS Sumário 1. Introdução ............................................................................................................................... 2 2. Desenvolvimento .................................................................................................................... 2 2.1 Estrutura química, classificação e funções biológicas dos aminoácidos .......................... 2 2.2 Estrutura química, classificação e funções biológicas de peptídeos e proteínas .............. 9 3. Considerações finais ............................................................................................................. 24 4. Bibliografia ........................................................................................................................... 24 Universidade Federal de Mato Grosso Instituto de Ciências Exatas e da Terra Cursos de Química, medicina veterinária e engenharia florestal Professora Drª Bibiana M. Gai Universidade Federal de Santa Maria Centro de Ciências da Saúde Departamento de Clínica Médica Curso de Medicina Professora Drª Cristiani F. Bortolatto Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 2 1. Introdução Os aminoácidos são as unidades monoméricas básicas formadoras de peptídeos e proteínas. Além de atuar como blocos de construção para estas macromoléculas, os aminoácidos também desempenham outros papéis no organismo sob sua forma livre ou servindo como precursores para a síntese de outros compostos biológicos. Os peptídeos e proteínas, por sua vez, são os instrumentos moleculares por meio dos quais a informação genética é expressa. A partir de um conjunto de 20 aminoácidos principais se tem a síntese de uma ampla gama de produtos proteicos incluindo enzimas, hormônios, anticorpos, transportadores, receptores, fibras musculares, proteínas do citoesqueleto, dentre outros. De fato, as proteínas são as macromoléculas biológicas mais abundantes na natureza e desempenham as mais variadas funções biológicas. Dentre esses produtos proteicos, as enzimas são as mais variadas e especializadas. 2. Desenvolvimento 2.1 Estrutura química, classificação e funções biológicas dos aminoácidos Os aminoácidos são os blocos básicos formadores dos produtos proteicos os quais variam desde pequenos peptídeos até grandes proteínas. Os oligopeptídeos, polipeptídeos e proteínas são polímeros de aminoácidos com cada resíduo de aminoácido (após perda da H2O) unido ao seu vizinho de forma covalente formando sequências lineares características. Um conjunto de 20 aminoácidos principais/comuns é responsável por formar todos os peptídeos e proteínas existentes na natureza. Os 20 aminoácidos comuns são α-aminoácidos. Todos possuem um grupo amino e um grupo carboxila ligados ao carbono α (além de um átomo de hidrogênio). Eles diferem um dos outros nas suas cadeias laterais, grupos R, que variam em estrutura, tamanho e carga elétrica e que influenciam a solubilidade dos aminoácidos em água. Aos 20 aminoácidos comuns das proteínas foram atribuídas abreviações de três letras (ex. glicina: Gly). Existem também os aminoácidos especiais (menos comuns) como abordado posteriormente. Os aminoácidos principais podem ser: a) não-essenciais, quando existem vias biossintéticas que produzem esses aminoácidos a partir de precursores metabólicos, ou b) essenciais aos seres humanos, quando eles não podem ser sintetizados endogenamente, devendo ser adquiridos através da alimentação. Os aminoácidos essenciais são: fenilalanina, histidina, isoleucina, lisina, leucina, metionina, treonina, triptofano e valina. A identificação dos átomos de carbono do aminoácido pode ocorrer através de numeração, iniciando pelo carbono da carboxila ou ainda pelo uso de letras gregas, iniciando no carbono alfa em direção à cadeia lateral. Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 3 Para todos os aminoácidos comuns (exceto a glicina), o carbono α é um centro quiral, ou seja, está ligado a quatro substituintes diferentes (grupos amino, carboxila, H e cadeia lateral-R). Estes substituintes podem podem ocupar dois arranjos espaciais únicos. Eles são encontrados, portanto, sob a forma de isômeros óticos ou enantiômeros, imagens especulares não superpostas uma da outra e são também moléculas opticamente ativas. Para especificar a configuração absoluta dos 4 substituintes do carbono assimétrico (para aminoácidos e acúcares) foi desenvolvida uma nomenclatura especial referente ao sistema D, L (convenção de Fischer) que é baseada na configuração absoluta de 4 substituintes em volta do carbono quiral do acúcar de três carbonos – o gliceraldeído. Esta convenção não refere-se, entretanto, às propriedades ópticas da moléculas visto que nem todos os L-aminoácidos são levorrotatórios. No entanto, os resíduos de aminoácidos nas proteínas estão exclusivamente na sua forma L, ou seja, a célula sintetiza somente L-aminoácidos porque os sítios ativos das enzimas são assimétricos (reações estereoespecíficas). Resíduos de D-aminoácidos são muito raramente encontrados (ex. certos antibióticos). Os aminoácidos podem ser classificados de acordo com as propriedades químicas da sua cadeia lateral (R), que são principalmente baseadas na sua polaridade, ou tendência de interagir com a água em pH 7,0. a) Grupo R alifático, não polar (hidrofóbicos) O grupo R desses aminoácidos são cadeias carbônicas hidrofóbicas. As cadeias laterais desses aminoácidos tendem a se agrupar dentro das proteínas, formando interações hidrofóbicas. A glicina, o aminoácido mais simples de todos cujo grupo R é um átomo de hidrogênio, embora não polar ela não apresenta contribuição real para as interações hidrofóbicas. A metionina possui um grupo tioéter. A prolina é cíclica e seu grupo imino é mantido em uma conformação rígida (baixa flexibilidade proteica nas porções contendo este aminoácido). Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 4 b) Grupo R0 aromático Do mesmo modo que o grupo anterior, esses aminoácidos podem formar interações hidrofóbicas. A tirosina e o triptofano são relativamente mais polares que a fenilalanina. O grupo hidroxila da tirosina e o nitrogênio (anel indólico) do triptofano podem formar pontes de hidrogênio. Estes aminoácidos absorvem luz ultravioleta, o que responde pela forte e característica absorção da luz pela maioria das proteínas na faixa de 280nm. c) Grupo R não-carregado, polar Esses aminoácidos são mais polares que os anteriores, pois apresentam grupamentos que podem formar pontes de hidrogênio com a água. A polaridade destes aminoácidos provém dos grupos hidroxila, sulfifrila ou amida. Asparigina e glutamina são amidas de outros dois aminoácidos, aspartato e glutamato, respectivamente. A cisteína pode ser facilmente oxidada, formando um aminoácido dimérico, a cistina (hidrofóbica), que possui resíduos de cisteína ligados por uma ponte dissulfeto. As pontes dissulfeto são muito importantes na estrutura das proteínas, pois constituem elos covalentes que podem ser formados entre partes de uma molécula de proteína ou entre duas cadeias peptídicas diferentes. d) Grupo R com carga positiva, polar (aminoácidos básicos) Em pH 7, estes aminoácidos encontram-se positivamente carregados. O grupamento amino da sua cadeia lateral está protonado, produzindo uma carga líquida positiva. A lisina possui um segundo grupo amino,a arginina possui um grupo guanidino e a histidina um grupo imidazol. O pKR da histidina é próximo da neutralidade (6), assim o grupo R pode funcionar tanto como um doador ou receptor de prótons em muitas reações enzimáticas. e) Grupo R com carga negativa, polar (aminoácidos ácidos) Aspartato e glutamato possuem uma carga líquida negativa em pH 7. Eles apresentam um grupo carboxila na sua cadeia lateral. Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 5 Existem também os aminoácidos incomuns, os quais são derivados de modificações dos resíduos de um dos 20 aminoácidos básicos, depois que a proteína foi sintetizada. Por exemplo, a 4-hidroxiprolina e a 5-hidroxilisina presentes no colágeno; a N-metil-lisina na miosina (proteína contrátil do músculo); o γ-carboxiglutamato, encontrado em proteínas que ligam Ca++ como a protrombina (proteínas de coagulação do sangue); e a desmosina, um derivado de 4 resíduos de Lys encontrada na elastina. A selenocisteína é um caso especial. É um aminoácido raro derivado da serina; entretanto, é introduzido durante a síntese proteica em vez de modificação pós sintética. Contém selênio em vez de enxofre. Além destes muitos outros aminoácidos adicionais possuindo um variedade de funções, que não a constituição proteica, tem sido encontrados nas células. Como exemplos pode-se citar a ornitina e a citrulina envolvidos no ciclo da ureia. Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 6 Por possuírem grupamentos amino e carboxila, que podem ser ionizados, quando os aminoácidos são dissolvidos em água eles existem sob a forma de íon dipolar (Zwitterion) e podem funcionar tanto como bases (receptores de prótons) ou ácidos (doadores de prótons). Possuem, portanto, características anfóteras, são anfólitos. A forma não-iônica não ocorre em quantidades significativas em soluções aquosas. Os aminoácidos possuem curvas de titulação características, que correspondem aos pontos de protonação/desprotonação dos seus grupos amino e carboxila e eventualmente da cadeia lateral. A titulação ácido- base envolve, então, a adição ou a remoção gradual de prótons. Em pH muito ácido, o aminoácido está presente em sua forma totalmente protonada ao passo que, em pH muito básico, ele se encontra desprotonado. Durante a titulação, o ponto isoelétrico ou pH isoelétrico corresponde ao pH onde o aminoácido apresenta um equilíbrio de cargas, ou seja, onde a carga líquida é zero. O pI é calculado a partir de: pI = pK1 + pK2 / 2. Para a glicina, em pH muito baixo, a espécie predominante é a totalmente protonada ( + H3N-CH2-COOH). No ponto médio da primeira titulação existe concentrações equimolares de + H3N-CH2-COOH e + H3N-CH2-COO - e um ponto de inflexão é alcançado (área de tamponamento), onde o pH é igual ao pKa do grupo protonado sendo titulado (2,34) . A medida que a titulação prossegue há um outro ponto de inflexão em pH 5,97, no qual a remoção do primeiro próton foi essencialmente completada e a remoção do segundo próton apenas começou. Nesse pH a glicina está grandemente presente como íon dipolar +H3N-CH2-COO - (carga líquida zero). O segundo estágio da titulação corresponde à remoção de um próton do grupo –NH3 + da glicina. O pH no ponto médio deste estágio é 9,6, igual ao pKa para o grupo –NH3 + , onde se tem 50% das moléculas como + H3N-CH2-COO - e 50% como H2N-CH2-COO - . A titulação é essencialmente completada em um pH cerca de 12, em cujo ponto a forma predominante da glicina é H2N-CH2-COO - . Portanto, a glicina possui uma carga negativa em qualquer pH acima de seu pI e se movimentará para o eletrodo positivo (ânodo) quando colocada em um campo elétrico. Em qualquer pH abaixo do seu pI, a glicina possui uma carga líquida positiva e se movimentará para o eletrodo negativo (o cátodo). Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 7 Efeito do ambiente químico sobre o pKa: Para todos os aminoácidos que possuem o grupamento R não ionizável, a curva de titulação se dá de maneira semelhante, possuindo valores de pKa para o grupo carboxila entre 1,8 e 2,4 e para o grupo amino entre 8,8 e 11,0. Os aminoácidos ácidos e básicos, que apresentam um grupo R ionizável, possuem três estágios de protonação/desprotonação possível apresentando curvas de titulação mais complexas (3 valores de pKa). Os pontos isoelétricos refletem a natureza dos grupos R ionizantes presentes. Por exemplo, o glutamato possui um PI de 3,22, menor que o da glicina em virtude de dois grupos carboxila, enquanto a lisina é de 9,74 devido a dois grupos amino. Apenas a histidina (pKR=6,0) apresenta poder tamponante em pH fisiológico. Em relação as suas funções, os aminoácidos atuam principalmente como unidades básicas precursoras na síntese de peptídeos e proteínas em diversos tecidos. Entretanto, eles também desempenham outros papéis no organismo sob sua forma livre ou servindo como precursores para a síntese de outros compostos biológicos. Alguns, em especial a alanina, participam como precursores da neoglicogênese formando novas moléculas de glicose Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 8 (aminoácidos glicogênicos). Outros podem também atuar como precursores de corpos cetônicos (aminoácidos cetogênicos) e ainda existem os glicocetogênicos. Certos aminoácidos podem gerar intermediários do ciclo de krebs e serem oxidados para produção de energia. Eles podem também colaborar na geração de outras moléculas como purinas, porfirinas, creatinina e ácidos biliares conjugados. Aminoácidos como o triptofano ou tirosina servem como precursores para a síntese de neurotransmissores como serotonina e melatonina ou dopamina e noradrenalina, respectivamente. A descarboxilação da histidina proporciona a histamina, que exerce ação estimulante sobre a função do ácido clorídrico, pela mucosa gástrica. O próprio glutamato, o aspartato e a glicina funcionam em nosso sistema nervoso como neurotransmissores. Como discutido anteriormente, a histidina tem poder tamponante no pH fisiológico, podendo auxiliar na manutenção do pH. Enfim, os aminoácidos desempenham diversas funcões biológicas, seja formando proteínas, outros compostos bioativos ou na sua forma livre. Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 9 2.2 Estrutura química, classificação e funções biológicas de peptídeos e proteínas Os aminoácidos podem ser ligados entre si através de ligações peptídicas, formando polímeros lineares de aminoácidos que resultam em uma molécula 3D única (peptídeos e proteínas). Polímeros de aminoácidos de ocorrência biológica variam em tamanho de pequenos (2 ou 3) até muito grandes (milhares de resíduos de aminoácidos). Os peptídeos e proteínas são resultados da expressão do código genético. Três pares de bases em sequência determinam um aminoácido e os aminoácidos são unidos para formar seus polímeros (peptídeos e proteínas) em nível ribossomal. Além de C, H, O e N, as proteínas podem conter S, Se, Fe, Va, Mo, Zn, Cu. Ligação peptídica A ligação peptídica é uma ligação amida formada entre o grupamento terminal carboxílico de um aminoácido com o grupamento terminal amino de outro aminoácido. Essa ligação envolve uma reação de condensação entre dois aminoácidos e a liberação de uma molécula de água (desidratação). As ligações peptídicas são muito estáveis, possuindo uma alta meia-vida, que pode ser de anos (t1/2 vida: 7 anos na maioria das condições intracelulares). Embora a hidrólise de uma ligação peptídica seja uma reação altamente exergônica, ela ocorre lentamentepor causa da sua alta energia de ativação. Porém, elas podem ser hidrolisadas por enzimas específicas denominadas peptidases. O equilíbrio químico favorece os aminoácidos em vez do peptídeo. Para tornar a reação de condensação favorável, o grupo carboxila deve ser quimicamente modificado ou ativado de forma que o grupo hidroxila possa ser mais facilmente eliminado. O grupo α-amino de um aminoácido atua como nucleófilo para deslocar o grupo hidroxila de outro aminoácido, formando a ligação peptídica. Grupos amino são bons nucleófilos, mas o grupo hidroxila é um mau grupo se saída e não é facilmente deslocado. Em pH fisiológico, a reação não acontece em quantidades apreciáveis na ausência das enzimas. Dois aminoácidos podem ser ligados por uma ligação peptídica para formar um dipeptídeo. Três aminoácidos podem ser ligados por duas ligações peptídicas formando um tripeptídeo. Da mesma forma, tetrapeptídeos, pentapeptídeos, etc, podem ser formados. Quando poucos aminoácidos são ligados dessa maneira, a estrutura é chamada de oligopeptídeo. Quando muitos aminoácidos são ligados, o produto é chamado polipeptídeo. As proteínas são muitas vezes chamadas de polipeptídeos, porém elas possuem um peso molecular muito maior (geralmente mais que 10.000 Daltons) que os polipeptídeos, podendo ser formadas por milhares de aminoácidos e, em sua maioria, possuem mais de uma cadeia polipeptídica. As proteínas diferem em relação a sua composição química, sequência de aminoácidos e peso molecular. Os peptídeos podem ser distinguidos pelo seu comportamento de ionização. Embora os grupos amino e carboxila não terminais estejam comprometidos na ligação peptídica, os grupos R de alguns aminoácidos (ex. lisina, histidina, arginina, aspartato, glutamato) podem Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 10 ionizar-se e em um peptídeo eles contribuem para as propriedades ácido-base globais da molécula. Assim, os peptídeos possuem curvas de titulação típicas também, ainda que os valores de pKa para um grupo R pode alterar-se muito quando o aminoácido se torna um resíduo em um peptídeo. Funções Muitos pequenos peptídeos exercem seus efeitos em concentrações muito baixas como, por exemplo, alguns hormônios e venenos. Exemplos de hormônios: ocitocina (liberada pela hipófise posterior e estimula as contrações uterinas), bradicinina (inibe a inflamação dos tecidos), fator de liberação de tireotropina (hormônio hipotalâmico TRF). Peptídeos um pouco maiores são a insulina, o glucagon e a corticotropina (ACTH). Proteínas e peptídeos formam uma variedade de moléculas biologicamente ativas com as mais variadas funções: Catalílitica: enzimas Estrutural: colágeno, queratina Transporte: hemoglobina, lipoproteínas, transferrina. Sinalização e hormonal: receptores e transportadores de membranas, alguns hormônios Contrátil: actina e miosina Defesa e proteção: anticorpos, fibrina Regulação gênica: regulam a síntese de outras proteínas Regulação e manutenção do pH: cadeias laterais (doam e recebem prótons) (ex. Hb) Regulação do equilíbrio hídrico Classificação das proteínas Algumas proteínas consistem de uma cadeia polipeptídica única, mas outras, chamadas de proteínas de subunidades múltiplas, possuem dois ou mais polipeptídeos associados de forma não-covalente. As cadeias polipeptídicas individuais em uma proteína de subunidades múltiplas podem ser idênticas ou diferentes. Se pelo menos 2 são idênticas, a proteína é dita oligomérica e as unidades idênticas são referidas como protômeros. Proteínas com subunidades múltiplas são referidas como multímeros e se houver poucas subunidades pode-se chamar oligômeros. Um exemplo de oligômero é a hemoglobina (quatro cadeias polipeptídicas + 4 grupos prostéticos, tetrâmero ou dímero de protômeros αβ). De acordo com o número de cadeias polipeptídicas, as proteínas podem ser classificadas em monômeros, dímeros, trímeros, tetrâmeros. Algumas poucas proteínas contém duas ou mais cadeias polipeptídicas ligadas de maneira covalente. Por exemplo, a insulina que possui duas cadeias ligadas por pontes dissulfeto e em tais casos, os polipeptídeos não são considerados subunidades, e sim apenas cadeias. De acordo com a composição química as proteínas podem ser simples (somente aminoácidos) ou conjugadas. Além dos aminoácidos, algumas proteínas podem possuir outros grupos químicos ligados permanentemente à sua estrutura (normalmente por ligações covalentes), que desempenham um papel importante na sua função biológica. Essas proteínas recebem o nome de proteínas conjugadas, e a parte não-aminoácido de uma proteína é chamada de grupo prostético. São proteínas conjugadas as lipoproteínas, glicoproteínas, Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 11 metaloproteínas, flavoproteínas etc. Usualmente o grupo prostético desempenha um papel importante na função fisiológica da proteína. De acordo com a forma podem ser do tipo fibrosas (espirais, interações simples) ou globulares (esféricas, interações complexas). Separação e identificação de proteínas As proteínas podem ser separadas e identificadas por técnicas que utilizam das suas diferentes características como tamanho, carga e propriedades de ligação. Inicialmente elas podem ser seletivamente precipitadas por certos sais. Procedimentos cromatrográficos então são usados valendo-se das diferentes características químicas para a separação e purificação das proteínas. A eletroforese separa as proteínas de acordo com seu peso molecular e carga. Por fim, a purificação pode ser monitorada através do ensaio de atividade específica da proteína quando esta for uma enzima. Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 12 Quantificação de proteínas Como descrito anteriormente, alguns aminoácidos tem a capacidade de absorver luz em faixas específicas de comprimento de onda, como o triptofano em 280 nm. Então, a concentração de proteínas em uma determinada solução pode ser obtida através de uma medida em espectrofotômetro e calculada em relação a uma curva padrão de proteína. Níveis de estrutura protéica As proteínas possuem vários níveis de organização estrutural. Dentre eles identificamos comumente as estruturas primária, secundária, terciária e quaternária. A ligação de resíduos de aminoácidos por ligações covalentes (peptídicas e dissulfeto) em uma cadeia polipeptídica refere-se a estrutura primária (sequência de aminoácidos). A estrutura secundária refere-se a arranjos organizados dos resíduos de aminoácidos originando padrões estruturais recorrentes. A estrutura terciária descreve os aspectos de enovelamento tridimensional de um polipeptídeo. Quando a proteína possui mais de 1 subunidade polipeptídica, o arranjo final no espaço é dito estrutura quaternária. Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 13 A estrutura covalente das proteínas Cada proteína possui um número e uma sequência de resíduos de aminoácidos diferentes. Além disso, cada tipo de proteína produz uma única estrutura tridimensional, e essa estrutura confere uma função. Então, é intuitivo que a estrutura primária de uma proteína determine a forma como ela se enovela em uma única estrutura tridimensional, e isso, por sua vez, determine a função da proteína. Proteínas com funções diferentes sempre possuem uma sequência de aminoácidos distinta. A produção de proteínas defeituosas tem sido relacionada a diversas doenças genéticas humanas, e muitas delas resultam de uma única alteração em sua sequência de aminoácidos. Portanto, se a estrutura primária da proteína for alterada, a sua função pode ser comprometida.Entretanto, a sequência de aminoácidos não é absolutamente fixa ou invariante. Alguma flexibilidade é possível e 20-30% das proteínas humanas são polimórficas, possuindo sequências de aminoácidos variantes na população humana. Muitas dessas variações possuem pouco ou nenhum efeito na função proteica. Embora a sequência de aminoácidos em algumas regiões da estrutura primária possa variar consideravelmente sem afetar a função biológica, a maior parte das proteínas contém regiões cruciais que são essenciais para sua função e cuja sequência é, portanto, conservada. O conhecimento da sequência de aminoácidos em uma proteína pode oferecer sugestões sobre sua estrutura tridimensional e sua função, localização celular e evolução. Proteínas individuais são atribuídas às famílias com base no grau de semelhança na sequência de aminoácidos. Membros de uma mesma família são usualmente idênticos ao longo de 25% ou mais de suas sequências, e as proteínas nessas famílias geralmente compartilham pelo menos algumas características estruturais e funcionais. Certas sequências de aminoácidos funcionam como sinais que determinam a localização celular, modificação química e meia-vida de uma proteína. Sequências especiais são usadas para endereçar certas proteínas para a exportação da célula, outras para a distribuição ao núcleo, à superfície celular, ao citosol etc. Outras sequências atuam como sítios de ligação para grupos prostéticos. A estrutura tridimensional das proteínas O arranjo espacial dos átomos em uma proteína é chamado de conformação. As conformações possíveis de uma proteína incluem qualquer estado estrutural que possa ser alcançado sem quebrar ligações covalentes. Entretanto, uma ou umas poucas conformações predominam sob condições fisiológicas, as quais são usualmente aquelas termodinamicamente mais estáveis (com menor energia livre de Gibbs). A função proteica frequentemente acarreta uma interconversão entre duas ou mais formas estruturais. Proteínas em qualquer das suas conformações funcionais são chamadas de proteínas nativas. Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 14 A estabilidade da estrutura proteica (sua tendência em manter a conformação nativa) é mantida em grande parte por interações fracas. Proteínas nativas são apenas marginalmente estáveis, e o estado desenovelado é caracterizado por um alto grau de entropia da conformação. Essa entropia e as interações de pontes de hidrogênio de muitos grupos na cadeia polipeptídica com a água tendem a manter o estado desenovelado. Entretanto, existem interações químicas que se opõem a estes efeitos e, assim, a manutenção da forma enovelada (nativa) inclui a participação de pontes dissulfeto (covalente) e as interações fracas não covalentes (pontes de hidrogênio, interações iônicas e hidrofóbicas). Mesmo sendo mais fracas, pelo fato de serem tão numerosas, são as interações fracas que predominam como força estabilizadora na estrutura proteica. Em geral, a conformação proteica com a menor energia livre é aquela com número máximo de interações fracas. A água pura contém o maior potencial em formar pontes de hidrogênio. Quando a água circunda uma molécula hidrofóbica, o arranjo ótimo das pontes de hidrogênio resulta em em uma camada de solvatação da água na vizinhança imediata que cria um decréscimo desfavorável na entropia da água. Entretanto, quando grupos apolares são agrupados juntos, há uma diminuição na extensão da camada de solvatação havendo um aumento favorável na entropia da água. Esta entropia é a principal força impulsionadora para a associação de grupos hidrofóbicos na água. Na maior parte dos padrões estruturais de proteínas os resíduos hidrofóbicos são em grande parte enterrados no interior da proteína, longe da água e o número de pontes de hidrogênio dentro da proteína é maximizado. Já os grupos polares podem formar pontes de hidrogênio com a água e, portanto, são solúveis em água; embora uma concha de solvatação também ocorra em certo grau nestes grupos polares. A liberação da estrutura da água quando a interação intramolecular é formada fornece uma força impulsionadora entrópica para o enovelamento. A maior parte da alteração de energia livre que ocorre quando as interações fracas são formadas dentro de uma proteína é, portanto, derivada do aumento na entropia na solução aquosa ao seu redor resultante do enterramento da superfície hidrofóbica. Então, o interior da proteína é um núcleo densamente empacotado das cadeias laterais de aminoácidos hidrofóbicos e quaisquer grupos polares ou carregados devem ter seu par adequado para a formação de pontes de hidrogênio ou interações iônicas. Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 15 Em suma, cada proteína possui uma estrutura 3D que reflete sua função. A estrutura das proteínas é estabilizada por múltiplas interações fracas. As interações hidrofóbicas são as principais contribuidoras para estabilizar a forma globular da maior parte das proteínas solúveis; as pontes de hidrogênio e as interações iônicas são otimizadas nas estruturas específicas que sejam mais estáveis termodinamicamente. Para entendermos melhor a conformação proteica é necessário analisar seus níveis estruturais (estruturas 1, 2, 3 e 4ª). a) Estrutura primária Refere-se a uma sequência linear de aminoácidos determinada geneticamente. Os aminoácidos são unidos por ligações peptídicas (covalentes) resultando em uma cadeia polipeptídica. Podem ainda apresentar pontes dissulfeto. Esta sequência é única para cada proteína (não se repete). A ligação peptídica apresenta algumas características especiais. A ligação entre C-N é mais curta que a mesma ligação em uma amina simples e os átomos associados com a ligação peptídica são co-planares. Isso indica uma ressonância ou compartilhamento de elétrons entre o oxigênio da carbonila e o N da amida. O oxigênio tem uma carga parcial negativa e o nitrogênio, uma carga parcial positiva, estabelecendo um pequeno dipolo elétrico. Os seis átomos do grupo peptídico (Cα-CO-NH-Cα) colocam-se em posição trans entre si (exceção: prolina). Assim, as ligações C-N são incapazes de rodar livremente devido a seu caráter de dupla ligação. A rotação é permitida entre N-Cα e Cα-C. Resumindo, as ligações peptídicas têm caráter de dupla ligação, são rígidas e planares, possuem configuração trans; não tem carga, porém são polares. Embora a estrutura primária por si só não tenha atividade biológica, ela está diretamente relacionada à função biológica da proteína, uma vez que alterações na sua sequência de aminoácidos podem provocar uma deficiência na função. De fato, a estrutura primária pré-determina as estruturas 2ª, 3ª e 4ª e suas funções contendo a informação necessária para gerar uma proteína com estrutura tridimensional particular. Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 16 b) Estrutura secundária A conformação secundária de uma proteína refere-se a arranjos particularmente estáveis de resíduos de aminoácidos e suas interações numa mesma cadeia polipeptídica ou com uma cadeia diferente dando origem a padrões estruturais recorrentes. Ela é a conformação local de alguma parte de um polipeptídeo. Em outras palavras, a estrutura secundária é o arranjo regular dos resíduos de aminoácidos em um segmento de uma cadeia polipetídica, onde cada resíduo está espacialmente relacionado aos seus vizinhos de maneira idêntica. Uns poucos tipos de estrutura secundária são particularmente estáveis e ocorrem amplamente nas proteínas. As duas estruturas regulares mais comuns são a α-hélice, a conformação β e as dobras β. Emboraestas sejam as principais estruturas secundárias repetitivas em uma ampla variedade de proteínas, outras estruturas repetitivas existem em algumas proteínas especializadas. α-hélice: é uma estrutura helicoidal em que o esqueleto polipeptídico está fortemente enovelado ao redor de um eixo imaginário e onde as cadeias laterais dos AA projetam-se para fora para evitar interferência estérica entre si. Cada volta helicoidal inclui 3,6 resíduos de AA e a torção é no sentido da mão direita. A α-hélice se forma mais facilmente que muitas outras conformações possíveis pois ela faz uso máximo das pontes de hidrogênio internas, sendo estabilizada por pontes de hidrogênio entre os grupamentos NH (H da amida) e CO (O da carbonila) da cadeia principal que está situado quatro radicais à frente na sequência linear. Além disso, as cadeias laterais dos aminoácidos também podem interagir por pontes de hidrogênio. Todas as pontes de hidrogênio combinadas dão à estrutura helicoidal considerável estabilidade. Aproximadamente ¼ dos resíduos dos AA estão em alfa hélices nas proteínas, sendo o número exato variável. Elas são a estrutura predominante da α-queratina. Algumas proteínas já tem sua função biológicas definida a partir da estrutura secundária. Exemplo: α- queratina. No entanto, interações entre as cadeias laterais também podem afetar ou desestabilizar esta estrutura. A mudança na sequência de aminoácidos ou mesmo a ionização dos mesmos pode modificar a forma com que eles interagem e, assim, prejudicar a conformação da proteína. Sequências contendo longo bloco de aminoácidos carregados (ex. Glu) não formam α-hélices porque Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 17 em pH 7 estes aminoácidos se repelem. Aminoácidos carregados positivamente são frequentemente encontrados separados por 3 resíduos de aminoácidos carregados negativamente para formarem o par iônico. O mesmo ocorre para grupo aromáticos hidrofóbicos. O volume dos aminoácidos Asn, Ser, Thr e Cys também podem desestabilizar uma hélice. Uma restrição para a formação de uma alfa hélice é a presença de prolina ou glicina. Na prolina o átomo de N é parte de um anel rígido que impede a rotação sobre a ligação N-Cα, sendo assim raramente encontrada na estrutura de uma α-hélice. Já a glicina possui maior flexibilidade de conformação que os outros AA e polímeros de glicina tendem a formar estruturas espiralas bem diferentes. Existe um dipolo líquido que se estende-se ao longo da α-hélice. Os 4 resíduos de AA de cada extremidade não participam da inteiramente das pontes de hidrogênio da hélice. As cargas positivas e negativas parciais do dipolo da hélice situam-se nos grupos peptídeos amino e carbonila próximos das extremidades terminais amino e carboxila da hélice. Por essa razão, AA carregados negativamente são frequentemente encontrados próximos do terminal amino do segmento helicoidal, onde eles tem uma interação de estabilização com cargas positivas do dipolo da hélice (um AA carregado positivamente desestabiliza). O oposto é verdadeiro na extremidade do terminal carboxila do segmento helicoidal. Afetam a estabilidade da α-hélice: 1) repulsão ou atração eletrostática entre resíduos de AA sucessivos com grupos R carregados, 2) o volume de grupos R carregados, 3) as interações entre grupos R espaçando 3 ou 4 resíduos entre si, 4) ocorrência de resíduos de prolina ou glicina e 5) interação entre resíduos de AA nas extremidades do segmento helicoidal e o dipolo elétrico inerente a uma α-hélice. Conformação β → Folhas β-pregueadas: a conformação β é uma conformação mais estendida das cadeias polipeptídicas, que estão dispostas formando uma estrutura em ziguezague, ao invés da hélice. A conformação β organiza as cadeias polipeptídicas em folhas. Ao contrário das alfa hélices, as beta folhas são compostas de duas ou mais cadeias peptídicas. Essas cadeias podem ser arranjadas lado a lado, formando uma estrutura que se assemelha a uma folha que foi aberta após ser dobrada como sanfona. Nesse arranjo, as pontes de hidrogênio são formadas entre cadeias adjacentes (intercadeia) da cadeia polipeptídica ou ainda intracadeia quando dobra-se. Os grupos R dos AA adjacentes projetam-se da estrutura ziguezague em direções opostas, criando padrões alternados. As folhas β podem ser arranjadas de forma paralela, quando as cadeias estão na mesma orientação amino-terminal carboxi-terminal, ou anti-paralela, quando a orientação das cadeias é inversa, ou seja, uma Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 18 cadeia está no sentido amino-terminal carboxi-terminal e a cadeia a seu lado está no sentido carboxi-terminal amino-terminal. Algumas folhas β podem ser assentadas uma acima da outra. Nesse caso, as cadeias laterais dos resíduos de aminoácidos devem ser pequenas, para evitar a repulsão. Exemplo é a fibroína da seda e teias que possuem um alto conteúdo de glicina e alanina. Dobras β: Nas proteínas globulares que possuem uma estrutura enovelada compacta, quase 1/3 dos AA estão em dobras ou alças onde a cadeia polipeptídica reverte a sua direção. São os elementos de conexão que unem corridas sucessivas de α-hélice ou conformação β. Particularmente comum são as dobras β que conectam as extremidades de dois segmentos adjacentes de uma folha β anti-paralela. Elas são, literalmente, dobras de 180º envolvendo 4 resíduos, frequentemente encontradas na superfície das proteínas, onde os 2 resíduos centrais fazem pontes de hidrogênio com a água, enquanto os resíduos da extremidade fazem ligação de hidrogênio entre eles. Resíduos de glicina e prolina frequentemente ocorrem em dobras β, o primeiro porque é pequeno e flexível e o último porque as ligações peptídicas envolvendo o nitrogênio imino facilmente assume a conformação cis. Menos comuns são as dobras γ, dobras com 3 resíduos com uma ligação de higrogênio estabelecendo-se entre o 1 e 3º resíduos. Tríplice hélice: Outras estruturas secundárias existem em poucas proteínas especializadas. Um exemplo é a hélice tríplice do colágeno que apresenta resistência à tensão. Ocorre no colágeno dos tendões, dentes, cartilagens, córnea e matriz óssea. O colágeno tem estrutura helicoidal simples do tipo α-hélice orientada à esquerda, é rico em Gly, Ala, Pro e Hyp e Hyl a sequência de AA comum é uma unidade tripeptídica Gly-X-Pro ou Gly-X- HO-Pro onde X é um dos 20 AA padrões. c) Estrutura terciária O arranjo tridimensional geral de todos os átomos em uma proteína é referido como a estrutura terciária das proteínas. A estrutura terciária resulta da associação de partes organizadas da molécula, chamadas de "domínios ou motivos" proteicos (estruturas supersecundárias). Os domínios são unidades fundamentais funcionais e de estrutura 3D Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 19 de um polipeptídeo. Cada domínio tem características de uma proteína globular pequena e compacta que é estruturalmente independente de outros domínios na cadeia polipeptídica. Assim, a estrutura terciária descreve todos os aspectos do enovelamento tridimensional de um polipeptídeo, tanto o dobramento dos domínios quanto ao arranjo final dos mesmos no polipeptídeo. Aminoácidos que estão muito distantes na sequência de proteínas e que residem em diferentes tipos de estruturas secundárias podem interagir, formando uma estrutura tridimensional. As cadeias laterais dos aminoácidos podem ligar-se fracamente por interações hidrofóbicas, e algumas vezes por ligações covalentes, formadas pelas pontes dissulfeto entre resíduos de cisteína.Os grupos hidrofóbicos tendem a se localizar no interior da molécula onde associam-se com outros grupos hidrofóbicos e os hidrofílicos (polares, carregados ou não) tendem a estar na superficie molecular em contato com o solvente. O máximo de ligações de hidrogênio são feitas procurando evitar outras interações. As características de um domínio (motivo) é estruturalmente independente de outros domínios que compõem a cadeia polipeptídica. Para algumas proteínas, que apresentam apenas uma subunidade, a estrutura terciária é o último nível de organização. Interações que estabilizam a estrutura terciária: Pontes dissulfeto (entre os –SH da cisteína), interações hidrofóbicas entre os grupos R apolares, pontes de H e interações iônicas (ex. COO- com NH3+). d) Estrutura quaternária Quando uma proteína possui duas ou mais cadeias polipeptídicas (oligoméricas), que podem ser iguais ou diferentes, seu arranjo espacial é referido como estrutura quaternária. Essas cadeias podem estar unidas por ligações não-covalentes como pontes de hidrogênio, interações hidrofóbicas e interações iônicas. Essas proteínas são grandes e complexas, muitas vezes apresentando papéis reguladores. A ligação de uma molécula a uma subunidade pode levar a uma mudança conformacional em toda a estrutura da proteína, alterando a função das outras subunidades. Em alguns casos, subunidades separadas podem apresentar funções diferentes. Portanto, as subunidades podem funcionar independentemente ou trabalhar cooperativamente. Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 20 Ao considerar níveis superiores de estrutura, é útil classificar as proteínas em dois grupos principais: as proteínas fibrosas, possuindo cadeias polipeptídicas arranjadas em longas fitas ou folhas, e as proteínas globulares, possuindo cadeias polipeptídicas enoveladas em uma forma esférica ou globular. Os dois grupos são estruturalmente distintos: as proteínas fibrosas usualmente consistem principalmente de um único tipo de estrutura secundária; as proteínas globulares frequentemente contem vários grupos tipos de estrutura secundária. Os dois grupos diferem também funcionalmente, em que as estruturas que fornecem apoio, forma e proteção externa aos vertebrados são feitas de proteínas fibrosas, enquanto a maior parte das enzimas e proteínas regulatórias são proteínas globulares. Proteínas fibrosas: As proteínas fibrosas apresentam propriedades mecânicas especiais que dão forma e/ou flexibilidade aos tecidos ou estruturas onde ocorrem. Elas são adaptadas para a função estrutural. Resultam de uma estrutura especial, porém extremamente simples, obtidas pela combinação de AA específicos com elementos estruturais secundários regulares. Ou seja, a unidade estrutural fundamental é um elemento de repetição simples da estrutura secundária. Isso contrasta com as proteínas globulares, cujas formas são resultantes de uma interação complexa de elementos estruturais 2º, 3º e até 4º. Elas são insolúveis em água devido a alta concentração de aminoácidos hidrofóbicos. Alguns exemplos de proteínas fibrosas são a α-queratina, o colágeno e a fibroína da seda. As α-queratinas conferem um caráter resistente ao cabelo, unhas, lã, penas, etc. São formadas por α-hélices (sentido da mão direita), arranjadas na forma de uma espiral. Duas fitas de α-queratina , orientadas em paralelo, são embrulhadas uma com a outra para formar uma espiral supertorcida (sentido da mão esquerda) que amplifica a resistência da estrutura global. O entrelaçamento de dois polipeptídios α-helicoidais é um exemplo de estrutura quaternária. As espirais são conectadas entre si por ligações cruzadas covalentes (pontes de dissulfeto), o que aumenta ainda mais a resistência da proteína. Nas α-queratinas de maior rigidez, como nos chifres, as interações da estrutura quaternária são reforçadas por muitas pontes dissulfeto. O colágeno, encontrado no tecido conjuntivo formando os tendões, cartilagens e a matriz extracelular dos ossos e da córnea, também confere resistência a essas estruturas. A hélice do colágeno é uma estrutura secundária única. Apresenta o sentido da mão esquerda e possui três resíduos de aminoácidos por volta. O colágeno também é uma espiral com três cadeias polipeptídicas (cadeias α), que são entrelaçadas entre si formando uma espiral superentrelaçada no sentido de mão direita, oposto a α-queratina. O espiral superentrelaçado pode ser estendido, conferindo ao colágeno um caráter elástico. A sequência de AA no colágeno é geralmente uma unidade tripeptidica repetitiva, Gly-X-Y, onde X frequentemente é prolina e Y frequentemente 4-hidroxiprolina, que permitem uma torção brusca na hélice do colágeno. A enzima que hidroxila a prolina requer ascorbato. As fibrilas do colágeno são montagens Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 21 supramoleculares consistindo de moléculas da hélice tripla de colágeno, associadas de uma variedade de maneiras para fornecer graus variados de força tensional. A fibroína da seda é produzida por insetos e aranhas. Suas cadeias polipeptídicas estão predominantemente na conformação de folha β- pregueada, estabilizadas por pontes de hidrogênio entre todas as ligações peptídicas nas folhas β e por interações de van der Waals entre as folhas. A fibroína é rica em resíduos de alanina e glicina permitindo um empacotamento íntimo entre as folhas beta. Como a conformação β já é estendida, a fibroína da seda não é elástica como o colágeno. No entanto, ela é flexível, uma vez que as dobras são mantidas juntas por numerosas interações fracas (ao invés de pontes dissulfeto como na α-queratina, resistente). Proteínas globulares: A diversidade estrutural reflete a diversidade funcional nas proteínas globulares. Em uma proteína globular, segmentos diferentes de uma cadeia polipeptídica (ou múltiplas cadeias) enovelam-se entre si, conferindo uma forma compacta. Esse enovelamento também confere uma estrutura tridimensional para que as proteínas desempenhem uma ampla gama de funções biológicas. Anticorpos, enzimas alostéricas, actina e miosina (proteínas da contração muscular), hemoglobina e mioglobina (proteínas que fazem o transporte de oxigênio) são exemplos comuns de proteínas globulares. Hemoglobina e mioglobina são as proteínas de transporte de oxigênio. A mioglobina está presente nos músculos, enquanto que a hemoglobina é um pigmento presente nos eritrócitos responsável por transportar o oxigênio dos pulmões até os tecidos. Enquanto que a mioglobina apresenta uma estrutura terciária, constituída por uma única cadeia polipeptídica, a hemoglobina possui quatro subunidade arranjadas em uma estrutura quaternária. Essas proteínas globulares possuem um grupo prostético heme, formado por porfirinas e íons ferro, que fixam o oxigênio na estrutura da proteína (cada subunidade apresenta um grupo heme). A ligação de um átomo de oxigênio ao heme de uma subunidade da hemoglobina promove uma mudança conformacional nas outras subunidades, aumentando sua afinidade pelo oxigênio. OBS.: Na anemia falciforme, há um defeito na sequência de aminoácidos da hemoglobina. Um aminoácido “glutamato” é substituído por uma “valina”, formando uma hemoglobina que precipita quando é desoxigenada; os eritrócitos dos indivíduos acometidos por esta doença adquirem a forma de foice, são menores e anormais. Uma vez que a sequência primária de aminoácidos é modificada, sua função também é alterada; o transporte de oxigênio é, portanto, defeituoso. Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 22 Ao se analisar a estrutura de muitas proteínasglobulares há a revelação de padrões de estruturas comuns. A estrutura tridimensional de uma proteína globular típica pode ser considerada uma montagem de segmentos polipeptídicos nas conformações de α-hélice e folha β unidas por segmentos conectantes. As estruturas supersecundárias (motivos, dobras) são arranjos particularmente estáveis de vários elementos da estrutura secundária e as conexões entre eles. Um motivo grande e único pode compreender a proteína inteira. Um motivo bem estudado são as espirais da α-queratina. Motivos complexos como o barril alfa/beta podem ser formados por motivos mais simples (alça beta-alfa-beta). As estruturas das proteínas são divididas em quatro classes: toda alfa, toda beta, alfa/beta (onde as regiões alfa e beta são intercaladas ou alternadas), alfa + beta (onde as regiões alfa e beta são de alguma forma separadas). Os motivos proteicos servem de base para a classificação das proteínas. Polipeptídeos com mais de uma centena de resíduos de AA frequentemente se enovelam em duas ou mais unidades globulares estáveis chamadas de domínios. Uma proteína com múltiplos domínios pode parecer tendo um lobo globular distinto para cada domínio, porém com contatos intensos. Domínios diferentes frequentemente possuem funções distintas. Proteínas pequenas frequentemente possuem apenas 1 domínio. Desnaturação proteica: A conformação nativa da proteína é apenas marginalmente estável. A perda da estrutura tridimensional da proteína (conformação nativa), acompanhada pela perda da sua função biológica, é chamada de desnaturação. No estado desnaturado, a proteína perde sua estrutura enovelada, mas não ocorre perda da estrutura primária nem o rompimento das ligações peptídicas. O estado desnaturado não é necessariamente igual ao completo desenovelamento da proteína. Modestas alterações no ambiente da proteína podem provocar alterações estruturais que afetam a sua função. As proteínas podem ser desnaturadas pelo calor (condições extremas de temperatura), que afeta as interações entre as cadeias polipeptídicas (pontes de hidrogênio e interações hidrofóbicas) ou por extremos de pH, solventes orgânicos (álcool, acetona), certos solutos orgânicos (uréia, cloreto de guanidina) e detergentes. Solventes orgânicos, ureia e detergentes atuam rompendo as interações hidrofóbicas do núcleo estável das proteínas globulares, principalmente afetando o estado de ionização das cadeias laterais. Extremos de pH alteram a carga líquida nas proteínas, causando repulsão eletrostática e ruptura de algumas pontes de hidrogênio. Outras condições desnaturantes são: raio-x, ultrassom e agitação mecânica. A desnaturação aumenta a digestibilidade das proteínas, pois quanto mais próximo da organização Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 23 primária, mais fácil é a digestão pelas enzimas intestinais (peptidases). Renaturação A estrutura terciária de uma proteína globular é determinada pela sua sequência de aminoácidos e a desnaturação de algumas proteínas é reversível. Assim, certas proteínas globulares podem sofrer um processo de renaturação, voltando à sua conformação inicial e recuperando sua estrutura nativa e função biológica, quando o agente desnaturante é removido. Nem todas as proteínas enovelam-se espontaneamente à medida que vão sendo sintetizadas na célula. O enovelamento para muitas proteínas é facilitado pela ação de proteínas especializadas chamadas chaperonas (HSP70, chaperoninas). As chaperonas são responsáveis por reenovelar as proteínas conferindo-lhes novamente a função após sua desnaturação. Os estados desenovelados são caracterizados por alto grau de entropia de conformação e relativamente alta energia livre. Formas proteicas alteradas Príons → Embora não contenha material genético, o príon, uma proteína celular alterada, multiplica-se como vírus e bactérias. Atinge seres humanos e animais com uma doença degenerativa que dá ao cérebro uma aparência esponjosa, tal o estrago que causa nas células nervosas. Ao se reproduzir em grande escala, o príon provoca as encefalopatias, que causam tremores incontroláveis, demência e morte. Beta-amilóide → A proteína beta-amiloide, como se sabe, é acumulada nas placas senis, um dos marcos patológicos da doença. Essa proteína é produzida normalmente no cérebro e há evidências de que quantidades muito pequenas dela são necessárias para manter os neurônios viáveis. O problema na doença de alzheimer é que sua produção aumenta muito e moléculas acumulam-se como oligômeros, levando à alteração nas sinapses, o primeiro passo para a série de eventos que leva à perda de neurônios e aos sintomas da doença. Ubiquitinização A ubiquitina é uma proteína encontrada nas células eucariotas constituída por 76 aminoácidos que desempenha uma função importante na regulação de proteínas. Ela marca proteínas indesejadas (por exemplo proteínas mal-dobradas) para que sejam degradadas por organelas chamadas proteassomas. Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 24 3. Considerações finais Os aminoácidos são compostos orgânicos contendo um grupo carboxila, um grupo amino, um hidrogênio e uma cadeia lateral ligados a um carbono-α. Sua natureza é conferida pela cadeia lateral, podendo o grupo R ser apolar alifático, aromático bem como polar sem cargas ou carregados positiva ou negativamente. A união de L-aminoácidos através das ligações peptídicas dá origem a diferentes peptídeos e proteínas, os quais apresentam funções muito amplas no organismo que vão desde propriedades estruturais até a catálise das reações bioquímicas nos organismos. A expressão de uma proteína é ditada geneticamente, onde cada aminoácido é codificado a partir de 3 pares de bases nitrogenadas (códon). A síntese de proteínas compreende os processos de transcrição, ativação de aminoácidos e tradução. A estrutura química tridimensional das proteínas envolve vários níveis de organização incluindo as estruturas primária, secundária, terciária e quaternária. As proteínas podem ser formadas apenas por aminoácidos ou ainda apresentar grupos prostéticos (proteínas conjugadas) que desempenham importantes papéis da função biológica. Além disso, elas podem ser formadas por uma ou mais subunidades. De acordo com a forma, elas podem ser do tipo fibrosas ou globulares. As fibrosas são praticamente insolúveis em água e desempenham funções estruturais (ex. colágeno). Já as proteínas globulares são esféricas, mais solúveis em água e desempenham funções dinâmicas (ex. enzimas, hemoglobina e imunoglobulinas). Por fim, as proteínas são as macromoléculas mais abundantes e juntamente com os peptídeos e aminoácidos estão atralados a quase todos os processos celulares. 4. Bibliografia Nelson, DL et al.. Princípios de bioquímica de Lehninger, 6ª edição, Porto Alegre, Artmed, 2014. Champe, PC et al. Bioquímica ilustrada, 4ª edição, Porto Alegre, Artmed, 2009. Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 25 ANEXOS Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 26 Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 27 Cristiani Bortolatto e Bibiana Gai 28