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ISSN 2358-6974 Volume 1 JUL / SET 2014 Doutrina Nacional / Gustavo Tepedino / Luiz Edson Fachin / Paulo Lôbo / Anderson Schreiber / Paulo Nalin / Rodrigo Toscano de Brito Doutrina Estrangeira / Gerardo Villanacci Jurisprudência Comentada / Marília Pedroso Xavier / William Soares Pugliese Pareceres / Judith Martins-Costa Atualidades / Bruno Lewicki Resenha / Carlos Nelson Konder Vídeos e Áudios / Caio Mário da Silva Pereira Revista Brasileira de Direito Civil Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 2 APRESENTAÇÃO A Revista Brasileira de Direito Civil – RBDCivil tem por objetivo fomentar o diálogo e promover o debate, a partir de perspectiva interdisciplinar, das novidades doutrinárias, jurisprudenciais e legislativas no âmbito do direito civil e de áreas afins, relativamente ao ordenamento brasileiro e à experiência comparada, que valorize a abordagem histórica, social e cultural dos institutos jurídicos. A RBDCivil é composta das seguintes seções: Editorial; Doutrina: (i) doutrina nacional; (ii) doutrina estrangeira; (iii) jurisprudência comentada; e (iv) pareceres; Atualidades; Vídeos e áudios. Endereço para contato: Rua Primeiro de Março, 23 – 10º andar 20010-000 Rio de Janeiro, RJ, Brasil Tel.: (55) (21) 2505 3650 Fax: (55) (21) 2531 7072 E-mail: rbdcivil@ibdcivil.org.br Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 3 EXPEDIENTE Diretor Gustavo Tepedino - Doutor em Direito Civil pela Università degli Studi di Camerino, Professor Titular de Direito Civil da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Conselho Editorial Francisco Infante Ruiz - Doutor em Direito Civil e Internacional Privado pela Universidad de Sevilla, Professor Titular de Direito Civil (Direito Privado Comparado) na Universidad Pablo de Olavide (Sevilla), Espanha. Gustavo Tepedino - Doutor em Direito Civil pela Università degli Studi di Camerino, Professor Titular de Direito Civil da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil. Luiz Edson Fachin – Doutor em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Professor Titular de Direito Civil da Universidade Federal do Paraná, Brasil. Paulo Lôbo - Doutor em Direito Civil pela Universidade de São Paulo, Professor Titular da Universidade Federal de Pernambuco, Brasil. Pietro Perlingieri – Professor Emérito da Università del Sannio. Presidente da Società Italiana Degli Studiosi del Diritto Civile - SISDiC. Doutor honoris causa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Coordenador Editorial Aline de Miranda Valverde Terra Carlos Nelson de Paula Konder Conselho Assessor Eduardo Nunes de Souza Fabiano Pinto de Magalhães Louise Vago Matieli Paula Greco Bandeira Tatiana Quintela Bastos Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 4 SUMÁRIO Editorial Um novo Instituto de Direito Civil? – Gustavo Tepedino 6 Doutrina nacional Esboço de uma classificação funcional dos atos jurídicos – Gustavo Tepedino 8 O corpo do registro no registro do corpo; mudança de nome e sexo sem cirurgia de redesignação – Luiz Edson Fachin 36 Direitos e conflitos de vizinhança - Paulo Lôbo 61 Contratos eletrônicos e consumo - Anderson Schreiber 88 A força obrigatória dos contratos no brasil: uma visão contemporânea e aplicada à luz da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça em vista dos princípios sociais dos contratos - Paulo Nalin 111 O ambiente da nova contratualidade e a tendência da jurisprudência do STJ em matéria contratual - Rodrigo Toscano de Brito 135 Doutrina estrangeira L’opaco profilo del risarcimento civilisitico nella complessa disciplina ambientale - Gerardo Villanacci 160 Jurisprudência Comentada AGRG NO RESP 827.143/DF: PRECEDENTE OU DECISÃO JUDICIAL? - Marília Pedroso Xavier e William Soares Pugliese 209 Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 5 Pareceres Contrato de seguro. Suicídio do segurado. Art. 798, código civil. Interpretação. Diretrizes e princípios do código civil. Proteção ao consumidor. - Judith Martins-Costa 223 Atualidades Metodologia do direito civil constitucional: futuros possíveis e armadilhas - Bruno Lewicki Resenhas 271 O segundo passo: do consumidor à pessoa humana - Carlos Nelson Konder 277 Submissão de artigos Saiba como fazer a submissão do seu artigo para a Revista Brasileira de Direito Civil - RBDCivil 281 Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 6 EDITORIAL UM NOVO INSTITUTO DE DIREITO CIVIL? Gustavo Tepedino O surgimento do Instituto Brasileiro de Direito Civil –IBDCivil coincide com cenário paradoxal. De um lado, proliferam-se nas últimas décadas organizações não governamentais, em movimento associativo que, desde o retorno ao regime democrático, parece se espraiar por todos os domínios, de norte a sul do Brasil. Por outro lado, contudo, talvez como sequela renitente de nossas raízes históricas, a agenda associativa revela-se, as mais das vezes, corporativista, expressão ampliada de individualismo coronelista que contraria a função primordial da organização coletiva da sociedade. No caso do Direito, em que acentuado individualismo tem sido justificado, tradicionalmente, pela atividade solitária do profissional ou do estudioso, algumas importantíssimas associações, como o nosso fraterno IBDFAM – Instituto Brasileiro de Direito de Família, o Brasilcon – Instituto Brasileiro de Direito e Política do Consumidor, e o Conpedi - Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Direito, revelaram-se experiências estimulantes e vitoriosas, exemplos a serem seguidos. O caminho associativo, contudo, encontra resistências cuja superação depende de alteração cultural significativa, destinada a rejeitar modelos organizacionais em que a pauta de reivindicações não é acompanhada de compromisso para com as próprias instituições e com a sociedade. Há que se cultivar o voluntariado, o altruísmo e a preocupação a longo prazo com as estruturas institucionais. Nos últimos anos, usou-se e abusou-se de entidades com propósitos desviantes de suas finalidades institucionais, banalizando, maculando e por vezes estigmatizando o conceito de organização social. Daí a necessidade de se revisitar a prática associativa, tendo-se em mente não somente os propósitos estatutários imediatos, mas o repensar do papel e do comportamento de cada associado, com vistas a, extrapolando os confins internos de cada organismo, impregnar os centros de pesquisa e as Instituições Universitárias, com seu potente efeito multiplicador, em busca de verdadeira e renovada cultura associativa. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 7 Nessa esteira, pretende-se com o IBDCivil congregar os estudiosos do direito civil contemporâneo, promovendo espaço, até então inexistente, de diálogo e construção coletiva da dogmática e da pesquisa jurídica. Ao lado e além, portanto, de indispensável fórum de discussão e difusão do conhecimento, papel desempenhado por essa Revista Brasileira de Direito Civil – RBDCivil, e da rede de professores e profissionais que poderão interagir positivamente no panorama editorial e acadêmico brasileiros, há em nosso novoIBDCivil o propósito de semear consciência organizacional ainda não sedimentada na sociedade brasileira. A vida institucional sólida substitui, assim, o individualismo em todos os níveis, afastando-se as exageradas pressões corporativas voltadas a privilégios setoriais abençoados pelo Poder Público. Na área jurídica, onde a carência de pesquisa coletiva ainda predomina, deve- se apostar urgentemente na vida institucional e na construção de modelos de convivência social participativos, democráticos e igualitários. No âmbito do direito civil, especialmente, pela amplitude de seu campo de conhecimento, o impacto dessa mudança de paradigma há de repercutir de maneira decisiva nas profissões jurídicas, contribuindo para aproximar as construções teóricas da práxis judiciária e do direito vivo. Alexis de Tocqueville, em seu clássico De la démocratie en Amérique, escrito em 1835, assinalou que o sucesso da democracia americana decorreria, mais do que da organização do próprio Estado, da habilidade, herdada dos ingleses, da arte de se associar. Esse predicado talvez seja a carência lancinante de nossa sociedade, e seu desenvolvimento se mostra impostergável para a construção de instituições democráticas. Trata-se de consolidar a percepção de que o fortalecimento institucional é indispensável ao crescimento civilizatório, permitindo o aperfeiçoamento da democracia, da solidariedade social e da igualdade de oportunidades no exercício das liberdades fundamentais. G.T. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 8 SEÇÃO DE DOUTRINA: Doutrina Nacional ESBOÇO DE UMA CLASSIFICAÇÃO FUNCIONAL DOS ATOS JURÍDICOS* Outline of a Functional Classification of Legal Acts Gustavo Tepedino Professor Titular de Direito Civil da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro Resumo: A alteração da noção de autonomia repercute profundamente na teoria da interpretação. Na medida em que o espectro e os limites (das categorias e institutos jurídicos, e especialmente) da autonomia atribuída aos particulares não são mais uniformes e abstratos (vontade individual submetida unicamente ao limite negativo da ilicitude), mas dependem dos valores que lhes servem de fundamento (para promoção de interesses socialmente relevantes), verifica-se a funcionalização dos institutos de direito civil. Nessa direção, propõem-se a classificação dos atos e negócios jurídicos a partir de sua análise funcional, tendo-se me conta a atividade concretamente desenvolvida e os limites positivos impostos pelos valores e princípios constitucionais (legalidade constitucional). Palavras-chave: 1. Autonomia privada; 2. Ato jurídico; 3. Negócio jurídico; 4. Atividade contratual sem negócio. Abstract: The mutation of the notion of private autonomy has deep repercussions in the theory of interpretation. As the range and the limits (of juridical categories and institutions, and specially) of private autonomy attributed to individuals are no longer uniform and abstract (individual will submitted solely to the negative limit of the illicit), but also depend on the values that serve as their foundation (for the promotion of socially relevant interests), one can verify the functionalization of private law institutions. Thus, this article proposes the classification of juridical acts based on their functional analysis, taking into account the activity that has been concretely developed and the positive limits imposed by constitutional values and principles (constitutional legality). Keywords: 1. Private autonomy; 2. Juridical act; 3. Juridical transaction; 4. Contractual activity without juridical act. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 9 Sumário: 1. Autonomia privada e perspectiva funcional da atividade jurídica (fatos, atos e negócios) – 2. Fato social e fato jurídico: superação da distinção – 3. Classificação dos fatos jurídicos: fato, ato e negócio jurídico – os chamados atos-fatos – 4. A noção de negócio jurídico – 5. Ato jurídico stricto sensu, ato-fato e negócio jurídico em uma perspectiva funcional – 6. Negócio jurídico no Código Civil e seus três planos de análise: elementos, requisitos, fatores de eficácia – 7. Classificação dos negócios jurídicos – 8. Atividade contratual sem negócio jurídico. 1. Autonomia privada e perspectiva funcional da atividade jurídica (fatos, atos e negócios) As liberdades fundamentais, asseguradas pela ordem constitucional, permitem a livre atuação das pessoas na sociedade. Expressão de tais liberdades no âmbito das relações privadas é a autonomia privada, como poder de auto-regulamentação e de auto-gestão conferido aos particulares em suas atividades. Tal poder constitui-se em princípio fundamental do direito civil, com particular inserção tanto no plano das relações patrimoniais, na teoria contratual, por legitimar a regulamentação da iniciativa econômica pelos próprios interessados, quanto no campo das relações existenciais, por coroar a livre afirmação dos valores da personalidade inerentes à pessoa humana. O principio da autonomia privada, entretanto, não é absoluto, inserindo-se no tecido axiológico do ordenamento, no âmbito do qual se pode extrair seu verdadeiro significado.1 Encontra-se informado pelo valor social da livre iniciativa, que se constitui em fundamento da República (art. 1º, IV, C.R.),2 corroborado por numerosas garantias fundamentais às liberdades, que têm sede constitucional em diversos preceitos, com conteúdo negativo e positivo. Assume conteúdo negativo no princípio da legalidade, que reserva ao legislador o poder de restrição a liberdades, tornando lícito tudo o que não for legalmente proibido. Assim o art. 5º, II, da Constituição da República, em cuja linguagem se lê: “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”. 1 Conforme leciona JOSÉ DE OLIVEIRA ASCENSÃO, não há antecedência cronológica da relação social em face da relação jurídica; ao revés, “o Direito é em si forma da vida social. Ele vive nas relações sociais, que muitas vezes seriam inteiramente impensáveis sem a norma que as unifica (...). A concretização da norma cria sempre realidade social valorada” (Direito Civil – Teoria Geral. Volume III. Coimbra: Coimbra Editora, 2002, p. 42). A liberdade e, especificamente, a autonomia privada, assim, não correspondem a noções anteriores ao Direito, mas são construídas juridicamente, no âmbito da axiologia do ordenamento. 2 Destaca a proteção constitucional da livre iniciativa como princípio informador da autonomia privada, FRANCISCO AMARAL, Direito Civil: Introdução, Rio de Janeiro, Renovar, 2003, p. 359: “A liberdade de iniciativa econômica é a fonte legitimadora da autonomia privada no campo constitucional, como princípio básico da ordem econômica e social. São conceitos correlatos, mas não coincidentes, na medida em que a primeira focaliza o aspecto econômico, e a segunda, o jurídico, do mesmo fenômeno, havendo, entre eles, uma relação instrumental”. No mesmo sentido, ORLANDO GOMES, Introdução ao Direito Civil, Rio de Janeiro, Forense, 2007, p. 240. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 10 Na mesma direção, dotado de conteúdo meramente negativo, situa-se o art. 170, parágrafo único, do Texto Maior, o qual, ao fixar os princípios gerais da atividade econômica, dispõe: “É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvonos casos previstos em lei”. Tal conteúdo não esgota o sentido constitucional do princípio da autonomia privada, que corporifica as liberdades nas relações jurídicas de direito privado. Segundo o Texto Constitucional, a liberdade de agir, objeto das garantias fundamentais insculpidas no art. 5º, associa-se intimamente aos princípios da dignidade da pessoa humana (art. 1, III), fundamento da República, da solidariedade social (art. 3º, I) e da igualdade substancial (art. 3º, III), objetivos fundamentais da República. Significa dizer que a livre iniciativa, além dos limites fixados por lei, para reprimir atuação ilícita, deve perseguir a justiça social, com a diminuição das desigualdades sociais e regionais e com a promoção da dignidade humana.3 A autonomia privada adquire assim conteúdo positivo, impondo deveres à autoregulamentação dos interesses individuais, de tal modo a vincular, já em sua definição conceitual, liberdade à responsabilidade.4 Essa perspectiva caracteriza o princípio da autonomia privada no direito contemporâneo, desde a promulgação, em diversos países da Europa Continental, ao longo do Século XX, de Constituições intervencionistas, como o Texto Constitucional brasileiro de 1988, que estabeleceram metas a serem alcançadas pelos particulares ao lado da liberdade de contratar e circular riquezas. Anteriormente, por conta de conhecido processo histórico que serve de moldura para as construções dogmáticas dos Séculos XVIII e XIX, o poder dos particulares de gerir seus interesses era designado como autonomia da vontade, a enfatizar, já em sua definição, o viés voluntarista mediante a qual se pretendia afastar a ingerência dos Estados nos espaços jurídicos privados.5 Essa concepção, embora ainda presente na manualística, não se mostra 3 Na lição de PIETRO PERLINGIERI, “A Constituição operou uma reviravolta qualitativa e quantitativa na ordem normativa. Os chamados limites à autonomia, postos à tutela dos contratantes vulneráveis, não são mais externos e excepcionais, mas, sim, internos, enquanto expressão direta do ato e do seu significado constitucional” (O Direito Civil na Legalidade Constitucional. Rio de Janeiro: Renovar, 2008, p. 358). 4 Nesta direção, leciona FEDERICO CASTRO Y BRAVO, El Negocio Juridico, Instituto Nacional de Estudios Politicos, Madrid, 1967, p. 29, segundo o qual, na dinâmica dos negócios jurídicos, a definição de finalidades a serem alcançadas pelos particulares “no sopone disminuir el alcance de la autonomía de la volontad, sino pó el contrario tenerla em cuenta em su doble aspecto de libertad y de responsabilitad”. 5 Assim define a autonomia da vontade FRANCISCO AMARAL, diferenciando-a da autonomia privada: “Autonomia da vontade como manifestação de liberdade individual no campo do direito, e autonomia privada, como poder de criar, nos limites da lei, normas jurídicas, vale dizer, o poder de alguém dar a si próprio um ordenamento jurídico e, objetivamente, o caráter próprio desse ordenamento, constituído pelo agente, diversa mas complementarmente ao ordenamento estatal” (Direito Civil: Introdução, cit., p. 347). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 11 consentânea com o sistema civil-constitucional. A ordem pública constitucional valoriza a liberdade na solidariedade, impondo que a autonomia privada seja vista como poder de regulamentação não necessariamente vinculada à vontade subjetiva, já que o interesse público sobrepõe ao poder de agir dos particulares a tutela de valores socialmente relevantes. Alude-se, nesta direção, à autonomia negocial, como noção substitutiva do conceito de autonomia privada, por melhor traduzir o poder conferido aos particulares para deflagrarem negócios, não necessariamente definindo os próprios regulamentos de interesse, dependendo dos interesses em jogo.6 A autonomia privada, assim analisada, embora assegurada constitucionalmente, se reduz, em algumas hipóteses normativas, à mera liberdade de iniciativa. Nessa vertente, de acordo com o setor da economia, há maior ou menor compressão do espaço de autonomia em favor de fontes heterônomas de integração dos modelos de regulamentação do direito civil.7 Basta pensar nos contratos de locação residencial ou nas relações de consumo para verificar que a debacle do império da vontade, ostensivamente conduzida pelo legislador, permite compatibilizar interesses patrimoniais com valores existenciais em potencial colisão. A autonomia privada convive, assim, com a intervenção legislativa destinada a promover o direito à moradia, a solidariedade, a dignidade da pessoa humana e a igualdade substancial, reduzindo-se situações de vulnerabilidade. A alteração da noção de autonomia repercute profundamente na teoria da interpretação. Tradicionalmente, a dogmática se restringia ao aspecto estrutural das categorias jurídicas, ou seja, seus elementos constitutivos e os poderes atribuídos aos titulares. Na medida em que o espectro e os limites (das categorias e institutos jurídicos, e especialmente) da autonomia atribuída aos particulares não são mais uniformes e abstratos (vontade individual submetida unicamente ao limite negativo da ilicitude), mas dependem dos valores que lhes servem de fundamento (para promoção de interesses socialmente relevantes), alude-se à funcionalização dos institutos de direito civil. Assim, as relações jurídicas estruturadas para a proteção de interesses patrimoniais e individuais tornam-se vetores de interesses existenciais. 6 O conceito de autonomia negocial é desenvolvido por PIETRO PERLINGIERI, O Direito Civil na Legalidade Constitucional, cit., p. 338. 7 Sobre a referida intervenção heterônoma nos contratos, afirma STEFANO RODOTÀ que o contrato, embora decorrente da vontade das partes, uma vez formado, sujeita-se à intervenção de fontes exteriores, alheias à vontade individual: “è evidente, allora, che le diverse fonti si ispirano ciascuna a peculiari valutazioni: ma qui interessa rilevare soltanto che tutte convergono nella finalità comune della costruzione del regolamento contrattuale; rispetto a quest’ultimo la particolare ratio delle singole fonti non viene in questione, riguardando esclusivamente il modo in cui ciascuna di esse, in sé considerata, opera” (Le fonti di integrazione del contrato, Milano, Giuffrè, 2004, p. 87). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 12 Em última análise, o espaço de autonomia privada (a estrutura dos poderes conferidos para exercício de direitos dela decorrentes) é determinado pela função que desempenha na relação jurídica.8 Tal reflexão interfere diretamente na teoria dos atos e negócios jurídicos, no sentido de superar a abordagem meramente estática de seus elementos estruturais – forma e conteúdo –, para se alcançar a função – o porquê e para quê –, em modo a se identificar a legitimidade objetiva da alteração propiciada pela autonomia privada nas relações jurídicas pré- existentes.9 2. Fato social e fato jurídico: superação da distinção Se a atuação do direito depende visceralmente dos fatos, em recíproco condicionamento, a conceituação analítica das diversas espécies de fatos (jurídicos) mostra-se indispensável para a definição da disciplina normativa correspondente. Fato social é o acontecimento que, submetido à incidência do direito, torna-se, tecnicamente, fato jurídico. Afirma-se, por isso mesmo, que um fato qualquer – pré-jurídico –, a partir do momento em que deixa de ser indiferente ao direito, adquire aptidão para gerar efeitos jurídicos. Em consequência, segundo lição clássica,fatos jurídicos são os eventos mediante o quais as relações jurídicas nascem, se modificam e se extinguem.10 Ou, em refinada síntese, “os fatos aos quais o direito atribui relevância jurídica no sentido de alterar as situações a eles pré- existentes, e de configurar situações novas, às quais correspondem novas qualificações jurídicas”.11 8 A respeito do conceito de função, cf. NORBERTO BOBBIO, Em direção a uma teoria funcionalista do direito. Da estrutura à função. São Paulo, Manole, 2007, p. 53. 9 Sobre o ponto, magistralmente, EMILIO BETTI, Teoria generale del negozio giuridico, Torino, UTET, 1952, 2a ed., p. 170 e ss. 10 Assim o afirma, citando SAVIGNY, CLOVIS BEVILAQUA. Teoria geral do direito civil. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1976, p. 210. No mesmo sentido: ROBERTO DE RUGGIERO, Instituições de direito civil, vol. 1, Campinas, Bookseller, 2005, p. 310; MIGUEL REALE, Lições preliminares de direito, São Paulo, Saraiva, 2012, p. 203. Do mesmo modo, afirma FRANCISCO AMARAL, Direito Civil: Introdução, cit., p. 379. Conforme lembra, oportunamente, ALBERTO TRABUCCHI: “Alcune volte l’intento negoziale non è quello di produrre nuove consequenze giuridiche, ma di confermare una situazione esistente eliminando dubbi sulla sua consistenza concreta. Si parla in tal caso di negozio di accertamento, nel quale c’è una volontà dichiarata, ma gli effetti giuridici no saranno nuovi effetti voluti, bensí quelli della situazione accertata” (Istituzioni di diritto civile, Padova, CEDAM, 1993, p. 124). 11 EMILIO BETTI, Teoria generale del negozio giuridico, cit., p. 3. No original, o texto em sua integralidade: “Fatto giuridico sono pertanto i fatti ai quali il diritto attribuisce rilevanza giuridica nel senso di mutare le situazioni ad essi preesistenti e di configurare situazioni nuove, cui corrispondono nuove qualificazioni giuridiche. Lo schema logico del fatto giuridico, ridotto alla espressione più semplice, si ottiene prospettandolo come un fatto Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 13 A construção, contudo, deve ser analisada com reservas, por duas razões fundamentais. Em primeiro lugar, se é verdade que o dado social – como elemento da realidade fática – não se confunde com o dado normativo – a norma jurídica –, parece arbitrário considerar alguns fatos simplesmente alheios ao direito, ou despidos de relevância ou pressupostos de eficácia, já que a experiência normativa alcança integralmente a vida social, mesmo os espaços de liberdade que o direito, valorando-os, preserva deliberadamente contra qualquer tipo de regulamentação. Diante de tal circunstância, afirma-se que todo fato social interessa ao direito, já que potencialmente interfere na convivência social e, portanto, ingressa no espectro de incidência do ordenamento jurídico.12 Na doutrina brasileira, argutamente assinalou-se: “não há fato indiferente ao Direito, pois é o próprio Direito, através da norma positiva que, não regulando uma conduta ou uma circunstância, chancela tal conduta ou tal circunstância de irrelevante ou sem juridicidade”.13 Em segundo lugar, qualquer fato social é percebido de acordo com a compreensão cultural da sociedade em determinado momento histórico, e assim também é valorado pelo direito. Imagine-se o interesse pelo meio ambiente equilibrado; as interferências consideradas normais de vizinhança; ou a crescente exposição da imagem das pessoas (como comparar a repercussão de alguém na praia, há 50 anos, em sucintos trajes de banho e nos dias de hoje).14 O direito traduz a realidade fática, a qual, em contrapartida, reflete a valoração da dotato di certi requisiti presupposti dalla norma, i il quale incide in una situazione preesistente (iniziale) e la trasforma in una situazione nuova (finale), per modo da costituire, da modificare o da estinguere poteri e vincoli o qualifiche e posizioni giuridiche”. 12 Afirma PIETRO PERLINGIERI: “‘Fato’ não é um termo com um único significado: o ‘fato’ objeto de exame de uma ciência natural não é o ‘fato’ objeto de uma ciência prática (como o direito), para a qual o fato é todo evento que invoque a ideia de convivência (ou do caráter relacional)” (O direito civil na legalidade constitucional, Rio de Janeiro, Renovar, 2009, p. 640). 13 LUIZ EDSON FACHIN, Novo Conceito de Ato e Negócio Jurídico: consequências práticas, Curitiba, PUC/PR, 1988, p. 1. Com efeito, a afirmativa de que toda liberdade humana é juridicamente relevante (porque garantida pelo Direito) não implica a negação de que existam liberdades não regulamentadas por lei, como registra STEFANO RODOTÀ: “Ora ci troviamo di fronte a situazioni in cui l’indicare il fatto e dire il diritto appartengono alla stessa persona, nel senso almeno che esiste un potere di scelta tra risposte giuridiche diversificate o, più radicalmente, di entrata in uno spazio vuoto di diritto. Si può, dunque, uscire dal diritto e rientrare nella vita” (La vita e le regole: tra diritto e non diritto. Milano: Feltrinelli, 2006, p. 62). Para uma perspectiva civil-constitucional da questão, v. também SAMIR NAMUR, A inexistência de espaços de não direito e o princípio da liberdade, Revista Trimestral de Direito Civil, Vol. 42, abr.-jun./2010; PAULA GRECO BANDEIRA, Espaços de não direito e as liberdades privadas, Revista Trimestral de Direito Civil, Volume 52, out.-dez./2012. 14 O exemplo é configurado por Eros Grau, Técnica Legislativa e Hermenêutica Contemporânea, in Gustavo Tepedino (org.), Direito Civil Contemporâneo: novos problemas à luz da legalidade constitucional, São Paulo, Atlas, 2008, p. 286. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 14 ordem jurídica (como apreendida pelo grupo social).15 Há, portanto, íntima comunicação entre fato e norma, de tal modo que não se pode conceber um desses elementos sem o outro. Supera- se, desse modo, a distinção entre fato social e fato jurídico. Todo fato social – porque potencialmente relevante para o direito, e porque moldado pela valoração (social decorrente) do elemento normativo (o qual, ao mesmo tempo, é construído na historicidade evolutiva da sociedade), é fato jurídico. Compreende-se, assim, o vetusto brocardo latino ex facto oritur ius. Do fato provém o direito. Vale dizer, sem se confundirem norma e fato, estes reciprocamente se condicionam.16 A hipótese fática de incidência da norma (suporte fático, que equivaleria à expressão italiana fattispecie ou à alemã Tatbestand) identifica-se com a descrição normativa, ou seja, é construída pela valoração que lhe atribui o direito. Tenha-se como exemplo um contrato de locação. As regras sobre ele incidentes dependerão das circunstâncias fáticas – valor do aluguel, estado do imóvel, pontualidade no cumprimento das obrigações –, todas elas capazes de produzir efeitos modificativos da relação jurídica, gerando novos fatos jurídicos, que alteram o direito pré-existente e se amoldam, contemporaneamente, à previsão normativa pré-existente. Por isso mesmo, considera-se “um equívoco conceber a fattispecie como qualquer coisa de puro fato, despida de qualificações jurídicas, ou como qualquer coisa materialmente separada ou cronologicamente destacada da nova situação jurídica correspondente. Em realidade, esta não é senão um desenvolvimento daquela, uma situação nova na qual se converte a situação preexistente com a superveniência do fato jurídico”.17 15 A conclusão de LUIZ EDSON FACHIN, ob. loc cit., é irrecusável: “ingressam no campo jurídico os fatos valorados pela norma. Tais são os fatosjurídicos, que assim se constituem sem deixar o campo fático, uma vez que este e aquele (o normativo) se interpenetram. Esse agasalho da norma é a guardiã ao suporte fático, sem suprimi-lo. Exsurge, aí, a juridicidade que é por conseguinte um componente do binômio fato-norma”. 16 EMILIO BETTI, Teoria generale del negozio giuridico, cit., p. 5, sobre a máxima romana esclarece: “si vuol dire con essa che la legge di per sé sola non dà mais vita a nuove situazioni giuridiche se non si avverano taluni fatti da essa previsti: non già che il fatto si trasformi in diritto, bensì una situazione giuridiche nuova”. Em direção análoga, MIGUEL REALE, Lições preliminares de direito, cit., p. 200: “Devemos entender, pois, que o Direito se origina do fato, porque, sem que haja um acontecimento ou evento, não há base para que se estabeleça um vínculo de significação jurídica. Isto, porém, não implica a redução do Direito ao fato, tampouco em pensar que o fato seja mero fato bruto, pois os fatos, dos quais se origina o Direito, são fatos humanos ou fatos naturais objeto de valorações humanas”. 17 EMILIO BETTI, ob. loc. cit. No original, escrito em 1950: “Appare già dalla proposta definizione del fatto giuridico che sarebbe un errore concepire la fattispecie come qualcosa di puro fatto, scevra di qualificazioni giuridiche, o come qualcosa di materialmente separato o di cronologicamente staccato dalla nuova situazione giuridica che vi corrisponde. In verità questa non è che uno svolgimento di quella, una situazione nuova in c si converte la situazione preesistente col sopravvenire del fatto giuridico”. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 15 Em definitivo e afinal, como registrado em (esquecida) lição introdutória de insuperável eloquência, “o encontro do Direito com os fatos verifica-se, portanto, não no momento em que estes ocorrem, senão já antes, quando aquele lhes infunde potencialidade jusgenética. Logo, o fato e o fato jurídico não são categorias ontológicas distintas, mas atitudes axiologicamente diversas diante da mesma fenomenidade”.18 3. Classificação dos fatos jurídicos: fato, ato e negócio jurídico – os chamados atos-fatos Afirma-se que os fatos (jurídicos) podem provir espontaneamente da natureza (fatos naturais) ou da atuação humana (fatos humanos). Os primeiros são também chamados de fatos jurídicos stricto sensu. Distinguem-se os fatos naturais em ordinários (o nascimento, a morte, o curso dos rios) e extraordinários (fortuitos, imprevisíveis ou inevitáveis). Já os fatos humanos, atribuíveis ao homem, traduzem-se em fatos lícitos (valorados positivamente pela ordem jurídica) e fatos ilícitos lato sensu (reprovados pelo direito), que, a seu turno, se distinguem em atos ilícitos (stricto sensu), dos quais decorrem o dever de reparar, e atos antijurídicos, contrários ao direito e com eficácia distinta da reparação.19 Os fatos lícitos, ou seja, atribuídos à atividade humana e não reprovados pelo direito, compreendem os negócios jurídicos, os atos jurídicos stricto sensu, também designados atos lícitos de conduta, e os chamados atos-fatos, reconhecidos por parte da doutrina.20 Em imagem gráfica pode-se melhor perceber a classificação: 18 JOÃO BAPTISTA VILLELA, Do Fato ao Negócio: em busca da precisão conceitual, in Estudos em Homenagem ao Professor Washington de Barros Monteiro, São Paulo, Saraiva, 1982, p. 256. O autor aduz: “a juridicidade não é um atributo intrínseco à materialidade dos fatos, mas uma propriedade que o Direito lhes acrescenta, com base em puras razões de conveniência ou oportunidade. Logo é equivocado pretender-se fundar uma tipologia dos fatos jurídicos a partir de uma angulação estática. Não há fatos jurídicos a priori. É no dinamismo da sua apropriação axiológica que os fatos adquirem ou não o atributo, eminentemente extrínseco, de serem jurídicos”. 19 A classificação é adotada por ROSE VENCELAU MEIRELES. O negócio jurídico e suas modalidades, in Gustavo Tepedino (coord.), A Parte Geral do Novo Código Civil: estudos na perspectiva civil-constitucional, Rio de Janeiro: Renovar, 2003, p. 183: “Os atos antijurídicos se distinguem dos atos ilícitos (art. 186), sendo atos que, por estarem em desconformidade com a ordem jurídico, não são merecedores de tutela”. 20 Adotam, igualmente, a designação “ato jurídico stricto sensu”, dentre outros, CAIO MÁRIO DA SILVA PEREIRA, Instituições de Direito Civil: Volume I, Rio de Janeiro, Forense, 2011, p. 397 e MIGUEL REALE, Lições Preliminares de Direito, cit., p. 209. Designando o ato jurídico stricto sensu como ato lícito de conduta, SAN TIAGO DANTAS, Programa de Direito Civil: Teoria Geral, Rio de Janeiro, Forense, 2001, p. 211. No que tange à classe dos atos-fatos jurídicos, seu maior defensor na doutrina brasileira é, provavelmente, Pontes de Miranda, que assim os define: “Os atos-fatos são fatos humanos, em que não houve vontade, ou dos quais se não leva em conta o conteúdo de vontade, aptos, ou não, a serem suportes fáticos de regras jurídicas” (Tratado de Direito Privado, Parte Geral, Tomo I: Pessoas Físicas e Jurídicas, São Paulo, Revista dos Tribunais, 2012, p. 158). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 16 Fatos naturais (fatos jurídicos stricto sensu) Fatos jurídicos i) Ato ilícito lato sensu Fatos ilícitos Fatos humanos ii) Ato antijurídico (atos jurídicos lato sensu) i) Negócio jurídico Fatos lícitos ii) Ato-fato jurídico iii) Ato jurídico stricto sensu Muito se disputa acerca da terminologia empregada, especialmente no que concerne à inclusão dos atos ilícitos no âmbito dos atos jurídicos. Como bem destacado em doutrina, embora terminologicamente fosse preferível afastar a ilicitude da qualidade jurídica, consolidou-se, na linguagem corrente, a qualificação de jurídico não como atributo de legitimidade, senão como gênero, a traduzir simplesmente a eficácia jurígena independentemente de valoração positiva ou negativa: “quando se fala em ato jurídico, o que se tem em vista é a relevância do acontecimento para o Direito, não a sua conformidade ao Direito”.21 4. A noção de negócio jurídico A categoria dos atos jurídicos associa-se ao agir humano e suas consequências – e divergências – decorrem do papel atribuído, nessa atuação, à vontade humana, em maior ou menor grau, daí decorrendo consequências diversas. Chama-se negócio jurídico o regulamento de interesses estipulado pela autonomia privada, ou autoregulamento ou ato jurídico apto a regular interesses. Constitui-se 21 JOÃO BAPTISTA VILLELA, Do Fato ao Negócio: em busca da precisão conceitual, cit., p. 259, o qual anota: “Entre nós é da tradição subentender em ato jurídico a conformidade com o Direito (...) A bem da estabilidade terminológica conviria, pois, não insistir no outro uso, cuja correção, entretanto, não pode ser contestada. Ocorre que a língua não é apenas um fato da razão, mas também um fato socialmente estabelecido”. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 17 no principal instrumento engendrado pelo direito civil para o exercício da autonomia privada. Formulação teórica do final do Século XVIII, a noção de negócio traduz o esplendor do voluntarismo, procurando assegurar o mais amploespaço para a autonomia privada regular seus interesses.22 Daí sua definição tradicionalmente estabelecida como “manifestação de vontade, dirigida a um escopo prático que consiste na constituição, modificação ou extinção de uma situação juridicamente relevante”.23 Por ter sido concebido como instrumento de consagração da vontade individual, a noção de negócio jurídico avoca acirradas disputas ideológicas a partir do final do Século XIX e por todo o Século XX, ao longo das diversas fases e graus de intervenção do Estado na economia de países de tradição romano-germânica. Os reflexos dessa controvérsia ainda se fazem sentir nos dias de hoje, com significativas consequências práticas na aferição do papel da vontade em tema de invalidade dos negócios. Em síntese estreita, podem-se dividir as diversas posições doutrinárias em dois grupos conhecidos como teorias subjetivista e objetivista. Pela primeira, o negócio jurídico é definido como ato de vontade dirigido à produção de efeitos jurídicos. Concebida pelos fautores do modelo voluntarista, tal concepção, em suas múltipas vertentes, a partir da construção de Savigny, encontra-se amplamente divulgada na doutrina brasileira.24 A partir de tal formulação, cumpre ao intérprete buscar a intenção do agente para aferir a legitimidade do negócio, já que é o vetor volitivo, isto é, a vontade real, o elemento essencial dessa categoria jurídica. Em contrapartida, posicionaram-se os fautores da teoria objetivista, para os quais a essência do negócio jurídico é a declaração como tal percebida, reconhecida e considerada legítima pelo ordenamento, independentemente da intenção que possa ter tido o emissor. O negócio, portanto, embora resulte de manifestação de vontade, desprende-se dela, produzindo os efeitos autorizados pela ordem jurídica sem que se deva, portanto, por irrelevante, perquirir a intenção do agente emissor da vontade. 22 Assim destaca FRANCISCO AMARAL, Direito Civil: cit., p. 389: “A categoria do negócio jurídico surge, assim, como produto de uma filosofia político-jurídica que, a partir de uma teoria do sujeito, com base na liberdade e igualdade formal, constrói uma figura unitária capaz de englobar, reunir, todos os fenômenos jurídicos decorrentes das manifestações de vontade dos sujeitos no campo da sua atividade jurídico-patrimonial”. 23 ALBERTO TRABUCCHI, Istituzioni di diritto civile, Padova, CEDAM, 1993, p. 124. 24 V. SAVIGNY, Traité de Droit Romain, Tome 3ème, Paris, Firmin Didot Frères, 1856, p. 3 e ss. Sobre as diversas correntes, ANTONIO JUNQUEIRA DE AZEVEDO, Negócio Jurídico: Existência, Validade e Eficácia, São Paulo, Saraiva, 2002, p. 4 e ss. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 18 Ambas as posições doutrinárias refletem períodos históricos antagônicos, de coroamento do voluntarismo (individualismo iluminista que perdura do Século XVIII ao XIX), e de sua rejeição (perspectiva socializante e intervencionista do final do Século XIX e primeira metade do Século XX). 25 Levadas aos extremos, tais teorias não logram resolver a preocupação, de ordem eminentemente prática, de conciliar o respeito ao alvedrio individual com a segurança atribuída à manifestação de vontade, tal qual declarada. Nesta linha de preocupação, desenvolveram-se, no âmbito das construções objetivas, posições menos radicais e mais sofisticadas, admitindo a importância da vontade, embora considerada como anterior ao negócio, em relação ao qual é a declaração, como manifestação exterior, e não o ato volitivo em si considerado, elemento essencial. A vontade, por sua vez, não decorre do simples querer individual, senão da autonomia privada como poder autorizado e temperado, por balizas valorativas, pelo ordenamento jurídico.26 O principal artífice de tais posições é Emilio Betti, formulador da teoria preceptiva. Segundo tal orientação, o reconhecimento social da vontade tem por referência não elementos subjetivos internos ao agente, senão a declaração, na forma como exteriorizada, que se constitui, assim, em preceito vinculativo. A vinculação do sujeito emissor da vontade à declaração é corroborada por ulteriores elaborações doutrinárias, em especial as teorias da autoresponsabilidade e da confiança. Pela primeira, embora o elemento subjetivo seja o vetor do ato de vontade, a vinculação à declaração decorre da responsabilidade pessoal do seu emissor pela respectiva exteriorização. Pela teoria da confiança, o preceito emanado pelo negócio, em virtude da declaração, vincula o seu emissor em virtude da expectativa despertada no corpo social quanto à correpondência entre a manifestação de vontade e a intenção do agente. Cabe ao direito, portanto, prestigiar quem confiou na higidez da declaração volitiva. A teoria da confiança ganha destaque no direito positivo pátrio, com intensa repercussão em diversos dispositivos, pelos quais se considera o emissor responsável por suas declarações, na forma como exteriorizadas, mesmo em situações de invalidade de negócios, em 25 Abordando essa passagem do Estado liberal do Século XIX para o Estado intervencionista, v. FRANCISCO AMARAL, Direito Civil: Introdução, cit., p. 363. 26 Tratando da limitação da autonomia privada pelas balizas do ordenamento jurídico, expõe ORLANDO GOMES, Introdução ao Direito Civil,cit., p. 242: “Mas esse vínculo, essa autolimitação, decorre, precisamente, do ordenamento jurídico que lhe reconhece o poder de regular, pela forma permitida, seus interesses”. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 19 face de terceiros de boa-fé, ou seja, que desconheciam a causa da invalidade e que, por isso mesmo, confiaram e agiram em conformidade com a expectativa gerada pela declaração.27 Com a redução do papel da vontade no direito contemporâneo (paralela ao crescimento do papel do Estado na relações econômicas) e a consequente remodelação do conceito de autonomia privada (como poder atribuído aos particulares associados a deveres negativos e positivos), funcionalizada a valores constitucionalmente tutelados, mostra-se mais consentânea com o sistema a definição de negócio jurídico como regulamento de interesses que agrega fontes heterônomas ao autoregulamento. Com efeito, pareceria ingênuo reduzir o autoregulamento preceptivo, em que se constitui o negócio, em ato de vontade, pressuposto nem sempre íntegro da declaração. Como melhor se verá adiante, a vontade, em si mesma considerada, não é elemento do negócio jurídico, senão a declaração de vontade, conforme é manifestada e percebida no mundo social.28 5. Ato jurídico stricto sensu, ato-fato e negócio jurídico em uma perspectiva funcional Ao lado dos negócios jurídicos, situam-se os atos jurídicos stricto sensu, assim considerados os atos jurídicos que não se destinam a regulamentar, autonomamente, interesses privados. Limitam-se a executar preceitos previamente estabelecidos por lei ou por negócio jurídico antecedente, reduzindo-se, portanto, em sua ontologia, o espaço de atuação (e de controle) da autonomia privada. Afirma-se, por isso mesmo, que nos atos jurídicos stricto sensu ou atos lícitos de conduta, a vontade tem papel menos relevante, já que se limita a dar eficácia a interesses jurídicos previamente regulados por lei ou por negócio jurídico anterior. O agente, ao praticá- los, submete-se às consequências jurídicas que lhes estão previamente reservadas.29 27 Percebe-se, assim, como a noção subjetiva de boa-fé pode influenciar a figura da boa-féobjetiva, embora se trate de noções diferentes, conforme explica JUDITH MARTINS-COSTA: “a boa-fé subjetiva tem o sentido de uma condição psicológica que normalmente se concretiza no convencimento do próprio direito, ou na ignorância de se estar lesando direito alheio, ou na adstrição ‘egoísta’ à literalidade do pactuado. Diversamente, ao conceito de boa- fé objetiva estão subjacentes as ideias e ideais que animaram a boa-fé germânica: a boa-fé como regra de conduta fundada na honestidade, na retidão, na lealdade e, principalmente, na consideração para com os interesses do alter, visto como um membro do conjunto social que é juridicamente tutelado” (A boa-fé no direito privado, São Paulo: RT. 1999, p. 412). 28 Nesse sentido, ensina ANTONIO JUNQUEIRA DE AZEVEDO, Negócio Jurídico, cit., p. 82: “A nosso ver, a vontade não é elemento do negócio jurídico; o negócio é somente a declaração de vontade. Cronologicamente, ele surge, nasce, por ocasião da declaração; sua existência começa nesse momento; todo o processo volitivo anterior não faz parte dele; o negócio todo consiste na declaração”. 29 ANTONIO JUNQUEIRA DE AZEVEDO, na esteira da teoria preceptiva, define o negócio como “um ato cercado de circunstâncias que fazem com que socialmente ele seja visto como destinado a produzir efeitos Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 20 Como acima destacado, a aptidão a regular interesses confere ao negócio jurídico atributo objetivo de produção de efeitos, independentemente da intencionalidade subjetiva, voltando-se o ordenamento para o controle da higidez da declaração da vontade. Já os atos lícitos de conduta, posto decorrentes da atividade humana, não contêm germe criador de preceitos, já que a atuação se dá aqui em conformidade com disposição normativa antecedente. Em face de tal distinção, afirma-se que, se os efeitos produzidos decorrem do regulamento definido pelo próprio ato, tem-se negócio jurídico, como na celebração de um contrato de compra e venda. Se, ao reverso, a eficácia (finalidade) independe do ato do agente, ainda que a escolha do meio empregado lhe seja assegurada, está-se diante de ato lícito em sentido estrito, para qual se exige tão somente consciência de sua prática,30 não sendo decisivo o papel da vontade31 – é o que ocorre, por exemplo, na fixação de domicílio ou no reconhecimento de paternidade, cujo exercício deflagra consequências atribuídas por lei, e no pagamento ou na quitação, que importam a incidência das regras fixadas por negócio jurídico antecedente. O Código Civil, no art. 185, prevê a figura dos atos jurídicos lícitos, distintos do negócio jurídico, determinando-lhes a incidência, no que couber, das normas atinentes aos atos negociais.32 Procurou o legislador, desta forma, abranger as duas espécies de atos atribuíveis à vontade humana, sem regular, por considerar provavelmente desnecessário, a terceira categoria de atos, designados como atos-fatos. Adotados de maneira bissexta pela doutrina brasileira, são imputáveis ao agir humano embora desprovidos de elemento volitivo, jurídicos”. Segundo o mesmo autor, “a correspondência, entre os efeitos atribuídos pelo direito (efeitos jurídicos) e os efeitos manifestados como queridos (efeitos manifestados), existe, porque a regra jurídica de atribuição procura seguir a visão social e liga efeitos ao negócio em virtude da existência de manifestação de vontade sobre eles” (Negócio Jurídico: existência, validade e eficácia, cit., p. 19). 30 JOSÉ CARLOS MOREIRA ALVES, O Negócio Jurídico no Anteprojeto de Código Civil Brasileiro, Arquivos do Ministério da Justiça, Rio de Janeiro, vol. 13, p. 3, set. 1974. V., também, em perspectiva crítica, JOÃO BAPTISTA VILLELA, Do Fato ao Negócio, cit., p. 263, que procura distinguir as noções de negócio e de ato jurídico stricto sensu com base na “qualidade” da vontade emitida. No primeiro caso, ter-se-ia liberdade criadora de regulamento. No segundo, comportamento adstrito a regulamento imposto ao agente. 31 Segundo PONTES DE MIRANDA, o ato jurídico em sentido estrito pode, residualmente, apresentar algum elemento volitivo, mas este não constitui requisito seu, nem se volta à produção de seus efeitos jurídicos típicos: “o conteúdo volitivo, que acaso tenha, não é suporte fático do fato jurídico e, pois, não alcança a eficácia jurídica como eficácia do que o fato jurídico manteve de tal conteúdo. (...) Quem interpelou não precisa ter querido determinado efeito, e só obtém os que a lei mesma atribui à interpelação” (Tratado de Direito Privado, Parte Geral, cit., p. 159). 32 “Art. 185. Aos atos jurídicos lícitos, que não sejam negócios jurídicos, aplicam-se, no que couber, as disposições do Título anterior”. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 21 associando-se à atuação subjetiva tão somente por relação de causalidade, despida de qualquer exigência de intencionalidade ou mesmo consciência de sua prática.33 Os atos-fatos foram concebidos por juristas alemães na primeira metade do Século passado, adotados por parte da doutrina italiana e desenvolvida no Brasil por Pontes de Miranda, que os divide em: (i) atos reais; (ii) indenização sem culpa; (iii) caducidades.34 Por meio dos atos-fatos procura-se explicar a produção de efeitos jurídicos decorrentes de atos humanos, materialmente considerados, independentemente de controle quanto à formação da vontade que o originou – e por isso chamado de atos-fatos – como ocorre na responsabilidade por dano causado por incapaz (art. 932, I e II, do Código Civil), em que o dever de reparar deriva do dano causado por alguém independentemente de ter tido este sequer consciência de sua prática. O ordenamento jurídico brasileiro, portanto, admite regime diferenciado para os atos atribuíveis ao agir humano. Prevê explicitamente a categoria dos atos jurídicos, em sentido lato, compreendendo os negócios jurídicos e os atos jurídicos stricto sensu. A partir daí, impõe controle rigoroso ao negócio jurídico, submetendo-o à extensa disciplina do Título I do Livro III (arts. 104 a 184, do Código Civil), além das regras incidentes em cada espécie negocial, quando tipificada (pensa-se no contrato de empreitada, que avocará os dispositivos dos arts. 610 e ss., do Código Civil). Menos rigoroso, por não importar autoregulamento de interesses, mostra-se o controle dos atos não negociais, já que o art. 185 se limita a autorizar a 33 SANTORO-PASSARELLI, FRANCESCO, Dottrine generali del diritto civile, Napoli, Jovene, 1966, p. 106- 107, leciona: “Sono pertanto da ascrivere alla categoria dei meri fatti giuridici non solo i fatti della natura extraumani, ma anche quei fatti che sono, ma potrebbero non essere, dell’uomo, oppure che sono, ma potrebbero non essere, volontari”. Non vale opporre che nei fatti umani il riferimento degli effetti giuridici dipende dall’individuazione del soggetto agente. Non se ne può dedurre che essi siano da considerare atti in senso stretto, perché il riferimento soggettivo degli effetti non discende dalla natura di quei fatti, ma dal nesso di causalità fra gli effetti e il compimento del fatto”. “Si comprende cosi come rientrino in questa categoria, ad esempio, non solo le accessioni naturali, ma anche quelle che avvengono per fatto dell’uomo, quali l’inedificazione e la piantagione, altresì la confusione, la commistione, la specificazione, l ‘invenzione delle cose smarrite e del tesoro, nel limite in cui non rileva per l’effetto giuridico la volontà dell’agente (articoli 927 ss., 934 ss). Dire che si tratta di fatti in senso stretto significadire che non viene in questione rispetto ad essi né la capacità d’agire del soggetto, né l’elemento psichico, volontà e coscienza, dell’azione”. 34 PONTES DE MIRANDA, Tratado de Direito Privado, vol. 2, Rio de Janeiro, Borsoi, 1954, p. 372 e ss. A conclusão é confirmada por JOSÉ CARLOS MOREIRA ALVES, A Parte Geral do Projeto de Código Civil Brasileiro, São Paulo, Saraiva, 2003, 2ª ed. atualizada, p. 103, que assim justifica o dispositivo do art. 185 do C.C., inspirado em disposição semelhante do art. 295º do Código civil português: “ambas as normas esgotam a disciplina das ações humanas que, por força do direito objetivo, produzem efeitos jurídicos em consideração à vontade do agente, e não simplesmente pelo fato objetivo dessa atuação”. “Quando ocorre esta última hipótese, já não já que falar em ato jurídico, mas sim – e é dessa forma que o considera o direito – em fato jurídico em sentido estrito (são os atos- fatos jurídicos da doutrina germânica)”. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 22 aplicação, no que couber, dos dispositivos atinentes ao negócio jurídico, cabendo ao intérprete definir o espectro de abrangência da remissão e o critério de incidência. Finalmente, no que tange aos atos-fatos, sua disciplina não se encontra prevista na Parte Geral do Código Civil, que regula difusamente sua incidência nos eventos humanos específicos dos quais decorrem efeitos jurídicos para cuja produção não se cogita de qualquer elemento volitivo na conduta do agente. A classificação, contudo, a despeito de sua importância didática, mostra-se estabelecida por critérios abstratos e estruturais (maior ou menor vinculação da conduta à vontade humana, daí decorrendo gradação qualitativa da atuação humana), revelando-se insuficiente para as finalidade propostas. Por isso, provavelmente, apresenta-se tão controvertida a matéria, já que não soluciona com nitidez, na dinâmica das relações jurídicas, a disciplina a ser aplicada.35 Somente a interpretação funcional, ao fotografar o regulamento de interesses em seu todo, de modo a compreender o ato e suas circunstâncias, inserido na atividade a ser analisada, permitirá qualificá-lo e estabelecer a disciplina aplicável. No âmbito dos atos jurídicos não negociais, por exemplo, ex vi do art. 185, a entrega de coisa determinável em uma compra e venda (art. 487, do Código Civil) invoca a incidência das normas do negócio jurídico que lhe serve de título, incluindo o controle quanto à validade do ato de entrega (nulidade ou anulabilidade do pagamento). Não se poderia tolerar o pagamento praticado sob coação, por exemplo, ou a quebra da boa-fé objetiva no cumprimento da prestação. Assim também deve-se exigir de quem reconheceu o filho (não capacidade mas) a plena consciência do ato praticado. Por outro lado, reduzidíssima importância terá o papel da construção da declaração de vontade na hipótese prescrita pelo art. 1.280 do Código Civil, em que o proprietário ou possuidor exige do vizinho demolição ou reparação diante de iminente ruína (ato jurídico stricto sensu mandamental, para Pontes de Miranda).36 Nesse caso, pouco importa a consciência da declaração, fixando o legislador no fato objetivo suscitado pelo possuidor. Em posição contraposta, a consciência do comportamento mostra-se prudentemente exigida para atos materiais classificados como atos-fatos, como na ocupação de 35 Sobre o ponto, observa ORLANDO GOMES, Introdução, cit., p. 289: “Os atos jurídicos ‘stricto sensu’ não formam, como visto, categoria homogênea. Da dificuldade de sistematizá-los, resulta hesitação quanto à possibilidade de submetê-los a regras de aplicação geral”. 36 PONTES DE MIRANDA, Tratado de Direito Privado, vol. 2, cit., p. 461 e ss. A classificação é minuciosamente resumida por MARCOS BERNARDES DE MELLO, Teoria do fato jurídico, São Paulo: Saraiva, 2011, p. 200-201. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 23 coisa sem dono (res nullius ou res derelicta), na lavragem de pedaço de madeira alheio por parte do escultor ou no apossamento pelo exercício possessório. Dispensa-se nestas hipóteses a capacidade de fato, mas não se poderia deixar de exigir a consciência do próprio comportamento por parte de quem ocupa, especifica ou adquire a posse.37 Tal discrepância serve de arrimo para a designação de tais eventos como atos jurídicos stricto sensu e a rejeição da categoria dos atos-fatos por grande parte dos autores brasileiros.38 Aduza-se, ainda, que a sucessão de atos que compõem a atividade humana pode ser heterogênea, ou por vezes desprovida de negócio inaugural, devendo ser examinada a atividade em sua integralidade para a definição da disciplina aplicável. Neste caso, a função desempenhada pela atividade determinará a disciplina aplicável, o que terá grande serventia nas chamadas relações contratuais de fato. Além disso, embora o negócio jurídico ofereça espaço exuberante de atuação para a autonomia privada, é errôneo concluir que o ato jurídico não negocial deva escapar ao controle de merecimento de tutela, por ausência de liberdade para autoregulamento do próprio interesse. Mesmo circunscritos a regras cogentes, esses atos traduzem também atuação humana e, por isso, submetem-se, por conta do art. 185, ao crivo do direito.39 Imagine-se a fixação do domicílio, considerado ato jurídico stricto sensu. Não se pode afirmar que haja déficit de liberdade no momento da escolha, que muitas vezes abrange uma série de decisões pessoais e profissionais, as quais, por outro lado, se tomadas ao longo do tempo, na sucessão de atos que definem a atividade profissional e pessoal, por vez com 37 Conforme relatado por MOREIRA ALVES, trata-se da “consciência da aquisição da posse, ou seja, o Besitzbegründungswille ou, mais simplificadamente, Besitzwille”. Explica o autor: “por não precisar essa vontade de ser determinada, torna-se alguém possuidor daquilo a que se destina a receber sua caixa postal ou sua máquina automática de venda (não, porém das cartas que não lhe são endereçadas ou das coisas para os quais o receptáculo não se destina), e, por não ser ela juridicamente qualificada, pode o incapaz adquirir a posse desde que tenha consciência do que quer, como o que, tendo sido curado de doença mental, ainda não deixou de estar interditado, ou criança com alguns anos de vida (não, todavia, o recém-nascido, o louco, o que delira)” (O problema da vontade possessória, in Revista do Tribunal Regional Federal, vol. 8, out-dez/1996, p. 22). 38 Dentre muitos outros, não reconhecem a categoria do ato-fato: CAIO MÁRIO DA SILVA PEREIRA, Instituições de direito civil, vol. I, Rio de Janeiro, GEN, 2009, p. 408; ARNOLDO WALD, Direito Civil: Introdução e Parte Geral São Paulo: Saraiva, 2009, p. 217; SILVIO RODRIGUES, Direito Civil: Parte Geral, Volume I, São Paulo, Saraiva, 2006, 158; SAN TIAGO DANTAS, Programa de Direito Civil, cit., p. 211. 39 Esta parece ser a posição de JOÃO BAPTISTA VILLELA, Do Fato ao Negócio, cit., p. 264, para quem “o negócio se distingue do ato em que aquele é uma ação livre, este uma ação necessária”. O autor exemplifica: “Pode-se fazer ou não a doação de um bem, ainda ciente do mau uso que terá, emitir ou não disposições testamentárias, pactuar este ou aquele regime de bens no casamento etc., mas não se pode deixar de restituir a soma mutuada, de recolher os alugueres convencionados, de despachar um processo ou proferir uma sentença. Praticadas as ações, já no primeiro grupo de casos, negócios. No segundo, atos. Nos negócios pergunta-se pelo quod placet. Nos atos,pelo quod oportet”. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 24 repercussão em toda a família, devem ser examinadas e valoradas em seu todo, e não como eventos isoladamente considerados. A percepção do conjunto dessas circunstâncias auxilia a compreensão da disciplina aplicável aos atos não negociais e aos atos-fatos, e do âmbito de incidência do art. 185 do Código Civil. O dispositivo permite superar a discussão doutrinária, levada a cabo alhures, acerca da aplicação analógica das normas do negócio jurídico. No caso brasileiro, o Código Civil autoriza a utilização direta, no que couber, dos dispositivos pertinentes contidos em todo o Título II. A pertinência de tal utilização dependerá da função concreta que desempenha a atividade no âmbito da qual se situam os atos considerados. Por outro lado, o afastamento de qualquer relevância subjetiva para certos atos humanos, justificando a invocação dos atos-fatos, mostra-se útil, no direito brasileiro, não por peculiaridade ontológica da noção, importada do direito alienígena, mas tão somente nas hipóteses em que os efeitos atribuídos pelo legislador pátrio independam do comportamento do agente, como parece ser exemplo típico a conduta do incapaz que causa dano indenizável (art. 932, II, do Código Civil). 6. Negócio jurídico no Código Civil e seus três planos de análise: elementos de existência, requisitos de validade, fatores de eficácia O Código Civil, na esteira das codificações dos países de tradição romano- germânica, dedica ao negócio jurídico, significativamente, 80 artigos (arts. 104 a 184), que compõem o Título I do Livro III, do Código Civil. A doutrina separa a análise do negócio jurídico em três planos, de modo a verificar, em etapas sucessivas, os pressupostos de existência (plano de existência), os requisitos de validade (plano de validade) e as condições para produção de efeitos (plano de eficácia).40 Significa dizer que negócio há de ser, antes de mais nada, existente, ou seja, conter os pressupostos para o seu surgimento do mundo jurídico.41 Em seguida, uma vez estabelecida a existência jurídica do negócio, examinam-se seus requisitos de 40 A difusão dos três planos de análise do negócio jurídico no Brasil costuma ser atribuída sobretudo à obra de PONTES DE MIRANDA. A respeito, v. Tratado de direito privado, t. 4. Rio de Janeiro: Borsoi, 1970, pp. 6 e ss. 41 Explica ANTÔNIO JUNQUEIRA DE AZEVEDO: “Quando acontece, no mundo real, aquilo que estava previsto na norma, esta cai sobre o fato, qualificando-o como jurídico; tem ele, então, existência jurídica” (Negócio jurídico: existência, validade e eficácia, São Paulo, Saraiva, 2002, p. 23). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 25 validade, isto é, os atributos considerados essenciais, sem os quais o negócio será considerado nulo ou se sujeitará à anulação.42 Se os dois primeiros planos forem superados pelo intérprete, ou seja, estabelecidas a existência e a validade do negócio, passa-se à última etapa, a saber, investiga-se se o negócio, plenamente válido, mostra-se apto à produção de efeitos jurídicos.43 Em resumo, pode-se afirmar que os elementos do negócio jurídico são as partes integrantes do ato, ao passo que os requisitos do negócio são as suas qualidades e os pressupostos são os fatos jurídicos que lhe são anteriores. Reputa-se, assim, existente o negócio que contém os seus elementos essenciais. Com efeito, faz-se alusão na doutrina a ao menos três espécies de elementos: a) elementos essenciais (essencialia negotti): são os elementos fundamentais para o ingresso do ato no mundo jurídico. Trata-se da vontade declarada, do objeto, da forma e da causa do negócio;44 b) naturais (naturalia negotti): são os elementos que, fixados supletivamente pela lei para o negócio, por isso mesmo, comporão o regulamento de interesses se não forem afastados pela autonomia privada.45 Pense-se, por exemplo, no lugar do pagamento, quando não convencionado (art. 327 do Código Civil).46 42 Não se confunde a invalidade com a simples ineficácia, conforme assevera EMILIO BETTI: “A invalidade é o tratamento que corresponde a uma carência intrínseca do negócio, no seu conteúdo preceptivo; a ineficácia, pelo contrário, apresenta-se como a resposta mais adequada a um impedimento do caráter extrínseco, que incida sobre o projetado regulamento de interesses, na sua realização prática” (Teoria geral do negócio jurídico, cit., pp. 655-656). 43 Conforme explica CAIO MÁRIO DA SILVA PEREIRA, “ineficácia, stricto sensu, é a recusa de efeitos quando, observados embora os requisitos legais, intercorre obstáculo extrínseco, que impede se complete o ciclo de perfeição do ato. Pode ser originária ou superveniente, conforme o fato impeditivo de produção de efeitos, seja simultâneo à constituição do ato ou ocorra posteriormente, operando contudo retroativamente” (Instituições de direito civil, vol. I, cit., p. 539). 44 Segundo ANTÔNIO JUNQUEIRA DE AZEVEDO, os elementos essenciais podem ser gerais (subdividindo-se entre intrínsecos ou constitutivos – forma, objeto e circunstâncias negociais – e extrínsecos ou pressupostos – agente, lugar e tempo do negócio) ou, ainda, categoriais (referentes a determinados tipos negociais, sendo que os elementos categoriais inderrogáveis seriam espécies de essencialia negotii e os derrogáveis, de naturalia negotii) (Negócio jurídico, cit., p. 40). 45 Afirma ROBERTO DE RUGGIERO: “Naturais são os [elementos] que correspondem à natureza típica do negócio, os que são conforme com a sua índole, os que o próprio ordenamento refere e exige, ainda quando as partes não os tenham incluído, como, por exemplo na venda, a garantia da evicção, pela qual responde qualquer vendedor. Permite-se, porém, às partes excluir ou modificar à vontade esse elemento, visto não ser requisito nem da existência, nem da validade do negócio” (Instituições de direito civil, cit., p. 321). 46 Código Civil: “Art. 327. Efetuar-se-á o pagamento no domicílio do devedor, salvo se as partes convencionarem diversamente, ou se o contrário resultar da lei, da natureza da obrigação ou das circunstâncias. Parágrafo único. Designados dois ou mais lugares, cabe ao credor escolher entre eles”. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 26 c) acidentais (accidentalia negotti): podem figurar no negócio desde que expressamente previstos pelas partes. São responsáveis por modificar apenas a eficácia do ato, constituindo, principalmente, as chamadas modalidades dos negócios: condição, termo e encargo.47 Embora a doutrina brasileira nem sempre o admita, a causa é elemento essencial do negócio jurídico, ao lado dos elementos subjetivo, objetivo e formal. Não se confunda causa com motivo, de natureza subjetiva ou psicológica. Do ponto de vista técnico, a causa consiste na mínima unidade de efeitos essenciais que caracteriza determinado negócio, sua função jurídica, diferenciando-o dos demais. Somente a identificação da causa pode determinar a qualificação contratual, a invalidade ou ineficácia de certas relações jurídicas para as quais o exame dos demais elementos mostra-se insuficiente. Bastaria lembrar os contratos, como a compra e venda de coisa futura e a empreitada, que se diferenciam exclusivamente em virtude da função ou causa que lhes é peculiar; ou a compra e venda de objeto lícito (uma arma, por exemplo), mas cuja invalidade decorre da ilicitude do objeto no contexto causal (a arma destinada à prática de certo crime).48 Existenteo negócio jurídico, parte-se para a análise de sua validade, vale dizer, para a verificação do cumprimento dos requisitos negociais previstos pelo art. 104 do Código Civil. Trata-se das qualidades exigidas para os elementos essenciais: capacidade do agente que declara a vontade, licitude do objeto negocial e legalidade da forma escolhida para o ato (ou seja a sua correspondência à previsão ou não vedação legal). Superadas as duas primeiras etapas, a produção de efeitos pelo negócio jurídico depende ainda da análise de sua eficácia propriamente dita, que pode ser obstada pela aposição de cláusula acessória ao negócio jurídico. A hipótese, a que se costuma denominar modalidade do negócio, será objeto de capítulo específico. 7. Classificação dos negócios jurídicos 47 Segundo ROBERTO DE RUGGIERO, “Acidentais são aqueles [elementos] que são introduzidos pela vontade das partes (visto o negócio ser suscetível disso) e que tendem a modificar o tipo abstrato na espécie concreta a que se dá vida. São em número infinito, mas há três que têm principalmente importância e merecem um estudo especial [...]: a condição, o termo e o modo” (Instituições de direito civil, cit., p. 321). 48 GUSTAVO TEPEDINO. A responsabilidade civil nos contratos de turismo. Temas de Direito Civil. Rio de Janeiro: Renovar, 2008, pp. 254-255. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 27 Classificam-se usualmente os negócios jurídicos em diversas categorias, cuja identificação tem por escopo permitir ao intérprete a determinação de certos aspectos de sua disciplina legal. Uma primeira classificação divide os negócios jurídicos entre unilaterais, bilaterais ou plurilaterais, conforme o número de partes que deles participem.49 Vale notar que não se trata de classificação meramente quantitativa, mas também qualitativa, uma vez que o mesmo centro de interesses na relação negocial pode ser ocupado por inúmeros indivíduos e, ainda assim, representar uma única “parte” no que tange à presente classificação.50 Contam-se, assim, a rigor não propriamente os sujeitos que tomam parte do negócio, mas o número de centro de interesses contrapostos, o que permite tanto cogitar de negócios unilaterais (como o testamento, reputado válido pela simples emissão de vontade do testador e antes que qualquer outra pessoa tome conhecimento de seu conteúdo, ou o ato de renúncia a um direito), quanto de negócios bilaterais (talvez a modalidade mais comum, como em um contrato simples de compra e venda) ou mesmo plurilaterais (pense-se em atos mais complexos, como o contrato de sociedade). Os negócios jurídicos reputam-se ainda típicos ou atípicos, conforme sua estrutura elementar tenha sido ou não prevista, junto à respectiva disciplina, pelo legislador. A doação e a empreitada constituem negócios jurídicos típicos, uma vez que sua qualificação remete ao modelo legal desses contratos previsto pelo Código Civil. No que tange aos negócios atípicos, trata-se, não raro, de contratos complexos que combinam elementos de diversos tipos legais; ilustrativamente, o contrato celebrado entre um viajante a agência de turismo, a envolver serviços de transporte, hospedagem e diversos outros. Alude-se por vezes ao termo “negócio misto” para designar as hipóteses de contratos que congregam elementos de diversos tipos legais – terminologia de todo criticável, vez que pressupõe a possibilidade de um meio termo 49 ORLANDO GOMES, Introdução ao direito civil, cit., p. 277. 50 Assim observa PIETRO PERLINGIERI a respeito das relações jurídicas (inclusive aquelas de origem negocial): “a ligação essencial do ponto de vista estrutural é aquela entre centros de interesses. O sujeito é somente um elemento externo à relação jurídica porque externo à situação: é somente o titular, às vezes ocasional, de uma ou de ambas as situações que compõem a relação jurídica; de maneira que não é indispensável referir-se à noção de sujeito para individuar o núcleo da relação jurídica. O que é essencial é a ligação entre um interesse e um outro, entre uma situação, determinada ou determinável, e uma outra” (O direito civil na legalidade constitucional, cit., p. 734). No mesmo sentido, ORLANDO GOMES: “as várias pessoas que constituem uma parte agem em bloco unificadas pelo mesmo interesse. Por isso, a relação jurídica constituída não se desdobra em tantas relações quantas sejam as pessoas componentes da parte pluripessoal” (Introdução ao direito civil, cit., p. 277). V., ainda, CAIO MÁRIO DA SILVA PEREIRA: “o conceito exato de parte pode-se dizer direcional, e traduz o sentido da declaração de vontade” (Instituições de direito civil, vol. I, cit., p. 427). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 28 entre a tipicidade e a atipicidade, o que, ao menos à luz da doutrina causalista, resultaria impossível.51 Dizem-se gratuitos os negócios que envolvem sacrifício patrimonial de apenas uma das partes, ao passo que onerosos são os negócios que importam em diminuição patrimonial para ambas.52 Tal conceituação, amplamente difundida pela doutrina, exige certa cautela; de fato, não é propriamente o decréscimo patrimonial que caracteriza a onerosidade, pois pode acontecer que a equação econômica do negócio não pressuponha o sacrifício do patrimônio da parte onerada.53 Melhor, assim, compreender que será gratuito o negócio que importe a obtenção de vantagem por apenas uma das partes, reputando-se oneroso o negócio em que ambas as partes buscam obter vantagens patrimoniais.54 São inter vivos os negócios cuja eficácia se inicia durante a vida dos negociantes, e causa mortis os que têm seus efeitos dependentes da morte de ao menos uma das partes, sendo o exemplo clássico deste último tipo o testamento.55 Consideram-se solenes ou formais os negócios que apresentam exigências de forma previstas em lei (tais como os negócios envolvendo imóveis cujo valor supere o piso estabelecido pelo art. 108 do Código Civil),56 por oposição aos negócios não solenes ou consensuais, que têm forma livre. Faz-se 51 Conforme já se afirmou em outra sede, os negócios atípicos não se confundem com os contratos coligados, nem permitem a designação “negócios mistos”: “O que caracteriza o contrato atípico é precisamente sua autonomia causal em relação aos tipos contratuais pré-dispostos pelo legislador. Nos contratos coligados, ao contrário, malgrado a interdependência negocial que os vincula, normalmente com caráter de acessoriedade, cada qual mantém sua própria função técnico-jurídica. Já os chamados contratos mistos, a doutrina os caracteriza pela presença de elementos peculiares a dois tipos contratuais (com a predominância de um deles, de modo que se possa defini-lo ou classifica-lo em um ou outro tipo legal). A conceituação, contudo, parece suscetível de objeção evidente, ao menos para os fautores de doutrinas causalistas, já que a síntese dos efeitos essenciais fará de cada contrato – lógica e ontologicamente –, ou bem típicos ou simplesmente atípicos, esvaecendo o valor dessa categoria conceitual” (GUSTAVO TEPEDINO, A responsabilidade civil nos contratos de turismo, cit., p. 258). 52 Cf., por exemplo, uma das definições citadas por ORLANDO GOMES: “Negócio a título oneroso é o que implica mútua transmissão de bens. Gratuito, o que se realiza com vantagem exclusiva para uma das partes, com diminuição do patrimônio da outra” (Introdução ao direito civil, cit., p. 311). 53 Registra ORLANDO GOMES que a busca de um nexo causal entre duas atribuições patrimoniaiscontrapostas acabaria por equiparar o negócio oneroso ao negócio bilateral sinalagmático, tornando inútil a primeira classificação (Introdução ao direito civil, cit., p. 312). 54 Assim, por exemplo, CAIO MÁRIO DA SILVA PEREIRA: “É oneroso o que proporciona ao agente uma vantagem econômica, à qual corresponde uma prestação correspectiva, e gratuito aquele no qual uma pessoa proporciona a outra um enriquecimento, sem contraprestação por parte do beneficiado” (Instituições de direito civil, vol. I, cit., p. 426). 55 CAIO MÁRIO DA SILVA PEREIRA, Instituições de direito civil, vol. I, cit., p. 426. 56 Código Civil: “Art. 108. Não dispondo a lei em contrário, a escritura pública é essencial à validade dos negócios jurídicos que visem à constituição, transferência, modificação ou renúncia de direitos reais sobre imóveis de valor superior a trinta vezes o maior salário mínimo vigente no País”. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 29 alusão, ainda, aos negócios jurídicos puros e aos negócios com modalidades, conforme os negócios apresentem ou não os elementos acidentais do termo, da condição ou do encargo. 8. Atividade contratual sem negócio jurídico A despeito da prevalência, até os dias de hoje, da dogmática voluntarista, a evolução política e econômica da sociedade, desde o final do Século XIX, exigiu a interferência do Estado nas relações privadas, mitigando-se a força vinculante da vontade negocial. Especialmente diante de situações específicas de vulnerabilidade, arrefeceu-se a tutela concedida ao interesse individual em favor de outros interesses jurídicos socialmente protegidos. Por conta da eclosão de movimentos sociais, no Brasil e alhures, a intervenção nas atividades contratuais incidiu primeiramente nas relações laborais, tendo sido o direito do trabalho precursor do que se convencionou chamar de dirigismo contratual, destinado a proteger a parte mais desfavorecida – técnica e economicamente – do contrato de trabalho. O desconforto do direito privado clássico com a intervenção heteronímica57 na deliberação das partes levou à autonomia do direito do trabalho, afastando-se do direito civil tudo o que se considerava destinado a reduzir o papel da vontade como fonte soberana de vínculos obrigacionais.58 57 Sobre a referida intervenção heterônoma nos contratos, afirma STEFANO RODOTÀ que o contrato, embora decorrente da vontade das partes, uma vez formado, sujeita-se à intervenção de fontes exteriores, alheias à vontade individual: “è evidente, allora, che le diverse fonti si ispirano ciascuna a peculiari valutazioni: ma qui interessa rilevare soltanto che tutte convergono nella finalità comune della costruzione del regolamento contrattuale; rispetto a quest’ultimo la particolare ratio delle singole fonti non viene in questione, riguardando esclusivamente il modo in cui ciascuna di esse, in sé considerata, opera” (Le fonti di integrazione del contrato, Giuffrè, Milano, 2004, p. 87). 58 Conforme se afirmou em outra sede: “Coincide, em certa medida, por isso mesmo, o movimento teórico de sustentação do direito de trabalho com construções antiformalistas surgidas no final dos anos 60 do século passado, que se opunham aos princípios dogmáticos do direito privado, inflexíveis no assegurar a vontade do proprietário e do contratante. Em certa medida, o crescimento do direito do trabalho, na segunda metade do século XX, coincide com a legitimação política do Welfare State e se aproxima a formulações teóricas que, na tentativa de romperem com a lógica da igualdade formal, notabilizaram-se como o uso alternativo do direito. A afirmação de direitos subjetivos extraproprietários, capazes de vergar as forças hegemônicas e de fazer prevalecer direitos sociais, afigurava-se sediciosa, sendo significativa a alusão, por parte de conceituado teórico do direito francês, à criação de contradireitos” (GUSTAVO TEPEDINO, “Direito civil e direito do trabalho: diálogo indispensável”, In Gustavo Tepedino et al. (coords.), Diálogos entre o direito civil e o direito do trabalho, São Paulo: RT, 2013, pp. 14-15). Sobre a expressão “contradireitos”, veja-se MICHEL MIAILLE: “Todas as lutas políticas e sociais dos séculos XIX e XX se desenrolaram sob esta palavra de ordem; todas as leis liberais que foram, assim, arrancadas à ordem burguesa se justificam pelos direitos subjetivos, do direito à instrução ao direito de defesa, passando pelo direito de associação. Neste sentido, como toda a ideologia de combate, a afirmação dos direitos subjetivos faz parte de uma luta viva, ainda eficaz nos nossos dias [...] É o ‘contradireito’” (Uma introducao critica ao direito, Lisboa: Moraes, 1919, p. 143‑144). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 30 Esse processo de intervenção legislativa, que muitos julgavam contingências momentâneas de crises econômicas, mostrou-se inevitável e irreversível, acirrando-se na primeira metade do Século XX como mecanismo de equilíbrio do mercado e do próprio regime capitalista. Nessa esteira, as locações também foram objeto de forte intervenção legislativa, com o intuito de gerir a escassez de imóveis e as crescentes demandas locatícias. Ao longo do tempo, tem-se tutelado de modo imperativo tanto o direito à moradia quanto o fundo de comércio, assegurando-se desde os anos 30 do Século passado a renovação do contrato de locação para fins comerciais (Decreto 24.150, de 20 de abril de 1934). O legislador interveio também intensamente na economia popular, combatendo os juros extorsivos, o curso de moeda estrangeira e assim por diante.59 O incremento da intervenção estatal, que se acirrou na Europa a partir da Segunda Grande Guerra, destinado à tutela de direitos fundamentais alcançados pela iniciativa econômica privada e que, no Brasil, culminou com a Constituição da República de 1988, acaba por colocar em crise a noção de autonomia privada e a teoria do negócio jurídico, incapazes de abranger a variedade de modelos e interesses mediante os quais a atividade privada se estabelece e é socialmente reconhecida. Anotem-se, nesse longo itinerário histórico, ao menos duas relevantes consequências para a teoria dos contratos. De um lado, o aparecimento de princípios mitigadores da obrigatoriedade e da relatividade dos pactos, notadamente a boa-fé objetiva, o equilíbrio econômico e a função social, que desde o início do Século XX foram incorporados gradualmente às legislações nacionais, dando margem ao surgimento de numerosos instrumentos de controle da justiça contratual (como a lesão, a revisão e a resolução por excessiva onerosidade, o adimplemento substancial, a vinculação a deveres anexos, o dever de mitigar danos, a proibição de comportamento contraditório, o abuso de direito). Essas e tantas outras figuras, na experiência brasileira, foram absorvidas pela doutrina, legislação e jurisprudência somente no final do Século XX, especialmente a partir da Constituição da República de 1988 e do Código de Defesa do Consumidor, de 1990. De outra parte, como espécie de válvula de escape para o rigor técnico imposto pelo excessivo controle de validade dos negócios jurídicos, desenvolveu-se, a partir do final da primeira metade do Século XX, a teoria das relações contratuais de fato, a qual, ao confrontar a realidade jurídica à realidade fática, teve o mérito de alargar a admissibilidade, pelo direito, de relações admitidas 59 Cfr., dentre outras normas, o Decreto nº 22.626, de 7 de abril de 1933; Lei nº 1.521, de 26 de dezembro de 1951. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 31 socialmente embora sem a proteção conferida pelo Direito ao negócio. De maneira geral, os países da família romano-germânica que adotam, de forma direta ou indireta, a doutrina do negócio jurídico, encontram dificuldade semelhante: o excessivo controle de validade do negócio acaba por excluir de seu espectro de incidência certas atividades que, em sua substância, despidas do aparato negocial, são admitidas como socialmente úteis e legítimas pelo corpo social. Diante do contraste entre a legitimidade da atividade desenvolvida e a invalidação do ato negocial que a constitui, autores de renome sustentaram a preservação dos efeitos de tais atos a despeito de sua invalidade. No início do Século XX, Haupt construiu teoria pioneira nesta direção.60 Com resultados semelhantes, Larenz produziu trabalho importantíssimo no qual concebeu a categoria dos comportamentos socialmente típicos.61 De outra parte, na doutrina italiana, Ascarelli62 e inúmeros outros conceituados autores desenvolveram, em diversos campos da autonomia privada, o que seria a teoria das relações jurídicas de fato, a qual atingiu o seu apogeu nos anos 60 e 70, com o seu reconhecimento pela Corte Suprema Alemã – BGH (Bundesgerichtshof).63 Paradoxalmente, o principal motor da teoria do comportamento socialmente típico, consubstanciado na crítica à exasperação da vontade negocial como fonte primordial das obrigações, transformou-se em sua maior vulnerabilidade. Associada ao processo histórico de crítica ao poder impositivo das forças econômicas nos regulamentos contratuais, no âmbito da 60 GÜNTHER HAUPT, Über faktische Vertragsverhältnisse, 1941. 61 KARL LARENZ, O estabelecimento de relações obrigacionais por meio de comportamento social típico (1956), in Revista Direito GV, vol. 2, n. 1, jan-jun/2006. 62 Ao propósito, a obra de TULLIO ASCARELLI mostra-se particularmente importante. Cfr. Lezioni di diritto commerciale - Introduzione,1955, Milano, Giuffrè, pp. 102 a 108, onde se lê: “L’attività dovrà essere valutata in via autonomia, indipendentemente cioè dalla valutazione dei singoli atti, singolarmente considerati. Indipendentemente dalla disciplina dei singoli atti può essere illecito (o sottoposto a norme particolari) l’esercizio dell’attività” (p. 103). Sobre o tema, v. também o verbete fundamental de Giuseppe Auletta (Attività (dir. priv.), in Enciclopedia del diritto, vol. III, Milano, Giuffrè, 1958, p. 982), que define attività “quale insieme di atti di diritto privato coordinati o unificati sul piano funzionale dalla unicità dello scopo”. 63 Na doutrina italiana, CARLO ANGELICI analisa o caso julgado em 28 de Janeiro de 1976 pelo Bundesgerichtshof em que uma criança se acidentou no supermercado enquanto a mãe comprava, e estava pagando no caixa. Discutiu-se se a responsabilidade era contratual ou extracontratual e se haveria responsabilidade pré- contratual. Exclui-se a responsabilidade pré-conratual já que a autora, sendo criança, não efetuaria compra alguma, ou seja, não teria nada a comprar, o que a impediria de intentar a ação contra o supermercado (Responsabilità precontrattuale e protezioine dei terzi in uma recente sentenza del Bundesgerichtshof, in Rivista del diritto commerciale e del diritto generale delle obbligazioni, I, ano LXXV, 1977, pp. 23-30). Segundo observa o autor, o dever de boa-fé serve de fundamento para a relação de proteção em face de terceiros, aplicando-se a teoria designada como Vertrag mit Schutzwirkung sugunsten Dritter, de modo a proteger terceiros alcancados pela atividade contratual independentemente de qualquer vínculo negocial: “il Bundesgerischtshof accentua il profilo del rapporto di protezione che deve intercorrere tra il contraente ed il terzo danneggiato e riconduce la vicenda ad una sua rilevanza, tramite il contratto o l’attività precontrattuale, pure nei confronti della contraparte” (p. 25). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 32 massificação da economia e do fortalecimento dos mercados consumidores, a teoria do comportamento típico passa a ser admitida a prescindir do elemento volitivo. Buscava-se proteger a vontade do vulnerável, estigmatizando-se o poder da vontade como inevitável imposição das forças econômicos na celebração dos negócios jurídicos. Em última análise, da crítica ao voluntarismo opressor decorreu a hostilidade à vontade e a rejeição de seu papel como motor da livre iniciativa. Tal perspectiva não resistiria à retomada dos movimentos liberais que, ao lado do declínio do Welfare State, acabaram por sepultar a doutrina do comportamento socialmente típico. Com efeito, a partir dos anos 70 do Século passado, assistiu-se, tanto na Alemanha quanto na Itália e em Portugal, à progressiva substituição dessa construção por uma ampliação da categoria do negócio jurídico, cuja abrangência o tornaria apto a compreender numerosas atividades socialmente típicas, ora mediante a invocação de vontade presumida dos seus agentes (a ampliar o conceito de negócio jurídico), ora por meio da ratificação de atos inválidos, ora mediante a mera admissão de efeitos patrimoniais ressarcitórios decorrentes de negócios inválidos – cuja fonte, portanto, seria o ato ilícito, não já o contrato. Do ponto de vista dogmático, não parece convincente a legitimação de efeitos obrigacionais com base na técnica da vontade presumida ou, por outro lado, como mera liquidação de danos. Basta lembrar a hipótese do incapaz que compra e vende artigos de suas necessidades pessoais, faz-se transportar e assim por diante. Não seria razoável admitir como válidos tais negócios com fundamento em suposta vontade presumida de seus responsáveis, já que, por vez, as atividades desenvolvidas são levadas a cabo contra a vontade expressa de quem deveria autorizá-las. Também em outras hipóteses de atividades desenvolvidas por pessoas capazes, mostra-se insustentável cogitar-se de vontade presumida pelo simples fato de que o agente se recusa a celebrar o negócio. E tampouco se sustentaria a explicação circunscrita à liquidação de danos quando se pensa na execução específica de certos contratos fundados em negócio nulo, na esteira de tendência progressiva do direito obrigacional. Daí ser plausível a suspeita de que a rejeição à doutrina do comportamento social típico se associe mais ao contexto histórico e ideológico em que se insere do que aos seus fundamentos teóricos. Por ter sido germinada em oposição à Teoria do Negócio Jurídico, aquela doutrina acabou sendo desenvolvida como construção crítica ao papel da vontade na teoria contratual, associando-se a orientações que, por diversos matizes, enalteceram, ao longo do Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 33 Século XX, o papel do Estado intervencionista, seja em regimes autoritários de diversos países, seja no dirigismo contratual.64 As duas últimas décadas do Século passado, por outro lado, coincidem, em diversos países europeus e da América Latina, com a densificação do neoliberalismo e, especificamente na esfera jurídica, com a retomada entusiasmada do prestígio da autonomia privada, reduzindo-se, em diversos setores – mercado de locação, relações de trabalho, setores da economia privatizados – o grau de intervenção do Estado, que adquire feição regulamentar, com suas agências e instrumentos que enaltecem o papel da livre contratação, ainda que sob rígido controle do Estado. A Europa, neste particular, diferencia-se da América Latina, onde, talvez pelas contradições sociais ainda muito evidentes, e por não se terem alcançado níveis médios satisfatóriosna promoção dos direitos sociais, é compreensível que se propugne por um grau de intervenção e de promoção de políticas públicas maior, capaz de favorecer a distribuição de rendas e diminuir a desigualdade social. Tal diferença, superficialmente percebida, explica, em certa medida, intensificação mais visível, na doutrina europeia, da retomada do papel da vontade nas atividades privadas. A preocupação com a preservação da vontade como elemento relevante da iniciativa privada, associada à reação liberal ao dirigismo contratual, mostram-se eloquentes para a compreensão do alargamento das doutrinas do negócio jurídico e da rejeição da doutrina do comportamento social típico. Entretanto, a análise dos comportamentos socialmente típicos, especialmente na perspectiva ascarelliana de atividade contratual sem negócio, não renega o papel da vontade, limitando-se a considerar secundária, para determinadas atividades socialmente típicas, a vontade negocial, ou seja, a existência de negócio jurídico que inaugure 64 Bastaria, para comprovar tal percepção, a crítica de DIETER MEDICUS à expressão “comportamento socialmente típico” (Il ruolo centrale delle disposizioni relative al negozio giuridico, in I Cento anni del codice civile tedesco in Germania e nella cultura giuridica italiana – Atti del convegno di Ferrara, 26-28 settembre 1996, Padova, Cedam, 2002, pp. 155 a 176). O autor critica (p.165) especialmente a decisão da Corte alemã (sentenza de 1966, Landgericht di Brema, in NJW 1966, p. 2360) que obrigou o pagamento de bilhete de trem em face de um menino de 8 anos que havia realizado o trajeto, imputando-lhe também a multa. Invoca o festejadíssimo Flume (civilista liberal que se transformou em uma lenda viva na Alemanha, por sua posição de resistência ao regime nazista, quando se exonerou da Cátedra), que reduz a construção à retroatividade de efeitos para relações obrigacionais inválidas. Afirma a p. 166: “Il ricorso alla formula ‘contratto di fatto’ ha consentito di trattare come efficaci, per il periodo in cui era stata ad essi data esecuzione, contratti di lavoro subordinato e contratti di società conclusi sulla base di accordi giuridicamente inefficaci (…). In definitiva, essa non fa altro che sostituire l’effetto retroattivo della nullità, dell’annullamento e del recesso operante ex tunc (Rücktritt), con una causa di scioglimento del rapporto non pienamente retroattiva, assimilabile al recesso operante ex nunc (Kündigung)”. E remata de forma sarcástica: “In conclusione, si può dire che, nel complesso, il diritto classico dei contratti, imperniato sulla volontà negoziale, ha saputo difendersi dagli attacchi che gli sono stati portati: i tentativi operati in questo senso da quella che Flume ha efficacemente definito ‘giurisprudenza della corsa in tram’ sono falliti (Jurisprudenz der Straßenbahnfahrt)”. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 34 a atividade já existente de fato. Considerando-se a insuficiência do negócio jurídico – e da vontade presumida – para justificar a presença de atividades admitidas pelo grupo social, que produzem efeitos jurídicos carecedores de qualificação, ainda que desprovidas de negócio fundante, torna-se oportuno revisitar a doutrina dos comportamentos socialmente típicos. Do ponto de vista metodológico, a atividade contratual sem negócio exige qualificação da concreta relação jurídica a partir da sucessão de atos funcionalmente interligados, sem prévia tipificação e reconhecimento jurídico do negócio. Corrobora-se o ocaso da subsunção, como técnica hermenêutica a reclamar premissa legal abstrata, correspondente a suporte negocial determinado, em favor da verificação em concreto da disciplina aplicável ao conjunto de atos de natureza diversa. Amplia-se, dessa forma, o controle da atividade privada, permitindo-se proteger efeitos socialmente relevantes decorrentes de negócios nulos ou inexistentes, sem que a presença de negócio válido seja um pressuposto para a tutela jurídica. O que se pretende propor, para a reflexão contemporânea, é a necessidade de se reler a doutrina dos comportamentos socialmente típicos, a partir, não já do afastamento do elemento volitivo como motor da livre iniciativa, mas da distinção entre a vontade negocial e a vontade contratual. O negócio jurídico mantém-se vinculado ao controle estabelecido pelo Código Civil. Ao seu lado, contudo, uma série de atividades socialmente típicas, decorrentes de atos não negociais, é valorada positivamente e a ordem jurídica reconhece, como jurígenos, seus efeitos. Enquanto no negócio jurídico a declaração de vontade hígida é um prius para a sua validade (elemento essencial), nas atividades socialmente típicas a vontade suscita verificação in posterius, a partir dos efeitos por elas produzidos, independentemente de declaração destinada à instauração do vínculo, conferindo-se juridicidade a situações jurídicas que, de outra forma, não poderiam ser admitidas. A rigor, a admissão da relação contratual sem negócio permite atribuir juridicidade a efeitos socialmente reconhecidos, a partir de qualificação a posteriori da função da atividade realizada, estabelecendo-se, dessa forma, controle de merecimento de tutela, à luz da legalidade constitucional, acerca de atos praticados sem negócio jurídico de instauração (mas que, nem por isso, podem ser considerados fora da lei), cuja eficácia, de ordinário, é mais restrita do que a gama de efeitos almejados pelo negócio. Basta lembrar as hipóteses do funcionário público cujo acesso à carreira não se deu por concurso público;65 ou do vínculo empregatício 65 A respeito, v. o Enunciado nº 363 da Súmula do TST: “Contrato nulo. Efeitos (nova redação) - Res. 121/2003, DJ 19, 20 e 21.11.2003. A contratação de servidor público, após a CF/1988, sem prévia aprovação em concurso público, encontra óbice no respectivo art. 37, II e § 2º, somente lhe conferindo direito ao pagamento da Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 35 do apontador de jogo do bicho;66 ou do policial militar em empresa de segurança privada, a despeito de vedação legal expressa;67 ou do menor que adquire, por si mesmo, produtos ou serviços; ou ainda o exemplo dos sócios de sociedade irregular ou da pessoa que integra modalidade de família inadmitida pelo direito.68 Em todos esses casos, a invalidade dos negócios não exclui a admissibilidade, para certos fins, de eficácia jurídica à atividade desenvolvida. E somente graças a artificialismo retórico se poderia afirmar que se pretendeu, em tais hipóteses, celebrar ou extinguir uma série de negócios, alçando-se o mesmo efeito rejeitado ora pela vontade expressa do declarante, ora pela lei. Torna-se, assim, incongruente, nesses casos, falar-se em negócio jurídico, cuja admissão colidiria com matéria de ordem pública, que pauta a teoria das capacidades, das formas ad substantiam e da licitude dos bens passíveis de circulação. contraprestação pactuada, em relação ao número de horas trabalhadas, respeitado o valor da hora do salário mínimo, e dos valores referentes aos depósitos do FGTS”. 66 A respeito, v. a O.J. nº 199 da SDI-1: “Jogo do bicho. Contrato de trabalho. Nulidade. Objeto ilícito (título alterado e inserido dispositivo) - DEJT divulgado em 16, 17 e 18.11.2010. É nulo o contrato de trabalho celebrado para o desempenho de atividade inerente à prática do jogo do bicho, ante a ilicitude de seu objeto, o que subtrai o requisito de validade para a formação do ato jurídico”. 67 A hipótese é disciplinadapelo art. 22 do Decreto-lei n.º 667/1969: “Art. 22. Ao pessoal das Polícias Militares, em serviço ativo, é vedado fazer parte de firmas comerciais de empresas industriais de qualquer natureza ou nelas exercer função ou emprego remunerados”. 68 Em interessante precedente, o Superior Tribunal de Justiça, baseado no princípio da monogamia (compreendido pela Egrégia Corte como essencial ao regime das famílias no ordenamento brasileiro), decidiu, ao analisar pretensões sucessórias das partes, pela impossibilidade de reconhecimento de duas uniões estáveis simultâneas do de cuius – que, após se divorciar, manteve união estável com a própria ex-esposa, bem como com segunda mulher. In casu, foi privilegiada a união estável com a companheira com a qual não foi casado, em detrimento da união com a ex-esposa (iniciada após o divórcio), reputada concubinato diante da pré-existência da outra união (STJ, REsp. 1.157.273, 3ª T., Rel. Min. Nancy Andrighi, julg. 18.5.2010). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 36 O CORPO DO REGISTRO NO REGISTRO DO CORPO; MUDANÇA DE NOME E SEXO SEM CIRURGIA DE REDESIGNAÇÃO The registration’s body in the body’s registration; change of the name and sex without reassignment surgery Luiz Edson Fachin Professor Titular de Direito Civil na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná. Pós-Doutor. Pesquisador convidado do Instituto Max Planck, de Hamburg (DE). Professor Visitante do King’s College, London. Advogado. ⃰ Resumo: Os direitos de personalidade se apresentam como essenciais para o paradigma do Estado Democrático de Direito. Dentre eles, o direito ao nome e o direito ao próprio corpo assumem importante papel na criação da identidade do ser humano e em sua autodeterminação. Na temática das pessoas transexuais, a garantia do livre exercício do direito ao nome e ao corpo se torna ainda mais fulcral. Cada vez mais a jurisprudência vem admitindo a possibilidade de alteração de prenome e sexo no registro civil de transexuais após a cirurgia de transgenitalização. Quando não há a cirurgia, contudo, a jurisprudência torna a não permitir a alteração. Considerando-se que a categoria de gênero ultrapassa a ideia de sexo biológico, e levando-se em conta o princípio da dignidade da pessoa humana, torna-se essencial a defesa da possibilidade de alteração do registro civil mesmo sem a cirurgia de redesignação sexual, como forma de garantia da dignidade. Palavras-chave: Direito ao nome; direito ao corpo; dignidade da pessoa humana; identidade de gênero; transexuais; cirurgia de transgenitalização. Abstract: Personality rights are presented as essential to the paradigm of the Democratic State of Right. Among them, the right to a name and the right to own body play an important function in creating the identity of human beings and their self-determination. In the theme of the transgender people, the guarantee to free exercise of the right to the name and the body becomes even more crucial. Incrisingly, the jurisprudence has acknowledged the possibility of change of the first name and sex in the civil registry of the transgender person after reassignment surgery. When there isn’t the surgery, however, the jurisprudence returns to not allow de changing. Considering that the gender category beyond the idea of biological sex, and taking into account the principle of human dignity, it is essential defense the possibility of changing in the civil registry, even without reassignment surgery, as a way to guarantee the dignity. Key-words: Right to a name; right to the body, human being dignity; gender identity; transgender; reassignment surgery ⃰ O autor agradece a percuciente pesquisa acadêmica sobre o tema de Mauricio Wosniaki Serenato. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 37 Sumário: Introdução – 1. Direitos da Personalidade em passant – 1.1 Direito fundamental ao nome – 1.2 Direito fundamental ao corpo – 2. Transexualidade – 2.1 O Direito à mudança de nome e sexo no Registro Civil – 2.2 O direito à mudança de nome e sexo sem a cirurgia de redesignação sexual – 3. Ação Direta de Inconstitucionalidade 4275 – 4. Conclusões. Introdução Há íngremes desafios nas relações sociais contemporâneas; ao Direito Civil brasileiro prospectivo, à luz da dimensão substancial da constitucionalização dos direitos, impende arrostar as questões que demandam novas respostas, em homenagem ao Direito, à segurança jurídica material e à liberdade. Uma hermenêutica de respeito à sociedade plural1 se impõe. A autodeterminação das pessoas configura-se como elemento fundamental para a garantia de qualidade de vida. Autodeterminar-se não significa agir irresponsavelmente, mas sim, exercer as liberdades pessoais do modo mais amplo possível, seja produzindo escolhas, seja criando uma identidade própria ou mesmo tomando decisões quanto ao próprio corpo. Essas temáticas todas serão tratadas no decorrer desse artigo, cujas reflexões principiam elementos para embrenhar-se, mais adiante, nesse debate, e intentam contribuir nessa vereda. Principiemos pela instalação do tema, pretendendo guiar-se pela sensibilidade que tal horizonte suscita, sem negligenciar do mandatório baldrame da dogmática jurídica. Justiça é conceito que em sua concretude não se aparta da segurança jurídica. A questão posta à controvérsia beneplacita tema central na vida do Direito, qual seja, o da identidade. A identidade pessoal, isto é, o direito ao ser, bem como o direito ao corpo, se encapsulam como direitos de personalidade. A identidade, em termos gerais e na cronologia da biografia jurídica do sujeito, tem como função a individualização e a identificação da pessoa na sociedade2, de modo que o nome ganha especial relevo na construção identitária. Mesmo diante da importância que o nome assume, a identidade vai além da mera nomeação, encontrando eco nas experiências sociais, culturais, políticas e ideológicas das quais a pessoa toma parte. Identidade, portanto, parte do pressuposto de como o indivíduo se reconhece e como 1 Exemplo lúcido dessa perspectiva encontra assento na importante obra Código Civil Interpretação conforme a Constituição da República: “(...) No sistema constitucional, portanto, a família tem especial proteção do Estado, mas não apenas a constituída pelo casamento” (In: TEPEDINO, Gustavo; BARBOZA, Heloísa Helena; BODIN DE MORAES, Maria Celina. Vol. IV. Rio de Janeiro : Renovar, 2014. p. 4). 2 CHOERI, Raul Cleber da Silva. O direito à identidade na perspectiva civil-constitucional. Rio de Janeiro: Renovar, 2010, p. 226. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 38 é reconhecido pela sociedade, e esse reconhecimento é muito mais complexo que os rótulos simplistas que costumam se apresentar no campo das relações sociais. Tal reconhecimento logo se deu no Direito Civil com os apelidos, no sentido menos técnicos da palavra, ou alcunhas. Ao mesmo tempo, o direito ao corpo é também prerrogativa da personalidade, na medida em que não é apenas a exteriorização da essência humana, pelo contrário, é também parte integrante dela. Nele se apresentam, no palco da existência, o ser e o estar. A transexualidade tem o condão de relacionar de modo imbricado o direito à identidade com o direito ao corpo, de modo que a efetividade do direito à identidade só é possível com o livre exercício do direito ao corpo. A relação de transgêneros3 com seu corpo é essencial para a constituiçãode sua identidade, isto é, na forma em que se reconhecem e são distinguidos. Nesse sentido, portanto, o direito ao corpo como formador de identidade deve ser exercido em liberdade, por parte do transexual, de modo que a há que se questionar a essencialidade da cirurgia de redesignação sexual para a mudança de nome civil e de sexo. O presente trabalho, portanto, procurará explorar essa temática, ciente de que não sustentará verdades absolutas ou dogmas. De início serão explorados os pressupostos dos direitos da personalidade, em especial atenção ao direito fundamental ao nome e ao corpo como conformadores de um direito à identidade; aqui será apenas uma retomada sucinta de conceitos já espraiados na teoria jurídica, a fim de sistematizá-los. Em seguida, procurar-se-á perscrutar as novas concepções acerca da transexualidade e os debates jurídicos que se aderem à temática, como o direito à mudança de nome civil e sexo. Neste ponto entrará o questionamento fundamental da necessidade da cirurgia de redesignação sexual como pressuposto para a alteração de nome e sexo no registro civil. Além da análise doutrinária da área jurídica e das modernas teorias de gênero e sexualidade, será esquadrinhada a jurisprudência pátria concernente ao assunto, bem como a proposta de ADI impetrada pelo Ministério Público Federal que procura justamente afastar o requisito da cirurgia. Em suma, para arrematar esta nota introdutória: parece-nos, que a busca da felicidade não pode ser barrada por preconceitos. Aqui não se subscreve, nem de longe, o desvario individualista do consumo de tudo e a própria reificação do ser. Dignidade e responsabilidade se conjugam com a liberdade. O coevo trabalho, portanto, arreia a felicidade dos transexuais à sua realização pessoal no que tange a suas identidades e corpos, de modo que 3 Existe discussão científica acerca de diferenciação entre transexuais, travestis e transgêneros. Neste trabalho, adotar-se-á, apenas para este fim, a corrente que trata as expressões como unívocas. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 39 nas páginas no decorrer deste artigo se elucidará essa relação fundamental. É no respeito que se funda este caminhar. 1. Direitos da Personalidade en passant A fim de prosseguir, cumpre, por ora, apenas de forma sumário, reincorporar aqui conceitos e elementos já debatidos, úteis ao desenvolvimento da temática em exame. Os direitos da personalidade, como se sabe, surgem em sua dimensão substancial como corolários daquilo que se denominou Estado Democrático de Direito. Com base teórica jusnaturalista, os direitos da personalidade se estruturam a partir da ideia de essencialidade e inerência à própria condição humana. Logo após a Segunda Guerra Mundial, procurou-se proteger o indivíduo contra os arbítrios provenientes do Estado, entrelaçando os direitos da personalidade à ideia de dignidade da pessoa humana, e os alçando à proteção constitucional e internacional. Anderson Schreiber bem versa sobre os direitos de personalidade como “atributos humanos que exigem especial proteção no campo das relações privadas, ou seja, na interação entre particulares, sem embargo de encontrarem também fundamento constitucional e proteção nos planos nacional e internacional.”4 Os direitos da personalidade, portanto, dizem respeito aos mais essencial do sujeito e seus prolongamentos ou projeções, de maneira que merecem especial atenção do ordenamento jurídico, e, não por acaso, encontram eco na Constituição Federal. Na definição de Euclides de Oliveira, “entende-se por personalidade o conjunto de caracteres físicos, psíquicos e morais que compõem o ser humano. Daí decorrem os direitos concernentes à pessoa humana, que são prolongamentos e projeções da personalidade.”5 Desta definição já se percebe a amplitude dessa categoria de direitos, ao mesmo tempo em que se dá conta de sua essencialidade. Nesta senda, para a análise que se pretende fazer no presente trabalho, uma reflexão mais detida acerca do direito ao nome e do direito ao corpo será feita, de modo a conformar uma ideia de direito à identidade. É o que segue. 4 SCHREIBER, Anderson. Direitos da Personalidade. 2 ed. São Paulo: Atlas, 2013, p. 13 5 OLIVEIRA, Euclides de. Direito ao nome. In: DELGADO, M. L; ALVES, J. F. Questões controvertidas no novo Código Civil, Vol. 2. São Paulo: Método, 2004. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 40 1.1. Direito fundamental ao nome O direito ao nome é um dos direitos de personalidade positivados no Código Civil de 2002. Exerce função essencial na individualização do sujeito e em seu reconhecimento, de modo que recebe ampla proteção jurídica. Versando sobre a temática do nome, José Roberto Neves Amorim apresenta uma definição para o instituto: A melhor doutrina atribui ao nome a natureza jurídica de direito de personalidade, na medida em que, como sinal verbal ou mesmo marca do indivíduo, o identifica dentro da sociedade e da própria família e é capaz de ser tutelado erga omnes. A lei assegura o direito ao nome, assim como seu registro em local adequado, obedecidas as formalidades, criando a particularização da pessoa, no mundo jurídico. Ele faz, pois, parte integrante da personalidade.6 Sendo um direito da personalidade, a doutrina apresenta características inerentes ao direito ao nome, pelo que se segue a classificação feita por José Roberto Neves Amorim7, entre as quais se podem citar a obrigatoriedade, a indisponibilidade, a exclusividade, a imprescritibilidade, a inalienabilidade, a não-cessibilidade, a extracomercialidade, a inexpropriabilidade, a intransmissibilidade , a irrenunciabilidade e a imutabilidade, neste caso, relativa. Sem adentrar a esse âmago, impende singelo rememorar de tais atributos. A obrigatoriedade diz respeito, como sugere a qualificação, a obrigação de se ter um nome e de registrá-lo oficialmente perante Cartório de Registro Civil. Também se entende a obrigatoriedade como a obrigação de usar o nome, sem embargo de eventuais alcunhas. A indisponibilidade, por sua vez, diz respeito a incapacidade de dispor do nome, aqui se tendo disposição em uma acepção ampla, como o poder de determinar o destino do direito subjetivo. A exclusividade se baseia na ideia do nome pertencer a uma única pessoa. Por evidente que se admite a existência de homônimos, de modo que a exclusividade resta relativizada, sob tais limites e sentidos. A imprescritibilidade se refere ao fato de o titular desse direito da personalidade jamais perder o direito ao nome por ação ou inação. A inalienabilidade, por seu turno, abrange a ideia que o nome, pelo menos da pessoa física, não pode ser alienado, trocado 6 AMORIM, José Roberto Neves. Direito ao nome da pessoa física. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 8. 7 Ibidem. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 41 por dinheiro, ou por qualquer outro mecanismo. De forma semelhante, a característica de incessibilidade aduz que o nome não pode ser cedido, visto que impossibilitaria de exercer a individualização que é sua função primordial. Ainda nesse sentido, a extracomercialidade indica que o nome não é comerciável, sendo essa característica corolário da incessibilidade e da inalienabilidade. O nome é também inexpropriável. Embora o termo ensaie a equivocada ideia de que seria o direito ao nome um direito patrimonial, a essência dessa característica é, em verdade, protegero nome do indivíduo contra sua mudança arbitrária, ainda que por parte do Estado em alegado interesse público. Também é intransmissível; não pode ser transferido, justamente porque, sendo um direito da personalidade, deriva da ideia de inerência ao ser humano, como outrora apontado. Ainda, há que se ponderar a irrenunciabilidade: o titular do nome não pode dele renunciar, em função da própria de ideia de indisponibilidade sobre os direitos da personalidade. Por fim, entretanto não menos importante, há a imutabilidade, que, em verdade, é predicado de máximo interesse para a presente análise. A imutabilidade, a rigor, é mesmo relativa, como se reconhece em doutrina, pois “embora se preveja a imutabilidade do nome, esta é relativa, pois devem ser consideradas as exceções legais, retirando-se o caráter absoluto desse princípio.”8 Muito mais que uma limitação por meio de critérios hermenêuticos, a imutabilidade do nome já se encontra relativizada na própria legislação, haja vista o próprio Código Civil, na matéria de direito de família, ou ainda a Lei de Registros Públicos, que prevê possibilidade de mudança de nome nas hipóteses de prenome ridículo, ou de integração de apelido notório, por exemplo. A grande ingente questão que se coloca, portanto, é o fato do nome ser elemento constitutivo de magna importância para a formação da identidade pessoal. Isso significa dizer que ao ser individualizado por um nome, a pessoa deve se sentir confortável em relação a isso, e, a nomenclatura deve refletir a forma como a pessoa se sente sobre si mesma e como é reconhecida pela comunidade. Direito fundamental ao nome, dessa forma, deve levar em conta não apenas a existência de um nome em si, mas a sua função social na criação da identidade do ser humano. Cada vez mais se admite, tanto na doutrina quanto na jurisprudência, a possibilidade de alteração do registro civil no caso de transexuais. O tema será mais bem versado adiante, contudo, a título de se dar concretude ao argumento supra, a mudança de nome no caso de transexuais é vital para a configuração de uma identidade que, de fato, represente o 8 Idem, p. 38. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 42 imo do indivíduo. Negar essa possibilidade ao transexual é violar um direito fundamental, visto que o nome, conforme já defendido, não se resume a uma nomenclatura, apresenta uma função social importantíssima na construção identitária do ser humano e mesmo em sua qualidade de vida. Nesse sentido, comunga-se com a teorização de Patrícia Corrêa Sanches: Isso porque uma pessoa com aspecto representativo social do gênero feminino e que contenha documento de identificação com prenome masculino sofre enorme constrangimento em suas relações sociais, haja vista o nome não corresponder à identidade da pessoa, assim como a própria sociedade passa a não conseguir êxito na identificação do sujeito.9 Sendo um direito fundamental de tamanha importância, é impensável que o nome possa trazer sofrimento à pessoa. Se assim se sucede, por evidente, que tal direito não cumpre função e é incoerente com a sistemática constitucional vigente a impossibilidade a alteração do prenome. Adiante haverá maior aprofundamento nesta temática. 1.2. Direito fundamental ao corpo O ordenamento jurídico brasileiro consagra o princípio da autonomia privada em vários campos do direito privado, desde a autonomia para contratar, até a autonomia sobre a própria vida. É dentro desse contexto de autonomia e liberdade que se insere a discussão do direito ao corpo. Por certo que a tutela jurídica que se destina a autonomia privada no campo dos contratos em muito diverge da autonomia privada que se traduz no campo dos direitos da personalidade. No entanto, cabe resgatar a nova concepção de autonomia privada, que ultrapassou um modelo altamente liberal de autonomia da vontade, para encontrar dentro do âmbito do ordenamento limites e restrições. Isso significa dizer que se assegura aos indivíduos ampla margem de liberdade, contudo, restrita a uma ideia de funcionalização do direito e, igualmente, dos parâmetros constitucionais de proteção à dignidade humana. Na ambiência do direito ao corpo, portanto, o paradigma da autonomia privada deve ser analisada em sua essencialidade, isto é, respeitando-se a liberdade que se deve conferir ao indivíduos, ao mesmo tempo em que se emprega atenção, e no caso do direito ao corpo, especial atenção, aos limites provenientes do ordenamento jurídico. Os limites de que tratamos são os limites do ordenamento, vale dizer, campo e o horizonte das limitações decorrem objetivamente da racionalidade sistemática do Direito, logo não se confundem com limites de cunho moral e religioso. Pleno há de ser, por certo, a 9 SANCHES, Patrícia Corrêa. Mudança de nome e da identidade de gênero. In: DIAS, M. B. (Coord.). Diversidade sexual e Direito Homoafetivo. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2011, p. 426-427. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 43 liberdade de crença e de vivenciar a respectiva religiosidade numa sociedade democrática e plural; por igual, pleno há de ser, no espaço social regulado pelo Estado democrático, o respeito à diversidade. Nesse sentido, Anderson Schreiber apresenta uma elucidativa síntese: O tratamento jurídico reservado ao corpo humano sofreu, ao longo da história, profunda influência do pensamento religioso. Visto, por muitos séculos, como uma dádiva divina, o corpo humano era considerado como merecedor de uma proteção superior aos desígnios individuais. O pensamento moderno rompeu com essa perspectiva, recolocando gradativamente a integridade corporal no campo da autonomia do sujeito. Nesse sentido, passou-se a falar em ‘direito ao próprio corpo’, expressão que procura enfatizar que o corpo deve atender à realização da própria pessoa, e não aos interesses de qualquer entidade abstrata, como a Igreja, a família ou o Estado.10 Tal como na discussão do direito ao nome, portanto, o corpo também cumpre uma função social importante na conformação de uma identidade do sujeito e mesmo de sua própria felicidade. Incontestável que no mundo contemporâneo há uma supervalorização da estética, e, por conseguinte, do corpo humano, de modo que constitui elemento relevante na qualidade de vida dos indivíduos. Sem embargo da proteção jurídica que deve se destinar ao corpo, é fulcral que seja garantido ao sujeito a autodeterminação sobre si mesmo, não sendo lícito que a guarida que se procure dar a esse direito de personalidade configure restrição desmedida e arbitrária da liberdade de dispor sobre a corporalidade. “A inviolabilidade da pessoa lhe garante o poder de autodeterminação em relação ao seu corpo e a sua saúde.”11 O direito ao corpo encontra-se positivado no artigo 13 do Código Civil de 2002; ali, se proíbe a disposição sobre o corpo quando importar em diminuição permanente da integridade física ou contrariar os bons costumes, salvo por exigência médica. A dicção da lei quando analisada sob exegese literal lógico-dedutiva importaria em se proibir cirurgias de natureza meramente estética, ou mesmo aplicações de tatuagens ou piercings no corpo humano. Entende-se que o objetivo do legislador era vedar atos de violência contra o próprio corpo, sendo outro o campo da liberdade e da autodeterminação oriundas da autonomia corporal. Atente-se ainda para o relevante vocábulo “bons costumes”, um conceito jurídico indeterminado que pode servir de ensejo para as mais infundadas restrições.10 SCHREIBER, Anderson. Direitos da Personalidade. Op. cit., p. 32. 11 CORRÊA, Adriana Espíndola. Consentimento livre e esclarecido: o corpo objeto de relações jurídicas. Florianópolis: Conceito Editorial, 2010, p. 77. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 44 No caso que pretende se analisar, ou seja, a transexualidade, o artigo 13 poderia, ser, como já foi, utilizado para barrar a disposição dos transexuais ao seu próprio corpo e a formação de sua identidade e dignidade, na medida em que se veda(va) a possibilidade de realização de cirurgia para redesignação de sexo. Atualmente, tendo em vista que a transexualidade ainda vem sendo considerada no rol de doenças psíquicas, admite-se a cirurgia sob o argumento da recomendação médica. Se por um lado é interessante que a cirurgia se afaste do campo da estrita ilegalidade, por outro, tal discurso encontra eco em um tradicionalismo por tratar uma dissonância entre identidade de gênero e sexo biológico como uma doença. Não se está a defender que a/o transexual não tenha o devido acompanhamento psicológico e médico, contudo, soa como um anacronismo histórico assentar que discussões de gênero e sexualidade ainda sejam tratadas no rol de doenças. Schreiber, mais uma vez, apresenta ideia luminosa sobre a temática: Examinando a Resolução CFM 1.955/2010 em conjunto com o artigo 13 do Código Civil, o leitor poderá facilmente perceber que a cirurgia de mudança de sexo é lícita no Brasil, desde que um médico ateste o estado patológico do seu paciente. Com isso, atende-se ao requisito da exigência médica, pois, nas palavras do Conselho Federal de Medicina, a cirurgia de mudança de sexo consiste em tratamento idôneo aos casos de transexualismo. O resultado pode parecer progressista, já que se permite, ao menos nessas circunstâncias, a realização da cirurgia. A abordagem, contudo, é a mais retrógrada possível. A opção sexual (sic) vem tratada como doença. E o promissor debate jurídico e ético em torno da autonomia corporal fica reduzido a uma discussão supostamente técnica, em que o elemento determinante passa a ser um atestado médico.12 A autonomia corporal em relação ao desejo do transexual realizar a cirurgia de redesignação sexual, ou de não realizá-la, será ferida em breve. Por ora, resta frisar que o direito fundamental ao próprio corpo, assim como todos os direitos, admite restrições atinentes à própria Constituição. No caso dos transexuais, agressão à dignidade está em não permitir que o indivíduo modifique seu corpo para se adaptar a sua identidade de gênero. Constitui igual agressão determinar que o transexual realize a cirurgia de redesignação sexual para que só então possa ter sua identidade de gênero reconhecida. De todo o modo, impende em preservar o poder de autodeterminação sobre o próprio corpo em qualquer das situações. 2. Transexualidade; alguns apontamentos relevantes para o tema em desate jurídico 12 SCHREIBER, Anderson. Direitos da Personalidade. Op. cit., p. 44 Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 45 Para que se possa adentrar na discussão da mudança de nome e sexo no registro civil, com ou sem a cirurgia de redesignação sexual, faz-se mister analisar, ainda que brevemente e de modo não aprofundado, o fenômeno da transexualidade. Aqui serão descortinados apenas alguns elementos que à guisa de apontamentos preambulares auxiliam no exame jurídico da matéria. Antes mesmo de perquirir a transexualidade, contudo, impende realizar uma sintética definição de alguns conceitos fundamentais na temática dos estudos de gênero e sexualidade, quais sejam, sexo biológico, gênero, orientação sexual e identidade de gênero. Sexo biológico pode ser definido como o conjunto de características fisiológicas, nas quais se encontram as informações cromossômicas, os órgãos genitais e os caracteres secundários capazes de diferenciar machos e fêmeas. Sexo, portanto, teria essa matriz biológica. Sem embargo disso, muitos autores questionam essa pré-determinação que o sexo biológico impõe. Judith Butler questiona o lugar pré-discursivo que se dá ao sexo biológico, colocando-o como uma verdade imutável e conformadora de um modo de ser e agir13. Juridicamente, há a determinação legal de designação de um sexo (masculino ou feminino) ao indivíduo quando de seu nascimento, de modo que tal classificação toma como base apenas o sexo biológico, por meio da observância da genitália. O conceito de gênero, por sua vez, visa a suplantar as limitações do sexo biológico, levando em consideração que não apenas características biológicas e anatômicas determinam a identidade de cada sujeito. Trata-se de um conceito deveras complexo. O conceito de gênero é formulado, numa certa perspectiva, a partir de discussões dos movimentos feministas, justamente para contrapor a noção de sexo biológico. Não se trata de negar totalmente a biologia dos corpos, mas enfatizar que existe uma construção social e histórica sobre as características biológicas. Sendo assim, a categoria de homem e a categoria de mulher se dariam em decorrência de uma construção da realidade social e não meramente de uma diferenciação anatômica. Interessante analisar a definição da historiadora norte-americana Joan Scott sobre essa terminologia: Ademais, o gênero é igualmente utilizado para designar as relações sociais entre os sexos. O seu uso rejeita explicitamente as explicações biológicas, como aquelas que encontram um denominador comum para várias formas de subordinação no fato de que as mulheres têm filhos e que os homens têm uma 13 BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 46 força muscular superior. O gênero se torna, aliás, uma maneira de indicar as construções sociais: a criação inteiramente social das ideias sobre os papéis próprios aos homens e às mulheres. É uma maneira de se referir às origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas dos homens e das mulheres. O gênero é, segundo essa definição, uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado.14 Percebe-se, portanto, que a categoria gênero é muito mais ampla que a ideia de sexo biológico. Mais uma vez ressalta-se que não se desconsidera os elementos biológicos do corpo, pelo contrário, tal qual os elementos sociais, culturais, históricos e psicológicos, os elementos anatômicos também são constitutivos do gênero, mas não há uma decorrência lógica entre sexo e gênero. Importante fazer menção que as modernas teorias de gênero, principalmente aquelas ligadas à Teoria Queer15 não restringem o gênero ao binarismo masculino/feminino, admitindo, dessa forma, um gênero neutro. Orientação sexual, ao seu turno, pode se referir ao sexo das pessoas que o sujeito elege para se relacionar afetivamente e sexualmente. Importante frisar que não se trata de uma opção sexual, visto que o indivíduo não escolhe deliberadamente por qual sexo sentirá atração afetiva e sexual. Os estudos atuais sobre a temática, portanto, apontam para o inatismo da orientação sexual, de modo que ela não pode ser “corrigida” socialmente como apontam irresponsável e preconceituosamente alguns setores da sociedade. Tradicionalmente se conformam três tipos de orientação sexual, a heterossexualidade, que se trata do desejo afetivo e sexual por pessoas do sexo oposto, a homossexualidade, que se refere à atração afetiva e sexualpor pessoas do mesmo sexo, e a bissexualidade, que é a atração afetiva e sexual por pessoas de ambos os sexos. A orientação sexual independe do gênero e da identidade de gênero do sujeito, conforme se verá a seguir. 14 SCOTT, Joan Wallach. Gênero: uma categoria útil de análise histórico. Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 71-99. 15 A Teoria Queer tem base sociológica no pós-estruturalismo, principalmente a partir das teorizações de Michel Foucault. A ideia dessa corrente sociológica é desconstruir a classificação dos sujeitos prela aparência de seus corpos, bem como problematiza comportamentos atribuídos a cada um dos gêneros. A Teoria Queer também questiona a classificação dos gêneros em apenas masculino ou feminino, defendendo padrões de gênero que não se enquadram nesse binarismo. “A teoria queer aposta na superação dos binarismos (masculino/feminino, heterossexual/homossexual) por meio de uma desconstrução crítica, desafiando os conhecimentos que se constroem os sujeitos como sexuados e marcados pelo gênero, e que assumem a heterossexualidade ou a homossexualidade como categorias que definiriam a verdade sobre elas.” c.f. GORSDORF, Leandro Franklin. Direitos LGBT e a identidade do sujeito constitucional: um caminho para além do arco-íris. In: CLÈVE, C. M. (coord.). Direito Constitucional Brasileiro: teoria da constituição e direitos fundamentais. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014, p. 691. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 47 A identidade de gênero figura como conceito fundamental para compreender a transexualidade. Trata-se da forma como o sujeito se sente e se apresenta para si e para a comunidade na condição de homem ou de mulher, ou de ambos, sem que haja uma relação direta com o sexo biológico. A identidade de gênero, portanto, diz respeito ao gênero com o qual o sujeito se identifica, retomando a ideia de gênero como uma categoria ampla que vai além da mera determinação biológica. Dessa forma é então, nessa linha, possível que o sujeito que tenha nascido com órgãos genitais masculinos se identifique com o gênero masculino, ao mesmo tempo em que também é totalmente possível que se identifique com o gênero feminino. Para Judith Butler, identidade de gênero é um processo de se fazer o corpo feminino ou masculino, de acordo com características que são tidas como diferenças e sobre as quais se atribuem significados culturais16. Impende ainda notar que a identidade de gênero independe da orientação sexual, de modo que o sujeito pode ter nascido com órgãos genitais masculinos, se identificar com o gênero feminino, e apresentar orientação sexual heterossexual, homossexual ou bissexual. Não há, portanto, qualquer decorrência lógica necessária entre a identidade de gênero e a orientação sexual. Compreendidos esses pressupostos teóricos, o entendimento da transexualidade torna-se mais simples. Transexual, dessa forma, é o sujeito que possui uma identidade de gênero diferente do sexo designado no nascimento, ou seja, há discrepância entre os atributos físicos do sexo biológico e a forma como o indivíduo se reconhece em questão de gênero. Trata-se do sujeito que nasce com genitálias correspondentes ao sexo masculino ou feminino, mas que se identifica com o gênero oposto. Nas palavras de Paulo Roberto Iotti Vecchiatti, “transexual é a pessoa na qual há dissociação entre o seu sexo biológico e sua identidade de gênero (ou seja, entre o seu sexo físico e seu sexo psíquico).”17 A pessoa transexual pode externar o desejo de passar por cirurgias para adequar seu corpo ao gênero com a qual se identifica, inclusive buscando a cirurgia de redesignação sexual. Importante ressaltar, contudo, e conforme se verá adiante, que o transexual pode não desejar a cirurgia de readequação sexual e isso não significa que não haja dissociação entre seu sexo biológico e sua identidade de gênero. O termo “transexualismo” foi evidenciado, ao que se depreende, em 1923 sob tal perspectiva; registros históricos já demonstravam a ocorrência do fenômeno. A partir da 16 BUTLER, Judith. Op. cit. 17 VECCHIATTI, Paulo Roberto Iotti. Manual da homoafetividade: da possibilidade jurídica do casamento civil, da união estável e da adoção por casais homoafetivos. 2 ed. Rio de Janeiro, Forense; São Paulo: Método, 2012, p. 88. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 48 medicalização da vida e da própria existência social, no século XX especialmente o campo médico busca uma definição para a transexualidade, no rol de patologias. Essa visão da transexualidade permanece até hoje no campo médico, a que se comprova pela Resolução nº 1.955/10 do Conselho Federal de Medicina que a define como: “desvio psicológico permanente de identidade sexual, com rejeição do fenótipo e tendência à automutilação e/ou autoextermínio.” Tereza Rodrigues Vieira, por sua vez, aponta para o fato de existirem correntes que pregam pela despatologização da transexualidade, conforme se observa: Há uma corrente que prega a não exigência do Diagnóstico psiquiátrico como condição de acesso ao tratamento, visto que a certeza quanto ao pertencimento ao gênero oposto, a qual às vezes se expressa pela crença numa identidade fixa, se repete no cotidiano do atendimento a pacientes transexuais. Porém, afirmam que a transexualidade não necessariamente fixa uma posição subjetiva, e destacam a importância de deslocar a manifestação social da transexualidade da necessidade de traduzi-la imediatamente numa patologia, numa estrutura ou num modo de funcionamento específico, o que nos permitiria escapar da sua psiquiatrização. A experiência transexual, neste sentido, comportaria várias formas singulares de subjetivização. Além disso, discute-se também que não existe um processo específico de construção das identidades de gênero nos transexuais, e desta forma não se deve esperar de transexuais um comportamento fixo, rígido, adequado às normas da feminilidade ou de masculinidade.18 Parece-nos coerente que a transexualidade também deixe de constar entre o rol de doenças, por todo o estigma que isso acarreta aos transexuais. Isso não significa dizer que não se deve destinar todo o apoio psicológico e mesmo médico aos transexuais, no entanto, busca-se apenas tratar esse fenômeno de gênero de forma mais humanizada, em um âmbito social, e não exclusivamente patológico. Em qualquer situação, no entanto, o transexual deve ser tratado com dignidade e com respeito. Isso significa que deve-se coibir qualquer forma de violência aos transexuais, seja violência explícita, aqui considerando os altos índices de homicídios contra pessoas transexuais, em virtude de um preconceito irracional, chamado transfobia, seja violência simbólica. Neste sentido, é o que deflui quando se nega ao transexual o direito de mudança de nome e mudança de sexo no Registro Civil. Da mesma forma, estabelecer a cirurgia de redesignação sexual para que haja a mudança no registro Civil exige uma mutilação para o reconhecimento de um direito. Esses temas serão versados a seguir. 18 VIEIRA, Tereza Rodrigues. Transexualidadade. In: DIAS, M. B. (Coord.). Diversidade sexual e Direito Homoafetivo. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2011, p. 413. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 49 2.1 O direito à mudança de nome e sexo no Registro Civil Conforme já repassado, o direito ao nome é essencial na instauração da identidadedo sujeito, aqui se observando a identidade como a necessidade de afirmar a própria individualidade, tendo, pois, o nome um lugar privilegiado em tal função19. Ao lado do nome, o direito à devida designação sexual também cumpre papel salutar na criação da identidade própria. Muito embora se compreenda que seria mais adequado falar em identidade de gênero, considerando que no registro civil consta a palavra “sexo”, utilizar-se-á a nomenclatura oficial, ainda que em desacordo com a linguagem acadêmica. Conforme se verá, a mudança de nome sem a mudança de sexo é incompleta, ainda não dirime os constrangimentos pelos quais a pessoa transexual é exposta, configurando ainda inconteste violência simbólica. Para fins didáticos, no entanto, tratar-se-á primeiramente da mudança de nome e depois da transição de sexo. Retomando: a característica da imutabilidade do nome é relativa, na medida em que tanto na legislação, quanto na jurisprudência se admite a mudança de nome em casos específicos. Uma das hipóteses que dá ensejo à mudança do registro civil trata da situação de prenome que exponha a pessoa ao ridículo, haja vista o parágrafo único do artigo 55 da Lei de Registros Públicos (Lei nº 6.015/73). Infraconstitucionalmente é justamente nesse ponto que se ampara a possibilidade de mudança de nome de pessoas transexuais. O fato é que o nome, mesmo que adequado à identidade de gênero que ele representa, torna-se vexatório quando atribuído a uma identidade de gênero diversa daquela que busca indicar. Tal situação gera inquestionável constrangimento à pessoa transexual, que é obrigada a tornar evidente o descompasso entre sua identidade de gênero e seu sexo biológico. “Além do mais, apresentando-se a pessoa que se submeteu à cirurgia para redesignação sexual com características físicas femininas, obrigá-la a se identificar com documentos que contêm um prenome masculino é exposição certa ao ridículo e a execração pública, como há muito vem acontecendo.”20 19 DE CUPIS, Adriano. Os direitos da personalidade. Tradução de Adriano Vera Jardim e Antonio Miguel Caeiro. Lisboa: Moraes, 1961. 20 LUZ, Antônio Fernandes da. Transexualismo: o direito ao nome e ao sexo. In: Bastos, E. F; Sousa, A. H. (Coord.). Família e Jurisdição. Belo Horizonte: Del Rey, 2005. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 50 Para além das justificativas infraconstitucionais que ensejam a alteração de nome para transexuais, a fundamentação encontra eco na Constituição, sobretudo, por meio dos princípios da dignidade da pessoa humana e da solidariedade. Em verdade, a dignidade da pessoa em muito está atrelada com a configuração de sua própria identidade. Uma vida digna, portanto, pressupõe o autorreconhecimento e o reconhecimento da comunidade em consonância com o reconhecimento de si mesmo. Impende notar, conforme aponta o Carlos Eduardo Pianovski Ruzyk, que a dignidade da pessoa humana não se vincula ao “fundamento de uma expressão abstrata, pautada no racionalismo, mas na realidade de sua intersubjetividade, como ente que não prescinde da alteridade, encontrando nesta o lugar privilegiado em que a dignidade da pessoa humana pode adquirir seu conteúdo.”21 Eis que daí surge a ligação com o princípio da solidariedade constitucional, que se funda na ideia de alteridade. A solidariedade se engendra na ideia de sociedade, vez que pressupõe a existência do outro, tendo em vista seu embasamento na alteridade. O princípio da solidariedade constitucional, portanto, se configura como essencial ao bem-estar social e se faz imprescindível na proteção de minorias e grupos vulneráveis. Pois bem, garantir o direito ao nome à pessoa transexual é dar efetividade a esse princípio, na medida em que garante ao transexual uma maior possibilidade de bem-estar e proteção, de que tanto necessitam. Dar a possibilidade ao transexual de modificar o nome (rectius: prenome), portanto, configura elemento fundamental para assegurar sua dignidade e sua identidade. Antônio Fernandes da Luz desenvolve bem essa relação, prontamente inserindo a essencialidade de mudança de sexo que será explorado adiante: O pedido de alteração do nome e do sexo no assentamento do registro civil, formulado por aquela pessoa que se submeteu a cirurgia para a redesignação sexual, tem por objeto o direito de expor o seu novo estado, sob pena de ver o seu direito de personalidade violado, fato este que constitui mais uma condenação à clandestinidade. (...) Portanto, a alteração do sexo e do nome encontra fundamento na própria Constituição Federal e na legislação infraconstitucional, e a sua não permissão constitui flagrante violação aos direitos de personalidade da pessoa que se submeteu à cirurgia para redesignação sexual que, aliás, há muito vem sofrendo constrangimentos e agressões no meio social em que vive e por parte de agentes públicos. 22 21 PIANOVSKI RUZYK, Carlos Eduardo. Dignidade da pessoa humana. In: CLÈVE, C. M. (coord.). Direito Constitucional Brasileiro: teoria da constituição e direitos fundamentais. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014, p. 171. 22 LUZ, Antônio Fernandes da. Op. cit. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 51 Ao lado da transformação de nome, a mudança da identidade de gênero, ou, vulgarmente, sexo, também se faz essencial na construção da identidade do sujeito e na garantia de sua dignidade e qualidade de vida. Tal qual o direito de mudança de nome, a mutação de sexo também encontra respaldo nos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana e da solidariedade social. Da mesma forma que configuraria imenso constrangimento a constância de nome diverso da identidade de gênero que o sujeito proclama, a mudança de nome sem a substituição do sexo em si também traduz compressão contra o transexual, que continuará sendo estigmatizado e discriminado no âmbito social. Anderson Schreiber é judicioso em sua análise: A função do registro civil é dar segurança à vida em sociedade. Um registro civil que atribua a uma pessoa um sexo que ela não ostenta na vida social é um registro falso, errado, que exige retificação. Tal qual o nome, o sexo deve ser visto não como um estado registral imutável ou como uma verdade superior ao seu titular, mas como um espaço essencial de realização da pessoa humana. Já se viu que o direito contemporâneo vem se abrindo a uma certa autonomia da pessoa na alteração do seu nome, sempre que não haja risco a um interesse coletivo (como no caso do devedor contumaz ou do suspeito de investigação criminal, que pretende dificultar sua identificação). A mesma abordagem deve ser reservada ao sexo, para reconhecê-lo como uma esfera de livre atuação e desenvolvimento da pessoa. A ciência caminha nesse sentido e aqui convém que o direito não fique para trás.23 Reconhecer o direito a mudança do sexo no registro civil, portanto, coloca o direito em consonância com as modernas teorias sociais de gênero, que não se subsumem apenas a um normativismo proveniente da anatomia, todavia considera os elementos sociais, culturais e históricos da definição de gênero, e, acima de tudo, apontam uma função social para o gênero, qual seja, a garantia da felicidade e qualidade de vida do indivíduo. Há que se frisar, dessa forma, que não cabe ao Estado ou mesmo à sociedade fazer ponderação sobre a possibilidade de mudança de nome e sexo dos transexuais. Sendo um direito deve apenas ser reconhecido e declarado. Isso não significa dizer que não se deva prestar toda a assistência necessária aostransexuais, e mesmo que se deva obstar as discussões jurídicas e sociológicas sobre o fenômeno, no entanto, em se tratando de direitos fundamentais, nada disso deve significar barreira ao seu livre exercício. Conveniente realçar que a alteração do registro civil depende de sentença que a consume, e a jurisprudência vem se pacificando no sentido de reconhecer o direito à mudança do nome e do sexo. Nada obstante isso, veja-se: 23 SCHREIBER, Anderson. Op. cit., p. 208. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 52 RETIFICAÇÃO NO REGISTRO CIVIL. MUDANÇA DE NOME E DE SEXO. IMPOSSIBILIDADE. SENTENÇA MANTIDA. O homem que almeja transmudar-se em mulher, submetendo-se a cirurgia plástica reparadora, extirpando os órgãos genitais, adquire uma ‘genitália’ com similitude externa ao órgão feminino, não faz jus à retificação de nome e de sexo porque não é a medicina que decide o sexo e sim a natureza. Se o requerente ostenta aparência feminina, incompatível com a sua condição de homem, haverá de assumir as consequências, porque a opção foi dele. O Judiciário, ainda que em procedimento de jurisdição voluntária, não pode acolher tal pretensão, eis que a extração do pênis e a abertura de uma cavidade similar a uma neovagina não tem o condão de fazer do homem, mulher. Quem nasce homem ou mulher, morre como nasceu. Genitália similar não é autêntica. Autêntico é o homem ser do sexo masculino e a mulher do feminino, a toda evidência. (TJRJ, Ap. Cível 1993.001.06617, Rel. Des. Geraldo Batista, DJ 18/03/1997) Observam-se aí argumentos de caráter eminentemente naturalístico e sem observância à realidade social; anote-se que se trata de julgado anoso do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, nada obstante ainda haja, em todo o Brasil, argumentos dessa monta; também há julgados que caminham no sentido de indeferir o pedido de alteração do sexo no registro civil: RETIFICACAO NO REGISTRO CIVIL - CONVERSÃO DE SEXO MASCULINO PARA O FEMININO - INADMISSIBILIDADE TRANSEXUALISMO - CIRURGIA PARA MUDANCA DE SEXO - PROCRIACAO - IMPOSSIBILIDADE - ESTADO CIVIL - CAPACIDADE - CASAMENTO - REQUISITOS DIFERENCA DESEXO - AUSENCIA LEI DE REGISTROS PUBLICOS - VEDACAO. APELACAO PROVIDA. Ação que visa retificação no registro civil e conversão de sexo masculino para o feminino. Mesmo tendo o apelado se submetido à cirurgia de mudança de sexo o pedido de retificação no assento de nascimento não pode prosperar - Caracteriza-se o transexualismo quando os genitais afiguram-se como de um sexo, mas a personalidade atende a outro - Porém os transexuais, mesmo após a intervenção cirúrgica não se enquadram perfeitamente neste ou naquele sexo, acarretando-se problemas graves com tal intervenção. Não se constitui, ademais o apelado como sendo do sexo feminino uma vez que ha impossibilidade de procriação porquanto não possui o mesmo os órgãos internos femininos. Ao se deferir o pedido do apelado estar-se-ia outorgando a este uma capacidade que efetivamente não possui. Por outro lado ao permitir-se a retificação do nome e sexo do apelado em possível casamento que venha a se realizar estaria contrariando frontalmente o ordenamento jurídico vigente, ademais estaria ausente um dos requisitos para o casamento, qual seja a diferença de sexos. A Lei de Registros Públicos veda a alteração pretendida, tutelando interesses de ordem pública. (TJPR, AC 300198 PR Apelação Cível - 0030019-8, DES. REL. Osíris Fontoura, DJ 08/11/1994). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 53 Para além de uma matriz biologicista, o julgado leva em consideração para sua definição de sexo feminino a capacidade de procriação. Atualmente o prognóstico assim vem: APELAÇÃO CÍVEL - REGISTRO CIVIL - ALTERAÇÃO NOME E SEXO - AVERBAÇÃO Á MARGEM DO REGISTRO: OBRIGATÓRIA - CERTIDÃO DE REGISTRO DE NASCIMENTO: RESUMO DAS INFORMAÇÕES CONSTANTES NO REGISTRO. 1. As alterações no nome e sexo do registrado devem ser averbadas à margem do registro civil, em decorrência da Lei no 6.015 /1973, não podendo haver omissões. 2. A certidão de nascimento é um resumo das informações contidas no registro. 3. Para evitar constrangimentos ao registrado, que alterou nome e sexo, nas certidões a serem expedidas deve constar apenas que há averbações realizadas em virtude de decisão judicial, sem menção à natureza ou conteúdo delas. (TJMG, AC 10024082645136001 MG, DES. REL Oliveira Firmo, DJ 21/05/2013) APELAÇÃO CÍVEL - RETIFICAÇÃO DE ASSENTO DE REGISTRO CIVIL - MUDANÇA DE NOME E SEXO - TRANSEXUAL - POSSIBILIDADE - REALIZAÇÃO DE CIRURGIA ABLATIVA DANDO CONFORMIDADE DO ESTADO PSICOLÓGICO AO NOVO SEXO COMO MEIO CURATIVO DE DOENÇA DIAGNOSTICADA - APLICAÇÃO DO PRINCÍCIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E DA IDENTIDADA SEXUAL - RELEITURA DA LEI DE REGISTROS PUBLICOS AO MANDAMENTO CONSTITUCIONAL - MUTABILIDADE DO NOME - ALTERAÇÃO PARA CONSTAR ALCUNHA - POSSIBILIDADE - PROTEÇÃO ALBERGADA PELO NOVO CÓDIGO CIVIL - APELO PROVIDO. "A mudança de nome, em razão da realização de cirurgia de transgenitalização, adequando o estado psicológico ao seu novo sexo, no caso de transexuais, é possível pelo ordenamento jurídico pátrio, como corolário interpretativo a partir do princípio constitucional da dignidade da pessoa humana e do respeito à identidade sexual do indivíduo, trazendo com isso, releitura hodierna aos dispositivos normativos insertos na Lei de Registros Públicos , evitando a exposição dos mesmos à situações de chacota social diante da desconformidade entre seus documentos pessoais e a nova condição morfológico-social. (TJPR, AC 3509695 PR 0350969-5, Des. Rel. Rafael Augusto Cassetari, DJ 04/07/2007) Muitos outros julgados poderiam constar neste trabalho, no entanto, os ambos acima já dão conta de demonstrar a mudança de tônica da jurisprudência no sentido de reconhecer o direito das pessoas transexuais de alterarem nome e sexo em seus registros. Esse compreensão é tributária de uma aplicação constitucionalizada do direito, na medida em que garante efetividade a princípios constitucionais como o da dignidade da pessoa humana. Também há de se levar em conta que cada vez mais, ainda que tardiamente, o direito tem se Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 54 aberto às contribuições das demais ciências sociais, ampliando seu rol de intérpretes, como defende Peter Häberle. Faz-se mister abandonar noções de completude e infalibilidade do direito, ultrapassando de vez a visão kelseniana (aquela do normativismo positivista), para atentar ao fato de que o direito positivado, por si só, merece hermenêutica atualizadora capaz de dar justas soluções aos meandros da vida. Os desafios, contudo, ainda são muitos, como se analisará a seguir. 2.2. O direito a mudança de nome e sexo sem a cirurgia de redesignação sexual O direito ao próprio corpo deve ser tomado em uma ampla acepção, de modo que envolve tanto ações quanto omissões, ou melhor dizendo, trata-se de poder fazer ou deixar de fazer algo com o próprio corpo, sem que haja qualquer punição pela escolha deliberada. Conforme já referido, o gênero exerce um lugar social notabilíssimo que está acoplado a busca por uma vida de qualidade e a instituição de uma identidade própria. Ademais, consoante aqui se adotou na linha da presente exposição, sem descurar de pontos de vista distintos, gênero e sexo biológico são conceitos diversos, de modo que, muito embora a criação de uma identidade de gênero leve em conta o fator biológico este não é causa determinante paraa compreensão do próprio gênero. Dessa forma, é totalmente compreensível que uma pessoa transexual queira manter seu órgão biológico, tendo em vista não ser decisivo para a configuração de sua identidade de gênero. Há também que se considerar que a manutenção da genitália pode ser fator essencial para a qualidade de vida do transexual. Pelo exposto, configura-se como infração ao direito ao próprio corpo que se exija da pessoa transexual a cirurgia de redesignação sexual, para que só então tenha direito à mudança de nome e sexo em seu registro civil. De fato, ordenar a outrem a mutilação do próprio corpo, o uso de medicamentos necessários para que se reconheça um direito apresenta-se como constrangimento. Nesta senda, salutares são as ponderações de Patrícia Corrêa Sanches: Mas será que se faz necessária a mudança no corpo de uma pessoa a ensejar a mudança do sexo? Atualmente delineia-se o gênero sexual por sua função social, mais como um fenótipo comportamental do que o aspecto da genitália. Assim o indivíduo teria deferido o pedido de mudança do gênero sexual desde que demonstrasse que possui o sexo que socialmente representa, invertido daquele fisicamente suportado. A temática aqui discutida tem por objetivo pautar as discussões sobre a mudança de sexo, principalmente no tocante à função social da determinação do gênero sexual na sociedade, demonstrando assim que, para sua alteração, não há necessidade de uma intervenção Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 55 cirúrgica de modificação das características físicas, estas sim restritas a um ambiente de privacidade.24 Compete atinar que a cirurgia de redesignação sexual, como toda e qualquer cirurgia, apresenta inegáveis riscos aos indivíduos, além de, por si só, ser uma cirurgia demasiadamente agressiva e invasiva. Nos dizeres de Patrícia Sanches, “a cirurgia de mudança de sexo, tecnicamente denominada de transgenitalização, demonstra-se absolutamente agressiva, além de irreversível.”25 Não parece adequado, dentro do ponto de vista constitucional da dignidade da pessoa humana, tornar a cirurgia condição sine qua non para a mudança de nome e sexo, pois, se assim fosse, de algum modo o sujeito sofreria uma violação a um direito. Se não aceitar realizar a cirurgia terá seu direito ao nome e identidade negados, se fizer a cirurgia para que então possa ter reconhecido seu direito ao nome e sexo, terá seu direito ao corpo agredido. Uma análise sistemática da Constituição de 1988 dá conta de demonstrar que esse escambo entre direitos não parece ser a tônica que o constituinte pretendeu dar a lei fundamental. A Constituição de 1988 surgiu como uma luz ao final de um sombrio túnel; sua essência está na garantia de todos os direitos previstos em seu texto, de modo que se faz inadmissível impor a uma parcela da sociedade que tenham que fazer uma opção entre direitos fundamentais. Note-se ainda que, em algumas situações, para além da autonomia privada do indivíduo, que por si só já seria suficiente para garantir a possibilidade de mudança de nome e sexo sem a cirurgia de transgenitalização, há outros empecilhos. Não é fato raro que as pessoas se reconheçam como transexuais após idade mais avançada. Nesses casos não é incomum que a cirurgia de redesignação sexual seja desaconselhada por médicos, haja vista a probabilidade de complicação. Em situação como essa estaria o sujeito fadado ao constrangimento público, sem nunca poder alterar nome e sexo sem seu registro civil? Por certo que se trataria de solução deveras cruel e desproporcional. Não pode o indivíduo ser penalizado por não querer se submeter aos riscos que a operação pode trazer. Argumentos poderiam destacar que se trata de um ônus da escolha do sujeito, no entanto, como bem se sabe, a transexualidade não é uma escolha pessoal, diversos são os fatores que produzem no indivíduo uma identidade de gênero diversa do sexo biológico. Em todo caso, não há que se arrazoar em ônus quando, vez que o direito fundamental à identidade do sujeito pode, sem qualquer problema, ser assegurado. 24 SANCHES, Patrícia Corrêa. Op. cit. 25 Idem. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 56 Outra situação que merece análise é o fato de que, por todo preconceito existente na sociedade, as pessoas transexuais são discriminadas, excluídas, jogadas ao degredo. De acordo com índices divulgados e conhecidos, a evasão escolar entre transexuais beira aos 73%. Inúmeras são as causas, desde o preconceito dos demais colegas, pais e professores, até mesmo da instituição que não assegura o nome social, por exemplo. De toda sorte, fato é que número expressivo da população de transexuais no Brasil encontra-se em vulnerabilidade social. Muito embora o SUS realize as cirurgias de transgenitalização, a realidade da saúde pública brasileira ainda é bastante conhecida. Nesse contexto, poucas são as pessoas transexuais capazes de arcar economicamente com a cirurgia em instituições de saúde privadas. Não faz qualquer sentido que em todo esse período de aguardo o transexual seja obrigado a permanecer com um registro que não o representa. Não se pode admitir um critério censitário para o reconhecimento de um direito. Fica evidente, portanto, que a exigência da cirurgia de redesignação sexual vai de encontra à eleição da pessoa transexual, de modo que cabe exclusivamente a ela, compreendendo todas as suas implicações, realizá-la ou não. Impor um pré-requisito a um direito fundamental mutila, em nosso ver, a própria definição de direitos fundamentais e direitos de personalidade, que se baseiam na ideia de inerência ao ser humano. Uma vez se tratando de direitos inerentes ao sujeito, impor condições se transmuta em genuíno autoritarismo, contra sujeitos que tem a prerrogativa de viverem a vida exercendo suas potencialidades e suas liberdades: é o que o direito deve garantir. Há julgados na direção do reconhecimento de mudança de nome e sexo após a cirurgia de transgenitalização. A jurisprudência nessa temática, sem embargo, se encontra segmentada; colhe-se em Sérgio Carrara reflexão importante sobre a atuação jurisdicional: A justiça também tem concedido, em muitos casos de cirurgia, o direito de mudança de nome e redesignação do sexo em documento de identidade, mas a decisão ainda depende do arbítrio dos juízes. O fato de a mudança documental depender na maioria dos casos da realização da cirurgia de transgenitalização tanto consagra a distância entre os diferentes saberes autorizados (médicos, psicológicos e operadores do direito) e as experiências concretas dos sujeitos sociais, quanto marca, sob a justificativa de sanar a inadequação entre sexo e gênero, a reinstauração de um perverso binarismo. Àqueles que não conseguem ou não desejam a operação, como é o caso de muitas travestis, é em geral negado um direito fundamental intrinsecamente relacionado à sua identidade.26 26 CARRARA, Sérgio. Políticas e direitos sexuais no Brasil contemporâneo. Revista Bagoas: revista de estudos gays. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, n. 5, Natal: UFRN, 2010, p. 137. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 57 Observe-se agora os julgados que caminham no entendimento da impossibilidade de mudança de sexo sem a realização da cirurgia de redesignação sexual: RETIFICAÇÃO DE REGISTRO CIVIL - Pedido de alteração de nome e sexo- Possibilidade apenas em relação ao nome - Pessoa que apesar de não submetida à cirurgia de transgenitalização,se apresenta na sociedade como do sexo feminino -Nome masculino que lhe acarreta constrangimentos e aborrecimentos - Admitida a alteração do nome, negada a alteração para constar ser do sexo oposto - Observância do princípio de veracidade do registro público - Recurso parcialmente provido. (TJSP, APL 320109120108260602 SP 0032010-91.2010.8.26.0602, Des. Rel. Mendes Pereira, DJ 28/11/2012) APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE RETIFICAÇÃO DE REGISTRO CIVIL. SENTENÇA QUE EXTINGUIU O FEITO SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO POR FALTA DE INTERESSE DE AGIR. INTERESSADO QUE AINDA NÃO REALIZOU A CIRURGIA DE NEOVAGINOPLASTIA. IMPOSSIBILIDADE. CARÊNCIA DE AÇÃO. SENTENÇA QUE DEVE SER MANTIDA. O Apelante pleiteia alteração do nome e de sexo no registro civil, afirmando que desde tenra idade, apesar da conformação genital masculina, psicologicamente se sente mulher, fazendo-se tornar conhecido pelo prenome de Milena. Todavia, o recorrente ainda não se submeteu à cirurgia de mudança de sexo, o que não permite alteração do nome e do sexo em seu registro civil. Precedentes jurisprudenciais. SENTENÇA MANTIDA. Recurso NÃO provido. (TJBA, APL 03683226420128050001 BA 0368322-64.2012.8.05.0001, Des. Rel. José Olegário Monção Caldas, DJ 15/10/2013) APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE RETIFICAÇÃO DE REGISTRO DE NASCIMENTO QUANTO AO NOME E SEXO DO AUTOR. TRANSEXUALISMO. AUSÊNCIA DE CIRURGIA DE REDESIGNAÇÃO SEXUAL. INVIABILIDADE DA ALTERAÇÃO DO REGISTRO, UMA VEZ NÃO PREVISTA CIRURGIA PARA MUDANÇA DE SEXO, NEM MESMO PROVA ROBUSTA ACERCA DA ABRANGÊNCIA DO TRANSTORNO SEXUAL. APELAÇÃO DESPROVIDA. (TJRS, Apelação Cível Nº 70056132376, Sétima Câmara Cível, Relator: Jorge Luís Dall'Agnol, Julgado em 13/11/2013) Os julgados acima sucintamente referidos demonstram, no conteúdo que explicita a ementa, que o Poder Judiciário ainda reluta em reconhecer o direito dos transexuais de mudarem nome e sexo em seus registros, sem a realização da operação. Cumpre respeitar o posicionamento, mas parece-nos, salvo melhor juízo, que tal bússola limita o exercício de um direito fundamental; julgados há, contudo, que não se eclipsaram diante dessa necessidade: Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 58 APELAÇÃO CÍVEL. RETIFICAÇÃO DE REGISTRO CIVIL. TRANSGENÊRO.MUDANÇA DE NOME E DE SEXO. AUSÊNCIA DE CIRURGIA DE TRANGENITALIZAÇÃO. Constatada e provada a condição de transgênero da autora, é dispensável a cirurgia de transgenitalização para efeitos de alteração de seu nome e designativo de gênero no seu registro civil de nascimento. A condição de transgênero, por si só, já evidencia que a pessoa não se enquadra no gênero de nascimento, sendo de rigor, que a sua real condição seja descrita em seu registro civil, tal como ela se apresenta socialmente DERAM PROVIMENTO. UNÂNIME. (Apelação Cível Nº 70057414971, Oitava Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Rui Portanova, Julgado em 05/06/2014) RETIFICAÇÃO DE ASSENTO DE NASCIMENTO. ALTERAÇÃO DO NOME E DO SEXO. TRANSEXUAL. INTERESSADO NÃO SUBMETIDO À CIRURGIA DE TRANSGENITALIZAÇÃO. PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. CONDIÇÕES DA AÇÃO. PRESENÇA. INSTRUÇÃO PROBATÓRIA. AUSÊNCIA. SENTENÇA CASSADA. O reconhecimento judicial do direito dos transexuais à alteração de seu prenome conforme o sentimento que eles têm de si mesmos, ainda que não tenham se submetido à cirurgia de transgenitalização, é medida que se revela em consonância com o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana. Presentes as condições da ação e afigurando-se indispensável o regular processamento do feito, com instrução probatória exauriente, para a correta solução da presente controvérsia, impõe- se a cassação da sentença. (TJMG, AC 10521130104792001 MG, Des. Rel. Edilson Fernandes, DJ 07/05/2014) Os entendimentos acima expostos demonstram uma tendência no Judiciário brasileiro. Decisões que levam em conta as peculiaridades do caso concreto, as informações advindas das demais ciências e a uma interpretação constitucionalizada do direito se mostram essenciais para a construção de uma boa cultura judiciária no país, com justiça e segurança. Passemos nessa toada aos termos da ADI que iremos, então, expor e examinar quantum satis. 3. Ação Direita de Inconstitucionalidade 4275 Em julho de 2009, o Ministério Público Federal, por meio da Procuradoria Geral da República, em peça firmada pela Doutora Deborah Macedo Duprat de Britto Pereira, ingressou com Ação Direta de Inconstitucionalidade no STF buscando dar ao artigo 58 da Lei nº 6.015/73 interpretação conforme a Constituição, de modo a reconhecer aos transexuais, independentemente da cirurgia de transgenitalização, o direito a substituição do prenome e sexo Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 59 no registro civil. A ADI, ao tempo da feitura deste tempo, em agosto de 2014, aguarda julgamento. A petição inicial da referida ADI apresenta os pressupostos teóricos da discussão, conceitos essenciais tais quais os tratados neste trabalho, bem como analisa os pressupostos jurídicos que dão ensejo ao pedido, nomeadamente, o princípio fundamental da dignidade da pessoa humana. Trata da ADI da essencialidade da mudança de nome e sexo, de modo que não basta apenas mudar o nome e manter o sexo biológico, pois a situação de constrangimento se manteria, conforme se observa no seguinte trecho: De resto, se a alteração de nome corresponde a uma mudança de gênero, a consequência lógica, em seu sentido filosófico mesmo, é a alteração do sexo no registro civil. Do contrário preserva-se a incongruência entre a identidade da pessoa e os dados do registro civil. Segue a petição inicial defendendo o direito das pessoas transexuais à cirurgia de transgenitalização e de modo conexo, também defende a possibilidade de alteração de prenome e sexo sem a realização da referida cirurgia. Ponto que se apoia no seguinte trecho: (...) Não é a cirurgia que concede ao indivíduo a condição transexual. Portanto, o direito fundamental à identidade de gênero justifica igualmente o direito à troca de prenome, independentemente da realização da cirurgia, sempre que o gênero reivindicado (masculino ou feminino) não esteja apoiado no sexo biológico respectivo. Trata-se ali de uma chance de autodeterminação. Ao fim da petição inicial apresentam-se requisitos, tal qual propõe a jurisprudência do Tribunal Constitucional Federal Alemão, a serem fixados no caso de não realização da cirurgia. São eles: a maioridade civil, a convicção do transexual, há pelo menos três anos, de pertencer ao gênero oposto ao biológico, a presunção, com alta probabilidade, de não mais modificação de gênero, requisitos a serem atestados por um grupo de especialistas que avaliarão aspectos médicos, psicológicos e sociais. Muito embora se subscreva aqui a necessidade de despatologização da transexualidade e a possibilidade cada vez maior de autodeterminação dos transexuais, os critérios elencados pelo MPF desempenham papel de relevo na destinação de assistência médica e psicológica à pessoa transexual, na proteção e promoção dos direitos das pessoas transexuais, e não sirvam de arbítrio para maior sofrimento dos transexuais. 4. Conclusões Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 60 O exposto no presente trabalho requer, antes de tudo, pedir vênia à exposição sucinta diante de questões tão sensíveis e de impacto na dogmática jurídica do Direito Civil contemporâneo. Além disso, permite, ainda assim, concluir que a dignidade das pessoas transexuaispassa por sua capacidade de autodeterminação e pela possibilidade de criação de uma identidade própria. Para tanto, é necessário que haja reconhecimento de direitos fundamentais de personalidade, quais sejam, o direito ao nome e o direito ao próprio corpo. O reconhecimento do direito a mudança de nome e sexo por parte dos transexuais é demanda que deve alcançar proteção. Não cabe ao Estado optar pela realização da cirurgia de redesignação sexual ou não. Segundo considerado ao longo deste estudo e trabalho modestos, conceitos de identidade de gênero e sexo biológico se diferem, nada obstante este possa ser elemento de construção daquele. A relação do sujeito com seu próprio corpo é elemento fundamental da intimidade, não cabendo maiores questionamentos, mas sim o devido respeito. O transexual pode se realizar mantendo o órgão genital biológico ou retirando. Em qualquer situação, contudo, deve lhe ser assegurado o direito à felicidade e a realização própria. Para tanto, é necessário tanto uma atividade institucional, no sentido de garantir os direitos a essa parcela da situação, quanto uma atividade social e comunitária no sentido de integrar essa parcela e lhes tratar com o devido respeito, sem preconceitos infundados. O caminho ainda é longo. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 61 DIREITOS E CONFLITOS DE VIZINHANÇA Law and neighborhood conflicts Paulo Lôbo Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Direito da UFPE. Professor Emérito da UFAL. Doutor em Direito Civil (USP). Advogado. Vice-Presidente do Instituto Brasileiro de Direito Civil. Resumo: Estudo da ordenação jurídica brasileira dos direitos de vizinhança, sob a ótica preferencial do direito civil contemporâneo. Apreciação das mútuas interferências com o direito público, principalmente o direito urbanístico e o direito ambiental. Deveres de vizinhança, interesse coletivo e a função social da propriedade e da posse. Palavras-chaves: direitos de vizinhança; vizinhança; direito de construir Abstract: Study of the Brazilian legal ordering of neighborhood rights under the preferred viewpoint of contemporary civil law. Consideration of the interference with the public law, especially the urban law and environmental law. Neighborhood duties, collective interest and the social function of property and possession. Keywords: neighborhood rights; neighborhood; right to build Sumário: 1. Conteúdo e abrangência - 2. Uso anormal da propriedade - 3. Árvores limítrofes - 4. Passagem forçada - 5. Passagem de cabos e tubulações - 7. Limites entre prédios e direito de cercar ou murar - 8. Direito de construir. 1. Conteúdo e abrangência Os direitos de vizinhança compreendem o conjunto de normas de convivência entre os titulares de direito de propriedade ou de posse de imóveis localizados próximos uns aos outros. Para efeitos legais, vizinhos não são necessariamente os contíguos, mas todos os que possam ser afetados pelo uso do imóvel. As normas de Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 62 regência dos direitos de vizinhança são preferentemente cogentes, porque os conflitos nessa matéria tendem ao litígio e ao aguçamento de ânimos. Na dimensão positiva, vizinhos são os devem viver harmonicamente no mesmo espaço, respeitando reciprocamente os direitos e os deveres comuns. Vizinhos são não apenas os que estão ao lado, mas os que habitam imóveis acima ou abaixo, daí porque as normas dos direitos de vizinhança aplicam-se conjugadamente com as do condomínio edilício. Para o direito brasileiro, os direitos de vizinhança são autônomos e concebidos como limitações ao direito de propriedade. Algumas legislações inserem os conflitos de vizinhança nas servidões legais, como direito real de servidão. Os direitos de vizinhança constituem as mais antigas limitações ao direito de propriedade individual, no mundo luso-brasileiro. As limitações são de natureza majoritariamente negativa e preventiva. Mas há, igualmente, limitações positivas, das quais emergem deveres positivos aos que se qualificam juridicamente como vizinhos. As situações em que se classificam os direitos de vizinhança são as mais comuns na vida social, a merecerem maior atenção do legislador. Segundo Pontes de Miranda1, a técnica legislativa, a esse respeito, representa a elaboração de alguns séculos, na qual muito se deve aos costumes. Para Orlando Gomes2, o critério regulador das relações de vizinhança é dado por três teorias principais: (1) a da proibição dos atos de emulação (utilidade ou inutilidade do ato do proprietário); (2) a do uso normal da coisa própria; (3) a do uso necessário (os atos do proprietário são lícitos, se motivados pela necessidade). O Código Civil de 2002 perfilhou a teoria do uso normal da coisa própria, preconizada por Ihering, que procura estabelecer a linha demarcatória entre as interferências lícitas e ilícitas, com apoio na ideia de que o exercício do direito de propriedade não deve exceder as necessidades normais da vida cotidiana. O Código Civil reformulou os tópicos cuja disciplina anterior era considerada insuficiente, pela doutrina. Destacam-se as alterações e inovações relativas ao uso anormal da propriedade, à passagem forçada, à passagem de cabos e tubulações, às águas e ao direito de construir, que procuraram resolver demandas contemporâneas. Os direitos de vizinhança atêm-se às relações jurídicas intersubjetivas que emergem da convivência em determinado espaço territorial. Paralelamente, incidem 1 PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado de direito privado. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012, v. 13, p. 449. 2 GOMES, Orlando. Direitos reais. Revista, atualizada e aumentada por Luiz Edson Fachin. Rio de Janeiro: Forense, 2004, p. 221. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 63 as normas de direito administrativo, notadamente as de caráter urbanístico, emanadas do legislador federal (Estatuto das Cidades, Lei nº 10.257, de 2001) e do legislador municipal, relativamente às edificações e aos limites de tolerância entre vizinhos. São igualmente incidentes as normas de direito ambiental. Os limites ao uso dos imóveis, entre vizinhos, são tanto de direito privado, onde recebem a denominação de direitos de vizinhança, quanto de direito público. Há outras normas de direito privado correlatas que regulam a convivência entre vizinhos, em determinadas circunstâncias, como a Lei do Parcelamento do Solo Urbano (Lei nº 6.766, de 1979), a Lei do Inquilinato (Lei nº 8.245, de 1991) e as normas do Código Civil sobre condomínio edilício. Quando em conflito, os interesses coletivos prevalecem sobre os interesses particulares. De acordo com San Tiago Dantas3, há casos em que os conflitos entre vizinhos se compõem pela atribuição de um dever e de um direito fundados no princípio da coexistência. Há outros em que se compõem pela atribuição de um dever e um direito fundados no princípio da supremacia do interesse público. Os direitos de vizinhança, relacionados ao primeiro princípio, são gratuitos, e os ônus do proprietário são encargos ordinários da propriedade. Os relacionados ao segundo princípio são onerosos e quem o suporta tem direito de ser indenizado. 2. Uso anormal da propriedade O uso anormal da propriedade, ou da posse, é o que colide com os padrões comuns de conduta, adotado na comunidade onde ela se insere, ou com as normas legais cogentes. O parâmetro a ser observadonessa matéria é o da razoabilidade, ou da conduta razoável. Conduta normal ou razoável é a que corresponde ao tipo médio de uso do imóvel, de acordo com o consenso da comunidade (cidade, bairro, vila, rua), que permite convivência harmônica, sem prejuízos ou incômodos evitáveis para o outro ou os outros. O conceito é indeterminado, a reclamar a análise de cada caso, mas segundo os parâmetros de razoabilidade. No regime da propriedade privada, o seu titular é 3 DANTAS, F. C. de San Tiago. O conflito de vizinhança e sua composição. Rio de Janeiro: Forense, 1972, p. 264. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 64 responsável pelas atividades de seu direito e pelos atos que se propagam para outros objetos de apropriação4. As expressões utilizadas na legislação anterior de “uso nocivo” e, principalmente, “mau uso” revelaram-se inadequadas, porque restritivas, tendendo-se ao abuso do direito da propriedade. Segundo Ebert Chamoun5, a parte geral do direito de vizinhança sofreu total remodelação, no anteprojeto (e no Código Civil, que dele resultou). Impunha-se a reforma, por causa da falta de critérios firmes de solução dos variados e graves conflitos de vizinhança, que têm ensejado grandes dificuldades para os juízes. Louva-se na teoria desenvolvida por San Tiago Dantas que conjuga a teoria do uso normal e a da necessidade, que é o estatuto da vizinhança comum, e o princípio da supremacia do interesse público. Devem sempre cessar as interferências anormais que podem ser evitadas ou comprometem a habitação dos imóveis adjacentes. O uso da coisa é anormal quando repercute no uso normal da outra, em relação às pessoas que a habitam. Inclui-se no conceito legal de uso anormal, o não uso, quando provoca interferências no vizinho (por exemplo, em casa fechada, água não tratada de piscina na qual proliferam mosquitos transmissores de doença). Não se confunde com o abuso do direito (CC, art. 187), que pode também decorrer dos conflitos de vizinhança. O uso anormal não é apenas de imóvel, mas de coisas móveis, que possam provocar tais interferências em quem habita um imóvel. Por exemplo, o barulho excessivo de escapes abertos de veículos automotores. Os que sofrem são os que habitam o imóvel; e, por ser imóvel, não podem deslocá-lo para distanciá-lo dessas interferências prejudiciais. As interferências são as que causam ou podem causar prejuízos à saúde, ao sossego ou à segurança dessas pessoas, provocadas pelo uso de propriedade vizinha. Não há necessidade se provar que o prejuízo já ocorreu, pois basta a ameaça ou o risco de ofensa à saúde, ao sossego ou à segurança. O vizinho prejudicado legitima-se às pretensões para prestação tanto negativa, principalmente para cessação dos fatores de perturbação dos direitos de vizinhança, quanto positivas, para prevenir a interferência ou o dano. Legitima-se, igualmente e cumulativamente, à pretensão à indenização por danos materiais ou danos 4 FACHIN, Luiz Edson. Comentários ao Código Civil. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 5. 5 CHAMOUN, Ebert. Exposição de motivos do esboço do anteprojeto do Código Civil – Direito das Coisas. Revista de jurisprudência do Tribunal de Justiça do Estado da Guanabara. Rio de Janeiro: TJRJ, v. 23, 1970, p. 22. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 65 morais. Estes últimos são pressupostos, in re ipsa, pois violam direitos da personalidade, principalmente a integridade psíquica, a intimidade e a vida privada do vizinho prejudicado pela interferência. Não se exige a cessação de todas as interferências, razão porque a lei refere aos “limites ordinários de tolerância dos moradores da vizinhança”. A lei leva em conta certa tolerância indispensável para a viabilidade da vida contemporânea, especialmente nos espaços urbanos. Os limites ordinários de tolerância são os que resultam do uso normal da propriedade, segundo o tipo médio e razoável, além dos quais o prejuízo não deve ser suportado. Por exemplo, a realização de uma festa eventual ou episódica, com grande movimentação de pessoas no imóvel, animadores e músicas está dentro dos limites ordinários de tolerância; mas estes são excedidos quando feitas com muita frequência ou quando prejudicam o descanso noturno dos vizinhos. É normal que, eventualmente, sejam modificadas as posições dos móveis, porque os moradores desejam alterar a ambientação do apartamento; mas é anormal que todos os dias sejam arrastados móveis, repercutindo o barulho nos vizinhos contíguos. Não há uso anormal da propriedade se a interferência resultar de fato natural, não imputável ao titular do imóvel. Não se inclui nos limites ordinários de tolerância a existência anterior do uso anormal; no direito brasileiro não prevalece o modo de uso anterior ou da pré- ocupação, porque tal conduta não configura direito adquirido. Assim, as atividades poluentes, que existiam antes de a urbanização delas se aproximar ou cercá-las (por exemplo, depósito de cal e cimento), não servem como óbice a que os direitos de vizinhança a elas não se apliquem, uma vez que passaram a causar interferências na saúde, na segurança e no sossego dos que habitam em suas proximidades. O STJ decidiu que determinado Município se abstivesse de utilizar antiga pedreira como depósito de lixo, pois o “interesse de poucos não podia prevalecer sobre o interesse de muitos” (REsp nº 163.483). Por igual, o novo proprietário ou possuidor é responsável pelo uso anormal praticado pelo anterior, pois os direitos de vizinhança constituem obrigações propter rem, vinculando-se ao imóvel e responsabilizando quem detenha sua titularidade. O fato de permitirem as leis de direito público que se instalem indústrias ou serviços em lugar em que não os havia, ou eram proibidos, de modo nenhum basta para se entender que cessou o direito de vizinhança, pois a permissão somente pode entender-se para eficácia no plano do direito público. Por essa razão, o art. 1.278 do Código Civil estabelece que, se as interferências forem justificadas pelo interesse público, o causador delas terá de pagar ao vizinho, ou vizinhos, indenização cabal. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 66 A tolerância às interferências, imposta por decisão judicial, não suprime do vizinho afetado a totalidade do exercício dos direitos de vizinhança. Se o juiz se convencer que a situação é de interferência que deva ser tolerada, considerando que o prejuízo à saúde, ou ao sossego, ou à segurança é fato, o vizinho afetado tem direito de exigir sua redução ou eliminação, quando estas se tornarem possíveis, a qualquer tempo. Cabe-lhe o ônus de provar tal possibilidade, o que demonstra que a decisão judicial não é definitiva, mas sim alterável rebus sic stantibus, de acordo com as circunstâncias supervenientes. É imensa a casuística dos tribunais sobre o que se considera uso anormal da propriedade: a fumaça que invade os imóveis vizinhos, a queima de material inflamável, o badalar de sinos de igrejas sem necessidade de culto, a poluição das águas, os odores fortes, o canto alto de aves, as águas não tratadas que facilitam a proliferação de mosquitos transmissores de doenças, a pulverização com inseticidas, a manutenção de fossa junto ao prédio de outrem, o barulho excessivo em bares, festas e cultos religiosos, a prostituição em imóveis residenciais, a guarda e manuseio de explosivos, produtos químicos e agrotóxicos. No caso dos cultos religiosos, a liberdade de religião há de se harmonizar comos direitos de vizinhança. Saúde é direito fundamental, constitucionalmente tutelado, abrangente do físico ou da mente. A saúde psicofísica não pode ser prejudicada, por conduta de terceiro vizinho, quando a conduta é evitável. A saúde é de quem habita ou tem de frequentar o imóvel. Segurança é material e moral, tanto do imóvel quanto de quem o habita. Sossego é a tranquilidade normal que a pessoa tem como legítima expectativa de usufruir em sua habitação. Sossego não é ausência de barulho, mas convivência com barulho por todos tolerável. O barulho que se tolera de dia não é tolerável à noite. O sossego é comprometido não apenas pelo som insuportável, mas também pela luz, pelos odores e por outros motivos de inquietação. O barulho é, certamente, o maior problema decorrente dos crescentes adensamentos populacionais em áreas urbanas. Os prédios, cada vez mais altos e próximos, e os apartamentos cada vez menores, desafiam os limites da suportação dos sons provocados pela utilização das propriedades vizinhas. O barulho adoece e compromete a qualidade de vida. De acordo com estudos referidos pela revista de saúde The Lancet (v. 383, p. 1.270, abr. 2014), o barulho pode provocar irritação e perturbação do sono, aumentando a prevalência de estresse, doença cardiovascular e mortalidade nos grupos expostos. Em crianças, o ruído ambiental também pode afetar negativamente os Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 67 resultados de aprendizagem e o desempenho cognitivo. Segundo os estudos, mesmo quando não é forte, o ruído pode perturbar o sono, desencadeando reações no organismo, como aceleração dos batimentos cardíacos. O Código Civil assegura ao proprietário ou possuidor direto do imóvel o direito e a pretensão a que o dono do imóvel vizinho promova a demolição ou a reparação necessária deste, quando haja ameaça de ruína. Pode, conjuntamente, exigir caução pelo dano que julga iminente, também conhecida como caução de dano infecto. A caução tem como pressupostos a grande probabilidade do dano e antecipação da indenização. O vizinho, a quem cabe demolir ou reparar, não pode definir quais as medidas que julgar adequadas. Também pode o proprietário ou possuidor do imóvel exigir do vizinho, que esteja a promover construção nova em terreno deste, garantias contra prejuízo eventual, em caso de dano iminente ou provável. Pouco importa que a obra tenha recebido autorização da administração pública competente, ou alvará de construção, ou que o vizinho comprove que observa o projeto assim aprovado, ou que não teve culpa. Se ficar constatada a probabilidade de dano iminente, é lícito ao vizinho, sob risco, exigir garantias, que podem ser fiança pessoal, caução em dinheiro, penhor, hipoteca, seguro ou fiança bancária. Não se obsta a obra, mas a garantia tem por fito prevenir sua segurança. No caso de recusa à prestação de garantia, cabe ação judicial para sua obtenção. Enquanto não se constrói a obra, o direito do vizinho pode ser exercido para que se abstenha. Se já construiu, constatado o dano iminente, a pretensão é para a demolição ou reparação necessária antes de qualquer dano. A pretensão ou exigibilidade, no âmbito extrajudicial, e a ação judicial pelo uso anormal da propriedade, podem ser dirigidas contra o proprietário do imóvel, fonte das interferências prejudiciais, ainda que o causador seja locatário ou outro possuidor direto (por exemplo, usufrutuário, usuário, comodatário). Do mesmo modo, a pretensão e a ação judicial podem ser dirigidas ao possuidor direto, pois a obrigação de não causar interferências não é apenas do proprietário, mas de quem esteja na qualidade de vizinho. A legitimidade passiva expandida, na ação judicial, tem sido admitida pelos tribunais (STJ, REsp 480.621 e REsp 622.203). O uso é também anormal quando viola princípios fundamentais da Constituição, tais como a garantia da vida privada, da intimidade, da inviolabilidade da moradia e da proteção do meio ambiente. O Código Florestal (Lei nº 12.651, de 2012) considera que, na utilização e exploração da vegetação, as ações ou omissões contrárias Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 68 às suas disposições são consideradas uso irregular da propriedade, conceito análogo ao do uso anormal, passíveis, além de responsabilidade civil, de sanções de caráter administrativo, civil e penal. As obrigações previstas na Lei nº 12.651 têm natureza real e são transmitidas ao sucessor, de qualquer natureza, no caso de transferência de domínio ou posse do imóvel rural, ou seja, não podem ser afastadas por ato de autonomia privada. 3. Árvores limítrofes As árvores integram o imóvel, quando localizadas dentro de seus limites. O direito distribui as titularidades, quando as árvores têm seu tronco na linha divisória, quando as raízes e galhos de árvores ultrapassam os limites e alcançam o imóvel vizinho e quando os frutos estão pendentes ou caídos no imóvel vizinho, que são fontes permanentes de conflitos. Essa matéria não diz respeito apenas ao conflito entre particulares, mas também à proteção do meio ambiente, que sobre aquele prevalece. Há presunção legal de pertencimento da árvore a ambos os titulares de imóveis vizinhos, quando o tronco situa-se na linha divisória entre eles, tendo em vista sua função de marco divisório. Pouco importa que o tronco esteja mais em um imóvel que em outro. O tronco, para ser considerado comum, deve estar na linha divisória em sua parte mais próxima da raiz. Cada vizinho é dono de metade, em parte indivisível. Não é comum a árvore se o tronco enraíza-se inteiramente em um imóvel e inclina-se sobre o outro. A lei (CC, art. 1.282) alude a tronco de árvore, mas há plantas que não são árvores, como as palmeiras, principalmente os coqueiros, cujas plantações são comuns no litoral tropical brasileiro. Não são consideradas árvore porque estas se caracterizam pelo crescimento do diâmetro do seu caule para a formação do tronco, que produz a madeira e tal não acontece com as palmeiras. Para os fins da lei, no entanto, as palmeiras se enquadram no conceito genérico de árvore. Quando a árvore cresce, pode vergar-se para um dos lados, podendo, inclusive, ultrapassar a linha divisória, no espaço aéreo; ainda assim, pertence exclusivamente ao titular do imóvel onde estão suas raízes. Quando a árvore inclina seu tronco sobre o imóvel vizinho, causando-lhe prejuízos (por exemplo, quedas dos frutos ou palhas do coqueiro sobre telhado), o titular prejudicado tem pretensão à indenização. A pretensão ao corte da árvore depende de parecer favorável das autoridades ambientais, quanto ao risco de tombar, causando prejuízo aos que forem por ela alcançados, ou de decisão judicial. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 69 O Código Civil mantém antiga regra, anterior ao advento do direito ambiental, autorizativa do corte das raízes e ramos de árvores que ultrapassem o limite do imóvel, pressupondo-se a existência de dano ou risco de dano para o imóvel vizinho. O corte da raiz ou das raízes, que assim ultrapassam os limites, pelo titular do terreno invadido, pode acarretar a morte do vegetal, mas essa é uma possível consequência que a lei desconsidera. A norma legal alude a ramos e raízes, não se admitindo o corte do tronco ou parte do tronco. O vizinho tem direito de se apropriar dos galhos e raízes que cortar, sem necessidade de justificar ou alegar dano. Tem sido decidido ser dispensável o pedido de autorização judicial para fazer o corte, que já é dada por lei. O direito ao corte dos galhos e raízes não é admitidopor algumas legislações estrangeiras e outras o condicionam à prova de que são prejudiciais. Com relação aos frutos, os que estão pendentes não podem ser colhidos pelo titular do terreno sobre o qual parte da árvore se projeta; o dono da árvore pode colhê-los, se for possível fazê-lo a partir de seu próprio imóvel. Porém, os frutos que caírem sobre o terreno vizinho passam a pertencer ao titular deste, que livremente os pode recolher e dar o destino que pretender. O fato do pertencimento é a queda sobre o terreno do vizinho. Nesse sentido, Pontes de Miranda6: o direito de propriedade, no caso dos frutos caídos, não é oriundo do direito de apropriação, mas de fato jurídico stricto sensu, tal como acontece com a propriedade dos frutos da árvore que caem. A queda dos frutos é natural, não pode ser provocada, tal como sacudir os galhos ou a árvore. Para Serpa Lopes7, a solução do direito brasileiro é contrária à doutrina romanista, consistente em manter no dono da árvore a propriedade dos frutos, mesmo quando caídos além dos limites de sua propriedade. Os romanos entendiam que o dono da árvore tinha o direito de colher e recolher os frutos que se encontrassem no terreno do vizinho. O Código Civil português prevê, igualmente, o direito à apanha dos frutos, que pode ser exigível contra o vizinho, sendo responsável pelo prejuízo que causar. A norma do Código Civil brasileiro alude apenas ao vizinho particular; assim, se os frutos caírem em terreno pertencente ao domínio público, eles continuam na titularidade do dono da árvore, que os pode recolher. 6 PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado de direito privado. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012, v. 13, p. 485. 7 LOPES, Miguel Maria de Serpa. Curso de direito civil. São Paulo: Saraiva, 1992, v. 2, p. 526. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 70 4. Passagem forçada Todo aquele que é titular de imóvel encravado em outro ou que tenha necessariamente de passar por outro imóvel para alcançar as vias públicas de circulação ou os espaços públicos, ou para se chegar à fonte de água, tem direito à passagem forçada. Esse direito não se confunde com a servidão de passagem, pois esta pode ser instituída ainda que não seja caminho necessário. A passagem forçada, típico direito de vizinhança, é limitação ao direito de propriedade. Funda-se, segundo Caio Mário da Silva Pereira8, no princípio da solidariedade social, com origem no direito medieval. A pretensão a que o vizinho suporte a passagem é imprescritível. O direito de passagem existe por força de lei, não necessitando de registro para que produza seus efeitos. Os requisitos são: (1) Falta ou perda de acesso a via pública, nascente de água ou porto; (2) constrangimento ao vizinho para que assegure a passagem; (3) pagamento de indenização ao vizinho. A passagem forçada é suportada pelo imóvel, através do qual o caminho necessariamente se dá, de acordo com condições e cultura do lugar. Ainda que o imóvel beneficiado com a passagem forçada seja circundado por outro ou por outros imóveis, o titular do imóvel que a suporta não pode se valer dessa circunstância para negá-la, pois o critério é o que a lei determina: sofre o constrangimento o vizinho cujo imóvel mais natural e facilmente se prestar à passagem. É o critério da utilidade e do menor custo para ambas as partes. Se o caminho ainda não existir, terá seu rumo fixado pelo juiz, que se valerá, se preciso for, de perícia. A oposição ou a dificuldade postas pelo vizinho caracterizam ilícito, qualificado como abuso do direito, fazendo nascer a ação. Por ser limitação legal ao direito de propriedade, mister se faz a prova de sua necessidade. Numa era em que a técnica da engenharia dominou a natureza, a noção de imóvel encravado já não existe em termos absolutos e deve ser inspirada pela motivação do instituto da passagem forçada, que deita raízes na supremacia do interesse público; juridicamente, encravado é o imóvel cujo acesso por meios terrestres exige do respectivo proprietário despesas excessivas para que cumpra a função social sem inutilizar o terreno do vizinho, que em qualquer caso será indenizado pela só limitação 8 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. Revista e atualizada por Carlos Edison do Rego Monteiro Filho. Rio de Janeiro: Forense, 2009, v. IV, p. 186. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 71 do domínio (STJ, REsp 316.336). O Código Civil de 2002 abandonou o requisito do imóvel encravado no outro, optando pela inexistência ou perda de acesso a via pública, nascente ou porto. Esclarece o enunciado 88 das Jornadas de Direito Civil, do CJF/STJ: o direito de passagem forçada também é garantido nos casos em que o acesso à via pública for insuficiente ou inadequado, consideradas, inclusive, as necessidades de exploração econômica. Na mesma direção, tem sido decidido que cabe a passagem forçada quando o acesso à via pública seja perigoso ou insuficiente. Essa interpretação extensiva da norma legal é a que melhor realiza a função social da propriedade. Porém, se o proprietário ou possuidor tem servidão de caminho por outro imóvel, presume-se não precisar do acesso forçado. Tampouco basta, para se reconhecer o direito de passagem forçada, a comodidade em se encurtar a distância entre o imóvel e a via pública, ou a mera tolerância do vizinho; a necessidade há de ser provada. Se a perda de acesso resultar de alienação parcial e divisão de um imóvel, se constrangerá à passagem uma das suas partes, sem agravamento para a situação de terceiros. O titular da parte que ficou com o acesso, será constrangido a permitir a passagem ao titular ou possuidor da parte que o perdeu. Essa situação ocorre, com frequência, quando se extingue condomínio comum, pela divisão entre os ex- condôminos; nem sempre é possível divisão cômoda que permita o acesso a via pública a todas as partes resultantes. Se não houver explicitação da passagem, esta será determinada judicialmente. O imóvel (primeiro), cuja parte foi alienada a terceiro, poderia já utilizar passagem forçada sobre terreno do vizinho (segundo). A alienação da parte do primeiro imóvel não pode agravar a situação do segundo imóvel, que já suportava a passagem forçada. O titular do segundo imóvel não está obrigado a tolerar nova passagem forçada. O rumo permanecerá o mesmo, ainda que o adquirente tenha de passar, também, pela parte restante do primeiro imóvel. É admissível que o caminho tradicionalmente utilizado pelo titular do imóvel como passagem forçada possa ser modificado, se não causar prejuízo ou agravar a passagem. Tal ocorre quando o titular do imóvel que suporta a passagem forçada necessita ocupar o rumo utilizado, ou parte dele, para construção de obras ou para expansão de suas atividades. A mudança do rumo deve contemplar idênticas condições de passagem para se alcançar a via pública. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 72 O direito à passagem forçada pode ser acidental e temporário, quando o acesso a via pública é obstruído, sem culpa do titular do imóvel. Exemplifique-se com inundação de rio ou queda de barreira, impedindo o acesso tradicionalmente utilizado. O direito de passagem perdurará até que o acesso originário possa ser reutilizado, em condições normais. O direito à passagem forçada não é gratuito. O que a obtiver deverá indenizar o titular do imóvel que tiver de suportá-la. Não é indenização para expropriação,pois o trecho utilizado não se transfere para a titularidade de quem a utiliza. É indenização pela limitação da propriedade. A hipótese é de responsabilidade pela indenização do uso. A indenização será fixada por acordo mútuo ou pelo juiz, podendo ser paga de uma só vez, ou em parcelas ou mediante renda. Ainda que a perda do acesso tenha causa que possa ser imputável ao titular do próprio imóvel, persiste o direito à passagem forçada. O Código Civil de 2002 não reproduziu norma da legislação anterior, que previa o pagamento em dobro da indenização, se a perda fosse por culpa do interessado. O exercício da pretensão à passagem forçada não depende de prévia oferta do valor da indenização, pois esta é um direito do vizinho que suporta a limitação, podendo exercê- lo ou não. 5. Passagem de cabos e tubulações Além do trânsito ou passagem forçada de pessoas, a lei prevê tipo específico de passagem permanente de cabos, tubulações e outros condutos subterrâneos por imóveis, para fins de transmissão de energia, gás ou meios de comunicação. As relações jurídicas decorrentes não são exclusivamente de direito civil, pois há interferências do direito público administrativo. São requisitos: (1) Dever de tolerância da passagem das instalações pelos imóveis particulares; (2) Utilidade pública dos serviços que os utilizam; (3) Demonstração de que a transmissão fora do imóvel é impossível ou excessivamente onerosa; (4) Indenização. Superada a fase da concepção absolutista da propriedade, tem-se como indeclinável o dever de tolerar que sobre o imóvel passem meios de transmissão de fontes e serviços essenciais à vida contemporânea. As instalações podem passar pelo espaço aéreo, ou sobre o solo ou pelo subterrâneo do imóvel, não se contendo nas instalações subterrâneas, pois a alusão a estas feita pelo Código Civil não as restringe. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 73 Trata-se de limitação à propriedade, que não se confunde com desapropriação. O imóvel permanece sob a titularidade do proprietário, mas sujeito a restrição de uso, que é o de suportar a passagem das instalações e de não criar dificuldades ou riscos a suas finalidades. Algumas, como os cabos aéreos de transmissão de energia, não impedem que atividades agrícolas continuem sob eles; outros trazem potencial de risco maior, com vedação de edificações, como os condutos de gás. As empresas titulares dos meios de transmissão, ainda que regidas pelo direito privado, prestam serviços públicos autorizados, fiscalizados ou concedidos pela administração pública. Os trajetos pelos imóveis são definidos pela administração pública competente, ou pela própria empresa, quando recebe delegação de competência para isso. Não pode o proprietário contestá-los ou indicar outros rumos, que julgue mais convenientes. Pode, no entanto, demonstrar em juízo que a passagem fora de seu imóvel se faz possível e menos onerosa, pois a lei (CC, art. 1.286) abriu essa possibilidade, quando alude que o dever de tolerância é exigível “quando de outro modo for impossível ou excessivamente onerosa”. Pode, igualmente, exigir que a instalação seja feita de modo menos gravoso no imóvel, se possível for e assim demonstrar. Depois de feitas as instalações, pode exigir que sejam removidas para outro local do imóvel, ficando sob seu encargo as despesas correspondentes. Pode, por fim, exigir obras de segurança, se as instalações oferecerem grave risco, tais como cercados, redes de proteção, construção de coberturas. Embora não haja desapropriação da área a ser utilizada, o dever de utilizar a passagem das instalações e a restrição ao uso correspondente do imóvel importam o pagamento de indenização compatível. O valor da indenização deve levar em conta a desvalorização que sofrerá o imóvel, como um todo, as limitações e restrições ao uso e o dano emergente no local da passagem. As instalações apenas poderão ser feitas após o pagamento da indenização, fixada amigável ou judicialmente, segundo os critérios adotados para desapropriação. 6. Águas e vizinhança As águas, potáveis ou servidas, que atravessam imóveis vizinhos impõem disciplina que previnam ou resolvam conflitos entre os respectivos titulares, proprietários ou possuidores. Não se trata de servidão, mas sim de direito de vizinhança, Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 74 direito dependente, contido no direito de propriedade, correspondente à limitação que sofre, em seu conteúdo, o direito de propriedade do imóvel vizinho. A lei (CC, art. 1.288) pressupõe a existência de desníveis de solos, porque as águas seguem a gravidade, qualificando-se os imóveis vizinhos em superiores e inferiores. Interessa saber até que ponto os titulares dos imóveis inferiores e, eventualmente, superiores têm de suportar o curso dessas águas ou, ante a crescente escassez, a falta ou redução delas, por fatos imputáveis aos titulares dos demais imóveis. O dever de não impedir o curso natural é dever de vizinhança. Em matéria de águas, as intercessões entre o direito privado e o direito público são intensas. As águas públicas integram o domínio da União ou dos Estados membros (CF, arts. 20 e 26), não sendo reguladas pelo direito civil. A Constituição deixou pouco para o domínio privado das águas, pois o art. 26 inclui entre os bens dos Estados membros “as águas superficiais ou subterrâneas, fluentes, emergentes e em depósito, ressalvadas, neste caso, na forma da lei, as decorrentes de obras da União”. A regulação do uso das águas particulares ou das águas públicas pelos particulares, além das normas de direito civil, compreende o que dispõe o Código de Águas (Decreto nº 24.643, de 1934, com força de lei) e a Lei nº 9.433, de 1997, sobre a outorga de uso dos recursos hídricos. Esta última lei estabelece (art. 1º) que a água é um bem público de uso comum, sem qualquer ressalva, o que importa dizer que ninguém pode se apropriar de águas nascentes, correntes ou subterrâneas para seu uso exclusivo e privativo, sem outorga pública. O titular do imóvel superior não pode realizar obras ou serviços que impeçam ou reduzam, injustificadamente, o fluxo das águas, em prejuízo do titular do imóvel inferior, que delas também necessita. Se fizer obras para facilitar o escoamento, deverá proceder de modo que não piore a condição anterior do outro. Não pode o titular do imóvel superior desviar as águas que corriam para dois ou mais imóveis e as deixar correr para um ou alguns, nem mudar a direção agravando a situação do imóvel inferior. O titular do imóvel inferior não pode impedir ou reduzir, injustificadamente, o fluxo natural das águas que descem do imóvel superior, sejam elas pluviais ou de nascentes. Não pode construir obras que façam com que as águas retornem ao imóvel superior, tais como barragens com esse propósito, ou fazê-las voltar para a parte mais baixa do imóvel superior, além de estar obrigado a permitir que o titular do imóvel superior entre em seu imóvel para executar serviços de conservação e manutenção, de modo a que o fluxo natural não seja comprometido. Este é o dever legal de escoamento. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 75 Só há dever de escoamento das águas do fluxo natural; não assim se as águas que descerem forem acumuladas artificialmente pelo titular do imóvel superior, como as provenientes de poços, ou encanadas, ou decorrentes de obras de irrigação, ainda que tenham sido utilizadas para suas atividades ou lazer. O titular do imóvel inferior poderá exigir que essas águas sejam desviadas, além de indenizaçãopelos danos causados. Porém, se este tiver obtido algum beneficiamento das águas assim recebidas, a indenização será reduzida nessa exata medida. As águas pluviais, ou seja, as que procedem imediatamente das chuvas, de acordo com o Código de Águas, pertencem ao dono do imóvel onde caírem diretamente, mas não lhe é permitido desperdiçá-las em prejuízo dos outros imóveis que delas possam aproveitar, sob pena de indenização aos respectivos proprietários, ou desviá-las de seu curso natural, sem consentimento expresso dos que esperam recebê-las. O direito ao uso das águas pluviais é imprescritível. Ninguém pode poluir as águas que não consome, com prejuízo de terceiros, máxime quando estes forem possuidores de imóveis inferiores. Segundo o Código de Águas (art. 110), os trabalhos para a salubridade das águas serão executados à custa dos infratores, que, além da responsabilidade criminal, se houver, responderão pelas perdas e danos que causarem e pelas multas que lhes forem impostas nos regulamentos administrativos. Regra conexa do Código Civil (art. 1.291) estabelece que as águas “que poluir” o titular do imóvel superior deverão ser por este recuperadas, ressarcindo os danos sofridos pelos titulares dos imóveis inferiores, se não for possível a recuperação ou o desvio do curso artificial das águas. Não há direito a poluir, em desafio ao art. 225 da Constituição. As duas regras hão de ser interpretadas conjugadamente, ou seja, ninguém pode poluir as águas e se o fizer responde pelos deveres de indenização dos danos materiais e morais causados aos prejudicados, de recuperação das águas e de desvio do curso artificial das águas, além de responder administrativa e criminalmente. É assegurado ao titular de qualquer imóvel (superior ou inferior) o direito de construir barragens e açudes. As obras podem ter a finalidade de represamento de águas pluviais ou particulares correntes. As barragens e açudes devem conter as águas nos limites do imóvel do titular. Se os ultrapassar, deverá indenizar os danos sofridos pelos vizinhos, deduzindo-se os que estes passaram a ter de efetivo proveito, em homenagem ao princípio da vedação do enriquecimento sem causa. A dedução leva em conta apenas o benefício sob a ótica do titular cujo imóvel foi invadido pelas águas, e não de quem fez o represamento. As águas podem não provocar qualquer benefício, se Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 76 destruir, por exemplo, plantações. A invasão das águas é fato objetivo, que independe de demonstração de culpa. A lei assegura “a quem quer que seja” o direito de construir canal ou aqueduto através de imóveis alheios, para receber águas, observados os seguintes requisitos: (1) pagamento de prévia indenização; (2) finalidades de atendimento das primeiras necessidades da vida, ou de escoamento de águas supérfluas, ou de drenagem de seu terreno; (3) não causar prejuízos consideráveis à agricultura ou a indústria dos titulares dos imóveis onde deva passar o canal. Sem a prévia indenização ao ou aos proprietários prejudicados, não pode iniciar a construção do canal. A indenização deve ser ajustada entre as partes; se não houver acordo, decidirá o juiz sobre o valor. O pagamento da indenização não tem finalidade expropriatória, mas sim de compensação pela limitação da propriedade; a faixa do imóvel por onde passar o canal continuará sob titularidade do dono respectivo. Para Pontes de Miranda, rigorosamente não é de indenização que se trata, mas sim de composição de interesses, diante da inevitabilidade do entrechoque dos direitos9. Primeiras necessidades dizem respeito ao consumo humano dos que vivem e trabalham no imóvel interessado e à manutenção básica das atividades pecuárias ou agrícolas. As águas supérfluas são as de captação natural que excedem as necessidades das atividades desenvolvidas no imóvel; não são assim consideradas as águas servidas, que devem ser absorvidas no próprio terreno ou canalizadas para a rede pública de coleta e saneamento, quando houver. A drenagem do terreno pantanoso ou alagadiço só autoriza a canalização pelo terreno vizinho se não for possível ser feita e absorvida a água no mesmo terreno, ou não forem viáveis processos de enxugo, além de estar em conformidade com a legislação ambiental. O proprietário de uma nascente não pode desviar-lhe o curso, se esta servir para abastecimento da população (Código de Águas, art. 94). O usuário do canal ou aqueduto tem o direito e o dever de conservá-los e mantê-los em condições adequadas, para suas finalidades e para evitar riscos de danos aos proprietários em cujos imóveis atravessem. O prejuízo do proprietário em cujo imóvel atravessa o canal é objetivo e pressuposto. “Isso não significa prescindir da demonstração probatória, mas 9 PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado de direito privado. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012, v. 13, p. 517. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 77 corresponde, isto sim, à possibilidade de superação dos meandros subjetivos circunscritos à culpa ou ao dolo”10. Ao proprietário prejudicado com o canal ou aqueduto cabe, além da indenização prévia: (1) direito ao ressarcimento pelos danos futuros, em virtude infiltração ou irrupção das águas, independentemente da conservação da obra, ou de sua deterioração; (2) direito de exigir do proprietário beneficiário que a canalização seja subterrânea, quando atravessar áreas edificadas, pátios, hortas, jardins e quintais. Pode, por exclusão, ser superficial quando atravessar áreas agrícolas; (3) direito de compensação pela desvalorização da área remanescente, notadamente quando se tornar inaproveitável; (4) direito de exigir que a canalização seja feita de modo menos gravoso no imóvel onde deva atravessar; (5) direito de remoção da canalização para outro lugar, assumindo as despesas decorrentes; (6) direito de exigir obras de segurança, se a canalização oferecer grave risco. O direito ao canal ou aqueduto, em virtude de sua natureza de limitação à propriedade para satisfação de interesses particulares, apenas existe para as finalidades explicitadas na lei, não sendo admissível para outras, inclusive para fins de expansão de atividades. A lei (CC, art. 1.293) não alude às finalidades de agricultura ou indústria. Há entendimento, todavia, estampado no enunciado 245 das Jornadas de Direito Civil, do CJF/STJ, de que a norma legal não exclui a possibilidade de canalização forçada pelo vizinho, com prévia indenização aos proprietários prejudicados. Terceiros podem se utilizar das águas canalizadas, que sejam consideradas supérfluas, ou seja, não necessárias às finalidades do beneficiário. Nessa hipótese, será devida indenização a ser compartilhada pelo proprietário beneficiário e o proprietário prejudicado. Estabeleceu a lei, como parâmetro, a importância equivalente às despesas que seriam necessárias para condução das águas retiradas por terceiros, se elas chegassem ao destino. A preferência para utilização das águas supérfluas é a do proprietário ou possuidor prejudicado pela canalização. 7. Limites entre prédios e direito de cercar ou murar 10 FACHIN, Luiz Edson. Comentários ao Código Civil. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 116. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 78 O proprietário ou possuidor pode demarcar e cercar o imóvel, nos seus limites com os dos vizinhos confinantes. O fim social da norma legal é prevenir os conflitos que asincertezas dos limites provocam e de estabelecer critérios para a solução desses conflitos. Cerca é conceito amplo, abrangente de outros termos utilizados pela lei, como muro, vala, valado, tapagem, sebe, intervalos, banquetas, além de outras expressões regionais. O Código Civil alude a “tapagem”, termo de escasso uso linguístico, e que, segundo os antigos significava exatamente cerca. Nas Ordenações Filipinas (Liv. II, Tít. 48, § 4º) há referência a “tapamento de suas herdades”, com significado de cerca. O direito de cercar assenta-se na necessidade, não sendo cabível para fins de maior comodidade ou de estética. A demarcação tem por finalidade evitar a confusão de limites, ou por fim à confusão já ocorrida. São legitimados a promover e a responder a ação, que é declaratória, o proprietário, ou o possuidor, ou o titular de direito real limitado, pois a lei (CC, art. 1.297) alude a confinante. O direito à demarcação importa o de constrangimento aos vizinhos confinantes de procedê-la amigável ou judicialmente, quando os rumos ou marcos estejam destruídos, apagados ou confusos. Intenta-se, com a demarcação, aviventar e tornar indiscutíveis os marcos e rumos. As despesas da demarcação amigável ou judicial, inclusive com os serviços de técnicos ou peritos, são repartidas entre os vizinhos confrontantes. O direito de cercar é dependente da definição precisa dos limites, operada pela demarcação. A lei (CC, art. 1.298) estabelece três critérios sucessivos para a demarcação, quando os limites estiverem confusos e os marcos indefinidos ou desaparecidos: (1) Prevalecimento da posse justa (não violenta, precária ou clandestina) do confinante que a tenha; (2) Se ambos os confinantes forem titulares de posses justas, a parte contestada será dividida por igual entre os confinantes, passando a linha divisória no meio dela; (3) Se a divisão pelo meio não puder ser feita, a parte contestada será adjudicada a um dos confinantes, que deverá indenizar o outro. As cercas já existentes, em qualquer de suas modalidades (muros de alvenaria ou concreto, sebes vivas, cercas de arame ou madeira, valas) têm a presunção legal de pertencerem em comum aos vizinhos confinantes. A presunção de condomínio é relativa (juris tantum), pois podem ter sido feitas por um dos vizinhos dentro dos limites de seu imóvel, pertencendo-lhe inteiramente. Podem ter sido feitas sobre a precisa linha divisória por um dos vizinhos, com seus próprios recursos; nesta hipótese, pode cobrar do outro vizinho a meação das despesas, uma vez que a cerca passa à titularidade de Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 79 ambos. Cercar é direito e não obrigação, disse Darci Bessone11, “razão por que pode o proprietário abster-se de tapar, cercar, ou murar o seu imóvel”. Porém, a obrigação do confinante de concorrer com as despesas de construção e conservação das divisórias resulta diretamente da lei, não se condicionando a que haja prévio consentimento; cumpre a quem as realize demonstrar que se faziam necessárias, no momento em que foram efetuadas. É direito e dever de vizinhança decorrente da limitação ao conteúdo do direito de propriedade: cada confinante é obrigado a concorrer em partes iguais para as despesas de construção e conservação. Essa obrigação, de natureza objetiva, prevaleceu nos tribunais, antes mesmo do Código Civil de 2002, a exemplo do STJ (REsp 20.315 e REsp 238.559). Qual o meio que vai ser empregado (tipo de cerca, muro, sebe) depende dos usos locais, ou da natureza da construção limítrofe. A demarcação é cabível, mesmo quando definidos os limites divisórios, quando ainda restem dúvidas sobre sua precisão, notadamente havendo divergência entre o título de propriedade e as divisas. Nesse sentido, decidiu o STJ (REsp 759.018) que havendo divergência entre a verdadeira linha de confrontação dos imóveis e os correspondentes limites fixados no título dominial, é cabível a ação demarcatória para eventual estabelecimento de novos limites. Em áreas rurais, é comum constar em escrituras públicas e registros imobiliários determinadas plantas, especialmente árvores e sebes vivas, como marcos naturais divisórios dos imóveis, quando não há cerca, ou quando o rumo desta é questionado. Cada uma dessas plantas não pode ser cortada ou arrancada, salvo se houver acordo de ambos os confinantes. Se for arrancada por um deles, o outro poderá provar em juízo sua exata localização, prevalecendo esta contra a que indicar o que arrancou a planta, por pesar-lhe a ilicitude da conduta. Excepcionalmente, há dever e obrigação de cercar do proprietário de animais. Não está obrigado a concorrer com as despesas o proprietário vizinho, que exigir a realização de cerca especial para impedir a passagem de animais ao seu imóvel. A cerca é especial em razão dos tipos de animais. Assim, a cerca para animais de maior porte, como gado vacum, é distinta da que se exige para animais de pequeno porte, como os galináceos. As despesas são de responsabilidade do proprietário desses animais, os quais provocaram a necessidade de cerca especial. 11 BESSONE, Darci. Direitos reais. São Paulo: Saraiva, 1996, p. 254. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 80 8. Direito de construir Sob o título “direito de construir” tem-se a regulação do direito do possuidor e do proprietário de edificar em seu terreno, observados os limites em relação aos vizinhos, que também estão a ela sujeitos, e as normas instituídas pela administração pública, principalmente o plano diretor, nas áreas urbanas. O direito de construir diz respeito não apenas à edificação nova, como a reforma ou reconstrução de edificações antigas. O direito de construir não se confina ao direito civil, sendo matéria com incidência transversal não apenas do direito urbanístico, como do direito ambiental, do direito de defesa do patrimônio histórico, artístico, paisagístico, turístico e cultural, do direito aeronáutico e outros direitos assemelhados, de ordem pública. Exemplo de limitação administrativa ao direito de construir encontra-se na Súmula 142 do antigo Tribunal Federal de Recursos, segundo a qual a faixa non aedificandi imposta aos terrenos marginais das estradas de rodagem, em zona rural, não afeta o domínio do proprietário, nem obriga a qualquer indenização. Com efeito, o proprietário pode plantar nessa faixa, mas não pode edificar, em razão da segurança das pessoas nessas vias. Para além das normas de direito público, interessam ao direito civil as interferências do direito de construir nas relações de vizinhança. Seguindo a tradição arquitetônica portuguesa, as casas e sobrados construídos em áreas centrais das cidades brasileiras eram contíguos ou com recuos estreitos. Daí que se justifique a permanência da regra do art. 1.300 do Código Civil, segundo a qual o proprietário construirá de maneira que o seu prédio não despeje águas diretamente no imóvel vizinho, que se incluía na actio de effusis et dejectis dos romanos. Ou do Código de Águas (art. 105), de que o proprietário edificará de maneira que o beiral de seu telhado não despeje sobre o prédio vizinho, deixando entre este e o beiral, quando por outro modo não o possa evitar, um intervalo de 10 centímetros, quando menos, de modo que as águas se escoem. Quando a legislação municipal admitir que a edificação possa ir até o limite do terreno, terá de ser feita de modo a que as águas pluviais, correntes ou servidas não vertam ou sejam despejadas no imóvel vizinho. As janelas, os terraços cobertos ou descobertos, as sacadas, asvarandas, as portas devem distar, ao menos, um metro e meio da linha divisória dos terrenos. Essa regra tem por fito a preservação mínima do direito à privacidade do vizinho, que é Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 81 constitucionalmente garantida (CF, art. 5º, X) e alcança qualquer abertura superior a dez por vinte centímetros. Admite-se que as janelas ou terraços que não se abram com visão direta do imóvel vizinho, mas sim para dentro do próprio imóvel, possam ser feitos com a distância de setenta e cinco centímetros da linha divisória dos terrenos, o que corresponde à metade da distância anterior, tendo o Código Civil tornado sem efeito a Súmula 414 do STF que não distinguia a visão direta da indireta ou oblíqua. Estima-se que essa redução não prejudicará a privacidade do vizinho, pois a linha de visão não é direta. Na zona rural, amplia-se a distância para três metros, até a linha divisória. O conceito adotado pelo Código Civil é o de zona (urbana ou rural), e não o de destinação, que é preferido pelo direito agrário; assim, ao imóvel com destinação agrícola ou pecuária, mas situado dentro do perímetro urbano fixado pelo Município, aplica-se o recuo menor de metro e meio. O vizinho tem o prazo de um ano e dia, após a conclusão da obra, para exigir que se desfaça a janela, ou o terraço, ou a varanda, ou a sacada, construídos com distância menor que um metro e meio da linha divisória, se tiverem visão direta sobre seu imóvel, ou de três metros se na zona rural, ou de setenta e cinco centímetros da linha divisória, se não tiverem visão direta sobre seu imóvel, ou do despejo de águas sobre seu imóvel. No âmbito processual, esse embargo é denominado nunciação de obra nova. Esse prazo é preclusivo ou decadencial, não podendo ser interrompido ou suspenso. Considera- se conclusão da obra, para fins de contagem do prazo, a data do habite-se concedido pelo Município, salvo se o vizinho construtor tiver como provar a data efetiva da conclusão e sua ciência pelo vizinho. Conta-se a partir da conclusão de toda a obra e não da construção da janela ou outra abertura. Não se exige a comprovação do devassamento, bastando a construção da janela – terraço, sacada ou varanda - com distância menor que a legal. Se o prazo se escoar, sem ajuizamento da ação pelo vizinho prejudicado, este terá de suportar a obra invasiva, não podendo mais impedir ou dificultar o uso do prédio beneficiado, inclusive o escoamento das águas. O vizinho prejudicado terá, por sua vez, de recuar sua construção nova, de modo a que se mantenha o recuo de um metro e meio (ou três metros); supondo-se que a janela foi aberta com a distância de cinquenta centímetros da linha divisória, na zona urbana, o vizinho prejudicado terá que recuar a parede da edificação nova até um metro dentro de seu próprio terreno, na largura da janela, de modo a que esta mantenha um metro e meio de espaço aberto. O recuo calcula-se a partir da janela ou outra abertura e não da linha divisória. Essa orientação legal foi introduzida na segunda parte do art. 1.302 do Código Civil, contrariando o Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 82 entendimento jurisprudencial que antes se tinha consolidado, no sentido de o proprietário prejudicado não poder exigir o fechamento, após o escoamento do prazo, mas não estando impedido de construir edificação vedando a abertura. A norma do Código Civil contempla a função social da propriedade, ao contrário do entendimento jurisprudencial anterior, que fazia prevalecer o interesse individual. A distância de três metros, ou de metro e meio, ou de setenta e cinco centímetros é contada a partir da construção irregular, e não da linha divisória. Segundo orientação doutrinária12, constituiria servidão específica ou direito real sobre coisa alheia; constituída a servidão, alcança-se esse objetivo, em detrimento do imóvel serviente, cujo dono, não tendo embargado oportunamente a construção irregular e não pretendendo, no prazo legal, que se desfizesse, teria de recuar sua própria edificação. Entendemos, todavia, não se tratar de servidão, mas sim de limitação à propriedade, que é o fundamento dos direitos de vizinhança, que independem, inclusive, de registro imobiliário. Também assim entende Pontes de Miranda13, para quem os direitos de construir nascem de limitação ao conteúdo do direito de propriedade; não nasce, com isso, servidão, pois o vizinho apenas perdeu a pretensão ao desfazimento da obra e o dono desta foi beneficiado pela inércia do titular da pretensão contrária a ela. Permite-se que sejam feitas aberturas para luz ou ventilação, com dimensões pequenas, sem respeitar qualquer distância com a linha divisória dos terrenos. Diferentemente das janelas, terraços e varandas que facultam devassar o imóvel vizinho, essas pequenas aberturas não comprometeriam a privacidade dos que o habitam. Permite- se, assim, a iluminação ou a ventilação e, ao mesmo tempo, preserva-se o vizinho do devassamento. A metragem admitida para a abertura é de, no máximo, dez centímetros por vinte centímetros, desde que seja construída a partir da altura de dois metros do chão de cada piso, que supera a altura da quase totalidade das pessoas humanas e impede a visão sobre o vizinho. Não há impedimento para que sejam várias aberturas, para o lado ou para cima. A tecnologia da construção desenvolveu o que denomina de elementos vasados, de cerâmica, concreto, vidro ou madeira, alguns com visão indireta ou impedida, o que melhor contempla os fins sociais da lei. A Súmula 120 do STF já previa que os 12 CHAMOUN, Ebert. Exposição de motivos do esboço do anteprojeto do Código Civil – Direito das Coisas. Revista de jurisprudência do Tribunal de Justiça do Estado da Guanabara. Rio de Janeiro: TJRJ, v. 23, 1970, p. 23. 13 PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado de direito privado. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012, v. 13, p. 546 e 569. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 83 tijolos de vidro translúcido podiam ser levantados a menos de metro e meio do imóvel vizinho. Também não há impedimento para que as aberturas sejam construídas em paredes limítrofes, o que tem sido objeto de conflitos. As aberturas de luz ou ventilação, contudo, não geram limitação permanente ao direito de propriedade do vizinho, ao contrário da construção de janelas, varandas e terraços. Ainda que tais aberturas existam por muito tempo, para além de ano e dia, pode o vizinho levantar edificação que as vede, uma vez que não há previsão legal de prazo preclusivo. Não pode o vizinho pretender a demolição ou fechamento de aberturas ou vãos de luz em parede limítrofe, mas ele não está impedido de construir parede que as vedes, sempre que desejar, sem justificação. Escola mantida por instituição considerada de utilidade pública abriu em parede limítrofe vãos de luz e ventilação, em duas salas de aula, utilizando elementos vasados, sem objeção dos vizinhos. Estes, após dez anos, resolveram edificar parede vedando os vãos, tendo a escola ingressado em juízo para impedi-los. Em grau de recurso extraordinário, decidiu o STF (RE 211.385-9) que a garantia da função social da propriedade (CF, art. 5º, XXIII) não afeta as normas de composição do conflito de vizinhança previstas no Código Civil, “não se podendo impor gratuitamente, ao proprietário, a ingerência de outro particular em seu poder de uso, pela circunstância de exercer este último atividade reconhecida como de utilidade pública”. Parece-nos, no entanto, que a regra permissivado art. 1.302, parágrafo único do Código Civil, da desconsideração das aberturas de luz e ventilação, há de ser interpretada em harmonia com o art. 1.278 do Código Civil, o qual estabelece que, se as interferências prejudiciais ao vizinho forem justificadas por interesse público o causador pagar-lhe-á indenização cabal; essa prescrição é geral, não estando adstrita às situações específicas do uso anormal da propriedade. Assim, justificando-se o interesse público, que é o caso da escola referida na decisão do STF - anterior ao início da vigência do atual Código Civil - não pode prevalecer o interesse particular do vizinho. Interesse público, para os fins da norma legal, não é o estatal, mas o social, expressado no direito dos alunos de utilizar adequadamente as salas de aula. Para compensar o dever de suportar a interferência, confere-se ao titular do imóvel o direito, a pretensão e a ação da indenização cabal, harmonizando-se direito de propriedade e função social. O Código Civil de 2002 manteve as regras advindas da legislação anterior sobre o uso pelos vizinhos da mesma parede divisória, ou o condomínio da parede-meia, em homenagem às edificações de casas conjugadas, vindas das tradições coloniais, ainda existentes em muitas cidades brasileiras, de acordo com as respectivas Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 84 legislações urbanísticas. A matéria retomou sua importância com a proliferação dos condomínios edilícios, em cujos pisos ou andares as paredes divisórias são comuns das unidades imobiliárias. As regras podem ser assim ordenadas: (1) O proprietário ou possuidor tem direito de utilizar a parede divisória, se ela suportar a nova edificação ou reforma, reembolsando ao vizinho metade do valor da parede e do chão correspondente. O vizinho pode travejar na parede-meia, cuja metade foi edificada em seu imóvel, pois, por metade é sua, mas antes há de pagar o meio valor dela. Se o proprietário faz a sua parede só no seu terreno, toda ela é sua. Para Orlando Gomes14, o direito de madeirar ou travejar condiciona-se à conjugação dos seguintes requisitos: a) que o prédio seja urbano; b) que esteja sujeito a alinhamento; c) que a parede divisória pertença ao vizinho; d) que aguente a nova construção; e) que o dono do terreno vago pague meio valor da parede divisória. (2) Quem primeiro construir a parede divisória tem direito de fazê-la por sobre a linha que divide os dois imóveis, ocupando meia espessura do terreno contíguo. O vizinho não perde a titularidade sobre a parte ocupada pela parede, mas, se também a utilizar em edificação sua, terá de pagar a metade do valor da parede ao que a construiu. (3) O vizinho apenas poderá utilizar a parede se ela suportar a nova edificação; se dúvida ou risco houver, poderá quem a construiu exigir do outro que preste garantia; (4) Qualquer dos dois condôminos da parede-meia tem o dever de informar ao outro das obras que desejar fazer, e o dever de segurança, de modo a não por em risco a parede, com tais obras; (5) Qualquer dos condôminos de parede-meia não pode, sem o consentimento do outro, utilizar a parede para armários ou assemelhados, ou encostar chaminés, fogões (salvo os fogões de cozinha, desde que não sejam prejudiciais ao vizinho), fornos ou aparelhos que possam produzir infiltrações ou interferências 14 GOMES, Orlando. Direitos reais. Revista, atualizada e aumentada por Luiz Edson Fachin. Rio de Janeiro: Forense, 2004, p. 232. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 85 prejudiciais. O consentimento não necessita de ser expresso, bastando a aquiescência duradoura ou renúncia do direito. A infiltração ou interferência gera dever de indenizar sem culpa, podendo o prejudicado, ainda, exigir a demolição. Se o dano é provável e iminente, cabe caução de dano infecto; (6) O condômino pode alterar a parede divisória, desde que não prejudique o vizinho e assuma as despesas correspondentes, salvo se o vizinho adquirir meação, com utilização da parte acrescida. Não há condomínio de parede-meia quando a parede é própria do confinante, que a levantou justaposta à do vizinho. Nessa hipótese, salienta Hely Lopes Meyrelles15, não há limitação ao seu uso e nela podem ser embutidos ou encostados quaisquer aparelhos que o proprietário desejar, sem possibilidade de embargo ou caução prévia para prosseguimento das obras. Somente a posteriori poderá o confrontante obter a demolição e a reparação dos danos que tais obras lhe venham a causar, como resultado do uso anormal da propriedade. Com relação às águas de poço e de nascente, proíbe-se que a construção seja causa de sua poluição, se (CC, art. 1.309) forem a ela preexistentes. Esclareça-se que não se extrai dessa norma que haja um bill of indemnity, um poder para poluir, se o poço ou a fonte do vizinho forem posteriores à construção, pois, de acordo com o § 3º do art. 225 da Constituição, as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente, em qualquer dimensão, sujeitarão os infratores a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados, cuja responsabilidade civil é objetiva. Além da indenização pelos danos, o causador tem o dever legal de demolir a edificação ou a parte dela que os tiver provocado. Igualmente, são proibidas as obras que tirem ao poço ou à nascente a água indispensável às suas necessidades normais. O direito de vizinhança, por parte do que tem a água para suas necessidades, consiste em que ela não seja tirada ou reduzida, de modo a torná-la insuficiente para o uso normal. Vizinho não é necessariamente o contíguo, pois se há o mesmo lençol de água em vários imóveis, todos são legitimados. Note-se, todavia, que o particular tem, apenas, o direito de exploração das águas 15 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito de construir. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1992, p. 49. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 86 subterrâneas mediante autorização do Poder Público, cobrada a devida contraprestação, na forma da Lei nº 9.433, de 1997; se não houver autorização, não terá direito contra quem a tenha obtido. Como lembrou o STJ (REsp 1.276.689), a necessidade de outorga para a extração da água do subterrâneo é justificada pela problemática mundial de escassez da água e se coaduna com o advento da Constituição, que passou a considerar a água um recurso limitado, de domínio público. São proibidas as obras que possam provocar desmoronamento ou deslocação de terra, ou que comprometam a segurança dos imóveis vizinhos. Nesses casos, a construção depende da realização de obras acautelatórias, que possam reduzir ou impedir, substancialmente, os riscos de danos. Se, apesar das obras acautelatórias, os danos ocorrerem, o vizinho prejudicado poderá exigir indenização correspondente. A responsabilidade do dono da edificação é objetiva, independentemente de culpa, não sendo atenuantes ou compensatórias as providências que tiver adotado para evitar os danos. É ainda responsável pela demolição da construção, naquilo que tiver provocado os danos. Até à conclusão da obra, cabe a nunciação de obra nova; após a conclusão, é cabível a ação demolitória, dentro do prazo de um ano e dia. A responsabilidade do direito de vizinhança não decorre da ilicitude do ato de construir, e sim da lesividade da construção. Em consequência, investe-se no direito de regresso contra o empreiteiro, projetista, construtor que tenha contratadopara execução da obra. Nesse sentido, decidiu o STJ (AgRg no REsp 473.107) que o contrato firmado entre o proprietário da obra e o empreiteiro, quanto à responsabilidade por eventuais danos, não produz efeitos contra terceiros, entretanto assegura o direito de regresso contra o empreiteiro. O possuidor ou o proprietário tem o dever de tolerância do ingresso em seu imóvel do vizinho, quando este, após comunicação prévia, necessitar reparar, manter, limpar ou reconstruir o prédio, ou instalações deste, ou cerca divisória de qualquer espécie. O ingresso é devido quando for indispensável para tais providências, que não poderão ser executadas a partir do próprio imóvel, salvo com custos muito elevados. Nos condomínios edilícios, por exemplo, as instalações hidrossanitárias, situadas por baixo do piso, apenas podem ser consertadas a partir do teto da unidade inferior. O direito de ingresso é também assegurado quando o proprietário ou possuidor necessitar retirar suas coisas, inclusive animais, que eventualmente tenham ido ou caído no imóvel vizinho. O direito de ingresso não é indiscriminado e deve ser exercido de modo mais cômodo possível, preferentemente em horários combinados, ou fora dos horários de repouso e Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 87 alimentação habituais. O direito de ingresso pode ser impedido se o vizinho tomar a iniciativa de entregar as coisas buscadas, pois não se admite o abuso do direito subjetivo. Em qualquer hipótese, se o exercício do direito de ingresso causar danos ao vizinho, este tem pretensão à indenização correspondente. O direito de ingresso, em qualquer circunstância, é dependente de consentimento de quem habite o imóvel onde as obras devam ser feitas ou onde as coisas devam ser retiradas. Se houver recusa, o ingresso dependerá de decisão judicial. Assim é, porque a Constituição (art. 5º, XI) assegura que “a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial”. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 88 CONTRATOS ELETRÔNICOS E CONSUMO Electronic contracts and consumption Anderson Schreiber Professor de Direito Civil da UERJ. Procurador do Estado do Rio de Janeiro. Doutor em Direito Privado Comparado pela Università degli studi del Molise (Itália). Mestre em Direito Civil pela UERJ. Autor dos livros Direito Civil e Constituição e Novos Paradigmas da Responsabilidade Civil, entre outros. “There is no spoon” (Matrix, 1999) Resumo: O artigo analisa o tratamento jurídico dos contratos eletrônicos, à luz do ordenamento brasileiro, em especial nas relações de consumo. Examina controvérsias relacionados à formação dos contratos, ao direito de arrependimento e à publicidade eletrônica, colhendo parâmetros também na experiência jurídica estrangeira. Palavras-chave: Contratos Eletrônicos; Direito do Consumidor; Direito de Arrependimento; Formação dos Contratos; Publicidade Eletrônica; Consumismo na Internet. Abstract: The article provides a legal analysis of electronic contracts, under Brazilian law, with special emphasis on business-to-consumer relationships. Contract formation, right of withdrawal and electronic marketing are some of the issues examined on the article, also in light of the standards used on foreign legal experience. Key-Words: Electronic Contracts; Consumer Law; Right of Withdrawal; Contract Formation; Electronic Marketing; Consumism on the Internet. Sumário: 1. O comércio eletrônico no Brasil. – 2. Os chamados contratos eletrônicos e os desafios trazidos pela contratação via internet. – 2.1. Quem contrata. Semianonimato virtual e o dever de identificação do fornecedor eletrônico. – 2.2. Onde contrata. A transnacionalidade do contrato eletrônico e o problema da lei aplicável. Stream of commerce e as normas de ordem pública. – 2.3. Quando contrata. Momento de formação do contrato eletrônico e o dever de confirmação de recebimento da aceitação à oferta. – 2.4. Como contrata. A informalidade do contrato eletrônico e sua prova. – 2.5. O quê contrata. A paradoxal insuficiência da informação no ambiente eletrônico. Publicidade na internet e outras técnicas de incentivo ao consumo. – 3. Direito de arrependimento. Tratamento da matéria no direito brasileiro: Lei 8.078/1990 e Decreto 7.962/2013. Experiência estrangeira: Diretiva 2011/83/CE. Análise comparativa. – 4. Conclusão. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 89 1. O comércio eletrônico no Brasil1 O comércio eletrônico ou e-commerce movimenta bilhões de reais por ano no Brasil. Embora sua parcela mais significativa, sob o prisma econômico, ainda seja representada por operações comerciais realizadas entre os próprios fornecedores, também chamadas relações B2B (sigla em inglês para a expressão business to business), o faturamento do varejo eletrônico ou B2C (business to consumer) tem crescido exponencialmente entre nós.2 Um número cada vez maior de consumidores brasileiros adquire produtos e serviços por meio da internet. O Brasil representa, segundo diversas pesquisas, o maior e mais promissor mercado de e-commerce da América Latina, seguido por México e Chile.3 Teoricamente, o consumidor brasileiro deveria ter mais facilidade de exercer seus direitos no ambiente eletrônico. Sua comunicação com o fornecedor deveria ser mais ágil e célere, por força das tecnologias de comunicação à distância (e-mail) e interativa (chat). As informações sobre o produto ou serviço contratado deveriam ser, em tese, mais amplas e mais acessíveis, já que, ao contrário do que ocorre no comércio tradicional, não há limite físico-espacial para a exposição de dados sobre o objeto da compra. O mesmo vale para os termos contratuais, que podem ser disponibilizados na internet sem a necessidade de um suporte físico em papel e com o auxílio de realces visuais ou de simples mecanismos de busca que facilitem a identificação da informação específica buscada pelo consumidor. Em teoria, portanto, o consumidor deveria enfrentar menos percalços no comércio eletrônico que no comércio tradicional. 1 O autor registra seu agradecimento ao acadêmico de Direito Robson Guimarães Filho, pelo imprescindível auxílio nas pesquisas relativas ao comércio eletrônico e ao tratamento atualmente dispensado à matéria pelos tribunais brasileiros. 2 Segundo dados da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico, o setor B2C foi responsável por um faturamento de 22,5 bilhões de reais no ano de 2012, alcançando um total de 66,7 milhões de pedidos (www.camara-e.net, 20.3.2013). 3 Além disso, o Brasil possui, segundo estudo realizado em 2010, o melhor índice de e-readiness da América Latina. Tal índice procura refletir, por meio da combinação de uma série de variáveis (potencial de demanda, infraestrutura tecnológica, penetração dos diferentes meios de pagamento etc.), a capacidade de cada país para a conversão da internet em um meio efetivo de comércio (relatório da América Economia Intelligence, disponível em www.ecommerceday.mx). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 90 Na prática, todavia, o que se verifica é que os direitos do consumidor brasileiro têm sido frequentemente desrespeitados no e-commerce, cujos índices de reclamação chegam a superar, proporcionalmente, aqueles do comércio tradicional emalgumas regiões do Brasil. Notícias recentes têm revelado um quadro de violações sistemáticas à legislação brasileira por parte de grandes fornecedores eletrônicos de produtos ou serviços. Tome-se como exemplo pesquisa recente realizada pelo Procon do Rio de Janeiro4 que, analisando os sites de 25 fornecedores de produtos e serviços, em diferentes setores da economia, concluiu que nenhum deles respeitava integralmente a legislação brasileira em matéria de direitos do consumidor eletrônico.5 Fazer valer a legislação brasileira no e-commerce não é tarefa simples. A contratação virtual traz uma série de dificuldades e desafios no campo jurídico. 2. Os chamados contratos eletrônicos e os desafios trazidos pela contratação via internet. Nos manuais de direito civil e empresarial publicados no Brasil nos últimos anos, tornou-se comum encontrar referências aos “contratos eletrônicos”, como um “novo” gênero de contratos que se afastaria das regras do direito contratual pátrio, constituindo uma espécie de setor de exceção ou de capítulo à parte dentro do direito privado, a exigir uma legislação própria.6 Em oposição a esta abordagem, há quem sustente que os chamados contratos eletrônicos podem e devem ser tratados exatamente como qualquer outro contrato, afirmando que toda a celeuma criada em torno do tema 4 No sistema brasileiro, os Procons são órgãos ou entidades estaduais ou municipais responsáveis pela proteção dos direitos e interesses do consumidor. 5 Procon Carioca notifica 25 sites de comércio eletrônico, reportagem de Luiza Xavier, publicada no O Globo Online, em 7.8.2013. O relatório do Procon revela, por exemplo, que nenhuma das 25 empresas notificada exibia de forma clara o instrumento contratual. 6 Cite-se, como exemplo desse entendimento, a passagem de Gustavo Testa Corrêa: “A economia está mudando. As transações de bens materiais continuam importantes, mas as transações de bens intangíveis, em um meio dessa mesma natureza, são os elementos centrais da dinâmica comercial contemporânea, do comércio eletrônico. A legislação deverá abraçar um novo entendimento: o de que as mudanças fundamentais resultantes de um novo tipo de transação requererão regras comerciais compatíveis com o comércio de bens via computadores e similares.” (Aspectos Jurídicos da Internet, São Paulo: Saraiva, 2000, p. 38). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 91 reduz-se ao problema da validade do documento eletrônico como meio de prova perante o Poder Judiciário.7 A razão, contudo, não se situa em nenhum dos dois extremos. Por um lado, o que se tem chamado de “contratos eletrônicos” nada mais são que contratos formados por meios eletrônicos de comunicação à distância, especialmente a internet, de tal modo que o mais correto talvez fosse se referir a contratação eletrônica ou contratação via internet, sem sugerir o surgimento de um novo gênero contratual. Por outro lado, parece hoje evidente que os desafios da matéria não se restringem à validade da prova da contratação por meio eletrônico – que, de resto, consiste em ponto superado no direito brasileiro –, mas envolvem diversos aspectos da teoria geral dos contratos que vêm sendo colocados em xeque por essa significativa transformação no modo de celebração dos contratos e no próprio desenvolvimento da relação jurídica entre os contratantes. Com efeito, a contratação eletrônica veio abalar, de um só golpe, cinco referências fundamentais utilizadas pela disciplina jurídica do contrato: quem contrata, onde contrata, quando contrata, como contrata e o quê contrata. Essas cinco questões eram respondidas de maneira relativamente segura nas contratações tradicionais e, por isso mesmo, eram tomadas como parâmetros pelo legislador e pelos tribunais para a determinação da solução jurídica aplicável. No campo dos contratos eletrônicos, responder essas cinco perguntas básicas tornou-se um verdadeiro calvário, como se passa a demonstrar. 2.1. Quem contrata. Semianonimato virtual e o dever de identificação do fornecedor eletrônico. Na contratação presencial entre pessoas naturais, há uma pronta identificação dos sujeitos contratantes. Essa identificação não é tão imediata quando a celebração do contrato envolve pessoa jurídica, já que, nessa hipótese, entram em jogo 7 É a posição de Carlos Gustavo Vianna Direito, para quem “muitas vezes o contrato que está sendo feito por intermédio de uma nova forma de comunicação não traz nenhuma novidade, sendo, pois, um contrato já regulado. A verdadeira questão dos contratos eletrônicos será a forma de prova destes perante o Poder Judiciário.” (Do Contrato – Teoria Geral, Rio de Janeiro: Renovar, 2007, pp. 119-120). Ver, em sentido semelhante, Erica Aoki, para quem “contrato cibernético nada mais é do que aquele contrato firmado no espaço cibernético, e não difere de qualquer outro contrato. Ele apenas é firmado em um meio que não foi previsto quando a legislação contratual tradicional se desenvolveu.” (Comércio Eletrônico – Modalidades Contratuais, Anais do 10º Seminário Internacional de Direito de Informática e Telecomunicações, Associação Brasileira de Direito de Informática e Telecomunicações, 1996, p. 4). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 92 questões atinentes à legitimidade da representação (rectius: presentação). Ainda assim, há mecanismos jurídicos para a verificação da identidade dos contratantes e, mesmo na ausência de sua utilização, o direito prestigia, por meio da teoria da aparência e de outras construções doutrinárias e jurisprudenciais, a confiança depositada na identidade do contratante a partir dos dados físicos que compõem a situação aparente.8 No comércio eletrônico, o problema da identificação do contratante é mais complexo. São numerosos os sites de fornecedores de produtos ou serviços que sequer exibem o nome empresarial da pessoa jurídica responsável pelo fornecimento, limitando-se a exibir um nome fantasia. Muitos sites não trazem informações acerca de endereço físico ou mesmo de número telefônico para contato. O próprio domínio utilizado para hospedar o site (endereço do site) pouco revela, na medida em que seu registro pode ser feito sem a plena identificação do requerente e a consulta pública ao sistema brasileiro de domínios não exibe o nome do titular, mas apenas o servidor DNS.9 O problema se torna ainda mais dramático quando o domínio não é brasileiro (.br), já que cada país possui regras distintas para o procedimento de registro de domínios e a imensa maioria deles não revela publicamente quem são seus titulares. A figura do sujeito de direito se dissipa por completo na internet. O consumidor, confiando na “marca” exibida ou mesmo na “boa aparência” do site, realiza a contratação eletrônica e, somente diante do surgimento de defeitos posteriores, passa a buscar a identidade jurídica do fornecedor, que acaba, em muitos casos, por permanecer oculta. Tal circunstância compromete a efetividade das normas protetivas, na medida em que a ausência de um sujeito passivo plenamente identificado dificulta as comunicações formais entre as partes e impede a adoção de medidas judiciais ou extrajudiciais (notificações etc.) por parte do consumidor lesado. Com o propósito de combater essa e outras dificuldades inerentes ao comércio eletrônico, a Presidente Dilma Rousseff fez publicar, em 15 de março de 2013, o Decreto 7.962, cujo art. 2o determina: Art. 2o Os sítios eletrônicos ou demais meios eletrônicos utilizados para ofertaou conclusão de contrato de consumo devem disponibilizar, 8 Seja consentido remeter a Anderson Schreiber, A Representação no Novo Código Civil, in Direito Civil e Constituição, São Paulo: Atlas, 2013, pp. 61-78. 9 O sistema de nome de domínio (DNS – Domain Name System) é um sistema que nomeia computadores e serviços de rede e é organizado de acordo com uma hierarquia de domínios. Para maiores detalhes, ver Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR – NIC.BR (https://registro.br). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 93 em local de destaque e de fácil visualização, as seguintes informações: I - nome empresarial e número de inscrição do fornecedor, quando houver, no Cadastro Nacional de Pessoas Físicas ou no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas do Ministério da Fazenda; II - endereço físico e eletrônico, e demais informações necessárias para sua localização e contato; (...)10 Como revelou, todavia, a já citada pesquisa do Procon do Rio de Janeiro, numerosos fornecedores continuam descumprindo tais deveres, mantendo-se um cenário de semianonimato eletrônico no Brasil. Tal omissão está a exigir ulterior esforço de controle por parte dos órgãos brasileiros, com a aplicação de sanções mais severas, uma vez que a identificação do fornecedor é imprescindível para a tutela adequada do consumidor no ambiente eletrônico e para a efetiva aplicação das normas de direito contratual. Referido esforço não pode prescindir, contudo, de acordos e convênios internacionais que permitam e imponham a identificação fácil e precisa das sociedades empresárias por trás dos sites de vendas. Mesmo nos países que não contam com normas cogentes nesse sentido, é preciso que se desenvolvam “selos” de qualidade para os sites que cumpram padrões mínimos internacionalmente aceitos, facilitando o acesso do consumidor à pessoa jurídica estrangeira com quem contrata. Nesse passo, assume relevância um segundo aspecto da atividade contratual fortemente atingido pelo comércio eletrônico: o lugar da contratação. 2.2. Onde contrata. A transnacionalidade do contrato eletrônico e o problema da lei aplicável. Stream of commerce e as normas de ordem pública. A internet suprimiu a referência física, geográfica, ao lugar da contratação, noção que era tão cara ao raciocínio do direito civil e do direito internacional privado. Um consumidor brasileiro, em viagem pela Europa, pode visitar o site de uma livraria de Nova Iorque, hospedado em um provedor da Califórnia, para adquirir um livro escrito por um autor francês, produzido por uma editora do Canadá, que lhe será expedido por um distribuidor situado no México ou na Argentina. Tais contratos, como se vê, não 10 O texto do Decreto foi fortemente influenciado pelo Projeto de Lei nº 439 de 2011 (Senado Federal), dedicado à atualização do Código de Defesa do Consumidor em matéria de comércio eletrônico. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 94 são meramente internacionais, no sentido tradicional do termo, mas são verdadeiramente transnacionais, já que transcendem qualquer nacionalidade. A nacionalidade perde, em larga medida, sua importância. O “lugar da contratação” passa, com o comércio eletrônico, a ser uma espécie de abstração,11 uma ficção que os juristas lutam com unhas e dentes para preservar, mas que se revela cada vez mais artificiosa e irreal. Tamanha transformação – talvez a mais significativa dentre todas aquelas trazidas pelo advento da internet – causa profundas consequências no modo de aplicação do Direito, vinculado, desde a formação dos Estados Nacionais, ao território (locus) de exercício da soberania estatal. A comunidade jurídica brasileira parece não ter ainda despertado para a amplitude dessas consequências, que prometem afetar, em última análise, a própria metodologia de produção das normas jurídicas e suas formas tradicionais de aplicação. Em um plano mais específico e mais imediato, porém, a jurisprudência brasileira tem revelado sensibilidade ao examinar ao menos um subproduto dessa mudança: a discussão sobre a lei aplicável ao contrato. A Lei de Introdução às Normas de Direito Brasileiro (Decreto-lei n. 4.657, de 4 de setembro de 1942) determina, em seu art. 9o, que as obrigações são regidas pela “lei do país em que se constituírem”.12 A regra é de fácil aplicação nos contratos celebrados entre presentes, em que a própria situação física dos contratantes já revela o país em que o contrato é celebrado e, portanto, a lei que se destina a regê-lo. Em relação aos contratos celebrados entre ausentes, tal critério afigura-se, porém, inaplicável, tendo o legislador brasileiro recorrido aí a um artifício legal, segundo o qual, na contratação entre ausentes, “a obrigação resultante do contrato reputa-se constituída no lugar em que residir o proponente”.13 A aplicação literal destas regras ao comércio eletrônico resultaria em constante reenvio à lei do país do fornecedor, na medida em que os sites de varejo exibem propostas permanentes ao público que o consumidor simplesmente “aceita” mediante o pressionar de um botão do seu teclado ou mouse.14 Dois problemas relevantes surgiriam. 11 Pense-se, por exemplo, na possibilidade, hoje cada vez mais freqüente, de que o contrato eletrônico seja celebrado por meio de um dispositivo móvel, como telefone celular, tablet ou leitor digital, por um usuário em trânsito. 12 “Art. 9º. Para qualificar e reger as obrigações, aplicar-se-á a lei do país em que se constituírem.” 13 Lei de Introdução às Normas de Direito Brasileiro, art. 9o, §2o. 14 Essa a conclusão praticamente unânime da doutrina brasileira: “Assim, devemos ter em mente que a oferta feita via Web site é, em regra, ad incertas personas, não havendo como prever em que localidade poderá ser acessada. Portanto, o usuário que acessa o site deve ter em mente que está negociando Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 95 Primeiro, em um cenário em que, conforme já destacado, os sites muitas vezes omitem a própria identidade do fornecedor e também o seu endereço físico, o consumidor brasileiro acabaria por se sujeitar à legislação de um país que, no ato da contratação, sequer sabe precisamente qual é, gerando uma situação de inequívoco desequilíbrio em seu desfavor. Segundo, haveria forte estímulo para que fornecedores de produtos ou serviços online transferissem suas sedes para países com baixo grau de proteção normativa ao consumidor, replicando uma espécie de “manipulação” já adotada pelo mercado global em relação à legislação trabalhista, o que geraria prejuízos evidentes à economia brasileira.15 Por essas e outras razões, a jurisprudência brasileira tem caminhado no sentido de afirmar que o Código de Defesa do Consumidor se aplica às relações de consumo estabelecidas entre fornecedores eletrônicos estrangeiros e o consumidor brasileiro. Diferentes fundamentos têm sido utilizados para tanto. Invoca-se, de modo geral, a imperatividade do respeito às normas de ordem pública, ao lado de argumentos ligados à transnacionalidade das marcas comerciais em uma economia globalizada ou a uma importação algo abrangente da teoria do stream of commerce, segundo a qual quem direciona seu comércio aos consumidores de certos países assume o ônus de ter sua atividade disciplinada pelas respectivas leis nacionais.16 Tais soluções não exprimem, como se pode notar, um retorno ou um renovado compromissocom o “lugar da contratação”. Muito ao contrário: exprimem novas formas de identificação da lei aplicável às relações contratuais, que deixam de estar atreladas à geografia da celebração para passarem a exprimir critérios ratione personae, fundados na pessoa do contratante (no caso, o consumidor brasileiro), ou critérios teleológicos, como aqueles fundados na finalidade de proteção do consumidor frente às práticas de mercado, sejam elas nacionais, internacionais ou transnacionais. Parece inegável que o celebrado “fim das fronteiras” promovido pela globalização econômica tem, no comércio eletrônico, servido preponderantemente ao interesse dos fornecedores, que parecem pretender escapar no mundo virtual dos custos e ônus inerentes não apenas sob as regras do local onde está o proponente, como esse estivesse negociando em viagem ao exterior” (Erica Brandini Barbagalo, Contratos Eletrônicos, São Paulo: Saraiva, 2001, p. 72). 15 O Brasil, convém lembrar, é considerado um país de forte legislação consumerista. 16 Ver Superior Tribunal de Justiça, Ação Rescisória 2.931/SP, 4.9.2003. Sobre a teoria do stream of commerce, ver A. Kimberley Dayton, Personal Jurisdiction and the Stream of Commerce, 7 Review of Litigation 239 (1987-88), William Mitchell College of Law. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 96 ao processo econômico de disponibilização dos produtos e serviços, mas também às normas jurídicas que regulamentam sua relação com os consumidores. Impõe-se aqui a resistência do direito às conveniências do mercado, resistência que não deve repousar sobre conceitos como o “lugar da contratação”, mas que deve recorrer abertamente à sua ratio fundamental neste campo: a proteção mais efetiva ao consumidor. Sob o prisma estritamente jurídico, faz-se importante registrar que um dos pilares mais tradicionais do direito dos contratos – aquele que estabelecia uma relação quase “matemática” entre o local da contratação e a lei aplicável ao contrato – foi definitivamente rompido pelo comércio eletrônico, com uma série de consequências ainda não totalmente exploradas, quer no âmbito da teoria geral dos contratos, quer no âmbito do direito internacional privado. 2.3. Quando contrata. Momento de formação do contrato eletrônico e o dever de confirmação de recebimento da aceitação à oferta. A terceira referência basilar da disciplina contratual afetada pela contratação eletrônica diz respeito ao momento da contratação. Quando se reputa firmado o contrato? Exatamente como ocorre em relação ao lugar da contratação, inexiste, no direito brasileiro, uma regra específica que trate do tempo de formação dos contratos celebrados eletronicamente. Aplica-se, a rigor, a norma geral estabelecida no art. 434 do Código Civil, segundo a qual o contrato entre ausentes se forma, em regra, no momento em que a aceitação é expedida17. Trata-se da chamada teoria da expedição mitigada, de longa tradição no direito civil brasileiro. Em um cenário de contratação física, a teoria da expedição traz certa segurança ao aceitante, o qual, no momento em que envia a aceitação, sabe já formado o vínculo contratual, sem que se faça necessária nova manifestação do proponente – o que, em um contexto epistolar, exigiria maior dispêndio de tempo e custo. O envio da aceitação deixa, ademais, vestígios físicos (registro do encaminhamento por correio) que, em uma eventual dúvida quanto à formação ou não do contrato, favorecem o aceitante. No ambiente eletrônico, todavia, essas vantagens desaparecem. O envio da 17 “Art. 434. Os contratos entre ausentes tornam-se perfeitos desde que a aceitação é expedida, exceto: I - no caso do artigo antecedente (art. 432); II - se o proponente se houver comprometido a esperar resposta; III - se ela não chegar no prazo convencionado.” O art. 433, por sua vez, considera “inexistente a aceitação, se antes dela ou com ela chegar ao proponente a retratação do aceitante”. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 97 aceitação ocorre, muitas vezes, por um mero “clique” do usuário e não deixa qualquer prova ou indício de que a operação foi concluída. Para evitar insegurança quanto à realização ou não do negócio virtual, deixando o consumidor ao sabor da conveniência do fornecedor em cumprir ou não a ordem expedida, muitos autores têm defendido o afastamento da teoria da expedição mitigada no campo dos contratos eletrônicos. Nessa direção, o Enunciado 173 da Jornada de Direito Civil, organizada pelo Conselho da Justiça Federal, chega a afirmar: A formação dos contratos realizados entre pessoas ausentes, por meio eletrônico, completa-se com a recepção da aceitação pelo proponente. Tal enunciado, a nosso ver, merece reforma. A uma, porque contraria frontalmente a letra do art. 434, transcendendo o escopo interpretativo dos enunciados para instituir uma orientação antagônica ao texto legal. A duas, porque a adoção da teoria da recepção não resolve o problema da formação dos contratos eletrônicos, na medida em que o consumidor eletrônico continua sem saber se o seu pedido de compra foi recebido, questão que permanece inteiramente na esfera de poder do fornecedor. Em outras palavras, condicionar a formação do contrato ao recebimento da aceitação não diminui em nada a insegurança negocial no ambiente eletrônico. Melhor rumo seguiu o Decreto 7.962, de 15 de março de 2013, que, em seu art. 4o, inciso I, instituiu o dever de confirmação para garantir o atendimento facilitado ao consumidor no comércio eletrônico. Não se trata, a rigor, de uma mudança no momento de formação do contrato, já que o contrato continua se formando independentemente da confirmação, mas sim de um dever legal: passa a incorrer em infração o fornecedor que deixa, nos termos do Decreto, de confirmar “imediatamente o recebimento da aceitação da oferta”.18 Com isso, a legislação brasileira passa a se alinhar, nesse particular, ao direito europeu, que, desde a Diretiva Européia 2000/31/CE, já instituía o dever de confirmação no comércio eletrônico (art. 11).19 Embora não se trate de uma alteração da teoria aplicável à formação dos contratos, a verdade é que a instituição do dever de confirmar o recebimento da 18 “Art. 4o Para garantir o atendimento facilitado ao consumidor no comércio eletrônico, o fornecedor deverá: III – confirmar imediatamente o recebimento da aceitação da oferta (...)”. 19 O mesmo caminho é seguido no Projeto de Lei nº 439 de 2011, que se propõe a atualizar o Código de Defesa do Consumidor com vistas à proteção do consumidor no âmbito do comércio eletrônico (art. 45- D, I). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 98 aceitação sujeita o fornecedor, ao menos em teoria, a sanções bem mais severas (multa, suspensão da atividade etc.)20 que a simples indiferença jurídica ao vínculo formado – o que, de resto, poderia acabar prejudicando o próprio consumidor. Ainda, portanto, que não se tenha ressalvado a aplicação do art. 434 no caso das contratações eletrônicas, a instituição do dever de confirmação modifica a própria abordagem jurídica do tempo de formação do contrato, transcendendo o clássico binômio proposta-aceitação e revelando a passagem de uma lógica puramente estrutural a uma lógica mais funcional e decididamente protetiva. 2.4. Como contrata. A informalidade do contrato eletrônico e sua prova. A forma do contrato desempenha historicamente uma dupla função: por umlado, alerta os contratantes para a seriedade do vínculo contratual, fazendo-os refletir sobre a contratação antes de conclui-la em definitivo.21 Por outro lado, serve, perante os próprios contratantes e a sociedade, como meio de prova da formação do contrato e do seu conteúdo. Ambas as funções se dissipam na internet, onde a contratação é absolutamente informal, desprovida mesmo de qualquer suporte físico. Em contraposição aos instrumentos escritos e assinados da contratação tradicional, a forma da contratação eletrônica resume-se frequentemente à exibição de uma tela ou página virtual que o consumidor pode, se cuidadoso, se dar ao trabalho de imprimir ou copiar para o seu próprio computador ou dispositivo móvel. Pode ainda dispor de um e-mail ou outra forma de aviso eletrônico, como uma breve mensagem ao seu aparelho de telefonia celular (SMS, sigla de Short Message Service).22 Em um passado recente, os juristas brasileiros (como, de resto, os juristas de todo o mundo) discutiam se 20 O art. 7o do mesmo Decreto determina que “a inobservância das condutas” nele descritas enseja a aplicação das sanções previstas no art. 56 do Código de Defesa do Consumidor, que traz o rol genérico de sanções administrativas aplicáveis às infrações da legislação consumerista, como multa, proibição de fabricação do produto, suspensão temporária da atividade etc. 21 Daí as complexas solenidades (fórmulas verbais, atos simbólicos etc.) exigidas no âmbito do direito antigo para a celebração de contratos, algumas das quais deixaram vestígios no hábito dos povos europeus, como a entrega de uma moeda de baixo valor (denier à Dieu) ou a aplicação de uma palmada na face do vendedor, costume ainda utilizado em alguns mercados de gado na Europa central (emptio non valet sine palmata). Ver, sobre o tema, John Gilissen, Introdução Histórica ao Direito, Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2001, 3a ed., p. 734. 22 Embora seja possível a utilização de assinaturas eletrônicas e certificações digitais, seu emprego para fins de aquisição de produtos ou serviços pelo consumidor é muito raro. Sobre o tema das assinaturas eletrônicas e certificações digitais, ver Jorge José Lawand, Teoria Geral dos Contratos Eletrônicos, São Paulo: Juarez de Oliveira, 2003, pp. 141-146. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 99 tais impressões, cópias ou documentos digitais tinham ou não validade como meio de prova, constituíam ou não meros indícios e outras questões que o avanço maciço da cultura digital parece ter tornado um tanto folclóricas. Em que pesem as dificuldades do sistema judiciário em lidar com documentos puramente eletrônicos e a suspeita quase instintiva que recaía, até pouco tempo, sobre cópias impressas de páginas virtuais e e- mails, não parece haver dúvida, atualmente, de que todos esses instrumentos devem ser admitidos como meios probatórios dos direitos discutidos em juízo. O Código Civil brasileiro, de 2002, posicionou-se claramente nesse sentido: Art. 225. As reproduções fotográficas, cinematográficas, os registros fonográficos e, em geral, quaisquer outras reproduções mecânicas ou eletrônicas de fatos ou de coisas fazem prova plena destes, se a parte, contra quem forem exibidos, não lhes impugnar a exatidão. O Enunciado 398 da IV Jornada de Direito Civil, realizada em outubro de 2006, assegurou ainda maior clareza ao texto legal, ao concluir que “os arquivos eletrônicos incluem-se no conceito de ‘reproduções eletrônicas de fatos ou de coisas’, do art. 225 do Código Civil, aos quais deve ser aplicado o regime jurídico da prova documental.” Em consonância com essa orientação, os tribunais brasileiros têm acolhido como meio válido de prova os arquivos digitais.23 Em caso de impugnação da sua veracidade, exige-se perícia, o que, de resto, pode ocorrer também com documentos físicos. A questão meramente probatória parece, portanto, equacionada.24 O mesmo não se pode dizer em relação àquele outra função da forma contratual: a de alertar as partes para a importância e seriedade do vínculo. A contratação via internet realiza-se de modo cada vez mais veloz, sem a adequada pesquisa sobre as características do produto ou serviço contratado, sobre a qualidade do fornecedor ou sobre 23 Ver, por exemplo, acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais, em que se concluiu que: “a despeito de o contrato de prestação de serviços não conter a assinatura da requerida, tal fato não é apto a invalidar o referido ajuste, tendo em vista que o contrato de prestação de serviços educacionais é informal e não exige forma prescrita em lei, podendo até ser firmado verbalmente. O contrato de prestação de serviços, juntado aos autos, ainda que desprovido de assinatura da ré, é suficiente para provar a realização do ajuste, visto que os documentos eletrônicos gozam de valor probante e o documento de fls. 06-09 demonstra que a requerida efetivamente aderiu ao aludido contrato, via internet.” (TJMG, Apelação Cível 1.0024.06.986334-8/001, 17ª Câmara Cível, Rel. Des. Lucas Pereira, DJ 12.7.2007). No mesmo sentido, ver TJSP, Apelação Cível 0018518-77.2010.8.26.0005, 20ª Câmara de Direito Privado, Rel. Des. Maria Lucia Pizzotti, j. 27.8.2012; e TJMG, Apelação Cível 1.0024.07.691106-4/001, 17ª Câmara Cível, Rel. Des. Marcia de Paoli Balbino, j. 19.2.2009, entre outros. 24 O mesmo vale para o cenário internacional em que um número cada vez maior de acordos, convenções e modelos normativos reconhecem expressamente a validade jurídica dos documentos eletrônicos. Cite-se, a título ilustrativo, o art. 5º da Lei Modelo da UNCITRAL sobre Comércio Eletrônico: “Não se negarão efeitos jurídicos, validade ou eficácia à informação apenas porque esteja na forma de mensagem eletrônica” (Organização das Nações Unidas, Nova Iorque, 1997). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 100 as próprias condições do contrato firmado por meio eletrônico. Por mais alarmante que possa parecer essa constatação, o fato é que o consumidor eletrônico não sabe muitas vezes o quê está contratando. 2.5. O quê contrata. A paradoxal insuficiência da informação no ambiente eletrônico. Publicidade na internet e outras técnicas de incentivo ao consumo. Na contratação tradicional, o consumidor tem frequentemente a chance de manusear o produto, de verificar a sua embalagem, de testar seu funcionamento ou ainda de esclarecer dúvidas com um preposto do fabricante ou do comerciante no próprio estabelecimento comercial. Nos sites da internet, ao contrário, as informações são pré- dispostas; o produto é descrito por meio de imagens ou descrições técnicas padronizadas, aplicáveis muitas vezes ao gênero do produto, e não àquela espécie que está sendo efetivamente adquirida. O consumidor eletrônico não tem acesso físico ao bem.25 É certo que poderia buscar, em outros sites da internet, informações, avaliações e depoimentos sobre a qualidade do produto e do fornecedor – alguns sites de compras, inclusive, já fornecem avaliações como parte da sua estratégia comercial –, mas tal conduta é, na prática, rara, seja porque tais informações, potencialmente infinitas, não se encontram ordenadas de modo a facilitar a pesquisa do consumidor, seja porque não são tidas como inteiramente confiáveis, diante das suspeitas de que se prolifera na internet a manipulação das ferramentas de avaliação por meio da contratação remunerada de usuários para que se manifestem sobre certos produtos e serviços (em uma forma oculta e deturpada de marketing, típica do ambientevirtual). O consumidor eletrônico acaba, assim, dispondo paradoxalmente de pouca informação sobre o objeto da sua contratação. Quase sempre o consumidor eletrônico desconhece, também, os termos do contrato, ou seja, as condições contratuais, que são usualmente apresentados pelos fornecedores em um formato que desestimula a leitura, por meio de páginas inteiras de letras miúdas, que contrastam flagrantemente com os elevados investimentos em programação visual realizados nas páginas dedicadas à oferta de produtos. Na maioria dos sites, a passagem da página de ofertas à página que exibe os termos contratuais 25 Alguns autores especulam que, no futuro, essa “perda de aspectos do conhecimento da coisa ou serviço contratado” poderá vir a ser suprida em alguma medida pelo próprio “desenvolvimento tecnológico (vide 3D)” (Alberto Gosson Jorge Júnior, Aspectos da Formação e Interpretação dos Contratos Eletrônicos, in Revista do Advogado, ano 32, n. 115, 2012, p. 17). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 101 configura uma mudança abrupta de formatação, que salta aos olhos do usuário da internet, cada vez mais acostumado com gráficos e imagens de alta resolução. Muitos fornecedores sequer se dão ao trabalho de dividir os termos contratuais em tópicos, o que dificulta a localização pelo consumidor das informações consideradas relevantes para a celebração do contrato. Por todas essas razões, embora, em tese, o consumidor pudesse dispor no ambiente eletrônico de maior tempo de reflexão e de mais instrumentos de busca para obter informações sobre o objeto e os termos da contratação, o certo é que, atualmente, a contratação via internet se faz de modo muito mais desinformado que a contratação física. Tentado pela facilidade de um clique, o consumidor eletrônico compra muitas vezes por mero impulso, sem a necessária reflexão. Técnicas de oferta de produtos impelem o usuário à aquisição, como no exemplo corriqueiro em que, tendo realizado a inserção em seu “carrinho de compras” virtual de um produto do qual realmente necessita, o consumidor se vê prontamente provocado pelo site a adquirir produtos acessórios àquele que foi selecionado, ou outros produtos daquele mesmo fabricante, ou, ainda, produtos adquiridos por outras pessoas que adquiriram aquele mesmo produto,26 em um ciclo interminável de estímulos ao consumo imediato. A publicidade também desempenha aí um papel relevante. Ao contrário do que ocorre no mundo físico – em que a publicidade se restringe a espaços e momentos relativamente delimitados –, no mundo virtual, a publicidade ocorre em uma espécie de fluxo permanente, que acompanha o usuário em qualquer momento da navegação. Banners surgem nos rodapés e cabeçalhos de páginas que aparentemente não tinham conteúdo comercial; pop-ups pipocam diante do usuário, impedindo-o de prosseguir navegando; spams abarrotam caixas de entrada de e-mails. Em sites de busca, links patrocinados se misturam a resultados relevantes, quando muito com uma sutil diferenciação em relação à cor das letras ou do pano de fundo. Vídeos aparentemente reais são postados em redes sociais, sem nenhum alerta acerca de seu cunho comercial, para servirem de teasers de futuras campanhas publicitárias.27 Diversamente do 26 Técnica que explora nitidamente os sentimentos humanos de identificação com o próximo e de pertencimento a grupos sociais, em estratégia que, embora não seja inédita no mundo comercial, assume no ambiente eletrônico dimensões nunca antes imaginadas. 27 Exemplo recente foi o vídeo Perdi meu amor na balada, postado por um rapaz que pedia ajuda para encontrar o número de telefone de uma moça que conhecera na noite paulistana. Revelou-se mais tarde que o vídeo havia sido produzido por certa fabricante de celulares e integrava uma campanha publicitária Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 102 espectador televisivo, que ainda tem a alternativa de mudar de canal durante o intervalo comercial, o usuário da internet sujeita-se todo o tempo ao bombardeamento publicitário, em um continuado e permanente incentivo ao consumo. Resistir a tal incentivo torna-se tarefa ainda mais árdua na medida em que a publicidade eletrônica vai ganhando, a cada dia, um perfil mais e mais personalizado. A coleta de dados do usuário – por meio de cookies e outras técnicas de transparência reduzida e legalidade duvidosa – tem permitido o desenvolvimento de perfis de usuários que são utilizados pelos fornecedores para direcionar o conteúdo da mensagem publicitária e da oferta de produtos na internet. Se a personalização da oferta, por um lado, poupa tempo ao consumidor eletrônico (livrando-o do oferecimento de produtos que seriam, provavelmente, “indesejáveis”), torna, por outro lado, muito mais dificultosa a tarefa de refletir sobre a contratação, na medida em que dados pessoais obtidos sem autorização do usuário são usados para estimular de modo praticamente irresistível a aquisição dos produtos ou serviços de que supostamente necessitaria. A manobra associa-se não raro a ofertas de financiamentos, com disponibilidade imediata dos recursos econômicos exigidos para a aquisição, completando-se o ciclo do consumo compulsivo, resumido no bordão “compre o que você não precisa com o dinheiro que você não tem”. Todo esse novo arsenal de técnicas de marketing eletrônico exige posturas mais definidas por parte do sistema jurídico brasileiro, pouco preparado para lidar com essas questões. Em primeiro lugar, impõe-se a aprovação imediata de uma legislação que proteja efetivamente os dados pessoais. O Brasil não conta com um marco normativo claro nessa matéria, encontrando-se, já há alguns anos, no Ministério da Justiça um projeto de lei de proteção de dados pessoais, que, após um período de debate público, parece aprisionado em um processo excessivamente lento de produção e aperfeiçoamento dentro do próprio Ministério – prisão da qual não foi capaz de se libertar nem mesmo na esteira do recente furor provocado pela descoberta de monitoramento da agência de segurança dos Estados Unidos sobre as comunicações da Presidente Dilma Rousseff.28 que somente veio a público semanas depois. O caso rendeu procedimentos no Procon de São Paulo e no CONAR (Conselho de Autorregulamentação Publicitária). 28 Uma das muitas repercussões do chamado caso Edward Snowden, a revelação do monitoramento gerou a exigência de explicações por parte do Governo brasileiro, respondidas pela administração Barack Obama com o argumento de que a legislação interna brasileira não veda as condutas adotadas. Ver, entre Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 103 Além de uma política pública de proteção de dados pessoais impõe-se uma regulamentação mais efetiva da atividade publicitária no Brasil, ainda disciplinada de modo bastante lacônico pelo Código de Defesa do Consumidor, por meio de conceitos excessivamente genéricos (como a “publicidade abusiva” do art. 37, §2o),29 cuja aplicação acaba sendo controlada quase que exclusivamente pelo Conselho de Autorregulamentação Publicitária. Em que pese o esforço do referido Conselho, suas decisões acabam sendo guiadas pelo subjetivismo inerente à aplicação daqueles conceitos abertos, sem a formulação de standards de comportamento, resultando em um conjunto de precedentes que não dão maior segurança nem ao consumidor, nem ao mercado publicitário. Por fim, cumpre amparar e desenvolver,no campo das contratações eletrônicas, mecanismos de “saída” ou reversão, voltados a tutelar o direito de reflexão do consumidor no ambiente virtual. Esse é o ponto que tem maior relação com a temática geral desse estudo e aqui o ordenamento brasileiro já tem dado alguns passos, especialmente no tocante ao chamado “direito de arrependimento”. Convém examinar o tema em separado. 3. Direito de arrependimento. Tratamento da matéria no Direito Brasileiro: Lei 8.078/1990 e Decreto 7.962/2013. Experiência estrangeira: Diretiva 2011/83/CE. Análise comparativa. O direito de arrependimento, também chamado direito de reflexão, foi instituído pelo art. 49 do Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/1990), em que se lê: Art. 49. O consumidor pode desistir do contrato, no prazo de 7 dias a contar de sua assinatura ou do ato de recebimento do produto ou serviço, sempre que a contratação de fornecimento de produtos e serviços ocorrer fora do estabelecimento comercial, especialmente por outras notícias, reportagem de Glenn Greenwald, Roberto Kaz e José Casado, EUA espionaram milhões de e-mails e ligações de brasileiros, publicada no jornal O Globo Online em 6.7.2013. 29 O Código de Defesa do Consumidor, a rigor, não define a publicidade abusiva, mas apenas a exemplifica, deixando ampla margem à interpretação do conceito: “Art. 37. (...) §2o. É abusiva, dentre outras a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança.” Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 104 telefone ou a domicílio. Parágrafo único. Se o consumidor exercitar o direito de arrependimento previsto neste artigo, os valores eventualmente pagos, a qualquer título, durante o prazo de reflexão, serão devolvidos, de imediato, monetariamente atualizados. A norma já se aplicava, a toda evidência, às contratações eletrônicas, realizadas inegavelmente “fora do estabelecimento comercial”.30 Para afastar, porém, qualquer dúvida quanto ao ponto, o Decreto 7.962/2013 tratou expressamente do direito de arrependimento ao cuidar do comércio eletrônico: Art. 5o. O fornecedor deve informar, de forma clara e ostensiva, os meios adequados e eficazes para o exercício do direito de arrependimento pelo consumidor. § 1o O consumidor poderá exercer seu direito de arrependimento pela mesma ferramenta utilizada para a contratação, sem prejuízo de outros meios disponibilizados. § 2o O exercício do direito de arrependimento implica a rescisão dos contratos acessórios, sem qualquer ônus para o consumidor. § 3o O exercício do direito de arrependimento será comunicado imediatamente pelo fornecedor à instituição financeira ou à administradora do cartão de crédito ou similar, para que: I – a transação não seja lançada na fatura do consumidor; ou II – seja efetivado o estorno do valor, caso o lançamento na fatura já tenha sido realizado. § 4o O fornecedor deve enviar ao consumidor confirmação imediata do recebimento da manifestação de arrependimento. 30 Como registrava Ruy Rosado de Aguiar Júnior, ao afirmar, em 2000, que o direito de arrependimento (art. 49, CDC) “é perfeitamente aplicável aos negócios realizados através da rede mundial de computadores” (Ministro do STJ alerta para a fragilidade jurídica dos contratos eletrônicos, 26.9.2000, disponível em www.stj.gov.br). Em sentido contrário, doutrina minoritária invoca o conceito de estabelecimento comercial virtual para sustentar que a compra realizada via internet não se dá fora do estabelecimento comercial. Acrescenta que o consumidor eletrônico é quem tem a iniciativa da compra, razão pela qual teria tempo de sobra para reflexão. Sobre o tema, com detalhes sobre os dois posicionamentos, ver Caio Rogério da Costa Brandão, O Direito de Arrependimento nos Contratos Eletrônicos, in Juris Plenum, ano III, n. 13, 2007, pp. 16-17. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 105 O decreto presidencial vai, como se vê, além do que já dispunha o art. 49 do código consumerista, contemplando alguns aspectos adicionais do tema, como a facilitação da comunicação do exercício do direito de arrependimento pelo consumidor eletrônico e o dever do fornecedor de confirmar imediatamente o recebimento da manifestação de arrependimento, além dos efeitos do arrependimento sobre contratos acessórios. O Projeto de Lei 439/2011, que trata do comércio eletrônico e se encontra atualmente em tramitação no Congresso Nacional, dispõe sobre o tema no mesmo sentido. Sua aprovação continua a se fazer necessária para evitar qualquer discussão jurídica quanto à possibilidade de regulamentação do tema por meio de decreto. O art. 5o do Decreto 7.962 representa, sem dúvida, um avanço, na medida em que, para além de reiterar a aplicabilidade do direito de arrependimento ao comércio eletrônico, aborda mais dois ou três aspectos do tema. Nada obstante, é certo que a legislação brasileira poderia ter ido muito além. Uma incursão pelo cenário europeu revela não apenas níveis de proteção mais elevados nessa matéria, mas também uma abordagem de natureza distinta, que contribui para a efetividade do direito de arrependimento no comércio eletrônico daquele continente. Com efeito, a Diretiva 2011/83/CE ocupa-se de modo bastante detalhado do direito de arrependimento, a que denomina “direito de retractação” (na versão oficial em língua portuguesa).31 O artigo 9o da referida Diretiva institui o prazo de 14 dias para a retratação do contrato celebrado à distância ou fora do estabelecimento comercial – o dobro, portanto, do prazo previsto na legislação brasileira. Registra, ainda, expressamente a desnecessidade de indicação de qualquer motivo para o exercício da retratação. O artigo 10 determina que, se o fornecedor deixar de informar ao consumidor sobre a possibilidade, as condições, o prazo e o procedimento de retratação,32 o prazo se estende adicionalmente por 12 meses após o término do prazo original de 14 dias. Ao contrário, portanto, da legislação brasileira, que impõe o dever de informação sobre o direito de arrependimento sem uma sanção específica,33 a Diretiva europeia estabelece uma significativa extensão do prazo aplicável em caso de descumprimento. 31 Em inglês, right of withdrawal e, em espanhol, derecho de desistimiento. 32 Conforme impõe o artigo 6o, item 1, alínea h, da mesma Diretiva, que prevê ainda a disponibilização de um modelo de formulário para o exercício do direito de retratação, sem prejuízo da possibilidade de outros meios de comunicação do referido exercício (artigo 11, item 1, alínea b). 33 O art. 5o do Decreto 7.962 impõe o dever de informar “de forma clara e ostensiva” os meios adequados e eficazes para o exercício do direito de arrependimento, mas não contém qualquer sanção Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 106 A Diretiva 2011/83/CE regula, ainda, minuciosamente nos inúmeros subitens dos seus artigos 13 e 14 os custos envolvidos no procedimento de retratação – diferentemente da legislação brasileira que não traz quaisquer considerações específicas sobre o assunto. De acordo com a Diretiva, o consumidor europeu está, em regra, isento de custos e tem direitoao reembolso de suas despesas, mas o artigo 13 prevê algumas situações de imunidade do fornecedor, como na hipótese em que o consumidor opta livremente por uma modalidade mais onerosa de envio que a modalidade padrão (artigo 13, item 2). A Diretiva assegura, ainda, ao consumidor o direito de receber o reembolso das suas despesas pelo “mesmo meio de pagamento que o consumidor usou na transação inicial”, aspecto não regulado no direito brasileiro e que tem gerado, entre nós, numerosos abusos no momento de exercício do direito de arrependimento, como a famigerada prática de substituir o reembolso efetivo do consumidor por um “crédito” junto ao fornecedor. A Diretiva europeia enfrenta, ainda, os dois principais aspectos que têm sido invocados pelos fornecedores brasileiros em oposição ao direito de arrependimento. São eles: (i) a questão da depreciação do produto já entregue ao consumidor; e (ii) a inaplicabilidade do direito de arrependimento em casos envolvendo o fornecimento de produtos e serviços de fruição imediata, especialmente conteúdo digital oferecido via internet. Quanto ao primeiro aspecto, a Diretiva 2011/83/CE atribui ao consumidor responsabilidade pela depreciação “que decorra de uma manipulação dos bens que exceda o necessário para verificar a natureza, as características e o funcionamento dos bens” (artigo 14, item 2).34 O consumidor europeu não é, como se vê, isento de responsabilidade, devendo ter cautela no recebimento do produto adquirido à distância. A instituição de norma semelhante é possível e recomendável no direito brasileiro, pois, além do desestímulo a eventuais abusos episódicos, ajudaria a afastar em definitivo argumentos ligados a uma certa “infantilização” do consumidor brasileiro e à instituição de ônus insuportáveis sobre os fornecedores no cenário nacional. específica para o descumprimento desse dever. O art. 7o do mesmo Decreto determina que “a inobservância das condutas” nele descritas enseja a aplicação das sanções previstas no art. 56 do Código de Defesa do Consumidor, que traz o rol genérico de sanções administrativas aplicáveis às infrações da legislação consumerista, como multa, suspensão da atividade etc. Não há, todavia, menção à extensão de prazo, o que afasta tal possibilidade no ordenamento brasileiro, diante do princípio da prévia estipulação legal da pena. 34 Também aqui a falta de informação sobre o direito de arrependimento sujeita o fornecedor a um ônus agravado, dispondo a parte final do referido item 2 que “o consumidor não é, em caso algum, responsável pela depreciação dos bens quando o profissional não o tiver informado do seu direito de retractação”. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 107 Em relação ao segundo aspecto, que diz respeito aos casos de inaplicabilidade do direito de arrependimento, a Diretiva europeia trata do tema no seu artigo 16. Em treze alíneas prevê exceções à incidência do direito de arrependimento, como, por exemplo, os “contratos celebrados em hasta pública”, o “fornecimento de bens susceptíveis de se deterioarem ou de ficarem rapidamente fora do prazo”, o fornecimento de bens ou serviços “cujo preço depende de flutuações do mercado financeiro que o profissional não possa controlar e que possam ocorrer durante o prazo de retractação”, o fornecimento de “gravações de áudio ou vídeo seladas ou de programas informáticos selados a que tenha sido retirado o selo após a entrega” e o fornecimento de “conteúdos digitais que não sejam fornecidos num suporte material, se a execução tiver início com o consentimento prévio e expresso do consumidor e o seu reconhecimento de que deste modo perde o direito de retractação”, entre outros. Ao contrário do que poderia parecer em uma primeira leitura, tais exceções não representam um decréscimo no nível de proteção ao consumidor europeu. A incidência do direito de arrependimento já não seria reconhecida pelos tribunais dos países europeus na imensa maioria dessas situações, muitas delas de clareza intuitiva. A previsão explícita de tais situações traz, contudo, a necessária segurança ao mercado e contribui para a instituição de cuidados recíprocos, como a obtenção do expresso reconhecimento pelo consumidor da perda do direito de arrependimento como etapa prévia do início da fruição de conteúdos digitais. Previne, ademais, o prolongamento de discussões tautológicas – às vezes, puramente acadêmicas – que têm servido de entrave, entre nós, para uma tutela mais efetiva do direito de arrependimento. De modo geral, pode-se dizer que o movimento consumerista brasileiro, após um momento inaugural altamente profícuo e feliz – representado pela edição da Lei 8.078, em 1990, e pela sua consolidação na jurisprudência nacional ao longo da década seguinte –, tornou-se cauteloso, talvez excessivamente cauteloso. Os Projetos de Lei apresentados no âmbito da chamada atualização do Código de Defesa do Consumidor trazem inovações importantes (cujos efeitos transcendem, aliás, a própria esfera do direito do consumidor), mas se restringem, essencialmente, a consagrar cláusulas gerais ou normas abertas. Receosos talvez de retrocessos na proteção do consumidor e cuidadosamente elaborados com vistas à facilitação da chancela do Congresso Nacional, tais projetos evitaram o detalhamento e a especificação procedimental que poderiam afastar perigos imaginários e contribuir para a elevação do nível do debate desses temas no espaço público brasileiro. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 108 Se a postura adotada afigura-se adequada ou não só o tempo dirá. O que parece insólito é que uma norma infralegal, como o Decreto 7.962, tenha se limitado ao mesmo formato, disciplinando em termos vagos e genéricos aquilo que poderia ter disciplinado em termos mais específicos, como é o caso do direito de arrependimento. Ao lado da Diretiva europeia – que já é bem mais genérica que as leis nacionais dos países europeus –, o Decreto 7.962 soa como norma programática, sem embargo das melhorias gerais que trouxe ao campo da contratação eletrônica. O que mais assusta, nesse exemplo recente, é a olímpica indiferença à experiência estrangeira, especialmente a experiência europeia que, nesse campo, guarda íntima proximidade com as bases do consumerismo brasileiro.35 Não se trata apenas de observar a Diretiva 2011/83/CE; o comércio eletrônico europeu não é, obviamente, regulado por uma norma única, mas por um complexo tecido normativo, composto de diferentes Diretivas (Diretivas 2000/31/CE, 2002/65/CE, 2008/48/CE, entre outras), às quais se somam diferentes leis nacionais que procuram incorporar as orientações contidas nas Diretivas, mas não raro vão além, instituindo normas tipicamente locais. Há nesse rico arcabouço uma série de normas que poderiam ter servido de inspiração ao legislador brasileiro, mas que acabaram não refletidas nem no Decreto 7.962, nem no Projeto de Lei 439/2011, como o chamado “conteúdo mínimo” dos contratos eletrônicos e a transparência na informação dos preços envolvidos na contratação à distância (sendo certo que, no Brasil, tais preços são mal informados ao consumidor eletrônico, surpreendido, não raro, com o acréscimo de fretes, comissões, taxas privadas e tributos para cuja existência não é alertado no momento oportuno). Essas e outras questões vêm sendo deixadas para o futuro pelo Poder Legislativo brasileiro, prolongando um desnecessário desnível entre o tratamento dispensado pelos mesmos conglomerados transnacionais aos consumidores brasileiros e europeus, em flagrante desfavor dos primeirose em assimetria injustificável num mercado que se pretende global. 35 Para muitos autores, a abordagem norte-americana, especialmente em relação ao consumo via internet, é considerada mais próxima de uma ótica de laissez faire ou de autorregulação, refletindo talvez um maior entusiasmo norte-americano pelas novas tecnologias, em oposição a uma postura mais ambivalente e cautelosa da União Européia (Jane Kaufman Winn e Jens Haubold, Electronic Promises: Contract Law Reform and E-Commerce in a Comparative Perspective, disponível em www.law.washington.edu, p. 3). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 109 4. Conclusão. Os chamados contratos eletrônicos não representam um mundo à parte, estranho ao direito dos contratos ou governado por regras próprias. Não se trata de uma dimensão paralela que somente aparenta similaridade com a realidade tradicional, como uma espécie de Matrix, lembrada na epígrafe a este artigo.36 A contratação eletrônica traz inúmeras questões novas, mas se insere no tratamento sistemático dos contratos no direito brasileiro. Seus pontos de dissonância com a teoria geral tradicional representam frequentemente oportunidades para rever dogmas rígidos que já não se justificam mais, nem mesmo fora do ambiente eletrônico (como se viu na discussão pertinente à prova do contrato). Noutros casos, trata-se de instituir novos mecanismos jurídicos de proteção contra novos riscos que surgem especialmente – mas nem sempre de modo exclusivo – no ambiente eletrônico. Foi o que se viu no tocante ao direito de arrependimento. A importância da sua efetividade cresce exponencialmente com a ampliação do comércio eletrônico e da contratação de produtos e serviços via internet. Nem por isso se trata de um instituto exclusivamente eletrônico. Sua aplicação estende-se a toda contratação celebrada à distância ou fora do estabelecimento comercial. Sua inspiração radica na ideia da falta de reflexão adequada do consumidor sobre a contratação do produto ou serviço. Se é certo, por um lado, que essa falta de reflexão se torna especialmente perceptível no ambiente eletrônico, devido às notáveis técnicas de impulsão ao consumo virtual, situação muito semelhante verifica-se com quem contrata por telefone ou por correspondência. Nem se deve excluir sua aplicabilidade a contratações realizadas em determinadas circunstâncias dentro do próprio estabelecimento comercial. Embora essa última hipótese não seja reconhecida pela legislação brasileira (nem pelas diretivas europeias, registre-se), pode-se defender a aplicação do direito de arrependimento por analogia àquelas situações em que o contratante, embora dentro do estabelecimento, é conduzido à contratação por circunstâncias que o impedem de refletir. É o que ocorre diante de algumas estratégias agressivas de marketing, voltadas 36 Matrix foi uma produção cinematográfica de 1999, dirigida pelos irmãos Wachowski. Relata a história de um mundo simulado criado por máquinas inteligentes para manter os seres humanos conectados a uma rede de geração de bioenergia. Foi considerada, ainda em 1999, uma típica produção de estética pós- moderna, por promover uma espécie de bricolagem de elementos de ficção científica, histórias em quadrinho, animes, religião messiânica, ecologia e filosofia. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 110 a produzir artificialmente um cenário de contratação inevitável, como nos casos de fornecedores que, para obter a venda de unidades imobiliárias em grandes complexos residenciais, oferecem passeios a toda a família do consumidor para, logo em seguida, conduzir todo o grupo ao estabelecimento para fins de assinatura do instrumento contratual. Veja-se ainda o caso dos estabelecimentos comerciais multifuncionais, em que não raro se misturam ofertas de serviços de lazer com a possibilidade de contratações imediatas, calcadas justamente na impossibilidade de reflexão prolongada pelo consumidor (como no exemplo do restaurante que contém loja de vinhos ou no clube noturno que, próximo ao balcão de bebidas e coquetéis, oferece a venda de passagens aéreas last minute para destinos exóticos). Como se vê, o tema do direito de arrependimento – como tantos outros aspectos que são discutidos sob a rubrica geral da contratação eletrônica – não consiste em exclusividade do ambiente virtual. A contratação eletrônica representa, antes, uma oportunidade para identificar o problema bem mais profundo da contratação irrefletida e do estímulo ao consumo compulsivo. Um tratamento jurídico adequado não pode, portanto, estar restrito ao locus onde a questão se coloca com maior frequência, mas deve se inserir no sistema jurídico como um todo. Regras específicas podem e devem ser editadas para o comércio eletrônico (como, por exemplo, as que dizem respeito à identificação clara e precisa do fornecedor nos sites de ofertas), mas isso não faz da contratação virtual um mundo apartado do sistema jurídico, sujeito a conclusões de ocasião. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 111 A FORÇA OBRIGATÓRIA DOS CONTRATOS NO BRASIL: UMA VISÃO CONTEMPORÂNEA E APLICADA À LUZ DA JURISPRUDÊNCIA DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA EM VISTA DOS PRINCÍPIOS SOCIAIS DOS CONTRATOS1 The binding force of contracts in Brazil: a contemporary vision applied in the light of superior court of law’s justice in view of social principles of contracts Paulo Nalin Professor Adjunto de Direito Civil na Universidade Federal do Paraná. Pós-doutor pela Universität Basel (Universidade da Basiléia-Suíça). Doutor e Mestre em Direito das Relações Sociais pela Universidade Federal do Paraná. Integrante e Coordenador de Eixo do Projeto de Pesquisa Virada de Copérnico (UFPR/UERJ). Associado: Instituto de Direito Privado (IDP), Instituto dos Advogados do Paraná (IAP), Instituto de Direito Civil (IDC), Instituto de Direito Comparado Luso-Brasileiro (IDCLB). Advogado e árbitro. Resumo: O presente texto busca estabelecer um diálogo entre o clássico princípio contratual do pacta sunt servanda e os princípios sociais da moderna teoria dos contratos. Pretende responder em que medida e alcance pode se entender como obrigatório um contrato diante de princípios ou valores sociais como a dignidade da pessoa human, a função social do contrato e a boa-fé. Como critério de pesquisa, lançou-se mão da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, inclusive para demonstrar como a Corte responde a tal diálogo e se dos seus julgados pode-se extrair uma linha jurisprudencial uniforme. Palavras-chave: contrato; princípios contratuais; pacta sunt servanda; função social do contrato; dignidade da pessoa humana; boa-fé; jurisprudência; Superior Tribunal de Justiça (STJ). Abstract: This paper seeks to establish a dialogue between the classical contractual principle of pacta sunt servanda and social principles of the modern theory of contracts. Aims to answer to how the contract can bind the parties and to what extent and scope it can be understood as mandatory before a contract principles or social values such as human dignity, the social function of the contract and good faith. As the search criteria, it employed the jurisprudence of the Superior Tribunal de Justiça (STJ), including to demonstrate how the Court responds to this dialogue and if one can extract a uniform line of jurisprudence.1 O presente trabalho foi pensado e desenhado para operadores do direito do common law, contando com uma versão em inglês. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 112 Key-words: contract; contractual principles; pacta sunt servanda; social function of the contract; human dignity; good faith; jurisprudence; Superior Tribunal de Justiça (STJ). Sumário: Introdução – 1. A força obrigatória dos contratos como princípio clássico e estruturante do sistema contratual brasileiro – 2. Os princípios sociais da Constituição de 1988 – 3. O impacto do Código de Defesa do Consumidor e a lógica contratual do final do séc. XX – 4. A força obrigatória e a sua relativização à luz do CC de 2002: ponto e contraponto – 5. O entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre a obrigatoriedade dos contratos e os princípios sociais do Código Civil brasileiro – 6. Notas conclusivas. Introdução O presente trabalho é destinado ao conhecimento essencial e panorâmico do princípio da força obrigatória dos contratos, também conhecido como princípio da intangibilidade dos contratos e no ambiente do civil law europeu continental como pacta sunt servanda. A análise será contextualizada no Brasil ao longo de aproximados 110 anos, entre o Século XX e início do corrente Século XXI. E apesar de o trabalho não ter uma proposta histórica, utilizar-se-á uma cronologia identificada com quatro marcos legislativos de substancial importância para a compreensão do versado princípio: o Código Civil de 1916 (CC-16), a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CR), o Código de Defesa do Consumidor de 1990 (CDC) e o Código Civil de 2002 (CC- 02), em vigor. A opção por relacionar o desenvolvimento do princípio em questão a marcos legislativos contempla em si um paradoxo, qual seja, nenhum dos textos legais mencionados, notadamente aqueles de natureza essencial privada (CC-16, CDC e CC- 02), estabilizou o princípio em suas bases estruturais, embora seja ele indispensável para a operacionalização do direito contratual brasileiro. Em outros termos, o direito infraconstitucional Brasileiro não regulamentou, na sua fonte positiva, o princípio da força obrigatória dos contratos, sendo, portanto, princípio abstrato, embora isso não lhe subtraia força ou minimize a sua eficácia nas relações contratuais. De outro giro, o pacta sunt servanda é corolário lógico da autonomia privada e da liberdade contratual, que também compõem a constelação principiológica Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 113 brasileira, sendo a autonomia privada assentada no próprio texto constitucional (arts. 170, caput, CR2) e a liberdade contratual (na dição da lei seria “a liberdade de contratar”) prevista pelo CC-02 (art. 421 CC-02). Também serão apresentadas algumas perspectivas elementares sobre tais princípios, já que constituem premissas ideológicas e dogmáticas sobre a obrigatoriedade dos contratos. Após percorrer as sendas do Direito positivo e da doutrina brasileira mais refinada, será analisada a recepção do princípio na sua forma contemporânea pelo Superior Tribunal de Justiça, que por atribuição de competência constitucional oferece a última palavra sobre o tema, quando posto a julgamento. 1. A força obrigatória dos contratos como princípio clássico e estruturante do sistema contratual brasileiro A força obrigatória dos contratos encontra nas premissas ideológicas da Revolução Francesa a sua base dogmática, já que o Código Civil Francês de 1804 (Code) incorporou liberdade, igualdade3 e solidariedade em sua estrutura. Por sua vez, servindo o Code de grande referencial teórico para a Modernidade contratual4, não poderia ele deixar de lançar luzes para todos os povos do cenário europeu-continental sob influência politica, militar, econômica e cultural da França liberal. Com efeito, o Brasil colonial recebeu as influências da onda liberal que emanavam da metrópole portuguesa que, não obstante uma inegável aliança britânica, especialmente ao longo do Sec. XIX, jamais se afastou das linhas jurídico-culturais francesas. Tanto é assim que precedeu ao Código Civil de Seabra (1867) a ideia de ser adotado, simplesmente, o próprio Code, em solo português5. 2 Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: 3 ROPPO, Enzo. O contrato. Coimbra: Almedina, 2009, p. 32. 4 Entendo que a modernidade contractual iniciou com a Revolução Francesa, pois com ela consolida- se a ruputura com o modelo contractual do medievo, a qual o iluminismo-racionalista tratou de modificar. Sob o ponto de vista estrutural, o contrato é o mesmo desde o Code (acordo de vontades destinado a produzir efeitos jurídicos). Com a pós-modernidade (que se inicial no espaço Europeu do entre Guerras) o contrato passa a ser observado não só a partir da sua estrutura, mas também em vista da sua função (Vide, sobre o tema, o nosso O conceito pós-moderno de contrato: em busca da sua formulação da perspectiva civil-constitucional. 2 ed. Curitiba: Juruá, 2006). 5 MENEZES CORDEIRO, António. Tratado de direito civil português. 3 ed. Coimbra: Almedina, 2005, t. 1, p. 123. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 114 Não obstante a originalidade dos códigos civis do séc. XIX, dentre os quais o próprio Código Civil de Seabra e dentre todos, o mais notável, o Código Civil alemão (BGB), nenhum deles teve a capacidade de romper com a ideologia liberal que justificava a própria concepção de um modelo legal codificado, aos moldes do código civil francês. Paradoxalmente, a ideologia que subjaz da concepção de código, único e totalizante (uma síntese legal que se propõe a esgotar o fato social), é o reflexo do espírito liberal que contemporaneamente não mais se apresenta nos Estados que adotaram e segurem empregando o próprio modelo codificado, tal qual o Brasil. Retomando a linha da formação do Direito Civil brasileiro, fruto de amplos estudos, sucessivas comissões e codificadores do Séc. XIX, vem a tona o Código Civil Brasileiro de 1916 (5/1/1916), por força do trabalho codificador de Clóvis Beviláqua que em 1899 foi contrato pela jovem República Brasileira para codificar o Direito Civil nacional. Naturalmente, por se tratar de um Código Civil que encerrava o Séc. XIX, antes de ser um trampolim para o Séc. XX, acabou por reproduzir toda a carga ideológica liberal daquele século, nele se encontrando as premissas da igualdade e da liberdade, tal qual no Code. Na corriqueira esteira do envelhecimento de todos os códigos, observa- se o fenômeno da descodificação e da recodificação do Direito Civil Brasileiro, culminando tal processo no Projeto de Código Civil de 1975, o qual acabou por ser promulgado em 10 de janeiro de 2002, com vacatio legis de doze meses. É nesse momento que nos encontramos na base infraconstitucional e cujo texto legal será o objeto central destas breves páginas. Embora sejam legítimas e firmes as críticas que se levantaram contra a recodificação do Direito Civil brasileiro, ao menos por meio de um modelo do tipo francês, em verdade a orientação metodológica do CC-02 se baseia nas premissas da socialidade e da concreção, abrindo campo para a atividade construtiva da jurisprudência6, a justificar a metodologia aqui eleita. 6 Exposição de motivos do supervisore da comissão revisora e elaboradora do código civil, p. 29- 30. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 115 Ademais, a proposta do codificador era a de substituir a concepção individualista do sujeito de direito pelo conceito de pessoa humana, além de compreender o CC-02 como lei básica, mas não global7 do Direito Privado brasileiro. A rotação do atual CC-02 em favor da socialidade, da pessoa humana e do reconhecimento da sua condição de “lei básica, mas não geral”, traz consequência diretas para a reconstrução do princípio da liberdade contratual e da força obrigatória dos contratos, pois a vontade negocial, antes dogmática e intangível mesmo ao juiz que se submetia à vontade da partes, sede espaço à alteridade negocial e ao valor maior da pessoa humana: mitiga-se o papel da vontade negocial para ganhar em dimensão o valor da pessoa humana, na figura do contratante e dos seus interesses patrimonial e existencial. A relação obrigacional, nesta toada, passa a ser uma situação jurídica complexa8 (patrimonial e existencial) fundada na cooperação entre contratantes. Essa é a mensagem que nos é transmitida pela função social (art. 4219 CC-02) do contrato e pela boa-fé objetiva (arts. 11310 e 42211 CC-02). A questão central é saber em que medida o contrato ainda é obrigatório, em vista da reconfiguração da liberdade contratual e do seu princípio consequente, a força obrigatória do contrato, por conta desse novo modelo social do contrato brasileiro. E mais, do ponto de vista metodológico, o CC-02 inovou ao incorporar o Direito de Empresas em seu texto (arts. 966 a 1195) e por extensão os contrato então ditos comerciais (empresariais) também foram inseridos no novo código. Consequentemente, uma segunda provocação se apresenta: os contratos empresariais recebem do legislador brasileiro a mesma valoração que os contratos civis, de modo a serem eles interpretados, qualificados e integrados à luz de valores e princípios sociais, ou teriam eles uma lógica própria? 7 Idem, p. 27. 8 NALIN, Paulo; XAVIER, Marilia Pedros; XAVIER, Luciana Pedroso. A obrigação como processo: releitura essencial trinta anos após. Dialogos sobre o Direito Civil. Rio de Janeiro: Renovar, 2008, v. 2, p. 299-322. 9 Art. 421. A liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato. 10 Art. 113. Os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-fé e os usos do lugar da sua celebração. 11 Art. 422. Os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 116 Todavia, antes de se investigar tais questões, e uma vez rapidamente percorrida a história da codificação civil brasileira, há de se concluir que a força obrigatória dos contratos figura como um dos princípios clássicos do Direito Brasileiro, ao lado do princípios do consensualismo e da relatividade dos efeitos do contrato, todas figuras decorrentes da liberdade contratual e antes dela, numa escala hierarquizada e abstrata de valores, da vontade dogmática e, por fim, da liberdade política enquanto direito subjetivo constitucional ou fundamental (art. 5, caput, CR12). Na fonte do CC-16 não se localizava um artigo expresso de lei a consagrar a força obrigatória dos contratos, uma vez que a própria concepção de obrigação contratual ou de contrato com efeitos intangíveis era uma das bases essenciais daquele código. À luz das codificações civis do séc. XIX, dentre as quais a brasileira, liberdade de contratar significava o exercício da autonomia da vontade contratual para definir quando, como e com quem contratar e, por extensão, o direito de por fim ao contrato, na hipótese de inadimplemento e da verificação do termo final do negócio. Por consequência, exercitada livremente a vontade negocial, o contrato se tornava obrigatório, intangível às partes que poderiam, no entanto, modificá-lo somente por meio de um outro acordo, por meio de um renovado novo exercício de autonomia privada. O contrato poderia ser distratado bilateralmente, portanto, mais uma vez, emergindo a sua resolução da vontade contratual. Por consequência desse viés voluntarista, o juiz não poderia interferir na vontade negocial e nos efeitos jurídicos extraídos do querer das partes, a não ser se a vontade tivesse sido manifestada de modo viciado, sendo esta a gênese da teoria dos vícios de consentimento (erro, dolo, coação). Assim sendo, a intangibilidade contratual seguia uma linha dogmática e absoluta, por força da qual nem as partes, unilateralmente, nem o Estado (na figura do juiz), poderiam alterar os efeitos contratuais que vinham a constituir, modificar ou extinguir situações jurídicas patrimoniais: pacta sunt servanda! Similar metodologia legislativa foi empregada pelo CC-02. Com efeito, atual Código Civil brasileiro não versa sobre a força obrigatória dos contratos de modo expresso, porque se espera que o contrato cumpra o seu papel sócio-econômico de circulação atributiva de riquezas em exercício de liberdade contratual. Portanto, o contrato (rectius, seu efeito) continua sendo obrigatório no Brasil, a despeito dos novos 12 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 117 valores e princípios sociais que o submetem, com os quais se estabelece o diálogo entre o velho e o novo direito contratual. Tais princípios assim denominados de sociais têm em vista a negociação pré-contratual, o fechamento do contrato e seu cumprimento de modo equânime, sendo esta a grande diretiva que apresenta a boa-fé contratual (CC art. 422). O contrato no Brasil deve ser um instrumento cooperativo e não de exploração e destruição da outra parte, em vista do seu cumprimento a qualquer preço. A boa-fé atua conjuntamente e não contrariamente ao cumprimento contratual, sendo esta uma mensagem desenvolvida inclusive no sistema do common law, tal qual observa R. SUMMERS: “[...] good faith (among other things) helps to particularise it meaning and thus enforce what may be the unspecified ‘inner logic’ of the transaction or arrangement.”13. Brevemente, pode-se correlacionar a boa-fé brasileira com a teoria de FARNSWORTH, uma vez que este autor teoriza o princípio como um “[...] standard that has honesty and fairness at its core and that is impose on every party contract.”14 Ou seja, a boa-fé como um standard ético contratual que impõe deveres de cooperação é a definição mais sintética possível para o princípio em tratamento, perspectiva esta compartilhada entre os sistemas jurídicos do civil law e do common law. A modificação apresentada pelo CC-02 em face do CC-16 está no reconhecimento de que o contrato poderá ter seus efeitos econômicos mitigados pelo juiz, perdendo a liberdade contratual o seu caráter dogmático e absoluto. Tal modificação operacionalizada pelo juiz ocorrerá por meio da revisão do preço ou por meio da resolução do contrato, por causa da excessiva onerosidade que atinge a prestação ou a base contratual. Retomando o quadro da boa-fé, ela também serve de fundamento para tais modificações da base econômica do contrato, pois somente será justo o contrato equânime. Estruturalmenteposto, o CC-02 trabalha somente com as exceções à força obrigatória dos contratos o que em si é um reconhecimento do princípio enquanto regra. É um princípio abstrato de caráter deontológico, portanto. Evidentemente que o 13 SUMMERS, Robert S. The conceptualisation of good faith in American contract law: a general account. In: ZIMMERMANN, Reinhard e WHITTAKER, Simon. Good faith in european contract law. Cambridge: Cambridge, 2000, p. 136. 14 FARNSWORTH, E. Allan. Farnsworth on contracts. Boston: Little, Brown and Company, 1990, v 2, p. 335. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 118 juiz também poderá extinguir o contrato quando constatada a invalidade do negócio como um todo e não puder ser ele parcialmente preservado, mas tal aspecto foge da presente abordagem. De modo transverso, e sempre em vista da atribuição do juiz, o contrato poderá ter seus efeitos modificados, quando nulo for o arranjo negocial e puder o juiz da causa modificar a sua natureza, no sentido de preservá-lo (art. 170 CC-0215), o que também vem a ser uma consequência da mitigação do princípio em análise, pois as partes obterão efeito diverso do pretendido, de certa forma compreendido como um ato de autonomia privada, contudo, do juiz. Trata-se, neste artigo de lei, da incorporação do princípio da conversão essencial do negócio jurídico ou do princípio da conservação dos negócios jurídicos, por força do qual será a discricionariedade do juiz que ditará os efeitos do contrato, que serão necessariamente diversos do contrato que se evitou invalidar. Observe-se, entretanto, que se um lado o juiz brasileiro pode alterar os efeitos do contrato, com base em ruptura da sua base econômica e numa tentativa de preservar o contrato, mesmo que posto em outra roupagem negocial, sob outro viés a força obrigatória se mantém tal qual na sua remota origem clássica, ou seja, em relação aos contratantes, os quais não podem alterar o negócios contratual por vontade unilateral. 2. Os princípios sociais da Constituição Brasileira de 1988 Pouco sentido faria passar os olhos no CC-02 sem compreender a lógica da nova contratualística brasileira, fundada em valores sociais que dialogam com princípios da ordem econômica. A dinâmica que se apresenta ao debate tem como fundamento a Constituição da República de 198816, a qual serve de fonte normativa ao Direito Privado nacional. Diversamente de outros modelos constitucionais que se destinam à regulação das políticas e das práticas do Estado, a Constituição brasileira também regula uma extensão fatia do Direito Privado brasileiro, dentre eles o direito proprietário, sucessório e contratual, embora o faça de modo princípiologico. Por 15 Art. 170. Se, porém, o negócio jurídico nulo contiver os requisitos de outro, subsistirá este quando o fim a que visavam as parter permitir supor que o teriam querido, se houvessem previsto a nulidade. 16 Sobre o tema o nosso Do contrato: conceito pós-moderno (em busca de sua formulação na perspectiva civil-constitucional). 2 ed. Curitiba: Juruá, 2008, p. 213-240. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 119 consequência, percorrer o diálogo normativo brasileiro civil-consititucional é um pressuposto para se entender a sistemática contratual brasileira. Os movimentos econômicos, sociais e políticos que marcaram o Séc. XX17, sobretudo no cenário europeu, produziram forte impacto no Brasil, repercutindo no sistema legal interno. Se fosse possível localizar em um ou dois eventos de complexas naturezas as mutações que provocaram a descodificação e a recodificação civil brasileira, arriscar-se-ia afirmar que a discreta mas sempre crescente presença da mão invisível do mercado e os extremos dos regimes de esquerda e direita produziram uma síntese social- política-econômica brasileira que festeja a superação do racionalismo absoluto18, compreendendo um homem relativo ao seu tempo e espaço, inserido em um contexto meta-individual, sem contudo desconsiderar a sua personalidade. Talvez esse pequeno recorte opinativo traduza o sentido e o alcance que a vigente Constituição brasileira pretende com os arts. 1, III e IV, e 3, I e III, na sua base republicada: I – Dos Princípios Fundamentais Art. 1º. A Replica Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e dos Distrito Federal, constitui-se em Estado democrático de direito e tem coo fundamentos: III- a dignidade da pessoa humana; IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; Art. 3º. Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I – construir uma sociedade livre, justa e solidária; 17 ITURRASPE, Jorge Mosset. Interpretation economica de los contratos. Buenos Aires: Rubinzal- Culzoni, [sd], p 13-30. 18 A vontade dogmática é o símbolo acabado do racionalismo: a vontade determinante da vida do homem permite-lhe correr os próprios riscos. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 120 III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais. Uma vez adotada a concepção de sistema jurídico e absolutamente superado qualquer espirito dicotômico entre o Direito Público e o Direito Privado, por força do qual a Constituição encontra papel central e unificador no diálogo das fontes jurídicas, compreende-se que o valor da sociabilidade constitucional implica a função social do contrato e o princípio da dignidade da pessoa humana e, dentre outras consequência, a boa-fé contratual, na sua vertente objetiva, a qual impõe condutas contatuais conforme a boa-fé e de modo probo19. A contratualidade privada passa a ter uma perspectiva que compartilha o sistema de livre iniciativa com valores sociais da justiça social e do pleno emprego, além do respeito à função social da propriedade (art. 170 CR). No campo dos contratos, o mesmo artigo constitucional enaltece que a ordem econômica está fundada na defesa do consumidor e na redução das desigualdades regionais e sociais. Em síntese, encontra-se no Brasil um necessário diálogo entre a livre iniciativa de mercado e os valores sociais. Por consequência, sustentar posições radicais e extremas, seja em favor dos interesses do mercado, seja em favor dos anseios sociais, é iniciativa fadada ao fracasso, já que assim procedendo o intérprete terá uma visão parcial do complexo sistema jurídico nacional. Para o presente trabalho importa destacar o grande esforço que o constituinte de 1998 teve em alinhar as forças sociais e de mercado, mesmo que o texto final da Constituição possa ser tecnicamente criticado pela sua assimetria legislativa e extensão exagerada. E apesar de um pleno equilíbrio entre os operadores de mercado ser um projeto ideológico do passado, soterrado desde a queda do Muro de Berlim, não escapa a um Estado Brasileiro que se autoproclama Social de Direito obrar no sentido de repersonalizar o Direito Privado e isto se faz através da mutação da função do contrato. Assim sendo, não surpreende que o a Constituição de 1988 lance as bases para a proteção do consumidor, já que até 1988 não havia no Brasil qualquer tutela para o operador vulnerável do mercado. Até a edição do CDC, todos os contratos era interpretados à luz do CC-16, o que importava em julgamentos contaminados pelo princípio da igualdade formal dos contratantes e no exercício livre da vontade. E assim19 NALIN, Paulo. Princípios do direito contractual: função social, boa-fé objetiva, equilíbrio, justice contratual, igualdade. In LOTUFO, Renan; NANNI, Giovanni Ettore [coord.]. Teoria geral dos contratos. São Paulo: Atlas, 2011, p. 97-144. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 121 se operando o Direito, a lei socorria invariavelmente ao predisponente das cláusulas contratuais, livre que se encontrava para fixar os mais abusivos conteúdos negociais. Por isso, deu-se grande passo na busca por um novo paradigma contratual quando a Constituição de 1988 determinou que em cento e vinte dias da sua promulgação seria elaborado o Código de Defesa do Consumidor, cuja importância operacional do mercado será adiante abordada. 3. O impacto do Código de Defesa do Consumidor e a lógica contratual do final do séc. XX Quid dit contractuel dit just! Exaltavam os tratadistas franceses desde o Código Napoleônico, já que somente o homem livre (o cidadão nascido da Revolução) pode contratar: livre para concretizar a circulação atributiva proprietária e constituir em favor do burguês emergente um direito proprietário que antes da Revolução era privilégio da aristocracia e das concessões da Monarquia. Uma vez livre e igual o homem (que passou a ser cidadão) realizava o exercício contratual que superava os próprios efeitos do negócio, que seria a constituição de uma nova situação jurídica em sua esfera individual; ia além pois contratar tinha os ares do poder político consagrador dos princípios revolucionários. Toda essa lógica, ao mesmo tempo privada e política, encontrava um espaço (Europa Liberal) e um tempo (Séc. XIX) adequados aos seus propósitos e ao desenho de uma economia agropastorial, um momento no qual as relações contratuais eram de fato e de direito interprivadas (vis a vis), anterior à lógica massificada de mercado. É claro que todo esse quadro cedeu com a Revolução Industrial, embora o modelo liberal de contrato tenha servido à la carte aos novos detentores do poder econômico (os burgueses do fin de siecle XIX), que usavam o mesmo instrumento que os alçou à condição de detentores do mercado para dar vazão aos produtos industrializados em grande escala. O contrato liberal, que passou a ser revestido da forma de adesão, se utilizava da premissa, agora superada, da igualdade formal entre contratantes, para consagrar a liberdade de contratar e proclamar: só contrata porque quer; por querer livremente, o contrato e obrigatório ... pacta sunt servanda. No Brasil, tal fenômeno somente foi percebido após a Década de 30 (Séc. XX) e a tentativa governamental de equalização das relações de trabalho. Para atingir tal fim, e sem poder modificar o CC-16 em sua estrutura, sob pena de torná-lo uma Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 122 consolidação, produziu-se a primeira grande fratura do CC-16, dele se retirando uma parte contratual especial, destinada à locação de mão obra, para se erigir a Consolidação das Lei do Trabalho, a regulamentar o contrato de trabalho e com ela uma jurisdição especial do trabalho. Em que pese o tema das relações laborais não ser aplicável ao presente estudo, deseja-se com ele marcar o tempo em que já se fazia necessária a revisão dos pilares da igualdade formal e da liberdade plena encampados pelo Código de Civil de 1916, razão do início mais evidente da descodificação do CC-16. O segundo marco legislativo que feriu de morte a lógica contratual liberal, a qual era muito bem representada pelo CC-16, veio com o CDC, em 1990. Além de o CDC reconhecer uma nova categoria contratual (o contrato de consumo), seja para produtos, seja para serviços; além de o novo código consumerista ter adotado uma metodologia sincrética de regras materiais e processuais, arranjadas em técnica de cláusulas gerais; e, por último, ter incorporado princípios regentes da nova contratualista brasileira (transparência, confiança, equidade), nucleados na boa-fé objetiva, o que mais impressiona no CDC é o reconhecimento legal da vulnerabilidade de uma das partes do contrato e a adoção de instrumentos materiais e processuais para a equalização da relação jurídica contratual concretamente analisada. Com efeito, ideologicamente, rompeu-se com a premissa da igualdade formal das partes, implementando o CDC um sistema de igualdade material. E do ponto de vista da teoria contratual, o novo código do consumidor lançou as bases para um novo conceito de justiça contratual, baseado na equidade negocial. Nesse ponto, destaca-se a mutação do conceito de justiça contratual, o qual, à luz do então ainda vigente CC-16 era o pacta sunt servanda (contrato justo, é contrato cumprido), para a justiça fundada na equidade, ou seja no equilíbrio das parcelas e obrigações do contrato, pois só o contrato equilibrado é justo. De outro vértice, em nenhum momento o CDC afasta do cenário principiológico Brasileiro o pacta sunt servanda, mas estabelece que obrigatório será o contrato equilibrado, sob pena de revisão dos seus termos, ex vi do art. 6º, V: Art. 6º. São direitos básicos do consumidor: V – a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 123 Inaugurava-se na fonte legislativa nacional um novo capítulo da contratualística privada, tanto que logo após a vigência do CDC20 observou-se uma ampla tentativa de migração dos sujeitos de direito não alcançados pela nova lei, conquanto partes em relações contratuais civis e comerciais21, para o seio do CDC. Em termos mais singelos, os sujeitos não consumidores (s.s.) e por consequência excluídos do alcance do CDC buscaram ser judicialmente por ele tutelados, pois a justiça contratual proposta pelo novo código era muitos mais moderada e adequada ao final do Séc. XX do que aquela do CC-16, similar a do Código Comercial brasileiro (1850). 4. A força obrigatória e a sua relativização à luz do CC de 2002: ponto e contraponto Desde 1975 agitava-se a civilistiva nacional em torno de um novo Código Civil, sendo o Projeto de Código Civil uma peça jurídica fruto do acúmulo do saber jurídicos civil-comercial-filosófico até os anos 60, do Séc. XX. Retomado o Projeto, e sob a batuta do Supervisor da Comissão de Codificação, o jus-filosofo Miguel Reale, passou ele por intensos debates e modificações no Senado e na Câmara dos Deputados, sob a coordenação do Senador Josafá Marinho e do Deputado Ricardo Fiuza, respectivamente, culminando com o vigente texto, Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002. No que concerne ao Livro dos Direito das Obrigações (art. 233 usque 1.195), estruturalmente ele é o maior dentre os demais Livros do Código Civil, até mesmo porque incorporou praticamente todo o Direito de Empresas e todos os contratos típicos comerciais (agora empresariais) na sua fonte positiva. Em grande linhas, o Direito Privada Brasileiro hoje se encontra unificado. Ainda no contexto da sua estrutura, o CC não se distanciou substancialmente do CC-16, em que pese a introdução pontual de alguns temas, tal qual a assunção de dívida, cujo instituto, entretanto, já era conhecido e estudado por meio da cessão de crédito. Mas, então, o que se apresenta de novo no atual Código Civil Brasileiro, em particular no Livro das Obrigações? Três pontos merecem destaque: (i) o emprego de cláusulas gerais em campos nevrálgicos da codificação, enquanto nova técnica legislativa; (ii) a funcionalização social da propriedade edo contrato; (iii) a consagração 20 Lei 8.078, de 11 de setembro de 1990, com vacatio legis de 180 dias. 21 O Código Comercial Brasileiro ainda estava em vigor na sua parte contratual em 1990. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 124 do princípio da boa-fé como princípio concreto e geral dos negócios jurídicos e, logo, dos contratos. O emprego das cláusulas gerais é crucial para compreender o novo Direito Civil nacional, pois a técnica pressupõe uma redação de artigo de lei dotada de um ou mais conceitos indeterminados e a ausência de sugestão sancionatória. Compete ao juiz, diante do caso concreto, preencher tal moldura, conceituando o instituto jurídico e definindo a sanção à hipótese, que será negativa ou positiva (premial, segundo N. Bobbio). Afasta-se da técnica da casuística do dado A, deve ser B, cuja descrição da hipótese e da sanção (sempre negativa ou de censura) era obra do legislador. Exemplifica- se com um dos artigos mais emblemáticos do CC-02: Art. 421. A liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato. (grifei) Rapidamente esmiuçando o artigo em comento, surgem as seguintes indagações: i. Qual é o atual conceito de liberdade contratual, uma vez que historicamente este princípio implicava a escolha, livre e igual, do objeto do contrato, do parceiro contratual e do próprio interesse em celebrar o contrato? ii. Qual é a racionalidade que se obtém da função social do contrato, já que o legislador do CC-02 em nenhum momento alude à razão (função) econômica do contrato, ao regular a sua função social? iii. Quais seriam os limites impostos pela função social do contrato à liberdade contratual? iv. Qual é o sentido e o alcance de tal funcionalização social diante de contratos com funções econômicas distintas, como os de consumo, civis e empresariais? v. Por fim, mas não menos relevante, qual é a sanção ao operador do contrato que desafia a função social do contrato? A tentativa de se responder a essas indagações pressupõe uma escolha metodológica que neste trabalho se pautará pelas decisões do Superior Tribunal de Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 125 Justiça, mais adiante investigadas, e que laboram com a função social do contrato em cotejo com a obrigatoriedade contratual. Um necessário alerta, contudo, se mostra necessário ao leitor, relativo ao papel desenvolvido pela jurisprudência no Brasil. Sabe-se que o Brasil é um pais do sistema civil law, cujo ápice da pirâmide normativa é, desde 1988, ocupado pela Constituição da Republica Federativa do Brasil e, hierarquicamente posto, em nível inferior ou infraconstitucional, o Código Civil de 2002. Assim, é necessário entender que a jurisprudência no Brasil, e que explica as categorias jurídicas versadas neste texto, não tem força obrigatória perante as partes de um contrato e sequer perante juízes de primeiro grau de jurisdição, muito embora sejam acórdãos extraídos do acervo jurisprudencial do Superior Tribunal de Justiça (STJ), o qual constitucionalmente detém a última palavra sobre o Direito Civil. Portanto, o papel exercido pela jurisprudência brasileira é de unificação do entendimento interpretativo da lei, mesmo que dela não se obtenha uma força imperativa, tal qual a lei. Por outro lado, a jurisprudência brasileira do STJ vem ganhando cada vez mais espaço e força como instrumento de decisão em cortes inferiores, sendo, de fato, indispensável a sua análise. Retomando as questões supra, arrisca-se alguma explicação. Inicialmente, o juiz, ao se deparar com um conceito indeterminado procurará esclarecimento e preenchimento da moldura legal de formar interna ao próprio CC-02 ou fora dele, observando-se nesta metodologia a razão de ser da ideia de sistema jurídico. O caminho recomendado ao magistrado é que na sua pesquisa observe os valores e princípios constitucionais, já que a funcionalização social de institutos privado não é matéria a ser resolvida somente à luz da estrutura do código. Além do mais, em se tratando de cláusulas gerais, não existem soluções prontas, sendo necessário lançar um olhar muito particular para cada caso concreto. Outro aspecto, a função social do contrato não desqualifica a função econômica do contrato, em que pese exigir das partes um respeito a efeitos jurídicos do contrato que serão internos à própria relação jurídica negocial (o respeito ao outro contratante, em seus planos material e existencial, por força da boa-fé e de seus sub- princípios) e externos à relação, pois, via de regra, poder-se-á observar terceiros atingidos pelos efeitos do contrato, sobretudo em contratos corporativos, empresariais ou que atinjam o mercado relevante. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 126 Em terceiro plano, qual é sanção prevista pelo CC-02 na hipótese de violação da função social do contrato? A resposta mais adequada, ainda que sujeita a reparos, uma vez abstrata, extrai-se do sistema sancionatório do Código Civil, que se pauta pelas regras de invalidade (nulidade, anulabilidade, ineficácia), embora no caso ela seja de nulidade virtual, pela redução do negócio jurídico (preserva-se uma parte dele, ao se invalidar outra ilegal – art. 184 CC) e através das perdas e danos. Abstratamente, não se tem como apontar a melhor solução decisória, já que se está diante de uma cláusula geral dirigida ao juiz e ao caso concreto. Caberá a parte atingida e ao seu advogado endereçar ao juiz o pedido (remedy) mais adequado à patologia do contrato. Evidentemente que qualquer dessas consequências poderá aniquilar ou mitigar a força obrigatória do contrato, devendo estar muito atento o operador jurídico para os efeitos sociais do contrato, no Brasil. Isso porque, não seria equivocado impor, como condição da eficácia patrimonial pretendida pelos contratantes, a observância a interesses sociais das próprias partes e de terceiros e tal perspectiva é absolutamente pitoresca do Direito brasileiro. O princípio da boa-fé também merece um recorte a parte no novo Código Civil brasileiro, pois ela estabeleceu uma nova lógica operacional às relações obrigacionais, fundada na cooperação. O CC-02, diversamente do CC-16, positivou o princípio da boa-fé em seu texto, como regra geral das relações contratuais, nos termos do art. 422: Art. 422. Os contratantes obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios da probidade e boa-fé. Com a brevidade que este texto permite, cumpre destacar as funções22 da boa-fé em linha de reequilíbrio entre as partes, o que impõe limites à livre iniciativa e a adequação das bases econômicas do contrato em circunstâncias imprevisíveis e de excepcional onerosidade23. A função em comento se apresenta retratada pelo no CC-02 em dois artigos: 22 Dentre as possíveis funções da boa-fé destacam-se: a função interpretativa dos negócios jurídicos (contratos, inclusive); a função de criação de deveres jurídicos anexos, laterais ou correlatos; a função corretiva da base econômica do contrato; a função revisional ou extintivas de cláusulas consideradas iniquas. 23 Comparativamente, a leitura do art. 437º do Código Civil português23 não deixa dúvida de que a pretensão revisional encontra a sua base no princípio da boa-fé, muito embora no Direito Brasileiro tal Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 127 Art. 317. Quando,por motivos imprevisíveis, sobrevier desproporção manifesta entre o valor da prestação devida e o do momento de sua execução, poderá o juiz corrigi-lo, a pedido da parte, de modo que assegure, quanto possível, o valor real da prestação. Art. 478. Nos contratos de execução ou diferida, se a prestação de uma das partes se tornar excessivamente onerosa, com extrema vantagem para a outra, em virtude de acontecimentos extraordinários e imprevisíveis, poderá o devedor pedir a resolução do contrato. Os efeitos da sentença que a decretar retroagirão à data da citação. Da leitura comprada dos dois artigos de lei, algumas conclusão simétricas e outra assimétricas são observadas: i. Os artigos em comento têm finalidades distintas, quais sejam, o art. 317 de destina somente à revisão do preço, para a manutenção do contrato de longa duração; de outro lado, o art. 478 se destina à resolução do contrato. ii. A imprevisibilidade é um componente comum em ambos os artigos, mas não se pode deixar enganar que o sistema obrigacional brasileiro estaria apoiado numa visão subjetivista do contrato, até mesmo porque o art. 422 CC-02 impõem dos contratantes condutas probas, o que em ultima ratio significa posturas prudentes e ajuizadas. A imprevisibilidade é um requisito revisional ou resolutório sem real prestígio na atual lógica do sistema, refletindo uma cultura francesa subjetiva do contrato que nem mesmo em França é mais empregada. iii. O art. 478 CC-02 deveria ser a regra jurídica nuclear do equilíbrio contratual. Inclusive ele é dotado de um integral Seção (Seção IV), do Capítulo II, da Extinção do Contrato. Por sua vez, o art. 317 CC-02 foi projetado para ter menor alcance, uma vez inserido nas regras de pagamento, somente. Contudo, até mesmo por força da larga experiência do CDC, que antecede o vigente Código Civil em mais de princípio não esteja expressamente associado. Vejamos: “1. Se as circunstâncias em que as partes fundaram a decisão de contratar tiverem sofrido uma alteração anormal, tem a parte lesada direito à resolução do contrato, ou à modificação dele segundo juízos de equidade, desde que a exigência das obrigações por ela assumidas afecte gravemente ou princípios da boa fé e não esteja coberta pelos riscos próprios do contrato.” Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 128 uma década, a revisão contratual passou a ser mais bem aceita pela jurisprudência nacional, sendo excepcionalíssima a resolução do contrato, por ônus excessivo. Com efeito, o art. 317 CC-02 passou a ocupar o papel projetado para o art. 478 CC-02, preferindo-se a revisão à resolução do contrato. iv. Os requisitos do art. 478 CC-02, que são absolutamente simulares ao art. 1.467 do Código Civil Italiano24, se mostram quase intransponíveis de serem demonstrados em juízo, sobretudo porque impõe ao demandante a investigação e a prova de elementos subjetivos, a prova de fatos extraordinário e imprevisíveis (para ambos os contratantes) e, por fim, demonstrar a vantagem econômica do credor em desfavor do devedor. v. O art. 317 CC-02 passou a ser a chave da revisão obrigacional brasileira, embora a proposta do legislador tenha sido de menor alcance, também em homenagem ao princípio da conservação do contratos e, por consequência, da sua função social. vi. De qualquer sorte, a revisão ou a resolução do contrato têm como filtro a jurisprudência brasileira, a qual impõe maior rigor de aplicação nas relações empresariais e, por consequência, maior eficácia à autonomia privada dos contratantes. Observa-se, sob outro giro, que o Código Civil não adotou expressamente a possibilidade de a boa-fé determinar e conduzir a revisão contratual como um todo (não só de cláusulas econômicas, por exemplo) e, tampouco, permite que o juiz invalidade cláusulas contratuais iniquas, a não ser que ela estipule a renúncia 24 Art. 1.467. Nei contratti a esecuzione continuata o periodica ovvero a esecuzione differita, se la prestazione di una delle parti divenuta eccessivamente onerosa per il verificarsi di avvenimenti straordinari e imprevedibili, la parte che deve tale prestazione pu domandare la risoluzione del contratto, con gli effetti stabiliti dall’Articolo 1458 (att. 168). La risoluzione non pu essere domandata se la sopravvenuta onerosit rientra nell’alea normale del contratto. La parte contro la quale domandata la risoluzione pu evitarla offrendo di modificare equamente le condizioni del contratto (962, 1623, 1664, 1923). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 129 antecipada do contratante aderente a direito resultante da natureza do contrato25. Portanto, nas relações formadas por contratos de adesão, nulas serão as cláusulas contrária à causa do contrato26. Entretanto, tais efeitos podem ser extraídos do citado art. 422 do CC- 02, por meio de decisão judicial, a qual, ao invalidar uma cláusula de conteúdo econômico, por exemplo, que estabeleça um índice de correção monetária reputado ilegal pelos tribunais brasileiros27, acaba esta mesma decisão por eleger um outro índice ou critério de atualização monetária. Assim, observa-se uma revisão contratual indireta, posto que o legislador nacional não previu tal hipótese de modo expresso no CC-02. Em contraponto, é relevante salientar que o Código Civil segue sendo a lei dos contratantes com equivalência de poder de barganha, tanto que é regra geral em face de leis especiais, como o CDC que pressupõem a desigualdade entre os contratantes. Assim sendo, o CC-02 mantém em sua base ideológica a igualdade formal entre partes, embora relativizada pelos demais princípios que o ilustram, como a boa-fé. 5. O entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre a obrigatoriedade dos contratos e os princípios sociais do Código Civil brasileiro Tendo em vista os fins a que se destina este breve trabalho, o qual objetiva realizar um sobrevoo pelo direito contratual privado brasileiro, especialmente traçando um paralelo entre princípios sociais da contratualista nacional face ao princípio da obrigatoriedade dos contratos, optou-se pela análise jurisprudencial do Superior Tribunal de Justiça como critério de legitimação deste “novo direito contratual”. Outra metodologia de aferição deste novo sistema contratual Brasileiro poderia ter sido empregada, como a evolução positiva do Direito Privado, desde a Constituição de 1988 ou a comparação doutrinária nacional sobre a função social do contrato, numa linha temporal. Porém, o olhar jurisprudencial sobre o tema parece 25 Art. 424. Nos contratos de adesão, são nulas as cláusulas que estipulem a renúncia antecipada do aderente a direito resultante da natureza do negócio. 26 A título de exemplo, a súmula 61 do Superior Tribunal de Justiça (STJ): O seguro de vida cobre o suicídio não premeditado. 27 STJ Súmula nº 176 (23/10/1996 - DJ 06.11.1996): É nula a cláusula contratual que sujeita o devedor à taxa de juros divulgada pela ANBID-CETIP. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 130 despertar maior curiosidade a projetar alguma segurança ao operador do mercado a partir da previsibilidade das decisões, embora o Brasil não se vincule ao sistema jurídico da stare decisis. Naturalmente não se pretende esgotar toda a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça na presente análise, mas sim apesentar uma amostragem das 3ª, 4ª e 1ªTurmas do STJ, que vem a ser o tribunal superior competente para julgar o tema sob enfoque. Para tanto, elegeram-se cinco acórdãos, num recorte temporal de 2007 até 2012, visando, como isto, cobrir a linha de pensamento jurisprudencial do STJ sobre a obrigatoriedade contratual em paralelo com os princípios sociais apresentados pelo Código Civil e também pela Constituição da República. A função social infligida ao contrato não pode desconsiderar seu papel primário e natural, que é o econômico. Ao assegurar a venda de sua colheita futura, é de se esperar que o produtor inclua nos seus cálculos todos os custos em que poderá incorrer, tanto os decorrentes dos próprios termos do contrato, como aqueles derivados das condições da lavoura. (REsp. 783404-GO – Min. Nancy Andrighi – 3 Turma - 28/06/07) Salvo melhor análise, este foi o primeiro acórdão do STJ que apreciou a material da revisão contratual e da onerosidade excessiva em vista do princípio da função social do contrato. No presente caso, discutiu-se a pretensão revisional do preço de venda do soja em negócio aleatório, formalizado por meio de compra e venda futura (art. 459 do CC-02). O vendedor pretendia a elevação do preço pago no passado, pois quando da entrega presente do soja, o mercado se lhe mostrava mais favorável. O STJ negou a pretensão revisional, em síntese, sob o argumento da previsibilidade do preço futuro do soja. Além disso, externou posicionamento no sentido de que a função primária do contrato seria a econômica e não a social, mormente em se tratando de relação jurídica empresarial. O exame da função social do contrato é um convite ao Poder Judiciário, para que ele construa soluções justas, rente à realidade da vida, prestigiando prestações jurisdicionais intermediárias, razoáveis, harmonizadoras e que, sendo encontradas caso a caso, não cheguem a aniquilar nenhum dos outros valores que orientam o ordenamento jurídico, como a autonomia da vontade. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 131 Não se deve admitir que a função social do contrato, princípio aberto que é, seja utilizada como pretexto para manter duas sociedades empresárias ligadas por vínculo contratual durante um longo e indefinido período. Na hipótese vertente a medida liminar foi deferida aos 18.08.2003, e, por isto, há mais de 5 anos as partes estão obrigadas a estarem contratadas. (Resp. 972.436-BA – Min. Nancy Andrighi – 3 Turma - 17/03/09) No presente caso, sustentou-se que a resilição de um contrato de longa duração, sem justa causa, mas por força da verificação do termo final do contrato, confrontaria com a função social do contrato e o princípio da conservação do negócio. O STJ julgou a validade e a eficácia do exercício potestativo resolutório, embora imotivado, confirmando com isso a liberdade de contratar, cujo princípio também proporciona ao contratante o exercício do direito à ruptura da avença, verificado o inadimplemento (lato sensu) ou a verificação do termo final. Com efeito, o argumento da função social do contrato não impede a ruptura contratual, enaltecendo-se, assim, a liberdade de contratar em linha negativa (o direito de não contratar ou não se manter na posição de contratante). VII. Concreção do princípio da autonomia privada no plano do Direito Empresarial, com maior força do que em outros setores do Direito Privado, em face da necessidade de prevalência dos princípios da livre iniciativa, da livre concorrência e da função social da empresa. VIII. Reconhecimento da contrariedade aos princípios da obrigatoriedade do contrato (art. 1056 do CC/16) e da relatividade dos efeitos dos pactos, especialmente relevantes no plano do Direito Empresarial, com a determinação de que o cálculo dos prêmios considere a realidade existente na data em que deveriam ser pagos. (REsp1158815-RJ – Min. PAULO DE TARSO SANSEVERINO – 3 Turma - 07/02/12) Trata-se de debate sobre o valor do prêmio em contrato de seguro coletivo. Entendeu o STJ que nos contrato empresarias há de prevalecer os princípios clássicos da contratualidade, sem embargo dos valores sociais do contrato, pois a autonomia privada sobrepõe-se, na seara do Direito Privado empresarial, aos princípios sociais. 2. A cláusula contratual que estipula o pagamento de multa caso o contratante empregue um dos ex-funcionários ou representantes da contratada durante a vigência do acordo ou após decorridos 120 (cento e vinte) dias de sua extinção, não implica em violação ao princípio da Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 132 função social do contrato, pois não estabelece desequilíbrio social e, tampouco, impede o acesso dos indivíduos a ele vinculados, seja diretamente, seja indiretamente, ao trabalho ou ao desenvolvimento pessoal. (REsp. 1.127.247-DF – Min. Felipe Salomão – 4 Turma - 04/03/10). No corrente acórdão verifica-se uma mudança de entendimento do STJ, pois, pela primeira vez, o Tribunal estabeleceu uma preocupação social a um contrato de natureza entre empresários. Observe-se que os efeitos do contrato sob análise tocavam a terceiros trabalhadores, os quais se encontravam impedidos de serem contratados, pelo prazo de cento e vinte dias, por conta de cláusula contratual, sob pena de multa imposta ao empregador. A cláusula da multa foi julgada válida, já que os trabalhadores (terceiros à relação contratual) não estavam impedidos de trabalhar, embora o contratante se submetesse à multa, na hipótese de violação. É um acórdão de transição ideológica e de compreensão de que o contrato pode, não raramente, atingir terceiros em seus interesses patrimonial e existencial, já que o direito ao trabalho é reputado um direito constitucional (subjetivo) ou fundamental. Vale dar destaque as normas insertas nos arts. 421 e 422 do CC, as quais tratam, respectivamente, da função social do contrato e da boa-fé objetiva. A função social apresenta-se hodiernamente como um dos pilares da teoria contratual. É um princípio determinante e fundamental que, tendo origem na valoração da dignidade humana (art. 1 da CF), deve determinar a ordem econômica e jurídica, permitindo uma visão mais humanista dos contratos que deixou de ser apenas um meio para obtenção de lucro.” (AgRg no REsp 1272995/RS - AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL - 2011/0197420-7 – Min. NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO – 1 Turma - 07/02/2012) O acórdão sob análise se encontra ideologicamente e funcionalmente no outro extremo daquele inicialmente analisado, já que impõe à instituição financiador da educação a redução de multa (cláusula penal moratória) pelo atraso no pagamento do financiamento, ao argumento de que a multa de 10% seria incompatível com a finalidade social do contrato de ensino. Observe-se, contudo, que o contrato julgado se estabelece entre fornecedor de crédito e estudante, não sendo, por consequência, um contrato interempresarial. O contrato em comento não é reputado de consumo, segundo Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 133 entendimento consolidado da 1A. Turma do STJ, aplicando-se, porém, os princípios da dignidade da pessoa humana (CR) e a função social do contrato (CC-02). Ainda nesse quadrante, oportuno destacar que o tema foi posto em julgamento de modo excepcional pela 1ª Turma do STJ, uma vez que a sua competência de julgamento é a do Direito Público, embora a dignidade da pessoa humana e a função social do contrato sejam matérias de ordem pública, conforme as fontes constitucional (art. 1O, inc. III28) e civil (art. 2.035, parágrafo único29) Brasileiras.6. Notas conclusivas Ante o exposto ao longo do texto, algumas conclusões se apresentam necessárias. Inicialmente, mostra-se inegável o giro legal dos princípios contratuais privados nacionais, sob influência inicial da Constituição da República de 1988, passando pelo Código de Defesa do Consumidor e por fim pelo novo Código Civil Brasileiro. Pode-se afirmar, em grandes linhas, que o direito contratual Brasileiro se apresenta mais social com o atual Código Civil (2002) do que na vigência do Código Civil de 1916, importando esta rotação em favor do viés social do contrato em consequências hermenêuticas, estruturais e funcionais sem precedentes no Direito Privado. Especialmente no que toca ao princípio da força obrigatória dos contratos, este sofreu notável mitigação, deixando de ostentar no Brasil a natureza dogmática e liberal, histórica e ideológica que originariamente o caracterizou, além de agir em coordenação com demais princípios clássicos e contemporâneos, como a boa-fé objetiva e a função social do contrato. 28 Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: III - a dignidade da pessoa humana; 29 Art. 2.035. A validade dos negócios e demais atos jurídicos, constituídos antes da entrada em vigor deste Código, obedece ao disposto nas leis anteriores, referidas no art. 2.045, mas os seus efeitos, produzidos após a vigência deste Código, aos preceitos dele se subordinam, salvo se houver sido prevista pelas partes determinada forma de execução. Parágrafo único. Nenhuma convenção prevalecerá se contrariar preceitos de ordem pública, tais como os estabelecidos por este Código para assegurar a função social da propriedade e dos contratos. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 134 Em verdade, a mitigação do princípio da força obrigatória não é uma novidade, nem mesmo para os operadores do Direito Empresarial, afetos que estão a institutos de revisão negocial como a cláusula hardship. Ou seja, a mitigação Brasileira da força obrigatória dos contratos não coloca o país numa condição, por assim dizer, exótica, no cenário dos contratos internacionais e nacionais, em que pese a originalidade da função social do contrato. De qualquer modo, o que se revela, a partir do entendimento jurisprudencial construído pelo Superior Tribunal de Justiça ao longo de mais de dez anos de codificação civil é a inexistência de uniformidade entre as 1A., 3A. e 4A. Turmas, embora se possa perceber uma linha de pensamentos mais favorável à liberdade de contratar e por consequência da obrigatoriedade contratual na 3A. Turma em comparação às demais. Seguindo na análise dos julgados do STJ, percebe-se a grande importância que o Tribunal emprega à condição econômica do contratante (empresário, “civil” ou consumidor), traçando uma linha divisórias entre contratos empresariais ou de lucro e contratos existenciais, de modo a calibrar os novos valores sociais do contrato em vista da vulnerabilidade maior ou menor dos contratantes. A partir dessa sub-classificação contratual (contratos empresariais ou existenciais), o STJ julga com ênfase aos princípios da autonomia privada, se empresariais, ou com maior observância aos princípios sociais se o contrato é daqueles existências (civil e de consumo). O CC-02 não apresenta essa sub-classificação contratual, sendo ela uma construção doutrinária brasileira que objetiva adaptar a lei ao fenômeno contratual, que se mostra cada vez mais multifacetado. A plasticidade do conceito de contrato possivelmente impedirá que o STJ defina, com precisão e uniformidade, o papel e o alcance da força obrigatória dos contratos vista à luz de princípios sociais. Sob outro viés, afigura cada vez mais definida a posição do STJ em divisar contratos empresariais e contratos existenciais, aplicando de forma modulada a função social dos contratos e a boa-fé na medida da maior ou da menor vulnerabilidade dos contratantes. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 135 O AMBIENTE DA NOVA CONTRATUALIDADE E A TENDÊNCIA DA JURISPRUDÊNCIA DO STJ EM MATÉRIA CONTRATUAL The environment of the new contractuality and STJ’s justice trend in contractual matters Rodrigo Toscano de Brito Doutor e Mestre em Direito Civil Comparado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP. Professor de Direito Civil da Universidade Federal da Paraíba e do UNIPÊ – Centro Universitário de João Pessoa, nos cursos de graduação e pós-graduação. Advogado. Resumo: O presente artigo tem por objetivo estudar a consolidação do cenário em que estão inseridos os contratos, a partir da globalização e sua influência, e a dignidade da pessoa humana como contraponto à pressão globalizante. Nesse sentido, faz-se uma visita à doutrina constitucional e civil, para, ao final, trazer análises sobre a evolução legislativa e jurisprudencial do Superior Tribunal de Justiça, nesse “ambiente contratual”. Assim, parte-se da análise de alguns recentes julgados do STJ que tragam, em sua essência, a influência dos elementos inicialmente citados, levando em conta precedentes que envolvam contratos civis, empresariais e de consumo. Palavras-chave: Contratos; Globalização; Dignidade da pessoa humana; Precedentes judiciais. Abstract: This article aims to study the consolidation scenario in which contracts are entered from the globalization and its influence, and the dignity of the human person, as a counterpoint to globalizing pressure. In this sense, it is a visit to constitutional and civil doctrine, in the end, bring analyzes of legislative and jurisprudential evolution of the Superior Court in that "contractual environment". Thus, some recent sentences is analyzed from the Supreme Court that carry, in essence, the influence of the elements initially cited, taking into account precedents involving civil, business and consumer contracts. Key-words: Contracts; Globalization; Human dignity; Judicial precedents. Sumário: 1. Nota introdutória em torno do atual cenário das contratações – 2. Globalização: um ambiente consolidado e complexo para as relações contratuais – 3. A dignidade da pessoa humana como contraponto à pressão globalizante e como balizamento maior na interpretação contratual – 4. Evolução legislativa e jurisprudencial e a adaptação da interpretação dos contratos à realidade civil constitucional: análise de precedentes do Superior Tribunal de Justiça – 5. Notas conclusivas. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 136 1. Nota introdutória em torno do atual cenário das contratações As considerações iniciais que se pretende fazer neste ensaio perpassam por uma conjuntura já conhecida em profundidade pelos civilistas que passaram a estudar e discutir o direito civil brasileiro a partir do ângulo constitucional, mas que algumas vezes ainda passa despercebido pela construção dos precedentes judiciais. Na primeira parte deste artigo, pretende-se revisitar a percepção de como a doutrina, especialmente a constitucionalista e a civilista, que analisaram o fenômeno da constitucionalização do direto civil, num primeiro momento, sentiram-se perto do influxo da Constituição de 1988, em matéria de direito privado. A ideia central é mostrar o cenário da contratualidade na atualidade – que já não é novo, mas sim consolidado. Para tanto, levar-se-áem conta uma análise à luz da globalização e sua influência sobre os contratos, e a dignidade da pessoa humana, como contraponto à pressão globalizante, sobretudo para revisitar a doutrina que, prospectivamente, viu adiante, iluminando o horizonte1, esses efeitos, e mostrar como anunciou o que vemos hoje, na construção jurisprudencial, de modo avançado, em determinados casos, e, ainda de modo tímido, em outros, como se mostrará na última parte deste escrito. Diante de um quadro econômico e social complexo, em que não se pode mais se ater apenas às relações entre fornecedor e consumidor, que são relações frágeis e que continuam a merecer especial cuidado, mas que também sofreram grande evolução nas últimas décadas com a discussão do direito do consumidor, faz-se necessário uma visão mais abrangente, uma teoria para os contratos que esteja comprometida com o equilíbrio da contratação na conjuntura em que se encontra. Diante dessa realidade, não se pode deixar de desenhar o palco, ou melhor dizendo, o grande cenário, já consolidado, em que se encontra inserido o contrato, 1 Luiz Edson Fachin explicitava, desde a muito, que “avançar contra a Constituição é promover, no tempo presente, a estagnação paralisante do ocaso pretérito. O Brasil constitucional de hoje pede respeito ao futuro da Nação” e, mais adiante, afirma, sobre a dimensão prospectiva da Constituição, que esta “se vincula a ação permanente e contínua, num sistema jurídico aberto, poroso e plural, de ressignificar os sentidos dos diversos significantes que compõem o discurso jurídico normativo, doutrinário e jurisprudencial, especialmente no que concerne a tríplice base fundante do governo jurídico das relações sociais, isto é, propriedade, contrato e família.” (FACHIN, Luiz Edson. Em defesa da Constituição prospectiva e a nova metódica crítica do direito civil e suas ‘constitucionalizações. In. Questões do Direito Civil Brasileiro Contemporâneo. Rio de Janeiro: Renovar, 2008, p. 7). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 137 especialmente quanto à influência da jurisprudência brasileira, o que se pretende analisar ao final deste ensaio. Esse cenário tem, pelo menos, dois elementos que influenciam o contrato e objetivam a busca de seu equilíbrio, num sentido mais amplo de contraposição de forças. A primeira etapa da nossa caminhada será dedicada a demonstrar alguns aspectos da globalização, criadora de um complexo ambiente para as relações contratuais – o grande cenário. Em seguida, buscar-se-á visualizar o princípio da dignidade da pessoa humana como o ator principal no grande palco contratual contemporâneo, que serve como o verdadeiro orientador desse ambiente contratual. Por último, procurar-se-á ressaltar a atividade legislativa e jurisprudencial, esta buscando se adaptar à nova contratualidade. Antes de se passar para o estudo desse cenário em que se encontra o contrato no Brasil, é importante observar que a nova contratualidade, que está inserida em todo o cenário que aqui será visto, tem por principal objetivo, especialmente, na análise da influência da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, a busca pelo equilíbrio da contratação, como elemento finalístico, hoje, ao que nos parece, consolidado na legislação e em consolidação na jurisprudência daquela Corte Superior de Justiça. 2. Globalização: um ambiente consolidado e complexo para as relações contratuais Apesar da crise econômica enfrentada nos últimos anos, talvez desde Roma, até os dias atuais, a humanidade não tenha visto um país desejar tanto a manutenção da hegemonia econômica e, na esteira dela, a cultural, como ocorre hoje com os Estados Unidos da América, que impõem regras e um modo de vida semelhante para qualquer parte do mundo. É esse fator – de relevância para o raciocínio contratual contemporâneo – conhecido de todos, que nos força a ponderar e tentar entender o fenômeno da globalização. Aqui, de fato, a intenção não é considerar a globalização como mero modismo. A necessidade de considerá-la é real. Com efeito, a globalização é e funciona como o palco principal das contratações contemporâneas. É, a rigor, o fenômeno macro, maior. Não se pode afirmar ser o principal, uma vez que aqui se considera sobremaneira a dignidade da pessoa humana como contrapeso e elemento principal, mas é, sem embargo, o que mais influencia e requer reflexão. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 138 Para Ronaldo Porto Macedo Júnior, em artigo que procura discutir o fenômeno da globalização em face do direito do consumidor, “poder-se-ia definir provisória e preliminarmente globalização como um processo de natureza econômica e política marcado pelas seguintes características: a) ampliação do comércio internacional e formação de um mercado global assentado numa estrutura de produção pós-fordista (pós-industrial); b) homogeneização de padrões culturais e de consumo; c) enfraquecimento da ideia de Estado-nação em benefício dos agentes econômicos do novo mercado global; d) formação de blocos comerciais”.2 Numa visão que admite o aspecto político, Cristiano Chaves de Farias assevera que “genericamente, pode-se afirmar que é a designação dada ao conjunto de transformações de ordem política, social e econômica verificadas nos últimos tempos em quase todos os estados democráticos de direito, tendentes à integração dos mercados, possibilitando maior circulação de riquezas”.3 Como se vê, há um padrão de opiniões diante de uma noção objetivamente imprecisa. O que se busca, porém, é o delineamento desse fenômeno mundial que não parece esconder o real objetivo: padronizar comportamentos, consumo, cultura, ciência, tudo em benefício de interesses mais fortes. É esse, sim, o principal escopo pretendido, apesar de não se negar que em alguns casos traga bons frutos. São inúmeras as variáveis da globalização. Para este ensaio, entretanto, interessam os efeitos trazidos do ponto de vista econômico4 que afetam de frente os contratos. Aliás, não se pode olvidar que é o contrato o elemento principal facilitador de circulação de riquezas e é através dele que se pode aplicar e padronizar, em diversos níveis de relacionamento, a padronização almejada pelos timoneiros da ideia globalizante. Essa é uma realidade presente da atual contratualidade, que vive, talvez, seu auge, não só vislumbrada nas relações de consumo, mas também nas relações empresariais. 2 MACEDO JÚNIOR, Ronaldo Porto. Globalização e direito do consumidor. In: SUNDFELD, Carlos Ari; VIEIRA, Oscar Vilhena (Coords.). Direito global. São Paulo: Max Limonad, 2000. p. 225-239. 3 FARIAS, Cristiano Chaves de. A proteção do consumidor na era da globalização. Revista de Direito do Consumidor, São Paulo, n. 41, p. 89, jan./mar. 2002. 4 LOBO, Paulo Luiz Netto. Direito do Estado federado ante a globalização econômica. Revista Notícia do Direito Brasileiro, Nova Série, Brasília, Universidade de Brasília, n. 8, p. 202, 2001. Para o autor, “interessa sim, a chamada globalização econômica, notadamente quanto aos seus efeitos negativos e destrutivos sobre os direitos nacionais, máxime dos direitos sociais e da ordem econômica”. (LOBO, Paulo Luiz Netto, Direito do Estado federado ante a globalização econômica, p. 202). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 139 Não é demais ressaltar, como delineado por Ronaldo Porto Macedo Júnior, que há uma indiscutível intenção de ampliação do comércio internacional e formação de um mercado global. Ora, é essecomportamento sem fronteiras que enfraquece as empresas nacionais, gerando, por via de consequência, um maior enfraquecimento do consumidor doméstico e das empresas nacionais. A teoria do contrato, que em momento histórico mais recente se preocupou mais com a proteção dos envolvidos numa relação de consumo – e assim deve continuar fazendo – teve de ajustar seu rumo, para viabilizar a proteção também em outras relações que não contam, necessariamente, em seu bojo, com a presunção de parte hipossuficiente. Ora, se há um mercado global, se há a ideia de enfraquecimento do Estado-nação (antes especulado, hoje real), se há uma tendência de homogeneização de consumo com a presença, em praticamente todos os países do mundo ocidental, das mesmas empresas, dos mesmos grandes grupos empresariais, então deve haver um deslocamento do intervencionismo contratual para além do contrato de consumo. Não se poderá pensar de forma diversa, se se sabe que o elemento principal da globalização econômica é o próprio capital financeiro. Paulo Luiz Netto Lobo, em trabalho publicado há algum tempo, comentava e alertava para o fato de que “até agora, o que se vê é o crescimento da concentração de poder empresarial, em escala planetária impressionante, no qual os valores hegemônicos são ditados pelos interesses das grandes empresas, com força econômica e law making power superiores ao da maioria dos países”.5 Por seu turno, Paulo Bonavides consegue delinear, em poucas palavras, toda a estrutura do fenômeno globalizante. Quando comentando o comportamento neoliberal, diz: “Assim, por exemplo, quando intenta – e em alguns casos já o fez – desnacionalizar a ordem econômica, despedaçar o Estado, abdicar a soberania nos acordos lesivos ao interesse nacional, promover a recessão, perseguir com emendas constitucionais e medidas provisórias o corpo burocrático da administração pública, cercear direitos adquiridos, arruinar o pequeno e médio empresário, esparzir o medo e o 5 LOBO, Paulo Luiz Netto, Direito do Estado federado ante a globalização econômica, cit., p. 203. Cristiano Chaves de Farias comenta o seguinte: “Ora, esse processo de mundialização do capital tende a fomentar o consumo como forma de alcançar o lucro, que é o próprio resultado almejado. Nesse passo, é imperioso reconhecer como consectários desse fenômeno a hegemonia do capital financeiro, o crescimento de empresas transnacionais, a internacionalização da produção, a liberalização do comércio e o maior oferecimento de produtos e serviços, mudança nas práticas contratuais, com repercussões claras na sociedade organizada”. (A proteção do consumidor na era da globalização, cit., p. 89). Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 140 sobressalto na classe média, diminuir o crédito ao produtor rural, elevar à estratosfera a taxa de juros, esmorecer a reforma agrária, confiscar o bolso do contribuinte com novos impostos, fazer da reforma tributária um engodo e da reforma administrativa uma falácia, conduzir o trabalhador ao desespero, praticar sistematicamente uma política de desemprego que, levando a fome ao lar de suas vítimas, desestabiliza a ordem social, abater as autonomias estaduais e municipais, mediante mudanças na Constituição que afetam os entes federativos e só fortalecem a União, semear a descrença do povo na melhoria de sua qualidade de vida pela brutal indiferença com que trata a questão social, estabelecer o retrocesso político nas instituições republicanas com a reeleição presidencial, desestruturar o ensino público e comprimir com indigência de meios financeiros a autonomia universitária, abrir sem freios o mercado à voracidade dos capitais especulativos de procedência externa, que ameaçam de mexicanização a economia brasileira, descumprir oito artigos da Constituição que regem interesses fundamentais das Regiões, o que ocorre na medida em que sua política do Mercosul acelera os desequilíbrios regionais no País e, finalmente, jungir o Brasil a uma política de sujeição externa vazada na obediência aos interesses da chamada globalização econômica”. Mais adiante, o autor arremata: “A globalização é ainda um jogo sem regras; uma partida disputada sem arbitragem, onde só os gigantes, os grandes quadros da economia mundial, auferem as maiores vantagens e padecem os menores sacrifícios.”6 Apesar de todas as palavras destacadas merecerem grifo, para o mister pretendido nestas linhas que, como dito, ressalta o ambiente no qual está inserida a contratualidade contemporânea algumas devem ter destaque especial: a ruína do pequeno e médio empresário; a elevação à estratosfera da taxa de juros e a abertura do mercado à voracidade dos capitais especulativos de procedência ou com a ajuda externa. Mas, pode-se ir além. Outros aspectos facilitam sobremaneira a expansão das ideias e do poder privado aqui já delineado. Trata-se da alta evolução 6 BONAVIDES, Paulo. A Constituição aberta. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 1996. p. 282-283. Sobre o assunto e com referência expressa à influência exercida sobre os contratos, Maria Luiza Feitosa, comenta: “Num mercado que se desenvolve para a pluralização do lucro e da rentabilidade, o risco deixou de ser visto como instituto de negação do dano ou de prevenção das possibilidades de perdas, projetando-se sobre a própria essência das transações, às vezes, como elemento central do binômio especulação versus investimento. Nesse campo, tornou-se lícito, possível e determinável, podendo ser analisado, posto em tratativas e pactuado. Vincula-se aos contratos de maneira cotidiana e regular, compondo uma equação em perfeita sintonia e simbiose. Mesmo sem detalhar as diferenças encontradas, podem ser extraídas, nesta breve discrição, importantes e substanciais diferenças em comparação à contratação tradicional” (FEITOSA, Maria Luiza. Globalização financeira: mudanças que afetam o campo jurídico-econômico dos contratos e os modos de lidar com o risco. In: Liber Amicorum – Homenagem ao Prof. Doutor Antonio José Avelãs Nunes, 2009. p. 741-770. Revista Brasileira de Direito Civil | ISSN 2358-6974 | Volume 1 – Jul / Set 2014 141 tecnológica, devida muito pelo desenvolvimento e utilização dos supercomputadores e da internet. A partir de uma rede mundial de computadores ou televisão via satélite, é possível difundir, disseminar ideias, produtos, moda, de forma a incutir na mente de cada cidadão, isoladamente considerado, a necessidade de busca por determinada marca, produto ou fornecedor que, na maior parte das vezes, são representantes abertos das tais grandes empresas que acabam desestabilizando a economia de um país, com fortes reflexos na própria economia contratual. Mas, interessa também destacar aqui os principais efeitos do fenômeno globalizante, de forma a encontrar pontos que interfiram direta ou indiretamente nos contratos. Em primeiro lugar, no estágio atual, percebe-se com mais clareza que se procura afastar o Estado social, em face das garantias por ele promovidas. Como sabido por todos, o Estado social veio se contrapor ao Estado liberal, da livre iniciativa, com regras menos intervencionistas, da ampla utilização do voluntarismo, em que tudo era regido única e exclusivamente a partir da vontade das partes. Constatado o afastamento da igualdade real em face da existência de uma igualdade meramente formal, o Estado passou a intervir com mais intensidade nas relações privadas, com o escopo de procurar manter o equilíbrio das relações. É exatamente a época que coincide, segundo a tese de Miguel Reale, com a segunda fase do direito