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2018.1 CS - CIVIL IV 2018.1 1 DIREITO DE FAMÍLIA E SUCESSÕES DIREITO DE FAMÍLIA .................................................................................................................. 16 I. ABORDAGEM CRÍTICA E CONSTITUCIONAL, COM ÊNFASE NA DIMENSÃO SOCIOAFETIVA DO CONCEITO DE FAMÍLIA. ............................................................................ 16 1. INTRODUÇÃO CONSTITUCIONAL AO DIREITO DE FAMÍLIA ............................................. 16 1.1. A FAMÍLIA E A CF .......................................................................................................... 16 1.2. CONCEITO DE FAMÍLIA ................................................................................................ 17 1.3. CARACTERÍSTICAS DA FAMÍLIA .................................................................................. 17 1.3.1. Socioafetiva ............................................................................................................. 17 1.3.2. Eudemonista ............................................................................................................ 17 1.3.3. Anaparental ............................................................................................................. 17 II. NOVOS RUMOS DO DIREITO DE FAMÍLIA ......................................................................... 17 2. NOÇÕES GERAIS DO DIREITO DE FAMÍLIA ....................................................................... 17 2.1. CONCEITO E EVOLUÇÃO ............................................................................................. 17 2.1.1. Afeto ........................................................................................................................ 18 2.1.2. Ética ........................................................................................................................ 18 2.1.3. Dignidade ................................................................................................................ 19 2.1.4. Solidariedade recíproca ........................................................................................... 19 2.2. PERÍODO PRÉ CF/88 .................................................................................................... 20 2.2.1. Família matrimonializada ......................................................................................... 20 2.2.2. Família Patriarcal ..................................................................................................... 20 2.2.3. Família Hierarquizada .............................................................................................. 20 2.2.4. Família Biológica ..................................................................................................... 20 2.2.5. Família Heteroparental ............................................................................................ 20 2.2.6. Família Institucional ................................................................................................. 20 2.3. PERÍODO PÓS CF/88 .................................................................................................... 21 2.3.1. Família Múltipla........................................................................................................ 23 2.3.2. Família Democrática ................................................................................................ 23 2.3.3. Família Igualitária .................................................................................................... 23 2.3.4. Família Socioafetiva ................................................................................................ 23 2.3.5. Família heteroparental e homoparental ................................................................... 23 2.3.6. Família Instrumental ................................................................................................ 23 3. PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DO DIREITO DE FAMÍLIA (ART. 226 E 227 DA CF) ...... 25 4. PRINCÍPIO DA MULTIPLICIDADE/PLURALIDADE DE ENTIDADES FAMILIARES .............. 25 CS - CIVIL IV 2018.1 2 4.1. PREVISÃO CONSTITUCIONAL ..................................................................................... 25 4.2. QUESTÕES POLÊMICAS RELATIVAS À PLURALIDADE DE ENTIDADES FAMILIARES 27 4.2.1. Família reconstituída/recomposta ou “ensamblada” (misturada) .............................. 28 4.2.2. Família homoafetiva ................................................................................................ 29 4.2.3. Família concubinária ................................................................................................ 30 5. PRINCÍPIO DA IGUALDADE ENTRE HOMEM E MULHER .................................................. 32 5.1. A IGUALDADE NA CF .................................................................................................... 32 5.2. PROBLEMAS ................................................................................................................. 33 6. PRINCÍPIO DA IGUALDADE ENTRE OS FILHOS ................................................................ 34 6.1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS .......................................................................................... 34 6.2. CRITÉRIOS FILIATÓRIOS ............................................................................................. 35 6.2.1. Filiação biológica ..................................................................................................... 35 6.2.2. Filiação socioafetiva ................................................................................................ 35 6.2.3. Presunção legal (art. 1.597, “patter is est”) .............................................................. 35 6.3. CASOS ESPECIAIS ....................................................................................................... 35 6.3.1. Paternidade alimentar .............................................................................................. 35 6.3.2. Ação de investigação de paternidade X investigação de ancestralidade ................. 36 6.3.3. Multiparentalidade (teoria tridimensional do direito de família) ................................. 36 7. PRINCÍPIO DA FACILITAÇÃO DA DISSOLUÇÃO DO CASAMENTO ................................... 36 8. PRINCÍPIO DA RESPONSABILIDADE PARENTAL .............................................................. 36 8.1. 1ª CORRENTE: O ABANDONO AFETIVO NÃO É INDENIZÁVEL (4ªT DO STJ) ........... 37 8.2. 2ª CORRENTE: O ABANDONO AFETIVO É INDENIZÁVEL (3ªT STJ) .......................... 37 8.3. ENTENDIMENTO DO STF ............................................................................................. 38 8.4. PRAZO PRESCRICIONAL ............................................................................................. 38 III. CASAMENTO .................................................................................................................... 39 1. CONCEITO ............................................................................................................................ 40 2. TEORIAS EXPLICATIVAS DA NATUREZA JURÍDICA DO CASAMENTO ............................ 40 2.1. CORRENTE DE DIREITO PÚBLICO .............................................................................. 40 2.2. CORRENTE DE DIREITO PRIVADO ............................................................................. 40 3. PROCEDIMENTO DE HABILITAÇÃO PARA O CASAMENTO .............................................. 40 4. PLANO DE EXISTÊNCIA DO CASAMENTO ......................................................................... 44 4.1. CELEBRAÇÃO POR AUTORIDADE MATERIALMENTE COMPETENTE ...................... 444.2. CONSENTIMENTO (ART. 1.538) ................................................................................... 44 4.3. DIVERSIDADE DE SEXOS ............................................................................................ 45 5. PLANOS DE VALIDADE E EFICÁCIA DO CASAMENTO: CONSIDERAÇÕES ..................... 46 CS - CIVIL IV 2018.1 3 6. PLANO DA VALIDADE DO CASAMENTO ............................................................................ 46 6.1. CASAMENTO NULO (IMPEDIMENTOS) ........................................................................ 46 6.1.1. Legitimidade para a ação de nulidade ..................................................................... 48 6.2. CASAMENTO ANULÁVEL (ART. 1.550) ........................................................................ 48 6.2.1. Artigo 1.550: quando é anulável o casamento ......................................................... 48 6.2.2. Vícios da vontade que podem anular o casamento (causas de anulação: 1556 a 1558 CC) ............................................................................................................................... 50 6.2.3. Legitimidade para a ação de anulação .................................................................... 53 6.2.4. Natureza da sentença que anula o casamento ........................................................ 53 6.2.5. Prazo para a ANULAÇÃO do casamento................................................................. 54 7. PLANO DA EFICÁCIA DO CASAMENTO .............................................................................. 54 7.1. CAUSAS SUSPENSIVAS (Art. 1.523) ............................................................................ 54 7.2. MOMENTO E LEGITIMIDADE DE OPOSIÇÃO DOS IMPEDIMENTOS E CAUSAS SUSPENSIVAS ......................................................................................................................... 55 8. NOIVADO (PROMESSA DE CASAMENTO OU ESPONSAIS) .............................................. 56 9. FORMAS ESPECIAIS DE CASAMENTO .............................................................................. 56 9.1. CASAMENTO POR PROCURAÇÃO (ART. 1.242) ......................................................... 56 9.2. CASAMENTO NUNCUPATIVO (IN EXTREMIS OU IN ARTICULO MORTIS) ................ 57 9.3. CASAMENTO EM CASO DE MOLÉSTIA GRAVE (ART. 1.539)..................................... 57 10. “CASAMENTO PUTATIVO” ............................................................................................... 58 11. CAPACIDADE PARA O CASAMENTO .............................................................................. 58 12. REGIME DE BENS ............................................................................................................ 59 12.1. CONCEITO ................................................................................................................. 59 12.2. REGIME DE SEPARAÇÃO OBRIGATÓRIA DE BENS (SEPARAÇÃO LEGAL) ......... 60 12.3. REGIME DE PARTICIPAÇÃO FINAL NOS AQUESTOS ............................................. 60 12.4. REGIME DE COMUNHÃO PARCIAL DE BENS ......................................................... 62 12.5. REGIME DE COMUNHÃO UNIVERSAL DE BENS ..................................................... 65 12.6. REGIME DE SEPARAÇÃO CONVENCIONAL DE BENS ........................................... 66 12.7. RESUMO DOS REGIMES .......................................................................................... 66 12.8. AUTORIZAÇÃO CONJUGAL ...................................................................................... 67 12.8.1. Atos que NECESSITAM da vênia conjugal .............................................................. 67 12.8.2. Atos que PRESCINDEM da vênia conjugal ............................................................. 69 13. DEVERES DO CASAMENTO ............................................................................................ 69 IV. DISSOLUÇÃO DO CASAMENTO ...................................................................................... 71 1. SISTEMA DUALISTA DE DISSOLUÇÃO ............................................................................... 71 1.1. DEFINIÇÃO .................................................................................................................... 71 CS - CIVIL IV 2018.1 4 1.2. CAUSAS TERMINATIVAS .............................................................................................. 71 1.3. CAUSAS DISSOLUTIVAS .............................................................................................. 72 2. PONTOS POLÊMICOS DA DISSOLUÇÃO............................................................................ 72 2.1. SOMENTE A MORTE REAL DISSOLVE O CASAMENTO? ........................................... 72 2.2. ADMITE-SE A CUMULAÇÃO DE PEDIDOS NA AÇÃO ONDE SE BUSCA A DISSOLUÇÃO DO CASAMENTO? ........................................................................................... 73 2.3. INTERESSE DE AGIR NA AÇÃO DE ANULAÇÃO/NULIDADE DO CASAMENTO ........ 74 3. SEPARAÇÃO E DIVÓRCIO: CARACTERÍSTICAS MATERIAIS E PROCESSUAIS COMUNS 74 3.1. NATUREZA PERSONALÍSSIMA DA MEDIDA................................................................ 74 3.2. POSSIBILIDADE DE DISPENSA DA PARTILHA DOS BENS (ART. 1.581 DO CC E SÚMULA 197 DO STJ). ............................................................................................................. 75 3.3. REVELIA NA SEPARAÇÃO E DIVÓRCIO (ART. 345, II DO CPC/2015) ........................ 75 3.4. COMPETÊNCIA JUDICIAL PARA AS AÇÕES ............................................................... 76 3.5. USO DO SOBRENOME ................................................................................................. 76 3.6. DIVISÃO DE FRUTOS DECORRENTES DE COISA COMUM ....................................... 77 3.7. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA ............................................. 77 3.8. PARTILHA DE BENS ...................................................................................................... 78 3.9. GUARDA UNILATERAL E COMPARTILHADA (ART. 1.583 E 1.584) ............................ 78 3.9.1. Espécies de guarda ................................................................................................. 78 3.9.2. Como é definida a espécie de guarda que será aplicada? ....................................... 80 3.9.3. Sempre que possível, deve ser tentada a conciliação ............................................. 80 3.9.4. Caso não tenha havido acordo, qual é a espécie de guarda que o juiz deverá preferencialmente determinar? .............................................................................................. 80 3.9.5. Posição da doutrina ................................................................................................. 81 3.9.6. Regras sobre a guarda compartilhada trazidas pela lei............................................ 81 3.9.7. E se os pais morarem em cidades diferentes? ........................................................ 82 3.9.8. Dever de os estabelecimentos públicos e privados prestarem informações aos pais 82 3.9.9. Descumprimento das regras .................................................................................... 82 3.9.10. A guarda pode ser deferida para outra pessoa que não seja o pai ou a mãe? ......... 82 3.9.11. Poder familiar .......................................................................................................... 82 3.10. RESPONSABILIDADE CIVIL ENTRE CÔNJUGES ..................................................... 84 4. SEPARAÇÃO DE CORPOS ..................................................................................................85 5. SEPARAÇÃO DE FATO ........................................................................................................ 85 5.1. CONCEITO ..................................................................................................................... 86 5.2. EFEITOS DA SEPARAÇÃO DE FATO ........................................................................... 86 CS - CIVIL IV 2018.1 5 5.2.1. Contagem do prazo para o divórcio direto ............................................................... 86 5.2.2. Permissão para caracterização da união estável (uma pessoa casada, embora separada de fato, pode constituir união estável - art. 1.723, §1º). .......................................... 86 5.2.3. Cessação do regime de bens POLÊMICA. .......................................................... 86 5.2.4. Perda do direito sucessório (art. 1.830) POLÊMICA ............................................ 87 6. DIVÓRCIO ............................................................................................................................. 89 6.1. EVOLUÇÃO E CONCEITO ............................................................................................. 89 6.2. DIVÓRCIO LITIGIOSO ................................................................................................... 90 6.3. DIVÓRCIO CONSENSUAL ............................................................................................. 91 6.4. DIVÓRCIO CONSENSUAL EM CARTÓRIO ................................................................... 93 7. SEPARAÇÃO DE DIREITO ................................................................................................... 93 7.1. CONCEITO ..................................................................................................................... 94 7.2. ESPÉCIES DE SEPARAÇÃO ......................................................................................... 94 7.3. SEPARAÇÃO CONSENSUAL ........................................................................................ 95 7.4. SEPARAÇÃO LITIGIOSA (SANÇÃO, FALÊNCIA, REMÉDIO) ....................................... 96 7.4.1. Separação sanção (ver abaixo sobre a EC/66) ........................................................ 96 7.4.2. Separação falência .................................................................................................. 98 7.4.3. Separação remédio ................................................................................................. 98 8. PROCEDIMENTO DE JURISDIÇÃO VOLUNTÁRIA DE SEPARAÇAO OU DIVÓRCIO CONSENSUAIS ............................................................................................................................ 99 9. SEPARAÇÃO E DIVÓRCIO CONSENSUAIS NO CARTÓRIO .............................................. 99 10. GUARDA DE FILHOS ...................................................................................................... 100 11. DIVÓRCIO: IMPACTO DA EC/66 (AINDA POR PABLO STOLZE)................................... 101 11.1. INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 101 11.2. EFEITOS DA EC 66/2010 ......................................................................................... 102 11.3. EMENDA 66/2010 E SEPARAÇÃO DE CORPOS ..................................................... 102 11.4. EMENDA 66/2010 E GUARDA DE FILHO ................................................................ 102 11.5. EMENDA 66/2010 E SÍNDROME DA ALIENAÇÃO PARENTAL ............................... 102 11.6. EMENDA DO DIVÓRCIO E USO DO NOME ............................................................ 103 11.7. EMENDA 66/2010 E ALIMENTOS ............................................................................ 103 11.8. EMENDA 66/2010 E REGIME DE BENS .................................................................. 103 11.9. ASPECTOS PROCESSUAIS DA NOVA EMENDA ................................................... 103 12. USUFRUTO E ADMINISTRAÇÃO DOS BENS DOS FILHOS .......................................... 104 V. UNIÃO ESTÁVEL ................................................................................................................ 105 1. INTRODUÇÃO HISTÓRICA À UNIÃO ESTÁVEL ................................................................ 105 2. CONCEITO .......................................................................................................................... 106 CS - CIVIL IV 2018.1 6 3. DEVERES (OU EFEITOS) DECORRENTES DA UNIÃO ESTÁVEL (ART. 1.724) ............... 107 4. AÇÃO DECLARATÓRIA DE RECONHECIMENTO E DE DISSOLUÇÃO DA UNIÃO ESTÁVEL 108 4.1. NOÇÕES GERAIS ........................................................................................................ 108 4.2. AÇÃO DECLARATÓRIA DE RECONHECIMENTO E DISSOLUÇÃO DA UNIÃO ESTÁVEL E DIREITO DE HERANÇA ..................................................................................... 108 4.3. AÇÃO DECLARATÓRIA DE RECONHECIMENTO E DISSOLUÇÃO DA UNIÃO ESTÁVEL E ALIMENTOS ....................................................................................................... 108 4.3.1. Situação 1: Inexiste o reconhecimento prévio do dever de assistência .................. 109 4.3.2. Prova pré-constituída da relação de convivência ................................................... 109 4.4. LEGITIMIDADE PARA A AÇÃO DE RECONHECIMENTO DE UNIÃO ESTÁVEL ........ 109 4.4.1. Ativa ...................................................................................................................... 109 4.4.2. Legitimidade passiva ............................................................................................. 110 5. DIREITOS DA (O) CONCUBINA (O) – DIREITOS DOS AMANTES .................................... 110 5.1. PREVISÃO LEGAL E ENTENDIMENTOS .................................................................... 110 5.2. É POSSÍVEL A EXISTÊNCIA DE DUAS FAMÍLIAS SIMULTÂNEAS (FAMÍLIAS PARALELAS)? ........................................................................................................................ 111 5.3. CONCLUSÕES JURISPRUDENCIAIS E DOUTRINÁRIAS .......................................... 112 5.4. VEDAÇÕES AO CONCUBINATO ................................................................................. 113 5.5. “CONCUBINATO PURO” E “CONCUBINATO IMPURO” .............................................. 113 VI. PARENTESCO ................................................................................................................ 114 1. CONCEITO .......................................................................................................................... 114 2. PARENTESCO CONSANGUÍNEO (OU NATURAL) ............................................................ 114 2.1. PARENTESCO POR AFINIDADE ................................................................................. 115 2.2. DISTINÇÕES ENTRE PARENTESCO NA LINHA RETA, COLATERAL E POR AFINIDADE ............................................................................................................................. 115 VII. FILIAÇÃO (PARTE I) ........................................................................................................ 116 1. CONCEITO .......................................................................................................................... 116 2. PRINCÍPIO DA ISONOMIA .................................................................................................. 116 3. RECONHECIMENTO DE FILHOS ....................................................................................... 117 3.1. INTRODUÇÃO ..............................................................................................................117 3.2. FORMAS DE RECONHECIMENTO VOLUNTÁRIO DE FILHO (CC, ART. 1.609). PERFILHAÇÃO. ...................................................................................................................... 117 3.2.1. Regras ................................................................................................................... 117 3.2.2. Natureza jurídica do ato de reconhecimento de filhos ............................................ 118 3.2.3. Unilateralidade e bilateralidade do reconhecimento de filho .................................. 118 3.2.4. Características do reconhecimento voluntário de filho ........................................... 119 CS - CIVIL IV 2018.1 7 3.2.5. Impugnação do reconhecimento de paternidade pelo filho .................................... 119 3.2.6. Ação negatória de paternidade x Ação de impugnação de paternidade ................. 119 3.3. RECONHECIMENTO JUDICIAL DOS FILHOS ............................................................ 120 3.3.1. Ação investigatória de paternidade ........................................................................ 120 4. CRITÉRIOS DE FILIAÇÃO .................................................................................................. 124 4.1. CRITÉRIO DE FILIAÇÃO POR PRESUNÇÃO LEGAL. ART. 1.597: PRESUNÇÃO RELATIVA DE FILIAÇÃO (“pater is est”) ................................................................................. 124 4.2. CRITÉRIO DE FILIAÇÃO SOCIOAFETIVO: PATERNIDADE SOCIOAFETIVA ............ 125 4.3. CRITÉRIO BIOLÓGICO ................................................................................................ 125 VIII. FILIAÇÃO (PARTE II) ....................................................................................................... 125 1. ISONOMIA ENTRE OS FILHOS – CF/88 ............................................................................ 125 2. FORMAS (CRITÉRIOS) DE FILIAÇÃO ................................................................................ 126 2.1. ESPÉCIES .................................................................................................................... 126 2.2. CRITÉRIO DA PRESUNÇÃO LEGAL (PRESUNÇÃO PATER IS EST) ........................ 126 2.2.1. Conceitos............................................................................................................... 126 2.2.2. A presunção legal pelo casamento ........................................................................ 127 2.2.3. Questionamentos importantes (retirados do Livro do Tartuce) ............................... 129 2.3. CRITÉRIO BIOLÓGICO ................................................................................................ 131 2.3.1. Conceitos............................................................................................................... 131 2.3.2. DNA gratuito x Presunção ..................................................................................... 131 2.4. CRITÉRIO DA FILIAÇÃO SOCIOAFETIVA .................................................................. 132 2.4.1. Conceitos............................................................................................................... 132 2.4.2. Investigação de Origem Genética X Investigação de Parentalidade ...................... 133 2.4.3. Outros reflexos da socioafetividade no direito de família ....................................... 134 3. AÇÕES DE FAMÍLIA ........................................................................................................... 137 3.1. AÇÃO DE RECONHECIMENTO DE FILIAÇÃO – OU AÇÃO DE PROVA DA FILIAÇÃO 137 3.2. AÇÃO NEGATÓRIA DE PATERNIDADE OU DE IMPUGNAÇÃO DE PATERNIDADE – OU AÇÃO CONTESTATÓRIA DE PATERNIDADE ................................................................. 137 3.3. AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE (já vimos acima) ............................... 138 3.4. IMPUGNAÇÃO AO RECONHECIMENTO .................................................................... 139 3.5. IMPUGNAÇÃO DA MATERNIDADE PELA SUPOSTA MÃE ........................................ 139 IX. ALIMENTOS .................................................................................................................... 139 1. CONCEITO .......................................................................................................................... 139 2. FUNDAMENTO ................................................................................................................... 140 3. ESPÉCIES DE ALIMENTOS (CLASSIFICAÇÃO) ................................................................ 141 CS - CIVIL IV 2018.1 8 3.1. QUANTO À NATUREZA DOS ALIMENTOS ................................................................. 141 3.1.1. Alimentos Civis ou Côngruos ................................................................................. 142 3.1.2. Alimentos necessários/Indispensáveis ................................................................... 142 3.2. QUANTO À CAUSA (ORIGEM) DOS ALIMENTOS ...................................................... 144 3.2.1. Alimentos Legítimos ou Legais .............................................................................. 144 3.2.2. Alimentos Convencionais ou Voluntários ............................................................... 144 3.2.3. Alimentos Ressarcitórios ou Reparatórios ............................................................. 144 3.3. QUANTO AO MOMENTO DA EXIGIBILIDADE ............................................................ 145 3.3.1. Pretéritos ............................................................................................................... 145 3.3.2. Presentes .............................................................................................................. 145 3.3.3. Futuros .................................................................................................................. 145 3.4. QUANTO A FINALIDADE ............................................................................................. 146 3.4.1. Alimentos Provisórios ............................................................................................ 146 3.4.2. Alimentos Provisionais (antigo art. 852 CPC) ........................................................ 147 3.4.3. Definitivos .............................................................................................................. 148 3.5. OBSERVAÇÕES .......................................................................................................... 149 4. CARACTERÍSTICAS DA OBRIGAÇÃO ALIMENTÍCIA ........................................................ 151 4.1. PERSONALÍSSIMA (INTUITO PERSONA) .................................................................. 151 4.2. INTRANSMISSIBILIDADE ............................................................................................ 151 4.3. IRRENUNCIÁVEIS (ART.1707, CC) ............................................................................. 153 4.4. IMPRESCRITÍVEIS ...................................................................................................... 154 4.5. IMPENHORÁVEIS E INCOMPENSÁVEIS .................................................................... 155 4.6. IRREPETÍVEIS ............................................................................................................. 155 4.7. FUTURIDADE (ALIMENTOS SÃO FUTUROS) ............................................................ 157 5. SUJEITOS DA OBRIGAÇÃO ALIMENTÍCIA ........................................................................ 157 5.1. INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 157 5.2.CÔNJUGE OU COMPANHEIROS ................................................................................ 157 5.3. PARENTES .................................................................................................................. 158 5.3.1. Regras gerais ........................................................................................................ 158 5.3.2. Fundamentos dos alimentos entre ASCENDENTES e DESCENDENTES ............. 158 5.4. ALIMENTOS GRAVÍDICOS: NASCITURO OU MÃE? .................................................. 159 6. ASPECTOS PROCESSUAIS (ALIMENTOS: LEI 5478/68) .................................................. 160 6.1. NOTAS INICIAIS .......................................................................................................... 160 6.2. PROCEDIMENTO DA AÇÃO DE ALIMENTOS ............................................................ 160 6.2.1. Petição Inicial ........................................................................................................ 160 6.2.2. Competência ......................................................................................................... 161 CS - CIVIL IV 2018.1 9 6.2.3. Fixação dos alimentos provisórios e despacho inicial ............................................ 161 6.2.4. Citação .................................................................................................................. 161 6.2.5. Audiência una de conciliação, instrução e julgamento ........................................... 161 6.2.6. Sentença e Recurso .............................................................................................. 162 6.2.7. Execução ............................................................................................................... 163 6.3. JURISPRUDÊNCIA DO STJ ......................................................................................... 164 6.4. A COBRANÇA DOS ALIMENTOS NO NCPC (MARIA BERENICE DIAS) .................... 165 6.4.1. Cumprimento da sentença ..................................................................................... 168 6.4.2. Execução de título extrajudicial .............................................................................. 171 6.4.3. Rito da coação pessoal .......................................................................................... 171 6.4.4. Rito da expropriação .............................................................................................. 172 X. TUTELA E CURATELA ........................................................................................................ 174 1. DIREITO DE FAMÍLIA ASSISTENCIAL ............................................................................... 174 2. TUTELA ............................................................................................................................... 176 2.1. INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 176 2.2. ESPÉCIES DE TUTELA ............................................................................................... 177 2.2.1. Tutela documental ................................................................................................. 177 2.2.2. Tutela testamentária .............................................................................................. 177 2.2.3. Tutela legítima ....................................................................................................... 177 2.2.4. Tutela dativa .......................................................................................................... 177 2.3. DOS INCAPAZES DE EXERCER TUTELA .................................................................. 178 2.4. DAS ESCUSAS DOS TUTORES .................................................................................. 179 2.5. CONSENTIMENTO DO TUTELADO ............................................................................ 179 2.6. DISPENSA DE ESPECIALIAÇÃO DE HIPOTECA LEGAL ........................................... 180 2.7. RESPONSABILIDADE DO MAGISTRADO ................................................................... 180 2.8. REMUNERAÇÃO, REPONSABILIDADE E PRESTAÇÃO DE CONTAS PELO TUTOR 180 2.8.1. Incumbências ........................................................................................................ 180 2.8.2. Remuneração ........................................................................................................ 181 2.8.3. Responsabilidade do Tutor .................................................................................... 181 2.8.4. Prestação de contas .............................................................................................. 181 2.9. DOS BENS DO TUTELADO ......................................................................................... 183 2.10. DA CESSAÇÃO DA TUTELA .................................................................................... 184 3. CURATELA.......................................................................................................................... 184 3.1. TEORIA DA INCAPACIDADE JURÍDICA ...................................................................... 184 3.2. CURATELA DOS INTERDITOS ................................................................................... 185 CS - CIVIL IV 2018.1 10 3.2.1. Por enfermidade ou deficiência mental, não tivessem o necessário discernimento para os atos da vida civil ...................................................................................................... 185 3.2.2. Hébrios habituais e os vicidos em tôxico ............................................................... 186 3.2.3. Pródigos ................................................................................................................ 186 3.3. CURATELA X CURADORIA ......................................................................................... 186 3.4. CURATELAS PECULIARES ......................................................................................... 186 3.4.1. Curador especial do nascituro ............................................................................... 186 3.4.2. Curatelas especiais* .............................................................................................. 186 3.5. TOMADA DE DECISÃO APOIADA ............................................................................... 187 4. INTERNAÇÃO PSIQUIÁTRICA VOLUNTÁRIA E INVOLUNTÁRIA...................................... 189 DIREITO DAS SUCESSÕES ...................................................................................................... 190 1. INTRODUÇÃO AO DIREITO DAS SUCESSÕES ................................................................ 190 1.1. CONCEITO ................................................................................................................... 190 1.2. ESPÉCIES DE SUCESSÃO HEREDITÁRIA ................................................................ 191 1.2.1. Testamentária ........................................................................................................ 191 1.2.2. Legítima ................................................................................................................. 191 1.3. LEI SUCESSÓRIA NO TEMPO E NO ESPAÇO ........................................................... 191 1.4. PRINCÍPIO DA SAISINE .............................................................................................. 191 1.5. ACEITAÇÃO E CESSÃO DA HERANÇA ...................................................................... 192 1.6. RENÚNCIA DA HERANÇA ...........................................................................................193 1.7. LEGITIMIDADE PARA SUCEDER (ART. 1.798 E 1.799) ............................................. 194 2. CONSIDERAÇÕES IMPORTANTES SOBRE O DIREITO DAS SUCESSÕES ................... 196 3. TERMINOLOGIA DO DIREITO DAS SUCESSÕES ............................................................. 197 3.1. “AUTOR DA HERANÇA” .............................................................................................. 197 3.2. “SUCESSOR” ............................................................................................................... 198 3.2.1. “Herdeiro” .............................................................................................................. 198 3.2.2. “Legatário” ............................................................................................................. 198 3.3. “LEGÍTIMA” .................................................................................................................. 198 3.4. “ABERTURA” DA SUCESSÃO ..................................................................................... 199 3.5. “DELAÇÃO” E “ADIÇÃO” (CC/16) ................................................................................. 199 3.6. “EREPÇÃO” (CC/16) .................................................................................................... 199 3.7. DIFERENÇA: HERANÇA X ESPÓLIO .......................................................................... 199 3.7.1. “Herança”............................................................................................................... 200 3.7.2. “Espólio” ................................................................................................................ 200 4. CONTEÚDO DO DIREITO DAS SUCESSÕES ................................................................... 200 XI. SUCESSÃO EM GERAL: REGRAS GERAIS SUCESSÓRIAS ........................................ 201 CS - CIVIL IV 2018.1 11 1. MOMENTO DE ABERTURA DA SUCESSÃO (CC, ART. 1.784) ......................................... 201 1.1. TRANSMISSÃO AUTOMÁTICA DAS RELAÇÕES JURÍDICAS: SAISINE .................... 201 1.2. ABERTURA DA SUCESSÃO X ABERTURA DO INVENTÁRIO ................................... 202 1.3. OUTROS EFEITOS JURÍDICOS QUE DECORREM DO PRINCÍPIO DA “SAISINE” .... 202 1.3.1. Fixação da norma legal que regerá a sucessão ..................................................... 202 1.3.2. Verificação da capacidade para suceder ............................................................... 202 1.3.3. Cálculo da legítima ................................................................................................ 202 1.3.4. Fixa o lugar da sucessão (art. 1.785) ..................................................................... 202 2. CAPACIDADE SUCESSÓRIA ............................................................................................. 203 2.1. CONCEITO ................................................................................................................... 203 2.1.1. Elementos que compõem a capacidade sucessória (ou capacidade para suceder) 203 3. INDIGNIDADE E DESERDAÇÃO ........................................................................................ 204 3.1. ASPECTOS GERAIS .................................................................................................... 204 3.2. ASPECTOS DISTINTIVOS: DIGNIDADE x DESERDAÇÃO ......................................... 205 3.3. CAUSAS DE INDIGNIDADE (ART. 1.814) .................................................................... 206 3.4. CAUSAS DE DESERDAÇÃO (1.814, 1.962 E 1.963) ................................................... 206 4. CESSÃO DE DIREITOS HEREDITÁRIOS (ART. 1.793)...................................................... 207 4.1. INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 207 4.2. REQUISITOS DA CESSÃO DE DIREITOS HEREDITÁRIOS ....................................... 208 4.2.1. Requisito temporal ................................................................................................. 208 4.2.2. Requisito subjetivo ................................................................................................. 208 4.2.3. Requisito formal ..................................................................................................... 209 4.2.4. Requisito objetivo .................................................................................................. 209 4.2.5. Observância do direito de preferência dos demais herdeiros ................................. 209 4.3. POSIÇÃO DO CESSIONÁRIO E ESPÉCIE DE NEGÓCIO JURÍDICO QUE CONFIGURA A CESSÃO DE DIREITOS HEREDITÁRIOS ........................................................................... 210 5. ACEITAÇÃO DA HERANÇA ................................................................................................ 211 5.1. PREVISÃO LEGAL ....................................................................................................... 211 5.2. CLASSIFICAÇÃO DA ACEITAÇÃO DA HERANÇA ...................................................... 211 5.2.1. Quanto à pessoa que aceita .................................................................................. 211 5.2.2. Quanto à manifestação de vontade ....................................................................... 211 6. RENÚNCIA À HERANÇA .................................................................................................... 213 6.1. PREVISÃO LEGAL ....................................................................................................... 213 6.2. REQUISITOS DA RENÚNCIA À HERANÇA ................................................................. 213 6.2.1. Capacidade do renunciante ................................................................................... 213 CS - CIVIL IV 2018.1 12 6.2.2. Consentimento do cônjuge .................................................................................... 213 6.3. RENÚNCIA ABDICATIVA OU TRANSLATIVA OU IN FAVOREM ................................ 214 XII. SUCESSÃO LEGÍTIMA (DECORRE DA LEI) ................................................................... 214 1. INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 214 2. SUCESSÃO DOS DESCENDENTES .................................................................................. 215 3. SUCESSÃO DOS ASCENDENTES ..................................................................................... 216 4. SUCESSÃO DO CÔNJUGE ................................................................................................ 216 4.1. CONCORRÊNCIA CÔNJUGE X DESCENDENTE ....................................................... 216 4.1.1. Existência de descendentes .................................................................................. 217 4.1.2. Depende do regime de bens (e da existência de bens particulares) ...................... 217 4.1.3. Obediência ao percentual legal .............................................................................. 219 4.2. CONCORRÊNCIA CÔNJUGE X ASCENDENTE .......................................................... 220 4.2.1. Inexistência de descendentes ................................................................................ 220 4.2.2. Independe do regime de bens ............................................................................... 220 4.2.3. Concorrência incide sobre todo patrimônio ............................................................ 220 4.2.4. Percentual de ½; 1/3 quando concorre com pai E mãe .......................................... 221 4.3. SUCESSÃO DO CÔNJUGESOZINHO ........................................................................ 221 4.3.1. Falta de ascendentes e descendentes ................................................................... 221 4.3.2. Independe do regime de bens ............................................................................... 221 4.3.3. O cônjuge no momento do óbito precisa estar convivendo para ter direito a herança. 221 4.3.4. Direito real de habitação: Art. 1.831. ...................................................................... 223 5. SUCESSÃO DO COMPANHEIRO (art. 1790) ...................................................................... 224 6. SUCESSÃO DOS COLATERAIS ......................................................................................... 229 7. AÇÃO DE PETIÇÃO DE HERANÇA .................................................................................... 230 7.1. CONCEITO ................................................................................................................... 230 7.2. LEGITIMIDADE ATIVA ................................................................................................. 231 7.3. LEGITIMIDADE PASSIVA ............................................................................................ 231 7.4. NATUREZA JURÍDICA DA AÇÃO DE PETIÇÃO DE HERANÇA .................................. 231 7.5. PROCEDIMENTO ........................................................................................................ 232 7.6. PRAZO PRESCRICIONAL ........................................................................................... 232 7.7. HERDEIRO PUTATIVO E TERCEIRO DE BOA-FÉ...................................................... 233 XIII. SUCESSÃO TESTAMENTÁRIA ....................................................................................... 233 1. INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 233 2. TESTAMENTO .................................................................................................................... 233 3. CLASSIFICAÇÃO DO TESTAMENTO ................................................................................. 234 CS - CIVIL IV 2018.1 13 3.1. NATUREZA NEGOCIAL ............................................................................................... 234 3.2. CARÁTER PERSONALÍSSIMO .................................................................................... 234 3.3. UNILATERALIDADE ..................................................................................................... 234 3.4. GRATUIDADE .............................................................................................................. 234 3.5. REVOGABILIDADE ...................................................................................................... 234 3.6. SOLENE ....................................................................................................................... 235 3.7. EFICÁCIA CAUSA MORTIS ......................................................................................... 235 4. PRESSUPOSTOS DA SUCESSÃO TESTAMENTÁRIA ...................................................... 235 4.1. OBSERVÂNCIA DO LIMITE DA LEGÍTIMA .................................................................. 235 4.2. PESSOA CAPAZ DE DISPOR POR MEIO DE TESTAMENTO (CAPACIDADE TESTAMENTÁRIA ATIVA) ...................................................................................................... 237 4.3. PESSOA CAPAZ DE RECEBER HERANÇA OU LEGADO (CAPACIDADE TESTAMENTÁRIA PASSIVA) ................................................................................................. 237 4.4. PROIBIDOS DE RECEBER HERANÇA OU LEGADO .................................................. 238 4.5. CUMPRIMENTO DA FORMA PRESCRITA EM LEI ..................................................... 239 4.5.1. Testamentos comuns............................................................................................. 240 4.5.2. Testamentos excepcionais .................................................................................... 243 4.6. CODICILO .................................................................................................................... 244 4.6.1. Conceito ................................................................................................................ 244 4.6.2. Problemática do codicilo: o que é pequeno legado? .............................................. 245 4.6.3. Objeto do codicilo .................................................................................................. 245 5. CLÁSULAS TESTAMENTÁRIAS ......................................................................................... 245 5.1. CONCEITO ................................................................................................................... 245 5.2. REGRAS INTERPRETATIVAS DAS CLÁUSULAS TESTAMENTÁRIAS ...................... 246 5.3. REGRAS PROIBITIVAS ............................................................................................... 247 5.4. REGRAS PERMISSIVAS ............................................................................................. 248 5.4.1. Redução de cláusula testamentária ....................................................................... 250 5.5. DIREITO DE ACRESCER............................................................................................. 252 6. EXECUÇÃO DOS TESTAMENTOS..................................................................................... 253 7. FIGURA DO TESTAMENTEIRO .......................................................................................... 253 8. DA REVOGAÇÃO DO TESTAMENTO ................................................................................ 254 8.1. FORMAS DE REVOGAÇÃO DO TESTAMENTO ......................................................... 254 8.1.1. Quanto à extensão da revogação de testamento ................................................... 254 8.1.2. Quanto à forma da revogação de testamento ........................................................ 255 8.2. REVOGAÇÃO POR TESTAMENTO ANULADO ........................................................... 255 8.3. REVOGAÇÃO DO TESTAMENTO REVOGATÓRIO .................................................... 255 CS - CIVIL IV 2018.1 14 9. ROMPIMENTO DO TESTAMENTO ..................................................................................... 256 9.1. SUPERVENIÊNCIA DE DESCENDENTE SUCESSÍVEL ............................................. 256 9.2. SURGIMENTO DE HERDEIROS NECESSÁRIOS IGNORADOS, DEPOIS DO TESTAMENTO ........................................................................................................................ 256 9.3. SUBSISTÊNCIA DO TESTAMENTO SE CONHECIDA A EXISTÊNCIA DE HERDEIROS NECESSÁRIOS ...................................................................................................................... 257 XIV. INVENTÁRIO E PARTILHA .............................................................................................. 257 1. CONCEITO .......................................................................................................................... 257 2. PROCEDIMENTO DE INVENTÁRIO ................................................................................... 257 2.1. INVENTÁRIO TRADICIONAL OU SOLENE ................................................................. 258 2.2. ARROLAMENTO COMUM (ART. 664, NCPC) ............................................................. 258 2.3. ARROLAMENTO SUMÁRIO (ARTS. 659 E 660, NCPC) .............................................. 259 2.4. “INVENTÁRIO NEGATIVO” ..........................................................................................260 3. EXCEÇÕES PROCEDIMENTAIS ........................................................................................ 260 3.1. ALVARÁ JUDICIAL (LEI 6.858/80 E DL 85.845/81) ...................................................... 260 3.2. INVENTÁRIO ADMINISTRATIVO OU CARTORÁRIO (LEI 11.441/07) ......................... 261 4. REGRAS DO INVENTÁRIO SOLENE ................................................................................. 261 4.1. COMPETÊNCIA ........................................................................................................... 261 4.2. PRAZO DE ABERTURA DO INVENTÁRIO .................................................................. 262 4.3. LEGITIMIDADE PARA O REQUERIMENTO DE INVENTÁRIO E PARTILHA .............. 263 4.4. A FIGURA DO INVENTARIANTE ................................................................................. 264 4.4.1. Noções gerais ........................................................................................................ 264 4.4.2. Nomeação do Inventariante ................................................................................... 264 4.4.3. Atribuições do inventariante ................................................................................... 265 4.4.4. Remoção e Destituição do inventariante ................................................................ 266 4.5. PROCEDIMENTO DO INVENTÁRIO SOLENE ............................................................ 267 4.5.1. Petição inicial ......................................................................................................... 267 4.5.2. Decisão de nomeação do inventariante ................................................................. 267 4.5.3. Compromisso do inventariante no prazo de 5 dias ................................................ 267 4.5.4. Apresentação das primeiras declarações .............................................................. 267 4.5.5. Citações ................................................................................................................ 267 4.5.6. Fase de impugnações............................................................................................ 268 4.5.7. Fase de avaliações ................................................................................................ 269 4.5.8. Últimas declarações (art. 637, NCPC) ................................................................... 270 4.5.9. Pagamento de dívidas e recolhimento fiscal .......................................................... 270 4.5.10. Decisão de Partilha ................................................................................................ 271 CS - CIVIL IV 2018.1 15 XV. DIREITO SUCESSÓRIO E O PODER PÚBLICO ............................................................. 272 1. HERANÇA JACENTE .......................................................................................................... 272 1.1. CONCEITO E NATUREZA JURÍDICA .......................................................................... 272 2. HERANÇA VACANTE: VACÂNCIA – ARRECADAÇÃO DOS BENS VAGOS ...................... 273 3. PROCEDIMENTO................................................................................................................ 273 3.1. REGRAS ...................................................................................................................... 273 3.2. CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL .................................................................................. 274 4. NATUREZA DA SENTENÇA DE VACÂNCIA ...................................................................... 276 CS - CIVIL IV 2018.1 16 DIREITO DE FAMÍLIA I. ABORDAGEM CRÍTICA E CONSTITUCIONAL, COM ÊNFASE NA DIMENSÃO SOCIOAFETIVA DO CONCEITO DE FAMÍLIA. 1. INTRODUÇÃO CONSTITUCIONAL AO DIREITO DE FAMÍLIA 1.1. A FAMÍLIA E A CF A CF/88, em seu art. 226, rompendo com o paradigma clássico de família, abriu a sua noção. Ao adotar um sistema aberto, não discriminatório, a CF rompeu com o paradigma único do casamento, reconhecendo também a união estável e o chamado núcleo monoparental como instituições familiares. Em razão disso, o STF, em uma interpretação conforme à CF, reconheceu a possibilidade de união estável às relações homoafetivas. CF Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. § 1º - O casamento é civil e gratuita a celebração. § 2º - O casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei. § 3º - Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento. Em uma interpretação conforme a CF, o STF reconheceu (ampliando) a união estável às relações homoafetivas. § 4º - Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes. § 5º - Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente pelo homem e pela mulher. § 6º O casamento civil pode ser dissolvido pelo divórcio. § 7º - Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas. § 8º - O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações. A doutrina moderna diz, no entanto, que o conceito de família não se esgota nesse tripé (casamento, união estável hetero e homoafetiva e núcleo monoparental). Sustentam que a CF consagrou uma cláusula geral inclusiva de todo e qualquer arranjo familiar, não apenas aqueles explicitamente previstos. Em razão disso, o STF reconheceu a união estável homoafetiva. O sistema constitucional de família é inclusivo, aberto e não discriminatório. O conceito de família não pode ser definido pela Lei; deve ser reconhecido pela Lei. A família deve ser definida pelo afeto e não pelo Direito. A doutrina brasileira, reconhecendo não caber ao Estado estabelecer paradigmas e conceitos fechados de família, a exemplo do pensamento de Rodrigo da Cunha Pereira, tem reafirmado o “princípio da intervenção mínima do Direito de Família”. Segundo este princípio, CS - CIVIL IV 2018.1 17 não cabe ao Estado invadir e sufocar a seara do afeto e da família, como observamos na facultatividade do planejamento familiar. 1.2. CONCEITO DE FAMÍLIA Já houve quem defendesse (Savatier) que a família seria uma pessoa jurídica, posição que não prevaleceu. Trata-se, em verdade, de um ente despersonalizado, base da sociedade, moldado pelo vínculo da afetividade, não cabendo ao Estado defini-lo, mas apenas reconhecê- lo. 1.3. CARACTERÍSTICAS DA FAMÍLIA Para a doutrina moderna a noção jurídica de família tem três características: 1) Socioafetiva; 2) Eudemonista; 3) Anaparental. 1.3.1. Socioafetiva A noção de família é moldada pela afetividade. Inclusive é pacífico no STJ que a paternidade socioafetiva prevalece sobre a genética. 1.3.2. Eudemonista Eudemonismo é uma filosofia grega que prega que o homem vem a Terra para buscar a felicidade. A família é eudemonista, uma vez que deve servir como ambiência para que cada um dos seus membros busque a sua felicidade individual, realizando-se como pessoa. Todos os membros, sem discriminação, como ocorria com a mulher no CC/16, por exemplo. Diz-se que essa é a função social da família: buscara felicidade de cada membro. 1.3.3. Anaparental Significa admitir e reconhecer família mesmo quando não exista vínculo parental técnico entre os seus integrantes. II. NOVOS RUMOS DO DIREITO DE FAMÍLIA 2. NOÇÕES GERAIS DO DIREITO DE FAMÍLIA 2.1. CONCEITO E EVOLUÇÃO A família é o lugar ideal onde o ser humano nasce inserido e desenvolve sua personalidade. É por isso que o Direito Privado se preocupa com a família, dado o seu importante papel no desenvolvimento da personalidade humana. CS - CIVIL IV 2018.1 18 IMPORTANTE: Paradigmas contemporâneos da família: A família contemporânea é permeada por quatro valores: 1) Afeto; 2) Ética; 3) Dignidade; 4) Solidariedade recíproca. Vejamos: 2.1.1. Afeto Possibilidade de acréscimo do sobrenome do padrasto ou madrasta, Lei 11.924 (Lei Clodovil). Filiação socioafetiva. STJ entende, inclusive, a possibilidade de reconhecimento de paternidade socioafetiva post mortem, ou seja, mesmo após a morte do suposto pai socioafetivo. (Info. 581) 2.1.2. Ética Cessação do regime de bens pela simples separação, independente de prazo. REsp 555771/SP OBS: o Art. 1642, V, diz que a separação de fato só extingue o regime de bens após 05 anos. STJ, nesse REsp, desconsiderou o prazo legal. Art. 1.642. Qualquer que seja o regime de bens, tanto o marido quanto a mulher podem livremente: V - reivindicar os bens comuns, móveis ou imóveis, doados ou transferidos pelo outro cônjuge ao concubino, desde que provado que os bens não foram adquiridos pelo esforço comum destes, se o casal estiver separado de fato por mais de cinco anos; DIREITO CIVIL. FAMÍLIA. SUCESSÃO. COMUNHÃO UNIVERSAL DE BENS. INCLUSÃO DA ESPOSA DE HERDEIRO, NOS AUTOS DE INVENTÁRIO, NA DEFESA DE SUA MEAÇÃO. SUCESSÃO ABERTA QUANDO HAVIA SEPARAÇÃO DE FATO. IMPOSSIBILIDADE DE COMUNICAÇÃO DOS BENS ADQUIRIDOS APÓS A RUPTURA DA VIDA CONJUGAL. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. 1. Em regra, o recurso especial originário de decisão interlocutória proferida em inventário não pode ficar retido nos autos, uma vez que o procedimento se encerra sem que haja, propriamente, decisão final de mérito, o que impossibilitaria a reiteração futura das razões recursais. 2. Não faz jus à meação dos bens havidos pelo marido na qualidade de herdeiro do irmão, o cônjuge que encontrava-se separado de fato quando transmitida a herança. 3. Tal fato ocasionaria enriquecimento sem causa, porquanto o patrimônio foi adquirido individualmente, sem qualquer colaboração do cônjuge. 4. A preservação do condomínio patrimonial entre cônjuges após a separação de fato é incompatível com orientação do novo Código Civil, que reconhece a união estável estabelecida nesse período, regulada pelo regime da comunhão parcial de bens (CC 1.725) 5. Assim, em regime de comunhão universal, a comunicação de bens e dívidas deve cessar CS - CIVIL IV 2018.1 19 com a ruptura da vida comum, respeitado o direito de meação do patrimônio adquirido na constância da vida conjugal. 6. Recurso especial provido. (REsp 555771/SP, Rel. MIN. LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 05/05/2009, DJe 18/05/2009) Ressalta-se que para o STJ inexiste lapso temporal de separação de fato exigido para que o consorte possa contrair união estável, como, aliás, reconheceu o §1º do art. 1.723 do CC. CC - Art. 1.723. É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher (homoafetiva também), configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família. § 1o A união estável não se constituirá se ocorrerem os impedimentos do art. 1.521; não se aplicando a incidência do inciso VI no caso de a pessoa casada se achar separada de fato ou judicialmente. Art. 1.521. Não podem casar: VI - as pessoas casadas; 2.1.3. Dignidade A possibilidade de escolha do regime de bens para o maior de 70 anos. A doutrina entende que o art. 1.641 é inconstitucional (fere a dignidade da pessoa humana), não sendo legítima a imposição de regime a pessoa maior de 70 anos. Mesmo com a alteração feita pela Lei 12.344/2010 (antes era para o maior de 60 anos). Art. 1.641. É obrigatório o regime da separação de bens no casamento: I - das pessoas que o contraírem com inobservância das causas suspensivas da celebração do casamento; II - da pessoa maior de sessenta anos; II – da pessoa maior de 70 (setenta) anos; (Lei nº 12.344, de 2010) III - de todos os que dependerem, para casar, de suprimento judicial. Ressalta-se que se trata de separação legal obrigatória, ou seja, por força de lei. Assim, entende a doutrina e a jurisprudência que os bens adquiridos na constância, com esforço comum, comunicam-se. 2.1.4. Solidariedade recíproca Possibilidade de recusar alimentos ao parente que se negou injustificadamente a prestá- los anteriormente. LIBERALIDADE SOLIDARIEDADE É mera liberalidade, por isso é unilateral Solidariedade é bilateral, recíproca. Por isso, as obrigações decorrentes do direito de família quando favorecem um membro, também acarretam obrigação em seu desfavor. No Direito Brasileiro existem dois diferentes instantes de compreensão da família. Vejamos as características da entidade familiar em cada um dos momentos: CS - CIVIL IV 2018.1 20 2.2. PERÍODO PRÉ CF/88 Aqui a família era: 1) Matrimonializada; 2) Patriarcal; 3) Hierarquizada; 4) Biológica; 5) Heteroparental; 6) Institucional. 2.2.1. Família matrimonializada Toda família deveria se constituir pelo casamento. Até mesmo os filhos fora do casamento eram considerados ilegítimos. A união de homem e mulher sem casamento era chamada de concubinato, que constituía mera sociedade de fato (campo obrigacional). 2.2.2. Família Patriarcal O homem era o chefe da família. 2.2.3. Família Hierarquizada A família era baseada no pátrio poder. Todos deviam obediência ao patriarca. 2.2.4. Família Biológica O filho adotivo não tinha os mesmos direitos do filho biológico. Se os pais adotivos falecessem, extinguia-se a adoção. Havia uma trilogia casamento sexo reprodução. A reprodução dependia do sexo, que por sua vez dependia do casamento (só havia possibilidade de reconhecimento de filhos havidos no casamento). Somente em 1949, os filhos havidos fora do casamento puderam ser reconhecidos. 2.2.5. Família Heteroparental Sexos diferentes, obrigatoriamente. 2.2.6. Família Institucional A família era tida como uma instituição a ser protegida pelo Direito. Exemplos: a) Casamento era indissolúvel; b) A esterilidade do cônjuge poderia ensejar anulação do casamento (pois frustraria a procriação); CS - CIVIL IV 2018.1 21 c) As ações de anulação do casamento contavam com o “curador ao vínculo”, que era o responsável pela defesa obrigatória do casamento (CC/1916, art. 222). CC/16 - Art. 222. A nulidade do casamento processar-se-á por ação ordinária, na qual será nomeado curador que o defenda. OBS: o art. 34 da Lei do divórcio permitia que o juiz indeferisse o divórcio consensual. Preserva-se a família, inclusive com o sacrifício das pessoas. 2.3. PERÍODO PÓS CF/88 Além da incidência dos direitos e garantias fundamentais (tábua axiológica: dignidade da pessoa humana, solidariedade social e erradicação da pobreza, liberdade, igualdade substancial) no direito de família, o constituinte dedicou dois artigos (art. 226 e 227) específicos para o Direito de Família. Modificou-se, assim, a antiga concepção segundo a qual somente as leis infraconstitucionais regulavam o direito de família (incidência do Direito Civil Constitucional). CF - Art. 226. A família, base da sociedade, temespecial proteção do Estado. § 1º - O casamento é civil e gratuita a celebração. § 2º - O casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei. § 3º - Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento. § 4º - Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes. § 5º - Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente pelo homem e pela mulher. § 6º O casamento civil pode ser dissolvido pelo divórcio. (EC n 66, de 2010) § 7º - Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas. § 8º - O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações. Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. (EC nº 65, de 2010) § 1º O Estado promoverá programas de assistência integral à saúde da criança, do adolescente e do jovem, admitida a participação de entidades não governamentais, mediante políticas específicas e obedecendo aos seguintes preceitos: (EC nº 65, de 2010) I - aplicação de percentual dos recursos públicos destinados à saúde na assistência materno-infantil; II - criação de programas de prevenção e atendimento especializado para as pessoas portadoras de deficiência física, sensorial ou mental, bem como de integração social do adolescente e do jovem portador de deficiência, mediante o treinamento para o trabalho e a convivência, e a facilitação do acesso aos bens e serviços coletivos, com a eliminação de obstáculos arquitetônicos e de todas as formas de discriminação. (EC nº 65, de 2010) CS - CIVIL IV 2018.1 22 § 2º - A lei disporá sobre normas de construção dos logradouros e dos edifícios de uso público e de fabricação de veículos de transporte coletivo, a fim de garantir acesso adequado às pessoas portadoras de deficiência. § 3º - O direito a proteção especial abrangerá os seguintes aspectos: I - idade mínima de quatorze anos para admissão ao trabalho, observado o disposto no art. 7º, XXXIII; II - garantia de direitos previdenciários e trabalhistas; III - garantia de acesso do trabalhador adolescente e jovem à escola; IV - garantia de pleno e formal conhecimento da atribuição de ato infracional, igualdade na relação processual e defesa técnica por profissional habilitado, segundo dispuser a legislação tutelar específica; V - obediência aos princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento, quando da aplicação de qualquer medida privativa da liberdade; VI - estímulo do Poder Público, através de assistência jurídica, incentivos fiscais e subsídios, nos termos da lei, ao acolhimento, sob a forma de guarda, de criança ou adolescente órfão ou abandonado; VII - programas de prevenção e atendimento especializado à criança, ao adolescente e ao jovem dependente de entorpecentes e drogas afins. § 4º - A lei punirá severamente o abuso, a violência e a exploração sexual da criança e do adolescente. § 5º - A adoção será assistida pelo Poder Público, na forma da lei, que estabelecerá casos e condições de sua efetivação por parte de estrangeiros. § 6º - Os filhos, havidos ou não da relação do casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação. § 7º - No atendimento dos direitos da criança e do adolescente levar-se- á em consideração o disposto no art. 204. Art. 204. As ações governamentais na área da assistência social serão realizadas com recursos do orçamento da seguridade social, previstos no art. 195, além de outras fontes, e organizadas com base nas seguintes diretrizes: I - descentralização político-administrativa, cabendo a coordenação e as normas gerais à esfera federal e a coordenação e a execução dos respectivos programas às esferas estadual e municipal, bem como a entidades beneficentes e de assistência social; II - participação da população, por meio de organizações representativas, na formulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis. Parágrafo único. É facultado aos Estados e ao Distrito Federal vincular a programa de apoio à inclusão e promoção social até cinco décimos por cento de sua receita tributária líquida, vedada a aplicação desses recursos no pagamento de: I - despesas com pessoal e encargos sociais; II - serviço da dívida; III - qualquer outra despesa corrente não vinculada diretamente aos investimentos ou ações apoiados. § 8º A lei estabelecerá: I - o estatuto da juventude, destinado a regular os direitos dos jovens; II - o plano nacional de juventude, de duração decenal, visando à articulação das várias esferas do poder público para a execução de políticas públicas. Aqui as características são as seguintes: 1) Família múltipla; 2) Família democrática; CS - CIVIL IV 2018.1 23 3) Família igualitária; 4) Família socioafetiva; 5) Família heteroparental e homoparental; 6) Família instrumental; 2.3.1. Família Múltipla Existem diferentes formas de família: casamento, união estável (hetero e homoafetiva) e família monoparental (comunidade de ascendentes e descendentes). 2.3.2. Família Democrática Homem e mulher iguais em direitos e deveres. 2.3.3. Família Igualitária Igualdade substancial, tratando desigualmente os desiguais e buscando a igualdade fática entre os componentes familiares. Exemplo: Estatuto do idoso; ECA; Maria da Penha. 2.3.4. Família Socioafetiva O filho adotivo tem os mesmos direitos do biológico. 2.3.5. Família heteroparental e homoparental A família homoparental não necessariamente decorre de relações homossexuais. A homoparentalidade pode decorrer da monoparentalidade. Exemplo: família composta de Mãe solteira e sua filha. Existe uma homoparentalidade. 2.3.6. Família Instrumental A família agora é um instrumento de proteção da pessoa humana. O fundamento do direito de família é proteger as pessoas que compõem os núcleos familiares, e não a proteção da instituição família. A família é meio; e não um fim. Exemplo dessa nova forma de família instrumental: Súmula 364 do STJ. Súmula: 364 - O conceito de impenhorabilidade de bem de família abrange também o imóvel pertencente a pessoas solteiras, separadas e viúvas. FCC 2016 – DPE/BA CS - CIVIL IV 2018.1 24 Exemplo2: O juiz pode indeferir pedido de separação consensual, se este se demonstrar prejudicial aos cônjuges ou aos filhos (art. 34, §2º da Lei do Divórcio). Lei do Divórcio - Art 34 - A separação judicial consensual se fará pelo procedimento previsto nos arts. 1.120 e 1.124 do Código de Processo Civil, e as demais pelo procedimento ordinário. § 2º - O juiz pode recusar a homologação e não decretar a separação judicial, se comprovar que a convenção não preserva suficientemente os interesses dos filhos ou de um dos cônjuges. Crítica: É um dispositivo bem incoerente, pois atualmente existe a separação extrajudicial,onde não existe essa possibilidade de indeferimento. Outrossim, mesmo indeferido o pedido judicial, decorridos dois anos da separação de fato era possível ser requerido o divórcio. Após a EC 66/2010 esse prazo não é mais necessário. Lembrando o que foi dito acima: a família contemporânea é permeada por quatro valores - afeto, ética, dignidade e solidariedade recíproca. *Solidariedade recíproca: possibilidade recusar alimentos ao parente que se negou injustificadamente a prestá-los anteriormente. *O que é direito de família mínimo? É sinônimo de intervenção mínima estatal na família. Nada mais é do que o desenvolvimento ou aplicação do princípio da autonomia privada no campo das relações familiares. O aumento da autonomia privada no campo do direito de família traz a reboque a diminuição da interferência estatal. Exemplo: EC/66 eliminou o prazo para o divórcio; impossibilidade de discussão de culpa no divórcio. *E o sobrenome? Antes da EC 66, o art. 1.578 regulava a matéria, dizendo que era possível a perda do sobrenome quando o cônjuge era declarado culpado na ação de separação. Agora quem decide se manterá ou não o sobrenome é a própria pessoa que alterou (o art. 1.578 foi parcialmente revogado). Desta forma, confirmou que nome é direito da personalidade e só depende do titular a não ser que presentes as hipóteses dos incisos do art. 1.578, casos em que o cônjuge deverá ficar com o sobrenome (Tartuce: não existe mais a regra de “perda do DIREITO ao nome”). Desta feita, não mais interessa ao Estado se uma pessoa vai manter ou não o sobrenome quando do divórcio. Pablo Stolze preleciona que no sistema anterior, o uso do nome era regulado no artigo 1.578. A partir da EC 66/10, a regra natural é a perda do nome de casado a partir do divórcio, salvo estipulação em contrário no acordo (divórcio consensual) ou se o juiz, em respeito aos CS - CIVIL IV 2018.1 25 direitos da personalidade e ao direito constitucional à identidade vislumbrar qualquer das hipóteses do artigo 1.578. Art. 1.578. O cônjuge declarado culpado na ação de separação judicial perde o direito de usar o sobrenome do outro, desde que expressamente requerido pelo cônjuge inocente e se a alteração não acarretar: I - evidente prejuízo para a sua identificação; II - manifesta distinção entre o seu nome de família e o dos filhos havidos da união dissolvida; III - dano grave reconhecido na decisão judicial. § 1o O cônjuge inocente na ação de separação judicial poderá renunciar, a qualquer momento, ao direito de usar o sobrenome do outro. § 2o Nos demais casos caberá a opção pela conservação do nome de casado. Em suma: CC/1916 CF/88 e CC/2002 Matrimonializada Múltipla, plural Patriarcal Democrática Hierarquizada Igualitária Biológica Biológica e socioafetiva Heteroparental Hetero ou homoparental Institucional Instrumental OBS: a homoparentalidade decorre da monoparentalidade (e não necessariamente da homossexualidade). 3. PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DO DIREITO DE FAMÍLIA (ART. 226 E 227 DA CF) São os seguintes: 1) Multiplicidade/pluralidade de entidades familiares; 2) Igualdade entre homem e mulher; 3) Igualdade entre filhos; 4) Facilitação da dissolução do casamento; 5) Responsabilidade parental. Vejamos: 4. PRINCÍPIO DA MULTIPLICIDADE/PLURALIDADE DE ENTIDADES FAMILIARES 4.1. PREVISÃO CONSTITUCIONAL Previsto no art. 226, caput da CF/88: Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. Toda e qualquer família tem especial proteção do Estado. O constituinte não restringiu ao casamento, fazendo menção nos parágrafos a 03 espécies de entidade familiar. CS - CIVIL IV 2018.1 26 Nos §§1º e 2º o constituinte alude à família casamentaria. § 1º - O casamento é civil e gratuita a celebração. § 2º - O casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei. No §3º trata da família convivencial (União Estável). § 3º - Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento. No §4º trata da família monoparental. § 4º - Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes. Seria um rol taxativo ou exemplificativo de entidades familiares? Orlando Gomes ensinava que não se pode compreender dispositivos de um mesmo diploma normativo isoladamente. Como o caput fala em família de forma genérica, a simples interpretação do art. 226 nos leva a crer que se trata de rol exemplificativo. Existem outros núcleos familiares que também merecem especial proteção do Estado. O STJ vem entendendo que o rol é exemplificativo. Exemplo disso é a família anaparental, que é aquela formada por dois irmãos, que tem bem de família protegido. Outro exemplo, é a família entre tio e sobrinho. Podemos encontrar esses grupos familiares não previstos expressamente com o nome de famílias sociológicas. Enfim, o art. 226 é norma jurídica de inclusão (inclui institutos na proteção estatal), o que só vem a corroborar com a ideia de que o direito de família é instrumental. Concedeu-se ao direito de família uma visão eudemonista, ou seja, toda e qualquer família é vocacionada para a realização de seus componentes, e por isso tem especial proteção do estado. A nova Lei de adoção (Lei 12.010/09) modificou, entre outros, o art. 28 do ECA, que reconhece a pluralidade de famílias: Família natural; família estendida (ampliada) e família substituta. ECA Art. 28. A colocação em família substituta far-se-á mediante GUARDA, TUTELA ou ADOÇÃO, independentemente da situação jurídica da criança ou adolescente, nos termos desta Lei. Para fins de proteção de crianças e adolescentes existem três tipos de família: 1) Família natural é o núcleo composto pelo menor mais o pai e/ou mãe (pode ser monoparental). 2) Família ampliada ou extensa é aquela formada além dos pais e filhos, também por seus parentes. Exemplo: avós, irmãos, tios etc. A família ampliada tem prioridade quando da inserção de criança ou adolescente em família substituta (GUARDA e TUTELA), exceto para fins de adoção (avós e irmãos não podem adotar). O ECA parte do pressuposto de CS - CIVIL IV 2018.1 27 que a adoção por avós e irmãos implicaria em promiscuidade de vínculos de parentesco. Tios podem adotar. Esta prioridade da família ampliada é prevista no §3º do art. 28. Grupos de irmãos devem ser colocados, preferencialmente na mesma família substituta (a fim de evitar a quebra do vínculo familiar), salvo situações excepcionais. ECA Art. 28, § 3º Na apreciação do pedido levar-se-á em conta o grau de parentesco e a relação de afinidade ou de afetividade, a fim de evitar ou minorar as consequências decorrentes da medida. 3) Família substituta: É aquela que decorre de GUARDA, TUTELA e ADOÇÃO. O novo § 5º do art. 28 do ECA diz que a inserção em família substituta deve ser precedida de preparação gradativa e garantido acompanhamento posterior. ECA Art. 28, § 5º A colocação da criança ou adolescente em família substituta será precedida de sua preparação gradativa e acompanhamento posterior, realizados pela equipe interprofissional a serviço da Justiça da Infância e da Juventude, preferencialmente com o apoio dos técnicos responsáveis pela execução da política municipal de garantia do direito à convivência familiar. Agora, o juiz somente pode dispensar o estágio de convivência nos casos previstos em lei. Na adoção internacional o estágio é obrigatório. ECA Art. 46. A adoção será precedida de estágio de convivênciacom a criança ou adolescente, pelo prazo que a autoridade judiciária fixar, observadas as peculiaridades do caso. § 1º O estágio de convivência PODERÁ ser dispensado se o adotando já estiver sob a tutela ou guarda legal do adotante durante tempo suficiente para que seja possível avaliar a conveniência da constituição do vínculo. § 2º A simples guarda de fato não autoriza, por si só, a dispensa da realização do estágio de convivência. § 3º Em caso de adoção por pessoa ou casal residente ou domiciliado fora do País, o estágio de convivência, cumprido no território nacional, será de, no mínimo, 30 (trinta) dias. Tratando-se de adolescente, é imprescindível seu consentimento para qualquer forma de inserção em família substituta (antes esse consentimento era necessário somente na adoção). Em sendo menor de 12 é dispensado o consentimento, mas mesmo assim deve o juiz, sempre que possível, ouvir a criança. Entretanto, a opinião da criança não vincula o juiz (mais de 12 anos vincula), até porque pode surgir aqui a chamada SAP (Síndrome de Alienação Parental). SAP: Trata-se do efeito decorrente da atuação psicológica de um dos pais ou de um terceiro sobre a criança ou adolescente, influenciando seu estado de espírito. Demonstrada a SAP, a jurisprudência entende ser caso de inversão ou modificação de guarda, DE OFÍCIO. OBS: repisando - o ECA afirma que, na colocação em família substituta tem preferência a família ampliada e quando se tratar de irmãos, preferencialmente eles devem ser colocados na mesma família substituta. 4.2. QUESTÕES POLÊMICAS RELATIVAS À PLURALIDADE DE ENTIDADES FAMILIARES CS - CIVIL IV 2018.1 28 Alguns autores, como Paulo Lobo, sustentam que este art. 226 trouxe uma “cláusula geral de inclusão familiar”. 4.2.1. Família reconstituída/recomposta ou “ensamblada” (misturada) A psicologia chama isso de família mosaico. É o exemplo do filme “Os meus, os seus, os nossos”. É o caso de marido com filhos próprios que se casa com mulher com filhos próprios etc. Efeito jurídico: Parentesco por afinidade (art. 1.595 do CC). Único efeito decorrente da afinidade: Impedimento para casamento, sendo que o de linha reta é eterno. Art. 1.595. Cada cônjuge ou companheiro é aliado aos parentes do outro pelo vínculo da afinidade. § 1o O parentesco por afinidade limita-se aos ascendentes, aos descendentes e aos irmãos do cônjuge ou companheiro. § 2o Na linha reta, a afinidade não se extingue com a dissolução do casamento ou da união estável. Não existe no vínculo por afinidade obrigação alimentícia e direito sucessório. O único efeito é o impedimento. FCC 2016 – DPE/BA: o padrasto tem mera relação de parentesco por afinidade com o afilhado, cujo único efeito para o direito de família é a imposição de impedimento matrimonial. Desta feita, no CC só temos o efeito mencionado acima, a outro giro, leis esparsas e jurisprudência trazem outros efeitos: 1) Lei n.º 11.924/09 (Lei Clodovil): permite que o enteado adote o sobrenome do padrasto ou madrasta, DESDE que haja o consentimento de ambos (LRP, art. 57, §8º). LRP Art. 57, § 8o O enteado ou a enteada, havendo motivo ponderável e na forma dos §§ 2o e 7o deste artigo, poderá requerer ao juiz competente que, no registro de nascimento, seja averbado o nome de família de seu padrasto ou de sua madrasta, desde que haja expressa concordância destes, sem prejuízo de seus apelidos de família. Esse consentimento deve ser demonstrado através de procedimento de jurisdição voluntária. Requisitos do acréscimo: 1-Decisão judicial em procedimento de jurisdição voluntária (Juiz da vara de registros públicos), ouvido o MP. 2-Concordância expressa do padrasto ou madrasta (a lei não exigiu a concordância expressa do pai biológico). 3- Citação dos interessados, entre eles os pais biológicos, isso no caso de filhos menores (NCPC. Art. 721). Art. 721. Serão citados todos os interessados, bem como intimado o Ministério Público, nos casos do art. 178, para que se manifestem, querendo, no prazo de 15 (quinze) dias . CS - CIVIL IV 2018.1 29 Ou seja, os pais devem ser citados, sob pena de nulidade, porém a concordância deles é dispensável para a alteração do nome do filho. Este acréscimo não implica em direito sucessório ou obrigação alimentícia, vale dizer, o acréscimo é tão somente uma manifestação afetiva. 2) Lei 8.112/90, art. 217. É possível incluir enteado ou enteada como dependente para fins previdenciários. Outra lei que confere efeitos jurídicos para família reconstituída. Lei 8112 - Art. 217. São beneficiários das pensões: II - temporária: a) os filhos, ou enteados, até 21 (vinte e um) anos de idade, ou, se inválidos, enquanto durar a invalidez; 3) REsp. 36.365. O STJ reconheceu o direito de retomada de imóvel urbano que esteja em locação para fins de moradia de pessoa da família, assim também entendida a mosaico. CIVIL. PROCESSUAL. LOCAÇÃO. RETOMADA PARA USO PELA SOGRA. DESPEJO. RECURSO. 1. SOGRA E PARENTE, SIM, POR AFINIDADE EM PRIMEIRO GRAU EM LINHA RETA. 2. A LEI N. 6.649/79, ART. 52, III, ALCANÇA PARA PROTEGER NÃO SO ASCENDENTES E DESCENDENTES CONSANGUINEOS MAS IGUALMENTE AOS AFINS. 3. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO PARA RESTABELECER A SENTENÇA DE PRIMEIRO GRAU. (REsp 36365/MG, Rel. MIN. EDSON VIDIGAL, QUINTA TURMA, julgado em 18/08/1993, DJ 20/09/1993, p. 19192) 4.2.2. Família homoafetiva União Homoafetiva, Família Homoerótica, Parceria Civil de pessoas do mesmo sexo. Essa forma de família é reconhecida pela CF/88? Não há dúvidas de que a união homoafetiva produz efeitos jurídicos. A dúvida é saber se os efeitos estão no direito de família ou no direito obrigacional. Duas correntes: 1ª C (minoritária): Maria Helena Diniz e Carlos Roberto Gonçalves entendem que as uniões homoafetiva não são unidades familiares. Entendem que são meras sociedades de fato. Dizem que a CF afirma que casamento e união estável somente podem ser constituídos entre pessoas de sexo diferentes. Assim, não poderia haver família homoafetiva. Casamento e União Estável somente existem entre pessoas de sexo diferentes. Ou seja, os efeitos são de ordem obrigacional. O juízo competente seria fará cível sem intervenção do MP. 2ª C (majoritária): Maria Berenice Dias, Gustavo Tepedino, Luiz Edson Fachin, Cristiano Chaves, Caio Mário, Luiz Roberto Barroso e STF: União homossexual é família sim, em razão do princípio da pluralidade. Não se trata de casamento ou união estável, mas de entidade familiar protegida constitucionalmente, nos termos do caput do art. 226 da CF/88. Todos os efeitos gerados são de Direito de Família: alimentos, herança, adoção pelo par, acréscimo de sobrenome etc. O juízo competente será a vara de família. CS - CIVIL IV 2018.1 30 Qual a legislação aplicável!? Sobre o tema, teremos a incidência do art. 4º da LINDB: recorrer a analogia, costumes, princípios gerais do direito etc. O mais próximo é a união estável, devendo esta ser aplicada, de acordo com a maioria. Jurisprudência TSE RE Eleitoral 24.564/PA e STJ RESp 820.475/RJ. Em ambos os julgados foi reconhecida a união homoafetiva como entidade familiar. TSE: Fins de inelegibilidade. STJ: Pedido de declaração de entidade familiar homoafetiva é juridicamente possível. STF: RECONHECEU A UNIÃO HOMOAFETIVA COMO UNIDADE FAMILIAR, DANDO INTERPRETAÇÃO CONFORME À CF, na ADPF 132. ATENÇÃO: O art. 5º da Lei 11.340/06 determina que a proteção contra violência doméstica pode ser aplicada às relações homoafetivas (ver Rogério). Lei 11.340/06 – Maria da Penha Art. 5o Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada nogênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial: ... Parágrafo único. As relações pessoais enunciadas neste artigo INDEPENDEM de orientação sexual. Além disso, a IN 17 ou 37 do INSS reconhece as uniões homoafetivas como unidade familiar para fins previdenciários. 4.2.3. Família concubinária É possível a existência de duas famílias simultâneas? O art. 1.727 do CC dispõe que não. Art. 1.727. As relações não eventuais entre o homem e a mulher, impedidos de casar, constituem concubinato. O concubinato é uma relação meramente obrigacional. É considerada uma mera sociedade de fato. Concubinato exige um caráter não eventual da relação extraconjugal. OBS: se já há separação de fato, não se trata de concubinato, mas sim união estável. Manifestações jurisprudenciais e doutrinárias a) A amante não pode pedir alimentos, pois isso decorre de relação familiar. Ela pode pedir indenização por serviços domésticos e sexuais prestados. A jurisprudência recomenda que o juiz (que não é o de família) fixe indenização na forma de prestação periódica. b) STF e STJ dizem mais (posição anticoncubinária): não tem direito a benéficos previdenciários, nem indenização por serviços prestados. CS - CIVIL IV 2018.1 31 c) Súmula 380 do STF. MP não intervém, pois não há interesse indisponível. STF SÚMULA 380 COMPROVADA A EXISTÊNCIA DE SOCIEDADE DE FATO ENTRE OS CONCUBINOS, É CABÍVEL A SUA DISSSOLUÇÃO JUDICIAL, COM A PARTILHA DO PATRIMÔNIO ADQUIRIDO PELO ESFORÇO COMUM. d) O §1º do art. 1.723 do CC prevê que quando a pessoa, embora casada, se encontra separada de fato, afasta-se o concubinato e reconhece-se a União Estável. Art. 1.723. É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família. § 1o A união estável não se constituirá se ocorrerem os impedimentos do art. 1.521; não se aplicando a incidência do inciso VI (impedimento de pessoas casadas) no caso de a pessoa casada se achar separada de fato ou judicialmente. Contradição com o art. 1.642, V, que prevê que é mantida a comunhão de bens por 05 anos desde a separação de fato. Art. 1.642. Qualquer que seja o regime de bens, tanto o marido quanto a mulher podem livremente: V - reivindicar os bens comuns, móveis ou imóveis, doados ou transferidos pelo outro cônjuge ao concubino, desde que provado que os bens não foram adquiridos pelo esforço comum destes, se o casal estiver SEPARADO DE FATO POR MAIS DE CINCO ANOS; STJ: A comunhão de bens, bem como o direito à herança, cessa com a simples separação de fato, independentemente de prazo. Aplicação da ética na relação familiar. Lembrar que o art. 1.830 diz que o direito à herança do cônjuge sobrevivente só é afastado se já estavam separados de fato por mais de 02 anos. Art. 1.830. Somente é reconhecido direito sucessório ao cônjuge sobrevivente se, ao tempo da morte do outro, não estavam separados judicialmente, nem separados de fato há mais de dois anos, salvo prova, neste caso, de que essa convivência se tornara impossível sem culpa do sobrevivente. e) Maria Berenice Dias defende que o concubinato é entidade familiar, merecendo, portanto, proteção (posição minoritária). f) Cristiano Chaves, entre outros, defende que embora o concubinato não tenha amparo legal, a união estável putativa pode ter. É o concubinato de boa-fé. A amante não sabe que é amante. Nesse caso, se devem garantir direitos à amante. É uma posição doutrinária não acolhida pela jurisprudência, que aplica a regra da exclusividade da família. Essa união estável putativa pode-se basear também na boa-fé objetiva. Nesse caso, é possível falar em paralelismo (“família paralela”), em concubinato como entidade familiar (ou ainda: uniões estáveis – uma união e outra união putativa). Seria um meio termo entre a legislação e a posição da pobre MBD. Vedações ao concubinato 1) Doação ao concubino, sob a pena de anulabilidade, Art. 550 do CC. CS - CIVIL IV 2018.1 32 Art. 550. A doação do cônjuge adúltero ao seu cúmplice pode ser anulada pelo outro cônjuge, ou por seus herdeiros necessários, até dois anos depois de dissolvida a sociedade conjugal. 2) Proibição de seguro de vida ao concubino. Art. 793 do CC. Art. 793. É válida a instituição do companheiro como beneficiário, se ao tempo do contrato o segurado era separado judicialmente, ou já se encontrava separado de fato. 3) Proibição de herança ou legado ao concubino, sob pena de nulidade. Art. 1.801. Art. 1.801. Não podem ser nomeados herdeiros nem legatários: III - o concubino do testador casado, salvo se este, sem culpa sua, estiver separado de fato do cônjuge há mais de cinco anos; CONCUBINATO “LATO SENSU” CONCUBINATO PURO CONCUBINATO IMPURO União estável (entidade familiar) Sociedade de fato (súmula 380 STF) Pessoa solteira, viúva, divorciada, separada de fato. Impedimentos: -Pessoa casada não separada. -Impedimento de parentesco. -Impedimento de crime. Vara de Família Vara Cível DIREITO DE FAMÍLIA (UNIÃO ESTÁVEL) Ser casado constitui fato impeditivo para o reconhecimento de uma união estável. Tal óbice só pode ser afastado caso haja separação de fato ou de direito. Quarta Turma. REsp 1.096.539-RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 27/3/2012. 5. PRINCÍPIO DA IGUALDADE ENTRE HOMEM E MULHER 5.1. A IGUALDADE NA CF A CF no art. 5º, inciso I, adotou a formula de Rui Barbosa sobre o princípio da igualdade: “A verdadeira igualdade está em aquinhoar desigualmente quem está em posição desigual e igualmente quem está em posição igual”. Igualdade substancial (para NOVELINO, essa frase não traz a ideia de igualdade substancial e sim de igualdade formal, igualdade substancial ou material tem a ver com acesso aos bens da vida, direitos sociais). Tratar desigualmente quem está em posição desigual. “Conteúdo jurídico do princípio da igualdade” – CABM. Neste livro, o renomado autor adota o pensamento que se a constituição consagrou a igualdade substancial, é possível o tratamento desigual com base na própria igualdade. A igualdade substancial norteia-se pelo descrímen: é o elemento que permite a análise do caso concreto a fim de averiguar se existe desigualdade fática. Se há descrímen, pode haver tratamento diferenciado. CS - CIVIL IV 2018.1 33 Exemplos: • Diferença etária para fins de aposentadoria; • Antigo art. 100, I CPC, foro privilegiado para mulher na ação de dissolução do casamento (para Chaves e Alexandre Câmara, esse dispositivo não foi recepcionado, eis que não há descrímen nessa situação, prevalece a opinião de Nery, por conta das históricas hipossuficiências impostas a mulher). O NCPC acaba com o foro privilegiado da mulher, o art. 53 prevê o seguinte: Art. 53. É competente o foro: I - para a ação de divórcio, separação, anulação de casamento e reconhecimento ou dissolução de união estável: a) de domicílio do guardião de filho incapaz; b) do último domicílio do casal, caso não haja filho incapaz; c) de domicílio do réu, se nenhuma das partes residir no antigo domicílio do casal; • Lei Maria da Penha, baseada num histórico de violência familiar contra mulher. Por isso, a lei protetiva se aplica somente à mulher, pois só em relação a ela há descrímen. A proteção do homem é a do CP. Desta feita, permite-se o tratamento desigual entre homem e mulher quando houver descrímen. É possível estender a aplicação a demais grupos perseguidos, pois quanto a eles também há descrímen, como homossexuais,transexuais (Rogério Sanches). 5.2. PROBLEMAS 1º Problema: CC, art. 1.736, inciso I. Art. 1.736. Podem escusar-se da tutela: I - mulheres casadas; Discutível constitucionalidade, pois nesse caso não há descrímen. A interpretação conforme desse dispositivo deveria estender aos homens casados essa escusa de tutela. Cristiano Chaves diz mais: homens e mulheres em união estável também poderiam se esquivar da tutela. Chaves diz ser coerente a aplicação da técnica de interpretação conforme a constituição. 2º Problema: antigo CPC, art. 100, I Foro privilegiado. CPC Art. 100. É competente o foro: I - da residência da mulher, para a ação de separação dos cônjuges e a conversão desta em divórcio, e para a anulação de casamento; Alexandre Câmara dizia que esse dispositivo não havia sido recepcionado, pela ofensa à igualdade. Era um posicionamento minoritário. Na doutrina (Didier) e jurisprudência (STJ) prevalecia que o dispositivo era constitucional, pois a mulher estaria em uma posição inferiorizada no momento da dissolução do casamento e, por isso, teria direito ao foro privilegiado. CS - CIVIL IV 2018.1 34 Cristiano Chaves defendia que o foro privilegiado deveria ser do menor, e não da mãe. No caso do menor, a competência é absoluta (art. 148 do ECA). Pode-se dizer que essa norma é dotada de inconstitucionalidade progressiva. Com o CPC/2015, no caso das ações de divórcio, passa a ser competente o foro de quem ficou com a guarda dos filhos; não havendo filhos, do último domicílio do casal; caso nenhuma das partes resida no último domicílio, será competente o foro do domicílio do réu. Portanto, não mais existe o foro privilegiado da mulher. Art. 53. É competente o foro: I - para a ação de divórcio, separação, anulação de casamento e reconhecimento ou dissolução de união estável a) de domicílio do guardião de filho incapaz; b) do último domicílio do casal, caso não haja filho incapaz; c) de domicílio do réu, se nenhuma das partes residir no antigo domicílio do casal; 6. PRINCÍPIO DA IGUALDADE ENTRE OS FILHOS 6.1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS Igualdade de herança e de origem: tratar igualmente os filhos conforme sua igualdade. Essa igualdade é compreendida no CC no art. 1.593: Art. 1.593. O parentesco é natural ou civil, conforme resulte de consanguinidade ou outra origem. “Outra origem”: a filiação pode ser biológica, adotiva ou socioafetiva. Exemplos de filiação socioafetiva: adoção à brasileira, filho de criação, fertilização heteróloga (com autorização do marido). Hoje, é possível a investigação de paternidade socioafetiva. Não necessariamente pai e genitor serão a mesma pessoa. De acordo com o STJ, é ainda possível a investigação avoenga. Não se pode confundir a investigação de PARENTALIDADE ou PATERNIDADE com a investigação de ORIGEM GENÉTICA ou ANCESTRALIDADE, está no Art. 48 do ECA. ECA Art. 48. O adotado tem direito de conhecer sua origem biológica, bem como de obter acesso irrestrito ao processo no qual a medida foi aplicada e seus eventuais incidentes, após completar 18 (dezoito) anos. Parágrafo único. O acesso ao processo de adoção poderá ser também deferido ao adotado menor de 18 (dezoito) anos, a seu pedido, assegurada orientação e assistência jurídica e psicológica. A investigação de origem genética é um direito de personalidade, de forma que o MP não tem legitimidade para a ação de investigação de origem genética (direito personalíssimo). A intenção é a aferição dos direitos eugênicos (ver abaixo). CS - CIVIL IV 2018.1 35 Não há diferença no tratamento entre os filhos. A maioria dos autores fala que essa igualdade deve ser vista no âmbito patrimonial, ou seja, todo o filho, independentemente de sua origem, tem o mesmo direito dos irmãos. Essa igualdade refere-se não só ao direito sucessório, mas também aos alimentos. Entretanto, nada impede que os filhos de um mesmo pai tenham cotas alimentícias distintas. O CC/2002 não mais submete os alimentos apenas ao binômio necessidade-capacidade, mas acrescentou a requisito da proporcionalidade (hoje se fala em um trinômio). Assim, se um dos filhos tem uma mãe rica, seria desproporcional que recebesse a mesma pensão do filho com mãe pobre. Essa diferenciação não ofende ao princípio da igualdade. 6.2. CRITÉRIOS FILIATÓRIOS 6.2.1. Filiação biológica 6.2.2. Filiação socioafetiva Exemplo: art. 1.597, V do CC (permissão do marido para a mulher realizar inseminação artificial heteróloga); adoção; adoção à brasileira. Art. 1.597. Presumem-se concebidos na constância do casamento os filhos: V - havidos por inseminação artificial heteróloga, desde que tenha prévia autorização do marido. 6.2.3. Presunção legal (art. 1.597, “patter is est”) Art. 1.597. Presumem-se concebidos na constância do casamento os filhos: - nascidos cento e oitenta dias, pelo menos, depois de estabelecida a convivência conjugal; II - nascidos nos trezentos dias subsequentes à dissolução da sociedade conjugal, por morte, separação judicial, nulidade e anulação do casamento; III - havidos por fecundação artificial homóloga, mesmo que falecido o marido; IV - havidos, a qualquer tempo, quando se tratar de embriões excedentários, decorrentes de concepção artificial homóloga; V - havidos por inseminação artificial heteróloga, desde que tenha prévia autorização do marido. É no caso concreto que o juiz decide qual o critério a ser aplicado. Exemplo: O sujeito que assumiu, adotou à brasileira e quiser desconstituir a paternidade, terá seu caso julgado pelo critério afetivo. Ver explicação do informativo 555 em filiação. 6.3. CASOS ESPECIAIS 6.3.1. Paternidade alimentar É a possibilidade excepcional de condenar o genitor a pagar os alimentos que o pai (socioafetivo) não consegue. CS - CIVIL IV 2018.1 36 A paternidade sucessória, no entanto, não é estendida ao genitor nesse caso. Sucessão é somente do pai. 6.3.2. Ação de investigação de paternidade X investigação de ancestralidade Ancestralidade: não se busca a paternidade, saber quem é o pai, mas sim quem é o genitor. Exemplo: O guri tem pai, mas quer investigar a origem genética. É o caso do filho adotivo. O direito de investigação de ancestralidade, sempre pelo biológico, não é um direito de família, mas sim um direito da personalidade. A nova redação do art. 48 do ECA estabelece o direito do filho adotivo de investigar a sua origem genética. Essa investigação não produz nenhum efeito patrimonial. O único efeito decorrente é o impedimento matrimonial. É possível sustentar também como efeito a possibilidade de transplantes, visto que a lei de transplantes exige o parentesco. 6.3.3. Multiparentalidade (teoria tridimensional do direito de família) Há quem diga que a filiação pode ser biológica, afetiva e ONTOLÓGICA. Assim a pessoa pode ter três pais: afetivo (que criou), biológico (que gerou) e ontológico (exemplo). 7. PRINCÍPIO DA FACILITAÇÃO DA DISSOLUÇÃO DO CASAMENTO A liberdade de casar corresponde à liberdade de não permanecer casado. O STJ já vem abraçando o princípio constitucional da facilitação da dissolução do casamento. Mitigando a regra da nulidade da sentença extra petita, o juiz pode julgar procedente o pedido de separação, com base na insuportabilidade da convivência conjugal, mesmo que o autor não comprove os fatos alegados. EC/66 (ver abaixo) Efeitos jurídicos da EC/66: a) Extinção da separação; b) Abolição dos prazos para o divórcio; c) Impossibilidade de discussão de culpa. 8. PRINCÍPIO DA RESPONSABILIDADE PARENTAL Pais devem ser responsáveis moral e materialmente pelos seus filhos. A responsabilidadematerial se dá através da pensão alimentícia, único caso que gera prisão civil no Brasil. Abandono afetivo gera dano moral indenizável? Duas correntes. CS - CIVIL IV 2018.1 37 8.1. 1ª CORRENTE: O ABANDONO AFETIVO NÃO É INDENIZÁVEL (4ªT DO STJ) STJ no REsp 757411/MG. Neste julgado o STJ se manifestou no sentido de o dano moral afetivo não ser indenizável. Por quê? Entende que afeto não é um bem jurídico exigível. 4ª T do STJ. A falta na responsabilidade moral não enseja dano moral. Abandono afetivo não gera dano moral. Pode gerar outros efeitos, como perda do poder familiar (efeito caducificante), mas não dano moral. Em outras palavras, o afeto não pode ser imposto. Essa corrente não ignora que é ato ilícito, é ato ilícito, porém sem efeito indenizante. É um ato ilícito que gera outros efeitos como suspensão e/ou perda do poder familiar (não é um prêmio! Continua obrigado a prestar alimentos, a herança e etc.). Cristiano Chaves: a indenização por abandono afetivo resulta em monetarizar o afeto. 8.2. 2ª CORRENTE: O ABANDONO AFETIVO É INDENIZÁVEL (3ªT STJ) É possível falar em dano moral afetivo (ato ilícito), este dano teria natureza punitiva Ver Pablo: teoria do punitive damage. Minoritária até pouco tempo. 3ªT do STJ. RESPONSABILIDADE CIVIL POR ABANDONO AFETIVO O abandono afetivo decorrente da omissão do genitor no dever de cuidar da prole constitui elemento suficiente para caracterizar dano moral compensável. A 3ª Turma do STJ, em decisão inédita na Corte, entendeu que o abandono afetivo decorrente da omissão do genitor no dever de cuidar da prole constitui elemento suficiente para caracterizar dano moral compensável. Terceira Turma. REsp 1.159.242-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 24/4/2012. Vejamos os principais argumentos apresentados: 1) A omissão do genitor no dever de cuidar de sua filha viola um bem juridicamente tutelado, qual seja, o dever de cuidado (dever de criação, educação e companhia) que os pais devem ter para com seus filhos. 2) Assim, ao omitir-se neste dever, o pai viola uma imposição legal, gerando a possibilidade de a pessoa lesada (filho) pleitear compensação por danos morais por abandono afetivo. 3) Não há restrição legal em se aplicar as regras da responsabilidade civil ao Direito de Família. 4) O “cuidado” é protegido como “valor jurídico objetivo”, não com essa expressão, mas com locuções e termos que manifestam suas diversas concepções, como se vê no art. 227 da CF: Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. CS - CIVIL IV 2018.1 38 5) O descumprimento comprovado da imposição legal de cuidar da prole acarreta o reconhecimento da ocorrência de ilicitude civil sob a forma de omissão. 6) Seja pela concepção, seja por meio da adoção, os pais assumem obrigações jurídicas em relação à sua prole. Estas obrigações jurídicas vão além das chamadas necessarium vitae (alimentos necessários para que a pessoa sobreviva). 7) Desse modo, além do básico para a sua manutenção (alimento, abrigo e saúde), o ser humano precisa de outros elementos imateriais, igualmente necessários para a formação adequada (educação, lazer, regras de conduta etc.). 8) O cuidado, vislumbrado em suas diversas manifestações psicológicas, é um fator indispensável à criação e à formação de um adulto que tenha integridade física e psicológica, capaz de conviver em sociedade, respeitando seus limites, buscando seus direitos, exercendo plenamente sua cidadania. 9) Não se discute o “amar” – que é uma faculdade – mas sim a imposição biológica e constitucional de “cuidar”, que é dever jurídico, corolário da liberdade das pessoas de gerar ou adotar filhos. 10) Os sentimentos de mágoa e tristeza experimentados por filho (a) e causados pela negligência paterna e pelo fato deste(a) descendente ser tratado(a) como filho(a) de segunda classe caracterizam dano moral in re ipsa (dano moral presumido) e permitem a compensação por danos morais. 8.3. ENTENDIMENTO DO STF Este tema já chegou até o STF, mas a 2ª Turma entendeu que não cabia ao STF analisar a questão por meio de recurso extraordinário considerando que esta discussão envolveria apenas a legislação infraconstitucional, não havendo violação direta à Constituição. Com isso, a Turma manteve a decisão da 4ª Turma do STJ que havia negado direito à indenização. Confira a ementa: 8.4. PRAZO PRESCRICIONAL DIREITO DE FAMÍLIA (INDENIZAÇÃO POR ABANDONO AFETIVO PRATICADO PELO GENITOR). O prazo prescricional das ações de indenização por abandono afetivo começa a fluir com a maioridade do interessado. Isso porque não corre a prescrição entre ascendentes e descendentes até a cessação dos DEVERES inerentes ao poder familiar (art. 197, II, do CC). Quarta Turma. REsp 1.298.576-RJ, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 21/8/2012. Perceba que indiretamente neste julgado a 4ª Turma acaba se curvando ao entendimento da corrente que entende o cabimento de indenização por dano moral decorrente de abandono afetivo. Qual é o prazo prescricional para as ações de indenização por abandono afetivo? 1) No CC-1916: 20 anos (entendimento do STJ) 2) No CC-2002: 3 anos (com base no art. 206, § 3º, V) CS - CIVIL IV 2018.1 39 CC Art. 206. Prescreve: § 3º Em três anos: V - a pretensão de reparação civil; Quando se INICIA o prazo prescricional? O prazo prescricional das ações de indenização por abandono afetivo começa a fluir com a MAIORIDADE do interessado. Isso porque não corre a prescrição entre ascendentes e descendentes até a cessação dos deveres inerentes ao poder familiar, nos termos do art. 197, II, do CC: Art. 197. Não corre a prescrição: II - entre ascendentes e descendentes, durante o poder familiar; O prazo de prescrição começa a correr tão logo nasça a pretensão, a qual tem origem com a violação do direito subjetivo. Nesse sentido, o CC-2002 é expresso: Art. 189. Violado o direito, nasce para o titular a pretensão, a qual se extingue, pela prescrição, nos prazos a que aludem os arts. 205 e 206. Dessa feita, o prazo prescricional começa a correr a partir do momento em que o genitor sabe que o lesado é seu filho e, mesmo assim, não cumpre seus deveres inerentes ao poder familiar. Logo, se o genitor sabe que é pai biológico de uma criança menor de 18 anos e mesmo assim não lhe fornece carinho e afeto, está praticando abandono afetivo. Essa criança, representada ou assistida pela mãe, pode, desde já, ajuizar ação de indenização contra seu pai. No entanto, o prazo prescricional ainda não começou a correr porque está suspenso. Quando esse filho completar 18 anos, começa a contagem do prazo de 3 anos para que ajuíze a ação de reparação civil. Caso julgado pelo STJ: Na situação julgada pelo STJ, “X” sempre soube que era pai biológico de “Y”, apesar de nunca ter feito o registro de nascimento em seu nome. “X” nunca desempenhou seus deveres inerentes ao poder familiar, de forma que “Y” estava em situação de abandono afetivo. Quando “Y” (o filho) já tinha 50 anos, decidiu ingressar com uma ação de reconhecimento de paternidade que foi julgada procedente, tendo transitado em julgado em 2007, de forma que restou consignado, agora juridicamente, a realidade que já se sabia: “X” é pai de “Y”. Em 2008, com basena sentença de procedência da ação de investigação, “Y” ajuizou ação de indenização por danos morais contra “X” por conta do abandono afetivo. O STJ considerou que a pretensão estava extinta por conta da prescrição. Para a Corte, o prazo prescricional começou a correr com a maioridade de “Y” e o fim do poder familiar. Como já se sabia desde sempre que “X” era pai de “Y”, não há como dizer que prazo prescricional teve início com o resultado da ação de investigação de paternidade. Vale ressaltar, por fim, que o reconhecimento da paternidade, apesar de ser um ato de efeitos ex tunc, não gera efeitos em relação a pretensões já prescritas. III. CASAMENTO CS - CIVIL IV 2018.1 40 1. CONCEITO Segundo Fan Wetter, o casamento traduz a união formal do homem e da mulher com o objetivo de constituir uma comunhão plena de vida. Essa ideia é prevista no art. 1.511 do CC: Art. 1.511. O casamento estabelece comunhão plena de vida, com base na igualdade de direitos e deveres dos cônjuges. Vê-se inclusive a eficácia horizontal dos direitos fundamentais (isonomia). 2. TEORIAS EXPLICATIVAS DA NATUREZA JURÍDICA DO CASAMENTO 2.1. CORRENTE DE DIREITO PÚBLICO O casamento seria um ato administrativo. Não prevaleceu. 2.2. CORRENTE DE DIREITO PRIVADO Sustenta que o casamento é um instituto do direito privado (direito civil), ainda que as normas que o regulamentam sejam de ordem pública. Corrente que prevalece. Dentro da corrente de Direito Privado há divergências quanto à natureza jurídica: 1) Instituição; 2) Acordo; 3) Negócio complexo; 4) Ato condição (León Duguit): Seria uma manifestação de vontade que coloca os declarantes em uma situação jurídica impessoal. O ato de vontade seria uma condição para colocar os declarantes em situação de sujeição a normas cogentes. 5) Contrato especial de direito de família: Orlando Gomes: O casamento é um contrato especial de família, pois o seu núcleo, a sua matriz é o consentimento. 3. PROCEDIMENTO DE HABILITAÇÃO PARA O CASAMENTO Leva-se uma série de documentos para o oficial do registro (certidão de nascimento, testemunhas etc.) comprovando que não há impedimentos. Serão publicados editais. Se ninguém suscitar nenhum impedimento, será emitido um certificado de habilitação, com o qual deverá ser efetuado o casamento em 90 dias, caso contrário, dever-se-á efetivar novamente o procedimento. CC Art. 1.525. O requerimento de habilitação para o casamento será firmado por ambos os nubentes, de próprio punho, ou, a seu pedido, por procurador, e deve ser instruído com os seguintes documentos: I - certidão de nascimento ou documento equivalente; II - autorização por escrito das pessoas sob cuja dependência legal estiverem, ou ato judicial que a supra; CS - CIVIL IV 2018.1 41 III - declaração de duas testemunhas maiores, parentes ou não, que atestem conhecê-los e afirmem não existir impedimento que os iniba de casar; IV - declaração do estado civil, do domicílio e da residência atual dos contraentes e de seus pais, se forem conhecidos; V - certidão de óbito do cônjuge falecido, de sentença declaratória de nulidade ou de anulação de casamento, transitada em julgado, ou do registro da sentença de divórcio. Art. 1.526. A habilitação será feita pessoalmente perante o oficial do Registro Civil, com a audiência do Ministério Público. Parágrafo único. Caso haja impugnação do oficial, do Ministério Público ou de terceiro, a habilitação será submetida ao juiz. Art. 1.527. Estando em ordem a documentação, o oficial extrairá o edital, que se afixará durante quinze dias nas circunscrições do Registro Civil de ambos os nubentes, e, obrigatoriamente, se publicará na imprensa local, se houver. Parágrafo único. A autoridade competente, havendo urgência, poderá dispensar a publicação. Art. 1.528. É dever do oficial do registro esclarecer os nubentes a respeito dos fatos que podem ocasionar a invalidade do casamento, bem como sobre os diversos regimes de bens. Art. 1.529. Tanto os impedimentos quanto as causas suspensivas serão opostos em declaração escrita e assinada, instruída com as provas do fato alegado, ou com a indicação do lugar onde possam ser obtidas. Art. 1.530. O oficial do registro dará aos nubentes ou a seus representantes nota da oposição, indicando os fundamentos, as provas e o nome de quem a ofereceu. Parágrafo único. Podem os nubentes requerer prazo razoável para fazer prova contrária aos fatos alegados, e promover as ações civis e criminais contra o oponente de má-fé. Art. 1.531. Cumpridas as formalidades dos arts. 1.526 e 1.527 e verificada a inexistência de fato obstativo, o oficial do registro extrairá o certificado de habilitação. Art. 1.532. A eficácia da habilitação será de noventa dias, a contar da data em que foi extraído o certificado. Art. 1.533. Celebrar-se-á o casamento, no dia, hora e lugar previamente designados pela autoridade que houver de presidir o ato, mediante petição dos contraentes, que se mostrem habilitados com a certidão do art. 1.531 (certificado de habilitação). Art. 1.534. A solenidade realizar-se-á na sede do cartório, com toda publicidade, a portas abertas, presentes pelo menos duas testemunhas, parentes ou não dos contraentes, ou, querendo as partes e consentindo a autoridade celebrante, noutro edifício público ou particular. § 1o Quando o casamento for em edifício particular, ficará este de portas abertas durante o ato. § 2o Serão quatro as testemunhas na hipótese do parágrafo anterior e se algum dos contraentes não souber ou não puder escrever. Art. 1.535. Presentes os contraentes, em pessoa ou por procurador especial, juntamente com as testemunhas e o oficial do registro, o presidente do ato, ouvida aos nubentes a afirmação de que pretendem CS - CIVIL IV 2018.1 42 casar por livre e espontânea vontade, declarará efetuado o casamento, nestes termos: "De acordo com a vontade que ambos acabais de afirmar perante mim, de vos receberdes por marido e mulher, eu, em nome da lei, vos declaro casados." Art. 1.536. Do casamento, logo depois de celebrado, lavrar-se-á o assento no livro de registro. No assento, assinado pelo presidente do ato, pelos cônjuges, as testemunhas, e o oficial do registro, serão exarados: I - os prenomes, sobrenomes, datas de nascimento, profissão, domicílio e residência atual dos cônjuges; II - os prenomes, sobrenomes, datas de nascimento ou de morte, domicílio e residência atual dos pais; III - o prenome e sobrenome do cônjuge precedente e a data da dissolução do casamento anterior; IV - a data da publicação dos proclamas e da celebração do casamento; V - a relação dos documentos apresentados ao oficial do registro; VI - o prenome, sobrenome, profissão, domicílio e residência atual das testemunhas; VII - o regime do casamento, com a declaração da data e do cartório em cujas notas foi lavrada a escritura antenupcial, quando o regime não for o da comunhão parcial, ou o obrigatoriamente estabelecido. Art. 1.537. O instrumento da autorização para casar transcrever-se-á integralmente na escritura antenupcial. Art. 1.538. A celebração do casamento será imediatamente suspensa se algum dos contraentes: I - recusar a solene afirmação da sua vontade; II - declarar que esta não é livre e espontânea; III - manifestar-se arrependido. Parágrafo único. O nubente que, por algum dos fatos mencionados neste artigo, der causa à suspensão do ato, não será admitido a retratar-se no mesmo dia. Art. 1.539. No caso de moléstia grave de um dos nubentes, o presidente do ato irá celebrá-lo onde se encontrar o impedido, sendo urgente, ainda que à noite, perante duas testemunhas que saibam ler e escrever. § 1o A falta ou impedimento da autoridade competentepara presidir o casamento suprir-se-á por qualquer dos seus substitutos legais, e a do oficial do Registro Civil por outro ad hoc, nomeado pelo presidente do ato. § 2o O termo avulso, lavrado pelo oficial ad hoc, será registrado no respectivo registro dentro em cinco dias, perante duas testemunhas, ficando arquivado. Art. 1.540. Quando algum dos contraentes estiver em iminente risco de vida, não obtendo a presença da autoridade à qual incumba presidir o ato, nem a de seu substituto, poderá o casamento ser celebrado na presença de seis testemunhas, que com os nubentes não tenham parentesco em linha reta, ou, na colateral, até segundo grau. Art. 1.541. Realizado o casamento, devem as testemunhas comparecer perante a autoridade judicial mais próxima, dentro em dez dias, pedindo que lhes tome por termo a declaração de: I - que foram convocadas por parte do enfermo; II - que este parecia em perigo de vida, mas em seu juízo; III - que, em sua presença, declararam os contraentes, livre e espontaneamente, receber-se por marido e mulher. § 1o Autuado o pedido e tomadas as declarações, o juiz procederá às diligências necessárias para verificar se os contraentes podiam ter-se CS - CIVIL IV 2018.1 43 habilitado, na forma ordinária, ouvidos os interessados que o requererem, dentro em quinze dias. § 2o Verificada a idoneidade dos cônjuges para o casamento, assim o decidirá a autoridade competente, com recurso voluntário às partes. § 3o Se da decisão não se tiver recorrido, ou se ela passar em julgado, apesar dos recursos interpostos, o juiz mandará registrá-la no livro do Registro dos Casamentos. § 4o O assento assim lavrado retrotrairá os efeitos do casamento, quanto ao estado dos cônjuges, à data da celebração. § 5o Serão dispensadas as formalidades deste e do artigo antecedente, se o enfermo convalescer e puder ratificar o casamento na presença da autoridade competente e do oficial do registro. Art. 1.542. O casamento pode celebrar-se mediante PROCURAÇÃO, por instrumento público, com poderes especiais. § 1o A revogação do mandato não necessita chegar ao conhecimento do mandatário; mas, celebrado o casamento sem que o mandatário ou o outro contraente tivessem ciência da revogação, responderá o mandante por perdas e danos. § 2o O nubente que não estiver em iminente risco de vida poderá fazer-se representar no casamento nuncupativo. § 3o A eficácia do mandato não ultrapassará noventa dias. § 4o Só por instrumento público se poderá revogar o mandato. Art. 1.543. O casamento celebrado no Brasil prova-se pela certidão do registro. Parágrafo único. Justificada a falta ou perda do registro civil, é admissível qualquer outra espécie de prova. Art. 1.544. O casamento de brasileiro, celebrado no estrangeiro, perante as respectivas autoridades ou os cônsules brasileiros, deverá ser registrado em cento e oitenta dias, a contar da volta de um ou de ambos os cônjuges ao Brasil, no cartório do respectivo domicílio, ou, em sua falta, no 1o Ofício da Capital do Estado em que passarem a residir. Art. 1.545. O casamento de pessoas que, na posse do estado de casadas, não possam manifestar vontade, ou tenham falecido, não se pode contestar em prejuízo da prole comum, salvo mediante certidão do Registro Civil que prove que já era casada alguma delas, quando contraiu o casamento impugnado. Art. 1.546. Quando a prova da celebração legal do casamento resultar de processo judicial, o registro da sentença no livro do Registro Civil produzirá, tanto no que toca aos cônjuges como no que respeita aos filhos, todos os efeitos civis desde a data do casamento. Art. 1.547. Na dúvida entre as provas favoráveis e contrárias, julgar-se-á pelo casamento, se os cônjuges, cujo casamento se impugna, viverem ou tiverem vivido na posse do estado de casados. E quanto ao casamento religioso? A constituição estabelece que ele terá efeitos civis nos termos da lei. Como isso ocorre? CF Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. § 2º - O casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei. CC - Art. 1.515. O casamento religioso, que atender às exigências da lei para a validade do casamento civil, equipara-se a este, desde que registrado no registro próprio, produzindo efeitos a partir da data de sua celebração. CS - CIVIL IV 2018.1 44 Art. 1.516. O registro do casamento religioso submete-se aos MESMOS REQUISITOS EXIGIDOS PARA O CASAMENTO CIVIL. § 1o O registro civil do casamento religioso deverá ser promovido dentro de noventa dias de sua realização, mediante comunicação do celebrante ao ofício competente, ou por iniciativa de qualquer interessado, desde que haja sido homologada previamente a habilitação regulada neste Código. Após o referido prazo, o registro dependerá de nova habilitação. § 2o O casamento religioso, celebrado sem as formalidades exigidas neste Código, terá efeitos civis se, a requerimento do casal, for registrado, a qualquer tempo, no registro civil, mediante PRÉVIA HABILITAÇÃO perante a autoridade competente e observado o prazo do art. 1.532. (Eficácia da habilitação: 90 dias) § 3o Será nulo o registro civil do casamento religioso se, antes dele, qualquer dos consorciados houver contraído com outrem casamento civil. 4. PLANO DE EXISTÊNCIA DO CASAMENTO Os pressupostos existenciais do casamento são os seguintes: 1) Celebração por autoridade materialmente competente; 2) Consentimento; 3) Diversidade de sexos*; Vejamos: 4.1. CELEBRAÇÃO POR AUTORIDADE MATERIALMENTE COMPETENTE A autoridade deve ter competência material para o casamento. No casamento civil, são competentes o juiz de direito e o juiz de paz. No casamento religioso com efeitos civis, reconhece- se autoridade ao padre etc. A incompetência material é absoluta e gera a inexistência do casamento. Já a incompetência territorial (relativa) torna o casamento inválido (anulável), conforme o art. 1.550, V do CC. Art. 1.550. É anulável o casamento: VI - por incompetência da autoridade celebrante. OB1: Sempre lembrar que há aqueles que não aceitam a Teoria da Inexistência. Dessa forma, a falta de competência deve ser reputada como uma invalidade. OBS2: Contemplando o princípio da boa-fé, o art. 1.554 admite, com amparo na Teoria da Aparência, a eficácia do casamento celebrado por pessoa desprovida de competência. É uma exceção. Art. 1.554. Subsiste o casamento celebrado por aquele que, sem possuir a competência exigida na lei, exercer publicamente as funções de juiz de casamentos e, nessa qualidade, tiver registrado o ato no Registro Civil. 4.2. CONSENTIMENTO (ART. 1.538) CS - CIVIL IV 2018.1 45 Art. 1.538. A celebração do casamento será imediatamente suspensa se algum dos contraentes: I - recusar a solene afirmação da sua vontade; II - declarar que esta não é livre e espontânea; III - manifestar-se arrependido. Parágrafo único. O nubente que, por algum dos fatos mencionados neste artigo, der causa à suspensão do ato, não será admitido a retratar-se no mesmo dia. 4.3. DIVERSIDADE DE SEXOS No Brasil, não há norma proibitiva explícita, a exemplo do art. 1.628 do CC de Portugal, muito embora seja princípio do sistema a diversidade de sexos para o casamento (ver arts. 1.514, 1.517 e 1.565 do CC). Art. 1.514. O casamento se realiza no momento em que o homem e a mulher manifestam, perante o juiz, a sua vontade de estabelecer vínculo conjugal, e o juiz os declara casados. Art. 1.517. O homem e a mulher com dezesseis anos podem casar, exigindo-se autorização de ambos os pais, ou de seus representantes legais, enquanto não atingida a maioridade civil. Parágrafo único. Se houver divergência entre os pais, aplica-se o disposto noparágrafo único do art. 1.631. Art. 1.565. Pelo casamento, homem e mulher assumem mutuamente a condição de consortes, companheiros e responsáveis pelos encargos da família. § 1o Qualquer dos nubentes, querendo, poderá acrescer ao seu o sobrenome do outro. § 2o O planejamento familiar é de livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e financeiros para o exercício desse direito, vedado qualquer tipo de coerção por parte de instituições privadas ou públicas. Historicamente, a doutrina majoritária apontou a diversidade de sexos como um pressuposto para a existência do casamento. Assim, para o casamento ser considerado seria exigível que os nubentes fossem homem e mulher. Chegou-se mesmo a cogitar que as relações afetivas entre pessoas do mesmo sexo estariam marcadas pela inexistência, dela não decorrendo efeitos na órbita do Direito das Famílias. Em outra perspectiva, considerando que o casamento (como qualquer outra entidade familiar) está assentado na comunhão de vida afetiva e tendo em mira o faro de que não se pretende pelo casamento a perpetuação biológica da espécie, sobreleva reconhecer a falta de substrato jurídico para a manutenção do referido pressuposto. O STJ conferiu novo tratamento à matéria. No julgamento do REsp. 1.183.378/RS, reconheceu a existência e validade do casamento homoafetivo, invocando argumentos de inclusão social e jurídica emanados da CF. Ressalta-se que a Resolução 175/2013 do CNJ dispõe sobre a habilitação, celebração de casamento civil, ou de conversão de união estável em casamento, entre pessoas de mesmo sexo. CS - CIVIL IV 2018.1 46 Art. 1º É vedada às autoridades competentes a recusa de habilitação, celebração de casamento civil ou de conversão de união estável em casamento entre pessoas de mesmo sexo. Art. 2º A recusa prevista no artigo 1º implicará a imediata comunicação ao respectivo juiz corregedor para as providências cabíveis. Art. 3º Esta resolução entra em vigor na data de sua publicação. Portanto, não mais vigora o pressuposto de diversidade de sexos para a celebração do casamento. 5. PLANOS DE VALIDADE E EFICÁCIA DO CASAMENTO: CONSIDERAÇÕES São os requisitos que interferem na validade ou na eficácia do casamento. Os antigos impedimentos absolutos (ou de ordem pública) do CC/16 são tratados no CC/2002 como impedimentos, em seu art. 1521, e sua infringência ocasiona a nulidade do casamento. Os antigos impedimentos relativos (ou privados) são tratados agora como causas de anulação do casamento, na forma do art. 1.550, acarretando a anulabilidade do casamento (mesma consequência que previa o CC/16). Os antigos impedimentos impedientes (ou impeditivos) são agora as chamadas causas suspensivas do casamento, na forma do art. 1.523, acarretando uma imposição de sanção patrimonial (mesma consequência que previa o CC/16). CC/16 CC/02 CONSEQUÊNCIAS Impedimentos dirimentes públicos ou absolutos (art. 183, I a VIII) Impedimentos matrimoniais (art. 1.521) Casamento nulo Impedimentos dirimentes privados ou relativos (art. 183, IX a XII) Causas de anulabilidade (art. 1.550). Casamento anulável Impedimentos impedientes (art. 183, XIII a XVI) Causas suspensivas (art. 1.523). CC/16: gerava o “casamento irregular”. CC/02: impõem sanções aos cônjuges. 6. PLANO DA VALIDADE DO CASAMENTO 6.1. CASAMENTO NULO (IMPEDIMENTOS) Assim, é nulo o casamento contraído (art. 1.548): 1) Pelo enfermo mental sem discernimento; Revogado pela Lei 13.146/2015 2) Pela infringência de impedimento. São impedimentos (art. 1.521): 2.1) Ascendentes com descendentes; CS - CIVIL IV 2018.1 47 2.2) Afins em linha reta; 2.3) Adotante com ex-cônjuge do adotado e vice versa; 2.4) Irmãos e demais colaterais até 3º grau; 2.5) Adotado com filho do adotante (irmãos?); 2.6) Pessoas casadas; 2.7) Do sobrevivente com pessoa condenada por homicídio ou tentativa contra o seu consorte. Vejamos: Art. 1.548. É NULO o casamento contraído: I - pelo enfermo mental sem o necessário discernimento para os atos da vida civil; revogado pela Lei 13.146/2015 II - por infringência de impedimento. Art. 1.521. Não podem casar (leia-se: impedimentos): I - os ascendentes com os descendentes, seja o parentesco natural ou civil; II - os afins em linha reta; III - o adotante com quem foi cônjuge do adotado e o adotado com quem o foi do adotante; IV - os irmãos, unilaterais ou bilaterais, e demais colaterais, até o terceiro grau inclusive; OBS: A doutrina já consolidou o entendimento (Maria Berenice e Jones Figueiredo Alves) segundo o qual o impedimento de casamento entre colaterais de terceiro grau (tios e sobrinhos), que visa a proteger a saúde genética da prole, é relativizado se houver laudo médico favorável, nos termos do Dec. Lei 3.200/41 (ver também enunciado 98 da I Jornada). Esse tipo de casamento, entre colaterais de 3º grau, chama-se casamento avuncular (não confundir esta palavra com “avoengo” que tem a ver com avós). CJF 98 - Art. 1.521, IV, do novo Código Civil: O inc. IV do art. 1.521 do novo Código Civil deve ser interpretado à luz do Decreto-lei n. 3.200/41, no que se refere à possibilidade de casamento entre colaterais de 3º grau. V - o adotado com o filho do adotante; Podem ser irmãos. VI - as pessoas casadas; VII - o cônjuge sobrevivente com o condenado por homicídio ou tentativa de homicídio contra o seu consorte. Conforme Flávio Tartuce se exige o trânsito em julgado da sentença. OBS: O antigo impedimento referente ao adultério foi banido do novo sistema, considerando-se a atipicidade penal da conduta. O CC/16 dizia: Não podem casar os condenados criminalmente por adultério. Importante destacar o revogado inciso I, do art. 1.548 do CC: “Casamento contraído por enfermo mental sem o necessário discernimento para a prática dos atos da vida civil”. Esta previsão de nulidade era exatamente a mesma constante do art. 3.º, II, do CC, também incluindo os doentes mentais sem discernimento, eis que enfermidade e doença eram tidas como expressões sinônimas. Deveria apenas ser feita a ressalva de que não se exigia o processo de interdição prévio para o casamento ser considerado nulo. CS - CIVIL IV 2018.1 48 No passado, o Enunciado n. 332 do CJF/STJ, aprovado na IV Jornada de Direito Civil, deu interpretação restritiva ao dispositivo, não admitindo anteriormente a nulidade absoluta do casamento das pessoas descritas no então art. 3.º, III, do CC. Assim: “A hipótese de nulidade prevista no inc. I do art. 1.548 do Código Civil se restringe ao casamento realizado por enfermo mental absolutamente incapaz, nos termos do inc. II do art. 3.º do Código Civil”. De toda sorte, com vistas à plena inclusão das pessoas com deficiência, esse dispositivo foi revogado expressamente pelo art. 114 da Lei 13.146/2015. Assim, as pessoas antes descritas no comando podem se casar livremente, não sendo mais consideradas como absolutamente incapazes no sistema civil brasileiro. A inovação veio em boa hora, pois a lei presumia de forma absoluta que o casamento seria prejudicial aos então incapazes, o que não se sustentava social e juridicamente. Aliás, conforme se retira do art. 1.º da norma emergente, o Estatuto da Pessoa com Deficiência é destinado a assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania. A possibilidade atual de casamento dessas pessoas parece tender a alcançar tais objetivos, nos termos do que consta do art. 6.º da mesma Lei 13.146/2015.6.1.1. Legitimidade para a ação de nulidade Art. 1.549. A decretação de nulidade de casamento, pelos motivos previstos no artigo antecedente, pode ser promovida mediante ação direta, por qualquer interessado, ou pelo Ministério Público. A ação de nulidade de casamento pode ser proposta por qualquer interessado ou pelo MP. O juiz não pode pronunciar de ofício a nulidade absoluta, neste caso. Art. 1.562. Antes de mover a ação de nulidade do casamento, a de anulação, a de separação judicial, a de divórcio direto ou a de dissolução de união estável, poderá requerer a parte, comprovando sua necessidade, a separação de corpos, que será concedida pelo juiz com a possível brevidade. Art. 1.563. A sentença que decretar a nulidade do casamento retroagirá à data da sua celebração, sem prejudicar a aquisição de direitos, a título oneroso, por terceiros de boa-fé, nem a resultante de sentença transitada em julgado. (efeitos ex tunc da decretação de nulidade) Art. 1.564. Quando o casamento for ANULADO por CULPA de um dos cônjuges, este incorrerá: I - na perda de todas as vantagens havidas do cônjuge inocente; II - na obrigação de cumprir as promessas que lhe fez no contrato antenupcial. 6.2. CASAMENTO ANULÁVEL (ART. 1.550) 6.2.1. Artigo 1.550: quando é anulável o casamento Assim, o casamento é ANULÁVEL (art. 1.550): CS - CIVIL IV 2018.1 49 1) De quem não completou 16 anos; 2) De quem não completou 18 anos, não autorizado pelo representante; 3) Vício na vontade (1.556 a 1.558); 4) Incapaz de manifestar o consentimento de modo inequívoco; 5) Por mandatário sem que soubessem da revogação do mandato (não pode sobrevir coabitação); 6) Incompetência territorial da autoridade celebrante. Vejamos: Art. 1.550. É anulável o casamento: I - de quem não completou a idade mínima para casar; Em regra, 16 anos. II - do menor em idade núbil, quando não autorizado por seu representante legal; Entre 16 e 18 anos é necessária a autorização do representante ou o suprimento de consentimento. OBS: Art. 1.551. Não se anulará, por motivo de idade, o casamento de que resultou gravidez. Art. 1.552. A anulação do casamento dos menores de dezesseis anos será requerida: I - pelo próprio cônjuge menor; II - por seus representantes legais; III - por seus ascendentes. Art. 1.553. O menor que não atingiu a idade núbil poderá, depois de completá-la, confirmar seu casamento, com a autorização de seus representantes legais, se necessária, ou com suprimento judicial. Art. 1.560. § 1o Extingue-se, em cento e oitenta dias, o direito de anular o casamento dos menores de dezesseis anos, contado o prazo para o menor do dia em que perfez essa idade; e da data do casamento, para seus representantes legais ou ascendentes. Art. 1.555. O casamento do menor em idade núbil, quando não autorizado por seu representante legal, só poderá ser anulado se a ação for proposta em cento e oitenta dias, por iniciativa do incapaz, ao deixar de sê-lo, de seus representantes legais ou de seus herdeiros necessários. § 1o O prazo estabelecido neste artigo será contado do dia em que cessou a incapacidade, no primeiro caso; a partir do casamento, no segundo; e, no terceiro, da morte do incapaz. § 2o Não se anulará o casamento quando à sua celebração houverem assistido os representantes legais do incapaz, ou tiverem, por qualquer modo, manifestado sua aprovação. Então, temos duas situações: CS - CIVIL IV 2018.1 50 1ª Situação: No caso de menor de 16 anos (sem autorização, por óbvio), para a anulação, conta-se: 180 dias do atingimento da idade núbil (16 anos) para o menor e 180 dias da data da celebração para os representantes e ascendentes. 2ª Situação: No caso de menor 18 e maior de 16, para anulação, conta-se: 180 dias da maioridade para o menor (18 anos), do casamento para os representantes e ascendentes, e do óbito para os descendentes. III - por vício da vontade, nos termos dos arts. 1.556 a 1.558; Ver abaixo. IV - do incapaz de consentir ou manifestar, de modo inequívoco, o consentimento; Exemplo: Bêbado podre. V - realizado pelo mandatário, sem que ele ou o outro contraente soubesse da revogação do mandato, e não sobrevindo coabitação entre os cônjuges; Se os noivos venham a coabitar, o ato se convalida. VI - por incompetência da autoridade celebrante. Competência territorial. Lembrando que se for incompetência material absoluta o ato é inexistente. Parágrafo único. Equipara-se à revogação a invalidade do mandato judicialmente decretada. Art. 1.562. Antes de mover a ação de nulidade do casamento, a de anulação, a de separação judicial, a de divórcio direto ou a de dissolução de união estável, poderá requerer a parte, comprovando sua necessidade, a separação de corpos, que será concedida pelo juiz com a possível brevidade. Art. 1.564. Quando o casamento for anulado por culpa de um dos cônjuges, este incorrerá: I - na perda de todas as vantagens havidas do cônjuge inocente; II - na obrigação de cumprir as promessas que lhe fez no contrato antenupcial. 6.2.2. Vícios da vontade que podem anular o casamento (causas de anulação: 1556 a 1558 CC) Aqui é o seguinte: 1) Erro essencial sobre a pessoa; O erro pode ser: 1.1) Sobre a honra e boa fama, tornando a vida insuportável; 1.2) Sobre crime cometido ANTERIOR ao casamento, tornando a vida insuportável; 1.3) Sobre defeito físico/moléstia grave ANTERIOR ao casamento; 1.4) Sobre doença mental grave ANTERIOR ao casamento. 2) Coação. CS - CIVIL IV 2018.1 51 OBS: a coabitação diante da ciência do vício convalida o ato, exceto no caso de defeito físico/moléstia e doença mental. Vejamos: Art. 1.556. O casamento pode ser ANULADO por vício da vontade, se houve por parte de um dos nubentes, ao consentir, erro essencial quanto à pessoa do outro. Art. 1.557. Considera-se ERRO ESSENCIAL sobre a pessoa do outro cônjuge: I - o que diz respeito à sua identidade, sua honra e boa fama, sendo esse erro tal que o seu conhecimento ulterior torne insuportável a vida em comum ao cônjuge enganado; Exemplo: Esposa descobre o marido é um jogador inveterado; mulher descobre que marido é Drag Queen. II - a ignorância de crime, ANTERIOR ao casamento, que, por sua natureza, torne insuportável a vida conjugal; Não necessita de trânsito em julgado da sentença criminal (ao contrário do caso de impedimento para casar: quando o indivíduo cometeu crime contra o cônjuge de quem pretende casar, exige-se o trânsito: Flávio Tartuce). III - a ignorância, anterior ao casamento, de defeito físico irremediável que não caracterize deficiência ou de moléstia grave e transmissível, por contágio ou por herança, capaz de pôr em risco a saúde do outro cônjuge ou de sua descendência; Pontue-se que a Lei 13.146/2015 incluiu a exceção destacada, a respeito da pessoa com deficiência, não cabendo a anulação do casamento em casos tais. Exemplos anteriores de defeito físico irremediável, mantidos no sistema: hermafroditismo (duas manifestações sexuais); deformações genitais; ulcerações no pênis e impotência coeundi (para o ato sexual). É importante destacar que a impotência generandi ou concipiendi (para ter filhos) não gera a anulabilidade do casamento. Exemplos de moléstia grave e transmissível: tuberculose, AIDS, hepatite, sífilis, epilepsia, hemofilia etc. Em todos os casos, há presunção absoluta ou iure et de iure da insuportabilidade da vida em comum. IV - a ignorância, ANTERIOR ao casamento, de doença mental grave que, por sua natureza, torne insuportável a vida em comum ao cônjuge enganado. Atente-seque foi revogado pela Lei 13.146/2015 o antigo inciso IV do art. 1.557 da codificação material que mencionava a ignorância, anterior ao casamento, de doença mental grave que, por sua natureza, tornasse insuportável a vida em comum. Eram exemplos aqui antes referidos: a esquizofrenia, a psicopatia, a psicose, a paranoia, entre outros. Era apontada a CS - CIVIL IV 2018.1 52 desnecessidade de a pessoa estar interditada, no sistema anterior à revogação. Agora, reafirme- se, o casamento das pessoas citadas será válido, o que visa a sua plena inclusão social, especialmente para os atos existenciais familiares, objetivo primordial do Estatuto da Pessoa com Deficiência (art. 6.º). OBS: O CC/2002 não reproduziu a inconstitucional hipótese de anulação de casamento por inexistência de virgindade da mulher. Art. 1.558. É anulável o casamento em virtude de COAÇÃO, quando o consentimento de um ou de ambos os cônjuges houver sido captado mediante fundado temor de mal considerável e iminente para a vida, a saúde e a honra, sua ou de seus familiares. Coação moral. Lembrando que temor reverencial não é coação. Ver em parte geral. IMPORTANTE! Art. 1.550, IV, Do incapaz de consentir e de manifestar de forma inequívoca a sua vontade Essa previsão continua a englobar os ébrios habituais (alcoólatras) e os viciados em tóxicos (art. 4.º, II, do CC/2002, atualizado pela Lei 13.146/2015). Todavia, o comando não incide mais para as pessoas com discernimento mental reduzido e aos excepcionais sem desenvolvimento completo, constantes do art. 4.º, incisos II e III, da codificação material, antes da recente alteração pela Lei 13.146/2015. Essas pessoas podem se casar livremente, até porque foi incluído um § 2.º no art. 1.550 do CC/2002 pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência. O preceito emergente passou a prever que a pessoa com deficiência mental ou intelectual em idade núbil poderá contrair matrimônio, expressando sua vontade diretamente ou por meio de seu responsável ou curador. Mais uma vez nota-se o objetivo de plena inclusão social da pessoa com deficiência, afastando-se a tese de que o casamento poderia ser-lhe prejudicial. Pois bem, segundo o entendimento considerado majoritário anteriormente, nessa previsão do art.1.550, IV, também se enquadrariam as pessoas que por causa transitória ou definitiva não pudessem exprimir vontade (antigo art. 3.º, III, do CC). Tal forma de pensar chegou a ser adotada pelo STJ, em remoto julgado, referente ao CC/1916 (STJ, EDcl no AgRg no Ag 24.836/MG, 4.ª Turma, Rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, j. 18.10.1993, DJ 13.12.1993, p. 27.463). Tartuce não concordava com o último posicionamento, pois em casos tais o casamento deveria ser considerado nulo, por equiparação ao que constava do art. 3.º, II, do CC. Assim, parecia correta a premissa categórica de que o art. 1.550, IV, do CC, somente se aplicaria aos relativamente incapazes descritos no art. 4.º. Todavia, o panorama mudou substancialmente, mais uma vez diante da recente Lei 13.146/2015, que incluiu o Estatuto da Pessoa com Deficiência. A antiga previsão do art. 3.º, III, passou a compor o art. 4.º, III, no rol dos relativamente incapazes. Sendo assim, a posição atual a ser considerada, agora seguida também por Tartuce diante da mudança legislativa, é que o casamento das pessoas que por causa transitória ou definitiva não puderem exprimir vontade será anulável. Cite-se o caso da pessoa que se encontra em coma profundo. CS - CIVIL IV 2018.1 53 Em resumo no que toca aos incapazes, foi visto que os casos envolvendo os menores são de anulabilidade do casamento (art. 1.550, I e II); que não mais existem maiores absolutamente incapazes, tendo sido revogado o art. 1.548, I, do CC; e que as hipóteses concernentes aos demais incapazes são de anulabilidade (art. 1.550, IV). Vale repisar, ademais, que as pessoas com deficiência podem se casar livremente, nos termos do novo § 2.º do art. 1.550 do Código Civil. Assim, em relação aos incapazes da Parte Geral do CC/2002, falta abordar a situação dos pródigos (art. 4.º, IV). Ora, o pródigo pode se casar livremente, uma vez que a interdição é apenas relativa aos atos de disposição direta de bens, tais como vender, hipotecar e transigir, o que não atinge o casamento (art.1.782 do CC). Anote-se que não sendo celebrado pacto antenupcial, o regime do seu casamento será o da comunhão parcial (regime legal), e não o da separação obrigatória de bens, uma vez que o pródigo não consta expressamente no art. 1.641 do CC. Filia-se à corrente doutrinária que afirma que, para fazer pacto antenupcial que altere o seu patrimônio, o pródigo necessita de assistência, sob pena de anulação do ato (art. 171, I, do CC). 6.2.3. Legitimidade para a ação de anulação No caso do menor SEM idade núbil: do cônjuge menor (até 180 dias depois de alcançada a idade núbil), representantes e ascendentes (180 dias do casamento para ambos). No caso do menor COM idade núbil: cônjuge menor (180 dias depois de alcançar a maior idade), representantes (180 dias após o casamento) e herdeiros necessários (180 dias após o óbito). Nos demais casos é o próprio cônjuge. Vejamos ainda ao art. 1.559 em caso de erro ou coação. Art. 1.559. Somente o cônjuge que incidiu em erro, ou sofreu coação (ou seja, nas hipóteses de VÍCIO NA VONTADE), pode demandar a anulação do casamento; mas a coabitação, havendo ciência do vício, valida o ato, ressalvadas as hipóteses dos incisos III e IV do art. 1.557 (defeito físico/moléstia grave ou doença mental anterior). Lembrar que o IV foi revogado. OBS: Perceber que na ação de NULIDADE pode ser qualquer interessado ou o MP. Nas ações de ANULAÇÃO que não por vício de vontade, pode ser o próprio cônjuge, ascendentes ou descendentes, dependendo do caso. 6.2.4. Natureza da sentença que anula o casamento A doutrina diverge quanto à eficácia da sentença que anula o casamento. Uma primeira corrente (Orlando Gomes) sustenta que a sentença que anula casamento tem eficácia ex nunc. Uma segunda corrente, todavia, afirma que a eficácia é ex tunc (Pontes de Miranda e Clóvis Beviláqua). CS - CIVIL IV 2018.1 54 6.2.5. Prazo para a ANULAÇÃO do casamento Art. 1.560. O prazo para ser intentada a ação de anulação do casamento, a contar da data da CELEBRAÇÃO, é de: I - cento e oitenta dias, no caso do inciso IV do art. 1.550 (incapaz de consentir de modo inequívoco); II - dois anos, se incompetente a autoridade celebrante; (incompetência relativa) III - três anos, nos casos dos incisos I a IV do art. 1.557 (erros sobre a pessoa); IV - quatro anos, se houver coação (regra geral dos negócios jurídicos). § 1o Extingue-se, em cento e oitenta dias, o direito de anular o casamento dos menores de dezesseis anos, contado o prazo para o menor do dia em que perfez essa idade; e da data do casamento, para seus representantes legais ou ascendentes. (Lembrar que para o menor entre 16-18 o prazo é do atingimento da maioridade, para os seus representantes é da data do casamento, e, para os descendentes, do óbito) § 2o Na hipótese do inciso V do art. 1.550 (mandatário), o prazo para anulação do casamento é de cento e oitenta dias, a partir da data em que o mandante tiver conhecimento da celebração. 7. PLANO DA EFICÁCIA DO CASAMENTO 7.1. CAUSAS SUSPENSIVAS (Art. 1.523) Não são causas que geram a nulidade ou anulabilidade do casamento (plano de validade), mas causas que geram sanções no plano de eficácia, como visto acima. Estão sujeitos: a) Viúvo (a) que tem filho do cônjuge falecido, enquanto não efetuado inventário e partilha; b) Viúva ou mulher com casamento nulo ou anulado até 10 meses depois;c) Divorciado enquanto não homologada a partilha; d) Tutor, curador (e parentes) com a pessoa assistida enquanto não cessar e não prestadas contas; Quando há violação dessas causas, o casamento é VÁLIDO, porém IRREGULAR, impondo-se aos cônjuges uma sanção patrimonial, qual seja, o regime de separação obrigatória de bens. Art. 1.641. É obrigatório o regime da separação de bens no casamento: I - das pessoas que o contraírem com inobservância das causas suspensivas da celebração do casamento; Causa suspensiva, pois resta suspensa a possibilidade de escolha do regime de bens. Art. 1.523. Não devem casar (leia-se: “se casarem terão restrições”): I - o viúvo ou a viúva que tiver filho do cônjuge falecido, enquanto não fizer inventário dos bens do casal e der partilha aos herdeiros; CS - CIVIL IV 2018.1 55 Para evitar confusão de patrimônio. II - a viúva, ou a mulher cujo casamento se desfez por ser nulo ou ter sido anulado, até dez meses depois do começo da viuvez, ou da dissolução da sociedade conjugal; Evitar a confusão de sangue. Ver isso. III - o divorciado, enquanto não houver sido homologada ou decidida a partilha dos bens do casal; OBS: No caso do divórcio, o CC/2002 admite o casamento do divorciado que não haja feito a partilha do primeiro casamento. Todavia, este novo matrimônio viola a causa suspensiva prevista no inciso III do art. 1.523, de maneira que se impõe a separação obrigatória de bens. A Lei do divórcio não permitia isso. IV - o tutor ou o curador e os seus descendentes, ascendentes, irmãos, cunhados ou sobrinhos, com a pessoa tutelada ou curatelada, enquanto não cessar a tutela ou curatela, e não estiverem saldadas as respectivas contas. Parágrafo único. É permitido aos nubentes solicitar ao juiz que não lhes sejam aplicadas as causas suspensivas previstas nos incisos I (viúvo que tiver filho do falecido), III (divorciado enquanto não feita partilha) e IV (tutor ou curador enquanto não cessar) deste artigo, provando-se a inexistência de prejuízo, respectivamente, para o herdeiro, para o ex-cônjuge e para a pessoa tutelada ou curatelada; no caso do inciso II (viúva ou com casamento nulo/anulado), a nubente deverá provar nascimento de filho, ou inexistência de gravidez, na fluência do prazo. Art. 1.524. As causas suspensivas da celebração do casamento podem ser arguidas pelos parentes em linha reta de um dos nubentes, sejam consanguíneos ou afins, e pelos colaterais em segundo grau, sejam também consanguíneos ou afins. 7.2. MOMENTO E LEGITIMIDADE DE OPOSIÇÃO DOS IMPEDIMENTOS E CAUSAS SUSPENSIVAS Art. 1.541. Realizado o casamento, devem as testemunhas comparecer perante a autoridade judicial mais próxima, dentro em dez dias, pedindo que lhes tome por termo a declaração de: I - que foram convocadas por parte do enfermo; II - que este parecia em perigo de vida, mas em seu juízo; III - que, em sua presença, declararam os contraentes, livre e espontaneamente, receber-se por marido e mulher. § 1o Autuado o pedido e tomadas as declarações, o juiz procederá às diligências necessárias para verificar se os contraentes podiam ter-se habilitado, na forma ordinária, ouvidos os interessados que o requererem, dentro em quinze dias OPOSIÇÃO MOTIVO MOMENTO DA OPOSIÇÃO LEGITIMADOS Em declaração escrita, assinada e com provas. IMPEDIMENTOS (plano da validade: casamento nulo) No processo de habilitação e até o momento da celebração. MP e qualquer interessado. Obs.: isso não impede a ação de nulidade. CAUSAS DE SUSPENSÃO (plano da eficácia: sanção patrimonial – regime de Só no processo de habilitação, até 15 dias após os proclamas. Parentes em linha reta e colateral até o 2º grau (consanguíneos ou afins). CS - CIVIL IV 2018.1 56 bens) 8. NOIVADO (PROMESSA DE CASAMENTO OU ESPONSAIS) Segundo Antônio Chaves, os esponsais consistem em um compromisso de casamento entre duas pessoas desimpedidas, de sexos diferentes, com o escopo de possibilitar que se conheçam melhor, que aquilatem suas afinidades e gostos. O noivado não acarreta a obrigação de casar. Todavia, a doutrina, desde Lafayette Rodrigues Pereira chegando a Maria Helena Diniz, com repercussão na própria jurisprudência (REsp. 251.689/RJ, Ap. Cível 02824469-5 do TJ-PR), tem admitido responsabilidade civil por ruptura injustificável de noivado. O problema está no exercício abusivo do direito (direito de não se casar), com quebra da boa-fé objetiva, em havendo demonstrado prejuízo, na forma de dano moral ou material. Lembrando que depende da análise do caso concreto. OBS: Prevalece ainda o entendimento no sentido de que a ruptura de namoro não gera responsabilidade civil (TJ/RS Ap. Cível 7.822.0634). 9. FORMAS ESPECIAIS DE CASAMENTO As formas de casamento especial são: 1) Casamento por procuração; 2) Casamento nuncupativo; 3) Casamento em caso de moléstia grave. Vejamos: 9.1. CASAMENTO POR PROCURAÇÃO (ART. 1.242) Não cabe procuração particular; deve ser pública e com poderes especiais. Art. 1.542. O casamento pode celebrar-se mediante procuração, por instrumento público, com poderes especiais. §1º A REVOGAÇÃO do mandato não necessita chegar ao conhecimento do mandatário (procurador); mas, celebrado o casamento sem que o mandatário ou o outro contraente tivessem ciência da revogação, responderá o mandante por perdas e danos. Um procurador apenas para os dois nubentes pode gerar certa insegurança, apesar de o CC não vedar. Há doutrina que diz não poder (uma só pessoa expressar duas manifestações de vontade absolutamente espontânea ficaria estranho). § 2º O nubente que não estiver em iminente risco de vida poderá fazer-se representar no casamento nuncupativo. CS - CIVIL IV 2018.1 57 § 3º A eficácia do mandato não ultrapassará noventa dias. § 4º Só por instrumento público se poderá revogar o mandato. 9.2. CASAMENTO NUNCUPATIVO (IN EXTREMIS OU IN ARTICULO MORTIS) É o casamento da pessoa que se encontra no leito de morte; ocorre quando não há tempo de chamar a autoridade celebrante. É previsto no art. 1.540, in verbis: Art. 1.540. Quando algum dos contraentes ESTIVER EM IMINENTE RISCO DE VIDA, não obtendo a presença da autoridade à qual incumba presidir o ato, nem a de seu substituto, poderá o casamento ser celebrado na presença de seis testemunhas, que com os nubentes não tenham parentesco em linha reta, ou, na colateral, até segundo grau. Posteriormente se procede ao registro pelas vias ordinárias. Art. 1.541. Realizado o casamento, devem as testemunhas comparecer perante a autoridade judicial mais próxima, dentro em dez dias, pedindo que lhes tome por termo a declaração de: I - que foram convocadas por parte do enfermo; II - que este parecia em perigo de vida, mas em seu juízo; III - que, em sua presença, declararam os contraentes, livre e espontaneamente, receber-se por marido e mulher. § 1o Autuado o pedido e tomadas as declarações, o juiz procederá às diligências necessárias para verificar se os contraentes podiam ter-se habilitado, na forma ordinária, ouvidos os interessados que o requererem, dentro em quinze dias. § 2o Verificada a idoneidade dos cônjuges para o casamento, assim o decidirá a autoridade competente, com recurso voluntário às partes. § 3o Se da decisão não se tiver recorrido, ou se ela passar em julgado, apesar dos recursos interpostos, o juiz mandará registrá-la no livro do Registro dos Casamentos. § 4o O assento assim lavrado retrotrairá os efeitos do casamento, quanto ao estado dos cônjuges, à data da celebração. § 5o Serão dispensadas as formalidades deste e do artigo antecedente, se o enfermoconvalescer e puder ratificar o casamento na presença da autoridade competente e do oficial do registro. Não se confunde com a próxima modalidade. 9.3. CASAMENTO EM CASO DE MOLÉSTIA GRAVE (ART. 1.539) Nesse aqui, a pessoa está MUITO DOENTE, porém não está no leito de morte. Não se trata de um casamento tão urgente quanto o nuncupativo. Aqui, a autoridade comparece ao ato. Art. 1.539. No caso de moléstia grave de um dos nubentes, o presidente do ato irá celebrá-lo onde se encontrar o impedido, sendo urgente, ainda que à noite, perante duas testemunhas que saibam ler e escrever. 1o A falta ou impedimento da autoridade competente para presidir o casamento suprir-se-á por qualquer dos seus substitutos legais, e a do oficial do Registro Civil por outro ad hoc, nomeado pelo presidente do ato. § 2o O termo avulso, lavrado pelo oficial ad hoc, será registrado no respectivo registro dentro em cinco dias, perante duas testemunhas, ficando arquivado. CS - CIVIL IV 2018.1 58 OBS: O TJ/BA, julgando o MS 34.739-9/05, admitiu efeitos civis do casamento espírita kardecista. 10. “CASAMENTO PUTATIVO” Trata-se simplesmente de um casamento NULO ou ANULÁVEL cujos efeitos jurídicos são preservados em favor de um ou ambos os cônjuges, conforme a boa-fé dos nubentes, homenageando a teoria da aparência. Art. 1.561. Embora ANULÁVEL ou mesmo NULO, se CONTRAÍDO DE BOA-FÉ por ambos os cônjuges, o casamento, em relação a estes como aos filhos, produz todos os efeitos até o dia da sentença anulatória. § 1º Se UM DOS CÔNJUGES estava de BOA-FÉ ao celebrar o casamento, os seus efeitos civis só a ele e aos filhos aproveitarão. § 2º Se AMBOS os cônjuges estavam de MÁ-FÉ ao celebrar o casamento, os seus efeitos civis só aos filhos aproveitarão. OBS: A despeito de a questão não ser pacífica, considerando-se a carga de ordem pública imanente ao princípio da boa-fé é razoável o entendimento segundo o qual o juiz pode, de ofício, reconhecer os efeitos jurídicos da putatividade. Na prática, segundo a doutrina e a jurisprudência brasileiras, reconhecida a putatividade, o cônjuge de boa-fé terá direito de haver de volta os bens que levou ao casamento, além de ter direito a eventual meação. Além disso, terá direito a alimentos, e, eventualmente, se a morte ocorre antes da sentença de invalidade, direito à herança. Se os dois estão de boa-fé, o juiz deve resolver o problema da putatividade como se estivesse dissolvendo a sociedade via separação judicial. 11. CAPACIDADE PARA O CASAMENTO O CC/2002 estabeleceu a idade núbil, nos termos do art. 1.517, em 16 anos de idade, sendo que entre 16 e 18 os nubentes precisarão de autorização dos pais ou de suprimento de consentimento. Art. 1.517. O homem e a mulher com dezesseis anos podem casar, exigindo-se autorização de ambos os pais, ou de seus representantes legais, enquanto não atingida a maioridade civil. Parágrafo único. Se houver divergência entre os pais, aplica-se o disposto no parágrafo único do art. 1.631. Art. 1631, Parágrafo único. Divergindo os pais quanto ao exercício do poder familiar, é assegurado a qualquer deles recorrer ao juiz para solução do desacordo. Art. 1.518. Até a celebração do casamento podem os pais, tutores ou curadores revogar a autorização. Art. 1.519. A denegação do consentimento, quando injusta, pode ser suprida pelo juiz. CS - CIVIL IV 2018.1 59 Art. 1.520. Excepcionalmente, será permitido o casamento de quem ainda não alcançou a idade núbil (art. 1517), para evitar imposição ou cumprimento de pena criminal ou em caso de gravidez. Excepcionalmente pode o juiz autorizar o casamento abaixo dos 16 anos em caso de gravidez, ou para evitar a imposição ou cumprimento da pena criminal. Mesmo com a revogação parcial do art. 107 do CP, não mais contemplando explicitamente o casamento como causa de extinção de punibilidade, a aquiescência da vítima poderia caracterizar, na forma da lei penal (lembrando que hoje a ação penal no crime de estupro não é mais privada e sim, condicionada à representação), perdão ou renúncia, autorizando, assim, ao juiz permitir o casamento abaixo dos 16 anos de idade. Isso é controverso na doutrina, havendo parte que entende ter havido revogação do art. 1.520 restando valido somente quanto à gravidez, frente à nova lei penal (estupro de vulnerável). 12. REGIME DE BENS 12.1. CONCEITO Trata-se do estatuto patrimonial do casamento, regido pelos princípios da liberdade de escolha, da variabilidade (não existe regime único) e da mutabilidade (o regime pode ser modificado no curso do casamento). Os nubentes fazem a escolha do regime de bens por meio de um contrato solene, lavrado em registro público, denominado “pacto antenupcial”. Desde 1977, e ainda hoje, nos termos do art. 1.640 do CC, o regime legal supletivo é o da comunhão parcial de bens. Art. 1.640. Não havendo convenção, ou sendo ela nula ou ineficaz, vigorará, quanto aos bens entre os cônjuges, o regime da comunhão parcial. Parágrafo único. Poderão os nubentes, no processo de habilitação, optar por qualquer dos regimes que este código regula. Quanto à forma, reduzir- se-á a termo a opção pela comunhão parcial, fazendo-se o pacto antenupcial por escritura pública, nas demais escolhas. O CC/2002, inovando, passou a admitir também a mudança de regime de bens no curso do casamento (§2º, art. 1.639). Art. 1.639 - § 2o É admissível alteração do regime de bens, mediante autorização judicial em pedido motivado de ambos os cônjuges, apurada a procedência das razões invocadas e ressalvados os direitos de terceiros. Esse pedido deve ser sempre conjunto, por isso não há lide. Trata-se de jurisdição voluntária. Essa alteração só é possível se não prejudicar direitos de terceiros de boa-fé. Por isso há, em muitos tribunais, a orientação de o juiz publicar em Diário Oficial o edital com a alteração do regime de bens, para que os terceiros possam se manifestar. OBS: O STJ já firmou entendimento no sentido de que é possível mudança de regime de bens de casamento celebrado antes do C/2002C (REsp. 821.870/PR). CS - CIVIL IV 2018.1 60 A sentença que autoriza a mudança no regime tem eficácia ex tunc, em que pese a divergência. OBS: É defensável a retroatividade dos efeitos da sentença que autoriza a mudança de regime de bens, a despeito da polêmica (Ver TJ/RS Apel. 76.423.891). Os regimes são os seguintes: a) Separação obrigatória de bens (separação legal); b) Participação final nos aquestos; c) Comunhão parcial de bens; d) Comunhão universal de bens; e) Separação convencional de bens. Vejamos: 12.2. REGIME DE SEPARAÇÃO OBRIGATÓRIA DE BENS (SEPARAÇÃO LEGAL) As hipóteses de separação obrigatórias de bens estão previstas no art. 1.641, e se referem apenas ao casamento. Art. 1.641. É OBRIGATÓRIO o regime da separação de bens no casamento: I - das pessoas que o contraírem com inobservância das causas suspensivas da celebração do casamento; II – da pessoa maior de 70 (setenta) anos; (Redação dada pela Lei nº 12.344, de 2010). Até meados de 2010 a idade era sessenta anos. A doutrina majoritária dizia ser inconstitucional. III - de todos os que dependerem, para casar, de suprimento judicial. Quanto à hipótese do inciso III, para evitar as inconveniências do regime de separação obrigatória, bem como o enriquecimento sem causa de uma das partes, o STF editou a súmula 377, que assim dispõe: STF Súmula 377 No regime de separação legal de bens, comunicam-se os adquiridos na constância do casamento. Essa súmula traz para a separação obrigatória um princípio da comunhão parcial, mas não identifica os regimes. OBS: A contribuiçãodo cônjuge, para efeito de meação, no âmbito desta súmula, pode ser indireta ou psicológica. Não precisa ser contribuição econômica (REsp. 736.627/PR). 12.3. REGIME DE PARTICIPAÇÃO FINAL NOS AQUESTOS Regime criado na Costa Rica. Art. 1.672. No regime de participação final nos aquestos, cada cônjuge possui patrimônio próprio, consoante disposto no artigo seguinte, e lhe CS - CIVIL IV 2018.1 61 cabe, à época da dissolução da sociedade conjugal, direito à metade dos bens adquiridos pelo casal, a título oneroso, na constância do casamento. Art. 1.673. Integram o patrimônio próprio os bens que cada cônjuge possuía ao casar e os por ele adquiridos, a qualquer título, na constância do casamento. Parágrafo único. A administração desses bens é exclusiva de cada cônjuge, que os poderá livremente alienar, se forem MÓVEIS. Segundo este regime, durante o casamento, cada cônjuge preserva o seu patrimônio próprio e exclusivo, cabendo, todavia, à época da dissolução da sociedade conjugal, direito à metade dos bens adquiridos pelo casal (veja: somente pelo esforço mútuo) a título oneroso (art. 1.672). Difere da comunhão parcial, onde TODOS os bens adquiridos onerosamente depois do casamento (não necessariamente adquiridos pelo esforço dos dois) são amealhados. Art. 1.674. Sobrevindo a dissolução da sociedade conjugal, apurar-se-á o montante dos aquestos, excluindo-se da soma dos patrimônios próprios: I - os bens anteriores ao casamento e os que em seu lugar se sub-rogaram; II - os que sobrevieram a cada cônjuge por sucessão ou liberalidade; III - as dívidas relativas a esses bens. Parágrafo único. Salvo prova em contrário, presumem-se adquiridos durante o casamento os bens móveis. Art. 1.675. Ao determinar-se o montante dos aquestos, computar-se-á o valor das doações feitas por um dos cônjuges, sem a necessária autorização do outro; nesse caso, o bem poderá ser reivindicado pelo cônjuge prejudicado ou por seus herdeiros, ou declarado no monte partilhável, por valor equivalente ao da época da dissolução. Art. 1.676. Incorpora-se ao monte o valor dos bens alienados em detrimento da meação, se não houver preferência do cônjuge lesado, ou de seus herdeiros, de os reivindicar. Art. 1.677. Pelas dívidas posteriores ao casamento, contraídas por um dos cônjuges, somente este responderá, salvo prova de terem revertido, parcial ou totalmente, em benefício do outro. Art. 1.678. Se um dos cônjuges solveu uma dívida do outro com bens do seu patrimônio, o valor do pagamento deve ser atualizado e imputado, na data da dissolução, à meação do outro cônjuge. Art. 1.679. No caso de bens adquiridos pelo trabalho conjunto, terá cada um dos cônjuges uma quota igual no condomínio ou no crédito por aquele modo estabelecido. Art. 1.680. As coisas móveis, em face de terceiros, presumem-se do domínio do cônjuge devedor, salvo se o bem for de uso pessoal do outro. Art. 1.681. Os bens imóveis são de propriedade do cônjuge cujo nome constar no registro. Parágrafo único. Impugnada a titularidade, caberá ao cônjuge proprietário provar a aquisição regular dos bens. Art. 1.682. O direito à meação não é renunciável, cessível ou penhorável na vigência do regime matrimonial. CS - CIVIL IV 2018.1 62 Art. 1.683. Na dissolução do regime de bens por separação judicial ou por divórcio, verificar-se-á o montante dos aquestos à data em que cessou a convivência. Art. 1.684. Se não for possível nem conveniente a divisão de todos os bens em natureza, calcular-se-á o valor de alguns ou de todos para reposição em dinheiro ao cônjuge não proprietário. Parágrafo único. Não se podendo realizar a reposição em dinheiro, serão avaliados e, mediante autorização judicial, alienados tantos bens quantos bastarem. Art. 1.685. Na dissolução da sociedade conjugal por morte, verificar-se-á a meação do cônjuge sobrevivente de conformidade com os artigos antecedentes, deferindo-se a herança aos herdeiros na forma estabelecida neste Código. Art. 1.686. As dívidas de um dos cônjuges, quando superiores à sua meação, não obrigam ao outro, ou a seus herdeiros. 12.4. REGIME DE COMUNHÃO PARCIAL DE BENS Art. 1.658. No regime de comunhão parcial, comunicam-se os bens que sobrevierem ao casal, na constância do casamento, com as exceções dos artigos seguintes. Na comunhão parcial, disciplinada a partir do art. 1.658, regra geral é no sentido de preservar o patrimônio anterior dos cônjuges, cabendo direito de meação quanto aos bens adquiridos onerosamente POR UM OU AMBOS os cônjuges na constância do casamento (perceber que na divisão final de aquestos, os bens devem ser adquiridos onerosamente pelo esforço comum). Se o bem for adquirido com dinheiro anterior ao casamento, o bem não é amealhado. Art. 1.659. Excluem-se da comunhão: I - os bens que cada cônjuge possuir ao casar, e os que lhe sobrevierem, na constância do casamento, por doação ou sucessão, e os sub-rogados em seu lugar; II - os bens adquiridos com valores exclusivamente pertencentes a um dos cônjuges em sub-rogação dos bens particulares; III - as obrigações anteriores ao casamento; IV - as obrigações provenientes de atos ilícitos, salvo reversão em proveito do casal; V - os bens de uso pessoal, os livros e instrumentos de profissão; VI - os proventos do trabalho pessoal de cada cônjuge; (direito ao salário). Ver explicação (Info 581) abaixo. VII - as pensões, meios-soldos, montepios (renda militar) e outras rendas semelhantes. Art. 1.660. Entram na comunhão: I - os bens adquiridos na constância do casamento por título oneroso, ainda que só em nome de um dos cônjuges; (diferentemente do regime da divisão final dos aquestos) II - os bens adquiridos por fato eventual, com ou sem o concurso de trabalho ou despesa anterior; III - os bens adquiridos por doação, herança ou legado, em favor de ambos os cônjuges; IV - as benfeitorias em bens particulares de cada cônjuge; CS - CIVIL IV 2018.1 63 V - os frutos dos bens comuns, ou dos particulares de cada cônjuge, percebidos na constância do casamento, ou pendentes ao tempo de cessar a comunhão. Art. 1.661. São incomunicáveis os bens cuja aquisição tiver por título uma causa anterior ao casamento. Art. 1.662. No regime da comunhão parcial, presumem-se adquiridos na constância do casamento os bens móveis, quando não se provar que o foram em data anterior. Art. 1.663. A administração do patrimônio comum compete a qualquer dos cônjuges. § 1o As dívidas contraídas no exercício da administração obrigam os bens comuns e particulares do cônjuge que os administra, e os do outro na razão do proveito que houver auferido. § 2o A anuência de ambos os cônjuges é necessária para os atos, a título gratuito, que impliquem cessão do uso ou gozo dos bens comuns. § 3o Em caso de malversação dos bens, o juiz poderá atribuir a administração a apenas um dos cônjuges. Art. 1.664. Os bens da comunhão respondem pelas obrigações contraídas pelo marido ou pela mulher para atender aos encargos da família, às despesas de administração e às decorrentes de imposição legal. Art. 1.665. A administração e a disposição dos bens constitutivos do patrimônio particular competem ao cônjuge proprietário, salvo convenção diversa em pacto antenupcial. Art. 1.666. As dívidas, contraídas por qualquer dos cônjuges na administração de seus bens particulares e em benefício destes, não obrigam os bens comuns. Importante destacar dois julgados do STJ, são eles: 1) Regime da comunhão parcial e doação feita a um dos cônjuges (Info 523) 2) Comunhão parcial e FTGS (Info 581) CS - CIVIL IV 2018.1 64 Imagine a seguinte situação hipotética: Eduardoe Mônica casaram-se, em 2013, sob o regime da comunhão parcial de bens. Um mês depois do casamento decidiram comprar um apartamento que custava R$ 200 mil. Para tanto, Eduardo utilizou o dinheiro do seu FGTS e pagou R$ 30 mil à construtora. Mônica também se valeu de seu FGTS e pagou R$ 70 mil. Os R$ 100 mil restantes foram doados pelo pai de Mônica, que transferiu para a conta da construtora. Ocorre que o casamento não deu certo e, em 2014, o casal decidiu se divorciar. Surgiu, então, uma disputa entre os dois para saber como iriam dividir o apartamento. O advogado de Eduardo sustentava que eles deveriam vendê-lo por R$ 200 mil e dividir o dinheiro igualmente, metade para cada um, considerando que se trata de regime da comunhão parcial de bens. A advogada de Mônica, por sua, vez, concordava em vender, mas afirmava que Eduardo teria direito de receber de volta apenas 15% do valor da casa (R$ 30 mil), quantia com o qual ele contribuiu para a aquisição. Os demais 85% (R$ 170 mil pertenceriam à esposa já que R$ 100 mil foi doado pelo pai dela e R$ 70 mil veio do seu FGTS). No caso concreto, Eduardo alegou que, como o pai de Mônica não especificou para quem estava doando o dinheiro, presume-se que foi um presente para o casal. Essa tese foi aceita pelo STJ? Os R$ 100 mil doados pelo pai de Mônica devem se comunicar? No momento do divórcio, tanto Eduardo como Mônica terão direito à metade desse valor cada um? NÃO. No caso concreto, o valor doado pelo pai de Mônica não se comunica e não deve ser partilhado no momento do divórcio. Isso porque não existe qualquer prova de que essa doação tenha sido feita em favor em ambos os cônjuges. Ressalte-se que a doação foi feita sem nenhuma formalidade nem indicação de quem seria o beneficiário. Diante disso, presume-se que o pai tenha querido beneficiar apenas a filha, sua herdeira. Para que se considerasse que a doação foi para o casal, isso deveria ter sido dito de forma expressa. CS - CIVIL IV 2018.1 65 Dessa forma, os R$ 100 mil doados pelo pai de Mônica deverão ficar com ela no momento do divórcio, já que não se comunicaram por não ter sido uma doação em favor de ambos os cônjuges (art. 1.660, III, do CC). Parte do imóvel adquirida com recursos do FGTS Eduardo argumentou também que o valor do FGTS, a partir do momento que foi utilizado para a aquisição do imóvel, passou a integrar o patrimônio comum do casal. Dessa forma, sustentou que, por isso, deveriam ser somadas as quantias de FGTS disponibilizadas por cada um dos cônjuges (30 dele e 70 dela) e divididas em partes iguais (50% para cada um). Mônica refutou a alegação, afirmando que esse saldo de FGTS utilizado para a compra foi constituído antes do casamento, ou seja, refere-se a períodos trabalhados pelos dois antes de se casarem. Em outras palavras, antes de se casarem, cada um deles trabalhou e os respectivos empregadores depositaram as quantias no FGTS. Por mais que eles tenham utilizado só depois do matrimônio, são relacionados a período pretérito. Qual das duas teses foi acolhida pelo STJ? A de Mônica. Diante do divórcio de cônjuges que viviam sob o regime da comunhão parcial de bens, não deve ser reconhecido o direito à meação dos valores que foram depositados em conta vinculada ao FGTS em datas anteriores à constância do casamento e que tenham sido utilizados para aquisição de imóvel pelocasal durante a vigência da relação conjugal. STJ. 2ª Seção. REsp 1.399.199-RS, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, Rel. para acórdão Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 9/3/2016 (Info 581). 12.5. REGIME DE COMUNHÃO UNIVERSAL DE BENS Art. 1.667. O regime de comunhão universal importa a comunicação de TODOS os bens presentes e futuros dos cônjuges e suas dívidas passivas, com as exceções do artigo seguinte. No regime da comunhão universal, nos termos dos arts. 1.667 e seguintes, opera-se uma fusão tanto do patrimônio anterior ao casamento como do patrimônio posterior ao casamento, inclusive, na forma da lei, as respectivas dívidas de cada um. Era o regime supletivo até a entrada em vigor da Lei do Divórcio. Art. 1.668. São excluídos da comunhão: I - os bens doados ou herdados com a cláusula de incomunicabilidade e os sub-rogados em seu lugar; II - os bens gravados de fideicomisso e o direito do herdeiro fideicomissário, antes de realizada a condição suspensiva; III - as dívidas anteriores ao casamento, salvo se provierem de despesas com seus aprestos, ou reverterem em proveito comum; V - as doações antenupciais feitas por um dos cônjuges ao outro com a cláusula de incomunicabilidade; V - Os bens referidos nos incisos V a VII do art. 1.659. Art. 1.659. Excluem-se da comunhão: V - os bens de uso pessoal, os livros e instrumentos de profissão; VI - os proventos do trabalho pessoal de cada cônjuge; CS - CIVIL IV 2018.1 66 VII - as pensões, meios-soldos, montepios e outras rendas semelhantes. Art. 1.670. Aplica-se ao regime da comunhão universal o disposto no Capítulo antecedente, quanto à administração dos bens. Art. 1.671. Extinta a comunhão, e efetuada a divisão do ativo e do passivo, cessará a responsabilidade de cada um dos cônjuges para com os credores do outro. 12.6. REGIME DE SEPARAÇÃO CONVENCIONAL DE BENS Neste regime, mediante escolha no pacto antenupcial, as partes mantêm a exclusividade do seu patrimônio e de sua administração ao longo do casamento. É previsto no art. 1.687 e 1.688. Art. 1.687. Estipulada a separação de bens, estes permanecerão sob a administração exclusiva de cada um dos cônjuges, que os poderá livremente alienar ou gravar de ônus real. Art. 1.688. Ambos os cônjuges são obrigados a contribuir para as despesas do casal na proporção dos rendimentos de seu trabalho e de seus bens, salvo estipulação em contrário no pacto antenupcial. 12.7. RESUMO DOS REGIMES CS - CIVIL IV 2018.1 67 12.8. AUTORIZAÇÃO CONJUGAL 12.8.1. Atos que NECESSITAM da vênia conjugal Determinados atos necessitam das chamadas outorgas uxória (mulher) ou marital (marido ou mulher). São as hipóteses previstas no art. 1.647, in verbis: Art. 1.647. Ressalvado o disposto no art. 1.648 (suprimento de outorga), nenhum dos cônjuges pode, sem autorização do outro, exceto no regime da separação absoluta: I - alienar ou gravar de ônus real os bens imóveis; OBS: O que seria essa “separação absoluta”? Separação LEGAL (OBRIGATÓRIA) ou CONVENCIONAL? Conforme Nelson Nery e Rosa Nery, para efeito de dispensa da autorização conjugal, a expressão ‘separação absoluta’ refere-se à separação convencional, pois, neste caso, não há patrimônio comum a ser defendido nos termos da Súmula 377 (na separação obrigatória há comunicação na constância do casamento) do STF. CS - CIVIL IV 2018.1 68 Se o regime for de participação final nos aquestos, a autorização conjugal para alienar/gravar bens imóveis é necessária, salvo se houver dispensa no pacto. Art. 1.656. No pacto antenupcial, que adotar o regime de participação final nos aquestos, poder-se-á CONVENCIONAR a livre disposição dos bens imóveis, desde que particulares. Art. 1.647, II - pleitear, como autor (não é litisconsórcio) ou réu (é litisconsórcio), acerca desses bens ou direitos; III - prestar fiança ou aval; OBS: Quanto à fiança, a Súmula 332 do STJ afirma que a anulação da fiança prestada sem vênia conjugal implica a ineficácia total da garantia (e não referente apenas aos 50% do cônjuge que não anuiu) STJ Súmula nº 332 - A fiança prestada sem autorização de um dos cônjuges implica a ineficácia TOTAL da garantia. ATENÇÃO! A jurisprudência do STJ tem mitigado a incidênciada regra de nulidade integral (total) da fiança nos casos em que o fiador omite ou presta informação inverídica sobre o seu estado civil. Em tais hipóteses, deverá ser prestada apenas a meação do cônjuge cuja autorização não foi concedida, não se protegendo a parte do cônjuge que agiu de má-fé. Por fim, a Súmula 332 não se aplica à união estável. IV - fazer doação, não sendo remuneratória, de bens comuns, ou dos que possam integrar futura meação. Parágrafo único. São válidas as doações nupciais feitas aos filhos quando casarem ou estabelecerem economia separada. Art. 1.648. Cabe ao juiz, nos casos do artigo antecedente, suprir a outorga, quando um dos cônjuges a denegue sem motivo justo, ou lhe seja impossível concedê-la. O juiz pode supri-la. Art. 1.649. A falta de autorização, não suprida pelo juiz, quando necessária (art. 1.647), tornará anulável o ato praticado, podendo o outro cônjuge pleitear-lhe a anulação, até dois anos depois de terminada a sociedade conjugal. Parágrafo único. A aprovação torna válido o ato, desde que feita por instrumento público, ou particular, autenticado. Art. 1.650. A decretação de invalidade dos atos praticados sem outorga, sem consentimento, ou sem suprimento do juiz, só poderá ser demandada pelo cônjuge a quem cabia concedê-la, ou por seus herdeiros. Art. 1.651. Quando um dos cônjuges não puder exercer a administração dos bens que lhe incumbe, segundo o regime de bens, caberá ao outro: I - gerir os bens comuns e os do consorte; II - alienar os bens móveis comuns; III - alienar os imóveis comuns e os móveis ou imóveis do consorte, mediante autorização judicial. CS - CIVIL IV 2018.1 69 Art. 1.652. O cônjuge, que estiver na posse dos bens particulares do outro, será para com este e seus herdeiros responsável: I - como usufrutuário, se o rendimento for comum; II - como procurador, se tiver mandato expresso ou tácito para os administrar; III - como depositário, se não for usufrutuário, nem administrador. 12.8.2. Atos que PRESCINDEM da vênia conjugal Art. 1.642. Qualquer que seja o regime de bens, tanto o marido quanto a mulher podem livremente: I - praticar todos os atos de disposição e de administração necessários ao desempenho de sua profissão, com as limitações estabelecida no inciso I do art. 1.647 (alienar ou gravar de ônus real os bens imóveis); II - administrar os bens próprios; III - desobrigar ou reivindicar os imóveis que tenham sido gravados ou alienados sem o seu consentimento ou sem suprimento judicial; IV - demandar a rescisão dos contratos de fiança e doação, ou a invalidação do aval, realizados pelo outro cônjuge com infração do disposto nos incisos III e IV do art. 1.647 (1647: III - prestar fiança ou aval; IV - fazer doação, não sendo remuneratória, de bens comuns, ou dos que possam integrar futura meação atos que exigem autorização conjugal); V - reivindicar os bens comuns, móveis ou imóveis, doados ou transferidos pelo outro cônjuge ao concubino, desde que provado que os bens não foram adquiridos pelo esforço comum destes, se o casal estiver separado de fato por mais de cinco anos; VI - praticar todos os atos que não lhes forem vedados expressamente. Art. 1.643. Podem os cônjuges, independentemente de autorização um do outro: I - comprar, ainda a crédito, as coisas necessárias à economia doméstica; II - obter, por empréstimo, as quantias que a aquisição dessas coisas possa exigir. Art. 1.644. As dívidas contraídas para os fins do artigo antecedente obrigam SOLIDARIAMENTE ambos os cônjuges. Art. 1.645. As ações fundadas nos incisos III, IV e V do art. 1.642 (desobrigar ou reivindicar imóveis gravados ou alienados sem seu consentimento; demandar rescisão de fiança/aval e doação de bens comuns; reivindicar bens comuns doados ou transferidos ao concubino) competem ao cônjuge prejudicado e a seus herdeiros. Art. 1.646. No caso dos incisos III e IV do art. 1.642 (desobrigar ou reivindicar imóveis gravados ou alienados sem seu consentimento, demandar rescisão de fiança/aval e doação de bens comuns), o terceiro, prejudicado com a sentença favorável ao autor, terá direito regressivo contra o cônjuge, que realizou o negócio jurídico, ou seus herdeiros. O que é alienação parental? A alienação parental traduz a interferência indevida promovida por um dos genitores na formação psicológica da criança, com o objetivo de que o menor repudie o outro genitor, impondo-se, neste caso, ao infrator, sanções que vão de uma simples advertência à perda do poder familiar. 13. DEVERES DO CASAMENTO CS - CIVIL IV 2018.1 70 Previsão legal: Arts. 1.565 e 1.566. Art. 1.565. Pelo casamento, homem e mulher assumem mutuamente a condição de consortes, companheiros e responsáveis pelos encargos da família. § 1o Qualquer dos nubentes, querendo, poderá acrescer ao seu o sobrenome do outro. OBS: A jurisprudência, desde que não haja prejuízo, admite a possibilidade da supressão de patronímico na oportunidade do casamento. § 2o O planejamento familiar é de livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e financeiros para o exercício desse direito, vedado qualquer tipo de coerção por parte de instituições privadas ou públicas. Reprodução da CF. Princípio da intervenção mínima do Direito de Família. Art. 1.566. São DEVERES de ambos os cônjuges: I - fidelidade recíproca; A quebra da fidelidade pode se dar de várias maneiras desonrosas, sendo a mais grave o adultério (que pressupõe conjunção carnal). Conceitos especiais envolvendo adultério: a) “Quase adultério”: Situação em que os parceiros, em comportamento de infidelidade, trocam carícias, beijos, enfim, preliminares do amor sem consumar o ato sexual. b) Adultério inocente (adultério casto ou de seringa): Trata-se do comportamento de infidelidade, sem conjunção carnal, por meio de reprodução assistida. c) Adultério precoce: Se dá quando o cônjuge abandona o outro logo em seguida à celebração do matrimônio. d) Adultério virtual: A expressão mais técnica seria infidelidade virtual. Essa forma de infidelidade, típica do século XXI, opera-se por meio de relações eletrônicas espúrias entre pessoas impedidas. OBS: O que se entende por família virtual? Expressão utilizada pelo professor Lourival Serejo no boletim IBDFAM n. 54, em que o autor diagnosticou a criação de comunidades virtuais que servem de ambiência para a formação de famílias fisicamente inexistentes, como se dá por meio do programa Second Life. II - vida em comum, no domicílio conjugal; Dever de coabitação. Não significa morar na mesma casa. Significa um cônjuge não abandonar o outro. Esse dever engloba o chamado debitum conjugale, que é o dever de prestação sexual. Alguns autores criticam a expressão dever sexual, pois afrontaria a DPH (como MBD). Na realidade se trata de um dever, mas não executável; não é uma prestação típica patrimonial. Mas tanto é um dever que o seu descumprimento enseja a separação judicial. CS - CIVIL IV 2018.1 71 III - mútua assistência; Assistência moral e material (alimentos). IV - sustento, guarda e educação dos filhos; Na realidade se trata de um dever familiar. V - respeito e consideração mútuos. IV. DISSOLUÇÃO DO CASAMENTO 1. SISTEMA DUALISTA DE DISSOLUÇÃO 1.1. DEFINIÇÃO O Direito Brasileiro apresentava um sistema binário/dualista de formas dissolutivas do casamento, composto por CAUSAS TERMINATIVAS e CAUSAS DISSOLUTIVAS PROPRIAMENTE DITAS, nos termos do 1.571 do CC, in verbis: CC Art. 1.571. A sociedade conjugal TERMINA (causas terminativas): I - pela morte de um dos cônjuges (é uma causa dissolutiva também); II- pela nulidade ou anulação do casamento (é rigorosamente uma causa desconstitutiva); III - pela separação judicial (ou em cartório – Lei 11.441/07); (terminativa propriamente dita) *Atenção à EC/66 IV - pelo divórcio (é uma causa dissolutiva também). § 1o O casamento válido só se dissolve pela morte de um dos cônjuges ou pelo divórcio, aplicando-se a presunção estabelecida neste Código quanto ao ausente. § 2o Dissolvido o casamento pelo divórcio direto ou por conversão, o cônjuge poderá manter o nome de casado; salvo, no segundo caso, dispondo em contrário a sentença de separação judicial. 1.2. CAUSAS TERMINATIVAS Atacam a SOCIEDADE CONJUGAL. Essas causas colocam fim ao regime de bens e aos deveres conjugais recíprocos (fidelidade, coabitação etc. - art. 1.566). OBS: o único dever que se mantém é a assistência recíproca. Esse dever só é atacado pelas causas dissolutivas. É exatamente por isso que, mesmo depois da separação, é possível fixar pensão alimentícia. Quatro são as causas TERMINATIVAS (que fulminam com a sociedade conjugal): a) Separação; (terminativa propriamente dita); b) Divórcio; (também é dissolutiva); c) Morte; (também é dissolutiva); CS - CIVIL IV 2018.1 72 d) Anulação ou nulidade do casamento (desconstitutiva). 1.3. CAUSAS DISSOLUTIVAS Atacam não apenas a sociedade conjugal, mas também aniquilam o casamento (vínculo matrimonial). a) Divórcio; b) Morte. Conclusão: Das quatro causas terminativas, duas também são dissolutivas (divórcio e morte), enquanto outra é, na realidade, desconstitutiva do casamento (anulação/nulidade, que fulminam o casamento por motivo anterior a sua celebração, de forma a retornar ao ‘status quo ante’ – ver acima). Com efeito, existia apenas uma causa terminativa propriamente dita (encerrava a sociedade sem encerrar o vínculo), qual seja, a separação. Exatamente por isso que a separação era a única das causas que não permitia a celebração de novas núpcias. Em havendo reconciliação do casal, a sociedade conjugal poderia ser reativada por mera petição dirigida ao juiz. IMPORTANTE: A EC/66, pôs fim a esse sistema dual, extirpando a separação do sistema. Sobra apenas o divórcio, que não mais está submetido a qualquer lapso temporal, como era até 2010. Com isso, temos uma simplificação de procedimentos. 2. PONTOS POLÊMICOS DA DISSOLUÇÃO 2.1. SOMENTE A MORTE REAL DISSOLVE O CASAMENTO? NÃO, o casamento também se dissolve com a morte presumida (tanto a COM ausência como a SEM ausência). A morte presumida SEM ausência é prevista no art. 7º do CC. CC Art. 7º Pode ser declarada a morte presumida, SEM decretação de ausência: I - se for extremamente provável a morte de quem estava em perigo de vida; II - se alguém, desaparecido em campanha ou feito prisioneiro, não for encontrado até dois anos após o término da guerra. Parágrafo único. A declaração da morte presumida, nesses casos, somente poderá ser requerida depois de esgotadas as buscas e averiguações, devendo a sentença fixar a data provável do falecimento. Esse artigo precisa ser harmonizado com o art. 88 da Lei de Registros Públicos. LRP Art. 88. Poderão os Juízes togados admitir justificação para o assento de óbito de pessoas desaparecidas em naufrágio, inundação, incêndio, terremoto ou qualquer outra catástrofe, quando estiver provada a sua presença no local do desastre e não for possível encontrar-se o cadáver para exame. CS - CIVIL IV 2018.1 73 Ou seja, as pessoas que desapareceram em situações catastróficas terão morte presumida SEM ausência, a ser decretada pelo juiz, e não por um médico, como de ordinário ocorre. Morte presumida sem ausência = Morte real sem cadáver. A morte presumida sem ausência produz TODOS os efeitos da morte real. Dessa forma, a partir da decisão do juiz que decretar a morte, estará desfeito o vínculo conjugal. E a morte presumida COM ausência? Ver em parte geral. O art. 1.571, §1º, ‘in fine’ prevê que a dissolução do casamento também ocorre quando da decretação da morte presumida do ausente. Porém, o CC não diz em que momento do procedimento de ausência ocorre essa dissolução. Art. 1.571 § 1o O casamento válido só se dissolve pela morte de um dos cônjuges ou pelo divórcio, aplicando-se a presunção estabelecida neste Código quanto ao ausente. O procedimento de ausência compreende (art. 37 e ss. do CC): a) Curadoria dos bens do ausente (por no mínimo 01 ano); b) Sucessão provisória (por no mínimo 01 ano ou 03 anos); c) Sucessão definitiva (por no mínimo 10 anos). d) Fim do procedimento (10 anos após a definitiva ainda pode reaver). Tempo mínimo do procedimento: 11 anos. A doutrina majoritária aplica a disposição do art. 6º, ou seja, o casamento somente se dissolve na abertura da sucessão definitiva (11 anos depois da morte). Ora, comparando esses 11 anos com os 02 anos da separação de fato que permitia o divórcio direto, a regra da dissolução por morte presumida fica totalmente inócua. Ainda mais agora com a EC/66. O art. 1.571 §1º se refere à sucessão definitiva apenas em relação aos efeitos patrimoniais. Porém, a dissolução de casamento é uma relação existencial, de forma que deve ocorrer com a abertura da sucessão provisória, ou seja, 01 ano após a arrecadação dos bens e nomeação de curador. Concluindo: O casamento também se dissolve com a declaração de ausência. E se ausente reaparece quando já desconstituído o vínculo? A doutrina pacífica diz que o eventual retorno do ausente é irrelevante, vale dizer, NÃO REESTABELECE O VÍNCULO. Qual o estado civil do ausente, depois do seu eventual retorno? Pergunta sem resposta. 2.2. ADMITE-SE A CUMULAÇÃO DE PEDIDOS NA AÇÃO ONDE SE BUSCA A DISSOLUÇÃO DO CASAMENTO? CS - CIVIL IV 2018.1 74 O NCPC, em seu art. 317, permite a cumulação de pedidos, que pode ser própria (regida pela partícula ‘E’) ou imprópria (regida pela partícula ‘OU’). Art. 327. É lícita a cumulação, em um único processo, contra o mesmo réu, de vários pedidos, ainda que entre eles não haja conexão. A própria pode ser simples (quero isso e aquilo) ou sucessiva (quero isso e aquilo, sendo que ‘aquilo’ depende ‘disso’). A imprópria pode ser eventual (eu quero isso, se não me der isso, eu passo a querer aquilo) ou alternativa (eu quero isso ou aquilo). A única cumulação possível é a eventual (subsidiária), como no caso do cônjuge que pede a anulação e, em não sendo caso, pede o divórcio. Pode haver pedido de alimentos, guarda etc. OBS: aqui nos referimos a cumulação de pedidos no que diz respeito à dissolução. Mas no que diz respeito a pedidos de outra natureza, como, por exemplo, a reparação civil? Veremos abaixo (responsabilidade civil entre cônjuges). 2.3. INTERESSE DE AGIR NA AÇÃO DE ANULAÇÃO/NULIDADE DO CASAMENTO A eventual separação ou divórcio não obsta que o interessado obtenha a anulação ou nulidade do casamento, haja vista se tratarem de pedidos distintos, baseados em causas de pedir distintas. Dessa forma, não há que se falar em falta de interesse de agir. 3. SEPARAÇÃO E DIVÓRCIO: CARACTERÍSTICAS MATERIAIS E PROCESSUAIS COMUNS 3.1. NATUREZA PERSONALÍSSIMA DA MEDIDA Somente podem ser pleiteados pelo próprio cônjuge. Por conta disso, nessas ações não cabe intervenção de terceiros ou substituição processual. OBS: A Lei 6.515/77 (Lei do Divórcio) somente remanesce no que se refere a alguns dispositivos processuais. Dentre eles, o art. 3º expressamente estabelece a possibilidade de o cônjuge incapaz ser representado pelo curador, ascendente ou irmão, NESTA ORDEM. Frise-se: Não se trata de substituição processual, mas sim de representação processual (demanda em nomealheio, defendendo interesse alheio). E se o curador for o próprio cônjuge? Art. 72, I do NCPC: Interesses conflitantes entre curador e curatelado Nomeação de curador especial pelo juiz. CPC/2015 Art. 72. O juiz nomeará curador especial ao: I - incapaz, se não tiver representante legal ou se os interesses deste colidirem com os daquele, enquanto durar a incapacidade; CS - CIVIL IV 2018.1 75 II - réu preso revel, bem como ao réu revel citado por edital ou com hora certa, enquanto não for constituído advogado. Parágrafo único. A curatela especial será exercida pela Defensoria Pública, nos termos da lei. 3.2. POSSIBILIDADE DE DISPENSA DA PARTILHA DOS BENS (ART. 1.581 DO CC E SÚMULA 197 DO STJ). Art. 1.581. O divórcio (direto ou indireto/separação) pode ser concedido sem que haja prévia partilha de bens. Súmula 197: O divórcio (direto ou indireto/separação) pode ser concedido sem que haja prévia partilha dos bens. Nesse caso, todos os bens permanecem na titularidade de ambos os cônjuges. Eles continuam coproprietários e copossuidores de todos os bens. No dia que qualquer deles tiver interesse, deverão propor a ação de partilha, que poderá ser ajuizada A QUALQUER TEMPO - direito potestativo (art. 1.321 do CC). Art. 1.321. Aplicam-se à divisão do condomínio, no que couber, as regras de partilha de herança (arts. 2.013 a 2.022). Divorciados podem casar de novo. A eventual superveniência de casamento antes da partilha dos bens IMPLICA no regime de separação obrigatória de bens no novo matrimônio, com o fim de evitar uma promiscuidade patrimonial (art. 1.641 do CC). É uma causa suspensiva de casamento (art. 1.523, III do CC). Depois de realizada a partilha, o regime de bens do novo casamento pode ser alterado. Art. 1.641. É obrigatório o regime da separação de bens no casamento: I - das pessoas que o contraírem com inobservância das causas suspensivas da celebração do casamento; Art. 1.523. Não devem casar: III - o divorciado, enquanto não houver sido homologada ou decidida a partilha dos bens do casal; Em que pese a divergência da doutrina, essa possibilidade de dispensa de partilha pode ocorrer tanto na dissolução consensual quanto na litigiosa. No caso de dissolução litigiosa de alta complexidade, não raras vezes a melhor solução é dissolver o casamento e remeter às vias ordinárias a partilha dos bens. 3.3. REVELIA NA SEPARAÇÃO E DIVÓRCIO (ART. 345, II DO CPC/2015) As ações de família, como um todo, admitem revelia? SIM, lógico que sim. Porém, nesse caso, há um detalhe: Por se tratar de causa que discute direitos INDISPONÍVEIS, a revelia não produzirá o mais famoso de seus efeitos, qual seja, a presunção de veracidade dos fatos alegados pelo autor (art. 345, II do NCPC). NCPC Art. 345. A revelia não produz o efeito mencionado no art. 344 se: I - havendo pluralidade de réus, algum deles contestar a ação; II - o litígio versar sobre direitos indisponíveis; CS - CIVIL IV 2018.1 76 IMPORTANTE: a rigor, o único efeito que decorre da revelia nas ações que envolvem direitos indisponíveis é a desnecessidade de intimação do revel para os atos processuais subsequentes. 3.4. COMPETÊNCIA JUDICIAL PARA AS AÇÕES O art. 100,1, do CPC/1973, previa como competente o foro da residência da mulher para as ações de separação, conversão desta em divórcio e anulação de casamento. O art. 53, I, do Novo CPC trata do mesmo tema, mas de forma diferente e ampliada. Mais abrangente porque inclui entre as ações também a de reconhecimento ou dissolução de união estável. E diferente porque cria duas regras, a depender da existência de filho incapaz: havendo filho incapaz, a competência será do domicílio do guardião; não havendo, a competência será do foro do último domicílio do casal e se nenhuma das partes residir em tal domicílio a competência será do foro do domicílio do réu. O legislador preferiu não prestigiar, ao menos em regra, o domicílio atual de nenhum dos cônjuges, mas o último domicílio do casal. A norma pode até ter tido um bom propósito, mas certamente afastará, ao menos em parcela dos casos, a proteção dispensada à mulher na regra atualmente em trâmite. Basta para chegar a essa conclusão imaginar-se a situação da mulher mudando de domicílio e o marido continuando no último domicílio do casal. Ainda que se considere que, tradicionalmente, é o marido que deixa o lar, há muito tempo já não é mais essa uma realidade absoluta, sendo inúmeros os casos em que a mulher deixa o lar e, justamente para se afastar de forma significativa do marido, muda-se inclusive de cidade, hipótese na qual deixará de ter a proteção legal que tem atualmente. Com isso o legislador aparentemente adequa o dispositivo legal à previsão contida no art. 226, § 5°, da CF, que prevê a igualdade de direitos e deveres entre os cônjuges. 3.5. USO DO SOBRENOME Regra Geral do Sistema: Art. 1.578 §1º e §2º do CC a decisão sobre a manutenção do sobrenome é do próprio cônjuge que o adulterou. Só existe um caso em que o titular perde o direito de uso do sobrenome do cônjuge contra sua própria vontade: Art. 1.578 do CC. Art. 1.578. O cônjuge declarado culpado na ação de separação judicial perde o direito de usar o sobrenome do outro, desde que expressamente requerido pelo cônjuge inocente e se a alteração não acarretar: I - evidente prejuízo para a sua identificação; II - manifesta distinção entre o seu nome de família e o dos filhos havidos da união dissolvida; III - dano grave reconhecido na decisão judicial. § 1o O cônjuge inocente na ação de separação judicial poderá renunciar, a qualquer momento, ao direito de usar o sobrenome do outro. § 2o Nos demais casos caberá a opção pela conservação do nome de casado. Requisitos cumulativos para perda do sobrenome contra a vontade: CS - CIVIL IV 2018.1 77 1) Pedido expresso; 2) Culpa grave; 3) Não prejuízo para a prole; 4) Inexistência de prejuízo para o próprio titular. 3.6. DIVISÃO DE FRUTOS DECORRENTES DE COISA COMUM Na separação e divórcio devem entrar na partilha, também, os frutos de bens comuns. Dessa forma, se um dos cônjuges está colhendo os frutos ISOLADAMENTE, deverá indenizar ao outro. Exemplo: Casal se separa e a mulher passa a morar sozinha no imóvel, enquanto marido sai de casa. Essa mulher está colhendo sozinha os frutos do imóvel, logo deverá pagar uma espécie de aluguel ao marido, sob pena de enriquecimento sem causa. Nada mais é do que uma interpretação do art. 1.319 a luz da dissolução do casamento. Art. 1.319. Cada condômino responde aos outros pelos frutos que percebeu da coisa e pelo dano que lhe causou. Não confundir esse ‘aluguel’ com a ‘taxa de ocupação’, que diz respeito ao que deve pagar o promitente comprador no contrato de compra e venda rescindido. 3.7. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA Este é terreno fértil para a ocorrência da denominada desconsideração inversa, onde, verificando que sócio se valeu da pessoa jurídica para ocultar bens, o juiz atinge o patrimônio da empresa para alcançar o agente causador do dano. É o caso daquele cônjuge que é empresário e vai passando os bens comuns para a empresa e depois que passa o último bem decide se separar. Só que na empresa, somente 10% do capital é dele, pois, todo o resto ele já passou adiante. Ou seja, ocorrendo a separação, ele vai dividir esses 10% com a mulher e depois dá um jeito de pôr a mão de volta no capital desovado. Nesse caso, dada a confusão patrimonial ocorrida, pode haver a desconsideração da personalidade jurídica inversa (e objetiva – confusão patrimonial) para alcançar os bens da sociedade (que se locupletou indevidamente) para fimde dar a mulher o que lhe é de direito. Essa desconsideração não pode ser decretada de ofício: depende de requerimento do interessado ou do MP ‘cutos legis’. Está prevista no NCPC. Art. 133. O incidente de desconsideração da personalidade jurídica será instaurado a pedido da parte ou do Ministério Público, quando lhe couber intervir no processo. § 1o O pedido de desconsideração da personalidade jurídica observará os pressupostos previstos em lei. § 2o Aplica-se o disposto neste Capítulo à hipótese de desconsideração inversa da personalidade jurídica. CS - CIVIL IV 2018.1 78 3.8. PARTILHA DE BENS a) Bens adquiridos a título eventual: Todos entram na partilha. Exemplo: Prêmio de Loteria, aluvião, avulsão. b) Bens adquiridos com FGTS: Tudo que foi adquirido com dinheiro do FGTS entra na partilha. ATENÇÃO! FGTS anterior ao casamento não entra na partilha, apenas o que foi depositado durante o casamento. c) Imóvel financiado: Todos os valores (parcelas) pagos na constância do casamento devem ser partilhados. Exceção: regime da separação convencional de bens. Lembrar que na separação absoluta (obrigatória) os bens se comunicam na constância do casamento. 3.9. GUARDA UNILATERAL E COMPARTILHADA (ART. 1.583 E 1.584) 3.9.1. Espécies de guarda Existem quatro espécies de guarda, duas delas estão previstas no Código Civil e duas outras são criações da doutrina que, apesar de não serem fixadas judicialmente, algumas vezes são verificadas na prática. a) UNILATERAL (EXCLUSIVA): Ocorre quando o pai ou a mãe fica com a guarda e a outra pessoa possuirá apenas o direito de visitas. Segundo a definição do Código Civil, a guarda unilateral é aquela “atribuída a um só dos genitores ou a alguém que o substitua” (art. 1.583, § 1º). Ainda hoje é bastante comum. Ex: João e Maria se divorciaram; ficou combinado que Maria ficará com a guarda da filha de 5 anos e o pai tem direito de visitas aos finais de semana. Vale ressaltar que, se for fixada a guarda unilateral, o pai ou a mãe que ficar sem a guarda continuará com o dever de supervisionar os interesses dos filhos. Para possibilitar tal supervisão, qualquer dos genitores sempre será parte legítima para solicitar informações e/ou prestação de contas, objetivas ou subjetivas, em assuntos ou situações que direta ou indiretamente afetem a saúde física e psicológica e a educação de seus filhos (§ 5º do art. 1.583). Pensando nisso, a Lei n. 13.058/2014 acrescentou no art. 1.583 do Código Civil o § 6º prevendo que os estabelecimentos públicos e privados são obrigados a prestar informações a qualquer dos genitores sobre os filhos destes, sob pena de multa de R$ 200,00 (duzentos reais) a R$ 500,00 (quinhentos reais) por dia pelo não atendimento da solicitação. b) COMPARTILHADA (CONJUNTA): CS - CIVIL IV 2018.1 79 Ocorre quando o pai e a mãe são responsáveis pela guarda do filho. A guarda é de responsabilidade de ambos e as decisões a respeito do filho são tomadas em conjunto, baseadas no diálogo e consenso. Segundo o Código Civil, entende-se por guarda compartilhada “a responsabilização conjunta e o exercício de direitos e deveres do pai e da mãe que não vivam sob o mesmo teto, concernentes ao poder familiar dos filhos comuns.” (Art. 1.583, § 1º). É considerada a melhor espécie de guarda porque o filho tem a possibilidade de conviver com ambos e os pais, por sua vez, sentem-se igualmente responsáveis. Vale ressaltar que nessa espécie de guarda, apesar de tanto o pai como a mãe possuírem a guarda, o filho mora apenas com um dos dois. Ex.: João e Maria se divorciaram; ficou combinado que a filha do casal ficará morando com a mãe; apesar disso, tanto Maria como João terão a guarda compartilhada (conjunta) da criança, de forma que ela irá conviver constantemente com ambos e as decisões sobre ela serão tomadas em conjunto pelos pais. c) ALTERNADA Ocorre quando o pai e a mãe se revezam em períodos exclusivos de guarda, cabendo ao outro direito de visitas. Em outras palavras, é aquela na qual durante alguns dias a mãe terá a guarda exclusiva e, em outros períodos, o pai terá a guarda exclusiva. Ex: João e Maria se divorciaram; ficou combinado que durante uma semana a filha do casal ficará morando com a mãe (e o pai não pode interferir durante esse tempo) e, na semana seguinte, a filha ficará vivendo com o pai (que terá a guarda exclusiva nesse período). “Essa forma de guarda não é recomendável, eis que pode trazer confusões psicológicas à criança. Com tom didático, pode-se dizer que essa é a guarda pingue-pongue, pois a criança permanece como cada um dos genitores por períodos ininterruptos. Alguns a denominam como a guarda do mochileiro, pois o filho sempre deve arrumar a sua malinha ou mochila para ir à outra casa. É altamente inconveniente, pois a criança perde seu referencial, recebendo tratamentos diferentes quando na casa paterna e na materna.” (TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil. Volume único. São Paulo: Método, 2013, p. 1224). d) ANINHAMENTO (NIDAÇÃO) Ocorre quando a criança permanece na mesma casa onde morava e os pais, de forma alternada, se revezam na sua companhia. Assim, é o contrário da guarda alternada, já que são os pais que, durante determinados períodos, se mudam. Ex: João e Maria se divorciaram; ficou combinado que a filha do casal ficará morando no mesmo apartamento onde residia e no qual já possui seus amiguinhos na vizinhança. Durante uma semana, a mãe ficará morando no apartamento com a criança (e o pai não pode interferir CS - CIVIL IV 2018.1 80 durante esse tempo). Na semana seguinte, a mãe se muda temporariamente para outro lugar e o pai ficará vivendo no apartamento com a filha. Defendida por alguns como uma forma de a criança não sofrer transtornos psicológicos por ter que abandonar o meio em que já vivia e estava familiarizada. Apesar disso, é bastante rara devido aos inconvenientes práticos de sua implementação. A palavra “aninhamento” vem de “aninhar”, ou seja, colocar em um ninho. Transmite a ideia de que a criança permanecerá no mesmo ninho (mesmo lar) e os seus pais é quem se revezarão em sua companhia. Como já dito acima, o Código Civil somente fala em unilateral ou compartilhada (art. 1.583), mas as demais espécies também existem na prática. 3.9.2. Como é definida a espécie de guarda que será aplicada? a) A guarda será definida por consenso entre o pai e a mãe; ou b) se não houver acordo, será decretada pelo juiz. Quando o magistrado for fixar a guarda, deverá levar em consideração as necessidades específicas do filho e a distribuição de tempo necessário ao convívio deste com o pai e a mãe. 3.9.3. Sempre que possível, deve ser tentada a conciliação Em sede de medida cautelar de separação de corpos, em sede de medida cautelar de guarda ou em outra sede de fixação liminar de guarda, a decisão sobre guarda de filhos, mesmo que provisória, será proferida preferencialmente após a oitiva de ambas as partes perante o juiz, salvo se a proteção aos interesses dos filhos exigir a concessão de liminar sem a oitiva da outra parte (art. 1.585 do CC). Na audiência de conciliação, o juiz informará ao pai e à mãe o significado da guarda compartilhada, a sua importância, a similitude de deveres e direitos atribuídos aos genitores e as sanções pelo descumprimento de suas cláusulas (§ 1º do art. 1.584) como uma forma de estimular o acordo. 3.9.4. Caso não tenha havido acordo, qual é a espécie de guarda que o juiz deverá preferencialmente determinar? Essa foi uma das alterações impostas pela Lei n. 13.058/2014. Com a novidade legislativa, a situação agora passa a ser a seguinte:Regra: quando não houver acordo entre a mãe e o pai quanto à guarda do filho, o juiz irá aplicar a guarda compartilhada. Exceções: Não será aplicada a guarda compartilhada se: CS - CIVIL IV 2018.1 81 a) um dos genitores não estiver apto a exercer o poder familiar; ou b) um dos genitores declarar ao magistrado que não deseja a guarda do menor. 3.9.5. Posição da doutrina Antes mesmo de ser sancionada a lei, o projeto de lei já recebeu críticas de diversos doutrinadores. Isso porque ela praticamente impõe aos pais algo que, na prática, não funciona se não for consensual. A guarda compartilhada exige como pressuposto que haja um mínimo de convivência harmônica entre os pais, já que as decisões a respeito do filho deverão ser tomadas em conjunto, com base no diálogo e consenso. Ora, se os pais da criança não gozam de uma relação harmoniosa, é extremamente improvável que consigam dialogar e decidir, de forma amistosa, pontos conflituosos em relação ao filho, como, por exemplo, a escola em que ele irá estudar, o tempo que cada um passará com a criança, as obrigações de cada genitor etc. Na guarda compartilhada muito pouco adianta que tais cláusulas sejam impostas pelo juiz porque o Poder Judiciário não terá condições de acompanhar, na prática, o cumprimento de tais medidas e a sua efetividade será mínima se não houver disposição e compromisso dos pais em respeitá-las. Enfim, apesar de a guarda compartilhada ser a espécie ideal, ela tem que ser conquistada com a conscientização e nunca pela imposição, o que gerará um efeito inverso e talvez acirre o relacionamento já desgastado dos pais da criança. 3.9.6. Regras sobre a guarda compartilhada trazidas pela lei Além de fixar a guarda compartilhada como prioridade, a lei também trouxe algumas regras para disciplinar essa espécie de guarda. Vejamos: a) Tempo de convivência Na guarda compartilhada, o tempo de convívio com os filhos deve ser dividido de forma equilibrada com a mãe e com o pai, sempre tendo em vista as condições fáticas e os interesses dos filhos (§ 2º do art. 1.583). b) Orientação técnico-profissional Para estabelecer as atribuições do pai e da mãe e os períodos de convivência sob guarda compartilhada, o juiz, de ofício ou a requerimento do Ministério Público, poderá basear-se em orientação técnico-profissional ou de equipe interdisciplinar, que deverá visar à divisão equilibrada do tempo com o pai e com a mãe (§ 3º do art. 1.584 do CC). Assim, com a ajuda de psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais, o juiz já deverá estabelecer as atribuições que caberão a cada um dos pais e o tempo de convivência com o filho. CS - CIVIL IV 2018.1 82 Ex: João irá buscar o filho no colégio todos os dias às 12h; no período da tarde, a criança continuará na companhia do pai e às 18h, ele deverá deixá-lo na casa da mãe. 3.9.7. E se os pais morarem em cidades diferentes? A Lei estabeleceu que a cidade considerada base de moradia dos filhos será aquela que melhor atender aos interesses dos filhos (§ 3º do art. 1.584). 3.9.8. Dever de os estabelecimentos públicos e privados prestarem informações aos pais Tanto na guarda compartilhada como na guarda unilateral, tanto o pai como a mãe possuem o direito de acompanhar e fiscalizar a educação e saúde de seus filhos. Pensando nisso, e a fim de evitar qualquer embaraço, a Lei n. 13.058/2014 acrescentou o § 6º ao art. 1.584 do CC, com a seguinte redação: § 6º Qualquer estabelecimento público ou privado é obrigado a prestar informações a qualquer dos genitores sobre os filhos destes, sob pena de multa de R$ 200,00 (duzentos reais) a R$ 500,00 (quinhentos reais) por dia pelo não atendimento da solicitação. Essa regra vale mesmo que o pai (ou a mãe) que esteja requerendo a informação não detenha a guarda do filho. Ex: João e Maria divorciaram-se e a mãe ficou com a guarda exclusiva da criança; determinado dia, João foi até o colégio de sua filha para ter acesso às notas do boletim escolar, tendo a escola negado acesso afirmando que somente a mãe poderia obtê-lo. Esse estabelecimento de ensino poderá ser multado na forma do § 6º do art. 1.584 do CC. O mesmo vale para um hospital, por exemplo. Essa multa deve ser cobrada na via judicial (Justiça Estadual / Vara de Família), devendo o pai (ou a mãe) comprovar que fez a solicitação não atendida. 3.9.9. Descumprimento das regras A alteração não autorizada ou o descumprimento imotivado de cláusula de guarda unilateral ou compartilhada poderá implicar a redução de prerrogativas atribuídas ao seu detentor. (§ 4º do art. 1.584). 3.9.10. A guarda pode ser deferida para outra pessoa que não seja o pai ou a mãe? SIM. Se o juiz verificar que o filho não deve permanecer sob a guarda do pai ou da mãe, deferirá a guarda a pessoa que revele compatibilidade com a natureza da medida, considerados, de preferência, o grau de parentesco e as relações de afinidade e afetividade (§ 5º do art. 1.584). O exemplo mais comum dessa situação é a guarda atribuída aos avós. 3.9.11. Poder familiar CS - CIVIL IV 2018.1 83 Por fim, a Lei n. 13.058/2014 alterou o art. 1.634 do Código Civil, que trata sobre o poder familiar. Vejamos o que mudou: Art. 1.634. Compete a ambos os pais, qualquer que seja a sua situação conjugal, o pleno exercício do poder familiar, que consiste em, quanto aos filhos: A redação do caput do art. 1.634 foi apenas atualizada, não tendo havido modificação substancial. I - dirigir-lhes a criação e a educação; Não houve alteração, sendo exatamente a mesma redação do inciso I anterior. II - exercer a guarda unilateral ou compartilhada nos termos do art. 1.584; A redação desse inciso II foi melhorada, suprimindo a expressão “companhia” que não era adequada, mantendo-se apenas “guarda”. III - conceder-lhes ou negar-lhes consentimento para casarem; Não houve alteração, sendo exatamente a mesma redação do inciso III anterior. IV - conceder-lhes ou negar-lhes consentimento para viajarem ao exterior; Trata-se de novidade no Código Civil. Vale ressaltar, no entanto, que esse consentimento já era exigido no ECA. Confira: ECA Art. 83. Nenhuma criança poderá viajar para fora da comarca onde reside, desacompanhada dos pais ou responsável, sem expressa autorização judicial. (...) ECA Art. 84. Quando se tratar de viagem ao exterior, a autorização é dispensável, se a criança ou adolescente: I - estiver acompanhado de ambos os pais ou responsável; II - viajar na companhia de um dos pais, autorizado expressamente pelo outro através de documento com firma reconhecida. V - conceder-lhes ou negar-lhes consentimento para mudarem sua residência permanente para outro Município; Trata-se de novidade no Código Civil. VI - nomear-lhes tutor por testamento ou documento autêntico, se o outro dos pais não lhe sobreviver, ou o sobrevivo não puder exercer o poder familiar; Houve apenas alteração da numeração do inciso, sendo exatamente a mesma redação do inciso IV anterior. Confira: VII - representá-los judicial e extrajudicialmente até os 16 (dezesseis) anos, nos atos da vida civil, e assisti-los, após essa idade, nos atos em que forem partes, suprindo-lhes o consentimento; CS - CIVIL IV 2018.1 84 Não houve alteração substancial, sendo praticamente a mesma redação do inciso V anterior. VIII - reclamá-los de quem ilegalmente os detenha; Houve apenas alteração da numeração do inciso, sendo exatamente a mesma redação do inciso VI anterior. IX - exigir que lhes prestem obediência, respeito e os serviços próprios de sua idade e condição. Houve apenas alteração da numeraçãodo inciso, sendo exatamente a mesma redação do inciso VII anterior. 3.10. RESPONSABILIDADE CIVIL ENTRE CÔNJUGES Um dos maiores problemas surgidos com a promulgação da Emenda Constitucional 66/2010 refere-se à viabilidade jurídica de discussão da culpa para dissolver o casamento, em sede de ação de divórcio. O debate, as reflexões e o tempo devem sanar tais dificuldades. Pelo menos é o que se espera. Até o presente momento, parece prevalecer, principalmente entre os juristas que compõem o Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), a tese de impossibilidade de discussão da culpa em sede de ação de divórcio. Assim, se posicionam, por exemplo, Rodrigo da Cunha Pereira, Paulo Lôbo, Maria Berenice Dias, Rolf Madaleno, Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka, José Fernando Simão, Antonio Carlos Mathias Coltro, Pablo Stolze Gagliano, Rodolfo Pamplona Filho, Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald. Para essa corrente, desaparecendo a separação judicial, com ela foi a culpa, não sendo possível a sua discussão em sede de ação de divórcio para dissolver o casamento. Argumenta-se que a culpa é algo que apenas gera uma injustificada demora processual em se colocar fim ao vínculo, violando o seu debate a dignidade da pessoa humana (art. 1.º, III, da CF/1988). Ademais, passa a existir um direito potestativo com a extinção do casamento. Tartuce defende posição intermediária, pois se deve admitir a discussão da culpa em casos excepcionais, de maior gravidade. Por essa forma de pensar estão mantidos os deveres do casamento (art. 1.566 do CC), pela sua aceitação pelo senso comum em geral. Conserva-se ainda um modelo dualista, com e sem culpa, como ocorre com outros ramos do Direito Civil, caso do direito contratual e da responsabilidade civil. Em reforço, a culpa gera consequências para a responsabilidade civil dos cônjuges e os alimentos, conforme ainda será aprofundado. Por esse caminho de conclusão, o divórcio poderá ser litigioso – com pretensão de imputação de culpa – ou consensual – sem discussão de culpa. Deve ficar claro que, para este autor, está mantida a ideia de mitigação da culpa – na esteira da doutrina e da jurisprudência anterior –, em algumas situações, como nos casos de culpa recíproca dos cônjuges ou de sua difícil investigação, a tornar o processo tormentoso para as partes. Do mesmo modo, é possível a mitigação da culpa em situações de fim do amor ou de deterioração factual do casamento, decretando-se agora o divórcio por mera causa objetiva. CS - CIVIL IV 2018.1 85 Consigne-se que essa tendência de afastamento da culpa como motivo da separação de igual modo foi observada pela aprovação de enunciado doutrinário na III Jornada de Direito Civil. Conforme proposta do desembargador do TJRS e membro do IBDFAM, Luiz Felipe Brasil Santos, foi aprovado o Enunciado n. 254 do CJF/STJ: “Formulado o pedido de separação judicial com fundamento na culpa (art. 1.572 e/ou art. 1.573 e incisos), o juiz poderá decretar a separação do casal diante da constatação da insubsistência da comunhão plena de vida (art. 1.511) – que caracteriza hipótese de ‘outros fatos que tornem evidente a impossibilidade da vida em comum’ – sem atribuir culpa a nenhum dos cônjuges”. De fato, em muitas situações é difícil ou até impossível a prova de quem, realmente, foi o culpado pelo fim do casamento ou pela quebra da afetividade. Em casos tais, deve-se decretar o divórcio do casal, postergando para outras demandas o debate da culpa, se for o caso. Julga-se de forma antecipada e parcial o mérito, conforme está consagrado pelo art. 356 do Novo CPC. Para encerrar o tópico, pelas razões a seguir expostas, a culpa não só pode como deve ser discutida em algumas situações complexas que envolvem o casamento, notadamente para os fins de atribuição de responsabilidade civil ao cônjuge e fixação dos alimentos. 4. SEPARAÇÃO DE CORPOS A separação de corpos é uma medida judicial que tem por escopo a saída ou a retirada de um dos cônjuges do lar conjugal, por autorização judicial, espontânea ou compulsoriamente. Essa medida estava prevista expressamente no art. 888, inciso VI do antigo CPC, segundo o qual o juiz poderá ordenar ou autorizar, na pendência da ação principal, ou, antes de sua propositura, o afastamento temporário de um dos cônjuges da morada do casal. O CPC 2015 não prevê, expressamente, a separação de corpos, mas unificou os procedimentos. A nova legislação regulamentou o que já era praticado em diversas varas de família. Assim, basta entrar com a ação cautelar de separação de corpos e, no prazo de 30 dias, ajuizar, nos mesmos autos, a ação principal de divórcio ou de dissolução de entidade familiar ou outra ação que for mais adequada ao caso concreto. Portanto, não haverá mais duas custas processuais e dois desnecessários processos. Em um único processo discutirá a medida cautelar e a ação principal. A separação de corpos tem a finalidade de evitar o convívio com o outro cônjuge e poderá acontecer quando um dos dois quiser, e no momento do pedido de divórcio ou de dissolução de união estável. A medida também é utilizada em casos de agressão. Nesta situação, o cônjuge agredido pode pedir para sair do lar conjugal ou a retirada do cônjuge agressor. 5. SEPARAÇÃO DE FATO CS - CIVIL IV 2018.1 86 5.1. CONCEITO É uma situação não jurídica, mas um estado de ânimo das partes. É a ruptura da convivência, da conjugalidade. Essa separação se dá sob o prisma FÁTICO e não JURÍDICO. Esta ruptura da convivência, embora fática, produz vários efeitos JURÍDICOS. 5.2. EFEITOS DA SEPARAÇÃO DE FATO Os efeitos são os seguintes: a) Contagem do prazo para o divórcio direto; b) Permissão para caracterização da união estável (uma pessoa casada, embora separada de fato, pode constituir união estável - art. 1.723, §1º); c) Cessação do regime de bens - POLÊMICA; d) Perda do direito sucessório (art. 1.830) – POLÊMICA. 5.2.1. Contagem do prazo para o divórcio direto CC Art. 1.580. Decorrido um ano do trânsito em julgado da sentença que houver decretado a separação judicial, ou da decisão concessiva da medida cautelar de separação de corpos, qualquer das partes poderá requerer sua conversão em divórcio. § 1o A conversão em divórcio da separação judicial dos cônjuges será decretada por sentença, da qual não constará referência à causa que a determinou. § 2o O divórcio poderá ser requerido, por um ou por ambos os cônjuges, no caso de comprovada SEPARAÇÃO DE FATO por mais de dois anos. 5.2.2. Permissão para caracterização da união estável (uma pessoa casada, embora separada de fato, pode constituir união estável - art. 1.723, §1º). CC Art. 1.723. É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família. § 1o A união estável não se constituirá se ocorrerem os impedimentos do art. 1.521; não se aplicando a incidência do inciso VI no caso de a pessoa casada se achar SEPARADA DE FATO OU JUDICIALMENTE. Art. 1.521. Não podem casar: ... VI - as pessoas casadas; 5.2.3. Cessação do regime de bens POLÊMICA. O STJ, no Resp. 555.771, definiu que a separação de fato põe fim ao regime de bens. A polêmica existe, pois essa interpretação vai contra a absurda redação do art. 1.642, V do CC, in verbis: CS - CIVIL IV 2018.1 87 CC Art. 1.642. Qualquer que seja o regime de bens, tanto o marido quanto a mulher podem livremente ... V - reivindicar os bens comuns, móveis ou imóveis, doados ou transferidos pelo outro cônjuge ao concubino, desde que provado que os bens não foram adquiridospelo esforço comum destes, se o casal estiver separado de fato por mais de cinco anos; O que diz o artigo? Somente depois de 05 anos de separação de fato é que o regime cessa. Um artigo sem nenhum sentido. O sujeito já pode até estar em união estável com outra pessoa, e ainda assim terá que dividir seus bens. Em suma: a simples separação de fato põe fim ao regime de bens, cessando a comunhão de todo e qualquer bem adquirido posteriormente, salvo a hipótese de sub-rogação de bens. STJ: “não faz jus à meação de bens havidos pelo marido na qualidade de irmão o cônjuge que se encontrava separado de fato quando transmitida a herança. Tal fato ocasionaria enriquecimento sem causa, porquanto o patrimônio foi adquirido individualmente, sem qualquer colaboração do cônjuge”. 5.2.4. Perda do direito sucessório (art. 1.830) POLÊMICA CC Art. 1.830. Somente é reconhecido direito sucessório ao cônjuge sobrevivente se, ao tempo da morte do outro, não estavam separados judicialmente, nem separados de fato HÁ MAIS DE DOIS ANOS, salvo prova, neste caso, de que essa convivência se tornara impossível sem culpa do sobrevivente. O CC diz que, mesmo que haja separação de fato há mais de 02 anos quando da abertura da sucessão, o cônjuge sobrevivente terá direito à herança, desde que prove que a culpa da separação foi do outro cônjuge, ou seja, do morto. É a chamada CULPA MORTUÁRIA ou CULPA FUNERÁRIA (culpa do morto). IMPORTANTE! INFORMATIVO 573 DO STJ # Se a pessoa morrer e for casada, o cônjuge terá direito à herança? O cônjuge é herdeiro? SIM. O cônjuge é herdeiro necessário (art. 1.845 do CC). Exceção: O cônjuge não será herdeiro se, quando houve a morte, o casal estava separado há mais de dois anos, nos termos do art. 1.830 do CC: CS - CIVIL IV 2018.1 88 Art. 1.830. Somente é reconhecido direito sucessório ao cônjuge sobrevivente se, ao tempo da morte do outro, não estavam separados judicialmente, nem separados de fato há mais de dois anos, salvo prova, neste caso, de que essa convivência se tornara impossível sem culpa do sobrevivente. Resumindo: Regra 1: o cônjuge sobrevivente (viúvo/viúva) tem direito sucessório. Regra 2: o cônjuge sobrevivente (viúvo/viúva) não terá direito sucessório se, quando seu (ua) esposo (a) morreu, eles estavam separados judicialmente ou divorciados. Regra 3: o cônjuge sobrevivente não terá direito sucessório se, quando seu (ua) esposo (a) morreu, eles estavam separados de fato há mais de dois anos. Exceção à regra 3: o cônjuge sobrevivente, mesmo estando separado de fato há mais de dois anos no momento da morte, continuará tendo direito sucessório se ele (cônjuge sobrevivente) não teve culpa pela separação de fato. O art. 1.830 do CC fala em "culpa" e a doutrina brasileira possui ojeriza (aversão) à culpa nas relações familiares. Diante disso, indaga-se: esse dispositivo continua válido e sendo aplicável pela jurisprudência? SIM. Ocorrendo a morte de um dos cônjuges após dois anos da separação de fato do casal, é legalmente relevante, para fins sucessórios, a discussão da culpa do cônjuge sobrevivente pela ruptura da vida em comum. Assim, o STJ continua aplicando o art. 1.830 do CC, que permanece válido. Críticas da doutrina Como já dito, esse dispositivo é amplamente criticado pela doutrina brasileira, principalmente, no que diz respeito à possibilidade de discussão de culpa como requisito para se determinar a exclusão ou não do cônjuge sobrevivente da ordem de vocação hereditária. Rolf Madaleno, por exemplo, em texto carregado de ironia, fala que o art. 1.830 institui a “culpa mortuária” ou "culpa funerária", ressaltando a dificuldade de produção da prova após o falecimento de um dos cônjuges, que poderá gerar longas e desgastantes discussões processuais (Rolf Madaleno, A concorrência sucessória e o trânsito processual: a culpa mortuária., In: Revista brasileira de direito de família, v. 7, n. 29, p. 144-151, abr./maio 2005). Paulo Lôbo sustenta que a imputação da culpa do falecido pela separação de fato viola os princípios constitucionais da ampla defesa e do contraditório, impedindo que o falecido possa contraditar a acusação de culpa (Direito Civil: Sucessões. São Paulo: Saraiva, 2014). Francisco José Cahali e Giselda Hironaka são também críticos da previsão e observam que a imputação de culpa para fins de direito sucessório representa verdadeiro retrocesso, principalmente diante da EC 66/2010, que trouxe a possibilidade da dissolução do casamento diretamente por divórcio sem observação de tempo mínimo de convivência ou discussão de culpa (CAHALI, Francisco José; HIRONAKA, Giselda Maria Fernandes Novaes. Direito das Sucessões. 5ª ed. São Paulo: RT, 2014). CS - CIVIL IV 2018.1 89 Apesar disso, o STJ considerou que não há que se falar em ilegalidade ou impertinência da discussão da culpa no vigente direito sucessório, devendo ser mantida a aplicação do art. 1.830 do CC para os casos em que ele regular. Qual será o parâmetro utilizado pelo juiz para aferir a culpa de que trata o art. 1.830 do CC? O magistrado deverá utilizar como critérios os motivos elencados no art. 1.573 do CC, que caracterizam a impossibilidade da comunhão de vida: Art. 1.573. Podem caracterizar a impossibilidade da comunhão de vida a ocorrência de algum dos seguintes motivos: I - adultério; II - tentativa de morte; III - sevícia ou injúria grave; IV - abandono voluntário do lar conjugal, durante um ano contínuo; V - condenação por crime infamante; VI - conduta desonrosa. Parágrafo único. O juiz poderá considerar outros fatos que tornem evidente a impossibilidade da vida em comum. De quem é o ônus de provar a culpa mencionada no art. 1.830 do CC? O cônjuge sobrevivente é quem deverá provar que não teve culpa? Ou os demais herdeiros interessados (exs: filhos, irmãos etc.) na herança é que deverão provar que o falecido não teve culpa? O ônus da prova é do cônjuge sobrevivente. O cônjuge sobrevivente é que deverá provar que não teve culpa pela separação. Ele que terá que comprovar que a convivência se tornou impossível sem culpa sua. Se o cônjuge sobrevivente não conseguir provar isso, ele não terá direito à herança. Isso se justifica porque, conforme se verifica da ordem de vocação hereditária prevista no art. 1.829 do CC/2002, o cônjuge separado de fato é exceção à ordem de vocação. Assim, em regra, o cônjuge separado há mais de dois anos não é herdeiro, salvo se ele (cônjuge sobrevivente) provar que não teve culpa pela separação. Resumindo: Ocorrendo a morte de um dos cônjuges após dois anos da separação de fato do casal, é legalmente relevante, para fins sucessórios, a discussão da culpa do cônjuge sobrevivente pela ruptura da vida em comum, cabendo a ele o ônus de comprovar que a convivência do casal se tornara impossível sem a sua culpa. STJ. 4ª Turma. REsp 1.513.252-SP, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 3/11/2015 (Info 573). 6. DIVÓRCIO 6.1. EVOLUÇÃO E CONCEITO É a dissolução do VÍNCULO matrimonial, encerrando também a SOCIEDADE conjugal (se esta ainda não havia sido terminada). CS - CIVIL IV 2018.1 90 O divórcio surgiu com a EC 09/77. Até então só existia o “desquite” (equivalente à separação), que só colocava fim à sociedade conjugal. Vale dizer: As pessoas não podiam realizar novas núpcias. Regulamentando o permissivo constitucional, foi editada a Lei 6.515/77 (Lei do Divórcio). De lá para cá ele vem sendo facilitado. Somente em 1988 o divórcio perdeu seu caráter de excepcionalidade. Até CF/88, só era possível UM divórcio por pessoa. Se esse divorciado se casasse com uma solteira, tirava dela a oportunidadede se divorciar. Isso era a UNICIDADE DO DIVÓRCIO. Atualmente, a pessoa pode se divorciar quantas vezes possa casar, podendo fazê-lo, inclusive, extrajudicialmente, nos termos do art. 733 do NCPC. Art. 733. O divórcio consensual, a separação consensual e a extinção consensual de união estável, não havendo nascituro ou filhos incapazes e observados os requisitos legais, poderão ser realizados por escritura pública, da qual constarão as disposições de que trata o art. 731. No Brasil existiam duas espécies de divórcio: divórcio direto e divórcio indireto (EC 66/2010 acabou com esta distinção) 6.2. DIVÓRCIO LITIGIOSO Sempre será em juízo (procedimento comum ordinário). Antes do Novo CPC, o divórcio litigioso se submetia ao procedimento comum ordinário, ou seja, seguia as regras comuns do CPC. Art. 693. As normas deste Capítulo aplicam-se aos processos contenciosos de divórcio, separação, reconhecimento e extinção de união estável, guarda, visitação e filiação. Parágrafo único. A ação de alimentos e a que versar sobre interesse de criança ou de adolescente observarão o procedimento previsto em legislação específica, aplicando-se, no que couber, as disposições deste Capítulo. Art. 694. Nas ações de família, todos os esforços serão empreendidos para a solução consensual da controvérsia, devendo o juiz dispor do auxílio de profissionais de outras áreas de conhecimento para a mediação e conciliação. Parágrafo único. A requerimento das partes, o juiz pode determinar a suspensão do processo enquanto os litigantes se submetem a mediação extrajudicial ou a atendimento multidisciplinar. Art. 695. Recebida a petição inicial e, se for o caso, tomadas as providências referentes à tutela provisória, o juiz ordenará a citação do réu para comparecer à audiência de mediação e conciliação, observado o disposto no art. 694. § 1o O mandado de citação conterá apenas os dados necessários à audiência e deverá estar desacompanhado de cópia da petição inicial, assegurado ao réu o direito de examinar seu conteúdo a qualquer tempo. § 2o A citação ocorrerá com antecedência mínima de 15 (quinze) dias da data designada para a audiência. § 3o A citação será feita na pessoa do réu. § 4o Na audiência, as partes deverão estar acompanhadas de seus advogados ou de defensores públicos. CS - CIVIL IV 2018.1 91 Art. 696. A audiência de mediação e conciliação poderá dividir-se em tantas sessões quantas sejam necessárias para viabilizar a solução consensual, sem prejuízo de providências jurisdicionais para evitar o perecimento do direito. Art. 697. Não realizado o acordo, passarão a incidir, a partir de então, as normas do procedimento comum, observado o art. 335. Art. 698. Nas ações de família, o Ministério Público somente intervirá quando houver interesse de incapaz e deverá ser ouvido previamente à homologação de acordo. Art. 699. Quando o processo envolver discussão sobre fato relacionado a abuso ou a alienação parental, o juiz, ao tomar o depoimento do incapaz, deverá estar acompanhado por especialista. 6.3. DIVÓRCIO CONSENSUAL Pode ser obtido em cartório (procedimento administrativo) ou em juízo (procedimento de jurisdição voluntária). NCPC Art. 731. A homologação do divórcio ou da separação consensuais, observados os requisitos legais, poderá ser requerida em petição assinada por ambos os cônjuges, da qual constarão: I - as disposições relativas à descrição e à partilha dos bens comuns; II - as disposições relativas à pensão alimentícia entre os cônjuges; III - o acordo relativo à guarda dos filhos incapazes e ao regime de visitas; e IV - o valor da contribuição para criar e educar os filhos. Parágrafo único. Se os cônjuges não acordarem sobre a partilha dos bens, far-se-á esta depois de homologado o divórcio, na forma estabelecida nos arts. 647 a 658. Art. 732. As disposições relativas ao processo de homologação judicial de divórcio ou de separação consensuais aplicam-se, no que couber, ao processo de homologação da extinção consensual de união estável. Art. 733. O divórcio consensual, a separação consensual e a extinção consensual de união estável, não havendo nascituro ou filhos incapazes e observados os requisitos legais, poderão ser realizados por escritura pública, da qual constarão as disposições de que trata o art. 731. § 1o A escritura não depende de homologação judicial e constitui título hábil para qualquer ato de registro, bem como para levantamento de importância depositada em instituições financeiras. § 2o O tabelião somente lavrará a escritura se os interessados estiverem assistidos por advogado ou por defensor público, cuja qualificação e assinatura constarão do ato notarial. Art. 734. A alteração do regime de bens do casamento, observados os requisitos legais, poderá ser requerida, motivadamente, em petição assinada por ambos os cônjuges, na qual serão expostas as razões que justificam a alteração, ressalvados os direitos de terceiros. § 1o Ao receber a petição inicial, o juiz determinará a intimação do Ministério Público e a publicação de edital que divulgue a pretendida alteração de bens, somente podendo decidir depois de decorrido o prazo de 30 (trinta) dias da publicação do edital. § 2o Os cônjuges, na petição inicial ou em petição avulsa, podem propor ao juiz meio alternativo de divulgação da alteração do regime de bens, a fim de resguardar direitos de terceiros. § 3o Após o trânsito em julgado da sentença, serão expedidos mandados de averbação aos cartórios de registro civil e de imóveis e, caso qualquer dos cônjuges seja empresário, ao Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins. CS - CIVIL IV 2018.1 92 O CPC exige um requisito objetivo: CONSENSO, vontade das partes, independentemente da existência de filhos menores incapazes. Se as partes chegaram a um consenso sobre as cláusulas do divórcio, mesmo que exista interesse de incapazes, o procedimento de jurisdição voluntária poderá ser utilizado. Impossibilidade de recusa pelo juiz e a impossibilidade de retratação pelas partes, após a audiência de reconciliação. * CLÁUSULAS OBRIGATÓRIAS QUE DEVEM CONSTAR DO DIVÓRCIO CONSENSUAL EM JUÍZO (além da certidão de casamento e do contrato antenupcial, se houver): 1) Ajuste sobre a partilha dos bens do casal (possibilidade de manutenção dos bens em condomínio). Obs: é possível celebrar o divórcio sem a partilha de bens (Súmula 197 do STJ e art. 1582 do CC/2002). Assim sendo, a cláusula obrigatória é sobre a declaração do patrimônio do casal. Eles devem informar se vão proceder a partilha dos bens ou não. Se não for feita a partilha, os bens permanecerão em condomínio. Quando um deles tiver interesse, requererá uma ação de partilha. Se o casal não proceder a partilha de bens, eles vão se divorciar, podendo casar de novo, mas se casarem de novo estarão submetidos ao regime de separação obrigatória (art. 1523, III do CPC), até que façam a partilha de bens do casamento anterior. Parágrafo único. Se os cônjuges não acordarem sobre a partilha dos bens, far-se-á esta depois de homologado o divórcio, na forma estabelecida nos arts. 647 a 658. 2) Acordo sobre guarda e visitação dos filhos menores ou incapazes. O direito de ser visitado é do filho. O pai e a mãe são obrigados a dizer como será a visita. A regra geral é que a guarda deve ser compartilhada, mesmo em se tratando de divórcio litigioso. A jurisprudência tem reservas a guarda alternada, pois não é psicologicamente adequada. 3) Referência a eventual pensão alimentícia devida entre cônjuges. São livres para estabelecer a pensão. 4) Previsão de pensão alimentícia devida aos filhos menores. Obrigatoriamente o casal vai deliberar acerca dosalimentos devido aos filhos. Mesmo que a guarda seja compartilhada, continua sendo devida a pensão alimentícia ao filho. 5) Acordo sobre o uso do sobrenome. No silêncio das partes, presume-se que continua a utilizar o nome que adquiriu depois do casamento. Nada obstará a retirada posterior do nome. CS - CIVIL IV 2018.1 93 Se houver incapaz, o MP intervirá como fiscal da Lei, para precaver os interesses dos incapazes. Depois da intervenção, o juiz homologa. O juiz pode recusar a homologação ou cindir o acordo. É absolutamente possível a cisão do acordo. Não se formará coisa julgada material, pois é procedimento de jurisdição voluntária. Se não tiver incapaz esse divórcio pode ser feito em cartório. Entretanto, tendo incapaz, é obrigatório que seja em juízo. 6.4. DIVÓRCIO CONSENSUAL EM CARTÓRIO A Lei 11.441/07 concebeu a possibilidade de divórcio consensual em cartório, através de um procedimento administrativo, sendo decretado por meio de escritura pública e não por sentença. Essa escritura pública independe de intervenção do MP e homologação judicial. O próprio tabelião lavrará a escritura pública quando presentes os requisitos. O uso da via cartorária é facultativo e não obrigatório, não havendo interesse de incapaz. O casal pode optar pelo uso da via judicial. Havendo interesse de incapaz o uso da via judicial é necessário. NCPC Art. 733. O divórcio consensual, a separação consensual e a extinção consensual de união estável, não havendo nascituro ou filhos incapazes e observados os requisitos legais, poderão ser realizados por escritura pública, da qual constarão as disposições de que trata o art. 731. § 1o A escritura não depende de homologação judicial e constitui título hábil para qualquer ato de registro, bem como para levantamento de importância depositada em instituições financeiras. § 2o O tabelião somente lavrará a escritura se os interessados estiverem assistidos por advogado ou por defensor público, cuja qualificação e assinatura constarão do ato notarial. Se for eleita a via administrativa, o casal obrigatoriamente deve estar assistido por advogado ou defensor público. Por outro lado, o casal pode estar pessoalmente ou por procurador em cartório, constituído por escritura pública e com poderes especiais. Esse procedimento pode ser gratuito para as pessoas pobres na forma da lei (isenção de taxas). A via cartorária não se submete às regras de competência, podendo ser obtido em qualquer cartório do país, mesmo que o domicílio dos cônjuges seja outro. Competência é repartição de competência jurisdicional. 7. SEPARAÇÃO DE DIREITO CS - CIVIL IV 2018.1 94 7.1. CONCEITO A separação é a antessala do divórcio. É uma medida dissolutiva da SOCIEDADE CONJUGAL, sem comprometimento do VÍNCULO (que se dá pelo divórcio). Em nosso sistema a separação tem caráter transitório, pois o objetivo é sua conversão em divórcio (essa é a vontade do sistema). CC Art. 1.575. A sentença de separação judicial importa a separação de corpos e a partilha de bens. Parágrafo único. A partilha de bens poderá ser feita mediante proposta dos cônjuges e homologada pelo juiz ou por este decidida. Art. 1.576. A separação judicial põe termo aos deveres de coabitação e fidelidade recíproca e ao regime de bens. Parágrafo único. O procedimento judicial da separação caberá somente aos cônjuges, e, no caso de incapacidade, serão representados pelo curador, pelo ascendente ou pelo irmão. Se as partes separadas quiserem retomar a vida conjugal, podem fazê-lo por mera petição dirigida ao juiz. Ou seja, as partes não precisam casar de novo. Seria essa a vantagem da separação, mas que, na realidade, não se perfaz: os arts. 1.515 e 1.516 trazem uma facilitação do casamento entre ex-cônjuges, tão singela quanto a mera petição ao juiz dos separados que querem restabelecer a sociedade conjugal. Art. 1.577. Seja qual for a causa da separação judicial e o modo como esta se faça, é lícito aos cônjuges restabelecer, a todo tempo, a sociedade conjugal, por ato regular em juízo. Parágrafo único. A reconciliação em nada prejudicará o direito de terceiros, adquirido antes e durante o estado de separado, seja qual for o regime de bens. Art. 1.515. O casamento religioso, que atender às exigências da lei para a validade do casamento civil, equipara-se a este, desde que registrado no registro próprio, produzindo efeitos a partir da data de sua celebração. Art. 1.516. O registro do casamento religioso submete-se aos MESMOS REQUISITOS EXIGIDOS PARA O CASAMENTO CIVIL. § 1o O registro civil do casamento religioso deverá ser promovido dentro de noventa dias de sua realização, mediante comunicação do celebrante ao ofício competente, ou por iniciativa de qualquer interessado, desde que haja sido homologada previamente a habilitação regulada neste Código. Após o referido prazo, o registro dependerá de nova habilitação. § 2o O casamento religioso, celebrado sem as formalidades exigidas neste Código, terá efeitos civis se, a requerimento do casal, for registrado, a qualquer tempo, no registro civil, mediante PRÉVIA HABILITAÇÃO perante a autoridade competente e observado o prazo do art. 1.532. § 3o Será nulo o registro civil do casamento religioso se, antes dele, qualquer dos consorciados houver contraído com outrem casamento civil. 7.2. ESPÉCIES DE SEPARAÇÃO No Brasil, a separação pode se apresentar de 2 formas: ela pode ser LITIGIOSA (art. 1.572) ou CONSENSUAL (art. 1.574). CS - CIVIL IV 2018.1 95 A separação CONSENSUAL, tal como o divórcio, pode ser em CARTÓRIO, se preenchidos alguns requisitos, que veremos adiante. Continua prevista no NCPC. Art. 1.574. Dar-se-á a separação judicial por mútuo consentimento dos cônjuges se forem casados por mais de um ano e o manifestarem perante o juiz, sendo por ele devidamente homologada a convenção. Parágrafo único. O juiz pode recusar a homologação e não decretar a separação judicial se apurar que a convenção não preserva suficientemente os interesses dos filhos ou de um dos cônjuges. A separação LITIGIOSA, por sua vez (sempre judicial), pode vir de 03 formas: separação SANÇÃO (caput), separação FALÊNCIA (§ 1º) ou separação REMÉDIO (§ 2º e §3º) Art. 1.572. Qualquer dos cônjuges poderá propor a ação de separação judicial, imputando ao outro qualquer ato que importe grave violação dos deveres do casamento e torne insuportável a vida em comum. (separação sanção) Art. 1.573. Podem caracterizar a impossibilidade da comunhão de vida a ocorrência de algum dos seguintes motivos: I - adultério; II - tentativa de morte; III - sevícia ou injúria grave; IV - abandono voluntário do lar conjugal, durante um ano contínuo; V - condenação por crime infamante; VI - conduta desonrosa. Parágrafo único. O juiz poderá considerar outros fatos que tornem evidente a impossibilidade da vida em comum. § 1o A separação judicial pode também ser pedida se um dos cônjuges provar ruptura da vida em comum há mais de um ano e a impossibilidade de sua reconstituição. (separação falência) § 2o O cônjuge pode ainda pedir a separação judicial quando o outro estiver acometido de doença mental grave, MANIFESTADA APÓS O CASAMENTO, que torne impossível a continuação da vida em comum, desde que, após uma duração de dois anos, a enfermidade tenha sido reconhecida de cura improvável. (separação remédio) § 3o No caso do parágrafo 2o, reverterão ao cônjuge enfermo, que não houver pedido a separação judicial, os remanescentes dos bens que levou para o casamento, e se o regime dos bens adotado o permitir, a meação dos adquiridos na constância da sociedade conjugal. 7.3. SEPARAÇÃO CONSENSUAL Está submetida a um requisitomaterial e a requisitos processuais. Art. 1.574. Dar-se-á a separação judicial por mútuo consentimento dos cônjuges se forem casados por mais de um ano e o manifestarem perante o juiz, sendo por ele devidamente homologada a convenção. Parágrafo único. O juiz pode recusar a homologação e não decretar a separação judicial se apurar que a convenção não preserva suficientemente os interesses dos filhos ou de um dos cônjuges. Requisito material: Estar casado há pelo menos 01 ano (nesse primeiro ano, inclusive, a única separação possível é a baseada na culpa separação sanção). CS - CIVIL IV 2018.1 96 Requisitos processuais: Estando em JUÍZO ou em CARTÓRIO (somente quando não tem interesse de incapaz – permissão no CPC) os requisitos processuais são: a) Assistência por advogado ou defensor público; b) Acordo sobre a partilha dos bens (que pode ser postergado com base na súmula do STJ acima); c) Acordo sobre pensão alimentícia; d) Acordo sobre o uso do sobrenome. e) Acordo sobre guarda e visitação dos filhos. O casal pode se fazer representar por procurador, desde que constituído por escritura pública e com poderes específicos. Art. 733. O divórcio consensual, a separação consensual e a extinção consensual de união estável, não havendo nascituro ou filhos incapazes e observados os requisitos legais, poderão ser realizados por escritura pública, da qual constarão as disposições de que trata o art. 731. Art. 731. A homologação do divórcio ou da separação consensuais, observados os requisitos legais, poderá ser requerida em petição assinada por ambos os cônjuges, da qual constarão: I - as disposições relativas à descrição e à partilha dos bens comuns; II - as disposições relativas à pensão alimentícia entre os cônjuges; III - o acordo relativo à guarda dos filhos incapazes e ao regime de visitas; e IV - o valor da contribuição para criar e educar os filhos. Parágrafo único. Se os cônjuges não acordarem sobre a partilha dos bens, far-se-á esta depois de homologado o divórcio, na forma estabelecida nos arts. 647 a 658. . Súmula 305 do STF: O acordo é irretratável. STF SÚMULA Nº 305 ACORDO DE DESQUITE (SEPARAÇÃO, DIVÓRCIO OU DISSOLUÇÃO DE UNIÃO ESTÁVEL) RATIFICADO POR AMBOS OS CÔNJUGES NÃO É RETRATÁVEL UNILATERALMENTE. 7.4. SEPARAÇÃO LITIGIOSA (SANÇÃO, FALÊNCIA, REMÉDIO) 7.4.1. Separação sanção (ver abaixo sobre a EC/66) Art. 1.572. Qualquer dos cônjuges poderá propor a ação de separação judicial, imputando ao outro qualquer ato que importe grave violação dos deveres do casamento e torne insuportável a vida em comum. (separação sanção) Causa de pedir CULPA. Única que não depende de prazo. Está baseada em CULPA Violação de dever do casamento (critério objetivo) ou conduta desonrosa (critério subjetivo). CS - CIVIL IV 2018.1 97 O art. 1.573 prevê que o rol das hipóteses de culpa é exemplificativo (numerus apertus). O juiz não fica adstrito às hipóteses legais. Art. 1.573. Podem caracterizar a impossibilidade da comunhão de vida a ocorrência de algum dos seguintes motivos: I - adultério; II - tentativa de morte; III - sevícia ou injúria grave; IV - abandono voluntário do lar conjugal, durante um ano contínuo; V - condenação por crime infamante; VI - conduta desonrosa. Parágrafo único. O juiz poderá considerar OUTROS FATOS que tornem evidente a impossibilidade da vida em comum. O CC só prevê DOIS EFEITOS para o reconhecimento da culpa do cônjuge (os dois únicos efeitos para a culpa): 1) Excepcional perda do sobrenome (culpa grave) - art. 1.578; Art. 1.578. O cônjuge declarado culpado na ação de separação judicial perde o direito de usar o sobrenome do outro, desde que expressamente requerido pelo cônjuge inocente e se a alteração não acarretar: I - evidente prejuízo para a sua identificação; II - manifesta distinção entre o seu nome de família e o dos filhos havidos da união dissolvida; III - dano grave reconhecido na decisão judicial. § 1o O cônjuge inocente na ação de separação judicial poderá renunciar, a qualquer momento, ao direito de usar o sobrenome do outro. § 2o Nos demais casos caberá a opção pela conservação do nome de casado. 2) Mudança na natureza dos alimentos - art. 1704, parágrafo único. Art. 1.704. Se um dos cônjuges separados judicialmente vier a necessitar de alimentos, será o outro obrigado a prestá-los mediante pensão a ser fixada pelo juiz, caso não tenha sido declarado culpado na ação de separação judicial. Parágrafo único. Se o cônjuge declarado culpado vier a necessitar de alimentos, e não tiver parentes em condições de prestá-los, nem aptidão para o trabalho, o outro cônjuge será obrigado a assegurá-los, fixando o juiz o valor indispensável à sobrevivência. (são os alimentos necessários) Parcela significativa da doutrina brasileira (Berenice, Tepedino, Fachin, Chaves) entende que a discussão sobre a culpa pode ser inconstitucional no caso concreto. Motivo: A discussão sobre a culpa pode invadir a privacidade da pessoa, como na discussão sobre a sexualidade do cônjuge. OBS: Imagine que a parte autora não consegue provar os fatos alegados na inicial, quanto à culpa. Ele não consegue se desincumbir do ônus da prova, qual o efeito desse fato? R: Não se pode julgar o pedido improcedente, porque o casal continuaria casado, e eles não querem mais essa situação. Assim, o STJ, no RESP 466.329 do RS, Ministra Nancy Andrighi, neste caso, recomenda que ao invés do juiz julgar improcedente o pedido, o juiz deve decretar a separação judicial do casal com base na insuportabilidade da vida conjugal (CC, art. 1.573, parágrafo único). Porque esta vida é indigna. O Enunciado 254 da JDC do CFJ é claro nesse sentido. Aqui, o juiz pode se afastar do pedido descrito na inicial. Isso ocorre com frequência no direito de CS - CIVIL IV 2018.1 98 família, porque há uma MITIGAÇÃO DO PRINCÍPIO DISPOSITIVO. Exemplo: o juiz aplica alimentos provisórios de ofício. JDC 254 Art. 1.573: Formulado o pedido de separação judicial com fundamento na culpa (art. 1.572 e/ou art. 1.573 e incisos), o juiz poderá decretar a separação do casal diante da constatação da insubsistência da comunhão plena de vida (art. 1.511) – que caracteriza hipótese de “outros fatos que tornem evidente a impossibilidade da vida em comum” – sem atribuir culpa a nenhum dos cônjuges. 7.4.2. Separação falência Art. 1.572 § 1o A separação judicial pode também ser pedida se um dos cônjuges provar ruptura da vida em comum há mais de um ano e a impossibilidade de sua reconstituição. (separação falência) Causa de pedir PRAZO. É a ruptura da vida conjugal a mais de 01 ano. Ruptura da convivência. Melhor exemplo: Abandono do lar. No entanto, nada impede a separação falência mesmo que o casal continue sob o mesmo teto. 7.4.3. Separação remédio Art. 1.572 § 2o O cônjuge pode ainda pedir a separação judicial quando o outro estiver acometido de doença mental grave, manifestada após o casamento, que torne impossível a continuação da vida em comum, desde que, após uma duração de dois anos, a enfermidade tenha sido reconhecida de cura improvável. (separação remédio) Causa de pedir MOTIVO + PRAZO. É aquela que decorre de doença mental de cura improvável ou impossível, manifestada em um dos cônjuges a mais de 02 anos. Se a doença existia antes do casamento, mas só foi descoberta depois, será causa de anulação (erro essencial). Essa forma de separação impõe uma sanção ao cônjuge: se o casamento for sob o regime de comunhão universal, o cônjuge são que pediu a separação perde o direito sobre os bens que o doente tinha antes de casar. Art. 1.572 § 3o No caso do parágrafo 2o,reverterão ao cônjuge enfermo, que não houver pedido a separação judicial, os remanescentes dos bens que levou para o casamento, e se o regime dos bens adotado o permitir, a meação dos adquiridos na constância da sociedade conjugal. A lei só menciona o regime da comunhão universal, pois nos demais regimes já é regra o cônjuge não ter direito aos bens particulares do outro. Essa forma de dissolução é inócua, pois o cônjuge pode simplesmente pleitear o divórcio direto com base na separação de fato por 02 anos. CS - CIVIL IV 2018.1 99 8. PROCEDIMENTO DE JURISDIÇÃO VOLUNTÁRIA DE SEPARAÇAO OU DIVÓRCIO CONSENSUAIS Exige-se petição inicial assinada pelos cônjuges e pelo advogado. Excepcionalmente, admite-se também a separação consensual SEM petição inicial. As cláusulas obrigatórias que devem constar no acordo de separação ou de divórcio consensuais feito em juízo são as seguintes: 1) Partilha dos bens (Súmula 197 do STJ) – não é obrigatória; STJ Súmula nº 197 O divórcio direto pode ser concedido sem que haja prévia partilha dos bens. 2) Pensão de alimentos para os filhos; 3) Guarda e visitação dos filhos (inclusive a guarda compartilhada que é a mais indicada para esse tipo de separação ou de divórcio) – art. 1584, II expressamente estabelece a visita com uma obrigação dos pais, pois é uma obrigação dos pais, e não um direito. Isso está se estendendo até mesmo para as madrastas e os padrastos; Art. 1.584. A guarda, unilateral ou compartilhada, poderá ser: ... II – decretada pelo juiz, em atenção a necessidades específicas do filho, ou em razão da distribuição de tempo necessário ao convívio deste com o pai e com a mãe. 4) Pensão alimentícia entre os cônjuges (se um deles renunciar, essa cláusula é válida e eficaz, pelo STJ, apesar do CC discordar). 5) Direito de uso do nome de casado. Depois de apresentada a inicial com o acordo, o juiz designará audiência de ratificação (súmula 305 do STF) do acordo de separação ou de divórcio consensuais. STF SÚMULA Nº 305 ACORDO DE DESQUITE RATIFICADO POR AMBOS OS CÔNJUGES NÃO É RETRATÁVEL UNILATERALMENTE. Ele se torna ratificado definitivamente, não admitindo retratação. Depois, se submete ao MP e o juiz dá a sentença. 9. SEPARAÇÃO E DIVÓRCIO CONSENSUAIS NO CARTÓRIO No cartório, ou seja, na via administrativa, o divórcio e a separação consensuais podem ocorrer, mas as partes devem estar assistidas de advogado ou defensor público. A gratuidade judiciária, mesmo em cartório, do procedimento, está garantida. Os emolumentos não estão empreendidos aqui. Este é a posição do STJ. Este procedimento em cartório somente pode ser utilizado se não existir INTERESSE de incapaz, que neste caso, deverá ser pela via judicial. CS - CIVIL IV 2018.1 100 Se esses interesses já foram atendidos judicialmente, através de um acordo já homologado, nada impede que agora se faça a separação em cartório. Aqui, no cartório, o acordo tem que ter 3 cláusulas obrigatórias: 1) A partilha de bens. (que não é obrigatório!!!); 2) A pensão alimentícia entre os cônjuges; 3) O direito de uso do nome de casado; Aqui, no cartório, não há intervenção do MP e nem homologação judicial. Isso está em consonância com a lei 11.441/07. O prazo de separação de fato pode ser comprovado por simples declaração das testemunhas, elas não precisam comparecer. Essa declaração escrita tem o mesmo valor que a declaração falada. No cartório, as partes podem ser representadas por Procurador, com poderes especiais, constituídos por Escritura Pública. Isso é indicado para pessoas que moram em Estados diferentes ou Países diferentes. A lei optou pela facultatividade do procedimento em cartório, ou seja, a parte pode sempre escolher se quer se separar ou se divorciar, consensualmente, por via judicial ou cartorial. Alexandre Câmara e o Professor entendem que não deve haver essa opção. Ou seja, não havendo interesse de menor envolvido, a separação ou o divórcio consensual devem ser feito no cartório. Há apenas um caso em que a separação ou o divórcio consensual deverão ser em juízo, mesmo que não haja interesse de menores, que é o caso de haver pensão entre os cônjuges, porque neste caso, se o título não for judicial, não se poderá impingir pena de prisão a quem descumprir essa obrigação (obrigação pessoal). No cartório, esse título será de cunho patrimonial, apenas. 10. GUARDA DE FILHOS Não se trata da guarda do ECA, mas sim da guarda decorrente do PODER FAMILIAR (antigo pátrio poder). A guarda, decorrência do poder familiar, traduz um conjunto de obrigações e direitos em face da criança ou adolescente, especialmente de assistência material e moral. A luz do princípio da isonomia não existe prevalência do pai ou da mãe para ter a guarda; A guarda deve ser conferida baseada no melhor interesse existencial da criança. Existem quatro espécies de guarda (quando da dissolução da sociedade conjugal ou união estável): 1) Guarda unilateral ou exclusiva: A guarda fica com apenas uma pessoa (pai ou mãe), cabendo ao outro o direito de visitas. Fim de semana alternado e metade das férias escolares. CS - CIVIL IV 2018.1 101 2) Guarda alternada: O pai e a mãe revezam períodos exclusivos de guarda, cabendo ao outro direito de visitas. Não confundir com a guarda compartilhada. 3) Nidação (aninhamento): Nesta modalidade de guarda, a criança permanece na mesma morada, alternando-se os pais em seu convívio. 4) Guarda compartilhada ou conjunta: Trata-se de uma manifestação primordial do princípio da isonomia, onde não existe exclusividade: a guarda é exercida bilateral e simultaneamente pelo pai e pela mãe, que se corresponsabilizam pela vida do seu filho. Waldyr Grisard Filho diz que essa modalidade tem a função de acabar com a cultura belicosa entre os pais. 11. DIVÓRCIO: IMPACTO DA EC/66 (AINDA POR PABLO STOLZE) 11.1. INTRODUÇÃO Depois do estudo completo do sistema anterior, passamos ao estudo da EC/66. CF Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. ... § 6º O casamento civil pode ser dissolvido pelo divórcio. (Redação dada Pela Emenda Constitucional nº 66, de 2010) Retomando: Segundo o Concílio de Trento, ocorrido no século XV, o matrimônio passaria a ser, por dogma da igreja católica, indissolúvel. No Brasil, desde a Constituição de 1934 até a de 1967, a indissolubilidade do matrimônio era norma constitucional. Somente em 1977, por meio da EC nº 9, a Constituição da época foi alterada para se permitir o divórcio no Brasil, que passaria a ser disciplinado pela famosa Lei 6.515 de 1977. OBS.: a lei 6.515/77, a despeito de consagrar o divórcio, não o facilitou, na medida em que, como regra geral, tratou-o como um desdobramento da separação judicial, e, foi somente a CF/88 que, no dispositivo regulador da separação e do divórcio, cuidaria de aprimorar o sistema por meio do divórcio direto. A partir da EC 66/2010, que, em seu objeto: baniu a separação judicial do direito brasileiro (MBD, Paulo Lobo, Rodrigo da Cunha Pereira) e suprimiu os prazos para o divórcio, revogando diversos artigos do Código Civil, inclusive o 1.580, não há mais sentido em se classificar o divórcio em direto e indireto (por conversão). Manter-se o sistema da separação judicial é afrontar o princípio da vedação ao retrocesso desenvolvido por Canotilho. Vale acrescentar, em reforço ao adequado entendimento dos limites desta emenda, que, da parte final da PEC original, fora suprimida a expressão “na forma da lei”, impedindo uma indevida atuação do legislador ordinário, especialmente no que tange à disciplina da separação judicial.CS - CIVIL IV 2018.1 102 Devo frisar haver desaparecido ainda o prazo de separação de fato de mais de dois anos para o divórcio direto, de forma que a (em geral alegórica) figura da “testemunha comprobatória do lapso” torna-se finalmente desnecessária, inclusive para escritura pública de divórcio administrativo. Em síntese, a partir da nova emenda, o divórcio passa a ser simplesmente um direito potestativo não subordinado a critérios temporais, passível de ser exercido em conjunto ou separadamente, pela via judicial ou administrativa. 11.2. EFEITOS DA EC 66/2010 1) O novo divórcio e a separação de corpos; 2) O novo divórcio e os alimentos; 3) O novo divórcio e o uso do nome; 4) O novo divórcio e a guarda de filhos (já na perspectiva do atual tema alienação parental); 5) O novo divórcio e o regime de bens; 6) Aspectos processuais do novo divórcio e o direito intertemporal. 11.3. EMENDA 66/2010 E SEPARAÇÃO DE CORPOS Vale lembrar que a separação de corpos é medida judicial que visa a suspender o dever de coabitação, determinando a saída de um dos cônjuges ou autorizando a saída do requerente. A partir da promulgação da emenda, não houve alteração na conjuntura jurídica que justificasse a supressão da separação de corpos em nosso sistema. OBS.: as medidas preventivas da lei Maria da Penha, pela mesma razão, também não foram atingidas pela emenda do divórcio. OBS: Conforme visto acima, o NCPC não previu a separação de corpos. 11.4. EMENDA 66/2010 E GUARDA DE FILHO A emenda do divórcio não alterou o sistema de guarda de filhos (artigos 1.583 e 1.584) que, no dizer de Perlingieri (Perfis de Direito Civil Constitucional), já tomava em conta o interesse existencial dos filhos, e não a culpa, para efeito de fixação da guarda. A guarda deve ser deferida observando-se as dimensões moral e psicológica de cada um dos pais, sem necessária vinculação com a culpa pelo fim do casamento, preferindo-se a modalidade de guarda compartilhada. 11.5. EMENDA 66/2010 E SÍNDROME DA ALIENAÇÃO PARENTAL A partir da promulgação da emenda, o divórcio torna-se mais facilitado no Brasil, exigindo- se redobrada atenção quanto à SAP. A expressão SAP deve-se a Richard Gardner, que publicou estudo sobre o tema em 1985: trata-se de um distúrbio da infância, que frequentemente aparece nas disputas de custódia, em que um dos pais interfere indevidamente na dimensão psíquica do filho para que repudie o outro. CS - CIVIL IV 2018.1 103 A Lei nº 12.318/10, regulamentou a matéria, estabelecendo sanções ao genitor alienador como advertência, multa, alteração da guarda, e até mesmo suspensão do poder familiar. 11.6. EMENDA DO DIVÓRCIO E USO DO NOME No sistema anterior, o uso do nome era regulado no artigo 1.578. A partir da EC 66/10, a regra natural é a perda do nome de casado a partir do divórcio, salvo estipulação em contrário no acordo (divórcio consensual) ou se o juiz, em respeito aos direitos da personalidade e ao direito constitucional à identidade vislumbrar qualquer das hipóteses do artigo 1.578. 11.7. EMENDA 66/2010 E ALIMENTOS Não há óbice em se cumular o pedido de divórcio com outros pedidos atinentes a efeitos colaterais do descasamento: alimentos, guarda de filhos, uso do nome e partilha de bens. O que o moderno direito de família sustenta, reforçado pela EC 66/10, é o banimento da discussão da CULPA nessa seara. Em via própria, outrossim, em sede de ação de responsabilidade civil, nada impede seja a culpa discutida. 11.8. EMENDA 66/2010 E REGIME DE BENS Para efeito de partilha, a culpa não é enfrentada, mas sim o regime de bens adotado pelo casal. Trata-se de uma posição que já existia no próprio direito anterior. Vale lembrar que, nos termos do artigo 1.581, a partilha de bens não é conditio sine qua non para o divórcio. 11.9. ASPECTOS PROCESSUAIS DA NOVA EMENDA Nos termos do art. 1.582, não alterado pela emenda 66, o pedido de divórcio somente competirá ao cônjuge, mas se for incapaz, ao seu curador, ascendente ou irmão. Art. 1.582. O pedido de divórcio somente competirá aos cônjuges. Parágrafo único. Se o cônjuge for incapaz para propor a ação ou defender- se, poderá fazê-lo o curador, o ascendente ou o irmão. No divórcio LITIGIOSO, a designação de audiência permanece necessária, mas em sendo o pedido conjunto e consensual, uma eventual audiência de tentativa de reconciliação ficará a cargo do juiz. ATENÇÃO! INFORMATIVO 558 DO STJ CS - CIVIL IV 2018.1 104 Em matéria de defesa, ressalvados efeitos colaterais (alimentos, guarda de filhos, partilha de bens), a resistência ao pedido de divórcio litigioso, em termos de mérito, é quase inexistente (nem o argumento do prazo da separação de fato existe mais). Qual é o estado civil das pessoas separadas judicialmente a partir da emenda do divórcio? Maria Berenice Dias sustenta que a partir da emenda, com o fim da separação, as pessoas separadas judicialmente estão automaticamente divorciadas. Discorda desta tese Paulo Lobo, para quem o pedido de divórcio é necessário, já sem a contagem de prazo. 12. USUFRUTO E ADMINISTRAÇÃO DOS BENS DOS FILHOS Art. 1.689. O pai e a mãe, enquanto no exercício do poder familiar: I - são usufrutuários dos bens dos filhos; II - têm a administração dos bens dos filhos menores sob sua autoridade. Art. 1.690. Compete aos pais, e na falta de um deles ao outro, com exclusividade, representar os filhos menores de dezesseis anos, bem como assisti-los até completarem a maioridade ou serem emancipados. Parágrafo único. Os pais devem decidir em comum as questões relativas aos filhos e a seus bens; havendo divergência, poderá qualquer deles recorrer ao juiz para a solução necessária. Art. 1.691. Não podem os pais alienar, ou gravar de ônus real os imóveis dos filhos, nem contrair, em nome deles, obrigações que ultrapassem os limites da simples administração, salvo por necessidade ou evidente interesse da prole, mediante prévia autorização do juiz. Parágrafo único. Podem pleitear a declaração de nulidade dos atos previstos neste artigo: CS - CIVIL IV 2018.1 105 I - os filhos; II - os herdeiros; III - o representante legal. Art. 1.692. Sempre que no exercício do poder familiar colidir o interesse dos pais com o do filho, a requerimento deste ou do Ministério Público o juiz lhe dará curador especial. Art. 1.693. Excluem-se do usufruto e da administração dos pais: I - os bens adquiridos pelo filho havido fora do casamento, antes do reconhecimento; II - os valores auferidos pelo filho maior de dezesseis anos, no exercício de atividade profissional e os bens com tais recursos adquiridos; III - os bens deixados ou doados ao filho, sob a condição de não serem usufruídos, ou administrados, pelos pais; IV - os bens que aos filhos couberem na herança, quando os pais forem excluídos da sucessão. V. UNIÃO ESTÁVEL 1. INTRODUÇÃO HISTÓRICA À UNIÃO ESTÁVEL O Direito Previdenciário foi o primeiro ramo do Direito brasileiro que, efetivamente se preocupou, ainda que em um âmbito restrito, com os direitos da concubina. O Direito Civil, de feição casamentária e conservadora, somente se voltaria a esta tutela por meio do direito obrigacional: a concubina teria ao menos direito à indenização por serviços domésticos prestados. O Direito, todavia, ainda no campo obrigacional, avançaria para deixar de tratar a concubina como mera prestadora de serviços, passando a encará-la como integrante de uma sociedade de fato. OBS: A Súmula 380 do STF traduz essa época: STF S. 380. COMPROVADA A EXISTÊNCIA DE SOCIEDADE DE FATO ENTRE OS CONCUBINOS, É CABÍVEL A SUA DISSSOLUÇÃO JUDICIAL, COM A PARTILHA DO PATRIMÔNIO ADQUIRIDO PELO ESFORÇOCOMUM. Essa ação de dissolução tramitava em vara cível ou comercial. Foi somente a partir da CF/88 que a União Estável passou a ter dignidade constitucional de família. CONCUBINATO passou a ser UNIÃO ESTÁVEL; CONCUBINOS passaram a ser COMPANHEIROS ou CONVIVENTES. Até então o tratamento dispensado à companheira era tipicamente obrigacional. Pouco tempo depois, duas importantes leis foram editadas regulamentando a União Estável (Lei 8.971/94 e Lei 9.278/96). Essas leis passaram a reconhecer, de forma pioneira no Brasil, direitos de família à União Estável, tais como alimentos, divisão patrimonial e herança. OBS: O STJ tem admitido o direito aos alimentos à companheira, mesmo ANTES da lei de 1994, com fundamento direto na CF. Atualmente, a União Estável é regulada pelo CC/2002, a partir do art. 1.723. CS - CIVIL IV 2018.1 106 2. CONCEITO Art. 1.723. É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família. Percebe-se que NÃO EXISTE TEMPO MÍNIMO PARA A CONFIGURAÇÃO DA UNIÃO ESTÁVEL. Além disso, não é exigida prole comum, nem coabitação (Súmula 382 do STF). STF Súmula 382 A VIDA EM COMUM SOB O MESMO TETO, "MORE UXORIO", NÃO É INDISPENSÁVEL À CARACTERIZAÇÃO DO CONCUBINATO. Não são elementos obrigatórios, mas obviamente, se reunidos, comprovam mais facilmente a existência da União Estável. São dois os elementos fundamentais para a configuração da União Estável (que não existem no namoro): 1) A estabilidade ou permanência; 2) Objetivo de constituição de família. É o elemento finalístico da União Estável. Na União estável os companheiros aparentam estar casados. IMPORTANTE! INFORMATIVO 557 STJ OBS: Vale lembrar que o fato de a parte ser casada não impede a configuração da União Estável, desde que esteja, pelo menos, separada de fato (§1º) Art. 1.723 § 1o A união estável não se constituirá se ocorrerem os impedimentos do art. 1.521 (impedimentos = nulo); não se aplicando a incidência do inciso VI (pessoas casadas) no caso de a pessoa casada se achar separada de fato ou judicialmente. § 2o As causas suspensivas do art. 1.523 NÃO impedirão a caracterização da união estável. Art. 1.523. Não devem casar: I - o viúvo ou a viúva que tiver filho do cônjuge falecido, enquanto não fizer inventário dos bens do casal e der partilha aos herdeiros; II - a viúva, ou a mulher cujo casamento se desfez por ser nulo ou ter sido anulado, até dez meses depois do começo da viuvez, ou da dissolução da sociedade conjugal; III - o divorciado, enquanto não houver sido homologada ou decidida a partilha dos bens do casal; IV - o tutor ou o curador e os seus descendentes, ascendentes, irmãos, cunhados ou sobrinhos, com a pessoa tutelada ou curatelada, enquanto não cessar a tutela ou curatela, e não estiverem saldadas as respectivas contas. CS - CIVIL IV 2018.1 107 3. DEVERES (OU EFEITOS) DECORRENTES DA UNIÃO ESTÁVEL (ART. 1.724) Art. 1.724. As relações pessoais entre os companheiros obedecerão aos deveres de lealdade, respeito e assistência, e de guarda, sustento e educação dos filhos. O descumprimento desses deveres pode gerar ação de dissolução de união estável. Quanto ao âmbito patrimonial, o CC/2002, em seu art. 1.725, inovou ao dispor que, salvo contrato escrito em contrário, aplica-se à União Estável o regime de comunhão parcial de bens. Art. 1.725. Na união estável, salvo contrato escrito entre os companheiros, aplica-se às relações patrimoniais, no que couber, o regime da comunhão parcial de bens. Esse contrato é denominado “contrato de convivência”. Vale lembrar que esse contrato não cria a União Estável; somente reconhece-a. Não confundir ‘contrato de convivência’ com o ‘contrato de namoro’. Esse último tem por escopo a declaração formal da instabilidade do relacionamento (namoro), tentando evitar, assim, o regramento da União Estável. Entretanto, vale lembrar que a União Estável é um fato da vida, não podendo, portanto, ter regramento afastado por um contrato. Art. 1.726. A união estável poderá converter-se em casamento, mediante pedido dos companheiros ao juiz e assento no Registro Civil. OBS1: O que é união estável PUTATIVA? Trata-se da situação em que, com base na Teoria da Aparência, são preservados os efeitos jurídicos em favor de um ou ambos os companheiros que houverem atuado de boa-fé. No REsp. 789.293/RJ o STJ não acatou a tese da união estável putativa. OBS2: É possível uniões estáveis PARALELAS? UNIÕES ESTÁVEIS PARALELAS. A Turma, ao prosseguir o julgamento, deu provimento ao recurso especial e estabeleceu ser impossível, de acordo com o ordenamento jurídico pátrio, conferir proteção jurídica a uniões estáveis paralelas. Segundo o Min. Relator, o art. 226 da CF/1988, ao enumerar as diversas formas de entidade familiar, traça um rol exemplificativo, adotando uma pluralidade meramente qualitativa, e não quantitativa, deixando a cargo do legislador ordinário a disciplina conceitual de cada instituto – a da união estável encontra-se nos arts. 1.723 e 1.727 do CC/2002. Nesse contexto, asseverou que o requisito da exclusividade de relacionamento sólido é condição de existência jurídica da união estável nos termos da parte final do § 1º do art. 1.723 do mesmo código. CONSIGNOU QUE O MAIOR ÓBICE AO RECONHECIMENTO DESSE INSTITUTO NÃO É A EXISTÊNCIA DE MATRIMÔNIO, MAS A CONCOMITÂNCIA DE OUTRA RELAÇÃO AFETIVA FÁTICA DURADOURA (CONVIVÊNCIA DE FATO) – até porque, havendo separação de fato, nem mesmo o casamento constituiria impedimento à caracterização da união estável –, daí a inviabilidade de declarar o referido paralelismo. Precedentes citados: REsp 789.293-RJ, DJ 20/3/2006, e REsp 1.157.273-RN, DJe 7/6/2010. REsp 912.926-RS, Rel. CS - CIVIL IV 2018.1 108 Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 22/2/2011. (Informativo 464 – 4ª Turma) 4. AÇÃO DECLARATÓRIA DE RECONHECIMENTO E DE DISSOLUÇÃO DA UNIÃO ESTÁVEL 4.1. NOÇÕES GERAIS A AÇÃO DECLARATÓRIA DE UNIÃO ESTÁVEL pode visar tanto a mera declaração da união havida, como também conter pretensões cumuladas, como partilha de bens ou efeitos de família. Importante dizer que o Superior Tribunal de Justiça já entendeu existir o legítimo interesse do companheiro em promover a ação declaratória da união estável, com fundamento no antigo art. 4º do Código de Processo Civil, independentemente da existência de bens a partilhar. Por outro lado, com o rompimento da vida em comum e, quando não realizada a divisão patrimonial de forma amigável, com acerto financeiro entre as partes, deverá ser feito o pedido de meação sobre os bens adquiridos durante a convivência. Com efeito, nestas situações, a ação declaratória de reconhecimento e dissolução da união estável será cumulada com o pedido de meação sobre os bens adquiridos durante a convivência. 4.2. AÇÃO DECLARATÓRIA DE RECONHECIMENTO E DISSOLUÇÃO DA UNIÃO ESTÁVEL E DIREITO DE HERANÇA O art. 1.790 do Código Civil, de 2002, modificou significativamente a posição sucessória do companheiro, passando este a ter direitos concorrentes com os herdeiros sucessíveis (descendentes, ascendentes e colaterais), tão somente no que se refere aos bens adquiridos durante a união estável. Art. 1.790. A companheira ou o companheiro participará da sucessão do outro, quanto aos bens adquiridos onerosamente na vigência da união estável, nas condições seguintes: I - se concorrer com filhos comuns, terá direito a uma quota equivalente à que por lei for atribuída ao filho; II - se concorrer com descendentes só do autor da herança, tocar-lhe-á ametade do que couber a cada um daqueles; III - se concorrer com outros parentes sucessíveis, terá direito a um terço da herança; IV - não havendo parentes sucessíveis, terá direito à totalidade da herança. O reconhecimento da união estável e os direitos sucessórios decorrentes poderão ser efetivados, sob o aspecto processual, de duas formas: 1) Pedido de partilha subsequente ao reconhecimento da união estável e declaração da qualidade de herdeiro; 2) Diretamente no processo de inventário, mediante pedido de habilitação do companheiro sobrevivente. 4.3. AÇÃO DECLARATÓRIA DE RECONHECIMENTO E DISSOLUÇÃO DA UNIÃO ESTÁVEL E ALIMENTOS CS - CIVIL IV 2018.1 109 Desde a vigência das Leis 8.971/94 e 9.278/96 já estava estabelecida a obrigação alimentar na união estável. O Código Civil, nos artigos 1.694 e 1.724, manteve a obrigação alimentar entre os companheiros, impondo-os o dever de assistência em caso de necessidade, mesmo quando tenha havido culpa na dissolução, hipótese em que serão destinados os alimentos necessários à subsistência do infrator, condicionada referida obrigação ao não estabelecimento de nova união. No âmbito processual, o direito de alimentos do companheiro poderá ser instrumentalizado de diferentes formas, dependendo da existência ou não da prova pré-existente da obrigação alimentar. CC Art. 1.694. Podem os parentes, os cônjuges ou COMPANHEIROS pedir uns aos outros os alimentos de que necessitem para viver de modo compatível com a sua condição social, inclusive para atender às necessidades de sua educação. Art. 1.724. As relações pessoais entre os COMPANHEIROS obedecerão aos deveres de lealdade, respeito e assistência, e de guarda, sustento e educação dos filhos. 4.3.1. Situação 1: Inexiste o reconhecimento prévio do dever de assistência Em relação à situação em que inexiste o reconhecimento prévio do dever de assistência, quando deverá ser adotado o procedimento ordinário em prejuízo ao procedimento especial previsto na Lei de alimentos, o qual exige a prova pré-constituída da obrigação alimentar (art. 2º da Lei 5.478/68). Art. 2º. O credor, pessoalmente, ou por intermédio de advogado, dirigir-se-á ao juiz competente, qualificando-se, e exporá suas necessidades, PROVANDO, APENAS, o parentesco ou a OBRIGAÇÃO DE ALIMENTAR do devedor, indicando seu nome e sobrenome, residência ou local de trabalho, profissão e naturalidade, quanto ganha aproximadamente ou os recursos de que dispõe. Neste caso, a primeira faculdade processual dada ao companheiro necessitado é a de ingressar com a ação declaratória de reconhecimento e de dissolução da união estável cumulada com a ação de alimentos. 4.3.2. Prova pré-constituída da relação de convivência Por outro lado, se já houver prova pré-constituída da relação de convivência, tal como um contrato de União Estável, será possível ao convivente ajuizar a ação e alimentos pelo rito especial estabelecido na lei própria. 4.4. LEGITIMIDADE PARA A AÇÃO DE RECONHECIMENTO DE UNIÃO ESTÁVEL 4.4.1. Ativa Terão legitimidade para figurar no polo ativo e no polo passivo de uma ação de reconhecimento e dissolução da união estável cumulada com outro pedido, ou não, todos aqueles CS - CIVIL IV 2018.1 110 que possuírem legítimo interesse, em função de terem a sua esfera jurídica atingida pelos efeitos da ação. Ainda, no que concerne à legitimidade ativa da ação de dissolução e reconhecimento da união estável, confere-se ao herdeiro, nos termos do art. 1.791 do Código Civil, poderes para, sozinho, ajuizar demanda visando a defesa da herança até a efetivação da partilha. Ademais, o parágrafo único do art. 1.791 do Código Civil estabelece que até a partilha, o direito dos coerdeiros, quanto à propriedade e posse da herança, será indivisível, e regular-se-á pelas normas relativas ao condomínio. Para tanto, não é do espólio a legitimidade ativa para ingressar com a ação de reconhecimento e dissolução da união estável, conclusão que se justifica, ainda mais, pela possibilidade de existir interesses contrários entre os herdeiros. 4.4.2. Legitimidade passiva Em princípio, terá legitimidade passiva na ação declaratória de reconhecimento e dissolução da união estável o companheiro ou companheira. Na hipótese de seu falecimento, apesar da acirrada discussão doutrinária e jurisprudencial, prevaleceu que a ação de reconhecimento da união estável post mortem deve ser proposta contra os herdeiros do falecido e não contra seu espólio, pois o interesse na preservação da herança é de todos os sucessores habilitados. Com efeito, os herdeiros possuem legitimidade para figurar no polo passivo das ações de reconhecimento e dissolução da união estável, aplicando-se, o já citado art. 1.791 do Código Civil de 2002 e seu parágrafo único. Art. 1.791. A herança defere-se como um todo unitário, ainda que vários sejam os herdeiros. Parágrafo único. Até a partilha, o direito dos coerdeiros, quanto à propriedade e posse da herança, será indivisível, e regular-se-á pelas normas relativas ao condomínio. 5. DIREITOS DA (O) CONCUBINA (O) – DIREITOS DOS AMANTES 5.1. PREVISÃO LEGAL E ENTENDIMENTOS O único dispositivo que faz menção ao assunto é art. 1.727: Art. 1.727. As relações não eventuais entre o homem e a mulher, impedidos de casar, constituem concubinato. Primeiramente coloco a visão majoritária em nossos Tribunais Superiores acerca do concubinato. A seguir, destaco uma visão crítica desses entendimentos, como, por exemplo, o reconhecimento da “TRIAÇÃO”. Conforme o entendimento majoritário na jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça e Supremo Tribunal Federal as relações paralelas constituídas com pessoas casadas, não separadas de fato, ou que já tenham constituída União Estável, não constituem família, mas uma mera sociedade de fato. Destaque-se, ainda, que conforme a doutrina de TARTUCE, também constitui concubinato se houver impedimento matrimonial decorrente de parentesco ou crime. CS - CIVIL IV 2018.1 111 Nesses casos de uniões paralelas, tem-se aplicado Súmula 380 do STF, a qual, consagra o direito do concubino à participação patrimonial em relação aos bens adquiridos pelo esforço comum. STF SÚMULA 380 COMPROVADA A EXISTÊNCIA DE SOCIEDADE DE FATO ENTRE OS CONCUBINOS, É CABÍVEL A SUA DISSSOLUÇÃO JUDICIAL, COM A PARTILHA DO PATRIMÔNIO ADQUIRIDO PELO ESFORÇO COMUM. Citando, ainda, a doutrina de Flávio Tartuce, destaca-se que a jurisprudência também TINHA o costume de indenizar a concubina pelos serviços domésticos prestados. Porém, a tendência é afastar tal direito. Ademais, destaca Tartuce, a concubina não tem direito à meação patrimonial, não tem direito a alimentos, nem direitos sucessórios. Os STF e STJ também têm negado direitos previdenciários aos concubinos. A ação cabível à concubina, conforme o entendimento que prevalece na jurisprudência, é a de RECONHECIMENTO DE DISSOLUÇÃO DE SOCIEDADE DE FATO, que corre na VARA CÍVEL. A fidelidade é um valor jurídico que deve ser protegido. Entretanto, a luz do princípio da intervenção mínima, não pode o Estado impor sanções à decisão de flexibilização tomada pelo casal. A famosa teoria do POLIAMORISMO traduzida na jurisprudência pela figura do concubinato consentido dá-nos a exata dimensão do que se disse. O cônjuge consente que o consorte tenha outro relacionamento. Já decidiu o TJ/RS pela divisão do patrimônio. Em linha de princípio não há direito das amantes, mormente em virtude das relações passageiras. O problema está quando a relação se prolonga no tempo. O STJ, como dito, tinha o entendimento no sentido de que a concubina de homem casado, demonstradaa contribuição direta ou indireta para a formação de patrimônio teria, pelo menos, direito à indenização por serviços prestados (REsp. 303.604 de 2003). Hoje, como visto acima, não lhe é mais concedido esse direito. Vislumbra-se que, se a concubina demonstra que colaborou na formação do patrimônio, pode-se conferir-lhe direito à parte do patrimônio (sociedade de fato). OBS: Em uma linha mais avançada, seguindo pensamento de autores como Maria Berenice Dias, tem se defendido a excepcional aplicação do direito de família, guardadas as suas justas proporções a luz do caso concreto. Em uma banca mais conservadora, chegar somente até a posição do STJ. 5.2. É POSSÍVEL A EXISTÊNCIA DE DUAS FAMÍLIAS SIMULTÂNEAS (FAMÍLIAS PARALELAS)? O art. 1.727 do CC dispõe que não. Como vimos acima, pela jurisprudência dos tribunais superiores, também não. Art. 1.727. As relações não eventuais entre o homem e a mulher, impedidos de casar, constituem concubinato. O concubinato é uma relação meramente obrigacional. É considerado uma mera sociedade de fato. Concubinato exige um caráter não eventual da relação extraconjugal. CS - CIVIL IV 2018.1 112 OBS: se já há separação de fato, não se trata de concubinato, mas sim união estável. Sobre a questão cite-se julgado do STJ, que desacolhe o reconhecimento da união estável paralela, julgando incabível a também a equiparação ao casamento putativo, senão vejamos: UNIÃO ESTÁVEL. RECONHECIMENTO DE DUAS UNIÕES CONCOMITANTES. EQUIPARAÇÃO AO CASAMENTO PUTATIVO. LEI Nº 9.728/96. 1. Mantendo o autor da herança união estável com uma mulher, o posterior relacionamento com outra, sem que se haja desvinculado da primeira, com quem continuou a viver como se fossem marido e mulher, não há como configurar união estável concomitante, incabível a equiparação ao casamento putativo. 2. Recurso especial conhecido e provido. REsp 789293 / RJ 5.3. CONCLUSÕES JURISPRUDENCIAIS E DOUTRINÁRIAS 1) A amante não pode pedir alimentos, pois isso decorre de relação familiar. Ela poderia pedir indenização por serviços domésticos e sexuais prestados (o que não tem sido aceito ultimamente). A jurisprudência recomenda que o juiz (que não é o de família) fixe indenização na forma de prestação periódica. 2) STF e STJ dizem mais (posição anticoncubinária): não tem direito a benefícios previdenciários, nem indenização por serviços prestados. 3) Súmula 380 do STF. MP não intervém, pois não há interesse indisponível. STF SÚMULA 380 COMPROVADA A EXISTÊNCIA DE SOCIEDADE DE FATO ENTRE OS CONCUBINOS, É CABÍVEL A SUA DISSSOLUÇÃO JUDICIAL, COM A PARTILHA DO PATRIMÔNIO ADQUIRIDO PELO ESFORÇO COMUM. 4) O §1º do art. 1.723 do CC prevê que quando a pessoa, embora casada, se encontra separada de fato, afasta-se o concubinato e reconhece-se a União Estável. Art. 1.723. É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família. § 1o A união estável não se constituirá se ocorrerem os impedimentos do art. 1.521; não se aplicando a incidência do inciso VI (impedimento de pessoas casadas) no caso de a pessoa casada se achar separada de fato ou judicialmente. Contradição com o art. 1.642, V, que prevê que é mantida a comunhão de bens por 05 anos desde a separação de fato. Art. 1.642. Qualquer que seja o regime de bens, tanto o marido quanto a mulher podem livremente: V - reivindicar os bens comuns, móveis ou imóveis, doados ou transferidos pelo outro cônjuge ao concubino, desde que provado que os bens não foram adquiridos pelo esforço comum destes, se o casal estiver SEPARADO DE FATO POR MAIS DE CINCO ANOS; CS - CIVIL IV 2018.1 113 STJ: A comunhão de bens, bem como o direito à herança, cessa com a simples separação de fato, independentemente de prazo. Aplicação da ética na relação familiar. Lembrar que o art. 1.830 diz que o direito à herança do cônjuge sobrevivente só é afastado se já estavam separados de fato por mais de 02 anos. Art. 1.830. Somente é reconhecido direito sucessório ao cônjuge sobrevivente se, ao tempo da morte do outro, não estavam separados judicialmente, nem separados de fato há mais de dois anos, salvo prova, neste caso, de que essa convivência se tornara impossível sem culpa do sobrevivente. 5) Maria Berenice Dias defende que o concubinato é entidade familiar, merecendo, portanto, proteção (posição minoritária). 6) Cristiano Chaves, entre outros, defende que embora o concubinato não tenha amparo legal, a união estável putativa pode ter. É o concubinato de boa-fé. A amante não sabe que é amante. Nesse caso, se devem garantir direitos à amante. Essa união estável putativa pode-se basear também na boa-fé objetiva. Nesse caso, é possível falar em paralelismo (“família paralela”), em concubinato como entidade familiar (ou ainda: uniões estáveis – uma união e outra união putativa). Seria um meio termo entre a legislação e a posição da pobre MBD. É uma posição doutrinária não acolhida pela jurisprudência, que aplica a regra da exclusividade da família. 5.4. VEDAÇÕES AO CONCUBINATO 1) Doação ao concubino, sob a pena de anulabilidade, Art. 550 do CC. Art. 550. A doação do cônjuge adúltero ao seu cúmplice pode ser anulada pelo outro cônjuge, ou por seus herdeiros necessários, até dois anos depois de dissolvida a sociedade conjugal. 2) Proibição de seguro de vida ao concubino. Art. 793 do CC. Art. 793. É válida a instituição do companheiro como beneficiário, se ao tempo do contrato o segurado era separado judicialmente, ou já se encontrava separado de fato. 3) Proibição de herança ou legado ao concubino, sob pena de nulidade. Art. 1.801. Art. 1.801. Não podem ser nomeados herdeiros nem legatários: .... III - o concubino do testador casado, salvo se este, sem culpa sua, estiver separado de fato do cônjuge há mais de cinco anos; 5.5. “CONCUBINATO PURO” E “CONCUBINATO IMPURO” CONCUBINATO “LATO SENSU” CONCUBINATO PURO CONCUBINATO IMPURO União estável (entidade familiar) Sociedade de fato (súmula 380 STF) Pessoa solteira, viúva, divorciada, separada Impedimentos: CS - CIVIL IV 2018.1 114 de fato. -Pessoa casada não separada (“concubinato adulterino”). -Impedimento de parentesco. -Impedimento de crime. Vara de Família Vara Cível VI. PARENTESCO 1. CONCEITO Segundo o professor Caio Mário, o parentesco é a mais importante e constante relação humana. Na vereda do pensamento de Maria Helena Diniz, trata-se da relação vinculatória entre pessoas que descendem umas das outras ou, de um mesmo tronco comum (consanguíneo), bem como o vínculo existente entre um cônjuge ou companheiro e os parentes do outro (afinidade). Além disso, o parentesco poderá ainda ser civil: é aquele derivado da afetividade, como se dá na adoção e na reprodução humana assistida. MBD afirma que parentesco e família não se confundem. As relações de parentesco decorrem de vínculos de consanguinidade e de afinidade. Além disso, cônjuges e companheiros não são parentes. A identificação dos vínculos de parentesco tem reflexos nos impedimentos matrimoniais, na obrigação alimentar e no direito sucessório. 2. PARENTESCO CONSANGUÍNEO (OU NATURAL) É a relação que vincula pessoas que derivam de um mesmo tronco comum (arts. 1.591 e 1.592). Art. 1.591. São parentes em linha reta as pessoas que estão umas para com as outras na relação de ascendentes e descendentes. Art. 1.592. São parentes em linha colateral ou transversal, até o quarto grau, as pessoas provenientes de um só tronco, sem descenderem uma daoutra. Tanto pode ser na linha reta, quanto na linha colateral. Lembrando que na linha reta o parentesco é ad infinitum. Já na linha colateral o parentesco consanguíneo limita-se ao quarto grau (primos, sobrinho-neto e tio-avô). Com relação aos irmãos, MDB enfatiza a inconstitucionalidade da distinção por estirpe, que diferencia entre irmãos germanos e irmãos unilaterais. Salienta que não faz sentido assegurar direitos sucessórios diferenciados (CC, art. 1841), quando a obrigação alimentar entre todos os irmãos é a mesma (CC, art. 1697). Art. 1.841. Concorrendo à herança do falecido irmãos bilaterais com irmãos unilaterais, cada um destes herdará metade do que cada um daqueles herdar. CS - CIVIL IV 2018.1 115 Art. 1.697. Na falta dos ascendentes cabe a obrigação aos descendentes, guardada a ordem de sucessão e, faltando estes, aos irmãos, assim germanos como unilaterais. No que se refere à obrigação alimentar, MBD afirma que, a despeito da enumeração do art. 1697 do CC, a obrigação de prestar alimentos se estende entre todos os parentes colaterais, e não apenas aos irmãos, já que os direitos sucessórios os alcançam (CC, art. 1829). Art. 1.829. A sucessão legítima defere-se na ordem seguinte: I - aos descendentes, em concorrência com o cônjuge sobrevivente, salvo se casado este com o falecido no regime da comunhão universal, ou no da separação obrigatória de bens (art. 1.640, parágrafo único); ou se, no regime da comunhão parcial, o autor da herança não houver deixado bens particulares; II - aos ascendentes, em concorrência com o cônjuge; III - ao cônjuge sobrevivente; IV - aos colaterais. 2.1. PARENTESCO POR AFINIDADE Já o parentesco por afinidade, que também pode ser na linha reta ou colateral, é aquele travado entre um cônjuge ou companheiro e os parentes do outro. Entre os cônjuges não há parentesco, há casamento. O vínculo não é parental; é CASAMENTÁRIO. O parentesco por AFINIDADE na linha reta também é ad infinitum. Já na linha colateral, limita-se ao cunhadio (2º grau). Com a sogra o sujeito jamais pode casar; mas com a cunhada pode. MBD sustenta que se o parentesco por afinidade na linha reta se mantém mesmo após o fim do casamento ou da união estável, deve ser mantido o dever de alimentar, subsidiário e complementar, entre ex-sogro/ex-sogra e ex-genro/ex-nora. Isso seria decorrência da solidariedade familiar. A responsabilidade alimentar, pelo mesmo motivo, também se manteria entre padrasto e enteado. Lembrando que, JURIDICAMENTE, não existe relação de parentesco entre parentes por afinidade (concunhado não é parente). Berenice Dias sustenta que o vínculo de afinidade também se estabelece com relação aos filhos de um dos cônjuges ou companheiros. Reconhece-se a filiação socioafetiva. 2.2. DISTINÇÕES ENTRE PARENTESCO NA LINHA RETA, COLATERAL E POR AFINIDADE Parentes em linha reta: descendem um dos outros e o grau é ilimitado. Os vínculos são perpétuos (inclusive na afinidade). O grau de parentesco na linha reta é contado pelo número de gerações. Parentes em linha colateral: têm somente um ascendente comum e é limitado ao quarto grau na consanguinidade e ao segundo grau na afinidade. O parentesco na linha colateral nunca se dissolve. Contudo, na afinidade, findo o relacionamento, o parentesco termina (lembrando que o impedimento na linha reta – sogra – continua, embora MBD defenda que o parentesco se mantém). O grau de parentesco entre colaterais é contado também pelo número de gerações, CS - CIVIL IV 2018.1 116 “mas é necessário subir até o ascendente comum e depois descer até o outro parente para se identificar o grau de parentesco (CC 1.594)”. VII. FILIAÇÃO (PARTE I) 1. CONCEITO A filiação pode ser conceituada como sendo a relação jurídica decorrente do parentesco por consanguinidade ou outra origem, estabelecida particularmente entre os ascendentes e descendentes de primeiro grau. O dispositivo inaugural quanto ao tema, o art. 1.596 do CC, consagrando o princípio da igualdade entre os filhos, repete o que consta no art. 227, §6º da CF (visto abaixo). CC Art. 1.596. Os filhos, havidos ou não da relação de casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação. 2. PRINCÍPIO DA ISONOMIA Princípio da isonomia: Todos os filhos têm direitos iguais (CF/88). Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, CS - CIVIL IV 2018.1 117 além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. § 6º - Os filhos, havidos ou não da relação do casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação. *O reconhecimento dos filhos pode ser voluntário ou judicial (forçado). *O critério de filiação pode ser legal, biológico ou socioafetivo. Vejamos: 3. RECONHECIMENTO DE FILHOS 3.1. INTRODUÇÃO O art. 1.597 (pater is est, será visto abaixo) firma a presunção relativa de filiação para a prole havida no casamento. O reconhecimento de filhos no direito brasileiro se submete a dois critérios. 1) Reconhecimento voluntário: é o que ocorre por ato espontâneo do pai e/ou da mãe. 2) Reconhecimento forçado: se dá através de ação filiatória (ação de investigação de paternidade). 3.2. FORMAS DE RECONHECIMENTO VOLUNTÁRIO DE FILHO (CC, ART. 1.609). PERFILHAÇÃO. 3.2.1. Regras É ato espontâneo do pai e/ou da mãe, tendo em vista que pode ser feito em conjunto ou separadamente. Art. 1.609. O reconhecimento dos filhos havidos FORA DO CASAMENTO (porque no casamento temos o critério da presunção legal) é irrevogável e será feito: I - no registro do nascimento; Mediante declaração de nascido vivo. II - por escritura pública ou escrito particular, a ser arquivado em cartório; Cartório de registro civil. III - por testamento, ainda que incidentalmente manifestado; Mesmo revogando o testamento, o reconhecimento não é revogado. Em que pese a revogabilidade do testamento, é irrevogável a cláusula deste que reconhece o filho. IV - por manifestação direta e expressa perante o juiz, ainda que o reconhecimento não haja sido o objeto único e principal do ato que o contém. CS - CIVIL IV 2018.1 118 No curso de qualquer audiência. No curso de qualquer audiência, ainda que o tema do processo não seja a paternidade, e mesmo que declarada por acidente pelo pai. Parágrafo único. O reconhecimento pode preceder o nascimento do filho ou ser posterior ao seu falecimento, se ele deixar descendentes. Duas regras: 1) Pode o nascituro ser reconhecido; 2) Pode o filho morto ser reconhecido, mas somente se deixar descendentes (para evitar interesses patrimoniais), os ascendentes não herdam, de modo que inibirá o pai de reconhecer o filho apenas para ser herdeiro. Tais regras são previstas também no art. 26 do ECA ECA Art. 26 Parágrafo único. O reconhecimento pode preceder o nascimento do filho ou suceder-lhe ao falecimento, se deixar descendentes. Todavia, o reconhecimento póstumo do filho encontra limite, qual seja, o reconhecimento do filho morto só é possível se ele deixou descendentes. Isto porque poderia o pai que nunca considerou o filho, reconhecê-lo apenas para virar sucessor deste, ou seja, usar a facultatividade do reconhecimento comouma conduta de torpeza, buscando auferir vantagem patrimonial indevida. Mas tendo o filho a ser reconhecido deixado descendentes, os ascendentes não herdam, de modo que inibirá o pai de reconhecer o filho apenas para ser herdeiro. Por isso, nessa hipótese, é permitido o reconhecimento póstumo. OBS: na época em que vigia a classificação entre filhos legítimos e ilegítimos, era proibido o reconhecimento de filhos na ata de casamento, pois esse filho já seria reconhecido como ilegítimo. Hoje, pela igualdade constitucional entre os filhos, foi revogada essa proibição, podendo haver tal reconhecimento. 3.2.2. Natureza jurídica do ato de reconhecimento de filhos A natureza jurídica desse ato é de confissão, se enquadrando como ato jurídico em sentido estrito (com efeitos pré-determinados por lei), sendo por isso IRREVOGÁVEL e IRRETRATÁVEL. Apesar da irrevogabilidade e irretratabilidade do ato de reconhecimento, é possível sua anulação, por meio de medida judicial que o desconstitua. 3.2.3. Unilateralidade e bilateralidade do reconhecimento de filho Art. 1.614. O filho maior não pode ser reconhecido sem o seu consentimento, e o menor pode impugnar o reconhecimento, nos quatro anos que se seguirem à maioridade, ou à emancipação. 1) Filho menor – ato unilateral do genitor: Em se tratando de filho menor de idade, o reconhecimento será unilateral, vale dizer, depende somente da vontade do pai. 2) Filho maior – ato bilateral – necessidade de consentimento do filho: Em se tratando, porém, de filho maior e capaz, o reconhecimento será bilateral, e depende de anuência do CS - CIVIL IV 2018.1 119 reconhecido. Aqui, mais uma vez, busca-se evitar o comportamento torpe do pai, que busca reconhecer o filho já maior de idade, o qual ele nunca considerou, apenas no intuito de auferir vantagem econômica, como pleitear alimentos. 3.2.4. Características do reconhecimento voluntário de filho Ato solene, espontâneo, irrevogável, incondicional, personalíssimo (ninguém pode reconhecer meu filho por mim). OBS: Admite-se o reconhecimento por procurador com poderes especiais (art. 59 da Lei de Registros Públicos). LRP Art. 59. Quando se tratar de filho ilegítimo, não será declarado o nome do pai sem que este expressamente o autorize e compareça, por si ou por procurador especial, para, reconhecendo-o, assinar, ou não sabendo ou não podendo, mandar assinar a seu rogo o respectivo assento com duas testemunhas. A doutrina, em geral, entende que o menor RELATIVAMENTE incapaz pode reconhecer um filho sem ser assistido. Conforme Marcos Bernardes de Melo, não se trata de celebração de negócio jurídico, por isso a assistência é desnecessária. Agora, no caso de menor ABSOLUTAMENTE incapaz, por cautela, deve haver um procedimento para registro junto ao juiz, com intervenção do Ministério Público (Maria Berenice Dias). OBS: O procedimento de registro pode observar ainda a Lei 9.560/92. CC Art. 1.614. O filho maior não pode ser reconhecido sem o seu consentimento, e o menor pode impugnar o reconhecimento, nos quatro anos que se seguirem à maioridade, ou à emancipação. Há até quem critique esse prazo, pois seria um obstáculo à busca da verdade real. 3.2.5. Impugnação do reconhecimento de paternidade pelo filho O CC, no art. 1.614, permite que o filho menor impugne a paternidade que lhe foi reconhecida, desde que tal medida seja adota em até 04 anos após atingir a MAIORIDADE ou ser EMANCIPADO. Este direito é potestativo e se sujeita ao prazo decadencial de 04 anos, contados, como já dito, da maioridade ou da emancipação do filho. Art. 1.614. O filho maior não pode ser reconhecido sem o seu consentimento, e o menor pode impugnar o reconhecimento, nos quatro anos que se seguirem à maioridade, ou à emancipação. 3.2.6. Ação negatória de paternidade x Ação de impugnação de paternidade Ação NEGATÓRIA de Paternidade Ação IMPUGNATÓRIA de Paternidade LEGITIMIDADE Pai e herdeiros. Somente o filho. PRAZO Imprescritível Decadencial de 04 anos FUNDAMENTO Depende de causa de pedir É imotivada, ou seja, basta o CS - CIVIL IV 2018.1 120 expressa. pedido do filho. DISPOSITIVO CC 1.601. Art. 1.601. Cabe ao marido o direito de contestar a paternidade dos filhos nascidos de sua mulher, sendo tal ação imprescritível. Parágrafo único. Contestada a filiação, os herdeiros do impugnante têm direito de prosseguir na ação. CC. Art. 1.614. O filho maior não pode ser reconhecido sem o seu consentimento, e o menor pode impugnar o reconhecimento, nos quatro anos que se seguirem à maioridade, ou à emancipação. 3.3. RECONHECIMENTO JUDICIAL DOS FILHOS É o que se dá por meio da ação filiatória. Essa ação é a famosa AÇÃO INVESTIGATÓRIA DE PATERNIDADE. OBS: Chaves sustenta não ser o nome investigação de paternidade o mais adequado, pois é possível investigar outras relações de parentesco, tais como o vínculo de maternidade ou a relação parental avoenga, de modo que o nome mais adequado seria AÇÃO INVESTIGATÓRIA DE PARENTALIDADE. 3.3.1. Ação investigatória de paternidade 1) Competência Sobre a competência para ação investigatória de paternidade, muito importante atentar-se para a Súmula n. 01 do STJ. Nos termos da Súmula 01 do STJ, a ação de paternidade cumulada com alimentos a competência é do foro do DOMICÍLIO DO AUTOR. STJ SÚMULA Nº 1. O foro do domicílio ou da residência do alimentando é o competente para a ação de investigação de paternidade, quando cumulada com a de alimentos. Fazendo-se a leitura a contrário senso da súmula em análise, tem-se que a investigatória de paternidade NÃO cumulada com alimentos segue a regra geral de foro do art. 43 do NCPC, ou seja, o foro competente será do domicílio do réu. Art. 46. A ação fundada em direito pessoal ou em direito real sobre bens móveis será proposta, em regra, no foro de domicílio do réu. Todavia, tanto em um como em outro caso, temos hipótese de competência relativa, que, como é sabido, não pode ser conhecida de ofício pelo magistrado, nos termos da Súmula 33 do STJ: STJ S.33. A incompetência relativa NÃO pode ser declarada de ofício. OBS: Posição de Nelson Nery: sustenta que toda ação de paternidade, em razão do art. 7º, traz consigo implicitamente pedido de alimento. CS - CIVIL IV 2018.1 121 Lei 8560/92 (investigação de paternidade - LIP) Art. 7° Sempre que na sentença de primeiro grau se reconhecer a paternidade, nela se fixarão os ALIMENTOS provisionais ou definitivos do reconhecido que deles necessite. Com base no entendimento de Nelson Nery, Chaves considera que, na verdade, a competência para julgar a ação investigatória SEMPRE será do domicílio do autor. Todavia, este entendimento é controvertido, de regra, adota-se o entendimento da Súmula 01 do STJ. 2) Cumulabilidade de pedidos O sistema processual brasileiro permite a cumulação de pedidos em um mesmo processo. Do mesmo modo, na investigação de paternidade pode haver essa cumulação de pedido. Quando se fala em cumulação de pedidos na ação investigatória, logo se pensa em alimentos. Todavia, outras hipóteses existem, tais como o pedido de petição de herança ou a indenização por danos morais afetivos. OBS: quando houver cumulação de pedidos na investigação, sua imprescritibilidade não alcançará os demais pedidos cumulados, nos termos da súmula 149 do STF: STF Súmula nº 149. É IMPRESCRITÍVEL A AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE, MAS NÃO O É A DE PETIÇÃO DE HERANÇA. OBS: A petição de herança prescreve em 10 anos e ação indenizatória em 03 anos. 3) Termo inicial dos alimentos na ação investigatória de paternidadeO STJ editou a súmula 277, pacificando a matéria, dizendo que os alimentos na ação investigatória serão devidos desde a citação. STJ S. nº 277. Julgada procedente a investigação de paternidade, os alimentos são devidos a partir da CITAÇÃO. Essa sumula 277 do STJ está conectada com o art. 13 da Lei de Alimentos: Art. 13 O disposto nesta lei aplica-se igualmente, no que couber, às ações ordinárias de desquite, nulidade e anulação de casamento, à revisão de sentenças proferidas em pedidos de alimentos e respectivas execuções. § 1º. Os alimentos provisórios fixados na inicial poderão ser revistos a qualquer tempo, se houver modificação na situação financeira das partes, mas o pedido será sempre processado em apartado. § 2º. Em qualquer caso, os alimentos fixados retroagem à DATA DA CITAÇÃO. § 3º. Os alimentos provisórios serão devidos até a decisão final, inclusive o julgamento do recurso extraordinário. No Brasil a única hipótese de alimentos que NÃO serão devidos desde a CITAÇÃO é a hipótese dos alimentos GRAVÍDICOS, que serão devidos desde a concepção, além dos alimentos PROVISIONAIS, que serão desde o despacho da petição inicial. LAG (lei dos alimentos gravídicos) Art. 2o Os alimentos de que trata esta Lei compreenderão os valores suficientes para cobrir as despesas adicionais do período de gravidez e que sejam dela decorrentes, DA CONCEPÇÃO AO PARTO, inclusive as referentes à alimentação especial, CS - CIVIL IV 2018.1 122 assistência médica e psicológica, exames complementares, internações, parto, medicamentos e demais prescrições preventivas e terapêuticas indispensáveis, a juízo do médico, além de outras que o juiz considere pertinentes. [...] Relembrando: alimentos provisórios x provisionais. PROVISÓRIOS PROVISIONAIS São aqueles fixados de imediato na ação de alimentos que segue o rito especial previsto na Lei 7.478/68. Em outras palavras: estão fundados na obrigação alimentar e, por isso, exigem prova pré- constituída do parentesco (certidão de nascimento) ou do casamento (certidão de casamento). São frutos da cognição sumária do juiz antes mesmo de ouvir o réu da demanda. São aqueles fixados em outras ações que não seguem o rito especial mencionado, visando manter a parte que os pleiteia no curso da lide, por isso sua denominação AD LITEM. São fixados por meio de antecipação de tutela em ações em que não há a mencionada prova pré-constituída, caso da ação de investigação de paternidade ou da ação de reconhecimento e dissolução da união estável. Nesse sentido, dispõe o art. 1.706 do atual CC que “os alimentos provisionais serão fixados pelo juiz nos termos da lei processual”. 4) Legitimidade na ação de investigação de paternidade Legitimidade ativa: pode ser promovida pelo filho, que se for menor, será representado ou assistido. Ainda, até mesmo o nascituro pode ajuizar a demanda. O filho tem legitimidade ainda que esteja registrado em nome de outro homem. Nesse caso, todavia, haverá um litisconsórcio passivo necessário entre o suposto pai e o pai registral, em razão da natureza jurídica da relação, pois a questão da filiação tem de ser decida da mesma forma para os dois, ou seja, unitariamente (litisconsórcio necessário unitário). O MP também possui legitimidade para o ingresso desta ação. Essa legitimidade do Parquet independe da existência ou não do procedimento de investigação oficiosa de paternidade. Legitimidade passiva: o réu da investigação de paternidade é o suposto pai. Todavia, se o suposto pai for falecido, a legitimidade passiva será dos HERDEIROS e NÃO do espólio. Isto porque o espólio somente representa os interesses do morto no ÂMBITO PATRIMONIAL, e a ação investigatória é pessoal e trata de DIREITOS EXISTENCIAIS. Há possibilidade, como já foi dito, de formação de litisconsórcio passivo na ação investigatória. IMPORTANTE – INFORMATIVO 578 STJ 5) Coisa julgada na investigação de paternidade Para o STJ a coisa julgada na ação de investigação de paternidade segue o regime secundum eventum probationis (mesmo modelo das ACPs). CS - CIVIL IV 2018.1 123 A coisa julgada Secundum Eventum Probationis é a coisa julgada que incide tão somente sobre a prova que foi produzida, ou seja, a coisa julgada não incide sobre a decisão, a menos que tenha se esgotado a possibilidade probatória. Com isso, se uma ação de investigação de paternidade foi julgada improcedente, mas nela não foi realização o exame de DNA, será possível repropor a ação, pois se tem uma prova nova que poderá alterar o resultado da demanda. Mas lembre-se que essa não realização da prova tem de decorrer da impossibilidade de sua realização, e não meramente da recusa das partes em se submeter a ela. Na ação de investigação de paternidade que mais se aplicado a teoria da relativização da coisa julgada. STJ: Imagine a seguinte situação hipotética: Em 1995, Daniel ajuizou uma ação de investigação de paternidade contra Honofre, seu suposto pai, tendo esta sido julgada improcedente. Vale ressaltar que, na época, não foi realizado exame de DNA, que ainda era raro no Brasil. A sentença transitou em julgado. Daniel poderá ajuizar nova ação de investigação de paternidade contra Honofre pedindo agora a realização do exame de DNA? É possível flexibilizar a coisa julgada material formada em investigação de paternidade julgada improcedente e na qual não foi feito exame de DNA? SIM, é possível a flexibilização da coisa julgada material nas ações de investigação de paternidade, na situação em que o pedido foi julgado improcedente por falta de prova. Esse é o entendimento do Plenário do STF: (...) Deve ser relativizada a coisa julgada estabelecida em ações de investigação de paternidade em que não foi possível determinar-se a efetiva existência de vínculo genético a unir as partes, em decorrência da não realização do exame de DNA, meio de prova que pode fornecer segurança quase absoluta quanto à existência de tal vínculo. (...) (STF RE 363889, Rel. Min. Dias Toffoli, Tribunal Pleno, julgado em 02/06/2011) Cuidado: o STJ, até bem pouco tempo, vinha adotando entendimento diverso sob o argumento de que haveria violação à segurança jurídica (nesse sentido: AgRg no REsp1257855/RS, AgRg no REsp 1236166/RS). No entanto, como a decisão do STF foi tomada pelo Plenário, o STJ vem, aos poucos, também decidindo que é possível a relativização da coisa julgada nesses casos (AgRg no REsp 929.773-RS). CS - CIVIL IV 2018.1 124 Exceção: Não será cabível a nova propositura de ação de investigação de paternidade, caso a primeira tenha sido julgada improcedente pelo fato de ter sido comprovado, segundo as técnicas científicas existentes à época, que o autor não pode ser filho do réu (ex: o exame de sangue atestou que o grupo sanguíneo do suposto pai é incompatível com o do autor): “Não se admite o ajuizamento de nova ação para comprovar a paternidade mediante a utilização de exame de DNA, em caso no qual o pedido anterior foi julgado improcedente com base em prova pericial produzida de acordo com a tecnologia então disponível, a qual excluiu expressamente o pretendido vínculo genético, em face da impossibilidade de duas pessoas do tipo sanguíneo "O” gerarem um filho do grupo A. Hipótese distinta da julgada pelo STF no RE 363.889.” (STJ AgRg no REsp 929773/RS, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 06/12/2012). . 4. CRITÉRIOS DE FILIAÇÃO 4.1. CRITÉRIO DE FILIAÇÃO POR PRESUNÇÃO LEGAL. ART. 1.597: PRESUNÇÃO RELATIVA DE FILIAÇÃO (“pater is est”) O art. 1.597 firma a presunção RELATIVA de filiação para a prole havida no casamento. Art. 1.597. PRESUMEM-se concebidos na constância doCASAMENTO os filhos: I - nascidos cento e oitenta dias, pelo menos, depois de estabelecida a convivência conjugal; II - nascidos nos trezentos dias subsequentes à dissolução da sociedade conjugal, por morte, separação judicial, nulidade e anulação do casamento; A causa suspensiva do casamento pela turbatio sanguinis encontra sua justificativa aqui. III - havidos por fecundação artificial homóloga, mesmo que falecido o marido; IV - havidos, a qualquer tempo, quando se tratar de embriões excedentários, decorrentes de concepção artificial homóloga; V - havidos por inseminação artificial heteróloga, desde que tenha prévia autorização do marido. É uma presunção exclusiva do casamento, não se aplicando à União Estável. OBS: Chaves diz que não há problema em o dispositivo diferenciar o Casamento da União Estável, pois a CF não estabelece a igualdade entre as instituições, mas apenas garante a proteção das duas. Todavia, considera que estabelecer presunção para filhos oriundos do casamento, sem fazer o mesmo para a União Estável cria diferença entre os filhos e isso sim não é correto. Há uma tendência na Europa em acabar com essa forma de paternidade (paternidade por presunção decorrente do casamento), tendo em vista a existência de meios mais modernos de se estabelecer a paternidade, tal como o DNA. CS - CIVIL IV 2018.1 125 Em que pese a observação acima, o CC de 2002 não só manteve a presunção de paternidade decorrente do casamento, como a ampliou, estendendo também para a concepção artificial (como se depreende dos incisos III, IV e V do art. supracitado). 4.2. CRITÉRIO DE FILIAÇÃO SOCIOAFETIVO: PATERNIDADE SOCIOAFETIVA Evolução da paternidade: 1) 1ª fase da paternidade no Brasil: paternidade LEGAL ou JURÍDICA (final do século XIX e início do século XX): cabia à lei determinar quem era o pai; havia uma presunção quase intransponível de que o marido da genitora era o pai; 2) 2ª fase da paternidade no Brasil: paternidade BIOLÓGICA ou CIENTÍFICA: o direito deixa de atribuir importância à lei e passa a atribuir importância à ciência. O pai é definido pelo exame de DNA. 3) 3ª fase da paternidade no Brasil: paternidade socioafetiva: valoriza a paternidade não decorrente de laços sanguíneos, aprimora a paternidade biológica ou científica. Eis um julgado que retrata isso: Pai vai ao cartório e reconhece um filho que era de sua companheira, mas não seu. Com essa mesma companheira, teve outros cinco filhos de sangue. O pai morreu e os cinco irmãos de sangue ingressaram em juízo para dizer que o pai declarou falsamente a paternidade do meio- irmão. Objetivo: parcela maior na herança. O TJ/PR negou o pedido sob o fundamento da paternidade socioafetiva. 4.3. CRITÉRIO BIOLÓGICO Via exame de DNA. Veremos com mais profundidade os critérios de filiação na parte II. Esta foi uma noção introdutória. VIII. FILIAÇÃO (PARTE II) *Cristiano Chaves 1. ISONOMIA ENTRE OS FILHOS – CF/88 O CC de 1916 era retrato de uma sociedade conservadora, adotava o sistema francês de filiação, diferenciando os filhos legítimos dos ilegítimos. Pela revogada Codificação Civil, os filhos ilegítimos tinham apenas metade dos direitos conferidos aos filhos legítimos. Ainda, a antiga norma civil estabelecia que os filhos adotados não possuíam direito algum, até porque a adoção no CC de 1916 era tratada como uma relação contratual, extinguindo-se com a morte do adotante. Contudo, a CF/88, nos seus artigos 226 e 227, estabeleceu a igualdade entre os filhos, vedando, para além da mera discriminação em relação aos direitos econômicos, até mesmo as designações discriminatórias, como a distinção entre filhos legítimos e ilegítimos. Com a CF/88, filho passou a ser simplesmente filho. Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, CS - CIVIL IV 2018.1 126 à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. § 6º - Os filhos, havidos ou não da relação do casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação. Assim, note-se que a igualdade entre os filhos estabelecida pela CR, seja qual for a origem destes (frutos do casamento, união estável, concubinato, adoção), é, além de econômica, também emocional e afetiva. Todavia, essa igualdade se dá sob o prisma da isonomia, ou seja, se refere a uma igualdade substancial, de modo que pode haver, por exemplo, pensões alimentícias em patamares diferentes entre os filhos, desde que a necessidade de todos sejam atendidas da mesma maneira. O art. 1.593 do novo CCB reconhece a isonomia estabelecida pela CF: Art. 1.593. O parentesco é NATURAL ou CIVIL, conforme resulte de consanguinidade ou outra origem. 2. FORMAS (CRITÉRIOS) DE FILIAÇÃO 2.1. ESPÉCIES A filiação pode decorrer de três critérios (critérios de filiação): 1) Critério da Presunção Legal (presunção pater is est): o filho da mãe casada presumidamente é do seu respectivo marido. 2) Critério Biológico: a paternidade é estabelecida pelo DNA (investigação de paternidade). 3) Critério Socioafetivo: a paternidade é estabelecida pelos laços de convivência entre pais e filhos OBS: tendo em vista a isonomia entre os filhos estabelecida na CF, não há hierarquia entre tais critérios. Vejamos: 2.2. CRITÉRIO DA PRESUNÇÃO LEGAL (PRESUNÇÃO PATER IS EST) 2.2.1. Conceitos É uma presunção relativa, podendo ser desfeita. É prevista no art. 1.597. Art. 1.597. Presumem-se concebidos na constância do casamento os filhos: I - nascidos cento e oitenta dias, pelo menos, depois de estabelecida a convivência conjugal; CS - CIVIL IV 2018.1 127 II - nascidos nos trezentos dias subsequentes à dissolução da sociedade conjugal, por morte, separação judicial, nulidade e anulação do casamento; III - havidos por fecundação artificial homóloga, mesmo que falecido o marido; IV - havidos, a qualquer tempo, quando se tratar de embriões excedentários, decorrentes de concepção artificial homóloga; V - havidos por inseminação artificial heteróloga, desde que tenha prévia autorização do marido. Em que pese a observação acima, o CC de 2002 não só manteve a presunção, como a ampliou, estendendo também para a concepção artificial: Art. 1.597 ... III - havidos por FECUNDAÇÃO artificial homóloga, mesmo que falecido o marido; IV - havidos, a qualquer tempo, quando se tratar de embriões excedentários, decorrentes de CONCEPÇÃO artificial homóloga; V - havidos por inseminação artificial heteróloga, desde que tenha prévia autorização do marido. CONCEPÇÃO BIOLÓGICA CONCEPÇÃO ARTIFICIAL É a concepção tradicional, realizada por meio do ato sexual. É a concepção realizada por fertilização medicamente assistida, a qual pode se dar de duas formas: 1) Fertilização em vitro: também chamada de fertilização na proveta, ocorre quando o médico prepara o embrião em laboratório, para depois inseri-lo no corpo da mulher. 2) Inseminação artificial: Aqui o médico trabalho apenas com o sêmen, realizando a concepção diretamente no útero da mulher (in vivo). Fecundação homóloga: médico trabalha somente material genético do próprio casal. Fecundação heteróloga: aqui o médico trabalha com material genético de pessoa estranha ao casal. 2.2.2. A presunção legal pelo casamento 1) Concepção SEXUAL (art.1597, I e II) Art. 1.597. Presumem-se concebidos na constância do casamento os filhos: I - nascidos cento e oitenta dias, pelo menos, depois de estabelecida a convivência conjugal; Prazo mínimo de gestação. II - nascidos nos trezentos dias subsequentes à dissolução da sociedade conjugal, por morte, separação judicial, nulidade e anulação do casamento; Prazo máximo de gestação. OBS: A causa suspensiva do casamento pela turbatio sanguinis encontra sua justificativa aqui. CS - CIVIL IV 2018.1 128 2) Concepção ARTIFICIAL (art. 1597, III, IV, e V) Art. 1.597. Presumem-se concebidos na constância do casamento os filhos: ... III - havidos por fecundação artificial homóloga, mesmo que falecido o marido; OBS: o filho concebido por fecundação artificial DEPOIS do falecimento do pai, na forma do art. 1.597, III, do CC pode ser herdeiro? Para esta pergunta, duas posições, ambas baseadas no art. 1.798 do CC: Art. 1.798. Legitimam-se a suceder as pessoas nascidas ou já CONCEBIDAS no momento da abertura da sucessão. 1ª C – Caio Mário – Concepção tem sentido apenas uterino, de modo que para esta corrente, a concepção não abrangeria o embrião de laboratório. Por isto, o filho gerado por esta forma de concepção não seria herdeiro. 2ª C - Maria Berenice Dias e Giselda Hironaka – PREVALECE: Concepção tem sentido amplo, de modo que abrange a um só tempo a concepção uterina e ambulatorial, assim, mesmo o embrião concebido em laboratório teria direito sucessório. Cristiano se filia a esta corrente, por entender que ela vai ao encontro da busca da igualdade entre os filhos, seja qual for sua origem. Nesse caso, o filho oriundo do sêmen utilizado para concepção após a morte do pai seria herdeiro? NÃO, pois o art. 1.798 fala em concebido, que equivale a embrião: Art. 1.798. Legitimam-se a suceder as pessoas nascidas ou já concebidas no momento da abertura da sucessão Repita-se: o art. 1.798 fala em concebido, que equivale a embrião. Assim, o sêmen congelado não tem capacidade sucessória, pois, obviamente, não é embrião. Desse modo, se o falecido deixou apenas o sêmen congelado, que ainda não foi utilizado, eventual filho que resulte da utilização desse sêmen será filho pelo critério biológico, mas não será seu sucessor. Veja que a relação de parentesco não é afetada, mas apenas a sucessória. Desse modo, esse filho teria direito, por exemplo, pleitear alimentos dos avôs. Art. 1.597. Presumem-se concebidos na constância do casamento os filhos: ... IV - havidos, a qualquer tempo, quando se tratar de embriões excedentários, decorrentes de concepção artificial homóloga; OBS1: por quanto tempo deve ser guardado o feto criogenizado (congelado)? A Lei da biossegurança, em seu art. 5º (já declarado constitucional pelo STF – ADI 3510), estabelece que o médico deve guardar o embrião congelado por 03 (três) anos. Depois desse prazo deve procurar o casal e perguntar se desejam ter o filho. Se o casal não mais desejar a prole, o embrião poderá ser encaminhado para pesquisas com células-tronco. OBS2: O direito brasileiro permite a preparação de embriões para células-tronco? Não, o direito brasileiro somente permite o preparo de embriões com finalidade reprodutiva. O CS - CIVIL IV 2018.1 129 encaminhamento para pesquisas com células-tronco é apenas o descarte de embriões que sobraram, dentre aqueles destinados a reprodução. Art. 1.597 ... V - havidos por inseminação artificial heteróloga, desde que tenha prévia autorização do marido. Exemplo: Marido estéril. Vê-se que essa autorização tem natureza de verdadeiro reconhecimento de filho. Essa é a única hipótese de presunção absoluta de filho. OBS1: porque há essa presunção ABSOLUTA de filiação? Se se permitisse ao marido que autorizasse a fertilização heteróloga e depois impugnasse a paternidade, seria permitido uma ação contraditória, as quais, como se sabe são vedadas pelo venire contra factum proprium. OBS2: JDC 257 JDC 257 - Art. 1.597: As expressões “fecundação artificial”, “concepção artificial” e “inseminação artificial”, constantes, respectivamente, dos incs. III, IV e V do art. 1.597 do Código Civil, devem ser interpretadas restritivamente, não abrangendo a utilização de óvulos doados e a gestação de substituição (leia-se: barriga de aluguel). 2.2.3. Questionamentos importantes (retirados do Livro do Tartuce) QUESTÃO1: As presunções dos incisos III, IV e V do art. 1.597 do CC devem ser aplicadas também nos casos de União Estável? Quais os argumentos a favor e contrários a esse entendimento? Conforme a melhor doutrina, as presunções dos incisos. III, IV e V do art. 1.597 devem ser aplicadas à união estável. Consolidando tal forma de pensar, na VI Jornada de Direito Civil foi aprovado o Enunciado n. 570, in verbis: “O reconhecimento de filho havido em união estável fruto de técnica de reprodução assistida heteróloga ‘a patre’ consentida expressamente pelo companheiro representa a formalização do vínculo jurídico de paternidade- filiação, cuja constituição se deu no momento do início da gravidez da companheira”. Em complemento, o STJ já concluiu que os incisos anteriores do art. 1.597 também se aplicam à união estável, deduzindo que: “a presunção de concepção dos filhos na constância do casamento prevista no art. 1.597, II, do CC se estende à união estável. Para a identificação da união estável como entidade familiar, exige-se a convivência pública, contínua e duradoura estabelecida com o objetivo de constituição de família com atenção aos deveres de lealdade, respeito, assistência, de guarda, sustento e educação dos filhos em comum. O art. 1.597, II, do CC dispõe que os filhos nascidos nos trezentos dias ubsequentes à dissolução da sociedade conjugal presumem-se concebidos na constância do casamento. Assim, admitida pelo ordenamento jurídico pátrio (art. 1.723 do CC), inclusive pela CF (art. 226, § 3.º), a união estável e reconhecendo-se nela a existência de entidade familiar, aplicam-se as disposições contidas no art. 1.597, II, do CC ao regime de união estável” (STJ, REsp 1.194.059/SP, Rel. Min. Massami Uyeda, j. 06.11.2012, publicado no seu Informativo n. 508). CS - CIVIL IV 2018.1 130 Essa realmente parece ser a melhor conclusão. Primeiro, porque não há vedação de aplicação da norma por analogia, pois não se trata de norma restritiva da autonomia privada. Segundo, a união estável é entidade familiar protegida no Texto Maior, o que deve abranger os filhos havidos dessa união. Nesse sentido, o PL 470/2013 – PL 2.285/2007 – pretende introduzir previsão expressa a respeito da presunção na relação convivencial. Consigne-se que a recente Resolução 2.121/2015, do Conselho Federal de Medicina, na linha da anterior Resolução 2.013/2013 do mesmo Órgão, consagra a possibilidade de companheiros, inclusive homoafetivos masculinos e femininos, fazerem uso de tais técnicas. QUESTÃO2: É possível a inseminação artificial heteróloga em caso de UNIÃO HOMOAFETIVA? A doutrina sempre debateu a possibilidade jurídica da técnica de reprodução assistida heteróloga em casos de união homoafetiva. Seguindo o entendimento de que a união homoafetiva não é entidade familiar, a resposta seria negativa, conforme opina Maria Helena Diniz, que lidera tal corrente. Em sentido contrário, Maria Berenice Dias sempre entendeu que isso não só é viável como vem efetivamente ocorrendo na prática. O último entendimento segue a linha de pensamento de que a união homoafetiva constitui uma entidade familiar, o que está concretizado no Direito de Família brasileiro desde 5 de maio de 2011, com a decisão do Supremo Tribunal Federal nas ADPF 132/RJ e ADI 4.277/DF.Anote-se que a interpretação da Resolução CFM 1.957/2010 já conduzia a tal possibilidade, pois mencionava que qualquer pessoa capaz poderia fazer uso da técnica de reprodução assistida. A nova Resolução 2.121/2015, em substituição à Resolução 2.013/2013, que já trazia tal possibilidade, é clara, afastando qualquer dúvida, ao expressar que “é permitido o uso das técnicas de RA para relacionamentos homoafetivos e pessoas solteiras, respeitado o direito da objeção de consciência do por parte do médico. É permitida a gestação compartilhada em união homoafetiva feminina em que não exista infertilidade”. Pontue-se que a última frase, a respeito do casal homoafetivo feminino, não constava da anterior Resolução 2.013/2013”. Confirmando tais premissas, no âmbito da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça pode ser encontrado aresto que admitiu a adoção unilateral por companheira homoafetiva de mulher que havia se submetido a reprodução assistida heteróloga. Nos termos da publicação do acórdão: “a adoção unilateral prevista no art. 41, § 1.º, do ECA pode ser concedida à companheira da mãe biológica da adotanda, para que ambas as companheiras passem a ostentar a condição de mães, na hipótese em que a menor tenha sido fruto de inseminação artificial heteróloga, com doador desconhecido, previamente planejada pelo casal no âmbito de união estável homoafetiva, presente, ademais, a anuência da mãe biológica, desde que inexista prejuízo para a adotanda. O STF decidiu ser plena a equiparação das uniões estáveis homoafetivas às uniões estáveis heteroafetivas, o que trouxe, como consequência, a extensão automática das prerrogativas já outorgadas aos companheiros da união estável tradicional àqueles que vivenciem uma união estável homoafetiva. Assim, se a adoção unilateral de menor é possível ao extrato heterossexual da população, também o é à fração homossexual da sociedade. Deve-se advertir, contudo, que o pedido de adoção se submete a norma-princípio fixada no art. 43 do ECA, segundo CS - CIVIL IV 2018.1 131 a qual ‘a adoção será deferida quando apresentar reais vantagens para o adotando’. Nesse contexto, estudos feitos no âmbito da Psicologia afirmam que pesquisas têm demonstrado que os filhos de pais ou mães homossexuais não apresentam comprometimento e problemas em seu desenvolvimento psicossocial quando comparados com filhos de pais e mães heterossexuais. Dessa forma, a referida adoção somente se mostra possível no caso de inexistir prejuízo para a adotanda” (STJ, REsp 1.281.093/SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 18.12.2012, publicado no seu Informativo n. 513). No âmbito da doutrina, concluindo da mesma maneira, destaque-se enunciado aprovado na VII Jornada de Direito Civil, promovida em 2015, com a seguinte redação: “é possível o registro de nascimento dos filhos de pessoas do mesmo sexo originários de reprodução assistida, diretamente no Cartório de Registro Civil, sendo dispensável a propositura de ação judicial, nos termos da regulamentação da Corregedoria local” (Enunciado n. 608). No mesmo caminho, o Enunciado n. 12 do IBDFAM, aprovado no seu X Congresso, do mesmo ano: “é possível o registro de nascimento dos filhos de casais homoafetivos, havidos de reprodução assistida, diretamente no Cartório do Registro Civil”. Como se nota, os enunciados possibilitam o registro dos filhos havidos de técnica de reprodução assistida engendrada por casais homoafetivos, sem ação judicial, o que é um passo decisivo para a saudável desjudicialização das contendas 2.3. CRITÉRIO BIOLÓGICO 2.3.1. Conceitos É o critério da determinação de um filho pelo exame de DNA. Primeiramente, cumpre dizer que o STF tem entendimento pacificado desde 1990 que ninguém pode ser compelido a realizar exame de DNA, sob a pena de ferir-se garantia pessoal da dignidade da pessoa humana. Todavia, a recusa em realizar o exame gera uma presunção relativa de paternidade em desfavor daquele que se recusou a fazê-lo, nos termos da súmula 301 do STJ: STJ Súmula 301. Em ação investigatória, a recusa do suposto pai a submeter-se ao exame de DNA induz presunção (judicial) juris tantum de paternidade. A lei 12.004/09 acrescentou o art. 2º-A na Lei 8.560/92 (lei de Investigação de paternidade): Art. 2o-A. Na ação de investigação de paternidade, todos os meios legais, bem como os moralmente legítimos, serão hábeis para provar a verdade dos fatos. Parágrafo único. A recusa do réu em se submeter ao exame de código genético - DNA gerará a presunção (legal e relativa) da paternidade, a ser apreciada em conjunto com o contexto probatório. Assim, com o novo dispositivo, é a própria Lei que faz essa presunção. É algo mais forte que a presunção judicial que havia antes. Todavia, a presunção continua a ser relativa. 2.3.2. DNA gratuito x Presunção CS - CIVIL IV 2018.1 132 O exame de DNA será gratuito para as pessoas que se declarem pobres na forma da Lei: NCPC Art. 98. A pessoa natural ou jurídica, brasileira ou estrangeira, com insuficiência de recursos para pagar as custas, as despesas processuais e os honorários advocatícios tem direito à gratuidade da justiça, na forma da lei. § 1o A gratuidade da justiça compreende: V - as despesas com a realização de exame de código genético - DNA e de outros exames considerados essenciais; . 2.4. CRITÉRIO DA FILIAÇÃO SOCIOAFETIVA 2.4.1. Conceitos A filiação socioafetiva decorre de um laço de convivência cotidiana. O velho ditado “pai é quem cria”, bem define essa forma de filiação. O CC define a filiação socioafetiva pela “posse do estado de filho”. OBS: No que consiste a “posse do estado de filho”? Posse do estado de filho é projeção da teoria da aparência no âmbito da filiação, e significa tratar alguém como se seu filho fosse. A filiação socioafetiva é uma FICÇÃO JURÍDICA criada pelo direito, para, em respeito ao princípio constitucional da igualdade entre os filhos, garantir os direitos filiatórios do filho, cujo vínculo foi determinado pela convivência cotidiana. São exemplos de filiação socioafetiva (rol exemplificativo): a) Fertilização heteróloga, com prévia autorização do marido; b) Adoção; c) Adoção “à brasileira”: registrar como seu um filho que sabe não ser; d) “Filho de criação”; e) Filho registrado por erro. OBS1: o rol é exemplificativo, pois não há como se delimitar previamente todas as situações de posse de estado de filho. Determinada a filiação pelo critério socioafetivo, todos os efeitos familiares vão decorrer automaticamente na relação afetiva, tais como sucessão, alimentos, parentesco, sobrenome, etc. A filiação socioafetiva jamais poderá ser usada para NEGAR a paternidade. A falta de afeto nunca negará o vínculo biológico. O vínculo socioafetivo serve apenas para ESTABELECER um vínculo de filiação. O critério SOCIOAFETIVO e o critério BIOLÓGICO estão no mesmo patamar (não há hierarquia entre eles), definindo-se qual deverá prevalecer em caso de conflito apenas a luz do caso concreto. CS - CIVIL IV 2018.1 133 OBS2: O que é “DESBIOLOGIZAÇÃO” da paternidade? É o estágio que vive o atual sistema de filiação no direito de família brasileiro, que estabelece que NÃO necessariamente PAI E GENITOR SERÃO A MESMA PESSOA. Na adoção, por exemplo, o pai afetivo será um, ao passo que o genitor será outro, como também na filiação socioafetiva, onde a diferença entre a pessoa do pai e do genitor também ocorre. A AFETIVIDADE precisa estar presente no momento da sentença? NÃO. A afetividade precisa ser apenas a causa determinante do vínculo, precisa ter sido construída durante a formação do vínculo. A investigação da afetividade será analisada no passado, no tempo emque pai e filho afetivos conviveram. Do contrário, seria possível que pai afetivo, a seu mero talante e a qualquer momento, decidisse não ser mais pai, deixando o filho afetivo em permanente estado de insegurança sobre sua paternidade. A adoção é a forma mais comum de paternidade socioafetiva. Pensando na adoção, o filho socioafetivo tem direito de saber sua origem genética (sua família biológica)? STJ já tinha fixado entendimento que o conhecimento a origem genética é direito da personalidade, sendo direito do filho socioafetivo conhecer sua família biológica. Esse entendimento do STJ foi positivado na nova redação do art. 48 do ECA. ECA Art. 48. O adotado tem direito de conhecer sua origem biológica, bem como de obter acesso irrestrito ao processo no qual a medida foi aplicada e seus eventuais incidentes, após completar 18 (dezoito) anos. Parágrafo único. O acesso ao processo de adoção poderá ser também deferido ao adotado menor de 18 (dezoito) anos, a seu pedido, assegurada orientação e assistência jurídica e psicológica. Essa nova redação do art. 48 do ECA tornou revogável a adoção? Não. A adoção permanece irrevogável e irretratável, mas a irrevogabilidade e irretratabilidade da adoção NÃO impedem que o adotado saiba quem é o seu genitor. Veja-se que não se poderá ingressar com uma demanda visando estabelecer vínculo de PARENTALIDADE com a família biológica, mas nem por isso, será negado o direto de se buscar a origem genética, por meio da ação de investigação de ORIGEM GENÉTICA. 2.4.2. Investigação de Origem Genética X Investigação de Parentalidade INVESTIGAÇÃO DE ORIGEM GENÉTICA INVESTIGAÇÃO DE PARENTALIDADE É exercício dos Direitos da Personalidade, pois busca proporcionar ao seu autor o conhecimento de suas origens. É exercício de direito de família, ou seja, busca-se investigar quem são seus parentes. Pode ser uma investigação de paternidade, maternidade, avoenga (neto contra o avô). Somente pode se basear no critério BIOLÓGICO. Isto porque, aqui não se busca estabelecer vínculos parentais, mas sim descobrir a origem da pessoa Pode se basear tanto em critério biológico, como socioafetivo, pois ambos são critérios que determinam parentesco. NÃO produz nenhum efeito jurídico- familiar, salvo o impedimento matrimonial eugênico: o direito Gera efeitos jurídicos de direito de família: tais como herança, alimentos, sobrenome, parentesco e etc. CS - CIVIL IV 2018.1 134 proporcionado por ela é só do conhecimento da origem. Com relação ao matrimônio, gera o impedimento eugênico por este se basear unicamente nos problemas genéticos que podem ser causados a prole. MP NÃO tem legitimidade: isto porque a ação se baseia em direito da personalidade, sendo, por isso, personalíssima. Legitimidade do MP: aqui há legitimidade do MP, com vistas a proteger os direitos decorrentes dos vínculos parentais de crianças, adolescentes. Pontos de afinidade entre a ação de investigação de parentalidade e investigação de origem genética: 1) Ambas são de competência da vara de família, por serem ações relativas ao estado da pessoa. 2) Ambas terão a intervenção do MP como fiscal da Lei. Lembrando que MP só pode ser autor da ação de investigação de parentalidade. 3) Ambas são imprescritíveis OBS1: Súmula 149 do STF – Ações de Investigação de Paternidade e de Petição de Herança – Prescritibilidade da petição de herança: A Súmula 149 do STF estabelece a ação de investigação de paternidade é imprescritível, mas a petição de herança, ainda que cumulada com a investigação, estará sujeita ao prazo prescricional, que será de dez anos. STF SÚMULA 149. É IMPRESCRITÍVEL A AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE, MAS NÃO O É A DE PETIÇÃO DE HERANÇA. 2.4.3. Outros reflexos da socioafetividade no direito de família 1) Acréscimo do nome do padrasto ou da madrasta Art. 57 da Lei dos Registros Públicos – LRP. § 8o O enteado ou a enteada, havendo motivo ponderável e na forma dos §§ 2o e 7o deste artigo, poderá requerer ao juiz competente que, no registro de nascimento, seja averbado o nome de família de seu padrasto ou de sua madrasta, desde que haja expressa concordância destes, sem prejuízo de seus apelidos de família. Essa inclusão de nome não gera qualquer direito patrimonial ou alimentar. Não necessita consentimento dos pais, mas apenas do padrasto ou da madrasta, pois nome refere-se ao direito da personalidade do filho. E se o filho for menor de idade, e os pais não quiserem representar o filho? Pela nomeação de curador especial, com base no art. 72, I, do NCPC. Art. 72. O juiz nomeará curador especial ao: I - incapaz, se não tiver representante legal ou se os interesses deste colidirem com os daquele, enquanto durar a incapacidade; II - réu preso revel, bem como ao réu revel citado por edital ou com hora certa, enquanto não for constituído advogado. CS - CIVIL IV 2018.1 135 Parágrafo único. A curatela especial será exercida pela Defensoria Pública, nos termos da lei. Todavia, nessa hipótese de nomeação de curador especial por não consentimento dos pais ou de algum deles, deverá haver citação dos pais, nos termos do art. 721 do NCPC: Art. 721. Serão citados todos os interessados, bem como intimado o Ministério Público, nos casos do art. 178, para que se manifestem, querendo, no prazo de 15 (quinze) dias. 2) Adoção à Brasileira Tema da peça da 2ª fase da DPE/RN. Imagine a seguinte situação hipotética: João e Maria viviam em união estável, quando ela engravidou. O casal vivia uma relação aparentemente monogâmica e, quando a criança nasceu, João registrou o menino (chamado de Eduardo) como seu filho e de Maria. Durante os primeiros cinco anos de vida de Eduardo, João e Maria ainda estavam juntos e educavam a criança normalmente como pais. Ocorre que, determinado dia, mexendo no whatsapp de Maria, João viu uma conversa dela com a amiga na qual revelava que Eduardo não era filho biológico de João, mas sim de Ricardo, um antigo namorado. Arrasado por ter descoberto a traição, João exigiu de Maria um teste de DNA e o resultado foi... que ele não era pai de Eduardo. CS - CIVIL IV 2018.1 136 A partir daí, João saiu de casa e não quis mais ter nenhum tipo de contato nem com Maria nem com Eduardo. Oito anos depois disso, João começou a estudar Direito e decidiu resolver formalmente a situação, razão pela qual ajuizou ação negatória de paternidade contra Eduardo pedindo que fosse reconhecido que ele não era seu filho biológico e, como consequência, que fosse retificado o registro de nascimento excluindo-se o seu nome como pai. Em uma situação semelhante a essa, o STJ admitiu a desconstituição da paternidade? SIM. REsp 1.330.404-RS, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 5/2/2015 (Info 555). O STJ entendeu que, como o pai registral foi enganado (induzido em erro), deveria ser aplicado ao caso os arts. 1.601 e 1.604 do Código Civil: Art. 1.601. Cabe ao marido o direito de contestar a paternidade dos filhos nascidos de sua mulher, sendo tal ação imprescritível. (...) Art. 1.604. Ninguém pode vindicar estado contrário ao que resulta do registro de nascimento, salvo provando-se erro ou falsidade do registro. No caso concreto, houve vínculo de afeto entre o pai registral (João) e Eduardo. Não seria possível manter o registro com base na paternidade socioafetiva? A 3ª Turma do STJ, neste julgado, entendeu que não. Segundo defendeu o Min. Relator “o estabelecimento da filiação socioafetiva perpassa, necessariamente, pela vontade e, mesmo, pela voluntariedade do apontado pai, ao despender afeto, de ser reconhecido comotal. É dizer: as manifestações de afeto e carinho por parte de pessoa próxima à criança somente terão o condão de convolarem-se numa relação de filiação, se, além da caracterização do estado de posse de filho, houver, por parte daquele que despende o afeto, a clara e inequívoca intenção de ser concebido juridicamente como pai ou mãe daquela criança.” No caso concreto, a relação afetiva que havia entre pai registral e filho foi rompida quando este tinha cinco anos, de forma que há oito anos eles não mais teriam qualquer contato. Segundo foi apurado, atualmente é impossível o restabelecimento desse vínculo que um dia existiu. Para o Min. Marco Aurélio Bellizze, “não se pode obrigar o pai registral, induzido a erro substancial, a manter uma relação de afeto, igualmente calcada no vício de consentimento originário, impondo-lhe os deveres daí advindos, sem que, voluntária e conscientemente, o queira. Como assinalado, a filiação sociafetiva pressupõe a vontade e a voluntariedade do apontado pai de ser assim reconhecido juridicamente, circunstância, inequivocamente, ausente na hipótese dos autos.” E se, no momento em que descobriu a traição, o pai registral tivesse continuado a ter contato com Eduardo como se nada tivesse acontecido? Nesse caso, poderia João, depois de uns anos, ajuizar a ação e conseguir a desconstituição? NÃO. O Min. Relator afirmou que se o pai registral, mesmo após ter obtido ciência da verdade dos fatos, ou seja, de que não era pai biológico do filho, mantivesse com este, voluntariamente, vínculos de afetividades, aí não seria possível a desconstituição porque teria ficado provada a paternidade socioafetiva. Resumindo a tese adotada neste julgado: CS - CIVIL IV 2018.1 137 • Se o marido ou companheiro descobre que foi induzido em erro no momento de registrar a criança e que não é pai biológico do seu filho registral, ele poderá contestar a paternidade, pedindo a retificação do registro (arts. 1.601 e 1.604 do CC). • Para que o pai registral enganado consiga desconstituir a paternidade, é indispensável que, tão logo ele tenha sabido da verdade (da traição), ele tenha se afastado do suposto filho, rompendo imediatamente o vínculo afetivo. • Se o pai registral enganado, mesmo quando descobriu a verdade, ainda manteve vínculos afetivos com o filho registral, neste caso ele não mais poderá desconstituir a paternidade porque teria manifestado, ainda que implicitamente, o desejo de continuar sendo pai socioafetivo da criança, não podendo, depois de um tempo, arrepender-se e querer retificar o registro. Em outras palavras, o pai registral enganado terá êxito em conseguir a desconstituição da paternidade se foi induzido a erro, mesmo que antes tivesse bom relacionamento com o suposto filho. 3. AÇÕES DE FAMÍLIA 3.1. AÇÃO DE RECONHECIMENTO DE FILIAÇÃO – OU AÇÃO DE PROVA DA FILIAÇÃO Tem por finalidade a comprovação do fato da posse do estado de filho cuja aparência resulta de presunção veemente ou de começo de prova escrita por pais ausentes ou falecidos – aqui a paternidade nunca foi discutida, pois o pai sempre se comportou como tal (não cabe o exame de DNA). O exercício de ação cabe com exclusividade ao filho que não pode ser substituído por quem quer que seja. Ação imprescritível. Os herdeiros não têm direito de iniciativa ao direito de ação. Quando se tratar de filho menor, a ação de prova de filiação poderá ser intentada pelo representante legal. 3.2. AÇÃO NEGATÓRIA DE PATERNIDADE OU DE IMPUGNAÇÃO DE PATERNIDADE – OU AÇÃO CONTESTATÓRIA DE PATERNIDADE Destina-se a excluir a presunção da paternidade. CC. Art. 1.601. Cabe ao marido o direito de contestar a paternidade dos filhos nascidos de sua mulher, sendo tal ação imprescritível. Parágrafo único. Contestada a filiação, os herdeiros do impugnante têm direito de prosseguir na ação. Ação personalíssima – exclusiva do esposo (marido da mãe) – ninguém, nem mesmo o filho ou a mãe poderão impugnar a paternidade. Alguns autores entendem ser possível ser ajuizada pelo curador nos casos de interdição). A ação será proposta contra o filho, que se menor, deverá ser representado ou assistido. Considerando que a mãe do menor exerce o poder familiar conjuntamente com o pai, e sendo este o impugnante, cabe a ela a defesa, sem necessidade de nomeação de curador especial (CRG entende que a mãe deve ser litisconsorte já que efetuado o registro pela mãe). CS - CIVIL IV 2018.1 138 ATENÇÃO! INFORMATIVO 533 Ainda que imprescritível tal ação não poderá ser exercida se fundada APENAS em origem genética, em aberto conflito com o estado de filiação. Para que possa ser impugnada a paternidade, independentemente do tempo de seu exercício, terá o marido da mãe que provar não ser o genitor, no sentido biológico (resultado de DNA) e não ter existido o estado de filiação, de natureza socioafetiva, e se foi o próprio declarante perante o registro do nascimento, comprovar que teria agido induzido em erro ou em razão de dolo ou coação. Tratando-se de ação negatória de paternidade, é competente para a sua apreciação e julgamento, o juízo das varas de família DO FORO DO DOMICÍLIO DO RÉU e não a vara dos registros públicos, porquanto envolve matéria relativa ao estado das pessoas, visto que matéria a filiação, sendo a alteração do registro civil de nascimento mera consequência de acolhimento da pretensão. O MP atua como fiscal da lei, mas não pode assumir a qualidade de substituto processual (como nas investigatórias de paternidade). 3.3. AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE (já vimos acima) Através desta ação somente o filho poderá demandar o estado de filiação. Enquanto menor será representado pelo genitor que promoveu seu registro de nascimento (mãe e pai), ou o que o reconheceu como filho, contra o outro. Não há impedimento para que sejam demandados o pai ou a mãe casados. O direito de investigar a paternidade ou maternidade é indisponível. O filho não pode celebrar negócio jurídico com o pai ou a mãe de modo a abrir mão do reconhecimento de filiação em troca de vantagens econômicas. É imprescritível podendo ser proposta a qualquer tempo. CS - CIVIL IV 2018.1 139 A legitimidade para PROMOVER a ação é exclusiva do filho, mas pode ser CONTESTADA por qualquer pessoa que justo interesse tenha (o pai biológico, o pai registral, e se houver, o pai afetivo), o cônjuge ou companheiro do suposto genitor e os herdeiros deste. – os parentes colaterais, inclusive os irmãos, não apresentam interesse juridicamente protegido para contestar tal ação. Não confundir direito de família a que serve o reconhecimento forçado, com direito da personalidade a que serve o conhecimento da origem genética, o exame de DNA confirma ou não a origem genética, mas não a filiação. A sentença de procedência depois de registrada produz efeitos ex tunc . O reconhecimento seja ele voluntário ou forçado é declaratório do estado de filiação, que já existia antes. 3.4. IMPUGNAÇÃO AO RECONHECIMENTO A impugnação ao reconhecimento é exercício do direito a ter ou não como pai ou mãe quem reconheceu o titular da ação como filho, havido fora do casamento ou união estável, posteriormente ao registro. É o oposto da investigação de paternidade. O prazo de quatro anos é decadencial e não pode ser interrompido ou suspenso, mas a jurisprudência moderna está abolindo o prazo pré-estabelecido em face da imprescritibilidade da ação negatória de paternidade. 3.5. IMPUGNAÇÃO DA MATERNIDADE PELA SUPOSTA MÃE Art. 1.608. Quando a maternidade constar do termo do nascimento do filho, a mãe só poderá contestá-la, provando a falsidade do termo, ou das declaraçõesnele contidas. O Art. 1608 do CC admite que a mulher cujo nome conste do registro de nascimento possa impugná-lo, provando a falsidade da declaração. A norma abre exceção à presunção mater in jure sempre certa est. – O direito de impugnação é privativo da mãe – não podem seus outros descendentes ou o próprio Ministério Público IX. ALIMENTOS *Cristiano Chaves 1. CONCEITO Com base nos ensinamentos de Orlando Gomes e MHD, os alimentos podem ser conceituados como as prestações devidas para a satisfação das necessidades pessoais daquele que não pode provê-las pelo trabalho próprio. Aquele que pleiteia alimentos é denominado alimentando ou credor, enquanto aquele que deve pagar é o alimentante ou devedor. CS - CIVIL IV 2018.1 140 Juridicamente não se pode restringir o conceito de alimentos somente em alimentação. Ora, alimentos há de ser mais do que a simples alimentação. Sendo assim, alimentos é tudo aquilo que é necessário para subsistência e manutenção da pessoa com vida digna. A concepção jurídica de alimentos traz consigo tudo aquilo que é necessário para manter vida digna. Os alimentos abrangem: saúde, educação, moradia e, até, lazer e cultura. 2. FUNDAMENTO Os alimentos decorrem da solidariedade social que, no âmbito da obrigação alimentícia, ganha o nome de solidariedade familiar (art. 3º, CF). Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I - construir uma sociedade livre, justa e SOLIDÁRIA; O fundamento da obrigação alimentícia é a solidariedade recíproca que se aplica a todos os membros de uma família, ou seja, todas as pessoas que compõem um núcleo familiar assumem a obrigação e têm o direito recíproco de prestar alimentos, manutenção digna de uns e outros. Não se pode confundir solidariedade com caridade. A caridade é UNILATERAL (quem o faz não olha a quem). Já a solidariedade não tem caráter de liberalidade, mas de reciprocidade, sendo um ato BILATERAL. A obrigação alimentar, portanto, não é um ato de liberalidade, mas sim de solidariedade familiar. O membro da família que violar o princípio da solidariedade familiar não pode requerer, posteriormente, que os outros membros lhe prestem alimentos. Exemplo: pai que nunca prestou alimentos aos filhos não pode pedir aos filhos, no futuro, que eles lhe prestem alimentos. Existe norma-regra no CC que dispõe que pais e filhos se devem reciprocamente alimentos. Mas, como o pai rompeu o princípio da solidariedade, não lhe era lícito requerer alimentos dos filhos. A obrigação alimentar é uma prova cabal da função social da família. A obrigação alimentar, embora não tenha caráter salarial e remuneratório, pode ser abatida do Imposto de Renda. Mas, hipoteticamente, essa situação pode gerar algumas fraudes. Os alimentos podem ser prestados in natura ou in pecúnia. a) in natura: fixação de alimentos em plano de saúde e mensalidade escolar. b) in pecúnia: é a pensão alimentícia. CS - CIVIL IV 2018.1 141 A pensão alimentícia pode ser fixada em salário mínimo? O art. 7º da CF dispõe que o salário-mínimo não pode servir como indexador. CF Art. 7º, IV - salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim; Mas o art. 475-Q, §4º, do antigo CPC, que confirma a posição do STF, dispunha que era possível fixar os alimentos em salários mínimos, mesmo que não sejam os alimentos de direito de família. CPC/73 Art. 475-Q. Quando a indenização por ato ilícito incluir prestação de alimentos, o juiz, quanto a esta parte, poderá ordenar ao devedor constituição de capital, cuja renda assegure o pagamento do valor mensal da pensão. .... § 4o Os alimentos podem ser fixados tomando por base o salário-mínimo. O NCPC, em seu art. 533, §4º, mantém a mesma redação. CPC/2015 Art. 533. Quando a indenização por ato ilícito incluir prestação de alimentos, caberá ao executado, a requerimento do exequente, constituir capital cuja renda assegure o pagamento do valor mensal da pensão. § 4o A prestação alimentícia poderá ser fixada tomando por base o salário- mínimo. Essa, portanto, é uma exceção do dispositivo constitucional. Sendo assim, é plenamente possível fixar alimentos em salários mínimos, tanto os alimentos do direito de família como os alimentos de outra natureza. Neste sentido, a Súmula 490 do STF: Súmula 490 STF: a pensão correspondente a indenização oriunda de responsabilidade civil deve ser calculada com base no salário-mínimo vigente ao tempo da sentença e ajustar-se-á às variações ulteriores. 3. ESPÉCIES DE ALIMENTOS (CLASSIFICAÇÃO) Existem 04 critérios classificatórios dos alimentos: 1) Quanto à natureza; 2) Quanto à causa (origem); 3) Quanto ao momento da exigibilidade; 4) Quanto à finalidade. 3.1. QUANTO À NATUREZA DOS ALIMENTOS Aqui estudaremos: CS - CIVIL IV 2018.1 142 1) Alimentos civis ou côngruos; 2) Alimentos necessários ou indispensáveis. 3.1.1. Alimentos Civis ou Côngruos São chamados de côngruos (art. 323, CC do Chile). A regra geral é de que os alimentos são civis, ou seja, os alimentos servem não só para a subsistência, mas também para manutenção social. A regra geral é de que os alimentos tenham uma acepção ampla, pois servem a um só tempo para a subsistência e para a manutenção social. Os alimentos civis são, portanto, a regra. Art. 1.694. Podem os parentes, os cônjuges ou companheiros pedir uns aos outros os alimentos de que necessitem para viver de modo compatível com a sua condição social, inclusive para atender às necessidades de sua educação. 3.1.2. Alimentos necessários/Indispensáveis Os alimentos necessários são exceção, razão pela qual devem estar previstos em lei. Os alimentos serão necessários quando o CC assim determinar. CC Art. 1.694, § 2o Os alimentos serão apenas os INDISPENSÁVEIS À SUBSISTÊNCIA, quando a situação de necessidade resultar de culpa de quem os pleiteia. Art. 1.704. Se um dos cônjuges separados judicialmente vier a necessitar de alimentos, será o outro obrigado a prestá-los mediante pensão a ser fixada pelo juiz, caso não tenha sido declarado culpado na ação de separação judicial. Parágrafo único. Se o cônjuge declarado culpado vier a necessitar de alimentos, e não tiver parentes em condições de prestá-los, nem aptidão para o trabalho, o outro cônjuge será obrigado a assegurá-los, fixando o juiz o valor INDISPENSÁVEL À SOBREVIVÊNCIA. Os alimentos serão necessários quando decorrerem de culpa de quem o pleiteia, deve ser provada e não presumida. Toda vez que os alimentos decorrerem de culpa de quem os pleiteia, eles serão fixados apenas para a sobrevivência. Exemplo: culpa na separação. O reconhecimento da culpa não implica em perda do direito a alimentos, mas somente a modificação da natureza da obrigação alimentar, que passa a ser o necessário para a subsistência. A culpa, portanto, tem o condão de tão somente modificar a natureza da obrigação alimentar que de civil, passa a ser o necessário para a sobrevivência daquele que os pleiteia. CS - CIVIL IV 2018.1 143 O juiz não pode reconhecer a culpa de ofício, pois essa depende de pedido da parte. No que tange ao casamento e a união estável, os critérios de identificação da culpa são meramente exemplificativos. Porém, em relação a parentes, a doutrina identifica 02 critérios para a sua configuração:indignidade SUCESSÓRIA (art. 1.814, CC) e indignidade da DOAÇÃO (art. 557, CC). CC Art. 1.814. São excluídos da sucessão os herdeiros ou legatários: I - que houverem sido autores, coautores ou partícipes de homicídio doloso, ou tentativa deste, contra a pessoa de cuja sucessão se tratar, seu cônjuge, companheiro, ascendente ou descendente; II - que houverem acusado caluniosamente em juízo o autor da herança ou incorrerem em crime contra a sua honra, ou de seu cônjuge ou companheiro; III - que, por violência ou meios fraudulentos, inibirem ou obstarem o autor da herança de dispor livremente de seus bens por ato de última vontade. Art. 557. Podem ser revogadas por ingratidão as doações: I - se o donatário atentou contra a vida do doador ou cometeu crime de homicídio doloso contra ele; II - se cometeu contra ele ofensa física; III - se o injuriou gravemente ou o caluniou; IV - se, podendo ministrá-los, recusou ao doador os alimentos de que este necessitava. O problema é saber se esses dois critérios devem ser interpretados de forma ampliativa ou restritiva. No que tange aos alimentos e a doação, a doutrina e a jurisprudência entendem que esses critérios são exemplificativos. Enunciado 33, I Jornada de Direito Civil → o novo Código Civil estabeleceu um novo sistema para a revogação da doação por ingratidão, pois o rol legal previsto no art. 557 deixou de ser taxativo, admitindo, excepcionalmente, outras hipóteses. Sendo assim, as hipóteses de culpa entre parentes também são exemplificativas. Mesmo o cônjuge ou companheiro vítima (inocente) pode ser obrigado a prestar alimentos, que serão puramente necessários. Art. 1704, § único Se o cônjuge declarado culpado vier a necessitar de alimentos, e não tiver parentes em condições de prestá-los, nem aptidão para o trabalho, o outro cônjuge será obrigado a assegurá-los, fixando o juiz o valor indispensável à sobrevivência. Na prática, será muito difícil diferenciar os alimentos civis e necessários daquele que ganha, por exemplo, UM salário-mínimo. OBS: a doutrina brasileira criou uma nova categoria de alimentos com a intenção de manter o status social e econômico, evitando uma desigualdade social. Trata-se dos alimentos compensatórios, que são expressos no CC francês, mas não possuem previsão legal no Brasil. CS - CIVIL IV 2018.1 144 A doutrina extrai essas espécies de uma interpretação principiológica. Exemplo: casal tem vasto patrimônio, ocorre o divórcio. Ela ganha 5.000 por mês e o marido 100.000, para compensar a perda da condição social, a justiça poderia determinar que o marido pagasse os alimentos (em tese ela não precisaria). 3.2. QUANTO À CAUSA (ORIGEM) DOS ALIMENTOS Aqui estudaremos: 1) Alimentos legítimos ou legais. 2) Alimentos convencionais ou voluntários (legado/doação por subvenção periódica). 3) Alimentos ressarcitórios ou reparatórios. 3.2.1. Alimentos Legítimos ou Legais São aqueles que decorrem de uma relação de direito de família. Exemplo: casamento, união estável. São os alimentos familiares. 3.2.2. Alimentos Convencionais ou Voluntários São aqueles que decorrem de liberalidade, isto é, ato de vontade do alimentante. O ato de liberalidade pode ser inter vivos ou causa mortis. *causa mortis = legado. * inter vivos = doação por subvenção periódica. Art. 545. A doação em forma de subvenção periódica ao beneficiado extingue-se morrendo o doador, salvo se esta outra coisa dispuser, mas não poderá ultrapassar a vida do donatário. 3.2.3. Alimentos Ressarcitórios ou Reparatórios Decorrem da obrigação de indenizar, de reparar dano. Ou seja, decorrem de uma sentença em ação de indenização de reparação de danos. Exemplo: morte de parentes em acidente de carro. Exemplo: CC Art. 948. No caso de homicídio, a indenização consiste, sem excluir outras reparações: I - no pagamento das despesas com o tratamento da vítima, seu funeral e o luto da família; II - na prestação de alimentos às pessoas a quem o morto os devia, levando-se em conta a duração provável da vida da vítima. Sempre que o juiz fixar uma indenização em quotas periódicas restará configurado os alimentos ressarcitórios. CS - CIVIL IV 2018.1 145 O juiz, ao fixar alimentos reparatórios, deve determinar que o réu preste uma garantia, qual seja, constituição de capital para assegurar o pagamento. NCPC Art. 533. Quando a indenização por ato ilícito incluir prestação de alimentos, caberá ao executado, a requerimento do exequente, constituir capital cuja renda assegure o pagamento do valor mensal da pensão. § 2o O juiz poderá substituir a constituição do capital pela inclusão do exequente em folha de pagamento de pessoa jurídica de notória capacidade econômica ou, a requerimento do executado, por fiança bancária ou garantia real, em valor a ser arbitrado de imediato pelo juiz. A ideia é fazer que essa obrigação alimentícia dilatada no tempo não corra risco. Esse artigo facilita a prestação de garantia, pois o réu poderá prestar a garantia através do desconto em folha de pagamento. Para que a pessoa jurídica não sofra prejuízo em suas atividades, devido à ‘constituição de capital’ (que na verdade é imobilização de capital para o pagamento), o juiz pode determinar a inclusão para desconto em folha. A prisão civil como meio coercitivo de pagamento só é admitida para os alimentos de direito de família, portanto, só os alimentos legítimos admitem prisão civil pelo inadimplemento (assim como a penhora de salário). Não é admitida prisão civil para os alimentos reparatórios e convencionais (que permitem apenas o desconto em folha). 3.3. QUANTO AO MOMENTO DA EXIGIBILIDADE Esse é um critério criado pela jurisprudência do STJ. Aqui estudaremos: 1) Alimentos pretéritos; 2) Alimentos presentes; 3) Alimentos futuros. 3.3.1. Pretéritos São os alimentos que estão vencidos há MAIS de 03 meses e que não foram cobrados. 3.3.2. Presentes São os alimentos vencidos no período dos 03 ÚLTIMOS meses. 3.3.3. Futuros São os alimentos que ainda não são exigíveis, ou seja, que vão se vencer dentro de uma execução de alimentos. São, portanto, os alimentos VINCENDOS dentro da relação processual. CS - CIVIL IV 2018.1 146 A prisão civil do devedor não pode ser utilizada como mecanismo de coerção para pagamento dos alimentos pretéritos, mas somente como coerção para o pagamento dos alimentos presentes e futuros. Súmula 309, STJ → O débito alimentar que autoriza a prisão civil do alimentante é o que compreende as três prestações anteriores ao ajuizamento da execução (presentes) e as que se vencerem no curso do processo (futuros). O não pagamento dos alimentos pretéritos enseja o ajuizamento de execução patrimonial. Já o não pagamento dos alimentos presentes e futuros pode ensejar prisão civil ou execução patrimonial, dependo da escolha do credor (ver procedimentos). Mas, se tratando de alimentos pretéritos, a cobrança obrigatoriamente deverá ser feita por meio de execução patrimonial. O fundamento da súmula 309 do STJ é o dever de mitigar as próprias perdas (“duty to mitigate the loss“), ou seja, variação da aplicação do abuso do direito que tem como fundamento a boa-fé objetiva. Ressalta-se que o CPC/2015 acolheu, expressamente, em seu art. 528, §7º o enunciado da Súmula 309 do STJ. Art. 528, §7º - O débito alimentar que autoriza a prisão civil do alimentante é o que compreende até as três prestações anteriores ao ajuizamento da execução e as que se vencerem no curso do processo. 3.4. QUANTO A FINALIDADE Aqui estudaremos: 1) Alimentos provisórios; 2) Alimentos provisionais; 3) Alimentosdefinitivos. 3.4.1. Alimentos Provisórios São os alimentos fixados liminarmente, tendo natureza antecipatória (aqui não é antecipação genérica de tutela), exigindo-se como requisito específico prova pré-constituída da obrigação (art. 2º, Lei de Alimentos – Lei 5.478/68). Lei 5.478/68 Art. 2º. O credor, pessoalmente (aqui o indivíduo tem capacidade postulatória!), ou por intermédio de advogado, dirigir-se-á ao juiz competente, qualificando-se, e exporá suas necessidades, provando, apenas, o parentesco ou a obrigação de alimentar (prova pré-constituída) do devedor, indicando seu nome e sobrenome, residência ou local de trabalho, profissão e naturalidade, quanto ganha aproximadamente ou os recursos de que dispõe. CS - CIVIL IV 2018.1 147 Os alimentos provisórios devem ser fixados de ofício pelo juiz; o juiz somente não fixará de ofício os alimentos provisórios se a parte autora disser que deles não precisa. Art. 4º As despachar o pedido, o juiz fixará desde logo alimentos provisórios a serem pagos pelo devedor, salvo se o credor expressamente declarar que deles não necessita. Observar que na tutela antecipatória genérica o juiz não pode fixar de ofício. Só pode falar de alimentos provisórios em ação de alimentos ou em ação cumuladas com o pedido de alimentos provisórios. 3.4.2. Alimentos Provisionais (antigo art. 852 CPC) O Novo CPC já não os contempla expressamente, mas o juiz poderá conceder alimentos provisionais. Pode ser medida cautelar preparatória ou incidental. É uma ação cautelar que necessita do oferecimento da ação principal. Segue explicação sobre alimentos provisionais, não mais previsto no CPC. São alimentos topologicamente cautelares. Os alimentos provisionais não têm natureza cautelar, mas foram previstos dentre as medidas cautelares. OBS: Existem dois tipos de medidas cautelares. Por natureza: assecuratórias, garantir o resultado útil da demanda. Exemplo: arresto e sequestro. São assecuratórias por essência. São as verdadeiras cautelares. Por topologia: o antigo CPC estabelecia outras medidas que não são cautelares ontologicamente, pois elas tinham natureza satisfativa. Na verdade, o CPC queria submeter algumas medidas (satisfativas, não cautelares) ao procedimento cautelar. Exemplo: homologação de penhor legal, posse em nome do nascituro, produção antecipada de provas. Nessas medidas não havia a obrigatoriedade de proposição da ação principal em 30 dias. (Não mais previsto) Antigo CPC Art. 852. É lícito pedir alimentos PROVISIONAIS: I - nas ações de desquite e de anulação de casamento, desde que estejam separados os cônjuges; II - nas ações de alimentos, desde o despacho da petição inicial; III - nos demais casos expressos em lei. Parágrafo único. No caso previsto no no I deste artigo, a prestação alimentícia devida ao requerente abrange, além do que necessitar para sustento, habitação e vestuário, as despesas para custear a demanda. Os requisitos necessários para a sua concessão são o periculum in mora e o fumus bonis juris, isto é, os mesmos de qualquer ação cautelar. Os alimentos provisionais podem ser pleiteados quando NÃO existir prova pré- constituída para o ajuizamento da ação de alimentos. CS - CIVIL IV 2018.1 148 Exemplo: criança que não foi registrada pelo pai, mas foi feito o DNA que deu positivo, sendo ajuizada ação de investigação de paternidade. Nesse caso, cabe uma “cautelar” preparatória ou incidental de fixação de alimentos provisionais enquanto não existir prova pré- constituída da obrigação alimentar. Depois que for processada a ação de investigação de paternidade os alimentos provisionais se convertem em alimentos definitivos. Sejam os alimentos provisórios ou provisionais, eles sempre ensejam execução definitiva. Ora, não existe execução provisória de alimentos em razão de seu caráter irrepetível. Além disso, a cobrança dos alimentos provisórios e provisionais pode ser feita através da prisão civil. A diferença em provisórios e provisionais está na causa ou no efeito?! Sob o ponto de vista consequencial, os efeitos são os mesmos, não há diferença entre eles, pois ambos são satisfativos. Sejam os provisórios, sejam os provisionais. Ambos servem para a subsistência, para a manutenção, a diferença se baseia na causa, qual seja: na prova pré-constituída (provisórios) ou no fumus e periculum (ou seja, sem prova pré-constituída, - provisionais). Provisórios x Provisionais PROVISÓRIOS PROVISIONAIS São aqueles fixados de imediato na ação de alimentos que segue o rito especial previsto na Lei 7.478/68. Em outras palavras: estão fundados na obrigação alimentar e, por isso, exigem prova pré-constituída do parentesco (certidão de nascimento) ou do casamento (certidão de casamento). São frutos da cognição sumária do juiz antes mesmo de ouvir o réu da demanda. São aqueles fixados em outras ações que não seguem o rito especial mencionado, visando manter a parte que os pleiteia no curso da lide, por isso sua denominação AD LITEM. São fixados por meio de antecipação de tutela ou em liminar concedida em medida cautelar em ações em que não há a mencionada prova pré-constituída, caso da ação de investigação de paternidade ou da ação de reconhecimento e dissolução da união estável. Nesse sentido, dispõe o art. 1.706 do atual CC que “os alimentos provisionais serão fixados pelo juiz nos termos da lei processual”. NÃO ESTÁ PREVISTO NO CPC/2015, MAS CONTINUA EXISTINDO. 3.4.3. Definitivos São os alimentos fixados por sentença proferida em ação de alimentos ou em alguma outra ação que contenha pedido de alimentos (exemplo: ação de investigação de paternidade, divórcio, separação). Os alimentos definitivos são aqueles que estão gravados pela cláusula “rebus sic stantibus”, ou seja, os alimentos definitivos são fixados para se manterem enquanto a situação fática que os ensejou perdurar. CS - CIVIL IV 2018.1 149 Se houver posterior modificação na necessidade de quem recebe ou na possibilidade de quem presta é possível modificar os alimentos definitivos. Art. 1.699. Se, fixados os alimentos, sobrevier mudança na situação financeira de quem os supre, ou na de quem os recebe, poderá o interessado reclamar ao juiz, conforme as circunstâncias, exoneração, redução ou majoração do encargo. Vale dizer, são fixados em sentença para perdurar enquanto mantiver a situação fática subjacente, do momento da sua prolação. A COISA JULGADA na ação de alimentos é FORMAL ou MATERIAL? A coisa julgada na ação de alimentos é material, pois há o trânsito em julgado da mesma, mas com cláusula “rebus sic stantibus”. Sendo assim, havendo modificação das condições fáticas de quem pleiteia ou de quem presta haverá modificação dos alimentos definitivos. O pedido e a causa de pedir da ação revisional ou exoneratória são diferentes, então não há litispendência e ambas sentenças fazem coisa julgada material. Os alimentos definitivos podem decorrer da conversão dos provisórios ou provisionais. 3.5. OBSERVAÇÕES 1) Sejam os alimentos provisórios ou definitivos, o art.13, §2º, da Lei 5474/68 indica que os alimentos serão devidos sempre desde a data da citação. Os alimentos sempre retroagem a data da citação em face de sua natureza irrepetível. Lei 5474/68 Art. 13 O disposto nesta lei aplica-se igualmente, no que couber, às ações ordinárias de desquite (divórcio), nulidade e anulação de casamento, à revisão de sentenças proferidas em pedidos de alimentos e respectivas execuções. § 1º. Os alimentos provisórios fixados na inicial poderão ser revistos a qualquer tempo, se houver modificação na situação financeira das partes,