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Desenvolvimento 
Humano e Social
1ª edição
2017
Desenvolvimento 
Humano e Social
Presidente do Grupo Splice
Reitor
Diretor Administrativo Financeiro
Diretora da Educação a Distância
Gestor do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas 
Gestora do Instituto da Área da Saúde
Gestora do Instituto de Ciências Exatas
Autoria
Parecerista Validador
Antônio Roberto Beldi
João Paulo Barros Beldi
Claudio Geraldo Amorim de Souza 
Jucimara Roesler
Henry Julio Kupty
Marcela Unes Pereira Renno
Regiane Burger
Fábio Stabelini
Karen Freme Duarte Sturzenegger
Rangel Max Lima Vidal
Vanessa de Souza
Homero Nunes Pereira
*Todos os gráficos, tabelas e esquemas são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência.
Informamos que é de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos. Nenhuma parte 
desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. A violação dos 
direitos autorais é crime estabelecido pela Lei n.º 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal.
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Sumário
Unidade 1
Cultura ............................................................................7
Unidade 2
Antropologia Cultural .................................................24
Unidade 3
Choques Culturais ......................................................42
Unidade 4
Globalização, Cultura de Massa e 
Indústria Cultural .........................................................59
Unidade 5
Indivíduo, Sociedade e Direito ...................................74
Unidade 6
Classe Social, Estratificação Social e Pobreza ..........89
Unidade 7
Movimentos Sociais ...................................................104
Unidade 8
Formação do povo brasileiro e crítica à sociedade 
contemporânea .........................................................121
Desenvolvimento 
Humano e Social
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Palavras do professor
Caro aluno (a)! Seja bem-vindo (a) à disciplina de Desenvolvimento 
Humano e Social. 
Ao escolher uma profissão, estamos necessariamente atuando em socie-
dade. Logo, precisamos compreendê-la para poder intervir e nos relacio-
narmos de forma cada vez mais tolerante e respeitosa, sobretudo con-
siderando que falar em sociedade é falar em complexidade.A disciplina 
Desenvolvimento Humano e Social trata exatamente dessa complexi-
dade, pois, quando nascemos, imediatamente nos inserimos em um 
espaço social marcado pela cultura. Mas, afinal, o que é cultura? Qual a 
importância dessa disciplina para a sua atuação cotidiana e profissional?
O estudo desse tema está dividido em oito unidades de aprendizagem, ao 
longo das quais refletiremos sobre a cultura e as formas de conceituá-la 
e interpretá-la. Dentro do terreno de estudos da Antropologia Cultural, 
que nasce voltada para explicar a diferença entre as sociedades humanas, 
os choques culturais entre perfis mais inovadores e outros mais conser-
vadores, teremos a oportunidade de demonstrar como essas caracterís-
ticas compõem a vida social. Falaremos, ainda, das diferentes matrizes 
religiosas, da indústria cultural, especificamente da mídia, da cultura e da 
comunicação de massa e da perspectiva crítica a essas matrizes.
Discutiremos cientificamente, ainda nessa perspectiva, em que consis-
tem o indivíduo, a organização social e os mecanismos de controle social, 
tanto os informais quanto os formais, como as leis. Isso porque, para com-
preender uma cultura, entendemos que é preciso olhar para a formação 
social de um povo, das classes sociais e de suas hierarquizações.
Por fim, daremos atenção aos movimentos sociais e a uma análise crítica 
das sociedades contemporâneas. O caminho é longo, mas o percorrere-
mos juntos.Bom estudo!
1
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Unidade 1
Cultura
Para iniciar seus estudos
Você está iniciando o estudo sobre o desenvolvimento humano e social. 
Está se sentindo preparado para as questões e reflexões sobre o curioso 
mundo cultural? Esta unidade trata da apresentação do conceito de cul-
tura, de como ele surgiu, qual o impacto da cultura no desenvolvimento 
da vida social e quando exatamente marcamos a nossa passagem de um 
estado de natureza para um estado de cultura. Essa reflexão é muito ins-
tigante. Vamos descobrir as respostas?
Objetivos de Aprendizagem
• Descrever o conceito e a importância da cultura, relatando suas 
nuances, características e como ela impacta a comunidade em 
que se encontra, bem como a regulação da convivência entre as 
pessoas que aí convivem. 
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura
1.1 Como nos tornamos sujeitos de cultura? 
A discussão mais técnica quanto ao conceito de cultura é discutida na Antropologia, disciplina fundada no final 
do século XIX. A Antropologia, como matéria específica, buscou e ainda busca compreender e explicar as diferen-
ças culturais existentes entre as sociedades e os homens.Nesse sentido, pode-se dizer que ela é o estudo calcado 
em dois pilares: a alteridade e a diferença.
Antropologia: consiste em um nível comparativo amplo de vários aspectos da vida social. 
Glossário
Os estudos antropológicos demonstram que as sociedades não são entes naturais, mas sim que emergem da 
cultura e, portanto, são construídas por vários núcleos sociais e em inúmeras sociedades. Podemos também 
definí-la enquanto hábitos sociais. Edward Tylor (1832-1917), em 1871, utilizou o termo cultura pela primeira 
vez e a definiu como todo comportamento aprendido, isto é, tudo aquilo que independe de transmissão gené-
tica. De forma mais precisa, para Tylor (1975):
A cultura da civilização tem um sentido etnográfico amplo, e um complexo conhecimento das 
crenças, da arte, da moral, do direito, dos costumes e qualquer outros hábitos e capacidades 
adquiridas pelo homem enquanto membro da sociedade. (TYLOR, 1975, p. 29)
Edward Tylor estruturou suas pesquisas a partir do relato dos viajantes e buscou “similaridades” para comparar 
povos com o mesmo grau de “civilização” nas descrições realizadas por esses viajantes. O segundo passo reali-
zado por ele foi classificar essas sociedades, inspirado no sistema de classificação de animais e plantas das ciên-
cias naturais. Nesse aspecto, seu pensamento foi desenvolvido na dicotomia entre cultura e natureza.
Sabemos que a natureza não dá saltos e, a partir de suas observações, Tylor (1975) procurou descrever e aproximar 
traços culturais de sociedades simples. Considera-se, nesse cenário, que a história da espécie humana é uma parte 
da história e da natureza, sendo que nossas vontades e ações se ajustam a leis concretas como as que a determi-
nam. Nesse sentido, o progresso, a degradação, a sobrevivência e as modificações que ocorrem são “modos de 
conexão” que unem a complexa civilização. Para o autor, somos os criadores e os transmissores da cultura.
Com a estruturação do conhecimento e das pesquisas, passamos a observar a cultura como fatos historicamente 
ordenados e como fruto da organização social. O mais importante dessa perspectiva é que, se os comportamen-
tos são culturalmente apreendidos, podem também ser culturalmente modificados.
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura
Figura 1.1 – Simbolização das diferentes culturas.
Legenda: A figura expressa as diferentes culturas, simbolizando as escolhas que fazemos enquanto sociedade.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Os viajantes, ainda no século XIV, foram os primeiros a praticar a alteridade ao entrarem em contato com diferentes 
culturas e as descreverem. Eles perceberam que somos todos humanos, cada qual com práticas culturais diferencia-
das, e essa diferença exerceu grande fascínio na Europa, tanto em uma perspectiva positiva, que é a de conhecer o 
“outro”, como na de dominação e de imposição da sua cultura ou da sua forma de vida – o chamado etnocentrismo. 
Essa discussão, muitopresente na literatura antropológica e histórica, incide em duas vertentes conflitantes:
• uma fascinação com os “selvagens”;
• o repúdio ao “estranho”.
Etnocentrismo: ocorre quando um grupo, população ou sociedade observa o mundo a par-
tir do seu ponto de vista e o coloca como a principal referência, consiste em se colocar no 
centro de tudo, entendendo que o que não está organizado de acordo com os seus valores é 
menor, e, portanto, é inferior culturalmente. É exatamente ao contrário da ALTERIDADE que 
é o exercício de se aprender com a diferença. 
Glossário
É exatamente sobre essa dicotomia que a cultura se desenvolveu e a Antropologia nasceu, sendo queé impor-
tante que todos esses aspectos despertem nossa reflexão acerca da nossa própria cultura.
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura
Frank Lestringant (2006, p. 516) diz: “[...]A imagem da terra jamais havia exibido tal insta-
bilidade[...]. Já não há mais um único continente, envolvendo o Mediterrâneo central, útero 
confortável onde se abrigavam as certezas dos antigos, mas uma poeira de ilhotas, arquipé-
lagos, lascas de terra, que vogam à deriva num oceano desmesuradamente ampliado [...]”.
Você concorda que essa citação cumpre o papel de nos retirar de uma zona de conforto? 
O homem, no sentido de humanidade, possui uma tendência inconsciente à religiosidade e também à autoafirma-
ção, o que nos leva, enquanto indivíduos, a acreditar e a defender que o nosso modo de vida é mais desenvolvido do 
que o dos outros.Essa ação é um exercício etnológico que aprimorou as sociedades, a partir do qual se pode enten-
der que a cultura é apreendida, ou seja, que ela não é natural e sim socialmente construída em cada sociedade.
Etnologia: compara a vida social dos povos, demonstra que seus fundamentos são unifor-
mes e verifica a existência de leis. 
Glossário
1.2 A passagem de um estado de natureza para um estado 
de cultura
A passagem de um estado de natureza para um estado de cultura é uma das discussões mais presentes e deba-
tidas na Antropologia e, por isso, é tão fascinante. O filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592) já nos 
ensinava que perceber o “selvagem” deveria ser um exercício. O intuito, por sua vez, não deveria ser de classificá-
-lo como superior ou inferior e sim como diferente, isso constituindo a alteridade. E, quando falamos em alteri-
dade, falamos de cultura.
Ao usarmos a palavra “selvagens”, algumas imagens nos chegam à mente, imagens essas também socialmente 
construídas. Mas, a questão é: em que momento da história a humanidade saiu de um estado de natureza e pas-
sou a um estado de cultura? Pois bem, resposta complexa para uma pergunta também complexa. Cumpre notar 
que, no entanto, não há uma resposta precisa e sim profunda, pois não há um marco histórico nesse sentido, 
uma data ou um século. O grande antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009) nos dá a resposta. Segundo ele, 
a passagem desse estado de natureza para um estado de cultura foi uma mudança de paradigma que não foi 
histórica e, sim lógica, pois o cultivo de hábitos e a sua reprodução levaram à construção de sociedades desde as 
mais simples às mais complexas. Genial, não? 
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura
Nessa lógica, a diversidade de processos históricos é o lócus privilegiado da cultura, que é formada a partir de 
inúmeras existências e resistências de cuja dialética emergem as sociedades.Um exemplo seria o homem quando 
passa a estabelecer relacionamentos.Isso pode ser entendido como algo natural, pois somos seres sociais e, 
quando estabelecemos uma sociabilidade, ela produz cultura, sendo que a própria relação humana é uma deri-
vação dessa cultura. Assim, a cultura é um ambiente artificial criado pelo homem, em que ele é produtor e pro-
duto dessa cultura. Interessante, não?
Figura 1.2 – Simbolização das diferentes culturas.
Legenda: A figura expressa as diferentes culturas, simbolizando as escolhas que 
fazemos, como estilo de óculos, corte e cores de cabelo e maquiagem.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Sabemos que os homens (no sentido de humanidade) são seres biológicos, e, por isso, vêm da natureza. Mas, 
paralelamente, o indivíduo social é desenvolvido, formado e criado dentro de cada sociedade, e, portanto, de 
uma cultura, na medida em que o homem utiliza a vida e a transforma imprimindo novos ritmos, sabores, gostos 
e comportamentos. E é nisso que está a sua marca, a sua cultura.
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura
Moda é cultura“[...] Georg Simmel (1859-1918), em 1904, [afirmou que] a moda era neces-
sariamente uma expressão das classes superiores, que buscava ser copiada pelas classes 
inferiores formando, nesse movimento de distinção e imitação, aquilo que se conhece hoje 
como “moda”, com suas mudanças cíclicas. É a emulação, o desejo de superar ou igualar a 
outrem, que cria a dinâmica da moda [...]” (GUIMARÃES, 2008, p. 2). 
Uma das maiores expressões da cultura é a moda. Zygmunt Bauman (1905-2017) analisa a moda dentro de uma 
perspectiva crítica, que ele denomina de modernidade líquida. A moda é considerada um fenômeno social que 
vende signos sociais, uma vez que ela apresenta diferença, desigualdades, fragilidades e também discrimina-
ções. Mas, ao mesmo tempo, pode ser libertadora.Ela é um fenômeno tão intenso de consumo, que se renova 
duas vezes ao ano seguindo as estações da primavera, verão, inverno e outono.
Nessa perspectiva, a cultura é estudada por aqueles que a pesquisam por meio da observação dos indivíduos se 
comportando em face de outros indivíduos e em relação à natureza. Por exemplo, as pessoas falam umas com as 
outras, gesticulam, realizam determinados movimentos, ocupam determinados espaços e evitam outros. Trocam 
com seus parceiros e participam de conflitos, desenvolvem atividades sexuais e de subsistência.
No nosso dia a dia, operamos basicamente com os códigos da nossa própria cultura. Nesse sentido, o exemplo da 
moda é perfeito. Nominamos as coisas com base em nossa realidade e convivência social e, nas sociedades ociden-
tais, coincide o que entendemos por ser uma roupa feminina, um tênis infantil, uma roupa esportiva, um terno, uma 
gravata ou uma sandália. A definição e o uso dessas peças são, portanto, códigos da nossa própria cultura.
Figura 1.3 – Simbolização da cultura por meio da moda.
Legenda: A figura expressa que nada é mais cultural do que a moda. 
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura
 Essa abordagem é um ensaio da complexa compreensão sobre cultura, cuja significação está em toda a parte, 
em todas as nossas ações, na esfera do trabalho, das relações conjugais, da produção econômica e artística, do 
sexo, da religião, das formas de dominação e de solidariedade. Absolutamente tudo nas sociedades humanas é 
constituído segundo os códigos e as convenções simbólicas que denominamos de cultura. 
1.3 O que é cultura? 
Uma das formas de cultura é a linguagem verbal, que expressamos por meio dos mitos, dos cantos, das atividades 
de caça, de pesca, da lavoura, dos jogos, das cerimônias e, inclusive, da guerra. Essa é uma compreensão geral, 
mas, agora, para definir cultura em uma perspectiva mais contemporânea e crítica, nos apoiaremos nos estudos 
do sociólogo polonês Zigmunt Bauman, que parte, em suas reflexões, dos escritos de Pierre Bourdieu (1930-
2002), especialmente sobre os seus estudos de distinção social. 
Uma das ponderações presentes diz respeito ao fato de que a cultura, ao invés de criar uma “condição humana 
universal”, passou a utilizá-la como mecanismo de separação e não de integração entre os diferentes povos 
e tribos sociais urbanas.Um exemplo é a construção social do “bom” gosto como oposição ao “mau” gosto, o 
“refinado” em relação ao “vulgar”. Aqui não é difícil perceberque a cultura tanto pode integrar como segregar. 
Vejamos a citação de Bauman (2011):
A elite cultural está viva e alerta; é mais ativa e ávida hoje do que jamais foi. Porém, está preo-
cupada demais em seguir os sucessos e outros eventos festejados que se relacionam à cultura 
para ter tempo de formular cânones de fé ou a eles converter outras pessoas. Além do princípio 
de “Não seja Enjoado”, “Não seja exigente” e “Consuma Mais”, essa ideologia nada tem a dizer a 
multidão unívora situada na base da hierarquia cultural. (BAUMAN, 2011, p. 6)
Bauman (2011) caracteriza como onívoro o indivíduo dos dias de hoje, pós-moderno, que 
consome de tudo, para atingir satisfação e felicidade. UNÍVORO: nos séculos passados, o 
consumo era caracterizado por uma escolha pormenorizada do que consumir, ao contrário 
do que acontece atualmente. 
Glossário
A cultura, em Pierre Bourdieu, já aparecia como um dispositivo útil utilizado de forma consciente para marcar 
essas diferenças de classe e preservá-las com o intuito de proteger e manter as hierarquias sociais. Como exem-
plo, nomear o que é belo ou feio é uma forma de impor essas categorias. A própria expressão artística funciona 
como uma distinção de classe quandoa arte se destina a um consumo estético que garante a segregação. No 
entanto, as transformações socioculturais criaram outro cenário em que surgiu o que Zygmunt Bauman deno-
minou de modernidade líquida. 
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura
Figura 1.4 – Simbolização da modernidade líquida.
Legenda: A figura expressa que a modernidade escorre entre nossos dedos, é o futuro imbricado com o passado.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Na cultura líquida descrita por Bauman (2011), o objetivo predominante é conquistar consumidores. Esse pensa-
mento fica muito claro quando ele discute o que é modernidade e a sua fluidez, principalmente nessa relação da 
construção dos valores culturais e do consumo vinculado a uma perspectiva estética.
Cabe compreender exatamente a abordagem de Bauman (2011) sobre o caráter líquido da 
modernidade: a“[...]‘modernização’, compulsiva e obsessiva, capaz de impulsionar e inten-
sificar a si mesma, em consequência do que, como ocorre com os líquidos, nenhuma das 
formas consecutivas de vida social é capaz de manter seu aspecto por muito tempo. ‘Dissol-
ver tudo que é sólido’ tem sido a característica inata e definidora da forma de vida moderna 
desde o princípio [...]” (Bauman, 2011, p. 16). 
Nessa linha, qual é o papel do belo e do feio? Já vimos que tanto uma categoria como outra são constructos 
sociais, mas cabe aprofundar essa discussão observando a pós-modernidade. Bauman (2011), em um debate 
utilizando os escritos de Sigmund Freud (1856-1939), apresenta a seguinte questão: qual a função do belo em 
nossa sociedade? Ele afirma que não poderíamos existir enquanto civilização sem esse conceito, pois, ainda que 
o belo não tenha uma utilidade óbvia, ele existe. E, embora não seja uma necessidade cultural, ele é uma necessi-
dade social, pois os binômios feio x bonito, elegante x deselegante e pobre x rico são estruturantes da vida social, 
organizam o mundo, afastam o requintado do Zé-ninguém. 
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura
Isso é muito interessante e ao mesmo tempo perturbador, você concorda? Cabe ainda apresentar a sucinta defi-
nição de cultura apresentada pelo autor. Para ele, cultura “[...] é um conjunto de preferências sugerido, recomen-
dado e imposto em função da sua correção, excelência ou beleza [...]” (BAUMAN, 2011, p. 7). O conceito também 
é muito fluido, mas suficientemente abrangente para nos dar apoio para refletir sobre o funcionamento das 
sociedades ocidentais. 
Uma sociedade pode ser tanto inclusiva e excludente ao mesmo tempo, na medida em que ela pode oferecer 
bilhetes para a arte, mas, ao mesmo tempo em que há oferta ampla, nem todos poderem acessá-la. Você com-
preende? Essa contradição é a marca da nossa sociedade e nem sempre é fácil perceber e tampouco explicar 
dicotomias como essa, que dão base àvida social.
De acordo com Bourdieu, principal referencial de Bauman, houve, no decorrer dos anos, uma ruptura com o con-
ceito iluminista de cultura, que visava modificar o status quo e não o edificar, a título de uma busca pela condição 
humana universal (BAUMAN, 2011). Assim, o objetivo não era codificar, inventariar e escrever a vida comum 
social, mas sim apontar uma direção no futuro. O nome cultura foi, ainda, planejado para educar as massas e 
refinar os seus costumes e então aproximar o povo (a base social) da elite (aqueles que estão no topo). Ela seria, 
nesse viés, a luz que perpassava o que poderíamos chamar de dois mundos.
Figura 1.5 – Simbolização da aproximação do povo da elite.
Legenda: A figura expressa que o projeto iluminista, ao criar a categoria cultura, tinha por 
objetivo aproximar dois mundos tidos como distintos, o da elite e o do povo.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
A intenção assumida e declarada dessa elite era educar, esclarecer, elevar e enobrecer o povo, levando as pessoas 
ao status recente de cidadãos no também novo conceito de Estado-Nação. Nada mais ocorreu do que a tentativa 
de unir o Estado a uma Nação, sendo o primeiro guardião daquela condição– sabemos que uma Nação não é 
capaz de ser formada sem cidadãos e a cultura, nesse espaço, figura como o tempero dessa junção.
Todavia, houve um problema com o projeto: nem todos os indivíduos se encaixavam naquele modelo e, dessa 
forma, sobraram pessoas, as chamadas franjas sociais, que não se enquadravam no almejado Estado-Nação. Em 
decorrência disso, efeitos indesejáveis ocorreram. Com a criação da ideia de que o “homem branco” teria uma 
missão, a de salvar aqueles que se encontravam em um estado de barbárie, percebemos deturpações da função 
da cultura, pois foi criada para ser inclusiva, mas, para gerar a inclusão, ela precisou excluir. Essa foi a justificativa 
utilizada. Você concorda com isso? Ou consegue visualizar um gap entre os objetivos e os meios para conquistá-
-los? Será que, para causar o equilíbrio social, primeiramente a sociedade tem que passar por desequilíbrios? 
Continuaremos esse assunto no próximo tópico.
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura
1.4 Conceituando: a cultura como construção social
No tópico anterior, em algumas passagens, apresentamos conceitos de cultura apresentados por Zygmunt Bauman 
e Pierre Bourdieu, bem como outrosdos mais aceitos no ambiente acadêmico pelos especialistas no tema, isto é, os 
antropólogos. Neste momento, nosso objetivo é “amarrar” esses conceitos e essas abordagens sobre cultura.
Embora existam divergências conceituais quanto ao que se entende por cultura, o que sabemos é que todas são 
complexas. Um dos caminhos é considerar cada cultura como uma unidade e um processo histórico individual, 
atentando para que as feições culturais não são compreensíveis quando separadas do conjunto da sociedade, ou 
seja, o indivíduo deve ser compreendido como um ser que vive na sua cultura. 
Mas a cultura também passou por grandes transformações, como já vimos. A modernidade passou de sua fase 
“sólida” para uma fase “líquida”, de forma que Bauman (2011) rebatizou o conceito de modernidade por “moder-
nidade líquida” denominada por outros autores como “pós-modernidade”, “modernidade tardia”, “segunda 
modernidade”, ou ainda, “hipermodernidade”. Mas qual é o impacto de atribuir novo conceito para explicar os 
fenômenos sociais?O próprio autor explica:
O que torna “líquida” a modernidade, e assim justifica a escolha do nome, é sua “modernização” 
compulsiva e obsessiva, capaz de impulsionar e intensificar a si mesma, em consequência do que, 
como ocorre com os líquidos, nenhuma das formas consecutiva de vida social é capaz de manter 
seu aspecto por muito tempo. “Dissolver tudo o que é sólido” tem sidoa característica inata e 
definidora da forma de vida moderna desde o princípio; mas hoje, ao contrário de ontem, as for-
mas dissolvidas não devem ser substituídas (e não o são) por outras formas sólidas – consideradas 
“aperfeiçoadas”, no sentido de serem até mais sólidas e “permanentes” que as anteriores, e, por-
tanto, até mais resistentes à liquefação. (BAUMAN, 2011, p. 11)
Percebemos que essa sociedade se torno mais fluida. Pensem você: existe como controlar a água que jorra de 
uma mangueira ligada a uma torneira? Podemos, com as mãos, controlá-la? Ou com um jarro? Tarefa impossível, 
pois a água se esgueira e foge por tudo onde toca. Essa é a descrição feita por Bauman (2011). 
A cultura na modernidade líquida descrita pelo sociólogo é repleta de ofertas, propostas e nunca de normas, pois 
nada a retém. A cultura quer estimular o consumo, tentar seduzir, produzir desejos e criar necessidades, e nunca 
cumprir deveres. Ocorre um apelo à mudança constante, diferentemente da época do Iluminismo, em que se 
tinha um norte.Hoje, não há norte, não há caminho, não há direção, o que existe é um mercado de consumo cuja 
a única orientação é a rotatividade e a fluidez.
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura
Figura 1.6 – Simbolização da busca desenfreada pelo consumo.
Legenda: A figura expressa que o objetivo das pessoas é consumir sem ter um caminho claro a ser seguido.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Somos uma sociedade de consumidores, em que os diversos artigos competem pela atenção, implicando em 
certa incapacidade de prender o foco dada a diversidade e o grande volume dessa competição. 
Todas essas interpretações e explicações de Bauman (2011) sobre a modernidade líquida deixam claro que a 
cultura é uma construção social. Cremos que, em relação a isso, não temos mais dúvidas, mas, para finalizar essa 
abordagem, é preciso compreender para explicar. 
Como afirma Bauman (2011), “[...] hoje, o [...] sinal de pertencimento a uma elite cultural é 
o máximo de tolerância e o mínimo de seletividade. O esnobismo cultural consiste agora na 
ostentosa negação do esnobismo. O princípio do elitismo cultural é onívoro – está à vontade 
em qualquer ambiente cultural, sem considerar nenhum deles seu lar, muito menos o único 
lar” (Bauman, 2011, p. 13). 
Nesse sentido, vamos recordar que o conceito de cultura surgiu na França com Edward Tylor, e, conforme descre-
vemos, com o intuito de refinar o povo, aperfeiçoar e instruir, sendo essa vocação tomada por ações do próprio 
Estado após a Revolução, com a queda da Monarquia. No entanto, esse olhar se perdeu com a institucionalização 
de um Ministério da Cultura, que, ao invés de se preocupar em refinamento, em um caminho inverso, passou a 
investir nos próprios artistas e no aprofundamento de suas expressões individuais e isoladas. Dessa forma, houve 
um descolamento do pensamento originaliluminista eoEstado passou a tutelar os artistas.
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura
Você consegue perceber a mudança no foco de atuação e as consequências que derivam na construção de uma 
sociedade do consumo? Houve um encapsulamento dos artistas e da arte, o quese tornou uma ação voltada de 
artistas para artistas e do Estado para os artistas e não para o povo naquele sentido original. O revolucionário, 
aqui, é transformar ideias em dominação, mecanismo discutido pelos autores da chamada Escola de Frankfurt.
Da Escola de Frankfurt emerge uma teoria social criada por estudiosos componentes da Uni-
versidade de Frankfurt, formada por cientistas sociais marxistas que entendiam que as ideias 
marxistas ortodoxas não davam conta de explicar a sociedade capitalista. Considerando isso, 
criaram uma visão alternativa para o desenvolvimento da sociedade, e, para explicá-la, cria-
ram concepções alternativas que partiam das concepções marxistas, que, por meio de um 
processo de refinamento, culminaram na denominada Teoria Crítica. 
Dentro dessa discussão, qual seria a função da arte? A função da arte é mudar o mundo – questão que foi profun-
damente debatida pelos autores da Escola de Frankfurt. No entanto, seguiremos como olhar de Bauman (2011), 
que identificou um conflito entre os administradores da arte e os artistas, dialética dentro da qual se construiu 
esse mundo da modernidade líquida. Ambos não discordam quanto à necessidade constante de mudanças e 
ajustes, mas há conflito quanto ao objeto dessas mudanças. Haja vista que a cultura vai além da satisfação da 
necessidade o incentivo ao consumo como necessidade corrompe a cultura criando um ciclo vicioso de consumo 
e de inserção social por esses mecanismos. Voltamos, com isso, àquela primeira discussão do indivíduo como 
onívoro e unívoro, e porque nos tornamos onívoros, e as implicações dessa mudança do ponto de vista de uma 
cultura de consumo.
As culturas estão em um processo contínuo de modificação e isso quer dizer que a cultura não é algo estático, 
pois nós mudamos frequentemente. Podemos considerar que temos dois fluxos de mudança: um interno e um 
fruto do contato. O primeiro é resultado da própria dinâmica do sistema cultural. É uma mudança, em geral, 
lenta, mas que pode ser alterada por eventos históricos. Por exemplo, a inovação tecnológica causou grande 
impacto na sociabilidade, vide o papel das redes sociais como o Facebook, dentre outras.
O segundo fluxo de mudanças emerge do contato de um sistema cultural com outro sistema cultural. O melhor 
exemplo é a aculturação, fenômeno amplamente divulgado e estudado em relação aos índios brasileiros em 
seu contato com os portugueses que aportaram no Brasil. Outro exemplo que vale a pena ser apresentado foi o 
forte impacto cultural da pílula anticoncepcional para as mulheres, para os casais, para as famílias, pela grande 
revolução sexual que causou.
Certamente, em termos acadêmicos, esse segundo modelo é o mais estudado, tendo em conta o forte impacto 
na cultura e, por consequência, nas relações sociais. É possível perceber, a partir desses exemplos, o quanto a cul-
tura é dinâmica, não estática, o tempo todo alimentada por informações sociais que estão em constante trans-
formação, algumas mais lentas e outras mais intensas e revolucionárias.
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura
Figura 1.7 – Simbolização do processo de aculturação.
Legenda: A figura expressa a cultura dos índios no Brasil, que confrontou 
fortemente com a cultura do homem branco europeu.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Nessa abordagem, percebemos que somos sujeitos de cultura e somos afetados tanto internamente como 
externamente. Normalmente, os grandes impactos são mais amplamente estudados, mas ambos são muito 
importantes. Pare e pense! Lembre-se das roupas utilizadas pelos homens e mulheres da elite no final do século 
XVIII. Mulheres: vestidos compridos, pesados, fechados, cabelos longos e amarrados. Homens: cartola, bengala 
e ternos. E, hoje, calças jeans rasgadas propositalmente, decotes, camisetas e transparências. Foi uma mudança 
lenta, mas que ocorreu a partir da quebra de paradigmas entre os relacionamentos sociais.
Por fim, a mensagem que fica é a de que somos sujeitos culturais. Sendo assim, a sociedade e a cultura são cons-
truções sociais que variam de acordo com o desenvolvimento da sociedade em seus mais variados aspectos. 
20
Considerações finais
Nesta unidade, tivemos acesso a muitas informações e conteúdos impor-
tantes em termos da formação da cultura, da cultura efetivamente como 
uma construção social e de todas as transformações que impactam em 
nosso comportamento social.Vamos retomar os pontos principais estu-
dados até aqui?
• A Antropologia é o estudo da cultura e tem como pilar a alteri-
dade e a diferença. As sociedades não são naturais, elas são entes 
de cultura, que é a expressão de comportamentos apreendidos. O 
estudo da culturarequer a análise dos hábitos morais, religiosos, 
comportamentais e políticos do modo de vida dos seres humanos.
• A cultura sempre teve como marco a passagem de um estado de 
natureza para um estado de cultura. Isso porque a Antropologia 
nasce fortemente influenciada pelas ciências naturais. As socie-
dades criam e transmitem cultura e, uma importante reflexão 
nesse sentido, é a de que, se criamos a cultura, também podemos 
transformá-la. 
• Não existe uma data no calendário da humanidade que marque 
quando saímos do estado natural e passamos para o estado cul-
tural. Essa passagem não é histórica e sim lógica, no que reside 
a complexidade de se estudar os fenômenos culturais. A cultura 
é um fenômeno artificial criado pelo homem, que imprime seu 
ritmo sobre aquela, reforçando a ideia de que a cultura é um cons-
tructo social.
• A moda é uma grande expressão da cultura e a sua volatilidade 
demonstra o quão sujeitos estamos aos fenômenos da cultura. O 
que comemos, vestimos, contamos, cantamos etc. revela muito da 
nossa identidade cultural. Além disso, a cultura é uma demons-
tração da nossa reação aos fenômenos da natureza.
• Em termos de classes sociais, a criação do gosto é uma expres-
são da cultura. Vimos como o impacto do consumo impulsiona 
o funcionamento dessa sociedade. Descrevemos a mudança de 
paradigma detectado por Zygmunt Bauman e Pierre Bourdieau 
em relação a uma sociedade que se preocupava em educar o povo 
e que, na modernidade líquida, se preocupa em transformá-lo em 
simples consumidores. 
21
• Cada cultura é única e teve o seu próprio caminho de formação, 
sendo cada uma é fruto de uma construção social.
• O que constitui a cultura da modernidade líquida são as ofertas, 
as propostas e a criação da necessidade pelo consumo, nunca as 
normas ou os limites. Esta não é retida por nada. A cultura esti-
mula o consumo, tenta, seduz, produz desejos e cria necessidades 
e nunca estimula o cumprimento de deveres ou de limites.
• A cultura não é estática, mas sim está em constante modifica-
ção e retroalimentação, especialmente por meio do estímulo ao 
consumo hoje em dia. A cultura é tanto reflexo de transforma-
ções lentas e contínuas quanto de grandes mudanças que cau-
sam impactos mais significativos e extensivos no comportamento 
humano. Podemos citar como exemplo a grande revolução cultu-
ral causada pela integração da pílula anticoncepcional, que teve 
impacto na sociedade como um todo e mudou hábitos. 
• A cultura fica comprovada como uma construção social muito 
particular de cada sociedade, havendo um movimento interno e 
externo de alimentação desses modos de vida.
Referências bibliográficas
22
BAUMAN, Z. A Cultura no Mundo Líquido Moderno. Rio de Janeiro: Jorge 
Zahar Editor, 2011.
GUIMARÃES, M. E. A. Moda, cultura e identidades. IV ENECULT –- Encon-
tro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, 28 a 30 de maio de 
2008. Faculdade de Comunicação/UFBa, Salvador-Bahia-Brasil. MODA, 
CULTURA E IDENTIDADES. Disponível em: <http://www.cult.ufba.br/ene-
cult2008/14326.pdf>. Acesso em: 03 jan. /01/2018.
LESTRINGANT, F. O Brasil de Montaigne. Revista de. Antropologia. [on-
-line], .São Paulo, 2006, vol. 49, n. 2, pp. 515-556. ISSN 0034-7701.  Dis-
ponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0034-77012006000200001>. 
Acesso em: 03 jan. 2018. 03/01/2018.
TYLOR, E. La ciência de la cultura. Barcelona: Anagrama, 1975.
24
2Unidade 2
Antropologia Cultural
Para iniciar seus estudos
Caro(a) aluno(a), esta unidade é importante para sua formação porque 
introduz os principais modelos e critérios pelos quais as culturas foram 
compreendidas. A partir da definição conceitual de cultura construída na 
primeira unidade, já nos encontramos preparados para estudar e apro-
fundar tal temática. Esse conhecimento certamente será um grande dife-
rencial em sua formação profissional.
Objetivos de Aprendizagem
• Refletir a Antropologia Cultural como uma das quatro áreas 
da Antropologia em que se estuda heterogeneidade cultural 
humana, bem como as sociedades humanas no aspecto cultural.
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 2 - Antropologia Cultural
2 Antropologia Cultural
Nesta unidade, vamos promover uma reflexão sobre as manifestações culturais seguindo os passos da Antro-
pologia, uma região do saber científico que entende, como objeto privilegiado de análise, a diversidade de tais 
manifestações. Sem pressa, vamos começar devagar...
Observe as seguintes frases:
Frase 1: “Nós todos sabemos que as pessoas precisam de cultura neste país. Um povo sem educação é um povo 
condenado”.
Frase 2: “A cultura brasileira é riquíssima. Vejam só nossa música, nossa culinária, nossas festas!”
As duas frases citadas apresentam o termo cultura com conotações diferentes, sendo que apenas uma delas 
possui sentido antropológico. Tal sentido do conceito de cultura está expresso na frase dois, uma vez que ele 
engloba as características sociais como um todo, a partir da junção dos aspectos material e simbólico destas 
construções sociais, definindo as formas de pensar, agir, sentir e interagir próprias de cada grupo social.
Figura 2.1 – Cultura étnica
Legenda: Elementos étnicos.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Muitas vezes, mesmo sabendo que cultura não pode ser confundida com nível educacional, ela, não estando 
bem definida, vincula-se a uma ideia de “o todo mais complexo” que estaria além das nossas capacidades sensí-
veis de imaginá-lo. A primeira tentativa de compreender as manifestações culturais aconteceu junto à empresa 
neocolonial: a Antropologia surge no contexto do neocolonialismo europeu do final do século XIX, uma vez que o 
contato dos europeus com a diversidade cultural representada pelos nativos africanos e asiáticos fez necessária 
uma ciência que buscasse compreender o funcionamento destas sociedades e que justificasse o domínio sobre 
esses povos (MARCONI; PRESOTTO, 2013).
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 2 - Antropologia Cultural
Quem definiu a cultura pela primeira vez foi o antropólogo inglês Edward Tylor (1832-1917), entendendo-a com 
“um todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade 
ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade” (TYLOR, 1871, p. 1). Assim, a cultura, para 
o autor, seria o modo pelo qual o indivíduo constrói seus símbolos e interpretações do mundo através de um 
processo de aprendizado e de convivência em determinado grupo social. 
No entanto, apesar de depender da subjetividade e da interpretação do indivíduo, a cultura não é algo essencial-
mente individual, porque mostra a maneira pela qual as pessoas se relacionam entre si. Cultura, na Antropologia, 
se associa ao conceito de alteridade, isto é, à relação entre eu e o outro, a convivência com a diversidade, com o 
diferente, estando ele em uma sociedade longínqua ou sendo nosso vizinho.
Como pensar e lidar com o outro e as implicações sociais, éticas e políticas que isso pode trazer para a convivên-
cia em um mundo em comum é a grande questão da Antropologia. Ainda que haja, entre os antropólogos, um 
consenso e uma definição mais geral da cultura como capacidade de simbolizar e interpretar o mundo, veremos 
que há diferentes perspectivas, usos e implicações do conceito, o que traz, por sua vez, diferentes maneiras de 
ver e lidar com as diferenças.
Em Antropologia, o conceito de cultura se desdobra em outros conceitos, como o de alteridade, etnocentrismo, 
relativismo e identidade, o que permite complexificar o debate, ao mostrar como situações sociais cotidianas não 
se esgotam em soluções fáceis (BAUMAN, 2011). Na sequência, vamos conhecer mais sobre o evolucionismo e 
o relativismo.
2.1 Evolucionismo e Relativismo
Para iniciar nossa imersão pela temática da cultura, abordaremos, nesta seção,as duas principais correntes de 
pensamento que promoveram a investigação científica acerca das manifestações socioculturais, a saber: o Evo-
lucionismo e o Relativismo Cultural.
2.1.1 Evolucionismo
O evolucionismo cultural é uma corrente da teoria social que se tornou expressiva no final do século XIX e iní-
cio do XX. Ela olha para a cultura e para a sociedade como se elas sempre “evoluíssem” para algo melhor, mais 
desenvolvido, como se todas as expressões humanas passassem pelas mesmas etapas, se desenvolvendo a partir 
de instituições mais simples para as mais complexas. Tal corrente do pensamento social foi inspirada pelas ideias 
do naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882).
Essa corrente antropológica, denominada Evolucionismo, surge a partir de uma necessidade específica da socie-
dade europeia: a de compreender as culturas dos outros. O Evolucionismo, dessa maneira, nasce de uma postura 
etnocêntrica, isto é, o privilégio de uma cultura, no caso a europeia, serve como parâmetro para compreender o 
grau de evolução desta e de outras culturas e sociedades. Tal visão etnocêntrica considera todas as expressões 
humanas a partir de um único ponto de vista, que é o seu próprio (ROCHA, 1988).
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 2 - Antropologia Cultural
Figura 2.2 – Evolucionismo.
Legenda: Representação da evolução humana e tecnológica.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
O evolucionismo cultural representa uma hierarquização das sociedades a partir da distinção entre bárbaros e 
civilizados, justificando a dominação entre os povos. A condição de civilizado era exclusividade da sociedade 
ocidental europeia, tida como o modelo a ser seguido por todas as outras expressões humanas e sociais que, 
relegadas à condição de barbárie, precisavam da “ajuda” civilizada para subir os degraus da evolução técnica 
rumo às sociedades industriais.
Podemos entender essa postura de uma maneira bastante simples: o posicionamento evolucionista baseava-se 
em classificar os outros povos de acordo com as características culturais dos observadores europeus, hierar-
quizando as sociedades como melhores ou piores. A cultura, assim, era vista como uma sucessão de inovações 
tecnológicas e científicas.
2.1.2 Relativismo
O Relativismo é uma corrente do pensamento antropológico que faz uma crítica ao Evolucionismo ao negar a 
possibilidade de hierarquização entre as culturas, buscando compreendê-las dentro de seus próprios contornos. 
O que isso quer dizer? O relativismo cultural é uma perspectiva antropológica que propõe que as outras culturas 
devem ser compreendidas a partir de seus próprios valores e conhecimentos. Ou seja, uma determinada cultura 
deve ser observada e compreendida a partir das suas próprias formas de pensar e agir e não a partir dos conceitos 
de quem a observa (LANGDON; WIIK, 2010). 
O relativismo cultural postula que o quê é próprio de outro povo deve ser compreendido a partir dos seus concei-
tos e não a partir dos nossos próprios conceitos. Nesse sentido, é importante assumirmos uma postura em que 
nos esforcemos para compreender as outras formas de pensamento, crenças e valores a partir de seus próprios 
sistemas culturais. Porém, esse exercício de tentar compreender o que é distinto e diferente de nós não é algo tão 
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 2 - Antropologia Cultural
simples, considerando que exige conhecer de forma mais aprofundada o ponto de vista de outra população, o 
que requer diálogo e convivência.
Relativizar, portanto, é tentar deslocar-se em direção a outros pontos de vista. Se olhamos para os diferentes 
povos a partir de nossos próprios conceitos e concepções, estaremos praticando o que, na Antropologia, se 
chama etnocentrismo. O etnocentrismo pode ser considerado como o contrário do relativismo cultural.
2.2 Funcionalismo, Estruturalismo e Hermenêutica
Nesta seção, abordaremos as principais escolas do pensamento antropológico que se consolidaram através de 
propostas metodologicamente distintas para a compreensão das manifestações socioculturais. Veremos como 
os antropólogos compreenderam a cultura a partir de diferentes pontos de vista, além do alcance e dos limites de 
cada uma dessas perspectivas. Trataremos do Funcionalismo de Malinowski e Radcliffe-Brown, do Estruturalismo 
de Lévi-Strauss e, por último, da Hermenêutica de Geertz.
2.2.1 Funcionalismo
O Funcionalismo é uma escola da teoria social que vê a sociedade como um conjunto de instituições sociais que 
desempenham funções específicas de modo a garantir a integração, a coesão e a continuidade do todo social. 
Por exemplo, podemos utilizar a metáfora do corpo humano para pensar as instituições sociais como partes do 
corpo, como se fossem órgãos que precisam funcionar e interagir bem.
Ela tem como principais representantes na Antropologia dois grandes pesquisadores: o britânico Aldred Radcli-
ffe-Brown (1881-1955) e o polonês Bronislaw Malinowski (1884-1942). As instituições (como família, escola, 
igrejas, polícia e Estado) são centrais em suas teorias, sendo que elas precisam funcionar bem e de forma inte-
grada para que a sociedade se mantenha sem conflitos. 
Os funcionalistas acreditam que a cultura serve à satisfação de funções primárias das pessoas, que criam as 
regras sociais para satisfazer suas próprias necessidades. Por exemplo, conhecer e classificar os alimentos como 
conhecimento para saciar a fome. Ou seja, as pessoas só passaram a conhecer as espécies de plantas e animais 
na medida em que esses são comestíveis, prestam-se a uma função. 
Todo o conhecimento estaria, assim, vinculado diretamente à utilidade, na medida em que só se conhece e só é 
possível conhecer aquilo que é útil. A cultura seria, dessa forma, um modo eficiente de satisfazer os desejos bio-
lógicos primários do ser humano, desejos como alimentação, abrigo e afeto. Dentro dessa perspectiva, a cultura 
estabeleceria um código pragmático sobre a relação do ser humano com o mundo material, permitindo que 
certos esquemas para classificar a natureza estejam a serviço da satisfação de necessidades. 
Na perspectiva funcionalista, o estudo científico das sociedades deve privilegiar a análise da organização social 
no presente ou em um tempo claramente delimitado. Empreende-se, dessa forma, uma crítica acirrada à visão 
evolucionista, argumentando que ela se baseia em conjecturas sobre o passado histórico da humanidade que 
dificilmente poderiam ser comprovadas.
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 2 - Antropologia Cultural
2.2.2 Estruturalismo
O interesse principal da escola estruturalista é desvendar estruturas que se assemelham e que são subjacentes a 
fenômenos aparentemente muito diferentes entre si. Ou seja, seu foco recai sobre o que é comum e constante 
em todas as sociedades, mesmo que a maneira de aplicar essas invariantes ou essas regras sociais seja distinta 
em cada uma delas. 
Claude Lévi-Strauss (1908-2009), considerado o maior representante dessa perspectiva, promoveu um rigoroso 
estudo sobre os mitos em diversas sociedades e buscou, para além das variações nas estórias e nos modos de 
contar, os elementos que se repetiam em todas elas, montando, com isso, uma estrutura em comum. 
Enquanto a natureza é compreendida por regras universais, a cultura destaca-se pela par-
ticularidade e diversidade de suas manifestações. O interesse do Estruturalismo recai exa-
tamente sobre essa passagem da natureza para a cultura, do universal ao particular, movi-
mento sensível da humanidade em quaisquer das suas expressões. 
A primeira regra cultural, para Lévi-Strauss (1989), é a proibição do incesto, ou seja, a regra que proíbe relações 
sexuais ou de casamento entre pessoas com parentesco. Trata-se de um tabu que funciona como fundamento 
da vida social que impede o fechamento das famílias nelas mesmas: ao obrigar o casamento fora dogrupo fami-
liar, o tabu do incesto inaugura trocas entre as famílias, promovendo a circulação de pessoas, bens e símbolos 
entre grupos. Eis o que caracteriza a passagem da natureza à cultura. Se existe isso em todas as sociedades 
humanas conhecidas, é universal. Mas, ao mesmo tempo, é particular, uma vez que a maneira pela qual a família 
e os laços de parentesco são concebidos varia bastante.
As espécies de plantas e animais, aqui, não seriam classificadas porque são boas para comer, mas sobretudo 
porque são boas para pensar. Isso quer dizer que são entendidas pelo conhecimento em si e não meramente por 
uma função utilitária do intelecto. Portanto, os aspectos materiais e as necessidades biológicas são deixados em 
segundo plano. Em crítica ao Funcionalismo, a perspectiva estruturalista não relaciona diretamente a cultura 
com satisfação das necessidades, isso porque classificar as espécies antecede qual utilidade que a mesma irá 
adquirir a partir de sua classificação. Trata-se, pelo contrário, de satisfação do intelecto: primeiro se conhece para 
depois introduzir um princípio de ordenador no universo. 
Segundo Lévi-Strauss (1989), o ser humano faz o que faz não apenas para satisfazer suas necessidades, mas para 
reconhecer-se e afirmar-se enquanto tal, diferenciando-se dos outros animais. A cultura não está, portanto, a 
serviço da utilidade: no Estruturalismo, tal conceito amplia suas possibilidades de se relacionar com o meio. Para 
o autor, a cultura é um sistema simbólico em que estão localizadas a ciência, a religião, o parentesco, a linguagem 
e a arte. 
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 2 - Antropologia Cultural
Figura 2.3 – Pintura rupestre.
Legenda: Representação de arte rupestre.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Lévi-Strauss (1989) também faz uma crítica ao Evolucionismo ao mostrar que, apesar de haver diferentes mani-
festações culturais, tais manifestações repousam em uma estrutura em comum para toda a humanidade, que, 
para o autor, é o pensamento lógico. Dessa maneira, pessoas das mais diversas sociedades, indígenas e não indí-
genas, possuem a mesma capacidade técnica e intelectual, ainda que suas expressões sejam distintas. 
Não pode existir, a partir dessa concepção, um pensamento caracterizado como irracional, ou pré-lógico, ideia 
que era comum entre evolucionistas. O conhecimento tradicional e o pensamento mágico não são, por exemplo, 
uma fase inicial do pensamento técnico-científico; antes, fazem parte de um sistema independente articulado e 
coerente como a ciência ocidental.
2.2.3 Hermenêutica
Segundo essa escola antropológica, cultura é um conceito semiótico, ou seja, a cultura é como um texto que 
precisa ser interpretado, não havendo uma explicação única e universal, mas a possibilidade de diferentes inter-
pretações de acordo com aquele que produz e aquele que o lê (GEERTZ, 1989). 
A cultura como texto e contexto significa que o mais importante não é tanto o que as pessoas fazem, mas os sig-
nificados que elas atribuem ao que fazem, e são esses sentidos que os antropólogos devem buscar. Essa prática 
científica ficou conhecida como uma Antropologia Interpretativa ou Hermenêutica. 
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 2 - Antropologia Cultural
Hermenêutica é a área do saber dedicada ao problema de como conferir significado a um 
produto ou artefato cultural, que pode ser desde um utensílio doméstico até uma obra de 
arte ou um texto literário. 
Glossário
Em “Uma descrição densa: por uma teoria interpretativa da cultura”, Geertz (1989) inicia um debate sobre o con-
ceito de cultura, na intenção de torná-lo mais limitado, especializado e teoricamente mais poderoso. Lança essa 
ideia a fim de desvincular a noção de cultura do “todo mais complexo”. As culturas, enquanto teias de significado, 
ou o comportamento humano orientado pela ação simbólica não podem ser explicados através da aplicação 
universal de conceitos para diversos fenômenos sociais. Sendo a cultura essas teias e sua análise, seu estudo não 
é uma ciência experimental em busca de leis gerais, mas uma ciência interpretativa à procura dos significados. L
O conceito de cultura, portanto, é essencialmente semiótico. Isso quer dizer que não faria sentido, para uma 
disciplina que se interroga sobre a cultura, admitir um estatuto objetivo ou subjetivo. A vocação da Antropologia 
Interpretativa seria, à vista disso, colocar à disposição as respostas que outros deram, incluindo-as no registro de 
consultas do que o homem falou, tendo como principal objetivo o alargamento do universo do discurso humano. 
A prática etnográfica seria o método mais adequado para essa antropologia proposta. Para além do reconheci-
mento de algumas rotinas comuns a essa prática, tais como levantar genealogias, selecionar informantes e man-
ter um diário, o que define a Etnografia seria um esforço intelectual ou um risco elaborado para uma descrição 
densa. Deveria, como afirma Geertz (1989), textualizar o fluxo do discurso social e fixá-lo em suportes pesquisá-
veis, em uma análise microscópica. Assim, através da circunstancialidade do contexto, poderiam ser acessados 
grandes temas. 
Fazer etnografia é realizar uma leitura de um manuscrito estranho, desbotado, cheio de incoerências e emendas 
suspeitas. Esse empreendimento deve ser entendido como uma construção, e mais: como uma construção das 
construções de outras pessoas. 
O texto antropológico como conhecimento científico consiste em formular a base na qual se imagina, ainda que 
excessivamente, estar situado. Antropologia estaria atenta ao exótico, às formas não usuais do comportamento 
humano, procurando pelo comum entre elas. Esse artifício para deslocar seu senso de familiaridade e a gene-
ralização dos padrões comportamentais revelariam o grau no qual os seus significados variam de acordo com o 
modo de vida através do qual ele é informado. Desse modo, o distanciamento entre o eu (pesquisador) e o outro 
(objeto de estudo) é constitutivo da prática antropológica. 
Como sistemas entrelaçados de signos interpretáveis, a cultura não é um poder, algo a que 
podem ser atribuídos casualmente os acontecimentos sociais. Ela é um contexto, algo den-
tro do qual os acontecimentos podem ser descritos de forma inteligível – para Geertz (1989), 
descritos com densidade. 
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 2 - Antropologia Cultural
Em suma, Geertz (1989) propõe uma renovação da antropologia contemporânea, lançando novas bases para a 
constituição do saber científico antropológico, aprofundando debates epistemológicos acerca do conceito de cul-
tura e da prática etnográfica. De fato, o comprometimento com um conceito semiótico de cultura e uma aborda-
gem interpretativa de seu estudo é o comprometimento com uma visão da afirmativa etnográfica como “essencial-
mente contestável”: não existem conclusões a serem apresentadas, apenas discussões a serem sustentadas.
2.3 A crítica pós-moderna e as reviravoltas da cultura
Nesta seção, trataremos dos desdobramentos contemporâneos e da polêmica antropológica que orbitam o con-
ceito de cultura. Nosso foco se volta para a discussão empreendida pela Antropologia nas últimas três décadas 
acerca das possibilidades de tradução cultural e do modo de escrita que caracterizou tal disciplina acadêmica 
desde sua emancipação.
2.3.1 Contra a cultura
Em contraposição às ideias de Clifford Geertz, Lila Abu-Lughod (1952-), em “Writing against culture” (“Escrevendo 
contra a cultura”, em tradução livre), faz uma crítica radical ao conceito de cultura, alertando para alguns de seus 
excessos, como em sua coerência, atemporalidade e discrição. A Antropologia baseada no conceito de cultura esta-
ria tomando as comunidades por limitadas: diversas experiências e fatos são selecionados e reunidos independen-
temente de suas ocasiões temporais originais e valores duradouros sãoatribuídos a esse novo arranjo. 
A partir dessa crítica, Abu-Lughod (1991) mostra como a cultura pode funcionar como ferramenta antropológica 
para fabricar o outro, permanecendo situada, dessa forma, dentro do aspecto mais fundamental dessa disciplina 
até então. A vantagem da cultura, em relação ao seu antepassado-raça, é que ela tira as diferenças do reino 
animal e inato. Porém, com essa nova roupagem, a cultura não faria mais do que dar continuidade à separação 
fundamental do pensamento ocidental, entre o eu antropológico ocidental e o outro não ocidental confinado: 
um operador hierárquico da distinção.
Essa tendência estaria, então, a serviço dos critérios estabelecidos, já que conduz a pensar “eus” e “outros” como 
dados. Vista dessa maneira, a cultura seria cúmplice do encarceramento dos povos não ocidentais no tempo e no 
espaço, os quais tendem a ter sua história negada. Os antropólogos devem, então, tratar com suspeita a “cultura” e as 
“culturas” como termos-chave em um discurso no qual alteridade e diferença passaram a ter a qualidade de talismã. A 
autora apresenta estratégias etnográficas para escrever textos contra a cultura. Cabe apontar que tanto Geertz (1989) 
quanto Abu-Lughod (1991) concordam que o exercício antropológico é a produção do texto etnográfico.
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 2 - Antropologia Cultural
Figura 2.4 – Cultura da escravidão.
Legenda: Escravos sendo conduzidos.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Abu-Lughod (1991) propõe questões sobre o uso dos termos de discurso e prática, que sinalizam uma mudança 
no conceito antropológico de cultura, enquanto que, por conexões histórico-espaciais, a Antropologia se vira 
para a história, traçando essas conexões entre passado e presente de comunidades específicas. O desenvolvi-
mento dessas estratégias favoreceria, pois, a produção de textos acadêmicos escritos contra a cultura – ou contra 
as generalizações. 
A autora aponta para o caráter das etnografias do particular como uma maneira de escrever sobre a vida de modo 
a constituir “outros” como menos outros, sendo que o modo de funcionamento e o estilo característico da escrita 
social já não pode ser considerado como neutro. Ao recusar as generalizações, Abu-Lughod (1989) destaca a quali-
dade dessas tipificações construídas e tão regularmente utilizadas e reproduzidas pelos discursos científico-sociais 
convencionais. A proposta da autora é focalizar, de perto, os indivíduos particulares e suas relações em mudança 
para subverter as conotações problemáticas da cultura: excesso de coerência, atemporalidade e discrição. 
Abu-Lughod (1991) faz uma crítica à Antropologia Interpretativa afirmando que, apesar de ela contestar a busca 
de leis gerais para uma ciência social positivista, o resultado tem sido o de substituir generalizações de significado 
por generalizações de comportamento. Com isso, um reino de objetos teoricamente construídos é criado, libe-
rando o discurso de seu solo, da vida real dos indivíduos e liberando também as investigações sociológicas para 
pastar em um campo de entidades conceituais (ABU-LUGHOD, 1991). 
A autora afirma que, ao reconstruir os argumentos, as justificativas e as interpretações das pessoas sobre o que 
elas e os outros estão fazendo explicaria como caminha a vida social. Seria mostrar que, embora os termos de 
seus discursos possam ser definidos dentro desses limites, as pessoas contestam interpretações, criam estraté-
gias, sentem dores e vivem suas vidas. Os efeitos do local e os processos de longo prazo só se manifestam local-
mente e especificamente, produzidos nas ações dos indivíduos vivendo suas vidas particulares, inscritos em seus 
corpos e palavras. Tendo em vista esses aspectos, Abu-lughod (1991) defende uma forma de escrita que poderia 
transmitir melhor isso.
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 2 - Antropologia Cultural
2.3.2 A defesa da cultura e seu uso político
Para Sahlins (1997), o conceito de cultura não deve ser abandonado, sob pena de deixarmos de compreender o 
fenômeno único que ele nomeia e distingue: a organização da experiência e ação humanas por meios simbóli-
cos. Essa ordenação e reordenação do mundo em termos simbólicos, essa cultura, seria a capacidade singular da 
espécie humana.
Seu texto “O Pessimismo Sentimental” é uma resposta a duas críticas que apontariam para uma suposta “crise 
da Antropologia”. A primeira, argumenta que o conceito de cultura, enquanto demarcador de diferença, esta-
ria assentado em um pressuposto discriminatório fruto de um nascimento enraizado no colonialismo. Desse 
modo, o conceito legitimaria múltiplas desigualdades, cabendo ao antropólogo a tarefa de fugir desse estigma 
da dominação. A segunda argumenta que a cultura, o objeto de interesse antropológico, estaria em vias de extin-
ção, devido ao fato que, ao mesmo tempo em que se desenvolviam e proliferavam-se os estudos, as sociedades 
as quais pretendiam estudar iam desaparecendo frente às novas consolidações globais do capitalismo e da hege-
monia ocidental. 
O desafio encontrado é que, ao se opor qualquer autonomia cultural ou intencionalidade histórica à alteridade 
indígena, as antropologias do sistema mundial passam a ser semelhantes ao colonialismo que, antes, era con-
denado por elas. A concepção de cultura, para a crítica pós-moderna, estaria, dessa forma, assentada em uma 
noção monológica e determinista. No entanto, diversas etnografias têm demonstrado as transformações das 
culturas, suas inter-relações e a capacidade dos povos em integrar culturalmente as forças do sistema mundial. 
O argumento de Sahlins (1997) é que o contato com o ocidente e a integração com o mercado promoveram um 
enriquecimento das culturas locais através da apropriação e reelaboração dos novos elementos vinculadas aos 
significados tradicionais, no sentido de organizar as novas possibilidades através da própria cultura. Não é um 
otimismo sentimental, que ignoraria o sofrimento de povos inteiros. Trata-se, aqui, ao contrário, de uma reflexão 
sobre a complexidade desse sofrimento, causado por doenças, violência, escravidão e outras misérias dissemi-
nadas pela sociedade ocidental.
As novas problemáticas que o autor coloca, tanto para a Antropologia quanto para a pesquisa de campo, reme-
teriam à dinâmica das relações entre o local e o global. Ao invés da grande narrativa da dominação ocidental, 
portanto, um outro modo de lidar com a constatação antropológica usual de que outros povos não perdem sua 
cultura tão facilmente, seria reconhecer o desenvolvimento simultâneo de uma integração global e uma diferen-
ciação local: justamente por participarem de um processo global de aculturação, os povos locais continuam a se 
distinguir entre si pelos modos específicos como o fazem. 
O autor apresenta etnografias atuais que abordam esse processo. Por exemplo, a noção de 
developman entre os Mendi e o caso das sociedades transculturais, ou culturas translocais, 
espalhadas pelo mundo, que se orientam para um uso reflexivo da cultura. 
Obrigada, assim, a encontrar explicações racionais para práticas cujas razões são desconhecidas, a consciência 
da cultura não é uma mera racionalização, mas uma quase tradução consistente com os saberes, narrativas e 
interesses da sociedade. Sahlins (1997) salienta para o fenômeno da “indigenização da modernidade”. A cultura 
como ferramenta política segue, nesse sentido, sua orientação original de Kulture, em alemão, quando, na época, 
35
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 2 - Antropologia Cultural
o imperialismo de França e Inglaterra ameaçavam sua autonomia. Desse modo, o autor indicaria possibilidades 
nas quais a ordem cosmológica englobaria a ordem mundial, com a Antropologia ainda se encontrando em ter-
reno fértil, no qual culturas estariam muito ativas, vibrantes, proliferando em todas as direções.
Seguindo as implicaçõespropostas pelo antropólogo, Manuela Carneiro da Cunha (1967-) busca fazer a distin-
ção entre cultura (a cultura “em si”, isto é, enquanto esquemas interiorizados que organizariam a percepção e 
a ação das pessoas e que garantiriam certo grau de comunicação entre grupos sociais) e “cultura” (uma cultura 
“para si”, o que remeteria a metalinguagem ou noção reflexiva a respeito da cultura em si). A partir das impli-
cações da apropriação do conceito de cultura por parte dos povos indígenas, a autora aponta como categorias 
antropológicas foram assimiladas por estes, se tornando argumento político central em debates na luta pelos 
seus direitos, como em demarcação de terras e direitos de propriedade intelectual sobre conhecimentos tradi-
cionais, assumindo um papel proeminente na luta de resistência contra o ocidente.
Dessa maneira, enquanto a Antropologia contemporânea tenta se desfazer da noção de cultura, diversos povos 
estão mais do que nunca celebrando sua cultura e utilizando-a discursivamente com sucesso. Na visão da autora, 
isso indicaria um descompasso da política acadêmica e da política étnica (CUNHA, 2009).
Figura 2.5 – Cultura indígena.
Legenda: Indígenas e suas práticas.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Estabelecendo o foco na discussão acerca dos direitos intelectuais sobre itens culturais, a pesquisa antropoló-
gica, para Cunha (2009), traria questões implicadas nesse ajuste/tradução da categoria cultura importada por 
esses povos: menos a categoria analítica antropológica e mais os usos locais dessa categoria, e ainda, a coexis-
tência e relação entre ambas.
Também, na questão dos recursos genéticos, almejando a participação em eventuais benefícios, os movimentos 
indígenas formulam reinvindicações nos termos de uma linguagem de direito dominante. Essa é uma oportu-
nidade para povos tradicionais se posicionarem perante Estados-nacionais e organizações internacionais, com 
a possibilidade de que aqueles tenham instituições outras em uma escala mais ampla de que nossa ontologia 
36
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 2 - Antropologia Cultural
política pode perceber. A “cultura” auxilia, portanto, no processo de construção de novas formas de representa-
ção legal e legítima, pois, afinal de contas, é possível haver um entendimento pragmático acerca de diferenças 
aparentemente irreconciliáveis.
A coexistência entre essa “cultura” e a cultura, enquanto teia invisível na qual estamos suspensos, geraria efeitos 
específicos, possibilitando, na investigação desses efeitos, um novo campo para a tarefa etnográfica. A “indigeni-
zação da cultura” remeteria, assim, aos movimentos de reorganização que se dão no confronto entre cultura em 
si e cultura para si. Para esses povos, o uso deliberado de termos oriundos de empréstimos linguísticos remeteria 
a uma escolha que não é trivial, mas que se situa em um ímpeto político e registro específico. Para enriquecer o 
debate em torno da “invenção da cultura”, expoente na Antropologia a partir dos anos 1960, a autora coloca que 
falar sobre cultura é, antes, falar sobre “cultura”, um metadiscurso reflexivo sobre a cultura, tão em voga nos dias 
atuais, usado como recurso para afirmação da identidade, dignidade e poder diante da comunidade internacio-
nal (CUNHA, 2009).
2.3.3 Fluxos culturais que brotam do chão
Ingold (2011) apresenta uma crítica ao conceito semiótico de cultura, apontando para o erro da premissa na qual 
existiria uma correspondência entre um mundo exterior e uma representação interior. Além disso, a produção 
de sentidos como fruto exclusivo da espécie humana perde força no axioma de que esta não estaria necessaria-
mente ligada a uma mediação da cultura, mas sim a conjugações imediatas da percepção na ação. A partir disso, 
o autor sustenta que não se trata de apropriar-se do ambiente pela mediação da cultura, incorporando-o a uma 
teia, mas de reconhecer a singularidade das perspectivas dos diversos materiais que habitam o mundo.
Desse modo, o ele propõe alternativas ao distanciamento epistemológico operado pelas ciências modernas. O 
pesquisador é mais que um observador de um mundo de objetos fixos, é um participante imerso com a totalidade 
de seu ser no curso de um mundo em criação. Nesse viés, a Antropologia seria, antes de tudo, o estudo das possi-
bilidades da vida, o que põe em cheque as teorias sobre transmissão da cultura. A vocação dessa área de estudos 
como um saber interessado nos fluxos e percursos da vida, o interesse pela vida como objeto de uma Antropolo-
gia sem adjetivação, sustentaria o que Ingold (2011) apresenta como uma Antropologia da vida. 
Através desse empreendimento seria possível desfazer as fronteiras entre natureza e cul-
tura, ciências humanas e ciências biológicas, apontando no sentido de um novo empreen-
dimento epistemológico. 
Em “Percepções do ambiente”, Ingold (2011) pretende apresentar um roteiro de pesquisa para restaurar o lugar 
do tato no equilíbrio dos sentidos. Principalmente o tato dos pés, limitado pelo uso de calçados, oferece algu-
mas questões para o autor, tais como: como seria o toque manual e o toque pedestre para o cego? O aparelho 
auditivo, incluindo a orelha, parece ter alguma relação com o equilíbrio bípede, enquanto que relatos de surdos 
demonstram sua capacidade de ouvir com os pés, em superfícies que conduzem vibração. Para uma antropologia 
interessada em estudos da atividade perceptiva, o ponto de partida, para o autor, seria a locomoção, ao invés da 
cognição. Assim, todo um campo de pesquisa é aberto sobre as maneiras como a nossa percepção do ambiente 
37
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 2 - Antropologia Cultural
é alterada por técnicas de trabalho com os pés ou mesmo com as mãos, a fim de melhorar sua eficácia específicas 
em determinadas tarefas e condições. 
Em “História da tecnologia”, ele contesta a visão de Marx de que os homens fizeram história com as mãos, domi-
naram a natureza e trouxeram-na sob seu controle. A natureza controlada inclui o pé, cada vez mais regulado e 
disciplinado pelos sapatos e botas feitos a mão, no curso da tecnologia. Ingold (2011) argumenta que, ao invés 
de supor que a mão transforma a natureza, prefere dizer que ambos, mãos e pés, munidos por ferramentas, luvas 
e calçados, mediam um compromisso histórico do ser humano, em sua totalidade, com o mundo ao seu redor. 
Assim, seria na própria sintonia do movimento, em resposta às mutáveis condições para o desdobramento de 
uma tarefa, que a habilidade de qualquer técnica corporal reside.
Em “A formação da paisagem”, Ingold (2011) sugere que essas formas tomadas por ele como paisagens – como 
as identidades e as capacidades de seus habitantes humanos – não são impostas sobre um substrato material, 
mas emergem como condensações e cristalizações de atividades dentro de um campo relacional, não como 
formas à espera da inscrição da cultura. Os seres humanos vivem dentro do mundo, e não sobre o mundo, e as 
transformações históricas que eles trazem são parte importante da transformação do mundo em si mesmos. 
Nessa perspectiva, a produção de conhecimento é indissociável do engajamento do sujeito no mundo, ou seja, 
a objetividade do conhecimento e o distanciamento do sujeito em relação aos objetos operado historicamente, 
indicariam a incomensurabilidade que se estabeleceu na modernidade entre noções como a de natureza e a de 
cultura, uma espécie de herança antropocêntrica que negaria o fluxo da vida. 
As indicações de Ingold (2011) sugerem um roteiro para os textos antropológicos. Ajustadas as percepções do 
ambiente com as histórias das tecnologias específicas e munidos do engajamento no mundo, os antropólogos 
evitariam as grandes conceitualizações ocidentais, enquanto promoveriam o aparecimento de novas paisagens 
que, sem o intermédio da cultura, emergiriam como superfícies repletas de fluxos combinados, movimentos da 
atividade intencional.38
Considerações finais
Nesta unidade, apresentamos as principais correntes e escolas do pensa-
mento antropológico, bem como um panorama sobre a discussão atual 
em torno do conceito de cultura. Quanto a esse último aspecto da apren-
dizagem, pudemos acompanhar e efervescência da movimentação teó-
rica a respeito do tema. Dessa maneira, foram contemplados:
• Os procedimentos e posturas Evolucionista e Relativista, apresen-
tados como diametralmente opostos;
• As escolas antropológicas representadas pelas correntes Funcio-
nalista, Estruturalista e Hermenêutica;
• O intenso debate atual acerca da validade e da idoneidade do 
conceito de cultura, que vem animando profundas discussões 
metodológicas e teóricas na antropologia mundial.
Referências bibliográficas
39
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40
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SAHLINS, Marshall. O “Pessimismo Sentimental” e a Experiência 
Etnográfica: por que a cultura não é um “objeto” em via de extinção 
(parte I).  Mana  [online], Rio de Janeiro, 1997, v. 3, n. 1, pp. 41-73. Dis-
ponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi
d=S0104-93131997000100002>. Acesso em: 20 jan. 2018.
TYLOR, Edward. Primitive Culture. Londres: John Murray & Co, 1871.
42
3Unidade 3
Choques Culturais 
Para iniciar seus estudos
Você está iniciando o estudo de mais uma unidade da disciplina Desen-
volvimento Humano e Social. Vamos a mais questões, apontamentos e 
reflexões? Esta unidade trata da compreensão dos choques culturais e 
de que, a partir das diferentes culturas, percebemos as diferenças sociais, 
políticas e religiosas entre as pessoas. O desafio que se coloca é entender 
essas diferenças culturais que fazem parte da visão sobre o ser humano, 
seu comportamento, sua cultura e sua religiosidade. Vamos começar?
Objetivos de Aprendizagem
• Retratar as diferenças sociais, políticas e religiosas entre pessoas 
que possuem uma determinada cultura e estilo de vida e que, por 
motivos diversos, têm de adaptar-se a uma nova sociedade com 
novas mentalidades e formas de vidas diferentes daquilo a que 
estavam habituadas.
43
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 3 - Choques Culturais 
3.1 Conservadores e inovadores
A cultura é um fenômeno gerado pelo ser humano. Ele não é herdado geneticamente, é coletivo e construído 
por uma sociedade, fazendo com que, em cada lugar e em cada tempo na história da humanidade, exista uma 
diversidade de regras e formas de viver coletivamente. A partir disso, temos uma diversidade cultural. Nesta uni-
dade, vamos explorar as diferenças sociais, os choques que diferentes culturas podem ter umas sobre as outras, a 
influência religiosa em nossa cultura e como os processos migratórios se relacionam na formação cultural.
Cada povo desenvolve formas diferentes de pensar e agir, e, com isso, busca as mais diversas soluções e julgamen-
tos de valores para determinadas situações. O resultado é a formação de uma cultura desse determinado povo. 
Figura 3.1 – Cultura de um povo.
 
Legenda: A imagem apresenta duas crianças com trajes específicos de uma cultura, representa sua religião
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Quando falamos de cultura, uma das primeiras coisas que vem em nosso pensamento é a cultura ocidental e, 
em contraste, a oriental. Mas, cumpre atentarmos, a cultura não está restrita apenas em ocidental ou oriental: 
ela pode mudar de região em região dentro de um mesmo país e é só olharmos para o nosso próprio país para 
visualizarmos isso. 
O Brasil, com seu tamanho continental, é fruto de uma colonização europeia, de povos nativos indígenas, da 
escravidão e da imigração. Cada região sofreu maior ou menor influência de cada um desses grupos, depen-
dendo do povo que aqui se estabeleceu. Assim, notamos diferenças culturais, por exemplo, entre a região Nor-
deste e a região Sul. 
Independentemente da região ou do país, quando a cultura de um povo muda, muda-se também a forma como o 
homem interfere em seu meio ambiente, na utilização de seus recursos, nas suas prioridades e nas suas atitudes. 
44
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 3 - Choques Culturais 
Figura 3.2 - Grande composição de fast-food.
 
Legenda: A imagem apresenta um vendedor de cachorro-quente 
representando uma cultura norte-americana que se expandiu pelo mundo.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Temos, no Brasil e no mundo todo, uma forte influência da cultura norte-americana (EUA), com os fast-foods, 
hot-dogs, hambúrgueres e batatas fritas, que se tornaram um hábito cotidiano em nossas vidas, alterando nossa 
cultura alimentar. Hoje, não há um bairro ou esquina nas grandes cidades em que você não encontre uma grande 
lanchonete ou uma barraquinha de hot-dog.
Se você quiser aprofundar mais sobre a cultura dos fast-foods, sugerimos a leitura da 
obra “Fast-food: um aspecto da modernidade alimentar”, de Nilce de Oliveira e Maria 
do Carmo Soares de Freitas, disponível em <http://books.scielo.org/id/9q/pdf/frei-
tas-9788523209148-14.pdf>. 
A cultura é um conceito com diversos significados, sendo extremamente complexo determinar uma única defi-
nição. Antropologicamente, a cultura foi conceituada por Edward Burnett Tylor (1832-1917) em 1871 como um 
conjunto de conhecimentos que envolve crenças, arte, moral, lei, costumes e diferentes capacidades e hábitos que 
são adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade. Dessa forma, a cultura faz parte de nosso dia a 
dia e é intrínseca à forma em como nós tratamos uns aos outros e de como reagimos em determinadas situações. 
Na Antropologia, a cultura é um dos cernes de estudo, pois é ela que possibilita ter uma visão mais profunda 
sobre a condição humana, as relações das pessoas entre si e com o meio ambiente, seus conceitos e preconcei-
45
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 3 - Choques Culturais 
tos, que podem definir a motivação de uma pessoa a ter determinadas reações, comportamentos e ideais. Além 
disso, é através do estudo e reflexão sobre a cultura que podemos confrontar e ultrapassar as barreiras e limites 
provocados pelo preconceito a que o senso comum pode nos conduzir. 
Em cada cultura, o homem desenvolve respostas e soluções novas e diferentes na sua vida social, transformando 
esses valores em um senso comum. Sabemos que a diversidade cultural gera consequências na humanidade e 
que, quando diferentes culturas entram em contato,surgem reações que vão desde admiração e aceitação até 
repúdio e ódio por aquilo que é diferente. Temos, dessa maneira, os choques culturais. Quando esses choques 
culturais suscitam o julgamento e preconceito, fazendo com que determinado povo se ache superior ao outro, 
denominamos isso como etnocentrismo.
O etnocentrismo é uma visão de mundo em que se coloca o próprio grupo como o centro de tudo. Ou seja, seus 
valores, regras e modelos são a referência a ser seguida. Etimologicamente, etno vem da palavra etnia, que é o 
compartilhamento de uma mesma base cultural, como a língua, as tradições e a religião. Centrismo, por sua vez, 
significa colocar no centro. Logo, etnocentrismo é colocar uma cultura como centro de tudo – e é a partir dela 
que todas as outras são comparadas.
O etnocentrismo pode ser um problema quando, no enfrentamento de uma situação ou na aceitação do dife-
rente, somos incapazes de ser flexíveis, não aceitando novas formas de solucionar determinados problemas. Ou, 
ainda, quando nos tornamos radicais e intolerantes subjugando outras culturas, buscando até mesmo a domi-
nação de outro povo.
Em oposição ao etnocentrismo, temos o relativismo cultural. Dele advém o pressuposto de que, ao compa-
rarmos outra cultura sem colocar a nossa como o centro de tudo, temos um olhar mais relativo, ou seja, é uma 
atitude em que a pessoa se coloca no lugar do outro para, assim, poder julgar determinada situação a partir de 
uma compreensão relacionada ao outro. E, para isso, exige-se uma coisa que chamamos de alteridade. 
Figura 3.3 – Ação humanitária.
Legenda: A imagem apresenta um globo terrestre e várias mãos unidas, 
representando a realização de ação humanitária, onde todos ajudam.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 3 - Choques Culturais 
A alteridade é a nossa capacidade de nos relacionarmos com o outro. É essa habilidade que faz com que nos 
tornemos mais compreensíveis e flexíveis em lidar com o diferente. Quanto mais fechados estamos em nossa 
própria cultura, menos possibilidades temos em compreender a diversidade e criar novas alternativas para solu-
cionar um problema.
Quanto maior são os choques culturais, mais exercício de alteridade uma pessoa precisa 
desenvolver, tendo em vista que julgamos o mundo a partir de nossos valores e crenças. 
É necessário ser mais tolerante, pois ninguém detém todo o conhecimento do mundo e 
nenhuma cultura é perfeita. Além disso, o ponto da questão não está em constatar as dife-
renças, mas sim em aprender a lidar com elas. 
Com o tempo, o conjunto de regras e valores de uma cultura muda. Podemos entender melhor quando pensa-
mos que esse conjunto de regras e valores é determinado pelo seu tempo. Por exemplo, os valores culturais de 
um povo da Idade Média não são os mesmos de um povo do século XXI. O conhecimento de mundo é outro, as 
tecnologias mudaram, modificando os hábitos das pessoas, e é só perceber que, com o uso de eletrônicos e da 
internet, o acesso à informação ficou disponível a todos e, com o passar das gerações, até os valores familiares de 
nossa sociedade mudaram.
Podemos perceber, então, que as transformações geradas na sociedade são dinâmicas e estão relacionadas 
com o tempo. De acordo com Laraia (2006), as mudanças podem ser internas, sem a influência de comunidades 
externas, o que ocorre, por exemplo, nos choques entre as gerações; ou transformações com influências exter-
nas, que são mais abruptas. Geralmente são aquelas em que se tem contato com um povo diverso do seu, como 
foi o caso das colonizações europeias. 
É interessante compreender essa dinâmica nas mudanças de regras e valores e perceber quais os impactos cada 
indivíduo pode sofrer com essas transformações. Cabe também salientar que as regras e valores se formam con-
comitantemente e não é possível criar regras que ferem os valores de uma sociedade, assim como não é possível 
sustentar valores sem regras vinculadas.
Hoje, essas influências parecem não ser mais tão nítidas, pois, devido à globalização, os valores culturais passa-
ram a ser mais globais. Os cientistas sociais são os mais aptos a identificar esses processos de influências. Apesar, 
no entanto, dessa falta de transparência, as influências externas continuam a ocorrer, basta notarmos a influên-
cia da cultura norte-americana a nível mundial. O que ocorre atualmente é que não há como afirmar com certeza 
se tal influência é apenas interna ou externa.
 Para ampliar seu conhecimento e reflexão sobre as consequências da globalização diante da 
cultura sugerimos a leitura o artigo “Novos horizontes antropológicos: indivíduo, cultura e 
globalização”, de Thaís de Oliveira Tessarotto, disponível no link a seguir: <http://www.cchla.
ufpb.br/caos/thaisoliveira.pdf>. 
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 3 - Choques Culturais 
O processo de globalização aumentou o contato de diversos povos e sociedades diferentes ao redor do mundo. O 
comércio internacional, as multinacionais, o turismo e a gastronomia são atividades que contribuíram para que as 
fronteiras geográficas fossem superadas, estreitando as relações culturais e políticas de diversos países pelo globo. 
Figura 3.4 – Diversidade de pessoas.
Legenda: A imagem apresenta pessoas com diferentes características físicas, representando a diversidade entre as pessoas.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
A cultura norte-americana, nesse contexto, é muito disseminada, e tornou-se, para muitos, uma referência a 
partir da qual as outras sociedades deveriam se comparar e ter como modelo. Esse pensamento é muito discutido 
e criticado, mas, com a globalização, em termos de diversidade cultural, temos uma oportunidade de que outras 
culturas passem a ser conhecidas globalmente.
Antes do processo de globalização, cada cultura fazia parte da história de uma determinada sociedade, era mais 
enraizada, formando a identidade de um povo. Agora, em tempos pós-modernos, as diferentes culturas acabam 
influenciando umas às outras e, com isso, temos os desafios do multiculturalismo.
Sobre o multiculturalismo, sugerimos a leitura do artigo “Globalização e identidade: desafios do 
multiculturalismo”, de Joanildo Burit, disponível em <https://www.researchgate.net/publica-
tion/242194229_GLOBALIZACAO_E_IDENTIDADE_DESAFIOS_DO_MULTICULTURALISMO>. 
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 3 - Choques Culturais 
Vamos compreender melhor esses desafios. Antes da globalização, era mais claro identificar a forma cultural 
de um povo, seus hábitos, suas crenças, simbologias e até mesmo sua influência em outra cultura. Seria óbvio, 
portanto, que uma grande cultura como a dos EUA facilmente se difundiria por meio de seus filmes, produtos e 
fast-foods. 
É um fato que os norte-americanos impactavam – e ainda impactam – outros povos, mas agora, com a globali-
zação, culturas antes desconhecidas também têm influenciado em algum grau o mundo todo. Vem ocorrendo, 
assim, o desenraizamento cultural, em que as crenças, hábitos e símbolos deixam de pertencer a um único lugar, 
influenciando outras culturas. 
A importação de modelos globais, em todas as dimensões da vida humana, pulveriza a dimensão 
simbólica de forma violenta, transformando os modos de produção, os hábitos, os valores etc., pro-
movendo um desenraizamento cultural, gerando um mundo de incertezas e de riscos produzidos, 
o qual se desdobra na perda da liberdade e da identidade humana (ANDRADE; BOSI, 2003, p. 118).
A Antropologia, como ciência, não se preocupa em julgar se as transformações nas tradições 
é algo bom ou ruim. O que se busca é uma reflexão sobre o papel da cultura e como a diver-
sidade cultural pode influenciar em nossas vidas. 
As tribos urbanas são um fenômeno que nos ajuda a entender como os símbolos de muitas culturas se misturam 
e acabam se tornando uma expressão cultural. Vocêconsegue identificar facilmente esses grupos pelas roupas, 
a linguagem e as atitudes caracterizam sua identidade própria. Os grupos políticos e religiosos igualmente se 
diferenciam, pois eles defendem uma tradição ou uma ideologia. 
Figura 3.5 – Diferentes culturas.
 
Legenda: A imagem apresenta diferentes figuras que fazem referência às diferentes culturas que compõem o mundo.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 3 - Choques Culturais 
No que se refere às tradições no mundo pós-moderno, elas não desapareceram, mas se transformaram. Em 
cada sociedade tem-se uma gama enorme de valores, regras e normas. Os valores vigentes ou predominantes, a 
princípio, são defendidos pela maioria da população de um determinado grupo ou sociedade, caracterizando a 
cultura desse povo. 
As transformações que ocorrem nessa cultura, por sua vez, podem levar a consequências negativas para deter-
minados grupos de pessoas. Podemos, nesse sentido, identificar duas tendências relacionadas a essas mudan-
ças: os conservadores, que são aqueles que defendem a conservação de uma determinada ordem de valores, e 
os inovadores, que confrontam valores e regras em busca de uma mudança.
Por isso, quando há um processo de transformação de valores e regras, conservadores rejeitam a mudança, 
muitas vezes se respaldando da moral e dos bons costumes, e os inovadores aceitam e buscam as mudanças, 
podendo ser mais liberais em determinadas situações.
Sempre que ocorrem transformações nos valores e regras de uma sociedade, dois grupos 
de reações distintas podem aparecer: os que rejeitam, que são os conservadores, e os que 
aceitam, sendo estes os inovadores. 
Os conservadores são aqueles que querem manter a ordem de valores vigentes e, a princípio, teriam um poder de 
inibir os inovadores. Por isso os inovadores geralmente enfrentam situações adversas até que sua conduta não 
seja mais vista como uma ameaça, sendo aceita pelo grupo.
Podemos, ainda, verificar que a cultura e os valores possuem dois graus de existência: o ideal e o real. O ideal é 
algo abstrato, idealizado, uma construção mental, muitas vezes inatingível. O real é tangível, é a realidade de 
como os valores são vividos na prática. 
Vejamos um exemplo bem comum para entendermos melhor esse assunto. A sustentabilidade e preservação do 
meio ambiente passaram a ser um valor a ser protegido pela humanidade quando se percebeu que os recursos 
naturais são finitos. O plano ideal é que usaríamos os recursos e esses recursos não acabariam, mas a realidade é 
outra, pois usamos de forma abusiva os recursos do meio ambiente, causando desequilíbrio ecológico, poluição 
e danos irreparáveis ao ecossistema, contexto em que se percebe que a mentalidade atual é muito diferente das 
gerações passadas.
Há diferentes situações que demonstram a ideia de real e ideal sobre as regras e valores de 
nossa sociedade. Faça um exercício mental e relacione outros aspectos que envolvam nossa 
cultura e perceba como os valores foram mudando com o passar do tempo.
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 3 - Choques Culturais 
Compreender esse movimento em nossas culturas é entender que toda cultura é dinâmica, viva e está, portanto, 
em constante transformação.
3.2 Religiões
Estudar a cultura nos leva a estudar também a origem da humanidade, bem como os costumes e hábitos apren-
didos e repassados de geração em geração, que são comportamentos relacionados à sobrevivência humana. 
Podemos compreender o comportamento do ser humano através de características biológicas, por experiências 
psicológicas (razão e emoção) e pelo meio social em que vivemos. 
A Antropologia, a Arqueologia, a Paleontologia e a História buscam compreender, através de suas pesquisas, a 
diferença do ser humano em relação aos outros animais a partir do comportamento e da vida em sociedade, 
mostrando o que nos torna tão diferentes de todos os outros seres vivos. Nessa perspectiva, nosso comporta-
mento foi moldado durante as gerações em um longo processo histórico em que a biologia e a cultura foram 
responsáveis por consideráveis mudanças no ser humano.
Em um contexto comportamental, é importante perceber que a relação entre cultura e religião é diferente. Nas 
relações religiosas a fé é o fundamento que se manifesta na crença. A religião trata do transcendente, do eterno 
e do absoluto. Essas perspectivas só podem ser abordas e compreendidas através do ponto de vista humano, 
considerando que as diferentes religiões nasceram das diversas culturas, das diferentes perspectivas humanas, e 
é isso que nos diferencia de tudo e de todos.
Figura 3.6 – Templo budista.
Legenda: A imagem representa um templo budista, ilustrando uma cultura proveniente da religião.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Quando afirmamos que o ser humano é um ser religioso, queremos dizer que, na história da humanidade, o 
homem sempre buscou ultrapassar as concepções de sua existência. Historicamente, ele procurou de maneiras 
diversas, no tempo e no espaço, a relação com o transcendente. Nesse aspecto, a busca do absoluto, do eterno, 
moveu a humanidade ao entendimento de sua existência. Assim, o homem torna-se religioso de maneiras dife-
rentes, na história e nos diversos lugares, dependendo de cada cultura.
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 3 - Choques Culturais 
Transcendência se refere à relação de Deus com o mundo. Transcendente significa, nesses 
termos, que Deus transpõe, ultrapassa os limites da compreensão humana. Esse significado 
tem origem na visão aristotélica de Deus como princípio criador, se opondo à ideia de que 
Deus é uma manifestação da humanidade. 
Os povos pré-históricos não deixaram registros escritos de que eles tinham religiosidade. Contudo, temos evi-
dências como construções arquitetônicas, túmulos e pinturas rupestres, que levaram a Antropologia a concluir 
que aqueles povos possuíam religiosidade e que, de alguma forma, buscavam a transcendência. 
Entre os povos que sobreviviam da agricultura, os ritos mudavam seguindo o ciclo da vida: o nascimento, o 
desenvolvimento, a procriação e a morte. Esses povos percebiam que as sementes nasciam, se desenvolviam e, 
no ciclo de reprodução, voltavam a ser sementes de novo, para assim renascer. Essa percepção levou o homem à 
concepção de que também era assim com o ser humano: morrendo, ressuscitava em uma outra dimensão, como 
acontecia com a natureza. O ser humano, então, criou ritos e cultos, que podiam variar de acordo com cada cul-
tura. Alguns eram até extravagantes e cruéis. 
O politeísmo foi mais intenso em povos da Antiguidade, como os do Egito, Grécia e Roma. Com cultos a inúmeros 
deuses, considerava-se um deus para cada elemento importante para a sobrevivência, como o deus da sexuali-
dade, o deus da agricultura e os deuses da natureza (por exemplo, do fogo, das tempestades e dos trovões). 
No decorrer do tempo, independentemente da forma religiosa, o homem sempre esteve aberto ao transcen-
dente, tendo, em decorrência disso, uma elevada moral no que diz respeito a questões como o roubo, assassinato 
e adultério, visto que, nesses pontos, as punições não eram somente sociais, mas também religiosas. Com a evo-
lução da ciência moderna, o sentido das coisas passou a ser a experiência empírica, podendo ser quantificado, 
medido e provado cientificamente. 
Nessas transformações, a humanidade perdeu muito a sensibilidade pelo universal, pelo transcendente e o sen-
tido das coisas começou a ser buscado pelo racionalismo. A concepção cientificista tentou ignorar a transcen-
dência, a religiosidade e a plenitude da existência, principalmente nos períodos do Renascimento e da Moderni-
dade, gerando uma crise a qual os pensadores denominaram de crise da modernidade.
Dessa forma, ao ignorar a transcendência, a ciência moderna não conseguiu encontrar respostas aosquestiona-
mentos da dimensão religiosa do ser humano. É por isso que hoje, na pós-modernidade, a experiência religiosa 
retorna como uma necessidade do homem a ultrapassar suas concepções. 
Em que aspectos a humanidade progrediu e em que aspectos regrediu, na modernidade, 
tendo como referencial a ciência e a experiência do transcendente? 
52
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 3 - Choques Culturais 
Podemos dizer que toda cultura desenvolveu um sistema religioso e é importante reconhecer que é partir da 
cultura que se formam os conceitos religiosos. Como consequência, um determinado povo tem uma mesma fé 
para enfrentar seus problemas e desafios. 
Figura 3.7 – Igreja cristã.
Legenda: A imagem apresenta a região interna de uma igreja cristã, 
representando o Cristianismo, uma das religiões mais populares do mundo.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Entre as principais religiões do mundo, temos as monoteístas, como o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo; as 
religiões asiáticas, como o Hinduísmo, o Budismo, o Confucionismo, o Xintoísmo e o Taoísmo; e, no continente 
africano, se destacam o Vodu e o Candomblé.
No Brasil, apesar de sermos um país predominantemente cristão católico, temos um grande número de cristãos 
protestantes, além de termos outras expressões religiosas como o Espiritismo, o Candomblé (herdado da África) 
e a Umbanda (oriunda do sincretismo entre o catolicismo popular e o Candomblé).
O artigo “Religião, Diversidade e Valores Culturais: conceitos teóricos e a educação para Cida-
dania”, escrito por Eliane Moura da Silva, é uma leitura que recomendamos para que possa 
refletir e ampliar seu conhecimento sobre o tema. Ele se encontra disponível em <http://
www.pucsp.br/rever/rv2_2004/p_silva.pdf>. 
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 3 - Choques Culturais 
3.3 Movimentos migratórios
O deslocamento de pessoas de um local para outro é um movimento tão antigo quanto a humanidade. Os movi-
mentos migratórios são complexos e ocorrem devido às adversidades de situações e causas que levam um povo 
a sair de sua terra e se instalar em outro lugar. 
Os motivos de uma migração podem ser das mais variadas situações. Por exemplo, aspectos econômicos, religio-
sos, escassez de recursos naturais, política, guerra e fome podem levar um povo a abandonar sua terra de origem 
e a tentar encontrar um novo lugar para recomeçar sua vida, em busca de sobrevivência, com esperança de novas 
oportunidades.
A migração sempre obedece a duas etapas: a emigração, que é a saída do povo de um lugar, 
correspondente à área repulsiva, e a imigração, que é a chegada do povo a algum lugar, cor-
respondendo à área atrativa. As migrações podem ser classificadas de acordo com o tempo, 
espaço e organização. 
Os movimentos migratórios podem ser temporários, como acontece no nomadismo e nas migrações sazonais e 
diárias, ou permanentes. Os nômades são principalmente compostos por comunidades que vivem da caça, pesca 
e pequenos rebanhos. Geralmente, quando pensamos nos nômades, lembramos daqueles povos do deserto, 
além de comerciantes com suas caravanas, que cruzam desertos africanos e asiáticos vendendo seus produtos 
em feiras e mercados.
Figura 3.8 – Nômades.
Legenda: A imagem faz referência a um grupo de nômades, representando os movimentos migratórios.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 3 - Choques Culturais 
A migração sazonal é aquela realizada em função das estações do ano, estando ligada à agricultura, ao plantio 
e à colheita de um produto. As comunidades se mudam, ainda, de acordo com a oferta de trabalho. Existe uma 
migração sazonal conhecida como transumância, que é o deslocamento periódico entre dois lugares determi-
nados. Esse é um movimento muito antigo, geralmente feito por comunidades pastoreias que vivem em regiões 
com chuvas bem definidas, em que as áreas de planície alagam e essas comunidades são forçadas a mudar para 
o planalto. Acabando os períodos de chuva, esses povos voltam para a região de planície. É um movimento muito 
comum na região da Ásia das Monções.
As migrações diárias, também conhecidas como movimentos pendulares, são os deslocamentos diários de tra-
balhadores e estudantes entre duas cidades ou entre cidade e área rural. Os boias-frias são exemplos desse tipo 
de movimento. 
As migrações permanentes são aquelas em que o migrante se desloca definitivamente. Cabe notar que as gran-
des correntes migratórias, ultrapassando fronteiras, é tão antiga quanto a humanidade. A história nos mostra 
como exemplo o povo de Israel migrando do Egito para Canaã ou os hindus se deslocando da Índia para o Vietnã. 
Nos últimos séculos, ocorreram dois grandes movimentos migratórios: o primeiro no período entre 1870 a 1930 
e o segundo após a Segunda Guerra Mundial. No período entre 1870 a 1930, grandes migrações ocorreram da 
Europa e Ásia para América, África e Oceania. A migração europeia teve como causa a explosão demográfica, 
que se deu devido à melhoria da qualidade de vida e aos avanços da medicina e da ciência, aumentando a expec-
tativa de vida das pessoas consideravelmente. As consequências das guerras anteriores e condições climáticas 
adversas causaram uma escassez de alimentos, forçando a população excedente a migrar para países coloniza-
dos recentemente, como Brasil, Canadá, Estados Unidos, Argentina, Uruguai, Chile, Austrália, Nova Zelândia e 
África do Sul. 
Os movimentos migratórios que ocorreram após a Segunda Guerra e que continuam até os dias de hoje têm 
como uma das principais causas a pobreza decorrente das desigualdades sociais, que se agravaram nas últimas 
décadas em decorrência da globalização. Na Europa, a diminuição da taxa de natalidade, o aumento de idosos e 
a elevação da educação reduziram o contingente de trabalhadores braçais, estimulando as migrações de traba-
lhadores oriundos da América Latina, África e Ásia, todos indo em direção aos Estados Unidos, Canadá, Europa, 
Japão e Austrália. 
Figura 3.9 – Imigrantes mulçumanos.
Legenda: A imagem apresenta diferentes pessoas com trajes mulçumanos, representando os imigrantes.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 3 - Choques Culturais 
Contudo, as vantagens, tratando-se de migração, já não são as mesmas do passado. Além de enfrentarem um cho-
que cultural, esses povos migrantes sofrem com a xenofobia, as diferenças culturais e a concorrência no mercado 
de trabalho entre o povo local e os imigrantes, situação que gera uma tensão na população dos países mais ricos. 
Os filhos dos imigrantes que, em movimentos passados, conseguiram a cidadania europeia ou estadunidense e 
tiveram acesso à educação, hoje disputam melhores opções de emprego. Concorrem, assim, diretamente com 
os europeus, que, devido ao aumento do desemprego, culpam os imigrantes, sustentando a ideia de que, sem os 
imigrantes, eles teriam seus postos de trabalho recuperados.
O terrorismo é outra causa de xenofobia, atingindo principalmente os imigrantes islâmicos. Recentemente, tive-
mos casos de imigração como a dos haitianos e a dos refugiados sírios, aumentando ainda mais a política contra 
a imigração ilegal, com o endurecimento das leis de imigração e combate aos clandestinos como forma de pro-
teger os interesses dos cidadãos naturais do país. 
56
Considerações finais
Nesta unidade, tivemos acesso a muitas informações e conteúdos impor-
tantes, afim de identificarmos e refletirmos sobre as diversas culturas 
no mundo e como os choques culturais ocorrem. Vamos retomar alguns 
pontos principais estudados até aqui?
• A cultura é fruto do ser humano. Em cada lugar e tempo na história 
da humanidade existe uma cultura diversa, em que cada povo tem 
seus costumes, regras, crenças e formas de resolver seus problemas.
• Em determinados períodos históricos,tivemos culturas que pre-
dominavam em seu tempo, como foram os casos das culturas 
grega, romana e europeia medieval. Atualmente, temos a cultura 
norte-americana como uma forte influência no mundo todo.
• A globalização foi um fator fundamental para que as diferentes 
culturas entrassem em contato. Por meio do aumento do comér-
cio internacional, do turismo e das migrações, foram superadas 
fronteiras geográficas, o que estreitou as relações culturais e polí-
ticas de diversos países pelo mundo.
• Verificamos que a diversidade cultural, com o tempo, gerou gran-
des transformações nas sociedades e que essas mudanças pude-
ram suscitar dois tipos de reações: a dos conservadores, em que as 
pessoas são resistentes às mudanças, e a dos inovadores, em que 
elas aceitam e buscam as mudanças.
• Percebemos a importância das religiões nas diferentes culturas e 
como elas influenciaram e influenciam os pensamentos e ideais 
de um povo, tendo em conta que a busca pelo eterno e transcen-
dente é uma forte característica em todas as culturas do mundo.
• Os grandes deslocamentos de pessoas é um fenômeno muito 
antigo na humanidade. As migrações ocasionam o choque de 
culturas e, quando há falta de compreensão e não se aceita o dife-
rente, gera-se, no contato das diferentes culturas, reações extre-
mas como a xenofobia.
Referências bibliográficas
57
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soa, n. 7, p. 55-64, 2004. Disponível em: <http://www.cchla.ufpb.br/caos/
thaisoliveira.pdf>. Acesso em: 27 jan. 2018.
59
4Unidade 4
Globalização, Cultura de Massa 
e Indústria Cultural
Para iniciar seus estudos
O século XX foi marcado pela aceleração do crescimento populacio-
nal e produtivo, o que fez com que a pressão sobre os recursos naturais 
aumentasse na mesma escala. No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro 
de Geografia e Estatística (IBGE), a população aumentou de 17,4 para 
169,6 milhões de pessoas entre os anos de 1900 e 2000. O crescimento 
da população em nível mundial acompanhou as mesmas proporções. É 
nesse contexto que vamos iniciar o estudo desta unidade.
Objetivos de Aprendizagem
• Entender o fenômeno da globalização, sua importância e seus 
impactos para a humanidade e para os ecossistemas terrestres, 
ressaltando nuances, características e a forma como esse fenô-
meno configurou as bases da cultura de massa através da expan-
são do consumo. 
60
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 4 - Globalização, Cultura de Massa e Indústria Cultural
4.1 O processo de globalização 
Desde a década de 1970, vem ocorrendo um processo sem precedentes na história das sociedades humanas: o 
fenômeno da globalização. Esse fenômeno é caracterizado pela necessidade de se pensar nas relações sociais 
(culturais, produtivas, econômicas, políticas, históricas e geográficas) em escala mundial. 
A globalização é facilmente percebida através de um dos seus aspectos principais, que é o desenvolvimento 
acelerado dos meios de comunicação. Você já percebeu a velocidade com que as informações chegam até nós? 
Notícias sobre fatos e acontecimentos, mesmo os que tenham ocorrido há milhares de quilômetros de distância, 
estão disponíveis quase instantaneamente.
É por conta de características como essa que o fenômeno da globalização se torna fundamental para uma com-
preensão mais precisa de todos os processos que temos vivido durante as últimas décadas. Ela contribui, ainda, 
para pautarmos nossas inciativas de acordo com as possibilidades reais acerca do mundo no qual habitamos.
Podemos entender o processo de globalização como uma consequência do desenvolvi-
mento do capitalismo enquanto modo de produção. Pense que, agora mesmo, um cidadão 
chinês pode estar investindo em ações de empresas que operam no Brasil. A interligação 
política, econômica e cultural pode ser vista, nesse sentido, como resultado direto da mun-
dialização do capital. 
Na maioria das vezes que ouvimos falar de globalização, ocorre um fato curioso: a menção ao conceito é muitas 
vezes acompanhada de uma propaganda que remete ao intercâmbio cultural proporcionado pelo processo. Por 
outro lado, pouquíssimas vezes, de fato, tal conceito é associado a problemas, o que gera uma visão ingênua 
sobre o fenômeno.
Na verdade, a globalização não ocorre da mesma maneira entre nações, países e culturas distintas. Pelo contrá-
rio, o processo que temos vivenciado ultimamente pauta-se muito mais pela exportação de um modo de rela-
cionar-se com o mundo – notadamente, o modo de vida característico das sociedades ocidentais. Assim, longe 
de apresentar-se como um fenômeno de mão dupla, em que culturas e sociedades influenciam-se e deixam-se 
influenciar livremente, a globalização parece ser a grande responsável por desmantelar os modos de vida tradi-
cionais de várias partes do mundo em crescimento. 
61
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 4 - Globalização, Cultura de Massa e Indústria Cultural
Figura 4.1 – Todos conectados!
Legenda: A imagem representa um resultado da globalização. Nela estão diversas 
pessoas reunidas em um único local, utilizando computadores, celulares e tablets.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Sem dúvida, as nações mais ricas são as principais beneficiárias do fenômeno da globalização, pois, ao tratarem 
de expandir seus modos de vida, expandem também os mercados consumidores de suas principais empresas. 
Dessa forma, gigantescas corporações transnacionais instalam-se em países nos quais leis trabalhistas frouxas 
permitem que seu lucro cresça exponencialmente através da exploração da mão de obra da população local.
[...] a globalização do capitalismo implica sempre e necessariamente o desenvolvimento desigual, 
contraditório e combinado. “Desigual”, devido aos desníveis e às irregularidades na realização 
das forças produtivas e das relações de produção. “Contraditório”, porque leva consigo tensões e 
atritos entre os subsistemas econômicos nacionais e regionais, enquanto províncias do sistema 
econômico global. E “combinado”, já que, a despeito das desigualdades de todos os tipos e das 
contradições também múltiplas, desenvolve-se em geral alguma forma de acomodação, asso-
ciação, subordinação ou integração, nas quais os pólos dominantes ou mais dinâmicos subordi-
nam, orientam ou administram os “emergentes”. (IANNI, 1998, p. 28-29).
Entretanto, é preciso ressaltar que o fenômeno da globalização proporcionou uma grande transformação téc-
nico-científica e, por isso, ganhou ares de revolução. Essa transformação foi responsável por tornar produtos 
como computadorespessoais e smartphones, entre outros, acessíveis à grande parcela da população mundial. 
Esses artefatos aparecem de modo recorrente em nosso cotidiano, contribuindo para o aumento da velocidade 
da troca de informações, como destacamos anteriormente.
Algumas das contrapartidas oferecidas pelos estudiosos entusiastas do fenômeno da globalização dizem res-
peito à necessidade de distinguir a emergência de mercados potencialmente sustentáveis durante seu desen-
volvimento. Segundo essa perspectiva, a globalização não deve ser compreendida apenas como um processo 
homogeneizador e unidimensional. Orientam-se, em vista disso, para uma compreensão sobre a existência de 
múltiplas lógicas da vigência atual do capitalismo.
Essas lógicas, que apontam para as várias dimensões do fenômeno da globalização, destacam que o processo resul-
tou também em uma crescente disputa mercadológica que o conecta diretamente aos objetivos da sustentabilidade. 
62
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 4 - Globalização, Cultura de Massa e Indústria Cultural
Assim, as empresas que disputam um lugar no mercado global percebem cada vez mais a necessidade de aumentar a 
qualidade dos produtos e incorporar responsabilidades socioambientais dentro dos processos produtivos.
A globalização, portanto, relaciona-se diretamente com a chamada Terceira Revolução Industrial, ou ainda, Revo-
lução Técnico-Científica-Informacional. No mais, o crescente uso da tecnologia em todas as atividades humanas 
proporcionou também o aparecimento de novas formas de organização do trabalho: 
A Terceira Revolução Industrial imprime a marca da exclusão, na qual a força de trabalho é dicoto-
mizada em trabalhadores centrais e periféricos, desempregados e excluídos, dividindo também a 
parcela de apreensão do conhecimento e a utilização de tecnologias, gerando relações desiguais 
de poder pelo saber e pelo controle econômico, colocando no topo da escala os empregados 
das grandes empresas, seguidos dos trabalhadores do setor informal, cujo trabalho é precário e 
parcial. No extremo inferior da escala estão os desempregados, muitos dos quais não mais conse-
guirão voltar ao mercado de trabalho. (MEDEIROS; ROCHA, 2004, p. 400).
É importante frisar que o uso da ciência e da tecnologia não pode ser entendido como neutro. Tendo em vista que 
a tecnologia é sempre uma ferramenta desenvolvida em um contexto sociocultural, ela recebe influências e incen-
tivos de diversos setores da sociedade, principalmente os mais interessados na rentabilidade do seu desenvolvi-
mento. Isso quer dizer que o desenvolvimento tecnológico é formado por variantes históricas, políticas e culturais.
Nesse sentido, a tecnologia e a ciência devem ser pensadas como elementos de uma sociedade que reconhece 
inúmeras relações de poder e diversos interesses econômicos e ideologias. Tal perspectiva desmonta a tese de 
que o desenvolvimento tecnológico poderia, essencialmente, conduzir a humanidade ao progresso e à harmo-
nia. Castells (2000), em diálogo com essa abordagem, argumenta que é preciso controlar a tecnologia e, com 
isso, evitar ser controlado por ela:
[...] embora não determine a evolução histórica e a transformação social, a tecnologia (ou sua 
falta) incorpora a capacidade de transformação das sociedades, bem como os usos que as socie-
dades, sempre em um processo conflituoso decidem dar ao seu potencial tecnológico. (CAS-
TELLS, 2000, p. 26).
Segundo Castells (2000), os avanços da tecnologia da informação representam um novo paradigma que tem 
como uma de suas características o fato de as próprias tecnologias atuarem sobre o processo de informação, o 
que significa que as tecnologias se apresentam como verdadeiras matérias-primas para o percurso da informa-
ção. Antes disso, verificava-se uma inclinação ao pensamento de que a informação existia como matéria-prima 
para o desenvolvimento de novas tecnologias. 
Para aprofundar seus conhecimentos sobre o fenômeno da globalização e seus desdobra-
mentos para a prática científica, leia o texto do sociólogo brasileiro Otávio Ianni, “Globa-
lização: Novo paradigma das ciências sociais”, disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141994000200009>. 
Uma quantidade infinita de informação está presente na vida das pessoas, o que nos leva a crer que o desen-
volvimento individual e coletivo está diretamente subordinado aos modelos tecnológicos vigentes, como ocorre 
com o crescimento exponencial das redes interativas de computadores, no qual criam-se novas modalidades de 
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 4 - Globalização, Cultura de Massa e Indústria Cultural
informação e novos canais de comunicação. Esse processo, por sua vez, acaba moldando a vida das pessoas e 
sendo moldado por elas (CASTELLS, 2000). Sobre esse aspecto, o autor registra:
Uma revolução tecnológica concentrada nas tecnologias da informação remodelando a base 
material da sociedade em ritmo acelerado. Economias por todo o mundo passaram a manter a 
interdependência global, apresentando uma nova forma de relação entre economia, Estado e a 
sociedade em um sistema de geometria variável... (CASTELLS, 2000, p. 21).
A globalização caracteriza-se, pois, por mudanças radicais no modo de produção e no padrão de consumo esti-
muladas pela interdependência financeira e pela integração comercial. Nesse processo, destacam-se o contínuo 
crescimento dos sistemas de telecomunicações e a degradação ambiental provocada pela privatização dos recursos 
naturais. Portanto, seus efeitos se estendem às dimensões ambientais, políticas, culturais e econômicas, tornando 
possível afirmar que os impactos da globalização são sentidos em praticamente todos os domínios da vida. 
Tente imaginar o cotidiano da vida das pessoas próximas a você há cerca de cem anos atrás. No Brasil dessa época, a 
maioria da população habitava nas áreas rurais, longe dos centros urbanos. Nessas regiões, não haviam supermer-
cados, padarias, restaurantes etc. Então, como as pessoas se alimentavam? Simples: através do plantio de espécies 
vegetais, da criação de animais e das trocas informais de alimentos realizadas entre as comunidades vizinhas. 
Você concorda que esses modos de produzir os alimentos reforçavam a necessidade de relacionar-se com os 
ecossistemas diariamente? Pois é, no mundo globalizado a maior parte das pessoas não precisa participar da pro-
dução dos próprios alimentos que consome. Nas cidades, os alimentos estão disponíveis no supermercado, ou 
em outros estabelecimentos comerciais, desde que oferecida a contrapartida necessária para obtê-lo: o dinheiro.
Você pode estar pensando que, então, o modo de vida urbano é resultado direto do desenvolvimento do pensa-
mento moderno que, entre outras coisas, separou o homem da natureza. Podemos dizer que sim, mas não é só 
isso. O modo de produção moderno transformou profundamente a qualidade do ar, os ecossistemas terrestres e 
os hábitos alimentares, alterando inclusive a composição dos solos, o valor nutricional dos alimentos e os regimes 
climáticos do planeta.
Figura 4.2 – Cuidar do planeta.
Legenda: A imagem representa diversas pessoas que, com ações cotidianas, visam o cuidado e preservação do planeta.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 4 - Globalização, Cultura de Massa e Indústria Cultural
Com seu início simbolicamente representado na década de 1970, a globalização encontra-se em um estágio 
avançado de seu próprio desenvolvimento. Entretanto, apesar das visões contrastantes sobre o seu legado e do 
aumento significativo da produção total de bens e serviços, não é possível afirmar que esse aumento promoveu 
melhorias qualitativas na vida das populações envolvidas nesse processo. Nos próximos tópicos, apresentaremos 
a você uma reflexão sobre a produção em massa dos bens culturais. Fique atento! 
 4.2Cultura e comunicação de massa
Para compreendermos corretamente o significado de cultura de massa, vamos utilizar um exemplo bastante 
simples e com o qual nos deparamos quase que diariamente: a música sertaneja! Imagine se você tivesse nascido 
no sudeste brasileiro na primeira metade do século XX, mais ou menos no ano de 1940. Você provavelmente teria 
crescido em um ambiente rural, sem televisão e sem computador. 
As festividades locais eram geralmente associadas aos feriados cristãos e contavam com a participação de violei-
ros e repentistas. Nesse meio, alguns desses músicos e artistas de improviso se destacavam e gozavam de grande 
reputação. Os ritmos e os estilos desses violeiros e repentistas acabaram por delimitar o que se conhecia como 
música caipira ou música sertaneja, uma vez que remetia diretamente ao estilo de vida tradicional das popula-
ções que produziram esse estilo musical.
Figura 4.3 – Estilo de vida tradicional.
Legenda: A imagem representa um estilo de vida tradicional, com preservação das raízes.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 4 - Globalização, Cultura de Massa e Indústria Cultural
Naquela época, ainda eram raros os músicos profissionais, a gravação de discos, a composição de arranjos em 
estúdio, os instrumentos elétricos etc. Assim, os músicos que mais se destacavam nos circuitos violeiros foram os 
primeiros a gravar discos, registrando muito do estilo de vida nas roças. As canções versavam sobre a natureza e 
sobre causos interessantes, que poderiam envolver, ainda, a temática do amor. 
Quase 80 anos depois, a música sertaneja mudou bastante, resultado da mudança ocorrida também no ambiente 
rural. O campo se modernizou e a agricultura depende cada vez mais da tecnologia e cada vez menos do trabalho 
humano. Como a maioria da população vive nas cidades, muitas temáticas das modas caipiras, dos repentes e 
dos cururus de improviso foram substituídas por significantes modernos, como os carros de luxo, as redes sociais, 
as baladas etc., que são significantes da vida urbana, da cultura ocidental, que se impõem também através da 
nova música sertaneja. 
O impacto desses sistemas de comunicação tem sido estarrecedor. Em países com infraestru-
tura de comunicações bem desenvolvidas, os lares e escritórios hoje têm várias conexões com 
o mundo externo, incluindo telefones (tanto linhas fixas quanto celulares), televisão digital, por 
satélite e a cabo, correio eletrônico e internet. A internet emergiu como o instrumento de comu-
nicação de crescimento mais rápido já desenvolvido. (GIDDENS, 2012, p. 104)
O caminho que estamos percorrendo nessa unidade nos levará a perceber mais de perto esse processo de trans-
formação da cultura em bens culturais massificados. Destacaremos, principalmente, a perversidade desse pro-
cesso que, por vezes, faz desaparecer culturas importantes e contribui para a padronização das relações humanas 
através do consumo de massa, substituindo as solidariedades locais: 
A reconciliação do universal e do particular, da regra e da pretensão específica do objeto, que é a 
única coisa que pode dar substância ao estilo, é vazia, porque não chega mais a haver uma tensão 
entre os pólos: os extremos que se tocam passaram a uma turva identidade, o universal pode 
substituir o particular e vice-versa. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 122).
Como vimos, o processo de globalização revela uma tentativa de continuidade e expansão do modo de vida 
que corresponde ao da sociedade ocidental, dado que as características da globalização remetem às estratégias 
pensadas na direção da revalorização da ideologia e cultura ocidental. Vale relembrar a valorização da informa-
ção nesse processo, em especial dos meios de comunicação, que emergem com o poder de formar e influenciar 
opiniões, além de disseminarem as ideias e valores que aportam o próprio processo da globalização:
A internet emergiu como o instrumento de comunicação de crescimento mais rápido já desen-
volvido – por volta de 140 milhões de pessoas ao redor do mundo usavam a internet em 1998, e 
estima-se que mais de um bilhão de pessoas a usava em 2007. (GIDDENS, 2012, p. 104).
Desse processo de formação e de influência, nasce o que podemos caracterizar como a massa social contem-
porânea. A massa social corresponde a uma população heterogênea, mas que se homogeiniza aos olhos das 
instituições sociais. Ou seja, a massa social corresponde a um conjunto indistinto de indivíduos que são tratados 
como potenciais consumidores. 
A sociedade do consumo é consequência direta do desenvolvimento industrial e do pro-
cesso de globalização do capitalismo. É marcada, portanto, pela necessidade e pelo con-
sumo excessivo de mercadorias e demais serviços. Assim, caracteriza-se pelo condiciona-
mento da opinião pública, pela passividade do consumidor e pela uniformização dos gostos. 
66
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 4 - Globalização, Cultura de Massa e Indústria Cultural
A dominação e a opressão exercidas pelas estruturas sociais se dão a partir de uma ideologia que é potenciali-
zada pelas ações publicitárias e pelos bens culturais para consumo de massa. Assim, os estímulos que os seres 
humanos recebem lentamente vão se transformar em valores que, ao revelarem-se no corpo social, são perce-
bidos como verdadeiros e inabaláveis. Para Adorno e Horkheimer (1985), esses estímulos fazem parte de uma 
estrutura psicológica maliciosamente projetada para manter os seres humanos em estado de submissão.
Figura 4.4 – A diversidade de informações. 
Legenda: A imagem representa a quantidade de informações que são distribuídas em diferentes canais de comunicação.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Resumindo, cultura de massa trata diretamente das expressões culturais que são produzidas com o objetivo de 
atrair a maioria da população. Ou seja, elas têm inclinação comercial na medida em que tal objetivo se realiza na 
produção de mercadorias para o consumo. Por isso, os produtos da cultura de massa são padronizados e homo-
geneizados para que sejam atraentes para a maioria dos cidadãos e cidadãs consumidores.
[...] a sociedade burguesa […] desenvolveu, em seu processo, o indivíduo. Contra a vontade de seus 
senhores, a técnica transformou os homens de crianças em pessoas. Mas cada um desses progres-
sos da individuação se fez à custa da individualidade em cujo nome tinha lugar, e deles nada sobrou 
senão a decisão de perseguir apenas os fins privados. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p.145)
Na visão de Adorno e Horkheimer (1985), portanto, ocorre um empobrecimento da vida humana ocasionado 
pelos fenômenos de comunicação em massa. Conforme destacamos no tópico anterior, a homogeneização cul-
tural é ruim para a experiência humana de modo geral, pois, entre outros aspectos, constrange a humanidade a 
nutrir-se dos mesmos significados. 
67
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 4 - Globalização, Cultura de Massa e Indústria Cultural
Figura 4.5 – Consumo de produtos.
Legenda: A imagem representa, a partir de um corredor de supermercado, os produtos a serem consumidos.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Logo, considerando que a cultura vai além da satisfação da necessidade, o incentivo ao consumo como neces-
sidade corrompe a cultura criando um ciclo vicioso de consumo e de inserção social por esses mecanismos. Os 
meios de comunicação não cansam de oferecer-nos o pensamento da liberdade individual, pelo qual o sujeito se 
satisfaz apenas pelo consumo de determinados artefatos. Dessa maneira, cria-se a ilusão do sujeito consumidor, 
que está preso em um ciclo de consumo no qual precisa cada vez mais consumir para sentir-se satisfeito.
4.3 Indústria Cultural
O filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) foi um dos primeiros pensadores a considerar a massificação 
da cultura. Para ele, o fato de a arte alcançar diversas pessoasdevia ser encarado como positivo. Ou seja, Benja-
min apostava em uma democratização da arte. A possibilidade de realizar cópias de obras de arte e de artefatos 
culturais seria, para o autor, a possibilidade de conscientizar mais pessoas sobre a existência de tais expressões.
A fotografia, por exemplo, possibilitou que se observasse uma obra de arte exposta em um museu sem que o 
observador tivesse a necessidade de deslocar-se até o local. A mesma coisa vale para o cinema. O desenvolvi-
mento tecnológico poderia, ainda, levar a mais e mais pessoas as ferramentas necessárias para as produções 
artísticas e para as manifestações culturais. O computador seria uma dessas ferramentas que garantiriam uma 
abertura para o mundo global.
Além disso, a popularização da tecnologia proporcionou que muitos artistas cuidassem das suas próprias produ-
ções independentemente, em estúdios improvisados. É importante ressaltar que Benjamin não viveu o mundo 
globalizado, mas seu pensamento oferece uma contrapartida aos críticos da cultura de massa.
Nesta seção, trataremos da indústria cultural na era da globalização, que se refere aos bens culturais produzidos 
em grande escala. A chamada Escola de Frankfurt, composta por estudiosos da teoria social, desenvolveu grandes 
estudos sobre o tema da cultura de massa. Veremos, em seguida, os principais temas desenvolvidos por essa escola 
68
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 4 - Globalização, Cultura de Massa e Indústria Cultural
Figura 4.6 – A indistinção da massa.
Legenda: A imagem, com diversas pessoas circulando pelo centro da cidade, representa a indistinção da massa.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Já sabemos conceituar a cultura, tanto material quanto imaterial, e já estudamos as principais correntes do 
pensamento antropológico que se debruçaram sobre as manifestações culturais. Mas, afinal, o que quer dizer 
indústria cultural? Segundo Costa (2010, p. 156), “[...] dá-se o nome de indústria à produção em grande escala, 
resultante do trabalho de muitos operários e de máquinas, ocupados em uma atividade planejada e controlada”.
De sua parte, a Indústria Cultural apropria-se de um número de artefatos culturais para transformá-los em cul-
tura de massa. Assim, as músicas, os seriados, os filmes, os desenhos animados e os demais programas televisi-
vos, bem como a gastronomia, a moda, os esportes coletivos e os radicais, são capturados e transformados em 
bens de consumo. Os meios de comunicação (rádio, televisão e internet) são os maiores parceiros do desenvol-
vimento da Indústria Cultural e da consequente disseminação da cultura de massa. Ou seja, tais veículos têm 
atuação decisiva no processo de homogeneização e padronização cultural.
A indústria cultural funciona, portanto, como uma instituição social, competindo diretamente 
com outras instituições como família, religião, partidos políticos. Devido à sua abrangência, à 
expansão do mercado cultural, ela irá deslocar duas instâncias importantes da vida social: a cul-
tura popular e a arte. (ORTIZ, 2002, p. 24).
Há pouco tempo atrás, aconteceu, em uma das estações do metrô de São Paulo, um fato que causou polêmica. 
Uma jovem branca vestindo um turbante foi abordada por outras jovens que a acusavam de apropriar-se da 
cultura negra através do uso do turbante, denunciando essa prática como despreocupada com o passado escra-
vocrata e com a atual situação de negro na sociedade brasileira. Tal polêmica tomou conta das redes sociais por 
alguns dias. 
Suponhamos que as duas posições tenham argumentos suficientes para convencer-nos de seu ponto de vista 
específico: as jovens que acusavam a garota branca de apropriar-se da cultura negra e a jovem branca que se 
defendeu das acusações. Como esse acontecimento se relaciona com nosso aprendizado nesta disciplina?
O turbante, enquanto vestimenta, passou a ser produzido industrialmente! Nesse sentido, podemos concordar 
que é uma apropriação cultural e que pode ser usado por uma população indistinta, pois está disponível para ser 
69
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 4 - Globalização, Cultura de Massa e Indústria Cultural
comprado em algumas lojas. Repare que as condições materiais, no caso o turbante, é, no mínimo, possível de ser 
adquirido! Por isso, essa trata-se de uma reflexão infraestrutural acerca da sociedade. 
Até o século XIX, predominava, na relação entre arte e bens culturais industrializados, uma tensão que lhes opu-
nha e diferenciava categoricamente. Com a emergência de uma cultura massificada, o mundo da arte começa 
a perder sua autonomia e acaba sendo capturado e reorganizado pelos interesses do mercado, como bem pon-
tuaram nossos colegas da Escola de Frankfurt. Significa, portanto, que se passou a produzir cultura e arte com a 
finalidade do lucro.
A ideologia fica cindida entre a fotografia de uma vida estupidamente monótona e a mentira 
nua e crua sobre o seu sentido, que não chega a ser proferida, é verdade, mas, apenas sugerida, e 
inculcada nas pessoas. Para demonstrar a divindade do real, a indústria cultural limita-se a repeti-
-lo cinicamente. Uma prova fotológica como essa, na verdade, não é rigorosa, mas é avassaladora. 
Quem ainda duvida do poderio da monotonia não passa de um tolo. (ADORNO; HORKHEIMER, 
1985, p. 138).
Segundo Ortiz (2002), a emergência da indústria cultural em países em desenvolvimento como o Brasil e Argen-
tina, para uma perspectiva sul-americana, redefine completamente a noção de cultura popular. Esse fenômeno 
dialoga diretamente como os estudos de Adorno e Horkheimer sobre a constituição da cultura de massa no 
mundo globalizado, revelando seu caráter empobrecedor e homogeneizante.
Figura 4.7 – Infelicidade e depressão.
Legenda: A imagem apresenta um homem visivelmente insatisfeito, 
representando a infelicidade e depressão causadas pelas ações do dia a dia.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Indústria Cultural é, portanto, um conceito utilizado para compreender como, hoje em dia, se produz cultura a 
partir da lógica de uma empresa capitalista. Ou seja, como passou-se a produzir industrialmente a arte popular 
visando ao lucro sobre tal produção. O resultado desse processo é o aparecimento de diversos padrões pelos 
quais as expressões culturais e artísticas encontram-se condicionadas. Assim, a indústria cultural, ou processo 
de reificação, é responsável por transformar bens culturais em bens de consumo. 
70
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 4 - Globalização, Cultura de Massa e Indústria Cultural
Reificação é o processo pelo qual uma realidade social, abstrata ou subjetiva, que essencial-
mente possui uma natureza dinâmica, tende a apresentar-se como um objeto fixo e passivo, 
sem autonomia ou autoconsciência. 
Glossário
Como destacamos anteriormente, nesse processo de transformação de bens culturais em bens de consumo, 
três elementos merecem destaque: a fabricação de valores, desejos e vontades para a população; o consumidor 
alienado dentro de um ciclo vicioso de conformismo; e a resultante insatisfação e infelicidade do sujeito que é 
capturado pelo discurso e pelos significados veiculados através da indústria cultural.
O conceito de sociedade do consumo é bastante representativo de toda esta unidade. Há um bom tempo deixa-
mos de fazer parte da produção de praticamente tudo o que consumimos. Nas próximas unidades, vamos fazer 
um exercício para olhar mais de perto questões da estrutura social da sociedade brasileira e ocidental, como: 
instituições sociais, a estrutura social, os movimentos sociais e as características da sociedade contemporânea, a 
sociedade de controle. Até breve!
71
Considerações finais
Nesta unidade, tivemos contato com vários conceitos do universo das Ciên-
cias Sociais. Aprendemos sobre o processo de globalização e sobre seus 
impactos sobre as culturas tradicionais. Além disso, construímos umenten-
dimento acerca dos conceitos de cultura de massa, comunicação de massa 
e indústria cultural. Vamos rever certos aspectos do nosso percurso:
• A globalização do capitalismo inclina-se à exportação da cultura e 
do modo de vida característico à sociedade ocidental;
• A cultura de massa é a apropriação e transformação de expres-
sões culturais localizadas em produtos ou bens de consumo;
• A Indústria Cultural caracteriza-se por operar a transformação dos 
bens culturais em objetos vendáveis e lucrativos para a expecta-
tiva de crescimento do mercado internacional;
• Esses conceitos estão assentados sobre a sociedade do consumo, 
em que os seres humanos alcançam o estatuto de cidadãos na 
medida em que conseguem participar e contribuir com a econo-
mia capitalista.
Referências bibliográficas
72
ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialética do Esclarecimento. Trad. Guido 
Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.
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ORTIZ, Renato. As ciências sociais e a cultura. Revista Tempo Social: revista 
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ponível em: <http://www.revistas.usp.br/ts/article/view/12372>. Acesso 
em: 6 fev. 2018.
74
5Unidade 5
Indivíduo, Sociedade e Direito
Para iniciar seus estudos
Esta unidade trata da relação intrínseca e complexa entre indivíduo e 
sociedade no contexto das organizações sociais, dos mecanismos sociais 
e da prática da cidadania. No estudo desta unidade, tomamos o cuidado 
de lhe proporcionar uma perspectiva histórica dos conceitos e categorias, 
demonstrando sua alteração no tempo e no espaço, a fim de facilitar a 
leitura do problema no contexto da contemporaneidade. Esse processo 
deve desenvolver a capacidade de intervir ativamente em busca de ações 
solucionadoras para as questões sociais.
Objetivos de Aprendizagem
• Percorrer a construção social a partir de suas bases, como cida-
dania, prática de direitos e deveres, recursos e práticas, que dão 
à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do 
governo de seu povo.
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 5 - Indivíduo, Sociedade e Direito
5.1 Organização Social
Neste tópico, analisaremos as organizações sociais tendo em vista as seguintes questões: o que são? Para que 
servem? Qual a diferença de organização social e estrutura social? E qual a relação da organização social com 
o indivíduo? Esses questionamentos, por sua vez, suscitam outras necessidades, como pensar e analisar o indi-
víduo. Dessa forma, cumpre refletir sobre o que é o indivíduo, como ele se forma, como se desenvolve a relação 
com o coletivo, entre outros aspectos, para compreender a complexidade da relação entre indivíduo e sociedade 
no processo de desenvolvimento humano e social.
A história da Sociologia enquanto uma ciência sempre teve como preocupação a explicação acerca da formação 
da sociedade, seu funcionamento e sua capacidade de continuidade no tempo e no espaço, sempre partindo do 
entendimento de que o objeto sociedade se tratava de algo para além das individualidades ou particularidades e 
que tudo se movia conforme as estruturas sociais. Ou seja, o coletivo, em sua totalidade complexa, determinaria 
ou condicionaria as formas de desenvolvimento da vida humana, em sua singularidade.
Nesse sentido, é como se a formação do “eu” estivesse sob balizas colocadas externamente. Um exemplo figu-
rativo é a forma como se dá a manobra de estacionamento do carro na autoescola: colocam-se dois marcado-
res que determinam seu espaço de ação com o automóvel e, dentro desse espaço que impuseram, é que lhe é 
permitido movimentos de encaixe para aquele determinado espaço. Esse exemplo nos ajuda a enxergar que a 
liberdade da relação individual com o automóvel e sua locomoção não é no espaço em sua totalidade, mas no 
espaço recortado especialmente para que a pessoa se adeque a ela.
Quando pensamos a relação da sociedade com o indivíduo, por muito tempo, a Sociologia, em suas correntes 
de pensamento mais tradicionais, vinculadas à sua gênese, concebia a formação do indivíduo e seu desenvol-
vimento da mesma maneira. Ou seja, o sujeito nasce em relações coletivas que limitam, de certa forma, suas 
decisões, cabendo a ele apenas escolher os movimentos corretos, que lhe auxiliem nesse encaixe ou nessa con-
formação com a forma social que lhe é preparada externamente.
Mas o que são essas estruturas sociais? As estruturas sociais tratam-se de parâmetros rígidos no tempo e no 
espaço que permitem um processo de produção e reprodução contínuo da sociedade, preservando o senti-
mento de segurança. Em decorrência disso, a estrutura comumente tem muita dificuldade de sofrer quaisquer 
influências individuais que lhe direcione a mudanças. Por exemplo, a família, a escola, a igreja, o Estado etc. são 
estruturas sociais que preservam, ao longo do tempo, o máximo de sua originalidade, sendo muito resistentes 
à mudança. A segurança é proporcionada pelo fato de podermos conhecer mais claramente a ordem e o fun-
cionamento dessas estruturas, havendo mais facilidade e segurança no momento da escolha e do exercício da 
individualidade nesse processo.
Estruturas sociais são rígidas no tempo e no espaço e auxiliam em dar formas e funções 
necessárias para um determinado grupo ou mesmo indivíduos. As estruturas sociais aju-
dam nos processos que culminam em determinar posições e papéis sociais, por exemplo, tais 
como família, parentesco, relações de classe, distribuição ocupacional, entre outros. 
76
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 5 - Indivíduo, Sociedade e Direito
No que difere estrutura social e organização social? Enquanto a estrutura social tem quase que inteira influência 
sobre as ferramentas que permitem a construção do indivíduo, determinando verticalmente seus padrões insti-
tucionalizados, a organização social trata-se de algo mais flexível e de um lugar que permite, em certa medida, 
dar voz ao indivíduo e suas vontades, tendo significativo efeito sobre o coletivo por desencadear processos de luta 
que promovem mais facilmente alterações em sua ordem.
Dessa maneira, a organização social é algo mais passível de mudança a partir das individualidades quando com-
parada às estruturas. Assim podemos perceber que, aparentemente, é na organização social que ocorrem os 
ininterruptos conflitos sociais condicionantes para movimentos sociais de grupos não majoritários, demons-
trando o ouvir das vontades individuais frente às imposições do coletivo.
Figura 5.1 – Relação sociedade x indivíduo.
Legenda: A imagem ilustra a relação existente entre sociedade e indivíduo no interior da organização social.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
A figura anterior ilustra os conflitos sociais, em que um lado representa as convenções coletivas mais estrutura-
das, compapéis sociais historicamente determinados e, o outro, indivíduos que, municiados de novas concep-
ções de seu lugar na sociedade, disseminam seus ideais. Isso acaba por desencadear um processo de luta entre o 
que poderíamos chamar de um novo modo de conceber uma determinada posição social e um grupo majoritá-
rio, que está ancorado nos papéis históricos.
A título de exemplo dessa relação conflituosa no interior das organizações sociais, na contemporaneidade, temos 
o papel socialmente construído do que é ser mulher e do que é ser homem. É de convenção histórica que a 
mulher era concebida, na organização social, com um papel de gestora do espaço doméstico, ficando sob sua 
responsabilidade o cuidado dos filhos, a limpeza da casa, a alimentação e todas as responsabilidades necessárias 
no espaço da casa. Em outros momentos, a mulher não tinha direito ao voto ou quaisquer participações ativas 
no processo de construção política dos Estados. O homem, por outro lado, era condicionado à responsabilidade 
do trabalho, desenvolvendo carreiras em espaços sociais externos à esfera doméstica, bem como o trato com a 
política e todas as questões que envolvessem debates sobre o curso da vida coletiva. Ele pouco se envolvia com 
as questões da casa, se limitando a construir recursos para o desenvolvimento de sua vida familiar.
Por outro lado, é nítido o processo histórico em que as mulheres, ou ao menos parte delas, têm empreendido na 
luta pela quebra desses papéis socialmente construídos, conseguindo diversas modificações no seio da organi-
zação social que levam todo o contexto da coletividade a refletir criticamente sobre o que de fato é ser mulher e 
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 5 - Indivíduo, Sociedade e Direito
qual seu papel social. Na esteira desse processo histórico, houve, por exemplo, a conquista do sufrágio univer-
sal (direito de votos a todos, incluindo a mulher), conquista na possibilidade de se eleger (o resultado disso, no 
mundo, foram diversas lideranças governamentais femininas) e um movimento em massa de mulheres que se 
lançaram à vida profissional e que hoje concorrem igualmente com os homens em todos os espaços.
Os homens, de sua parte, em um processo um pouco menos intenso, hoje encontram-se ocupando papéis 
sociais que outrora eram ocupações ditas femininas. Um exemplo disso são atividades no campo da educação. 
Mesmo hoje, o trabalho de educador, sobretudo educador infantil, é majoritariamente ocupado por uma mulher, 
o que estaria vinculado à sua perspectiva de ser mãe. No entanto, tem havido considerável ingresso de homens 
assumindo a missão no campo da educação.
Sem quaisquer pretensões de juízo de valor, nos limitamos a usar ambos os exemplos como demonstração de 
como ocorre a mudança na organização social e como ela é bem mais visível do que possíveis alterações nas 
estruturas sociais. Verificamos, assim, que a organização social possibilita o rearranjo comportamental dos indi-
víduos, ancorados em vontades muito mais restritas do que as do coletivo.
Essa organização social pode então ser percebida enquanto forma pela qual os homens conduzem suas relações 
sociais, embasadas em ações que levem em consideração características como período temporal, responsabili-
dade e representatividade com grupos sociais, riqueza, camada social na qual estão inseridos e demais caracte-
rísticas ou aspectos que contribuem para a demarcação de uma determinada posição social do indivíduo para o 
desempenho de seu papel.
O debate acerca das estruturas sociais e as organizações ou sistemas sociais está inserido no interior de um 
debate sociológico entre a Escola Estruturalista, que possui como um de seus principais precursores o sociólogo 
Émile Durkheim (1858-1917), e a Escola Pós-Estruturalista, cujo referencial teórico tem como representantes 
Anthony Giddens (1938-) e Nobert Elias (1897-1990).
Os estruturalistas defendem que a estrutura social é responsável única e exclusivamente por agir coercitiva-
mente sobre as liberdades ou vontades individuais. A estrutura age, pois, como coerção social. Já Giddens (2002) 
tece uma crítica a essa escola ao refletir sobre o duplo papel das estruturas sociais e organizações sociais: pri-
meiro, o papel de coerção social, e, segundo, o papel de facilitador social. Ou seja, a escola pós-estruturalista 
concorda sobre o papel coercitivo das estruturas, mas entende que não é sua única contribuição no processo de 
desenvolvimento social, tendo em vista que, para além da coerção, as estruturas sociais agem como facilitadores 
no processo de expansão das relações sociais e do próprio indivíduo.
Ambas as correntes de pensamento concordam que a estrutura social é caracterizada pela sua resistência no 
tempo e no espaço sem que haja alterações ou, quando ocorrem, que elas sejam mínimas. Por isso, um exemplo 
claro de estrutura social é a língua, algo que nos é imposto externamente e que não se altera de forma fácil. 
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 5 - Indivíduo, Sociedade e Direito
Figura 5.2 – Diferentes idiomas na sociedade
Legenda: A imagem ilustra diferentes pessoas que compõem a 
sociedade, em que os diferentes idiomas se destacam na estrutura social.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Em relação aos diferentes idiomas que a sociedade apresenta, vamos usar o exemplo do próprio Giddens (2002) 
para compreender essa nova perspectiva acerca das estruturas sociais sobre as organizações sociais. Ele traz 
como estrutura a língua pátria. A nossa primeira opção de dialeto, a língua pátria, trata-se de uma estrutura 
social que incorporamos sem o exercício de nossa vontade individual. O aprendizado dessa língua, por sua vez, 
de maneira imposta e coercitiva, limita nossas capacidades de socialização e aprendizagem na medida em que 
nos torna submissos a uma determinada organização social no tempo e no espaço. Por outro lado, aprender essa 
língua é fundamental para a expansão de nossas capacidades cognitivas e para os processos de socialização 
e expansão dos conhecimentos, sejam locais ou globais. Nesse sentido, Giddens (2002) procura tornar claro o 
duplo papel da estrutura, que é tanto coercitiva quanto facilitadora.
A discussão das duas correntes de pensamento sociológico nos impulsiona a pensar sobre a relação de controle 
social que existe no processo de construção das relações sociais, que se desenvolve entre indivíduo e sociedade. 
Se há estruturas que quase não se alteram no tempo e no espaço, interessa-nos analisar as ferramentas que 
auxiliam no processo de perpetuação dessas estruturas, sendo o que nos parece haver são mecanismos de con-
trole social.
5.2 Controle Social
A perpetuação das estruturas sociais, ou mesmo de uma organização social duradoura no tempo e no espaço, 
não ocorre somente a partir de um afeto dos indivíduos pela sua composição e organização. Entende-se que há 
mecanismos sociais em funcionamento que agem coercitivamente no processo de aceitação e internalização 
por parte dos indivíduos. Neste tópico, iremos analisar esses mecanismos de controle social enquanto elementos 
talvez necessários para uma vida mais cidadã. O necessário, nesse contexto de cidadania, se aplica na medida 
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 5 - Indivíduo, Sociedade e Direito
em que, segundo Elias (1994), a sociedade esteve caminhando nas últimas décadas do século XX para um com-
portamento cada vez mais individualizado (essa discussão trataremos mais detalhadamente no tópico seguinte), 
alerta que se confirma nos primeiros anos do século XXI.
Como podemos definir o controle social? Independentemente da corrente de pensamento sociológico, é possí-
vel definir a categoria do controle social enquanto um conjunto de mecanismos internos e externos de diversos 
grupos sociais ou da própria sociedade, que são utilizados para garantir a conformidade do comportamento 
dos indivíduos aospadrões socialmente condicionados. Podemos tomar como exemplo uma fôrma de bolo: o 
recipiente impulsiona o conteúdo a tomar o formato da fôrma em que ele é colocado e, depois de pronto, o seu 
formato não se trata de sua própria liberdade, mas de toda a pressão exercida pelos limites impostos pela forma. 
O bolo quadrado não é quadrado: a fôrma é quadrada. O bolo redondo não é redondo: a fôrma é redonda.
No caso específico do processo de controle social exercido sobre o indivíduo, é possível dividi-lo em duas condições: 
a condição de controle social positiva e a de controle social negativa. O controle social positivo pode ser entendido 
como uma deliberação do próprio indivíduo que, ao compreender as imposições sociais, as aceita e internaliza pas-
sivamente, agindo como se espera no coletivo. O controle social negativo se dá no momento em que o indivíduo 
decide por não aceitar as condições coletivas de convivência e passa a infringir os acordos coletivos, recebendo, por 
isso, sansões por meio de mecanismos sociais que o forcem a se conformar com a forma da sociedade.
Figura 5.3 – Relação indivíduo e sociedade no controle social.
Legenda: A imagem ilustra o indivíduo que se encaixa na sociedade no contexto do controle social.
Fonte: Plataforma Deduca (2018). 
A Figura 5.3 auxilia na ilustração da relação entre indivíduo e sociedade no contexto do controle social, em que 
o indivíduo consiste na peça diferenciada do quebra-cabeça, que nasce cheios de potenciais singulares no que 
tange à sua construção indenitária. Por outro lado, a sociedade instaura mecanismos, quer seja interna ou exter-
namente, que agem com o propósito de encaixar essas características individuais dentro do grande quebra-
-cabeça que ela é.
De acordo com o sociólogo Norberto Bobbio (1909-2004), esses dois tipos de mecanismos de controle sociais 
(controle social externo e controle social interno) são elucidados da seguinte maneira: as formas de controle 
externo agem, ocorrem ou, ainda, são necessárias quando o sujeito ou o indivíduo não age com disposição de 
se desenvolver nas relações sociais em uniformidade ou conformidade com o coletivo social. Nesse caso, temos 
como baliza de definição dessa inconformidade as regras sociais, as leis que serão determinantes analíticos para 
que saibamos se a ação do indivíduo está ou não de acordo com os pressupostos da sociedade.
80
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 5 - Indivíduo, Sociedade e Direito
Em caso de ações individuais conflitantes com a ordem social, esse sujeito recebe sansões e punições que o 
conduz em coercitivamente aos padrões esperados. A polícia, nesse contexto, é um exemplo de ferramenta de 
aplicação práticas dos mecanismos de controle social externo. Devemos nos recordar que o poder das leis e da 
polícia são legitimados pelo Estado enquanto suposto defensor e organizador do interesse da sociedade no que 
tange a condições de desenvolvimento humano e social saudável.
A forma de controle social interno, de sua parte, trata-se de mecanismos pelos quais a sociedade consegue fazer 
o indivíduo internalizar as regras, parâmetros e limites da convivência social, construindo, de forma complexa, 
ideias, pensamentos ou quaisquer formações de consciência ou parte dela, que norteiem e limitem as ações 
individuais sem necessariamente haver a necessidade de quaisquer coerções externas.
Para que tornemos mais claro o controle social interno, temos como exemplo, conforme imagem anterior, a 
escola, que é um mecanismo social de controle interno. Toda a produção cultural humana ao longo do tempo, 
responsável por nortear a formação e desenvolvimento das relações sociais, é repassada sistematicamente e 
pedagogicamente para que o indivíduo em processo de desenvolvimento tenha condições de se adequar às 
regras de convivência social, antecipando quaisquer necessidades de coerção externa.
Do ponto de vista filosófico, ele pode ser entendido enquanto os princípios éticos que norteiam as decisões 
morais do indivíduo, compreendendo normas e valores sociais que ele passa a defender e ter como sustentáculo 
de suas ações, independentemente de um exercício pleno de sua liberdade. Nesse sentido, há diversas defesas 
que fazemos e condutas que temos em nossa vida cotidiana, em que não precisamos de quaisquer ferramentas 
de coerção para que façamos do jeito que está convencionado socialmente. O desenvolvimento dessa consci-
ência torna o indivíduo um vigia de si próprio. Sem depender de fatores externos, eu penso ou vou agindo desse 
ou daquele jeito, tendo como referência a minha própria consciência construída a partir das experiências com 
mecanismos sociais de controle internos como a escola.
Outra forma de controle social interno é a família. No seio familiar, o indivíduo se desenvolve internalizando uma 
série de crenças, valores e conceitos que serão responsáveis por balizar diversas ações no que tange à convivência 
coletiva, que foram colocadas pelo pai, pela mãe e pelos diversos graus de convivência familiar. Nessa perspec-
tiva, o sujeito não precisará de quaisquer mecanismos punitivos sociais externos para sustentar esse ou aquele 
valor, uma vez que ele decide internamente pelo cumprimento da regra internalizada, em um diálogo com a 
própria formação do consciente. A psicologia social, para esses casos, entende que a punição, caso haja a quebra 
dessa regra internalizada, é o próprio sentimento de culpa, que pune o indivíduo.
Outra perspectiva interessante que podemos trazer para compreender a complexidade desse processo de con-
trole social para o desenvolvimento das relações humanas e sociais, é a produção de Michel Foucault (1926-
1984), na célebre obra “A microfísica do poder” (1999). Nessa obra, ao tratar das instituições que cumprem o 
papel de controle social interno, como no caso da escola, o autor define o processo como a construção de um 
sujeito dócil, útil e submisso à ordem estabelecida. As instituições são, portanto, disciplinadores que condicio-
nam o indivíduo no interior desse processo, na esteira do qual o sujeito tem a mente e o corpo moldados em 
concordância ao que se pede pela sociedade. O resultado disso será um sujeito útil e conformado nas regras da 
instituição que o molda, com o objetivo de torná-lo produtivo para o seu contexto social em específico. 
Se pensarmos a escola a partir dessa perspectiva, abrimos enormes possibilidades, inclusive no campo jurídico, de 
perceber elementos que compõem essa forma de controle social. Na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 
(LDBEN) e também nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), existem aberturas no que se refere à organiza-
ção curricular e de conteúdo, que pode ser preenchida com materiais vinculados à produção cultural local. Nesse 
sentido e tomando por base a concepção de Giddens (2002) para a relação do local e global, esse preenchimento 
cumpre o papel de formatar um indivíduo útil ao seu contexto social local, pois os conteúdos organizados apenas 
globalmente diminuem a capacidade de ele estabelecer conexões úteis com sua realidade local.
Portanto, o controle social, seja ele interno ou externo, trata-se de um conjunto complexo que colabora e age para 
intervir no comportamento do sujeito desviante, bem como de um processo de conscientização guiado pelas regras 
e normas do coletivo social, que deverão balizar a construção individual do “eu”. O entendimento da relação com-
81
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 5 - Indivíduo, Sociedade e Direito
plexa entre a formação do indivíduo e a sociedade, com vistas para o desenvolvimento humano e social, importa na 
medida em que o equilíbrio dessa relação torna-se fundamental para a prática de uma vida cidadã.
5.3 Cidadania
A cidadania consiste em uma categoria histórica e social. Histórica no sentido de que ela surge em dado contexto 
histórico do passado e social na medida em que se torna intrínsecaao tipo de organização social, pensando a 
relação dos indivíduos com a sociedade no acesso aos bens disponíveis para uma vida digna nas esferas econô-
mica, social e cultural. Assim, propomos, neste tópico, a análise das diversas concepções que procuram definir a 
cidadania, na teoria e em sua práxis, procurando entender as zonas limítrofes entre o exercício da individualidade 
e as imposições sociais no que se refere ao direito à cidadania.
Um cidadão, de acordo com o dicionário Aurélio (2014), trata-se do indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos 
de um Estado. Mas nem sempre foi assim. O conceito de cidadania se desenvolveu em meados do século IX a. C, 
com o surgimento das cidades-estado e polis gregas. Nesse período, o emprego do termo estava correlacionado 
à ideia de indivíduos com possibilidades de exercício pleno de sua liberdade, como privilégio de participar inte-
gralmente em todo o ciclo da vida política, social e econômica de determinada comunidade.
Mesmo no seu surgimento histórico mais embrionário, o conceito de cidadania surgia com um papel excludente 
na organização social. Desse modo, na sociedade grega, não eram todos que possuíam o exercício da cidadania. 
Ficavam de fora do gozo dessa liberdade os estrangeiros, o contingente populacional submetido ao controle 
militar e escravos. Acercados direitos de participar da vida pública da comunidade, as mulheres também não 
gozavam da cidadania.
Um pouco mais tarde na história, o conceito de cidadania é estabelecido na sociedade do Império Romano. Aqui, 
o título de cidadão romano possui um significado um pouco mais complexo que na polis grega. De igual maneira 
se tratava de um privilégio de grandes proprietários rurais, pessoas que detinham cargos públicos, religiosos e as 
mais altas patentes na hierarquia militar. A prática da cidadania romana estava mais vinculada a poderes políticos 
do Império dentro de uma perspectiva de abrangência territorial. Além disso, assim como a cidadania grega, a 
romana possui o seu caráter excludente, não participando da vida da Res Publica escravos, camadas populares e 
povos dominados, bem como as mulheres. Podemos identificar algumas diferenças, como, por exemplo, a con-
cessão de título de cidadão romano, que poderia ser conquistado por classes sociais mais altas de outros povos 
dominados pelo Império Romano, sobretudo filhos dessas classes educados conforme a educação romana.
No contexto da modernidade e da pós-modernidade, pensar o conceito de cidadania passa a ser uma atividade 
intelectual, teórica e prática muito mais complexa do que tem se apresentado em outras definições. Segundo 
Bitar (2004, p. 18):
Em verdade, a real identidade da palavra cidadania [...] algo mais que simplesmente direitos e deveres polí-
ticos, e ganhando dimensão de sentido segundo a qual é possível identificar nas questões ligadas a cidada-
nia as preocupações em torno do acesso as condições dignas de vida. Nessa perspectiva conceitual, o que 
se quer ver é que não é possível pensar em um povo capaz de exercer a sua cidadania de modo integral (no 
sentido político-jurídico) sem que ela esteja plenamente alcançada e realizada em suas instâncias mais 
elementares de formação e implementação de estruturas garantidoras de bens e serviços, direitos, institui-
ções e instrumentos de garantia de existência da vida e da dignidade. 
A citação de Bitar (2014) interessa-nos na medida em que nos convida a um alargamento do conceito de cidada-
nia. Isso porque expor a cidadania enquanto a prática de direitos e deveres frente a um Estado nacional, como algo 
suficiente para colocar os indivíduos em condições de igualdade, parece, para a sociologia contemporânea, algo 
incompleto e insuficiente. Do ponto de vista jurídico, todos temos direito à vida, porém, na cotidianidade da vida, 
82
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 5 - Indivíduo, Sociedade e Direito
existe um contingente significativo de pessoas que nem se quer possui condições materiais mínimas para manter 
essa vida. Como as pessoas, por exemplo, que carecem de alimentos e vivem em condições de extrema pobreza.
Na esteira dessa discussão, nos parece salutar pensar no processo de ressignificação do conceito de cidadania. 
Ainda sobre o conceito de cidadania na história, temos duas concepções mais recentes e ainda presentes nos 
debates acerca do exercício da cidadania:
[...] temos pelo menos duas concepções de cidadania mutuamente excludentes. A primeira é 
aquela formal ou individual, originada no estado moderno regidos pelos princípios da revolu-
ção francesa – Liberdade, igualdade e fraternidade. A liberdade referindo-se ao direito de todos 
os detentores de capital a propriedade privada, a igualdade significando existência de direitos e 
deveres iguais para todos indistintamente, apesar das diferenças sociais, culturais e econômicas. 
E por fim a fraternidade, elemento que garante, mesmo com o uso da força, a harmonia ou manu-
tenção social”. (BITAR, 2014, p. 156).
Para efeito didático explicativo, vamos analisar essa primeira concepção de cidadania, antes de expormos a 
citação acerca da segunda concepção. A Revolução Francesa norteou a construção conceitual da cidadania na 
chamada modernidade. Nesse sentido, ela definiu que todos deveriam gozar de sua liberdade em possuir a pro-
priedade privada. Aqui encontramos o primeiro problema do seu caráter excludente, pois cria-se uma definição 
pautada no consumo para o exercício da liberdade, sem que antes houvesse quaisquer discussões sobre as con-
dições de consumo e prática dessa liberdade. Ou seja, como aqueles que conseguiram as condições para ter a 
propriedade privada chegaram nesse ponto e o que fazer com relação aqueles que não possuem tais condições.
O segundo ponto dessa primeira concepção de cidadania é a igualdade de direitos e deveres frente ao corpus 
jurídico que norteia as relações sociais e a relação do indivíduo com a sociedade. Igual à análise do parágrafo 
anterior, aqui também não há quaisquer preocupações com as condições reais e cotidianas da heterogeneidade 
social para o cumprimento de deveres e, muitas vezes, se cria uma pseudocondição de ter o mesmo direito de 
outros cidadãos. Há correntes sociológicas que criticam esse posicionamento conceitual para liberdade no exer-
cício da cidadania, pautadas no argumento de que a própria sociedade cria outros meios de cerceamento da 
prática da liberdade, ocultada pelas diferenças socioeconômicas, e que, por isso, jamais houve o interesse de se 
discutir as condições existenciais para essa prática.
A fraternidade, no contexto da cidadania vinculada à Revolução Francesa, tratava-se, pois, de uma condição de 
irmandade em que todos no exercício de seus direitos e deveres, respeitando os limites e espaços correlatos ao 
outro, colaborariam para uma convivência coletiva harmônica. A harmonia dos interesses individuais, frente às 
necessidades coletivas. O problema surge na medida em que é cada vez mais desafiador convencer os indivíduos 
a pensar e conceber a vida de forma coletiva. A sociedade individualizada tem colocado o exercício da liberdade 
individual e graus de importância tal qual o exercício do bem-estar do coletivo. Nesse sentido, a citação deixa 
claro que a efetivação dessa harmonia deve ocorrer mesmo que sob o uso da força. 
Mas quem pode usar essa força? Essa pergunta nos leva a refletir sobre o papel do Estado e de todo seu aparelho 
jurídico no campo do direito, que acaba, por intermédio daquele, tornando-se o legitimador do uso dessa força, 
por meio da polícia enquanto mecanismo social de coerção, quando não há um consenso deliberado da socie-
dade acerca de como manter essa harmonia do bem-estar coletivo. Essa concepção de cidadania, em harmonia 
com forças coercitivas e o Estado, é ainda a de mais expressão e entendimento na sociedade contemporânea, 
mesmo com o recente surgimento de novas formas conceituaispara a prática da cidadania.
83
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 5 - Indivíduo, Sociedade e Direito
Vejamos, agora, a próxima concepção de cidadania:
A segunda concepção de cidadania, por ser tecida pelos movimentos sociais, pode ser denominada de 
social. Via de regra, esta última, em função dos movimentos sociais, por meio dos quais é engendrada, está 
ancorada em uma tríade daquela da cidadania moderna: Liberdade, diferença e solidariedade. O primeiro 
termo refere-se à liberdade de opções, que somente é possível em uma sociedade complexa e plural que 
respeita a diferença, vista não como características a ser eliminada por processo massificadores, mas como 
direito a ser respeitado e mantido em nome de uma democracia de fato. A solidariedade, como defende 
Bauman (1998, p.256), é a condição para a existência tanto da liberdade quanto da diferença e implica a 
existência de respeito mútuo e a possibilidade de ver-se no e com o outro”. (BITAR, 2014, p. 157)
Diferentemente das outras concepções de cidadania, essa segunda não possui um caráter de exclusão, mas sim 
um caráter inclusivo. Nela, o ser cidadão ou praticar a cidadania vai para além das determinações jurídicas do 
Direito, uma vez que está constantemente preocupada com a cotidianidade da vida social. A diversidade dessa 
prática cidadã, por sua vez, aparece dissolvida no interior dos movimentos sociais, que são responsáveis por dar 
voz a extratos sociais que, na prática, não têm a sua cidadania de forma plena na práxis da vida cotidiana.
Figura 5.4 – Cidadania.
Legenda: A imagem ilustra a perspectiva inclusiva na concepção de cidadania.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
A título de exemplo temos o caso de pessoas com necessidades especiais provocadas por deficiência física. A 
prática da cidadania dessas pessoas, frente ao corpus jurídico, determina que a igualdade delas esteja no direito 
de ir e vir e de se locomover nos espaços de sociabilidade da cidade. Porém, sabemos que, por muito tempo, as 
cidades não proporcionavam condições para que essa igualdade de direito, no campo da teoria da jurisprudên-
cia, se revelasse em uma prática cotidiana para as pessoas com deficiência física. Então houve, ao longo de anos, 
diversos movimentos sociais que passaram a cobrar das administrações públicas alterações nas zonas urbanas, 
tendo em vista esse direito, para que realmente se cumprisse a igualdade de ir e vir para as pessoas com necessi-
dade especiais. O resultado tem sido, cada vez mais, cidades com obras adaptativas para a locomoção de pessoas 
cadeirantes, pessoas com deficiência visual etc.
84
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 5 - Indivíduo, Sociedade e Direito
Figura 5.5 – Adaptações na sociedade.
Legenda: A imagem representa as obras e adaptações necessárias para inclusão social.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Sabemos que essas alterações são iniciais e carecem de um alargamento para que se tornem plenas em todos 
os territórios. No entanto, o exemplo importa-nos na medida em que há uma luta por parte da sociedade para 
que a cidadania deixe de ter medidas apenas teóricas e jurídicas e passe a se apresentar, de fato, na práxis da vida 
cotidiana. Porém, para que seja possível empreender esse conceito de cidadania prática e inclusiva, é imprescin-
dível o desenvolvimento, no interior das individualidades, de um sentimento de solidariedade e empatia. Nesse 
sentido, cumpre pensar as diferenças como aspectos que devem ser levados em conta para serem incorporados à 
prática da cidadania, com as pessoas sendo solidárias às necessidades que emergem pela diversidade dos grupos 
sociais e dos indivíduos, fazendo do corpo jurídico um espaço de afirmação dessa solidariedade.
Essa perspectiva de cidadania, pautada na liberdade, diferença e solidariedade, automatiza uma sociedade inclu-
siva, com relação harmônica com a diversidade, sendo cada vez mais dispensável o uso das forças para manter 
essa harmonia. Pois, diferentemente da fraternidade, a solidariedade vem da capacidade de se colocar no lugar 
do outro, entender a necessidade desse outro e empreender um processo de luta para suprir essa necessidade, 
como se fosse sua própria. Nessa perspectiva, eu não preciso fazer parte da necessidade para lutar por ela: eu 
apenas convivo com as diferenças de maneira empática, nutrindo com naturalidade um ambiente harmônico.
Nesse sentido, no contexto da pós-modernidade e em uma sociedade marcada pelo consumo, segundo Souza 
e Costa (2005), é cada vez mais salutar que a cidadania esteja constantemente em processo de reflexão e res-
significação para a busca de constituição de projetos societários inclusivos e igualitários. Essa necessidade per-
manente está ligada ao fato de vivermos uma realidade social pautada pelo consumo, cuja tentação é olharmos 
apenas para os anseios e desejos que revelam a nossa individualidade. Realidade essa pouco convidativa para um 
olhar preocupado com as necessidades do outro.
Dessa forma, quaisquer noções e conceitos que apontem para o desenvolvimento humano e social de uma 
sociedade cada vez mais igualitária e inclusiva podem e devem ser vinculados ao conceito de cidadania. Esse pro-
cesso encontra-se intimamente ligado às ações dos sujeitos sociais comprometidos com a participação ativa em 
movimentos sociais. As correntes sociológicas mais contemporâneas, que pensam as relações sociais com vistas 
85
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 5 - Indivíduo, Sociedade e Direito
para o desenvolvimento humano, procuram demonstrar que sempre esteve no interior dos movimentos sociais a 
capacidade de ampliar conceitos e práticas a eles associados, tornando a sociedade cada vez mais democrática.
A título de exemplificação, iniciamos esse tópico fazendo um resgate histórico embrionário de como era conce-
bido o conceito de cidadania. A evolução desse conceito, a partir dos gregos, ocorreu no interior do movimento 
social provocado pelas transformações advindas do imperialismo do Império Romano e sua nova forma de pen-
sar e conceber as relações sociais, sobretudo no campo do Direito. Depois foi o movimento social da Revolução 
Francesa, no contexto do século XVIII, que redimensionou o que era ser cidadão por proporcionar conquistas 
para diferentes classes sociais e aproximar direitos e deveres para homens e mulheres, quebrando com diversos 
paradigmas que engessavam o conceito de cidadania. Nesse sentido, portanto, são os movimentos sociais que 
devem constantemente incitar na sociedade a necessidade de rever o que significa, na prática, ser cidadão ou 
gozar da cidadania.
86
Considerações finais
Nesta unidade, acessamos diversas perspectivas capazes de nos auxilia-
rem na compreensão do que são as organizações sociais, o controle social 
e a cidadania:
• As organizações sociais tratam-se de uma esfera social menos 
rígida no tempo e no espaço, sendo flexíveis e dinâmicas. Con-
sistem em lugares em que o sujeito e suas necessidades individu-
ais são ouvidos e oferecem-se enquanto campo de luta para os 
movimentos sociais.
• Os mecanismos de controle social são um conjunto de mecanis-
mos internos e externos de diversos grupos sociais ou da própria 
sociedade, que são utilizados para garantir a conformidade do 
comportamento dos indivíduos aos padrões socialmente condi-
cionados.
• A cidadania, enquanto categoria histórico e social, trata do exer-
cício prático do sujeito no gozo dos seus direitos políticos e civis 
dentro de um Estado de direito. Definimos que a cidadania é uma 
categoria que deve ser continuamente revista e transformada 
conforme as necessidades de cada tempo e condição social.
Referências bibliográficas
87
BAUMAN, Z. O Mal-Estar da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Jorge 
Zahar Editor, 1998.
BITAR, E. C.B. Ética, Educação, Cidadania e Direitos Humanos: estudos 
filosóficos entre cosmopolitismo e responsabilidadesocial. Barueri, SP: 
Manole, 2004.
FOUCAULT, M. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Trad. Raquel Rama-
lhete. 35. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.
ELIAS, N. A Sociedade dos Indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 
1994.
GIDDENS, A. Modernidade e Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Edi-
tor, 2002.
SOUZA, M. A.; COSTA, L. C. (Org.) Sociedade e Cidadania: desafios para o 
século XXI. Ponta Grossa: Ed. UEPG, 2005.
89
6Unidade 6
Classe Social, Estratificação 
Social e Pobreza
Para iniciar seus estudos
Nesta unidade, vamos aprender alguns dos conceitos mais clássicos da 
Sociologia: classe social e estratificação social. Durante os estudos, com-
preenderemos como esses conceitos nos auxiliam enquanto ferramentas 
para fazer uma leitura correta da realidade social na qual estamos inse-
ridos. Além disso, veremos os desdobramentos trazidos pelas ciências 
sociais acerca da questão da desigualdade socioeconômica.
Objetivos de Aprendizagem
• Conceituar a estratificação social e verificar suas implicações na 
hierarquização de classes, em que ocorre a separação de pessoas 
por culturas, poder aquisitivo, religião e posição social. 
90
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 6 - Classe Social, Estratificação Social e Pobreza
6.1 Classe social
A globalização do capitalismo iniciou-se com uma revolução chamada de técnico-científica-informacional ou 
Terceira Revolução Industrial. Pois bem, para compreendermos corretamente os conceitos desta unidade, que 
são conceitos importantíssimos para a Sociologia, deveremos voltar para os pensadores de Primeira Revolução 
Industrial, ocorrida lá no século XVIII. É importante ter em mente que a Sociologia e todas as ciências sociais 
nasceram a partir de mudanças significativas na sociedade ocidental, como a Revolução Francesa e a revolução 
cultural conhecida como Iluminismo. 
Aquele momento histórico marcou o nascimento da sociedade ocidental moderna, chamada de sociedade bur-
guesa, e pode-se dizer que ainda carrega o seu sentido. Com o Iluminismo, a ciência torna-se protagonista na 
produção dos saberes que, durante o período anterior, estava subordinada principalmente à doutrina religiosa 
cristã. Ao analisar a organização socioeconômica desse novo mundo a partir da criação de uma metodologia 
científica, Karl Marx (1818-1883) liberou uma grande quantidade de conhecimento acerca do funcionamento 
das sociedades capitalistas. 
Segundo Marx, a origem das desigualdades sociais estaria na distribuição desigual das riquezas na sociedade, 
originadas a partir da posse dos meios de produção pela classe dominante, o que afasta as classes dominadas 
daquela, obrigando os trabalhadores a venderem sua força de trabalho. 
[...] a sociedade burguesa é a organização histórica mais desenvolvida, mais diferenciada da pro-
dução. As categorias que exprimem suas relações, a compreensão de sua própria articulação, 
permitem penetrar na articulação e nas relações de produção de todas as formas de sociedade 
desaparecidas, sobre cujas ruínas e elementos se acha edificada, e cujos vestígios, não ultrapas-
sados ainda, leva de arrastão desenvolvendo tudo que fora antes apenas indicado que toma assim 
toda a sua significação. (MARX, 1978, p. 120)
Karl Marx foi um pensador alemão que desenvolveu estudos clássicos que se prestaram à estruturação da Socio-
logia e da Economia. Em suas obras, foram abordados diversos assuntos tais como economia, história, política, 
socialismo, dentre outros. Marx rapidamente percebeu o crescimento industrial alemão do século XIX e dedicou-
-se à compreensão acerca da desigualdade social e da exploração do trabalho. Sua obra é considerada engajada 
na luta pelo socialismo e continua repercutindo como fonte de análise para entender o capitalismo e suas trans-
formações (GIDDENS, 2012).
Figura 6.1 – Desigualdade social. 
Legenda: A imagem representa o princípio das pesquisas de Marx: a desigualdade social.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
91
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 6 - Classe Social, Estratificação Social e Pobreza
Marx (1978) registra que há uma diferença fundamental entre a classe dominante, a burguesia, e a classe tra-
balhadora, o proletariado: enquanto a burguesia detém os meios de produção, o proletariado possui apenas sua 
força de trabalho. Essa relação encontra-se na base e funciona como alicerce do capitalismo moderno. Marx e 
Engels (1996) afirmam que sempre esteve presente na história da sociedade uma luta de classes. Isso quer dizer 
que, pelos acontecimentos históricos, como as revoluções burguesas, se revela uma situação em que a sociedade 
está dividida entre opressores e oprimidos. 
Os três acontecimentos que marcaram a emergência da sociedade burguesa aconteceram 
nas esferas econômica, política e cultural. São eles: a Revolução Industrial, no campo econô-
mico; a Revolução Francesa, no campo político; e o Iluminismo, no campo cultural.
A nova ordem social implementada pela sociedade moderna nasceu como consequência das ruínas da socie-
dade feudal, mas não conseguiu abolir os antagonismos e as tensões entre as classes sociais. Pelo contrário, 
apenas gerou “novas classes, novas condições de opressão, novas formas de luta no lugar das antigas” (MARX; 
ENGELS, 1996, p. 9).
Voltemos para a relação entre burguesia e proletariado. Segundo os autores, a burguesia possui o capital, que 
corresponde ao investimento necessário para manter as forças produtivas em funcionamento. O proletariado, de 
sua parte, possui sua força de trabalho, de forma que a força de trabalho humana é cooptada pela classe domi-
nante e trocada pelo salário. Nesse sentido, o proletariado forma-se como grupo social na medida em que vende 
sua força de trabalho aos burgueses para, com retorno salarial, garantir sua existência. Portanto, proletariado 
quer dizer exatamente toda a classe trabalhadora, ou seja, que vende sua força de trabalho: 
Duas espécies bem diferentes de possuidores de mercadorias têm de confrontar-se e entrar em 
contato: de um lado, o proprietário de dinheiro, de meios de produção e de meios de subsistência, 
empenhado em aumentar a soma de valores que possui, comprando a força de trabalho alheia; e, 
do outro os trabalhadores livres, vendedores da própria força de trabalho e, portanto, de trabalho. 
Trabalhadores livres em dois sentidos, porque não são parte direta dos meios de produção [...] e por-
que não são donos dos meios de produção [...]. O sistema capitalista pressupõe a dissociação entre 
os trabalhadores e a propriedade dos meios pelos quais realizam o trabalho”. (MARX, 2001, p. 828)
De acordo com o relatório da Organização Não Governamental (ONG) britânica Oxfam, afirma-se que o patrimô-
nio das 85 pessoas mais ricas do mundo é o equivalente ao patrimônio de metade de toda população mundial. O 
documento, intitulado Working for the Few (Trabalhando para Poucos, em tradução livre), indica que as 85 pessoas 
mais ricas do mundo possuem juntas um patrimônio de US$ 1,7 trilhão, o que seria equivalente ao patrimônio de 
3,5 bilhões de pessoas, as mais pobres do mundo. 
92
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 6 - Classe Social, Estratificação Social e Pobreza
Figura 6.2 – Classe trabalhadora.
Legenda: A imagem apresenta classe trabalhadora em condições precárias de trabalho.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
A Oxfam indica, em seu relatório, que a riqueza tem ficado cada vez mais concentrada nas mãos de poucos, isso 
considerando os últimos 25 anos. De acordo com a diretora executiva da Oxfarm, Winnie Byanyima: “É chocante 
que no século 21 metade da população do mundo – 3,5 bilhões de pessoas não tenha mais do que a minúscula 
elite cujos números podem caber confortavelmente em um ônibus de dois andares” (BORGES, 2014). 
Pela perspectiva marxista, a relação entre a burguesia e o proletariado é essencialmente uma relação deexplora-
ção porque é necessário que o trabalhador produza mais durante o seu trabalho do que o valor pelo qual é remu-
nerado. Essa diferença gera um excedente, que se configura em lucro financeiro para a burguesia. Esse lucro, por 
sua vez, corresponde a um conceito elaborado por Marx (2001): a mais-valia.
Marx denomina mais-valia todo o excedente da produção que deixa de ser revertido ao tra-
balhador e é destinado ao burguês, dono do capital. 
Glossário
Como vimos, na perspectiva de Marx (2001), existe algo como uma marca, uma constante nas sociedades capi-
talistas, que é a luta de classes. Nesse sentido, os trabalhadores precisariam construir uma consciência de classe 
para, através dessa unidade, lutar contra o Capitalismo e contra a burguesia, instaurando o Socialismo, que seria 
um regime de transição para o ideal comunista. Além disso, o autor afirma que é impossível verificar a existência 
de uma classe social sem a existência de outra ou outras. Ou seja, não há burguesia (empregadores) sem a exis-
tência de proletariado (trabalhadores) e vice-versa.
A luta de classes se efetua na medida em que a sociedade burguesa produz a possibilidade (ou necessidade) de 
organização da classe trabalhadora, pois a contradição das forças de produção existentes nessa sociedade alcança 
as instituições sociais e, através delas, são direcionadas à consciência dos indivíduos. Com isso, Marx revela que a 
noção de consciência está ligada a uma atividade prática humana, a práxis, e, nessa perspectiva, é ela que pode 
93
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 6 - Classe Social, Estratificação Social e Pobreza
permitir que os trabalhadores superem as ideias cunhadas pelas classes dominantes e elaborarem as suas próprias. 
Tal processo se consolida como um movimento global através da organização da classe trabalhadora. 
A teoria e metodologia liberadas por Marx (1978; 2001) animaram e ajudaram a construir o campo da Sociologia 
Crítica e do Socialismo Científico, importante corrente do pensamento social. Ainda hoje, os estudos realizados 
por Marx e Engels repercutem e continuam liberando muitas possibilidades de pesquisa e análise social em mui-
tas regiões do saber como Filosofia, Economia Política e ciências sociais em geral. Nos próximos tópicos, vamos 
entender como esse debate acerca das classes sociais foi e continua sendo travado. 
Hoje, estamos acostumados a dividir a pirâmide social de maneira mais complexa do que apenas burguesia e 
proletariado. Fala-se em classes divididas por letras (A, B, C, D e E), que representam sucessivamente as dife-
renças econômicas e culturais entre os indivíduos de uma mesma sociedade. Entretanto, as propostas teórico-
-metodológicas oriundas do marxismo possuem enorme força e ainda continuam liberando significados essen-
ciais para a compreensão dos processos econômicos e sociais, mesmo na era da globalização.
6.2 Estratificação social
A estratificação social significa, de modo geral, a maneira pela qual as sociedades classificam as pessoas em 
camadas hierarquicamente sobrepostas. Se pertencemos ao mesmo estrato social, compartilhamos de um con-
junto de características sociais que incluem as distinções socioeconômicas e outros aspectos políticos e cultu-
rais. Nesse sentido, a estratificação social leva em conta o acesso aos mecanismos de poder e os privilégios que 
distinguem alguns grupos de outros. 
O conceito de estratificação social deve ser compreendido a partir da construção das desigualdades entre os 
homens. Essa perspectiva permite a existência de diversas interpretações sobre esse tema da distinção entre os 
indivíduos a partir das metodologias e dos pressupostos pelos quais se analisa a existência e a reprodução destas 
desigualdades. Vimos que, nesse aspecto, o vocabulário marxista continua muito atual na produção de conhe-
cimento acerca desse fenômeno.
Figura 6.3 – Estratificação social.
Legenda: A imagem representa a estratificação social a partir da dominação dos grandes, gerando uma cadeia.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
94
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 6 - Classe Social, Estratificação Social e Pobreza
Outro importante sociólogo alemão que se dedicou a estudar as distinções e as classes sociais foi Max Weber 
(1864-1920). Segundo Weber (1974), podemos classificar as estratificações sociais de duas maneiras funda-
mentais: as fechadas, em que não existe mobilidade social e as posições são definidas a partir da origem dos 
indivíduos; e as abertas, que permitem a mobilidade social e em que as posições sociais são definidas a partir da 
riqueza. A sociedade indiana, por exemplo, conhecida como sociedade de castas, não permite mobilidade entre 
os estratos sociais representados pelas próprias castas. Dessa forma, é possível dizer que se trata de uma socie-
dade de estratificação fechada.
Max Weber foi também um pensador alemão, mas que nasceu em uma influente família protestante, além disso 
isso, obteve notória formação acadêmica. Sua Mãe, inclusive, era calvinista e bastante religiosa. Escreveu sobre 
diversos temas relevantes para as investigações sociológicas, ressaltando sua conexão com várias outras regiões 
do saber, tais como Economia, Direito, Filosofia e Religião. 
Weber preocupou-se com o desenvolvimento do capitalismo e com a maneira como a sociedade moderna estava 
organizada em comparação a outras sociedades, por vezes mais antigas. Sua investigação recai, portanto, sobre a 
ação social e a abrangência de seus significados. É nesse sentido que Weber relaciona as regiões onde predomina 
a ética protestante, representando os países ou estados onde o capitalismo encontra-se em melhor condição de 
desenvolvimento (GIDDENS, 2012).
O autor entende que a sociedade ocidental se caracteriza através dos conflitos por poder ou por recursos:
[...] situação de classe, que podemos expressar mais sucintamente como a oportunidade típica de 
uma oferta de bens, de condições de vida exteriores e experiências pessoais de vida, e na medida 
em que essa oportunidade é determinada pelo volume e tipo de poder, ou falta deles, de dispor 
de bens ou habilidades em benefício de renda de uma determinada ordem econômica. A palavra 
classe refere-se a qualquer grupo de pessoas que se encontram na mesma situação de classe. 
(WEBER, 1974, p. 212)
A perspectiva weberiana localiza o conceito de classe social no campo econômico, apontando que ele remete 
diretamente à renda dos indivíduos e suas implicações. De acordo com Weber (1974), a definição de classes 
sociais estaria relacionada à capacidade de consumo dos indivíduos, que então estariam classificados de acordo 
com a renda que possuem, caracterizando-se tal separação como uma estratificação econômica.
Ainda conforme a visão do autor, os grupos sociais podem diferenciar-se a partir de certas outras característi-
cas, como educação, comportamento, profissão, religião, vizinhança, prestígio, dentre outras. Além disso, Weber 
trata de vincular estratificação social ao poder. Ele compreende que a maneira pela qual a ordem social é estru-
turada influencia diretamente na distribuição de poder econômico, por exemplo.
Através do diálogo com Karl Marx evidente em suas obras, Weber pretendeu demonstrar que a estratificação 
social, ou seja, a divisão da sociedade em camadas, vai além da questão de classe social. Enquanto a classe social 
tem marcadas as fronteiras de sua divisão por uma questão puramente econômica e quantitativa, Weber intro-
duz elementos que tendem a deixar complexo o exercício de análise. De início, considera-se outros dois aspectos 
da realidade social que se relacionam com o aspecto econômico da dominação de classes: o status e o partido. 
95
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 6 - Classe Social, Estratificação Social e Pobreza
Por partido é necessário que se entenda “posição política”, cuja observação remonta à Ale-
manhado início do século XX. Com essa ressalva, é possível então afirmar que a ideia de sta-
tus, para Weber, refere-se às distinções sociais relacionadas ao prestígio social e as honrarias 
que podem vir a receber, independentemente das classes sociais que ocupa. 
Na composição do que Weber entende por status, estão dois critérios que se relacionam entre si e com os outros 
sistemas de distinção: as oportunidades e o estilo de vida. As primeiras são relativas ao acesso e consumo dos 
bens e dos serviços e o segundo compreende as aspirações, o comportamento, os valores sociais ou religiosos 
através dos quais um indivíduo pode ser classificado (GIDDENS, 2012). 
Figura 6.4 - Status, poder político e privilégios.
Legenda: A renda é um fator importante, mas os grupos sociais distinguem-se para além dela.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Nesse sentido, é importante salientar que a sociologia compreensiva de Weber está à procura de significados 
para as ações dos indivíduos, relacionando-os a movimentos de diferenciação e agrupamento, investigando as 
conexões dos comportamentos e a regularidade com a qual eles apresentam-se na vida cotidiana.
96
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 6 - Classe Social, Estratificação Social e Pobreza
A metodologia da sociologia compreensiva é representada por uma tipologia, ou seja, uma tabela pela qual é 
possível classificar e interpretar a ação individual. Os quadros dessa tabela devem resultar da construção do tipo 
ideal para cada ação, uma redução necessária para chegarmos à compreensão dos significados e dos sentidos 
das ações realizadas pelos indivíduos.
Vale a pena frisar que o tipo ideal é uma construção hipotética, já que é elaborado pelo pesquisador que 
observa algum acontecimento da vida social e começa a conectar esse acontecimento com uma ou com outras 
ações. Assim, devem ser definidas algumas variações do comportamento esperado dos indivíduos, de modo que 
tais definições são aproximações relativas ao próprio comportamento das pessoas. De acordo com a perspectiva 
weberiana, portanto, as classes sociais representam a estratificação dada pela renda, marcada pela capacidade 
de consumo de um indivíduo a partir do grau de instrução ou das habilidades técnicas que o mesmo possui. 
Figura 6.5 – O árduo caminho da transformação social.
Legenda: O discurso meritocrático legitima a dominação de classe.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Inicialmente, mostramos a você que os sistemas sociais podem ser de estratificação aberta ou fechada. Ora, as 
classes sociais representam um sistema de estratificação aberta, em que é permitido aos indivíduos subirem ou 
descerem de classificação na pirâmide social. 
Atualmente mais da metade da população brasileira integra a classe média, o que significa um 
total de 104 milhões de brasileiros (53% do total). Nos últimos dez anos, foram 35 milhões os bra-
sileiros incluídos na classe média. Os dados foram divulgados nesta quinta-feira 20 pela Secreta-
ria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República no estudo Vozes da Classe Média. 
A pesquisa classifica como classe média os que vivem em famílias com renda per capita mensal 
entre R$ 291 e R$ 1.019 e tem baixa probabilidade de passar a ser pobre no futuro próximo. De 
acordo com o estudo, a expansão desse segmento resultou de um processo de crescimento do 
país combinado com redução na desigualdade. A estimativa é que, mantidas a taxa de cresci-
mento e a tendência de queda nas desigualdades dos últimos dez anos, a classe média chegue a 
57% da população brasileira em 2022. (EMPRESA BRASIL DE COMUNICAÇÃO, 2012)
A reportagem citada indica que houve no Brasil uma mobilidade social ao longo do período compreendido entre 
2002 e 2012. O conceito de mudança social refere-se a um processo de transformação da sociedade, seja nos 
aspectos cultural, econômico ou político. As mudanças sociais podem ser endógenas ou exógenas. Mudanças 
sociais endógenas são transformações na estrutura social provenientes de elementos internos à própria socie-
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 6 - Classe Social, Estratificação Social e Pobreza
dade, tais como a luta de classes ou uma guerra civil. Já as mudanças sociais exógenas são transformações na 
estrutura social provenientes de elementos externos à sociedade em questão, como a imigração, um processo de 
colonização ou a imposição de padrões culturais pela mídia de massa. 
A estratificação social pressupõe a divisão das sociedades em camadas hierarquicamente superpostas da socie-
dade, sendo que essas camadas estão em constante interação social entre si. Desse modo, a mobilidade social 
vertical significa a mobilidade existente entre os estratos em uma dada sociedade, podendo ser ascendente 
(acesso a bens e serviços antes inacessíveis aos indivíduos) ou descendente (perda de acesso à bens e serviços 
antes acessíveis aos indivíduos).
Segundo o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), a estratificação social ocorre a partir da posse de 
capital cultural por cada indivíduo, cuja posse ou ausência justificariam a posição social ocupada por cada indiví-
duo. Segundo Bourdieu (2007), teríamos três tipos principais de capitais culturais:
• Capital cultural incorporado: tempo e esforço investidos na assimilação do conhecimento;
• Capital cultural objetivado: suportes materiais para a aquisição do conhecimento;
• Capital cultural institucionalizado: diploma, que confere uma certidão de conhecimento ao portador.
O autor apresenta, dessa maneira, algumas das ferramentas teórico-metodológicas para operar a distinção entre 
os indivíduos de modo mais complexo do que a divisão estritamente econômica representada pelas conceitua-
lizações acerca das classes sociais. A metodologia utilizada por Bourdieu (2007) busca organizar o debate socio-
antropológico a partir da separação das esferas que influenciam na classificação dos indivíduos e dos grupos 
sociais. Nesse ponto, podemos destacar que existem diferentes correntes do pensamento científico que organi-
zam suas práticas metodológicas a partir de premissas igualmente diferentes. Por fim, cumpre notar que essas 
práticas se relacionam entre si e com temas com os quais possuem afinidade histórica e que o campo científico 
segue em contínua construção e não são poucas as disputas em torno da produção dos saberes. 
No próximo tópico, trataremos da pobreza e da exclusão social como fenômenos inerentes ao desenvolvimento 
do capitalismo. Vamos lá?
6.3 Pobreza e exclusão social
Como já aprendemos sobre as principais formas de divisão dos grupos de uma mesma sociedade, neste tópico 
iremos abordar um sério problema das sociedades capitalistas, que é a pobreza. Diretamente relacionado ao 
tema da pobreza, mas com outras nuances a serem percebidas, encontra-se o problema da exclusão social. 
Vamos entender bem esses importantes conceitos e a relação entre eles na intenção de refletir sobre uma parte 
da realidade social.
Para Giddens (2012), há dois tipos de pobreza: a pobreza absoluta e a pobreza relativa. A pobreza absoluta 
repousa na ideia de subsistência, ou seja, compreende a escassez de recursos que faz com que o indivíduo não 
possa ter uma existência biológica saudável. Isso quer dizer que as pessoas com dificuldades ou limitações para 
conseguir alimentação, vestimentas ou uma moradia vivem em situação de pobreza absoluta. Esse conceito tem 
validade universal, ou seja, pode refletir a realidade social em várias partes do mundo.
Nos países desenvolvidos, tal situação de extrema pobreza não corresponde a uma parcela significativa da popu-
lação. No entanto, os países em desenvolvimento ainda encontram grandes dificuldades, principalmente exter-
nas, para eliminar a pobreza absoluta. Cabe observar que, apesar de os países ricos terem praticamente eliminado 
essa situação de pobreza extrema, isso não quer dizer que tenham dado contade diminuir satisfatoriamente às 
desigualdades sociais.
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 6 - Classe Social, Estratificação Social e Pobreza
Uma ferramenta comum e que é utilizada para medir a pobreza absoluta é a definição da 
linha da pobreza, que deve basear-se no preço de mercadorias absolutamente indispensá-
veis para garantir a sobrevivência humana em um meio social. 
A noção de pobreza relativa, por sua vez, é distinta culturalmente e, por isso, não pode ser fixada a partir de um 
padrão válido universalmente para refletir a condição de privação das necessidades básicas. Isso tendo em vista 
que as necessidades e o desenvolvimento das culturas humanas não são os mesmos em toda parte, mas sim 
distinguem-se de forma sociocultural. 
Figura 6.6 – O contraste da pobreza.
Legenda: A imagem representa a pobreza e a riqueza lado a lado.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Giddens (2012) destaca que alguns materiais, objetos e alimentos que são vistos como essenciais para um grupo 
social podem ser considerados como a máxima expressão do luxo em outro grupo ou em outra cultura. Tal asser-
tiva evidencia que há um aspecto cultural a ser levado em consideração nas dinâmicas sociais relativas à questão 
da pobreza. Nesse ponto, podemos começar a considerar o conceito de exclusão social.
Antes, no entanto, é importante atentarmos para que, mesmo havendo uma relação íntima entre pobreza e 
desemprego, ter um emprego não equivale a dizer que você não é pobre. Segundo relatório da Organização 
Internacional do Trabalho (OIT), um terço da população que está abaixo da linha da pobreza tem emprego:
A natureza do emprego desses trabalhadores é muito vulnerável. Muitas vezes eles nem mesmo 
são remunerados ou estão em profissões de baixa qualificação. Hoje, aproximadamente 30% da 
população mundial é pobre, mas eles detêm apenas 2% da renda. (CARDOSO, 2016)
O conceito de exclusão social deve ser entendido como mais amplo que o conceito de pobreza, pois está vin-
culado aos modos distintos com os quais pode configurar-se, variando conforme o contexto. Segundo Giddens 
(2012), a dimensão socioespacial também aparece como um acessório para pensar exclusão social, haja vista 
que muitas regiões de uma mesma cidade podem possuir características bastante distintas em relação a alguns 
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Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 6 - Classe Social, Estratificação Social e Pobreza
aspectos como disponibilidade de serviços e unidades públicas de atendimento, questões de segurança e ques-
tões socioambientais. 
A exclusão social refere-se a maneiras que os indivíduos podem ser separados do envolvimento 
pleno da sociedade mais ampla. Por exemplo, pessoas que vivem em conjuntos residenciais degra-
dados, com escolas pobres e poucas oportunidades de emprego na área, podem ter negadas as 
oportunidades de melhorar, que são oferecidas à maioria das pessoas. (GIDDENS, 2012, p. 357)
A dificuldade de acesso à cidadania e aos direitos, bem como às políticas sociais e ao mercado de trabalho, são 
manifestações da exclusão social. Por exemplo, ao encontrar dificuldades nas suas relações com o mercado de 
trabalho, muitos jovens enfrentam longos períodos de desemprego ou submetem-se à precarização da sua força 
de trabalho, sobretudo nos países em desenvolvimento.
O Banco Mundial alterou a métrica usada para delimitar a quantidade de pessoas que vivem 
abaixo da linha da pobreza e isso elevou de quase 9 milhões para 45,5 milhões o número de bra-
sileiros considerados pobres. Isso equivale a 22% da população. A mudança foi feita porque as 
autoridades acharam mais apropriado fazer as estimativas levando em conta a renda média e o 
nível de desenvolvimento de cada País. Antes, o Banco Mundial utilizava o consumo diário infe-
rior a 1,90 dólar como métrica. Agora, há outras duas margens, de 3,2 dólares e 5,5 dólares. Este 
último valor é o novo patamar utilizado no Brasil. Segundo reportagem da Folha desta terça (31), 
o número de pobres vinha diminuindo na última década, mas voltou a subir em 2015, de acordo 
com dados do próprio Banco Mundial. (EMPRESA BRASIL DE COMUNICAÇÃO, 2017)
Figura 6.7 – “O mundo é um moinho”.
Legenda: Nos países em desenvolvimento, o mercado de trabalho pode ser cruel para algumas pessoas.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Nas ruas das grandes cidades, principalmente, é possível notar que alguns grupos possuem uma invisibilidade 
social: são os grupos excluídos. Os desempregados, as crianças e os moradores de rua são exemplos desse 
mundo invisível socialmente. Por isso, o conceito de exclusão social está relacionado a situações em que as pes-
soas deixam de participar plenamente das atividades necessárias para a maioria das outras pessoas sob o mesmo 
contexto cultural. 
Resumindo, o discurso estigmatizante sobre os grupos excluídos de manterem-se nessa condição por não se 
esforçarem é apenas uma das formas de manter e de justificar o fenômeno da pobreza e a grande maioria dos 
tipos de exclusão social. Esses discursos, obviamente, são operados por grupos sociais dominantes, que temem 
que as classes dominadas tomem consciência da sua condição de explorada.
Ufa, chegamos ao final desta unidade, que foi uma unidade bastante densa, repleta de conceitos e conteúdos 
que nos estimulam a pensar e representam um grande avanço em nossa compreensão sobre o que é o mundo 
social em relação ao sistema capitalista. Os conceitos trabalhados são clássicos sociológicos e foi com eles que a 
Sociologia e as ciências sociais se consolidaram como a região do saber científico que trabalha com as manifes-
tações e expressões sociais, políticas ou culturais. 
100
Considerações finais
Nesta unidade, foram explicados diversos conceitos clássicos do universo 
das ciências sociais. Aprendemos sobre como a sociedade capitalista se 
organizou em basicamente duas classes sociais, a burguesia e o proleta-
riado. Além disso, construímos um entendimento acerca dos conceitos 
estratificação social, destacando a complexidade das diferenças entre os 
grupos. Depois, buscamos compreender os problemas da pobreza e da 
exclusão social a partir de uma visão sociológica.
• A sociedade capitalista se move através das lutas de classe;
• A estratificação social é representada pela pirâmide em que pou-
cos indivíduos ocupam o topo, enquanto que a grande maioria 
das pessoas habita suas bases;
• A sociedade de classes permite a mobilidade social dos indivíduos, 
isto é, pode ser que um sujeito que nasça em uma determinada 
classe social e mude de condição (para melhor ou pior) no decor-
rer de sua vida;
• O conceito de pobreza divide-se em pobreza relativa e pobreza 
absoluta;
• O conceito de exclusão social representa uma realidade social 
mais ampla, que abrange o fenômeno da pobreza.
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Porto Alegre, RS: Zouk, 2007.
CARDOSO, C. Um terço dos muito pobres tem emprego, aponta pesquisa 
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nível em: <http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/05/1772869-
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______. Agência Brasil. Um em cada 5 brasileirosvive abaixo da linha da 
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Disponível em: <https://jornalggn.com.br/noticia/um-em-cada-5-brasi-
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GIDDENS, A. Sociologia. Porto Alegre: Penso, 2012.
MARX, K. O Capital: crítica da economia política. São Paulo: Civilização 
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______. Para a crítica da economia política. In: GIANNOTTI, J. A. (Org.). 
Marx. Trad. José Arthur Giannotti; Edgar Malagodi. 2. ed. São Paulo: Abril 
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102
MARX, K.; ENGELS, F. (1845) A Ideologia Alemã. 4. ed. Brasil: Martins Fon-
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WEBER, M. Classe, estamento, partido. In: GERTH, H. e MILLS, W. (Org.) 
Max Weber: ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1974.
104
7Unidade 7
Movimentos Sociais
Para iniciar seus estudos
Esta unidade trata da relação intrínseca e complexa entre indivíduo e 
sociedade, do desenvolvimento tecnológico e das novas formas de socia-
bilidade no contexto dos movimentos sociais com vistas à prática da cida-
dania. Vamos priorizar, durante o estudo, uma abordagem mais diretiva, 
definidora das ideias, a fim de tornar o conteúdo mais pragmático, no 
sentido de sua aplicação prática no seio da vida cotidiana. Esse processo 
deve desenvolver a capacidade de você intervir ativamente em busca de 
ações solucionadoras para as questões sociais.
Objetivos de Aprendizagem
• Compreender o que são os movimentos sociais, sua importância e 
como contribuem para que todos os grupos possam ser represen-
tados na sociedade em que nos encontramos.
105
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 7 - Movimentos Sociais
7.1 Vida rural e vida urbana
Nesta seção, iremos discorrer acerca dos aspectos teórico-metodológicos e de conceitos que tratam da defini-
ção do que são a vida rural e a vida urbana. Essa discussão dicotômica da vida no território ganha significativa 
notoriedade no período histórico que diz respeito ao fim da época medieval, com aprofundamento na Revolução 
Industrial, por esta aumentar o processo de aglomeração em um único espaço, que se denominou cidade ou 
zona urbana. 
Desde essa época fala-se urbano e rural, dando ênfase às características que diferenciam uma coisa da outra. 
Para que possamos compreender as características da vida social desenvolvida no contexto da vida urbana e 
rural, bem como suas continuidades e descontinuidades, é urgente olhar para nosso objeto a partir de uma abor-
dagem interdisciplinar. Ou seja, urbano e rural possuem aspectos e problematizações que fogem à capacidade 
instrumental de uma única disciplina. Nesse sentido, vamos incorporar à nossa exposição esclarecimentos que 
são formados em diversas áreas das ciências, como Geografia, Psicologia, História, Sociologia e outras, que se 
debruçam sobre o problema da vida urbana e da vida rural.
Segundo documento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), pensar esse problema implica pen-
sar em
[...] manifestações socioespaciais, que se apresentam de forma bastante heterogênea, portanto, a 
identificação de padrões dessas manifestações se constitui um desafio principalmente ao se con-
siderar a extensão do território brasileiro. (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 
2017 p. 8)
Aqui está implicada a primeira análise metódica de nosso problema: o espaço. Quando tratamos de problemas 
vinculados ao discurso dicotômico entre urbano e rural, falamos de uma vida que se desenvolve no interior de 
um espaço com características diferentes, em diversas dimensões, que implicarão concomitantemente em uma 
heterogeneidade da vida individual e coletiva.
De maneira bem embrionária, podemos levar em consideração, ao analisar esse espaço onde se constrói a vida 
urbana e rural, questões como:
• Atividades produtivas: o espaço dito rural comumente é o lugar em que as relações de trabalho estão 
vinculadas às atividades primárias, à produção da terra. Nesse sentido, podemos construir um entendi-
mento sobre como se utiliza a terra no espaço rural. Por outro lado, o trabalho desenvolvido no contexto 
urbano está vinculado aos setores secundário e terciário, que são os de produção industrializada da mer-
cadoria e o setor de serviços. 
• Biodiversidade: é licito trazer para rápida percepção que a biodiversidade desenvolvida no espaço rural 
não é a mesma permitida para o espaço da vida urbana. Quando usamos o termo permissão, não esta-
mos tratando de autorização propriamente dita, mas sim de como os aspectos da vida humana na era da 
industrialização e suas revoluções tecnológicas permitem que ela seja desenvolvida. Afinal, muitos orga-
nismos, como a Organização das Nações Unidades (ONU), se preocupam com o impacto da vida indus-
trial e tecnológica na condição planetária, tendo em vista que o habitat natural nosso e de outras 
formas de vida precisa ser conservado.
• Patrimônio paisagístico: outro aspecto que denota significativa diferença entre os espaços urbano 
e rural é a paisagem que se constrói no interior deles. Vamos pensar no espaço rural. Normalmente, o 
espaço rural é percebido de duas formas no que diz respeito à sua paisagem: primeiro, a conservação de 
aspectos naturais primitivos, como ambientes que conservam a Mata Atlântica, tidos como paisagens 
correlacionadas ao rural. Em segundo, está a substituição dessa paisagem natural ou primitiva por uma 
paisagem ausente de contingente populacional, permeada por grandes espaços de plantação ou criação 
de animais. Dessa forma, temos como exemplo os campos de soja, no estado do Paraná, ou os campos 
106
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 7 - Movimentos Sociais
de gado do Rio Grande do Sul. Aqui há uma metamorfose do espaço natural, mas não é convergente 
para um crescimento populacional, como no caso da paisagem urbana. A paisagem urbana é percebida 
a partir de um processo de verticalização da vida (construções verticais, para as mais diversas finalidades) 
e o aumento do contingente populacional desse espaço. Ou seja, há um intenso aumento do fluxo de 
indivíduos e informações que alteram a relação do homem urbano com o espaço-tempo.
• Estilo de vida: quase como em um axioma matemático, essas características que fazem o espaço de 
vida rural e o espaço de vida urbana se diferenciarem implicam no desenvolvimento de estilos de vida 
com profundas especificidades, como formação cultural, relação com o tempo, preocupações quanto à 
relação com o outro, relação com a tecnologia, perspectiva de lazer e qualidade de vida e dimensões da 
vida, que podem ser moldados pelos fatores inerentes às características do que é viver em uma zona rural 
e/ou em uma zona urbana.
A crítica que é feita aos definidores acima dispostos é que parte de suas motivações estão ancoradas em necessi-
dades fiscais, muito mais do que na preocupação com as características territoriais e sociais de um determinado 
município. Nesse sentido, correntes de pensamento mais recentes, que analisam movimentos sociais, vêm aler-
tando para a necessidade de se romper com essa perspectiva puramente dicotômica do que são a vida rural e a 
vida urbana. A contraposição dessa perspectiva analítica é a tese de que há, entre o urbano e rural, uma relação 
de continuidade, ou seja, um continuum rural-urbano. Essa concepção trata-se de
[...] um conceito que postula que não há uma divisão aguda entre a vida urbana e rural, mas que 
os assentamentos existem ao longo de um contínuo de muito rural para altamente urbano. O 
urbano não para e simplesmente começa o rural, mas eles vazam através um do outro. Além 
disso, é possível encontrar espaços em uma mesma cidade que parecem rurais, e lugares em áreas 
rurais bastante urbanas. Como tal é problemático falar de lugares como simplesmente rurais ou 
urbanos, em vez disso épreciso considerar como eles se entrelaçam e se sobrepõe. (CASTREE; 
KITCHIN; ROGERS, 2013, p. 444)
A citação de Castree, Kitchin e Rogers nos revela a complexidade que surge quando mudamos as lentes de aná-
lise para pensar os problemas do urbano e do rural.
Tanto geográfica quanto socialmente, existem aspectos da vida urbana que encontramos no 
rural e, igualmente, aspectos da vida rural que vemos permear a vida urbana. 
Nesse sentido, o excerto problematiza a necessidade de repensar esse discurso cientifico dicotômico quanto ao 
que pode ou não definir o que são a vida urbana e rural. Por essas questões suscitadas no campo da produção 
científica, um campo mais teórico e metodológico, é que nos parece salutar evidenciar, nessa disciplina, que pre-
cisamos conceber o problema do urbano e do rural como uma problemática interdisciplinar.
A complexidade dessa exposição analítica se aprofunda quando passamos a incorporar algumas técnicas de ins-
titutos como IBGE para definição de urbano e rural, uma vez que os definidores atendem a uma demanda de deli-
mitação político-administrativa (ENDLICH, 2010). Também deve-se levar em conta dimensões analíticas como:
107
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 7 - Movimentos Sociais
• Corte populacional: trata da concentração populacional dos espaços urbano e rural.
• Densidade demográfica: se refere ao tamanho populacional, que analisa o número de habitantes por 
quilômetro quadrado.
• Ocupação econômica da população: esse dado é muito importante no processo de diferenciação de pro-
blemas e características dos espaços urbano e rural, pois comumente são ocupações que suscitam necessi-
dades divergentes, tanto para o lugar quanto para instituições e indivíduos inerentes a esse processo.
• Morfologia: a questão morfológica é similar à perspectiva paisagística tratada anteriormente, o urbano com 
uma morfologia verticalizada enquanto o rural se apresenta em uma morfologia muito mais horizontal.
• Modo de vida: o modo de vida fala de sociologia do espaço, da história que o constrói e da psicologia 
social das vidas urbana e rural. Trata, portanto, da relação entre espaço, território e desenvolvimento da 
vida individual (multidimensional) e vida coletiva.
Figura 7.1 – Vida rural
Legenda: A imagem ilustra um exemplo de vida rural, em que o plantio é considerado uma importante fonte de renda.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Para esclarecer de forma mais didática e compreender o debate desenvolvido nessa dicotomia, temos, na figura 
anterior, a representação imagética da vida rural, que se apresenta em conformidade com as duas correntes 
analíticas que trouxemos. A imagem nos revela um tipo de trabalho e uma paisagem de plantio alterando a 
morfologia natural, mas que, ao mesmo tempo, nada tem a ver com aumento populacional. No fundo da ima-
gem, temos uma morfologia montanhosa com uma biodiversidade mais próxima da realidade natural e primitiva 
daquele espaço.
Podemos, ainda, trazer esse ambiente para uma reflexão mais contemporânea. Com as novas tecnologias infor-
macionais e de comunicação, como televisão e internet, é possível reproduzir sensações e adotar comportamen-
tos ou mesmo formações culturais heterogêneas, o que pode se vincular a questões da vida no campo, mas tam-
bém com características vinculadas ao processo de assimilação do global, proporcionado por essas tecnologias e 
seus novos espaços de sociabilidade, como, por exemplo, as redes sociais.
108
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 7 - Movimentos Sociais
Figura 7.2 – Vida urbana
Legenda: A imagem representa o urbano a partir da construção de edifícios e indústrias.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
A Figura 7.2 demonstra a dicotomia com a primeira imagem do rural, com um espaço cuja morfologia foi com-
plexificada e alterada por um dinâmico processo de verticalização. Esse processo denota a uma dimensão popu-
lacional e um fluxo muito mais intenso da relação intrínseca entre indivíduo e sociedade. Por outro lado, ao fundo 
desse complexo vertical, há um rio e uma paisagem mais campestre que cerca o complexo da vida urbana. Essa 
perspectiva corrobora para a corrente do continuum, de que ambas condições espaciais coexistem.
Porém, há de se refletir que o modo de vida do homem do campo, que se conjuntura com uma cidade metropoli-
tana como essa da imagem, é diferente do homem do campo que vive em uma realidade mais isolada e longe de 
grandes centros. Isso nos revela que, dentro da dicotomia urbano e rural, há outras heterogeneidades que preci-
sam ser levadas em conta para cada uma delas. O urbano é heterogêneo, com muitas questões que diferenciam 
um urbano do outro. De igual forma, ao se falar de rural, há questões que demonstram diferenças no interior da 
própria ruralidade.
Mas, o que esse debate tem com relação aos movimentos sociais? A indagação nos é pertinente já que é disso 
que trata nossa unidade. Nesse sentido, temos que ter claro que os aspectos inerentes à vida rural e à vida urbana, 
em muitos pontos, são definidores das agendas dos movimentos sociais frente às necessidades do coletivo.
109
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 7 - Movimentos Sociais
No contexto que apresentamos sobre os movimentos sociais, o contingente de necessida-
des, comumente reivindicado nos movimentos sociais, é o mesmo para o espaço urbano e o 
espaço rural? Quais seriam as diferenças? 
A título de exemplo desse processo, estão movimentos como Movimento Sem Terra (MST) e o Movimento dos 
Trabalhadores Sem Teto (MTST). O primeiro é um movimento com agenda ruralista, que cobra o acesso coletivo 
a terras de cultivo para subsistência e reprodução do homem. Do segundo, participam os trabalhadores da zona 
urbana, que possuem atividades laborais, mas que lutam por uma moradia urbana que dignifique sua condição 
de trabalhador. 
Sem que haja quaisquer aprofundamentos sobre os movimentos sociais citados, interessa-nos exemplificar que 
as compreensões e leituras dos contextos espaciais de urbano e rural são fundamentais para a definição das 
agendas desses movimentos e estratégia de ação frente à sociedade e às instituições governamentais.
7.2 Organizações Não Governamentais (ONGs)
Nesse tópico vamos discorrer sobre as ONGs. O que são? Como funcionam? Para que servem? Qual sua relação 
com o Estado? E em que estão relacionadas aos movimentos sociais? Essas e outras questões esperaram elucidar 
o conteúdo desta unidade, para que possamos avançar em mais essa ferramenta de ação social e norteadora de 
agendas de diversos movimentos sociais, que são pouco compreendidas pelo senso comum. 
Figura 7.3 – ONGs
Legenda: A imagem representa diferentes ações que buscam desenvolver uma nova ação social, realizada pelas ONGs.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
110
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 7 - Movimentos Sociais
Em algum momento, já ouvimos falar nas ONGs, compostas por elementos da sociedade civil que, de forma 
deliberada, se juntam em um objetivo comum. Esse objetivo normalmente se refere a problemáticas coletivas 
da sociedade em que as instituições governamentais não conseguem atuar de forma efetiva, ou mesmo em que 
não é suficiente para pressionar processos decisórios em prol do bem coletivo. A fim de contribuir nesse processo 
definidor, as ONGs atuam no contexto social, conhecido como terceiro setor. Mas, o que é o terceiro setor?
Figura 7.4 – Terceiro setor
Legenda: A imagem representa um conjunto de organizações que não apresentam a finalidade de obtenção de lucro.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
O terceiro setor pode ser definido como um conjunto de organizações que não possuem finalidade de obter lucro 
(sem fins lucrativos) e quaisquer outras formas de associações de caráter filantrópico, cuja atuação está vincu-
lada a uma necessidade e finalidade social. Apesar de envolver valores financeirose diversas formas de arrecada-
ção, as organizações do terceiro setor não podem conceber o conceito de lucro, que é substituído pelo conceito 
de sobras. A diferença é que o lucro pode ser incorporado para alguém em particular, enquanto as sobras no 
caixa de uma organização desse tipo devem ser revertidas em investimentos que proporcionem a melhoria de 
seus objetivos sociais de luta.
As ONGs normalmente possuem suas ações sociais em prol de duas frentes intrínsecas: as necessidades huma-
nas e as da natureza. Por isso, significativa parte delas estão militando em questões vinculadas a necessidades do 
meio ambiente, combate à pobreza, assistência social, saúde, educação, reciclagem, desenvolvimento sustentá-
vel, entre outras.
Outra necessidade de esclarecimento que nos propomos suprir diz respeito à fonte de recursos econômicos e 
humanos a que esse tipo de organização dispõe para seu funcionamento. Nesse sentido, a forma de arrecadação 
econômica e humana das ONGs é multidimensional. Há recursos que provém de doações e parcerias com aglo-
merados empresariais, que comumente se vinculam às causas por elas defendidas e que fazem bem para o status 
quo de suas mercadorias. Isso é um ponto importante para compreender a importância social da ONGs. Recen-
temente criou-se um poder simbólico que convencionou um certo status social para quem estivesse envolvido 
com causas humanitárias, o que ampliou o envolvimento de grandes capitais com o trabalho desenvolvido por 
elas. Para algumas delas, esse processo foi tão complexo que proporcionou condições de assumir uma atuação 
transnacional e global. 
111
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 7 - Movimentos Sociais
São exemplos de ONGs conhecidas globalmente e com militância transnacional, influenciando, inclusive, a pers-
pectiva analítica de organismos como a ONU ou a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico 
(OCDE), para o âmbito de necessidades socioambientais emergentes do processo de globalização:
• World Wide Fund for Nature (WWF): organização destinada à militância de questões vinculadas ao meio 
ambiente. Por muito tempo, foi responsável por diversas denúncias acerca de poluições ocasionadas por 
conglomerados industriais e seus complexos produtivos.
• Fundação SOS Mata Atlântica: organização não governamental brasileira, que milita com o objetivo de 
preservar a fauna e a flora das Matas Atlântica e suas zonas limítrofes.
• Greenpeace: trata-se de uma organização não governamental de aspecto global, que virou selo de qua-
lidade na missão de militar pela preservação da natureza e da biodiversidade, com atuação em diversos 
países pelo mundo, inclusive no Brasil.
Figura 7.5 – Preservação ambiental
Legenda: A imagem representa o olhar das ONGs que militam por causas naturais.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Além das organizações não governamentais que militam por causas naturais, existem outras inúmeras que atuam 
em prol de causas sociais, como o combate à pobreza em regiões globais com condições de subdesenvolvimento, 
como a África. Além dos recursos advindos de doações, também é possível encontrar recursos públicos inves-
tidos em ONGs. Isso ocorre dentro dos parâmetros da lei, em momentos em que a causa daquela determinada 
ONG é de interesse social coletivo e que o Estado entende que o trabalho está em um grau de maturidade, de 
forma que vale o investimento para ampliar sua capacidade efetiva de ação ao invés de, simplesmente, o Estado 
recomeçar o trabalho desde seu momento embrionário.
112
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 7 - Movimentos Sociais
Figura 7.6 – Trabalho voluntário
Legenda: A imagem representa um grupo de pessoas que desempenham trabalhos voluntários nas ONGs.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Com relação aos recursos humanos, temos uma condição heterogênea tal qual os recursos financeiros. Dessa 
forma, temos muitos trabalhadores voluntários, que oferecem suas competências e habilidades por identificação 
com a causa defendida e compromisso humanitário. Mas, em certos casos, há a necessidade de viabilizar parte dos 
recursos econômicos para contratação de recursos humanos, dentro dos mais diversos tipos de relações econômi-
cas de trabalho, sobretudo quando os projetos chegam em atuações bem específicas, com necessidade de traba-
lhos técnicos e de especialização que precisam de alta formação. Como exemplo, podemos citar os trabalhos que 
envolvem a área da saúde, que precisa disponibilizar de recursos humanos vinculados a saúde médica.
A partir de um resgate histórico, é necessário contextualizar que as ONGs nem sempre existiram dentro das 
recentes características. Com o tratamento que receberam até aqui, elas emergiram no contexto dos anos de 
1940, após o termo ser cunhado pela ONU quando fazia menção a entidades ou organizações que, naquele 
momento, estavam debruçados em causas e projetos humanitários e de interesse público. No Brasil, esse termo 
estava atrelado às organizações de cooperação internacional, que eram formadas por um complexo religioso de 
representantes da igreja católica e de diversas igrejas protestantes, desenvolvendo trabalhos de solidariedade. 
Com um caráter inclusive politizado, as organizações brasileiras, em muitos momentos, prestavam solidariedade 
a causas dos países latino-americanos, no intuito de apoiar a consolidação de suas democracias. 
Em 1960 e 1970, as ONGs vão assumir causas vinculadas à educação, buscando assessorar movimentos sociais 
que tinham no cerne de sua militância a busca pela conscientização e transformação social por meio da educa-
ção. Foi um processo que corroborou com teses vinculadas a correntes marxistas e que definiram a sua agenda 
de movimento social tendo em vista o educar para transformar. Somente a partir de 1990, as ONGs incorporaram 
como prioridade de suas agendas parceria com Estados e empresas, ampliando sua capacidade de ação social e 
mobilização, tendo, inclusive, parcerias com instituições globais como o Banco Mundial e outras agências finan-
ciadoras vinculadas ao grande capital. Esse processo fez crescer sua capacidade enquanto movimento social 
mobilizador de massas em torno de diversas agendas coletivas, com a recente ênfase para causas minoritárias, 
como, por exemplo, agendas do feminismo e relações de gênero.
113
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 7 - Movimentos Sociais
7.3 Ativismos sociais
O ativismo social, de maneira simplicista, pode ser compreendido enquanto a capacidade de militância ou ação 
com o propósito de fomentar mudanças sociais e políticas, entre outras. Espera-se que as mudanças venham 
por ações e mobilizações mais diretas e desinstitucionalizadas, podendo ocorrer de forma pacífica ou violenta, 
assumindo, nesta, formas mais extremistas, como é o caso do terrorismo, uma forma violenta de ativismo social. 
O ativismo social ganhou significativo espaço no seio acadêmico para pensar os movimentos sociais, devido 
às recentes transformações no desenvolvimento cientifico e tecnológico que têm desencadeado novas formas 
de desenvolvimento humano e social, reconfigurando a relação do homem com o espaço e o tempo e, conse-
quentemente, as formas no tempo e no espaço de ativismo social. Esse avanço tecnológico também vai redi-
mensionar o recorte das causas pelas quais o ativismo social tem ocorrido. Nesse sentido, as causas transitam 
em dimensões locais, ou seja, um ativismo vinculado à localidade territorial, do indivíduo ou grupo, sendo que o 
mesmo grupo pode assumir o ativismo social por causas globais, que não necessariamente fazem parte de sua 
cotidianidade. Essa metamorfose do ativismo social, como outras questões da vida humana, é exposta por Gid-
dens (2002, p. 27) da seguinte maneira:
[...] de modo geral, o conceito de globalização é melhor compreendido como expressando aspec-
tos fundamentais do distanciamento entre tempo e espaço. A globalizaçãodiz respeito à inter-
seção entre presença e ausência, ao entrelaçamento de eventos e relações sociais ‘a distância’ 
com contextualidades locais. Devemos captar a difusão global da modernidade em termos de 
uma relação continuada entre o distanciamento e a mutabilidade crônica das circunstancias e 
compromissos locais. ... a globalização tem que ser entendida como fenômeno dialético, em que 
eventos de um polo de uma relação muitas vezes produzem resultados contrários em outro.
A citação anterior nos auxilia na compreensão de alguns complexos que evidenciam motivos pelos quais tratar a 
questão do ativismo social ser tão heterogêneo, ainda que o façamos a partir de um único indivíduo. A globali-
zação da cultura, ou ainda a mundialização da cultura (ORTIZ, 1994), desenvolveu uma sociedade global no que 
tange à sua formação cultural. Dessa maneira, um indivíduo em sua localidade, devido à cultura global, incorpora 
aspectos culturais desterritorializados, que nada tem a ver com o lugar em que vive ou está, mas sim com experi-
ências globalizadas, permitidas por meio dos meios de comunicação. Essa perspectiva analítica, para se pensar o 
ativismo social contemporâneo, fica ainda mais clara quando Giddens (2002, p. 32-33) escreve:
Uma segunda característica da experiência transmitida pela mídia nos tempos modernos é a ins-
trução de eventos distantes na consciência cotidiana, que é em boa parte organizada em termos 
da consciência que se tem deles. Muitos dos eventos relatados no noticiário, por exemplo, podem 
ser experimentados pelo individuo como exteriores e remotos; mas muitos também se infiltram 
na atividade diária. A familiaridade gerada pela experiência transmitida pela mídia pode talvez, 
com frequência, produzir sensações de ‘inversão de realidade’: o objeto ou evento real, quando 
encontrado, parece ter uma existência menos concreta que sua representação na mídia. Além 
disso, muitas experiências que podem ser raras na vida cotidiana (como o contato direto com 
a morte e os moribundos) são encontradas rotineiramente nas representações midiáticas. Em 
suma, nas condições da modernidade os meios de comunicação não espelham realidades, mas 
em parte as formam.
Essa capacidade de viver diferentes experiências no tempo e no espaço, mediada pelas Novas Tecnologias de 
Informação e Comunicação (NTICs) de caráter global, redimensiona a agenda de ativismo social do indivíduo e 
mesmo do coletivo. Somado às NTICs, ainda devemos incorporar os novos espaços de sociabilidade, no contexto 
do ciberespaço, que ampliou a capacidade de alastramento, organização e socialização das causas de ativismo 
social. Assim, identificamos um duplo problema: o primeiro é a velocidade com a qual os ativistas se organizam 
e disseminam sua causa com os novos espaços de socialização e fluxo acelerado das informações, que vez ou 
114
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 7 - Movimentos Sociais
outra resultam em uma organização de massa na rua, em questão de poucas horas. O segundo problema é com 
relação ao próprio ciberespaço como ambiente dessa militância, recrutamento e atividade.
Além das ruas, os ativistas sociais têm encontrado, no ciberespaço oferecido por salas de bate-papo e redes 
sociais, um lugar de recrutar e comercializar, organizar e militar suas causas, fazendo do ciberespaço um campo 
de luta. Nesse sentido, há uma funcionalidade contraditória do ativismo social, mediado pelas novas tecnologias. 
Positivo quando pensamos um ativismo pacífico e compromissado com causas e movimentos sociais coletivos, 
que emergem lutando por questões fundamentais e sérias. Por outro lado, é cada vez mais desafiador lidar com 
processos de desenvolvimento de grupos extremistas, vinculadas ao terrorismo. Temos, por exemplo, o Estado 
Islâmico (EI), que teve suas ações nos últimos dez anos redimensionada pela possibilidade de recrutar, organizar 
e ainda executar suas formas extremistas de ativismo social por meio das redes sociais e, nesse contexto, oferece 
enormes dificuldades para o controle policial desses ativismos radicais.
Figura 7.7 – Ativismo social
Legenda: A imagem ilustra um grupo de pessoas que se comunicam em busca de um objetivo comum: o ativismo social
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Em concordância com a figura anterior, o ativismo social é caracterizado e metamorfoseado pelo contexto 
histórico da sociedade em rede (ELIAS, 1994), em que as relações ganharam nova dimensão e, para além dos 
laços humanos (BAUMAN, 1998), temos a dimensão das relações on-line. Segundo Bauman (2012), esse é 
um ambiente responsável por fragilizar o valor dos laços humanos, resultando no embrutecimento do espírito 
humano, em que o ativismo violento encontra sua terra mais fértil. Em tempo líquidos, Bauman (2012) trata do 
sentimento global que a dialética desses ativismos extremos, com as novas tecnologias, causa na sociedade glo-
bal. Mesmo em lugares onde o terrorismo jamais ocorreu, o acesso a essas experiências e constantes ameaças 
impulsionam o sentimento de medo, fazendo com que as pessoas busquem proteção contra um perigo a que 
jamais estiveram expostas.
Nesse sentido, a internet e suas diversas ferramentas cumprem significativa relevância no processo de constru-
ção de um cidadão consciente e do próprio ativismo social. No entanto, como tudo na história do desenvolvi-
mento humano e social, trata-se de uma ferramenta cujos efeitos são permeados pela ambivalência dialética, de 
forma que o mesmo caminho capaz de gerar sentimentos positivos e negativos, de produzir resultados benéficos 
e maravilhosos para o desenvolvimento da vida humana, em outro momento e em contrapartida, produz resul-
tados devastadores para o desenvolvimento humano e social, como também ocorreu com a tecnociência do 
positivismo clássico dos séculos XIX e XX.
115
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 7 - Movimentos Sociais
7.4 Empreendedorismos sociais 
O empreendedorismo social faz parte de um movimento social inovador, cuja origem é a busca pelo lucro conco-
mitante aos problemas sociais. Nessa rápida exposição, não vamos tomar partido de quaisquer juízos de valores 
sobre o conceito pragmático do empreendedorismo social, pois nos interessa apenas expor o seu modus ope-
randi, fundamentado na crença e nos valores do contingente que acredita nesse modelo de empreendedorismo.
Nesse sentido, a palavra empreendedorismo, por si, tem origem expressa na necessidade de produzir algo novo, 
ou renovar algo, no intuito de gerar novos resultados. Dentro dessa perspectiva, o ato de empreender, ou mesmo 
a aplicabilidade de sua semântica, ganhou diversos campos de ação. Em busca de uma definição simples e direta 
acerca do empreendedorismo, fomos buscar auxilio do dicionário, que o evidencia da seguinte maneira: “propor-
-se; tentar; ação laboriosa e difícil”. Essa significância proposta pelo dicionário afasta quaisquer possibilidades 
de uma leitura facilitadora do que seja empreender. Entretanto, a divulgação de cases de sucesso, trajetórias 
midiáticas de homens e mulheres que construíram carreiras e negócios de sucesso do nada, faz com que muitos 
acreditem em um processo fácil do ato de empreender.
Se empreender, por si só, trata-se de algo difícil e laborioso, como devo pensar o empreendimento social? O 
empreendimento social, trata-se, em tese, de um negócio ou empreendimento lucrativo, cuja busca de resulta-
dos está ancorada na busca por soluções de problemas sociais, visando ao desenvolvimento humano e social em 
um continuum processo de melhoria das condições de vida.
Figura 7.8 – Empreendedor
Legenda: A imagem ilustra um empreendedor na área da construção civil.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Antes de aprofundarmos para algumas especificidades do empreendedorismo social, é importante salientar que 
não se trata de qualquer variabilidade das ONGs. Enquanto estas não possuem quaisquer compromissoscom a 
acumulação de capital, no sentido de gerar lucro de caixa, as empresas sociais têm por finalidade o lucro. Em síntese 
mais diretiva, um empreendimento social se utiliza de mecanismos e ferramentas de mercado para que, por meio 
de sua atividade principal, possa oferecer ou buscar soluções contributivas para determinados problemas sociais. 
116
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 7 - Movimentos Sociais
Vamos aprofundar o assunto com uma exemplificação de como seria o processo de construção de um empre-
endimento social. O primeiro passo para quem irá fazer parte desse contingente de empreendedores sociais é 
identificar, no contexto histórico e social, problemas coletivos da sociedade que geram necessidades humanas e 
sociais, em nichos da sociedade que o atual mercado ou mercado tradicional, tanto de serviços públicos quanto 
privados, não é capaz de atender. Ou seja, é preciso estar atento às necessidades coletivas de um contingente 
social, que comumente se apresenta sem condições ideias de consumir uma ferramenta solucionadora ofertada 
pelo mercado tradicional.
Uma vez identificada essa necessidade, devo empreender de maneira que o meu produto ou o meu serviço seja 
uma ferramenta solucionadora para aquele determinado problema identificado, dentro de condições econômi-
cas acessíveis ao nicho de mercado em que estou atuando. Na esteira desse processo, desenvolve-se uma alter-
nativa de mercado para as pessoas vinculadas a esse problema social, respeitando suas condições de consumo. 
Os defensores desse projeto acreditam em um processo menos exploratório, na medida em que, apesar de haver 
a necessidade de lucro por parte do empreendedor, essa busca pelo lucro não deve atingir o patamar que incorra 
no risco de tornar a ferramenta inacessível para aquele determinado grupo. 
Figura 7.9 – Empreendedorismo social
Legenda: A imagem representa o empreendedorismo social, em que uma grande ação auxilia diversas pessoas.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Essa perspectiva do empreendedorismo social se caracteriza, portanto, pelo fato de os empreendedores ofere-
cerem serviços e produtos de qualidade em condições de acesso à parcela da sociedade que se encontra exclu-
ída do mercado tradicional. Fazendo isso, o empreendedorismo social acredita estar auxiliando no combate à 
pobreza e a desigualdade social. Dentro dessa forma de pensar e agir, os negócios sociais, como também são 
conhecidos, estão assentados nos seguintes quesitos: 
• Inclusão social: o empreendimento social possui caráter inclusivo na medida em que objetiva atender jus-
tamente parcelas da sociedade que se encontram privadas de gozar de ferramentas solucionadoras, porque 
não possuem condições de acessar as opções do mercado tradicional. Então o empreendedor social oferece 
uma ferramenta para esse problema, adaptada às possibilidades peculiares a esse mercado consumidor. 
Esse entendimento é de que o compromisso não é tão somente com o lucro, mas com um lucro assentado 
em valores éticos sustentáveis, respeitando as condições humanas com vistas ao desenvolvimento.
117
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 7 - Movimentos Sociais
• Geração de renda: o perfil de empreendedores que se lançam aos negócios sociais não é dos grandes 
capitalistas do mercado global. Comumente são trabalhadores vinculados a necessidades sociais e ao 
território local, ou seja, vinculado a problemas sociais locais e que se percebem com competências e 
habilidades para desenvolver ferramentas solucionadoras para os problemas aí existentes. Por isso, há 
uma perspectiva de lucro enquanto geração de renda, pois sua gênese, sua ação embrionária tende a 
estar correlacionada com características típicas do trabalhador, por isso o valor decorrente desse negócio 
está relacionado à ideia de esforço difícil e laborioso.
• Qualidade de vida: como estamos falando de ferramenta solucionadora, em justa medida, para a par-
cela da sociedade carente de certos serviços devido aos seus limites socioeconômicos, então estamos 
tratando de uma forma de empreender que leva em consideração a melhoria da vida do outro e conco-
mitantemente da vida coletiva. 
• Valores sustentáveis: o resultado desse processo é um empreendimento assentado em valores susten-
táveis, haja vista que melhorar a qualidade de vida dessa parcela social, outrora excluída da sociedade de 
consumo, significa dar condições de desenvolvimento humano e social para esse contingente que, uma 
vez melhorado, amplia o seu potencial de consumo e ação, sendo sustentável e renovável no que tange 
ao aumento das forças dessa parcela social que terá acesso a essas ferramentas.
Portanto, podemos concluir que o empreendimento social, trata-se de uma prática do empreendedorismo com 
responsabilidade social, que sugere ações colaborativas, coletivas e inclusivas para o lucro do empreendedor e a 
construção de ferramentas acessíveis e eficazes a camadas sociais excluídas do mercado tradicional.
118
Considerações finais
Nesta unidade, vimos sobre a ambivalência ou os debates dicotômicos 
que caracterizam o que é a vida rural e o que é a vida urbana. Apresen-
tamos duas correntes de pensamento: uma que prima por expor as dife-
renças entre espaço urbano e rural, sob uma perspectiva de oposição de 
uma para com a outra, e uma segunda abordagem que, enquanto expõe 
as diferenças mais acentuadas entre espaço urbano e espaço rural, prima 
por expor as características de continuidade que um exerce sobre o outro. 
Ou seja, aspectos da vida rural que se desenvolvem no seio da vida urbana 
e aspectos da vida urbana que se desenvolvem no seio da vida rural. Con-
cluímos que a importância desse debate é sabermos sobre as diferentes 
necessidades correlatas à vida no espaço urbano e rural, que norteará as 
agendas reivindicatórias dos movimentos sociais.
 Depois expomos acerca das ONGs, considerando seus aspectos, seu fun-
cionamento e sua utilidade e relação com o Estado. Além disso, vimos 
como essas organizações tomaram proporções transnacionais, assu-
mindo significativa importância política para os Estados, e influenciam 
a construção das agendas dos movimentos sociais, sobretudo de causas 
minoritárias.
Em seguida, fizemos uma sintética análise acerca do ativismo social, nos 
concentrando em clarificar sua metamorfose contemporânea, vinculada 
às novas tecnologias de informação e comunicação. Concluímos que o 
ativismo social criou, no ciberespaço, novas formas de recrutamento, 
organização e ação, com resultados ambivalentes. Positivos, no caso do 
ativismo pacífico, porém perigosos e menos controláveis no caso dos ati-
vismos extremistas, como por exemplo o do EI.
Por fim, na última seção desta unidade, nos propomos a apresentar, de 
maneira geral, o que há de mais embrionário no que tange ao empreen-
dedorismo social, que é marcado por negócio sociais, com o objetivo de 
ter lucro com produtos e serviços que resolvam problemas sociais e que 
sejam passíveis de consumo por uma determinada parcela da sociedade, 
que está excluído do mercado tradicional.
Referências bibliográficas
119
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Mini Aurélio: O dicionário da 
língua portuguesa; Aurélio Buarque de Holanda Ferreira; coordenação 
Marina Baird Ferreira. – 8 ed. rev. Atual. – Curitiba: Positivo, 2014.
BAUMAN, Z. O Mal-Estar da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Jorge 
Zahar, 1998.
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1. ed. Oxford: Oxford University Press, 2013.
ENDLICH, A. M. Perspectivas sobre o urbano e o rural. In: SPOSITO, M.E. B.; 
WHITACKER, A. M. Cidade e campo: relações e contradições entre urbano 
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ELIAS, N. A Sociedade dos Indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
GIDDENS, A. Modernidadee Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 
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INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSICA. Classificação e 
caracterização dos espaços rurais e urbanos do Brasil: uma primeira 
aproximação. Rio de Janeiro: IBGE, 2017.
ORTIZ, R. Mundialização e Cultura. São Paulo: Brasiliense. 1994.
121
8Unidade 8
Formação do povo brasileiro 
e crítica à sociedade 
contemporânea 
Para iniciar seus estudos
Esta unidade apresenta a formação da sociedade brasileira a partir de 
suas três principais matrizes: tupi, afro e lusa. Explicita-se como o pro-
cesso de colonização escamoteou as diferenças de poder entre os dife-
rentes grupos étnicos que compõem o povo brasileiro e as consequências 
desse processo de colonização até os dias de hoje.
Aqui também é apresentada a crítica da sociedade contemporânea a par-
tir da exposição do conceito de sociedade de controle, refletindo, assim, 
sobre as relações entre ciência, tecnologia e sociedade.
Objetivos de Aprendizagem
• Analisar a sociedade contemporânea, seus desafios e avanços, 
explicitando a formação da sociedade brasileira no passado para 
compreender seus problemas no presente, realizando assim, 
uma crítica contundente à sociedade de consumo e à sociedade 
de controle.
122
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 8 - Formação do povo brasileiro e crítica 
à sociedade contemporânea 
8.1 Formação do povo brasileiro
Diferentemente do que constava nos livros de história até recentemente, a história do Brasil e do povo brasileiro 
não começa a partir da invasão portuguesa em 1500. Antes da chegada dos portugueses em território brasileiro, 
aqui residiam centenas de grupos originários, conhecidos como tribos indígenas. 
De acordo com um dos antropólogos mais renomados do Brasil, Darcy Ribeiro (1922-1997), a história do povo bra-
sileiro tal como conhecemos hoje é a história da relação entre pessoas de três matrizes distintas: tupi, lusa e afro.
Para iniciar nosso estudo sobre o tema, observe a seguir, com atenção, a música de Clara Nunes, Canto das três raças.
Canto das Três Raças - Clara Nunes
Ninguém ouviu/Um soluçar de dor/No canto do Brasil 
Um lamento triste/Sempre ecoou/Desde que o índio guerreiro/Foi pro cativeiro 
E de lá cantou
Negro entoou/Um canto de revolta pelos ares/No Quilombo dos Palmares/Onde se refugiou/Fora 
a luta dos Inconfidentes/Pela quebra das correntes/Nada adiantou
E de guerra em paz/De paz em guerra/Todo o povo dessa terra/Quando pode cantar/Canta de dor
E ecoa noite e dia/É ensurdecedor/Ai, mas que agonia/O canto do trabalhador/Esse canto que 
devia/Ser um canto de alegria/Soa apenas/Como um soluçar de dor.
(Disponível em: <https://www.letras.mus.br/clara-nunes/83169/>)
Assim como na música de Clara Nunes, aqui veremos como se deu o processo sócio-histórico da formação do 
povo brasileiro e compreender criticamente como se deram as relações entre essas matrizes étnicas e quais 
implicações isso trouxe para o desenvolvimento do Brasil enquanto pátria. 
A matriz étnica diz respeito à origem de um grupo em relação à sua etnia e cultura, ou seja, 
grupos étnicos que partilham de costumes e hábitos semelhantes. 
Glossário
123
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 8 - Formação do povo brasileiro e crítica 
à sociedade contemporânea 
8.1.1 O mito da democracia racial ou o mito das três raças
A população brasileira é extremamente diversa no que se refere aos seus aspectos fenotípicos, ou seja, a cor de 
sua pele, os traços étnicos, as formas corporais etc. Uma das principais características dos seres humanos brasi-
leiros em relação à sua aparência é a miscigenação étnica, ou seja, a mistura de traços biológicos de pessoas de 
diferentes matrizes étnicas.
Figura 8.1: Democracia racial
Legenda: A figura apresenta duas pessoas segurando bonecos de papel de mãos dadas, cada um de uma cor. 
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
No entanto, essa característica da população brasileira acabou criando, a partir da narrativa dos povos domina-
dores, um imaginário coletivo em que as populações de diferentes etnias por terem sido “misturadas” viviam em 
harmonia, ou seja, em uma democracia racial.
Esta noção acabou invisibilizando a forma violenta como essa miscigenação ocorreu no Brasil, e, por conse-
guinte, invisibilizando as relações de poder existentes entre as diferentes etnias no país.
A colonização dos povos originários pelos portugueses não se deu de maneira pacífica, muito pelo contrário: 
contou com o genocídio dos indígenas e escravização de negros africanos e indígenas. O genocídio não se deu 
apenas pela morte de milhares e milhares de negros e indígenas, mas também pelo genocídio cultural desses 
povos, proibidos de falarem suas línguas, praticarem suas crenças, comerem sua comida, terem suas moradias.
Para Ribeiro (1995), ficamos inevitavelmente marcados enquanto povo pela forma como a colonização ocorreu:
Nenhum povo que passasse por isso como sua rotina de vida, através de séculos, sairia dela sem 
ficar marcado indelevelmente. Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e 
índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual a mão possessa que os supliciou. A 
doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida 
e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. (RIBEIRO, 1995, p. 108).
Veremos um pouco das características culturais de cada uma dessas matrizes e como se deu a colonização para 
cada uma delas (tupi, afro e lusa).
124
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 8 - Formação do povo brasileiro e crítica 
à sociedade contemporânea 
8.1.2 Matriz tupi
Os povos originários brasileiros viviam em território brasileiro antes da chegada dos portugueses. Isso não sig-
nifica que viviam em harmonia, havia grupos rivais e aliados. Alguns dos principais grupos originários brasileiros 
são: os tupi-guarani, tapuia, aruaques e tupinambás (RIBEIRO, 1995).
O que ocorreu após a chegada dos portugueses foi quase a total dizimação do povo indígena:
A escravização de índios foi praticada no início do período colonial, mas foi proibida pelas leis e 
teve a oposição decidida dos jesuítas. Os índios brasileiros foram rapidamente dizimados. Cal-
cula-se que havia na época da descoberta cerca de 4 milhões de índios. Em 1823 restava menos 
de 1 milhão. Os que escaparam ou se miscigenaram ou foram empurrados para o interior do país. 
A miscigenação se deveu à natureza da colonização portuguesa: comercial e masculina. (CARVA-
LHO, 2002, p. 20).
Segundo Laplantine (2003), é comum a disseminação de duas noções principais sobre indígenas: o imaginá-
rio construído de que indígenas são selvagens incapazes de controlar seus instintos e a ideia de que os povos 
indígenas são ingênuos e puros. Ambas as noções estão distantes da realidade. Os povos indígenas são seres 
humanos com desejos, necessidades, criam laços de afeto, possuem idiomas, formas de entender o mundo e de 
agir diferentes. 
Hoje em dia a cultura indígena ainda é marginalizada. O senso comum tende a perceber os indígenas como 
folgados, preguiçosos ou desocupados. Este ponto de vista é etnocêntrico, ou seja, se coloca como referência 
a cultura de quem está observando e não se coloca no lugar do observado. É necessário relativizar (MARCONI; 
PRESOTTO, 2013), ou seja, tentar entender o ponto de vista sobre o mundo a partir da visão dos povos indígenas 
brasileiros. Esses povos foram forçados em uma lógica capitalista, ou seja, uma lógica de proteção à propriedade 
da qual eles não compactuam. Ao invés de se considerarem donos das terras, muitos povos originários se consi-
deram parte delas. 
Figura 8.2: Grupo indígena
Legenda: A imagem mostra família indígena reunida.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
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à sociedade contemporânea 
A disputa por território é uma das marcas das lutas dos povos indígenas por seus direitos no Brasil. A pressão de 
latifundiários pela conquista de mais terras é um dos principais problemas na garantia de terras para os povos 
indígenas. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) é responsável no Brasil pela fiscaliza-
ção e negociação legal, ou seja, pela proteção do direito à propriedade de diferentes grupos sobre o território 
brasileiro. 
Você costuma ver descendentes de indígenas em sua cidade? Se sim, onde? Que posições 
profissionais ocupam? São maioria ou minoria populacional? 
Outro dado importante sobre a miscigenação, tanto de brancos com indígenas como de brancos com negras, é o 
estupro. As mulheres indígenas e negras escravizadas eram frequentemente estupradas e engravidavam. Vistas 
como objeto, tratadas sem respeito, sendo forçadas à maternidade, assim se deu a miscigenação brasileira. 
As relações sexuais, nessas circunstâncias desigualitárias, nem mesmo geram intimidade, per-
manecendo a mulher servil ou dependente, tão igualmente respeitosa antes como depois das 
relações, dada sua posição social assimétrica em relação ao homem. Onde e quando permanece 
na condição de dependência servil, tem de aceitar o homem que lhe impõem para gerar mais 
escravos, ou o branco que dela se queira servir. (RIBEIRO, 1995, p. 239). 
A dominação masculina sobre as mulheres, portanto, é outro fator intrínseco à formação do povo brasileiro.
Para saber mais sobre a formação do povo brasileiro segundo Darcy Ribeiro, assista ao docu-
mentário “O povo brasileiro” (2000), dirigido por Isa Grinspum Ferraz e com a participação 
de Antonio Cândido, Chico Buarque, Tom Zé, entre outros importantes artistas e teóricos 
brasileiros. 
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à sociedade contemporânea 
8.1.3 Matriz afro
O processo de escravização de pessoas negras vindas do continente africano para o continente americano por 
colonizadores europeus foi um violento processo de diáspora que durou centenas de anos.
A escravização de negros africanos iniciou no Brasil em meados do século XVI, com a participação de Duarte 
Coelho – donatário da Capitania Hereditária de Pernambuco – que requereu, em 1539, à corte portuguesa, a 
isenção de impostos de escravizados negros trazidos do continente africano. 
Neste momento, é importante ressaltar que o Brasil possuía extensas terras e uma economia voltada para a agro-
exportação, especialmente para a produção da cana-de-açúcar. Com a grande aceitação do açúcar produzido 
na colônia portuguesa pelo continente europeu, fez-se necessária a busca por mão de obra para trabalhar nas 
lavouras. 
Soma-se a esses critérios o valioso lucro produzido pelo tráfico de escravizados e a garantia dos colonizadores 
portugueses pela mão de obra barata, para não dizer gratuita, tendo em vista que os donos dos escravizados 
necessitavam custear apenas a alimentação e a moradia dos seus respectivos escravizados. O tráfico de escra-
vizados foi um comércio tão vantajoso para os colonizadores que terminou apenas em 1865. Houve, inclusive, o 
período em que o se Brasil tornou a única nação da banda ocidental a continuar com a escravidão legalizada em 
seus domínios. 
No século XIX, período em que vigorava a escravidão no Brasil, o mundo vivia momentos de intensas e profundas 
transformações, especialmente pelo advento da Revolução Industrial, iniciada pela Inglaterra e que se expan-
diu paulatinamente aos demais países europeus. A economia brasileira encontrava-se ancorada em um sistema 
defasado e ineficiente, que atendia somente aos interesses da elite, nesse caso, os cafeicultores paulistas. 
Assim, baseando-se em um sistema de trabalho que utilizava a mão de obra escrava como principal força motriz, 
não era possível competir em situação de igualdade com outros países que já haviam adotado o sistema de con-
trato por trabalho com o pagamento de salários aos trabalhadores.
Assim, o Brasil foi o último país a decretar o fim ao comércio de escravizados, motivado pela forte pressão do 
governo inglês em comercializar seus produtos aqui no território brasileiro. 
Seguindo uma lógica fundamentalmente mercantilista, a escravidão de negros tinha como o objetivo principal o 
lucro oriundo da comercialização entre colonizadores europeus e grandes fazendeiros e proprietários de terras. Dessa 
forma, o período vergonhoso da humanidade, que entendemos como escravidão, retrata os maus-tratos e condições 
indignas de sobrevivência de homens, mulheres e crianças que foram arrancados de suas origens e respectivas famí-
lias para serem submetidos a intensas jornadas de trabalho, além de serem condenados à morte já no navio em virtude 
de possíveis doenças que poderiam ter adquirido nos porões e nos locais destinados à sua estadia. 
Lembrando que muitos eram jogados ao mar quando os comerciantes entendiam que o escravo estava doente e 
poderia contaminar os demais escravizados, assim como também eram alçados ao mar devido à fiscalização da 
marinha inglesa, que naquele momento era a principal potência mundial e já condenava o tráfico de escraviza-
dos. Os negros chegavam do continente africano e desembarcavam nos portos de Rio de Janeiro, Pernambuco e 
Bahia. Posteriormente, eram distribuídos para as regiões que mais necessitavam da sua mão de obra. Trabalha-
vam arduamente na mineração, nas lavouras e nos canaviais, cuidavam dos animais e, alguns poucos, da casa de 
seus senhores, desempenhando trabalhos domésticos a mando de seus donos.
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à sociedade contemporânea 
Atualmente há um consenso entre teóricos-pesquisadores em deixar de usar o termo 
“escravo”, pois esse essencializa o ser humano negro, fazendo parecer que essa é condição 
natural dele e não uma posição condicionada por outro ser humano opressor. 
O processo de escravização não se deu sem resistência. As pessoas negras escravizadas faziam rebeliões e mui-
tas vezes formavam quilombos. Os quilombos eram lugares de refúgio e organização dos negros escravizados 
fugidos e principal local de resistência contra a escravidão. Descendentes de quilombolas podem reivindicar a 
propriedade pelas terras de seus ancestrais como direito no Brasil. O quilombo mais conhecido no Brasil por seu 
tamanho é o Quilombo dos Palmares, localizado na capitania de Pernambuco e liderado por Zumbi dos Palmares.
A escravidão fez com que fosse muito difícil preservar os costumes dos povos africanos. Suas roupas, suas religi-
ões e seus costumes foram marginalizados e muitos deles continuam o sendo até os dias de hoje. 
Figura 8.3: Mulher negra africana
Legenda: A imagem mostra a ilustração de uma mulher negra com turbante.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
“Não há racismo no Brasil”, “isso é se fazer de vítima”, “eu tenho amigos negros”, dentre muitas outras frases, 
demonstram como os brasileiros ainda persistem na ideia de que o racismo é um conceito ilusório entre nós. 
Paralelamente à miscigenação da população brasileira, encontra-se bem à mostra a divisão existente entre bran-
cos e negros em nossa sociedade.
Inúmeros autores já realizaram pesquisas, com riqueza de detalhes e de informações, demonstrando as discre-
pâncias no que diz respeito às ocupações sociais assumidas por negros em relação aos brancos. Ressalta-se que 
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muitos desses textos acadêmicos não chegam, infelizmente, ao conhecimento de pessoas que não estejam ligadas 
às universidades e centros de estudos, pessoas estas que, na verdade, correspondem à maior parte da população. 
Em 2010, o censo revelou que o número de negros e brancos estábem próximo, sendo 47% da população branca 
e 53% negra ou parda. Nesse sentido, por uma questão de proporcionalidade, seria mais coerente que os índices 
educacionais e criminais envolvendo as respectivas populações fossem parecidos, porém, isso não é o que os 
estudos mostram (IBGE, [s.d.]). 
Ao analisar a população carcerária, já é possível se deparar com a primeira disparidade: os dados indicam que 
60% dos presos são pardos ou negros. Outro dado relevante relaciona-se com o número de assassinatos de indi-
víduos negros: o número de jovens negros assassinados é três vezes maior em comparação com jovens brancos. 
Quando o assunto diz respeito à educação, o problema continua. Um estudo realizado pelo departamento de 
Economia da UFRJ, no ano de 2011, concluiu que 71% dos analfabetos são negros ou pardos. Também o tempo 
médio que os negros levam para concluir os ensinos Fundamental e Médio é maior do que a média dos brancos. 
E relação à quantidade de negros aprovados nos vestibulares, os números espantam: em 2012, apenas 7% dos 
alunos da USP eram negros ou pardos, e na Unicamp, 8%. Ressalta-se que a porcentagem de alunos negros for-
mados no Brasil, seja em instituições públicas ou privadas, é de apenas 6%.
8.1.4 Matriz lusa
Quando os portugueses iniciaram a invasão do território brasileiro em 1500, seu povo encontrava-se em outro 
nível de desenvolvimento tecnológico. A prática de invadir e saquear novos territórios dava-se pela necessidade 
em aumentar a influência e poder do país na Europa. Nesse período acontecia uma corrida pela colonização (a 
Era das grandes navegações) para que fossem obtidos mais produtos para ampliação dos comércios e, por con-
seguinte, dos lucros de Portugal. 
Portugal é um país de pouca extensão territorial, o que limita fortemente suas riquezas naturais. O Brasil apre-
sentava um grande potencial de exploração. Para a elite portuguesa, isso representava o avanço da civilização 
europeia, da qual buscavam tornar-se protagonistas. 
Figura 8.4: Luís Vaz de Camões
Legenda: Imagem ilustrativa do português Luís Vaz de Camões.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
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A língua oficial do Brasil é o português. A aquisição da língua portuguesa por outros povos foi feita por meio de 
proibições e punições: caso pessoas escravizadas não utilizassem o português, elas eram violentamente casti-
gadas. É possível perceber, no entanto, que o português de Portugal difere bastante do português brasileiro nos 
sons. Fato dado pela influência fonética dos povos de origem africana e povos originários do território brasileiro 
na fala do português.
Você sabe o que é uma “boleia”? E “fixe”? Uma boleia é uma carona, e fixe é legal. Essas 
palavras parecem de outro idioma, mas também estão em português, só que no português 
usado em Portugal. Assista a um vídeo em português de Portugal e veja se consegue enten-
der? Quais diferenças você percebe comparando com nosso idioma? 
O Vaticano exercia grande influência sobre Portugal e Espanha. A noção de que os indígenas brasileiros viviam 
em pecado e de que a religião católica poderia salvá-los fazia parte da ideia de civilização dominante entre os 
portugueses (RIBEIRO, 1995). A missão dos jesuítas portugueses, representantes da Igreja Católica, em catequi-
zar os povos colonizados para salvá-los da danação era levada a sério: toda a população brasileira era obrigada 
a seguir o catolicismo durante o período de colonização. Até os dias de hoje o cristianismo é a fé mais seguida 
no Brasil, representando 86,8% enquanto a religião católica é seguida por mais da metade da população do país 
(64,6%) (IBGE, 2010).
Uma das características culturais do Brasil é o sincretismo, ou seja, a mistura de elementos de diferentes origens 
culturais engendrando algo próprio do Brasil em vários âmbitos, como na alimentação, nas vestimentas, nas 
religiões, no idioma etc.
Figura 8.5: Procissão para Iemanjá no Brasil
Legenda: Imagem mostra a procissão de Iemanjá em uma cidade brasileira.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
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à sociedade contemporânea 
Economicamente, as influências da colonização são sentidas no país até hoje. A relação entre colônia-metrópole foi 
transformada com o avanço do capitalismo e com a perda de poder econômico de Portugal. A industrialização do 
Brasil foi tardia em comparação às metrópoles e a outros países colonizados. Muitas das riquezas naturais do país 
tornaram-se escassas. A transição da escravidão para a mão de obra assalariada se deu de forma lenta. Até hoje é 
possível encontrar diversos trabalhadores no país em situação análoga à escravidão. A manutenção da desigual-
dade das classes sociais foi desejada pela elite brasileira e se perpetua até os dias de hoje (FERNANDES, 1973).
Por esses problemas, segundo Fernandes (1973), o Brasil, que foi um país que teve como atividade econômica 
principal a exportação de matéria-prima para depois importar produtos industrializados de outros países, mesmo 
com o avanço de suas indústrias, continua servindo às elites, não só brasileiras, mas dos países centrais do capita-
lismo. Esse tipo de relação econômica é chamado de capitalismo dependente, servindo à divisão entre classes 
sociais e refletindo na manutenção de uma profunda desigualdade social.
8.2 Sociedade de controle: ciência e tecnologia no mundo 
globalizado
Os trabalhos que envolvem as relações entre tecnologia, ciência e sociedade buscam entender como a ciência 
se organiza em diferentes sociedades. Além disso, compreender como as forças sociais e econômicas conduzem 
o desenvolvimento científico e tecnológico. No mundo globalizado, as transformações sociais têm forte relação 
com as transformações tecnológicas. 
Nesse contexto, os computadores ocupam um espaço relevante para as relações sociais, uma vez que influen-
ciam os mais variados setores da sociedade. Por exemplo, estão nos comércios, nos serviços, no próprio exercício 
da cidadania, no mundo do trabalho, no acesso à informação e nos relacionamentos entre as pessoas.
Segundo Castells (2000), a tecnologia da informação foi determinante para a reestruturação socioeconômica 
que o mundo passou a partir da segunda metade dos anos 1970, na qual foram redefinidas as relações de produ-
ção e de poder. Castells (2000) lança a ideia de um capitalismo informacional, no qual há um forte vínculo entre 
produtividade e inovação. Esse vínculo, por sua vez, leva a outro entre competitividade e flexibilidade. A tecnolo-
gia da informação é atualmente o que a eletricidade representou para a Era Industrial. 
Uma revolução tecnológica concentrada nas tecnologias da informação remodelando a base 
material da sociedade em ritmo acelerado. Economias por todo o mundo passaram a manter a 
interdependência global, apresentando uma nova forma de relação entre economia, Estado e a 
sociedade em um sistema de geometria variável. (CASTELLS, 2000, p. 21). 
Para Castells (2000), uma das características do novo paradigma social relacionado às tecnologias da informação 
é que essas tecnologias também atuam sobre a informação e não apenas o contrário, como era esperado. Isso 
quer dizer que as tecnologias se transformaram em matérias-primas para estimular a produção da informação. 
Antes disso, a relação estabelecida era apenas da informação como matéria-prima para o desenvolvimento de 
novas tecnologias. Interessante, não é? Na sociedade global, os anúncios publicitários estão cada vez mais dis-
farçados de informação.
Considerando o fato de que a informação está fortemente presente na vida das pessoas, todos os processos 
ligados à existência individual e coletiva dos indivíduos estão sendo modelados diretamente pelas mudanças 
tecnológicas. Nessa perspectiva,tanto a ciência quanto a tecnologia proporcionam benefícios diretos para as 
pessoas e para as sociedades. Mas não se pode deixar de lado os riscos que tanto a ciência quanto a tecnologia 
podem liberar, como, por exemplo, quando a ciência e a tecnologia são utilizadas em benefício de grupos sociais 
restritos ou quando algumas empresas e setores econômicos são favorecidos pelo seu desenvolvimento. 
131
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 8 - Formação do povo brasileiro e crítica 
à sociedade contemporânea 
Figura 8.6: Tecnologia social
Legenda: A imagem representa a presença e uso das tecnologias no cotidiano das pes-
soas, sendo utilizada em benefício para diferentes áreas de atuação.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
As atividades científicas e tecnológicas muitas vezes envolvem questões polêmicas. Temas como os debates 
acerca da reprodução humana assistida, a questão das células-tronco e a espantosa clonagem nos levam a refle-
tir a respeito de questões éticas e jurídicas sobre os limites da ciência e a tecnologia. Para compreender esses 
problemas, teremos que efetuar um rápido mergulho no pensamento do intelectual francês Michel Foucault 
(1926-1984). De acordo com o autor, “O poder produz saber [...], não há relação de poder sem constituição cor-
relata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder” 
(FOUCAULT, 2010, p. 30). 
A relação entre poder e saber é muito intensa, pois o poder produz saber na medida em que as políticas de inves-
timento em diferentes pesquisas se alteram. Por outro lado, não existe poder sem conhecimento, sem saber, 
uma vez que, para ter controle sobre alguém, é necessário utilizar o conhecimento. Se refletirmos sobre a relação 
proposta por Foucault (2010), poderemos entender que não há saber sem poder e que também não há poder 
sem saber, já que o conhecimento e a ciência geram poder ou mesmo um diferencial para um Estado ou para a 
iniciativa privada. 
Santos (2003) reflete sobre essa relação entre tecnologia e sociedade e contribui com interessantes conclusões 
nesse tema. Primeiramente, pergunta-se qual será o futuro da humanidade em uma sociedade cada vez mais 
controlada por máquinas inteligentes e superpoderosas? Santos (2003), a exemplo de Castells (2000), afirma 
que as novas tecnologias provocam transformações profundas e gera novos acontecimentos para os quais não 
temos equivalente na história. Ora, a informática possibilitou novas formas de comunicação entre as pessoas e a 
genética permitiu que a reprodução humana se desse sem que ocorra uma relação sexual. 
No capitalismo atual, podemos constatar a existência de duas racionalidades: uma econômica e outra tecno-
científica. O ponto comum entre essas ideias é que não devem existir limites à reprodução do capital e ao pro-
gresso tecnocientífico. Dessa maneira, o Direito precisa traçar limites para os mercados globalizados e para a 
ciência, limites que não representam uma censura, mas garantias para a vida e para a justiça social. 
Quando pensamos no controle e uso da ciência no contexto global, enfrentamos algo que sempre se dá nas 
sociedades: o conflito entre os direitos dos indivíduos e os direitos da coletividade. A tecnologia pode piorar esse 
conflito. Meksenas (2002) argumenta que na globalização a ciência está reduzida à tecnologia produtiva e à de 
mercado, e nessa lógica os interesses de bem-estar humano são substituídos pelos interesses de mercado.
132
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 8 - Formação do povo brasileiro e crítica 
à sociedade contemporânea 
Para pensar sobre o papel da ciência na engenharia genética, assista ao vídeo de um trecho da 
entrevista de Roberto D’Ávila com a geneticista Mayana Zatz, renomada cientista brasileira e 
professora da Universidade de São Paulo (USP). Disponível em: <http://g1.globo.com/globo-
-news/roberto-davila/videos/v/roberto-davila-a-geneticista-mayana-zatz/6356283/>. 
Acesso em: 29 jan. 2018. 
Essa discussão pode ser complementada pelos questionamentos feitos por Meksenas (2002): para que serve a 
ciência? E a quem ela serve? A ciência é utilizada para escravizar ou para libertar? Por que a ciência às vezes não 
é utilizada para o bem da humanidade? 
Todo o rigor de método para elaborar os diversos conhecimentos científicos das naturezas físicas 
e humanas não são isentos da defesa de interesses particulares da classe social que detém o con-
trole da sociedade. (MEKSENAS, 2002, p. 48).
Figura 8.7: Mecanismos de controle
Legenda: A imagem mostra um recurso tecnológico avançado sendo usado por usuário.
Fonte: Plataforma Deduca (2018).
Segundo Foucault (1979), a ciência e o conhecimento são alimentados por meio de relações entre sujeitos e 
entre poderes. O autor revela ainda que o conhecimento guarda íntimas relações com o poder em cada época, 
sendo que o conhecimento é buscado e liberado pelas formas de organização do poder. Na perspectiva de Fou-
cault, portanto, o poder está em todas as relações, não se restringindo ao Estado. Assim, tanto o saber como o 
poder podem ser utilizados como mecanismos de controle da sociedade. Por isso, os discursos de cada grupo 
social podem ser relacionados com as formas utilizados para gerar e manter o poder. 
A Medicina e o capitalismo, ao longo do século XX são, em conjunto, um grande exemplo para pensarmos tal 
ideia. Diversas doenças e suas curas somente foram pesquisadas devido às necessidades do capitalismo. Ou seja, 
as pesquisas para a cura de determinadas doenças são financiadas de acordo com o interesse dos proprietários 
dos meios de produção. Ora, era preciso minimizar os impactos de certas doenças para que a classe trabalhadora 
ficasse menos doente e pudesse produzir mais e mais, aumentando os lucros do capitalista. 
133
Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 8 - Formação do povo brasileiro e crítica 
à sociedade contemporânea 
Segundo Foucault (1979), o presídio, a fábrica, a escola e o manicômio seriam espaços utilizados como locais 
para controlar e disciplinar os corpos dos indivíduos. Dessa forma, a partir da emergência de novos dispositivos 
de controle, a sociedade disciplinar, baseada nas instituições de confinamento, dá lugar à sociedade de controle. 
A sociedade de controle cria uma ilusão nos indivíduos: a de que eles desfrutam de maior autonomia por terem 
acesso às ferramentas do mundo globalizado, como a internet. Nesse sentido, Deleuze (1998) atualiza a teoria 
de Foucault sobre o controle social. 
Não há necessidade de ficção científica para conceber um mecanismo de controle que forneça 
a cada instante a posição de um elemento em meio aberto, animal numa reserva, homem numa 
empresa (coleira eletrônica). Félix Guattari imaginava uma cidade onde cada um pudesse deixar 
seu apartamento, sua rua, seu bairro, graças ao seu cartão eletrônico, que removeria qualquer 
barreira; mas, do mesmo modo, o cartão poderia ser rejeitado tal dia, ou entre tais horas; o que 
conta não é a barreira, mas o computador que localiza a posição de cada um, lícita ou ilícita, e 
opera uma modulação universal. (DELEUZE, 1990, p. 35, tradução nossa). 
Os comportamentos e hábitos de consumo dos indivíduos podem ser conhecidos pelos governantes, pelos ban-
cos, pelas principais empresas multinacionais; e esse controle é realizado de maneira cada vez mais sutil, o que 
aumenta sua eficácia. O discurso que celebra o poder libertador da tecnologia não se atentou para essa amplia-
ção o controle sobre as pessoas. Ademais, a sociedade de controle dá seguimento à lógica da tecnologia e do 
mercado, em que as novas relações de poder estão vinculadas à transmissão de informações.
134
Considerações finais
Nesta última unidade, tivemos a oportunidade de compreender a complexa 
formação do povo brasileiro bem como reconhecer a mudança de paradigma 
causada pela globalização e pela emergênciada sociedade de informação ou 
sociedade de controle. Assim, estudamos os seguintes pontos:
• A noção equivocada de democracia racial que presume uma 
igualdade e harmonia no processo de colonização bem como na 
atualidade. Realidade que não se comprova quando analisamos 
as diferenças nas posições de poder de grupos provenientes de 
diferentes etnias.
• A desconstrução da ideia dos indígenas enquanto selvagens ou 
puros, entendendo esses grupos como seres históricos que fize-
ram parte da construção do povo brasileiro. Povos que quase 
foram dizimados pelos colonizadores e permanecem até os dias 
de hoje em posição de subalternidade.
• A violenta diáspora e escravidão dos povos de origem africana, 
bem como o silenciamento cultural destes, resultando na desi-
gualdade social entre brancos e negros (algo que prevalece até os 
dias de hoje no Brasil). 
• A concepção de civilização portuguesa e a influência da cul-
tura lusa na formação da identidade brasileira, destacando-se o 
idioma oficial do país e a religião mais seguida pelos brasileiros até 
os dias de hoje, o catolicismo. 
• A dependência econômica do Brasil tendo como impulsores a 
colonização e da industrialização tardia do Brasil, bem como o 
pacto entre as elites econômicas capitalistas dependentes e cen-
trais do capitalismo.
• A sociedade de controle proporcionada pelo desenvolvimento de 
tecnologias que possibilitam o mapeamento da sociedade capi-
talista de consumo.
Referências bibliográficas
135
CARVALHO, J. M. de. Cidadania no Brasil. O longo caminho. 3. ed. Rio de 
Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
CASTELLS, M. O poder da identidade. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000. 
DELEUZE, G. Pourparlers. Paris: Les Éditions de Minuit, 1990.
______ Conversações. São Paulo: Editora 34, l998.
FERNANDES, F. Capitalismo dependente e classes sociais na América 
Latina. Rio de janeiro: Zahar, 1973.
FOUCAULT, M. A Ordem do Discurso. São Paulo: Loyola, 2010.
______. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979
LAPLANTINE, F. Aprender Antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2003.
MEKSENAS, P. Pesquisa social e ação pedagógica. São Paulo: Loyola, 
2002.
RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formação e o sentido de Brasil. 2ª ed. São 
Paulo: Companhia das Letras, 1995. 
SANTOS, L. G. dos. Politizar as novas tecnologias: o impacto sócio-téc-
nico da informação digital e genética. São Paulo: Editora 34, 2003.
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