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Maria Luiza Dias
O QUE É PSICOTERAPIA DE
FAMÍLIA
ÍNDICE
Introdução ............................................. 7
Por que uma psicoterapia de casal e família 9
A construção do mito familiar ........... 15
A escolha e o contrato secreto do casamento . . . . 19
Sua Majestade "O Bebê" .................... 24
O "filho-problema" como o paciente identificado ... 27
A família no divã . . . . . 33
A família com crianças em psicoterapia 38
A comunicação em família ................... 43
O casamento no mundo atual ............. 48
Amor e paixão . .................................... 53
Casais separados. Os meus, os teus e os nossos . . 58 Como nasceu a psicoterapia
de casal e família ... 68
Conclusão ............................................... 70
Indicações para leitura ----------------- 72/
INTRODUÇÃO
Gostaria, inicialmente, de esclarecer alguns fatores sobre a temática
apresentada neste livro.
O texto não se propõe a aprofundar todos os temas levantados, uma vez que
tem por objetivo realizar somente uma primeira aproximação do leitor com a
psicoterapia de casal e de família.
Procurarei oferecer a você, apenas curioso, uma visão sobre como se desenrola
o trabalho desta espécie e em que condições se poderia estar lançando mão desta
psicoterapia como recurso pessoal. Além disso, falarei sobre alguns mecanismos
típicos do funcionamento psíquico da família, alicerçando-me em teorias
existentes, quando necessário.
Se você é membro de um casal interessado em submeter-se à psicoterapia,
este livro talvez o ajude a iniciar uma leitura mais global, mais dialética de seus
problemas de relacionamento com o parceiro (ou parceira). É provável que você
venha a suspeitar de suas avaliações parciais.
Se você é parte de uma familia com um filho apresentando alguma espécie de
dificuldade, encontrará neste texto subsídios para começar a perceber o quanto o
problema de seu filho pode estar relacionado com a estrutura de sua família como
um todo. Neste caso, seria interessante procurar um psicólogo que tenha
formação em terapia familiar.
Para o estudante de Psicologia ou para o psicólogo interessado em investigar
esta especialidade, o texto procura oferecer uma primeira visão sobre temas
importantes da terapia de casal e família e subsídios para a leitura de outros
autores.
Independentemente de sua condição, espero que, através deste pequeno texto,
possamos começar a estabelecer um diálogo. Bom mergulhol
POR QUE UMA PSICOTERAPIA
DE CASAL E FAMÍLIA
Inúmeras pessoas passam por momentos na vida em que o ambiente em casa
está ruim e o convívio na família não vai bem. A terapia familiar pode auxiliar a
compreender o que se passa e facilitar a resolução dos conflitos.
Pode, também, atuar em sentido preventivo. Na experiência de uma gravidez,
por exemplo, ou quando a mãe resolveu sair para trabalhar, ou mesmo quando a
família tem um filho adolescente que se torna mais independente (momentos em
que são vividas intensas mudanças).
A única condição necessária para que a terapia de casal/família ocorra é que haja
um par amoroso interessado em se pensar, com filhos ou não: o par amoroso pode
ser heterossexual, bissexual, homossexual, composto por indivíduos solteiros,
noivos, casados, desquitados, divorciados, amantes etc.
Para se iniciar uma terapia, não importa qual ideia se tenha sobre sua
necessidade, mas é preciso haver um ingrediente comum: alguma confusão, dúvida
ou ainda um desejo de se pensar dentro do ciclo vital do grupo familiar.
Importa ainda menos a noção que se tenha sobre "família", pois esta pode ser
compreendida num sentido bem mais amplo que pai, mãe e filhos consanguíneos.
Deste modo, tampouco importa o estado civil do casal. Mesmo jovens casais de
namorados podem submeter-se a uma terapia de casal, desde que estejam
interessados em compreender a dinâmica do vinculo que vêm estabelecendo.
Neste caso, a terapia pode prevenir problemas futuros que se acirrariam, se
agravariam, no noivado ou casamento (ou co-habitação), além de promover maior
autoconhecimento. Mesmo se o casal não permanecer como tal no futuro, levará
consigo uma "bagagem" mais amadurecida para os próximos relacionamentos.
Você, então, que pensa, quem sabe, em procurar um psicólogo, provavelmente se
depara com inúmeras questões: "Vão pensar que estou doente, desequilibrado?";
"Não haveria mesmo um jeito de eu sair disto sozinho?"ou "O que minha
mulher/meu marido vai pensar?".
Estas perguntas advêm, ainda, da ideia de que o individuo que procura o
psicologo é o que porta o problema e o espaço da terapia seria o lugar onde ele
pode vir a ser curado.
Aquilo de que as pessoas não se apercebem é que, muitas vezes, o que sentimos e
somos é também fruto da qualidade dos relacionamentos que estabelecemos. E, em
sendo assim, a responsabilidade e o resultado destas interações (destes
relacionamentos), sejam prazerosas ou desprazerosas, sadias ou nocivas, devem
ser compartilhados e percebidos como um produto comum.
Para alguns, a psicoterapia é entendida como um tratamento que procura dar
conta das fases criticas da vida. As terapias focalizadas no problema seguem o
modelo médico, dando alta clinica diante da remissão do sintoma.
Para outros, a psicoterapia é vista como um recurso para promover maior
autoconhecimento e, para tanto, não é preciso "estar mal" ou ter um problema
sério para recorrer a ela, mas ser tomado por um certo questionamento
existencial, querer refletir sobre os relacionamentos que estabelece e sobre a
própria subjetividade.
De qualquer forma, concorda-se que ó preciso haver alguma dose de "dor
psíquica", que mobilize e justifique um "voltar-se para dentro", a investigação do
mundo interior subjetivo. Quando se conhece melhor a realidade interna e
externa, ganham-se mais recursos para enfrentar os conflitos.
Assim, também um casal pode lançar mão da terapia porque os dois estão em
“duelo", à beira da separação (o que é mais comum) ou porque desejam
compreender algumas experiências compartilhadas, ou mesmo, conversar com o
auxílio de um profissional sobre a educação a ser dada aos filhos, por exemplo.
Cabe lembrar que psicoterapia, pelo menos de base psicanalítica, não tem a ver
com orientação pessoal, de casal ou de pais, pois certamente o apeio pedagógico
fracassa diante das dificuldades em torno das quais se estruturaram as
personalidades dos cônjuges. De nada adianta dizer a uma mãe que deixe de bater
em seu filho se não se desvelam as motivações inconscientes que a impulsionam,
pois seria como dizer a um paralítico que andasse sem a cadeira de rodas.
Deste modo, a compreensão intelectual do problema não o resolve por si só: é
necessária a análise destas motivações inconscientes, com o auxílio do terapeuta,
para
que esses problemas possam ser elaborados.
Fatores culturais também interferem na indicação e procura do auxílio
psicoterápico. É comum nas pessoas a falsa ideia de que só se deve procurar a
psicoterapia em último caso, pois tal recurso significa o próprio atestado de
impotência, de que não foi possível resolver o problema sozinho. Não há
necessidade de se deixar para pedir ajuda apenas quando se está "nas últimas".
Numa sociedade onde as pessoas nunca podem falhar, que exige perfeição e
onde as dificuldades são nomeadas "defeitos", fica muito difícil romper com tais
valores e procurar ajuda. No imaginário do senso comum, precisar de um dentista
para obturar uma cárie é compreensível; contudo, necessitar de um
psicoterapeuta, para compreender melhor uma questão emocional, é grave.
Se se deixar este preconceito de lado — pois, atualmente a psicoterapianão
tem mais o fim exclusivo de tratar "alienados" ou "loucos delirantes" —, podem-se
descobrir muitos elementos importantes para a própria vida, submetendo-se a um
trabalho desta espécie.
Outra ideia dominante no senso comum é ade que a psicoterapia separa o casal,
ou mesmo o inverso, de que ela está lá'a serviço de reunir o casal. A terapia de
casal não se propõe a unir ou separar ninguém. O casal pode ter muito medo de ir à
terapia e ver aumentarem seus problemas; contudo, só irão surgir, emergir, os
conflitos que já estão vivendo.
A experiência clínica demonstra que o que acontece é que, se o casal persiste
no trabalho clínico e a co-respon- sabilidade no vínculo e os incômodos vão sendo
compreendidos, o casal vai restabelecendo o relacionamento em moldes mais
maduros, aumentando a gratificação com o parceiro e a complementaridade sadia.
Tudo que é vivido numa relação de casal é gerado a dois. Isso vale para os
prazeres e os sucessos, bem como para os desprazeres, as brigas e o mal-estar.
Cada um tem meia responsabilidade nisto, mesmo que a participação de um dos
membros do casal no resultado não seja nitida.
Chamo de responsabilidade ao que normalmente os casais chamam de "culpa".
Em determinado momento, parece-lhes muito importante descobrir quem ó o
culpado. E, mais que isso, que o culpado é o outro!
Em alguns casos, a separação se coloca mesmo como o único caminho de
crescimento pessoal às duas pessoas. Ainda al, a psicoterapia de casal tem uma
contribuição importantíssima a dar, ajudando o casal a elaborar as perdas e ganhos
desta condição. Existem lutos a serem experienciados (elaboração das perdas) e
acomodados. Além disso, havendo filhos, a psicoterapia familiar poderá ajudá-los a
compreender e conviver com a nova realidade criada pela separação dos pais.
A indicação para o comparecimento dos filhos na sessão depende da
psicodinâmica familiar. No caso de haver um membro enfermo, é primordial, pois
ele ajudará, através de seu(s) sintoma(s), no entendimento do que, em verdade, se
passa.
Como veremos adiante, o indivíduo sintomático (que é considerado
problemático na família) é o porta-voz dos problemas apresentados, funcionando
como a porta que se abre ao inconsciente da familia. Os filhos podem também ser
chamados para que se observe o funcionamento do casal diante da unidade familiar
completa.
A terapia de casal e familia ó útil, sobretudo, em situações-problemas onde se
anda em círculos. Uma discussão de casal pode fazer esse caminho circular, por
exemplo. A analogia se remete a um circulo porque se sai de um ponto e se retorna
novamente a ele e, com isso, não há começo nem fim.
Uma mulher faz cara feia ao marido porque ele chegou tarde em casa; mas ele
chegou tarde em casa porque ela lhe havia respondido de forma grosseira ao
telefone; contudo ela o fez porque imagina que ele possa estar tendo um caso com
outra e assim por diante. Chamo isso de um "jogo sem-fim".
Nessa situação, a discussão no concreto não levaria a lugar algum. Seria útil a
intervenção de um terceiro, no sentido de compreender os elos de ligação entre
estes eventos e desfazer o jogo sem-fim.
A CONSTRUÇÃO DO MITO
FAMILIAR
A família constrói uma história fantasiosa sobre si mesma, que tende a
deformar a maneira como ela realmente é, como funciona. Com isso, certos
sentimentos e certos padrões de interação permanecem inconscientes aos
membros da família, ou seja, estes não se apercebem de que tal dinâmica está em
jogo. Tais conteúdos deformados (pelos mecanismos conjuntos de defesa
compõem o mito familiar.
A ideia de mito familiar advém da noção de que um mito é uma história
construída por um povo, que não está sujeita a nenhuma regra de lógica ou de
continuidade—nela tudo pode acontecer.
É uma espécie de sonho coletivo de uma cultura, suscetível de interpretação,
de modo que seu sentido oculto possa revelar-se. Os mitos expressam desejos
inconscientes, que, de algum modo, são incompatíveis com a experiência consciente
de um povo. Subentendido no sentido manifesto das histórias mitológicas,
existiria, então, um não-sentido, uma mensagem envolta num código a ser
decifrado.
Havería, portanto, uma relação de semelhança entre o mito e a vida do povo. Os
mitos seriam histórias sem um significado aparente, cujo entendimento só pode
ser resgatado com o estudo daquela cultura, que, por sua vez, não tem consciência
do sentido dessas narrativas. Tais pensamentos seriam, então, desconhecidos por
esses homens.
Assim também ocorre com a família, que em torno de seus problemas aparentes
constrói seu mito, ou seja, uma versão fantasiosa sobre como funcionam em
conjunto e sobre quem é o membro da família que carrega o problema.
Mito no sentido de que a família elabora uma história fantástica (que não
corresponde aos processos reais em jogo) e a vive tal qual se fosse a história
verdadeira. Organizam-se em torno de uma ideologia, de uma visão sobre o mundo
e suas dificuldades em família, que lhes parece mais aceitável.
Imaginar, por exemplo, que o problema de uma família é um filho rebelde, um
pai ausente ou uma criança tímida é apenas a versão mais superficial sobre as
dificuldades emocionais da família, que situa o problema num determN nado
membro e esconde conflitos mais sérios do funcionamento do grupo familiar.
O trabalho do psicoterapeuta seria ajudar a desvendar, a decifrar os
significados que estão por trás da história desse mito familiar — através do filho
sintomático, por exemplo — , tal como o antropólogo procura compreender o
significado de um mito para uma determinada população.
Imaginemos um casal que vem para uma primeira entrevista no intuito de iniciar
uma psicoterapia. O marido toma as rédeas e começa a explicar o motivo da
consulta. A mulher (que estava ao seu lado calada), segundo ele, estava muito
enferma: não assumia mais responsabilidades em casa, as duas crianças do casal
haviam sido removidas para a casa de uma parente porque ela já não cuidava delas
adequadamente, largava-se na cama por horas a fio e, quando o marido chegava em
casa (já bem tarde), desatava a reclamar e não o deixava dormir.
Na história apresentada por eles — digo por eles porque, embora a esposa não
dissesse nada, o seu silêncio contava sobre sua concordância e cumplicidade com
aquela versão (apesar da cara de descontentamento) —, a mulher era a "louca" do
casal e o marido o "são". Se ela se modificasse, voltasse a cuidar das crianças e a
cumprir o papel que o marido esperava dela, tudo estaria resolvido.
O marido e os pais dele, que moravam ao lado, esperavam que a psicoterapia
pudesse evitar a internação da moça. Ele dizia: "Já tentamos tudo: conversar, ir ao
médico, ao psiquiatra. A terapia de casal é a última coisa que tento, pois, se não der
certo, vou me separar dela. Não dá mais para continuar assim".
Solicitada a falar sobre como via o que estavam vivendo, a esposa não conseguia
se expressar, enrolando-se muito para falar, como se fosse mesmo uma mulher
completamente perturbada. Aos poucos e depois de muito incentivo, contou que
acreditava que o problema, na verdade, estava nele, que só chegava em casa tarde
e nunca se dispunha a conversar.
Esta primeira versão, trazida pelo casal sobre a dinâmica de sua família,
constitui o mito familiar. No decorrer da investigação analítica, os sentidos
subliminares que explicavam este comportamento conjunto foram, pouco a pouco,
emergindo e sendo trabalhados pela família, na medida em que tomavam
consciência de aspectos anteriormentel negados.
A esposa foi deixando o papel de "louca" e passou a assumir novamente o
cuidado das crianças (que retornaramà casa), como também a manifestar-se mais
verbalmente, reivindicando que suas necessidades também fossem atendidas. O
marido, paulatinamente, foi capaz de perceber sua participação nos problemas
familiares.
Foi também possível esclarecer os papeis que cada um deles desempenhava no
jogo do "papai bravo" e "menina atrapalhada", pois reeditavam, no casamento,
sensações enrijecidas vividas com os próprios pais. Se, de um lado, o marido
repetia o modelo masculino autoritário recebido, de outro, a esposa repetia a mãe,
que também havia ”en- louquecido" e deixado os filhos menores aos cuidados
dosirmãos mais velhos. A própria moça em questão havia sido abandonada pela mãe
e tinha sido criada por uma irmã mais velha.
Nesta linha, a família busca o atendimento tentando envolver o terapeuta na
sua própria versão do problema. No momento em que o psicoterapeuta se desfaz
da posição inicial que lhe foi conferida, auxilia a família a se conhecer e a se
apoderar das partes negadas de suas personalidades, como também a reorganizar
o espaço de convívio, desfazendo, desmontando o mito familiar.
A ESCOLHA E O CONTRATO
SECRETO DO CASAMENTO
As motivações, que conduzem as pessoas ao casamento e a se manterem nele —
e que lhe dá qualidades particulares — são, em grande parte, inconscientes.
Compreender por que uma pessoa escolhe justamente unir-se a uma outra
determinada pessoa, selecionada a dedo em meio à multidão, não é simples, como
superficialmente possa vir a parecer.
Desconfiar, ainda, da sensação de liberdade cultivada pelo autor da escolha
também não é fácil. Refiro-me aqui ao fato de que a pessoa tem a impressão de que
está livre para escolher qualquer outra para seu par, sem interferência da família
ou de outras pessoas — ela é "dona de seu nariz". Contudo, estamos muito mais
aprisionados internamente pelos padrões de relacionamento desenvolvidos com as
figuras significativas da infância, com as quais convivemos, do que podemos
suspeitar.
Quando duas pessoas se elegem para parceiros amorosos, dificilmente
conseguem apresentar argumenta consistentes sobre por que justamente aquela
outra pessoa foi escolhida. Raramente as respostas fogem às generalidades
banais, além do que, comumente, falam som as boas qualidades do indivíduo amado.
Há muito pouco conhecimento consciente sobre as possíveis motivação que
compuseram o ímã que atrai exatamente tais duas pessoas. Essas motivações nem
sempre se relacionam com as boas qualidades, mas com as dificuldades da
personalidade do outro.
Isto pressupõe um ajuste das duas personalidades, como se cada um dos
parceiros procurasse no outro as peritos de si mesmo que não conseguiu
desenvolver; ou inversamente, procurasse no outro exatamente a mesma
dificuldade que possui, para juntos se protegerem do objeto temido.
Inconscientemente, a "escolha" é, então, feita a para de uma
complementaridade doentia, de um encaixe da personalidades das duas pessoas
em questão, denomina do "conluio" (pactos inconscientes ou "lealdades invisíveis").
Um homem com tabus sexuais, por exemplo, certamente escolherá para seu par
uma mulher também cheia de tabus, pois não "aguentaria" uma mulher liberada. No
nível manifesto (aparente), pode até parecer que as dificuldade) sexuais
desenvolvidas a partir daí sejam decorrentes da mulher que é "frígida", pois com o
homem parece não haver problemas. Uma pesquisa mais cuidadosa leva facil mente
a perceber que esta versão não é verdadeira.
Inversamente, quando uma pessoa procura na outra aa pectos que não desenvolveu
em si mesma, temos, por exemplo, o caso da mulher que se sente burra e que exalta
a inteligência do marido, como se somente ele a possuísse, como forma de
sentir-se engrandecida através dele e emprestar dele a inteligência de que se
sente desprovida.
Essa determinação de que os problemas estão localizados apenas no outro
viabiliza-se graças ao mecanismo de projeção, onde sentimentos e ideias
subjetivas do indivíduo são atribuídas objetivamente a pessoas e objetos.
Assim, um indivíduo que tenha muita dificuldade em expressar raiva pode
casar-se com uma mulher "raivosa", que consegue expressar tal sentimento em seu
lugar. Eia acaba incumbida de expressar pelos dois este sentimento.
Essa carga dupla, representada por um aspecto vivido por um elemento do casal
e aparentemente ausente no outro, acaba por pesar na experiência de ambos.
Existe uma ansiedade que faz com que seja importante conservar esses aspectos,
mas no outro. O mecanismo será estudado detidamente mais aprofundado, sob o
nome de "identificação projetiva", no item sobre a confecção do "bode expiatório"
no interior da dinâmica da família.
De alguma maneira, no ato da escolha, um captou que poderia ajudar o outro a
continuar um aperfeiçoamento na própria personalidade, que sozinho não
conseguiria. Compartilhando a mesma dificuldade, como no caso anteriormente
citado em que ambos não sabem como lidar construtivamente com sentimentos
hostis, buscam encontrar juntos uma saída mais adequada.
Em geral, esse movimento complementar se dá no sentido do crescimento, mas
também pode constituir um pacto destrutivo que colabore para adoecer ambos os
cônjuges, através de processos de mútua digladiação.
Desse modo, existiria sempre num casamento um acordo inconsciente no que se
refere ao contrato não-escrito — o contrato oculto. Um dos membros do casal
projeta aspectos indesejáveis ou desejáveis de sua personalidade sobre o outro,
que os aceita, uma vez que, em retribuição, também deposita aspectos seus
complementares no outro.
Nem sempre tais aspectos têm a ver com características pejorativas; por
exemplo, um homem pode não assumir seu lado generoso (o que seria sentido como
uma qualidade boa) e depositá-lo em sua esposa, como se ela fosse especialmente
generosa e ele não.
As crianças também podem sofrer as projeções de aspectos das
personalidades dos pais. Frequentemente carregam aspectos mal resolvidos de
todos como se fossem problemas pessoais seus, exercendo uma função reguladora
na família, na medida em que, ao permanecer nessa função, aliviam de tal carga o
resto da família.
Os anseios e medos inconscientes que configuram a natureza do contrato
oculto do casamento provêm dos relacionamentos da infância, pois todos os
indivíduos , apresentam padrões repetitivos de comportamento derivados do que
se estabeleceu nas primeiras etapas do desenvolvimento com as figuras parentais
(pais ou pessoas significativas que cuidaram da criança).
Muitas vezes, a escolha e o contrato secreto podem garantir a repetição literal
do que se passou com os pais na infância. Imaginemos uma mulher que trabalha e
vem sozinha sustentando a família, pois o marido se acomoda em casa sem sair a
procurar emprego, sendo que seu próprio pai tinha sido um desempregado crônico
e sua mãe a batalhadora. É comum também que filhas de pai alcoólatra] se
interessem por homens com distúrbios semelhantes.
Existem componentes inconscientes nessas escolhas que precisam ser
detectados durante a terapia de casal, de forma que as pessoas, ao se darem
conta dos respectivos mecanismos, possam refazer o alicerce sobre o qual o
casamento se sedimenta.
A união sadia implica reciprocidade e complementaridade construtiva no
atendimento às necessidades de ambas as personalidades. Todos os vínculos
amorosos, assim como todos os relacionamentos humanos, possuem aspectos de
gratificação e aspectos de desprazer, de conflito.
Tentar ampliar a possibilidade nutriente da relação só colabora com o
crescimento pessoal e conjunto, enquanto os segredos e os pactos ocultos apenas
restringem os relacionamentos e a oportunidade deum contato genuinamente mais
Intimo. E no sentido de denunciar e elucidar essas alianças que o psicoterapeuta
atua, pois uma vez que o casal se desvencilhe de suas armaduras, poderá
estabelecer uma troca interpessoal mais rica.
SUA MAJESTADE "O BEBE"
A psicoterapia de família pode auxiliar o casal no sentido de desenvolver
recursos que garantam a assimilação da criança no interior da família —
inaugurando a possibilidade de uma relação triangular sadia, sem que a criança seja
utilizada como campo de projeção de conteúdos mal resolvidos dos pais com as
próprias figuras parentais.
Quando o casal está "grávido", pode estar recebendo isto com muito agrado.
Mesmo assim, existem medos, temores, sentimentos confusos e ambivalentes que
precisam ser reconhecidos, embora a sociedade cobre felicidade total.
Será preciso abrir um espaço entre os dois para que a criança caiba, o que não é
tão simples assim. Imaginemos um casal com seu cotidiano estruturado, programas
com amigos e passeios de fim de semana, que precisa organizar tudo em torno de
um bebê recém-chegado, que mama de três em três horas e chora com dor de
barriga. E assim,
nunca mais estarão sós. Esta perda, contudo, poderá também trazer ganhos. Perda
e renovação ocorrem em cada estágio do desenvolvimento e é preciso que se
deixem certas experiências e possibilidades para trás, para que se possam atingir
formas mais adequadas às novas etapas de desenvolvimento. O luto diante das
perdas pode ser superado com o auxílio da percepção dos ganhos.
Quando não é possível esperar a chegada do bebê com maturidade, muitos
sentimentos normais e superáveis acabam por se acirrar, podendo vir a gerar
sérias confusões. Por exemplo, a chegada do bebê pode representar ao pai
regredido a vinda de um competidor, que lhe rouba a própria esposa (no caso
sentida como a própria mãe).
Um segundo filho pode ser sentido como intruso, na medida em que reedita a
situação de competição com os próprios irmãos reais de um dos membros do casal,
que permanece identificado com o primeiro filho, cujo trono é usurpado.
Deste modo, uma criança pode ser utilizada desde o nascimento como extensão
dos pais, recebendo papeis que se ajustam às fantasias desses pais, mas não a sua
própria personalidade e necessidades. Isto acabará por dificultar o
desenvolvimento das personalidades de todos os membros da família.
Quando um bebê está por vir, é preciso que se abra um lugar dentro do casal
para que ele possa existir. No caso de famílias com mais de um filho, cada novo
bebê é um indivíduo único e precisa encontrar seu lugar no seio da família.
O contato do casal com o(s) filho(s) pode vir a enriquecer o relacionamento
conjugal, em vez de perturbá-lo. Para isso, é preciso maturidade no processo de
construção da família.
O "FILHO-PROBLEMA" COMO O
PACIENTE IDENTIFICADO
O indivíduo portador do sintoma, na familia, recebe o nome de paciente
identificado. Isto significa que ele acaba por ser o encarregado de portar o
problema e "dar uma carona a todos”. Ou seja, o resto da família vive uma sensação
ilusória de que, na medida em que o elemento problemático melhore, o problema de
todos estaria, por tabela, sendo resolvido, sem que os demais fizessem muito
esforço.
Com isso, a família persegue o bode expiatório, fantasiando que, ao livrar-se
dele, livra-se dos conteúdos indesejáveis nele projetados. Isto é o que ocorre com
famílias com um membro drogado, alcoólatra, suicida, delinquente, ou mesmo com
clássico "capeta escolar”.
É por isso que a criança-problema está na fala dos pais, pois uma vez que o jogo do
”passa-passa a batata quente” seja compreendido, a criança mais real surge e tudo
começa a parecer bem mais coerente. Um filho excessivamente tímido pode, por
exemplo, ser redefinido como um filho esperto que tenta poupar-se de confronto
com os demais.
Contudo, embora a ansiedade seja compartilhada (seja de todos), com
frequência esse membro da família, que tem o(s) sintoma(s), incorpora o problema
como se fosse apenas seu, salvando assim os demais membros da família do
consequente "apuro" de lidar com tais conteúdos. O indivíduo passa, pois, a
desempenhar um papel na dinâmica familiar, funcionando como bode expiatório do
grupo.
Partindo da ideia de que os pais transmitem aos filhos seus conhecimentos de
acordo com os recursos psicológicos que possuem, não seria possível compreender
a dificuldade enfrentada pelo(s) filho(s) sem relacioná-las às F condições
apresentadas pelos adultos.
Assim, a ansiedade vivida por um filho pode reativar nos familiares as próprias
vivências que tiveram no momento evolutivo correspondente.
As formas encontradas para lidar com os conflitos e ansiedades em determinadas
situações serão apreendidas pelos filhos através dos modelos dos pais, de maneira
que estes dificilmente poderão oferecer algo diverso do que eles próprios
vivenciaram nas famílias de origem, a não ser que tenham seus conflitos infantis
melhor elaborados.
Para compreender como tal processo se torna viável, teríamos que recorrer à
noção psicanalítica de identificação projetiva introduzida por Melanie Klein
(1882-1960), em 1946. Ela utilizou essa expressão para designar o mecanismo
através do qual "uma combinação de partes cindidas do EU é projetada em outra
pessoa".
Isso quer dizer que os sentimentos e ideias derivados do mundo interno do
indivíduo são cindidos (divididos em pedaços) e projetados num objeto externo.
Consequentemente, o sujeito fica desprovido dessa parte do EU e vivenda o objeto
(a outra pessoa) como se ele possuísse a parte projetada.
Essas partes podem ser aspectos seus que o indivíduo considere tanto bons
como ruins. Pela complementaridade, o outro recebe tais projeções e se
transforma em cúmplice da configuração, num processo conivente de interação
(num pacto inconsciente).
Imaginemos um casal que vinha enfrentando problemas sexuais. O marido acusa
a esposa de ser completamente desinteressada do relacionamento sexual do casal,
enquanto se vê muito necessitado e o único autor das tentativas de aproximação. A
mulher justifica-se dizendo que o marido já chega em casa de cara "amarrada" e
que, dessa forma, não pode realmente se excitar.
O que ocorre aqui é que o marido acaba se sentindo responsável por cuidar
pelos dois da vida sexual do casal, enquanto a esposa vivência, também pelos dois, a
necessidade de trabalhar o relacionamento no que respeita ao diálogo, à
intimidade e demonstração de afeto.
No decorrer do atendimento, a esposa resolve investir na vida sexual do casal e
tomar a iniciativa. Surpreendentemente, o marido "fogoso e sexualizado" diante
do ato sexual acaba por não conseguir ereção pela primeira vez.
Nesse momento, abre-se a ocasião de reunirem os pedaços de forma a compor
cada um deles uma pessoa mais inteira. Isso na medida em que agora se falava de
duas pessoas nesse casal, ao mesmo tempo interessadas em ganhar intimidade (o
relacionamento sexual também aí incluído) e sentindo-se ambas "brochadas"
diante das dificuldades de contato encontradas.
O relacionamento sexual do casal melhorou muito, ao passo que as dificuldades
do relacionamento geral eram resolvidas. A problemática sexual era, pois, apenas a
pontinha de um iceberg, pois os obstáculos vivenciados eram bem mais complexos.
Desse modo, da mesma forma que a mulher da situação apresentada acabava
como bode expiatório das dificuldades do casal, numa família, qualquer elemento
pode assumir esse papel. As crianças são elementos propensos para atuar nessa
função, uma vez que estão menos estruturadas e são mais facilmente engajadas
nas dinâmicas de família.
No casode o indivíduo sintomático ser um filho, é comum que, depois de
algumas sessões iniciais, ele deixe de ser o tema principal e os conflitos do casal
comecem a aparecer. Os conteúdos inicialmente projetados no filho são
introjetados, não sendo mais preciso que ele funcione como o intermediário entre
os pais e suas dificuldades emocionais.
Isto não significa que os filhos possam ser dispensados da terapia, mas que
todos poderão trabalhar juntos esses mesmos temas aflorados através do
sintoma.
O bode expiatório é elemento importantíssimo no trabalho terapêutico, na
medida em que é o porta-voz da problemática da família e via de acesso ao
inconsciente familiar, pois expressa os conteúdos que, na verdade, são de todos.
Seria como se a família fosse dividir na sobremesa três bolos: um de chocolate,
um de coco e um feito de morangos estragados. Imaginemos que, na divisão dos
pedaços, a família deixasse todo o bolo com morangos estragados • para um
determinado membro do grupo.
O sintoma também é fundamental, pois é o alarme que põe em contato indivíduo
e problemas a serem avaliados. Imaginemos uma pessoa que pusesse
descuidadamente a mão no fogo e nada sentisse. O sujeito torraria sua mão e a
perderia. A dor do sintoma é, de fato, o alarme que indica perigo à vista e a
necessidade de se tomarem medidas.
Nesta linha, através do problema, a família se coloca em psicoterapia, numa
última tentativa de lidar com velhos conflitos e experiências primitivas da vida. Ao
psicoterapeuta será dado um lugar neste contexto: a família o convida a
compartilhar sua estrutura de referência.
Imaginemos uma situação exemplificativa. Uma família procura terapia familiar
por indicação de um psicólogo. O motivo da consulta é que o filho de sete anos é
muito agressivo, não se submetendo a regras em casa ou na escola, chegando até a
bater na irmã de seis anos e na própria mãe. O cotidiano é bastante turbulento
para esta família, como é fácil imaginar.
Aos poucos, esclareceram-se alguns aspectos relacionados com a psicodinâmica
da família. De um lado, o comportamento agressivo do garoto transformava-o num
menino-problema, o capeta que conseguia monopolizaras atenções de todos ao seu
redor, mesmo que para isso pagasse alto preço, como apanhar dos pais. Por outro
lado, tinha-se a sensação de que a irmã ficava anulada, desaparecida, pois estava
sempre à margem dos acontecimentos.
Em contrapartida, a maneira que a irmã encontrou de rivalizar com o irmão era
transformando-se na menina mais perfeita e na melhor filha possível. Na escola,
tinha excelentes notas e se comportava em todos os lugares como uma
"princesinha". Afora ser a maneira de se destacar diante dos pais, pois não poderia
competir com a mesma arma do irmão — a agressividade —, procurava, nas
sessões, salvar a todos de crises e ansiedades nos picos das tensões, falando alto
ou chamando a atenção sobre si mesma.
Assim, ambos os filhos disputavam o centro das atenções dos pais como se, no
colo deles, só coubesse um. Curioso foi observar que conforme o menino
desenvolvia o seu lado "doce", paralelamente vinha a primeira reclamação da escola
sobre a menina. Desta maneira, os dois se transformavam em crianças mais
"normais", mais inteiras.
De outro lado, a investigação da história dos pais nas famílias de origem
revelou fatos correlatos. Ambos possuíam apenas mais Um irmão de sexo oposto (a
esposa tinha um irmão e o marido uma irmã), o que sugeria a repetição de inúmeras
rivalidades mal resolvidas, através do novo casal de irmãos. Tal fato dificultava
que pudessem agora ajudar os próprios filhos a lidarem com sensações de
exclusão, disputa, ciúme, inveja e daí por diante.
Além disso, descobriu-se que não era apenas o garoto que não sabia o que fazer
da própria raiva, mas que ambos os cônjuges também não haviam aprendido isto
com os próprios pais. Na família dele, a mãe era poupada de qualquer notícia ruim e
os descontentamentos ou sentimentos hostis eram rapidamente apaziguados. Na
família dela, segundo sua própria visão, o irmão era o filho predileto e suas queixas
não tinham muito lugar.
Enquanto os pais tentavam resolver tais dilemas através da reedição desses
conflitos, agora com os próprios filhos, não havia disponibilidade para se ocuparem
com o "namoro" no casamento. Os conflitos das crianças tinham também por
função distrair o casal de suas dificuldades conjugais.
Muitas crianças como esta, no lugar de paciente identificado, trazem, através
de seus sintomas, um grito de socorro, como se dissessem: "Uma coisa grave está
acontecendo com meus pais e conosco! Estou desesperado!".
A FAMÍLIA NO DIVÃ
A psicanálise de casais se apoia em alguns princípios fundamentais. Em primeiro
lugar, como visto em capítulo anterior, tanto a escolha do parceiro quanto aquilo
que mantém o casamento e lhe confere características específicas estão
relacionados a motivações inconscientes. Não se escolhe o parceiro apenas devido
a seus aspectos expressamente "bons", como comumente se pensa, mas também
por fatores inconscientes (dos quais não nos damos conta).
Outro aspecto importante é que existem duas tendências num casamento: uma
de criatividade e outra de destrutividade. Criatividade porque o casamento é uma
tentativa, mesmo que às vezes fracassada, de lidar com o passado e continuar a
desenvolver-se no sentido do crescimento. É uma tentativa de resolver conflitos
antigos inconscientes através da escolha de um parceiro que, ao complementar tais
conteúdos, enseja que tais conflitos possam vir a ser lidados no presente, no
processo do casamento.
Destrutividade porque o casamento implica na repetição de conflitos
vivenciados com os próprios pais (ou outras pessoas significativas), que são
revividos na nova composição de casal, reeditados dentro da dinâmica da nova
unidade familiar. Por exemplo, um indivíduo que encontrou muita dificuldade em
trocar carinho com os pais, provavelmente, também encontrará dificuldade em dar
e receber carinho com outras pessoas. Deste modo, a mesma dificuldade se
reedita em novos relacionamentos e no casamento.
Isto explica por que uma pessoa pode concluir por separar-se e acabar
contraindo um ou vários outros casamentos subsequentes com problemáticas de
estrutura semelhante. Uma vez que a questão a ser resolvida é interna ao sujeito,
de nada adianta a troca de coadjuvantes.
Assim, no trabalho analítico com casais é importante que se investigue como se
deu a eleição (a escolha) do parceiro amoroso e se desenvolveu o processo
conivente de interação (a cumplicidade, o estabelecimento de pactos
inconscientes). Para tanto, são importantes informações não só sobre a família
nuclear, mas também sobre a família de origem de ambos os parceiros.
Nesta linha, afirma Henry Dicks (psiquiatra, Londres): "Quando los padres
comieron uvas verdes, ios hijos tienen dentera" ("Quando os pais comeram uvas
verdes, os filhos têm diarreia"). Ou seja, os pais oferecem como modelo de
comportamento aos filhos o modelo que também tiveram (ou como o vivenciaram)
e, geralmente, educam seus filhos com a melhor das intenções. Mas, além dos
aspectos bons, as dificuldades também são transmitidas e retraba- Ihadas na vida
intrapsíquica dos filhos.
Certas dificuldades podem, com isso, ser passadas de geração a geração.
Vamos supor que uma mulher de personalidade dominante se case com um homem
mais submisso. Este modelo de casal pode ser repetido pela filha e, quem sabe,
mais tarde, pela neta do casal em questão.
Com isso, o analista de casal e família terá por função destacar o sentido
latente (subliminar, que fica "embaixo dos panos”) existente nas palavras e açõesdo grupo familiar, trazendo à tona os conflitos subjacentes em tais
comportamentos (através de interpretações); ser tolerante ante as frustrações
da família assim também como ante as suas frustrações; ajudar a família a
modificar-se, em vez de evadir-se; receber as projeções de sentimentos,
percepções etc., vividos e internalizados, que derivam de experiências de
relacionamentos anteriores dos sujeitos com as figuras parentais (com os pais).
Em Psicanálise, estes processos recebem o nome de atitude de continência (por
parte do terapeuta), manejo da transferência e da contratransferência.
No processo transferencial, em vez de o indivíduo lembrar-se de experiências
vividas com os próprios pais ou figuras significativas, o sujeito representa as
emoções na relação com o terapeuta. Por exemplo, um indivíduo muito desconfiado
não necessitará de motivos reais para se sentir perseguido pelo analista. Por
transferência, ele provavelmente reagirá tal como se o analista fosse aquela
pessoa da qual ele precisa proteger-se.
Por contratransferência entende-se o mesmo processo, só que por parte do
analista. Seriam as vivências que são atualizadas no seu interior, a partir do que
sucede no contexto do processo. O analista precisaria perceber tais experiências
e utilizá-las adequadamente na relação com seu cliente, no sentido de ajudar a
compreensão dos processos em jogo, em vez de atuar tais conteúdos (por exemplo,
sendo realmente a figura persecutória para o indivíduo descrito no parágrafo
anterior). É frequente a sensação contratransferencial oferecer informações
importantíssimas a respeito da dinâmica psíquica do cliente.
Suponhamos que um casal reage ao processo de psi- coterapia da seguinte
maneira: o marido está animado, achando que juntos podem vir a resolver os
conflitos conjugais, ao passo que a esposa se mantém desanimada. Imaginemos que
o casal está sendo atendido por um casal de co-terapeutas (dois terapeutas
trabalhando em parceria), que comece a se sentir do mesmo modo. Um incorpora o
ânimo pelo trabalho e o outro se mantém mais descrente.
Poder-se-ia dizer que cada um dos co-terapeutas se identificava com um dos
membros do casal e acabava por reproduzir, dentro do "casamento da co-terapia",
a estrutura da dinâmica psíquica do casal em atendimento. Ao refletirem sobre
tais sensações e discutirem sobre o desenrolar da sessão, podem vir a descobrir
elementos importantes para a continuidade do processo terapêutico.
Na terapia de casal e família, as fantasias inconscientes são comuns a todos,
são partilhadas. A família irá transferir tais fantasias para a situação terapêutica
e convidar o terapeuta a ocupar algum lugar nisto tudo. O analista deve estar
atento a estes processos e trabalhar, não os aspectos psicológicos de cada
membro, mas sim o inconsciente grupai. Mais precisamente analisará as fantasias
inconscientes compartilhadas e comuns a todos os membros da família, e as
ansiedades geradas por essas fantasias, que induzem os membros da família a
utilizarem defesas complementares entre si.
Vejamos um exemplo: uma família composta por mãe e duas filhas (uma de sete e
outra de quatro anos). A mãe procura psicoterapia para a menina de sete anos que
acaba de desenvolver uma fobia escolar: de uma hora para outra, passa a
recusar-se a ir à escola e, quando forçada a isso, fica o período todo em pó ao lado
do portão de saída, não cedendo a nenhum apelo de qualquer pessoa (mãe, diretora,
professora, amiguinhas etc).
Ao longo das investigações, descobre-se que o pai havia falecido
repentinamente, havia dois meses, de ataque cardiaco, numa manhã quando saía
para trabalhar. Ocupando-se da fobia escolar, todos se protegiam, através de um
pacto, de vivenciar e elaborar o luto da perda do membro da família.
Tal situação se transferia ao contexto terapêutico, uma vez que toda iniciativa
por parte do analista em trazer o tema às sessões era rapidamente sabotada pela
família — a mãe despistava, queixando-se da rebeldia da filha de sete anos, que se
esforçava deste modo em manter-se no centro das atenções, enquanto a filha de
quatro anos falava alto, atrapalhando a conversa dos adultos e chamando a atenção
para outros temas e brincadeiras.
A família representará, portanto, no contexto relacionai com o analista seus
principais dilemas, oferecendo a ele um papel complementar no interjogo de sua
dinâmica. O analista inicialmente aceita tal papel, para compreendê-lo e entender
o funcionamento da família — o que ela quer dizer através do sintoma fóbico de um
dos seus membros —, mas em seguida o abandona, tentando mostrar à família o que
se passa, de forma a encorajá-la a procurar novas acomodações mais sadias, que
permitam abandonar o sintoma.
A FAMÍLIA COM CRIANÇAS EM
PSICOTERAPIA
As crianças, mesmo muito pequenas, podem com certeza ter um lugar de grande
importância no desenrolar do processo psicoterápico. Com seu modo mais
autêntico de ser, acabam de alguma maneira oferecendo informações valiosas
sobre a real natureza das experiências emocionais compartilhadas na família. É
preciso "ler" o comportamento não-verbal da criança e relacioná-lo ao tema
debatido por todos na sessão.
Muitas pessoas, contudo, não conseguem imaginar de que maneira as crianças
poderiam colaborar numa sessão psicoterápica. É comum, mesmo entre os
psicólogos alunos de curso de formação nessa especialidade, que se pergunte:
"Mas o irmão tem apenas um ano; ele vai ficar fazendo o quê? Deverá vir?".
O que ocorre, de um modo geral, é que a família vem para atendimento e encontra
na sala do psicoterapeuta um espaço onde todos caibam, independentemente da
idade que tenham. Para as crianças, ficam disponíveis alguns brinquedos, uma pasta
individual com material gráfico para desenho e outros recursos que se possa
oferecer, como: lousa, massinha, guache, argila etc. A escolha do material a ser
colocado para as crianças dependerá de suas idades e do nivel de maturidade de
cada uma.
É comum que, no início, as crianças se sintam inibidas, enquanto reconhecem o
novo espaço; mas é também muito frequente que, num curto período de tempo, se
aventurem a explorar o material. Ocorrem momentos iniciais em que os pais ficam
tentando fazer com que a criança tome alguma iniciativa e sobre isso são
tranquilizados: "O material está aí; no momento em que seu filho quiser utilizá-lo,
ele o fará por si só. Deixemos todos à vontade para fazer e falar o que quiserem”.
Frequentemente, os pais iniciam um diálogo, enquanto as crianças aos poucos
assumem algumas atividades. Todo comportamento verbal e não-verbal (seja
através do posicionamento da criança na sala de atendimento, seja através do jogo
lúdico) se relaciona com o tema que está sendo tratado. Se o terapeuta consegue
"ler" isto e "traduzir" para o resto da família o significado da ação de uns aos
outros, muitos conteúdos e sentimentos podem ser esclarecidos.
O desenho a seguir foi feito por uma menina de onze anos, durante uma sessão
de terapia de família, quando se falava sobre como ela, filha, construía uma
imagem de sua mãe muito frágil, enquanto o pai lhe parecia uma figura forte, que
aguentaria dificuldades.
Ao mesmo tempo que o tema era colocado pelos pais, a menina inicia este
desenho: é Jaspion (super-herói), que na verdade é ela mesma, carregando a mãe
nos braços.
Se observarmos cuidadosamente o desenho, veremos que ele representa
graficamente o que os pais abordaram verbalmente.
A filha identifica-se com o super-herói, pois deseja ter seus superpoderes e,
ao mesmo tempo, representa como um personagem masculino, que acredita ser
mais poderoso diante da vida, com o controle sobre o mundoe, portanto, sobre a
própria família.
No desenho, a mãe é um personagem que ela facilmente manipula. Na vida real,
quando zangada, hostiliza o pai, pois acredita que ele pode aguentar os seus
ataques. Assim, ele acaba recebendo o ódio da filha em "dose dupla”, mantendo a
mãe poupada, uma vez que esta é vista como frágil. Dessa forma, amor e ódio eram
cindidos, dicotomizados e projetados sobre os pais.
Com a psicoterapia, a menina consegue, aos poucos, integrar esses pedaços de
si mesma e compreender que cada uma das pessoas é forte e fraca, potente e
impotente, hábil e inábil. Paralelamente, os pais também podem integrar os
pedaços e perceber que a filha lhes dirige ódio e amor, pois inicialmente o pai se
acreditava somente odiado e a mãe era apresentada como o centro das atenções
da filha.
O pai se sentia muito rejeitado e alheio à relação mãe e filha, permanecendo
com inveja da esposa que, na sua visão, acabava ficando com o melhor que a filha
tinha a oferecer. A menina, que antes só se interessava por "coisas de menino” e
desejava ser um, acaba por se interessar também por objetos femininos; por
exemplo, passa a usufruir os presentes que recebe dos pais, tal como usar as
roupas que o pai lhe dava (as quais anteriormente desprezava) e "curtir" mais seu
quarto cor-de-rosa.
E difícil aos pais, por si sós, decifrarem a linguagem que permanece subjacente aos
jogos infantis, pois estão demasiado envolvidos também com tais conflitos e,
frequentemente, "lêem" os jogos apenas como brincadeiras. No contexto da
terapia, o psicoterapeuta pode exercer esse papel de "tradutor", fomentando
maior contato entre os membros da família.
Imaginemos uma outra situação em que um casal procura terapia: estão
brigando muito e pensando em separação. O relacionamento vai muito mal e as
tensões em casa aumentam. O casal chega a uma das sessões preocupado com a
única filha de quase três anos, que vinha desenvolvendo um medo exagerado de
palhaço — não queria mais ir às festinhas de crianças porque haveria Show de
palhaço e ela entrava em crise de choro. A filha voltava em prantos, o que a
impossibilitava de conviver com as outras crianças e desenvolver sua sociabilidade.
O sintoma havia aparecido de repente e os pais preocupados me perguntavam
sobre a necessidade de uma ludoterapia (terapia infantil individual) para a criança.
Peço que a tragam e, no primeiro encontro, ela inicia um jogo com a casinha,
arrumando os móveis e as pessoas: coloca dois bonecos na cama de casal e, quando
inquerida, informa que eram o pai e a mãe juntos. A partir daí o tema da conversa
girou em torno de como a filha podia perceber os conflitos entre os pais e ali
expressava seu desejo ativo de que pai e mãe permanecessem juntos.
Além disso, quando estava mal, conseguia manter pai e mãe ocupados com ela,
criando os únicos momentos em que ambos pareciam realmente juntos,
funcionando como um casal. Esta era, talvez, a única situação em que o casal se unia
em colaboração, aliava-se para resolver problemas, o que dava à filha a sensação
de manter pai e mãe interligados. Enquanto o casal se unia para socorrer a filha,
estabelecia uma trégua, que também os tranquilizava e permitia que não tivessem
de decidir nada, pelo menos naquele momento. O sintoma da criança, então,
também lhes era útil.
A mutação da pessoa em palhaço acabava por ser associada à mutação da
família, que também ganharia outra cara, caso os pais viessem a concretizar a
separação. A cara antiga era conhecida e segura; a cara nova, transformada,
ninguém sabia o que era capaz de fazer, tal como quando se esperam "as peças" que
o palhaço vai pregar.
A filha começou a frequentar festinhas infantis e, mais tarde, foi à primeira
excursão da escola, na medida em que estas situações emocionais foram sendo
compreendidas e trabalhadas. Caberia aqui perguntar o que uma criança de quase
três anos estaria fazendo numa ludoterapia, sem que tais conteúdos fossem
trabalhados em conjunto e no interior da dinâmica familiar. Certamente o trabalho
que integre a participação dos pais nas dificuldades apresentadas pela criança
pode ser muito mais abrangente.
A COMUNICAÇÃO EM FAMÍLIA
Promover o diálogo em família não é simples, sobretudo sem o auxílio da
psicoterapia. Frequentemente, as famílias, de escasso diálogo entre seus
membros, estruturam um pacto de defesas compartilhado (onde todos participam)
de forma a garantir sua obstrução.
0 medo de que os ternas-tabus eclodam e que se tenha que encarar as
dificuldades colabora no sentido de que os membros da família não busquem um
contato mais autêntico uns com os outros. Nessas questões, um psicoterapeuta
pode ajudar.
0 mero pertencer a uma família não imuniza contra a solidão. É comum, nas
conversas informais, ouvir queixas de uma pessoa em relação aos parentes que não
a compreendem. Em muitas famílias a co-habitação não gera o estreitamento dos
laços entre as pessoas.
Nas grandes metrópoles, as crianças ocupam-se em tarefas e numerosas
atividades, inclusive extra-escolares, reduzindo cada vez mais o tempo de contato
com os familiares e de brincadeira com outras crianças. O ingresso paulatino da
mulher no mercado de trabalho, as dificuldades financeiras que aumentam e o pai
fatigado do começo da noite somente agravam o quadro. „
Tais crianças acabam se transformando, nas classes mais pobres, no
adolescente que ingressa precocemente no mercado de trabalho e que
compartilha, ao final do dia (quando não estuda à noite), da fadiga familiar com
seus pais subempregados (se estes não estão fazendo hora extra); ou, nas classes
mais altas, no superadolescente, financeiramente abastado, que se divide entre
escola, e consequentes tarefas de casa, aulas de natação, vôlei, inglês, francês,
violão, piano, sapateado etc.
A distância entre as gerações e a televisão como babá — ou, no caso do adulto,
como calmante — agravam os problemas familiares. Vê-se que, no mundo moderno,
achar um tempo para sentar e conversar com o filho, ou com os pais, não é fácil.
Quase que se têm que abrir a agenda para registrar quando será a brecha.
Deste modo, compartilhar experiências, falar sobre os sentimentos e trocar
ideias são privilégios de algumas famílias. Neste contexto a comunicação se
mantém precária, limitada aos aspectos superficiais do cotidiano.
É possível que a família descrita se transforme numa familia conflitiva, que
exerce o movimento contrário, como se andasse no contrafluxo: em vez de
promover o crescimento de seus membros, o obstrui. '
Para se transformar em nutridora, a família precisaria oferecer condições
adequadas para que o bebê se transformasse num adulto maduro. Se os indivíduos
"empacam", a evolução do ciclo vital da família também fica incompleta e
dificilmente poderá liberar os elementos mais jovens para a composição de novas
unidades familiares.
Paul Watzlawick (Paio Alto, Califórnia) identifica dois tipos de comunicação
frequentes nas relações humanas e, portanto, também dentro da família: a
comunicação simétrica e a complementar. Ambas podem significar algo provedor
ao crescimento, quando não enrijecidas. Existiriam, ainda, as comunicações digital
e analógica.
A comunicação simétrica implica uma simetria, como o nome propriamente diz,
uma igualdade de condições. Ambos os indivíduos possuem recursos equitativos.
Vejamos um exemplo:
Um casal possui potencialidades de mesma qualidade — capacidade de trabalho,
recursos para resolver situações problemáticas, sensibilidade para compreender
as necessidades dos filhos e para cuidar deles —; podem funcionar em
colaboração, exercendo papeis semelhantes, o que auxiliaria o desenvolvimentode
todos. Destrutivamente, poderiam utilizar esta mesma condição numa "escalada
simétrica" de rivalidade contínua, competindo para decidir quem é o melhor.
A comunicação complementar implica na ideia de que o indivíduo irá exercer a
função que o outro não está apresentando, de forma a complementá-lo. Naquele
momento, ambos os indivíduos funcionam como única composição.
Imaginemos um casal onde a mulher não está conseguindo decidir sobre como
lidar com o filho diante do quarto bagunçado. O pai se interpõe, argumenta com o
filho e este arruma o quarto. Isto pode ser rico enquanto troca de ideias sobre a
educação desse filho e como modelo de atuação que o marido oferece à esposa,
momentânea- ' mente insegura, podendo resultar em algum aprendizado.
Se essa complementaridade, contudo, se transformar em algo crônico e
enrijecido, ou seja, se toda vez que precisar exercer sua função, a mãe tiver de
emprestar a capacidade de atuar com autoridade sobre o filho e a capacidade de
diálogo do marido, isto funcionará como algo restritivo ao crescimento de todos:
da esposa, porque não desenvolverá tais aspectos em si mesma; do marido, porque
permanecerá sobrecarregado nesta função, descuidando de outros aspectos; do
filho, porque não receberá um modelo de casal e de paternidade com pessoas "mais
inteiras", provavelmente separando de forma estanque o que pertence aos papeis
feminino e masculino.
A comunicação pode ser, ainda, digital ou analógica. A primeira, tal como o
relógio digital onde aparecem os dígitos indicando diretamente o número de horas
e minutos, lida com sinais. Assim, nas relações humanas, esta linguagem
corresponderia à linguagem verbal onde as palavras se associam diretamente a
determinados objetos ou ações.
A comunicação analógica poderia ser comparada ao relógio com ponteiros, que
exige que o interessado estabeleça uma relação entre suas posições para
descobrir a hora indicada.
Também nas relações humanas é possível obter informações através do
comportamento que não ó dito (falado), mas demonstrado através da atitude, de
pequenos gestos e expressões, do posicionamento espacial com os outros e demais
comportamentos não-verbais, bem como da própria possibilidade de múltiplas
interpretações do que é dito.
Esta divisão entre linguagem digital e analógica acaba por ser estanque e para
fins didáticos, pois na prática dificilmente uma comunicação digital deixa de
exprimir um conteúdo analógico. Por exemplo: uma criança que diz na sessão
"Agora vou para casa" pode estar, na verdade, dizendo "Agora vou para aquele
lugar horrível!", ou mesmo o oposto: "Por favor, vamos parar com isso e deixe a
gente ir para casa e continuar como estávamos".
Numa psicoterapia, não somente a linguagem verbal é considerada mas também a
linguagem não-verbal, que pode ser reveladora da estrutura psíquica do grupo
familiar. As crianças pequenas, principalmente, participam da sessão utilizando a
linguagem não-verbal como principal via de comunicação, ao que permanece atento
o psicoterapeuta.
O CASAMENTO NO MUNDO
ATUAL
As mudanças sociais, através dos tempos, envolvem mudanças de valores no
ambiente familiar.
Estas mudanças geram tensões e necessidade de reestruturação dos papeis de
cada um na família. Os novos valores conflituam com a educação recebida dos pais.
A combinação dos conflitos individuais no casamento transformam-se em
problemas para os quais fica difícil encontrar uma saída.
A psicoterapia familiar pode desempenhar um papei importante nesse
contexto, auxiliando a família na compreensão desses processos e no
encaminhamento de novos arranjos.
Quando pensamos no casamento no mundo contemporâneo, na maior parte das
vezes não nos remetemos ao casamento realizado "para a vida toda", tal como nos
valores de bem poucas décadas atrás.
A não ser em setores bem conservadores da sociedade, onde o casamento é
indissolúvel a qualquer custo, ele tem sido visto como uma experiência de
relacionamento que se inicia com o desejo de que tudo transcorra bem e se
mantém enquanto as necessidades de ambos os cônjuges possam ser nele
satisfeitas.
Hoje a maior proporção de pessoas desquitadas ou divorciadas cria uma certa
faixa social que afronta os valores do passado, que exigiam a vida conjugal
indissolúvel, mesmo que absolutamente infeliz.
Há dez anos, por exemplo, uma pessoa que decidisse enfrentar a família e o
meio social, separando-se do parceiro, era alvo de poderoso preconceito e
marginalizada como "má companhia". Os motivos que tivessem levado tal pessoa a
essa decisão não era o mais relevante. O mais nítido era o estigma de "desquitado".
Antes ainda, uma moça, que desejasse casar-se com um homem separado,
necessitaria fugir de casa para tanto e, muitas vezes, arcar com o rompimento com
a família de origem por muitos anos, como represália pela sua decisão
independente.
Com isso, os jovens, atualmente, procuram alguém com quem possam
compartilhar suas existências e, quem sabe, ter filhos e constituir uma nova
unidade familiar. Não é mais a mera regra que seguraria um casal jovem unido,
provavelmente, pois o mundo atual tem um espaço mais flexível para as pessoas que
desejam desfazer o casamento (a lei do divórcio instaurou-se no Brasil nos anos
80).
Assim, se um casal se mantém unido, mais frequente- mente o faz pela
possibilidade de manter uma relação sempre renovada, que até pode durar toda
uma vida. A sociedade moderna sofre, contudo, de outra ordem de dificuldades
que, poder-se-ia arriscar a dizer, chegam a ser traços sociais predominantes.
Numa sociedade que gera personalidades competitivas, narcisistas (indivíduos
embotados em si mesmos, auto-referentes, que exigem o mundo à semelhança de
suas imagens no espelho), casar não é tarefa fácil.
Tais pessoas tendem a funcionar pelo sistema de gangorra: "ou tudo ou nada"
("oú oito ou oitenta"). Ou o indivíduo "supostamente amado" corresponde ao
modelo de expectativa dentro do sujeito ou já não é possível mais nada.
Não se pode esquecer que a personalidade narcisista, no fundo se apaixona por
um objeto interno de si mesmo (ama seu próprio ego no outro), que permanece
projetado no parceiro amoroso. O indivíduo não se vincula com o outro "real", cuja
existência se dá independentemente da sua.
Tais pessoas esperam, então, que o outro possa corresponder ao que elas
necessitam e não conseguem tolerar qualquer elemento desfavorável que advenha,
tanto do outro quanto de si mesmo.
É fácil observar, deste modo, como muitos jovens se casam ainda brincando do
jogo de "príncipe e princesa". Imaginam que o outro agirá dentro do que se espera
dele e de seu papel de esposa ou marido, como se as pessoas pudessem ser
encontradas prontas, e do jeito que se quer.
No discurso de senso comum se diz: encontrar a "outra metade" que irá
completá-lo. Como se a solidão fosse facilmente preenchida e o difícil fosse achar
a pessoa "certa".
Claro que um relacionamento não se instaura ao se deparar com um príncipe, ao
beijar-se um sapo ou ao despertar de Bela Adormecida, mas precisa ser
construído aos poucos, pelas duas pessoas. E preciso regar e alimentar o vínculo
interpessoal que se deseja cultivar.
Nesta linha, não se trata de achar um parceiro amoroso que se encontre
pronto, mas de entrar em um relacionamento a dois, a ser trabalhado por ambos na
direção de maior consideração às necessidades de cada um, realizando-as dentro
do possível.
Quando se lida com conflitos no contexto da psicoterapia, podem-se
desenvolver as partes mais imaturas das personalidades dos componentes de um
casal.
É possível, ainda, investigar e superar os conflitos geradospelas várias partes
fragmentadas e paradoxais das personalidades dos indivíduos. Por exemplo, o
casal pode desejar ter uma vida sexual mais livre, sem preconceitos, tal como os
jovens de sua geração; por outro lado, recriminam-se por sua prática sexual,
sentindo-se culpados, tal como aprenderam com seus pais.
Muitos casais não entendem por que namoravam tão alegremente antes do
casamento e, depois dele, assumiram os papeis de esposos num ritual demarcado e
sem graça. Para onde foi o encanto? Tais questões podem ser aclaradas através do
processo psicoterápico, que busca investigar os elos de ligação entre estes
eventos.
Na medida em que as dificuldades vão sendo resolvidas, abre-se o ensejo para
um casamento mais provedor, no que respeita às necessidades adultas de ambas as
pessoas. Além disso, fica também mais fácil ajudar os filhos a se desenvolverem
nos mesmos aspectos.
As pessoas que encontram dificuldade em entender o casamento nesta
perspectiva, caem frequentemente em contínuas cobranças mútuas, sem que a
energia seja utilizada no sentido de descobrirem, afinal, quem é o outro. Diante da
frustração e da raiva que as acompanha, esquecem-se, com frequência, que a
pessoa odiada é também a pessoa amada.
A acusação "Por que você..." precisaria ser substituída pela interrogação "Por
que ajo assim?" ou "Qual a minha parte de co-responsabilidade no que está
ocorrendo?". Ou seja, as acusações ao outro ou a si mesmo precisariam ser
substituídas por uma reflexão conjunta a respeito de como ambos estão
construindo esse relacionamento.
Numa sociedade competitiva, as pessoas não se dão conta de que, numa briga de
casal, não há vencedor nem vencido, mas apenas a derrota. O casai sadio é,
necessariamente, um casal cooperativo.
AMOR E PAIXÃO
O indivíduo que ama não só se enamora por atributos que o outro possa possuir,
mas também tolera e lida com as diferenças de personalidade que lhe possam
parecer adversas.
Diante de conflitos, que certamente vão ocorrer em algum momento, é
importante que o casai abra um espaço de continência a eles e reúna os recursos
para elaborar uma solução em conjunto, que atenda a ambos os parceiros. Afinal,
não se compôs um casal para se continuar sozinho. É no desenvolvimento desses
aspectos que a psicoterapia de casal e família procura colaborar.
Muitos não conseguem definir ou compreender o teor dos sentimentos que
desenvolvem por uma pessoa, que é vi vendada como "objeto de amor".
Os jovens, então, muitas vezes se embaraçam, não sabendo o que verbalizar ao seu
parceiro (ou parceira): "Eu te amo", "Eu te adoro", "Estou apaixonado", "Estou
vidrado em você" etc. Para quem ouve, tais declarações podem ter, ainda, um
significado especialmente particular. Por exemplo, um namorado pode dizer à
namorada que a ama e ela entender que ele já quer casar com ela. Ou uma namorada
se diz apaixonada e o namorado compreende que, então, não gosta dele tanto assim
e que os sentimentos dela serão passageiros.
Por isso, é comum, hoje, que se sinta uma grande insegurança com relação aos
sentimentos do outro. Isso parece até poder explicar o fato de que também é
comum, entre jovens, não saber mais como esclarecer a si próprio e aos outros
sobre o relacionamento que vêm estabelecendo. Como distinguir se é uma "transa",
"um namoro", "um caso" ou se apenas "se ficou" com ele (ou ela).
Essa expressão "fulano ‘ficou’ com fulana" é a novidade desta virada de década.
Significa dizer que o casal de pretendentes a um envolvimento passou a noite, um
dia ou um tempo relativamente curto como um casal de namorados.
A breve experiência funciona como uma tentativa, mas também libera o jovem
casal para tomar iniciativas com novos parceiros. Contudo, apesar desse caráter
dispersivo, a paixão ainda prevalece como uma das experiências mais marcantes da
juventude.
É vista, predominantemente, como a paixão romântica: o poeta do período do
romantismo acabava definhando no ardor da paixão pela amada, que se mantinha
como a musa adorada a distância e concretamente inatingível.
Na mitologia grega, o Cupido atira flechas em outras pessoas com o objetivo de
transformá-las em apaixonadas. O Cupido, que era cego, por intermédio de sua
flecha transfere a cegueira aos demais — as pessoas eram atingidas pela cegueira
do amor. Adviria daí a ideia de que a pessoa apaixonada está cega em relação a
quem é, "em verdade", o outro.
A pessoa apaixonada estaria, deste modo, num estado psíquico em que não pode
considerar quem é o outro, pois nele coloca a finura de um ser idealizado, que não
passa, realmente, de uma projeção de um pedaço de si mesma.
Isto explicaria por que a paixão é súbita, inexplicável, intensa e também porque da
mesma maneira que vem, vai, ruindo abruptamente. n I
Sigmund Freud (1856-1939) compara o estado de paixão ao estado hipnótico.
Da mesma forma que o hipnotizador constitui o único objeto (a única pessoa de
interesse) do hipnotizado, não prestando atenção a mais ninguém que não a ele,
assim também ocorre com o indivíduo apaixonado em relação à pessoa amada.
I
O apaixonado, encantado com as "perfeições" que se esforça para conseguir
para o próprio ego, vislumbra consegui-las através do outro (do amado) de maneira
indireta, como meio de satisfazer seu próprio narcisismo.
Poder-se-ia dizer que na paixão se está amando "um eu idealizado”, que se
gostaria de ser, imaginando que isto foi encontrado na outra pessoa. Na medida em
que o relacionamento se prolonga, dura, toma-se impossível a sustentação dessa
imagem e, diante das diferenças pessoais e das adversidades, a paixão desmonta.
Isto se deve ao fato de que o outro nunca poderá corresponder ao "eu idealizado"
que é projetado sobre ele.
Quando a paixão acaba, se as duas pessoas têm condições de iniciar um
processo de recíproco conhecimento, um amor mais maduro, que considere a outra
personalidade, pode nascer. Por isso, a paixão tem fama de ser intensa, frágil e
passageira e o amor de ser um sentimento mais fortalecido e duradouro.
No caso da paixão, quanto maior for a idealização que se faz "de si no outro",
maior será o tombo, pois o pedestal onde se colocou o outro será mais alto. O amor
promete algo afetivamente mais seguro, mais genuino; para vivenciá-lo, numa
relação de casal, é preciso que as duas personalidades tenham atingido maior
maturidade.
Entende-se aqui por maturidade a capacidade de relacionamento interpessoal
que considera o outro como um outro e não como reflexo de si próprio. Exatamente
por isso não se pode esperar dele que corresponda sempre às próprias
expectativas e necessidades.
E importante compreender também que, ao se compor um casal, é preciso caberem
nele as necessidades de ambas as pessoas.
CASAIS SEPARADOS. OS
MEUS, OS TEUS E OS NOSSOS
O psicoterapeuta de família pode ter um papel fundamental diante dos
processos emocionais em jogo, quando um casal decide separar-se.
Pode funcionar como um "tradutor" que objetiva colocar pais e filhos, adultos e
crianças num contato recíproco mais autêntico. Desse modo, as emoções mais
escondidas ganham ensejo de compartilhamento, oferecendo elementos
fundamentais para a tomada de decisões e sua sustentação em família.
Quando os problemas e a situação de convivência de um casal se tornam
insustentáveis, na maior parte das vezes busca-se alívio através da separação. É o
veículo que permite afastar o mal-estar mais imediato.
Em seguida, o casal se dá conta de que, paralelamente, surgem novos problemas; a
experiência não é tão simples assim. Fica difícil lidar com os sentimentos
ambivalentes e as duas pessoas se vêem diante do dilema entre querer e,ao mesmo
tempo, não querer a separação.
Por mais que haja alívio diante dos aspectos do relacionamento e do outro, com
os quais não se quer arcar, existem também os aspectos bons que não se quer
perder.
Há uma série de lutos a serem elaborados (pesar diante do que não se vai viver
mais por estar longe do outro, com sua perda), pois a separação de um casal implica
na vivência de morte, dado o desaparecimento do outro no interior do mundo
pessoal.
Uma vez que, nas relações amorosas, partes de um sujeito (expectativas,
fantasias, qualidades etc.) encontram- se depositadas no outro e vice-versa, a
separação, por contraponto, envolve não só destruir a imagem do outro em si
próprio, mas também suportar que o mesmo ocorra com a sua imagem na
consciência do outro.
Isto explica por que é tão incômodo ver-se rapidamente substituída (o), ao
verificar que o antigo parceiro (a) já estabeleceu um novo relacionamento.
A negação das perdas ocorridas com a separação e a dificuldade de elaborar
em conjunto a ambivalência de sentimentos conduzem, muitas vezes, a uma
separação bem atrapalhada.
Não é raro os filhos presenciarem as brigas e serem utilizados como
pombos-correios entre os pais, além das reclamações e xingamentos que ouvem de
um para outro, o que só os tomam mais confusos. Casais melhor estruturados,
contudo, preocupam-se com os efeitos que o impacto da separação pode provocar
em seus filhos.
A ideia de que casais que se separam acabam por gerar inevitavelmente
"filhos-problemas" não é real, pois muitas vezes o descasamento pode representar
a única saída saudável para o crescimento das pessoas envolvidas. Pode, por
exemplo, significar uma tentativa de romper com a simbiose estabelecida, na
busca de um desenvolvimento pessoal.
Chamo de simbiose o tipo de relacionamento onde as duas pessoas envolvidas se
fundem, compondo uma só personalidade. É o conhecido jogo do "você me empresta
uma perna, eu te empresto um braço e aí vamos andando".
A simbiose limita o crescimento, na medida em que não permite que cada pessoa
desenvolva, dentro de si, os aspectos correspondentes.
Para sair dessa "encrenca", não seria necessariamente imperioso separar-se.
Torna-se importante, porém, um primeiro momento de discriminação um do outro
(que pode certamente ser realizado sob o mesmo teto), onde as duas pessoas
tentem delimitar quem é quem e o que podem trocar entre si.
A psicoterapia pode auxiliar este diálogo e o estabelecimento das fronteiras
entre as duas pessoas no casal, de forma que o outro venha a estabelecer-se
verdadeiramente como outro.
Assim, as separações de casais têm ocorrido com fre- quência e a saúde mental
dos filhos não tem a ver com esta variável. Desde que realizadas com maturidade,
as duas situações, o casamento ou o descasamento, podem permitir e favorecer o
desenvolvimento normal de crianças e adolescentes.
O que não se tem demonstrado saudável, gerando sintomas, são situações onde
ou os pais se mantêm casados em duelo constante, ou em paz disfarçada e pobre;
ou quando a separação ocorre sem que as pessoas estejam preparadas para lidar
maduramente com ela.
Agir com maturidade implica na percepção da co-responsabilidade tanto no
sucesso quanto no fracasso da relação; e, ainda, no respeito e consideração mútua,
preservando certa cooperação no atendimento aos filhos.
Muitos pais, diante da decisão de separação tomada, ficam muito confusos em
relação ao que dizerem aos filhos. Além da dificuldade em dar a notícia com
clareza, preocupando-se em definir como vai ser dali para a frente — e, de
preferência, com o cuidado de o fazerem em conjunto —, tendem a subestimar a
capacidade de participação e compreensão de crianças muito pequenas.
Por vezes, os pais sobrecarregam o filho mais velho, que sobreparticipa das
decisões e arranjos, enquanto as crianças mais novas passam despercebidas (mas
de "antenas bem ligadas"). Não é nada simples promover o diálogo conjunto e em
família, uma vez que esta condição possivelmente já era deficiente.
E comum, ainda, que a criança possa culpar-se da separação dos pais, como se
seus desejos agressivos (sentimento de ciúme, rivalidade) e de separar os pais
tivessem tido real efeito em sua fantasia onipotente. Não esqueçamos que a
criança é presa de um pensamento mágico e egocêntrico, que a deixa
auto-referente, desejando ter cada um dos pais só para si, com ciúmes do casal
unido, que parece excluí-la.
É indispensável reafirmar à criança que ela não é responsável pela separação de
seus pais, isentando-a de culpa, além de assegurá-lhe que a separação é dos pais,
que ela continuará a ter seu espaço garantido na vida deles e a ser amada
igualmente.
É comum que as crianças permaneçam na casa onde já habitam e, ainda mais
frequente, que permaneçam com a mãe. Independentemente de com quem ficam as
crianças, é importante que o cotidiano e o ambiente corriqueiro se alterem o
mínimo possível, pois isso lhes oferecerá alguma segurança num momento em que a
separação dos pais já é sentida como mudança brutal.
O pai que sai de casa precisa encontrar um lugar onde seja capaz de receber os
filhos e criar, o mais possível, espaços de intimidade com eles.
O pai que fica morando com as crianças podería produzir recursos para uma boa
convivência e vir a desenvolver capacidade para tarefas com as quais possa não
estar habituado, ou mesmo, que nunca tenha realizado.
A ideia de que os filhos necessitam, por mera regra, de ficar com a mãe é falsa
e fruto de viés de nossa cultura. Indispensável é que haja condições adequadas
para o desenvolvimento de todos.
A compreensão de limites, o saber lidar com a incom- pletude de que não se
pode ter tudo e a toda hora, a sensibilidade para detectar as emoções do outro e
as próprias, o poder arcar com uma certa dose de impotência diante de certas
condições de vida podem ser ingredientes importantes para uma boa convivência.
Muitos casais superam de maneira frutífera as dores de uma separação,
encontrando no futuro novos parceiros com os quais obtêm gratificação às
necessidades da nova etapa de vida.
Filhos de diferentes casamentos podem ser auxiliados no sentido de bem
conviverem e dividirem o espaço entre os pais, desde que os adultos também
possam bem administrar tais questões.
Um novo namorado (ou namorada), ou mesmo os novos cônjuges, não são
necessariamente sentidos como intrusos, mas podem vir a desempenhar papel
importante na vida dos filhos "adotivos”, podendo funcionar como alguém que não
rouba, mas acresce.
Além disso, o novo casal pode vir a oferecer um modelo de relação mais sadio,
afora liberar os filhos de papeis complementares como o de ser a nova
"namoradinha" do papai ou o "novo chefe de família" ou o atual "homem da casa”.
Com tudo isso, a separação é um momento de crise.
Por mais que o casal possa elaborar com naturalidade este processo num clima
amistoso, a separação envolve, na maioria das vezes, a vivência muito drástica de
uma carga de emoções.
Já que a separação pode e deve ser planejada, é possível prever a crise e lidar
com ela numa perspectiva preventiva. A psicoterapia de casal e família pode
ajudar.
Cabe esclarecer que, diferentemente do que se possa pensar, a psicoterapia de
família é possível mesmo com os pais já habitando em casas separadas. Seu
objetivo seria auxiliar os indivíduos a elaborarem os sentimentos e conflitos em
jogo, de forma que cada membro possa adaptar-se à nova situação familiar.
As sessões também funcionam como o espaço neutro onde pai e mãe começam a
estabelecer o novo contrato de responsabilidade e distribuição de tarefas
perante os filhos. As ansiedades e lutossão compartilhados com o intuito de que
os indivíduos possam auxiliar-se uns aos outros.
O psicoterapeuta ajuda a promover o diálogo entre aspessoas da família, de
forma que muitas coisas, que em casa não estão podendo ser ditas, na sessão
conjunta tomem seu lugar. Por exemplo, ao "traduzir" a fala simbólica das
crianças, expressa através dos jogos e desenhos.
O desenho a seguir foi realizado por uma criança de cin-co anos durante uma
sessão, no período em que os pais estavam em processo de separação.
A mãe havia procurado a terapia, supondo inicialmente que seria para o filho do
meio, com três anos na época, devido a alguns sintomas que ele começara a
apresentar. O menino era pego por sensações de insegurança e agarrava-se a um
paninho de estimação (do qual não soltava); a mãe se queixava, também, de que
nessas ocasiões ele se agarrava às suas pernas como que não podendo separar-se
dela.
Solicitou-se que a mãe comparecesse às sessões com marido e os outros dois
filhos (o garoto do desenho e uma filha menor, de um ano e meio
aproximadamente). No decorrer do processo, os pais, por fim, resolveram assumir
seus desejos de separação.
O garoto de cinco anos realizou o desenho numa das sessões, após os pais virem
discutindo no carro, a caminho da terapia, sobre como tomariam as providências
com relação ao advogado que executaria o processo formal de pedido de divórcio.
O desenho não continha, inicialmente, o pássaro entre as duas outras figuras e
o fantasminha. Todos estavam mais silenciosos enquanto o garoto trabalhava
atentamente no desenho. Digo-lhe que me parecia que a figura que chorava era ele,
muito triste, diante da sensação de que a mãe era uma bruxa (figura acima do
suposto "ele"), que mandava o pai embora de casa.
O garoto responde que ele estava ali dentro do castelo (à esquerda/figura
quadriculada) num quarto escuro, muito assustado. O menino desenha o
fantasminha perto do castelo (figura no topo esquerdo da página). Digo-lhe, então,
que era como ele se sentia, sem ver saída, muito angustiado e amedrontado como
se estivesse num quarto escuro, com fantasmas, sem ter quem o socorresse.
Nesse ínterim, o menino mais novo, de três anos, diz: "Eu também estou aí, eu
também estou aíí". Seu irmão diz que vai desenhá-lo (incluí-lo na história) e aí faz
a figura do pássaro que não consegue voar e está a despencar.
Digo que devia ser muito duro para o pássaro não conseguir voar, que estava em
apuros e muito inseguro. O menino de cinco anos pede ao irmão: "Desenhe meu
paninho) Desenhe meu paninhol". Mais uma vez ficava claro a serviço de que estava
o seu paninho (não esquecer que agarrar-se a ele era a queixa inicial), e a qua se
associavam as suas crises de insegurança.
Após este diálogo, os pais puderam esclarecer aos três filhos que a separação
era uma condição desejada por ambos e que o pai estava a sair de casa também
pelo próprio desejo de o fazer. Puderam, ainda, aconchegar as ansiedades das
crianças e auxiliá-las no sentido de tentarem enfrentar a nova estruturação de
vida da família.
Para se compreender as dificuldades de um membro do casal, então, seria
necessário compreender algo também sobre ambos os parceiros.
As primeiras iniciativas em trazer toda a família para o trabalho terapêutico
ocorreram há cerca de trinta anos. A década de 50 marca o início da psicoterapia
de casal e família, embora antes disso outros profissionais já se orientassem por
princípios semelhantes.
A partir daí surgem os primeiros centros de atendimento de casal e família e
diversas linhas de atuação: a abordagem psicanalítica, a sistêmica, a estrutural
etc.
Para você não-profissional, tais classificações e nomes só servem para
confudir; seriam de interesse apenas para o profissional que deseja se
especializar na área.
Caso você deseje se submeter a uma psicoterapia com seu parceiro (ou
parceira) ou sua família, o melhor seria tentar pedir uma indicação de um bom
especialista para algum psicólogo conhecido por você ou recomendado por alguém
de seu relacionamento.
Algumas instituições também podem ajudá-lo. Procure centros que ofereçam
tais serviços ou solicite alguma indicação na clínica das Faculdades de Psicologia.
O importante é que vocês possam marcar uma primeira entrevista e avaliar o
contato com o terapeuta, é preciso haver alguma empatia inicial que permita o
estabelecimento de um vínculo de interesse e confiança.
COMO NASCEU A
PSICOTERAPIA DE CASAL E
FAMÍLIA
Depois da II Guerra Mundial, houve uma grande explosão de separações e lares
desfeitos. Os psiquiatras, assistentes sociais e outros profissionais que
mantinham contato com casais e famílias começaram a sentir necessidade de
compreender e estudar o que se passava.
A Psiquiatria e a Psicologia estavam pouco equipadas para lidar com a nova
demanda social. Pensava-se estar diante de uma epidemia social, uma vez que, com
a guerra, haviam ocorrido muito deslocamentos e, por consequência, maior
miscigenação, gerando hiatos culturais dentro do casamento; o moderno ideal de
livre eleição do parceiro e a emancipação das mulheres são também exemplos das
drásticas transformações daquele período.
Assim, os profissionais que atendiam às famílias viram- se às voltas com a nova
tarefa de tentar conciliar os esposos em disputa. Tais profissionais acreditavam
que as tensões conjugais eram uma nova manifestação de estresse e que se
deveria passar a ver a díade (o casal) como o paciente enfermo, vinculando as duas
pessoas numa mesma unidade que compunha uma integração distinta da mera soma
das psiques individuais.
CONCLUSÃO
Espero, através deste pequeno texto, ter sensibilizado você no sentido de
arriscar um olhar ao seu interior, ao seu meio familiar de origem e ao que você vem
constituindo.
A psicoterapia, seja a individual ou a que você possa fazer com seu par amoroso
ou sua família, pode ser de grande auxílio.
Acredito que o texto possa tê-lo ajudado a perceber que a psicoterapia, seja
de que espécie for, não se dirige somente às pessoas psiquicamente perturbadas,
mas às pessoas em geral, como eu ou você.
Caso você tenha experiências da sua vida que queira compartilhar com um
psicoterapeuta, procure um profissional que possa auxiliá-lo. Tenha em vista que a
percepção dos eventos que vive é sempre a sua e que você pode perder de vista
elementos importantes que contribuiriam para a compreensão do que se passa (ou
se passou) com você e sua família.
Lembre-se: viver é deparar-se, a todo momento, com o desconhecido. Temê-lo,
muitas vezes faz com que deixe de lado o conhecer outras terras e o aventurar-se
em novas experiências. Ou impede de perceber que o novo está a seu lado,
escondido por trás das acusações ou explicações que você não se cansa de dizer e
ouvir diariamente.
Não se esqueça, ainda, de que o encanto da vida advém da possibilidade de
vivenciar emoções e, por isso, ó preciso abrir um espaço para aconchegá-las.
Cuidar de sua família, conjuntamente com seus familiares, é primordial, uma vez
que é no interior da família que "se cozinham" a vida e a morte.
Entre o desejo e o temor a vida se vai, e com ela também os bons e maus momentos.
Você e sua psicoterapia podem auxiliá-lo nesse percurso.
INDICAÇÕES PARA LEITURA
Embora os livros de autores brasileiros sobre família sejam inúmeros, o mesmo
não é verdadeiro quanto à especialidade de psicoterapia de casal e família. Além
disso, são poucos os textos estrangeiros traduzidos.
Existem três livros, traduzidos para o português, que considero de fácil leitura
às pessoas em geral. O primeiro, Psicodinamismos da Família com Crianças, de autoria
de RaquelSoifer (Ed. Vozes, Petrópolis, 1983), oferece uma análise rica de como a
família funciona como uma unidade (como um sistema global) e de como pode
estruturar-se em torno de dificuldades compartilhadas por todos, não podendo os
pais ajudarem os filhos a elaborar conflitos que eles também não puderam superar
na mesma fase evolutiva.
O segundo livro é de Maurizio Andolfi, intitulado Por iras ca Mascara Familiar
(Editorial Vega, Lisboa, 1981), que aprofunda a ideia da confecção do mito familiar,
tal como se ele consistisse numa máscara, num traje, que a família apresenta ao
psicoterapeuta; ou seja, a versão fantasiada, criada em conjunto pelos membros
da família, que tenta explicar como eles são e como se organizam.
O terceiro é de Horst E. Richter, A Família como Paciente (Livraria Martins
Fontes, SR 1979), onde o autor apresenta as diferentes composições de caráter
que uma família pode assumir. A noção de paciente- identificado é aprofundada em
todos os três livros.
Na literatura, a leitura da obra Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?,
de Edward Albee (Abril Cultural, Coleção Teatro Vivo, SP, 1977), pode ser também
de grande valia.
Para os estudantes de Psicologia ou áreas afins e profissionais interessados na
especialidade, que tendem a uma prática psicanalitica, os livros de Isidoro
Berenstein, Psicoanalisis de la Estructura Familiar (Editorial Paidós, Buenos Aires,
1981) e Família e Doença Mental (Ed. Escuta Ltda., SR 1988); e do psicanalista Luiz
Meyer, Família Dinâmica e Terapia — uma Abordagem Psicanalitica (Ed. Brasiliense, SR
1983), oferecem os subsídios necessários à aquisição de um suporte teórico inicial.
De outras abordagens, recomendo a coletânea de artigos no livro Formações
Práticas em Terapia Familiar, de Mony Elkaim (org.) e colaboradores (Ed. Artes
Médicas, Porto Alegre, 1988), o livro de Virgínia Satir, Terapia do Grupo Familiar
(Livraria Francisco Alves, RJ, 4a. edição, 1988) e o livro de Maurizio Andolfi,
Tempo e Mito em Psicoterapia Familiar (Ed. Artes Médicas, Porto Alegre, 1989).
Caso você encontre dificuldades em comprar estes livros, procure-os numa
biblioteca próxima. As bibliotecas das faculdades de Psicologic costumam tê-los.
Caro leitor:
As opiniões expressas neste livro são as do autor, podem não ser as suas. Caso
você ache que vale a pena escrever um outro livro sobre o mesmo tema, nós
estamos dispostos a estudar sua publicação com o mesmo título como "segunda
visão"
Sobre a autora
Nasci em São Paulo, em 1960. Conclui as Faculdades de Psicologia e Ciências
Sociais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. No quarto ano do curso
de Psicologia, entrei em contato pela primeira vez com a especialidade de
atendimento de casais e família, através do núcleo “Teoria e Técnica de
Diagnóstico e Psicoterapia de Casal e Família”, coordenado na época por Mirei
Granatovicz.
Venho trabalhando com psicoterapia de casal e família, numa abordagem
psicanalítica, desde 1982. Participei, ainda, de módulos de atendimento
psicoterápico de famílias, em 1984, na Tavistock Clinic, em Londres. Desde 1987,
venho oferecendo um curso de especialização na área, para psicólogos, no
Instituto Pieron de Psicologia Aplicada — IPPA, em São Paulo. Atualmente
coordeno a “Laços — núcleo de estudos e reciclagem da família”.
Nesse período, lecionei também no terceiro grau, ministrando cursos nas áreas
de Psicologia e Antropologia na Universidade Mackenzie, Faculdades Objetivo e
PUC-SR
Completei a pós-graduação em Ciências Sociais também na PUC-SP e, a partir
da dissertação realizada, escrevi o livro Suicídio — Testemunhos de Adeus, a ser
publicado em breve por esta mesma editora.
O QUE É PSICOTERAPIA DE FAMÍLIA
ÍNDICE
INTRODUÇÃO
POR QUE UMA PSICOTERAPIA DE CASAL E FAMÍLIA
A CONSTRUÇÃO DO MITO FAMILIAR
A ESCOLHA E O CONTRATO SECRETO DO CASAMENTO
SUA MAJESTADE "O BEBE"
O "FILHO-PROBLEMA" COMO O PACIENTE IDENTIFICADO
A FAMÍLIA NO DIVÃ
A FAMÍLIA COM CRIANÇAS EM PSICOTERAPIA
A COMUNICAÇÃO EM FAMÍLIA
O CASAMENTO NO MUNDO ATUAL
AMOR E PAIXÃO
CASAIS SEPARADOS. OS MEUS, OS TEUS E OS NOSSOS
COMO NASCEU A PSICOTERAPIA DE CASAL E FAMÍLIA
CONCLUSÃO
INDICAÇÕES PARA LEITURA
Caro leitor:
Sobre a autora