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PSICOLOGIA E SAÚDE JOSÉ LUÍS PAIS RIBEIRO C1 placebo EDITORA JOSÉ LUÍS PAIS RIBEIRO PSICOLOGIA E SAÚDE Titulo: Psicologia e Saúde. 2ª Edição. Outubro de 2010. ISBN: 978-989-8463-04-3. Capa: Ricardo Romão Lisboa: Placebo, Editora LDA. .ÍNDICE PREÂMBULO 1 PRÓLOGO 2 INTRODUÇÃO 5 A Psicologia e Saúde na unidade do corpo e espírito 6 O ser humano enquanto sistema 12 A organização do livro 15 PARTE I – INTRODUÇÃO À PSICOLOGIA E SAÚDE 16 A Psicologia no campo da saúde 16 Perspectiva histórica 16 O interesse da psicologia pela saúde e doenças não mentais 18 Psicologia Clínica, Psicologia da Saúde e Psicologia Clínica da Saúde 18 Psicologias clínicas e da saúde 22 Aspectos novos da psicologia que se pratica no Sistema de Saúde 23 A Psicologia Clínica hoje 25 A saúde e a doença ao longo dos tempos 26 Importância de uma perspectiva ecológica 26 Evolução dos sistemas de saúde 29 História da saúde 31 Evolução do conceito de saúde e doença 31 Período pré-cartesiano 33 Desenvolvimento do modelo biomédico 35 Primeira revolução da saúde 37 A segunda revolução da saúde 40 A terceira revolução da saúde 42 Conceitos principais da segunda revolução da saúde 43 Promoção da saúde 44 Definição de promoção da saúde 45 Promoção da saúde na Europa 46 Estilo de vida – Nascimento e morte do conceito 47 Hipóteses de cenários futuros para a saúde e doença 48 O sistema de saúde no futuro 51 Regresso a uma consciência ecológica da saúde 53 Psicologia da Saúde, saúde e doenças 57 Saúde 57 Doença 61 Estados de doença 63 Relação entre saúde e doença 63 Qualidade de vida 65 Bem-estar subjectivo 66 Saúde, qualidade de vida e bem-estar 67 Qualidade de vida relacionada com a saúde 68 Ligações entre saúde e qualidade de vida 69 PARTE II – ASPECTOS BÁSICOS DA INTERVENÇÃO 71 Comportamento e Psicologia da Saúde 71 História da relação comportamento saúde a doenças 71 O comportamento humano na segunda revolução da saúde 72 Comportamento de prejuízo de saúde como hábito 76 Origem dos hábitos 76 Mudança de hábito 77 Comportamento nas ciências comportamentais 78 Comportamentos/Atitudes 79 Importância de um estilo de vida saudável 80 Comportamento e mortalidade 83 Factores de risco para a saúde 83 Consumo de tabaco 83 Porque fumam as pessoas? 84 Tabagismo e doenças 85 Exercício físico 96 Alimentação 89 Programas de modificação do comportamento 90 Comportamento e necessidades de saúde dos jovens 91 Relações entre comportamentos de saúde 92 Efeitos perversos do aumento da responsabilidade pessoal 93 Os limites da medicina 96 Culpar a vítima 96 Questões políticas geradas pela mudança de conceber o campo da saúde 97 Limites da responsabilidade individual 99 Modelos e teorias 100 Modelos na saúde e doenças 101 Modelo de crenças de saúde 102 Teoria da motivação protectora 105 Teoria da aprendizagem social 106 Teoria da acção racional de Fishbein’s 106 Teoria da acção planeada 107 Teoria do comportamento social de Triandis’ 107 Teoria da acção social 108 Modelo da utilidade de multiatributos 109 Difusão da inovação 110 Modelo transteórico de mudança do comportamento 110 Modelo transteórico 110 Abordagem do processo de acção para a saúde 111 Áreas de intervenção em Psicologia da Saúde 111 Definição de Psicologia da Saúde 112 Divisão tradicional do sistema de saúde 113 Saúde Pública 114 Psicologia da Saúde e Saúde Pública 117 Medicina curativa 120 Funções do psicólogo clínico 120 Áreas de intervenção 121 Promoção da saúde 121 A promoção da saúde na saúde a na doença 123 Promoção da saúde, qualidade de vida e bem-estar 124 Protecção da saúde 126 Prevenção das doenças 128 Grandes projectos de prevenção de doenças 129 Intervenção nas doenças 132 Organização das doenças 133 As doenças crónicas 134 Mal-estar e sofrimento 136 Natureza do sofrimento 137 Os sentimentos acerca da doença 138 Doenças de mau prognóstico 141 O caso Ramon Sampedro 141 Doenças terminais 142 As pessoas querem saber se vão morrer? 143 Reacção psicológica à própria morte 144 Os doentes terminais e os profissionais de saúde 144 Cuidados paliativos e apoio a doentes terminais 144 Psicoterapia com doentes terminais 147 Filosofia do apoio a doentes terminais 147 PARTE III – PSICOLOGIA E DOENÇAS 149 Psicologia da Saúde e índices sanitários 149 Indicadores clássicos do estado da saúde 149 Mortalidade em Portugal 152 Análise comparativa entre países 154 As epidemias em Portugal 156 Epidemiologia 158 Discussão sobre o conceito de epidemiologia 159 Factores de protecção da saúde ou recursos de saúde 161 Factores de risco 161 História dos factores de risco 163 O mito do risco zero 164 Factores de risco e política 165 Limitações da aplicação à saúde da noção de factor de risco 166 Factores de risco, grupos de risco e situações de risco 167 Consequências populacionais das alterações epidemiológicas 170 Consequências populacionais das revoluções da saúde 170 Uma palavra para o meio ambiente 174 Doenças vasculares cerebrais 175 Doença vascular cerebral 175 Acidente vascular cerebral 176 Acidente isquémico transitório 176 Consequências dos acidentes vasculares cerebrais 176 Factores de risco para as doenças vasculares cebebrais 177 Consequências das doenças vasculares cerebrais 177 Intervenção nas doenças vasculares cerebrais 178 Prognóstico nas doenças vasculares cerebrais 179 Consequências sociais 180 Impacto da doença na família 181 Tumores malignos 182 Perspectiva histórica 182 O cancro como doença 112 Factores de risco para o cancro 183 Cura do cancro 185 Cancro em Portugal 185 Tipos de tumor 186 O que há de único no cancro? 187 Variáveis psicossociais associadas ao cancro 188 Consequências psicológicas do cancro 189 Apoio psicológico para doentes com cancro 190 Aspectos a considerar no apoio psicológico 191 Aspectos psicológicos na longevidade à doença 193 Impacto da doença na família 193 Doença cardíaca coronária 194 O sistema circulatório 194 Insuficiência cardíaca 195 Causas precipitantes da insuficiência cardíaca 195 Sintomas de falha do sistema cardíaco 196 A doença cardíaca coronária 196 Factores de risco 197 Tabagismo 198 Obesidade 198 Hipertensão 198 Padrão de comportamento Tipo A 200 Efeitos da alteração do estilo de vida nas DCC 202 Treino de competências de gestão da angina 204 Ajustamento psicossocial às doenças cardíacas 204 Acidentes 205 Doente em contextos médicos 206 Reacção psicológica ao contexto médico 207 Despersonalização 208 Cuidados-de-saúde-centrados-no-doente 209 Informação e comunicação 210 A origem da representação da doença 211 Comunicação médico-doente 212 Colaboração do doente no tratamento 215 O que está em jogo 216 Adesão ao tratamento 218 Teorias de adesão 218 Um modelo desenvolvimental 219 Determinantes psicossociais do empenhamento no tratamento 221 PARTE IV – TEMAS BÁSICOS 223 Stress 223 Apreciação dos stressores 226 Níveis de apreciação dos stressores 227 Diferenças individuais na apreciação e reacção ao stress 230 Tipos de stressores 231 Stress e sistema imunológico 232 Acontecimentos de vida, preocupações e stress 236 Variáveis mediadoras 238 O contexto profissional como fonte de stress 240 Doenças provocadas pelo stress 240 Intervenção psicológica no stress 241 O stress é hereditário? 244 Avaliação em Psicologia da Saúde 245 O psicólogo em contextos de saúde e doença 246 A prática da avaliação psicológica 248 Avaliação psicológica na década de 90 250 O que caracteriza a avaliação psicológica na equipa de saúde 254 A entrevista psicológica 256 Entrevistapsicológica em contextos de saúde 258 Uma novidade fundamental: A avaliação da saúde 258 Técnicas psicométricas ou clinimétricas 259 Avaliação da saúde 261 Avaliação do estado da saúde versus dos resultados de saúde 265 O Medical Outcomes Study 266 Dor 267 Definição de dor 268 Tipos de dor 269 Comportamento de dor 269 Dor orgânica versus psicogénica 270 Teorias sobre a dor 271 Variáveis psicológicas a considerar 271 A avaliação da dor 274 Técnicas de intervenção 275 LÉXICO 279 REFERÊNCIAS 284 1 PREÂMBULO O presente livro constitui uma cópia do que foi publicado na década de 90. Na sua origem estava a tese de doutoramento iniciada na década de 80 e terminada na primeira metade da década de 90. Na época, em Portugal como na Europa, com ligeiro atraso relativamente aos Estados Unidos da América, estavam a publicar-se livros equivalentes (p. ex., J. Ogden de 1996, depois traduzido em Português). Enquanto as versões em edição estrangeira continuaram a publicar-se (o de Ogden publicou este ano a 4ª edição), em Portugal o presente livro não foi reeditado. São livros datados no sentido que focam a psicologia da saúde na sua perspectiva original ampla e globalizante, numa disciplina, a psicologia, que facilmente tende a especializar-se. A reedição do texto de 1998 propõe-se salientar estes dois aspectos: a época em que a psicologia da saúde assumia aquela perspectiva abrangente e a própria perspectiva abrangente que nos parece integradora em vez de fragmentadora. Embora reconhecendo que a especialização, a visão focal, é útil e necessária, não temos dúvidas que é necessário manter uma perspectiva que enquadre e dê sentido a uma psicologia da saúde que sirva de moldura às visões mais parciais, quer as explicativas ou compreensivas, quer à própria investigação. Por outro lado responde a diversas solicitações tanto em Portugal como noutros países de língua Portuguesa, sobre como aceder a este livro. A iniciativa da editora Placebo merece assim todo o nosso apoio e reconhecimento, por facilitar o acesso a um texto que por alguns é reconhecido como um clássico escrito em Português. José Luís Pais Ribeiro 2 PRÓLOGO O livro Psicologia e Saúde que o Professor Pais Ribeiro elaborou destina- se aos alunos da licenciatura em Psicologia, especialidade Psicologia da Saúde. Não é habitual, em Portugal, o professor universitário editar livros destinados aos alunos das disciplinas que lecciona. As razões são múltiplas e variam com a natureza dos cursos. Contudo, trata-se de uma das mais responsáveis actividades dos docentes de qualquer nível de ensino pois se permite que os formandos tenham acesso à opinião escrita do professor que, desse modo, assume pontos de vista e opiniões com frontalidade e sem subterfúgios. Referindo os manuais recentemente elaborados sobre a Psicologia da Saúde, o autor afirma que «este manual constitui uma introdução a esses inúmeros manuais mais ou menos especializados». Contudo, as qualidades científica e pedagógica deste livro vão torná-lo também obrigatório a todos os que pretenderem fazer reflexões e estudos sobre um dos mais actuais campos de conhecimento interdisciplinar, num sector de grande importância social, como é o da Saúde, entendida num sentido lato. Na Introdução, o autor diz-nos de imediato “que se pretende salientar a ultrapassagem da dicotomia corpo espírito inerente à intervenção tradicional que se faz no campo da saúde”. No decorrer do texto, numa perspectiva histórica da evolução do pensamento dominante em cada época, encontram-se os conceitos fundamentais que presidiram às soluções dos problemas relacionados com a doença e com a saúde. A importância da relação dinâmica do homem e dos ambientes em que se desenrola a vida é focada em diversas perspectivas e dela se extrai um conjunto de conceitos fundamentais para a intervenção multiprofissional de quadros clínicos prevalentes nas sociedades modernas. Salienta o regresso a uma consciência ecológica na abordagem da Saúde pela necessidade de dar resposta aos problemas que a medicina biomédica não resolve. Afirma que essa circunstância pretende resolver “uma prática paradoxal: a maioria dos investimentos na saúde, quer económicos quer 3 científicos, são dirigidos para os cuidados médicos apesar de se reconhecer que o que determina a saúde das pessoas são factores que actuam fora do domínio da medicina”. Este paradoxo condiciona uma progressiva aplicação de recursos financeiros na medicina curativa, em todas as sociedades modernas e, contudo, aumenta a insatisfação perante a resposta conseguida. Por isso, o sentido do fluxo, na relação entre os sistemas de saúde e os cidadãos está a ser invertido nos países mais avançados, nos quais a abordagem está a ser centrada na saúde das comunidades, como também se afirma neste livro. A discussão dos conceitos de saúde e doença é apresentada com grande suporte de bibliografia actual e pertinente, permitindo ao leitor uma visão correcta dos planos de observação em que se podem colocar na análise da aplicação desses conceitos. Descreve a valorização dos padrões culturais, dos hábitos e costumes no processo de manter a saúde ou aquisição da doença, o que nos leva à discussão das ciências comportamentais, ao conceito de factor de risco e à responsabilidade individual na preservação da saúde. Necessariamente discute as implicações políticas e sociais destas perspectivas que atribuem papel activo do cidadão na qualidade de vida individual e colectiva. O desenvolvimento de modelos e teorias para “explicar as relações entre o pensamento e comportamento individuais e a saúde e doença”, permitiu delinear processos para aumentar a eficácia de intervenção do psicólogo, abrindo as áreas de intervenção em psicologia da saúde. Estabelece a relação entre Saúde, Qualidade de vida e Bem-estar, numa visão ecológica dos factores intervenientes que relaciona com a promoção da saúde e a prevenção da doença. As implicações destes conceitos na definição de factor de risco, no pensamento epidemiológico e nas consequências das medidas tomadas sobre as variáveis demográficas dão a dimensão das preocupações que se desenham no pensamento do autor. A parte terminal do livro vai focar a relação entre o doente, num contexto médico, nos nossos dias, destacando a progressiva tendência para a cronicidade das soluções conseguidas pelos meios modernos de análise biomédica das patologias. 4 Por esta via, chega-se à análise das situações delicadas que representam o doente terminal e os grandes síndromes como o stress e a dor. Estas situações definem a necessidade de uma acção multidisciplinar em que o psicólogo clínico desempenha um papel fundamental. Saliento o sub-capítulo em que o Prof. Pais Ribeiro aborda a dificuldade de avaliação em psicologia e saúde, pois a especificidade e a multiplicidade das informações que caracterizam cada situação é tão grande que o aleatório representa um dos factores a ponderar na análise dos resultados da intervenção. Penso que este livro tem ainda a qualidade de aparecer num momento decisivo da definição do sentido a dar aos sistemas de saúde em todo o mundo. Assim sendo, será uma das referências necessárias para os que se interessam por essa problemática. Nuno Grande 5 INTRODUÇÃO A Intervenção Psicológica no Campo da Saúde tem sofrido nos últimos 100 anos mudanças notáveis. Se no início a intervenção praticamente não existia, a partir de certa altura começou a participar, primeiro com a sua especialidade, a avaliação, mais tarde intervindo na doença mental e, finalmente, participando globalmente em interacção com todos os profissionais que trabalham nesse Campo. Esta evolução está estreitamenteassociada às mudanças que ocorreram no modo de pensar o Campo da Saúde, assim como às mudanças sociais, políticas e económicas verificadas a partir dos anos 60. Uma das características dessas mudanças na maneira de pensar foi o retorno a uma consciência ecológica. Se a perspectiva ecológica esteve subjacente a quase todas as práticas médicas das civilizações e dos povos antigos, ela foi quebrada com a adopção do modelo científico com predominância da vertente analítica sobre a vertente sintética, esta, por definição, mais sistémica ou ecológica. O título adoptado para este livro, “Psicologia e Saúde” pretende salientar que a Psicologia que se aborda neste livro não se refere à orientação tradicional de uma psicologia que se dedicava ao diagnóstico de doenças mentais, ou que se dedicava ao tratamento ou ao ajustamento no campo da saúde mental. Por outro lado também pretende ultrapassar a Psicologia que ficou expressa no relatório publicado em 1976 pelo grupo que deu início à especialidade de Psicologia da Saúde, como uma especialidade que se aplicava às doenças físicas. Ou seja pretende-se salientar a ultrapassagem da dicotomia corpo espírito inerente à intervenção tradicional que se faz no campo da saúde. Na realidade, desde o início da sua aplicação, na década de 80, a Psicologia da Saúde dedicada à saúde física e a tradicional Psicologia Clínica dedicada à saúde mental, convergiram para, na prática, deixarem de se diferenciar. Expressões como Psicologia Clínica da Saúde pretendem, exactamente, salientar essa aproximação. 6 Por outro lado e no espírito do que ficou conhecido por Segunda Revolução da Saúde, o termo Saúde abrange não apenas as doenças mas principalmente a intervenção a montante, a que se faz com as pessoas que estão saudáveis de modo a reduzir a probabilidade de virem a adoecer. Incluem-se nesta área a Promoção e a Protecção da Saúde e a Prevenção das doenças. O presente livro é destinado aos estudantes universitários que nos seus currículos têm disciplinas que abordam a interface entre Psicologia e Saúde e a psicólogos ou outros profissionais do Campo da Saúde que se interessam pelo comportamento humano aplicado à saúde e às doenças. Ele tem intenções didácticas e faz, desde uma abordagem genérica à origem e evolução dos conceitos, até temas genéricos mais específicos e escolhidos como importantes. A expansão que este domínio conheceu nos últimos anos levou à publicação de inúmeros manuais de aplicação, a praticamente todos os domínios e níveis na saúde e nas doenças. Este manual constitui uma introdução a esses inúmeros manuais mais ou menos especializados. A Psicologia e Saúde na unidade do corpo e espírito Como acontecimento não normativo (Baltes, Reese, & Lipsit, 1980), a Saúde é um factor decisivo no desenvolvimento humano, um domínio fundamental na vida das pessoas ao longo de todo o ciclo de vida. Acompanha o desenvolvimento humano da concepção à morte. Para Bronfenbrenner e Crouter (1983), “o desenvolvimento humano envolve a mudança, durante o ciclo de vida, dos padrões de comportamento ou de percepção, resultantes da interacção, entre as características biológicas do indivíduo em desenvolvimento e as do meio ambiente onde vive” (p. 359). Ao considerar a Saúde do ponto de vista do desenvolvimento humano, dois processos assumem uma posição importante: os processos de desequilíbrio e os processos homeoréticos ou heterostáticos. Os primeiros referem-se à estimulação que o organismo deve receber, os segundos às reacções adaptativas. A psicologia do desenvolvimento tem conceptualizado o modo como as mudanças ocorrem no ser humano e, simultaneamente, o modo como se podem influenciar essas mudanças. Por exemplo, Piaget é um dos autores que assume uma perspectiva sistémica do desenvolvimento humano. Ao referir-se ao desenvolvimento mental considera que ele depende dos 7 seguintes factores: maturação, experiência física, experiência lógico- matemática, experiência e transmissão social e equilibração. Este último factor é o que dá uma perspectiva sistémica à teoria. Com efeito, a equilibração, é o mecanismo que regula a interacção dos restantes factores e que garante que eles se desenvolvam de forma equilibrada. Uma nova aquisição, por exemplo, a maturação do sistema nervoso facilita, ou precede, a aquisição de experiência física que, por sua vez, se repercute em experiência lógico matemática mais complexa e assim sucessivamente, ocorrendo, então, desenvolvimento pelo estabelecimento de equilíbrios em patamares cada vez mais complexos. O desenvolvimento não ocorre porque um dos factores se desenvolve isoladamente, mas sim porque todos os factores se desenvolvem equilibradamente. O desenvolvimento que se manifesta como equilíbrio temporário, em patamares cada vez mais complexos, diz-se homeorético (ao invés de homeostático). Homeoresis é uma palavra de origem latina, composta por homéo que significa constante, ou o mesmo e rhéo, que significa fluxo, ou corrente contínua. Assim, ao invés da homeostasia que defende a ideia de um estado constante, a ideia de homeoresia defende a de uma mudança constante, de um fluxo constante. Num ponto de vista dinâmico, implícito na ideia de desenvolvimento, deve- se considerar que o organismo humano está em entropia ou em desordem e que, através das propriedades que são próprias dos sistemas vivos, tende a organizar-se e a reconstruir-se, para novamente entrar em desordem. Este processo é inerente à vida e tem-se mantido ao longo dos últimos biliões de anos. A evolução humana, como a dos organismos em geral, resulta de interacção do indivíduo com o meio ambiente e, devido às propriedades de sistema aberto dos organismos vivos – auto-organização e auto-construção – há um processo constante de estabelecimento de equilíbrio entre os diversos componentes do sistema. Como já foi referido, o processo de estabelecimento de equilíbrio não é um processo homeostático. A manutenção de um estado estável – a homeostasia – é evidente e essencial, em determinados sistemas biológicos mais simples, tais como o nível do ph ou da temperatura corporais. Vários autores têm, no entanto, achado o conceito de homeostasia insuficiente para explicar o equilíbrio dinâmico inerente ao comportamento e desenvolvimento de sistemas mais complexos. Em vez do conceito de homeostasia proposto por Cannon (1936), Waddington (1968) propõe o 8 conceito de homeoresia e Selye (1974) o de heterostasia1. Ambos os conceitos significam a restauração de equilíbrio, já não num mesmo nível, ou num nível absoluto, mas sim em níveis cada vez mais complexos, ou mais adequados à nova situação: são conceitos desenvolvimentais por excelência e ecológicos, ao invés de estáticos. Homeoresia implica aumento de complexidade. O conceito de homeoresia foi apresentado por Waddington para designar sequências de desenvolvimento. Uma reacção homeorética tenderia a puxar para a via apropriada de desenvolvimento, qualquer organismo que, devido a uma qualquer influência externa, se tivesse desviado dela; o desenvolvimento processava-se através de uma sequência de creodos que funcionavam como marcadores do caminho a percorrer (Waddington, 1968). Nesta perspectiva embriológica o desenvolvimento percorreria uma sequência prédeterminada, num calendário preciso. A noção de creodo salienta a importância da trajectória do desenvolvimento, em vez do estado final e a homeoresia salienta a constância de uma trajectória, um fluxo, em vez de um estado (Waddington, 1968). O desenvolvimento pode ser conceptualizado de modo quantitativo ou qualitativo. Numa perspectiva quantitativa considera-se que, até certa altura, as mudanças tendem a ser incrementais, resultando em aumento da capacidade funcional para, a partirde certo momento, esta tender a diminuir. Numa perspectiva qualitativa reconhece-se que há mudança na qualidade da produção mas não na quantidade: o sistema, ou o indivíduo, tende a produzir de maneira diferente e não mais ou menos. A sociedade em geral, foi dominada por modelos quantitativos até há bem pouco tempo. Subjacente a esses modelos estava a ideia que o crescimento era infindável, quer se referisse ao crescimento económico das sociedades, ao populacional, à produção industrial, quer se referisse à prática desportiva: seria sempre possível correr cada vez mais rápido, saltar cada vez mais alto, ou lançar mais longe. A emergência da consciência ecológica tende a fazer substituir os modelos quantitativos por modelos qualitativos. 1 Entre os autores que defendem a perspectiva sistémica não há concordância quanto ao significado dos conceitos que utilizam. Por exemplo, enquanto Nicholas e Gobble (1990) utilizam o termo heterostesia para se referirem a desregulação conducente a doença, como sinónimo de declínio, Selye (1974) define-o como o estabelecimento de um novo estado de equilíbrio, alcançado por força de acções que estimulam e aumentam as capacidades, de maneira a elevar o nível de resistência do organismo. 9 Referindo-se ao ser humano, era suposto que o decrescimento fosse o estado natural desde muito cedo, normalmente após a década dos 20-30 anos. Por exemplo, quando se estudava a inteligência humana, considerava-se que esta crescia até cerca dos 25 anos e depois diminuía de forma constante. No entanto, investigações recentes desmistificaram esta perspectiva. Por exemplo, Schaie (1990) numa investigação longitudinal que durou sete anos, no âmbito do Seattle Longitudinal Study, no qual foi avaliado o nível de funcionamento intelectual de indivíduos que no final desse período tinham entre 60 e 81 anos, concluiu que “dependente do grupo etário, entre 60 e 85% de todos os participantes permaneceram estáveis ou aumentaram as suas capacidades específicas” (p. 296). Este tipo de resultados alerta para que o desenvolvimento não termina no primeiro quarto do ciclo de vida, podendo prolongar-se até ao fim da existência. O senso comum tende a aceitar que, se tal desenvolvimento é possível para a dimensão psicológica, não o é para a dimensão física. Ou seja, se alguns processos psicológicos podem aumentar em complexidade durante toda a vida, há tendência para aceitar que a nível físico o que predomina são os processos decrementais: o idosismo (conceito pejorativo) tende a aceitar o processo de envelhecimento como um processo fatal. No entanto, a investigação não vai no mesmo sentido e o padrão verificado para o funcionamento intelectual aplica-se a dimensões não intelectivas. Por exemplo, Spirduso e MacRae (1990) referem que, num estudo do National Center for Health Statistics dos Estados Unidos, em que 38,3 milhões de indivíduos foram avaliados quanto à sua capacidade de trabalho em diferentes situações, verificou-se que, entre os 55 e 74 anos, aumenta a percentagem de indivíduos que têm dificuldades nas diferentes situações, mas que 58% deles não tinha dificuldade em nenhuma delas. De uma maneira geral e referindo-se à dimensão física, a investigação constata que os idosos (grupos entre os 50 e os 79 anos) respondem positivamente à quantidade de estimulação (Cononie, Graves, Pollock, Phillips, Summers, & Hagberg, 1991; Cress, Thomas, Johnson, Kasch, Cassens, Smith, & Agre, 1991; Perri & Templer, 1985; Peterson, Peterson, Raymond, Gilligan, Checovich, & Smith, 1991). Segundo Nicholas e Gobble (1990), o que parece ocorrer com o passar do tempo é uma dificuldade de restabelecimento de equilíbrios e um aumento de processos desregulatórios, característico da senescência. Como conclusão deste tipo de investigação, parece que a estimulação, a prática, mantém os sistemas em níveis óptimos de funcionamento: no caso das investigações referidas, a diferença era notória entre os indivíduos que se mantinham inactivos e os activos. A estimulação, a carga, provoca um desiquilíbrio a que um processo de adaptação responde, restaurando o equilíbrio num nível mais adequado, em resposta aos estímulos. 10 O conceito de Promoção da Saúde tem implícita a ideia que esta pode desenvolver-se ao longo do ciclo de vida e que esta evolução é qualitativa. No ciclo de vida humano (e nos sistemas vivos em geral), há mudanças constantes nas possibilidades e no funcionamento dos diversos componentes dos sistemas de vida: finalmente, estas mudanças manifestam-se de modo muito diferente nos vários sub-sistemas que suportam a vida, de tal modo que nuns casos são incrementais, noutros se mantém e, noutros, são decrementais. A Promoção da Saúde pressupõe a ideia que a saúde é um processo em vez de um estado, processo dependente do jogo de estimulação-reacção constante do organismo. Quererá isto dizer que, se devidamente estimulado, o indivíduo nunca morre? Admitir tal hipótese seria contrariar os princípios ecológicos e sistémicos assumidos. Mesmo supondo que Matusalém existiu e viveu mais de 900 anos, ele acabou por morrer. Os seres humanos colocam questões acerca da imortalidade do espírito que remetem para o foro da fé, da religião, mas não questionam a imortalidade do corpo. Aceitar a morte como inerente ao processo de desenvolvimento é essencial para o próprio bem-estar do indivíduo: tal perspectiva é parte integrante, por exemplo, da teoria de desenvolvimento humano de Erik Erikson (1968). A Promoção da Saúde, conceptualizada como desenvolvimento, não se propõe imortalizar o corpo, não se propõe, sequer, dar mais anos à vida, embora a investigação demonstre claramente que um estilo de vida saudável junta mais anos à vida. O elemento essencial consiste, sim, em dar mais vida aos anos. As mudanças que se podem considerar desenvolvimentais tendem, portanto, a ser mais qualitativas do que quantitativas: elas variam, quer quanto ao momento em que ocorrem, quer quanto à sua natureza. Embora haja tendência para considerar como sinónimos desenvolvimento e incremento, o desenvolvimento, ao invés de ser considerado como mero incremento, deve ser visto como uma situação de equilíbrio, em patamares cada vez mais complexos: desenvolvimento é, essencialmente, aumento de complexidade. O equilíbrio consiste na forma mais económica de interacção entre os diversos sub-sistemas em presença (biológicos, psicológicos, sociais, ambientais, etc.). O desenvolvimento deve ser concebido como a restauração do fluxo de desenvolvimento, da homeoresia entre todos os componentes do sistema de vida, quer os pessoais, quer os ambientais e sociais, ao longo do ciclo de vida. A interacção com o meio ambiente proporciona aos organismos uma quantidade de estimulação que, se adequada, desencadeia processos de adaptação e promove o desenvolvimento. Diversos autores têm salientado esta 11 necessidade de estimulação adequada para que exista desenvolvimento, psicológico ou físico. Na área do desenvolvimento cognitivo, por exemplo, a noção de Zona de Desenvolvimento Próximo (ZDP), de Vigotsky (1978) e da sua escola sócio-histórica ou cultural, defende e demonstra que a estimulação intelectual adequada (dentro de uma zona que denomina ZDP) permite ao indivíduo aumentar a sua capacidade cognitiva. No domínio corporal, Harre (1982) define um processo semelhante: referindo-se à utilização de estímulos (ou cargas) com vista a promover o desenvolvimento, a capacidade física, processo a que chama “sobrecompensação”. Este autor define adaptação como “ajustamento funcional, dos sistemas psicológicos e físicos, a um padrão de realização mais elevado e a condições externas específicas, através da influência de cargas externas” (p. 54). Selye (1974),ao explicar a teoria do stress, apresenta o Síndrome Geral de Adaptação (SGA) como um processo essencial à vida, numa perspectiva muito semelhante à do autor anterior, embora aplicada a contextos diferentes. O SGA é uma resposta não específica (enquanto a referida por Harre é específica) a um estímulo, que inclui três fases: reacção de alarme, fase de resistência e fase de esgotamento. A heterostasia – restabelecimento do equilíbrio num novo patamar – depende do jogo entre estas três fases, da escolha da intensidade dos estímulos ou cargas e é, como o próprio Selye refere, um processo activo do organismo. A ausência de estimulação, tal como a estimulação exagerada provocam dano e conduzem à morte. Utilizaremos frequentemente os termos “sistémico” e “ecológico”. O termo “ecologia” refere-se, grosso modo, às interrelações entre os organismos e o seu meio ambiente. Embora este último seja um termo da moda, em psicologia existe uma área designada por “psicologia ecológica”. A psicologia ecológica, é uma sub-área da psicologia ambiental, que foca, particularmente, a actividade humana que ocorre num período de tempo e num espaço determinados (Stokols, 1978). Os princípios que lhe estão subjacentes são os dos modelos sistémicos. Com raízes na biologia, o paradigma ecológico estendeu-se a todas as disciplinas, fornecendo um quadro de referência que facilita a compreensão da natureza das relações das pessoas com o seu meio físico e sociocultural (Stokols, 1992). Segundo este autor, uma perspectiva ecológica da saúde e da promoção da saúde implica alguns princípios, a saber: a) uma situação conducente à saúde e bem-estar é influenciada por inúmeros factores, físicos (p. ex., geografia, arquitectura e tecnologia), sociais (p. ex., cultura, economia e política), pessoais (p. ex., biologia, psicologia); b) a análise da saúde e da promoção da saúde deverá reflectir a complexidade multidimensional dos ambientes humanos, descritos em 12 termos dos seus componentes físicos e sociais, tanto quanto às suas qualidades objectivas como às suas qualidades percebidas, imediatas ou a longo prazo, cada uma por si e em interacção umas com as outras; c) tal como os ambientes podem ser descritos em vários níveis, também os indivíduos devem ser vistos em vários níveis de agrupamentos, do indivíduo, família, pequeno grupo, organizações, até aos grandes aglomerados populacionais, recorrendo a várias metodologias (e.g., exame médico, questionários, observações comportamentais, registos do ambiente, análises epidemiológicas); d) a perspectiva ecológica incorpora os conceitos derivados da teoria dos sistemas. Uma orientação ecológica implica considerar, simultaneamente: nível de suporte social (ou seja, ligações pessoais próximas), estratégias para lidar com a vida do dia-a-dia (ou seja, grau de racionalidade, flexibilidade, expectativas, planificação, etc.), nível de empenhamento (nível de continuidade, coesão, controlo) e nível de identidade pessoal, na interacção com o contexto cultural, ambiental, histórico e social (Stokols, 1992). O ser humano enquanto sistema Outro grande componente do bloco ecológico é o homem cuja composição e organização se passa a explicar de seguida. Ford (1987, 1990) propõe um modelo sistémico, aplicado à compreensão do homem e das suas relações com o meio, que tem, subjacente, duas proposições básicas: a) o ser humano é um sistema auto-organizado; b) o ser humano é um sistema auto-construído. A estrutura física e, a organização dos sistemas vivos, torna possível quatro conjuntos de funções: a) funções biológicas – crescimento; manutenção; operação e reparação da estrutura biológica; produção de energia. b) funções transaccionais – troca de materiais essenciais para o funcionamento biológico; movimento do corpo e outros processos de troca de energia; recolha e transmissão de informação. c) funções excitatórias – que adaptam a quantidade, frequência, ou intensidade da actividade do sistema para ir ao encontro das exigências do meio. 13 d) funções de governo – organização e coordenação do sistema (i.e., direcção controlo e regulação do comportamento; processamento e armazenamento de informação). Estas funções, que são garantidas por vários sub-sistemas – biológico, transaccional, excitatório e de governo – aplicam-se, também, ao sistema humano e, são todos importantes para a acção individual. Todos estão em interacção contínua uns com os outros e com o meio, de uma forma dinâmica. No sub-sistema biológico, que garante as funções biológicas, identificam- se todas as estruturas constituintes do organismo humano (sistema circulatório, sistema músculo-esquelético, sistema nervoso, sistema digestivo, sistema endócrino, sistema respiratório, entre outros) concebidas, tanto isoladamente como em interacção. Deficiente funcionamento destas estruturas, originam fadiga e baixa no ritmo de acção: determinados contextos são exigentes relativamente à capacidade de movimentação. No mundo moderno, a consciência ecológica emergente, exige uma nova forma de relacionamento do homem com a natureza, apelando para uma maior disponibilidade e mobilidade do sistema biológico. O stress afecta estas estruturas provocando danos que podem conduzir à morte. No sub-sistema de governo, que garante as funções de governo, identificam-se três processos (Ford, 1987): a) processos directivos – organizam e elaboram cognições que representam as consequências desejadas e emitem sinais para o resto do sistema, de modo a coordenar e organizar a actividade que conduza o indivíduo para essas consequências; b) processos reguladores – avaliam em que grau a pessoa atingiu, está em vias de atingir, ou caminha para a consecução de resultados desejados, assim como o grau em que os recursos disponíveis foram, são, ou deverão ser utilizados para atingir certos fins socialmente apropriados, adequados consoante a situação e com eficiência. Este processo pode levar à modificação dos objectivos ou a definir novos objectivos. c) processos de controlo – são responsáveis pela avaliação das representações cognitivas, pela construção das consequências desejadas e pelo estabelecimento de planos adequados para atingir os fins perseguidos e activados pelos processos directivos, tendo em conta as limitações impostas pelos processos reguladores. No sub-sistema transaccional identificam-se três conjuntos responsáveis pela acção, correspondentes aos três tipos de recursos de que os sistemas 14 vivos necessitam para manter o funcionamento corrente e para conseguir novas capacidades funcionais: a) material – que lida com a troca de materiais (i.e., comer, beber, respirar, excretar); b) energia – que lida com o movimento do corpo, com a manipulação do meio e outros processos de troca de energia (i.e., andar, correr, segurar, bater, lançar, levantar, carregar, usar ferramentas); c) informação – que lida com a troca de informação com o meio (i.e., ver, ouvir, tocar, experimentar, cheirar, falar, escrever, gesticular, sorrir). No sub-sistema excitatório, que garante as funções excitatórias identificam- se três processos: a) processos de activação energética – lidam com a variação do nível de vigor e esforço necessários para a acção, em função das circunstâncias exigidas pelo meio e das mudanças decididas nos sistemas directivos. A actividade do dia-a-dia exige variações sensíveis no nível de activação; b) processos atencionais – são responsáveis pela variação nos níveis de consciência e de concentração. Actuam variando as sensações, as percepções e as cognições, fornecendo mais ou menos energia para a realização das tarefas, filtrando o “ruído” e amplificando o “sinal” na direcção adequada. Os processos atencionais estão intimamente ligados ao sub-sistemade governo e por isso têm um papel particularmente importante; c) processos emocionais – são processos especializados que ajudam a regular o comportamento em diferentes condições do meio. Por exemplo, a raiva fornece energia à acção, de tal modo que, se pode lidar mais eficientemente com os obstáculos para atingir os objectivos. A tristeza e a depressão, por outro lado, inibem a actividade de tal modo que pode-se deixar de perseguir os objectivos propostos. A culpa pode servir as mesmas funções para os fins considerados inaceitáveis. Emoções positivas, tais como interesse, satisfação e esperança, promovem comportamentos eficazes, na medida em que, fornecem energia para a procura de novos objectivos ou para manter os actuais. As emoções são, em geral, adaptativas. Concluindo, podem-se conceber quatro sub-sistemas que caracterizam o ser humano: biológico, excitatório, de governo e transaccional. Estes sub- sistemas, interdependentes, garantem um conjunto de funções que resultam em acção, em contextos que podem ser concebidos em diversos níveis. 15 A organização do livro O livro está organizado em quatro partes. A primeira parte introduz a Psicologia e Saúde, fazendo referência ao conceito, à legislação que define o seu campo de acção em Portugal, a interpretação que é feita à interface da Psicologia e Saúde com os contextos tradicionais de saúde. Seguidamente apresenta-se uma perspectiva histórica da saúde e das doenças, para se compreender porque é que no virar do milénio se chegou a esta Psicologia e Saúde. Finalmente abordam-se alguns conceitos básicos. Na segunda parte aborda-se a relação entre comportamento saúde e doenças, os modelos principais que têm sido desenvolvidos para compreender a relação entre Psicologia saúde e doenças e a intervenção que deve ser considerada nos diversos contextos de saúde e de doença. Na terceira parte abordam-se os indicadores sanitários, epidemiologia e factores de risco e de recurso de saúde, assim como as principais causas de mortalidade. Descrevem-se as quatro principais causas de mortalidade os factores de risco que lhes estão subjacentes e pistas para a intervenção de psicólogo. Seguidamente discute-se o papel da adesão dos indivíduos ao tratamento. Na quarta parte abordam-se três temas básicos que são comuns às doenças e à saúde. Apresenta-se, ainda, um léxico com os termos mais importantes e as referências bibliográficas que são referidas ao longo do livro. 16 PARTE I – INTRODUÇÃO À PSICOLOGIA E SAÚDE A psicologia no campo da saúde Na década de 70 ocorreu uma mudança radical no modo dos políticos e dos cientistas pensarem a saúde, dando origem ao que ficou conhecido por Segunda Revolução da Saúde (Michael, 1982; Richmond, 1979). Esta revolução teve duas características essenciais: (a) passou a centrar-se sobre a saúde ao invés de sobre a doença e, (b) reconheceu que, nos países desenvolvidos, o comportamento humano era a principal causa de morbilidade e mortalidade. Foi no contexto desta mudança radical que emergiu a Psicologia da Saúde. A Psicologia da Saúde define-se como “domínio da psicologia que recorre aos conhecimentos provenientes das diversas áreas da psicologia, com vista à promoção e protecção da saúde, à prevenção e tratamento da doença, à identificação da etiologia e diagnóstico relacionados com a saúde, com as doenças e disfunções associadas, à análise e melhoria do sistema sistema de cuidados de saúde e ao aperfeiçoamento da política de saúde (Matarazzo, 1982, p. 4). Nesta definição de Psicologia da Saúde identificam-se quatro objectos ou objectivos diferenciados – promoção, protecção, prevenção e tratamento – e dois domínios distintos – saúde e doenças. Perspectiva histórica Formalmente, a origem da Psicologia da Saúde remonta à década de 70. Em 1973, nos Estados Unidos da América, foi criada no seio da American Psychological Association uma task force on health research, com o intuito de estudar “a natureza e a extensão da contribuição dos psicólogos para a investigação básica e aplicada sobre os aspectos comportamentais nas doenças físicas e na manutenção da saúde” (APA task force on health research, p. 263). Em 1976 publicavam um relatório sobre as relações entre a psicologia e os contextos tradicionais de saúde e doença, propondo orientações doutrinárias para a área em estudo. Este relatório constituiu o embrião da nova área da psicologia que ficou 17 conhecida por Psicologia da Saúde. Em 1978, criou-se a Divisão de Psicologia da Saúde da American Psychological Association (Divisão 38) que, a partir de 1982, fez sair o primeiro número do seu periódico – Journal of Health Psychology. Depois deste inúmeros jornais especializados aparecem, quer publicados pelas divisões nacionais de Psicologia da Saúde quer por editoras. Na Europa surge o Psychology & Health, até mais recentemente o Psychology Health & Medicine, ou ligados a domínios específicos como o Psycho-Oncology. Por esta época, movimento semelhante ocorria na Europa. O Regional Office for Europe da Organização Mundial de Saúde, sediado em Copenhaga, publica em 1984 um documento da autoria da European Federation of Professional Psychologists Association, que esclarece a contribuição da psicologia para a saúde. Em Portugal, um artigo de Pereira (1980) aborda a relação entre comportamento, saúde e doenças e, durante a década, outros artigos são publicados sobre o tema (D’Almeida, 1985; Ribeiro, 1989). No seio da Associação dos Psicólogos Portugueses (APPORT) cria-se uma divisão dedicada à Psicologia da Saúde e publica-se uma colectânea de artigos sobre o tema; a partir de 1992 a Análise Psicológica publica vários números temáticos sobre Psicologia da Saúde; organizam-se reuniões científicas, quer por iniciativa da APPORT, quer das escolas de formação, em 1994 tem lugar o Primeiro Congresso Nacional de Psicologia da Saúde com a participação organizativa de elementos de todas as escolas de psicologia do país. Em 1995 cria-se a Sociedade Portuguesa de Psicologia da Saúde (SPPS), sociedade científica baseada nos organizadores do Primeiro Congresso de Psicologia da Saúde. Em 1997 organiza o 2º Congresso Nacional de Psicologia da Saúde que contou com a presença da presidente da divisão de Psicologia da Saúde da American Psychological Association e com a presidente da The European Health Psychology Society. A SPPS edita e apresenta na abertura do congresso o livro de actas que engloba parte substancial das comunicações apresentadas. O interesse da Psicologia pelos ambientes tradicionais de saúde e doença é paralelo ao desenvolvimento da consciência acerca do papel do comportamento na saúde e nas doenças mais comuns, área de interesse conhecida como Medicina Comportamental. Nesta área surgiram títulos especializados de que é exemplo, o Journal of Behavioral Medicine, cuja publicação se iniciou em 1978 editado pela Academy of Behavioral Medicine dos Estados Unidos da América, enquanto outros periódicos mudam de nome para se adaptarem às novas perspectivas, caso do Journal of Human Stress que passa, em 1988, a chamar-se Behavioral Medicine. 18 O interesse da psicologia pela saúde e doenças não mentais Uma questão interessante a colocar é porquê o aparente interesse súbito da psicologia pelas áreas tradicionais da saúde? Segundo Millon (1982), desde os primórdios da psicologia havia exemplos de colaboração entre os domínios médicos e psicológicos: no final do século XIX são conhecidas as colaborações de Wundt com Kraepelin, nos EUA e de Heymans com Weirsma, na Europa, embora estas colaborações focassem primordialmente as psicopatologias. Já dentro do século XX esboçaram-se relações institucionais entre a Psicologia e a Medicina: em 1911, na reunião anual da American Psychological Association,houve encontros formais entre psicólogos e médicos com o intuito de discutir a participação dos profissionais de psicologia nos contextos tradicionais de saúde e doenças. Apesar destas tentativas, as relações entre os dois domínios mantiveram-se incipientes até ao final da década de 70, concluindo o relatório da APA task force on health research (1976), que os psicólogos americanos não se sentiam atraídos para as áreas das doenças físicas e da saúde. Subitamente, na década de 80 verifica-se uma explosão do interesse dos psicólogos pela área. O que é que aconteceu que provocou tal mudança? Belar, Deardorff e Kelly (1987) enumeram algumas das razões possíveis para este interesse: a) fracasso do modelo biomédico na explicação das doenças e da saúde; b) crescimento da preocupação com a qualidade de vida e com a prevenção da doença; c) mudança da atenção dos profissionais de saúde das doenças infecciosas para as doenças crónicas, com o reconhecimento do papel fundamental do estilo de vida; d) maturidade da investigação nas ciências comportamentais; e) aumento dos custos dos cuidados de saúde e procura de alternativas aos cuidados de saúde tradicionais. Psicologia Clínica, Psicologia da Saúde e Psicologia Clínica da Saúde Etimologicamente o termo “clínico” tem origem no latim clinicus, emprestado do grego Klinicos e significa “o que visita o doente na cama”, por sua vez com origem na palavra klinein que significa “estar deitado”. Segundo Mucchielli e Mucchielli (1969) o termo, com aplicação mais 19 antiga na medicina, significa estar à cabeceira do doente salientando, simultaneamente, um atendimento personalizado e prático. Na psicologia as origens do significado do termo são diferentes. No final do século passado, Witmer apresentou um novo método de investigação e instrução que designou por Psicologia Clínica (Garfield, 1965). O termo clínico sublinhava a função prática do psicólogo em oposição ao que era a prática tradicional de então que era de laboratório. Por esta altura a expressão Psicologia Clínica é também utilizada por Freud numa carta escrita a Fliess. Como explicam Ribeiro e Leal (1996) a preocupação dos pioneiros da Psicologia Clínica visava predominantemente as crianças deficientes. Já dentro do século XX a Psicologia foi-se generalizando a outras disfunções, nomeadamente às dos indivíduos com ferimentos cerebrais. Entre as Primeira e Segunda guerras mundiais, o desenvolvimento de técnicas de avaliação psicológica e a afirmação dos psicólogos como os grandes, aliás os únicos, especialistas nessa função, arrastou os psicólogos para a área de sua maior competência, a avaliação psicológica que, para os menos informados, por vezes se tende a identificar com a função principal do psicólogo. No final da Segunda Guerra Mundial a Psicologia Clínica desenvolve-se no auxílio às vítimas da guerra. Data, aliás de 1947, o primeiro programa significativo de formação nesta área desenhado por Shakow, na época presidente do Committee on Training in Clinical Psychology da American Psychological Association (Garfield, 1965). A Psicologia Clínica começava a afastar-se do que era a sua zona de segurança – a avaliação psicológica – e começava a desenvolver e a implementar modelos de intervenção baseados na ciência psicológica. A Psicologia começava realmente a aplicar o que verdadeiramente se pode chamar o método clínico e o raciocínio clínico. Segundo Isselbacher, Adams, Brawnwald, Petersdorf e Wilson (1980), o método clínico é idêntico ao método científico, começando com dados de observação que sugerem uma série de hipóteses que depois são examinadas à luz de novas observações, algumas das quais são feitas na clínica e outras no laboratório. Finalmente, chega-se a uma conclusão que em ciência se denomina teoria e em medicina diagnóstico operacional. Godman (1991) explica que o raciocínio clínico se inicia numa investigação das queixas através da análise da história e da observação. Num segundo momento recolhe dados a partir de técnicas de diagnóstico apropriadas em termos de utilidade, validade e fidelidade. Depois integra 20 os dados recolhidos nas duas fases anteriores de modo a conhecer adequadamente o estado do sujeito. Em quarto lugar estima os custos e benefícios da necessidade de realizar mais testes ou de iniciar o processo de ajuda. Finalmente as várias opções são discutidas com o sujeito e dá-se início ao plano terapêutico. A Psicologia Clínica instalava-se e ganhava estatuto nos hospitais psiquiátricos onde os psicólogos se estabeleciam com vigor. Shakow (1975) definia Psicologia Clínica como “área de conhecimento e de habilidades que visa ajudar as pessoas com alterações comportamentais ou perturbações mentais a alcançar modos mais satisfatórios de ajustamento pessoal ou de auto-expressão” (p. 2376). Entretanto, a evolução dos sistemas de saúde, o desenvolvimento de medicamentos que controlavam o comportamento dos indivíduos e as críticas ferozes ao modelo de internamento, tornaram obsoletos os hospitais psiquiátricos. Estes tornaram-se serviços de psiquiatria a par de outros serviços em hospitais gerais e os hospitais psiquiátricos começaram a desaparecer. Os profissionais que trabalhavam com a doença mental começaram a ser solicitados para ajudar pessoas com doenças não mentais mas com problemas de adaptação à sua doença, às sequelas da doença, ou outras equivalentes. É nesta época que emerge a Psicologia da Saúde. De então para cá, nos Estados Unidos da América, na Europa e um pouco por todo o mundo, a Psicologia da Saúde tem-se desenvolvido rapidamente e emprestado uma nova e interessante dinâmica não só à Psicologia mas também ao Campo da Saúde em que está implementada ou se tenta implementar. De facto, para lá da perspectiva da Psicologia como “ciência da saúde, que contribui para uma melhor compreensão dos factores envolvidos na saúde e na doença” (McIntyre, 1994b, p. 19), é de destacar a Psicologia como profissão de saúde. Se esta perspectiva é clássica no que concerne especificamente ao psicólogo como técnico de saúde mental não o é, de modo nenhum, para uma saúde que se pretende geral e preze o papel dos próprios indivíduos e das comunidades nos seus estados de saúde e qualidade de vida, bem como de muitas das suas formas de ser e estar doente. Esta é, aliás, uma das grandes novidades que a legislação que define o estatuto e funções do psicólogo clínico traz. Diz este documento que o psicólogo clínico “é o profissional habilitado com o grau de especialista que desenvolve funções científicas e técnicas no campo da saúde”, ou seja, desaparece a palavra mental. Então, se desde a Segunda Guerra Mundial a Psicologia Clínica se dirigia essencialmente às doenças mentais, a emergência da Psicologia da Saúde, visando, no início, essencialmente as doenças físicas, empurrou estes dois 21 grupos para uma aproximação, visto que o que as separava deixava de ter sentido – por um lado a dimensão física e por outro a mental. Neste sentido vemos as posições de Milon e de Fox. O primeiro defendia que a Psicologia Clínica e a Psicologia da Saúde fossem consideradas como apenas uma, dado que, “clinical psychology was misguided in its evolution when it followed a dualistic mind-body model and there by itself to ministering to the ‘mentally’ disordered. Health psychology came into being in great measure as an antidote to the deficits and imbalance this created” (Millon, 1982, p. 9). Fox num texto com um título sugestivo – The need for a reorientation of clinical psychology – defendia que: we devoted 90% of our efforts serving the needs of the 10%-15% of the population that suffers from diagnosable mental illness. (...) If psychology is to become a true health profession it must greatly expand its concernswith general health issues. Psychologists should be concerned not only with helping people to cope with anxiety or emotional disturbances, but also with helping people to cope with such physical health problems as chronic illness, impending surgery, heart attacks, unhealthy life-styles, and so forth. If clinical psychology were defined as the profession devoted to enhancing the effectiveness of human coping skills, the profession then should be concerned with all human functioning and the ability to cope with all types of health conditions (Fox, 1982, p. 1052). Estava-se no início da Psicologia da Saúde. A past presidente da divisão 38 – Health psychology – afirmava em 1987 “obviously, clinical health psychologists engage in the same broad range of functions as more traditional clinical psychologist” (Belar, Deadorf, & Kelly, 1987, p. 8). Ou seja, a partir da década de 70, a intervenção no Sistema de Saúde em geral e no de Cuidados de Saúde em particular e a evolução seguinte, que consistiu em fechar os tradicionais hospitais psiquiátricos e criar Serviços de Saúde Mental a par de todos os outros serviços de cuidados de saúde, empurra e obriga a psicologia a repensar a sua postura neste campo e, principalmente, a rever o seu arsenal de teorias, técnicas usadas e fins. Nasce assim o que alguns denominaram “Psicologia Clínica da Saúde”, definível como a aplicação dos conhecimentos e métodos de todos os campos práticos da Psicologia, na promoção e protecção da saúde física e mental do indivíduo e na prevenção, avaliação e tratamento de todas as formas de perturbação mental e física, nas quais as influências psicológicas podem ser usadas ou podem contribuir para aliviar o mau funcionamento ou distress (Bellar et al., 1987; Millon, 1982). 22 Não se pense no entanto que o que foi dito acima é universalmente aceite. Os valores não mudam assim e, tal, nota-se na terminologia utilizada. Para alguns a Psicologia Clínica continua a ser a que se faz no âmbito da saúde mental enquanto a da Saúde seria a que se pratica com as doenças físicas, ou seja a continuação da adopção do dualismo estrito mente-corpo. A par desta divisão muitas outras existem e variam de significado em países diferentes. Psicologias Clínicas e da Saúde Com as mudanças que ocorreram na concepção de saúde a partir de década de 70, alterou-se concomitantemente o papel da Psicologia no Sistema de Saúde. Estas alterações conduziram a uma proliferação de expressões que pretendiam intitular o profissional de Psicologia que trabalhava no Sistema de Saúde como, por exemplo: Psicologia Clínica do Desenvolvimento que expressa o interesse por uma abordagem desenvolvimental no ciclo de vida (Bibace & Walsh, 1979); Psicologia Clínica da Criança, que qualifica a Psicologia Clínica que se dedica às crianças (Bibace & Walsh, 1979); Psicologia da Reabilitação que qualifica actividades orientadas para a restauração funcional subsequente a traumatismos ou a deficiência física (Millon, 1982), Neuropsicologia Clínica (Belar, Deardorff, & Kelly, 1987) que Kaplan e Saccuzzo (1993) definem como a disciplina científica que foca as incapacidades do sistema nervoso central e o seu tratamento, ou Psicologia da Saúde da Criança (Maddux et al., 1986). Outras expressões tendem a confundir-se com a Psicologia Clínica como é o caso, por exemplo, de Psicologia Médica, que é um termo geral abrangendo o uso de procedimentos e princípios psicológicos no diagnóstico e avaliação da doença física e na avaliação do tratamento (Alcorn, 1991) e que, em Portugal, tende a ser exercida, quase exclusivamente por médicos; Psicossomática, que se interessa pela relação entre variáveis fisiológicas e psicossociais na doença, conceito que se baseia na ligação entre explicações psicanalíticas da personalidade e o desenvolvimento subsequente de certas doenças (Alcorn, 1991; Millon, 1982), etc. Por vezes recorre-se a outras expressões como “psicologia clínica em contextos médicos”, título do livro de Sweet, Rozensky e Tovian (1991). Sherr (1996) propõe figurativamente as várias áreas de intervenção da Psicologia no Campo da Saúde que resultariam do cruzamento de dois eixos em que um representa o tipo de problemas e o outro o tipo de intervenção. Deste cruzamento resultariam quatro celas que expressavam modos de intervenção diferentes: 23 Problemas Psicológicos Médicos Intervenção Psicológica A B Intervenção Médica C D Assim, a cela A abrangeria problemas psicológicos com intervenção psicológica, (seria a área tradicional da Psicologia clínica); a B problemas médicos com intervenção psicológica (área da Psicologia da Saúde); a C problemas psicológicos com intervenção médica (área da psiquiatria) e a D problemas médicos com intervenção médica. Todas as expressões passíveis de qualificar práticas profissionais dos psicólogos no Sistema de Cuidados de Saúde ou no Sistema de Saúde em geral podem ser, genericamente, substituídas por Psicologia Clínica na medida em que abrangem as funções que estão definidas para o profissional de psicologia que exerce a sua prática no Campo da Saúde. Aspectos novos da psicologia que se pratica no sistema de saúde As mudanças ocorridas no Campo da Saúde introduziram aspectos novos na prática do psicólogo que intervém no sistema de cuidados de saúde. De entre estes salientamos: 1) definição de quem é o cliente; 2) alteração na relação psicólogo doente; 3) tempo de intervenção. Definição de quem é o cliente Não se trata realmente de um aspecto novo. Nos hospitais psiquiátricos tradicionais esta questão já existia. No entanto ela existia ao nível dos “psi’s” e era, provavelmente, mais fácil de resolver. Lembramos que etimologicamente a palavra “cliente” qualifica aquele que pede ajuda. Quando alguém se dirige ao gabinete do psicólogo a pedir ajuda na resolução de um problema não há dúvidas acerca de quem é o cliente. 24 Hoje, as equipas onde o psicólogo está incluído, são maiores e mais complexas, informadas por conhecimentos mais diversificados. Quando o doente se dirige ao sistema de Cuidados de Saúde a pedir ajuda, não o faz para aspectos psicológicos. Fá-lo, geralmente, para pedir ajuda para o mal- estar, o sofrimento, provocado por uma qualquer presumível doença física. É no âmbito da relação com o médico, ou outro dos que participam no diagnóstico, que surge a eventual necessidade de apoio psicológico ou psicoterapêutico. Então o médico ou outro, pedem apoio ao psicólogo. Ora, assim, o cliente passa a ser o médico que pediu ajuda para o doente (ou de modo mais alargado o próprio sistema de saúde) e não o doente. No seio da equipa multidisciplinar surgirá a discussão do caso e o psicólogo deverá questionar-se sobre qual a informação que pode partilhar com a equipa sem violar o código de ética. Qual é a informação que poderá ser útil à equipa e, por conseguinte, ajudar o doente? Qual é a informação que nunca deve ser divulgada? Alteração na relação psicólogo-doente Ainda na continuação do referido anteriormente, quando o psicólogo, no seu gabinete perante um cliente que o procura, pode recorrer à expressão metafórica “então o que é que o traz por cá?”, quando lhe é pedido que se dirija à cama “x” porque um doente está particularmente “nervoso” ou ansioso, o normal será que o doente lhe faça aquela pergunta. À primeira vista pareceria que o cliente é o psicólogo. Muitos doentes nem sequer sabem o que é o psicólogo, outros, não sabem que existem naquele serviço, outros pensam que os estão a considerar loucos e muitas outras possibilidades. Portanto, esta psicologia que se faz à cabeceira do doente, ou seja esta “verdadeira” psicologia clínica (no sentido que se faz à cabeceira do doente), este apoio psicológico, implicará, forçosamente, uma abordagem diferente.Por outro lado, como os doentes estão em enfermarias com outros, os que estão nas camas ao lado estão em posição de escutar o apoio do psicólogo ao doente, o que significa que este apoio tem limitações. Tempo de intervenção Finalmente e na sequência dos aspectos anteriores, o apoio que é dado nestes casos é normalmente breve. O doente, na maioria dos casos, abandona o hospital e o tempo que o psicólogo passa com o doente é muito 25 curto, não só o que está à cabeceira do doente como o número de vezes que está como ele. Este modo de relacionamento está longe dos parâmetros que tradicionalmente são considerados na relação de apoio. A Psicologia Clínica hoje O facto de a Psicologia Clínica só passar a estar regulamentada em 1994 foi benéfico na medida em que não foi necessário anular ou acrescentar funções à Psicologia Clínica que se deveria praticar na interface com o sistema de saúde. O que este Decreto-lei estabelece são as funções que modernamente são realizadas pelos psicólogos em contexto ou com objectivos de saúde e que, na realidade consiste nas funções do que se designou por uma Psicologia Clínica da Saúde e que, mais economicamente se passará a chamar Psicologia Clínica. Com o Decreto-lei 241/94 de 22 de Setembro de 1994 (com aditamentos da Portaria nº 1109/95 de 9 de Setembro) surge em Portugal a consagração da prática da Psicologia Clínica no sistema de saúde como profissão que desenvolve “funções científicas e técnicas de avaliação, psicodiagnóstico e tratamento no campo da saúde” (p. 5671). Mais especificamente consagrou-se como funções da Psicologia Clínica no âmbito do sistema de saúde, o estudo psicológico de indivíduos e grupos populacionais, a participação e elaboração de programas de educação para a saúde, o aconselhamento psicológico individual, conjugal, familiar ou de grupo, bem como a intervenção psicológica e psicoterapêutica. Estabeleceu-se ainda que, além destes níveis de intervenção, é função do Psicólogo Clínico no sistema de saúde a elaboração, promoção e coordenação de acções de formação complementar, a participação em acções de formação na área da especialidade e afins, assim como a participação em programas de investigação em aspectos relacionados com a sua área profissional. Este Decreto-lei, embora a um primeiro olhar não faça mais do que estabelecer legalmente aquilo que são de facto as possibilidades e competências específicas dos Psicólogos Clínicos que trabalhem no sistema de saúde, introduz dois princípios fundamentais no modo de conceber a Psicologia Clínica: 1) define que a intervenção do Psicólogo Clínico se realiza no Campo da Saúde, em geral e já não somente no da saúde mental; e, 2) coloca o Psicólogo Clínico na dependência funcional de outros Psicólogos Clínicos e não, como anteriormente na de outros técnicos. 26 Estes dois princípios, que do nosso ponto de vista são decisivos, reflectem, por um lado, desenvolvimentos importantes que ocorreram no sistema de saúde e, por outro, impõem adaptações importantes na prática tradicional do Psicólogo Clínico e na sua formação. Inquéritos realizados nos Estados Unidos da América mostram que os psicólogos que trabalham no sistema de saúde dedicam cerca de 15 a 25% do seu tempo profissional à investigação, cerca de 10% ao diagnóstico, 15% ao ensino, 15% à terapia e 5 a 10% à administração. Estes valores variarão para Portugal mas as funções a exercer não serão muito diferentes. A saúde e a doença ao longo dos tempos Na medida em que a saúde é um recurso pessoal da vida de todos os dias, é normal que as pessoas tenham ideias acerca da saúde e das doenças. Essas ideias têm variado ao longo dos tempos através das diversas culturas e religiões, através de grupos socio-económicos e consoante a instrução das pessoas dentro da mesma cultura. A formação das ideias dos técnicos implica a compreensão destas diferenças e a adopção de um modelo explicativo. A parte que se segue visa contribuir para a formação de ideias acerca do que deverá ser entendido como saúde e doenças. Importância de uma perspectiva ecológica As mudanças ocorridas no planeta Terra nos últimos 15 biliões de anos permitiram ao homem atingir o ponto em que se encontra hoje. Mudanças, muito lentas por vezes, muito rápidas noutras, moldaram a vida na terra tal como é conhecida. Nesta lenta viagem, milhares de espécies desapareceram e milhares de outras surgiram, em resposta adaptativa, ecológica, às mudanças ocorridas. Como defendem Katz e Wallace (1974) o equilíbrio ecológico tem sido um elemento fulcral no desenvolvimento da humanidade. Estes autores explicam que: “num sentido evolucionário alargado, o sistema sociocultural humano tem sido capaz de proteger e isolar o homem de certos efeitos prejudiciais do 27 meio ambiente. Por outras palavras, ao longo do tempo, a população humana adapta-se ao seu ambiente nativo, não apenas através de determinadas características fisiológicas, geneticamente determinadas, mas também através da cultura que, por esse meio mantém um equilíbrio dinâmico com os processos de mudança ambientais” (p. 1050). Quando este equilíbrio era perturbado surgiam as epidemias que dizimavam populações que não estavam preparadas para se defender de microorganismos desconhecidos. Exemplos deste tipo ocorreram aquando dos descobrimentos: com efeito, em 1519 a população nativa do México era estimada em cerca de 30 milhões, tendo caído para 3 milhões em 1568 após a conquista pelos espanhóis. Esta diminuição ocorreu, em grande parte, devido à introdução, pelos conquistadores, de organismos patogénicos desconhecidos naquele meio, neste caso a varíola e o sarampo. Ao mesmo tempo, o contacto com as civilizações do outro lado do Atlântico facilitaram a transformação da bactéria transmissora da sífilis – Treponema Pallidium – de modo a que se tornasse eficiente através da transmissão sexual, o que não ocorria antes. Esta doença, praticamente desconhecida antes das descobertas teve, por sua vez, efeitos devastadores no velho mundo. A revolução industrial, tal como 200 anos antes os descobrimentos, provocaram grandes alterações no modo de vida de grande parte da população do planeta e as mudanças que a acompanharam causaram grandes alterações no meio físico e social e no estilo de vida do homem. A revolução pós-industrial ao reconhecer, pela primeira vez, a necessidade do equilíbrio ecológico para a sobrevivência da humanidade, propõe-se restabelecer equilíbrios que existiam há centenas de anos. Esta tentativa de restabelecimento do equilíbrio ecológico instalada ao nível dos discursos não parece acompanhar a acção. A crise ecológica está instalada: imagens de fome, guerra e infecções nos países do sul, poluição química, espacial, sonora e visual, mecanização da vida diária nos países do norte, ocupam diariamente os media. Não se trata, agora, de defender qualquer espécie em vias de extinção, ou de salvar uma floresta que é pulmão do planeta. Trata-se de uma crise que afecta todo o sistema que constitui o planeta Terra. Neste contexto de crise ecológica, surgiu a necessidade de estudar as repercussões da ecologia para os seres humanos, dando origem ao conceito de “ecologia humana”. Segundo Dubos (1979), ecologia humana abarca mais do que a relação entre o homem e o meio ambiente. A ecologia ensina-nos que todas as forças sociais, físicas e biológicas, actuando sobre o homem, direccionam o seu desenvolvimento e moldam a sua natureza. O corpo e a mente estão em 28 modificação constante e, consequentemente, em formação, devido a estímulos que induzem reacções formativas. Embora actualmente se estudem, fundamentalmente, os efeitos nefastos das alterações ecológicas chegará o dia em que a ecologia humana estará apta a dar maisatenção aos efeitos benéficos e positivos do meio, do que aos efeitos patogénicos. Segundo Dubos, adoptar uma perspectiva ecológica, mais concretamente de ecologia humana, implica a adopção de uma nova atitude intelectual e científica diferente da que é considerada adequada na biologia em geral e noutras ciências biomédicas, porque ela tem de lidar com os efeitos indirectos e a longo prazo, exercidos (no ser humano) pelo ambiente e pelo estilo de vida, mesmo se esses factores não tiverem, aparentemente, influência imediata. Seria fácil ilustrar a importância desses efeitos indirectos e a longo prazo, discutindo, por exemplo, o papel da abundância ou falta de alimentos, das várias formas de poluição química e microbiana, dos efeitos do ruído ou outros estímulos, da densidade e, especialmente, das rápidas mudanças populacionais; em resumo, de todas as forças ambientais que actuam sobre o homem de todas as classes sociais, em todos os locais. Devemos salientar que os efeitos mais importantes do ambiente e do estilo de vida são, frequentemente, difíceis de reconhecer, dado só se manifestarem, indirectamente, após muito tempo (Dubos, 1979). Saúde e doenças são processos e estados que fazem parte da vida e que medeiam entre a concepção e a morte. As doenças são processos em que o equilíbrio ecológico está perturbado, enquanto a saúde é um processo em que o organismo está em equilíbrio e funcional. Este equilíbrio ecológico não pode excluir o meio ambiente ou, dito de outro modo, não parece possível manter-se saudável num planeta doente (King, 1990). A saúde é um elemento fundamental na evolução das espécies vivas. Com efeito, não é suficiente estar vivo: é essencial que haja energia e vigor para actuar, que haja relaxamento e calma para reflectir num estado de vigilância activo, mesmo na ausência de acção, que haja expectativas de futuro, desejo e, finalmente, que haja equilíbrio entre estes diferentes aspectos e entre eles e o ambiente onde tudo ocorre. Para que tudo isto suceda é necessário Saúde. Com afirmava Sigerist em anos longínquos (1941), ser saudável é ser bem equilibrado corporal e mentalmente e bem ajustado ao meio físico e social, é estar em controlo total dos recursos mentais e físicos, é adaptar-se às mudanças do meio (desde que não excedam os limites normais), é contribuir para o bem-estar da sociedade de acordo com a sua capacidade. A saúde é algo positivo, uma atitude jovial, alegre, perante a vida, é aceitação, bem-disposta, das responsabilidades que a vida impõe. 29 Torna-se, no entanto, necessário definir um modelo alternativo ao modelo biomédico que é influenciado pela perspectiva cartesiana, que inclua a compreensão dos processos causais mútuos entre o funcionamento psicológico, comportamental, biológico, bioquímico e social. Dito de outra maneira, é necessário adoptar um modelo conceptual que represente o indivíduo como uma unidade estrutural e funcional em desenvolvimento, como uma organização complexa, em transacção contínua com um meio ambiente (tecnológico, biológico, arquitectural, paisagístico, etc.) em mudança. A psicologia do desenvolvimento já se defrontou com este problema e produziu modelos que podem ser úteis para conceptualizar a Saúde nesta nova perspectiva. Evolução dos sistemas de saúde As técnicas médicas desenvolvidas entre o final do século XIX e meados do século XX, deixaram supor que o caminho para o controlo definitivo das principais doenças tinha sido encontrado. A partir de meados do século XX, altura em que o desenvolvimento de novos medicamentos começou a permitir curar grande parte das doenças infecciosas, dá-se uma alteração radical nas causas de mortalidade e morbilidade. As principais causas de doença deixaram de ser organismos patogénicos que, introduzidos no organismo hospedeiro provocavam doenças, para passarem a ser o comportamento humano. Embora a partir de meados do século se tivessem começado a notar mudanças nos padrões de morbilidade, mortalidade e suas causas, foi na década de 70 que se verificou o impacto público destas mudanças e se definiram estratégias universais para enfrentar o novo desafio. A intervenção sobre este novo agente – o comportamento humano – exige soluções, forçosamente mais complexas, substancialmente diferentes das adoptadas até então e tende a tornar inadequados os modos tradicionais de conceber a saúde e a doença. Simultaneamente impõe aos sistemas de saúde existentes mudanças radicais. Os países desenvolvidos iniciaram uma revolução no campo da saúde. Esta revolução, apelidada por Richmond (1979) de “Segunda Revolução da Saúde”, tem exigido grande esforço e estratégias diferentes para enfrentar os novos desafios. A principal mudança no modo de conceber a saúde consistiu na deslocação do foco das atenções do vector doença, dominante desde o advento da medicina científica, para o vector saúde. Esta mudança 30 ocorreu primeiro entre os cientistas que se debruçavam sobre esta área e depois entre os políticos, conduzindo a uma nova concepção de Saúde Pública, com consequências importantes para os sistemas de saúde tradicionais (Lancet, 1991). O primeiro marco do impacto público das mudanças e da intenção política de introduzir alterações, consistiu na publicação, em 1974, do relatório “A New Perspective on the Health of Canadians” da autoria de Marc Lalonde, então ministro da saúde e do bem-estar do Canadá. Este documento, considerado um livro branco da saúde, constituindo um marco histórico para a nova maneira de conceber a saúde e a doença, justificava do seguinte modo a nova maneira de conceber o Campo da Saúde: “enquanto se faziam progressos nos cuidados de saúde, no nível de vida em geral, na protecção fornecida pela saúde pública e na ciência médica, contra-forças nefastas trabalhavam para destruir esse progresso. Esta forças do contra constituem o lado negro do progresso económico. Elas incluem poluição ambiental, vida citadina, hábitos de indolência, abuso de álcool, tabaco e drogas e padrões alimentares que põem os prazeres dos sentidos acima das necessidades do corpo humano. Para estas ameaças ambientais e comportamentais à saúde, o sistema de cuidados de saúde pode fazer pouco mais do que de rede onde caem as vítimas. Médicos, cirurgiões, enfermeiras e hospitais despendem muito do seu tempo no tratamento de doenças causadas por factores ambientais adversos e riscos comportamentais. É evidente que é necessário implementar melhorias no ambiente, nos riscos auto-impostos e um maior conhecimento da biologia humana, se se pretende que os Canadianos vivam uma vida feliz, plena, longa e livre de doenças” (Lalonde, 1974, p. 5). No mesmo sentido, reflectindo as mesmas preocupações e com as mesmas conclusões, iniciou-se em 1977, nos Estados Unidos da América (EUA), a pedido do governo de então, um estudo sobre o estado da saúde da Nação. Esse estudo, publicado em 1979 com o título “Healthy People: The Surgeon General’s Report on Health Promotion and Disease Prevention”, ficou conhecido por relatório Richmond, nome do autor, então secretário assistente para a saúde e surgeon-general do titular da pasta da saúde. Finalmente, reflectindo esta consciência a nível planetário, em 1978 a Organização Mundial da Saúde adoptou a Declaração de Alma-Ata, onde se definiram um conjunto de objectivos de saúde para a população do planeta e de estratégias para os alcançar – Saúde Para Todos no Ano 2000. Estes três marcos, permitem afirmar que se está numa nova era, quanto ao modo de conceber a saúde e a doença e, quanto ao modo de intervir. 31 Embora as mudanças reais no modo de funcionamento das estruturas de saúde e doença não sejam visíveis, as investigações começaram a reflectir a nova perspectiva. Um destes estudos foi o Estudo Alameda, assimintitulado por ter ocorrido em Alameda County, uma região dos Estados Unidos da América: iniciou-se em 1959 com a instalação do Human Population Laboratory em Berkeley e teve como inovação sobre estudos anteriores pretender explicar, não só os factores que estavam associados às doenças, mas também os que estavam associados à saúde. Os resultados deste estudo começaram a surgir no início da década de 70, evidenciando relações significativas, quer entre o estilo de vida das pessoas e a saúde, quer entre o estilo de vida a morbilidade e a mortalidade. O relatório do Ministro Marc Lalonde, referido acima, introduziu uma distinção que, sendo óbvia, não era utilizada na linguagem da saúde e da doença. Distinguiu as expressões “cuidados de saúde” (health care) de “campo da saúde” (health field) para salientar que a primeira se referia, essencialmente, ao que se fazia nos hospitais e noutros contextos de saúde tradicionais, enquanto a segunda expressava tudo o que dizia respeito à saúde: este último integra o primeiro. A deslocação das preocupações dos cuidados de saúde para o Campo da Saúde constitui a mudança mais radical da Segunda Revolução da Saúde. História da saúde Os conceitos de saúde e de doença evoluíram com a história do homem. Esta parte defende uma evolução das concepções de saúde e doença em quatro fases: uma fase que decorreu até à idade média, outra que se iniciou em consequência dos modos de pensar pós-renascentistas, uma terceira que se iniciou após o início da Revolução Industrial para lutar contra as doenças geradas pela alteração dos padrões de vida – de rural e camponês para citadino e operário – e, finalmente, a que se iniciou com a alteração nos padrões de morbilidade e mortalidade pós Segunda Guerra Mundial. Serão discutidas detalhadamente as consequências potenciais da Segunda Revolução da Saúde e o futuro desejável para esta área. Evolução do conceito de saúde e doença Na maioria destes períodos pode considerar-se que diversos modelos coexistiam, com a ocorrência do desenvolvimento simultâneo de cada um 32 deles. Aliás, historicamente, houve momentos de desenvolvimento civilizacional em que a medicina, sem atingir os níveis tecnológicos sofisticados actuais, já tinha alguns dos defeitos de que a medicina actual é acusada. Por exemplo, não se julgue que o especialismo é apanágio dos nossos dias. Margotta (1988) citava Heródoto que, ao descrever a medicina exercida no vale do Nilo antes de 2000 AC, afirmava que a arte da medicina é muito dividida. Cada médico dedica-se apenas a uma doença e não a mais. Abundam médicos por toda a parte; uns para os olhos, outros para a cabeça, outros para os intestinos e outras para as doenças internas (citado por Ramos, 1988). A medicina chinesa também tem uma história longa. Antes da medicina ocidental e antes das civilizações mediterrânicas se terem afirmado, já atingira níveis de desenvolvimento considerável, embora seguindo uma lógica de raciocínio e um conjunto de princípios, que ainda hoje diferem dos nossos. Os diversos modelos foram-se instalando progressivamente, sem que se verificassem saltos de um modelo para outro. Quanto muito, poderíamos referir-nos a um modelo dominante numa época ou numa cultura. Por exemplo, Myers e Benson (1992) referem que, em meados do século XIX o modelo prevalecente na Europa era um modelo interactivo, que defendia o estado de saúde individual como consequência da interacção de factores biológicos, ambientais e de personalidade, na perspectiva dos modelos anteriores ao modelo biomédico. Só no final do século XIX o modelo biomédico se começou a tornar dominante devido, essencialmente, à investigação crescente em fisiologia experimental. Foi por esta altura que a doença deixou de ser definida holisticamente como estado de desequilíbrio não natural, para passar a ser definida como um desvio da norma, caracterizado por um número crescente de parâmetros fisiológicos específicos e mensuráveis. De salientar, ainda, que o desenvolvimento da Segunda Revolução da Saúde emerge a par com a continuação do desenvolvimento do modelo biomédico tradicional. A coexistência temporal dos diversos modelos pode ainda ser observada noutros acontecimentos contempo-râneos. Por exemplo, a declaração de Alma-Ata de 1978, recomendava que, os cuidados de saúde primários, nos países em vias de desenvolvimento, deveriam incluir na equipa de técnicos que implementassem a intervenção, os indivíduos que nas culturas tradicionais desses povos realizassem esse papel social, tais como, os curandeiros ou shamans. Estes indivíduos apresentam uma concepção próxima do modelo que antecedeu o modelo biomédico, em consonância com a dos povos das regiões em que habitam. Esta tentativa de integração do modelo biomédico com a perspectiva dos modelos pré-científicos 33 caracteriza, de certo modo, a evolução dos modelos de saúde mais actuais, para uma perspectiva ecológica e sistémica. Seria, aliás, errado considerar que o papel deste tipo de actores sociais na saúde – Shamans – interessa apenas aos países em vias de desenvolvimento. Com efeito, parece haver tendência para a emergência de movimentos que olham as medicinas “alternativas” ou “tradicionais” de um modo mais sério. A homeopatia, a quiropráctica, a naturoterapia, a acupunctura entre outras, ao invés de tenderem a desaparecer, parecem ter ganho importância nos últimos decénios, nos países desenvolvidos (McLean, 1988). Por exemplo, num estudo de âmbito europeu, publicado pela revista portuguesa do consumidor (Próteste, nº 118, Set. 1992, pp. 18-22), em que se inquiriam as pessoas sobre a frequência com que eram utentes de terapias paralelas e sobre a percepção da sua eficácia em comparação com a medicina convencional, constatava-se que, embora os europeus recorressem em muito menor número às terapias paralelas do que às convencionais, para os que recorriam, a eficácia percebida era idêntica à da medicina científica. A Organização Mundial de Saúde reconhece, aliás, a existência e a prática de medicinas paralelas (Fontes & Sanches, 1995). Estes autores listam 100 dessas práticas paralelas que são reconhecidas pela OMS. Os períodos que serão descritos a seguir qualificam a emergência e o desenvolvimento de cada um dos modelos de intervenção e conceitualização na saúde e nas doenças, aceitando que eles coexistem e mesmo se interligam. Período pré-cartesiano A fonte inspiradora da ciência médica ocidental localiza-se na tradição hipocrática, um sistema de pensamento e prática médicas que floresceu na Grécia antiga, cerca de 400 a.C. Os seguidores dos deuses da medicina associavam a arte da cura não apenas com o deus Aesculapius mas também com as suas duas filhas, Panacea e Hygeia. Enquanto Panacea estava envolvida com a medicação da doença, a sua irmã Hygeia preocupava-se com o bem-estar e a preservação da saúde. Etimologicamente o grego antigo tem duas palavras significando saúde: Hygeia e Euexia. Higeya, a fonte da palavra higiene, aparentemente, baseia-se na palavra indo-europeia suswives a qual significa “viver bem”, ou mais precisamente “boa maneira de viver”. Euexia significa, literalmente, “bons hábitos do corpo”. São 34 termos dinâmicos que salientam funcionalidade e actividade, enquanto o termo doença sugerindo um estado, tem um sentido estático. É de salientar que na sua origem etimológica – em grego, em germânico, latino, judaico – saúde e doença não apresentam qualquer relação de sentido. De acordo com o sistema de pensamento antigo, cuja expressão antecede a medicina chinesa, o bem-estar e a saúde resultavam do equilíbrio harmonioso (eucrasia), entre aspectos ambientais, tais como, o vento, a água, a temperatura, a terra e os alimentos e a maneira de viver do indivíduo como por exemplo,os hábitos alimentares, de bebida, o sexo, o trabalho e a recreação. A ruptura deste equilíbrio levava à doença (discrasia). A prática médica de então implicava a compreensão da natureza do ecossistema humano (Noack, 1987): o próprio médico era mais do que um técnico, era também filósofo, professor e sacerdote, o que facilitava a compreensão holística da relação doença-saúde (Gatchel, Baum, & Krantz, 1989). A Saúde era concebida numa perspectiva holística. Esta palavra deriva do Grego, Holos, ou globalidade, totalidade. Os filósofos Gregos Platão e Aristóteles referiam-na nos seus escritos quando abordavam os cuidados médicos. O ponto fulcral da perspectiva holística é a noção de que corpo e mente constituem aspectos inseparáveis no Homem. Num diálogo de Charmides, Platão afirmava “a cura de muitas doenças é desconhecida pelos médicos de Hellas, porque eles não dão atenção à totalidade, a qual deve ser estudada também, porque a parte nunca pode estar bem a não ser que o todo esteja bem” (Lipowski, 1986, p. 24). Esta observação de Platão sugere que uma atitude holística constituía um aspecto central do pensamento médico de então. Se nos socorrermos de uma perspectiva etnológica e consultarmos a história verificamos que até à revolução industrial inúmeras culturas praticavam uma medicina muito mais desenvolvida e eficaz do que a cultura ocidental. Cerca de 3000 anos antes de Cristo a medicina Egípcia estava bastante desenvolvida. Os médicos baseavam-se na observação para definir o que se devia fazer, configurando assim, uma prática científica. O papiro Edwin Smith é parte de um tratado de cirurgia que dá uma boa imagem do avanço da medicina naquela época. A medicina babilónica estava legislada, era protegida por lei e o código de Hamurábi fixava os honorários. A medicina ocidental tem as suas raízes em três tradições diferentes, todas elas baseadas na teoria dos humores: a tradição mediterrânica, primeiro, 35 grega e depois islâmico-árabe, a medicina Yunãnia; a tradição indiana, a medicina Ayurvéda; e a tradição chinesa (Fontes & Sanches, 1995). Tales de Mileto que viveu em 600 A.C., Anaximandro, Anaximedes, Heráclito, na tradição mediterrânica e Confúcio e Buda seus contemporâneos, precederam Hipócrates em cerca de dois séculos. A conquista da Grécia e do império Persa por Alexandre Magno, pouco mais de três séculos A.C., a fundação de Alexandria, permitem à medicina um novo salto pelo contacto que se estabeleceu entre culturas florescentes da época. A escola de Alexandria floresceu até à sua conquista pelos romanos em 30 A.C. De Roma fica-nos a fama da Galeno. No início do século oito da nossa era, os árabes atingiram o máximo da sua expansão ocupando grande parte da Europa. Os seus sábios traduziam os livros antigos. Médicos famosos ficaram para a história. Razés (al-Razi) escreveu 61 obras dedicadas à medicina. Nessa altura a península ibérica era um centro árabe importante. Avicena, que vivia em Córdoba inventariou mais de 700 produtos baseados nas plantas. A partir das cruzadas, no virar do milénio, o mundo cristão contactou o mundo árabe e começou a ter acesso ao conhecimento acumulado por esta cultura que por sua vez também tinha contactos com o oriente e com outras práticas médicas. O contacto da península Ibérica com os árabes manteve- se até ao século XV altura em que estes foram expulsos para África. Este contacto com práticas diferentes estimulou a medicina ocidental. Até à idade média a saúde continuava a ser concebida numa perspectiva ecológica: é disso exemplo a definição de saúde apresentada por São Tomás de Aquino, na Summa Theológica, como um hábito ou uma disposição habitual relativamente à natureza, numa concepção de saúde holística. Esta visão ecológica foi, progressivamente, abandonada com o desenvolvimento do pensamento científico moderno. Desenvolvimento do modelo biomédico As suas origens remontam ao século XIV com o renascimento, embora o poder da Igreja contivesse o avanço das ciências. A Reforma impediu no entanto que os dogmas da igreja estivessem presentes em toda a parte. A partir da Revolução Francesa e da revolução industrial, a caminhada para o que se tornou a medicina científica tornou-se imparável. A partir do século XVIII, a medicina ocidental, que até então estivera atrasada tanto do ponto 36 de vista teórico como experimental vai começar a caminhar no sentido da medicina científica tal como se estabeleceu no início deste século. Uma das fontes do desenvolvimento da perspectiva dualista e reducionista aplicada ao pensamento médico tem origem na concessão estabelecida pela igreja católica, há cerca de cinco séculos, visando permitir a dissecação do corpo humano. Tal concessão estava de acordo com a visão cristã, na qual o corpo humano é o contentor, imperfeito e frágil, da alma em trânsito pelo mundo terreno. Esta concessão implicava, tacitamente, a proibição da investigação científica sobre o pensamento e o comportamento humanos, considerados coisas do espírito e por isso, do foro exclusivo da igreja. A adopção da nova perspectiva facilitou a investigação médica sobre a dimensão física do humano e a emergência da medicina científica. Galileu, Newton e Descartes tinham enunciado os princípios básicos da ciência (Engels, 1977), também conhecidos por Modelo Cartesiano ou Mecanicista. Este sistema de pensamento defendia que o universo inteiro (incluindo o Homem), era uma máquina prodigiosa funcionando como um relógio, de acordo com as leis matemáticas. Para descobrir tais leis aplicava-se o método analítico e estudavam-se as partes componentes deste conjunto mecânico. O Discurso do Método de Descartes (1637) definiu o dualismo radical, modo de pensar científico que ajudou a medicina a desenvolver-se, a responder a alguns dos grandes desafios da época e a tornar-se científica. O modelo biomédico tradicional, baseia-se em grande parte numa visão cartesiana do mundo e considera que a doença consiste numa avaria temporal ou permanente do funcionamento de um componente ou da relação entre componentes. Curar a doença equivalia, nesta perspectiva, à reparação da máquina (Engels, 1977; Noack, 1987). O modelo biomédico respondeu às grandes questões de saúde que se manifestavam na época, através da definição de um paradigma que ficou conhecido por Teoria do Germe. Esta, dentro do espírito cartesiano, postulava que um organismo patogénico específico estava associado a uma doença específica, fornecendo assim as bases conceptuais necessárias para combater as epidemias. O novo modelo permitiu enormes progressos na teoria e na investigação, reorientando a prática e a investigação médicas à volta de três critérios: a) a ênfase anterior no princípio de que todos os sistemas corporais funcionavam como um todo foi substituída pela tendência a reduzir os sistemas a pequenas partes, podendo cada uma delas ser considerada separadamente; 37 b) simultaneamente, o indivíduo com as suas características particulares e idiossincráticas deixou de ser o centro da atenção médica sendo substituído pelas características universais de cada doença; c) finalmente, um forte materialismo substituiu a tendência anterior de considerar significativos os factores não materiais (morais, sociais, comportamentais). Este novo modelo centrava-se no corpo (no organismo e suas partes) menosprezando tanto o meio ambiente como as emoções (Myers & Benson, 1992). Ramos (1988) explica que, a chamada fase analítica e reducionista da medicina, se instalou progressivamente na primeira metade do século XX, atingindo o seu desenvolvimento pleno após a II Guerra Mundial. Neste período pós-guerra as transformações sociais, económicas e científicas repercutiram-se no sistema de saúde com o aumento de uma cadavez mais sofisticada panóplia tecnológica, reflexo do movimento científico e tecnológico, paradigmático das sociedades industriais e com as especialidades e sub-especialidades médicas e médico-cirúrgicas a multiplicarem-se explosivamente. Ainda segundo Ramos, o marco de referência relacionado com o arranque desta fase data de 1910 com o Relatório Flexner, nos Estados Unidos da América, que levou ao encerramento de muitas escolas médicas americanas por falta de credibilidade científica. O rigor de critérios e requisitos que passou a ser exigido às escolas médicas sobreviventes – continua Ramos – tornou-as centros de ensino e de investigação e possibilitou o desenvolvimento de uma medicina tecnológica altamente especializada embora menos sensível ao papel social da medicina. O modelo biomédico foi e é eficaz em grande parte das situações agudas. O sucesso da medicina científica conduziu a uma alteração dos padrões de morbilidade e ao aumento da população com doenças crónicas. Ora, para estas doenças, a “medicina de episódios agudos” como lhe chama Ramos (1988, p. 172) deixou de ser eficaz. Primeira revolução da saúde O início da revolução industrial nos finais do século XVIII teve consequências nefastas para a saúde. As alterações do sistema de produção e consequentes mudanças sociais tiveram grande impacto no equilíbrio ecológico, estando na origem das grandes epidemias que emergiram. Grande quantidade de pessoas migraram e aglomeraram-se nas grandes cidades, com parcas condições de salubridade e habitabilidade, facilitadoras da difusão de 38 microorganismos causadores de grande morbilidade e mortalidade. A tuberculose – a praga branca – foi uma das doenças mais conhecidas da época, e, a que mais vítimas provocou. O mesmo padrão manifestou-se para outras doenças infecciosas tais como, a pneumonia, o sarampo, a gripe, a escarlatina, a difteria e a varíola (entre outras). A primeira revolução da saúde foi um dos ramos do modelo biomédico que conduziu ao desenvolvimento das modernas medidas de saúde pública. Tais medidas, que foram essenciais para as mudanças dos padrões de saúde e doença do mundo desenvolvido de então, foram suficientes até meados do presente século. A personalidade de Louis Pasteur e de Robert Koch, o pensamento que dominava na viragem do século XIX para o XX e as condições sociais e económicas existentes, facilitaram a implantação da “teoria do germe”, característica do modelo biomédico aplicando-o, agora, à primeira revolução da saúde. Esta dominou a luta contra a doença na época moderna e esteve na origem das medidas de saúde pública. No tempo dos Romanos o estado já utilizara estratégias para controlar as doenças, implementando medidas sanitárias de canalização de água e esgotos, recolha de lixos, sistemas de ventilação e hospitais, tendo a Idade Média constituído um atraso manifesto relativamente a medidas que haviam sido implementadas no Império Romano. Com a generalização das grandes viagens marítimas e a par das grandes epidemias, começou a vulgarizar-se a partir do século XVII, a quarentena a que estavam submetidos os navios antes de aportarem (Winett, King, & Altman, 1989). O advento da revolução industrial e o aumento das grandes epidemias tornaram a implementação de medidas de saúde pública essenciais à sobrevivência da sociedade. Em meados do século XIX o interesse pela saúde pública estava estabelecido na Europa, visando o combate às grandes epidemias que se desenvolveram com a revolução industrial. Em Portugal, em 1837 foi aprovado o Regulamento de Saúde Pública (MS, 1997). Em 1844, foi criado o Conselho Superior de Saúde do Reino, com o fim específico de combater a segunda epidemia de cólera e de febre-amarela. Um tratado de higiene publicado em 1847, considerava a peste, a febre-amarela e a cólera como tendo origem nos miasmas dos pântanos e aconselhava maneiras de as combater. Este tratado tomava em consideração as condições climatéricas, geológicas e hidrográficas, bem como as condições de higiene das povoações, dos edifícios, das profissões, dos alimentos, vacinas e outros aspectos preventivos. O Conselho durou até 1868 transferindo, 39 então, as suas funções para um departamento do Ministério do Reino. Esta estrutura manteve-se até 1901, altura em que, por responsabilidade de Ricardo Jorge se reestruturaram os serviços de saúde dando-lhe uma organização próxima da actual (Justo, 1992). O modelo biomédico aplicado à saúde pública desenvolveu-se devido ao reconhecimento de que: a) as doenças infecciosas eram difíceis senão impossíveis de curar e uma vez instaladas no adulto, o seu tratamento e cura eram dispendiosas; b) os indivíduos contraíam doenças infecciosas em contacto com o meio ambiente físico e social que continha o agente patogénico; c) as doenças infecciosas não se contraíam a não ser que o organismo hospedeiro fornecesse um meio favorável ao desenvolvimento do agente infeccioso. Para prevenir as doenças era necessário controlar os agentes patogénicos, o que foi feito controlando a sua mobilidade, por exemplo, através da construção de sistemas de esgotos e de distribuição de água potável e da gestão de migrações, ou destruindo esses agentes, por exemplo, através da clorotação das águas de consumo e finalmente, já bem dentro do presente século produzindo vacinas. Quando essas medidas falhavam, intervinha a medicina curativa que, a partir de meados do século XX encontrou nos antibióticos um auxiliar eficaz na destruição desses microorganismos. Os princípios do modelo biomédico definidos pela teoria do germe, que a princípio se referiam apenas aos microorganismos, estenderam-se depois às toxinas, ao neoplasma, à desregulação endócrina, à deficiência nutricional, etc., caracterizando-se por considerar a existência de uma relação causal linear, entre uma causa simples e uma doença. Uma das evoluções para uma concepção mais actual passou pela aceitação de que a etiologia da doença é multicausal. O modelo biomédico teve tanto sucesso que, no final da década de 70 nos Estados Unidos, rareavam os indivíduos com menos de 75 anos, cuja morte fosse devida a doenças infecciosas. Se em 1900, faleciam 5800 pessoas por milhão devido a doenças como gripe, pneumonia, tuberculose, infecções gastrointestinais, difteria, no final da década de 70 essa taxa era de 300. A implementação das medidas de prevenção da doença segundo os princípios do modelo biomédico teve resultados espantosos e, por vezes pouco salientados. Por exemplo, em Inglaterra e País de Gales, em 1838, a mortalidade devido a tuberculose era, cerca de 4000 por milhão passando 50 anos depois, antes do bacilo da tuberculose ter sido identificado para cerca de metade. 40 Já no século XX, na década de 40 antes de se começarem a utilizar eficazmente os antibióticos a taxa de mortalidade devido a tuberculose era de 400 por milhão. Ou seja, entre o início do século XIX e meados do século XX as medidas de saúde pública conseguiram reduzir em cerca de 90% a mortalidade por tuberculose: esse declínio ocorreu antes do uso eficaz de antibióticos e da vacinação serem introduzidos, em meados do século XX (Berckman & Breslow, 1983; Sobel, 1979). Berckman e Breslow (1983) referem que “embora a mortalidade devida a tuberculose tenha sido reduzida para cerca de metade durante o quarto de século em que se passou a ter à disposição a estreptomicina (1948-1971), para o período total desde que a mortalidade devida a tuberculose começou a ser registada (de 1848 a 1971, em Inglaterra e Gales) essa redução representou apenas 3,2%” (p. 8). Este êxito das medidas de saúde pública aplicam-se à maior parte das doenças infecciosas. Por exemplo, Hemminki e Paakkulainen (1976), referem que, na Suécia, das 13 doenças infecciosas consideradasmais perigosas, apenas três, tiveram um declínio na mortalidade e morbilidade significativos devido a medicamentos. A segunda revolução da saúde O termo “Segunda Revolução da Saúde” foi utilizado por Julius Richmond, em 1979, no seu relatório sobre a saúde dos americanos e propôs-se qualificar as mudanças cuja implementação era necessária para responder às novas exigências do Campo da Saúde. Globalmente pode afirmar-se que o desenvolvimento do modelo biomédico se centrara nas doenças, que a primeira revolução da saúde se centrara na prevenção das doenças e que a Segunda Revolução da Saúde centra-se na saúde. Os aspectos, mais radicais, desta segunda revolução são: a) centrar-se na saúde ao invés de nas doenças; b) preconizar o retorno a uma perspectiva ecológica. Acreditara-se que, com a Primeira Revolução da Saúde, os problemas de saúde estariam resolvidos. No entanto, a partir de meados do século XX, surge nova epidemia: uma epidemia comportamental. Com efeito, constatou- se que, nos países desenvolvidos, as doenças que mais contribuíam para a mortalidade eram doenças com etiologia comportamental. Richmond (1979) citava como principais factores de risco, responsáveis pela maioria das doenças e mortes prematuras nos Estados Unidos, os seguintes comportamentos: fumar, consumir álcool e drogas, correr riscos que dão origem a acidentes principalmente os acidentes motorizados entre os jovens. 41 Entre 1900 e 1970 a mortalidade causada por doenças do aparelho circulatório e pelo cancro, aumentou 250 por cento. Nos países desenvolvidos, dos quais Portugal se aproxima, cerca de 50% das mortes são devidas a doenças do aparelho circulatório e 20% a cancro. Taylor (1990) citando um documento da American Hearth Association, referia que 25% das mortes por cancro e cerca de 350.000 mortes prematuras, devido a ataques de coração nos Estados Unidos, podiam ser evitados, anualmente, se se modificasse apenas um comportamento: fumar. Actualmente continua a defender-se a importância desta nova perspectiva de melhorar a saúde: por exemplo, os jornais diários de 10/8/93 (Público, p. 20) difundiam as afirmações de um responsável da O.M.S. para a SIDA: “tal como para evitar o cancro no pulmão e as doenças cardíacas, a informação e educação sobre os estilos de vida saudáveis são a chave da prevenção da sida.” Com base nesta evidência a Segunda Revolução da Saúde teria de se centrar numa nova concepção, em novos princípios: dado as novas epidemias não terem origem em organismos patogénicos, a relação uma causa um efeito implícito na teoria do germe começou a fraquejar. O equivalente ao germe para as novas epidemias são os comportamentos individuais. As “vacinas”, agora, teriam de ser a modificação do comportamento, tomando este, um sentido lato. A Segunda Revolução da Saúde foi consequência das investigações que, de modo crescente, alertavam para as novas epidemias e cujos estudos epidemiológicos só começaram a ser conclusivos e a ganhar notoriedade, na década de 70 (Lalonde, 1974; Michael, 1982; Richmond, 1979). O livro branco sobre a saúde dos canadianos publicado por Lalonde defendia o estabelecimento de uma política nacional de saúde baseada nos quatro pilares: biologia humana, meio ambiente, estilo de vida e organização dos cuidados de saúde, que constituíam o Campo da Saúde. Com base neste modelo o autor defendia que se devia fazer uma distribuição equilibrada das verbas disponíveis para a saúde pelos quatro pilares. Este modelo foi utilizado para analisar a contribuição de cada um dos seus pilares para as 10 principais causas de morte. Segundo Richmond, em 1976 nos Estados Unidos, cerca de metade das mortes prematuras eram devidas a comportamentos inadequados ou ao estilo de vida; 20% a factores ambientais; 20% à biologia humana; e 10% a cuidados de saúde inadequados. Valores próximos foram atribuídos, posteriormente, por outros autores, como por exemplo Hettler (1982) e Mullen, Gold, Belcastro e McDermott (1986) que consideravam o comportamento humano responsável por cerca de 45% das mortes prematuras, o meio ambiente por cerca de 17%, a biologia humana por cerca de 26% e a organização dos cuidados de saúde por cerca de 12%. 42 Estes dados têm chamado a atenção dos profissionais ligados ao Campo da Saúde, para a importância de alterar o estilo de vida da população. A modificação de alguns comportamentos, tais como, deixar de fumar, cuidar da alimentação, controlar o stress2, praticar exercício ou actividade física regularmente, dormir um número de horas adequado, verificar periodicamente a saúde, permitiria reduzir drasticamente a mortalidade. Pelletier (1988) afirmava que, cerca de dois terços de todas as doenças e mortes prematuras em idades inferiores a 65 anos são passíveis de ser prevenidas através de intervenções comportamentais. No entanto, apesar deste panorama ser reconhecido tanto no relatório de Lalonde como no de Richmond, políticos colocados ao mais alto nível nos respectivos países, os orçamentos para a saúde nos Estados Unidos e Canadá atribuíam menos de 5% ao pilar estilo de vida, (Abelin, 1991; Pelletier, 1988). Além da mudança na etiologia da morbilidade e mortalidade, outros factores contribuíram para a emergência da Segunda Revolução da Saúde. Ramos (1988) refere os seguintes: a) alterações demográficas tais como envelhecimento da população, diversificação da família, a que se podem acrescentar a mobilidade social dos indivíduos e as migrações; b) revolução tecnológica que, aumentando as possibilidades de intervenção na doença, exigem mais e melhores especialistas aumentando os custos da assistência médica; c) aproximação dos serviços de saúde à comunidade; d) pode-se, ainda, acrescentar o aumento do poder do consumidor que, tornando-se mais exigente e com mais capacidade crítica, força os políticos a serem mais sensíveis à opinião pública. A terceira revolução da saúde Um dos grandes problemas que se colocam hoje aos estados modernos é o do controlo dos custos do sistema de saúde. Com efeito, esse aumento tende a aumentar para valores incomportáveis. A racionalização dos custos 2 O Pontuário Ortográfico Moderno de Parreira e Pinto, Edições Asa 1990, reconhece como neologismo intraduzível, o termo stress, referindo que, talvez no futuro, passe a ser traduzido por “estresse” como é falado no Brasil. Assim assumir-se-á o termo stress como um neologismo Português. 43 trouxe a reboque a necessidade de avaliar os desperdícios do sistema de saúde. A evolução económica, política e social conduziu a uma nova expressão que Relman (1988) designou por Terceira Revolução da Saúde. Esta qualifica a necessidade que tem sido salientada nos últimos anos e que Ellwood (1988) intitulou de Gestão dos Resultados (Outcomes Management), de monitorizar constantemente se os resultados conseguidos com a intervenção realizada pelos cuidados de saúde correspondem aos que eram esperados quando se iniciou a intervenção. Esta perspectiva visa, essencialmente o controlo de custos, mas preocupa-se também em fornecer aos utentes e profissionais, informações acerca de quais os procedimentos mais adequados para obter os melhores resultados. Conceitos principais da segunda revolução da saúde A publicação, em 1974, do relatório de Marc Lalonde reflectia as grandes mudanças históricas, políticas, sociais e económicas ocorridas nos países desenvolvidos. O reflexo na saúde das preocupações emergentes apontava para aspectos tanto quantitativos como qualitativos. Quantitativos, porque se despendia cada vez mais dinheiro na saúde e se estava em recessão. Qualitativos, porque já não se tratava de exigir mais democracia, mas sim melhor democracia. Os cidadãos exigiam maisparticipação nas decisões que lhes diziam respeito, nomeadamente na área da saúde. Países como o Canadá, com óptimos serviços de saúde, não se interessavam apenas pelos serviços hospitalares, meramente curativos, nem pelos serviços meramente preventivos, mas interessavam-se, também, pela promoção da saúde. As ideias emergentes destas revoluções acentuavam a responsabilidade individual pela saúde e diminuíam, de forma relevante, a importância dos serviços de saúde tradicionais. A responsabilização individual pela saúde deu origem a grandes discussões políticas (Miller, 1978), sobre o que ficou conhecido por política de victim blaming (Crawford, 1977) e a implementação desta política pelo governo americano saído das eleições de 1980 teve consequências desastrosas. A defesa do papel reduzido dos serviços de saúde tradicionais para a saúde da população não era assunto novo. Com efeito, McKeown (1972), um médico e demógrafo, demonstrara que a redução da mortalidade devida a doenças infecciosas, ocorrera antes do aparecimento de medidas médicas eficazes e que, após a sua existência, estas não foram certamente as únicas 44 nem, provavelmente, as principais razões para a redução da mortalidade. Afirmava: “as melhorias da saúde no passado foram devidas, principalmente, à modificação do comportamento e a mudanças no ambiente e é para estas influências que devemos olhar em especial, tendo em vista, futuras melhorias” (p. 345). As ideias expressas na década de 70 no Relatório Richmond mantêm-se actuais. Richmond resumia em três afirmações os principais problemas de saúde. Afirmava: “estamos a matar-nos devido aos hábitos descuidados que adoptamos; estamos a matar-nos por poluirmos o ambiente de maneira descuidada; estamos a matar-nos por permitirmos a continuação de más condições sociais – como pobreza, fome, ignorância – que destroem a saúde, especialmente a das crianças” (p. viii). Estes aspectos continuam a resumir os males principais com que se depara a saúde considerada globalmente enquanto Campo da Saúde e não, apenas, enquanto sistema de cuidados de saúde. Os conceitos introduzidos pela Segunda Revolução da Saúde são particularmente importantes para os países desenvolvidos, onde os benefícios da Primeira Revolução da Saúde já eram visíveis. Salientam-se dois conceitos centrais, específicos e inovadores, promoção da saúde e estilo de vida, que encerram implicitamente, na sua definição, todos os princípios da Segunda Revolução da Saúde. Promoção da saúde A Promoção da Saúde é um conceito multidisciplinar, de que têm sido produzidas inúmeras definições e que inclui aspectos organizacionais, económicos, ambientais, a par de estratégias visando, em última análise, a mudança de comportamento conducente à adopção de um estilo de vida saudável (Breslow, 1987; Goodstadt, Simpson & Loranger, 1987; Kaplan, 1984; Noack, 1987; O’Donnell, 1986, 1989; Rentmeester & Hall, 1982). Uma das razões do êxito do conceito parece ser as vantagens económicas directas (menos gastos com a doença) e indirectas (mais dias de trabalho, mais energia no trabalho). Um estudo da Rand Corporation que analisa os custos sociais dos maus hábitos de saúde conclui que estes são socialmente caros (Manning, Keeler, Newhouse, Sloss, & Wasserman, 1991). O relatório da APA task Force on Health Research (1976) cita investigações que verificaram que indivíduos com pouca saúde ganhavam substancialmente menos do que outros com boa saúde. Por outro lado os 45 programas de promoção da saúde implementados em empresas parecem ter, igualmente, vantagens económicas para os empresários (Shepard, 1983; Shepard, Corey, Renzland, & Cox, 1982). Apesar de tudo, não é um conceito novo. Em 1946, Sigerist afirmava que a função da medicina consistia em quatro grandes tarefas: a promoção da saúde, a prevenção da doença, a recuperação do doente e a reabilitação. Sigerist dizia que a saúde se promovia, proporcionando um padrão de vida decente, boas condições de trabalho, educação, cultura física, meios para descansar e recrear, passíveis de alcançar através da coordenação dos esforços de todos os grupos, homens de estado, do trabalho, da indústria, da educação e da saúde. Uma concepção perfeitamente actual que na época, em plena expansão da primeira revolução da saúde, não encontrava as condições sociais e políticas adequadas à sua adopção. De lembrar que, por exemplo, os antibióticos estavam a começar a aparecer, enquanto a vacina da tuberculose só apareceria mais tarde. Definição de promoção da saúde A definição de promoção da saúde que tem sido utilizada, adoptada na Carta de Otawa em 1986, é a seguinte: processo de “capacitar” (enabling) as pessoas para aumentarem o controlo sobre a sua saúde e para a melhorar. Green e Raeburn (1990), na análise da definição, consideram que a chave do sentido do conceito está na palavra “capacitar”: esta palavra deriva do verbo “to enable” (no original) que, do dicionário, significa “fornecer os meios e as oportunidades, tornar possível, prático, simples e dar poder legal, capacidade ou autorização para”. Em suma, a promoção da saúde implica devolver à população o poder em matéria de saúde, retirando-o às instituições, aos dirigentes, aos profissionais e à tecnologia. O objectivo primordial da promoção da saúde no futuro poderia assim, ser o de facilitar a transferência de recursos importantes na saúde, tais como conhecimentos, técnicas, poder e dinheiro, para a comunidade. Esta estratégia poderia encerrar um conflito potencial dado que, embora muitos profissionais e gestores da área da saúde afirmem defender a ideia de devolver mais poder à comunidade, na prática, poucos estão dispostos a fazê-lo. A justificação (pessoal ou pública) destes profissionais é a de que eles é que “sabem melhor” o que fazer. 46 Promoção da saúde na Europa O conceito de promoção da saúde foi adoptado por todos os países desenvolvidos, embora com divergências de interpretação entre os Estados Unidos da América e a Europa. Com efeito, a concepção americana privilegia a intervenção sobre o indivíduo, enquanto a europeia privilegia o nível comunitário e social. O Canadá fez a ponte entre os dois continentes, embora inclinando-se para a interpretação europeia devido às semelhanças da organização do seu sistema de saúde com o europeu. A zona regional europeia da OMS (uma das seis zonas planetárias) que conceptualiza a saúde do ponto de vista dos interesses de 33 países da região, criou um comité de especialistas europeus, o Working Group on Concepts and Principles of Health Promotion (1987), para orientar a aplicação dos princípios definidos em Alma-Ata – Saúde para todos no ano 2000 – aos países da região. Este grupo adoptou a definição de promoção da saúde da Carta de Otawa, que salienta dois objectivos principais para a promoção da saúde: a) melhorar a saúde; b) dominar (por parte do cidadão) o processo conducente à melhoria da saúde. Os especialistas Europeus esclarecem o sentido do conceito de promoção da saúde do seguinte modo (WGCPHP, 1987, p. 654): 1) A promoção da saúde abrange a população como um todo, no contexto da vida diária e não as pessoas em risco de doenças específicas – visa tornar as pessoas aptas para assumirem o controlo e a responsabilidade pela sua saúde, enquanto componente importante da vida diária – e deve ser vista, simultaneamente, como acção espontânea e organizada, visando a saúde. Tal, requer acesso contínuo e completo a informação sobre a saúde para toda a população, recorrendo a todos os métodos disponíveis de divulgação. 2) A promoção da saúde visa os determinantes ou causas da saúde. Por conseguinte, requer a cooperação de sectores para além dos serviços de saúde, de modo a reflectir a diversidade de condições queinfluenciam a saúde. Os governos, tanto ao nível local como nacional, têm a responsabilidade de actuar adequada e atempadamente, de modo a garantir que o meio ambiente, que está fora do controlo dos indivíduos e dos grupos, seja promotor da saúde. 3) A promoção da saúde combina métodos, ou abordagens, diversos, mas complementares, incluindo: comunicação, educação, legislação, 47 medidas fiscais, mudança organizacional, desenvolvimento comunitário e actividades locais espontâneas contra as ameaças à saúde. 4) A promoção da saúde visa, essencialmente, a participação pública concreta e eficaz e requer o desenvolvimento de aptidões (skills) de resolução de problemas e de tomada de decisão, tanto individuais como colectivas. 5) Embora a promoção da saúde seja, basicamente, uma actividade das áreas da saúde e do social e não um serviço médico, os profissionais da saúde – particularmente dos cuidados de saúde primária – têm um papel importante no apoio à e na criação de condições para a, promoção da saúde. Os profissionais da saúde deverão trabalhar no sentido de aperfeiçoarem a sua contribuição na defesa da e na educação para a, saúde. Segundo Noack (1987) promoção da saúde parece ter substituído o conceito de higiene e sobrepõe-se parcialmente ao de prevenção das doenças (Breslow, 1987; Dean, 1990; Rosenstock, 1987). Estilo de vida – Nascimento e morte do conceito Formalmente, Marc Lalonde em 1974 definiu estilo de vida como: “o agregado de decisões individuais que afectam a vida (do indivíduo) e sobre as quais tem algum controlo” (p. 32). A Organização Mundial de saúde define estilo de vida como “conjunto de estruturas mediadoras que reflectem as actividades, atitudes e valores sociais” (WHO, 1986, p. 43), ou como: “aglomerado de padrões comportamentais, intimamente relacionados, que dependem das condições económicas e sociais, da educação, da idade e de muitos outros factores” (WHO, 1988, p. 114). Este conjunto de definições, reflecte mudanças sofridas pelo conceito nos 14 anos que separam a primeira da última e a variedade de perspectivas que lhes estão subjacentes, com um peso mais social e comunitário nas duas últimas definições e um peso mais individual da primeira. A última definição reflecte a preocupação com o papel do meio ambiente na saúde, característica da década de 80, (Buck, 1985). O estilo de vida tem sido interpretado de uma forma ampla até uma forma estrita. Se, por exemplo, Lalonde o qualificava como “agregado de decisões”, o que subentende toda uma cadeia de cognições, motivações e comportamentos, interligados com antecedentes, consequentes e colaterais susceptíveis de os influenciar, McQueen (1987) reduzia-o a uma 48 constelação de comportamentos conducentes a uma boa saúde. Não parece que Lalonde adoptasse o termo estilo de vida tendo em mente comportamentos específicos, na medida em que o termo comportamento de saúde era já utilizado (Kasl & Cobb, 1966). O conceito de estilo de vida não é um conceito contemporâneo. Alfred Adler fora o primeiro a utilizá-lo com um sentido próximo do actual. Este autor, que pertenceu ao círculo de Freud entre 1902 e 1911, defendia a interdependência entre corpo e pensamento e entre indivíduo e meio social. O conceito de estilo de vida tinha uma posição central na teoria de Adler que o definia como: “adaptação, activa, do indivíduo ao meio social e se desenvolvia como um produto pessoal e único, da necessidade, simultânea, de integração e diferenciação desse meio social” (Papaneck, 1975, p. 575). O termo reflectia uma perspectiva holística do funcionamento individual. Este sentido, próximo do conceito apresentado pela OMS, está longe da perspectiva meramente comportamental reduzida à sua expressão mais simples, adoptada por diversos autores. O conceito de estilo de vida parece, assim, que nunca teve conotações simplistas. No entanto, provavelmente como consequência de uma interpretação comportamental de que foi alvo no início e devido ao desenvolvimento de um pendor mais ambientalista da promoção da saúde, no início da década de 80 acabou por ser afastado da área da promoção da saúde. Com efeito, em 1986, a conferência internacional sobre promoção da saúde, produziu uma carta (Carta de Ottawa) que elimina a expressão estilo de vida, substituindo-a por “personal skills”. Curiosamente, este conceito, em psicologia, tem um significado mais restrito do que o de estilo de vida, só que não está contaminado pelas interpretações de que este foi vítima na década de 70. Hipóteses de cenários futuros para a saúde e doença Segundo Ramos (1988) durante a implantação da medicina científica e tecnológica na primeira metade do século XX, os hospitais sofreram uma metamorfose passando de locais de caridade que os caracterizava desde os tempos medievais, destinados em geral aos pobres e indigentes, a paradigmas de tecnologia e ciência médica. A importância que as pessoas e as sociedades atribuem à saúde relativamente a outros aspectos da vida, é muito variável: para uns a saúde é o aspecto mais importante a considerar enquanto outros não pensam nela. No primeiro caso podem-se incluir, provavelmente, os que padecem de uma doença e que têm de se defrontar diariamente com as limitações que 49 esta impõe à sua vida, no segundo tendem a estar os grupos particularmente saudáveis como é o caso dos jovens. Apesar de tudo, a saúde, tende a ser considerada pela sociedade, um aspecto central da vida, como aliás o demonstra o estudo de Campbel Converse e Rodgers (1976). Para além da importância que atribuem à saúde, as pessoas variam também quanto à atribuição das causas da saúde e da doença: para os membros de umas sociedades elas são expressão da vontade dos deuses ou do acaso, para outras são consequência da organização do Estado, do comportamento individual ou da tecnologia disponível. Estas variações dependem tanto do nível de instrução como da religião e da cultura. A ideia de cenários futuros para a saúde varia consoante a organização política dos países e a capacidade de prever as mudanças a longo prazo. Porque a área da saúde é, simultaneamente, uma das áreas a que a sociedade atribui mais importância e uma das que absorve uma fatia maior do produto interno bruto, os governos tendem a empenhar-se com especial cuidado na sua gestão. A previsão da evolução do Campo da Saúde pode basear-se em três perspectivas principais: (a) uma perspectiva tradicionalista; (b) uma perspectiva tecnológica; e (c) uma perspectiva ecológica. a) De acordo com uma perspectiva tradicionalista, a saúde terá prioridade secundária à doença. Em vez de conceber uma sociedade saudável em que o prazer da vida se baseia no bem-estar, na saúde, na qualidade de vida, centrará a sua atenção e recursos, nos processos curativos e, quanto muito, na prevenção das doenças, mas não na promoção da saúde. Os serviços de saúde continuarão a centrar-se na doença e a saúde continuará a ser, apenas, ausência de doença. Os recursos da saúde tenderão a contemplar, em primeiro lugar os hospitais, depois a prevenção de algumas doenças e tenderão a esquecer aspectos como o ambiente ou o comportamento humano. A perspectiva tradicional coincide com a do modelo biomédico na sua versão clássica. b) Uma perspectiva tecnológica na saúde preconiza a rápida generalização das tecnologias disponíveis às doenças, na crença de que, quanto mais tecnologia estiver disponível mais elevados serão os níveis de saúde: os transplantes e os bancos de órgãos permitiriam a substituição das partes do corpo danificadas; as doenças mentais, o cancro, a sida, os comportamentos aditivos, serão controlados por novos medicamentos; a engenharia genética eliminará as deficiências genéticas, os registos computorizados tornarão os técnicos aptos agarantir, rápida e eficazmente, a superação das doenças. Tal como a perspectiva anterior, considera que saúde é ausência de doença e os 50 investimentos humanos e materiais tendem a contemplar as grandes instituições de doença. c) Uma perspectiva ecológica para a saúde, por outro lado, tende a contemplar o equilíbrio entre as várias vertentes que influenciam a saúde e a doença. Um exemplo desta perspectiva é o modelo que Lalonde concebeu e denominou Health Field Concept e que, como foi explicado, defendia o estabelecimento de uma política nacional de saúde baseada em quatro pilares: Biologia Humana, Meio Ambiente, Estilo de Vida e Organização dos Cuidados de Saúde. O modelo proposto (por Lalonde) tende a valorizar os aspectos que mais afectam a saúde, nomeadamente o comportamento individual e o meio ambiente: preconiza a responsabilidade pessoal e social e uma orientação da saúde pela positiva. A comunidade deverá assumir a responsabilidade pela saúde (pessoal, social e ambiental), participando activamente em todas as dimensões que contribuam para melhorar o estilo de vida. Esta proposta vai muito mais para além dos cuidados de saúde dominante nos modelos anteriores. Embora o discurso político, nos países desenvolvidos, pareça privilegiar esta última perspectiva, as pressões dos grandes grupos económicos por um lado e, por outro, a sensibilidade da opinião pública tenderão a privilegiar as duas anteriores – tradicionalista e tecnológica. Os grandes grupos económicos, corporalizados, por exemplo, nos grandes laboratórios e nos produtores de equipamentos hospitalares, tenderão, a pressionar a implementação de políticas baseadas nas duas primeiras perspectivas. A opinião pública, expressa nos principais media, tenderá a valorizar as intervenções eminentemente tecnológicas: um transplante de órgãos é facilmente exaltado nos media, enquanto medidas, provavelmente com maior impacto na saúde como é o caso de medidas restritivas do uso do tabaco, tendem a ser denegridas. Mas nos países democráticos, não se pode separar opinião pública expressa nos media de interesses económicos e, por isso, a coalescência dos dois aspectos referidos – interesses económicos e opinião pública – tenderá a atrasar a implementação de medidas visando a saúde de acordo com perspectivas mais modernas e facilmente aceites pelos investigadores. Como os políticos são sensíveis, sobretudo, aos interesses económicos e à opinião pública, é fácil prever que o modelo considerado mais adequado terá dificuldade em se implantar. Definir cenários futuros para a saúde implica, também, distinguir saúde de doença. Intervir na saúde não é o mesmo que intervir na doença. Parece claro que as pessoas se preocupam mais com a doença do que com a saúde, o que é compreensível, dado a primeira ameaçar a segurança 51 individual. Embora as pessoas tendam a pensar na saúde apenas quando estão doentes, a maioria dos membros de uma sociedade não está doente: segundo Dingle (1973) e Ware et al. (1981), se nos países desenvolvidos se pudesse tirar uma fotografia da saúde/doenças da população, verificar-se-ia que, nessa fracção de segundo, 80 a 85% da população não estava doente. Em termos políticos é essencial planificar a saúde ao mesmo tempo que se planifica a intervenção sobre as doenças. Nos cenários descritos acima, os dois primeiros são, indiscutivelmente, importantes para combater as doenças (disease): o terceiro é, indiscutivelmente, mais importante para promover a saúde. O Sistema de Saúde no futuro As três perspectivas teóricas descritas acima representam hipóteses que não se excluem. Entretanto, a necessidade de resolver os problemas do dia-a- dia, por um lado, as limitações (dominantemente económicas) por outro e ainda a própria evolução tecnológica que disponibiliza melhores agentes químicos e físicos para combater as doenças e melhores instrumentos para o auxílio do diagnóstico, vão introduzindo mudanças na organização dos Sistemas de saúde dos países economicamente mais desenvolvidos. A leitura de um prospecto fornecido pelas relações públicas do serviço de saúde de uma cidade Canadiana, relativamente a um serviço que iria ser inaugurado dois anos mais tarde, salientava que este se tratava de um hospital revolucionário baseado no uso ponderado das novas tecnologias. O que mais impressionava, nos exemplos apresentados no prospecto, era a redução do tempo de internamento do doente submetido a cirurgia, ou seja, à enorme redução do tempo de permanência do utente no hospital. Por exemplo, para uma histerectomia, o tempo de permanência num hospital tradicional era de seis a sete dias enquanto neste novo hospital baixava esse tempo para um ou dois dias. Tal redução era conseguida graças à utilização de uma técnica que denominavam “cirurgia evasiva mínima”, graças à qual as incisões cirúrgicas que constituem um dos elementos mais traumatizantes das intervenções, seriam reduzidas ao mínimo. Esta mudança tem como impacto mais importante a drástica redução do tempo de permanência do doente no hospital. A redução do tempo de internamento é uma resposta à necessidade de reduzir o aumento exponencial dos custos dos cuidados de saúde que se 52 têm verificado nos países desenvolvidos. A revolução a que temos vindo a fazer referência alterará radicalmente a organização do Sistema de Cuidados de Saúde em particular e do Sistema de Saúde em geral, com forçosas implicações na prática da Psicologia. Esta revolução imporá reformas do sistema de saúde e um reajustamento de conceitos. Durenberger e Foote (1993), no contexto da discussão política e técnica, propõem um conjunto de definições para o Sistema de Saúde do futuro que intitulam de (a) Saúde Pública, (b) Medicina e (c) Cuidados a longo termo. a) Saúde Pública – significa Promoção e Protecção da Saúde, Prevenção das Doenças e eliminação das condições sociais que afectem o bem- estar físico e pessoal. Abrange um ambiente despoluído, segurança no trabalho, segurança física e acesso a alimentação e habitação adequadas; b) Medicina – aplica-se aos serviços de cuidados urgentes e agudos, aquilo a que Mendo (1996) chama hospitais de agudos; c) Cuidados de longo termo – abrange as condições crónicas, deficiências, processos devidos ao envelhecimento e perda gradual de funcionalidade. Estas derivam em grande parte do sucesso do próprio modelo biomédico que permitiu às pessoas viverem mais tempo e não sucumbirem a doenças infecciosas. Os hospitais estão cheios de pessoas que necessitam de cuidados de longo termo e não requerem intervenções médicas sofisticadas. Muitos deles somente requerem alimentação, habitação e cuidados muito elementares, mais ao nível da hotelaria. Permanecem nos hospitais por não haver outro lugar onde os colocar. Isto passa-se tanto nos hospitais gerais como nos ex- hospitais psiquiátricos. Ora, os serviços que prestam cuidados de longo termo são menos dispendiosos em tecnologia e em quantidade de pessoal especializado para gerir essa tecnologia. Necessitará, predominantemente, de outro tipo de pessoal, de formação mais humanizada e menos tecnológica que ajude as pessoas a sentir-se bem e lhes dê apoio pessoal. Recentemente Mendo (1996) sublinhava a importância deste tipo de instituições que denominava de Hospitéis e que deveriam constituir uma rede de hospitalização prolongada de cuidados continuados que, em malha mais apertada, se deveria estender a todo o país. 53 Regresso a uma consciência ecológica na saúde A par com a constatação das mudanças nos padrões de mortalidade e morbilidade, desenvolveu-se uma perspectiva mais crítica relativamente ao modelo biomédico (Engels, 1977) e passou a dar-se mais atenção a outras maneiras menos “científicas” de conceber a saúde. As críticasafirmam que a medicina ocidental baseada no modelo biomédico, faz uma abordagem incompleta da saúde nomeadamente por se centrar na doença ao invés de na saúde. Segundo Sobel (1979) podem ser apresentadas três grandes críticas ao modelo biomédico: 1) coloca a ênfase nos cuidados médicos individuais, menosprezando factores ambientais e comportamentais; 2) preocupa-se com os processos químicos e fisiológicos, sendo pouco sensível aos factores psicossociais na saúde e nas doenças; 3) tende a considerar-se como o único modelo médico eficaz, desprezando sistemas alternativos, quer sejam modernos ou antigos. Os modelos menos “científicos” tendem a defender perspectivas mais ecológicas, no sentido em que respeitam os valores culturais tais como as crenças e práticas das culturas onde estão inseridas e valorizam os recursos do meio ambiente. Segundo Sobel, o desprezo por sistemas alternativos deve-se à assunção de três hipóteses que considera falsas: a) a saúde é sinónimo de cuidados médicos; b) cuidados médicos são sinónimo de ciência médica ocidental; c) ciência médica ocidental é sinónimo de modelo biomédico. Este posicionamento conduziu a uma prática paradoxal: a maioria dos investimentos na saúde, quer económicos quer científicos, são dirigidos para os cuidados médicos apesar de se reconhecer que o que determina a saúde das pessoas são factores que actuam fora do domínio da medicina. A evolução do planeta Terra, o desenvolvimento da vida e o aparecimento do homem, ocorridos nos últimos milhões de anos são produto de equilíbrios ecológicos delicados, variáveis e imprevisíveis. Para muitos grupos populacionais, as tradições e as estruturas estabelecidas ao longo da sua evolução, representam uma adaptação pessoa-ambiente óptima, dado terem-se desenvolvido nesses meios ao longo de milénios. Durante esse tempo aperfeiçoaram sistemas de cuidados de saúde e de exaltação da saúde com base comunitária, fundamentais para a sua sobrevivência. 54 Se, em vez de se observar as práticas desses grupos à luz da antropologia, se compararem os seus resultados com os da medicina científica dos países desenvolvidos, elas serão consideradas obsoletas e ineficientes. Comparar os resultados de uma intervenção realizada num hospital de última geração, apetrechado com os melhores técnicos e tecnologias, com a mesma intervenção realizada algures num local com parcas condições técnicas, é demagógico porque não é possível implantar o primeiro exemplo no segundo local. Não parece possível transportar os modelos utilizados nos países desenvolvidos para essas culturas, porque as práticas dos países desenvolvidos representam, também, uma evolução cultural que se reflecte na organização do apoio às doenças e expressa o estado destas culturas, nomeadamente o nível cultural, tecnológico, educacional, económico, político, entre outros. Os resultados de saúde, medidos com indicadores convencionais próprios do modelo biomédico varia muito entre os países. O país que mais verbas despende com a saúde, quer medidas em valor absoluto que em percentagem do produto interno bruto (PIB), tem resultados de saúde muito fracos quando comparados com o de outros países que despendem muito menos, como é o caso do Japão. Em 1992, em percentagem do PIB, os Estados Unidos da América dispendiam 13,3% e o Japão 6,8 (RDH, 1994). Se se compararem valores da mortalidade infantil entre estes países, incluindo ainda outros com níveis económicos muito inferiores como, por exemplo, Cuba, verifica-se que neste, em 1991, a mortalidade infantil era de 10,7 por 1000 nascimentos vivos, enquanto nos Estados Unidos era de 9,1 e no Japão de 4,5 (em Portugal era de 12,1) (PRB, 1991). Ou seja, o problema do Campo de Saúde parece não ser, exclusivamente, o dinheiro. A ideia que sobressai é que parece ser necessário, mais qualquer coisa além de dinheiro, para ter bons índices de saúde: países pobres, como Cuba, têm valores muito mais positivos do que outros do mesmo nível económico como o Egipto e o Brasil, com índices de mortalidade infantil, respectivamente de 76 e 63 (PRB, 1991). Estes exemplos apontam para que a tecnologia e a ciência, só por si, não podem explicar os resultados de saúde mesmo se medidos com os indicadores próprios do modelo biomédico. Embora à luz dos padrões modernos os resultados de saúde das medicinas menos científicas possam não igualar os da medicina ocidental, as práticas de muitos desses grupos resultam e têm valor para esses povos. Para além dos médicos comunitários, shamans e outros curandeiros, muito do que diz respeito à saúde passou de geração em geração, através das famílias e de 55 outros sistemas sociais e educacionais, centrais às culturas dessas pessoas. Muitos aspectos da vida do dia-a-dia, tais como as relações inter-pessoais, as relações das pessoas com a terra, a água ou o cosmos, são temas relevantes para a saúde. Pretender a generalização de estratégias de organização dos cuidados de saúde que se mostraram eficazes em determinadas condições, a todos os contextos, culturas, religiões, é expressão de má fé, de colonialismo rudimentar, que poucos defendem. As alterações ocorridas nos últimos 150 anos foram muito rápidas e, provavelmente, as que mais impacto tiveram na vida da Terra. Segundo Green e Raeburn (1990), desde a Revolução Industrial, cientistas sociais têm denunciado a destruição da comunidade natural, a substituição da estrutura social tradicional e a troca dos padrões culturais, por uma nova ordem baseada nos valores e avanços tecnológicos da sociedade industrial. As sociedades industriais colocaram a gestão da saúde e do bem-estar social na mão de especialistas que, por sua vez, estão normalmente, associados a pesadas burocracias centralizadas. Como consequência surge um serviço relativamente impessoal a debruçar-se sobre algumas das preocupações humanas mais importantes e íntimas – nascimento, morte, mal-estar, saúde, educação, cuidados com os deficientes e os idosos, para referir apenas algumas. Fabrega (1974) explica que os médicos passaram a assumir parte da função simbólica do curandeiro. Tal como nas sociedades primitivas, as pessoas procuram os médicos – como antes procuravam os curandeiros – por uma miríade de razões, desde médicas a espirituais. No entanto esta função é recusada na cultura científica moderna aumentando a insatisfação com o sistema. Embora se possam considerar muitas vantagens na medicina científica, os movimentos sociais da década de 60 denunciaram os excessos praticados à luz de modelos de desenvolvimento tecnológicos e economicistas. Nas sociedades de economia mais desenvolvida, o pêndulo parece estar a passar de uma abordagem tecnológica baseada nas instituições, para uma abordagem da saúde baseada na comunidade. Como se subentende da exposição apresentada acima, acredita-se que uma perspectiva sistémica ou ecológica é útil para organizar as relações entre as diversas variáveis passíveis de serem consideradas variáveis de saúde e que, por sua vez, a saúde é parte de uma cadeia ecológica mais vasta que abrange a educação, a economia, o emprego, o ordenamento territorial, a produção industrial, o turismo, etc. Como foi referido, a proposta do conceito de Campo da Saúde, apresentada por Lalonde (1974) caminha neste sentido dado incluir, aspectos biológicos, do meio ambiente, do estilo de vida e organização dos cuidados de saúde. 56 No final do século XX as ideias ecológicas estão no centro das preocupações dos habitantes dos países desenvolvidos. No entanto, em período de crise económica, como ocorre periodicamente, as preocupações ecológicas são muitas vezes relegadas para segundo plano. Isto é patente, na sua forma mais simples, quando, por exemplo, uma indústria altamente poluidora é obrigadaa encerrar. Quando isto ocorre, os trabalhadores e suas famílias, a par com os pequenos comerciantes que compõem o pequeno sistema onde a fábrica labora, opõe-se ferozmente às medidas que supostamente os beneficiaria por reduzir a poluição e o prejuízo para a saúde. Mas, simultaneamente, ao gerar desemprego, a saúde ainda sai mais prejudicada do que o faria a poluição. Acontecimentos, deste tipo, alertam para a necessidade de conceber o emprego, enquanto fenómeno económico e social, como parte importante da cadeia ecológica. Alertam ainda, para o facto de que a ecologia é uma preocupação secundária para as populações que têm de lutar pela sobrevivência imediata e que não se lhes pode pedir para pensarem no mundo de amanhã quando têm de pensar na sobrevivência, hoje. Na realidade, a ecologia não é mais importante que os problemas de sobrevivência que se colocam à maior parte da população mundial. Ela só é um problema importante para os que têm a sobrevivência garantida. Se o homem da rua pode relegar as preocupações ecológicas para segundo plano, os políticos têm obrigação de as colocar no topo das prioridades, na medida em que está em jogo o futuro da humanidade. As preocupações ecológicas deveriam ter como consequência mais importante, em termos políticos, a consideração que, cada decisão que é tomada tem repercussões, não só nas decisões que se poderão tomar no futuro, como nas que são tomadas, no mesmo momento, por outros políticos. As preocupações ecológicas não têm só a ver com a sobrevivência das espécies e com a diversidade biológica. Elas têm, sobretudo, que ver com os componentes e as relações dos diversos elementos que compõem o sistema de vida do dia- a-dia de todas as pessoas e que se repercutem nessa dimensão etérea que se convencionou chamar saúde. Um modelo ecológico na saúde implica conceber: a) que a promoção da saúde, a protecção da saúde, a prevenção das doenças e o tratamento, são parte da mesma realidade; b) que educação e bem estar económico são os principais factores de risco para a saúde da população; c) que o meio ambiente seja rural ou urbano, quer em termos arquitectónicos ou funcionais, quer em termos da qualidade do ar que se respira, da água que se bebe ou do ruído que se ouve, quer da densidade 57 populacional e das migrações, entre outros, tem repercussões fortes na saúde da população; d) que o meio ambiente mais vasto, por exemplo a destruição da camada de ozono ou os acidentes nucleares, não têm fronteiras e têm repercussões gravíssimas na saúde; e) que os indivíduos, a comunidade, os governos, têm um papel importante na consecução da saúde da população. Conceber a saúde deste modo implica um modelo de explicação da realidade que oriente todas as explicações parcelares. Psicologia da Saúde, saúde e doenças O psicólogo interessado na psicologia da saúde tem de lidar com um conjunto de conceitos próprios dos contextos tradicionais de saúde. Muitos deles são utilizados na linguagem do homem comum com um sentido muito diferente do que lhe é dado pelo homem da ciência e pela linguagem técnica. De seguida explicam-se e discutem-se os conceitos de saúde, de doença e conceitos afins, as suas ligações e as evoluções que sofreram como resultado das mudanças nas diferentes áreas. Saúde Conceitos como os de saúde, de doença, de cuidados médicos, de cuidados de saúde, de promoção da saúde, reflectem os valores, as crenças, os conhecimentos, as actividades, em suma, a cultura da sociedade, partilhada por todos os seus membros, especialistas ou leigos, cultos ou incultos, analfabetos ou instruídos. O conceito de saúde varia consoante o contexto histórico e cultural, social e pessoal, científico e filosófico, espelhando a variedade de contextos de experiência humana. Em organizações internacionais os representantes dos diversos povos discutem e acordam definições e estratégias globais para a abordagem destes conceitos. Imediatamente a seguir à segunda guerra mundial a Organização Mundial da Saúde definia saúde como “estado de bem-estar físico, mental e social, total e não apenas ausência de doença ou de incapacidade” (WHO, 1948). 58 Esta definição genérica de saúde não tinha, então, muita utilidade nem para formular objectivos de política de saúde nem para produzir definições operacionais de saúde. Ela foi criticada por inúmeras razões, ou porque conceptualizava a saúde como um estado normativo, como um ideal que poderia ser abordado mas nunca atingido, ou porque o conceito ambíguo de saúde foi substituído pelo conceito ambíguo de bem-estar e, bem-estar completo é difícil de medir (cf. Noack, 1987). Antonovsky (1981), criticando aquela definição considerava que tão ampla definição de saúde expressava o imperialismo médico na medida em que assumia que tudo na vida caía na jurisdição do sistema de saúde e na daqueles que o controlavam. Outras críticas salientavam que a saúde não era um objectivo mas sim uma tarefa, um meio para atingir um fim e não um fim em si (Noack, 1987). Em 1986 a Organização Mundial de Saúde expandiu e tornou mais objectivo o conceito de saúde definindo-a como a extensão em que um indivíduo ou grupo é, por um lado, capaz de realizar as suas aspirações e satisfazer as suas necessidades e por outro lado, de modificar ou lidar com o meio que o envolve. Saúde é, dizem, vista como um recurso para a vida de todos os dias, uma dimensão da nossa qualidade de vida e não o objectivo de vida (WHO, 1986a); é um conceito positivo que põe a ênfase, tanto nos aspectos pessoais e sociais como na capacidade física. Boothroyd e Eberle (1990) salientam que na década de 70 o conceito de saúde se expandiu passando a considerar a saúde como um todo ao nível da totalidade do indivíduo, focando simultaneamente todos os factores do meio ambiente tanto nos aspectos físicos como sociais. Estas definições de saúde têm algumas características importantes. Mais concretamente têm subjacente que: a) a saúde não é, apenas, ausência de doença; b) a saúde se manifesta nas áreas do bem-estar e da funcionalidade; c) a saúde se manifesta nos domínios, mental, social e físico; d) os aspectos físico, mental e social, estão juntos numa coalescência sistémica que os torna interdependentes; e) a saúde resulta de uma interacção complexa entre o que constitui aspectos pessoais e aspectos do meio ambiente tanto físicos como sociais; f) a saúde se define por uma configuração de bem-estar resultante de uma auto-avaliação, da expressão de uma opinião pessoal acerca de si próprio. 59 Estas definições formais de saúde exprimem uma evolução da operacionalização do conceito. Em geral, a Saúde define-se pela positiva, no sentido em que afirma que se caracteriza pela presença de determinadas características ao invés de pela ausência de outras. A noção de Saúde implicando o aumento da longevidade, de maior quantidade de vida, implica, acima de tudo, melhor qualidade de vida. A saúde pode ser vista como um objectivo por si ou como um meio. Um nível elevado de saúde permite disponibilizar mais energia para as actividades do dia-a-dia, sejam elas no âmbito do trabalho, da vida familiar, das relações sociais, das actividades de lazer, culturais ou outras e permite fazê-lo durante mais tempo. Mais saúde poderá influenciar directamente toda experiência de vida, incluindo, tanto a percepção de bem-estar, essencial (por definição) para ter saúde, como o próprio estado de doença física. A Saúde pode ser, ainda, o primeiro determinante na susceptibilidade ou na resistência do indivíduo a uma miríade de elementos patogénicos que estão presentes em todo o lado e que afectam os organismos mais frágeis, ou seja, o estado de saúde pode ser considerado causa da doença, ou pode contribuir para a invulnerabilidade.A saúde inclui várias dimensões: umas, subjectivas, outras objectivas. As primeiras têm a ver com o sentir-se bem, as segundas com a capacidade funcional (Terris, 1975). Por exemplo, O’Donnell (1986) defende que a saúde abrange cinco dimensões, cada uma delas incluindo várias áreas que devem coexistir equilibradamente, a saber: saúde emocional que inclui a gestão do stress e os cuidados com as crises emocionais; a saúde social abrangendo relações com amigos, família e comunidade; saúde intelectual que abrange a educação, o desenvolvimento da carreira e a realização intelectual; a saúde espiritual que abrange aspectos como o amor, a esperança, a caridade os objectivos de vida; a saúde física que abrange a condição física, a alimentação, os cuidados médicos e o controlo do abuso de substâncias. Thoresen e Eagleston (1985, p. 32) resumem do seguinte modo o que está implícito no conceito de saúde: 1) a saúde é o estado habitual dos indivíduos e está subjacente à capacidade das pessoas implementarem acções de rotina, como por exemplo, comer, fazer exercício, relaxar, relacionar-se com os outros, etc; 2) a saúde é mais do que a ausência objectiva de patologia fisiológica específica; 3) a saúde existe num contínuo temporal dinâmico, flutuando em resposta adaptativa às exigências percebidas pelo indivíduo, tanto internas como externas que ocorrem ao longo do tempo; 60 4) a saúde não pode ser compreendida independentemente do contexto físico e social, sem ser como parte do equilíbrio ecológico; 5) a saúde envolve a energia disponível para realizar determinadas tarefas com sucesso; 6) a saúde fica debilitada quando há insuficiente energia e/ou perícias para satisfazer as exigências da vida do dia a dia e para manter um sentimento de equilíbrio e de harmonia. As discussões acerca da saúde e a experiência no terreno que visava intervir sobre ela conduziu à identificação de dimensões várias que podem ser conceptualizadas em programas para promover a saúde dos indivíduos. Noack (1989) distingue na saúde entre um componente do passado, um componente do presente e um componente do futuro: – a saúde histórica é o resultado da experiência passada acumulada, das acções e das interacções relacionadas com a saúde; – a saúde balanceada é o resultado do equilíbrio actual dos estados e processos internos e das interacções com o meio físico e social. Descreve o estado de equilíbrio dinâmico que está sempre em jogo, entre perturbações passageiras e forças correctivas disponíveis em condições de saúde. As perturbações podem ser físicas (p. ex., mudanças de temperatura, falta temporária de alimentos), biológica (p. ex., agentes infecciosos, alérgenos), ou mental (p. ex., privação de afecto pessoal), enquanto as forças correctoras têm por base os recursos fisiológicos, mentais e sociais (Abelin, 1991); – a saúde potencial é a capacidade dos indivíduos, grupos sociais e populações, de manter ou restabelecer no futuro um nível aceitável de saúde balanceada. Abelin (1991) identifica os factores que afectam a saúde balanceada: considera os desafios à saúde, por um lado e a saúde potencial por outro. Os desafios à saúde incluem (a) aspectos da pressão social relacionada com o estilo de vida e (b) as condições de vida. No primeiro bloco inclui a abundância da oferta comercial, a publicidade, os media, a abundância dos estímulos sensoriais. No segundo bloco – condições de vida – inclui a pobreza, a ignorância, a emigração, a habitação e as condições de trabalho. A combinação destes aspectos consubstanciam-se em factores do meio ambiente tais como o stress do local de trabalho ou interpessoal, o ar que se respira quer no local onde se passa o dia quer em geral, os alimentos, sua quantidade, qualidade e preço, o ruído tanto no local de trabalho como no 61 lazer e em geral, a água em quantidade e qualidade, as infecções quer por transmissão sexual quer pela comida ou por qualquer outro meio, o tabaco, o álcool, as drogas, a ionização por radiações. A saúde potencial inclui o (a) estilo de vida relacionado com a saúde e (b) as redes de suporte sócio-culturais. O primeiro aspecto inclui hábitos tais como comer, beber, actividade física, recreação, dormir, integração social, não consumir substâncias nocivas à saúde, a educação permanente. O segundo – redes de suporte sócio-cultural, incluem a família, os vizinhos, a escola, o local de trabalho, a igreja, os clubes recreativos, os serviços de saúde. Estes aspectos consubstanciam-se no estado nutricional, na imunidade contra os agentes infecciosos, na capacidade de implementar estratégias de coping3 para enfrentar o stress e as emoções, na capacidade para tomar decisões de modo independente e na capacidade para tomar conta e cuidar de si. Doença A identificação, definição e clarificação do conceito de saúde ajudou a organizar e conceptualizar o conceito de doença. Dentro da concepção de doença podem-se identificar vários quadros que a língua portuguesa não diferencia. Por exemplo, a língua inglesa utiliza três termos – disease, illness, sickness – para identificar os diferentes quadros, que em português se poderiam expressar como, ter uma doença, sentir-se doente e comportar- se como doente. Doença no primeiro sentido – disease, ter uma doença –, pode ser visto como um acontecimento biológico, caracterizado por mudanças anatómicas, fisiológicas, bioquímicas, ou por uma sua combinação (Barondess, 1979). Trata-se de uma ruptura na estrutura, ou função, de uma parte do corpo ou do sistema. Doença no segundo sentido – illness, sentir- 3 O termo coping tem sido traduzido em Português por lidar, confronto, ou (em traduções editadas no Brasil) por enfrentamento. Este último termo também é utilizado pelos Espanhóis. Tal como os termos stress ou self foram adoptados pela língua portuguesa sem tradução, também nos parece adequado adoptar o termo coping. Para além de ser um termo de fácil utilização com que os psicólogos e estudantes de psicologia estão familiarizados, a sua tradução é susceptível de recorrer a termos com significado ambíguo. Por outro lado o termo confronto, por exemplo, tem outro significado em psicologia. 62 se doente –, não é um acontecimento biológico, é um acontecimento humano. Isto é, consiste numa configuração de desconforto e desorganização psicossocial, resultante da interacção do indivíduo com o seu meio (Barondess, 1979). Este autor estima que cerca de 50% dos contactos clínicos dos médicos se defrontam com queixas sem base biológica, tratando-se normalmente, de pressão proveniente dos acontecimentos da vida do dia a dia, ou de reacções à percepção de ameaças simbólicas. Doença no último sentido – sickness, comportar-se como doente – é vista como uma identidade social, um estatuto ou um papel assumido por pessoas que foram rotuladas como não saudáveis (Thorensen & Eagleston, 1985). É, pois, possível sentir-se doente – illness – sem ter nenhuma doença – disease. Do mesmo modo pode haver doença – disease – sem se sentir doente – illness –, ou seja, é possível encontrar doenças em indivíduos que exibem boa saúde. Terris (1975) dá exemplos de doenças como arteroesclerose, tuberculose, histoplasmose, sarcoidose, carcinoma da cervix, ou outras doenças – diseases – que são descobertas em indivíduos saudáveis devido a exames de rotina. A precisão destas diferenças que frequentemente não são consideradas tem implicações para a definição de saúde. Com efeito a definição de saúde implica a noção de bem-estar incompatível com a noção de mal-estar. Assim, como Terris defende, o sentir-se doente – illness – e saúde não são compatíveis: Este autor, aiás, propõe que na definição base da OMS o termo “disease” seja substituídopor “illness”. Dado ser possível um indivíduo ter um bom índice de saúde e estar bastante doente (disease) é, também, possível conceber e intervir, simultaneamente, na saúde e na doença. O reconhecimento desta realidade levou ao desenvolvimento do conceito de Qualidade de Vida Relacionada com a Saúde (health related quality of life). A coexistência de sentidos diferentes que a doença pode assumir torna mais complexa a intervenção na saúde e na doença. Nos últimos decénios aumentou a esperança de vida: passou a sobreviver-se ao que dantes se sucumbia, de tal modo que hoje é normal viver-se com uma doença; ou seja, é quase normal a coexistência de doença – disease – e saúde. Por exemplo, segundo Sobel (1979), nos Estados Unidos da América, 50% da população sofre de uma doença crónica, passando este valor, segundo Rodin e Salovey (1989) para 86% nos indivíduos de mais de 65 anos, representando estas doenças 80% de todas as doenças. As doenças crónicas – diseases – definem-se por não terem cura: são, segundo Blanchard (1982) doenças que têm de ser geridas em vez de curadas. Algumas doenças crónicas provocam mal-estar – illness – e os que as possuem adoptam, 63 frequentemente, um papel de doentes – sikness. Exemplos conhecidos são a diabetes ou o cancro detectado precocemente. Se bem que muitas doenças crónicas tenham pouco impacto na vida das pessoas e a sua gestão seja relativamente simples, outras, como o cancro, ou diabetes tipo I, colocam problemas delicados, justificando a aprendizagem e o desenvolvimento de capacidades (comportamentais, cognitivas, emocionais) para gerir o dia-a- dia. Estados de doença Focando a existência de uma doença, ou seja de alterações estruturais do organismo do indivíduo, podem considerar-se vários estádios de doença (Mausner & Kramer, 1984): – Estado de susceptibilidade à doença – neste estado a doença não se desenvolveu, mas os seus alicerces estão estabelecidos pela existência de factores que favorecem a sua ocorrência. – Estado de doença pré-sintomática – Embora não haja doença manifesta, devido à interacção de factores patogénicos começaram já a ocorrer alterações estruturais que não são ainda manifestações de doença. – Estado de doença clínica – Neste estado já se verificaram suficientes alterações orgânicas para produzir sinais ou sintomas evidentes de doença. É importante, sempre que possível, subdividir este estado para melhor tratamento dos doentes. Esquemas de classificação diferentes são utilizados para doenças diferentes. – Estado de incapacidade – define-se como qualquer redução temporária ou prolongada da actividade de uma pessoa como resultado de uma situação aguda ou crónica. Relação entre saúde e doença As ideias acerca da relação entre saúde e doença mudaram ao longo dos últimos decénios e têm sido conceptualizadas por vários autores. Por exemplo, Hettler (1982), O’Donnell (1986) e Terris (1975), propõem o seguinte modelo conceptual para explicar a relação entre saúde e doença. Trata-se de um contínuo – saúde óptima versus doença grave ou morte – representando dois pólos imaginários. 64 Relação entre saúde e doença Doença grave ou morte Bem-estar completo Neste modelo o limite do pólo esquerdo representa um estado de doença grave conducente a morte prematura, enquanto o limite direito representa um estado de saúde óptima. Todas as pessoas estariam colocadas algures entre estes dois pólos e a saúde tenderia a ser definida a partir da posição intermédia. A medicina, tradicionalmente, tem focado a sua atenção na parte esquerda do modelo, intervindo com doentes que manifestam incapacidades, sinais ou sintomas de doença, com o objectivo de os conduzir para a posição neutral. A medicina tradicional tem poucos instrumentos para intervir no lado direito do modelo, para ajudar as pessoa a progredir no sentido de uma saúde óptima. Numa crítica a este modelo, desenvolvimentos mais recentes apresentam uma alternativa em que um quadrante é definido por dois eixos: bem-estar elevado versus bem-estar baixo, cruzado por outro eixo representando um contínuo – saúde versus doença –, como se apresenta a seguir. Modelo de relação entre saúde e doença 4 Bem-estar elevado 1 Doença grave Ausência de doença 2 Mal-estar 3 O sistema de eixos de referência define quatro quadrantes: o indivíduo que, por hipótese, estivesse na posição 1 seria um indivíduo sem nenhuma doença e bem-estar elevado; o que, por hipótese, se encontrasse na posição 2 teria uma doença grave e um nível correspondente de mal-estar. Pode ser, por exemplo, um tumor maligno; na posição 3 não teria nenhuma doença mas, por qualquer razão, sentir-se-ia mal; na posição 4 apresenta um elevado nível de bem-estar coexistente com uma doença grave. Pode ser o caso de um indivíduo que tem uma doença que não foi detectada e que só o será mais tarde devido a manifestações posteriores ou a exames de rotina (Downie, Fyfe, & Tannahill, 1990). 65 A definição de saúde da OMS considera a saúde, um estado relativamente passivo, no sentido desenvolvido no modelo da primeira figura: os indivíduos estão doentes ou saudáveis. Para os que se encontram na categoria saudável, a que inclui o maior número de pessoas, a homeostasia está perfeita. Os da categoria doença são desviantes e a fronteira entre saúde e doença não é clara. O adoecer deve ser entendido como um conceito interactivo complexo: acontecimentos específicos ocorrem em consequência da interacção de causas múltiplas. A combinação de causas é passível de conduzir a novos sintomas. Certas doenças são produto da interacção complexa de meios específicos causadores de stress (incluindo organismos patogénicos), com o organismo em questão (incluindo história genética e experiência). Agressões do meio, biológicas ou outras, interagem, por sua vez, na produção de constelações particulares de sintomas em indivíduos particulares. Numa análise dos conceitos de saúde e doença Antonovsky (1979, 1984), argumenta que a saúde não pode ser entendida a partir da perspectiva patogénica privilegiada pelo modelo médico tradicional, em que predominam as doenças. Em vez disso propõe um modelo, que denomina de salutogénico, ou seja, orientado para a saúde em vez de orientado para a patologia. Qualidade de Vida A noção de qualidade de vida tem estado ligada desde o início à de promoção da saúde. O interesse por esta área recebeu validação institucional em 1960 com a publicação do relatório da Commission on National Goals, da responsabilidade do ex-Presidente Eisenhower. Este relatório, surgido mais de uma década após o fim da segunda guerra mundial num período de desenvolvimento económico sem precedentes, reflectia a preocupação com o desenvolvimento da qualidade de vida e bem-estar da população. Apontava para uma grande variedade de indicadores sociais e ambientais, tais como: educação, individualidade, crescimento económico, saúde e bem-estar. Na sequência da manifestação destas preocupações começaram a surgir investigações sobre a qualidade de vida. Referir-se-ão três dos estudos mais importantes realizados neste período: o de Liu (1975), o de Flanagan (1982) e o de Campbel, Converse e Rodgers (1976). Liu, em 1975, publicou um artigo exploratório sobre o tema qualidade de vida, visando desenvolver uma estrutura que servisse de guia para a realização de trabalhos empíricos futuros e para o estabelecimento de indicadores de 66 qualidade de vida. Este autor, com base nos critérios produzidos pela Commission on National Goals referida acima, defendia que a qualidade de vida deviaser medida por nove indicadores. Cada indicador seria representado por um conjunto de variáveis quantificáveis. Nas suas conclusões afirmava que a qualidade de vida possuía dois componentes principais que abrangiam os nove indicadores: subjectivo (psicológico) e objectivo (social, económico, político e ambiental). A componente subjectiva tinha, por natureza, um carácter mais qualitativo, dependendo geralmente do indivíduo. Por outro lado os componentes objectivos eram de carácter mais quantitativo e, ao contrário dos primeiros que na época não eram mensuráveis eram, aparentemente, de fácil avaliação. Este estudo acabou por se debruçar somente sobre variáveis “objectivas” e sobre dados (fundamentalmente económicos) que estavam disponíveis nos census nacionais, considerando impossível medir os indicadores subjectivos. O estudo de Flanagan (1982) definiu domínios para avaliar a qualidade de vida. Este autor recorreu a uma técnica conhecida por “técnica dos incidentes críticos” para identificar os domínios a utilizar na descrição de qualidade de vida. Identificou, deste modo, 15 domínios que seriam fundamentais considerar quando se pensasse em qualidade de vida. A sua investigação baseou-se em amostras de três gerações de homens e mulheres (indivíduos com 30, 50 e 70 anos). A investigação de Campbel, Converse e Rodgers (1976) pode considerar-se uma das mais importantes no âmbito da definição de padrões para o estudo da qualidade de vida e da medição das suas componentes subjectivas. Este estudo não só identificou padrões como procedeu à sua investigação. O modelo destes autores assentava no princípio de que a avaliação que o indivíduo faz das características, ou dos atributos de um domínio particular, depende da sua percepção desse atributo por comparação com os seus padrões pessoais. Neste estudo é representada a população americana com mais de 18 anos. O questionário inclui cerca de 200 itens distribuídos por 12 domínios, a saber: saúde, casamento, vida familiar, governo, amizades, habitação, emprego, comunidade, fé, actividades de lazer, situação financeira e participação em organizações. Bem-estar subjectivo No domínio da Psicologia a avaliação de bem-estar tem sido objecto de estudo e discussão desde a década de 40 (Horley, 1984), podendo ser consideradas três fases na sua evolução. Numa primeira fase, tal como os 67 conceitos de saúde e qualidade de vida começou, segundo Diener (1984), por ser avaliado objectivamente através de critérios externos, com o estabelecimento de valores normativos, tais como virtude e santidade. Numa segunda fase, a atenção dos investigadores das ciências sociais recaiu sobre a questão de saber o que levava as pessoas a avaliar a sua vida positivamente. Nasceu, assim, o interesse pela dimensão subjectiva do bem-estar, que foi apelidada de “bem-estar subjectivo”. Esta dimensão passou a ser considerada satisfação com a vida, diferenciando-se das utilizadas até então, principalmente, por se centrar em critérios estritamente pessoais, tal como eram percebidos pelos indivíduos inquiridos. Diener considerava esta forma de satisfação com a vida, uma avaliação global da qualidade de vida das pessoas. Finalmente, numa terceira fase, o conceito passou a assumir um sentido semelhante ao utilizado actualmente, acrescentando-lhe as experiências pessoais positivas. Segundo Diener (1984), o bem-estar subjectivo tem, então, três características: 1) baseia-se na experiência pessoal do inquirido; 2) recorre a medidas positivas, não se caracterizando, apenas, pela ausência de medidas negativas; 3) inclui a avaliação global de todos os aspectos da vida das pessoas. Saúde, qualidade de vida e bem-estar Tal como em muitos outros casos, este três domínios começaram por ser estudados por investigadores de diferentes especialidades, sem contacto uns com os outros. Com o desenvolvimento e divulgação das investigações, as três áreas de investigação – saúde, qualidade de vida e bem-estar – aproximaram-se, constatando-se uma interrelação clara entre os diferentes conceitos: o bem-estar é parte integrante da definição de saúde, tendo, por exemplo, Tessler e Mechanic (1978), verificado que a percepção do estado de saúde tem relações significativas com o estado de stress negativo. Esta constatação é importante dado conceder importância relevante à dimensão subjectiva na avaliação formal da saúde. Ao mesmo tempo, como Campbel, Converse e Rodgers (1976) constataram na sua investigação, a saúde era a variável que melhor explicava a qualidade de vida. Zautra e Hempel (1984) relacionam os três conceitos discutidos nesta parte. O artigo citado inicia-se com a frase: “Para a qualidade de vida, não é 68 necessário muito mais do que saúde e felicidade” (p. 95). Felicidade é um termo utilizado como sinónimo de bem-estar (Diener, 1984). Um dos aspectos que caracteriza, em simultâneo, os três conceitos é a evolução das medidas utilizadas, no sentido de objectivas para subjectivas. Qualidade de vida relacionada com a saúde Os componentes da qualidade de vida e as suas inter-relações foram especificados e examinados por autores fora do campo da saúde, em estudos dirigidos à população que não padecia de doenças. Posteriormente e mais ou menos simultaneamente com o desenvolvimento dos estudos sobre a saúde, o conceito de qualidade de vida generalizou-se e popularizou-se em contextos médicos, intitulando-se aqui “qualidade de vida relacionada com a saúde” ou dependente da saúde (Health Related Quality of Life). Quando as investigações passaram a adoptar perspectivas ecológicas ou sistémicas e a ter um carácter interdisciplinar, os conceitos referidos – saúde, bem-estar e qualidade de vida – começaram a apresentar características semelhantes e a confundir-se cada vez mais. Segundo Patrick e Deyo (1989), o desenvolvimento de medidas do estado de saúde ocorrido durante as duas últimas décadas tem-se alargado gradualmente, passando a incluir um vasto número de conceitos, incluindo o de qualidade de vida. Segundo autores ligados a projectos internacionais, que estão a investigar este tema em ambientes clínicos nos últimos anos (Aaronson et al., 1992): “o papel da avaliação dos benefícios dos cuidados de saúde tornou-se um tema importante em muitos países. A todos os níveis, os benefícios de tratamentos específicos e, não apenas os seus custos, tornaram-se objecto de atenção particular. Analistas políticos e gestores da área da saúde começaram a interessar-se pelos resultados de saúde para avaliar os investimentos. Investigadores e clínicos, que estão a investigar novos produtos farmacêuticos e outras tecnologias, começaram a procurar métodos mais sensíveis ao ponto de vista do doente, que expressassem os resultados do tratamento da doença. A perspectiva tradicional que definia os benefícios da intervenção em termos de resultados biomédicos está a dar lugar a uma perspectiva mais abrangente – uma que inclua assuntos ligados à qualidade de vida que estão relacionados com a saúde” (p. 349). A par da avaliação das doenças têm-se desenvolvido medidas genéricas de avaliação da saúde ou de bem-estar. Por exemplo Ware (1991), cita um 69 estudo sobre o impacto de terapias anti-hipertensivas sobre a qualidade de vida em que se verificou que, terapias com a mesma eficácia, em termos médicos (p. ex., controlo da pressão sanguínea), apresentavam perfis de qualidade de vida significativamente diferentes, de tal modo que a avaliação deste tipo de variáveis começou, na década de 80, a ser considerado fundamental na avaliação dos efeitos dos medicamentos. Ligações entre saúde e qualidade de vida As ligações entre saúde e qualidade de vida não são novas e já se manifestaram antes. Por exemplo, o questionário de Campbel, Converse eRodgers (1976), já referido apresenta um resultado que parece importante para a clarificação das relações entre estes conceitos. Com efeito, o domínio “saúde”, um dos 12 domínios avaliados pelo questionário, foi o que apresentou maior correlação com o resultado total do questionário. Esta correlação elevada entre o domínio saúde e a nota total que expressava a qualidade de vida, salienta os laços existentes entre os dois conceitos, laços, esses, que não esclarecem a questão de saber se saúde e qualidade de vida são sinónimos, complementares ou independentes. Em 1987, Ware, defendia que a qualidade de vida é um conceito muito mais abrangente do que o de saúde sendo esta, a par de outros, um dos indicadores utilizados para medir aquela. Por outro lado Fries e Spitz (1990), referem que em contextos clínicos, os termos qualidade de vida e estado de saúde são, geralmente, utilizados de forma sobreposta e que a saúde pode ser considerada uma medida de qualidade de vida num momento particular. Cramer (1993) apresenta como definição de qualidade de vida, a definição de saúde da OMS, parecendo assim que, qualidade de vida relacionada com a saúde e saúde são sinónimos. Temos defendido uma relação diferente entre os conceitos (Ribeiro, 1994e) em que a qualidade de vida é o objectivo e a saúde o objecto de intervenção. Ou seja intervindo sobre a saúde melhora-se a Qualidade de Vida. A saúde é assim entendida como um recurso pessoal para a vida de todos os dias. Isto, é suposto, desde a definição formal do conceito de Promoção da Saúde. Com efeito Jake Epp, Ministro da Saúde e Bem-Estar do Canadá em 1986, país onde se realizou a Conferência Internacional de Promoção da Saúde que produziu a “Carta de Ottawa para a Promoção da Saúde” produziu um documento intitulado “Achieving Health for All: A framework for health promotion” escreve: 70 “Hoje, estamos a trabalhar com um conceito que projecta a saúde como parte da vida de todos os dias, uma dimensão essencial da qualidade da nossa vida. Qualidade de Vida neste contexto implica oportunidades para fazer escolhas e tirar satisfação de viver. Saúde é, então, vista como um recurso que dá às pessoas a capacidade para gerir e até mudar o seu meio. Esta perspectiva de saúde reconhece liberdade de escolha e salienta o papel dos indivíduos e das comunidades na definição do que é que saúde significa para eles”. (Epp, 1990, p. 3). Patrick e Deyo (1989), explicam que qualidade de vida relacionada com a saúde é um termo abrangente que cobre cinco categorias de conceitos: duração de vida; invalidez; estados funcionais; percepções; oportunidades sociais. Consideram que estas categorias se relacionam com a saúde na medida em que são influenciadas pelas doenças, lesões, tratamentos e políticas de saúde. Outros autores, sediados em contextos tradicionais de saúde, complementam esta posição. Por exemplo, para Schipper, Chinch e Powell (1990), a qualidade de vida é um conceito pragmático que representa o nível funcional individual, medido a partir da percepção do doente, em vez de a partir da percepção do clínico. Estes autores baseiam- se na definição de saúde da OMS para definir os quatro grandes domínios que, consideram, contribuem para a qualidade de vida: funcionamento ocupacional e físico, estado psicológico, interacção social e sensações somáticas. Parece assim que, em contextos de doença, qualidade de vida, saúde e qualidade de vida relacionada com a saúde, são termos utilizados, frequentemente, como sinónimos. Actualmente a OMS está a tentar definir e operacionalizar parâmetros universais para considerar na avaliação da qualidade de vida. Concluindo: a) há relações ainda não completamente clarificadas entre os três conceitos – qualidade de vida, saúde e bem estar subjectivo; b) as medidas utilizadas para avaliar cada uma das variáveis mudaram nos últimos 30 anos, de medidas centradas em critérios externos ao indivíduo avaliado, para medidas centradas na percepção pessoal; c) este tipo de medidas generalizou-se aos contextos clínicos, onde toma o nome de qualidade de vida relacionada com a saúde. 71 PARTE II – ASPECTOS BÁSICOS DA INTERVENÇÃO Comportamento e Psicologia da Saúde Armstrong (1988) explica que no século XIX as preocupações dos profissionais de saúde se centravam no meio ambiente – água, ar, alimentos, excrementos – e que, progressivamente, as preocupações passaram a ser com as próprias pessoas e com a interacção entre elas. No século XIX, a acção em termos de prevenção das doenças visava controlar o meio ambiente de onde vinham os “miasmas” que provocavam as grandes epidemias como a tuberculose. Passou, depois, para a interacção entre as pessoas que eram elas próprias transmissoras desses germes através da respiração, saliva, proximidade. Já não se tratava de um problema que as autoridades sanitárias tinham de resolver por si só. As pessoas, enquanto hospedeiros reais ou potenciais tinham elas próprias de adoptar medidas que, ou reduzissem as possibilidades de se tornarem hospedeiros, ou de serem transmissores dos germes. Começou então a aceitar-se e a considerar-se de forma crescente que as pessoas tinam um papel cada vez mais activo na saúde e na doença: de objectos passivos dos técnicos, as pessoas passaram a ser consideradas como elementos activos e decisivos no processo de adoecer ou de ser saudável. O doente começava a ter uma identidade. Deixava de ser uma doença que existia no indivíduo para ser o indivíduo que tinha uma doença. Esta mudança na maneira de pensar que se iniciou com o movimento de saúde pública viria alterar radicalmente o modo de conceber o sistema de saúde. História da relação comportamento saúde e doenças Num dos estudos clássicos mais antigos sobre a relação entre aspectos do comportamento individual e doença, Morris et al. (1953) referiam a “provável” influência de factores psicológicos tais como “satisfação no trabalho, frustração, presença ou ausência de ansiedade, equilíbrio emocional, ou integração pessoal” (p. 1118), na génese da doença coronária. Cerca de vinte anos depois, Canton (1975) criticava investigações do mesmo tipo, nomeadamente uma publicada na altura, de 72 Paffenbarger e Hale (1975), por estas não terem estudado variáveis psicológicas enquanto factores de risco, crítica que não teve resposta. Este tipo de estudos que analisava o impacto do comportamento (neste caso a actividade física) na génese de doenças do aparelho circulatório, na tradição da descoberta da importância do comportamento humano enquanto factor causal centrava-se, sobretudo, em variáveis “objectivas” (o comportamento humano era considerado em sentido estrito) e considerava as variáveis psicológicas “subjectivas”. Tais estudos tendiam, na tradição biomédica clássica, a considerar a influência de microorganismos, ou microelementos – os germes –, na génese das doenças: o comportamento era, agora, o germe. A adopção definitiva, da importância de conceber o Homem como um sistema complexo, em que variáveis “subjectivas” e “objectivas” estão em constante interacção, teve lugar, já bem dentro da década de 80, na sequência das críticas ao modelo biomédico de que Engel (1977) foi um referencial. O comportamento humano na Segunda Revolução da Saúde O modelo de saúde emergente na década de 70 centrou-se, fundamentalmente, na relação entre comportamentos e doenças, primeiro numa perspectiva de prevenção das doenças e depois de promoção da saúde. Definições fundamentais, acerca da relação entre comportamento e saúde e comportamento e doenças, emergem nesta época. É o caso de Medicina Comportamental que se define como campo de interesse multidisciplinar que se dedica ao desenvolvimento e integração de conhecimentos e técnicas provenientes das ciências comportamentale biomédica relevantes para a saúde e para as doenças, à aplicação destes conhecimentos e técnicas na prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação (Schwartz & Weiss, 1978). É, também, o caso de Saúde Comportamental que se define como campo disciplinar dedicado a promover uma filosofia de saúde que salienta a responsabilidade individual na aplicação dos conhecimentos e técnicas provenientes das ciências biomédica e comportamental, com vista à manutenção da saúde e à prevenção das doenças e das disfunções em geral, pelo recurso a uma variedade de actividades de iniciativa pessoal ou colectiva (Matarazzo, 1980). Se, formalmente a explicitação da relação entre comportamento saúde e doenças só emergem no Campo da Saúde só emerge na década de 70, como 73 consequência da prática interdisciplinar entre as ciências comportamentais e as ciências biomédicas não admira que, antes disso, a relação entre comportamento e saúde tenha sido teorizada fora do âmbito das ciências comportamentais. Na realidade o recurso ao termo “comportamento” na relação com o Sistema de Saúde já tinha sido objecto de teorização na década anterior. Um dos textos mais antigos e já clássico nessa teorização, é o de Kasl e Cobb (1966a). Estes autores definem Comportamento de Saúde como “qualquer actividade empreendida por uma pessoa, que se crê saudável, com o propósito de prevenir a doença ou de a detectar num estádio assintomático” (p. 246). Esta definição foi utilizada nas décadas de 60 e 70 em inúmeras investigações que visavam a prevenção das doenças, no espírito da primeira revolução da saúde. Era uma definição centrada na doença: seria comportamento de saúde se adoptasse um comportamento que o pessoal médico definia como adequado para a saúde. A par da expressão Comportamento de Saúde, surge outra denominada “Comportamento de Doença”. Segundo Kasl e Cobb (1966a) comportamento de doença é “qualquer actividade empreendida por uma pessoa que se sente doente, de modo a clarificar o seu estado de saúde e descobrir o tratamento a seguir” (p. 246). O que estes autores intitularam comportamento de doença pode, de certo modo, ser considerado comportamento de exaltação da saúde, no sentido em que pode conduzir o indivíduo de um estado de mal-estar para o de bem-estar. As principais actividades características deste comportamento, consistem em queixar-se, pedir conselhos a familiares e a amigos, ou consultar técnicos de saúde. A partir daqui (a) cresce a aceitação de que os dois construtos – Saúde e Doença – podem ser considerados dimensões ortogonais e, (b) acentua-se a consciência da associação entre Comportamento, Saúde e Doenças. Desenvolvimentos posteriores da noção de comportamento relacionado com as doenças passaram a considerar a importância do ponto de vista das pessoas (Feurstein, Labbé, & Kuczmierczyk, 1986) e a interessar-se pelo que a maioria das pessoas consideravam actividades saudáveis ao invés do que os profissionais de saúde consideravam. Nesta perspectiva, Harris e Guten (1979) defendem que “todas as pessoas adoptam alguns comportamentos com a intenção de proteger a saúde, quer estes sejam ou não aprovados medicamente e sejam, ou não, eficazes” (p. 18). Estes autores defendem que, nesta nova perspectiva, a definição de Kasl e Cobb era insuficiente e sugeriram uma nova definição associando comportamento saúde e doenças que intitularam de “comportamento protector de saúde”. Definiram-no do seguinte modo: “Qualquer 74 comportamento realizado por uma pessoa, independentemente do estado de saúde que tem ou pensa ter, com vista a proteger, promover ou manter a saúde, quer tal comportamento seja, ou não, objectivamente eficaz para atingir tal fim” (Harris & Guten, 1979, p. 18). Estes autores conduziram uma investigação visando identificar os comportamentos protectores de saúde que as pessoas adoptavam. Através da análise de padrões (cluster analysis) identificaram cinco grupos de comportamentos: a) práticas de saúde, tais como, dormir em quantidade e qualidade suficientes, relaxar, comer de forma razoável, fazer exercício moderado, evitar excesso de trabalho, evitar resfriados, limitar o consumo de certos alimentos, vigiar o peso; b) práticas protectoras de saúde, tais como, consertar as coisas (degraus partidos, cadeiras desequilibradas, etc), verificar o bom estado de funcionamento dos utensílios, ter um estojo de primeiros socorros, ter à vista os principais números de telefones de emergência; c) cuidados preventivos de saúde, tais como, verificar periodicamente a pressão arterial, a saúde oral e o estado de saúde em geral; d) evitar os riscos do meio ambiente, tais como, áreas perigosas, por exemplo, zonas de crime ou áreas de poluição; e) evitar substâncias perigosas, tais como, tabaco e bebidas alcoólicas. Noutra investigação que analisava o modo como os comportamentos relacionados com a saúde e as doenças se agrupavam, baseada na análise factorial dos dados do Estudo Alameda, Tall e Goldenthal (1982) verificaram que eles se agrupavam em três factores: o primeiro factor reflectia as actividades de promoção da saúde; o segundo, as actividades que visavam evitar riscos; o terceiro, a falta de consciência da necessidade de boas práticas de saúde. Estas maneiras de pensar a relação entre comportamento saúde e doenças tendiam a ser dominadas pelo modelo da primeira revolução da saúde, ou seja, orientadas para as doenças. Posteriormente, outros autores estabeleceram diferenças entre os comportamentos protectores de saúde, realizados por iniciativa pessoal, dos realizados por recomendação de profissionais de saúde. Faziam, ainda, a distinção entre mudança de estilo de vida e tratamento: o primeiro aplicava-se a comportamentos protectores de saúde realizados por indivíduos saudáveis e o segundo, a comportamentos realizados por indivíduos doentes (Anderson, 1988). Segundo este autor, tem havido a tendência de utilizar o termo “comportamento de saúde” para descrever as actividades que se realizam 75 com base na opinião de especialistas médicos, independentemente de saber se a actividade é intencional, realizada em consciência, ou não. Também, raramente se utiliza o termo “comportamento de saúde” para designar actividades ligadas ao ambiente, ou à colectividade (por exemplo, actividades que evitem a poluição, ou actividades que tornem a cidade mais habitável). McQueen (1987, 1988) defendia que os comportamentos associados à saúde se podem resumir-se a três tipos: a) comportamento de exaltação da saúde: são os que visam a promoção da saúde, ou seja, aqueles que são implementados, conscientemente, com o propósito de melhorar o nível global de saúde; b) comportamentos de manutenção de saúde: são os de prevenção das doenças, tais como controlo de pressão arterial, planeamento familiar, vacinação, etc. e os de protecção da saúde, tais como controlo de agentes tóxicos, prevenção rodoviária, impacto ambiental, etc: c) comportamentos de prejuízo de saúde: são os que são prejudiciais à saúde, tais como fumar, beber exageradamente, medicar-se sem acompanhamento médico, etc. McQueen (1988), defendia que, quando se pretender estudar a relação entre comportamento e saúde, devem-se considerar três elementos: a) a natureza do desenvolvimento humano; b) o papel do meio ambiente social e físico; e, c) a interacção do desenvolvimento humano com o meio ambiente. Entretanto têm sido apresentadas outras definições de comportamento associado à saúde, tais como, comportamento de Wellness (sem tradução), comportamento preventivo de saúde, comportamento de risco, comportamento de cuidados pessoais, comportamento de planeamento familiar, comportamento de saúde parental, comportamento social relacionado com a saúde, hábitos de saúde, práticasde saúde, (Anderson, 1988; Green, 1984). O termo comportamento aparece associado a muitos outros conceitos nascidos do modelo biomédico: é o caso já referido, por exemplo, de epidemiologia comportamental (Heggenhougen & Shore, 1986; Kaplan, 1985; Mason & Powell, 1985), de imunologia comportamental (Antonovsky, 1984; Borysenko, 1984), comportamentos patogénicos ou factores de risco comportamentais para se referirem aos comportamentos que são susceptíveis de conduzir a doenças (Hogelin, 1988; Kokény, Ajkay, & Bognar, 1988; Matarazzo, 1984). 76 Comportamento de prejuízo de saúde como hábito Uma questão que se coloca é a de saber se os comportamentos são fáceis de mudar. McQueen (1987) explica que as actividades habituais, rotineiras, dispensam o processamento cognitivo complexo. Um hábito é um padrão de acção caracterizado por automatismos, baixo nível de consciência e potencialmente independente de reforço. Os comportamentos de fumar, beber exageradamente, comprar comida, cozinhar, fazer ou não exercício, etc, são comportamentos deste tipo, constituindo fluxos comportamentais rotineiros, relativamente estáveis e previsíveis, que tendem a resistir à mudança. A mudança de hábitos é um objecto central da Segunda Revolução da Saúde. Lalonde (1974) explicava que: “enquanto é fácil convencer uma pessoa que tem dores a consultar um médico, não é fácil levar alguém que não sofre, a moderar hábitos insidiosos no interesse do seu bem estar futuro. Também não é fácil fazer mudanças ambientais que causem inconveniente social, quando os benefícios dessas mudanças atingem desigualmente a população e só são observáveis a longo prazo. A perspectiva de que os canadianos têm o direito a “escolher o seu próprio veneno” está profundamente arreigada” (p. 6). Origem dos hábitos A investigação mostra que, desde muito cedo, as crianças aprendem padrões comportamentais que estão associados à saúde e às doenças. Flaherty (1986), estudou as concepções de saúde e de comportamentos relacionados com a saúde em 41 crianças entre os quatro e cinco anos: este grupo tinha uma concepção de saúde semelhante à da definição oficial de saúde da OMS e não apenas como ausência de doença e identificou comportamentos de prejuízo da saúde, também de acordo com o que é aceite na investigação. Dos comportamentos que exaltavam a saúde identificaram, por ordem de importância: alimentação, ir ao médico, lavar os dentes, dormir, correr e lavar as mãos. Parece assim que, desde muito cedo se adquirem concepções, correctas, associadas à saúde. Noutra investigação do mesmo tipo realizada em Portugal por Tomé (1990), com 300 alunos de uma escola preparatória e duas secundárias da região de Coimbra, os alunos consideraram que os aspectos mais importantes da definição de saúde eram os factores pessoais relegando para segundo lugar os factores biológicos. Consideram ainda que a responsabilidade pela saúde cabe ao próprio indivíduo. Questionados sobre 77 os comportamentos prejudiciais à saúde identificam como principais os maus hábitos alimentares e o consumo de tabaco. A investigação não questionou sobre os comportamentos de exaltação da saúde. Mechanic (1979), num estudo longitudinal que durou 16 anos que avaliava a relação entre comportamentos de saúde e percepção de saúde física, sobre 350 crianças entre os 9 e os 12 anos e os mesmos indivíduos 16 anos depois, conclui que há correlação significativa entre a generalidade dos comportamentos de saúde e a percepção de saúde física. Mechanic (1979), Mechanic e Cleary (1980), neste estudo que pretendia, também, avaliar as mudanças do comportamento de saúde entre a primeira fase do estudo, nas 350 crianças e os mesmos indivíduos 16 anos depois, concluíram que a estabilidade dos comportamentos é modesta e que se alteraram bastante ao longo deste período. Parece, assim, (a) que desde muito cedo se aprendem padrões comportamentais associados à saúde e que estão, eventualmente, associados à cultura e, (b) eles mudam devido a factores associados ao desenvolvimento humano e à pressão cultural associada à idade. Mudança de hábitos No entanto, os hábitos podem mudar. Por exemplo, segundo McQueen (1987), há evidência de que ocorrem mudanças espontâneas quando algumas actividades rotineiras são trazidas à consciência por períodos prolongados de tempo, de tal modo que se tornem conscientes e se tornem problemáticas. Ocorre, por exemplo em conjugação com mudança de ambiente em que o comportamento costuma ser praticado. Por exemplo, se um fumador passa a viver com um não-fumador, as acções rotineiras são reavaliadas e pode conduzir a mudança de comportamento. Parece que mudar de hábitos é muito difícil quando se trata de obrigar as pessoas a fazê-lo, mas que é muito fácil quando o próprio está disposto a isso e a mudança está integrada em mudanças mais vastas: não é só, por exemplo, deixar de fumar, é também mudar as relações, os conceitos, as crenças, as atitudes, o ambiente é, enfim, mudar o estilo de vida. Os técnicos que se interessam pela alteração dos hábitos de vida com a intenção de promover a saúde tendem a cometer dois tipos de erros: a) consideram que a mudança de hábitos ocorre quando as pessoas estão informadas reduzindo as suas actividades ao fornecimento de informação; ou 78 b) envolvem-se na modificação do comportamento tomando este em sentido estrito. Com efeito, muitos técnicos e dirigentes políticos acreditam que a educação (normalmente considerada como fornecimento de informação) é a solução para a nova epidemia comportamental. Ora, a informação é importante mas não suficiente. A lógica que tem sido dominante, e, que está subjacente ao modelo biomédico e à primeira revolução da saúde, assume relações unívocas entre causa e efeito: ou seja, se um comportamento conduz ou está associado, a uma doença, deve-se mudar o comportamento. Se fumar provoca cancro, tem de se deixar de fumar. A estratégia que é normalmente adoptada consiste em repetir mensagens que parecem ser pouco eficientes. A Segunda Revolução da Saúde trouxe uma perspectiva multicausal, ecológica, que considera irrelevantes mudanças isoladas: nesta perspectiva, ao invés de tentar mudar o comportamento de fumar isoladamente, deveria implementar-se uma constelação de actividades conjuntas. A par de informação sobre a relação entre o tabaco e a saúde (ao invés de ameaças) deveriam existir medidas legislativas e promover-se actividades alternativas não associadas ao fumar. Por exemplo, em vez de escolher o jazz, actividade que é normalmente associada ao tabaco, podia promover-se a música clássica que não está associada ao tabaco: podiam promover-se visitas de bicicleta a locais históricos dos arredores da cidade, visitas à arquitectura da cidade a pé ou de bicicleta mantendo, assim, a associação entre actividades culturais e saúde e promovendo práticas de saúde que tendem a ocorrer conjuntamente. Comportamento nas ciências comportamentais A evolução da investigação em psicologia teve como consequência que o termo “comportamento” pudesse tomar vários sentidos em diferentes níveis (Schwartz, 1982), consoante seja considerado no contexto da teoria comportamental, no da psicologia em geral, no das ciências e das artes em geral e, finalmente, no da teoria dos sistemas. Na perspectiva de uma teoria comportamental estrita, comportamento refere-se a uma sub-área da psicologia em que se salienta a aprendizagem e onde só contam as actividades observáveis. Na perspectiva da psicologia em geral, refere-se ao estudo do comportamento dos organismos, definidos 79 de forma ampla, constituindo a totalidade do objecto da psicologia: a psicologia seria a ciência do comportamento. Na perspectiva das ciências e das artes em geral, refere-seao comportamento dos organismos de forma ampla e engloba todas as disciplinas ou ciências que lidam com o comportamento, não apenas a psicologia mas também a antropologia, a sociologia, a ciência política, etc. Na perspectiva da teoria dos sistemas, refere-se ao estudo do comportamento dos sistemas, não apenas dos organismos: todas as disciplinas científicas, incluindo a física, a química, a biologia, a psicologia, são consideradas como ciências do comportamento. Baltes, Reese e Nesselroade (1977) esclarecem que “nas ciências comportamentais, tais como psicologia, sociologia e antropologia cultural, o termo comportamento abrange as actividades do organismo, partes do organismo e grupos de organismos, incluindo respostas abertas observáveis, processos mentais implícitos, funções fisiológicas, etc. (...) Resumindo, comportamento refere-se a actividades e processos, de qualquer tipo, realizado pelos sistemas, quer sejam simples ou complexos” (p. 16). A perspectiva de comportamento aqui adoptada é entendida nesta perspectiva. Comportamentos/Atitudes As ligações entre comportamento e saúde ganharam notoriedade na segunda metade deste século. A sua relação histórica com a mortalidade, morbilidade e saúde está descrita (Anderson, 1988; Armstrong, 1988; Matarazzo, 1980, 1982, 1984; Ribeiro, 1989). Apesar das investigações variarem quanto ao modo como concebem o comportamento, parece haver a tendência para o considerar como unidades discretas e observáveis. As investigações cujos resultados se apresentam de seguida, tanto se referirão à promoção e protecção da saúde como à prevenção e tratamento das doenças às crianças pequenas, aos adultos ou aos idosos, a profissionais ou a estudantes, como a homens ou a mulheres. Finalmente, aparecerá muitas vezes o termo “estilo de vida” que foi, nessas investigações, utilizado para descrever unidades discretas e observáveis de acção e, enquanto tal, é sinónimo de comportamento. A predisposição para realizar determinado comportamento, a atitude, será igualmente considerada dentro desta área, dado a investigação diferenciar mal a acção da predisposição para a acção. 80 Importância de um estilo de vida saudável As investigações sobre os factores implicados na génese das doenças, principalmente nas do aparelho circulatório, doença da moda na época, eram típicas nas décadas de 50, 60 e 70. Foi só pelo final da década de 60 que começaram a realizar-se investigações que se propunham estudar, não só as variáveis que influenciavam a doença, mas também as que influenciavam a saúde. Um dos estudos mais conhecidos é o Estudo Alameda (Berkman & Breslow, 1983). Este teve início em 1965 e abrangeu uma amostra de 8083 indivíduos representativos da população do Condado de Alameda (Alameda County) nos Estados Unidos da América. A amostra foi estudada com recurso a uma metodologia mail type, através do preenchimento de questionários. As variáveis incluíam um conjunto de dimensões psicossociais e modos de as avaliar que se desenvolveram e se tornaram típicas na década de 80. Os resultados do estudo Alameda demonstraram quanto importantes eram os aspectos subjectivos, não só para a saúde, mas igualmente, para a doença. Num dos artigos publicados com o resultado desta investigação, Kaplan e Camacho (1983) constataram, por exemplo, que factores tão subjectivos como a percepção que os indivíduos tinham da sua saúde, se associavam significativamente com a mortalidade. Abel, Cockerham, Lueschen e Kunz (1989), examinaram o efeito da adopção de estilos de vida saudáveis de 349 homens, na avaliação que faziam da sua saúde. Os resultados mostraram que os não fumadores, que praticavam exercício físico e verificavam regularmente a sua saúde, se consideravam de muito boa saúde. Os resultados mostraram ainda que os indivíduos com mais instrução faziam mais exercício físico e fumavam menos. Um dos estudos que mais impacto tem tido sobre as concepções de saúde, doença e idosismo foi um artigo publicado por Belloc e Breslow em 1972, sobre a amostra do estudo Alameda. Neste artigo, estudavam a relação entre a prática de sete comportamentos de saúde (padrão de sono, alimentação, exercício físico, consumo de bebidas alcoólicas, tabagismo, sendo alguns subdivididos em mais de uma categoria) e a saúde (medida a partir de incapacidade, condições crónicas, sintomas, nível de energia e deterioração física), de pessoas de diferentes idades. Concluem que o estado de saúde física dos indivíduos de mais de 65 anos, que praticavam os sete comportamentos de saúde da lista, era aproximadamente o mesmo que o dos indivíduos do grupo etário 35-44 anos que praticavam três ou menos desses comportamentos: o mesmo se verificava quando se 81 comparavam os indivíduos do grupo etário 55-64 com os do grupo 25-34. Os mais idosos que praticavam todos os comportamentos de saúde tinham uma saúde equivalente aos mais novos que praticavam, apenas, três ou menos desses comportamentos. Wilkes (1985) verifica, numa população de mulheres reformadas, que a percepção de bem-estar estava associada, entre outros, a comportamentos de saúde tais como, exercício físico e alimentação. Guralnik e Kaplan (1989), num estudo que se propunha identificar os preditores de envelhecimento saudável, em 841 indivíduos da população do estudo Alameda (iniciado em 1965) que em 1984 tinham mais de 65 anos de idade, constataram que os indivíduos que não fumavam, que mantinham o peso dentro de valores razoáveis e que consumiam quantidades moderadas de álcool, eram mais saudáveis. Waller e Bates (1992), numa investigação que visava identificar variáveis associadas a uma vida saudável, numa amostra de 57 indivíduos que tinham entre 66 e 88 anos, que eram particularmente saudáveis segundo critérios definidos pelos autores e não sofriam de doenças, verificaram que a maioria dos indivíduos praticava comportamentos de saúde tais como exercício físico, não fumar, não abusar de bebidas alcoólicas, bons hábitos alimentares, entre outros. Reed (1983), numa amostra de 542 indivíduos de ambos os sexos, identifica um conjunto de comportamentos relacionados com o estado de saúde, medido pela ausência de doença. Os comportamentos identificados confirmam os encontrados por Berkman e Breslow (1983) no estudo Alameda. Paffenbarger, Hyde, Wing e Hsieh (1986) examinaram a relação entre actividade física e outras características do estilo de vida e mortalidade e duração de vida, de 16936 homens, alunos da Universidade de Harvard (idades entre 35-74 anos). Verificaram que o exercício físico tal como, andar, subir escadas, praticar desporto, tinha uma relação inversa com a mortalidade total, principalmente com a mortalidade devida a doenças do aparelho cardiovascular ou a causas respiratórias. Os riscos eram maiores para os fumadores, para os que tinham excesso de peso com hipertensão, cujos pais tinham morrido cedo. Pela idade dos 80 anos a duração de vida adicional para os que se exercitavam, em comparação com os que não o faziam, era de um a mais de dois anos. Pomrehn, Wallace e Burmeister (1982), numa análise de 62000 mortes ocorridas entre 1964 e 1978, em homens entre os 20 e 64 anos, concluíram que os indivíduos que praticavam exercício físico vigoroso e consumiam pouco álcool e tabaco, tinham menos probabilidade de morrer devido a doença isquémica do coração. Miller, Golaszewski, Pfeiffer e Edington (1990), analisaram os dados provenientes de 21325 membros de uma grande empresa, visando 82 detectar os factores de risco do estilo de vida. Verificaram (a) que havia interdependência entre comportamentos de saúde, b) que o estilo de vida afectava a saúde física e c) que a satisfação com a vida e a actividade física que praticavam predizia o modo como avaliavam a sua saúde física. Chi(1986) avaliou o bem-estar de 218 trabalhadores rurais com idade média de 35 anos. Os resultados indicaram que a variação no bem-estar era função do estilo de vida, do suporte social, das condições de habitação e três variáveis pessoais (idade, sexo e educação). Wiley e Camacho (1980) num estudo sobre 3892 indivíduos, que procurava prever o estado de saúde nove anos depois, a partir de cinco aspectos do estilo de vida (consumo de tabaco, consumo de álcool, exercício físico, horas de sono por noite, peso relativamente à altura) verificaram a existência de relação significativa entre comportamentos adequados de saúde e o estado de saúde após esse período. Basen-Engquist e Parcel (1992) num estudo sobre 1720 estudantes em que 76% tinham 15 ou 16 anos, visando identificar os factores que estavam associados à protecção de doenças sexualmente transmissíveis, verificaram que as intenções (variável semelhante à atitude) era uma das variáveis que melhor explicava a frequência de uso de preservativos e que melhor se relacionava com o número de parceiros sexuais. Siegel, Mesagno, Chen e Christ (1989), estudaram os factores que diferenciavam homossexuais masculinos que adoptavam práticas sexuais seguras dos que as não adoptavam, em 100 indivíduos sem sintomas de doenças. Os dados foram recolhidos durante dois anos e consistiam em entrevistas, realizadas por entrevistadores homossexuais, com intervalos de seis meses. As medidas incluíam suporte social, estilo de vida, auto-estima, uso de drogas e álcool, conhecimento acerca da SIDA, crenças acerca da saúde e comportamento sexual. Os aspectos relativos ao suporte social e à utilização de drogas eram as variáveis que melhor distinguiam os dois grupos. A percepção de dificuldade em modificar o comportamento sexual era outra das variáveis que diferenciava os dois grupos. Castro, Newcomb e Cadish (1987) constataram que, comparando uma amostra de consumidores regulares de cocaína com outra, equivalente, de não consumidores, os indivíduos pertencentes à primeira, evidenciavam, de modo significativamente mais elevado, comportamentos prejudiciais de saúde, tais como beber mais bebidas alcoólicas, tomar mais café, alimentação mais desequilibrada, vida diária mais desorganizada e menos actividades relaxantes. Tinham, também, uma percepção de saúde mais baixa. Wingard, Berkman e Brand (1982) num estudo sobre 4725 indivíduos do estudo Alameda, constataram que cinco comportamentos de saúde (não 83 fumar, consumo baixo de álcool, exercício físico regular, dormir 8-9 horas por noite, peso adequado para a altura) estavam associados a baixa mortalidade. Comportamento e mortalidade Belloc (1973), com a população do estudo Alameda, num estudo longitudinal, verificou que o número de comportamentos de saúde (não fumar, peso adequado para a altura, beber moderadamente, horas de sono, regularidade das refeições, exercício físico) estavam altamente relacionados com a mortalidade. Haan, Kaplan e Camacho (1987), num estudo em que se propunham investigar o impacto do estatuto socio- económico na saúde constataram que os comportamentos associados à saúde, tais como consumo de bebidas alcoólicas, consumo de tabaco, variações de peso (excesso ou baixo peso), actividade física, estavam significativamente associados aos índices de mortalidade. Shaten, Kuller e Neaton (1991) numa investigação longitudinal que durou 10,5 anos, sobre a população do Multiple Risk Factor Intervention Trial (MRFIT), constataram que os indivíduos que tinham comportamentos que a investigação tem demonstrado estarem associados à doença, têm maior probabilidade de falecer, principalmente se os comportamentos estiverem associados ao consumo de tabaco. Factores de risco para a saúde O tabagismo, o exercício físico e a alimentação pertencem ao grupo de comportamentos que são designados como factores de risco para inúmeras doenças, por um lado e, por outro, pertencem ao grupo de comportamentos indiciados nos programas de promoção da saúde. Por esta razão serão abordados num bloco à parte. Consumo de tabaco O Centers for Disease Control dos Estados Unidos, apresentou, no Jornal da Associação Médica Americana (1989), um relato do National Health Interview Survey of Cancer Epidemiology and Control em que concluía que o tabaco era responsável por uma de cada seis mortes, anualmente, nos Estados Unidos. Taylor (1990) refere que 25% de todas as mortes por cancro e cerca de 350000 mortes prematuras por ataque cardíaco, podiam 84 ser evitadas anualmente, nos Estados Unidos, se se deixasse de fumar. Peto, Lopez, Boreham, Thun e Health (1992) afirmam que fumar causa ainda mais mortes por outras doenças do que por cancro no pulmão. O consumo de tabaco é o comportamento cujos efeitos sobre a saúde mais têm sido estudados e cujos resultados recolhem mais concordância. Por essa razão é um dos comportamentos que está mais restringido por lei e, paradoxalmente, dos que mais contribui para o orçamento dos estados: em Portugal, os valores dos impostos provenientes do tabaco excedem os 170 milhões de contos. Destes 170 milhões o estado dá uma muito pequena fatia para a investigação sobre as doenças que ele provoca. As cerca de 17000 pessoas que, em Portugal, provavelmente, não morreriam este ano se não se fumasse não é suficiente para alterar a política. Como sugerem Draper, Best e Dennis (1977), a escolha entre a saúde da economia e a saúde da população não oferece dúvidas: em linguagem popular poderia dizer-se “vão-se os dedos fiquem os anéis”. Em Portugal a percentagem de pessoas que fumam é inferior a 30%, havendo maior percentagem de homens dos que de mulheres, mas com os homens com tendência para baixar e as mulheres com tendência para aumentar. Numa revisão em que fazem o ponto da situação sobre o impacto do tabagismo na saúde e nas doenças, Eriksen, LeMaistre e Newell (1988) referem que, dos cerca de 3800 componentes identificados no fumo do tabaco, a maioria é cancerígena. Chamam a atenção, especialmente para os fumadores passivos: o fumo inalado pelos não fumadores é diferente do inalado pelos fumadores. Embora o fumador passivo esteja exposto a menos fumo de tabaco que o fumador, o fumo inalado pelo fumador passivo é mais perigoso do que o inalado pelo fumador por duas razões: devido à elevada temperatura de combustão no momento da sua formação e porque não é filtrado, quer pelo filtro do cigarro quer pelos pulmões treinados do fumador. Estes autores, numa investigação sobre 38000 não fumadores, verificaram que 63% referiam alguma exposição ao fumo do tabaco, 33% referiam 10 ou mais horas por semana e 16%, 40 ou mais horas. Salientam que o risco mais devastador se refere às crianças: crianças com pais fumadores têm um risco 50% superior de ter cancro no pulmão quando adultos, do que crianças cujos pais não fumam. Porque fumam as pessoas? D. Horn (1968) realizou uma investigação em que se propunha determinar quantos tipos de fumadores existiam. Identificou seis categorias de fumadores: 85 1) Estimulação – refere-se aos que fumam porque o tabaco tem um efeito estimulante e abrangia cerca de 10% dos fumadores; 2) Manipulação – refere-se aqueles para quem o processo de fumar é o aspecto mais importante, representando cerca de 10% da população de fumadores; 3) Prazer relaxante – refere-se aos que afirmam que fumam porque isso os relaxa e lhes dá prazer, representando cerca de 15% dos fumadores. Se encontrarem um prazer substituto têm grande probabilidade de abandonar o tabaco; 4) Muleta – abrange aqueles que se suportam no tabaco como meio de reduzir a tensão nas suas vidas, abrangendo cerca de 30% dos fumadores; 5) Vício – estes fumadores têm uma dependência psicológica ou física do tabaco, representando cerca de 25% dos fumadores.Se quiserem deixar de fumar terâo provavelmente dificuldade em o fazer; 6) Hábito – para este grupo fumar é algo que se faz sem pensar, consistindo num comportamento automatizado. Abrange cerca de 10% dos fumadores. As razões para se iniciar ou manter o comportamento tabágico são vários. A publicidade e a apresentação de modelos ideais. As figuras fumadoras dos anúncios são consideradas como imagens positivas pelos que fumam. Mullen, Gold, Belcastro e MacDemortt (1986) referem uma investigação em que esses modelos são considerados atraentes, felizes, bem vestidos, jovens e saudáveis. Outro factor é o exemplo dos pais. Segundo os últimos autores citados quando ambos os pais fumam a probabilidade dos filhos fumarem é inferior a metade daqueles cujos pais não fumam. A pressão dos pares é o principal determinante do início do consumo. Em determinadas idades em que a vida grupal tem uma importância fundamental (puberdade e início da adolescência) esse impacto é maior do que nos mais velhos. Tabagismo e doenças Kuller, Ockene, Meilahn, Wentworth, Svendsen e Neaton (1991) num estudo de actualização dos dados sobre o impacto do tabaco, numa amostra de 361662 participantes do Multiple Risk Factor Intervention Trial (MRFIT), concluem que há uma relação, clara, entre fumar e mortalidade e entre fumar e acidentes vasculares cerebrais. Num estudo continuado 86 durante 10 anos, constataram que deixar de fumar tinha efeitos positivos, rápidos, sobre a doença coronária, mas que não era reversível para o cancro do pulmão. LaCroix, Lang, Scherr, Wallace, Cornoni-Huntley, Berkman, Curb, Evans e Hennekens (1991) num estudo longitudinal da relação entre consumo de tabaco e mortalidade, em 7178 indivíduos com mais de 65 anos de idade, concluem que os fumadores morriam numa proporção duas vezes superior aos não fumadores, que o risco relativo para as doenças cardiovasculares era 2,0 e para o cancro no pulmão de 2,4 e que, deixar de fumar aumentava a expectativa de vida nos idosos, com os ex-fumadores a reduzirem o risco para o nível dos não fumadores no que diz respeito às doenças cardiovasculares, mas a manterem-no para o cancro. Shaten, Kuller e Neaton (1991) numa investigação longitudinal que durou 10,5 anos, sobre a população do Multiple Risk Factor Intervention Trial (MRFIT), constatam que os fumadores têm maior probabilidade de falecer, devido a todas as causas, que os não fumadores. Tsai, Cowles e Ross (1990) num estudo realizado no âmbito do Shell’s Health Surveillance, abrangendo 7863 trabalhadores, que visava, entre outras, a relação entre comportamento tabágico e morbilidade, verificaram que os fumadores tinham mais doenças em geral, mais doenças do aparelho circulatório e do aparelho respiratório e que abrangia tanto os homens como as mulheres; tinham, também, maior probabilidade de ter acidentes motorizados e não motorizados. A abstinência ao trabalho, num período de três anos, era maior para os fumadores. O tamanho das amostras, a constância dos resultados e a semelhança das conclusões interregionais torna o tabagismo uma das maiores ameaças à saúde. Exercício físico Outro dos comportamentos que mais tem sido estudado é o exercício e a actividade física, principalmente a relação entre a actividade física e exercício e as doenças do aparelho cardiovascular. A investigação da relação entre as variáveis, exercício e actividade física e saúde define estes conceitos de forma precisa. Muitas vezes utilizam-se termos ambíguos (como desporto) que não pertence ao campo da relação entre estas variáveis. Caspersen, Powell e Christenson (1985) apresentam um glossário de termos em que estes conceitos são definidos: 87 – Exercício – define-se como movimentos corporais planeados, estruturados e repetitivos, realizados para melhorar ou manter, um ou mais componentes da condição física; – Condição física (physical fitness) – refere-se a um conjunto de atributos que as pessoas têm ou procuram ter, que se relacionam com a capacidade para realizar actividades físicas; – Actividade física – refere-se a qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que resulte em dispêndio de energia. Paffenbarger, Laughlin, Gima e Black (1970) num estudo longitudinal de 16 anos sobre 3263 indivíduos concluíram pela associação entre a actividade física e a mortalidade por doenças cardiovasculares. O estudo da relação entre, exercício e actividade física e doenças do aparelho circulatório ganharam notoriedade depois da Segunda Guerra Mundial. Este tipo de estudos foi um dos que suportou a emergência da Segunda Revolução da Saúde e estes têm sido dos comportamentos mais associados à saúde. Desde o pós-guerra, outros estudos, realizados com grandes amostras, chegaram à mesma conclusão deste último: Cooper, Pollock, Martin, White, Linnerud e Jackson (1976); Ekelund, Haskell, Johnson, Whaley, Criqui e Sheps (1988); Gibbons, Blair, Cooper e Smith (1983); Kannel e Sortie (1979); Morris, Chave, Adam, Sirey, Epstein e Sheehan (1973); Morris e Crawford (1958); Morris, Heady, Raffle, Roberts e Parks (1953); Paffenbarger e Hale (1975); Paffenbarger, Hyde, Wing e Hsieh (1986); Paffenbarger, Hyde, Wing e Steinmetz (1984); Peters, Cady, Bischoff, Bernstein e Pike (1983); Powell, Thompson, Caspersen e Kendrick (1987). O passo seguinte do interesse pelo exercício e actividade física foi a generalização do estudo do seu impacto noutras doenças. Vários estudos analisaram o impacto do exercício e da actividade física, junto com outros componentes do estilo de vida, na mortalidade, não apenas nas doenças cardiovasculares, mas de todas as doenças. Blair, Kohl, Paffenbarger, Clark, Cooper e Gibbons (1989), numa investigação em que seguiram um grupo de 10224 homens e 3120 mulheres concluíram que altos níveis de capacidade física adiavam a mortalidade por todas as causas, mas principalmente, por baixar a frequência de mortes por doenças cardiovasculares e por cancro. McGinnis (1992) apresenta uma revisão de investigação que salienta à exaustão o grande impacto do exercício físico na saúde/doença, para defender a importância do exercício físico na saúde pública. Lamb, Brodie, Minten e Roberts (1991) constatam que 4441 indivíduos que praticavam desporto de modo sistemático tinham melhor saúde objectiva e melhor percepção de saúde do que a população que não praticava. 88 Plante e Rodin (1990) fizeram uma revisão da literatura desde 1981 sobre o exercício e a saúde psicológica, focando a exaltação da saúde psicológica e do bem-estar, em populações saudáveis. Constataram que o exercício físico melhorava o humor e o bem-estar, o auto-conceito e a auto-estima. Sugerem, ainda, que o exercício influencia o funcionamento cognitivo. Hayes e Ross (1986) numa investigação sobre 401 indivíduos, de ambos os sexos, com idades entre os 18 e os 83 anos, constataram que o exercício físico afectava o bem-estar. Para uma revisão da relação entre, exercício e actividade física e funcionamento psicológico (ver Ribeiro, 1988a). O exercício físico pode, igualmente, ser uma variável comportamental com efeito amortecedor no stress. Com efeito, Brown e Siegel (1988), numa investigação com 364 estudantes do sexo feminino, entre o sétimo e décimo segundo anos de escolaridade, concluíram que o impacto negativo das situações geradoras de stress sobre a saúde diminuía quando o exercício físico aumentava. À mesma conclusão chegaram Brown e Lawton (1986) e Roth e Holmes (1985). Crews e Landers (1987) numa meta-análise realizada sobre 34 investigações que analisavam se a capacidade aeróbio aumentava a resistência aos agentes psicossociais geradores de stress, concluíram que, os sujeitos com maior capacidade aeróbio tinham respostas de stress aos agentes mais reduzida. Com base nestasevidências, Harris, Caspersen, DeFriese e Estes (1989) recomendam que, em meio clínico de forma rotineira, se deve aconselhar a prática de actividade física a adultos saudáveis. King, Blair, Bild, Dishman, Dubbert, Marcus, Oldridge, Paffenbarger, Powell e Yeager (1992), numa revisão crítica sobre os determinantes do exercício físico, concluem que há relação entre a má percepção de saúde e a redução da participação em programas de exercício físico. Reconhecem que a actividade física tende a estar associada a outros comportamentos de saúde tais como não fumar, alimentação saudável, perda de peso, entre outros. McAuley (1992) avaliou os factores que contribuíam para a aderência a programas de exercício físico em 65 adultos sedentários de quatro grupos etários: 45-49, 50-54, 55-59 e 60-64 anos, seguindo-os durante cinco meses. Constatou que o comportamento anterior de prática de exercício físico, era o melhor preditor da adesão. O exercício físico tem, ainda, impacto positivo sobre variáveis que estão associadas à saúde, actuando na saúde por via dessas variáveis. Perri e Templer (1985) num estudo em que investigava o impacto de um programa de exercício físico sobre variáveis psicológicas, realizado em regime de trabalho aeróbio, com a duração de 14 semanas, numa amostra de 23 indivíduos entre os 60 e os 79 anos, verificou que se manifestaram aumentos significativos no auto-conceito e no locus de controlo interno. 89 Alimentação O comportamento alimentar e a nutrição são o terceiro tipo de comportamentos que são referenciados especificamente, tanto como factores de risco para inúmeras doenças, como na área da promoção da saúde e é um dos comportamentos que fazem parte da vida do dia-a-dia das pessoas. Durante a maior parte da existência da humanidade, a alimentação tem sido um comportamento mais ou menos rotineiro destinado a satisfazer as necessidades diárias, que seguia os ritmos da natureza: na região mediterrânica, no Verão comiam-se mais verduras e frutos que era o que a natureza fornecia, no Inverno comiam-se frutos secos e alimentos conservados segundo as diversas técnicas que cada povo desenvolvia, das compotas às frutas secas, dos enchidos a outros alimentos conservados por secagem. Nos países desenvolvidos a alimentação deixou de ser, para a maior parte das pessoas, uma actividade de rotina, para se tornar num comportamento de escolha em que a publicidade e as modas ditam influências. As modas, tanto determinam que as mulheres sejam excessivamente magras, de que foi exemplo exagerado o modelo Twigy na década de 60, como determinam que as pessoas comam ligth ou colesterol free, influenciando o cidadão, nomeadamente os mais jovens, a realizar comportamentos frequentemente pouco razoáveis: nos países desenvolvidos a frequência de obesidade aumentou enormemente, estimando-se que 30% dos adultos dos Estados Unidos sejam obesos (Reed & Lang, 1987). Num estudo longitudinal realizado por Hueneman, Shapiro, Hampton e Mitchell (1966), com 900 adolescentes, verificaram que, no nono ano de escolaridade, cerca de 50% dos rapazes e 66% das raparigas já tinham realizado dieta. Mallick, Whipple e Huerta (1987) encontram valores semelhantes. Thornton e DeBlassie (1989) referem que a investigação aponta para que cerca de 18% das raparigas estudantes tenham comportamentos bulímicos. O’Sullivan (1982) seguiu um grupo de 615 pessoas de alto risco para a diabetes e um grupo de controlo, durante 16 anos. Verificou que, para o grupo de risco, a incidência de diabetes era bastante maior para os obesos do que para os de peso normal e que o excesso de peso predizia, também, a gravidade da diabetes. Simopoulos (1986) ao fazer o ponto da situação da relação entre obesidade e doenças, refere três estudos realizados nos Estados Unidos entre 1960 e 1980, com grandes amostras, em que se constata que a obesidade está associada às doenças cardiovasculares, à 90 hipertensão, à diabetes e a algumas formas de cancro. Refere ainda que, com base nos estudos longitudinais, se pode concluir que os indivíduos que têm peso inferior à média que não seja causado por doenças, têm maior longevidade. Programas de modificação do comportamento A divulgação da noção de estilo de vida tem tido como consequência o aparecimento de programas de modificação do estilo de vida, quer aplicados, em grupo, na comunidade ou nas empresas, a indivíduos isolados, ou sobre outras formas. A investigação, em geral, considera vantajosa a participação nesse tipo de programas. Na descrição dos resultados da implementação de um programa de intervenção comunitária que visava modificar o estilo de vida de 115 indivíduos, Abbott e Raeburn (1989) constataram que essa modificação teve um impacto real no estado de saúde. Num programa que visava modificar o estilo de vida de indivíduos obesos, com a duração de 12 semanas, Pleas (1988), confirmou que a modificação do estilo de vida, não só era possível, como era mais eficaz no tratamento da obesidade do que as abordagens tradicionais de restrição alimentar. Pender, Walker, Sechrist e Frank-Stromborg (1990), avaliaram o estilo de vida de 589 trabalhadores de uma empresa com idades entre os 20 e 65 anos envolvidos num de seis programas de promoção da saúde subsidiados pela empresa. Verificaram que a percepção de competência pessoal, a concepção de saúde, a percepção do estado de saúde e a percepção de controlo sobre a saúde explicavam 31% da variância dos padrões de estilo de vida, correspondendo melhores valores de saúde a melhores valores das outras variáveis. Os que achavam que a saúde estava dependente da sua acção tinham tendência para manter o estilo de vida saudável ao longo do tempo. Wood, Olmstead e Craig (1989), compararam factores de risco para a saúde com índices de absentismo de 1200 trabalhadores, após participarem, durante dois anos, voluntariamente, num programa que visava a melhoria do bem-estar, físico, mental e social. A adopção de um estilo de vida saudável, permitiu diminuir em cinco por cento o número de fumadores, aumentar em 37% o número de indivíduos que usava cinto de segurança e aumentou 23% na percentagem de indivíduos que praticavam exercício físico pelo menos três vezes por semana. O absentismo decresceu significativamente após o início do programa. Maibach, Flora e Nass (1991), avaliaram o impacto de um programa comunitário que visava, 91 simultaneamente, a auto-eficácia e a adopção de comportamentos de saúde, durante um ano, em 500 membros da comunidade escolhidos aleatoriamente. Os resultados mostraram que a campanha melhorou a auto-eficácia, que esta melhoria contribuiu para a adopção de comportamentos de saúde e que, por sua vez, as mudanças nos comportamentos de saúde contribuíam para melhorar a auto-eficácia. Encontrou-se uma elevada correlação negativa entre a auto-eficácia original e a mudança que se verificou na auto-eficácia. King, Blair, Bild, Dishman, Dubbert, Marcus, Oldridge, Paffenbarger, Powell e Yeager (1992), numa revisão crítica sobre os determinantes do exercício físico, confirmam a relação entre a má percepção de saúde e a redução da participação em programas de exercício físico. Waller, Crow, Sands e Becker (1988) passaram uma escala de avaliação de variáveis psicológicas a 155 adultos envolvidos em programas, visando melhorar o estilo de vida e a 71 adultos, saudáveis, que não participavam em nenhum programa e que funcionava como grupo de controlo. A percepção de eficácia pessoal e de bom estado de saúde eram os melhores preditores de participação no programa. Os participantes achavam que tinham melhor saúde, que tinham mais controlo sobre a sua saúde e eram mais responsáveis por ela, do que os não participantes. Wagner, Grothaus, Hecht e LaCroix (1991), compararam o estadode saúde e o estilo de vida de 2289 participantes (com 65 e mais anos) que frequentavam um programa de alteração do estilo de vida visando melhorar a saúde, com um grupo de 2625 não participantes com características idênticas. A não participação estava associada com estatuto económico mais baixo, com menos instrução e com menor participação nas actividades da comunidade. Os não participantes fumavam mais e avaliavam a sua saúde de maneira menos favorável. Concluindo, parece possível implementar programas de modificação do estilo de vida, em todos os grupos etários, com relativo sucesso e esperar repercussões positivas quer no funcionamento dos indivíduos quer no das instituições. Comportamento e necessidades de saúde dos jovens Pinch, Heck e Vinal (1986), questionaram as necessidades de saúde e dos serviços utilizados por 159 estudantes universitários. Identificaram como principais preocupações relacionadas com a saúde, o uso de bebidas alcoólicas, segurança rodoviária, excesso de peso, stress e sexualidade. Os factores do estilo de vida que consideravam importantes eram a prática regular de exercício físico, não fumar, inspecções periódicas de saúde geral 92 e de saúde oral e desenvolvimento de sistemas que os ajudassem a lidar com stress. Rimpela, Rimpela, Rahkonen e Teperi (1988) confirmam este padrão. A Organização Mundial de Saúde, num relatório sobre a saúde dos jovens em que revê um conjunto de estudos sobre os problemas de saúde deste grupo etário, confirma, igualmente, o padrão referido (WHO, 1986). Relações entre comportamentos de saúde Os resultados acerca da relação entre comportamentos de saúde tendem a ser controversos. Num estudo longitudinal sobre comportamentos de saúde, Mechanic (1979), Mechanic e Cleary (1980), das 28 intercorrelações entre comportamentos, 13 eram estatisticamente significativas, embora modestas. Norman (1985), numa investigação em que se propõe estudar a relação entre comportamentos de saúde, encontra, igualmente, correlações modestas entre eles. Matarazzo (1984), numa discussão sobre os dados apresentados por Mechanic, afirma concordar que as correlações entre os comportamentos são modestas, mas que considera impressionante o número de correlações positivas e a fidelidade com que estas correlações vão na direcção esperada, dada a relativa ignorância que os investigadores ainda têm em relação aos comportamentos que compõem o estilo de vida. Considera que dados deste tipo contribuem para aumentar o conhecimento dos factores associados a uma boa saúde (ou à falta dela), principalmente quando em conjunto com os resultados de estudos como o de Alameda. Por outro lado, outros estudos tendem a encontrar constelações de comportamentos associados. Jessor, Chase e Donovan (1980), Jessor (1984), após estudarem a relação entre comportamentos desviantes em 13122 estudantes entre os sétimo e décimo segundos anos de escolaridade, afirmam que os comportamentos tendem a aglomerar-se e que os que consomem droga tendem a consumir mais álcool, a fumar mais e a ter outros comportamentos de prejuízo de saúde. Newcomb e Bentler (1988) recolheram dados de 654 adolescentes no início e no final da adolescência e na idade adulta: estudaram o impacto de comportamentos de prejuízo de saúde tais como consumo de droga, tabaco e álcool, confirmando a associação entre esses comportamentos e entre eles e, problemas familiares, saúde, sintomas psicossomáticos, stress emocional e relações interpessoais. King, Blair, Bild, Dishman, Dubbert, Marcus, Oldridge, Paffenbarger, Powell e Yeager (1992), numa revisão crítica sobre os determinantes do 93 exercício físico, concluem que a actividade física tende a estar associada a outros comportamentos de saúde tais como, não fumar, alimentação saudável, perda de peso, entre outros. Miller, Golaszewski, Pfeiffer e Edington (1990) analisaram os dados provenientes de 21325 membros de uma grande empresa, visando detectar os factores de risco provenientes do estilo de vida, verificando que havia interdependência entre os comportamentos de saúde. Budd, Eiser, Morgan e Gammage (1985), numa investigação com 10579 adolescentes ingleses (11-19 anos) verificaram que os que consumiam mais bebidas alcoólicas tinham mais stress, tinham menos preocupações com a saúde, avaliavam-se pior na escola, bebiam mais com os pais, referiam mais conflitos com os pais, do que os que bebiam moderadamente ou que não bebiam. Bradstock, Forman, Binkin e Gentry (1988) estudaram a relação entre bebedoras crónicas que alternavam períodos em que bebiam muito com outros que bebiam pouco e outros comportamentos de saúde, em 12467 mulheres adultas. Verificaram que outros comportamentos de risco tais como fumar, guiar com excesso de álcool e não usar cinto de segurança tendiam a associar-se sinergeticamente com o abuso de álcool, enquanto comportamentos de saúde tais como cuidar da alimentação e exercício se associavam negativamente com o abuso de bebidas alcoólicas. Efeitos perversos do aumento da responsabilidade pessoal A ligação entre o comportamento individual e o estado de saúde, não sendo uma descoberta nova, tornou-se elemento central para o Sistema de Saúde no final do século XX. Na antiguidade grega defendia-se que os indivíduos deviam ser responsabilizados pelas doenças que tinham que fossem consequência da sua falta de cuidado. Mais tarde o médico Romano Galeno defendia que as pessoas eram culpadas pelos danos que sofriam quando tinham conhecimentos que os podiam impedir de sofrer. Na Europa medieval também se reconhecia que os excessos causavam doenças. No entanto, os antigos também reconheciam a importância do hereditário e da posição social no estado de saúde e, finalmente, na época medieval acabou por ser dominante a crença de que a doença e a morte exprimiam a vontade de Deus (Dougherty, 1993). 94 Actualmente, há grande tensão entre dois modos de conceber a responsa- bilidade pelas doenças – a responsabilidade é do próprio versus a responsa- bilidade é da sociedade. Dado que a relação causal entre o comportamento individual e as doenças é clara, as estratégias de Promoção da Saúde que visem educar e motivar as pessoas a mudar o seu comportamento parecem as mais adequadas. Por outro lado, a influência dos factores hereditários, do estatuto socio-económico e de outros factores que as pessoas não controlam, têm crescido de tal modo que é impossível negar o seu impacto. Assim, a questão fundamental mantém-se: deverá o indivíduo ser responsabilizado, totalmente ou em parte, pela sua saúde? Ou deverá a saúde individual ser vista como sendo determinada em grande parte, ou na totalidade, por factores que o indivíduo não controla e, assim sendo, os indivíduos não são responsáveis por ela? A resposta a estas duas questões tem notórias implicações políticas. Vários modelos têm sido propostos para responder a esta questão. Por exemplo, segundo Dougherty (1993) estes modos e pensar antagónicos podem ser agrupados em dois modelos. O primeiro será o Modelo de Liberdade (Freedom Model) e o último o Modelo de Destino (Facticity Model). Modelo de Liberdade defende que um adulto normal é capaz de fazer uma vasta gama de escolhas que o ajudem a moldar a sua vida. Embora se reconheça que há aspectos fora do controlo do indivíduo que são fundamentais para a vida – hereditariedade, circunstâncias socio-económicas, educação inicial – a principal característica deste modelo é a crença de que os seres humanos são capazes de reflectir de modo a escolherem as alternativas mais adequadas, com base nas quais tomam decisões sobre a sua vida. O efeito cumulativo destas escolhas, juntamente com os acontecimentos que vão ocorrendo, criam a vida da pessoa. Neste modelo, a responsabilidade individualabrange, não apenas as escolhas que faz mas também as que não faz e assim, todos os acontecimentos de vida. A dignidade humana constitui o aspecto central deste modelo. A dignidade deriva, em parte, de fazer escolhas livres e de ser responsável por elas e, o respeito do mérito das pessoas deriva, também deste potencial criativo. As pessoas que têm doenças que são produto das suas decisões estão eivadas de Má-Fé. No Modelo de Destino o comportamento humano emerge de um conjunto de factos que o indivíduo não controla. O comportamento é causado, não é escolhido, tal como o são as doenças e a Saúde. Como tal, a atribuição de responsabilidade aos indivíduos que têm a saúde deteriorada e que morrem de morte prematura é uma forma de Culpar a Vítima, ou seja, é uma segunda punição com desaprovação social para pessoas que já foram punidos pelas circunstâncias. O aspecto central deste modelo é a genética. Neste modelo as 95 pessoas não são livres para escolherem outra coisa para além daquilo que elas são: as pessoas não são responsáveis pela sua vida. Eles são os seus papéis, os seus hábitos, a sua herança. Reflectem a sua genética e o ambiente económico e social onde vivem. A responsabilidade não pode ser posta no indivíduo mas sim no sistema cultural, económico e político que determinam o sistema social em que as pessoas vivem. A dignidade humana, neste modelo é a simpatia activa para com o sofrimento dos outros. Rosenstock (1987) apresenta quatro modelos que resultam do cruzamento de dois eixos, cada um deles representando uma questão fundamental, que facilitam a resposta cerca da responsabilidade pelo problema. O primeiro eixo, ou a primeira questão é “quem deve ser acusado ou causar o problema?” e a segunda é “quem é responsável por solucionar o problema?”. Do cruzamento dos dois eixos resultam quatro quadrantes, cada um deles representando um modelo, do modo como é feito na figura seguinte: Quatro modelos Responsabilidade pelo problema (a quem culpar) O próprio Os outros Responsabilidade pela solução O próprio Modelo Moral o indivíduo sente-se preguiçoso; a pessoa precisa de motivação Modelo Compensatório o indivíduo sente-se irresponsável; a pessoa precisa de poder ou de capacidade (quem controlará o futuro?) Os outros Modelo de Iluminação o indivíduo sente-se culpado; a pessoa necessita disciplina Modelo Médico o indivíduo sente-se doente; a pessoa necessita tratamento No Modelo Moral as pessoas são consideradas responsáveis, simultanea- mente, pelo problema e pelas soluções. A frase que expressa este ponto de vista é “tu meteste-te nisto agora desenrasca-te”. O consumo de drogas, 96 tabagismo, excesso de peso são sinais de um carácter fraco e só a força de vontade, a motivação, poderão ajudar. Esta orientação frequentemente conduz a culpar a vítima; a forma mais radical desta perspectiva defenderia que as pessoas doentes escolheram ficar doentes, as vítimas de violação escolheram ser violadas. Quando as vítimas adoptam esta perspectiva sentem-se culpados e consideram-se pessoas a quem falta fibra morar. No Modelo de Iluminação o indivíduo sabe que é a causa do problema; embora se veja como causa, a melhoria só é possível se se submeter à disciplina de agentes autoritários competentes. Tal como no modelo anterior, estes indivíduos têm de aprender que os seus impulsos para beber, fumar, jogar, etc., estão fora do seu controlo; mas, ao contrário do Modelo Moral, crêem que só podem ser ajudados se se submeterem à disciplina de uma autoridade. O movimento dos alcoólicos anónimos ou dos narcóticos anónimos ilustra bem este modelo. No Modelo Médico as pessoas não são responsáveis nem pelo problema nem pela sua solução. Um exemplo deste modelo é ter um qualquer processo inflamatório. Sendo de origem bacteriana não se atribui a causa ao indivíduo e a solução passa por lhe receitar antibióticos. A pessoas não é culpada pelo acontecimento. A sua única responsabilidade é seguir as instruções de quem sabe. No Modelo Compensatório as pessoas não são responsabilizadas pelo seu problema mas devem actuar desenvolvendo competências necessárias para lidar com a sua incapacidade. Os indivíduos sofrem por uma falha da sociedade em fornecer recursos para eles resolverem os seus problemas. Os indivíduos que fumam, comem de mais ou tomam drogas não são considerados culpados pelo seu problema, nem a sua energia é virada para a procura das causas originais. No entanto é esperado que eles adquiram as competências necessárias para controlar o seu comportamento. Ilustrando poderia dizer-se a um indivíduo “tu não és responsável por teres caído mas és responsável por te levantares”. A diferença fundamental entre este modelo e o modelo médico poderia ser assim ilustrado. No modelo médico este diz “faça como eu digo”, enquanto no modelo compensatório o médico ou terapeuta pergunta “como posso ajudá-lo?” Os limites da medicina Nos últimos 30 anos houve uma expansão considerável dos custos de saúde. Tal teve origem e consequências nas expectativas do público acerca do papel da medicina. Com efeito, as pessoas entregavam a sua vida nas 97 mãos da medicina, exactamente num momento em que a medicina começou a ter menos capacidade de resolver os principais problemas de saúde. Se as tecnologias avançadas permitem fazer espectaculares transplantes de órgãos até há pouco considerados intocáveis, esses actos heróicos, embora com grande impacto mediático, têm pouca importância para os índices de mortalidade e morbilidade, para a qualidade de vida das pessoas, sendo o impacto maior nos custos do sistema. Dito de outra maneira, como explica Crawford (1977), a medicina deixou de ter a importância que lhe foi atribuída durante algumas décadas na resolução dos problemas de saúde, frustrando as expectativas das pessoas. A consequência principal destes acontecimentos foi o abaixamento das expectativas do público, as críticas à crescente medicação e medicalização da sociedade e a procura de novos modos de conceber o problema. Culpar a vítima A ideologia de culpar a vítima (victim blaming), como se lhe refere Crawford (1977), tal como se aplica à saúde, emerge, associada aos limites da medicina. Esta ideologia argumenta que, se as pessoas tomassem as precauções adequadas ou, por outras palavras, adoptassem os estilos de vida que evitassem comportamentos pouco saudáveis, poderiam prevenir a maior parte das doenças. Viver uma vida longa consistiria, então, um processo de “faça você mesmo”. A política deveria virar-se para estratégias de promoção da saúde que, basicamente, defende que os indivíduos são responsáveis pela sua saúde, ao invés de se preocupar com o desenvolvimento de programas de programas sociais que se apoiam numa medicina claramente ineficaz. Questões políticas geradas pela mudança de conceber o Campo da Saúde Em 1977, quando o Relatório Richmond começou a ser escrito, é publicado nos Estados Unidos da América um livro intitulado Doing better and feeling worse: Health in the United States, da autoria de John Knowles e W. Norton, patrocinado pela Fundação Rockeffeler de que o primeiro autor era presidente, pela Fundação Robert Wood Johnson, Milbank, Fundação Russel Sage e pelo National Institute of Health. As ligações políticas e 98 económicas dos autores e a sua interpretação estimularam a discussão sobre os princípios inerentes à Segunda Revolução da Saúde nomeadamente, acerca do problema da responsabilidade individual na saúde. No seu livro os autores defendiam a responsabilização individual pela saúde de modo aparentemente semelhante e com argumentos idênticos aos utilizados por Lalonde. O livro de Knowles e Norton suscitou enorme discussão (Miller,1978) na medida em que salientava as vantagens da nova perspectiva de devolução da responsabilidade pela saúde às pessoas. A política e ideologia defendidas por estes autores ficou conhecida por victim blaming (Crawford, 1977). Ela parecia centrada na necessidade de poupança e, a ser aceite institucionalmente poderia significar, por exemplo, que as companhias de seguros tinham legitimidade em recusar o pagamento dos tratamentos de doenças presumivelmente causadas pelo comportamento individual. A discussão foi muito forte, também, porque os autores e as instituições que os suportavam terem, tradicionalmente, uma conotação política conservadora. A discussão acerca da responsabilidade individual na saúde tinha entre os seus defensores, actores com perspectivas antagónicas: por um lado tinha os que acreditavam, firmemente, que a devolução da responsabilidade pela saúde aos indivíduos constituía um aprofundamento dos direitos democráticos (Kass, 1975) e por outro os que, numa perspectiva economicista achavam que a devolução da responsabilidade era a melhor maneira de poupar dinheiro (Knowles & Norton, 1977). De entre os que acreditavam que as pessoas tinham o direito a decidir sobre a sua saúde ainda se podiam encontrar dois grupos: os que, numa perspectiva mais próxima das concepções europeias, defendiam a importância da intervenção comunitária versus, os que defendiam uma concepção individualista, próxima do espírito típico da dos Estados Unidos. Finalmente havia os que acreditavam, fielmente, nos princípios da primeira revolução da saúde e achavam os princípios da segunda revolução da saúde absurdos. As discussões que ocorreram nos Estados Unidos, acerca da responsabilidade individual pela saúde marcaram a emergência da Segunda Revolução da Saúde. O governo americano seguinte (sob a presidência de Ronald Reagan) adoptou os aspectos mais negativos da perspectiva de responsabilização individual pela saúde (victim blaming), com consequências desastrosas na década de 80. O mesmo sucedeu em Inglaterra com o governo da senhora Tatcher, fortemente criticado aliás, por um relatório governamental da autoria de Black e que, por isso ficou conhecido por Relatório Black (1980). Esta política de saúde contribuiu, 99 provavelmente, para a queda do governo republicano nas eleições de 1992. Consciente do descontentamento provocado pela política anterior, Bill Clinton, na sua campanha eleitoral, prometeu reestruturar os serviços de saúde para uma perspectiva menos individualista. Limites da responsabilidade individual A responsabilidade individual é uma noção essencial e controversa da Segunda Revolução da Saúde. Torna-se, portanto, importante discutir até que ponto as acções individuais são da responsabilidade exclusiva do indivíduo ou estão dependentes de influências externas. Mechanic (1979), num estudo que se prolongou por 16 anos, em que se propunha avaliar as mudanças do comportamento de saúde de 350 crianças ao longo desse período de tempo, verificou que “muitos dos comportamentos que estão correlacionados com prejuízo da saúde estão, frequentemente, fora do controlo individual, quer devido a influências biológicas quer a influências que ocorrem durante o desenvolvimento, ou, ainda, porque esses comportamentos servem outras necessidades importantes” (p. 1144). Haggerty (1977) referindo-se à dificuldade de mudar os hábitos de saúde, explicava: “o problema é que os hábitos de saúde dizem respeito à totalidade da vida. Mudar a totalidade da vida é difícil, especialmente quando há pressões sociais enormes que estimulam e reforçam hábitos maus para a saúde” (p. 276). Frequentemente, outras necessidades importantes tais como, exibição de sucesso, poder, amor, prestígio, beleza, conhecimento, etc. estão em conflito com os comportamentos promotores de saúde. Mechanic (1979) conclui que aqueles que acreditam na solução de convencer os indivíduos da sua responsabilidade pela saúde como solução decisiva para os principais problemas de doença, são “naifs” e estão imbuídos de um pensamento mágico sem fundamento científico. Um conjunto de estudos publicados recentemente são paradigmáticos relativamente à responsabilidade individual versus social pela saúde e à influência de agentes externos. Numa série de investigações sobre os anúncios de tabaco DiFranza et al. (1991), Fisher et al. (1991), Pierce et al. (1991), concluem que as empresas que vendem tabaco têm perseguido, com sucesso, alvos exclusivos de publicidade com idades entre os três e os seis anos de idade. Demonstram que esta publicidade é intencional e que se reflecte no comportamento dos indivíduos jovens que começam a fumar. 100 Estudos semelhantes já tinham sido realizados anteriormente (Chapman & Fitzgerald, 1982; Goldstein et al., 1987), embora com menos impacto na opinião pública. Apesar de, na maior parte dos países europeus, a publicidade ao tabaco nos media estar proibida, ao ligar a televisão nos domingos à tarde, em programas de grande impacto na juventude como, por exemplo, as corridas de automóveis, podem-se observar as marcas que são referidas nas investigações citadas no parágrafo anterior, sendo publicitadas de forma pouco mascarada. As corridas de Fórmula 1 que são transmitidas pela televisão fazem publicidade intensa ao tabaco, quer nos carros, quer em anúncios fixos: a cena repete-se na Fórmula Indy em que um dos carros que disputa os lugares da frente e que, por isso, passa mais tempo no ecrã, publicita, as mesmas marcas de tabaco. Parece, portanto, que as pessoas podem ser influenciadas, entre outros aspectos, pela publicidade. Não fora essa possibilidade e a publicidade não teria sentido. Deste modo a responsabilidade individual tem limites que devem ser considerados em termos políticos, não só para impor limitações a esse tipo de publicidade como para tomar decisões sobre a saúde e as doenças. Outra dimensão que evidencia que os comportamentos humanos estão fora do controlo individual verifica-se quando as substâncias de consumo são manipuladas para tornarem as pessoas dependentes. O caso do tabaco é o mais conhecido. Num conjunto de estudos recentes publicados no The Journal of the American Medical Association sobre os The Brown and Williamson Documents. Barnes et al. (1995), Bero et al. (1995), Glantz et al. (1995) e Slade et al. (1995) mostraram, entre outras coisas, como a indústria do tabaco, manipulou a quantidade de nicotina adicionada nos cigarros de modo a ter um efeito aditivo sobre as pessoas e, assim, a mantê- las como consumidores fiéis. Modelos e teorias Baltes, Reese e Nesselroade (1977), explicam que “em ciência, uma teoria é um conjunto de afirmações incluindo (1) leis e (2) definições de termos” (p. 16). A função das teorias científicas, continuam estes autores, são: organizar ou integrar o conhecimento e guiar a investigação que visa aumentar o conhecimento. As teorias prosseguem a função organizadora na medida em que demonstram que alguns factos ou leis (teoremas) são 101 dedutíveis de outras, leis mais gerais (axiomas), ou mostrando que todos os factos e leis conhecidos estão interrelacionados em forma de padrões coerentes. As teorias contribuem para a investigação na medida em que sugerem perspectivas para mais experimentação. Segundo Reese e Overton (1970) as teorias podem ser classificadas em famílias. Uma família é um conjunto de teorias que se baseiam no mesmo modelo embora não necessariamente da mesma área de conteúdo. Baltes, Reese e Nesselroade (1977) explicam que é importante não confundir teorias com modelos e compreender a sua relação. Por exemplo, qualquer teoria pressupõe um modelo mais geral de acordo com o qual os seus conceitos teóricos são formulados. Um modelo é qualquer meio utilizado para representaralgo que não ele próprio. Não pretende ser uma descrição da realidade mas somente uma representação das características da realidade que são essenciais para compreender um problema particular. Os modelos podem ser apresentados em vários níveis do mais específico ao mais genérico. Os diferentes níveis dos modelos caracterizam-se por diferentes graus de generalização, de abertura e são vagos (Reese & Overton, 1970) e variam nos tipos de problemas que representam. Modelos na saúde e doenças A compreensão da relação entre comportamento, saúde e doenças é uma dimensão fundamental para a Psicologia em geral e para a Psicologia da Saúde em particular. A prevenção das doenças, a promoção e a protecção da saúde, a promoção da qualidade de vida de pessoas com doenças crónicas pressupõe, a mudança do comportamento do indivíduo. Como Mattarazzo (1987) explica que, embora se utilizem expressões como Psicologia Educacional, Psicologia do Desporto, Psicologia Legal, Psicologia Desportiva e muitas outras, não se tratam realmente de diferentes psicologias. Psicologia há só uma com os seus modelos e leis. O que varia são os contextos, objectivos, processos de aplicação. Assim, o termo Psicologia refere-se, sempre, ao mesmo corpo de conhecimentos de leis e de modelos, enquanto o segundo caracteriza o contexto, a população, os objectivos em que essas leis se aplicam. De qualquer modo os contextos e objectivos próprios deste domínio de aplicação pressupõe relações entre variáveis psicológicas que lhe são próprias constituindo, então, modelos específicos, portanto de nível mais baixo, para guiar a intervenção nesta área. 102 Esta parte propõe-se apresentar o modo como as variáveis psicológicas identificadas como importantes para explicar o comportamento humano relativamente a aspectos relacionados com a saúde e das doenças, têm sido organizadas para a intervenção nesta área específica. A organização destas variáveis visam a compreensão, a modificação e o controlo dos comportamentos, crenças, atitudes, valores, relacionados com a saúde e as doenças. Apresentar-se-ão vários modelos que se propõem explicar as relações entre o pensamento e comportamento individuais e a saúde e doença: – modelo de crenças de saúde; – teoria da motivação protectora; – teoria da Aprendizagem Social; – teoria da acção racional de Fishbein’s; – teoria do comportamento social de Triandis’; – modelo da utilidade de multiatributos; – teoria da Acção Planeada; – difusão da inovação; – modelo transteórico de mudança do comportamento; – modelo transteórico; – abordagem do processo de acção para a saúde. Modelo de crenças de saúde Modelo de Crenças de Saúde (MCS) é o mais antigo de todos. Foi desenvolvido por um grupo de psicólogos sociais ligados à saúde pública, na tentativa de explicar a incapacidade das pessoas para participarem em programas que visavam prevenir ou evitar as doenças. Foi a primeira teoria desenvolvida com o objectivo de explicar o comportamento de saúde e doença e nos últimos 35 anos tem sido a mais utilizada na preparação de programas nesta área. Nasce da confluência das teorias comportamentais e cognitivas. Enquanto processo cognitivo salienta-se que o comportamento é função do valor subjectivo de um resultado e da probabilidade ou expectativa (expectation) que uma acção particular conduzirá a esse resultado. Tal formulação é englobada nas teorias expectativa-valor e abrange componentes como 103 pensamento, raciocínio, hipótese, expectativa. Nesta perspectiva, as teorias cognitivas defendem que os reforços actuam influenciando as expectativas (ou hipóteses) perante a situação em vez de influenciar directamente o comportamento. O termo “Crença” (belief) é intrínseco à teoria subjacente ao MCS e constitui uma expressão com um sentido preciso que vale a pena explicar e que difere do significado que lhe é dado no senso comum. O termo “crença” (créance) não consta dos dicionários de psicologia de Mucchielli e Mucchielli (1969), Piéron (1968). Segundo Kirscht (1974), Crença “abrange qualquer proposição ou hipótese sustentada por uma pessoa, que relacione dois ou mais objectos ou elementos psicológicos” (p. 129); Atitude para qualquer objecto psicológico representa colecções de crenças em que existe uma componente avaliativa (i.e., uma dimensão bom-mau); Valores como sentimentos morais são vistos como atitudes gerais. O valor de um objecto, condição, ou acção descreve um tipo de crença acerca da recompensa ou punição associada com o elemento. O MCS afirma que a disposição para implementar comportamentos de saúde é determinada pela percepção que o indivíduo tem da probabilidade de ter uma doença particular e pela percepção da gravidade das consequências de adoecer. Perante determinada ameaça o indivíduo avalia a sua acção em termos dos benefícios potenciais que ela pode trazer na redução da ameaça, pesando as barreiras existentes à aplicação dos comportamentos e seus custos. É necessário existir um sinal, um estímulo desencadeador, que leve o indivíduo a actuar, que elicite o comportamento apropriado. O sinal pode ser interno, tal como um sintoma, ou externo tal como uma campanha nos media. Inúmeras outras variáveis, demográficas, sociais, psicológicas, são susceptíveis de influenciar a acção individual, embora não façam parte, formalmente, do modelo. Ao longo dos anos o modelo foi sendo aperfeiçoado de modo a considerar cada vez mais componentes. Uma variável psicológica teve, no entanto particular importância de modo que justificasse a sua inclusão no modelo. Rosenstock (1990) explica que “em 1977 Bandura introduziu o conceito de auto-eficácia, ou expectativa de eficácia, distinta de uma expectativa de resultado, a qual nós agora acreditamos deverá ser acrescentada ao Modelo de Crenças da Saúde de modo a aumentar o seu poder explicativo” (p. 44). Becker e Rosenstock (1987) explicam que o modelo renovado considera os seguintes factores: 104 1) existência de motivação suficiente de modo a que os assuntos relacionados com a saúde e doenças sejam importantes; 2) a crença de que cada um é susceptível ou vulnerável a uma doença grave; 3) a crença que as alterações do estilo de vida a implementar com base nas recomendações para a saúde serão benéficos para o próprio num nível que não seja muito dispendioso. Já com a auto eficácia incluída as variáveis chave que compunham o MCS passam a ser segundo Rosenstock (1990) as seguintes, agrupadas em três categorias: I. Ameaça A) percepção de susceptibilidade à condição de doente (ou aceitação de um diagnóstico) B) percepção da gravidade da condição II. Expectativa de resultado A) percepção dos benefícios de uma acção específica B) percepção das barreiras para iniciar essa acção III. Expectativa de eficácia A) convicção acerca da capacidade pessoal para realizar a acção recomendada. Rosenstock (1990) recomenda que, na planificação de programas que visem influenciar o comportamento de grandes grupos populacionais a longo prazo, se use este modelo. Inúmeros estudos tem demonstrado a importância do MCS ao mesmo tempo que têm sido encontrados elementos conflituais. Por exemplo, Abraham, Sheeran e Spears (1996) num estudo longitudinal com o intervalo de um ano sobre um programa de educação destinado a adolescentes que visava o uso de preservativo na prática sexual como meio de protecção de doenças sexualmente transmissíveis, baseado no MCS, os autores concluíram que as mudanças nas crenças não se reflectem no comportamento dos adolescentes ou seja, as crenças não predizem o comportamento dos indivíduos. O domínio das doenças sexualmente transmissíveis, principalmente da SIDA aumenta a complexidade do problema por um lado por ser uma 105doença de transmissão sexual entre outras vias e por ser uma doença de mau prognóstico. No entanto as críticas ao MCS mantêm-se. Ogden (1996) apresenta as seguintes críticas: – o seu foco no processamento de informação racional (será o lavar os dentes determinado pelo peso dos prós e contras?); – a sua ênfase no individual (qual é o papel do meio social e económico?); – a relação entre as diferentes crenças (como podem ser medidos e como se relacionam umas com as outras? O modelo é linear ou multifactorial?); – a ausência de um papel para os factores emocionais tal como o medo e a negação; – o MCS é uma abordagem estática e as crenças são descritas como ocorrendo simultaneamente sem lugar para mudança; – os comportamentos relacionados com a saúde são devidos à percepção de sintomas e não a factores individuais tal como sugere o MCS. Teoria da motivação protectora A Teoria da Motivação Protectora (TMP) (Rogers, 1983), consiste numa expansão do modelo anterior acrescentando outros factores. Originalmente defendia que os comportamentos relacionados com a saúde eram produto de quatro componentes: – auto-eficácia (p. ex., “eu tenho confiança na minha capacidade para alterar a minha dieta”); – eficiência das respostas (p. ex., “mudando a minha dieta melhorará a minha saúde”); – gravidade (p. ex., “cancro do estômago é uma doença grave”); – vulnerabilidade (p. ex., “as minhas probabilidades de ter cancro do estômago são elevadas”). Estes componentes predizem as intenções comportamentais (i.e., “eu tenho a intenção de modificar a minha dieta”) as quais estão relacionadas com o comportamento. Recentemente o autor deste modelo sugeriu a inclusão de um quinto elemento, o medo (i.e., uma resposta emocional) em resposta à informação. De acordo com a TMP há duas fontes de informação: ambientais como, por exemplo, persuasão verbal, observação, e, intrapessoal com, por exemplo, a 106 experiência anterior. Estas informações influenciam os componentes do TMP que, por sua vez elicitam uma de duas respostas uma adaptativa (i.e., intenções comportamentais) ou desadaptada (i.e., evitamento, negação). Teoria da aprendizagem social Este modelo considera, simultaneamente, a dinâmica psico-social subjacente aos comportamentos relacionados com a saúde e doença e os métodos para promover a mudança comportamental. Tem origem em teorias comportamentais e remonta ao princípio da década de 40 (Perry, Baranowski, & Parcel, 1990). Os constituintes desta teoria são: a) comportamento potencial (CP); b) expectativa (E); c) valor de reforço (VR); d) situação psicológica (S). A equação básica na teoria da aprendizagem social afirma que o potencial para a implementação de um comportamento específico (CP), numa determinada situação (S), é função da expectativa (E) que o comportamento, naquela situação, conduza a um determinado reforço e no valor que esse reforço tem para o indivíduo (VR). É uma teoria importante para a modificação do comportamento, que pode ser aplicada tanto na educação para a saúde como na promoção da saúde, em situações tão diversas como consulta individual, intervenções comunitárias, ou na difusão de programas. Teoria da acção racional de Fishbein’s Este modelo mais conhecido por Theory of Reasoned Action, foi o segundo modelo concebido especificamente para a área da prevenção das doenças (após o MCS). Ao contrário deste, foi concebido para prevenir a intenção do indivíduo implementar determinado comportamento e não o comportamento propriamente dito. Os componentes deste modelo são: a) comportamento (C); b) intenção de realizar determinado comportamento (IC); 107 c) atitude para com determinada acção (Aaç); d) crenças normativas (CN); e) motivação para actuar de acordo com as crenças (MC). A teoria afirma que o comportamento específico de um indivíduo (C) é função da sua intenção para realizar esse comportamento (IC). A intenção para realizar o comportamento, por sua vez, pode ser prevista por uma combinação linear da atitude para com essa acção (Aaç) mais as crenças normativas (CN) multiplicadas pela motivação para concordar com essas crenças (MC) (Page & Cole, 1985). Teoria da acção planeada Esta teoria (Ajzen, 1985) também se propõe aperfeiçoar a anterior. A teoria anterior salientava o papel central do conhecimento social na forma de normas subjectivas, enquanto este modelo salienta as intenções comportamentais como resultado da combinação de várias crenças. A teoria defende que as intenções são conceptualizadas como planos de acção visando objectivos comportamentais e resultam das seguintes crenças: 1) atitude para com os comportamentos, que tanto pode ser positiva como negativa; 2) normas subjectivas, que se compõem da percepção das normas sociais e das pressões para realizar tal comportamento e a avaliação se o indivíduo está preparado para enfrentar esta pressão; 3) percepção de controlo do comportamento, que se compõe da crença que o indivíduo pode implementar tal comportamento. Neste modelo estes factores predizem as intenções comportamentais que por sua vez antecedem os comportamentos. Teoria do comportamento social de Triandis’ Tal como o modelo anterior, considera a intenção o maior preditor do comportamento nos casos em que os comportamentos são novos, não se aplicando aos hábitos. Quando se trata de comportamentos habituais, no caso de sequências de comportamentos – situação em que se tornaram 108 automáticos, de tal modo que ocorrem sem auto-instrução –, o hábito (H) tem mais peso do que a intenção (I) na predição da probabilidade de actuar (Pa). Triandis introduz dois novos termos – a excitação fisiológica do indivíduo (EF) e as condições facilitativas (CF) – ambas potenciam o peso da soma dos hábitos e intenções. As condições facilitadoras (CF) são factores do meio, de tal modo objectivos, que vários juízes ou observadores poderiam estar de acordo que tornam uma acção mais fácil. As intenções comportamentais (I) são função de três construtos: factores sociais (S); afecto (A); e valor das consequências percebidas (C). Os factores sociais (S) incluem: a percepção de que, para um membro do seu grupo é apropriado realizar o comportamento, chamadas crenças normativas (CN); a percepção de que esse comportamento é apropriado para a pessoa que desempenha determinado papel, chamada crença no papel (CP); o grau em que a pessoa sente a obrigação moral de realizar o comportamento em questão, chamado crença pessoal normativa (CPN); o auto-conceito (AC), que é a extensão em que o indivíduo vê que a realização do comportamento é consistente com o seu eu (self); e concordância interpessoal com a acção (CIA). O afecto para com o comportamento (A) reflecte a resposta emocional directa ao pensamento acerca do comportamento – é agradável ou desagradável? O valor das consequências percebidas (C) refere-se à probabilidade de um comportamento conduzir a um resultado particular. Teoria da acção social A Teoria da Acção Social (TAS) parte do pressuposto que a intervenção visa ajudar os doentes a implementar hábitos que podem ser concebidos como um binário acção-resultado ligado por mecanismo de feedback. É um modelo baseado na auto-regulação visando resolver problemas de implementação da mudança pessoal enquanto estratégia de saúde pública. Ewart (1991) propõe um modelo conceptual com três dimensões que representam a auto-regulação como um estado de acção desejado, um conjunto de mecanismos de mudança interrelacionados e um sub- componente do sistema social alargado que contextualmente determina o modo como o mecanismo de mudança pessoal opera (Ewart, 1991). Os elementos básicos desta teoria são (Ewart & Fitzgerald, 1994): – Acção de protecção da saúde – organização– integração 109 – Resultados da acção – tipo – frequência – resultados imediatos Outra variável deve ser acrescentada: a interdependência social, significando que as mudanças comportamentais devem ser integradas nas rotinas que as pessoas com quem os doentes partilham as actividades da vida diária. Segundo estes autores, a tarefa principal do planeamento da intervenção é conceber maneiras de os comportamentos desejados poderem ter efeitos imediatos, desejados e que produzam efeitos frequentes, ao mesmo tempo que eliminam ou reduzem as consequências negativas que esses comportamentos possam suscitar. Estes comportamentos, por sua vez, não devem chocar com as rotinas do meio onde o indivíduo se insere. Inclui três modelos de intervenção: o modelo do estado das acções que visam o comportamento protector da saúde que inclui os elementos básicos da teoria referidos acima; o modelo da acção protectora da saúde defende que as mudanças de hábitos ocorrem apenas quando os processos motivacionais resultantes da avaliação da situação conduzem a uma resolução eficaz do problema. Estas – motivação e resolução de problemas – por sua vez, dependem da disponibilidade pessoal para desenvolver capacidades e de trocas sociais que apoiem as mudanças de comportamento; e, finalmente, o modelo contextual da acção de protecção de saúde específica que o ambiente social envolvente e o contexto biológico que facilitam ou inibem as mudanças pessoais tendem a encorajar ou desencorajar o desenvolvimento e a manutenção dos estados de acção protectores da saúde Modelo da utilidade de multiatributos Este modelo foi desenvolvido como um instrumento destinado a indivíduos que têm de tomar decisões. O pressuposto subjacente é que a decisão é função do racio entre as vantagens e as desvantagens percebidas para uma alternativa. Dividir os problemas em segmentos manejáveis que possam ser cuidadosamente avaliados e recombinados, facilita o processo de tomada de decisões (Salazar, 1991). 110 Difusão da inovação Nesta perspectiva (E. Rogers, 1983) são focados os líderes de opinião que são treinados para influenciar os outros com que se relacionam normalmente. Deste modo, muitas pessoas para além daqueles que são treinados são abrangidos podem ser atingidos de uma maneira menos dispendiosa. Este modelo pode ser utilizado a par com qualquer dos outros. Modelo transteórico de mudança do comportamento Originalmente desenvolvido por Prochaska e DiClement (1982) consiste numa síntese de 18 terapias que descrevem os processos envolvidos na implementação e manutenção da mudança. Este modelo baseia-se nos seguintes estádios: 1) precontemplação, que significa não ter intenção de implementar qualquer mudança; 2) contemplação, quando considera a mudança; 3) preparação, quando inicia pequenas mudanças; 4) acção, quando está activamente envolvido no novo comportamento, 5) manutenção, quando mantém as mudanças ao longo do tempo. Consistem num conjunto de estádios sucesivos que não têm de ocorrer de forma linear. Os indivíduos podem avançar e recuar de um modo dinâmico. O modelo, como grande parte dos outros, tomam em consideração a relação custos benefícios. Modelo transteórico Trata-se de um aperfeiçoamento do modelo anterior (Prochaska, Diclement, & Norcross, 1992) ao qual acrescenta uma variável “balanço decisional” em que a avaliação pelo indivíduo, do comportamento esperado se torna um elemento fundamental para a evolução nos estádios descritos. Acrescenta uma dimensão que é a necessidade de os programas terem de ser desenhados individualmente, à medida do sujeito. 111 Abordagem do processo de acção para a saúde Este modelo (Schwarzer, 1992) deriva da revisão dos modelos existentes que salienta a necessidade de incluir uma dimensão temporal na compreensão das crenças e comportamentos de saúde e ao qual acrescenta a auto-eficácia. Faz uma separação entre o estádio motivacional de tomada de decisão e o estádio de acção/manutenção. A dimensão temporal medeia entre o momento em que o indivíduo decide mudar o comportamento (estádio motivacional) e a implementação do comportamento. Na fase motivacional inclui: 1) auto-eficácia; 2) expectativas de resultados; 3) avaliação da ameaça. Na fase de acção considera: 1) cognições (vontade); 2) situação; 3) factores comportamentais. Cada um destes componentes subdivide-se ainda noutros. Todas estas teorias são compostas por múltiplos elementos, mas nenhuma foi concebida segundo uma perspectiva sistémica, ou visando ser utilizada segundo tal perspectiva. São modelos que, cada um por si, se propõe explicar a totalidade da intervenção. Uma perspectiva sistémica pode recorrer a um ou vários modelos sem comprometer a perspectiva. A perspectiva sistémica afinal, tal como é entendida nesta investigação, é um modelo conceptual que orienta a acção e a compreensão dos fenómenos que ocorrem. Em suma, os psicólogos que intervêm em contextos ou com objectivos de saúde têm organizado modelos que se propõem aumentar a eficácia das suas intervenções. Inúmeros modelos foram, então, desenvolvidos. A sua eficácia é variável consoante a área em que é aplicado, evidenciando a necessidade de continuar a aperfeiçoar ou a desenvolver modelos que satisfaçam as necessidades específicas de intervenção. Áreas de intervenção em Psicologia da Saúde A expressão “áreas de intervenção” refere-se a áreas que visam objectivos ou objectos de intervenção direccionados directa ou indirectamente para a 112 saúde, quer se realizem em contextos de saúde, de doença, educacionais ou outros. As áreas de intervenção e as tarefas inerentes à Psicologia da Saúde podem ser identificadas a partir de três fontes: a) definição de Psicologia da Saúde; b) divisão tradicional proveniente do modelo biomédico e que normalmente usada no sistema de saúde; c) funções do psicólogo clínico explícitas na Lei que define a prática profissional. Definição de Psicologia da Saúde Uma das definições mais utilizadas de Psicologia da Saúde afirma que este é o “domínio da psicologia que recorre aos conhecimentos provenientes das diversas áreas da psicologia, com vista à promoção e protecção da saúde, à prevenção e tratamento da doença, à identificação da etiologia e diagnóstico relacionados com a saúde, com a doença e com disfunções associadas, à análise e melhoria do sistema de cuidados de saúde e ao aperfeiçoamento da política de saúde” (Matarazzo, 1982, p. 4). A definição de Psicologia da Saúde identifica quatro grandes tipos de objectivos diferenciados – promoção, manutenção, prevenção e tratamento –, realizados em duas áreas distintas – saúde e doença. Aponta ainda para a importância da participação na investigação e da estimulação da participação pública na divulgação de dados epidemiológicos, de difusão de informação e de acção comunitária, sobre os aspectos que possam afectar a saúde das pessoas de modo a aperfeiçoar a política de saúde. As tarefas a realizar em cada um destes domínios é passível de definição política e poderá variar consoante o momento histórico, social ou outro. Por exemplo, o Departamento de Saúde dos Estados Unidos da América inclui as seguintes áreas alvo em cada um destes domínios (McGinnis, 1992): Promoção da saúde tabagismo e saúde; abuso de álcool e drogas; nutrição; exercício e condição física; 113 controlo do stress e do comportamento violento; planeamento familiar; saúde mental e deficiência mental; programas educacionais e de base comunitária. Serviços de protecção da saúde controlo de radiações e de agentes tóxicos; segurança e saúde no trabalho; controlo e prevenção de acidentes; saúde oral; saúde ambiental; higiene alimentar e medicamentos.Serviços de prevenção das doenças saúde infantil e gravidez; doenças do coração e cérebro vasculares; cancro; diabetes e outras doenças crónicas incapacitantes; SIDA; vacinação; doenças de transmissão sexual; serviços clínicos de prevenção; vigilância e bases de dados. Divisão tradicional do sistema de saúde Sendo a Psicologia da Saúde uma área recente na interface entre psicologia, saúde e doenças, importa abordar a relação entre este e as práticas tradicionais. Tradicionalmente o sistema de saúde define duas áreas dominantes de intervenção: saúde pública e medicina curativa. 114 Saúde Pública Como já foi referido na apresentação da perspectiva histórica sobre saúde e doenças, a saúde pública emergiu no século passado visando a necessidade de combater as grandes epidemias que se desenvolveram com a revolução industrial. Ficou conhecida como a “Primeira Revolução da Saúde”, devido ao impacto que teve na redução da mortalidade e morbilidade das principais epidemias. O racional que a orientaram de início era o do modelo biomédico – a teoria do germe – e os grandes sucessos desta revolução no combate às doenças infecciosas deram-lhe um estatuto inultrapassável. O grande sucesso na luta contra as doenças infecciosas foram devidas a medidas de saúde pública no movimento que ficou conhecido por Primeira Revolução da Saúde que, embora baseado no Modelo Biomédico, consistiu, essencialmente, em medidas de Higiene tais como construção de esgotos, canalização e tratamento das águas de consumo, etc. Por exemplo, se em 1900, faleciam 5800 pessoas por milhão devido a doenças como gripe, pneumonia, tuberculose, infecções gastrointestinais, difteria, no final da década de 70 esse racio era de 300 por milhão. Em Inglaterra e País de Gales, em 1838, a mortalidade devida a tuberculose era, cerca de 4000 por milhão passando 50 anos depois, antes do bacilo da tuberculose ter sido identificado, para cerca de metade. Na década de 40 antes de se começarem a utilizar eficazmente os antibióticos a relação era de 400 por milhão. Ou seja, entre o início do século XIX e meados do século XX as medidas de saúde pública conseguiram reduzir em cerca de 90% a mortalidade por tuberculose: esse declínio ocorreu antes do uso de antibióticos e da vacinação, que só surgiram em meados do século XX. (Berckman & Breslow, 1983; McKeown, 1972; Sobel, 1979). Berkman e Breslow (1983) explicam que, “embora a mortalidade devida a tuberculose tenha sido reduzida para cerca de metade durante o quarto de século em que se passou a ter à disposição a estreptomicina (1948-1971), para o período total desde que a mortalidade devida a tuberculose foi registada (de 1848 a 1971, em Inglaterra e País de Gales) essa redução representou apenas 3,2%” (p. 8). O êxito das medidas de saúde pública aplicaram-se à maior parte das doenças infecciosas. Por exemplo, Hemminki e Paakkulainen (1976), referem que, na Suécia, das 13 doenças infecciosas consideradas mais perigosas, apenas três tiveram um declínio significativo na mortalidade e morbilidade devido aos medicamentos. Mas se no início as preocupações da saúde pública se centravam no meio ambiente físico de onde eram originários os germes causadores de doenças, 115 progressivamente começaram a entender que, a interacção entre as pessoas, também transmitiam, directamente, esses germes. Já não se tratava então de um problema que as autoridades sanitárias tinham de resolver por si só. As pessoas enquanto hospedeiros reais ou potenciais tinham que adoptar medidas que, ou reduzissem as possibilidades de se tornarem hospedeiros, tendo cuidado com o contacto com o meio ambiente, quer como transmissores dos germes. Era necessário então tornar as pessoas mais activas quanto a medidas de higiene. Ao considerar as pessoas activas a Saúde Pública descolou da medicina que se praticava com indivíduos já doentes. A medicina tradicional envolvia a relação entre o médico e a doença. O doente, enquanto pessoa, existia apenas como o recipiente da doença, era um elemento passivo. A saúde pública começava a interessar-se pela acção das pessoas como elemento fundamental para o controlo das doenças e a melhoria da saúde. O objecto da nova higiene não era a doença, a lesão orgânica, mas sim a actividade do seu potencial hospedeiro (Armstong, 1988). Não é portanto de admirar que a definição de saúde pública no início do século incluísse já a expressão “Promoção da Saúde”. Em 1920 Winslow definia saúde pública como a ciência e a arte de prevenir as doenças, prolongar a vida e promover a saúde física e a eficiência através dos esforços comunitários organizados visando a sanidade do ambiente, o controlo das doenças transmissíveis, a educação das pessoas acerca de princípios de higiene pessoal, a organização dos serviços de saúde visando o diagnóstico precoce e o tratamento preventivo das doenças e o desenvolvimento de um funcionamento social que assegure a cada indivíduo um padrão de vida adequado à manutenção da saúde que garanta a cada cidadão a sua realização pessoal no direito à saúde e longevidade (citado por Schmidt, 1994). Lembra-se que os grandes sucessos no combate às epidemias do século XIX foram consequência das medidas de saúde pública implementadas a montante do sistema, ou seja, antes de as pessoas adoecerem, com a intervenção sobre as pessoas saudáveis e não sobre pessoas que estavam doentes. Segundo Kickbusch (1986), a própria saúde pública passou por várias fases antes de entrar na Segunda Revolução da Saúde. Uma fase “sanitária” baseada na melhoria do meio ambiente (tratamento das águas e consumo, cuidado com os esgotos) e outras formas de controlo social que impedissem os germes que intitulavam de “miasmas” de chegar ao portador. Numa segunda fase, no início do século, a saúde pública passou para uma medicina preventiva numa base mais individual, incluindo a imunização. 116 Esta fase evoluiu para processos mais complexos de rastreio (screening), tornando as actividades de saúde pública em diagnóstico ao invés de prevenção. Segundo a autora os dados da epidemiologia comportamental impuseram a Segunda Revolução da Saúde. Armstrong (1988) explica que durante o século XIX a saúde pública se preocupada com a interacção objectiva, física, entre o corpo humano e a natureza. Várias substâncias – água, ar, alimentos, dejectos – que passavam entre o corpo e o ambiente eram vistos como potencialmente perigosos e como “porcaria”, como elementos contaminados. Por esta razão as medidas sanitárias de higiene que se centravam no espaço entre corpo e meio foram eleitas de modo a que os elementos contaminados fossem controlados para não afectarem o corpo. No início do século XX a maior alteração ocorreu nas preocupações da saúde pública. Em vez de se controlar o espaço entre o corpo e o meio físico preocupou-se com o espaço físico que ligava os próprios corpos. Por exemplo a tuberculose, foi uma doença do meio físico, dos excrementos, pobreza e higiene; no início do século XX tornou-se uma doença do contacto social. Mas o espaço entre os corpos não tem somente características físicas, tem também características sociais. Foi um pequeno passo para que as preocupações da saúde pública se tornassem sociais e que a preocupação das medidas de saúde pública passasse do espaço físico para as pessoas e para a higiene pessoal. O Editorial do The Lancet de 8 de Junho de 1991 explicava que a velha saúde pública se preocupava principalmente com as consequências da emigração para as cidades e com a segurança dos alimentos, do ar e da água. Preocupava-se ainda, com as causas de morte traumáticas, infecciosas e tóxicas que predominavam entre os jovens e estavam associadas com a pobreza. A nova saúde pública continuava o editorial, emergiupara responder a problemas associados com a longevidade, sobrepopulação, industrialização e declínio da industrialização, desigualdades na saúde nas sociedades mais ricas, degradação do meio ambiente e desequilíbrio ecológico. Muitos destes factores podem ser prevenidos, através de mudanças sociais, ambientais e comportamentais. A evolução dos padrões de morbilidade e mortalidade, do diagnóstico, dos tratamentos, da sociedade em geral e das suas concepções sobre o sistema de saúde impuseram um novo rumo à saúde pública. Estas razões provocaram mudanças, não só na conceitualização da saúde pública como na da psicologia que se realizava no sistema de saúde até então. 117 Entrou-se assim na Segunda Revolução da Saúde e, nesta nova forma de encarar a saúde e as doenças, a psicologia passou, a par de muitos outros domínios, a ter um papel importante na saúde pública. A justificação para esta importância deve-se a que os principais problemas de saúde têm, mais do que outrora, a ver com o comportamento humano. Psicologia da Saúde e Saúde Pública De entre as coisas que mudaram entre a Primeira Revolução da Saúde e a Segunda Revolução da Saúde, uma refere-se à natureza dos agentes causadores das epidemias. Na Primeira Revolução da Saúde os agentes predominantes eram os germes (miasmas) – vírus, bactérias, fungos e parasitas –, enquanto na Segunda Revolução da Saúde os agentes predominantes são a poluição e o comportamento humano. O exemplo mais manifesto de uma epidemia do século passado é a tuberculose, enquanto o exemplo mais manifesto de uma deste século são as doenças cardiovasculares. Em ambos os casos o sucesso das medidas de saúde pública depende das medidas de higiene que as pessoas adoptaram, ou seja, dos comportamentos de higiene que as pessoas implementaram. Na Primeira Revolução da Saúde os comportamentos de higiene visavam os veículos que transmitiam os germes – utilização das águas, nomeadamente a clorificação da água de beber e cuidados com os lixos e dejectos, entre outros. Um exemplo de medidas de saúde pública pode ser ilustrado pela experiência do médico Italiano Grassi que, na viragem do século XIX para o XX realizou, em Cappacio então zona endémica, na Itália, experiências sobre a malária em que 112 pessoas constituíram o grupo experimental e outras 415 que viviam nas mesmas condições serviam de grupo de controlo. O grupo experimental utilizava redes mosquiteiras nas portas e janelas, dormia com a cama protegida por redes mosquiteiras, não saía à noite e vestia-se com tecidos espessos. No final, do grupo experimental poucos tinham contraído malária enquanto no grupo de controlo a percentagem de indivíduos doentes era enorme. Nesta experiência demonstrou que a malária era provocada pela picada de um mosquito específico – Anopheles – e que algumas práticas comportamentais evitavam as pessoas de adoecerem. Como antigamente, as medidas de saúde pública baseiam-se em grande parte em acções individuais, colectivas ou políticas com vista a mudar as práticas tradicionais da população. A grande diferença é que enquanto outrora as acções implementadas visavam os germes, agora visam os 118 próprios comportamentos que constituem os principais factores de risco para as grandes epidemias modernas nos países desenvolvidos. Uma fatia importante das medidas de Saúde Pública são políticas: controlo da poluição produzida pelas grandes indústrias – fumos e gases, contaminação das águas, ruído, excesso de população por metro quadrado, etc. – e os germes são agora as partículas e metais pesados (mercúrio, alumínio, etc.) que entram nas cadeias alimentares dos seres humanos, as radiações, o ozono (O3), o monóxido de carbono, os óxidos de azoto, os dióxidos de azoto produzidos pelos motores de combustão, o alcatrão do tabaco, as dioxinas e os compostos químicos que ameaçam a vida. A Segunda Revolução da Saúde adoptou a expressão Promoção da Saúde que, segundo Noack (1987) substituiu o conceito de higiene. A Promoção da Saúde estabelece uma diferença entre esta e a Protecção da Saúde que estavam fundidas na Primeira Revolução da Saúde e que se mantêm como tal na Saúde Pública. Como Schmidt (1987) admite, nos países subdesenvolvidos a intervenção em Saúde Pública depara com problemas muito semelhantes aos da Primeira Revolução da Saúde, nomeadamente, falta de água potável, de condições sanitárias adequadas, imunização, gravidez e maternidade. Diversos autores têm estabelecido a ponte entre a nova prática da psicologia expressa pela Psicologia da Saúde e a prática da Saúde Pública (DeLeon & Pallack, 1982; Lorion, 1991; Michael, 1982; Miller, Fowler, & Bridgers, 1982; Tanabe, 1982). Segundo Michael (1982, p. 938) “os graduados nas escolas de saúde pública trabalham dominantemente no sector público, nas áreas da promoção da saúde e da prevenção das doenças”. Esta seria a área de intervenção dominante dos futuros psicólogos clínicos que se orientem para a Saúde Pública. As tarefas do psicólogo que estão subjacentes à definição de psicologia da saúde visariam a promoção e protecção da saúde e a prevenção das doenças. A intervenção em Saúde Pública implica os seguintes elementos básicos segundo Schmidt (1994): 1) esforços para identificar os problemas e preocupações de saúde; 2) unidade de interesse é a população em vez de um indivíduo específico; 3) investigação do problema e a escolha da solução deriva de meios empíricos em vez de recorrer a modelos teóricos; 4) intenção é prevenir as doenças em vez de as curar; 5) intervenção apropriada visa a acção directa independentemente da compreensão total dos mecanismos causais; 119 6) acção reguladora nos níveis ambiental e comunitário sem participação voluntária do indivíduo em risco. Winett, King e Altman (1989) fazem uma ponte entre a Saúde Pública e a Psicologia da Saúde considerando-as em pólos opostos de um contínuo, com a primeira visando nos seus objectivos as preocupações da sociedade e a Psicologia da Saúde visando as preocupações do indivíduo. Schmidt (1994) apresenta o seguinte esquema organizador da intervenção em Saúde Pública: Estados de saúde ou doença na população ou subpopulações – em alto risco; – mudanças corporais: envelhecimento, stressores físicos; – sentimentos subjectivos; – início da doença; – manifestações de doença. Factores globais – camada de ozono, florestas tropicais, guerra. Macrosistema – condições culturais básicas; – leis, regulamentos, sistema político, cuidados de saúde. Exossistema – ecologia local: urbana versus rural, indústria química ou outra, regiões sujeitas a condições climatéricas ou geográficas adversas como ciclones ou terramotos; – economia: economia geral; nível de pobreza; – condições de vida específicas: higiene, sanidade, níveis de criminalidade, regulamento de trânsito; taxa de desemprego. Factores sociais – stressores; – riscos; – suporte. 120 Contextos – família; – local de trabalho; – escola; – universidade. Factores individuais – condições de socialização durante o ciclo de vida; – estrutura da personalidade; – disposições; – recursos, factores de protecção; – comportamentos de risco: estilo de vida saudável ou que suscita a doença; vida de risco, comportamentos aditivos. No esquema de Schmidt, a Psicologia da Saúde poderia recorrer às técnicas provenientes da psicologia social, comunitária, educacional, desenvolvimental, etc., para apoiar dos factores globais aos individuais. Hoje a saúde Pública tem uma dimensão ecológica. Medicina curativa A medicina curativa tem uma função mais institucional herdeira em grande parte da medicina tradicional. Como se referiu atrás, inicialmente, o seu objecto era a doença que o doente tinha. A evolução dopensamento moderno acabou por influenciar a medicina curativa e, hoje, é consensual que em vez de visar a doença que o sujeito tem, a medicina curativa visa o sujeito doente na sua globalidade, embora dê particular atenção, como é seu dever, à doença, disfunção ou lesão. Funções do psicólogo clínico O Decreto-lei 241/94 que consagra a prática da Psicologia Clínica no sistema de saúde como profissão específica entre outras que o psicólogo desenvolve o estudo psicológico de indivíduos e grupos populacionais, a 121 participação e elaboração de programas de educação para a saúde, o aconselhamento psicológico individual conjugal familiar ou de grupo, bem como a intervenção psicológica e psicoterapêutica. Estas tarefas poderiam ser desenvolvidas pelo psicólogo em qualquer das áreas de intervenção em que o psicólogo deve participar. Áreas de intervenção A intervenção do psicólogo em contexto de saúde ou com objectivos de saúde visa, sempre melhorar a saúde. Se os objectivos são sempre os de melhorar a saúde os meios variam consoante se trata de sujeitos saudáveis, em risco de adoecer ou doentes. Entre os saudáveis convém distinguir as intervenções que visam promover a saúde das que visam proteger a saúde. Entre os doentes convém distinguir entre os que têm uma doença crónica dos que têm uma doença aguda, ou entre os que têm uma doença de bom prognóstico dos que têm uma doença de mau prognóstico. Então, discutiremos as seguintes áreas de intervenção psicológica que se pratica na interface com a saúde: promoção da saúde, protecção da saúde, prevenção das doenças e tratamento. Promoção da saúde Os programas de promoção da saúde incluem uma grande variedade de propostas para ajudar os indivíduos e grupos, incluindo conselhos, transmissão de conhecimento e treino de perícias. Estas ajudas ao nível pessoal, por muito importantes que sejam, são sempre limitadas e criticáveis se não forem acompanhadas por mudanças correspondentes no meio envolvente (Abelin, 1991). A promoção da saúde pode dirigir-se a vários tipos de agrupamentos de pessoas, individual, comunitária e societal. Kickbusch (1986) considera cinco grandes princípios que devem ser considerados quando se intervém na promoção da saúde: 1) a promoção da saúde envolve a população como um todo no contexto da sua vida diária, em vez de focar indivíduos em risco para determinadas doenças; 122 2) a promoção da saúde é dirigida para os determinantes ou causas da saúde; 3) a promoção da saúde combina métodos ou abordagens diversas, embora complementares; 4) a promoção da saúde visa em especial uma participação pública concreta e eficaz; 5) os profissionais de saúde – particularmente os dos cuidados primários de saúde – têm um papel importante em capacitar e sustentar a promoção da saúde. A mesma autora propõe cinco áreas de conteúdos importantes: 1) acesso à saúde; 2) desenvolvimento de um ambiente conducente à saúde; 3) fortalecimento das redes sociais e do suporte social; 4) promoção de comportamento de saúde positivo e de estratégias de coping apropriadas – um objectivo chave na promoção da saúde; 5) aumento do conhecimento e disseminação relacionada com a saúde. Esta autora considera ainda as seguintes recomendações que reforçam a interdependência sistémica entre factores comportamentais, cognitivos, emocionais, culturais, sociais económicos, etc., que os programas de promoção da saúde devem espelhar. 1) O estado de saúde das populações é o resultado da privação e/ou excesso de recursos fundamentais à saúde; 2) os padrões comportamentais das populações resultam da selecção habitual de entre um número de escolhas limitadas e esses hábitos de escolha estão relacionados com: a) a percepção das opções disponíveis, b) crenças e expectativas desenvolvidas e aperfeiçoadas ao longo do tempo através da socialização, aprendizagem formal e experiência imediata; 3) o comportamento organizacional (decisões políticas feitas pelas organizações governamentais, não-governamentais; lucrativas ou não- lucrativas, formais e não-formais) que delimitam o leque de opções disponíveis nas escolhas pessoais dos indivíduos; 4) as escolhas feitas pelos indivíduos num determinado momento relacionadas com a promoção ou prejuízo da saúde são afectadas pelo 123 seu esforço para maximizar os recursos mais valiosos e estão relacionadas com a) os recursos pessoais, b) os recursos sociais; 5) as mudanças sociais podem ser consideradas como mudanças no padrão de vida realizadas por um número de pessoas significativas desse grupo; 6) a educação para a saúde enquanto processo de ensino e de aprendizagem de informação relacionada com a saúde pode ter pouco impacto no comportamento e nas escolhas das pessoas que não percebem que têm à sua disposição maneiras alternativas de melhorar a saúde. Quanto a aspectos mais específicos podemos recorrer à investigação que, numa perspectiva salutogénica, se tem debruçado sobre as práticas que constituem recursos de saúde. Um dos estudos mais conhecidos é o estudo Alameda cujo relatório principal foi publicado em 1983 (Berkman & Breslow, 1983) e sobre o qual têm sido publicados centenas de artigos com resultados parciais. Este estudo teve início em 1965 e abrangeu uma amostra de 8083 indivíduos representativos da população do Condado de Alameda (Alameda County) nos Estados Unidos da América e nele identificaram um conjunto de sete variáveis comportamentais associadas à saúde (medida a partir de incapacidade, condições crónicas, sintomas, nível de energia e deterioração física), de pessoas de diferentes idades, tendo identificado as seguintes variáveis comportamentais: padrão de sono, de alimentação, de exercício físico, consumo de bebidas alcoólicas, tabagismo, controlo do excesso de peso, hábito de tomar pequeno-almoço e petiscar entre refeições. A promoção da saúde na saúde e na doença Se concebe a promoção da saúde em sentido absoluto, ela aplica-se a todos os casos em que se pretenda melhorar a saúde. Nesta perspectiva podem-se conceber várias situações a que se aplicam os princípios da promoção da saúde: a) quando o indivíduo está doente, sendo a intervenção do tipo curativo; b) quando o indivíduo está em risco, sendo a intervenção do tipo preventivo; Nesta situação o indivíduo não está doente mas o estilo de 124 vida que adopta é susceptível, de acordo com os dados de investigação disponíveis, de conduzir a um estado de doença. A intervenção pode consistir em reduzir a pressão arterial, modificar a dieta, modificar os hábitos tabágicos, treinar estratégias para reduzir o stress, etc.; c) quando o indivíduo está de boa saúde e não está em risco. Este tipo de intervenção visa o aperfeiçoamento do estilo de vida, de modo a aumentar o bem-estar, a melhorar o relacionamento com o meio ambiente e a diminuir a probabilidade de atingir um estado de doença. É uma intervenção desenvolvimental clássica em psicologia. Alguns autores consideram que a generalização do conceito de promoção da saúde a situações de doença, de tratamento e de reabilitação, contribui para fragilizar o conceito (Goodstadt, Simpson, & Loranger, 1987). No entanto esta generalização é inevitável: a adopção da noção de qualidade de vida relacionada com a saúde pelos variados contextos clínicos, demonstra- o. A qualidade de vida relacionada com a saúde não é mais do que a promoção da saúde de pessoas que têm uma doença. Promoção da saúde, qualidade de vida e bem-estar Concomitantemente com a emergência da Segunda Revolução da Saúde e com a aceitação da noção de que a saúde pode ser uma dimensão independente da doença, desenvolveram-se outros conceitos que têm algum parentesco com o conceito de saúde, ou que estãoimplicados nela. No primeiro caso está o de qualidade de vida; no segundo o de bem-estar. A partir da década de 70 o conceito de qualidade de vida entrou nos ambientes tradicionais de doença, tomando sentidos parecidos com o de saúde (Fries & Spitz, 1990). O termo “qualidade de vida” cresceu em popularidade com o desenvolvimento das economias no pós-guerra, essencialmente nos países desenvolvidos (Ribeiro, 1994). Este crescimento em popularidade levou à necessidade de o estudar, de o aprofundar, levando ao desenvolvimento de medidas que pudessem qualificar essa “entidade vaga e etérea” como lhe chamam Campbel, Converse e Rodgers (1976, p. 471). Com efeito, se na primeira metade do século XX era aceitável que indicadores económicos tais como o Produto Nacional Bruto, fossem utilizados para identificar o bem-estar e a qualidade de vida de uma nação, tal tendia a deixar de suceder na segunda metade do século. Como Liu referia em 1975, as pessoas deixaram de aceitar e de acreditar, que os 125 indicadores económicos sejam indicadores de bem-estar da população. A evolução das democracias, a revolução primeiro-mundista que teve lugar na década de 60, o aumento da consciência dos cidadãos de que tinham direito a participar na definição da sua vida para além de se limitarem a votar, levou à necessidade de estabelecer outros indicadores de qualidade de vida que expressassem esta nova perspectiva e, concomitantemente, do modo de os avaliar. Essa evolução e as contradições existentes, são patentes entre relatórios publicados pelas organizações internacionais, como o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o do Banco Mundial (BM) sobre o desenvolvimento e ambiente. Ao contrário deste, que se baseia quase exclusivamente em dados económicos, o relatório do PNUD inclui um compósito de índices que pretendem expressar a qualidade de vida e não apenas os aspectos meramente económicos, chegando a conclusões bem diferentes sobre os diversos países. Sendo concomitantes no tempo, a emergência dos conceitos de qualidade de vida, saúde e bem-estar, parece estar associada ao desenvolvimento das democracias ocidentais. Embora os três conceitos sejam multidisciplinares e hoje estejam claramente associados, surgiram em contextos diferentes: a qualidade de vida surgiu no contexto da sociologia, o de saúde no contexto da saúde pública e o de bem-estar subjectivo no contexto da psicologia. A intervenção na promoção da saúde pode ser segundo Downie, Fyfe e Tannahill (1990) (a) orientada para a doença, (b) para os factores de risco e (c) para a saúde. No primeiro caso – orientado para a doença, a doença “A” é o foco e os factores de risco considerados serão aqueles que a investigação, nas suas várias vertentes, tem salientado como aumentando a probabilidade de as pessoas contraírem aquela doença. A intervenção orientada para os factores de risco visa aquele ou aqueles factores de risco que a investigação tem salientado como importantes para várias doenças. Por exemplo, o tabagismo é um factor de risco para inúmeras doenças, do cancro, às vasculares passando pelas respiratórias. O impacto do foco no tabagismo reflectir-se-ia em várias doenças em simultâneo. A diferença da intervenção anterior é que este factor de risco só seria abordado se o fosse para a doença em causa dado que nesse caso o importante era a doença e não o factor de risco. As duas orientações referidas podem, talvez, ser incluídas com mais propriedade na prevenção das doenças. A terceira e última orientação é focada na saúde. Não considera os factores de risco ou, se os considerar eles são secundários. O que conta 126 essencialmente são os recursos de saúde, ou seja, promover estilos de vida que a investigação (como o Estudo Alameda) têm demonstrado estar associados a uma boa qualidade de vida. Protecção da saúde Como já foi referido nas causas de mortalidade em Portugal, os acidentes em geral surgem como a principal causa de morte para todos os grupos etários entre o primeiro ano de vida e os 34 anos. Estamos perante uma verdadeira epidemia com custos sociais incalculáveis. Devido a esta juventude, qualquer intervenção que diminua da taxa de mortalidade por acidentes salvará mais pessoas/ano de vida do que a diminuição por qualquer das outras causas. O papel da psicologia no desenvolvimento de competências da sociedade para enfrentar esta epidemia é decisivo. Stroebe e Stroebe (1995) explicam que há três estratégias para controlar os acidentes: persuasão, exigências legais e mudanças estruturais. Enquanto as duas primeiras estratégias visam induzir mudanças comportamentais nas pessoas, a terceira visa reduzir as lesões provocadas por acidentes pela introdução de alterações dos equipamentos, dos veículos ou do meio ambiente. Estas estratégias podem ser concebidas num contínuo activo-passivo, em função do esforço que exigem aos indivíduos para as implementarem. Stroebe e Stroebe (1995) dão o exemplo de estratégias que visassem diminuir o risco das crianças se queimarem com água a ferver. Uma estratégia mais activa consistiria em proibir as crianças de se aproximar da água quente e de as vigiar para que elas não se aproximassem. Uma menos activa consistiria em diminuir o termóstato, por exemplo, do esquentador para que a água quente não atingisse temperaturas que queimassem. Esta requereria só uma acção: o ajustamento do termóstato. Uma estratégia ainda menos activa consistiria em estabelecer uma lei que obrigasse os industriais de esquentadores a produzir alterações que impedissem o esquentador de aquecer a água até temperaturas que queimem (a água ferve a cerca de 100 graus centígrados. Água do chuveiro a 50 graus já é sentida como “a ferver”, embora não provoque lesões). Acções deste tipo tornaria a água quente inofensiva para as crianças sem que os que tomam conta delas tenham de realizar qualquer acção. Stroebe e Stroebe referem que há consenso de que a protecção que é implementada através de mudanças do ambiente como a que é referida, é mais eficaz do que as campanhas educativas que visem alterar os comportamentos. 127 A persuasão para que as pessoas façam mudanças de hábitos de modo a protegerem-se é extremamente difícil quer se trate de fumar, de utilizar o cinto de segurança ou cabos de protecção quando se trabalha em alturas elevadas. Antes da entrada em vigor de leis que obrigassem a utilização do cinto de segurança apenas cerca de 10 a 20% dos condutores o utilizavam, apesar do pouco esforço necessário para implementar esta pequena mudança de comportamento e do risco de morte ser reduzido em 60% pela sua implementação. Foram realizadas inúmeras experiências que visavam persuadir as pessoas a implementar essa pequena mudança que consistia em utilizar o cinto de segurança e todas se mostraram pouco eficazes. A razão porque tal ocorre é que, as campanhas visam a motivação e o conhecimento deixando de lado o último e decisivo factor: que se está a proteger a si próprio. Ou seja, as pessoas tendem a acreditar que os acidentes não acontecem com eles. Por outro lado as pessoas empenham-se pouco em acções de protecção da saúde se tiverem insuficiente controlo sobre o comportamento exigido. É o caso, por exemplo, de controlo sobre o comportamento das crianças. Deste modo as mudanças estruturais são sempre mais eficazes. As exigências legais são eficazes se conseguem ligar um incentivo ao comportamento exigido. No caso do cinto de segurança de veículos automóveis, o incentivo consiste no evitar ser multado. É um exemplo de sucesso da utilização de exigências legais para mudar o comportamento. Em países em que o uso do cinto de segurança foi estudado após o uso de métodos persuasivos e após o uso de exigências legais, a alteração do comportamentopassou de 10 a 30% para 70 a 85% com substancial redução da mortalidade dos ocupantes dos veículos. Para que as exigências legais sejam eficazes têm de poder ser controladas com facilidade. Por exemplo, a limitação de conduzir sobre o efeito do álcool é menos eficaz do que a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança dado ser de mais difícil verificação. As mudanças estruturais têm a grande vantagem de não exigir nenhuma acção por parte das pessoas. Exemplos de mudanças estruturais consistem em reduzir a composição de substâncias utilizadas no dia a dia para níveis não letais. Estão neste caso os produtos de limpeza que têm composições químicas menos tóxicas, são vendidas em garrafas bem diferenciadas e com abertura mais complicada e têm cores que não se confundem com água, reduzindo as probabilidades das crianças as beberem. É também o caso dos medicamentos com capacidade letal que são vendidos sob apertada vigilância médica ou são vendidos em embalagens que contêm quantidades sub-letais. 128 Outra das áreas em que as mudanças estruturais têm aumentado é nos veículos automóveis em que se têm introduzido air bags, barras de protecção laterais, melhores sistemas de travagem, etc. Stroebe e Stroebe (1995) concluem que se queremos levar as pessoas a alterar comportamentos que são perigosos para a sua saúde, temos de as persuadir naqueles comportamentos que elas percebem que constituem um risco para elas e que esse risco se reduz se alterarem o comportamento. Se queremos alterar padrões de comportamento que não seja sentido como arriscado temos de recorrer a exigências legais e a mudanças estruturais. Prevenção das doenças Como já foi referido anteriormente a prevenção de uma doença refere-se a todas as acções (específicas) que são implementadas, consoante a fase da doença, com vista evitar ou reduzir o seu impacto no indivíduo. O termo específico é essencial na medida em que as acções são dirigidas àquela doença e não a outra. Outra doença implicaria acções diferentes. Podem ser considerados vários níveis de prevenção consoante as alterações patológicas existentes (Mausner & Kramer, 1984): – prevenção primária – aplica-se ao estado de susceptibilidade à doença e consiste na prevenção da doença através da alteração da susceptibilidade, ou da redução da exposição dos indivíduos susceptíveis; – prevenção secundária – aplica-se ao início da doença e consiste na detecção e tratamento da doença num estado precoce; – prevenção terciária – aplica-se quando o estado da doença ou incapacidade é adiantada e visa a diminuição da incapacidade e o restabelecimento de um funcionamento eficaz. Promoção da saúde e prevenção das doenças distinguem-se do seguinte modo: a) prevenção das doenças é um conceito da primeira revolução da saúde, centrado nas doenças, enquanto promoção da saúde é um conceito da segunda revolução da saúde, centrado na saúde; b) prevenção das doenças aplica-se a doenças específicas e refere-se às actividades que visam evitá-las, enquanto a promoção da saúde visa a saúde em geral e as actividades que a promovem; 129 c) promoção da saúde salienta o papel dos indivíduos, grupos e organizações enquanto agentes da definição e implementação de práticas de saúde e de políticas que conduzam, simultaneamente, ao bem-estar individual e colectivo, enquanto a prevenção das doenças salienta o papel das organizações médicas tradicionais. Richmond (1979), no seu relatório Healthy People, explica o que distingue os diferentes conceitos – cuidados médicos, prevenção das doenças (e protecção da saúde) e promoção da saúde: “Os cuidados médicos começam no doente e procuram, mantê-lo vivo e desaparecer a doença, ou minimizar a sua incapacidade. A prevenção das doenças começam com uma ameaça à saúde – uma doença ou um acidente ambiental – e visa proteger tantas pessoas, quantas possível, das consequências perigosas dessa ameaça. A promoção da saúde começa com pessoas que são basicamente saudáveis e procura aplicar medidas comunitárias e individuais que possam ajudar as pessoas a desenvolver estilos de vida que mantenham ou exaltem o estado de bem-estar” (p. 119). Rosenstock (1987) considera que a distinção entre prevenção das doenças e promoção da saúde tem três implicações distintas, que incluem: a) implicações acerca da atribuição de responsabilidade pela saúde; b) implicações ao nível da selecção dos alvos da intervenção para maximizar a saúde; e c) implicações para a ética da promoção da saúde. Grandes projectos de prevenção de doenças Inúmeros projectos ilustram acções bem sucedidas de intervenção na prevenção de uma doença. Os projectos de prevenção de doenças cardiovasculares, a principal epidemia dos países desenvolvidos do Norte, doença responsável por milhares de anos vida perdidos, com custos sociais e económicos astronómicos. Por essa razão desenvolveram-se inúmeros programas de que se darão alguns exemplos. O Stanford Heart Disease Project foi desenhado no final da década de 60 na Universidade de Stanford, Califórnia. Trata-se de um programa de intervenção comunitária com várias vertentes e diferentes momentos, em que o alvo era toda a população. O objectivo maior do programa visava mudar o estilo de vida (tabagismo, nutrição, exercício físico, controlo da hipertensão e alimentação-obesidade) de grandes grupos. 130 Decorreu em duas fases. A primeira fase, conhecida por The Three Community Study, abrangeu três pequenas cidades (cerca de 12000 a 15000 habitantes cada) com características idênticas e a sua implementação durou entre os anos de 1972 e 75. Foi grandemente influenciado pela teoria de aprendizagem social de Bandura (Shea & Bash, 1990a). Uma das cidades serviu como grupo de controlo enquanto se realizaram intervenções diferenciadas nas duas restantes. Na segunda cidade utilizou- se uma campanha mediática intensa que recorreu a 50 mensagens televisivas e 100 mensagens para a rádio, em que cada uma foi passada durante o tempo definido no projecto. Na terceira cidade, para além das mensagens mediáticas utilizadas na segunda cidade fez-se, também, uma intervenção com um grupo de pessoas escolhidas aleatoriamente de entre um, pessoas com comportamentos que constituíam risco elevado para as doenças cardiovasculares. A intervenção sobre este grupo era realizada directamente com as pessoas. Os resultados da avaliação do impacto do programa mostraram que, nas duas cidades que tinham beneficiado da intervenção reduziram em cerca de 17% os factores de risco para a doença alvo do projecto. O grupo que beneficiou da intervenção face a face reduziu esses factores de risco em 30%. No mesmo período de tempo os factores de risco aumentaram 6% na cidade que serviu de controlo. A segunda fase do programa denominou-se The Five City Project. Iniciou- se em 1978 e durou nove anos. Às três cidades anteriores acrescentaram-se duas de maior dimensão, cidades com cerca de 350000 habitantes. Recorreu a um modelo denominado modelo de mudança de comunicação- comportamento. Fornecia uma perspectiva de como os indivíduos e os grupos aprendiam novos conhecimentos, atitudes e comportamentos. É, por sua vez uma síntese de outros modelos e assume que (a) há espaço para mudar comportamentos e necessidade de mudança; (b) que os estados iniciais e finais são mensuráveis; (c) que as forças educativas têm legitimidade social; (d) e que existe um tempo apropriado no desenho do projecto para que a mudança ocorra. O modelo teórico pressupõe uma mudança sequencial com as seguintes fases (Shea & Basch, 1990a). 1) consciência; 2) conhecimento; 3) motivação; 4) perícias; 131 5) acção; 6) manutenção; Os objectivos deste programa eram mais ambiciosos e visavam modificar os conhecimentose práticas da população alvo no sentido adequado; desenvolver um projecto comunitário auto-sustentado e construir um programa de intervenção que fosse generalizável. Este programa era avaliado todos os anos numa perspectiva de avaliação formativa, recorrendo a avaliadores externos. Os resultados foram na mesma direcção da fase anterior, ou seja, é possível implementar programas de prevenção de doenças com eficácia dirigidos a grandes grupos. Outro projecto realizado sobre a mesma doença foi o Projecto North Karelia – Finlândia. Este país possuía uma das mais elevadas taxas de mortalidade por doenças do coração do mundo. North Karelia é uma das regiões da Finlândia. O estudo iniciou-se em 1972, a pedido do parlamento regional e a população alvo consistia em cerca de 180000 pessoas, dominantemente rurais, com menor estatuto socio-económico do que outras regiões da Finlândia. Outra região vizinha, com características demográficas idênticas – Kuopio – foi utilizada como controlo. O alvo do programa eram o colesterol, a dieta, o tabagismo e a hipertensão. Obesidade e sedentarismo não constituíam factor de risco para esta população (McAlister, Puska, Salonen, Tuomilehto, & Koskela, 1982; Shea & Basch, 1990a). Este projecto incluía os seguintes passos fundamentais: 1) implementar serviços de prevenção para ajudar as pessoas a identificar factores de risco; 2) informar para educar as pessoas acerca da relação entre comportamento e saúde; 3) persuadir para motivar as pessoas e promover a intenção de adoptar comportamentos saudáveis; 4) treinar perícias para auto-gestão e controlo do ambiente; 5) fornecer suporte social para ajudar as pessoas a manter comportamentos saudáveis; 6) mudar o ambiente para criar oportunidades e reduzir obstáculos às acções saudáveis; 7) organizar a comunidade para a mobilizar para implementar um estilo de vida saudável e para o manter. 132 A avaliação, cinco e dez anos depois, mostrou alteração significativa nos comportamentos de risco visados, tanto por comparação antes e depois como por comparação com a região de controlo. Outros programas de longa duração, com grandes grupos e com amplos objectivos, têm sido implementados. A conclusão geral é que eles são eficazes e que a sociedade em geral tem ganhos substanciais com os resultados destes programas. Intervenção nas doenças O apoio psicológico a pessoas doentes em contexto de cuidados de saúde é uma tarefa muito variada. Constitui a área mais notória do sistema de saúde e aquela onde os estados gastam mais verbas. Como afirmava Lalonde (1974), 95% das verbas do sistema de saúde são dispendidas depois das pessoas adoecerem quando deviam ser dispendidos para evitar que as pessoas adoecessem. A preocupação com o rendimento dos serviços de cuidados de saúde tornou-se fundamental, nomeadamente, porque os custos tendem sempre a crescer. Esta preocupação levou a que a Organização Mundial de Saúde tivesse definido o conceito de Desenvolvimento Contínuo da Qualidade dos Cuidados que se define como a estimativa do grau de excelência dos cuidados de saúde, através da análise comparativa entre os resultados conseguidos e os que poderiam ter sido obtidos (MS, 1997). Toda a intervenção com indivíduos doentes visa obter resultados de saúde. Resultados de saúde é uma expressão técnica que se define como, todas as mudanças no estado de saúde que podem ocorrer em sujeitos em estudo, ou que podem derivar de exposição a um factor causal como, por exemplo, intervenções terapêuticas ou preventivas (JAMA, 1996). Tal como na prevenção das doenças também nos cuidados de saúde podem ser tomados em consideração três níveis (JAMA, 1996): – Cuidados primários – cuidados médicos fornecidos pelo clínico no primeiro contacto com o doente. Normalmente os cuidados primários são fornecidos pelo médico de clínica geral, médico de família ou médico interno. Cuidados primários podem ser fornecidos por pessoas que não sejam médicas, nomeadamente por enfermeiros. Segundo Altschuler (1997) este nível de cuidados, em Inglaterra, resolve cerca de 80-90% dos problemas de saúde das pessoas que contactam o sistema de saúde. 133 – Orientação de cuidados de saúde (referred care) – cuidados médicos fornecidos a um doente quando é enviado por um profissional de saúde para outro com qualificações ou interesses mais especializadas. Há dois níveis de orientação de cuidados: – Cuidados secundários – o que é normalmente fornecido por um especialista com capacidade de intervenção ampla, tais como cirurgião geral ou obstetra; – Cuidados terciários – os que são fornecidos após a orientação do doente para um sub-especialista (ou super-especialista), tal como um cirurgião ortopédico, neurologista ou neonatologista. Promoção da saúde, protecção da saúde, prevenção primária, secundária ou terciária, cuidados primários, secundários ou terciários, têm zonas de sobreposição e é necessário estar atento ao que se está a falar. A utilização de uma expressão em vez de outra deriva, normalmente, da cultura do contexto que utiliza essa expressão. Organização das doenças Como se referiu antes, podem-se organizar as doenças segundo dois eixos conforme o quadro seguinte, baseados no prognóstico e no tipo de doença: Tipo de prognóstico Tipo de doença Mau Bom Doença crónica A B Doença aguda C D Emergem assim quatro celas em que a “A” caracteriza uma doença crónica de mau prognóstico, como pode ser o caso da síndrome de imunodeficiência adquirida; a célula “B” uma doença crónica de bom prognóstico como pode ser o caso da artrite reumatóide ou a hipertensão ligeira; a célula “C” caracteriza doenças agudas de mau prognóstico como o caso de um acidente com traumatismo medular alto em que o indivíduo 134 após tratamento ficará, provavelmente, tetraplégico; a célula “D” uma doença aguda de bom prognóstico como é o caso de uma apendicitectomia. Cada uma das doenças, susceptíveis de ser incluídas em cada célula, variam, por sua vez, entre si. Por exemplo, a expressão “mau prognóstico” pode abranger situações muito variadas que vão da expectativa de morte mais ou menos a longo prazo, a expectativas de vida em que muitos desejariam morrer. A experiência de doença é vivida individualmente e, para cada indivíduo a mesma doença tem significados diferentes. As doenças crónicas O sucesso do modelo biomédico reduziu drasticamente a mortalidade por doenças infecciosas, assistindo-se, em contrapartida, ao crescimento das doenças crónicas (DC). As DC representam, segundo Rodin e Salovey (1989), 80% de todas as doenças e atingem mais de 50% de todas as pessoas segundo Sobel (1979). Tende-se, muitas vezes, a considerar a doença crónica, uma característica dos idosos. Tal não é verdade e se podemos afirmar que os idosos têm maiores probabilidades de sofrer de uma doença crónica, elas existem em todas as idades, havendo doenças que são típicas dos mais novos (p. ex., diabetes tipo I). A expressão “doenças crónicas” abrange uma grande variedade de quadros, da artrite reumatóide à epilepsia, das doenças cardiovasculares à diabetes e têm como característica, na expressão de Blanchard (1982), serem doenças que têm de ser geridas em vez de curadas: ou seja, as pessoas que têm DC podem fazer a vida do dia-a-dia como qualquer outro cidadão e grande parte deles acaba por falecer de velhice ou de outras doenças que não a doença crónica que os acompanhou grande parte da vida. As doenças crónicas não se definem pela sua aparente ou real gravidade, mas sim por serem doenças, ou sem cura ou de duração muito prolongada. Abrangem, nomeadamente, doenças que conduzem, a mais longo ou curto prazo, à morte tais como o cancro ou a SIDA. Giovannini, Bitti, Sarchielli e Speltini (1986), considerandoque há aspectos que as caracterizam a grande diversidade de quadros definidos como clínicos, consideram como crónica (a) todas as doenças de longa duração, (b) que tendem a prolongar-se por toda a vida do doente, (c) que provocam invalidez em graus variáveis, (d) devido a causas não reversíveis, (e) que exigem formas particulares de reeducação, (f) que obrigam o doente a seguir determinadas prescrições terapêuticas, (g) que normalmente exigem a 135 aprendizagem de um novo estilo de vida, (h) que necessitam de controlado periódico, de observação e de tratamento regulares. Giovannini et al. (1989) explicam que para além da dimensão temporal associado à cronicidade, se trata de uma condição autónoma de doença que mistura problemas de ordem estritamente sanitária, exigências e reacções psicológicas e necessidades ou preocupações de ordem social que fazem da doença crónica uma doença específica diferente das doenças agudas. A emergência de uma DC é um acontecimento não-normativo que constitui um poderoso agente stressor. Sendo variável dependente da emergência da DC é ele próprio variável independente susceptível de gerar doença. Muitas doenças, tais como a diabetes, hipertensão, cancro ou epilepsia não são doenças passíveis de esquecimento. A necessidade de integrar o controlo da doença nas actividades da vida diária, as expectativas do que pode acontecer se esse controlo for mal feito, as emoções que evocam, são um stressor forte. Por outro lado, os processos médicos de controlar a doença, tais como a quimioterapia no cancro são, eles próprios, susceptíveis, induzir mal-estar. Leventhal, Nerenz e Steel (1984) propõem um modelo de explicação das estratégias de coping que as pessoas adoptam com as DC. Inclui quatro asserções básicas: a) processamento activo – significando que a experiência e o comportamento são construídos sob influência de um sistema de processamento de informação que integra estímulos actuais e memórias, quer adquiridas quer inatas. As reacções emocionais à experiência e os mecanismos de coping postos em jogo são criados momento a momento por esse sistema de processamento; b) processamento paralelo – considera a existência de duas vias paralelas: uma envolve a representação objectiva da doença e um plano de coping para a enfrentar, a segunda envolve as respostas emocionais e o respectivo plano de coping para enfrentar a DC, com interacção entre as duas vias; c) estádios de processamento – o processamento ocorre em estádios: o primeiro cria representações cognitivas e emocionais; o segundo envolve o desenvolvimento e execução de planos para responder; o terceiro é de monitorização dos planos desenvolvidos no estádio anterior. O modelo funciona de forma sistémica; d) processamento hierárquico – O sistema de processamento está hierarquizado, opera, quer a níveis concretos, quer a níveis abstractos, quer objectivos quer emocionais. 136 Giovannini et al. (1986) salienta as seguintes áreas problemáticas que caracterizam a experiência subjectiva da doença crónica: a) o risco de crise é comum às doenças crónicas e a capacidade de a gerir deve fazer parte do reportório de competências do doente. Algumas crises são susceptíveis de conduzir à morte pelo que o desenvolvimento desta capacidade de gestão deve ser particularmente cuidada; b) a gestão da terapia e do estilo de vida renovado constitui, provavelmente, um dos aspectos mais complexos da doença crónica. Por um lado tem de se seguir rigorosamente o tratamento e, por outro, tem de se mudar, por vezes radicalmente o estilo de vida, tendo de se alterar hábitos de anos como deixar de fumar, ou deixar de frequentar locais que são incompatíveis com a doença. c) a reestruturação do tempo, por vezes draconiana, devido à necessidade de rigor que o tratamento impõe, com uma precisão de minutos, traz a dimensão tempo para uma posição privilegiada na vida do doente. Em muitas doenças não se pode deixar o tratamento para a hora seguinte, nem se pode deixar de tomar a medicação. d) o isolamento social é uma consequência dos aspectos referidos anteriormente. A gestão da doença impõem regras que, nem sempre são compatíveis com a disponibilidade do grupo. e) o contexto familiar é sempre afectada pela doença. Se o doente crónico é uma criança e a gestão do tratamento está a cargo da família todos os aspectos anteriores se aplicam a quem cuida do doente. Em resumo, para uma pessoa continuar a viver a vida do dia a dia com a sua doença crónica, tem de promover alterações comportamentais, cognitivas, emocionais e sociais mais ou menos complexas de modo a que a sua qualidade de vida não seja afectada. Para além da situação biológica de ter uma doença, que constitui uma situação técnica a ser tecnicamente tratada pelo especialista, há a experiência psicossocial de ter uma doença que corre paralelamente e independentemente da situação biológica, com as concomitantes representações individuais. Mal-estar e sofrimento Kleinman (1979), com outros, distingue o ter uma doença (disease) do sentir-se doente (illness). Ter uma doença, como já foi referido anteriormente, refere-se a uma disfunção ou desadaptação dos processos biológicos e/ou psicológicos. Foi com esta dimensão que o sistema 137 trabalhou durante muito tempo, ignorando a segunda. Illness ou, como temos vindo a traduzir, o “sentir-se doente”, corresponde segundo Kleinman ao modo como as pessoas “percebem, experimentam, explicam, avaliam e respondem à sua doença”. (...) “Implica não só as reacções do indivíduo doente como também as reacções da família, da sua rede social, e, talvez por vezes, até a comunidade” (1979, p. 24). A sensação de doente é um conceito intrinsecamente semântico inseparável da conceptualização que o sujeito doente, a sua família, o grupo social, os que cuidam dele fazem do conceito. As diferentes concepções que emergem desta amálgama criam distintas experiências e comportamentos. Cada grupo social, cada cultura, tem um conjunto de valores, de crenças de base que influenciam esses sentimentos, experiências e comportamentos, que são diferentes do que é entendido pelos profissionais de saúde. Natureza do sofrimento Cassel (1982) discute a natureza do sofrimento em contexto médico. Explica ele que (a) o sofrimento não se confina aos sintomas físicos, (b) o sofrimento deriva tanto da doença como do tratamento, (c) ninguém pode antecipar o que o sujeito descreverá como fonte de sofrimento. Ou seja, para se saber porque sofre um sujeito terá que se lhe perguntar. A acrescentar a estes aspectos genéricos, Cassel estabelece que: a) o sofrimento é experimentado por uma pessoa. Tradicionalmente, na cultura ocidental em que a separação espírito corpo é geralmente suposta, esta dimensão de experiência de sofrimento é associada com a mente ou com o espírito, é uma dimensão subjectiva. Ora a pessoa é um todo, em que corpo e espírito são um só, em que a dimensão subjectiva e objectiva. A compreensão do sofrimento obriga à rejeição do dualismo espírito versus corpo. b) o sofrimento ocorre quando há percepção de uma ameaça de destruição da pessoa. O sofrimento termina quando essa ameaça de desintegração passa, ou quando a integridade da pessoa está restaurada. c) o sofrimento pode ocorrer relativamente a qualquer aspecto da pessoa, quer seja relativo ao seu papel social, identificação grupal, relação com o self, com o corpo, ou a família, ou com a relação com outras pessoas numa perspectiva de “pessoa” como uma totalidade biopsicossocial. 138 As pessoas não podem ser reduzidas à soma das suas partes. Tal redução não ajuda a compreensão das pessoas. Como é suposto no modelo biopsicossocial, as pessoas constituem organizações complexas e, em todas, existe potencialpara traumatismo ou sofrimento. Todas as dimensões pessoais – experiências do passado, a experiência familiar passada, cultura e sociedade, papel social, dimensões instrumentais, relações e associações, o corpo, o pensamento inconsciente, o ser político, os segredos da vida, a percepção de fracasso e a dimensão transcendental – são passíveis de trauma e sofrimento. As ameaças à integridade da pessoa podem expressar-se por tristeza, cólera, solidão, depressão, luto, infelicidade, melancolia, zanga, ou desistência (Cassel, 1982). Reconhece-se o direito das pessoas expressarem os seus sentimentos. No entanto, esquece-se muitas vezes que o afecto expresso é simplesmente a manifestação externa do trauma e não o trauma em si. A Psicologia não pode esquecer que a expressão do sofrimento não é padronizada. Não é pela apreciação exterior que podemos deduzir o sofrimento. Este é um sentir pessoal total. Do mesmo modo a capacidade de enfrentar o sofrimento é muito variável e pessoal e as pessoas aprendem a viver com o sofrimento como é ocaso das que têm dor crónica aguda. Embora haja situações em que quase todas as pessoas sofrem (caso de morte de uma pessoa amada), há sofrimentos que por vezes nos parecem pueris. No entanto esse sofrimento tem um valor imenso para aquele que sofre. Os sentimentos acerca da doença Kleinman (1979) reconhece que o modelo biomédico não ajuda o clínico a reconhecer e a compreender os sentimentos do doente acerca da sua doença, tendendo mesmo a menosprezar esse sentimento proveniente do senso comum susceptível de se chocar com a técnica que, do ponto de vista estritamente biomédico, em cada momento, é considerada correcta. Com efeito, os doentes e as suas famílias têm modelos explicativos, por muito incipientes que sejam, ou por muito errados que estejam, para explicar o que se está a passar. Estes modelos, segundo Kleinman (1979) expressam (a) a sua compreensão popular da causa, natureza e decorrer do problema, (b) a avaliação que fazem do seu significado e (c) os objectivos do tratamento. Visando propósitos heurísticos, Kleinman propõe a seguinte lista de problemas relacionados com o sentimento de doença: 139 1) problemas relacionados com as diferentes influências psicossociais e culturais nos padrões de sintomas e no decorrer da doença, em cada grupo (e.g., respostas de coping desadaptadas); 2) problemas relacionados com as crenças e valores que o doente e da sua família têm acerca das caudas, da natureza e do significado da doença; 3) problemas relacionados com a disfunção familiar, que, tanto pode preceder como seguir o episódio de doença; 4) problemas relacionados com grandes e usuais mudanças persistentes que antecedem a doença no papel e estatuto social; 5) problemas relacionados com conflitos relacionados com a rotulagem de episódios da doença (aguda, crónica, contagiosa, psiquiátrica, etc.); 6) problemas relacionados com a pressão financeira devido a não poder trabalhar e ao custo do tratamento; 7) problemas relacionados com as escolhas que têm de ser feitas entre as diferentes instituições que podem fornecer o melhor tratamento; 8) problemas relacionados com mal entendidos entre o doente e os profissionais de saúde; 9) problemas relacionados com a avaliação do tratamento realizado e da qualidade do serviço, entre o doente e os profissionais de saúde. A estratégia de apoio ao mal-estar ou ao sofrimento deve visar os modelos explicativos do doente e seus familiares, de modo a minimizar o mal-estar decorrente da doença. Kleinman (1979) propõe que os profissionais de saúde incluam três tipos de questões na entrevista clínica: 1) questões acerca da compreensão que o doente e as suas famílias têm da sua doença (nome, etiologia, anormalidade fisiológica e decorrer); 2) questões acerca da perspectiva do doente acerca do significado da doença; 3) questões acerca das expectativas do doente acerca da doença. A intervenção que se deve realizar sobre a dimensão biofisiológica da doença é fundamental e é função do médico e das pessoas que o apoiam no tratamento. Enquanto elemento da equipa terapêutica o psicólogo deve estes aspectos da experiência da doença. Ainda segundo Kleinman (1979) uma lista não exaustiva envolve os seguintes aspectos: 1) recolha sistemática e compreensão dos problemas associados ao sentir-se doente; 140 2) fazer o doente (e família) gerar modelos explicativos para episódios particulares da doença; 3) explicar cuidadosamente, sem recorrer a uma linguagem técnica hermética, o modelo explicativo do médico; 4) comparar os modelos explicativos do doente e do médico e proceder a uma negociação entre esses modelos, incluindo, quando necessário, a negociação com a família ou outros membros da equipa; 5) abordar a família e a rede social, indo desde a avaliação do seu estado e do seu funcionamento, até ao envio para acompanhamento psicológico. Se necessário o desenho de apoio psicológico ou psicoterapia deve envolver a totalidade da família; 6) fornecer apoio, com recurso a especialistas, em aspectos referentes a emprego, educação e aos recursos sociais existentes; 7) resolução de conflitos de etiquetagem entre os doentes e outros não técnicos e o pessoal técnico sobre se há legitimidade para se ter, ou não, o papel de doente e qual o rótulo de doença adequado; 8) envio para ajuda por especialistas, de prováveis problemas económicos; 9) educação sobre como manter um bom estado de saúde e de cuidados de saúde, incluindo o uso adequado dos recursos de cuidados de saúde existentes; 10) monitorizar as falhas da participação do doente no tratamento, assim como a insatisfação com os cuidados de saúde subjacentes a esses problemas; 11) recorrer ao fornecimento de cuidados, de psicoterapia breve, de alteração do comportamento, ou treino social visando a alteração de comportamentos de doença crónicos, ou do uso ou abuso do papel de doente. Não visa somente a detecção, ajuda e alteração de personalidades desadaptadas à doença, mas também apoio e instrução acerca de estratégias de coping adequadas para viver com a sua doença. Estas estratégias abrangem a obtenção de informação adequada, auto-gestão da ansiedade e dos sentimentos de ameaça ou de perda quando estes acompanham a doença, uso rotineiro de mecanismos de defesa psicológicos adaptativos, uso apropriado dos recursos familiares e sociais, etc.; 12) fazer uma avaliação cuidadosa e uso selectivo das práticas e crenças locais acerca da doença, principalmente quando elas podem ter um papel adaptativo para o doente e sua família. 141 Doenças de mau prognóstico Como já foi referido a expressão “mau prognóstico” pode abranger situações muito variadas que vão da expectativa de morte mais ou menos a longo prazo, a expectativas de vida em que muitos desejariam morrer. Tem-se discutido a situação de muitos doentes em situações várias, de tetraplégicos a miopatias, de cancro a outras variadas doenças de mau prognóstico mas que não são terminais, que reivindicam o direito à escolha da morte e do apoio à sua decisão de morrer. As reacções da comunidade científica (das várias ciências) e da comunidade em geral, a este tipo de reivindicações, têm sido fortes, suscitando grandes discussões. Alguns países têm facilitado a solução de apoio à morte do doente, embora o mais comum seja a negação desse direito. Outras doenças ou acidentes menos limitativas que as referidas anteriormente podem ser consideradas, igualmente, de mau prognóstico, na medida em que a sua resolução total é impossível. É o caso, por exemplo do desfiguramento, definido como uma malformação visível da face, cabeça, mãos, pernas, que seja consequência de condições físicas (Bradbury, 1996). Tanto pode ser o caso de uma doença vascularou diabetes que imponha amputação de parte da perna, acidentes, queimaduras, ou mal formações genéticas. O apoio psicológico aos doentes com doenças de mau prognóstico pode ser determinante na decisão de escolher viver ou morrer em paz, embora esta última escolha coloque questões éticas para as quais não há resposta. O apoio psicológico segue os mesmos princípios do que é dado aos doentes crónicos em geral. O caso Ramon Sampedro Este caso abrangendo um Galego tem, pelos laços culturais, religiosos, proximidade geográfica e de valores etc., mais impacto do que o de outro caso distante. Ramon, em 1968, num mergulho recreativo para o mar sofreu fractura na sétima vértebra cervical. Tal acidente deixa-o tetraplégico, na total dependência de terceiros para os aspectos mais elementares da vida do dia- a-dia. 142 Lutador e habilidoso, desenvolve a possibilidade de escrever utilizando a boca, com a qual, aliás, fazia tudo o que lhe era possível fazer (ligar a televisão, atender o telefone). Escreve um livro intitulado “Cartas desde el infierno” onde descrevia a sua experiência de tetraplégico. Desde 1993 travou uma batalha legal para que fosse ajudado a morrer. “Reclamo o direito pessoal para decidir sobre a minha vida; o que solicito aos juízes é que decidam em consciência se uma pessoa é dona e senhora da sua vida ou se vive em função do que os outros dizem.” Assim começava a sua petição para ter direito a uma morte digna. Afirmava, sobre o seu estado, que certas formas de vida são, ou parecem, piores do que a morte. “Há coisa mais absurda que ouvir um cadáver falar apaixonadamente como um humano, se não pode sentir nem o calor nem o frio, nem o prazer, nem a dor ou o pranto?” Ramon morreu. Suicidou-se através da ingestão de um líquido que continha cianeto. Líquido que alguém preparou e colocou ao seu alcance. A sua morte foi cuidadosamente preparada por ele. Morreu mas a discussão continua. A associação catalã “Direito a Morrer Dignamente” tem fornecido apoio jurídico a este caso, na medida em que a petição de Ramon foi avaliada como sendo feita por uma pessoa com boas condições mentais que sofria de uma doença irreversível. A discussão sobre este assunto tem-se desenvolvido em quase todos os países desenvolvidos e coloca questões éticas importantes, nomeadamente para a psicologia. Doenças Terminais Levy (1990) apresenta uma definição de doença terminal como um estado de doença caracterizado por deterioração irreversível, com incapacidade funcional e tempo limitado de vida. Ou seja, as doenças terminais são doenças que atingiram um estado em que o doente já não pode recuperar, em que os tratamentos convencionais já não resultam e os sistemas biológicos determinantes da vida começam a entrar em falência. A situação terminal é complexa do ponto de vista ética e biológica, com consequências stressantes para todos os protagonistas, com os doentes e suas famílias a sentirem sentimentos contraditórios acerca do que está a ocorrer. 143 Weisman (1986) propõe três conceitos que devem ser tomados em consideração na intervenção psicológica com doentes terminais, a saber: (a) conduta segura; (b) luto antecipatório; (c) morte apropriada. – Conduta segura – refere-se ao fornecimento de cuidados adequados nomeadamente cuidados paliativos para com o sofrimento em geral. – Luto antecipatório – visa ajudar os familiares para a perda eminente. – Morte apropriada – refere-se à morte que é temporalmente adequada, desejada e desejável. Inclui o alívio da dor e depois disso, o suporte psicossocial de modo a aliviar o sofrimento dos que estão envolvidos. Segundo Geyman (1983) os doentes que vão morrer têm, no mínimo, quatro requisitos: (a) independência, tanta quanto possível, (b) dignidade, (c) aceitação pelos outros e (d) alívio dos sintomas (dor, náusea, deficiências nutricionais, insónia, problemas de eliminação). As pessoas querem saber se vão morrer? Wilson (1995) refere investigações que evidenciam que entre 70 e 90% dos doentes desejam ser informados se vão morrer, mas que 60 a 90% dos médicos questionam se o devem fazer. A mesma autora refere que cerca de 80% sabem que vão morrer (mesmo que tal não lhes tenha sido comunicado) e desejam falar sobre isso. Sobre outra investigação, Wilson refere que 47% de um grupo de doentes com cancro entrevistados cerca de um ano antes de morrer tinham consciência de que não recuperariam da sua doença. De salientar que a investigação diferencia entre fornecer essa informação ao doente e o modo como a informação é dada, sendo este último aspecto determinante para o bem-estar do doente. No entanto, embora os doentes difiram quanto aos detalhes que querem conhecer sobre o seu estado e quanto ao grau em que desejam participar na decisão acerca do tratamento, eles desejam saber (Laine & Davidoff, 1996). Os níveis de consciência acerca da proximidade da morte varia consoante a capacidade do doente para aceitar ou negar a morte, dependendo das circunstâncias da doença e da personalidade. Os doentes nesta situação estão numa situação ambivalente, tanto aceitando a sua morte como negando-a. Dado que a disfunção do sistema cárdio-pulmonar, normalmente, antecede morte, quase todas as pessoas que estão a morrer são passíveis de ser submetidas a ressuscitação cárdio-pulmonar (RCP). Segundo Levy (1990), este procedimento é muito agressivo, invasivo, brutal com consequências 144 iatrogénicas adicionais graves e coloca problemas éticos à equipa médica. Entre eles está a não autorização expressa do doente. Dado que o doente que necessita de RCP está numa situação de emergência médica e ocorre subitamente, não há, normalmente, oportunidade de solicitar autorização para a intervenção. Segundo Bedell, Delbanco, Cook e Epstein (1983) somente 14% dos doentes que receberam RCP no período de um ano sobreviveram para abandonar o hospital. Destes, somente 19% discutiram o procedimento com o seu médico e, somente em 33% dos casos, a família foi consultada acerca do procedimento. Bedell e Delbanco (1984) entrevistaram 24 doentes que tinham sido submetidos a RCP e que estavam na plena posse das suas faculdades mentais, questionando-os acerca das suas opiniões e atitudes acerca da RCP e comparando-as com as que os seus médicos achavam que eram as suas atitudes. A correlação entre a opinião dos doentes a que os seus médicos achavam que eles tinham era baixa. Reacção psicológica à própria morte Embora muitos modelos tenham sido propostos, um dos mais conhecidos é o de Kubler-Ross (1970). Identifica um padrão de resposta emocional que passa por choque e estupefacção, passando de seguida para um estádio de negação da situação e de sensação de isolamento, passando depois a exibir zanga acerca do que se está a passar. Após estes estádios tentará negociar o modo como pode alcançar determinados objectivos antes de morrer. Este processo termina por uma aceitação embora nos primeiros estádios se mantenha a esperança de que não morrerá. Embora este modelo seja aceite em termos genéricos, reconhece-se que há muitas variantes dependendo de inúmeros factores. A investigação mostra que as reacções psicológicas mais típicas à morte próxima, é de ansiedade e depressão (Wilson, 1995). Muitas destas reacções têm a ver não com a doença propriamente dita mas com aspectos situacionais tais como a manutenção da família e outros aspectos da vida diária. Os doentes terminais e os profissionais de saúde Segundo Wilson (1995), a aceitação da morte do doente é um processo difícil para os profissionais de saúde que cuidam desses doentes. Com efeito, na nossa cultura tecnológica a morte no sistema de cuidados de 145 saúde é vista como um fracasso do sistema. Os profissionais encontram dificuldadeem falar do problema com os doentes terminais e frequentemente prescrevem anti depressivos e tranquilizantes como maneira de coping com as reacções emocionais à proximidade da morte. No entanto os profissionais de saúde têm vindo a alterar a sua concepção acerca da informação que deve ser dada aos doentes. Por exemplo, segundo Laine e Davidoff (1996), enquanto em 1961, um estudo de Oken (1961) mostrava que 90% dos médicos preferiam não dizer aos doentes com cancro o seu diagnóstico, em 1979 Novak, Plumer, Smith, Ochtill, Morrow e Bennet, verificam que 97% dos médicos preferiam dar a informação sobre o cancro aos doentes. Um estudo de Miyaji de 1993 mostra que estes últimos valores se mantêm. O argumento actual é que a informação capacita o doente para participar na decisão médica, o que é fundamental numa época de reconhecimento do direito da crescente participação dos doentes nas decisões que lhe dizem respeito, numa medicina-centrada-no-doente. Numa época em que a medicina era centrada no médico, este diria ao doente que tinha um nódulo e teria de proceder à sua avaliação. Depois da avaliação e biópsia poderia referir que o nódulo era um tumor ou um quisto. Seria submetida a mastectomia para a qual não teria dado consentimento formal, continuando o médico a evitar utilizar a palavra “cancro”. Numa época de medicina-centrada-no-doente a responsabilidade profissional dita que o médico informe a doente do diagnóstico verdadeiro. A doente poderá questionar acerca da terapia pós-cirurgia e das opções sobre o tratamento e poderá assinar o consentimento informado detalhado acerca do tratamento escolhido. O sucesso do tratamento poderá ser avaliado poderá ser medido em unidades de estado funcional, de qualidade de vida ou de anos de sobrevivência (Laine & Davidoff, 1996). Segundo estes autores, os cuidados-centrados-no-doente são um ideal desejável para a medicina que deve ser preservado apesar de mudanças rápidas e dos, por vezes, inóspitos ambientes. Cuidados paliativos e apoio a doentes terminais O Ministério da Saúde (MS, 1997) define cuidados paliativos como os cuidados que se prestam ao enfermo com doenças crónicas avançadas e progressivas, que já não respondem aos tratamentos curativos, com o objectivo de obter a melhor qualidade de vida possível. Pretende-se atender não apenas aos aspectos físicos da doença, mas também aos sociais, 146 psicológicos e espirituais. A família, como parte intimamente envolvida no problema, é também objecto de atenção, mesmo depois da morte do enfermo, se necessário. Numa recente entrevista publicada no Tempo Medicina de 19 de Dezembro de 1994, o entrevistado definia como objectivos dos cuidados paliativos “aliviar as dores aos doentes em fase terminal e proporcionar-lhes qualidade de vida nos seus últimos dias” (p. 11). Referia ainda, que os cuidados paliativos obedeciam aos seguintes princípios: “em primeiro lugar, tratam-se os sintomas, ou seja: controla-se a dor, a náusea, a insuficiência respiratória, a obstipação e os problemas urinários; mas estes cuidados também envolvem o tratamento do medo, da depressão, da ansiedade, da confusão. O segundo princípio é uma boa comunicação. Isto pressupõe saber escutar o que o doente e a sua família querem dizer, ouvir as suas ansiedades e medos e ser capaz de lhes dar atenção e, talvez, uma resposta a algumas destas questões. O princípio seguinte é o dos cuidados a prestar a familiares, porque são precisamente as suas angústias que causam a maior parte das ansiedades sentidas pelos nossos doentes terminais” (p. 11) (itálico acrescentado). Stollerman (1997), a partir da sua experiência no apoio a doentes terminais, propõe um modelo de alívio do sofrimento que denomina PAINED, acrónimo formado a partir das iniciais dos seguintes termos em inglês: pain (dor), anguish (angústia), impotence (impotência), negativisme (negativismo), embarassement (embaraço), disconforts (desconforto). – Dor – É a primeira dimensão do modelo a espelhar a sua importância. A percepção e expressão individual da dor é muito variável. Dar atenção a esta variável, nomeadamente a localização, intensidade, irradiação, características, etc. é fundamental para reduzir o sofrimento do doente terminal. Num estudo referido por este autor, segundo os doentes em sofrimento, 62% da dor foi mal avaliada e em 42% dos casos a medicação para a dor foi inadequada. – Angústia – Segundo este médico a expressão “angústia” propõe-se abranger medo, ansiedade e preocupação. Estas reacções aumentam a dor e o sofrimento. – Impotência – Expressa o sofrimento provocado pela perda de independência, do controlo, devido à perda de capacidades motoras, sensoriais, ou cognitivas em função da doença. – Negativismo – A perda de esperança configura uma das manifestações mais profundas do sofrimento. A reacção dos profissionais de saúde tem de ser cuidadosa. Tanto o falso optimismo como o pessimismo são susceptíveis de provocar reacções hostis aos doentes. Daí que o psicólogo 147 deva dar particular atenção ao modo de abordar estas situação. O apoio deve focar os familiares e outros próximos que são fundamentais no apoio aos doentes e que necessitam, eles próprios, de apoio. – Embaraço – O apoio dado aos doentes nesta situação são susceptíveis de aumentar a despersonalização e de reduzir o controlo, a independência, a individualidade, de ameaçar, enfim, o que pode restar da percepção de dignidade por parte do doente. – Desconforto – As consequências da doença na vertente biológica, são muito importantes. Uma das mais desagradáveis é a dispneia, mas outras são também importantes tais como a dor, a tosse, as náuseas, vómitos, prurido, insónia e outros sintomas incontroláveis. Psicoterapia com doentes terminais A psicoterapia com este tipo de doentes visa ajudar o doente e seus próximos a mobilizar o seu potencial para desenvolverem estratégias de adaptação adequadas à situação. Segundo Stedeford (1979) define reacção adaptativa como aquela que traz alívio ou diminui o sofrimento ao doente, às suas famílias, ao pessoal da equipa médica que com ele trabalha e a outros próximos. Para este autor o objectivo básico da terapia visa estabelecer uma boa relação com o doente. A abordagem do doente implica, da parte do terapeuta, uma perspectiva aberta, respeito e reconhecimento que o doente está mais consciente das suas necessidades, forças e fraquezas do que o terapeuta. Os mecanismos de defesa são elementos de coping importantes para o doente e não devem ser ameaçados se tiveram uma função adaptativa. Stedeford (1979) refere que a negação psicológica ou negação desatenta como um mecanismo manifesta-se no doente que ouviu o diagnóstico e prognóstico sobre o seu estado mas, simultaneamente, não absorveu os factos. O doente continua a fazer perguntas a todos até que alguém lhe dê uma resposta sobre o seu estado que possa aceitar. Este mecanismo permite ao doente absorver gradualmente o impacto do que ouviu. No entanto este mecanismo pode pôr em causa um apoio psicológico adequado. Filosofia do apoio a doentes terminais Saunders (1986) apresenta os seguintes componentes que devem ser considerados no apoio a doentes terminais: 148 1) maximizar o potencial – o doente deve estar apto a viver no máximo das suas capacidades até morrer, fazendo as coisas nos limites das sua capacidades mentais e físicas; 2) lugar de escolha – os doentes deverão poder morrer no lugar mais apropriado para elas e suas famílias e se possível poderem escolher esses lugares; 3) o doente e a sua família são a unidade a focar no apoio ao doente terminal; 4) deve haver a oportunidade de continuar o apoio à família após o falecimento do doente; 5) os sintomas mais desagradáveis da doença (tal como a dor)devem ser controlados para que o doente e sua família possam viver os últimos momentos com o mínimo de stress possível, 6) uma equipa clínica para actuar com doentes terminais deve ser particularmente competente nestas funções: deve ser uma equipa multidisciplinar e deve estar disponível para o acompanhamento pluridisciplinar continuado; 7) deve existir uma equipa de apoio de enfermagem disponível para acompanhar o doente nos seus pedidos; 8) uma equipa inter-profissional – o envolvimento de cada um com o doente terminal não deve ser total ao ponto de afectar os membros da equipa. Uma equipa destas pode ser tão ampla que inclua desde os porteiros do hospital aos elementos da limpeza e voluntários devidamente treinados; 9) Em função das circunstâncias e possibilidades deverão ser desenvolvidos programas para apoio domiciliário; 10) a experiência clínica nesta situações deve ser registada, divulgada e aproveitada para a formação das pessoas; 11) os alunos que se estão a formar em áreas susceptíveis de trabalhar com doentes terminais exigem cada vez mais formação nesta área. Devem ser valorizados esses desejos de formação que normalmente são pouco considerados nos currículos. 149 PARTE III – PSICOLOGIA E DOENÇAS Psicologia da saúde e índices sanitários Os indicadores sanitários são referências geralmente apresentadas nas estatísticas como indicadores do “estado da saúde” de um país. O relatório do Departamento de Estudos e Planeamento da Saúde (DEPS) editado em 19954 apresenta as seguintes categorias de indicadores: doenças de notificação obrigatória, tuberculose, SIDA, tumores, morbilidade hospitalar, doenças profissionais, incapacidades para o trabalho, acidentes de viação, acidentes de trabalho, acidentes domésticos e de lazer, intoxicações, droga, cobertura vacinal, indicadores sanitários, óbitos materno-infantis, óbitos de menos de 5 anos, mortalidade infantil, principais causas de morte, taxas de mortalidade. A leitura destes indicadores apresenta, não o estado da saúde tal como esta é definida, mas sim o estado das doenças. Quanto muito fornece uma imagem da eficácia do sistema de cuidados de saúde na sua acção contra as doenças. A leitura destes indicadores fornece pistas para a compreensão do papel que o psicólogo pode ter no Campo da Saúde. Neste capítulo discutir-se-ão alguns destes indicadores, nomeadamente os que por estarem mais ligados à dimensão comportamental poderão ser mais importantes para a acção do psicólogo. Indicadores clássicos do estado de saúde Um dos indicadores mais utilizados como índice sanitário que expressa a eficácia do sistema de saúde é a taxa de mortalidade infantil. Esta engloba a 4 O relatório do Departamento de Estudos e Planeamento da Saúde que é referido é o último editado pelo Ministério da Saúde. Há estatísticas mais actualizadas produzidas pelo Instituto Nacional de Estatística que não foram consultadas, por um lado por estarem em estado bruto e, por outro por se considerar que estas estatísticas apresentadas pelo Ministério da Saúde não sofreram alterações radicais nos últimos anos e satisfazem o objectivo deste trabalho que é o de fornecer uma imagem aproximada do Sistema de Saúde português. 150 taxa de mortalidade neonatal e a taxa de mortalidade perinatal. A definição destas taxas é a seguinte: – taxa de mortalidade infantil refere-se ao número de óbitos de crianças de menos de um ano, por cada mil nados-vivos no decurso de um dado período (um ano em geral); – taxa de mortalidade neonatal refere-se ao número de óbitos das crianças falecidas com menos de 28 dias, por cada mil nados-vivos; – taxa de mortalidade perinatal refere-se ao número de fetos mortos com 28 e mais semanas de gestação e com menos de 7 dias, por cada mil nados-vivos e fetos mortos de 28 e mais semanas. A Tabela 1 permite uma comparação entre estas taxas para os países europeus (DEPS, 1995). A leitura mostra que Portugal alcançou taxas de mortalidade infantil ao nível dos países europeus. Embora continue a ser o país com maior taxa de mortalidade infantil, esses valores já são melhores do que os da Itália para a taxa de mortalidade neonatal e só se afastam dos valores dos países nórdicos. Dado que as taxas são baixas, a análise desta tabela é um indicador pouco sensível ao estado de saúde do sistema de saúde. Outra taxa, complementar à anterior é a esperança de vida à nascença. Estes valores reflectem a taxa de mortalidade infantil e as taxas de mortalidade para todos os grupos etários e, por isso, não será de estranhar que quando aquela diminui a expectativa de vida aumente. O relatório da DEPS (1995) apresenta os seguintes valores apresentados na Tabela 2 para os mesmos países referenciados antes. Esta tabela apresenta o mesmo panorama que a anterior. Portugal é o país com menor esperança de vida para os homens e o segundo menor para as mulheres. Segundo o documento a saúde dos portugueses (MS, 1997), nos anos seguintes aos anos a que se reportam estas estatísticas, a mortalidade infantil continuou a decrescer e a esperança de vida a aumentar. Como o mesmo padrão se verificou para todos os países considerados, as posições relativas mantêm-se. 151 TABELA 1 Taxas de mortalidade infantil, neonatal e perinatal nos países que constituíam a união europeia, em 1992 (%0) Países Taxa de mortalidade infantil Taxa de mortalidade neonatal Taxa de mortalidade perinatal Portugal 9,3 6,0 11,90 Alemanha 6,2 3,4 5,8 Bélgica 8,2 4,2 9,1 Dinamarca 6,6 4,1 8,1 Espanha 7,2 4,6 7,2 França 6,8 3,5 8,2 Grécia 8,4 5,7 10,00 Holanda 6,3 4,4 9,1 Irlanda 6,7 5,4 9,9 Itália 8,3 6,2 10,40 Luxemburgo 8,5 4,1 7,7 Reino Unido 6,6 4,3 8,1 TABELA 2 Esperança de vida à nascença nos países que constituíam a união europeia, em 1992, segundo a DEPS (1995) Países Homens Mulheres Portugal 70,7 78,1 Alemanha 72,6 79,1 Bélgica 73,1 79,8 Dinamarca 72,6 77,9 Espanha *73,3* *80,5* França 73,2 81,5 Grécia 74,6 79,8 Holanda 74,3 80,3 Irlanda 72,6 78,2 Itália *73,6* *80,3* Luxemburgo 71,9 78,5 Reino Unido 73,6 79,0 Nota. *taxas relativas a 1991. 152 Mortalidade em Portugal Outro dos indicadores que fornece uma imagem do sistema de saúde é o que expressa as causas de mortalidade. A Tabela 3 apresenta as principais causas de morte em Portugal em 1993, agrupadas segundo a lista básica CID-9 (DEPS, 1995). Nas primeiras três colunas podemos identificar a magnitude das principais causas de morte ocorridas em Portugal no ano referido. Nestas colunas verificamos que as doenças cerebrovasculares são as principais causas de morte (23,3%) a uma distância substancial da segunda causa, os tumores (18,2%). Esta segunda causa, por sua vez, aparece próxima da terceira causa de morte, as doenças do coração (17,4%). Estas três causas de morte representam 59% de todas as causas de morte. As doenças cerebrovasculares, as doenças do coração e a arteriosclerose, embora em termos do ICD pertençam a categorias diferentes, expressam doenças do aparelho circulatório e representam quase 43% de todas as doenças. Como quarta causa de morte encontramos 11,4% de sintomas, sinais e afecções mal definidas, ou seja, causas de morte desconhecidas. Este valor elevado sugere alguma falta de controlo do sistema de saúde. Como quinta causa de morte, distante das 3 primeiras, 3,9%, de todas as causas, encontramos os acidentes. Se inspeccionarmos a mortalidade sem o grupo de 65 e mais anos, verificamos que a contribuição para as principais causas de morte muda de uma forma importante. Com efeito a contribuição, em percentagem, para cada uma das causas de morte, dos indivíduos com 65 e mais anos éde: 91% para as doenças cerebrovasculares, 66% para os tumores malignos, 83% para as doenças do coração, 79% para os sintomas mal definidos, 30% para os acidentes, 85% para a diabetes, 86% para as doenças respiratórias, 41% para as doenças do fígado e hepáticas, 21% para os acidentes de trânsito com veículos a motor, 98% para a arteriosclerose, 37% para as doenças transmissíveis, 34% para os suicídios e homicídios, 3% para o SIDA e 1% para as infecções perinatais. Como se pode verificar, em cerca de metade destas causas de morte, os óbitos ocorrem, em 79% ou mais casos com 65 e mais anos. As doenças do aparelho circulatório são aquelas em que a contribuição deste grupo etário para a mortalidade é maior. Repare-se que as três principais causas de morte somam, para a totalidade dos grupos etários e para as 15 principais causas de morte, 62575 óbitos enquanto as restantes somam 36188 óbitos (o número total de óbitos em Portugal, em 1993, foi de 106384). 153 TABELA 3 Principais causas de morte, em Portugal em 1993, no total, por grupos de idade e por sexos Principais causas de morte por grupos etários e por sexo <1 ano 1-4 anos 5-14 anos 15-34 anos 35-49 anos 50-64 anos >=65 anos Total H M H M H M H M H M H M H M H M Doença cerebrovasculares 24749 11062 13687 8 2 1 0 2 0 45 28 195 108 1138 668 9673 12881 Tumores malignos 19311 11031 8280 4 3 11 8 38 30 185 161 680 669 2906 1848 7207 5561 Doenças do coração 18515 9404 9111 1 4 4 3 5 3 95 29 418 154 1680 706 7201 8212 Sintomas sinais e afecções mal definidas 12168 5853 6315 46 37 26 20 42 27 498 127 426 148 851 330 3964 5626 Acidentes 4106 2998 1108 21 14 55 44 82 39 1122 190 487 125 517 160 714 536 Diabetes 3316 1320 1996 0 0 1 0 0 0 12 8 36 12 209 217 1062 1759 Pneumonia e gripe 3179 1630 1549 15 10 9 5 10 10 40 16 76 19 176 73 1304 1416 Bronquite crónica, enfisema e outras doenças pulmonares crónicas obstrutivas 2805 1869 936 2 1 0 2 0 0 15 7 33 16 251 75 1568 835 Doença crónica do fígado e cirrose hepática 2742 1990 752 1 0 0 0 2 0 53 38 329 133 790 272 815 309 Acidentes de trânsito de veículo a motor 2429 1883 546 7 0 19 20 58 31 844 145 300 89 298 99 357 162 Aterosclerose 2215 904 1311 9 0 0 0 0 0 0 o 3 0 28 10 873 1301 Doenças transmissíveis 1466 1048 418 31 19 13 14 8 4 246 57 210 48 201 68 340 208 Suicídios e homicídios 929 684 245 2 3 0 0 3 2 148 59 145 49 160 44 226 88 SIDA 441 376 65 0 0 2 1 2 1 184 38 132 20 46 3 10 2 Afecções perinatais 392 230 162 230 159 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 3 154 Para a mortalidade que ocorre acima dos 65 anos (as referidas no penúltimo parágrafo) as mulheres estão em maior número. A magnitude da mortalidade, neste grupo etário, é inversa ao das restantes idades e ao da mortalidade total. Com efeito, se analisarmos o número total de mortes (colunas 2 e 3) verifica-se que, para as 15 principais causas de morte, os homens têm mais óbitos do que as mulheres (52282 versus 46481). Verifica-se então, que é no grupo etário de 65 e mais anos que ocorrem a maior parte dos óbitos. Lalonde (1974) no livro branco sobre a saúde dos Canadianos, já alertara para que, a contribuição do grupo etário mais idoso para o total das mortes diminuía a possibilidade das taxas “mortalidade” indicarem o estado sanitário de uma nação. Ou seja se as pessoas morrem numa idade em que é normal morrer-se, então estas mortes não representam potencial incapacidade do sistema na prestação de cuidados de saúde. Tem-se, então, de procurar outros indicadores da saúde. Inspeccionando as causas de morte dos grupos abaixo dos 65 anos verifica- se que as doenças do aparelho circulatório já não são tão importantes como causa de morte. Constata-se que, em geral, a taxa de mortalidade dos homens é maior do que a das mulheres em todas as idades chegando a alcançar, no caso dos acidentes, no grupo etário 15-34 anos sete a oito vezes o valor da destas. Uma imagem importante que a análise dos óbitos dos indivíduos com menos de 65 anos nos fornece é a que a principal causa de mortalidade para os três grupos etários entre os 1 e 34 anos são os acidentes (que será discutida em pormenor noutra secção deste trabalho). Análise comparativa entre países Analisando com detalhe dados comparativos das principais causas de morte nos países da Europa apresentados na Tabela 4, verifica-se que as principais causas de morte tendem a ser semelhantes, ou seja, em primeiro lugar surgem, sempre, as doenças do aparelho circulatório e em segundo lugar os tumores malignos, com os acidentes motorizados a ocuparem um dos lugares seguintes. 155 TABELA 4 Comparação de taxas de mortalidade padronizadas para todas as idades entre países europeus (%000) Países Todas causas Tumores malignos Tumor maligno traqueia, brônquios e pulmão Tumor maligno da mama Doenças do aparelho circulatório Doença isquémica do coração Doenças cerebro- vasculares Acidentes de trânsito de veículo com motor Portugal 888,8 166,0 20,5 26,6 373,0 080,2 199,3 26,5 Alemanha 825,8 202,2 35,6 31,8 385,5 157,5 090,6 12,9 Bélgica 823,9 220,7 52,7 37,9 298,2 090,5 072,3 17,4 Dinamarca 853,8 229,8 51,1 40,6 340,7 190,3 072,0 10,2 Espanha 729,4 177,2 33,4 24,3 284,6 75 089,3 18,5 França 678,5 200,4 34,9 28,1 203,7 061,1 054,6 15,7 Grécia 724,6 158,7 39,3 20,6 359,1 091,1 132,7 20,8 Holanda 728,9 212,8 52,0 38,5 280,0 118,2 067,6 07,9 Irlanda 904,1 218,1 44,1 39,3 405,6 229,1 082,4 11,9 Itália 736,7 204,1 42,7 29,4 302,7 094,2 091,6 14,4 Luxemburgo 805,4 216,1 47,0 25,0 333,1 104,0 105,4 17,9 Reino Unido 793,7 218,9 52,6 39,5 348,8 206,5 085,9 07,5 Portugal apresenta uma das taxas de mortalidade mais elevadas por doenças do aparelho circulatório. No entanto Portugal tem algumas idiossincrasias que vale a pena notar. Nas doenças do aparelho circulatório e para os países desenvolvidos, verifica-se que as doenças do coração contribuem mais para a mortalidade do que as doenças cerebrovasculares, sendo Portugal, Grécia, Espanha e Luxemburgo, uma excepção, embora este último país apresente uma taxa muito semelhante para as duas causas de morte. A diferença entre as duas causas é enorme para Portugal. Portugal tem uma baixa incidência de mortalidade por doenças cardiovasculares e nesse aspecto acompanha todos os países mediterrânicos parecendo ser um padrão típico destes países. Quanto às doenças cerebrovasculares Portugal 156 distancia-se sobremaneira, com uma taxa que é mais do dobro de todos os outros países, com excepção da Grécia. Portugal apresenta também a maior taxa de mortalidade por acidentes motorizados com valores de cerca do dobro da maioria dos restantes países europeus. Para os tumores malignos Portugal tem uma taxa comparativamente mais baixa do que os restantes países, com excepção da Grécia. As epidemias em Portugal Perante as tabelas apresentadas podemos afirmar que as grandes epidemias, em Portugal, apresentam um padrão semelhante às dos restantes países europeus e a investigação epidemiológica mostra que, a maioria das causas de morte, têm uma componente comportamental elevada. Configurando estas doenças uma verdadeira epidemia, pode-se fazer uma destrinça subtil entre elas com base no impacto social que têm. Com efeito, com base na análise da penúltima tabela é possível verificar dois tipos diferentes de epidemias: uma com base nos valores de mortalidade absolutos e outra com base no impacto nas idades mais novas, ou seja, com base nos potenciais anos de vida perdidos. Com efeito, a primeira causa de morte – acidentes vasculares cerebrais – ocorre em 91% dos casos acima dos 65 anos, ou seja numa idade em que é normal as pessoas falecerem. A minimizaçãodestas doenças acrescentaria pouco à esperança de vida das pessoas. A segunda causa de morte – tumores malignos – é a principal causa de morte nos grupos etários 35-49 anos e 50-64 anos. Ocorrendo em grupos etários em que as pessoas estão longe da idade limitada pela esperança de vida à nascença, tem uma magnitude de perda de anos de vida potenciais maior do que as doenças cerebrovasculares. No mesmo tipo de análise os acidentes, a quinta causa de morte, são uma verdadeira epidemia para os grupos etários entre os 4 e 34 anos, podendo também, com base nos potencias anos de vida perdidos, considerar-se uma importante epidemia com grandes implicações sociais e económicas. Uma intervenção que diminua a incidência das doenças que vitimam as idades mais novas tem maior impacto no aumento da esperança de vida. Finalmente, o SIDA é uma doença que continua a crescer como causa de morte sendo a quinta causa no grupo etário 15-34 anos (depois de se retirar as mortes por causa mal definida). O grande perigo potencial desta doença é que, enquanto as outras estão relativamente estabilizadas e a tendência 157 seja para que a sua contribuição para a mortalidade diminua ou, pelo menos, se mantenha, no caso do SIDA não é possível fazer previsões fiáveis e o panorama é mesmo ameaçador. A componente comportamental subjacente a estas doenças abrange, quer os comportamentos de saúde como evitar fumar, dieta ou não tomar medicamentos sem controlo médico, como os comportamentos de adesão ao controlo das doenças como, por exemplo, da hipertensão, do abaixamento do colesterol, do controlo da obesidade, ou do controlo da diabetes. A investigação epidemiológica tem salientado que as causas de mortalidade são dominantemente comportamentais. Mattarazzo (1980, 1982, 1984) realizou uma análise sobre estes tipo de dados e apresentando-os de uma forma que se tornou clássica e que tem sido reproduzida por investigadores que se interessam pela interface entre comportamento saúde e doenças. Mattarazzo (1984) refere que, segundo os estudos epidemiológicos, os principais factores de risco (por ordem de importância) para as doenças modernas são os apresentados na Tabela 5. TABELA 5 Comparação de taxas de mortalidade padronizadas para todas as idades entre países europeus (%000) Causa de morte Factores de risco Doenças cerebrovasculares hipertensão, fumar, colesterol elevado, stress Tumores malignos fumar, carcinogéneos do local de trabalho, carcinogéneos ambientais, álcool, dieta Doenças cardiovasculares fumar, hipertensão, colesterol elevado, dieta, falta de exercício, diabetes, stress Acidentes (excluindo os provocados por veículos motorizados) álcool, consumo de medicamentos e drogas, incêndios provocados por fogo relacionado com fumar, desenho do mobiliário, acesso a armas de fogo Pneumonia e gripe (influenza) fumar, estado de vacinação Acidentes com veículos motorizados álcool, falta de cinto de segurança, velocidade, concepção das estradas, concepção do veículo Diabetes obesidade Cirrose do fígado abuso do álcool Arteriosclerose colesterol elevado Suicídio stress, excesso de álcool, drogas e medicamentos, acesso a armas de fogo 158 Epidemiologia O uso específico do termo Epidemiologia surge na década de 1870, embora a The London Epidemiological Society tivesse sido formada em 1850 com o propósito específico de determinar as causas de e os métodos de prevenir a cólera e outras doenças epidémicas (Lilienfeld, 1978). Genericamente a epidemiologia é o ramo da ciência médica que lida com as epidemias (Lilienfeld, 1978). Mais especificamente epidemiologia pode ser definida como o estudo da distribuição e factores determinantes das doenças e lesões nas populações humanas (Mausner & Kramer, 1984). Epidemia diferencia-se de endemia por esta se referir à presença constante de uma doença ou agente infeccioso dentro de uma dada área geográfica, ou a prevalência habitual de uma dada doença dentro de tal área. Epidemia qualifica a ocorrência numa comunidade ou região de um grupo de afecções da mesma natureza, nitidamente em excesso do que seria normal esperar (Mausner & Kramer, 1984). Conforme explicam Mausner e Kramer (1984), em epidemiologia as taxas são uma ferramenta fundamental, mas também se usam as razões e as proporções. Uma razão exprime a relação entre dois números sob a forma de x:y ou x/y vezes k. Por exemplo, a razão entre o nascimento de rapazes e o nascimento de raparigas nos Estados Unidos da América em 1979 foi de 1791000 / 1703000 ou 1,052 para 1. Uma proporção consiste num tipo específico de razão, na qual o numerador está incluído no denominador e o resultado se expressa em percentagem. Na realidade, em epidemiologia, é corrente recorrer a unidades como 1000, 10000, 100000, ou outras, não se tratando nestes casos, de percentagens mas sim por milagem, etc. Por exemplo, continuando com os valores acima, a proporção de todos os nascimentos masculinos é: nascimentos masculinos = nascimentos masculinos + nascimentos femininos 179 x 104 = 51,3% (179 + 170) x 104 Uma taxa é uma forma especial de proporção que inclui a especificação do tempo e constitui a medida básica da ocorrência de doença. É uma medida 159 que exprime a probabilidade ou risco de doença numa população determinada e num espaço de tempo definido. As taxas determinam-se do seguinte modo: número de acontecimentos num dado espaço de tempo x k população em risco desse acontecimento durante esse espaço de tempo Por exemplo, a taxa de mortalidade por cancro nos Estados Unidos da América em 1980 foi de 186,3 por 100000 pessoas, tendo esta taxa sido calculada do seguinte modo: Mortes por cancro entre os residentes nos EUA em 1980 x 100000 População dos EUA em 1980 Duas taxas são fundamentais em epidemiologia: as taxas de incidência e as taxas de prevalência. As taxas de incidência medem a probabilidade das pessoas saudáveis adquirirem determinada doença num período de tempo dado. Ou seja, exprime o número de ocorrência de casos novos de determinada doença numa dada população durante um certo período de tempo. As taxas de prevalência exprimem o número de pessoas de uma população que, num determinado momento, têm certa doença. Portanto, a incidência diz-nos, a que taxa ocorrem novas doenças, num determinado grupo de indivíduos sãos, enquanto a prevalência mede a probabilidade das pessoas sofrerem de determinada doença num dado momento. Discussão sobre o conceito de epidemiologia Lilienfield (1978) discutindo acerca das definições de Epidemiologia considerava esta como um método de raciocinar acerca da doença utilizando inferências biológicas derivadas de observações do fenómeno da doença em grupos populacionais. Uma das características da epidemiologia no último século é o seu foco no estudo das doenças. Lilienfeld historia definições desde 1927 e, sempre, o foco de atenção consiste na doença. 160 Com as alterações já referidas quanto à mudança da atenção do Campo da Saúde – das doenças para a saúde – deparou-se com uma lacuna – a identificação das causas da saúde –. Se o foco da epidemiologia, era as causas e distribuição das doenças, ao passar-se a atenção das doenças para a saúde seria necessário, ou adaptar a definição ou criar outro termo. Um dos primeiros críticos deste tema foi Terris (1975), afirmandoexplicitamente que a definição corrente de epidemiologia não contempla a epidemiologia da saúde. Surgiram assim termos como Epidemiologia Comportamental (Heggenhougen & Shore, 1986; Kaplan, 1985; Kickbusch, 1986; Mason & Powel, 1985), Epidemiologia da Saúde (Terris, 1975) ou Epidemiologia Social (Syme, 1974). Por Epidemiologia Comportamental, Heggenhougen e Shore (1986) entendem “o estudo dos padrões de morbilidade e mortalidade que podem estar associados a determinados comportamentos em vários grupos” (p. 1235). Trata-se de uma definição que acompanha o sentido clássico de epidemiologia que, acrescenta o foco do estudo dos comportamentos associados às doenças. Mason e Powel (1985) explicam que o conceito abrange dois aspectos. Um é a relação epidemiológica entre comportamento e doença; o outro é o estudo epidemiológico do próprio comportamento. Estes últimos autores definem epidemiologia comportamental como “a identificação de comportamentos que estão causalmente ligados a doença” (p. 113). Pelo contrário, para Kaplan (1985) Epidemiologia Comportamental “descreve o estudo dos comportamentos individuais e dos hábitos relacionados com a manifestação de saúde” (p. 565). Esta definição já não cabe âmbito da definição tradicional de epidemiologia visto debruçar-se sobre a saúde e não sobre as doenças. Syme (1974) define Epidemiologia Social como “o estudo de como os factores sociais afectam a distribuição das doenças” (p. 1043). Esta definição continua dentro da tradição da epidemiologia (ou seja o estudo das doenças). A primeira evidência destas definições é a sua discordância. Para a mesma expressão os dois primeiros grupos de autores dizem coisas opostas. Se tomarmos em consideração o conceito tradicional de Epidemiologia está centrado na palavra “doença”. A discussão de Lilienfeld referida acima acrescenta um novo elemento que restringe o uso do termo epidemiologia ao estudo das “inferências biológicas” associadas à doença. Ora as definições seguintes propõem o estudo das inferências comportamentais associadas às doenças, das inferências sociais associadas à doença e das inferências comportamentais associadas à saúde. A ser assim, 161 estaríamos em presença de várias epidemiologias. No entanto, não se pretende entrar nesta discussão, esperando que no futuro a clarificação se faça. De qualquer modo, tal como Terris defende, não só a noção clássica de epidemiologia, não abrange traumas que, hoje, no caso dos jovens, constituem a principal causa de mortalidade e morbilidade como, principalmente, não abrange a Epidemiologia da Saúde, ou seja, não se propõe identificar os aspectos, biológicos ou outros, associados a uma boa saúde. Uma Epidemiologia da Saúde, ainda segundo Terris, deverá abranger vários aspectos explícitos na definição universalmente aceite de Saúde. De entre estas, a capacidade de realizar tarefas da vida diária, as dimensões sociais da vida diária e os aspectos subjectivos relacionados com o conceito de bem-estar. Trata-se de uma revolução do conceito de epidemiologia que faz sentido no âmbito da Segunda Revolução da Saúde. Factores de protecção da saúde ou recursos de saúde O Alameda County Study (Berkman & Breslow, 1983) é um dos estudos realizados em termos de epidemiologia da saúde. Permitiu identificar factores de protecção da saúde, que, por definição se referem às condições que aumentam a resistência das pessoas aos factores de risco e à susceptibilidade à doença (Coie et al., 1993). Outra expressão que tem sido utilizada é “recursos de saúde” que se refere aos aspectos, biológicos, comportamentais, sociais e ambientais, que estão associados a uma boa saúde (Philips, 1988). A Segunda Revolução da Saúde expressa a orientação da política para este novo universo dos factores protectores de saúde ou recursos de saúde que são alcançáveis através de acções de Promoção da Saúde. Após a década de 70 a Promoção da Saúde tornou-se um objectivo importante para todos os sistemas de saúde dos países desenvolvidos. Ora para implementar programas de Promoção da Saúde torna-se fundamental identificar, primeiro, esses factores. Factores de risco A noção de factor de risco é uma das heranças da Primeira Revolução da Saúde mais antagónica com uma perspectiva sistémica. O termo factor de risco continua a inserir-se, pelo menos implicitamente, num modelo cartesiano próprio da Primeira Revolução da Saúde e que é essencial para a prevenção das doenças. 162 Factor de risco é um termo que estabelece uma ligação linear, causal, entre determinado elemento e uma doença. Ora (a) não é apropriado falar em factores de risco para a saúde e (b) não é possível estabelecer uma relação linear entre um factor e saúde, visto esta, ser produto de relações, sistémicas, entre aspectos inerentes ao indivíduo, quer estruturais, quer dependentes da sua acção (das suas intenções, expectativas, emoções) e aspectos inerentes ao meio ambiente. Os estudos epidemiológicos que se têm debruçado sobre as grandes epidemias da segunda metade do século XX têm identificado como factor de risco o comportamento humano. O comportamento tem sido conceptualizado numa perspectiva cartesiana e a acção contra os maus comportamentos seguem as metodologias aplicadas para a teoria do germe (neste caso o germe é o comportamento). Mas, ao contrário dos microrganismos que actuavam mais ou menos rapidamente sobre o organismo humano, o comportamento só faz efeitos mais ou menos a longo prazo. Os comportamentos que são adoptados no estilo de vida vão-se instalando ao longo do desenvolvimento do indivíduo que acaba por sucumbir a doenças que estão associadas a esse estilo de vida. Por exemplo, Hoel e Howard (1998) referem que durante o rastreio de jovens para a Segunda Guerra Mundial, cerca de 165000 jovens não foram admitidos no serviço militar entre 1940 e 1944 por terem pressão arterial elevada. Salvo em situações de rastreio como a que é aqui referida, os jovens saudáveis não vão fazer a verificação da pressão arterial. A questão da instalação insidiosa de factores de risco é particularmente gravosa para os jovens e é importante numa perspectiva de prevenção das doenças. Tomando em consideração que, por exemplo, determinados comportamentos de risco, têm uma relação estatística significativa com determinadas doenças, o grupo dos jovens tem riscos dobrados. Com efeito, analisando a associação entre comportamentos de risco apresentada por Mechanic (1979) pode-se afirmar que os jovens que correm mais riscos relativamente às principais causas de mortalidade e morbilidade do seu grupo etário (acidentes motorizados que, segundo a WHO, 1986, são responsáveis por mais de 50% da mortalidade deste grupo, nos países Europeus e nos países desenvolvidos) adoptam, igualmente, comportamentos de risco que se manifestarão, principalmente, na casa dos 40 anos (fumar, falta de exercício físico, ausência de cuidados preventivos) através das doenças cardiovasculares. Tal permite concluir que programas de prevenção que foquem determinados factores de risco são muito úteis para os jovens. Seria adequado implementar programas de promoção da saúde que, conduzindo os jovens à adopção de determinado estilo de vida incompatível com os comportamentos referidos, reduziria o risco de 163 morbilidade e mortalidade, a curto prazo por redução de acidentes e, a longo prazo, por doenças cardiovasculares. Se, por um lado, há evidência substancial a suportar a ideia de que, por exemplo, a implementação de um programa que focasse os 10 principais factores de risco poderia prevenir entre 40 e 70% de todas as mortes prematuras (Rosenstock, 1987), por outro lado, a própria quantidade de factores de risco que têm sido identificados limita a sua implementação. Ao mesmo tempo uma intervençãobaseada em factores de risco implica a selecção de grupos populacionais que é difícil de realizar (veja-se o exemplo dos grupos de risco ao SIDA) tendo como consequência uma baixa adesão dos potenciais beneficiários. Estes programas parecem ser mais eficazes se dirigidos a toda a população, pela positiva, em vez de pela negativa. Dito de outra maneira, para o que está dependente do comportamento, parece mais adequado implementar programas de promoção da saúde visando o desenvolvimento de um estilo de vida saudável ao invés de prevenir as doenças. História dos Factores de Risco O conceito de factor de risco que, hoje, faz parte da linguagem comum, surge pela primeira vez, segundo referem Kannel e Schatzkin (1983), num relatório do estudo Framingham em 1961, o termo pode assumir várias conotações: a) de correlação estatística com mortalidade ou morbilidade: emerge, normalmente, da análise multivariada em estudos epidemiológicos; b) de factor que foi identificado como causa de mortalidade e morbilidade; c) de uma característica que predispõe um indivíduo para a mortalidade e morbilidade. Segundo Kannel e Schatzkin, há sobreposição destes três significados e, por isso, propõem uma definição abrangente da noção de factor de risco, a saber: característica de uma pessoa (demográfica, anatómica, psicológica, fisiológica) que aumenta a probabilidade (risco) de que essa pessoa desenvolva alguma manifestação da doença em consideração. A noção de factor de risco utilizada segundo o modelo cartesiano toma o aspecto linear de um fluxograma, numa relação unívoca. Presume-se que, uma vez identificado, divulgado e controlado o factor de risco, a doença deixa de se manifestar. Este modelo, que funcionou adequadamente na Primeira Revolução da Saúde para dominar os microrganismos patogénicos, não parece 164 tão adequado para lidar com o comportamento, dado este constituir uma dimensão mais complexa do que o germe: mudar o comportamento coloca problemas diferentes dos da destruição de microrganismos. Para alterar o comportamento tornam-se necessários modelos mais complexos de análise da saúde e da doença, nomeadamente, modelos que, sendo ecológicos incluam processos de pensamento e processos sociais a par dos processos biológicos. Os media tendem a valorizar algumas doenças enquanto desprezam outras e alguns factores de risco desprezando outros, deixando a imagem falsa que se alguém não praticar determinado comportamento fica imune à doença. Os próprios cientistas acabam por ser influenciados por esta crença mágica. Por exemplo, no auge da investigação que demonstrava que a prática do exercício físico reduzia a probabilidade de ter doenças do aparelho cardiovascular, Bassler e Scaff Jr. afirmavam, no The New England Journal of Medicine (1975), que: “Correr 42km está, provavelmente, bem acima do limiar protector (da doença coronária) dado que não encontrámos um único caso de morte por doença isquémica do coração entre corredores da maratona de qualquer idade (...) e até ao registo da primeira morte por doença isquémica do coração entre corredores da maratona, consideraremos este nível de actividade vigorosa, protector” (p. 1302). A resposta publicada no mesmo periódico moderava este entusiasmo e, posteriormente, a morte do guru do jogging, o americano Jim Fix enquanto corria, teve o efeito contrário na opinião pública: afinal ambas as “opiniões públicas” eram exageradas. Não se pode confundir um resultado estatístico (que só se aplica a populações e nunca a indivíduos) com a realidade. Como os factores de risco se referem a relações lineares entre causas simples e doenças únicas, sucede que, frequentemente, o que é prevenção para uma doença pode ser factor de risco para outra. Por exemplo, a actividade referida nos dois últimos parágrafos, o exercício físico, é factor de prevenção importante para as doenças do aparelho circulatório mas é factor de risco para as doenças ósteo-articulares. O mito do risco zero Segundo Redelmeier, Rozin e Kahneman (1993) as pessoas têm tendência para categorizar os juízos em termos de tudo ou nada, que em termos de saúde, será em “perigoso” ou “seguro” sem reconhecerem que níveis 165 pequenos e elevados de exposição a um factor de risco podem ter efeitos opostos. O “sal faz mal” torna-se uma expressão com valor absoluto que, quando não se verifica o efeito desse hipotético malefício, tende a ser negligenciado. Uma possibilidade em 20000 é, para a maior parte das pessoas, uma noção abstracta. É difícil em termos intuitivos distinguir entre um em 20000 e um em 200000. A incapacidade de raciocinar no estádio de pensamento formal é concerteza uma limitação. Mas mesmo as pessoas capazes de raciocinar em termos abstractos facilmente recorrem a exemplos de baixa probabilidade para argumentar contra as probabilidades em geral. Os estudos epidemiológicos apresentam números claros para comportamentos de risco, tal como o fumar. No entanto, é normal, as pessoas argumentarem com aquela pessoa de idade que conhecem, que fuma quatro maços de cigarros por dia e está de boa saúde. A ideia de factor de risco não diz o contrário mas estes valores relativos tendem a ser ignorados pelas pessoas. A maneira como estes valores são expressos também tem importância. Os autores acima referidos exemplificam do seguinte modo: Com base na investigação podemos dizer que por cada 100 homens submetidos a cirurgia do cancro do pulmão 90 sobreviverão ao pós-operatório e 34 sobreviverão cinco anos. Considerando esta afirmação colocada de modo diferente expressará os mesmos resultados: 10 morrerão no pós-operatório e 66 morrerão antes de cinco anos. Embora os números sejam os mesmos, a segunda afirmação é muito mais ameaçadora. Estes autores citam uma investigação que evidencia que a cirurgia é muito menos atractiva do que a terapia por radiação quando os doentes são informados das probabilidades com base em estatísticas de mortalidade em vez de com base em estatísticas de sobrevivência. A explicação que dão, é que a diferença entre 10% de mortalidade e 0% de mortalidade, impressiona mais, do que a diferença entre 90% de sobreviventes e 100% de sobreviventes. Esta noção é importante ser considerada tanto na publicidade sobre a saúde como na informação a dar aos doentes para darem o consentimento informado. Factores de risco e política Os factores de risco divulgados pelos media e publicitados são susceptíveis de ser influenciados pela economia, pela política, pela opinião pública. É 166 frequente os media referirem-se a investigações científicas que encontram valores de correlação significativos entre determinados aspectos, comportamentais ou outros e determinadas doenças. Nesta divulgação mediática ficam de fora a maioria das doenças, por um lado e de factores de risco, por outro. Esta divulgação acaba por influenciar a investigação, na medida em que alguns aspectos são mais conhecidos e acabam por ser mais apoiados do que outros. Isto pode observar-se se se analisarem três conhecidas causas de mortalidade por desorganização comportamental: acidentes motorizados que são a principal causa de morte entre os jovens (WHO, 1986), doenças cardiovasculares, que são a principal causa de morte em geral e SIDA. Esta última é, das três, a que, objectivamente causa menor mortalidade mas é a que impressiona mais a opinião pública e a que, actualmente, mais facilmente é subsidiada em investigação. Nomeadamente com base nesta mediatização o sistema político pratica injustiças: por exemplo os diabéticos insulino-dependentes têm de pagar as agulhas que necessitam para o tratamento enquanto os toxicodependentes têm acesso a agulhas gratuitas. Pode-se sempre argumentar que a epidemia de SIDA e a possibilidade de transmissão