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UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA "JULIO DE MESQUITA FILHO" Curso: Relações Internacionais Disciplina: Introdução aos Estudos das Relações Internacionais Prof. Dr. Rafael Salatini de Almeida Assis, 17 de março de 2018 Ana Paula da Silva Feitoza Resenha: A Guerra BOUTHOUL, Gaston. A Guerra. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1964. Gaston Bouthoul, foi um sociólogo Frances especialista no fenômeno guerra. Era doutor em Direito, Economia e Sociologia. Viveu entre 1896 e 1980. Na obra, A Guerra, Bouthoul faz um apanhado sobre a guerra, salientando a importância de uma ciência voltada para seu estudo. Define em sua introdução a Polemologia, como a ciência voltada para o estudo da guerra e suas formas, exaltando sua importância para que se possa entender a necessidade da guerra e encontrar a possibilidade de dar fim aos conflitos. Demonstra ainda que o estudo científico da guerra é um obstáculo recorrente no ensejo de se aprofundar sobre o assunto, uma vez que para que haja o desejo de um estudo cientifico aprofundado, existe a necessidade de o objeto a ser estudado nos cause certo espanto. O fenômeno da guerra por si só, ironicamente não causa espanto. Qualquer pessoa possui ao menos uma vaga idéia sobre a guerra. Um segundo obstáculo se baseia no fato de que a guerra parece depender completamente da vontade humana, sendo esta advinda de uma força verdadeiramente consciente, sendo considerada por Bouthoul a principal dificuldade ao se elaborar um estudo científico. No primeiro capitulo é se faz uma incursão histórica sobre o fenômeno da guerra, que se encontra presente desde a concepção das primeiras civilizações. As mitologias desde logo exaltam o lugar ocupado pela guerra, enaltecendo a pratica guerreira. Tendo por exceção a mitologia chinesa a única de caráter pacifico e antiguerreiro. A ideia de sacrifícios aos deuses antes de depois das batalhas era amplamente difundida, sendo em diversos casos os ritos fúnebres eram antecipados pelos guerreiros, sendo suas mortes celebradas de antemão. Em relação às doutrinas teológicas sobre a guerra, Bouthoul determina que o primeiro adjetivo para o deus monoteísta, dentre todas as qualidades que lhe poderiam ser atribuídas, tinha caráter de enaltecer o lado guerreiro. O “Deus dos Exércitos", como era chamado, demonstrava o poder aos fiéis através das guerras para a conquista do território hebreu. Quando a guerra se tornou desfavorável a esse povo, se tornou uma espécie de castigo divino, uma provação. Posteriormente, através do novo testamento, teve início uma política de rejeição ao emprego da violência, em que a ideia de guerra foi amplamente rejeitada. Entretanto a religião acaba por se contradizer, uma vez que, a guerra se fazia por vezes necessária aos olhos da religião. Foi então relativizada a necessidade da guerra traves da vontade de Deus. Em relação ao parecer filosófico da guerra, a única filosofia que foi constante em não exaltar a guerra foi a filosofia chinesa. Os filósofos gregos em geral não faziam apologia à guerra, porém reconheciam sua legitimidade, a depender das necessidades do bem da cidade. Os filósofos modernos se subdividiam entre aqueles que faziam apologia direta a necessidade da guerra, como Hegel que defendia seu caráter 'civilizador', quanto àqueles que acreditam que o caráter destrutivo da mesma ultrapassa suas características positivas. Não se acredita também que exista guerra sem determinada doutrina jurídica. Devem existir normas que regulem desde o momento de seu desencadear até o termino derradeiro. Observamos as diferenças entre o direito de guerra ao longo do passar dos séculos de acordo com as civilizações, desde o direito romano que justificava a validade da guerra desde que seguisse determinados protocolos, independentemente de sua causa, era considerada justa, até que a evolução dos direitos humanos, ainda que precários modificaram a questão dos direitos de guerra, moldando o senso de justiça e necessidade da guerra através dos tempos, tomando por exemplo Maquiavel, que era partidário de guerras preventivas. Clausewitz, analista da guerra e de seus fins acreditava que a guerra era um instrumento da política, não passando de uma manifestação de seus interesses, devendo a guerra ser travada com todo o poderio de uma nação. Para a sociologia a guerra pode ser considerada um fenômeno comum de cada um dos povos, subdividindo as teorias sociológicas entre otimistas e pessimistas. Em geral, as teorias otimistas acreditavam que o crescimento industrial suprimiria a necessidade das guerras, substituindo o regime militar. Entretanto, observa o autor, aindústria é o que fomenta e amplia a guerra, estando assim, cada vez mais a serviço da mesma. A tipagem militar torna-se tão necessária quanto o modelo de sociedade industrial, uma vez que para muitos a formação dos estados se deu através da força progressiva das guerras. Para os otimistas o progresso não vem como fruto da guerra em si, mas de uma série de ideias surgidas e apropriadas através da adaptação, e não da oposição. Já para as doutrinas socialistas a explicação para os conflitos armados se original do antagonismo econômico. Para as teorias pessimistas, a tendência da guerra é crescer, sendo um processo de seleção próprio da humanidade. Consideram que os fracos são aqueles aniquilados, subsistindo os fortes, vencedores. Para os pessimistas a sociedade nasce através da guerra e os estados se originam através da reunião dos grupos vitoriosos aos conflitos. No segundo capitulo, faz-se uma abordagem primeiramente à dificuldade de se dar uma definição, um conceito para a guerra, uma vez que não há um conhecimento perfeito desse fenômeno. Prevalece então a tendência de se considerar a guerra como um fenômeno de luta universal. Entretanto este conceito talvez seja um tanto vago, uma vez que pode existir uma distância entre a guerra e outras formas de luta, uma vez que a primeira não pode se desenrolar contra coisas inertes ou adversários inconscientes, apenas contra um inimigo ativo e organizado. Para o autor, a guerra deve ser delimitada em relação a outras formas de antagonismo, podendo ser considerada um fenômeno coletivo, possuindo como fator de diferenciação da luta universal e de crimes individuais dois traços importantes que se caracterizam pela intenção e pela sua organização. Sendo assim define que a guerra serve ao interesse de determinado grupo político, ao passo que lutas individuais dependem do interesse de grupos privados. Ainda que os motivos para desencadear uma guerra possam ser de ordem individual, sua finalidade, teoricamente deve ser de ordem coletiva. Também faz importante frisar o caráter jurídico da guerra, uma vez que não existe guerra que não seja regida por um grupo de regras, sejam estas mais ou menos precisas. De certa forma a guerra se torna um meio de resolução de conflitos na falta de forma alternativa para tal. O que se entende sobre a guerra é que esta é uma luta sangrenta entre grupos, mais precisamente estados, que se dá de forma extremamente metódica e organizada, podendo ser limitada em tempo e estado, além de submeter às diversas regras jurídicas que variam de acordo com a localidade em que se desencadeia a guerra. Esta deve destruir vidas humanas ou "não passa de um conflito ou troca de ameaças" No terceiro capitulo o autor nos traz um apanhado das características econômicas das guerras, tratando da necessidade de acumulo prévio, uma vez que para um estado entrar em guerra, este necessita primeiramente de preparação, devendo acumular um capital inicial, mão de obra e provisões para manter seus soldados combatendo. O fator primordial para se fazer a guerra se resume basicamente no dinheiro. Discorre-se sobre o tesouro de guerra e a importância dessas reservas que continuam a existir e passar de vencedor a vencedor através das guerras travadas ao longo do tempo. Entende-se também, que a guerra desempenha um papel de redistribuição de renda. As despesas militares acabam se encontrandototalmente engendradas na economia nacional que, se suprimidas, causariam diversos problemas econômicos. Ainda que os orçamentos militares possam representar certo equilíbrio econômico para determinadas nações, essa balança pode se desequilibrar no momento em que a mecanização da guerra se torna mais proeminente, uma vez que, diversos países que mantinham certo poderio em relação à guerra, começam a ter de importar matéria primas, armamentos ou outros objetos. No fim, a mecanização da guerra acaba favorecendo potencias que possuem territórios vastos dispondo de recursos e matéria prima que muitas não possuem. Também são abordadas algumas das principais consequências econômicas da guerra, que consiste principalmente, ao fim desta, a deslocamentos econômicos de riquezas entre os vencedores e vencidos. A guerra modifica as estruturas econômicas de um estado, seja nos seus investimentos, favorecendo o desenvolvimento de determinadas indústrias e formas de produção, assim como o caráter orçamentário do governo, distribuição de renda, etc. Também os tratados internacionais acabam por modificar a interação com o comercio exterior, influindo inclusive nas indústrias que dele dependem. Existem teorias que consideram os fatores econômicos como as causas primordiais que justificam as guerras. Entretanto Bouthoul, afirma que deve existir uma subdivisão entre o termo. Para ele todas as guerras possuem efeitos econômicos, seja qual for a causa. Entretanto para que se possa afirmar que os fatores econômicos sejam decididamente a origem de determinada guerra, deve-se poder afirmar que o motivo que mobilizou o conflito seja exclusivamente de ordem econômica, devendo este ter sido o ÚNICO motivo determinante para desencadear a guerra. Para o autor, as civilizações complexas não desencadeiam guerras exclusivamente econômicas uma vez que existem diversas necessidades que podem desencadear o conflito, não sendo a necessidade econômica considerada como imediata ou vital nessas sociedades. Entende-se que a ânsia pelo poder se sobressai sobre a da riqueza, não havendo em diversos conflitos a mínima causa econômica para sua explosão. O autor cita duas formas de desequilíbrio econômico, capazes de desencadear conflitos. As guerras de penúria e de superabundância. Frisa-se que a maioria das guerras se define como de superabundância, uma vez que, quanto mais uma nação possui, mais ela acaba por desejar. Também pela razão de que, para que uma guerra seja preparada, precisa haver dinheiro. Assim ocorre nas guerras coloniais e nas guerras de mercados, em que os mais ricos acabam por atacar os mais pobres. Existem três conjunturas de guerra. A pré-guerreira, a conjuntura de guerra propriamente dita e a conjuntura de reparação. Cada uma traz mudanças em determinados momentos da economia de um estado. As conjunturas pré-guerreiras se determinam pelos momentos de preparação. Quando o estado poupa dinheiro, constitui seu estoque de guerra, faz encomendas armamentistas, resultando em uma grande prosperidade e oferta de trabalho, com salários altíssimos e indústria trabalhando atodo vapor. Já a conjuntura de guerra, se caracteriza pelo consumo dos bens que foram acumulados, estando a indústria ainda produzindo em larga escala. A conjuntura de reparação ocorre imediatamente após o fim do conflito, estando a estrutura econômica profundamente modificada, enquanto perdura o momento de reconstrução o mercado ainda está em alta, mas assim que esta tem um fim, o estado se encontra a mercê do desemprego, caracterizando assim a crise. Pode se dizer assim que as guerras criam oportunidades industriais e de emprego para o homem. No quarto paragrafo o autor fala sobre os aspectos demográficos das guerras e seus efeitos. A principal característica demográfica da guerra reside no homicídio. Sem homicídio não há guerra. A guerra é um grande fator de alterações demográficas, principalmente pela morte de jovens. O autor a caracteriza entre as instituições destruidoras voluntarias. Como fenômenos demográficos ele cita a fome e as epidemias como possíveis consequências de guerra. A função demográfica da guerra seria então o acumulo de capital humano para sua posterior aniquilação. Uma vez que a não passa de uma migração armada, modificando a demografia das nações envolvidas. A guerra tem o condão de pausar o crescimento de uma população. As variações demográficas dependem de diversos fatores, assim como a nação vencedora e a vencida não serão alteradas da mesma forma, uma vez que a primeira sofre a perda primordialmente de jovens soldados, conquanto a segunda possui uma perda humana mais variada. O autor também faz uma ponte entre o elevado crescimento demográfico e o período em que estouram as guerras. Para ele os longos períodos das guerras vêm logo após o enorme crescimento populacional. Sendo assim, a estrutura demográfica se torna um fator importante para analisar o momento em que se desencadeia uma guerra. Para o autor a função biológica da guerra é a destruição populacional. Sendo a função demográfica a única que apresenta correlação total a todas as guerras. Pode-se entender a guerra como uma das mais brutais instituições destruidoras. No quinto capitulo, o autor aborda as características etnológicas, comparando a guerra a uma grande festa, uma vez que ambas possuem papel primordial na vida dos grupos, sendo compostas de reuniões matérias e de ritos de desperdícios, também acumulados lentamente, seguidas de subversão de regras morais e tabus, havendo insensibilização física e ritos sacrificiais. A festa e a guerra se assemelham tanto no caráter estético, uma vez que a ornamentação de combate era composta dos mais belos adornos. A dança também se incorpora a guerra em diversas civilizações. Também se assemelha à festa o caráter de distração das guerras, uma vez que ambas retiram o cidadão da vida cotidiana, rompendo a monotonia da sociedade mecanizada. Determinadas regras e tabus também acabam por ser permitidos seja na festa ou na guerra. Uma das grandes características da guerra é o maniqueísmo psicológico. Nos tempos de paz existem diversas matizes entre a noção de amigo e inimigo, porquanto na guerra essas nuances desaparecem. Não existe meio termo. Também tem se observado que muitas vezes a importância ou o valor da causa que desencadeou a guerra é medida pelo numero de mortes violentas provocadas por ela. Dentre os traços psicológicos da guerra abordados no sexto capitulo, Bouthoul primeiramente discorre sobre os impulsos de agressividade de determinados grupos em certos períodos de tempo. Segundo ele, é inerente à sociedade humana esperar pela guerra. As frustrações humanas (dentre elas a econômica) acabam por aumentar o sentimento de insatisfação e agressividade, sempre em detrimento do elemento mais fraco, porquanto, essa agressividade acaba por refletir na insatisfação da sociedade com os seus dirigentes, administração ou determinado partido no poder. Muitas vezes a reação de frustração se dá de forma depressiva, com o sentimento de frustração substituindo a agressividade. A agressividade pode ser mais constante nos jovens, entretanto na presença de um grupo as reações agressivas se tornam mais regulares, quase automatizadas. Ainda que estudos indiquem que, multidões geralmente têm menor inclinação para a violência, essa agressividade em grupo pode se justificar com a prévia doutrinação. O impulso agressivo da coletividade é, de certa forma mais profundo e duradouro, torna-se um sentimento da imprescindibilidade da guerra. Sendo considerado pelo grupo como inevitável. Entretanto Bouthoul questiona as diversas motivações que levam ao impulso belicoso, acreditando que possa existir um fundamento mais solido para tal agressividade coletiva. De acordo com diversas tentativas de conectar o impulso belicoso à psicanalise, o autor apresenta o complexo do malogro, em que se projeta em outrem a responsabilidade por acontecimentos prejudiciais, cuja verdadeira causa se prefere ignorar.Também se observa através da psicanalise o sentimento de inferioridade de determinados povos que, procuram na guerra uma compensação. Povos que se julgam menos civilizados, cultos ou ricos, tendem a compensar essas falhas com força bruta. O sentimento de insegurança também pode se caracterizar como um impulso belicoso, uma vez que leva o indivíduo a preferir o desenlace da guerra a viver constantemente temeroso. Uma das propriedades do estado de guerra é a inversão de valores. Encontramo-nos em um estado de naturalização de certos tabus impostos socialmente, havendo uma brusca mudança no mundo das relações sociais como normalmente conhecemos. Bouthoul descreve alguns tipos de combatentes, dentre eles o conscrito, que atua dominado pela resignação, o mercenário que exerce a guerra como profissão, e o fanático, que vem atraído pela guerra, tendo a consciência de que exerce um serviço de extrema nobreza. Ainda em relação aos combatentes o autor descreve sua posição na hierarquia social, as virtudes guerreiras eram consideradas privilégios, almejados inclusive pela aristocracia e nobreza, tornando-se inclusive uma das principais razões ao complexo de inferioridade feminino, uma vez que a mulher tradicionalmente não pode participar da guerra. O estágio militar era essencialmente conservado pelos nobres. Em relação aos combatentes de escalão hierárquico mais baixo, a coisa muda de figura, sendo a vida militar repleta de coerções e brutalidades. O autor remete ao combatente a noção de que a única certeza é o prazer do momento, sendo assim este se entrega mais completamente à brutalidade. Em relação aos dirigentes, resta saber se estes seguem os desejos das massas ou são eles próprios que as incitam em suas próprias concepções? Segundo Bouthoul, deve se distinguir a classe dirigente da elite. A primeira não possui necessariamente superioridade intelectual ou técnica sobre a massa, entretanto exerce inegavelmente o poder sobre ela. Conquanto a elite é formada por homens que possuem os mais complexos conhecimentos, sem que, tecnicamente, exerçam poder algum. Os dirigentes acabam mais por seguir a mentalidade do ambiente do que modificá-la de alguma forma. Não podendo mais ser considerados como a causa absoluta de determinado conflito, uma vez que, segundo esse entendimento, apenas refletem o desejo do povo. Para corroborar essa afirmação Luis XVI é citado pela reticencia na Guerra da Independência americana, que assinalou o início de sua popularidade. Dirigentes pacifistas acabam por ser punidos pelo povo. A guerra pode ser considerada um descanso aos governos, uma vez que, em estado de guerra, é permitida a imposição da submissão e obediência passiva, além de diversas privações ao cidadão. Além da questão de que a guerra torna o dirigente quase um santo, os combatentes morrem em seu nome, são amados pelos soldados. Bouthoul também compara os dirigentes a Abraão, uma vez que estes enviam seus filhos mais jovens e robustos ao sacrifício da guerra. Ao fim da guerra, deve-se levar em conta que há sempre um lado vencedor e um vencido. Entretanto o que une ambos os lados combatentes é a sensação de diminuição da belicosidade, a agressividade se retrai, sendo substituída por uma sensação de euforia, que no lado vencedor, se explica pelo cumprimento dos objetivos almejados e pelas vantagens das quais tirarão proveito sobre os vencidos. Estes também recebem o fim da guerra com um alivio talvez maior, uma vez que a sensação de ameaça constante acaba por desaparecer. O bom humor, entretanto, não persiste, em princípio quando a guerra traz diversos danos materiais que acabem por impossibilitar o retorno á vida conhecida antes da guerra. A impressão que se tem os homens é que a guerra encerra um ciclo, uma era, dando início à próxima. A ideia geral é se afiliar ao discurso do lado vencedor, assim como se fomenta o complexo de inferioridade do lado vencido. "Sacrificando" certos responsáveis pela derrota, como forma de 'purificar' a nação vencida. Observa-se, entretanto, que esse esmorecimento da agressividade e do impulso de belicosidade não perdura por muito tempo, considerado por Bouthoul apenas o tempo necessário para que se reconstituam as perdas do conflito anterior. Assim o lado vencido começa a pensar a desforra, conquanto a parte vencedora começa a se tornar mais gananciosa quanto ao merecimento dos espólios de guerra, fechando assim determinado ciclo. Bouthoul também discorre sobre a inclinação ao pacifismo, que surge logo após o fim das guerras. A reivindicação de paz, entretanto, depende muito de qual foi a concepção dominante sobre o significado da guerra. Discursa sobre os mais diversos tipos de pacifismo, que se determinam desde a consideração da guerra um pecado ao pacifismo que exorta a necessidade da guerra para que se acabe com a guerra. Dentre os diversos tipos estão o pacifismo sagrado, o pacifismo romano, o fatalista, aquele que exclui a noção de sagrado, o pacifismo queixoso, o moderado, o belicoso e por fim o pacifismo irreverente, que se caracteriza pela dessacralização da guerra e ridicularização dos usos militares. O último capitulo se aplica à decifrar as causas de guerra e analisar os planos de paz. Bouthoul considera que os tratados de paz nada podem resolver, uma vez que não se conhecem os fatos que acabam por desencadear a guerra, não havendo assim a possibilidade de extinguir a guerra de forma absoluta. Cada época depreende motivações distintas, sendo assim torna-se difícil produzir um tratado de paz perpétua, sendo necessário o estudo do cerne das motivações guerreiras. Primeiramente formaram-se os planos de paz econômicos, uma vez que se compreendia que a estrutura econômica seria o principal fator desencadeador da guerra. Acontece que a cada novo período um sistema econômico seria considerado deflagrador da guerra, tornando esse tipo de tratado ineficaz, uma vez que o desaparecimento ou desuso de determinado sistema econômico não garante ou sustenta a paz universal. Para Bouthoul a economia sempre pode ser considerada como um instrumento da guerra, entretanto nem sempre a guerra é um instrumento da economia. Os planos de paz políticos trazem modificações políticas profundas em determinada nação, em principal ao derrotado. As crenças e visões políticas acabam por entrar em crise e se modificar. Existem planos de paz que se suportam no conceito de estado único, entendem que conquanto existirem estados independentes e soberanos haverá a guerra. O que solidifica essa visão de estado único, é a busca pela segurança. Segundo Reves, é esse impulso sobre a segurança que se caracteriza como a principal causa do socialismo. O sacrifício na formação dos Impérios conhecidos foi imensamente maior em compensação ao curto período de paz de sua constituição. Bouthoul atenta para a importancia das guerras civis. Inclusive define que estas são por vezes muito mais sanguinárias e as que causam maiores destruições e mortes. Isso se deve as mais diversas fases de concentração e desmembramento dos estados. Tanto os processos de separação, quanto os de concentração de territórios são considerados sanguinolentos. Sendo assim, retorna-se a impossibilidade de suprimir as guerras por meio de superestados, uma vez que ainda seriam suscetíveis conflitos dentro dos territórios. Também são rechaçados os planos de equilíbrio entre estados, que primordialmente, levam em conta o fator força. De acordo com esse tipo de plano de paz, o mundo deveria ser partilhado entre potencias de igual poder, uma vez que assim, manter-se-iam em respeito mutuo, estando menos tentadas a partir para guerra, uma vez que a vitória nunca seria um fator certeiro. Entretanto, Bouthoul frisa que essa doutrina em si é uma fonte inesgotável de guerra, uma vez que, assim como recomenda Maquiavel, os estados estariam sempre suscetíveis a guerras de prevenção. Também se fundam planos de paz em detrimento dos regimes políticos internos dos estados, que foram, e ainda são acusados muitas vezesde serem causas de guerra. Entretanto, ao longo das civilizações, observa-se que nenhum regime político deixou de sucumbir à guerra. Dentre os planos de paz jurídicos, temos a carta das nações unidas, que prevê a cooperação internacional nos mais diversos domínios, sendo considerada por Bouthoul a ultima tentativa de manutenção da paz mundial. São apresentados os planos psicológicos, ou hedônicos em que são feitas tentativas de expurgar o espirito de guerra da sociedade através da educação. Por fim restam os planos demográficos, que basicamente consistem no controle de natalidade para que se evite a guerra. Esse controle se encontra sob diversas formas, desde o infanticídio ao próprio monaquismo. Entende-se que a predisposição belicosa está profundamente ligada ao alto índice demográfico. Esse plano, entretanto, é o único que não se aplicaria em uma sociedade minimamente civilizada. Resta afirmar que, como não se conhece profundamente a causa das guerras, nenhum dos planos de paz faz-se completamente eficaz. O autor conclui que a guerra é um fator cíclico, que tende a se repetir através dos tempos. As guerras eclodem pelos mais diversos motivos, que muitas vezes podem ser confundidos com as causas, a dificuldade de estabelecer um conhecimento cientifico sobre a guerra. Sendo assim, para encontrar determinado pacifismo cientifico em primeiro lugar torna-se necessário um aprofundamento através da polemologia.