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CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza CONSIDERAÇÕES SOBRE OS CONTRATOS BANCÁRIOS MICROCOMPETÊNCIA 01: Conceito de banco Há várias definições acerca de Banco que, embora variem na forma, são coincidentes quanto ao tipo de atividade por ele exercitada. Uma definição muito boa é a de Mendonça (1997, p. 13): “são empresas comerciais, cujo objeto principal consiste na intermediação entre os que dispõem de capitais e os que precisam obtê- los, isto é, consiste em receber e concentrar capitais para sistematicamente distribuí- lo por meio de operações de crédito”. Tal definição tem um aspecto prático porque nos faz compreender melhor o universo onde tais contratos se inserem e são analisados. No sentido amplo a palavra, Banco designa todo estabelecimento de crédito comercial e financeiro, que tem por finalidade o comércio de dinheiro e de crédito privado. Todavia, as práticas bancárias são conhecidas desde a Antigüidade. Na Babilônia, na Fenícia e no Egito há referências sobre elas. Na Grécia os trapezistas e em Roma os argentari, aceitavam depósitos de moedas e de valores; faziam empréstimos a juros, garantidos ou a descoberto; interpunham-se nos pagamentos sobre praças diferentes; assumiam obrigações em nome dos clientes (HUGON, 1973). Tais práticas floresceram com o renascimento do comércio na Idade Média, sobretudo nas cidades italianas e desembocaram no capitalismo liberal da Era Moderna, com o advento da Revolução Industrial. Então o sistema financeiro consolidou-se pelo aparecimento de grandes bancos e pela extensão de seus serviços em nível internacional. Mas, desde a origem, o sistema financeiro foi estreitamente aliado ao poder político, de modo que o atual sistema de tutela a que são submetidas as instituições financeiras modernas não provoca nenhuma comoção. Neste contexto, desde o primeiro banco brasileiro instalado na fase colonial – o Banco do Brasil foi fundado em 12.10.1808 por D.João VI –, o sistema bancário CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza sempre foi controlado pelo Estado. Do pioneiro Banco do Brasil e da pioneira Caixa Econômica do Império (fundada mais tarde), o sistema evoluiu. Intensificando-se o comércio bancário, multiplicaram-se as casas bancárias e os bancos, até o surgimento definitivo do atual Sistema Financeiro Nacional, previsto no Art. 192 da Constituição Federal e regulado pela Lei 4.595 de 1964, ainda vigente. Já em relação aos tipos de bancos, o Art. 17 da Lei 4.595/64 acima citada dispõe: Art. 17. Consideram-se instituições financeiras, para os efeitos da legislação em vigor, as pessoas jurídicas, públicas ou privadas, que tenham como atividade principal ou acessória a coleta, intermediação ou aplicação de recursos financeiros próprios ou de terceiros, em moeda nacional ou estrangeira e a custódia de valor de propriedade de terceiros. Os comercialistas usam uma classificação de bancos que parte de suas operações financeiras, isto é, da origem dos fundos com que operam, e dos riscos que desejam correr, mas tal classificação está fadada ao desaparecimento porque hoje predomina uma tendência do “banco múltiplo”, isto é, megaempresas que operam em todos os setores do mercado financeiro. Mendonça classifica-os em: a) bancos de desenvolvimento; b) bancos de investimentos; c) bancos comerciais. Já Martin (1981) classifica-os mais detalhadamente em: a) bancos de emissão; b) bancos de depósito; c) bancos de crédito móvel; d) bancos de comércio exterior; e) bancos agrícolas; f) bancos de crédito real; g) bancos de crédito industrial. Passemos às diferenças entre eles, que são bastante sutis e esclarecem alguns aspectos dos contratos que a seguir analisaremos: a) Bancos de emissão (ou de circulação) são aqueles autorizados pelo governo a emitirem notas com promessa de pagamento à vista em dinheiro (papel- moeda). 1) Os bancos de desenvolvimento objetivam o fomento do desenvolvimento econômico-social. São bancos oficiais, em geral empresas públicas ou autarquias como o BNDES, o BDMIG, etc. 2) Os bancos de investimentos têm cunho privado. Operam com valores mobiliários (aplicações em títulos e valores mobiliários e de administração de CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza fundos) com autorização do Banco Central e são regidos pela Lei nº 4.728 de 1965, que disciplina o mercado de capitais. 3) Os bancos comerciais são públicos ou privados, especializados em operações financeiras de médio e de curto prazo. Recebem capitais de terceiros em forma de depósito (aceitam dinheiro alheio em conta corrente à disposição do depositante, à vista ou a prazo mediante remuneração) e os emprestam em nome próprio. Correspondem aos Bancos de depósitos, da classificação de Martin. Os bancos de financiamentos também têm, em geral, cunho privado, e são especializados em financiamentos a médio e longo prazos através de operações de antecipação de créditos às empresas industriais e comerciais; podendo ser especializados em: bancos de crédito móvel; bancos de comércio exterior; bancos agrícolas; bancos de crédito real; e bancos de crédito industrial, conforme as atividades e as fontes de origem de recursos a que dirijam suas operações. O banco agrícola opera com os agricultores e pecuaristas, custeando-lhes a exploração agrícola, financiando-lhes o cultivo, financiando máquinas e insumos e tendo como garantia real o penhor de sua produção agrícola ou dos próprios produtos financiados. Já os bancos de crédito real atendem os empréstimos hipotecários, emitindo cédulas ou obrigações hipotecárias sobre as operações realizadas. Além disso, diferenciam-se os Bancos das Caixas Econômicas que são empresas bancárias destinadas originalmente a recolher e movimentar a poupança popular. Erigidas sob a forma de empresas públicas no Brasil, possuem uma função desenvolvimentista social relevante no financiamento público de saneamento urbano, no financiamento habitacional privado, na administração de loterias. Também são instituições financeiras equiparadas a bancos as Cooperativas de Crédito, sociedades com forma jurídica própria de sociedade simples (civil) sem finalidade lucrativa, não sujeitas à falência mercantil e que têm por objeto a mutualidade, isto é, fornecer o crédito necessário aos próprios associados cooperados. CONSIDERAÇÕES SOBRE OS CONTRATOS BANCÁRIOS CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza MICROCOMPETÊNCIA 02: Conceito de contratos bancários As operações bancárias se dão por meio dos contratos bancários. O contrato bancário, como todo contrato, é um fato jurídico. E dentro do gênero fato jurídico, normalmente é enquadrado especificamente como negócio jurídico. Deste modo, dentro do âmbito das operações bancárias, os contratos bancários funcionam como seu esquema jurídico, como fato jurídico propulsor da relação jurídica obrigacional bancária, engendrando direitos subjetivos e deveres jurídicos. Conceituar contrato bancário implica dar-lhe sua nota essencial, suficientemente restrito para os distinguir dos demais contratos civis e comerciais, e suficientemente amplo para abarcar todas as atividades historicamente incluídas no rol bancário. É tema árduo, pois, em essência, reflete dificuldade de mesma natureza daquela que sempre se encontrou para distinguir os contratos comerciais dos civis, porém agora mais avante, para distinguir contratos bancários dos comerciais e civis. Não há unanimidadeentre os autores. Sérgio Carlos Covello localiza a questão afirmando que se podem adotar dois critérios fundamentais na conceituação dos contratos bancários: 1) o critério subjetivo, sendo contrato bancário aquele realizado por um banco; 2) o critério objetivo, pelo qual é contrato bancário aquele que tem por objeto a intermediação do crédito. Os dois critérios sozinhos são insuficientes, como nota o autor: o primeiro porque o banco realiza contratos que não são bancários, como de locação, prestação de serviços, bancários, etc; o segundo porque o particular também pode realizar operação creditícia sem que se configure como bancária. Adota, então, uma concepção sincrética, recorrendo aos dois critérios, para conceituar o contrato bancário como "[...] o acordo entre Banco e cliente para criar, regular ou extinguir uma relação que tenha por objeto a intermediação do crédito." Dornelles da Luz adota a definição de contrato bancário de Garrigues, como um "[...] negócio jurídico ‘concluído por um Banco no desenvolvimento de sua atividade profissional e para a consecução de seus próprios fins econômicos”. Adota o autor o critério subjetivo para definição, incluindo as atividades de prestação de serviços bancários que no conceito objetivo-subjetivo de Covello CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza restavam excluídas. Isto porque, observa Dornelles da Luz, o banco múltiplo não pode ser confundido com o antigo banco comercial, pois o desenvolvimento histórico conduziu a uma diversificação da atividade bancária, havendo hoje três tipos de contratos bancários: de moeda e crédito, mistos de crédito e serviço, e de prestação de serviços. A exigência do critério objetivo por Covello, deste ângulo, torna-se excessiva, pois exclui do rol dos contratos bancários atividades historicamente incorporadas pelos bancos em sua evolução, que são os contratos de prestação de serviços como o de caixa de segurança, custódia de bens, operações de cobrança, etc. Realmente estes contratos, que não raro vinculam-se às operações de crédito de modo acessório, parecem ter adquirido notas e peculiaridades de modo a merecerem o tratamento especial das normas bancárias. Se, por um lado, a conceituação meramente subjetiva não é suficiente, como pontuara Covello, pois o conceito englobaria contratos realizados pelo banco de natureza evidentemente não bancária (como de trabalho, locação, compra e venda, etc.), por outro lado, a solução científica também não parece residir em seu critério objetivo. Parece, sim, adequada, a utilização do critério subjetivo com um "plus", sendo contrato bancário aquele em que o sujeito banco atua como comerciante, no exercício da mercancia enquanto profissão habitual (excluindo-se os contratos sem as notas da habitualidade, profissionalidade e comercialidade). Neste sentido se direciona Rodrigues Alves, após criticar a conceituação com base no critério puramente subjetivo: "[...] em verdade, há operação bancária se existe suporte fático que se traduz empiricamente em atividades nas quais o banco opera com o cliente, atendendo-se ao fim comercial do banqueiro." Em suma, Contrato Bancário é o gênero contratual em que pelo menos uma das partes é um banco. Refere-se à captação, intermediação ou aplicação de recursos financeiros próprios ou de terceiros, e como apenas instituições financeiras autorizadas pelo Governo podem desenvolver tais atividades, todo contrato a elas relativo será considerado bancário. Portanto, contrato bancário é aquele em que a participação de um banco é inafastável. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza CONSIDERAÇÕES SOBRE OS CONTRATOS BANCÁRIOS MICROCOMPETÊNCIA 03: Classificação dos contratos bancários Posto o conceito de contrato bancário, cumpre classificá-lo. Há diversas classificações dos contratos bancários, sendo a primeira e mais importante a que os divide em contratos bancários típicos e contratos bancários atípicos. Os contratos bancários recebem o adjetivo típico quando se realizam para o cumprimento da função creditícia dos bancos (operação bancária típica, de crédito), e quando típicos se subdividem em ativos e passivos, conforme assuma o banco, respectivamente, a posição de credor ou devedor da obrigação principal. São atípicos os que o banco realiza para prestação de serviços (operação bancária atípica). Contudo, há também uma terceira classe de contratos, notada pelo mestre Dornelles da Luz (ignorada pela grande maioria dos autores), que é uma categoria mista entre típicas e atípicas, sendo operações que envolvem créditos e serviços, que assumem caracteres próprios que as distinguem das outras duas categorias. Duas espécies de obrigações costumam permear os contratos dos bancos múltiplos: de dar e de fazer. Os contratos típicos, isto é, de crédito, armam-se em estabelecer obrigações de dar dinheiro (moeda). Já os contratos atípicos, isto é, de mera prestação de serviços, contêm obrigação de fazer que vincula o banco. E nos contratos mistos, que envolvem créditos e serviços, como intermediação bancária no pagamento (pagamento e cobrança), intermediação bancária na emissão e venda de valores mobiliários, e no crédito documentário, assume o banco obrigações de fazer (prestação de serviço no recebimento e/ou pagamento de terceiro), as quais têm inerentes obrigações de dar, sendo a obrigação primeira e principal a de fazer. A definição que traz Rodrigues Alves da operação bancária, a qual parece acertada, não exclui do âmbito desta as atividades bancárias secundárias. Enquanto as atividades principais concernem ao recolhimento e distribuição do capital, as CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza secundárias aparecem quando o banco age na função que não lhe é típica, ou seja, que não é a intermediação na circulação do dinheiro. Nas atividades secundárias também podem estar presentes os interesses bancários, de modo mediato, constituindo-se meio para a realização da atividade principal, através da captação de clientela. Covello, em consonância com sua definição de contrato bancário, não traz a classificação em contratos bancários típicos e atípicos. É claro, porquanto, em sua definição, submeteu os contratos a um requisito objetivo muito estrito, restritivo, para que se configurem enquanto bancários. Só são bancários os que versam sobre o crédito. Deste modo desaparece a figura do contrato bancário atípico. A atuação bancária se desenvolve, na sua esmagadora parte, em importância e quantidade, sobre os contratos típicos. Estes, como mencionados, podem ser ativos e passivos, conforme o banco assuma, respectivamente, posição de credor ou devedor da obrigação principal, isto é, o pólo ativo ou passivo. As operações passivas têm por objeto a captação de recursos junto à coletividade, pelo banco, dos quais necessita para processar sua atividade. Já nas operações ativas os bancos concedem crédito aos clientes com recursos arrecadados de outros clientes mediante as operações passivas. Os contratos de crédito, ou contratos típicos, assumem, além da classificação em ativos e passivos, outras classificações, segundo doutrina liderada por Garrigues: a) segundo a natureza do devedor, pode ser público ou privado, valendo aqui a crítica de Dornelles da Luz , segundo o qual o crédito é público ou privado segundo sua fonte,de recursos públicos ou privados, e não segundo o devedor; b) segundo a duração, em de curto, médio e longo prazo, devendo-se considerar a possibilidade de renovação ou prorrogação, mas sendo em princípio: de curto prazo o de liquidez, normalmente para capital de giro, de até 360 dias, mais freqüentemente realizado até 120 dias; de médio prazo vai até cinco anos e tem variadas destinações, não se dando pesadas imobilizações; e o de longo prazo normalmente é de investimentos pesados, de lenta maturação, exigindo tempo de carência para ter retorno financeiro, excedendo cinco anos; c) segundo a natureza da garantia, real (sobre bens móveis e imóveis) e pessoal (sobre o patrimônio todo de uma pessoa de confiança do garantido); CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza d) segundo o destino dos bens financiados, de produção e de consumo. Covello classifica também o contrato de crédito em nacional e internacional, segundo a posição das partes contratantes, sendo regidos por normas de um ou mais de um país. Aponta também uma classificação do contrato de crédito privado (ou de o crédito destinado a particular), podendo ser: a) individual, ou pessoal, quando concedido a certas pessoas que, embora não tenham grande patrimônio, têm condições de honrar o compromisso pela estabilidade da profissão, fazendo o banco uma avaliação da confiança que pode ter no indivíduo com seu "levantamento cadastral", sendo não raro este crédito (contrato de crédito, na verdade) um crédito de consumo, destinado à aquisição de bens e serviços; b) comercial, que visa a estimular o comércio, produção e venda de bens; c) industrial, que não difere do comercial, mas é de longo prazo normalmente, fornecido por bancos de investimentos; d) agrícola, modalidade importante, que estimula a agricultura; e) marítimo, estimulando a construção naval e compra e venda de navios. MICROCOMPETÊNCIA 04: As operações bancárias como contrato Mercantil Pode-se afirmar que as operações bancárias têm natureza mercantil, já que os bancos e as instituições ofertantes estão economicamente organizados para a prestação de serviços financeiros em troca de lucro. Tais atividades apresentam dois aspectos distintos: o aspecto econômico e o aspecto jurídico. No primeiro aspecto, caracterizam-se como uma série de prestações de serviços realizadas pelas instituições financeiras no setor financeiro da economia, e que resultam em proveito tanto para os clientes que desses serviços necessitam como para os bancos e instituições que os prestam mediante uma remuneração (tarifária) por esses serviços (COVELLO, 1981). O aspecto jurídico caracteriza-se pela sua natureza jurídica: tais atividades têm a natureza jurídica de um contrato realizado entre os bancos e os seus clientes, que podem variar de conteúdo conforme as finalidades pretendidas pelas partes, CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza conforme as formas de adesão e conforme, sobretudo às garantias ofertadas e vinculadas às operações. O Código Comercial de 1850 em seus Art.119 e 120, bem como o Regulamento nº 737 de 25.11.1850 já definiam o contrato bancário como ato de natureza mercantil. O projeto de Lei nº 634/75 do qual resultou a edição da Lei 10.406 de 2002 (o novo CCB) tinha vários dispositivos que disciplinavam os contratos bancários (Art. 866 a 889) a exemplo do Código Civil italiano, mas eles foram todos suprimidos na redação final. Portanto, embora conhecidas como operações bancárias no mercado financeiro, tais atividades se caracterizam juridicamente como contratos mercantis bancários. Que em grande parte são do tipo contratos de adesão, já que seus termos já vêm prontos e acabados, cabendo ao cliente aderir a eles ou não celebrar o negócio. Nesse sentido, Mendonça (1947) classificou as operações bancárias em: a) operações essenciais ou fundamentais – operações próprias de bancos e que consistem em coletar capitais junto aos poupadores e alocar tais capitais aos interessados promovendo operações de crédito, pelas quais recebem uma remuneração; b) operações acessórias – realizadas pelos bancos em caráter secundário e que consistem em prestações de serviços (não caracterizadoras de operações de crédito), mas que ainda assim proporcionam uma remuneração tarifária ao banco. A maioria dos autores modernos divide tais operações bancárias em três tipos, partindo da mesma lógica acima: a) operações essenciais ativas: são os Empréstimos; Antecipação de créditos cambiários; Desconto; Abertura de crédito; Operações de câmbio; Adiantamento sobre contratos de câmbio; Leasing; Factoring; Know-how; Alienação Fiduciária em Garantia e Cartão de Crédito, dentre outras. b) operações essenciais passivas: são os Depósitos; Conta Corrente; Redesconto, etc. c) operações acessórias: custódia de títulos e valores; aluguel de cofres de segurança; cobranças, etc. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza CARACTERÍSTICAS DOS CONTRATOS BANCÁRIOS MICROCOMPETÊNCIA 05: Instrumento de crédito e Rígida contabilidade INSTRUMENTO DE CRÉDITO O contrato bancário é instrumento de operação de crédito. O contrato bancário, em sua grande maioria, é de crédito, e daí assume várias outras características, decorrentes desta, apontadas por Covello: 1) envolve confiança, pois de um lado o banco averigua a vida do cliente, e de outro deve haver rígido controle do Poder Público sobre a instituição financeira, vindo esta a inspirar a confiança da coletividade; 2) envolve prazo, que é o tempo que medeia prestação e contraprestação (esta é diferida, e não imediata); 3) envolve juro ou interesse, que é o preço de cada unidade de tempo em que se dilata o pagamento de um crédito; 4) envolve risco, inseparável da operação de crédito, seja risco particular (relativo a uma pessoa ou operação), geral (relativo a acontecimentos gerais que envolvem toda a nação ou até várias nações) ou corporativo ou profissional (relativo a um setor, uma classe ou uma profissão qualquer). RÍGIDA CONTABILIDADE O contrato bancário implica rígida contabilidade. Todos os contratos bancários, em função de em sua maioria lidarem com o crédito (pecuniaridade), são rigorosamente contabilizados, o que permite o controle da atividade bancária. Afirma Rizzardo que há a "[...] contabilização de todos os valores que ingressam e saem do banco, com a escrituração, de modo a não permitir margem de dúvidas quanto ao seu montante, ao vencimento, aos encargos inerentes e às amortizações." Os assentos de contabilidade, segundo Covello, são anotações que permitem comprovação imediata da operação realizada, porque os contratos bancários não podem ficar circunscritos aos esquemas tradicionalmente seguidos CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza nas matérias civil e comercial. Tais anotações são de indiscutível valor probatório, dada a escrupulosa contabilidade bancária e a presumível imparcialidade. Adverte Covello que, "Como assevera Garrigues, ‘os Bancos não realizam anotações em seus livros com fins de prova, e, por outra parte, uma contabilidade que não fora correta seria praticamente impossível de suportar, pois qualquer artifício ou alteração repercutiria no conjunto do sistema’." CARACTERÍSTICAS DOS CONTRATOS BANCÁRIOS MICROCOMPETÊNCIA06: Complexidade estrutural e busca de simplificação e Informalidade COMPLEXIDADE ESTRUTURAL E BUSCA DE SIMPLIFICAÇÃO O contrato bancário revela uma complexidade estrutural e busca simplificação. A complexidade é, para Rizzardo, "[...] outra nota das operações bancárias, em razão do surgimento constante de novas relações econômicas entre o banco e os usuários, exigindo operações cada vez mais sofisticadas e complexas, não apenas no sentido de atualizar a escrituração, mas de acompanhar as contínuas modificações que ocorrem no mundo dos negócios." Devido a esta complexidade grande, e a serem realizados em grande escala (em massa), coloca-se a busca por uma simplificação dessas operações, despontando isto também como característica. É neste sentido que se adotam documentos e títulos de crédito pelos quais se substitui o controle de uma situação jurídica material pelo de uma situação jurídica meramente formal. INFORMALIDADE No contrato bancário prevalece a informalidade. Quanto à forma, como assevera Pontes de Miranda, "Não há resposta ‘a priori’ às questões. A forma é a que tem de ter a espécie de negócio jurídico." CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Sabe-se que normalmente não se exige que a forma integre necessariamente a substância do ato. É o que afirma Dornelles da Luz. Para este, "Aliás, a informalidade crescente dos contratos do mercado financeiro é uma característica da atualidade, a maior parte dos quais materializam-se em fichas gráficas. A informatização e o uso do telefone têm propiciado movimentação de contas, aplicações em papéis [...].[...]. A agilidade do mercado financeiro e o alto grau de concorrência têm produzido essa inovação." Arnoldo Wald afirma que o Direito Bancário contemporâneo tem por características a padronização, utilização da informática e formalismo. Mas utiliza o termo "formalismo" no sentido de "fôrmas", pois os contratos bancários são realizados padronizadamente, sendo contratos de adesão. Ressalta que os mecanismos utilizados são "rápidos, simples e seguros", destacando o importante papel que os computadores têm realizado ultimamente. CARACTERÍSTICAS DOS CONTRATOS BANCÁRIOS MICROCOMPETÊNCIA 07: Sigilo e Contrato de massa SIGILO Há como dever intrínseco ao contrato bancário o dever jurídico de sigilo. Outra característica, ressaltada por Covello, é o caráter sigiloso dos contratos bancários. O banco assume informações confidenciais no trato com os clientes, sendo-lhe imposto o dever de discrição, sigilo. É verdadeiro dever jurídico de sigilo profissional. Os contratos bancários, sejam típicos ou atípicos, trazem o dever de sigilo, pelo art. 38 da lei n° 4.595/64: "As instituições financeiras conservarão sigilo em suas operações ativas e passivas e serviços prestados. Várias teorias procuram explicar o caráter sigiloso. A contratual afirma surgir do contrato, pois certas disposições, mesmo que não expressas, se pressupõem, como a do sigilo bancário se pressupõe frente à estrutura da operação bancária. É teoria bastante aceita, reforçada pela tese de que no contrato bancário estão os elementos do contrato de mandato, devendo o banco mandatário agir com diligência e discrição. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Outra teoria é a de Direito Comercial, pois enquanto atos de comércio as operações bancárias se devem interpretar de acordo com os usos e costumes do comércio, que impõem o dever de sigilo, costume muito antigo (remonta à Antigüidade). A teoria do ato ilícito afirma, por sua vez, que a quebra do sigilo acarreta danos, ficando o banco obrigado à reparação do prejuízo. Teorias do direito penal também procuram explicar, pois a quebra do sigilo profissional configura crime contra o Sistema Financeiro Nacional (lei n° 7.492, art. 18). À quebra do sigilo imputam-se sanções civis, penais e administrativas. Mas o sigilo profissional não é absoluto, havendo limites naturais, bem como legais, casos em que sua quebra não é ato ilícito (penal ou civil) do banco. São naturais o direito de o banco levar a protesto título que representa empréstimo, acionar judicialmente o cliente, ou fornecer dados da operação quando o cliente solicita. Os limites legais são bem postos por Ulhoa Coelho, e são os: da lei n° 4.595/64 (LRB), art. 38, §§ 1º a 4º; da lei n° 8.021/90, art. 8º (que revogou os §§ 5º e 6º do art. 38 da LRB); da lei n° 4.728/65, art. 4º; da lei n° 7.492,/86, art. 29. Recentemente o tema emergiu com grande destaque, quando a lei complementar n° 105, de 10 de janeiro de 2001, regulamentada na mesma data, pelo decreto n° 3.724, outorgou a autoridades e agentes fiscais a possibilidade da quebra do sigilo bancário, sem prévia autorização do Poder Judiciário. A interpretação anteriormente a esta lei complementar era de que a quebra do sigilo bancário somente era possível mediante ordem judicial. A medida foi adotada para intensificar o combate à evasão fiscal, e é polêmica, porque pode violar a privacidade e a intimidade, asseguradas como direitos fundamentais pelo inciso X do art. 5° da CF. Dependerá do âmbito do conteúdo desses direitos, que será examinado pelo STF. CONTRATO DE MASSA O contrato bancário é um contrato realizado em massa. O banco realiza operações em massa, a um grande número de clientes indistintamente. São milhares de contratos firmados diariamente, o que gera uma padronização do contrato, estes passam a ser "produzidos em série", em massa, para uma sociedade de consumo que cada vez mais faz uso das operações creditícias. O atendimento a CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza um sem-número de clientes gera a uniformização do contrato, ao qual o cliente simplesmente adere. É, pois, um contrato de adesão, característica que será analisada no próximo item. MICROCOMPETÊNCIA 08: Contrato de adesão CONTRATO DE ADESÃO E FORMULÁRIO O contrato bancário é contrato de adesão e formulário. A partir do momento em que o banco passou a atender a uma infinita seqüência de operações, tornou-se inviável a elaboração de um contrato para atender cada relação contratual. Deu-se, então, a necessidade da elaboração de minutas, idênticas, formuladas com antecedência, isto é, passaram os contratos a serem pré-determinados, assumindo uniformidade, bem como por isso passam a ter suas cláusulas impostas unilateralmente, não sendo conferida à outra parte a possibilidade de discuti-las. Conforme afirma o ilustre professor Alfredo de Assis Gonçalves Neto, quanto maior a empresa (organização dos fatores de produção por parte do empresário para exercer uma atividade econômica), mais o empresário se distancia da engrenagem que produz resultados. O grande empresário, em sua atividade em cadeia, uniforme, atua pelas diretrizes que dita aos seus prepostos, assim se justificando o surgimento dos contratos formulários. O contrato bancário é formulário e de adesão. Leciona o mestre que a distinção entre contratos de adesão e formulário, embora irrelevante para muitos, encontra sustentação de outros. Para estes, "[...] o contrato de adesão seria o contrato formulário decorrente de uma atividade exercida sob regime legal ou virtual de monopólio ou de oligopólio (Orlando Gomes, op. cit., nº 83, p. 126)." As atividades dos bancos estão sob rígido controle estatal, e dependem de autorização administrativa. Este sistemaoriginou um "[...] mercado cativo, à semelhança de um clube fechado cujo acesso só é permitido a quem tem cacife e influências. Tal como jóias de entrada, as chamadas cartas patentes (licença para instalação e funcionamento) alcançam preços disputadíssimos nas transferências de agências. Isso é suficiente para caracterizar o monopólio ou CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza oligopólio virtual exigido por alguns para configurar o contrato de adesão. Aliás, nesse ponto, todos os autores são concordes em catalogar como de adesão os contratos bancários." Elucida Covello que nos negócios jurídicos bancários a padronização atinge tal nível que passaram a se dar por condições gerais. Na evolução histórica dos bancos, as condições gerais se deram primeiramente num plano individual, tendo cada banco suas próprias condições, quando ainda não havia iniciativa dos círculos oficiais. Com o tempo, as condições se tornaram uniformes para todos os bancos, padronizando-se os formulários, por dois motivos: experiência de longos anos de trato com a clientela e desejo de eliminar a concorrência. Os bancos, em suas associações profissionais entabularam condições e se obrigaram a respeitá-las nas relações com os clientes. Nos países cultos, como no Brasil, prossegue Covello, soma-se outro motivo engendrante da padronização: a intervenção do Estado, pelo Banco Central, nos bancos, chegando, várias vezes, a determinar até a minuta do contrato. São elementos que caracterizam os formulários, instrumentos da contratação bancária: identidade formal, predeterminação de cláusulas e rigidez. Daí, no contrato bancário, o consentimento do cliente manifesta-se sob forma de adesão ao esquema que o banco propõe, sendo praticamente obrigado a aceitar, porque é o adotado por todos os bancos. Nota Orlando Gomes que a conceituação dos contratos de adesão é difícil, pois conforme a teoria que o explique, assume contornos diferentes (há, pelo menos, seis modos de caracterizá-lo). Para o autor, "O traço característico do contrato de adesão reside verdadeiramente na possibilidade de predeterminação do conteúdo da relação negocial pelo sujeito de direito que faz a oferta ao público." Segundo os que continuam defendendo a tese contratualista para explicá-lo (pois há quem negue seu caráter contratual), "[...] o contrato de adesão é um novo método de estipulação contratual imposto pelas necessidades da vida econômica. Distingue-se por três traços característicos: 1) a uniformidade; 2) a predeterminação; 3) a rigidez." A primeira é exigência da racionalização da atividade econômica. A segunda é a que o caracteriza com mais vigor. A uniformidade, sem predeterminação, não basta. A terceira é desdobramento das outras duas. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Nos contratos de adesão ocorre o confronto entre uma parte, mais forte economicamente (conglomerados, empresas oligopolizadas, monopólios), que domina e mantém cativo o mercado, e uma parte fraca, que não tem qualquer condição de fazer imposições frente a um corpo pré-estabelecido de cláusulas fechadas, restando-lhe apenas a alternativa de aceitá-las ou rejeitá-las em bloco. Contudo, muitas vezes, nem esta alternativa resta à parte, que necessita de bens e serviços para prover e desenvolver sua vida. Não há também que dizer de optar por outras empresas, quando estas se organizam, no dizer do professor Assis, "[...] unidas por formas disfarçadas de inconfessáveis cartéis (mantidos à sombra da tolerância e da inércia do Estado)[...]" Assim, como nota Arnaldo Rizzardo, coloca-se a parte fraca frente a cláusulas que muitíssimas vezes sequer lê. Se lê, não as entende. Se entende, e discorda, de nada adianta, pois não as pode alterar. E, como observado, fica entre aceitar ou rejeitar em bloco, sendo esta liberdade de escolha em vários casos ilusória, porque o autor da oferta goza de um monopólio, e a parte fraca tem necessidade do bem ou serviço. Daí afirmar Dornelles da Luz que se, a princípio, não há problema nos contratos de adesão, úteis e necessários, surgem os conflitos com o abuso de poder econômico de setores oligopolizados, mais fortes do que o aderente, o qual se subjuga e vincula frente à falta de alternativas concorrentes. Em virtude disso tudo é que muitos autores, segundo Orlando Gomes, contestam a natureza contratual da figura do contrato de adesão. Saleilles, pai da expressão "contratos de adesão", já no início do século afirmava que de contrato tinha apenas o nome. Não obstante, esclarece Gomes: Entende a maioria, porém, que apesar de suas peculiaridades, devem ser enquadrados na categoria jurídica dos contratos. Origina-se a dúvida na confusão a respeito do elemento que define o contrato. Deve- se distinguir, com Carnelutti, o concurso de vontades para a formação do vínculo e a regulamentação das obrigações oriundas desse vínculo. O concurso de vontades é indispensável à constituição dos negócios jurídicos bilaterais, dos quais o contrato constitui expressão mais comum. Por definição, o contrato é o acordo de duas vontades. Não se forma de outro modo. Já a regulamentação dos efeitos do negócio jurídico bilateral não requer a intervenção de duas partes. Pode ser expressão da vontade de uma com a qual concorda a outra, sem lhe introduzir alteração. A CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza regulamentação bilateral dos efeitos do contrato não é, enfim, elemento essencial à sua configuração. Por outras palavras, a circunstância de serem as obrigações estatuídas pela vontade predominante de um dos interessados na formação do vínculo jurídico não o despe das vestes contratuais. Afirma-se a contratualidade da relação pela presença do elemento irredutível, que é o acordo de vontades. No contrato de adesão não se verifica contratualidade plena, mas o mínimo de vontade existente no consentimento indispensável da parte aderente é suficiente para atestar que não é negócio unilateral. Prevalece, em conseqüência, a opinião de que possui natureza contratual." Cumpre observar também que é cada vez mais volumosa a corrente a qual sustenta que o contrato de adesão não pode ser explicado como contrato. Para Paulo Lôbo, que está dentre os autores que entendem que a teoria do negócio jurídico não explica o contrato de adesão, o contrato evoluiu para além do negócio jurídico e de sua teoria. Insistir no negócio jurídico como categoria mais ampla e que abarca todos os contratos é um obstáculo epistemológico. Há um afastamento, explica o autor, em certos contratos, dos princípios fundamentais do direito privado (como a liberdade de contratar e o auto-regramento da vontade – autonomia privada), e a solução não está na ampliação dos conceitos, pois com a generalização cresce a imprecisão. Dentro desse antagonismo é que sustenta o advogado Luiz Zenum Junqueira, em seu artigo "Natureza Jurídica do Contrato Bancário", que "Efetivamente – é do conhecimento geral das pessoas de qualidade média – os ‘contratos bancários’ não representam natureza sinalagmática, porquanto não há válida manifestação ou livre consentimento por parte do aderente, com relação ao suposto conteúdo jurídico, pretensamente convencionado pelo credor." Para Rizzardo, que cita Junqueira, "A vontade fica alijada de qualquer manifestação livre." E, por óbvio, as conseqüências jurídicas de se considerar, ou não, os contratos de adesão como verdadeiros contratos,são distintas, o que repercute diretamente nos contratos bancários. Apenas como provocação, pois não se encontram referências neste sentido, e é tema que merece estudo, se os contratos de adesão, aí os bancários, não forem contratos propriamente ditos, não aparecerão como figuras diretamente tratadas pelo direito. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza E reza o art. 4º, da LINDB: "Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais do direito." Embora isto leve o juiz a tratar tais "contratos" de forma semelhante aos contratos propriamente ditos (por analogia), abre-se um maior espaço ao magistrado para a aplicação dos costumes e princípios gerais do direito, podendo-se escapar às normas jurídicas contratuais quando elas não se coadunem com o sentido distinto que adquirem os contratos de adesão, primando-se por princípios gerais do direito que então direcionem a resolução de conflitos de modo mais justo. INTERPRETAÇÃO ESPECÍFICA O contrato bancário se submete a específica interpretação contratual, materialmente isonômica. Em função de o contrato bancário ter natureza de contrato de adesão, as regras gerais de interpretação dos contratos civis e comerciais se tornam insuficientes, vindo a doutrina em socorro colmatar tal lacuna. Embora esta não seja propriamente uma característica intrínseca, é uma projeção do caráter adesivo do contrato bancário, dizendo respeito à sua leitura, à sua própria visualização, sendo conveniente tal análise neste momento. Sendo necessário interpretar as cláusulas do contrato, a interpretação, além das regras sobreditas, será regulada sobre as seguintes bases: 1. a inteligência simples e adequada, que for mais conforme à boa fé e ao verdadeiro espírito e natureza do contrato, deverá sempre prevalecer à rigorosa e restrita significação das palavras; 2. as cláusulas duvidosas serão entendidas pelas que o não forem, e que as partes tiverem admitido; e as antecedentes e subseqüentes, que estiverem em harmonia, explicarão as ambíguas; 3. o fato dos contraentes posterior ao contrato, que não tiver relação com o objeto principal, será a melhor explicação da vontade que as partes tiveram no ato da celebração do mesmo contrato; 4. o uso e a prática geralmente observada no comércio nos casos da mesma natureza, e especialmente o costume do lugar onde o contrato deva ter execução, prevalecerá a qualquer inteligência em contrário que se pretenda dar às palavras; 5. nos casos duvidosos, que não possam resolver-se segundo as bases estabelecidas, decidir-se-á em favor do devedor. A doutrina também elaborou normas interpretativas para se atingir a vontade real das partes contratantes, tendo notabilizado-se as regras de Pothier. Mas os CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza contratos de adesão, em virtude de suas particularidades, merecem regras interpretativas específicas. Regras interpretativas legais específicas dos contratos de adesão são estabelecidas pelo Código de Defesa do Consumidor, entre os arts. 51 e 54, mas embora se dirijam a contratos de adesão, se aplicam quando se configurar relação de consumo (a aplicação do CDC às operações bancárias será posteriormente analisada). As regras vexatórias ou de especial gravidade são nulas, e as duvidosas se interpretam em favor do aderente. Estabelece a doutrina também regras de interpretação dos contratos de adesão, e por conseguinte dos contratos bancários. Ressalta Covello que se deve buscar a vontade comum das partes contratantes, através das regras propostas por Orlando Gomes, as quais se inspiram em uma ética cristalizada juridicamente em princípios como os da boa-fé e da confiança e lealdade recíprocas: O professor Orlando Gomes, após enfatizar que o juiz não deve verificar a vontade das partes à luz dos critérios mais usados no plano da concepção voluntarista do negócio jurídico e sim de conceitos flexíveis que lhe abram horizonte mais dilatado no sentido de evitar abusos por parte do estipulante, refere as seguintes regras: a) interpretação contra o estipulante; b) interpretação restritiva das regras que favoreçam o predisponente; c) prevalecimento das cláusulas especiais sobre as gerais, das manuscritas sobre as impressas; d) interpretação invariável das cláusulas gerais, sem se atentar para aspectos particulares de cada caso concreto. De fato, afirma Orlando Gomes que "[...] a singularidade de sua estruturação [dos contratos de adesão] não permite seja interpretado do mesmo modo que contratos comuns, porque é relação jurídica em que há predomínio categórico da vontade de uma das partes. É de se aceitar, como diretriz hermenêutica, a regra segundo a qual, em caso de dúvida, as cláusulas do contrato de adesão devem ser interpretadas contra a parte que as ditou." Afirma ainda o autor que o poder moderador do juiz deve ser usado de acordo com o princípio de que os contratos devem ser executados de boa-fé, sendo os abusos e deformações reprimidos. Para tanto a interpretação destes contratos comporta liberdade não admitida na interpretação dos contratos comuns. Mas também alerta que a tendência exagerada para negar a força obrigatória às cláusulas impressas é totalmente condenável, sendo até certas cláusulas rigorosas imprescindíveis para que os contratos de adesão em série atinjam os seus fins. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Gonçalves Neto bem esclarece o fundamento da interpretação diferenciada dos contratos bancários: [...] se aqui o Estado não cumpre sua tarefa de interferir na vontade dos contratantes através de uma regulamentação legal e adequada dos contratos-tipo, celebrados em massa (já por meio de regras imperativas que impeçam estipulações arbitrárias que interessam exclusivamente a quem as redige, já por meio de órgãos a tanto autorizados), é imprescindível que o intérprete e o aplicador da lei preencham este papel, na compreensão plena do exato alcance do aludido princípio constitucional, que determina sejam os desiguais tratados na proporção de suas desigualdades. Assim, a desigualdade real entre as partes contratantes conduz à uma desigualdade no tratamento jurídico, para que se atenda o princípio da isonomia em seu sentido material. Deve-se proceder, pois, uma interpretação materialmente isonômica. Segundo o professor Gonçalves Neto, este comportamento – de na falta de normas legais expressas, dar o intérprete ou aplicador tratamento, aos contratos bancários, diferenciado, buscando suprir a desigualdade entre os contraentes. MICROCOMPETÊNCIA 09: Dos empréstimos bancários A principal operação ativa dos bancos é o Empréstimo bancário, assim denominado o “mútuo mercantil”. É conhecida como “papagaio” no jargão popular. Dispõe o Art. 586 do CCB que mútuo “é o empréstimo de coisas fungíveis1. O mutuário é obrigado a restituir ao mutuante o que dele recebeu em coisa do mesmo gênero, qualidade e quantidade”. Quando a coisa emprestada é destinada a uso comercial, ou quando o mutuário ou o mutuante é empresário, o mútuo denomina-se “mútuo mercantil” (Veja nesse sentido o Art.247 do Código Comercial de 1850). O banqueiro ou instituição financeira só pode ser constituído como empresa sob a denominação de uma Sociedade Anônima por força do Art.16 da Lei 4595/1964. Ora, o Art. 982 do CCB considera-a sempre empresária.1 Coisas fungíveis são substituíveis por outras da mesma espécie. A coisa emprestada sendo fungível ou consumida não poderá ser devolvida ela mesma, pelo que sua restituição se faz por coisa equivalente. Art. 85 do CC. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Em Direito Civil são requisitos do contrato de empréstimo: a) a gratuidade; b) a fungibilidade da coisa; c) a temporariedade do empréstimo. Mas a gratuidade, que faz parte da natureza do mútuo, não é da sua essência, ao contrário do comodato, e, portanto, o mútuo civil pode não ser ato gratuito se expressamente for estipulada a sua onerosidade. Em outras palavras: no mútuo civil tal estipulação se permite, ao contrário do comodato2, e daí o mútuo recebe o nome de “Mútuo Feneratício”3 ou “Mútuo Frugífero”. Mas o mútuo mercantil, dada a natural busca de lucro por parte do empresário, será sempre ato oneroso. Dada a qualidade de empresário do banqueiro (ou da instituição financeira equiparada) é inevitável a incidência de juros e de correção monetária nos contratos de mútuo mercantil. Analisando o mútuo mercantil, podemos afirmar que, além de oneroso, ele é contrato real e unilateral. É real, porque se aperfeiçoa com a entrega da coisa pelo mutuante ao mutuário. É unilateral, porque gera obrigações apenas para o mutuário que se obriga a devolver o principal mais juros e correção monetária, além da comissão bancária, que é a remuneração cobrada pelo serviço prestado, autorizada pelo Banco Central. Já o mutuante a nada mais se obriga já que cumpriu a sua parte no contrato com a efetiva entrega do dinheiro na conta corrente do mutuário. O mutuante só necessita ter capacidade para negociar e alienar. Chama a atenção de que em algumas legislações, como na Itália, o contrato de mútuo é consensual e não unilateral. Podendo ser até mesmo objeto de um pré- contrato (a promessa de mútuo). Com a entrega do dinheiro, a propriedade da coisa se transfere ao mutuário (fenômeno da alienação - Veja Art. 587 do CCB) ao contrário do que ocorre no comodato. Por isso o mútuo mercantil não tem possibilidade de estipular a reserva 2 Arts. 579 a 585 CC. O comodato, etimologicamente derivado da locução latina commodum datum, significando aquilo que se dá em cômodo, em proveito de outrem, é um contrato de empréstimo regulamentado no CC/2002 a partir do artigo 579, que o define como empréstimo gratuito de coisas não fungíveis, que se perfaz com a tradição do objeto. 3 Outra modalidade de empréstimo é o mútuo, definido no Código Civil/2002 como “...o empréstimo de coisas fungíveis”. O Mútuo, nos dias atuais, possui, em regra, caráter especulativo, em especial no que atine ao empréstimo de dinheiro, que a doutrina chama de mútuo feneratício (com juros). Os juros são o proveito auferido do empréstimo do capital, possuindo natureza compensatória, pois representam frutos do capital (vale ressaltar, há também juros de natureza moratória, decorrentes do atraso no cumprimento da obrigação). O mútuo feneratício, destinado a fins econômicos, é tratado no art. 591 do CC. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza de domínio. E desde a tradição todos os riscos correm por conta do mutuário que tem a obrigação de devolver não a mesma coisa, mas coisa do mesmo gênero, qualidade e quantidade, o que no caso se faz com a devolução da mesma soma emprestada (mais juros, correção, etc.). O fator temporal é fundamental no mútuo bancário, porque serve de base para a incidência dos juros e da correção. Por isso mesmo é inconcebível que tal contrato não preveja o prazo de devolução, mas isto vindo a acontecer aplica-se o Art. 592, II do CCB (prazo de 30 dias pelo menos). Inaplicável sempre foi o Art. 137 do Código Comercial revogado, vez que aquela regra regulava obrigação de fazer, e o mútuo é uma obrigação de dar. Por causa disso, o mutuário tampouco pode exigir do mutuante de liberar-se da obrigação devolvendo o dinheiro antes do vencimento, exigindo um desconto pro- rata nos juros devidos. Alguns contratos até admitem tal estipulação mediante uma multa de 2% (ou mais) sobre a soma restante devida em caso de pagamento antecipado em favor do mutuante, o que é aceitável e inquestionável como cláusula abusiva. O mútuo mercantil não tem forma solene. O instrumento particular é a forma mais usada, exceto se envolver garantia hipotecária e nesse caso deverá ser por instrumento público. A Súmula nº 258 do STJ dispõe que a Nota Promissória vinculado ao contrato de abertura de crédito (ou empréstimo) dada em garantia pignoratícia4 não gozará da autonomia natural nos Títulos de crédito em razão da iliquidez do título que a originou, razão pela qual qualquer garantia fiduciária dada nesses contratos padece dessa restrição. • Da Vedação de Empréstimos Bancários O Art. 34 da Lei 4595/1964 proíbe o empréstimo ou qualquer outra modalidade de crédito, adiantamento de dinheiro ou financiamento bancário (exceto o desconto) a qualquer diretor das instituições financeiras ou a pessoas ligadas por parentesco até o segundo grau a essas pessoas (membros da diretoria, do conselho de 4 Garantia real conferida ao credor através de penhor mercantil, de direitos, de títulos de crédito etc, onde o bem ou direito permanece empenhado até o cumprimento da obrigação garantida, ou por determinado prazo. Ela torna a propriedade do bem precária até a liquidação da dívida. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Administração ou do Conselho Fiscal). Também é vedada tal operação às pessoas físicas ou jurídicas que participem do capital social da instituição financeira concedente do crédito. Caso delas necessitem, devem os interessados procurar obter essas operações em outras instituições financeiras nas quais não estejam impedidos. ANÁLISE DOS CONTRATOS BANCÁRIOS I MICROCOMPETÊNCIA 10: Das antecipações bancárias A antecipação bancária pode ser definida como o contrato bancário pelo qual o Banco adianta certa importância pecuniária ao cliente contra a entrega de uma garantia real do pagamento do empréstimo, a qual será executada caso haja inadimplemento da obrigação. É uma operação de crédito pela qual a instituição ou banco entrega ao cliente uma determinada quantia a título de adiantamento sobre determinada atividade e mediante a constituição de uma garantia real em títulos de créditos, ou em mercadorias ou documentos representativos destas, dados em penhor mercantil e cujo valor tem relação com a soma adiantada. A antecipação bancária se caracteriza: a) pela oferta de uma garantia real dada pelo interessado; b) pelo adiantamento pecuniário de um crédito cambiário lastreado pela garantia; c) por ser concedido por banco ou instituição financeira equiparada5. As formas de Antecipação bancária variam em função dos objetos sobre os quais recairá a garantia real, podendo incidir: a) sobre mercadorias ou documentos representativos destas; b) sobre títulos de crédito representativos de mercadorias; c) sobre outros títulos crédito em geral; d) sobre direitos creditórios diversos. 5 A prática de empréstimos a juros altos com garantia de coisas móveis foi introduzida pelos banqueiros judeus na Idade Média, porque contra eles não valia a proibição canônica da Igreja Católica da usura praticada com garantia de bens. Tal prática era contornada pelos católicos apenas por autorização especial do príncipe oudos bispos para certos tipos de operações. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza O financiamento bancário, disciplinado pela Resolução nº 19 do BACEN, é uma espécie de antecipação, vinculada a um empreendimento determinado (cédula rural; cédula industrial, etc.). A antecipação sobre o Imposto de Renda da Pessoa Física concedida pelos bancos, também é dada contra a garantia do crédito líquido e certo representada pelo cheque devolução do imposto da Secretaria da Receita Federal. Já o penhor sobre os títulos representativos das mercadorias não é considerado penhor sobre o título de crédito, e sim sobre a própria mercadoria, a teor do Art. 895 do CCB. Tal contrato é real, bilateral e oneroso. É real porque se aperfeiçoa com a tradição do dinheiro adiantado pelo banco ao cliente contra a garantia pignoratícia. É bilateral porque gera obrigações a ambas as partes: o banco fica obrigado pela guarda e conservação da garantia dada e à sua devolução havido o pagamento. É oneroso porque traz vantagens para ambas as partes: o banco percebe os juros remuneratórios e o cliente obtém o dinheiro que necessita sem precisar alienar o seu patrimônio. A obrigação do banco nesse tipo de contrato consiste em entregar ao cliente a quantia geralmente correspondente a 70% ou 80% do valor dos bens dados em garantia e sobre os quais o Banco manterá guarda e conservação. Não dispondo o banco de dependências para guarda e conservação das mercadorias ele pode confiar a custódia ao armazém geral às expensas do cliente ou mesmo nomeá-lo depositário mediante termo de responsabilidade cível e criminal, podendo ainda exigir um seguro do bem custodiado. Nesse tipo de contrato, o prazo se presume convencionado em favor do cliente devedor, que está interessado em desembaraçar-se do ônus o mais cedo possível. Por isso aqui, ao contrário do mútuo mercantil, entendemos que não é preciso aguardar o vencimento, podendo efetuar-se o pagamento antes dele que o banco terá de receber, sob pena de consignação judicial. Extingue-se o contrato não apenas pelo adimplemento da obrigação, mas também se houver perecimento ou diminuição da coisa dada em garantia sem reposição pelo devedor em tempo oportuno, ou vence antecipadamente o contrato em caso de falência do devedor. ANÁLISE DOS CONTRATOS BANCÁRIOS I CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza MICROCOMPETÊNCIA 11: Do desconto bancário Essa é uma operação bancária ativa típica. O CC italiano define-a no seu Art. 1858: “é o contrato pelo qual o banco, com prévia dedução do juro, antecipa ao cliente a importância de um crédito para com terceiro ainda não vencido, mediante a cessão do próprio crédito”. O Banco adianta a importância constante do título de crédito ao seu possuidor mediante sua cessão via endosso.O desconto bancário se caracteriza: a) por uma antecipação feita pelo banco ao legítimo portador de título de crédito, ainda não vencido, da importância expressa neste; b) pela tradição do dinheiro ao portador, que aperfeiçoa o contrato; c) pelo portador, que endossa o título, transferindo-o ao banco, transmitindo sua propriedade, mas tornando-se responsável coobrigado pela sua solvência no vencimento; d) pela importância expressa no título de que o banco deduz certa quantia a título de juros remuneratórios, e comissão. Só os Títulos de Crédito com vencimento certo (NP; Duplicatas, etc.) podem ser objeto de desconto. O cheque só pode ser objeto de desconto se for pós-datado. Alguns autores analisam tal operação como uma verdadeira compra e venda mercantil de um Título de Crédito, mas pode-se defini-la como um empréstimo. Pois é que a compra e venda não se caracteriza porque nela o banqueiro compraria o crédito o mais barato que pudesse para vender o mais caro que pudesse. Não é assim que ocorre no desconto, de fato o que o banqueiro faz é uma operação de crédito, dela retirando antecipadamente a remuneração de seu capital, já que a dedução nada mais é do que o juro remuneratório do empréstimo. Então o desconto assemelha-se ao mútuo. É um contrato real, bilateral e oneroso. Real porque se aperfeiçoa na tradição do dinheiro contra a entrega do título endossado. É bilateral porque remanescem ônus para ambas as partes: o cliente cedente fica com a obrigação residual de pagar ao banco o principal, caso o devedor direto não o faça, e o Banco deve promover a cobrança do título em seu próprio nome como condição para exigir o pagamento do coobrigado (devedor indireto) caso o devedor direto não o faça. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza • Do factoring (faturação) O contrato de faturização é aquele em que o empresário cede a outro empresário os seus créditos de vendas (ou faturamento), na totalidade ou em parte. O cedente recebe a antecipação dos recursos por conta dos recebimentos que possui, descontados os juros remuneratórios desse adiantamento, e o cessionário recebe além dos juros remuneratórios uma comissão. É uma variante do desconto bancário e o que pouca gente sabe é que tal atividade caracteriza-se por ser de fomento mercantil que se destina a ajudar, sobretudo às pequenas e médias indústrias, expandir seus ativos, aumentar suas vendas, sem fazer dívidas. Não se tratando propriamente de uma atividade bancária e os Art. 43 e 44 da Lei 4.595 de 31.12.1964 podem ser invocados contra os bancos que praticarem tal modalidade, que está reservada às empresas de fomento mercantil. Embora sua origem remonte à Antigüidade, guardando similitude com as operações de antecipação bancária, a modalidade é nova no Brasil e ainda não tem regramento legislativo. Há uma Associação Nacional de Factoring (ANFAC) que congrega as empresas que realizam tais contratos, porque ele tem respaldo legal na Lei 5.995 de 31.12.1964, no Decreto 5.474/1966, na Lei 8.981 de 1995 e no atual CCB (Lei 10.406 de 2002) nos Art. 246 a 298 e Art. 594. Há várias modalidades: a) o factoring convencional – compra de direitos creditórios ou ativos representativos de vendas mercantis a prazo, mediante a cessão pro soluto notificada pelo vendedor (endossante) ao comprador (sacado ou devedor) com assunção do risco de inadimplência; b) o Maturity – diferencia-se do convencional porque os títulos são enviados pelo cedente à sociedade de fomento mercantil e por esta liquidados no vencimento; c) o Trustee – que é mais uma gestão financeira de negócios da cedente pela sociedade de fomento mercantil. O cedente passa a trabalhar com 0 (zero) de ativos a receber, otimizando sua capacidade financeira; d) o de Exportação – voltado para as operações de venda do comércio internacional da cedente; o OverAdvance – que na verdade é um adiantamento à cedente para compra de matéria-prima com ativos casados e/ou compra de faturamentos futuros. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza MICROCOMPETÊNCIA 12: Da abertura de crédito O contrato de Abertura de Crédito é, na verdade, uma promessa do banqueiro de consentir em uma determinada operação de crédito. O crédito prometido pode não estar ainda concedido, mas sê-lo-á, quando o cliente solicitar. Por esse tipo de contrato o banco se obriga a manter a disposição do creditado determinada importância por certo lapso de tempo ou até por tempo indeterminado. O cliente utiliza-se da importância creditada segundo as modalidades convencionadas no contrato. Em outras palavras: a obrigação do banco nesse tipo de contrato é colocar a hora e a tempoà disposição do creditado a soma convencionada. Enquanto o creditado não manifesta a vontade de utilizá-la nada deve ao banco. É contrato consensual, é oneroso bilateralmente, porque importa em obrigações de ambas as partes (o cliente fornece garantias, por exemplo), é não solene, porque não requer forma especial, e se caracteriza, principalmente, por ser de execução continuada. Diferentemente do mútuo, por exemplo, não requer a efetiva entrega do dinheiro (portanto não é contrato real, é consensual) já que se aperfeiçoa com a assinatura das partes (basta o consenso das partes). Ocorre freqüentemente nesse tipo de contrato que o banco exija do cliente notas promissórias para a recuperação ou desmobilização do seu eventual crédito, mas elas não representam, a teor da jurisprudência sobre Títulos de Crédito vinculados à Contrato, nenhuma ulterior garantia àquela pessoal do próprio creditado (Veja Súmula nº258 STJ). De fato, inadmite-se nesse tipo de contrato, que o banco exija que o cliente lhe outorgue procuração que resulte na emissão de cambial voltada para a cobrança dos valores devidos pelo cliente. A NP assim emitida não pode ser considerada um título executivo extrajudicial. Há farta jurisprudência em nossos Tribunais Superiores a respeito e há inclusive dispositivo legal no CDC (Lei 8078/90) que declara nula cláusula contratual que permite a emissão de cambial por procuração do emitente. Quanto à garantia ofertada pelo cliente, o contrato pode ser: a) a descoberto (sem garantia dada); b) garantido (por penhor ou hipoteca – garantia real, ou simples CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza fiança ou garantia fiduciária). Tal tipo de contrato bancário usa-se muito nos cheques especiais (nome bancário desse tipo de contrato quando utilizável mediante conta- corrente garantida). Denomina-se cheque garantido o cheque emitido com o respaldo de um contrato subjacente de abertura de crédito. Como geralmente é celebrado por tempo determinado, extingue-se o contrato pela superveniência do termo. Se for por tempo indeterminado, por simples notificação de quaisquer das partes. Ou ainda pela morte, incapacidade ou falência do creditado ou do banco creditante. Também a exaustão do crédito causada pelo uso total que o creditado dele faz, enseja a extinção. A má utilização por parte do cliente do crédito concedido em conta corrente, por si só, não autoriza o encerramento do contrato. Nem a simples mantença do saldo negativo da conta corrente enseja o vencimento antecipado do contrato, embora a falta de pagamento de juros e comissões reiteradas vezes pelo creditado constitua motivo para sua extinção. A Portaria nº 3 da Secretaria de Direito Econômico, expedida em 15.03.2001, regula o Art. 51 do CDC que impossibilita a negativação do nome do devedor enquanto perdurar a discussão judicial do contrato e da dívida remanescente. MICROCOMPETÊNCIA 13: Das operações de crédito documentado As operações de crédito documentado são muito usadas nas operações de Comércio Internacional. Podem ocorrer nas operações internas, mas, devido às suas particularidades e aos problemas de transporte internacional, são utilizadas amiúde no comércio exterior. Consistem em uma técnica bancária que assegura o cumprimento recíproco das obrigações de compra e venda internacional, eliminando assim os riscos do pagamento e da entrega da mercadoria, o que vai ao encontro do melhor interesse de segurança jurídica dos exportadores e dos importadores. Segundo o texto das Normas e Usos Uniformes relativos aos Créditos Documentados, elaborado em Congresso realizado no México em 1962 e revisto em 1974, entende-se pela expressão “crédito documentado” qualquer estipulação pela qual um banco (emitente), operando a pedido de um cliente (ordenante) e conforme CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza suas instruções, fica incumbido de pagar a um terceiro (beneficiário) ou à sua ordem, ou de aceitar ou negociar letras de câmbio sacadas pelo beneficiário, ou autorizar outro banco a fazer tais pagamentos. O saque opera-se apenas contra documentos convencionados. Em outras palavras: o banco, de acordo com instruções de seu cliente, importador de uma mercadoria, se compromete a pagar por ele, ao exportador/vendedor, contra a entrega de certos documentos e conforme os termos do contrato de comércio exterior celebrado entre ambos, o respectivo preço. E recebe uma pequena remuneração por esse importante serviço financeiro. Tal modalidade de contrato pode ter natureza diversa conforme o tipo: pode ser revogável ou irrevogável. Crédito Revogável é o que pode ser modificado ou cancelado a qualquer tempo. Crédito irrevogável é o que constitui para o banco emissor uma obrigação irrevogável (seja de aceitar os títulos, se o crédito for disponível para aceite do banco emissor; seja de assumir a responsabilidade de aceite e pagamento do título no seu vencimento; seja de pagar ou providenciar o pagamento do crédito se este for disponível contra remessa de um saque, ou não). O primeiro não oferece segurança tanto para o vendedor quanto para o banco emissor em caso de pagamento por correspondente, por isso é pouco usado. O segundo não pode sofrer contra-ordem seja do ordenante, seja do banco emissor. A operação de crédito documentado baseia-se fundamentalmente em uma carta de crédito, instrumento de redação padronizada, assinado pelo banco emissor, no qual este, por conta do seu cliente/importador, se obriga para com o beneficiário/exportador a pagar, aceitar ou negociar letras de câmbio contra a entrega dos documentos relativos à compra e venda internacional (fatura pró-forma, nota de transporte, bilhete de seguro, etc.). Ela se desenvolve em três etapas: a) na conclusão da venda, o vendedor/exportador exige e o importador promete a intervenção de um banco: firma-se uma convenção; b) na execução da convenção, o importador dá ordem ao seu banco para abrir crédito documentado em benefício do exportador: é na abertura do crédito que entra a Carta de Crédito emitida pelo Banco emissor; c) o exportador remete os documentos solicitados, comprovando o embarque das mercadorias e, CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza após a verificação documental, o banco ou paga ou aceita a Letra de Câmbio6 sacada pelo exportador contra este, realizando o contrato de crédito documentado. Como se vê é um contrato complexo que extingue as obrigações próprias em três momentos distintos. • Das operações de câmbio e do adiantamento sobre contratos de câmbio Nas operações de comércio exterior há necessidade de realizar o câmbio das moedas, isto é, a troca do dinheiro de um país por quantia equivalente em dinheiro de outro país. O instrumento de execução do câmbio são as letras ou cambiais, denominadas “saques”. O mecanismo consiste no seguinte: o importador brasileiro comprou U$D 10.000 em mercadorias de um exportador norte-americano. Como a nossa moeda não tem poder liberatório nos EUA, seria preciso que ele adquirisse tais dólares e os enviasse ao credor. Ora, o câmbio simplifica isto: o importador vai ao seu banco no Brasil, lá entrega quantia em reais equivalentes a U$D 10.000 e recebe uma ordem de pagamento (cambial) em favor do exportador americano contra um banco dos EUA. De posse dessa cambial, o exportador vai ao seu Banco nos EUA e lá recebe o dinheiro do preço das mercadorias exportadas. A grande utilidade dessa operação bancária é evitar a circulação da moeda. Por outro lado, além deimportadores e exportadores, também os turistas necessitam de moeda estrangeira para suas viagens internacionais. Isto enseja a emissão dos “travellers checks”, que funcionam analogamente como uma carta de crédito. A operação de câmbio não traria nenhuma dificuldade se os créditos recíprocos se compensassem exatamente. Então o câmbio estaria ao par. Mas isto nunca acontece, e daí é necessário estipular uma taxa de câmbio, isto é, o preço pelo qual uma moeda será convertida na outra. O valor de uma moeda em relação a outra 6 A letra de câmbio é uma espécie de título de crédito, ou seja, representa uma obrigação pecuniária, sendo desta autônoma. A emissão da letra de câmbio é denominada saque; por meio dele, o sacador (devedor), expede uma ordem de pagamento ao sacado (normalmente uma instituição financeira), que fica obrigado, havendo aceite, a pagar ao tomador (um credor específico), o valor determinado no título. Apesar de atribuir ao sacado a obrigação de pagar o tomador, o sacador permanece subsidiariamente responsável pelo pagamento da letra. Não sendo pago o título no seu vencimento, poderá ser efetuado o protesto e a cobrança judicial do crédito, que se dá por meio da ação cambial. Porém, para que o credor possa agir em juízo, é necessário que esteja representado por um advogado. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza denomina-se “cotação do câmbio”. Nestas cotações está embutida uma comissão do banco pelo serviço de câmbio. No Brasil tais operações são autorizadas às instituições financeiras pelo BACEN. Já os ACC (Adiantamentos sobre Contratos de Câmbio) são operações bancárias ativas de antecipação de receita que se assemelham a um desconto de títulos de crédito, porém o exportador torna-se responsável pela moeda conversível que vai receber e deve repassá-la ao banco. No mais, o contrato funciona como uma antecipação bancária sobre o título do exportador. MICROCOMPETÊNCIA 14: Do leasing ou arrendamento mercantil O leasing ou arrendamento mercantil é o contrato pelo qual uma pessoa jurídica mercantil arrenda a uma pessoa física ou jurídica, por tempo determinado, um bem comprado por ela seguindo as instruções do comprador, para fins de arrendá-lo ao comprador e daí retirar o capital investido. Cabendo ao arrendatário a opção de adquirir o bem arrendado ao final do contrato mediante um preço residual previamente estipulado (denominado valor residual geral-VRG). Na verdade a operação, quando foi concebida pioneiramente pela U.S. Leasing Boothe Junior (daí o nome “leasing” que a popularizou), não embutia totalmente o preço da aquisição, satisfazendo-se pelo retorno do capital via arrendamento. O tempo de arrendamento era fundamental para determinação do valor residual. Hoje há uma descaracterização do contrato original de leasing, porque as empresas financeiras oferecem um contrato de compra e venda com uma parte do VRG embutida e o restante diluído pelas parcelas a pagar até o final do contrato. Assim, ao chegar ao fim do contrato, o cliente não tem mais opção de compra, pois já pagou o bem, em alguns casos, até mais do que se o tivesse adquirido pela modalidade de financiamento. Pode-se financiá-lo sob a modalidade de alienação fiduciária, isto é, com transferência temporária da posse, mas sem transmissão do domínio, o que permite em caso de inadimplemento do contrato, a retomada do bem alienado por reintegração de posse. Mas não é assim que funciona o leasing, onde o proprietário é a empresa de leasing (instituição financeira) que cobra um aluguel pela posse e CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza uso do bem móvel ou imóvel e só no fim do contrato permite a opção de compra pelo arrendatário. No Brasil tal contrato é disciplinado pela Lei 6.099 de 12 de setembro de 1974 (com a redação modificada pela Lei 7.132 de 1983). No seu Art. 1º o diploma legal define a operação: Considera-se arrendamento mercantil, para os efeitos dessa lei, o negócio jurídico realizado entre pessoa jurídica, na qualidade de arrendadora, e pessoa física ou jurídica, na qualidade de arrendatária que tenha por objeto o arrendamento de bens adquiridos pela arrendadora segundo especificações da arrendatária e para uso desta. Por outro lado o Art. 7º determina que todas as operações de arrendamento mercantil subordinam-se ao controle e fiscalização do Banco Central do Brasil, segundo as normas do Conselho Monetário Nacional. Há quatro modalidades de leasing disponíveis no mercado: a) o leasing operacional ou renting – no qual empresa fabricante (ou proprietária), sem intermediários, arrenda prestando ainda assistência durante todo o período de arrendamento. É a ideal (para bens que logo ficam ultrapassados); b) o leasing financeiro – é o tipo básico adequado às instituições financeiras; c) o Leasing de retorno ou lease back – quando o proprietário usa o bem imóvel ou móvel para gerar caixa e no fim do contrato tem a oportunidade de readquirilo; d) O Self Leasing – utilizado por empresas que são coligadas a um mesmo grupo (o Art. 2º da Lei 6.099 veda-o expressamente, mas ainda assim ocorre no mercado, sem as garantias da lei). Tal contrato é bilateral, porque cria obrigações para ambos os contratantes; é oneroso, porque há vantagens pecuniárias para ambas as partes; é comutativo, porque as prestações são certas e de execução continuada. É sempre realizado com prazo determinado e firmado intuitu personae porque a ausência de uma das partes contratantes extingue o contrato. MICROCOMPETÊNCIA 15: Do depósito bancário Ocorre quando o cliente entrega dinheiro ao banco para depósito em conta corrente ou outra modalidade, e recebe deste a obrigação de restituição imediata quando assim o desejar. Se o depósito for à conta corrente, o cliente não recebe remuneração pelo dinheiro depositada. Se for por prazo determinado (depósito a CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza prazo fixo), sim. Nesse caso se precisar do dinheiro antes do termo convencionado haverá rateio dos juros remuneratórios. O depósito é uma espécie específica de contrato de depósito. No contrato de depósito, a pessoa depositária recebe, para guardar, um objeto móvel alheio com a obrigação de restituí-lo quando o depositante reclamar (Art. 627 a 652 do CCB). Quando a coisa depositada é infungível, o depósito é regular ou comum. Quando é fungível, o depósito é irregular. Alguns autores não admitem a natureza jurídica de depósito do depósito bancário, porque argumentam que no depósito bancário há transmissão do domínio para o banqueiro da coisa depositada, há uma verdadeira operação de crédito, o que não ocorre no depósito civil. Todavia, prefere-se entendê-lo como um depósito irregular porque o banco devolve ao cliente coisa do mesmo gênero, qualidade e quantidade. Quanto a ser ou não operação de crédito, é irrelevante porque sendo a coisa fungível, no caso, o banqueiro pode consumi-la ou dar-lhe outro destino. O contrato é real e unilateral: real porque se aperfeiçoa com a entrega do dinheiro e comprovante do depósito, unilateral porque as obrigações são devidas apenas pelo depositário já que a vontade da parte depositante já o aperfeiçoou. MICROCOMPETÊNCIA 16: Da conta corrente bancária Em liguagem comum, a conta bancária é quando um indivíduo deposita dinheiro em alguma agência bancária ou instituição financeira (banco). O indivíduo se torna o titular de uma conta bancária ou conta corrente. Masas contas possuem inúmeras finalidades e registram diversas outras operações como empréstimos, linha de crédito, controle de recursos governamentais, entre outras. Como o titular do dinheiro dá a posse ao banco, que imediatamente passa a utilizar seu dinheiro em suas próprias operações, ou então os repassa compulsoriamente para o Banco Central, pode ocorrer de que quando o correntista CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza vier a sacar seu saldo, não haja recursos disponíveis para tanto. É um caso extremo que no Brasil já ocorreu em várias ocasiões: o governo pode congelar ou bloquear o dinheiro ou tomá-lo para si (tributando-o integralmente, já que a Constituição proíbe o confisco); também ocorre do banco ir a falência ou ficar com a imagem comprometida por algum evento (crise de confiança) e sofrer uma onda de saques. Assim, portanto, é através desse contrato que ocorrem as relações cotidianas entre banco e cliente. Nele o cliente faz remessa de dinheiro na sua conta corrente, tornando-se credor dessa importância, a qual pode dispor a qualquer tempo. Distingue-se da conta corrente contábil que é mero lançamento contábil. É espécie qualificada da conta corrente mercantil, conta aberta entre dois comerciantes para identificar suas obrigações recíprocas. É um tipo de contrato mercantil no qual duas pessoas, um necessariamente empresário, convencionam fazer recíprocas remessas de valores, sejam em dinheiro, títulos ou outros bens. Anotam-se os créditos daí resultantes em uma conta corrente contábil, para posterior verificação do saldo exigível através de balanço. No caso da conta corrente mercantil bancária, há créditos em dinheiro e créditos representados por pagamentos, transferências, juros, comissões, etc. É contrato bilateral porque têm obrigações recíprocas, é consensual porque realizado por consenso entre as partes, é oneroso porque a cada vantagem obtida por uma parte corresponde o sacrifício da outra parte quando não há vantagens para ambas as partes. Os contratantes devem ter capacidade civil para contratar; e uma das partes deve ser um banco para classificarmos como contrato bancário. A extinção ocorre no termo do contrato quando as obrigações contraídas cessam sua existência. Também há extinção por morte, interdição ou falência das partes. TÓPICOS EM CONTRATOS BANCÁRIOS I CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza MICROCOMPETÊNCIA 17: Conceitos gerais em Contratos Bancários Há várias definições acerca de Banco que, embora variem na forma, são coincidentes quanto ao tipo de atividade por ele exercitada. Uma definição muito boa é a de Mendonça (1997, p. 13): “são empresas comerciais, cujo objeto principal consiste na intermediação entre os que dispõem de capitais e os que precisam obtê- los, isto é, consiste em receber e concentrar capitais para sistematicamente distribuí- lo por meio de operações de crédito”. As operações bancárias se dão por meio dos contratos bancários. O contrato bancário, como todo contrato, é um fato jurídico. E dentro do gênero fato jurídico, normalmente é enquadrado especificamente como negócio jurídico. Deste modo, dentro do âmbito das operações bancárias, os contratos bancários funcionam como seu esquema jurídico, como fato jurídico propulsor da relação jurídica obrigacional bancária, engendrando direitos subjetivos e deveres jurídicos. Posto o conceito de contrato bancário, cumpre classificá-lo. Há diversas classificações dos contratos bancários, sendo a primeira e mais importante a que os divide em contratos bancários típicos e contratos bancários atípicos. Os contratos bancários recebem o adjetivo típico quando se realizam para o cumprimento da função creditícia dos bancos (operação bancária típica, de crédito), e quando típicos se subdividem em ativos e passivos, conforme assuma o banco, respectivamente, a posição de credor ou devedor da obrigação principal. São atípicos os que o banco realiza para prestação de serviços (operação bancária atípica). Pode-se afirmar que as operações bancárias têm natureza mercantil, já que os bancos e as instituições ofertantes estão economicamente organizados para a prestação de serviços financeiros em troca de lucro.Tais atividades apresentam dois aspectos distintos: o aspecto econômico e o aspecto jurídico. No primeiro aspecto, caracterizam-se como uma série de prestações de serviços realizadas pelas CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza instituições financeiras no setor financeiro da economia, e que resultam em proveito tanto para os clientes que desses serviços necessitam como para os bancos e instituições que os prestam mediante uma remuneração (tarifária) por esses serviços (COVELLO, 1981). Especificamente em relação às características dos contratos bancários, pode-se dizer que seguem da seguinte forma: Instrumento de crédito, Rígida contabilidade, Complexidade estrutural, busca de simplificação e Informalidade, Sigilo, Contrato de massa, Contrato de adesão e formulário, interpretação específica. Já em relação às espécies de contratos bancários, apresenta-se o seguinte: Dos empréstimos bancários, Das antecipações bancárias, Do desconto bancário, Da abertura de crédito, Das operações de crédito documentado, Do leasing ou arrendamento mercantil, Do depósito bancário, Da conta corrente bancária. FUNDAMENTOS DO SIGILO BANCÁRIO MICROCOMPETÊNCIA 18: Generalidades acerca do Sigilo Bancário Embora a maioria dos juristas exerça ferrenha defesa do sigilo bancário, a Constituição Federal não se referiu diretamente a isso. O que a Lei Maior garante é o direito à intimidade, à privacidade e a inviolabilidade da transmissão de dados. O direito à privacidade e à intimidade não têm definição fechada, estando no nebuloso campo interpretativo. Baseado nisso, muitos doutrinadores têm se esforçado em incluir o direito ao sigilo bancário como intrínseco à intimidade pessoal. Alguns por crerem estar defendendo o cidadão de intromissões indesejadas do Estado, outros por militarem na trincheira ideológica dos bancos. A inserção constitucional do sigilo bancário é interpretada por duas correntes antagônicas: A primeira, posiciona o sigilo bancário dentro do contexto dos direitos CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza à intimidade ou à privacidade, albergados pela Carta Maior. Esta corrente entende que a movimentação que alguém faz de seu patrimônio mobiliário, somente ao titular diz respeito, é um aspecto íntimo e a mais ninguém interessa. Prega que na intimidade, incluem-se também fatos de ordem econômica e material e que os negócios de uma pessoa são projeções de sua personalidade. Isto se faz sentir, com maior intensidade nas sociedades capitalistas. Para adentrarmos à análise da primeira tese é mister fazer uma incursão sobre intimidade. Por intimidade entende-se o espaço onde se exercita a liberdade interior. Marcuse, dá como definição de liberdade interior: "o espaço privado no qual o homem pode permanecer ele próprio". (1) Segundo o Jurista Jean Carbonnier, "a intimidade é a esfera secreta da vida do indivíduo". Paulo José da Costa Júnior, em sua célebre monografia O Direito de Estar só, define intimidade como: "A necessidade de encontrar na solidão aquela paz aquele equilíbrio, continuamente prometidos pela vida moderna; de manter-se a pessoa, querendo, isolada, subtraída ao alardee à publicidade, fechada na sua intimidade, resguardada dos olhares ávidos. A intimidade corresponderia à vontade do indivíduo de ser deixado só". (2) Para Milton Fernandes, vida privada representa "o direito de que sejam razoavelmente excluídos da informação alheia as idéias, fatos e dados próprios do sujeito". (3) Lucien Martin dizia que "a vida privada é a vida familiar, pessoal do homem, a sua vida interior, espiritual, aquela que leva quando vive por detrás de sua porta fechada". (4) Segundo René Ariel Dotti, "a intimidade é a esfera secreta da vida do indivíduo na qual este tem o poder legal de evitar os demais", que é semelhante ao conceito de Adriano de Cupis que define a intimidade (riservatezza) como o modo de ser da pessoa que consiste na exclusão do conhecimento de outrem de quanto se refira à pessoa mesma.(5) No dizer de Othon Sidou, "o direito à intimidade é, pois, o direito à dignidade humana, dês que é aí onde ele vai buscar todo seu conteúdo ético".(6) Da Conferência Nórdica sobre Direito à Intimidade, realizada em maio de 1967, em Estocolmo, extraiu-se a seguinte definição: "O direito à intimidade é o direito do CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza homem de viver em forma independente a sua vida, com um mínimo de ingerência alheia". (7) Mesmo com todas as dificuldades de formulação conceitual, denunciada pelos autores citados, verificamos que todas as definições do direito de intimidade são fiéis ao desejo de estar só e de excluir do conhecimento alheio fatos e dados registrados na esfera estritamente pessoal. De acordo com o posicionamento dominante dos Doutos que pesquisaram o assunto, não há dúvida de que o direito à intimidade é integrante dos direitos da personalidade, dada à abrangência maior do último e ao caráter essencial de ambos, representando um mínimo capaz de garantir ao homem sua condição humana. Como os direitos da personalidade o direito à intimidade é pessoal, extrapatrimonial, inalienável, absoluto, imprescritível e são postos e garantidos pelo Estado. Assim, a inclusão do sigilo bancário como uma das facetas da intimidade ou da vida privada, erige-o ao patamar de cláusula pétrea, oponível a todos e imune às emendas constitucionais. Mas os que adotam tal teoria, não conseguem compatibilizá-la com as demais normas constitucionais que versam sobre direito tributário, nem com a origem histórica do sigilo, como se verá na explanação da segunda corrente. Há prosélitos, nesta linha, que chegam a defender a total inviolabilidade dos dados, com fulcro na obscura redação do inciso XII do art. 5o. da Carta Maior. Aceitar tal tese é o mesmo que tornar imprestáveis todos os bancos de dados existentes. O dado só existe para ser acessado, se o acesso é proibido, perde a razão de ser. O que a Constituição quer tutelar é a transmissão dos dados, tanto que a elenca ao lado de outras modalidades de transmissão do pensamento. Esta nova modalidade de transmissão tecnológica era desconhecida das Constituições anteriores a 1988. A Segunda corrente entende que o sigilo bancário é uma decorrência da atividade comercial. Estudando a origem histórica do sigilo bancário, verifica-se que em muito se assemelha à do comércio. Embora de âmbito privado, o comércio não é onipotente: submete-se às regras da legalidade e do bem comum. Nem clientes nem comerciantes podem comercializar, indiscriminadamente, qualquer produto, pois alguns são proibidos. Se alguém vende ou adquire um produto vedado por lei, a CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza relação deixa de ser privada e passa a ser pública, pois ofende à sociedade e o fato deve ser apurado criminalmente. Em seu livro "O Sigilo Bancário", Sérgio Carlos Covello fez um minucioso estudo histórico sobre o desenvolvimento da atividade bancária, verificando que ao longo das civilizações mais conhecidas teve início junto ao templos: Na Babilônia, e na Grécia os sacerdotes recebiam depósitos, realizavam empréstimos e mediavam pagamentos. O Código de Hamurabi, embora não se referisse a banqueiros, fixou como norma, a taxa máxima de juros em 20% para dinheiro e 33.330 % para o trigo. Quem cobrasse juros superiores aos legais, seria punido com a perda do capital emprestado. Entre os hebreus, o empréstimo de dinheiro a juros só era permitido nas transações com os estrangeiros. Na Bíblia, Dt, 23,20-21 encontra-se a seguinte passagem: "Não empreste ao seu irmão com juros, quer se trate de empréstimo em dinheiro, quer em alimentos ou qualquer outra coisa sobre a qual é costume cobrar juros. Você poderá emprestar com juros ao estrangeiro. Mas ao seu irmão empreste sem cobrar juros, para que Javé, seu Deus abençoe tudo o que você fizer na terra em que você está entrando para dela tomar posse." (8) É bastante conhecida uma passagem do evangelho em que Jesus, revoltando- se contra a excessiva atividade comercial e financeira exercida no templo, expulsa os cambistas e os vendedores dizendo: "minha casa será casa de oração. No entanto, vocês fizeram dela uma toca de ladrões." (9) Em outra passagem, conhecida como parábola dos talentos, Jesus Cristo faz alusão explícita ao juros pagos pelo banqueiros. (10) Na Idade Média. os bancos foram impulsionados pelo comércio e atividades industriais . Inicialmente, os bancos particulares foram criados sob o comando de judeus, já que para os cristãos o juro era proibido. Tão logo cessou a censura da Igreja aos juros, surgiram os banqueiros cristãos. O Banco de São Jorge, em Roma, foi a primeira instituição bancária nos moldes modernos. Sua origem foi estatal. Objetivava-se administrar as rendas do Estado. Este banco subsistiu de 1147 a 1767. Em todas as civilizações abordadas, CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza com exceção da egípcia, o autor citado encontrou presente a figura do sigilo nas operações bancárias. Neste sentido, existem várias teorias aptas a fundamentar a natureza do sigilo bancário. NOTAS: (1) MARCUSE. Ideologia da Sociedade Industrial, trad. Bras. Giasone Reburé, Rio de Janeiro, 1967, p. 30. (2) COSTA JUNIOR, Paulo José da. O Direito de Estar Só, São Paulo, Ed. Revista dos Tribunais, 1970. (3) FERNANDES, Milton. Proteção Civil da Intimidade, São Paulo, Saraiva, 197, p.82. (4) DOTTI, René Ariel. Proteção da Vida Privada e Liberdade de Informação, São Paulo, editora Revista dos Tribunais,1980 p. 68, citando Urabayen. (5) DOTTI, René Ariel. Proteção da Vida Privada e Liberdade de Informação, São Paulo, Editora Revista dos Tribunais, 1980 p. 69. (6) SIDOU, Othon . RT 421/10. (7) DEDA, Artur Oscar de Oliveira. Revista de Direito Civil 36/21 e Dotti, René Ariel. Proteção da Vida Privada e Liberdade de Informação, São Paulo, editora Revista os Tribunais, 1980, p.73. (8) BIBLIA.N.T. Português, Mateus, Bíblia Sagrada, Reed.Versão de Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin. São Paulo; Edições Paulinas,1990, Deuteronômio, p.222. (9) ibidem, Lucas, p .1342. (10) ibidem, Mateus p.1273. Material baseado no artigo: ROQUE, Maria José Oliveira Lima. Sigilo Bancário. Material disponível em: http://www.aldemario.adv.br/sigilo.htm. Acesso em: 26 de novembro de 2011. FUNDAMENTOS DO SIGILO BANCÁRIO MICROCOMPETÊNCIA 19: Teorias aptas a fundamentar a natureza do sigilo bancário – contratualista e consuetudinária Teoria contratualista É a que reúne maior número de adeptos, liderada por Scheerer, fundamenta o sigilo no contrato firmado entre o banco e o cliente. Considera que existe implícita em qualquercontrato bancário, uma obrigação acessória de segredo por parte dos estabelecimentos bancários, em decorrência do segredo profissional. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza A jurisprudência inglesa admitiu, em 1924, no caso Tournier v. Nacional Provincial Bank, a existência de uma cláusula implícita nas relações entre o cliente e o banqueiro, que obriga este a observar discrição sobre a conta do cliente e suas operações. Do Halsbury’s Laws of England enciclopédia jurídica britânica, extraí-se o seguinte: "O contrato firmado entre o banqueiro e seu cliente contém cláusula implícita que obriga o banqueiro a não revelar a terceiros, sem consentimento expresso ou tácito do cliente, nem a situação da conta do cliente nem suas transações com o banco, nem qualquer informação que chegue ao conhecimento do banqueiro em virtude do relacionamento com o cliente". Na Inglaterra não existe disposição legal expressa a respeito do sigilo, mas a teoria é amplamente aceita pelo costume. Também na Itália esta teoria é adotada. Em 19.07.74 a Corte de Cassação italiana assim decidiu: "No âmbito da relações internas entre o cliente e o banqueiro, a obrigação contratual deste último, de não revelar a outros o que fica sabendo (...) está destinada a permanecer em segredo".(11) Os opositores da teoria contratualista alegam que os formulários de contratação não abrigam nenhuma condição neste sentido e mesmo em se considerando a cláusula implícita, como explicar a manutenção do sigilo ainda quando o contrato não se ultimar e a subsistência dessa obrigação quanto a terceiros e mesmo após a extinção ou a declaração de nulidade do contrato? Teoria consuetudinária Os prosélitos desta teoria sustentam que o sigilo bancário se tornou obrigação jurídica em função de seu uso ao longo do tempo, observado como tradição universal por todos os estabelecimentos bancários e por serem atos de comércio, devem seguir o mesmo regime das práticas comerciais. O jurista espanhol Garrigues assim explica a teoria: "Em nossa opinião, o fundamento do dever de segredo que têm os bancos há que buscá-lo uma vez mais em normas usuais de vigência geral, e o fundamento, por sua vez, deste uso bancário há que buscar na natureza antes apontada do contrato bancário como uma relação de confiança. (...) Os remotos antecedentes deste uso bancário se situam por algum autor nas operações do trapezista grego, CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza mas é nos estatutos dos bancos criados na Europa a partir do século XV que se encontram cláusulas pelas quais o banco se compromete a guardar cuidadoso segredo de suas operações com a clientela (....). (12) No direito argentino, Cottely adota esta teoria considerando todas as operações bancárias atos de Comércio. Este é o princípio que vige no direito argentino, através do art. 8º do Código Comercial Argentino que se assemelha ao art. 632 do Código Comercial Francês. É curial que na interpretação de contratos pertinentes a operações bancárias, têm grande importância as prática aplicadas no comércio. (13) Dentre os jurista brasileiros, Lauro Muniz Barreto apoia esta teoria quando assevera que os bancos preservam o sigilo "por força e convicção consciente, por usos e costumes consagrados." (14) O professor Álvaro Mello Filho faz crítica a esta teoria dizendo que ela somente é importante nos países em que não existe imposição legislativa para o sigilo, perdendo importância nos demais países, inclusive no Brasil, onde o sigilo foi consagrado legalmente. (15) NOTAS: (11) COVELLO, Sérgio Carlos. O Sigilo Bancário, com particular enfoque na tutela civil, São Paulo:Livraria Editora Universitária de Direito, 1991 p. 100 (12) COVELLO, Sérgio Carlos. O Sigilo Bancário, com particular enfoque na tutela civil, São Paulo: Livraria Editora Universitária de Direito, 1991, p. 110 (13) COTTELY, E. Derecho Bancario, Buenos Aires, ed.1956, citado por Covello (14) BARRETO L.M. Questões de Direito Bancário, 2ª ed. , São Paulo, Max Limonad,1972 in Covello opus cit p.111 (15) MELLO, Filho Álvaro. Dimensões Jurídicas do Sigilo Bancário, Revista Forense,1984, vol. 287, p.p. 466-477. Material baseado no artigo: ROQUE, Maria José Oliveira Lima. Sigilo Bancário. Material disponível em: http://www.aldemario.adv.br/sigilo.htm. Acesso em: 26 de novembro de 2011. FUNDAMENTOS DO SIGILO BANCÁRIO MICROCOMPETÊNCIA 20: Teorias aptas a fundamentar a natureza do sigilo bancário – segredo profissional e legalista CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Teoria do segredo profissional Grande parte da doutrina européia filia-se a esta corrente. Ela inclui os bancos dentre aqueles cujo exercício da atividade profissional leva a tomar conhecimento de certos fatos que dizem respeito à esfera íntima do indivíduo. A França foi o primeiro país a sancionar penalmente a quebra do sigilo profissional, porém, vê-lo apenas quanto aos médicos e outros profissionais ligados à área da saúde e quaisquer outras pessoas que, por estado ou profissão, sejam depositárias de segredo confiado, de modo que muitos autores entendem inviável estender esta obrigação aos profissionais da atividade bancária. Embora não presente na lei, a doutrina francesa incluiu os banqueiros no plantel dos profissionais obrigados ao sigilo. Dentre os inúmeros juristas internacionais e nacionais adeptos desta teoria convém citar o nosso Nelson Hungria que incluiu o banqueiro no rol das pessoas obrigadas ao sigilo profissional, pelo art. 154 do Código Penal: "Na atualidade, é geralmente reconhecido que entre os confidentes necessários, legalmente obrigados à discrição, figuram os banqueiros. Notadamente nas operações de crédito, o sigilo bancário é uma condição imprescindível, não só para a segurança do interesse dos clientes dos bancos como o próprio êxito da atividade bancária. Raros seriam, por certo, os clientes de bancos, se não contassem com a reserva dos banqueiros e seus prepostos ....".(16) Os opositores desta teoria dizem que ela não resolve o problema, pois propõe uma outra indagação: qual o fundamento do sigilo profissional? Teoria legalista Considera o sigilo bancário como "obrigação jurídica cujo fundamento repousa em uma norma legal, em sentido material." mas, é bom lembrar que a tese não é abrangente, pois não se aplica aos Estados cujos ordenamentos jurídicos não consagram o sigilo bancário em sua legislação.(17) A crítica a esta teoria funda-se em dois fatos; primeiro, que o sigilo também é observado em países onde não existe lei que o determine; segundo, porque não dá o fundamento do sigilo, apenas refere-se a sua forma e expressão. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza NOTAS: (16) HUNGRIA, Nelson e Heleno Cláudio Fragoso. Comentários ao Código Penal. Vol. VI, 5ª ed., Rio de Janeiro, Forense, 1983 (17) MELLO, Filho Álvaro. Dimensões Jurídicas do Sigilo Bancário, Revista Forense,1984, vol. 287, p.p. 466-477 Material baseado no artigo: ROQUE, Maria José Oliveira Lima. Sigilo Bancário. Material disponível em: http://www.aldemario.adv.br/sigilo.htm. Acesso em: 26 de novembro de 2011. FUNDAMENTOS DO SIGILO BANCÁRIO MICROCOMPETÊNCIA 21: Teorias aptas a fundamentar a natureza do sigilo bancário – direito de personalidade Teoria do direito de personalidade Esta teoria afirma que o sigilo sobre transações bancárias é uma manifestação do direito àintimidade e, portanto, faz parte dos direitos de personalidade necessários ao desenvolvimento da pessoa. Na Suíça o fundamento do sigilo bancário é a intimidade do cidadão. Esta teoria também tem defensores no Brasil, como João Bernardino Gonzaga assim a expressa: "Através de seus bens materiais, o homem também afirma a própria personalidade. O seu estado de fortuna, bom ou mau, muito interfere na sua projeção social. O modo como maneja os negócios depõe contra ou a favor de sua capacidade. Ele há de ter liberdade na vida de relação de ocultar os informes da sua economia privada.(...)"(18) O professor Milton Fernandes e o professor José Serpa de Santa Maria, em seus estudos sobre o assunto, consideram o direito ao segredo como uma das mais antigas manifestações do direito à intimidade. Sérgio Carlos Covello faz ardorosa defesa desta idéia, assim dissertando: "O sigilo bancário existe para proteger a intimidade do cidadão. Esta é a sua causa de ser. Sua causa final. Os bancos, no exercício de seu comércio, adentram CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza na vida privada de seus clientes e outras pessoas, inteirando-se de dados, aos quais, não fosse o desempenho de seu mister, jamais teriam acesso, porque geralmente aparecem excluídos do conhecimento alheio. Se, para exercer sua profissão, os bancos adentram na esfera da intimidade das pessoas, logicamente devem respeitá-la. Na intimidade, incluem-se tanto fatos de ordem espiritual como de ordem material, valendo ressaltar que o patrimônio e atividade negocial de uma pessoa constituem, indubitavelmente, projeção de sua personalidade, máxime numa sociedade capitalista como a ocidental, e é muito compreensível que as pessoas tenham interesse em preservar este aspecto da personalidade da indiscrição alheia. Nota-se, em quase todas as pessoas, certo pudor natural no que concerne à soma de seus bens, ao seu ordenado, a sua renda, a suas dívidas e a seu sucesso ou fracasso nas operações ... ".(19) Não concorda-se com a teoria acima exposta pois os direitos da personalidade se constituem no mínimo necessário para que a pessoa se desenvolva plenamente. São direitos imprescindíveis para dar a cada ser identidade própria. Alguns autores até frisam que são direitos inatos, congênitos e extrapatrimoniais, como Pontes de Miranda, Orlando Gomes, de Cupis e Ferrara, além de outros. (20) Os direitos de personalidade nascem com a pessoa. Todos vêm ao mundo com direito à vida, à saúde, a um nome, a professar uma fé, à integridade física, a honra, a ter vida íntima, etc.. , mas ninguém nasce com direito ao sigilo bancário, porque pode ser que venha ao mundo em local onde não existam bancos, ou, como ocorre com a maioria dos brasileiros, que nunca chegue a ser cliente de um banco.( segundo o IBGE a renda média do brasleiro é 4 salários mínimos) Ora, se o Estado não pode garantir a todos, sequer o direito de ser cliente de um banco, porque, como atividade privada é o banco que seleciona seus clientes segundo o aspecto econômico, como pretender que o sigilo seja um direito da personalidade? Assim, com mais razão, o direito de ser cliente bancário teria o mesmo quilate do direito ao sigilo bancário. Quem não pode o menos, também não pode o mais. Ademais, os direitos de personalidade são oponíveis a todos e irrenunciáveis e o sigilo comporta exceções e é renunciável pelo titular. Observe-se que o sigilo nas transações comerciais e bancárias, conforme já narrado surgiu muito antes da noção de personalidade que é bastante recente na CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza história da civilização. No passado, um escravo não era considerado pessoa, mas lhe seria garantido sigilo se realizasse operações bancárias. Como admitir a existência de direitos a quem não é sujeito de direitos? Daí se vislumbra que o sigilo nasceu desvinculado da personalidade ou intimidade do cliente, visando apenas proteção da atividade comercial. Vale lembrar, que na idade média, sequer haviam direitos subjetivos, existiam apenas privilégios (21) e os bancos já funcionavam a pleno vapor. O primeiro direito individual reivindicado foi o da liberdade de opção religiosa. (22) Depois da Reforma, os direitos individuais foram sendo proclamados nas declarações de direitos, dentre as quais a de Virgínia e a Declaração Francesa. Foi na passagem do Estado Absolutista para o Estado de Direito que se corporificou a noção de direitos individuais. O direito à inviolabilidade de domicílio, dos mais antigos só aparece em 1776, sendo defendido no Parlamento Inglês por Lord Chatham (23) A teoria consuetudinária é a mais coerente com a história e as origens dos bancos, sempre considerados atividade de cunho comercial. Em todos os povos, os bancos guardam segredo, ou de maneira espontânea, ou obrigados pela lei. Esta conduta teve sua gênese na imitação da atividade comercial, evoluindo da prática constante para o costume, até transmudar-se em norma legal em alguns países ou permanecendo como costume, em outros. É conhecido o adágio popular "o segredo é a alma do negócio". A simplicidade do ditado revela que o segredo está ligado ao negócio e não à pessoa. Acresça-se que por intimidade entende-se tudo que está adstrito à cidadela interior de cada um, tudo que não produza reflexo no mundo social. Se a movimentação bancária ou o patrimônio de alguém gera nova relação de direitos com outros titulares, deixa de ser assunto de mera intimidade. É o que se dá com quem utiliza cheque sem fundos, movimenta dinheiro para burlar tributação ou para prejudicar credores, etc.. . Não se pode admitir que em nome de um direito subjetivo o indivíduo possa prejudicar o direito subjetivo alheio. Logo, não é possível, sob pena de subversão da própria concepção do direito, admitir-se sigilo bancário absoluto, sob o pálio dos direitos de intimidade, quando se sabe que operações bancárias são utilizadas para liquidar compromissos assumidos com terceiros e, não CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza raro, para prática de crimes financeiros, lesar credores e burlar o fisco. No pensamento de Sacha Calmon Navarro Coelho: "Não pode a ordem jurídica de um país razoavelmente civilizado fazer do sigilo bancário um baluarte em prol da impunidade, a favorecer proxenetas, lenões, bicheiros, corruptos, contrabandistas e sonegadores de tributos. O que cumpre ser feito é uma legislação cuidadosa que permita a manutenção dos princípios da privacidade e do sigilo de dados, sem torná-los bastiões da criminalidade. De resto reza a sabedoria popular que quem não deve não teme. A recíproca é verdadeira." (24) Em alguns Estados modernos, como nos EUA, observa-se que não há necessidade de lei para que o sigilo exista. Assim como o comerciante, historicamente sempre escondeu o valor de suas operações de aquisição, para que nem o concorrente, nem o cliente calculassem o seu lucro, o banqueiro que é um comerciante de valores mobiliários e de dinheiro, também oculta o que pode. A prática é universal, o que varia é a intensidade do sigilo. A Segunda corrente consegue compatibilizar, ao contrário da primeira, os princípios do parágrafo 1o. do art. 145 com os direitos e garantias fundamentais da Constituição Federal relativizando os direitos à intimidade e à privacidade, em face da apuração da capacidade contributiva. Para o cálculo do imposto de renda da pessoa física é necessário aferir-se a capacidade contributiva, o que só é possível, examinando o patrimônio imobiliário e mobiliário, emcotejo com as despesas efetuadas ( médicos, psicólogos, instituições de ensino, pensões alimentícias e etc..) Estes são fatos inegáveis, que derivam do poder de tributar do Estado, aplicados em todos os países do mundo, aí incluídos os mais liberais. Assim, ainda que se inclua o sigilo bancário como integrante do artigo 5º, inciso X, da Constituição Federal, por uma questão de lógica jurídica e de integração das normas constitucionais, este cederá, tanto ante as necessidades fiscais quanto às do Ministério Público Federal, pois a apuração dos crimes financeiros também é interesse da coletividade e princípio constitucional garantido pela inafastabilidade do poder judiciário. A evolução da história exige contrapartida do avanço do Direito. Atualmente não só os grandes crimes contra o sistema financeiro, tributário, mas também o CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza tráfico de drogas e a corrupção desembocam seus resultados no porto seguro dos bancos. No passado não era assim, já se usou até enterrar tesouros Desta forma, O sigilo posta-se frente ao Fisco e ao Ministério Público como forte empecilho à obtenção das provas de delinqüência. Submeter ao judiciário o pedido de quebra de sigilo nos casos de fortes indícios de crime dá ao meliante tempo suficiente para movimentar a conta, impedindo o ressarcimento do dano e dificultando a apuração. Até a Suiça, meca do sigilo bancário, preocupada com a fama de lavanderia do ocidente, mercê de abrigar os enormes lucros obtidos ilicitamente, com o tráfico de drogas e outros crimes, está caminhando na direção contrária ao sigilo: por enquanto com muita timidez, já admite quebra de sigilo nos casos de comprovada ilicitude. (25) Os sistemas de proteção do créditos são alimentados diariamente com dados bancários e comerciais, graças, principalmente, aos bancos que incluem na rede as contas encerradas, os cheques sem fundos e as ocorrências de inadimplência, sem qualquer ordem judicial mas, sem o menor pejo, esses mesmos bancos apregoam a inviolabilidade de seus dados diante do Fisco, do Ministério Público Federal e de terceiros interessados. Atualmente, o privilégio de conhecer a probabilidade da lisura de uma pessoa é apenas dos bancos e dos comerciantes. Acaso um terceiro que negocia com o cliente de um banco não teria também o direito de conhecer a idoneidade de quem com ele transaciona? São indagações que ainda não se ousa fazer na discussão do tema, mas que são necessárias. O excesso de inadimplência mudou os costumes comerciais, a lei precisa avançar enfrentando a nova realidade. A Internet revela que são centenas as sociedades de proteção ao crédito que trabalham com as informações dos bancos e do comércio. No entanto é paradoxal que os bancos e o comércio que garantem sua higidez mediante consulta aos bancos de dados protetivos do crédito, isto é, os que constantemente quebram o sigilo, sejam , justamente, os mais acirrados adeptos da primeira corrente, fulcrando- a no artigo 5º , inciso X da Carta Maior. Enquanto muitos juristas defendem um sigilo bancário de foro constitucional, a defesa do crédito que só funciona alimentada por um sistema de informações, na prática, há muito tempo, já colocou o sigilo para escanteio, até porque, sem o crédito o capitalismo não funciona e sua manutenção é interesse de toda sociedade . CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Observe-se que em meio a tantas e firmas especializadas em interpretar cadastros e informar sobre o comportamento financeiro das pessoas, o sigilo não existe entre instituições financeiras e comerciais, pretende-se que exista apenas para barrar a fiscalização fazendária, a atuação do Ministério Público Federal e a busca do credor não comerciante. Ora, justamente os dois primeiros que exercem misteres específicos, sob a égide da Lei Maior é que vêm encontrando maiores dificuldades em acessar os dados. Além disso é conveniente ressaltar que o esforço daqueles que querem incluir o direito ao sigilo bancário dentro dos direitos de personalidade esbarra em fatos notórios, pois na verdade, no Brasil, pelo menos, 50% da população nunca possuiu conta bancária, e esta privação, afora inferioridade econômica, em nada afetou o desenvolvimento destes cidadãos. Merece destaque constatar que os bancos vêm, cada vez mais, selecionando sua clientela por faixa econômica. Vale observar que até os bancos mais populares, embora de forma velada, não aceitam clientes com remuneração inferior a três salários mínimos, porque não lhes interessa administrar contas de valores diminutos. Já não mais recebem contas de água e luz a não ser por débito em conta. Apesar disso, não se vê dentre os defensores do sigilo quem alegue que tal seleção seja ilegal por violar direito de personalidade. É preciso romper com o tabu de que as operações bancárias fazem parte do direito à intimidade e/ou privacidade. "A intimidade não exige publicidade, porque não envolve direitos de terceiros (...) . A intimidade é o âmbito exclusivo que alguém reserva para si, sem nenhuma repercussão social". (26) Para endossar o pensamento é de se citar o voto do Ministro Francisco Rezek, no MS 21729-4 DF: "O inciso X do rol de direitos fala assim numa intimidade onde a meu ver seria extraordinário agasalhar a contabilidade das pessoas naturais, e, por melhor razão a das empresas. Observa-se, a propósito o parecer do Vice-procurador-Geral não obstante essa repercussão mais ampla o núcleo da privacy situa-se na esfera das convicções íntimas do indivíduo, como as religiosas e políticas, nas relações de convivência familiar e afetiva, nos costumes sexuais, hábitos, dados clínicos, enfim naquele reduto que não se exterioriza na vida pública. E prossegue alegando que mesmo se dos dados bancários se possa vislumbrar aspectos da vida individual como gastos com doença ou determinadas CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza pessoas íntimas que o cliente queira ocultar, isso tudo é exceção, porque em regra, a maioria das operações não está acobertada pela privacidade. Certas operações, como pagamentos para compra de imóveis, financiamentos para aquisição de casa própria ou financiamentos públicos para desenvolvimento de atividade produtivas são alguns dos exemplos de informações que não se inserem no núcleo irredutível da privacidade". Não se pode admitir que em nome de um direito subjetivo o indivíduo possa prejudicar o direito subjetivo de outrém. Logo, não é possível, sob pena de subversão da própria concepção do direito, admitir-se sigilo bancário absoluto, sob o pálio dos direitos de intimidade, quando se sabe que as operações bancárias, mesmo as mais lícitas, envolvem mais de duas pessoas: o cliente, o banco e um terceiro interessado, que no mínimo, é a Fazenda Pública. Isso sem levar em consideração que toda sorte de falcatruas, improbidades e lavagem de dinheiro desenrolam-se nos bancos e são utilizadas para a prática de crimes financeiros, lesar credores e burlar o fisco. Sopesando os argumentos lançados, a sociedade está a exigir o abrandamento do sigilo, já que de direito à intimidade não se trata. NOTAS: (18) João Bernardino Gonzaga citado por Covello. Sérgio Carlos. O Sigilo Bancário, com particular enfoque na tutela civil, São Paulo:Livraria Editora Universitária de Direito, 1991 p. 100 in opus cit. p.135 (19) COVELLO, Sérgio Carlos. O Sigilo Bancário, com particular enfoque na tutela civil, São Paulo: Livraria Editora Universitária de Direito, 1991 p. 137 (20) vide notas 2, 5, 6, 10 . (21)LAFER, Celso. A Reconstrução dos Direitos Humanos: Um dialógo com Hannah Arendt, São Paulo, Companhia das Letras, 1988, p.119. (22) Ibidem.,. p. 121 (23) COLLIARD.Les Libertés Publiques, Paris, Dalloz, 1982, 6.ed., p. 368, citado por FERREIRA, Manoel Gonçalves Filho:"Comentários à Constituição Brasileira de 1988. (24) COELHO, Sacha Calmon Navarro. "Princípios Constitucionais Tributários", Cadernos de Pesquisas (25) Tribuárias, vol. 18. São Paulo: Ed. Resenha Tributária, 1993 v.18. (25) Dessandre, Adilson. O Sigilo Bancário. Seleções Jurídicas ADV Advocacia Dinâmica, maio 1997 (26) FERRAZ JR, Tércio de Sampaio . Revista da USP. Material baseado no artigo: ROQUE, Maria José Oliveira Lima. Sigilo Bancário. Material disponível em: http://www.aldemario.adv.br/sigilo.htm. Acesso em: 26 de novembro de 2011. O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR E OS CONTRATOS BANCÁRIOS CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza MICROCOMPETÊNCIA 22: Generalidades acerca da relação Código de Defesa do Consumidor versus Contratos Bancários Desde a promulgação da Constituição Federal de 1988, houve a preocupação legislativa em tutelar o consumidor. A atual Carta Política prevê no artigo 24, inciso VIII, a competência concorrente da União, dos Estados e do Distrito Federal para legislar sobre “responsabilidade por dano ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico.” Já no capítulo destinado aos princípios gerias da atividade econômica, a Lei Maior dispõe que a ordem econômica tem por fim assegurar a todos existência digna, observando-se, dentre outros, o princípio da defesa do consumidor (artigo 170, caput e inciso V). No entanto, as mais relevantes previsões constitucionais acerca da defesa do consumidor parecem ter sido a do artigo 5°, inciso XXXII, inserido no rol de direitos e garantias fundamentais, ao prelecionar que o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor, bem como o artigo 48 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias – ADCT, dispositivo este que concede o prazo improrrogável de cento e vinte dias, a contar da data de promulgação da Carta Magna de 1988, para que o Congresso nacional elabore um Código de Defesa do Consumidor. Destarte, no dia 11 de setembro de 1990 foi publicada a Lei 8.078, o decantado Código de Defesa do Consumidor, com vigência a ser iniciada em 180 dias a contar da data de sua publicação, conforme determinação do artigo 118 da mesma Lei. Em relação ao referido Código, felizes são os dizeres de Martsung F.C.R. Alencar (2006): “O código brasileiro de defesa do consumidor é importante conquista do cidadão em nosso ordenamento jurídico, sendo sua aplicação de absoluto interesse social, especialmente por sua moderna disciplina contratual, privilegiando a boa-fé objetiva, a equivalência material, o equilíbrio das relações e, porque não dizer, a justiça contratual entre partes tão díspares.” O diploma consumerista define o que, nos termos da lei, se deve entender por consumidor (artigo 2°) e fornecedor (artigo 3°). Não se discute a parcialidade do CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza diploma em comento, pois, claramente, é uma lei tendenciosa com vistas à proteção do consumidor. Todavia, não se pode ignorar que esta superioridade jurídica concedida pela Lei 8.078/1990 tem por finalidade, justamente, equilibrar a relação tão díspare entre os sujeitos definidos nos artigos 2° e 3°. É a aplicação da velha máxima segundo a qual deve-se tratar os desiguais desigualmente e na medida de sua desigualdade. Precisando-se os conceitos, consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final, equiparando-se a esta definição a coletividade de pessoas que haja intervindo nas relações de consumo. Os fornecedores, por sua vez, correspondem, segundo o artigo 3° do CDC, a toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que desenvolvem atividade de produção, montagem, criação, construção, transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços. A partir da publicação do Código de Defesa do Consumidor, passou-se a discutir quais relações poderiam ser consideradas consumeristas e, consequentemente, a elas ser aplicado referido diploma. A discussão foi, e ainda o é, mais acalorada no que diz respeito aos contratos bancários, objeto principal deste trabalho. O tema continua sendo causa de cizânia doutrinária, existindo correntes em vários sentidos possíveis. Um dos primeiros argumentos apontados por aqueles que defendem as instituições financeiras foi o de que, apesar da lei 8.078/1990 incluir a atividade de natureza bancária no conceito de “serviço” do artigo 3°, parágrafo 2°, deixa claro que tais atividades devem ser fornecidas no mercado mediante remuneração. Em outros termos, apregoa esta corrente que as atividades bancárias em que o consumidor não necessita realizar pagamentos ao banco em virtude do serviço prestado não estariam abrangidas pelo estatuto consumerista. Percebe-se, contudo, que mesmo os adeptos deste entendimento por vezes acabam caindo em dúvidas e reelaborando seus raciocínios. Tome-se como ilustração o escólio de Eduardo Gabriel Saad, citado por Alexsandro Gomes de Oliveira (2009): “Remunerar, no caso, tem significação muito ampla. Não se reduz, apenas, à retribuição paga pelo serviço recebido; é, em verdade, a vantagem pecuniária obtida CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza pelo fornecedor e representada por taxas, lucros, juros etc. Na edição anterior, chegamos a pensar que serviço, no caso, era restrito a umas tantas operações que tinham, como contraprestação, a remuneração paga pelo consumidor. Depois de meditar sobre o assunto, concluímos que, na hipótese do § 2º do art. 3º deste Código, serviço é mais abrangente, pois reúne todas as atividades que visem ao lucro e desenvolvidas nas áreas que menciona.” Posição mais moderada é a apresentada pelo professor Fábio Ulhoa Coelho (2009, v.3, p. 128) ao reconhecer que, em determinados casos pode-se aplicar o Código de Defesa do Consumidor aos contratos feitos com instituições bancárias, mas em outras situações sua aplicação estaria vedada. O mencionado doutrinador realça que, para a aplicação da lei consumerista aos contratos bancários, há que se verificar, principalmente, se no caso concreto o cliente do banco pode ser considerado consumidor nos termos definidos pelo artigo 2° do respectivo Código, posto que, segundo seu entendimento, não há dúvidas quanto ao abarcamento das instituições financeiras ao conceito de fornecedor do artigo 3° da lei em tela. In verbis: Assim, se o banco contrata com o destinatário final da operação financeira, caracteriza-se a relação de consumo, e o contrato bancário submete-se ao Código de Defesa do Consumidor, mas, se contrata com outro empresário, para o qual a operação financeira é insumo, não se caracteriza a relação de consumo, e é inaplicável a legislação tutelar dos consumidores. Fábio Ulhoa Coelho, por fim, acertadamente, faz uma única ressalva de quando o Código de Defesa do Consumidor se aplicaria aos contratos bancários celebrados com outros empresários. Seria a hipótese de o empresário cliente provar “sua condição de vulnerável análoga à de consumidor” (op.cit.). A questão somente se tornou mais pacífica depois do Supremo Tribunal Federal julgar a AçãoDireta de Inconstitucionalidade n° 2.591, proposta pela Confederação Nacional do Sistema Financeiro – CONSIF. Referida ação pleiteava a declaração de inconstitucionalidade, com requerimento de medida liminar, da expressão “inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária” constante do artigo 3°, parágrafo 2° do Código de Defesa do Consumidor. No julgamento desta ação, o Pretório Excelso, no dia 7 de junho de 2006, pronunciou-se pela improcedência do pedido, isto é, entende não ser CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza inconstitucional os mencionados dispositivos do estatuo consumerista e, consequentemente, esta legislação deve ser aplicada aos contratos bancários. Comentando a decisão do STF, Alexsandro Gomes de Oliveira pondera que: Verdadeiramente, o Supremo Tribunal Federal pôs uma pá de cal sobre as divergências que se avolumavam nos Tribunais Regionais e Estaduais e fez calar as vozes que soavam em dissonância aos arts. 5º, XXXII e 170, V, da Constituição Federal de 1988, assegurando a incidência das normas trazidas pelo Código de Defesa do Consumidor aos contratos bancários firmados com as instituições financeiras. Material baseado em: http://intertemas.unitoledo.br/revista/index.php/ETIC/article/viewFile/2124/2272. Acesso em: 12 de maio de 2012. MICROCOMPETÊNCIA 23: A aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor aos contratos bancários Não há mais dúvidas quanto à aplicação do Código de Defesa do Consumidor, introduzido pela Lei 8.078, de 11.09.1990, aos contratos bancários, o que se pode observar por vários enfoques ou ângulos distintos e mutuamente encaixados, reforçando-se um a um e conferindo coesão ao sistema e solidez à conclusão. Se analisarmos a questão sob a ótica do enquadramento dos contratos bancários no signo contratos de adesão, vemos que é bastante comum as instituições financeiras usarem em suas atividades contratos que, em geral, obedecem a padrões prévios, não conferindo qualquer margem negocial, normalmente recheados de cláusulas pouco compreensíveis (e menos ainda indiscutíveis!) e leoninas, limitando-se aqueles que necessitam de crédito para suas atividades a aderir ou não, se bem que muitas vezes nem esta mínima possibilidade de opção conservam, pois às vezes o contrato é realmente indispensável e não há a quem recorrer. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Se nos preocupamos com a configuração dos bancos no signo fornecedor delineado pelo próprio CDC, verificando em suas operações o fornecimento de produtos e/ou serviços, esbarramos no texto expresso do art. 3°, que define fornecedor como sendo toda pessoa física ou jurídica que desenvolve atividades de distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços, e combinando com o § 2° desse mesmo artigo, que define serviço, neste incluindo as operações de natureza bancária, financeira, de crédito, temos que os bancos são realmente fornecedores, não restando a menor dúvida. Nery Junior (1995, p. 371-372), quanto às operações de crédito, distingue quais revelam relação de consumo, nos seguintes termos: Havendo outorga do dinheiro ou do crédito para que o devedor o utilize como destinatário final, há a relação de consumo que enseja a aplicação dos dispositivos do CDC. Caso o devedor tome dinheiro ou crédito emprestado do banco para repassá-lo, não será destinatário final, e, portanto, não há que se falar em relação de consumo. Como as regaras normais de experiências nos dão conta de que a pessoa física que empresta dinheiro ou toma crédito de banco o faz para sua utilização pessoal, como destinatário final, existe aqui presunção hominis, júris tantum, de que se trata de relação de consumo. O ônus de provar o contrário, ou seja, que o dinheiro ou crédito tomado pela pessoa física não foi destinado ao uso final do devedor, é do banco, quer porque se trata de presunção a favor do mutuário ou creditado, quer porque poderá incidir o art. 6.º, VIII, do CDC, com a inversão do ônus da prova a favor do consumidor. Evidente que há relação de consumo no fornecimento do crédito, onde o princípio da autonomia da vontade fica reduzido à mera aceitação do conteúdo do contrato. Daí, sem dúvida, enquadrar-se como hipossuficiente o aderente, posto que obrigado a aceitar cláusulas aleatórias, abusivas, unilaterais, como a que permite ao banco optar unilateralmente por índice de atualização monetária que quiser, sem consultar o consumidor; a que possibilita ao mesmo banco utilizar a taxa de mercado por ele praticada; aquela que autoriza o vencimento antecipado do contrato em caso de protesto ou execução judicial do outras dívidas; a cláusula que impõe a eleição do foro de comarca diferente ou daquela onde foi celebrada a operação; e a relativa à outorga de mandato ou poderes para o credor contra ele emitir título de crédito, dentre inúmeras outras. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Comentando a resistência dos bancos à aplicação do Código de Defesa do Consumidor, Rizzatto Nunes (2000, p. 98) faz um registro histórico que pode ser tido por cômico, se não trágico, da preocupação do legislador em não deixar lacunas, por onde os bancos buscassem escapar da incidência normativa, e que, quase não conseguia, tanto que o judiciário precisou ser acionado e, após muita controvérsia, aclarar o já claro, e que a lei já, textualmente, dispunha: Ninguém duvida de que esse setor da economia presta serviços ao consumidor e que a natureza dessa prestação se estabelece tipicamente numa relação de consumo. Foi um reforço acautelatório do legislador. Que, aliás, demonstrou-se depois, era mesmo necessário. Apesar da clareza do texto legal, que coloca, com todas as letras, que os bancos prestam serviços aos consumidores, houve tentativa judicial de obter declaração em sentido oposto. Chegou-se, então, ao inusitado: O Poder Judiciário teve de declarar exatamente aquilo que a lei já dizia: que os bancos prestam serviços. A despeito dessa resistência, e das muitas tentativas processuais empreendidas, em todas as instâncias do judiciário pátrio, bem como dos pareceres conseguidos pela FEBRABAN, como seus sempre convincentes "argumentos", os bancos vêm perdendo essa batalha, eis que se formou jurisprudência maciçamente dominante no sentido da aplicabilidade do CDC aos contratos bancários. O código brasileiro de defesa do consumidor é importante conquista do cidadão em nosso ordenamento jurídico, sendo sua aplicação de absoluto interesse social, especialmente por sua moderna disciplina contratual, privilegiando a boa-fé objetiva, a equivalência material, o equilíbrio das relações e, porque não dizer, a justiça contratual entre partes tão díspares. Material baseado no artigo: ALENCAR; Martsung. Aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor aos contratos bancários e a posição do STJ e STF. Disponível em: http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=8338. Acesso em: 18 de abril de 2012. MICROCOMPETÊNCIA 24: Princípios do CDC aplicáveis às operações bancárias típicas CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza No Código de Defesa do Consumidor, estão referidos no art. 4º, princípios, não especificamente para os contratos, menos ainda regulamentos explícitos quanto às taxas de juros, mas princípios que são diretrizesdo próprio sistema nacional das relações de consumo. Paulo Luiz Netto Lôbo (2002, p. 3) agrupa trechos do mencionado artigo, de modo a deles extrair os princípios contratuais que considera típicos do Estado social, que informam a sistemática adotada no CDC, quais sejam: o princípio da função social do contrato; o princípio da boa-fé objetiva e o princípio da equivalência material do contrato, nos seguintes termos: No Código de Defesa do Consumidor os princípios referidos no seu art. 4º revelam uma certa imprecisão entre o que denomina os princípios e as diretrizes gerais contidas no mencionado artigo. As expressões empregadas no referido artigo podem ser agrupadas segundo a classificação dos princípios sociais adotadas: a) "compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem econômica": esse trecho do inciso III do art. 4º, implicitamente, conduz ao princípio da função social; b) "transparência", "boa-fé", "informação": princípio da boa-fé; c) "vulnerabilidade", "harmonização dos interesses", "equilíbrio nas relações": princípio da equivalência material. Tais princípios são perfeitamente aplicáveis às operações bancarias típicas (de intermediação de crédito), onde também é necessário o equilíbrio entre as prestações. Assim, o sistema do CDC é, por exemplo, absolutamente incompatível com a cobrança de taxas de juros exorbitantes, que afrontam, de modo direto, tanto a função social do contrato, que evidentemente não é servir de instrumento de enriquecimento sem causa para os detentores do capital, em detrimento da exploração dos mutuários, assim como a noção de boa-fé contratual, e, mais ainda, o intuito de equilíbrio nas relações, princípio da equivalência material, quando um mesmo agente financeiro remunera cadernetas de poupança ou demais depósitos para aplicação que recebe com 8 ou 10% ao ano, em média, ao mesmo tempo em que cobra taxas de 150 ou até 200% ao ano pelos empréstimos que concede. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Nesse contexto, o CDC, cuidando da proteção contratual, especialmente no art. 51, onde trata das cláusulas abusivas, menciona o princípio da boa-fé e esboça, com caráter imperativo, para as relações contratuais, a necessidade de "eqüidade", "equilíbrio contratual", "justo equilíbrio entre direitos e obrigações das partes", noções que nos levam a entender como abusivas as estipulações de taxas de juros desproporcionais, com desequilíbrio tamanho entre a remuneração dos depósitos e o valor cobrado pelos financiamentos. Só para ilustramos essa desproporção, se um consumidor fizer um depósito de R$ 10,00 (dez reais), numa caderneta de poupança, e lá deixar seu dinheiro "rendendo", por dez anos, deverá encontrar um saldo de, aproximadamente, R$ 25,93 (vinte e cinco reais e noventa e três centavos), enquanto um empréstimo, dos mesmos R$ 10,00 (dez reais), pelos mesmos dez anos, num cheque especial, por exemplo, renderia ao mutuário um "débito" de cerca de R$ 95.367,43 (noventa e cinco mil trezentos e sessenta e sete reais e quarenta e três centavos)! Ou seja, o mutuante cobraria, mais ou menos, 9.536 vezes o dinheiro emprestado, a título de juros. Seria tal realidade compatível com o princípio da boa-fé contratual ou com a equivalência material, vedação ao desequilíbrio nas relações e à onerosidade excessiva? Estaria um empréstimo dessa estirpe atendendo à função social dos contratos? Evidentemente que não. E aqui, pertinente a lição de Lôbo (2002, p. 4), quanto à possibilidade de se lançar mão dos princípios para a realização da justiça contratual, a despeito da resistência que o individualismo jurídico típico do Estado liberal, refletido, evidentemente, na contratualística liberal (assentada nos dogmas da autonomia da vontade e da pacta sunt servanda) tenha impregnado em nossos juristas: A utilização de princípios e cláusulas gerais sempre foi vista com muita reserva pelos juristas, ante sua inevitável indeterminação de conteúdo e, no que concerne ao hegemônico individualismo jurídico do Estado liberal, o receio da intervenção do Estado nas relações privadas, por meio do juiz. Todavia, para a sociedade em mudanças, para a realização das finalidades da justiça social e para o trato adequado do fenômeno avassalador da massificação contratual e da parte CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza contratante vulnerável, constituem eles ferramentas hermenêuticas indispensáveis e imprescindíveis. Os princípios e regras do CDC são, portanto, claramente incompatíveis com a cobrança de juros usurários, fixados de modo excessivamente oneroso para o consumidor, constituindo limitação à prática dessa relação contratual desequilibrada. O que fazer-se, então, respeitar-se o CDC e defender o consumidor contra tais desproporções, ou proclamar inconstitucionalidade dessa norma (que nada mais busca a não ser a justiça e equilíbrio contratual), quanto às operações bancárias típicas, liberando-se a pratica de quaisquer abusos? Não há qualquer sentido em afastar a incidência do CDC de relações desta natureza, onde está nítido o desequilíbrio entre as partes e suas respectivas obrigações no contrato, com afronta aos princípios da boa-fé contratual, da equivalência material e vedação ao desequilíbrio nas relações e à onerosidade excessiva. Não nos parece jurídico afastar-se um diploma de defesa dos hipossuficientes, em relações de grande freqüência e importância, para viabilizar a pratica de abusos pela parte mais forte. Material baseado no artigo: ALENCAR; Martsung. Aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor aos contratos bancários e a posição do STJ e STF. Disponível em: http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=8338. Acesso em: 18 de abril de 2012. MICROCOMPETÊNCIA 25: O Código de Defesa do consumidor, as relações bancárias e a ADIN 2591-1 A ADIN 2591-1 editada após a ratificação da lei no. 8.078/90, argumenta no sentido da declaração de inconstitucionalidade do art. 3º, paragrafo 2º do CDC que diz ser aplicável o CDC às atividades “de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária” definindo essas como “serviço”. Podemos entender que essa declaração de inconstitucionalidade se dá devido ao fato de que na prática o que ela faria seria tornar inaplicável o CDC às relações bancárias. Os argumentos usados são então que o dinheiro oferecido pelos bancos não poderia ser objeto de relações de consumo (conforme os termos do art. 2º do CDC que diz que para ser consumidor deve a pessoa jurídica ou física usar o produto sendo seu destinatário final); e CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza também que de acordo com o caput do art. 192 o sistema financeiro deve ser regido por lei complementar e o CDC não é lei complementar, não podendo então se aplicar ao sistema bancário e então só se aplicando a lei 4595/64 recepcionada pela Constituição. Assim, se a ação fosse procedente, o CDC deixaria de ser aplicável às relações consumidor-banco, dentro do sistema financeiro, incluídas nisso as interações como, por exemplo, empréstimos e então nos casos onde certa pessoa pegue dinheiro emprestado mas não consiga pagar, ela não poderia alegar sua vulnerabilidade segundo o art. 4º, inciso I, do CDC. Essa condição, de vulnerabilidade,traz vantagens para os consumidores que devem ser tratados como parte mais fraca da relação. Em seu voto, o ministro relator Carlos Velloso analisou a questão, a partir da caracterização da concessão de crédito bancário. Para tal citou corrente doutrinária que prega que o crédito concedido não tem como destinatário final o mutuário e que então, assim sendo, esse mutuário não seria um consumidor, (como prega o art. 2º da lei 8.078/90). Ainda assim, o ministro se opõe a essa doutrina citando Marcio Mello Casado que diz que o crédito é um bem juridicamente consumível, servindo a uma utilidade pessoal do consumidor (“destinatário final”) e que então, de fato, se estabelecem relações de consumo entre as pessoas que pegam empréstimos e os bancos, sendo esses prestadores do serviço empréstimo de dinheiro e portanto sendo aplicável o CDC. Ademais, ele aponta a doutrina de Milton de Lucca que chama atenção para o art. 51 do Código Civil o qual diz ser dinheiro um bem juridicamente consumível. Em resposta ao segundo argumento apresentado pelo impetrante da ação, o ministro respondeu afirmando que a lei complementar mencionada no art. 192 deveria ser feita para regular o campo próprio reservado ao Sistema Financeiro Nacional e que então, o que teria de se ver era se a criação do CDC invadiu essa esfera do sistema financeira nacional que estava reservada para a lei complementar. O ministro disse que não estaria invadindo em razão do CDC não interferir na estrutura institucional desse sistema e que somente essa deve ser regulada pela lei complementar. Além disso, ele disse que a defesa do consumidor é um princípio já elevado ao nível constitucional (art. 5 inciso XXXII e art. 48 ADCT) e CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza que sendo as relações de empréstimo caracterizadas como de consumo, devem ser protegidas por esse princípio. Ademais o ministro entrou na questão das implicações que isso traria para a aplicabilidade do art. 192, parágrafo 3º, mencionando, inclusive, uma outra decisão já tomada sobre a aplicabilidade desse artigo. Assim, o ministro disse que o posicionamento da Corte tinha sido que a norma que restringe a taxa de juros a 12% ano não seria auto-aplicável tendo de ser regulada por lei complementar além da frase “taxa de juros” aceitar interpretações muito amplas. O ministro diz discordar desse posicionamento, considerando que esse art. seria auto-aplicável o que significaria que a taxa de juros deve ser restringida a 12 % a.a. Ainda assim, ele admite que essa não é a posição atual do STF e então julga procedente, em parte, a ADIN. As razões do alto valor nas taxas de juros são compreendidas no alto número de pessoas que não pagam seus empréstimos, e da morosidade do Judiciário que não permite que os bancos entrem com ações contra os devedores. Ademais, nos casos onde eles entram com essas ações, os bancos, diversas vezes, perdem devido a tendência do Judiciário politizar suas decisões e decidir em favor dos devedores inadimplentes considerando-lhes como consumidores nessa relação e aplicando o art. 4º do CDC. Portanto, os artigos que esse Código traz em sua proteção, incluindo nessa o instituto criado pelo principio da vulnerabilidade. Assim, nesse âmbito, podemos entender por que seria importante a declaração de inconstitucionalidade já que ela poderia tornar a cobrança dessa dívida mais rápida e eficaz, faticamente levando a um decréscimo positivo das taxas de juros. Porém, ainda assim, também devemos considerar os outros pontos trazidos pelo ministro e então concordar com o fato de que ele somente decide a ação como parcialmente procedente. Finalmente, só para constar, o Ministro Cesar Pelluso concordou com a argumentação exposta pelo Carlos Velloso, mas adotou postura ainda mais forte, julgando a ação totalmente improcedente. Interessante constar que aparentemente o legislativo ficou em consonância com essas decisões já que, hoje em dia, foram revogados todos os incisos e parágrafos do art. 192 da Carta Magna, não havendo então mais nem mesmo a questão da restrição taxativa em 12% das taxas de juros. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Material baseado em http://academico.direito- rio.fgv.br/wiki/Defesa_do_consumidor_e_sua_%28in%29aplicabilidade_%C3%A0s_rela%C3%A7%C 3%B5es_banc%C3%A1rias._ADIN_2591-1. Acesso em: 12 de maio de 2012. MICROCOMPETÊNCIA 26: O sistema financeiro nacional sob o aspecto constitucional O sistema financeiro encontra-se sinteticamente previsto no art. 192 da Constituição Federal, que, em sua redação original, já estabelecia que o SFN deveria ser estruturado de forma a promover o desenvolvimento equilibrado do País e a servir aos interesses da coletividade e que deve ser regulado por leis complementares. Até o advento da Emenda Constitucional nº 40/2003, o dispositivo estabelecia, de forma pormenorizada, algumas diretrizes a serem seguidas pelo legislador na edição da norma de regência a ser editada. A entrada em vigor da Constituição Federal de 1988 trouxe pelo menos duas grandes repercussões para a regulação do SFN. A primeira delas dizia respeito às condições de ingresso de novas instituições financeiras no mercado. Anteriormente, vigorava o sistema de cartas-patentes (espécies de autorizações conferidas pelo Banco Central às IF) em que o Conselho Monetário Nacional fixava um número máximo de instituições (e até mesmo agências) que poderiam ser autorizadas a atuar no mercado. Assim, para que uma IF pudesse entrar no mercado ou mesmo para que pudesse ampliar sua atuação, eram necessário adquirir a carta patente de outra, criando uma espécie de reserva de mercado. Com a redação conferida ao art. 192, §1º, da CF/88, as autorizações para o funcionamento de novas instituições passaram a ter caráter inegociável e intransferível, sendo concedida sem ônus às IF que preencherem os requisitos técnicos previstos em lei. A superação do sistema de cartas patentes removeu a principal barreira para o ingresso de novas instituições no mercado, o que, na CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza prática, representou a transição do sistema financeiro para um regime de livre mercado. Outra mudança importante foi a introdução de uma limitação à taxa de juros reais cobradas pelas IFs. O §3º do mesmo artigo 192 tipificava como crime de usura a cobrança em patamar superior a 12% ao ano. Com a promulgação da EC 40/2003, o dispositivo constitucional passou a contar com redação extremamente sintética, remetendo a regulação de toda matéria à reserva de lei complementar, incluindo a participação do capital estrangeiro nas instituições financeiras. A mesma emenda conferiu nova redação ao art. 52 do ADCT, estabelecendo que, até que sejam fixadas as condições do art. 192, são vedados a instalação, no País, de novas agências de instituições financeiras domiciliadas no exterior e o aumento do percentual de participação, no capital de instituições financeiras com sede no País, de pessoas físicas ou jurídicas residentes ou domiciliadas no exterior. Atualmente, portanto, praticamente toda a regulação do SFN tem sede infraconstitucional, estando esparsa em leis e atos normativos infralegais. Todavia, há uma grande confusão conceitual acerca do que constitui, em verdade, o Sistema Financeiro Nacional. Numa visão ampla, que considera tal sistema como aquele em que são desempenhadas atividades de cunho financeiro, é possível afirmar que o SFN compreende quatro grandes mercadosou segmentos, cada qual regulado por legislação e órgãos específicos: Mercado Financeiro – é o conjunto de instituições, práticas e normas que viabilizam as relações financeiras entre credores (agentes superavitários) e devedores (agentes deficitários). Uma das características principais desse mercado é a intermediação financeira especializada. É regido principalmente pela Lei nº 4.595/64. Mercado de Capitais – segmento específico do mercado financeiro, em que a transferência de recursos aos poupadores/agente superavitários para os investidores/agentes deficitários ocorre mediante colocação de títulos e valores mobiliários emitidos pelas empresas, como ações e debêntures, negociados especialmente em Bolsa de Valores e Mercado de Balcão, sem a necessária intermediação do sistema bancário. É regido principalmente pela Lei nº 4.728/65 e pela Lei nº 6.385/76; CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Mercado de Seguros Privados e Capitalização – é aquele onde são negociados os contratos de seguros oferecidos pela sociedades autorizadas a operar com seguros privados. De forma coligada, são também oferecidos os títulos de capitalização, por sociedades especificamente constituídas para este fim. É disciplinado principalmente pelo Decreto-Lei nº 70/66. Mercado de Previdência Complementar – compreende a negociação de planos privados de previdência, de caráter facultativo, complementar e organizado e forma autônoma em relação ao regime geral de previdência social. Sua regra-matriz tem sede no art. 202 da CF/88, sendo disciplinado principalmente pela Lei Complementar nº 109/2001. É dividido em: Previdência privada aberta – é operado pela entidades abertas de previdência, que oferecem planos de benefícios a quaisquer pessoas físicas (planos individuais) ou a pessoas físicas vinculadas, direta ou indiretamente, a uma ou mais pessoas jurídicas contratantes (planos coletivos). Previdência fechada – é operado pelas entidades fechadas de previdência complementar, comumente chamadas de “fundos de pensão”. Somente é acessível: aos empregados de uma empresa ou grupo de empresas e aos servidores da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, entes denominados patrocinadores; e aos associados ou membros de pessoas jurídicas de caráter profissional, classista ou setorial, denominadas instituidores. Já especificamente em relação à ESTRUTURA DO SFN, esta organiza-se da seguinte forma: Órgãos Normativos Conselho Monetário Nacional – é o órgão responsável por expedir diretrizes gerais para o bom funcionamento do SFN. O CMN é integrado pelo Ministro da Fazenda (que o preside), pelo Ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão e pelo Presidente do Banco Central do Brasil. Conselho Nacional de Seguros Privados – órgão colegiado responsável por fixar as diretrizes gerais e normas da política de seguros privados, por regular a constituição, organização, funcionamento e fiscalização das empresas que atuam no âmbito do Sistema Nacional de Seguros Privados, e, ainda, por fixar as características gerais dos contratos de seguro, previdência privada aberta, capitalização e resseguro. É integrado pelo Ministro da Fazenda ou seu CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza representante (que o preside) e por representantes do Ministério da Justiça, Ministério da Previdência, Superintendência de Seguros Privados, Banco Central e Comissão de Valores Mobiliários. Conselho de Gestão de Previdência Complementar – órgão colegiado responsável pela regulação das atividades das entidades fechadas de previdência complementar, funcionando ainda como órgão recursal, responsável pela apreciação de recursos interpostos contra decisões da SPC, versando sobre penalidades administrativas. O CGPC é composto por representantes indicados pelo Governo (Ministérios da Previdência,Fazenda e Planejamento), pelos fundos de pensão, pelos participantes e assistidos e pelos patrocinadores e instituidores de planos de previdência. Entidades Supervisoras Banco Central do Brasil – autarquia criada pela Lei nº 4.595/64, a quem compete cumprir e fazer cumprir as disposições que lhe são atribuídas pela legislação em vigor e as normas expedidas pelo CMN. Na prática, o BCB é o principal executor das orientações do CMN. Dentre outras atribuições, cabe ao BCB: emitir papel-moeda e moeda metálica; executar os serviços do meio circulante; receber recolhimentos compulsórios e voluntários das instituições financeiras e bancárias; realizar operações de redesconto e empréstimo às instituições financeiras; regular a execução dos serviços de compensação de cheques e outros papéis; efetuar operações de compra e venda de títulos públicos federais; exercer o controle de crédito; exercer a fiscalização das instituições financeiras; autorizar o funcionamento das instituições financeiras; estabelecer as condições para o exercício de quaisquer cargos de direção nas instituições financeiras; vigiar a interferência de outras empresas nos mercados financeiros e de capitais e controlar o fluxo de capitais estrangeiros no país. Comissão de Valores Mobiliários – é uma autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda, a quem cabe precipuamente a regulamentação, controle e fiscalização do mercado de valores mobiliários. Compete à CVM, dentre outros: regulamentar, com observância da política definida pelo CMN, as matérias expressamente previstas na Lei nº 6.385/76 e na lei de sociedades por ações; fiscalizar permanentemente as atividades e os serviços do mercado de valores mobiliários, bem como a veiculação de informações relativas ao mercado, às CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza pessoas que dele participem, e aos valores nele negociados; fiscalizar e inspecionar as companhias abertas. Superintendência de Seguros Privados – é também um autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda, a SUSEP foi criada pelo Decreto-lei nº 73/66 e é o órgão responsável pelo controle e fiscalização dos mercados de seguro, resseguro, previdência privada aberta e capitalização. Secretaria de Previdência Complementar – integrante da estrutura do Ministério da Previdência, a SPC é responsável pela fiscalização das atividades das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (fundos de pensão). São algumas das competências da SPC: propor as diretrizes básicas para o Sistema de Previdência Complementar; harmonizar as atividades das entidades fechadas de previdência privada com as políticas de desenvolvimento social e econômico- financeira do Governo; fiscalizar, supervisionar, coordenar, orientar e controlar as atividades relacionadas com a previdência complementar fechada; analisar e aprovar os pedidos de autorização para constituição, funcionamento, fusão, incorporação, grupamento, transferência de controle das entidades fechadas de previdência complementar, bem como examinar e aprovar os estatutos das referidas entidades, os regulamentos dos planos de benefícios e suas alterações. Instituições operadoras Supervisionadas pelo Banco Central a) Instituições financeiras captadoras de depósitos à vista: - Bancos Comerciais - Bancos Múltiplos - Banco do Brasil - Caixa Econômica Federal - Cooperativas de Crédito b) Demais Instituições financeiras: - Agências de fomento - Bancos de Desenvolvimento - Bancos de Investimento - BNDES - Banco de Câmbio CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza - Sociedades de crédito, financiamentoe investimento (“financeiras”) - Sociedades de Crédito ao microempreendedor - Sociedades de Crédito Imobiliário - Companhias Hipotecárias - Cooperativas Centrais de Crédito c) Outros intermediários financeiros: - Administradoras de Consórcio - Sociedades de arrendamento mercantil (leasing) - Corretoras de câmbio - Corretoras de títulos e valores mobiliários (apenas no que tange às operações com títulos de renda fixa) - Distribuidoras de títulos e valores mobiliários (apenas no que tange às operações com títulos de renda fixa) OS CONTRATOS BANCÁRIOS E O SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL – SFN MICROCOMPETÊNCIA 27: As funções do Conselho Monetário Nacional e do Banco Central AS FUNÇÕES DO CONSELHO MONETÁRIO NACIONAL No Brasil, a regulação bancária é conduzida por uma estrutura híbrida de regulação. A função normativa do sistema é conferida primordialmente ao Conselho Monetário Nacional, cabendo ao Banco Central um papel mais executivo, embora lhe sejam atribuídas também atribuições normativas. Composição e funcionamento - A partir da Lei nº 9.069/95 (art. 8º), passou a ser composto pelo MF (Presidente), MPOG e Presidente do BCB; CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza - Tem reuniões ordinárias mensais, mas podem ser convocadas extraordinariamente; - Deliberações veiculadas em Resoluções; - É assessorado pela COMOC (Comissão Técnica da Moeda e do Crédito), que faz a análise técnica das medidas a serem adotadas pelo CMN; - Tem os serviços de Secretaria-Executiva providos pelo BCB; Principais atribuições - Objetivos: Segundo o art. 3º da Lei nº 4.595/64, a atuação do CMN deve ter por objetivo: adaptar o volume dos meios de pagamento às reais necessidades da economia; regular o valor interno e externo da moeda e o equilíbrio do balanço de pagamentos; orientar a aplicação dos recursos das instituições financeiras; propiciar o aperfeiçoamento das instituições e dos instrumentos financeiros; zelar pela liquidez e solvência das instituições financeiras; coordenar as políticas monetária, creditícia, orçamentária e da dívida pública interna e externa. - Competências: O art. 4º elenca um extenso rol de competências ao CMN, nas quais se destacam: Estabelecer condições para que o BCB emita moeda; o Fixar as diretrizes e normas da política cambial; Disciplinar o crédito em todas as suas modalidades e as operações creditícias em todas as suas formas; Regular a constituição, funcionamento e fiscalização dos que exercerem atividades disciplinadas na Lei nº 4.595/64, bem como a aplicação das penalidades previstas; Determinar a percentagem máxima dos recursos que as instituições financeiras poderão emprestar a um mesmo cliente ou grupo de empresas; Estipular índices e outras condições técnicas sobre encaixes, mobilizações e outras relações patrimoniais a serem observadas pelas instituições financeiras; Expedir normas gerais de contabilidade e estatística a serem observadas pelas instituições financeiras; Delimitar o capital mínimo das instituições financeiras privadas; Baixar normas que regulem as operações de câmbio. AS FUNÇÕES DO BANCO CENTRAL Embora sua atuação seja umbilicalmente ligada à regulação bancária, o BCB desempenha uma série de outras funções tão importantes quanto esta para a solidez da economia e do SFN. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Monopólio de Emissão de Moeda Por força do art. 164 da Constituição Federal, bem como do art. 10, inciso I, da Lei nº 4.595/64, a competência para emissão de moeda é privativa do BCB. Segundo a definição clássica, há emissão de moeda quando o BCB entrega o numerário (cédulas ou moedas metálicas) ao banco, colocando-o em circulação e não quando a moeda é confeccionada. Logo, a impressão ou cunhagem da moeda (que, no Brasil, é feita com exclusividade pela Casa da Moeda, por determinação legal) é apenas uma etapa preparatória à emissão propriamente dita. A emissão de moeda é um dos serviços de meio circulante executados pelo BCB, que envolve ainda: os estudos e pesquisas para elaboração de novas cédulas; o atendimento e controle das necessidades de numerário da população; e o saneamento do meio circulante (com a destruição e substituição das cédulas desgastadas pelo uso). Banco do Governo O art. 164, § 3º, da Constituição Federal estabelece que as disponibilidades de caixa da União devem ser depositadas no BCB. Antes da CF/88 e da Lei de Responsabilidade Fiscal, as relações financeiras entre o BCB e o Governo Federal eram bastante confusas e desorganizadas, o que se devia principalmente às constantes ingerências do Poder Executivo federal sobre as atividades do BCB. Em tempos de surto inflacionário, traço característico das décadas de 80 e 90 no Brasil, os déficits orçamentários do Governo federal eram freqüentemente financiados não só pela emissão de títulos e de moeda como também pela obtenção de créditos externos pelo BCB. Com a criação da Secretaria do Tesouro Nacional, em 1986, e com a promulgação da CF/88, houve uma série de reformas na gestão das contas públicas que culminaram com a segregação de atividades do Tesouro e do BCB. Segundo o art. 164, §1º da Carta Magna, passou a ser vedado ao BCB conceder, direta ou indiretamente, empréstimos ao Tesouro Nacional e a qualquer órgão ou entidade que não seja instituição financeira. Com isso, o BCB, na verdade, não emite títulos públicos, mas apenas compra e vende títulos de emissão do Tesouro Nacional, com o objetivo de regular a oferta de moeda ou a taxa de juros. Formulação, execução e acompanhamento da Política Monetária CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza A política monetária é uma das vertentes de política econômica e, talvez, a principal função, em termos políticos e econômicos, que é tradicionalmente desempenhada por um banco central. Por meio dos instrumentos de PM, o BCB zela pela estabilidade da moeda, de forma a manter seu poder de compra. Nesse mister, o BCB busca adequar o volume dos meios de pagamento (todos os ativos que funcionam como moeda) à real capacidade da economia de absorver recursos sem causar desequilíbrio dos preços. Para tanto, a Autarquia usa instrumentos como o redesconto, o recolhimento compulsório, as operações de mercado aberto e a taxa básica de juros da economia (no caso do Brasil, a taxa Selic). Desde 1999, a política monetária brasileira adota o chamado Regime de Metas para a Inflação, no qual o BCB se compromete a atuar de forma a garantir que a inflação medida em determinado período atenda a uma meta pré-estabelecida. No Brasil, a taxa-meta é fixada pelo CMN. O Comitê de Política Monetária (COPOM), formado pelos Diretores do Banco Central, se reúne então a cada 45 dias para aferir como fazer para cumprir a meta. Como o instrumento tradicional de execução de PM baseada no regime de metas inflacionárias é a taxa básica de juros da economia, as reuniões do COPOM são, atualmente, voltadas para decidir basicamente o percentual da taxa Selic que irá vigorar no período entre suas reuniões. Quando as metas fixadas pelo CMN não são cumpridas (ou seja, quando a inflação fica acima ou abaixo do intervalo estabelecido), o Presidente do BCB deve enviar um carta aberta ao Ministro da Fazenda para explicitar os motivos do descumprimento. Política Cambial e Relações com o Exterior Segundo o art. 4º, incisos V e XXXI, a competência para fixação de diretrizes gerais para a política cambial e para baixar normas que regulem as operaçõesde câmbio é do CMN. Contudo, a competência para executar a política cambial estabelecida pelo CMN, bem como para regulamentar suas disposições, estabelecendo os procedimentos operacionais necessários, é do BCB. É no exercício dessa atribuição que, uma vez fixadas as normas gerais de operação do mercado de câmbio pelo CMN, o BCB edita normativos disciplinando as minúcias e a dinâmica dessas CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza operações. Atualmente, tais normas estão contidas no Regulamento do Mercado de Câmbio e Capitais Internacionais, veiculado por circular editada pelo BCB. Além dessa atividade regulatória, o BCB atua na administração das reservas internacionais do país, consoante determinado pelo art. 10, inciso VIII da Lei nº 4.595/64. Tais reservas se formam, em geral, a partir do saldo positivo entre o volume de exportações e importações, bem como de entrada e saída de capitais estrangeiros no País. Assim, um maior volume de exportações e de ingresso de recursos no Brasil, frente às importações e à saída de recursos leva a um aumento das reservas internacionais. Por fim, cabe ao BCB entender-se, em nome do governo brasileiro, com instituições financeiras estrangeiras e internacionais (art. 11, inciso I da Lei nº 4.595/64). Banco dos Bancos Esta é outra das funções mais importantes de um Banco Central, que já se insere no contexto da regulação bancária. Na função de banco dos bancos, o BCB atua prestando assistência financeira às instituições financeiras e prestando serviços de transferência de fundos e de liquidação de operações no sistema bancário. Nesse contexto, há um instituto muito importante: a conta Reservas Bancárias, que compreende as disponibilidades, em moeda nacional, que instituições financeiras mantém obrigatoriamente depositadas no BCB. Tal conta não pode apresentar saldo negativo nem mesmo no decorrer de um mesmo dia. Ela é sensibilizada (isto é, tem seu saldo alterado) pelas operações realizadas pelos bancos e seus respectivos clientes, como saques, transferências, compensação de cheques. Material baseado em: http://www.tvjustica.jus.br/documentos/Curso%20de%20Regulacao%20do%20Sistema%20Financeiro %202%20-%20Fabiano%20Jantalia.pdf . Acesso em: 12 de maio de 2012. MICROCOMPETÊNCIA 27: As funções do Conselho Monetário Nacional e do Banco Central AS FUNÇÕES DO CONSELHO MONETÁRIO NACIONAL CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza No Brasil, a regulação bancária é conduzida por uma estrutura híbrida de regulação. A função normativa do sistema é conferida primordialmente ao Conselho Monetário Nacional, cabendo ao Banco Central um papel mais executivo, embora lhe sejam atribuídas também atribuições normativas. Composição e funcionamento - A partir da Lei nº 9.069/95 (art. 8º), passou a ser composto pelo MF (Presidente), MPOG e Presidente do BCB; - Tem reuniões ordinárias mensais, mas podem ser convocadas extraordinariamente; - Deliberações veiculadas em Resoluções; - É assessorado pela COMOC (Comissão Técnica da Moeda e do Crédito), que faz a análise técnica das medidas a serem adotadas pelo CMN; - Tem os serviços de Secretaria-Executiva providos pelo BCB; Principais atribuições - Objetivos: Segundo o art. 3º da Lei nº 4.595/64, a atuação do CMN deve ter por objetivo: adaptar o volume dos meios de pagamento às reais necessidades da economia; regular o valor interno e externo da moeda e o equilíbrio do balanço de pagamentos; orientar a aplicação dos recursos das instituições financeiras; propiciar o aperfeiçoamento das instituições e dos instrumentos financeiros; zelar pela liquidez e solvência das instituições financeiras; coordenar as políticas monetária, creditícia, orçamentária e da dívida pública interna e externa. - Competências: O art. 4º elenca um extenso rol de competências ao CMN, nas quais se destacam: Estabelecer condições para que o BCB emita moeda; o Fixar as diretrizes e normas da política cambial; Disciplinar o crédito em todas as suas modalidades e as operações creditícias em todas as suas formas; Regular a constituição, funcionamento e fiscalização dos que exercerem atividades disciplinadas na Lei nº 4.595/64, bem como a aplicação das penalidades previstas; Determinar a percentagem máxima dos recursos que as instituições financeiras poderão emprestar a um mesmo cliente ou grupo de empresas; Estipular índices e outras condições técnicas sobre encaixes, mobilizações e outras relações patrimoniais a serem observadas pelas instituições financeiras; Expedir normas CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza gerais de contabilidade e estatística a serem observadas pelas instituições financeiras; Delimitar o capital mínimo das instituições financeiras privadas; Baixar normas que regulem as operações de câmbio. AS FUNÇÕES DO BANCO CENTRAL Embora sua atuação seja umbilicalmente ligada à regulação bancária, o BCB desempenha uma série de outras funções tão importantes quanto esta para a solidez da economia e do SFN. Monopólio de Emissão de Moeda Por força do art. 164 da Constituição Federal, bem como do art. 10, inciso I, da Lei nº 4.595/64, a competência para emissão de moeda é privativa do BCB. Segundo a definição clássica, há emissão de moeda quando o BCB entrega o numerário (cédulas ou moedas metálicas) ao banco, colocando-o em circulação e não quando a moeda é confeccionada. Logo, a impressão ou cunhagem da moeda (que, no Brasil, é feita com exclusividade pela Casa da Moeda, por determinação legal) é apenas uma etapa preparatória à emissão propriamente dita. A emissão de moeda é um dos serviços de meio circulante executados pelo BCB, que envolve ainda: os estudos e pesquisas para elaboração de novas cédulas; o atendimento e controle das necessidades de numerário da população; e o saneamento do meio circulante (com a destruição e substituição das cédulas desgastadas pelo uso). Banco do Governo O art. 164, § 3º, da Constituição Federal estabelece que as disponibilidades de caixa da União devem ser depositadas no BCB. Antes da CF/88 e da Lei de Responsabilidade Fiscal, as relações financeiras entre o BCB e o Governo Federal eram bastante confusas e desorganizadas, o que se devia principalmente às constantes ingerências do Poder Executivo federal sobre as atividades do BCB. Em tempos de surto inflacionário, traço característico das décadas de 80 e 90 no Brasil, os déficits orçamentários do Governo federal eram freqüentemente financiados não só pela emissão de títulos e de moeda como também pela obtenção de créditos externos pelo BCB. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Com a criação da Secretaria do Tesouro Nacional, em 1986, e com a promulgação da CF/88, houve uma série de reformas na gestão das contas públicas que culminaram com a segregação de atividades do Tesouro e do BCB. Segundo o art. 164, §1º da Carta Magna, passou a ser vedado ao BCB conceder, direta ou indiretamente, empréstimos ao Tesouro Nacional e a qualquer órgão ou entidade que não seja instituição financeira. Com isso, o BCB, na verdade, não emite títulos públicos, mas apenas compra e vende títulos de emissão do Tesouro Nacional, com o objetivo de regular a oferta de moeda ou a taxa de juros. Formulação, execução e acompanhamento da Política Monetária A política monetária é uma das vertentes de política econômica e, talvez, a principal função, em termos políticos e econômicos, que é tradicionalmente desempenhadapor um banco central. Por meio dos instrumentos de PM, o BCB zela pela estabilidade da moeda, de forma a manter seu poder de compra. Nesse mister, o BCB busca adequar o volume dos meios de pagamento (todos os ativos que funcionam como moeda) à real capacidade da economia de absorver recursos sem causar desequilíbrio dos preços. Para tanto, a Autarquia usa instrumentos como o redesconto, o recolhimento compulsório, as operações de mercado aberto e a taxa básica de juros da economia (no caso do Brasil, a taxa Selic). Desde 1999, a política monetária brasileira adota o chamado Regime de Metas para a Inflação, no qual o BCB se compromete a atuar de forma a garantir que a inflação medida em determinado período atenda a uma meta pré-estabelecida. No Brasil, a taxa-meta é fixada pelo CMN. O Comitê de Política Monetária (COPOM), formado pelos Diretores do Banco Central, se reúne então a cada 45 dias para aferir como fazer para cumprir a meta. Como o instrumento tradicional de execução de PM baseada no regime de metas inflacionárias é a taxa básica de juros da economia, as reuniões do COPOM são, atualmente, voltadas para decidir basicamente o percentual da taxa Selic que irá vigorar no período entre suas reuniões. Quando as metas fixadas pelo CMN não são cumpridas (ou seja, quando a inflação fica acima ou abaixo do intervalo estabelecido), o Presidente do BCB deve enviar um carta aberta ao Ministro da Fazenda para explicitar os motivos do descumprimento. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Política Cambial e Relações com o Exterior Segundo o art. 4º, incisos V e XXXI, a competência para fixação de diretrizes gerais para a política cambial e para baixar normas que regulem as operações de câmbio é do CMN. Contudo, a competência para executar a política cambial estabelecida pelo CMN, bem como para regulamentar suas disposições, estabelecendo os procedimentos operacionais necessários, é do BCB. É no exercício dessa atribuição que, uma vez fixadas as normas gerais de operação do mercado de câmbio pelo CMN, o BCB edita normativos disciplinando as minúcias e a dinâmica dessas operações. Atualmente, tais normas estão contidas no Regulamento do Mercado de Câmbio e Capitais Internacionais, veiculado por circular editada pelo BCB. Além dessa atividade regulatória, o BCB atua na administração das reservas internacionais do país, consoante determinado pelo art. 10, inciso VIII da Lei nº 4.595/64. Tais reservas se formam, em geral, a partir do saldo positivo entre o volume de exportações e importações, bem como de entrada e saída de capitais estrangeiros no País. Assim, um maior volume de exportações e de ingresso de recursos no Brasil, frente às importações e à saída de recursos leva a um aumento das reservas internacionais. Por fim, cabe ao BCB entender-se, em nome do governo brasileiro, com instituições financeiras estrangeiras e internacionais (art. 11, inciso I da Lei nº 4.595/64). Banco dos Bancos Esta é outra das funções mais importantes de um Banco Central, que já se insere no contexto da regulação bancária. Na função de banco dos bancos, o BCB atua prestando assistência financeira às instituições financeiras e prestando serviços de transferência de fundos e de liquidação de operações no sistema bancário. Nesse contexto, há um instituto muito importante: a conta Reservas Bancárias, que compreende as disponibilidades, em moeda nacional, que instituições financeiras mantém obrigatoriamente depositadas no BCB. Tal conta não pode apresentar saldo negativo nem mesmo no decorrer de um mesmo dia. Ela é sensibilizada (isto é, tem seu saldo alterado) pelas operações realizadas pelos bancos e seus respectivos clientes, como saques, transferências, compensação de cheques. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Material baseado em: http://www.tvjustica.jus.br/documentos/Curso%20de%20Regulacao%20do%20Sistema%20Financeiro %202%20-%20Fabiano%20Jantalia.pdf . Acesso em: 12 de maio de 2012. OS CONTRATOS BANCÁRIOS E O SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL – SFN MICROCOMPETÊNCIA 28: A supervisão bancária enquanto função do Banco Central De modo geral, a atividade de supervisão visa a assegurar a solidez do SFN e o regular funcionamento das entidades supervisionadas. Segundo o Manual de Supervisão do BCB, tal atividade tem como objetivos: - Avaliar as instituições supervisionadas, no tocante aos riscos assumidos e à capacidade de gerenciamento dentro de limites regulamentares e prudenciais; - Verificar o cumprimento das normas específicas de sua competência, para que as instituições supervisionadas atuem em conformidade às leis e à regulamentação; - Fomentar a divulgação de informações pelas instituições supervisionadas, com vistas às melhores práticas de governança corporativa nos aspectos de transparência e eqüidade no relacionamento com os participantes do mercado; - Prevenir a utilização do sistema financeiro para o trânsito de recursos oriundos da prática de ilícitos financeiros, da lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo; e - Atender denúncias, reclamações e pedidos de informações. É importante esclarecer que, apesar da competência fiscalizatória do BCB ter sido inicialmente delimitado pela Lei nº 4.595/64 – alcançando assim apenas as instituições financeiras – outras leis atribuíram competência à Autarquia para fiscalização e supervisão de outras instituições. É o caso, por exemplo, das corretoras e distribuidoras de valores mobiliários (Lei nº 4.728/65), das cooperativas de crédito (Lei nº 5.764/91) e das administradoras de consórcio (originalmente em decorrência da Lei nº 8.177/91 e agora com base na Lei nº 11.795/08). CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Autorização para funcionamento de instituições supervisionadas Uma etapa preliminar, que consubstancia uma espécie de supervisão prévia, tem sede no art. 10, inciso X, c/c art. 18 da Lei nº 4.595/64, que estatui que as instituições financeiras somente podem funcionar no País mediante prévia autorização do BCB. Após o início das atividades da instituição, caberá à Autarquia conceder autorização para uma série de atos societários e negociais, como a transformação, fusão, incorporação ou encampação. As instituições supervisionadas pelo BCB precisam também de autorização para praticar operações de câmbio, crédito real e venda habitual de títulos da dívida pública federal, estadual ou municipal, ações, debêntures, letras hipotecárias e outros títulos de crédito ou mobiliários; alterar seus estatutos; ou ainda para alienar ou, por qualquer outra forma, transferir o seu controle acionário. O BCB pode ainda estabelecer condições para a posse e para o exercício de quaisquer cargos de administração de instituições financeiras privadas, assim como para o exercício de quaisquer funções em órgãos consultivos, fiscais e semelhantes, segundo diretrizes gerais expedidas pelo CMN. Supervisão Indireta A supervisão indireta das instituições que integram o SFN é conduzida pela área técnica do BCB mediante o monitoramento, por meio eletrônico, da situação econômico-financeira, do atendimento aos limites operacionais, dos riscos incorridos pelas instituições (como risco de liquidez e de crédito), bem como pelo monitoramento dos estoques e das operações cursadas em sistemas de registro e de liquidação financeira das instituições por ele supervisionadas. Essa atividade de supervisão está baseada na coleta e análise das informações enviadas pelas instituiçõese conta com o suporte de sistemas de grande porte desenvolvidos pelo BCB para o bom exercício de suas funções. Dentre os instrumentos utilizados pela Autarquia destacam-se: - Sistema de Informações sobre Entidades de Interesse do Banco Central (UNICAD) – contém informações cadastrais das entidades supervisionadas pelo Banco Central, bem como de pessoas físicas vinculadas a essas entidades. Estão CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza ali retratadas informações como a composição societária, autorizações obtidas e pendentes e instalações e agências, dentre outros; - Sistema de Informações de Crédito (SCR) – consiste num banco de dados sobre operações de crédito das instituições fiscalizadas pelo BCB. Seu principal objetivo é permitir à supervisão do Banco Central aferir as condições econômico- financeiras das instituições financeiras, com o propósito de proteger seus depositantes. Se forem observados indícios de operações ilícitas, o BCB dá início a processo administrativo para apuração dos fatos. Sem prejuízo disso, a Autarquia comunica a(s) operação(ões) suspeita(s) ao Conselho de Controle das Atividades Financeiras (COAF) – quando verificados indícios de crime de lavagem de dinheiro – e à Secretaria da Receita Federal do Brasil – quando verificados indícios de ilícitos fiscais. Supervisão Direta A supervisão direta é aquela que se dá pela inspeção in loco (ou à distância, em alguns casos) dos técnicos do BCB. Normalmente, a supervisão direta ocorre posteriormente à indireta, diante dos resultados ou suspeitas levantadas pela fiscalização do BCB quanto às informações e dados previamente analisados na SI. Nessa inspeção, muitas vezes os dados contábeis não são o elemento de maior preocupação. Seu real objetivo é identificar e avaliar os riscos e os controles inerentes a cada área ou atividade da instituição, bem como a atuação da alta administração na manutenção da solidez e do regular funcionamento da entidade. A decisão sobre o tipo e o alcance da inspeção leva em conta as características e o porte da instituição, bem como sua situação econômico-financeira e seu perfil de risco. Processos Administrativos Consoante disposto no art. 4º, inciso VIII, da Lei nº 4.595/64, compete ao CMN regular a aplicação das penalidades previstas. Por sua vez, o Art. 10, inciso IX, da mesma lei, estabelece a competência do BCB para exercer a fiscalização das instituições financeiras e aplicar as penalidades previstas. No exercício de suas competências normativas, o CMN editou a Resolução nº 1.065/85, que veicula o Regulamento de Aplicação de Penalidades às instituições CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza financeiras, seus administradores, membros de conselhos consultivos, fiscais e semelhantes, gerentes e outras pessoas que infrinjam as disposições das Leis n. 4.595/64, bem como outras normas legais ou regulamentares aplicáveis. Esse regulamento é parte integrante do Manual de Normas e Instruções do BCB. Após instaurados, os processos administrativos punitivos no âmbito do BCB passam pelas fases de defesa do acusado e exame do processo, até a prolação da decisão administrativa pelo BCB. As penas aplicadas pela Autarquia variam de acordo com a instituição supervisionada e com a respectiva previsão legal, indo desde a mera advertência e multa até a suspensão ou inabilitação para o exercício de cargos (no caso de pessoa física) ou a cassação da autorização de funcionamento (pessoa jurídica). Dessa decisão cabe recurso ao Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional (CRSFN), ou, quando a penalidade for imposta com amparo na Lei nº 9.613/98, ao Ministro da Fazenda. O CRSFN é um órgão colegiado, de segundo grau, integrante da estrutura do Ministério da Fazenda, cuja Secretaria-Executiva funciona no Edifício Sede do BCB. É constituído por oito conselheiros com conhecimentos especializados em assuntos relativos aos mercados financeiro, de câmbio, de capitais, de crédito rural e industrial e de consórcios, sendo quatro indicados pelo Governo (Ministério da Fazenda, BC, CVM e Secretaria de Comércio Exterior do MDIC) e quatro indicados pelas entidades de classe dos mercados supervisionados, em lista tríplice. Seu Regimento Interno é veiculado em Decreto Presidencial. Após a decisão administrativa proferida pelo CRSFN, ou pelo Ministro de Estado da Fazenda, e sua posterior publicação no Diário Oficial, o BCB pode aplicar a penalidade. Em todo o processo administrativo aqui abordado, a Lei nº 9.784/99, que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal, tem aplicabilidade apenas subsidiária. Isto é, somente é aplicada diante da inexistência de regramento específico nos diplomas já citados. Material baseado em: http://www.tvjustica.jus.br/documentos/Curso%20de%20Regulacao%20do%20Sistema%20Financeiro %202%20-%20Fabiano%20Jantalia.pdf . Acesso em: 12 de maio de 2012. OS CONTRATOS BANCÁRIOS E O SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL – SFN CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza MICROCOMPETÊNCIA 29: O saneamento do Sistema Financeiro Nacional enquanto função do Banco Central A função de saneamento do SFN exercida pelo BCB está relacionada à sua atuação diante da iminência ou efetiva concretização de crises bancárias. Tal como hoje se vê com a crise norteamericana dos subprimes, a grande relevância do sistema bancário para a economia real torna as crises bancárias potencialmente perigosas para os demais segmentos da economia, principalmente porque o sistema atua na captação de poupança popular. É preciso então que as entidades reguladoras do sistema financeiro (no caso específico, o Banco Central) sejam dotados de um arsenal normativo para combater e debelar as crises, inclusive intervindo na atividade das instituições financeiras e até de outras instituições que, as não financeiras, mas que atuem como intermediários. No Brasil, a legislação atribui ao BCB o poder de aplicar os chamados Regimes Especiais, em que a Autarquia efetivamente atua da administração da instituição. Contudo, o BCB, antes de decidir pela instauração de um regime especial, tem o poder de determinar às instituições financeiras a adoção de determinadas medidas. Em nosso sistema, há três tipos de regimes especiais que podem ser aplicados às instituições financeiras privadas e às públicas não federais: - Intervenção; - Liquidação; - Regime de Administração Especial Temporária (RAET) A Intervenção Regida pela Lei nº 6.024/74, a intervenção pode ser decretada de ofício pelo BCB ou por solicitação dos administradores da instituição, quando se verificar: - prejuízo, decorrente da má administração, que sujeite a riscos os seus credores; ou CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza - diante da constatação de reiteradas infrações a dispositivos da legislação bancária não regularizadas após as determinações do BCB no uso das suas atribuições de fiscalização; Trata-se de medida de caráter cautelar e, por isso, a lei fixa um prazo de seis meses para sua conclusão, prorrogáveis por mais seis meses. Seu objetivo principal é evitar o agravamento da situação patrimonial da instituição ou fazer cessar a prática de irregularidades que já foram reiteradamente constatadas pelo BCB. Uma vez decretada, a intervenção importa a suspensão da exigibilidade das obrigações vencidas; a suspensão da fluência do prazo das obrigações vincendas anteriormente contraídas; e a inexigibilidadedos depósitos já existentes à data de sua decretação. Sua execução fica a cargo de um interventor nomeado pela Autarquia, que pode atuar mesmo antes da publicação do ato de sua nomeação no Diário Oficial. A lei prevê a possibilidade do início de sua atuação a partir da transcrição ou registro de seu termo de posse ou de sua nomeação nos registros internos do BCB. Ao assumir, o interventor deverá imediatamente iniciar o levantamento da real situação financeira da instituição, devendo, para tanto, arrecadar, mediante termo, todos os livros da entidade e os documentos de interesse da administração, bem como levantar o balanço geral e o inventário de todos os livros, documentos, dinheiro e demais bens da entidade, ainda que em poder de terceiros, a qualquer título. Os poderes do interventor são bem amplos no que diz respeito à auditoria de contas da empresa, mas, no plano negocial, são limitados à administração cotidiana da instituição. Os atos de disposição patrimonial e de admissão e demissão de pessoal dependem de prévia e expressa autorização do BCB. Das decisões do interventor, cabe recurso à Autarquia no prazo de dez dias. No prazo de 60 dias a partir de sua posse, o interventor deve apresentar um relatório ao BCB, contendo fundamentalmente o exame da escrituração, da aplicação dos fundos e disponibilidades, e da situação econômico-financeira da instituição; a indicação, devidamente comprovada, dos atos e omissões danosos que eventualmente tenha verificado; e uma proposta justificada da adoção das providências que lhe pareçam convenientes à instituição. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Diante do relatório, o BC pode determinar a cessação da intervenção, manter a instituição sob intervenção - até que sejam sanadas as irregularidades que a motivaram – ou decretar a liquidação extrajudicial da entidade. É importante frisar que o BCB não está vinculado ao relatório e à proposta do interventor. A Liquidação Extrajudicial Diferentemente da intervenção, a liquidação tem cunho definitivo, tendo por objetivo viabilizar o pagamento dos credores e promover a extinção da instituição. Pode ser decretada de ofício pelo BCB em três hipóteses previstas no art. 15 da Lei nº 6.024/74: - em razão de ocorrências que comprometam sua situação econômica ou financeira especialmente quando deixar de satisfazer, com pontualidade, seus compromissos ou quando se caracterizar qualquer dos motivos que autorizem a declararão de falência; - quando a administração violar gravemente as normas legais e estatutárias que disciplinam a atividade da instituição bem como as determinações do CMN ou do BCB; - quando a instituição sofrer prejuízo que sujeite a risco anormal seus credores quirografários; - quando, cassada a autorização para funcionar, a instituição não iniciar, nos 90 dias seguintes, sua liquidação ordinária, ou quando, iniciada esta, o BCB verificar que a morosidade de sua administração pode acarretar prejuízos para os credores; Ela também pode ser decretada pelo BCB por solicitação dos administradores da instituição – se o estatuto social lhes conferir esta competência – ou por proposta do interventor. No ato que decretar a liquidação extrajudicial, o BCB deve indicar a data em que se tenha caracterizado o estado que a determinou, fixando o termo legal da liquidação, que não poderá ser superior a 60 dias, contados do primeiro protesto por falta de pagamento ou, em sua falta, do ato que haja decretado a intervenção ou a liquidação. A decretação da liquidação tem efeitos bem mais amplos que o da intervenção, a saber: - suspensão das ações e execuções iniciadas sobre direitos e interesses relativos ao CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza acervo da entidade liquidanda, não podendo ser intentadas quaisquer outras, enquanto durar a liquidação; - vencimento antecipado das obrigações da liquidanda; - não atendimento das cláusulas penais dos contratos unilaterais vencidos em virtude da decretação da liquidação extrajudicial; - não fluência de juros, mesmo que estipulados, contra a massa, enquanto não integralmente pago o passivo; - interrupção da prescrição relativa a obrigações de responsabilidade da instituição; - não reclamação de correção monetária de quaisquer divisas passivas, nem de penas pecuniárias por infração de leis penais ou administrativas. A liquidação é conduzida por um liquidante nomeado pela Autarquia, que tem amplos poderes de administração e liquidação, especialmente os de verificação e classificação dos créditos, podendo nomear e demitir funcionários, fixando-lhes os vencimentos, outorgar e cassar mandatos, propor ações e representar a massa em Juízo ou fora dele. No entanto, é necessária a prévia e expressa autorização do BCB para que ele conclua os negócios pendentes e onere ou aliene bens da massa, o que, segundo a lei, deve ocorrer por meio de licitação. Das decisões do liquidante, cabe recurso ao BCB, sem efeito suspensivo. Diante de sua complexidade, não há prazo fixado em lei para a conclusão da liquidação. No entanto, tal como ocorre com a intervenção, o liquidante tem um prazo de 60 dias para apresentar um relatório sobre a situação da liquidanda. De posse desse relatório, o BCB pode autorizar o prosseguimento da liquidação ou autorizar o liquidante a requerer diretamente a falência da entidade, que se processará na forma do art. 75 e seguintes da Lei nº 11.101/05 (nova Lei de Falências), quando o seu ativo não for suficiente para cobrir pelo menos a metade do valor dos créditos quirografários ou quando houver fundados indícios de crimes falimentares. Uma das etapas mais importantes da liquidação é a chamada dos credores, que dá início à classificação dos créditos, culminando com a formação do quadro CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza geral de credores, que servirá de base para a conclusão da liquidação, mediante a satisfação dos passivos da liquidanda. O Regime de Administração Especial Temporária (RAET) O RAET é disciplinado pelo Decreto-lei nº 2.321/87, consistindo num regime em que, à diferença do que ocorre com a intervenção e a liquidação, não implica interrupção nem suspensão das atividades normais da instituição. Com a decretação, ocorre a perda do mandato dos administradores e membros do Conselho Fiscal da instituição, ficando sua execução a cargo de um conselho diretor, nomeado pelo BCB, com plenos poderes de gestão, constituído de tantos membros quantos julgados necessários para a condução dos negócios sociais. A instituição do RAET atendeu a razões circunstanciais: na época, muitos bancos estaduais começaram a apresentar problemas, o que, em condições normais, poderia levar à intervenção ou mesmo à liquidação de tais instituições. Contudo, por serem bancos dos Estados, muito se questionava se eventual atuação do BCB, enquanto autarquia federal, constituiria violação ao pacto federativo. Daí surgiu a concepção do RAET, que, por não contemplar uma forma tão brusca de intromissão na atividade da instituição, não desafia tantos questionamentos quanto os demais regimes especiais. Com o advento do PROES e das muitas privatizações ocorridas com estes bancos, o RAET foi perdendo importância, tendo, hoje, pouca aplicabilidade. A atuação preventiva do BC: a Lei nº 9.447/97 Até o advento da Lei nº 9.447/97, o BCB não dispunha de muitos instrumentos para uma atuação preventiva e, na prática, só tinha como alternativa a aplicação dos regimes especiais. Com a ediçãoda Medida Provisória nº 1.182/95, posteriormente transformada na Lei nº 9.447/97, o arsenal normativo da Autarquia ganhou substancial incremento. Segundo a norma, quando verificada a ocorrência de qualquer das hipóteses ensejadoras da intervenção, liquidação ou RAET, o BCB, em vez de decretar imediatamente a instauração do regime especial e visando assegurar a normalidade da economia pública e resguardar os interesses dos depositantes, investidores e demais credores, pode determinar aos administradores da instituição que promovam CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza a capitalização da sociedade – com o aporte de recursos necessários ao seu soerguimento, em montante por ele fixado – a transferência do controle acionário, ou a reorganização societária, inclusive mediante incorporação, fusão ou cisão. Além disso, a lei previu que, a partir da instauração de processo administrativo, o BCB pode adotar medidas cautelares, como determinar o afastamento dos indiciados da administração dos negócios da instituição, enquanto perdurar a apuração de suas responsabilidades; impedir que os indiciados assumam quaisquer cargos de direção ou administração de instituições financeiras ou atuem como mandatários ou prepostos de diretores ou administradores; impor restrições às atividades da instituição financeira; ou ainda determinar à instituição financeira a substituição da empresa de auditoria contábil ou do auditor contábil independente. A lei permitiu ainda ao interventor, ao liquidante e ao conselho diretor da instituição submetida ao RAET, mediante prévia e expressa autorização do BCB, transferir para outra(s) sociedade(s), isoladamente ou em conjunto, bens, direitos e obrigações da empresa ou de seus estabelecimentos; alienar ou ceder bens e direitos a terceiros e acordar a assunção de obrigações por outra sociedade; proceder à constituição ou reorganização de sociedade ou sociedades para as quais sejam transferidos, no todo ou em parte, bens, direitos e obrigações da instituição sob intervenção, liquidação extrajudicial ou administração especial temporária, objetivando a continuação geral ou parcial de seu negócio. Outras medidas importantes implementadas pela lei foram no campo da responsabilização dos controladores e dos prestadores de serviço de auditoria. A partir da Lei nº 9.447/97, os controladores passaram a ser solidariamente responsáveis pelos prejuízos apurados em sede de intervenção ou liquidação, respondendo com seus bens pessoais. Os auditores que tenham analisado os balanços e demonstrações contábeis de instituições que, posteriormente, sejam submetidas a regimes especiais passaram a estar sujeitos à apuração de responsabilidade. Material baseado em: http://www.tvjustica.jus.br/documentos/Curso%20de%20Regulacao%20do%20Sistema%20Financeiro %202%20-%20Fabiano%20Jantalia.pdf CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza . Acesso em: 12 de maio de 2012. MICROCOMPETÊNCIA 30: Conceitos gerais em Contratos Bancários Embora a maioria dos juristas exerça ferrenha defesa do sigilo bancário, a Constituição Federal não se referiu diretamente a isso. O que a Lei Maior garante é o direito à intimidade, à privacidade e a inviolabilidade da transmissão de dados. O direito à privacidade e à intimidade não têm definição fechada, estando no nebuloso campo interpretativo. Baseado nisso, muitos doutrinadores têm se esforçado em incluir o direito ao sigilo bancário como intrínseco à intimidade pessoal. Alguns por crerem estar defendendo o cidadão de intromissões indesejadas do Estado, outros por militarem na trincheira ideológica dos bancos. Teorias aptas a fundamentar a natureza do sigilo bancário Teoria contratualista É a que reúne maior número de adeptos, liderada por Scheerer, fundamenta o sigilo no contrato firmado entre o banco e o cliente. Considera que existe implícita em qualquer contrato bancário, uma obrigação acessória de segredo por parte dos estabelecimentos bancários, em decorrência do segredo profissional. Teoria consuetudinária Os prosélitos desta teoria sustentam que o sigilo bancário se tornou obrigação jurídica em função de seu uso ao longo do tempo, observado como tradição universal por todos os estabelecimentos bancários e por serem atos de comércio, devem seguir o mesmo regime das práticas comerciais. Teoria do segredo profissional Grande parte da doutrina européia filia-se a esta corrente. Ela inclui os bancos dentre aqueles cujo exercício da atividade profissional leva a tomar conhecimento de certos fatos que dizem respeito à esfera íntima do indivíduo. Teoria legalista CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza Considera o sigilo bancário como "obrigação jurídica cujo fundamento repousa em uma norma legal, em sentido material." mas, é bom lembrar que a tese não é abrangente, pois não se aplica aos Estados cujos ordenamentos jurídicos não consagram o sigilo bancário em sua legislação. Teoria do direito de personalidade Esta teoria afirma que o sigilo sobre transações bancárias é uma manifestação do direito à intimidade e, portanto, faz parte dos direitos de personalidade necessários ao desenvolvimento da pessoa. Na Suíça o fundamento do sigilo bancário é a intimidade do cidadão. A aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor aos contratos bancários: não há mais dúvidas quanto à aplicação do Código de Defesa do Consumidor, introduzido pela Lei 8.078, de 11.09.1990, aos contratos bancários, o que se pode observar por vários enfoques ou ângulos distintos e mutuamente encaixados, reforçando-se um a um e conferindo coesão ao sistema e solidez à conclusão. O sistema financeiro nacional sob o aspecto constitucional: O sistema financeiro encontra-se sinteticamente previsto no art. 192 da Constituição Federal, que, em sua redação original, já estabelecia que o SFN deve ser estruturado de forma a promover o desenvolvimento equilibrado do País e a servir aos interesses da coletividade e que deve ser regulado por leis complementares. Até o advento da Emenda Constitucional nº 40/2003, o dispositivo estabelecia, de forma pormenorizada, algumas diretrizes a serem seguidas pelo legislador na edição da norma de regência a ser editada. REFERÊNCIAS ABRÃO, Nelson. Direito Bancário. Saraiva, 2009. COVELLO, S. Contratos bancários. São Paulo: Saraiva. DALLAGNOL, Deltan Martinazzo. Contratos bancários: conceito, classificação e características. Disponível em: http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=3262. Acesso em: 18 de junho de 2010. CURSO DE DIREITO Disciplina: CONTRATOS BANCÁRIOS Profª Janaína Machado Sturza RIZZARDO, Arnaldo. Contratos. Rio de Janeiro: Forense, 2006. RODRIGUES, Silvio. Direito Civil: dos contratos e das declarações unilaterais da vontade. São Paulo: Saraiva. SALOMÃO NETO, Eduardo. Direito Bancário. São Paulo:Atlas, 2009.