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MATERIAL DE APOIO PARA DISCIPLINA:
MELHORAMENTO GENÉTICO ANIMAL - GZO 129
(Medicina Veterinária)
Profª. Sarah Laguna C. Meirelles - ramal 1688
sarah@dzo.ufla.br
1
Capítulo 1. Genética de Populações: frequências gênicas e
genotípicas, Teorema de Hardy-Weinberg.
1. Introdução
Do ponto de vista genético, uma população é um grupo de indivíduos de
mesma espécie que se interacasalam e que por isto apresentam propriedades
numa dimensão de espaço e tempo, denominada por Wright de “população
mendeliana”.
A genética de populações estuda as conseqüências estatísticas das Leis de
Mendel em um grupo de indivíduos, estuda o fenômeno hereditário a nível
populacional. Pode ainda ser definida como um ramo da genética que trata das
frequências alélicas e genotípicas nas populações e as forças capazes de alterar
estas frequências ao longo das gerações e, conseqüentemente, busca interpretar
os fenômenos evolutivos.
A genética de populações nasceu por volta de 1903 com a publicação por
Castle, de um artigo em que se desenvolvia um princípio simples, que relacionava,
em uma população ideal constituída por indivíduos com reprodução sexuada que
se acasalavam ao acaso, as frequências alélicas e genotípicas. Este princípio foi
redescoberto por volta de 1908 de forma independente por Hardy e Weinberg e
ficou conhecido como Teorema ou Lei de Hardy-Weinberg.
2. Conceitos fundamentais
2.1 População Mendeliana
Grupo de indivíduos da mesma espécie que se interacasalam e que por
isso apresentam propriedades numa dimensão de espaço (devido ao
interacasalamento) e de tempo (devido aos elos de reprodução).
2.2 Frequências gênicas e genotípicas
Para descrever a constituição genética de um grupo de indivíduos, é
necessário especificar os seus genótipos e descrever em que frequência cada
genótipo ocorre na população.
Os genes encontrados em populações têm continuidade de geração a
geração, o que não acontece com os genótipos nos quais eles aparecem. A
constituição genética da população, com relação aos alelos que ela transporta, é
descrita pelas frequências alélicas ou gênicas.
A descrição da constituição genética de uma população conduz ao estudo
das frequências relativas dos indivíduos com determinados genótipos.
2
Considerando uma situação simplificada de uma população de organismos
diplóides, um locus autossômico com 2 alelos (A1 e A2), são possíveis três
genótipos: A1A1, A1A2 e A2A2, com a seguinte distribuição:
Genótipos No de indivíduos No de alelos
A1A1 D 2D
A1A2 H 2H
A2A2 R 2R
Total N 2N
A frequência genotípica é expressa como a proporção relativa de cada
genótipo, ou seja:
f(A1A1) = d = D/N
f(A1A2) = h = H/N
f(A2A2) = r = R/N
Desta forma, d + h + r = 1.
Esta população pode ser caracterizada pelas frequências relativas dos
alelos A1 e A2 , ou seja:
f(A1) = p = n
o de alelos A1 = 2D + H = d + 1 h
no total de alelos 2N 2
f(A2) = q = n
o de alelos A2 = 2R + H = r + 1 h
no total de alelos 2N 2
de forma que, p + q = 1.
Exemplo: considerando a seguinte população diplóide, encontre as frequências
gênicas e genotípicas.
Genótipos No de indivíduos
A1A1 880
A1A2 608
A2A2 112
Total 1600
Frequências genotípicas:
f(A1A1) = 880/1600 = 0,55
f(A1A2) = 608/1600 = 0,38
f(A2A2) = 112/1600 = 0,07
3
Frequências alélicas:
f(A1) = 880 + (½)608 = 0,74
1600
f(A2) = 112 + (½)608 = 0,26
1600
2.3 Acasalamento ao acaso
Em muitos organismos na natureza, animais e plantas, o tipo mais comum
de reprodução é aquele onde os acasalamentos são ao acaso. Neste sistema,
cada indivíduo de um dos sexos tem igual probabilidade de se acasalar com
qualquer indivíduo do sexo oposto. Em outras palavras, a frequência de um
determinado tipo de acasalamento é ditada pelo acaso.
O conceito de acasalamento ao acaso deve sempre estar relacionado a
uma característica específica. Para algumas características (por exemplo grupo
sangüíneo MN em humanos), os acasalamentos são praticamente ao acaso.
Considerando uma população com frequência genotípica de d, h e r para os
genótipos A1A1, A1A2 e A2A2 , respectivamente, e admitindo-se que as frequências
genotípicas sejam as mesmas para machos e fêmeas, então a frequência de
acasalamentos de indivíduos A1A1 com A1A1 será d
2. Os diversos tipos de
acasalamentos possíveis, com suas respectivas frequências seriam:
Genótipos Frequência de acasalamentos
Machos Fêmeas
A1A1 A1A1 d
2
A1A1 A1A2 dh
A1A1 A2A2 dr
A1A2 A1A1 hd
A1A2 A1A2 h
2
A1A2 A2A2 hr
A2A2 A1A1 rd
A2A2 A1A2 rh
A2A2 A2A2 r
2
Total: d2 + dh + dr + dh + h2 + rh + dr + rh + r2
d2 + 2dh + 2dr + 2rh + h2 + r2 = (d + h + r)2
Uma vez que o sexo dos pais é irrelevante, alguns tipos de acasalamento
são equivalentes e o número de tipos diferentes de acasalamentos é reduzido de
nove para seis.
O termo Panmixia é algumas vezes usado como sinônimo de acasalamento
ao acaso e a população é dita ser panmítica.
4
3. Teorema ou Lei de Hardy-Weinberg
A Lei de Hardy-Weinberg, mais recentemente conhecida como Teorema de
Castle-Hardy-Weinberg (C-H-W), foi demonstrada pela primeira vez por Castle em
1903. No entanto, passou à história da ciência como sendo proposta pelo
matemático inglês Soldfrey Harold Hardy e pelo médico alemão Wilhelm
Weinberg, que a redescreveram independentemente em 1908.
Até o momento a descrição da constituição genética de uma população foi
feita para uma dada geração. O que acontece com as frequências alélicas e
genotípicas nas gerações futuras? A resposta foi dada por Castle-Hardy-Weinberg
e pode ser enunciada da seguinte forma: em uma grande população sob
acasalamento ao acaso, na ausência de seleção, mutação e migração, as
frequências alélicas e genotípicas permanecem constantes de geração para
geração e existe uma relação simples entre as frequências alélicas e genotípicas.
Uma população com frequências alélicas e genotípicas constantes é dita estar em
equilíbrio de Hardy-Weinberg.
A relação entre as frequências alélicas e genotípicas é de grande
importância uma vez que várias deduções a respeito de genética de populações e
quantitativa apoiam-se na mesma. Esta relação é: se as frequências alélicas entre
os pais forem p e q, então as frequências genotípicas na progênie serão p2, 2pq,
q2, isto é, o arranjo genotípico na progênie é o quadrado do arranjo gamético.
Para demonstração dessa lei, consideremos a geração paterna com as
seguintes frequências gênicas e genotípicas:
Genótipos A1A1 A1A2 A2A2 Total
Frequências d h r 1,0
genotípicas
Frequências alélicas:
f(A1) = p = d + (½)h
f(A2) = q = r + (½)h
Assumindo que acasalamento ao acaso é equivalente à união ao acaso dos
gametas, a próxima geração terá frequências genotípicas:
♂ A1 A2
♀ p q
A1 p A1A1 p
2 A1A2 pq
A2 q A1A2 pq A2A2 q
2
Genótipos A1A1 A1A2 A2A2
Frequências p2 2pq q2
genotípicas5
Frequência gênica na progênie:
f(A1) = p
2 + pq = p(p + q) = p
f(A2) = q
2 + pq = q(p + q) = q
Assim, independentemente da constituição genotípica inicial, a da geração
seguinte será p2, 2pq, q2. Tanto as frequências gênicas quanto genotípicas se
mantêm constantes geração após geração, e a população é dita em Equilíbrio de
Hardy-Weinberg. Apenas uma geração de acasalamento ao acaso, na ausência
de seleção, mutação e migração, é suficiente para que uma grande população
entre em equilíbrio.
A demonstração da Lei de H-W também pode ser feita usando-se a
frequência de acasalamentos ao acaso. Considerando a população paterna:
Genótipos A1A1 A1A2 A2A2
Frequências d h r
genotípicas
f(A1) = p = d + (½)h
f(A2) = q = r + (½)h
Submetendo-se esta população a acasalamento ao acaso temos:
Acasalamentos Freq. descendentes
Tipo Frequência A1A1 A1A2 A2A2
A1A1 x A1A1 d
2 d2 - -
A1A1 x A1A2 2dh dh dh -
A1A1 x A2A2 2dr - 2dr -
A1A2 x A1A2 h
2 ¼h2 ½h2 ¼h2
A1A2 x A2A2 2rh - rh rh
A2A2 x A2A2 r
2 - - r2
Total p2 2pq q2
d2 + dh + ¼h2 = (d + ½h)2 = p2
dh + 2dr + ½h2 + rh = ½h(h + 2d) + r(h + 2d)
= (h + 2d) (½h + r)
= 2(½h + d) (½h + r) = 2pq
6
¼h2 + rh + r2 = (r + ½h)2 = q2
Mostrando que com apenas uma geração de acasalamento ao acaso,
independentemente da frequência genotípica inicial, a população entra em
equilíbrio de H-W.
4. Condições e suposições do Teorema de Hardy-Weinberg
As condições para a Lei de Hardy-Weinberg são:
a) organismos diplóides;
b) genes autossômicos;
c) dois alelos por locus;
d) um gene.
As suposições implícitas no modelo são:
a) ausência de migração – introdução de indivíduos de outra população com
frequência alélica diferente;
b) ausência de mutação – modificação de um alelo existente na população;
c) ausência de seleção – reprodução diferencial e não aleatória dos diferentes
genótipos;
d) acasalamento ao acaso;
e) população grande – quando a população não é grande, as frequências gênicas
são sujeitas à variação de amostragem de uma geração para outra, podendo
ocorrer mudanças na constituição genética da população.
5. Propriedades de uma população em equilíbrio de H-W.
a) Em uma população diplóide a proporção de heterozigotos é h = 2pq , a qual
nunca excede 0,50. O valor máximo de h ocorre para p = q = 0,50.
Demonstração:
h = 2pq = 2p(1 - p) = 2p – 2p2
Fazendo-se a derivada de h em relação a p:
dh = 2 – 4p = 0 ∴ p = ½ ∴ q = ½ e
dp
a segunda derivada:
d’h = – 4 < 0 ∴ p = ½ é um valor de máximo.
dp
7
b) A proporção (ou número) de heterozigotos é duas vezes a raiz quadrada do
produto das proporções (ou números) dos dois homozigotos, isto é:
2
rd
h
=
×
ou rd2h ×=
Esta propriedade fornece um teste simples para verificar se uma população
está em equilíbrio. Tem a vantagem da razão 2 ser independente das frequências
gênicas da população.
Demonstração:
d=p2 r=q2
d + r = 1 ⇔ p2 + q2 = 1
p q p q
ou d + r = 1
d + ½h r + ½h
d(r + ½h) + r(d + ½h) = (d + ½h) (r + ½h)
dr + ½dh + dr + ½rh = dr + ½dh + ½rh + ¼h2
dr = 1 h2 ∴ 1 = dr
4 4 h2
h2 = 4 ∴ h = 2
dr √dr
8
c) A relação entre as frequências genotípicas e alélicas, em uma população em
equilíbrio, pode ser ilustrada graficamente como:
A figura mostra como a frequência dos 3 genótipos dependem da
frequência alélica. Quando a frequência de um alelo é baixa, o alelo raro ocorre,
predominantemente, no heterozigoto e há muito poucos homozigotos. Isto tem
conseqüências para a eficácia de seleção.
6. Aplicações e Extensões da Lei de Hardy-Weinberg
A seguir serão apresentados alguns exemplos da aplicação da lei de Hardy-
Weinberg para mostrar sua validade na natureza e alguns aspectos adicionais.
6.1 Ausência de dominância
É o caso mais simples em que os três genótipos são distinguíveis pelo
fenótipo, como no caso da cor de pelagem na raça bovina Shorthorn. Nesse caso
os genótipos A1A1, A1A2 e A2A2 correspondem aos fenótipos branco, ruão e
vermelho.
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Sejam D, H, R os números observados para os genótipos A1A1, A1A2 e
A2A2, respectivamente, numa amostra aleatória de tamanho N (D + H + R). A
estimativa das frequências alélicas é feita da seguinte forma:
Genótipos A1A1 A1A2 A2A2
Número de ind. D H R
N
H2/1D
pˆ
+
= e
N
H2/1R
qˆ
+
=
com variância amostral:
N2
pq
)qˆ(V)pˆ(V ==
Pode-se mostrar que essas são as estimativas de máxima verossimilhança
das frequências gênicas populacionais.
Quando a amostra é moderadamente grande, os números esperados dos
diferentes genótipos na amostra são:
A1A1 D’ =
2pˆN
A1A2 H’ = qˆpˆ2N
A2A2 R’ =
2qˆN
O número esperado de indivíduos é dado pela probabilidade teórica do
genótipo multiplicada pelo tamanho amostral (N).
Para determinar se os números observados dos 3 genótipos na amostra
são consistentes com os esperados com base na lei de Hardy-Weinberg usa-se o
teste do qui-quadrado. O resultado desse teste irá informar qual a probabilidade
de serem casuais os desvios encontrados entre as frequências observadas e
esperadas.
∑
=
−
=χ
k
1i i
2
ii2
c
E
)EO(
onde
Oi = frequência observada para o genótipo i;
Ei = frequência esperada para o i-ésimo genótipo.
10
Esse valor calculado deve ser comparado com o valor do χ2t dado na tabela
do qui-quadrado.
O número de graus de liberdade é dado por r = k – 1 – m, onde k é o
número de classes e m é o número de parâmetros a serem estimados. No caso
apresentado m = 1 (somente o parâmetro p é estimado) e k = 3, assim r = 1.
Quando o χ2c < χ
2
t , aceita-se a hipótese de que os números observados
dos três genótipos são consistentes com os esperados com base na Lei de Hardy-
Weinberg.
Quando o χ2c > χ
2
t , aceita-se que existe uma discrepância entre o
observado e o esperado, portanto uma ou mais condições para que ocorra
equilíbrio de H-W não está ocorrendo, entretanto qual é o fator para a quebra do
equilíbrio não é revelado pelo teste.
6.2 Com dominância
No caso de ocorrência de alelos recessivos, o heterozigoto não pode ser
distinguido do homozigoto dominante. Entretanto, se os genótipos estiverem nas
proporções do equilíbrio de Hardy-Weinberg, é possível estimar as frequências
alélicas e genotípicas para os três genótipos.
Considerando D e R os números observados de dominantes e recessivos
em uma amostra aleatória de n indivíduos (n = D + R), a estimativa da frequência
do genótipo recessivo é:
f(aa) = q2 = R e V(q2) = q2(1-q2)
n n
a frequência do alelo recessivo é:
n
R
q)a(f == en4
q1
)q(V
2−
=
Exemplo: calcular a proporção de heterozigotos numa população de
acasalamento ao acaso, onde a frequência do fenótipo recessivo é 0,10.
10,0qˆ2 = ∴ 32,010,0qˆ == ∴ 68,0pˆ =
h = 2pq = 2 x 0,32 x 0,68 = 0,44
A estimativa da frequência gênica a partir de dois fenótipos (D, R) é menos
acurada que a partir da amostra com os três genótipos distinguíveis.
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6.3 Alelos múltiplos
Entende-se por alelos múltiplos o conjunto de mais de dois alelos que
podem ocupar um certo locus. Em se tratando de organismos diplóides, cada
indivíduo terá em seu genótipo apenas duas das várias formas alélicas
alternativas para aquele locus.
Os princípios da Lei de Hardy-Weinberg são válidos para o caso dos alelos
múltiplos desde que sejam respeitadas as suposições mencionadas
anteriormente.
Considere uma grande população de acasalamento ao acaso de indivíduos
diplóides com as frequências dos três alelos A1 , A2 e A3 dados por p, q, e r,
respectivamente.
A distribuição genotípica será dada por:
(pA1 + qA2 + rA3)
2 = p2A1A1 + q
2A2A2 + r
2A3A3 + 2pq A1A2 + 2pr A1A3 + 2qr A2A3
Em uma população que não esteja em equilíbrio quanto a um loco com
alelos múltiplos, verifica-se que a condição de equilíbrio é atingida em uma só
geração de acasalamento ao acaso.
A estimação das frequências gênicas, em amostras, é semelhante ao do
caso com apenas dois alelos.
6.4 Genes ligados ao sexo
Esses genes estão localizados nos cromossomos sexuais. Em mamíferos,
o sexo heterogamético (XY) são os machos, enquanto as fêmeas são
homogaméticas (XX). Nas aves acontece o contrário. Aqui vamos trabalhar com a
situação presente nos mamíferos. Assim, para genes completamente ligados ao
sexo, 2/3 estão nas fêmeas e 1/3 nos machos.
Considerando 2 alelos A1 e A2 , com frequências p e q, as frequências
genotípicas serão:
Fêmeas Machos
A1A1 A1A2 A2A2 A1 A2
Freq. P H Q R S
A frequência de A1 nas fêmeas será:
f(A1) = pf = P + ½H
e entre os machos será:
f(A1) = pm = R
A frequência de A1 na população como um todo será:
12
_
p = 2 pf + 1 pm
3 3
= 1 (2pf + pm) = 1 (2P + H + R)
3 3
Se as frequências gênicas de machos e fêmeas forem diferentes, a
população não estará em equilíbrio. A frequência gênica da população como um
todo não se modifica, mas sua distribuição entre os dois sexos oscila quando a
população aproxima-se do equilíbrio. A razão para isso é que machos recebem
seus genes ligados ao sexo apenas de suas mães, portanto pm é igual a pf da
geração anterior. As fêmeas recebem seus genes ligados ao sexo igualmente de
ambos os pais, portanto pf é igual à média de pm e pf da geração anterior. Assim,
na próxima geração:
p'm = pf
p’f = 1 (pm + pf)
2
A diferença entre as frequências nos dois sexos é:
p'f – p’m = 1 (pm + pf) – pf
2
= – 1 (pf – pm)
2
Isto é, metade da diferença que existia na geração anterior, só que em
outra direção.
Portanto, a distribuição dos genes entre os dois sexos oscila, mas a
diferença cai pela metade a cada geração e a população rapidamente se aproxima
do equilíbrio no qual as frequências nos dois sexos são iguais.
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Capítulo 2. Forças que alteram as frequências gênicas
1. Introdução
Uma população com um número relativamente grande, praticando
acasalamento ao acaso, é estável com relação às frequencias gênicas e
genotípicas, na ausência de fatores que podem mudar suas propriedades
genéticas.
Quando as frequencias observadas se desviam significativamente das
esperadas pelo Teorema de Hardy-Weinberg, deve-se buscar evidências de:
(a) acasalamentos preferenciais: acasalamentos não ao acaso tanto com base no
parentesco entre os animais como a endogamia e os cruzamentos, como com
base na semelhança fenotípica entre os indivíduos, os acasalamentos
preferenciais positivos ou negativos, que provocam uma alteração na panmixia
interferindo nas proporções genotípicas do equilíbrio.
(b) mudanças nas frequencias gênicas devido a forças evolutivas. Segundo
Falconer (1981), essas podem ser agrupadas em:
- Processos sistemáticos ou determinísticos: tendem a alterar a frequencia
gênica de uma forma predizível, tanto em quantidade como em direção. Existem
três processos sistemáticos: migração, mutação e seleção.
- Processo dispersivo ou estocástico: ocorre em populações pequenas ou finitas
devido aos efeitos de amostragem. Seu resultado pode ser previsto em
quantidade, mas não em direção, o que causa a oscilação genética.
O processo dispersivo age em populações pequenas, porém, os
sistemáticos agem tanto sobre populações pequenas como grandes.
A atuação dessas forças faz com que a população saia da condição de
equilíbrio e por isso são chamadas de evolutivas, pois retiram a população do
estado estacionário em que se encontram quando em equilíbrio.
Cada processo de alteração das frequencias gênicas será tratado
separadamente. É conveniente lembrar que consideraremos sempre uma
população de organismos diplóides, um locus autossômico com dois alelos, A1 e
A2, sendo p a frequencia do alelo A1 e q a frequencia do alelo A2. Uma população
em equilíbrio apresenta um arranjo genotípico dado pela expansão do binômio
(p + q)2 ou seja, p2 A1A1, 2pq A1A2, q
2 A2A2.
2. Migração
É o movimento de indivíduos de uma população de reprodução
(acasalamento) para outra. Entende-se por migração tanto a introdução de novos
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indivíduos na população (imigração) como a saída de indivíduos da população
(emigração).
A migração é um processo que introduz alelos no reservatório gênico de
uma população por meio de gametas formados pelos migrantes. A migração ou
fluxo gênico é uma fonte de variação quase sempre presente nas populações
naturais.
Uma população pode receber alelos por migração de uma população
próxima que mantém uma frequencia gênica totalmente diferente.
Quando isto ocorre dois fatores são importantes para a população
receptora:
- a diferença em frequencia gênica entre as duas populações;
- proporção de genes migrantes que são incorporados a cada geração.
A relação entre esses fatores pode ser expressa matematicamente,
designando q0 como a frequencia gênica inicial na população receptora ou “mista”,
qm a frequencia do mesmo alelo na população migrante e m a proporção de novos
imigrantes a cada geração, com 1 – m, sendo a proporção de nativos.
Assim, a frequencia alélica na população receptora, q1, será:
q1 = mqm + (1 – m)q0 = m(qm – q0) + q0
∗
A mudança de frequencia gênica, ∆q, após uma geração de imigração é a
diferença entre a frequencia gênica antes e depois da imigração:
∆q = q1 – q0 = m(qm – q0) + q0 – q0 = m(qm – q0)
Ex: Pop. 1 → q0 = 0,20 n0 = 8000
Pop. 2 → qm = 0,60 nm = 2000
m = 2000 = 0,20
10000
q1 = mqm + (1 – m)q0 = 0,20 (0,60) + 0,80 (0,20)
q1 = 0,12 + 0,16 = 0,28
Diferença de frequencia gênica:
∆q = q1 – q0 = 0,28 – 0,20 = 0,08
∗
Pressuposições implícitas:
1 – a migração é aleatória;
2 – a frequencia gênica nos migrantes é igual a da população da qual eles emigraram. f(A2) = q2.15
3. Mutação
Mutação é uma mudança súbita e herdável no material genético. O
fenômeno pode ser a criação de um novo alelo ou a mudança de um alelo para
um outro alelo já existente. Mutação é uma fonte de material genético novo para o
processo evolucionário e seleção.
Mutação é um processo sistemático que atua sobre a população. É uma
força evolutiva considerando que: (a) produz novo material genético sobre o qual
outros agentes evolutivos podem atuar (introduz nova variabilidade); (b) é efetiva
na alteração da frequencia gênica.
O efeito da mutação sobre as propriedades genéticas de uma população
difere dependendo se estamos lidando com um evento mutacional tão raro que
seja virtualmente único, ou com um passo mutacional que ocorre repetidamente.
O primeiro não produz alteração permanente em uma grande população,
enquanto o segundo sim.
Mutação não recorrente
Este tipo de mutação ocorre em apenas um gene ou cromossomo na
população como um todo. Este tipo de mutação é de pouca consequênciaa menos
que produza uma vantagem seletiva significativa para o indivíduo portador do novo
alelo. A chance do produto de uma única mutação sobreviver em uma grande
população é muito pequena.
Mutação recorrente
É definida como eventos mutacionais que ocorrem com taxas
características. Cada evento mutacional ocorre regularmente com taxa
característica, e em uma grande população, a frequencia do gene mutante nunca
é tão baixa que a perda total do mesmo possa ocorrer por amostragem.
A taxa de mutação por geração varia com diferentes loci, alguns mutando
mais freqüentemente que outros. Para um locus em particular, entretanto, a taxa
parece permanecer razoavelmente constante de geração para geração, sob
condição constante de ambiente. Como a taxa de mutação pode ser acelerada por
altas temperaturas, raios X, substâncias químicas, etc., pode-se acreditar que as
taxas variam conforme as condições de ambiente. Todavia, a seguir, assumiremos
que o ambiente é uniforme e que a taxa de mutação permanece constante de
geração para geração.
A taxa de mutação é normalmente pequena, variando de 10-4 a 10-8 para a
maioria das mutações descritas (Van Vleck et al., 1987). Em qualquer geração
especificamente, mutações não alteram a frequencia gênica de forma mensurável.
Entretanto, em várias gerações, a taxa de mutação influencia as frequencias
gênicas.
A taxa de mutação µ, é a probabilidade que um determinado alelo A1 mute
para o alelo A2, P(A1 → A2) = µ. Para a população, a frequencia de mutações é o
produto da taxa de mutação e da frequencia gênica, p0:
f (A1 → A2) = µp0
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O produto µp0, é a fração de genes A1 perdidos na população. Na próxima
geração, se a frequencia de alelos A2 mutando para A1 for ignorada, a nova
frequencia gênica será:
f (A1) = p1 = p0 – µp0 = p0(1 – µ)
e f (A2) = q1 = q0 + µp0
A frequencia de A1 → A2 na geração seguinte é µp1. Então, embora a taxa
de mutação µ, seja constante, a frequencia de mutações na população diminui a
medida que p- diminui.
Para a segunda geração:
p2 = p1 – µp1 = p1(1 – µ)
Como p1 = p0(1 – µ), então
p2 = p0(1 – µ)
2
Após n gerações:
pn = p0(1 – µ)
n
Mutações recorrentes podem ocorrer em ambas as direções, de A1 → A2 e
de A2 → A1. Vamos assumir que µ é a taxa de mutação de A1 → A2 e v é a taxa de
mutação de A2 → A1. Estas duas taxas não são necessariamente iguais. Se
f(A1)=p0 na população inicial, então:
p1 = p0 – µp0 + vq0
Onde µp0 é a frequencia de mutação de A1 → A2 a qual resulta em perda de
A1, e vq0 é a frequencia de mutação de A2 → A1 a qual resulta em um ganho de
alelos A1. As três possibilidades são:
1) µp0 > vq0 e f (A1) diminui;
2) µp0 < vq0 e f (A1) aumenta;
3) µp0 = vq0 e f (A1) é estável, ou está em equilíbrio.
A mudança na f (A1) depende da frequencia de mutação µp0 e vq0.
O terceiro ponto indica que o equilíbrio pode ocorrer. Na ausência de outras
forças que influenciem as frequencias gênicas, f (A1) irá aumentar ou diminuir até
que a população atinja o equilíbrio. Portanto o valor de f (A1) no equilíbrio é de
interesse. Sendo pE = f (A1) e qE = f (A2) no equilíbrio. Dado que µ e v são
constantes e que o equilíbrio ocorre quando o número de alelos mudando de A1 →
A2 é igual ao número mudando de A2 → A1, isto é, quando vq = µp, então pE e qE
podem ser encontrados como:
17
vqE = µpE
e vqE = µ (1 – qE)
então vqE + µqE = µ portanto qE = µ .
v + µ
e pE = 1 – qE = 1 – µ = v + µ – µ ∴ pE = v .
v + µ v + µ v + µ
4. Seleção
Nos casos anteriores nós assumimos que todos os indivíduos de uma
população têm igual chance de se acasalar independente do seu genótipo e que
cada genótipo tem a mesma capacidade reprodutiva. Se os genótipos tiverem
probabilidades de sobrevivência ou potencial reprodutivo diferentes, as
frequencias gênicas irão se alterar de uma geração para a próxima.
Seleção é a principal força que causa alteração das frequencias gênicas.
A seleção pode ser:
- Natural – quando refere-se à influência do ambiente sobre a probabilidade que
um determinado fenótipo sobreviva e se reproduza. Nem todos os fenótipos são
igualmente aptos para competir em um determinado ambiente. “Fitness” ou valor
adaptativo é a capacidade de um fenótipo e do genótipo correspondente para
sobreviver e se reproduzir em um dado ambiente.
- Artificial – refere-se a um conjunto de regras designadas pelos seres humanos
para governar a probabilidade que um indivíduo sobreviva e se reproduza.
Indivíduos capazes de sobreviver podem não ter permissão para sobreviver sob
um programa de seleção artificial porque sua aparência ou desempenho não
atende a algum padrão estabelecido.
Aqui nós trataremos apenas de seleção artificial.
A influência da seleção sobre as frequencias gênicas será examinada
usando um único locus com 2 alelos, A e a. Os exemplos considerados podem ser
classificados de acordo com o valor adaptativo relativo do genótipo heterozigoto.
1) O heterozigoto pode ser idêntico a um dos homozigotos, como é o caso de
dominância completa. Isto é, Aa tem o mesmo valor adaptativo que AA. A seleção
pode ser a favor ou contra o genótipo A_.
2) O heterozigoto pode ter valor adaptativo intermediário aos dois
homozigotos, como é o caso de ausência de dominância ou dominância
incompleta.
3) O heterozigoto pode ser o genótipo com o maior valor adaptativo, como é o
caso de sobredominância.
4.1. Dominância completa, seleção a favor do genótipo A_.
Vamos assumir uma população na qual f(A)=p0 e f(a)=q0, para dois alelos
de um locus autossômico, e que as frequencias genotípicas iniciais são: f(AA)=p0
2,
f(Aa)=2p0q0 e f(aa)=q0
2. Indivíduos com no mínimo um alelo A têm uma vantagem
18
em termos de sobrevivência. Animais com genótipo aa são relativamente menos
adaptados por uma fração s.
Esta situação pode ser representada como:
Genótipo
Frequencia
Inicial
Valor
adaptativo
relativo
AA p0
2 1
Aa 2p0q0 1
aa q0
2 1 – s
O valor adaptativo 1 não significa que todos os animais daquele genótipo
vão viver e se reproduzir. Morte acidental, predadores, ou doenças podem causar
perdas daquele genótipo. O valor adaptativo igual a 1 é designado ao genótipo
que tem amaior proporção de animais prováveis de sobreviver e os demais
valores adaptativos, para os outros genótipos, são definidos em relação ao
daquele genótipo.
O valor adaptativo do genótipo aa é 1 – s, e s pode ter qualquer valor entre
0 e 1.
Quando s é próximo de zero, a seleção contra aa é pequena; entretanto
quando aa é letal, a seleção contra aa é completa e s=1.
Para determinar a influência da seleção sobre as frequencias gênicas é
necessário calcular as frequencias gênicas nos gametas produzidos pelos animais
sobreviventes. Isto é, os pais da próxima geração. Ao nascer, a frequencia do
genótipo AA é p0
2. Entretanto, a frequencia de animais AA é maior na população
de sobreviventes para serem pais, já que uma proporção de animais aa foi
perdida.
A proporção da população inicial que produz gametas é a soma dos
produtos das frequencias genotípicas e dos valores adaptativos:
Proporção produzindo gametas: p0
2 + 2p0q0 + (1 – s)q0
2
Como p0
2 + 2p0q0 + q0
2 = 1 ,
Proporção produzindo gametas: 1 – sq0
2
Proporção de sobreviventes é então:
f(AA) = p0
2 ; f(Aa) = 2p0q0 e f(aa) = (1 – s)q0
2
1 – sq0
2 1 – sq0
2 1 – sq0
2
A frequencia do alelo A nos sobreviventes, p1, é:
p1 = p0
2 + p0q0 = p0 e q1 = 1 – p1
1 – sq0
2 1 – sq0
2
19
Note que p1 > p0 já que 1 – sq0
2 < 1.
Se os sobreviventes forem acasalados ao acaso para produzir a próxima
geração, então as frequencias genotípicas na progênie serão:
f(AA) = p1
2 ; f(Aa) = 2p1q1 e f(aa) = q1
2
Um caso especial de seleção contra o genótipo aa é quando s=1, que
ocorre quando os animais aa morrem ou são completamente inférteis. Nesse caso
a única fonte de gametas com o alelo a é o heterozigoto Aa.
Quando s=1, a frequencia gênica do alelo A entre os sobreviventes é:
p1 = p0 , sendo 1 – q0
2 = (1 – q0)(1 + q0)
1 – q0
2
e 1 – q0 = p0 então a nova frequencia gênica é:
p1 = 1 – q0 = 1 ,
(1 – q0)(1 + q0) 1 + q0
e q1 = 1 – p1 ∴ q1 = 1 – 1 = 1 + q0 – 1 = q0 .
1 + q0 1 + q0 1 + q0
As frequencias na geração t seriam:
pt = 1 + (t – 1)q0 e qt = q0 .
1 + tq0 1 + tq0
É possível predizer o número de gerações necessárias para decrescer q0
até q:
t = 1 – 1 .
q q0
4.2. Dominância incompleta
Com dominância incompleta o heterozigoto tem valor adaptativo maior que
a média dos homozigotos, mas menor que o valor adaptativo do melhor
homozigoto. Considerando AA o genótipo favorável:
20
Genótipo
Frequencia
Inicial
Valor
adaptativo
relativo
AA p0
2 1
Aa 2p0q0 1 – s1
aa q0
2 1 – s2
Onde s1 tem valor maior que zero e menor que (½)s2. Se s1=(½)s2
representa ausência de dominância.
Com dominância incompleta a frequencia do alelo A nos sobreviventes é:
p1 = p0
2 + (1 – s1)p0q0 .
p0
2 + (1 – s1)2p0q0 + (1 – s2)q0
2
que pode ser simplificada para:
p1 = p0 (1 – s1q0) .
1 – 2s1p0q0 – s2q0
2
4.3. Dominância completa, seleção a favor do genótipo aa.
Usando dominância completa, o valor adaptativo de AA é igual ao de Aa, e
menor que de aa. Portanto 0 < s < 1.
Genótipo
Frequencia
Inicial
Valor
adaptativo
relativo
AA p0
2 1 – s
Aa 2p0q0 1 – s
aa q0
2 1
A frequencia de A nos sobreviventes é:
f(A) = p1 = p0
2 (1 – s) + p0q0 (1 – s) .
p0 (1 – s) + 2p0q0 (1 – s) + q0
2
Que pode ser simplificada para:
p1 = p0 (1 – s) .
1 – s(1 – q0
2)
4.4. Sobredominância
Neste caso o heterozigoto tem valor adaptativo maior que os dois
homozigotos. Para 0 < s1 < 1 e 0 < s2 < 1, então:
21
Genótipo
Frequencia
Inicial
Valor
adaptativo
relativo
AA p0
2 1 – s1
Aa 2p0q0 1
aa q0
2 1 – s2
A frequencia do alelo A nos sobreviventes será:
f(A) = p1 = p0
2 (1 – s1) + p0q0 .
p0
2 (1 – s1) + 2p0q0 + q0
2 (1 – s2)
Que pode ser simplificado para:
p1 = p0 (1 – s1p0) .
1 – s1p0
2 – s2q0
2
A frequencia de A no equilíbrio será:
pE = s2 .
s1 + s2
5. Deriva genética
Até agora temos considerado populações de tamanho grande (em teoria,
infinitas) de forma que as probabilidades não sofrem grandes desvios. A quarta
força a alterar a frequencia gênica é o que se conhece como processo dispersivo
ou deriva genética.
As mudanças de frequencia gênica, por serem resultado de um processo
amostral em uma população de tamanho limitado, só podem ser preditas em
magnitude, mas não em direção.
Em uma população grande, os gametas são amostras mais representativas
da composição genética dos pais que em uma população pequena.
Por exemplo, suponhamos um alelo com uma frequencia de 0,01 em uma
população de 50 indivíduos. Isto significa que existe apenas um alelo nesta
população (50 indivíduos = 100 alelos) em apenas um indivíduo. Se este indivíduo
não se reproduzir, ou deixar um número pequeno de filhos, os quais podem não
sobreviver ou mesmo receber este alelo de seu pai, o alelo vai desaparecer da
população.
Em termos mais formais, vamos considerar uma grande população
subdividida em subpopulações ou linhas, cada uma com N indivíduos; na ausência
de mutação, migração e seleção, com os indivíduos se acasalando dentro das
linhas.
A magnitude da alteração da frequencia gênica pode ser predita em termos
da variância desta alteração. Como cada indivíduo possui dois alelos, cada
subpopulação representa uma amostra de 2N genes da população base.
22
As frequencias gênicas nas amostras terão um valor médio igual ao da
população base, isto é, q0 e estarão distribuídas em torno da média com uma
variância p0q0/2N, que é a variância binomial das médias das amostras, de
tamanho 2N. Esta variância é a variância de q1, a frequencia gênica nas diversas
subpopulações após uma geração.
Como a frequencia inicial q0 é a mesma para todas as linhas, o mesmo vale
para a variância de (q1 – q0), que é a mudança em frequencia gênica.
Portanto, a mudança em frequencia gênica resultante de amostragem em
uma geração, pode ser colocada em termos de sua variância como:
σ2∆q = p0q0
2N
Esta variância de ∆q expressa a magnitude da mudança de frequencia
gênica resultante do processo dispersivo.
Ela expressa a mudança esperada em qualquer uma das subpopulações,
ou a variância de frequencias gênicas que seria encontrada entre várias linhas
após uma geração. Seu efeito é a dispersão das frequencias gênicas entre as
linhas, em outras palavras, as linhas se tornam diferentes em frequencia gênica,
embora a média na população como um todo, permaneça a mesma.
Na próxima geração o processo de amostragem se repete, mas cada linha
agora começa com frequencia diferente, assim a segunda amostragem leva a
maior dispersão.
A variância da frequencia gênica, σ2q , entre as linhas, em uma geração t, é
dada por:
−−=σ
t
00
2
q
N2
1
11qpExiste uma relação estreita entre deriva genética e endogamia, já que esta
se origina em populações pequenas, onde forçosamente os indivíduos que se
acasalam, apesar de ser ao acaso, são aparentados.
23
Capítulo 3. Modelo genético para características quantitativas
1. Introdução
As características ditas qualitativas, isto é, que conferem uma qualidade ao
animal, como por exemplo presença de chifres ou cor da pelagem, são de herança
simples sendo determinadas por um ou poucos pares de genes; sofrem pouca
influência do ambiente e assim têm distribuição discreta e a cada fenótipo estão
associados um ou poucos genótipos. Assim, para seleção, o criador ou
selecionador identifica os genótipos ou indivíduos de interesse para uma
determinada característica e seleciona aqueles indivíduos com genótipo mais
favorável. Por exemplo, para cor de pelagem na raça Angus (preto ou vermelho),
se o criador quiser aumentar a frequência da cor preta, ele simplesmente vai
eliminar da reprodução os animais com fenótipo vermelho para cor de pelagem.
Isto é, ele faz seleção contra o recessivo, cujo gene só será mantido na população
pelos indivíduos heterozigotos.
No caso de uma característica dita métrica ou quantitativa, que é
determinada por um conjunto de genes com pequeno efeito individual, o processo
de seleção embora parecido, não é tão simples.
O criador tem que escolher os indivíduos que serão pais da próxima
geração, com base em características de interesse. Neste caso, não há uma
correspondência entre o fenótipo e o genótipo como acontece com as
características qualitativas. A maioria das características econômicas são
determinadas por poligenes, são muito influenciadas pelo ambiente e apresentam
distribuição contínua. O fenótipo destas características é mensurado, isto é, tem
um valor, chamado de valor fenotípico e as mesmas são analisadas por métodos
estatísticos.
Na prática da seleção, os produtores querem, por exemplo, aumentar os kg
de leite produzido por bovinos leiteiros, os kg de carne produzidos por bovinos de
corte ou carneiros, etc. O genótipo para estas características influenciam a
magnitude do fenótipo mensurado. Os criadores estão interessados no resultado
da seleção artificial no desempenho médio da progênie para uma determinada
característica.
Para entender como se processa a seleção para as características
poligênicas, nós precisamos de um modelo matemático conceitual no qual nós
possamos entender as definições necessárias.
2. Modelo básico
O modelo genético básico para uma característica quantitativa pode ser
descrito pela equação:
P = µ + G + E
onde:
24
P é o valor fenotípico ou desempenho de um animal para a característica;
µ é a média da população ou média do valor fenotípico para a característica,
considerando todos os animais da população;
G é o valor genotípico do animal para a característica. O genótipo é o conjunto
particular de genes possuído pelo indivíduo;
E é a influência do ambiente, ou desvios de ambiente. Ambiente é toda
circunstância não genética que influencia o valor fenotípico.
A inclusão de toda circunstância não genética sob o termo “ambiente”,
significa que o genótipo e o ambiente são, por definição, os únicos determinantes
do valor fenotípico.
Pode-se considerar que o genótipo confere um certo valor ao fenótipo e o
ambiente causa um desvio deste, em uma direção ou outra.
Para apresentar os conceitos e descrever o modelo genético, importante
para seleção de características quantitativas, vamos utilizar as simplificações e
pressuposições utilizadas por Falconer (1986).
Vai-se supor que o ambiente permanece constante de geração para
geração de forma que a média da população é constante na ausência de
mudanças genéticas.
A idéia de valor genotípico pode ser explicada supondo que fosse possível
replicar um determinado genótipo em um certo número de animais e medi-los sob
condições normais de ambiente para a população. O desvio médio de ambiente
seria zero e o valor fenotípico médio seria igual ao valor genotípico daquele
genótipo em particular.
Em princípio o valor genotípico seria mensurável, mas na prática não,
exceto quando se considera um único locus onde os genótipos podem ser
distinguidos pelo fenótipo ou com genótipos de linhagens altamente endogâmicas.
Para propósitos de simplificação e ilustração, serão atribuídos valores
arbitrários aos genótipos. Consideraremos um locus com dois alelos A1 e A2 e os
valores genotípicos serão +a, d e –a para os genótipos A1A1, A1A2 e A2A2,
respectivamente, assumindo que o alelo A1 leva a um aumento do valor. Desta
forma, o meio da escala entre os dois homozigotos será zero, e o valor de d
(heterozigoto) depende do grau de dominância. Assim:
- ausência de dominância: d = 0;
- A1 dominante sobre A2: d = positivo;
- A2 dominante sobre A1: d = negativo;
- dominância completa: d = +a ou d = –a;
- sobredominância: d é maior que +a ou d é menor que –a.
3. Média da população
Assumindo uma população com frequências gênicas p e q para os alelos A1
e A2, respectivamente, teremos a seguinte distribuição, no equilíbrio:
25
Genótipo Frequência Valor genotípico (G)
A1A1 p
2 +a
A1A2 2pq d
A2A2 q
2 –a
A média é obtida multiplicando-se as frequências pelos respectivos valores
genotípicos e somando-se para todos os genótipos.
M = ap2 + d2pq – aq2 = a (p2–q2) + 2dpq ∴ M = a (p–q) + 2dpq
Na escala normal, a média da população (µ) será:
µ = m + M assumindo que m é o ponto zero da escala, isto é, a média dos
dois homozigotos.
A média da população tem uma parte fixa (m) mais a média dos valores
genotípicos [a (p–q)+2dpq]. Esta última parte pode ser alterada por seleção, uma
vez que depende de frequências gênicas.
A contribuição de qualquer locus para a média da população tem dois
termos:
a(p–q) atribuído aos homozigotos; e
2dpq atribuído aos heterozigotos.
Considerando a contribuição de genes em vários loci, assumindo que a
contribuição é aditiva, a média pode ser escrita como:
M = Σa(p–q) + 2Σdpq
4. Valor Genético
A diferença entre os fenótipos dos animais, considerando um único locus, é
uma função também dos valores genotípicos arbitrários:
P11 – P22 = (m + a) – (m – a) = 2a
Com dominância completa, P11 = P12, isto é, os indivíduos são
fenotipicamente iguais. Entretanto, os pais não passam seus genótipos para sua
progênie e sim uma amostra aleatória de um gene de cada locus. A questão é:
qual o genótipo parental que irá produzir progênie com a média mais alta? A
resposta a esta questão irá definir o valor genético de um animal.
O termo “valor genético” é auto-explicativo, referindo-se ao valor de um
animal em um programa de seleção. O valor genético é uma medida do
desempenho esperado de sua progênie em relação à média da população. Isto é,
o valor de um animal julgado pelo valor médio de sua progênie (Falconer, 1986).
Este é um valor que pode ser medido na população. Considerando apenas um
locus, e acasalando-se os indivíduos ao acaso, o valor genético de um animal
26
para determinada característica é duas vezes a diferença entre a média de sua
progênie e a média da população. A razão para se multiplicar por 2 o desvio da
progênie é que a progênie contém apenas uma amostra de metade dos genes dos
pais. O desvio da progênie em relação à média da população representa a
“habilidade de transmissão” do pai, a qual é metade do valorgenético.
Vamos mostrar a seguir que o valor genético é um valor relativo e depende
das frequências gênicas na população. Desta forma é específico para a população
onde foram feitos os acasalamentos.
Assuma que um macho A1A1 é acasalado ao acaso com a seguinte
população de fêmeas:
Fêmeas: Genótipo Frequência Valor genotípico
A1A1 p
2 +a
A1A2 2pq d
A2A2 q
2 –a
As frequências genotípicas da progênie podem ser determinadas pela união
ao acaso de gametas. Assim:
♀ A1 p A2 q
1 A1 A1A1 p A1A2 q
As frequências genotípicas na progênie:
Genótipo Frequência Valor genotípico
A1A1 p
+a
A1A2 q d
A2A2 0
–a
Média esperada na progênie:
µ11 = m + pa + qd
O valor genético de A1A1 é duas vezes o desvio da média da sua progênie
em relação à média da população:
A11 = 2[µ11 – µ] = 2{m + pa + qd – [m + a(p – q) + 2dpq]}
A11 = 2[qa + qd(1 – 2p)]
A11 = 2q[a + d(q – p)]
A11 = 2q[a + d(q – p)]
Da mesma forma:
A12 = 2[µ12 – µ] = (q – p)[a + d(q – p)]
27
e
A22 = 2[µ22 – µ] = –2p[a + d(q – p)]
O termo [a + d(q – p)] é simbolizado por α que é o efeito médio de
substituição gênica. Em resumo:
Genótipo Valor genético
A1A1 2q[a + d(q – p)] = 2qα
A1A2 (q – p)[a + d(q – p)] = (q – p)α
A2A2 –2p[a + d(q – p)] = –2pα
O valor genético é uma função das frequências gênicas e dos valores
genotípicos. As frequências gênicas, geralmente variam de uma população para
outra, e o mesmo acontece com os valores genéticos. Os valores genéticos são
específicos para a população, já que dependem das frequências gênicas.
Em uma população em equilíbrio de H-W, o valor genético médio é zero, o
que pode ser verificado como:
Ā = p22qα + 2pq(q – p)α + q2(– 2pα)
Ā = p22qα + 2pq2α – 2p2qα – 2pq2α = 0
Como o valor genético expressa o valor transmitido de pais para os
descendentes, segue-se que o valor genético esperado de qualquer animal é a
média dos valores genéticos dos seus pais. Diferentes descendentes dos mesmos
pais diferem em valores genéticos, conforme os alelos que receberam. Os valores
esperados são simplesmente valores médios de um grande número de
descendentes dos mesmos pais. Assim, a transmissão de valores de pais para
descendentes é expressa por:
ĀO = ½ (AS + AD)
A diferença entre os valores genéticos é aditiva, isto é, a diferença entre A11
e A12 é a mesma que entre A12 e A22, e é igual a α.
A11 – A12 = 2qα – (q – p)α = 2qα – qα + pα = (q + p)α = α
e
A12 – A22 = (q – p)α – (– 2pα) = qα – pα + 2pα = (q + p)α = α
Assim, o valor genético de um indivíduo é também denominado de “mérito
genético aditivo”. Substituindo um gene A1 em um genótipo A2A2 vai formar um
genótipo A1A2 e ocorrerá um acréscimo de α (efeito médio de substituição do
gene) no valor genético. Da mesma forma, substituindo o gene A2 no heterozigoto
por um A1, aumenta o valor genético em α.
28
Outra forma de definir o valor genético é em função do efeito médio dos
genes, o qual é o desvio médio em relação à média da população dos indivíduos
que recebem aquele gene de um pai e o outro gene, do outro pai, tendo vindo ao
acaso da população.
Como os pais passam para cada filho um ou outro de seus genes, o valor
genético representa a soma do valor de cada alelo no genótipo (Van Vleck et al.,
1987). Ou como definido por Falconer (1986) o valor genético de um indivíduo é
igual a soma dos efeitos médios dos genes que ele possui, a soma sendo feita
para todos os pares de alelos em cada locus e para todos os loci.
5. Desvio de dominância
Porque os valores genéticos e os valores genotípicos diferem?
A diferença entre o valor genotípico, Gij, e o valor genético, Aij, para A1A1,
pode ser representada como:
G11 – A11 = a – 2q[a + d(q – p)]
= a – 2qa – 2q2d + 2dpq
= a (1 – 2q) + 2dpq – 2q2d
= [a (p – q) + 2dpq] – 2q2d
e para A1A2:
G12 – A12 = d – (q – p)[a + d(q – p)]
= [a (p – q) + 2dpq] + 2pqd
e para A2A2:
G22 – A22 = – a – {– 2p[a + d(q – p)]}
= [a (p – q) + 2dpq] – 2p2d
O termo [a (p – q) + 2dpq] é a média dos valores genotípicos da população
e aparece porque o valor genético foi calculado como um desvio da média.
Tirando a média vamos ficar com os desvios de dominância, Dij. Assim:
D11 = – 2q
2d
D12 = + 2pqd
D22 = – 2p
2d
Se d=0, o valor genético é igual ao valor genotípico.
O desvio de dominância é definido como o valor da combinação gênica no
genótipo. Portanto, o valor genotípico, Gij, pode ser representado como a soma:
Gij = M + Aij + Dij
29
Em resumo, os diferentes valores para cada genótipo são:
Genótipo Valor
genotípico
Valor genético Desvio de dominância
A1A1 +a 2qα
– 2q2d
A1A2 d (q – p)α + 2pqd
A2A2 –a –2pα
– 2p2d
Nós tínhamos representado o valor fenotípico como:
Pij = m + Gij
Que pode ser escrito como:
Pij = m + [a (p – q) + 2dpq] + Aij + Dij
Como m + [a (p – q) + 2dpq] é µ, a média fenotípica, o nosso modelo pode
ser representado como:
Pij = µ + Aij + Dij
6. Desvios de Interação
Quando estamos trabalhando com apenas um locus, o valor genotípico é
composto pelo valor genético e o desvio de dominância. Entretanto, quando o
genótipo refere-se a mais de um locus, o valor genotípico pode conter um desvio
adicional devido à combinação não aditiva.
Considerando GA o valor genotípico de um indivíduo atribuído a um locus,
GB aquele atribuído a um segundo locus e G o valor genotípico agregado atribuído
aos dois loci juntos. Então:
G = GA + GB + IAB
Onde IAB é o desvio da combinação aditiva dos valores genotípicos. Até
agora nós assumimos que I era zero para todas as combinações de genótipos. Se
I for diferente de zero para qualquer combinação de genes de loci diferentes, estes
genes são ditos estar “interagindo” ou exibindo “epistasia”. Em genética
quantitativa, epistasia tem um conceito mais amplo que na genética mendeliana. I
é chamado de desvio de interação ou desvio epistático. Quando I=0, os genes
estão “agindo aditivamente” entre loci.
Loci podem interagir aos pares, ou trincas ou em maior número; e as
interações podem ter muitas fontes diferentes.
Então, para todos os loci nós podemos escrever:
P = µ + A + D + I ou G = A + D + I
30
Onde A é a soma dos valores genéticos atribuídos a loci separados e D a
soma dos desvios de dominância.
O desvio de interação não é uma propriedade apenas dos genótipos
interagindo, mas depende também das frequências dos genótipos na população e
portanto das frequências gênicas.
Assim, nosso modelo pode ser escrito: P = µ + A + D + I + E
31
Capítulo 4. Parâmetros genéticos: herdabilidade e repetibilidade
1. Introdução
A variação entre os indivíduos é fundamental para que seja possível fazer
seleção numa determinada característica. Quando existir pouca variação genética
na característica – mais especificamente, se existe pouca variação nos valores
genéticos para uma característica – a seleção será difícil uma vez que não
existirão animais muito melhores que os outros, isto é, melhores como pais. Do
ponto de vista genético é importante que a população seja variável. Ao mesmotempo, normalmente a produção de animais fenotipicamente mais uniformes pode
ser de importância econômica. O desafio para os produtores é manter a
variabilidade genética nos animais para que seja possível fazer seleção ao mesmo
tempo procurando uma população fenotipicamente mais uniforme.
É importante que haja variação na população e que seja possível medi-la.
Medidas de variação podem ser usadas para comparar a importância dos
diferentes componentes do modelo genotípico. O modelo genotípico apresentado
anteriormente foi:
P = µ + G + E e
G = A + D + I
onde:
P = valor fenotípico;
µ = a média fenotípica da população;
G = valor genotípico;
E = desvios de ambiente;
A = valor genético ou mérito genético aditivo;
D = desvios de dominância;
I = desvios de interação.
2. Variância
Considerando o modelo genético acima, a variância fenotípica pode ser
decomposta como:
σ2P = σ
2
G + σ
2
E
onde:
σ2P = variância dos valores fenotípicos;
σ2G = variância dos valores genotípicos;
σ2E = variância dos desvios de ambiente.
32
Nesta decomposição estamos assumindo que não existem: correlação
entre o genótipo e o ambiente ou interação entre o genótipo e o ambiente.
Segundo Falconer (1981), para a maioria das situações a correlação entre o
genótipo e o ambiente não é importante e pode ser ignorada. Entretanto, existem
situações nas quais esta correlação existe. Um exemplo é a produção de leite em
bovinos leiteiros, onde os produtores alimentam suas vacas de acordo com sua
produção, isto é, os melhores fenótipos recebem maior quantidade de alimento.
Isto introduz uma correlação entre os valores fenotípicos e os desvios de ambiente
e, como os valores genotípicos e fenotípicos são correlacionados, existe também
uma correlação entre valores genotípicos e desvios de ambiente. Neste caso, a
decomposição da variância dos valores fenotípicos seria:
σ2P = σ
2
G + σ
2
E + 2σGE
onde σGE seria a covariância entre os valores genotípicos e os desvios de
ambiente.
Outra pressuposição que tem sido feita e que nem sempre é real é que
diferenças específicas de ambiente têm o mesmo efeito sobre diferentes
genótipos, isto é, que não existe interação entre genótipos e ambientes. Quando a
interação está presente, o valor fenotípico de um animal passa a incluir mais um
componente: P = G + E + IGE e consequentemente o mesmo vai aparecer na
decomposição da variância fenotípica: σ2P = σ
2
G + σ
2
E + σ
2
IGE. A interação
genótipo-ambiente é particularmente importante para casos de animais
selecionados em ambientes daqueles onde vão produzir seus filhos. No Brasil, por
exemplo, a importação de sêmen de bovinos leiteiros é bastante grande e existem
trabalhos de pesquisa mostrando que esta interação é importante.
Ambos os efeitos, a correlação e a interação entre os valores genotípicos e
os desvios de ambiente, são complicadores para a estimação de componentes de
variância.
2.1. Componentes genéticos de variância
A variância dos valores genotípicos pode ser decomposta em: σ2A + σ
2
D +
σ2I , onde σ
2
A é a variância dos valores genéticos ou variância genética aditiva; σ
2
D
é a variância dos desvios de dominância e σ2I é a variância dos desvios de
interação.
Pode-se mostrar, usando-se uma população sob acasalamento ao acaso e
considerando um locus autossômico, com dois alelos, que as variâncias genética
aditiva e dos desvios de dominância, dependem das frequências gênicas para
aquele determinado locus na população. Assim, qualquer estimativa dos
componentes genéticos de variância são válidos para aquela determinada
população.
33
2.2. Estimação de componentes de variância
Normalmente é possível estimar a variância genética aditiva, e as
variâncias devido a combinações (desvios de dominância e interação) são
estimadas em conjunto à variância de ambiente.
A semelhança entre parentes oferece a base para estimar a variância
genética aditiva para uma característica poligênica.
As semelhanças fenotípicas entre parentes são genéticas e ambientais,
uma vez que indivíduos parentes têm genes em comum e muitas vezes
compartilham um ambiente comum. Inicialmente, consideraremos apenas as
causas genéticas de semelhança entre parentes; assumindo que os tipos de
parentes considerados manifestam o seu genótipo em ambientes determinados
aleatoriamente. Os tipos de parentes mais usados são: a) progênie e um dos pais;
b) progênie e a média dos pais; c) meio irmãos paternos e; d) irmãos completos.
- covariância progênie e um dos pais (COVOP):
A covariância a ser deduzida é a do valor genotípico de um animal com o
valor genotípico médio de sua progênie produzida por acasalamento ao acaso na
população. Expressando os valores como desvios da média da população, então o
valor médio dos descendentes é, por definição, metade do valor genético de seu
pai. Portanto, a covariância a ser computada é entre o valor genotípico do
indivíduo e metade de seu valor genético, isto é, covariância de G com ½A. Como
G=A + D (D é o desvio de dominância) a covariância será entre (A + D) e ½A.
Assim:
COVOP = COV (G, ½A) = COV [(A + D), (½A)]
= COV (A, ½A) + COV (D, ½A)
por definição, COV(D, ½A)=0 então:
σ= 2AOP
2
1
COV
Com desenvolvimento semelhante pode-se mostrar que:
- covariância da progênie com a média dos pais:
σ= 2APO
2
1
COV
assumindo que os dois sexos têm igual variância
- covariância entre grupos de meio-irmãos:
σ= 2AHS
4
1
COV
34
- covariância entre grupos de irmãos completos:
σσ += 2D
2
AFS
4
1
2
1
COV
A semelhança fenotípica entre parentes, é função das covariâncias
genéticas e de ambiente e é computada pelos coeficientes de regressão ou
correlação e estão apresentados abaixo.
Tipos de parentes Covariância Regressão (b) ou
correlação (t)
Progênie e um dos pais ½ σ2A
σ
σ=
2
P
2
A
2
1
b
Progênie e a média dos
pais
½ σ2A
σ
σ=
2
P
2
Ab
Meio-irmãos ¼ σ2A
σ
σ=
2
P
2
A
4
1
t
Irmãos completos ½ σ2A + ¼ σ
2
D + σ
2
EC
σ
σσσ ++
=
2
P
2
EC
2
D
2
A2
1
t
Onde: σ2EC = variância de ambiente comum a grupos de irmãos completos.
Tradicionalmente as covariâncias fenotípicas entre parentes têm sido
estimadas usando análises de variância (ANOVA) ou procedimentos análogos
para dados não balanceados (Henderson, 1953). Em geral, isto requer que os
indivíduos sejam designados a grupos com o mesmo grau de parentesco para
todos os membros. Estruturas de famílias mais freqüentemente consideradas são
grupos de meio irmãos ou pais e seus descendentes, como descrito
anteriormente.
Usando análise de variância, a covariância entre membros de uma família
ou grupos de parentes é determinada como o componente de variação entre
grupos. Isto requer a partição da soma de quadrados observada devido às
diferentes fontes de variação no modelo de análise, sendo os grupos de parentes
uma destas fontes, e igualar o quadrado médio correspondente à sua esperança.
A variância genética é estimada como 4 vezes a variância entre touros ou 2 vezes
a covariância pai-progênie. Dados utilizados para programas de melhoramento,
normalmente não são balanceados e métodos análogos à análise de variância
foram desenvolvidos. Em particular o método 3 de Henderson (1953). Neste
método, as somas de quadrados na análise de variância para dados balanceados
são substituídas por formas quadráticas envolvendo soluções de quadrados35
mínimos para os efeitos para os quais as variâncias devem ser estimadas. Este
método foi e tem sido amplamente utilizado, principalmente devido à
disponibilidade de programas computacionais desenvolvidos para aplicações em
melhoramento animal (Harvey, 1960).
Nos últimos vinte anos, o método 3 de Henderson vem sendo substituído
pelo método da máxima verossimilhança restrita – REML (Patterson e Thompson,
1971), o qual é menos viesado. Este método tem sido aplicado a modelos animais,
termo utilizado pela primeira vez por Quaas e Pollack (1980). Com o modelo
animal, passou-se a utilizar uma estrutura de modelo linear onde as variâncias são
estimadas diretamente, incluindo no modelo de análise os efeitos aleatórios
correspondentes. Com o modelo animal, a variância genética aditiva é estimada
como a variância do mérito genético dos animais em lugar de quatro vezes a
variância entre touros ou duas vezes a covariância entre pais e filhos. Mais
recentemente, este modelo também vem sendo utilizado em procedimentos
bayesianos de estimação.
3. Herdabilidade
A herdabilidade de uma característica em uma população é o parâmetro
genético que determina a estratégia a ser utilizada no melhoramento desta
característica. É usada tanto para a estimação dos valores genéticos para
características poligênicas como para predição da resposta esperada em vários
esquemas de seleção.
O termo herdabilidade foi introduzido por Lush (1945) em seu livro “Animal
Breeding Plans”, e foi definido como: fração da variância fenotípica que é causada
por diferença entre genes ou genótipos dos indivíduos.
No sentido amplo, h2A, é definida como a razão da variância genotípica
sobre a variância fenotípica:
σ
σ=
2
P
2
G2
Ah
Varia de zero a um e tem pouca utilidade em termos de seleção.
No sentido restrito, h2, é definida como a razão da variância genética aditiva
e a variância fenotípica:
σ
σ=
2
P
2
A2
h
Varia de zero a um e é inferior à h2A. Neste sentido indica a proporção das
diferenças entre os indivíduos da população que se deve às diferenças em seus
méritos genéticos ou valores genéticos.
Uma definição equivalente para herdabilidade é a regressão do valor
genético sobre o valor fenotípico, isto é, bA.P.
σ
=
2
P
P.A
)P,A(COV
b
36
COV(A,P) = COV[A,(A + D + E)]
= COV(A,A) + COV(A,D) + COV(A,E)
Os dois últimos termos da expressão, COV(A,D) e COV(A,E) são iguais a
zero e COV(A,A) = σ2A.
Então:
2
2
P
2
A
P.A hb ==
σ
σ
.
Neste sentido a herdabilidade indica a proporção da superioridade dos pais
selecionados que espera-se que seja transmitida (realizada) à sua progênie.
O valor genético de um animal, com base em seu próprio desempenho,
será o produto do seu valor fenotípico pela herdabilidade:
A(esperado) = h
2 . P
Sendo que, tanto o valor genético como os valores fenotípicos são
expressos como desvios da média da população (ou grupos contemporâneos).
A herdabilidade indica ainda o grau e correspondência entre os valores
fenotípicos e os valores genéticos. Ela corresponde ao quadrado da correlação
entre o valor fenotípico e o valor genético. Ou, colocando de outra forma, a
correlação entre os valores fenotípicos e os valores genéticos (rAP) é igual a raiz
quadrada do coeficiente de herdabilidade.
σσ
=
PA
AP
)P,A(COV
r
Já demonstramos que COV(A,P) = σ2A , então
hr
P
A
PA
2
A
AP ===
σ
σ
σσ
σ
Quando a herdabilidade é alta, o valor fenotípico é um bom indicador do
valor genético do animal. Ao contrário, quando baixa, o valor fenotípico não é um
bom indicador do valor genético do animal.
Em geral, assume-se, de forma aleatória, que valores de herdabilidade
abaixo de 0,20 são baixos, entre 0,20 e 0,40 moderados e acima de 0,40 altos.
Normalmente, características relacionadas à fertilidade e sobrevivência
tendem a apresentar herdabilidade baixa, características de produção (como leite,
37
taxa de crescimento) tendem a apresentar herdabilidades moderadas, e
características associadas a qualidade, como características de carcaça,
porcentagens dos constituintes do leite, e características relacionadas à dimensão
do esqueleto (tamanho estrutural, peso maduro) são as mais herdáveis.
É importante observar que a herdabilidade é uma propriedade não apenas
da característica como também da população e das circunstâncias ambientais às
quais os indivíduos estão sujeitos. A alteração de qualquer dos componentes de
variância irá afetar a herdabilidade. Todos os componentes genéticos são
influenciados pelas frequências gênicas e podem diferir de uma população para
outra. A variância ambiental é dependente das condições climáticas, manejo e
alimentação. Condições mais variáveis reduzem a herdabilidade enquanto que
condições uniformes a aumentam. Assim, um valor estimado de herdabilidade
para uma determinada característica deve ser entendido como sendo para aquela
determinada população sob condições particulares.
4. Repetibilidade
Este é um segundo parâmetro de interesse e representa o grau de
associação entre medidas no mesmo indivíduo para características que são
medidas mais de uma vez. Exemplos de características que são medidas mais de
uma vez são a produção de leite, peso da lã, entre outras. Existem duas
pressuposições implícitas na idéia de repetibilidade:
1- As variâncias das diferentes medidas são iguais e têm seus componentes
nas mesmas proporções.
2- Geneticamente as diferentes medidas refletem a mesma característica.
Na definição da repetibilidade, assume-se que o genótipo para a
característica permanece o mesmo a cada vez que a mesma é mensurada. Por
exemplo, assume-se que os efeitos dos genes que afetam a produção de leite na
primeira lactação são os mesmos efeitos dos genes que influenciam a produção
em lactações subsequentes.
Da mesma forma que a herdabilidade, a repetibilidade é definida como uma
razão de variâncias. A razão, entretanto, depende da variância de dois tipos de
influência do ambiente: ambiente permanente (PE) e ambiente temporário (TE).
Efeitos de ambiente permanente são aqueles que influenciam todas as
observações feitas nos indivíduos. Por exemplo, o regime alimentar utilizado para
criar uma novilha leiteira, se extremo (pouco ou muito alimento) pode influenciar o
desenvolvimento mamário e portanto tornar-se um efeito permanente que vai
influenciar todas as lactações.
Efeito de ambiente temporário é aquele que influencia apenas uma
observação no indivíduo; é apenas por acaso que o animal recebe uma influência
favorável ou não para cada observação.
Outros efeitos não aleatórios podem influenciar a mensuração da
característica, como por exemplo o programa de alimentação do rebanho. As
medidas podem ser ajustadas para os efeitos identificáveis e não vamos
considerá-los aqui.
Assim, o termo E pode ser decomposto em:
38
E = PE + TE
e a variância ambiental é:
σ2E = σ
2
PE + σ
2
TE e portanto:
σ2P = σ
2
G + σ
2
PE + σ
2
TE
Ambiente temporário e permanente também são chamados de ambiente
especial e geral, respectivamente.
A repetibilidade, como descrito, é a correlação entre medidas específicas do
mesmo indivíduo, então:
σσ
=
ji
ji
PP
ji
PP
)P,P(COV
r
COV(Pi,Pj) = COV[(G + PE + TEi)(G + PE + TEj)]
= COV(G,G) + COV(PE,PE)
os outros componentes sendo iguais a zero
COV(Pi,Pj) = σ
2
G + σ
2
PE
Assumindo σ2Pi = σ
2
Pj então:t
2
P
2
EP
2
G
PPr ji =
+
=
σ
σσ
Portanto a repetibilidade expressa a proporção da variância de medidas
únicas que é devido a diferenças permanentes e não localizadas entre os
indivíduos, tanto genética como ambiental.
O valor da repetibilidade, sendo uma correlação, varia de –1 a 1, porém
geralmente assume valores entre 0 e 1, uma vez que σ2G + σ
2
EP < σ
2
P.
A repetibilidade tem várias aplicações:
1. Estabelece o limite máximo para o grau de determinação genética de uma
característica (σ2G / σ
2
P) e para a herdabilidade (σ
2
A / σ
2
P). A repetibilidade é
mais fácil de ser estimada que qualquer destas duas razões. A h2 pode ser menor
que a repetibilidade mas nunca pode ser maior, e este conhecimento é melhor que
nenhum.
2. Indica o ganho em acurácia pelo uso de medidas múltiplas. Pode-se mostrar
que quando a repetibilidade é alta, pouco se ganha por observar mais de uma
39
medida e ao contrário quando a repetibilidade é baixa. O componente que diminui
com o aumento do número de medidas é a variância de ambiente temporário.
Supondo que cada animal seja medido n vezes e que a média dessas n medidas
seja tomada como sendo a média dos valores fenotípicos, assim a variância da
média será:
σσσσ ++= 2TE
2
PE
2
G
2
)n(P n
1
Desta forma, com n medidas irá reduzir a variância de ambiente temporário
e esta redução na variância fenotípica representa o ganho em acurácia.
A variância da média de n medidas como uma proporção da variância de
uma medida pode ser expressa em termos de repetibilidade da seguinte forma:
σ
σσσ
σ
σ ++
=
2
P
2
TE
2
PE
2
G
2
P
2
)n(P n
1
t1
2
P
2
TE −=
σ
σ
)t1(
n
1
t
2
P
2
)n(P
−+=
σ
σ
=
n
)1n(t1 −+
3. Permite a predição de desempenho futuro do animal. Para isto os
desempenhos devem ser representados em termos de desvios das médias da
população. Um determinado desempenho no passado é parcialmente devido a
efeitos temporários do ambiente sobre a produção do animal e não estarão
presentes no próximo desempenho.
A repetibilidade, que é a correlação entre os dois desempenhos, vai nos
indicar quão acuradamente nós podemos predizer o segundo desempenho com
base no primeiro. A predição é feita usando-se o coeficiente de regressão do
segundo sobre o primeiro desempenho.
Assim se P1 e P2 são o primeiro e o segundo desempenhos temos:
)PP(bPP 11PP22 12 −+=
t
)P,P(COV
b
2
P
2
EP
2
G
2
P
21
PP
1
12
=
+
==
σ
σσ
σ
Para predizer o desempenho futuro com base em mais de um desempenho,
o coeficiente de regressão será:
t)1n(1
nt
b
−+
=
40
A produção futura assim predita é conhecida como “capacidade mais
provável de produção” ou “habilidade de produção” e é importante para se
proceder ao descarte de animais do rebanho. Por exemplo, descartar fêmeas com
base em sua produção de leite, mantendo as mais produtivas. Com esta
informação é possível comparar animais com números diferentes de informações.
41
Capítulo 5. Seleção: predição do ganho genético
1. Introdução
Existem duas formas clássicas para se alterar a constituição genética de
uma população:
- A escolha dos indivíduos para serem pais da próxima geração, que é a
seleção;
- A definição de como esses indivíduos vão se acasalar, que inclui
endogamia e cruzamento.
-
Segundo Falconer (1981), seleção significa a reprodução dos “melhores”
indivíduos, independentemente da definição de “melhor”. Esta vai depender dos
objetivos de seleção.
O efeito básico da seleção é alterar o arranjo das frequências gênicas que
pode ser facilmente demonstrado quando se considera uma característica
determinada por um locus com dois alelos. Entretanto, esta mudança na
frequência gênica não pode ser visualizada quando se trabalha com uma
característica poligênica. Neste caso, os efeitos da seleção que podem ser
observados são restritos às mudanças na média da população.
Para descrever a mudança das propriedades genéticas de uma geração para a
outra, nós temos que comparar gerações sucessivas no mesmo ponto do ciclo de
vida dos animais e este ponto pode ser fixado pela idade em que cada
característica em questão é mensurada. A seleção é realizada após a mensuração
e as frequências gênicas entre os animais selecionados são diferentes daquelas
da população antes da seleção. Se não existirem diferenças em fertilidade entre
os selecionados ou de viabilidade entre suas progênies então as frequências
gênicas nos descendentes são as mesmas que nos pais selecionados. Assim,
seleção artificial – que é a seleção resultante da ação do produtor na escolha dos
pais – produz alteração de frequência gênica por separar os indivíduos adultos da
geração parental em dois grupos, os selecionados e os descartados, que diferem
em frequências gênicas. Seleção natural operando por meio de diferenças em
fertilidade entre os pais ou viabilidade em suas progênies, pode causar alterações
nas frequências gênicas entre os pais selecionados e a progênie.
Existem portanto três estágios nos quais a seleção pode provocar
alteração de frequências gênicas:
1- seleção artificial entre os adultos da geração parental;
2- diferenças naturais de fertilidade entre os adultos da geração parental;
3- diferenças naturais de viabilidade entre os animais da geração descendente.
Embora diferenças naturais de fertilidade e viabilidade estejam sempre presentes,
elas não são necessariamente sempre relevantes já que não estão
necessariamente associadas aos genes relativos ao caráter métrico em questão.
42
2. Resposta à seleção (R ou ∆G)
É a diferença do valor fenotípico médio entre os descendentes dos pais
selecionados e a população parental como um todo antes da seleção.
PD PPR −=
onde:
R = resposta à seleção;
DP = valor fenotípico médio dos descendentes;
PP = valor fenotípico médio da população.
A medida de seleção aplicada é o diferencial de seleção (S), que é a média
dos valores fenotípicos dos animais selecionados para pais expressa como um
desvio da média da população:
PS PPS −=
onde:
SP = valor fenotípico médio dos selecionados.
3. Predição do ganho genético
Basicamente o ganho genético depende:
a) de quão bem os animais foram avaliados, ou acurácia de predição;
b) de qual foi a pressão de seleção aplicada, ou intensidade de seleção;
c) da magnitude das diferenças genéticas entre os animais, ou desvio padrão
dos valores genéticos aditivos;
d) de quão rapidamente os melhores animais jovens substituem seus pais,
conhecido como intervalo de gerações.
Esses fatores formam a equação chave para predizer o ganho genético.
Em resumo, a equação chave mostra que a taxa de ganho genético é
diretamente proporcional à acurácia de seleção, intensidade de seleção e variação
genética existente; e é inversamente proporcional ao intervalo de gerações, isto é,
o tempo médio em anos entre o nascimento de um animal e o nascimento de seus
filhos.
Esses fatores podem ser calculados para diferentes planos de seleção para
determinar qual deles espera-se que resulte em maior ganho por ano.
O cálculo do ganho genético esperado por ano depende de duas
pressuposições:
1 – a característicae os valores genéticos aditivos para a mesma têm
distribuição normal, o que parece aproximadamente verdadeiro para a maioria das
características quantitativas.
2 – somente os animais com as classificações mais altas com base no
critério de seleção são selecionados para serem pais.
Para qualquer geração de animais:
∆Gano = acurácia de seleção x intensidade de seleção x desvio padrão genético aditivo
intervalo de gerações em anos
43
ou, simbolicamente:
IG
ir
GR AHIano
))()(( σ
=∆=
Espera-se que o progresso genético seja maior a medida que o numerador
é maior e o denominador menor. Embora este seja, essencialmente, o objetivo,
existem algumas limitações práticas e biológicas. Uma alteração em qualquer dos
três fatores (acurácia, intensidade de seleção ou intervalo de gerações) que estão
sob controle do produtor pode causar uma mudança indesejável em um ou ambos
dos outros fatores porque existem relações práticas entre eles (σA é
essencialmente constante para uma população). Portanto o objetivo é encontrar o
balanço apropriado entre os fatores da equação chave para aumentar o progresso
genético até um ponto ótimo para uma determinada situação. Custos do ganho
esperado também devem ser comparados ao retorno econômico esperado.
3.1 Desvio padrão do valor genético aditivo
Variação genética é essencial para que a seleção seja efetiva. Se todos os
animais forem geneticamente semelhantes, não ocorrerá grande variação
genética, e não haverá progresso, independentemente da intensidade de seleção
que se possa praticar.
Infelizmente, a variação genética é um fator da equação para ao ganho
genético que o criador não pode alterar facilmente. A variação genética de uma
característica em uma determinada população é essencialmente constante.
Algumas características, como as associadas à fertilidade, têm pouca; enquanto
outras têm considerável variação genética. Acasalamentos exogâmicos podem
aumentar a variação genética enquanto que os endogâmicos têm efeito oposto.
3.2. Acurácia de predição
É a acurácia de predição do valor genético, que é dada pela correlação
entre o valor genético aditivo verdadeiro (A=H) e o predito (I=P) – rHI. Este valor
predito (I = índice) é baseado nos valores fenotípicos (P), que melhor estime o
valor genético verdadeiro.
Quanto mais acurado o valor genético predito mais provável que os animais
selecionados para pais sejam realmente os melhores pais.
A acurácia de seleção depende de vários fatores:
- herdabilidade da característica: quanto maior a herdabilidade, maior a
acurácia;
- número de medidas no animal e em seus parentes usados para
avaliação genética.
Aumentando-se a quantidade de informação disponível, aumenta-se a acurácia.
Isto é especialmente importante para características de herdabilidade baixa. Neste
caso, incluir informações de parentes, principalmente os mais próximos como pais
e filhos, vai aumentar a acurácia.
Quando a herdabilidade da característica é alta, o desempenho do próprio animal
é um bom indicador do seu valor genético.
44
3.2.1 INFORMAÇÃO DO PRÓPRIO INDIVÍDUO:
a) Neste caso a acurácia é a raiz quadrada da herdabilidade.
rHI = √h
2
b) Incluindo mais de uma informação do próprio animal rHI passa a ser:
t)1n(1
nh2
−+
onde:
t = repetibilidade da característica;
n = número de medidas.
3.2.2 COM BASE NA PRODUÇÃO DOS DESCENDENTES (PROGÊNIES):
a) Em caso de dados da progênie de meio-irmãos:
2
2
)1(4 hp
ph
rHI −+
=
onde:
p = número de progênies.
b) Em caso de dados da progênie de irmãos completos:
2
2
)1(2 hp
ph
rHI −+
=
onde:
p = número de progênies.
OBS: Em ambos os casos, o valor máximo de rHI tenderá para 1 quando h
2 =1 e
quando o número de meio-irmãos avaliados, ou o de irmãos completo avaliados,
tender para um valor muito alto.
3.2.3 COM BASE NA PRODUÇÃO DOS ASCENDENTES OU ANCESTRAIS:
a) Uma única medida em um dos pais:
hrHI 2/1=
OBS: Este valor é explicado pelo fato de que um pai só é responsável por metade
do genótipo do indivíduo. Assim, o valor máximo da precisão será igual a 0,50
quando a h2 = 1.
45
b) média de n produções em um dos pais:
tn
nh
rHI
)1(1
2/1
2
−+
=
c) uma única medida em cada um dos pais:
22/1 hrHI =
OBS: Neste caso, a precisão poderá ser no máximo igual 0,71 para h2 = 1.
d) uma medida é disponível em cada um dos pais (2) e em cada um dos avós (4):
4
22
24
)23(
h
hh
rHI −
−
=
OBS: Neste caso, a precisão poderá ser no máximo igual 0,71 para h2 = 1.
3.2.4 COM BASE NA PRODUÇÃO DOS PARENTES COLATERAIS:
Considerando todos parentes próximos que não sejam ascendentes ou
descendentes do candidato à seleção. Normalmente são considerados os irmãos
completos e meio-irmãos.
a) Para o caso de irmãos completos
OBS: O valor máximo da precisão tenderá para 0,71 quando h2 tender para 1 e o
número de irmãos avaliados por candidato a seleção tender para um valor muito
elevado.
b) Para o caso de meio-irmãos:
])1(2[2 2
2
hn
nh
rHI −+
=
])1(4[4 2
2
hn
nh
rHI −+
=
46
OBS: O valor máximo da precisão tenderá para 0,50 quando h2 tender para 1 e o
número de irmãos avaliados por candidato a seleção tender para um valor muito
elevado.
Assim, a acurácia vai variar dependendo da quantidade e do tipo de informação
utilizada para predição dos valores genéticos. Em todos os casos a herdabilidade
é parte integrante da acurácia.
3.3. Intensidade de seleção
Depende da proporção de indivíduos selecionados para pais.
Um conceito relacionado com a intensidade de seleção é o diferencial de
seleção, que já foi definido anteriormente. A intensidade de seleção é o diferencial
de seleção padronizado, isto é, dividido pelo desvio padrão fenotípico da
característica, sendo, desta forma, um número puro:
PS PPS −=
P
S
i
σ
=
obs.: diferencial de seleção depende da proporção de animais selecionados e do
desvio padrão fenotípico.
Considerando que a seleção seja por truncação, isto é, todos os indivíduos
acima de um determinado ponto (ponto de truncação) são selecionados, a
intensidade de seleção pode ser calculada conhecendo-se a proporção de
selecionados e utilizando-se as propriedades da distribuição normal.
Os valores da intensidade de seleção são derivados do valor esperado da
fração de selecionados, p, de uma distribuição normal padronizada (média=0 e
variância=1).
p
Z
i =
A figura mostra a média dos selecionados, i, de uma distribuição normal
(média=0 e variância=1) padronizada quando uma fração p dos melhores animais
são selecionados.
A média dos selecionados é i = Z/p, onde Z é a altura da curva no ponto de
truncação correspondendo à seleção da fração dos p animais superiores. Este
Z
p
ponto de truncação
fração de
selecionados
média de todos os animais
-∞ +∞ 0
47
resultado pode ser convertido para uma distribuição com desvio padrão σP
simplesmente multiplicando i x σP que será o diferencial de seleção.
A intensidade será maior quanto menor o número de indivíduos
selecionados.Como, em geral, é necessário para reprodução um menor número de
machos que de fêmeas, a intensidade de seleção e o diferencial de seleção de
machos e fêmeas serão diferentes.
Na maioria das espécies, são necessários poucos reprodutores uma vez
que cada reprodutor pode ser acasalado com várias fêmeas. Assim a intensidade
de seleção de machos é maior que de fêmeas. Como os machos têm muito mais
filhos que as fêmeas, a acurácia de seleção, geralmente, é maior em machos. O
intervalo de gerações pode ser maior em machos que em fêmeas, quando se usa
teste de progênie por exemplo.
Assim, o diferencial será:
2
SS
S fm
+
=
e a intensidade:
2
ii
i fm
+
=
onde os subscritos m e f referem-se a machos e fêmeas respectivamente.
O diferencial de seleção que realmente ocorre, em geral é diferente do
esperado porque:
1- A seleção nunca é estritamente por truncação. Na prática o produtor
pode considerar outras características além daquela para a qual a seleção está se
processando. Além do fato da acurácia de seleção praticamente nunca ser igual a
1,0.
2- Os indivíduos selecionados não contribuem igualmente para a próxima
geração.
Para o cálculo do diferencial de seleção pressupõe-se que todos os
indivíduos têm a mesma fertilidade, deixando o mesmo número de filhos. Isto não
ocorre na prática tanto devido à seleção natural como por decisão do produtor.
3.4. Intervalo de gerações
O progresso genético que mais interessa é aquele obtido por unidade de
tempo. O intervalo de gerações é definido como a quantidade de tempo
necessário para repor uma geração com a próxima. Em uma população fechada –
isto é, que é fechada para material genético de fora – o intervalo de gerações
pode ser definido como a idade média dos pais quando os filhos nascem.
Fatores tais como baixa fertilidade, atraso na maturidade sexual, ou a
necessidade de várias medidas antes que a seleção seja realizada tendem a
aumentar o intervalo de gerações e decrescer o ganho genético por ano.
Intervalos de gerações são menores para espécies com maior precocidade
sexual e períodos de gestação curtos e para espécies com altas taxas
reprodutivas que permitem que os animais de reposição sejam selecionados da
primeira cria.
48
Machos normalmente têm intervalos de gerações mais curtos que as
fêmeas porque eles podem produzir um grande número de filhos em um curto
espaço de tempo, enquanto as fêmeas estão limitadas a poucos descendentes.
Vacas e éguas normalmente têm apenas um descendente por ano. Como metade
de suas progênies são machos e também porque algumas progênies fêmeas
morrem antes da maturidade sexual, são necessários cerca de três partos para
produzir uma reposição para vacas e éguas. Isto sem mencionar o fato de que,
devido ao custo de produção de uma novilha, os produtores tendem a manter as
fêmeas por mais tempo no rebanho.
Seleção para características que não se manifestam até mais tarde na vida
do animal também irá estender o intervalo de gerações. Métodos de seleção que
aumentam a acurácia de avaliação, tais como testes de progênie ou o
requerimento que as fêmeas tenham várias medidas antes de serem
selecionadas, aumentam o intervalo de gerações. Se uma raça ou espécie está se
expandindo em número, o intervalo de gerações provavelmente irá diminuir, e se
uma raça ou espécie estiver diminuindo em número, geralmente o intervalo de
gerações cresce.
TABELA 1. Intervalos de gerações próximos do mínimo.
Espécie
Intervalo de gerações em anos
machos fêmeas
bovinos 2 5
suínos 1 1
ovinos 1 1,5
caprinos 1 1,5
aves 1 1
eqüinos 3 5
cães 2 3
Fonte: Van Vleck et al. (1987)
TABELA 2. Intervalos de gerações mais comuns.
Espécies Intervalo de gerações
(anos)
eqüinos 8 a 12
bovinos leiteiros 4 a 6
bovinos de corte 4 a 6
ovinos 3 a 5
suínos 1,5 a 2
aves 1 a 1,5
Fonte: Bourdon (1997)
49
4. Otimizando a equação chave
Como foi visto anteriormente, o ganho genético depende de quatro variáveis
básicas, das quais uma delas o melhorista tem pouca ou nenhuma maneira de
influenciá-la, que é a variabilidade genética. No entanto, as outras três dependem
diretamente da atuação do técnico para encontrar a melhor forma de obter um
maior ganho genético. É nestas três variáveis que devem ser concentrados todos
os esforços visando uma otimização de um esquema de seleção.
Por este motivo, é fundamental abordar as inter-relações entre estes três
parâmetros que viabilizam um maior ganho genético, lembrando sempre que a
intensidade de seleção (i) e a precisão da estimativa do genótipo (rHI) estão
diretamente relacionadas com o ganho genético, enquanto o intervalo de gerações
tem uma relação inversa.
4.1 Relação entre intensidade de seleção e precisão da estimativa do valor
genético
Tendo em vista que estas duas variáveis têm uma relação direta com o
ganho, é de interesse aumentar o produto i . rHI .
Estas duas variáveis, normalmente têm um comportamento inverso, ou seja,
à proporção que se aumenta a intensidade de seleção (i), normalmente há uma
redução no rHI.
A precisão aumenta com o número de medidas por animal ou o número de
animais parentes considerados. Este número, entretanto, é geralmente limitado
por razões financeiras. Por outro lado, o número de reprodutores a serem
selecionados, tendo em vista a necessidade do rebanho, é constante. Logo, deve-
se encontrar um valor ótimo entre o número de candidatos à seleção (que forneça
o maior i) e o número de controles, do próprio animal ou de parentes por candidato
(que permita o maior rHI), os quais maximizem a expressão i . rHI.
Exemplo: um centro de teste de touros tem possibilidade de controlar
anualmente 1000 novilhas filhas de touros em teste de progênie, devendo
selecionar 10 reprodutores por ano entre os animais que estão em teste de
progênie. Admitindo-se h2 = 0,20, algumas das diferentes soluções possíveis são
apresentadas na Tabela a seguir.
Nota-se que quando o i é aumentado, reduz-se o rHI, sendo que o ótimo só
pode ser obtido, segundo Robertson (1957), através da expressão que fornece o
número de filhas por macho em progênies de meio-irmãos:
50
Tabela. Algumas das diferentes soluções para o produto i ⋅⋅⋅⋅ rHI
N°°°° de touros em teste 100 200 50 20 ___
N°°°° de filhas por macho 10 5 20 50 ___
P 0,10 0,05 0,20 0,50 ___
I 1,75 2,06 1,39 0,80 ___
rHI 0,59 0,46 0,72 0,85 ___
i . rHI 1,03 0,94 1,00 0,67 ___
n = 0,56 . 2h/K
onde:
K = N/S ,sendo N o número total de filhas controladas e S o número de
touros selecionados para a reprodução.
Neste exemplo tem-se que N = 1000, S = 10, h2 = 0,20
logo: n = 0,56 .
20.0
10/1000
≅ 12 filhas por reprodutor
Com n = 12, o número de touros em teste será de aproximadamente 83, o
que fornecerá uma relação i . rHI de 1,037 a qual será um valor máximo.
4.2 Relação entre intensidade de seleção e intervalo de gerações
Considerando-se que a intensidade (i) tem uma relação direta com o ganho
genético e que o intervalo (t) tem uma relação inversa, seria interessante
aumentar a relação i/t. Quando se diminui o tempo de utilização dos reprodutores,
o t diminui, reduzindo, entretanto, o i, visto que se reduz o número de
descendentes por reprodutor e, com isto, o número de candidatos disponíveis na
geração seguinte.
Para espécies prolíferas é possível se obter um máximo da relação i/t, pois
pode-se conseguir um alto i mesmo reduzindo t. Entretanto isto se torna muito
difícil nas espécies pouco prolíferas, em condições de monta natural,onde um
aumento na intensidade de seleção vem acompanhado de uma elevação no t.
51
Quando se usa a inseminação artificial e, mais recentemente, a transferência de
embriões, é possível se conseguir um alto i sem aumentar muito o t.
4.3 Relação entre intervalo de gerações e precisão da estimativa do valor
genético
A precisão tem uma relação direta com o progresso genético, enquanto que
o intervalo de gerações tem relação inversa. O objetivo então é aumentar a
relação rHI/ t.
Estas duas variáveis, na prática, têm uma relação direta, isto é,
aumentando-se rHI através da seleção individual ou da seleção pela progênie
aumenta-se o tempo de permanência do reprodutor no plantel e com isto eleva-se
o t, o que desaconselhável. Em alguns casos, o aumento da precisão não
compensa o aumento do intervalo de gerações.
4.4 Relação entre intensidade de seleção, precisão da estimativa do valor
genético e intervalo de gerações
Estes três fatores devem ser combinados para maximizar o progresso
genético. Muitas vezes um destes fatores é imposto por razões práticas ou pelas
características da espécie (uma geração de seleção em aves ou teste
indispensável dos machos das raças leiteiras).
É importante que se exista uma relação alta entre
t
i rHI ⋅ . Como o rHI varia de
0 a 1, o i de 0 a 3 e o t, de acordo com a espécie pode chegar a 8 anos ou mais,
nota-se que a variável que menos afeta esta relação é a precisão. De nada
adianta existir uma boa precisão (teste de progênie), se para tanto é necessário
reduzir a intensidade de seleção e manter os reprodutores por maior tempo no
rebanho.
Desta forma pode-se concluir que: a precisão da seleção com frequência
pode ser secundária quando comparada à necessidade de seleção intensa e
garantia de rotação rápida de reprodutores, reduzindo com isto o intervalo de
gerações.
52
Tabela - Áreas e ordenadas da curva normal padronizada
t A b z z/b t A b z z/b
0,0 0,50000 0,50000 0,3989 0,7978
4,0 0,00001 1,00000 0,0001 0,0001 0,1 0,53980 0,46020 0,3970 0,8627
3,5 0,00020 0,99980 0,0009 0,0009 0,2 0,57930 0,42070 0,3910 0,9294
3,0 0,00130 0,99870 0,0044 0,0044 0,3 0,61790 0,38210 0,3814 0,9982
2,8 0,00260 0,99740 0,0079 0,0079 0,4 0,65540 0,34460 0,3683 1,0688
2,6 0,00470 0,99530 0,0136 0,0137 0,5 0,69150 0,30850 0,3521 1,1413
2,4 0,00820 0,99180 0,0224 0,0226 0,6 0,72580 0,27420 0,3332 1,2152
2,2 0,01390 0,98610 0,0355 0,0360 0,7 0,75800 0,24200 0,3123 1,2905
2,1 0,01790 0,98210 0,0440 0,0448 0,8 0,78810 0,21190 0,2897 1,3672
2,0 0,02270 0,97730 0,0540 0,0553 0,9 0,81590 0,18410 0,2621 1,4237
1,9 0,02870 0,97130 0,0656 0,0675 1,0 0,84130 0,15870 0,2420 1,5249
1,8 0,03590 0,96410 0,0790 0,0819 1,1 0,86430 0,13570 0,2179 1,6057
1,7 0,04460 0,95540 0,0941 0,0985 1,2 0,88490 0,11510 0,1942 1,6872
1,6 0,05480 0,94520 0,1109 0,1173 1,3 0,90320 0,09680 0,1714 1,7707
1,5 0,06680 0,93320 0,1295 0,1388 1,4 0,91920 0,08080 0,1497 1,8527
1,4 0,08080 0,91920 0,1497 0,1629 1,5 0,93320 0,06680 0,1295 1,9386
1,3 0,09680 0,90320 0,1714 0,1898 1,6 0,94520 0,05480 0,1109 2,0237
1,2 0,11510 0,88490 0,1942 0,2195 1,7 0,95540 0,04460 0,0941 2,1099
1,1 0,13570 0,86430 0,2179 0,2521 1,8 0,96410 0,03590 0,0790 2,2006
1,0 0,15870 0,84130 0,2420 0,2877 1,9 0,97130 0,02870 0,0656 2,2857
0,9 0,18410 0,81590 0,2621 0,3212 2,0 0,97730 0,02270 0,0540 2,3789
0,8 0,21190 0,78810 0,2897 0,3676 2,1 0,98210 0,01790 0,0440 2,4581
0,7 0,24200 0,75800 0,3123 0,4120 2,2 0,98610 0,01390 0,0355 2,5540
0,6 0,27420 0,72580 0,3332 0,4591 2,4 0,99180 0,00820 0,0224 2,7317
0,5 0,30850 0,69150 0,3521 0,5092 2,6 0,99530 0,00470 0,0136 2,8936
0,4 0,34460 0,65540 0,3683 0,5619 2,8 0,99740 0,00260 0,0079 3,0385
0,3 0,38210 0,61790 0,3814 0,6173 3,0 0,99870 0,00130 0,0044 3,3846
0,2 0,42070 0,57930 0,3910 0,6750 3,5 0,99980 0,00020 0,0009 4,5000
0,1 0,46020 0,53980 0,3970 0,7355 4,0 0,99999 0,00001 0,0001 10,0000
t = ponto de truncamento
A = área de -∞ a t
b = área de t a ∞, ou 1,00 - A
z/b = intensidade de seleção
53
Capítulo 6. Resposta correlacionada à seleção
1. Introdução
Quando realizamos o método de melhoramento, seleção, para uma
determinada característica, raramente essa seleção afetará apenas essa
característica selecionada. Normalmente, outras características também são
afetadas. Mudança genética em uma característica resultado de seleção sobre
outra característica é chamada de resposta correlacionada à seleção.
A unidade selecionada é o animal e não a característica. Desta forma, ainda
que a seleção tenha por objetivo melhorar apenas uma característica,
simultaneamente também se estará selecionando para todas as demais
características que sejam geneticamente correlacionadas a ela.
2. Correlação fenotípica, genética e de ambiente
A associação entre duas características que pode ser diretamente
observada é a correlação entre os valores fenotípicos, ou correlação fenotípica.
Ela mede a força da relação entre o valor fenotípico para uma característica e o
valor fenotípico para outra característica. Ela é função das correlações genética e
de ambiente entre duas características.
Correlação genética indica a importância da associação entre os valores
genéticos de duas características. As causas de correlação genética entre
características podem ser permanentes ou transitórias.
A causa de correlação permanente entre duas características é a
“pleiotropia”. Pleiotropia é a propriedade de um gene afetar duas ou mais
características; desta forma, se o gene estiver segregando, ele vai causar variação
simultânea nas duas características.
Características poligênicas associadas, provavelmente são influenciadas
por vários genes com efeitos pleiotrópicos. Assim, o grau de correlação devido à
pleiotropia expressa a extensão na qual duas características são influenciadas
pelos mesmos genes. A correlação resultante da pleiotropia é o efeito total ou
líquido de todos os genes segregando que afetam as duas características. Alguns
genes podem aumentar as duas características enquanto outros aumentam uma e
diminuem a outra. No primeiro caso vai ocorrer uma correlação positiva enquanto
no segundo a correlação será negativa. Assim, nem sempre a pleiotropia vai
causar uma correlação detectável.
Um exemplo de pleiotropia (Bourdon, 1997) são as características de
crescimento. Em mamíferos, nós medimos a taxa de crescimento dos animais
várias vezes, tipicamente ao nascer, à desmama, e muitas vezes em idades mais
avançadas. Existem alguns genes que afetam a taxa de crescimento somente
durante estágios específicos da vida do animal. Existem também genes que
afetam o crescimento em geral. Estes genes têm efeito pleiotrópico sobre duas ou
mais características de crescimento e, como resultado, as características são
geneticamente correlacionadas. Seleção para uma delas irá causar resposta
correlacionada nas outras. Uma representação esquemática da pleiotropia seria:
54
Uma causa de correlação não permanente entre duas características é a
ligação gênica (linkage). Linkage ocorre quando genes de efeito principal,
afetando duas características, estão localizados próximos um do outro no mesmo
cromossomo. Desta forma, estes genes tendem a ser transmitidos em conjunto.
Seleção para uma característica aumenta a frequência dos alelos que influenciam
positivamente aquela característica e, ao mesmo tempo, aumenta a frequência de
alelos ligados a eles. Entretanto, devidoà recombinação (crossing-over), com o
tempo estas ligações tendem a se quebrar. Assim, linkage é uma causa
temporária de correlação genética. A correlação genética expressa a extensão na
qual duas características refletem geneticamente a mesma característica.
A correlação genética, como a herdabilidade, depende para sua estimação
de relações entre parentes. Com a aplicação de modelos animais ela é estimada
como a correlação entre os valores genéticos preditos.
Teoricamente a correlação fenotípica pode ser decomposta em correlação
genotípica e de ambiente. A correlação genotípica, por sua vez, seria decomposta
em genética aditiva, de dominância e epistática (ou de interação). Entretanto, na
prática esta decomposição ocorre apenas entre a correlação genética aditiva e o
resto (incluindo as correlações devidas às combinações e ao ambiente). Assim, a
correlação de ambiente incluirá, além da correlação entre os desvios de ambiente,
a correlação genética devida aos desvios da aditividade (dominância e epistasia).
As correlações genética e de ambiente, portanto, correspondem a decompor a
covariância fenotípica em um componente genético aditivo mais todo o resto
(englobado como correlação de ambiente).
Assim, considerando os valores fenotípicos para duas características P1 e
P2, ambos decompostos como: A1 + E1 e A2 + E2, respectivamente, onde E = D + I
+ E* , a correlação fenotípica entre as características 1 e 2 seria:
21
21
PP
21
PP
)P,P(COV
r
σσ
=
E a covariância fenotípica seria:
2121 PPPP21
r)P,P(COV σσ=
Genes afetando a
característica y
Genes afetando a
característica x
Genes pleiotrópicos afetando as
características x e y
55
A covariância fenotípica é a soma das covariâncias genética e ambiental:
)E,E(COV)A,A(COV)P,P(COV 212121 +=
Escrevendo estas covariâncias em termos de correlação e desvios-padrão:
212121212121 EEEEAAAAPPPP
rrr σσ+σσ=σσ
Podemos substituir PA hσ=σ e PE eσ=σ onde
2h1e −= .
212121212121 P2P1EEP2P1AAPPPP
eerhhrr σσ+σσ=σσ
Dividindo tudo por
21 PP
σσ
212121 EE21AA21PP
reerhhr +=
Lembrando que E = D + I + E* , onde E* = desvios de ambiente
propriamente dito; D = desvios de dominância e I = desvios de interação
epistática.
Podemos representar as correlações fenotípica (
21PP
r ), genética (
21AA
r ) e
de ambiente (
21EE
r ), como:
E1
21EE
r
21AA
r
21PP
r
E2
A1 A2
P1 P2
h1 h2
e2 e1
56
Onde h1, h2, e1, e e2 são os coeficientes de passagem. Sendo h1, h2 as
raízes quadradas das herdabilidades das características 1 e 2, respectivamente e
2
11 h1e −= e
2
22 h1e −= .
Isto mostra como as causas genética e ambiental de correlação se
combinam para dar a correlação fenotípica. Se os dois caracteres têm
herdabilidades baixas, então a correlação fenotípica é determinada
principalmente, pela correlação ambiental; se eles têm herdabilidades altas então
a correlação genética é mais importante. É claro que a magnitude e até mesmo o
sinal da correlação genética não pode ser determinada apenas pela correlação
fenotípica.
Da mesma forma que a herdabilidade, as correlações entre as
características são medidas populacionais. Elas não são fixas, variam
dependendo da população e do ambiente.
2. Resposta correlacionada à seleção
O primeiro fator a considerar é a resposta direta para a característica
selecionada x. A resposta direta, como já foi apresentado em capítulo anterior, é
dependente da acurácia de seleção (rHI), da intensidade de seleção (i) e do desvio
padrão genético aditivo da característica (σA).
AxHIx irR σ..=
A resposta correlacionada pode ser definida como o aumento médio no
mérito genético de uma característica Y quando a seleção é praticada em uma
outra característica X. Ela pode ser estimada por meio da regressão do mérito
genético aditivo de uma característica qualquer, em função do mérito genético
aditivo da característica que está sendo selecionada.
Desta forma tem-se que:
bAyx =
)(A V
) A,A(COV
x
xy =
x
xy
A
2
AA
σ
σ
,
multiplicando e dividindo-se por σAy :
bAyx =
x
xy
A
2
AA
σ
σ
.
y
y
A
A
σ
σ
57
e, como rAxy =
yx
xy
AA
A
σσ
σ
então,
bAyx = rAxy .
x
y
A
A
σ
σ
,
A resposta correlacionada em Y quando se fizer seleção em X, é
representada por RCy.x e poderá ser obtida a partir da regressão de Y sobre X
multiplicada pelo ganho genético em X, assim:
RCy.x = bAyx . ∆Gx
ou:
xxyxy.x HHIxAA
r i b = RC σ⋅⋅⋅
substituindo bAyx pelo valor mostrado acima, temos:
xx
x
y
yxy.x HHIx
A
A
AA r i r = RC σ⋅⋅σ
σ
⋅ ,
como σAx = σHx , pode-se obter:
xyyxy.x HIxAAA
r i r = RC ⋅⋅σ⋅
e, a partir do conceito de herdabilidade, h = σA /σP ⇒ σA = h .σP .
xyyxy.x HIxPyAA
r i h r = RC ⋅⋅σ⋅⋅
Assim, a resposta correlacionada pode ser predita desde que sejam
conhecidas as estimativas da herdabilidade e da variância fenotípica da
característica Y, a qual se deseja selecionar indiretamente, da correlação genética
entre as duas características e dos parâmetros intensidade de seleção e precisão
da estimativa do valor genético da característica que foi selecionada diretamente
X.
Quando vai se usar o método da seleção indireta, torna-se indispensável
avaliar se o mesmo é mais eficaz que a seleção direta para a característica a ser
melhorada . Por exemplo: é melhor selecionar para ganho de peso e indiretamente
para eficiência alimentar, ou se obterá um maior ganho genético se for realizada a
seleção diretamente para a eficiência alimentar?
Para responder a este questionamento é necessário medir o resultado da
relação entre a Resposta Correlacionada em Y pela seleção em X e o Ganho
58
Genético direto pela seleção em Y. A relação numérica é:
yy
xyyx
HIyA
HIxPyA
y
x.y
r i
r i h r
=
G
RC
⋅⋅σ
⋅⋅σ⋅⋅
∆
ou, sendo σAy = hy ⋅ σPy:
yy
xyyx
HIyPy
HIxPyA
y
x.y
r i h
r i h r
=
G
RC
⋅⋅σ⋅
⋅⋅σ⋅⋅
∆
,
o que, simplificando fornece:
y
x
yx
HI
HI
y
x
A
y
x.y
r
r
i
i
r =
G
RC
⋅
⋅
⋅
∆
,
mostrando que a seleção indireta só será vantajosa quando a relação acima
for maior que 1, o que ocorrerá quando as condições abaixo forem satisfeitas:
- a correlação genética entre as duas características for alta;
- for possível fazer uma seleção mais intensa em X que em Y;
- a precisão da estimativa do genótipo em X for suficientemente maior que
em Y.
Com relação à resposta correlacionada, pode-se utilizá-la em certos casos
como aquele em que existe a mesma característica medida em dois ambientes
completamente diferentes. Segundo Falconer (1960) a mesma característica,
quando medida em ambientes muito contrastantes, pode ser considerada como
duas características diferentes. Desta forma é possível selecionar para uma
característica em um ambiente e depois avaliar a resposta que esta mesma
característica poderá ter em um outro ambiente. Por exemplo, seria possível
selecionar touros para produção de leite na Europa e depois avaliar a resposta
que estes touros nos forneceriam quando fossem utilizados no Brasil. Para tanto,
torna-se necessáriosaber a precisão da estimativa do genótipo e a intensidade de
seleção na Europa, a correlação genética entre as produções de leite nos dois
países, e também a herdabilidade da característica e sua variância fenotípica no
Brasil.
As circunstâncias mais prováveis em que a seleção indireta pode ser
superior à direta envolvem dificuldades técnicas na aplicação direta sobre a
característica desejada. Exemplos destas situações seriam:
1- Quando a característica desejada é de difícil mensuração ou sua
mensuração é de alto custo. Um exemplo seria a conversão alimentar. Como a
59
conversão alimentar é uma razão envolvendo consumo de alimentos e ganho em
peso, a mensuração desta característica requer medidas individuais de consumo
de alimento. Isto significa que os animais têm que ser mantidos em baias
individuais e o alimento pesado manualmente, ou é necessário usar técnicas de
controle de consumo de alimentos sofisticadas e caras. É mais fácil e mais
econômico selecionar para ganho em peso e contar com a correlação genética
favorável entre ganho e conversão alimentar para melhorar a conversão alimentar.
Estimativas desta correlação em suínos são em torno de 0,70.
2- Outra razão para selecionar para uma característica correlacionada é
quando a acurácia for maior para a característica correlacionada que para a
característica de interesse. Em suínos, dados de ganho em peso são muito mais
numerosos que dados de conversão alimentar, então as acurácias de predições
genéticas são geralmente mais altas para ganho em peso que para eficiência.
3- Quando a intensidade de seleção pode ser maior para uma característica
correlacionada que tenha distribuição contínua e a característica de interesse seja
de limiar. O exemplo clássico em gado de corte é a seleção para menores pesos
ao nascer como uma forma de reduzir problemas de parto. Facilidade de parto é
uma característica categórica, em geral com três categorias: sem assistência,
pequena assistência e grande assistência. Como a incidência de problemas de
parto é pequena, especialmente para partos de vacas mais velhas, a intensidade
de seleção para facilidade de parto em gado de reposição é necessariamente
baixa também. Por outro lado, peso ao nascer é uma característica de distribuição
contínua que tem correlação genética moderada com facilidade de parto. Os
produtores podem selecionar para pesos ao nascer mais baixos sem a perda de
intensidade de seleção que ocorre com seleção direta para facilidade de parto.
60
Capítulo 7. Métodos de melhoramento
Como já mencionado anteriormente, quando uma população se encontra no
equilíbrio de Hardy-Weinberg, a frequência relativa dos alelos e as proporções
genotípicas se mantêm estáveis ao longo do tempo. Para tirá-la da estabilidade
deve-se aplicar forças sobre estas frequências gênicas de modo a aumentar o
número de genes desejáveis no programa de melhoramento que se deseja
conduzir.
Existem três forças principais que podem atuar sobre estas frequências:
a - Seleção - através deste método separam-se para reprodução os animais
considerados superiores, através de um processo que inclui a avaliação dos
indivíduos, a identificação dos melhores e em uma última etapa a seleção
propriamente dita.
b - Exogamia - também chamada de cruzamento, é o processo através do
qual indivíduos com genes diferentes são acasalados de modo a promover a
heterozigose, aproveitando-se principalmente da complementaridade e da
heterose que puder ser obtida por meio destes acasalamentos.
c - Endogamia - é o acasalamento de indivíduos cujo grau de parentesco é
maior que o existente na população, objetivando colocar em homozigose os genes
que atuam sobre a característica que se deseja melhorar.
Inicialmente será estudado o primeiro método, definindo as principais formas
de se fazer seleção. Tendo em vista que o genótipo do indivíduo a ser selecionado
é estimado a partir das observações obtidas no próprio indivíduo e em parentes.
61
O genótipo do indivíduo pode ser estimado de quatro formas básicas:
a) Através do fenótipo do próprio indivíduo - é a seleção individual,
também chamada de seleção massal, baseia-se na informação do
próprio indivíduo, ou seja, o seu fenótipo irá estimar o genótipo.
b) Através do fenótipo dos ascendentes - é a seleção pelos ancestrais,
conhecida também por seleção pelo “pedigree”, e que se baseia nas
informações dos ancestrais para estimar o genótipo do indivíduo.
c) Através da média dos fenótipos dos colaterais - é chamado de teste de
irmãos, pois normalmente são utilizados os fenótipos dos meio-irmãos
ou irmãos completos para se estimar o genótipo do indivíduo que será
selecionado.
d) Através da média dos fenótipos dos descendentes - é a seleção pelos
filhos, também conhecida como “teste de progênie” e que toma por
base os dados dos filhos do animal a ser selecionado, isto é, o genótipo
é estimado a partir do fenótipo da progênie.
Estes quatro métodos básicos serão discutidos, além de outros, quanto a
seu valor genético, bem como o interesse de cada um nos trabalhos de
melhoramento.
1. SELEÇÃO PARA UMA CARACTERÍSTICA
1.1 Seleção individual
- os reprodutores são escolhidos com base exclusivamente nos seus valores
fenotípicos individuais. Tendo como base o valor genético do indivíduo dado pela
fórmula:
 = bHI . (P - µ)
em que:
A é o valor genético aditivo do indivíduo;
bHI é o coeficiente de regressão entre o genótipo e o fenótipo;
P é o fenótipo do reprodutor ou média dos fenótipos de seus parentes ou
dele mesmo;
µ é a média do fenótipo da população.
OBS: genótipo – relacionado ao valor genético aditivo verdadeiro (A=H) e o
predito (I=P). Este valor predito (I = índice) é baseado nos valores fenotípicos (P).
62
De acordo com as informações disponíveis, a estimativa do valor genético
aditivo pode ser obtida por:
a) Baseando-se em apenas uma medida feita no candidato à seleção, o
valor genético aditivo será:
 = h2 . (P - µ)
Esse método desperta interesse nos melhoristas, devido as seguintes
vantagens:
- boa precisão para características de média ou alta h2;
- método simples desde que se tenham os dados do animal;
- permite baixo intervalo de gerações em características que se expressam
antes da idade de reprodução;
- permite alta intensidade de seleção (i), principalmente para machos, por
ser mais rápido que outros métodos.
Alguns inconvenientes de se usar o método são:
- precisão às vezes insuficiente em características de baixa h2;
- impossível de ser usado em certos casos (produção de leite em machos
ou as que exigem o abate do animal);
- aumento do intervalo de gerações no caso de características que se
expressam após a idade de reprodução.
Conclui-se que a seleção com base em apenas uma medida, é um método
bastante útil, principalmente para os casos de média ou alta herdabilidade.
b) Quando se baseia em n medições feitas no candidato à seleção, o valor
genético aditivo será:
 = ) - P(
t 1) -(n + 1
nh
n
2
µ⋅
Este método, apesar de despertar um grande interesse, tendo em vista que
aumenta a precisão, deve ser visto com limitações dado a alguns problemas:
- aumento do intervalo de gerações, visto que as medidas normalmente se
repetem no tempo.
63
- o aumentoda precisão é muito pequeno no caso em que existem altos
valores de repetibilidade.
Chega-se então a conclusão que a seleção com base em n medições é
importante desde que a repetibilidade seja baixa e consequentemente h2 também
seja baixa.
1.2 Seleção pelos ancestrais
- os animais para reprodução são selecionados com base nas informações
oriundas de seus ascendentes (pais, avós, bisavós, etc.). O valor genético aditivo
aqui vai depender do tipo de informação existente:
a) se existe só uma observação em um pai
 = ½ h2 . (P - µ)
b) se existem n observações em apenas um pai
 = ) - P(
] t 1) -(n + 1[2
nh
n
2
µ⋅
c) se existem uma observação em cada um dos pais
 = )(
2
h
) - (P
2
h
2
m
2
µµ −+⋅ fP
Sendo que PP e PM são respectivamente os fenótipos do pai e da mãe.
A possibilidade de se obter um baixo intervalo de gerações através da
escolha precoce dos reprodutores é a principal vantagem deste método. Por outro
lado, principalmente nos casos de características de alta h2, é um método de baixa
precisão. No caso em que existe uma baixa herdabilidade, sua precisão é também
menor que as demais. Desta forma, o método deve ser usado como informação
complementar, constituindo-se em um método aproximado na escolha de fêmeas
para características de baixa/média h2, tais como produção de leite e prolificidade.
1.3 Seleção pelos COLATERAIS
- como em certos casos o fenótipo não se expressa no indivíduo ou quando
torna-se necessário o abate do animal para fazer as medições, pode-se, fazer
seleção com base na média das observações feitas em meio-irmãos (bovinos,
64
caprinos) ou irmãos completos (suínos, coelhos). A estimativa do valor genético
aditivo é obtida através de:
 = ) - P(
h a 1) - (n + 1
h n a
i2
ij
2
ij µ⋅
em que Pi é a média das produções dos colaterais
aij é a relação genética aditiva
A importância da utilização deste método está associada a valores baixos de
h2 e famílias numerosas, podendo permitir a complementação de informações de
ascendentes ou a dos próprios candidatos, sem aumentar demasiadamente o
intervalo de gerações.
1.4 Seleção pela progênie
- baseia-se fundamentalmente nos mesmos princípios da seleção pelos
colaterais, entretanto neste caso o valor genético aditivo dos pais não controlados
será estimado com base na média do fenótipo dos filhos meio-irmãos (espécies
menos prolíficas) ou irmãos completos (espécies mais prolíficas) controlados. O
valor genético neste caso, quando os candidatos a seleção são acasalados cada
um com uma amostra comparável de fêmeas, produzindo cada uma destas um
descendente, progênies meio-irmãs, é dado por:
 = ) - P(
h 1) -(n + 4
hn 2
2
2
µ⋅
A seleção pela progênie pode ser considerada como um método ideal, uma
vez que, por definição, o valor médio dos descendentes de um indivíduo (filhos)
tende para o valor genético aditivo médio deste indivíduo (pai).
Entretanto o método apresenta dois inconvenientes que limitam sua
utilização: custo elevado e aumento do intervalo de gerações (6 anos para touros
de raças leiteiras e pelo menos 20 meses para cachaços). Será útil nos seguintes
casos:
- reprodutores que dão origem a descendência numerosa;
- características com baixa h2;
- características onde o controle no candidato é impossível.
1.5 Seleção intra-família
- neste caso tem-se a diferença entre a produção do candidato à seleção e a
média da família a que ele pertence, sendo, portanto, uma seleção individual
dentro da família.
O valor genético aditivo neste caso é dado por:
65
 = ) P - (P
t - 1
f - 1
h i
2 ⋅
em que:
f é o coeficiente de parentesco entre o candidato e seus parentes
t é a correlação fenotípica entre os indivíduos da família
Pi é fenótipo do indivíduo
P é a média dos fenótipos da família
O método é importante quando há um efeito de meio, que é comum aos
membros da família como, por exemplo, o efeito materno. Neste caso é importante
considerar apenas uma família, uma vez que as variações entre médias de
famílias serão muito grandes. Assim a seleção dentro de famílias eliminará este
componente não genético da variação sobre a qual a seleção opera.
Adicionalmente pode-se considerar que a principal utilidade do método
reside na possibilidade de limitar o aumento da taxa de endogamia das
populações fechadas, de tamanho limitado.
1.6 Seleção entre FAMÍLIAS
- aqui se tem o caso em que a produção média da família é considerada,
sendo a família toda conservada ou eliminada, dependendo do seu valor
fenotípico médio. O valor genético aditivo neste caso é dado por:
 = ) - P(
t 1) -(n + 1
f 1) -(n + 1
h F
2 µ⋅
sendo PF a média da família.
É de interesse este método quando não há nenhum efeito de meio comum
aos membros da família, ou este efeito é irrisório. É vantajosa para características
de baixa h2 e para tamanhos de famílias bastante elevados. Entretanto oferece um
sério risco de aumentar rapidamente a endogamia nas pequenas populações
fechadas em função da seleção.
1.7 Seleção COMBINADA
- a estimativa do valor genético de um candidato à reprodução pode ser feita
a partir de todas as informações disponíveis. Desde a difusão do uso da
computação, este método vem ganhando uma grande importância, principalmente
para o caso de características de baixa herdabilidade, entretanto sua
superioridade em relação aos demais, quanto à precisão, não é muito expressiva.
66
Capítulo 8. Seleção para várias características
1.Introdução
Na prática do melhoramento animal, seleção raramente é para apenas uma
característica. Os criadores estão mais interessados em melhorar várias
características ao mesmo tempo. Eles praticam seleção multi-característica.
Criadores de bovinos leiteiros geralmente selecionam para produção de leite e
características de tipo associadas à longevidade produtiva. Produtores de suínos
selecionam para fecundidade (tamanho da ninhada), taxa de crescimento e mérito
da carcaça.
O objetivo da seleção multi-característica é melhorar o valor genético
agregado (H) ou o mérito líquido, na população. Valor genético agregado é o valor
genético de um indivíduo para uma combinação de características.
Para definir o valor genético agregado para uma determinada situação, não
é preciso apenas determinar quais características são importantes para a seleção,
mas também determinar um valor relativo para cada característica. Definir o valor
genético agregado é responder a questão de “Qual é o melhor animal?”.
Assim, a prática de seleção multi-característica envolve mais que a teoria
genética. Ela reúne os princípios de seleção e as noções de valor das
características, isto é, valor econômico.
2. Métodos de seleção multi-característica
Em todos os tipos de programas de melhoramento, com exceção daqueles
que podem ser considerados industriais, seleção multi-característica é tanto uma
ciência como uma arte (Bourdon, 1997). Não existem regras prontas. Em geral, os
produtores concebem o valor genético agregado numa forma intuitiva, mas não o
definem matematicamente. Eles têm uma idéia do que seja o “melhor” animal e
selecionam indivíduos que eles consideram mais próximos daquele ideal.
Na teoria do melhoramento animal, a seleção multi-característica é dividida
em três categorias: seleção unitária ou de tandem; seleção usandoníveis
independentes de rejeição; e seleção usando índices de seleção econômicos.
2.1. Seleção unitária ou de tandem ou consecutiva
Neste tipo de seleção as características são ordenadas por sua importância
e a seleção é feita primeiramente para a característica mais importante por várias
gerações até que o nível desejado seja atingido. A seguir inicia-se a seleção para
a segunda característica mais importante até que a mesma atinja o nível desejado,
passando-se então para a terceira e assim por diante. Assim, a seleção é para
uma característica de cada vez, ignorando as demais.
67
Este é um procedimento simples, uma vez que a seleção é feita para uma
característica apenas. Entretanto, estabelecer a importância da característica ou o
nível a ser atingido não é tão simples.
A eficiência deste tipo de seleção depende muito das correlações genéticas
entre as características.
Quando duas características apresentam correlação genética favorável, a
seleção para a primeira característica irá melhorar a segunda característica
também. Por exemplo, seleção para taxa de crescimento irá melhorar a conversão
alimentar.
Quando as características são correlacionadas de forma desfavorável, a
seleção para a primeira característica irá levar a uma mudança na segunda
característica no sentido indesejável. Neste caso, ao iniciar a seleção para a
segunda característica pode-se perder o progresso que se havia conseguido para
a primeira. Um exemplo é seleção para peso ao ano, que irá levar a um aumento
indesejável do peso ao nascer.
As correlações genéticas entre as características fazem com que seja
impossível manter uma característica no seu nível ótimo usando seleção unitária.
Se a próxima característica de interesse é geneticamente correlacionada com a
última que foi selecionada, a seleção para esta nova característica vai causar
mudança genética na última característica, afastando-a do nível ótimo que havia
sido atingido. Por exemplo, quando o criador pára de selecionar para peso ao ano
e começa a selecionar para diminuir o peso ao nascer, o peso ao ano também vai
diminuir.
Apesar de suas deficiências, a seleção unitária, historicamente, tem sido
muito utilizada por várias razões. Algumas vezes o sucesso na seleção para uma
característica faz com que a importância dessa característica diminua. Por
exemplo, para aqueles rebanhos de bovinos de corte de raças européias, que já
têm alta taxa de crescimento, continuar selecionando para peso ao ano pode não
ser mais tão interessante. O melhoramento da facilidade de parto, resultante da
seleção para diminuir peso ao nascer, pode ser mais importante. Os criadores
também costumam seguir tendências e mudam com alterações do ambiente e do
mercado. Desta forma, eles mudam a ênfase da seleção de uma característica
para outra ou de um conjunto de características para outro.
A resposta esperada para cada característica pode ser calculada pelas
fórmulas comuns de resposta. A resposta para seleção direta para a característica
1 será:
1P
2
1i .h.iR σ=
e a resposta correlacionada será:
j11j1
PjAˆAAAj
.h.r.r.iRC σ= para as j características.
Sendo i = intensidade de seleção; h2 = herdabilidade; rA1Aj = correlação
genética entre as características; rAÂ = acurácia de seleção; e σP = desvio padrão
fenotípico.
2.2. Níveis independentes de rejeição
68
Este método permite a seleção concomitante para mais de uma
característica. Para cada característica é estabelecido um nível que o animal deve
atingir para ser mantido para reprodução. A falha em atingir o nível determinado
para qualquer uma das características de interesse faz com que o animal seja
rejeitado. Este método não permite que ocorram compensações entre as
características, isto é, se um animal apresentar níveis desejáveis para várias
características mas não atingir o estabelecido para somente uma delas, será
rejeitado. É possível que animais com valor genético superior para determinadas
características sejam rejeitados.
Como a seleção é feita independentemente para cada característica, a
fração total selecionada é o produto das frações selecionadas para cada
característica: p = p1 x p2 x ...pn. Por exemplo, se em bovinos de corte 80% dos
bezerros forem selecionados ao desmame com base no seu peso à desmama, e
60% dos restantes forem selecionados com um ano de idade, com base no peso
ao ano, então p = 0,80 x 0,60 = 0,48, que é a fração de sobreviventes. Na prática,
p, a fração final selecionada, é predeterminada pelas necessidades de
reprodução. Podem-se encontrar as porcentagens de cada característica
necessárias para produzir a proporção final desejada. A dificuldade é determinar
qual a pressão de seleção que deve ser aplicada a cada característica de forma a
encontrar a fração ótima para cada uma delas, isto é, a fração que levará ao maior
ganho genético.
Se as características não forem correlacionadas e tiverem distribuição
normal, e a seleção for com base em apenas um desempenho do próprio animal,
a resposta esperada (R) para cada característica (j) é:
jP
2
jjj hiR σ=
onde ij é a intensidade de seleção.
Se vj for o valor econômico para a característica j, a resposta econômica
total usando níveis independentes de rejeição para m características é:
m21 P
2
mmmP
2
222P
2
111 hivhivhivH σ++σ+σ=∆ L
Mesmo quando as características são não correlacionadas, o problema de
encontrar a combinação ótima para as frações a serem selecionadas para todas
as características é complicado. Várias combinações podem ser testadas de forma
a maximizar ∆H.
Quando as características são correlacionadas, o problema de calcular
respostas esperadas é muito mais complexo.
Níveis independentes de rejeição são muito populares. Eles permitem que
se faça seleção simultânea para mais de uma característica por meio de regras
simples. Eles são particularmente apropriados quando existe uma distinção clara
entre o que é aceitável e o que não é. A principal vantagem deste método é que,
para várias espécies, pode acompanhar o desenvolvimento biológico do animal,
isto é, a seleção ocorre em estágios correspondentes aos níveis de maturidade.
Por exemplo, em bovinos de corte, muitos criadores determinam níveis de rejeição
para peso ao nascer, peso à desmama e sobreano. Machos com pesos ao nascer
muito altos são castrados ainda bezerros. Aqueles com peso à desmama muito
baixos são rejeitados já na desmama e a seguir o mesmo acontece ao sobreano.
69
Com este tipo de seleção seqüencial diminui-se o custo por rejeitar os animais
ainda jovens (lembrar do BLUP).
Em muitas situações, alguma forma de rejeição independente é quase
sempre usada. Animais que estão abaixo de um certo limite aceitável para certas
características como fertilidade, resistência a doenças ou temperamento, são
provavelmente rejeitados de forma independente de seus valores genéticos para
características que tenham valor econômico definido mais claramente.
A dificuldade com este método é a determinação dos níveis de rejeição. Se
os padrões de seleção forem muito restritivos, podem não existir animais
suficientes que os atendam.
2.3 Índices de seleção econômicos
O índice de seleção reúne informações de diferentes fontes e de várias
características em um só valor para cada animal. A seleção se realiza ordenando
os indivíduos da população de acordo com seus índices.
Em termos de ganho genético, espera-se que os índices de seleção sejam
superiores aos métodos unitário e dos níveis independentes de rejeição.
Os índices de seleção são flexíveis no sentidode que cada característica
recebe uma ponderação e, desta forma, a superioridade em uma característica
pode compensar a mediocridade em outra, o que não sucede com os níveis
independentes de rejeição. Teoricamente, o índice combina as informações de
maneira ótima. O índice de seleção tem a seguinte forma:
nn2211 xbxbxbI +++= L
onde:
I = um valor de índice ou predição genética;
bi = fator de ponderação;
xi = uma informação ou evidência representada como desvio da média;
n = número total de características ou itens de informação.
Esta forma é semelhante à dos índices familiares descritos na parte de
predição de valor genético. Entretanto, existem duas diferenças em relação
àqueles índices.
A primeira diferença é que o valor do índice (I) não é uma predição genética
para apenas uma característica e sim para o valor genético agregado. O índice é
um número único que prediz o valor genético de um animal para uma combinação
ponderada de características.
Esta combinação ponderada de características que define o valor genético
agregado é chamada de “objetivos de seleção” e é representada pela equação:
mm2211 AvAvAvH +++= L
onde:
H = valor genético agregado ou objetivo de seleção;
vi = valor econômico para a característica i no objetivo de seleção;
Ai = valor genético para a característica i;
70
m = número total de características no objetivo de seleção.
O valor genético agregado é medido em unidades monetárias. Pode-se
entender o valor genético agregado como o valor genético para uma nova
característica: mérito econômico total. Esta nova característica pode ser expressa
por lucro para um empreendimento; lucro por animal ou uma medida alternativa de
eficiência econômica.
Os valores econômicos relativos (v1, v2, ...) que aparecem na equação para
H devem ser estimados, pois são os que determinam a importância que se atribui
a cada característica.
O peso econômico para cada característica no objetivo de seleção
representa a mudança no valor genético agregado (a mudança no lucro se esta for
a forma como o valor genético agregado estiver sendo medido) devida a um
aumento independente de uma unidade no desempenho para aquela
característica. Independente nesse contexto significa independente de mudanças
nos valores genéticos das outras características no objetivo de seleção. Os pesos
relativos das características no valor genético agregado variam segundo o sistema
de produção e comercialização.
É importante incluir no valor genético agregado somente aquelas
características que contribuem substancialmente para o valor econômico, pois
quanto maior o número de características consideradas simultaneamente, menor
deve ser o diferencial de seleção para cada uma delas.
O objetivo de seleção é constituído pelas características que devem ser
melhoradas geneticamente, isto é, as características que aparecem nos objetivos
de seleção são aquelas que são economicamente importantes. As características
que aparecem no índice de seleção econômico, por outro lado, devem ser aquelas
para as quais nós podemos colher informações de desempenho de forma fácil e
barata e que contribuem ou estão correlacionadas a características no objetivo de
seleção. Assim, as características que aparecem no objetivo de seleção podem ou
não ser as mesmas que estão no índice. Características no objetivo de seleção
que sejam economicamente importantes mas que apresentam alguma dificuldade
de mensuração são substituídas por características indicadoras. Por exemplo, em
gado de corte, o objetivo de seleção pode incluir as seguintes características: peso
ao sobreano, idade à puberdade e mortalidade do bezerro ao nascer. O índice de
seleção correspondente pode incluir: peso ao sobreano, perímetro escrotal e peso
ao nascer. Sendo que o perímetro escrotal é um indicador da idade à puberdade e
o peso ao nascer para a mortalidade de bezerros.
Uma segunda diferença entre os índices econômicos e os índices familiares
é a natureza dos x’s – a evidência. No índice que prediz o valor de uma única
característica, cada x representa um item individual de informação fenotípica – um
dado de desempenho ou a média de dados de desempenho de um grupo. Os x’s
nos índices de seleção econômicos podem ser itens individuais de informação
fenotípica da mesma forma, ou eles também podem ser as predições genéticas –
valores genéticos preditos.
71
3. Predição do valor genético agregado da forma clássica
As equações para predição dos ponderadores do índice de seleção (b’s)
são encontradas maximizando-se a correlação entre o índice de seleção (I) e o
valor genético agregado (H).
Considerando apenas duas características, para cada animal teremos:
2211 AvAvH +=
onde:
H = valor genético agregado;
A1 = valor genético aditivo para a característica 1;
A2 = valor genético aditivo para a característica 2.
Considerando x1 e x2 as medidas fenotípicas:
2211 xbxbI +=
Assumindo que os valores econômicos sejam conhecidos, nós encontramos
os ponderadores do índice (b’s) solucionando o sistema de equações:
1211
HxPP2
2
P1
bb σ=σ+σ
2221
Hx
2
P2PP1
bb σ=σ+σ
onde:
2
P
2
P 21
,σσ = variâncias fenotípicas para as características 1 e 2
respectivamente;
21PP
σ = covariância fenotípica entre as características 1 e 2;
21 HxHx
,σσ = covariâncias entre o valor genético agregado e as caract. 1 e
2 respectivamente.
)x,H(COV 1Hx1 =σ
)EIDA;AvAv(COV 11112211Hx1 ++++=σ
)A,Av(COV)A,Av(COV 122111Hx1 +=σ o restante é zero.
2111
AA2
2
A1Hx
vv σ+σ=σ
e
)x,H(COV 2Hx 2 =σ
72
2
A2AA1Hx 2212
vv σ+σ=σ
onde
2
A
2
A 21
,σσ = variâncias genéticas aditivas para as características 1 e 2
respectivamente;
21AA
σ = covariância genética aditiva entre as características 1 e 2
respectivamente.
O lado direito da equação será o mesmo para qualquer animal sendo
avaliado pelo seu próprio desempenho. Portanto o sistema de equações a ser
solucionado é:
211211
AA2
2
A1PP2
2
P1
vvbb σ+σ=σ+σ
2
A2AA1
2
P2PP1 221221
vvbb σ+σ=σ+σ
Todos os componentes da equação, com exceção de b1 e b2, são valores
numéricos, uma vez que as características 1 e 2 estejam definidas.
Em notação matricial pode-se representar o sistema de equações como:
GaPb =
e a solução seria:
GaPb 1−=
onde:
P = matriz de variâncias e covariâncias fenotípicas entre as características;
G = matriz de variâncias e covariâncias genéticas aditivas entre as
características;
b = vetor de soluções para os b’s;
a = vetor dos valores econômicos.
As equações podem incluir desempenhos de parentes e também
características no valor genético agregado que não estão nos critérios de seleção.
Embora teoricamente os índices sejam a melhor forma de seleção para
características múltiplas, existem algumas limitações:
1- Supõe-se que os pesos econômicos são conhecidos sem erros e que os
mesmos permanecem constantes dentro da amplitude de variação para as
diferentes características e não mudam com o tempo;
2- Os parâmetros genéticos e fenotípicos são bem conhecidos;
3- As médias dos diferentes grupos contemporâneos são geneticamente
semelhantes. Por isso são recomendados para utilização dentro de rebanho.
73
A eficiência do índice de seleção é expressa pela correlação entre o valor
genético agregado (objetivo) e o índice de seleção (critério): rHI.
O progresso genético esperado pela seleção peloíndice é dado por:
HHIirR σ=
onde:
i é a intensidade de seleção;
σH é o desvio padrão do valor genético agregado.
É possível calcular a resposta em cada característica do objetivo
individualmente ao se selecionar pelo índice.
4. Predição do valor genético agregado utilizando-se predições genéticas
obtidas por modelo misto
Um tipo mais promissor de índice econômico de seleção é um índice que
combina os ponderadores econômicos com predições genéticas obtidas com
procedimentos com propriedades BLUP (Best linear unbiased prediction),
conhecidos como modelos mistos. Este procedimento pode levar em conta as
diferenças genéticas entre grupos contemporâneos uma vez que a estimação dos
efeitos fixos e a predição dos valores genéticos são realizadas simultaneamente.
Neste caso, se as predições genéticas estiverem disponíveis para todas as
características do objetivo de seleção, a equação para o índice é a mesma que a
equação descrevendo o objetivo de seleção. Nenhuma conversão matemática é
necessária. Isto acontece porque a evidência usada para o índice é composta de
predições genéticas e não medidas fenotípicas. As predições genéticas podem ser
simplesmente substituídas no objetivo de seleção para produzir a predição do
valor genético agregado.
Matematicamente:
mm2211 AvAvAvH +++= L
e
mm2211 AˆvAˆvAˆvHˆ +++= L
e portanto:
mm2211 AˆvAˆvAˆvI +++= L
Caso os valores genéticos tenham sido obtidos de análises uni-
característica, este será um índice simplificado, já que não se levou em conta
correlação entre características. Muitas vezes, quando as correlações não foram
estimadas em grandes conjuntos de dados, este índice seria o mais indicado.
Com a utilização de modelos de predição dos valores genéticos multi-
características, as correlações entre as características são levadas em conta.
74
Capítulo 9. Relacionamento genéticos entre indivíduos
1.Coeficiente de parentesco
O coeficente de parentesco também chamado de “coeficiente de co-
ascendência” ou “coeficiente de parentesco de Malécot” é simbolizado por f e
definido como:“O coeficiente de parentesco entre os indivíduos X e Y (fX,Y) é a
probabilidade de que um alelo tomado ao acaso no individuo X seja idêntico
por descendência (ID) a um alelo tomado ao acaso no indivíduo Y.”
O coeficiente de parentesco é uma probabilidade, então assume valores
entre 0 e 1. Em função da definição acima, os alelos necessitam ser idênticos por
descendência (ID).
Dois alelos são ID se um deles é uma cópia direta um do outro ou se eles
são ambos cópias do mesmo alelo de um ancestral comum. Consequentemente,
indivíduos podem ter alelos ID, somente se tem pelo menos um ancestral comum.
Indivíduos que não têm ancestrais comuns, entretanto, podem ter alelos em certos
locos que são bioquimicamente idênticos, significando que eles têm a mesma
sequência de nucleotídeos. Alelos que são bioquimicamente idênticos, mas não
são idênticos por descendência são chamados Idênticos em Estado (IE).
Considere o indivíduo X com alelos i e j e o indivíduo Y com os alelos m e
n. O coeficiente de parentesco entre X e Y é simbolizado como fxy. A
probabilidade de que os alelos sejam ID é a probabilidade de que uma das quatro
identidades seja satisfeita, ou seja:
Xi ≡ Ym ou Xi ≡ Yn ou Xj ≡ Ym ou Xj ≡ Yn
em termos de probabilidade o coeficiente fxy é dado por:
4
n) j ( P m) j ( P n) i ( P m) P(i
FXY
≡+≡+≡+≡
=
O símbolo “≡” significa “é idêntico a”. Usando esta definição, o coeficiente
de parentesco entre qualquer par de indivíduos pode ser determinado.
Assim temos que:
*o coeficiente de parentesco entre filho e pai é ¼.
*o resultado do coeficiente de parentesco entre irmãos completos é ¼.
75
2. Relação genética aditiva
A relação genética aditiva entre dois indivíduos x e y, a qual é simbolizada
como, ax,y, é uma medida da semelhança entre os valores genéticos dos
indivíduos. Ela é muito próxima do coeficiente de parentesco.
A relação genética aditiva é a medida da semelhança entre valores
genéticos de indivíduos e na ausência de endogamia este valor pode ser
interpretado como uma correlação.
Em espécies diplóides, cada loco consiste de dois alelos e o valor
genético é devido à combinação dos efeitos de ambos os alelos. A semelhança
entre valores genéticos é então duas vezes o coeficiente de parentesco. Assim a
relação genética aditiva é igual a duas vezes o coeficiente de parentesco:
ax,y = 2 fx,y
Esta equação é geralmente válida, tanto para animais endogâmicos ou não.
Note que o coeficiente de parentesco é uma probabilidade, mas a relação
genética aditiva não é. Como qualquer probabilidade, o parentesco, assume
valores entre 0 e 1. Consequentemente, a relação genética aditiva assume valores
entre 0 e 2.
A relação genética aditiva entre dois indivíduos não endogâmicos é a
correlação entre seus valores genéticos:
axy = 2
A
yx )A,(A Cov
σ
É importante observar que o denominador é igual 2Aσ , porque os desvios
padrões de Ax e Ay são ambos iguais a σA dado que σA * σA =
2
Aσ .
A relação genética aditiva entre pais e filhos é ½ (se não existir
endogamia). Este resultado faz sentido: um progenitor transmite metade dos
genes para seus filhos, assim a semelhança é ½Assim a relação genética aditiva
entre irmãos completos, na ausência de endogamia, é igual a ½.
Devido à endogamia, as mudanças das variâncias dos valores genéticos,
consequentemente de aXY pode exceder o valor de 1. Os valores genéticos de
animais completamente endogâmicos têm uma variância genética aditiva que é
duas vezes maior que a variância genética aditiva da geração base (indivíduos
não endogâmicos). Em uma população com indivíduos completamente
76
endogâmicos, mas não aparentados, a variância genética aditiva é o dobro
daquela existente em uma população não endogâmica de indivíduos não
aparentados.
2.1 Utilizando método de passagem para calcular a relação genética aditiva
A relação genética aditiva muda no caso de existirem indivíduos
endogâmicos. A relação genética aditiva entre pais e filhos é ½ (1 + Fp), o qual é
igual a ½ no caso de pais não endogâmicos.
Com o objetivo de uma aplicação geral do método do coeficiente de
passagem tem-se que levar em consideração a endogamia. Sendo assim, a
seguinte fórmula, para se calcular a relação genética aditiva entre X e Y com um
ancestral comum W, é usada:
aX,Y = (½)
(n+p) (1 + FW)
em que :
n é o número de gerações entre X e W,
p é o número de gerações entre Y e W,
FW é o coeficiente de endogamia do ancestral comum W
Na Equação acima observa-se que a relação genética aditiva é multiplicada
por ½ para cada geração adicional que separa os indivíduos X e Y, isto porque
para cada passo de transmissão alélica há uma probabilidade de ½ de que um
determinado alelo seja transmitido. É importante observar que a relação entre um
filho e seus pais endogâmicos é ½ (1 + Fp).
A fórmula geral para calcular a relação genética aditiva entre X e Y pode
então ser escrita como:
∑
=
+ +=
n
1i
W
)p n(
XY )F 1( )2
1
(a
i
iionde ΣΣΣΣ indica a soma de todos os n passos de transmissão alélica
conectando X e Y. O subscrito i indica um passo específico com (ni + pi) gerações
separando X e Y via um ancestral comum Wi
3.Sistemas de Acasalamento: endogamia e coeficiente de endogamia
3.1. Introdução: sistemas de acasalamento e endogamia
No melhoramento genético clássico, existem duas formas básicas para se
alterar a constituição genética de uma população.
Uma é por meio da escolha dos indivíduos que serão pais da próxima
geração, das decisões sobre quantos descendentes eles vão produzir e por
77
quanto tempo eles permanecerão na população de reprodução. Estas são as
decisões de seleção.
Outra forma é por meio da decisão de quais machos serão acasalados a
quais fêmeas. Isto é, são as decisões relacionadas aos sistemas de
acasalamento.
Os sistemas de acasalamento podem realizados com base no fenótipo dos
indivíduos, que são os acasalamentos preferenciais positivos – somente animais
de mesmo fenótipo são acasalados – ou negativos – somente indivíduos de
fenótipos diferentes são acasalados. Os acasalamentos podem ainda ser
realizados com base no parentesco entre os indivíduos. Quando os indivíduos
acasalados são menos aparentados que a média da população nós temos a
exogamia, que inclui os cruzamentos. Quando os indivíduos acasalados são mais
aparentados que a média da população nós temos a endogamia.
Dois indivíduos são considerados parentes quando possuem um ou mais
ancestrais comuns ou têm uma linha de descendência direta. A consequênciade
dois indivíduos terem um ancestral comum é que eles podem ter em comum
réplicas dos genes presentes no ancestral, e se eles forem acasalados podem
passar essas réplicas para seus descendentes. Portanto, indivíduos endogâmicos
– isto é, descendentes produzidos por endogamia – podem carregar dois alelos
em um locus que sejam réplicas daquele mesmo alelo na geração prévia.
Existem dois tipos de identidade entre genes alelos, e dois tipos de
homozigose, como definido por Malécot (1948):
- genes idênticos em estado – são genes fisicamente idênticos, que têm uma
identidade funcional.
- genes idênticos por descendência – é um novo tipo de identidade, aquela
que se origina por replicação. Dois genes que tenham se originado da replicação
de um gene em uma geração prévia são considerados idênticos por
descendência. Genes idênticos por descendência também são idênticos em
estado.
Homozigotos de genes idênticos são chamados homozigotos idênticos ou
autozigotos. O termo alozigoto é usado para descrever homozigotos que não são
autozigotos.
3.2 Consequências da endogamia
3.2.1 Alteração de frequência genotípica
Como o animal endogâmico é filho de indivíduos parentes, e estes têm
genes que são réplicas idênticas dos genes do ancestral comum, há uma
probabilidade que esses genes venham a se encontrar no indivíduo endogâmico,
levando a um aumento da homozigose.
Para exemplificar vamos considerar um único locus com dois alelos A e a
com frequências gênicas p e q, respectivamente, sendo q = 1 – p; em uma
população em equilíbrio de Hardy-Weinberg; veja tabela abaixo. O coeficiente de
endogamia, F, para uma população pode ser definido como a fração de
decréscimo na frequência de heterozigotos que resulta em um aumento das
frequências dos homozigotos. Portanto, os genes de uma fração F dos 2pq
78
heterozigotos serão transferidos para os homozigotos. A frequência de Aa torna-
se:
f(Aa) = 2pq – 2pqF = 2pq (1 – F)
Dos 2 x 2pqF genes que saíram da subpopulação de heterozigotos para a
subpopulação de homozigotos, metade deve ser de alelos A e metade de alelos a,
isto é, 2pqF são alelos A e 2pqF são alelos a.
Os 2pqF alelos A ocorrerão aos pares no estado homozigoto, assim o
número de homozigotos AA formado é pqF. O mesmo acontece com os
homozigotos aa. Esses homozigotos são acrescidos aos homozigotos já
existentes na população p2AA e q2aa, que não resultam de endogamia. Portanto,
as frequências dos homozigotos se tornam:
f(AA) = p2 + pqF
substituindo q = 1 – p � p2 + p(1 – p)F = p2 + pF – p2F
f(AA) = p2(1 – F) + pF
e
f(aa) = q2 + pqF e, da mesma forma:
f(aa) = q2(1 – F) + qF
Em resumo:
Genótipo Frequência inicial com
acasalamento ao acaso
Frequência com coeficiente de
endogamia = F
AA p2 p2 + pqF = p2(1 – F) + pF
Aa 2pq 2pq – 2pqF = 2pq(1 – F)
aa q2 q2 + pqF = q2(1 – F) + qF
Observando a tabela acima, podemos verificar que:
1- a frequência de heterozigotos decresce em 2pqF;
2- aumenta a frequência de cada homozigoto pela mesma frequência pqF,
embora o aumento proporcional dependa de p2 e q2;
3- não se alteram as frequências gênicas;
79
4- quando a endogamia é máxima (F = 1 e 1 – F = 0) a população é
completamente homozigota com uma fração p de indivíduos AA e q de indivíduos
aa;
5- quando a endogamia é mínima (F = 0) e as condições de Hardy-Weinberg
existem, as frequências são as usuais sob equilíbrio de Hardy-Weinberg.
3.2.3 Depressão pela endogamia
Uma das conseqüências mais importantes da endogamia é a redução do
valor fenotípico médio principalmente de características associadas à capacidade
reprodutiva ou eficiência fisiológica. Este fenômeno é denominado depressão pela
endogamia. As pesquisas mostram que a endogamia tende a reduzir o valor
adaptativo dos animais. Portanto, características que são componentes do valor
adaptativo tais como características reprodutivas, viabilidade, mostram uma maior
redução pela endogamia do que as características produtivas.
Endogamia diminui a frequência de heterozigotos e aumenta a frequência
de homozigotos, portanto a depressão na média deve estar associada com a
diferença em valor genotípico entre homozigotos e heterozigotos.
Considerando a população abaixo:
Genótipo Frequência
genotípica F = 0
Frequência
genotípica F ≠ 0
Valor
genotípico
AA p2 p2 + pqF + a
Aa 2pq 2pq – 2pqF d
aa q2 q2 + pqF – a
Média da população F = 0:
M0 = p
2a + 2pqd – q2a = a(p – q) + 2dpq
Média da população F ≠ 0:
MF = (p
2 + pqF)a + (2pq – 2pqF)d – (q2 + pqF)a
= a(p2 + pqF – q2 – pqF) + 2pqd – 2pqdF
= a(p – q) + 2dpq – 2dpqF
MF = M0 – 2dpqF
Assim, a mudança na média devido à endogamia é –2dpqF. Com vários loci:
MF = ∑a(p – q) + 2∑dpq(1 – F)
= M0 – 2F∑dpq
Esta expressão mostra que:
80
1- A depressão da endogamia depende da direção da dominância. Se os
genes que aumentam o valor da característica são dominantes sobre os alelos
que reduzem o valor, então a endogamia irá resultar em uma redução na média,
isto é, uma mudança na direção dos alelos mais recessivos;
2- A depressão pela endogamia depende das frequências gênicas em cada
locus, aqueles com frequências intermediárias tendo um maior efeito sobre a
mudança na média (p = q = ½);
3- Quando os loci combinam aditivamente, a mudança na média devido à
endogamia é diretamente proporcional ao coeficiente de endogamia. Em outras
palavras, a mudança na média com o aumento de F é linear. Se existir interação
epistática entre os loci a relação entre a média e o coeficiente de endogamia não é
linear.
4. Aplicações da endogamia
1- Endogamia aumenta as chances de expressão de genes recessivos
deletérios, os quais irão permitir o descarte de indivíduos afetados e a
identificação e descarte dos animais portadores, diminuindo a frequência dos
genes recessivos deletérios. Entretanto o custo paraisto deve ser levado em
conta;
2- Permite a formação de linhagens endogâmicas para posterior cruzamento
com a formação de indivíduos mais heterozigotos que os da população não
endogâmica, para exploração da heterose;
3- Endogamia pode ser usada para fixar um tipo desejável (se a taxa
reprodutiva for suficiente para permitir seleção para eliminar os genes
indesejáveis) e conseguir uma maior uniformidade. Por exemplo, espera-se que a
progênie seja mais semelhante a um pai endogâmico que a um pai não
endogâmico. O parentesco de um pai não endogâmico com a sua progênie é ½,
enquanto que o parentesco de um pai endogâmico e sua progênie é ½(1 + F). Da
mesma forma, progênie de um pai endogâmico será mais semelhante que a
progênie de um não endogâmico: com meio irmãos seria (1 + F)/4 em lugar de ¼;
com irmãos completos com os dois pais endogâmicos (FP e FM) mas não
aparentados, seria [½ + ¼( FP + FM)] versus ½. Entretanto, a uniformidade
fenotípica para características quantitativas é mais difícil de atingir, uma vez que
essas características são poligênicas e dependem muito dos efeitos de ambiente.
5. Coeficiente de endogamia
O nível de endogamia de um indivíduo é medido pelo coeficiente de
endogamia (Fx).
“O coeficiente de endogamia de um indivíduo é a probabilidade de que
ambos alelos em um mesmo loco deste indivíduo sejam idênticos por
descendência”.
O coeficiente de endogamia é um parâmetro relativo a um indivíduo, ao
contrário dos parâmetros anteriormente descritos (coeficiente de parentesco e
81
relação genética aditiva), os quais são medidas do relacionamento entre
indivíduos.
O coeficiente de endogamia pode ser interpretado de duas formas: (1)
como a fração esperada de loci que estejam em autozigose (dois alelos idênticos
por descendência) em um animal; (2) como a fração de animais com o mesmo
padrão de ancestrais tendo genes idênticos por descendência em um locus em
particular.
Como o coeficiente de endogamia é uma probabilidade, ele varia de zero
para animais não endogâmicos a 1,0 para animais com endogamia máxima, ou de
zero a 100 em termos de porcentagem.
Por exemplo, se um animal tem um coeficiente de endogamia de 0,25 então
ele é dito ser 25% endogâmico. Isto significa que em um dado locus no indivíduo,
a probabilidade que dois genes naquele locus sejam idênticos por descendência é
0,25. E se a probabilidade de existirem dois genes idênticos por descendência em
qualquer um dos loci é 0,25 então podemos esperar que 25% dos loci do animal
contenham pares de genes que são idênticos por descendência. O coeficiente de
endogamia pode ser definido de forma equivalente como a proporção de loci
individuais contendo genes que são idênticos por descendência.
O nível de endogamia do descendente é determinado pelo parentesco
entre seus pais. O coeficiente de endogamia de um filho é então igual ao
parentesco entre seus pais.
Fz = fxy = ½ axy
Nesta equação pode-se observar que o coeficiente de endogamia pode
ser derivado da relação genética aditiva entre parentes. Então, um indivíduo é
endogâmico somente quando seus pais são parentes
O coeficiente de endogamia refere-se à proporção de locos que estão em
homozigose por descendência e é um limite inferior da fração total de locos em
homozigose. Se um indivíduo é endogâmico, existe uma probabilidade F de que
seus alelos sejam ID, provocando um aumento na relação genética aditiva destes
indivíduos com outros. Considerando-se um pai endogâmico com coeficiente Fp,
assim uma proporção Fp de seus locos são homozigotos por descendência e uma
proporção 1 - Fp não são homozigotos por descendência.
Assim para locos com endogamia o coeficiente de parentesco entre pais e
filhos é ½. Entretanto, somente uma fração Fp dos locos são endogâmicos e uma
fração 1 - Fp são não endogâmicos. Sendo assim, torna-se necessário ponderar
ambos os coeficientes de parentesco pelas suas probabilidades com a finalidade
de se obter um coeficiente de parentesco geral.
Probabilidade fo,P
Pai P não -endogâmico (1- Fp) ¼
Pai P endogâmico Fp ½
82
5.1. Cálculo do coeficiente de endogamia usando o método dos coeficientes
de passagem (Wright, 1921)
A fórmula para o coeficiente de endogamia do animal X é:
( )∑
=
++
+
=
k
1AC
AC
1nn
X F1
2
1
F
21
onde:
AC = ancestral comum aos pais de X;
k = número de ancestrais comuns no pedigree de X;
n1 = número de gerações separando o ancestral comum do pai de X;
n2 = número de gerações separando o ancestral comum da mãe de X;
FAC = coeficiente de endogamia do ancestral comum.
5.2. Cálculo do coeficiente de endogamia usando o método tabular
É um método para calcular o coeficiente de endogamia e parentesco
envolvendo a construção e atualização de uma tabela relacionando todos os
membros de uma população.
É um método mais eficiente que o dos coeficientes de passagem para
pedigrees complicados e quando são necessários os coeficientes de parentesco
de muitos animais. Outra vantagem deste método é que quando nascem novos
animais, os parentescos entre os animais mais velhos e mais novos podem ser
facilmente adicionados à tabela.
Neste método, o que se calcula é o numerador do coeficiente de
parentesco, ao que Van Vleck e cols. (1987) chamaram de “parentesco aditivo”
(a), que dá a covariância entre os valores genéticos de dois animais.
O parentesco aditivo é mais utilizado na prática que o coeficiente de
parentesco, uma vez que é utilizado para avaliação genética entre animais.
O método tabular se baseia no fato de que, se dois animais são
aparentados, então um ou ambos os pais de um deles é aparentado ao outro
animal do par. Assim, as regras são:
1- O parentesco aditivo (a) entre os indivíduos X e Y é igual ao parentesco
aditivo médio entre X e os pais de Y (ou Y e os pais de X)
Z
X
Y
A
83
Matematicamente, se PY e MY forem os pais de Y, então o parentesco aditivo entre
X e Y será:
( )
YY XMXPXY
aa
2
1
a +=
Então, conhecendo-se o parentesco aditivo entre os animais mais antigos, é fácil
calcular para os mais recentes.
2- O parentesco aditivo de um animal com ele mesmo é 1 mais o seu
coeficiente de endogamia. Assim:
XXX F1a +=
3- O coeficiente de endogamia de um animal é metade do parentesco aditivo
entre seus pais. Assim:
XXMPX
a
2
1
F = onde PX e MX são o pai e mãe de X.
As regras básicas para montar a tabela são:
(1) Determinar os animais que serão incluídos.
(2) Escrever os nomes ou números dos animais por ordem de nascimento, os
mais velhos primeiro, no topo da tabela (coluna) e à esquerda (linha).
(3) Acima da identificação dos animais no topo, colocar a identificação do pai e
da mãe dos animais, quando forem conhecidos.
(4) Colocar 1 na diagonal e somar a endogamia dos animais base (pais
desconhecidos) caso seja conhecida.
(5) Calcular o parentesco de acordo com:
( )
YY XMXPXY
aa
2
1
a += sendo PY e MY pai e mãe de Y.
(6) Na diagonal, somar o coeficiente de endogamia do indivíduo calculado
como:
XXMPX
a
2
1
F =
(7) Repetir regras 5 e 6 até completar a tabela.
84
Assim, no exemplo anterior teríamos:
– A A X
– – – Y
A X Y Z
A 1 1/2 1/2 1/2
X 1/2 1 1/4 5/8
Y 1/2 1/4 1 5/8
Z 1/2 5/8 5/8 1 + 1/8
8
1
FZ =
Os dois métodos calculam os coeficiente de endogamia e parentescoem
relação a uma população base, considerada como o zero.
Quando se usa o método dos modelos mistos, a matriz de parentesco
utilizada é a do parentesco aditivo, que dá a covariância entre os valores
genéticos dos animais.
5.3 Endogamia em uma população finita
Endogamia pode ocorrer em pequenas populações fechadas, já que
animais aparentados irão acasalar-se por acaso. Uma população fechada é
aquela em que nenhum animal de fora (e portanto não aparentado) é introduzido.
O aumento de endogamia nestas populações é relacionado ao número de
machos e fêmeas usados para reprodução. O decréscimo na fração de
heterozigotos de uma geração para a próxima em uma população fechada será
simbolizado por ∆F. Uma fórmula aproximada para ∆F é:
eN2
1
F =∆ onde Ne é o número efetivo de animais na população.
e
fme N4
1
N4
1
N
1
+=
onde:
Nm e Nf são os números de machos e fêmeas usados como pais, respectivamente.
Portanto,
fm N8
1
N8
1
F +=∆
85
Para a maioria das espécies domésticas o número de machos é o fator
mais importante no aumento da endogamia, uma vez que utiliza-se um número
menor de machos que de fêmeas.
O coeficiente de endogamia médio na geração t é uma função de ∆F:
t
t )F1(1F ∆−−=
Isto reflete a perda de uma fração ∆F de heterozigotos a cada geração com
correspondente aumento da fração de homozigotos. A perda de heterozigotos tem
várias conseqüências.
Como já vimos, endogamia tende a expor os genes recessivos deletérios,
que irão aparecer em homozigose.
Uma segunda consequênciaque não foi ainda discutida é que endogamia
reduz a variação genética dentro de linhagens endogâmicas. Considerando σ2g0 a
variação genética na população base, a variância genética dentro de uma
linhagem endogâmica na geração t será:
2
0gt
2
gt )F1( σ−=σ
Onde Ft é o coeficiente de endogamia médio dos animais na geração t.
Quando F se aproxima de 1, σ2gt aproxima-se de zero, teoricamente todos os
animais seriam geneticamente idênticos quando Ft = 1.
Entretanto, a diferença genética entre linhas endogâmicas aumenta como
função de Ft, sendo igual a 2Ft σ
2
g0. Assim, a variância total na geração t é (1 + Ft)
σ2g0.
Em resumo, na geração t:
Variância dentro de
linhas
: (1 – Ft)
σ2g0
Variância entre
linhas
: 2Ft σ
2
g0
Variância total : (1 + Ft)
σ2g0
O terceiro fenômeno do decréscimo na heterozigose, já discutido, é a
diminuição na média.
86
Capítulo 10. Sistemas de acasalamento: Cruzamentos
1. Introdução
Exogamia é o acasalamento de indivíduos menos aparentados que a média
da população a que pertencem. É o oposto à endogamia.
O tipo mais comum de exogamia é o “cruzamento”, que é o acasalamento entre
indivíduos de raças ou combinação de raças diferentes.
2. Termos utilizados
Os produtos de cruzamentos denominam-se Mestiços.
Hibridação - acasalamento entre indivíduos pertencentes a espécies
diferentes. Ex: cavalo (Equus caballus) x jumento (Equus asinus) = Híbridos (burro
ou mula).
Híbrido - designa também os produtos de acasalamentos entre indivíduos
de famílias e linhagens com patrimônios genéticos contrastantes.
Grau de sangue ou grupo genético - o termo "grau de sangue" é um
termo não muito adequado.
Indica no indivíduo mestiço, as frações de genes provenientes das
diferentes raça que integram o seu genótipo.
Quando se forma o zigoto, recebe 50% do patrimônio genético de cada um
dos seus pais. Dessa forma, para a determinação do grau de sangue de
indivíduos mestiços, basta multiplica os fenótipos parentais por 1/2 e somar os
resultados dessa operação.
Exemplo:
Charolês (CH) x Zebu (Z)
F1 1/2 CH + 1/2 Z x Z
F2 1/4 CH + 3/4 Z x CH
F3 5/8 CH + 3/8 Z x 5/8 CH + 3/8 Z
F4 Canchim
3. Consequências da exogamia
3.1. Aumento da heterozigose
O efeito primário da endogamia é o aumento da homozigose, enquanto que
o efeito primário da exogamia é o aumento da heterozigose.
O aumento da heterozigose pode ser demonstrado usando-se duas
populações sob acasalamento ao acaso, considerando um locus com dois alelos
(A e a).
A frequência gênica na população I seria:
f(A) = p e f(a) = q , então as frequências genotípicas seriam:
f(AA) = p2 , f(Aa) = 2pq , f(aa) = q2
87
Da mesma forma para a população II, com frequências gênicas f(A) = p’ e
f(a) = q’. E frequências genotípicas: f(AA) = p’2 , f(Aa) = 2p’q’ e f(aa) = q’2.
A diferença de frequência gênica entre as duas populações seria:
p – p’ = q’ – q = y ∴ p’ = p – y e q’ = q + y
Substituindo nas frequências genotípicas da população II, teríamos:
f(AA) = (p – y)2 , f(Aa) = 2(p – y)(q + y) , f(aa) = (q + y)2
A proporção média de heterozigotos para as duas populações seria:
2pq + 2(pq + py – qy – y2) = 2pq + py – qy – y2
2
Fazendo-se o acasalamento ao acaso das duas populações, as frequências
genotípicas seriam:
f(AA) = p(p – y) , f(Aa) = 2pq + py – qy , f(aa) = q(q + y)
A diferença entre a frequência de heterozigotos na população cruzada em
relação à média de heterozigotos nas populações parentais é:
2pq + py – qy – (2pq + py – qy – y2) = y2
Portanto, houve um aumento de y2 na frequência de heterozigotos. Isto é,
um aumento proporcional ao quadrado da diferença gênica entre as duas
populações. Assim, quanto mais distantes geneticamente forem as duas
populações parentais, maior o aumento de heterozigose. Com mais de um locus, a
diferença seria Σy2, a soma da diferença em relação a todos os loci.
3.2. Mascara a expressão de genes recessivos deletérios com efeito principal
Aumentando a heterozigose, exogamia tende a manter a maioria dos genes
recessivos na forma heterozigota, onde os mesmos não podem se expressar.
É importante entender que a exogamia não elimina genes recessivos deletérios.
Ao contrário, eles são mantidos na população embora sem se expressar,
dificultando a seleção contra os mesmos. Se a frequência destes alelos for baixa,
o impacto dos mesmos em uma população exogâmica é mínimo.
3.3. Heterose ou vigor híbrido
Fenotipicamente, a consequência da exogamia é um aumento da média
dos animais exogâmicos em relação à média das raças ou linhagens parentais, ao
que é chamado de heterose ou vigor híbrido. É a superioridade dos animais
88
mestiços em relação a média dos pais. É um efeito exatamente contrário ao da
endogamia, que leva a uma depressão na média.
Para mostrar o aumento na média causado pela exogamia, vamos
considerar o mesmo exemplo anterior de duas populações com frequências
gênicas p e p’ e q e q’ , respectivamente. A distribuição das frequências
genotípicas está resumida na tabela 1 abaixo:
Tabela 1.
Genótipo
Frequência
genotípica
da população I
Frequência
genotípica
da população II
Valor genotípico
AA p2 (p – y)2 + a
Aa 2pq 2(p – y)(q + y) d
aa q2 (q + y)2 – a
As médias das duas populações seriam:
MPI = a(p – q) + 2dpq
MPII = a(p – q – 2y) + 2d[pq + (p – q)y – y
2]
O valor médio das duas populações parentais seria:
( )PIIPIP MM
2
1
M +=
]y)qp(ypq2[d)yqp(aM 2P −−++−−=
A geração F1 será formada a partir do acasalamento aleatório de indivíduos
da populaçãoI com indivíduos da população II.
As frequências genotípicas para a geração F1 estão apresentadas na tabela 2.
Tabela 2.
Genótipo Frequência genotípica Valor genotípico
AA p(p – y) + a
Aa 2pq + y(p – q) d
aa q(q + y) – a
A média da geração F1 será:
)]qp(ypq2[d)yqp(aM
1F
−++−−=
89
A diferença da média do F1 em relação à média das duas populações
parentais é:
11 F
2
PF HdyMM ==−
Portanto, para que ocorra heterose é necessário que exista dominância e
que haja diferença de frequência gênica entre as populações cruzadas.
Considerando o efeito conjunto de todos os loci, e dado que os valores
genotípicos atribuídos a loci separados combinam-se aditivamente (sem
epistasia), a heterose produzida pelo efeito conjunto de todos os loci será:
2
F dyH 1 Σ=
Assim, podemos concluir:
1- Se alguns loci forem dominantes em uma direção e alguns em outra, seus
efeitos tendem a se cancelar e nenhuma heterose será observada. Assim, a
ocorrência de heterose depende de dominância direcional;
2- A quantidade de heterose é específica para aquele cruzamento em
particular. Os genes para os quais duas raças diferem não serão os mesmos para
quaisquer outras duas raças. Assim, raças diferentes terão valores diferentes de
∑dy2 e mostrarão quantidades de heterose diferentes.
Resultados de experimentos mostram que:
1- A porcentagem de heterose, em geral, difere entre cruzamentos recíprocos;
2- A porcentagem de heterose para uma determinada característica depende
das raças utilizadas para o cruzamento;
3- A porcentagem de heterose realizada pode ser dependente do ambiente no
qual a comparação é feita;
4- A porcentagem de heterose difere entre características;
5- Pequenas porcentagens de heterose para cada uma de várias
características podem se acumular resultando em uma alta porcentagem de
heterose para eficiência total de produção.
4. Razões para fazer cruzamentos
4.1. Explorar heterose
Heterose é muito importante para a produção de várias espécies
domésticas. Ela afeta principalmente características de fertilidade e sobrevivência
dos animais. Assim, ela se manifesta em características como taxa de concepção,
tamanho da ninhada, taxa de desmame, habilidade materna, características que
são muito importantes economicamente. Por esta razão, cruzamento é a forma
mais comum de exogamia em muitas espécies.
90
4.2. Complementariedade entre raças
Quando as populações diferem em valores genéticos, exogamia pode ser
usada para explorar a complementariedade entre raças, um melhoramento no
desempenho geral do descendente cruzado resultado do cruzamento entre raças
diferentes, mas tipos biológicos complementares. Por exemplo, em bovinos
leiteiros, as raças européias como a Holandesa foram selecionadas para alta
produção de leite em ambiente temperado, enquanto que as raças zebus foram
selecionadas, ou melhor, são adaptadas ao ambiente tropical. No Brasil, procura-
se com o cruzamento explorar a produção de leite das raças européias e a
adaptação do zebu. A forma clássica de complementariedade é produzida pelo
acasalamento de machos superiores para características paternas com fêmeas
superiores para características maternas. O descendente herda características
importantes para o mercado de seu pai e se beneficia do ambiente materno
proporcionado por sua mãe.
4.3. Incorporação de genes desejáveis na população mais rápido do que
seria possível por seleção
Por exemplo, um criador de ovinos da raça Targhee quer aumentar a
frequência de partos múltiplos. Para fazer isto por seleção levaria gerações,
entretanto cruzando com uma raça prolífica como a Finnish Landrace iria produzir
uma população cruzada em uma geração que mostraria um grande aumento na
frequência de gêmeos.
5. Mensuração da heterose
Na prática, a heterose é mensurada como a diferença entre o desempenho
médio dos animais cruzados e a média de desempenho das linhas ou raças
parentais puras. Assim:
PF PPH 1 −=
onde:
H = heterose medida na unidade da característica;
1F
P = média de desempenho dos cruzados;
PP = média de desempenho das duas raças parentais, sendo:
2
PP
P 21
PP
P
+
=
onde:
21 PP
P,P = médias de desempenho das raças parentais 1 e 2,
respectivamente.
91
Heterose, frequentemente, é expressa em termos de porcentagem, isto é,
porcentagem do desempenho médio das raças parentais. Assim:
100
P
PP
%H
P
PF1 ×
−
=
A heterose pode ser individual, materna ou paterna. Se o descendente
cruzado tem um desempenho superior ao dos seus pais puros, nós atribuímos
este aumento no desempenho à heterose individual. Se as mães cruzadas são
melhores que as puras nós atribuímos isto à heterose materna. Se os pais
cruzados são mais férteis nós entendemos que é devido à heterose paterna. Um
exemplo na produção de suínos: os leitões cruzados sobrevivem melhor e
crescem mais rápido que os puros; as matrizes cruzadas produzem leitegadas
maiores e mais pesadas; os reprodutores cruzados aumentam a taxa de
concepção.
6. Perda de heterose
A heterose é maximizada na F1 ou no primeiro cruzamento entre
populações não aparentadas. A pergunta é: o que acontece nas próximas
gerações?
Vamos voltar ao nosso exemplo de um locus com dois alelos (A e a) em
que havíamos encontrado as médias das populações parentais e da F1. Em
resumo, a média das populações parentais era:
]y)qp(ypq2[d)yqp(aM 2P −−++−−=
e a média da F1:
)]qp(ypq2[d)yqp(aM
1F
−++−−=
Fazendo-se o acasalamento aleatório entre os indivíduos da população F1,
para formar o F2, temos:
Genótipo Frequência genotípica na F2 Valor genotípico
AA (p – ½y)2 + a
Aa 2(p – ½y) (q + ½y) d
aa (q + ½y)2 – a
A média da geração F2 será:
92
]y
2
1
)qp(ypq2[d)yqp(aM 2F2 −−++−−=
E a heterose em F2:
2
PFF dy
2
1
MMH
22
=−=
Assim, a heterose na F2 é metade daquela na F1. A F2 ainda apresenta
heterose em relação aos puros. A heterose que permanece em gerações após a
F1 é a heterose retida ou vigor híbrido retido. Normalmente a heterose retida é
expressa como uma proporção da heterose máxima que ocorre na F1.
A frequência gênica na F2 é igual a da geração F1, a população está em
equilíbrio. Assim, espera-se que a heterose se mantenha constante a partir da
geração F2. A idéia de que o nível de heterose retida é constante em gerações
mais avançadas é, em geral correta, mas depende de duas pressuposições:
(1) A endogamia é evitada, o que é possível quando se trabalha com uma
grande população;
(2) O modelo de dominância é apropriado, isto é, não está ocorrendo epistasia,
ou a mesma não é importante. Isto parece ser verdade na maioria dos casos, mas
não é sempre.
Seleção a longo prazo em algumas populações endogâmicas, parece ter
fixado certos alelos, formando blocos de loci contendo combinações epistáticas
favoráveis. Blocos epistáticos permanecem intactos em uma população
endogâmica, mas o cruzamento introduz novos alelos, fazendo com que os blocos
se quebrem. Se os loci que são parte de um bloco epistático estão localizados em
cromossomos diferentes ou têm uma ligação distante, o bloco é quebrado logo no
primeiro cruzamento e qualquer perda de valor de combinação gênica vai se
refletir no nível de heterose da F1. Entretanto, se alguns destes loci forem
intimamente ligados, o bloco vai se quebrar gradualmente em várias gerações
devido ao “crossingover”. A perda de valor de combinação gênica causada pela
recombinação de alelos ligados nos cruzados é chamada de “perdas por
recombinação”. Isto é, perdas por recombinação são as perdas em valor causadas
pela quebra gradual de blocos epistáticos favoráveis de loci ligados em gerações
avançadas de certos cruzados.
Quando a perda por recombinação é importante, a heterose retida não
permanece constante após a geração F2, declinando até atingir o equilíbrio.
7. Predição da heterose
No melhoramento genético, para tomar decisões a respeito de
cruzamentos, é importante conhecer quanta heterose pode-se esperar de um
determinado cruzamento.
93
Se as raças envolvidas forem conhecidas, bem como a proporção de cada
raça nos pais e mães; se existirem estimativas de heterose na F1 para cada
combinação de raças, ou a heterose é a mesma para todas as combinações; e se
for possível assumir o modelo de dominância para a heterose (isto é, não ocorrem
perdas por recombinação); então é possível predizer a heterose retida para
qualquer cruzamento usando uma fórmula relativamente simples.
∑∑
= =
=
n
1i
ij1
n
1j
djsiR HˆFppHˆ
onde:
RHˆ = heterose retida predita;
sip = proporção da raça i no pai;
djp = proporção da raça j na mãe;
ij1HˆF = heterose na F1 para a característica no cruzamento das raças i e j;
n = número total de raças envolvidas.
Vale lembrar que quando i = j , F1Ĥij = 0.
Exemplo de aplicação:
♂ B
2
1
A
2
1
X ♀ C
2
1
B
4
1
A
4
1
Assumindo que as heteroses nas diferentes F1 sejam:
A x B ⇒ F1Ĥ = 2,7kg
A x C ⇒ F1Ĥ = 5,5kg
B x C ⇒ F1Ĥ = 4,0kg
Calcule a heterose retida deste acasalamento.
0,4
2
1
2
1
0
4
1
2
1
7,2
4
1
2
1
5,5
2
1
2
1
7,2
4
1
2
1
0
4
1
2
1
HˆR ⋅⋅+⋅⋅+⋅⋅+⋅⋅+⋅⋅+⋅⋅=
kg05,3HˆR =
94
8. Sistemas de cruzamentos
Existem vários sistemas de cruzamentos, e vamos apresentar os sistemas
básicos que podem ser modificados ou usados em conjunto.
8.1 Sistema de cruzamentos terminal
Neste sistema, fêmeas de uma determinada raça ou cruzamento são
acasaladas com touros de uma outra raça e todos os descendentes são
destinados ao mercado. São sistemas nos quais fêmeas de raças maternas (raças
puras ou cruzadas que são superiores para características como taxa de
concepção, tamanho da ninhada, leite e habilidade materna) são acasaladas a
reprodutores de raças paternas (raças que são superiores para características
paternas tais como taxa de crescimento e características de carcaça) para
produzir progênies que são especialmente desejáveis do ponto de vista do
mercado. As fêmeas produzidas neste tipo de cruzamento não são utilizadas para
reposição, mas são vendidas para o abate.
Estes sistemas produzem altos níveis de heterose, mas a
complementariedade é também muito importante. Eles são especialmente
apropriados quando o ambiente físico e/ou econômico favorece um tipo biológico
para as mães e o mercado favorece um tipo biológico diferente para o
descendente.
Neste sistema, as fêmeas de reposição podem ser compradas ou
produzidas pelo acasalamento de raças puras, dentro do próprio sistema.
Exemplo esquemático com três raças:
♂ X ♀
Raça materna Raça materna
A A
♂ são vendidos ♀ em excesso
♂ X ♀
Raça materna Raça materna
B A
♀ ♂
♂ são vendidos F1 materna Raça terminal
95
B
2
1
A
2
1
X C
B
4
1
A
4
1
C
2
1
F1 ⇒⇒⇒⇒ mercado
Os produtos F1 têm heterose máxima e exploram a complementariedade.
As progênies têm produção uniforme já que todos têm a mesma
composição genética. É um sistema simples. A dificuldade é a reposição de
fêmeas. Elas podem ser compradas fora, e neste caso tem que haver
disponibilidade de fêmeas. Ou podem ser produzidas, e neste caso tem que se
manter um rebanho de fêmeas puro para produzir as fêmeas de reposição.
8.2. Sistema rotacionado ou rotacional ou alternativo
É um sistema de cruzamentos no qual gerações de fêmeas são alternadas
entre raças de machos de forma que elas sejam acasaladas aos machos cuja
composição racial é a mais diferente da delas próprias. Isto é, a raça dos machos
se alterna a cada geração.
Neste sistema, as fêmeas cruzadas são utilizadas para reposição e mantêm
níveis altos de heterose limitando o retrocruzamento. Podem existir diversos tipos
de cruzamentos rotacionados, utilizando machos puros ou cruzados; usando todas
as raças de machos simultaneamente ou usando-se em seqüência.
A mais comum é a que usa machos de raças puras, todas as raças ao
mesmo tempo, ao que Bourdon (1996) denominou de cruzamento rotacionado
espacial.
O esquema de cruzamento rotacionado com duas raças pode ser
observado abaixo:
96
Descendentes machos e aquelas fêmeas que não são mantidas para
reprodução são vendidas.
Em termos de composição genética, a cada geração tem-se:
Geração
Genótipo % Raça
Pai Mãe Descendente A B
1 A B ½ A ½ B 50 50
2 A ½ A ½ B ¾ A ¼ B 75 25
3 B ¾ A ¼ B 3/8 A 5/8 B 38 62
4 A 3/8 A 5/8 B 11/16 A 5/16 B 69 31
∶ ∶ ∶ ∶ ∶ ∶
n B 2/3 A 1/3 B 1/3 A 2/3 B 33 67
n+1 A 1/3 A 2/3 B 2/3 A 1/3 B 67 33
A predição da retenção de heterose, após a estabilização da população,
pode ser feita usando-se a seguinte fórmula:
100
12
22
%H
n
n
R ×
−
−
= onde n é o número de raças envolvidas.
Assim, com duas raças seria:
%67100
12
22
%H
2
2
R =×
−
−
= e com três raças: %86%HR =
♀♀♀♀
Composição genética
com maior proporção
da raça B
♀♀♀♀
Composição genética
com maior proporção
da raça A
♀ ♀ ♀ ♀ reposição
♀ ♀ ♀ ♀ reposição
♂ ♂ ♂ ♂ Raça A ♂ ♂ ♂ ♂ Raça B
97
A heterozigose será de 67% da observada na F1 (100%). Assim, assumindo
que a heterose tem uma retenção linear com a heterozigose, a retenção de
heterose neste sistema de cruzamento é de 67% usando duas raças e 86%
usando três. Com mais de duas raças este sistema já torna-se muito complexo. As
principais vantagens deste tipo de cruzamento são a utilização das fêmeas para
reposição – fêmeas cruzadas, em geral, têm maior habilidade materna – e
também a manutenção da heterose.
Entretanto, não é um sistema muito simples. Os animais têm que ser
identificados e, se as raças utilizadas forem muito diferentes entre si, pode ser
necessário que se tenham manejos específicos de acordo com a composição
genética do grupo.
8.3. Cruzamento absorvente
Neste caso, as fêmeas são acasaladas por gerações seguidas com machos
de uma mesma raça. Desta forma a raça das fêmeas vai sendo absorvida até que
todos os animais sejam considerados de uma outra raça (raça do macho). Por
exemplo, o produtor tem fêmeas da raça A e quer mudar para uma população da
raça B. O método para fazer isto é acasalar continuamente suas fêmeas com
machos da raça B. A cada geração a proporçãode genes da raça B aumenta.
Veja esquema abaixo:
Geração
Genótipo Proporção da raça nos
descendentes
Macho Fêmea A B
1 B A ½ ½
2 B ½ A ½ B ¼ ¾
3 B ¼ A ¾ B 1/8 7/8
4 B 1/8 A 7/8 B 1/16 15/16
5 B 1/16 A 15/16 B 1/32 31/32
Após 5 gerações, para a maioria das raças, os animais são considerados
puros por cruza.
Este é um processo muito usado para substituir uma raça por outra.
8.4. Compostos e raças compostas ou sintéticas
Um animal composto é um cruzado com no mínimo duas e tipicamente
mais de duas raças na sua composição. Compostos são acasalados entre si,
mantendo um nível de heterose que é normalmente associado a sistemas
tradicionais de cruzamentos. Uma raça composta é uma raça formada a partir de
duas ou mais raças e vai se beneficiar da heterose sem cruzar com outras raças.
98
A composição genética dos compostos pode ser variável. Por muito tempo
utilizou-se a formação de compostos de duas raças na composição 5/8 A 3/8 B.
Entretanto, hoje este conceito é mais amplo e compostos com 4 ou mais raças
têm sido estabelecidos.
A manutenção de heterose nos compostos, assumindo o modelo de
dominância, pode ser calculada como:
100p1%Hˆ
n
1i
2
iR ×
−= ∑
=
Onde pi é a proporção da i-ésima raça na composição genética do animal
formado a partir de n raças.
Por exemplo, para um composto de duas raças sendo ½ A ½ B.
%50100
2
1
2
1
1%Hˆ
22
R =×
+
−=
Como os animais de uma raça ou população composta são todos da
mesma composição genética, estes animais são mantidos e selecionados como
uma raça pura. O desempenho é tão uniforme quanto de uma raça pura. É um
sistema simples.
10. Referências Bibliográficas
BOURDON, R.M. Understanding Animal Breeding. 2 ed. Upper Saddle River,
2000. 538p.
ROBERTSON, A. Optimum group size in progeny testing and family selection.
Biometrics. v.13, p. 442-450, 1957.
Referência: Material baseado e adaptado da apostila da Dra. LÚCIA GALVÃO DE ALBUQUERQUE da disciplina métodos
de melhoramento animal (Unesp - Jaboticabal) , do material do Prof. Tarcísio de Moraes Gonçalves da UFLA e de alguns
livros da área.