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JAKOB VON UEXKÜLL, NASCEU NA ESTÓNIA 
EM 1864; ESTUDOU ZOOLOGIA NA UNIVER­
SIDADE DE DORPART E FISIOLOGIA NA UNI­
V E R S ID A D E DE H EID ELBERG . OS SEUS 
-TRABALHOS SOBRE O «MUNDO-PRÓPRIO 
E MUNDO-INTERIQR DOS ANIMAIS» FORAM 
NÃO SÓ PIONEIROS, CRIANDO RAMO CIEN­
TÍFICO, MAS TAMBÉM, ATÉ HOJE, DEFINI­
TIVOS, JA QUE 0 ,áEU CONCEITO DE CICLO- 
-DE-FUNÇÃO JAMAIS FOI CONTESTADO OU 
U LTR A P A S S A D O . V IA JO U POR TO DO 
O MUNDO, çj^MO INVESTIGADOR E CONFE­
RENCISTA. pÒUTOROU-SE TAMBÉM EM MEDI­
CINA, PELjjí UNIVERSIDADE DE HEIDELBERG 
E FOI PROFESSOR NA DE HAMBURGO E NA 
DE KIEL, TENDO SIDO GALARDOADO DOUTOR 
HONORIS CAUSA POR OUTRAS UNIVERSI­
DADES EUROPEIAS
T r a d u ç ã o d e
A LBERTO CAN D EIA S e A N ÍBA L GARCIA PE R E IR A 
♦
Capa de 
A. PEDRO 
*
T ítu lo da edição original 
ST R E IFZ U G E DURCH D IE UM W ELTEN 
VON T IE R E N UND M EN SCH EN 
*
Reservados todos os direitos pela legislação em vigor 
*
Edição fe ita por acordo com a 
BOW OHLTS D EU TSCH E EN ZY K LO PÄ D IE
C O L E C Ç Ã O V I D A E C U L T U R A
J A K O B V O N U E X K Ü L L
Dos animais 
e dos homens
Digressões pelos seus próprios m undos 
D o u trin a do Significado
EDIÇÃO «LIVROS DO BRASIL» LISBOA 
Rua dos Cae t anos , 22
UM PRECURSOR DA NOVA BIOLOGIA
por A do lf Portmann
A obra de Jacob von Uexküll veio a ter resultados 
fecundos nas ideias e nas tarefas da biologia actual. As 
investigações dos nossos dias falam de mundos-próprios 
dos animais no sentido particular que Uexküll atribuiu a 
este conceito e apresentam ciclos-de-função do ser vivo 
exactamente como ele no-los tinha definido em dezenas 
de anos de labor intenso. Se hoje encaramos os fenóme­
nos da vida não só como causa de certos efeitos mas 
também como partes componentes de um conjunto 
preexistente devemo-lo principalmente ao seu trabalho.
A nova geração, que agora começa a trabalhar, já não 
teve oportunidade de o conhecer e quase não mantém 
com a sua obra relações directas. Uexküll morreu durante 
os anos negros do fim da Segunda Grande Guerra e, 
na confusão desse período, muitos investigadores se 
esqueceram de quanto ficaram devendo a esse homem 
que foi, simultaneamente, um grande biólogo e um génio 
de forte personalidade. Vamos acompanhar a elaboração 
e a influência desta obra notável, para entrarmos depois 
na própria natureza dos dois trabalhos mais recentes, 
reunidos neste volume.
[ 5 ]
A AUTONOMIA DO SER VIVO
O que Uexküll trouxe de novo ou simplesmente apro­
fundou, a partir\de investigações já feitas, teve o seu 
início na última década do século passado, nos anos que 
se seguem imediatamente aos sugestivos estudos de 
Hans Driesch. As experiências de Driesch com as pri­
meiras formas embrionárias do ouriço-do-mar tinham 
revelado particularidades de desenvolvimento que deixa­
vam transparecer nitidamente a autonomia do ser vivo e 
contnibuíram também de maneira definitiva para que, na 
busca de uma interpretação do ser vivo, se afirmasse, 
com nova força, a par da interpretação mecanista domi­
nante, a outra possibilidade: o vitalismo. Se, daí em 
diante, caem em desuso os termos mecanismo e vita­
lismo, por se ter reconhecido amplamente a existência 
de uma autonomia relativa, de uma independência, do 
ser vivo, também para este facto tão importante deu 
larga contribuição o trabalho criador de Jacob Uexküll.
A sua obra foi muito particularmente sugerida pela 
vida dos animais marinhos. E é mais uma vez a utilização 
genial deste campo das formas animais marinhas que 
lhe revela novos factos acerca da função dos músculos 
e nervos e das relações com o meio. Os movimentos dos 
espinhos do ouriço-do-mar, os movimentos das lapas ou 
da medusa, o estímulo da sombra que actua no ouriço- 
-do-mar, a maneira como os vermes ou os espatangói- 
des (1) se ocultam na areia, a observação da vida dos 
chocos e das lagostas — cada um destes estudos é um 
raio de luz que ilumina as densas trevas da vida marinha.
Já nestes primeiros trabalhos de fisiologia se dese­
nham os contornos de uma concepção de organismo que 
está em flagrante oposição com as ideias ainda larga­
mente aceitas no seu tempo, que vêem no organismo o
(’) Ouriços-do-mar de simetria bilateral.
[ 6]
resultado de processos ocasionais de transformação, dos 
quais a selecção natural manteve os favoráveis, permi­
tindo assim a evolução das formas vivas.
Desde o princípio, Uexküll dirige a atenção do obser­
vador para as propriedades supermecânicas da matéria 
viva, para o facto misterioso de que no organismo adulto 
se nos apresenta um todo organizado segundo um plano. 
Nós verificamos, impressionados e surpreendidos, que 
este plano já actua no óvulo e continua no desenvolvi­
mento individual deste. Uexküll já tinha mostrado há 
muito, em expressivas descrições, o que existe de 
extraordinário na matéria viva, no protoplasma. Esta 
necessidade de expor com clareza impeliu-o toda a sua 
vida para o género de comunicação mais capaz de atingir 
um largo círculo de pessoas interessadas no assunto. 
Tornou-se um mestre na exposição arguta e incisiva da 
sua concepção da natureza. Era-o na explanação oral e é-o 
também, com igual vigor e poder de sugestão, nos seus 
escritos. O nunca se ter integrado nas verdadeiras activi­
dades da ciência académica retardou, porventura, a 
expansão das suas ideias no campo espiritual da Univer­
sidade, mas permitiu, por outro lado, que tirássemos pro­
veito de muitos trabalhos seus, estimulantes e combati­
vos, que possivelmente seriam incompatíveis com a faina 
do ensino.
CICLO-DE-FUNÇÃO E MUNDO-PRÓPRIO
A concepção de ser vivo, de Uexküll, encontrou a sua 
integral explanação nas obras Um welt und Innenwelt der 
Tiere, 1921, e Theoretische Biologie. A primeira trata com 
mais pormenor da observação de factos particulares da 
vida das mais diversas formas animais; a segunda, mais 
abstracta, é uma tentativa para ajustar o estudo da vida 
animal, principalmente com a posição filosófica inspirada 
em Kant.
[ 7]
Uexküll tem o seu lugar histórico na solução da 
antiga querela travada à volta das concepções mecanista 
e v ita lis ta do ser vivo. Pela influência da época, da escola, 
e da natureza fisiológica do trabalho, está ligado de várias 
maneiras — e mais solidamente do que ele próprio era 
capaz de ver — à interpretação mecanista, para a qual, 
aliás, era solicitado pelo mais íntimo do seu ser. Verifica, 
assim, como eminente fisiólogo da vida animal inferior, 
as grandes possibilidades da simplificação mecanista, 
que concebe, por vezes/como mecânico cada um dos sis­
temas da vida animal. Ele considera como maquinismos 
as estruturas mais evoluídas. Assim, para ele, «a amiba 
é menos maquinismo que o cavalo» porque dispõe de 
menos estruturas adultas. Finalmente, Uexküll também 
se aproxima da interpretação mecanista quando isola a 
substância e a concebe como dirigida por uma forma de 
actividade não dimensional. São pois os «impulsos» — 
agentes não espaciais de ocorrências espaciais — que, 
por um processo morfogenético conferem à substância 
uma contextura mecânica. O protoplasma, como um todo, 
é sempre supermecânico.
Na luta que travou por esta concepção, Uexküll 
emparelha com Hans Driesch. Mas em breve se manifesta 
a originalidade das suas investigações, quando, no núcleo 
do seu trabalho, se começa a levantar, a cada passo, uma 
questão soberana: como deve então entender-se a rela­
ção entre o ser vivo e o meio quFõ~cTrcunHã?~A pãrtTF 
de 1910, começa também a expor, de maneira mais inci­
siva, as suas ideias fundamentais, com que ajudou a for­
mar, tão decididamente, a biologia dos tempos futuros. 
Duas dessas ideias directrizes vieram a tornar-se parti­
cularmente importantes.
Uexküll verificou uma correlação estrutural, já exis­
tenteno óvulo, entre o corpo do animal e certos factores 
do ambiente, sejam estes de natureza inanimada, orga­
[ 8 ]
nismos ou até inimigos e chamou a essa correlação 
«ciclo-de-função». O ambiente tem notas ou sinais, no 
verdadeiro sentido destas palavras: estruturas que o 
animal assinala por meio dos órgãos sensoriais consti­
tuídos para esse efeito e para as quais se elaboram res­
postas e reacções especiais no organismo. Quanto às 
possibilidades de relação ,d e -, um organismo com o 
ambiente, elas estão já determinadas segundo qualidade 
e i ntens i dadé7 por estrüturas pre viámente~-or-qaaizadas..
Os diversos ciclos^de-função, no seu conjunto, deter­
minam uma secção de propriedades com significado na 
vida do animal. Elas são, no âmbito mais largo da natu­
reza, a parte que no caso respectivo forma o ambiente 
limitado e típico de uma espécie animal.
OS «PAPÉIS» DAS COISAS NO CENÁRIO DA VIDA;
O ESTUDO DO SEU SIGNIFICADO
Na vida animal, as coisas são portadoras de signi­
ficados, têm nela papéis a desempenhar. Ao referir-se 
a este facto potencial e real, Uexküll revelou à investi­
gação biológica um aspecto do ser vivo que, nas Ciências 
Naturais do século XIX, alguns tinham votado a inteiro 
esquecimento e outros simplesmente banido, como não 
científico, do domínio dos estudos biológicos.
Guiados por Uexküll, encontramos circunstâncias que 
não podem entrar, reduzidas a medidas e números, numa 
explicação matemática da natureza, circunstâncias que 
dizem respeito a um aspecto da vida que é complementar 
de todas as conclusões obtidas por métodos quantitati­
vos. O mundo das qualidades experimentadas, com as 
suas cores e formas, os seus sons e aromas, as suas 
dores e os seus prazeres, aparece então como o objecto 
primacial da investigação biológica. Com Uexküll, o
[9 ]
sujeito percipiente é tomado, pela primeira vez, como 
objecto de investigação positiva. Neste mundo comple­
mentar, tornh-se essencial o que no outro não passa de 
secundário; é\, pelo contrário, insignificante o que ali se 
tomava como decisivamente importante. Sucede assim, 
ser indiferente no mundo dos sujeitos se uma cor, como, 
por exemplo, o azul do céu, depende do carácter de uma 
combinação química ou se resultou de determinadas 
estruturas físicas. O importante, neste mundo, é que o 
azul se apresenta como fenómeno experimentado e que, 
como tal, desempenha no cenário da vida papéis diversos 
e rigorosamente determinados.
E com que sagacidade dirige Uexküll esta introdução 
do sujeito na biologia! Ele afirma que as coisas do 
ambiente possuem um tom ou «teor» prático, quer dizer, 
que lhes pertence, conforme o seu papel, uma qualidade 
qüe~nÕs"véFdàdèiramente não conhecemos no seu con­
teúdo" subjecfivõ mas- cuja actividade é possível discernir 
~através"dò comportamento do animal. Com o reíevo dado 
ã- esfã_tõnãTiFáção dos objectos inicia-se uma orientação 
na investigação que teve finalmente de reconhecer, como 
uma das últimas realidades biologicamente inteligíveis, 
o complemento e a correspondência interiores dessa 
tonalização: a disposição íntima.
A tonalização, atribuição dos teores, eis uma das 
primeiras verificações no caminho da subjectividade 
oculta. Uexküll remonta, muito conscientemente, ao 
grande biólogo Joh. Müller (1801-1858), cuja concepção 
da vida comentou mais tarde com desenvolvimento e cujo 
conceito de energia específica dos sentidos cedo se reve­
lou um poderoso estímulo no seu pensamento. «Qualquer 
que seja o meio por que se excite um olho» — escreve 
Müller-— «seja ele esfregado, puxado, comprimido, gal­
vanizado ou receba estímulos que de outros órgãos lhe 
são transmitidos por simpatia, em resultado de todas 
estas causas diferentes, como se se tratasse de causas
[ 1 0 ]
idênticas, meramente estimulantes, o nervo óptico é sem- 
pre afectado sob a forma de sensação luminosa, conside­
rando-se a srproprTõ^mergGTFiãdo na escuridão, quand<5 
em repouso.» Também cedo Uexküll acentuou o papel 
do «estado interior» como um dos factores decisivos 
para a tonalização das coisas do mundo-próprio. Limitou 
então o conceito da disposição interior às influências 
naturais no equipamento interno e define-o pela designa­
ção de «disposição química».
O MUNDO-PRÓPRIO E O HOMEM
A doutrina de Uexküll acerca do mundo-próprio, 
característico de cada espécie animal, veio a constituir 
uma parte fundamental da biologia moderna mas a exten­
são que o autor fez da sua doutrina até ao homem foi, 
desde o início, justamente contestada. Como a digressão 
aqui publicada conclui com uma aplicação pormenorizada 
desta doutrina ao homem, é necessário que nos detenha­
mos por um momento neste caso limite.
O que há de fundamental na teoria do mundo-próprio, 
de Uexküll, é que, segundo ela, este mundo-próprio tem 
para um gato, para um cavalo ou um macaco, a sua forma 
específica, não obstante as características comuns de 
mamíferos. Do mesmo modo, é também específico o 
mundo da gralha, o da galinha-d agua, o do falcão, ape­
sar das suas características comuns de aves. Trata-se 
de uma particularidade hereditária, tipicamente especí­
fica, invariável. Se no mundo do cão ou no do papagaio 
que habita connosco o mesmo quarto podem aparecer 
coisas do mundo do homem, elas transformam-se em 
coisas do papagaio ou do cão, com as suas tonalidades 
inteiramente próprias. Mas, para ilustrar o seu conceito 
de mundo-próprio, Uexküll também põe em relevo o 
mundo diferente em que, separadamente, se move cada
[ 11]
pessoa e mostra, com o exemplo da árvore, como a 
mesma coisa toma, consoante o género de vida da pes­
soa, tonalidades absolutamente diferentes. Aqui, escapa- 
-Ihe, no entanto, um pormenor: que todas essas maneiras 
diversas de ver o mundo fazem parte de um mundo 
comum à espécie, que é possível uma compreensão des­
ses vários mundos-próprios da mesma espécie, que é 
possível, enfim, existirem contrastes de interpretação.
Estas esferas de afinidade do mundo do homem, nas 
quais se incluem os mundos individuais com as suas 
peculiaridades — grandes peculiaridades como Uexküfl 
e nós próprios reconhecemos — , esta amplitude da possi­
bilidade fundamental de compreensão criam uma situação 
particular para o homem. Por muito acentuados que se 
considerem os contrastes dos mundos humanos, filhos 
da tradição ou das diferenças de factores hereditários, o 
certo é que todos se contêm na mesma esfera. Toda a 
poesia vive da representação dessas variadas maneiras 
de ver o mundo e das suas coincidências. Mas precisa­
mente a poesia assenta no princípio da última possibili­
dade de compreensão dos outros. A expressão «mundo- 
-próprio» afirma e acentua a separação de mundos 
específicos dos animais, como esferas particulares e, 
exactamente por isso, devemos excluir este conceito na 
caracterização dos contrastes de visão do mundo entre 
os homens. Todavia, o homem põe à antropologia filosó­
fica do nosso tempo um problema particularíssimo, que 
se avoluma ainda com a caracterização do nosso compor­
tamento como independente do mundo, em oposição à 
conduta das espécies animais, estritamente obrigadas ao 
mundo-próprio. Rejeitando os excessos do conceito de 
mundo-próprio, a biologia e a antropologia modernas 
defendem o que há de mais original na obra de Uexküll 
contra os seus impulsos temperamentais.
[ 12]
NA SENDA DO ESTUDO DO COMPORTAMENTO
A influência das ideias de Jacob Uexküll alarga-se 
ao estudo do comportamento nos nossos dias. A sua 
acção, embora velada, é tanto maior, quanto estimula, 
de maneira decisiva, o começo de uma nova orientação no 
campo da investigação alemã. O que O. Heinroth e 
K. Lorenz, o que H. Hediger e Frau Meyer-Holzapfel, entre 
outros, lograram descobrir de essencial durante a ter­
ceira década do século, pressupõe a fermentação das 
ideias de Uexküll, até onde elas se não encontram expres­samente mencionadas. Uexküll não é o fundador do 
estudo do comportamento, produto colectivo de várias 
fontes. Vamos indicar mais uma vez, apenas algumas 
destas fontes, para mostrar o maior âmbito de ideias em 
que a obra de Uexküll exerceu influência de relevo.
Num trabalho notável, o americano Craig salienta, 
em 1918, a importância do estudo das coisas do mundo- 
-próprio, estudo que, por sua vez, faz intervir o ciclo-de- 
-função do animal. Designa o estado que conduz a deter­
minados fins por apetência, paralelamente ao que sucede 
no fenómeno elementar da nutrição e reconhece, assim, 
a validade de uma generalização que já era corrente na 
Antiguidade (em Santo Agostinho, por exemplo). A ape­
tência é um tipo de comportamento: corresponde-lhe um 
estado interior especial. Lembremo-nos de que também 
Uexküll já reconhecera distintamente este aspecto do 
fenómeno vital.
Pela mesma época, o ornitólogo inglês E. Howard 
(1922) provou que as aves, no período de incubação, rei­
vindicam e defendem uma porção de espaço, um territó­
rio — observação que então ocasionou uma imensidade 
de outras verificações, como, por exemplo, a descoberta 
da distância rigorosamente mensurável do voo e da resis­
tência, etc., devida a Hediger. A explicação de muitos 
destes factos estava confiada, desde os tempos primiti-
[ 13]
vos, aos caçadores familiarizados com a Natureza. A im­
portância dò «defeso» para as aves já foi posta em relevo 
por B. von Al(tum, na Alemanha, na sexta década do século 
passado. Assim, quando Howard é hoje apontado como o 
«descobridor» da posse territorial, isso significa que ele 
pôs o facto em evidência num momento particularmente 
«exacto» e que desempenhou papel preponderante no 
reconhecimento da sua importância.
Já em 1912, Julian Huxley observara a descrevera 
pormenorizadamente em Inglaterra, pela primeira vez, a 
cópula dos mergulhões, que ele depois interpretou com 
notável clareza. Abriu-se, assim, à investigação científica 
um vasto campo de trabalho. Desde tempos imemoriais 
que estes factos se tinham observado repetidas vezes. 
Desde os tempos primitivos que o homem observava a 
cópula do galo e outros fenómenos semelhantes. Mas a 
consideração conscienciosa da sua significação e a clara 
ordenação de conceitos que agora se apresentava tiveram 
importância decisiva. O. Heinroth actuou no mesmo sen­
tido mas a contribuição de Huxley quase não é citada 
por ele.
Por volta de 1920, Thorleif Schjelderup-Ebbe começou 
a estudar em Greifswald a hierarquia social num pátio de 
criação de aves. Mostrou então que um grupo qualquer 
de aves de criação se encontra solidamente organizado; 
que os vários indivíduos se dispõem numa hierarquia só 
deles próprios dependente e que esta hierarquia é muito 
complicada e variável, isto é, depende da condição dos 
indivíduos. Como consequência desta primeira investi­
gação, surgiu grande número de estudos sobre a ordem 
de precedência observada no exercício das actividades 
vitais dos animais de várias espécies. Muitos biólogos 
ficaram tão surpreendidos com a novidade que foram 
levados à generalização precipitada que via nessa hierar­
quia uma lei geral. Só mais tarde se impôs uma observa­
ção dirigida em maior número de sentidos, a qual revelou
[ 14]
a existência de grupos de animais sem tal escala de cate­
gorias. Para a investigação biológica, estes trabalhos 
significam o início de uma revalorização das formas de 
vida animais que era tanto mais importante quanto mais 
profundamente a fatuidade da teoria mecanista menos­
prezara o animal.
Em 1899, o biólogo dinamarquês Mortensen intro­
duziu a marcação individual das aves por meio de anilhas. 
Desde então, inúmeras aves isoladas da multidão anó­
nima, por meio de anilhas numeradas, transformaram-se 
para nós, observadores humanos, em indivíduos e o 
número de aves marcadas é hoje tão extraordinário como 
o de conhecimentos que devemos a este método. Algu­
mas conclusões fundamentais dos nossos investigadores 
do comportamento animal assentam exactamente na mar­
cação do indivíduo isolado, pelo que a «história natural» 
geral e vaga de uma espécie pôde transformar-se na des­
crição fiel da vida do animal individualizado. Por isso, a 
marcação de animais de todos os grupos, do insecto ao 
morcego, se tornou um dos processos técnicos impor­
tantes da biologia e fonte de perspectivas inesperadas.
Além destas, outras tendências de valia se podiam 
ainda mencionar, se o nosso intento não fora apenas 
apontar que, das muitas tentativas, resulta, enfim, uma 
nova orientação investigadora. Uma destas fontes abriu 
a muitos investigadores o caminho de êxitos futuros e 
veio aumentar a possibilidade de aceitar novas concep­
ções: foi a doutrina de Uexküll, com os seus ramos fun­
damentais na apresentação dos ciclos-de-função e na do 
mundo-próprio.
A INVESTIGAÇÃO PROSSEGUE
A importância da obra de Uexküll reside principal­
mente na sua luta tenaz em favor da actual posição bio­
[151
lógica, que reconhece a particularidade da esfera da vida 
e a autonomia relativa do ser vivo. As suas contribuições 
foram dominadas pelo método fisiológico e pelo exame 
da natureza especial do ser vivo como objecto de investi­
gação. O desejo de se limitar aos métodos científicos 
levou-o à rejeição total de qualquer afirmação sobre o 
aspecto experimental do sujeito e, implicitamente, à 
renúncia a qualquer espécie de psicologia animal, que ele 
considerava situada para além do «biológico». O seu 
caminho para chegar à compreensão do animal era, por­
tanto, o estudo da harmonia entre a estrutura e o com­
portamento. Não esqueçamos que, exactamente no seu 
tempo, era particularmente vivo o clamor erguido a pro­
pósito do cavalo sábio e de outros cavalos calculadores 
e de cães que raciocinavam. A humanização do animal 
encontrava-se então no seu ponto culminante. Esta coin­
cidência temporal havia de fortalecer, no pensamento de 
Uexküll, todas as tendências contrárias e, na verdade, 
o seu temperamento combativo fê-lo, às vezes, parecer 
quase mecanista, muito mais singularmente do que seria 
de esperar da sua concepção da natureza, que reconhecia 
sempre em acção qualquer coisa de supernatural. A mis­
são do biólogo parecia-lhe residir na busca de estruturas 
que, por exemplo, no sistema nervoso central, determi­
navam a génese do mundo-prório e o comportamento do 
animal. Tão onge foram os seus escrúpulos perante 
"os resultados de carácter experimental que se, na ver­
dade, por um lado, classificava a «tonalidade» das coisas 
do mundo-próprio como descritível, como parte do mundo 
exterior, por outro, nunca deixa de mencionar, cautelosa­
mente, a, correspondente «disposição» complementar e, 
como já vimos, acentua bem o que nela há de «químico», 
a natureza material do seu condicionamento, não fossem 
torná-lo suspeito de impulsos românticos.
A evolução mais significativa, a partir de Uexküll é 
o aprofundamento dos estudos da autonomia do ser vivo
[16]
pela verificação mais intensa de todas as provas que apre­
sentam o organismo como centro especial de actividade 
e simultaneamente de um viver que, embora velada- 
mente, é aparentado com o que melhor conhecemos do 
nosso próprio ser mais íntimo. É principalmente pelo 
estudo desta «intimidade», desta maneira de ser peculiar 
do ser vivo e do animal em especial que aquilo que é 
observável de fora recebe a sua mais ampla interpreta­
ção. Tomar, de vez, o sujeito para objecto da investigação 
biológica, eis o passo para o desconhecido que a obra de 
Uexküll principalmente preparou.
O estudo da presença desta subjectividade é_a_carac- 
terístÍcã~dõ~trãbalho biológico dos nossos dias. Mas tão 
peculiares como isso são as consequências metodológi­
cas desta atitude. Em vez de introduzirmos no jogo de 
factores do fenómeno vital um agente misterioso, que 
interviesse emtoda a parte como factor explicativo, nós 
vemos nesta subjectividade uma das incógnitas que o 
naturalista procura abordar, objectivamente, pelo estudo 
das manifestações. Pela observação rigorosa de todas as 
manifestações do animal, de todas as suas respostas, 
nós avançamos cautelosamente para resultados que des­
crevem a descoberta e ocupação de espaço ou compreen­
dem a relação com o ritmo do dia e da noite e com o 
das estações do ano, exactamente como também des­
cobrimos nas hierarquias da vida social a subjectividade 
de um sujeito em acção. A grande lista de «manifesta­
ções» que nos dão testemunho da subjectividade é uma 
das mais significativas realizações da biologia contem­
porânea.
O estudo do comportamento já hoje não se desvia 
dos problemas que o duplo aspecto do ser vivo nos apre­
senta: aborda-os por vários caminhos e cautelosamente. 
Aprendemos a distinguir, no estabelecimento de correla­
ções, o que é inato, hereditário, do que tem de ser 
aprendido e transformado em hábito. Aprendemos a dis­
2 - A . HOMENS [17]
cernir as estruturas transmitidas, relativamente rígidas, 
das outras, mais flexíveis^ Sabemos como estímulos 
iguais podem actuar de maneira tão diversa-s- reconhe­
cemos assirrTã variacãa..dQS_estados interiores. Por sua 
vez, nestes estados, nestas «disposições», entramos em 
contacto com um último elemento, para além do qual a 
investigação não passa, por enquanto. Assim, numa época 
em que a própria filosofia descobriu — ou melhor, redes- 
cobriu o papel fecundo da adaptabilidade perfeita (Befin- 
d iichke it) os que se dedicavam ao estudo do comporta* 
mento chegaram, por caminhos absolutamente diferentes, 
a este princípio fundamental da conduta e, desse modo, 
a uma manifestação objectiva da maneira de ser, des­
conhecida para nós, como experiência, da subjectividade 
dos animais. O estudo dos estados interiores e do com­
portamento eliminou um grave inconveniente: superou a 
distinção entre corpo e alma como substâncias distintas 
qüè, ~ jüritas, constituem o ser vivo — separação que 
rãcfica em tradições antiquíssimas da nossa vida repre­
sentativa, da nossa imaginação. A biologia contemporâ­
nea não estuda separadamente.-o. .aspectõTcofpõfèo ou 
somático, por um lado, e o espiritual ou psíquico, por 
outro. Pelo estüdo~cfõ’ cõmportamento, nós procuramos 
■fioje surpreender, na sua pureza, a realidade desconhe­
cida e, antes de qualquer divisão mais ou menos estabe­
lecida, conhecê-la na sua actividade, como a unidade que 
originalmente nos é dada. Do mesmo modo, a nova ciên­
cia do homem — a antropologia — também já começa a 
dirigir-se para o comportamento do homem, para a par­
ticularidade dos seus modos de relação e não reconhece, 
neste campo, discutíveis esquematizações de «compo­
nentes» do género corpo-alma-espírito ou «bios» e 
«logos», como partes do ser vivo.
Esta orientação tem uma longa história que se não 
pode expor aqui. Ela ultrapassa também a posição atin­
gida pela obra de Uexküll que preparou este passo em
[ 18]
frente ao considerar com clareza inexcedível e graças a 
um trabalho insano, não só a actividade do centro vital 
como a de um_suje[to criador de mundos mas também o 
entrelaçamento intrínseco do ser vivo com partes do seu 
ambiente.
O PROBLEMA DA ORGANIZAÇÃO 
SEGUNDO UM PLANO
Ainda noutro sentido o estudo da vida, no nosso 
tempo, está prestes a transpor a posição em que o pen­
samento de Uexküll se deteve há cerca de vinte anos. 
Trata-se da superação do conceito de «planeamento» do 
ser vivo.
Uexküll mostrou incansavelmente, em repetidos 
exemplos, que o plano de construção de .um„Pxq3ílÍsmQ 
não está situadorFõra deíêTcomo o de uma máquina. A sua 
obra d^crêvê7cõm~grande minúcia, como os organismos 
se constroem por si próprios, como os estádios de desen­
volvimento se sucedem, ordenados como numa melodia 
e como o plano de amadurecimento da forma funcio­
nal é um processo de autoconstrução e auto-requlação. 
Mas o «planeamento», operante, por si mesmo, no orga­
nismo, acabou por se tomar,~nãsua exposição, um factor 
particular, uma forma de actividade do género superme- 
cânico e inespacial. Outra não era a posição do vitalismo/ 
que, na verdade, tinha superado a estreiteza do meca­
nismo mas que, ao fazê-lo, tinha também ultrapassado, 
na sua ânsia de esclarecimento completo, os limites da 
possibilidade científica.
A panaceia de Driesch era o princípio orgânico indi­
vidual da enteléquia; a solução de Uexkiill era a -ru-gani-
zação segundo um plano que, à luz..da._.a.QSÍcãQ_.„tomada
pelo autor, passava a ser factor explicativo, uma das 
qualidades Têconhecidas no ser vivo.
[ 19]
A biologia admite hoje esta dificuldade. Como 
W. Szilasi afirma radicalmente numa importante exposi­
ção, o «plano» do comportamento animal formula, nem 
sempre com felicidade, esta questão: «Como é que, por 
exemplo, a abelha é exactamente uma abelha ou como é 
que o animal é, em suma, um animal» (C iência e Filoso­
fia, Zurique/Nova Iorque, 1945, pág. 72). Na afirmação de 
que determinada coisa é susceptível de plano, é «planeá- 
vel», atribui-se a essa «alguma coisa» uma qualidade, um 
predicado, o que sugere a ideia de que, com isso, alguma 
coisa é esclarecida ou explicada. Na realidade, a expres­
são aponta o grande e obscuro enigma, exactamente 
aquilo que escapa à compreensão: o mesmo enigma que 
nós também designamos, sim, mas não explicamos, com 
a palavra «vida».
Vemos hoje mais claramente que não podemos ocul­
tar o mistério que envolve o problema do ser vivo com 
uma palavra que finge de predicado. Sentimos, de novo, 
o que há de obscuro na realidade, em todo o seu poder 
misterioso e procuramos descobrir, pela investigação 
cautelosa das propriedades reconhecíveis, o que é inves- 
tigável.
Assim, fala-se hoje menos de totalidade e de organi­
zação segundo um plano do que habitualmente se falava 
há vinte anos e por isso vamos pondo, a pouco e pouco, 
a descoberto o conjunto de factores, por meio de cuja 
acção uma coisa se nos apresenta como um todo ou pro­
curamos determinar a espécie de estrutura que sugeriu 
a existência de um plano. É uma ciência do ser vivo na 
sua evolução, ciência que não é uma mecânica, nem uma 
pneumática, para empregar uma expressão de E. Heuss 
(1939). A nova noção de realidade explica também a ati­
tude perante o problema da organização segundo um 
plano.
O próprio Uexküll diz algures: «O Sol que propor­
ciona a dança de uma nuvem de mosquitos não_é_o nosso
[ 2 0 ]
sol mas um sol dos mosauitos que só existe graças aos 
olhos destes.» Nada porém, podemos dizer do sol dos 
mosquitos sem ter verifjcado^o plano de organização do 
mundo-próprio dos mosquitos (Teor. Biológ., pág. 233). 
E aqui se nos apresenta, com clareza, a organização 
segundo um plano como aquilo que é para nós: um enigma 
que se entrevê de uma para outra espécie animal e que, 
de cada vez, importa resolver.
O próprio Uexküll acentuou mais de uma vez ser a 
pesquisa deste plano a missão da biologia: «Todos os 
planos se enquadram num plano de organização extraor­
dinariamente vasto que, até agora, tem sido negado obsti­
nadamente. Por muito cómodo que isso fosse, já hoje, 
porém, não é admissível.» Com estas palavras termina a 
Biologia Teórica, de Jacob Uexküll. Elas apontam muito 
para além do horizonte que limita o campo de trabalho 
biológico e atestam a atitude do investigador que durante 
toda a sua vida pesquisou os modos de ordenação do 
mundo orgânico e cujo labor arreigou cada vez mais a 
sua convicção acerca das ordenações cósmicas. Os tra­
balhos reunidos neste volume também aludem, repetidas 
vezes, à concepção da Natureza que Uexküll representou. 
Essa concepção não se limita a ver nos fenómenos da 
natureza só os aspectos pesquisados mas também venera 
o segredo que se fecha em cada ser vivo à nossa volta.
[ 21]
DIGRESSÕESPELOS MUNDOS- 
-PRÓPRIOS DO HOMEM 
E DOS ANIM AIS
Por J. v. Uexküll e Georg Kríszat 
PR EFÁCIO
O presente livrinho não tem a pretensão de servir 
de guia de uma ciência nova. Limita-se, antes, a incluir 
o que podia chamar-se a descrição de um passeio por 
mundos desconhecidos. Estes mundos não são apenas 
desconhecidos, são também invisíveis: mais do que isso: 
o seu direito de existir é-lhes, em geral, contestado por 
muitos fisiólogos e zoólogos.
Esta bem curiosa atitude é, para quem conheça esses 
mundos, perfeitamente compreensível, pois que o cami­
nho que a eles conduz não é transitável para quem sofra 
de certos preconceitos capazes de obstruírem a porta 
que lhes dá acesso, tão impenetravelmente que nem um 
raio da luz esplendorosa que os inunda a pode atra­
vessar.
Quem se agarrar ao preconceito de que todos os 
seres vivos são apenas máquinas, perde toda a esperança
[ 23]
Manuela
Realce
Manuela
Realce
de vir jamais a lobrigar os seus mundos-próprios (’)■ Mas 
quem ainda não se ajuramentou na doutrina mecanista 
dos seres vivos, pode prosseguir nas suas especula­
ções. Todos os nossos dispositivos^e todos os nossos 
maquinismos não passam de meios auxiliares das acti­
vidades do hfltnem. E, efectivamente, há certos meios 
auxiliares de trabalho — os chamados instrum entos de 
trabalho — em que se incluem todos os complicados 
maquinismos que servem, nas nossas fábricas, para a 
laboração de matérias-primas, e ainda caminhos-de-ferro, 
automóveis, aviões... Mas há também meios auxiliares 
de controlo, a que podemos chamar instrumentos-indica- 
dores, como telescópios, óculos, microfones, aparelhos 
de rádio, etc.
De sorte que é, então, óbvio admitir que um animal 
não é mais do que um conjunto de instrumentos-de-traba- 
Iho e de instrumentos-indicadores que, pela intervenção 
de um dispositivo coordenador, constituem um todo, que, 
na realidade, não deixará de ser um maquinismo, ainda 
que adequado ao desempenho da função. É esta, de facto, 
a maneira de ver de todos os mecanistas teóricos, quer, 
até certo ponto, se inclinem mais no sentido de pensar 
num mecanismo rígido, quer no de um dinamismo plás­
tico. Os animais ficam, pois, taxados de meros objectos. 
Com o que se esquece que, desde logo, se pôs de parte 
o que é essencial, istò é, o suje ito, o qual se utiliza do 
instrumento auxiliar, com ele assinala e com ele actua.
A partir da concepção inadmissível de um instru-
('} O termo Umwelt corresponde em português a ambiente, 
mundo ambiente ou, com menos propriedade, meio ambiente. No 
sentido, porém, em que o autor o emprega, ele significa qualquer 
coisa que depende do ser vivo considerado, e resulta de uma como 
que selecção por este realizada, dentre todos os elementos do 
ambientè, em virtude da sua própria estrutura específica — o seu 
mundo-próprio.
[ 24]
mento simultaneamente de assinalamento e de acção, 
não se limitaram aqueles a fazer passar os órgãos dos 
sentidos e os órgãos de movimento por peças de uma 
máquina (sem atenderem ao seu assinalar e actuar) mas 
foram mais longe, mecanizaram o homem, reduziram o 
homem a uma máquina. Segundo os beaviouristas, as 
nossas sensações e a nossa vontade são meras aparên­
cias, no melhor dos casos vêm a valer como acidentes 
incómodos.
Quem, porém, ainda considera que os nossos órgãos 
dos sentidos servem para o nosso assinalar e os nossos 
órgãos de movimento servem para o nosso actuar, verá 
nos animais, não apenas um sistema mecânico, mas dis­
cernirá também o maquinista que se aloja nos órgãos, 
como nós próprios no nosso corpo.
Então considerará os animais, não já como meros 
objectos, mas como sujeitos, cuja actividade essencial 
consiste em assinalar e actuar.
Com o fazê-lo abre-se já a porta que conduz aos mun­
dos-próprios animais, porque tudo aquilo que um sujeito 
assinala passa a ser o seu mundo-de-percepção, e o que 
ele realiza, o seu mundo-de-acção. Mundo-de-percepção e 
mundo-de-acção constituem uma unidade íntegra — o 
mundo-próprio do sujeito,
Os mundos-próprios, que são tantos quantos os pró­
prios animais, oferecem a qualquer admirador da Natu­
reza novas terras, tão ricas e tão belas que compensam 
bem uma excursão através delas, mesmo quando elas se 
não patenteiem aos nossos olhos materiais mas somente 
à nossa visão espiritual.
As melhores condições para iniciar tal digressão são 
um dia de Verão e um prado coberto de flores, ressoante 
de zumbidos de coleópteros e pululante de adejares de 
borboletas; então construiremos para cada animal dos 
que povoam o prado, uma como que bola de sabão, que
[25]
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represente o seu mundo-próprio, preenchida por todos 
aqueles sinais^ característicos que são acessíveis ao 
sujeito. Logo qi^e entremos numa dessas bolas de sabão 
transfigura-se completamente o mundo ambiente (') que 
se abria em volta do sujeito. Muitas qualidades do varie­
gado prado desaparecem inteiramente, outras perdem as 
suas propriedades gerais; surgem novas correlações. Em 
cada bola de sabão passa a existir um mundo novo.
Para atravessar connosco esses mundos convidamos 
o leitor a acompanhar a descrição que se segue. Os auto­
res, ao prepararem este livro, distribuíram as suas tare­
fas; de modo que um (Uexküll) encarregou-se do texto, e 
o outro (Kriszat), do material das gravuras.
Esperamos dar, com esta descrição de viagem, um 
decisivo passo em frente, e assim convencer muitos leito­
res de que existem, com efeito, mundos-próprios, e que 
com isso se abre um novo e inesgotável campo de investi­
gações. Simultaneamente, este livro testemunhará o espí­
rito de investigação colectiva dos activos colaboradores 
do Instituto para o Estudo do Mundo-Próprio, em Ham­
burgo (2).
Agradecemos em particular aoJD r_ K. Lorenz, que 
enviando-nos as gravuras que ilustram as suas fecundas 
experiências sobre gralhas e estorninhos favoreceu o 
nosso trabalho. O Prof. Eggers cedeu-nos amavelmente 
um relato pormenorizado dos seus estudos sobre borbo-
(’) Umgebung, em alemão, na acepção de tudo que em volta 
do sujeito se desenrola, independentemente de o impressionar ou 
o estimular, ou não.
H Comp. Friedrich Brock: Verzeichnis der Schriften J. v. 
Uexküll und der aus dem Ins titu t fu r Umweltíorschung zu Hamburg 
hervorgegangenen Arbeiten. Sudhoffs Archiv fur Gesch. d. Medizin 
und d. Naturwiss. Bd, 27, H. 3-4, 1934. J. A. Barth, Leipzig. (Nota da 
ed. alemã.)
[26]
letas nocturnas. O conhecido aguarelista Franz Hutk esbo­
çou para nosso uso os desenhos do quarto e do carvalho. 
A todos deixamos aqui expressos os nossos cordiais agra­
decimentos.
Hamburgo, Dezembro, 1933.
J. v. Uexküll
[27]
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Manuela
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IN T R O D U Ç Ã O
Não há, certamente, camponês que tendo batido com 
o seu cão matos e bosques não tenha travado conheci­
mento com um animalzinho que, suspenso dos ramos dos 
arbustos, espia a sua vítima, homem ou bicho, para sobre
Fig. 1 — Carraça
ela se precipitar e se saciar com o seu sangue, inchando, 
das dimensões de, o máximo, dois milímetros, até ao 
volume de uma ervilha (fig. I).
A carraça, ou carrapato, nomes por que se designa
[ 29]
Manuela
Realce
esse animal,^ não é realmente perigosa, mas nem por isso 
deixa de ser um hóspede incómodo dos mamíferos, e 
mesmo do homem. O seu ciclo biológico foi de tal modo 
esclarecido po^ r trabalhos recentes que dele podemos 
traçar um relato exacto.
Do ovo sai um pequeno ser ainda não completamente 
desenvolvido, a que faltam um par de patas e os órgãos 
da reprodução. Nesta fase já pode atacar animais de tem­
peratura variável, como, por exemplo, lagartos,que espera 
emboscado na extremidade da haste de uma erva. Depois 
de sofrer algumas mudas, os órgãos que lhe faltavam 
acabam por se desenvolver, passando então a caçar ani­
mais de temperatura constante. Já fecundada, a fêmea 
sobe, com as suas já então oito patas, até à parte supe­
rior de um arbusto que lhe agrade, para, de altura conve­
niente, se deixar cair sobre pequenos mamíferos furtivos 
que passem ao seu alcance, ou arrastar por animais de 
maior porte.
O caminho para a sua torre de vigia descobre-o o ani- 
malzinho, que é desprovido de olhos, valendo-se do seu 
tegumento, sensível à luz. A aproximação da vítima é 
revelada ao salteador, que além de cego é também surdo, 
pelo seu sentido do olfacto. As emanações de ácido 
butírico que provêm das glândulas da pele dos mamífe­
ros servem para a carraça de sinal de advertência para 
abandonar o seu posto de vigia e lançar-se sobre a presa. 
Se vem a cair sobre qualquer animal de temperatura cons­
tante, que um apurado sentido térmico lhe denunciou — 
então atingiu a sua vítima, e só falta agora, ainda com o 
auxílio do seu sentido do tacto, encontrar uma zona tanto 
quanto possível livre de pêlos, para se introduzir, até para 
trás da cabeça, nos tecidos cutâneos daquela; e põe-se 
a sugar lentamente o sangue quente que jorra.
Experiências feitas com membranas artificiais e com 
outros líquidos que não sangue mostraram que a carraça 
é desprovida de sentido do gosto, pois que depois de
[30]
perfurar a membrana absorve qualquer líquido, contanto 
que este esteja a temperatura conveniente.
Se a carraça cai sobre qualquer coisa fria, depois 
de o sinal de ácido butírico ter funcionado, então errou 
de hospedeiro, e tem de voltar a trepar para o seu posto 
de espia.
. O lauto festim de sangue que a carraça goza é, simul­
taneamente, o seu último repasto, pois que agora nada 
lhe resta senão deixar-se tombar no chão, fazer a postura 
e morrer.
Os breves acidentes da vida da carraça dão-nos uma 
adequada pedra-de-toque da solidez do ponto de vista bio­
lógico, comparado com o método fisiológico, como até 
aqui se tem aplicado. Para o fisiólógo, cada ser vivo é 
um objecto que se situa no seu mundo-próprio do 
homem. Examina-lhe os órgãos e o seu funcionamento 
total, como um técnico examinaria uma máquina que seja 
nova para ele. O biólogo, ao contrário, toma em conta 
que cada ser vivo é um sujeito, que vive num mundo 
que lhe é particular, de que ele constitui o centro; e, por 
isso, pode comparar-se, não a uma máquina, mas apenas 
ao maquinista que maneja a máquina.
Resumindo, a questão pode pôr-se assim: a carraça 
é uma máquina ou um maquinista? É um mero objecto ou 
um sujeito?
A fisiologia interpretará a carraça em termos de uma 
máquina e dirá: na carraça podem-se distinguir recepto­
res, isto é, órgãos dos sentidos, e efectores, isto é, e 
órgãos de acção, que, por meio de dispositivo coorde­
nador no sistema nervoso central, estão mutuamente rela­
cionados. O conjunto é uma máquina de que se não dis­
cerne o maquinista.
«É exactamente nisso que está o erro», objectará o 
biólogo. «Nenhuma das partes do corpo da carraça tem 
as características de umãlriáquina, ém to'da efa o~que~ 
actua são maquinistas.p
[ 31]
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Manuela
Realce
O fisiólogo continuará inabalável: «Na carraça, 
precisamente, verifica-se que todas as actividades assen­
tam exclusivamente em reflexos (1), e o arco-reflexo cons­
titui a base de cada máquina animal (fig. 2). Este começa 
por um receptor, isto é, um dispositivo que só admite 
certas influências exteriores, como ácido butírico e calor, 
mas rejeita tudo mais. E termina num músculo que põe
> — 0 - 0 - >f t £2. ttZ t
Fig. 2 — Arco-reflexo
em actividade um efector, o dispositivo locomotor, ou o 
dispositivo perfurador.
As células sensoriais, que libertam a excitação dos 
sentidos, e as células motoras, que libertam o impulso 
de movimento, funcionam apenas como peças conecto- 
ras que conduzem as ondas excitadoras, absolutamente 
materiais, que são originadas nos nervos, sob a acção do 
choque exterior. Todo o arco-reflexo trabalha com trans­
missão de movimento, como qualquer máquina. Nenhum 
factor subjectivo, como seja, um ou mais maquinistas, 
intervém no fenómeno, seja como for.»
«O que se passa é exactamente o contrário», repli-
(') Reflexo, originalmente, significa a captação e reenvio de 
um raio de luz, por um espelho. Aplicado aos seres vivos, o termo 
reflexo significa a captação de um estímulo exterior por um recep­
tor e a resposta provocada pelo estímulo do efector do ser vivo. 
No fenómeno o estímulo transforma-se em excitação nervosa, que 
tem de passar por várias estações para ir do receptor ao efector. 
O caminho assim seguido designa-se por arco-reflexo. (Nota da ed. 
alemã.)
[32]
cará o biólogo. «Do que se trata, principalmente, é de 
maquinistas e não de partes de máquinas. Porque todas 
e cada uma das células do arco-reflexo funcionam não 
com transmissão de movimento, mas com transporte de 
estímulo. Um estímulo, porém, deve ser notado por um 
sujeito e essencialmente não provém de um objecto.»
Qualquer parte de uma máquina, um badalo de um 
sino, por exemplo, trabalha apenas maquinalmente quando 
de determinada maneira é posto a oscilar. Quaisquer 
outras intervenções despertam nele respostas como o 
fariam em qualquer mero pedaço de metal. Ora, desde 
John Müller O , nós sabemos que um músculo se com­
porta de uma forma completamente diferente. A qualquer 
intervenção exterior ele responde sempre da mesma 
maneira: por uma contracção. Toda a intervenção exterior 
é por ele transformada no mesmo estímulo; a todas res­
ponde com o mesmo impulso que obriga o corpo da célula
à contracção.
John Müller demonstrou ainda que todas as acções 
exteriores que incidem nos nossos nervos visuais, sejam 
elas ondas do éter, compressões ou correntes eléctricas, 
produzem uma sensação visual, isto é, as nossas células 
sensoriais visuais respondem com o mesmo sinal-per- 
ceptivo.
Disto devemos concluir que cada célula viva é um 
maquinista, que assinala e actua, e por isso possui «assi­
nalamento» ou percepção e «activação^» ou impulso. As 
múltiplas marcas e acções do sujeito-animal total são, 
por consequência, atribuíveis ao trabalho de conjunto de 
pequenos maquinistas celulares, cada um dos quais 
somente decide sobre um sinal-perceptivo ou um sinal- 
-de-impulso.
Para que seja possível uma cooperação ordenada, o
(') Fundador da moderna fisiologia (1801-1858). (Nota da ed. 
alemã.)
3 - A. IIOMENS [ 33]
Manuela
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Manuela
Realce
Manuela
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organismo se^ve-se das células do cérebro (que são tam­
bém maquinistas elementares), e agrupa metade delas 
como «células assinaladoras» ou células-de-percepção na 
parte do cére&ro receptora de estímulos, isto é, no 
«órgão-assinalador, ou de-percepção», em faixas mais ou 
menos extensas. Estas faixas correspondem a grupos de 
estímulos exteriores que entram como perguntas no 
sujeito-animal. A outra metade das células do cérebro 
utiliza-as o organismo como «células activadoras» ou 
células-de-impulso, e agrupa-as em faixas com que 
comanda os movimentos dos efectores, que comunicam 
ao mundo exterior as respostas do sujeito-animal.
As faixas das células-de-percepção constituem o 
«órgão-de-percepção» do cérebro, e as faixas das células- 
-de-impulso, o «órgão-de-impulso».
Se, pois, nos permitimos imaginar um órgão-de-per­
cepção como um centro de faixas de percepção alternadas 
e maquinistas celulares que são os portadores de percep­
ções específicas, no entanto elas conservam-se entida­
des espacialmente distintas. Os seus sinais-perceptivos 
permaneceriam também distintos, se não tivessem a pos­
sibilidade de se fundirem em novas unidades, forado 
órgão-de-percepção, espacialmente fixado. Ora tal possi­
bilidade existe efectivamente. Os sinais-perceptivos de 
um grupo de células-de-percepção reúnem-se fora do 
órgão-de-percepção, na realidade fora do corpo de animal, 
em unidades que passam a ser atributos dos objectos 
situados fora do sujeito-animal. Este facto é bem conhe­
cido de todos. Todas asjiossas sensações humanas, que 
figuram os nossos assinalamentos, ou percepções, espe.- 
cíficos, convergem nos atributos dos objectos exteriores, 
que nos servem como sinais-característicos que utiliza­
mos. A sensação «azul» passa a ser a «cor azul» do céu; 
a sensação «verde» passa a ser a «cor verde» da relva, 
etc. No sinal-característico, ou carácter, azul, reconhece­
mos o céu, no carácter verde reconhecemos a relva.
[34]
Outro tanto, exactamente, se passa no órgão-de- 
-impulso. Nele as células-de-impulso desempenham o 
papel de maquinistas elementares, que, neste caso, con­
soante as suas actividades, ou impulsos, se ordenam em 
grupos bem articulados. Também aqui existe a possibili­
dade de os impulsos individualizados se concentrarem em 
unidades que actuam sobre os músculos, a elas subordi­
nados, como impulsos encadeados ou melodias de impul­
sos, ritmicamente articulados. Depois do que os efectores 
postos em acção pelos músculos imprimem aos objectos 
situados fora do sujeito a sua realidade.
A _marca-de-acção que os efectores imprimem ao 
objecto é directamente reconhecível — como a ferida que 
o ferrão da carraça produz na pele do mamífero por ela 
atacado. Mas, primeiro, a difícil descoberta dos sinais 
característicos do ácido butírico e do calor completou o 
quadro da carraça laboriosa no seu mundo-próprio.
Em sentido figiiradfl.,.p_ode. dizer-aeque cada sujeito- 
-animal apreende o seu obieclQ-com-as_duas hastes de 
urna_tenaz — uma haste de perceber out ra de impulsio­
nar. Com uma confere-lhe, um atributo, com a_ontra. uma 
marca-de-acção. Por este meio certas propriedades do 
objecto passam a ser portadoras de sinal-caracterís­
tico, certas outras, de marca-de-acção. Como todas as 
propriedades de um objecto estão ligadas umas às outras 
pela estrutura deste, as atingidas pelo sinal-de-impulso 
devem exercer no objecto a sua influência sóbre as por­
tadoras de sinal-característico e também actuar sobre 
estas modificando-as, o que resumidamente melhor se 
exprime dizendo: a marca-de-acção cancela o sinal-carac- 
terístico.
O número e a ordenação das células-de-percepção 
que por meio dos seus sinais-perceptivos assinalam os 
objectos do seu mundo-próprio com sinais-característicos 
e o número e ordenação das células-de-impulso que por 
meio dos seus sinais-de-impulso dão aos mesmos objec-
[ 35]
Manuela
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Manuela
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Manuela
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tos marcas-de-acção são, principalmente, e a par da 
selecção de estímulos que os receptores realizam e da 
ordenação dos músculos que permite aos efectores mani­
festarem-se, decisivos no desenrolar de cada forma de 
comportamento de todos os sujeitos animais.
O objecto, somente no que respeita ao comporta­
mento, é como se devesse possuir as propriedades neces­
sárias, que por um lado pudessem servir como portado­
ras de sinais-característicos, e por outro de portadoras
Mundo de Percepção
órgão de Percepfio
Órgão de impulso
Receptor
Portador de sinal característico 
Portador de marca de acção 
Efector
Mundo de acção 
Fig. 3 — Ciclo-de-Função
de marcas-de-acção que devessem estar em associação 
por ajustamento mútuo.
As relações de sujeito com objecto jsstão ilustradas 
no ésquemã~gõ~ciclo-de-funcão ffiq. 3). Ele mostra corrio 
sujeito e objecto se ajustam reciprocamente e constituem 
um todo que obedece a um plano. Se, além disso, se supõe 
que um sujeito se liga a um ou vários objectos por vários 
ciclos-de-função, fica-se, então, fazendo uma ideia do 
conceito fundamental da doutrina do mundo-próprio, a 
saber: todos os sujeitos animais, os mais simples como 
os mais complexos, estão ajustados com a mesma per­
[36]
feição aos seus mundos-próprios. Aos primeiros corres­
pondem mundos-próprios simples, aos segundos, mundos- 
-próprios complexos.
E agora situemos no esquema do ciclo-de-função a 
carraça como sujeito e o mamífero como objecto. Verifi­
ca-se imediatamente que decorrem segundo um plano 
três ciclos-de-função, e uns a seguir aos outros. As glân­
dulas cutâneas do mamífero constituem o portador de 
sinal característico do primeiro ciclo, pois o estímulo 
ácido butírico liberta no órgão-de-percepção sinais-per- 
ceptivos, específicos, que são transportados para a peri­
feria como carácter olfactivo. Os fenómenos que se pas­
sam no órgão-da-percepção provocam por indução (em 
que tal consiste, ignoramo-lo) no órgão-de-impulso impul­
sos correspondentes, que produzem o movimento dos 
membros locomotores e a queda do animal. A carraça 
ao cair confere aos pêlos do mamífero a marca-de-acção 
do choque, que então, por seu turno, liberta um carácter 
táctil pelo que o carácter olfactivo do ácido butírico é 
cancelado. O novo carácter provoca um movimento de 
vaguear, até que na primeira zona sem pêlos é remido 
pelo carácter calor, e aí começa o trabalho de perfu­
ração.
Sem dúvida trata-se aqui de três reflexos que se vão 
anulando sucessivamente e são sempre desencadeados 
por acções físico-químicas objectivamente determináveis. 
Mas quem se contente com esta verificação e julgue ter 
com ela resolvido a questão, mostra apenas que não 
alcançou o verdadeiro problema. Não é o estímulo quí­
mico do ácido butírico que se debate, nem tão-pouco o 
estímulo mecânico (desencadeado pelos pêlos), nem 
ainda o estímulo térmico da pele, mas apenas o facto 
de saber £orquê, entre as centenas de. acções que resul- 
tam_das propriedades do corpo do mamífero, só três se 
tornam portadoras de sinais característicos relativamente 
à carraça, e porquê essas três e não outras.
[37]
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Não se trata de qualquer reciprocidade de forças 
entre dois objectos, mas sim das correlações entre um 
sujeito vivo e o\seu objecto, e estas manifestam-se num 
plano inteiramente diferente, a saber entre as percep­
ções do sujeito e o estímulo do objecto.
A carraça está suspensa, imóvel, da extremidade de 
um ramo numa clareira. Pela sua situação oferece-se-lhe 
a oportunidade de cair sobre um mamífero que por ali 
passe. De todo o ambiente não incide sobre ela nenhum 
estímulo. Então, aproxima-se um mamífero, de cujo san­
gue ela necessita para o desenvolvimento da sua prole.
E agora qualquer coisa de bem maravilhoso se passa: 
de todas as acções provenientes do corpo do mamífero 
só três passam a constituir estímulos e, essas, em 
sequência bem determinada. Do vasto mundo que rodeia 
a carraça fulguram três estímulos, como sinais luminosos 
dentre as trevas, e servem à carraça de guias, que ela 
confiadamente segue até atingir o seu objectivo. Para 
tal ser possível as carraças são dotadas, além do seu 
corpo com os seus receptores e efectores, de três sinais- 
-perceptivos que pode utilizar como três sinais caracte­
rísticos. E é por meio destes que à carraça o fluir do seu 
comportamento é tão determinadamente prescrito que 
ela só pode realizar actos perfeitamente determinados.
Todo o opulento mundo ambiente que rodeia a car­
raça se contrai e se transforma num quadrõ~me"squinh5 
que essencialmente consiste ainda em três sinais carac- 
teríitlcõs~êlrês marcas-dF-ãQção^rã-seu-muncio-própxJo. 
A indigência desse mundo-próprio ajusta-se, porém, 
estreitamente à segurança do comportamento, e segu­
rança vale mais que riqueza. Do exemplo da carraça pode 
deduzir-se o que é fundamental na estrutura dos mundos- 
-próprios dos diferentes seres,e é válido para todos os 
animais. Mas a carraça possui uma faculdade muito notá­
[ 38]
vel, que nos desvenda uma perspectiva muito mais vasta 
dos mundos-próprios.
É imediatamente evidente que a inesperada fortuna 
da passagem de um mamífero por sob o ramo sobre que 
a carraça se encontra é muito rara. Este inconveniente 
nem pelo grande número de carraças que se emboscam 
nos arbustos é suficientemente compensado para asse­
gurar a subsistência da espécie. A faculdade de a carraça 
poder viver muito tempo sem se alimentar, aumenta as 
probabilidades de vir a passar uma presa ao seu alcance. 
Essa faculdade possui-a a carraça em grau invulgarmente 
elevado. No Instituto Zoológico de Rostock conserva­
ram-se vivas carraças que chegaram a jejuar durante 
dezoito anos (1). Isso a nós, homens, ser-nos-ia impossí­
vel. O tempo no nosso mundo-humano é constituído por 
uma série de momèntos curtrssmTõí^^injrante os quais 
o mundo não manifesta qualquer mudança._ Durgiile- um 
momentãà iaundo xions.erva;se.invarlável. O momento do
(') A carraça está, sob todos os pontos de vista, organizada 
para resistir a um longo período de jejum. As células seminais que 
a fêmea recebeu e conserva dentro de si durante o período de 
espera estão contidas dentro de cápsulas, até o sangue do mamí­
fero chegar ao estômago da carraça. Quando isso se dá elas são 
postas em liberdade e fecundam os óvulos que esperavam nos 
ovários. Em contraste com a adaptação perfeita da carraça ao seu 
objecto-presa, que ela acaba por encontrar, está a fraquíssima pro­
babilidade de que tal suceda, mesmo apesar do longo tempo de 
espera possível. Bodenheimer tem perfeitamente razão quando fala 
de um péssimo, isto é, de um mundo reconhecidamente desfavo­
rável em que vive a maioria dos anit|hais. Somente, este mundo não 
é o mundo-próprio de cada um delés, mas o mundo ambiente de 
todos. Mundo-próprio óptimo, isto é, reconhecidamente favorável, e 
mundo ambiente péssimo, pode considerar-se a regra geral. Porque 
sucede sempre deverem tombar muitos indivíduos para que a espé­
cie subsista. Se o mundo ambiente não fosse, para certa espécie, 
péssimo, então esta, devido ao seu mundo-próprio, óptimo, podia 
conquistar a supromacla sobro todas as outras. (Noto do autor.)
[ 39]
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Manuela
Realce
homem é de 1/18 segundos Q . Veremos adiante que a 
duração do momento varia com os diferentes animais, 
mas seja qual for o valor que queiramos estabelecer para 
o caso da carraça, a possibilidade de suportar um mundo- 
-próprio invariável durante dezoito anos está fora do 
alcance de todas as probabilidades. Admitiremos, pois, 
que a carraça durante o seu período de espera se encon­
tra como que num estado de letargia, que também em 
nós interrompe o tempo por horas. Somente, o tempo no 
mundo-próprio da carraça pára, durante o seu período de 
espera, não por horas apenas, mas por vários anos, e ela 
volta à actividade quando o sinal de aviso «ácido butírico» 
a desperta para a nova fase de actividade.
Que ganhámos com esta noção? Alguma coisa muito 
significativa. O tempo, que serve de moldura a todo o 
acontecer, apresenta-se como a única constante objectiva 
perante a variada mudança do seu conteúdo, e agora 
vemos que o sujeito controla o tempo do seu mundo-pró- 
prio. Ao passo que até agora dizíamos: sem tempo não 
pode existir nenhum sujeito vivente, devemos agora 
dizer: sem um sujeito vivente não pode existir qualquer 
tempo.
No próximo capítulo veremos que outro tanto sucede 
com o espaço: sem um sujeito vivente não pode existir 
nem qualquer espaço nem qualquer tempo. Com isto 
encontrou a biologia unidade definitiva na doutrina de
{') Demonstra-o o cinema. Na passagem de um filme, os qua­
dros devem suCeder-se e deter-se alternadamente. Para que apare­
çam com perfeita nitidez, as exposições instantâneas e distintas 
devem ser ocultadas por um anteparo. A ocultação produzida, ver­
dadeiramente passa despercebida, se entre a ocultação e a exposi­
ção medear um intervalo de tempo de 1/18 segundos. Se esse 
tempo fosse mais longo resultaria uma tremulação insuportável. 
(Nota do autor.)
[40]
Kant, unidade que ela aproveitará no aspecto científico- 
-natural da doutrina dos mundos-próprios, ao acentuar-se 
o papel decisivo do sujeito.
1. OS ESPAÇOS DOS MUNDOS-PRÓPRIOS
Assim como um gastrónomo, do bolo só escolhe as 
passas, assim também a carraça, das coisas do seu 
ambiente só seleccionou o ácido butírico. Não nos inte­
ressa saber que sensação gustativa as passas desper­
tam no gastrónomo, mas apenas o facto de as passas se 
tornarem sinais-característicos do seu mundo-próprio, 
pois que, para ele, são dotadas de significado biológico 
especial; assim, também, não perguntamos como o ácido 
butírico cheira ou sabe à carraça, mas registamos apenas 
o facto de o ácido butírico ter passado a ser biologica­
mente significante como sinal-característico carraça.
Contentamo-nos com o admitir que no órgão-de-per- 
cepção da carraça devem existir células de percepção 
que manifestam os seus sinais-perceptivos, como o admi­
timos igualmente relativamente ao órgão assinalador do 
gastrónomo. A única diferença é que a percepção do 
ácido butírico passa a ser um sinal característico do seu 
mundo-próprio, ao passo que é a percepção das passas 
o que, no gastrónomo, passa a ser um sinal característico 
do seu.
O mundo-próprio do animal, que exactamente preten­
demos estudar, é apenas uma fracção do mundo ambiente 
que nós vemos desenrolar-se em volta do animal — e este 
mundo ambiente não é mais que o nosso mundo-próprio 
humano. O primeiro problema no estudo dos mundos- 
-próprios consiste em escolher, dentre os sinais carac­
terísticos do mundo que o rodeia, aqueles que são par­
ticulares ao animal e com eles construir o seu mundo- 
-próprio. O sinal característico «passas» deixa a carraça
[41]
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Manuela
Realce
perfeitamente indiferente, ao passo que o sinal caracte­
rístico ácido bgtírico desempenha no seu mundo-próprio 
um papel importante. No mundo-próprio do gastrónomo o 
que tem significado acentuado é, não o sinal caracterís­
tico ácido butírico mas o sinal característico «passas».
Cada sujeito fia as suas correlações como os fios 
de uma aranha, relativamente a determinadas proprie­
dades das coisas, e tece-as numa sólida teia que suporta 
a sua existência.
Quaisquer que possam ser as correlações entre o 
sujeitõ~e~os objectos do seu mundo ambiente elas ocor- 
r6[D„sempre exteriormente.ao sujeito em que temos de 
escolher os sinais característicos. Os sinais característi­
cos, ou qualidades, são, por isso, sempre de qualquer 
modo espacialmente ligados, e, põís que eles sVlibertãm 
uns aos outros numa certa ordem, são também ligados 
temporalmente.
Só por excessiva leviandade alimentamos a ilusão 
de as correlações do sujeito, outro que não nós, com as 
coisas do seu mundo-próprio existirem no mesmo espaço 
e no mesmo tempo que as que nos ligam às coisas do 
nosso próprio mundo humano. Esta ilusão é alimentada 
pela suposição da existência de um mundo único em que 
todos os seres vivos estão encerrados. Daí, a convicção 
geralmente aceite, de que deve haver um único espaço 
e um único tempo para todos os seres vivos. Só recen­
temente surgiram no espírito dos físicos dúvidas sobre 
a existência de um universo com um espaço válido para 
todos os seres. Que tal espaço não pode existir resulta 
já do facto de cada homem viver em três espaços que 
se penetram mutuamente, completando-se, mas que tam­
bém até certo ponto se contrapõem.
[42]
a) O espaçazd£.-axzeãe-
Quando, de olhos fechados, movemos livremente os 
nossos membros, estes movimentos, tanto em direcção 
como em extensão, são-nos exactamente conhecidos. 
Abrimos com as nossas mãos caminho num espaço a que 
damoso nome de âmbito dos nossos movimentos, ou, 
abreviadamente, espaço-de-acção.
Todos estes caminhos são por nós seguidos a peque­
nas passadas a que chamamos passos-de-orientação, por­
que a direcção de cada uma delas nos é rigorosamente 
conhecida mercê de uma sensação de orientação, ou 
sinal-de-orientação. E, na realidade, distinguimos seis 
orientações, que se opõem duas a duas: para a direita e 
para a esquerda, para cima e para baixo, para diante e 
para trás.
Têm-se feito estudos que provam ser de cerca de 
dois centímetros as passadas mais curtas que podemos 
dar, avaliadas pelo avanço do dedo indicador com o braço 
estendido. Estas passadas não dão, como se vê, uma 
medida exacta do espaço em que elas são seguidas. Cada 
um de nós pode fazer uma ideia aproximada desta inexac­
tidão, procurando levar ao contacto uma da outra, as pon­
tas dos dois indicadores das mãos. Verificaremos que 
a maior parte das vezes isso não se consegue e que 
aquelas passam à distância de dois centímetros uma 
da outra.
É, para nós, do mais alto significado o poder muito 
facilmente reter de memória o deslocamento uma vez 
seguido, o que nos permite escrever às escuras. Chama­
mos a esta capacidade «cinestesia», designação que 
nada de novo nos diz.
Ora, o espaço-de-acção não é meramente um espaço 
de movimento constituído por milhares de passadas-de- 
-orientação que se cruzam, mas possui um sistema de 
referência formado por planos perpendiculares entre si,
[43]
que definem o conhecido sistema de coordenadas, que 
serve de base a todas as determinações espaciais.
É de fundamentai importância que quem se ocupa do 
estudo do problema do espaço se compenetre deste facto. 
Que é tudo que há de mais simples. Basta movermo-nos 
para um e outro lado, com os olhos fechados e as palmas 
das mãos verticais e perpendiculares à testa, para, sem 
mais nada, podermos fixar o limite entre direita e 
esquerda. Este limite coincide aproximadamente com o 
plano mediano do corpo. Se nos deslocamos com as pal­
mas das mãos colocadas horizontalmente e à altura dos 
olhos, para cá e para lá, podemos analogamente determi­
nar onde se encontra o limite entre abaixo e acima. Este 
limite está, na maioria das pessoas, situado à altura dos 
olhos; mas em muitas encontra-se à altura do lábio supe­
rior. O limite entre o anterior e o posterior, que se deter­
mina com as palmas das mãos voltadas para a frente de 
um e outro lado da cabeça e deslocando-as para trás e 
para diante, está situado, em grande número de pessoas, 
à altura do orifício do ouvido, noutras, à altura da arcada 
zigomática, e ainda noutras, à altura da ponta do nariz. 
Cada pessoa normal dispõe de um sistema de coordena­
das formado por estes três planos, estritamente relacio­
nado com a cabeça (fig. 4) e com que confere ao seu 
espaço-de-acção o quadro fixo em que se dão os passos- 
-de-orientação.
No labirinto confuso dos passos-de-orientação, que 
como elementos de deslocamento não podem conferir ao 
espaço-de-acção nenhuma fixidez, os planos fixos de refe­
rência fornecem uma estrutura segura que garante a 
ordem no espaço-de-acção.
A grande contribuição de Cyon (1) consistiu em refe-
O Elie v. Cyon (1842-1912), fisiólogo russo, descobridor de 
nervos e funções nervosas muito importantes. (Nota da edição 
alemã.)
[44]
rir a tridimensionalidade do nosso espaço a um órgão 
sensorial situado no nosso ouvido interno — os canais 
semicirculares (fig. 5), cuja posição corresponde aproxi­
madamente aos três planos do espaço-de-acção.
Esta correspondência mostram-na tão claramente 
numerosas experiências, que podemos formular a 
seguinte proposição: todos os animais que possuem três 
canais semicirculares dispõem também de um espaço
tridimensional. A fig. 6 representa os canais semicircula­
res de um peixe. É evidente que estes devem ser da 
máxima importância para o animal. Em apoio disto se 
pronuncia também a sua estrutura interna, que neles tem 
um sistema de canais em que, sob o controlo dos nervos, 
se desloca um fluido nas três direcções do espaço. 
O movimento do fluido reflecte fielmente os movimentos 
de todo o corpo. Isto mostra-nos que o órgão, além da
[45]
função de deslocar os três planos no espaço-de-acção, 
tem ainda um outro significado. E, de facto, parece que 
ele desempenha ainda o papel de bússola. Não uma bús­
sola que se oriente sempre na direcção norte-sul, mas na
Fig. 6 — Canais semicirculares de um peixe
[46]
direcção das «portas de entrada». Quando todos os movi­
mentos do corpo em bloco, se decompõem e são regista­
dos em três direcções nos canais semicirculares, o ani­
mal deve encontrar-se no ponto de partida, quando, por 
meio de vibrações, os sinais nervosos tenham voltado 
ao zero.
É indubitável que uma bússola que indique as portas 
de entrada deve ser, para todos os animais que dispo­
nham de um lugar onde se recolham, ninho ou local de 
postura, um recurso indispensável. A garantia de terem 
à sua disposição as portas que lhe dão acesso, obtida por 
sinais ópticos no espaço visual, não é, em geral, sufi­
ciente, porque eles devem poder reencontrá-las mesmo 
quando elas tenham mudado de aspecto.
A capacidade de redescobrirem as portas de entrada 
no espaço-de-acção puro, pode demonstrar-se que existe 
também nos insectos e moluscos, apesar de estes ani­
mais não possuírem canais semicirculares.
A seguinte experiência é bem convincente (fig. 7). 
Enquanto a maior parte das abelhas de uma colmeia voam 
pelo campo, desloca-se esta do seu lugar habitual para 
uns dois metros de distância. Verifica-se então que, de 
volta a ela, se acumulam pairando no ar, no lugar em que 
ela antes se encontrava e com ela o orifício de acesso — 
o seu ponto de partida. Só passados uns cinco minutos 
elas se resolvem a voar para aquela sua nova situação.
Levando mais longe esta experiência demonstrou-se 
que aquelas abelhas a que se tinham cortado as antenas 
se dirigiam sem se deterem para a colmeia deslocada, o 
que significava que, só enquanto as possuíam se orienta­
vam no espaço-de-acção. Sem elas orientam-se à custa 
dos sinais visuais do campo. As antenas da abelha devem, 
pois, considerar-se como órgão que, de qualquer modo, 
desempenha o papel de bússola da porta de acesso na 
sua vida normal, e lhe indica o caminho de regresso com 
mais certeza que os sinais visuais.
[47]
Posição anterior da cclmsia
Fig. 7 — Espaço-de-acção da abelha
Ainda mais surpreendente é a análoga descoberta- 
-do-lar, que os Ingleses designam pelo termo homing, por 
parte da lapa (’} (fig. 8). A lapa vive entre as zonas das 
marés, sobre as rochas. Os grandes exemplares da espé­
cie gravam na rocha para seu uso e com a sua concha 
dura, um leito em que, aderindo fortemente a ela, pas­
sam o período da baixa-mar. No período da preia-mar 
começam a deslocar-se e a pastar nas rochas dos seus 
arredores. Logo que a maré começa a baixar buscam de 
novo o seu leito, não seguindo sempre o mesmo caminho. 
Os olhos da lapa são tão rudimentares que o molusco, só 
à custa deles, muito dificilmente consegue reencontrar o 
seu ponto de partida. A existência de qualquer indício de 
olfacto é tão improvável como a de um sentido de visão. 
Só resta admitir a existência de uma como que bússola 
orientadora no espaço-de-acção, de que todavia não pode­
mos fazer a mínima ideia.
(’) Molusco gastrópode marinho do género Patella.
[48]
b) O espaço tác til
A pedra de fundação do espaço táctil não é nenhuma 
grandeza cinemática como a passada-de-orientação, mas 
sim uma grandeza estática, isto é, o local. O local tam-
Fig. 8 — Descoberta do lar pela lapa
bém deve a sua existência a um sinal-perceptivo do 
sujeito e não é qualquer aspecto inerente à matéria 
do ambiente. Foi Weber (') quem o demonstrou. Quando 
se colocam as pontas de um compasso, afastadas de(') Ernest Heinrich Weber (1795-1878) contribuiu para a 
fundação da fisiologia moderna. Estudou o sentido do tacto na pele. 
(Nota da ed. alemã.)
4 -A . IIOMENS [49]
um centímetro uma da outra (fig. 9), sobre o pescoço de 
uma pessoa, elas são apercebidas como distintas uma da 
outra. Cada àma delas encontra-se num local diferente 
do da outra. Quando se transportam, sem alterar a sua 
distância, as duas pontas do compasso para as costas e 
para pontos cada vez mais afastados do pescoço, é como
Fig. 9 — Compasso de Weber
se elas estivessem cada vez mais próximas uma da outra, 
até que, com esse mesmo afastamento, é como se as 
duas pontas tocassem a pele no mesmo ponto.
Daqui se conclui que além do sinal-perceptivo da 
sensação do tacto possuímos sinais-perceptivos para a 
sensação do local, a que chamamos sinais do local. Cada 
percepção-de-localização corresponde, exteriorizada, a
[ 50]
um local em espaço-táctil. Os territórios da nossa pele 
que, ao serem tocados, produzem a mesma percepção- 
-de-localização variam largamente de extensão, conforme 
a importância que tem para o tacto a região da pele que 
é tocada. A par da ponta da língua, que tacteia a cavi­
dade bucal, as extremidades dos nossos dedos possuem 
os territórios de menor extensão, e podem, por isso, dis­
tinguir uns dos outros a maior parte dos locais. Quando 
tocamos com os dedos um objecto, atribuímos, por inter­
médio destes, à sua superfície um delicado mosaico de 
locais. O mosaico de locais dos objectos dos lugares fre­
quentados por um animal é, tanto no espaço táctil como 
no espaço visual, uma atribuição feita pelo sujeito às 
coisas do seu mundo-próprio, que de modo nenhum 
existe no ambiente.
Ao tocarem-se pontos diferentes, os locais relacio­
nam-se com as passadas-de-orientação e juntos servem 
para o esboçar da forma.
O espaço táctil desempenha um papel muito impor­
tante em muitos animais. Os ratos e os gatos continuam 
a deslocar-se sem hesitar, mesmo quando cegos — con­
tanto que conservem os seus pêlos tácteis. Todos os ani­
mais nocturnos e todos os que habitam em grutas vivem 
essencialmente em espaço táctil, que uma fusão de loca­
lizações e passadas-de-orientação delimita.
c) O Rspar.n-viRual
Os animais desprovidos de olhos, que, como a car­
raça, possuem pele sensível à luz, é de presumir que 
possuam as mesmas zonas tegumentares para a realiza­
ção de localizações, tanto por meio de estímulos lumino­
sos como por meio de estímulos tácteis. Localizações 
ópticas e localizações tácteis coincidem no seu mundo- 
-próprio.
[51]
Só nos animais providos de olhos, o espaço visual 
e o espaço táctil se distinguem um do outro. Na retina 
do olho os pequeníssimos territórios elementares — os 
elementos visuais — dispõem-se muito densamente uns 
em relação aos outros. A cada elemento visual corres­
ponde um acidente local no mundo-próprio, pois que se 
provou que a cada elemento visual corresponde um sinal- 
-do-local.
A fig. 10 representa o espaço visual de um insecto
voador. É fácil ver que, em consequência da forma con­
vexa do ,olho, o território do mundo exterior que atinge 
um elemento visual aumenta com a distância, e por cada 
local é discernida uma parte do mundo ambiente cada 
vez mais vasta. Disto resulta que todos os objectos que 
ficam mais afastados do olho se apresentam cada vez 
mais pequenos até desaparecerem no interior de um
[ 52]
local. De modo que o local representa a menor porção de 
espaço dentro do qual não há qualquer diferenciação.
A aparente diminuição de grandeza dos objectos não 
se dá no espaço táctil. E é neste ponto que espaço visual 
e espaço táctil se opõem. Quando pegamos numa chá­
vena com o braço estendido e a dirigimos para a boca, 
ela aumenta de dimensões aparentes em espaço visual, 
mas não em espaço táctil. Neste caso o espaço táctil 
tem vantagem sobre o espaço visual pois que o aumento 
de tamanho da chávena passa despercebido a um obser­
vador não atento.
Como a mão que palpa, o olho que olha em volta 
estende sobre todas as coisas do mundo-próprio um deli­
cado mosaico de locais, cuja finura depende do número 
de elementos visuais que atingem as mesmas secções 
do ambiente.
Pois que o número dos elementos visuais varia muito 
de animal para animal, o mosaico-de-locais deve também 
variar. Quanto menos fino for tanto maior número de par­
ticularidades das coisas devem perder-se, e o mundo, 
visto por um olho de mosca deve parecer muito mais 
grosseiro do que o visto por um olho humano.
Como cada imagem pode variar por sobreposição de 
uma rede fina num mosaico de locais, o método da rede 
proporciona-nos a possibilidade de realizar a representa­
ção dos mosaicos de locais dos diferentes animais.
Basta, para tanto, reduzir sucessivamente a mesma 
representação, vê-la depois através da mesma rede, foto- 
grafá-la e depois ampliá-la. Assim aquela se pode trans­
formar num mosaico cada vez mais grosseiro, reprodu­
zindo-o em aguada, sem rede, que tornaria confuso o seu 
aspecto. As figs. 11 a-d são aqui representadas tal como 
se obtiveram pelo método da rede, e dão-nos a possibili­
dade de se obter um aspecto do mundo-próprio de um 
animal, quando se conhece o número de elementos 
visuais do seu olho. A fig. 11 c corresponde aproximada-
[53]
Fig. 11 a — Fotografia de uma rua de aldeia
[ 54]
mente à reprodução fornecida pelo olho da mosca domés­
tica. É fácil de compreender que num mundo-próprio que 
apresenta tão poucas particularidades, os fios de uma 
teia de aranha devem passar completamente despercebi­
dos, e é legítimo dizer: a aranha tece uma teia que é 
completamente invisível à sua presa.
A última figura (11 d) corresponde aproximadamente 
à representação da impressão dada por um olho de 
molusco. Como se vê, o espaço visual das lapas e dos 
mexilhões contém apenas algumas manchas escuras e 
claras (’).
Como no espaço táctil, as conexões no espaço visual 
são feitas por passadas de orientação de local para local.
Quando fazemos uma preparação à lupa, que tem por 
função discernir um grande número de locais em uma 
pequena área, podemos verificar que não é só a nossa 
vista mas também a nossa mão que guia a agulha de 
dissecção, realiza passadas-de-orientação muito mais 
curtas, correspondentes a locais tornados muito mais 
próximos uns dos outros.
2. O HORIZONTE
Ao contrário do espaço-de-acção e do espaço táctil, 
o espaço visual é limitado em toda a volta por uma 
parede impenetrável, a que chamamos o campo longín­
quo, ou o horizonte.
Sol, Lua e estrelas movem-se, sem distância em pro-
(’) Estas representações indicam apenas o processo que leva 
a fazer uma primeira ideia das diferenças dos aspectos sob que 
vários animais vêem os objectos exteriores. Quem queira ficar com 
uma ideia das particularidades desses aspectos dinâmicos, no caso 
dos insectos, terá um guia na obra de K. v. Frisch Aus dem Leben 
der Bienen («Acerca da Vida das Abelhas»), ed. Springer, 5.“ edi­
ção, 1953. (Nota da ed. alemã.)
[55]
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Fig. 11 c — A mesma para um olho de mosca
Fig. 11 d — A mesma para um olho de molusco
[56]
fundidade entre si, sobre o mesmo horizonte, que inclui 
tudo o que se abrange com a vista. A situação do hori­
zonte não é invariavelmente fixa. Quando depois de uma 
grave febre tifóide eu dei o meu primeiro passeio fora 
de casa, o horizonte pendia como uma colgadura varie­
gada a uns vinte metros de distância, sobre a qual tudo 
o que eu via se delineava. Para além de vinte metros 
não havia quaisquer objectos mais próximos ou objectos 
mais afastados, mas só objectos maiores ou menores.
A lente do nosso olho (o cristalino) tem a mesma 
função que a de uma câmara fotográfica: a de projectar 
nitidamente na retina, que corresponde à placa fotográ­
fica, os objectossituados em frente dos nossos olhos. 
A lente do olho humano é elástica e pode, pela acção de 
músculos próprios a ela ligados, variar mais ou menos 
de curvatura (o que corresponde à focagem da lente da 
câmara fotográfica).
Em virtude da contracção dos músculos do cristalino 
manifestam-se sinais de orientação no sentido de trás 
para diante do olho. Quando esses músculos, relaxan- 
do-se, se alongam pela acção da elasticidade da lente, os 
sinais dados indicam o sentido de diante para trás.
Quando os músculos estão completamente relaxa­
dos, o olho está acomodado para a distância desde dez 
metros até ao infinito.
Dentro de um círculo de dez metros, as coisas no_ 
nosso mundo-próprio, em virtude da acção dos movimen: 
tõs~dõs músculos do cristalino, apresentam-se-nos como 
próximas ou afastadas. Para além desse .círculo dá-se, 
naturalmente, apenas um aumento ou diminuição do tama­
nho dos objectos. Nas crianças de peito o espaço visual 
termina àquela distância, limitado por um horizonte que 
tudo abrange. Só depois, a pouco e pouco, começamos 
a aprender, à custa de sinais-de-distância, a alargar cada 
vez mais o nosso horizonte, até que, ainda gradualmente 
com o nosso desenvolvimento, este limita o espaço visual
[57]
a uma distância de seis a oito quilómetros, em que aquele 
começa.
A diferença entre o espaço visual de uma criança e o 
de um adulto eWá figurada na fig. 12, que reproduz grafi­
camente uma experiência comunicada por Helmholtz (1). 
Relata ele que, ainda pequeno, ao passar pela igreja da 
guarnição de Potsdam, notara na galeria da torre daquela 
alguns operários. Pediu então a sua mãe que lhe fosse 
buscar um daqueles bonequitos pequenos. A igreja e os 
operários já estavam contidos no seu horizonte, e por 
isso não estavam afastados, eram apenas pequenos. Tinha 
pois toda a razão para admitir que sua mãe podia, com 
os seus braços compridos, tirar os bonecos da galeria. 
Ele não sabia que no mundo-próprio de sua mãe a igreja 
tinha dimensões perfeitamente diferentes das que tinha 
no seu, e que na galeria o que havia era homens, não, 
pequenos, mas, afastados. Quanto aos animais, a situa­
ção do horizonte nos seus mundos-próprios é difícil de 
determinar, porque a maior parte das vezes não é fácil 
de experimentalmente verificar quando é que um objecto 
do ambiente, ao aproximar-se do sujeito não só passa a 
ser maior mas também a ficar aparentemente mais pró­
ximo. Estudos de captura de moscas domésticas mostram 
que só quando a nossa mão se aproxima até cerca de 
meio metro de distância esta foge voando. Por conse­
guinte, é de admitir que o horizonte da mosca deverá 
estar a esta distância aproximadamente.
Mas outras experiências realizadas ainda com a 
mosca doméstica deixam entrever que no seu mundo-pró­
prio o horizonte se revela de outra maneira. Sabe-se que 
as moscas não só giram em volta de uma lâmpada sus-
(') Hermann v. Helmholtz (1821-1894), fisiólogo e físico 
inventor do oftalmoscópio, defensor da teoria ondulatória de Max­
well; autor de interpretações sobre a natureza da energia, etc (Nota 
da ed. alemã.)
[58]
Fig. 12 — O horizonte de um adulto (em baixo) e de uma criança 
(em cima)
[ 59]
pensa ou de um lustre, mas interrompem o voo, sempre 
recuando, quando se tenham afastado de meio metro des­
sas fontes luminosas, para depois fugirem para o lado 
ou para baixo delas. De modo que se comportam como 
um homem do mar que, no seu barco à vela não quer 
perder uma ilha de vista.
Ora, o olho de uma mosca é constituído de modo tal 
que os seus elementos visuais (rabdomas) (fig. 13) apre­
sentam estruturas alongadas nervosas que a imagem
Fig. 13 — Forma de um olho composto de uma mosca. Repre­
sentação esquemática: a) o olho de que se destacou um 
sector (segundo Hesse); b) duas omatídeas: Cor, córnea, 
quitinosa; K, núcleo; Kr, cone cristalino; Krz, célula desse 
cone; Nf, fibra nervosa; P, pigmento; Pz, célula pigmentar;
Retl, retícula; Rh, rabdoma; Sz, célula visual
dada pelas suas lentes devem atravessar até diferentes 
profundidades, correspondentes às distâncias dos objec­
tos vistos. Exner (1) sugeriu que neste caso podia tratar-se
(’) Siegmundo Exner (1846-1926), desde 1875 professor do 
«Physiologischen instituí». Viena. Publicou trabalhos sobre óptica 
fisiologica assim como sobre a função do córtex cerebral. (Nota da
[ 60]
de um dispositivo que substituiria os músculos do crista­
lino do olho humano.
Se admitirmos que o dispositivo óptico dos elemen­
tos visuais funciona como uma lente, o lustre, a uma
Fig. 14 — Lustre, para um homem
Fig. 15 — Lustre, para uma mosca
certa distância deixava de ser visto; e a mosca voltava a 
aproximar-se. Comparem-se, a este respeito, as figs. 14 
e 15, que representam um lustre visto sem ou com uma 
lente interposta.
[ 61]
Se, seja como for, o horizonte encerra, incluindo-o, 
o espaço visual — ele existe sempre. De modo que deve­
mos considerai todos os animais que à nossa volta ani­
mam a naturezte — os coleópteros, borboletas, moscas, 
mosquitos, libelinhas, que povoam um prado — como que 
encerrados numa «bola de sabão» que limita o seu 
espaço-visual e em que tudo o que é visível para o sujeito 
está contido. Cada «bola de sabão» aloja um local dife­
rente dos das outras, e em cada uma delas existem ainda 
os planos de referência dos espaços-de-acção que con­
ferem ao espaço uma estrutura permanente. As aves que 
esvoaçam, os esquilos que saltam nos ramos, ou as vacas 
que pastam no prado, todos estão constantemente encer­
rados nas suas «bolas de sabão» que limitam o espaço.
Se tivermos estes factos bem presentes na mente, 
reconheceremos também a «bola de sabão» do nosso 
mundo-próprio — que envolve cada um de nós. Então 
veremos todos os nossos semelhantes encerrados em 
«bolas de sabão», que se interceptam sem resistências, 
porque são constituídos por sinais-perceptivos subjecti­
vos. Não exisífi^de modo nenhum, espaco independente 
do sujeito. Se, porém, nós nos agarramos à ficção de um 
espaço universal, é apenas porque recorrendo a essa 
mentira convencional conseguimos compreender-nos me­
lhor uns aos outros.
3. A PERCEPÇÃO DO TEMPO
É a Karl Ernest v. Baer (') que cabe o mérito de ter 
considerado evidente ser o tempo uma criação do sujeito. 
O tempo como sequência de momentos varia do-iim ,. 
mundo para os oujros. consoante o número de momentos ,
('} 1792-1876. Zoólogo, fundador de uma doutrina da evolução 
diferente da de Darwin. (Nota da ed. alemã.)
[ 62]
que os sujeitos vivem nojnesmo intervalo de tempo. Os 
momentos sao os mínimos, indivisíveis, continentes_de^ 
tempo, poislnje são a expressão de sensações elemen­
tares indivisíveis,L_os_ chamados TsTnãlsUnsfãííi^neos. No 
homem, como já dissemos, a duração de um momento 
é de 1/18 do segundo. E, na realidade, é o mesmo para 
todos os domínios sensoriais, porque todas as impres­
sões dos sentidos são acompanhadas por os mesmos 
sinais instantâneos.
Dezoito vibrações do ar por segundo já não se ouvem 
como sons separados, mas como um som contínuo. 
Demonstrou-se que nós sentimos dezoito choques que 
nos afectem a pele num segundo, como se fosse uma 
pressão còTiitante.
A cinematografia torna possível projectar na tela 
movimentos do mundo exterior no ritmo que nos é habi­
tual. As imagens destacadas seguem-se ali com peque­
nos intervalos de 1/18 do segundo.
Se quisermos seguir movimentos que, para a nossa 
vista, fluem com demasiada rapidez, temos de nos servir 
da lupa-de-tempo.
Chama-se lupa-de-tempo ao procedimento que con­
siste em tirar um grande número de negativos por 
segundo, projectando-os depois no ritmo normal. Deste 
modo alargamos o decorrer do movimento por um maior 
intervalo de tempo, e teremos a possibilidade de distin­
guir acontecimentos que para o nosso ritmo de tempo 
(de dezoito por segundo)são demasiado rápidos, como 
o bater de asas das aves e insectos. Assim como a lupa- 
-de-tempo retarda o fluir do movimento, assim também 
este é apressado pelo redutor-de-tempo. Quando regista­
mos graficamente hora a hora um acontecimento, e 
depois projectamos as suas diferentes fases com inter­
valos de 1/18 de segundo, contraímo-lo num certo inter­
valo de tempo e assim conseguimos a possibilidade de
[ 63]
distinguir acontecimentos que para o nosso ritmo de 
tempo são muito lentos, como o abrir de uma flor.
Põe-se a questão de saber se há animais cuja per­
cepção do tempo tenha momentos mais longos ou mais 
curtos do que os nossos, e em cujos mundos-próprios, 
por isso, os decursos de movimento1 sejam mais lentos 
ou mais rápidp_s_ que_no- nosso.
Os primeiros estudos feitos a este respeito foram 
realizados por um jovem investigador alemão, que mais 
tarde teve a colaboração de um outro, principalmente no 
estudo da reacção do peixe-lutador à sua própria imagem 
dada por um espelho. Este peixe não reconhece esta 
quando ela lhe é apresentada dezoito vezes por segundo; 
para a reconhecer necessita que o seja o mínimo trinta 
vezes por segundo. Um terceiro investigador ensinou o 
peixe-lutador a abocar o isco quando por trás dele se 
fazia girar um disco cinzento. Quando, porém, se fazia 
girar lentamente um disco com sectores negros e bran­
cos funcionando como «quadro-de-aviso», imediatamente 
o peixe tinha um ligeiro sobressalto quando se aproxi­
mava o isco. Aumentando então a velocidade de giração 
do disco, as reacções tomam-se menos regulares a uma 
certa velocidade para logo depois suceder o contrário 
quando aquela aumenta. Isto começava a dar-se só quando 
os sectores negros se seguiam uns aos outros com um 
intervalo de 1/50 do segundo. O quadro de aviso branco- 
-negro tornava-se então cinzento. Daqui se conclui com 
certeza que, nestes peixes, os quais se alimentam de 
presas que se deslocam rapidamente, todos j>s fenóme- 
nos de movimento no seu mundo-próprio se passam, 
como na lupa-de-tempo, retardadamente. ~
Um' exemplo de contracção de tempo está represen­
tado ha fig. 16, tirada da obra antes citada. Sobre uma 
bola de borracha aue, flutuando na água, pode nela escor- 
reaar praticamente sem atrito, coloca-se um caracol, que 
se fixa pela concha, com uma pinça, a um suporte. Deste
[ 64]
modo ele não é impedido de rastejar, conservando-se con­
tudo sempre no mesmo lugar. Se agora pusermos em 
contacto com a palmilha do caracol uma varazinha, este 
rastejará sobre ela. Se aplicarmos um a três toques da 
vara, por segundo, sobre o caracol, ele reage afastando-se 
dela, mas se os toques se repetirem quatro ou mais 
vezes por segundo, então o caracol começa a arrastar-se
Fig. 16 — O momento do caracol. S=esfera; £=engrenagem;
A/=varazinha; S=caracol
ao longo da varazinha. No mundo-próprio do caracol, uma 
vara que vibra com o períodcTde quatro vezes por segundo 
é como se estivesse em repouso. De onde devemos con­
cluir que o tempojdo caracol flui num ritmo de três a 
quatro momentos por segundo. Isto tem como conse- 
quência que no mundo-próprio do caracol todos os fenó­
menos de movimento se passam muito mais rapidamente 
do que no nosso. Além disso os movimentos típicos do 
caracol não fluem para ele mais lentamente do que os 
nossos para nós.
5 - A. HOMENS [ 65]
4. OS MUNDOS-PRÓPRIOS ELEMENTARES
\
Espaço e tempo não são de qualquer préstimo ime­
diato para o sujeito. Só adquirem significado quando mui­
tas características que, sem o quadro temporal e espa­
cial ruiriam, tem de ser diferenciadas. Um tal quadro, 
em mundos-próprios elementares, em que há um único 
sinal-característico, não é, porém, necessário.
A fig. 17 representa par a par o mundo ambiente e
Fig. 17— Mundo ambiente e mundo-próprio da paraméciá
[ 66]
o mundo-próprio da paramécia, um pequeno ciliado. 
A paramécia é revestida de densas fiadas de cílios, por 
meio de cuja agitação se move rapidamente na água, 
girando em torno do seu eixo maior.
De todas as diferentes coisas que se encontram 
no seu mundo ambiente, o seu mundo-próprio apreende 
apenas a característica, sempre a mesma, pela qual a 
paramécia quando quer que seja, seja como for e onde 
for, é estimulada a desencadear o mesmo movimento. 
O mesmo carácter de obstáculo provoca sempre o mesmo 
movimento de fuga. Este consiste em um movimento de 
recuo, a que depois se segue um desvio lateral, seguido 
de novo avanço, de modo que o obstáculo é ultrapassado. 
Pode dizer-se que, neste caso, o mesmo sinal caracterís­
tico é cancelado pela mesma marca-de-acção. Quando o 
animalzinho contacta com uma partícula das que lhe ser­
vem de alimento (1) — as bactérias de decomposição, que, 
de entre tudo que existe em todo o mundo-ambiente, não 
determinam qualquer estímulo — o animal detém-se. 
Estes factos mostram-nos como a natureza consegue 
estruturar a vida segundo um.plano com um único ciòío- 
-de-função.
Alguns animais pluricelulares, como as medusas 
pelágicas do género Rhizostoma, também podem, bas­
tar-se a si próprias com um único ciclo de função.
Neste caso o organismo consiste num dispositivo 
hidráulico natatório que recolhe em si a água do mar não 
filtrada, rica em plâncton, e a reexpele filtrada. A única 
manifestação de vida na medusa consiste em oscilações, 
para um e outro lado, da umbela gelatinosa e contráctil. 
Por meio de uma pulsação sempre igual, o animal man­
tém-se nadando à superfície do mar. Ao mesmo tempo, o 
intestino, membranoso, dilata-se e contrai-se alternada­
mente, assim entrando e saindo a água do mar, por peque-
C) Na figura 17, Nahrung.
[ 67]
é ° m o e i d o « I eX'St! nteS- 0 conteúdo f,uid° do intestino 
d Ü h 90 extensos canais digestivos, cujas
Mat a S n 6m ? a,Íment0S 6 ° ox,9®ni° arrastado. 
to d a fS n l 83?. alimentos e respiração mecânica 
r..In Sa° r aS Pela contracção rítmica dos mús-
mnv meX' f 6nteS naS margenS da umbela' Para que estes 
movimentos se continuem sem interrupção, existem nas%
Fig. 18-M e d u s a pelágica com corpos marginais
margens da umbela oito órgãos campanuliformes (corpos 
margma,s) íconvencionalmente representados na fiq 18)cujos bad l0Si a cada puIsaç_0j cPQca os na fig. 18).
nervosa. O estímulo resultante do choque, p ro v ia a oul 
saçao seguinte da umbela. Deste modo a medü™ p Z c a
característico ' “ - es,a U b e r t s T Z l l
provoca de ° •
[ 68]
No mundo-próprio da medusa soa sempre a mesma 
badalada, que governa o ritmo da vida. Todos os outros 
estímulos se apagam.
No caso em que um único ciclo-de-função se mani­
festa, como em Rhizostoma pode realmente falar-se de 
um animal reflexo, porque o mesmo reflexo se desenca­
deia desde cada campânula até à faixa muscular na mar­
gem da umbela. Deveremos, porém, falar de animais 
reflexos, quando existem ainda outros arcos reflexos, 
como sucede em outras medusas, quando eles se con­
servam completamente independentes. Assim, há medu­
sas que possuem filamentos pescadores que contêm em 
si a fonte de arcos reflexos que se fecham sobre si pró­
prios. Muitas possuem ainda um manúbrio bucal móvel, 
provido de musculatura própria, que está ligado aos 
receptores da margem da umbela. Todos estes arcos 
reflexos funcionam com perfeita independência uns dos 
outros, não sendo controlados por nenhum órgão central. 
Quando um órgão exterior é a sede de um arco reflexo, 
diz-se que é como se fosse um «indivíduo reflexo». Os 
ouriços-do-mar são constituídos põr um grande numero 
desses indivíduos reflexos, cada um dos quais, por si e 
sem coordenação central, desempenha a sua função 
reflexa. Para tornar claro o contraste entre os animais 
assim constituídos e os animais superiores, formulei a 
proposição seguinte: quando um cão se desloca, o animal 
move as pernas, quando um ouriço-do-mar se desloca, as«pernas» movem o animal. Os ouriços-do-mar põssuerrrr 
como o ouriço-cacheiro, muitos espinhos, que, contudo, 
fazem parte de indivíduos reflexos autónomos.
Além dos espinhos rígidos e picantes que assentam 
numa superfície articular esférica do testo e estão pron­
tos a opor uma floresta de lanças a qualquer objecto, 
capaz de provocar qualquer irritação, que se aproxime 
do testo, existem ventosas pediceladas (pés ambulacrá- 
rios) moles, longas e musculosas, que servem para a
[ 69]
locomoção. A l^ém disto, muitos ouriços-do-mar possuem 
ainda, espalhadas por toda a superfície do testo, quatro 
tipos de pinças (pinças ornamentais, pinças percussoras, 
pinças preensof-as e pinças venenosas) cada tipo com a 
sua utilização especial.
Apesar de muitos indivíduos-reflexos funcionarem 
em conjunto, as suas actividades são absolutamente inde­
pendentes umas das outras. Assim, actuados pelo mesmo 
estímulo químico proveniente do inimigo do ouriço — a 
estrela-do-mar — os espinhos divergem subitamente e em 
vez deles surgem as pinças venenosas que encarniçada- 
mente se lançam contra os pés ambulacrários daquela.
Pode-se, pois, neste caso, falar de uma «república 
reflexa», em que, porém, apesar da independência de 
todos os indivíduos reflexos, reina um «espírito cívico» 
perfeito. Porque os próprios pés ambulacrários, moles, 
do ouriço-do-mar nunca são atacados pelas pinças preen- 
soras, que aliás mordem qualquer objecto próximo.
Este «espírito cívico» não é ditado por qualquer posto 
central, como sucede com o homem, onde também os 
dentes cortantes constituem um perigo para a língua, o 
qual só é evitado mediante a intervenção do sinal-percep- 
tivo do perigo de dor no órgão central. Porque o perigo 
de dor impede o acto que o provoca.
Na república de reflexos do ouriço-do-mar, que não 
possui nenhum centro superior de coordenação, o «espí­
rito cívico» tem de ser atribuído por outros meios. É a 
substância, autodermina, que o consegue. Não diluída, 
ela não paralisa os receptores dos indivíduos reflexos. 
Nos tegumentos existe em diluição tão elevada que é 
inactiva quando ao contacto de um objecto estranho. 
Logo, porém, que dois pontos do tegumento contactam, 
a sua actividade manifesta-se e impede o desencadear 
do reflexo.
Uma república de reflexos, como é o ouriço-do-mar, 
pode perfeitamente admitir no seu mundo-próprio várias
[ 70]
notas, ou sinais característicos, se se compuser de vários 
indivíduos-reflexos. Tais notas, porém, devem manter-se 
completamente isoladas, pois que todos os ciclos-de-fun- 
ção se realizam, completamente isolados uns dos outros.
Já a carraça, cujas manifestações vitais consistem, 
como vimos, em três reflexos, representa um tipo mais 
elevado, pois que os ciclos-de-função não se utilizam 
desses arcos reflexos isolados, mas possuem um órgão- 
-de-percepção comum. Existe, por isso, a possibilidade de, 
no mundo-próprio da carraça, o animal-presa, embora con­
sista apenas em estímulo do ácido butírico, estímulo do 
tacto e estímulo do calor, constituir, não obstante, uma 
unidade.
Tal possibilidade não existe no caso do ouriço-do- 
-mar. Os seus sinais característicos, que se compõem de 
estímulos graduados de pressão e estímulos químicos, 
constituem grandezas completamente isoladas.
Muitos ouriços-do-mar respondem a qualquer 
obscurecimento do horizonte com um movimento dos 
espinhos que, como o mostram as figs. .19 a e 19 b, se 
verifica igualmente como resposta contra uma nuvem, um 
navio, e o seu verdadeiro inimigo, um peixe. Mas a repre­
sentação do mundo-próprio ainda não está suficiente­
mente simplificada. Não é o caso de o sinal característico 
sombra ser transferido pelo ouriço-do-mar para o espaço, 
pois que este não possui nenhum espaço visual, e as 
sombras só se efectivam como por uma leve passagem 
de um floco de algodão sobre o tegumento, sensível à luz. 
Representar isto graficamente era tecnicamente impos­
sível.
5, FORMA E MOVIMENTO 
COMO SINAIS-CARACTERÍSTICOS
Mesmo qué se quisesse admitir que, no caso do 
mundo-próprio do ouriço-do-mar, todos òs sinais-caracte-
[ 71]
Fig. 19 a — Mundo ambiente do ouriço-do-mar
- ^ 'IV ,
v 3 ^ w’" -
Fig. 19 b — Mundo-próprio do ouriço-do-mar 
[ 7 2 ]
rísticos, ou notas, dos diferentes indivíduos-reflexos são 
dotados de uma representação em espaço, e por isso cada 
um se encontra num local diferente do de cada outro — 
não havia, contudo, nenhuma possibilidade de relacionar 
estes locais uns com os outros. Por isso a este mundo- 
-próprio devem necessariamente faltar os sinais caracte­
rísticos de forma e de movimento que pressupõem a 
ligação de vários locais de uns com os outros — e é isso 
o que se dá. Forma e movimento aparecem pela primeira 
vez em mundos de percepção superiores. Ora nós estamos
Fig. 20 — Gralha-de-bico-vermelho e gafanhoto
habituados a admitir, graças às experiências adquiridas 
no nosso mundo-próprio, que a forma de um objecto ó 
a nota, ou sinal-característico, dada em primeiro lugar, e 
que o movimento sobrevem ocasionalmente como sinal- 
-característico secundário. Isto porém não é o que se 
passa em muitos mundos-próprios dos animais. Neles, 
forma em repouso e forma em movimento não são dois 
sinais-característicos inteiramente independentes um do 
outro, podendo também ocorrer o movimento sem forma, 
como sinal-característico independente.
A fig. 20 representa a gralha-de-bico-vermelho, ou 
corvacho, caçando gafanhotos. A gralha é completamente
[ 73]
incapaz de descobrir um gafanhoto em repouso, e só o 
ataca quando ele salta.
Nestas circunstâncias conjecturamos imediatamente 
que a forma <^ o gafanhoto em repouso é bem conhecida 
da gralha, mas por causa da erva que dissimula não é por 
aquela reconhecida como unidade, exactamente como 
nós só com dificuldade conseguimos destacar num dese- 
nho-quebra-cabeças uma forma conhecida. Segundo esta 
maneira de ver, a forma só ao saltar se distingue das dis- 
simuladoras imagens circumvizinhas.
Mas segundo outras experiências é de admitir que 
a gralha não reconhece a forma do gafanhoto em repouso 
mas apenas está adaptada a reconhecer a forma em 
movimento. Isto explicaria «a simulação da morte» de 
muitos insectos. Quando a sua forma imóvel não existe 
essencialmente no mundo de percepção do inimigo per­
seguidor, eles por meio desse subterfúgio, escapam-se 
a salvo desse mundo de percepções do inimigo e nunca 
podem ser descobertos quando ele os procura.
Eu construí um «anzol» para moscas, que se compõe
de uma varazinha de que suspendi por um fio fino uma
ervilha revestida de visco. Se por meio de uma leve vibra-
çao da varazinha pusermos a ervilha em movimento no
parapeito de uma janela sobre que haja muitas moscas
sempre algumas se lançarão sobre a ervilha, ficando pega-
as a ela, podendo depois verificar-sè que são sempre 
machos.
O fenómeno representa uma espécie de falsas 
núpcias. No caso de moscas que voam em volta de um 
ustre. e ainda de machos que se lançam sobre fêmeas 
que por ali voam, que se trata. A ervilha ao agitar-se 
imita o sinal-característico de fêmea que voa e por isso 
e tomada, nunca tal sucedendo quando está imóvel do 
que se pode ainda concluir que fêmeas imóveis e fêmeas 
a voar sao dois sinais-característicos distintos
[ 74]
Mas que o movimento independente de forma pode 
figurar como sinal característico, pode-se concluir da 
fig. 21, que representa comparadamente o que se passa 
com a vieira no seu mundo ambiente e no seu mundo- 
-próprio.
No mundo ambiente do molusco, e ao alcance da 
vista dos seus cem olhos, encontra-se o seu mais encar­
niçado inimigo, a estrela-do-mar, astéria. Enquanto esta 
se conserva imóvel, não tem qualquer acção sobre o 
molusco. A sua forma característica não é para ele um 
sinal. Mas logo que ela se põe em movimento, o molusco 
estende,como reacção, os seus longos tentáculos, que 
funcionam de órgãos do olfacto; aproximando-se da 
estrela-do-mar e recebem o novo estímulo. A seguir, o 
molusco ergue-se e afasta-se nadando.
As experiências têm mostrado ser indiferente a 
forma ou a cor que um objecto móvel possua. Pois que, 
no mundo-próprio do molusco, ele manifesta-se sempre 
como sinal característico, se o seu movimento é tão 
lento como o da estrela-do-mar. Os olhos da vieira não 
são adequados para distinguir a forma ou a cor mas. 
excTusivamenteT um^ 'cèrto^ritmo de movimento, o ritmo 
próprio do seu inimigo. Mas este não fica, por este meio, 
completamente caracterizado: para que o segundo ciclo- 
-de-função se desencadeie é preciso que, primeiro, sobre­
venha um sinal olfactivo; então o molusco afasta-se daj 
proximidade do inimigo, fugindo, e, por meio deste sinalj 
-de-acção, o sinal característico do inimigo é finalmente 
anulado.
Durante muito tempo supôs-se que no mundo-próprip 
da minhoca existia um sinal característico para a forma. 
Já Darwin sugerira a esse respeito que a minhoca se com­
portava como se reagisse à forma tanto de folhas, como 
de agulhas de pinheiro.
A minhoca transporta para a sua alongada moradia,
[ 75]
Fig. 21— Mundo ambiente e mundo-próprio da vieira
[ 76]
folhas e agulhas de pinheiro (fig. 22), que lhe servem 
indiferentemente de protecção e de alimento. Verifica-se 
que quando se tenta fazer entrar numa galeria estj-eita 
e com o pecíolo para a frente, a maior parte das folhas, 
elas encontram certa resistência. Pelo contrário, enro-
Fig. 22 — A capacidade de discernimento 
pelo gosto, na minhoca
lam-se facilmente e não se nota qualquer resistência 
quando é o vértice que vai à frente. Quanto às agulhas 
de pinheiro, que se desprendem dos ramos sempre aos 
pares, essas devem fazer-se entrar na galeria não com 
o vértice mas com a base para a frente.
[ 77]
Do. facto de a minhoca se utilizar, sem encontrar difi­
culdades, de folhas e de agulhas de pinheiro, concluíra-se 
que a forma pestes objectos, que no mundo-de-acção da 
minhoca desempenham um papel tão importante, devia 
existir no seu mundo-de-percepção como nota-carac- 
terística.
Verificou-se* que esta conclusão era incorrecta. Pôde 
demonstrar-se que as minhocas arrastam para dentro das 
suas galerias pequenas varazinhas, todas com a mesma 
forma e que se tinham revestido de gelatina, indiferente­
mente com uma ou a outra extremidade para a frente. 
Mas quando se polvilha com pó de um vértice de folha 
de cerejeira uma das extremidades da varazinha, e a outra 
com pó da sua parte basilar, as minhocas distinguem per­
feitamente as duas extremidades como se fossem o vér­
tice e a base da própria folha.
Apesar de a minhoca se comportar perante as folhas 
de maneira relacionada com a sua forma, não é realmente 
pela forma, mas pelo gosto, que ela se orienta. Este 
arranjo é muito feliz, porque os órgãos-de-percepção da 
minhoca são constituídos segundo um modelo demasiado 
simples para produzir sinais de forma. Este exemplo mos­
tra-nos como a natureza sabe«e,vitar dificuldades que a 
nós parecem insuperáveis.
No caso da minhoca também nada havia de percep­
ção de forma. Tanto, pois, mais instantemente se põe 
a questão de saber — em que animais é legítimo conjec­
turar que a forma existe originalmente como sinal-carac- 
terístico do seu mundo-próprio?
Esta questão foi resolvida mais tarde. Foi possível 
demonstrar que as abelhas pousam de preferência em 
coisas cujas formas recortadas são virtualmente decom- 
poníveis em outras mais simples, como estrelas e cruzes, 
evitando, pelo contrário, formas inteiriças, como círculos 
e quadrados.
[ 78]
A fig. 23 apresenta uma comparação imaginada do 
mundo-ambiente e do mundo-próprio da abelha para ilus­
trar o que se passa. Vemos a abelha, no seu mundo- 
-ambiente de um prado florido, distinguir entre as flores 
abertas e os botões. Situada a abelha no seu mundo-pró 
prio e reduzindo as flores, segundo a sua forma, a estre­
las ou cruzes, os botões passarão a ter a forma não 
recortada de círculos.
Daqui concluiremos ainda o significado biológico 
desta nova particularidade das abelhas, assim revelada. 
Só as flores abertas, não os botões, têm para elas um 
significado.
Mas as correlações de significado são, como nós já 
vimos na carraça, os únicos guias seguros na exploração 
dos mundos-próprios. Para o caso é perfeitamente indife­
rente que as formas descontínuas, decomponíveis, sejam 
fisiologicamente eficientes.
Q problema-da-forma foi reduzido por estes trabalhos 
a uma fórmula mais simples. Basta admitir que as células 
de percepção para os sinais locais se articulam em dois 
grupos no órgão-de-percepção, umas segundo o esquema 
«decomposta», ou aberta, outras segundo o esquema «não 
decomposta», ou fechada. Não há quaisquer outras dis­
tinções. Se os esquemas se afastam disto, então resul­
tam deles «imagens perceptivas» que se conservam 
inteiramente gerais, que, como novas e muito belas inves­
tigações mostram, incluem no caso das abelhas, cores 
e cheiros.
Nem a minhoca, nem a vieira, nem a carraça, dis­
põem desses esquemas. Cárecem, por isso, no seu mun- 
dò-próprio, de verdadeiras imagens-perceptivas.
[ 79]
Fig. 23 — Mundo ambiente e mundo-próprio da abelha
[80]
6. FINALIDADE E PLANO
Como nós, homens, estamos habituados a prosse­
guir penosamente a nossa existência, de finalidade em 
finalidade, estamos por isso convencidos que com os 
animais se passa o mesmo. Ora isto é um erro funda­
mental, que leva as investigações até aqui realizadas por 
caminhos falsos. Na realidade ninguém atribuirá finali­
dades a um ouriço-do-mar ou a uma minhoca. Mas já na 
descrição da vida da carraça nos referimos a o ela «espiar 
a sua presa». Por esta expressão já introduzimos, indevi­
damente ainda que involuntariamente, as nossas mes­
quinhas preocupações diárias, na vida da carraça, que 
é dominada por um plano puramente natural.
O nosso primeiro cuidado deve, pois, ser o eliminar 
da interpretação dos mundos-próprios a falácia da finali­
dade. Só assim poderemos chegar a pôr certa ordem, 
no ponto de vista da existência de um plano natural, nas 
manifestações da vida dos animais. Talvez mais tarde se 
considerem como tendo finalidade certos comportamen­
tos dos mamíferos superiores, que, mesmo eles, estão 
por sua vez subordinados ao plano natural de conjunto.
Em todos os outros animais não existem comporta­
mentos orientados no sentido de um fim. Para demons­
trar esta proposição será necessário que o leitor lance 
um golpe de vista por alguns mundos-próprios que não 
levantem quaisquer dúvidas. A fig. 24 funda-se nas curio­
sas interpretações a que cheguei, sobre a percepção dos 
sons pelas borboletas nocturnas. Como nela se dá a 
entender, é perfeitamente indiferente que o som a que 
os animais estão submetidos, seja o produzido por um 
morcego ou o resultante do atrito de uma rolha de vidro: 
a acção é sempre a mesma. Aquelas borboletas noctur­
nas que em virtude da sua brilhante coloração são bem 
visíveis, afastam-se, voando, pela acção de sons altos, ao
6 - A . HOMENS [81]
Fig. 24 Acção de um som alto sobre borboletas nocturnas
[ 82]
passo que as que possuem colorações dissimuladoras 
se aproximam deles. A mesma nota ou sinal-caracterís- 
tico provoca resultados opostos. A alta conformidade com 
um plano patenteia-se nos dois modos opostos de com­
portamento. Não pode tratar-se aqui de qualquer discri­
minação ou intenção, pois que nenhuma borboleta noc­
turna jamais viu a cor do seu próprio tegumento. O que 
há de pasmoso na conformidade com um plano torna-se 
neste caso ainda mais impressionante ao verificarmos 
que a engenhosa estrutura microspópica do órgão da 
audição da borboleta nocturna é exclusivamente recep­
tiva destes sons altos emitidospelo morcego. São abso­
lutamente surdas para os outros sons.
A oposição entre finalidade e plano já resulta de 
uma bela observação feita por Fabre ('). Este pôs a fêmea 
de uma borboleta nocturna, olhos-de-pavão, em cima de 
uma folha de papel branco, sobre que aquela fez, durante 
algum tempo, certos movimentos com o abdómen. Depois 
pôs a mesma fêmea ao lado da folha de papel sob uma 
campânula de vidro.
Durante a noite entraram pela janela verdadeiros 
enxames de machos desta espécie muito rara de borbo­
leta, e pousaram todos sobre a folha de papel branco. 
Nem um único notou a fêmea que estava próxima, sob a 
campânula de vidro. Que espécie de acção física ou quí­
mica se devesse atribuir ao papel, eis o que Fabre não 
pôde averiguar.
A este respeito são muito elucidativas as experiên­
cias, que a fig. 25 ilustra, feitas com saltões-do-feno e 
grilos.
Num quarto, diante de um microfone receptor, colo- 
ca-se um exemplar vivo a fretenir, uma fêmea, por exem­
plo. Se num outro quarto se puserem machos próximos
(') J. Henri Fabre (1823-1915), entomólogo francês. (Nota 
da ed. alemã.)
[ 83]
[ 84]
de um outro telefone, estes, ao ouvirem o fretenir da 
fêmea, aproximam-se do telefone, sem darem atenção a 
uma outra fêmea que fretene sob uma campânula de 
vidro, para fora da qual o som não pode passar. A imagem 
óptica não exerce qualquer acção.
As duas experiências provam o mesmo. Em nenhum 
dos casos se trata de atingir um fim. O comportamento 
aparentemente estranho dos machos explica-se, porém, 
sem dificuldade, se o estudarmos na sua conformidade 
com um plano. Nos dois casos efectua-se, através_de um 
sinal característico, um ciclo-de-função, mas com a ausên­
cia do objecto normal nada se dá quanto à produção do 
sinal-de-acção apropriado, que era necessário para o can­
celamento do primitivo sinal característico. No lugar 
deste devia, normalmente, surgir um outro sinal caracte­
rístico e desencadear-se o ciclo-de-função seguinte. Seja 
qual for este segundo sinal característico, deve, em 
ambos os casos, ser estudado mais detidamente. Em qual­
quer caso, ele é um elo necessário na cadeia dos ciclos- 
-de-função que servem o acasalamento.
Para quê, dir-se-á, atribuir finalidade aos insectos? 
Eles são determinados imediatamente pelo plano natural, 
que estabelece os seus sinais característicos, como já 
vimos na carraça. Mas quem já reparou no que se passa 
numa capoeira, como a galinha se apressa a socorrer os 
seus pintainhos, não poderá duvidar de que há no seu 
comportamento uma verdadeira finalidade. Exactamente 
sobre este caso realizámos com todo o rigor curiosas 
expriências.
A fig. 26 ilustra os resultados nelas obtidos. Quando 
se prende um pintainho por uma perna, ele começa a 
piar, o que faz que a galinha se dirija de penas eriçadas 
na direcção de que os pios partem, mesmo que não veja 
o pintainho. Logo que o avista começa a dar bicadas num 
inimigo imaginário.
Se, porém, se puser o pintainho, que se prendeu, sob
[ 85]
Fig. 26 — Galinha e pintos
[86]
uma campânula, de modo que ela o possa veF mas sem 
o ouvir, a galinha conserva-se perfeitamente calma 
perante o espectáculo.
Também aqui se não trata de finalidade, mas sim, 
ainda, de uma cadeia de ciclos-de-função. O sinal de piar 
provém normalmente, de forma indirecta, de um inimigo 
que prende o pintainho.
Este sinal característico será eliminado pelo sinal- 
-de-acção da picada que porá o inimigo em fuga. O pintai-
Fig. 27— Galinha e pinto preto
nho que se debate, mas não se ouve piar, não é um sinal 
característico que produza qualquer efeito particular; 
além de ser completamente fútil, pois que a galinha não 
tem condições para desfazer um laço.
Ainda mais singular e desprovida de fim foi a 
maneira como a galinha, representada na fig. 27, se com­
portou. Esta galinha chocara uma postura de ovos de 
galinhas brancas, mas em que havia um da sua própria 
raça negra. A forma como ela se comportou com o pin-
[87]
tainho preto que saiu deste ovo foi perfeitamente 
absurda. Quando o ouvia piar, a galinha acorria imediata­
mente ao sinal, mas se o via entre os brancos, corria-o 
às bicadas. Os sinais acústico e óptico característicos, 
do mesmo objecto, provocavam nela o desencadear de 
dois ciclos-de-função opostos. Manifestamente os dois 
sinais, no mundo-próprio da galinha, não se fundiam 
numa só unidade.
7. IMAGEM-PERCEPTIVA E IMAGEM-EFECTORA
A oposição entre finalidade do sujeito e plano da 
natureza dispensa-nos também de considerar a questão 
do instinto, em que ninguém ainda deu os primeiros pas­
sos certos.
Será necessário à bolota qualquer instinto para vir 
a ser um carvalho, ou trabalha instintivamente uma mul­
tidão de células ósseas para formar um osso? Se se 
responde a isto negativamente e, em vez de instinto 
se postula como factor ordenador um plano de natureza, 
então há que reconhecer no tecer da teia de aranha, ou 
na construção do ninho das aves a intervenção do plano 
da natureza, pois em ambos os casos não é de um fim 
particular que se trata.
Instin to é apenas um termo que resulta da perplexi­
dade a que se expõe quem contesta o plano da natureza, 
super-individual. E este é contestado porque dele, que é 
um plano, não se pode formar qualquer ideia adequada, 
pois não é uma substância nem uma força.
E no entanto não é difícil, partindo do conceito de 
plano, ficar com uma ideia acerca da questão, quando 
nos apoiamos num exemplo intuitivo.
Para pregar um prego não basta o mais belo dos pla­
nos, se não se tem um martelo. Mas também não basta 
o mais btelo dos martelos se se não tem qualquer plano
[ 88]
e nos entregamos ao acaso. Porque, nesse caso, batemos 
com o martelo nos dedos.
Sem plano, isto é, sem o todo-poderoso poder de 
ordenação que tudo domina na natureza, não há qualquer 
espécie de natureza ordenada, mas apenas um caos. Todo 
o cristal é o fruto de um plano natural, e quando os 
físicos apresentam o mais belo modelo do átomo, como 
é o de Bohr, revelam os planos da natureza inanimada 
que buscam desvendar.
Assim, também, o poder dos planos da natureza viva 
recebe do estudo dos mundos-próprios a interpretação 
mais clara que é possível. Estudá-los, eis a mais interes­
sante das tarefas. Por isso não queremos deixar-nos per­
turbar, e tranquilamente prosseguimos a nossa rota atra­
vés dos mundos-próprios.
Os casos ilustrados na estampa superior a cores, 
entre as páginas 128 e 129, representam um resumo dos 
resultados obtidos nos estudos do crustáceo, casa-rou- 
bada. Verificou-se que o casa-roubada necessita, como 
imagem-perceptiva, um esquema espacial extremamente 
simples. Cada objecto de uma certa ordem de grandeza, 
com um contorno de entre um cilindro e um cone, pode 
ter para ele significado. Como se traduz nas figuras, o 
mesmo objecto de aspecto cilíndrico, como é o caso da 
anémona-do-mar, muda de significado no mundo-próprio 
do casa-roubada, conforme as circunstâncias (a disposi­
ção) em que o casa-roubada se encontra. Nós vemos sem­
pre o mesmo casa-roubada e a mesma anémona-do-mar. 
Ora, no primeiro caso representado, tinha-se destacado 
esta da concha, em que aquele se alojara. No segundo, 
tinha-se tirado o casa-roubada de dentro da concha, e 
no terceiro tinha-se feito jejuar um casa-roubada insta­
lado dentro de uma concha, a que estavam fixadas ané- 
monas-do-mar. Isto basta para pôr o casa-roubada em 
três circunstâncias diferentes. Conforme as diferentes 
disposições, o significado da anémona-do-mar em rela­
[89]
ção ao crustáceo, varia. No primeiro caso, em que à 
concha que alojava o crustáceo faltava a protecção que 
a anémona-do-mar lhe prestava contra o choco, a imagem 
perçeptiva da anémona-do-mar assume um «teor de pro- 
Isto manifesta-se no comportamento do casa- 
-roubada, qup põe ao alto a concha que lheserve de 
abrigo, Se privamos desta o mesmo casa-roubada, a ima- 
S®DX-P§I5®PlLY.3 da anémona-do-mar assume um «teor de 
habitação», o ^que se manifesta em o ele tentar, ainda 
que sem êxito,\ entrar para dentro dela. No terceiro caso, 
em que o crustáceo está esfomeado, aquela-imagem 
passa a ter um «teor de alimento» e este começa a devo­
rar a anémona-do-mar.
Estas experiências têm, por isso, particular impor­
tância, pois mostram que já nos mundos-próprios dos 
artrópodes a imagem-perceptiva. fornecida pelos órgãos 
dos sentidos, pode ser substituída por uma imagem-efec> 
Í91âjjdejgendejite. da jfun ç ã o . q ue..nela _se_fíímté m.
As investigações tendentes a interpretar este sin­
gular estado de coisas têm-se realizado com cães. 
A maneira como se pôs a questão foi muito simples e as 
respostas dos cães, unívocas. Ensinou-se um cão a saltar 
para cima de uma cadeira colocada em frente dele, 
quando se dava a voz de «cadeira». Depois, tirou-se a 
cadeira e repetia-se, «cadeira». O resultado foi o cão 
comportar-se com todos os objectos que julgava poderem 
servir de assento, como se comportara com a cadeira, 
e saltar para cima deles. Todos eles, pois nos queremos 
referir a objectos como arcas, étagères, bancos volta­
dos, tinham um certo «teor de assento», e, de facto, um 
teor de assento-de-cão, e não de assento-de-homem. Por­
que certas destas cadelras-de-cão não eram absoluta­
mente nada próprias para serem como tal utilizadas pelo 
homem. Podia ainda mostrar-se que também «mesa» e 
«cestinho» possuíam para o cão um teor especial, que 
dependia dos serviços que lhe prestavam.
[ 90]
Mas o problema já mesmo nos homens pode ser 
acentuado. Como vemos nós, no caso da cadeira, o sen­
tar, no da chávena, o beber, no da escada, o trepar, fun­
ções que em caso nenhum nos são denunciadas pelos 
sentidos? Nós vemos em todos os objectos que apren­
demos a utilizar, o préstimo que deles aproveitamos, 
justamente com a mesma certeza que a sua forma e a 
sua cor.
Tive um negro, originário do interior da África, de 
perto de Dar-es-Salam, rapaz ainda novo, muito inteligente 
e hábil, a quem a única coisa que faltava era o saber 
como se utilizavam os objectos europeus. Um dia que 
lhe disse para subir a uma pequena escada de mão, ele 
perguntou-me: «Como é que o posso fazer se só vejo 
travessas separadas por intervalos?» Logo, porém, que 
outro negro lhe explicou como devia proceder, nada mais 
foi preciso. Daí por diante os dados dos sentidos «tra­
vessas e intervalos» assumiram o teor de «subir» e pas­
saram a ser considerados como uma escada.^AJmagsm: 
■perçeptiva das travessas e intervalos foi completada 
pela imagem-efectora_da sua própria utilização, adquiriu 
um novo significado, e este revelou-se como uma nova 
qualidade, como teor de utilização ou «teor-efector». Por 
esta experiência com o negro somos levados a notar que 
nós elaboramos para todas as utilizações que aproveita- 
mos no nosso mundo-próprio uma imagem-efectora que 
necessariamente fundimos tão intimamente cõm i ima- 
gem-perceptiva fornecida pelos nossos órgãos dos sen­
tidos, que elas adquirem por esse mejo uma nova quali­
dade que nos torna corflTecídcT o seu significado, e que 
logo pretendemos caracterizar como seu teor-efector.
0~Trüsmo objecto pode, se tiver "diferentes présti­
mos, possuir várias imagens-efectoras, que então empres­
tam à mesma imagem-perceptiva, outros tantos teores 
correspondentes. Uma cadeira pode, ocasionalmente, ser 
aproveitada como arma de arremesso, e possui então
[91]
uma nova imagem-efectora que se revela como «teor de 
aaressao». TambenTneste caso, bem humano, a situação 
do sujeito é, por isso, como no exemplo do casa-roubada, 
tendente a escolher que imagem-efectora atribui teor à 
imagem-perceptiva. Só se podem pressupor imagens-efec- 
toras onde existirem orgaos .efectores que comandem 
os comportamentos do anima^ Todos os animais que fun­
cionam de forma puramente reflexa, como o ouriço-do- 
-mar, são, por consequência, excluídos dessa possibili­
dade. Mas, como o casa-roubada mostra, a sua impor­
tância é muito profunda no reino animal.
Se queremos aproveitar o conceito de imagens-efec- 
toras na interpretação dos mundos-próprios, mesmo nos 
animais muito diferentes de nós, nunca devemos esque­
cer que ejas são utilizações dos animais projectadas nos 
mundos-próprios, que, por intermédio dos teores-efecto- 
res, comerem às Imagens perceptivas~~ãpenas o seu 
sígnificadòTSê quisermos representar o que no mundo- 
-próprio de um animal é vital, proveremos de um teor- 
-éfector a imagem-perceptiva que lhe é dada pelos órgãos 
daS"sentidos, para que possamos compreender completa­
mente o seu significado. M esmo nos casos em que não 
se trata de uma imagem espacialmente organizada, como 
na carraça, deveremos dizer que nos três estímulos que 
nela incidem como únicos denunciadores da sua presa, 
0 significado"dosTeores-efantnrpfi (nnm pIpc 
dos) resulta da queda sobre ela—da_Q- correr sobre ela 
de um para o outro larin e He n-nBla.pftnfitrar. Certamente 
a actividade selectiva dos receptores, que representam 
as portas de entrada dos estímulos, desempenha o papej 
dominante, mas só o teor-efector, que está relacionado 
com os estímulos- lhfis~cnnfflrf»..a c.p.rtp.7a infalível.
Como as imagens efectoras se podem deduzir das 
utilizações pelos animais, facilmente reconhecíveis, as 
coisas no mundo-próprio de cada novo sujeito tornam-se 
muitíssimo evidentes.
[92]
Quando uma libelinha voa para um ramo para nele 
pousar, o ramo existe no seu, mundo-próprio, não apenas 
como imagem-perceptiva, mas também se denota por 
meio de um teor de «assento», que a distingue de todas
as outras hastes.
Só quando tomamos em consideração os teores jfe c -
toresTse compreende a alta eficiência que o 
r e c r a o r r m lf f iã ís T ^ ■ Devemos
dizer: j j m animal pode~íéalizar tanto malox„nuniero_-dfi- 
utilizações quanto maior for o n ú m e r o de^objectos que 
ehTpode distTnguir no seu mundo-próprio. Se ele dispoe 
3e p o ü c ã ^ m ã ^ ^ p ê ir ^ p i iv ã s corri pòucas utilizações, 
então também o seu mundo-próprio se reduz a poucos 
objectos. Ele é, por esse facto, realmente mais pobre, 
mas, proporcionalmente, goza de maior segurança. Por­
que é muito mais fácil orientar-se entre poucos objectos 
do que entre muitos. Se a paramécia possuísse uma ima­
gem-efectora de utilidade para ela, todo o seu mundo- 
-próprio se comporia de objectos todos iguais que teriam 
todos o mesmo teor de obstáculo. Seja como for, um tal 
mundo-próprio nada deixaria a desejar.
Com o número de capacidades de um animal 
aumenta o número de objectos que povoam o seu mundo- 
-próprio. Elas elevam-se no decorrer da vida individual 
de cada animal, que pôde acumular experiências. Porque 
cada experiência nova implica o assumir o sujeito nova 
posição perante novas sensações. Além disso . adquj". 
rem-s_e_„novas, imaqens-perceptivas, com novos teores- 
-efectores.
IstcTobserva-se principalmente nos cães que apren­
dem a manejar certos objectos usados pelo homem e 
que eles, por sua vez, utilizam também.
No entanto o número de objectos no mundo-próprio 
do cão é sempre inferior aos do nosso mundo-próprio. 
Isto é ilustrado com clareza nos três desenhos coloridos 
idênticos, 2, 3, 4 (entre páginas 128 e 129). Representa-se
[ 93]
neles o mesmo aposento. Mas os objectos que nele se 
encontram têm cores diferentes conforme os teores-efec- 
tores que correspondem respectivamente ao homem, ao 
cão e à mosca doméstica.
No mundo-próprio do homem os teores-efectores são 
representados, na cadeira pelo teor de assento (acasta­
nhado) na rrçesa pelo teor de refeição (amarelo) e nos 
pratos e copos por outros teores-efectores (castanho- 
-claro, teor de comer, e vermelho, teor de beber). O soalho 
possui o teor-de-marchar, ao passo que a estante delivros (lilás) teltn o teor de ler, e a escrevaninha um teor 
de escrever (azul). A parede tem um teor-de-obstáculo 
í(verde) e o candeeiro, o teor de iluminação (branco).
No mundo-próprio do cão os mesmos teores são 
representados pelas mesmas cores; nele só existem os 
de comer, de sentar, etc. Tudo o mais tem uma tonali­
dade de obstáculo. O banco giratório, em virtude do seu 
polimento, não tem para o cão teor de assento.
Finalmente vê-se como, para a mosca, tudo possui 
somente um teor de movimento, sobre cujo significado 
já se falou.
Gom que segurança a mosca se orienta no mundo 
ambiente do nosso aposento, mais pormenorizadamente 
se esclarecerá por meio da fig. 28. Logo que a cafeteira 
com café quente se coloca sobre a mesa, as moscas jun- 
tam-se em volta dela, porque o calor constitui para elas 
um estímulo. Deslocam-se sobre o tampo da mesa porque 
esta tem para elas um teor de movimento. E como as 
moscas_ têm nas patas órgãos do gosto, cuja irritação 
desencadeia o desenvaginãF ^
ng_a|imento de que se utijjzam. ao passo que todos os 
outr° s objectos ..determinam o prosseguirem nas suas 
deambulações. Neste caso é fácil distinguir o mundo- 
-próprio da mosca do seu mundo ambiente.
[94]
8. O CAMINHO APRENDIDO
A melhor maneira de nos convencermos da varie­
dade de mundos-próprios do homem é seguir um guia 
num caminho que desconhecemos (1). O guia segue com
segurança um caminho que nós próprios não discernimos. 
Entre todas as numerosas rochas e árvores que nos
(') Sobre o problema dos «mundos-próprios» dos homens 
comp. as págs. 11 e 13. (Nota da ed. alemã.)
[ 95]
rodeiam, há, no mundo-próprio do guia, algumas que se 
sucedem, distinguindo-se de todas as outras como bali­
zas, apesar de, aos olhos de quem não conhece o cami­
nho, elas se não singularizarem por nenhuma indicação.
O caminho aprendido é-o apenas para determinado 
indivíduo, e é, por isso, um problema típico do mundor 
-próprio. É um problema de espaço, e diz respeito tanto 
ao espaço visual como ao espaço-de-acção do sujeito, e 
resulta imediatamente de como se caracteriza um espaço 
conhecido — o que se faz pouco mais ou menos assim: 
voltar à direita por trás da casa vermelha, depois andar 
a direito duzentos passos e então voltar à esquerda. Utili­
zamos três caracteres para marcar um caminho: 1.° um 
carácter óptico, 2.° os planos de orientação, 3.° o número 
de passos. Neste caso não recorremos ao número de pas­
sadas elementares, isto é, à mínima possível unidade de 
passos, mas sim à soma dos impulsos elementares que 
nos é habitual e que são necessários para constituir um 
passo normal. O passo, ou passada, em que uma perna' 
se desloca com uniformidade para trás e para diante, é 
em alguns indivíduos tão bem determinada, e em muitos 
mede tão aproximadamente o mesmo comprimento, que 
mesmo ainda hoje serve de medida vulgar.
Quando se diz a alguém que deve andar cem passos, 
quer-se com isto significar que deve imprimir cem vezes 
às suas pernas o mesmo impulso de movimento. O resul­
tado obtido será sempre aproximadamente a mesma 
extensão percorrida.
Quando percorremos repetidas vezes um certo 
espaço, ficam-nos na memória os impulsos comunicados 
à marcha, como indicação de direcção, de modo que para­
mos maquinalmente no mesmo lugar, mesmo quando não 
actuamos recorrendo às indicações ópticas. Os sinais de 
orientação desempenham, pois um papel saliente no cami­
nho aprendido.
Tinha grande interesse determinar como se apre­
[96]
senta o problema do caminho aprendido no mundo-próprio 
dos animais; sem dúvida, que, no mundo-próprio de vários 
animais, desempenham um papel importante na recons­
tituição do caminho aprendido sinais olfactivgs e sinais, 
tácteis.
Numerosos investigadores americanos procuraram, 
durante dezenas de anos, estabelecer, em milhares de 
sentidos em que os mais diferentes animais tinham de 
se orientar num labirinto, com que rapidez cada animal 
podia reconhecer um determinado caminho. O problema 
do caminho aprendido de que aqui se trata passou-lhes 
despercebido. Também não estudaram os sinais visuais, 
tácteis ou olfactivos, nem se lembraram do aproveita­
mento pelo animal, dos sistemas de coordenadas: que a 
questão de dire ita ou de esquerda é um problema inde­
pendente, nunca os impressionou. Também nunca dis­
cutiram a questão do número de passadas, porque não 
viam que também entre os animais a passada pode ser 
utilizada como medida de distância.
Em resumo; o problema do caminho conhecido, ape­
sar da vastidão do material de trabalho já acumulado, 
deve ser reconsiderado. A descoberta do caminho já 
trilhado, no mundo-próprio do cão, a par do seu interesse 
teórico, tem também um grande alcance prático, quando 
se tomam em consideração as questões que o cão-guia 
dos cegos tem de resolver.
A fig. 29 representa um cego a ser guiado por um cão. 
O mundo-próprio do cego é muito limitado; só na medida 
em que pode tactear o seu caminho com a bengala e com 
os pés, toma dele conhecimento. A rua que atravessa está 
mergulhada em trevas. O seu cão, porém, é quem o guia 
até casa, seguindo um caminho determinado. A dificuldade 
do adestramento de um cão está, por isso, em fazer entrar 
no seu mundo-próprio certos sinais que são de interesse 
para o cego mas não para o cão. Assim, o caminho ao 
longo do qual ele guia o cego terá de rodear obstáculos
1 - A . HOMENS [97]
em que o cego podia tropeçar. É particularmente difícil 
insinuar no cão um sinal de um marco do correio ou de 
uma janela aberta, pelos quais, aliás, ele passaria indi­
ferente. Mas também a margem do passeio, em que o 
cego podia dar um passo em falso, é difícil de fazer entrar
Fig. 29 — O cego e o seu cão
no mundo-próprio do cão, como sinal característico, pois 
que normalmente mal se apercebe dele quando corre 
à solta.
A fig. 30 representa uma experiência feita com gra- 
lhas-de-bico-vermelho. Como nela se vê, a gralha voa 
em volta da casa, dá-lhe de novo volta em sentido con­
trário e utiliza no regresso o caminho que lhe é conhe-
[98]
eido, para voltar a entrar por onde tinha saído, pois que, 
vindo no outro sentido não podia ter reconhecido a 
entrada.
Recentemente averiguou-se que as ratazanas con­
tinuam a utilizar por muito tempo o mesmo rodeio, mesmo 
quando o caminho directo esteja livre.
Pôs-se então novamente o problema do caminho
aprendido, no caso dos peixes-lutadoreg, e chegou-se 
aos seguintes resultados: em primeiro lugar estabele- 
ceu-se que o_desconhecido exerce sobre eles uma acção 
repulsiva. Introduziu-se no aquário uma placa de vidro 
em que se tinham feito dois pequenos orifícios, pelos 
quais os peixes podiam passar com facilidade. Quando se 
oferecia comida a um peixe-lutador do outro lado do ori­
fício decorria algum tempo antes de ele se introduzir, 
hesitante, pelo orifício, para a apanhar. Então mostrava- 
-se-lhe a comida lateralmente em relação ao orifício e o 
peixe logo lhe seguia no encalce. Finalmente mantinha-se
[ 99]
a comida em frente do seaundo orifício: pois apesar disso 
n peixe passava sempre pelo primeiro orifício, que já 
sabia utilizar, sem se utiíizar.. d a que até aí não t i n h a 
usa^o.
Colocou-se, então, como o representa a fig. 31, um 
tabique do lado da placa de vidro com orifícios, donde se 
mostrava o engodo ao peixe. Mostrava-se este agora do 
lado que o tabique ocultava; o peixe nadava ao longo do
Fig. 31 — O caminho aprendido do peixe-lutador
caminho aprendido, mesmo quando o tabique estava 
colocado de modo que ele podia ter alcançado o engodo 
directamente passando a nadar entre a placa perfurada 
e o tabique. No caminho aprendido entraram, assim, 
sinais visuais e sinais-de-orientação.
Resumindo pode dizer-se que o caminho aprendido 
funcionou como um curso de um meio muito fluido atra­
vés de uma massa viscosa.[ 1 0 0 ]
9. LAR E PÁTRIA
O problema do lar e da pátria está intimamente rela­
cionado com o caminho aprendido.
Como ponto de partida o melhor é escolherem-se os 
estudos feitos sobre os esgana-gatas (1). O macho da 
espécie constrói um ninho cuja entrada prima em marcar 
com alguns fios de várias cores — sinal visual de direc­
ção para a criação. No ninho, os filhos crescem sob a 
vigilância do pai. Este ninho é o seu lar. Mas cá fora 
abre-se a sua pátria. A fig. 32 representa um aquário em
cujos cantos opostos dois esgana-gatas construíram os 
seus ninhos. No aquário existe uma fronteira invisível 
que o divide em duas zonas, cada uma das quais corres­
ponde a um ninho. Cada zona correspondente a um dos 
ninhos, é a pátria de um dos esgana-gatas, que ele 
defende vigorosa e tenazmente, mesmo contra esgana- 
-gatas maiores. Na sua pátria o esgana-gata é rei.
A pátria é uma pura questão de mundo-próprio, por­
que representa uma produção puramente subjectiva, para 
cuja existência nem o mais estrito conhecimento do 
mundo ambiente oferece o mínimo ponto de apoio.
(') Pequenos peixes de águas salobras, doces ou marinhas, com 
espinhos muito fortes anteriores à barbatana dorsal e às pélvicas.
[ 101]
Pergunta-se, então, quais os animais que possuem 
uma pátria e quais os que a não possuem? Uma mosca 
doméstica que em voos sucessivos, para um lado e para 
o outro, abrange uma certa porção de espaço em volta de 
um lustre não possui o que se chama uma pátria.
Pelo contrário, uma aranha que constrói o seu ninho, 
em que permanentemente vive, possui um lar que é igual­
mente a sua pátria.
O mesmo se passa com a toupeira (fig. 33). Também 
ela constrái a sua habitação e estabelece a sua pátria. 
Sob o solo Wtende-se um sistema de túneis como uma 
teia de aranha. Mas não são só os seus caminhos indi­
viduais que formam o âmbito do seu domínio, mas ainda 
toda a área dentro da qual exerce a sua actividade. 
Quando cativa, a toupeira esboça os seus caminhos de tal 
modo que parece formarem uma teia. Podíamos provar 
que a toupeira, graças aos seus órgãos olfactivos, muito 
desenvolvidos, é capaz de procurar os seus alimentos 
dentro de um raio de cerca de cinco a seis centímetros. 
Num sistema de caminhos apertados, como o que ela 
constrói, quando cativa, as zonas situadas entre eles 
são ainda dominadas pelos seus órgãos dos sentidos, ao 
passo que na natureza, onde a toupeira estabelece os 
seus túneis mais afastados uns dos outros, ela pode ainda 
controlar, pelo olfacto, o solo, num certo raio em volta 
de cada galeria. Como uma aranha, a toupeira percorre 
muitas vezes esta rede de galerias, e reúne tudo o que 
ali ficou disperso como despojo. No centro deste sistema 
de galerias a toupeira constrói uma cova forrada de 
folhas secas — o seu lar individual, no qual passa as 
horas de repouso. Para ela todos os corredores subterrâ­
neos são caminhos aprendidos que é capaz de percorrer 
sempre com a mesma rapidez e facilidade em qualquer 
sentido. O seu campo de rapina chega até onde eles
[ 1 0 2 ]
chegam. Este coincide com a sua pátria, que ela defende, 
para a vida ou para a morte, de qualquer toupeira vizinha.
É admirável a destreza com que a toupeira, cega 
como é, se orienta, sem nunca se enganar, num terreno 
para nós perfeitamente uniforme. Se se lhe ensinar qual 
o lugar em que conserva os seus alimentos, ela acerta 
com ele, mesmo quando se obstruam todos os caminhos
que a ele conduzem. O que demonstra que a toupeira 
pode ser guiada por sinais olfactivos.
O seu espaço é um puro espaço-de-acção. Temos de 
admitir que a toupeira é capaz de redescobrir um caminho 
uma vez utilizado, à custa da reprodução dos passos-de- 
-orientação. Além disso, os sinais tácteis, que se rela­
[ 103]
cionam com os passos-de-orientação, nela como em todos 
os animais cegos, desempenharão um papel importante. 
É de admitir que sinais de orientação e passos de orien­
tação se combinam como base de um esquema espacial. 
Destrua-se o seu sistema de caminhos, ou parte dele, 
e ela será capaz de restabelecer, com o auxílio de um 
esquema adequado, um novo sistema que se assemelha 
ao antigo.
As abelhas também constroem um lar, mas a zona, 
em volta da colmeia, em que buscam o alimento é, com 
efeito,' o seu campo de caça, sem, no entanto, constituir 
uma pátria que seja defesa aos intrusos. No caso das 
pegas, ao contrário, pode falar-se de lar e de pátria, pois 
que elas constroem o seu ninho dentro de uma zona 
em que não consentem quaisquer pegas atrevidas.
Provavelmente far-se-á em muitos animais a expe­
riência de ver se eles defendem o seu campo de caça 
contra os seus semelhantes e fazem dele a sua pátria. 
Uma zona preferida por cada espécie animal asseme- 
lhar-se-á, quando nela se quiser traçar o âmbito da pátria, 
a uma como que carta política dessa espécie, cujo limite 
será estabelecido por meio do ataque e da defesa. Em 
muitos casos também se verificará que já quase não 
existe qualquer espaço disponível, mas que por toda a 
parte uma pátria colide com outra pátria, é muito notável 
a observação que mostra que entre o ninho de muitas 
aves de rapina e o seu campo de caça se estende circular­
mente uma zona neutra em que elas não abatem qualquer 
presa. Os ornitólogos julgam, com razão, que esta cons- 
tituição do mundo-próprio tem sido aceite pela natureza 
para impedir que as aves de rapina destruam a própria 
criação. .uuando o nTrTHegõ~de~falcão abandona o ninho 
para passar o dia a saltar, de ramo em ramo, na proximi­
dade dele, correria facilmente o perigo de, por lapso, ser 
atacado pelos próprios pais. De modo que, assim, na zona
[ 104]
neutra do campo defeso passa o seu tempo em segurança. 
O campo defeso é utilizado por muitas aves canoras 
para aninhar e chocar, podendo aí criar os seus filhos ao 
abrigo do ataque das grandes rapaces.
A forma e os meios utilizados pelos cães para darem 
facilmente a conhecer aos indivíduos da sua espécie a 
sua pátria, merecem atenção especial. A fig. 34 repre­
senta a carta do Jardim Zoológico de Hamburgo, com os 
arruamentos em que estão marcados os sítios em que nos 
seus dois passeios diários à trela os cães urinavam.
Eram sempre os sítios, também especialmente no­
tados pela vista do homem, que eles impregnavam com 
o cheiro que os denunciava. Se dois cães eram condu­
zidos juntos, ordinariamente urinavam ao mesmo tempo.
Um cão ladino manifesta sempre tendência para,
[ 105]
quando um outro cão estranho o encontra, deixar o seu 
cartão-de-visita no objecto mais próximo que lhe salta à 
vista. Por seu turno, quando entra na pátria de outro cão, 
denunciada por essas marcas alheias, farejará sucessi­
vamente esses vestígios alheios e esgaravatará cuida­
dosamente os pontos onde eles existem. Mas um cão de 
fraca qualidade passará com medo por tais vestígios e
não denunciará a sua presença por nenhum sinal 
olfactivo.
A delimitação da pátria é também, como o mostra 
a fig. 35, empregada pelos grandes ursos da América do 
Norte. Para isso o urso ergue-se nas patas traseiras a 
toda a sua altura e esfrega o dorso e o focinho na casca
[ 106]
de um pinheiro isolado, visível de longe. Isto indica aos 
outros ursos que devem passar ao largo do pinheiro, 
evitando assim toda a zona em que um urso delimita a 
sua pátria.
10. O COMPANHEIRO
Tenho bem presente na minha memória a imagem 
de um pobre patinho, chocado juntamente com uma ni- 
nhada deperus e^que vivia tão ligado à família adoptiva, 
que nunca entrara na água e que evitava escrupulosa­
mente os outros animaizinhos da sua espécie, que saíam 
da água frescos e limpos. Por essa ocasião ofereceram-me 
um pato-bravo que me seguia por toda a parte. Quando eu 
me sentava, encostava a cabeça aos meus pés. Eu tinha a 
impressão que eram as minhas botas que exerciam essa 
atracção, pois quetambém corria atrás dos baixotes 
pretos. Daí concluí que qualquer coisa preta em movi­
mento bastava para lhe sugerir a imagem da mãe e 
mandei-o largar próximo do ninho materno para recuperar 
as ligações familiares que tinha perdido. Hoje duvido que 
fosse essa a explicação, porque a este respeito fui infor­
mado de que para que certas crias de ganso-cinzento aca­
badas de nascer se juntem espontaneamente a uma famí­
lia de gansos e a sigam, devemos metê-los logo que 
nascem numa bolsa de caça e largá-los junto dela. Se 
vivem durante algum tempo na companhia do homem não 
aceitam, depois, associar-se com os seus semelhantes. 
Em todos estes casos trata-se de uma mudança de ima­
gens perceptivas, que frequentemente se dá. em parti- 
cular, no mlmdó-próprícr das avêsTD que se sabe das 
percepções das aves é ainda insuficiente para se pode­
rem tirar conclusões seguras a esse respeito.
Na fig. 20 já nos foi dado ver a gralha-de-bico-verme- 
Iho caçando o gafanhoto, e ficámos com a impressão que, 
essencialmente, ela não tinha qualquer percepção do
[ 107]
gafanhoto em repouso, e por isso este não existia no seu 
mundo-próprio.
As figs. 36 a e 36 b representam-nos uma outra expe­
riência respeitante às percepções das gralhas. Nela vê-se 
uma gralha em atitude agressiva perante um gato que 
traz na boca outra gralha. Uma gralha nunca ataca um
Flg. 36 a — Gralha em atitude agressiva perante um gato
Fig. 36 b — Gralha em atitude agressiva perante uns calções 
de banho
[ 108]
gato que não traga na boca uma presa. Só quando o 
perigo dos dentes afiados do gato está afastado, como 
sucede quando estes estão ocupados em abocar a presa, 
ele passa a ser objecto de ataque da parte da gralha.
Isto parece ser um comportamento altamente prático 
da parte da gralha. Mas, na realidade, não passa de uma 
reacção perfeitamente de acordo com um plano que flui 
com absoluta independência de qualquer espécie de 
inteligência da gralha. Porque ela assumiria a mesma ati­
tude se se lhe acenasse com uns calções de banho. E ela 
também não atacaria o gato se em vez de uma gralha 
preta trouxesse nos dentes uma gralha branca.
A percepção de um objecto preto que se mova diante 
do animal desencadeia só por si a atitude agressiva.
Uma percepção de valor tão geral pode prestar-se 
sempre a confusões, como já pudemos verificar a pro­
pósito do ouriço-do-mar, em cujo mundo-próprio nuvens 
e navios são confundidos com o peixe, seu inimigo, pois 
que o ouriço-do-mar reage sempre da mesma maneira 
contraio obscurecimento do horizonte.
Nas aves, porém, não nos subtraímos à dificuldade 
recorrendo a uma explicação tão simples.
Sobre o que se passa com as aves que vivem em 
sociedade há uma multidão de experiências contraditórias 
acerca de mudanças de imagens-perceptivas. Só recente­
mente se conseguiu pôr em relevo num caso típico 
de uma gralha domesticada, chamada Tschock, o ponto 
de vista mais importante.
As gralhas que vivem em sociedade têm durante a 
vida um companheiro próprio, com que se comportam 
das mais diversas maneiras. Se se educa isoladamente 
uma gralha, ela de maneira nenhuma renuncia ao com­
panheiro, e quando não dispõe de um da sua espécie 
adopta um «companheiro substituto», e, de facto, pode, 
para cada nova demonstração, surgir «um companheiro
[ 109]
substituto» ,novo. Lorenz (1) teve a amabilidade de me 
enviar as figs. 37 a e 37 b, em que se podem, de um golpe, 
ver as relações para com o companheiro.
A gralha Tschock teve, quando jovem, como compa-
Figs. 37 a e b — A gralha Tschock e os seus quatro companheiros
nheiro maternal o próprio Lorenz.'Seguia-o por toda a 
parte, gralhava para que lhe desse a comida no bico. 
Quando já aprendera a buscar por si os alimentos,
(') Konrad Lorenz (1903). Zoólogo e zoopsicólogo. (Nota da 
ed. alemã.)
[ 110]
escolheu como companheiro preferido a criada dos quar­
tos, diante de quem executava os seus característicos 
bailados-de-amor. Mais tarde adoptou como companheiro 
uma gralha muito jovem a que ela própria dava de comer. 
Quando Tschock se preparava para mais largos voos 
tentou levar o próprio Lorenz a voar em sua companhia à 
maneira das gralhas, quando arrancava para o voo mesmo 
por trás das costas dele. Como isto não desse resultado, 
juntou-se com as gralhas que voavam, as quais passaram 
a ser os seus companheiros de voo.
Como se vê não existe no mundo-próprio da gralha 
nenhuma imagem-perceptiva uríica~de compánfíéirõ7~TãT~ 
nao é também possível, porque o papel do companheiro. 
muda constantemente. A imagem-perceptiva do compa- 
nheiro-maternal parece, na maior parte dos casos, que não 
se estabelece logo ao nascer, no que respeita à forma 
e à cor. O contrário se dá com a VQZ_tnaíama^
Lorenz escreve: «Devia, em cada caso especial de 
companheiro-maternal, pôr-se em relevo quais os carac­
teres maternais que são inatamente apercebidos, quais 
os que são percepções adquiridas pelo indivíduo. A difi­
culdade está, precisamente, em os aspectos maternais 
adquiridos logo após alguns, poucos, dias, e mesmo 
só algumas horas (ganso-cinzento, v. Heinroth) ficarem 
tão profundamente gravados que, quando se separam os 
filhos das mães, dir-se-ia que são inatos.
O mesmo se passa na escolha do companheiro-di- 
lecto. Também aqui os caracteres do companheiro substi 
tuto que passam a ser apercebidos pelo indivíduo, se 
gravam tão fortemente que do facto resulta a aquisiçãc 
por ele de uma percepção definitiva depois de se ter efec­
tuado a primeira mudança. Donde, até os animais da 
mesma espécie serem rejeitados como companheiros- 
-dilectos.
Isto foi posto em evidência por um incidente curioso.
[ 111]
Havia no Jardim Zoológico de Amsterdão um casal de 
abetouros jovens cujo macho se tinha enamorado do 
director do Jardim. Para não prejudicar o acasalamento, 
este não apareceu ao macho durante muito tempo. De 
modo que o macho afeiçoou-se à fêmea, e o facto surtiu 
efeito; e como a fêmea caísse no choco, o director re­
solveu voltar a aparecer. O que sucedeu? Muito simples­
mente que, mal o macho avistou o seu companheiro- 
-dilecto, escorraçou a fêmea do ninho, e por meio de repe­
tidos sinais parecia dar a entender que o director podia 
ocupar o lugar a que tinha direito e continuar a chocar
os ovos.
A percepção, pelo indivíduo, do companheiro-de-infân- 
cia parece ser, a maior parte das vezes, a que mais incisi­
vamente fica gravada. Provavelmente, o grande apetite 
que faz escancarar as goelas aos jovens desempenha 
aqui o papel determinante. Mas também neste caso se 
prova que em raças muito apuradas, como as galinhas 
Orpington, estas, quando chocas, adoptam gatos e cãès 
jovens como filhos.
O companheiro-substituto para os voos livres é, por 
seu turno adoptado mais largamente, como o caso de 
Tschock mostra.
Quando se considera que os calções de banho apre­
sentados à gralha passaram a ser para ela um inimigo 
a atacar, isto é, passaram a ter para ela o teor-efector de 
«inimigo», poderá dizer-se que se trata aqui de um ini­
migo substituto. Como no mundo-próprio das gralhas há 
muitos inimigos, o aparecimento do inimigo-substituto, 
especialmente quando se deu uma só vez, não teve 
qualquer influência sobre a imagem-perceptiva do verda­
deiro inimigo. No caso do companheiro a coisa é outra. 
Este é o único que existe de cada vez no mundo-próprio, 
e a atribuição do teor-efector a um companheiro substituto
[ 112]
deve tornar impossível o aparecimento posterior de um 
companheiro verdadeiro.
Depois de a imagem-perceptiva da criada de quarto 
ter adquirido no mundo-próprio de Tschock o «teor de 
afeição» exclusivo, todas as outras imagens-perceptivas 
perderam eficácia.
Quando consideramos que nos mundos-próprios da 
gralha todo o ser vivo, isto é, aquelas coisas que são 
capazes de movimento próprio, se reduzem a gralhase 
não gralhas (o que não deixa de ter analogia com o que 
se passa com os homens primitivos), e quando, depois, 
e já de acordo com a experiência pessoal, a maneira de 
fazer a distinção passou a ser outra, então compreende-se 
que se possam cometer erros tão ridículos como os que 
acabámos de referir. Não é só a percepção que decide se 
se trata de gralhas ou não gralhas, mas também a ima- 
gem-efectora dó próprio ajustamento. Só esta decide 
qual a imagem-perceptiva que mantém o respectivo, teor.- 
-d e-companheiro.
11. IMAGEM-PRETENDIDA E TEOR-PRETENDIDO
Volto a duas experiências pessoais que explicarão 
melhor que tudo o que, como factor importante para o 
mundo-próprio, se deve entender por imagem pretendida. 
Quando, por largo tempo, fui hóspede de certo amigo 
meu, todos os dias ao almoço colocavam diante do meu 
lugar à mesa um jarro com água. Um dia o criado partiu 
o jarro, e a substituí-lo pôs no lugar por ele habitualmente 
ocupado, uma garrafa de vidro com água. Durante a refei­
ção procurei com a vista o jarro e não notei a garrafa de 
vidro. Só quando o meu amigo me assegurou que a água 
estava no seu lugar habitual é que subitamente certos 
clarões oue incidiam sobre facas e garfos através do ar 
se combinaram e formaram a garrafa de vidro. A fig. 38
8 - A. HOMENS [113]
deve exprirpir esta experiência. A imagem procurada
A outra experiência foi a seguinte: entrei um dia em 
um estabelecimento em que tinha a liquidar uma conta, 
e tirei da carteira uma nota de cem marcos. A nota era 
absolutamente nova e estava pouco amarrotada, e em
\’
Fig. 38 — A imagem pretendida elimina a imagem perceptiva
vez de ficar aberta e estendida sobre o balcão, ficou ao 
alto apoiada sobre as margens em ângulo. Pedi à caixeira 
para me dar o troco e ela respondeu-me que eu ainda lhe 
não dera o dinheiro. Disse-lhe que o tinha na sua frente, 
mas ela, agastada, repetiu que, se queria o troco, desse 
primeiro o dinheiro. Toquei èntão com úm dedo na nota, 
que caiu e ficou.bem visível. A pequena soltou um gri­
[ 114]
tinho, pegou na nota e apalpou-a com todo o cuidado, não 
fosse ela esvair-se de novo no ar. Também neste caso, 
é manifesto, a imagem-pretendida elim inaraa..imageau_
-perceptiva,__
Todos os leitores terão passado por casos como 
estes que parece serem bruxarias.
Na minha doutrina-da-vida publiquei a fig. 39, aqui 
reproduzida, que explica os diferentes processos que se
Fig. 39 — Os processos perceptivos
entrelaçam nas nossas percepções. Quando colocamos 
diante de qualquer pessoa uma campainha, e a fazemos 
soar, ela entra no seu mundo ambiente como fonte de 
um estímulo, que penetra no seu ouvido transportado por 
ondas do ar (processo físico). Dentro dele as ondas 
sonoras transportadas pelo ar transformam-se em estí­
mulos nervosos, que atingem o órgão-de-percepção do 
cérebro (processo fisiológico). Aí as células de percepção
[ 115]
reagem por meio de percepções e transferem para o 
mundo-próprio do sujeito um sinal-característico (pro­
cesso fisiológico).
Se a par de ondas sonoras transportadas pelo ar até 
ao ouvido, entram nos olhos ondas de éter, que, seme­
lhantemente, determinam no órgão-de-percepção excita­
ções, então, os seus sinais perceptivos de sons e de 
cores constituem-se segundo um certo esquema num 
conjunto unitário, que é projectado no mundo-próprio do 
sujeito como imagem-perceptiva.
A mesma representação gráfica pode aplicar-se à 
explicação do chamado teor-pretendido. Neste caso a 
campainha deve encontrar-se fora do campo de visão. 
As percepções sonoras são, só elas, transportadas para o 
mundo-próprio do sujeito. Ligadas com elas há, porém, 
uma imagem perceptiva óptica invisível, que funciona 
como imagem-pretendida. Se a campainha depois de pro­
curada entra no campo de visão, então a imagem-percep- 
tiva associa-se com a imagem-pretendida. Afastadas ex-, 
cessivamente uma da outra, pode suceder que a imagerh- 
-pretendida anule a imagem-perceptiva, como resulta dos 
exemplos dados.
No mundo-próprio do cão há imagens-pretendidas 
perfeitamente determinadas. Quando o dono manda o cão 
buscar uma bengala, o cão dispõe de uma imagem-preten­
dida bem determinada da bengala, como o mostram as 
figs. 40 a e 40 b. Também aqui há oportunidade de verifi­
car até que ponto a imagem-pretendida corresponde à 
imagem-perceptiva.
O sapo fornece algumas informações neste sentido: 
um sapo que, depois de um prolongado jejum, comeu uma 
minhoca, lançou-se igualmente sobre um fósforo, que 
tem certa semelhança de forma com uma minhoca. Daqui 
se conclui que a minhoca que ele acabara de devorar
[ 116] [ 117]
lhe serviu de imagem-pretendida como se traduz na 
fig. 41.
Se o sapo tivesse primeiro comido uma aranha, a 
imagem-pretendida seria diferente, porque então lançar- 
-se-ia porventura sobre um fragmento de um musgo ou 
sobre uma formiga, o que |he assentaria muito mal.
Ora nós nem sempre buscamos determinada coisa à 
custa de uma Imagem-perceptiva. mas muito mais fre- 
guéntementje buscamos um objecto que corresponde a
'""uní
Fig. 41 — Imagem-pretendida do sapo
ÜUiaJmageiri-efectora. Assim não buscamos, olhando em 
volta de 'nos","Fmà ’determinada cadeira, mas sim um 
móvel que sirva para nos sentarmos, isto é, uma coisa 
a que corresponde determinado tp.nr-de-utilização. Neste 
caso pode tratar-se não de uma imagem-pretendida mas 
de um teor-pretenriiHn.
Quão importante é o papel desempenhado pelo teor- 
-pretendido no mundo-próprio de cada animal ressalta do 
exemplo citado a respeito do casa-roubada e da anémona- 
-do-mar. Aquilo a que então chamámos a condição, ou 
disposição, do casa-roubada, que era diferente de caso
[ 118]
para caso, podemos agora designar, com mais proprie­
dade, por teor-pretendido, diferente de caso para caso, 
com que o casa-roubada aborda a mesma imagem-percep­
tiva e lhe atribui ora um teor-de-agressão, ora um teor- 
-de-protecção, ora ainda um teor-de-alimento.
O sapo esfomeado começa por partir para a busca 
dos alimentos dispondo apenas de vago teor-de-saciar-a- 
-fome, e só depois de ele devorar uma minhoca ou um 
fósforo se constitui determinada imagem-pretendida.
12. OS MUNDOS-PRÓPRIOS IMAGINÁRIOS
Sem dúvida existe, dominando tudo, uma oposição 
entre o mundo ambiente que nós, homens, vemos abrir-se 
em torno dos animais, e os nossos mundos-próprios, que 
eles próprios construíram, e que preencheram com as 
coisas de que tiveram percepção, Até aqui os mundos- 
-próprios eram, em regra, o resultado das percepções 
cféspêrtadas porest7mOT^j^rtéi:i.Q.i:ês.. Ã essa regra fize­
ram já excepção a. imagem-pretendida, assini, como a de-v 
terminação do caminho aprendido e a delimitação, da 
pátria, que não resultam de qualquer es,pécie.de estímulo 
exterior mas são produtos autónomos de actividades
f ' ^"iiiwjBiiriiiiiwiiii ....... 
subjectivas.....
Estes produtos subjectivos constituíram-se à custa 
da reunião de repetidas experiências pessoais do sujeito.
Se agora prosseguirmos neste caminho, deparamos 
com mundos-próprios em que surgem aspectos de grande 
eficácia, mas que só são apercebidos pelo sujeito ,e ,que 
não estão ligados a quaisquer experiências, ou, quando 
muito se relacionam com um acontecimento excepcional. 
Tais mundos-próprios designamo-los por mundos-imaqi- 
nários.
Para ver até que ponto muitas-crianças vivem em 
[119]
mundos-próprios-imaginários pode servir o seguinte exem­
plo: Frobenius (1) refere-se no' seu Paideuma a uma rapari- 
guinha que com uma caixa de fósforos e três fósforos 
representou às escondidas, só para si, a história da casi­
nha feita de bolo que Hansel e Gretei (2) encontraram na 
floresta, e da bruxa má, e que inesperadamente se pôs a
Flg. 42— O aspecto imaginário da bruxa
gritar: «Levem-me daqui a bruxa; já não posso ver a sua 
face horrenda.»Este caso, tipicamente do campo da imaginação, está 
representado na fig. 42.
Seja como for, a bruxa má entrou em pessoa no 
mundo-próprio da rapariguinha.
Casos como este apresentam-se muitas vezes pe­
rante os exploradores de povos primitivos. Afirma-se que 
estes vivem em um mundo de imaginação, em que aos 
aspectos captados pelos sentidos se misturam no seu' 
mundo aspectos imaginários.
(') Leo Frobenius (1873-1938). Etnólogo e explorador em 
África (Nota da ed. alemã.)
(J) Personagens de um conto dos Irmãos Grimm.
[ 120]
Quem reparar melhor verá que o mesmo se dá em 
muitos mundos-próprios de europeus cultos.
Ora pode perguntar-se se os animais também vivem 
em mundos-próprios imaginários. A propósito de cães 
contam-se muitos casos de imaginação. Mas tais relatos 
não foram até hoje analisados com suficiente sentido 
crítico. De uma maneira geral, porém, e aproximadamente, 
deve-se admitir que os cães associam as suas experiên­
cias umas com as outras de uma maneira que tem mais 
um carácter imaginativo que lógico. O papel desempe­
nhado pelo dono no mundo-próprio do cão compreende-se 
como fenómeno de imaginação do cão, não se explica em 
termos de causa e de consequência.
Um investigador meu amigo relata, a respeito de um 
aspecto sem dúvida imaginário no mundo-próprio de uma 
ave: tinha criado em casa um estorninho que, por isso, 
nunca tivera ensejo de ver uma mosca, muito menos de 
a apanhar. Ora o meu amigo observou (fig. 43) que uma 
vez o estorninho se lançara subitamente sobre qualquer 
coisa invisível, «apanhara-a» no ar e «trouxera-a» para o
[ 121]
sítio em que costumava estar pousado, «dando-lhe» bica­
das, como todos os estorninhos fazem às moscas que 
caçam, e acabando por «engoli-la». Não pode haver dúvida 
que o estorninho visionara no seu mundo-próprio uma 
mosca imaginária. Evidentemente todo o seu mundo- 
-próprio estava tão ocupado pelo teor comestível, que,
Fig. 44 — O caminho imaginário da larva do gorgulho-da-ervilha
ajnda mesmo na ausência do estímulo sensorial, a ima- 
gem-efectora preparatória da caça da mosca extraíra a 
aparição da imagem-perceptiva, o que provocou o desen­
cadear de toda a série de actos correspondentes.
Esta experiência dá-nos uma indicação que nos ex­
plica, aliás, atitudes enigmáticas de vários animais.
A fig. 44 representa o modo de comportamento, já 
estudado por Fabre, d a-largado g o rg ulh o:da-ervi lha, que
[ 1 2 2 ]
no momento próprio, abre uma galeria na polpa ainda mole 
do grão da ervilha, até àjsuperfície, e que aquela só utiliza 
depois de chegar a gorgulho adulto para sair de^dentro da 
ervilha entretanto jsndurecjda. Está perfeitamente averi­
guado que se trata de uma conduta exactamente planeada, 
ainda que, do ponto de vista da larva do gorgulho, com­
pletamente independente do ioao dos sentidos, pois que 
nenhum estímulo sensorial do futuro qoraulhp_p,ode jnc[dir 
sobre a sua larva. Nenhum sinal-perceptivo indica à larva 
o cãmínho, que ela nunca seguira e que, no entanto, tem 
de seguir, de modo que, depois da sua transformação 
em gorgulho adulto, não venha a perecer miseravelmente.
Ãs figs. 45 e 46 mostram dois outros exemplos U í 
caminho inato. A fêmea do enrolador-de-folhas começa a 
cortar, em determinado ponto da folha da bétula (que 
talvez lhe seja denunciado pelo seu gosto), uma linha 
curva de forma predeterminada, que lhe permite depois 
enrolar a folha em forma de funil, dentro do qual o insecto 
fará a sua postura. Este, apesar de nunca antes ter 
seguido esse expediente e de a folha da bétula não ofe­
recer dele qualquer indicação, apresenta-se à imaginação 
do insecto de uma maneira perfeitamente nítida.
O mesmo se passa com a rota de voo das aves 
migradoras. Os continentes só às aves revelam o cami­
nho inato. Isto é válido, certamente, para aquelas aves 
jovens que se aventuram ao caminho não guiadas pelos 
pais, pois que, para as outras, não se exclui a possibili­
dade da utilização de um caminho aprendido.
Como o caminho aprendido, de que já tratámos, tam­
bém o caminho inato é seguido tanto à custa do espaço- 
-visual como do espaço-de-acção.
A única diferença entre os dois reside em que no 
caminho aprendido se desenrola uma série de sinais per- 
ceptivos e de impulso que saem uns dos outros, os quais 
foram retidos por experiências anteriores, ao passo que
[ 123]
Fig. 45 — 0 caminho 
imaginário do enrola- 
dor-de-folhas
Fig. 46 — O cami­
nho imaginário 
das aves migra­
do ras
[124]
no caminho inato a mesma série de representações é 
dado imediato da imaginação.
Para o observador que está de fora, o caminho apren­
dido num mundo-próprio de outro animal é quase tão 
indiscernível como o inato. E quando se admite que o 
caminho aprendido surge no mundo-próprio do sujeito 
estranho — do que não há que duvidar — então não há 
qualquer razão para negar o aparecimento do caminho 
inato, pois que ele se organiza à custa dos mesmos ele­
mentos — sinais-perceptivos e impulsos exteriorizados. 
Num caso originaram-se em estímulos sensoriais, no 
outro soarão em conjunto como uma melodia inata. Se 
deteFmmádÕ~*cÍTi^h^~foi^se7-numa pessoa, inato, poder- 
-se-ia descrever como o caminho-aprendido: cem passos 
até à casa vermelha, depois voltar à direita, etc.
Se se chamar^sensoria jjsó àquilo que é dado ao 
sujeito pelasjéxperiências dos sentidos, então s ó _ jd 
procedimento aprendido se deverá chamar sensorial, não 
o inato. Mas é por isso que este se mantém em alto grau 
de acordo com um plano.
Que os aspectos imaginários desempenham no 
mundo animal um papel muito mais vasto do que se supõe 
di-lo uma experiência notável relatada por um investi­
gador recente. Este costumava dar de comer a uma 
galinha num certo estábulo, e enquanto ela debicava nos 
grãos introduziu no estábulo um porquinho-do-mar. A gali­
nha perdeu a cabeça e começou a esvoaçar de um lado 
para o outro. A partir de então nunca mais conseguiu que 
a galinha comesse no estábulo. Entre os mais apetitosos 
grãos, era capaz de morrer de fome. É evidente que a 
cena do incidente anterior pairava como sombra fantás­
tica, o que a fig. 47 pretende representar.
Isto faz supor que, quando a galinha acorre para 
junto dos pintainhos que piam, e afugenta um inimigo às
[125]
bicadas, é porque no seu mundo-próprio entrou uma apa­
rência imaginária.
Quanto mais tivermos aprofundado o estudo dos 
mundos-próprios, mais nos devemos ir convencendo de 
que neles se introduzem factores actuantes a que não se, 
pod e atribuir qualquer realidade objectiva. A começar .pelo 
mosaico de lugares que a v ista introduz nas coisas do
Fig. 47— A sombra imaginária
mundo-próprio e que não existem no mundo ambiente, 
cõmóTãmEem ali não existem os dador,-de-orientação que 
cõnt£m'o" espaço dd”rn"undo-próprio. Do mesmo modo, foi 
impossível encõrítrã7”no mund6'am biente um factor que 
corresponda ao procedimento aprendido do sujeito. A dis­
tinção de pátria e campo de caça não existe no mundo 
ambiente. Não existem no mundo ambiente quaisquer ves- 
tfqiQS-jJaJmPQrtante.. imaaem-pretendlda.'
[126]
Somos pois levados, finalmente, a aceitar o fenó­
meno de imaginação do caminho inato que desdenha de 
qualquer objectividade e que, no entanto, intervém no 
mundo-próprio de acordo.,com um plano.
Há ainda nos mundos-próprios puras realidadessub- 
jectivas. Mas também as realidades objectivas do mundõ 
ambiente, como tais, nunca entram nos mun9õs:pr5prlòs. 
São sempre .transformadas em sinais-característicos ou 
imàgens-perceptivas e providas de um teor-efector, que 
aà transforma em objectos reais, apesar de nos estímulos 
nada existir que seja teor-efector.
E, finalmente, o simples ciclo de função ensina-nos 
que tanto sinais-característicos como marcas-de-acção, 
são exteriores ao sujeito, e que as propriedades dò 
objecto,que o ciclo-de-função inclui,-só podem ser consi­
deradas como seus veículos.
Ássim, pois, chegamos à conclusão que cada sujeito 
vive num mundo em que só existem realidades subjec­
tivas e que até os mundos-próprios, eles mesmos, só 
apresentam realidades subjectivas.
Quem nega a existência de realidades subjectivas é 
porque não reconheceu os fundamentos do seu mundo- 
-próprio.
13. O MESMO SUJEITO COMO OBJECTO 
EM DIFERENTES MUNDOS-PRÓPRIOS
Os capítulos anteriores referiram-se a digressões 
•singulares em diferentes direcções, na terra desconhe­
cida do mundo-próprio. Ordenaram-se conforme os pro­
blemas, para em cada caso se conseguir uma maneira de 
tratamento uniforme.
Ainda que alguns problemas fundamentais tenham 
• assim sido tratados, nunca se chegou, nem se pretende
[127]
Manuela
Realce
ter-se chegado a qualquer resultado completo. Muitos 
problemas aguardam interpretação reflectida, e outros 
ainda não passaram da fase de formulação. De modo que 
ignoramos ainda que parcela do próprio corpo do sujeito 
passou a fazer parte do seu mundo-próprio. Nem uma só 
vez a questão do significado da própria sombra no 
mundo visual foi experimentalmente abordada.
O tratamento de problemas particulares é tão impor­
tante para o estudo do mundo-próprio, como insuficiente 
para se chegar a uma visão de conjunto das interdepen­
dências dos mundos-próprios.
Uma tal visão é talvez possível, quando abranja 
apenas um campo restrito, se explorarmos a questão: 
como é que em diferentes mundos-próprios em que ele 
desempenha um papel importante, o próprio sujeito passa 
a ser objecto?
Como exemolo escolho um carvalho em que vivem 
diferentes sujeitos do reino animal, e que em cada 
mundo-próprio vem, além disso, a desemoenhar um 
papel diferente. Como o carvalho também faz parte de 
vários mundos-próprios humanos, conforme o observador, 
comeco por estes (’).
As fiçjs. 48 e 49 são reproduções de dois desenhos 
que devemos ao talento do artista Franz Huths.
(Fiq. 48). No mundo-próprio perfeitamente razoável do 
velho couteiro, que resolveu quais as árvores da sua 
coutada que estão boas para o corte, o carvalho destinado 
ao machado não passa de umas braças de madeira que 
ele mede com todo o cuidado. Por isso as rugosidades da 
casca que, acidentalmente, parece representarem um 
rosto humano, não são por ele notadas como tal. A fig. 49 
representa o mesmo carvalho no mundo-próprio imagi-
(') Comp., porém, o que se notou nas págs. 11 e segs. da In­
trodução. (N. do A.)
T128]
líip
A anémona-do-mar e o casa-roubada
O quarto, para o homem
Manuela
Realce
Manuela
Realce
O quarto, para o cão
O quarto, para a mosca
Fig. 48 — O couteiro e o carvalho
Fig. 49 — A rapariguinha e o carvalho
9 - A . HOMENS [129]
nário de uma rapariguinha para quem a coutada ainda é 
povoada de gnomos e fantasmas, e que fica muito assus­
tada como se o carvalho a olhasse com o seu mau cariz. 
Todo o carvalho, para ela, passou a ser um perigoso de­
mónio.
Na coutada de um primo meu, da Estónia, há uma 
velha macieira sobre que se desenvolveu um grande 
cogumelo que apresentava uma vaga semelhança com 
um clown, o que até certa altura ninguém tinha notado. 
Um dia meu primo contratou uns doze trabalhadores 
russos para fazerem a colheita, os quais descobriram a 
macieira e passaram a reunir-se todos os dias em volta 
dela para cumprir uma cerimónia em que rezavam e se 
benziam. Explicavam eles que o cogumelo devia ser uma 
figura maravilhosa, pois não era obra do homem.
Para eles, acontecimentos maravilhosos naturais 
eram coisas evidentes em si.
Mas, voltemos ao carvalho e aos seus habitantes. 
Para a raposa (fig. 50) que construíra a sua cova entre as 
raízes do carvalho, este passou a ser um abrigo seguro 
que a protegia das intempéries, a ela e à sua família. 
Para ela o carvalho não possuía o mesmo teor de utilidade 
prática que tinha para o couteiro, nem o teor de ameaça 
que tinha para a rapariguinha, mas sim, é evidente, um 
teor de abrigo e nada mais.
Semelhantemente, no mundo-próprio do mocho o car­
valho tem um teor de refúgio (fig. 51). Somente, agora, 
não são as raízes, completamente fora do mundo 
ambiente, mas os troncos vigorosos, que constituem 
para ele uma como que muralha defensiva.
Para o esquilozinho o carvalho adquire, com as suas 
numerosas frondes, que lhe proporcionam trampolins 
apropriados para saltarem, um teor de trepar, e para as 
aves canoras, que constroem os seus ninhos nas rarhà- 
rias, o teor de suporte necessário.
[130]
Fig. 50 — A raposa e o carvalho
Fig. 51— O mocho e o carvalho
[131]
Correspondentemente aos diferentes teores de utili­
zação, diferem umas das outras~ãs imagens-perceptivas. 
Cada mundo-próprio aproveita do carvalho uma certa 
parte das suas propriedades, adequada à formação tanto 
dos veículos de sinais-característicos como dos de mar- 
cas-de-acção dos seus ciclos-de-função. No mundo-próprio 
da formiga (fig. 52) tudo que não é a casca com as suas 
anfractuosidades desaparece, tornando-se aquelas o seu 
campo de pilhagem.
Fig. 52— A formiga e o carvalho 
[132]
Por baixo da casca, que ele destaca, o longicórneo 
(fig. 53) procura o seu alimento e aí põe também os seus 
ovos. As larvas que deles resultam abrem no lenho
Fig. 53 — O longicórneo e o carvalho
galerias, e abrigadas nelas dos perigos do mundo exte­
rior, banqueteiam-se em segurança. Mas a sua protecção 
não é absoluta. Porque não é só o picapau que com as
[133]
suas fortes bicadas fende a casca e as persegue, mas 
também o icnêumon (fig. 54), que, com o seu fino ovopo- 
sitor perfura o duro lenho do carvalho como se ele fosse 
manteiga, e as aniquila, introduzindo-lhes no corpo os 
seus ovos, dos quais virão a resultar larvas, que, por seu 
turno, engordam à custa daquelas outras.
Em todas as centenas de mundos-próprios diferentes, 
o carvalho desempenha, como objecto, um papel alta­
mente variado, ora com uma ora com outra das suas
Fig. 54 — O Icnôuinon e o carvalho
partes. Umas destas são extensas, outras, reduzidas. 
Umas vezes, a madeira é dura, outras, mole. Uma vezes 
serve de protecção, outras de campo de ataque.
Se quiséssemos resumir as particularidades opostas 
que, como objecto, o carvalho apresenta, o que resultaria 
seria um caos. E, no entanto, todas elas são apenas 
partes de um sujeito estritamente ordenado, que contém 
todos os mundos-próprios — nem conhecidos nem conhe- 
cíveis por todos os sujeitos destes mundos-próprios,.
[134]
14. CONCLUSÃO
O que, em ponto pequeno, reconhecemos no carvalho, 
passa-se, ampliado, na árvore da vida da natureza.
Dos milhões de mundos-próprios, cujo número nos 
confundiria, só escolhemos aqueles que se destinam 
ao estudo da natureza— , os mundos-próprios do natu­
ralista.
A fig. 55 representa o mundo-próprio dos astrónomos, 
de todos o mais facilmente representávei. Em uma torre 
muito elevada, possivelmente muito afastada da super­
fície da Terra, senta-se um ser humano que, por meio de 
dispositivos ópticos, apropriados, transformou a sua vista, 
capaz de penetrar o universo até às últimas estrelas. 
No seu mundo-próprio giram sóis e planetas em feérico 
movimento. A luz, rapidíssima, leva milhões de anos a 
atravessar este universo.
E contudo todo o mundo-próprio em volta não passa 
de uma insignificante secção da natureza, feita de acordo 
com as possibilidades de um sujeito humano. Com dimi­
nutas modificações pode-se aproveitar o quadro do astró­
nomo para obter uma representação do mundo-próprio 
de um investigador das profundidades marinhas. Somente, 
agora, o que se move em volta do seu observatório não 
são astros, mas formas fantásticas de peixes das profun­
didades, com as suas fauces horrendas, as suas longas 
antenas e os seus órgãos luminosos brilhantes como 
estrelas.Também aqui nós relanceamos um mundo real 
que representa uma pequena secção da natureza.
O mundo-próprio de um químico, que, a partir dos 
elementos químicos, como se fossem noventa e duas 
letras, tentasse ler e escrever as enigmáticas correlações 
das substâncias da natureza, é difícil de traduzir inteligi­
velmente.
É mais fácil de descrever o mundo-próprio de um
[135]
Manuela
Realce
Manuela
Realce
físico-atómico. porque assim como as estrelas dos astró­
nomos giram, assim também, para ele, giram os electrões 
Somente aqui reina, não a calma universal, mas uma agi-
Fig. 55 — O mundo-próprio dos astrónomos
tação frenética das partículas materiais mínimas, que o 
físico se propõe fazer explodir bombardeando-as com 
pequeníssimos projécteis.
[136]
Quando um outro físico estuda no seu mundo-próprio 
as ondas do éter, recorre ainda a meios auxiliares com­
pletamente diferentes que lhe revelam uma imagem das 
ondas. Agora ele pode afirmar que ondas luminosas que 
afectam os nossos órgãos da visão se assemelham às 
outras ondas sem manifestarem quaisquer diferenças. 
s São ondas e nada mais.
No mundo-próprio dos fisiólogos dos sentidos, as 
ondas luminosas desempenham um papel compfètãmente 
diferente. Agora passam a ser cores, que têm as suas 
leis próprias. Vermelho e verde associam-se e dão branco, 
e as sombras projectando-se num fundo amarelo dão azul. 
Fenómenos, que, nas ondas, elas próprias, não se passam; 
e contudo as cores são tão perfeitamente positivas como 
as ondas do éter.
Os mesmos contrastes se revelam nos mundos-pró- 
prios de um investigador das ondas do ar e de um inves­
tigador da música. Num, só há ondas, no outro só há 
sons. Ambas as coisas são porém igualmente reais. 
E assim por diante. No mundo-próprio da natureza, dos 
beavioristas, o corpo cria o espírito, e no do psicólogo 
é o espírito que cria o corpo.
O papel que a natureza como objecto desempenha 
nos diferentes mundos-próprios do naturalista é eminente­
mente contraditório. Se se quisessem resumir as suas 
particularidades objectivas caía-se no caos. E no entanto 
todos éstes diferentes mundos-próprios estão incluídos 
e arrastados num uno que se conserva eternamente 
vedado a todes os mundos-próprios. Por trás de todos os 
mundos por ele criados, oculta-se eternamente o sujeito 
inatingível — a Natureza.
[137]
Manuela
Realce
DOUTRINA DO SIGNIFICADO
POR
JAKOB v. UEXKÜLL
A os meus adversários em Ciência, 
para que usem de amigável atenção
1. OBJECTOS SIGNIFICANTES (')
Um golpe de vista pelos insectos voadores, como as 
abelhas, os zangãos e as libélulas, que se agitam num 
prado florido, desperta sempre em nós a impressão de 
que o mundo inteiro se mantém aberto a estes seres tão 
invejáveis.
Até os animais adstritos à terra, como as rãs, os 
ratos, os caracóis e os vermes parecem mover-se livre­
mente na Natureza livre.
Esta impressão, porém, é enganadora. Na verdade,
(') A breve introdução à «doutrina do significado», polémica 
getiial de Jacob von Uexküll com o seu grande adversário científico 
Max Hartmann, só para o especialista pode ter interesse e talvez 
até causasse confusão ao leigo no assunto. Por outro lado, estas pala­
vras introdutórias dão um retrato tão relevante e impressivo do
[139]
cada um destes animais, que se movem livremente, está 
preso a um determinado mundo que ele habita e cujos 
limites compete aos ecólogos pesquisar.
A priori, não temos a menor dúvida de que existe um 
mundo imenso que se desdobra ante os nossos olhos e 
do qual cada animal destaca o mundo que habita. Aparen­
temente, cada animal dentro do mundo em que vive, 
depara com grande número de objectos, com os quais 
mantém relações mais ou menos estreitas. Daqui parece 
resultar automaticamente, para cada biólogo experimen­
tal, que a sua missão é colocar diferentes animais perante 
o mesmo objecto, a fim de estudar as relações entre 
animal e objecto, operação em que o mesmo objecto 
serve de padrão em todas as experiências com animais.
Assim, os investigadores americanos, em milhares 
de experiências, iniciadas com ratos brancos, têm pro­
curado incansavelmente examinar os mais diversos ani­
mais, nas suas relações com um labirinto.
A mediocridade dos resultados obtidos com estes 
trabalhos, executados, aliás, segundo os mais rigorosos 
métodos quantitativos e os cálculos mais perfeitos, podia 
tê-la previsto quem se desse conta de que é falsa a 
pressuposição implícita de que um animal pode alguma 
vez entrar em relação com um objecto.
É fácil apresentar, por meio de um exemplo simples, a 
prova desta afirmação, talvez surpreendente. Na estrada, 
um cão ladra furiosamente contra mim. Para me libertar 
dele, pego numa pedra do caminho e atiro-a ao assaltante, 
num golpe certeiro. Ninguém, que tivesse observado a 
cena e apanhasse depois a pedra, duvidaria então de que
naturalista combativo e original que é Von Uexküll, que não queremos 
privar dela os nossos leitores. Por isso a oferecemos a seguir à 
doutrina do significado, como epílogo.
A controvérsia, aliás, significativa em si, mesmo que tenha per­
dido actualidade, não está encerrada. (Nota da ed. alemã.)
[140]
ela era o mesmo objecto «pedra» que fora levantada do 
pavimento e atirada depois ao cão.
Nem a forma, nem o peso, nem as outras proprie­
dades físicas e químicas da pedra se alteraram. A cor, 
a dureza, as formações cristalinas conservaram-se as 
mesmas e, todavia, operou-se nela uma transformação 
fundamental: mudou de significação, ou melhor, de sig­
nificado.
Enquanto a pedra fazia parte do pavimento da estrada, 
servia de apoio ao pé do viandante. O seu significado 
estava na parte que lhe cabia na função do caminho. 
Tinha, para assim dizer, um sentido ou «teor de caminho».
Tudo se modificou radicalmente quando apanhei a 
pedra para a atirar ao cão. Ela transformou-se então num 
projéctil: foi-lhe atribuído um novo significado. A mesma 
pedra recebeu um «teor de arremesso».
A pedra que, como objecto neutro, está na mão do 
observador, transforma-se num objecto significante logo 
que entra em relação com um sujeito. Como os animais 
nunca se apresentam como observadores, pode afirmar-se 
que nenhum animal pode entrar em relação com um 
objecto. Só pela relacionação, o objecto se transforma 
em qualquer coisa com um significado, que lhe é atri­
buído por um sujeito.
Dois outros exemplos podem esclarecer-nos acerca 
da influência que a mudança de significado exerce nas 
propriedades dos objectos. Eu pego numa concha larga 
de vidro, que pode considerar-se um mero objecto, por 
isso que não entrou em qualquer espécie de relação com 
uma actividade humana. Encaixo-a depois na parede exte­
rior da minha casa, transformando-a, desta maneira, numa 
janela que deixa penetrar a luz do Sol mas que, devido 
aos-seus reflexos, faz desviar a vista às pessoas que pas­
sam. Posso ainda colocar a concha em cima da mesa e 
enchê-la de água, para a utilizar como vaso de flores.
[141]
As propriedades do objecto não se alteram com isso. 
Mas logo que ele se transformou num objecto significante 
«janela» ou «vaso», reconhece-se uma diferenciação das 
suas propriedades, consoante a função que passa a de­
sempenhar. Para^jandajj^atransgarência a propriedade 
essencial, ao passo que a curvatura representa a proprie­
dade acessória.
Este exemplo permite compreender melhor por que 
razões os escolásticos classificavam as propriedades dos 
objectos em essentia e accidentia. Ao fazerem esta classi­
ficação, eles só tinham em mente objectos significantes, 
pois as propriedades de objectos sem significado não 
admitem qualquer ordenação hierárquica. Só a ligação 
mais ou menos estreita do objecto significante com o 
sujeito permite dividir as propriedades em essenciais 
[essentia) e acessórias (accidentia).
Como, terceiroexemplo, tomemos um objecto cons­
tituído por duas barras compridas e várias outras mais 
curtas que, com intervalos regulares, liguem as duas 
primeiras. A este objecto pode atribuir-se o teor de 
«trepar», de uma escada, quando se encostam ao alto, a 
uma parede, as duas barras compridas; mas também 
posso atribuir-lhe o teor correspondente à sua utilidade 
como vedarão, se fixar no solo, horizontalmente, uma 
das barras maiores.
Imediatamente se verifica que o afastamento entre si 
das barras tVansversais desempenha papel secundário 
no caso da vèdação mas que, no caso da escada, esse 
intervalo deve corresponder a um passo. Já se reconhece, 
assim, no objecto significante «escada», um plano simples 
de construção geométrica que torna possível a acção de 
trepar.
Em linguagem pouco rigorosa, nós designamos todas 
as coisas que nos são úteis (embora elas comportem, 
colectiva e individualmente, significação humana) sim­
[142]
plesmente por objectos, como se de meros objectos 
autónomos se tratasse. Com efeito, não é raro tratarmos 
uma casa, com tudo que nela se encontra, como se ela 
existisse objectivamente, sem considerarmos as pessoas 
que habitam essa casa e utilizam as coisas nela contidas.
Verificaremos imediatamente quanto é errada esta 
maneira de ver se, em lugar de uma pessoa, imaginarmos 
um cão como habitante da casa e atentarmos nas suas 
relações com as coisas.
Sabemos, pela experiência de Sarris ('), que um cão 
que aprendeu a sentar-se numa cadeira quando lhe dão 
a ordem «cadeira!» procura outra coisa para se sentar, 
se aquela lhe tiver sido retirada, e até outra coisa que 
possa servir-lhe de assento a ele, sem que tenha de ser, 
necessariamente, assento próprio para pessoas.
As coisas que podem ser aproveitadas para assento 
contêm todas um significado comum, possuem todas o 
mesmo teor de assento, pois podem substituir-se arbitra­
riamente umas pelas outras que o cão servir-se-á delas, 
sem distinção, à voz de comando «cadeira!».
Se imaginarmos, pois, o cão como habitante da casa, 
poderemos verificar a existência de um grande número 
de coisas com o teor de «assento». Haverá, do mesmo 
modo, muitas coisas que apresentam um teor de «comida» 
ou um teor de «bebida» de cães. A escada tem, por certo, 
uma espécie de teor de «trepar»; mas a maioria dos 
móveis têm, para o cão, apenas um teor de «estorvo», 
mesmo quando cheios de livros ou roupas. Todos os 
pequenos utensílios domésticos, como colheres, garfos, 
fósforos, deixam, por inúteis, de existir para o cão.
Ninguém contestará que a impressão deixada pela 
casa, com todas as coisas que só ao cão podem inte-
"V
(’) E.J3^Sams. colaborador de Uexküll, que, desde 1931, se 
tem dedicado ao estudo do comportamento e ao ensino de cães 
e também ao treino de cães de cego. (N. da ed. alemã.)
[143]
ressar, é extremamente desoladora e não corresponde, de 
modo algum, ao seu verdadeiro significado.
Não poderemos daí concluir que, por exemplo, a flo­
resta, cantada pelos poetas como a mais bela estância 
para o homem, não é, de forma alguma, concebida no seu 
verdadeiro sentido, quando a relacionamos só connosco?
Antes de desenvolvermos esta ideia, seja-nos permi­
tido citar aqui uma frase do capítulo sobre o mundo-pró­
prio, no livro de SombartC) Acerca do Homem: «Não 
existe nenhuma flo resta como mundo-próprio objectiva­
mente bem determinado, mas sim uma floresta do cou­
teiro, do caçador, do botânico, do passeante, do amante 
da Natureza, do homem que vai à lenha ou do que anda 
às bagas, ou a floresta da fábula em que Hansel e Gretei 
se perdem.»
Os significados da floresta contam-se por milhares, 
se nos não limitarmos às suas relações com sujeitos 
humanos e se também tomarmos em consideração os 
animais.
É, todavia, inútil extasiar-nos com o número extraor­
dinário de mundos-próprios que se contêm na floresta. 
Será muito mais elucidativo tomar um caso típico, para 
então lançarmos um golpe de vista pela teia de relações 
dos mundos-próprios.
Observemos, por exemplo, o pedúnculo de uma flor 
dos prados, que desáErõcfíãT^é procuremos verificar que 
papéis lhe são atribuídos nestes quatro mundos-pró­
prios: 1) o de uma rapariga que anda a colher flores e, 
com algumas delas, de várias cores, faz um ramo que 
depois põe, como adorno, na cintura do corpete; 2) o de 
uma formiga que utiliza o desenho regular da superfície 
superior do pedúnculo como piso ideal para atingir a zona 
rica de alimento, dentro das pétalas da flor; 3} o de uma
(') Wemer Sombart, sociólogo alemão (1863-1941). (N. da ed. 
alemã.)
[144]
larva de aphrophora spumaria, que perfura os vasos con­
dutores da seiva do pedúnculo e o utiliza como fonte de 
material emulsionável com que constrói o seu abrigo 
aéreo; 4) o de uma vaca que ceifa, com a língua, o 
pedúnculo e a flor e os mete na enorme boca, para os 
utilizar como alimento.
O mesmo pedúnculo de uma flor desempenha, con­
forme o cenário do mundo-próprio em que se encontra, o 
papel de adorno, de passagem, de reservatório ou, final­
mente, de bocado de comida.
Isto é verdadeiramente espantoso. O pedúnculo da 
flor, em si próprio, como parte de uma planta viva, é 
formado por elementos dispostos segundo um plano, uns 
em relação aos outros, que constituem um mecanismo 
mais perfeito que todas as máquinas feitas pelo homem.
Os mesmo elementos que no pedúnculo da flor estão 
submetidos a um acertado plano de construção_gão sepa­
rados uns dos outros, levados para os quatro mundos-pró­
prios e perfeitamente ajustados, com igual certeza, a 
outros plajoos de construção.
Logo que cada componente de um objecto orgânico 
ou inorgânico surge, como óbjecto significante, no cenário 
da vida de um sujeito animal, esse componente é posto 
em contacto com um, digamos, «complemento.», sjtujdo 
no corpo do sujeito que intervém como. utilizadot-do. 
significado.
"Éste facto chama a nossa atenção para um aparente 
contraste nos caracteres fundamentais da natureza viva. 
A concordância com um piano na estrutura do corpo e a 
concordância com um plano na estrutura do mundo-pró­
prio situam-se frente a frente e parecem contradizer-se.
E ilusória seria a impressão de que a concordância 
com um plano na estrutura do mundo-próprio é, de algum 
modo, menos rigorosa do que na estrutura do corpo.
Cada mundo-próprio é, em si, uma unidade fechada,
1 0 -A . HOMENS [145]
que em todas as suas partes é dominada pelo significado 
que o sujeito lhe atribui. Consoante o significado que tem 
para o animal, o cenário da vida abrange um espaço amplo 
ou limitado, cujos lugares dependem inteiramente, em 
número e grandeza, da capacidade de diferenciação do 
órgão sensorial do respectivo sujeito. O espaço visual da 
rapariga, no exemplo anterior, assemelha-se ao nosso; o 
espaço visual da vaca estende-se para além da planície 
em que o prado está situado, ao passo que o seu diâmetro 
no mundo da formiga não vai além de meio metro e será 
de alguns centímetros apenas no da aphrophora.
Em cada espaço, é diferente a distribuição dos luga­
res. O piso macio que a formiga tateia, ao passar pelo 
pedúnculo da flor, não existe para as mãos da rapariga 
e ainda menos para a boca da vaca.
O esquema estrutural do pedúnculo da flor e a sua 
constituição química não desempenham qualquer papel 
no cenário da vida da rapariga ou no da formiga. A diges- 
tibilidade dos colmos, pelo contrário, é essencial para a 
vaca. Dos vasos condutores, delicadamente estruturados, 
do pecíolo, a aphrophora extrai a seiva que lhe convém. 
Com efeito, ela é capaz, segundo Fabre, de obter, à custa 
do leite yenenoso da erva-leiteira, um suco inofensivo 
para a sua habitação de espuma.
Tudo qyanto cai na esfera de um mundo-próprio, ou 
desaparece totalmente ou é adaptado e transformado 
até se converter num objecto com significado útil. Os 
elementosiniciais são então muitas vezes separados uns 
dos outros, sem atender ao plano de construção que até 
aí os regulava.
Dentro dos vários mundos-próprios, os objectos sig- 
nificantes são tão diferentes pelo seu conteúdojquanto se 
assemelham pela natureza da sua estrutura. A lgumas das 
suas propriedades apresentam-se sempre ao sujeito como
[146]
portadoras de sinais-característicos e outras como por­
tadoras de sinais-de-impulso ou acção.
A cor das flores actua como nota (ou sinal) visual no 
mundo-próprio da rapariga do exemplo dado; o estria- 
mento da superfície superior do pedúnculo como nota 
táctil, no mundo-próprio da formiga, e o ponto em que a 
aphrophora o perfura denuncia-se-lhe, talvez, como nota 
olfativa; e no mundo-próprio da vaca, a seiva do pedún­
culo dá a nota gustativa. A maior parte das vezes, os 
sinais de acção são atribuídos pelo sujeito a outras 
propriedades do objecto significante. É quebrando-a pela 
região mais delgada do pedúnculo que a rapariga colhe 
a flor.
O estriamento da superfície superior do pedúnculo 
serve à formiga para provocar não só o sinal táctil das 
suas antenas mas também o da acção das suas pernas.
O reservatório de seiva, denunciado pelo cheiro, é 
perfurado pela aphrophora e a seiva que dele brota serve, 
como material, para a construção do seu ninho espumoso.
A nota gustativa do pedúnculo faz que a vaca, ao 
pastar, vá ceifando sempre mais colmos com a língua.
Como, em cada caso, o sinal-de-impulso aplicado 
sobre o objecto significante anula o sinal-perceptivo que 
provoca o comportamento, sucede que, com esse sinal- 
-de-impulso, termina todo o comportamento, qualquer que 
ele seja.
O colher a flor transforma esta num adorno, no 
mundo-próprio da rapariga; a passagem ao longo do pe­
dúnculo transforma este num caminho, no mundo-próprio 
da formiga, e a picada da larva transforma-o numa fonte 
de material de construção, que ela utiliza. Finalmente, ao 
ser comido pela vaca, o pedúnculo da flor passa a ser um 
alimento próprio do gado.
Assim, cada acto de comportamento, constituído por 
sinais-perceptivos e impulsos, imprime ao objecto neutro 
o seu significado e transforma-o, com isso, num objecto
[147]
significante, relacionado com o sujeito, no seu respec­
tivo mundo-próprio.
Como cada acto de comportamento se inicia pela 
produção de um sinal-perceptivo e termina com a «cunha­
gem» de um sinal-de-impulso no mesmo objecto signifi­
cante, é possível falar de um ciclo-de-função que rela­
ciona o objecto significante com o sujeito.
Os ciclos-de-função mais importantes, pelo seu 
significado, que se nos deparam na maior parte dos mun- 
dos-próprios são: o ciclo do habitat, o da nutrição, o do 
inimigo e o do sexo.
Graças à sua integração num ciclo-de-função, cada 
objecto significante torna-se complemento do sujeito ani­
mal e por isso certas propriedades individuais, conside­
radas portadoras de sinais-característicos e efectores 
desempenham então um papel essencial, enquanto outras, 
pelo contrário, têm apenas papel secundário. Frequente­
mente, a maior parte do corpo de um objecto significante, 
como estrutura não diferenciada, serve apenas para arti­
cular entre si as partes portadoras de sinal-perceptivo 
com as partes portadoras de sinal-de-acção. (Comp. 
pág. 36, fig. 3.)
2. MUNDO-PRÓPRIO 
E REVESTIMENTO PROTECTOR
Tanto os animais como as plantas dotam o corpo de 
protecções vivas, ao abrigo das quais passam a sua 
existência.
São todas construídas rigorosamente segundo um 
plano, mas distinguem-se, todavia, em pontos essenciais. 
Em volta do revestimento animal há um espaço mais ou 
menos amplo, em que abundam os objectos significantes 
do sujeito, todos, porém, ligados a este, por meio dos 
ciclos-de-função.
[148]
O comando de cada niclo-rje-função, tal como ele se 
exerce no corpo de um animal é o sjstema nervoso que, 
começando pelos receptores (os órgãos dos seirtTHos) 
e passando, pelos órgãos centrais da percepção e da 
acção, conduz a corrente de excitação^ até os efectores.
O revestimento das plantas carece ide sistemiTner- 
voso; faltam-lhe os órgãos da percepção e da acção e, 
consequentemente, não há, para as plantas, nem objectos 
significantes, nem ciclos-de-função nem sinais-caracte- 
rísticos, nem sinais-de-acção.
O exterior dos animais é capaz de se mover e, com 
auxílio dos músculos, pode pôr em movimento os seus 
receptores em todos os sentidos.
O das plantas não dispõe de mobilidade própria, 
pois não possui nem órgãos receptores nem efectores 
com que elas possam construir e regular o seu mundo- 
-próprio.
A planta não possui órgãosjespeciais de mundo-pró- 
prio: vive solitária, dentro do mundo que habita. As rela­
ções das plantas com esse mundo são totalmente dife­
rentes das que ligam os animais ao seu mundo-próprio. 
Apenas _num ponto coincidem os planos de organização 
dosjanimais e das plantas: ambos conseguem fazer uma 
rigorosa selecção , das. acções que. o - mundo exterior 
exerce sobre eles.
Apenas uma parte das acções do exterior é captada 
pelos órgãos dos sentidos dos animais e tratada como 
estímulos. Estes estímulos são convertidos em excitações 
nervosas que são, por sua vez, transmitidas aos órgãos 
centrais de percepção. Nos órgãos de percepção soam 
então os correspondentes sinais-perceptivos que são 
depois transferidos para o exterior como notas e transfor­
mados em propriedades dos objectos significantes.
No órgão de percepção, os sinais-perceptivos indu­
zem, digamos assim, no órgão central da acção, os im-
[149]
pulsos correspondentes, os quais se tornam fontes dos 
fluxos de excitação que acorrem aos efectores.
Quando se fala de uma indução de impulsos, pelos 
sinais-perceptivos, não deve, de maneira nenhuma, enten­
der-se uma indução eléctrica entre dois condutores para­
lelos, mas a indução que se dá na sequência de uma 
melodia, de nota para nota.
Também para as plantas não existem estímulos de 
importância vital que se salientem, como factores signifi- 
cantes, do conjunto de acções que de todos os lados 
incidem sobre elas.
A planta não defronta as acções exteriores por meio 
de órgãos receptores ou efectores; mas, graças a uma 
camada de células vivas, ela, de dentro do seu revesti­
mento, é capaz de seleccionar estímulos.
Nós sabemos, desde Joh. Müller, que é falsa a ideia 
do fluir mecânico dõsTenómenos vitais. O próprio reflexo, 
tão simples, de uma pálpebra que se agita, à aproximação 
de um c o rp cT e s tr ãnfrcT, não é o efeito de uma cadeia de 
causas e ereittte'físicos mas^'iW”cicló:di-função simplifi; 
cádòTqu"e~comecá cóm a pércepcão e acaba com .a acçlQ. 
O facto de, neste caso, o ciclo-de-função não atingir o 
cérebro e abrir caminho através dos centros inferiores 
nada altera quanto à sua essência. O reflexo mais simples 
é também._fundamentalmente. um acto do tipo percep- 
ção-acção, mesmo que o arco reflexo devesse implicar 
apenas~ümá cadeia de células individuais.
Podemoà estar absolutamente seguros desta afirma­
ção, desde que Joh. Müller mostrou que qualquer estru­
tura viva se distingue de todos os mecanismos inani- 
mados por possuir, além da energia física, uma energia 
vital «específíca■>.~ Pá ra~ficarmos ihteiramente eIucidados, 
comparemos um músculo vivo com um sino. Verifica-se 
então que só se consegue que o sino exerça a sua função
— tocar — fazendo-o oscilar, de certa maneira, num sen­
[150]
tido e noutro. Falhará qualquer tentativa para, de outro 
modo qualquer, fazer tocar o sino: nem o aquecimento, 
nem o arrefecimento, nem a acção de ácidos ou alcalinos, 
nem os efeitos magnéticos, nem a produção de correntes 
eléctricas — nada tem influência, de qualquer natureza, 
sobre a função do sino, que permanece mudo. Pelo con­
trário, um músculo vivo cuja função vital é a contracção 
será levado a contrair-se, por meio de todasas acções 
exteriores, desde que estas sejam próprias para, de modo 
geral, actuar sobre ele.J3 sino comporta-se como objecto 
inanimado que recebe apenas acções, enquanto õ mús­
culo vivcTsè^comporta como sujeítcfqWTFSTns^ 
as acções .exteriores no mesmo estímulo, o qual, por 
suçLvezr provoca o seu funcionamento.
Se possuíssemos um certo número de sinos vivos 
que produzissem, todos eles, sons diferentes uns dos 
outros, poderíamos formar com eles urri carrilhão quê 
funcionasse por meios mecânicos, eléctricos ou químicos, 
pois cada sino teria de responder cóm o seu Som próprio, 
especial, a qualquer espécie de estimulação.
Mas isto não seria ainda um carrilhão vivo, pois tam­
bém este, afinal — fosse ele movido eléctrica ou quimica­
m ente— , continuaria a ser um simples mecanismo, pro­
vido de sons individuais e inúteis.
Um carrilhão constituído por sinos vivos deveria 
possuir a faculdade de executar a sua^música, não só 
movida por impulso mecânico mas também regulada por 
unia simples melodia. ...
Ora é isto exactamente que se passa em todo o 
corpo vivo. Sem dúvida, poderá mostrar-se que em todos 
os casos — e particularmente na transmissão da exci­
tação do nervo ao músculo — o jogo vivo da sucessão 
dos sons diferentes passa a ser substituído por um enca­
deamento químico-mecânico. Mas esse facto continua 
a ser, essencialmente, a consequência de uma mecani-
[151]
zação acessória. Na origem, todos os germes do orga­
nismo se compõem de células de protoplasma livres, que 
só obedecem à indução melódica dos seus sons indivi­
duais.
A prova concludente deu-a Arndt H . ng iilrne em que 
faz passar~inte os nossos olhos o desenvolvimento do 
bolor-viscoso._Os germes deste tipo de fungos são, inicial­
mente, células que se movem em liberdade, com movi­
mentos amibóides (m ixam ibas) em busca da flora bac- 
teriana de que se alimentam, sem se importarem umas 
com as outras. Essas células amibóides multiplicam-se 
produzindo uma massa de protoplasma multinucleado 
(plasmódio). Quanto mais alimento existe, mais rapida­
mente progride a reprodução. Daí resulta que os alimen­
tos começam a faltar em toda a parte ao mesmo tempo.
Verifica-se então um facto espantoso: todos os ele­
mentos dessa massa se isolam uns dos outros, em for­
mações equivalentes, e, dentro de cada formação, todos 
eles se dirigem para um ponto central comum. Chegados 
aí, arrastam-se uns sobre os outros e, então, os que che­
garam primeiro transformam-se em células fixas de su­
porte, que servem de escada aos que vêm depois. Logo 
que é atingida a altura definitiva do talo, ainda fino como 
um cabelo, as células que se apresentam em último lugar 
transformam-se num corpo frutífero em cujas cápsulas 
se contôm os esporos vivos. As cápsulas sSo depois 
espalhadas pelo vento, que as transporta a novos locais 
de nutrição.
Ninguém põe em dúvida, neste caso, que a mecânica 
subtilmente trabalhada do corpo do bolor-viscoso é um 
produto de células livres, que só obedecem a uma me­
lodia ordenadora dos seus sons individuais.
(') Walter Arndt (1891-1944), zoólogo e médico, conservador 
do Museu de Zoologia de Berlim, fez, na década de trinta, um filme 
notável sobre o desenvolvimento do bolor-viscoso. (N. da ed. alemã.)
[152]
A demonstração de Arndt é tão particularmente im­
portante, por se tratar aqui de um organismo que, no pri­
meiro período da sua existência, pelos seus movimentos 
e pelo seu modo de alimentação, se comporta como ani­
mal e depois, no segundo período, se converte em planta.
Não é para iludir que nós atribuímos às células ami­
bóides do bolor-viscoso um mundo-próprio que, embora 
limitado, é comum a todas e no qual as bactérias são des­
tacadas do ambiente como objectos significantes e como 
tais são notadas e tratadas. Mas o ser adulto é uma 
planta, que não possui qualquer mundo-próprio de animal: 
é simplesmente envolvida por um revestimento protector, 
constituído por factores significantes.
O factor significante que tudo domina no organismo 
adulto é o vento, contando com o qual ele se desen­
volve com admirável segurança. Embora não sejam tão 
engenhosamente construídas como os capítulos do dente- 
-de-leão, as cápsulas de esporos do bolor-viscoso são 
presa fácil do vento que, assim, garante uma larga disse­
minação.
3. A UTILIZAÇÃO DO SIGNIFICADO
O mundo que um animal habita e que nós vemos 
abrir-se à sua volta transforma-se, quando observado pelo 
sujeito animal, no seu mundo-próprio, um mundo em que 
se agitam os mais variados objectos significantes. 
O mundo habitado por uma planta e que nós podemos 
delimitar à volta do lugar em que ela cresce, transfor­
ma-se, quando observado pelo sujeito-planta, num reves­
timento protector que se compõe de diversos factores 
significantes, submetidos a uma mudança regular.
A função vital do animal e da planta consiste em 
utilizar, consoante o seu plano subjectivo de organização,
[153]
os objectos significantes, no primeiro caso, e os factores 
significantes, no segundo.
Falamos correntemente da utilização de alimentos 
mas, a maior parte das vezes, damos a este conceito 
demasiada estreiteza. Por utilização significante dos ali­
mentos deve entender-se, não só a trituração com os 
dentes e a preparação química operada no estômago e 
nos intestinos mas também o reconhecimento dos ali- 
mentos por meio dos olhos, do nariz e do paladar.
Com efeito, no mundo-próprio dos animais, cada • 
objecto significante é utilizado por meio da percepção 
e da acção. Em cada ciclo-de-função, repete-se o mesmo 
processo percepção-acção. Podemos, na verdade, consi­
derar os ciclos-de-função cóTi^cícIõs^dé-significado, cuja 
missão se completa na utilização dos objectos signifi­
cantes. '
Não faz sentido falar de ciclos-de-função nas plantas 
e, todavia, o significado dos seus órgãos, igualmente 
constituídos por células vivas, reside na utilização dos 
factores significantes do seu revestimento protector. Elas 
realizam esta função graças à sua forma organizada se­
gundo um plano e à ordenação, levada aos últimos por­
menores, da sua substância.
Quando contemplamos o espectáculo das nuvens ao 
sabor do vento, podemos atribuir significados diferentes 
às diferefites formas que as nuvens tomam. Isto, porém, 
não passa de um jogo da fantasia, pois as diferentes 
formas das nuvens são simplesmente o resultado de 
ventos variáveis e obedecem rigorosamente à lei da causa 
e do efeitol
Quadro totalmente diverso é o que se nos oferece 
quando acompanhamos o pairar, ao sabor do vento, do 
gracioso pára-quedas do fruto do dente--de-!eão, ou a 
rotação em espiral, do fruto das aceríneas ou das tílias.
Aqui, não é o vento, de modo nenhum, a causa da
[154]
constituição das formas, como no caso das nuvens: as 
formas é que se insinuam no factor significante «vento», 
que elas utilizam diversamente para a disseminação das 
sementes.
Há, porém, quem prefira considerar o vento como 
causa determinante das formas porque, durante milhões 
de anos, ele actuou sobre o objecto planta. Ora há 
mais tempo ainda que o vento actua nas nuvens, sem 
que dessa acção tenha resultado qualquer forma defi­
nitiva.
A fotrna significante permanente é sempre o pro- 
duto da acção de um sujeito e nunca o de um objecto^ 
trabalTiac(o seTn"'plano ~m~esmo durante tanto temjm^
" O que se~díz do vento, pode também dizer-se dos 
outros factores significantes das plantas. A chuva é apa­
rada pelas goteiras das folhas da copa e desce até às 
finas extremidades da raiz, debaixo da terra. A luz do 
Sol é absorvida pelas células providas de clorofila e utili­
zada na execução de um processo químico complicado. 
A clorofila não é fabricada pelo Sol como a goteira o não 
é pela chuva.
Todos os órgãos — os das plantas e os dos animais
— devem a forma e a distribuição da substância ao seu 
significado comoutilizadores dos factores significantes 
que até eles chegam do exterior.
Em todos os organismos, portanto, o problema pri­
macial é o do sign ificado e só depois dele resolvido 
faz sentido investigar os processos causais, que são sem­
pre extremamente limitados, visto a actividade das células 
vivas ser dirigida pelos seus teores individuais.
Pode falar-se de uma melodia de crescimento ou de 
uma determinação do crescimento, que regula os teores 
individuais dos esporos. Esta determinação do cresci­
mento é, como já vimos no filme de Arndt, em primeiro 
lugar, uma determinação da constituição de formas que
[155]
articula as partes e estabelece depois em cada uma delas 
um centro para que tendem todas as células. O que 
deriva das células germinais individualmente depende 
apenas do lugar que elas tomaram na forma em organi­
zação.
A equivalência original das células germinais indivi­
duais, demonstrada com toda a evidência no filme de 
Arndt, já tinha sido descoberta por Driesch (1), nas suas 
famosas experiências em germes do ouriço-do-mar.
As células germinais da maior parte dos animais 
tomam primeiro a forma de uma amora, depois a de uma 
bola oca, a qual se invagina num pólo e passa, simultanea­
mente, a ser constituída por três folhetos. Surge, assim, 
a «gástrula» que, com os três folhetos iniciais, constitui 
a forma original da maioria dos animais. Com esta simples 
sequência de tons se inicia toda a vida animal mais 
elevada.
Existem animais, como as hidras de água doce que 
arrastam a sua vida simples com a forma simples da 
gástrula. Tal como no bolor-viscoso, também neste caso 
se colhe a impressão de que basta a realização do deter­
minismo morfogenético para que se estabeleçam as suas 
relações de significado.
Não tivemos razão até aqui, para, além do determi­
nismo morfogenético, aceitarmos também um determi­
nismo de significado.
Mas aprendemos alguma coisa de melhor com as 
experiências de Spemann e dos seus discípulos. Estas 
experiências foram executadas pelo método de enxertia, 
elaborado por Spemann, que consiste em tirar a um 
embrião, no seu primeiro estádio de gástrula, uma pe-
(') Hans Driesch (1867-1941), filósofo e biólogo alemão, discí­
pulo e depois opositor de Ernst Haeckel. Ligou a experimentação 
biológica à biologia teórica e à filosofia natural. (N. da ed. alemã.)
[156]
quena fracção da camada exterior e implantar, no seu 
lugar, uma fracção idêntica de outro embrião.
Verifica-se então que o novo enxerto se desenvolve, 
não de acordo com a sua origem mas segundo o lugar 
onde se enxertou. Com efeito, a estrutura do enxerto, 
que foi transplantado para a região cerebral e que, nor­
malmente, se teria transformado em epiderme, trans­
forma-se agora em cérebro e vice-versa.
O determinismo morfogenético segue as directrizes 
de um plano que já é reconhecível no estádio de gástrula. 
Neste estádio, é possível enxertar pedaços de tecido de 
embriões de espécies diferentes. Esta experiência notá­
vel dá também resultado quando se trocam fragmentos 
de tecido de embriões de outra espécie.
Interessam-nos aqui, em especial, as enxertias na 
região oral dos girinos de rã e das larvas do tritão.
Spemann escreve sobre este assunto: «A larva do 
tritão, como se sabe, tem na boca verdadeiros dentículos, 
da mesma origem e constituição que os dentes de todos 
os vertebrados: a boca do girino de rã, pelo contrário, é 
provida de maxilas e pontas córneas que são absoluta­
mente diferentes, quanto à forma e à constituição, dos 
dentes verdadeiros.
Ora resolveu-se fazer uma enxertia de tecido de um 
girino de rã na região oral da larva do tritão.
«Num caso» — prossegue Spemann (’) — «em que o 
enxerto cobria toda a região oral surgiu, exactamente 
no lugar próprio, uma típica boca de girino de rã, com 
maxilas córneas, armadas de pontas córneas. Noutro 
caso, porventura ainda mais interessante, metade da 
boca desenvolveu-se, sem alterações, numa boca de 
tritão, com dentículos verdadeiros.»
Daí conclui Spemann: «De uma maneira geral, já
(') Hans Spemann (1869-1941), zoólogo. Prémio Nobel de Medi­
cina. (N. da ed. alemã.)
[157]
podemos afirmar afoitamente, acerca do estímulo indutor, 
que, quanto àquilo que sucede, deve ser de natureza per­
feitamente específica mas quanto ao modo como sucede, 
deve ser de natureza perfeitamente geral. Tudo se passa 
como se, em sentido figurado, a deixa fosse entendida no 
significado perfeitamente genérico de «armadura bucal» 
e esta fosse então fornecida pela ectoderme, na realiza­
ção de um plano já contido na hereditariedade da sua 
espécie.
Haveria, por certo, grande surpresa num teatro se, 
durante uma representação do Guilherme Tell, na cena de 
Küssnacht, o intérprete de Tell fosse substituído pelo 
intérprete do Ham let e este, à deixa «monólogo», come­
çasse, não com as palavras. «Aqui executarei o meu 
plano. A ocasião é favorável», mas com o conhecido «Ser 
ou não ser, eis a questão».
Seria, do mesmo modo, grande surpresa, se um ani­
mal carnívoro, que é constituído para cravar os dentes 
aguçados na presa estrebuchante, possuísse boca de 
herbívoro, com palatino córneo, próprio apenas para 
arrancar as partes brandas das plantas.
Como é tal permuta possível? Não esqueçamos que 
o tecido celular implantado representa um carrilhão vivo, 
em que os sons de cada sino estavam antecipadamente 
introduzidos na melodia «boca de herbívoro», quando re­
ceberam a determinação do significado «boca».
Donde \se conclui que determ inism o de significado 
e determ inism o m orfogenético não são a mesma coisa.
No desenvolvimento normal, o material celular que 
era, primitivamente, da mesma natureza, articula-se em 
esboços, que Recebem o seu determinismo de significado 
consoante o plano original — pois que o organismo se 
compõe de utilizadores de significado. Só então a melodia 
específica dos esboços começa a soar e constitui a forma 
dos utilizadores de significado.
[158]
Se trocarmos os esboços de diferentes espécies 
animais, cada um deles recebe, na sua nova posição, um 
determinismo de significado correspondente ao lugar que 
tem no plano de organização: «torna-te boca, olho, 
ouvido, etc.»
O esboço transplantado obedece ao determinismo 
de significado do hospedeiro, e mesmo que fosse enxer­
tado noutro lugar, dentro do corpo maternal, teria rece­
bido outro determinismo de significado, correspondente 
à sua nova posição. Mas, neste último caso, segue a melo­
dia morfogenética materna e torna-se, na verdade, boca, 
mas boca de girino de rã e não boca de tritão.
Como resultado final temos uma deformidade, pois 
um animal carnívoro com boca de herbívoro é um absurdo.
Nós ficamos tão desorientados com esta deformidade 
que resulta do desacerto entre o determinismo de signi­
ficado, de carácter geral, e o determinismo morfogenético, 
porque essa desarmonia não nos é familiar na nossa vida 
corrente. Ninguém se lembraria de encomendar, de uma 
maneira imprecisa, numa marcenaria, «um móvel que ser­
visse de assento», pois correria o risco de lhe trazerem, 
para a sala, um banco para mungir vacas no estábulo ou, 
para o estábulo, uma poltrona.
Mas, aqui, estamos em presença de um fenómeno 
natural, em que se ordena, de uma maneira perfeitamente 
geral, um «dispositivo para comer», a um tecido celular 
heterogéneo, cujo significado ainda não está determinado 
e se vê depois surgir um dispositivo para comer absoluta­
mente inadequado.
Todo aquele que, por exemplo, já tenha reflectido 
nas razões por que os peixes achatados, como as raias 
e as solhas, cujas condições de vida se assemelham 
tanto, são construídas segundo princípios totalmente 
diferentes, terá de admitir que_a determinação do signifi- 
cado não coincide com a determinação morfogenética.
[159]
O fim é igual mas o meio é diferente. As raias sãoacha­
tadas do dorso para o ventre e os olhos ficam, assim, na 
parte superior. As solhas são achatadas lateralmente, 
daf resultando que um dos lados toma a função do dorso. 
Desse modo, um dos olhos ficaria na parte inferior, onde 
não teria função; desloca-se, porém, devido a uma torção 
da cabeça que lhe permite também ficar a ver na parte 
superior.
Os meios morfológicos usados para permitir que os 
diferentes animais possam subir por uma parede lisa são 
variadíssimos, embora conduzam todos ao mesmo fim: 
utilizar como caminho o objecto significante — a parede 
lisa.
As moscas domésticas têm, nas plantas das patas, 
membranas marginais que, espalmando-se durante a mar­
cha, com o peso do corpo, formam ventosas que fixam 
as moscas aos vidros das janelas.
As lagartas das borboletas movem-se, como as san­
guessugas com auxílio de duas ventosas e os caracóis 
arrastam-se, sempre colados, indiferentes à inclinação da 
pista. Em todos os casos, a função é a mesma e só difere 
inteiramente o modo de a exercer.
O exemplo mais flagrante deste facto fornecem-no-lo 
as pinças venenosas dos ouriços-do-mar de espinhos 
curtos que têm todas a mesma função: atacar com as 
suas pinças venenosas o objecto significante «Inimigo», 
seja ele uma estrela-do-mar ou qualquer molusco secretor 
de ácidos.
Em todos eles, o inimigo caracteriza-se por, ao apro­
ximar-se, emitir um estímulo de natureza química e 
depois, ao estabelecer contacto, um estímulo mecânico. 
Pela acção do estímulo químico, abrem-se as pinças ve­
nenosas dos ouriços-do-mar de todas as espécies; pela 
acção do segundo — o estímulo mecânico — fecham-se 
e expelem o seu veneno.
[160]
Todas as espécies de ouriço-do-mar (com excepção 
de uma) resolvem este problema por meio de um reflexo 
em que, ao abrirem-se, estendem um tentáculo ao inimigo. 
Logo que o inimigo toca este tentáculo, dá-se a captura 
automaticamente.
Só uma espécie de ouriço-do-mar procede de outro 
modo. Ao abrirem-se, as três pontas da pinça retroflec- 
tem-se tanto, que ficam tensas como o arco de uma besta 
e não precisam, portanto, de nenhum reflexo para se 
fecharem abruptamente à mais pequena pressão.
Ambos os processos, afinal, conduzem ao mesmo fim, 
raois em qualquer deles o objecto significante «inimigc» 
é assaltado e envenenado pelo órgão utilizador do signi- 
ricado,
determinação de significado é sempre a mesma, 
só muda radicalmente a determinação morfogenética,
A magnífica descoberta de Spemann encontra confir­
mação em todos os casos em que acções semelhantes, 
praticadas pelos animais, são executadas por processos 
diferentes e pode servir ainda para uma melhor compreen 
sáo da diferença fundamental entre a construção de um 
mecanismo e a estruturação de um organismo.
O mecanismo de uma máquina qualquer, diqamos, 
de um relógio de algibeira, é sempre constituído «centri- 
petamente», quer dizer, as peças do relógio — os pon­
teiros, n corda, as rodas—-têm de ser aprontadas pri­
meiro, individualmente, antes que sejam ligadas a uma 
peça central.
A estruturação de um animal, pelo contrário, faz-se 
sempre «centrifugamente», a partir do germe, que assume 
primeiro a forma de gástrula e continua depois a adicio­
nar novos esboços de órgãos.
Em ambos os casos, há um plano que preside à trans­
formação: o plano do relógio dirige um fenómeno centrí­
peto, o plano do tritão dirige um fenómeno centrífugo.
1 1 - A. HOMENS [161]
Segundo parece, as partes ajustam-se umas às outras, 
de harmonia com princípios diametralmente opostos.
Como, porém, todos nós sabemos — embora com 
muita facilidade o esqueçamos também — o organismo. 
ao contrário de todos os mecanismos, não consiste de 
peças, mas de órgãos, e um órgão é sempre uma estru­
tura, formada de células vivas, todas com o seu teor 
individual. O órgão, como um todo, possui o seu teor 
orgânico, que é o seu teor significante. É este teor 
orgânico que dirige, como se pode concluir das afirma­
ções de Spemann, os teores particulares das células do 
órgão — semelhantemente ao plano significante do bolor- 
-viscoso de Arndt, que leva células amibóides a construí­
rem o corpo do bolor. O teor significante estabelece-se 
subitamente e liberta a determinação morfogenética nos 
teores individuais dos elementos celulares, até então 
semelhantes, que agora se dividem em vários teores 
harmonizados uns com os outros e dão jnício à constitui­
ção da forma, segundo uma melodia previamente estabe­
lecida.
Com a experiência de Spemann, aprendemos que os 
órgãos do organismo, ao contrário do que sucede com 
as partes de uma máquina, possuem um teor significante 
original e que, portanto, não podem constituir-se senão 
centrifugamente. É necessário que se passem as três 
fases do desenvolvimento do germe, para que comece a 
formação dos esboços e cada esboço deve ter recebido 
o seu teor orèjânico, antes que as suas células se dividam 
e se transformem.
A custa dos teores orgânicos constitukse, finaImente, 
o teor vital do animal completo. O animal é, na verdade, 
mais do que~o seujne.çanismo-material,-.canstruído pelas 
células orgânicas, de harmonia çom_a_determinação mor- 
fogenéticã.
Quando se extingue o teor vital, o animal morre.
[162]
O mecanismo material pode continuar a funcionar durante 
mais algum tempo, graças à sobrevivência de alguns 
órgãos.
É evidente que a concepção geral da Natureza com 
base no significado exige uma investigação rigorosa. No 
entanto, o cérebro, que deve possuir um teor de pensar, 
não nos pode servir de muito. Mas também aqui o signi- 
ficado lança a ponte que liga os fenómenos materiais 
e imateriais, tal como já o fizera entre a partitura e a 
melodia.
4. A INTERPRETAÇÃO DA TEIA DE ARANHA
Quando quero mandar fazer um fato, dirijo-me ao 
alfaiate, que me tira as medidas e exprime em centíme­
tros as dimensões mais importantes do meu corpo. Feito 
isto, transporta as medidas para um papel ou, se está 
bem seguro do seu ofício, directamente para a fazenda, 
que ele agora talha conforme os números que tomou. 
Depois, cose as partes cortadas da fazenda e, após a 
prova, entrega finalmente o fato, que traduz o retrato 
mais ou menos perfeito das formas do meu corpo.
Muito surpreendido ficaria, se um alfaiate me fizesse 
um fato que assentasse bem, sem previamente me ter 
tirado medidas e feito a prova. Poderia, contudo, admitir 
que ele tivesse conseguido as medidas exactas no seu 
próprio corpo, visto que todos os corpos humanos, de 
certo modo, se assemelham.
Por isso podem também usar-se fatos feitos, que 
reproduzem, em vários tamanhos, as proporções humanas 
normais. Assim, cada loja de fanqueiro apresenta uma 
galeria de modelos vazios do corpo humano.
Nem .todas estas condições preliminares se aplicam 
à aranha e. todavia, ela consegue oferecer, na sua reda. 
um pa d r ã o e f i c i e n t e * de uma.mosCja._Ela utiliza-o,
[163]
não no intere.aaa.da_jnosca, mas com o jirrude ..a_deairu 1 r. 
A teia de aranha funciona como utilizador do signjficado 
do objecto significante «vítima» no_ mundg:próprio da 
aranha.
Este utilizador de significado é tão rigorosamente 
adequado ao objecto significante, que nós podemos des­
crever a teia da aranha como réplica fiel da mosca.
A aranha-alfaiate, que cria esta réplica fiel da mosca, 
está privada de todos os meios auxiliares de que o alfaiate 
de homens dispõe. Não pode tomar medidas no próprio 
corpo, que possui formas totalmente diferentes das do 
corpo da mosca. Apesar disso, determina as dimensões 
das malhas segundo as dimensões do corpo desta. Cal- 
cula a capacidade de resistência dos fios, que tece se- 
gundo a força viva do corpo da mosca em movimento. 
Retesa mais os fiòs da rede do que os fios circuiares, 
para que a presa no embate, seja envolvida por estes, 
mais elásticos, e fique imobilizada nas suas gotinhasviscosas. Os fios radiais nãò são tão glutinosos e servem 
 ^ aranha como trajecto mais curto para chegar junto da 
vítima aprisionada, que então é envolvida e reduzida à 
impotência.
As teias de aranha encontram-se, as mais das vezes, 
em lugares que podemos designar por lugares de trânsito 
das moscas.
O mais extraordinário é que os fios da teia são teci- 
dos tão finos, que os olhos da mosca, com os seus im­
perfeitos elementos visuais, não podem distinguir a rede 
e o insecto voa inadvertidamente para a morte, exacta­
mente como nós, desprevenidos, bebemos a água infes­
tada de bacilos da cólera, invisíveis aos nossos olhos.
Já é um modelo requintado da mosca o que a aranha 
esboça na sua teia.
Mas alto lá! Não é nada disso o que ela realmente 
faz. Na verdade, ela constrói a sua teia antes de ter
[164]
encontrado qualquer mosca; logo a teia não pode ser o 
retrato de uma mosca real. Ela apresenta, pelo contrário, 
o desenho de um modelo de mosca que não existe em 
parte nenhuma.
«Ora vamos» — já eu estou ouvindo os mecanistas 
clamar.— «_Aqui a doutrjna dos mundos-próprios denun­
cia-se comn tfifir ia -metafísica, pois é metafísico todo 
aquele que procura os factores actuantes para além do 
mundo material».
Pois bem. Mas nesse caso, logo depois da teologia, 
é a física moderna a mais pura das metafísicas.
Eddington (1) declara abertamente que possui duas 
secretárias: uma que utiliza normalmente e que pertence 
ao seu mundo dos sentidos; outra, uma secretária fisica, 
cuja substância constitui apenas a bilionésima parte da 
secretária material, pois não é, de modo nenhum, feita 
de madeira, mas de um número imensamente grande de 
elementos pequenísimos, dos quais se não sabe ao certo 
se são partículas ou movimentos e que circulam à volta 
uns dos outros com inconcebível velocidade. Estes ele­
mentos não são substâncias mas as suas actividades 
simulam, no mundo dos sentidos, a existência de substân­
cias. Eles prosseguem na sua agitação numa extensão 
espaço-tempo tetradimensional, que deve possuir uma 
curvatura e é simultaneamente infinita e limitada.
A biologia não reivindica uma metafísica tão auda­
ciosa. Pretende apenas aludir a factores que existem no 
sujeito, deste lado da aparência sensorial e que hão-de 
servir para tornar intelegíveis as conexões dó mundo dos 
sentidos ^Nãò pensa, de modo algum, em revolucionar o 
mundo dos sentidos, como a nova física se esforça por 
fazer.
(') Sir Arthur Stanley Eddington (1882-1944), astrónomo e 
físico inglês, adepto e pioneiro da teoria da relatividade. (N. da ed. 
alemã.)
[165]
A biologia parte do facto da formação dos germes, 
segundo um plano, que começa em todos os animâis 
multicelulares com os três compassos de uma simples 
QieTõcfia: mórula, biástula, gástrula. Depois, como sabe­
mos, vem a formação dos esboços dos órgãos que é, em 
cada espécie animal, previamente determinada.
Este facto mostra-nos que a sequência morfogenética 
não é, na verdade, reconhecível pelos sentidos mas que 
possui uma partitura em harmonia com o mundo sensorial. 
A mesma partitura dirige também o crescimento espacial 
e temporal do seu equipamento celular, assim como as 
suas propriedades.
Existe, pois, uma partitura inicial para a mosca, tal 
como existe uma partitura inicial para ajjranha. Ora eu 
afirmo que a partitura inicial da mosca (que também 
podemos designar por protótipoLaatua_Raj?a rtjtura inicial 
da aranha, de modo que a te ia .teclda„por. esta resulta 
«própria para capturar moscas».
Oculta sob a cortina das aparências, realiza-se a 
conexão'dos vários protótipos ou melodias iniciais, se­
gundo um vasto plano significante^
No caso particular, basta procurar os utilizadores 
correspondentes aos objectos significantes, para obter 
uma visão da c o n t e xt úrã^dõ s~mlf n d o s - p roprlos^
A^estrila orientadora pela quãl a biologia sé tem 
guiado é o significado e não a insuficiente lei da causa­
lidade, què não consegue ver mais do que um passo para 
diante ou para trás e deixa inteiramente ocultas as 
grandes correlações.
Quem p^de aos naturalistas investigadores que sigam 
uma nova linha directiva, não se obriga só a convencê-los 
de que essa orientação abre novos caminhos, capazes de 
levarem o nosso conhecimento mais longe do que os 
actuais. Deve também indicar-lhes os problemas que
[166]
ainda não encontraram solução e que só com auxílio 
dessa nova linha directiva poderão ser resolvidos.
A um desses problemas se referiu j3_prande mestre 
da biologia dos insectos, Jules Fabre. A pequena fêmea 
do gorgulho-da-ervilha põe os ovos sobre as vagens da 
ervilha nova. As larvas que daí resultam perfuram a pa­
rede da vagem e introduzem-se na ervilha, ainda tenra. 
A larva que se aninhou mais perto do ponto central da 
ervilha é a que cresce mais rapidamente. As outras que, 
com ela, ali se introduziram, em breve renunciam à com­
petição, deixam de se alimentar e morrem. A única sobre­
vivente mina, primeiro, o centro do grão mas abre, depois, 
um túnel até à superfície superior da ervilha e, à saída 
dele, faz uma incisão circular no tegumento, de modo a 
abrir uma porta. Em seguida, a larva arrasta-se novamente 
para a sua câmara de alimentação e continua a crescer, 
até que a ervilha, depois de ter atingido o tamanho defini­
tivo, endurece. Este endurecimento seria fatal para o 
novo escaravelho, resultante da larva, pois a ervilha 
endurecida forma à sua volta uma camada protectora que, 
por outro lado, se converteria em sepultura, se a larva 
não se tivesse encarregado de abrir o túnel e a porta.
Neste caso, não pode intervir qualquer experiência 
de tentativa e erro, transmitida pelos antepassados. Seria 
frustrada qualquer tentativa para sair da ervilha endure­
cida. Não: o dispositivo túnel-porta deve já e x is tir .g n g li 
nalmente, no planojriorfogenético de cada Iarv3_e.ro_.cies- 
nimento. Deve te r -s e dado, portanto, uma transmissão 
dêT significado do protótipo do gorgulho-da-ervilha, de 
modo a estabelecer um ajustamento entre o gorgulho e a 
ervilha.
A construção, pela larva, do túnel e da saída, que são 
necessários à vida do gorgulho é, em muitos casos, o 
aniquilamento deste. Com efeito, há um pequeno icnêu- 
mon que, utilizando o seu fino aguilhão, ataca com pre-
[167]
cisão mortal a porta e o túnel, para introduzir o ovo na 
larva indefesa do gorgulho-da-ervilha. Deste ovo irrompe 
uma pequena larva de icnêumon, que vai devorando, de 
dentro para fora, a sua nutrida hospedeira, cresce até se 
tornar adulto e alcança a liberdade utilizando o caminho 
aberto pela sua vítima.
Neste caso, podemos falar de um trio de conexões 
de significado destas partituras iniciais.
5. LEI MORFOGENÉTICA E LEI DO SIGNIFICADO
Não será fácil adaptar as ideias metafísicas recente­
mente desenvolvidas às dos biólogos actuais.
A influência principal na biologia mais recente exer­
ceu-a a teoria dos tropismos ('), de Jacques Loeb (2).
Loeb era um físico inator que só reconheci a a acção 
recíproca entre objectos e nada sabia da influência de 
um sujeito sobre os fenómenos naturais. Segundo ele, só 
havia um mundó^fe^ácçãõ erri que se" passam todos os 
fenómenos físicos e químicos. Um objecto actua sobre 
outro como o martelo sobre a bigorna ou como a faúlha 
no barril de pólvora. A reacção depende da energia actual 
transportada Del o objecto actu ante. e da ene rg i a pote n cl a I 
armazenada no objecto actuado.
Nas plantas, a reacção surge consoante a forma e a 
ordenação dos tecidos nos órgãos. Basta que pensemos 
has goteiras das fõTfiãs e riòs grãos de amido do germe 
do trigo, que também podem incluir-se no conceito de 
energia potencial. Sem dúvida, desprezamos, neste caso,
(') Tropismos — movimentos orientados segundo leis, nas 
plantas e animais inferiores, como reacções a determinados estí­
mulos. (N.da ed. alemã.)
H Biólogo germano-americano (1859-1924). (N. da ed. alemã.)
[168]
a conformação geral das plantas, a qual deve a sua cons­
tituição à acção, segundo um plano, dos impulsos cLe. 
sujeitoscelularesvivos.
Nas plantas, não há, evidentemente, órgãos de sen­
tidos nem nervos, de modo que toda a sua existência 
parece decorrer num mundo-de-acção.
A teoria de Loeb consistia em também reconhecer 
no mundo animal apenas o mundo-de-acção, ignorando ..a 
mundo-de-percepção. Isto passava-se devido a uma sim­
ples habilidade.
Por muito complicado que se apresente o comporta­
mento de um animal, este acabará sempre por se apro­
ximar ou por se afastar do objecto actuante. Esta compo- 
nente espacial, tão simples,_de todo o comportamento 
interpretou-a Loeb como o próprio comportamento e divi­
diu, assim, todos os comportamentos em actos de apro­
ximação e actos de afastamento. ...
Em lugar dos comportamentos, surgiram então os 
t ropismos, por meio dos quais Loeb transformou todos 
os sujeitos animais vivos em máquinas inertes que se 
devem também explicar espacialmente. Até o magneto 
simples, que atrai o ferro, se comporta como ferrótropo 
positivo e a agulha magnética como polótropo negativo, 
relativamente ao positivo.
Esta doutrina tornou-se decisiva para a conceacão 
geral do mundo de toda uma geração de biólogos.
Quando nos detemos om fronlo do um prado, onde 
as flores abundam e as abelhas zunem em todas as direc­
ções; onde as borboletas se recreiam e as libélulas 
fogem, frementes; em cujas ervas dá os seus grandes 
saltos o gafanhoto, os ratos se esgueiram e os caracóis 
rastejam lentamente — insensivelmente fazemos a nós 
próprios esta pergunta: o prado oferecerá aos olhos de 
tão diversos animais o mesmo aspecto que apresenta 
aos nossos?
A esta pergunta responderá quem for ingénuo, sem
[169]
hesitação: «Evidentemente, é sempre o mesmo o prado 
que todos vêem!»
Responderá, porém, de modo totalmente diverso o 
adepto convicto de Loeb.
Como todos os animais são simples mecanismos, 
dirigidos por acções físicas ou químicas, o prado con­
siste num entrelaçamento de ondas de éter e vibrações 
de ar, de nuvens de substância subtilmente dividida e de 
contactos mecânicos que actuam entre uns e outros 
objectos.
Contra ambas as concepções do prado, ergue-se a 
doutrina dos mundos-próprios, pois, para salientar um 
só exemplo, a abelha que suga o néctar não vê o prado 
com olhos humanos nem é insensível como uma máquina.
As cores são ondas de éter captadas pelo s.Aeri tidos, 
quer dizer, não são excitações eléctricas das células do 
nosso cérebro, mas os teores individuais destas mesmas 
célula^. "
A prova disto dá-no-la a fisiologia dos sentidos. Nós 
sabemos, desde Goethe e Hering (') que as cores 
seguem as suas leis próprias, leis que são totalmente 
diferentes das leis físicas dasondasde éter.
As ondas de éter que, por meio de um prisma, são 
forçadas a decompor-se segundo o seu comprimento de 
onda, constituem então uma espécie de escada, por 
ordem decrescente da largura dos seus degraus. Os 
degraus mais curtos encontram-se numa extremidade da 
escada, enquanto os mais largos ficam na extremidade 
oposta.
Nesta escala, a nossa vista separa uma curta secção 
que as nossas células cerebrais transformam numa faixa, 
constituída pelâs sensações das cores que nós distin-
(') Ewald Hering (1834-1918), fisiólogo alemão que se dedi­
cou em particular ao sentido espacial da visão e à percepção das 
cores. (N. da ed. alemã.)
[170]
guimos. Nesta faixa, as cores simples seguem-se uma 
após outra: vermelho-amarelo-verde-azul, com as cores 
mistas que entre elas se intercalam.
Ao contrário da escala das ondas de éter, de estru- 
tura~Tinear, õ e s p ectro das cores forma, em si, um círculo 
fechado, pois a cor mista entre o vermelho e o azul — 
o violeta — une as duas extremidades do espectro.
Aliás, o espectro das cores apresenta particulari­
dades notáveis de observância à lei, que faltam na escala 
das ondas de éter. Assim, as cores contíguas no espec­
tro não se misturam, produzem a impressão de branco.
Estas cores complementares não se evocam recipro­
camente, como não é raro acontecer com as sensações 
opostas, facto que contradiz todas as experiências mecâ­
nicas. Nas cores, como dissemos, não se trata de acções 
materiais mútuas das células cerebrais vivas, mas de 
relações de sensibilidade dos seus tons individuais que, 
todavia, são igualmente fixados segundo leis.
Assim como as cores são as energias específicas 
(tons individuais) das células cerebrais que estão sob a 
influência do órgão da visão, o qual, por sua vez, selec­
ciona as ondas de éter e as envia ao cérebro, transfor­
madas em excitações nervosas, assim também os sons 
são as energias específicas das células cerebrais que 
estão sob a influência do ouvido, que capta certas vibra­
ções do ar.
As leis dos sons estão submetidas à teoria da 
música. As consonâncias, dissonâncias, oitavas, quartas, 
quintasTcíevem todas a sua existência às sensações sono­
ras e não têm materialidade. Tentemos reconduzir a 
sequência dos sons de uma melodia à lei da causalidade, 
que é válida para todos os fenómenos materiais.
Os nossos órgãos dos sentidos — os olhos, os ouvi­
dos, o nariz, o palato e a pele — são construídos segundo 
o princípio da caixa de fósforos sueca, cujos fósforos só 
respondem a determinadas acções do mundo exterior.
[171]
Estas acções produzem, nos nervos, ondas de excitação 
que são conduzidas ao cérebro. Até aqui, tudo se passa 
mecanicamente, segundo a lei da causa e do efeito. Mas 
no cérebro encontra-se a face interior dos órgãos dos 
sentidos, com a forma de um carrilhão vivo, cujas célii- 
las individuais — os sinos — tocam com diferentes sons 
individuais.
Em que medida existe também este género de estru­
tura nos animais? Da analogia da parte mecânica dos 
órgãos dos sentidos ninguém duvida. São por isso 
designados órgãos-de-recepção. Mas quanto à face 
interior?
Embora não conheçamos as sensações dos nossos 
semelhantes, não duvidamos, no entanto, de que, por 
meio dos olhos, eles recebem sinais visuais a que cha­
mamos cores e tão-pouco duvidamos de que, por meio 
dos ouvidos, recebem sinais auditivos a que chamamos 
sons. Do mesmo modo, atribuímos ao seu nariz a facul­
dade de despertar sinais olfactivos; ao seu palato, a de 
despertar sinais gustativos, e à sua pele a de despertar 
sinais tácteis, todos eles, sem excepção, constituídos 
por teores individuais.
Nós reunimos todas as impressões dos sentidos — 
qualitativamente diferentes — sob a designação geral de 
sinais-perceptivos, que, projectados no exterior, são 
transformados em notas-características das coisas.
Vejamos agora: aparecem também entre os animais, 
na excitação dos seus órgãos-de-recepção, os sinais 
correspondentes às energias sensoriais específicas das 
suas células dos centros cerebrais, sinais-perceptivos 
que eles igualmente trasladam e utilizam como notas- 
-características, na construção das propriedades de todas 
as coisas que intervêm no seu cenário da vida?
Os mecanistas puros negam esta hipótese e susten­
tam que os órgãos dos animais não possuem face inte­
rior e servem apenas para pôr em comunicação os dife­
[172]
rentes estímulos do mundo exterior, consoante a sua 
natureza específica, com as partes correspondentes do 
cérebro.
São os órgãos dos sentidos a expressão de varios 
ciclos sensoriais ou, como órgãos de recepção, serão 
apenas a expressão de várias espécies de acção fisico- 
-química do mundo exterior? O órgão da visão foi cons­
truído pelas ondas de éter ou pelas cores? O da audiçao 
foi construído pelas vibrações do ar, ou pelos sons? E o 
órgão do olfacto um produto do ar saturado, em certas 
proporções, de gases e partículas olfactivas ou um pro­
duto dos sinaisolfactivos do sujeito? O órgao do gosto 
deve a sua origem à substância química dissolvida em 
água ou aos sinais gustativos do sujeito? _
Os órgãos receptores dos animais são produtos da 
face corpórea exterior ou da face sensível, incorpórea 
e interior?
Como os órgãos dos sentidos, no homem, represen-, 
tam órgãos que ligam a face exterior à interior, é possí­
vel que, também nos animais, tenham de exercer a 
mesma função e que, portanto, devam a sua construção 
tanto à face exterior como à interior.
Que os órgãos de recepção dos animais não devem 
considerar-se apenas como produto da face exterior, 
provam-no, sem sombra de dúvida, os peixes, que, embora 
só entrem em contacto com substâncias solúveis na água, 
possuem, não obstante, um nítido órgão de audição, além 
do órgão do olfacto. As aves, pelo contrário, que teriam 
as melhores condições para aperfeiçoar ambos os órgãos,
não têm o órgão do olfacto.
Só quando tivermos reconhecido claramente a função 
dos órgãos dos sentidos, poderemos compreender a 
estrutura de todo o organismo.
Frente_ à face exterior, eles servem _de crivo às 
acções f ísico-quírnicag do mundo exterior^.Só as acções 
que têm significado para o sujeito serão convertidas em
[173]
excitações nervosas. Estas, por seu lado, evocam no 
cérebro os sinais-perceptivos da face interior. Deste 
modo, a face exterior influi também na interior e deter­
mina o número de sinais visuais, auditivos, olfactiyps, 
tácteis e gustativos que podem entrar nos ciclos sen- 
soriais do respectivo animal.
Assim se distingue, ao mesmo tempo, o tipo de 
construção dos mundos-próprios, pois cada sujeito só 
pode transformar em características do seu mundo-pró- 
prio, os sinais-perceptivos que são postos à sua dispo­
sição.
Depois de observarmos um grande número de qua­
dros do mesmo pintor, nós falamos da «sua paleta», 
significando com isso aquelas cores de que o artista dis­
punha para executar os seus quadros.
Estas relações tornam-se, porventura, ainda mais 
ciaras, se imaginarmos que cada célula sensitiva do cére­
bro faz soar, graças ao seu teor individual, um determi­
nado sinal perceptivo. Cada um destes sinos vivos está 
agora ligado, por meio de um cordão nervoso, à frente 
exterior e aqui se decide quais os estímulos exteriores 
que são admitidos ao «toque» e quais os que não são.
Os teores individuais dos sinos celulares ligam-se 
uns aos outros por ritmos e melodias e são estes que os 
fazem soar no mundo-próprio.
Depois das investigações de Mathilde Hertz, pode­
mos admitir que a faixa de cores do espectro, nas abe­
lhas, quando referida à mesma escala das ondas de éter 
que serviu para o homem, se desloca uns degraus para 
o lado da cor violeta. A face exterior do olho da abelha 
não se ajüsta perfeitamente à do homem, ao passo que 
as duas faces interiores parecem corresponder-se. Acerca 
do significado deste desvio, não se foi, até agora, além 
de meras hipóteses.
Não defxa dúvidas, pelo contrário, o significado da 
paleta de percepções das borboletas nocturnas. Como
[174]
Eggers rvostrou, estes animais possuem, no seu órgão 
de audição, apenas dois filetes retesados, como ressona- 
dores. Com este dispositivo, é-lhes possível reconhecer 
vibrações do ar que representam, para o nosso ouvido, 
o limite superior da audição. Estes sons correspondem 
ao «pio» do morcego, que é o principal inimigo das bor­
boletas. Só os sons emitidos pelo seu inimigo específico 
são captados por elas. Afora esses sons, o mundo é, 
para elas, silencioso.
No mundo-próprio dos morcegos o pio serve de sinal 
de reconhecimento na escuridão.
O mesmo som atinge umas vezes o órgão auditivo 
de um morcego, outras vezes o de uma borboleta noc­
turna. Nos dois casos, o morcego que «pia» aparece como 
objecto significante, ora como amigo ora como inimigo, 
conforme o utilizador de significado que se lhe depara.
Como a paleta de percepções do morcego, é rica, o 
som agudo captado é apenas um entre muitos. Mas a 
paleta da borboleta nocturna é muito limitada e no seu 
mundo-próprio existe apenas um teor — o teor de ini­
migo. O «pio» do morcego é um produto simples do mor­
cego, a teia de aranha é um produto muito engenhoso da 
aranha. Mas em ambos existe alguma coisa de comum. 
Nenhum deles é moldado sobre uma forma individual 
determinada, materialmente presente, mas sobre a estru­
tura comum a todos os animais da mesma espécie.
Como se realiza então, na estrutura da borboleta, um 
dispositivo para captar os sons emitidos pelo morcego? 
A lei morfogenética das borboletas já implica a determi­
nação de construir um órgão auditivo adequado ao pio 
dos morcegos. Não pode restar dúvida de que é esta a 
lei do significado que actua na lei morfogenética, de 
modo que ao portador do significado corresponda o seuj 
utilizador e vice-versa.
A lei morfogenética, como vimos, dota o girino de 
rã, que é herbívoro, de uma boca com maxilares córneos
[175]
e o tritão, que é carnívoro, de uma boca com verdadeiros 
dentes. A lei do significado intervém sempre na forma­
ção do germe dê~nTÕdcTdeterminante e promove a urdi­
dura de um órgão da nutrição que, no lugar convenientç, 
se desenvolve em correspondência com o conveniente 
objecto portador do significado: o alimento vegetal ou 
animal. Se, todavia, a lei morfogenética é orientada num 
caminho falso, por meio de uma enxertia, não há lei de 
significado que a faça recuar.
Assim, não é a própria morfogénese que é influen­
ciada pelo significado: a lei morfogenética — e só ela-— 
é que fica na integral dependência da lei do significado.
6. A LEI DO SIGNIFICADO COMO ELO
DE LIGAÇÃO ENTRE DUAS LEIS ELEMENTARES
Quando, num passeio pela floresta, apanhamos uma 
glande que caiu de um frondoso carvalho e escapou, tal­
vez, a algum esquilo, nós sabemos que deste germe 
vegetal resultarão células de diferentes tecidos que for­
marão, em parte, o raizame subterrâneo e em parte o 
tronco, com a sua copa, segundo uma lei morfogenética 
característica do carvalho.
Sabemos que na glande se oculta o esboço dos 
órgãos que permitirão ao carvalho travar a luta pela vida 
contra centenas de acções do mundo exterior. Mental­
mente, nós vemos o futuro carvalho defrontando a futura 
chuva, a futura tempestade, o futuro sol. Vêmo-Io sobre­
viver a futuros verões e a futuros invernos.
Para se desenvolverem sob todas as influências do 
mundo exterior, as vicejantes células do carvalho têm 
de diferenciar-se na raiz, no caule e na copa, que inter­
cepta os raios do Sol e cujas folhas, ténues como ban­
deiras, se inclinam ao vento, a que os ramos nodosos 
oferecem resistência. Ao mesmo tempo, a copa serve
[176]
de guarda-chuva, que encaminha para as finas extremi­
dades da raiz, debaixo da terra, a preciosa humidade do 
céu. As folhas contêm a clorofila, substância maravilhosa, 
que utiliza os raios solares para transformar energia em 
matéria.
A copa desaparece no Inverno, quando o solo gelado 
impede as raízes de fazerem subir até às folhas a 
corrente fluida saturada dos sais da terra.
Nenhuma destas futuras acções sobre o futuro car­
valho é capaz de, sob o ponto de vista causal, influenciar 
a morfogénese do carvalho. Igualmente inoperantes são 
também outras acções semelhantes do mundo exterior 
antes exercidas sobre a árvore-mãe, pois nessa altura 
ainda a glande não existia.
Assim, em presença da glande se nos depara o 
mesmo enigma que já tínhamos encontrado ao obser­
var o germe de qualquer planta ou o ovo de qualquer 
animal. Em caso algum podemos falar de um encadea­
mento causal de acções exteriores sobre um objecto, na 
preexistência ou pós-existência deste. Só é possível 
considerar uma conexão causal, quando causa e efeito 
concorrem, temporal e espacialmente.
Também não é de prever a solução do problema, 
quando ela se procura nas circunstâncias mais remotas.Uma glande apresenta à nossa compreensão, desde há 
um milhão de anos, as mesmas dificuldades que apresen­
tará daqui a cem mil anos.
Daí se conclui que tínhamos caído num beco sem 
saída, quando julgávamos poder estabelecer, por meio de 
construções engenhosas, uma cadeia causal entre o 
embrião da glande e as acções exteriores de natureza 
físico-química. Com efeito, não estamos aqui em pre­
sença de um problema susceptível de solução mecânica, 
a que a história genealógica possa fornecer a chave.
Temos, portanto, de abordar o problema por outro 
lado.
12 - A. HOMENS [177]
Se nós, como observadores humanos da situação do 
carvalho, examinarmos as acções do mundo exterior 
sobre ele, logo descobriremos que elas estão submetidas 
a uma lei natural de carácter geral.
O Sol, a Lua e as estrelas seguem, no céu, caminhos*» 
fixõs sobre o carvalho. Sob a influência deles, suce­
dem-se as estações do ano. Calmarias, tempestades, a 
chuva e a neve alternam-se no decorrer das estações. 
O ar, que se tinha impregnado dos aromas da Primavera, 
em breve exala os cheiros acres do Outono. Em cada Pri­
mavera, a floresta ressoa com o canto das aves. O pró­
prio carvalho oferece, na copa, como na casca, asilo 
infinitamente variado às centenas de animais (aves e 
outros) que a ele se acolhem, no Verão e no Inverno.
A esta lei natural, tão velha como Noé, também o 
carvalho está submetido, embora muitos dos factores 
naturais que nos são familiares não o penetrem. A Lua, 
as estrelas, e a esfera solar não se encontrarão no 
número dos factores significantes que formam o reves­
timento protector do carvalho, mas, por outro lado, certos 
raios luminosos quimicamente activos chegam até à clo­
rofila das folhas e certos raios caloríficos promovem, pela 
sua acção sobre os novos rebentos, o seu crescimento.
A queda das gotas de chuva é convenientemente desviada 
e a tempestade encontra, da parte dele, a mais deses­
perada resistência. Nem os aromas, nem as ondas sono­
ras, todavia, têm qualquer influência sobre o carvalho.
É sempre a mesma lei do significado que, hoje como 
há milhões de anos, realiza a selecção dos factores natu­
rais elementares e os faz soar, em melodia própria, no 
carrilhão vivo das células do carvalho e, por fim, faz sur­
gir das células protoplásmicas do germe os órgãos res­
pectivos.
Graças ao filme de Arndt, não temos de limitar-nos 
a meras hipóteses. Podemos observar como, das primei­
[178]
ras células germinais, resultam, por divisão, numerosas 
células amibóides independentes que, à semelhança das 
suas irmãs livres, se apropriam, como sujeitos autóno­
mos, dos alimentos que se lhes apresentam. Só depois 
de esgotados os alimentos, se estabelece a formação de 
um novo indivíduo. As células amibóides que se agrupa­
ram para formarem um novo indivíduo homogéneo, um 
novo sujeito, deixam de ser adequadas ao objecto por­
tador do significado «alimento», passando a sê-lo ao fac­
tor significante «vento», para enfrentar o qual se desen­
volveram. O carrilhão do estádio amibóide, que se 
manifesta por um soar desordenado das células-sinos, 
segue subitamente uma melodia una, uma nova lei de 
significado, que reúne as leis elementares do vento, por 
um lado, e as da livre formação de células, por outro, 
conduzindo assim a uma nova unidade subjectiva.
Nunca será possível produzir um bolor-viscoso pela 
acção directa da pressão do vento, por muito rigorosa-j 
mente doseada que seja, sobre as células amibóides^ 
móveis.
Ao contrário do bolor-viscoso, que une as suas célu­
las protoplásmicas móveis num só talo que, por sua vez, 
depois da constituição completa da sua forma, representa 
um indivíduo, constituído por um único sujeito orgânico, a 
glande desenvolve numerosos botões, cada um dos quais 
dá origem a um sujeito orgânico, que está ajustado a um 
ou mais factores significantes — e, deste modo, a folha 
do carvalho não serve apenas de goteira para a chuva 
mas também de receptor dos raios luminosos, graças 
às suas células clorofilinas.
Todos os sujeitos orgânicos, com as suas melodias 
orgânicas, se integram na sinfonia do organismo «carva­
lho», sinfonia que podemos também designar por protó­
tipo do carvalho.
[179]
/ O processo da subjectivação sublimada, de teor celu­
lar, em melodia do órgão, em melodia do organismo, está 
lem directa oposição com todo o processo mecânico, que 
postula a acção de objecto sobre objecto.
Ele encontra-se, pelo contrário, no mesmo nível de 
qualquer composição musical. A relação de factores 
significantes, nas plantas, e de objectos significantes, 
nos animais, para com os respectivos utilizadores de 
significado, constitui prova particularmente clara do que 
se afirma. Assim como na composição de um dueto, 
as duas partes têm de ser compostas uma para a outra, 
nota por nota, ponto por ponto, assim também na Natu­
reza os factores significantes devem estar para os 
utilizadores numa relação de contraponto. Só podere­
mos compreender melhor a constituição da forma do 
organismo se, a partir dela, nos for possível construir 
uma doutrina da composição da Natureza.
7. A DOUTRINA DA «COMPOSIÇÃO»
DA NATUREZA
A expressão «doutrina da composição da Natureza» 
pode induzir em erro, visto que, de uma maneira geral, a 
Natureza não oferece doutrinas. Assim, por doutrina, 
deve apenas entender-se uma generalização das regras 
que julgamos descobrir no estudo da composição da 
Natureza.
Está, portanto, indicado que partamos de exemplos 
particulares e que estabeleçamos as suas leis para, deste 
modo, chegarmos a uma doutrina da composição da 
Natureza.
Como modelo, podem servir-nos as regras da compo­
sição musical, que parte do princípio clê~qljiê~são_neces­
[180]
sários, pelo menos, dois sons para formar uma harmonia. 
NaTõmposição de um dueto, as duas partes que se devem 
fundir numa harmonia são compostas nota por nota, ponto 
por ponto, uma para a outra. Nisso se baseia a teoria do 
contraponto, na música.
Em todos os exemplos extraídos da Natureza temos, i 
igualmente, de procurar dois factores que, juntos, cons­
tituam uma unidade. Portanto, partimos sempre de um 
sujeito, situado no seu mundo-próprio e examinamos 
as suas relações harmónicas com os objectos parti­
culares que, como objectos significantes, convergem no 
sujeito.
O organismo do sujeito representa o utilizador do 
significado ou, pelo menos, o seu receptor. Se estes dois 
factores se reúnem no mesmo significado é porque .foram 
compostos simultâneamènte pela Natureza. Saber que 
lèTs áPse Tévélám, eis õ assunto da doutrina da composi­
ção da Natureza.
Sempre que dois organismos se encontram, um para 
o outro, numa relação harmónica de significado, é neces­
sário averiguar qual dos dois devemos considerar como 
sujeito ou como utilizador do significado e a qual cabe o 
papel de portador do significado (objecto significante). 
Em seguida, procuraremos as propriedades recíprocas 
que se encontram relacionadas duas a duas, como ponto 
e contraponto. Se possuirmos, no caso em questão, um 
conhecimento suficiente dos ciclos-de-função, que ligam 
o respectivo sujeito com o seu objecto significante e que 
podem tomar-se como ciclos significantes, encontramo- 
-nos então em condições de procurar os contrapontos, 
tanto no campo da percepção, como no campo da acção, 
para, finalmente, concluirmos acerca da lei do significado 
específica que presidiu à composição.
Para me referir ao exemplo, já citado, da glande,
[181]
começo por apresentar a formulação esquemática do pro­
blema da composição da glande e um dos seus factores 
significantes — a chuva.
Folhagem do carvalho 
Receptor de significado
Ponto
Disposição em forma de 
telhado das folhas com 
goteira
Lei m orfogenética 
da glande
Chuva 
Factor de significado
Contraponto
G o tas de chuva que 
caemLei fís ica da formaçãó 
das gotas
Lei comum do significado:
Captação do fluido e sua distribuição pelas extremidades
da raiz
A folhagem do carvalho actua mecanicamente na dis­
tribuição das gotas de chuva, ao passo que a lei da for­
mação das gotas intervém como compositor na melodia 
do carrilhão vivo das células do carvalho.
Se nos voltarmos para os animais e procurarmos 
discernir cada um dos ciclos de significado, toparemos 
no ciclo do habitat relações semelhantes às que encon­
trámos no carvalho e na chuva.
Tomemos para primeiro exemplo o polvo gigante, 
como sujeito, nas suas relações com a água do mar, 
como objhcto s ign ificante e imediatamente encontra­
remos relações do tipo contrapontal. A incompressibili- 
dade da água constitui a condição necessária para a cons­
trução de um saco natatório musculoso. Os movimentos
[182]
compressores do saco actuam mecanicamente sobre a 
água incompressível e impelem o animal para trás. A lei 
da constituição da água do mar intervém, como composi­
tor, no carrilhão vivo das células protoplásmicas do em­
brião do polvo gigante e impõe à melodia morfogenética 
os contrapontos que correspondem às propriedades da 
água. Em primeiro lugar, forma-se o órgão, cujas paredes 
musculosas admitem e expelem a água, incompressível. 
A lei do significado, que neste caso liga ponto e contra­
ponto, torna possível o acto de nadar.
A mesma lei do significado, sob numerosas varian­
tes, preside à construção da forma de todos os animais 
nadadores. Nadam para diante, para trás ou para o lado, 
executam movimentos ondulantes com a cauda, são impe­
lidos através da água pelas barbatanas ou pelas pernas, 
mas sempre as propriedades do organismo se harmonizam 
com as propriedades da água e subsistem como o ponto 
para o contraponto. Em todos os casos é reconhecível 
uma composição orientada no sentido de um significado 
comum.
O mesmo pode dizer-se de todos os vários ciclos 
do habitat, quer se trate de animais aquáticos, terrestres 
ou aéreos. Sempre os órgãos efectores, destinados a 
correr, saltar, trepar, planar, voar e velejar, são construí­
dos em contraponto com as propriedades do respectivo 
habitat. Com efeito, em muitos insectos, que começam 
por viver na água e mais tarde vivem no ar, podemos 
verificar com que facilidade, no segundo estádio larvar, a 
lei da constituição elimina os órgãos velhos e faz surgir 
os novos.
Mas também o exame das relações receptivas entre 
sujeito e habitat confirma o facto. Para cada obstáculo 
que se levante ao sujeito, existe sempre um órgão sen- 
sorial construído em contraponto. Quando à luz, é o órgão
[183]
da vista, quando às escuras, o órgão do tacto ou o do 
ouvido.
Desde o início, o morcego, tal como a andorinha, está 
adaptado, por outros meios, à percepção dos obstáculos 
que encontra no voo.
Mas isso — dir-me-ão — são puras vulgaridades. E, na 
verdade, são experiências de todos os dias, que podem 
fazer-se em toda a parte. Mas por que motivo não have­
mos nós de tirar destas experiências a única conclusão 
possível — a de que, na Natureza, nada é deixado ao 
acaso, mas, pelo contrário, em todas as circunstâncias, 
uma lei intrínseca do significado liga o animal e o seu 
meio, une os dois num dueto, em que as propriedades 
de ambas as partes são compostas uma para a outra, 
em contraponto?
Só quem negue obstinadamente o significado como 
factor natural ousará contestar, no ciclo-de-função do 
sexo, que macho e fêmea são constituídos, quanto ao sig­
nificado, um para o outro e sustentar que o dueto de amor 
que, em mil variações, entrelaça todo o mundo vivo, 
surgiu independentemente de qualquer plano.
No dueto de amor dos animais e das pessoas enfren­
tam-se dois parceiros equivalentes, um dos quais, no seu 
mundo-próprio, domina como sujeito e intervém como 
receptor de significado, enquanto ao outro cabe o papel 
de portador de significado, isto é, de objecto significante.
Tanto os órgãos de percepção como os órgãos de 
acção estão, nos dois parceiros, coordenados em con­
traponto.
A primeira condição que deve pôr-se numa composi­
ção natural bem sucedida é que o objecto significante se 
distinga nitidamente no mundo-próprio do receptor de 
significado. Para isso, podem utilizar-se os mais variados 
sinais-característicos.
J^cerca da borboleta nocturna chamada pavão, conta
[184]
Fabre que a fêmea executa movimentos de vaivém com 
o abdómen, de modo a comprimir contra o solo as glân­
dulas odoríferas. O cheiro que então jorra para o chão é 
tão activo no mundo-próprio dos machos, que estes 
acorrem, voando de todos os lados, ao local de onde o 
cheiro provém, sem serem desviados por outros cheiros, 
que se perdem, abaixo do limiar de percepção.
O poder de atracção desta nota olfactiva é tão forte 
que os machos, na sua ânsia de atingirem o solo odoroso
— o objecto significante— não modificarão o seu itine­
rário, ainda que lhe coloquemos no caminho uma fêmea, 
metida em gaiola de vidro, de modo que seja visível, mas 
imperceptível pelo cheiro.
Infelizmente, não se fez ainda a mesma experiência 
com cadelas no período do cio; mas é possível que os 
cães se comportem exactamente como as borboletas 
machos.
Num caso muito interessante relatado por Wunder (1), 
o parceiro sexual não intervém como objecto significante 
directo: insere-se, no ciclo do sexo, um segundo objectoj 
significante.
O macho da carpa-pequena, peixe de água doce, 
reveste-se, na época das núpcias, de um brilhante traje 
nupcial. Isso, porém, não acontece quando avista a fêmea, 
mas sim quando avista o mexilhão dos tanques e princi­
palmente quando sente as correntes de água aspiradas 
e expelidas por esse mexilhão.
Ao mesmo estímulo, a fêmea desdobra o seu longo 
ovipositor. Enquanto o macho lança o seu esperma na 
água, a fêmea fixa o ovo fecundado na guelra do mexilhão, 
onde a larva pode crescer dentro de uma corrente alimen­
tar e protegida de todos os perigos. O significado do traje 
nupcial do macho não está relacionado naturalmente com
(') W. Wunder (* 1898), zoólogo especialista em ictiologia 
geral e piscicultura. (N. da ed. alemã.)
[185]
o mexilhão; ele serve, sim, para afugentar as outras 
carpas.
i Que nós temos no significado a verdadeira chave 
para a compreensão das composições naturais da vida 
sexual, provam-no aqueles exemplos em que o objetítò 
sigiiiiicante em nada se modifica e, todavia, experimenta 
da parte do sujeito o tratamento oposto, só porque este 
sujeito se transformou quando recolheu um significado 
diferente.
Ao falar da vida dos escaravelhos, diz Fabre que, ao 
princípio, machos e fêmeas saem juntos para a caça, 
mas que depois se unem sexualmente. Concluída a cópula, 
e embora a conduta dos machos para com as fêmeas 
não se modifique absolutamente nada, estas lançam-se 
com verdadeira fúria devoradora sobre eles e despeda­
çam-nos, sem que eles, mais fracos, possam evitá-lo. 
O objecto significante «amigo» transforma-se, no mundo- 
-próprio das fêmeas, no objecto significante «alimento», 
sem que, no resto, a constituição deste se tenha alterado 
em qualquer pormenor. É exactamente o que se passa 
com a pedra do caminho que, sem se modificar, se des­
poja, afinal, do seu significado de «elemento do caminho» 
para se converter em «projéctil» quando varia a disposi­
ção íntimá do sujeito «homem» que imprime então à 
pedra um significado diferente.
O misterioso comportamento, descrito por Lorenz (1), 
dos jovens gansos cinzentos, consiste igualmente numa 
«cunhagem» de significado. O gansozinho cinzento assi­
nala na expressão do próprio Lorenz — para «compa­
nheira maternal», que ele segue constantemente, o pri­
meiro ser vfvo que os seus olhos descobrem, ao sair do 
ovo. Neste caso, o próprio homem fica tendo, para o 
ganso, o significado de «mãe». «Que aspecto terá, para o
(’)V. pãgs) 110 a 113.
[186]
ganso, a pessoa assinalada como «mãe»? — eis a questão 
que principalmente preocupou Lorenz.
Não devíamos esquecer, creio eu, que até no mundo- 
-próprio do nosso cachorrinho não é como «mãe» que nós 
aparecemos e somos farejados mas sim cómô portadores 
do significado «aquilo ou aquele que traz o leite» e isto 
slmTqiiê, por tal mòtivo, assumamos, pãrã ele,'“a forma 
de cão.
Von Korff fala de um bufo que tinha chocado dois 
ovos de pata e tratava os patinhos como se fossem pe­
quenos bufos. Tentara alimentá-los, pelo bico, com carne 
crua, sem resultado, e observava-os durante o dia, pou­
sado num ramo que se estendia por cima do tanque. 
À noite, regressava com eles para a sua gaiola. Quando 
outros patinhos se lhes juntavam, eram imediatamente 
mortos e devorados pelo bufo. Neste caso, os filhos adop­
tivos do bufo distinguiam-se dos seus semelhantes apenas 
pelo significado que o bufo lhes atribuía. Ao passo que 
todos os outros patinhos entravam como portadores do 
significado «vítima» no mundo-próprio do bufo, os dois 
que ele tinha chocado desempenhavam o papel de bufo- 
zinhos.
A amplitude da lei que tem de harmonizar as dife­
renças entre o portador de significado e o receptor de 
significado é muito pequena no ciclo sexual ou no da 
infância, visto que se trata, na maior parte dos casos, 
de indivíduos da mesma espécie. A observação dos ciclos- 
-de-função «inimigo» e «alimento», pelo contrário, mos­
tra-nos que essa amplitude não conhece limites e que as 
qualidades das coisas mais remotas podem ser ligadas 
umas às outras, em contraponto.
Já falei da harmonização da lei da constituição do 
morcego com a lei da constituição das borloetas, por meio 
da lei do significado.
De um lado, temos o morcego, como objecto signifi-
[187]
cante, que só produz um som; do outro lado, a borboleta 
nocturna, que em virtude do seu órgão auditivo muito 
especializado, só pode captar um som. Este som é, nos 
dois animais, o mesmo. A lei do significado.^segunskL^ 
qual esta correspondência surgiu, reside na relação entre 
o ataque do inimigo e a defesa davítinaa*- O som que, 
como smàl de^reconhecimento, se estabelece, passando 
de morcego para morcego, serve, ao mesmo tempo, às 
borboletas nocturnas, de sinal para a fuga. No mundo- 
-próprlo do morcego, é um sinal de amigo; no da borboleta 
nocturna é um sinal de inimigo. O mesmo som torna-se, 
consoante o seu diferente significado, criador de dois 
órgãos auditivos totalmente diferentes. Como o morcego 
é capaz de ouvir muitos sons, o seu órgão auditivo dispõe 
de uma ressonância de larga extensão. Mas só pode, por 
outro lado, produzir este único som.
É igualmente interessante seguir a adaptação da 
carraça ao mamífero pela lei do significado.
Carraça 
Receptor de significado
Pontos
1. O órgão olfactivo está 
adaptado a um só 
cheiro — o do ácido bu- 
tírico.
2. Existe um órgão táctil 
que permite à carraça 
evitar os pêlos da sua 
vítima.
3. Um órgão sensível à 
temperatura, que faz 
soar os sinais percepti- 
vos do calor.
Qualquer mamífero
Portador de significado
Contrapontos
1. O único cheiro que é 
comum a todos os ma­
míferos é o ácido bu- 
tírico do suor.
2. Todos os mamíferos 
têm pêlos.
3. Todos os mamíferos 
têm pele quente.
[188]
4. Um ferrão próprio para 
perfurar a pele de qual­
quer mamífero e que 
s e r v e , ao mesmo 
tempo, de bomba pro­
pulsora de fluidos.
4. Todos os m a mí f e r o s 
possuem pele branda, 
bem irrigada pelo san­
gue.
Lei de significado geral
Reconhecimento da vítima, ataque e absorção do sangue 
por parte da carraça
A carraça põe-se imóvel na ponta de um ramo, até 
que um mamífero passe por baixo dela. É então desper­
tada pelo cheiro do ácido butírico e deixa-se cair. Fica 
suspensa no pêlo da sua vítima e tem de abrir caminho 
através dele, para chegar à pele quente, na qual introduz 
o ferrão, para absorver o sangue. Não existe nela um 
órgão do gosto.
A observância desta lei de significado, tão simples, 
ocupa quase a vida inteira da carraça.
A constituição desta, que é cega e surda, .está d eji- 
neada sjmplesmente no sentido de permitir que no seu 
mundo-própriõ7qualquer mamífero surja sempre como por­
tador do mesmo significado. Podemos considerar este 
cõmõ um mamífero extremamente simplificado que não 
possua nenhuma das propriedades visuais ou auditivas, 
pelas quais se distinguem as diferentes espécies de ma­
míferos. Este objecto significante da carraça tem um único 
cheiro: o que provém do suor dos mamíferos e é comum 
a todos. Além disso, é táctil, quente e deixa-se perfurar, 
de modo que a carraça lhe sugue o sangue. Assim, todos 
os mamíferos — tão diferenciados entre si pela forma, 
pela cor, pelos sons que emitem ou pelo cheiro que exa­
lam, tal como se apresentam no nosso mundo-próprio.
[189]
podem agora ser reduzidos a um mesmo denominador, 
cujas características, à aproximação de cada um deles — 
seja homem, cão, corça ou rato — surgem em contraponto 
e denunciam a lei vital da carraça.
No nosso mundo-próprio — o humano — não existe- 
nenhum mamífero em si próprio, isto é, como objecto real; 
existe, sim, como abstracção mental, como conceito taxo- 
nómico que nunca encontramos na vida.
É completamente diferente o que sucede com a car­
raça: no seu mundo-próprio existe um mamífero composto 
de poucas propriedades mas perfeitamente real, que cor­
responde exactamente às necessidades da carraça, pois 
estas poucas propriedades servem, em contraponto, as 
suas capacidades.
O acomodamento do casa-roubada na concha do búzio, 
fenómeno que não pode explicar-se como qualquer modi­
ficação anatómica por adaptação gradual, parecer-nos-á 
particularmente estranho, enquanto insistirmos na procura 
de explicações mecânicas.
Mas se abstrairmos dessas tentativas inúteis e nos 
limitarmos a verificar que o casa-roubada não utiliza a 
cauda como órgão natatório, como fazem os caranguejos 
de cauda comprida, mas sim como órgão de preensão para 
as conchas'de búzio, já a cauda preensora do casa-roubada 
não parecerá mais enigmática do que a cauda natatória do 
caranguejo-do-rio. A cauda preensora está tão harmonica- 
mente construída para as conchas do búzio como a cauda 
natatória para a água.
Mathilde Hertz fez esta interessante descoberta: as 
abelhas que colhem o néctar só são capazes de descobríT 
duas formãíTUe f lo resTfõrmas decomponíveis ou com 
recortes, e fôrmas fechadas ou íntegras. As formas estre­
ladas e poligonais de qualquer espécie atraem as abelhas, 
enquanto as formas fechadas, como os círculos e os qua­
drados, as repelem. Este facto atribuem-no os teóricos da
[190]
conformação (G estalt) a um maior poder de estimulação 
das formas abertas e temos de admiti-lo: mas que é que 
isto significa? A resposta acorre imediatamente: todos os 
botões impenetráveis que as abelhas desprezam apre­
sentam formas fechadas. Pelo contrário, as flores desa­
brochadas, que oferecem o seu néctar, têm formas 
abertas.
Na lei da conformação das abelhas incluem-se dois 
esquemas espaciais de percepção para flores e botões, 
graças à lei do significado, segundo a qual se faz a 
colheita do néctar. Assim, os dois esquemas encon­
tram-se em estreita relação de contraponto com as duas 
formas principais das flores.
Mas como é que a natureza procede, se um sujeito 
animal, no seu comportamento, tem de distinguir formas 
mas possui, por outro lado, um sistema nervoso central 
absolutamente primitivo, incapaz de criar esquemas de 
forma?
A minhoca, que arrasta para a sua estreita galeria 
folhas de tília e de cerejeira (que lhe servem, simultanea­
mente, de alimento e protecção), tem de tomar as folhas 
pelo vértice, para que estas possam enrolar-se com faci­
lidade. Se ela tentasse segurar as folhas pela base, estas 
embaraçar-se-iamna entrada e não obedeceriam à força 
que as puxava. Pela sua constituição geral, a minhoca 
não está em condições de criar esquemas de forma; mas 
possui, em compensação, um órgão sensorial particular­
mente apurado para o gosto.
Devemos a Mangold (1) a descoberta de que, até nas 
folhas partidas em pequenos pedaços, a minhoca con­
tinua a ser capaz de distinguir os pedaços que pertencem
H Otto August Mangold (* 1891), zoólogo, discípulo de Spe- 
mann, chefe de departamento do Instituto Max-Planck, de Heidelberqa 
desde 1946. Trabalhou em células embrionárias e ainda noutros 
campos. (N. da ed. alemã.)
[191]
à base daqueles que pertencem ao vértice. Com efeito, 
os vértices das folhas e as su as bases ..têm, para as mi­
nhocas, sabores diferentes. E isso basta para serem 
Tratados diferentemente. Em vez de esquemas de forma, 
surgem, pois, em contraponto, notas gustativas que tor­
nam possível o acto de armazenamento de folhas, tão 
importante para a vida das minhocas.
Com razão se pode aqui falar de uma requintada 
composição natural.
O pescador humano sabe, por experiência, que para 
apanhar peixes particularmente vorazes não precisa de 
iscar o anzol com uma representação perfeita da sua 
vítima e que lhe basta apresentar ao lúcio, como Isca, 
uma simples amostra de prata, isto é, a imitação muito 
genérica de uma carpa pequena.
Ora a Natureza não precisa destas experiências. 
O Lophius p iscatorius — o tamboril — é um peixe de 
grande boca que, próximo do lábio superior, tem um apên­
dice ósseo, comprido e móvel, que ele faz ondular, como 
se fosse uma fita prateada.
Tanto basta para atrair peixes vorazes, mais peque­
nos, que, ao abocarem a isca, são precipitados nas pro­
fundidades da enorme boca pelo redemoinho que subita­
mente se forma.
A amplitude da lei do significado alarga-se, neste 
caso, ainda mais, pois liga a lei da conformação do lophius 
não com a figura da presa perseguida pelo peixe voraz 
mas com a imagem muito simplificada dessa presa no 
mundo-próprio daquele que vem a ser apanhado pelo 
lophius.
Exemplo semelhante oferecem as borboletas, orna­
mentadas com manchas ocelares brilhantes, as quais, ao 
abrirem as asas, afugentam as pequenas aves que as 
perseguem, pois estas, quando se lhes deparam os olhos
[192]
de pequenos animais caçadores, põem-se imediatamente 
em fuga.
Nem o lophius sabe que aspecto tem a presa no 
mundo-próprio do peixe voraz que ele apanha, nem a 
borboleta sabe que o pardal foge, diante dos olhos do 
gato. Mas o Autor destas composições dos mundos-pró- 
prios deve sabê-lo.
Não se trata de conhecimento humano, que possa 
ser adquirido pela experiência. Sobre este ponto, já nos 
elucidou a abertura do túnel pela larva do gorgulho-da- 
-ervilha. Essa larva executa, como vimos, um comporta- 
mento que é determinado por um saber supersensorial, 
independente do tempo. Graças a este saber, é possível 
ao compositor fazer da futura necessidade vital de um 
gorgulho que ainda não nasceu, a causa do comporta­
mento da larva desse gorgulho.
8 . A TOLERÂNCIA DO SIGNIFICADO
No exemplo do pedúnculo da flor, cuja diferenciação 
conhecemos já nos quatro mundos-próprios da rapariga, 
da formiga, da larva da aphrophora e da vaca, aquele, 
como objecto significante, encontrava-se, em cada caso, 
perante um novo receptor de significado que podemos 
também designar por utilizador do significado, visto que 
o pedúnculo é utilizado como adorno, como caminho, 
como fonte de material de construção ou como bocado 
de alimento, consoante o caso.
Mas este exemplo oferece ainda outro aspecto, que 
se manifesta quando nós, em vez do pedúnculo, introdu­
zimos, como sujeito, toda a planta a que ele pertence e 
lhe juntamos os quatro sujeitos anteriores como factores 
significantes.
Não se trata então de uma utilização do significado
1 3 - A . HOMENS [193]
por parte da planta. Receber o significado só pode, neste 
caso, equiparar-se a sofrê-lo. Esta tolerância apresenta 
várias graduações. A diferenciação do pedúnculo em ca­
minho de formigas é fácil de tolerar. Também a extracção 
do suco para a construção da casa da larva da aphrophora 
se traduz apenas por um ligeiro dano. Mas o corte dai 
flor, por parte da rapariga, e a ceifa da mesma flor por 
parte da vaca, podem, pelo contrário, ser prejudiciais à 
planta.
Em nenhum dos quatro casos se descobre uma lei do 
significado adequada ao interesse da planta.
Do mesmo modo, o papel significante que a teia de 
aranha desempenha na vida da mosca não é, por forma 
nenhuma, aproveitada no interesse da mosca e opõe-se, 
até, a este interesse. A mosca que se enreda na teia de 
aranha não pode, de modo nenhum, utilizar este objecto 
significante, mas apenas tolerá-lo, sofrê-lo.
Da mesma maneira, a larva do gorgulho-da-ervilha 
que, cuidando do futuro, abriu o seu túnel através desta, 
em devido tempo, isto é, antes de esta endurecer, fica 
indefesa perante o objecto significante «icnêumon» e só 
lhe resta suportar o causador da sua morte.
O sentido destes aparentes antagonismos de signifi­
cado torna-se imediatamente claro, quando nós abstraímos 
do indivíduo em particular e consideramos a unidade 
superior da espécie.
O princípio de tudo o que é vivo estabelece na 
espécie, que é duradoira, a existência de indivíduos, que 
são transitórios. Os indivíduos de cada geração empare­
lham-se, para produzirem uma nova geração e o número 
dos filhos excede sempre o dos pais. Para que a espécie 
mantenha a mesmo número de indivíduos, têm de su­
cumbir os excedentes. Junta-se assim, na nova geração, 
o mesmo núryero de progenitores para a manutenção da 
espécie. A exterminação dos excedentes opera-se de
[194]
maneiras muito diversas. Na maior parte das espécies, 
a longevidade dos indivíduos é determinada pela mudança 
das estações. É evidente que todos os indivíduos que 
vivem um só ano todos os anos cedem o seu lugar a 
nova geração.
Extinguem-se assim completamente as sociedades de 
vespas, todos os Outonos, com os seus milhares e mi­
lhares de indivíduos e apenas algumas fêmeas sobrevi­
vem ao Inverno para, no próximo ano, fundarem o mesmo 
número de novos enxames.
No Outono, morrem tantas das nossas moscas do­
mésticas, que nós poderíamos considerá-las extintas e 
todavia, logo no princípio do ano seguinte, elas aparecem 
de novo e em número igual. O número de moscas que 
prematuramente encontram a morte na teia da sua ini­
miga— a aranha — desempenha neste balanço um papel 
insignificante.
A migração das aves aniquila, ano após ano, os 
indivíduos excedentes que não estão à altura do enorme 
esforço por ela requerido.
Não é só o número de indivíduos que conta para a 
espécie mas também a sua capacidade de resistência. 
Nisto reconhecemos o alto significado que tem a inci­
dência, nos indivíduos, de danos que sucessivamente 
excluem os mais fracos, da procriação de descendentes 
menos bem dotados.
Ao arrebatarem as suas débeis presas, os açores e 
as raposas tornam-se beneficiadores das espécies que 
perseguem. Nos lugares onde as raposas são aniquiladas, 
as lebres sucumbem às epidemias, porque os animais 
atacados de doença não são eliminados a tempo.
Os animais a que a doença tolheu os movimentos 
têm sobre os seus inimigos uma atracção especial. Disso 
tiram partido muitas aves. Assim, o abibe cuja postura é 
ameaçada pela aproximação de um inimigo não se limita
[195]
a fugir; finge também manquear e, com esta aparente 
incapacidade para o voo, atrai a si o inimigo, até se encon­
trar suficientemente afastado do ninho e só então voa 
e se põe a salvo.
O icnêumon, que ataca traiçoeiramente a larva do 
gorguJho-da-ervilha, é, ele próprio, o protector das ervi­
lhas, que, se não fora ele, seriam sacrificadas ao exce: 
dente dos seus inimigos.
A Austrália oferece-nos um exemplo notável decomo 
é importante para a vida vegetal e animal a intervenção 
desses inimigos específicos.
Há cem anos, uma camponesa que emigrou da Amé­
rica do Sul para a Austrália levou consigo uma estaca 
de figueira-da-índia, que se deu admiravelmente na nova 
pátria. Em breve se reconheceu a grande utilidade desta 
planta, eriçada de picos, para a vedação de jardins e 
fazendas. Plantaram-se então figueiras-da-índia por toda 
a parte.
Ora esta planta, que começou por ser tão útil, acabou 
por se transformar numa praga. Invadiu os jardins e os 
campos que devia proteger. Espalhou-se pelas florestas, 
e onde quer que chegava destruía toda a vegetação.
Quando já vastas áreas se encontravam devastadas, 
intervieram as autoridades, que mandaram atacar o novo 
inimigo a machado e por meio do fogo. Como o processo 
não surtisse efeito, mandaram-se aviões espargir tóxicos 
sobre as florestas atingidas pelo cacto. O resultado foi 
que todas as outras plantas morreram e o cacto continuou 
a prosperar.
No seu desespero, as autoridades dirigiram-se então 
aos institutos botânicos das Universidades. E estes en­
viaram um grupo de investigadores qualificados à pátria 
de origem da figueira-da-índia, na América do Sul. Foi 
possível a estes observadores experimentados descobrir
[196]
uma pequena lagarta, do grupo das traças, que se alimenta 
exclusivamente dos tecidos daquela planta.
Depois de experiências que duraram anos, culti­
varam-se milhões de ovos deste inimigo do cacto, que se 
espalharam pelas regiões ermas onde este se desenvolve 
e, em poucos anos, foi possível destruir os cactos devas­
tadores e conquistar novamente o solo para a cultura.
É altamente apaixonante seguir as composições da 
Natureza e averiguar que significado convém a cada tole­
rância de significado.
Dois pontos de vista importa então considerar: ou o 
excesso de indivíduos é eliminado pela tolerância do 
significado, no interesse da própria espécie — e, neste 
caso, todos os indivíduos doentes e de limitada resis­
tência são segregados— , ou então a eliminação dos Indi­
víduos em excesso faz-se no interesse da economia da 
Natureza.
Assim, segundo K. E. Baer ('), o excedente das larvas 
de mosquito serve de alimento aos peixes e o mesmo 
parece poder dizer-se do excedente de girinos de rã.
Foi um erro basilar de Herbert Spencer (2) interpretar 
o aniquilamento dos descendentes em excesso como 
«sobrevivência dos mais aptos» para, sobre essa ideia, 
fundamentar o progresso na evolução dos organismos. 
Não se trata, de modo algum, de uma «sobrevivência dos 
mais aptos» mas de uma sobrevivência dos indivíduos 
normais, em benefício da subsistência imutável da 
espécie.
(’) V. n. 1 pág. 62.
H Herbert Spencer (1820-1903), filósofo inglês, adepto do 
conceito de evolução. (N. da ed. alemã.)
[197]
9. A TÉCNICA DA NATUREZA
Era, se bem me lembro, uma sinfonia de Mahler, que 
Mengelberg dirigia, de forma arrebatadora, no Conzert- 
gebouw, de Amsterdão. A grande orquestra, reforçada 
por coros masculinos e femininos elevava-se irresistir 
velmente, em esplendor e magnificência.
Perto de mim, estava sentado um jovem, completa­
mente mergulhado na partitura, a qual fechou, com um 
suspiro de satisfação, quando se ouviu o último acorde;
Na minha falta de preparação musical, perguntei-lhe 
que prazer podia sentir em acompanhar com os olhos, na 
partitura, o que os ouvidos podiam captar directamente. 
Todo ardendo em zelo, assegurou-me então que só quem 
segue a partitura pode atingir a visão integral de uma 
obra de arte musical. Cada voz, de pessoa ou instrumento, 
representava um ser em si próprio que, todavia, se 
fundia, em ponto e contraponto, com outras vozes, numa 
forma superior que, por seu lado, se ampliava, ganhava 
em riqueza e beleza, para nos dar, por fim, no seu con­
junto, a própria alma do compositor.
Lendo a partitura, podia acompanhar-se o crescendo 
e o decrescendo das vozes individuais que, como as 
colunas de uma catedral, suportam a abóbada omnipo­
tente. Só assim se podia ter uma perspectiva da complexa 
formação da obra de arte executada.
Esta dissertação, feita em termos muito convincen­
tes, despertou em mim um problema: se, porventura, será 
missão da biologia escrever a partitura da Natureza.
■Já então me eram familiares as relações harmónicas, 
em contraponto, de mundo-próprio para mundo-próprio e 
retomei o exemplo do pedúnculo da flor, nas suas rela­
ções com os quatro mundos-próprios mencionados.
O ramo^de flores que a rapariga ofereceu ao namo­
rado era agora usado por este como adorno e o pedúnculo
[198]
da flor veio assim a entrar num dueto de amor. A formiga 
que utilizava o pedúnculo como passagem, corria ao longo 
dele, até ao ovário da flor e aí mungia as suas «vacas 
leiteiras» — os pulgões. Quanto à vaca, essa transfor­
mava, finalmente, em leite o pasto de que o pedúnculo 
fazia parte. A larva da aphrophora crescia no seu abrigo, 
feito do suco que o pedúnculo lhe tinha fornecido e em 
breve enchia o prado com o seu doce canto de amor.
Outros mundos-próprios se vieram juntar a estes. 
As abelhas, que estavam associadas, em contrapronto, 
çom o aroma, a cor e a forma das flores, acorriam a elas 
e, depois de se terem saciado de néctar, comunicavanri 
ás companheiras a nova fonte descoberta, por meio de 
danças impressionantes, que Von Frisch (1) descreve por­
menorizadamente.
Na verdade, a cor das flores não é, para as abelhas, 
a mesma que é para nós; serve-lhes, no entanto, de certa 
característica, pois a flor e a abelha estão compostas 
uma para a outra em contraponto.
Trata-se, evidentemente, de uma tentativa modesta, 
mas, de qualquer modo, de uma tentativa, para resolver o 
problema que uma partitura da Natureza põe perante nós.
Nós podemos reduzir a um mesmo denominador todos 
os instrumentos musicais, se dispusermos, como num 
carrilhão, os sons que eles produzem. Teremos então, 
para o violino, um jogo de sons riquíssimo, constituído 
exclusivamente por sons de violino; para os sons da 
harpa, estabeleceremos um jogo diferente e mais sim­
ples, que, no caso dos ferrinhos, desce até ao mínimo 
indispensável.
A cada composição musical é posto o problema de
(') Karl von Frich (1886), zoólogo que fez importantes inves­
tigações sobre a fisiologia dos sentidos nas abelhas e nos peixes. 
Ver também n. 1, pág. 55. (N. da ed. alemã.)
r 199]
escolher, do jogo de sons de cada instrumento, aqueles 
que formam uma sequência melódica e, ao mesmo tempo, 
ligá-los harmonicamente com os sons dos «repiques» de 
outros instrumentos.
Tudo isto se passa segundo a teoria do contraponto, 
que estabelece as regras, de acordo com as quais se 
podem combinar numa partitura os sons de várias vozes. 
Mas ao compositor fica a liberdade de ligar, em contra­
ponto, os sons de um instrumento com os de qualquer 
outro.
Para pôr em paralelo o que se passa com os animais 
e o que se passa com os instrumentos musicais, bastará 
considerar o sistema nervoso central como um carrilhão. 
Chamaremos então «sons perceptivos» aos sinais per- 
ceptivos das suas células vivas que são projectados no 
exterior como notas características e designaremos por 
«sons efectores» os impulsos que provocam a execução 
de movimentos.
Cada animal é capaz, como qualquer instrumento, de 
um determinado número de sons, que entram em relação 
contrapontal com os sons de outros animais.
Não basta, como os mecanistas faziam, tratar os ins­
trumentos dé música como simples produtores de ondas 
de ar. Com essas ondas, ninguém pode criar uma melodia 
ou uma harmonia, nem compor com elas uma partitura. 
Só a relação das ondas do ar com o órgão auditivo do 
homem, onde estas se transformam em sons, pode tornar 
possível a produção de melodias e harmonias e a com­
posição de partituras.
Também não basta atribuir aos animais e às plantasde um prado a função de espalhar no espaço as cores, 
os sons e os odores que lhes são particulares e que, 
afinal, só nos mundos-próprios de outros animais são 
captados e depois transformados em percepções.
Podemos, então, transpor as relações dos organismos
[ 2 0 0 ]
para relações musicais e falar de tons ou teores percep­
tivos e de tons ou teores efectores dos vários sujeitos 
animais que se ligam uns aos outros em contraponto. 
Só então podemos chegar a uma partitura da Natureza.
Na Natureza, os teores perceptivos de vários animais 
podem ser utilizados em contraponto. Assim o som de 
chamamento emitido pelo morcego no seu mundo-próprio 
é, simultaneamente, um som de aviso no mundo-próprio 
da borboleta.
A concha que o búzio transporta tem, para ele, um 
teor de habitação; mas depois de morto o búzio, a sua 
concha esvaziada passa a ter para o casa-roubada, um 
novo teor de habitação. Esta identidade de teores é apro­
veitada na composição búzio-casa-roubada.
Tal como ao compositor de uma sinfonia não são 
postos limites na escolha de instrumentos, também a 
Natureza é completamente livre na escolha dos animais 
que pretende ligar em contraponto. O apêndice pescador 
do lophius está constituído em contraponto com o teor 
de preensão do esquema que deve atrair o peixe, sua 
presa. As designações de teor de preensão e teor de 
habitação mostram que, na aplicação da comparação 
musical ao caso dos animais, nós abandonámos, de vez, 
a pura teoria da música, pois segundo esta, pode falar-se, 
de um som de violino ou de um som de harpa mas nunca 
de um teor de «preensão da vítima» ou de um teor de 
«habitação» de uma casa, ou do teor de «beber» de uma 
taça ou do teor de «assento» de uma cadeira. E todavia, 
a grande aplicabilidade da comparação musical ao campo 
biológico reside na extensão do conceito «som», do sim­
ples som audível ao teor significante dos objectos que 
aparecem como portadores de significado no mundo-pró­
prio de um sujeito.
Quando dizemos que o teor de habitação da concha, 
no mundo-próprio do búzio, pode representar-se em con­
[ 2 0 1 ]
traponto com o teor de habitação, no mundo-próprio do 
casa-roubada, queremos dizer com isso que cada um dos 
dois teores, sem se identificar com o outro, pode, no 
entanto, ser transferido para esse outro, pela composição 
da Natureza, visto terem ambos o mesmo significado. 
Em lugar da harmonia, na partitura musical, intervém o 
significado, na partitura da Natureza, que serve de elo' 
de ligação, ou melhor, de ponte, para ligar dois factores 
naturais.
Com efeito, tal como uma ponte tem, em cada mar­
gem do rio, os seus apoios, que ela liga em ponto e con­
traponto, assim também são estes ligados na música, 
pela harmonia, e na Natureza, pelo mesmo significado.
Ern numerosos exemplos, que podem até ter fatigado 
o leitor, já demonstrei que, neste caso, se trata de ver­
dadeiros factores naturais e não apenas de conceitos 
biológicos..
Nós fomos já tão longe, que podemos considerar 
a partitura do significado como interpretação da Natureza, 
a qual pode pôr-se a par de uma interpretação, em música, 
por meio da partitura traduzida em notas.
Se agora atentarmos numa orquestra, veremos, em 
cada um dos papéis que se encontram nas estantes indi­
viduais, em escrita musical, as partes dos diferentes 
naipes, enquanto a partitura total repousa na estante do 
regente. IVIas vemos também os próprios instrumentos 
e perguntamo-nos se estes, porventura, não se ajustarão 
uns com os outros, não só pelo som que cada um produz 
mas também por toda a sua estrutura, isto é, se não 
constituirão uma unidade, não só musical como tecnica­
mente.
Como a maior parte dos instrumentos da orquestra 
são, por si jbróprios, capazes de produções musicais, não 
se pode responder afirmativamente a essa pergunta sem 
hesitações.
[ 2 0 2 ]
Mas quem já tenha ouvido palhaços-músicos, que se 
servem de instrumentos para, com eles, produzirem 
ruídos (pentes, chocalhos, etc.) convencer-se-á de que é 
possível, sim, com tal orquestra, executar uma cacofonia, 
mas nunca uma sinfonia.
Os instrumentos de uma verdadeira orquestra, se os 
observarmos com mais rigor, apresentam, logo na sua 
estrutura, uma relação em contraponto.
Isto revela-se-nos ainda com mais clareza numa 
orquestra natural, como um prado no-la apresenta. Basta 
que pensemos na flor integrada nos quatro mundos-pró- 
prios. Essa relação revela-se-nos ainda majs flagrante­
mente entre a estrutura da flor e a da abelha e dela se 
pode dizer:
Se na flo r não houvesse qualquer coisa de abelha
E ha abelha não houvesse qualquer coisa de flor,
Nunca o acorde seria possível.
Nestes versos se exprime o princípio fundamental 
de toda a técnica da Natureza. Nele reconhecemos, mais 
uma vez, a sabedoria de Goethe:
Se nos olhos não houvesse qualquer coisa de Sol,
Nunca eles poderiam vê-lo.
Mas nós podemos agora completar a sentença de 
Goethe, dizendo:
Se no Sol não houvesse qualquer coisa de olho,
Em nenhum céu ele em itiria raios.
O Sol é uma luz celestial. Mas o céu é um produto 
dos olhos, que dele fazem o seu horizonte mais distante
— aquele que envolve o espaço do seu mundo-próprio. 
Os organismos sem olhos não conhecem o céu nem o Sol.
[203]
10. O CONTRAPONTO, CAUSA DETERMINANTE 
DA CONSTITUIÇÃO DA FORMA
Podemos agora aplicar também aos outros exemplos 
aduzidos a regra técnica fundamental que se exprime na 
conformidade da abelha com a flor e na conformidade da 
flor com a abelha.
É claro que a teia de aranha é de estrutura ajustável 
à mosca, porque a própria aranha já o é também. Ser 
ajustável à mosca significa, neste caso, que, na sua 
estrutura, a aranha adoptou certos elementos da mosca. 
Não de uma determinada mosca mas do seu protótipo. 
Para nos exprimirmos melhor: quando dizemos que a 
aranha é ajustável à mosca, queremos significar que, na 
sua constituição corpórea, aquela adoptou para si certos 
motivos ou determinismos da melodia da mosca.
É muito nítida a interferência dos determinismos par­
ticulares de certos mamíferos no plano somático da 
carraça. Mais nítido que em qualquer caso é a acção do 
determinismo do morcego na estrutura do órgão auditivo 
da borboleta nocturna.
Em toda a parte, é o contraponto que se manifesta, 
como causa determinante da constituição das formas, 
o que, aliás, já nos devia ser familiar a partir da estru­
tura dos objectos úteis ao homem.
Uma chávena de café, com a sua asa, mostra-nos 
imediatamente as relações em contraponto, por um lado, 
com o café e, por outro lado, com a mão do homem. 
Estes contrapontos influenciam, em primeiro lugar, as 
causas determinantes no fabrico da chávena. Até são, 
na verdade, mais importantes do que o material de que 
a chávena é feita.
Parece de uma evidência vulgar o dizer-se a frase: a 
chávena de café é constituída para o café. A frase, toda­
via, significa mais do que parece. Ela diz que a função
[204]
da chávena consiste em conter café e, mais ainda, que 
essa função foi o motivo do seu fabrico.
A doutrina do significado culmina na revelação desta 
correlação.
O significado do nosso objecto de utilidade reside, 
para nós, na sua função, que é sempre possível fazer 
remontar a uma ligação do contraponto existente nesse 
objecto com o homem. Essa ligação cria simultaneamente 
o motivo para o seu próprio lançamento.
A cadeira, no seu significado de dispositivo que se 
ergue acima do solo para servir de assento, é constituída 
por claros meios de ligação com vários contrapontos no 
corpo do homem. O assento propriamente dito, as costas 
e os braços encontram no corpo humano os elementos 
correspondentes com que estão relacionados, enquanto 
os pés da cadeira formam nítidas Iigaçõe6 com o con­
traponto solo. Por sua vez, todos estes contrapontos são, 
para o marceneiro, causas determinantes daconstrução 
da cadeira.
Levar-nos-ia demasiado longe, aduzir mais exemplos 
como este. Deve ser bastante a indicação de que, com 
todos os objectos que utilizamos, lançamos pontes que 
ligam a nossa pessoa com a Natureza, da qual, todavia, 
não nos aproximámos mas, pelo contrário, nos afastámos 
cada vez mais. Começámos então, em ritmo cada vez 
mais lesto, a lançar pontes para outras pontes que, já na 
construção de máquinas simples não são ignoradas pelo 
homem ainda próximo da Natureza. Na grande cidade, nós 
vivemos rodeados só de coisas artificiais, pois as próprias 
árvores e flores dos nossos jardins, que nós arrancamos 
e transplantamos a nosso bel-prazer, foram arrebatadas 
ao conjunto da Natureza e transformadas por nós em 
objectos úteis ao homem.
A tão prezada técnica do homem perdeu, para a Natu­
reza, todo sentido, pois propõe-se resolver os mais pro-
[205]
fundos problemas da vida, como as relações do homem 
para com a natureza de Deus, com a sua matemática 
insuficiente.
Tudo isto é secundário. Muito mais importante é 
obter uma ideia dos caminhos que a Natureza segue para 
derivar, do germe não diferenciado, as suas criaturas, 
que ela, ao contrário de nós, não estrutura separada*, 
mente.
O filme de Arndt, acerca do bolor-viscoso, mostrou- 
-nos, como primeira fase da vida, uma acumulação cada 
vez maior de formas amibóides autónomas, que são cons­
tituídas em contraponto com a sua alimentação de bacté­
rias. Esgotados os alimentos, intervém subitamente um 
novo contraponto, como causa determinante, que trans­
forma as células amibóides que se acumularam umas 
sobre as outras, em células, unidas em tecido, de uma 
planta exposta ao vento.
Se olharmos para o pequeno mundo do bolor-viscoso 
que, como ténue cabeleira encima um montículo de 
estrume seco de cavalo, nós descobrimos que, além do 
corpo do bolor, portador de germes, só existe outro 
factor natural actuante: o vento que dispersa esses 
germes.
O portador e o dispersador de germes fundiram-se 
num dueto. São, antes de mais nada, as formas amibóides 
livres que,'com os seus teores individuais semelhantes, 
constituem um carrilhão vivo.
A Natureza joga com elas, transforma-as em células 
constitutivas de tecido, segundo novo determinismo, e 
constrói com elas uma forma portadora de germes que se 
expõe ao vento.
Este fenómeno é, para nós, tão inconcebível como a 
mudança de emotivo numa sonata de Beethoven. A nossa 
missão, porém, não é compor uma sonata da Natureza 
mas somente p c rever a sua partitura.
[206]
Logo no princípio, começamos por pôr, ainda entre os 
vertebrados, o que respeita às questões técnicas. Pode­
mos relacionar o despontar dos órgãos que estão sujeitos 
a um plano elementar com o facto de o significado de 
cada esboço de órgão ser fixado pela sua situação no 
todo, de modo que não pode dar-se qualquer erro de signi­
ficado ou qualquer duplicação.
Esta fixação é tão segura que, como Spemann mos­
trou, um enxerto de epiderme de girino de rã feito no 
germe do tritão, no lugar da futura boca deste, trans­
forma-se realmente em boca, mas numa boca de girino 
de rã, porque a partitura de formação da boca da rã foi 
transmitida simultaneamente com as células desta.
Se arrancássemos uma folha ao caderno com a parte 
do primeiro violino e a colocássemos no lugar corres­
pondente ao papel do violoncelo, produzir-se-ia uma dis­
crepância semelhante àquela.
Para o caso das partituras da estruturação de formas 
é muito elucidativa a abertura do túnel pela larva do 
gorgulho-da-ervilha. Aqui, o contraponto, que se torna 
causa determinante da abertura do túnel, é a verdadeira 
forma, que só mais tarde aparece, do gorgulho adulto, 
o qual, sem a saída preparada pela larva, teria de sucum­
bir. Pode, pois, a forma futura desempenhar um papel, 
como causa determinante, na metamorfose?
Isto abre outras possibilidades. Se a forma futura 
que estabelece o objectivo da conformação pode, ela 
própria, tornar-se a causa determinante, então tem razão 
K. E. von Baer, quando fala de um finalismo na formação 
dos organismos. Simplesmente, ele não abrange, com 
isso, a totalidade dos factos.
Quando a aranha tece a sua teia, as várias fases da 
construção da rede e a sua disposição em forma radiada 
podem considerar-se, simultaneamente, como objectivo 
e causa determinante da moldagem da rede. Pode, talvez,
[207]
designar-se a\rede, mas nunca a mosca, como objectivo 
da construção. Esta última, porém, serve, possivelmente, 
de contraponto e causa determinante para essa cons­
trução.
O exemplo dos tortricídeos mostra-nos eloquente­
mente quantos enigmas ainda nos guardará a técnica da 
Natureza. Situam-se frente a frente dois concorrentes 
constituídos em contraponto: o pequeno rinóptero, pro­
vido de uma serra, que utiliza como ferrão, e a folha 
grande da bétula, que há-de ser serrada. O percurso 
seguido pela serra deve ser tal que, em seguida, o 
coleóptero possa enrolar, sem dificuldade, a parte infe­
rior da folha, em forma de funil alongado, onde põe 
os ovos.
Este percurso, que apresenta uma curvatura carac­
terística, tem extensão constante para todos os tortricí­
deos, embora não exista na folha da bétula qualquer ves­
tígio de um traçado indicativo do caminho a percorrer. 
Será o próprio «percurso constante» a causa determinante 
do seu estabelecimento?
Isso faz parte dos segredos de composição natural 
que nós, no estudo da técnica da Natureza, encontramos 
a cada passo.
O primeiro investigador que se ocupou dos problemas 
da técnica da Natureza parece ter sido Lamarck H . De 
qualquer modo, a tentativa que empreendeu para harmo­
nizar o desenvolvimento do longo pescoço da girafa com 
o alto tronco das acácias, constitui a primeira indicação 
de um comportamento contrapontal.
Perdeu-se, mais tarde, completamente, o interesse
O Jean Baptiste Antoine Pierre de Monet de Lamarck (1744- 
1829), zoólogo francês, introduziu um novo Sistema do Reino Animal, 
elaborou a primeira doutrina da descendência dos organismos, seguiu 
o ponto de vista da transmissão hereditária dos caracteres adqui­
ridos. (N. da ed. alemã.)
[208]
pela técnica da Natureza, que foi substituído por espe­
culações sobre a influência dos antepassados, principal­
mente por iniciativa de Haeckel ('). Ninguém poderá re­
conhecer uma actividade técnica na afirmação de que os 
anfíbios derivaram dos peixes. Particularmente as con­
cepções acerca dos chamados órgãos «rudimentares» 
encarregaram-se de desviar as atenções dos verdadeiros 
problemas técnicos.
Só a demonstração, feita por Driesch, de que, de um 
germe de ouriço-do-mar cortado ao meio resultam, não 
duas metades de ouriço mas dois ouriços inteiros, com 
metade do tamanho do primitivo, veio abrir caminho para 
uma compreensão mais profunda da técnica da Natureza. 
Tudo que é material se deixa cortar com uma faca. Mas 
uma melodia é diferente. A melodia de uma canção, que 
é executada por um carrilhão autónomo de sinos vivos, 
permanecerá invariável, mesmo que ela dirija apenas 
metade do número inicial de sinos.
11. O PROGRESSO
Desta vez foi na bonita igreja de S. Miguel, em Ham­
burgo, ao ouvir a Paixão de S. M ateus que se me revelou 
novamente o paralelo, no campo da biologia. Esta obra 
sublime, entretecida dos mais belos cânticos, desenvol­
via-se em ritmo fatal, irresistível. Mas não se tratava, 
certamente, do progresso que os investigadores julgaram 
descobrir no desenrolar, no tempo, do fenómeno natural.
Por que razão é que o grandioso drama da Natureza, 
que se desenrola desde o aparecimento da vida na Terra, 
não havia de ser, em sublimidade e profundeza, uma única 
composição, como a Paixão?
(f) Ernst Haeckel (1834-1919), zoólogo alemão, renovador da 
Biologia, adepto de Darwin. (N. da ed. alemã.)
1 1 - A. HOMENS [209]
A evolução, tão altamente encarecida,que devia con­
duzir os organismos, de início tão imperfeitos, à organiza­
ção cada vez mais perfeita não passava então de uma 
especulação mesquinha sobre as imposições prementes 
do próprio problema?
A mim, nunca se me deparou, nem mesmo nos ani­
mais mais simples, o mais pequeno vestígio de imper­
feição. Tanto quanto eu podia julgar, o material disponível 
para a construção tinha sido utilizado da melhor maneira. 
Cada animal tinha provido o seu Cenário de vida com 
todas as coisas e todos os outros animais que, para a sua 
vida, tinham significado.
As propriedades do anima} e as propriedades dos 
seus comparsas ajustavam-se perfeitamente, em todas as 
circunstâncias, como pontos e contrapontos de um coro 
de muitas vozes.
Era como se a mesma mão de mestre corresse, desde 
tempos imemoriais, por sobre as teclas da vida. As com­
posições seguiam-se umas às outras, em número infinito, 
graves e ligeiras, esplêndidas e horríveis.
Nas ondas do mar primitivo, moviam-se crustáceos, 
simples, sim, mas de organização perfeita. Decorreram 
grandes períodos e chegaram os dias do reinado dos 
cefalópodes que os tubarões fizeram desaparecer. Dos 
pântanos quentes da terra firme, surgiram os sáurios, 
que, com as suas dimensões gigantescas, elevaram a vida 
até ao major grotesco. Mas a mão do Mestre continuou a 
correr sobre os seres. Do antigo tronco, surgem, em 
novas melodias de vida, novas formas que se desenrolam 
em centenas de variações, sem nunca revelarem a passa­
gem do incompleto para o mais completo.
É certo que os mundos-próprios foram, no princípio 
do drama universal, mais simples do que haviam de ser 
mais tarde; mas sempre neles se opunha um receptor de 
significado Vo objecto significante. Tudo estava subme­
[ 2 1 0 ]
tido ao significado e este adoptava órgãos diferentes ao 
habitat variável. O significado ligava o alimento e aquele 
que o devora, o inimigo e a presa, e principalmente o 
macho e a fêmea em assombrosa diversidade. Em todos 
os casos se nota uma progressão mas nunca um pro­
gresso, no sentido da sobrevivência da adaptado, nunca 
uma selecção do mais dotado, por meio de uma furiosa 
luta pela existência, desprovida de um plano. Em vez 
disso, reinava uma melodia em que vida e morte se entre­
laçavam.
Decidi apresentar ao nosso maior historiador esta 
questão: póderá falar-se de um progresso na história 
da humanidade?
Leopoldo von Ranke, nas suas Épocas da H istória 
Moderna, escreve: «Se admitíssemos que este progresso 
consistia apenas em a vida da humanidade se elevar, em 
cada época, a um nível mais alto, em que, portanto, cada 
geração ultrapassa inteiramente a anterior e a última é 
sempre a preferida, em prejuízo das outras, que se limi­
tam a trazer, em si, a geração seguinte, admitiríamos, 
Implicitamente, uma injustiça da divindade. Uma tal gera­
ção, esporádica, descontínua, não teria significado nem 
em si nem por si pois só significaria alguma coisa na 
medida em que fosse degrau de acesso para a geração 
seguinte e não estaria em relação directa com a divin­
dade. Todavia, eu afirmo: cada época está imediatamente 
em Deus e o seu valor não reside, de modo algum, naquilo 
que produz mas na sua própria existência, no seu pró­
prio ser.»
Ranke rejeita o progresso na história da humanidade, 
porque todas as épocas remontam directamente a Deus 
e, consequentemente, nenhuma pode ser mais perfeita 
que a outra.
Que podemos nós entender por uma época, no sen­
tido que Ranke lhe atribuiu, senão um grupo homogéneo
[ 2 1 1 ]
de mundos-pYóprios do homem dentro de um limitado 
espaço de tempo?
Daí se conclui que cada mundo-próprio deste grupo 
remonta directamente a Deus, visto que todos eles per­
tencem à mesma composição, cujo autor é Deus, na ex­
pressão de Ranke.
Ora a palavra Deus é exactamente aquilo com que 
investe todo o materialista, o qual admitiria uma compo­
sição ao acaso, no decurso de larguíssimos espaços de 
tempos, se lhe quiséssemos conceder que a força e a 
matéria se mantiveram as mesmas desde o princípio do 
mundo e que a lei da conservação da energia tem valor 
eterno e universal.
No princípio da minha discussão, mostrei que o 
estudo dos mundos-próprios prova, em primeiro lugar, a 
inconstância dos objectos, que dentro de cada mundo- 
-próprio, mudam também de conformação, sempre que 
mudam de significado. O mesmo pedúnculo da flor passou 
a ser, nos quatro mundos-próprios, quatro objectos 
diferentes.
Só resta agora mostrar, com auxílio dos exemplos já 
mencionados, que também a constância da matéria é uma 
ilusão. As propriedades da substância de um objecto 
dependem das escalas sensoriais do sujeito, cujo mundo- 
-próprio estamos a analisar.
Se observarmos a cor, aos nossos olhos amarela, 
de uma flor em que certa abelha poisou, podemos dizer 
afoitamente que, no mundo-próprio da abelha, a flor não 
é amarela (é talvez o que nós chamamos vermelha) pois 
a escala das cores nos olhos da abelha corresponde a 
uma escala de ondas de éter que é diferente da dos 
nossos olhos. Sabemos também que a escala de sons 
na borboleta nocturna, a escala de odores numa carraça, 
a escala de gostos de uma minhoca e as escalas de forma 
da maior parte dos invertebrados são completamente
[ 2 1 2 ]
diferentes das do homem. A própria escala de dureza 
deve ser totalmente diferente para os icnêumones que 
perfuram, como se fosse manteiga, a mais rija madeira 
de pinho.
Nem uma única propriedade da matéria se conserva 
a mesma quando percorremos a série de mundos-próprios 
das diferentes espécies. De mundo para mundo, em cada 
um dos objectos que observamos muda, não só o teor 
significante mas também o arranjo de todas as suas pro­
priedades, tanto materiais como formais.
A matéria é, no mundo-próprio do homem, o rocher 
de bronze sobre o qual parece assentar todo o universo 
quando, afinal, ele se volatiliza de um mundo para outro.
Não! A imutabilidade da matéria, em que os materia­
listas se entrincheiram não constitui base sólida para uma 
concepção geral do mundo.
Muito mais bem fundamentada que a imutabilidade 
da matéria é a imutabilidade dos sujeitos. Mas os sujeitos 
também se compõem de matéria — objectarão os mate­
rialistas. É certo. Mas a matéria dos corpos, que é pró­
pria dos sujeitos, tem de ser reconstituída em cada 
geração.
Aquilo que cada indivíduo, em particular, recebe de 
seus pais sob a forma de matéria, é extremamente insig­
nificante: reduz-se a uma célula germinal divisível e a um 
«teclado» de corpúsculos estimulantes chamados genes 
que, no acto da divisão da célula é recebido por cada 
uma das células filhas. Com efeito, esse «teclado» torna 
possível às melodias morfogenéticas fazê-lo soar, como 
nas teclas de um piano e deste modo realizar a estrutu­
ração das formas. Cada corpúsculo estimulante que é 
posto em acção insinua-se, como impulso diferenciado, 
no protoplasma da sua célula, para promover a estrutura 
correspondente.
As melodias morfogenéticas que, deste modo, se
[213]
estruturam, vão buscar os seus motivos às melodias 
morfogenéticas de outros sujeitos que elas encontrarão 
nos seus cenários de vida:
Se na flo r não houvesse qualquer coisa de abelha
Se na abelha não houvesse qualquer coisa de flor,
Nunca o acorde seria possível.
Os motivos são tirados, ora do ciclo da nutrição, ora 
do ciclo da defesa, ora do ciclo do sexo. É do ciclo do 
habita t que a melodia morfogenética tira a maior parte 
dos seus motivos e por isso a estrutura dos nossos olhos 
é ajustada à luz do Sol, e a da folha do bordo, com as 
suas goteiras, é ajustada à chuva.
Graças à captação de motivos exteriores, o corpo 
de cada sujeito constitui-se receptor de significado da­
queles objectos significantes cujas melodias estrutura- 
doras adquiriram, como motivos, conformação no seu 
corpo.
A flor actua, portanto, sobre a abelhacomo um feixe 
de contrapontos, porque a sua melodia estruturadora, 
rica de motivos, intervém na estruturação da abelha e 
vice-versa.
O Sol, das alturas do céu, emite os seus raios sobre 
mim, simplesmente porque ele, o nosso mais importante 
componente,da Natureza, entra, como motivo principal, 
na estruturação dos meus olhos.
O Sol parece tanto maior e mais radiante no céu do 
mundo-próprio de um olho, quanto maior é a sua influên­
cia na estruturação deste; e parece tanto menor e mais 
insignificante quanto menor e mais insignificante é a 
parte que tomou nessa estruturação (como na toupeira).
Se considerar-mos agora a Lua, em vez do Sol, pode­
mos igualmente afirmar que, quanto maior é o significado
[214]
da Lua para o olho de um animal, mais importante é o 
seu significado, como motivo, na estruturação do olho.
Quanto mais amplo é o significado dos mamíferos 
no mundo-próprio da carraça, mais importante é também 
a participação da melodia morfogenética dos mamíferos 
como determinante da estruturação da carraça, nomeada­
mente como cheiro do ácido butírico, como resistência 
dos cabelos, como calor e penetrabilidade da pele.
À carraça é totalmente indiferente que os mamíferos 
possuam milhares de outras propriedades. Só aquelas que 
são comuns a todos os mamíferos intervêm como causas 
determinantes na estruturação da carraça, tanto no que 
respeita aos seus órgãos-de-percepção como aos seus 
órgãos-de-impulso.
Seríamos constantemente induzidos em erro, se qui­
séssemos introduzir a medida-padrão deste nosso mundo 
na apreciação dos mundos dos animais. Poderia, no 
entanto, afirmar que toda a Natureza participa, como 
motivo, na formação da minha personalidade, no que res­
peita ao meu corpo e ao meu espírito — pois se não 
fosse assim, faltar-me-iam os órgãos para reconhecer a 
Natureza. Posso, porém, exprimir-me mais modestamente, 
dizendo: «Eu participarei da Natureza, na medida em que 
ela me tenha feito intervir numa das suas composições. 
Eu não serei então exactamente um produto da Natureza 
toda, mas apenas o produto da natureza humana, para 
além da qual me não é dado possuir qualquer conheci­
mento. Tal como a carraça é apenas um produto da natu­
reza da carraça, assim também o homem permanece 
ligado à sua natureza humana, da qual cada indivíduo vem, 
por sua vez, a resultar.
A nossa vantagem sobre os animais está em que 
podemos ampliar os limites da natureza inata do homem. 
É certo que não nos é possível criar novos órgãos; pode­
mos, no entanto, muni-los de meios auxiliares. Criámos 
instrumentos de percepção e trabalho que oferecem,
[215]
àqueles de nós que saibam utilizá-los, a possibilidade de 
aprofundar e ampliar o seu mundo-próprio. Mas os limites 
desse mundo-próprio ninguém os ultrapassa.
Só o reconhecimento de que tudo na Natureza é 
criado segundo o seu significado e que todos os mundos- 
-próprios são inseridos, como vozes, na partitura do 
mundo nos abre o caminho para a evasão da estreiteza 
do nosso mundo-próprio.
Não é a dilatação do espaço do nosso mundo-próprio 
em milhões de anos-luz que nos eleva acima de nós 
próprios mas o reconhecer que, além do nosso mundo 
pessoal, também os mundos-próprios dos nossos irmãos 
humanos e irracionais estão contidos num plano que 
tudo abrange.
12. RESUMO E CONCLUSÃO
Se compararmos o corpo de um animal com uma 
casa, diremos que, até hoje, os anatomistas e os fisiólo- 
gos têm estudado, com rigor, respectivamente, o tipo 
de estrutura e as possibilidades de funcionamento da 
casa.
Mas os ecólogos sempre têm descrito o jardim como 
ele se apresenta aos nossos olhos — os olhos humanos
— sem descrever também o aspecto que ele oferece 
quando observado pelo sujeito que habita a casa.
E, todavia, este aspecto tem mais largo alcance do 
que pode parecer. O jardim da casa não se confina, como 
a nossos olhos se afigura, a um mundo que tudo abrange 
mas do qual nos mostra apenas uma pequena parte; é, 
antes, circundado por um horizonte que tem a casa como 
centro. Cada casa tem a sua própria abóbada celeste, 
onde se movem o Sol, a Lua e as estrelas, que também 
directamente lhe pertencem.
Cada casa tem um certo número de janelas, que
[216]
dão para o jardim: a janela da luz, a janela do som, a 
janela do cheiro, a janela do gosto e um grande número 
de janelas do tacto.
Visto de casa, o jardim muda de aspecto consoante 
a estrutura da janela. Não se apresenta, de modo nenhum, 
como simples parcela de um mundo maior, mas como um 
mundo único, particular à casa: o seu mundo-próprio.
O jardim que os nossos olhos vêem é fundamental­
mente diferente daquele que se oferece aos habitantes 
da casa, em especial no que respeita às coisas que 
nele se encontram.
Enquanto nós distinguimos no jardim milhares de 
pedras, plantas e animais diversos, os olhos do habitante 
da casa só enxergam um número limitado de coisas no 
seu jardim — só aquelas, na verdade, que têm significado 
para o sujeito que habita a casa. Esse número pode redu- 
zir-se a um mínimo, como no mundo-próprio da carraça, 
no qual surge sempre o mesmo mamífero com um número 
perfeitamente limitado de propriedades. De todas as coi­
sas que nós descobrimos em volta da carraça — flores 
odorosas e coloridas, folhas que ramalham, aves canoras
— nem uma só existe no mundo-próprio da carraça.
Mostrei como o mesmo objecto, transferido para 
quatro mundos-próprios diferentes, adquire quatro signi­
ficados diferentes e como, em cada caso, as suas pro­
priedades mudam radicalmente.
O facto só pode ser explicado deste modo: funda­
mentalmente, as propriedades das coisas não são mais 
do que notas-características, atribuídas a essas coisas 
pelo sujeito com que elas entraram em relação.
Para compreender isto, devemos recordar-nos de que 
cada corpo de um organismo é constituído por células 
vivas que, no seu conjunto, formam um carrilhão vivo. 
A célula viva possui uma energia específica que lhe per­
mite responder, com o seu teor individual, a toda a acção 
exterior que com ela entra em contacto. Os teores indi-
[217]
viduais podem ligar-se entre si, por meio de melodias e 
não precisam da conexão mecânica dos seus corpos celu­
lares para actuarem uns sobre os outros.
Nos seus traços essenciais, os corpos da maior parte 
dos animais assemelham-se neste aspecto: possuem, 
como peças basilares, órgãos que servem para a trans­
formação de substância e que fornecem à actividade vital 
a energia proveniente dos alimentos. A actividade vital 
do sujeito animal, como receptor de significado, consiste 
na percepção e na acção ou impulso.
A percepção obtém-se através dos órgãos sensoriais 
que servem para seleccionar os estímulos vindos de toda 
a parte, para eliminar os estímulos inúteis e transfor­
mar os que são úteis ao corpo em correntes nervosas 
que, ao atingirem o centro, fazem tocar o carrilhão vivo 
das células cerebrais. Os teores individuais que então 
foram evocados actuam como sinais-perceptivos do fenó­
meno exterior e conforme são auditivos, visuais, gusta­
tivos, etc., assim são «gravados» como notas-caracterís- 
ticas da correspondente fonte de estímulo.
Ao mesmo tempo, os «sinos» celulares, que soam 
no órgão de percepção, induzem os «sinos» do órgão 
central-de-acção que enviam os seus teores individuais 
como impulsos os quais, por sua vez, desencadeiam e 
dirigem os movimentos dos músculos efectores. Temos, 
assim, uma espécie de fenómeno musical que, provindo 
inicialmente das propriedades do objecto significante, a 
este revérte novamente. É legítimo, portanto, tratar como 
contrapontos, tanto os órgãos receptores como os órgãos 
efectores do receptor de significado, em relação com as 
correspondentes propriedades do objecto significante.
Como em quaisquer circunstâncias se pode verificar, 
a condição prévia para que na maior parte dos animaiso 
sujeito se ajuste perfeitamente ao seu objecto signifi­
cante é ® existência de uma estrutura corpórea muito 
complexa.
[218]
Ora essa estrutura nunca existe logo desde o prin­
cípio. Pelo contrário, cada corpo inicia o seu arranjo 
como «sino» celular especial que se liberta e se integra 
num carrilhão, segundo uma determinada melodia de 
estrutura.
Como é possível que duas coisas de origem tão dife­
rente, como são, por exemplo, o abelhão e a flor da boca- 
-de-lobo, sejam constituídas de modo que, em todos os 
pormenores, se ajustem uma à outra? Sem dúvida porque 
as duas melodias de estrutura se influenciaram recipro­
camente: a melodia da boca-de-lobo interveio como 
motivo na melodia do abelhão e vice-versa. O que se 
disse do abelhão, pode também dizer-se da abelha vul­
gar: se o seu corpo não estivesse ajustado à flor, a sua. 
estrutura seria inviável.
Com a aceitação deste princípio basilar da técnica 
da Natureza, fica já resolvida em sentido negativo a ques­
tão da existência de um progresso do mais simples para 
o mais complexo. Com efeito, se são motivos de signifi­
cados adventícios, intervindo em vários sentidos que 
modelam a estrutura dos animais, não se concebe o que 
nela poderia alterar uma série, mesmo tão grande, de 
gerações.
Se pusermos de parte as especulações sobre os 
antepassados, entramos no terreno firme da técnica da 
Natureza. Mas aqui espera-nos grande decepção. Os 
sucessos da técnica da Natureza estão patentes à nossa 
vista mas a sua elaboração de melodias é para nós per­
feitamente impenetrável.
A técnica da Natureza tem isso de comum com a 
produção de qualquer obra de arte. Nós vemos muito bem 
como a mão do pintor distribui na tela manchas de cor, 
umas após as outras até que o quadro se nos apresenta 
pronto: mas a melodia da composição, a melodia que 
move a mão, escapa-nos absolutamente.
Compreendemos perfeitamente como a caixa de
[219]
música executa as suas melodias mas nunca compreen­
deremos como uma melodia preside à construção da 
caixa de música.
Sucede exactamente o mesmo com a estruturação 
de cada organismo. Em cada célula germinal existe o 
material, como nos germes também existe o «teclado». 
Falta apenas a melodia para realizar a sua estruturação. 
Donde deriva ela?
Encontra-se em cada caixa de música de um relógio 
um tambor provido de pontas. Quando se põe o tambor 
a rodar, essas pontas fazem vibrar palhetas de metal de 
comprimentos diferentes e as vibrações de ar assim pro­
duzidas são captadas pelo nosso ouvido como sons.
Qualquer músico reconhecerá com facilidade, pela 
posição das pontas no tambor, a partitura da melodia que 
é executada pela caixa de música.
Esqueçamos agora, por um momento, a pessoa que 
construiu a caixa de música e admitamos que esta é um 
produto da Natureza. Poderemos então dizer que estamos 
em presença de uma partitura materialmente tridimen­
sional que é a concretização da própria melodia, por Isso 
que a melodia representa o germe de s ign ificado da caixa 
de música em que entroncam todas as partes desta, 
supondo que existe material suficiente e dúctil.
No Museu Nacional de Estocolmo encontra-se um 
pequeno quadro de Ivar Arosenius, chamado Jul (Natal), 
que mostra uma mãe ainda jovem, irradiando ternura, sen­
tada, com um filho ao colo. Por cima da cabeça da mãe, 
paira a claridade suave e ténue que aureola os santos. 
A cena passa-se numa pequena mansarda. Tudo, em volta 
da madonazinha, é tirado da vida diária mas todos os 
objectos que se encontram à frente dela, em cima da 
mesa, o candeeiro, o cortinado, a prateleira com a louça, 
actuam como motivos sugestivos, que realçam a santi­
dade humilde e comovedora.
O quadro está composto com tal perfeição, que nós
[ 2 2 0 ]
nos esquecemos do pintor e julgamos estar a ver uma 
pequena maravilha da Natureza. Neste caso, o germe do 
significado é «Madona». Dele provém tudo o mais, espon­
taneamente, como numa melodiosa cristalização. Ao 
mesmo tempo, julgamos observar um mundo-próprio puro, 
em que não existem coisas estranhas e supérfluas. Todos 
os elementos se ajustam reciprocamente, em ponto e 
contraponto.
O material utilizado foi escasso mas apropriado — 
um pedaço de tela e algumas cores discretas foram bas­
tantes para plasmar esta pequena obra de arte. A quanti­
dade de material desempenha um papel muito secundá­
rio. Com mais ou menos material, em maiores ou meno­
res dimensões, o artista poderia ter obtido o mesmo 
resultado.
Mas outro artista, com o mesmo material, teria feito 
surgir do mesmo germe de significado — Madona — um 
quadro de Madona inteiramente diferente.
Ora utilizemos a criação de uma obra de arte para 
mostrar até que ponto a estruturação de um organismo 
se realiza de modo semelhante.
Não resta dúvida de que podemos considerar a 
glande como o germe de significado de carvalho e um 
ovo como germe de significado da galinha. O material é, 
em ambos os casos, o mais plástico de que a Natureza 
dispõe, isto é, o protoplasma vivo que admite qualquer 
estruturação, quando ela sai dos teores individuais e está 
em condições de manter qualquer forma em que se 
modele.
O carvalho realiza-se a partir do germe significante 
da glande exactamente como a galinha a partir do ovo; 
mas como é que isso acontece?
Surgem sempre, como já vimos, novos esboços de 
órgãos, que se completam exclusivamente por si. Em 
cada um desses esboços, encontra-se um germe de signi­
ficado que, do material que lhe é dado, faz que se desen-
[ 2 2 1 ]
volva completamente o órgão definitivo. Se o privarmos 
de uma parte do material de construção, o órgão estrutu- 
rar-se-á, porventura, em todos os seus pormenores mas 
apresentará menores proporções que os órgãos normais. 
Braus (') mostrou que a cabeça do úmero deixa de se 
ajustar à cavidade cotilóide, se esta, por falta de material 
de construção, não atinge o tamanho normal.
E Spemann, como já vimos, demonstrou que um 
enxerto de outra espécie animal toma, sim, o germe de* 
significado correspondente à posição no corpo que o 
recebe, mas desenvolverá um órgão inteiramente dife­
rente, que talvez possa ter utilização no animal de que 
provém mas não no que o recebe, pois os dois animais 
executam a mesma função de maneira totalmente diversa. 
Em ambos os casos, o germe de significado era «inges­
tão de alimentos»; a rã, todavia, tem um tipo de alimen­
tação diferente do do tritão.
Do mesmo modo, dois quadros que representem uma 
madona, se são obra de dois pintores diferentes, terão, 
é certo, o mesmo germe de significado mas serão dife­
rentes um do outro.
Logo que os órgãos tenham concorrido no sentido de 
uma função colectiva do corpo, deixarão de surgir forma­
ções defeituosas por falta de material de construção, 
como Braus as identificou. Wessely conseguiu mostrar 
que, em coelhos novos, que regeneram o cristalino, em 
maior ou menor escala, todos os órgãos que tomam parte 
na função da visão aumentam ou diminuem na mesma 
proporçãõ, de modo que, em todos os casos, aquela con­
tinua a exercer-se, sem ser perturbada. Também aqui, é 
o significado que dirige a regeneração. Que na verdade
(') Hermann Braus (1868-1924), naturalista e médico, profes­
sor da Universidade de Heidelberga, um dos fundadores da mecânica 
da evolução, aytor de uma anatomia muito considerada. (N. da ed. 
alemã.)
[ 2 2 2 ]
assim é, conclui-se flagrantemente de uma experiência 
de Nissl ('). O crânio dos mamíferos tem, sem dúvida 
nenhuma, o significado de «sólida protecção do cérebro» 
que debaixo dele se abriga. O crânio também em breve 
se regenera nos coelhos novos, desde que o cérebro não 
tenha sido atingido. Se, pelo contrário, uma operação 
extrair metade do cérebro, o crânio que a cobria já não 
se regenerará em virtude de ter perdido o seu significado. 
Neste caso, verifica-se apenas uma simplescicatrização.
Como se vê, o significado intervém sempre como fac­
tor natural decisivo, sob aspectos sempre novos e sur­
preendentes.
Se passarmos em revista, mentalmente, os mundos- 
-próprios, encontraremos nos jardins, que circundam as 
casas «corpóreas» dos sujeitos, as mais maravilhosas 
estruturas, que se comportam como objectos significan- 
tes e cuja interpretação oferece, muitas vezes, grandes 
dificuldades. Tem-se então a impressão de que os objec­
tos significantes apresentam aspectos misteriosos, sím­
bolos, que só pelos indivíduos da mesma espécie são 
apreendidos, ficando absolutamente indiscerníveis para 
os componentes de outras espécies.
O contorno do mexilhão dos tanques e as correntes 
de água por ele produzidas oferecem à carpa pequena o 
símbolo da amizade. A diferença de gosto do vértice e do 
pecíolo das folhas passa a ser o símbolo de forma para 
a minhoca.
O mesmo som torna-se símbolo de familiaridade para 
o morcego e símbolo de perigo para a borboleta nocturna 
e assim por diante, indefinidamente.
Se em face do enorme número de exerriDÍos, acaba­
mos por nos convencer de que, fundamentalmente, cada
(') Franz Nissl (1860-1919), psiquiatra. Estudou as modificações 
patologicas, particularmente das células ganglionares. (N da ed 
alema.)
[223]
mundo-próprio está preenchido apenas por símbolos de 
significado, iihpõe-se-nos um segundo facto ainda mais 
surpreendente: cada símbolo de significado relativo a um 
sujeito é, ao mesmo tempo, motivo de significado para a 
contiguraçáo corpórea do sujeito.
A casa «corpórea» é, por um lado, criadora dos sím­
bolos que povoam o jardim e, por outro lado, o produto 
dos mesmos símbolos, os quais intervêm como motivos 
na estrutura da casa.
À janela «visual» da casa deve o Sol o seu brilho é 
a sua configuração nas alturas do céu que é como que 
abóbada do jardim. Mas ele é também a causa determi­
nante na estruturação dessa janela.
Isto que se passa com os animais, passa-se igual­
mente com o homem e só pode resultar de o factor natu­
ral que se manifesta em ambos os casos ser o mesmo.
Admitamos que, por qualquer fenómeno da Natureza, 
tinham morrido todas as borboletas nocturnas e que nos 
incumbiam da missão de preencher esta lacuna no 
«teclado» da vida. Como procederíamos em tal emer­
gência?
Tomaríamos, possivelmente, um lepidóptero diurno 
e habituá-lo-íamos às flores que abrem à noite, pelo que 
teríamos de dar à constituição das antenas maior impor­
tância que à constituição dos olhos.
Como, porém, as novas borboletas nocturnas fica­
riam à mercê dos morcegos, de voo tão rápido, ter-se-ia 
de criar, para este inimigo, um sinal de reconhecimento 
que permitisse à maioria das borboletas escaparem-se 
a tempo.
Como símbolo de perigo, de inimigo, o melhor seria 
utilizar o pio do morcego, que o próprio morcego usa sem­
pre como símbolo de familiaridade. Para poder captar o 
pio do morcego, a borboleta teria de ser reconstruída 
e dotada de um órgão auditivo que a pusesse em comu­
[224]
nicação com o símbolo do perigo. Isto quer dizer que o 
símbolo intervém como causa determinante no plano de 
construção.
Se na borboleta nocturna não houvesse qualquer coisa
[d e morcego,
A sua vida pouco duraria.
Podemos muito bem pensar que a carraça apareceu 
para preencher uma lacuna no «teclado» da Natureza. 
Neste caso, o objecto significante, constituído pelas pro­
priedades gerais dos mamíferos, seria, ao mesmo tempo, 
símbolo para a vítima e causa determinante no plano 
estrutural da carraça.
Para terminar, procuremos agora observar, de fora, 
a nossa própria casa corpórea, com o seu jardim. Sabe­
mos já que o nosso sol, o nosso céu, juntamente com o 
jardim cheio de plantas, animais e pessoas, são apenas 
símbolos de uma composição natural que tudo abrange 
e tudo ordena, segundo a categoria e o significado.
Com esta noção, nós adquirimos também o conheci­
mento dos limites do nosso mundo. Podemos, com efeito, 
aproximar-nos de todas as coisas ou penetrar nelas, com 
auxílio de aparelhos cada vez mais perfeitos, mas nem 
por isso passamos a ter algum novo órgão sensorial e, 
por muito que desdobremos as propriedades das coisas 
nos seus últimos elementos — em átomos, em electrões
— elas nunca deixarão de ser simples notas particulares 
dos nossos sentidos e das nossas representações.
Sabemos que este Sol, este Céu e esta Terra desa­
parecerão com a nossa morte; continuarão, porém, a exis­
tir, em formas semelhantes, nos mundos-próprios das 
gerações futuras.
Não existem só as multiplicidades de espaço e 
tempo, em que as coisas podem alargar-se; existe tam-
1 5 -A . HOMENS [225]
bém a multiplicidade dos mundos-próprios, em que as 
coisas subsistem sob formas sempre novas.
Nesta terceira multiplicidade, todos os mundos-pró­
prios oferecem o «teclado» em que a Natureza executa 
a sua supertemporal e superespacial sinfonia de signi­
ficados.
A nós, durante toda a nossa vida, cabe-nos a missão 
de, com o nosso mundo-próprio, constituir uma tecla, no 
gigantesco teclado que mão invisível percorre.
[226]
INTRODUÇÃO À EDIÇÃO ORIGINAL
Epígrafe: Uns — os m ateria listas — tudo 
arrastam do céu e do mundo do inv is íve l 
para a terra, como se quisessem apertar 
nas mãos fechadas rochedos e carvalhos. 
Depois pegam em tudo e sustentam a todo 
o transe que só existe o que é palpável e 
in te lig ível. Tomam a existência m ateria l 
como a única existência e olham com des­
dém para os outros, os que além do mate­
ria l admitem ainda outro domínio do ser, 
e não querem dar ouvidos a qualquer opi­
nião d iferente da sua, seja ela qual for.
(PLATÃO, Sofistas. Traduzido para 
alemão por Karl Kindt, Platão, Antolo­
gia. Karl Rauch Verlag.)
Max Hartmann (1) é , sem dúvida, um investigador emi­
nente, que goza merecidamente de grande reputação. Por 
esse motivo não deve ignorar-se, de ânimo leve, um 
reparo que dele venha. Ora Hartmann, num escrito muito 
divulgado, acusou-me de induzir o público em erro. Se 
eu o entendo bem, a sua censura resulta de eu, com a
(') Zoólogo e filósofo. Director, desde 1914, do Instituto Max- 
Planck de Biologia.
[227]
Manuela
Realce
Manuela
Realce
teoria da obediência da Natureza a um plano, ter desper­
tado esperanças vãs em círculos de leigos.
Esta acusação de eu ter induzido em erro já uma 
vez me fora feita, embora noutras circunstâncias.
Na ilha de ísquia, onde passei uns belos dias de Pri­
mavera, encontrei um velho conhecido que me pediu indi­
cações sobre o caminho. Dei-lhe a informação de que no 
ponto onde havia uma roseira em flor, devia voltar à 
esquerda. Mais tarde, encontrámo-nos, por acaso, junto 
da mesma roseira e o meu conhecido recriminou-me por 
tê-lo enganado, visto que a roseira não tinha rosas nenhu­
mas. Daí se concluiu que sofria da cegueira das cores e 
não podia distinguir as rosas vermelhas que sobressaíam 
de entre a verdura das folhas.
A censura que Hartmann me dirigiu parece-me assen­
tar numa deficiência constitucional semelhante à do meu 
conhecido de (squia. Este era cego para as cores, Hart- 
mann é cego para o significado. Ele contempla a face da 
Natureza como o químico contempla a Madona Sistina. 
Vê as cores, sim, mas não vê o quadro. O químico pode, 
sem dúvida, ir muito longe na análise das cores mas isso 
nada tem que ver com o quadro. Apesar de ser citólogo 
distinto e químico, os seus trabalhos nada têm que ver 
com a biologia considerada doutrina da vida. Só é bió­
logo quem investiga o plano a que obedecem os fenóme­
nos vitais.
Perdeu-se quase por completo esta concepção da 
biologia e, principalmente, a obediência das relações dos 
significados à lei é «terra incógnita» para a maioria dos 
investigadores.
Vejo-me, assim, obrigado a começar com os exem­
plos mais simples, para oferecer ao leitor apenas umaideia do que se entende por significado e, finalmente, 
para mostrar que tudo que é vivo só pode ser compreen­
dido se lhe tivermos descoberto o significado.
Devo principalmente observar que é erro: primeiro,
[228]
encarregar um químico, em vez de um historiador de arte, 
de criticar um quadro; segundo, confiar a apreciação de 
uma sinfonia a um físico, em vez de a confiar a um 
músico; terceiro, em vez de chamar um biólogo, con­
ceder a um mecanista o direito de apreciar a realidlde 
dos comportamentos de todos os organismos, apenas na 
medida em que elas obedecem à lei da conservação da 
energia.
Os comportamentos não são simples movimentos ou 
tropismos: consistem em aperceber e actuar e são regu­
lados não apenas mecanicamente mas também segundo 
o significado.
Esta concepção contraria, evidentemente, a «lei da 
economia mental» com que os mecanistas tornaram tão 
fácil a investigação. Mas ladear problemas não é resol­
vê-los.
Se considerarmos os progressos realizados durante 
as últimas décadas da investigação da vida, na medida 
em que eles obedecem à senha do beaviorismo e dos 
reflexos condicionados, bem podemos dizer que o expe­
rimentar se tornou cada vez mais complicado ao passo 
que o pensar se tornou cada vez mais simplista e mais 
fácil.
O pensar fácil actua como doença contagiosa e afoga 
todas as iniciativas de uma concepção autónoma do 
mundo, no grande público: «Deus é espírito e espírito 
é nada» diz a sabedoria barata com que hoje em dia o 
homem simplista se dá por satisfeito.
Esta sabedoria é de tão baixo preço que bem lhe 
podemos chamar pura ignorância.
Eu pergunto a Max Hartmann, se é este o objectivo 
a que ele pretende conduzir o público.
J. von Uexküii
[229]
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Manuela
Realce
EXPLANAÇÃO ENCICLOPÉDICA
«BIOLOGIA E DOUTRINA DO MUNDO - PRÓPRIO»
Jacob von Uexküll foi o próprio a afirmar um dia que 
a tradução do termo «Biologia» por «Lebenslehre» (ciên­
cia da vida) pode induzir em erro, se se tomar esta última 
expressão na acepção de «conhecimento da essência da 
vida». Disse ele: «A vida é um fenómeno irredutível, 
como o peso. Nada sabemos do que venha a ser o peso 
mas apenas alguma coisa a respeito do peso dos corpos. 
Também nada sabemos do que venha a ser a vida mas 
apenas alguma coisa a respeito dos seres vivos. A ciên­
cia dos seres vivos é uma pura ciência natural e tem um 
único objectivo: o estudo da organização do corpo dos 
seres vivos, da sua origem e do seu funcionamento.» 
CõrrTcT despertar do espírito humano, vidã è morte7cõrnb 
fenómenos irredutíveis, passaram a ser para o homem 
os acontecimentos de máxima importância nas suas rela­
ções com a natureza. Por isso a biologia deve também 
ser considerada, nas suas origens, como a primeira ten­
tativa feita pelo homem para chegar a adquirir um conhe­
cimento da natureza. A descrição dos seres vivos e a 
sua anatomia aparece já nas elevadas culturas pré-cristãs
[231]
dos Babilónios, Egípcios e Chineses. Os primórdios de 
uma Zoologia científica surgem pela primeira vez na 
Grécia antiga) Um dos seus mais notáveis cultores foi 
Aristóteles (384-322 a. C.), discípulo de Platão e futuro 
mestre de Alexandre, o Grande. Aristóteles fundou uma 
escola própria e é considerado o pai da Ciência Natural. 
A par dele deve citar-se como primeiro enciclopedista 
nesse campo Plínio (23-79 d. C.), sem se ter notabilizado 
como investigador, compilou as descrições feitas por 
outros, na sua Naturalis H istoria em trinta e sete volu­
mes. Os seus escritos e os de Aristóteles exerceram até 
ao século XVIII decidida influência sobre as descrições 
da natureza. As investigações de médicos notáveis da 
Antiguidade alargaram-se muitas vezes até aos campos 
da anatomia e da fisiologia dos animais. Em primeiro 
lugar devem citar-se Hipócrates (século V a. C.) e, mais 
tarde, Galeno (130-200 d. C.), cujos escritos foram toma­
dos em consideração ainda para aquém da Idade Média.
Com o fim da Antiguidade a Biologia entrou em deca­
dência. No princípio da Idade Média o saber ocidental 
toma de novo contacto com os escritos dos autores clás­
sicos gregos, por intermédio dos Árabes (Avicena, 980- 
1037, e Averróis, 1126-1198), passando aqueles a cons­
tituir matéria de estudo nas escolas e universidades.
A ciência então dominante, a Escolástica, limitava-se, 
aliás, à reprodução e ao comentário dos escritos trans­
mitidos, ordenados num sistema de ideias de acordo 
com as doutrinas religiosas dominantes. Tomás de Aquino 
é um dos escolásticos mais representativos (1225-1274) 
e comentou os ensinamentos de Aristóteles. Deve 
citar-se ainda, como um dos mais notáveis representan­
tes da sua época, Alberto Magnus (c.a 1193-1280), que, 
como o seu discípulo Tomás de Aquino, pertencia à ordem 
dos Dominicanos.
As Universidades, fundadas a partir do século XII,
[232]
contribuíram para uma expansão e intensificação do 
conhecimento dos animais e das plantas. As novas des­
cobertas no campo da Astronomia, da Matemática e da 
Física tiveram importantes consequências, tanto de mé­
todo como teóricas, no posterior desenvolvimento das 
ciências naturais exactas; a representação teocêntrica 
do mundo foi orientada num sentido físico-matemático, 
em que forças cientificamente determináveis regulam o 
que se passa no macrocosmos. Más também nos aspec­
tos relativos ao microcosmos se iniciou análoga trans­
formação, tornada viável em virtude dos aperfeiçoamen­
tos dos métodos ópticos de investigação e pela invenção 
do microscópio e sua aplicação áõs estudos biológicos. 
As descobertas de Malpighi, Swammerdam e Loewen- 
hoek, nos séculos XVII e XVIII, marcam o início de uma 
nova época. A interpretação da natureza começara por se 
fundamentar nos aspectos imediatos, sem intervenção 
de instrumentos auxiliares. O mundo, tal como os senti­
dos dele tomavam conhecimento, e a sua representação 
eram idênticos. A visão, agora enormemente reforçada 
p^los~metasr73uxÍliares que a física punha ao serviço da 
ciência, revelava-se agora um mundo novo, micro e 
macrofísico que constituía uma nova realidade, a par da 
até aí apercebida. Isto não quer de modo nenhum signi­
ficar que se pudessem muito simplesmente reduzir todos 
os fenómenos manifestados nos seres vivos a processos 
físicos e químicos. Contudo, já no século XVII se revelou 
a tendência para interpretar os processos da vida em 
termos exclusivamente físico-químicos. Tal concepção 
revela-se também na filosofia desse século, principal­
mente em René Descartes (1596-1650), cuja explicação 
mecanista dos processos que se passam nos seres vivos 
influiu nitidamente nos estudos do seu tempo. A orien­
tação da explicação muito largamente espalhada no. 
século XVIII e as tentativas de considerar os seres vivos 
de um modo puramente mecanista são características
[233]
desta tendência. Simultaneamente estabelece-se nessa 
época uma especialização cada vez maior da biologia, 
que dificultou cada vez mais uma visão de conjunto. Cari 
von Linné (1707-1778) estabelece no seu System der 
Natur uma ordenação de alto significado e fundamental 
no reino animal e vegetal, pelo que é considerado o pai 
da sistemática moderna. Buffon (1707-1788), ao contrário 
de Linné, considera que os problemas dos estudos da 
natureza consistem antes numa vasta caracterização des­
critiva dos seus aspectos, como se conclui da sua enci­
clopédia, a H isto ire Naturelle. No século XVIII, a par de 
uma biologia mais sistemática, comparada e descritiva, 
desenvolve-se uma série de especulações sobre a origem 
das espécies, que exerceram sobre a orientação dos estu­
dos biológicos uma influência muito importante. Cuvier 
(1769-1832), um dos mais notáveis zoólogos do seu 
tempo e um dos criadores da anatomia comparada,defende o ponto de vista da invariabilidade das espécies. 
Foram seus antagonistas os adeptos do chamado evolu- 
cionismo, Lamarck (1744-1829) e St. Hilaire (1772-1884), 
que se podem considerar precursores de Darwin.
Darwin (1809-1882), o mais notável defensor do Evo- 
lucionism o nos tempos modernos, viu principalmente na 
selecção natural, que através da luta pela existência 
deveria ser a causa tanto da hereditariedade dos carac­
teres adquiridos como da variabilidade das espécies, a 
origem da diferenciação destas. O princípio em que se 
baseia a hipótese de Darwin é o aparecimento ocasional 
de variações de diferente natureza nos seres vivos, varia­
ções que são depois submetidas à selecção natural. 
O aparecimento dessas variações era atribuído a factores 
de natureza causal; pelo contrário, a evolução propria­
mente dita não obedeceria a nenhuma lei, de sorte que 
é o acaso que desencadeia a selecção natural, determi­
nando assim a formação de espécies novas. O curso das 
ideias de Darwin exerceu forte influência sobre a siste­
[234]
mática, a anatomia comparada e o estudo da hereditarie­
dade, disciplinas em que se buscaram provas em favor 
da teoria da evolução. Desencadeou-se, então, uma bata­
lha pró e contra o darwinismo, batalha que ainda hoje 
dura. Um dos mais ardentes adeptos da teoria foi o zoó­
logo Emst Haeckel (1834-1919), o qual, no que se refere 
às suas consequências, foi muito mais longe do que Dar­
win, e que no seu trabalho capital Die W eltrã tse l (Os 
Enigmas do Universo) procurou explicar a origem do 
mundo a partir de partículas elementares dotadas de vida. 
As consideráveis consequências que Haeckel e os seus 
adeptos deduziram da teoria de Darwin encontraram, em 
parte, uma acerada crítica. Ao número destes críticos de 
Darwin pertenceu, entre outros, August Weissmann 
(1834-1914)), que rejeitou a teoria da hereditariedade dos 
caracteres adquiridos e em seu lugar propôs uma teoria 
própria, chamada teoria do plasma germ inativo, com que 
procurou explicar o aparecimento de novos caracteres. 
Nem esta nem a teoria das mutações, formulada mais 
tarde e que admite o aparecimento brusco e constante 
de espécies novas, puderam explicar a evolução das espé­
cies, a sua multiplicidade e a sua integração num plano 
natural, pois que, em organismos em luta de concorrên­
cia, oportunidade e plano ordenado constituem o pressu­
posto da viabilidade e, deste modo, de estarem em con­
dições de tomar parte numa luta pela existência e 
numa selecção.
Ao passo que na física, na química e na matemática 
tudo, ab in itio , é interpretado por um princípio geral de 
massa, número e lei, em biologia a interpretação dos 
aspectos da vida foi-se tornando, com o decorrer do 
tempo, cada vez mais difícil. Desde que se descobriu a 
célula e os elementos que a constituíam, o interesse 
especial dos biólogos fixou-se no seu estudo. Da cito ­
logia, ou estudo da célula, derivou um grande número de
[235]
campos de investigação, cujo fim comum era o conheci­
mento da sua função e da sua estrutura.
Procurou-se decompor o que se passa na célula, e 
também o què se passa na totalidade do organismo, em 
processos cada vez mais simples. Para isso recorreu-se 
aos mais modernos métodos da técnica de determinações 
quantitativas químicas e físicas (métodos bioquímicos, 
emprego dos isótopos na pesquisa do modo como as 
substâncias se transformam nos organismos, técnica 
electrofisiológica, etc.). Recorrendo aos raios X e a requin­
tados métodos ópticos, e ao microscópio electrónico, 
estudou-se a estrutura fina da célula, e atingiu-se o nível 
macromolecular, progresso não desprovido de perigo pois 
que ameaça fazer da biologia uma química e uma física 
aplicadas, e esgotar energias na formulação dos seus 
problemas. O problema da inquirição das causas em bio­
logia não pode, porém, ser a redução dos processos vitais 
a processos físico-químicos. Estes só nos podem fornecer 
o conhecimento dos elementos cuja ordenação e mútua 
dependência determinam apenas o que há de específico 
nos processos vitais. Quando se procura reduzir o sis­
tema altamente complicado dos fenómenos biológicos a 
acontecimentos causais, fica, no fim, sempre alguma 
coisa não analisável. Foi isso que se deu com as funções 
específicas da célula, assim como com os fenómenos 
morfológicos e de desenvolvimento, e ainda com as cor­
relações mútuas dos seres vivos.
Que outro tanto se passou na fisiologia, que trata 
das correlações dos órgãos no corpo, afirmou-o clara­
mente um dos seus fundadores, Johannes Müller (1801- 
1858). Os seus discípulos, Du Bois-Reymond (1818-1896) 
e Helmhollz (1821-1894), foram, pelo contrário, adeptos 
da explicação mecano-física.
Já nessa altura se revelava na fisiologia dos sentidos 
a tendência não só para explicar os processos vitais e 
de desenvolvimento mas também o comportamento dos
1
[236]
animais e das plantas, recorrendo à influência das forças 
químicas e físicas do ambiente dos organismos. O animal 
era concebido como um mecanismo que as energias que 
afectavam os órgãos dos sentidos punham em acção. As 
designações «positiva» e «negativa» estabelecidas para 
as diferentes formas de energia, como luz, gravidade, 
etc., deviam explicar o comportamento perante os estí­
mulos do ambiente, como mais tarde se julgou conse­
quente na teoria dos tropism os de Jacques Loeb (1859- 
1924). Como essa teoria não fosse suficiente para expli­
car o comportamento dos animais, foi posteriormente 
completada e ampliada por outros, por exemplo, Von 
Kühn (n. 1885), que interpretava o comportamento animal 
como essencialmente resultante de actos reflexos. 
O fisiólogo russo Pavlov (1849-1936), desenvolveu de 
uma forma pronunciadamente mecanista uma concepção 
semelhante no âmbito dos reflexos condicionados. Wat- 
son (n. 1878), pretendeu encontrar uma solução para as 
dificuldades destas explicações unilateralmente mecanis- 
tas, no seu beaviorismo, em que elevou à categoria de 
princípio fundamental a pura descrição do comporta­
mento animal. Os pontos de vista intuitivos defendidos 
mais tarde por Jacob von Uexküll passam a compreen­
der-se se se toma em consideração a situação em que a 
biologia se encontrava no dobrar do século. O darw inism o 
P^di,a-se_em largas especulações, enquanto a fisiolõgíâ, 
Hõminada. pelos mecanistas. se afundava cada vez mais
nos..problemas das transformações da substância e da
er!2llSÍB--_Jacob von Uexküll sentiu-se particularmente 
átraído por Johannes Müller (1801-1858) e Karl Ernst von 
Baer (1729-1786), cujas ideias tinham afinidades com as 
suas próprias. Karl E. von Baer fundando-se nos seus estu­
dos de embriologia chegara a conclusões diferentes das 
de Darwin. Admitia uma diferenciação gradual no reino 
animal, que, porém, devia ter-se dado apenas em alguns
[237]
tipos, não segundo uma ininterrompida cadeia de evo­
lução.
Jacob von Uexküll opôs à concepção da época, que 
considerava os seres vivos como máquinas com reflexos, 
uma nova teoria. Partindo da afirmacão-de—Kant^- que 
tempo e espaco são conceitos subieetivos. chegou à con­
vicção de que cada ser vivo possui o seu próprio espaço 
subjectivo e o seu próprio tempo subjectivo. Partindo 
desta ideia^jo-comportamento dos animais pode_expii-_ 
car-se não pelas acções físicas e'químicas jicidentais 
"êxercidãspéló mundo exterior, mas apenas pelos fenó- ,.,
EslS~sópode ser formado pelos fenómenos que o ani­
mal pode «aperceber» a partir dos seus órgãos dos sen­
tidos, que possuem qualquer significado específico para 
a sua vida e que são ordenados segundo as escalas do 
seu espaço e do seu tempo subjectivos. Segundo Jiexküll 
a tarefa ja_bioloqia deve, por isso, consistir antes de 
tudo- na exploração dos mundos-própr[os subjectivos dos 
“Seres vivõs. Ã doutrina do mundo-próprio, por ele pro­
posta, é a mais vasta de todasas concepções até aqui 
apresentadas sobre o animal e as suas funções, porque, 
baseando-se na ideia da conformidade com um plano, 
procura considerar o animal como sujeito, e apresentar 
este correlacionado com o seu mundo-próprio. Esta teo­
ria serve para explicar os processos jciiojóqicos no qua­
dro de um acontecer totalmente hioíóginn, e, por isso, 
veio a ser a doutrina do «significado». Jacob von Uexküll 
tem muitas vezes chamado aos seus antagonistas, cegos- 
-ao-significado, porque se comportam perante a natureza 
como alguém que num livro estudasse a forma do tipo 
em que está impresso e a tinta usada em vez de procurar 
compreender o que ele quer significar. A natureza é para 
ele uma peça teatral em que cada um dos actores tem 
o seu papel e em que tudo está mutuamente ligado com 
vista a um resultado rico de sentido e de significado.
[238]
A peça prescreveu, os personagens obedecem. Em varian­
tes e exemplos sempre novos, fez entrar esta interpreta­
ção e justificou-a. Pela natureza da sua atitude teórica e 
metodológica, o estudo do mundo-próprio abrange não só 
o campo da fisiologia dos nêrvòs e dos sentidos mas tàm-" 
bóm._a_gg/ço/ogia an im al e o estudo do comportamento. 
Deve por isso acrescentar-se ainda em que relação está” 
exactamente o estudo do mundo-próprio com estes últi­
mos capítulos da biologia.
Uexküll, Beer e Bethe tomaram, no dobrar do século, 
posição contra uma psicologia animal que confere aos 
animais sentimentos humanos e emprega expressões 
como «uma formiga desesperada» e «um cão acobar­
dado». Por essa altura a psicologia animal ainda não cons- 
«íy.fc- uma . ciência independente, e eram relativamente 
Poucas as observações experimentais.
Entretanto, no intervalo de alguns anos estas passa­
ram a constituir uma massa inaudita de dados. As novas 
investigações colocaram a psicologia animal perante cir­
cunstâncias diferentes, com o que se demonstrou que. os 
conceitos usádos pelos teóricos dos tropismos e os fisió-_ 
^90®„d°s reflexos, assim como as interpretações meca- 
!l!§ íã ido^ncfi,Íp .daeconom ia de pensamento eram insa­
tisfatórias na explicação do comportamento dos animais. 
Chegou-se ao estabelecimento de uma série de orienta­
ções e de escolas, que, fundando-se em diferentes postu­
lados teóricos, prosseguiam na busca do seu objectivo, 
como, por exemplo, as que admitiam no primeiro plano 
das suas considerações o problema da «totalidade» o 
qual também desempenha um papel primacial na psicolo­
gia geral. O princípio da totalidade já fora introduzido por 
Driesch nos conceitos biológicos. A sua ideia fundamen­
tal foi, alem disso, mais tarde elaborada em diferentes 
direcções por Alverdes, Jordan, Haldane e Köhler.
O moderno estudo do comportamento abriu um novo 
caminho metodológico para estes problemas, e primeiro
[239]
que tudo forneceu valiosos pontos de vista relativos à 
natureza do'instinto nos animais. Os instintos dos ani­
mais semprá tinham despertado o interesse dos zoó­
logos. Os estudos de Wasmann (1859-1931) e Fabre 
(1823-1915) já haviam mostrado quão multiarticulada- 
mente são construídos os instintos dos insectos. As 
investigações sobre factores ambientais levaram tam­
bém ao conhecimento de grande número de factos impor­
tantes, como, entre outros, os estudos feitos sobre a 
vida das abelhas, devidos a Frischs. Actualmente estão 
em curso estudos pormenorizados sobre o comporta­
mento dos vertebrados e os seus instintos, o processo 
de aprendizagem, o adestramento, a orientação, etc., com 
resultados que demonstram uma singular obediência a 
leis e uma variedade até aqui não igualada, como se con­
clui dos trabalhos de TinbergenjJajrenzT+tedjíjer e Port- 
mann. Deve-se principalmente a Konrad Lorenj^e Nikolaus 
Tinbergen, o terem compreendido õ'estudo dos estímulos 
necessários pãrã o desencadear dõ_ .comportamento-ins­
tintivo, e terem analisado pormenorizadamente o papel 
do instinto no quadro da vida comunitária dos animais, 
em especial por meio dos seus estudos sobre o compor­
tamento social e individual das aves umas em relação 
às outras. Mostram eles que os comportamentos instin­
tivos são tão específicos para cada espécie animal como 
a sua estrutura física, e que entre espécies semelhantes 
se manifesta certa afinidade de instintos. J5ó__agora_sa 
revela em toda a sua extensão a obra-de pioneiro reali­
zada por Jacob vonU exkülL não só no campo da biologia 
geral como no caso especial da psicologia animal, em 
que estabeleceu os alicerces teóricos e práticos de uma 
ciência que actualmente, com o material de factos carrea­
dos pelo estudo do comportamento, adquire constante­
mente novos elementos para a sua estruturação. O mo­
derno estudo do comportamento foi buscar à doutrina do
[240]
mundo-próprio numerosos estímulos e conceitos práticos 
e teóricos.
A importância dos métodos de investigação fisioló­
gica, já acentuada por Uexküll, conduziu, em vários sen­
tidos, as investigações sobre o comportamento a insisti­
rem nos aspectos fisiológicos, o que, de facto, fornece 
dados de grande valor, mas resultou do problema central 
do estudo do comportamento. Este é, e continua a ser 
o papel do animal como sujeito que se «comporta» 
perante o meio ambiente. O actual estudo do comporta­
mento situa-se na linha divisória entre os métodos de 
trabalho seguidos em fisiologia e aqueles que procuram 
a consolidação de uma forma de investigação indepen­
dente, e com isso se esforçam com o mesmo interesse 
por evitar os perigos da redução de tudo ao ponto de 
vista humano do antropocentrismo, e os perigos igual­
mente grandes da redução do animal à categoria de um 
complicado mecanismo.
Dr. Georg Kriszat, Estocolmo
1 6 - A . HOMENS [241]
A C E R C A DO A U T O R
Jacob von Uexküll nasceu na herdade de Keblas, na 
Estónia, em 8 de Setembro de 1864. Depois de frequentar 
o liceu em Coburgo e, depois, em Reval, estudou zoologia 
na Universidade de Dorpat e aí terminou os seus estudos 
fazendo as provas então habituais. No instituto do conhe­
cido fisiólogo Kühne, em Heidelberga, começou a tra­
balhar no estudo do aparelho locomotor dos animais. 
Desenvolveu então noções novas sobre a actividade do 
músculo e o fluxo do estímulo no sistema nervoso. 
Apoiado nos seus estudos, erigiu uma nova fisiologia 
comparada dos invertebrados. Esta fisiologia biológica 
de novo tipo simultaneamente apresentava o animal 
como um organismo ligado segundo um plano ao seu 
mundo-próprio e lançava os alicerces para o estudo-do- 
-mundo-próprio, mais tarde por ele elaborado com os con­
ceitos de Plano, Ciclo-de-Função e Mundo-Próprio. Os 
notáveis resultados dos seus trabalhos realizados"del892 
a 1909 estão reunidos em Leitfaden in das Studium der 
Experimentellen Biologie der W assertiere (Guia do Estudo 
da Biologia Experimental dos Animais Aquáticos) e na 
obra Um welt und Innenwelt der Tiere (Mundo-Próprio e 
Mundo-Interior dos Animais). Depois da morte de Kühne 
romperam-se os laços que ligavam Uexküll ao Instituto
[243]
de Heidelbe^ga, e, pouco depois, com a Estação Zoológica 
de Nápoles, em que trabalhara regularmente até 1903. 
Desde então passou a trabalhar como investigador pri­
vado livre e escolheu os seus próprios problemas e cola­
boradores, independentemente de qualquer instituto. Em 
1909 empreendeu uma viagem mais longa pela África, 
que foi para ele rica de ensinamentos histórico-naturais 
e nele deixou sugestões e vestígios de alta importância 
que viriam a revelar-se nos seus trabalhos posteriores. 
Outras viagens de estudo o levaram a Nápoles, a Beau- 
lieu, Berck-sur-Mer, Mónaco, Roskoff e Biarritz.
Por essa ocasião, a teoria do mundo-próprio, já por 
Uexküll apresentada nos seus fundamentos no seu livro' 
Um welt und Innenwelt der Tiere, foi desenvolvida numa 
série de trabalhos concludentes. Nos Bausteinen zu einer 
biologischenW elt (Fundamentos para Um Mundo Bioló­
gico) e nas Biologischen Briefen an eine Dame (Cartas 
sobre Biologia a Uma Senhora) expõem-se as suas ideias" 
essenciais, que têm na sua obra capital Theoretische Bio- 
log ie (Biologia Teórica) a formulação definitiva. Em 1907 
recebeu a honra do grau de Doutor em Medicina honoris 
causa pela Universidade de Heidelberga. Mas continuou 
a ser-lhe negado o reconhecimento oficial de qualquer 
instância superior, sob a forma de uma cátedra de pro­
fessor. Se, por um lado, não lhe foi possível ascender 
ao professorado, as consequências da Primeira Guerra 
Mundial anularam a possibilidade de fazer progredir a 
ciência com a sua dedicação de trabalhador privado, em 
virtude da perda dos seus meios de fortuna. Só em 1926 
foi criado para ele um lugar de professor honorário na 
Universidade de Hamburgo, onde, em condições extraor­
dinariamente modestas, foi organizado o In s titu t fü r 
Um weltforschung (Instituto para o Estudo do Mundo-Pró- 
prio). Em condições primitivas e com grandes dificulda­
des, conseguiu elevar o Instituto a uma categoria de 
instituto de investigação científica digna de nota. A sua
[244]
forte originalidade e a sua riqueza de ideias, e a profusão 
de problemas científicos que o ocupavam, não tardaram 
a atrair um círculo de discípulos que ele soube reunir 
numa comunidade de trabalhadores que constituía como 
que uma família. Quando o «Instituto para o Estudo do 
Mundo-Próprio» festejou, em 8 de Setembro de 1934, o 
septuagésimo aniversário de Jacob von Uexküll, pôde-se 
fazer um balanço de uma preparação, em menos de dez 
anos, de setenta trabalhos, em um terço dos quais Von 
Uexküll aparecia como autor. A Universidade de Kiel 
galardoou-o nesse dia com o título de Doutor em Filosofia 
honoris causa. Alguns anos mais tarde recebeu da Uni­
versidade de Utreque o diploma de honra de Doutor em 
Ciências Naturais. As várias distinções sob a forma do 
grau de Doutor honorário, que recebeu em vida, mostram 
bem significativa e simbolicamente o seu valor em três 
ramos da ciência que serviu, tanto por um trabalho indi­
vidual notável como também por uma visão cada vez 
mais precisa do que é significante. Nessa época publicou 
também as suas memórias, das quais se conclui quanto 
era activo o intercâmbio espiritual em que intervinha, 
para além do círculo dos seus colegas de profissão, e 
com que profunda penetração ele compreendia os mun- 
dos-próprios dos seus semelhantes.
Os seus últimos anos passou-os Jacob von Uexküll 
com sua esposa em Capri. Aí concluiu com perfeita fres­
cura de espírito e incansável energia os seus últimos tra­
balhos, em que ainda uma vez mais fez uma recapitula­
ção e revisão da sua obra. Em 25 de Julho de 1944, antes 
de completar oitenta anos, a morte arrancou-lhe a pena 
da mão.
Dr. Georg Kriszat, Estocolmo
[245]
UM PRECURSOR DA NOVA BIOLOGIA ........................................ 5
DIGRESSÕES PELOS MUNDOS-PRÓPRIOS DO HOMEM E DOS
ANIMAIS ......................................................................................... 23
INTRODUÇÃO ......................................................................................... 29
DOUTRINA DO SIGNIFICADO .......................................................... 139
INTRODUÇÃO À EDIÇÃO ORIGINAL .............................................. 227
EXPLANAÇÃO ENCICLOPÉDICA........................................................ 231
ACERCA DO AUTOR ............................................................................. 243
LISTA DOS ESCRITOS E LIVROS DE JAKOB UEXKÜLL ......... 247
ÍNDICE DE ASSUNTOS ....................................................................... 251

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