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JAKOB VON UEXKÜLL, NASCEU NA ESTÓNIA
EM 1864; ESTUDOU ZOOLOGIA NA UNIVER
SIDADE DE DORPART E FISIOLOGIA NA UNI
V E R S ID A D E DE H EID ELBERG . OS SEUS
-TRABALHOS SOBRE O «MUNDO-PRÓPRIO
E MUNDO-INTERIQR DOS ANIMAIS» FORAM
NÃO SÓ PIONEIROS, CRIANDO RAMO CIEN
TÍFICO, MAS TAMBÉM, ATÉ HOJE, DEFINI
TIVOS, JA QUE 0 ,áEU CONCEITO DE CICLO-
-DE-FUNÇÃO JAMAIS FOI CONTESTADO OU
U LTR A P A S S A D O . V IA JO U POR TO DO
O MUNDO, çj^MO INVESTIGADOR E CONFE
RENCISTA. pÒUTOROU-SE TAMBÉM EM MEDI
CINA, PELjjí UNIVERSIDADE DE HEIDELBERG
E FOI PROFESSOR NA DE HAMBURGO E NA
DE KIEL, TENDO SIDO GALARDOADO DOUTOR
HONORIS CAUSA POR OUTRAS UNIVERSI
DADES EUROPEIAS
T r a d u ç ã o d e
A LBERTO CAN D EIA S e A N ÍBA L GARCIA PE R E IR A
♦
Capa de
A. PEDRO
*
T ítu lo da edição original
ST R E IFZ U G E DURCH D IE UM W ELTEN
VON T IE R E N UND M EN SCH EN
*
Reservados todos os direitos pela legislação em vigor
*
Edição fe ita por acordo com a
BOW OHLTS D EU TSCH E EN ZY K LO PÄ D IE
C O L E C Ç Ã O V I D A E C U L T U R A
J A K O B V O N U E X K Ü L L
Dos animais
e dos homens
Digressões pelos seus próprios m undos
D o u trin a do Significado
EDIÇÃO «LIVROS DO BRASIL» LISBOA
Rua dos Cae t anos , 22
UM PRECURSOR DA NOVA BIOLOGIA
por A do lf Portmann
A obra de Jacob von Uexküll veio a ter resultados
fecundos nas ideias e nas tarefas da biologia actual. As
investigações dos nossos dias falam de mundos-próprios
dos animais no sentido particular que Uexküll atribuiu a
este conceito e apresentam ciclos-de-função do ser vivo
exactamente como ele no-los tinha definido em dezenas
de anos de labor intenso. Se hoje encaramos os fenóme
nos da vida não só como causa de certos efeitos mas
também como partes componentes de um conjunto
preexistente devemo-lo principalmente ao seu trabalho.
A nova geração, que agora começa a trabalhar, já não
teve oportunidade de o conhecer e quase não mantém
com a sua obra relações directas. Uexküll morreu durante
os anos negros do fim da Segunda Grande Guerra e,
na confusão desse período, muitos investigadores se
esqueceram de quanto ficaram devendo a esse homem
que foi, simultaneamente, um grande biólogo e um génio
de forte personalidade. Vamos acompanhar a elaboração
e a influência desta obra notável, para entrarmos depois
na própria natureza dos dois trabalhos mais recentes,
reunidos neste volume.
[ 5 ]
A AUTONOMIA DO SER VIVO
O que Uexküll trouxe de novo ou simplesmente apro
fundou, a partir\de investigações já feitas, teve o seu
início na última década do século passado, nos anos que
se seguem imediatamente aos sugestivos estudos de
Hans Driesch. As experiências de Driesch com as pri
meiras formas embrionárias do ouriço-do-mar tinham
revelado particularidades de desenvolvimento que deixa
vam transparecer nitidamente a autonomia do ser vivo e
contnibuíram também de maneira definitiva para que, na
busca de uma interpretação do ser vivo, se afirmasse,
com nova força, a par da interpretação mecanista domi
nante, a outra possibilidade: o vitalismo. Se, daí em
diante, caem em desuso os termos mecanismo e vita
lismo, por se ter reconhecido amplamente a existência
de uma autonomia relativa, de uma independência, do
ser vivo, também para este facto tão importante deu
larga contribuição o trabalho criador de Jacob Uexküll.
A sua obra foi muito particularmente sugerida pela
vida dos animais marinhos. E é mais uma vez a utilização
genial deste campo das formas animais marinhas que
lhe revela novos factos acerca da função dos músculos
e nervos e das relações com o meio. Os movimentos dos
espinhos do ouriço-do-mar, os movimentos das lapas ou
da medusa, o estímulo da sombra que actua no ouriço-
-do-mar, a maneira como os vermes ou os espatangói-
des (1) se ocultam na areia, a observação da vida dos
chocos e das lagostas — cada um destes estudos é um
raio de luz que ilumina as densas trevas da vida marinha.
Já nestes primeiros trabalhos de fisiologia se dese
nham os contornos de uma concepção de organismo que
está em flagrante oposição com as ideias ainda larga
mente aceitas no seu tempo, que vêem no organismo o
(’) Ouriços-do-mar de simetria bilateral.
[ 6]
resultado de processos ocasionais de transformação, dos
quais a selecção natural manteve os favoráveis, permi
tindo assim a evolução das formas vivas.
Desde o princípio, Uexküll dirige a atenção do obser
vador para as propriedades supermecânicas da matéria
viva, para o facto misterioso de que no organismo adulto
se nos apresenta um todo organizado segundo um plano.
Nós verificamos, impressionados e surpreendidos, que
este plano já actua no óvulo e continua no desenvolvi
mento individual deste. Uexküll já tinha mostrado há
muito, em expressivas descrições, o que existe de
extraordinário na matéria viva, no protoplasma. Esta
necessidade de expor com clareza impeliu-o toda a sua
vida para o género de comunicação mais capaz de atingir
um largo círculo de pessoas interessadas no assunto.
Tornou-se um mestre na exposição arguta e incisiva da
sua concepção da natureza. Era-o na explanação oral e é-o
também, com igual vigor e poder de sugestão, nos seus
escritos. O nunca se ter integrado nas verdadeiras activi
dades da ciência académica retardou, porventura, a
expansão das suas ideias no campo espiritual da Univer
sidade, mas permitiu, por outro lado, que tirássemos pro
veito de muitos trabalhos seus, estimulantes e combati
vos, que possivelmente seriam incompatíveis com a faina
do ensino.
CICLO-DE-FUNÇÃO E MUNDO-PRÓPRIO
A concepção de ser vivo, de Uexküll, encontrou a sua
integral explanação nas obras Um welt und Innenwelt der
Tiere, 1921, e Theoretische Biologie. A primeira trata com
mais pormenor da observação de factos particulares da
vida das mais diversas formas animais; a segunda, mais
abstracta, é uma tentativa para ajustar o estudo da vida
animal, principalmente com a posição filosófica inspirada
em Kant.
[ 7]
Uexküll tem o seu lugar histórico na solução da
antiga querela travada à volta das concepções mecanista
e v ita lis ta do ser vivo. Pela influência da época, da escola,
e da natureza fisiológica do trabalho, está ligado de várias
maneiras — e mais solidamente do que ele próprio era
capaz de ver — à interpretação mecanista, para a qual,
aliás, era solicitado pelo mais íntimo do seu ser. Verifica,
assim, como eminente fisiólogo da vida animal inferior,
as grandes possibilidades da simplificação mecanista,
que concebe, por vezes/como mecânico cada um dos sis
temas da vida animal. Ele considera como maquinismos
as estruturas mais evoluídas. Assim, para ele, «a amiba
é menos maquinismo que o cavalo» porque dispõe de
menos estruturas adultas. Finalmente, Uexküll também
se aproxima da interpretação mecanista quando isola a
substância e a concebe como dirigida por uma forma de
actividade não dimensional. São pois os «impulsos» —
agentes não espaciais de ocorrências espaciais — que,
por um processo morfogenético conferem à substância
uma contextura mecânica. O protoplasma, como um todo,
é sempre supermecânico.
Na luta que travou por esta concepção, Uexküll
emparelha com Hans Driesch. Mas em breve se manifesta
a originalidade das suas investigações, quando, no núcleo
do seu trabalho, se começa a levantar, a cada passo, uma
questão soberana: como deve então entender-se a rela
ção entre o ser vivo e o meio quFõ~cTrcunHã?~A pãrtTF
de 1910, começa também a expor, de maneira mais inci
siva, as suas ideias fundamentais, com que ajudou a for
mar, tão decididamente, a biologia dos tempos futuros.
Duas dessas ideias directrizes vieram a tornar-se parti
cularmente importantes.
Uexküll verificou uma correlação estrutural, já exis
tenteno óvulo, entre o corpo do animal e certos factores
do ambiente, sejam estes de natureza inanimada, orga
[ 8 ]
nismos ou até inimigos e chamou a essa correlação
«ciclo-de-função». O ambiente tem notas ou sinais, no
verdadeiro sentido destas palavras: estruturas que o
animal assinala por meio dos órgãos sensoriais consti
tuídos para esse efeito e para as quais se elaboram res
postas e reacções especiais no organismo. Quanto às
possibilidades de relação ,d e -, um organismo com o
ambiente, elas estão já determinadas segundo qualidade
e i ntens i dadé7 por estrüturas pre viámente~-or-qaaizadas..
Os diversos ciclos^de-função, no seu conjunto, deter
minam uma secção de propriedades com significado na
vida do animal. Elas são, no âmbito mais largo da natu
reza, a parte que no caso respectivo forma o ambiente
limitado e típico de uma espécie animal.
OS «PAPÉIS» DAS COISAS NO CENÁRIO DA VIDA;
O ESTUDO DO SEU SIGNIFICADO
Na vida animal, as coisas são portadoras de signi
ficados, têm nela papéis a desempenhar. Ao referir-se
a este facto potencial e real, Uexküll revelou à investi
gação biológica um aspecto do ser vivo que, nas Ciências
Naturais do século XIX, alguns tinham votado a inteiro
esquecimento e outros simplesmente banido, como não
científico, do domínio dos estudos biológicos.
Guiados por Uexküll, encontramos circunstâncias que
não podem entrar, reduzidas a medidas e números, numa
explicação matemática da natureza, circunstâncias que
dizem respeito a um aspecto da vida que é complementar
de todas as conclusões obtidas por métodos quantitati
vos. O mundo das qualidades experimentadas, com as
suas cores e formas, os seus sons e aromas, as suas
dores e os seus prazeres, aparece então como o objecto
primacial da investigação biológica. Com Uexküll, o
[9 ]
sujeito percipiente é tomado, pela primeira vez, como
objecto de investigação positiva. Neste mundo comple
mentar, tornh-se essencial o que no outro não passa de
secundário; é\, pelo contrário, insignificante o que ali se
tomava como decisivamente importante. Sucede assim,
ser indiferente no mundo dos sujeitos se uma cor, como,
por exemplo, o azul do céu, depende do carácter de uma
combinação química ou se resultou de determinadas
estruturas físicas. O importante, neste mundo, é que o
azul se apresenta como fenómeno experimentado e que,
como tal, desempenha no cenário da vida papéis diversos
e rigorosamente determinados.
E com que sagacidade dirige Uexküll esta introdução
do sujeito na biologia! Ele afirma que as coisas do
ambiente possuem um tom ou «teor» prático, quer dizer,
que lhes pertence, conforme o seu papel, uma qualidade
qüe~nÕs"véFdàdèiramente não conhecemos no seu con
teúdo" subjecfivõ mas- cuja actividade é possível discernir
~através"dò comportamento do animal. Com o reíevo dado
ã- esfã_tõnãTiFáção dos objectos inicia-se uma orientação
na investigação que teve finalmente de reconhecer, como
uma das últimas realidades biologicamente inteligíveis,
o complemento e a correspondência interiores dessa
tonalização: a disposição íntima.
A tonalização, atribuição dos teores, eis uma das
primeiras verificações no caminho da subjectividade
oculta. Uexküll remonta, muito conscientemente, ao
grande biólogo Joh. Müller (1801-1858), cuja concepção
da vida comentou mais tarde com desenvolvimento e cujo
conceito de energia específica dos sentidos cedo se reve
lou um poderoso estímulo no seu pensamento. «Qualquer
que seja o meio por que se excite um olho» — escreve
Müller-— «seja ele esfregado, puxado, comprimido, gal
vanizado ou receba estímulos que de outros órgãos lhe
são transmitidos por simpatia, em resultado de todas
estas causas diferentes, como se se tratasse de causas
[ 1 0 ]
idênticas, meramente estimulantes, o nervo óptico é sem-
pre afectado sob a forma de sensação luminosa, conside
rando-se a srproprTõ^mergGTFiãdo na escuridão, quand<5
em repouso.» Também cedo Uexküll acentuou o papel
do «estado interior» como um dos factores decisivos
para a tonalização das coisas do mundo-próprio. Limitou
então o conceito da disposição interior às influências
naturais no equipamento interno e define-o pela designa
ção de «disposição química».
O MUNDO-PRÓPRIO E O HOMEM
A doutrina de Uexküll acerca do mundo-próprio,
característico de cada espécie animal, veio a constituir
uma parte fundamental da biologia moderna mas a exten
são que o autor fez da sua doutrina até ao homem foi,
desde o início, justamente contestada. Como a digressão
aqui publicada conclui com uma aplicação pormenorizada
desta doutrina ao homem, é necessário que nos detenha
mos por um momento neste caso limite.
O que há de fundamental na teoria do mundo-próprio,
de Uexküll, é que, segundo ela, este mundo-próprio tem
para um gato, para um cavalo ou um macaco, a sua forma
específica, não obstante as características comuns de
mamíferos. Do mesmo modo, é também específico o
mundo da gralha, o da galinha-d agua, o do falcão, ape
sar das suas características comuns de aves. Trata-se
de uma particularidade hereditária, tipicamente especí
fica, invariável. Se no mundo do cão ou no do papagaio
que habita connosco o mesmo quarto podem aparecer
coisas do mundo do homem, elas transformam-se em
coisas do papagaio ou do cão, com as suas tonalidades
inteiramente próprias. Mas, para ilustrar o seu conceito
de mundo-próprio, Uexküll também põe em relevo o
mundo diferente em que, separadamente, se move cada
[ 11]
pessoa e mostra, com o exemplo da árvore, como a
mesma coisa toma, consoante o género de vida da pes
soa, tonalidades absolutamente diferentes. Aqui, escapa-
-Ihe, no entanto, um pormenor: que todas essas maneiras
diversas de ver o mundo fazem parte de um mundo
comum à espécie, que é possível uma compreensão des
ses vários mundos-próprios da mesma espécie, que é
possível, enfim, existirem contrastes de interpretação.
Estas esferas de afinidade do mundo do homem, nas
quais se incluem os mundos individuais com as suas
peculiaridades — grandes peculiaridades como Uexküfl
e nós próprios reconhecemos — , esta amplitude da possi
bilidade fundamental de compreensão criam uma situação
particular para o homem. Por muito acentuados que se
considerem os contrastes dos mundos humanos, filhos
da tradição ou das diferenças de factores hereditários, o
certo é que todos se contêm na mesma esfera. Toda a
poesia vive da representação dessas variadas maneiras
de ver o mundo e das suas coincidências. Mas precisa
mente a poesia assenta no princípio da última possibili
dade de compreensão dos outros. A expressão «mundo-
-próprio» afirma e acentua a separação de mundos
específicos dos animais, como esferas particulares e,
exactamente por isso, devemos excluir este conceito na
caracterização dos contrastes de visão do mundo entre
os homens. Todavia, o homem põe à antropologia filosó
fica do nosso tempo um problema particularíssimo, que
se avoluma ainda com a caracterização do nosso compor
tamento como independente do mundo, em oposição à
conduta das espécies animais, estritamente obrigadas ao
mundo-próprio. Rejeitando os excessos do conceito de
mundo-próprio, a biologia e a antropologia modernas
defendem o que há de mais original na obra de Uexküll
contra os seus impulsos temperamentais.
[ 12]
NA SENDA DO ESTUDO DO COMPORTAMENTO
A influência das ideias de Jacob Uexküll alarga-se
ao estudo do comportamento nos nossos dias. A sua
acção, embora velada, é tanto maior, quanto estimula,
de maneira decisiva, o começo de uma nova orientação no
campo da investigação alemã. O que O. Heinroth e
K. Lorenz, o que H. Hediger e Frau Meyer-Holzapfel, entre
outros, lograram descobrir de essencial durante a ter
ceira década do século, pressupõe a fermentação das
ideias de Uexküll, até onde elas se não encontram expressamente mencionadas. Uexküll não é o fundador do
estudo do comportamento, produto colectivo de várias
fontes. Vamos indicar mais uma vez, apenas algumas
destas fontes, para mostrar o maior âmbito de ideias em
que a obra de Uexküll exerceu influência de relevo.
Num trabalho notável, o americano Craig salienta,
em 1918, a importância do estudo das coisas do mundo-
-próprio, estudo que, por sua vez, faz intervir o ciclo-de-
-função do animal. Designa o estado que conduz a deter
minados fins por apetência, paralelamente ao que sucede
no fenómeno elementar da nutrição e reconhece, assim,
a validade de uma generalização que já era corrente na
Antiguidade (em Santo Agostinho, por exemplo). A ape
tência é um tipo de comportamento: corresponde-lhe um
estado interior especial. Lembremo-nos de que também
Uexküll já reconhecera distintamente este aspecto do
fenómeno vital.
Pela mesma época, o ornitólogo inglês E. Howard
(1922) provou que as aves, no período de incubação, rei
vindicam e defendem uma porção de espaço, um territó
rio — observação que então ocasionou uma imensidade
de outras verificações, como, por exemplo, a descoberta
da distância rigorosamente mensurável do voo e da resis
tência, etc., devida a Hediger. A explicação de muitos
destes factos estava confiada, desde os tempos primiti-
[ 13]
vos, aos caçadores familiarizados com a Natureza. A im
portância dò «defeso» para as aves já foi posta em relevo
por B. von Al(tum, na Alemanha, na sexta década do século
passado. Assim, quando Howard é hoje apontado como o
«descobridor» da posse territorial, isso significa que ele
pôs o facto em evidência num momento particularmente
«exacto» e que desempenhou papel preponderante no
reconhecimento da sua importância.
Já em 1912, Julian Huxley observara a descrevera
pormenorizadamente em Inglaterra, pela primeira vez, a
cópula dos mergulhões, que ele depois interpretou com
notável clareza. Abriu-se, assim, à investigação científica
um vasto campo de trabalho. Desde tempos imemoriais
que estes factos se tinham observado repetidas vezes.
Desde os tempos primitivos que o homem observava a
cópula do galo e outros fenómenos semelhantes. Mas a
consideração conscienciosa da sua significação e a clara
ordenação de conceitos que agora se apresentava tiveram
importância decisiva. O. Heinroth actuou no mesmo sen
tido mas a contribuição de Huxley quase não é citada
por ele.
Por volta de 1920, Thorleif Schjelderup-Ebbe começou
a estudar em Greifswald a hierarquia social num pátio de
criação de aves. Mostrou então que um grupo qualquer
de aves de criação se encontra solidamente organizado;
que os vários indivíduos se dispõem numa hierarquia só
deles próprios dependente e que esta hierarquia é muito
complicada e variável, isto é, depende da condição dos
indivíduos. Como consequência desta primeira investi
gação, surgiu grande número de estudos sobre a ordem
de precedência observada no exercício das actividades
vitais dos animais de várias espécies. Muitos biólogos
ficaram tão surpreendidos com a novidade que foram
levados à generalização precipitada que via nessa hierar
quia uma lei geral. Só mais tarde se impôs uma observa
ção dirigida em maior número de sentidos, a qual revelou
[ 14]
a existência de grupos de animais sem tal escala de cate
gorias. Para a investigação biológica, estes trabalhos
significam o início de uma revalorização das formas de
vida animais que era tanto mais importante quanto mais
profundamente a fatuidade da teoria mecanista menos
prezara o animal.
Em 1899, o biólogo dinamarquês Mortensen intro
duziu a marcação individual das aves por meio de anilhas.
Desde então, inúmeras aves isoladas da multidão anó
nima, por meio de anilhas numeradas, transformaram-se
para nós, observadores humanos, em indivíduos e o
número de aves marcadas é hoje tão extraordinário como
o de conhecimentos que devemos a este método. Algu
mas conclusões fundamentais dos nossos investigadores
do comportamento animal assentam exactamente na mar
cação do indivíduo isolado, pelo que a «história natural»
geral e vaga de uma espécie pôde transformar-se na des
crição fiel da vida do animal individualizado. Por isso, a
marcação de animais de todos os grupos, do insecto ao
morcego, se tornou um dos processos técnicos impor
tantes da biologia e fonte de perspectivas inesperadas.
Além destas, outras tendências de valia se podiam
ainda mencionar, se o nosso intento não fora apenas
apontar que, das muitas tentativas, resulta, enfim, uma
nova orientação investigadora. Uma destas fontes abriu
a muitos investigadores o caminho de êxitos futuros e
veio aumentar a possibilidade de aceitar novas concep
ções: foi a doutrina de Uexküll, com os seus ramos fun
damentais na apresentação dos ciclos-de-função e na do
mundo-próprio.
A INVESTIGAÇÃO PROSSEGUE
A importância da obra de Uexküll reside principal
mente na sua luta tenaz em favor da actual posição bio
[151
lógica, que reconhece a particularidade da esfera da vida
e a autonomia relativa do ser vivo. As suas contribuições
foram dominadas pelo método fisiológico e pelo exame
da natureza especial do ser vivo como objecto de investi
gação. O desejo de se limitar aos métodos científicos
levou-o à rejeição total de qualquer afirmação sobre o
aspecto experimental do sujeito e, implicitamente, à
renúncia a qualquer espécie de psicologia animal, que ele
considerava situada para além do «biológico». O seu
caminho para chegar à compreensão do animal era, por
tanto, o estudo da harmonia entre a estrutura e o com
portamento. Não esqueçamos que, exactamente no seu
tempo, era particularmente vivo o clamor erguido a pro
pósito do cavalo sábio e de outros cavalos calculadores
e de cães que raciocinavam. A humanização do animal
encontrava-se então no seu ponto culminante. Esta coin
cidência temporal havia de fortalecer, no pensamento de
Uexküll, todas as tendências contrárias e, na verdade,
o seu temperamento combativo fê-lo, às vezes, parecer
quase mecanista, muito mais singularmente do que seria
de esperar da sua concepção da natureza, que reconhecia
sempre em acção qualquer coisa de supernatural. A mis
são do biólogo parecia-lhe residir na busca de estruturas
que, por exemplo, no sistema nervoso central, determi
navam a génese do mundo-prório e o comportamento do
animal. Tão onge foram os seus escrúpulos perante
"os resultados de carácter experimental que se, na ver
dade, por um lado, classificava a «tonalidade» das coisas
do mundo-próprio como descritível, como parte do mundo
exterior, por outro, nunca deixa de mencionar, cautelosa
mente, a, correspondente «disposição» complementar e,
como já vimos, acentua bem o que nela há de «químico»,
a natureza material do seu condicionamento, não fossem
torná-lo suspeito de impulsos românticos.
A evolução mais significativa, a partir de Uexküll é
o aprofundamento dos estudos da autonomia do ser vivo
[16]
pela verificação mais intensa de todas as provas que apre
sentam o organismo como centro especial de actividade
e simultaneamente de um viver que, embora velada-
mente, é aparentado com o que melhor conhecemos do
nosso próprio ser mais íntimo. É principalmente pelo
estudo desta «intimidade», desta maneira de ser peculiar
do ser vivo e do animal em especial que aquilo que é
observável de fora recebe a sua mais ampla interpreta
ção. Tomar, de vez, o sujeito para objecto da investigação
biológica, eis o passo para o desconhecido que a obra de
Uexküll principalmente preparou.
O estudo da presença desta subjectividade é_a_carac-
terístÍcã~dõ~trãbalho biológico dos nossos dias. Mas tão
peculiares como isso são as consequências metodológi
cas desta atitude. Em vez de introduzirmos no jogo de
factores do fenómeno vital um agente misterioso, que
interviesse emtoda a parte como factor explicativo, nós
vemos nesta subjectividade uma das incógnitas que o
naturalista procura abordar, objectivamente, pelo estudo
das manifestações. Pela observação rigorosa de todas as
manifestações do animal, de todas as suas respostas,
nós avançamos cautelosamente para resultados que des
crevem a descoberta e ocupação de espaço ou compreen
dem a relação com o ritmo do dia e da noite e com o
das estações do ano, exactamente como também des
cobrimos nas hierarquias da vida social a subjectividade
de um sujeito em acção. A grande lista de «manifesta
ções» que nos dão testemunho da subjectividade é uma
das mais significativas realizações da biologia contem
porânea.
O estudo do comportamento já hoje não se desvia
dos problemas que o duplo aspecto do ser vivo nos apre
senta: aborda-os por vários caminhos e cautelosamente.
Aprendemos a distinguir, no estabelecimento de correla
ções, o que é inato, hereditário, do que tem de ser
aprendido e transformado em hábito. Aprendemos a dis
2 - A . HOMENS [17]
cernir as estruturas transmitidas, relativamente rígidas,
das outras, mais flexíveis^ Sabemos como estímulos
iguais podem actuar de maneira tão diversa-s- reconhe
cemos assirrTã variacãa..dQS_estados interiores. Por sua
vez, nestes estados, nestas «disposições», entramos em
contacto com um último elemento, para além do qual a
investigação não passa, por enquanto. Assim, numa época
em que a própria filosofia descobriu — ou melhor, redes-
cobriu o papel fecundo da adaptabilidade perfeita (Befin-
d iichke it) os que se dedicavam ao estudo do comporta*
mento chegaram, por caminhos absolutamente diferentes,
a este princípio fundamental da conduta e, desse modo,
a uma manifestação objectiva da maneira de ser, des
conhecida para nós, como experiência, da subjectividade
dos animais. O estudo dos estados interiores e do com
portamento eliminou um grave inconveniente: superou a
distinção entre corpo e alma como substâncias distintas
qüè, ~ jüritas, constituem o ser vivo — separação que
rãcfica em tradições antiquíssimas da nossa vida repre
sentativa, da nossa imaginação. A biologia contemporâ
nea não estuda separadamente.-o. .aspectõTcofpõfèo ou
somático, por um lado, e o espiritual ou psíquico, por
outro. Pelo estüdo~cfõ’ cõmportamento, nós procuramos
■fioje surpreender, na sua pureza, a realidade desconhe
cida e, antes de qualquer divisão mais ou menos estabe
lecida, conhecê-la na sua actividade, como a unidade que
originalmente nos é dada. Do mesmo modo, a nova ciên
cia do homem — a antropologia — também já começa a
dirigir-se para o comportamento do homem, para a par
ticularidade dos seus modos de relação e não reconhece,
neste campo, discutíveis esquematizações de «compo
nentes» do género corpo-alma-espírito ou «bios» e
«logos», como partes do ser vivo.
Esta orientação tem uma longa história que se não
pode expor aqui. Ela ultrapassa também a posição atin
gida pela obra de Uexküll que preparou este passo em
[ 18]
frente ao considerar com clareza inexcedível e graças a
um trabalho insano, não só a actividade do centro vital
como a de um_suje[to criador de mundos mas também o
entrelaçamento intrínseco do ser vivo com partes do seu
ambiente.
O PROBLEMA DA ORGANIZAÇÃO
SEGUNDO UM PLANO
Ainda noutro sentido o estudo da vida, no nosso
tempo, está prestes a transpor a posição em que o pen
samento de Uexküll se deteve há cerca de vinte anos.
Trata-se da superação do conceito de «planeamento» do
ser vivo.
Uexküll mostrou incansavelmente, em repetidos
exemplos, que o plano de construção de .um„Pxq3ílÍsmQ
não está situadorFõra deíêTcomo o de uma máquina. A sua
obra d^crêvê7cõm~grande minúcia, como os organismos
se constroem por si próprios, como os estádios de desen
volvimento se sucedem, ordenados como numa melodia
e como o plano de amadurecimento da forma funcio
nal é um processo de autoconstrução e auto-requlação.
Mas o «planeamento», operante, por si mesmo, no orga
nismo, acabou por se tomar,~nãsua exposição, um factor
particular, uma forma de actividade do género superme-
cânico e inespacial. Outra não era a posição do vitalismo/
que, na verdade, tinha superado a estreiteza do meca
nismo mas que, ao fazê-lo, tinha também ultrapassado,
na sua ânsia de esclarecimento completo, os limites da
possibilidade científica.
A panaceia de Driesch era o princípio orgânico indi
vidual da enteléquia; a solução de Uexkiill era a -ru-gani-
zação segundo um plano que, à luz..da._.a.QSÍcãQ_.„tomada
pelo autor, passava a ser factor explicativo, uma das
qualidades Têconhecidas no ser vivo.
[ 19]
A biologia admite hoje esta dificuldade. Como
W. Szilasi afirma radicalmente numa importante exposi
ção, o «plano» do comportamento animal formula, nem
sempre com felicidade, esta questão: «Como é que, por
exemplo, a abelha é exactamente uma abelha ou como é
que o animal é, em suma, um animal» (C iência e Filoso
fia, Zurique/Nova Iorque, 1945, pág. 72). Na afirmação de
que determinada coisa é susceptível de plano, é «planeá-
vel», atribui-se a essa «alguma coisa» uma qualidade, um
predicado, o que sugere a ideia de que, com isso, alguma
coisa é esclarecida ou explicada. Na realidade, a expres
são aponta o grande e obscuro enigma, exactamente
aquilo que escapa à compreensão: o mesmo enigma que
nós também designamos, sim, mas não explicamos, com
a palavra «vida».
Vemos hoje mais claramente que não podemos ocul
tar o mistério que envolve o problema do ser vivo com
uma palavra que finge de predicado. Sentimos, de novo,
o que há de obscuro na realidade, em todo o seu poder
misterioso e procuramos descobrir, pela investigação
cautelosa das propriedades reconhecíveis, o que é inves-
tigável.
Assim, fala-se hoje menos de totalidade e de organi
zação segundo um plano do que habitualmente se falava
há vinte anos e por isso vamos pondo, a pouco e pouco,
a descoberto o conjunto de factores, por meio de cuja
acção uma coisa se nos apresenta como um todo ou pro
curamos determinar a espécie de estrutura que sugeriu
a existência de um plano. É uma ciência do ser vivo na
sua evolução, ciência que não é uma mecânica, nem uma
pneumática, para empregar uma expressão de E. Heuss
(1939). A nova noção de realidade explica também a ati
tude perante o problema da organização segundo um
plano.
O próprio Uexküll diz algures: «O Sol que propor
ciona a dança de uma nuvem de mosquitos não_é_o nosso
[ 2 0 ]
sol mas um sol dos mosauitos que só existe graças aos
olhos destes.» Nada porém, podemos dizer do sol dos
mosquitos sem ter verifjcado^o plano de organização do
mundo-próprio dos mosquitos (Teor. Biológ., pág. 233).
E aqui se nos apresenta, com clareza, a organização
segundo um plano como aquilo que é para nós: um enigma
que se entrevê de uma para outra espécie animal e que,
de cada vez, importa resolver.
O próprio Uexküll acentuou mais de uma vez ser a
pesquisa deste plano a missão da biologia: «Todos os
planos se enquadram num plano de organização extraor
dinariamente vasto que, até agora, tem sido negado obsti
nadamente. Por muito cómodo que isso fosse, já hoje,
porém, não é admissível.» Com estas palavras termina a
Biologia Teórica, de Jacob Uexküll. Elas apontam muito
para além do horizonte que limita o campo de trabalho
biológico e atestam a atitude do investigador que durante
toda a sua vida pesquisou os modos de ordenação do
mundo orgânico e cujo labor arreigou cada vez mais a
sua convicção acerca das ordenações cósmicas. Os tra
balhos reunidos neste volume também aludem, repetidas
vezes, à concepção da Natureza que Uexküll representou.
Essa concepção não se limita a ver nos fenómenos da
natureza só os aspectos pesquisados mas também venera
o segredo que se fecha em cada ser vivo à nossa volta.
[ 21]
DIGRESSÕESPELOS MUNDOS-
-PRÓPRIOS DO HOMEM
E DOS ANIM AIS
Por J. v. Uexküll e Georg Kríszat
PR EFÁCIO
O presente livrinho não tem a pretensão de servir
de guia de uma ciência nova. Limita-se, antes, a incluir
o que podia chamar-se a descrição de um passeio por
mundos desconhecidos. Estes mundos não são apenas
desconhecidos, são também invisíveis: mais do que isso:
o seu direito de existir é-lhes, em geral, contestado por
muitos fisiólogos e zoólogos.
Esta bem curiosa atitude é, para quem conheça esses
mundos, perfeitamente compreensível, pois que o cami
nho que a eles conduz não é transitável para quem sofra
de certos preconceitos capazes de obstruírem a porta
que lhes dá acesso, tão impenetravelmente que nem um
raio da luz esplendorosa que os inunda a pode atra
vessar.
Quem se agarrar ao preconceito de que todos os
seres vivos são apenas máquinas, perde toda a esperança
[ 23]
Manuela
Realce
Manuela
Realce
de vir jamais a lobrigar os seus mundos-próprios (’)■ Mas
quem ainda não se ajuramentou na doutrina mecanista
dos seres vivos, pode prosseguir nas suas especula
ções. Todos os nossos dispositivos^e todos os nossos
maquinismos não passam de meios auxiliares das acti
vidades do hfltnem. E, efectivamente, há certos meios
auxiliares de trabalho — os chamados instrum entos de
trabalho — em que se incluem todos os complicados
maquinismos que servem, nas nossas fábricas, para a
laboração de matérias-primas, e ainda caminhos-de-ferro,
automóveis, aviões... Mas há também meios auxiliares
de controlo, a que podemos chamar instrumentos-indica-
dores, como telescópios, óculos, microfones, aparelhos
de rádio, etc.
De sorte que é, então, óbvio admitir que um animal
não é mais do que um conjunto de instrumentos-de-traba-
Iho e de instrumentos-indicadores que, pela intervenção
de um dispositivo coordenador, constituem um todo, que,
na realidade, não deixará de ser um maquinismo, ainda
que adequado ao desempenho da função. É esta, de facto,
a maneira de ver de todos os mecanistas teóricos, quer,
até certo ponto, se inclinem mais no sentido de pensar
num mecanismo rígido, quer no de um dinamismo plás
tico. Os animais ficam, pois, taxados de meros objectos.
Com o que se esquece que, desde logo, se pôs de parte
o que é essencial, istò é, o suje ito, o qual se utiliza do
instrumento auxiliar, com ele assinala e com ele actua.
A partir da concepção inadmissível de um instru-
('} O termo Umwelt corresponde em português a ambiente,
mundo ambiente ou, com menos propriedade, meio ambiente. No
sentido, porém, em que o autor o emprega, ele significa qualquer
coisa que depende do ser vivo considerado, e resulta de uma como
que selecção por este realizada, dentre todos os elementos do
ambientè, em virtude da sua própria estrutura específica — o seu
mundo-próprio.
[ 24]
mento simultaneamente de assinalamento e de acção,
não se limitaram aqueles a fazer passar os órgãos dos
sentidos e os órgãos de movimento por peças de uma
máquina (sem atenderem ao seu assinalar e actuar) mas
foram mais longe, mecanizaram o homem, reduziram o
homem a uma máquina. Segundo os beaviouristas, as
nossas sensações e a nossa vontade são meras aparên
cias, no melhor dos casos vêm a valer como acidentes
incómodos.
Quem, porém, ainda considera que os nossos órgãos
dos sentidos servem para o nosso assinalar e os nossos
órgãos de movimento servem para o nosso actuar, verá
nos animais, não apenas um sistema mecânico, mas dis
cernirá também o maquinista que se aloja nos órgãos,
como nós próprios no nosso corpo.
Então considerará os animais, não já como meros
objectos, mas como sujeitos, cuja actividade essencial
consiste em assinalar e actuar.
Com o fazê-lo abre-se já a porta que conduz aos mun
dos-próprios animais, porque tudo aquilo que um sujeito
assinala passa a ser o seu mundo-de-percepção, e o que
ele realiza, o seu mundo-de-acção. Mundo-de-percepção e
mundo-de-acção constituem uma unidade íntegra — o
mundo-próprio do sujeito,
Os mundos-próprios, que são tantos quantos os pró
prios animais, oferecem a qualquer admirador da Natu
reza novas terras, tão ricas e tão belas que compensam
bem uma excursão através delas, mesmo quando elas se
não patenteiem aos nossos olhos materiais mas somente
à nossa visão espiritual.
As melhores condições para iniciar tal digressão são
um dia de Verão e um prado coberto de flores, ressoante
de zumbidos de coleópteros e pululante de adejares de
borboletas; então construiremos para cada animal dos
que povoam o prado, uma como que bola de sabão, que
[25]
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represente o seu mundo-próprio, preenchida por todos
aqueles sinais^ característicos que são acessíveis ao
sujeito. Logo qi^e entremos numa dessas bolas de sabão
transfigura-se completamente o mundo ambiente (') que
se abria em volta do sujeito. Muitas qualidades do varie
gado prado desaparecem inteiramente, outras perdem as
suas propriedades gerais; surgem novas correlações. Em
cada bola de sabão passa a existir um mundo novo.
Para atravessar connosco esses mundos convidamos
o leitor a acompanhar a descrição que se segue. Os auto
res, ao prepararem este livro, distribuíram as suas tare
fas; de modo que um (Uexküll) encarregou-se do texto, e
o outro (Kriszat), do material das gravuras.
Esperamos dar, com esta descrição de viagem, um
decisivo passo em frente, e assim convencer muitos leito
res de que existem, com efeito, mundos-próprios, e que
com isso se abre um novo e inesgotável campo de investi
gações. Simultaneamente, este livro testemunhará o espí
rito de investigação colectiva dos activos colaboradores
do Instituto para o Estudo do Mundo-Próprio, em Ham
burgo (2).
Agradecemos em particular aoJD r_ K. Lorenz, que
enviando-nos as gravuras que ilustram as suas fecundas
experiências sobre gralhas e estorninhos favoreceu o
nosso trabalho. O Prof. Eggers cedeu-nos amavelmente
um relato pormenorizado dos seus estudos sobre borbo-
(’) Umgebung, em alemão, na acepção de tudo que em volta
do sujeito se desenrola, independentemente de o impressionar ou
o estimular, ou não.
H Comp. Friedrich Brock: Verzeichnis der Schriften J. v.
Uexküll und der aus dem Ins titu t fu r Umweltíorschung zu Hamburg
hervorgegangenen Arbeiten. Sudhoffs Archiv fur Gesch. d. Medizin
und d. Naturwiss. Bd, 27, H. 3-4, 1934. J. A. Barth, Leipzig. (Nota da
ed. alemã.)
[26]
letas nocturnas. O conhecido aguarelista Franz Hutk esbo
çou para nosso uso os desenhos do quarto e do carvalho.
A todos deixamos aqui expressos os nossos cordiais agra
decimentos.
Hamburgo, Dezembro, 1933.
J. v. Uexküll
[27]
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IN T R O D U Ç Ã O
Não há, certamente, camponês que tendo batido com
o seu cão matos e bosques não tenha travado conheci
mento com um animalzinho que, suspenso dos ramos dos
arbustos, espia a sua vítima, homem ou bicho, para sobre
Fig. 1 — Carraça
ela se precipitar e se saciar com o seu sangue, inchando,
das dimensões de, o máximo, dois milímetros, até ao
volume de uma ervilha (fig. I).
A carraça, ou carrapato, nomes por que se designa
[ 29]
Manuela
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esse animal,^ não é realmente perigosa, mas nem por isso
deixa de ser um hóspede incómodo dos mamíferos, e
mesmo do homem. O seu ciclo biológico foi de tal modo
esclarecido po^ r trabalhos recentes que dele podemos
traçar um relato exacto.
Do ovo sai um pequeno ser ainda não completamente
desenvolvido, a que faltam um par de patas e os órgãos
da reprodução. Nesta fase já pode atacar animais de tem
peratura variável, como, por exemplo, lagartos,que espera
emboscado na extremidade da haste de uma erva. Depois
de sofrer algumas mudas, os órgãos que lhe faltavam
acabam por se desenvolver, passando então a caçar ani
mais de temperatura constante. Já fecundada, a fêmea
sobe, com as suas já então oito patas, até à parte supe
rior de um arbusto que lhe agrade, para, de altura conve
niente, se deixar cair sobre pequenos mamíferos furtivos
que passem ao seu alcance, ou arrastar por animais de
maior porte.
O caminho para a sua torre de vigia descobre-o o ani-
malzinho, que é desprovido de olhos, valendo-se do seu
tegumento, sensível à luz. A aproximação da vítima é
revelada ao salteador, que além de cego é também surdo,
pelo seu sentido do olfacto. As emanações de ácido
butírico que provêm das glândulas da pele dos mamífe
ros servem para a carraça de sinal de advertência para
abandonar o seu posto de vigia e lançar-se sobre a presa.
Se vem a cair sobre qualquer animal de temperatura cons
tante, que um apurado sentido térmico lhe denunciou —
então atingiu a sua vítima, e só falta agora, ainda com o
auxílio do seu sentido do tacto, encontrar uma zona tanto
quanto possível livre de pêlos, para se introduzir, até para
trás da cabeça, nos tecidos cutâneos daquela; e põe-se
a sugar lentamente o sangue quente que jorra.
Experiências feitas com membranas artificiais e com
outros líquidos que não sangue mostraram que a carraça
é desprovida de sentido do gosto, pois que depois de
[30]
perfurar a membrana absorve qualquer líquido, contanto
que este esteja a temperatura conveniente.
Se a carraça cai sobre qualquer coisa fria, depois
de o sinal de ácido butírico ter funcionado, então errou
de hospedeiro, e tem de voltar a trepar para o seu posto
de espia.
. O lauto festim de sangue que a carraça goza é, simul
taneamente, o seu último repasto, pois que agora nada
lhe resta senão deixar-se tombar no chão, fazer a postura
e morrer.
Os breves acidentes da vida da carraça dão-nos uma
adequada pedra-de-toque da solidez do ponto de vista bio
lógico, comparado com o método fisiológico, como até
aqui se tem aplicado. Para o fisiólógo, cada ser vivo é
um objecto que se situa no seu mundo-próprio do
homem. Examina-lhe os órgãos e o seu funcionamento
total, como um técnico examinaria uma máquina que seja
nova para ele. O biólogo, ao contrário, toma em conta
que cada ser vivo é um sujeito, que vive num mundo
que lhe é particular, de que ele constitui o centro; e, por
isso, pode comparar-se, não a uma máquina, mas apenas
ao maquinista que maneja a máquina.
Resumindo, a questão pode pôr-se assim: a carraça
é uma máquina ou um maquinista? É um mero objecto ou
um sujeito?
A fisiologia interpretará a carraça em termos de uma
máquina e dirá: na carraça podem-se distinguir recepto
res, isto é, órgãos dos sentidos, e efectores, isto é, e
órgãos de acção, que, por meio de dispositivo coorde
nador no sistema nervoso central, estão mutuamente rela
cionados. O conjunto é uma máquina de que se não dis
cerne o maquinista.
«É exactamente nisso que está o erro», objectará o
biólogo. «Nenhuma das partes do corpo da carraça tem
as características de umãlriáquina, ém to'da efa o~que~
actua são maquinistas.p
[ 31]
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O fisiólogo continuará inabalável: «Na carraça,
precisamente, verifica-se que todas as actividades assen
tam exclusivamente em reflexos (1), e o arco-reflexo cons
titui a base de cada máquina animal (fig. 2). Este começa
por um receptor, isto é, um dispositivo que só admite
certas influências exteriores, como ácido butírico e calor,
mas rejeita tudo mais. E termina num músculo que põe
> — 0 - 0 - >f t £2. ttZ t
Fig. 2 — Arco-reflexo
em actividade um efector, o dispositivo locomotor, ou o
dispositivo perfurador.
As células sensoriais, que libertam a excitação dos
sentidos, e as células motoras, que libertam o impulso
de movimento, funcionam apenas como peças conecto-
ras que conduzem as ondas excitadoras, absolutamente
materiais, que são originadas nos nervos, sob a acção do
choque exterior. Todo o arco-reflexo trabalha com trans
missão de movimento, como qualquer máquina. Nenhum
factor subjectivo, como seja, um ou mais maquinistas,
intervém no fenómeno, seja como for.»
«O que se passa é exactamente o contrário», repli-
(') Reflexo, originalmente, significa a captação e reenvio de
um raio de luz, por um espelho. Aplicado aos seres vivos, o termo
reflexo significa a captação de um estímulo exterior por um recep
tor e a resposta provocada pelo estímulo do efector do ser vivo.
No fenómeno o estímulo transforma-se em excitação nervosa, que
tem de passar por várias estações para ir do receptor ao efector.
O caminho assim seguido designa-se por arco-reflexo. (Nota da ed.
alemã.)
[32]
cará o biólogo. «Do que se trata, principalmente, é de
maquinistas e não de partes de máquinas. Porque todas
e cada uma das células do arco-reflexo funcionam não
com transmissão de movimento, mas com transporte de
estímulo. Um estímulo, porém, deve ser notado por um
sujeito e essencialmente não provém de um objecto.»
Qualquer parte de uma máquina, um badalo de um
sino, por exemplo, trabalha apenas maquinalmente quando
de determinada maneira é posto a oscilar. Quaisquer
outras intervenções despertam nele respostas como o
fariam em qualquer mero pedaço de metal. Ora, desde
John Müller O , nós sabemos que um músculo se com
porta de uma forma completamente diferente. A qualquer
intervenção exterior ele responde sempre da mesma
maneira: por uma contracção. Toda a intervenção exterior
é por ele transformada no mesmo estímulo; a todas res
ponde com o mesmo impulso que obriga o corpo da célula
à contracção.
John Müller demonstrou ainda que todas as acções
exteriores que incidem nos nossos nervos visuais, sejam
elas ondas do éter, compressões ou correntes eléctricas,
produzem uma sensação visual, isto é, as nossas células
sensoriais visuais respondem com o mesmo sinal-per-
ceptivo.
Disto devemos concluir que cada célula viva é um
maquinista, que assinala e actua, e por isso possui «assi
nalamento» ou percepção e «activação^» ou impulso. As
múltiplas marcas e acções do sujeito-animal total são,
por consequência, atribuíveis ao trabalho de conjunto de
pequenos maquinistas celulares, cada um dos quais
somente decide sobre um sinal-perceptivo ou um sinal-
-de-impulso.
Para que seja possível uma cooperação ordenada, o
(') Fundador da moderna fisiologia (1801-1858). (Nota da ed.
alemã.)
3 - A. IIOMENS [ 33]
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organismo se^ve-se das células do cérebro (que são tam
bém maquinistas elementares), e agrupa metade delas
como «células assinaladoras» ou células-de-percepção na
parte do cére&ro receptora de estímulos, isto é, no
«órgão-assinalador, ou de-percepção», em faixas mais ou
menos extensas. Estas faixas correspondem a grupos de
estímulos exteriores que entram como perguntas no
sujeito-animal. A outra metade das células do cérebro
utiliza-as o organismo como «células activadoras» ou
células-de-impulso, e agrupa-as em faixas com que
comanda os movimentos dos efectores, que comunicam
ao mundo exterior as respostas do sujeito-animal.
As faixas das células-de-percepção constituem o
«órgão-de-percepção» do cérebro, e as faixas das células-
-de-impulso, o «órgão-de-impulso».
Se, pois, nos permitimos imaginar um órgão-de-per
cepção como um centro de faixas de percepção alternadas
e maquinistas celulares que são os portadores de percep
ções específicas, no entanto elas conservam-se entida
des espacialmente distintas. Os seus sinais-perceptivos
permaneceriam também distintos, se não tivessem a pos
sibilidade de se fundirem em novas unidades, forado
órgão-de-percepção, espacialmente fixado. Ora tal possi
bilidade existe efectivamente. Os sinais-perceptivos de
um grupo de células-de-percepção reúnem-se fora do
órgão-de-percepção, na realidade fora do corpo de animal,
em unidades que passam a ser atributos dos objectos
situados fora do sujeito-animal. Este facto é bem conhe
cido de todos. Todas asjiossas sensações humanas, que
figuram os nossos assinalamentos, ou percepções, espe.-
cíficos, convergem nos atributos dos objectos exteriores,
que nos servem como sinais-característicos que utiliza
mos. A sensação «azul» passa a ser a «cor azul» do céu;
a sensação «verde» passa a ser a «cor verde» da relva,
etc. No sinal-característico, ou carácter, azul, reconhece
mos o céu, no carácter verde reconhecemos a relva.
[34]
Outro tanto, exactamente, se passa no órgão-de-
-impulso. Nele as células-de-impulso desempenham o
papel de maquinistas elementares, que, neste caso, con
soante as suas actividades, ou impulsos, se ordenam em
grupos bem articulados. Também aqui existe a possibili
dade de os impulsos individualizados se concentrarem em
unidades que actuam sobre os músculos, a elas subordi
nados, como impulsos encadeados ou melodias de impul
sos, ritmicamente articulados. Depois do que os efectores
postos em acção pelos músculos imprimem aos objectos
situados fora do sujeito a sua realidade.
A _marca-de-acção que os efectores imprimem ao
objecto é directamente reconhecível — como a ferida que
o ferrão da carraça produz na pele do mamífero por ela
atacado. Mas, primeiro, a difícil descoberta dos sinais
característicos do ácido butírico e do calor completou o
quadro da carraça laboriosa no seu mundo-próprio.
Em sentido figiiradfl.,.p_ode. dizer-aeque cada sujeito-
-animal apreende o seu obieclQ-com-as_duas hastes de
urna_tenaz — uma haste de perceber out ra de impulsio
nar. Com uma confere-lhe, um atributo, com a_ontra. uma
marca-de-acção. Por este meio certas propriedades do
objecto passam a ser portadoras de sinal-caracterís
tico, certas outras, de marca-de-acção. Como todas as
propriedades de um objecto estão ligadas umas às outras
pela estrutura deste, as atingidas pelo sinal-de-impulso
devem exercer no objecto a sua influência sóbre as por
tadoras de sinal-característico e também actuar sobre
estas modificando-as, o que resumidamente melhor se
exprime dizendo: a marca-de-acção cancela o sinal-carac-
terístico.
O número e a ordenação das células-de-percepção
que por meio dos seus sinais-perceptivos assinalam os
objectos do seu mundo-próprio com sinais-característicos
e o número e ordenação das células-de-impulso que por
meio dos seus sinais-de-impulso dão aos mesmos objec-
[ 35]
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tos marcas-de-acção são, principalmente, e a par da
selecção de estímulos que os receptores realizam e da
ordenação dos músculos que permite aos efectores mani
festarem-se, decisivos no desenrolar de cada forma de
comportamento de todos os sujeitos animais.
O objecto, somente no que respeita ao comporta
mento, é como se devesse possuir as propriedades neces
sárias, que por um lado pudessem servir como portado
ras de sinais-característicos, e por outro de portadoras
Mundo de Percepção
órgão de Percepfio
Órgão de impulso
Receptor
Portador de sinal característico
Portador de marca de acção
Efector
Mundo de acção
Fig. 3 — Ciclo-de-Função
de marcas-de-acção que devessem estar em associação
por ajustamento mútuo.
As relações de sujeito com objecto jsstão ilustradas
no ésquemã~gõ~ciclo-de-funcão ffiq. 3). Ele mostra corrio
sujeito e objecto se ajustam reciprocamente e constituem
um todo que obedece a um plano. Se, além disso, se supõe
que um sujeito se liga a um ou vários objectos por vários
ciclos-de-função, fica-se, então, fazendo uma ideia do
conceito fundamental da doutrina do mundo-próprio, a
saber: todos os sujeitos animais, os mais simples como
os mais complexos, estão ajustados com a mesma per
[36]
feição aos seus mundos-próprios. Aos primeiros corres
pondem mundos-próprios simples, aos segundos, mundos-
-próprios complexos.
E agora situemos no esquema do ciclo-de-função a
carraça como sujeito e o mamífero como objecto. Verifi
ca-se imediatamente que decorrem segundo um plano
três ciclos-de-função, e uns a seguir aos outros. As glân
dulas cutâneas do mamífero constituem o portador de
sinal característico do primeiro ciclo, pois o estímulo
ácido butírico liberta no órgão-de-percepção sinais-per-
ceptivos, específicos, que são transportados para a peri
feria como carácter olfactivo. Os fenómenos que se pas
sam no órgão-da-percepção provocam por indução (em
que tal consiste, ignoramo-lo) no órgão-de-impulso impul
sos correspondentes, que produzem o movimento dos
membros locomotores e a queda do animal. A carraça
ao cair confere aos pêlos do mamífero a marca-de-acção
do choque, que então, por seu turno, liberta um carácter
táctil pelo que o carácter olfactivo do ácido butírico é
cancelado. O novo carácter provoca um movimento de
vaguear, até que na primeira zona sem pêlos é remido
pelo carácter calor, e aí começa o trabalho de perfu
ração.
Sem dúvida trata-se aqui de três reflexos que se vão
anulando sucessivamente e são sempre desencadeados
por acções físico-químicas objectivamente determináveis.
Mas quem se contente com esta verificação e julgue ter
com ela resolvido a questão, mostra apenas que não
alcançou o verdadeiro problema. Não é o estímulo quí
mico do ácido butírico que se debate, nem tão-pouco o
estímulo mecânico (desencadeado pelos pêlos), nem
ainda o estímulo térmico da pele, mas apenas o facto
de saber £orquê, entre as centenas de. acções que resul-
tam_das propriedades do corpo do mamífero, só três se
tornam portadoras de sinais característicos relativamente
à carraça, e porquê essas três e não outras.
[37]
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Não se trata de qualquer reciprocidade de forças
entre dois objectos, mas sim das correlações entre um
sujeito vivo e o\seu objecto, e estas manifestam-se num
plano inteiramente diferente, a saber entre as percep
ções do sujeito e o estímulo do objecto.
A carraça está suspensa, imóvel, da extremidade de
um ramo numa clareira. Pela sua situação oferece-se-lhe
a oportunidade de cair sobre um mamífero que por ali
passe. De todo o ambiente não incide sobre ela nenhum
estímulo. Então, aproxima-se um mamífero, de cujo san
gue ela necessita para o desenvolvimento da sua prole.
E agora qualquer coisa de bem maravilhoso se passa:
de todas as acções provenientes do corpo do mamífero
só três passam a constituir estímulos e, essas, em
sequência bem determinada. Do vasto mundo que rodeia
a carraça fulguram três estímulos, como sinais luminosos
dentre as trevas, e servem à carraça de guias, que ela
confiadamente segue até atingir o seu objectivo. Para
tal ser possível as carraças são dotadas, além do seu
corpo com os seus receptores e efectores, de três sinais-
-perceptivos que pode utilizar como três sinais caracte
rísticos. E é por meio destes que à carraça o fluir do seu
comportamento é tão determinadamente prescrito que
ela só pode realizar actos perfeitamente determinados.
Todo o opulento mundo ambiente que rodeia a car
raça se contrai e se transforma num quadrõ~me"squinh5
que essencialmente consiste ainda em três sinais carac-
teríitlcõs~êlrês marcas-dF-ãQção^rã-seu-muncio-própxJo.
A indigência desse mundo-próprio ajusta-se, porém,
estreitamente à segurança do comportamento, e segu
rança vale mais que riqueza. Do exemplo da carraça pode
deduzir-se o que é fundamental na estrutura dos mundos-
-próprios dos diferentes seres,e é válido para todos os
animais. Mas a carraça possui uma faculdade muito notá
[ 38]
vel, que nos desvenda uma perspectiva muito mais vasta
dos mundos-próprios.
É imediatamente evidente que a inesperada fortuna
da passagem de um mamífero por sob o ramo sobre que
a carraça se encontra é muito rara. Este inconveniente
nem pelo grande número de carraças que se emboscam
nos arbustos é suficientemente compensado para asse
gurar a subsistência da espécie. A faculdade de a carraça
poder viver muito tempo sem se alimentar, aumenta as
probabilidades de vir a passar uma presa ao seu alcance.
Essa faculdade possui-a a carraça em grau invulgarmente
elevado. No Instituto Zoológico de Rostock conserva
ram-se vivas carraças que chegaram a jejuar durante
dezoito anos (1). Isso a nós, homens, ser-nos-ia impossí
vel. O tempo no nosso mundo-humano é constituído por
uma série de momèntos curtrssmTõí^^injrante os quais
o mundo não manifesta qualquer mudança._ Durgiile- um
momentãà iaundo xions.erva;se.invarlável. O momento do
(') A carraça está, sob todos os pontos de vista, organizada
para resistir a um longo período de jejum. As células seminais que
a fêmea recebeu e conserva dentro de si durante o período de
espera estão contidas dentro de cápsulas, até o sangue do mamí
fero chegar ao estômago da carraça. Quando isso se dá elas são
postas em liberdade e fecundam os óvulos que esperavam nos
ovários. Em contraste com a adaptação perfeita da carraça ao seu
objecto-presa, que ela acaba por encontrar, está a fraquíssima pro
babilidade de que tal suceda, mesmo apesar do longo tempo de
espera possível. Bodenheimer tem perfeitamente razão quando fala
de um péssimo, isto é, de um mundo reconhecidamente desfavo
rável em que vive a maioria dos anit|hais. Somente, este mundo não
é o mundo-próprio de cada um delés, mas o mundo ambiente de
todos. Mundo-próprio óptimo, isto é, reconhecidamente favorável, e
mundo ambiente péssimo, pode considerar-se a regra geral. Porque
sucede sempre deverem tombar muitos indivíduos para que a espé
cie subsista. Se o mundo ambiente não fosse, para certa espécie,
péssimo, então esta, devido ao seu mundo-próprio, óptimo, podia
conquistar a supromacla sobro todas as outras. (Noto do autor.)
[ 39]
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Manuela
Realce
Manuela
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homem é de 1/18 segundos Q . Veremos adiante que a
duração do momento varia com os diferentes animais,
mas seja qual for o valor que queiramos estabelecer para
o caso da carraça, a possibilidade de suportar um mundo-
-próprio invariável durante dezoito anos está fora do
alcance de todas as probabilidades. Admitiremos, pois,
que a carraça durante o seu período de espera se encon
tra como que num estado de letargia, que também em
nós interrompe o tempo por horas. Somente, o tempo no
mundo-próprio da carraça pára, durante o seu período de
espera, não por horas apenas, mas por vários anos, e ela
volta à actividade quando o sinal de aviso «ácido butírico»
a desperta para a nova fase de actividade.
Que ganhámos com esta noção? Alguma coisa muito
significativa. O tempo, que serve de moldura a todo o
acontecer, apresenta-se como a única constante objectiva
perante a variada mudança do seu conteúdo, e agora
vemos que o sujeito controla o tempo do seu mundo-pró-
prio. Ao passo que até agora dizíamos: sem tempo não
pode existir nenhum sujeito vivente, devemos agora
dizer: sem um sujeito vivente não pode existir qualquer
tempo.
No próximo capítulo veremos que outro tanto sucede
com o espaço: sem um sujeito vivente não pode existir
nem qualquer espaço nem qualquer tempo. Com isto
encontrou a biologia unidade definitiva na doutrina de
{') Demonstra-o o cinema. Na passagem de um filme, os qua
dros devem suCeder-se e deter-se alternadamente. Para que apare
çam com perfeita nitidez, as exposições instantâneas e distintas
devem ser ocultadas por um anteparo. A ocultação produzida, ver
dadeiramente passa despercebida, se entre a ocultação e a exposi
ção medear um intervalo de tempo de 1/18 segundos. Se esse
tempo fosse mais longo resultaria uma tremulação insuportável.
(Nota do autor.)
[40]
Kant, unidade que ela aproveitará no aspecto científico-
-natural da doutrina dos mundos-próprios, ao acentuar-se
o papel decisivo do sujeito.
1. OS ESPAÇOS DOS MUNDOS-PRÓPRIOS
Assim como um gastrónomo, do bolo só escolhe as
passas, assim também a carraça, das coisas do seu
ambiente só seleccionou o ácido butírico. Não nos inte
ressa saber que sensação gustativa as passas desper
tam no gastrónomo, mas apenas o facto de as passas se
tornarem sinais-característicos do seu mundo-próprio,
pois que, para ele, são dotadas de significado biológico
especial; assim, também, não perguntamos como o ácido
butírico cheira ou sabe à carraça, mas registamos apenas
o facto de o ácido butírico ter passado a ser biologica
mente significante como sinal-característico carraça.
Contentamo-nos com o admitir que no órgão-de-per-
cepção da carraça devem existir células de percepção
que manifestam os seus sinais-perceptivos, como o admi
timos igualmente relativamente ao órgão assinalador do
gastrónomo. A única diferença é que a percepção do
ácido butírico passa a ser um sinal característico do seu
mundo-próprio, ao passo que é a percepção das passas
o que, no gastrónomo, passa a ser um sinal característico
do seu.
O mundo-próprio do animal, que exactamente preten
demos estudar, é apenas uma fracção do mundo ambiente
que nós vemos desenrolar-se em volta do animal — e este
mundo ambiente não é mais que o nosso mundo-próprio
humano. O primeiro problema no estudo dos mundos-
-próprios consiste em escolher, dentre os sinais carac
terísticos do mundo que o rodeia, aqueles que são par
ticulares ao animal e com eles construir o seu mundo-
-próprio. O sinal característico «passas» deixa a carraça
[41]
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Manuela
Realce
perfeitamente indiferente, ao passo que o sinal caracte
rístico ácido bgtírico desempenha no seu mundo-próprio
um papel importante. No mundo-próprio do gastrónomo o
que tem significado acentuado é, não o sinal caracterís
tico ácido butírico mas o sinal característico «passas».
Cada sujeito fia as suas correlações como os fios
de uma aranha, relativamente a determinadas proprie
dades das coisas, e tece-as numa sólida teia que suporta
a sua existência.
Quaisquer que possam ser as correlações entre o
sujeitõ~e~os objectos do seu mundo ambiente elas ocor-
r6[D„sempre exteriormente.ao sujeito em que temos de
escolher os sinais característicos. Os sinais característi
cos, ou qualidades, são, por isso, sempre de qualquer
modo espacialmente ligados, e, põís que eles sVlibertãm
uns aos outros numa certa ordem, são também ligados
temporalmente.
Só por excessiva leviandade alimentamos a ilusão
de as correlações do sujeito, outro que não nós, com as
coisas do seu mundo-próprio existirem no mesmo espaço
e no mesmo tempo que as que nos ligam às coisas do
nosso próprio mundo humano. Esta ilusão é alimentada
pela suposição da existência de um mundo único em que
todos os seres vivos estão encerrados. Daí, a convicção
geralmente aceite, de que deve haver um único espaço
e um único tempo para todos os seres vivos. Só recen
temente surgiram no espírito dos físicos dúvidas sobre
a existência de um universo com um espaço válido para
todos os seres. Que tal espaço não pode existir resulta
já do facto de cada homem viver em três espaços que
se penetram mutuamente, completando-se, mas que tam
bém até certo ponto se contrapõem.
[42]
a) O espaçazd£.-axzeãe-
Quando, de olhos fechados, movemos livremente os
nossos membros, estes movimentos, tanto em direcção
como em extensão, são-nos exactamente conhecidos.
Abrimos com as nossas mãos caminho num espaço a que
damoso nome de âmbito dos nossos movimentos, ou,
abreviadamente, espaço-de-acção.
Todos estes caminhos são por nós seguidos a peque
nas passadas a que chamamos passos-de-orientação, por
que a direcção de cada uma delas nos é rigorosamente
conhecida mercê de uma sensação de orientação, ou
sinal-de-orientação. E, na realidade, distinguimos seis
orientações, que se opõem duas a duas: para a direita e
para a esquerda, para cima e para baixo, para diante e
para trás.
Têm-se feito estudos que provam ser de cerca de
dois centímetros as passadas mais curtas que podemos
dar, avaliadas pelo avanço do dedo indicador com o braço
estendido. Estas passadas não dão, como se vê, uma
medida exacta do espaço em que elas são seguidas. Cada
um de nós pode fazer uma ideia aproximada desta inexac
tidão, procurando levar ao contacto uma da outra, as pon
tas dos dois indicadores das mãos. Verificaremos que
a maior parte das vezes isso não se consegue e que
aquelas passam à distância de dois centímetros uma
da outra.
É, para nós, do mais alto significado o poder muito
facilmente reter de memória o deslocamento uma vez
seguido, o que nos permite escrever às escuras. Chama
mos a esta capacidade «cinestesia», designação que
nada de novo nos diz.
Ora, o espaço-de-acção não é meramente um espaço
de movimento constituído por milhares de passadas-de-
-orientação que se cruzam, mas possui um sistema de
referência formado por planos perpendiculares entre si,
[43]
que definem o conhecido sistema de coordenadas, que
serve de base a todas as determinações espaciais.
É de fundamentai importância que quem se ocupa do
estudo do problema do espaço se compenetre deste facto.
Que é tudo que há de mais simples. Basta movermo-nos
para um e outro lado, com os olhos fechados e as palmas
das mãos verticais e perpendiculares à testa, para, sem
mais nada, podermos fixar o limite entre direita e
esquerda. Este limite coincide aproximadamente com o
plano mediano do corpo. Se nos deslocamos com as pal
mas das mãos colocadas horizontalmente e à altura dos
olhos, para cá e para lá, podemos analogamente determi
nar onde se encontra o limite entre abaixo e acima. Este
limite está, na maioria das pessoas, situado à altura dos
olhos; mas em muitas encontra-se à altura do lábio supe
rior. O limite entre o anterior e o posterior, que se deter
mina com as palmas das mãos voltadas para a frente de
um e outro lado da cabeça e deslocando-as para trás e
para diante, está situado, em grande número de pessoas,
à altura do orifício do ouvido, noutras, à altura da arcada
zigomática, e ainda noutras, à altura da ponta do nariz.
Cada pessoa normal dispõe de um sistema de coordena
das formado por estes três planos, estritamente relacio
nado com a cabeça (fig. 4) e com que confere ao seu
espaço-de-acção o quadro fixo em que se dão os passos-
-de-orientação.
No labirinto confuso dos passos-de-orientação, que
como elementos de deslocamento não podem conferir ao
espaço-de-acção nenhuma fixidez, os planos fixos de refe
rência fornecem uma estrutura segura que garante a
ordem no espaço-de-acção.
A grande contribuição de Cyon (1) consistiu em refe-
O Elie v. Cyon (1842-1912), fisiólogo russo, descobridor de
nervos e funções nervosas muito importantes. (Nota da edição
alemã.)
[44]
rir a tridimensionalidade do nosso espaço a um órgão
sensorial situado no nosso ouvido interno — os canais
semicirculares (fig. 5), cuja posição corresponde aproxi
madamente aos três planos do espaço-de-acção.
Esta correspondência mostram-na tão claramente
numerosas experiências, que podemos formular a
seguinte proposição: todos os animais que possuem três
canais semicirculares dispõem também de um espaço
tridimensional. A fig. 6 representa os canais semicircula
res de um peixe. É evidente que estes devem ser da
máxima importância para o animal. Em apoio disto se
pronuncia também a sua estrutura interna, que neles tem
um sistema de canais em que, sob o controlo dos nervos,
se desloca um fluido nas três direcções do espaço.
O movimento do fluido reflecte fielmente os movimentos
de todo o corpo. Isto mostra-nos que o órgão, além da
[45]
função de deslocar os três planos no espaço-de-acção,
tem ainda um outro significado. E, de facto, parece que
ele desempenha ainda o papel de bússola. Não uma bús
sola que se oriente sempre na direcção norte-sul, mas na
Fig. 6 — Canais semicirculares de um peixe
[46]
direcção das «portas de entrada». Quando todos os movi
mentos do corpo em bloco, se decompõem e são regista
dos em três direcções nos canais semicirculares, o ani
mal deve encontrar-se no ponto de partida, quando, por
meio de vibrações, os sinais nervosos tenham voltado
ao zero.
É indubitável que uma bússola que indique as portas
de entrada deve ser, para todos os animais que dispo
nham de um lugar onde se recolham, ninho ou local de
postura, um recurso indispensável. A garantia de terem
à sua disposição as portas que lhe dão acesso, obtida por
sinais ópticos no espaço visual, não é, em geral, sufi
ciente, porque eles devem poder reencontrá-las mesmo
quando elas tenham mudado de aspecto.
A capacidade de redescobrirem as portas de entrada
no espaço-de-acção puro, pode demonstrar-se que existe
também nos insectos e moluscos, apesar de estes ani
mais não possuírem canais semicirculares.
A seguinte experiência é bem convincente (fig. 7).
Enquanto a maior parte das abelhas de uma colmeia voam
pelo campo, desloca-se esta do seu lugar habitual para
uns dois metros de distância. Verifica-se então que, de
volta a ela, se acumulam pairando no ar, no lugar em que
ela antes se encontrava e com ela o orifício de acesso —
o seu ponto de partida. Só passados uns cinco minutos
elas se resolvem a voar para aquela sua nova situação.
Levando mais longe esta experiência demonstrou-se
que aquelas abelhas a que se tinham cortado as antenas
se dirigiam sem se deterem para a colmeia deslocada, o
que significava que, só enquanto as possuíam se orienta
vam no espaço-de-acção. Sem elas orientam-se à custa
dos sinais visuais do campo. As antenas da abelha devem,
pois, considerar-se como órgão que, de qualquer modo,
desempenha o papel de bússola da porta de acesso na
sua vida normal, e lhe indica o caminho de regresso com
mais certeza que os sinais visuais.
[47]
Posição anterior da cclmsia
Fig. 7 — Espaço-de-acção da abelha
Ainda mais surpreendente é a análoga descoberta-
-do-lar, que os Ingleses designam pelo termo homing, por
parte da lapa (’} (fig. 8). A lapa vive entre as zonas das
marés, sobre as rochas. Os grandes exemplares da espé
cie gravam na rocha para seu uso e com a sua concha
dura, um leito em que, aderindo fortemente a ela, pas
sam o período da baixa-mar. No período da preia-mar
começam a deslocar-se e a pastar nas rochas dos seus
arredores. Logo que a maré começa a baixar buscam de
novo o seu leito, não seguindo sempre o mesmo caminho.
Os olhos da lapa são tão rudimentares que o molusco, só
à custa deles, muito dificilmente consegue reencontrar o
seu ponto de partida. A existência de qualquer indício de
olfacto é tão improvável como a de um sentido de visão.
Só resta admitir a existência de uma como que bússola
orientadora no espaço-de-acção, de que todavia não pode
mos fazer a mínima ideia.
(’) Molusco gastrópode marinho do género Patella.
[48]
b) O espaço tác til
A pedra de fundação do espaço táctil não é nenhuma
grandeza cinemática como a passada-de-orientação, mas
sim uma grandeza estática, isto é, o local. O local tam-
Fig. 8 — Descoberta do lar pela lapa
bém deve a sua existência a um sinal-perceptivo do
sujeito e não é qualquer aspecto inerente à matéria
do ambiente. Foi Weber (') quem o demonstrou. Quando
se colocam as pontas de um compasso, afastadas de(') Ernest Heinrich Weber (1795-1878) contribuiu para a
fundação da fisiologia moderna. Estudou o sentido do tacto na pele.
(Nota da ed. alemã.)
4 -A . IIOMENS [49]
um centímetro uma da outra (fig. 9), sobre o pescoço de
uma pessoa, elas são apercebidas como distintas uma da
outra. Cada àma delas encontra-se num local diferente
do da outra. Quando se transportam, sem alterar a sua
distância, as duas pontas do compasso para as costas e
para pontos cada vez mais afastados do pescoço, é como
Fig. 9 — Compasso de Weber
se elas estivessem cada vez mais próximas uma da outra,
até que, com esse mesmo afastamento, é como se as
duas pontas tocassem a pele no mesmo ponto.
Daqui se conclui que além do sinal-perceptivo da
sensação do tacto possuímos sinais-perceptivos para a
sensação do local, a que chamamos sinais do local. Cada
percepção-de-localização corresponde, exteriorizada, a
[ 50]
um local em espaço-táctil. Os territórios da nossa pele
que, ao serem tocados, produzem a mesma percepção-
-de-localização variam largamente de extensão, conforme
a importância que tem para o tacto a região da pele que
é tocada. A par da ponta da língua, que tacteia a cavi
dade bucal, as extremidades dos nossos dedos possuem
os territórios de menor extensão, e podem, por isso, dis
tinguir uns dos outros a maior parte dos locais. Quando
tocamos com os dedos um objecto, atribuímos, por inter
médio destes, à sua superfície um delicado mosaico de
locais. O mosaico de locais dos objectos dos lugares fre
quentados por um animal é, tanto no espaço táctil como
no espaço visual, uma atribuição feita pelo sujeito às
coisas do seu mundo-próprio, que de modo nenhum
existe no ambiente.
Ao tocarem-se pontos diferentes, os locais relacio
nam-se com as passadas-de-orientação e juntos servem
para o esboçar da forma.
O espaço táctil desempenha um papel muito impor
tante em muitos animais. Os ratos e os gatos continuam
a deslocar-se sem hesitar, mesmo quando cegos — con
tanto que conservem os seus pêlos tácteis. Todos os ani
mais nocturnos e todos os que habitam em grutas vivem
essencialmente em espaço táctil, que uma fusão de loca
lizações e passadas-de-orientação delimita.
c) O Rspar.n-viRual
Os animais desprovidos de olhos, que, como a car
raça, possuem pele sensível à luz, é de presumir que
possuam as mesmas zonas tegumentares para a realiza
ção de localizações, tanto por meio de estímulos lumino
sos como por meio de estímulos tácteis. Localizações
ópticas e localizações tácteis coincidem no seu mundo-
-próprio.
[51]
Só nos animais providos de olhos, o espaço visual
e o espaço táctil se distinguem um do outro. Na retina
do olho os pequeníssimos territórios elementares — os
elementos visuais — dispõem-se muito densamente uns
em relação aos outros. A cada elemento visual corres
ponde um acidente local no mundo-próprio, pois que se
provou que a cada elemento visual corresponde um sinal-
-do-local.
A fig. 10 representa o espaço visual de um insecto
voador. É fácil ver que, em consequência da forma con
vexa do ,olho, o território do mundo exterior que atinge
um elemento visual aumenta com a distância, e por cada
local é discernida uma parte do mundo ambiente cada
vez mais vasta. Disto resulta que todos os objectos que
ficam mais afastados do olho se apresentam cada vez
mais pequenos até desaparecerem no interior de um
[ 52]
local. De modo que o local representa a menor porção de
espaço dentro do qual não há qualquer diferenciação.
A aparente diminuição de grandeza dos objectos não
se dá no espaço táctil. E é neste ponto que espaço visual
e espaço táctil se opõem. Quando pegamos numa chá
vena com o braço estendido e a dirigimos para a boca,
ela aumenta de dimensões aparentes em espaço visual,
mas não em espaço táctil. Neste caso o espaço táctil
tem vantagem sobre o espaço visual pois que o aumento
de tamanho da chávena passa despercebido a um obser
vador não atento.
Como a mão que palpa, o olho que olha em volta
estende sobre todas as coisas do mundo-próprio um deli
cado mosaico de locais, cuja finura depende do número
de elementos visuais que atingem as mesmas secções
do ambiente.
Pois que o número dos elementos visuais varia muito
de animal para animal, o mosaico-de-locais deve também
variar. Quanto menos fino for tanto maior número de par
ticularidades das coisas devem perder-se, e o mundo,
visto por um olho de mosca deve parecer muito mais
grosseiro do que o visto por um olho humano.
Como cada imagem pode variar por sobreposição de
uma rede fina num mosaico de locais, o método da rede
proporciona-nos a possibilidade de realizar a representa
ção dos mosaicos de locais dos diferentes animais.
Basta, para tanto, reduzir sucessivamente a mesma
representação, vê-la depois através da mesma rede, foto-
grafá-la e depois ampliá-la. Assim aquela se pode trans
formar num mosaico cada vez mais grosseiro, reprodu
zindo-o em aguada, sem rede, que tornaria confuso o seu
aspecto. As figs. 11 a-d são aqui representadas tal como
se obtiveram pelo método da rede, e dão-nos a possibili
dade de se obter um aspecto do mundo-próprio de um
animal, quando se conhece o número de elementos
visuais do seu olho. A fig. 11 c corresponde aproximada-
[53]
Fig. 11 a — Fotografia de uma rua de aldeia
[ 54]
mente à reprodução fornecida pelo olho da mosca domés
tica. É fácil de compreender que num mundo-próprio que
apresenta tão poucas particularidades, os fios de uma
teia de aranha devem passar completamente despercebi
dos, e é legítimo dizer: a aranha tece uma teia que é
completamente invisível à sua presa.
A última figura (11 d) corresponde aproximadamente
à representação da impressão dada por um olho de
molusco. Como se vê, o espaço visual das lapas e dos
mexilhões contém apenas algumas manchas escuras e
claras (’).
Como no espaço táctil, as conexões no espaço visual
são feitas por passadas de orientação de local para local.
Quando fazemos uma preparação à lupa, que tem por
função discernir um grande número de locais em uma
pequena área, podemos verificar que não é só a nossa
vista mas também a nossa mão que guia a agulha de
dissecção, realiza passadas-de-orientação muito mais
curtas, correspondentes a locais tornados muito mais
próximos uns dos outros.
2. O HORIZONTE
Ao contrário do espaço-de-acção e do espaço táctil,
o espaço visual é limitado em toda a volta por uma
parede impenetrável, a que chamamos o campo longín
quo, ou o horizonte.
Sol, Lua e estrelas movem-se, sem distância em pro-
(’) Estas representações indicam apenas o processo que leva
a fazer uma primeira ideia das diferenças dos aspectos sob que
vários animais vêem os objectos exteriores. Quem queira ficar com
uma ideia das particularidades desses aspectos dinâmicos, no caso
dos insectos, terá um guia na obra de K. v. Frisch Aus dem Leben
der Bienen («Acerca da Vida das Abelhas»), ed. Springer, 5.“ edi
ção, 1953. (Nota da ed. alemã.)
[55]
r<
f
. í.
*>.- rf f
fv
WM
f
d B a & t t -
Fig. 11 c — A mesma para um olho de mosca
Fig. 11 d — A mesma para um olho de molusco
[56]
fundidade entre si, sobre o mesmo horizonte, que inclui
tudo o que se abrange com a vista. A situação do hori
zonte não é invariavelmente fixa. Quando depois de uma
grave febre tifóide eu dei o meu primeiro passeio fora
de casa, o horizonte pendia como uma colgadura varie
gada a uns vinte metros de distância, sobre a qual tudo
o que eu via se delineava. Para além de vinte metros
não havia quaisquer objectos mais próximos ou objectos
mais afastados, mas só objectos maiores ou menores.
A lente do nosso olho (o cristalino) tem a mesma
função que a de uma câmara fotográfica: a de projectar
nitidamente na retina, que corresponde à placa fotográ
fica, os objectossituados em frente dos nossos olhos.
A lente do olho humano é elástica e pode, pela acção de
músculos próprios a ela ligados, variar mais ou menos
de curvatura (o que corresponde à focagem da lente da
câmara fotográfica).
Em virtude da contracção dos músculos do cristalino
manifestam-se sinais de orientação no sentido de trás
para diante do olho. Quando esses músculos, relaxan-
do-se, se alongam pela acção da elasticidade da lente, os
sinais dados indicam o sentido de diante para trás.
Quando os músculos estão completamente relaxa
dos, o olho está acomodado para a distância desde dez
metros até ao infinito.
Dentro de um círculo de dez metros, as coisas no_
nosso mundo-próprio, em virtude da acção dos movimen:
tõs~dõs músculos do cristalino, apresentam-se-nos como
próximas ou afastadas. Para além desse .círculo dá-se,
naturalmente, apenas um aumento ou diminuição do tama
nho dos objectos. Nas crianças de peito o espaço visual
termina àquela distância, limitado por um horizonte que
tudo abrange. Só depois, a pouco e pouco, começamos
a aprender, à custa de sinais-de-distância, a alargar cada
vez mais o nosso horizonte, até que, ainda gradualmente
com o nosso desenvolvimento, este limita o espaço visual
[57]
a uma distância de seis a oito quilómetros, em que aquele
começa.
A diferença entre o espaço visual de uma criança e o
de um adulto eWá figurada na fig. 12, que reproduz grafi
camente uma experiência comunicada por Helmholtz (1).
Relata ele que, ainda pequeno, ao passar pela igreja da
guarnição de Potsdam, notara na galeria da torre daquela
alguns operários. Pediu então a sua mãe que lhe fosse
buscar um daqueles bonequitos pequenos. A igreja e os
operários já estavam contidos no seu horizonte, e por
isso não estavam afastados, eram apenas pequenos. Tinha
pois toda a razão para admitir que sua mãe podia, com
os seus braços compridos, tirar os bonecos da galeria.
Ele não sabia que no mundo-próprio de sua mãe a igreja
tinha dimensões perfeitamente diferentes das que tinha
no seu, e que na galeria o que havia era homens, não,
pequenos, mas, afastados. Quanto aos animais, a situa
ção do horizonte nos seus mundos-próprios é difícil de
determinar, porque a maior parte das vezes não é fácil
de experimentalmente verificar quando é que um objecto
do ambiente, ao aproximar-se do sujeito não só passa a
ser maior mas também a ficar aparentemente mais pró
ximo. Estudos de captura de moscas domésticas mostram
que só quando a nossa mão se aproxima até cerca de
meio metro de distância esta foge voando. Por conse
guinte, é de admitir que o horizonte da mosca deverá
estar a esta distância aproximadamente.
Mas outras experiências realizadas ainda com a
mosca doméstica deixam entrever que no seu mundo-pró
prio o horizonte se revela de outra maneira. Sabe-se que
as moscas não só giram em volta de uma lâmpada sus-
(') Hermann v. Helmholtz (1821-1894), fisiólogo e físico
inventor do oftalmoscópio, defensor da teoria ondulatória de Max
well; autor de interpretações sobre a natureza da energia, etc (Nota
da ed. alemã.)
[58]
Fig. 12 — O horizonte de um adulto (em baixo) e de uma criança
(em cima)
[ 59]
pensa ou de um lustre, mas interrompem o voo, sempre
recuando, quando se tenham afastado de meio metro des
sas fontes luminosas, para depois fugirem para o lado
ou para baixo delas. De modo que se comportam como
um homem do mar que, no seu barco à vela não quer
perder uma ilha de vista.
Ora, o olho de uma mosca é constituído de modo tal
que os seus elementos visuais (rabdomas) (fig. 13) apre
sentam estruturas alongadas nervosas que a imagem
Fig. 13 — Forma de um olho composto de uma mosca. Repre
sentação esquemática: a) o olho de que se destacou um
sector (segundo Hesse); b) duas omatídeas: Cor, córnea,
quitinosa; K, núcleo; Kr, cone cristalino; Krz, célula desse
cone; Nf, fibra nervosa; P, pigmento; Pz, célula pigmentar;
Retl, retícula; Rh, rabdoma; Sz, célula visual
dada pelas suas lentes devem atravessar até diferentes
profundidades, correspondentes às distâncias dos objec
tos vistos. Exner (1) sugeriu que neste caso podia tratar-se
(’) Siegmundo Exner (1846-1926), desde 1875 professor do
«Physiologischen instituí». Viena. Publicou trabalhos sobre óptica
fisiologica assim como sobre a função do córtex cerebral. (Nota da
[ 60]
de um dispositivo que substituiria os músculos do crista
lino do olho humano.
Se admitirmos que o dispositivo óptico dos elemen
tos visuais funciona como uma lente, o lustre, a uma
Fig. 14 — Lustre, para um homem
Fig. 15 — Lustre, para uma mosca
certa distância deixava de ser visto; e a mosca voltava a
aproximar-se. Comparem-se, a este respeito, as figs. 14
e 15, que representam um lustre visto sem ou com uma
lente interposta.
[ 61]
Se, seja como for, o horizonte encerra, incluindo-o,
o espaço visual — ele existe sempre. De modo que deve
mos considerai todos os animais que à nossa volta ani
mam a naturezte — os coleópteros, borboletas, moscas,
mosquitos, libelinhas, que povoam um prado — como que
encerrados numa «bola de sabão» que limita o seu
espaço-visual e em que tudo o que é visível para o sujeito
está contido. Cada «bola de sabão» aloja um local dife
rente dos das outras, e em cada uma delas existem ainda
os planos de referência dos espaços-de-acção que con
ferem ao espaço uma estrutura permanente. As aves que
esvoaçam, os esquilos que saltam nos ramos, ou as vacas
que pastam no prado, todos estão constantemente encer
rados nas suas «bolas de sabão» que limitam o espaço.
Se tivermos estes factos bem presentes na mente,
reconheceremos também a «bola de sabão» do nosso
mundo-próprio — que envolve cada um de nós. Então
veremos todos os nossos semelhantes encerrados em
«bolas de sabão», que se interceptam sem resistências,
porque são constituídos por sinais-perceptivos subjecti
vos. Não exisífi^de modo nenhum, espaco independente
do sujeito. Se, porém, nós nos agarramos à ficção de um
espaço universal, é apenas porque recorrendo a essa
mentira convencional conseguimos compreender-nos me
lhor uns aos outros.
3. A PERCEPÇÃO DO TEMPO
É a Karl Ernest v. Baer (') que cabe o mérito de ter
considerado evidente ser o tempo uma criação do sujeito.
O tempo como sequência de momentos varia do-iim ,.
mundo para os oujros. consoante o número de momentos ,
('} 1792-1876. Zoólogo, fundador de uma doutrina da evolução
diferente da de Darwin. (Nota da ed. alemã.)
[ 62]
que os sujeitos vivem nojnesmo intervalo de tempo. Os
momentos sao os mínimos, indivisíveis, continentes_de^
tempo, poislnje são a expressão de sensações elemen
tares indivisíveis,L_os_ chamados TsTnãlsUnsfãííi^neos. No
homem, como já dissemos, a duração de um momento
é de 1/18 do segundo. E, na realidade, é o mesmo para
todos os domínios sensoriais, porque todas as impres
sões dos sentidos são acompanhadas por os mesmos
sinais instantâneos.
Dezoito vibrações do ar por segundo já não se ouvem
como sons separados, mas como um som contínuo.
Demonstrou-se que nós sentimos dezoito choques que
nos afectem a pele num segundo, como se fosse uma
pressão còTiitante.
A cinematografia torna possível projectar na tela
movimentos do mundo exterior no ritmo que nos é habi
tual. As imagens destacadas seguem-se ali com peque
nos intervalos de 1/18 do segundo.
Se quisermos seguir movimentos que, para a nossa
vista, fluem com demasiada rapidez, temos de nos servir
da lupa-de-tempo.
Chama-se lupa-de-tempo ao procedimento que con
siste em tirar um grande número de negativos por
segundo, projectando-os depois no ritmo normal. Deste
modo alargamos o decorrer do movimento por um maior
intervalo de tempo, e teremos a possibilidade de distin
guir acontecimentos que para o nosso ritmo de tempo
(de dezoito por segundo)são demasiado rápidos, como
o bater de asas das aves e insectos. Assim como a lupa-
-de-tempo retarda o fluir do movimento, assim também
este é apressado pelo redutor-de-tempo. Quando regista
mos graficamente hora a hora um acontecimento, e
depois projectamos as suas diferentes fases com inter
valos de 1/18 de segundo, contraímo-lo num certo inter
valo de tempo e assim conseguimos a possibilidade de
[ 63]
distinguir acontecimentos que para o nosso ritmo de
tempo são muito lentos, como o abrir de uma flor.
Põe-se a questão de saber se há animais cuja per
cepção do tempo tenha momentos mais longos ou mais
curtos do que os nossos, e em cujos mundos-próprios,
por isso, os decursos de movimento1 sejam mais lentos
ou mais rápidp_s_ que_no- nosso.
Os primeiros estudos feitos a este respeito foram
realizados por um jovem investigador alemão, que mais
tarde teve a colaboração de um outro, principalmente no
estudo da reacção do peixe-lutador à sua própria imagem
dada por um espelho. Este peixe não reconhece esta
quando ela lhe é apresentada dezoito vezes por segundo;
para a reconhecer necessita que o seja o mínimo trinta
vezes por segundo. Um terceiro investigador ensinou o
peixe-lutador a abocar o isco quando por trás dele se
fazia girar um disco cinzento. Quando, porém, se fazia
girar lentamente um disco com sectores negros e bran
cos funcionando como «quadro-de-aviso», imediatamente
o peixe tinha um ligeiro sobressalto quando se aproxi
mava o isco. Aumentando então a velocidade de giração
do disco, as reacções tomam-se menos regulares a uma
certa velocidade para logo depois suceder o contrário
quando aquela aumenta. Isto começava a dar-se só quando
os sectores negros se seguiam uns aos outros com um
intervalo de 1/50 do segundo. O quadro de aviso branco-
-negro tornava-se então cinzento. Daqui se conclui com
certeza que, nestes peixes, os quais se alimentam de
presas que se deslocam rapidamente, todos j>s fenóme-
nos de movimento no seu mundo-próprio se passam,
como na lupa-de-tempo, retardadamente. ~
Um' exemplo de contracção de tempo está represen
tado ha fig. 16, tirada da obra antes citada. Sobre uma
bola de borracha aue, flutuando na água, pode nela escor-
reaar praticamente sem atrito, coloca-se um caracol, que
se fixa pela concha, com uma pinça, a um suporte. Deste
[ 64]
modo ele não é impedido de rastejar, conservando-se con
tudo sempre no mesmo lugar. Se agora pusermos em
contacto com a palmilha do caracol uma varazinha, este
rastejará sobre ela. Se aplicarmos um a três toques da
vara, por segundo, sobre o caracol, ele reage afastando-se
dela, mas se os toques se repetirem quatro ou mais
vezes por segundo, então o caracol começa a arrastar-se
Fig. 16 — O momento do caracol. S=esfera; £=engrenagem;
A/=varazinha; S=caracol
ao longo da varazinha. No mundo-próprio do caracol, uma
vara que vibra com o períodcTde quatro vezes por segundo
é como se estivesse em repouso. De onde devemos con
cluir que o tempojdo caracol flui num ritmo de três a
quatro momentos por segundo. Isto tem como conse-
quência que no mundo-próprio do caracol todos os fenó
menos de movimento se passam muito mais rapidamente
do que no nosso. Além disso os movimentos típicos do
caracol não fluem para ele mais lentamente do que os
nossos para nós.
5 - A. HOMENS [ 65]
4. OS MUNDOS-PRÓPRIOS ELEMENTARES
\
Espaço e tempo não são de qualquer préstimo ime
diato para o sujeito. Só adquirem significado quando mui
tas características que, sem o quadro temporal e espa
cial ruiriam, tem de ser diferenciadas. Um tal quadro,
em mundos-próprios elementares, em que há um único
sinal-característico, não é, porém, necessário.
A fig. 17 representa par a par o mundo ambiente e
Fig. 17— Mundo ambiente e mundo-próprio da paraméciá
[ 66]
o mundo-próprio da paramécia, um pequeno ciliado.
A paramécia é revestida de densas fiadas de cílios, por
meio de cuja agitação se move rapidamente na água,
girando em torno do seu eixo maior.
De todas as diferentes coisas que se encontram
no seu mundo ambiente, o seu mundo-próprio apreende
apenas a característica, sempre a mesma, pela qual a
paramécia quando quer que seja, seja como for e onde
for, é estimulada a desencadear o mesmo movimento.
O mesmo carácter de obstáculo provoca sempre o mesmo
movimento de fuga. Este consiste em um movimento de
recuo, a que depois se segue um desvio lateral, seguido
de novo avanço, de modo que o obstáculo é ultrapassado.
Pode dizer-se que, neste caso, o mesmo sinal caracterís
tico é cancelado pela mesma marca-de-acção. Quando o
animalzinho contacta com uma partícula das que lhe ser
vem de alimento (1) — as bactérias de decomposição, que,
de entre tudo que existe em todo o mundo-ambiente, não
determinam qualquer estímulo — o animal detém-se.
Estes factos mostram-nos como a natureza consegue
estruturar a vida segundo um.plano com um único ciòío-
-de-função.
Alguns animais pluricelulares, como as medusas
pelágicas do género Rhizostoma, também podem, bas
tar-se a si próprias com um único ciclo de função.
Neste caso o organismo consiste num dispositivo
hidráulico natatório que recolhe em si a água do mar não
filtrada, rica em plâncton, e a reexpele filtrada. A única
manifestação de vida na medusa consiste em oscilações,
para um e outro lado, da umbela gelatinosa e contráctil.
Por meio de uma pulsação sempre igual, o animal man
tém-se nadando à superfície do mar. Ao mesmo tempo, o
intestino, membranoso, dilata-se e contrai-se alternada
mente, assim entrando e saindo a água do mar, por peque-
C) Na figura 17, Nahrung.
[ 67]
é ° m o e i d o « I eX'St! nteS- 0 conteúdo f,uid° do intestino
d Ü h 90 extensos canais digestivos, cujas
Mat a S n 6m ? a,Íment0S 6 ° ox,9®ni° arrastado.
to d a fS n l 83?. alimentos e respiração mecânica
r..In Sa° r aS Pela contracção rítmica dos mús-
mnv meX' f 6nteS naS margenS da umbela' Para que estes
movimentos se continuem sem interrupção, existem nas%
Fig. 18-M e d u s a pelágica com corpos marginais
margens da umbela oito órgãos campanuliformes (corpos
margma,s) íconvencionalmente representados na fiq 18)cujos bad l0Si a cada puIsaç_0j cPQca os na fig. 18).
nervosa. O estímulo resultante do choque, p ro v ia a oul
saçao seguinte da umbela. Deste modo a medü™ p Z c a
característico ' “ - es,a U b e r t s T Z l l
provoca de ° •
[ 68]
No mundo-próprio da medusa soa sempre a mesma
badalada, que governa o ritmo da vida. Todos os outros
estímulos se apagam.
No caso em que um único ciclo-de-função se mani
festa, como em Rhizostoma pode realmente falar-se de
um animal reflexo, porque o mesmo reflexo se desenca
deia desde cada campânula até à faixa muscular na mar
gem da umbela. Deveremos, porém, falar de animais
reflexos, quando existem ainda outros arcos reflexos,
como sucede em outras medusas, quando eles se con
servam completamente independentes. Assim, há medu
sas que possuem filamentos pescadores que contêm em
si a fonte de arcos reflexos que se fecham sobre si pró
prios. Muitas possuem ainda um manúbrio bucal móvel,
provido de musculatura própria, que está ligado aos
receptores da margem da umbela. Todos estes arcos
reflexos funcionam com perfeita independência uns dos
outros, não sendo controlados por nenhum órgão central.
Quando um órgão exterior é a sede de um arco reflexo,
diz-se que é como se fosse um «indivíduo reflexo». Os
ouriços-do-mar são constituídos põr um grande numero
desses indivíduos reflexos, cada um dos quais, por si e
sem coordenação central, desempenha a sua função
reflexa. Para tornar claro o contraste entre os animais
assim constituídos e os animais superiores, formulei a
proposição seguinte: quando um cão se desloca, o animal
move as pernas, quando um ouriço-do-mar se desloca, as«pernas» movem o animal. Os ouriços-do-mar põssuerrrr
como o ouriço-cacheiro, muitos espinhos, que, contudo,
fazem parte de indivíduos reflexos autónomos.
Além dos espinhos rígidos e picantes que assentam
numa superfície articular esférica do testo e estão pron
tos a opor uma floresta de lanças a qualquer objecto,
capaz de provocar qualquer irritação, que se aproxime
do testo, existem ventosas pediceladas (pés ambulacrá-
rios) moles, longas e musculosas, que servem para a
[ 69]
locomoção. A l^ém disto, muitos ouriços-do-mar possuem
ainda, espalhadas por toda a superfície do testo, quatro
tipos de pinças (pinças ornamentais, pinças percussoras,
pinças preensof-as e pinças venenosas) cada tipo com a
sua utilização especial.
Apesar de muitos indivíduos-reflexos funcionarem
em conjunto, as suas actividades são absolutamente inde
pendentes umas das outras. Assim, actuados pelo mesmo
estímulo químico proveniente do inimigo do ouriço — a
estrela-do-mar — os espinhos divergem subitamente e em
vez deles surgem as pinças venenosas que encarniçada-
mente se lançam contra os pés ambulacrários daquela.
Pode-se, pois, neste caso, falar de uma «república
reflexa», em que, porém, apesar da independência de
todos os indivíduos reflexos, reina um «espírito cívico»
perfeito. Porque os próprios pés ambulacrários, moles,
do ouriço-do-mar nunca são atacados pelas pinças preen-
soras, que aliás mordem qualquer objecto próximo.
Este «espírito cívico» não é ditado por qualquer posto
central, como sucede com o homem, onde também os
dentes cortantes constituem um perigo para a língua, o
qual só é evitado mediante a intervenção do sinal-percep-
tivo do perigo de dor no órgão central. Porque o perigo
de dor impede o acto que o provoca.
Na república de reflexos do ouriço-do-mar, que não
possui nenhum centro superior de coordenação, o «espí
rito cívico» tem de ser atribuído por outros meios. É a
substância, autodermina, que o consegue. Não diluída,
ela não paralisa os receptores dos indivíduos reflexos.
Nos tegumentos existe em diluição tão elevada que é
inactiva quando ao contacto de um objecto estranho.
Logo, porém, que dois pontos do tegumento contactam,
a sua actividade manifesta-se e impede o desencadear
do reflexo.
Uma república de reflexos, como é o ouriço-do-mar,
pode perfeitamente admitir no seu mundo-próprio várias
[ 70]
notas, ou sinais característicos, se se compuser de vários
indivíduos-reflexos. Tais notas, porém, devem manter-se
completamente isoladas, pois que todos os ciclos-de-fun-
ção se realizam, completamente isolados uns dos outros.
Já a carraça, cujas manifestações vitais consistem,
como vimos, em três reflexos, representa um tipo mais
elevado, pois que os ciclos-de-função não se utilizam
desses arcos reflexos isolados, mas possuem um órgão-
-de-percepção comum. Existe, por isso, a possibilidade de,
no mundo-próprio da carraça, o animal-presa, embora con
sista apenas em estímulo do ácido butírico, estímulo do
tacto e estímulo do calor, constituir, não obstante, uma
unidade.
Tal possibilidade não existe no caso do ouriço-do-
-mar. Os seus sinais característicos, que se compõem de
estímulos graduados de pressão e estímulos químicos,
constituem grandezas completamente isoladas.
Muitos ouriços-do-mar respondem a qualquer
obscurecimento do horizonte com um movimento dos
espinhos que, como o mostram as figs. .19 a e 19 b, se
verifica igualmente como resposta contra uma nuvem, um
navio, e o seu verdadeiro inimigo, um peixe. Mas a repre
sentação do mundo-próprio ainda não está suficiente
mente simplificada. Não é o caso de o sinal característico
sombra ser transferido pelo ouriço-do-mar para o espaço,
pois que este não possui nenhum espaço visual, e as
sombras só se efectivam como por uma leve passagem
de um floco de algodão sobre o tegumento, sensível à luz.
Representar isto graficamente era tecnicamente impos
sível.
5, FORMA E MOVIMENTO
COMO SINAIS-CARACTERÍSTICOS
Mesmo qué se quisesse admitir que, no caso do
mundo-próprio do ouriço-do-mar, todos òs sinais-caracte-
[ 71]
Fig. 19 a — Mundo ambiente do ouriço-do-mar
- ^ 'IV ,
v 3 ^ w’" -
Fig. 19 b — Mundo-próprio do ouriço-do-mar
[ 7 2 ]
rísticos, ou notas, dos diferentes indivíduos-reflexos são
dotados de uma representação em espaço, e por isso cada
um se encontra num local diferente do de cada outro —
não havia, contudo, nenhuma possibilidade de relacionar
estes locais uns com os outros. Por isso a este mundo-
-próprio devem necessariamente faltar os sinais caracte
rísticos de forma e de movimento que pressupõem a
ligação de vários locais de uns com os outros — e é isso
o que se dá. Forma e movimento aparecem pela primeira
vez em mundos de percepção superiores. Ora nós estamos
Fig. 20 — Gralha-de-bico-vermelho e gafanhoto
habituados a admitir, graças às experiências adquiridas
no nosso mundo-próprio, que a forma de um objecto ó
a nota, ou sinal-característico, dada em primeiro lugar, e
que o movimento sobrevem ocasionalmente como sinal-
-característico secundário. Isto porém não é o que se
passa em muitos mundos-próprios dos animais. Neles,
forma em repouso e forma em movimento não são dois
sinais-característicos inteiramente independentes um do
outro, podendo também ocorrer o movimento sem forma,
como sinal-característico independente.
A fig. 20 representa a gralha-de-bico-vermelho, ou
corvacho, caçando gafanhotos. A gralha é completamente
[ 73]
incapaz de descobrir um gafanhoto em repouso, e só o
ataca quando ele salta.
Nestas circunstâncias conjecturamos imediatamente
que a forma <^ o gafanhoto em repouso é bem conhecida
da gralha, mas por causa da erva que dissimula não é por
aquela reconhecida como unidade, exactamente como
nós só com dificuldade conseguimos destacar num dese-
nho-quebra-cabeças uma forma conhecida. Segundo esta
maneira de ver, a forma só ao saltar se distingue das dis-
simuladoras imagens circumvizinhas.
Mas segundo outras experiências é de admitir que
a gralha não reconhece a forma do gafanhoto em repouso
mas apenas está adaptada a reconhecer a forma em
movimento. Isto explicaria «a simulação da morte» de
muitos insectos. Quando a sua forma imóvel não existe
essencialmente no mundo de percepção do inimigo per
seguidor, eles por meio desse subterfúgio, escapam-se
a salvo desse mundo de percepções do inimigo e nunca
podem ser descobertos quando ele os procura.
Eu construí um «anzol» para moscas, que se compõe
de uma varazinha de que suspendi por um fio fino uma
ervilha revestida de visco. Se por meio de uma leve vibra-
çao da varazinha pusermos a ervilha em movimento no
parapeito de uma janela sobre que haja muitas moscas
sempre algumas se lançarão sobre a ervilha, ficando pega-
as a ela, podendo depois verificar-sè que são sempre
machos.
O fenómeno representa uma espécie de falsas
núpcias. No caso de moscas que voam em volta de um
ustre. e ainda de machos que se lançam sobre fêmeas
que por ali voam, que se trata. A ervilha ao agitar-se
imita o sinal-característico de fêmea que voa e por isso
e tomada, nunca tal sucedendo quando está imóvel do
que se pode ainda concluir que fêmeas imóveis e fêmeas
a voar sao dois sinais-característicos distintos
[ 74]
Mas que o movimento independente de forma pode
figurar como sinal característico, pode-se concluir da
fig. 21, que representa comparadamente o que se passa
com a vieira no seu mundo ambiente e no seu mundo-
-próprio.
No mundo ambiente do molusco, e ao alcance da
vista dos seus cem olhos, encontra-se o seu mais encar
niçado inimigo, a estrela-do-mar, astéria. Enquanto esta
se conserva imóvel, não tem qualquer acção sobre o
molusco. A sua forma característica não é para ele um
sinal. Mas logo que ela se põe em movimento, o molusco
estende,como reacção, os seus longos tentáculos, que
funcionam de órgãos do olfacto; aproximando-se da
estrela-do-mar e recebem o novo estímulo. A seguir, o
molusco ergue-se e afasta-se nadando.
As experiências têm mostrado ser indiferente a
forma ou a cor que um objecto móvel possua. Pois que,
no mundo-próprio do molusco, ele manifesta-se sempre
como sinal característico, se o seu movimento é tão
lento como o da estrela-do-mar. Os olhos da vieira não
são adequados para distinguir a forma ou a cor mas.
excTusivamenteT um^ 'cèrto^ritmo de movimento, o ritmo
próprio do seu inimigo. Mas este não fica, por este meio,
completamente caracterizado: para que o segundo ciclo-
-de-função se desencadeie é preciso que, primeiro, sobre
venha um sinal olfactivo; então o molusco afasta-se daj
proximidade do inimigo, fugindo, e, por meio deste sinalj
-de-acção, o sinal característico do inimigo é finalmente
anulado.
Durante muito tempo supôs-se que no mundo-próprip
da minhoca existia um sinal característico para a forma.
Já Darwin sugerira a esse respeito que a minhoca se com
portava como se reagisse à forma tanto de folhas, como
de agulhas de pinheiro.
A minhoca transporta para a sua alongada moradia,
[ 75]
Fig. 21— Mundo ambiente e mundo-próprio da vieira
[ 76]
folhas e agulhas de pinheiro (fig. 22), que lhe servem
indiferentemente de protecção e de alimento. Verifica-se
que quando se tenta fazer entrar numa galeria estj-eita
e com o pecíolo para a frente, a maior parte das folhas,
elas encontram certa resistência. Pelo contrário, enro-
Fig. 22 — A capacidade de discernimento
pelo gosto, na minhoca
lam-se facilmente e não se nota qualquer resistência
quando é o vértice que vai à frente. Quanto às agulhas
de pinheiro, que se desprendem dos ramos sempre aos
pares, essas devem fazer-se entrar na galeria não com
o vértice mas com a base para a frente.
[ 77]
Do. facto de a minhoca se utilizar, sem encontrar difi
culdades, de folhas e de agulhas de pinheiro, concluíra-se
que a forma pestes objectos, que no mundo-de-acção da
minhoca desempenham um papel tão importante, devia
existir no seu mundo-de-percepção como nota-carac-
terística.
Verificou-se* que esta conclusão era incorrecta. Pôde
demonstrar-se que as minhocas arrastam para dentro das
suas galerias pequenas varazinhas, todas com a mesma
forma e que se tinham revestido de gelatina, indiferente
mente com uma ou a outra extremidade para a frente.
Mas quando se polvilha com pó de um vértice de folha
de cerejeira uma das extremidades da varazinha, e a outra
com pó da sua parte basilar, as minhocas distinguem per
feitamente as duas extremidades como se fossem o vér
tice e a base da própria folha.
Apesar de a minhoca se comportar perante as folhas
de maneira relacionada com a sua forma, não é realmente
pela forma, mas pelo gosto, que ela se orienta. Este
arranjo é muito feliz, porque os órgãos-de-percepção da
minhoca são constituídos segundo um modelo demasiado
simples para produzir sinais de forma. Este exemplo mos
tra-nos como a natureza sabe«e,vitar dificuldades que a
nós parecem insuperáveis.
No caso da minhoca também nada havia de percep
ção de forma. Tanto, pois, mais instantemente se põe
a questão de saber — em que animais é legítimo conjec
turar que a forma existe originalmente como sinal-carac-
terístico do seu mundo-próprio?
Esta questão foi resolvida mais tarde. Foi possível
demonstrar que as abelhas pousam de preferência em
coisas cujas formas recortadas são virtualmente decom-
poníveis em outras mais simples, como estrelas e cruzes,
evitando, pelo contrário, formas inteiriças, como círculos
e quadrados.
[ 78]
A fig. 23 apresenta uma comparação imaginada do
mundo-ambiente e do mundo-próprio da abelha para ilus
trar o que se passa. Vemos a abelha, no seu mundo-
-ambiente de um prado florido, distinguir entre as flores
abertas e os botões. Situada a abelha no seu mundo-pró
prio e reduzindo as flores, segundo a sua forma, a estre
las ou cruzes, os botões passarão a ter a forma não
recortada de círculos.
Daqui concluiremos ainda o significado biológico
desta nova particularidade das abelhas, assim revelada.
Só as flores abertas, não os botões, têm para elas um
significado.
Mas as correlações de significado são, como nós já
vimos na carraça, os únicos guias seguros na exploração
dos mundos-próprios. Para o caso é perfeitamente indife
rente que as formas descontínuas, decomponíveis, sejam
fisiologicamente eficientes.
Q problema-da-forma foi reduzido por estes trabalhos
a uma fórmula mais simples. Basta admitir que as células
de percepção para os sinais locais se articulam em dois
grupos no órgão-de-percepção, umas segundo o esquema
«decomposta», ou aberta, outras segundo o esquema «não
decomposta», ou fechada. Não há quaisquer outras dis
tinções. Se os esquemas se afastam disto, então resul
tam deles «imagens perceptivas» que se conservam
inteiramente gerais, que, como novas e muito belas inves
tigações mostram, incluem no caso das abelhas, cores
e cheiros.
Nem a minhoca, nem a vieira, nem a carraça, dis
põem desses esquemas. Cárecem, por isso, no seu mun-
dò-próprio, de verdadeiras imagens-perceptivas.
[ 79]
Fig. 23 — Mundo ambiente e mundo-próprio da abelha
[80]
6. FINALIDADE E PLANO
Como nós, homens, estamos habituados a prosse
guir penosamente a nossa existência, de finalidade em
finalidade, estamos por isso convencidos que com os
animais se passa o mesmo. Ora isto é um erro funda
mental, que leva as investigações até aqui realizadas por
caminhos falsos. Na realidade ninguém atribuirá finali
dades a um ouriço-do-mar ou a uma minhoca. Mas já na
descrição da vida da carraça nos referimos a o ela «espiar
a sua presa». Por esta expressão já introduzimos, indevi
damente ainda que involuntariamente, as nossas mes
quinhas preocupações diárias, na vida da carraça, que
é dominada por um plano puramente natural.
O nosso primeiro cuidado deve, pois, ser o eliminar
da interpretação dos mundos-próprios a falácia da finali
dade. Só assim poderemos chegar a pôr certa ordem,
no ponto de vista da existência de um plano natural, nas
manifestações da vida dos animais. Talvez mais tarde se
considerem como tendo finalidade certos comportamen
tos dos mamíferos superiores, que, mesmo eles, estão
por sua vez subordinados ao plano natural de conjunto.
Em todos os outros animais não existem comporta
mentos orientados no sentido de um fim. Para demons
trar esta proposição será necessário que o leitor lance
um golpe de vista por alguns mundos-próprios que não
levantem quaisquer dúvidas. A fig. 24 funda-se nas curio
sas interpretações a que cheguei, sobre a percepção dos
sons pelas borboletas nocturnas. Como nela se dá a
entender, é perfeitamente indiferente que o som a que
os animais estão submetidos, seja o produzido por um
morcego ou o resultante do atrito de uma rolha de vidro:
a acção é sempre a mesma. Aquelas borboletas noctur
nas que em virtude da sua brilhante coloração são bem
visíveis, afastam-se, voando, pela acção de sons altos, ao
6 - A . HOMENS [81]
Fig. 24 Acção de um som alto sobre borboletas nocturnas
[ 82]
passo que as que possuem colorações dissimuladoras
se aproximam deles. A mesma nota ou sinal-caracterís-
tico provoca resultados opostos. A alta conformidade com
um plano patenteia-se nos dois modos opostos de com
portamento. Não pode tratar-se aqui de qualquer discri
minação ou intenção, pois que nenhuma borboleta noc
turna jamais viu a cor do seu próprio tegumento. O que
há de pasmoso na conformidade com um plano torna-se
neste caso ainda mais impressionante ao verificarmos
que a engenhosa estrutura microspópica do órgão da
audição da borboleta nocturna é exclusivamente recep
tiva destes sons altos emitidospelo morcego. São abso
lutamente surdas para os outros sons.
A oposição entre finalidade e plano já resulta de
uma bela observação feita por Fabre ('). Este pôs a fêmea
de uma borboleta nocturna, olhos-de-pavão, em cima de
uma folha de papel branco, sobre que aquela fez, durante
algum tempo, certos movimentos com o abdómen. Depois
pôs a mesma fêmea ao lado da folha de papel sob uma
campânula de vidro.
Durante a noite entraram pela janela verdadeiros
enxames de machos desta espécie muito rara de borbo
leta, e pousaram todos sobre a folha de papel branco.
Nem um único notou a fêmea que estava próxima, sob a
campânula de vidro. Que espécie de acção física ou quí
mica se devesse atribuir ao papel, eis o que Fabre não
pôde averiguar.
A este respeito são muito elucidativas as experiên
cias, que a fig. 25 ilustra, feitas com saltões-do-feno e
grilos.
Num quarto, diante de um microfone receptor, colo-
ca-se um exemplar vivo a fretenir, uma fêmea, por exem
plo. Se num outro quarto se puserem machos próximos
(') J. Henri Fabre (1823-1915), entomólogo francês. (Nota
da ed. alemã.)
[ 83]
[ 84]
de um outro telefone, estes, ao ouvirem o fretenir da
fêmea, aproximam-se do telefone, sem darem atenção a
uma outra fêmea que fretene sob uma campânula de
vidro, para fora da qual o som não pode passar. A imagem
óptica não exerce qualquer acção.
As duas experiências provam o mesmo. Em nenhum
dos casos se trata de atingir um fim. O comportamento
aparentemente estranho dos machos explica-se, porém,
sem dificuldade, se o estudarmos na sua conformidade
com um plano. Nos dois casos efectua-se, através_de um
sinal característico, um ciclo-de-função, mas com a ausên
cia do objecto normal nada se dá quanto à produção do
sinal-de-acção apropriado, que era necessário para o can
celamento do primitivo sinal característico. No lugar
deste devia, normalmente, surgir um outro sinal caracte
rístico e desencadear-se o ciclo-de-função seguinte. Seja
qual for este segundo sinal característico, deve, em
ambos os casos, ser estudado mais detidamente. Em qual
quer caso, ele é um elo necessário na cadeia dos ciclos-
-de-função que servem o acasalamento.
Para quê, dir-se-á, atribuir finalidade aos insectos?
Eles são determinados imediatamente pelo plano natural,
que estabelece os seus sinais característicos, como já
vimos na carraça. Mas quem já reparou no que se passa
numa capoeira, como a galinha se apressa a socorrer os
seus pintainhos, não poderá duvidar de que há no seu
comportamento uma verdadeira finalidade. Exactamente
sobre este caso realizámos com todo o rigor curiosas
expriências.
A fig. 26 ilustra os resultados nelas obtidos. Quando
se prende um pintainho por uma perna, ele começa a
piar, o que faz que a galinha se dirija de penas eriçadas
na direcção de que os pios partem, mesmo que não veja
o pintainho. Logo que o avista começa a dar bicadas num
inimigo imaginário.
Se, porém, se puser o pintainho, que se prendeu, sob
[ 85]
Fig. 26 — Galinha e pintos
[86]
uma campânula, de modo que ela o possa veF mas sem
o ouvir, a galinha conserva-se perfeitamente calma
perante o espectáculo.
Também aqui se não trata de finalidade, mas sim,
ainda, de uma cadeia de ciclos-de-função. O sinal de piar
provém normalmente, de forma indirecta, de um inimigo
que prende o pintainho.
Este sinal característico será eliminado pelo sinal-
-de-acção da picada que porá o inimigo em fuga. O pintai-
Fig. 27— Galinha e pinto preto
nho que se debate, mas não se ouve piar, não é um sinal
característico que produza qualquer efeito particular;
além de ser completamente fútil, pois que a galinha não
tem condições para desfazer um laço.
Ainda mais singular e desprovida de fim foi a
maneira como a galinha, representada na fig. 27, se com
portou. Esta galinha chocara uma postura de ovos de
galinhas brancas, mas em que havia um da sua própria
raça negra. A forma como ela se comportou com o pin-
[87]
tainho preto que saiu deste ovo foi perfeitamente
absurda. Quando o ouvia piar, a galinha acorria imediata
mente ao sinal, mas se o via entre os brancos, corria-o
às bicadas. Os sinais acústico e óptico característicos,
do mesmo objecto, provocavam nela o desencadear de
dois ciclos-de-função opostos. Manifestamente os dois
sinais, no mundo-próprio da galinha, não se fundiam
numa só unidade.
7. IMAGEM-PERCEPTIVA E IMAGEM-EFECTORA
A oposição entre finalidade do sujeito e plano da
natureza dispensa-nos também de considerar a questão
do instinto, em que ninguém ainda deu os primeiros pas
sos certos.
Será necessário à bolota qualquer instinto para vir
a ser um carvalho, ou trabalha instintivamente uma mul
tidão de células ósseas para formar um osso? Se se
responde a isto negativamente e, em vez de instinto
se postula como factor ordenador um plano de natureza,
então há que reconhecer no tecer da teia de aranha, ou
na construção do ninho das aves a intervenção do plano
da natureza, pois em ambos os casos não é de um fim
particular que se trata.
Instin to é apenas um termo que resulta da perplexi
dade a que se expõe quem contesta o plano da natureza,
super-individual. E este é contestado porque dele, que é
um plano, não se pode formar qualquer ideia adequada,
pois não é uma substância nem uma força.
E no entanto não é difícil, partindo do conceito de
plano, ficar com uma ideia acerca da questão, quando
nos apoiamos num exemplo intuitivo.
Para pregar um prego não basta o mais belo dos pla
nos, se não se tem um martelo. Mas também não basta
o mais btelo dos martelos se se não tem qualquer plano
[ 88]
e nos entregamos ao acaso. Porque, nesse caso, batemos
com o martelo nos dedos.
Sem plano, isto é, sem o todo-poderoso poder de
ordenação que tudo domina na natureza, não há qualquer
espécie de natureza ordenada, mas apenas um caos. Todo
o cristal é o fruto de um plano natural, e quando os
físicos apresentam o mais belo modelo do átomo, como
é o de Bohr, revelam os planos da natureza inanimada
que buscam desvendar.
Assim, também, o poder dos planos da natureza viva
recebe do estudo dos mundos-próprios a interpretação
mais clara que é possível. Estudá-los, eis a mais interes
sante das tarefas. Por isso não queremos deixar-nos per
turbar, e tranquilamente prosseguimos a nossa rota atra
vés dos mundos-próprios.
Os casos ilustrados na estampa superior a cores,
entre as páginas 128 e 129, representam um resumo dos
resultados obtidos nos estudos do crustáceo, casa-rou-
bada. Verificou-se que o casa-roubada necessita, como
imagem-perceptiva, um esquema espacial extremamente
simples. Cada objecto de uma certa ordem de grandeza,
com um contorno de entre um cilindro e um cone, pode
ter para ele significado. Como se traduz nas figuras, o
mesmo objecto de aspecto cilíndrico, como é o caso da
anémona-do-mar, muda de significado no mundo-próprio
do casa-roubada, conforme as circunstâncias (a disposi
ção) em que o casa-roubada se encontra. Nós vemos sem
pre o mesmo casa-roubada e a mesma anémona-do-mar.
Ora, no primeiro caso representado, tinha-se destacado
esta da concha, em que aquele se alojara. No segundo,
tinha-se tirado o casa-roubada de dentro da concha, e
no terceiro tinha-se feito jejuar um casa-roubada insta
lado dentro de uma concha, a que estavam fixadas ané-
monas-do-mar. Isto basta para pôr o casa-roubada em
três circunstâncias diferentes. Conforme as diferentes
disposições, o significado da anémona-do-mar em rela
[89]
ção ao crustáceo, varia. No primeiro caso, em que à
concha que alojava o crustáceo faltava a protecção que
a anémona-do-mar lhe prestava contra o choco, a imagem
perçeptiva da anémona-do-mar assume um «teor de pro-
Isto manifesta-se no comportamento do casa-
-roubada, qup põe ao alto a concha que lheserve de
abrigo, Se privamos desta o mesmo casa-roubada, a ima-
S®DX-P§I5®PlLY.3 da anémona-do-mar assume um «teor de
habitação», o ^que se manifesta em o ele tentar, ainda
que sem êxito,\ entrar para dentro dela. No terceiro caso,
em que o crustáceo está esfomeado, aquela-imagem
passa a ter um «teor de alimento» e este começa a devo
rar a anémona-do-mar.
Estas experiências têm, por isso, particular impor
tância, pois mostram que já nos mundos-próprios dos
artrópodes a imagem-perceptiva. fornecida pelos órgãos
dos sentidos, pode ser substituída por uma imagem-efec>
Í91âjjdejgendejite. da jfun ç ã o . q ue..nela _se_fíímté m.
As investigações tendentes a interpretar este sin
gular estado de coisas têm-se realizado com cães.
A maneira como se pôs a questão foi muito simples e as
respostas dos cães, unívocas. Ensinou-se um cão a saltar
para cima de uma cadeira colocada em frente dele,
quando se dava a voz de «cadeira». Depois, tirou-se a
cadeira e repetia-se, «cadeira». O resultado foi o cão
comportar-se com todos os objectos que julgava poderem
servir de assento, como se comportara com a cadeira,
e saltar para cima deles. Todos eles, pois nos queremos
referir a objectos como arcas, étagères, bancos volta
dos, tinham um certo «teor de assento», e, de facto, um
teor de assento-de-cão, e não de assento-de-homem. Por
que certas destas cadelras-de-cão não eram absoluta
mente nada próprias para serem como tal utilizadas pelo
homem. Podia ainda mostrar-se que também «mesa» e
«cestinho» possuíam para o cão um teor especial, que
dependia dos serviços que lhe prestavam.
[ 90]
Mas o problema já mesmo nos homens pode ser
acentuado. Como vemos nós, no caso da cadeira, o sen
tar, no da chávena, o beber, no da escada, o trepar, fun
ções que em caso nenhum nos são denunciadas pelos
sentidos? Nós vemos em todos os objectos que apren
demos a utilizar, o préstimo que deles aproveitamos,
justamente com a mesma certeza que a sua forma e a
sua cor.
Tive um negro, originário do interior da África, de
perto de Dar-es-Salam, rapaz ainda novo, muito inteligente
e hábil, a quem a única coisa que faltava era o saber
como se utilizavam os objectos europeus. Um dia que
lhe disse para subir a uma pequena escada de mão, ele
perguntou-me: «Como é que o posso fazer se só vejo
travessas separadas por intervalos?» Logo, porém, que
outro negro lhe explicou como devia proceder, nada mais
foi preciso. Daí por diante os dados dos sentidos «tra
vessas e intervalos» assumiram o teor de «subir» e pas
saram a ser considerados como uma escada.^AJmagsm:
■perçeptiva das travessas e intervalos foi completada
pela imagem-efectora_da sua própria utilização, adquiriu
um novo significado, e este revelou-se como uma nova
qualidade, como teor de utilização ou «teor-efector». Por
esta experiência com o negro somos levados a notar que
nós elaboramos para todas as utilizações que aproveita-
mos no nosso mundo-próprio uma imagem-efectora que
necessariamente fundimos tão intimamente cõm i ima-
gem-perceptiva fornecida pelos nossos órgãos dos sen
tidos, que elas adquirem por esse mejo uma nova quali
dade que nos torna corflTecídcT o seu significado, e que
logo pretendemos caracterizar como seu teor-efector.
0~Trüsmo objecto pode, se tiver "diferentes présti
mos, possuir várias imagens-efectoras, que então empres
tam à mesma imagem-perceptiva, outros tantos teores
correspondentes. Uma cadeira pode, ocasionalmente, ser
aproveitada como arma de arremesso, e possui então
[91]
uma nova imagem-efectora que se revela como «teor de
aaressao». TambenTneste caso, bem humano, a situação
do sujeito é, por isso, como no exemplo do casa-roubada,
tendente a escolher que imagem-efectora atribui teor à
imagem-perceptiva. Só se podem pressupor imagens-efec-
toras onde existirem orgaos .efectores que comandem
os comportamentos do anima^ Todos os animais que fun
cionam de forma puramente reflexa, como o ouriço-do-
-mar, são, por consequência, excluídos dessa possibili
dade. Mas, como o casa-roubada mostra, a sua impor
tância é muito profunda no reino animal.
Se queremos aproveitar o conceito de imagens-efec-
toras na interpretação dos mundos-próprios, mesmo nos
animais muito diferentes de nós, nunca devemos esque
cer que ejas são utilizações dos animais projectadas nos
mundos-próprios, que, por intermédio dos teores-efecto-
res, comerem às Imagens perceptivas~~ãpenas o seu
sígnificadòTSê quisermos representar o que no mundo-
-próprio de um animal é vital, proveremos de um teor-
-éfector a imagem-perceptiva que lhe é dada pelos órgãos
daS"sentidos, para que possamos compreender completa
mente o seu significado. M esmo nos casos em que não
se trata de uma imagem espacialmente organizada, como
na carraça, deveremos dizer que nos três estímulos que
nela incidem como únicos denunciadores da sua presa,
0 significado"dosTeores-efantnrpfi (nnm pIpc
dos) resulta da queda sobre ela—da_Q- correr sobre ela
de um para o outro larin e He n-nBla.pftnfitrar. Certamente
a actividade selectiva dos receptores, que representam
as portas de entrada dos estímulos, desempenha o papej
dominante, mas só o teor-efector, que está relacionado
com os estímulos- lhfis~cnnfflrf»..a c.p.rtp.7a infalível.
Como as imagens efectoras se podem deduzir das
utilizações pelos animais, facilmente reconhecíveis, as
coisas no mundo-próprio de cada novo sujeito tornam-se
muitíssimo evidentes.
[92]
Quando uma libelinha voa para um ramo para nele
pousar, o ramo existe no seu, mundo-próprio, não apenas
como imagem-perceptiva, mas também se denota por
meio de um teor de «assento», que a distingue de todas
as outras hastes.
Só quando tomamos em consideração os teores jfe c -
toresTse compreende a alta eficiência que o
r e c r a o r r m lf f iã ís T ^ ■ Devemos
dizer: j j m animal pode~íéalizar tanto malox„nuniero_-dfi-
utilizações quanto maior for o n ú m e r o de^objectos que
ehTpode distTnguir no seu mundo-próprio. Se ele dispoe
3e p o ü c ã ^ m ã ^ ^ p ê ir ^ p i iv ã s corri pòucas utilizações,
então também o seu mundo-próprio se reduz a poucos
objectos. Ele é, por esse facto, realmente mais pobre,
mas, proporcionalmente, goza de maior segurança. Por
que é muito mais fácil orientar-se entre poucos objectos
do que entre muitos. Se a paramécia possuísse uma ima
gem-efectora de utilidade para ela, todo o seu mundo-
-próprio se comporia de objectos todos iguais que teriam
todos o mesmo teor de obstáculo. Seja como for, um tal
mundo-próprio nada deixaria a desejar.
Com o número de capacidades de um animal
aumenta o número de objectos que povoam o seu mundo-
-próprio. Elas elevam-se no decorrer da vida individual
de cada animal, que pôde acumular experiências. Porque
cada experiência nova implica o assumir o sujeito nova
posição perante novas sensações. Além disso . adquj".
rem-s_e_„novas, imaqens-perceptivas, com novos teores-
-efectores.
IstcTobserva-se principalmente nos cães que apren
dem a manejar certos objectos usados pelo homem e
que eles, por sua vez, utilizam também.
No entanto o número de objectos no mundo-próprio
do cão é sempre inferior aos do nosso mundo-próprio.
Isto é ilustrado com clareza nos três desenhos coloridos
idênticos, 2, 3, 4 (entre páginas 128 e 129). Representa-se
[ 93]
neles o mesmo aposento. Mas os objectos que nele se
encontram têm cores diferentes conforme os teores-efec-
tores que correspondem respectivamente ao homem, ao
cão e à mosca doméstica.
No mundo-próprio do homem os teores-efectores são
representados, na cadeira pelo teor de assento (acasta
nhado) na rrçesa pelo teor de refeição (amarelo) e nos
pratos e copos por outros teores-efectores (castanho-
-claro, teor de comer, e vermelho, teor de beber). O soalho
possui o teor-de-marchar, ao passo que a estante delivros (lilás) teltn o teor de ler, e a escrevaninha um teor
de escrever (azul). A parede tem um teor-de-obstáculo
í(verde) e o candeeiro, o teor de iluminação (branco).
No mundo-próprio do cão os mesmos teores são
representados pelas mesmas cores; nele só existem os
de comer, de sentar, etc. Tudo o mais tem uma tonali
dade de obstáculo. O banco giratório, em virtude do seu
polimento, não tem para o cão teor de assento.
Finalmente vê-se como, para a mosca, tudo possui
somente um teor de movimento, sobre cujo significado
já se falou.
Gom que segurança a mosca se orienta no mundo
ambiente do nosso aposento, mais pormenorizadamente
se esclarecerá por meio da fig. 28. Logo que a cafeteira
com café quente se coloca sobre a mesa, as moscas jun-
tam-se em volta dela, porque o calor constitui para elas
um estímulo. Deslocam-se sobre o tampo da mesa porque
esta tem para elas um teor de movimento. E como as
moscas_ têm nas patas órgãos do gosto, cuja irritação
desencadeia o desenvaginãF ^
ng_a|imento de que se utijjzam. ao passo que todos os
outr° s objectos ..determinam o prosseguirem nas suas
deambulações. Neste caso é fácil distinguir o mundo-
-próprio da mosca do seu mundo ambiente.
[94]
8. O CAMINHO APRENDIDO
A melhor maneira de nos convencermos da varie
dade de mundos-próprios do homem é seguir um guia
num caminho que desconhecemos (1). O guia segue com
segurança um caminho que nós próprios não discernimos.
Entre todas as numerosas rochas e árvores que nos
(') Sobre o problema dos «mundos-próprios» dos homens
comp. as págs. 11 e 13. (Nota da ed. alemã.)
[ 95]
rodeiam, há, no mundo-próprio do guia, algumas que se
sucedem, distinguindo-se de todas as outras como bali
zas, apesar de, aos olhos de quem não conhece o cami
nho, elas se não singularizarem por nenhuma indicação.
O caminho aprendido é-o apenas para determinado
indivíduo, e é, por isso, um problema típico do mundor
-próprio. É um problema de espaço, e diz respeito tanto
ao espaço visual como ao espaço-de-acção do sujeito, e
resulta imediatamente de como se caracteriza um espaço
conhecido — o que se faz pouco mais ou menos assim:
voltar à direita por trás da casa vermelha, depois andar
a direito duzentos passos e então voltar à esquerda. Utili
zamos três caracteres para marcar um caminho: 1.° um
carácter óptico, 2.° os planos de orientação, 3.° o número
de passos. Neste caso não recorremos ao número de pas
sadas elementares, isto é, à mínima possível unidade de
passos, mas sim à soma dos impulsos elementares que
nos é habitual e que são necessários para constituir um
passo normal. O passo, ou passada, em que uma perna'
se desloca com uniformidade para trás e para diante, é
em alguns indivíduos tão bem determinada, e em muitos
mede tão aproximadamente o mesmo comprimento, que
mesmo ainda hoje serve de medida vulgar.
Quando se diz a alguém que deve andar cem passos,
quer-se com isto significar que deve imprimir cem vezes
às suas pernas o mesmo impulso de movimento. O resul
tado obtido será sempre aproximadamente a mesma
extensão percorrida.
Quando percorremos repetidas vezes um certo
espaço, ficam-nos na memória os impulsos comunicados
à marcha, como indicação de direcção, de modo que para
mos maquinalmente no mesmo lugar, mesmo quando não
actuamos recorrendo às indicações ópticas. Os sinais de
orientação desempenham, pois um papel saliente no cami
nho aprendido.
Tinha grande interesse determinar como se apre
[96]
senta o problema do caminho aprendido no mundo-próprio
dos animais; sem dúvida, que, no mundo-próprio de vários
animais, desempenham um papel importante na recons
tituição do caminho aprendido sinais olfactivgs e sinais,
tácteis.
Numerosos investigadores americanos procuraram,
durante dezenas de anos, estabelecer, em milhares de
sentidos em que os mais diferentes animais tinham de
se orientar num labirinto, com que rapidez cada animal
podia reconhecer um determinado caminho. O problema
do caminho aprendido de que aqui se trata passou-lhes
despercebido. Também não estudaram os sinais visuais,
tácteis ou olfactivos, nem se lembraram do aproveita
mento pelo animal, dos sistemas de coordenadas: que a
questão de dire ita ou de esquerda é um problema inde
pendente, nunca os impressionou. Também nunca dis
cutiram a questão do número de passadas, porque não
viam que também entre os animais a passada pode ser
utilizada como medida de distância.
Em resumo; o problema do caminho conhecido, ape
sar da vastidão do material de trabalho já acumulado,
deve ser reconsiderado. A descoberta do caminho já
trilhado, no mundo-próprio do cão, a par do seu interesse
teórico, tem também um grande alcance prático, quando
se tomam em consideração as questões que o cão-guia
dos cegos tem de resolver.
A fig. 29 representa um cego a ser guiado por um cão.
O mundo-próprio do cego é muito limitado; só na medida
em que pode tactear o seu caminho com a bengala e com
os pés, toma dele conhecimento. A rua que atravessa está
mergulhada em trevas. O seu cão, porém, é quem o guia
até casa, seguindo um caminho determinado. A dificuldade
do adestramento de um cão está, por isso, em fazer entrar
no seu mundo-próprio certos sinais que são de interesse
para o cego mas não para o cão. Assim, o caminho ao
longo do qual ele guia o cego terá de rodear obstáculos
1 - A . HOMENS [97]
em que o cego podia tropeçar. É particularmente difícil
insinuar no cão um sinal de um marco do correio ou de
uma janela aberta, pelos quais, aliás, ele passaria indi
ferente. Mas também a margem do passeio, em que o
cego podia dar um passo em falso, é difícil de fazer entrar
Fig. 29 — O cego e o seu cão
no mundo-próprio do cão, como sinal característico, pois
que normalmente mal se apercebe dele quando corre
à solta.
A fig. 30 representa uma experiência feita com gra-
lhas-de-bico-vermelho. Como nela se vê, a gralha voa
em volta da casa, dá-lhe de novo volta em sentido con
trário e utiliza no regresso o caminho que lhe é conhe-
[98]
eido, para voltar a entrar por onde tinha saído, pois que,
vindo no outro sentido não podia ter reconhecido a
entrada.
Recentemente averiguou-se que as ratazanas con
tinuam a utilizar por muito tempo o mesmo rodeio, mesmo
quando o caminho directo esteja livre.
Pôs-se então novamente o problema do caminho
aprendido, no caso dos peixes-lutadoreg, e chegou-se
aos seguintes resultados: em primeiro lugar estabele-
ceu-se que o_desconhecido exerce sobre eles uma acção
repulsiva. Introduziu-se no aquário uma placa de vidro
em que se tinham feito dois pequenos orifícios, pelos
quais os peixes podiam passar com facilidade. Quando se
oferecia comida a um peixe-lutador do outro lado do ori
fício decorria algum tempo antes de ele se introduzir,
hesitante, pelo orifício, para a apanhar. Então mostrava-
-se-lhe a comida lateralmente em relação ao orifício e o
peixe logo lhe seguia no encalce. Finalmente mantinha-se
[ 99]
a comida em frente do seaundo orifício: pois apesar disso
n peixe passava sempre pelo primeiro orifício, que já
sabia utilizar, sem se utiíizar.. d a que até aí não t i n h a
usa^o.
Colocou-se, então, como o representa a fig. 31, um
tabique do lado da placa de vidro com orifícios, donde se
mostrava o engodo ao peixe. Mostrava-se este agora do
lado que o tabique ocultava; o peixe nadava ao longo do
Fig. 31 — O caminho aprendido do peixe-lutador
caminho aprendido, mesmo quando o tabique estava
colocado de modo que ele podia ter alcançado o engodo
directamente passando a nadar entre a placa perfurada
e o tabique. No caminho aprendido entraram, assim,
sinais visuais e sinais-de-orientação.
Resumindo pode dizer-se que o caminho aprendido
funcionou como um curso de um meio muito fluido atra
vés de uma massa viscosa.[ 1 0 0 ]
9. LAR E PÁTRIA
O problema do lar e da pátria está intimamente rela
cionado com o caminho aprendido.
Como ponto de partida o melhor é escolherem-se os
estudos feitos sobre os esgana-gatas (1). O macho da
espécie constrói um ninho cuja entrada prima em marcar
com alguns fios de várias cores — sinal visual de direc
ção para a criação. No ninho, os filhos crescem sob a
vigilância do pai. Este ninho é o seu lar. Mas cá fora
abre-se a sua pátria. A fig. 32 representa um aquário em
cujos cantos opostos dois esgana-gatas construíram os
seus ninhos. No aquário existe uma fronteira invisível
que o divide em duas zonas, cada uma das quais corres
ponde a um ninho. Cada zona correspondente a um dos
ninhos, é a pátria de um dos esgana-gatas, que ele
defende vigorosa e tenazmente, mesmo contra esgana-
-gatas maiores. Na sua pátria o esgana-gata é rei.
A pátria é uma pura questão de mundo-próprio, por
que representa uma produção puramente subjectiva, para
cuja existência nem o mais estrito conhecimento do
mundo ambiente oferece o mínimo ponto de apoio.
(') Pequenos peixes de águas salobras, doces ou marinhas, com
espinhos muito fortes anteriores à barbatana dorsal e às pélvicas.
[ 101]
Pergunta-se, então, quais os animais que possuem
uma pátria e quais os que a não possuem? Uma mosca
doméstica que em voos sucessivos, para um lado e para
o outro, abrange uma certa porção de espaço em volta de
um lustre não possui o que se chama uma pátria.
Pelo contrário, uma aranha que constrói o seu ninho,
em que permanentemente vive, possui um lar que é igual
mente a sua pátria.
O mesmo se passa com a toupeira (fig. 33). Também
ela constrái a sua habitação e estabelece a sua pátria.
Sob o solo Wtende-se um sistema de túneis como uma
teia de aranha. Mas não são só os seus caminhos indi
viduais que formam o âmbito do seu domínio, mas ainda
toda a área dentro da qual exerce a sua actividade.
Quando cativa, a toupeira esboça os seus caminhos de tal
modo que parece formarem uma teia. Podíamos provar
que a toupeira, graças aos seus órgãos olfactivos, muito
desenvolvidos, é capaz de procurar os seus alimentos
dentro de um raio de cerca de cinco a seis centímetros.
Num sistema de caminhos apertados, como o que ela
constrói, quando cativa, as zonas situadas entre eles
são ainda dominadas pelos seus órgãos dos sentidos, ao
passo que na natureza, onde a toupeira estabelece os
seus túneis mais afastados uns dos outros, ela pode ainda
controlar, pelo olfacto, o solo, num certo raio em volta
de cada galeria. Como uma aranha, a toupeira percorre
muitas vezes esta rede de galerias, e reúne tudo o que
ali ficou disperso como despojo. No centro deste sistema
de galerias a toupeira constrói uma cova forrada de
folhas secas — o seu lar individual, no qual passa as
horas de repouso. Para ela todos os corredores subterrâ
neos são caminhos aprendidos que é capaz de percorrer
sempre com a mesma rapidez e facilidade em qualquer
sentido. O seu campo de rapina chega até onde eles
[ 1 0 2 ]
chegam. Este coincide com a sua pátria, que ela defende,
para a vida ou para a morte, de qualquer toupeira vizinha.
É admirável a destreza com que a toupeira, cega
como é, se orienta, sem nunca se enganar, num terreno
para nós perfeitamente uniforme. Se se lhe ensinar qual
o lugar em que conserva os seus alimentos, ela acerta
com ele, mesmo quando se obstruam todos os caminhos
que a ele conduzem. O que demonstra que a toupeira
pode ser guiada por sinais olfactivos.
O seu espaço é um puro espaço-de-acção. Temos de
admitir que a toupeira é capaz de redescobrir um caminho
uma vez utilizado, à custa da reprodução dos passos-de-
-orientação. Além disso, os sinais tácteis, que se rela
[ 103]
cionam com os passos-de-orientação, nela como em todos
os animais cegos, desempenharão um papel importante.
É de admitir que sinais de orientação e passos de orien
tação se combinam como base de um esquema espacial.
Destrua-se o seu sistema de caminhos, ou parte dele,
e ela será capaz de restabelecer, com o auxílio de um
esquema adequado, um novo sistema que se assemelha
ao antigo.
As abelhas também constroem um lar, mas a zona,
em volta da colmeia, em que buscam o alimento é, com
efeito,' o seu campo de caça, sem, no entanto, constituir
uma pátria que seja defesa aos intrusos. No caso das
pegas, ao contrário, pode falar-se de lar e de pátria, pois
que elas constroem o seu ninho dentro de uma zona
em que não consentem quaisquer pegas atrevidas.
Provavelmente far-se-á em muitos animais a expe
riência de ver se eles defendem o seu campo de caça
contra os seus semelhantes e fazem dele a sua pátria.
Uma zona preferida por cada espécie animal asseme-
lhar-se-á, quando nela se quiser traçar o âmbito da pátria,
a uma como que carta política dessa espécie, cujo limite
será estabelecido por meio do ataque e da defesa. Em
muitos casos também se verificará que já quase não
existe qualquer espaço disponível, mas que por toda a
parte uma pátria colide com outra pátria, é muito notável
a observação que mostra que entre o ninho de muitas
aves de rapina e o seu campo de caça se estende circular
mente uma zona neutra em que elas não abatem qualquer
presa. Os ornitólogos julgam, com razão, que esta cons-
tituição do mundo-próprio tem sido aceite pela natureza
para impedir que as aves de rapina destruam a própria
criação. .uuando o nTrTHegõ~de~falcão abandona o ninho
para passar o dia a saltar, de ramo em ramo, na proximi
dade dele, correria facilmente o perigo de, por lapso, ser
atacado pelos próprios pais. De modo que, assim, na zona
[ 104]
neutra do campo defeso passa o seu tempo em segurança.
O campo defeso é utilizado por muitas aves canoras
para aninhar e chocar, podendo aí criar os seus filhos ao
abrigo do ataque das grandes rapaces.
A forma e os meios utilizados pelos cães para darem
facilmente a conhecer aos indivíduos da sua espécie a
sua pátria, merecem atenção especial. A fig. 34 repre
senta a carta do Jardim Zoológico de Hamburgo, com os
arruamentos em que estão marcados os sítios em que nos
seus dois passeios diários à trela os cães urinavam.
Eram sempre os sítios, também especialmente no
tados pela vista do homem, que eles impregnavam com
o cheiro que os denunciava. Se dois cães eram condu
zidos juntos, ordinariamente urinavam ao mesmo tempo.
Um cão ladino manifesta sempre tendência para,
[ 105]
quando um outro cão estranho o encontra, deixar o seu
cartão-de-visita no objecto mais próximo que lhe salta à
vista. Por seu turno, quando entra na pátria de outro cão,
denunciada por essas marcas alheias, farejará sucessi
vamente esses vestígios alheios e esgaravatará cuida
dosamente os pontos onde eles existem. Mas um cão de
fraca qualidade passará com medo por tais vestígios e
não denunciará a sua presença por nenhum sinal
olfactivo.
A delimitação da pátria é também, como o mostra
a fig. 35, empregada pelos grandes ursos da América do
Norte. Para isso o urso ergue-se nas patas traseiras a
toda a sua altura e esfrega o dorso e o focinho na casca
[ 106]
de um pinheiro isolado, visível de longe. Isto indica aos
outros ursos que devem passar ao largo do pinheiro,
evitando assim toda a zona em que um urso delimita a
sua pátria.
10. O COMPANHEIRO
Tenho bem presente na minha memória a imagem
de um pobre patinho, chocado juntamente com uma ni-
nhada deperus e^que vivia tão ligado à família adoptiva,
que nunca entrara na água e que evitava escrupulosa
mente os outros animaizinhos da sua espécie, que saíam
da água frescos e limpos. Por essa ocasião ofereceram-me
um pato-bravo que me seguia por toda a parte. Quando eu
me sentava, encostava a cabeça aos meus pés. Eu tinha a
impressão que eram as minhas botas que exerciam essa
atracção, pois quetambém corria atrás dos baixotes
pretos. Daí concluí que qualquer coisa preta em movi
mento bastava para lhe sugerir a imagem da mãe e
mandei-o largar próximo do ninho materno para recuperar
as ligações familiares que tinha perdido. Hoje duvido que
fosse essa a explicação, porque a este respeito fui infor
mado de que para que certas crias de ganso-cinzento aca
badas de nascer se juntem espontaneamente a uma famí
lia de gansos e a sigam, devemos metê-los logo que
nascem numa bolsa de caça e largá-los junto dela. Se
vivem durante algum tempo na companhia do homem não
aceitam, depois, associar-se com os seus semelhantes.
Em todos estes casos trata-se de uma mudança de ima
gens perceptivas, que frequentemente se dá. em parti-
cular, no mlmdó-próprícr das avêsTD que se sabe das
percepções das aves é ainda insuficiente para se pode
rem tirar conclusões seguras a esse respeito.
Na fig. 20 já nos foi dado ver a gralha-de-bico-verme-
Iho caçando o gafanhoto, e ficámos com a impressão que,
essencialmente, ela não tinha qualquer percepção do
[ 107]
gafanhoto em repouso, e por isso este não existia no seu
mundo-próprio.
As figs. 36 a e 36 b representam-nos uma outra expe
riência respeitante às percepções das gralhas. Nela vê-se
uma gralha em atitude agressiva perante um gato que
traz na boca outra gralha. Uma gralha nunca ataca um
Flg. 36 a — Gralha em atitude agressiva perante um gato
Fig. 36 b — Gralha em atitude agressiva perante uns calções
de banho
[ 108]
gato que não traga na boca uma presa. Só quando o
perigo dos dentes afiados do gato está afastado, como
sucede quando estes estão ocupados em abocar a presa,
ele passa a ser objecto de ataque da parte da gralha.
Isto parece ser um comportamento altamente prático
da parte da gralha. Mas, na realidade, não passa de uma
reacção perfeitamente de acordo com um plano que flui
com absoluta independência de qualquer espécie de
inteligência da gralha. Porque ela assumiria a mesma ati
tude se se lhe acenasse com uns calções de banho. E ela
também não atacaria o gato se em vez de uma gralha
preta trouxesse nos dentes uma gralha branca.
A percepção de um objecto preto que se mova diante
do animal desencadeia só por si a atitude agressiva.
Uma percepção de valor tão geral pode prestar-se
sempre a confusões, como já pudemos verificar a pro
pósito do ouriço-do-mar, em cujo mundo-próprio nuvens
e navios são confundidos com o peixe, seu inimigo, pois
que o ouriço-do-mar reage sempre da mesma maneira
contraio obscurecimento do horizonte.
Nas aves, porém, não nos subtraímos à dificuldade
recorrendo a uma explicação tão simples.
Sobre o que se passa com as aves que vivem em
sociedade há uma multidão de experiências contraditórias
acerca de mudanças de imagens-perceptivas. Só recente
mente se conseguiu pôr em relevo num caso típico
de uma gralha domesticada, chamada Tschock, o ponto
de vista mais importante.
As gralhas que vivem em sociedade têm durante a
vida um companheiro próprio, com que se comportam
das mais diversas maneiras. Se se educa isoladamente
uma gralha, ela de maneira nenhuma renuncia ao com
panheiro, e quando não dispõe de um da sua espécie
adopta um «companheiro substituto», e, de facto, pode,
para cada nova demonstração, surgir «um companheiro
[ 109]
substituto» ,novo. Lorenz (1) teve a amabilidade de me
enviar as figs. 37 a e 37 b, em que se podem, de um golpe,
ver as relações para com o companheiro.
A gralha Tschock teve, quando jovem, como compa-
Figs. 37 a e b — A gralha Tschock e os seus quatro companheiros
nheiro maternal o próprio Lorenz.'Seguia-o por toda a
parte, gralhava para que lhe desse a comida no bico.
Quando já aprendera a buscar por si os alimentos,
(') Konrad Lorenz (1903). Zoólogo e zoopsicólogo. (Nota da
ed. alemã.)
[ 110]
escolheu como companheiro preferido a criada dos quar
tos, diante de quem executava os seus característicos
bailados-de-amor. Mais tarde adoptou como companheiro
uma gralha muito jovem a que ela própria dava de comer.
Quando Tschock se preparava para mais largos voos
tentou levar o próprio Lorenz a voar em sua companhia à
maneira das gralhas, quando arrancava para o voo mesmo
por trás das costas dele. Como isto não desse resultado,
juntou-se com as gralhas que voavam, as quais passaram
a ser os seus companheiros de voo.
Como se vê não existe no mundo-próprio da gralha
nenhuma imagem-perceptiva uríica~de compánfíéirõ7~TãT~
nao é também possível, porque o papel do companheiro.
muda constantemente. A imagem-perceptiva do compa-
nheiro-maternal parece, na maior parte dos casos, que não
se estabelece logo ao nascer, no que respeita à forma
e à cor. O contrário se dá com a VQZ_tnaíama^
Lorenz escreve: «Devia, em cada caso especial de
companheiro-maternal, pôr-se em relevo quais os carac
teres maternais que são inatamente apercebidos, quais
os que são percepções adquiridas pelo indivíduo. A difi
culdade está, precisamente, em os aspectos maternais
adquiridos logo após alguns, poucos, dias, e mesmo
só algumas horas (ganso-cinzento, v. Heinroth) ficarem
tão profundamente gravados que, quando se separam os
filhos das mães, dir-se-ia que são inatos.
O mesmo se passa na escolha do companheiro-di-
lecto. Também aqui os caracteres do companheiro substi
tuto que passam a ser apercebidos pelo indivíduo, se
gravam tão fortemente que do facto resulta a aquisiçãc
por ele de uma percepção definitiva depois de se ter efec
tuado a primeira mudança. Donde, até os animais da
mesma espécie serem rejeitados como companheiros-
-dilectos.
Isto foi posto em evidência por um incidente curioso.
[ 111]
Havia no Jardim Zoológico de Amsterdão um casal de
abetouros jovens cujo macho se tinha enamorado do
director do Jardim. Para não prejudicar o acasalamento,
este não apareceu ao macho durante muito tempo. De
modo que o macho afeiçoou-se à fêmea, e o facto surtiu
efeito; e como a fêmea caísse no choco, o director re
solveu voltar a aparecer. O que sucedeu? Muito simples
mente que, mal o macho avistou o seu companheiro-
-dilecto, escorraçou a fêmea do ninho, e por meio de repe
tidos sinais parecia dar a entender que o director podia
ocupar o lugar a que tinha direito e continuar a chocar
os ovos.
A percepção, pelo indivíduo, do companheiro-de-infân-
cia parece ser, a maior parte das vezes, a que mais incisi
vamente fica gravada. Provavelmente, o grande apetite
que faz escancarar as goelas aos jovens desempenha
aqui o papel determinante. Mas também neste caso se
prova que em raças muito apuradas, como as galinhas
Orpington, estas, quando chocas, adoptam gatos e cãès
jovens como filhos.
O companheiro-substituto para os voos livres é, por
seu turno adoptado mais largamente, como o caso de
Tschock mostra.
Quando se considera que os calções de banho apre
sentados à gralha passaram a ser para ela um inimigo
a atacar, isto é, passaram a ter para ela o teor-efector de
«inimigo», poderá dizer-se que se trata aqui de um ini
migo substituto. Como no mundo-próprio das gralhas há
muitos inimigos, o aparecimento do inimigo-substituto,
especialmente quando se deu uma só vez, não teve
qualquer influência sobre a imagem-perceptiva do verda
deiro inimigo. No caso do companheiro a coisa é outra.
Este é o único que existe de cada vez no mundo-próprio,
e a atribuição do teor-efector a um companheiro substituto
[ 112]
deve tornar impossível o aparecimento posterior de um
companheiro verdadeiro.
Depois de a imagem-perceptiva da criada de quarto
ter adquirido no mundo-próprio de Tschock o «teor de
afeição» exclusivo, todas as outras imagens-perceptivas
perderam eficácia.
Quando consideramos que nos mundos-próprios da
gralha todo o ser vivo, isto é, aquelas coisas que são
capazes de movimento próprio, se reduzem a gralhase
não gralhas (o que não deixa de ter analogia com o que
se passa com os homens primitivos), e quando, depois,
e já de acordo com a experiência pessoal, a maneira de
fazer a distinção passou a ser outra, então compreende-se
que se possam cometer erros tão ridículos como os que
acabámos de referir. Não é só a percepção que decide se
se trata de gralhas ou não gralhas, mas também a ima-
gem-efectora dó próprio ajustamento. Só esta decide
qual a imagem-perceptiva que mantém o respectivo, teor.-
-d e-companheiro.
11. IMAGEM-PRETENDIDA E TEOR-PRETENDIDO
Volto a duas experiências pessoais que explicarão
melhor que tudo o que, como factor importante para o
mundo-próprio, se deve entender por imagem pretendida.
Quando, por largo tempo, fui hóspede de certo amigo
meu, todos os dias ao almoço colocavam diante do meu
lugar à mesa um jarro com água. Um dia o criado partiu
o jarro, e a substituí-lo pôs no lugar por ele habitualmente
ocupado, uma garrafa de vidro com água. Durante a refei
ção procurei com a vista o jarro e não notei a garrafa de
vidro. Só quando o meu amigo me assegurou que a água
estava no seu lugar habitual é que subitamente certos
clarões oue incidiam sobre facas e garfos através do ar
se combinaram e formaram a garrafa de vidro. A fig. 38
8 - A. HOMENS [113]
deve exprirpir esta experiência. A imagem procurada
A outra experiência foi a seguinte: entrei um dia em
um estabelecimento em que tinha a liquidar uma conta,
e tirei da carteira uma nota de cem marcos. A nota era
absolutamente nova e estava pouco amarrotada, e em
\’
Fig. 38 — A imagem pretendida elimina a imagem perceptiva
vez de ficar aberta e estendida sobre o balcão, ficou ao
alto apoiada sobre as margens em ângulo. Pedi à caixeira
para me dar o troco e ela respondeu-me que eu ainda lhe
não dera o dinheiro. Disse-lhe que o tinha na sua frente,
mas ela, agastada, repetiu que, se queria o troco, desse
primeiro o dinheiro. Toquei èntão com úm dedo na nota,
que caiu e ficou.bem visível. A pequena soltou um gri
[ 114]
tinho, pegou na nota e apalpou-a com todo o cuidado, não
fosse ela esvair-se de novo no ar. Também neste caso,
é manifesto, a imagem-pretendida elim inaraa..imageau_
-perceptiva,__
Todos os leitores terão passado por casos como
estes que parece serem bruxarias.
Na minha doutrina-da-vida publiquei a fig. 39, aqui
reproduzida, que explica os diferentes processos que se
Fig. 39 — Os processos perceptivos
entrelaçam nas nossas percepções. Quando colocamos
diante de qualquer pessoa uma campainha, e a fazemos
soar, ela entra no seu mundo ambiente como fonte de
um estímulo, que penetra no seu ouvido transportado por
ondas do ar (processo físico). Dentro dele as ondas
sonoras transportadas pelo ar transformam-se em estí
mulos nervosos, que atingem o órgão-de-percepção do
cérebro (processo fisiológico). Aí as células de percepção
[ 115]
reagem por meio de percepções e transferem para o
mundo-próprio do sujeito um sinal-característico (pro
cesso fisiológico).
Se a par de ondas sonoras transportadas pelo ar até
ao ouvido, entram nos olhos ondas de éter, que, seme
lhantemente, determinam no órgão-de-percepção excita
ções, então, os seus sinais perceptivos de sons e de
cores constituem-se segundo um certo esquema num
conjunto unitário, que é projectado no mundo-próprio do
sujeito como imagem-perceptiva.
A mesma representação gráfica pode aplicar-se à
explicação do chamado teor-pretendido. Neste caso a
campainha deve encontrar-se fora do campo de visão.
As percepções sonoras são, só elas, transportadas para o
mundo-próprio do sujeito. Ligadas com elas há, porém,
uma imagem perceptiva óptica invisível, que funciona
como imagem-pretendida. Se a campainha depois de pro
curada entra no campo de visão, então a imagem-percep-
tiva associa-se com a imagem-pretendida. Afastadas ex-,
cessivamente uma da outra, pode suceder que a imagerh-
-pretendida anule a imagem-perceptiva, como resulta dos
exemplos dados.
No mundo-próprio do cão há imagens-pretendidas
perfeitamente determinadas. Quando o dono manda o cão
buscar uma bengala, o cão dispõe de uma imagem-preten
dida bem determinada da bengala, como o mostram as
figs. 40 a e 40 b. Também aqui há oportunidade de verifi
car até que ponto a imagem-pretendida corresponde à
imagem-perceptiva.
O sapo fornece algumas informações neste sentido:
um sapo que, depois de um prolongado jejum, comeu uma
minhoca, lançou-se igualmente sobre um fósforo, que
tem certa semelhança de forma com uma minhoca. Daqui
se conclui que a minhoca que ele acabara de devorar
[ 116] [ 117]
lhe serviu de imagem-pretendida como se traduz na
fig. 41.
Se o sapo tivesse primeiro comido uma aranha, a
imagem-pretendida seria diferente, porque então lançar-
-se-ia porventura sobre um fragmento de um musgo ou
sobre uma formiga, o que |he assentaria muito mal.
Ora nós nem sempre buscamos determinada coisa à
custa de uma Imagem-perceptiva. mas muito mais fre-
guéntementje buscamos um objecto que corresponde a
'""uní
Fig. 41 — Imagem-pretendida do sapo
ÜUiaJmageiri-efectora. Assim não buscamos, olhando em
volta de 'nos","Fmà ’determinada cadeira, mas sim um
móvel que sirva para nos sentarmos, isto é, uma coisa
a que corresponde determinado tp.nr-de-utilização. Neste
caso pode tratar-se não de uma imagem-pretendida mas
de um teor-pretenriiHn.
Quão importante é o papel desempenhado pelo teor-
-pretendido no mundo-próprio de cada animal ressalta do
exemplo citado a respeito do casa-roubada e da anémona-
-do-mar. Aquilo a que então chamámos a condição, ou
disposição, do casa-roubada, que era diferente de caso
[ 118]
para caso, podemos agora designar, com mais proprie
dade, por teor-pretendido, diferente de caso para caso,
com que o casa-roubada aborda a mesma imagem-percep
tiva e lhe atribui ora um teor-de-agressão, ora um teor-
-de-protecção, ora ainda um teor-de-alimento.
O sapo esfomeado começa por partir para a busca
dos alimentos dispondo apenas de vago teor-de-saciar-a-
-fome, e só depois de ele devorar uma minhoca ou um
fósforo se constitui determinada imagem-pretendida.
12. OS MUNDOS-PRÓPRIOS IMAGINÁRIOS
Sem dúvida existe, dominando tudo, uma oposição
entre o mundo ambiente que nós, homens, vemos abrir-se
em torno dos animais, e os nossos mundos-próprios, que
eles próprios construíram, e que preencheram com as
coisas de que tiveram percepção, Até aqui os mundos-
-próprios eram, em regra, o resultado das percepções
cféspêrtadas porest7mOT^j^rtéi:i.Q.i:ês.. Ã essa regra fize
ram já excepção a. imagem-pretendida, assini, como a de-v
terminação do caminho aprendido e a delimitação, da
pátria, que não resultam de qualquer es,pécie.de estímulo
exterior mas são produtos autónomos de actividades
f ' ^"iiiwjBiiriiiiiwiiii .......
subjectivas.....
Estes produtos subjectivos constituíram-se à custa
da reunião de repetidas experiências pessoais do sujeito.
Se agora prosseguirmos neste caminho, deparamos
com mundos-próprios em que surgem aspectos de grande
eficácia, mas que só são apercebidos pelo sujeito ,e ,que
não estão ligados a quaisquer experiências, ou, quando
muito se relacionam com um acontecimento excepcional.
Tais mundos-próprios designamo-los por mundos-imaqi-
nários.
Para ver até que ponto muitas-crianças vivem em
[119]
mundos-próprios-imaginários pode servir o seguinte exem
plo: Frobenius (1) refere-se no' seu Paideuma a uma rapari-
guinha que com uma caixa de fósforos e três fósforos
representou às escondidas, só para si, a história da casi
nha feita de bolo que Hansel e Gretei (2) encontraram na
floresta, e da bruxa má, e que inesperadamente se pôs a
Flg. 42— O aspecto imaginário da bruxa
gritar: «Levem-me daqui a bruxa; já não posso ver a sua
face horrenda.»Este caso, tipicamente do campo da imaginação, está
representado na fig. 42.
Seja como for, a bruxa má entrou em pessoa no
mundo-próprio da rapariguinha.
Casos como este apresentam-se muitas vezes pe
rante os exploradores de povos primitivos. Afirma-se que
estes vivem em um mundo de imaginação, em que aos
aspectos captados pelos sentidos se misturam no seu'
mundo aspectos imaginários.
(') Leo Frobenius (1873-1938). Etnólogo e explorador em
África (Nota da ed. alemã.)
(J) Personagens de um conto dos Irmãos Grimm.
[ 120]
Quem reparar melhor verá que o mesmo se dá em
muitos mundos-próprios de europeus cultos.
Ora pode perguntar-se se os animais também vivem
em mundos-próprios imaginários. A propósito de cães
contam-se muitos casos de imaginação. Mas tais relatos
não foram até hoje analisados com suficiente sentido
crítico. De uma maneira geral, porém, e aproximadamente,
deve-se admitir que os cães associam as suas experiên
cias umas com as outras de uma maneira que tem mais
um carácter imaginativo que lógico. O papel desempe
nhado pelo dono no mundo-próprio do cão compreende-se
como fenómeno de imaginação do cão, não se explica em
termos de causa e de consequência.
Um investigador meu amigo relata, a respeito de um
aspecto sem dúvida imaginário no mundo-próprio de uma
ave: tinha criado em casa um estorninho que, por isso,
nunca tivera ensejo de ver uma mosca, muito menos de
a apanhar. Ora o meu amigo observou (fig. 43) que uma
vez o estorninho se lançara subitamente sobre qualquer
coisa invisível, «apanhara-a» no ar e «trouxera-a» para o
[ 121]
sítio em que costumava estar pousado, «dando-lhe» bica
das, como todos os estorninhos fazem às moscas que
caçam, e acabando por «engoli-la». Não pode haver dúvida
que o estorninho visionara no seu mundo-próprio uma
mosca imaginária. Evidentemente todo o seu mundo-
-próprio estava tão ocupado pelo teor comestível, que,
Fig. 44 — O caminho imaginário da larva do gorgulho-da-ervilha
ajnda mesmo na ausência do estímulo sensorial, a ima-
gem-efectora preparatória da caça da mosca extraíra a
aparição da imagem-perceptiva, o que provocou o desen
cadear de toda a série de actos correspondentes.
Esta experiência dá-nos uma indicação que nos ex
plica, aliás, atitudes enigmáticas de vários animais.
A fig. 44 representa o modo de comportamento, já
estudado por Fabre, d a-largado g o rg ulh o:da-ervi lha, que
[ 1 2 2 ]
no momento próprio, abre uma galeria na polpa ainda mole
do grão da ervilha, até àjsuperfície, e que aquela só utiliza
depois de chegar a gorgulho adulto para sair de^dentro da
ervilha entretanto jsndurecjda. Está perfeitamente averi
guado que se trata de uma conduta exactamente planeada,
ainda que, do ponto de vista da larva do gorgulho, com
pletamente independente do ioao dos sentidos, pois que
nenhum estímulo sensorial do futuro qoraulhp_p,ode jnc[dir
sobre a sua larva. Nenhum sinal-perceptivo indica à larva
o cãmínho, que ela nunca seguira e que, no entanto, tem
de seguir, de modo que, depois da sua transformação
em gorgulho adulto, não venha a perecer miseravelmente.
Ãs figs. 45 e 46 mostram dois outros exemplos U í
caminho inato. A fêmea do enrolador-de-folhas começa a
cortar, em determinado ponto da folha da bétula (que
talvez lhe seja denunciado pelo seu gosto), uma linha
curva de forma predeterminada, que lhe permite depois
enrolar a folha em forma de funil, dentro do qual o insecto
fará a sua postura. Este, apesar de nunca antes ter
seguido esse expediente e de a folha da bétula não ofe
recer dele qualquer indicação, apresenta-se à imaginação
do insecto de uma maneira perfeitamente nítida.
O mesmo se passa com a rota de voo das aves
migradoras. Os continentes só às aves revelam o cami
nho inato. Isto é válido, certamente, para aquelas aves
jovens que se aventuram ao caminho não guiadas pelos
pais, pois que, para as outras, não se exclui a possibili
dade da utilização de um caminho aprendido.
Como o caminho aprendido, de que já tratámos, tam
bém o caminho inato é seguido tanto à custa do espaço-
-visual como do espaço-de-acção.
A única diferença entre os dois reside em que no
caminho aprendido se desenrola uma série de sinais per-
ceptivos e de impulso que saem uns dos outros, os quais
foram retidos por experiências anteriores, ao passo que
[ 123]
Fig. 45 — 0 caminho
imaginário do enrola-
dor-de-folhas
Fig. 46 — O cami
nho imaginário
das aves migra
do ras
[124]
no caminho inato a mesma série de representações é
dado imediato da imaginação.
Para o observador que está de fora, o caminho apren
dido num mundo-próprio de outro animal é quase tão
indiscernível como o inato. E quando se admite que o
caminho aprendido surge no mundo-próprio do sujeito
estranho — do que não há que duvidar — então não há
qualquer razão para negar o aparecimento do caminho
inato, pois que ele se organiza à custa dos mesmos ele
mentos — sinais-perceptivos e impulsos exteriorizados.
Num caso originaram-se em estímulos sensoriais, no
outro soarão em conjunto como uma melodia inata. Se
deteFmmádÕ~*cÍTi^h^~foi^se7-numa pessoa, inato, poder-
-se-ia descrever como o caminho-aprendido: cem passos
até à casa vermelha, depois voltar à direita, etc.
Se se chamar^sensoria jjsó àquilo que é dado ao
sujeito pelasjéxperiências dos sentidos, então s ó _ jd
procedimento aprendido se deverá chamar sensorial, não
o inato. Mas é por isso que este se mantém em alto grau
de acordo com um plano.
Que os aspectos imaginários desempenham no
mundo animal um papel muito mais vasto do que se supõe
di-lo uma experiência notável relatada por um investi
gador recente. Este costumava dar de comer a uma
galinha num certo estábulo, e enquanto ela debicava nos
grãos introduziu no estábulo um porquinho-do-mar. A gali
nha perdeu a cabeça e começou a esvoaçar de um lado
para o outro. A partir de então nunca mais conseguiu que
a galinha comesse no estábulo. Entre os mais apetitosos
grãos, era capaz de morrer de fome. É evidente que a
cena do incidente anterior pairava como sombra fantás
tica, o que a fig. 47 pretende representar.
Isto faz supor que, quando a galinha acorre para
junto dos pintainhos que piam, e afugenta um inimigo às
[125]
bicadas, é porque no seu mundo-próprio entrou uma apa
rência imaginária.
Quanto mais tivermos aprofundado o estudo dos
mundos-próprios, mais nos devemos ir convencendo de
que neles se introduzem factores actuantes a que não se,
pod e atribuir qualquer realidade objectiva. A começar .pelo
mosaico de lugares que a v ista introduz nas coisas do
Fig. 47— A sombra imaginária
mundo-próprio e que não existem no mundo ambiente,
cõmóTãmEem ali não existem os dador,-de-orientação que
cõnt£m'o" espaço dd”rn"undo-próprio. Do mesmo modo, foi
impossível encõrítrã7”no mund6'am biente um factor que
corresponda ao procedimento aprendido do sujeito. A dis
tinção de pátria e campo de caça não existe no mundo
ambiente. Não existem no mundo ambiente quaisquer ves-
tfqiQS-jJaJmPQrtante.. imaaem-pretendlda.'
[126]
Somos pois levados, finalmente, a aceitar o fenó
meno de imaginação do caminho inato que desdenha de
qualquer objectividade e que, no entanto, intervém no
mundo-próprio de acordo.,com um plano.
Há ainda nos mundos-próprios puras realidadessub-
jectivas. Mas também as realidades objectivas do mundõ
ambiente, como tais, nunca entram nos mun9õs:pr5prlòs.
São sempre .transformadas em sinais-característicos ou
imàgens-perceptivas e providas de um teor-efector, que
aà transforma em objectos reais, apesar de nos estímulos
nada existir que seja teor-efector.
E, finalmente, o simples ciclo de função ensina-nos
que tanto sinais-característicos como marcas-de-acção,
são exteriores ao sujeito, e que as propriedades dò
objecto,que o ciclo-de-função inclui,-só podem ser consi
deradas como seus veículos.
Ássim, pois, chegamos à conclusão que cada sujeito
vive num mundo em que só existem realidades subjec
tivas e que até os mundos-próprios, eles mesmos, só
apresentam realidades subjectivas.
Quem nega a existência de realidades subjectivas é
porque não reconheceu os fundamentos do seu mundo-
-próprio.
13. O MESMO SUJEITO COMO OBJECTO
EM DIFERENTES MUNDOS-PRÓPRIOS
Os capítulos anteriores referiram-se a digressões
•singulares em diferentes direcções, na terra desconhe
cida do mundo-próprio. Ordenaram-se conforme os pro
blemas, para em cada caso se conseguir uma maneira de
tratamento uniforme.
Ainda que alguns problemas fundamentais tenham
• assim sido tratados, nunca se chegou, nem se pretende
[127]
Manuela
Realce
ter-se chegado a qualquer resultado completo. Muitos
problemas aguardam interpretação reflectida, e outros
ainda não passaram da fase de formulação. De modo que
ignoramos ainda que parcela do próprio corpo do sujeito
passou a fazer parte do seu mundo-próprio. Nem uma só
vez a questão do significado da própria sombra no
mundo visual foi experimentalmente abordada.
O tratamento de problemas particulares é tão impor
tante para o estudo do mundo-próprio, como insuficiente
para se chegar a uma visão de conjunto das interdepen
dências dos mundos-próprios.
Uma tal visão é talvez possível, quando abranja
apenas um campo restrito, se explorarmos a questão:
como é que em diferentes mundos-próprios em que ele
desempenha um papel importante, o próprio sujeito passa
a ser objecto?
Como exemolo escolho um carvalho em que vivem
diferentes sujeitos do reino animal, e que em cada
mundo-próprio vem, além disso, a desemoenhar um
papel diferente. Como o carvalho também faz parte de
vários mundos-próprios humanos, conforme o observador,
comeco por estes (’).
As fiçjs. 48 e 49 são reproduções de dois desenhos
que devemos ao talento do artista Franz Huths.
(Fiq. 48). No mundo-próprio perfeitamente razoável do
velho couteiro, que resolveu quais as árvores da sua
coutada que estão boas para o corte, o carvalho destinado
ao machado não passa de umas braças de madeira que
ele mede com todo o cuidado. Por isso as rugosidades da
casca que, acidentalmente, parece representarem um
rosto humano, não são por ele notadas como tal. A fig. 49
representa o mesmo carvalho no mundo-próprio imagi-
(') Comp., porém, o que se notou nas págs. 11 e segs. da In
trodução. (N. do A.)
T128]
líip
A anémona-do-mar e o casa-roubada
O quarto, para o homem
Manuela
Realce
Manuela
Realce
O quarto, para o cão
O quarto, para a mosca
Fig. 48 — O couteiro e o carvalho
Fig. 49 — A rapariguinha e o carvalho
9 - A . HOMENS [129]
nário de uma rapariguinha para quem a coutada ainda é
povoada de gnomos e fantasmas, e que fica muito assus
tada como se o carvalho a olhasse com o seu mau cariz.
Todo o carvalho, para ela, passou a ser um perigoso de
mónio.
Na coutada de um primo meu, da Estónia, há uma
velha macieira sobre que se desenvolveu um grande
cogumelo que apresentava uma vaga semelhança com
um clown, o que até certa altura ninguém tinha notado.
Um dia meu primo contratou uns doze trabalhadores
russos para fazerem a colheita, os quais descobriram a
macieira e passaram a reunir-se todos os dias em volta
dela para cumprir uma cerimónia em que rezavam e se
benziam. Explicavam eles que o cogumelo devia ser uma
figura maravilhosa, pois não era obra do homem.
Para eles, acontecimentos maravilhosos naturais
eram coisas evidentes em si.
Mas, voltemos ao carvalho e aos seus habitantes.
Para a raposa (fig. 50) que construíra a sua cova entre as
raízes do carvalho, este passou a ser um abrigo seguro
que a protegia das intempéries, a ela e à sua família.
Para ela o carvalho não possuía o mesmo teor de utilidade
prática que tinha para o couteiro, nem o teor de ameaça
que tinha para a rapariguinha, mas sim, é evidente, um
teor de abrigo e nada mais.
Semelhantemente, no mundo-próprio do mocho o car
valho tem um teor de refúgio (fig. 51). Somente, agora,
não são as raízes, completamente fora do mundo
ambiente, mas os troncos vigorosos, que constituem
para ele uma como que muralha defensiva.
Para o esquilozinho o carvalho adquire, com as suas
numerosas frondes, que lhe proporcionam trampolins
apropriados para saltarem, um teor de trepar, e para as
aves canoras, que constroem os seus ninhos nas rarhà-
rias, o teor de suporte necessário.
[130]
Fig. 50 — A raposa e o carvalho
Fig. 51— O mocho e o carvalho
[131]
Correspondentemente aos diferentes teores de utili
zação, diferem umas das outras~ãs imagens-perceptivas.
Cada mundo-próprio aproveita do carvalho uma certa
parte das suas propriedades, adequada à formação tanto
dos veículos de sinais-característicos como dos de mar-
cas-de-acção dos seus ciclos-de-função. No mundo-próprio
da formiga (fig. 52) tudo que não é a casca com as suas
anfractuosidades desaparece, tornando-se aquelas o seu
campo de pilhagem.
Fig. 52— A formiga e o carvalho
[132]
Por baixo da casca, que ele destaca, o longicórneo
(fig. 53) procura o seu alimento e aí põe também os seus
ovos. As larvas que deles resultam abrem no lenho
Fig. 53 — O longicórneo e o carvalho
galerias, e abrigadas nelas dos perigos do mundo exte
rior, banqueteiam-se em segurança. Mas a sua protecção
não é absoluta. Porque não é só o picapau que com as
[133]
suas fortes bicadas fende a casca e as persegue, mas
também o icnêumon (fig. 54), que, com o seu fino ovopo-
sitor perfura o duro lenho do carvalho como se ele fosse
manteiga, e as aniquila, introduzindo-lhes no corpo os
seus ovos, dos quais virão a resultar larvas, que, por seu
turno, engordam à custa daquelas outras.
Em todas as centenas de mundos-próprios diferentes,
o carvalho desempenha, como objecto, um papel alta
mente variado, ora com uma ora com outra das suas
Fig. 54 — O Icnôuinon e o carvalho
partes. Umas destas são extensas, outras, reduzidas.
Umas vezes, a madeira é dura, outras, mole. Uma vezes
serve de protecção, outras de campo de ataque.
Se quiséssemos resumir as particularidades opostas
que, como objecto, o carvalho apresenta, o que resultaria
seria um caos. E, no entanto, todas elas são apenas
partes de um sujeito estritamente ordenado, que contém
todos os mundos-próprios — nem conhecidos nem conhe-
cíveis por todos os sujeitos destes mundos-próprios,.
[134]
14. CONCLUSÃO
O que, em ponto pequeno, reconhecemos no carvalho,
passa-se, ampliado, na árvore da vida da natureza.
Dos milhões de mundos-próprios, cujo número nos
confundiria, só escolhemos aqueles que se destinam
ao estudo da natureza— , os mundos-próprios do natu
ralista.
A fig. 55 representa o mundo-próprio dos astrónomos,
de todos o mais facilmente representávei. Em uma torre
muito elevada, possivelmente muito afastada da super
fície da Terra, senta-se um ser humano que, por meio de
dispositivos ópticos, apropriados, transformou a sua vista,
capaz de penetrar o universo até às últimas estrelas.
No seu mundo-próprio giram sóis e planetas em feérico
movimento. A luz, rapidíssima, leva milhões de anos a
atravessar este universo.
E contudo todo o mundo-próprio em volta não passa
de uma insignificante secção da natureza, feita de acordo
com as possibilidades de um sujeito humano. Com dimi
nutas modificações pode-se aproveitar o quadro do astró
nomo para obter uma representação do mundo-próprio
de um investigador das profundidades marinhas. Somente,
agora, o que se move em volta do seu observatório não
são astros, mas formas fantásticas de peixes das profun
didades, com as suas fauces horrendas, as suas longas
antenas e os seus órgãos luminosos brilhantes como
estrelas.Também aqui nós relanceamos um mundo real
que representa uma pequena secção da natureza.
O mundo-próprio de um químico, que, a partir dos
elementos químicos, como se fossem noventa e duas
letras, tentasse ler e escrever as enigmáticas correlações
das substâncias da natureza, é difícil de traduzir inteligi
velmente.
É mais fácil de descrever o mundo-próprio de um
[135]
Manuela
Realce
Manuela
Realce
físico-atómico. porque assim como as estrelas dos astró
nomos giram, assim também, para ele, giram os electrões
Somente aqui reina, não a calma universal, mas uma agi-
Fig. 55 — O mundo-próprio dos astrónomos
tação frenética das partículas materiais mínimas, que o
físico se propõe fazer explodir bombardeando-as com
pequeníssimos projécteis.
[136]
Quando um outro físico estuda no seu mundo-próprio
as ondas do éter, recorre ainda a meios auxiliares com
pletamente diferentes que lhe revelam uma imagem das
ondas. Agora ele pode afirmar que ondas luminosas que
afectam os nossos órgãos da visão se assemelham às
outras ondas sem manifestarem quaisquer diferenças.
s São ondas e nada mais.
No mundo-próprio dos fisiólogos dos sentidos, as
ondas luminosas desempenham um papel compfètãmente
diferente. Agora passam a ser cores, que têm as suas
leis próprias. Vermelho e verde associam-se e dão branco,
e as sombras projectando-se num fundo amarelo dão azul.
Fenómenos, que, nas ondas, elas próprias, não se passam;
e contudo as cores são tão perfeitamente positivas como
as ondas do éter.
Os mesmos contrastes se revelam nos mundos-pró-
prios de um investigador das ondas do ar e de um inves
tigador da música. Num, só há ondas, no outro só há
sons. Ambas as coisas são porém igualmente reais.
E assim por diante. No mundo-próprio da natureza, dos
beavioristas, o corpo cria o espírito, e no do psicólogo
é o espírito que cria o corpo.
O papel que a natureza como objecto desempenha
nos diferentes mundos-próprios do naturalista é eminente
mente contraditório. Se se quisessem resumir as suas
particularidades objectivas caía-se no caos. E no entanto
todos éstes diferentes mundos-próprios estão incluídos
e arrastados num uno que se conserva eternamente
vedado a todes os mundos-próprios. Por trás de todos os
mundos por ele criados, oculta-se eternamente o sujeito
inatingível — a Natureza.
[137]
Manuela
Realce
DOUTRINA DO SIGNIFICADO
POR
JAKOB v. UEXKÜLL
A os meus adversários em Ciência,
para que usem de amigável atenção
1. OBJECTOS SIGNIFICANTES (')
Um golpe de vista pelos insectos voadores, como as
abelhas, os zangãos e as libélulas, que se agitam num
prado florido, desperta sempre em nós a impressão de
que o mundo inteiro se mantém aberto a estes seres tão
invejáveis.
Até os animais adstritos à terra, como as rãs, os
ratos, os caracóis e os vermes parecem mover-se livre
mente na Natureza livre.
Esta impressão, porém, é enganadora. Na verdade,
(') A breve introdução à «doutrina do significado», polémica
getiial de Jacob von Uexküll com o seu grande adversário científico
Max Hartmann, só para o especialista pode ter interesse e talvez
até causasse confusão ao leigo no assunto. Por outro lado, estas pala
vras introdutórias dão um retrato tão relevante e impressivo do
[139]
cada um destes animais, que se movem livremente, está
preso a um determinado mundo que ele habita e cujos
limites compete aos ecólogos pesquisar.
A priori, não temos a menor dúvida de que existe um
mundo imenso que se desdobra ante os nossos olhos e
do qual cada animal destaca o mundo que habita. Aparen
temente, cada animal dentro do mundo em que vive,
depara com grande número de objectos, com os quais
mantém relações mais ou menos estreitas. Daqui parece
resultar automaticamente, para cada biólogo experimen
tal, que a sua missão é colocar diferentes animais perante
o mesmo objecto, a fim de estudar as relações entre
animal e objecto, operação em que o mesmo objecto
serve de padrão em todas as experiências com animais.
Assim, os investigadores americanos, em milhares
de experiências, iniciadas com ratos brancos, têm pro
curado incansavelmente examinar os mais diversos ani
mais, nas suas relações com um labirinto.
A mediocridade dos resultados obtidos com estes
trabalhos, executados, aliás, segundo os mais rigorosos
métodos quantitativos e os cálculos mais perfeitos, podia
tê-la previsto quem se desse conta de que é falsa a
pressuposição implícita de que um animal pode alguma
vez entrar em relação com um objecto.
É fácil apresentar, por meio de um exemplo simples, a
prova desta afirmação, talvez surpreendente. Na estrada,
um cão ladra furiosamente contra mim. Para me libertar
dele, pego numa pedra do caminho e atiro-a ao assaltante,
num golpe certeiro. Ninguém, que tivesse observado a
cena e apanhasse depois a pedra, duvidaria então de que
naturalista combativo e original que é Von Uexküll, que não queremos
privar dela os nossos leitores. Por isso a oferecemos a seguir à
doutrina do significado, como epílogo.
A controvérsia, aliás, significativa em si, mesmo que tenha per
dido actualidade, não está encerrada. (Nota da ed. alemã.)
[140]
ela era o mesmo objecto «pedra» que fora levantada do
pavimento e atirada depois ao cão.
Nem a forma, nem o peso, nem as outras proprie
dades físicas e químicas da pedra se alteraram. A cor,
a dureza, as formações cristalinas conservaram-se as
mesmas e, todavia, operou-se nela uma transformação
fundamental: mudou de significação, ou melhor, de sig
nificado.
Enquanto a pedra fazia parte do pavimento da estrada,
servia de apoio ao pé do viandante. O seu significado
estava na parte que lhe cabia na função do caminho.
Tinha, para assim dizer, um sentido ou «teor de caminho».
Tudo se modificou radicalmente quando apanhei a
pedra para a atirar ao cão. Ela transformou-se então num
projéctil: foi-lhe atribuído um novo significado. A mesma
pedra recebeu um «teor de arremesso».
A pedra que, como objecto neutro, está na mão do
observador, transforma-se num objecto significante logo
que entra em relação com um sujeito. Como os animais
nunca se apresentam como observadores, pode afirmar-se
que nenhum animal pode entrar em relação com um
objecto. Só pela relacionação, o objecto se transforma
em qualquer coisa com um significado, que lhe é atri
buído por um sujeito.
Dois outros exemplos podem esclarecer-nos acerca
da influência que a mudança de significado exerce nas
propriedades dos objectos. Eu pego numa concha larga
de vidro, que pode considerar-se um mero objecto, por
isso que não entrou em qualquer espécie de relação com
uma actividade humana. Encaixo-a depois na parede exte
rior da minha casa, transformando-a, desta maneira, numa
janela que deixa penetrar a luz do Sol mas que, devido
aos-seus reflexos, faz desviar a vista às pessoas que pas
sam. Posso ainda colocar a concha em cima da mesa e
enchê-la de água, para a utilizar como vaso de flores.
[141]
As propriedades do objecto não se alteram com isso.
Mas logo que ele se transformou num objecto significante
«janela» ou «vaso», reconhece-se uma diferenciação das
suas propriedades, consoante a função que passa a de
sempenhar. Para^jandajj^atransgarência a propriedade
essencial, ao passo que a curvatura representa a proprie
dade acessória.
Este exemplo permite compreender melhor por que
razões os escolásticos classificavam as propriedades dos
objectos em essentia e accidentia. Ao fazerem esta classi
ficação, eles só tinham em mente objectos significantes,
pois as propriedades de objectos sem significado não
admitem qualquer ordenação hierárquica. Só a ligação
mais ou menos estreita do objecto significante com o
sujeito permite dividir as propriedades em essenciais
[essentia) e acessórias (accidentia).
Como, terceiroexemplo, tomemos um objecto cons
tituído por duas barras compridas e várias outras mais
curtas que, com intervalos regulares, liguem as duas
primeiras. A este objecto pode atribuir-se o teor de
«trepar», de uma escada, quando se encostam ao alto, a
uma parede, as duas barras compridas; mas também
posso atribuir-lhe o teor correspondente à sua utilidade
como vedarão, se fixar no solo, horizontalmente, uma
das barras maiores.
Imediatamente se verifica que o afastamento entre si
das barras tVansversais desempenha papel secundário
no caso da vèdação mas que, no caso da escada, esse
intervalo deve corresponder a um passo. Já se reconhece,
assim, no objecto significante «escada», um plano simples
de construção geométrica que torna possível a acção de
trepar.
Em linguagem pouco rigorosa, nós designamos todas
as coisas que nos são úteis (embora elas comportem,
colectiva e individualmente, significação humana) sim
[142]
plesmente por objectos, como se de meros objectos
autónomos se tratasse. Com efeito, não é raro tratarmos
uma casa, com tudo que nela se encontra, como se ela
existisse objectivamente, sem considerarmos as pessoas
que habitam essa casa e utilizam as coisas nela contidas.
Verificaremos imediatamente quanto é errada esta
maneira de ver se, em lugar de uma pessoa, imaginarmos
um cão como habitante da casa e atentarmos nas suas
relações com as coisas.
Sabemos, pela experiência de Sarris ('), que um cão
que aprendeu a sentar-se numa cadeira quando lhe dão
a ordem «cadeira!» procura outra coisa para se sentar,
se aquela lhe tiver sido retirada, e até outra coisa que
possa servir-lhe de assento a ele, sem que tenha de ser,
necessariamente, assento próprio para pessoas.
As coisas que podem ser aproveitadas para assento
contêm todas um significado comum, possuem todas o
mesmo teor de assento, pois podem substituir-se arbitra
riamente umas pelas outras que o cão servir-se-á delas,
sem distinção, à voz de comando «cadeira!».
Se imaginarmos, pois, o cão como habitante da casa,
poderemos verificar a existência de um grande número
de coisas com o teor de «assento». Haverá, do mesmo
modo, muitas coisas que apresentam um teor de «comida»
ou um teor de «bebida» de cães. A escada tem, por certo,
uma espécie de teor de «trepar»; mas a maioria dos
móveis têm, para o cão, apenas um teor de «estorvo»,
mesmo quando cheios de livros ou roupas. Todos os
pequenos utensílios domésticos, como colheres, garfos,
fósforos, deixam, por inúteis, de existir para o cão.
Ninguém contestará que a impressão deixada pela
casa, com todas as coisas que só ao cão podem inte-
"V
(’) E.J3^Sams. colaborador de Uexküll, que, desde 1931, se
tem dedicado ao estudo do comportamento e ao ensino de cães
e também ao treino de cães de cego. (N. da ed. alemã.)
[143]
ressar, é extremamente desoladora e não corresponde, de
modo algum, ao seu verdadeiro significado.
Não poderemos daí concluir que, por exemplo, a flo
resta, cantada pelos poetas como a mais bela estância
para o homem, não é, de forma alguma, concebida no seu
verdadeiro sentido, quando a relacionamos só connosco?
Antes de desenvolvermos esta ideia, seja-nos permi
tido citar aqui uma frase do capítulo sobre o mundo-pró
prio, no livro de SombartC) Acerca do Homem: «Não
existe nenhuma flo resta como mundo-próprio objectiva
mente bem determinado, mas sim uma floresta do cou
teiro, do caçador, do botânico, do passeante, do amante
da Natureza, do homem que vai à lenha ou do que anda
às bagas, ou a floresta da fábula em que Hansel e Gretei
se perdem.»
Os significados da floresta contam-se por milhares,
se nos não limitarmos às suas relações com sujeitos
humanos e se também tomarmos em consideração os
animais.
É, todavia, inútil extasiar-nos com o número extraor
dinário de mundos-próprios que se contêm na floresta.
Será muito mais elucidativo tomar um caso típico, para
então lançarmos um golpe de vista pela teia de relações
dos mundos-próprios.
Observemos, por exemplo, o pedúnculo de uma flor
dos prados, que desáErõcfíãT^é procuremos verificar que
papéis lhe são atribuídos nestes quatro mundos-pró
prios: 1) o de uma rapariga que anda a colher flores e,
com algumas delas, de várias cores, faz um ramo que
depois põe, como adorno, na cintura do corpete; 2) o de
uma formiga que utiliza o desenho regular da superfície
superior do pedúnculo como piso ideal para atingir a zona
rica de alimento, dentro das pétalas da flor; 3} o de uma
(') Wemer Sombart, sociólogo alemão (1863-1941). (N. da ed.
alemã.)
[144]
larva de aphrophora spumaria, que perfura os vasos con
dutores da seiva do pedúnculo e o utiliza como fonte de
material emulsionável com que constrói o seu abrigo
aéreo; 4) o de uma vaca que ceifa, com a língua, o
pedúnculo e a flor e os mete na enorme boca, para os
utilizar como alimento.
O mesmo pedúnculo de uma flor desempenha, con
forme o cenário do mundo-próprio em que se encontra, o
papel de adorno, de passagem, de reservatório ou, final
mente, de bocado de comida.
Isto é verdadeiramente espantoso. O pedúnculo da
flor, em si próprio, como parte de uma planta viva, é
formado por elementos dispostos segundo um plano, uns
em relação aos outros, que constituem um mecanismo
mais perfeito que todas as máquinas feitas pelo homem.
Os mesmo elementos que no pedúnculo da flor estão
submetidos a um acertado plano de construção_gão sepa
rados uns dos outros, levados para os quatro mundos-pró
prios e perfeitamente ajustados, com igual certeza, a
outros plajoos de construção.
Logo que cada componente de um objecto orgânico
ou inorgânico surge, como óbjecto significante, no cenário
da vida de um sujeito animal, esse componente é posto
em contacto com um, digamos, «complemento.», sjtujdo
no corpo do sujeito que intervém como. utilizadot-do.
significado.
"Éste facto chama a nossa atenção para um aparente
contraste nos caracteres fundamentais da natureza viva.
A concordância com um piano na estrutura do corpo e a
concordância com um plano na estrutura do mundo-pró
prio situam-se frente a frente e parecem contradizer-se.
E ilusória seria a impressão de que a concordância
com um plano na estrutura do mundo-próprio é, de algum
modo, menos rigorosa do que na estrutura do corpo.
Cada mundo-próprio é, em si, uma unidade fechada,
1 0 -A . HOMENS [145]
que em todas as suas partes é dominada pelo significado
que o sujeito lhe atribui. Consoante o significado que tem
para o animal, o cenário da vida abrange um espaço amplo
ou limitado, cujos lugares dependem inteiramente, em
número e grandeza, da capacidade de diferenciação do
órgão sensorial do respectivo sujeito. O espaço visual da
rapariga, no exemplo anterior, assemelha-se ao nosso; o
espaço visual da vaca estende-se para além da planície
em que o prado está situado, ao passo que o seu diâmetro
no mundo da formiga não vai além de meio metro e será
de alguns centímetros apenas no da aphrophora.
Em cada espaço, é diferente a distribuição dos luga
res. O piso macio que a formiga tateia, ao passar pelo
pedúnculo da flor, não existe para as mãos da rapariga
e ainda menos para a boca da vaca.
O esquema estrutural do pedúnculo da flor e a sua
constituição química não desempenham qualquer papel
no cenário da vida da rapariga ou no da formiga. A diges-
tibilidade dos colmos, pelo contrário, é essencial para a
vaca. Dos vasos condutores, delicadamente estruturados,
do pecíolo, a aphrophora extrai a seiva que lhe convém.
Com efeito, ela é capaz, segundo Fabre, de obter, à custa
do leite yenenoso da erva-leiteira, um suco inofensivo
para a sua habitação de espuma.
Tudo qyanto cai na esfera de um mundo-próprio, ou
desaparece totalmente ou é adaptado e transformado
até se converter num objecto com significado útil. Os
elementosiniciais são então muitas vezes separados uns
dos outros, sem atender ao plano de construção que até
aí os regulava.
Dentro dos vários mundos-próprios, os objectos sig-
nificantes são tão diferentes pelo seu conteúdojquanto se
assemelham pela natureza da sua estrutura. A lgumas das
suas propriedades apresentam-se sempre ao sujeito como
[146]
portadoras de sinais-característicos e outras como por
tadoras de sinais-de-impulso ou acção.
A cor das flores actua como nota (ou sinal) visual no
mundo-próprio da rapariga do exemplo dado; o estria-
mento da superfície superior do pedúnculo como nota
táctil, no mundo-próprio da formiga, e o ponto em que a
aphrophora o perfura denuncia-se-lhe, talvez, como nota
olfativa; e no mundo-próprio da vaca, a seiva do pedún
culo dá a nota gustativa. A maior parte das vezes, os
sinais de acção são atribuídos pelo sujeito a outras
propriedades do objecto significante. É quebrando-a pela
região mais delgada do pedúnculo que a rapariga colhe
a flor.
O estriamento da superfície superior do pedúnculo
serve à formiga para provocar não só o sinal táctil das
suas antenas mas também o da acção das suas pernas.
O reservatório de seiva, denunciado pelo cheiro, é
perfurado pela aphrophora e a seiva que dele brota serve,
como material, para a construção do seu ninho espumoso.
A nota gustativa do pedúnculo faz que a vaca, ao
pastar, vá ceifando sempre mais colmos com a língua.
Como, em cada caso, o sinal-de-impulso aplicado
sobre o objecto significante anula o sinal-perceptivo que
provoca o comportamento, sucede que, com esse sinal-
-de-impulso, termina todo o comportamento, qualquer que
ele seja.
O colher a flor transforma esta num adorno, no
mundo-próprio da rapariga; a passagem ao longo do pe
dúnculo transforma este num caminho, no mundo-próprio
da formiga, e a picada da larva transforma-o numa fonte
de material de construção, que ela utiliza. Finalmente, ao
ser comido pela vaca, o pedúnculo da flor passa a ser um
alimento próprio do gado.
Assim, cada acto de comportamento, constituído por
sinais-perceptivos e impulsos, imprime ao objecto neutro
o seu significado e transforma-o, com isso, num objecto
[147]
significante, relacionado com o sujeito, no seu respec
tivo mundo-próprio.
Como cada acto de comportamento se inicia pela
produção de um sinal-perceptivo e termina com a «cunha
gem» de um sinal-de-impulso no mesmo objecto signifi
cante, é possível falar de um ciclo-de-função que rela
ciona o objecto significante com o sujeito.
Os ciclos-de-função mais importantes, pelo seu
significado, que se nos deparam na maior parte dos mun-
dos-próprios são: o ciclo do habitat, o da nutrição, o do
inimigo e o do sexo.
Graças à sua integração num ciclo-de-função, cada
objecto significante torna-se complemento do sujeito ani
mal e por isso certas propriedades individuais, conside
radas portadoras de sinais-característicos e efectores
desempenham então um papel essencial, enquanto outras,
pelo contrário, têm apenas papel secundário. Frequente
mente, a maior parte do corpo de um objecto significante,
como estrutura não diferenciada, serve apenas para arti
cular entre si as partes portadoras de sinal-perceptivo
com as partes portadoras de sinal-de-acção. (Comp.
pág. 36, fig. 3.)
2. MUNDO-PRÓPRIO
E REVESTIMENTO PROTECTOR
Tanto os animais como as plantas dotam o corpo de
protecções vivas, ao abrigo das quais passam a sua
existência.
São todas construídas rigorosamente segundo um
plano, mas distinguem-se, todavia, em pontos essenciais.
Em volta do revestimento animal há um espaço mais ou
menos amplo, em que abundam os objectos significantes
do sujeito, todos, porém, ligados a este, por meio dos
ciclos-de-função.
[148]
O comando de cada niclo-rje-função, tal como ele se
exerce no corpo de um animal é o sjstema nervoso que,
começando pelos receptores (os órgãos dos seirtTHos)
e passando, pelos órgãos centrais da percepção e da
acção, conduz a corrente de excitação^ até os efectores.
O revestimento das plantas carece ide sistemiTner-
voso; faltam-lhe os órgãos da percepção e da acção e,
consequentemente, não há, para as plantas, nem objectos
significantes, nem ciclos-de-função nem sinais-caracte-
rísticos, nem sinais-de-acção.
O exterior dos animais é capaz de se mover e, com
auxílio dos músculos, pode pôr em movimento os seus
receptores em todos os sentidos.
O das plantas não dispõe de mobilidade própria,
pois não possui nem órgãos receptores nem efectores
com que elas possam construir e regular o seu mundo-
-próprio.
A planta não possui órgãosjespeciais de mundo-pró-
prio: vive solitária, dentro do mundo que habita. As rela
ções das plantas com esse mundo são totalmente dife
rentes das que ligam os animais ao seu mundo-próprio.
Apenas _num ponto coincidem os planos de organização
dosjanimais e das plantas: ambos conseguem fazer uma
rigorosa selecção , das. acções que. o - mundo exterior
exerce sobre eles.
Apenas uma parte das acções do exterior é captada
pelos órgãos dos sentidos dos animais e tratada como
estímulos. Estes estímulos são convertidos em excitações
nervosas que são, por sua vez, transmitidas aos órgãos
centrais de percepção. Nos órgãos de percepção soam
então os correspondentes sinais-perceptivos que são
depois transferidos para o exterior como notas e transfor
mados em propriedades dos objectos significantes.
No órgão de percepção, os sinais-perceptivos indu
zem, digamos assim, no órgão central da acção, os im-
[149]
pulsos correspondentes, os quais se tornam fontes dos
fluxos de excitação que acorrem aos efectores.
Quando se fala de uma indução de impulsos, pelos
sinais-perceptivos, não deve, de maneira nenhuma, enten
der-se uma indução eléctrica entre dois condutores para
lelos, mas a indução que se dá na sequência de uma
melodia, de nota para nota.
Também para as plantas não existem estímulos de
importância vital que se salientem, como factores signifi-
cantes, do conjunto de acções que de todos os lados
incidem sobre elas.
A planta não defronta as acções exteriores por meio
de órgãos receptores ou efectores; mas, graças a uma
camada de células vivas, ela, de dentro do seu revesti
mento, é capaz de seleccionar estímulos.
Nós sabemos, desde Joh. Müller, que é falsa a ideia
do fluir mecânico dõsTenómenos vitais. O próprio reflexo,
tão simples, de uma pálpebra que se agita, à aproximação
de um c o rp cT e s tr ãnfrcT, não é o efeito de uma cadeia de
causas e ereittte'físicos mas^'iW”cicló:di-função simplifi;
cádòTqu"e~comecá cóm a pércepcão e acaba com .a acçlQ.
O facto de, neste caso, o ciclo-de-função não atingir o
cérebro e abrir caminho através dos centros inferiores
nada altera quanto à sua essência. O reflexo mais simples
é também._fundamentalmente. um acto do tipo percep-
ção-acção, mesmo que o arco reflexo devesse implicar
apenas~ümá cadeia de células individuais.
Podemoà estar absolutamente seguros desta afirma
ção, desde que Joh. Müller mostrou que qualquer estru
tura viva se distingue de todos os mecanismos inani-
mados por possuir, além da energia física, uma energia
vital «específíca■>.~ Pá ra~ficarmos ihteiramente eIucidados,
comparemos um músculo vivo com um sino. Verifica-se
então que só se consegue que o sino exerça a sua função
— tocar — fazendo-o oscilar, de certa maneira, num sen
[150]
tido e noutro. Falhará qualquer tentativa para, de outro
modo qualquer, fazer tocar o sino: nem o aquecimento,
nem o arrefecimento, nem a acção de ácidos ou alcalinos,
nem os efeitos magnéticos, nem a produção de correntes
eléctricas — nada tem influência, de qualquer natureza,
sobre a função do sino, que permanece mudo. Pelo con
trário, um músculo vivo cuja função vital é a contracção
será levado a contrair-se, por meio de todasas acções
exteriores, desde que estas sejam próprias para, de modo
geral, actuar sobre ele.J3 sino comporta-se como objecto
inanimado que recebe apenas acções, enquanto õ mús
culo vivcTsè^comporta como sujeítcfqWTFSTns^
as acções .exteriores no mesmo estímulo, o qual, por
suçLvezr provoca o seu funcionamento.
Se possuíssemos um certo número de sinos vivos
que produzissem, todos eles, sons diferentes uns dos
outros, poderíamos formar com eles urri carrilhão quê
funcionasse por meios mecânicos, eléctricos ou químicos,
pois cada sino teria de responder cóm o seu Som próprio,
especial, a qualquer espécie de estimulação.
Mas isto não seria ainda um carrilhão vivo, pois tam
bém este, afinal — fosse ele movido eléctrica ou quimica
m ente— , continuaria a ser um simples mecanismo, pro
vido de sons individuais e inúteis.
Um carrilhão constituído por sinos vivos deveria
possuir a faculdade de executar a sua^música, não só
movida por impulso mecânico mas também regulada por
unia simples melodia. ...
Ora é isto exactamente que se passa em todo o
corpo vivo. Sem dúvida, poderá mostrar-se que em todos
os casos — e particularmente na transmissão da exci
tação do nervo ao músculo — o jogo vivo da sucessão
dos sons diferentes passa a ser substituído por um enca
deamento químico-mecânico. Mas esse facto continua
a ser, essencialmente, a consequência de uma mecani-
[151]
zação acessória. Na origem, todos os germes do orga
nismo se compõem de células de protoplasma livres, que
só obedecem à indução melódica dos seus sons indivi
duais.
A prova concludente deu-a Arndt H . ng iilrne em que
faz passar~inte os nossos olhos o desenvolvimento do
bolor-viscoso._Os germes deste tipo de fungos são, inicial
mente, células que se movem em liberdade, com movi
mentos amibóides (m ixam ibas) em busca da flora bac-
teriana de que se alimentam, sem se importarem umas
com as outras. Essas células amibóides multiplicam-se
produzindo uma massa de protoplasma multinucleado
(plasmódio). Quanto mais alimento existe, mais rapida
mente progride a reprodução. Daí resulta que os alimen
tos começam a faltar em toda a parte ao mesmo tempo.
Verifica-se então um facto espantoso: todos os ele
mentos dessa massa se isolam uns dos outros, em for
mações equivalentes, e, dentro de cada formação, todos
eles se dirigem para um ponto central comum. Chegados
aí, arrastam-se uns sobre os outros e, então, os que che
garam primeiro transformam-se em células fixas de su
porte, que servem de escada aos que vêm depois. Logo
que é atingida a altura definitiva do talo, ainda fino como
um cabelo, as células que se apresentam em último lugar
transformam-se num corpo frutífero em cujas cápsulas
se contôm os esporos vivos. As cápsulas sSo depois
espalhadas pelo vento, que as transporta a novos locais
de nutrição.
Ninguém põe em dúvida, neste caso, que a mecânica
subtilmente trabalhada do corpo do bolor-viscoso é um
produto de células livres, que só obedecem a uma me
lodia ordenadora dos seus sons individuais.
(') Walter Arndt (1891-1944), zoólogo e médico, conservador
do Museu de Zoologia de Berlim, fez, na década de trinta, um filme
notável sobre o desenvolvimento do bolor-viscoso. (N. da ed. alemã.)
[152]
A demonstração de Arndt é tão particularmente im
portante, por se tratar aqui de um organismo que, no pri
meiro período da sua existência, pelos seus movimentos
e pelo seu modo de alimentação, se comporta como ani
mal e depois, no segundo período, se converte em planta.
Não é para iludir que nós atribuímos às células ami
bóides do bolor-viscoso um mundo-próprio que, embora
limitado, é comum a todas e no qual as bactérias são des
tacadas do ambiente como objectos significantes e como
tais são notadas e tratadas. Mas o ser adulto é uma
planta, que não possui qualquer mundo-próprio de animal:
é simplesmente envolvida por um revestimento protector,
constituído por factores significantes.
O factor significante que tudo domina no organismo
adulto é o vento, contando com o qual ele se desen
volve com admirável segurança. Embora não sejam tão
engenhosamente construídas como os capítulos do dente-
-de-leão, as cápsulas de esporos do bolor-viscoso são
presa fácil do vento que, assim, garante uma larga disse
minação.
3. A UTILIZAÇÃO DO SIGNIFICADO
O mundo que um animal habita e que nós vemos
abrir-se à sua volta transforma-se, quando observado pelo
sujeito animal, no seu mundo-próprio, um mundo em que
se agitam os mais variados objectos significantes.
O mundo habitado por uma planta e que nós podemos
delimitar à volta do lugar em que ela cresce, transfor
ma-se, quando observado pelo sujeito-planta, num reves
timento protector que se compõe de diversos factores
significantes, submetidos a uma mudança regular.
A função vital do animal e da planta consiste em
utilizar, consoante o seu plano subjectivo de organização,
[153]
os objectos significantes, no primeiro caso, e os factores
significantes, no segundo.
Falamos correntemente da utilização de alimentos
mas, a maior parte das vezes, damos a este conceito
demasiada estreiteza. Por utilização significante dos ali
mentos deve entender-se, não só a trituração com os
dentes e a preparação química operada no estômago e
nos intestinos mas também o reconhecimento dos ali-
mentos por meio dos olhos, do nariz e do paladar.
Com efeito, no mundo-próprio dos animais, cada •
objecto significante é utilizado por meio da percepção
e da acção. Em cada ciclo-de-função, repete-se o mesmo
processo percepção-acção. Podemos, na verdade, consi
derar os ciclos-de-função cóTi^cícIõs^dé-significado, cuja
missão se completa na utilização dos objectos signifi
cantes. '
Não faz sentido falar de ciclos-de-função nas plantas
e, todavia, o significado dos seus órgãos, igualmente
constituídos por células vivas, reside na utilização dos
factores significantes do seu revestimento protector. Elas
realizam esta função graças à sua forma organizada se
gundo um plano e à ordenação, levada aos últimos por
menores, da sua substância.
Quando contemplamos o espectáculo das nuvens ao
sabor do vento, podemos atribuir significados diferentes
às diferefites formas que as nuvens tomam. Isto, porém,
não passa de um jogo da fantasia, pois as diferentes
formas das nuvens são simplesmente o resultado de
ventos variáveis e obedecem rigorosamente à lei da causa
e do efeitol
Quadro totalmente diverso é o que se nos oferece
quando acompanhamos o pairar, ao sabor do vento, do
gracioso pára-quedas do fruto do dente--de-!eão, ou a
rotação em espiral, do fruto das aceríneas ou das tílias.
Aqui, não é o vento, de modo nenhum, a causa da
[154]
constituição das formas, como no caso das nuvens: as
formas é que se insinuam no factor significante «vento»,
que elas utilizam diversamente para a disseminação das
sementes.
Há, porém, quem prefira considerar o vento como
causa determinante das formas porque, durante milhões
de anos, ele actuou sobre o objecto planta. Ora há
mais tempo ainda que o vento actua nas nuvens, sem
que dessa acção tenha resultado qualquer forma defi
nitiva.
A fotrna significante permanente é sempre o pro-
duto da acção de um sujeito e nunca o de um objecto^
trabalTiac(o seTn"'plano ~m~esmo durante tanto temjm^
" O que se~díz do vento, pode também dizer-se dos
outros factores significantes das plantas. A chuva é apa
rada pelas goteiras das folhas da copa e desce até às
finas extremidades da raiz, debaixo da terra. A luz do
Sol é absorvida pelas células providas de clorofila e utili
zada na execução de um processo químico complicado.
A clorofila não é fabricada pelo Sol como a goteira o não
é pela chuva.
Todos os órgãos — os das plantas e os dos animais
— devem a forma e a distribuição da substância ao seu
significado comoutilizadores dos factores significantes
que até eles chegam do exterior.
Em todos os organismos, portanto, o problema pri
macial é o do sign ificado e só depois dele resolvido
faz sentido investigar os processos causais, que são sem
pre extremamente limitados, visto a actividade das células
vivas ser dirigida pelos seus teores individuais.
Pode falar-se de uma melodia de crescimento ou de
uma determinação do crescimento, que regula os teores
individuais dos esporos. Esta determinação do cresci
mento é, como já vimos no filme de Arndt, em primeiro
lugar, uma determinação da constituição de formas que
[155]
articula as partes e estabelece depois em cada uma delas
um centro para que tendem todas as células. O que
deriva das células germinais individualmente depende
apenas do lugar que elas tomaram na forma em organi
zação.
A equivalência original das células germinais indivi
duais, demonstrada com toda a evidência no filme de
Arndt, já tinha sido descoberta por Driesch (1), nas suas
famosas experiências em germes do ouriço-do-mar.
As células germinais da maior parte dos animais
tomam primeiro a forma de uma amora, depois a de uma
bola oca, a qual se invagina num pólo e passa, simultanea
mente, a ser constituída por três folhetos. Surge, assim,
a «gástrula» que, com os três folhetos iniciais, constitui
a forma original da maioria dos animais. Com esta simples
sequência de tons se inicia toda a vida animal mais
elevada.
Existem animais, como as hidras de água doce que
arrastam a sua vida simples com a forma simples da
gástrula. Tal como no bolor-viscoso, também neste caso
se colhe a impressão de que basta a realização do deter
minismo morfogenético para que se estabeleçam as suas
relações de significado.
Não tivemos razão até aqui, para, além do determi
nismo morfogenético, aceitarmos também um determi
nismo de significado.
Mas aprendemos alguma coisa de melhor com as
experiências de Spemann e dos seus discípulos. Estas
experiências foram executadas pelo método de enxertia,
elaborado por Spemann, que consiste em tirar a um
embrião, no seu primeiro estádio de gástrula, uma pe-
(') Hans Driesch (1867-1941), filósofo e biólogo alemão, discí
pulo e depois opositor de Ernst Haeckel. Ligou a experimentação
biológica à biologia teórica e à filosofia natural. (N. da ed. alemã.)
[156]
quena fracção da camada exterior e implantar, no seu
lugar, uma fracção idêntica de outro embrião.
Verifica-se então que o novo enxerto se desenvolve,
não de acordo com a sua origem mas segundo o lugar
onde se enxertou. Com efeito, a estrutura do enxerto,
que foi transplantado para a região cerebral e que, nor
malmente, se teria transformado em epiderme, trans
forma-se agora em cérebro e vice-versa.
O determinismo morfogenético segue as directrizes
de um plano que já é reconhecível no estádio de gástrula.
Neste estádio, é possível enxertar pedaços de tecido de
embriões de espécies diferentes. Esta experiência notá
vel dá também resultado quando se trocam fragmentos
de tecido de embriões de outra espécie.
Interessam-nos aqui, em especial, as enxertias na
região oral dos girinos de rã e das larvas do tritão.
Spemann escreve sobre este assunto: «A larva do
tritão, como se sabe, tem na boca verdadeiros dentículos,
da mesma origem e constituição que os dentes de todos
os vertebrados: a boca do girino de rã, pelo contrário, é
provida de maxilas e pontas córneas que são absoluta
mente diferentes, quanto à forma e à constituição, dos
dentes verdadeiros.
Ora resolveu-se fazer uma enxertia de tecido de um
girino de rã na região oral da larva do tritão.
«Num caso» — prossegue Spemann (’) — «em que o
enxerto cobria toda a região oral surgiu, exactamente
no lugar próprio, uma típica boca de girino de rã, com
maxilas córneas, armadas de pontas córneas. Noutro
caso, porventura ainda mais interessante, metade da
boca desenvolveu-se, sem alterações, numa boca de
tritão, com dentículos verdadeiros.»
Daí conclui Spemann: «De uma maneira geral, já
(') Hans Spemann (1869-1941), zoólogo. Prémio Nobel de Medi
cina. (N. da ed. alemã.)
[157]
podemos afirmar afoitamente, acerca do estímulo indutor,
que, quanto àquilo que sucede, deve ser de natureza per
feitamente específica mas quanto ao modo como sucede,
deve ser de natureza perfeitamente geral. Tudo se passa
como se, em sentido figurado, a deixa fosse entendida no
significado perfeitamente genérico de «armadura bucal»
e esta fosse então fornecida pela ectoderme, na realiza
ção de um plano já contido na hereditariedade da sua
espécie.
Haveria, por certo, grande surpresa num teatro se,
durante uma representação do Guilherme Tell, na cena de
Küssnacht, o intérprete de Tell fosse substituído pelo
intérprete do Ham let e este, à deixa «monólogo», come
çasse, não com as palavras. «Aqui executarei o meu
plano. A ocasião é favorável», mas com o conhecido «Ser
ou não ser, eis a questão».
Seria, do mesmo modo, grande surpresa, se um ani
mal carnívoro, que é constituído para cravar os dentes
aguçados na presa estrebuchante, possuísse boca de
herbívoro, com palatino córneo, próprio apenas para
arrancar as partes brandas das plantas.
Como é tal permuta possível? Não esqueçamos que
o tecido celular implantado representa um carrilhão vivo,
em que os sons de cada sino estavam antecipadamente
introduzidos na melodia «boca de herbívoro», quando re
ceberam a determinação do significado «boca».
Donde \se conclui que determ inism o de significado
e determ inism o m orfogenético não são a mesma coisa.
No desenvolvimento normal, o material celular que
era, primitivamente, da mesma natureza, articula-se em
esboços, que Recebem o seu determinismo de significado
consoante o plano original — pois que o organismo se
compõe de utilizadores de significado. Só então a melodia
específica dos esboços começa a soar e constitui a forma
dos utilizadores de significado.
[158]
Se trocarmos os esboços de diferentes espécies
animais, cada um deles recebe, na sua nova posição, um
determinismo de significado correspondente ao lugar que
tem no plano de organização: «torna-te boca, olho,
ouvido, etc.»
O esboço transplantado obedece ao determinismo
de significado do hospedeiro, e mesmo que fosse enxer
tado noutro lugar, dentro do corpo maternal, teria rece
bido outro determinismo de significado, correspondente
à sua nova posição. Mas, neste último caso, segue a melo
dia morfogenética materna e torna-se, na verdade, boca,
mas boca de girino de rã e não boca de tritão.
Como resultado final temos uma deformidade, pois
um animal carnívoro com boca de herbívoro é um absurdo.
Nós ficamos tão desorientados com esta deformidade
que resulta do desacerto entre o determinismo de signi
ficado, de carácter geral, e o determinismo morfogenético,
porque essa desarmonia não nos é familiar na nossa vida
corrente. Ninguém se lembraria de encomendar, de uma
maneira imprecisa, numa marcenaria, «um móvel que ser
visse de assento», pois correria o risco de lhe trazerem,
para a sala, um banco para mungir vacas no estábulo ou,
para o estábulo, uma poltrona.
Mas, aqui, estamos em presença de um fenómeno
natural, em que se ordena, de uma maneira perfeitamente
geral, um «dispositivo para comer», a um tecido celular
heterogéneo, cujo significado ainda não está determinado
e se vê depois surgir um dispositivo para comer absoluta
mente inadequado.
Todo aquele que, por exemplo, já tenha reflectido
nas razões por que os peixes achatados, como as raias
e as solhas, cujas condições de vida se assemelham
tanto, são construídas segundo princípios totalmente
diferentes, terá de admitir que_a determinação do signifi-
cado não coincide com a determinação morfogenética.
[159]
O fim é igual mas o meio é diferente. As raias sãoacha
tadas do dorso para o ventre e os olhos ficam, assim, na
parte superior. As solhas são achatadas lateralmente,
daf resultando que um dos lados toma a função do dorso.
Desse modo, um dos olhos ficaria na parte inferior, onde
não teria função; desloca-se, porém, devido a uma torção
da cabeça que lhe permite também ficar a ver na parte
superior.
Os meios morfológicos usados para permitir que os
diferentes animais possam subir por uma parede lisa são
variadíssimos, embora conduzam todos ao mesmo fim:
utilizar como caminho o objecto significante — a parede
lisa.
As moscas domésticas têm, nas plantas das patas,
membranas marginais que, espalmando-se durante a mar
cha, com o peso do corpo, formam ventosas que fixam
as moscas aos vidros das janelas.
As lagartas das borboletas movem-se, como as san
guessugas com auxílio de duas ventosas e os caracóis
arrastam-se, sempre colados, indiferentes à inclinação da
pista. Em todos os casos, a função é a mesma e só difere
inteiramente o modo de a exercer.
O exemplo mais flagrante deste facto fornecem-no-lo
as pinças venenosas dos ouriços-do-mar de espinhos
curtos que têm todas a mesma função: atacar com as
suas pinças venenosas o objecto significante «Inimigo»,
seja ele uma estrela-do-mar ou qualquer molusco secretor
de ácidos.
Em todos eles, o inimigo caracteriza-se por, ao apro
ximar-se, emitir um estímulo de natureza química e
depois, ao estabelecer contacto, um estímulo mecânico.
Pela acção do estímulo químico, abrem-se as pinças ve
nenosas dos ouriços-do-mar de todas as espécies; pela
acção do segundo — o estímulo mecânico — fecham-se
e expelem o seu veneno.
[160]
Todas as espécies de ouriço-do-mar (com excepção
de uma) resolvem este problema por meio de um reflexo
em que, ao abrirem-se, estendem um tentáculo ao inimigo.
Logo que o inimigo toca este tentáculo, dá-se a captura
automaticamente.
Só uma espécie de ouriço-do-mar procede de outro
modo. Ao abrirem-se, as três pontas da pinça retroflec-
tem-se tanto, que ficam tensas como o arco de uma besta
e não precisam, portanto, de nenhum reflexo para se
fecharem abruptamente à mais pequena pressão.
Ambos os processos, afinal, conduzem ao mesmo fim,
raois em qualquer deles o objecto significante «inimigc»
é assaltado e envenenado pelo órgão utilizador do signi-
ricado,
determinação de significado é sempre a mesma,
só muda radicalmente a determinação morfogenética,
A magnífica descoberta de Spemann encontra confir
mação em todos os casos em que acções semelhantes,
praticadas pelos animais, são executadas por processos
diferentes e pode servir ainda para uma melhor compreen
sáo da diferença fundamental entre a construção de um
mecanismo e a estruturação de um organismo.
O mecanismo de uma máquina qualquer, diqamos,
de um relógio de algibeira, é sempre constituído «centri-
petamente», quer dizer, as peças do relógio — os pon
teiros, n corda, as rodas—-têm de ser aprontadas pri
meiro, individualmente, antes que sejam ligadas a uma
peça central.
A estruturação de um animal, pelo contrário, faz-se
sempre «centrifugamente», a partir do germe, que assume
primeiro a forma de gástrula e continua depois a adicio
nar novos esboços de órgãos.
Em ambos os casos, há um plano que preside à trans
formação: o plano do relógio dirige um fenómeno centrí
peto, o plano do tritão dirige um fenómeno centrífugo.
1 1 - A. HOMENS [161]
Segundo parece, as partes ajustam-se umas às outras,
de harmonia com princípios diametralmente opostos.
Como, porém, todos nós sabemos — embora com
muita facilidade o esqueçamos também — o organismo.
ao contrário de todos os mecanismos, não consiste de
peças, mas de órgãos, e um órgão é sempre uma estru
tura, formada de células vivas, todas com o seu teor
individual. O órgão, como um todo, possui o seu teor
orgânico, que é o seu teor significante. É este teor
orgânico que dirige, como se pode concluir das afirma
ções de Spemann, os teores particulares das células do
órgão — semelhantemente ao plano significante do bolor-
-viscoso de Arndt, que leva células amibóides a construí
rem o corpo do bolor. O teor significante estabelece-se
subitamente e liberta a determinação morfogenética nos
teores individuais dos elementos celulares, até então
semelhantes, que agora se dividem em vários teores
harmonizados uns com os outros e dão jnício à constitui
ção da forma, segundo uma melodia previamente estabe
lecida.
Com a experiência de Spemann, aprendemos que os
órgãos do organismo, ao contrário do que sucede com
as partes de uma máquina, possuem um teor significante
original e que, portanto, não podem constituir-se senão
centrifugamente. É necessário que se passem as três
fases do desenvolvimento do germe, para que comece a
formação dos esboços e cada esboço deve ter recebido
o seu teor orèjânico, antes que as suas células se dividam
e se transformem.
A custa dos teores orgânicos constitukse, finaImente,
o teor vital do animal completo. O animal é, na verdade,
mais do que~o seujne.çanismo-material,-.canstruído pelas
células orgânicas, de harmonia çom_a_determinação mor-
fogenéticã.
Quando se extingue o teor vital, o animal morre.
[162]
O mecanismo material pode continuar a funcionar durante
mais algum tempo, graças à sobrevivência de alguns
órgãos.
É evidente que a concepção geral da Natureza com
base no significado exige uma investigação rigorosa. No
entanto, o cérebro, que deve possuir um teor de pensar,
não nos pode servir de muito. Mas também aqui o signi-
ficado lança a ponte que liga os fenómenos materiais
e imateriais, tal como já o fizera entre a partitura e a
melodia.
4. A INTERPRETAÇÃO DA TEIA DE ARANHA
Quando quero mandar fazer um fato, dirijo-me ao
alfaiate, que me tira as medidas e exprime em centíme
tros as dimensões mais importantes do meu corpo. Feito
isto, transporta as medidas para um papel ou, se está
bem seguro do seu ofício, directamente para a fazenda,
que ele agora talha conforme os números que tomou.
Depois, cose as partes cortadas da fazenda e, após a
prova, entrega finalmente o fato, que traduz o retrato
mais ou menos perfeito das formas do meu corpo.
Muito surpreendido ficaria, se um alfaiate me fizesse
um fato que assentasse bem, sem previamente me ter
tirado medidas e feito a prova. Poderia, contudo, admitir
que ele tivesse conseguido as medidas exactas no seu
próprio corpo, visto que todos os corpos humanos, de
certo modo, se assemelham.
Por isso podem também usar-se fatos feitos, que
reproduzem, em vários tamanhos, as proporções humanas
normais. Assim, cada loja de fanqueiro apresenta uma
galeria de modelos vazios do corpo humano.
Nem .todas estas condições preliminares se aplicam
à aranha e. todavia, ela consegue oferecer, na sua reda.
um pa d r ã o e f i c i e n t e * de uma.mosCja._Ela utiliza-o,
[163]
não no intere.aaa.da_jnosca, mas com o jirrude ..a_deairu 1 r.
A teia de aranha funciona como utilizador do signjficado
do objecto significante «vítima» no_ mundg:próprio da
aranha.
Este utilizador de significado é tão rigorosamente
adequado ao objecto significante, que nós podemos des
crever a teia da aranha como réplica fiel da mosca.
A aranha-alfaiate, que cria esta réplica fiel da mosca,
está privada de todos os meios auxiliares de que o alfaiate
de homens dispõe. Não pode tomar medidas no próprio
corpo, que possui formas totalmente diferentes das do
corpo da mosca. Apesar disso, determina as dimensões
das malhas segundo as dimensões do corpo desta. Cal-
cula a capacidade de resistência dos fios, que tece se-
gundo a força viva do corpo da mosca em movimento.
Retesa mais os fiòs da rede do que os fios circuiares,
para que a presa no embate, seja envolvida por estes,
mais elásticos, e fique imobilizada nas suas gotinhasviscosas. Os fios radiais nãò são tão glutinosos e servem
^ aranha como trajecto mais curto para chegar junto da
vítima aprisionada, que então é envolvida e reduzida à
impotência.
As teias de aranha encontram-se, as mais das vezes,
em lugares que podemos designar por lugares de trânsito
das moscas.
O mais extraordinário é que os fios da teia são teci-
dos tão finos, que os olhos da mosca, com os seus im
perfeitos elementos visuais, não podem distinguir a rede
e o insecto voa inadvertidamente para a morte, exacta
mente como nós, desprevenidos, bebemos a água infes
tada de bacilos da cólera, invisíveis aos nossos olhos.
Já é um modelo requintado da mosca o que a aranha
esboça na sua teia.
Mas alto lá! Não é nada disso o que ela realmente
faz. Na verdade, ela constrói a sua teia antes de ter
[164]
encontrado qualquer mosca; logo a teia não pode ser o
retrato de uma mosca real. Ela apresenta, pelo contrário,
o desenho de um modelo de mosca que não existe em
parte nenhuma.
«Ora vamos» — já eu estou ouvindo os mecanistas
clamar.— «_Aqui a doutrjna dos mundos-próprios denun
cia-se comn tfifir ia -metafísica, pois é metafísico todo
aquele que procura os factores actuantes para além do
mundo material».
Pois bem. Mas nesse caso, logo depois da teologia,
é a física moderna a mais pura das metafísicas.
Eddington (1) declara abertamente que possui duas
secretárias: uma que utiliza normalmente e que pertence
ao seu mundo dos sentidos; outra, uma secretária fisica,
cuja substância constitui apenas a bilionésima parte da
secretária material, pois não é, de modo nenhum, feita
de madeira, mas de um número imensamente grande de
elementos pequenísimos, dos quais se não sabe ao certo
se são partículas ou movimentos e que circulam à volta
uns dos outros com inconcebível velocidade. Estes ele
mentos não são substâncias mas as suas actividades
simulam, no mundo dos sentidos, a existência de substân
cias. Eles prosseguem na sua agitação numa extensão
espaço-tempo tetradimensional, que deve possuir uma
curvatura e é simultaneamente infinita e limitada.
A biologia não reivindica uma metafísica tão auda
ciosa. Pretende apenas aludir a factores que existem no
sujeito, deste lado da aparência sensorial e que hão-de
servir para tornar intelegíveis as conexões dó mundo dos
sentidos ^Nãò pensa, de modo algum, em revolucionar o
mundo dos sentidos, como a nova física se esforça por
fazer.
(') Sir Arthur Stanley Eddington (1882-1944), astrónomo e
físico inglês, adepto e pioneiro da teoria da relatividade. (N. da ed.
alemã.)
[165]
A biologia parte do facto da formação dos germes,
segundo um plano, que começa em todos os animâis
multicelulares com os três compassos de uma simples
QieTõcfia: mórula, biástula, gástrula. Depois, como sabe
mos, vem a formação dos esboços dos órgãos que é, em
cada espécie animal, previamente determinada.
Este facto mostra-nos que a sequência morfogenética
não é, na verdade, reconhecível pelos sentidos mas que
possui uma partitura em harmonia com o mundo sensorial.
A mesma partitura dirige também o crescimento espacial
e temporal do seu equipamento celular, assim como as
suas propriedades.
Existe, pois, uma partitura inicial para a mosca, tal
como existe uma partitura inicial para ajjranha. Ora eu
afirmo que a partitura inicial da mosca (que também
podemos designar por protótipoLaatua_Raj?a rtjtura inicial
da aranha, de modo que a te ia .teclda„por. esta resulta
«própria para capturar moscas».
Oculta sob a cortina das aparências, realiza-se a
conexão'dos vários protótipos ou melodias iniciais, se
gundo um vasto plano significante^
No caso particular, basta procurar os utilizadores
correspondentes aos objectos significantes, para obter
uma visão da c o n t e xt úrã^dõ s~mlf n d o s - p roprlos^
A^estrila orientadora pela quãl a biologia sé tem
guiado é o significado e não a insuficiente lei da causa
lidade, què não consegue ver mais do que um passo para
diante ou para trás e deixa inteiramente ocultas as
grandes correlações.
Quem p^de aos naturalistas investigadores que sigam
uma nova linha directiva, não se obriga só a convencê-los
de que essa orientação abre novos caminhos, capazes de
levarem o nosso conhecimento mais longe do que os
actuais. Deve também indicar-lhes os problemas que
[166]
ainda não encontraram solução e que só com auxílio
dessa nova linha directiva poderão ser resolvidos.
A um desses problemas se referiu j3_prande mestre
da biologia dos insectos, Jules Fabre. A pequena fêmea
do gorgulho-da-ervilha põe os ovos sobre as vagens da
ervilha nova. As larvas que daí resultam perfuram a pa
rede da vagem e introduzem-se na ervilha, ainda tenra.
A larva que se aninhou mais perto do ponto central da
ervilha é a que cresce mais rapidamente. As outras que,
com ela, ali se introduziram, em breve renunciam à com
petição, deixam de se alimentar e morrem. A única sobre
vivente mina, primeiro, o centro do grão mas abre, depois,
um túnel até à superfície superior da ervilha e, à saída
dele, faz uma incisão circular no tegumento, de modo a
abrir uma porta. Em seguida, a larva arrasta-se novamente
para a sua câmara de alimentação e continua a crescer,
até que a ervilha, depois de ter atingido o tamanho defini
tivo, endurece. Este endurecimento seria fatal para o
novo escaravelho, resultante da larva, pois a ervilha
endurecida forma à sua volta uma camada protectora que,
por outro lado, se converteria em sepultura, se a larva
não se tivesse encarregado de abrir o túnel e a porta.
Neste caso, não pode intervir qualquer experiência
de tentativa e erro, transmitida pelos antepassados. Seria
frustrada qualquer tentativa para sair da ervilha endure
cida. Não: o dispositivo túnel-porta deve já e x is tir .g n g li
nalmente, no planojriorfogenético de cada Iarv3_e.ro_.cies-
nimento. Deve te r -s e dado, portanto, uma transmissão
dêT significado do protótipo do gorgulho-da-ervilha, de
modo a estabelecer um ajustamento entre o gorgulho e a
ervilha.
A construção, pela larva, do túnel e da saída, que são
necessários à vida do gorgulho é, em muitos casos, o
aniquilamento deste. Com efeito, há um pequeno icnêu-
mon que, utilizando o seu fino aguilhão, ataca com pre-
[167]
cisão mortal a porta e o túnel, para introduzir o ovo na
larva indefesa do gorgulho-da-ervilha. Deste ovo irrompe
uma pequena larva de icnêumon, que vai devorando, de
dentro para fora, a sua nutrida hospedeira, cresce até se
tornar adulto e alcança a liberdade utilizando o caminho
aberto pela sua vítima.
Neste caso, podemos falar de um trio de conexões
de significado destas partituras iniciais.
5. LEI MORFOGENÉTICA E LEI DO SIGNIFICADO
Não será fácil adaptar as ideias metafísicas recente
mente desenvolvidas às dos biólogos actuais.
A influência principal na biologia mais recente exer
ceu-a a teoria dos tropismos ('), de Jacques Loeb (2).
Loeb era um físico inator que só reconheci a a acção
recíproca entre objectos e nada sabia da influência de
um sujeito sobre os fenómenos naturais. Segundo ele, só
havia um mundó^fe^ácçãõ erri que se" passam todos os
fenómenos físicos e químicos. Um objecto actua sobre
outro como o martelo sobre a bigorna ou como a faúlha
no barril de pólvora. A reacção depende da energia actual
transportada Del o objecto actu ante. e da ene rg i a pote n cl a I
armazenada no objecto actuado.
Nas plantas, a reacção surge consoante a forma e a
ordenação dos tecidos nos órgãos. Basta que pensemos
has goteiras das fõTfiãs e riòs grãos de amido do germe
do trigo, que também podem incluir-se no conceito de
energia potencial. Sem dúvida, desprezamos, neste caso,
(') Tropismos — movimentos orientados segundo leis, nas
plantas e animais inferiores, como reacções a determinados estí
mulos. (N.da ed. alemã.)
H Biólogo germano-americano (1859-1924). (N. da ed. alemã.)
[168]
a conformação geral das plantas, a qual deve a sua cons
tituição à acção, segundo um plano, dos impulsos cLe.
sujeitoscelularesvivos.
Nas plantas, não há, evidentemente, órgãos de sen
tidos nem nervos, de modo que toda a sua existência
parece decorrer num mundo-de-acção.
A teoria de Loeb consistia em também reconhecer
no mundo animal apenas o mundo-de-acção, ignorando ..a
mundo-de-percepção. Isto passava-se devido a uma sim
ples habilidade.
Por muito complicado que se apresente o comporta
mento de um animal, este acabará sempre por se apro
ximar ou por se afastar do objecto actuante. Esta compo-
nente espacial, tão simples,_de todo o comportamento
interpretou-a Loeb como o próprio comportamento e divi
diu, assim, todos os comportamentos em actos de apro
ximação e actos de afastamento. ...
Em lugar dos comportamentos, surgiram então os
t ropismos, por meio dos quais Loeb transformou todos
os sujeitos animais vivos em máquinas inertes que se
devem também explicar espacialmente. Até o magneto
simples, que atrai o ferro, se comporta como ferrótropo
positivo e a agulha magnética como polótropo negativo,
relativamente ao positivo.
Esta doutrina tornou-se decisiva para a conceacão
geral do mundo de toda uma geração de biólogos.
Quando nos detemos om fronlo do um prado, onde
as flores abundam e as abelhas zunem em todas as direc
ções; onde as borboletas se recreiam e as libélulas
fogem, frementes; em cujas ervas dá os seus grandes
saltos o gafanhoto, os ratos se esgueiram e os caracóis
rastejam lentamente — insensivelmente fazemos a nós
próprios esta pergunta: o prado oferecerá aos olhos de
tão diversos animais o mesmo aspecto que apresenta
aos nossos?
A esta pergunta responderá quem for ingénuo, sem
[169]
hesitação: «Evidentemente, é sempre o mesmo o prado
que todos vêem!»
Responderá, porém, de modo totalmente diverso o
adepto convicto de Loeb.
Como todos os animais são simples mecanismos,
dirigidos por acções físicas ou químicas, o prado con
siste num entrelaçamento de ondas de éter e vibrações
de ar, de nuvens de substância subtilmente dividida e de
contactos mecânicos que actuam entre uns e outros
objectos.
Contra ambas as concepções do prado, ergue-se a
doutrina dos mundos-próprios, pois, para salientar um
só exemplo, a abelha que suga o néctar não vê o prado
com olhos humanos nem é insensível como uma máquina.
As cores são ondas de éter captadas pelo s.Aeri tidos,
quer dizer, não são excitações eléctricas das células do
nosso cérebro, mas os teores individuais destas mesmas
célula^. "
A prova disto dá-no-la a fisiologia dos sentidos. Nós
sabemos, desde Goethe e Hering (') que as cores
seguem as suas leis próprias, leis que são totalmente
diferentes das leis físicas dasondasde éter.
As ondas de éter que, por meio de um prisma, são
forçadas a decompor-se segundo o seu comprimento de
onda, constituem então uma espécie de escada, por
ordem decrescente da largura dos seus degraus. Os
degraus mais curtos encontram-se numa extremidade da
escada, enquanto os mais largos ficam na extremidade
oposta.
Nesta escala, a nossa vista separa uma curta secção
que as nossas células cerebrais transformam numa faixa,
constituída pelâs sensações das cores que nós distin-
(') Ewald Hering (1834-1918), fisiólogo alemão que se dedi
cou em particular ao sentido espacial da visão e à percepção das
cores. (N. da ed. alemã.)
[170]
guimos. Nesta faixa, as cores simples seguem-se uma
após outra: vermelho-amarelo-verde-azul, com as cores
mistas que entre elas se intercalam.
Ao contrário da escala das ondas de éter, de estru-
tura~Tinear, õ e s p ectro das cores forma, em si, um círculo
fechado, pois a cor mista entre o vermelho e o azul —
o violeta — une as duas extremidades do espectro.
Aliás, o espectro das cores apresenta particulari
dades notáveis de observância à lei, que faltam na escala
das ondas de éter. Assim, as cores contíguas no espec
tro não se misturam, produzem a impressão de branco.
Estas cores complementares não se evocam recipro
camente, como não é raro acontecer com as sensações
opostas, facto que contradiz todas as experiências mecâ
nicas. Nas cores, como dissemos, não se trata de acções
materiais mútuas das células cerebrais vivas, mas de
relações de sensibilidade dos seus tons individuais que,
todavia, são igualmente fixados segundo leis.
Assim como as cores são as energias específicas
(tons individuais) das células cerebrais que estão sob a
influência do órgão da visão, o qual, por sua vez, selec
ciona as ondas de éter e as envia ao cérebro, transfor
madas em excitações nervosas, assim também os sons
são as energias específicas das células cerebrais que
estão sob a influência do ouvido, que capta certas vibra
ções do ar.
As leis dos sons estão submetidas à teoria da
música. As consonâncias, dissonâncias, oitavas, quartas,
quintasTcíevem todas a sua existência às sensações sono
ras e não têm materialidade. Tentemos reconduzir a
sequência dos sons de uma melodia à lei da causalidade,
que é válida para todos os fenómenos materiais.
Os nossos órgãos dos sentidos — os olhos, os ouvi
dos, o nariz, o palato e a pele — são construídos segundo
o princípio da caixa de fósforos sueca, cujos fósforos só
respondem a determinadas acções do mundo exterior.
[171]
Estas acções produzem, nos nervos, ondas de excitação
que são conduzidas ao cérebro. Até aqui, tudo se passa
mecanicamente, segundo a lei da causa e do efeito. Mas
no cérebro encontra-se a face interior dos órgãos dos
sentidos, com a forma de um carrilhão vivo, cujas célii-
las individuais — os sinos — tocam com diferentes sons
individuais.
Em que medida existe também este género de estru
tura nos animais? Da analogia da parte mecânica dos
órgãos dos sentidos ninguém duvida. São por isso
designados órgãos-de-recepção. Mas quanto à face
interior?
Embora não conheçamos as sensações dos nossos
semelhantes, não duvidamos, no entanto, de que, por
meio dos olhos, eles recebem sinais visuais a que cha
mamos cores e tão-pouco duvidamos de que, por meio
dos ouvidos, recebem sinais auditivos a que chamamos
sons. Do mesmo modo, atribuímos ao seu nariz a facul
dade de despertar sinais olfactivos; ao seu palato, a de
despertar sinais gustativos, e à sua pele a de despertar
sinais tácteis, todos eles, sem excepção, constituídos
por teores individuais.
Nós reunimos todas as impressões dos sentidos —
qualitativamente diferentes — sob a designação geral de
sinais-perceptivos, que, projectados no exterior, são
transformados em notas-características das coisas.
Vejamos agora: aparecem também entre os animais,
na excitação dos seus órgãos-de-recepção, os sinais
correspondentes às energias sensoriais específicas das
suas células dos centros cerebrais, sinais-perceptivos
que eles igualmente trasladam e utilizam como notas-
-características, na construção das propriedades de todas
as coisas que intervêm no seu cenário da vida?
Os mecanistas puros negam esta hipótese e susten
tam que os órgãos dos animais não possuem face inte
rior e servem apenas para pôr em comunicação os dife
[172]
rentes estímulos do mundo exterior, consoante a sua
natureza específica, com as partes correspondentes do
cérebro.
São os órgãos dos sentidos a expressão de varios
ciclos sensoriais ou, como órgãos de recepção, serão
apenas a expressão de várias espécies de acção fisico-
-química do mundo exterior? O órgão da visão foi cons
truído pelas ondas de éter ou pelas cores? O da audiçao
foi construído pelas vibrações do ar, ou pelos sons? E o
órgão do olfacto um produto do ar saturado, em certas
proporções, de gases e partículas olfactivas ou um pro
duto dos sinaisolfactivos do sujeito? O órgao do gosto
deve a sua origem à substância química dissolvida em
água ou aos sinais gustativos do sujeito? _
Os órgãos receptores dos animais são produtos da
face corpórea exterior ou da face sensível, incorpórea
e interior?
Como os órgãos dos sentidos, no homem, represen-,
tam órgãos que ligam a face exterior à interior, é possí
vel que, também nos animais, tenham de exercer a
mesma função e que, portanto, devam a sua construção
tanto à face exterior como à interior.
Que os órgãos de recepção dos animais não devem
considerar-se apenas como produto da face exterior,
provam-no, sem sombra de dúvida, os peixes, que, embora
só entrem em contacto com substâncias solúveis na água,
possuem, não obstante, um nítido órgão de audição, além
do órgão do olfacto. As aves, pelo contrário, que teriam
as melhores condições para aperfeiçoar ambos os órgãos,
não têm o órgão do olfacto.
Só quando tivermos reconhecido claramente a função
dos órgãos dos sentidos, poderemos compreender a
estrutura de todo o organismo.
Frente_ à face exterior, eles servem _de crivo às
acções f ísico-quírnicag do mundo exterior^.Só as acções
que têm significado para o sujeito serão convertidas em
[173]
excitações nervosas. Estas, por seu lado, evocam no
cérebro os sinais-perceptivos da face interior. Deste
modo, a face exterior influi também na interior e deter
mina o número de sinais visuais, auditivos, olfactiyps,
tácteis e gustativos que podem entrar nos ciclos sen-
soriais do respectivo animal.
Assim se distingue, ao mesmo tempo, o tipo de
construção dos mundos-próprios, pois cada sujeito só
pode transformar em características do seu mundo-pró-
prio, os sinais-perceptivos que são postos à sua dispo
sição.
Depois de observarmos um grande número de qua
dros do mesmo pintor, nós falamos da «sua paleta»,
significando com isso aquelas cores de que o artista dis
punha para executar os seus quadros.
Estas relações tornam-se, porventura, ainda mais
ciaras, se imaginarmos que cada célula sensitiva do cére
bro faz soar, graças ao seu teor individual, um determi
nado sinal perceptivo. Cada um destes sinos vivos está
agora ligado, por meio de um cordão nervoso, à frente
exterior e aqui se decide quais os estímulos exteriores
que são admitidos ao «toque» e quais os que não são.
Os teores individuais dos sinos celulares ligam-se
uns aos outros por ritmos e melodias e são estes que os
fazem soar no mundo-próprio.
Depois das investigações de Mathilde Hertz, pode
mos admitir que a faixa de cores do espectro, nas abe
lhas, quando referida à mesma escala das ondas de éter
que serviu para o homem, se desloca uns degraus para
o lado da cor violeta. A face exterior do olho da abelha
não se ajüsta perfeitamente à do homem, ao passo que
as duas faces interiores parecem corresponder-se. Acerca
do significado deste desvio, não se foi, até agora, além
de meras hipóteses.
Não defxa dúvidas, pelo contrário, o significado da
paleta de percepções das borboletas nocturnas. Como
[174]
Eggers rvostrou, estes animais possuem, no seu órgão
de audição, apenas dois filetes retesados, como ressona-
dores. Com este dispositivo, é-lhes possível reconhecer
vibrações do ar que representam, para o nosso ouvido,
o limite superior da audição. Estes sons correspondem
ao «pio» do morcego, que é o principal inimigo das bor
boletas. Só os sons emitidos pelo seu inimigo específico
são captados por elas. Afora esses sons, o mundo é,
para elas, silencioso.
No mundo-próprio dos morcegos o pio serve de sinal
de reconhecimento na escuridão.
O mesmo som atinge umas vezes o órgão auditivo
de um morcego, outras vezes o de uma borboleta noc
turna. Nos dois casos, o morcego que «pia» aparece como
objecto significante, ora como amigo ora como inimigo,
conforme o utilizador de significado que se lhe depara.
Como a paleta de percepções do morcego, é rica, o
som agudo captado é apenas um entre muitos. Mas a
paleta da borboleta nocturna é muito limitada e no seu
mundo-próprio existe apenas um teor — o teor de ini
migo. O «pio» do morcego é um produto simples do mor
cego, a teia de aranha é um produto muito engenhoso da
aranha. Mas em ambos existe alguma coisa de comum.
Nenhum deles é moldado sobre uma forma individual
determinada, materialmente presente, mas sobre a estru
tura comum a todos os animais da mesma espécie.
Como se realiza então, na estrutura da borboleta, um
dispositivo para captar os sons emitidos pelo morcego?
A lei morfogenética das borboletas já implica a determi
nação de construir um órgão auditivo adequado ao pio
dos morcegos. Não pode restar dúvida de que é esta a
lei do significado que actua na lei morfogenética, de
modo que ao portador do significado corresponda o seuj
utilizador e vice-versa.
A lei morfogenética, como vimos, dota o girino de
rã, que é herbívoro, de uma boca com maxilares córneos
[175]
e o tritão, que é carnívoro, de uma boca com verdadeiros
dentes. A lei do significado intervém sempre na forma
ção do germe dê~nTÕdcTdeterminante e promove a urdi
dura de um órgão da nutrição que, no lugar convenientç,
se desenvolve em correspondência com o conveniente
objecto portador do significado: o alimento vegetal ou
animal. Se, todavia, a lei morfogenética é orientada num
caminho falso, por meio de uma enxertia, não há lei de
significado que a faça recuar.
Assim, não é a própria morfogénese que é influen
ciada pelo significado: a lei morfogenética — e só ela-—
é que fica na integral dependência da lei do significado.
6. A LEI DO SIGNIFICADO COMO ELO
DE LIGAÇÃO ENTRE DUAS LEIS ELEMENTARES
Quando, num passeio pela floresta, apanhamos uma
glande que caiu de um frondoso carvalho e escapou, tal
vez, a algum esquilo, nós sabemos que deste germe
vegetal resultarão células de diferentes tecidos que for
marão, em parte, o raizame subterrâneo e em parte o
tronco, com a sua copa, segundo uma lei morfogenética
característica do carvalho.
Sabemos que na glande se oculta o esboço dos
órgãos que permitirão ao carvalho travar a luta pela vida
contra centenas de acções do mundo exterior. Mental
mente, nós vemos o futuro carvalho defrontando a futura
chuva, a futura tempestade, o futuro sol. Vêmo-Io sobre
viver a futuros verões e a futuros invernos.
Para se desenvolverem sob todas as influências do
mundo exterior, as vicejantes células do carvalho têm
de diferenciar-se na raiz, no caule e na copa, que inter
cepta os raios do Sol e cujas folhas, ténues como ban
deiras, se inclinam ao vento, a que os ramos nodosos
oferecem resistência. Ao mesmo tempo, a copa serve
[176]
de guarda-chuva, que encaminha para as finas extremi
dades da raiz, debaixo da terra, a preciosa humidade do
céu. As folhas contêm a clorofila, substância maravilhosa,
que utiliza os raios solares para transformar energia em
matéria.
A copa desaparece no Inverno, quando o solo gelado
impede as raízes de fazerem subir até às folhas a
corrente fluida saturada dos sais da terra.
Nenhuma destas futuras acções sobre o futuro car
valho é capaz de, sob o ponto de vista causal, influenciar
a morfogénese do carvalho. Igualmente inoperantes são
também outras acções semelhantes do mundo exterior
antes exercidas sobre a árvore-mãe, pois nessa altura
ainda a glande não existia.
Assim, em presença da glande se nos depara o
mesmo enigma que já tínhamos encontrado ao obser
var o germe de qualquer planta ou o ovo de qualquer
animal. Em caso algum podemos falar de um encadea
mento causal de acções exteriores sobre um objecto, na
preexistência ou pós-existência deste. Só é possível
considerar uma conexão causal, quando causa e efeito
concorrem, temporal e espacialmente.
Também não é de prever a solução do problema,
quando ela se procura nas circunstâncias mais remotas.Uma glande apresenta à nossa compreensão, desde há
um milhão de anos, as mesmas dificuldades que apresen
tará daqui a cem mil anos.
Daí se conclui que tínhamos caído num beco sem
saída, quando julgávamos poder estabelecer, por meio de
construções engenhosas, uma cadeia causal entre o
embrião da glande e as acções exteriores de natureza
físico-química. Com efeito, não estamos aqui em pre
sença de um problema susceptível de solução mecânica,
a que a história genealógica possa fornecer a chave.
Temos, portanto, de abordar o problema por outro
lado.
12 - A. HOMENS [177]
Se nós, como observadores humanos da situação do
carvalho, examinarmos as acções do mundo exterior
sobre ele, logo descobriremos que elas estão submetidas
a uma lei natural de carácter geral.
O Sol, a Lua e as estrelas seguem, no céu, caminhos*»
fixõs sobre o carvalho. Sob a influência deles, suce
dem-se as estações do ano. Calmarias, tempestades, a
chuva e a neve alternam-se no decorrer das estações.
O ar, que se tinha impregnado dos aromas da Primavera,
em breve exala os cheiros acres do Outono. Em cada Pri
mavera, a floresta ressoa com o canto das aves. O pró
prio carvalho oferece, na copa, como na casca, asilo
infinitamente variado às centenas de animais (aves e
outros) que a ele se acolhem, no Verão e no Inverno.
A esta lei natural, tão velha como Noé, também o
carvalho está submetido, embora muitos dos factores
naturais que nos são familiares não o penetrem. A Lua,
as estrelas, e a esfera solar não se encontrarão no
número dos factores significantes que formam o reves
timento protector do carvalho, mas, por outro lado, certos
raios luminosos quimicamente activos chegam até à clo
rofila das folhas e certos raios caloríficos promovem, pela
sua acção sobre os novos rebentos, o seu crescimento.
A queda das gotas de chuva é convenientemente desviada
e a tempestade encontra, da parte dele, a mais deses
perada resistência. Nem os aromas, nem as ondas sono
ras, todavia, têm qualquer influência sobre o carvalho.
É sempre a mesma lei do significado que, hoje como
há milhões de anos, realiza a selecção dos factores natu
rais elementares e os faz soar, em melodia própria, no
carrilhão vivo das células do carvalho e, por fim, faz sur
gir das células protoplásmicas do germe os órgãos res
pectivos.
Graças ao filme de Arndt, não temos de limitar-nos
a meras hipóteses. Podemos observar como, das primei
[178]
ras células germinais, resultam, por divisão, numerosas
células amibóides independentes que, à semelhança das
suas irmãs livres, se apropriam, como sujeitos autóno
mos, dos alimentos que se lhes apresentam. Só depois
de esgotados os alimentos, se estabelece a formação de
um novo indivíduo. As células amibóides que se agrupa
ram para formarem um novo indivíduo homogéneo, um
novo sujeito, deixam de ser adequadas ao objecto por
tador do significado «alimento», passando a sê-lo ao fac
tor significante «vento», para enfrentar o qual se desen
volveram. O carrilhão do estádio amibóide, que se
manifesta por um soar desordenado das células-sinos,
segue subitamente uma melodia una, uma nova lei de
significado, que reúne as leis elementares do vento, por
um lado, e as da livre formação de células, por outro,
conduzindo assim a uma nova unidade subjectiva.
Nunca será possível produzir um bolor-viscoso pela
acção directa da pressão do vento, por muito rigorosa-j
mente doseada que seja, sobre as células amibóides^
móveis.
Ao contrário do bolor-viscoso, que une as suas célu
las protoplásmicas móveis num só talo que, por sua vez,
depois da constituição completa da sua forma, representa
um indivíduo, constituído por um único sujeito orgânico, a
glande desenvolve numerosos botões, cada um dos quais
dá origem a um sujeito orgânico, que está ajustado a um
ou mais factores significantes — e, deste modo, a folha
do carvalho não serve apenas de goteira para a chuva
mas também de receptor dos raios luminosos, graças
às suas células clorofilinas.
Todos os sujeitos orgânicos, com as suas melodias
orgânicas, se integram na sinfonia do organismo «carva
lho», sinfonia que podemos também designar por protó
tipo do carvalho.
[179]
/ O processo da subjectivação sublimada, de teor celu
lar, em melodia do órgão, em melodia do organismo, está
lem directa oposição com todo o processo mecânico, que
postula a acção de objecto sobre objecto.
Ele encontra-se, pelo contrário, no mesmo nível de
qualquer composição musical. A relação de factores
significantes, nas plantas, e de objectos significantes,
nos animais, para com os respectivos utilizadores de
significado, constitui prova particularmente clara do que
se afirma. Assim como na composição de um dueto,
as duas partes têm de ser compostas uma para a outra,
nota por nota, ponto por ponto, assim também na Natu
reza os factores significantes devem estar para os
utilizadores numa relação de contraponto. Só podere
mos compreender melhor a constituição da forma do
organismo se, a partir dela, nos for possível construir
uma doutrina da composição da Natureza.
7. A DOUTRINA DA «COMPOSIÇÃO»
DA NATUREZA
A expressão «doutrina da composição da Natureza»
pode induzir em erro, visto que, de uma maneira geral, a
Natureza não oferece doutrinas. Assim, por doutrina,
deve apenas entender-se uma generalização das regras
que julgamos descobrir no estudo da composição da
Natureza.
Está, portanto, indicado que partamos de exemplos
particulares e que estabeleçamos as suas leis para, deste
modo, chegarmos a uma doutrina da composição da
Natureza.
Como modelo, podem servir-nos as regras da compo
sição musical, que parte do princípio clê~qljiê~são_neces
[180]
sários, pelo menos, dois sons para formar uma harmonia.
NaTõmposição de um dueto, as duas partes que se devem
fundir numa harmonia são compostas nota por nota, ponto
por ponto, uma para a outra. Nisso se baseia a teoria do
contraponto, na música.
Em todos os exemplos extraídos da Natureza temos, i
igualmente, de procurar dois factores que, juntos, cons
tituam uma unidade. Portanto, partimos sempre de um
sujeito, situado no seu mundo-próprio e examinamos
as suas relações harmónicas com os objectos parti
culares que, como objectos significantes, convergem no
sujeito.
O organismo do sujeito representa o utilizador do
significado ou, pelo menos, o seu receptor. Se estes dois
factores se reúnem no mesmo significado é porque .foram
compostos simultâneamènte pela Natureza. Saber que
lèTs áPse Tévélám, eis õ assunto da doutrina da composi
ção da Natureza.
Sempre que dois organismos se encontram, um para
o outro, numa relação harmónica de significado, é neces
sário averiguar qual dos dois devemos considerar como
sujeito ou como utilizador do significado e a qual cabe o
papel de portador do significado (objecto significante).
Em seguida, procuraremos as propriedades recíprocas
que se encontram relacionadas duas a duas, como ponto
e contraponto. Se possuirmos, no caso em questão, um
conhecimento suficiente dos ciclos-de-função, que ligam
o respectivo sujeito com o seu objecto significante e que
podem tomar-se como ciclos significantes, encontramo-
-nos então em condições de procurar os contrapontos,
tanto no campo da percepção, como no campo da acção,
para, finalmente, concluirmos acerca da lei do significado
específica que presidiu à composição.
Para me referir ao exemplo, já citado, da glande,
[181]
começo por apresentar a formulação esquemática do pro
blema da composição da glande e um dos seus factores
significantes — a chuva.
Folhagem do carvalho
Receptor de significado
Ponto
Disposição em forma de
telhado das folhas com
goteira
Lei m orfogenética
da glande
Chuva
Factor de significado
Contraponto
G o tas de chuva que
caemLei fís ica da formaçãó
das gotas
Lei comum do significado:
Captação do fluido e sua distribuição pelas extremidades
da raiz
A folhagem do carvalho actua mecanicamente na dis
tribuição das gotas de chuva, ao passo que a lei da for
mação das gotas intervém como compositor na melodia
do carrilhão vivo das células do carvalho.
Se nos voltarmos para os animais e procurarmos
discernir cada um dos ciclos de significado, toparemos
no ciclo do habitat relações semelhantes às que encon
trámos no carvalho e na chuva.
Tomemos para primeiro exemplo o polvo gigante,
como sujeito, nas suas relações com a água do mar,
como objhcto s ign ificante e imediatamente encontra
remos relações do tipo contrapontal. A incompressibili-
dade da água constitui a condição necessária para a cons
trução de um saco natatório musculoso. Os movimentos
[182]
compressores do saco actuam mecanicamente sobre a
água incompressível e impelem o animal para trás. A lei
da constituição da água do mar intervém, como composi
tor, no carrilhão vivo das células protoplásmicas do em
brião do polvo gigante e impõe à melodia morfogenética
os contrapontos que correspondem às propriedades da
água. Em primeiro lugar, forma-se o órgão, cujas paredes
musculosas admitem e expelem a água, incompressível.
A lei do significado, que neste caso liga ponto e contra
ponto, torna possível o acto de nadar.
A mesma lei do significado, sob numerosas varian
tes, preside à construção da forma de todos os animais
nadadores. Nadam para diante, para trás ou para o lado,
executam movimentos ondulantes com a cauda, são impe
lidos através da água pelas barbatanas ou pelas pernas,
mas sempre as propriedades do organismo se harmonizam
com as propriedades da água e subsistem como o ponto
para o contraponto. Em todos os casos é reconhecível
uma composição orientada no sentido de um significado
comum.
O mesmo pode dizer-se de todos os vários ciclos
do habitat, quer se trate de animais aquáticos, terrestres
ou aéreos. Sempre os órgãos efectores, destinados a
correr, saltar, trepar, planar, voar e velejar, são construí
dos em contraponto com as propriedades do respectivo
habitat. Com efeito, em muitos insectos, que começam
por viver na água e mais tarde vivem no ar, podemos
verificar com que facilidade, no segundo estádio larvar, a
lei da constituição elimina os órgãos velhos e faz surgir
os novos.
Mas também o exame das relações receptivas entre
sujeito e habitat confirma o facto. Para cada obstáculo
que se levante ao sujeito, existe sempre um órgão sen-
sorial construído em contraponto. Quando à luz, é o órgão
[183]
da vista, quando às escuras, o órgão do tacto ou o do
ouvido.
Desde o início, o morcego, tal como a andorinha, está
adaptado, por outros meios, à percepção dos obstáculos
que encontra no voo.
Mas isso — dir-me-ão — são puras vulgaridades. E, na
verdade, são experiências de todos os dias, que podem
fazer-se em toda a parte. Mas por que motivo não have
mos nós de tirar destas experiências a única conclusão
possível — a de que, na Natureza, nada é deixado ao
acaso, mas, pelo contrário, em todas as circunstâncias,
uma lei intrínseca do significado liga o animal e o seu
meio, une os dois num dueto, em que as propriedades
de ambas as partes são compostas uma para a outra,
em contraponto?
Só quem negue obstinadamente o significado como
factor natural ousará contestar, no ciclo-de-função do
sexo, que macho e fêmea são constituídos, quanto ao sig
nificado, um para o outro e sustentar que o dueto de amor
que, em mil variações, entrelaça todo o mundo vivo,
surgiu independentemente de qualquer plano.
No dueto de amor dos animais e das pessoas enfren
tam-se dois parceiros equivalentes, um dos quais, no seu
mundo-próprio, domina como sujeito e intervém como
receptor de significado, enquanto ao outro cabe o papel
de portador de significado, isto é, de objecto significante.
Tanto os órgãos de percepção como os órgãos de
acção estão, nos dois parceiros, coordenados em con
traponto.
A primeira condição que deve pôr-se numa composi
ção natural bem sucedida é que o objecto significante se
distinga nitidamente no mundo-próprio do receptor de
significado. Para isso, podem utilizar-se os mais variados
sinais-característicos.
J^cerca da borboleta nocturna chamada pavão, conta
[184]
Fabre que a fêmea executa movimentos de vaivém com
o abdómen, de modo a comprimir contra o solo as glân
dulas odoríferas. O cheiro que então jorra para o chão é
tão activo no mundo-próprio dos machos, que estes
acorrem, voando de todos os lados, ao local de onde o
cheiro provém, sem serem desviados por outros cheiros,
que se perdem, abaixo do limiar de percepção.
O poder de atracção desta nota olfactiva é tão forte
que os machos, na sua ânsia de atingirem o solo odoroso
— o objecto significante— não modificarão o seu itine
rário, ainda que lhe coloquemos no caminho uma fêmea,
metida em gaiola de vidro, de modo que seja visível, mas
imperceptível pelo cheiro.
Infelizmente, não se fez ainda a mesma experiência
com cadelas no período do cio; mas é possível que os
cães se comportem exactamente como as borboletas
machos.
Num caso muito interessante relatado por Wunder (1),
o parceiro sexual não intervém como objecto significante
directo: insere-se, no ciclo do sexo, um segundo objectoj
significante.
O macho da carpa-pequena, peixe de água doce,
reveste-se, na época das núpcias, de um brilhante traje
nupcial. Isso, porém, não acontece quando avista a fêmea,
mas sim quando avista o mexilhão dos tanques e princi
palmente quando sente as correntes de água aspiradas
e expelidas por esse mexilhão.
Ao mesmo estímulo, a fêmea desdobra o seu longo
ovipositor. Enquanto o macho lança o seu esperma na
água, a fêmea fixa o ovo fecundado na guelra do mexilhão,
onde a larva pode crescer dentro de uma corrente alimen
tar e protegida de todos os perigos. O significado do traje
nupcial do macho não está relacionado naturalmente com
(') W. Wunder (* 1898), zoólogo especialista em ictiologia
geral e piscicultura. (N. da ed. alemã.)
[185]
o mexilhão; ele serve, sim, para afugentar as outras
carpas.
i Que nós temos no significado a verdadeira chave
para a compreensão das composições naturais da vida
sexual, provam-no aqueles exemplos em que o objetítò
sigiiiiicante em nada se modifica e, todavia, experimenta
da parte do sujeito o tratamento oposto, só porque este
sujeito se transformou quando recolheu um significado
diferente.
Ao falar da vida dos escaravelhos, diz Fabre que, ao
princípio, machos e fêmeas saem juntos para a caça,
mas que depois se unem sexualmente. Concluída a cópula,
e embora a conduta dos machos para com as fêmeas
não se modifique absolutamente nada, estas lançam-se
com verdadeira fúria devoradora sobre eles e despeda
çam-nos, sem que eles, mais fracos, possam evitá-lo.
O objecto significante «amigo» transforma-se, no mundo-
-próprio das fêmeas, no objecto significante «alimento»,
sem que, no resto, a constituição deste se tenha alterado
em qualquer pormenor. É exactamente o que se passa
com a pedra do caminho que, sem se modificar, se des
poja, afinal, do seu significado de «elemento do caminho»
para se converter em «projéctil» quando varia a disposi
ção íntimá do sujeito «homem» que imprime então à
pedra um significado diferente.
O misterioso comportamento, descrito por Lorenz (1),
dos jovens gansos cinzentos, consiste igualmente numa
«cunhagem» de significado. O gansozinho cinzento assi
nala na expressão do próprio Lorenz — para «compa
nheira maternal», que ele segue constantemente, o pri
meiro ser vfvo que os seus olhos descobrem, ao sair do
ovo. Neste caso, o próprio homem fica tendo, para o
ganso, o significado de «mãe». «Que aspecto terá, para o
(’)V. pãgs) 110 a 113.
[186]
ganso, a pessoa assinalada como «mãe»? — eis a questão
que principalmente preocupou Lorenz.
Não devíamos esquecer, creio eu, que até no mundo-
-próprio do nosso cachorrinho não é como «mãe» que nós
aparecemos e somos farejados mas sim cómô portadores
do significado «aquilo ou aquele que traz o leite» e isto
slmTqiiê, por tal mòtivo, assumamos, pãrã ele,'“a forma
de cão.
Von Korff fala de um bufo que tinha chocado dois
ovos de pata e tratava os patinhos como se fossem pe
quenos bufos. Tentara alimentá-los, pelo bico, com carne
crua, sem resultado, e observava-os durante o dia, pou
sado num ramo que se estendia por cima do tanque.
À noite, regressava com eles para a sua gaiola. Quando
outros patinhos se lhes juntavam, eram imediatamente
mortos e devorados pelo bufo. Neste caso, os filhos adop
tivos do bufo distinguiam-se dos seus semelhantes apenas
pelo significado que o bufo lhes atribuía. Ao passo que
todos os outros patinhos entravam como portadores do
significado «vítima» no mundo-próprio do bufo, os dois
que ele tinha chocado desempenhavam o papel de bufo-
zinhos.
A amplitude da lei que tem de harmonizar as dife
renças entre o portador de significado e o receptor de
significado é muito pequena no ciclo sexual ou no da
infância, visto que se trata, na maior parte dos casos,
de indivíduos da mesma espécie. A observação dos ciclos-
-de-função «inimigo» e «alimento», pelo contrário, mos
tra-nos que essa amplitude não conhece limites e que as
qualidades das coisas mais remotas podem ser ligadas
umas às outras, em contraponto.
Já falei da harmonização da lei da constituição do
morcego com a lei da constituição das borloetas, por meio
da lei do significado.
De um lado, temos o morcego, como objecto signifi-
[187]
cante, que só produz um som; do outro lado, a borboleta
nocturna, que em virtude do seu órgão auditivo muito
especializado, só pode captar um som. Este som é, nos
dois animais, o mesmo. A lei do significado.^segunskL^
qual esta correspondência surgiu, reside na relação entre
o ataque do inimigo e a defesa davítinaa*- O som que,
como smàl de^reconhecimento, se estabelece, passando
de morcego para morcego, serve, ao mesmo tempo, às
borboletas nocturnas, de sinal para a fuga. No mundo-
-próprlo do morcego, é um sinal de amigo; no da borboleta
nocturna é um sinal de inimigo. O mesmo som torna-se,
consoante o seu diferente significado, criador de dois
órgãos auditivos totalmente diferentes. Como o morcego
é capaz de ouvir muitos sons, o seu órgão auditivo dispõe
de uma ressonância de larga extensão. Mas só pode, por
outro lado, produzir este único som.
É igualmente interessante seguir a adaptação da
carraça ao mamífero pela lei do significado.
Carraça
Receptor de significado
Pontos
1. O órgão olfactivo está
adaptado a um só
cheiro — o do ácido bu-
tírico.
2. Existe um órgão táctil
que permite à carraça
evitar os pêlos da sua
vítima.
3. Um órgão sensível à
temperatura, que faz
soar os sinais percepti-
vos do calor.
Qualquer mamífero
Portador de significado
Contrapontos
1. O único cheiro que é
comum a todos os ma
míferos é o ácido bu-
tírico do suor.
2. Todos os mamíferos
têm pêlos.
3. Todos os mamíferos
têm pele quente.
[188]
4. Um ferrão próprio para
perfurar a pele de qual
quer mamífero e que
s e r v e , ao mesmo
tempo, de bomba pro
pulsora de fluidos.
4. Todos os m a mí f e r o s
possuem pele branda,
bem irrigada pelo san
gue.
Lei de significado geral
Reconhecimento da vítima, ataque e absorção do sangue
por parte da carraça
A carraça põe-se imóvel na ponta de um ramo, até
que um mamífero passe por baixo dela. É então desper
tada pelo cheiro do ácido butírico e deixa-se cair. Fica
suspensa no pêlo da sua vítima e tem de abrir caminho
através dele, para chegar à pele quente, na qual introduz
o ferrão, para absorver o sangue. Não existe nela um
órgão do gosto.
A observância desta lei de significado, tão simples,
ocupa quase a vida inteira da carraça.
A constituição desta, que é cega e surda, .está d eji-
neada sjmplesmente no sentido de permitir que no seu
mundo-própriõ7qualquer mamífero surja sempre como por
tador do mesmo significado. Podemos considerar este
cõmõ um mamífero extremamente simplificado que não
possua nenhuma das propriedades visuais ou auditivas,
pelas quais se distinguem as diferentes espécies de ma
míferos. Este objecto significante da carraça tem um único
cheiro: o que provém do suor dos mamíferos e é comum
a todos. Além disso, é táctil, quente e deixa-se perfurar,
de modo que a carraça lhe sugue o sangue. Assim, todos
os mamíferos — tão diferenciados entre si pela forma,
pela cor, pelos sons que emitem ou pelo cheiro que exa
lam, tal como se apresentam no nosso mundo-próprio.
[189]
podem agora ser reduzidos a um mesmo denominador,
cujas características, à aproximação de cada um deles —
seja homem, cão, corça ou rato — surgem em contraponto
e denunciam a lei vital da carraça.
No nosso mundo-próprio — o humano — não existe-
nenhum mamífero em si próprio, isto é, como objecto real;
existe, sim, como abstracção mental, como conceito taxo-
nómico que nunca encontramos na vida.
É completamente diferente o que sucede com a car
raça: no seu mundo-próprio existe um mamífero composto
de poucas propriedades mas perfeitamente real, que cor
responde exactamente às necessidades da carraça, pois
estas poucas propriedades servem, em contraponto, as
suas capacidades.
O acomodamento do casa-roubada na concha do búzio,
fenómeno que não pode explicar-se como qualquer modi
ficação anatómica por adaptação gradual, parecer-nos-á
particularmente estranho, enquanto insistirmos na procura
de explicações mecânicas.
Mas se abstrairmos dessas tentativas inúteis e nos
limitarmos a verificar que o casa-roubada não utiliza a
cauda como órgão natatório, como fazem os caranguejos
de cauda comprida, mas sim como órgão de preensão para
as conchas'de búzio, já a cauda preensora do casa-roubada
não parecerá mais enigmática do que a cauda natatória do
caranguejo-do-rio. A cauda preensora está tão harmonica-
mente construída para as conchas do búzio como a cauda
natatória para a água.
Mathilde Hertz fez esta interessante descoberta: as
abelhas que colhem o néctar só são capazes de descobríT
duas formãíTUe f lo resTfõrmas decomponíveis ou com
recortes, e fôrmas fechadas ou íntegras. As formas estre
ladas e poligonais de qualquer espécie atraem as abelhas,
enquanto as formas fechadas, como os círculos e os qua
drados, as repelem. Este facto atribuem-no os teóricos da
[190]
conformação (G estalt) a um maior poder de estimulação
das formas abertas e temos de admiti-lo: mas que é que
isto significa? A resposta acorre imediatamente: todos os
botões impenetráveis que as abelhas desprezam apre
sentam formas fechadas. Pelo contrário, as flores desa
brochadas, que oferecem o seu néctar, têm formas
abertas.
Na lei da conformação das abelhas incluem-se dois
esquemas espaciais de percepção para flores e botões,
graças à lei do significado, segundo a qual se faz a
colheita do néctar. Assim, os dois esquemas encon
tram-se em estreita relação de contraponto com as duas
formas principais das flores.
Mas como é que a natureza procede, se um sujeito
animal, no seu comportamento, tem de distinguir formas
mas possui, por outro lado, um sistema nervoso central
absolutamente primitivo, incapaz de criar esquemas de
forma?
A minhoca, que arrasta para a sua estreita galeria
folhas de tília e de cerejeira (que lhe servem, simultanea
mente, de alimento e protecção), tem de tomar as folhas
pelo vértice, para que estas possam enrolar-se com faci
lidade. Se ela tentasse segurar as folhas pela base, estas
embaraçar-se-iamna entrada e não obedeceriam à força
que as puxava. Pela sua constituição geral, a minhoca
não está em condições de criar esquemas de forma; mas
possui, em compensação, um órgão sensorial particular
mente apurado para o gosto.
Devemos a Mangold (1) a descoberta de que, até nas
folhas partidas em pequenos pedaços, a minhoca con
tinua a ser capaz de distinguir os pedaços que pertencem
H Otto August Mangold (* 1891), zoólogo, discípulo de Spe-
mann, chefe de departamento do Instituto Max-Planck, de Heidelberqa
desde 1946. Trabalhou em células embrionárias e ainda noutros
campos. (N. da ed. alemã.)
[191]
à base daqueles que pertencem ao vértice. Com efeito,
os vértices das folhas e as su as bases ..têm, para as mi
nhocas, sabores diferentes. E isso basta para serem
Tratados diferentemente. Em vez de esquemas de forma,
surgem, pois, em contraponto, notas gustativas que tor
nam possível o acto de armazenamento de folhas, tão
importante para a vida das minhocas.
Com razão se pode aqui falar de uma requintada
composição natural.
O pescador humano sabe, por experiência, que para
apanhar peixes particularmente vorazes não precisa de
iscar o anzol com uma representação perfeita da sua
vítima e que lhe basta apresentar ao lúcio, como Isca,
uma simples amostra de prata, isto é, a imitação muito
genérica de uma carpa pequena.
Ora a Natureza não precisa destas experiências.
O Lophius p iscatorius — o tamboril — é um peixe de
grande boca que, próximo do lábio superior, tem um apên
dice ósseo, comprido e móvel, que ele faz ondular, como
se fosse uma fita prateada.
Tanto basta para atrair peixes vorazes, mais peque
nos, que, ao abocarem a isca, são precipitados nas pro
fundidades da enorme boca pelo redemoinho que subita
mente se forma.
A amplitude da lei do significado alarga-se, neste
caso, ainda mais, pois liga a lei da conformação do lophius
não com a figura da presa perseguida pelo peixe voraz
mas com a imagem muito simplificada dessa presa no
mundo-próprio daquele que vem a ser apanhado pelo
lophius.
Exemplo semelhante oferecem as borboletas, orna
mentadas com manchas ocelares brilhantes, as quais, ao
abrirem as asas, afugentam as pequenas aves que as
perseguem, pois estas, quando se lhes deparam os olhos
[192]
de pequenos animais caçadores, põem-se imediatamente
em fuga.
Nem o lophius sabe que aspecto tem a presa no
mundo-próprio do peixe voraz que ele apanha, nem a
borboleta sabe que o pardal foge, diante dos olhos do
gato. Mas o Autor destas composições dos mundos-pró-
prios deve sabê-lo.
Não se trata de conhecimento humano, que possa
ser adquirido pela experiência. Sobre este ponto, já nos
elucidou a abertura do túnel pela larva do gorgulho-da-
-ervilha. Essa larva executa, como vimos, um comporta-
mento que é determinado por um saber supersensorial,
independente do tempo. Graças a este saber, é possível
ao compositor fazer da futura necessidade vital de um
gorgulho que ainda não nasceu, a causa do comporta
mento da larva desse gorgulho.
8 . A TOLERÂNCIA DO SIGNIFICADO
No exemplo do pedúnculo da flor, cuja diferenciação
conhecemos já nos quatro mundos-próprios da rapariga,
da formiga, da larva da aphrophora e da vaca, aquele,
como objecto significante, encontrava-se, em cada caso,
perante um novo receptor de significado que podemos
também designar por utilizador do significado, visto que
o pedúnculo é utilizado como adorno, como caminho,
como fonte de material de construção ou como bocado
de alimento, consoante o caso.
Mas este exemplo oferece ainda outro aspecto, que
se manifesta quando nós, em vez do pedúnculo, introdu
zimos, como sujeito, toda a planta a que ele pertence e
lhe juntamos os quatro sujeitos anteriores como factores
significantes.
Não se trata então de uma utilização do significado
1 3 - A . HOMENS [193]
por parte da planta. Receber o significado só pode, neste
caso, equiparar-se a sofrê-lo. Esta tolerância apresenta
várias graduações. A diferenciação do pedúnculo em ca
minho de formigas é fácil de tolerar. Também a extracção
do suco para a construção da casa da larva da aphrophora
se traduz apenas por um ligeiro dano. Mas o corte dai
flor, por parte da rapariga, e a ceifa da mesma flor por
parte da vaca, podem, pelo contrário, ser prejudiciais à
planta.
Em nenhum dos quatro casos se descobre uma lei do
significado adequada ao interesse da planta.
Do mesmo modo, o papel significante que a teia de
aranha desempenha na vida da mosca não é, por forma
nenhuma, aproveitada no interesse da mosca e opõe-se,
até, a este interesse. A mosca que se enreda na teia de
aranha não pode, de modo nenhum, utilizar este objecto
significante, mas apenas tolerá-lo, sofrê-lo.
Da mesma maneira, a larva do gorgulho-da-ervilha
que, cuidando do futuro, abriu o seu túnel através desta,
em devido tempo, isto é, antes de esta endurecer, fica
indefesa perante o objecto significante «icnêumon» e só
lhe resta suportar o causador da sua morte.
O sentido destes aparentes antagonismos de signifi
cado torna-se imediatamente claro, quando nós abstraímos
do indivíduo em particular e consideramos a unidade
superior da espécie.
O princípio de tudo o que é vivo estabelece na
espécie, que é duradoira, a existência de indivíduos, que
são transitórios. Os indivíduos de cada geração empare
lham-se, para produzirem uma nova geração e o número
dos filhos excede sempre o dos pais. Para que a espécie
mantenha a mesmo número de indivíduos, têm de su
cumbir os excedentes. Junta-se assim, na nova geração,
o mesmo núryero de progenitores para a manutenção da
espécie. A exterminação dos excedentes opera-se de
[194]
maneiras muito diversas. Na maior parte das espécies,
a longevidade dos indivíduos é determinada pela mudança
das estações. É evidente que todos os indivíduos que
vivem um só ano todos os anos cedem o seu lugar a
nova geração.
Extinguem-se assim completamente as sociedades de
vespas, todos os Outonos, com os seus milhares e mi
lhares de indivíduos e apenas algumas fêmeas sobrevi
vem ao Inverno para, no próximo ano, fundarem o mesmo
número de novos enxames.
No Outono, morrem tantas das nossas moscas do
mésticas, que nós poderíamos considerá-las extintas e
todavia, logo no princípio do ano seguinte, elas aparecem
de novo e em número igual. O número de moscas que
prematuramente encontram a morte na teia da sua ini
miga— a aranha — desempenha neste balanço um papel
insignificante.
A migração das aves aniquila, ano após ano, os
indivíduos excedentes que não estão à altura do enorme
esforço por ela requerido.
Não é só o número de indivíduos que conta para a
espécie mas também a sua capacidade de resistência.
Nisto reconhecemos o alto significado que tem a inci
dência, nos indivíduos, de danos que sucessivamente
excluem os mais fracos, da procriação de descendentes
menos bem dotados.
Ao arrebatarem as suas débeis presas, os açores e
as raposas tornam-se beneficiadores das espécies que
perseguem. Nos lugares onde as raposas são aniquiladas,
as lebres sucumbem às epidemias, porque os animais
atacados de doença não são eliminados a tempo.
Os animais a que a doença tolheu os movimentos
têm sobre os seus inimigos uma atracção especial. Disso
tiram partido muitas aves. Assim, o abibe cuja postura é
ameaçada pela aproximação de um inimigo não se limita
[195]
a fugir; finge também manquear e, com esta aparente
incapacidade para o voo, atrai a si o inimigo, até se encon
trar suficientemente afastado do ninho e só então voa
e se põe a salvo.
O icnêumon, que ataca traiçoeiramente a larva do
gorguJho-da-ervilha, é, ele próprio, o protector das ervi
lhas, que, se não fora ele, seriam sacrificadas ao exce:
dente dos seus inimigos.
A Austrália oferece-nos um exemplo notável decomo
é importante para a vida vegetal e animal a intervenção
desses inimigos específicos.
Há cem anos, uma camponesa que emigrou da Amé
rica do Sul para a Austrália levou consigo uma estaca
de figueira-da-índia, que se deu admiravelmente na nova
pátria. Em breve se reconheceu a grande utilidade desta
planta, eriçada de picos, para a vedação de jardins e
fazendas. Plantaram-se então figueiras-da-índia por toda
a parte.
Ora esta planta, que começou por ser tão útil, acabou
por se transformar numa praga. Invadiu os jardins e os
campos que devia proteger. Espalhou-se pelas florestas,
e onde quer que chegava destruía toda a vegetação.
Quando já vastas áreas se encontravam devastadas,
intervieram as autoridades, que mandaram atacar o novo
inimigo a machado e por meio do fogo. Como o processo
não surtisse efeito, mandaram-se aviões espargir tóxicos
sobre as florestas atingidas pelo cacto. O resultado foi
que todas as outras plantas morreram e o cacto continuou
a prosperar.
No seu desespero, as autoridades dirigiram-se então
aos institutos botânicos das Universidades. E estes en
viaram um grupo de investigadores qualificados à pátria
de origem da figueira-da-índia, na América do Sul. Foi
possível a estes observadores experimentados descobrir
[196]
uma pequena lagarta, do grupo das traças, que se alimenta
exclusivamente dos tecidos daquela planta.
Depois de experiências que duraram anos, culti
varam-se milhões de ovos deste inimigo do cacto, que se
espalharam pelas regiões ermas onde este se desenvolve
e, em poucos anos, foi possível destruir os cactos devas
tadores e conquistar novamente o solo para a cultura.
É altamente apaixonante seguir as composições da
Natureza e averiguar que significado convém a cada tole
rância de significado.
Dois pontos de vista importa então considerar: ou o
excesso de indivíduos é eliminado pela tolerância do
significado, no interesse da própria espécie — e, neste
caso, todos os indivíduos doentes e de limitada resis
tência são segregados— , ou então a eliminação dos Indi
víduos em excesso faz-se no interesse da economia da
Natureza.
Assim, segundo K. E. Baer ('), o excedente das larvas
de mosquito serve de alimento aos peixes e o mesmo
parece poder dizer-se do excedente de girinos de rã.
Foi um erro basilar de Herbert Spencer (2) interpretar
o aniquilamento dos descendentes em excesso como
«sobrevivência dos mais aptos» para, sobre essa ideia,
fundamentar o progresso na evolução dos organismos.
Não se trata, de modo algum, de uma «sobrevivência dos
mais aptos» mas de uma sobrevivência dos indivíduos
normais, em benefício da subsistência imutável da
espécie.
(’) V. n. 1 pág. 62.
H Herbert Spencer (1820-1903), filósofo inglês, adepto do
conceito de evolução. (N. da ed. alemã.)
[197]
9. A TÉCNICA DA NATUREZA
Era, se bem me lembro, uma sinfonia de Mahler, que
Mengelberg dirigia, de forma arrebatadora, no Conzert-
gebouw, de Amsterdão. A grande orquestra, reforçada
por coros masculinos e femininos elevava-se irresistir
velmente, em esplendor e magnificência.
Perto de mim, estava sentado um jovem, completa
mente mergulhado na partitura, a qual fechou, com um
suspiro de satisfação, quando se ouviu o último acorde;
Na minha falta de preparação musical, perguntei-lhe
que prazer podia sentir em acompanhar com os olhos, na
partitura, o que os ouvidos podiam captar directamente.
Todo ardendo em zelo, assegurou-me então que só quem
segue a partitura pode atingir a visão integral de uma
obra de arte musical. Cada voz, de pessoa ou instrumento,
representava um ser em si próprio que, todavia, se
fundia, em ponto e contraponto, com outras vozes, numa
forma superior que, por seu lado, se ampliava, ganhava
em riqueza e beleza, para nos dar, por fim, no seu con
junto, a própria alma do compositor.
Lendo a partitura, podia acompanhar-se o crescendo
e o decrescendo das vozes individuais que, como as
colunas de uma catedral, suportam a abóbada omnipo
tente. Só assim se podia ter uma perspectiva da complexa
formação da obra de arte executada.
Esta dissertação, feita em termos muito convincen
tes, despertou em mim um problema: se, porventura, será
missão da biologia escrever a partitura da Natureza.
■Já então me eram familiares as relações harmónicas,
em contraponto, de mundo-próprio para mundo-próprio e
retomei o exemplo do pedúnculo da flor, nas suas rela
ções com os quatro mundos-próprios mencionados.
O ramo^de flores que a rapariga ofereceu ao namo
rado era agora usado por este como adorno e o pedúnculo
[198]
da flor veio assim a entrar num dueto de amor. A formiga
que utilizava o pedúnculo como passagem, corria ao longo
dele, até ao ovário da flor e aí mungia as suas «vacas
leiteiras» — os pulgões. Quanto à vaca, essa transfor
mava, finalmente, em leite o pasto de que o pedúnculo
fazia parte. A larva da aphrophora crescia no seu abrigo,
feito do suco que o pedúnculo lhe tinha fornecido e em
breve enchia o prado com o seu doce canto de amor.
Outros mundos-próprios se vieram juntar a estes.
As abelhas, que estavam associadas, em contrapronto,
çom o aroma, a cor e a forma das flores, acorriam a elas
e, depois de se terem saciado de néctar, comunicavanri
ás companheiras a nova fonte descoberta, por meio de
danças impressionantes, que Von Frisch (1) descreve por
menorizadamente.
Na verdade, a cor das flores não é, para as abelhas,
a mesma que é para nós; serve-lhes, no entanto, de certa
característica, pois a flor e a abelha estão compostas
uma para a outra em contraponto.
Trata-se, evidentemente, de uma tentativa modesta,
mas, de qualquer modo, de uma tentativa, para resolver o
problema que uma partitura da Natureza põe perante nós.
Nós podemos reduzir a um mesmo denominador todos
os instrumentos musicais, se dispusermos, como num
carrilhão, os sons que eles produzem. Teremos então,
para o violino, um jogo de sons riquíssimo, constituído
exclusivamente por sons de violino; para os sons da
harpa, estabeleceremos um jogo diferente e mais sim
ples, que, no caso dos ferrinhos, desce até ao mínimo
indispensável.
A cada composição musical é posto o problema de
(') Karl von Frich (1886), zoólogo que fez importantes inves
tigações sobre a fisiologia dos sentidos nas abelhas e nos peixes.
Ver também n. 1, pág. 55. (N. da ed. alemã.)
r 199]
escolher, do jogo de sons de cada instrumento, aqueles
que formam uma sequência melódica e, ao mesmo tempo,
ligá-los harmonicamente com os sons dos «repiques» de
outros instrumentos.
Tudo isto se passa segundo a teoria do contraponto,
que estabelece as regras, de acordo com as quais se
podem combinar numa partitura os sons de várias vozes.
Mas ao compositor fica a liberdade de ligar, em contra
ponto, os sons de um instrumento com os de qualquer
outro.
Para pôr em paralelo o que se passa com os animais
e o que se passa com os instrumentos musicais, bastará
considerar o sistema nervoso central como um carrilhão.
Chamaremos então «sons perceptivos» aos sinais per-
ceptivos das suas células vivas que são projectados no
exterior como notas características e designaremos por
«sons efectores» os impulsos que provocam a execução
de movimentos.
Cada animal é capaz, como qualquer instrumento, de
um determinado número de sons, que entram em relação
contrapontal com os sons de outros animais.
Não basta, como os mecanistas faziam, tratar os ins
trumentos dé música como simples produtores de ondas
de ar. Com essas ondas, ninguém pode criar uma melodia
ou uma harmonia, nem compor com elas uma partitura.
Só a relação das ondas do ar com o órgão auditivo do
homem, onde estas se transformam em sons, pode tornar
possível a produção de melodias e harmonias e a com
posição de partituras.
Também não basta atribuir aos animais e às plantasde um prado a função de espalhar no espaço as cores,
os sons e os odores que lhes são particulares e que,
afinal, só nos mundos-próprios de outros animais são
captados e depois transformados em percepções.
Podemos, então, transpor as relações dos organismos
[ 2 0 0 ]
para relações musicais e falar de tons ou teores percep
tivos e de tons ou teores efectores dos vários sujeitos
animais que se ligam uns aos outros em contraponto.
Só então podemos chegar a uma partitura da Natureza.
Na Natureza, os teores perceptivos de vários animais
podem ser utilizados em contraponto. Assim o som de
chamamento emitido pelo morcego no seu mundo-próprio
é, simultaneamente, um som de aviso no mundo-próprio
da borboleta.
A concha que o búzio transporta tem, para ele, um
teor de habitação; mas depois de morto o búzio, a sua
concha esvaziada passa a ter para o casa-roubada, um
novo teor de habitação. Esta identidade de teores é apro
veitada na composição búzio-casa-roubada.
Tal como ao compositor de uma sinfonia não são
postos limites na escolha de instrumentos, também a
Natureza é completamente livre na escolha dos animais
que pretende ligar em contraponto. O apêndice pescador
do lophius está constituído em contraponto com o teor
de preensão do esquema que deve atrair o peixe, sua
presa. As designações de teor de preensão e teor de
habitação mostram que, na aplicação da comparação
musical ao caso dos animais, nós abandonámos, de vez,
a pura teoria da música, pois segundo esta, pode falar-se,
de um som de violino ou de um som de harpa mas nunca
de um teor de «preensão da vítima» ou de um teor de
«habitação» de uma casa, ou do teor de «beber» de uma
taça ou do teor de «assento» de uma cadeira. E todavia,
a grande aplicabilidade da comparação musical ao campo
biológico reside na extensão do conceito «som», do sim
ples som audível ao teor significante dos objectos que
aparecem como portadores de significado no mundo-pró
prio de um sujeito.
Quando dizemos que o teor de habitação da concha,
no mundo-próprio do búzio, pode representar-se em con
[ 2 0 1 ]
traponto com o teor de habitação, no mundo-próprio do
casa-roubada, queremos dizer com isso que cada um dos
dois teores, sem se identificar com o outro, pode, no
entanto, ser transferido para esse outro, pela composição
da Natureza, visto terem ambos o mesmo significado.
Em lugar da harmonia, na partitura musical, intervém o
significado, na partitura da Natureza, que serve de elo'
de ligação, ou melhor, de ponte, para ligar dois factores
naturais.
Com efeito, tal como uma ponte tem, em cada mar
gem do rio, os seus apoios, que ela liga em ponto e con
traponto, assim também são estes ligados na música,
pela harmonia, e na Natureza, pelo mesmo significado.
Ern numerosos exemplos, que podem até ter fatigado
o leitor, já demonstrei que, neste caso, se trata de ver
dadeiros factores naturais e não apenas de conceitos
biológicos..
Nós fomos já tão longe, que podemos considerar
a partitura do significado como interpretação da Natureza,
a qual pode pôr-se a par de uma interpretação, em música,
por meio da partitura traduzida em notas.
Se agora atentarmos numa orquestra, veremos, em
cada um dos papéis que se encontram nas estantes indi
viduais, em escrita musical, as partes dos diferentes
naipes, enquanto a partitura total repousa na estante do
regente. IVIas vemos também os próprios instrumentos
e perguntamo-nos se estes, porventura, não se ajustarão
uns com os outros, não só pelo som que cada um produz
mas também por toda a sua estrutura, isto é, se não
constituirão uma unidade, não só musical como tecnica
mente.
Como a maior parte dos instrumentos da orquestra
são, por si jbróprios, capazes de produções musicais, não
se pode responder afirmativamente a essa pergunta sem
hesitações.
[ 2 0 2 ]
Mas quem já tenha ouvido palhaços-músicos, que se
servem de instrumentos para, com eles, produzirem
ruídos (pentes, chocalhos, etc.) convencer-se-á de que é
possível, sim, com tal orquestra, executar uma cacofonia,
mas nunca uma sinfonia.
Os instrumentos de uma verdadeira orquestra, se os
observarmos com mais rigor, apresentam, logo na sua
estrutura, uma relação em contraponto.
Isto revela-se-nos ainda com mais clareza numa
orquestra natural, como um prado no-la apresenta. Basta
que pensemos na flor integrada nos quatro mundos-pró-
prios. Essa relação revela-se-nos ainda majs flagrante
mente entre a estrutura da flor e a da abelha e dela se
pode dizer:
Se na flo r não houvesse qualquer coisa de abelha
E ha abelha não houvesse qualquer coisa de flor,
Nunca o acorde seria possível.
Nestes versos se exprime o princípio fundamental
de toda a técnica da Natureza. Nele reconhecemos, mais
uma vez, a sabedoria de Goethe:
Se nos olhos não houvesse qualquer coisa de Sol,
Nunca eles poderiam vê-lo.
Mas nós podemos agora completar a sentença de
Goethe, dizendo:
Se no Sol não houvesse qualquer coisa de olho,
Em nenhum céu ele em itiria raios.
O Sol é uma luz celestial. Mas o céu é um produto
dos olhos, que dele fazem o seu horizonte mais distante
— aquele que envolve o espaço do seu mundo-próprio.
Os organismos sem olhos não conhecem o céu nem o Sol.
[203]
10. O CONTRAPONTO, CAUSA DETERMINANTE
DA CONSTITUIÇÃO DA FORMA
Podemos agora aplicar também aos outros exemplos
aduzidos a regra técnica fundamental que se exprime na
conformidade da abelha com a flor e na conformidade da
flor com a abelha.
É claro que a teia de aranha é de estrutura ajustável
à mosca, porque a própria aranha já o é também. Ser
ajustável à mosca significa, neste caso, que, na sua
estrutura, a aranha adoptou certos elementos da mosca.
Não de uma determinada mosca mas do seu protótipo.
Para nos exprimirmos melhor: quando dizemos que a
aranha é ajustável à mosca, queremos significar que, na
sua constituição corpórea, aquela adoptou para si certos
motivos ou determinismos da melodia da mosca.
É muito nítida a interferência dos determinismos par
ticulares de certos mamíferos no plano somático da
carraça. Mais nítido que em qualquer caso é a acção do
determinismo do morcego na estrutura do órgão auditivo
da borboleta nocturna.
Em toda a parte, é o contraponto que se manifesta,
como causa determinante da constituição das formas,
o que, aliás, já nos devia ser familiar a partir da estru
tura dos objectos úteis ao homem.
Uma chávena de café, com a sua asa, mostra-nos
imediatamente as relações em contraponto, por um lado,
com o café e, por outro lado, com a mão do homem.
Estes contrapontos influenciam, em primeiro lugar, as
causas determinantes no fabrico da chávena. Até são,
na verdade, mais importantes do que o material de que
a chávena é feita.
Parece de uma evidência vulgar o dizer-se a frase: a
chávena de café é constituída para o café. A frase, toda
via, significa mais do que parece. Ela diz que a função
[204]
da chávena consiste em conter café e, mais ainda, que
essa função foi o motivo do seu fabrico.
A doutrina do significado culmina na revelação desta
correlação.
O significado do nosso objecto de utilidade reside,
para nós, na sua função, que é sempre possível fazer
remontar a uma ligação do contraponto existente nesse
objecto com o homem. Essa ligação cria simultaneamente
o motivo para o seu próprio lançamento.
A cadeira, no seu significado de dispositivo que se
ergue acima do solo para servir de assento, é constituída
por claros meios de ligação com vários contrapontos no
corpo do homem. O assento propriamente dito, as costas
e os braços encontram no corpo humano os elementos
correspondentes com que estão relacionados, enquanto
os pés da cadeira formam nítidas Iigaçõe6 com o con
traponto solo. Por sua vez, todos estes contrapontos são,
para o marceneiro, causas determinantes daconstrução
da cadeira.
Levar-nos-ia demasiado longe, aduzir mais exemplos
como este. Deve ser bastante a indicação de que, com
todos os objectos que utilizamos, lançamos pontes que
ligam a nossa pessoa com a Natureza, da qual, todavia,
não nos aproximámos mas, pelo contrário, nos afastámos
cada vez mais. Começámos então, em ritmo cada vez
mais lesto, a lançar pontes para outras pontes que, já na
construção de máquinas simples não são ignoradas pelo
homem ainda próximo da Natureza. Na grande cidade, nós
vivemos rodeados só de coisas artificiais, pois as próprias
árvores e flores dos nossos jardins, que nós arrancamos
e transplantamos a nosso bel-prazer, foram arrebatadas
ao conjunto da Natureza e transformadas por nós em
objectos úteis ao homem.
A tão prezada técnica do homem perdeu, para a Natu
reza, todo sentido, pois propõe-se resolver os mais pro-
[205]
fundos problemas da vida, como as relações do homem
para com a natureza de Deus, com a sua matemática
insuficiente.
Tudo isto é secundário. Muito mais importante é
obter uma ideia dos caminhos que a Natureza segue para
derivar, do germe não diferenciado, as suas criaturas,
que ela, ao contrário de nós, não estrutura separada*,
mente.
O filme de Arndt, acerca do bolor-viscoso, mostrou-
-nos, como primeira fase da vida, uma acumulação cada
vez maior de formas amibóides autónomas, que são cons
tituídas em contraponto com a sua alimentação de bacté
rias. Esgotados os alimentos, intervém subitamente um
novo contraponto, como causa determinante, que trans
forma as células amibóides que se acumularam umas
sobre as outras, em células, unidas em tecido, de uma
planta exposta ao vento.
Se olharmos para o pequeno mundo do bolor-viscoso
que, como ténue cabeleira encima um montículo de
estrume seco de cavalo, nós descobrimos que, além do
corpo do bolor, portador de germes, só existe outro
factor natural actuante: o vento que dispersa esses
germes.
O portador e o dispersador de germes fundiram-se
num dueto. São, antes de mais nada, as formas amibóides
livres que,'com os seus teores individuais semelhantes,
constituem um carrilhão vivo.
A Natureza joga com elas, transforma-as em células
constitutivas de tecido, segundo novo determinismo, e
constrói com elas uma forma portadora de germes que se
expõe ao vento.
Este fenómeno é, para nós, tão inconcebível como a
mudança de emotivo numa sonata de Beethoven. A nossa
missão, porém, não é compor uma sonata da Natureza
mas somente p c rever a sua partitura.
[206]
Logo no princípio, começamos por pôr, ainda entre os
vertebrados, o que respeita às questões técnicas. Pode
mos relacionar o despontar dos órgãos que estão sujeitos
a um plano elementar com o facto de o significado de
cada esboço de órgão ser fixado pela sua situação no
todo, de modo que não pode dar-se qualquer erro de signi
ficado ou qualquer duplicação.
Esta fixação é tão segura que, como Spemann mos
trou, um enxerto de epiderme de girino de rã feito no
germe do tritão, no lugar da futura boca deste, trans
forma-se realmente em boca, mas numa boca de girino
de rã, porque a partitura de formação da boca da rã foi
transmitida simultaneamente com as células desta.
Se arrancássemos uma folha ao caderno com a parte
do primeiro violino e a colocássemos no lugar corres
pondente ao papel do violoncelo, produzir-se-ia uma dis
crepância semelhante àquela.
Para o caso das partituras da estruturação de formas
é muito elucidativa a abertura do túnel pela larva do
gorgulho-da-ervilha. Aqui, o contraponto, que se torna
causa determinante da abertura do túnel, é a verdadeira
forma, que só mais tarde aparece, do gorgulho adulto,
o qual, sem a saída preparada pela larva, teria de sucum
bir. Pode, pois, a forma futura desempenhar um papel,
como causa determinante, na metamorfose?
Isto abre outras possibilidades. Se a forma futura
que estabelece o objectivo da conformação pode, ela
própria, tornar-se a causa determinante, então tem razão
K. E. von Baer, quando fala de um finalismo na formação
dos organismos. Simplesmente, ele não abrange, com
isso, a totalidade dos factos.
Quando a aranha tece a sua teia, as várias fases da
construção da rede e a sua disposição em forma radiada
podem considerar-se, simultaneamente, como objectivo
e causa determinante da moldagem da rede. Pode, talvez,
[207]
designar-se a\rede, mas nunca a mosca, como objectivo
da construção. Esta última, porém, serve, possivelmente,
de contraponto e causa determinante para essa cons
trução.
O exemplo dos tortricídeos mostra-nos eloquente
mente quantos enigmas ainda nos guardará a técnica da
Natureza. Situam-se frente a frente dois concorrentes
constituídos em contraponto: o pequeno rinóptero, pro
vido de uma serra, que utiliza como ferrão, e a folha
grande da bétula, que há-de ser serrada. O percurso
seguido pela serra deve ser tal que, em seguida, o
coleóptero possa enrolar, sem dificuldade, a parte infe
rior da folha, em forma de funil alongado, onde põe
os ovos.
Este percurso, que apresenta uma curvatura carac
terística, tem extensão constante para todos os tortricí
deos, embora não exista na folha da bétula qualquer ves
tígio de um traçado indicativo do caminho a percorrer.
Será o próprio «percurso constante» a causa determinante
do seu estabelecimento?
Isso faz parte dos segredos de composição natural
que nós, no estudo da técnica da Natureza, encontramos
a cada passo.
O primeiro investigador que se ocupou dos problemas
da técnica da Natureza parece ter sido Lamarck H . De
qualquer modo, a tentativa que empreendeu para harmo
nizar o desenvolvimento do longo pescoço da girafa com
o alto tronco das acácias, constitui a primeira indicação
de um comportamento contrapontal.
Perdeu-se, mais tarde, completamente, o interesse
O Jean Baptiste Antoine Pierre de Monet de Lamarck (1744-
1829), zoólogo francês, introduziu um novo Sistema do Reino Animal,
elaborou a primeira doutrina da descendência dos organismos, seguiu
o ponto de vista da transmissão hereditária dos caracteres adqui
ridos. (N. da ed. alemã.)
[208]
pela técnica da Natureza, que foi substituído por espe
culações sobre a influência dos antepassados, principal
mente por iniciativa de Haeckel ('). Ninguém poderá re
conhecer uma actividade técnica na afirmação de que os
anfíbios derivaram dos peixes. Particularmente as con
cepções acerca dos chamados órgãos «rudimentares»
encarregaram-se de desviar as atenções dos verdadeiros
problemas técnicos.
Só a demonstração, feita por Driesch, de que, de um
germe de ouriço-do-mar cortado ao meio resultam, não
duas metades de ouriço mas dois ouriços inteiros, com
metade do tamanho do primitivo, veio abrir caminho para
uma compreensão mais profunda da técnica da Natureza.
Tudo que é material se deixa cortar com uma faca. Mas
uma melodia é diferente. A melodia de uma canção, que
é executada por um carrilhão autónomo de sinos vivos,
permanecerá invariável, mesmo que ela dirija apenas
metade do número inicial de sinos.
11. O PROGRESSO
Desta vez foi na bonita igreja de S. Miguel, em Ham
burgo, ao ouvir a Paixão de S. M ateus que se me revelou
novamente o paralelo, no campo da biologia. Esta obra
sublime, entretecida dos mais belos cânticos, desenvol
via-se em ritmo fatal, irresistível. Mas não se tratava,
certamente, do progresso que os investigadores julgaram
descobrir no desenrolar, no tempo, do fenómeno natural.
Por que razão é que o grandioso drama da Natureza,
que se desenrola desde o aparecimento da vida na Terra,
não havia de ser, em sublimidade e profundeza, uma única
composição, como a Paixão?
(f) Ernst Haeckel (1834-1919), zoólogo alemão, renovador da
Biologia, adepto de Darwin. (N. da ed. alemã.)
1 1 - A. HOMENS [209]
A evolução, tão altamente encarecida,que devia con
duzir os organismos, de início tão imperfeitos, à organiza
ção cada vez mais perfeita não passava então de uma
especulação mesquinha sobre as imposições prementes
do próprio problema?
A mim, nunca se me deparou, nem mesmo nos ani
mais mais simples, o mais pequeno vestígio de imper
feição. Tanto quanto eu podia julgar, o material disponível
para a construção tinha sido utilizado da melhor maneira.
Cada animal tinha provido o seu Cenário de vida com
todas as coisas e todos os outros animais que, para a sua
vida, tinham significado.
As propriedades do anima} e as propriedades dos
seus comparsas ajustavam-se perfeitamente, em todas as
circunstâncias, como pontos e contrapontos de um coro
de muitas vozes.
Era como se a mesma mão de mestre corresse, desde
tempos imemoriais, por sobre as teclas da vida. As com
posições seguiam-se umas às outras, em número infinito,
graves e ligeiras, esplêndidas e horríveis.
Nas ondas do mar primitivo, moviam-se crustáceos,
simples, sim, mas de organização perfeita. Decorreram
grandes períodos e chegaram os dias do reinado dos
cefalópodes que os tubarões fizeram desaparecer. Dos
pântanos quentes da terra firme, surgiram os sáurios,
que, com as suas dimensões gigantescas, elevaram a vida
até ao major grotesco. Mas a mão do Mestre continuou a
correr sobre os seres. Do antigo tronco, surgem, em
novas melodias de vida, novas formas que se desenrolam
em centenas de variações, sem nunca revelarem a passa
gem do incompleto para o mais completo.
É certo que os mundos-próprios foram, no princípio
do drama universal, mais simples do que haviam de ser
mais tarde; mas sempre neles se opunha um receptor de
significado Vo objecto significante. Tudo estava subme
[ 2 1 0 ]
tido ao significado e este adoptava órgãos diferentes ao
habitat variável. O significado ligava o alimento e aquele
que o devora, o inimigo e a presa, e principalmente o
macho e a fêmea em assombrosa diversidade. Em todos
os casos se nota uma progressão mas nunca um pro
gresso, no sentido da sobrevivência da adaptado, nunca
uma selecção do mais dotado, por meio de uma furiosa
luta pela existência, desprovida de um plano. Em vez
disso, reinava uma melodia em que vida e morte se entre
laçavam.
Decidi apresentar ao nosso maior historiador esta
questão: póderá falar-se de um progresso na história
da humanidade?
Leopoldo von Ranke, nas suas Épocas da H istória
Moderna, escreve: «Se admitíssemos que este progresso
consistia apenas em a vida da humanidade se elevar, em
cada época, a um nível mais alto, em que, portanto, cada
geração ultrapassa inteiramente a anterior e a última é
sempre a preferida, em prejuízo das outras, que se limi
tam a trazer, em si, a geração seguinte, admitiríamos,
Implicitamente, uma injustiça da divindade. Uma tal gera
ção, esporádica, descontínua, não teria significado nem
em si nem por si pois só significaria alguma coisa na
medida em que fosse degrau de acesso para a geração
seguinte e não estaria em relação directa com a divin
dade. Todavia, eu afirmo: cada época está imediatamente
em Deus e o seu valor não reside, de modo algum, naquilo
que produz mas na sua própria existência, no seu pró
prio ser.»
Ranke rejeita o progresso na história da humanidade,
porque todas as épocas remontam directamente a Deus
e, consequentemente, nenhuma pode ser mais perfeita
que a outra.
Que podemos nós entender por uma época, no sen
tido que Ranke lhe atribuiu, senão um grupo homogéneo
[ 2 1 1 ]
de mundos-pYóprios do homem dentro de um limitado
espaço de tempo?
Daí se conclui que cada mundo-próprio deste grupo
remonta directamente a Deus, visto que todos eles per
tencem à mesma composição, cujo autor é Deus, na ex
pressão de Ranke.
Ora a palavra Deus é exactamente aquilo com que
investe todo o materialista, o qual admitiria uma compo
sição ao acaso, no decurso de larguíssimos espaços de
tempos, se lhe quiséssemos conceder que a força e a
matéria se mantiveram as mesmas desde o princípio do
mundo e que a lei da conservação da energia tem valor
eterno e universal.
No princípio da minha discussão, mostrei que o
estudo dos mundos-próprios prova, em primeiro lugar, a
inconstância dos objectos, que dentro de cada mundo-
-próprio, mudam também de conformação, sempre que
mudam de significado. O mesmo pedúnculo da flor passou
a ser, nos quatro mundos-próprios, quatro objectos
diferentes.
Só resta agora mostrar, com auxílio dos exemplos já
mencionados, que também a constância da matéria é uma
ilusão. As propriedades da substância de um objecto
dependem das escalas sensoriais do sujeito, cujo mundo-
-próprio estamos a analisar.
Se observarmos a cor, aos nossos olhos amarela,
de uma flor em que certa abelha poisou, podemos dizer
afoitamente que, no mundo-próprio da abelha, a flor não
é amarela (é talvez o que nós chamamos vermelha) pois
a escala das cores nos olhos da abelha corresponde a
uma escala de ondas de éter que é diferente da dos
nossos olhos. Sabemos também que a escala de sons
na borboleta nocturna, a escala de odores numa carraça,
a escala de gostos de uma minhoca e as escalas de forma
da maior parte dos invertebrados são completamente
[ 2 1 2 ]
diferentes das do homem. A própria escala de dureza
deve ser totalmente diferente para os icnêumones que
perfuram, como se fosse manteiga, a mais rija madeira
de pinho.
Nem uma única propriedade da matéria se conserva
a mesma quando percorremos a série de mundos-próprios
das diferentes espécies. De mundo para mundo, em cada
um dos objectos que observamos muda, não só o teor
significante mas também o arranjo de todas as suas pro
priedades, tanto materiais como formais.
A matéria é, no mundo-próprio do homem, o rocher
de bronze sobre o qual parece assentar todo o universo
quando, afinal, ele se volatiliza de um mundo para outro.
Não! A imutabilidade da matéria, em que os materia
listas se entrincheiram não constitui base sólida para uma
concepção geral do mundo.
Muito mais bem fundamentada que a imutabilidade
da matéria é a imutabilidade dos sujeitos. Mas os sujeitos
também se compõem de matéria — objectarão os mate
rialistas. É certo. Mas a matéria dos corpos, que é pró
pria dos sujeitos, tem de ser reconstituída em cada
geração.
Aquilo que cada indivíduo, em particular, recebe de
seus pais sob a forma de matéria, é extremamente insig
nificante: reduz-se a uma célula germinal divisível e a um
«teclado» de corpúsculos estimulantes chamados genes
que, no acto da divisão da célula é recebido por cada
uma das células filhas. Com efeito, esse «teclado» torna
possível às melodias morfogenéticas fazê-lo soar, como
nas teclas de um piano e deste modo realizar a estrutu
ração das formas. Cada corpúsculo estimulante que é
posto em acção insinua-se, como impulso diferenciado,
no protoplasma da sua célula, para promover a estrutura
correspondente.
As melodias morfogenéticas que, deste modo, se
[213]
estruturam, vão buscar os seus motivos às melodias
morfogenéticas de outros sujeitos que elas encontrarão
nos seus cenários de vida:
Se na flo r não houvesse qualquer coisa de abelha
Se na abelha não houvesse qualquer coisa de flor,
Nunca o acorde seria possível.
Os motivos são tirados, ora do ciclo da nutrição, ora
do ciclo da defesa, ora do ciclo do sexo. É do ciclo do
habita t que a melodia morfogenética tira a maior parte
dos seus motivos e por isso a estrutura dos nossos olhos
é ajustada à luz do Sol, e a da folha do bordo, com as
suas goteiras, é ajustada à chuva.
Graças à captação de motivos exteriores, o corpo
de cada sujeito constitui-se receptor de significado da
queles objectos significantes cujas melodias estrutura-
doras adquiriram, como motivos, conformação no seu
corpo.
A flor actua, portanto, sobre a abelhacomo um feixe
de contrapontos, porque a sua melodia estruturadora,
rica de motivos, intervém na estruturação da abelha e
vice-versa.
O Sol, das alturas do céu, emite os seus raios sobre
mim, simplesmente porque ele, o nosso mais importante
componente,da Natureza, entra, como motivo principal,
na estruturação dos meus olhos.
O Sol parece tanto maior e mais radiante no céu do
mundo-próprio de um olho, quanto maior é a sua influên
cia na estruturação deste; e parece tanto menor e mais
insignificante quanto menor e mais insignificante é a
parte que tomou nessa estruturação (como na toupeira).
Se considerar-mos agora a Lua, em vez do Sol, pode
mos igualmente afirmar que, quanto maior é o significado
[214]
da Lua para o olho de um animal, mais importante é o
seu significado, como motivo, na estruturação do olho.
Quanto mais amplo é o significado dos mamíferos
no mundo-próprio da carraça, mais importante é também
a participação da melodia morfogenética dos mamíferos
como determinante da estruturação da carraça, nomeada
mente como cheiro do ácido butírico, como resistência
dos cabelos, como calor e penetrabilidade da pele.
À carraça é totalmente indiferente que os mamíferos
possuam milhares de outras propriedades. Só aquelas que
são comuns a todos os mamíferos intervêm como causas
determinantes na estruturação da carraça, tanto no que
respeita aos seus órgãos-de-percepção como aos seus
órgãos-de-impulso.
Seríamos constantemente induzidos em erro, se qui
séssemos introduzir a medida-padrão deste nosso mundo
na apreciação dos mundos dos animais. Poderia, no
entanto, afirmar que toda a Natureza participa, como
motivo, na formação da minha personalidade, no que res
peita ao meu corpo e ao meu espírito — pois se não
fosse assim, faltar-me-iam os órgãos para reconhecer a
Natureza. Posso, porém, exprimir-me mais modestamente,
dizendo: «Eu participarei da Natureza, na medida em que
ela me tenha feito intervir numa das suas composições.
Eu não serei então exactamente um produto da Natureza
toda, mas apenas o produto da natureza humana, para
além da qual me não é dado possuir qualquer conheci
mento. Tal como a carraça é apenas um produto da natu
reza da carraça, assim também o homem permanece
ligado à sua natureza humana, da qual cada indivíduo vem,
por sua vez, a resultar.
A nossa vantagem sobre os animais está em que
podemos ampliar os limites da natureza inata do homem.
É certo que não nos é possível criar novos órgãos; pode
mos, no entanto, muni-los de meios auxiliares. Criámos
instrumentos de percepção e trabalho que oferecem,
[215]
àqueles de nós que saibam utilizá-los, a possibilidade de
aprofundar e ampliar o seu mundo-próprio. Mas os limites
desse mundo-próprio ninguém os ultrapassa.
Só o reconhecimento de que tudo na Natureza é
criado segundo o seu significado e que todos os mundos-
-próprios são inseridos, como vozes, na partitura do
mundo nos abre o caminho para a evasão da estreiteza
do nosso mundo-próprio.
Não é a dilatação do espaço do nosso mundo-próprio
em milhões de anos-luz que nos eleva acima de nós
próprios mas o reconhecer que, além do nosso mundo
pessoal, também os mundos-próprios dos nossos irmãos
humanos e irracionais estão contidos num plano que
tudo abrange.
12. RESUMO E CONCLUSÃO
Se compararmos o corpo de um animal com uma
casa, diremos que, até hoje, os anatomistas e os fisiólo-
gos têm estudado, com rigor, respectivamente, o tipo
de estrutura e as possibilidades de funcionamento da
casa.
Mas os ecólogos sempre têm descrito o jardim como
ele se apresenta aos nossos olhos — os olhos humanos
— sem descrever também o aspecto que ele oferece
quando observado pelo sujeito que habita a casa.
E, todavia, este aspecto tem mais largo alcance do
que pode parecer. O jardim da casa não se confina, como
a nossos olhos se afigura, a um mundo que tudo abrange
mas do qual nos mostra apenas uma pequena parte; é,
antes, circundado por um horizonte que tem a casa como
centro. Cada casa tem a sua própria abóbada celeste,
onde se movem o Sol, a Lua e as estrelas, que também
directamente lhe pertencem.
Cada casa tem um certo número de janelas, que
[216]
dão para o jardim: a janela da luz, a janela do som, a
janela do cheiro, a janela do gosto e um grande número
de janelas do tacto.
Visto de casa, o jardim muda de aspecto consoante
a estrutura da janela. Não se apresenta, de modo nenhum,
como simples parcela de um mundo maior, mas como um
mundo único, particular à casa: o seu mundo-próprio.
O jardim que os nossos olhos vêem é fundamental
mente diferente daquele que se oferece aos habitantes
da casa, em especial no que respeita às coisas que
nele se encontram.
Enquanto nós distinguimos no jardim milhares de
pedras, plantas e animais diversos, os olhos do habitante
da casa só enxergam um número limitado de coisas no
seu jardim — só aquelas, na verdade, que têm significado
para o sujeito que habita a casa. Esse número pode redu-
zir-se a um mínimo, como no mundo-próprio da carraça,
no qual surge sempre o mesmo mamífero com um número
perfeitamente limitado de propriedades. De todas as coi
sas que nós descobrimos em volta da carraça — flores
odorosas e coloridas, folhas que ramalham, aves canoras
— nem uma só existe no mundo-próprio da carraça.
Mostrei como o mesmo objecto, transferido para
quatro mundos-próprios diferentes, adquire quatro signi
ficados diferentes e como, em cada caso, as suas pro
priedades mudam radicalmente.
O facto só pode ser explicado deste modo: funda
mentalmente, as propriedades das coisas não são mais
do que notas-características, atribuídas a essas coisas
pelo sujeito com que elas entraram em relação.
Para compreender isto, devemos recordar-nos de que
cada corpo de um organismo é constituído por células
vivas que, no seu conjunto, formam um carrilhão vivo.
A célula viva possui uma energia específica que lhe per
mite responder, com o seu teor individual, a toda a acção
exterior que com ela entra em contacto. Os teores indi-
[217]
viduais podem ligar-se entre si, por meio de melodias e
não precisam da conexão mecânica dos seus corpos celu
lares para actuarem uns sobre os outros.
Nos seus traços essenciais, os corpos da maior parte
dos animais assemelham-se neste aspecto: possuem,
como peças basilares, órgãos que servem para a trans
formação de substância e que fornecem à actividade vital
a energia proveniente dos alimentos. A actividade vital
do sujeito animal, como receptor de significado, consiste
na percepção e na acção ou impulso.
A percepção obtém-se através dos órgãos sensoriais
que servem para seleccionar os estímulos vindos de toda
a parte, para eliminar os estímulos inúteis e transfor
mar os que são úteis ao corpo em correntes nervosas
que, ao atingirem o centro, fazem tocar o carrilhão vivo
das células cerebrais. Os teores individuais que então
foram evocados actuam como sinais-perceptivos do fenó
meno exterior e conforme são auditivos, visuais, gusta
tivos, etc., assim são «gravados» como notas-caracterís-
ticas da correspondente fonte de estímulo.
Ao mesmo tempo, os «sinos» celulares, que soam
no órgão de percepção, induzem os «sinos» do órgão
central-de-acção que enviam os seus teores individuais
como impulsos os quais, por sua vez, desencadeiam e
dirigem os movimentos dos músculos efectores. Temos,
assim, uma espécie de fenómeno musical que, provindo
inicialmente das propriedades do objecto significante, a
este revérte novamente. É legítimo, portanto, tratar como
contrapontos, tanto os órgãos receptores como os órgãos
efectores do receptor de significado, em relação com as
correspondentes propriedades do objecto significante.
Como em quaisquer circunstâncias se pode verificar,
a condição prévia para que na maior parte dos animaiso
sujeito se ajuste perfeitamente ao seu objecto signifi
cante é ® existência de uma estrutura corpórea muito
complexa.
[218]
Ora essa estrutura nunca existe logo desde o prin
cípio. Pelo contrário, cada corpo inicia o seu arranjo
como «sino» celular especial que se liberta e se integra
num carrilhão, segundo uma determinada melodia de
estrutura.
Como é possível que duas coisas de origem tão dife
rente, como são, por exemplo, o abelhão e a flor da boca-
-de-lobo, sejam constituídas de modo que, em todos os
pormenores, se ajustem uma à outra? Sem dúvida porque
as duas melodias de estrutura se influenciaram recipro
camente: a melodia da boca-de-lobo interveio como
motivo na melodia do abelhão e vice-versa. O que se
disse do abelhão, pode também dizer-se da abelha vul
gar: se o seu corpo não estivesse ajustado à flor, a sua.
estrutura seria inviável.
Com a aceitação deste princípio basilar da técnica
da Natureza, fica já resolvida em sentido negativo a ques
tão da existência de um progresso do mais simples para
o mais complexo. Com efeito, se são motivos de signifi
cados adventícios, intervindo em vários sentidos que
modelam a estrutura dos animais, não se concebe o que
nela poderia alterar uma série, mesmo tão grande, de
gerações.
Se pusermos de parte as especulações sobre os
antepassados, entramos no terreno firme da técnica da
Natureza. Mas aqui espera-nos grande decepção. Os
sucessos da técnica da Natureza estão patentes à nossa
vista mas a sua elaboração de melodias é para nós per
feitamente impenetrável.
A técnica da Natureza tem isso de comum com a
produção de qualquer obra de arte. Nós vemos muito bem
como a mão do pintor distribui na tela manchas de cor,
umas após as outras até que o quadro se nos apresenta
pronto: mas a melodia da composição, a melodia que
move a mão, escapa-nos absolutamente.
Compreendemos perfeitamente como a caixa de
[219]
música executa as suas melodias mas nunca compreen
deremos como uma melodia preside à construção da
caixa de música.
Sucede exactamente o mesmo com a estruturação
de cada organismo. Em cada célula germinal existe o
material, como nos germes também existe o «teclado».
Falta apenas a melodia para realizar a sua estruturação.
Donde deriva ela?
Encontra-se em cada caixa de música de um relógio
um tambor provido de pontas. Quando se põe o tambor
a rodar, essas pontas fazem vibrar palhetas de metal de
comprimentos diferentes e as vibrações de ar assim pro
duzidas são captadas pelo nosso ouvido como sons.
Qualquer músico reconhecerá com facilidade, pela
posição das pontas no tambor, a partitura da melodia que
é executada pela caixa de música.
Esqueçamos agora, por um momento, a pessoa que
construiu a caixa de música e admitamos que esta é um
produto da Natureza. Poderemos então dizer que estamos
em presença de uma partitura materialmente tridimen
sional que é a concretização da própria melodia, por Isso
que a melodia representa o germe de s ign ificado da caixa
de música em que entroncam todas as partes desta,
supondo que existe material suficiente e dúctil.
No Museu Nacional de Estocolmo encontra-se um
pequeno quadro de Ivar Arosenius, chamado Jul (Natal),
que mostra uma mãe ainda jovem, irradiando ternura, sen
tada, com um filho ao colo. Por cima da cabeça da mãe,
paira a claridade suave e ténue que aureola os santos.
A cena passa-se numa pequena mansarda. Tudo, em volta
da madonazinha, é tirado da vida diária mas todos os
objectos que se encontram à frente dela, em cima da
mesa, o candeeiro, o cortinado, a prateleira com a louça,
actuam como motivos sugestivos, que realçam a santi
dade humilde e comovedora.
O quadro está composto com tal perfeição, que nós
[ 2 2 0 ]
nos esquecemos do pintor e julgamos estar a ver uma
pequena maravilha da Natureza. Neste caso, o germe do
significado é «Madona». Dele provém tudo o mais, espon
taneamente, como numa melodiosa cristalização. Ao
mesmo tempo, julgamos observar um mundo-próprio puro,
em que não existem coisas estranhas e supérfluas. Todos
os elementos se ajustam reciprocamente, em ponto e
contraponto.
O material utilizado foi escasso mas apropriado —
um pedaço de tela e algumas cores discretas foram bas
tantes para plasmar esta pequena obra de arte. A quanti
dade de material desempenha um papel muito secundá
rio. Com mais ou menos material, em maiores ou meno
res dimensões, o artista poderia ter obtido o mesmo
resultado.
Mas outro artista, com o mesmo material, teria feito
surgir do mesmo germe de significado — Madona — um
quadro de Madona inteiramente diferente.
Ora utilizemos a criação de uma obra de arte para
mostrar até que ponto a estruturação de um organismo
se realiza de modo semelhante.
Não resta dúvida de que podemos considerar a
glande como o germe de significado de carvalho e um
ovo como germe de significado da galinha. O material é,
em ambos os casos, o mais plástico de que a Natureza
dispõe, isto é, o protoplasma vivo que admite qualquer
estruturação, quando ela sai dos teores individuais e está
em condições de manter qualquer forma em que se
modele.
O carvalho realiza-se a partir do germe significante
da glande exactamente como a galinha a partir do ovo;
mas como é que isso acontece?
Surgem sempre, como já vimos, novos esboços de
órgãos, que se completam exclusivamente por si. Em
cada um desses esboços, encontra-se um germe de signi
ficado que, do material que lhe é dado, faz que se desen-
[ 2 2 1 ]
volva completamente o órgão definitivo. Se o privarmos
de uma parte do material de construção, o órgão estrutu-
rar-se-á, porventura, em todos os seus pormenores mas
apresentará menores proporções que os órgãos normais.
Braus (') mostrou que a cabeça do úmero deixa de se
ajustar à cavidade cotilóide, se esta, por falta de material
de construção, não atinge o tamanho normal.
E Spemann, como já vimos, demonstrou que um
enxerto de outra espécie animal toma, sim, o germe de*
significado correspondente à posição no corpo que o
recebe, mas desenvolverá um órgão inteiramente dife
rente, que talvez possa ter utilização no animal de que
provém mas não no que o recebe, pois os dois animais
executam a mesma função de maneira totalmente diversa.
Em ambos os casos, o germe de significado era «inges
tão de alimentos»; a rã, todavia, tem um tipo de alimen
tação diferente do do tritão.
Do mesmo modo, dois quadros que representem uma
madona, se são obra de dois pintores diferentes, terão,
é certo, o mesmo germe de significado mas serão dife
rentes um do outro.
Logo que os órgãos tenham concorrido no sentido de
uma função colectiva do corpo, deixarão de surgir forma
ções defeituosas por falta de material de construção,
como Braus as identificou. Wessely conseguiu mostrar
que, em coelhos novos, que regeneram o cristalino, em
maior ou menor escala, todos os órgãos que tomam parte
na função da visão aumentam ou diminuem na mesma
proporçãõ, de modo que, em todos os casos, aquela con
tinua a exercer-se, sem ser perturbada. Também aqui, é
o significado que dirige a regeneração. Que na verdade
(') Hermann Braus (1868-1924), naturalista e médico, profes
sor da Universidade de Heidelberga, um dos fundadores da mecânica
da evolução, aytor de uma anatomia muito considerada. (N. da ed.
alemã.)
[ 2 2 2 ]
assim é, conclui-se flagrantemente de uma experiência
de Nissl ('). O crânio dos mamíferos tem, sem dúvida
nenhuma, o significado de «sólida protecção do cérebro»
que debaixo dele se abriga. O crânio também em breve
se regenera nos coelhos novos, desde que o cérebro não
tenha sido atingido. Se, pelo contrário, uma operação
extrair metade do cérebro, o crânio que a cobria já não
se regenerará em virtude de ter perdido o seu significado.
Neste caso, verifica-se apenas uma simplescicatrização.
Como se vê, o significado intervém sempre como fac
tor natural decisivo, sob aspectos sempre novos e sur
preendentes.
Se passarmos em revista, mentalmente, os mundos-
-próprios, encontraremos nos jardins, que circundam as
casas «corpóreas» dos sujeitos, as mais maravilhosas
estruturas, que se comportam como objectos significan-
tes e cuja interpretação oferece, muitas vezes, grandes
dificuldades. Tem-se então a impressão de que os objec
tos significantes apresentam aspectos misteriosos, sím
bolos, que só pelos indivíduos da mesma espécie são
apreendidos, ficando absolutamente indiscerníveis para
os componentes de outras espécies.
O contorno do mexilhão dos tanques e as correntes
de água por ele produzidas oferecem à carpa pequena o
símbolo da amizade. A diferença de gosto do vértice e do
pecíolo das folhas passa a ser o símbolo de forma para
a minhoca.
O mesmo som torna-se símbolo de familiaridade para
o morcego e símbolo de perigo para a borboleta nocturna
e assim por diante, indefinidamente.
Se em face do enorme número de exerriDÍos, acaba
mos por nos convencer de que, fundamentalmente, cada
(') Franz Nissl (1860-1919), psiquiatra. Estudou as modificações
patologicas, particularmente das células ganglionares. (N da ed
alema.)
[223]
mundo-próprio está preenchido apenas por símbolos de
significado, iihpõe-se-nos um segundo facto ainda mais
surpreendente: cada símbolo de significado relativo a um
sujeito é, ao mesmo tempo, motivo de significado para a
contiguraçáo corpórea do sujeito.
A casa «corpórea» é, por um lado, criadora dos sím
bolos que povoam o jardim e, por outro lado, o produto
dos mesmos símbolos, os quais intervêm como motivos
na estrutura da casa.
À janela «visual» da casa deve o Sol o seu brilho é
a sua configuração nas alturas do céu que é como que
abóbada do jardim. Mas ele é também a causa determi
nante na estruturação dessa janela.
Isto que se passa com os animais, passa-se igual
mente com o homem e só pode resultar de o factor natu
ral que se manifesta em ambos os casos ser o mesmo.
Admitamos que, por qualquer fenómeno da Natureza,
tinham morrido todas as borboletas nocturnas e que nos
incumbiam da missão de preencher esta lacuna no
«teclado» da vida. Como procederíamos em tal emer
gência?
Tomaríamos, possivelmente, um lepidóptero diurno
e habituá-lo-íamos às flores que abrem à noite, pelo que
teríamos de dar à constituição das antenas maior impor
tância que à constituição dos olhos.
Como, porém, as novas borboletas nocturnas fica
riam à mercê dos morcegos, de voo tão rápido, ter-se-ia
de criar, para este inimigo, um sinal de reconhecimento
que permitisse à maioria das borboletas escaparem-se
a tempo.
Como símbolo de perigo, de inimigo, o melhor seria
utilizar o pio do morcego, que o próprio morcego usa sem
pre como símbolo de familiaridade. Para poder captar o
pio do morcego, a borboleta teria de ser reconstruída
e dotada de um órgão auditivo que a pusesse em comu
[224]
nicação com o símbolo do perigo. Isto quer dizer que o
símbolo intervém como causa determinante no plano de
construção.
Se na borboleta nocturna não houvesse qualquer coisa
[d e morcego,
A sua vida pouco duraria.
Podemos muito bem pensar que a carraça apareceu
para preencher uma lacuna no «teclado» da Natureza.
Neste caso, o objecto significante, constituído pelas pro
priedades gerais dos mamíferos, seria, ao mesmo tempo,
símbolo para a vítima e causa determinante no plano
estrutural da carraça.
Para terminar, procuremos agora observar, de fora,
a nossa própria casa corpórea, com o seu jardim. Sabe
mos já que o nosso sol, o nosso céu, juntamente com o
jardim cheio de plantas, animais e pessoas, são apenas
símbolos de uma composição natural que tudo abrange
e tudo ordena, segundo a categoria e o significado.
Com esta noção, nós adquirimos também o conheci
mento dos limites do nosso mundo. Podemos, com efeito,
aproximar-nos de todas as coisas ou penetrar nelas, com
auxílio de aparelhos cada vez mais perfeitos, mas nem
por isso passamos a ter algum novo órgão sensorial e,
por muito que desdobremos as propriedades das coisas
nos seus últimos elementos — em átomos, em electrões
— elas nunca deixarão de ser simples notas particulares
dos nossos sentidos e das nossas representações.
Sabemos que este Sol, este Céu e esta Terra desa
parecerão com a nossa morte; continuarão, porém, a exis
tir, em formas semelhantes, nos mundos-próprios das
gerações futuras.
Não existem só as multiplicidades de espaço e
tempo, em que as coisas podem alargar-se; existe tam-
1 5 -A . HOMENS [225]
bém a multiplicidade dos mundos-próprios, em que as
coisas subsistem sob formas sempre novas.
Nesta terceira multiplicidade, todos os mundos-pró
prios oferecem o «teclado» em que a Natureza executa
a sua supertemporal e superespacial sinfonia de signi
ficados.
A nós, durante toda a nossa vida, cabe-nos a missão
de, com o nosso mundo-próprio, constituir uma tecla, no
gigantesco teclado que mão invisível percorre.
[226]
INTRODUÇÃO À EDIÇÃO ORIGINAL
Epígrafe: Uns — os m ateria listas — tudo
arrastam do céu e do mundo do inv is íve l
para a terra, como se quisessem apertar
nas mãos fechadas rochedos e carvalhos.
Depois pegam em tudo e sustentam a todo
o transe que só existe o que é palpável e
in te lig ível. Tomam a existência m ateria l
como a única existência e olham com des
dém para os outros, os que além do mate
ria l admitem ainda outro domínio do ser,
e não querem dar ouvidos a qualquer opi
nião d iferente da sua, seja ela qual for.
(PLATÃO, Sofistas. Traduzido para
alemão por Karl Kindt, Platão, Antolo
gia. Karl Rauch Verlag.)
Max Hartmann (1) é , sem dúvida, um investigador emi
nente, que goza merecidamente de grande reputação. Por
esse motivo não deve ignorar-se, de ânimo leve, um
reparo que dele venha. Ora Hartmann, num escrito muito
divulgado, acusou-me de induzir o público em erro. Se
eu o entendo bem, a sua censura resulta de eu, com a
(') Zoólogo e filósofo. Director, desde 1914, do Instituto Max-
Planck de Biologia.
[227]
Manuela
Realce
Manuela
Realce
teoria da obediência da Natureza a um plano, ter desper
tado esperanças vãs em círculos de leigos.
Esta acusação de eu ter induzido em erro já uma
vez me fora feita, embora noutras circunstâncias.
Na ilha de ísquia, onde passei uns belos dias de Pri
mavera, encontrei um velho conhecido que me pediu indi
cações sobre o caminho. Dei-lhe a informação de que no
ponto onde havia uma roseira em flor, devia voltar à
esquerda. Mais tarde, encontrámo-nos, por acaso, junto
da mesma roseira e o meu conhecido recriminou-me por
tê-lo enganado, visto que a roseira não tinha rosas nenhu
mas. Daí se concluiu que sofria da cegueira das cores e
não podia distinguir as rosas vermelhas que sobressaíam
de entre a verdura das folhas.
A censura que Hartmann me dirigiu parece-me assen
tar numa deficiência constitucional semelhante à do meu
conhecido de (squia. Este era cego para as cores, Hart-
mann é cego para o significado. Ele contempla a face da
Natureza como o químico contempla a Madona Sistina.
Vê as cores, sim, mas não vê o quadro. O químico pode,
sem dúvida, ir muito longe na análise das cores mas isso
nada tem que ver com o quadro. Apesar de ser citólogo
distinto e químico, os seus trabalhos nada têm que ver
com a biologia considerada doutrina da vida. Só é bió
logo quem investiga o plano a que obedecem os fenóme
nos vitais.
Perdeu-se quase por completo esta concepção da
biologia e, principalmente, a obediência das relações dos
significados à lei é «terra incógnita» para a maioria dos
investigadores.
Vejo-me, assim, obrigado a começar com os exem
plos mais simples, para oferecer ao leitor apenas umaideia do que se entende por significado e, finalmente,
para mostrar que tudo que é vivo só pode ser compreen
dido se lhe tivermos descoberto o significado.
Devo principalmente observar que é erro: primeiro,
[228]
encarregar um químico, em vez de um historiador de arte,
de criticar um quadro; segundo, confiar a apreciação de
uma sinfonia a um físico, em vez de a confiar a um
músico; terceiro, em vez de chamar um biólogo, con
ceder a um mecanista o direito de apreciar a realidlde
dos comportamentos de todos os organismos, apenas na
medida em que elas obedecem à lei da conservação da
energia.
Os comportamentos não são simples movimentos ou
tropismos: consistem em aperceber e actuar e são regu
lados não apenas mecanicamente mas também segundo
o significado.
Esta concepção contraria, evidentemente, a «lei da
economia mental» com que os mecanistas tornaram tão
fácil a investigação. Mas ladear problemas não é resol
vê-los.
Se considerarmos os progressos realizados durante
as últimas décadas da investigação da vida, na medida
em que eles obedecem à senha do beaviorismo e dos
reflexos condicionados, bem podemos dizer que o expe
rimentar se tornou cada vez mais complicado ao passo
que o pensar se tornou cada vez mais simplista e mais
fácil.
O pensar fácil actua como doença contagiosa e afoga
todas as iniciativas de uma concepção autónoma do
mundo, no grande público: «Deus é espírito e espírito
é nada» diz a sabedoria barata com que hoje em dia o
homem simplista se dá por satisfeito.
Esta sabedoria é de tão baixo preço que bem lhe
podemos chamar pura ignorância.
Eu pergunto a Max Hartmann, se é este o objectivo
a que ele pretende conduzir o público.
J. von Uexküii
[229]
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Manuela
Realce
Manuela
Realce
EXPLANAÇÃO ENCICLOPÉDICA
«BIOLOGIA E DOUTRINA DO MUNDO - PRÓPRIO»
Jacob von Uexküll foi o próprio a afirmar um dia que
a tradução do termo «Biologia» por «Lebenslehre» (ciên
cia da vida) pode induzir em erro, se se tomar esta última
expressão na acepção de «conhecimento da essência da
vida». Disse ele: «A vida é um fenómeno irredutível,
como o peso. Nada sabemos do que venha a ser o peso
mas apenas alguma coisa a respeito do peso dos corpos.
Também nada sabemos do que venha a ser a vida mas
apenas alguma coisa a respeito dos seres vivos. A ciên
cia dos seres vivos é uma pura ciência natural e tem um
único objectivo: o estudo da organização do corpo dos
seres vivos, da sua origem e do seu funcionamento.»
CõrrTcT despertar do espírito humano, vidã è morte7cõrnb
fenómenos irredutíveis, passaram a ser para o homem
os acontecimentos de máxima importância nas suas rela
ções com a natureza. Por isso a biologia deve também
ser considerada, nas suas origens, como a primeira ten
tativa feita pelo homem para chegar a adquirir um conhe
cimento da natureza. A descrição dos seres vivos e a
sua anatomia aparece já nas elevadas culturas pré-cristãs
[231]
dos Babilónios, Egípcios e Chineses. Os primórdios de
uma Zoologia científica surgem pela primeira vez na
Grécia antiga) Um dos seus mais notáveis cultores foi
Aristóteles (384-322 a. C.), discípulo de Platão e futuro
mestre de Alexandre, o Grande. Aristóteles fundou uma
escola própria e é considerado o pai da Ciência Natural.
A par dele deve citar-se como primeiro enciclopedista
nesse campo Plínio (23-79 d. C.), sem se ter notabilizado
como investigador, compilou as descrições feitas por
outros, na sua Naturalis H istoria em trinta e sete volu
mes. Os seus escritos e os de Aristóteles exerceram até
ao século XVIII decidida influência sobre as descrições
da natureza. As investigações de médicos notáveis da
Antiguidade alargaram-se muitas vezes até aos campos
da anatomia e da fisiologia dos animais. Em primeiro
lugar devem citar-se Hipócrates (século V a. C.) e, mais
tarde, Galeno (130-200 d. C.), cujos escritos foram toma
dos em consideração ainda para aquém da Idade Média.
Com o fim da Antiguidade a Biologia entrou em deca
dência. No princípio da Idade Média o saber ocidental
toma de novo contacto com os escritos dos autores clás
sicos gregos, por intermédio dos Árabes (Avicena, 980-
1037, e Averróis, 1126-1198), passando aqueles a cons
tituir matéria de estudo nas escolas e universidades.
A ciência então dominante, a Escolástica, limitava-se,
aliás, à reprodução e ao comentário dos escritos trans
mitidos, ordenados num sistema de ideias de acordo
com as doutrinas religiosas dominantes. Tomás de Aquino
é um dos escolásticos mais representativos (1225-1274)
e comentou os ensinamentos de Aristóteles. Deve
citar-se ainda, como um dos mais notáveis representan
tes da sua época, Alberto Magnus (c.a 1193-1280), que,
como o seu discípulo Tomás de Aquino, pertencia à ordem
dos Dominicanos.
As Universidades, fundadas a partir do século XII,
[232]
contribuíram para uma expansão e intensificação do
conhecimento dos animais e das plantas. As novas des
cobertas no campo da Astronomia, da Matemática e da
Física tiveram importantes consequências, tanto de mé
todo como teóricas, no posterior desenvolvimento das
ciências naturais exactas; a representação teocêntrica
do mundo foi orientada num sentido físico-matemático,
em que forças cientificamente determináveis regulam o
que se passa no macrocosmos. Más também nos aspec
tos relativos ao microcosmos se iniciou análoga trans
formação, tornada viável em virtude dos aperfeiçoamen
tos dos métodos ópticos de investigação e pela invenção
do microscópio e sua aplicação áõs estudos biológicos.
As descobertas de Malpighi, Swammerdam e Loewen-
hoek, nos séculos XVII e XVIII, marcam o início de uma
nova época. A interpretação da natureza começara por se
fundamentar nos aspectos imediatos, sem intervenção
de instrumentos auxiliares. O mundo, tal como os senti
dos dele tomavam conhecimento, e a sua representação
eram idênticos. A visão, agora enormemente reforçada
p^los~metasr73uxÍliares que a física punha ao serviço da
ciência, revelava-se agora um mundo novo, micro e
macrofísico que constituía uma nova realidade, a par da
até aí apercebida. Isto não quer de modo nenhum signi
ficar que se pudessem muito simplesmente reduzir todos
os fenómenos manifestados nos seres vivos a processos
físicos e químicos. Contudo, já no século XVII se revelou
a tendência para interpretar os processos da vida em
termos exclusivamente físico-químicos. Tal concepção
revela-se também na filosofia desse século, principal
mente em René Descartes (1596-1650), cuja explicação
mecanista dos processos que se passam nos seres vivos
influiu nitidamente nos estudos do seu tempo. A orien
tação da explicação muito largamente espalhada no.
século XVIII e as tentativas de considerar os seres vivos
de um modo puramente mecanista são características
[233]
desta tendência. Simultaneamente estabelece-se nessa
época uma especialização cada vez maior da biologia,
que dificultou cada vez mais uma visão de conjunto. Cari
von Linné (1707-1778) estabelece no seu System der
Natur uma ordenação de alto significado e fundamental
no reino animal e vegetal, pelo que é considerado o pai
da sistemática moderna. Buffon (1707-1788), ao contrário
de Linné, considera que os problemas dos estudos da
natureza consistem antes numa vasta caracterização des
critiva dos seus aspectos, como se conclui da sua enci
clopédia, a H isto ire Naturelle. No século XVIII, a par de
uma biologia mais sistemática, comparada e descritiva,
desenvolve-se uma série de especulações sobre a origem
das espécies, que exerceram sobre a orientação dos estu
dos biológicos uma influência muito importante. Cuvier
(1769-1832), um dos mais notáveis zoólogos do seu
tempo e um dos criadores da anatomia comparada,defende o ponto de vista da invariabilidade das espécies.
Foram seus antagonistas os adeptos do chamado evolu-
cionismo, Lamarck (1744-1829) e St. Hilaire (1772-1884),
que se podem considerar precursores de Darwin.
Darwin (1809-1882), o mais notável defensor do Evo-
lucionism o nos tempos modernos, viu principalmente na
selecção natural, que através da luta pela existência
deveria ser a causa tanto da hereditariedade dos carac
teres adquiridos como da variabilidade das espécies, a
origem da diferenciação destas. O princípio em que se
baseia a hipótese de Darwin é o aparecimento ocasional
de variações de diferente natureza nos seres vivos, varia
ções que são depois submetidas à selecção natural.
O aparecimento dessas variações era atribuído a factores
de natureza causal; pelo contrário, a evolução propria
mente dita não obedeceria a nenhuma lei, de sorte que
é o acaso que desencadeia a selecção natural, determi
nando assim a formação de espécies novas. O curso das
ideias de Darwin exerceu forte influência sobre a siste
[234]
mática, a anatomia comparada e o estudo da hereditarie
dade, disciplinas em que se buscaram provas em favor
da teoria da evolução. Desencadeou-se, então, uma bata
lha pró e contra o darwinismo, batalha que ainda hoje
dura. Um dos mais ardentes adeptos da teoria foi o zoó
logo Emst Haeckel (1834-1919), o qual, no que se refere
às suas consequências, foi muito mais longe do que Dar
win, e que no seu trabalho capital Die W eltrã tse l (Os
Enigmas do Universo) procurou explicar a origem do
mundo a partir de partículas elementares dotadas de vida.
As consideráveis consequências que Haeckel e os seus
adeptos deduziram da teoria de Darwin encontraram, em
parte, uma acerada crítica. Ao número destes críticos de
Darwin pertenceu, entre outros, August Weissmann
(1834-1914)), que rejeitou a teoria da hereditariedade dos
caracteres adquiridos e em seu lugar propôs uma teoria
própria, chamada teoria do plasma germ inativo, com que
procurou explicar o aparecimento de novos caracteres.
Nem esta nem a teoria das mutações, formulada mais
tarde e que admite o aparecimento brusco e constante
de espécies novas, puderam explicar a evolução das espé
cies, a sua multiplicidade e a sua integração num plano
natural, pois que, em organismos em luta de concorrên
cia, oportunidade e plano ordenado constituem o pressu
posto da viabilidade e, deste modo, de estarem em con
dições de tomar parte numa luta pela existência e
numa selecção.
Ao passo que na física, na química e na matemática
tudo, ab in itio , é interpretado por um princípio geral de
massa, número e lei, em biologia a interpretação dos
aspectos da vida foi-se tornando, com o decorrer do
tempo, cada vez mais difícil. Desde que se descobriu a
célula e os elementos que a constituíam, o interesse
especial dos biólogos fixou-se no seu estudo. Da cito
logia, ou estudo da célula, derivou um grande número de
[235]
campos de investigação, cujo fim comum era o conheci
mento da sua função e da sua estrutura.
Procurou-se decompor o que se passa na célula, e
também o què se passa na totalidade do organismo, em
processos cada vez mais simples. Para isso recorreu-se
aos mais modernos métodos da técnica de determinações
quantitativas químicas e físicas (métodos bioquímicos,
emprego dos isótopos na pesquisa do modo como as
substâncias se transformam nos organismos, técnica
electrofisiológica, etc.). Recorrendo aos raios X e a requin
tados métodos ópticos, e ao microscópio electrónico,
estudou-se a estrutura fina da célula, e atingiu-se o nível
macromolecular, progresso não desprovido de perigo pois
que ameaça fazer da biologia uma química e uma física
aplicadas, e esgotar energias na formulação dos seus
problemas. O problema da inquirição das causas em bio
logia não pode, porém, ser a redução dos processos vitais
a processos físico-químicos. Estes só nos podem fornecer
o conhecimento dos elementos cuja ordenação e mútua
dependência determinam apenas o que há de específico
nos processos vitais. Quando se procura reduzir o sis
tema altamente complicado dos fenómenos biológicos a
acontecimentos causais, fica, no fim, sempre alguma
coisa não analisável. Foi isso que se deu com as funções
específicas da célula, assim como com os fenómenos
morfológicos e de desenvolvimento, e ainda com as cor
relações mútuas dos seres vivos.
Que outro tanto se passou na fisiologia, que trata
das correlações dos órgãos no corpo, afirmou-o clara
mente um dos seus fundadores, Johannes Müller (1801-
1858). Os seus discípulos, Du Bois-Reymond (1818-1896)
e Helmhollz (1821-1894), foram, pelo contrário, adeptos
da explicação mecano-física.
Já nessa altura se revelava na fisiologia dos sentidos
a tendência não só para explicar os processos vitais e
de desenvolvimento mas também o comportamento dos
1
[236]
animais e das plantas, recorrendo à influência das forças
químicas e físicas do ambiente dos organismos. O animal
era concebido como um mecanismo que as energias que
afectavam os órgãos dos sentidos punham em acção. As
designações «positiva» e «negativa» estabelecidas para
as diferentes formas de energia, como luz, gravidade,
etc., deviam explicar o comportamento perante os estí
mulos do ambiente, como mais tarde se julgou conse
quente na teoria dos tropism os de Jacques Loeb (1859-
1924). Como essa teoria não fosse suficiente para expli
car o comportamento dos animais, foi posteriormente
completada e ampliada por outros, por exemplo, Von
Kühn (n. 1885), que interpretava o comportamento animal
como essencialmente resultante de actos reflexos.
O fisiólogo russo Pavlov (1849-1936), desenvolveu de
uma forma pronunciadamente mecanista uma concepção
semelhante no âmbito dos reflexos condicionados. Wat-
son (n. 1878), pretendeu encontrar uma solução para as
dificuldades destas explicações unilateralmente mecanis-
tas, no seu beaviorismo, em que elevou à categoria de
princípio fundamental a pura descrição do comporta
mento animal. Os pontos de vista intuitivos defendidos
mais tarde por Jacob von Uexküll passam a compreen
der-se se se toma em consideração a situação em que a
biologia se encontrava no dobrar do século. O darw inism o
P^di,a-se_em largas especulações, enquanto a fisiolõgíâ,
Hõminada. pelos mecanistas. se afundava cada vez mais
nos..problemas das transformações da substância e da
er!2llSÍB--_Jacob von Uexküll sentiu-se particularmente
átraído por Johannes Müller (1801-1858) e Karl Ernst von
Baer (1729-1786), cujas ideias tinham afinidades com as
suas próprias. Karl E. von Baer fundando-se nos seus estu
dos de embriologia chegara a conclusões diferentes das
de Darwin. Admitia uma diferenciação gradual no reino
animal, que, porém, devia ter-se dado apenas em alguns
[237]
tipos, não segundo uma ininterrompida cadeia de evo
lução.
Jacob von Uexküll opôs à concepção da época, que
considerava os seres vivos como máquinas com reflexos,
uma nova teoria. Partindo da afirmacão-de—Kant^- que
tempo e espaco são conceitos subieetivos. chegou à con
vicção de que cada ser vivo possui o seu próprio espaço
subjectivo e o seu próprio tempo subjectivo. Partindo
desta ideia^jo-comportamento dos animais pode_expii-_
car-se não pelas acções físicas e'químicas jicidentais
"êxercidãspéló mundo exterior, mas apenas pelos fenó- ,.,
EslS~sópode ser formado pelos fenómenos que o ani
mal pode «aperceber» a partir dos seus órgãos dos sen
tidos, que possuem qualquer significado específico para
a sua vida e que são ordenados segundo as escalas do
seu espaço e do seu tempo subjectivos. Segundo Jiexküll
a tarefa ja_bioloqia deve, por isso, consistir antes de
tudo- na exploração dos mundos-própr[os subjectivos dos
“Seres vivõs. Ã doutrina do mundo-próprio, por ele pro
posta, é a mais vasta de todasas concepções até aqui
apresentadas sobre o animal e as suas funções, porque,
baseando-se na ideia da conformidade com um plano,
procura considerar o animal como sujeito, e apresentar
este correlacionado com o seu mundo-próprio. Esta teo
ria serve para explicar os processos jciiojóqicos no qua
dro de um acontecer totalmente hioíóginn, e, por isso,
veio a ser a doutrina do «significado». Jacob von Uexküll
tem muitas vezes chamado aos seus antagonistas, cegos-
-ao-significado, porque se comportam perante a natureza
como alguém que num livro estudasse a forma do tipo
em que está impresso e a tinta usada em vez de procurar
compreender o que ele quer significar. A natureza é para
ele uma peça teatral em que cada um dos actores tem
o seu papel e em que tudo está mutuamente ligado com
vista a um resultado rico de sentido e de significado.
[238]
A peça prescreveu, os personagens obedecem. Em varian
tes e exemplos sempre novos, fez entrar esta interpreta
ção e justificou-a. Pela natureza da sua atitude teórica e
metodológica, o estudo do mundo-próprio abrange não só
o campo da fisiologia dos nêrvòs e dos sentidos mas tàm-"
bóm._a_gg/ço/ogia an im al e o estudo do comportamento.
Deve por isso acrescentar-se ainda em que relação está”
exactamente o estudo do mundo-próprio com estes últi
mos capítulos da biologia.
Uexküll, Beer e Bethe tomaram, no dobrar do século,
posição contra uma psicologia animal que confere aos
animais sentimentos humanos e emprega expressões
como «uma formiga desesperada» e «um cão acobar
dado». Por essa altura a psicologia animal ainda não cons-
«íy.fc- uma . ciência independente, e eram relativamente
Poucas as observações experimentais.
Entretanto, no intervalo de alguns anos estas passa
ram a constituir uma massa inaudita de dados. As novas
investigações colocaram a psicologia animal perante cir
cunstâncias diferentes, com o que se demonstrou que. os
conceitos usádos pelos teóricos dos tropismos e os fisió-_
^90®„d°s reflexos, assim como as interpretações meca-
!l!§ íã ido^ncfi,Íp .daeconom ia de pensamento eram insa
tisfatórias na explicação do comportamento dos animais.
Chegou-se ao estabelecimento de uma série de orienta
ções e de escolas, que, fundando-se em diferentes postu
lados teóricos, prosseguiam na busca do seu objectivo,
como, por exemplo, as que admitiam no primeiro plano
das suas considerações o problema da «totalidade» o
qual também desempenha um papel primacial na psicolo
gia geral. O princípio da totalidade já fora introduzido por
Driesch nos conceitos biológicos. A sua ideia fundamen
tal foi, alem disso, mais tarde elaborada em diferentes
direcções por Alverdes, Jordan, Haldane e Köhler.
O moderno estudo do comportamento abriu um novo
caminho metodológico para estes problemas, e primeiro
[239]
que tudo forneceu valiosos pontos de vista relativos à
natureza do'instinto nos animais. Os instintos dos ani
mais semprá tinham despertado o interesse dos zoó
logos. Os estudos de Wasmann (1859-1931) e Fabre
(1823-1915) já haviam mostrado quão multiarticulada-
mente são construídos os instintos dos insectos. As
investigações sobre factores ambientais levaram tam
bém ao conhecimento de grande número de factos impor
tantes, como, entre outros, os estudos feitos sobre a
vida das abelhas, devidos a Frischs. Actualmente estão
em curso estudos pormenorizados sobre o comporta
mento dos vertebrados e os seus instintos, o processo
de aprendizagem, o adestramento, a orientação, etc., com
resultados que demonstram uma singular obediência a
leis e uma variedade até aqui não igualada, como se con
clui dos trabalhos de TinbergenjJajrenzT+tedjíjer e Port-
mann. Deve-se principalmente a Konrad Lorenj^e Nikolaus
Tinbergen, o terem compreendido õ'estudo dos estímulos
necessários pãrã o desencadear dõ_ .comportamento-ins
tintivo, e terem analisado pormenorizadamente o papel
do instinto no quadro da vida comunitária dos animais,
em especial por meio dos seus estudos sobre o compor
tamento social e individual das aves umas em relação
às outras. Mostram eles que os comportamentos instin
tivos são tão específicos para cada espécie animal como
a sua estrutura física, e que entre espécies semelhantes
se manifesta certa afinidade de instintos. J5ó__agora_sa
revela em toda a sua extensão a obra-de pioneiro reali
zada por Jacob vonU exkülL não só no campo da biologia
geral como no caso especial da psicologia animal, em
que estabeleceu os alicerces teóricos e práticos de uma
ciência que actualmente, com o material de factos carrea
dos pelo estudo do comportamento, adquire constante
mente novos elementos para a sua estruturação. O mo
derno estudo do comportamento foi buscar à doutrina do
[240]
mundo-próprio numerosos estímulos e conceitos práticos
e teóricos.
A importância dos métodos de investigação fisioló
gica, já acentuada por Uexküll, conduziu, em vários sen
tidos, as investigações sobre o comportamento a insisti
rem nos aspectos fisiológicos, o que, de facto, fornece
dados de grande valor, mas resultou do problema central
do estudo do comportamento. Este é, e continua a ser
o papel do animal como sujeito que se «comporta»
perante o meio ambiente. O actual estudo do comporta
mento situa-se na linha divisória entre os métodos de
trabalho seguidos em fisiologia e aqueles que procuram
a consolidação de uma forma de investigação indepen
dente, e com isso se esforçam com o mesmo interesse
por evitar os perigos da redução de tudo ao ponto de
vista humano do antropocentrismo, e os perigos igual
mente grandes da redução do animal à categoria de um
complicado mecanismo.
Dr. Georg Kriszat, Estocolmo
1 6 - A . HOMENS [241]
A C E R C A DO A U T O R
Jacob von Uexküll nasceu na herdade de Keblas, na
Estónia, em 8 de Setembro de 1864. Depois de frequentar
o liceu em Coburgo e, depois, em Reval, estudou zoologia
na Universidade de Dorpat e aí terminou os seus estudos
fazendo as provas então habituais. No instituto do conhe
cido fisiólogo Kühne, em Heidelberga, começou a tra
balhar no estudo do aparelho locomotor dos animais.
Desenvolveu então noções novas sobre a actividade do
músculo e o fluxo do estímulo no sistema nervoso.
Apoiado nos seus estudos, erigiu uma nova fisiologia
comparada dos invertebrados. Esta fisiologia biológica
de novo tipo simultaneamente apresentava o animal
como um organismo ligado segundo um plano ao seu
mundo-próprio e lançava os alicerces para o estudo-do-
-mundo-próprio, mais tarde por ele elaborado com os con
ceitos de Plano, Ciclo-de-Função e Mundo-Próprio. Os
notáveis resultados dos seus trabalhos realizados"del892
a 1909 estão reunidos em Leitfaden in das Studium der
Experimentellen Biologie der W assertiere (Guia do Estudo
da Biologia Experimental dos Animais Aquáticos) e na
obra Um welt und Innenwelt der Tiere (Mundo-Próprio e
Mundo-Interior dos Animais). Depois da morte de Kühne
romperam-se os laços que ligavam Uexküll ao Instituto
[243]
de Heidelbe^ga, e, pouco depois, com a Estação Zoológica
de Nápoles, em que trabalhara regularmente até 1903.
Desde então passou a trabalhar como investigador pri
vado livre e escolheu os seus próprios problemas e cola
boradores, independentemente de qualquer instituto. Em
1909 empreendeu uma viagem mais longa pela África,
que foi para ele rica de ensinamentos histórico-naturais
e nele deixou sugestões e vestígios de alta importância
que viriam a revelar-se nos seus trabalhos posteriores.
Outras viagens de estudo o levaram a Nápoles, a Beau-
lieu, Berck-sur-Mer, Mónaco, Roskoff e Biarritz.
Por essa ocasião, a teoria do mundo-próprio, já por
Uexküll apresentada nos seus fundamentos no seu livro'
Um welt und Innenwelt der Tiere, foi desenvolvida numa
série de trabalhos concludentes. Nos Bausteinen zu einer
biologischenW elt (Fundamentos para Um Mundo Bioló
gico) e nas Biologischen Briefen an eine Dame (Cartas
sobre Biologia a Uma Senhora) expõem-se as suas ideias"
essenciais, que têm na sua obra capital Theoretische Bio-
log ie (Biologia Teórica) a formulação definitiva. Em 1907
recebeu a honra do grau de Doutor em Medicina honoris
causa pela Universidade de Heidelberga. Mas continuou
a ser-lhe negado o reconhecimento oficial de qualquer
instância superior, sob a forma de uma cátedra de pro
fessor. Se, por um lado, não lhe foi possível ascender
ao professorado, as consequências da Primeira Guerra
Mundial anularam a possibilidade de fazer progredir a
ciência com a sua dedicação de trabalhador privado, em
virtude da perda dos seus meios de fortuna. Só em 1926
foi criado para ele um lugar de professor honorário na
Universidade de Hamburgo, onde, em condições extraor
dinariamente modestas, foi organizado o In s titu t fü r
Um weltforschung (Instituto para o Estudo do Mundo-Pró-
prio). Em condições primitivas e com grandes dificulda
des, conseguiu elevar o Instituto a uma categoria de
instituto de investigação científica digna de nota. A sua
[244]
forte originalidade e a sua riqueza de ideias, e a profusão
de problemas científicos que o ocupavam, não tardaram
a atrair um círculo de discípulos que ele soube reunir
numa comunidade de trabalhadores que constituía como
que uma família. Quando o «Instituto para o Estudo do
Mundo-Próprio» festejou, em 8 de Setembro de 1934, o
septuagésimo aniversário de Jacob von Uexküll, pôde-se
fazer um balanço de uma preparação, em menos de dez
anos, de setenta trabalhos, em um terço dos quais Von
Uexküll aparecia como autor. A Universidade de Kiel
galardoou-o nesse dia com o título de Doutor em Filosofia
honoris causa. Alguns anos mais tarde recebeu da Uni
versidade de Utreque o diploma de honra de Doutor em
Ciências Naturais. As várias distinções sob a forma do
grau de Doutor honorário, que recebeu em vida, mostram
bem significativa e simbolicamente o seu valor em três
ramos da ciência que serviu, tanto por um trabalho indi
vidual notável como também por uma visão cada vez
mais precisa do que é significante. Nessa época publicou
também as suas memórias, das quais se conclui quanto
era activo o intercâmbio espiritual em que intervinha,
para além do círculo dos seus colegas de profissão, e
com que profunda penetração ele compreendia os mun-
dos-próprios dos seus semelhantes.
Os seus últimos anos passou-os Jacob von Uexküll
com sua esposa em Capri. Aí concluiu com perfeita fres
cura de espírito e incansável energia os seus últimos tra
balhos, em que ainda uma vez mais fez uma recapitula
ção e revisão da sua obra. Em 25 de Julho de 1944, antes
de completar oitenta anos, a morte arrancou-lhe a pena
da mão.
Dr. Georg Kriszat, Estocolmo
[245]
UM PRECURSOR DA NOVA BIOLOGIA ........................................ 5
DIGRESSÕES PELOS MUNDOS-PRÓPRIOS DO HOMEM E DOS
ANIMAIS ......................................................................................... 23
INTRODUÇÃO ......................................................................................... 29
DOUTRINA DO SIGNIFICADO .......................................................... 139
INTRODUÇÃO À EDIÇÃO ORIGINAL .............................................. 227
EXPLANAÇÃO ENCICLOPÉDICA........................................................ 231
ACERCA DO AUTOR ............................................................................. 243
LISTA DOS ESCRITOS E LIVROS DE JAKOB UEXKÜLL ......... 247
ÍNDICE DE ASSUNTOS ....................................................................... 251