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Sidney Ferreira de Moraes Neto Módulo Psiquiatria Campo Grande 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Resumo de Psiquiatria Problema 1 Síndromes Neuróticas Identificar um indivíduo como tendo um quadro neurótico permite uma compreensão adequada para um considerável número de pacientes que apresenta sintomas ansiosos, fóbicos, obsessivos, histriônicos e hipocondríacos. Tais sintomas oscilam e se alternam no tempo, com muita frequência, permanecendo um núcleo constante, que se denomina neurose. Além disso, o constructo neurose aponta para uma estruturação da subjetividade expressiva de conflitos intrapsíquicos (recalque, luta interna, impulsos inaceitáveis perante um julgamento rígido, etc.) e interpessoais (frustração recorrente nas relações pessoais, insatisfação constante com o que recebe e dá aos outros, rigidez, etc.). Assim, o constructo neurose fornece essa moldura conceitual e classificatória que abarca a grande sobreposição e o intercâmbio de sintomas da série da ansiedade, da fobia, da obsessão, da frustração, da dissociação e da somatização. No sistema diagnóstico DSM-IV, o conceito de neurose foi suprimido e, em seu lugar, permaneceram transtornos mentais ditos “menores”, tais como ➔ Os transtornos de ansiedade (sobretudo os transtornos de ansiedade generalizada, de pânico e de estresse pós-traumático), ➔ Os transtornos fóbicos; ➔ Os transtornos obsessivo-compulsivo; ➔ Os transtornos dissociativos; ➔ Os transtornos conversivos; ➔ Os transtornos de somatização. Na CID-10, o constructo neurose, embora criticado, não é abandonado. Os transtornos fóbicos, de ansiedade, obsessivo-compulsivo, dissociativos e conversivos, bem como as somatizações, a neurastenia e a hipocondria permanecem agrupados em um mesmo capítulo (Capítulo F40 a F48), de alguma forma orbitando em torno de um constructo mais amplo denominado neurose. Entretanto, a CID-10 não o considera um “princípio organizador”. Há, portanto, certa ambiguidade na permanência desse constructo nessa classificação. Segundo Van Den Berg (1970), a neurose é uma perturbação do contato inter- humano, uma perturbação nas relações com outrem, sem que, para explicá-la, se possa Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 apelar exclusivamente a defeitos corporais, doenças corporais, psicoses, falhas constitucionais ou anomalias de caráter. No centro de todas as neuroses, está a angústia. O homem neurótico vive os conflitos humanos fundamentais de forma particularmente dolorosa e recorrente. Ainda segundo o psiquiatra holandês Van Den Berg, a neurose também pode ser vista como uma forma particular de relação do indivíduo com os outros, com a corporeidade própria e a dos outros, com os objetos (materiais e simbólicos) do mundo, fonte de uso e de gozo. Para esse autor, quem não atribui importância particular ao contato com outros, à existência corporal própria e alheia, e às disponibilidades úteis e gozosas não pode ficar neurótico. Nessa mesma linha, para Henri Ey (1974), as neuroses são transtornos caracterizados por conflitos intrapsíquicos que inibem e perturbam as condutas sociais. As neuroses produzem antes uma perturbação do equilíbrio interior do sujeito neurótico que uma mudança em seu sistema de realidade. Nos neuróticos, de modo geral, sobressaem- se as manifestações de uma angústia permanente e de mecanismos de defesa que, em última análise, fracassam na resolução de conflitos. São dificuldades e conflitos intrapsíquicos e interpessoais que mantêm o sofrimento, a frustração, a angústia, o empobrecimento e a inadequação tanto do Eu como das relações interpessoais. Quadros Fóbicos As síndromes fóbicas caracterizam-se por medos intensos e irracionais, por situações, objetos ou animais que objetivamente não oferecem ao indivíduo perigo real e proporcional à intensidade de tal medo. As síndromes fóbicas mais importantes são apresentadas a seguir. Na agorafobia, o medo e a angústia relacionam-se a espaços amplos ou com muitas pessoas, à possibilidade de estar em locais de onde possa ser difícil escapar ou onde o auxílio ou a presença de pessoas próximas não seja rapidamente acessível. Os indivíduos com agorafobia têm, frequentemente, crises de medo e angústia quando estão fora de casa, em um congestionamento, em uma ponte ou túnel, em meio à multidão, em um estádio de futebol, em um grande supermercado, no cinema ou no teatro. Têm, com frequência, medo de viajar de ônibus, automóvel ou avião. Há tendência de evitar tais situações, o que geralmente leva a um estreitamento das possibilidades vivenciais do indivíduo, restringindo-o, às vezes, à sua casa e a ambientes muito familiares e seguros. A fobia simples ou específica caracteriza-se por medo intenso, persistente, desproporcional e irracional, como medo de animais (barata, sapo, cobra, passarinho, cachorro, cavalo, etc.), medo de ver objetos como seringas, sangue, faca, vidros Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 quebrados, etc. A exposição ao objeto ou animal fobígeno geralmente deflagra uma crise de angústia ou mesmo de pânico. Os indivíduos acometidos reconhecem o caráter irracional e desproporcional de seus medos. A fobia social caracteriza-se por um medo intenso e persistente de situações sociais que envolvam expor-se ao contato interpessoal, demonstrar certo desempenho ou situações competitivas e de cobrança. O indivíduo sente intensa angústia ao ter de falar em público, apresentar um seminário, fazer uma palestra, ler um trecho de um livro, etc. O medo à exposição é mais forte com pessoas estranhas ou tidas como superiores. O indivíduo tenta evitar tais situações e reconhece o caráter absurdo de seus temores. Síndromes Obsessivo-compulsivas Os quadros obsessivo-compulsivos caracterizam-se por ideias, fantasias e imagens obsessivas e por atos, rituais ou comportamentos compulsivos. Esses quadros são vividos como uma pressão sobre o indivíduo, como algo que o obriga e submete. Na prática clínica, nem sempre é fácil demarcar com precisão o limite entre a obsessão e a fobia (p. ex., obsessão por limpeza, fobia de sujeira ou contaminação), ou entre a ideia delirante e a obsessão (com pouca crítica e insight). Da mesma forma, em alguns casos é difícil diferenciar entre o ato compulsivo (vivenciado como obrigatório e desprazeiroso) e o ato impulsivo. As síndromes obsessivo-compulsivas dividem-se em dois subtipos básicos: aquelas nas quais predominam as ideias obsessivas e aquelas nas quais predominam os atos e os comportamentos compulsivos (Miguel, 1996). Muito frequentemente, entretanto, se observam formas mistas. As síndromes obsessivas caracterizam-se por ideias, pensamentos, fantasias ou imagens persistentes, que surgem de forma recorrente na consciência; são vivenciadas com angústia e como algo que “invade” a consciência. O indivíduo reconhece o caráter irracional e absurdo desses pensamentos, tentando, às vezes, neutralizá-los com outros pensamentos ou com atos e rituais específicos. Nas síndromes compulsivas, predominam os comportamentos e rituais repetitivos, como lavar as mãos inúmeras vezes, tomar muitos banhos, verificar se as portas estão trancadas por dezenas de vezes, etc., assim como por atos mentais como repetir palavras mentalmente em silêncio, fazer determinadas contas, rezar, etc., em geral em resposta a uma ideia obsessiva (“Devo estar com AIDS ou sífilis; então tenho que me lavar constantemente.”). Os comportamentos e os atos compulsivos também podem surgir como forma de cumprir regras mágicas que precisamser rigidamente seguidas. Outras razões para os atos e os rituais compulsivos são pensamentos mágicos que Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 vinculam a realização do ato compulsivo com o afastamento de algum evento temível ou indesejado (“Se eu der 15 voltas no quarteirão antes de entrar em casa, ninguém da família morrerá proximamente”). Quadros histéricos: Conversões e Dissociação (quadros dissociativos) As síndromes histéricas caracterizam-se por apresentar manifestações clínicas tanto referentes ao corpo como à mente e ao comportamento. No corpo, predominam as alterações das funções sensoriais e motoras e, na mente, aquelas relacionadas à consciência vígil, à memória e às percepções (Micale, 1995). O comportamento do indivíduo com histeria é caracteristicamente dramático, teatral (o paciente quer constantemente ser o centro das atenções), infantil, sedutor e, eventualmente, manipulativo. Segundo Van Den Berg (1970), o paciente histérico apresenta uma peculiaridade: necessita de contato e tem incapacidade de mantê-lo e aprofundá-lo. Do ponto de vista existencial, tais indivíduos vivem em um contexto de inautenticidade no contato interpessoal; suas relações soam falsas, eles parecem que precisam representar constantemente no seu relacionamento com as pessoas. Subdividem-se as síndromes histéricas em dois grandes grupos: histeria de conversão ou conversiva e histeria dissociativa (usa-se atualmente o termo “transtorno dissociativo”). Na histeria de conversão, os sintomas e as perturbações corporais são muito variados: paralisias histéricas, anestesias e analgesias histéricas, cegueira histérica, perturbações histéricas no andar e no ficar de pé (astasia-abasia) e perda da fala ou rouquidão histérica (afonia histérica). Chama a atenção, nesses pacientes, o fato de, ao notarem seus distúrbios corporais aparentemente muito graves (paralisias, cegueira, anestesias, etc.), reagirem vivencialmente com indiferença exemplar. A isso, os clínicos antigos denominaram la belle indifférence des hystériques (a bela indiferença dos histéricos). Na histeria dissociativa, podem ocorrer alterações da consciência, com pseudocrises que se assemelham a crises epilépticas (Harris, 2005). Ocorrem frequentemente como crises histérico-dissociativas, com rebaixamento e afunilamento da consciência (estado crepuscular histérico). Também são consideradas formas de histeria de dissociação as amnésias histéricas, nas quais o indivíduo esquece elementos seletivos e significativos do ponto de vista psicológico. Além disso, podem ocorrer fugas histéricas e fenômenos sensoperceptivos (ilusões, pseudo-alucinações) de natureza histérica. Estudos recentes indicam que ocorrem alterações cerebrais funcionais durante os Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 episódios com sintomas histéricos de conversão (Black et al., 2004). Do ponto de vista clínico, é fundamental poder diferenciar as crises histéricas das crises epilépticas. Síndromes Hipocondríacas e Somatização Nos quadros hipocondríacos, predominam os temores e as preocupações intensas com a ideia de ter uma doença grave. Essas idéias surgem geralmente a partir de sensações corporais ou sinais físicos insignificantes. O indivíduo procura constantemente os médicos e os serviços de saúde para ter garantias de que não tem doença grave. Entretanto, embora haja uma preocupação enorme com a possibilidade de sofrer de tais doenças, essas preocupações não possuem caráter delirante, podendo o indivíduo fazer uma crítica, em algum momento, quanto ao caráter absurdo de suas preocupações. Já a somatização é um termo de significação muito ampla, referente ao processo pelo qual um indivíduo usa (consciente ou inconscientemente) seu corpo ou sintomas corporais para fins psicológicos ou para obter ganhos pessoais. Os sintomas comuns são dores difusas (cefaleias, lombalgias, artralgias, dores abdominais, “corpalgias”, etc.), sintomas gastrintestinais (náuseas, diarreias, dispepsias, etc.) e síndromes pseudoneurológicas. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 A somatização pode ocorrer na presença de doença física demonstrável (intensificando demasiadamente a sua apresentação sintomática), assim como na ausência de qualquer patologia física. Em geral, há o desejo de adquirir o papel de doente físico para obter ganhos primários (psicológicos, intrapsíquicos) ou secundários (sociais ou interpessoais). A somatização pode servir como um meio de comunicação quando a Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 expressão verbal mais direta está bloqueada. Pode também representar uma forma de expressão de sofrimento e desconforto em pessoas que não conseguem reconhecer e verbalizar seus sentimentos. Síndromes ansiosas As síndromes ansiosas são ordenadas inicialmente em dois grandes grupos: quadros em que a ansiedade é constante e permanente (ansiedade generalizada, livre e flutuante) e quadros em que há crises de ansiedade abruptas e mais ou menos intensas. São as chamadas crises de pânico, que podem configurar, se ocorrerem de modo repetitivo, o transtorno de pânico (Hollander; Simeon, 2004). Ansiedade generalizada O quadro de ansiedade generalizada caracteriza-se pela presença de sintomas ansiosos excessivos, na maior parte dos dias, por, pelo menos, seis meses. A pessoa vive angustiada, tensa, preocupada, nervosa ou irritada. Nesses quadros, são frequentes sintomas como insônia, dificuldade em relaxar, angústia constante, irritabilidade aumentada e dificuldade em concentrar-se. São também comuns sintomas físicos como cefaleia, dores musculares, dores ou queimação no estômago, taquicardia, tontura, formigamento e sudorese fria. Algumas termos populares para esses estados são: “gastura”, “repuxamento dos nervos” e “cabeça ruim” (ver Glossário). Para se fazer o diagnóstico de uma síndrome ansiosa, também é necessário verificar se os sintomas ansiosos causam sofrimento clinicamente significativo e prejudicam a vida social e ocupacional do indivíduo. Crises de ansiedade, crises de pânico, síndrome e transtorno de pânico Em muitos pacientes, a ansiedade se manifesta sob a forma de crises intermitentes, com a eclosão de vários sintomas ansiosos, em número e intensidade significativos. Associados às crises agudas e intensas de ansiedade, pode ou não haver sintomas constantes de ansiedade generalizada. As crises de pânico são crises intensas de ansiedade, nas quais ocorre importante descarga do sistema nervoso autônomo. Assim, ocorrem sintomas como: batedeira ou taquicardia, suor frio, tremores, desconforto respiratório ou sensação de asfixia, náuseas, formigamentos em membros e/ou lábios. Nas crises intensas, os pacientes podem experimentar diversos graus da chamada despersonalização. Essa se revela como sensação de a cabeça ficar leve, de o corpo ficar estranho, sensação de perda do controle, estranhar-se a si mesmo. Pode ocorrer também a desrealização (sensação de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 que o ambiente, antes familiar, parece estranho, diferente, não-familiar). Além disso, ocorre com frequência nas crises de pânico um considerável medo de ter um ataque do coração, um infarto, de morrer e/ou enlouquecer. As crises são de início abrupto (chegam ao pico em 5 a 10 minutos) e de curta duração (duram geralmente não mais que uma hora). São muitas vezes desencadeadas por determinadas condições, como: aglomerados humanos,ficar “preso” (ou com dificuldade para sair) em congestionamentos no trânsito, supermercados com muita gente, shopping centers, situações de ameaça, etc. pânico são crises intensas de ansiedade, nas quais ocorre importante descarga do sistema nervoso autônomo. Assim, ocorrem sintomas como: batedeira ou taquicardia, suor frio, tremores, desconforto respiratório ou sensação de asfixia, náuseas, formigamentos em membros e/ou lábios. Nas crises intensas, os pacientes podem experimentar diversos graus da chamada despersonalização. Essa se revela como sensação de a cabeça ficar leve, de o corpo ficar estranho, sensação de perda do controle, estranhar-se a si mesmo. Pode ocorrer também a desrealização (sensação de que o ambiente, antes familiar, parece estranho, diferente, não-familiar). Além disso, ocorre com freqüência nas crises de pânico um considerável medo de ter um ataque do coração, um infarto, de morrer e/ou enlouquecer. As crises são de início abrupto (chegam ao pico em 5 a 10 minutos) e de curta duração (duram geralmente não mais que uma hora). São muitas vezes desencadeadas por determinadas condições, como: aglomerados humanos, ficar “preso” (ou com dificuldade para sair) em congestionamentos no trânsito, supermercados com muita gente, shopping centers, situações de ameaça, etc. (Costa Pereira, 1997). Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Denomina-se o quadro de transtorno de pânico caso as crises sejam recorrentes, com desenvolvimento de medo de ter novas crises, preocupações sobre possíveis implicações da crise (perder o controle, ter um ataque cardíaco ou enlouquecer) e sofrimento subjetivo significativo. A síndrome do pânico pode ou não ser acompanhada de agorafobia, ou seja, fobia de lugares amplos e aglomerações. Transtornos de Ansiedade A seção sobre transtornos de ansiedade inclui nove transtornos específicos (de pânico, agorafobia, de ansiedade social ou fobia social, de ansiedade generalizada, de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ansiedade devido a outra condição médica e de ansiedade induzido por substância/medicamento) nos quais os sintomas ansiosos são um aspecto proeminente do quadro clínico. Visto que ocorrem na infância, o transtorno de ansiedade de separação e o mutismo seletivo serão discutidos na seção sobre transtornos da infância deste livro. Transtorno de pânico – Um ataque de pânico é caracterizado por sentimentos de intenso medo ou terror que aparecem subitamente em situações em que não há coisa alguma a temer. Ele é acompanhado por coração acelerado ou batendo intensamente, dor no peito, falta de ar ou sufocação, tontura, tremor ou agitação, sensação de desmaio ou vertigem, sudorese e náusea. Agorafobia – É uma consequência frequente do transtorno de pânico, embora possa ocorrer na ausência de ataques de pânico. As pessoas com agorafobia evitam (ou tentam evitar) situações as quais acham que poderiam desencadear um ataque de pânico (ou sintomas semelhantes a pânico) ou situações das quais pensam que poderia ser difícil escapar se tivessem um ataque de pânico. Fobia específica – É caracterizada por um medo excessivo e irracional de objetos ou situações específicos que quase sempre ocorre à exposição aos estímulos temidos. O estímulo fóbico é evitado, ou, quando isso não acontece, o indivíduo se sente gravemente ansioso ou desconfortável. Transtorno de ansiedade social ou fobia social – A fobia social é caracterizada pelo medo de ser constrangido ou humilhado na frente dos outros. Semelhante à fobia específica, os estímulos fóbicos são evitados, ou, quando não o são, o indivíduo se sente gravemente ansioso e desconfortável. Quando os estímulos fóbicos incluem a maioria das situações sociais, então a especificação é fobia social generalizada. Transtorno de ansiedade generalizada – É caracterizado por preocupação excessiva, crônica, que ocorre na maioria dos dias e é difícil de controlar. A preocupação é associada com sintomas como problemas de concentração, insônia, tensão muscular, irritabilidade e inquietação física e causa sofrimento ou prejuízo clinicamente significativos. Transtornos dissociativos A seção sobre transtornos dissociativos inclui quatro transtornos específicos (amnésia dissociativa, fuga dissociativa, transtorno dissociativo de identidade e transtorno de despersonalização/desrealização) caracterizados por uma ruptura nas funções geralmente integradas de consciência, memória, identidade ou percepção. Amnésia dissociativa – É caracterizada por perda de memória para informações pessoais importantes que geralmente é de natureza traumática. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Fuga dissociativa – É caracterizada por súbita viagem para longe de casa associada com perda de memória parcial ou completa sobre a própria identidade. Transtorno dissociativo de identidade – Anteriormente denominado transtorno da personalidade múltipla, o aspecto fundamental desse transtorno é a presença de duas ou mais identidades distintas que assumem o controle do comportamento do indivíduo. Transtorno de despersonalização/desrealização – O aspecto fundamental desse transtorno são episódios de despersonalização persistentes ou recorrentes (um senso alterado do próprio ser físico, incluindo sensações de estar fora do próprio corpo, fisicamente separado ou distanciado das pessoas, flutuando, observando-se a distância, como se fosse um sonho) ou desrealização (vivenciar o ambiente como irreal ou distorcido). Transtornos de personalidade Os transtornos da personalidade são caracterizados por padrões de comportamento mal-adaptativo profundamente enraizados, em geral vitalícios, que costumam ser reconhecíveis na adolescência ou mais cedo. Transtorno da personalidade histriônica – Esse transtorno caracteriza-se por instabilidade emocional, excitabilidade, hiper-reatividade, vaidade, imaturidade, dependência e autodramatização que visa chamar atenção e seduzir. Transtorno da personalidade antissocial – Esse transtorno abrange as pessoas em conflito com a socidade. Elas são incapazes de demonstrar lealdade, egoístas, insensíveis, irresponsáveis, impulsivas e incapazes de sentir culpa ou de aprender com a experiência; têm baixos níveis de tolerância à frustração e tendência a culpar os outros. Transtorno da personalidade borderline – É caracterizado por instabilidade, impulsividade, sexualidade caótica, atos suicidas, comportamento automutilatório, problemas de identidade, ambivalência e sentimento de vazio e tédio. Transtorno da personalidade dependente – É caracterizado por comportamento passivo e submisso; a pessoa é insegura e torna-se inteiramente dependente dos outros. Síndromes Ansiosas Transtorno de Pânico Um ataque intenso agudo de ansiedade acompanhado por sentimentos de desgraça iminente é conhecido como transtorno de pânico. A ansiedade é caracterizada por períodos distintos de medo intenso que podem variar de vários ataques durante um dia a apenas poucos ataques durante um ano. Os pacientes com o transtorno Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 apresentam-se com uma série de condições comórbidas, mais comumente agorafobia, que se refere a medo ou ansiedade em relação a lugares dos quais a saída poderia ser difícil. Epidemiologia – A prevalência de transtorno de ao longo da vida pânico está na variação de 1 a 4%, com a prevalência em 6 meses de aproximadamente 0,5 a 1,0%, e de 3 a 5,6% para ataques de pânico. As mulheres têm três vezes mais probabilidade de serem afetadas do que os homens, ainda que o subdiagnósticode transtorno de pânico em homens possa contribuir para a distribuição distorcida. São poucas as diferenças entre hispânicos, brancos e negros. O único fator social identificado como contribuindo para o desenvolvimento desse transtorno é história recente de divórcio ou separação. O transtorno costuma surgir na idade adulta jovem – a idade média de apresentação é em torno dos 25 anos –, mas tanto transtorno de pânico como agorafobia podem se desenvolver em qualquer idade. O transtorno de pânico tem sido relatado em crianças e adolescentes, embora seja provavelmente subdiagnosticado nesses grupos. Diagnóstico Ataques de pânico – Um ataque de pânico é um período súbito de intenso medo ou apreensão que pode durar de minutos a horas. Ele pode ocorrer também em outros transtornos mentais, particularmente na fobia específica, na fobia social e no TEPT. Ataques inesperados ocorrem a qualquer momento e não estão associados a um estímulo situacional identificável, mas não precisam se apresentar dessa forma. Em pacientes com fobia social e específica, eles costumam ser esperados ou indicados por um estímulo específico reconhecido. Alguns não se encaixam com facilidade na distinção entre inesperado e esperado, sendo referidos como ataques de pânico predispostos por situações. Eles podem ou não ocorrer quando um paciente é exposto a um gatilho específico, ou podem ocorrer tanto imediatamente após exposição quanto após uma considerável demora. Transtorno de pânico – Os critérios diagnósticos para transtorno de pânico da quinta edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5) são listados na Tabela 9.2-2. Alguns levantamentos da comunidade indicaram que ataques de pânico são comuns, e uma questão importante no desenvolvimento dos critérios diagnósticos para esse transtorno foi determinar um número ou uma frequência limiar de ataques de pânico requeridos para satisfazer o diagnóstico. Estabelecer um limiar muito baixo resulta no diagnóstico de transtorno de pânico em pacientes que não têm um comprometimento por um ataque de pânico ocasional; estabelecer um limiar muito alto Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 resulta em uma situação na qual pacientes que estão comprometidos por seus ataques de pânico não satisfazem os critérios diagnósticos. Características Clínicas Com frequência, o primeiro ataque de pânico é completamente espontâneo, embora muitos possam estar relacionados com excitação, esforço físico, atividade sexual ou trauma emocional moderado. Os médicos devem tentar avaliar qualquer hábito ou situação que costume preceder os ataques de um paciente. Essas atividades podem incluir uso de cafeína, álcool, nicotina ou outras substâncias; padrões incomuns do sono e de alimentação; e situações ambientais específicas, como iluminação desagradável no trabalho. O ataque com frequência começa com um período de 10 minutos de sintomas rapidamente crescentes. Os principais sintomas mentais são medo extremo e uma sensação de morte e tragédia iminentes. Os pacientes em geral não podem designar a fonte de seu medo; podem se sentir confusos e ter problemas para se concentrar. Os sintomas físicos costumam incluir taquicardia, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 palpitações, dispneia e sudorese. Os pacientes tentam sair de qualquer situação em que estejam e procurar auxílio. O ataque dura, em média, de 20 a 30 minutos e raramente mais de uma hora. O exame formal do estado mental durante o ataque de pânico pode revelar ruminação, dificuldade de fala (p. ex., gagueira) e comprometimento da memória. É possível experimentar depressão ou despersonalização durante um ataque. Os sintomas podem desaparecer de forma rápida ou gradual. Entre os ataques, os pacientes podem manifestar ansiedade antecipatória de terem um novo ataque. A distinção entre ansiedade antecipatória e transtorno de ansiedade generalizada pode ser difícil, embora aqueles com transtorno de pânico com ansiedade antecipatória possam designar o foco de sua ansiedade. Preocupações somáticas de morte por problemas cardíacos ou respiratórios podem ser o principal foco da atenção do indivíduo durante os ataques. Eles podem acreditar que as palpitações e a dor no peito indicam que estão para morrer. Até 20% deles de fato têm episódios de síncope durante os ataques de pânico. É possível ver em prontos-socorros indivíduos jovens (na faixa dos 20 anos), fisicamente sadios e mesmo assim insistindo em que podem morrer de um ataque cardíaco. Em vez de logo diagnosticar hipocondria, o médico deve considerar o diagnóstico de transtorno de pânico. A hiperventilação pode produzir alcalose respiratória e outros sintomas. A antiga recomendação de respirar dentro de um saco de papel às vezes ajuda, porque reduz a alcalose. Fobia específica O termo fobia refere-se a um medo excessivo de objeto, circunstância ou situação específicos. A fobia específica é um medo intenso e persistente de um objeto ou de uma situação. O diagnóstico de fobia específica requer o desenvolvimento de ansiedade intensa, mesmo a ponto de pânico, quando da exposição ao objeto temido. Pessoas com essa fobia podem antecipar lesões, tal como serem mordidas por um cão, ou podem ficar em pânico ante o pensamento de perder o controle; por exemplo, se têm medo de andar de elevador, também podem se preocupar com a possibilidade de desmaiar após a porta se fechar. Epidemiologia – As fobias são um dos transtornos mentais mais comum nos Estados Unidos, onde se estima que aproximadamente 5 a 10% da população seja afetada por esses transtornos perturbadores e, às vezes, incapacitantes. A prevalência ao longo da vida de fobia específica é de cerca de 10%. É o transtorno mais comum entre as mulheres e o segundo mais comum entre os homens, atrás apenas dos transtornos relacionados a substâncias. Sua prevalência em seis meses é de 5 a 10 por 100 pessoas Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 (Tab. 9.4-1). As taxas de fobias específicas em mulheres (14 a 16%) eram o dobro das dos homens (5 a 7%), embora a proporção seja mais próxima de 1 para 1 para o medo de sangue, injeção ou ferimentos. (Os tipos de fobias são discutidos a seguir nesta seção.) A idade de pico para o início das fobias do tipo ambiente natural e do tipo sangue-injeção- ferimentos é dos 5 aos 9 anos, ainda que possa ocorrer mais tarde. No entanto, a idade de pico para o início das fobias do tipo situacional (exceto para medo de altura) é mais alta, em torno dos 20 anos, idade mais próxima daquela para princípio de agorafobia. Os objetos e as situações temidos nas fobias específicas (listadas em frequência descendente de aparecimento) são animais, tempestades, altura, doença, ferimento e morte. Fobia específica – O desenvolvimento de uma fobia específica pode resultar da associação de um objeto ou da situação específicos com as emoções de medo e pânico. Foram postulados vários mecanismos para essa relação. Em geral, uma tendência não específica de experimentar medo ou ansiedade forma a cortina de fundo; quando um evento específico (p. ex., dirigir) é associado a uma experiência emocional (um acidente), o indivíduo fica suscetível a uma relação emocional permanente entre dirigir ou veículos e medo ou ansiedade. A experiência emocional por si só pode decorrer de um incidente externo, como acidente de trânsito, ou de um incidente interno, mais comumente um ataque de pânico. Embora o indivíduo possa nunca mais experimentarum ataque de pânico e não satisfazer os critérios diagnósticos para transtorno de pânico, pode ter um medo generalizado de dirigir, e não um medo expresso de ter um ataque de pânico enquanto dirige. Outros mecanismos de associação entre o objeto e as emoções fóbicas incluem a modelagem, na qual o indivíduo observa a reação de outros (p. ex., um dos genitores), e a transferência de informação, na qual a pessoa é ensinada ou advertida sobre os perigos de objetos específicos (p. ex., cobras venenosas). Fatores genéticos – As fobias específicas tendem a ocorrer em famílias. A incidência familiar do tipo sangue-injeção-ferimentos é particularmente alta. Estudos relataram que de dois terços a três quartos das pessoas afetadas têm pelo menos um parente em primeiro grau com fobia específica do mesmo tipo, mas os estudos necessários de gêmeos e de adoção ainda não foram conduzidos para excluir uma contribuição da transmissão não genética. Diagnóstico O DSM-5 inclui tipos distintos de fobia específica: tipo animal, tipo ambiente natural (p. ex., tempestades), tipo sangue-injeção-ferimentos (p. ex., agulhas), tipo situacional (p. ex., carros, elevadores, aviões) e outro tipo (para fobias específicas que não se Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 enquadram nos quatro tipos anteriores). O aspecto fundamental de cada tipo de fobia é que os sintomas de medo ocorrem apenas na presença de um objeto específico (Tab. 9.4- 3). O tipo sangue-injeção-ferimentos é diferenciado dos outros, porque bradicardia e hipotensão com frequência seguem a taquicardia inicial, que é comum a todas as fobias. O tipo sangue-injeção-ferimento de fobia específica tende a afetar, em especial, muitos membros e gerações de uma família. Um tipo relatado recentemente é a fobia de espaço, na qual as pessoas temem cair quando não há apoio próximo, como uma parede ou uma cadeira. Alguns dados indicam que elas podem ter disfunção do hemisfério direito, o que resulta em possível comprometimento visuoespacial. Os transtornos do equilíbrio devem ser excluídos nesses pacientes. As fobias têm sido classificadas tradicionalmente de acordo com o medo específico por meio de prefixos gregos ou latinos, como indicado na Tabela 9.4-4. Outras fobias que estão relacionadas com mudanças na sociedade são o medo de campos eletromagnéticos, de micro-ondas e da sociedade como um todo (amoxofobia). Características clínicas As fobias são caracterizadas pelo desencadeamento de ansiedade grave quando as pessoas são expostas a situações ou objetos específicos ou mesmo quando antecipam a exposição às situações ou aos objetos. A exposição ao estímulo fóbico ou sua antecipação quase invariavelmente resultam em um ataque de pânico em indivíduos suscetíveis. Pessoas com fobias, por definição, tentam evitar o estímulo fóbico; algumas passam muito trabalho para evitar situações que provocam ansiedade. Por exemplo, um paciente fóbico pode atravessar os Estados Unidos de ônibus, em vez de voar, a fim de não entrar em contato com seu objeto da fobia, o avião. Talvez como outra forma de evitar o estresse do estímulo fóbico, muitos indivíduos têm transtornos relacionados a substâncias, particularmente transtorno por uso de álcool. Além disso, estima-se que um terço dos pacientes com fobia social tenha transtorno depressivo maior. O principal achado no exame do estado mental é a presença de um medo irracional e egodistônico de uma situação, uma atividade ou um objeto específicos; os pacientes são capazes de descrever como evitam o contato com a fobia. Com frequência, é encontrada depressão no exame do estado mental, a qual pode estar presente em até um terço de todos os casos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Transtorno de Ansiedade Social (Fobia Social) O transtorno de ansiedade social (também referido como fobia social) envolve o medo de situações sociais, incluindo aquelas que envolvem escrutínio ou contato com estranhos. O termo ansiedade social reflete a diferenciação entre transtorno de ansiedade social e fobia específica, que é o medo intenso e persistente de um objeto ou uma situação. As pessoas com transtorno de ansiedade social temem se embaraçar em situações sociais (i.e., reuniões sociais, apresentações orais, encontro com pessoas novas). Elas podem ter medos específicos de realizar determinadas atividades, como comer ou falar na frente dos outros, ou podem experimentar um medo vago e inespecífico de “embaraçar-se”. Em ambos os casos, o medo no transtorno de ansiedade social é do embaraço que pode ocorrer na situação, não da situação em si. Epidemiologia – Vários estudos relataram uma prevalência ao longo da vida variando de 3 a 13% para transtorno de ansiedade social. A prevalência em seis meses é de aproximadamente 2 a 3 por 100 pessoas (Tab. 9.51). Em estudos epidemiológicos, as mulheres são afetadas com mais frequência do que os homens, mas, em amostras clínicas, o inverso muitas vezes é verdadeiro. As razões para essas observações variáveis são desconhecidas. A idade de pico de início para transtorno de ansiedade social é na adolescência, embora seja comum dos 5 aos 35 anos. Diagnóstico e características clínicas Os critérios diagnósticos do DSM-5 para transtorno de ansiedade social são listados na Tabela 9.5-2. O médico deve reconhecer que pelo menos algum grau de ansiedade social ou de constrangimento é comum na população em geral. Estudos da comunidade sugerem que cerca de um terço de todas as pessoas se considera muito mais ansiosa do que outras em situações sociais. Além disso, essas preocupações podem parecer particularmente aumentadas durante certos estágios do desenvolvimento, como na adolescência, ou após transições de vida, como casamento ou mudanças de emprego, associadas com novas demandas por interação social. Essa ansiedade apenas se torna transtorno de ansiedade social quando ela impede um indivíduo de participar de atividades desejadas ou causa sofrimento acentuado durante elas. O DSM-5 também inclui um especificador diagnóstico de somente desempenho, para pessoas que têm fobia social extrema especificamente em relação a falar ou se apresentar em público. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Transtorno de Ansiedade Generalizada A ansiedade pode ser conceituada como uma resposta normal e adaptativa a ameaça que prepara o organismo para fuga ou luta. Pessoas que parecem ansiosas com tudo, entretanto, têm a probabilidade de serem classificadas com transtorno de ansiedade generalizada. Este é definido como ansiedade e preocupação excessivas com vários eventos ou atividades na maior parte dos dias durante um período de pelo menos seis meses. A preocupação é difícil de controlar e está associada com sintomas somáticos, como tensão muscular, irritabilidade, dificuldade para dormir e inquietação. A ansiedade não está relacionada a aspectos de outro transtorno, não é causada por uso de substância ou por uma condição clínica geral e não ocorre apenas durante um transtorno do humor ou psiquiátrico. Ela é difícil de controlar, é subjetivamente perturbadora e compromete áreas importantes da vida da pessoa. Epidemiologia – O transtorno de ansiedade generalizada é uma condição comum; estimativas razoáveis para sua prevalência de um ano variam de 3 a 8%. A proporção de mulheres para homens com o transtorno é de aproximadamente 2 para 1, mas a proporção de mulheres para homens que está recebendo tratamento hospitalarpara o transtorno é de 1 para 1. A prevalência ao longo da vida é próxima de 5%, com o estudo Epidemiological Catchment Area (ECA; Área de Captação Epidemiológica) sugerindo uma prevalência de até 8%. Em clínicas de transtorno de ansiedade, cerca de 25% dos pacientes têm transtorno de ansiedade generalizada. O transtorno, em geral, começa no fim da adolescência ou início da vida adulta, embora seja comum ver casos em adultos mais velhos. Além disso, alguma evidência indica que a prevalência do transtorno de ansiedade generalizada é particularmente alta em contextos de cuidados primários. Diagnóstico O transtorno de ansiedade generalizada é caracterizado por um padrão de preocupação e ansiedade frequentes, persistentes, desproporcional ao impacto do acontecimento ou da circunstância que é o foco da preocupação. A distinção entre transtorno de ansiedade generalizada e ansiedade normal é enfatizada pela utilização da palavra “excessiva” nos critérios e pela especificação de que os sintomas causam prejuízo ou sofrimento significativos. Os critérios diagnósticos do DSM-5 para transtorno de ansiedade generalizada são listados na Tabela 9.6-2. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Características clínicas As características essenciais do transtorno de ansiedade generalizada são ansiedade e preocupação contínuas e excessivas acompanhadas por tensão ou inquietação motora. A ansiedade é excessiva e interfere em outros aspectos da vida da pessoa. Esse padrão deve ocorrer na maioria dos dias por, pelo menos, seis meses. A tensão motora manifesta-se mais comumente como tremor, inquietação e cefaleias. Indivíduos com transtorno de ansiedade generalizada costumam procurar um clínico geral ou internista em busca de ajuda para um sintoma somático. De forma alternativa, procuram um especialista para um sintoma específico (p. ex., diarreia crônica). Um distúrbio médico, não psiquiátrico, específico raras vezes é encontrado, e os pacientes variam em seu comportamento de busca por um médico. Alguns aceitam um diagnóstico de transtorno de ansiedade generalizada e o tratamento apropriado; outros buscam consultas médicas adicionais para seus problemas. Transtornos Dissociativos Amnésia Dissociativa Os critérios diagnósticos do DSM-5 para a amnésia dissociativa estão listados na Tabela 12-1. A principal característica dessa amnésia é uma incapacidade de lembrar de informações pessoais importantes, normalmente de natureza traumática ou estressante, que é extensa demais para ser explicada por esquecimento habitual. E, como já mencionado, o transtorno não é resultado dos efeitos fisiológicos diretos de uma substância ou de uma condição médica neurológica ou geral. Os diferentes tipos de amnésia dissociativa estão listados na Tabela 12-2. Epidemiologia – A amnésia dissociativa foi relatada em cerca de 2 a 6% da população em geral. Não há diferenças conhecidas na incidência em homens ou mulheres. Os casos costumam começar a ser relatados no fim da adolescência e na vida adulta. Ela pode ser especialmente difícil de avaliar em crianças pré-adolescentes devido a sua habilidade mais limitada de descrever experiências subjetivas. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Diagnóstico Apresentação clássica – O transtorno clássico é uma perturbação aberta, florida e dramática que frequentemente resulta no paciente sendo logo encaminhado à atenção médica, sobretudo por sintomas relacionados ao transtorno dissociativo. Costuma ser encontrado naqueles que sofreram trauma agudo extremo. No entanto, também é comum se desenvolver no contexto de estresse emocional ou conflito intrapsíquico profundo. Os pacientes podem apresentar sintomas somatoformes ou de conversão intercorrentes, alterações de consciência, despersonalização, desrealização, estados de transe, regressão espontânea de idade e até amnésia dissociativa anterógrada contínua. Depressão e ideação suicida são relatadas em muitos casos. Não há perfil de personalidade ou história de antecedentes consistentemente relatados nesses pacientes, apesar de uma história pessoal ou familiar de sintomas dissociativos ou somatoformes apresentar predisposição individual a desenvolver amnésia aguda durante circunstâncias traumáticas. Muitos deles têm histórias anteriores de abuso ou trauma adulto ou infantil. Em casos de guerra, bem como em outras formas de transtorno de estresse pós- traumático relacionado a combate, a variável mais importante no desenvolvimento de sintomas dissociativos parece ser a intensidade do combate. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Apresentação não clássica – Esses indivíduos frequentemente procuram tratamento para diversos sintomas, tais como depressão ou mudanças de humor, abuso de substâncias, perturbação do sono, sintomas somatoformes, ansiedade e pânico, impulsos e atos suicidas e automutilatórios, estouros violentos, problemas de alimentação e problemas interpessoais. O comportamento automutilatório e violento nesses pacientes também pode vir acompanhado de amnésia. A amnésia também pode ocorrer para flashbacks ou episódios de reexperiência comportamental relacionados a trauma. Transtorno de Despersonalização/Desrealização A despersonalização é definida como o sentimento persistente ou recorrente de desapego ou de estranhamento do próprio eu. O indivíduo pode relatar se sentir como um autômato ou como se estivesse se assistindo em um filme. A desrealização tem alguma relação e se refere a sentimentos de irrealidade ou de afastamento do próprio ambiente. O paciente pode descrever sua percepção do mundo exterior como um ambiente no qual falta lucidez ou emoção, como se estivesse em um sonho ou morto. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Epidemiologia – Experiências transitórias de despersonalização e desrealização são extremamente comuns em populações sadias e clínicas. Esses são os sintomas psiquiátricos mais relatados, depois de depressão e ansiedade. Uma pesquisa encontrou uma prevalência em um ano de 19% na população em geral. Tais experiências são comuns em pacientes com convulsões e enxaqueca; também podem ocorrer com o uso de drogas psicodélicas, em especial maconha, dietilamida do ácido lisérgico (LSD) e mescalina, e, com menos frequência, como efeito colateral de alguns fármacos, como os agentes anticolinérgicos. Essas experiências foram descritas após certos tipos de meditação, hipnose profunda, observação estendida em um espelho ou cristal e experiências de privação sensorial. Também são comuns após lesões leves ou moderadas na cabeça, em que há pouca ou nenhuma perda de consciência, mas são bem menos prováveis se a inconsciência durar mais de 30 minutos. Ainda, são observadas após experiências potencialmente fatais, com ou sem lesão corporal grave. A despersonalização é encontrada de 2 a 4 vezes mais em mulheres do que em homens. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Diagnóstico e características clínicas Diversos componentes distintos compõem a experiência da despersonalização, incluindo um senso de (1) alterações corporais, (2) dualidade do eu como observador e ator, (3) distanciamento dos outros e (4) distanciamento das próprias emoções. Os pacientes que vivenciam a despersonalização com frequência têm grandes dificuldades para expressar o que estão sentindo. Tentando expressar seu sofrimento subjetivo com frases banais,tais como “Eu me sinto morto”, “Nada parece real” ou “Estou fora de mim”, os pacientes despersonalizados podem não transmitir de forma adequada o sofrimento que passam. Enquanto reclamam amargamente sobre como isso arruína suas vidas, eles ainda assim podem parecer bastante tranquilos. Fuga Dissociativa A fuga dissociativa foi suprimida como uma das principais categorias diagnósticas do DSM-5 e agora é diagnosticada como um subtipo (especificador) da amnésia dissociativa. Ela pode ser vista em pacientes tanto com amnésia dissociativa quanto com transtorno dissociativo de identidade. O transtorno continua sendo um diagnóstico distinto na 10ª edição da Classificação internacional de doenças e problemas relacionados à saúde, (CID-10) e é discutido como uma entidade à parte no Compêndio devido a sua relevância clínica. A fuga dissociativa é descrita como uma viagem súbita e repentina para longe de casa ou do seu lugar de vivência costumeiro, com incapacidade de lembrar de parte ou de todo o passado. Isso vem acompanhado de confusão sobre a própria personalidade ou até da apropriação de uma nova identidade. O episódio não se deve aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância ou de uma condição médica geral. Os sintomas devem causar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes do funcionamento. Epidemiologia – Acredita-se que o transtorno seja mais comum durante desastres naturais, tempos de guerra ou períodos de grande deslocamento social ou violência, apesar de não haver dados sistemáticos neste momento. Não existem informações adequadas para demonstrar algum viés de gênero para esse transtorno; contudo, a maior parte dos casos descreve homens, principalmente no exército. A fuga dissociativa costuma ser descrita em adultos. Diagnóstico e Característica Clínicas A fuga dissociativa é descrita como um transtorno capaz de durar de minutos a meses. Alguns pacientes relatam múltiplas fugas. Na maioria dos casos em que isso foi Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 descrito, um transtorno dissociativo mais crônico, como um transtorno dissociativo de identidade, não foi excluído. Em alguns casos extremos de TEPT, os pesadelos podem acabar com uma fuga real, em que o paciente corre para outra parte da casa ou foge para fora. Crianças ou adolescentes podem ser mais limitados do que adultos em sua habilidade de fuga. Portanto, as fugas nessa população podem ser breves e envolver apenas distâncias menores. Após o término da fuga, o paciente pode sofrer de perplexidade, confusão, transe, despersonalização, desrealização e sintomas de conversão, além de amnésia. Alguns podem terminar a fuga com um episódio de amnésia dissociativa generalizada. Conforme começa a ficar menos dissociado, o indivíduo com fuga dissociativa pode exibir sintomas de transtorno do humor, ideias intensas de suicídio e sintomas de TEPT ou de transtorno de ansiedade. Nos casos clássicos, uma outra identidade é criada sob cujos auspícios o paciente vive por um período de tempo. Muitos desses casos anteriores são mais bem classificados como transtorno dissociativo de identidade ou, usando o DSM-5, como outro transtorno dissociativo especificado com características de transtorno dissociativo de identidade. Transtorno dissociativo de identidade O transtorno dissociativo de identidade, anteriormente chamado de transtorno de múltiplas personalidades, tem sido o transtorno dissociativo mais pesquisado de todos. Ele se caracteriza pela presença de duas ou mais identidades distintas ou estados de personalidade. As identidades ou os estados de personalidade, às vezes chamados de alters, autoestados, alter identidade ou partes, entre outros termos, diferem uns dos outros na forma como cada um se apresenta com um padrão próprio de percepção, relacionamento e pensamento sobre o ambiente e o eu; em suma, sua própria personalidade. Trata-se da psicopatologia dissociativa paradigmática, já que os sintomas de todos os outros transtornos dissociativos são em geral encontrados em pacientes com transtorno dissociativo de identidade: amnésia, fuga, despersonalização, desrealização e sintomas semelhantes. Até cerca de 1800, pessoas com transtorno dissociativo de identidade eram encaradas como se sofressem de vários estados de possessão. No início do século XIX, Benjamin Rush baseou-se em relatos clínicos de outros e forneceu uma descrição clínica da fenomenologia do transtorno dissociativo de identidade. Subsequentemente, Jean- Martin Charcot e Pierre Janet descreveram os sintomas do transtorno e reconheceram sua natureza dissociativa. Tanto Sigmund Freud quanto Eugen Bleuler reconheceram os Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 sintomas, apesar de Freud ter-lhes atribuído mecanismos psicodinâmicos e Bleuler tê-los considerado um reflexo da esquizofrenia. Talvez em razão de uma maior apreciação do problema do abuso físico e sexual infantil, e talvez devido aos casos descritos na mídia popular (As três máscaras de Eva, Sybil), a conscientização sobre o transtorno dissociativo de identidade aumentou. Epidemiologia – São poucos os dados existentes sobre o transtorno dissociativo de identidade. Estudos clínicos reportam proporção de mulheres para homens de 5 para 1 e de 9 para 1, em casos diagnosticados. Diagnóstico e características clínicas A característica principal no diagnóstico deste transtorno é a presença de dois ou mais estados distintos de personalidade. No entanto, há muitos outros sinais e sintomas que definem o transtorno, e, em razão da grande diversidade, isso torna o diagnóstico difícil. Eles estão listados na Tabela 12-6, que descreve os muitos outros sintomas associados comumente encontrados em pacientes com transtorno dissociativo de identidade. Exame do estado mental – Um exame do estado mental cuidadoso e detalhado é essencial para realizar o diagnóstico. É fácil confundir pacientes que apresentam esse transtorno com pessoas sofrendo de esquizofrenia, transtorno da personalidade borderline ou simplesmente simulando. Memória e sintomas de amnésia – Perturbações dissociativas de memória se manifestam de várias maneiras básicas e são com frequência observadas em ambientes clínicos. Como parte do exame do estado mental geral, os médicos devem rotineiramente perguntar sobre experiências de perda do tempo, períodos de apagão e grandes falhas de continuidade na memória de informações pessoais. Experiências de perda do tempo dissociativas são muito extensas para serem explicadas pelo esquecimento normal e em geral têm um início e um fim bem demarcados. Pacientes com transtorno dissociativo costumam relatar falhas significativas na memória autobiográfica, especialmente para eventos da infância. Essas falhas costumam ser bem demarcadas e não se enquadram no declínio normal na memória autobiográfica para idades mais jovens. Alterações dissociativas na identidade – Alterações dissociativas clínicas na identidade podem começar a se manifestar por estranhas referências a si mesmo em primeira pessoa do plural ou terceira pessoa. Além disso, os pacientes podem se referir a si mesmos usando seu primeiro nome ou fazendo autorreferências despersonalizadas, tais como “o corpo”, ao se descreverem e falarem de outros. Eles frequentemente Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 descrevem um profundo senso de divisão interna concretizada ou de conflitos internos personalizados entre partes de si. Em algumas instâncias, essas partes podem ter nomes próprios oupodem ser designadas por seu efeito ou sua função predominante, por exemplo, “o furioso” ou “a esposa”. Os pacientes podem mudar de repente a forma como se referem aos outros, por exemplo, “o filho” em vez de “meu filho”. Transtorno de Sintomas Neurológicos Funcionais (Transtorno conversivo) O transtorno conversivo, também denominado transtorno de sintomas neurológicos funcionais, no DSM-5, é uma doença de sintomas ou déficits que afetam funções motoras ou sensoriais voluntárias, sugerindo outra condição clínica, mas que aparenta ser causada por fatores psicológicos, pois é precedida por conflitos ou outros estressores. Os sintomas ou déficits do transtorno conversivo não são produzidos de modo intencional e não são causados pelo uso de substância, não estão limitados a sintomas dolorosos ou sexuais, e o ganho é primariamente psicológico, e não social, financeiro ou legal. A síndrome hoje conhecida como transtorno conversivo foi originalmente combinada com a síndrome chamada de transtorno de somatização e foi referida como histeria, reação conversiva ou reação dissociativa. Paul Briquet e Jean-Martin Charcot contribuíram para o desenvolvimento do conceito de transtorno conversivo observando a influência da hereditariedade no sintoma e a associação comum com um evento traumático. O termo “conversão” foi introduzido por Sigmund Freud, que, com base em seu trabalho com Anna O, formulou a hipótese de que os sintomas do transtorno conversivo refletem conflitos inconscientes. Epidemiologia – Alguns sintomas do transtorno conversivo que não são suficientemente graves para justificar o diagnóstico podem ocorrer em até um terço da população em geral em algum momento durante suas vidas. As taxas reportadas desse transtorno variam de 11 em 100 mil a 300 em 100 mil em amostras da população em geral. Entre populações específicas, sua ocorrência pode ser ainda mais alta, talvez fazendo dele o transtorno de sintomas somáticos mais comum em algumas populações. Vários estudos reportaram que 5 a 15% das consultas psiquiátricas em um hospital geral e 25 a 30% das internações em um hospital para veteranos de guerra envolvem pacientes com diagnóstico de transtorno conversivo. A proporção de homens e mulheres entre os pacientes adultos é de pelo menos 2 para 1 até 10 para 1; entre as crianças, é vista uma predominância ainda maior em meninas. Os sintomas são mais comuns no lado esquerdo do que no lado direito do corpo em mulheres. Mulheres que apresentam sintomas conversivos têm maior probabilidade de desenvolver posteriormente transtorno de sintomas somáticos do que aquelas que não Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 os tiveram. Existe uma associação entre transtorno conversivo e transtorno da personalidade antissocial em homens. Homens com transtorno conversivo com frequência estiveram envolvidos em acidentes ocupacionais ou militares. O início do transtorno se dá geralmente no fim da infância até o início da idade adulta, sendo raro antes dos 10 anos de idade ou após os 35 anos, mas já foi relatado o início na década dos 90 anos. Quando os sintomas sugerem um transtorno conversivo com início na meia-idade ou na velhice, a probabilidade de uma condição neurológica ou outra condição clínica oculta é alta. Sintomas conversivos em crianças com menos de 10 anos costumam estar limitados a problemas com a marcha ou convulsões. Dados indicam que o transtorno conversivo é mais comum entre as populações rurais, pessoas com baixo grau de instrução, com baixo quociente de inteligência, em grupos com nível socioeconômico baixo e em militares que foram expostos a situações decombate. Esse transtorno é mais comumente associado a diagnósticos comórbidos de transtorno depressivo maior, transtornos de ansiedade e esquizofrenia e apresenta frequência aumentada em parentes de probandos que o apresentam. Dados limitados sugerem que sintomas conversivos são mais observados em parentes de pessoas com transtorno conversivo. Foi reportado um risco aumentado de sua ocorrência em pares de gêmeos monozigóticos, mas não nos dizigóticos. Diagnóstico O DSM-5 limita o diagnóstico de transtorno conversivo àqueles sintomas que afetam uma função motora ou sensorial voluntária, isto é, sintomas neurológicos. Os médicos não conseguem explicar os sintomas neurológicos unicamente com base em uma condição neurológica conhecida. O diagnóstico de transtorno conversivo requer que os clínicos encontrem uma associação necessária e crítica entre a causa dos sintomas neurológicos e fatores psicológicos, embora os sintomas não possam resultar de simulação ou transtorno factício. O diagnóstico de transtorno conversivo também exclui sintomas de dor e disfunção sexual e sintomas que ocorrem somente no transtorno de sintomas somáticos. O DSM-5 permite a especificação do tipo de sintoma ou déficit visto no transtorno conversivo – por exemplo, com fraqueza ou paralisia, com movimentos anormais ou com ataques ou convulsões. Características clínicas Paralisia, cegueira e mutismo são os sintomas mais comuns no transtorno conversivo. Ele pode estar mais comumente associado a transtorno da personalidade Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 passivo-agressiva, dependente, antissocial e histriônica. Sintomas de transtornos depressivo e de ansiedade com frequência acompanham os sintomas do transtorno conversivo, e os pacientes afetados estão em risco de suicídio. Sintomas sensoriais – No transtorno conversivo, anestesia e parestesia são comuns, especialmente das extremidades. Todas as modalidades sensoriais podem estar envolvidas, e a distribuição do transtorno costuma ser incompatível com doença neurológica central ou periférica. Assim, os clínicos podem ver a característica anestesia tipo meia-e-luva das mãos ou dos pés ou a hemianestesia do corpo começando precisamente ao longo da linha média. Os sintomas do transtorno conversivo envolvem os órgãos dos sentidos e podem produzir surdez, cegueira e visão de túnel. Esses sintomas podem ser unilaterais ou bilaterais, mas a avaliação neurológica revela caminhos sensoriais intactos. Na cegueira do transtorno conversivo, por exemplo, os pacientes circulam sem colidir ou se machucar, suas pupilas reagem à luz, e seus potenciais corticais evocados são normais. Sintomas motores – Os sintomas motores do transtorno conversivo incluem movimentos anormais, distúrbio da marcha, fraqueza e paralisia. Tremores rítmicos grosseiros, movimentos coreiformes, tiques e espasmos podem estar presentes. Os movimentos costumam piorar quando a atenção é voltada para eles. Um distúrbio da marcha visto no transtorno conversivo é astasia-abasia, que é uma marcha extremamente atáxica e cambaleante acompanhada por movimentos truncais grosseiros, irregulares, movimentos espasmódicos truncais e de balanço dos braços. Os pacientes com os sintomas raramente caem; se isso ocorre, em geral não se machucam. Outros distúrbios motores comuns são paralisia e paresia envolvendo um, dois ou os quatro membros, embora a distribuição dos músculos afetados não se conforme aos caminhos neurais. Os reflexos permanecem normais; os pacientes não têm fasciculações ou atrofia muscular (exceto depois de paralisia conversiva de longa data); os achados eletromiográficos são normais. Sintomas convulsivos – Pseudoconvulsão é outro sintoma no transtorno conversivo. Os clínicos podem achar difícil diferenciar uma pseudoconvulsão de uma verdadeira convulsão por meio da observaçãoclínica isolada. Além do mais, aproximadamente um terço das pseudoconvulsões também tem um transtorno epiléptico coexistente. Morder a língua, incontinência urinária e lesões após uma queda podem ocorrer em pseudoconvulsões, embora esses sintomas em geral não estejam presentes. O reflexo pupilar e de mordedura é mantido após uma pseudoconvulsão, e os pacientes não têm aumento pós-convulsão nas concentrações de prolactina. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Transtorno factício (síndrome de Münchausen) Pacientes com transtorno factício simulam, induzem ou agravam a doença para receber atenção médica, independentemente de estarem ou não doentes. Por conseguinte, podem infligir lesões dolorosas, deformantes ou até mesmo com perigo de morte a si mesmos, a seus filhos ou a outros dependentes. A motivação primária não é evitar obrigações, obter ganho financeiro ou qualquer coisa concreta. A motivação é apenas receber cuidados médicos e participar do sistema de saúde. Os transtornos factícios podem provocar morbidade significativa ou até mesmo mortalidade. Portanto, mesmo que as queixas apresentadas sejam falsificadas, as necessidades clínicas e psiquiátricas desses indivíduos devem ser levadas a sério. Por exemplo, uma técnica do centro cirúrgico, filha de um médico, injetou em si mesma repetidas vezes, Pseudomonas, o que causou múltiplos ataques de sepse e insuficiência renal bilateral, que a levaram à morte. Tais mortes não são incomuns. Em um artigo de 1951, em Lancet, Richard Asher cunhou o termo “síndrome de Münchausen” para se referir a uma síndrome na qual os pacientes enfeitam sua história pessoal, fabricam sintomas cronicamente para obter internação hospitalar e peregrinam de hospital em hospital. A síndrome recebeu o nome do barão Hieronymus Friedrich Freiherr von Münchausen (1720-1797), um oficial da cavalaria alemã Epidemiologia – Não existem dados epidemiológicos abrangentes sobre o transtorno factício. Estudos limitados indicam que indivíduos com esse transtorno podem representar aproximadamente 0,8 a 1% dos pacientes que consultam a psiquiatria. Casos de sinais e sintomas psicológicos simulados são relatados com muito menos frequência do que casos de sinais e sintomas físicos. Um banco de dados de pessoas que simulam doenças foi elaborado para alertar os hospitais sobre tais pacientes, muitos dos quais viajam de um lugar para outro, buscam hospitalização usando nomes diferentes ou simulam doenças diferentes. Em torno de dois terços dos pacientes com síndrome de Münchausen são homens. Eles tendem a ser brancos, de meia-idade, desempregados, não casados e sem vínculos sociais ou familiares significativos. Entre os pacientes diagnosticados com transtorno factício com sinais e sintomas físicos, preponderam as mulheres, que superam os homens em uma proporção de 3 para 1. Elas, em geral, têm entre 20 e 40 anos, com uma história de emprego ou educação em ocupações de enfermagem ou de assistência à saúde. Os transtornos factícios físicos costumam começar em pacientes na década dos 20 ou 30 anos, embora a literatura contenha casos que variam de 4 a 79 anos. O transtorno factício por procuração (denominado transtorno factício imposto a outro no DSM-5 é mais comumente perpetrado por mulheres contra bebês ou crianças Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 pequenas. Raro ou pouco reconhecido, o transtorno representa menos de 0,04%, ou 1.000 em 3 milhões, de casos de abuso infantil relatados nos Estados Unidos a cada ano. No entanto, existe uma carência de bons dados epidemiológicos. Esse transtorno é discutido a seguir. Diagnóstico e características clínicas Transtorno factício é a imitação de sinais e sintomas físicos ou psicológicos. Os indícios que despertam suspeita do transtorno são apresentados na Tabela 13.6-1. O exame psiquiátrico deve enfatizar a proteção das informações dos amigos, parentes ou de outros informantes, porque as entrevistas com fontes externas confiáveis frequentemente revelam a falsa natureza da doença do paciente. Embora seja demorada e enfadonha, a verificação de todos os fatos apresentados por ele sobre hospitalizações prévias e assistência médica é essencial. A avaliação psiquiátrica é solicitada com base em uma consulta em cerca de 50% dos casos, em geral depois que é levantada a suspeita de uma doença simulada. O psiquiatra frequentemente é chamado para confirmar o diagnóstico de transtorno factício. Diante dessas circunstâncias, é necessário evitar um questionamento acusatório que possa provocar truculência, evasão ou fuga do hospital. Pode existir o perigo de provocar franca psicose se for usada uma confrontação vigorosa; em alguns casos, a doença Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 simulada serve a uma função adaptativa e é uma tentativa desesperada de evitar maior desintegração. O transtorno factício foi dividido em dois grupos, dependendo dos tipos de sinais ou sintomas simulados. Existe um transtorno marcado por sintomas psicológicos, e outro, por sintomas físicos. Ambos podem ocorrer em conjunto. No DSM-5, não é feita distinção entre os dois, e o transtorno é dividido entre o que “é imposto a si” e o que “é imposto a outro” (transtorno factício por procuração). Na discussão a seguir, o quadro clínico de cada um dos sintomas psicológicos ou físicos é considerado de forma separada. Somatização Desgaste emocional, estresse e depressão, manifestação através de sintomas físicos, cefaleia, mialgia generalizada, fibromialgia, dor lombar, outras formas de dor crônica, queda de cabelos, síndrome da fadiga crônica, angústia, síndrome do intestino irritável, constipação intestinal, pseudoasma, ataques de pânico. Transtornos de Personalidade Antissocial O transtorno da personalidade antissocial é uma incapacidade de se adequar às regras sociais que normalmente governam diversos aspectos do comportamento adolescente e adulto de um indivíduo. Embora se caracterize por atos contínuos de natureza antissocial ou criminosa, o transtorno não é sinônimo de criminalidade. Epidemiologia – Os índices de prevalência de 12 meses do transtorno da personalidade antissocial encontram-se entre 0,2 e 3% de acordo com o DSM-5. Ele é mais comum em áreas urbanas pobres e entre residentes eventuais dessas áreas. A prevalência mais elevada é encontrada entre as amostras mais graves de homens com transtorno por uso de álcool (acima de 70%) e na população carcerária, na qual pode chegar a 75%. É muito mais comum em homens do que em mulheres. Meninos com o transtorno vêm de famílias maiores do que meninas afetadas. O início do transtorno ocorre antes dos 15 anos de idade. Meninas normalmente apresentam sintomas antes da puberdade, e meninos, ainda mais cedo. Um padrão familiar está presente; o transtorno é cinco vezes mais comum entre parentes em primeiro grau de homens com o transtorno do que entre participantes do grupo-controle. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Diagnóstico Pacientes com transtorno da personalidade antissocial podem enganar até o clínico mais experiente. Durante a entrevista, podem parecer calmos e confiáveis, mas, sob o verniz (ou, para usar a expressão de Hervey Cleckley, a máscara de sanidade), escondem-se tensão, hostilidade, irritabilidade e fúria. Uma entrevista de estresse, na qual o paciente seja confrontado vigorosamente com incoerências em sua história, pode ser necessária para revelar a patologia. Uma bateria de exames diagnósticos deve incluir testes neurológicos. Uma vez queos pacientes costumam demonstrar resultados de EEG anormais e leves sinais neurológicos que sugerem dano cerebral mínimo na infância, esses achados podem ser usados para confirmar a impressão clínica. Características clínicas Indivíduos com transtorno da personalidade antissocial frequentemente podem parecer normais e até mesmo simpáticos e lisonjeiro. Suas histórias, no entanto, revelam perturbação do funcionamento ou várias áreas da vida. Mentiras, vadiagem, fuga de casa, roubos, brigas, abuso de substância e atividades ilegais são experiências típicas que os pacientes relatam ter início já na infância. Eles costumam impressionar clínicos do sexo oposto com os aspectos sedutores e pitorescos de sua personalidade, mas clínicos do mesmo sexo podem vê-los como manipuladores e exigentes. Indivíduos com transtorno da personalidade antissocial não exibem ansiedade nem depressão, uma ausência que pode parecer amplamente incongruente com suas situações, embora ameaças de suicídio e preocupações somáticas possam ser comuns. Suas próprias explicações para seu comportamento antissocial fazem-no parecer gratuito, mas seu conteúdo mental revela a completa ausência de delírios e de outros sinais de pensamento irracional. Na realidade, eles com frequência têm um senso de realidade aguçado e costumam impressionar observadores com sua boa inteligência verbal. Pessoas com esse transtorno são autênticas representantes dos vigaristas. Elas são extremamente manipuladoras e com frequência podem convencer os outros a participar de esquemas para obter dinheiro fácil ou para alcançar fama ou notoriedade. Esses esquemas podem, no fim, levar o incauto a ruína financeira ou constrangimento social, ou a ambos. Indivíduos com esse transtorno não falam a verdade, e não se pode confiar neles para executar qualquer tipo de tarefa ou aderir a qualquer padrão convencional de moralidade. Promiscuidade, abuso conjugal, abuso infantil e condução de veículos em estado de embriaguez são eventos comuns em suas vidas. Um achado de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 destaque é a ausência de remorso por tais atos; ou seja, eles parecem não ter uma consciência. Borderline Indivíduos com transtorno da personalidade borderline encontram-se no limiar entre neurose e psicose e têm por característica afeto, humor, comportamento, relações objetais e autoimagem extraordinariamente instáveis. O transtorno também foi chamado de esquizofrenia ambulatorial, personalidade “como se” (expressão cunhada por Helene Deutsch), esquizofrenia pseudoneurótica (descrita por Paul Hoch e Phillip Politan) e transtorno de caráter psicótico (descrito por John Frosch). A 10ª revisão da Classificação internacional de doenças e problemas relacionados à saúde (CID-10) usa a denominação de transtorno de personalidade emocionalmente instável. Epidemiologia – Não há estudos definitivos sobre prevalência, mas acredita-se que o transtorno da personalidade borderline esteja presente em 1 a 2% da população e seja duas vezes mais comum em mulheres do que em homens. Um aumento de prevalência do transtorno depressivo maior, de transtornos por uso de álcool e de abuso de substância é encontrado em parentes em primeiro grau de indivíduos com transtorno da personalidade borderline. Diagnóstico De acordo como DSM-5, o diagnóstico de transtorno da personalidade borderline pode ser estabelecido no início da idade adulta quando o paciente exibe pelo menos cinco dos critérios listados na Tabela 22-5. Estudos biológicos podem auxiliar o diagnóstico; alguns pacientes com transtorno da personalidade borderline mostram redução da latência REM e perturbações na continuidade do sono, resultados anormais no TSD e no teste de hormônio liberador de tireotrofina. Essas alterações, no entanto, também são observadas em algumas pessoas com transtornos depressivos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Características clínicas Indivíduos com transtorno da personalidade borderline quase sempre parecem estar em crise. Mudanças de humor são comuns. A pessoa pode estar inclinada a discussões em um momento, deprimida no momento seguinte e, mais tarde, se queixar de não ter sentimentos. Pode apresentar episódios psicóticos de curta duração (denominados episódios micropsicóticos) em vez de crises psicóticas totalmente manifestas, e seus sintomas psicóticos quase sempre são limitados, fugazes ou questionáveis. O comportamento do paciente com transtorno da personalidade borderline é de extrema imprevisibilidade, e é raro suas realizações estarem no mesmo nível de suas capacidades. A natureza dolorosa de sua vida reflete-se em atos autodestrutivos repetidos. Esse tipo de paciente pode cortar os pulsos e executar outras formas de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 automutilação para obter ajuda dos outros, para exprimir raiva ou para se anestesiar do afeto que o consome. Uma vez que se sentem tanto dependentes quanto hostis, as pessoas com esse transtorno têm relacionamentos interpessoais tumultuosos. Elas podem ser dependentes das pessoas com quem têm intimidade e, quando se frustram, expressar uma grande raiva dirigida aos amigos mais íntimos. Essas pessoas não conseguem tolerar a ideia de ficar sozinhas e preferem uma busca frenética por companhia, sem importar o quanto ela lhe seja insatisfatória. Para mitigar a solidão, mesmo que por breves períodos, aceitam um estranho como amigo ou se comportam de forma promíscua. Costumam se queixar de sentimentos crônicos de vazio e tédio e da falta de um senso de identidade coerente (difusão de identidade); quando pressionadas, frequentemente reclamam de como se sentem sempre deprimidas, apesar do turbilhão de outros afetos. Otto Kernberg descreveu o mecanismo de defesa de identificação projetiva que ocorre em pacientes com transtorno da personalidade borderline. Nesse mecanismo de defesa primitivo, aspectos intoleráveis do self são projetados no outro; a outra pessoa é induzida a desempenhar o papel projetado, e as duas pessoas agem em uníssono. O terapeuta deve estar ciente desse processo a fim de poder agir de forma neutra com esse tipo de paciente. A maioria dos terapeutas concorda que esses pacientes demonstram capacidades de raciocínio normais em testes estruturados, como a Escala Wechsler de Inteligência para Adultos, e mostram processos aberrantes apenas em testes projetivos não estruturados, como o teste de Rorschach. Do ponto de vista funcional, pacientes com transtorno da personalidade borderline distorcem seus relacionamentos caracterizando cada pessoa como totalmente boa ou totalmente má. Eles enxergam as pessoas ou como figuras de ligação afetuosas, ou como figuras sádicas odiosas que os privam de suas necessidades de segurança e ameaçam abandoná-los sempre que se sentem dependentes. Como resultado dessa cisão, a pessoa boa é idealizada, e a pessoa má, desvalorizada. Deslocamentos de fidelidade de uma pessoa ou um grupo para outros são frequentes. Alguns clínicos usam os conceitos de panfobia, pan-ansiedade, pan-ambivalência e sexualidade caótica para delinear as características desses pacientes. Histriônica Pessoas com transtorno da personalidade histriônica são excitáveis e emotivas e comportam-se de forma dramática, florida e extrovertida. Contudo, junto com esses Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 aspectos mais vistosos, costuma existir uma incapacidade de manter ligações profundas e duradouras. Epidemiologia – Dados limitados de estudos com a população em geral sugerem uma prevalência do transtornoda personalidade histriônica de cerca de 1 a 3%. Índices em torno de 10 a 15% foram relatados em instalações de saúde ambulatoriais e de internação quando se usa uma avaliação estruturada. O transtorno é diagnosticado com maior frequência em mulheres do que em homens. Alguns estudos revelaram uma associação com transtorno de sintomas somáticos e transtornos por uso de álcool. Diagnóstico – Em entrevistas, pacientes com transtorno da personalidade histriônica costumam ser cooperativos e ávidos por fornecer uma história detalhada. Gesticulações e exclamações dramáticas em seu discurso são comuns; eles cometem deslizes frequentes, e sua linguagem é pitoresca. Exibição afetiva é comum, mas, quando pressionados a reconhecer determinados sentimentos (p. ex., raiva, tristeza e desejos sexuais), podem reagir com surpresa, indignação ou negação. Os resultados do exame cognitivo costumam ser normais, embora uma falta de perseverança possa ser evidenciada em tarefas aritméticas ou de concentração, e o esquecimento do paciente de material com carga afetiva pode ser impressionante. Características clínicas – Pessoas com transtorno da personalidade histriônica exibem um grau elevado de comportamento de busca por atenção. Elas tendem a exagerar seus pensamentos e sentimentos e fazem tudo soar mais importante do que realmente é. Exibem ataques de raiva, choro e acusações quando não são o centro das atenções ou não estão recebendo elogios ou aprovação. O comportamento sedutor é comum nos dois sexos. Fantasias sexuais envolvendo pessoas com as quais o paciente esteja envolvido são comuns, mas ele demonstra incoerência ao verbalizar essas fantasias e pode se comportar de forma tímida ou flertar em vez de ser sexualmente agressivo. Na realidade, pacientes histriônicos podem apresentar uma disfunção psicossexual; mulheres podem ser anorgásmicas, e homens podem ser impotentes. Sua necessidade de tranquilização é infinita. O paciente pode ceder a seus impulsos sexuais para se sentir seguro de ser atraente ao sexo oposto. Contudo, seus relacionamentos têm propensão a ser superficiais, e ele pode ser vaidoso, egocêntrico e volúvel. Sua forte necessidade de dependência torna-o crédulo e ingênuo. As principais defesas de pacientes com transtorno da personalidade histriônica são repressão e dissociação. Em conformidade com essa característica, esses indivíduos não estão cientes de seus verdadeiros sentimentos e não conseguem explicar suas motivações. Sob estresse, o teste de realidade fica facilmente prejudicado. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Dependente Pessoas com transtorno da personalidade dependente subordinam suas próprias necessidades às necessidades de outros, fazem outra pessoas assumir responsabilidade por áreas importantes de suas vidas, não têm autoconfiança e podem experimentar desconforto intenso ao ficar sozinhas por mais do que breves períodos. O transtorno já foi denominado personalidade passivo-dependente. Freud descreveu uma dimensão oral de personalidade dependente caracterizada por dependência, pessimismo, medo de sexualidade, insegurança, passividade, sugestionabilidade e falta de perseverança. Sua descrição é semelhante à categorização do DSM-5 do transtorno da personalidade dependente. Epidemiologia – O transtorno da personalidade dependente é mais comum em mulheres do que em homens. O DSM-5 relata uma prevalência estimada em 0,6%. Um estudo diagnosticou 2,5% de todos os transtornos da personalidade como pertencendo a essa categoria. Ele é mais comum em crianças pequenas do que nas mais velhas. Pessoas com doenças físicas crônicas na infância podem ser mais suscetíveis ao transtorno. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Diagnóstico – Em entrevistas, o paciente parece ser complacente. Ele tenta cooperar, é receptivo a perguntas específicas e busca orientação. Os critérios diagnósticos do DSM-5 para transtorno da personalidade dependente são listados na Tabela 22-9. Características clínicas – O transtorno da personalidade dependente caracteriza- se por um padrão global de comportamento dependente e submisso. Pessoas com o transtorno não conseguem tomar decisões sem uma quantidade excessiva de aconselhamento e tranquilização dos outros. Elas evitam posições de responsabilidade e ficam ansiosas se precisam assumir um papel de liderança. Preferem ser submissas. Quando deixadas sozinhas, encontram dificuldades de perseverar em tarefas, mas podem achar fácil executá-las para outra pessoa. Visto que não gostam de ficar sozinhos, indivíduos com esse transtorno buscam outras pessoas de quem possam depender; seus relacionamentos, portanto, são distorcidos por sua necessidade de estar apegados à outra pessoa. Na folie à deux (transtorno psicótico compartilhado), um membro da dupla normalmente tem transtorno da personalidade dependente; o parceiro submisso assume o sistema delirante do parceiro mais agressivo e com maior autoafirmação, de quem depende. Pessimismo, insegurança, passividade, temor de expressar sentimentos sexuais e agressivos tipificam o comportamento de indivíduos com transtorno da personalidade dependente. Um cônjuge abusivo, infiel ou alcoolista pode ser tolerado durante longos períodos de tempo para evitar a perturbação da sensação de apego. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Tipos de Receituário Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Benzodiazepínicos Os benzodiazepínicos foram amplamente prescritos no tratamento dos transtornos ansiosos durante toda a década de setenta, como uma opção segura e de baixa toxicidade. A empolgação inicial deu lugar a preocupação com o consumo ao final da mesma década: pesquisadores começavam a detectar potencial de uso nocivo e risco de dependência entre os usuários de tais substâncias 1(D). Atualmente, os BDZs ainda possuem indicações precisas para controle da ansiedade e como tratamento adjuvante dos principais transtornos psiquiátricos, mas continuam sendo prescritos de modo indiscriminado, tanto por psiquiatras, quanto por médicos de outras especialidades 2(C). Estima-se que 50 milhões de pessoas façam uso diário de benzodiazepínicos. A maior prevalência encontra-se entre as mulheres acima de 50 anos, com problemas médicos e psiquiátricos crônicos. Os benzodiazepínicos são responsáveis por cerca de 50% de toda a prescrição psicotrópicos 3(B). Atualmente um em cada 10 adultos recebem prescrições de benzodiazepínicos a cada ano, a maioria desta feita por clínicos gerais 4(D). Estima-se que cada clínico tenha em sua lista 50 pacientes dependentes de benzodiazepínicos, metade destes gostariam de parar o uso. No entanto, 30% pensam que o uso é estimulado pelos médicos 5(D). A mortalidade nos dependentes de benzodiazepínicos é 3 maior que na população geral, no entanto, não se observa aumento significativo da mortalidade em pacientes dependentes de benzodiazepínicos quando comparados com pacientes com similar grau de morbidade. Farmacologia Metabolização e Meia-vida – As vias de metabolização e a meia-vida são aspectos importantes tanto para escolha terapêutica de um benzodiazepínico, quanto para o manejo de intercorrências como intoxicações e síndrome de abstinência. Os benzodiazepínico têm metabolização hepática 8(D). O clordiazepóxido é ostensivamente metabolizado. Já o lorazepam e o oxazepam são conjugados diretamente, demandando pouco trabalho hepático, e portanto, estãoindicados para os idosos e hepatopatas. Os BDZ são classificados, de acordo com sua meia-vida plasmática, como sendo de ação muito curta, curta, intermediária e longa. Apesar dessa divisão, sabe-se hoje que o grau de afinidade da substância pelo receptor benzodiazepínico também interfere na duração da ação. A tabela 1 apresenta a dose-equivalência dos principais benzodiazepínicos, bem como os principais parâmetros terapêuticos dessa classe. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Parâmetros Terapêuticos dos Benzodiazepínicos BZD (meia-vida) Meia-vida (h) Ligação proteica (%) Dose terapêutica (mg) Dose equivalência. (diazepam 10 mg) Muito Curta Midazolam 1,5 – 2,5 15 mg Curta Alprazolam 6 – 20 0,75 – 4 1 mg Bromazepam 12 70 1,5 – 18 6 mg Lorazepam 9 – 22 85 2 – 6 2 mg Intermediária Clordiazepóxido 10 – 29 93 15 – 100 25 mg Clonazepam 19 – 42 1 – 3 2 mg Diazepam 14 – 61 98 4 – 40 10 mg Nitrazepam 16 – 48 5 – 10 10 mg Propriedades farmacológicas Os BDZs possuem cinco propriedades farmacológicas. São sedativos, hipnóticos, ansiolíticos, relaxantes musculares e anticonvulsivantes 8(D). Apesar de presentes em qualquer tipo de BDZ, algumas propriedades são mais notórias em um do que em outro. O midazolam é um BDZ com propriedades eminentemente sedativa-hipnótica. Já o alprazolam é mais ansiolítico e menos sedativo. Mecanismo de ação As Benzodiazepinas exercem efeito na neurotransmissão do prosencéfalo, mediada pelo GABA. Um dos mais importantes sistemas de inibição da neurotransmissão no cérebro é mediada pelos receptores GABA-A e Canais do Íon Cloro: diminui a excitabilidade, produzindo efeito “calmante” em muitas funções cerebrais. Benzodiazepinas facilitam a ligação GABA. Ação agonística no receptor GABA pode produzir efeitos sedativo-hipnótico e propriedades anestésicas. Efeitos: 1) Ansiolítico: em doses baixas, os BZD são ansiolíticos > aumenta a transmissão Gabaérgica nos neurônios via subunidade α2 nos receptores GABAA, inibindo os circuitos neuronais no Sistema límbico do cérebro. 2) Sedativo/Hipnótico: todos os BZD tem propriedades sedativa e calmante, e alguns podem produzir hipnose (sono artificial) em doses altas. Os efeitos hipnóticos são mediados pelos receptores α1-GABA. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 3) Amnésia anterógrada: prejuízo temporário da memória com o uso de BZD também é mediado pelos receptores α1-GABAA. A habilidade em aprender e e formar nova memória também está prejudicada. 4) Anticonvulsivante: vários BZD possuem propriedades anticonvulsivante. Este efeito é parcialmente, mas não completamente, mediado pelos receptors α1- GABAA. 5) Relaxante Muscular: em altas doses, os BZD relaxam a espasticidade da musculatura esquelética, provavelmente devido ao aumento da inibição pré- sináptica na medulla espinhal, onde há grande quantidade de receptores α2 GABA. Efeitos colaterais Apesar de geralmente bem tolerados, os BDZs podem apresentar efeitos colaterais (quadro 1), principalmente nos primeiros dias 9(D). Desse modo, os pacientes devem ser orientados a não realizarem tarefas capazes de expô-los a acidentes, tais como conduzir automóveis ou operar máquinas. ➔ Sonolência excessiva diurna (“ressaca”) ➔ Piora da coordenação motora fina; ➔ Piora da memória (amnésia anterógrada); ➔ Tontura, zumbidos; ➔ Quedas e fraturas; ➔ Reação Paradoxal: Consiste de excitação, agressividade e desinibição, ocorre mais frequentemente em crianças, idosos e em deficientes mentais 9(D); ➔ Anestesia emocional – indiferença afetiva a eventos da vida 10(D); ➔ Idosos: maior risco de interação medicamentosa, piora dos desempenho psicomotor e cognitivo (reversível), quedas e risco de acidentes no trânsito; ➔ Risco de Dependência 50% dos que usaram por mais de um ano chegaram a usar por 5 a 10 anos 10(D); Precauções, custos e riscos com o uso de benzodiazepínicos Ao escolher um tratamento com benzodiazepínicos deve-se pensar também nas complicações potenciais, tais como efeitos colaterais, risco de dependência e custos sociais. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Problema 2 Avaliação do Estado de Consciência Consciência é definida como a capacidade do indivíduo de reconhecer a si mesmo e aos estímulos do ambiente. As alterações da consciência podem se dar no estado de alerta ou nível de consciência ou no conteúdo da consciência, que englobariam as funções mentais e cognitivas do indivíduo. As alterações do nível de consciência podem variar entre dois extremos, desde uma desorientação têmporo-espacial até um estado de coma profundo. Coma seria definido como o estado de inconsciência de si mesmo e do ambiente, mesmo após estímulos de diversas modalidades e intensidades, em que o paciente permanece de olhos fechados. Estados intermediários de alteração da consciência podem anteceder a instalação do quadro e precisam ser reconhecidos. A sonolência ou letargia é considerada um estado de diminuição do nível de consciência em que o paciente consegue ser acordado com estímulos brandos3. O estupor é considerado um estado de sonolência mais profunda em que o indivíduo precisa receber estímulos vigorosos e repetidos para despertar. Entre os estados que levam a alteração do conteúdo da consciência encontra-se o delirium. Caracteriza-se por desorientação, déficit de atenção, sensação de medo, irritabilidade e alterações da percepção de estímulos sensoriais, como as alucinações visuais. As alterações são mais evidentes no conteúdo da consciência, embora os pacientes podem inverter o seu ciclo sono-vigília e alternar períodos de alerta e agitação com períodos de sonolência. A demência seria caracterizada como um quadro de perda permanente e progressiva, em geral, evoluindo em meses a anos, das funções cognitivas, sem alteração do estado de alerta ou nível de consciência. Alguns estados comportamentais podem ser algumas vezes confundidos com o coma. O estado vegetativo persistente ou síndrome acognitiva é descrito como um estado que pode emergir em pacientes que sofreram lesões graves ao sistema nervoso central, muitas vezes ficando em coma por algum período, em que há um retorno do estado de alerta, mas o paciente permanece com uma incapacidade de reagir ou interagir com estímulos ambientais. Há retorno do padrão de sono-vigília e manutenção das funções vegetativas, mas com quase completa ausência de funções cognitivas. Outros termos têm sido utilizados para exprimir comportamentos semelhantes como coma vigil, síndrome apálica, coma alfa, morte neocotical ou cerebral. Alguns autores têm utilizado termos como estado minimamente consciente, para os pacientes que recuperam algumas Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 funções cognitivas, como a habilidade de seguir comandos simples, presença de gestos ou respostas tipo sim ou não ou verbalização ininteligível. A abulia é um comportamento em que há uma grave apatia com diminuição ou ausência de comportamento emocional ou mental, em que o paciente nem fala ou se movimenta espontaneamente, embora esteja alerta e reconheça estímulos do ambiente. Geralmente ocorre em pacientes com lesões frontais bilaterais. A catatonia é um estado em que o indivíduo pode ficar mudo, e com diminuição acentuada da atividade motora, geralmente associado a quadros psiquiátricos. A síndrome de Locked-in (estado de deaferentação) descreve um quadro em que ocorre lesão de fibras descendentes supranucleares e piramidais (fibras cortico-nuclearese cortico-espinhais) em que o paciente apresenta incapacidade de movimentação dos membros, afonia, disfagia e limitação da movimentação horizontal dos olhos. Esses pacientes estão acordados e algumas vezes conseguem se comunicar através de piscamentos, evidenciando que não houve alteração da consciência. Geralmente essa síndrome ocorre em pacientes com trombose da artéria basilar e infarto isquêmico da base da ponte e deve ser diferenciada do coma. Quadros que podem se assemelhar são polineuropatias agudas, miastenia gravis e uso de bloqueadores neuromusculares. Morte encefálica ocorre quando o dano encefálico é tão extenso que não há potencial para recuperação estrutural e funcional do encéfalo e o mesmo não pode manter a homeostase interna (funções cardiovasculares, respiratórias, gastrointestinais e controle da temperatura corpórea). Embora haja métodos artificiais para preservação de órgãos periféricos (medidas de suporte cardiovascular e ventilação mecânica), um corpo em morte encefálica desenvolve falência cardiovascular em alguns dias, raramente em algumas semanas, apesar do mais meticuloso cuidado intensivo. O que separa, pois o estado de coma do diagnóstico de morte encefálica é a irreversibilidade do último, com repercussões sistêmicas sobre a homeostase de órgãos vitais, baseadas em danos permanentes estruturais focais ou difusos no encéfalo. Fisiopatologia As estruturas capazes de manter o indivíduo alerta ou desperto, estão localizados na formação reticular e outras estruturas entre a região pontomesencefálica e o diencéfalo (tálamo e hipotálamo), chamada de sistema ativador reticular ascendente (SARA)1. Lesões nestas estruturas ou que acometam os hemisférios cerebrais de forma difusa ou multifocal podem levar a alterações do nível de consciência ou até mesmo o coma. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Podemos dividir as possíveis causas que podem levar a alterações do nível de consciência ou coma como: alterações simétricas, não estruturais; alterações simétricas estruturais; alterações assimétricas, estruturais. Entre as alterações simétricas e não estruturais (difusas) podemos incluir intoxicações (chumbo, tálio, metanol, monóxido de carbono), uso de drogas (álcool, sedativos, barbitúricos, anfetaminas), distúrbios metabólicos (hiponatremia, hipernatremia, hipoxia, hipercapnia, hipoglicemia, hiperglicemia, hipercalcemia, hipocalcemia, hipertermia, hipotermia, uremia, encefalopatia hepática e outros), infecções (meningite, encefalite), quadros psiquiátricos e outros. As alterações estruturais (focais) podem ser divididas em supratentoriais e infratentoriais. As lesões estruturais e simétricas incluem: supratentorial – oclusão bilateral da carótida interna, oclusão da artéria cerebral anterior bilateral, hemorragia subaracnóidea, hidrocefalia e infratentorial – oclusão da artéria basilar, tumor de tronco, hemorragia pontina. Entre as alterações estruturais assimétricas estão: supratentoriais – tumor unilateral hemisférico com herniação, hemorragia subdural bilateral, sangramento parenquimatoso (tálamo) e outros e infratentoriais – infarto ou hemorragia de tronco encefálico. Abordagem diagnóstica O manuseio inicial do paciente em coma deve enfatizar os cuidados básicos para manter uma via aérea e ventilação adequada, estabilidade hemodinâmica e outras medidas para minimizar os danos ao encéfalo e a outros órgãos vitais. Devemos excluir causas que precisem de abordagem cirúrgica de urgência e as causas médicas que precisem de tratamento imediato. A identificação da causa do coma deve se iniciar pela coleta de informações com familiares e pessoas que possam ter presenciado a evolução clínica do paciente. É muito importante obter informações com relação à forma de instalação e evolução do quadro, possível uso de drogas ou substâncias tóxicas, presença de febre, história de trauma, doenças prévias e antecedentes psiquiátricos. O exame clínico geral deve buscar indícios de condições sistêmicas que possam levar a alterações do nível de consciência. Devem-se obter os sinais vitais, pressão arterial, pulso, frequência respiratória, temperatura, e nunca esquecer de obter uma glicemia capilar, já que a hipoglicemia uma vez identificada deve ser prontamente revertida com a infusão de glicose a 50% para evitar danos irreversíveis ao encéfalo. O exame do sistema cardiovascular, pulmonar, gastrointestinal, pele e outros sistemas podem fornecer dados importantes quanto à etiologia do coma. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 O objetivo do exame neurológico no coma é ajudar na determinação da causa do coma, ter um parâmetro para seguimento evolutivo e para ajudar na determinação do prognóstico do paciente. Entre os dados do exame neurológico que são mais importantes para a localização e prognóstico estão: ➔ Nível de consciência; ➔ Padrão respiratório; ➔ Tamanho e resposta pupilar a luz; ➔ Motricidade ocular espontânea ou reflexa e ➔ Resposta motora esquelética. Nível de Consciência A avaliação do nível de consciência deve englobar uma descrição do estado de alerta do paciente, em resposta a estímulos verbais e dolorosos. O objetivo é determinar o grau de alteração do nível de consciência, e ter um parâmetro clínico evolutivo e prognóstico. Deve ser feita de forma seriada e seguindo critérios semelhantes entre os examinadores para efeito comparativo. A escala de coma de Glasgow é uma escala padronizada utilizada para avaliação do nível de consciência em pacientes vítimas de traumatismo craniencefálico. Consiste em uma tabela de escores que pode variar entre: ➔ 3 (ausência de abertura ocular, da resposta verbal e da movimentação de extremidades, após estímulos dolorosos) ➔ 15 (sem alteração do nível de consciência). Os parâmetros avaliados são ➔ A abertura ocular (escore de 1-4), ➔ Padrão de resposta motora (escore de 1-6) ➔ Padrão de resposta verbal (escore de 1-5). Os estudos têm mostrado que, para que a pontuação seja confiável, os profissionais precisam completar a pontuação com consistência ao avaliar os efeitos do tratamento clínico. O profissional precisa lembrar que a escala é apenas um parâmetro de avaliação; entretanto, até com suas limitações, ela tem dado uma linguagem comum para definir o estado da lesão cerebral. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 A escala de coma de Jouvet utiliza como parâmetros os dados relacionados com: ➔ Perceptividade (P1-P5 – variando de lúcido a com ausência de piscamento à ameaça), ➔ Reatividade inespecífico (R1-R3 – resposta a estímulos verbais), ➔ Reatividade específica à dor (D1-D4 – resposta a dor) e ➔ Reatividade autonômica (V1-V2 – presença de sintomas autonômicos). É ideal para acompanhamento de pacientes em recuperação funcional após quadros neurológicos graves. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Padrão Respiratório A respiração normal depende da integração de dois componentes: o centro respiratório, localizado no tronco encefálico entre a ponte e a junção bulbo-cervical, responsável pela regulação da oxigenação e do balanço ácido-básico; e o componente prosencefálico que regula os aspectos comportamentais, relacionados, por exemplo, a produção da fala. As informações integradas nesses dois sistemas influenciam, através de fibras descendentes, os motoneurônios espinhais relacionados com os músculos da respiração. Nos pacientes em coma, vários padrões respiratórios foram descritos e podem nosauxiliar no diagnóstico topográfico da lesão. Entre eles podemos incluir: ➔ Respiração do tipo Cheyne-Stokes, ➔ Hiperventilação neurogência central, ➔ Apnêustica, ➔ Salvas (“cluster”). ➔ Atáxica O padrão do tipo Cheyne-Stokes consiste na oscilação lenta entre a hiperventilação e hipoventilação, intercalados por períodos de apnéia. Após um período de apnéia, ocorre um aumento gradual da amplitude do movimento respiratório e hiperventilação (em crescendo) até atingir um pico, seguido por um período de diminuição da amplitude respiratória e hipoventilação (em decrescendo). Pode ser encontrada em pacientes com lesões hemisféricas bilaterais ou insultos diencefálicos, bem como, em lesões bilaterais entre o prosencéfalo e a região superior da ponte. Os pacientes com insuficiência cardíaca grave, devido ao prolongado tempo de trânsito circulatório, podem apresentar esse padrão respiratório e devem ser diferenciados apropriadamente. A respiração do tipo neurogênica central é caracterizada por um quadro de hiperventilação rápida e sustentada, em geral com frequência respiratória entre 40 e 70 por minuto, observada em pacientes com lesões do tegumento pontino central, ventral ao aqueduto ou ao quarto ventrículo. Deve-se ser diferenciada da hiperventilação reativa secundária a alterações metabólicas da hipoxemia devido a comprometimento pulmonar. A respiração apnêustica consiste em uma respiração profunda com pausa de 2 a 3 segundos no final da inspiração. Pode ser observado em lesões na região dorso-medial da metade inferior da ponte. Em geral, associada a infarto pontino causado por trombose da artéria basilar. A respiração do tipo em salvas (“cluster”) caracteriza-se por movimentos respiratórios periódicos de amplitude e frequência irregulares, intercalados por pausas Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 respiratórias. Pode ser observada em pacientes com lesões na porção inferior da ponte e superior do bulbo. Tamanho pupilar e reatividade a luz O tamanho e reatividade pupilar são dependentes da ação dos neurônios simpáticos e parassimpáticos que inervam os músculos dilatadores e constrictores da pupila. O sistema simpático estimula a contração dos músculos dilatadores da pupila, determinando midríase e o sistema parassimpático a contração dos músculos constrictores da pupila, levando a miose. Em repouso, há uma ação tônica contínua tanto do sistema simpático e parassimpático. Se houver comprometimento de uma das vias simpática ou parassimpática, o efeito no tamanho da pupila, miose ou midríase, dependerá da ação do sistema menos acometido ou intacto. Portanto, lesões em neurônios da via simpática levam a miose e da via parassimpática a midríase. A via simpática pupilo-dilatadora tem origem no hipotálamo e apresenta fibras descendentes que atravessam todo o tronco encefálico até a coluna intermédio-lateral da medula espinhal torácica. Fibras pré-ganglionares simpáticas deixam a medula espinhal e fazem sinapse no gânglio cervical superior. Fibras pós-ganglionares simpáticas, através do nervo nasociliar, inervam os músculos pupilo-dilatadores. A via parassimpática aferente inicia-se nas células ganglionares retinianas e segue através do nervo e trato óptico até chegarem na região pré-tectal. A via aferente manda informações para os núcleos pré-tectais bilateralmente, que estimulam os neurônios localizados no núcleo de Edinger-Westphal correspondentes. A via eferente segue através do nervo óculo-motor a partir do núcleo de EdingerWestphal localizado no mesencéfalo, e vai inervar os músculos pupilo-constrictores. O reflexo pupilar consiste na contração pupilar após estímulo luminoso, através da via parassimpática. Como as áreas relacionadas ao controle da consciência encontram-se adjacentes a essas vias, as alterações pupilares podem nos auxiliar na diferenciação e localização das possíveis causas de coma. Lesões hipotalâmicas, principalmente na região posterior e ventrolateral, podem produzir constrição pupilar ipslateral, geralmente associado com ptose e anidrose (Síndrome de Horner). Lesões talâmicas podem levar a pupilas pequenas e reativas, chamadas de pupilas diencefálicas. Lesões mesencefálicas podem produzir três tipos de alterações pupilares dependendo da localização da lesão: lesões nas regiões tectais dorsais, que interrompem a reação pupilar à luz, levando a pupilas médias ou pouco dilatadas (5 a 6mm), fi xas e com preservação do reflexo de acomodação. Pode ocorrer flutuação do tamanho pupilar Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 (hippus) e há manutenção do reflexo cílioespinhal; lesões nucleares mesencefálicas, geralmente comprometem tanto a via simpática quanto parassimpática, levando a pupilas médio-fixas (4 a 5 mm), geralmente pouco irregular, geralmente relacionadas a herniação transtentorial; lesões do III nervo craniano bilateral, levam a midríase paralítica, geralmente relacionada a herniação uncal. Lesões no tegumento pontino interrompem as vias descendentes simpáticas levando a miose bilateral com preservação do refl exo pupilar a luz. Pupilas puntiformes devido a hemorragias pontinas podem resultar da lesão das vias simpáticas e irritação das vias parassimpáticos. Nos pacientes em coma relacionados a alterações tóxico-metabólicas em geral as pupilas são pequenas e reativas à luz. As ações de drogas sejam locais ou sistêmicas, podem levar a alterações pupilares devido ao efeito dessas sobre as vias simpáticas ou parassimpáticas. As drogas anticolinérgicas, como atropina ou escopolamina, podem levar a dilatação pupilar. Opiáceos (heroína e morfi na) podem levar a miose, semelhante à hemorragia pontina. Barbitúricos podem determinar pupilas fixas. Os dados de história clínica e outros dados do exame neurológico podem nos auxiliar na diferenciação desses casos. Motricidade ocular A motricidade ocular depende da integridade de estruturas localizadas no cérebro, cerebelo e tronco cerebral. Como no paciente em coma não podemos avaliar a motricidade ocular voluntária, devemos avaliar a integridade das vias reflexas localizadas no tronco cerebral. A ausência de alterações na motricidade ocular significa que a região localizada entre os núcleos vestibulares na junção bulbo-pontina até os núcleos óculo- motores mesencefálicos estão intactos. No doente em coma devemos avaliar três aspectos com relação a motricidade ocular: ➔ Olhar primário em repouso, para avaliar a presença de desvios; ➔ Observar a presença de movimentos oculares espontâneos; ➔ Testar os movimentos oculares reflexos. A presença de desvios na posição de repouso pode nos trazer indícios de paralisias de nervos cranianos, em geral quando há um desvio desconjugado do olhar. Desvios conjugados do olhar lateral podem ser resultados de lesões desde o córtex até a formação reticular parapontina contralateral. Desvios desconjugados do olhar lateral podem ser reflexo de paralisia do nervo abducente, óculo-motor ou oftalmoplegia internuclear. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 A presença de desvio dos olhos para baixo pode significar lesões do tronco encefálico, como a compressão do tecto mesencefálico. Lesões talâmicas e subtalâmicas podem levar tanto a desvios conjugado dos olhos para cima quanto para baixo. Outras condições que podem levar a desvio dos olhos para cima são sono, crise epilética, síncope, apnéia da respiração de Cheyne-Stokes, hemorragia no vérmis cerebelar, isquemia ou encefalite de tronco. O desvio Skew é um desvio em que um dos olhos está acima do outro (hipertrópico),geralmente correspondendo a lesões do tronco cerebral ou cerebelo. A observação de movimentos oculares espontâneos pode nos trazer informações importantes quanto à integridade das vias óculo-motoras e a topografia das lesões. A presença de movimentos do tipo “roving” (do tipo “perambulando”), que consiste em movimentos conjugados do olhar lateral, lentos e espontâneos, pode indicar a integridade das vias óculo-motoras e de suas conexões. A presença de nistagmo no doente comatoso pode ser indicativo de um foco irritativo ou epileptiforme supratentorial. Bobbing ocular é caracterizado por movimentos conjugados rápidos para baixo seguido de retorno lento para a posição primária, ocorrendo geralmente em lesões do tronco encefálico, especialmente na ponte. A avaliação dos movimentos oculares refl exos pode ser feito pela manobra óculo- cefálica ou pelo teste calórico (vestíbulo-ocular). A manobra óculo-cefálica é feita através da rotação lateral ou vertical da cabeça e a observação da movimentação ocular. Em pacientes com preservação desse reflexo, os olhos movem de forma conjugada e em direção oposta ao movimento da cabeça. O teste calórico consiste na estimulação das vias vestíbulo-oculares através do uso de água morna ou fria, aplicada ao conduto auditivo. A presença de água morna em contato com a membrana timpânica causa reversão do fluxo da endolinfa, o que causa um desvio do olhar conjugado de fase lenta para o lado oposto ao estimulado e um movimento rápido corretivo ou nistagmo em direção ao lado estimulado. O efeito com a água fria é o inverso. Através dessas manobras podemos observar a integridade das vias óculo-motoras no tronco cerebral e evidenciar a paralisia de nervos cranianos isolados. A ausência de resposta reflexa bilateral pode indicar a presença de lesões extensas no tronco encefálico. Resposta Motora O exame motor do paciente em coma é realizado inicialmente através da observação da postura em repouso, da presença de movimentação espontânea, ou da Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 resposta aos estímulos verbais ou dolorosos. A resposta motora deve ser analisada comparativamente com o lado oposto, e após estímulo simétrico nos quatro membros. Desvio da cabeça e dos olhos para um lado e hemiparesia contralateral indica lesão supratentorial, enquanto o desvio para o mesmo lado da hemiparesia pode indicar lesão de tronco cerebral. Rotação externa do membro inferior pode ser indicativa de hemiparesia. Ausência ou assimetria de resposta de um lado pode corresponder a hemiparesia e a ausência ou diminuição de resposta nos quatro membros pode corresponder a tetraparesia. Postura em decerebração consiste em extensão bilateral dos membros inferiores e adução e rotação interna dos ombros e extensão dos cotovelos e punhos. Geralmente significa lesão bilateral em mesencéfalo e ponte, mas pode ser evidenciado em encefalopatias metabólicas graves ou lesões supratentoriais envolvendo o trato cortiço- espinhal bilateral. Postura em decorticação consiste em flexão dos cotovelos e punhos, adução dos ombros e extensão dos membros inferiores. Apesar de não ser uma postura com boa correlação topográfica, geralmente indica lesões acima do tronco encefálico. Essas posturas anormais podem ser observadas espontaneamente ou após estímulos dolorosos, e sua presença pode sugerir uma síndrome de herniação do tronco encefálico. Outros movimentos que podem ser observados são: abalos tônico-clônicos nas crises epiléticas seja de forma focal ou generalizada; mioclonias, observado com frequência em quadros de encefalopatia pós-anóxia e outros comas metabólicos; respostas reflexas, como a resposta em tríplice fl exão dos membros inferiores e resposta plantar em extensão. Diagnóstico diferencial Alguns dados do exame neurológico podem nos ajudar a diferenciar o coma tóxico- metabólico do coma relacionado à doença estrutural: 1. Nível de consciência: pacientes com quadros de encefalopatia difusa tóxico- metabólica habitualmente apresentam alterações mais brandas nível de consciência e com tendência a oscilação entre melhora e piora do quadro. Em geral, pacientes com lesões estruturais tendem a apresentar piora ou estabilização do nível de consciência com a evolução do quadro; Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 2. Respiração: respiração profunda e frequente é mais encontrada em pacientes com encefalopatia metabólica, embora raramente pode ser causada por lesões pontinas ou por edema agudo de pulmão neurogênico secundária a lesão estrutural aguda; 3. Tamanho pupilar e reatividade pupilar: geralmente as pupilas de pacientes com alterações metabólicas são simétricas, pequenas e reativas a luz. Exceção nos quadros de intoxicação por drogas ou encefalopatia anóxica. A reatividade pupilar é um dos parâmetros de maior significado na diferenciação de causas de coma metabólicos e estruturais, já que esse reflexo, em geral, é resistente a insultos tóxico-metabólicos; 4. Motricidade ocular: assimetria ou desvios oculares são indicativos de dano estrutural. A presença de movimentos espontâneos oculares do tipo roving pode sugerir causa tóxico-metabólica. Os movimentos oculares reflexos geralmente estão intactos em pacientes com coma tóxico-metabólico; 5. Tônus muscular: assimetria de tônus pode ser indicativa de lesão estrutural; 6. Posturas: posturas em decerebração ou decorticação podem ser indicativos de lesão estrutural ou indicar síndrome de herniação de tronco cerebral. Mioclônias podem sugerir encefalopatias metabólicas ou pós-anóxica; 7. Fundo de olho: hemorragias vítreas ou subhialóideas podem indicar hemorragia subaracnóidea. Papiledema pode indicar hipertensão intra-craniana ou encefalopatia hipertensiva. Devemos ficar atentos para as causas estruturais que podem mimetizar alterações difusas tóxico-metabólicas como: hemorragia subaracnóidea, trombose venosa cerebral, hematoma subdural crônica bilateral e meningite. Causas tóxico-metabólicas também podem simular causas estruturais focais, como por exemplo, intoxicações por barbitúricos, hipoglicemia, encefalopatia hepática e hiponatremia. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Diagnóstico e conduta dos Estados Confusionais O estado confusional é caracterizado por obnubilação da consciência (diminuição do grau da clareza de consciência, prejuízo da concentração, lentidão da compreensão, dificuldade de percepção e elaboração das impressões sensoriais), desorientação temporal e espacial, delírio onírico (assemelha-se ao sonho: vivo, dramático, alucinações visuais de conteúdo, muitas vezes, aterrorizantes) e prejuízo da memória, geralmente com amnésia lacunar posterior à remissão desse estado psíquico-patológico. O termo “estado confusional” não pode ser considerado um transtorno mental unicamente de origem neurobiológica, mas é, muitas vezes, uma síndrome mental orgânica, principalmente classificado na forma clínica de delirium. Síndrome confusional ou delirium é um transtorno mental que é causado e mantido por determinadas doenças sistêmicas que afetam o cérebro, apenas um dos múltiplos órgãos acometidos pela doença, não sendo, portanto, considerado um transtorno mental primário. As manifestações psicopatológicas não são específicas em relação à doença somática que a causou. Bonhoeffer (1910) descreveu as formas de reações exógenas, nas quais o mesmo agente etiológico poderia produzir sintomas psíquicos diferentes, assim como quadros clínicos semelhantes originariam a partir de diferentes agentes etiológicos,demonstrando dessa forma a universalidade e independência da natureza da doença orgânica subjacente. Quadro Clínico O estado confusional é caracterizado pela presença de alteração aguda da consciência; tem início súbito, frequentemente com duração máxima de oito dias e remissão completa. A prevalência em hospitais gerais varia entre 10% e 30% em pacientes idosos; e entre 10% – 40% e 20% – 30% em unidades de terapia intensiva. ➔ A alteração mais importante do estado confusional é o comprometimento da consciência, às vezes não se manifestando com muita evidência. O nível da consciência pode flutuar durante o dia, com piora frequente à noite. Esse prejuízo é reconhecido pela desorientação temporal e espacial, alteração da consciência auto-psíquica e perplexidade frente ao ambiente e a pessoas do convívio familiar. O paciente apresenta diminuição da concentração, assim como das respostas solicitadas. Em decorrência das flutuações, é necessário o exame várias vezes ao dia, para detectar as alterações das funções psíquicas. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ A mudança do ciclo sono-vigília ocorre frequentemente. Alguns pacientes podem permanecer sonolentos durante o dia e com intensa agitação à noite, apresentando dificuldade para manutenção do sono. ➔ A memória apresenta-se prejudicada no registro de novas informações e para novos aprendizados, assim como no ato de recordar. ➔ A psicomotricidade apresenta-se alterada, com a presença de hiperatividade ou lentidão psicomotora. Algumas vezes, observa-se movimentos estereotipados ou mutismo. ➔ O humor encontra-se lábil e oscila com manifestações de ansiedade, irritabilidade e sintomas depressivos. ➔ O pensamento é lento e incoerente em sua forma, tendo conteúdo precariamente elaborado, ideias de referência e delírios persecutórios transitórios pouco estruturados. ➔ A sensopercepção pode estar comprometida, ocorrendo ilusões, distorções nas interpretações ou alucinações, sendo as mais comuns as visuais, as auditivas; as menos frequentes são as tácteis. ➔ A crítica em relação ao seu estado mórbido apresenta-se comprometida. As características clínicas do estado confusional variam entre os pacientes e estão relacionadas aos traços de personalidade. Há duas principais formas de manifestação psicopatológica: o paciente apresenta-se agitado e hiperativo, com alucinações e delírios; e o paciente apresenta-se com lentidão psicomotora e letargia, em que é menos provável a presença de delírios e alucinações. De acordo com a Classificação de Transtornos Mentais e do Comportamento da Classificação Internacional das Doenças – e 10ª edição (CID-10): em referência rápida,3 a categoria diagnóstica delirium (F05) é definida como uma síndrome cerebral orgânica etiologicamente não específica, caracterizada por perturbações simultâneas de consciência, atenção, percepção, pensamento, memória, comportamento psicomotor, emoção e ciclo sono-vigília. A duração é variável, e o grau varia de leve a muito grave. Essa categoria inclui: síndrome cerebral aguda ou subaguda; estado confusional (não alcoólico) agudo ou subagudo; síndrome psicoorgânica aguda ou subaguda; psicose Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 infecciosa aguda ou subaguda; e reação orgânica aguda ou subaguda; porém exclui: delirium tremens, induzido por álcool ou não especificado (F10.4). Etiologia Existem várias causas intra-cranianas e extra-cranianas relacionadas aos estados confusionais. As principais seguem-se: 1. Endócrinopatias: hipotiroidismo, hipertiroidismo, doença de Addison, síndrome de Cushing; 2. Metabólicas: hipoglicemia, hiperglicemia, distúrbios hidroeletrolíticos, insuficiência renal e hepática; Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 3. Intoxicações: álcool, cocaína, benzodiazepínicos, corticosteróides, anticolinérgicos, levodopa, metildopa, opiáceos, digoxina, diuréticos, anti- histaminícos, cannabis, estimulantes, solventes, mercúrio, chumbo, magnésio, monóxido de carbono; 4. Abstinências: álcool, benzodiazepínicos, barbitúricos, anfetamínicos; 5. Vasculares: insuficiência cardíaca, infarto do miocárdio, encefalopatia hipertensiva, arterites cerebrais, ataques isquêmicos transitórios. 6. Infecções: sífilis, tuberculose, Aids, toxoplasmose, citomegalovirus, mononucleose, broncopneumonia, endocardites, encefalites, infecções urinárias; 7. Lesões que ocupam espaço: tumores do SNC, metástases, hematoma subdural, aneurismas, abscessos cerebrais, hidrocefalia; 8. Nutricionais: deficiência de vitaminas (tiamina, cianocobalamina, ácido fólico, ácido nicotínico); 9. Doenças auto-imunes: lúpus eritematoso, vasculites; 10.Epilepsia: convulsões psicomotoras, estado pós-ictal; Não são todos os pacientes com as condições acima citadas que desenvolvem delirium. Alguns fatores favorecem o aparecimento do quadro em crianças, pacientes acima de 60 anos, pessoas com história anterior de abuso de substâncias psicoativas ou de traumatismo craniano, com privação de sono, e privação ou hiperestimulação sensorial. Exames Laboratoriais e complementares Para determinar a origem do quadro clínico de delirium, deve-se complementar a anamnese – exame físico, neurológico e psíquico – com os seguintes exames laboratoriais: 1. Hemograma completo; 2. Urina I; Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 3. Exames bioquímicos: sódio, potássio, magnésio, ureia, creatinina, glicose, cálcio, eletroforese de proteínas, função hepática, tireoidiana e adrenal; 4. VHS; 5. Screening para drogas; 6. Gasometria; 7. Pesquisas sorológicas: sífilis (VDRL, FTA-ABS), HIV; 8. T3; T4; TSH 9. Exame de líquor; 10.Eletroencefalograma; 11. Eletrocardiograma; 12.Tomografia computadorizada de crânio; 13.Ressonância magnética de crânio; 14.Raios X de tórax Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Diagnóstico diferencial 1 O diagnóstico diferencial deve ser feito principalmente com os seguintes transtornos mentais: 1. Esquizofrenia: o início tende a ser mais insidioso, embora a vivência delirante primária ou humor delirante apresentem, muitas vezes, uma certa perplexidade, não ocorre rebaixamento do nível de consciência, e a orientação temporal e espacial geralmente está conservada, exceto quando secundária à estruturação do delírio. As alucinações são geralmente auditivas, e as visuais, quando ocorrem, não têm o caráter onírico ou aterrorizante dos quadros confusionais. O quadro clínico é mais estável sem flutuações durante o dia; 2. Episódio maníaco: a fase inicial pode apresentar uma alteração da consciência, geralmente de forma menos intensa. O humor exaltado e irritável, assim como agitação psicomotora é mais estável, quando comparado aos estados confusionais; 3. Transtornos dissociativos: apresentam alteração da consciência, frequentemente com ausência de perplexidade perante à desorientação temporal, espacial e autopsíquica. As manifestações psicopatológicas não pioram durante a noite, e não ocorrem alterações do ciclo sono-vigília. Esses transtornos predominam em adultos jovens, com história mais evidente de conflitos nas relações interpessoais. Alguns quadros dissociativos são muito semelhantes aos estados confusionais de origem orgânica, sendo o diagnóstico somente elaborado após a confirmação da ausência de alterações sistêmicas, a partir do exame físico e exames complementares acima descritos. 4. Síndromes demenciais: o início do quadro clínico é insidioso, com prejuízo progressivoda memória de fixação, precedendo a outras alterações psicopatológicas. As alterações da consciência são mais raras e, geralmente, ocorrem nos estágios mais avançados. A demência de origem vascular apresenta estados confusionais com características clínicas de delirium. Diagnóstico Diferencial 2 Uso de álcool não patológico – O elemento principal do transtorno por uso de álcool é o uso de doses elevadas da substância que resultam em sofrimento significativo e repetido ou funcionamento prejudicado. Enquanto a maioria dos usuários às vezes Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 consome álcool o suficiente para se sentir intoxicado, apenas uma minoria (menos de 20%) chega a desenvolver o transtorno. Portanto, a ingestão de bebidas alcoólicas, mesmo que diariamente, em pequenas doses, e intoxicação eventual não fecham, por si sós, esse diagnóstico. Transtorno por uso de sedativos, hipnóticos ou ansiolíticos – Os sinais e sintomas do transtorno por uso de álcool são semelhantes aos observados no transtorno por uso de sedativos, hipnóticos ou ansiolíticos. Os dois devem ser distinguidos, entretanto, porque seu curso pode ser diferente, especialmente com relação a problemas médicos. Transtorno da conduta na infância e transtorno da personalidade antissocial na idade adulta – O transtorno por uso de álcool, em conjunto com outros transtornos por uso de substância, é observado na maioria dos indivíduos com personalidade antissocial e transtorno da conduta preexistente. Como esses diagnósticos estão associados a início precoce do transtorno por uso de álcool, bem como a pior prognóstico, é importante estabelecer ambas as condições. Tratamento O tratamento inicia-se com a identificação do agente etiológico e consequente correção da alteração sistêmica de base. Alguns procedimentos são necessários para atenuar o rebaixamento da consciência e criar condições de segurança até que a patologia somática seja estabilizada. Medidas Gerais 1. O paciente deve permanecer em um ambiente o mais tranquilo possível, com iluminação adequada e evitar o excesso de estímulos sensoriais; 2. A higiene e alimentação devem ser assistidas; 3. Os membros da equipe devem se identificar e explicar cada procedimento, além de evitar mudanças constantes desses profissionais. A presença de familiares, assim como informações sobre seu estado podem ser úteis para ajudar a diminuir a perplexidade do paciente, decorrente da dificuldade em reconhecer o ambiente; 4. Para reduzir a desorientação temporal e espacial deve-se repetir várias vezes local onde o paciente se encontra e a data exata. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Tratamento farmacológico 1. Utilização de sedativos deve ocorrer somente na presença de agitação psicomotora, agressividade ou intensa ansiedade; 2. Deve-se evitar as medicações que prejudiquem o rebaixamento de consciência; 3. A escolha também depende da etiologia do estado confusional, das interações com outras medicações utilizadas e das interferências nas alterações metabólicas. Os neurolépticos e benzodiazepínicos são os mais utilizados. Neurolépticos Os neurolépticos são frequentemente o tratamento farmacológico de escolha. O haloperidol, em baixas doses, é o mais indicado por apresentar baixos efeitos anticolinérgicos e pequena probabilidade de causar sedação ou hipotensão. A dose empregada para adultos é de 1 mg - 2 mg a cada 2 a 4 horas quando necessário; em idosos de 0,25 mg - 0,5 mg a cada 4 horas. Os neurolépticos com altos efeitos anticolinérgicos devem ser evitados (clorpromazina e thioridazina). Esses pacientes devem ser avaliados com eletrocardiograma, e observado o possível aumento do intervalo QTc. Os neurolépticos também podem desenvolver sintomas extrapiramidais, discinesia tardia e síndrome neuroléptica maligna. Nas doses indicadas, raramente ocorrem galactorréia, elevação das enzimas hepáticas e diminuição do limiar de convulsão. Os neurolépticos de segunda geração (olanzapina e risperidona) também têm sido utilizados. Benzodiazepínicos O uso de benzodiazepínicos geralmente é reservado aos quadros de abstinência de álcool ou de benzodiazepínicos. Em outras condições específicas, também pode ser útil o seu emprego, como anticonvulsivante ou quando a acatisia e outros efeitos anticolinérgicos são exacerbados, decorrente do uso do neuroléptico. Pacientes que somente toleram baixas doses de neurolépticos podem se beneficiar com a associação de benzodiazepínicos e neurolépticos. Os benzodiazepínicos de relativamente curta ação e com metabólitos não ativos são indicados (lorazepam 3 mg/dia - 6 mg/dia). Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Alguns efeitos colaterais podem decorrer de sua utilização, como sedação, amnésia, ataxia, inquietação paradoxal e insônia. Pacientes idosos têm maior probabilidade de apresentar esses efeitos. Algumas deficiências de vitaminas são descritas como causa de estados confusionais. Alguns pacientes apresentam deficiência de vitamina B, os quais deveriam receber reposição de multivitaminas. A eletroconvulsoterapia (ECT) pode ser indicada em alguns estados confusionais, principalmente os subagudos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Benzodiazepínicos Os benzodiazepínicos foram amplamente prescritos no tratamento dos transtornos ansiosos durante toda a década de setenta, como uma opção segura e de baixa toxicidade. A empolgação inicial deu lugar a preocupação com o consumo ao final da mesma década: pesquisadores começavam a detectar potencial de uso nocivo e risco de dependência entre os usuários de tais substâncias 1(D). Atualmente, os BDZs ainda possuem indicações precisas para controle da ansiedade e como tratamento adjuvante dos principais transtornos psiquiátricos, mas continuam sendo prescritos de modo indiscriminado, tanto por psiquiatras, quanto por médicos de outras especialidades 2(C). Estima-se que 50 milhões de pessoas façam uso diário de benzodiazepínicos. A maior prevalência encontra-se entre as mulheres acima de 50 anos, com problemas médicos e psiquiátricos crônicos. Os benzodiazepínicos são responsáveis por cerca de 50% de toda a prescrição psicotrópicos 3(B). Atualmente um em cada 10 adultos recebem prescrições de benzodiazepínicos a cada ano, a maioria desta feita por clínicos gerais 4(D). Estima-se que cada clínico tenha em sua lista 50 pacientes dependentes de benzodiazepínicos, metade destes gostariam de parar o uso. No entanto, 30% pensam que o uso é estimulado pelos médicos 5(D). A mortalidade nos dependentes de benzodiazepínicos é 3 maior que na população geral, no entanto, não se observa aumento significativo da mortalidade em pacientes dependentes de benzodiazepínicos quando comparados com pacientes com similar grau de morbidade. Farmacologia Metabolização e Meia-vida – As vias de metabolização e a meia-vida são aspectos importantes tanto para escolha terapêutica de um benzodiazepínico, quanto para o manejo de intercorrências como intoxicações e síndrome de abstinência. Os benzodiazepínico têm metabolização hepática 8(D). O clordiazepóxido é ostensivamente metabolizado. Já o lorazepam e o oxazepam são conjugados diretamente, demandando pouco trabalho hepático, e portanto, estão indicados para os idosos e hepatopatas. Os BDZ são classificados, de acordo com sua meia-vida plasmática, como sendo de ação muito curta, curta, intermediária e longa. Apesar dessa divisão,sabe-se hoje que o grau de afinidade da substância pelo receptor benzodiazepínico também interfere na duração da ação. A tabela 1 apresenta a dose-equivalência dos principais benzodiazepínicos, bem como os principais parâmetros terapêuticos dessa classe. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Propriedades farmacológicas Os BDZs possuem cinco propriedades farmacológicas. São sedativos, hipnóticos, ansiolíticos, relaxantes musculares e anticonvulsivantes 8(D). Apesar de presentes em qualquer tipo de BDZ, algumas propriedades são mais notórias em um do que em outro. O midazolam é um BDZ com propriedades eminentemente sedativa-hipnótica. Já o alprazolam é mais ansiolítico e menos sedativo. Mecanismo de ação As Benzodiazepinas exercem efeito na neurotransmissão do prosencéfalo, mediada pelo GABA. Um dos mais importantes sistemas de inibição da neurotransmissão no cérebro é mediada pelos receptores GABA-A e Canais do Íon Cloro: diminui a excitabilidade, produzindo efeito “calmante” em muitas funções cerebrais. Benzodiazepinas facilitam a ligação GABA. Ação agonística no receptor GABA pode produzir efeitos sedativo-hipnótico e propriedades anestésicas. Efeitos: 1. Ansiolítico: em doses baixas, os BZD são ansiolíticos > aumenta a transmissão Gabaérgica nos neurônios via subunidade α2 nos receptores GABAA, inibindo os circuitos neuronais no Sistema límbico do cérebro. 2. Sedativo/Hipnótico: todos os BZD tem propriedades sedativa e calmante, e alguns podem produzir hipnose (sono artificial) em doses altas. Os efeitos hipnóticos são mediados pelos receptores α1-GABA. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 3. Amnésia anterógrada: prejuízo temporário da memória com o uso de BZD também é mediado pelos receptores α1-GABA. A habilidade em aprender e e formar nova memória também está prejudicada. 4. Anticonvulsivante: vários BZD possuem propriedades anticonvulsivante. Este efeito é parcialmente, mas não completamente, mediado pelos receptores α1- GABA. 5. Relaxante Muscular: em altas doses, os BZD relaxam a espasticidade da musculatura esquelética, provavelmente devido ao aumento da inibição pré- sináptica na medula espinhal, onde há grande quantidade de receptores α2- GABA. Efeitos colaterais Apesar de geralmente bem tolerados, os BDZs podem apresentar efeitos colaterais (quadro 1), principalmente nos primeiros dias (D). Desse modo, os pacientes devem ser orientados a não realizarem tarefas capazes de expô-los a acidentes, tais como conduzir automóveis ou operar máquinas. ➔ Sonolência excessiva diurna (“ressaca”) ➔ Piora da coordenação motora fina; ➔ Piora da memória (amnésia anterógrada); ➔ Tontura, zumbidos; ➔ Quedas e fraturas; ➔ Reação Paradoxal: Consiste de excitação, agressividade e desinibição, ocorre mais frequentemente em crianças, idosos e em deficientes mentais 9(D); ➔ Anestesia emocional – indiferença afetiva a eventos da vida 10(D); ➔ Idosos: maior risco de interação medicamentosa, piora dos desempenho psicomotor e cognitivo (reversível), quedas e risco de acidentes no trânsito; ➔ Risco de Dependência 50% dos que usaram por mais de um ano chegaram a usar por 5 a 10 anos 10(D); Precauções, custos e riscos com o uso de benzodiazepínicos Ao escolher um tratamento com benzodiazepínicos deve-se pensar também nas complicações potenciais, tais como efeitos colaterais, risco de dependência e custos sociais. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Benzodiazepínicos (KAPLAN) Todos os benzodiazepínicos, com exceção de clorazepato, são absorvidos totalmente após a administração oral e atingem níveis séricos de pico em 30 minutos a 2 horas. O metabolismo de clorazepato no estômago o converte em desmetildiazepam, e só então ocorre sua completa absorção. A absorção, a obtenção de concentrações de pico e o início de ação são mais rápidos no caso de diazepam, lorazepam, alprazolam, triazolam e estazolam. O início rápido de efeitos é importante para pessoas que tomam uma dose única de um benzodiazepínico para acalmar uma explosão episódica de ansiedade ou para dormir rapidamente. Vários benzodiazepínicos são eficazes após injeção intravenosa (IV), mas apenas lorazepam e midazolam têm absorção rápida e confiável após administração intramuscular (IM). Diazepam, clordiazepóxido, clonazepam, clorazepato, flurazepam e quazepam têm meias-vidas plasmáticas de 30 horas a mais de 100 horas e, em termos técnicos, são descritos como benzodiazepínicos de ação prolongada. As meias-vidas plasmáticas desses compostos podem chegar a 200 horas em pessoas cujo metabolismo seja geneticamente lento. Visto que a obtenção de concentrações plasmáticas de estado de equilíbrio dos fármacos pode levar até 2 semanas, pode haver sintomas e sinais de toxicidade após apenas 7 a 10 dias de tratamento com uma dosagem que a princípio parecia estar na faixa terapêutica. De uma perspectiva clínica, a meia-vida em si não determina necessariamente a duração da ação terapêutica no caso da maioria dos benzodiazepínicos. O fato de todos eles serem lipossolúveis em graus variados significa que esses fármacos e seus metabólitos ativos se ligam a proteínas plasmáticas. A extensão dessa ligação é proporcional a sua lipossolubilidade. A quantidade das ligações de proteína varia de 70 a 99%. A distribuição, o início e o término da ação após uma dose única, portanto, são em grande parte determinados pela lipossolubilidade do benzodiazepínico, e não por sua meia-vida de eliminação. Preparados com alta lipossolubilidade, como diazepam e alprazolam, são logo absorvidos a partir do trato GI e distribuídos rapidamente ao cérebro Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 por difusão passiva junto a um gradiente de concentração, resultando em um rápido início de ação. Contudo, quando a concentração do medicamento aumenta no cérebro e se reduz na corrente sanguínea, o gradiente de concentração se inverte, e esses medicamentos deixam o cérebro com rapidez, resultando em uma interrupção repentina do efeito farmacológico. Fármacos com meias-vidas de eliminação mais longas, como diazepam, podem permanecer na corrente sanguínea durante um período bem mais longo do que sua ação farmacológica real nos receptores benzodiazepínicos, porque a concentração no cérebro se reduz rapidamente abaixo do nível necessário para um efeito perceptível. Em contrapartida, lorazepam, que tem meia-vida de eliminação mais curta do que o diazepam, mas que é menos lipossolúvel, apresenta início de ação mais lento após uma dose única, porque o fármaco é absorvido e penetra no cérebro com mais lentidão. Porém, a duração de ação após uma dose única permanece mais tempo, porque demora mais para que o lorazepam deixe o cérebro e os níveis cerebrais fiquem abaixo da concentração que produz o efeito. Na dosagem crônica, algumas dessas diferenças não são tão aparentes, porque os níveis cerebrais estão em equilíbrio, com níveis sanguíneos de estado de equilíbrio mais consistentes, mas doses adicionais ainda produzem uma ação mais rápida e mais breve com diazepam do que com lorazepam. Benzodiazepínicos são amplamente disseminados no tecido adiposo. Em consequência, medicamentos podem persistir no corpo após a descontinuação durante mais tempo do que o previsto a partir de suas meias-vidas de eliminação. Além disso, a meia-vida dinâmica (i.e., duração de ação sobre o receptor) pode durar mais tempo do que a meia-vida de eliminação. As vantagens de fármacos com meias-vidas longas sobre aqueles com meias-vidasbreves incluem dosagem menos frequente, menor variação na concentração plasmática e fenômenos de abstinência menos graves. Entre as desvantagens, destacam-se acumulação do fármaco, aumento do risco de prejuízo psicomotor durante o dia e aumento da sedação diurna. As meias-vidas de lorazepam, oxazepam, temazepam e estazolam estão entre 8 e 30 horas. O alprazolam tem meia-vida de 10 a 15 horas, e o triazolam apresenta a meia- vida mais breve (2 a 3 horas) de todos os benzodiazepínicos administrados por via oral. Acredita-se que insônia de rebote e amnésia anterógrada sejam problemas mais relacionados a fármacos com meia-vida breve do que aos com meia-vida longa. Uma vez que a administração de medicamentos com mais frequência do que a meia-vida de eliminação leva a seu acúmulo, fármacos como diazepam e flurazepam se acumulam com dosagem diária e, por fim, resultam em aumento da sedação diurna. Alguns benzodiazepínicos (p. ex., oxazepam) são conjugados diretamente por glicuronidação e são excretados, mas a maioria deles primeiro é oxidada por CYP 3A4 e Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 CYP 2C19, em geral para ativar metabólitos, os quais podem, então, ser hidroxilados em outro metabólito ativo. Por exemplo, o diazepam é oxidado em desmetildiazepam, que, por sua vez, é hidroxilado para produzir oxazepam. Esses produtos passam por glicuronidação em metabólitos inativos. Vários benzodiazepínicos (p. ex., diazepam, clordiazepóxido) têm o mesmo metabólito ativo (desmetildiazepam), cuja meia-vida de eliminação é superior a 120 horas. O flurazepam, um benzodiazepínico lipossolúvel usado como hipnótico que tem uma meia-vida de eliminação curta, tem um metabólito ativo (desalquilflurazepam) com uma meia-vida superior a 100 horas. Esse é mais um motivo pelo qual a duração de ação de um benzodiazepínico pode não corresponder à meia-vida do fármaco precursor. Zaleplona, zolpidem e eszopiclona são distintos estruturalmente e variam quanto a sua ligação às subunidades dos receptores de GABA. Benzodiazepínicos ativam todos os três locais de ligação entre GABA e benzodiazepínicos (GABA-BZ) dos receptores de GABAA, os quais abrem os canais de cloro e reduzem a taxa de disparos neuronais e musculares. Zolpidem, zaleplona e eszopiclona têm seletividade para determinadas subunidades do receptor de GABA, o que pode explicar seus efeitos sedativos seletivos e relativa ausência de efeitos anticonvulsivantes e de relaxamento muscular. Esses três fármacos são fácil e rapidamente absorvidos após administração oral, embora a absorção possa ser retardada em até 1 hora caso sejam tomados com alimentos. O zolpidem atinge concentrações plasmáticas de pico em 1,6 hora e tem meia- vida de 2,6 horas. A zaleplona as atinge em 1 hora, e sua meia-vida é de 1 hora. Caso administrados logo após uma refeição rica em gorduras ou pesada, o pico é retardado em cerca de 1 hora, reduzindo os efeitos de eszopiclona sobre início do sono. A fase terminal da meia-vida de eliminação é de aproximadamente 6 horas em adultos saudáveis. A ligação de eszopiclona a proteínas plasmáticas é fraca (52 a 59%). O metabolismo rápido e a ausência de metabólitos ativos de zolpidem, zaleplona e eszopiclona evitam a acumulação de concentrações plasmáticas, em comparação ao uso prolongado de benzodiazepínicos. Indicações Transtornos de ansiedade Transtorno de ansiedade generalizada – Benzodiazepínicos são de extrema eficácia para o alívio de ansiedade associada ao transtorno de ansiedade generalizada (TAG). A maioria das pessoas deve ser tratada durante um período predeterminado, específico e relativamente curto. Contudo, como o TAG é um transtorno crônico com Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 índice elevado de recorrência, alguns indivíduos podem precisar de tratamento de manutenção de longo prazo com benzodiazepínicos. Transtorno de pânico – Alprazolam e clonazepam, ambos benzodiazepínicos de alta potência, são medicamentos utilizados com frequência para transtorno de pânico com ou sem agorafobia. Embora ISRSs também sejam indicados para o tratamento desse transtorno, os benzodiazepínicos têm a vantagem de funcionamento rápido sem causar disfunção sexual significativa e ganho de peso. Porém, ISRSs ainda costumam ser preferidos, porque focalizam condições comórbidas comuns, como depressão ou transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Benzodiazepínicos e ISRSs podem ser iniciados em conjunto para tratar sintomas agudos de pânico; o uso do benzodiazepínico pode ser gradativamente reduzido após 3 a 4 semanas depois que os benefícios terapêuticos do ISRS tiverem início. Fobia social – O clonazepam provou ser um tratamento eficaz para fobia social. Além disso, vários outros benzodiazepínicos (p. ex., diazepam) foram usados como medicamentos adjuntos para esse tratamento. Outros transtornos de ansiedade – Benzodiazepínicos são usados como terapia adjunta para tratamento de transtorno de adaptação com ansiedade, ansiedade patológica associada a eventos de vida (p. ex., após um acidente), TOC e transtorno de estresse pós-traumático. Ansiedade associada a depressão – Pacientes deprimidos costumam sofrer ansiedade significativa, e fármacos antidepressivos inicialmente podem causar exacerbação desses sintomas. Por isso, benzodiazepínicos são indicados para o tratamento desse tipo de ansiedade. Transtornos bipolares tipo i e tipo II Clonazepam, lorazepam e alprazolam são eficazes no manejo de episódios de mania aguda e como adjuvantes à terapia de manutenção no lugar de antipsicóticos. Como um adjuvante de lítio ou lamotrigina, o clonazepam pode resultar em aumento do tempo entre ciclos e menos episódios depressivos. Benzodiazepínicos podem ajudar pacientes com transtorno bipolar a dormir melhor. Outras indicações psiquiátricas Clordiazepóxido e clorazepato são usados no manejo dos sintomas de abstinência de álcool. Os benzodiazepínicos (especialmente lorazepam IM) são utilizados no controle de agitação induzida por substância e agitação psicótica em pronto-socorro. Foram usados benzodiazepínicos em vez de amobarbital para entrevista com auxílio de fármaco. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Transtornos relacionados ao álcool O alcoolismo está entre os transtornos psiquiátricos mais comuns observados no mundo ocidental. Problemas relacionados ao álcool nos Estados Unidos contribuem para 2 milhões de ferimentos a cada ano, incluindo 22 mil mortes. Nos últimos anos, tem-se observado aumento de pesquisas clinicamente relevantes sobre abuso e dependência de álcool, incluindo informações sobre influências genéticas específicas, curso clínico dessas condições e o desenvolvimento de tratamentos novos e proveitosos. O álcool é uma droga potente que causa alterações tanto agudas quanto crônicas em quase todos os sistemas neuroquímicos. Dessa forma, o abuso de álcool pode produzir sintomas psicológicos temporários graves, incluindo depressão, ansiedade e psicoses. Em longo prazo, níveis cada vez maiores de consumo de álcool podem produzir tolerância, bem como adaptação do corpo tão intensa que a interrupção do uso pode precipitar uma síndrome de abstinência normalmente caracterizada por insônia, evidência da hiperatividade do sistema nervoso autônomo e ansiedade. Portanto, em uma avaliação adequada dos problemas de vida e sintomas psiquiátricos em um paciente, o profissional deve considerar a possibilidade de que a situação clínica reflete os efeitos do álcool. Epidemiologia Psiquiatras precisam estaratentos ao alcoolismo porque se trata de uma condição comum; intoxicação e abstinência são semelhantes a vários transtornos psiquiátricos maiores, e o indivíduo usual com alcoolismo não se encaixa em estereótipos (i.e., os chamados “cachaceiros que bebem até cair”). Prevalência do consumo – Em algum momento durante a vida, 90% da população nos Estados Unidos consome álcool, sendo que a maioria começa a ingeri-lo entre o início e a metade da adolescência (Tab. 20.2-1). Até o fim do ensino médio, 80% dos estudantes consomem álcool, e mais de 60% ficam intoxicados. Em qualquer faixa etária, 2 em cada 3 homens consomem álcool, com uma proporção de ingestão persistente de aproximadamente 1,3 homem para 1,0 mulher, sendo que a prevalência mais elevada de consumo de álcool vai da metade para o fim da adolescência, ou do fim da adolescência até a metade da faixa dos 20 anos. Homens e mulheres com educação superior e renda elevada têm mais chances de consumir álcool, e, entre as denominações religiosas, há maior proporção de judeus que o consomem, mas que apresentam os índices mais baixos de dependência da substância. Outras etnias, como irlandeses, têm índices mais elevados de problemas graves com álcool, mas também índices significativamente elevados de abstenção. Algumas estimativas demonstram que mais de 60% dos homens e mulheres em algumas tribos de índios norte-americanos e inuítes Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 foram dependentes de álcool em algum momento. Nos Estados Unidos, o adulto médio consome 8,3 litros de álcool absoluto por ano, uma redução em relação aos 10,2 litros per capita em 1981. O consumo de bebidas alcoólicas costuma ser considerado um hábito aceitável nos Estados Unidos. Cerca de 90% de todos os moradores desse país consumiram uma bebida alcoólica pelo menos uma vez na vida, e cerca de 51% de todos os adultos norte- americanos são usuários de álcool. Atrás de doenças cardíacas e câncer, transtornos relacionados ao álcool constituem o terceiro maior problema de saúde nos Estados Unidos atualmente. A cerveja responde por cerca de metade de todo o consumo de álcool; destilados, por cerca de um terço; e vinho, por cerca de um sexto. Aproximadamente 30 a 45% de todos os adultos nos Estados Unidos tiveram pelo menos um episódio temporário de problema relacionado ao álcool, geralmente um episódio amnésico induzido por álcool (p. ex., um apagão), condução de veículo motorizado em estado de embriaguez ou falta a aulas ou ao trabalho devido ao excesso de consumo. Cerca de 10% das mulheres e 20% dos homens satisfizeram os critérios diagnósticos para abuso de álcool durante a vida, e de 3 a 5% das mulheres e 10% dos homens satisfizeram os critérios para o diagnóstico mais grave de dependência de álcool durante a vida. Cerca de 200 mil mortes todo ano estão diretamente relacionadas ao abuso de álcool. As causas comuns de morte entre indivíduos com transtornos relacionados ao álcool são suicídio, câncer, doença cardíaca e doença hepática. Embora indivíduos envolvidos em acidentes automotivos letais nem sempre satisfaçam os critérios para um transtorno relacionado ao álcool, motoristas embriagados estão envolvidos em cerca de 50% de todas as mortes no trânsito, e essa porcentagem aumenta para em torno de 75% quando são considerados apenas acidentes com ocorrência tarde da noite. O uso de álcool e os transtornos relacionados ao álcool estão associados a cerca de 50% de todos os homicídios e 25% de todos os suicídios. O abuso de álcool reduz a expectativa de vida em cerca de 10 anos, e o álcool lidera o ranking de todas as substâncias em mortes relacionadas a esses agentes. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Efeitos do Álcool O termo álcool se refere a um grande grupo de moléculas orgânicas que têm um grupo de hidroxila (–OH) ligado a um átomo saturado de carbono. Álcool etílico, também denominado etanol, é a forma comum do álcool; às vezes referido como álcool potável, o álcool etílico é utilizado para ingestão. A fórmula química do etanol é CH3–CH2–OH. O paladar e os sabores de bebidas alcoólicas resultam dos métodos de elaboração, os quais originam diversos congêneres no produto final, incluindo metanol, butanol, aldeídos, fenóis, taninos e traços de diversos metais. Embora os congêneres possam conferir alguns efeitos psicoativos diferenciais nas diversas bebidas alcoólicas, essas diferenças são mínimas em comparação aos efeitos do próprio etanol. Considera- se uma única dose a quantidade de 12 g de etanol, que é o conteúdo de 355 mL de cerveja (teor de 3,6% de etanol nos Estados Unidos), um copo de 118 mL de vinho não fortificado, ou 30 a 45 mL de destilado com 40% de etanol (p. ex., uísque ou gim). Contudo, ao calcular a ingestão de álcool do paciente, o clínico deve estar ciente de que há variação no teor alcoólico de cervejas, as quais estão disponíveis em embalagens com quantidades diferentes, de que copos de vinho variam de 60 a 175 mL e de que coquetéis em alguns bares e na maioria das residências contêm de 60 a 90 mL de destilados. Ainda assim, ao usar o tamanho moderado de bebidas alcoólicas, o clínico pode estimar que uma dose de álcool eleve o nível de álcool no sangue de um homem de 68 kg em 15 a 20 mg/ dL, o que é aproximadamente a concentração de álcool que uma pessoa comum consegue metabolizar em 1 hora. Possíveis efeitos benéficos do álcool foram divulgados, especialmente por seus fabricantes e distribuidores de álcool. Destinou-se atenção principalmente para alguns dados epidemiológicos que sugerem que 1 ou 2 cálices de vinho tinto por dia reduzem a incidência de doenças cardiovasculares; esses achados, no entanto, são extremamente controversos. Absorção Aproximadamente 10% do álcool consumido é absorvido a partir do estômago e o restante a partir do intestino delgado. O auge da concentração de álcool no sangue é atingido após 30 a 90 minutos e normalmente entre 45 e 60 minutos, dependendo se o álcool foi ingerido com o estômago vazio (o que intensifica a absorção). O tempo até o pico de concentração sanguínea também depende do tempo que levou para o álcool ser consumido; a ingestão rápida reduz o tempo até o pico de concentração, e a ingestão lenta aumenta. A absorção é mais rápida com bebidas que contêm de 15 a 30% de álcool. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Há controvérsia sobre se a carbonação (p. ex., no champanha e em coquetéis com água gaseificada) intensifica a absorção do álcool. O corpo dispõe de mecanismos de proteção contra grandes quantidades de álcool. Por exemplo, se a concentração de álcool no estômago se torna elevada demais, o corpo secreta muco e a válvula pilórica se fecha. Essas ações reduzem a absorção e impedem que o álcool passe para o intestino delgado, onde não há obstáculos significativos para a absorção. Dessa forma, uma grande quantidade de álcool pode permanecer sem absorção no estômago durante horas. Ademais, piloroespasmo costuma resultar em náusea e vômito. Assim que o álcool é absorvido na circulação, ele é distribuído para todos os tecidos do corpo. Como ele se dissolve uniformemente na água corporal, tecidos contendo uma grande proporção de água recebem uma concentração elevada de álcool. Os efeitos intoxicantes são maiores quando a concentração de álcool no sangue aumenta do que quando se reduz (efeitos Mellanby). Por isso, a taxa de absorção influencia diretamente a resposta de intoxicação. Metabolismo Aproximadamente 90% do álcool absorvido é metabolizadopor meio de oxidação no fígado; os 10% restantes são excretados inalterados pelos rins e pulmões. A taxa de oxidação pelo fígado é constante e independe das exigências de energia do corpo. O corpo pode metabolizar cerca de 15 mg/dL por hora, com uma variação de 10 a 34 mg/dL por hora. Ou seja, uma pessoa comum oxida 22 mL de 40% de álcool em uma hora. Em indivíduos com história de consumo excessivo de álcool, a suprarregulação das enzimas necessárias resulta em rápido metabolismo da substância. O álcool é metabolizado por duas enzimas: álcool desidrogenase (ADH) e aldeído desidrogenase. A ADH catalisa a conversão de álcool em acetaldeído, que é um composto tóxico; a aldeído desidrogenase catalisa a conversão de acetaldeído em ácido acético. A aldeído desidrogenase é inibida por dissulfiram, frequentemente utilizado no tratamento de transtornos relacionados ao álcool. Alguns estudos demonstraram que mulheres apresentam uma concentração sanguínea de ADH menor do que homens, o que pode explicar a tendência de uma mulher ficar mais intoxicada que um homem após ingerir a mesma quantidade de álcool. A redução do funcionamento das enzimas metabolizadoras de álcool em alguns indivíduos asiáticos também pode levar a uma intoxicação mais fácil e a sintomas tóxicos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Efeitos sobre o cérebro Bioquímica – Em contraste com a maioria das outras substâncias de abuso com alvos receptores – como o receptor N-metil-D-aspartato (NMDA) de fenciclidina (PCP) –, não foi identificado nenhum alvo molecular como mediador para os efeitos do álcool. A antiga teoria sobre os efeitos bioquímicos do álcool é voltada para seus efeitos sobre as membranas dos neurônios. Dados apoiam a hipótese de que o álcool produz seus efeitos ao se intercalar nas membranas e, desse modo, aumentar a fluidez das membranas com o uso de curto prazo. Com o uso prolongado, no entanto, a teoria postula que as membranas se tornam rígidas ou endurecidas. A fluidez das membranas é essencial para o funcionamento normal dos receptores, dos canais iônicos e de outras proteínas funcionais ligadas a membranas. Em estudos recentes, pesquisadores tentaram identificar alvos moleculares específicos para os efeitos do álcool. Dedicou-se atenção aos efeitos do álcool em canais iônicos. Especificamente, estudos revelaram que atividades nos canais iônicos associadas aos receptores de acetilcolina nicotínica, serotonina 5- hidroxitriptamina3 (5-HT3) e GABA tipo A (GABAA) são intensificadas pelo álcool, enquanto atividades dos canais iônicos associadas aos receptores de glutamato e canais de cálcio disparados por voltagem são inibidas. Efeitos comportamentais – Como resultado final das atividades moleculares, o álcool funciona como depressor, assim como os barbitúricos e benzodiazepínicos, com os quais o álcool apresenta, parcialmente, tolerância cruzada e dependência cruzada. Em um nível de 0,05% de álcool no sangue, pensamento, discernimento e inibição são relaxados e às vezes perturbados. Em uma concentração de 0,1%, atos motores voluntários normalmente se tornam perceptivelmente desajeitados. Na maioria dos Estados Unidos, a intoxicação legal varia de 0,1 a 0,15% de álcool no sangue. Em 0,2%, a depressão da função de toda a área motora do cérebro pode ser medida, e as partes do cérebro que controlam o comportamento emocional também são afetadas. Em 0,3%, o indivíduo normalmente fica confuso ou entra em estupor; em 0,4 a 0,5%, entra em coma. Em níveis mais elevados, os centros primitivos do cérebro que controlam a respiração e a frequência cardíaca são afetados, e ocorre morte secundária a depressão respiratória direta ou a aspiração de vômito. Indivíduos com histórias antigas de abuso de álcool, no entanto, podem tolerar concentrações muito mais elevadas do que pessoas com baixo consumo de álcool; sua tolerância à substância pode causar a impressão errônea de que estão menos intoxicados do que de fato estão. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Efeitos no sono – Embora o álcool consumido à noite normalmente aumente a facilidade em adormecer (redução da latência do sono), também tem efeitos adversos sobre a arquitetura do sono. Especificamente, o uso de álcool está associado a diminuição do sono do movimento rápido dos olhos (sono REM ou sono com sonhos) e do sono profundo (estágio 4) e maior fragmentação do sono, com episódios mais frequentes e mais longos de vigília. Portanto, a noção de que ingerir álcool ajuda a dormir é um mito. Outros efeitos fisiológicos Fígado – Os principais efeitos adversos do uso de álcool estão relacionados a lesões no fígado. O uso de álcool, mesmo que de curta duração, como episódios semanais de aumento de consumo, pode resultar em acúmulo de gorduras e proteínas, as quais produzem a aparência de um fígado gorduroso, às vezes encontrado em exames físicos como um fígado aumentado (hepatomegalia). A associação entre a infiltração de gorduras no fígado e lesões hepáticas graves ainda é incerta. O uso de álcool, no entanto, está associado ao desenvolvimento de hepatite alcoólica e cirrose hepática. Sistema gastrintestinal – O consumo intenso de álcool em longo prazo está associado ao desenvolvimento de esofagite, gastrite, acloridria e úlceras gástricas. O desenvolvimento de varizes esofágicas pode acompanhar abuso de álcool particularmente intenso; a ruptura dessas varizes é uma emergência médica que costuma resultar em morte por hemorragia. Distúrbios do intestino delgado ocorrem eventualmente, e pancreatite, insuficiência pancreática e câncer pancreático também estão associados ao uso intenso da substância. A ingestão intensa de álcool pode interferir nos processos normais de digestão e absorção dos alimentos; como resultado, os alimentos consumidos são digeridos de forma inadequada. O abuso de álcool também parece inibir a capacidade do intestino de absorver diversos nutrientes, como vitaminas e aminoácidos. Esse efeito, em conjunto com hábitos alimentares com frequência inadequados dos indivíduos com transtornos relacionados ao álcool, pode causar graves deficiências vitamínicas, sobretudo das vitaminas do complexo B. Outros sistemas corporais – A ingestão significativa de álcool foi associada a aumento da pressão arterial, desregulação do metabolismo de lipoproteínas e triglicerídeos e aumento do risco de infarto do miocárdio e de doença cerebrovascular. Demonstrou-se que ele afeta o coração de indivíduos não alcoolistas que normalmente não ingerem álcool, aumentando a descarga cardíaca em repouso, a frequência cardíaca e o consumo de oxigênio do miocárdio. Evidências indicam que a ingestão de álcool pode Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 afetar de modo adverso o sistema hematopoiético e aumentar a incidência de câncer, especialmente na cabeça, no pescoço, no esôfago, no estômago, no fígado, no colo e no pulmão. Intoxicação aguda também pode estar associada a hipoglicemia, que, quando não identificada, pode ser responsável por parte das mortes súbitas de indivíduos intoxicados. Fraqueza muscular é outro efeito colateral do alcoolismo. Evidências recentes mostram que a ingestão de álcool aumenta a concentração sanguínea de estradiol em mulheres. O aumento de estradiol está correlacionado com o nível de álcool no sangue. Interações medicamentosas – As interações entre álcool e outras substâncias podem ser perigosas e até mesmo fatais. Determinadas substâncias, como álcool e fenobarbital, são metabolizadas pelo fígado, e seu uso prolongadopode levar à aceleração do metabolismo. Quando o indivíduo com transtorno relacionado ao álcool está sóbrio, esse metabolismo acelerado o deixa excepcionalmente tolerante a vários fármacos, como sedativos e hipnóticos; durante a intoxicação, no entanto, esses fármacos competem com o álcool pelos mesmos mecanismos de desintoxicação, e concentrações potencialmente tóxicas de todas as substâncias envolvidas podem se acumular no sangue. Os efeitos do álcool e de outros depressores do SNC costumam ser sinérgicos. Sedativos, hipnóticos e fármacos que proporcionam o alívio de dor, de náusea causada por movimento, de resfriados e de sintomas alérgicos devem ser usados com cautela por indivíduos com transtornos relacionados ao álcool. Narcóticos deprimem as áreas sensoriais do córtex cerebral e podem produzir analgesia, sedação, apatia, entorpecimento e sono; doses elevadas podem resultar em falência respiratória e morte. Aumentar a dosagem de fármacos sedativo-hipnóticos, como hidrato de cloral e benzodiazepínicos, especialmente quando combinados com álcool, produz uma gama de efeitos desde sedação, passando por prejuízo motor e intelectual, até estupor, coma e morte. Como sedativos e outros fármacos psicotrópicos podem potencializar os efeitos do álcool, deve-se instruir os pacientes sobre os perigos de se combinar depressores do SNC e álcool, sobretudo ao dirigir ou operar maquinário. Transtornos Transtorno por uso de álcool Diagnóstico e características clínicas – No DSM-5, todos os transtornos por uso de substância usam os mesmos critérios gerais para dependência e abuso (veja a Seção 20.1). Uma necessidade de uso diário de grandes quantidades de álcool para o Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 funcionamento adequado, um padrão regular de consumo intenso limitado a fins de semana e longos períodos de sobriedade intercalados por consumo compulsivo de ingestão intensa de álcool com duração de semanas ou meses são fortes indicativos da possibilidade de dependência e abuso de álcool. Os padrões de consumo costumam estar associados a determinados comportamentos: incapacidade de reduzir ou interromper o consumo; esforços repetidos para controlar ou reduzir o consumo excessivo mantendo-se abstêmio temporariamente ou para restringir a ingestão de álcool a determinados horários durante o dia; consumo compulsivo (permanecer intoxicado durante o dia por pelo menos dois dias); consumo eventual de um quinto de destilados (ou seu equivalente em vinho ou cerveja); períodos amnésticos referentes a eventos que ocorreram durante intoxicação (apagões); consumo continuado apesar de um distúrbio físico grave que o indivíduo sabe ser exacerbado pelo uso de álcool; e ingestão de álcool não potável, como combustível e produtos comerciais que contêm álcool. Além disso, indivíduos com dependência e abuso de álcool demonstram prejuízo no funcionamento social ou ocupacional devido ao uso da substância (p. ex., violência durante intoxicação, ausência no trabalho, perda do emprego), dificuldades legais (p. ex., prisão por embriaguez e acidentes de trânsito causados por embriaguez) e discussões ou dificuldades com familiares ou amigos sobre o consumo excessivo de álcool. Subtipos de dependência de álcool – Diversos pesquisadores tentaram dividir a dependência de álcool em subtipos baseados principalmente em características fenomenológicas. Uma classificação recente indica: ➔ Dependência de álcool tipo A se caracteriza por início tardio, poucos fatores de risco na infância, dependência relativamente leve, poucos problemas relacionados ao álcool e pouca psicopatologia. ➔ Dependência de álcool tipo B se caracteriza por muitos fatores de risco na infância, dependência grave, início precoce de problemas relacionados ao álcool, muita psicopatologia, história familiar de abuso de álcool, abuso frequente de várias substâncias, longa história de tratamento para o uso de álcool e várias situações de vida estressantes graves. Alguns pesquisadores descobriram que indivíduos do tipo A que são dependentes de álcool podem responder a psicoterapias, enquanto indivíduos do tipo B que são dependentes de álcool podem melhorar com treinamento de habilidades de enfrentamento. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Outras tentativas de classificar subtipos de dependência de álcool receberam reconhecimento razoavelmente extenso na literatura especializada. Um grupo de pesquisadores propôs três subtipos: ➔ Consumidores problemáticos em estágio inicial, que ainda não desenvolveram síndromes completas de dependência de álcool; ➔ Consumidores afiliados, propensos a beber diariamente em quantidades moderadas em contextos sociais; ➔ Consumidores esquizoides isolados, que apresentam dependência grave e ingerem álcool em ondas compulsivas e frequentemente sozinhos. Outro pesquisador descreveu dependência de álcool gama, a qual se acredita ser comum nos Estados Unidos e representa a dependência de álcool observada entre indivíduos que são ativos nos Alcoólicos Anônimos (AA). Essa variante está voltada para problemas de controle em que os indivíduos são incapazes de interromper o consumo de álcool uma vez que ele foi iniciado. Quando o consumo é interrompido como resultado de deterioração da saúde ou dificuldade financeira, esses indivíduos conseguem se tornar abstêmios durante períodos variados de tempo. Na dependência de álcool delta, talvez mais comum na Europa do que nos Estados Unidos, indivíduos que são dependentes de álcool precisam ingerir uma determinada quantidade todos os dias, mas não estão cientes de falta de controle. O transtorno por uso de álcool pode não ser descoberto até que o indivíduo precise interromper o consumo por algum motivo e passe a exibir sintomas de abstinência. Outro pesquisador sugeriu: ➔ Tipo I, uma variedade de dependência de álcool exclusivamente masculina, caracterizada por início tardio, mais evidências de dependência psicológica do que física e a presença de sentimentos de culpa. ➔ Tipo II, dependência de álcool exclusivamente masculina, caracteriza-se pelo início muito precoce, busca espontânea por álcool para consumo e um conjunto de comportamentos socialmente perturbadores durante a intoxicação. Outros quatro subtipos de alcoolismo também foram postulados em um estudo: ➔ Alcoolismo antissocial, em geral com predominância em homens, com prognóstico desfavorável, início precoce de problemas relacionados ao álcool e íntima associação com o transtorno da personalidade antissocial. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Alcoolismo cumulativo de desenvolvimento, em que a tendência primária para abuso de álcool é exacerbada com o tempo, ao passo que expectativas culturais propiciam mais oportunidades para a ingestão de álcool. ➔ Alcoolismo de afeto negativo, mais comum em mulheres do que em homens; conforme essa hipótese, mulheres têm propensão a usar o álcool para regulação do humor e para facilitar relacionamentos sociais. ➔ Alcoolismo limitado de desenvolvimento, com períodos frequentes de consumo de grandes quantidades de álcool; esses períodos se tornam menos frequentes com a idade e com o aumento das expectativas da sociedade quanto ao trabalho e à família. Intoxicação por álcool Os critérios diagnósticos do DSM-5 para intoxicação por álcool (também denominada embriaguez simples) são baseados em evidências de ingestão recente de etanol, comportamento desadaptativo e pelo menos um dos vários correlatos fisiológicos possíveis de intoxicação (Tab. 20.2-3). Emuma abordagem conservadora para identificar níveis sanguíneos com probabilidade de ter efeitos significativos sobre a capacidade de dirigir, a definição legal de intoxicação, na maioria dos Estados Unidos, exige uma concentração sanguínea de 80 ou 100 mg de etanol por decilitro de sangue (mg/dL), o que equivale a 0,08 a 0,10 g/dL. O esquema a seguir oferece um cálculo aproximado dos níveis de prejuízo que provavelmente podem ser observados em diferentes concentrações de álcool no sangue, válido para a maioria das pessoas. Evidências de alterações comportamentais, lentidão gradual do desempenho motor e redução da capacidade de pensar claramente ocorrem em doses ainda baixas, como 20 a 30 mg/dL, conforme a Tabela 20.2-4. Concentrações sanguíneas entre 100 e 200 mg/dL provavelmente aumentam o prejuízo da coordenação e do discernimento até causar problemas graves de coordenação (ataxia), aumento da labilidade do humor e níveis progressivamente maiores de deterioração cognitiva. Qualquer indivíduo que não demonstre níveis significativos de prejuízo em desempenho motor e mental em aproximadamente 150 mg/dL provavelmente apresenta tolerância farmacodinâmica significativa. Nessa faixa, a maioria das pessoas sem tolerância significativa também experimenta náusea relativamente grave e vômito. Com concentração de álcool no sangue na casa dos 200 aos 300 mg/dL, a fala arrastada provavelmente se torna mais intensa, e o prejuízo de memória (amnésia anterógrada ou Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 apagões alcoólicos) se torna pronunciado. Novos aumentos na concentração de álcool no sangue resultam em anestesia de primeiro nível, e o indivíduo não tolerante que atinge 400 mg/dL ou mais corre risco de falência respiratória, coma e morte. Abstinência de Álcool A abstinência de álcool, mesmo sem delirium, pode ser grave; ela inclui convulsões e hiperatividade autonômica. Condições que podem predispor a sintomas de abstinência ou agravá-los incluem fadiga, desnutrição, doença física e depressão. Os critérios do DSM-5 para abstinência de álcool requerem a cessação ou redução do uso pesado e prolongado de álcool, bem como a presença de sintomas físicos ou neuropsiquiátricos Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 específicos. O diagnóstico também permite a especificação “com perturbações da percepção”. Um estudo de tomografia por emissão de pósitrons (PET) do fluxo sanguíneo durante a abstinência de álcool em indivíduos sadios exceto pela dependência da substância relatou um baixo índice global de atividade metabólica, embora, após exame mais detalhado dos dados, os autores tenham concluído que a atividade foi particularmente baixa nas áreas parietal esquerda e frontal direita. O sinal clássico de abstinência de álcool é tremor, embora o espectro de sintomas possa se expandir para incluir sintomas psicóticos e de percepção (p. ex., delírios e alucinações), convulsões e os sintomas de delirium tremens (DTs), denominado delirium por álcool no DSM-5. Tremores (normalmente chamados de “tremedeira”) se desenvolvem de 6 a 8 horas após a interrupção do consumo, convulsões, em 12 a 24 horas, e DTs, a qualquer momento durante as primeiras 72 horas, embora médicos devam estar atentos para o desenvolvimento de DTs durante a primeira semana de abstinência. A síndrome de abstinência às vezes não segue a progressão normal e, por exemplo, apresenta diretamente Dts. O tremor da abstinência de álcool pode ser semelhante ou a um tremor fisiológico, com um tremor contínuo de grande amplitude superior a 8 Hz, ou a um tremor familiar, com explosões de atividade de tremor mais lentas do que 8 Hz. Outros sintomas de abstinência incluem irritabilidade geral, sintomas gastrintestinais (p. ex., náusea e vômito) e hiperatividade simpática autonômica, incluindo ansiedade, excitação, sudorese, rubor facial, midríase, taquicardia e hipertensão leve. Pacientes que passam por abstinência de álcool estão, de modo geral, alertas, mas podem se sobressaltar facilmente. Convulsões de abstinência – Convulsões associadas à abstinência de álcool têm características estereotipadas, generalizadas e são tônico-clônicas. Os pacientes costumam ter mais de uma convulsão 3 a 6 horas após a primeira ocorrência. Estado epiléptico é relativamente raro e ocorre em menos de 3% dos pacientes. Embora anticonvulsivantes não sejam necessários para o manejo de convulsões de abstinência, a causa da convulsão é difícil de estabelecer durante a primeira avaliação do paciente na sala de emergência; portanto, muitos pacientes com convulsões de abstinência recebem medicamentos anticonvulsivantes, os quais são descontinuados assim que a causa das convulsões é identificada. Atividade convulsiva em indivíduos com história conhecida de abuso de álcool ainda assim deve despertar no clínico a consideração de outros fatores causais, como lesões na cabeça, infecções do SNC, neoplasias do SNC e outras doenças cerebrovasculares; abuso de álcool grave de longa duração pode resultar em Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 hipoglicemia, hiponatremia e hipomagnesemia – sendo que todas essas condições podem estar associadas a convulsões. Tratamento – A principal medicação para o controle dos sintomas de abstinência de álcool são os benzodiazepínicos (Tab. 20.2-5). Vários estudos descobriram que eles ajudam a controlar a atividade convulsiva, delirium, ansiedade, taquicardia, hipertensão, diaforese e tremor associado à abstinência de álcool. Os benzodiazepínicos podem ser ministrados por via oral ou parenteral; nem diazepam, nem clordiazepóxido, no entanto, devem ser administrados por via intramuscular (IM), devido a sua absorção errática por essa rota. Os médicos devem titular a dosagem do benzodiazepínico, começando com uma dosagem elevada, reduzindo-a conforme a recuperação do paciente. Devem ser administrados benzodiazepínicos suficientes para manter o paciente calmo e sedado, mas não a ponto de não poder ser despertado para que o clínico aplique os procedimentos adequados, incluindo exames neurológicos. Embora benzodiazepínicos sejam o tratamento-padrão para abstinência de álcool, estudos demonstraram que a carbamazepina em doses diárias de 800 mg é tão eficaz quanto os benzodiazepínicos, com a vantagem adicional de mínima chance de abuso. O uso de carbamazepina está gradualmente se tornando comum nos Estados Unidos e na Europa. Antagonistas do receptor β-adrenérgico e clonidina também foram usados para bloquear os sintomas de hiperatividade simpática, mas nenhum desses fármacos constitui tratamento eficaz para convulsões ou delirium. Delirium Diagnóstico e características clínicas – Pacientes com sintomas reconhecidos de abstinência de álcool devem ser monitorados com atenção para impedir a progressão para delirium por abstinência de álcool, a forma mais grave da síndrome de abstinência, também conhecido como DTs (delirium tremens). O delirium por abstinência de álcool é uma emergência médica que pode resultar em morbidade e mortalidade significativas. Pacientes com delirium são um perigo para si mesmos e para outros. Devido à Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 imprevisibilidade de seu comportamento, esses pacientes podem ser agressivos ou suicidas, ou podem agir em resposta a alucinações ou pensamentos delirantes como se fossem perigos genuínos. Sem tratamento, o DTs tem um índice de mortalidade de 20%, geralmente como resultado de uma doença médica intercorrente, como pneumonia, doença renal, insuficiência hepática ou insuficiência cardíaca. Embora convulsõesde abstinência normalmente antecedam o desenvolvimento de delirium por abstinência de álcool, o delirium também pode surgir inesperadamente. A característica fundamental da síndrome é delirium com ocorrência no período de uma semana depois da cessação ou redução da ingestão de álcool. Além dos sintomas de delirium, as características de delirium por intoxicação de álcool incluem hiperatividade autonômica, como taquicardia, diaforese, febre, ansiedade, insônia e hipertensão; distorções da percepção, mais frequentemente alucinações visuais ou táteis; e níveis flutuantes de atividade psicomotora, que vão de hiperexcitabilidade a letargia. Aproximadamente 5% dos indivíduos com transtornos relacionados ao álcool que requerem hospitalização têm DTs. Como a síndrome normalmente se desenvolve no terceiro dia de internação, um paciente admitido devido a uma condição não relacionada pode inesperadamente ter um episódio de delirium, o primeiro sinal de um transtorno relacionado ao álcool não diagnosticado. Episódios de DTs costumam ter início na faixa dos 30 aos 40 anos de idade, após 5 a 15 anos de consumo intenso, geralmente do tipo compulsivo. Uma doença física (p. ex., hepatite ou pancreatite) predispõe à síndrome; um indivíduo que goza de boa saúde raramente tem DTs durante a abstinência de álcool. Tratamento – O melhor tratamento para DTs é prevenção. O paciente em abstinência de álcool que exibe fenômenos de descontinuação deve ser medicado com benzodiazepínicos, como 25 a 50 mg de clordiazepóxido a cada 2 a 4 horas até evidências de que esteja fora de perigo. Assim que o delirium surge, no entanto, 50 a 100 mg de clordiazepóxido devem ser ministrados a cada 4 horas VO, ou lorazepam deve ser administrado via intravenosa (IV) caso medicação oral não seja possível. Medicamentos antipsicóticos que podem reduzir o limiar convulsivo devem ser evitados. Uma alimentação rica em calorias e carboidratos, complementada por multivitamínicos, também é importante. Medicamentos antipsicóticos que podem reduzir o limiar convulsivo devem ser evitados. Uma alimentação rica em calorias e carboidratos, complementada por multivitamínicos, também é importante. Conter fisicamente o paciente com DTs é arriscado; ele pode lutar contra as contenções até um nível perigoso de exaustão. Quando está turbulento e fora de controle, pode-se usar uma sala de reclusão. A desidratação, frequentemente exacerbada por diaforese e febre, pode ser corrigida com administração oral ou intravenosa de líquidos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Anorexia, vômito e diarreia costumam ocorrer durante a abstinência. Medicamentos antipsicóticos devem ser evitados porque podem reduzir o limiar convulsivo. O surgimento de sintomas neurológicos focais, lateralidade de convulsões, aumento da pressão intracraniana ou evidências de fraturas no crânio ou outras indicações de patologia do SNC devem levar o clínico a examinar o paciente em busca de uma nova doença neurológica. Medicamentos anticonvulsivantes não benzodiazepínicos não ajudam a impedir nem tratar convulsões resultantes de abstinência de álcool, embora benzodiazepínicos costumem ser eficazes. A psicoterapia de apoio no tratamento de DTs é fundamental. O paciente costuma ficar desnorteado, assustado e ansioso devido aos sintomas perturbadores, e o apoio verbal competente se faz imperativo. Demência persistente induzida por álcool Demência persistente induzida por álcool é um problema cognitivo de longo prazo, heterogêneo e pouco estudado, que pode se desenvolver no curso do alcoolismo. Observam-se reduções globais do funcionamento intelectual, das capacidades cognitivas e da memória, mas dificuldades na memória recente são consistentes com o prejuízo cognitivo global, uma observação que ajuda a distinguir essa condição do transtorno amnéstico persistente induzido por álcool. Há a tendência de melhora do funcionamento cerebral com a abstinência, mas talvez metade de todos os pacientes afetados apresente deficiências de longo prazo e até mesmo permanentes na memória e no pensamento. Aproximadamente 50 a 70% desses pacientes apresentam evidência de aumento do tamanho dos ventrículos encefálicos e diminuição dos sulcos cerebrais, embora essas alterações pareçam ser parcial ou completamente reversíveis durante o primeiro ano de abstinência total. Transtorno Amnésico persistente induzido por Álcool Diagnóstico e características clínicas – A característica fundamental do transtorno amnéstico persistente induzido por álcool é uma perturbação na memória de curto prazo causada pelo uso intenso de álcool. Como o transtorno geralmente ocorre em indivíduos que consomem álcool intensamente há vários anos, é raro em indivíduos com menos 35 anos de idade. Síndrome de Wernicke-Korsakoff – A denominação clássica para transtorno amnéstico persistente induzido por álcool é composta por encefalopatia de Wernicke (um conjunto de sintomas agudos) e síndrome de Korsakoff (uma condição crônica). Enquanto a encefalopatia de Wernicke é totalmente reversível com tratamento, apenas 20% dos Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 pacientes com síndrome de Korsakoff se recuperam. A conexão fisiopatológica entre as duas síndromes é deficiência de tiamina (vitamina B1), causada por maus hábitos nutricionais ou por problemas de absorção. A tiamina é um cofator de várias enzimas importantes e também pode estar envolvida na condução do potencial de ação ao longo do axônio e na transmissão sináptica. As lesões neuropatológicas são simétricas e paraventriculares, envolvendo corpos papilares, o tálamo, o hipotálamo, o mesencéfalo, a ponte, a medula, o fórnice e o cerebelo. A encefalopatia de Wernicke, também chamada de encefalopatia alcoólica, é um transtorno neurológico agudo caracterizado por ataxia (que afeta principalmente a marcha), disfunção vestibular, confusão e uma variedade de anormalidades de motilidade ocular, incluindo nistagmo horizontal, paralisia orbital lateral e paralisia do olhar conjugado. Esses sinais oculares costumam ser bilaterais, mas não necessariamente simétricos. Outros sinais oculares podem incluir uma reação lenta à luz e anisocoria. A encefalopatia de Wernicke pode desaparecer espontaneamente em alguns dias ou semanas, ou pode progredir para síndrome de Korsakoff. Tratamento – Nos estágios iniciais, a encefalopatia de Wernicke reage rapidamente a grandes doses de tiamina parenteral, que se acredita ser eficaz na prevenção da progressão para síndrome de Korsakoff. A dosagem de tiamina costuma ser iniciada em 100 mg via oral de 2 a 3 vezes por dia e continua durante 1 a 2 semanas. Em pacientes com transtornos relacionados ao álcool que recebem administração IV de solução de glicose, a boa prática recomenda incluir 100 mg de tiamina em cada litro de solução de glicose. A síndrome de Korsakoff é a síndrome amnéstica crônica que pode se seguir à encefalopatia de Wernicke, e acredita-se que as duas síndromes possam ter relação fisiopatológica. As características principais da síndrome de Korsakoff são a síndrome de prejuízo mental (especialmente a memória recente) e amnésia anterógrada em um paciente alerta e responsivo. O paciente pode ou não apresentar o sintoma de confabulação. O tratamento da síndrome de Korsakoff também consiste em 100 mg de tiamina administrada via oral 2 a 3 vezes ao dia; o regime de tratamento deve continuar de 3 a 12 meses. Poucos pacientes que progridem para síndrome de Korsakoff chegam ase recuperar totalmente, embora vários apresentem melhoras em suas capacidades cognitivas com tiamina e apoio nutricional. Apagões – Apagões são semelhantes a episódios de amnésia global transitória, uma vez que constituem episódios distintos de amnésia anterógrada que ocorrem em associação com intoxicação por álcool. Os períodos de amnésia podem ser particularmente aflitivos quando o indivíduo teme ter machucado alguém sem perceber ou Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 tenha agido de forma imprudente enquanto intoxicado. Durante um apagão, o indivíduo retém a memória remota de modo relativamente intacto, mas experimenta um déficit específico na memória de curto prazo, que o impossibilita de relembrar eventos que ocorreram nos 5 ou 10 minutos anteriores. Como suas outras faculdades intelectuais se mantêm preservadas, ele pode desempenhar tarefas complexas e parecer normal ao observador casual. Os mecanismos neurobiológicos para apagões alcoólicos atualmente são conhecidos em nível molecular; o álcool bloqueia a consolidação de novas memórias em memórias antigas, um processo que, acredita-se, envolva o hipocampo e estruturas relacionadas do lobo temporal. Transtorno Psicótico induzido por Álcool Diagnóstico e características clínicas – Aproximadamente 3% dos indivíduos alcoolistas experimentam alucinações auditivas ou delírios paranoides no contexto do consumo pesado ou abstinência de álcool. As alucinações auditivas mais comuns são vozes, mas elas costumam ser desestruturadas. As vozes são caracteristicamente caluniosas, repreensivas ou ameaçadoras, embora alguns pacientes relatem que elas sejam agradáveis e não perturbadoras. As alucinações normalmente duram menos de uma semana, mas durante esse período frequentemente há prejuízo no teste de realidade. Depois do episódio, a maioria dos pacientes percebe a natureza alucinatória dos sintomas. Alucinações após a abstinência de álcool são consideradas raras, e a síndrome é diferente do delirium por abstinência de álcool. As alucinações podem ocorrer em qualquer idade, mas normalmente surgem em indivíduos que abusam de álcool durante um longo período. Embora elas normalmente se resolvam no prazo de uma semana, algumas permanecem; nesses casos, o clínico deve considerar outros transtornos psicóticos no diagnóstico diferencial. Alucinações relacionadas à abstinência de álcool se diferenciam das alucinações de esquizofrenia devido à ausência de uma história de esquizofrenia clássica e devido a sua curta duração. Alucinações relacionadas à abstinência de álcool se diferenciam de DTs pela presença de um sensório claro no paciente. Tratamento – O tratamento para alucinações relacionadas à abstinência de álcool é muito semelhante ao tratamento de DTs – benzodiazepínicos, nutrição adequada e líquidos, caso necessário. Se esse regime não surtir efeito, ou para casos de longa duração, podem-se usar antipsicóticos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Transtorno do Humor induzido por Álcool A ingestão intensa de álcool ao longo de vários dias resulta em vários dos mesmos sintomas observados no transtorno depressivo maior, mas a intensa tristeza melhora acentuadamente no prazo de vários dias até um mês de abstinência. Um total de 80% dos indivíduos com alcoolismo relatam histórias de depressão intensa, sendo que 30 a 40% ficam deprimidos durante duas ou mais semanas em um dado momento. Contudo, apenas 10 a 15% dos alcoolistas apresentam depressão que satisfaz os critérios para transtorno depressivo maior sem consumo intenso de álcool. Mesmo depressões graves induzidas por substâncias têm chances de melhora razoavelmente rápida com abstinência, sem medicação nem psicoterapia intensiva voltada para os sintomas depressivos. Uma abordagem lógica para essas condições induzidas por substâncias é ensinar ao paciente a melhor maneira de encarar e lidar com a tristeza temporária por meio de esclarecimento e tratamento cognitivo-comportamental e esperar para ver o que acontece durante um período mínimo de 2 a 4 semanas antes de dar início a um curso de antidepressivos. Transtornos de ansiedade induzido por Álcool Sintomas de ansiedade que satisfazem os critérios diagnósticos para transtorno de ansiedade induzido por álcool também são comuns no contexto de abstinência de álcool aguda e prolongada. Quase 80% dos alcoolistas relatam ataques de pânico durante, pelo menos, um episódio de abstinência aguda; suas queixas podem ser suficientemente intensas para que o clínico considere um diagnóstico de transtorno de pânico. De modo semelhante, durante as primeiras quatro semanas, mais ou menos, de abstinência, indivíduos com problemas graves com álcool ficam propensos a evitar situações sociais com medo de serem dominados por ansiedade (i.e., têm sintomas que se parecem com fobia social); seus problemas, às vezes, podem ser graves o suficiente a ponto de se parecerem com agorafobia. Contudo, quando sintomas psicológicos ou fisiológicos de ansiedade são observados em alcoolistas apenas no contexto de consumo intenso ou dentro das primeiras semanas ou primeiro mês de abstinência, provavelmente diminuem e desaparecem com o tempo. Transtorno relacionado ao álcool não especificado O diagnóstico de transtorno relacionado ao álcool não especificado é usado para transtornos relacionados ao álcool que não satisfazem os critérios diagnósticos de nenhum dos demais diagnósticos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Intoxicação por Álcool idiossincrática Discute-se a existência de uma entidade diagnóstica como intoxicação por álcool idiossincrática. Vários estudos bem controlados com indivíduos que supostamente apresentam o transtorno suscitaram questões sobre a validade da designação. A condição já foi chamada de intoxicação por álcool patológica, complexa, atípica e paranoide; todas essas expressões indicam que uma síndrome comportamental grave se desenvolve rapidamente depois que o indivíduo consome uma pequena quantidade de álcool que teria efeitos comportamentais mínimos sobre a maioria das pessoas. O diagnóstico é importante em foro jurídico, porque intoxicação por álcool não costuma ser um argumento aceito para julgar indivíduos não responsáveis por suas ações. A intoxicação por álcool idiossincrática, no entanto, pode ser usada em defesa de um indivíduo caso o advogado de defesa consiga argumentar com sucesso que o réu apresenta uma reação inesperada, idiossincrática e patológica a uma quantidade mínima de álcool. Em relatos de caso, indivíduos com intoxicação por álcool idiossincrática são descritos como confusos e desorientados, com ilusões, delírios transitórios e alucinações visuais. Eles podem exibir grande aumento da atividade psicomotora e comportamento impulsivo e agressivo. Podem constituir perigo para outros e também podem exibir ideação suicida e fazer tentativas de suicídio. O transtorno, geralmente descrito como tendo duração de algumas horas, termina em sono prolongado, e as pessoas afetadas não conseguem se lembrar dos episódios ao despertar. A causa da condição é desconhecida, mas há relatos de que é mais comum em indivíduos com níveis elevados de ansiedade. Conforme uma hipótese, o álcool causa desorganização e perda de controle suficientes que liberam impulsos agressivos. Outra sugestão é que dano cerebral, particularmente encefalítico ou dano traumático, predispõe alguns indivíduos a uma intolerância para álcool e, assim, a apresentar comportamento anormal depois de ingerirapenas pequenas quantidades dessa substância. Outros fatores de predisposição podem incluir idade avançada, uso de fármacos sedativo-hipnóticos e sensação de fadiga. O comportamento do indivíduo durante a intoxicação tende a ser atípico; após o consumo de uma bebida com baixo teor alcoólico, uma pessoa quieta e tímida se torna beligerante e agressiva. Ao tratar intoxicação por álcool idiossincrática, o clínico deve ajudar a proteger o paciente, impedindo-o de causar dano a si mesmo e a outros. Contenção física pode ser necessária, mas constitui uma tarefa difícil devido ao início abrupto da condição. Assim que o paciente for contido, a aplicação injetável de um fármaco antipsicótico, como haloperidol, é útil para controlar tentativas de agressão. Essa condição deve ser distinguida de outras causas de alteração comportamental repentina, como epilepsia Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 parcial complexa. Há relatos de que alguns indivíduos com o transtorno mostraram picos de atividade do lobo temporal em EEG após ingerir pequenas quantidades de álcool. Prognóstico Entre 10 e 40% dos indivíduos alcoolistas participam de algum tipo de programa formal de tratamento durante o curso de seus problemas com o álcool. Há vários sinais prognósticos favoráveis: ➔ O primeiro é a ausência de transtorno da personalidade antissocial preexistente ou de um diagnóstico de abuso ou dependência de outra substância. ➔ O segundo são evidências de uma estabilidade geral na vida, com emprego, contato familiar próximo ininterrupto e ausência de problemas legais graves. ➔ Em terceiro lugar, se o paciente não interrompe ou abandona o curso integral da reabilitação inicial (talvez de 2 a 4 semanas), há boas chances de manter abstinência. A combinação desses três atributos antecipa uma chance de pelo menos 60% de um ano ou mais de abstinência. Poucos estudos documentaram o curso de longo prazo, mas pesquisadores concordam que um ano de abstinência está associado a boa chance de continuação da abstinência durante período prolongado. Entretanto, alcoolistas com problemas graves com drogas (especialmente uso de drogas intravenosas ou dependência de cocaína ou anfetaminas) e indivíduos sem-teto podem apresentar uma chance de apenas 10 a 15% de atingir um ano de abstinência. Prever com precisão se algum indivíduo em particular conseguirá atingir ou manter abstinência é impossível, mas os fatores prognósticos enumerados anteriormente estão associados a maior probabilidade de abstinência. Os fatores que refletem estabilidade na vida, no entanto, provavelmente explicam apenas 20% ou menos do curso dos transtornos por uso de álcool. Muitas forças de difícil medição afetam o curso clínico desse transtorno de modo significativo; entre elas, provavelmente se podem incluir fatores intangíveis, como nível de motivação e qualidade do sistema de apoio social do paciente. De modo geral, alcoolistas com transtornos psiquiátricos maiores independentes preexistentes – como transtorno da personalidade antissocial, esquizofrenia e transtorno bipolar tipo I – provavelmente desenvolverão todo o curso de sua doença psiquiátrica independente comórbida. Portanto, por exemplo, o médico precisa tratar um paciente com transtorno bipolar tipo I que apresenta alcoolismo secundário com a psicoterapia adequada e lítio, usar técnicas psicológicas e comportamentais relevantes com o paciente com transtorno da personalidade antissocial, e oferecer os medicamentos antipsicóticos Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 adequados em longo prazo para o paciente com esquizofrenia. O objetivo é minimizar os sintomas do transtorno psiquiátrico independente comórbido na esperança de que maior estabilidade na vida seja associada a melhor prognóstico para os problemas do paciente relacionados ao álcool. Tratamento e Reabilitação Existem três medidas gerais envolvidas no tratamento do indivíduo alcoolista depois do diagnóstico do transtorno: ➔ Intervenção; ➔ Desintoxicação; ➔ Reabilitação. Essas abordagens presumem que todos os esforços possíveis foram realizados para otimizar o atendimento médico e contemplar emergências psiquiátricas. Dessa forma, por exemplo, um alcoolista com sintomas de depressão suficientemente graves a ponto de estar em risco de suicídio exige internação durante vários dias até o desaparecimento da ideação suicida. Da mesma forma, um indivíduo com miocardiopatia, problemas hepáticos ou sangramento gastrintestinal necessita primeiramente de um tratamento adequado da emergência clínica. O paciente com abuso ou dependência de álcool precisa, então, ficar face a face com a realidade do transtorno (intervenção), sofrer desintoxicação, caso necessário, e dar início à reabilitação. Os pontos principais dessas três medidas para uma pessoa alcoolista com síndromes psiquiátricas independentes comórbidas têm grande semelhança com as abordagens utilizadas com o indivíduo alcoolista primário sem síndromes psiquiátricas independentes. No primeiro caso, no entanto, os tratamentos são aplicados depois que o transtorno psiquiátrico foi estabilizado o máximo possível. Intervenção O objetivo da intervenção, que também já foi chamada de confrontação, é abrir caminho por meio dos sentimentos de negação e ajudar o paciente a reconhecer as consequências adversas que podem ocorrer se o transtorno não for tratado. A intervenção é um processo destinado a aumentar a motivação para o tratamento e a continuidade da abstinência. Essa medida frequentemente envolve convencer o paciente de que ele é responsável por seus próprios atos e lembrá-lo de como o álcool gerou prejuízos significativos em sua vida. Com frequência, o psiquiatra tira vantagem da queixa principal do paciente, seja insônia, dificuldades com o desempenho sexual, seja incapacidade de lidar com os estresses da vida, depressão, ansiedade ou sintomas psicóticos. O psiquiatra Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 pode, então, explicar como o álcool criou ou contribuiu para esses problemas e tranquilizar o paciente de que a abstinência é possível com um mínimo de desconforto. Um médico que faz intervenção com um paciente pode usar a mesma abordagem imparcial, porém persistente, cada vez que um prejuízo relacionado ao álcool for identificado. Na realidade, é a persistência, e não habilidades interpessoais excepcionais, que normalmente obtém resultados. Uma única intervenção raramente é suficiente. A maioria dos indivíduos alcoolistas precisa ser lembrada das várias vezes e maneiras como o álcool contribuiu para cada nova crise antes de considerar abstinência como uma opção de longo prazo. Família A família pode ser de grande auxílio na intervenção. Familiares precisam aprender a não proteger o paciente dos problemas causados pelo álcool; senão, ele pode não conseguir reunir a energia e a motivação necessárias para interromper o consumo. Além disso, durante o estágio de intervenção, a família pode sugerir que o paciente se encontre com pessoas que estão se recuperando do alcoolismo, talvez por meio dos AA, e familiares podem ir a encontros de grupos como o Al-Anon, voltado a familiares de alcoolistas. Esses grupos de apoio para famílias se reúnem várias vezes por semana e ajudam familiares e amigos a ver que não são os únicos com esses temores, preocupações e sentimentos de culpa. Participantes compartilham estratégias de enfrentamento e ajudam uns aos outros a encontrar recursos junto à comunidade. Os grupos podem prestar um grande auxílio para que familiaresreconstruam suas vidas, mesmo se o indivíduo alcoolista se recusa a buscar ajuda. Desintoxicação A maioria dos indivíduos com dependência de álcool apresenta sintomas relativamente leves quando interrompe o consumo. Se o paciente gozar de saúde relativamente boa, estiver adequadamente alimentado e tiver um bom sistema de apoio social, a síndrome de abstinência depressora normalmente lembra uma gripe leve. Mesmo síndromes de abstinência intensas raramente chegam à gravidade dos sintomas descritos por alguns dos primeiros livros sobre o assunto. O primeiro passo fundamental na desintoxicação é o exame físico. Na ausência de uma condição médica grave ou abuso combinado de outra substância, é pouco provável que haja abstinência de álcool grave. O segundo passo é proporcionar descanso, alimentação adequada e vitaminas, especialmente as que contêm tiamina. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Abstinência leve ou moderada – A abstinência ocorre porque o cérebro se adaptou fisicamente à presença de um depressor cerebral e não consegue funcionar de maneira adequada na ausência da substância. Administrar depressores cerebrais suficientes no primeiro dia para reduzir os sintomas e, então, reduzir a dosagem do fármaco até sua interrupção ao longo dos cinco dias seguintes proporciona, à maioria dos pacientes, o máximo de alívio com a menor possibilidade de desenvolver abstinência grave. Qualquer depressor – incluindo álcool, barbitúricos ou qualquer um dos benzodiazepínicos – pode funcionar, mas a maioria dos profissionais prefere um benzodiazepínico, devido a sua relativa segurança. Pode-se administrar um tratamento adequado seja com fármacos de ação breve (p. ex., lorazepam), seja com substâncias de ação prolongada (p. ex., clordiazepóxido e diazepam). Um exemplo de tratamento é a administração de 25 mg de clordiazepóxido via oral 3 ou 4 vezes por dia no primeiro dia, com indicação de pular a dose se o paciente estiver dormindo ou se sentindo sonolento. Podem ser ministradas 1 ou 2 doses adicionais de 25 mg durante as primeiras 24 horas se o paciente estiver com tremores ou mostrar sinais de aumento de tremor ou disfunção autonômica. Qualquer que seja a dosagem de benzodiazepínicos necessária no primeiro dia, ela pode ser reduzida em 20% a cada dia subsequente, o que resulta em falta de necessidade da medicação após 4 ou 5 dias. Ao administrar um agente de ação prolongada, como clordiazepóxido, o clínico deve evitar produzir sonolência excessiva decorrente de sobremedicação; caso o paciente esteja sonolento, a próxima dose agendada deve ser omitida. Ao tomar um fármaco de ação breve, como lorazepam, o paciente não pode perder nenhuma dose, porque alterações rápidas nas concentrações de benzodiazepínicos no sangue podem precipitar abstinência grave. Um programa com modelo social de desintoxicação poupa fundos ao evitar medicamentos enquanto se faz uso de apoios sociais. Esse regime menos oneroso financeiramente pode ajudar em síndromes de abstinência leves ou moderadas. Alguns também recomendaram antagonistas do receptor β-adrenérgico (p. ex., propranolol) ou agonistas do receptor α-adrenérgico (p. ex., clonidina), embora esses medicamentos não pareçam ser superiores aos benzodiazepínicos. Diferentemente dos depressores cerebrais, esses outros agentes pouco fazem para reduzir o risco de convulsões ou delirium. Abstinência grave – Para aproximadamente 1% dos pacientes alcoolistas com extrema disfunção autonômica, agitação e confusão – ou seja, aqueles com delirium por abstinência alcoólica, ou DTs –, ainda não foi desenvolvido um tratamento ideal. O primeiro passo é questionar o motivo pelo qual uma síndrome de abstinência tão grave e Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 relativamente incomum ocorreu; a resposta costuma estar relacionada a um problema médico concomitante grave que precisa de tratamento imediato. Os sintomas de abstinência podem, então, ser reduzidos ao mínimo por meio do uso de benzodiazepínicos (que, dependendo do caso, às vezes requerem doses elevadas) ou agentes antipsicóticos, como haloperidol. Novamente, no primeiro ou segundo dia, as doses são usadas para controlar o comportamento, e a medicação pode ser suspensa gradualmente até o quinto dia. Outro 1% dos pacientes podem sofrer uma única convulsão tônico-clônica; apenas em casos raros há crises múltiplas, sendo que a incidência de pico ocorre no segundo dia de abstinência. Esses pacientes necessitam de avaliação neurológica, mas, na ausência de evidências de um transtorno convulsivo, eles não se beneficiam de fármacos anticonvulsivantes. Abstinência prolongada – Sintomas de ansiedade, insônia e hiper-reatividade autonômica leve provavelmente continuam durante 2 a 6 meses após a cessação da abstinência aguda. Embora não pareça haver tratamentos farmacológicos apropriados para essa síndrome, é possível que alguns medicamentos usados para a fase de reabilitação, especialmente acamprosato, possam funcionar ao reduzir alguns desses sintomas. É importante advertir o paciente de que algum tipo de problema de sono ou sentimentos de nervosismo podem permanecer após a abstinência aguda e discutir abordagens cognitivas e comportamentais adequadas para ajudar o paciente a se sentir mais à vontade. Esses sintomas de abstinência prolongada podem aumentar a probabilidade de recaída. Reabilitação Para a maioria dos pacientes, a reabilitação inclui três componentes principais: 1) Esforços contínuos para aumentar e manter níveis elevados de motivação para abstinência; 2) Ajudar o paciente a se readaptar a um estilo de vida sem álcool; 3) Prevenção de recaída. Como essas medidas são tomadas no contexto de síndromes de abstinência aguda e prolongada, e crises de vida, o tratamento exige a constante reintrodução de recursos semelhantes que lembrem o paciente o quanto a abstinência é importante e que o ajudem a desenvolver novos sistemas de apoio diários e estilos de enfrentamento. Não há conhecimento de nenhum evento de vida único, período de vida traumático ou transtorno psiquiátrico identificável que seja uma causa única de alcoolismo. Além disso, os efeitos de quaisquer causas de alcoolismo possivelmente foram diluídos pelos Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 efeitos do álcool sobre o cérebro e pelos anos de um estilo de vida alterado, de forma que o alcoolismo assumiu vida própria. Isso é verdadeiro apesar da crença de muitos indivíduos alcoolistas de que a causa foi depressão, ansiedade, estresse de vida ou síndrome dolorosa. Pesquisas, dados de registros e relatos pessoais normalmente revelam que o álcool contribuiu para o transtorno do humor, acidente ou estresse de vida, e não o contrário. A mesma abordagem de tratamento geral é usada em contextos ambulatoriais e de internação. A escolha do modo de internação intensiva, mais oneroso, costuma depender das evidências de outras síndromes psiquiátricas ou médicas graves, da ausência de grupos ambulatoriais próximos adequados e da história do paciente de fracasso casso em um sistema de cuidados ambulatorial. O processo de tratamento em qualquer um dos contextos envolve intervenção, melhora do funcionamento físico e psicológico, intensificação da motivação, colaboração da família e uso das primeiras 2 a 4 semanas de cuidados como um período intensivo de auxílio. Esses esforços devem ser seguidos por um período mínimo de 3 a 6 meses de cuidados ambulatoriais menos frequentes. Aabordagem ambulatorial usa uma combinação de aconselhamento individual e em grupo, evitação criteriosa de medicamentos psicotrópicos, a menos que sejam necessários para transtornos independentes comórbidos e envolvimento em grupos de mútua ajuda, como os AA. Aconselhamento – Os esforços de aconselhamento nos primeiros meses devem estar voltados para questões da vida diária com a finalidade de ajudar os pacientes a manter um nível elevado de motivação para abstinência e para melhorar seu funcionamento. Técnicas de psicoterapia que provocam ansiedade ou que exigem insights profundos não demonstraram nenhum benefício durante os primeiros meses de recuperação e, pelo menos teoricamente, podem, na realidade, prejudicar os esforços para manter a abstinência. Portanto, a abordagem se concentra nos esforços que provavelmente caracterizarão os primeiros 3 a 6 meses de cuidados. Aconselhamento ou terapia pode ocorrer individualmente ou em grupo; poucos dados indicam que uma das duas abordagens seja superior à outra. A técnica usada dificilmente fará muita diferença e em geral se reduz a um aconselhamento diário simples, ou praticamente qualquer outra abordagem comportamental ou psicoterapêutica que se concentre no aqui e agora. Para obter o máximo de motivação, as sessões de tratamento devem explorar as consequências do consumo, o provável curso futuro de problemas de vida relacionados ao álcool, e a grande melhora que se pode esperar com a abstinência. Seja em um contexto de internação, seja ambulatorial, costuma ser aconselhamento individual ou em grupo pelo menos oferecido três vezes por semana, durante as primeiras Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 2 a 4 semanas, seguido por esforços menos intensos, talvez de uma vez por semana, durante os 3 a 6 meses seguintes. Grande parte do tempo durante o aconselhamento é dedicada a como construir um estilo de vida sem álcool. Os tópicos cobrem a necessidade de um grupo de pares sóbrios, um plano para eventos sociais e recreativos sem consumo de álcool e abordagens para restabelecer comunicação com a família e os amigos. O terceiro componente principal, a prevenção de recaídas, primeiramente identifica situações nas quais há grande risco de recaída. O conselheiro deve ajudar o paciente a desenvolver modos de enfrentamento para que sejam usados quando a fissura por álcool aumentar ou quando um evento ou estado emocional tornar mais provável a retomada do hábito de beber. Uma parte importante da prevenção de recaída é lembrar o paciente da atitude adequada para lidar com deslizes. Experiências de curto prazo com álcool nunca podem ser usadas como desculpa para retomar o hábito de ingestão regular de álcool. Os esforços para alcançar e manter um estilo de vida sóbrio não são um jogo no qual todos os benefícios são perdidos com o primeiro gole. Na verdade, a recuperação é um processo de tentativa e erro; o paciente faz uso dos deslizes que ocorrem para identificar situações de alto risco e para desenvolver técnicas de enfrentamento mais apropriadas. A maioria dos esforços de tratamento identifica os efeitos que o alcoolismo tem sobre as pessoas importantes na vida do paciente, e um aspecto de destaque na recuperação envolve auxiliar familiares e amigos próximos a entender o alcoolismo e perceber que a reabilitação é um processo contínuo que dura de 6 a 12 meses ou mais. Aconselhamento para casais e família e grupos de apoio para parentes e amigos ajudam os indivíduos envolvidos a reconstruir relacionamentos, a aprender como evitar proteger o paciente das consequências de consumo no futuro e a oferecer o máximo de apoio possível no programa de recuperação do paciente alcoolista. Medicamentos – Caso a desintoxicação tenha sido finalizada e o paciente não integre os 10 a 15% de alcoolistas que apresentam um transtorno do humor independente, esquizofrenia ou transtorno de ansiedade, há poucas evidências que indiquem a prescrição de medicamentos psicotrópicos para o tratamento do alcoolismo. Níveis residuais de ansiedade e insônia como parte de uma reação a estresses de vida e abstinência prolongada devem ser tratados com abordagens de modificação de comportamento e tranquilização. Medicamentos para esses sintomas (incluindo benzodiazepínicos) têm probabilidade de perder sua eficácia muito mais rapidamente do que o desaparecimento da insônia; portanto, o paciente pode aumentar a dose e apresentar problemas subsequentes. Do mesmo modo, tristeza e oscilações de humor podem se manter em níveis mais baixos durante vários meses. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Experimentos clínicos controlados, no entanto, indicam que não há benefícios em prescrever medicamentos antidepressivos ou lítio para tratar o indivíduo alcoolista médio que não apresenta transtorno psiquiátrico independente ou de longa duração. O transtorno do humor irá se dissipar antes que os medicamentos possam fazer efeito, e pacientes que retomam o consumo de álcool durante o curso da medicação encaram perigos potenciais significativos. Sem evidências convincentes de que os medicamentos são eficazes, os perigos superam quaisquer benefícios potenciais de seu uso de rotina. Uma possível exceção à recomendação contra o uso de medicamentos é o agente de sensibilização ao álcool dissulfiram. O dissulfiram é administrado em doses diárias de 250 mg antes que o paciente receba alta da primeira fase intensiva de reabilitação ambulatorial ou dos cuidados durante a internação. O objetivo é colocar o paciente em uma condição na qual a ingestão de álcool precipite uma reação física desconfortável, incluindo náusea, vômito e sensação de queimação na face e no estômago. Poucos dados comprovam que o dissulfiram é mais eficiente do que o placebo, contudo, provavelmente isso se deve ao fato de a maioria dos indivíduos interromper o curso do dissulfiram quando retoma o hábito de beber. Vários profissionais pararam de prescrever o agente de forma rotineira, em parte por reconhecerem os perigos associados ao próprio fármaco: alterações do humor, ocasiões raras de psicose, possibilidade de aumento de neuropatias periféricas e ocorrência relativamente rara de outras neuropatias significativas e hepatite potencialmente fatal. Ademais, pacientes com condições preexistentes, como doença cardíaca, trombose cerebral, diabetes e uma série de outras condições, não podem ser medicados com dissulfiram porque uma reação do álcool ao medicamento pode ser fatal. Outras duas intervenções farmacológicas promissoras foram objeto de estudo recentemente. A primeira envolve o antagonista de opioides naltrexona, o qual, ao menos em teoria, se acredita apresentar a possibilidade de reduzir o desejo de consumo de álcool ou embotar os efeitos de recompensa do ato de beber. De qualquer modo, duas pesquisas relativamente pequenas (aproximadamente 90 pacientes medicados com o fármaco ativo nos estudos) e de curta duração (3 meses de tratamento ativo) que utilizaram 50 mg ao dia desse fármaco obtiveram resultados promissores. No entanto, uma avaliação do impacto total desse medicamento, exigirá estudos mais prolongados e grupos relativamente maiores de pacientes mais heterogêneos. O segundo medicamento que desperta interesse, acamprosato, foi testado em mais de 5 mil pacientes dependentes de álcool na Europa. Esse fármaco ainda não está disponível nos Estados Unidos. Usado em dosagens de aproximadamente 2.000 mg ao dia, esse medicamento esteve associado a cerca de 10 a 20% de resultados maisSidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 positivos do que o placebo quando usado no contexto dos regimes de tratamento comportamentais e psicológicos habituais para lidar com alcoolismo. O mecanismo de ação do acamprosato é desconhecido, mas pode agir direta ou indiretamente nos receptores GABA em sítios NMDA, cujos efeitos alteram o desenvolvimento de tolerância ou dependência física de álcool. Outro medicamento promissor para o tratamento de alcoolismo é o fármaco não benzodiazepínico ansiolítico buspirona, embora seu efeito sobre a reabilitação não apresente consistência entre estudos. Não há evidências de que antidepressivos, como inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRSs), lítio ou medicamentos antipsicóticos, sejam significativamente eficazes no tratamento do alcoolismo. Alcoólicos anônimos – Deve-se reconhecer a importância potencial de grupos de mútua ajuda como os AA. Membros dos AA dispõem de ajuda 24 horas por dia, associam- se a um grupo de pares sóbrios, aprendem que é possível participar de reuniões sociais sem ingerir álcool e ganham um modelo de recuperação ao observar as realizações dos membros sóbrios do grupo. Aprender sobre os AA normalmente começa durante a reabilitação, seja ela de internação, seja ambulatorial. O clínico pode desempenhar um papel importante ao ajudar o paciente a entender as diferenças entre grupos específicos. Alguns são compostos apenas por homens ou mulheres, e outros são mistos; de alguns encontros participam principalmente operários e trabalhadores, enquanto outros encontros são destinados sobretudo a profissionais liberais; alguns grupos dão muita ênfase à religião, e outros são ecléticos. Pacientes com transtornos psiquiátricos coexistentes podem precisar de mais informações sobre os AA. O clínico deve lembrá-los de que alguns membros dos AA podem não compreender sua necessidade especial de medicamentos e deve preparar os pacientes com formas de enfrentamento se membros do grupo sugerirem, inadequadamente, que eles interrompam o curso da medicação. Embora seja difícil fazer uma avaliação usando controles duplos- cegos, a maioria dos estudos indica que a participação nos AA está associada a resultados melhores, e a inclusão dos AA aos programas de tratamento representa uma economia financeira. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Nutrição e Alcoolismo Valor nutricional do álcool As bebidas alcoólicas são uma mistura de água, quantidades variáveis de etanol e de açúcares e conteúdo desprezível de outros nutrientes como proteínas, vitaminas e minerais. De acordo com o tipo de bebida, a quantidade de carboidratos varia de 2 g/L até 500 g/L e há diferentes concentrações de etanol; por exemplo,12 a 14 g de álcool são encontrados em 142 mL de vinho,340 mL de cerveja ou 43 mL de destilados. As calorias fornecidas são aproximadamente de 4 cal/g de carboidrato e 7 cal/g de álcool. As calorias derivadas do etanol são de menor valor biológico, pois a energia contida no álcool não se destina à produção e manutenção da massa corpórea. Ao ocupar o lugar de nutrientes com valor biológico, o álcool é uma causa de má nutrição primária. A má nutrição secundária ocorre pela interferência do etanol nos processos de digestão, absorção, degradação e utilização do nutriente. Catabolismo do álcool O álcool é degradado no fígado por três vias enzimáticas: álcool-desidrogenase localizada no citoplasma, sistema microssomal oxidante do etanol presente no retículo endoplasmático e catalase peroxissomal; as duas primeiras são mais importantes. Por essas três vias, acetaldeído é gerado e posteriormente transformado em acetato por ação da aldeído-desidrogenase. O acetaldeído é uma molécula tóxica e altamente reativa que provoca a desnaturação proteica, aumento da produção de colágeno, inibição do reparo do DNA e a interferência com o transporte eletrônico mitocondrial que compromete a produção de energia. Hepatócitos, neurônios, glia, células musculares esqueléticas e cardíacas, células endoteliais, entre outras, têm seu funcionamento alterado o que pode culminar com morte celular por apoptose. Fatores genéticos, ambientais e fisiológicos podem regular as reações de biotransformação de agentes e com isso explicar modificações na eficácia, tempo de ação, toxicidade e interações com outras substâncias. Dentre esses fatores está o fenômeno de indução pelo qual um agente estimula a síntese de novo de uma via enzimática envolvida no metabolismo dela própria e de outras substâncias que compartilham essa via. A álcool-desidrogenase é a principal via enzimática utilizada no consumo ocasional e/ou moderado do etanol e não sofre o fenômeno de indução. Com a oxidação do etanol por essa via, nicotinamida adenina dinucleótide (NAD) é reduzida formando NADH e o adequado funcionamento celular depende de um estrito equilíbrio entre ambos. O NADH é essencial para várias reações bioquímicas; entretanto, o excesso de NADH prejudica o transporte eletrônico mitocondrial e participa da geração da Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 esteatose hepática, hiperlipidemia e acúmulo de gordura, hipoglicemia, hiperlacticidemia com hiperuricemia secundária e aumento da síntese do colágeno favorecendo a formação de tecido cicatricial. O sistema microssomal oxidante do etanol (MEOS) está localizado nos microssomos hepáticos, cujo principal componente é citocromo P450 2E1(CYP2E1), torna-se importante no consumo crônico e excessivo do etanol. Esse sistema enzimático é suscetível ao fenômeno de indução e isso pode explicar o aumento do catabolismo de certas substâncias (warfarina, propranolol, diazepam, entre outras),a vulnerabilidade do alcoolista a solventes industriais e agentes anestésicos e a tolerância metabólica a outros agentes. Acetaldeído, nicotinamida adenina difosfato (NADP), água e espécies reativas de oxigênio (ROS)são geradas pela ativação deste sistema, provocando: ➔ Estresse oxidativo pelo aumento da produção de ROS, peroxidação lipídica e depleção de substâncias protetoras (glutationa, alfa-tocoferol); ➔ Disfunção do metabolismo lipídico pelo aumento da alfa-hidroxilação, beta- oxidação e esterificação peroxissomais; ➔ Metabolização acelerada de outros agentes; e ➔ Apoptose. Efeitos do Álcool sobre o metabolismo basal As deficiências de proteínas, gorduras, vitaminas e minerais podem se instalar em indivíduos alcoolistas com ingestão adequada desses nutrientes, uma vez que podem não ser convenientemente absorvidos pelo trato gastrintestinal e/ou adequadamente metabolizados e/ou efetivamente utilizados para as diferentes funções celulares. Proteínas e aminoácidos – Proteínas e aminoácidos são constituintes fundamentais das vias catabólicas e anabólicas das células. Em modelos experimentais Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 foi demonstrado que o álcool diminuiu a absorção de aminoácidos pela mucosa intestinal12. Redução da produção de proteínas séricas (albumina, fatores de coagulação), diminuição da síntese da ureia e diminuição do metabolismo de aminoácidos aromáticos são consequências dessa interferência. Vitaminas – Deficiências vitamínicas podem ocorrer no alcoolista mesmo sem doença hepática e as principais são de tiamina(B1), riboflavina(B2), piridoxina(B6), cobalamina (B12), ácido ascórbico (C), ácido fólico e vitamina A. A intensidade da deficiência desses nutrientes é proporcional à quantidade de etanol ingerida. Em relação às vitaminas do complexoB, as manifestações neurológicas da carência podem ocorrer sem as correspondentes anormalidades hematológicas e hepáticas como foi observado em 50% dos pacientes alcoolistas com deficiência de tiamina. Efeitos neurológicos do etanol Após ser ingerido, o etanol entra na circulação em minutos e é rapidamente distribuído no organismo. A barreira hematoencefálica é facilmente atravessada e as concentrações sangüíneas e cerebrais rapidamente se equiparam. O etanol se intercala na membrana celular aumentando sua fluidez; entretanto, canais iônicos, segundos- mensageiros, neurotransmissores e seus receptores, proteína G, chaperonase reguladores da expressão gênica são alguns dos elementos da cascata de transdução de sinal que também são afetados pelo etanol e podem sofrer processo de adaptação em presença desse. Receptores do ácido gama-aminobutírico (GABA) – O GABA, principal neurotransmissor inibitório do cérebro, possui dois tipos de receptores, A e B. Os do tipo A apresentam sítios de ligação para drogas como benzodiazepínicos e barbitúricos e estão Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 relacionados às diferenças da resposta comportamental ao álcool, intoxicação e efeito anticonvulsivante. Canais de cálcio – Alguns dos sinais e sintomas de abstinência ao álcool (tremor e convulsão) podem ser explicados pelas alterações nos canais de cálcio. Pela ação em canais de cálcio tipo L, o etanol aumenta a despolarização da membrana e com isso o fluxo de cálcio permanece elevado várias horas após a retirada do etanol. Aminoácidos excitatórios – No sistema nervoso, essas substâncias são representadas pelo glutamato, aspartato e seus análogos estruturais (cainato, n-metil-d- aspartato [NMDA],ácido alfa-amino-3-hidroxi-5-metil-4-isoxasopropiônico ou ácido l-2- amino-4-fosfobutanóico) que se ligam a receptores que controlam canais iônicos ou que ativam a hidrólise de fosfoinositol. As dificuldades cognitivas e os apagões (blackouts) podem ser explicados pela ação inibitória do etanol sobre os receptores de NMDA cuja ativação é necessária aos processos de memória e aprendizado. Dopamina e serotonina – Experimentalmente, o etanol aumenta a liberação de dopamina nas regiões mesolímbicas que estão implicadas nos comportamentos de satisfação, reforço e fissura (craving). O etanol também potencia a ativação do receptor 5- hidroxitriptamina 3 (5HT3) que por interação com a serotonina poderia explicar algumas manifestações da intoxicação e o comportamento de busca. Adenosina – A adenosina é um neuromodulador inibitório que controla a função de canais de cálcio, liberação de neurotransmissores e ativação de receptores. A exposição aguda ao etanol inibe a recaptura de adenosina por ação sobre o nucleotídeo transportador, essa se acumula no espaço extracelular e ativa os receptores A2, resultando na elevação das concentrações de adenosina monofosfato cíclico (AMPc). A exposição crônica ao AMPc leva à dessensibilização adaptativa, com isso a célula necessita do etanol para manter as concentrações do AMPc, fenômeno esse que explica a dependência física ao etanol. Efeitos sobre os sistemas vascular e imunológico O etanol mostra efeito dual sobre o endotélio vascular (Quadro IV) que clinicamente se expressa como doença coronária, acidentes vasculares cerebrais e doença vascular periférica. Os efeitos benéficos do consumo moderado de álcool (15 a 30 g/dia) podem ser explicados por aumentos da fração de alta densidade do colesterol (HDL), da sensibilidade à insulina, da fibrinólise, do fator de crescimento endotelial, da p- oxonase-1 e da proteína quinase C-épsilon. Desse efeito benéfico ainda participam a ação inibitória sobre a ativação monócito/macrófago e as reduções das moléculas de adesão (ICAM, VCAM, E-selectina), da oxidação da fração de baixa densidade do Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 colesterol (LDL), da agregação plaquetária e da homocisteína. Os efeitos nocivos podem ser observados com consumo acima de 30 g/dia e são explicados pelos aumentos da concentração de acetaldeído, do estresse oxidativo (espécies reativas de oxigênio e nitrogênio), de triglicérides, ICAM, VCAM, E-selectina e proteína quinase C-gama e pela redução da HDL. Centros de Atenção Psicossocial – CAPS CAPS na Rede de Atenção à Saúde Mental – Um país, um Estado, uma cidade, um bairro, uma vila, um vilarejo são recortes de diferentes tamanhos dos territórios que habitamos. Território não é apenas uma área geográfica, embora sua geografia também seja muito importante para caracterizá-lo. O território é constituído fundamentalmente pelas pessoas que nele habitam, com seus conflitos, seus interesses, seus amigos, seus vizinhos, sua família, suas instituições, seus cenários (igreja, cultos, escola, trabalho, boteco etc.). É essa noção de território que busca organizar uma rede de atenção às pessoas que sofrem com transtornos mentais e suas famílias, amigos e interessados. Para constituir essa rede, todos os recursos afetivos (relações pessoais, familiares, amigos etc.), sanitários (serviços de saúde), sociais (moradia, trabalho, escola, esporte etc.), econômicos (dinheiro, previdência etc.), culturais, religiosos e de lazer estão convocados para potencializar as equipes de saúde nos esforços de cuidado e reabilitação psicossocial. Nesta publicação apresentaremos e situando os CAPS como dispositivos que devem estar articulados na rede de serviços de saúde e necessitam permanentemente de outras redes sociais, de outros setores afins, para fazer face à complexidade das demandas de inclusão daqueles que estão excluídos da sociedade por transtornos mentais. As redes possuem muitos centros, muitos nós que as compõem e as tornam complexas e resistentes. O fundamental é que não se perca a dimensão de que o eixo organizador dessas redes são as pessoas, sua existência, seu sofrimento. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) deverão assumir seu papel estratégico na articulação e no tecimento dessas redes, tanto cumprindo suas funções na assistência direta e na regulação da rede de serviços de saúde, trabalhando em conjunto com as equipes de Saúde da Família e Agentes Comunitários de Saúde, quanto na promoção da vida comunitária e da autonomia dos usuários, articulando os recursos existentes em outras redes: sóciosanitárias, jurídicas, cooperativas de trabalho, escolas, empresas etc. Os CAPS, assumindo um papel estratégico na organização da rede comunitária de cuidados, farão o direcionamento local das políticas e programas de Saúde Mental: desenvolvendo projetos terapêuticos e comunitários, dispensando medicamentos, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 encaminhando e acompanhando usuários que moram em residências terapêuticas, assessorando e sendo retaguarda para o trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde e Equipes de Saúde da Família no cuidado domiciliar. Esses são os direcionamentos atuais da Política de Saúde Mental para os CAPS – Centros de Atenção Psicossocial, e esperamos que esta publicação sirva como contribuição para que esses serviços se tornem cada vez mais promotores de saúde e de cidadania das pessoas com sofrimento psíquico. O que é um CAPS? – Como já vimos, um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ou Núcleo de Atenção Psicossocial é um serviço de saúde aberto e comunitário do Sistema Único de Saúde (SUS). Ele é um lugar de referência e tratamento para pessoas que sofrem com transtornos mentais, psicoses, neuroses graves e demais quadros,cuja severidade e/ou persistência justifiquem sua permanência num dispositivo de cuidado intensivo, comunitário, personalizado e promotor de vida. O objetivo dos CAPS é oferecer atendimento à população de sua área de abrangência, realizando o acompanhamento clínico e a reinserção social dos usuários pelo acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários. É um serviço de atendimento de saúde mental criado para ser substitutivo às internações em hospitais psiquiátricos. Os CAPS visam: ➔ Prestar atendimento em regime de atenção diária; ➔ Gerenciar os projetos terapêuticos oferecendo cuidado clínico eficiente e personalizado; ➔ Promover a inserção social dos usuários através de ações intersetoriais que envolvam educação, trabalho, esporte, cultura e lazer, montando estratégias conjuntas de enfrentamento dos problemas. Os CAPS também têm a responsabilidade de organizar a rede de serviços de saúde mental de seu território; ➔ Dar suporte e supervisionar a atenção à saúde mental na rede básica, PSF (Programa de Saúde da Família), PACS (Programa de Agentes Comunitários de Saúde); Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Regular a porta de entrada da rede de assistência em saúde mental de sua área; ➔ Coordenar junto com o gestor local as atividades de supervisão de unidades hospitalares psiquiátricas que atuem no seu território; ➔ Manter atualizada a listagem dos pacientes de sua região que utilizam medicamentos para a saúde mental. Os CAPS devem contar com espaço próprio e adequadamente preparado para atender à sua demanda específica, sendo capazes de oferecer um ambiente continente e estruturado. Deverão contar, no mínimo, com os seguintes recursos físicos: ➔ Consultórios para atividades individuais (consultas, entrevistas, terapias); ➔ Salas para atividades grupais; ➔ Espaço de convivência; ➔ Oficinas; ➔ Refeitório (o CAPS deve ter capacidade para oferecer refeições de acordo com o tempo de permanência de cada paciente na unidade); ➔ Sanitários; ➔ Área externa para oficinas, recreação e esportes. As práticas realizadas nos CAPS se caracterizam por ocorrerem em ambiente aberto, acolhedor e inserido na cidade, no bairro. Os projetos desses serviços, muitas vezes, ultrapassam a própria estrutura física, em busca da rede de suporte social, potencializadora de suas ações, preocupando-se com o sujeito e sua singularidade, sua história, sua cultura e sua vida cotidiana. Quem pode ser atendido nos CAPS? – As pessoas atendidas nos CAPS são aquelas que apresentam intenso sofrimento psíquico, que lhes impossibilita de viver e realizar seus projetos de vida. São, preferencialmente, pessoas com transtornos mentais severos e/ou persistentes, ou seja, pessoas com grave comprometimento psíquico, incluindo os transtornos relacionados às substâncias psicoativas (álcool e outras drogas) e também crianças e adolescentes com transtornos mentais. Os usuários dos CAPS podem ter tido uma longa história de internações psiquiátricas, podem nunca ter sido internados ou podem já ter sido atendidos em outros serviços de saúde (ambulatório, hospital-dia, consultórios etc.). O importante é que essas pessoas saibam que podem ser atendidas e saibam o que são e o que fazem os CAPS. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Como se faz para ser atendido nos CAPS? – Para ser atendido num CAPS pode-se procurar diretamente esse serviço ou ser encaminhado pelo Programa de Saúde da Família ou por qualquer serviço de saúde. A pessoa pode ir sozinha ou acompanhada, devendo procurar, preferencialmente, o CAPS que atende à região onde mora. Quando a pessoa chega deverá ser acolhida e escutada em seu sofrimento. Esse acolhimento poderá ser de diversas formas, de acordo com a organização do serviço. O objetivo nesse primeiro contato é compreender a situação, de forma mais abrangente possível, da pessoa que procura o serviço e iniciar um vínculo terapêutico e de confiança com os profissionais que lá trabalham. Estabelecer um diagnóstico é importante, mas não deverá ser o único nem o principal objetivo desse momento de encontro do usuário com o serviço. A partir daí irá se construindo, conjuntamente, uma estratégia ou um projeto terapêutico para cada usuário. Caso essa pessoa não queira ou não possa ser beneficiada com o trabalho oferecido pelo CAPS, ela deverá ser encaminhada para outro serviço de saúde mais adequado para sua necessidade. Se uma pessoa está isolada, sem condições de acesso ao serviço, ela poderá ser atendida por um profissional da equipe do CAPS em casa, de forma articulada com as equipes de saúde da família do local, quando um familiar ou vizinho solicitar ao CAPS. Por isso, é importante que o CAPS procurado seja o mais próximo possível da região de moradia da pessoa. O que os usuários e seus familiares podem esperar do tratamento no CAPS? – Todo o trabalho desenvolvido no CAPS deverá ser realizado em um “meio terapêutico”, isto é, tanto as sessões individuais ou grupais como a convivência no serviço têm finalidade terapêutica. Isso é obtido através da construção permanente de um ambiente facilitador, estruturado e acolhedor, abrangendo várias modalidades de tratamento. Como dissemos, ao iniciar o acompanhamento no CAPS se traça um projeto terapêutico com o usuário e, em geral, o profissional que o acolheu no serviço passará a ser uma referência para ele. Esse profissional poderá seguir sendo o que chamamos de Terapeuta de Referência (TR), mas não necessariamente, pois é preciso levar em conta que o vínculo que o usuário estabelece com o terapeuta é fundamental em seu processo de tratamento. O Terapeuta de Referência (TR) terá sob sua responsabilidade monitorar junto com o usuário o seu projeto terapêutico, (re)definindo, por exemplo, as atividades e a frequência de participação no serviço. O TR também é responsável pelo contato com a família e pela avaliação periódica das metas traçadas no projeto terapêutico, dialogando com o usuário e com a equipe técnica dos CAPS. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Cada usuário de CAPS deve ter um projeto terapêutico individual, isto é, um conjunto de atendimentos que respeite a sua particularidade, que personalize o atendimento de cada pessoa na unidade e fora dela e proponha atividades durante a permanência diária no serviço, segundo suas necessidades. A depender do projeto terapêutico do usuário do serviço, o CAPS poderá oferecer, conforme as determinações da Portaria GM 336/02: ➔ Atendimento Intensivo: trata-se de atendimento diário, oferecido quando a pessoa se encontra com grave sofrimento psíquico, em situação de crise ou dificuldades intensas no convívio social e familiar, precisando de atenção contínua. Esse atendimento pode ser domiciliar, se necessário; ➔ Atendimento Semi-Intensivo: nessa modalidade de atendimento, o usuário pode ser atendido até 12 dias no mês. Essa modalidade é oferecida quando o sofrimento e a desestruturação psíquica da pessoa diminuíram, melhorando as possibilidades de relacionamento, mas a pessoa ainda necessita de atenção direta da equipe para se estruturar e recuperar sua autonomia. Esse atendimento pode ser domiciliar, se necessário; ➔ Atendimento Não-Intensivo: oferecido quando a pessoa não precisa de suporte contínuo da equipe para viver em seu território e realizar suas atividades na família e/ou no trabalho, podendo ser atendido até três dias no mês. Esse atendimento também pode ser domiciliar.Cada CAPS, por sua vez, deve ter um projeto terapêutico do serviço, que leve em consideração as diferentes contribuições técnicas dos profissionais dos CAPS, as iniciativas de familiares e usuários e o território onde se situa, com sua identidade, sua cultura local e regional. Quais atividades terapêuticas o CAPS pode oferecer? – Como já apresentamos, os CAPS podem oferecer diferentes tipos de atividades terapêuticas. Esses recursos vão além do uso de consultas e de medicamentos, e caracterizam o que vem sendo denominado clínica ampliada. Essa idéia de clínica vem sendo (re)construída nas práticas de atenção psicossocial, provocando mudanças nas formas tradicionais de compreensão e de tratamento dos transtornos mentais. O processo de construção dos serviços de atenção psicossocial também tem revelado outras realidades, isto é, as teorias e os modelos prontos de atendimento vão se tornando insuficientes frente as demandas das relações diárias com o sofrimento e a Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 singularidade desse tipo de atenção. É preciso criar, observar, escutar, estar atento à complexidade da vida das pessoas, que é maior que a doença ou o transtorno. Para tanto, é necessário que, ao definir atividades, como estratégias terapêuticas nos CAPS, se repensem os conceitos, as práticas e as relações que podem promover saúde entre as pessoas: técnicos, usuários, familiares e comunidade. Todos precisam estar envolvidos nessa estratégia, questionando e avaliando permanentemente os rumos da clínica e do serviço. Os CAPS devem oferecer acolhimento diurno e, quando possível e necessário, noturno. Devem ter um ambiente terapêutico e acolhedor, que possa incluir pessoas em situação de crise, muito desestruturadas e que não consigam, naquele momento, acompanhar as atividades organizadas da unidade. O sucesso do acolhimento da crise é essencial para o cumprimento dos objetivos de um CAPS, que é de atender aos transtornos psíquicos graves e evitar as internações. Os CAPS oferecem diversos tipos de atividades terapêuticas, por exemplo: psicoterapia individual ou em grupo, oficinas terapêuticas, atividades comunitárias, atividades artísticas, orientação e acompanhamento do uso de medicação, atendimento domiciliar e aos familiares. Algumas dessas atividades são feitas em grupo, outras são individuais, outras destinadas às famílias, outras são comunitárias. Quando uma pessoa é atendida em um CAPS, ela tem acesso a vários recursos terapêuticos: ➔ Atendimento individual: prescrição de medicamentos, psicoterapia, orientação; ➔ Atendimento em grupo: oficinas terapêuticas, oficinas expressivas, oficinas geradoras de renda, oficinas de alfabetização, oficinas culturais, grupos terapêuticos, atividades esportivas, atividades de suporte social, grupos de leitura e debate, grupos de confecção de jornal; ➔ Atendimento para a família: atendimento nuclear e a grupo de familiares, atendimento individualizado a familiares, visitas domiciliares, atividades de ensino, atividades de lazer com familiares; ➔ Atividades comunitárias: atividades desenvolvidas em conjunto com associações de bairro e outras instituições existentes na comunidade, que têm como objetivo as trocas sociais, a integração do serviço e do usuário com a família, a comunidade e a sociedade em geral. Essas atividades podem ser: Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 festas comunitárias, caminhadas com grupos da comunidade, participação em eventos e grupos dos centros comunitários; ➔ Assembleias ou Reuniões de Organização do Serviço: a Assembleia é um instrumento importante para o efetivo funcionamento dos CAPS como um lugar de convivência. É uma atividade, preferencialmente semanal, que reúne técnicos, usuários, familiares e outros convidados, que juntos discutem, avaliam e propõem encaminhamentos para o serviço. Discutem-se os problemas e sugestões sobre a convivência, as atividades e a organização do CAPS, ajudando a melhorar o atendimento oferecido. Estar em tratamento no CAPS não significa que o usuário tem que ficar a maior parte do tempo dentro do CAPS. As atividades podem ser desenvolvidas fora do serviço, como parte de uma estratégia terapêutica de reabilitação psicossocial, que poderá iniciar- se ou ser articulada pelo CAPS, mas que se realizará na comunidade, no trabalho e na vida social. Dessa forma, o CAPS pode articular cuidado clínico e programas de reabilitação psicossocial. Assim, os projetos terapêuticos devem incluir a construção de trabalhos de inserção social, respeitando as possibilidades individuais e os princípios de cidadania que minimizem o estigma e promovam o protagonismo de cada usuário frente a sua vida. Como vimos, muitas coisas podem ser feitas num CAPS, desde que tenham sentido para promover as melhores oportunidades de trocas afetivas, simbólicas, materiais, capazes de favorecer vínculos e interação humana. Demos somente alguns exemplos, mas, com certeza, existem muitas práticas sendo realizadas nos CAPS que poderiam ser descritas aqui. Quais as outras atividades que um CAPS pode realizar? – São atividades comuns nos CAPS: ➔ Tratamento medicamentoso: tratamento realizado com remédios chamados medicamentos psicoativos ou psicofármacos. ➔ Atendimento a grupo de familiares: reunião de famílias para criar laços de solidariedade entre elas, discutir problemas em comum, enfrentar as situações difíceis, receber orientação sobre diagnóstico e sobre sua participação no projeto terapêutico. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➔ Atendimento individualizado a famílias: atendimentos a uma família ou a membro de uma família que precise de orientação e acompanhamento em situações rotineiras, ou em momentos críticos. ➔ Orientação: conversa e assessoramento individual ou em grupo sobre algum tema específico, por exemplo, o uso de drogas. ➔ Atendimento psicoterápico: encontros individuais ou em grupo onde são utilizados os conhecimentos e as técnicas da psicoterapia. ➔ Atividades comunitárias: atividades que utilizam os recursos da comunidade e que envolvem pessoas, instituições ou grupos organizados que atuam na comunidade. Exemplo: festa junina do bairro, feiras, quermesses, campeonatos esportivos, passeios a parques e cinema, entre outras. ➔ Atividades de suporte social: projetos de inserção no trabalho, articulação com os serviços residenciais terapêuticos, atividades de lazer, encaminhamentos para a entrada na rede de ensino, para obtenção de documentos e apoio para o exercício de direitos civis através da formação de associações de usuários e/ou familiares. ➔ Oficinas culturais: atividades constantes que procuram despertar no usuário um maior interesse pelos espaços de cultura (monumentos, prédios históricos, saraus musicais, festas anuais etc.) de seu bairro ou cidade, promovendo maior integração de usuários e familiares com seu lugar de moradia. ➔ Visitas domiciliares: atendimento realizado por um profissional do CAPS aos usuários e/ou familiares em casa. ➔ Desintoxicação ambulatorial: conjunto de procedimentos destinados ao tratamento da intoxicação/ abstinência decorrente do uso abusivo de álcool e de outras drogas. Todos os CAPS são iguais? – Não, os CAPS são diferentes: a) Quanto ao tamanho do equipamento, estrutura física, profissionais e diversidade nas atividades terapêuticas. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 b) Quanto à especificidade da demanda, isto é, para crianças e adolescentes, usuários de álcool e outrasdrogas ou para transtornos psicóticos e neuróticos graves. Os diferentes tipos de CAPS são: ➔ CAPS I e CAPS II: são CAPS para atendimento diário de adultos, em sua população de abrangência, com transtornos mentais severos e persistentes. ➔ CAPS III: são CAPS para atendimento diário e noturno de adultos, durante sete dias da semana, atendendo à população de referência com transtornos mentais severos e persistentes. ➔ CAPSi: CAPS para infância e adolescência, para atendimento diário a crianças e adolescentes com transtornos mentais. ➔ CAPSad: CAPS para usuários de álcool e drogas, para atendimento diário à população com transtornos decorrentes do uso e dependência de substâncias psicoativas, como álcool e outras drogas. Esse tipo de CAPS possui leitos de repouso com a finalidade exclusiva de tratamento de desintoxicação. CAPS I – municípios com população entre 20.000 e 70.000 habitantes Funciona das 8 às 18 horas De segunda a sexta-feira CAPS II – municípios com população entre 70.000 e 200.000 habitantes Funciona das 8 às 18 horas De segunda a sexta-feira Pode ter um terceiro período, funcionando até 21 horas CAPS III – municípios com população acima de 200.000 habitantes Funciona 24 horas, diariamente, também nos feriados e fins de semana CAPSi – municípios com população acima de 200.000 habitantes Funciona das 8 às 18 horas De segunda a sexta-feira Pode ter um terceiro período, funcionando até 21 horas CAPSad – municípios com população acima de 100.000 habitantes Funciona das 8 às 18 horas De segunda a sexta-feira Pode ter um terceiro período, funcionando até 21 horas Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Tipos de profissionais que trabalham nos CAPS – Equipes mínimas CAPS I ➔ 1 médico psiquiatra ou médico com formação em saúde mental ➔ 1 enfermeiro ➔ 3 profissionais de nível superior de outras categorias profissionais: psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, pedagogo ou outro profissional necessário ao projeto terapêutico ➔ 4 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão CAPS II ➔ 1 médico psiquiatra ➔ 1 enfermeiro com formação em saúde mental ➔ 4 profissionais de nível superior de outras categorias profissionais: psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, pedagogo, professor de educação física ou outro profissional necessário ao projeto terapêutico ➔ 6 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão CAPS III ➔ 2 médicos psiquiatras ➔ 1 enfermeiro com formação em saúde mental ➔ 5 profissionais de nível superior de outras categorias profissionais: psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, pedagogo ou outro profissional necessário de nível superior ➔ 8 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão CAPSi ➔ 1 médico psiquiatra, ou neurologista ou pediatra com formação em saúde mental ➔ 1 enfermeiro ➔ 4 profissionais de nível superior entre as seguintes categorias profissionais: psicólogo, assistente social, enfermeiro, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo, pedagogo ou outro profissional necessário ao projeto terapêutico ➔ 5 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão CAPSad ➔ 1 médico psiquiatra ➔ 1 enfermeiro com formação em saúde mental ➔ 1 médico clínico, responsável pela triagem, avaliação e acompanhamento das intercorrências clínicas ➔ 4 profissionais de nível superior entre as seguintes categorias profissionais: psicólogo, assistente social, enfermeiro, terapeuta ocupacional, pedagogo ou outro profissional necessário ao projeto terapêutico ➔ 6 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Cocaína e derivados A cocaína vem sendo usada em seu estado natural há mais de 15 séculos. Nos Estados Unidos, ciclos de uso indevido disseminado de estimulantes e os problemas a eles associados ocorrem há mais de cem anos. Cocaína e transtornos por uso de cocaína se tornaram uma questão de saúde pública na década de 1980, quando uma epidemia do uso se espalhou pelo país. Graças à educação do público e a intervenções, o uso dessa substância, desde então, diminuiu. Contudo, índices elevados de problemas legais, psiquiátricos, médicos e sociais relacionados a ela ainda existem, e, assim, os transtornos relacionados à cocaína continuam sendo uma importante questão de saúde pública. A cocaína é um alcaloide derivado da planta Erythroxylum coca, nativa da América do Sul, cujas folhas são mascadas pelos habitantes locais com a finalidade de obter seus efeitos estimulantes. O alcaloide cocaína foi isolado pela primeira vez em 1855, e seu primeiro uso como anestésico local ocorreu em 1880. A substância ainda é usada como anestésico local, especialmente para cirurgias envolvendo olhos, nariz e/ou garganta, devido à utilidade de seus efeitos vasoconstritores e analgésicos. Em 1884, Sigmund Freud realizou um estudo sobre os efeitos farmacológicos gerais da cocaína e, durante um período de tempo, segundo seus biógrafos, sofreu adição à droga. Nas décadas de 1880 e 1890, apregoou-se a cocaína como cura para muitas doenças, e, em 1899, ela figurou no Manual Merck. Até 1903, foi o ingrediente ativo na bebida Coca-Cola. Contudo, em 1914, depois que seus efeitos adversos e aditivos foram identificados, a cocaína ganhou a classificação de narcótico, junto a morfina e a heroína. Neurofarmacologia A principal ação farmacodinâmica da cocaína relacionada a seus efeitos comportamentais é o bloqueio competitivo da recaptação de dopamina pelo transportador dopaminérgico. Esse bloqueio aumenta a concentração de dopamina na fenda sináptica e resulta em aumento da ativação de ambos os receptores dopaminérgicos, tipo 1 (D1) e tipo 2 (D2). Os efeitos da cocaína sobre a atividade mediada pelos receptores D3, D4 e D5 ainda não são bem compreendidos, mas ao menos um estudo pré-clínico envolveu o receptor D3. Embora os efeitos comportamentais sejam atribuídos principalmente ao bloqueio da recaptação de dopamina, a cocaína também bloqueia a recaptação de norepinefrina e de serotonina. Os efeitos comportamentais relacionados a essas atividades recebem cada vez mais atenção na literatura científica. Os efeitos sobre o fluxo sanguíneo cerebral e o uso de glicose pelo cérebro também foram estudados. Resultados da maioria dos estudos geralmente demonstram que a cocaína está associada a uma Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 redução do fluxo sanguíneo cerebral e possivelmente ao desenvolvimento de algumas áreas de redução do uso de glicose. Os efeitos comportamentais da cocaína são sentidos quase de imediato e duram um período de tempo relativamente curto (30 a 60 minutos); assim, os usuários necessitam de doses repetidas da droga para manter as sensações provocadas pela intoxicação. Apesar dos efeitos comportamentais de curta duração, metabólitos da cocaína podem estar presentes no sangue e na urina até 10 dias após o uso. A cocaína tem fortes qualidades aditivas. Devido a sua potência como reforçador positivo de comportamento (uso da droga resulta em sensações prazerosas, que estimulam o uso da droga…), pode-se desenvolver dependência psicológica após um único uso. A administração repetida pode originar tanto tolerância como sensibilidadeaos diversos efeitos da substância, o desenvolvimento de tolerância ou sensibilidade parece ser causado por diversos fatores, não podendo ser previsto. Dependência fisiológica ocorre, embora a abstinência de cocaína seja leve em comparação à abstinência de opiatos e opioides. Pesquisadores recentemente relataram que PETs do cérebro de pacientes em tratamento para adição a cocaína mostram alta ativação no sistema dopaminérgico mesolímbico quando o usuário sente intenso desejo de usar a droga. Pesquisadores expuseram pacientes a indícios que haviam causado a fissura por cocaína anteriormente, e foram descritos sentimentos de desejo de consumo intenso pela droga, enquanto os exames de PET mostraram ativação em áreas desde a amígdala e do cingulado anterior até a ponta dos dois lobos temporais. Alguns pesquisadores alegam que o sistema dopaminérgico mesolímbico também fica ativo em pacientes com adição a nicotina, sendo que o mesmo sistema foi associado a fissura por heroína, morfina, anfetaminas, maconha e álcool. Os receptores D2 no sistema dopaminérgico mesolímbico foram identificados como responsáveis pela intensificação de atividade durante períodos de fissura. Relata-se que exames de PET de pacientes em recuperação de adição a cocaína mostram uma queda na atividade neuronal consistente com uma capacidade reduzida de receber dopamina. A diminuição dessa capacidade, embora se reduza com o tempo, é evidente durante um período que pode chegar a um ano e meio após a abstinência. O padrão de redução na atividade cerebral reflete o curso da fissura; entre a terceira e a quarta semana de abstinência, a atividade atinge seu nível mais baixo, e o risco de recaída, seu auge. Depois de um ano, o cérebro de ex-aditos está quase de volta ao normal, embora seja discutível se as células dopaminérgicas em algum momento retornam a um estado completamente normal. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Parecer Psiquiátrico O parecer psiquiátrico é o registro da história, dos achados do exame e da impressão do psiquiatra acerca do paciente. São informações que devem ser reunidas de maneira clara e sucinta. Por outro lado, ele ainda inclui um plano terapêutico, embora não represente diretamente uma prescrição, e não trata apenas das preocupações do paciente, mas se refere principalmente às questões envolvendo o médico assistente e seu paciente. Sua função ultrapassa a condição assistencial, pois o parecer psiquiátrico também contribui para a educação e o treinamento dos profissionais que o solicitaram. Durante a elaboração do parecer devemos levar em consideração que esse documento é formalmente dirigido ao médico assistente do paciente, mas também poderá ser lido por toda a equipe encarregada do paciente – que pode incluir enfermeiros, assistentes sociais, outros médicos e alunos –, por comissões de revisão de prontuários e pelo próprio paciente, visto que o prontuário lhe pertence. Para elaborar o parecer, o psiquiatra deve conversar diretamente com o profissional que o solicitou, determinar o grau de urgência de sua resposta, rever o prontuário e os exames complementares, examinar o paciente, obter informações adicionais da família do paciente ou de outros informantes, estabelecer hipóteses diagnósticas e realizar os procedimentos necessários ao diagnóstico diferencial (solicitar exames complementares e obter mais informações sobre a história do paciente), assim como pode recomendar um tratamento. Para Alexander e Bloch (2002), um parecer psiquiátrico deve responder a oito perguntas fundamentais sobre o paciente: ➔ Quem é o paciente? ➔ Por que foi solicitado um parecer psiquiátrico para esse paciente? ➔ O que encontramos ao examiná-lo? ➔ Como é a família do paciente e seus outros suportes? ➔ O que nós concluímos a partir do exame? ➔ O que recomendamos para o tratamento? ➔ O que recomendamos no acompanhamento psicossocial? ➔ O que aconteceu depois do parecer? Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Problema 3 Esquizofrenia Embora seja discutida como se fosse uma única doença, a esquizofrenia engloba um grupo de transtornos com etiologias heterogêneas e inclui pacientes com apresentações clínicas, resposta ao tratamento e cursos da doença variáveis. Os sinais e sintomas variam e incluem alterações na percepção, na emoção, na cognição, no pensamento e no comportamento. A expressão dessas manifestações varia entre os pacientes e ao longo do tempo, mas o efeito da doença é sempre grave e geralmente de longa duração. O transtorno costuma começar antes dos 25 anos, persiste durante toda a vida e afeta pessoas de todas as classes sociais. Tanto os pacientes como suas famílias muitas vezes sofrem de cuidados deficientes e ostracismo social devido a ignorância sobre o transtorno. A esquizofrenia é um dos mais comuns dos transtornos mentais graves, mas sua natureza essencial ainda não foi esclarecida; portanto, às vezes, ela é referida como uma síndrome, como o grupo de esquizofrenias ou, como na quinta edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5), o espectro da esquizofrenia. Os médicos devem entender que o diagnóstico de esquizofrenia tem base inteiramente na história psiquiátrica e no exame do estado mental. Não existe um exame laboratorial para esse transtorno. Epidemiologia – Nos Estados Unidos, a prevalência de esquizofrenia ao longo da vida é de cerca de 1%, ou seja, em torno de uma pessoa em cada 100 desenvolverá o transtorno durante sua vida. O estudo da Área de Captação Epidemiológica, patrocinado pelo National Institute of Mental Health, relatou uma prevalência ao longo da vida de 0,6 a 1,9%. Nos Estados Unidos, cerca de 0,05% da população total é tratada para esquizofrenia a cada ano, e apenas metade dos pacientes com o transtorno obtém tratamento, apesar de sua gravidade. Gênero e idade – A esquizofrenia é igualmente prevalente em homens e mulheres. Ambos os sexos diferem, no entanto, quanto ao início e ao curso da doença. O início é mais precoce entre homens. Mais da metade dos pacientes com esquizofrenia do sexo masculino, e apenas um terço dos pacientes do sexo feminino, têm sua primeira internação em hospital psiquiátrico antes dos 25 anos de idade. As idades de pico do início são entre 10 e 25 anos para os homens e entre 25 e 35 anos para as mulheres. Diferentemente deles, as mulheres exibem distribuição etária bimodal, com um segundo pico ocorrendo na meia-idade. Cerca de 3 a 10% das mulheres apresentam início da doença após os 40 anos. Em torno de 90% dos pacientes em tratamento têm entre 15 e Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 55 anos. O início da esquizofrenia antes dos 10 anos ou após os 60 anos é extremamente raro. Alguns estudos indicaram que os homens têm maior probabilidade de sofrer sintomas negativos (descritos mais adiante) do que as mulheres, e que estas têm maior probabilidade de ter melhor funcionamento social antes do início da doença. Em geral, o resultado para os pacientes do sexo feminino é melhor do que para os do sexo masculino. Quando o início ocorre após os 45 anos, o transtorno é caracterizado como esquizofrenia de início tardio. Diagnóstico Os critérios diagnósticos do DSM-5 incluem especificadores de curso (i.e., prognóstico) que oferecem aos médicos várias opções e descrevem situações clínicas reais (Tab. 7.1-1). A presença de alucinações ou delírios não é necessária para um diagnóstico de esquizofrenia;o transtorno é diagnosticado como esquizofrenia quando o paciente exibe dois dos sintomas listados em 1 a 5 do Critério A na Tabela 7.1-1 (p. ex., fala desorganizada). O Critério B requer que o funcionamento comprometido, embora não as deteriorações, esteja presente durante a fase ativa da doença. Os sintomas devem persistir por, pelo menos, seis meses, e não deve haver um diagnóstico de transtorno esquizoafetivo ou transtorno do humor. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Subtipos Cinco subtipos de esquizofrenia foram descritos com base predominantemente na apresentação clínica: paranoide, desorganizado, catatônico, indiferenciado e residual. O DSM-5 não usa mais esses subtipos, mas eles são listados na 10a revisão da Classificação internacional de doenças e problemas relacionados à saúde (CID10). Eles estão inclusos neste texto porque os autores acreditam que sejam de significância clínica e porque ainda são utilizados pela maioria dos médicos nos Estados Unidos e em outros países para descrever a fenomenologia da esquizofrenia. Tipo paranoide – O tipo paranoide da esquizofrenia caracteriza-se pela preocupação com um ou mais delírios ou alucinações auditivas frequentes. Classicamente, esse tipo é marcado sobretudo pela presença de delírios de perseguição ou grandeza (Fig. 7.1-4). Esses pacientes costumam ter seu primeiro episódio da doença em idade mais avançada do que aqueles com os tipos catatônico ou desorganizado. Pacientes nos quais a esquizofrenia ocorre no fim da segunda ou terceira décadas de vida em geral já estabeleceram uma vida social que pode ajudá-los a enfrentar a doença, e seus recursos de ego tendem a ser maiores do que os de afetados por esquizofrenia catatônica e desorganizada. Além disso, demonstram menos regressão de suas faculdades mentais, de respostas emocionais e de comportamento do que em outros tipos do transtorno. Indivíduos com esquizofrenia paranoide tendem a ser tensos, desconfiados, cautelosos, reservados e, às vezes, hostis ou agressivos, mas também ocasionalmente capazes de se comportar de forma adequada em algumas situações sociais. Sua inteligência nas áreas que não são invadidas pela psicose tende a permanecer intacta. Tipo desorganizado – O tipo desorganizado da esquizofrenia é caracterizado por regressão acentuada para um comportamento primitivo, desinibido e desordenado e pela ausência de sintomas que satisfaçam os critérios para o tipo catatônico. O início desse subtipo costuma ser precoce, ocorrendo antes dos 25 anos de idade. Os pacientes desorganizados em geral são ativos, mas de uma forma não construtiva, sem objetivo. Seu transtorno do pensamento é pronunciado, e o contato com a realidade é pobre. Sua aparência pessoal é desleixada, e o comportamento social e as respostas emocionais são inadequados, com frequência explodindo em risos sem nenhuma razão aparente. Sorrisos e caretas incongruentes também são comuns nesses pacientes, cujo comportamento pode ser mais bem descrito como tolo ou insensato. Tipo catatônico – O tipo catatônico da esquizofrenia, que era comum várias décadas atrás, tornou-se raro na Europa e na América do Norte. Sua característica clássica é um distúrbio acentuado da função motora, que pode envolver estupor, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 negativismo, rigidez, excitação ou posturas bizarras. Por vezes, o paciente exibe alternância rápida entre extremos de excitação e estupor. As características associadas incluem estereotipias, maneirismos e flexibilidade cérea. O mutismo é particularmente comum. Durante a excitação catatônica, os pacientes necessitam de supervisão constante para impedir que machuquem a si mesmos ou outras pessoas. Pode ser necessário atendimento médico devido a desnutrição, exaustão, hiperpirexia ou autolesões. Tipo indiferenciado – Com frequência, pacientes que claramente têm esquizofrenia não podem ser enquadrados em um subtipo com tanta facilidade. Eles são classificados com esquizofrenia do tipo indiferenciado. Tipo residual – O tipo residual da esquizofrenia caracteriza-se por evidências contínuas do transtorno na ausência de um conjunto completo de sintomas ativos ou de sintomas suficientes para satisfazer o diagnóstico de outro tipo de esquizofrenia. Embotamento emocional, retraimento social, comportamento excêntrico, pensamento ilógico e frouxidão leve das associações são comuns nesse tipo. Quando ocorrem, delírios ou alucinações não são proeminentes nem acompanhados de reações afetivas significativas. Outros subtipos A subtipagem da esquizofrenia tem uma longa história; outros esquemas de subdivisões aparecem na literatura, especialmente em outros países que não os Estados Unidos. Bouffée délirante (psicose delirante aguda) – Esse conceito diagnóstico francês difere do diagnóstico de esquizofrenia sobretudo com base na duração dos sintomas de menos de três meses. Ele é semelhante ao transtorno esquizofreniforme do DSM-5. Os médicos franceses relatam que cerca de 40% dos pacientes com diagnóstico de bouffée delirante progridem na doença e acabam sendo classificados com esquizofrenia. Latente – O conceito de esquizofrenia latente foi desenvolvido em uma época na qual os teóricos concebiam o transtorno em termos diagnósticos amplos. Atualmente, os pacientes devem ter uma doença mental muito grave para justificar um diagnóstico de esquizofrenia, mas, de acordo com o conceito diagnóstico anterior, a condição dos pacientes que hoje não seriam considerados gravemente doentes poderia receber tal diagnóstico. Esquizofrenia latente, por exemplo, muitas vezes era o diagnóstico usado para o que agora é denominado transtorno da personalidade esquizoide, esquizotípica ou borderline. Esses pacientes, algumas vezes, podem exibir comportamentos peculiares ou Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 transtornos do pensamento, mas não manifestam sintomas psicóticos de forma consistente. No passado, a síndrome também era denominada esquizofrenia borderline. Oniroide – Estado oniroide refere-se a um estado de sonho no qual os pacientes podem se encontrar em profunda perplexidade e não completamente orientados em termos de tempo e lugar. O termo esquizofrenia oniroide tem sido usado para pacientes tão profunda mente envolvidos em suas experiências alucinatórias a ponto de excluir qualquer envolvimento com o mundo real. Na presença desse estado, os médicos devem ter o cuidado de investigar causas clínicas ou neurológicas para os sintomas. Parafrenia – O termo parafrenia é usado às vezes como sinônimo de esquizofrenia paranoide ou para indicar um curso progressivamente deteriorante da doença ou a presença de um sistema delirante bem-sistematizado. Os múltiplos significados do termo o tornam ineficaz na comunicação de informações. Esquizofrenia pseudoneurótica – Algumas vezes, pacientes que inicialmente apresentam sintomas de ansiedade, fobias, obsessões e compulsões, mais tarde, revelam sintomas de transtorno do pensamento e psicose. Esses pacientes são caracterizados por sintomas de pan-ansiedade, panfobia, pan-ambivalência e, às vezes, sexualidade caótica. Diferentemente das pessoas com transtornos de ansiedade, indivíduos pseudoneuróticos têm uma ansiedade flutuante que dificilmente desaparece. Nas descrições clínicas, raras vezes apresentam sintomas psicóticos explícitos e graves. Essa condição hoje é diagnosticada como transtorno da personalidade borderline. Transtornodeteriorante simples (esquizofrenia simples) – O transtorno deteriorante simples caracteriza-se por uma perda insidiosa e gradual do impulso e da ambição. Indivíduos com o transtorno em geral não são francamente psicóticos e não vivenciam alucinações ou delírios persistentes. Seu sintoma primário é o retraimento das situações sociais e relacionadas ao trabalho. A síndrome deve ser diferenciada de depressão, de uma fobia, de uma demência ou de uma exacerbação de traços de personalidade. Os médicos devem ter certeza de que o paciente de fato satisfaz os critérios diagnósticos para esquizofrenia antes de fazer o diagnóstico. Transtorno depressivo pós-psicótico da esquizofrenia – Após um episódio agudo de esquizofrenia, alguns pacientes se tornam deprimidos. Os sintomas do transtorno depressivo pós-psicótico da esquizofrenia podem lembrar muito os da fase residual da esquizofrenia e os efeitos adversos de antipsicóticos de uso comum. O diagnóstico não deve ser feito se os sintomas forem induzidos por substâncias ou se fizerem parte de um transtorno do humor devido a uma condição clínica geral. Esses estados depressivos ocorrem em até 25% dos pacientes com esquizofrenia e estão associados com um risco maior de suicídio. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Esquizofrenia de início precoce – Um pequeno número de pacientes manifesta esquizofrenia na infância. Essas crianças podem inicialmente apresentar problemas diagnósticos, em particular com a diferenciação de retardo mental e de transtorno autista. Estudos recentes estabeleceram que o diagnóstico de esquizofrenia na infância pode se basear nos mesmos sintomas usados para avaliar adultos. Seu início é geralmente insidioso, o curso tende a ser crônico, e o prognóstico é, em grande parte, desfavorável. Esquizofrenia de início tardio – A esquizofrenia de início tardio é clinicamente indistinguível da esquizofrenia, mas tem início após os 45 anos de idade. Essa condição tende a aparecer com mais frequência em mulheres e tende a apresentar como característica a predominância de sintomas paranoides. O prognóstico é favorável, e os pacientes em geral têm bons resultados com medicação antipsicótica. Características Clínicas A discussão dos sinais e sintomas clínicos da esquizofrenia levanta três questões fundamentais. Primeiro, nenhum sinal ou sintoma clínico é patognomônico para esquizofrenia; todos os sinais ou sintomas vistos nessa doença ocorrem em outros transtornos psiquiátricos e neurológicos. Essa observação é contrária à opinião clínica comum de que certos sinais e sintomas são diagnósticos de esquizofrenia. Portanto, a história do paciente é essencial para o diagnóstico do transtorno; os médicos não podem diagnosticar sua existência simplesmente pelos resultados de um exame do estado mental, os quais podem variar. Segundo, os sintomas do paciente mudam ao longo do tempo. Por exemplo, um paciente pode ter alucinações intermitentes e capacidade variável de desempenho adequado em situações sociais, ou sintomas significativos de um transtorno do humor podem ir e vir durante o curso da esquizofrenia. Terceiro, os médicos devem levar em conta o nível de escolaridade do paciente, sua capacidade intelectual e sua identidade cultural e subcultural. A pouca capacidade de compreender conceitos abstratos, por exemplo, pode refletir a escolaridade do paciente ou sua inteligência. Organizações e cultos religiosos podem ter costumes que parecem estranhos para pessoas de fora, mas que são normais para aquelas que compartilham desse contexto cultural. Sinais e sintomas pré-mórbidos – Nas formulações teóricas sobre o curso da esquizofrenia, sinais e sintomas pré-mórbidos aparecem antes da fase prodrômica da doença. Essa diferenciação implica a existência desses indicadores antes do processo patológico se tornar evidente e que os sinais e sintomas prodrômicos fazem parte da evolução do transtorno. Na história pré-mórbida típica, porém não invariável, da esquizofrenia, os pacientes tinham personalidade esquizoide ou esquizotípica, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 caracterizados como quietos, passivos e introvertidos; na infância, tinham poucos amigos. Adolescentes pré-esquizofrênicos podem não ter amigos próximos, nem interesses românticos, e também evitar esportes de equipe. Muitas vezes, preferem assistir a filmes ou televisão, escutar música ou jogar games de computador a participar de atividades sociais. Alguns pacientes adolescentes podem exibir início súbito de comportamento obsessivo-compulsivo como parte do quadro prodrômico. A validade dos sinais e sintomas prodrômicos, quase invariavelmente reconhecidos após o diagnóstico de esquizofrenia, é incerta; depois que o transtorno é legitimado, a recordação retrospectiva dos primeiros sinais e sintomas é afetada. Apesar disso, embora com frequência se acredite que a primeira hospitalização marque o início do transtorno, os sinais e sintomas muitas vezes estavam presentes por meses ou mesmo anos. Os sinais podem ter iniciado com queixas de sintomas somáticos, tais como dores de cabeça, dores nas costas, dores musculares, fraqueza e problemas digestivos, e o diagnóstico inicial pode ser simulação, síndrome da fadiga crônica ou transtorno de somatização. A família e os amigos podem, por fim, perceber que a pessoa mudou e não está mais funcionando bem em atividades ocupacionais, sociais e pessoais. Durante esse estágio, um indivíduo pode começar a desenvolver um interesse por ideias abstratas, filosofia e por questões ocultas ou religiosas. Outros sinais e sintomas prodrômicos incluem comportamento acentuadamente excêntrico, afeto anormal, discurso incomum, ideias bizarras e experiências perceptuais estranhas. Escala para Avaliação de Sintomas Positivos (SAPS) e Escala para Avaliação de Sintomas Negativos (SANS) – Estas escalas foram concebidas para fornecer uma avaliação detalhada de sintomas positivos e negativos da esquizofrenia e podem ser usadas separadamente ou em conjunto. A SAPS avalia alucinações, delírios, comportamento bizarro e transtorno do pensamento, e a SANS avalia embotamento afetivo, pobreza da fala, apatia, anedonia e desatenção. Ambas são usadas sobretudo para monitorar os efeitos do tratamento na pesquisa clínica. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Transtorno Bipolar (diagnóstico) Tipo 1 – Os critérios do DSM-5 para transtorno bipolar I (Tab. 8.1-6) requerem a presença de um período distinto de humor anormal de, pelo menos, uma semana e incluem diagnósticos separados de transtorno bipolar I para um episódio maníaco único e para um episódio recorrente com base nos sintomas do episódio mais recente, conforme descrito a seguir. A designação transtorno bipolar I é sinônimo do que antes era conhecido como transtorno bipolar – uma síndrome em que um conjunto completo de sintomas de mania ocorre durante o curso do transtorno. Os critérios diagnósticos para transtorno bipolar II são caracterizados por episódios depressivos e hipomaníacos durante o curso do transtorno, mas os episódios de sintomas maníaco-símiles não satisfazem por completo os critérios diagnósticos para uma síndrome maníaca completa. Episódios maníacos claramente precipitados por tratamento antidepressivo (p. ex., farmacoterapia, eletroconvulsoterapia [ECT]) não indicam transtorno bipolar I. ➔ Transtorno bipolar I, episódio maníaco único– De acordo com o DSM-5, os pacientes devem estar vivenciando seu primeiro episódio maníaco para satisfazer os critérios diagnósticos para transtorno bipolar I, episódio maníaco único. Esse requisito baseia-se no fato de que pacientes que estão tendo seu primeiro episódio de depressão do transtorno bipolar I não podem ser distinguidos daqueles afetados por transtorno depressivo maior. ➔ Transtorno bipolar I, recorrente – As questões relativas à definição do fim de um episódio de depressão também se aplicam à definição do fim de um episódio de mania. Os episódios maníacos são considerados distintos quando são separados por, pelo menos, dois meses sem sintomas significativos de mania ou hipomania. Tipo 2 – Os critérios diagnósticos para transtorno bipolar II especificam a gravidade, a frequência e a duração dos sintomas hipomaníacos. Os critérios diagnósticos para um episódio hipomaníaco são listados junto com os critérios para transtorno bipolar II (também na Tab. 8.1-6). Os critérios foram estabelecidos para diminuir o excesso de diagnósticos de episódios hipomaníacos e a classificação incorreta de transtorno bipolar II para pacientes com transtorno depressivo maior. De uma perspectiva clínica, os psiquiatras podem achar difícil distinguir eutimia de hipomania em um paciente que esteve cronicamente deprimido por muitos meses ou anos. Como ocorre no transtorno bipolar I, os episódios hipomaníacos induzidos por antidepressivos não são diagnósticos de transtorno bipolar II. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Características Clínicas Os dois padrões básicos de sintomas nos transtornos do humor são depressão e mania. Episódios depressivos podem ocorrer no transtorno depressivo maior assim como no transtorno bipolar I. Pesquisadores têm tentado encontrar diferenças confiáveis entre episódios depressivos do transtorno bipolar I e episódios de transtorno depressivo maior, mas as diferenças são ilusórias. Em uma situação clínica, somente a história do paciente, a história familiar e o curso futuro podem ajudar a diferenciar as duas condições. Alguns pacientes com transtorno bipolar I têm estados mistos com aspectos tanto maníacos quanto depressivos, e alguns parecem vivenciar episódios de depressão rápidos – de minutos a poucas horas – durante os episódios maníacos. Episódios maníacos – Um estado de humor elevado, expansivo ou irritável é a característica de um episódio maníaco. O estado de humor eufórico muitas vezes é contagiante e pode até causar uma negação contratransferencial da doença por um médico inexperiente. Embora pessoas não envolvidas possam não reconhecer a natureza incomum do estado de humor do paciente, os que o conhecem identificam-no como anormal. De forma alternativa, o humor pode ser irritável, em especial quando os planos excessivamente ambiciosos do paciente são contrariados. Os pacientes muitas vezes exibem uma mudança do humor predominante, de euforia no início do curso da doença para uma posterior irritabilidade. O tratamento de indivíduos maníacos em uma unidade hospitalar pode ser complicado por sua tentativa de testar os limites das regras da unidade, sua tendência a transferir a responsabilidade por seus atos para os outros, sua exploração das fraquezas dos outros e sua tendência a criar conflitos entre membros da equipe. Fora do hospital, pacientes maníacos tendem a consumir álcool em excesso, talvez em uma tentativa de automedicação. Sua natureza desinibida reflete-se no uso excessivo do telefone, sobretudo ao fazer chamadas de longa distância durante as primeiras horas da manhã. Jogo patológico, tendência a se despir em lugares públicos, usar roupas e joias de cores brilhantes em combinações incomuns ou extravagantes e desatenção a pequenos detalhes (p. ex., esquecer de desligar o telefone) também são sintomáticos do transtorno. Os pacientes agem de maneira impulsiva e, ao mesmo tempo, com um sentido de convicção e propósito. Estão frequentemente preocupados com ideias religiosas, políticas, financeiras, sexuais ou persecutórias que podem evoluir para sistemas delirantes complexos. Algumas vezes, sofrem regressão e brincam com sua urina e suas fezes. Mania em adolescentes – A mania em adolescentes costuma ser diagnosticada de forma errônea como transtorno da personalidade antissocial ou esquizofrenia. Os Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 sintomas podem incluir psicose, abuso de álcool ou outras substâncias, tentativas de suicídio, problemas escolares, ruminação filosófica, sintomas de TOC, queixas somáticas múltiplas, irritabilidade acentuada levando a brigas e a outros comportamentos antissociais. Embora muitos desses sintomas sejam vistos em adolescentes sadios, sintomas graves ou persistentes devem levar os médicos a considerar o transtorno bipolar I no diagnóstico diferencial. Transtorno bipolar tipo 2 – As características clínicas de transtorno bipolar II são as do transtorno depressivo maior combinadas com as de um episódio hipomaníaco. Ainda que os dados sejam limitados, alguns estudos indicam que o transtorno bipolar II está associado com mais problemas conjugais e com uma idade de início mais precoce do que o bipolar I. As evidências também apontam que pacientes com transtorno bipolar II têm risco mais alto tanto de tentar quanto de completar o suicídio do que os que apresentam transtorno bipolar I e transtorno depressivo maior. O transtorno bipolar tipo II, que requer um ou mais episódios depressivos maiores e, pelo menos, um episódio hipomaníaco durante o curso da vida, não é mais considerado uma condição “mais leve” que o transtorno bipolar tipo I, em grande parte em razão da quantidade de tempo que pessoas com essa condição passam em depressão e pelo fato de a instabilidade do humor vivenciada ser tipicamente acompanhada de prejuízo grave no funcionamento profissional e social. Mania A mania afeta o humor e as funções vegetativas, como sono, cognição, psicomotricidade e nível de energia. Em um episódio maníaco clássico, o humor é expansivo ou eufórico, diminui a necessidade de sono, ocorre aumento da energia, de atividades dirigidas a objetivos (por exemplo, o paciente inicia vários projetos ao mesmo tempo), de atividades prazerosas, da libido, além de inquietação e até mesmo agitação psicomotora. O pensamento torna-se mais rápido, podendo evoluir para a fuga de ideias. O discurso é caracterizado por prolixidade, pressão para falar e tangencialidade. As ideias costumam ser de grandeza, podendo ser delirantes. Geralmente a crítica está prejudicada e os ajuizamentos emitidos se afastam da realidade do paciente. A maior dificuldade no diagnóstico ocorre em episódios em que há irritabilidade, ideias delirantes paranoides, agitação psicomotora e sintomas depressivos com labilidade afetiva. Quando sintomas depressivos estão presentes em grande quantidade, o quadro é denominado de episódio misto ou até mesmo de depressão agitada. Não há consenso sobre o número de sintomas necessários para esta diferenciação. Há muito tempo se Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 conhecem os estágios de agravamento na evolução natural desses episódios quando não tratados (Tabela 1). As classificações mais utilizadas em psiquiatria enfatizam o quadro clássico da mania. O diagnóstico pelo DSM-IV requer humor persistente e anormalmente elevado, expansivo ou irritável durando pelo menos uma semana. Caso seja necessáriaa hospitalização antes de uma semana, o diagnóstico também pode ser feito. Além da alteração de humor, pelo menos três (ou quatro se o humor é irritável) dos seguintes sintomas devem estar presentes: grandiosidade, necessidade diminuída de sono, pressão para falar, fuga de ideias ou pensamentos correndo, distraibilidade, aumento da atividade dirigida a objetivos ou agitação psicomotora, envolvimento excessivo em atividades prazerosas. Uma falha dessa classificação é não citar sintomas psicóticos entre os critérios, apenas especificadores. Outra é excluir, para o diagnóstico, a mania induzida por antidepressivos. A CID-10 é vaga na sua definição, apesar de enfatizar a mania com e sem sintomas psicóticos. Exige no seu manual clínico a presença de elação do humor, que não basta ser irritável, e não operacionaliza uma duração mínima ou um número mínimo de sintomas. Inclui também como sintomas o aumento de energia, a diminuição da necessidade de sono, a distraibilidade, a grandiosidade, a pressão para falar e a perda das inibições sociais. Em 2001, Akiskal et al. propuseram novos critérios para o diagnóstico de mania. Enfatizaram a ativação psicomotora como central na mania, humor depressivo ou ansioso, além de eufórico ou irritável, ausência de crítica e quatro dos seguintes sintomas: aumento de energia, diminuição da necessidade de ajuda, grandiosidade, sociabilidade excessiva, aumento da libido, fuga de ideias e distraibilidade. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Hipomania A hipomania é um estado semelhante à mania, porém mais leve. Em geral, é breve, durando menos de uma semana. Há mudança no humor habitual do paciente para euforia ou irritabilidade, reconhecida por outros, além de hiperatividade, tagarelice, diminuição da necessidade de sono, aumento da sociabilidade, atividade física, iniciativa, atividades prazerosas, libido e sexo, e impaciência. O prejuízo ao paciente não é tão intenso quanto o da mania. A hipomania não se apresenta com sintomas psicóticos, nem requer hospitalização. No DSM-IV a duração mínima de quatro dias é necessária para a confirmação do diagnóstico. Os sintomas são os mesmos da mania e também exclui como hipomania aquela induzida por antidepressivos. A CID-10 cita apenas “vários dias” como necessários para preencher o critério de hipomania. Um estudo de validação epidemiológica prospectiva demonstrou que até mesmo um dia já é suficiente para o diagnóstico de hipomania, sendo a duração modal de dois dias (Angst, 1998). Os estados patológicos de elevação do humor são acompanhados de vários graus de sintomas depressivos e prejuízos funcionais. Embora os instrumentos diagnósticos separem hipomania, mania e estados mistos, muitas vezes é difícil discriminá-los de forma confiável. O paciente bipolar tipo I comumente exibe um curso que flutua entre esses episódios em uma progressão que em alguns momentos parece ordenada e, em outros, caótica. Na prática clínica, o grau de incapacitação e as alterações de comportamento, como agressividade, agitação, psicose, falta de crítica e da capacidade de julgamento da realidade, além dos comprometimentos sociais e ocupacionais, chamam a atenção e levam à intervenção médica. O que diferencia mais frequentemente episódios de depressão e os de elevação do humor é a variabilidade de sintomas durante o dia. Pacientes em mania podem ter horas ou dias sem sintomas francos e, em alguns casos, a elevação do humor é mais bem caracterizada como um estado de hiper-reatividade a estímulos. Outros fatores também interferem para o não reconhecimento da mania, hipomania e dos estados mistos, tais como (Akiskal et al ., 2000): não investigar hipomania; confundir sintomas psicóticos com esquizofrenia ou sintomas hipomaníacos com comportamentos normais; não distinguir episódios mistos de transtornos de personalidade, impulsividade com bulimia ou com transtorno associado ao uso de substâncias; e não consultar o informante ou usar outras fontes de dados. Pacientes e familiares podem considerar a hipomania como normal, não procurar tratamento ou esquecer de relatar episódios anteriores. Por outro lado, pacientes podem apresentar ausência de crítica do estado mórbido motivada por ignorância, preconceito ou medo, ou Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 mesmo pela presença de sintomas psicóticos. Além disso, os instrumentos diagnósticos focam apenas a polaridade e não o curso da doença, e a hipomania não requer disfunção social/ocupacional para o diagnóstico pelo DSM-IV. A avaliação transversal (estado clínico atual) e longitudinal (frequência, gravidade e consequências de episódios passados) devem ser levadas em consideração para o diagnóstico e requer atenção cuidadosa na história clínica. Fatores desencadeantes de transtornos mentais Fatores individuais – A Medicina explica o desenvolvimento dos transtornos mentais a partir da interação de uma multiplicidade de fatores individuais e ambientais. Entre os fatores individuais, destaca aqueles relacionados ao corpo (aspecto biológico) e à subjetividade (aspectos psicológicos). Corpo (biológico) ➔ Condições clínicas: Há transtornos mentais que são resultantes diretamente de doenças clínicas, como por exemplo: AIDS, epilepsia, meningite, insuficiência hepática. Quando essas doenças estão sob controle, a tendência é que o transtorno mental melhore e até suma. Também há medicações ou substâncias externas (ex.: drogas ilícitas) que podem causar alterações emocionais e comportamentais. ➔ Ao se deparar com uma pessoa com provável transtorno mental, é sempre importante levá-la ao serviço de Saúde, para que descartem a presença de doenças clínicas ou doenças crônicas mal controladas, lembrando-se de sempre levar as medicações em uso. Isso é o que o médico chama de “causa orgânica” do transtorno mental. ➔ Alterações cerebrais: uma pessoa pode nascer com um problema cerebral (como retardo mental, por exemplo) ou desenvolver um problema com alterações claras e bem descritas no cérebro (como a demência). ➔ Há casos em que a pessoa desenvolve um transtorno mental, mas não encontramos alterações na forma e na estrutura do cérebro, como é o caso da depressão e da ansiedade. Assim, entendemos que deve haver alguma alteração diferente, que esteja na forma de funcionar do cérebro, isto é, nos neurotransmissores, que são as substâncias químicas que realizam a Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 transmissão de informações. Porém, ainda não temos exames para detectar esses tipos de alteração. ➔ Hereditariedade (genética): os transtornos psiquiátricos podem ser hereditários; cada um deles tem diferentes taxas (probabilidades) de transmissão de pais para filhos. Por isso, não podemos dar como certo que os filhos de uma pessoa com transtorno mental terão este transtorno, pois há outros fatores envolvidos, principalmente ambientais. Até hoje não conseguiram encontrar genes específicos alterados que seriam a única causa de um determinado transtorno mental, mas sabemos que existe uma base genética para o seu desenvolvimento. Subjetividade (psicológico) – A subjetividade é o mundo interno da pessoa. É composta por sentimentos, pensamentos, formas de se relacionar e de se comportar. Tratamos de manifestações da subjetividade quando falamos do “jeito” da pessoa ou de sua personalidade ou temperamento. Não há uma explicação definitiva para uma pessoa ser de um jeito ou de outro, há diversas linhas teóricasque trazem explicações diferentes. A forma como a pessoa interage, porém, com o mundo externo e interno, sua forma de pensar, entrar em contato com seus sentimentos e lidar com questões influenciam a Saúde Mental. Internação compulsória/involuntária A Lei Federal 10.216/20017, promulgada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, como deixa explícito em seu subtítulo, se dispõe a proteger os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redirecionar o modelo assistencial em saúde mental. Ela veio em substituição ao Decreto 24.559, de 1934, que até então dispunha “sobre a assistência e proteção à pessoa e aos bens dos psicopatas”. Desnecessário dizer que tal lei era cheia de anacronismos e inadequações acumuladas diante dos quase cem anos de avanço do conhecimento médico que ela atravessou. Assim, muito embora algumas medidas propostas como “redirecionamentos” para a assistência sejam passíveis de questionamento, em seu cômputo geral é uma lei que trouxe avanços na regulamentação de atos médicos envolvendo pacientes portadores de transtornos mentais. Com relação às internações psiquiátricas, a lei define suas modalidades, bem como suas justificativas. No parágrafo único do artigo 6º define-se que: ➔ “São considerados os seguintes tipos de internação psiquiátrica: Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ➢ I – internação voluntária: aquela que se dá com o consentimento do usuário; ➢ II – internação involuntária: aquela que se dá sem o consentimento do usuário e a pedido de terceiro; e ➢ III – internação compulsória: aquela determinada pela Justiça.” Portanto, qualquer paciente que se encontre numa enfermaria psiquiátrica se enquadra numa dessas categorias: afora as judicialmente determinadas (compulsórias) – casos nos quais a vontade do paciente não interfere –, a internação só é voluntária se o paciente declara por escrito que a aceita; todos os outros casos são involuntários. Isso fica claro no artigo 7º: “A pessoa que solicita voluntariamente sua internação, ou que a consente, deve assinar, no momento da admissão, uma declaração de que optou por esse regime de tratamento.” No parágrafo único lê-se que: “O término da internação voluntária dar-se-á por solicitação escrita do paciente ou por determinação do médico assistente.” Ou seja, as categorias podem mudar ao longo do tempo se o paciente voluntariamente internado pede a alta, ou se esta é conferida ou a internação se torna involuntária. Essa modalidade de internação tem regras específicas também determinadas na lei: ➔ “Art. 8o – A internação voluntária ou involuntária somente será autorizada por médico devidamente registrado no Conselho Regional de Medicina – CRM do Estado onde se localize o estabelecimento. ➔ § 1o – A internação psiquiátrica involuntária deverá, no prazo de setenta e duas horas, ser comunicada ao Ministério Público Estadual pelo responsável técnico do estabelecimento no qual tenha ocorrido, devendo esse mesmo procedimento ser adotado quando da respectiva alta. ➔ § 2o – O término da internação involuntária dar-se-á por solicitação escrita do familiar, ou responsável legal, ou quando estabelecido pelo especialista responsável pelo tratamento.” Alguns pontos merecem destaque: em primeiro lugar, a necessidade de comunicar o Ministério Público da internação e da alta desses pacientes. Tal norma tem sido cumprida anexando-se um “Termo de Comunicação de Internação Psiquiátrica Involuntária” aos documentos médicos necessários para proceder à internação9. O próprio hospital se encarrega de transmiti-los ao Ministério Público, geralmente via fax, sendo o Diretor Clínico o responsável técnico referido na lei. Outro ponto de interesse diz respeito ao fim da internação involuntária. Além do evento de alta médica, fica claro na lei que os responsáveis legais têm o direto de retirar o paciente. É natural que seja assim: se um indivíduo tem a capacidade de discernimento Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 preservada, ele pode aceitar se tratar ou não (a não ser que isso implique iminente risco de morte). A internação involuntária existe em psiquiatria porque tal capacidade por vezes falta ao paciente. Quando isso ocorre, alguém toma em suas mãos as deliberações sobre a vida dele, analogamente ao caso das pessoas interditadas. E a lei brasileira é clara ao dizer quem assume tal papel, no artigo 1.775 do Novo Código Civil: ➔ “O cônjuge ou companheiro, não separado judicialmente ou de fato, é, de direito, curador do outro, quando interdito. ➢ § 1º – Na falta do cônjuge ou companheiro, é curador legítimo o pai ou a mãe; na falta destes, o descendente que se demonstrar mais apto. ➢ § 2º – Entre os descendentes, os mais próximos precedem aos mais remotos. ➢ § 3º – Na falta das pessoas mencionadas neste artigo, compete ao juiz a escolha do curador.” Da mesma forma que uma pessoa em sã consciência decide sobre si, é a família que decide sobre um parente com transtorno mental que o prive de entendimento. O médico, entretanto, decide nos casos em que não há família no momento ou se o risco da não internação é extremo. Nesse último caso a alta pode ser recusada, conforme o artigo 46o do Código de Ética Médico: “É vedado ao médico: efetuar qualquer procedimento médico sem o esclarecimento e o consentimento prévios do paciente ou de seu responsável legal, salvo em iminente perigo de vida” [grifo nosso]. Na tabela 1 procurou- se exemplificar com casos práticos situações em que a internação involuntária pode ser necessária, sendo proposto um fluxograma (Figura 1) para a conduta nos casos. Finalmente o artigo 9º trata das internações compulsórias, aquelas ordenadas por juízes: “A internação compulsória é determinada, de acordo com a legislação vigente, pelo juiz competente, que levará em conta as condições de segurança do estabelecimento, quanto à salvaguarda do paciente, dos demais internados e funcionários”. Embora não seja rara, não é a situação mais comumente encontrada nos hospitais psiquiátricos, excluídos os Hospitais de Custódia e Tratamento. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Ocorre, porém, algumas vezes, um conflito de interesses entre médico e paciente, em que este se recusa a submeter-se à indicação formulada por aquele. As condições clínicas propiciadoras dessa recusa são: 1. Paciente com rebaixamento ou estreitamento da consciência (como no estupor catatônico esquizofrênico ou depressivo, no transtorno dissociativo histérico e outros). 2. Paciente com preservação da consciência, mas sem capacidade para uma decisão racional (como nos diversos transtornos delirantes e alucinatórios, e outros). A decisão do psiquiatra em indicar a internação, esgotados os recursos extra- hospitalares para o tratamento ou manejo do problema, ou mesmo perante a gravidade/emergência do caso, acaba por se constituir mais frequentemente, segundo Taborda, nas seguintes apresentações: presença de transtorno mental (exceto transtorno Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 de personalidade antissocial), além de, no mínimo, uma das seguintes condições: a) Risco de autoagressão b) Risco de hétero-agressão c) Risco de agressão à ordem pública d) Risco de exposição social e) Incapacidade grave de autocuidados. É nas condições clínicas e apresentações acima descritas que o Estado, sob a lei nº 10.216/20012, confere ao médico especialista, com o beneplácito da família, ou responsável legal do paciente, a possibilidade da internação involuntária, mediante comunicaçãodevidamente justificada ao Ministério Público Estadual no prazo de até 72 horas após sua ocorrência, seguida de notificação circunstanciada ao mesmo órgão quando da alta hospitalar. Na ausência da família, ou em sua não concordância, pode o Estado (lei 10.216/2001, art.3º), evocando a figura do pátrio poder, autorizar a internação compulsória, mediante decisão de juiz competente. Coerentemente à lei 10.216/2001, o Ministério da Saúde, sob a portaria nº 2391/ GM/20022, prevê, então, quatro modalidades de internação: 1. Internação psiquiátrica voluntária (IPV); mediante consentimento livre e esclarecido. 2. Internação psiquiátrica involuntária (IPI); mediante comunicação ao MPE em até 72 horas. 3. Internação psiquiátrica voluntária que se torna involuntária em sua evolução (IPVI); mediante comunicação ao MPE, em até 72 horas a partir de sua involuntariedade. 4. Internação psiquiátrica compulsória (IPC), mediante ordem judicial. Em relação ao diagnóstico, procedeu-se a uma avaliação quantitativa, que revelou a seguintes prevalências, em ordem decrescente, entre todos os pacientes internados involuntariamente. 1. Psicoses não orgânicas e não especificadas (F29) (24.5% dos casos) somadas a outras psicoses não esquizofrênicas, não depressivas e não maníacas (F21 a F29) (3.7%), perfazendo 28.2% dos casos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 2. Esquizofrenia e subtipos (F20): 21.7% dos casos (sendo o subtipo paranoide o mais prevalente (48.8% dos casos de esquizofrenia). 3. Transtorno afetivo bipolar (F31 e subtipos) (16.6%), mais mania ou hipomania unipolares (F30) (1.2%), perfazendo um total de 17.8% dos casos. 4. Transtornos mentais ou comportamentais devidos ao uso do álcool (F10 e subtipos) (9.9% dos casos), mais Transtornos mentais ou comportamentais devidos a outras substâncias psicoativas em múltiplo uso (a incluir eventualmente o álcool também) (F19 e subtipos) (6%) ou isoladas (F11 a F18) (0.8%), perfazendo um total de 16.7 % dos casos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Transtorno Bipolar O Transtorno Bipolar (TB), também conhecido como “transtorno afetivo bipolar” e originalmente chamado de “insanidade maníaco-depressiva”, é uma condição psiquiátrica caracterizada por alterações graves de humor, que envolvem períodos de humor elevado e de depressão (polos opostos da experiência afetiva) intercalados por períodos de remissão, e estão associados a sintomas cognitivos, físicos e comportamentais específicos. De acordo com a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM 5), o transtorno se diferencia em dois tipos principais: o Tipo I, em que a elevação do humor é grave e persiste (mania), e o Tipo II, em que a elevação do humor é mais branda (hipomania).3 A utilização do especificador “com características mistas” se aplica aos estados em que há a ocorrência concomitante de sintomas maníacos e depressivos, embora estes sejam vistos como polos opostos do humor. Já o quadro de Transtorno Ciclotímico se caracteriza pela alternância entre períodos hipomaníacos e depressivos ao longo de, pelo menos, dois anos em adultos (ou um ano em crianças) sem, entretanto, atender os critérios para um episódio de mania, hipomania ou depressão maior. O DSM 5 inclui ainda a categoria “outro transtorno bipolar e transtorno relacionado especificado” para classificar quadros atípicos, marcados pela ocorrência de sintomas que não preenchem os critérios de duração e frequência mínimos para caracterizar sequer um episódio de hipomania.3 Quadros semelhantes a esses, além de outros que não se encaixariam adequadamente nas categorias de classificação previstas no DSM, poderiam encontrar lugar dentro da ideia de um espectro bipolar representado por um continuum de condições que interligariam a depressão à esquizofrenia. O recente conceito de espectro bipolar compreende pessoas com depressão recorrente grave, tal como na depressão unipolar clássica, porém com histórico familiar de TB ou mania induzida por antidepressivos e uma série de outras características de bipolaridade relacionadas aos sintomas depressivos, incluindo o curso ou resposta a tratamentos, como: características mistas ou melancólicas, início precoce, múltiplos episódios, baixa tolerância ou pouca resposta a antidepressivos. A proposta do espectro bipolar pode ser melhor compreendida como princípio de organização para a tarefa de categorizar as diferentes formas do TB ao longo de um mesmo espectro. Cabe notar que, apesar de vários autores considerarem a validade de “constructo” do espectro bipolar essa nomenclatura não consta nas versões atuais dos principais manuais diagnósticos psiquiátricos (i.e., “Classificação Internacional de Doenças – CID” e “Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM”). Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Epidemiologia – Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que o TB atinge aproximadamente 30 milhões de pessoas em todo o mundo, estando entre as maiores causas de incapacidade.11 Dados extraídos de uma amostra combinada de onze países revelaram que as taxas de prevalência ao longo da vida do transtorno bipolar tipo I (TB-I), transtorno bipolar tipo II (TB-II), transtorno bipolar subsindrômico (TB- sub) e do espectro bipolar (EB) foram de 0,6%, 0,4%, 1,4% e 2,4% respectivamente. Já as taxas de prevalência anual do TB-I, TB-II, TB-sub e do EB caíram para 0,4%, 0,3%, 0,8%, e 1,5% respectivamente.12 No Brasil, mais especificamente na cidade de São Paulo, a taxa encontrada de prevalência do TB (sem diferenciar os subtipos) ao longo da vida foi de 1% e a prevalência anual foi de 0,5%. Dados mundiais mostraram que o TB afeta homens e mulheres de forma diferente. Verificou-se que as taxas de prevalência do TB-I e do TB-sub ao longo da vida foram maiores nos homens, enquanto as mulheres apresentaram taxas mais elevadas do TB-II. No que se refere a outras características sociodemográficas, cabe acrescentar que não foram encontradas diferenças significativas ao se correlacionar o EB com o estado civil, a ocupação e a renda familiar. Um estudo em particular mostrou também que o risco de se desenvolver o TB é maior em adultos jovens, em que, pelo menos, metade dos casos se iniciam antes dos 25 anos de idade. Quanto às comorbidades associadas ao TB, dados globais mostraram que 76,5% das pessoas que se encaixam no diagnóstico do EB também apresentaram outros transtornos ao longo da vida. As comorbidades mais frequentes ao EB são: os transtornos de ansiedade (62,9%), os transtornos comportamentais (44,8%) e os transtornos relacionados ao abuso de substâncias (36,6%). Ademais, foram encontradas similaridades no padrão das comorbidades referentes aos transtornos de ansiedade e abuso de substância entre os diversos países estudados. Etiologia – O TB é um transtorno complexo e multideterminado, causado pela interação de fatores genéticos e ambientais. Estudos com gêmeos indicaram que os transtornos do espectro bipolar são hereditários, com incidência superior a 80% em gêmeos idênticos, caindo para 6% em parentes de primeiro grau. O surgimento e a evolução do TB são possivelmente influenciados pelo trauma precoce, por eventos aversivos significativos da vida e pelo uso indevido de álcool e drogas. O aparecimento da doença pode ser particularmente influenciado pelo estresse sofrido no final da adolescência, mas os primeiros episódios de mania podem se manifestar ao longo de toda a vida. Foi demonstrado queo risco de desenvolver TB-II é maior entre familiares de pessoas com a doença. Em contraste, o desenvolvimento do TB-I e do Transtorno Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Depressivo Maior tende a ter menos relação com a genética. Os fatores genéticos podem ainda influenciar a idade de início do Transtorno Bipolar. Caracterização da doença – O humor elevado ou irritável pode ser classificado como mania ou hipomania, dependendo de sua gravidade e da presença de sintomas psicóticos. Classifica-se como mania o estado severo de humor elevado ou irritabilidade, associado ou não a sintomas psicóticos, que provocam alterações no comportamento e na funcionalidade do indivíduo. A duração do estado de mania deve ser de no mínimo uma semana, estando o humor elevado ou irritabilidade presente na maior parte do dia, quase todos os dias. O critério de duração mínima é dispensável se a hospitalização se fizer necessária. Na hipomania as elevações de humor e os distúrbios comportamentais/funcionais são menos graves e com duração mais breve que o estado de mania (quatro dias consecutivos), o que geralmente não coloca a pessoa perante atenção médica. No entanto, a hipomania pode progredir para a mania.1 Cabe destacar que a presença de sintomas psicóticos é sempre indicativa de quadro grave e, ainda que os demais sintomas de ativação não sejam tão proeminentes, automaticamente descarta a possibilidade de episódio hipomaníaco. Este é um engano cometido com frequência na clínica psiquiátrica, principalmente entre profissionais menos experientes. De modo semelhante ao Transtorno Depressivo, apesar da variação no humor ser um aspecto marcante no Transtorno Bipolar, existem muitos outros aspectos que devem ser considerados. A quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) apresenta uma lista de sintomas que, combinados à elevação do humor ou irritabilidade, caracterizam um Episódio de Mania ou Episódio Hipomaníaco, conforme detalhado nas tabelas 1 e 2. No polo oposto, os quadros de depressão do TB, também chamados de Episódio Depressivo Maior, são caracterizados pelo humor deprimido ou perda de interesse/prazer por quase todas as atividades durante, pelo menos, duas semanas. Além disso, o indivíduo pode apresentar perturbações nas funções vegetativas, incluindo: alterações no apetite ou peso, no padrão de sono e atividade psicomotora; diminuição da energia; sentimento de culpa e/ou desvalia; dificuldade para pensar ou concentrar-se ou tomar decisões; pensamentos recorrentes sobre a morte, ideação, planos ou mesmo tentativas suicidas. O especificador “com características mistas” se aplica a situações em que ocorrem durante a vigência de um episódio maníaco, hipomaníaco ou depressivo pelo menos três Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 sintomas relacionados ao polo oposto de humor. Em função do prejuízo acentuado e da gravidade clínica da mania plena, o DSM 5 recomenda adotar o diagnóstico de episódio maníaco com características mistas para os indivíduos que apresentam sintomas que satisfazem simultaneamente os critérios de mania e depressão. Diagnóstico Tipo 1 – Os critérios do DSM-5 para transtorno bipolar I (Tab. 8.1-6) requerem a presença de um período distinto de humor anormal de, pelo menos, uma semana e incluem diagnósticos separados de transtorno bipolar I para um episódio maníaco único e para um episódio recorrente com base nos sintomas do episódio mais recente, conforme descrito a seguir. A designação transtorno bipolar I é sinônimo do que antes era conhecido como transtorno bipolar – uma síndrome em que um conjunto completo de sintomas de mania ocorre durante o curso do transtorno. Os critérios diagnósticos para transtorno bipolar II são caracterizados por episódios depressivos e hipomaníacos durante o curso do transtorno, mas os episódios de sintomas maníaco-símiles não satisfazem por completo os critérios diagnósticos para uma síndrome maníaca completa. Episódios maníacos claramente precipitados por tratamento antidepressivo (p. ex., farmacoterapia, eletroconvulsoterapia [ECT]) não indicam transtorno bipolar I. ➔ Transtorno bipolar I, episódio maníaco único – De acordo com o DSM-5, os pacientes devem estar vivenciando seu primeiro episódio maníaco para satisfazer os critérios diagnósticos para transtorno bipolar I, episódio maníaco único. Esse requisito baseia-se no fato de que pacientes que estão tendo seu primeiro episódio de depressão do transtorno bipolar I não podem ser distinguidos daqueles afetados por transtorno depressivo maior. ➔ Transtorno bipolar I, recorrente – As questões relativas à definição do fim de um episódio de depressão também se aplicam à definição do fim de um episódio de mania. Os episódios maníacos são considerados distintos quando são separados por, pelo menos, dois meses sem sintomas significativos de mania ou hipomania. Tipo 2 – Os critérios diagnósticos para transtorno bipolar II especificam a gravidade, a frequência e a duração dos sintomas hipomaníacos. Os critérios diagnósticos para um episódio hipomaníaco são listados junto com os critérios para transtorno bipolar II (também na Tab. 8.1-6). Os critérios foram estabelecidos para diminuir o excesso de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 diagnósticos de episódios hipomaníacos e a classificação incorreta de transtorno bipolar II para pacientes com transtorno depressivo maior. De uma perspectiva clínica, os psiquiatras podem achar difícil distinguir eutimia de hipomania em um paciente que esteve cronicamente deprimido por muitos meses ou anos. Como ocorre no transtorno bipolar I, os episódios hipomaníacos induzidos por antidepressivos não são diagnósticos de transtorno bipolar II. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Características Clínicas Os dois padrões básicos de sintomas nos transtornos do humor são depressão e mania. Episódios depressivos podem ocorrer no transtorno depressivo maior assim como no transtorno bipolar I. Pesquisadores têm tentado encontrar diferenças confiáveis entre episódios depressivos do transtorno bipolar I e episódios de transtorno depressivo maior, mas as diferenças são ilusórias. Em uma situação clínica, somente a história do paciente, a história familiar e o curso futuro podem ajudar a diferenciar as duas condições. Alguns pacientes com transtorno bipolar I têm estados mistos com aspectos tanto maníacos quanto depressivos, e alguns parecem vivenciar episódios de depressão rápidos – de minutos a poucas horas – durante os episódios maníacos. Episódios maníacos – Um estado de humor elevado, expansivo ou irritável é a característica de um episódio maníaco. O estado de humor eufórico muitas vezes é contagiante e pode até causar uma negação contratransferencial da doença por um médico inexperiente. Embora pessoas não envolvidas possam não reconhecer a natureza incomum do estado de humor do paciente, os que o conhecem identificam-no como anormal. De forma alternativa, o humor pode ser irritável, em especial quando os planos excessivamente ambiciosos do paciente são contrariados. Os pacientes muitas vezes exibem uma mudança do humor predominante, de euforia no início do curso da doença para uma posterior irritabilidade. O tratamento de indivíduos maníacos em uma unidade hospitalar pode ser complicado por sua tentativa de testar os limites das regras da unidade, sua tendênciaa transferir a responsabilidade por seus atos para os outros, sua exploração das fraquezas dos outros e sua tendência a criar conflitos entre membros da equipe. Fora do hospital, pacientes maníacos tendem a consumir álcool em excesso, talvez em uma tentativa de automedicação. Sua natureza desinibida reflete-se no uso excessivo do telefone, sobretudo ao fazer chamadas de longa distância durante as primeiras horas da manhã. Jogo patológico, tendência a se despir em lugares públicos, usar roupas e joias de cores brilhantes em combinações incomuns ou extravagantes e desatenção a pequenos detalhes (p. ex., esquecer de desligar o telefone) também são sintomáticos do transtorno. Os pacientes agem de maneira impulsiva e, ao mesmo tempo, com um sentido de convicção e propósito. Estão frequentemente preocupados com ideias religiosas, políticas, financeiras, sexuais ou persecutórias que podem evoluir para sistemas delirantes complexos. Algumas vezes, sofrem regressão e brincam com sua urina e suas fezes. Mania em adolescentes – A mania em adolescentes costuma ser diagnosticada de forma errônea como transtorno da personalidade antissocial ou esquizofrenia. Os Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 sintomas podem incluir psicose, abuso de álcool ou outras substâncias, tentativas de suicídio, problemas escolares, ruminação filosófica, sintomas de TOC, queixas somáticas múltiplas, irritabilidade acentuada levando a brigas e a outros comportamentos antissociais. Embora muitos desses sintomas sejam vistos em adolescentes sadios, sintomas graves ou persistentes devem levar os médicos a considerar o transtorno bipolar I no diagnóstico diferencial. Transtorno bipolar tipo 2 – As características clínicas de transtorno bipolar II são as do transtorno depressivo maior combinadas com as de um episódio hipomaníaco. Ainda que os dados sejam limitados, alguns estudos indicam que o transtorno bipolar II está associado com mais problemas conjugais e com uma idade de início mais precoce do que o bipolar I. As evidências também apontam que pacientes com transtorno bipolar II têm risco mais alto tanto de tentar quanto de completar o suicídio do que os que apresentam transtorno bipolar I e transtorno depressivo maior. O transtorno bipolar tipo II, que requer um ou mais episódios depressivos maiores e, pelo menos, um episódio hipomaníaco durante o curso da vida, não é mais considerado uma condição “mais leve” que o transtorno bipolar tipo I, em grande parte em razão da quantidade de tempo que pessoas com essa condição passam em depressão e pelo fato de a instabilidade do humor vivenciada ser tipicamente acompanhada de prejuízo grave no funcionamento profissional e social. Curso da Doença O curso clínico do TB pode variar bastante. Embora o TB possa começar ao longo do ciclo de vida, estudos apontam que os sintomas da doença surgem mais cedo do que no Transtorno Depressivo Maior. A idade média do primeiro episódio do TB-I é 18 anos, enquanto no TB-II o início dos sintomas ocorre em torno dos 25 anos de idade. O Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 aparecimento dos primeiros sintomas maníacos (ex.: desinibição sexual ou social) no fim da idade adulta ou na terceira idade pode indicar a existência de outras condições médicas, tal como quadros de demência fronto-temporal, ou de ingestão/abstinência de substância e devem ser investigados. Apesar da caracterização do TB ser baseada em sintomas de mania ou hipomania, a depressão é geralmente o quadro mais comum e persistente entre os pacientes com TB, e também a principal causa de incapacitação.21 Particularmente no TB-II, é comum os indivíduos apresentarem inúmeros episódios de Depressão Maior antes da ocorrência do primeiro episódio de hipomania. Esses casos ilustram a dificuldade de diagnosticar o TB-II, e 12% dos pacientes com diagnóstico inicial de Transtorno Depressivo Maior são reclassificados como tendo TBII após a identificação de um episódio hipomaníaco. Frequentemente, a ocorrência de um episódio maníaco precede de maneira imediata um episódio de Depressão Maior (60% dos casos). Em contraste, a mudança de um episódio depressivo para um episódio de Mania ou Hipomania pode ocorrer de maneira espontânea ou durante o tratamento dos sintomas depressivos. Além disso, a recorrência de episódios de humor é comum em cerca de 90% dos indivíduos que tiveram um único episódio de mania, e em cinco anos, 70 dos pacientes recaem. A caracterização da ocorrência de múltiplos episódios de humor (quatro ou mais) ao longo de um ano é realizada através do especificador “com ciclagem rápida”, esse é o caso de 5 a 15% dos pacientes com TB-II. A propensão de desenvolver sintomas hipomaníacos é maior em pacientes com TB-I se comparados aos pacientes com TB-II. Por outro lado, pacientes com TB-II tendem a ter uma quantidade maior de episódios de humor (de depressão maior ou hipomania) em comparação a pacientes com TB-I e Transtorno Depressivo Maior.20,23 No entanto, no curso de um TB-II, o intervalo entre episódios de humor tende a diminuir com o envelhecimento. Nos pacientes com TB-II, os episódios depressivos são mais duradouros e incapacitantes ao longo do tempo. Apesar disso, a ocorrência de sintomas psicóticos nesses pacientes durante os episódios depressivos maiores é menos frequente do que no TB-I. Entre 5 e 15% dos pacientes com TB-II desenvolvem um Episódio de Mania e têm o diagnóstico alterado para TB-I. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Tratamento A compreensão da neurobiologia do transtorno bipolar, incluindo a localização de sintomas em circuitos cerebrais específicos e os neurotransmissores que modulam o funcionamento dessas áreas, pode ser o passo inicial para a escolha de tratamentos para cada um dos sintomas de um transtorno de humor, com o objetivo de reduzir todos os sintomas e alcançar a remissão. Estudos de neuroimagem e experimentais permitem associar os sintomas do TB a circuitos neurais hipoteticamente disfuncionais. Nos quadros de humor depressivo, a hipótese monoaminérgica sugere que esse mal funcionamento se deve à diminuição da neurotransmissão de, pelo menos, um dos sistemas serotoninérgicos, dopaminérgicos ou noradrenérgicos. Paralelamente, outras hipóteses sugerem que é possível mapear áreas do encéfalo disfuncionais que estariam associadas aos sintomas de mania, por exemplo o córtex Orbitofrontal. Visando a prática clínica, um conjunto de diretrizes para o tratamento do TB foi publicado pela Rede Canadense para Tratamentos de Humor e Ansiedade (CANMAT) em parceria com a Sociedade para Transtorno Bipolar a partir da revisão de evidências disponíveis na literatura da área. Com base em meta-análises e ensaios clínicos randomizados, a farmacoterapia de primeira escolha para o manejo de Episódios de Mania agudos é o lítio, divalproato, e antipsicóticos atípicos como a olanzapina, risperidona, quetiapina, aripiprazol, ziprasidona, asenapina e paliperidona ER. Como tratamento de segunda linha, a carbamazepina e o haloperidol se mostraram significativamente mais eficazes que o placebo. Enquanto isso, a gabapentina, lamotrigina e topiramato não seriam recomendados. Em paralelo, as recomendações de primeira linha do CANMAT para o tratamento farmacológico de Episódios Depressivos agudos do TB incluem o lítio, lamotrigina e quetiapina como monoterapia, ou a combinação de inibidores seletivos da receptação de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 serotonina (SSRI) com olanzapina,lítio ou divalproato, além da combinação desses dois últimos ou os mesmos combinados à bupropiona. A monoterapia com divalproato ou lurasidona foi caracterizada como tratamento de segunda linha, além da combinação de quetiapina com SSRI, modafinil adjunto e lítio ou divalproato com lamotrigina ou lurasidona. Não são recomendados para o tratamento de Episódios Depressivos no TB a gabapentina, o aripiprazol, e a ziprazidona em monoterapia, ou o tratamento adjunto com ziprazidona ou levetiracetam. Apesar de ser o tratamento mais comum para os Episódios Depressivos no TB, o uso de antidepressivos no TB ainda é uma área controversa em psiquiatria. Uma meta- análise que incluiu 15 ensaios clínicos randomizados demonstrou a eficácia de antidepressivos comparados a placebo no tratamento da depressão no TB.26 Além disso, as evidências encontradas não deram suporte à associação do uso de antidepressivos com o aumento do risco de viradas maníacas, contrastando com estudos anteriores.27,28 Ao que parece, o risco de viradas de mania/ hipomania não é uma grande preocupação quando os antidepressivos SSRI são usados em combinação com um estabilizador de humor ou um antipsicótico atípico, ao menos em curto prazo. No entanto, uma limitação importante dos estudos é que a definição atual de virada requer um limiar de sintomas de mania para ser caracterizada. Desse modo, alterações mais tênues relacionadas ao estado de Mania não são consideradas ainda que sejam bastante comuns.18 O mesmo ocorre com a aceleração da ciclagem dos pacientes que não é levada em conta no desenho dos estudos.29 Considerando isso, o uso de antidepressivos não é recomendado no tratamento de episódios mistos ou de pacientes com história de ciclagem rápida, assim como em monoterapia para depressão bipolar em geral. Enquanto o tratamento agudo do TB visa diminuir os sintomas do episódio atual e reduzir o risco que o paciente possa apresentar para si mesmo ou para outros, o tratamento de manutenção tem por objetivo prevenir recaídas futuras e ajudar o paciente a recuperar o nível de funcionamento pré-mórbido, melhorar a saúde física e reduzir o risco de suicídio a longo prazo. Em geral o tratamento de manutenção é uma continuação da intervenção que foi eficaz na fase aguda da doença.25 A aderência ao tratamento de manutenção no TB é positivamente influenciada pela satisfação do paciente com a medicação, pela monoterapia, o grau de escolarização do paciente e pelo medo de recaídas. Em contraste, tanto fatores relacionados à doença (e.g., o uso de substâncias, hospitalizações prévias, sintomas psicóticos, menor insight sobre a doença) como fatores relacionados à medicação (e.g., efeitos colaterais, não-percepção de melhora diária, dificuldades com as rotinas diárias), além de atitudes dos pacientes (e.g., crenças de que a medicação é desnecessária, atitudes negativas em relação aos medicamentos, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 percepção de mudanças na aparência ou de interferência nos objetivos de vida) estiveram negativamente associadas à aderência ao tratamento medicamentoso, conforme tem sido demonstrado. As intervenções psicossociais têm um papel importante no tratamento ajunto à farmacoterapia. Tem sido demonstrado que grupos de psicoeducação e psicoterapia nas abordagens cognitivo-comportamental e interpessoal tem efeitos benéficos no tratamento de episódios agudos de depressão, assim como no tratamento de manutenção do TB. Particularmente, o tratamento do TB na terapia cognitivo-comportamental combina técnicas de psicoeducação, visando informar o paciente sobre o transtorno e aumentar a adesão ao tratamento medicamentoso, com estratégias comportamentais para monitorar as oscilações de humor, controlar a estimulação, técnicas de resolução e problemas e redução de estresse, além de estratégias cognitivas de reestruturação de pensamentos disfuncionais. Os efeitos dessas intervenções incluem diminuição do número de recaídas, da flutuação do humor, da necessidade de medicamentos e hospitalizações, além de melhora no funcionamento e na aderência à medicação. Sendo assim, as diretrizes de tratamento de TB recomendam as intervenções psicossociais como um aspecto essencial no manejo de pacientes com TB. Os estudos sobre o tratamento de crianças e adolescentes com TB tem investigado, em sua maioria, o manejo de sintomas agudos de mania ou mistos. Portanto, até que novas evidências estejam disponíveis, o CANMAT recomenda que as diretrizes estabelecidas para o tratamento do TB em adultos sejam cautelosamente aplicadas aos indivíduos mais jovens. Nesses casos, é preciso ter em conta que nem todos os tratamentos eficazes em adultos também o serão em crianças e adolescentes. Prognóstico A maior parte dos pacientes com TB se recupera do primeiro episódio de humor. Entretanto, cerca de 80% deles apresenta recaída dentro de 5 a 7 anos, e, em um período de 20 anos, muitos pacientes têm 3 ou mais episódios de humor com o risco de recaída persistindo na terceira idade.32 A recuperação da doença parece ser influenciada pela idade do indivíduo e a gravidade dos sintomas. No Transtorno Bipolar tipo II, pessoas mais jovens e com depressão menos grave são mais prováveis de retornar ao nível de funcionamento social prévio. Outros fatores que tem associação independente com a recuperação funcional de pessoas com Transtorno Bipolar são maior escolaridade, menor tempo de duração da doença, estar casado, a presença atual de sintomas depressivos e de comorbidades psiquiátricas. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 A piora no curso da doença e no funcionamento de pacientes com TB podem estar relacionadas à gravidade dos episódios de humor, com o início precoce da doença e com déficits cognitivos.33 Paralelamente, o estigma sobre a doença é outro fator que tem sido apontado como um problema importante para pessoas com o TB, sendo capaz de influenciar o funcionamento social desses indivíduos. Uma revisão sistemática de literatura com o objetivo de identificar publicações que investigaram as atitudes e/ ou crenças públicas a respeito do transtorno bipolar ou que exploraram o estigma internalizado da doença, selecionou 25 estudos sobre o tema. Os resultados encontrados apresentaram inconsistências a respeito do estigma público, apesar disso, foram identificadas evidências de que o TB é visto mais positivamente quando comparado à esquizofrenia e menos positivamente quando comparado à depressão. Embora os estudos analisados levantem a questão se a característica é onipresente nessa população, foi observado que o grau de internalização do estigma no TB é de moderado a alto. O diagnóstico precoce e o tratamento dos episódios agudos de humor melhoram significativamente o prognóstico reduzindo o número de recaídas e duplicando a taxa de resposta à medicação. A eficácia do tratamento do TB, por sua vez, está relacionada em muitos casos com o seu início próximo ao aparecimento dos primeiros sintomas.35 Desse modo, cabe destacar a importância de iniciar um tratamento em longo prazo o mais rápido possível. Muitos pacientes apresentam boa resposta quando o tratamento é bem- sucedido, e podem viver uma vida plena, ainda que precisem estar alertas sobre os riscos de recaídas bem como sobre os riscos e gatilhos relacionados à recorrência dos episódios de humor. Eletroconvulsoterapia Com a disseminação do uso de agentes farmacológicos como tratamento de primeira linha para transtornos psiquiátricos maiores, a ECTatualmente é mais usada para pacientes com resistência a esses tratamentos, exceto no caso de doença potencialmente letal devida à inanição, sintomas suicidas graves ou catatonia. Embora o insucesso do estímulo subconvulsivo para induzir a remissão de doenças psiquiátricas e a eficácia da terapia convulsiva química tenham sugerido que a convulsão era necessária e suficiente para o benefício terapêutico com ECT, atualmente se sabe que existe uma relação entre dose e resposta com ECT unilateral direita e que a ECT bilateral provavelmente será ineficaz com amplitude ultrabreve de pulsos. Pesquisas continuam a investigar os mecanismos subjacentes e as características biológicas de tratamentos eficazes de ECT, com interesse em fazer o tratamento focalizar as redes neurais Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 adequadas com um estímulo mais eficiente como um meio de reduzir efeitos colaterais cognitivos. Com a crescente compreensão de que depressão é uma doença crônica para muitos pacientes, enfatiza-se a continuação e o tratamento de manutenção após um curso agudo de ECT. O uso dessa terapia diminuiu desde a metade do século XX, mas, como ela continua sendo o tratamento mais eficaz para depressão maior e tem efeito mais rápido para condições psiquiátricas potencialmente letais, a ECT, diferentemente de suas terapias somáticas contemporâneas, como coma insulínico, ainda integra o leque de opções de tratamento de terapeutas modernos. Seu uso se deslocou de instituições públicas para instituições privadas, e estima-se que aproximadamente 100 mil pacientes tenham recebido ECT anualmente ao longo das últimas décadas nos Estados Unidos. Ganhador do Prêmio Nobel, Paul Greengard sugeriu que a expressão terapia eletrocortical pudesse ser usada para substituir a expressão atual eletroconvulsoterapia. Greengard reconheceu que, se o mecanismo de ação da ECT, que permanece desconhecido, revela uma natureza subcortical, o termo pode ter uso limitado. Até que isso aconteça, no entanto, os autores desta obra acreditam que a sugestão de Greengard é digna de consideração. Ajudaria a reduzir o temor associado à palavra “convulsão” e também a acabar com o estigma de um método de tratamento bastante eficaz. Eletrofisiologia na Eletroconvulsoterapia (ECT) Os neurônios mantêm um potencial de repouso em toda a membrana plasmática e podem propagar um potencial de ação, que é uma reversão transitória do potencial da membrana. A atividade cerebral normal é dessincronizada; ou seja, os neurônios transmitem potenciais de ação de forma assíncrona. Uma convulsão ocorre quando um grande percentual de neurônios é disparado simultaneamente. Essas alterações ritmadas no potencial extracelular levam com elas os neurônios vizinhos, propagam a atividade convulsiva ao longo do córtex até estruturas mais profundas até, por fim, engolfarem todo o cérebro em um disparo neuronal sincrônico de alta voltagem. Mecanismos celulares trabalham para conter a atividade convulsiva e manter a homeostase celular, e a convulsão termina. No caso de epilepsia, qualquer um entre centenas de defeitos genéticos pode alterar o equilíbrio a favor da atividade desenfreada. Na ECT, as convulsões são desencadeadas em neurônios normais por meio da aplicação de pulsos de corrente elétrica através do couro cabeludo, sob condições atentamente controladas, para criar uma convulsão de duração específica em todo o cérebro. As características da eletricidade usada na ECT podem ser descritas pela lei de Ohm: V = IR, ou I = V/R, em que V é a voltagem, I é a corrente, e R é a resistência. A intensidade, ou dose de eletricidade, na ECT é medida em termos de carga (miliamperes- Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 segundos ou milicoulombs) ou energia (watts-segundos ou joules). Resistência é a mesma coisa que impedância, e, no caso de ECT, tanto o contato do eletrodo com o corpo quanto a natureza dos tecidos corporais são os principais determinantes de resistência. O crânio tem alta impedância, ao passo que o cérebro tem baixa impedância. Como os tecidos do couro cabeludo são condutores muito melhores de eletricidade do que o tecido ósseo, apenas cerca de 20% da carga aplicada realmente penetra o crânio para estimular os neurônios. Os aparelhos de ECT amplamente utilizados nos dias de hoje podem ser ajustados para administrar a eletricidade em condições de corrente, voltagem ou energia constantes. Mecanismo de Ação – A indução de convulsão generalizada bilateral é necessária tanto para os efeitos benéficos quanto para os efeitos adversos de ECT. Embora uma convulsão pareça ser um evento de tudo ou nada, há dados que indicam que nem todas as convulsões generalizadas envolvem todos os neurônios em estruturas cerebrais profundas (p. ex., os gânglios da base e o tálamo); o recrutamento desses neurônios profundos pode ser necessário para o benefício terapêutico total. Depois da convulsão generalizada, o eletrencefalograma (EEG) mostra cerca de 60 a 90 segundos de supressão pós-ictal. Esse período é seguido pelo surgimento de ondas delta e teta de alta voltagem e pelo retorno do EEG à aparência pré-convulsiva em cerca de 30 minutos. Durante o curso de uma série de tratamentos de ECT, o EEG interictal costuma ser mais lento e de maior amplitude que o habitual, mas o EEG retorna à aparência pré-tratamento de 1 mês a 1 ano após o fim do curso de tratamento. Uma abordagem de pesquisa ao mecanismo de ação da ECT foi estudar os efeitos neurofisiológicos do tratamento. Estudos com tomografia por emissão de pósitrons (PET) de fluxo sanguíneo cerebral e uso de glicose revelaram que, durante as convulsões, o fluxo sanguíneo cerebral, o uso de glicose e oxigênio e a permeabilidade da barreira hematencefálica aumentam. Após a convulsão, o fluxo sanguíneo e o metabolismo de glicose se reduzem, talvez de maneira mais acentuada nos lobos frontais. Algumas pesquisas indicam que o grau de redução no metabolismo cerebral está correlacionado à resposta terapêutica. Focos convulsivos em epilepsia idiopática são hipometabólicos durante períodos interictais; a própria ECT age como um anticonvulsivante porque sua administração está associada a um aumento no limiar convulsivo com o avanço do tratamento. Dados recentes sugerem que, durante 1 a 2 meses após uma sessão de ECT, os EEGs registram um grande aumento na atividade de ondas lentas no córtex pré-frontal em pacientes que responderam bem à ECT. A estimulação bilateral de alta intensidade Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 produziu a melhor resposta; a estimulação unilateral de baixa intensidade produziu a resposta mais fraca. A relevância desses dados, no entanto, permanece indeterminada, porque o correlato de EEG específico desapareceu dois meses após a ECT, enquanto o benefício clínico persistiu. A ECT afeta os mecanismos celulares de memória e regulação do humor e eleva o limiar convulsivo. Esse último efeito pode ser bloqueado pelo antagonista opiáceo naloxona. Recentemente, houve aumento no interesse em mudanças estruturais no cérebro associadas a síndromes psiquiátricas e resposta a tratamento. Esse interesse foi particularmente grande nas alterações microscópicas associadas à estimulação eletroconvulsiva, bem como aos antidepressivos e outros medicamentos. Em animais, na maioria roedores, observaram-se plasticidade sináptica no hipocampo, incluindo brotamento de fibras musgosas, alterações na estrutura citoesquelética, aumento da conectividadeem vias perfurantes, promoção de neurogênese e supressão de apoptose. Muitos desses eventos estruturais também são observados, embora em menor grau, com medicamentos antidepressivos, como fluoxetina. Esses relatos também estimularam a controvérsia sobre diversos aspectos da validade técnica das observações. Não se sabe se essas alterações ocorrem clinicamente e, se for o caso, qual a relevância para a eficácia e efeitos colaterais cognitivos que pode ser descoberta. Indicações Transtorno depressivo maior – A indicação mais comum para ECT é o transtorno depressivo maior, para o qual essa é a terapia mais rápida e eficaz disponível. A ECT deve ser considerada para uso em pacientes para os quais os medicamentos não funcionaram ou não foram tolerados, que apresentam sintomas graves ou psicóticos, que apresentam risco de suicídio ou de homicídio agudo, ou que apresentam sintomas acentuados de agitação ou estupor. Estudos controlados demonstraram que até 70% dos pacientes que não respondem a medicamentos antidepressivos podem responder de forma positiva à ECT. A Tabela 30.1-2 mostra as indicações para o uso dessa terapia. A ECT é eficaz para depressão tanto no transtorno depressivo maior quanto no transtorno bipolar tipo I. A depressão delirante ou psicótica, há muito tempo, é considerada particularmente sensível à ECT, mas estudos recentes indicaram que episódios depressivos com características psicóticas não respondem melhor à ECT do que transtornos depressivos não psicóticos. Ainda assim, como episódios depressivos maiores com características psicóticas apresentam baixa resposta à farmacoterapia antidepressiva isolada, a ECT deve ser considerada com muito mais frequência como Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 opção principal de tratamento para pacientes com esse transtorno. Considera-se boa a probabilidade de resposta do transtorno depressivo maior com características melancólicas (p. ex., sintomas acentuadamente graves, retardo psicomotor, despertar cedo da manhã, variação diurna, redução de apetite e de peso e agitação) à ECT. Ela é indicada em especial para pessoas gravemente deprimidas, que apresentam sintomas psicóticos, que demonstram intenção suicida ou que se recusam a se alimentar. Pacientes deprimidos com menor probabilidade de responder bem à ECT são aqueles com transtorno de sintomas somáticos. Pacientes idosos normalmente respondem à ECT mais lentamente do que pacientes jovens. A ECT é um tratamento para episódio depressivo maior e não proporciona profilaxia, a menos que seja administrada em longo prazo como manutenção. Episódios maníacos – A ECT, no mínimo, equivale ao lítio no tratamento de episódios maníacos agudos. Contudo, o tratamento farmacológico é tão eficaz no curto prazo e para profilaxia que o uso de ECT para tratar episódios maníacos costuma estar limitado a situações com contraindicações específicas a todas as abordagens farmacológicas disponíveis. A relativa rapidez da resposta à ECT indica sua utilidade para pacientes cujo comportamento maníaco produziu níveis perigosos de exaustão. A ECT não deve ser usada em um paciente que esteja sendo tratado com lítio, porque o medicamento pode reduzir o limiar convulsivo e causar uma convulsão prolongada. Esquizofrenia – Embora seja um tratamento eficaz para os sintomas de esquizofrenia aguda, a ECT não se destina aos sintomas de esquizofrenia crônica. Considera-se que pacientes com o transtorno com sintomas positivos acentuados, catatonia ou sintomas afetivos sejam bem mais propensos a responder à ECT. Nesses casos, a eficácia de ECT é praticamente igual à de antipsicóticos, mas a melhora pode ocorrer mais rapidamente. Outras indicações – Estudos de pequeno âmbito revelaram que a ECT foi eficaz no tratamento de catatonia, um sintoma associado a transtornos do humor, esquizofrenia e transtornos clínicos e neurológicos. Relata-se que a ECT também é útil para o tratamento de psicoses episódicas, psicoses atípicas, transtorno obsessivo-compulsivo e delirium, além de condições clínicas como síndrome neuroléptica maligna, hipopituitarismo, transtornos convulsivos intratáveis e flutuações motoras (“fenômeno on/off”) na doença de Parkinson. A ECT também pode ser o tratamento indicado para gestantes deprimidas suicidas que precisam de tratamento e não podem ser medicadas; para pacientes idosos e com doenças clínicas que não podem tomar fármacos antidepressivos com segurança; e até mesmo para crianças e adolescentes gravemente deprimidos e suicidas, que podem ter menos probabilidade de responder a fármacos Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 antidepressivos do que adultos. A ECT não é eficaz para transtorno de sintomas somáticos (a menos que acompanhado por depressão), transtornos da personalidade e transtornos de ansiedade. Lítio A eficácia do lítio para mania e para o tratamento profilático de transtorno maníaco- depressivo foi estabelecida no início da década de 1950 como resultado da pesquisa realizada por John F. J. Cade, um psiquiatra australiano. Preocupações referentes à toxicidade limitaram a aceitação inicial do lítio nos Estados Unidos, mas seu uso aumentou gradativamente no fim da década de 1960. Foi apenas a partir de 1970 que a FDA aprovou sua indicação para o tratamento de mania. A única outra indicação aprovada pela FDA ocorreu em 1974, quando ele foi aceito como terapia de manutenção para pacientes com história de mania. Durante várias décadas, o lítio foi o único fármaco aprovado tanto para tratamento agudo como de manutenção. Ele também é usado como medicamento adjunto no tratamento de transtorno depressivo maior. Ações farmacológicas O lítio é rápida e absorvido após administração oral, e suas concentrações séricas de pico ocorrem em 1 a 1,5 hora com preparados-padrão e em 4 a 4,5 horas com preparados de liberação lenta e de liberação controlada. O lítio não se liga a proteínas plasmáticas, não é metabolizado e é excretado pelos rins. A meia-vida plasmática inicial é de 1,3 dia e passa para 2,4 dias após a administração contínua superior a um ano. A barreira hematencefálica permite apenas a passagem lenta do lítio, motivo pelo qual uma única superdose não causa necessariamente toxicidade e pelo qual a intoxicação de longo prazo com lítio demora para se resolver. A meia-vida de eliminação do fármaco é de 18 a 24 horas em adultos jovens, mas é mais breve em crianças e mais prolongada em idosos. A depuração renal do lítio diminui com a insuficiência renal. Alcança-se equilíbrio após 5 a 7 dias de administração regular. Obesidade está associada a índices mais elevados de depuração do lítio. Sua excreção é complexa durante a gravidez; aumenta durante a gestação, mas reduz após o parto. Ele é excretado no leite materno e em quantidades significativas nas fezes e no suor. Concentrações tireoidianas e renais de lítio são mais elevadas do que os níveis séricos. Uma explicação para os efeitos estabilizadores do humor do lítio ainda não foi descoberta. Teorias incluem a alteração do transporte de íons e efeitos sobre neurotransmissores e neuropeptídeos, vias de transdução de sinais e sistemas de segundo mensageiro. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Indicações Terapêuticas Transtorno bipolar tipo 1 Episódios maníacos – O lítio controla a mania aguda e impede a recorrência em cerca de 80% das pessoas com transtorno bipolar tipo I e em um percentual um pouco menor de indivíduos com episódios mistos (mania e depressão),transtorno bipolar de ciclagem rápida ou alterações de humor em encefalopatia. Esse medicamento tem início de ação relativamente lento e exerce seus efeitos antimaníacos ao longo de 1 a 3 semanas. Portanto, um benzodiazepínico, um antagonista dos receptores de dopamina (ARD), um antagonista de serotonina e dopamina (ASD) ou ácido valproico em geral são administrados durante as primeiras semanas. Pacientes com mania mista ou disfórica, ciclagem rápida, abuso de substância comórbido ou organicidade não respondem tão bem ao lítio quanto os indivíduos com mania clássica. Depressão bipolar – Comprovou-se que o lítio é eficaz no tratamento de depressão associada ao transtorno bipolar tipo I, assim como no papel de terapia adjunta para pacientes com transtorno depressivo maior grave. A potencialização da terapia de lítio com ácido valproico ou carbamazepina costuma ser bem tolerada, com pouco risco de precipitação de mania. Quando um episódio depressivo ocorre em uma pessoa medicada com lítio de manutenção, o diagnóstico diferencial deve incluir hipotireoidismo induzido por lítio, abuso de substância e falta de adesão à terapia com lítio. Possíveis abordagens de tratamento incluem aumentar a concentração do fármaco (até 1 a 1,2 mEq/L); acrescentar suplemento de hormônio da tireoide (p. ex., 25 #g ao dia de liotironina), mesmo na presença de achados normais em testes de função da tireoide; potencialização com valproato ou carbamazepina; o uso criterioso de antidepressivos; ou eletroconvulsoterapia (ECT). Depois que o episódio depressivo agudo é resolvido, outras terapias devem ser retiradas de forma gradativa em prol da monoterapia de lítio, caso seja clinicamente tolerada. Manutenção – O tratamento de manutenção com lítio reduz de maneira acentuada a frequência, a gravidade e a duração de episódios maníacos e depressivos em pessoas com transtorno bipolar tipo I. O medicamento fornece uma profilaxia muito mais eficaz para mania do que para depressão, e estratégias antidepressivas suplementares podem ser necessárias, de forma intermitente ou contínua. A manutenção com lítio é quase sempre indicada depois do primeiro episódio de transtorno bipolar tipo I, seja ele de depressão seja de mania, e deve ser considerada depois do primeiro episódio no caso de adolescentes ou para pessoas com história familiar desse transtorno. Outras pessoas que se beneficiam da manutenção com lítio são as que contam com sistemas de apoio fracos, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 não apresentaram fatores precipitantes para o primeiro episódio, correm alto riso de suicídio, tiveram um início repentino do primeiro episódio ou tiveram um primeiro episódio de mania. Estudos clínicos mostraram que lítio reduz a incidência de suicídio em pacientes com transtorno bipolar tipo I em seis ou sete vezes. É também um tratamento eficaz para pessoas com transtorno ciclotímico grave. O início da terapia de manutenção após o primeiro episódio maníaco é considerado uma abordagem sensata com base em diversas observações. Em primeiro lugar, cada episódio de mania aumenta o risco de episódios subsequentes. Em segundo, entre as pessoas que respondem ao lítio, recaídas são 28 vezes mais prováveis depois que o uso do fármaco é descontinuado. Em terceiro, relatos de caso descrevem indivíduos que a princípio responderam ao lítio, o descontinuaram e, então, sofreram recaída e deixaram de responder em episódios subsequentes. O tratamento de manutenção continuado com esse agente costuma estar associado com aumento da eficácia e redução da mortalidade. Portanto, um episódio de depressão ou mania após um período curto de manutenção de lítio não representa necessariamente um insucesso do tratamento. Contudo, o tratamento com lítio isolado pode começar a perder sua eficácia após vários anos de uso bem- sucedido. Caso isso ocorra, o tratamento complementar com carbamazepina ou valproato pode ser útil. As doses de manutenção de lítio com frequência podem ser ajustadas para atingir concentração plasmática um pouco mais baixa do que a necessária para o tratamento de mania aguda. Caso seu uso deva ser descontinuado, a dosagem deve ser reduzida lenta e gradativamente. A descontinuação repentina da terapia com lítio está associada a aumento do risco de recorrência de episódios maníacos e depressivos. Transtorno depressivo maior O lítio é efetivo no tratamento de longo prazo de depressão maior, mas não é mais eficaz do que fármacos antidepressivos. Seu papel mais comum nesse transtorno é como adjuvante ao uso de antidepressivos em pessoas que não responderam a esse tipo de fármaco isoladamente. Em torno de 50 a 60% dos indivíduos que não respondem a antidepressivos reagem o quando lítio, 300 mg três vezes ao dia, é acrescentado ao regime antidepressivo. Em alguns casos, uma resposta pode ser observada em alguns dias, mas com maior frequência são necessárias várias semanas para observar a eficácia do regime. A terapia isolada de lítio pode tratar de forma eficaz pessoas deprimidas que apresentam transtorno bipolar tipo I, mas que ainda não tiveram seu primeiro episódio maníaco. Foi relatado que esse fármaco é efetivo em pessoas com transtorno depressivo maior que apresenta ciclicidade acentuada. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Transtorno esquizoafetivo e esquizofrenia – Indivíduos com sintomas de humor proeminentes – tanto do tipo bipolar quanto do depressivo – com transtorno esquizoafetivo têm maior probabilidade de responder ao lítio do que os com sintomas psicóticos. Embora ASDs e ARDs sejam os tratamentos recomendados para transtorno esquizoafetivo, o lítio é um agente potencializador útil. Isso é especialmente verdadeiro para pessoas cujos sintomas são resistentes ao tratamento com ASDs e ARDs. A potencialização com lítio de um tratamento com ASD ou ARD pode ser eficaz para indivíduos com transtorno esquizoafetivo mesmo na ausência de um componente proeminente de transtorno do humor. Algumas pessoas com esquizofrenia impedidas de tomar fármacos antipsicóticos podem se beneficiar do tratamento apenas com lítio. Precauções e Efeitos Adversos Mais de 80% dos pacientes medicados com lítio experimentam efeitos colaterais. É importante minimizá-los por meio de monitoramento dos níveis sanguíneos do fármaco e do uso de intervenções farmacológicas adequadas para combater efeitos indesejados. Os efeitos adversos mais comuns estão resumidos na Tabela 29.19-3. A orientação do paciente pode ser um importante fator para reduzir a incidência e a gravidade de efeitos colaterais. Pacientes medicados com lítio devem ser alertados de que mudanças na água e no teor de sal no corpo podem afetar a quantidade excretada do fármaco, resultando em aumentos ou reduções em suas concentrações. A ingestão excessiva de sódio (p. ex., uma mudança considerável na dieta) reduz as concentrações do lítio. Em contrapartida, uma quantidade muito baixa de sódio (p. ex., dietas da moda) pode levá-lo a concentrações potencialmente tóxicas. Redução do líquido corporal (p. ex., transpiração excessiva) pode causar desidratação e intoxicação por lítio. Os pacientes devem relatar sempre que medicamentos forem prescritos por outro clínico, porque muitos agentes de uso comum podem afetar as concentrações do lítio. Toxicidade do lítio e superdoses Os sinais e sintomas iniciais de toxicidade do lítio incluem sintomas neurológicos, como tremor lento, disartria e ataxia; sintomas GI; alterações cardiovasculares; e disfunção renal. Os que aparecem mais tarde incluem prejuízo da consciência, fasciculaçõesmusculares, mioclonia, convulsões e coma. Sinais e sintomas da toxicidade do lítio são apresentados na Tabela 29.19-4. Os fatores de risco incluem ultrapassagem da dosagem recomendada, prejuízo renal, dieta de baixo teor de sódio, interação medicamentosa e desidratação. Idosos são mais vulneráveis aos efeitos do aumento das Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 concentrações séricas desse medicamento. Quanto maiores o grau e a duração das concentrações elevadas, piores são os sintomas de toxicidade. A toxicidade de lítio é uma emergência médica, com potencial para causar dano neuronal permanente e morte. Em casos de toxicidade (Tab. 29.19-5), o fármaco deve ser interrompido, e a desidratação, tratada. O lítio não absorvido pode ser removido do trato GI por meio da ingestão de poliestirenossulfonato de sódio ou solução de polietilenoglicol, mas não de carvão ativado. A ingestão de uma única dose excessiva pode criar aglomerados do medicamento no estômago, os quais podem ser removidos por lavagem gástrica com uma sonda gástrica de grosso calibre. O valor da diurese forçada ainda é discutido. Em casos graves, a hemodiálise remove com rapidez quantidades excessivas de lítio sérico. Concentrações séricas de lítio pós-diálise podem aumentar à medida que o medicamento é redistribuído dos tecidos para o sangue, de modo que pode ser necessário repetir a diálise. Melhora neurológica pode tardar vários dias após a depuração do lítio sérico, porque o fármaco cruza lentamente a barreira hematencefálica. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Antagonistas de serotonina e dopamina (antipsicóticos de 2ª geração ou atípicos) Os antagonistas de serotonina e dopamina (ASDs), também conhecidos como fármacos antipsicóticos de segunda geração ou atípicos, são um grupo de medicamentos farmacologicamente diferentes que suplantaram em grande parte o uso de antagonistas dos receptores de dopamina mais antigos (ARDs). O termo atípicos é usado porque esses fármacos diferem quanto a seu perfil de efeitos colaterais, de forma mais específica um risco menor de efeitos colaterais extrapiramidais (SEP), e apresentam espectros de ação mais amplos do que os ARDs. Diferentemente dos primeiros fármacos antipsicóticos, os ASDs têm efeitos significativos sobre ambos os sistemas, dopaminérgico e serotonérgico. Sua farmacologia é complexa, e cada medicamento incluído nesse grupo provoca múltiplos efeitos sobre os neurotransmissores. Todos os ASDs são indicados para o tratamento da esquizofrenia. A maioria desses antipsicóticos de segunda geração também recebeu aprovação como monoterapia ou terapia auxiliar no tratamento do transtorno bipolar. Alguns foram aprovados como adjuntos para o tratamento da depressão maior. Até 2013, um total de 10 fármacos antipsicóticos de segunda geração havia sido aprovado pela FDA. São eles: risperidona, risperidona IM de ação prolongada, olanzapina, olanzapina para suspensão injetável de liberação prolongada, quetiapina, quetiapina XR, ziprasidona, aripiprazol, paliperidona, palmitato de paliperidona, asenapina, lurasidona, iloperidona e clozapina. Ainda se discute se há ou não uma melhora geral de tolerabilidade dos ASDs em relação aos ARDs. Embora haja uma melhora em relação a um risco menor, mas não ausente, de SEP, a maior parte dos medicamentos desse grupo frequentemente produz Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 ganho de peso substancial, o que aumenta o potencial para desenvolvimento de diabetes melito. Olanzapina e clozapina parecem ser responsáveis pelo maior número de casos de ganho de peso e de diabetes melito induzidos por fármacos. Os outros agentes representam um risco menor desses efeitos colaterais. Ainda assim, a FDA exigiu que todos os ASDs exibam um alerta na embalagem de que pacientes medicados com eles devem ser monitorados com atenção, recomendando que os seguintes fatores sejam considerados em todos os que receberem receita de antipsicóticos de segunda geração: 1. História pessoal e familiar de obesidade, diabetes, dislipidemia, hipertensão e doença cardiovascular; 2. Peso e altura (de forma que o índice de massa corporal possa ser calculado); 3. Circunferência da cintura (na altura do umbigo); 4. Pressão arterial; 5. Nível de glicose plasmática em jejum; 6. Perfil de lipídeos em jejum. Pacientes com diabetes preexistente devem ter monitoramento regular, incluindo hemoglobina A1C (HgA1C) e, em alguns casos, níveis de insulina. Entre esses fármacos, a clozapina é única. Ela não é considerada um agente de primeira linha devido a seus efeitos colaterais (hematológicos) e à necessidade de exames de sangue semanais. Embora seja extremamente eficaz no tratamento tanto de mania quanto de depressão, não tem indicação da FDA para tratar essas condições. Mecanismos de Ação Os supostos efeitos antipsicóticos dos ASDs são o bloqueio dos receptores de dopamina D2. O que os diferencia dos fármacos antipsicóticos mais antigos é a maior proporção de interações com subtipos de receptores de serotonina, destacando o subtipo 5-HT2A, e também com outros sistemas de neurotransmissores. Supõe-se que essas propriedades expliquem os perfis distintos de tolerabilidade associados a cada um dos ASDs. Todos eles apresentam estruturas químicas, afinidades a receptores e perfis de efeitos colaterais diferentes. Nenhum ASD é idêntico quanto a sua combinação de afinidades a receptores, e a relativa contribuição de cada interação de receptores para os efeitos clínicos é desconhecida. Indicações Terapêuticas Mesmo tendo sido aprovados inicialmente para o tratamento de esquizofrenia e mania aguda, alguns desses fármacos ainda tiveram indicação como terapia adjunta para depressão resistente a tratamento e transtorno depressivo maior. Também são úteis para Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 transtornos de estresse pós-traumático e de ansiedade, e, embora os clínicos costumem usá-los em perturbações comportamentais associadas a demência, todos os ASDs levam um alerta da FDA na embalagem sobre os efeitos adversos quando usados em idosos que apresentam psicoses relacionadas com demência, porque essa população corre maior risco (1,6 a 1,7 vezes superior) de morte, em comparação com placebo. Todos esses agentes são considerados medicamentos de primeira linha para esquizofrenia, exceto a clozapina, que pode causar efeitos hematológicos que exigem amostras de sangue semanais. Esquizofrenia e Transtorno Esquizoafetivo Os ASDs são eficazes no tratamento de psicoses agudas e crônicas, como esquizofrenia e transtorno esquizoafetivo, tanto em adultos quanto em adolescentes. Eles são tão bons ou melhores do que os antipsicóticos típicos (ARDs) para o tratamento de sintomas positivos em esquizofrenia e superiores para o tratamento de sintomas negativos. Em comparação com pessoas tratadas com ARDs, indivíduos que receberam ASDs apresentam menos recaídas e exigem hospitalização menos frequente, menos visitas ao departamento de emergência, menos contatos telefônicos com profissionais da saúde mental e menos tratamentos em programas diários. Visto que apresenta efeitos adversos potencialmente letais, a clozapina é adequada apenas para pacientes com esquizofrenia resistentes a todos os outros antipsicóticos. Outras indicações para clozapina incluem tratamento de pessoas com discinesia tardia – a qual pode ser revertida com altas dosagens em alguns casos – e aquelas com baixo limiar para SEP. Pessoas que toleram a clozapina tiverambom proveito em terapia de longo prazo. A eficácia desse medicamento pode ser aumentada pela potencialização com risperidona, que eleva as concentrações da clozapina e, às vezes, resulta em uma melhora clínica impressionante. Transtorno de Humor Todos os ASDs (exceto clozapina) são aprovados pela FDA para o tratamento da mania aguda. Alguns desses agentes, incluindo aripiprazol, olanzapina, quetiapina e quetiapina XR, também têm indicação para o tratamento de terapia de manutenção em transtorno bipolar, como monoterapia ou terapia auxiliar. Os ASDs melhoram os sintomas depressivos em esquizofrenia, e tanto a experiência clínica quanto os experimentos clínicos mostram que todos eles potencializam a ação dos antidepressivos no manejo agudo da depressão maior. Até o momento, a olanzapina, em combinação com fluoxetina, foi aprovada para a depressão resistente a tratamento, e aripiprazol e quetiapina XR são Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 indicados como terapia adjunta a antidepressivos em transtorno depressivo maior (TDM). Quetiapina e quetiapina XR também são validadas para depressão bipolar. Uma combinação fixa de olanzapina e fluoxetina tem indicação para o tratamento de depressão bipolar aguda. Efeitos Adversos Os ASDs compartilham um espectro semelhante de reações adversas, mas diferem consideravelmente quanto a frequência ou gravidade de sua ocorrência. Efeitos colaterais específicos que são comuns com um ASD em particular são enfatizados na abordagem sobre cada fármaco a seguir. Risperidona Indicações – A risperidona é indicada para o tratamento agudo e de manutenção de esquizofrenia em adultos e para o tratamento do transtorno em adolescentes dos 13 aos 17 anos. Também é indicada para o tratamento de curta duração de episódios maníacos ou mistos agudos associados ao transtorno bipolar tipo I em adultos e em crianças e adolescentes dos 10 aos 17 anos. A combinação de risperidona com lítio ou valproato é indicada para o tratamento de curto prazo de episódios maníacos ou mistos agudos relacionados ao transtorno bipolar tipo I. Esse medicamento também é indicado para o tratamento de irritabilidade associada ao espectro do transtorno autista em crianças e em adolescentes dos 5 aos 16 anos, incluindo sintomas de agressividade dirigida a outros, autolesões deliberadas, explosões de raiva e alternância rápida de humores. Farmacologia – A risperidona é um benzisoxazol. Ela sofre extenso metabolismo hepático de primeira passagem em 9-hidróxi-risperidona, um metabólito com atividade antipsicótica equivalente. Os níveis plasmáticos de pico do composto precursor ocorrem em 1 hora e em 3 horas para o metabólito. A risperidona tem bioatividade de 70%. A meia- vida combinada de risperidona e 9-hidróxi-risperidona dura uma média de 20 horas, de forma que é eficaz em dosagens diárias únicas. Esse fármaco é um antagonista dos receptores serotonérgicos 5-HT2A, D2 de dopamina, adrenérgicos #1 e #2 e H1 de histamina. Apresenta baixa afinidade com receptores #-adrenérgicos e colinérgicos muscarínicos. Embora seja tão potente como antagonista de receptores D2 quanto o haloperidol, a risperidona tem menos chances do que ele de causar SEP quando a dose for inferior a 6 mg diários. Dosagens – A faixa recomendada de dosagem e frequência da risperidona mudou desde que o fármaco começou a ser usado clinicamente. Está disponível em comprimidos Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 de 0,25, 0,5, 1, 2, 3 e 4 mg e em solução oral de 1 mg/mL. A dosagem inicial costuma ser de 1 a 2 mg à noite, podendo ser aumentada para 4 mg ao dia. Estudos com tomografia por emissão de pósitrons (PET) demonstraram que dosagens de 1 a 4 mg diários proporcionam o bloqueio de D2 necessário para o efeito terapêutico. Costumava-se acreditar que, devido a sua meia-vida de eliminação breve, a risperidona deveria ser administrada duas vezes ao dia, mas estudos mostraram a mesma eficácia com a dosagem diária única. Doses acima de 6 mg/dia estão associadas a uma maior incidência de efeitos adversos, especialmente SEP. Não há correlação entre as concentrações plasmáticas e o efeito terapêutico. Diretrizes de dosagem para adolescentes e crianças são diferentes das indicadas para adultos e requerem dosagens iniciais mais baixas; dosagens mais elevadas estão associadas a mais efeitos adversos. Efeitos colaterais – Os SEP da risperidona dependem, em grande parte, da dosagem, e há uma tendência a fazer uso de doses mais baixas do que as inicialmente recomendadas. Ganho de peso, ansiedade, náusea e vômito, rinite, disfunção erétil, disfunção orgásmica e aumento de pigmentação estão associados ao uso desse medicamento. Os motivos mais comuns relacionados ao fármaco para sua interrupção são SEP, tontura, hipercinesias, sonolência e náusea. Pode haver a elevação acentuada de prolactina. Ganho de peso é mais frequente com o uso de risperidona por crianças do que por adultos. A risperidona também é apresentada em comprimidos de desintegração oral, os quais se encontram disponíveis nas potências 0,5, 1 e 2 mg e em uma formulação de ação retardada (Risperdal Consta), que é administrada em sua apresentação injetável intramuscular (IM) a cada duas semanas. A dose pode ser de 25, 50 ou 75 mg. A risperidona oral deve ser coadministrada com Risperdal Consta durante as primeiras três semanas antes de ser descontinuada. Interações – medicamentosas A inibição de CYP 2D6 por fármacos como paroxetina e fluoxetina pode bloquear a formação do metabólito ativo de risperidona. O fármaco é um inibidor fraco dessa enzima e tem pouco efeito sobre outros agentes. O uso combinado de risperidona e ISRSs pode resultar na elevação significativa de prolactina, com os efeitos associados de galactorreia e hipertrofia das mamas. Fisiopatologia da Esquizofrenia Fatores bioquímicos Hipótese da dopamina – A formulação mais simples da hipótese da dopamina na esquizofrenia postula que o transtorno resulta do excesso de atividade dopaminérgica. A teoria evoluiu a partir de duas observações. Primeiro, a eficácia e a potência da maioria dos antipsicóticos (i.e., antagonistas do receptor da dopamina [ARDs]) estão Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 correlacionadas a sua capacidade de agir como antagonistas do receptor de dopamina tipo 2 (D2). Segundo, os agentes que aumentam a atividade dopaminérgica, notadamente a anfetamina, são psicotomiméticos. A teoria básica não indica se a hiperatividade dopaminérgica decorre de liberação excessiva de dopamina, do excesso de receptores de dopamina, da hipersensibilidade destes à dopamina ou de uma combinação de tais mecanismos, tampouco especifica quais tratos dopaminérgicos estão envolvidos, embora os tratos mesocortical e mesolímbico sejam implicados com maior frequência. Os neurônios dopaminérgicos projetam-se de seus corpos celulares no mesencéfalo para neurônios dopaminoceptivos no sistema límbico e no córtex cerebral. A liberação excessiva de dopamina em pacientes com esquizofrenia foi associada à gravidade de sintomas psicóticos positivos. Estudos de receptores de dopamina com tomografia por emissão de pósitron documentam um aumento nos receptores D2 no núcleo caudado de pacientes com esquizofrenia livres de medicamentos. Também houve relatos de aumento da concentração de dopamina na amígdala, diminuição da densidade do transportador de dopamina e aumento nos números de receptores de dopamina tipo 4 no córtex entorrinal. Serotonina – As hipóteses atuais postulam o excesso de serotoninacomo uma das causas de sintomas tanto positivos como negativos na esquizofrenia. A atividade antagonista de serotonina consistente da clozapina e de outros antipsicóticos de segunda geração, junto com a eficácia da clozapina para dimimuir sintomas positivos em pacientes crônicos, contribuiu para a validade dessa proposição. Norepinefrina – A anedonia – o comprometimento da capacidade para gratificação emocional e a diminuição da capacidade de experimentar prazer – há muito tem sido observada como um aspecto proeminente da esquizofrenia. Uma degeneração neuronal seletiva no sistema neural de recompensa da norepinefrina poderia explicar esse aspecto da sintomatologia do transtorno. Entretanto, os dados bioquímicos e farmacológicos que apoiam essa proposição são inconclusivos. GABA – O aminoácido neurotransmissor inibitório ácido #-aminobutírico (GABA) também foi implicado na fisiopatologia da esquizofrenia com base nos achados de que alguns pacientes têm uma perda de neurônios GABAérgicos no hipocampo. O GABA tem um efeito regulador sobre a atividade da dopamina, e a perda de neurônios GABAérgicos inibidores poderia levar à hiperatividade dos neurônios dopaminérgicos. Neuropeptídeos – Neuropeptídeos, como a substância P e a neurotensina, estão localizados com os neurotransmissores de catecolamina e indolamina e influenciam a ação destes. A alteração nos mecanismos de neuropetídeo poderia facilitar, inibir ou, de outro modo, alterar o padrão de disparo desses sistemas neuronais. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Glutamato – O glutamato foi implicado porque a ingestão de fenciclidina, um antagonista do glutamato, produz uma síndrome aguda semelhante à esquizofrenia. A hipótese proposta sobre o glutamato inclui as de hiperatividade, hipoatividade e neurotoxicidade induzidas por ele. Acetilcolina e nicotina – Estudos de necropsia na esquizofrenia demonstraram aumento dos receptores muscarínicos e nicotínicos no caudado-putame, no hipocampo e em regiões selecionadas do córtex pré-frontal. Esses receptores têm um papel na regulação dos sistemas de neurotransmissores envolvidos na cognição, que é comprometida na esquizofrenia. Neuropatologia No século XIX, os neuropatologistas não conseguiram encontrar uma base neuropatológica para a esquizofrenia e, por isso, classificaram-na como um transtorno funcional. No fim do século XX, no entanto, os pesquisadores deram passos significativos no sentido de revelar uma base neuropatológica potencial para o transtorno, principalmente no sistema límbico e nos gânglios da base, incluindo anormalidades neuropatológicas ou neuroquímicas no córtex cerebral, no tálamo e no tronco cerebral. A perda de volume cerebral amplamente relatada em cérebros de indivíduos com esquizofrenia parece resultar da densidade reduzida de axônios, dendritos e sinapses que medeiam as funções associativas do cérebro. A densidade sináptica é mais alta com 1 ano de idade e depois diminui para valores adultos no início da adolescência. Uma teoria, baseada, em parte, na observação de que os pacientes muitas vezes desenvolvem sintomas da esquizofrenia durante a adolescência, sustenta que o transtorno resulta da poda excessiva de sinapses durante essa fase do desenvolvimento. Ventrículos cerebrais – Os exames por tomografia computadorizada (TC) de pacientes com esquizofrenia têm mostrado consistentemente alargamento dos ventrículos laterais e do terceiro ventrículo e alguma redução no volume cortical. Volumes reduzidos da substância cinzenta cortical foram demonstrados durante os primeiros estágios da doença. Vários pesquisadores tentaram determinar se as anormalidades detectadas por TC são progressivas ou estáticas. Alguns estudos concluíram que as lesões observadas na TC estão presentes no início da doença e não progridem. Outros estudos, entretanto, concluíram que o processo patológico visualizado em exames por TC continua a progredir durante a doença. Portanto, ainda não se sabe se um processo patológico ativo continua a se desenvolver em pacientes. Simetria reduzida – Há uma simetria reduzida em várias áreas do cérebro na esquizofrenia, incluindo os lobos temporal, frontal e occipital. Alguns pesquisadores Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 acreditam que essa simetria reduzida se origine durante a vida fetal e seja indicativa de uma interrupção na lateralização cerebral durante o neurodesenvolvimento. Sistema límbico – Devido a seu papel no controle das emoções, foi formulada a hipótese de que o sistema límbico esteja envolvido na fisiopatologia da esquizofrenia. Estudos de amostras cerebrais na necrópsia de pacientes com o transtorno mostraram diminuição no tamanho da região, incluindo a amígdala, o hipocampo e o giro para- hipocampal. Esse achado neuropatológico está de acordo com a observação feita por estudos de imagem por ressonância magnética de indivíduos com a doença. O hipocampo não apenas é menor em tamanho na esquizofrenia como também é funcionalmente anormal, como indicado por distúrbios na transmissão de glutamato. A desorganização dos neurônios no hipocampo também foi observada em secções de tecido cerebral de pacientes com esquizofrenia, em comparação a de controles saudáveis. Córtex pré-frontal – Há evidências consideráveis de estudos cerebrais de necrópsia que apoiam anormalidades anatômicas no córtex pré-frontal na esquizofrenia. Déficits funcionais na região pré-frontal também foram demonstrados por imagens do cérebro. Há muito tem sido observado que vários sintomas de esquizofrenia imitam aqueles encontrados em pessoas com lobotomias pré-frontais ou síndromes do lobo frontal. Tálamo – Alguns estudos do tálamo mostram evidência de diminuição de volume ou perda neuronal, em subnúcleos específicos. Há relatos de que o núcleo dorsomedial do tálamo, que tem conexões recíprocas com o córtex pré-frontal, contém um número reduzido de neurônios. O número total de neurônios, oligodendrócitos e astrócitos é reduzido em 30 a 45% em pacientes com o transtorno. Esse suposto achado não parece ser devido aos efeitos de medicamentos antipsicóticos, porque o volume do tálamo é semelhante em tamanho entre pacientes com esquizofrenia tratados de forma crônica com medicamentos e indivíduos nunca expostos a neurolépticos. Gânglios da base e cerebelo – Os gânglios da base e o cerebelo têm sido de interesse teórico na esquizofrenia por, pelo menos, duas razões. Primeiro, muitos pacientes exibem movimentos bizarros, mesmo na ausência de transtornos do movimento induzidos por medicamentos (p. ex., discinesia tardia). Esses movimentos podem incluir marcha desajeitada, caretas e estereotipias. Uma vez que os gânglios da base e o cerebelo estão envolvidos no controle dos movimentos, doenças nessas áreas estão implicadas na fisiopatologia da esquizofrenia. Segundo, os transtornos do movimento que envolvem os gânglios da base (p. ex., doença de Huntington, doença de Parkinson) são os mais comumente associados com psicose. Estudos neuropatológicos dos gânglios da Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 base produziram relatos variáveis e inconclusivos a respeito da perda celular e da redução do volume do globo pálido e da substância negra. Estudos também mostraram aumento no número de receptores D2 no núcleo caudado, no putame e no nucleus accumbens. Permanece a questão, entretanto, quanto a se o aumento é secundário à administração de medicamentos antipsicóticos. Alguns pesquisadores começaram a estudar o sistemaserotonérgico nos gânglios da base e sugeriram um papel para a serotonina nos transtornos psicóticos devido à utilidade clínica de agentes antipsicóticos com atividade de antagonismo à serotonina (p. ex., clozapina, risperidona). Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Problema 4 Marcos do Desenvolvimento Neuropsicomotor Marcos evolutivos importantes em lactentes Reflexos e sistemas de sobrevivência no nascimento – Os reflexos são presenças normais no nascimento. Eles incluem o reflexo fundamental (ato de roçar ou friccionar os lábios em resposta a estimulações periorais), o da preensão palmar, o plantar (sinal de Babinski), reflexos no joelho, os abdominais, o de Moro e o do pescoço tônico. Em crianças normais, o reflexo da preensão palmar, o de Moro e o do pescoço tônico desaparecem em torno do quarto mês. Em geral, o reflexo de Babinski desaparece próximo ao décimo segundo mês. Os sistemas de sobrevivência – respirar, sugar, engolir e homeostase circulatória e da temperatura – são relativamente funcionais no nascimento, embora os órgãos sensoriais ainda não tenham se desenvolvido por completo. Diferenciações ulteriores das funções neurofisiológicas dependem de um processo ativo de reforço estimulador do ambiente externo, como, por exemplo, pessoas tocando e dando palmadinhas no lactente. Os bebês recém-nascidos permanecem acordados somente durante um curto período de tempo por dia; os movimentos oculares rápidos (REMs) e os não rápidos (NREMs) no sono estão presentes no nascimento. Outros comportamentos espontâneos incluem choro, sorriso e ereção peniana em meninos. Os lactentes com 1 dia de vida conseguem detectar o cheiro do leite materno, e aqueles com 3 dias conseguem distinguir a voz da mãe. Linguagem e desenvolvimento cognitivo – No nascimento, os lactentes conseguem fazer ruídos, como o choro, por exemplo, porém conseguem vocalizar apenas por volta de 8 semanas. Nesse momento, os sons guturais e balbuciantes ocorrem de forma espontânea, principalmente em resposta à mãe. A persistência e a evolução futura das vocalizações das crianças dependem do reforço positivo dos pais. No final da primeira infância (cerca dos 2 anos de idade), os lactentes já transformaram os reflexos em ações voluntárias que são os pilares da cognição. Eles começam a interagir com o ambiente, a experimentar feedbacks do próprio corpo e a tornar mais intencionais as suas ações. Ao final do segundo ano de vida, as crianças começam a usar jogos simbólicos e a linguagem. Desenvolvimento emocional e social – Em torno das 3 semanas de vida, os lactentes imitam os movimentos faciais dos cuidadores adultos. Eles abrem a boca e mostram a língua em resposta aos adultos que procederem da mesma forma. Próximo do terceiro e quarto mês, esses comportamentos se desencadeiam com mais facilidade. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 Acredita-se que essas imitações de comportamentos sejam os precursores da vida emocional dos lactentes. A resposta ao sorriso acontece em duas fases: a primeira é o sorriso endógeno, que é espontâneo, ao longo dos primeiros 2 meses, e não se relaciona a estimulações externas; a segunda é o sorriso exógeno, que é estimulado a partir do mundo exterior, em geral pela mãe, e ocorre em torno da décima sexta semana. Os estágios do desenvolvimento emocional são paralelos aos do desenvolvimento cognitivo. Na realidade, os cuidadores fornecem grande parte do estímulo para ambos os aspectos do crescimento mental. Os lactentes humanos dependem totalmente dos adultos para a sobrevivência. Por meio de interações calorosas e previsíveis, seu repertório social e emocional expande com a interação das respostas sociais dos cuidadores. No primeiro ano, o temperamento dos lactentes é muito variável e está intimamente associado a estados internos, como a fome. Ao evoluir na direção do segundo ou terceiro terço do primeiro ano, ele se desenvolve cada vez mais em relação aos exemplos sociais externos; os pais até conseguem fazer um lactente faminto sorrir. Nas situações em que o bebê se sente confortável internamente, prevalece uma sensação de interesse e de prazer em relação ao mundo e aos cuidadores primários. É possível que o afastamento da mãe (ou de outro cuidador primário) por períodos muito prolongados durante o segundo período de 6 meses de vida resulte em depressão, que poderá persistir até a vida adulta como parte do caráter do indivíduo. Marcos evolutivos importantes em crianças O segundo ano de vida é marcado pelo desenvolvimento motor e intelectual acelerado. Com a capacidade de andar, as crianças desenvolvem algum tipo de controle sobre suas próprias ações; essa mobilidade permite que determinem o momento de se aproximar e de se afastar. A capacidade de falar amplia significativamente seus horizontes. Em geral, as crianças aprendem a dizer “não” antes de aprender a dizer “sim”. Esse negativismo é vital para o desenvolvimento de independência, porém, em caso de persistência, o comportamento opositivo denota a presença de algum problema. O aprendizado da linguagem é uma tarefa extremamente importante no período da infância. As vocalizações tornam-se distintas, e as crianças conseguem atribuir nomes a alguns objetos, bem como expressam suas necessidades em uma ou duas palavras. Às vezes, ao se aproximar o final do segundo ano e o início do terceiro, elas se comunicam por meio de frases curtas. O ritmo do desenvolvimento da linguagem varia de modo considerável entre uma criança e outra, e, embora um número pequeno delas apresente desenvolvimento tardio, a maioria dos especialistas recomenda fazer um teste de audição Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017 nas situações em que a criança não consiga formar frases com duas palavras aos 2 anos de idade. Desenvolvimento linguístico e cognitivo – As crianças começam a ouvir explicações que ajudam a tolerar a espera. Criam novos comportamentos a partir dos antigos (originalidade) e envolvem-se em atividades simbólicas usando palavras e brincando com bonecas em situações nas quais as bonecas representam alguma coisa, como, por exemplo, uma sequência alimentar. As crianças possuem capacidades variadas de concentração e autorregulação. Desenvolvimento emocional e social – A sensação de prazer e desprazer começa a ser diferenciada no segundo ano de vida. De maneira geral, nessa idade, as referências sociais são aparentes; as crianças observam os pais e outras pessoas em busca de dicas sobre como responder a novos eventos. Elas mostram excitação exploratória, prazer assertivo e satisfação nas descobertas e no desenvolvimento de novos comportamentos (p. ex., novos jogos), incluindo provocar, surpreender e enganar os pais (p. ex., escondendo-se). São capazes de demonstrar amor de uma forma organizada, como quando sorriem e correm para abraçar e beijar os pais, assim como são capazes de protestar por meio de reações como se afastar dos cuidadores, chorar, bater, morder, agredir, gritar e chutar. A sensação de conforto junto com a família e a apreensão na presença de pessoas estranhas poderão se intensificar. A ansiedade parece estar relacionada à desaprovação e à perda de cuidadores muito queridos e pode produzir efeitos desorganizadores. Desenvolvimento sexual – A diferenciação sexual torna-se evidente a partir do nascimento, quando os pais começam a vestir e a tratar os lactentes de uma forma diferenciada em razão das expectativas relacionadas à tipificação do sexo. Por intermédio dos sentimentos de imitação,